{"id":111447,"date":"2017-03-01T12:14:37","date_gmt":"2017-03-01T14:14:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111447"},"modified":"2017-03-01T12:14:37","modified_gmt":"2017-03-01T14:14:37","slug":"schiller","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/schiller","title":{"rendered":"Schiller"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>I<\/h2>\n<p>T\u00edbio o sol entre as nuvens do ocidente,<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 se inclina ao mar. Grave e solene<\/p>\n<p>Vai a hora da tarde! O oeste passa<\/p>\n<p>Mudo nos troncos da alameda antiga,<\/p>\n<p>ue \u00e0 voz da Primavera os gomos brota:<\/p>\n<p>O oeste passa mudo, e cruza o \u00e1trio<\/p>\n<p>Pontiagudo do templo, edificado<\/p>\n<p>Por m\u00e3os duras de av\u00f3s, em monumento<\/p>\n<p>De uma heran\u00e7a de f\u00e9 que nos legaram,<\/p>\n<p>A n\u00f3s seus netos, homens de alto esfor\u00e7o,<\/p>\n<p>Que nos rimos da heran\u00e7a, e que insultamos<\/p>\n<p>A Cruz e o templo e a cren\u00e7a de outras eras;<\/p>\n<p>N\u00f3s, homens fortes, servos de tiranos,<\/p>\n<p>Que sabemos t\u00e3o bem rojar seus ferros<\/p>\n<p>Sem nos queixar, menosprezando a P\u00e1tria<\/p>\n<p>E a liberdade, e o combater por ela.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o! \u2013 eu rujo escravo; eu creio e espero<\/p>\n<p>No Deus das almas generosas, puras,<\/p>\n<p>E os d\u00e9spotas maldigo. Entendimento<\/p>\n<p>Bronco, lan\u00e7ado em s\u00e9culo fundido<\/p>\n<p>Na servid\u00e3o de gozo ataviada,<\/p>\n<p>Creio que Deus \u00e9 Deus e os homens livres!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Oh, sim! \u2013 rude amador de antigos sonhos,<\/p>\n<p>Irei pedir aos t\u00famulos dos velhos<\/p>\n<p>Religioso entusiasmo; e canto novo<\/p>\n<p>Hei-de tecer, que os homens do futuro<\/p>\n<p>Entender\u00e3o; um canto escarnecido<\/p>\n<p>elos filhos dest&#8217; \u00e9poca mesquinha.<\/p>\n<p>Em que vim peregrino a ver o mundo,<\/p>\n<p>E chegar a meu termo, e reclinar-me<\/p>\n<p>\u00c0 branda sombra de cipreste amigo.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Passa o vento os do p\u00f3rtico da igreja<\/p>\n<p>Esculpidos umbrais: correndo as naves<\/p>\n<p>Sussurrou, sussurrou entre as colunas<\/p>\n<p>De g\u00f3tico lavor: no \u00f3rg\u00e3o do coro<\/p>\n<p>Veio, enfim, murmurar e esvaecer-se.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Mas porque sou o vento? Est\u00e1 deserto,<\/p>\n<p>Silencioso ainda o sacro templo:<\/p>\n<p>Nenhuma voz humana ainda recorda<\/p>\n<p>Os hinos do Senhor. A natureza<\/p>\n<p>Foi a primeira em celebrar seu nome<\/p>\n<p>Neste dia de luto e de saudade!<\/p>\n<p>Trevas da quarta-feira, eu vos sa\u00fado!