{"id":113337,"date":"2017-03-10T18:02:10","date_gmt":"2017-03-10T20:02:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=113337"},"modified":"2017-03-10T18:02:10","modified_gmt":"2017-03-10T20:02:10","slug":"as-cerejas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-cerejas","title":{"rendered":"As Cerejas"},"content":{"rendered":"<h4>Lygia Fagundes Telles<\/h4>\n<p>Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de croch\u00ea com um anjinho a esvoa\u00e7ar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estr\u00e1bicos, voc\u00eas n\u00e3o viram onde deixei meus \u00f3culos? A preta Dion\u00edsia a bater as claras de ovos em ponto de neve, a voz \u00e1cida contrastando com a do\u00e7ura dos cremes, esta receita \u00e9 nova&#8230; Tia Ol\u00edvia enfastiada e l\u00e2nguida, abanando-se com uma ventarola chinesa, a voz pesada indo e vindo ao embalo da rede, fico exausta no calor&#8230; Marcelo muito louro &#8211; por que n\u00e3o me lembro da voz dele? &#8211; agarrado \u00e0 crina do cavalo, agarrado \u00e0 cabeleira de tia Ol\u00edvia, os dois tombando lividamente azuis sobre o div\u00e3. Voc\u00ea levou as velas \u00e0 tia Ol\u00edvia? , perguntou Madrinha l\u00e1 embaixo. O rel\u00e2mpago apagou-se. E no escuro que se fez, veio como resposta o ru\u00eddo das cerejas se despencando no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>A casa em meio do arvoredo, o rio, as tardes como que suspensas na poeira do ar &#8211; desapareceu tudo sem deixar vest\u00edgios. Ficaram as cerejas, s\u00f3 elas resistiram com sua vermelhid\u00e3o de loucura. Basta abrir a gaveta: algumas foram ro\u00eddas por alguma barata e nessas o algod\u00e3o estoura, empelotado, n\u00e3o, tia Ol\u00edvia, n\u00e3o eram de cera, eram de algod\u00e3o suas cerejas vermelhas.<\/p>\n<p>Ela chegou inesperadamente. Um cavaleiro trouxe o recado do chefe da esta\u00e7\u00e3o pedindo a charrete para a visita que acabara de desembarcar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Ol\u00edvia! &#8211; exclamou Madrinha. &#8211; \u00c9 a prima! Alberto escreveu dizendo que ela viria, mas n\u00e3o disse quando, ficou de avisar. Eu ia mudar as cortinas, bordar umas fronhas e agora!&#8230; Justo Ol\u00edvia. Voc\u00eas n\u00e3o podem fazer id\u00e9ia, ela \u00e9 de tanto luxo e a casa aqui \u00e9 t\u00e3o simples, n\u00e3o estou preparada, meus c\u00e9us! O que \u00e9 que eu fa\u00e7o, Dion\u00edsia, me diga agora o que \u00e9 que eu fa\u00e7o!<br \/>\nDion\u00edsia folheava tranq\u00fcilamente um livro de receitas. Tirou um l\u00e1pis da carapinha tosada e marcou a p\u00e1gina com uma cruz.<\/p>\n<p>&#8211; Como se j\u00e1 n\u00e3o bastasse esse menino que tamb\u00e9m chegou sem aviso&#8230;<\/p>\n<p>O menino era Marcelo. Tinha apenas dois anos mais do que eu mas era t\u00e3o alto e parecia t\u00e3o adulto com suas belas roupas de montaria, que tive vontade de entrar debaixo do arm\u00e1rio quando o vi pela primeira vez.<\/p>\n<p>&#8211; Um calor na viagem! &#8211; gemeu tia Ol\u00edvia em meio de uma onda de perfumes e malas. &#8211; E quem \u00e9 este rapazinho?<br \/>\n&#8211; Pois este \u00e9 o Marcelo, filho do Romeu &#8211; disse Madrinha. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o se lembra do Romeu? Primo-irm\u00e3o do Alberto&#8230;<\/p>\n<p>Tia Ol\u00edvia desprendeu do chapeuzinho preto dois grandes alfinetes de p\u00e9rola em formado de p\u00eara. O galho de cerejas estremeceu no v\u00e9rtice do decote da blusa transparente. Desabotoou o casaco.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, minha querida, Alberto tem tantos parentes, uma fam\u00edlia enorme! Imagine se vou me lembrar de todos com esta minha mem\u00f3ria. Ele veio passar as f\u00e9rias aqui?