<\/p>\n<p>Negras paredes, mudos monumentos<\/p>\n<p>De todas essas ora\u00e7\u00f5es de m\u00e1goa,<\/p>\n<p>De gratid\u00e3o, de susto ou de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Depositadas ante v\u00f3s nos dias<\/p>\n<p>De fervorosa cren\u00e7a, a v\u00f3s que enluta<\/p>\n<p>A solid\u00e3o e o d\u00f3, venho eu saudar-vos.<\/p>\n<p>A loucura da Cruz n\u00e3o morreu toda (1)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dezoito s\u00e9culos! Quem chore<\/p>\n<p>Do sofrimento o Her\u00f3i existe ainda.<\/p>\n<p>Eu chorarei \u2013 que as l\u00e1grimas s\u00e3o d\u00f3 homem \u2013<\/p>\n<p>Pelo Amigo do povo, assassinado<\/p>\n<p>Por tiranos, e hip\u00f3critas, e turbas<\/p>\n<p>Envilecidas, b\u00e1rbaras, e servas.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p>Tu, Anjo do Senhor, que acendes o estro;<\/p>\n<p>Que no espa\u00e7o entre o abismo e os c\u00e9us vagueias,<\/p>\n<p>Donde mergulhas no oceano a vista;<\/p>\n<p>Tu que do trovador \u00e0 mente arrojas<\/p>\n<p>Quanto h\u00e1 nos c\u00e9us esperan\u00e7oso e belo,<\/p>\n<p>Quanto h\u00e1 no abismo tenebroso e triste,<\/p>\n<p>Quanto h\u00e1 nos mares majestoso e vago,<\/p>\n<p>Hoje te invoco! \u2013 oh, vem! \u2013, lan\u00e7a em minha alma<\/p>\n<p>A harmonia celeste e o fogo e o g\u00e9nio,<\/p>\n<p>Que d\u00eaem vida e vigor a um carme pio.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>A noite escura desce: o Sol de todo<\/p>\n<p>Nos mares se atufou. A luz dos mortos,<\/p>\n<p>Dos brand\u00f5es o clar\u00e3o, fulgura ao longe<\/p>\n<p>No cruzeiro somente e em volta da ara:<\/p>\n<p>E pelas naves come\u00e7ou ru\u00eddo<\/p>\n<p>De compassado andar. Fi\u00e9is acodem<\/p>\n<p>\u00c0 morada de Deus, a ouvir queixumes<\/p>\n<p>Do vate de Si\u00e3o. Em breve os monges,<\/p>\n<p>Suspirosas can\u00e7\u00f5es aos C\u00e9us erguendo,<\/p>\n<p>Sua voz unir\u00e3o \u00e0 voz desse \u00f3rg\u00e3o,<\/p>\n<p>E os sons e os ecos reboar\u00e3o no templo.<\/p>\n<p>Mudo o coro depois, neste recinto<\/p>\n<p>Dentro em bem pouco reinar\u00e1 sil\u00eancio,<\/p>\n<p>O sil\u00eancio dos t\u00famulos, e as trevas<\/p>\n<p>Cobrir\u00e3o por esta \u00e1rea a luz escassa<\/p>\n<p>Despedida das l\u00e2mpadas. que pendem<\/p>\n<p>Ante os altares, bruxuleando frouxas.<\/p>\n<p>Imagem da exist\u00eancia! Enquanto passam<\/p>\n<p>Os dias infantis, as paix\u00f5es tuas,<\/p>\n<p>Homem, qual ent\u00e3o \u00e9s, s\u00e3o d\u00e9beis todas.<\/p>\n<p>Cresceste: ei-las torrente, em cujo dorso<\/p>\n<p>Sobrenadam a dor e o pranto e o longo<\/p>\n<p>Gemido do remorso, a qual lan\u00e7ar-se<\/p>\n<p>Vai com rouco estridor no antro da morte,<\/p>\n<p>L\u00e1, onde \u00e9 tudo horror, sil\u00eancio, noite.<\/p>\n<p>Da vida tua instantes florescentes<\/p>\n<p>Foram dois, e n\u00e3o mais: as c\u00e3s e rugas,<\/p>\n<p>Logo, rebate de teu fim te deram.<\/p>\n<p>Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,<\/p>\n<p>Murmurou, esqueceu, passou no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>E a casa do Senhor ergueu-se. O ferro<\/p>\n<p>Cortou a penedia; e o canto enorme<\/p>\n<p>Polido alveja ali no espesso pano<\/p>\n<p>Do muro colossal, que era ap\u00f3s era,<\/p>\n<p>Como onda e onda ao desdobrar na areia,<\/p>\n<p>Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.<\/p>\n<p>O ulmo e o choupo no cair rangeram<\/p>\n<p>Sob o machado: a trave afei\u00e7oou-se;<\/p>\n<p>L\u00e1 no cimo pousou: restruge ao longe<\/p>\n<p>De martelos fragor, e eis ergue o templo,<\/p>\n<p>Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.<\/p>\n<p>Homem, do que \u00e9s capaz! Tu, cujo alento<\/p>\n<p>Se esvai, como da cerva a leve pista<\/p>\n<p>No p\u00f3 se apaga ao respirar da tarde,<\/p>\n<p>Do seio dessa terra em que \u00e9s estranho,<\/p>\n<p>Sair fazes as moles seculares,<\/p>\n<p>Que por ti, mono, falem; d\u00e1s na ideia<\/p>\n<p>Eterna dura\u00e7\u00e3o \u00e0s obras tuas.<\/p>\n<p>Tua alma \u00e9 imortal, e a prova a deste!<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p>Anoiteceu. Nos claustros ressoando<\/p>\n<p>As pisadas dos monges ou\u00e7o: eis entram;<\/p>\n<p>Eis se curvaram paru o ch\u00e3o, beijando<\/p>\n<p>O pavimento, a pedra. Oh, sim, beijai-a!<\/p>\n<p>Igual vos cobrir\u00e1 a cinza um dia,<\/p>\n<p>Talvez em breve \u2013 e a mim. Consolo ao morto<\/p>\n<p>\u00c9 a pedra do t\u00famulo. S\u00ea-lo-ia<\/p>\n<p>Mais, se do justo s\u00f3 a heran\u00e7a fora;<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m ao malvado \u00e9 dada a campa.<\/p>\n<p>E o criminoso dormir\u00e1 quieto<\/p>\n<p>Entre os bons soterrado? Oh, n\u00e3o! Enquanto<\/p>\n<p>No templo ondeiam silenciosas turbas,<\/p>\n<p>Exultar\u00e3o do abismo os moradores,<\/p>\n<p>Vendo o hip\u00f3crita vil, mais \u00edmpio que eles,<\/p>\n<p>Que escarnece do Eterno, e a si se engana;<\/p>\n<p>Vendo o que julga que ora\u00e7\u00f5es apagam<\/p>\n<p>V\u00edcios \u00e9 crimes. e o motejo e o riso<\/p>\n<p>Dado em resposta \u00e0s l\u00e1grimas do pobre;<\/p>\n<p>Vendo os que nunca ao infeliz disseram<\/p>\n<p>De consolo palavra ou de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sim: malvados tamb\u00e9m h\u00e3o-de pisar-lhes<\/p>\n<p>Os frios restos que separa a terra,<\/p>\n<p>Um punhado de terra, a qual os ossos<\/p>\n<p>Destes h\u00e1-de cobrir em tempo breve,<\/p>\n<p>Como cobriu os seus; qual vai sumindo<\/p>\n<p>No segredo da campa a humana ra\u00e7a.