<br \/>\nPor um breve instante Marcelo deteve em tia Ol\u00edvia o olhar frio. Chegou a esbo\u00e7ar um sorriso, aquele mesmo sorriso que tivera quando Madrinha, na sua ing\u00eanua excita\u00e7\u00e3o, nos apresentou a ambos, pronto, Marcelo, a\u00ed est\u00e1 sua priminha, agora voc\u00eas poder\u00e3o brincar juntos . Ele ent\u00e3o apertou um pouco os olhos. E sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estranhe, Ol\u00edvia, que ele \u00e9 por demais arisco &#8211; segredou Madrinha ao ver que Marcelo sa\u00eda abruptamente da sala. &#8211; Se trocou comigo meia d\u00fazia de palavras, foi muito. Ali\u00e1s, toda a gente de Romeu \u00e9 assim mesmo, s\u00e3o todos muito esquisitos. Esquisit\u00edssimos!<br \/>\nTia Ol\u00edvia ajeitou com as m\u00e3os em concha o farto coque preso na nuca. Umedeceu os l\u00e1bios com a ponta da l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8211; Tem charme&#8230;<\/p>\n<p>Aproximei-me fascinada. Nunca tinha visto ningu\u00e9m como tia Ol\u00edvia, ningu\u00e9m com aqueles olhos pintados de verde e com aquele decote assim fundo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 de cera? &#8211; perguntei tocando-lhe uma das cerejas.<\/p>\n<p>Ela acariciou-me a cabe\u00e7a com um gesto distra\u00eddo. Senti bem de perto seu perfume.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que sim, querida. Por qu\u00ea? Voc\u00ea nunca viu cerejas?<br \/>\n&#8211; S\u00f3 na folhinha.<\/p>\n<p>Ela teve um risinho cascateante. No rosto muito branco a boca parecia um largo talho aberto, com o mesmo brilho das cerejas.<\/p>\n<p>&#8211; Na Europa s\u00e3o t\u00e3o carnudas, t\u00e3o frescas.<\/p>\n<p>Marcelo tamb\u00e9m tinha estado na Europa com o av\u00f4. Seria isso? Seria isso que os fazia infinitamente superiores a n\u00f3s? Pareciam feitos de outra carne e pertencer a um outro mundo t\u00e3o acima do nosso, ah! como \u00e9ramos pobres e feios. Diante de Marcelo e tia Ol\u00edvia, s\u00f3 diante dos dois \u00e9 que eu pude avaliar como \u00e9ramos pequenos: eu, de unhas ro\u00eddas e vestidos feitos por Dion\u00edsia, vestidos que pareciam as camisolas das bonecas de jornal que Sim\u00e3o recortava com a tesoura do jardim. Madrinha, completamente estr\u00e1bica e tonta em meio das suas rendas e croch\u00eas. Dion\u00edsia, t\u00e3o preta quanto enfatuada com as tais receitas secretas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero \u00e9 dar trabalho &#8211; murmurou tia Ol\u00edvia dirigindo-se ao quarto. Falava devagar, andava devagar. Sua voz foi se afastando com a mansid\u00e3o de um gato subindo a escada. &#8211; Cansei-me muito, querida. Preciso apenas de um pouco de sossego&#8230;<\/p>\n<p>Agora s\u00f3 se ouvia a voz de Madrinha que tagarelava sem parar: a ch\u00e1cara era modesta, modest\u00edssima, mas ela haveria de gostar, por que n\u00e3o? O clima era uma maravilha e o pomar nessa \u00e9poca do ano estava coalhado de mangas. Ela n\u00e3o gostava de mangas? N\u00e3o?&#8230; Tinha tamb\u00e9m bons cavalos se quisesse montar, Marcelo poderia acompanh\u00e1-la, era um \u00f3timo cavaleiro, vivia galopando dia e noite. Ah, o m\u00e9dico proibira? Bem, os passeios a p\u00e9 tamb\u00e9m eram lindos, havia no fim do caminho dos bambus um lugar ideal para piqueniques, ela n\u00e3o achava gra\u00e7a num piquenique?<br \/>\nFui para a varanda e fiquei vendo as estrelas por entre a folhagem da paineira. Tia Ol\u00edvia devia estar sorrindo, a umedecer com a ponta da l\u00edngua os l\u00e1bios brilhantes. Na Europa eram t\u00e3o carnudas&#8230; Na Europa.<\/p>\n<p>Abri a caixa de sabonete escondida sob o tufo de samambaia. O escorpi\u00e3o foi saindo penosamente de dentro. Deixei-o caminhar um bom peda\u00e7o e s\u00f3 quando ele atingiu o centro da varanda \u00e9 que me decidi a despejar a gasolina. Acendi o f\u00f3sforo. As chamas azuis subiram num c\u00edrculo fechado. O escorpi\u00e3o rodou sobre si mesmo, erguendo-se nas patas traseiras, procurando uma sa\u00edda. A cauda contraiu-se desesperadamente. Encolheu-se. Investiu e recuou em meio das chamas que se apertavam mais.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o se envergonha de fazer uma maldade dessas?<br \/>\nVoltei-me. Marcelo cravou em mim o olhar feroz. Em seguida, avan\u00e7ando para o fogo, esmagou o escorpi\u00e3o no tac\u00e3o da bota.<\/p>\n<p>&#8211; Diz que ele se suicida, Marcelo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era capaz mesmo quando descobrisse que o mundo est\u00e1 cheio de gente como voc\u00ea.<\/p>\n<p>Tive vontade de atirar-lhe a gasolina na cara. Tapei o vidro.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o adianta ficar furiosa, vamos, olhe para mim! Sua boba. Pare de chorar e prometa que n\u00e3o vai mais judiar dos bichos.<\/p>\n<p>Encarei-o. Atrav\u00e9s das l\u00e1grimas ele pareceu-me naquele instante t\u00e3o belo quanto um deus, um deus de cabelos dourados e botas, todo banhado de luar. Fechei os olhos. J\u00e1 n\u00e3o me envergonhava das l\u00e1grimas, j\u00e1 n\u00e3o me envergonhava de mais nada. Um dia ele iria embora do mesmo modo imprevisto como chegara, um dia ele sairia sem se despedir e desapareceria para sempre. Mas isso tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o tinha import\u00e2ncia. Marcelo, Marcelo! chamei. E s\u00f3 meu cora\u00e7\u00e3o ouviu.<\/p>\n<p>Quando ele me tomou pelo bra\u00e7o e entrou comigo na sala, parecia completamente esquecido do escorpi\u00e3o e do meu pranto. Voltou-lhe o sorriso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 essa a famosa tia Ol\u00edvia? Ah, ah, ah.<\/p>\n<p>Enxuguei depressa os olhos na barra da saia.<\/p>\n<p>&#8211; Ela \u00e9 bonita, n\u00e3o?<br \/>\nEle bocejou.<\/p>\n<p>&#8211; Usa um perfume muito forte. E aquele galho de cerejas dependurado no peito. T\u00e3o vulgar.<\/p>\n<p>&#8211; Vulgar?<br \/>\nFiquei chocada. E contestei mas em meio da paix\u00e3o com que a defendi, senti uma obscura alegria ao perceber que estava sendo derrotada.<\/p>\n<p>&#8211; E, al\u00e9m do mais, n\u00e3o \u00e9 meu tipo &#8211; concluiu ele voltando o olhar indiferente para o trabalho de croch\u00ea que Madrinha deixara desdobrado na cadeira. Apontou para o anjinho esvoa\u00e7ando entre grinaldas. &#8211; Um anjinho cego.<\/p>\n<p>&#8211; Por que cego? &#8211; protestou Madrinha descendo a escada. Foi nessa noite que perdeu os \u00f3culos. &#8211; Cada id\u00e9ia, Marcelo!<br \/>\nEle debru\u00e7ara-se na janela e parecia agora pensar em outra coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Tem dois buracos em lugar dos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas croch\u00ea \u00e9 assim mesmo, menino! No lugar de cada olho deve ficar uma casa vazia &#8211; esclareceu ela sem muita convic\u00e7\u00e3o. Examinou o trabalho. E voltou-se nervosamente para mim. &#8211; Por que n\u00e3o vai buscar o domin\u00f3 para voc\u00eas jogarem uma partida? E v\u00ea se encontra meus \u00f3culos que deixei por a\u00ed.<\/p>\n<p>Quando voltei com o domin\u00f3, Marcelo j\u00e1 n\u00e3o estava na sala. Fiz um castelo com as pedras. E soprei-o com for\u00e7a. Perdia-o sempre, sempre. Passava as manh\u00e3s galopando como louco. Almo\u00e7ava rapidamente e mal terminava o almo\u00e7o, fechava-se no quarto e s\u00f3 reaparecia no lanche, pronto para sair outra vez. Restava-me correr ao alpendre para v\u00ea-lo seguir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estrada, cavalo e cavaleiro t\u00e3o colados um ao outro que pareciam formar um corpo s\u00f3.