<\/p>\n<h2>VIII<\/h2>\n<p>Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos<\/p>\n<p>Do templo na amplid\u00e3o: s\u00f3 l\u00e1 no escuro<\/p>\n<p>De afumada capela o justo as preces<\/p>\n<p>Ergue pio ao Senhor, as preces puras<\/p>\n<p>De um cora\u00e7\u00e3o que espera, e n\u00e3o mentidas<\/p>\n<p>De l\u00e1bios de impostor, que engana os homens<\/p>\n<p>Com seu meneio hip\u00f3crita, calando<\/p>\n<p>Na alma lodosa da blasf\u00e9mia o grito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o exultar\u00e3o os bons, e o \u00edmpio,<\/p>\n<p>Que passou, tremer\u00e1. Enfim, de vivos,<\/p>\n<p>Da voz, do respirar o som confuso<\/p>\n<p>Vem confundir-se no ferver das pra\u00e7as,<\/p>\n<p>E pela galil\u00e9 s\u00f3 ruge o vento.<\/p>\n<p>Em trevas n\u00e3o, ficou silenciosas<\/p>\n<p>O sagrado recinto: os candeeiros,<\/p>\n<p>No gelado ambiente ardendo a custo,<\/p>\n<p>Espalham d\u00e9beis raios, que reflectem<\/p>\n<p>Das pedras pela alvura; o negro mocho,<\/p>\n<p>Companheiro do morto, h\u00f3rrido pio<\/p>\n<p>Solta l\u00e3 da cornija: pelas fendas<\/p>\n<p>Dos sepulcros desliza fumo espesso;<\/p>\n<p>Ondeia pela nave, e esvai-se. Longo<\/p>\n<p>Suspirar n\u00e3o se ouviu? Olhai!, l\u00e1 se erguem,<\/p>\n<p>Sacudindo o sud\u00e1rio, em peso os morros!<\/p>\n<p>Mortos, quem vos chamou? O som da tuba<\/p>\n<p>Ainda do Josafat n\u00e3o fere os vales.<\/p>\n<p>Dormi, dormi: deixai passar as eras&#8230;<\/p>\n<h2>IX<\/h2>\n<p>Mas foi uma vis\u00e3o: foi como cena<\/p>\n<p>D&#8217; imaginar febril. Criou-se, acaso<\/p>\n<p>Do poeta na mente, ou desvendou-lhe<\/p>\n<p>A m\u00e3o de Deus o \u00edntimo ver da alma,<\/p>\n<p>Que devassa a exist\u00eancia misteriosa<\/p>\n<p>Do mundo dos esp\u00edritos? Quem sabe?<\/p>\n<p>Dos vivos j\u00e1 deserta, a igreja torva<\/p>\n<p>Repovoou-se, para mim ao menos,<\/p>\n<p>Dos extintos, que ao p\u00e9 das santas aras<\/p>\n<p>Leito comum na sonol\u00eancia extrema<\/p>\n<p>Buscaram. O terror, que arreda o homem<\/p>\n<p>Do limiar do tempo \u00e0s horas mortas,<\/p>\n<p>N\u00e3o vem de cren\u00e7a v\u00e3. Se fulgem astros,<\/p>\n<p>Se a luz da Lua estira a sombra eterna<\/p>\n<p>Da cruz gigante (que campeia erguida<\/p>\n<p>No v\u00e9rtice do t\u00edmpano, ou no cimo<\/p>\n<p>Do coruch\u00e9u do campan\u00e1rio) ao longo<\/p>\n<p>Dos inclinados tectos, afastai-vos!<\/p>\n<p>Afastai-vos daqui, onde se passam<\/p>\n<p>A meia-noite ins\u00f3litos mist\u00e9rios;<\/p>\n<p>Daqui, onde desperta a voz do arcanjo<\/p>\n<p>Os dormentes da morte; onde re\u00fane<\/p>\n<p>O que foi forte e o que foi fraco, o pobre<\/p>\n<p>E o opulento, o orgulhoso e o humilde,<\/p>\n<p>O bom e o mau, o ignorante e o s\u00e1bio,<\/p>\n<p>Quantos, enfim, depositar vieram<\/p>\n<p>!unto do altar o que era seu no mundo,<\/p>\n<p>Um corpo nu, e corrompido e inerte.<\/p>\n<h2>X<\/h2>\n<p>E seguia a vis\u00e3o. Cria ainda achar-me,<\/p>\n<p>Alta noite, na igreja solit\u00e1ria<\/p>\n<p>Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,<\/p>\n<p>Eram \u00e1 pouco um fumo que ondeava<\/p>\n<p>Pelas fisgas do vasto pavimento.<\/p>\n<p>Olhei. Do erguido tecto o pano espesso<\/p>\n<p>Rareava; rareava-me ante os olhos,<\/p>\n<p>Como t\u00e9nue cendal; mais t\u00e9nue ainda,<\/p>\n<p>Como o vapor de Outono em quarto d&#8217;alva,<\/p>\n<p>Que se libra no espa\u00e7o antes que des\u00e7a<\/p>\n<p>A consolar as plantas conglobado<\/p>\n<p>Em matutino orvalho. O firmamento<\/p>\n<p>Era profundo e amplo. Envolto em gl\u00f3ria,<\/p>\n<p>Sobre vagas de nuvens, rodeado<\/p>\n<p>Das legi\u00f5es do C\u00e9u, o Anci\u00e3o dos dias,<\/p>\n<p>O Santo, o Deus descia. Ao sumo aceno<\/p>\n<p>Parava o tempo, a imensidade, a vida<\/p>\n<p>Dos mundos a escutar. Era esta a hora<\/p>\n<p>Do julgamento desses que se al\u00e7avam,<\/p>\n<p>\u00c0 voz de cima, sobre as sepulturas?<\/p>\n<h2>XI<\/h2>\n<p>Era ainda a vis\u00e3o. Do templo em meio<\/p>\n<p>Do anjo da morte a espada flamejante<\/p>\n<p>Crepitando bateu. Bem como insectos,<\/p>\n<p>Que \u00e0 flor de pego pantanoso e triste<\/p>\n<p>Se balou\u00e7avam \u2013 quando a tempestade<\/p>\n<p>Veio as asas molhar nas \u00e1guas turvas,<\/p>\n<p>Que marulhando sussurraram \u2013 surgem<\/p>\n<p>Volteando, zumbindo em dan\u00e7a doida,<\/p>\n<p>E, lassos, v\u00e3o pousar em longas filas<\/p>\n<p>Nas margens do paul, de um lado e de outro;<\/p>\n<p>Tal o murm\u00fario e a agita\u00e7\u00e3o incerta<\/p>\n<p>Ciciava das sombras remoinhando<\/p>\n<p>Ante o sopro de Deus. As melodias<\/p>\n<p>Dos coros celestiais, long\u00ednquas, frouxas,<\/p>\n<p>Com fr\u00e9mito infernal se misturavam<\/p>\n<p>Em caos de dor e j\u00fabilo.<\/p>\n<p>Dos mortos<\/p>\n<p>Parava, enfim, o v\u00f3rtice enredado;<\/p>\n<p>E os grupos vagos em distintas turmas<\/p>\n<p>Se enfileiravam de uma parle e de outra.<\/p>\n<p>Depois, o gl\u00e1dio do anjo entre os dois bandos<\/p>\n<p>Ficou, \u00fanica luz, que se estirava<\/p>\n<p>Desde o cruzeiro ao p\u00f3rtico, e feria<\/p>\n<p>De reflexo vermelho os largos panos<\/p>\n<p>Das paredes de m\u00e1rmore, bem como<\/p>\n<p>Mar de sangue, onde inertes flutuassem<\/p>\n<p>De humanos vultos indecisas formas.<\/p>\n<h2>XII<\/h2>\n<p>E seguia a vis\u00e3o. Do templo \u00e0 esquerda,<\/p>\n<p>Mestas as faces, inclinada afronte,<\/p>\n<p>Da noite as larvas tinham sobre o solo<\/p>\n<p>Fito o espantado olhar, e as dilatadas<\/p>\n<p>Ba\u00e7as pupilas lhes tingia o susto.<\/p>\n<p>Mas, como zona l\u00facida de estrelas,<\/p>\n<p>Nessa atmosfera crassa e afogueada<\/p>\n<p>Pela espada rubente, refulgiam<\/p>\n<p>Da direita os esp\u00edritos, banhado<\/p>\n<p>De inenarr\u00e1vel placidez seu gesto.<\/p>\n<p>Era inteiro o sil\u00eancio, e no sil\u00eancio<\/p>\n<p>Uma voz ressoou: \u00abEleitos, vinde!<\/p>\n<p>Ide, precitos!\u00bb Vacilava a Terra,<\/p>\n<p>E ajoelhando eu me curvei tremendo.