<\/p>\n<p>Como um s\u00f3 corpo os dois tombaram no div\u00e3, t\u00e3o r\u00e1pido o rel\u00e2mpago e t\u00e3o longa a imagem, ele t\u00e3o grande, t\u00e3o poderoso, com aquela mesma express\u00e3o com que galopava como que agarrado \u00e0 crina do cavalo, arfando doloridamente na reta final.<\/p>\n<p>Foram dias de calor atroz os que antecederam \u00e0 tempestade. A ansiedade estava no ar. Dion\u00edsia ficou mais casmurra. Madrinha ficou mais falante, procurando disfar\u00e7adamente os \u00f3culos nas latas de biscoitos ou nos potes de folhagens, esgotada a busca em gavetas e arm\u00e1rios. Marcelo pareceu-me mais esquivo, mais crispado. S\u00f3 tia Ol\u00edvia continuava igual, sonolenta e l\u00e2nguida no seu neglig\u00ea branco. Estendia-se na rede. Desatava a cabeleira. E com um movimento brando ia se abanando com a ventarola. \u00c0s vezes vinha com as cerejas que se esparramavam no colo polvilhado de talco. Uma ou outra cereja resvalava por entre o rego dos seios e era ent\u00e3o engolida pelo decote.<\/p>\n<p>&#8211; Sofro tanto com o calor&#8230;<\/p>\n<p>Madrinha tentava anim\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Chovendo, Ol\u00edvia, chovendo voc\u00ea ver\u00e1 como vai refrescar.<\/p>\n<p>Ela sorria umedecendo os l\u00e1bios com a ponta da l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acha que vai chover?<br \/>\n&#8211; Mas claro, as nuvens est\u00e3o baixando, a chuva j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed. E vai ser um temporal daqueles, s\u00f3 tenho medo \u00e9 que apanhe esse menino l\u00e1 fora. Voc\u00ea j\u00e1 viu menino mais esquisito, Ol\u00edvia? T\u00e3o fechado, n\u00e3o? E sempre com aquele arzinho de desprezo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 da idade, querida. \u00c9 da idade.<\/p>\n<p>&#8211; Parecido com o pai. Romeu tamb\u00e9m tinha essa mesma mania com cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Ele monta t\u00e3o bem. T\u00e3o elegante.<\/p>\n<p>Defendia-o sempre enquanto ele a atacava, mordaz, implac\u00e1vel: \u00c9 afetada, esnobe. E como representa, parece que est\u00e1 sempre no palco . Eu contestava, mas de tal forma que o incitava a prosseguir atacando.<\/p>\n<p>Lembro-me de que as primeiras gotas de chuva ca\u00edram ao entardecer, mas a tempestade continuava ainda em suspenso, fazendo com que o jantar se desenrolasse numa atmosfera abafada. Densa. Pretextando dor de cabe\u00e7a, tia Ol\u00edvia recolheu-se mais cedo. Marcelo, silencioso como de costume, comeu de cabe\u00e7a baixa. Duas vezes deixou cair o garfo.<\/p>\n<p>&#8211; Vou ler um pouco &#8211; despediu-se assim que nos levantamos.<\/p>\n<p>Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente \u00e0s escuras enquanto a tempestade desabava.<\/p>\n<p>&#8211; Queimou o fus\u00edvel! &#8211; gemeu Madrinha. &#8211; Vai, filha, vai depressa buscar o ma\u00e7o de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Ol\u00edvia. E f\u00f3sforos, n\u00e3o esque\u00e7a os f\u00f3sforos!<br \/>\nSubi a escada. A escurid\u00e3o era t\u00e3o viscosa, que se eu estendesse a m\u00e3o poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do rel\u00e2mpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enla\u00e7ados no div\u00e3.<\/p>\n<p>Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e l\u00edvida com os dois corpos rolando na ventania.<\/p>\n<p>&#8211; Levou as velas para a tia Ol\u00edvia? &#8211; perguntou Madrinha.<\/p>\n<p>Desabei num canto, fugindo da luz do casti\u00e7al aceso em cima da mesa.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m respondeu, ela deve estar dormindo.<\/p>\n<p>&#8211; E Marcelo?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, deve estar dormindo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Madrinha aproximou-se com o casti\u00e7al.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que \u00e9 que voc\u00ea tem, menina? Est\u00e1 doente? N\u00e3o est\u00e1 com febre? Hem?! Sua testa est\u00e1 queimando&#8230; Dion\u00edsia, traga uma aspirina, esta menina est\u00e1 com um febr\u00e3o, olha a\u00ed!<br \/>\nAt\u00e9 hoje n\u00e3o sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para n\u00e3o ver por entre clar\u00f5es de fogo milhares de cerejas e escorpi\u00f5es em brasa, estourando no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Foi um sarampo t\u00e3o forte &#8211; disse Madrinha ao entrar certa manh\u00e3 no quarto. &#8211; E como voc\u00ea chorava, dava pena ver como voc\u00ea chorava! Nunca vi um sarampo doer tanto assim.<\/p>\n<p>Sentei-me na cama e fiquei olhando uma borboleta branca pousada no pote de avencas da janela. Voltei-me em seguida para o c\u00e9u limpo. Havia um passarinho cantando na paineira. Madrinha ent\u00e3o disse:<br \/>\n&#8211; Marcelo foi-se embora ontem \u00e0 noite, quando vi, j\u00e1 estava de mala pronta, sabe como ele \u00e9. Veio at\u00e9 aqui se despedir, mas voc\u00ea estava dormindo t\u00e3o profundamente.<\/p>\n<p>Dois dias depois, tia Ol\u00edvia partia tamb\u00e9m. Trazia o costume preto e o chapeuzinho com os alfinetes de p\u00e9rola espetados no feltro. Na blusa branca, bem no v\u00e9rtice do decote, o galho de cerejas.<\/p>\n<p>Sentou-se na beirada da minha cama.<\/p>\n<p>&#8211; Que susto voc\u00ea nos deu, querida &#8211; come\u00e7ou com sua voz pesada. &#8211; Pensei que fosse alguma doen\u00e7a grave. Agora est\u00e1 boazinha, n\u00e3o est\u00e1?<br \/>\nPrendi a respira\u00e7\u00e3o para n\u00e3o sentir seu perfume.<\/p>\n<p>&#8211; Estou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3timo! N\u00e3o te beijo porque ainda n\u00e3o tive sarampo &#8211; disse ela cal\u00e7ando as luvas. Riu o risinho cascateante. &#8211; E tem gra\u00e7a eu pegar nesta altura doen\u00e7a de crian\u00e7a?<br \/>\nCravei o olhar nas cerejas que se entrechocavam sonoras, rindo tamb\u00e9m entre os seios. Ela desprendeu-as rapidamente.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vi que voc\u00ea gosta, pronto, uma lembran\u00e7a minha.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ficam t\u00e3o lindas a\u00ed &#8211; lamentou Madrinha. &#8211; Ela nem vai poder usar, bobagem, Ol\u00edvia, leve suas cerejas!<br \/>\n&#8211; Comprarei outras.<\/p>\n<p>Durante o dia seu perfume ainda pairou pelo quarto. Ao anoitecer, Dion\u00edsia abriu as janelas. E s\u00f3 ficou o perfume delicado da noite.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e3o encantadora a Ol\u00edvia &#8211; suspirou Madrinha sentando-se ao meu lado com sua cesta de costura. &#8211; Vou sentir falta dela, um encanto de criatura. O mesmo j\u00e1 n\u00e3o posso dizer daquele menino. Romeu tamb\u00e9m era assim mesmo, o filho saiu igual. E s\u00f3 \u00e0s voltas com cavalos, montando em p\u00ealo, feito \u00edndio. Eu quase tinha um enfarte quando via ele galopar.<\/p>\n<p>Exatamente um ano depois ela repetiria, num outro tom, esse mesmo coment\u00e1rio ao receber a carta onde Romeu comunicava que Marcelo tinha morrido de uma queda de cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Anjinho cego, que id\u00e9ia! &#8211; prosseguiu ela desdobrando o croch\u00ea nos joelhos. &#8211; J\u00e1 estou com saudades de Ol\u00edvia, mas dele?<br \/>\nSorriu alisando o croch\u00ea com as pontas dos dedos. Tinha encontrado os \u00f3culos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lygia Fagundes Telles Aquela gente teria mesmo existido? Madrinha tecendo a cortina de croch\u00ea com um anjinho a esvoa\u00e7ar por entre rosas, a pobre Madrinha sempre afobada, piscando os olhinhos estr\u00e1bicos, voc\u00eas n\u00e3o viram onde deixei meus \u00f3culos? 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