<\/p>\n<h2>XIII<\/h2>\n<p>Quando me ergui e olhei, no c\u00e9u profundo<\/p>\n<p>Um rastilho de luz pura e serena<\/p>\n<p>Se ia embebendo nesses mares de orbes<\/p>\n<p>Infinitos, perdidos no infinito,<\/p>\n<p>A que chamamos o universo. Um hino<\/p>\n<p>De saudade e de amor, quase inaud\u00edvel,<\/p>\n<p>Parecia romper desde as alturas<\/p>\n<p>De tempo a tempo. Vinha como envolto<\/p>\n<p>Nas lufadas do vento, at\u00e9 perder-se<\/p>\n<p>Em sossego mortal.<\/p>\n<p>O curvo tecto<\/p>\n<p>Do templo, ent\u00e3o, se condensou de novo,<\/p>\n<p>E para a Terra o meu olhar volveu-se.<\/p>\n<p>Da direita os esp\u00edritos radiosos<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o estavam l\u00e1. Chispando a espa\u00e7os,<\/p>\n<p>Qual o ferro na incude, a espada do anjo<\/p>\n<p>O morti\u00e7o rubor mandava. apenas,<\/p>\n<p>D&#8217;aurora boreal quando se extingue.<\/p>\n<h2>XIV<\/h2>\n<p>Prosseguia a vis\u00e3o. Da esquerda \u00e0s sombras<\/p>\n<p>Ansiava o seio a dor: tinham no gesto<\/p>\n<p>Impressa a maldi\u00e7\u00e3o, que lhes secara<\/p>\n<p>Eternamente a seiva da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, em noite estiva e negra,<\/p>\n<p>Cintilar sobre as \u00e1guas a ardentia,<\/p>\n<p>Dumas frontes \u00e0s outras vagueavam<\/p>\n<p>Cer\u00faleos lumes no esquadr\u00e3o dos mortos,<\/p>\n<p>E ao estalar das lousas, grito imenso<\/p>\n<p>Subterr\u00e2neo, abafado e delirante,<\/p>\n<p>Inef\u00e1vel comp\u00eandio de agonias,<\/p>\n<p>Misturado se ouviu com rir do Inferno,<\/p>\n<p>E a vis\u00e3o se desfez. Era ermo o templo:<\/p>\n<p>E despertei do pesadelo em trevas.<\/p>\n<h2>XV<\/h2>\n<p>Era loucura ou sonho? Entre as tristezas<\/p>\n<p>E os terrores e ang\u00fastias, que resume<\/p>\n<p>Neste dia e lugar a avita cren\u00e7a,<\/p>\n<p>Irresist\u00edvel for\u00e7a arrebatou-me<\/p>\n<p>Da sepultura a devassar segredos,<\/p>\n<p>Para dizer: \u00bbTremei! Do altar \u00e0 sombra<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<\/p>\n<p>A justi\u00e7a de Deus visita os mortos,<\/p>\n<p>Embora a cruz da reden\u00e7\u00e3o proteja<\/p>\n<p>A pedra tumular; embora a h\u00f3stia<\/p>\n<p>Do sacrif\u00edcio o sacerdote eleve<\/p>\n<p>Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja<\/p>\n<p>Rodeiam trevas, solid\u00e3o e medos,<\/p>\n<p>Que a resguardam coas asas acurvadas<\/p>\n<p>Da vista do que vive, a m\u00e3o do Eterno<\/p>\n<p>Separa o joio ao bom gr\u00e3o e arroja<\/p>\n<p>Para os abismos a ruim semente.<\/p>\n<h2>XVI<\/h2>\n<p>N\u00e3o! \u2013 n\u00e3o foi sonho v\u00e3o, vago del\u00edrio<\/p>\n<p>De imaginar ardente. Eu fui levado,<\/p>\n<p>Galgando al\u00e9m do tempo, \u00e0s tardas horas,<\/p>\n<p>Em que se passam cenas de mist\u00e9rio,<\/p>\n<p>Para dizer: \u00abTremei! Do altar \u00e0 sombra<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<\/p>\n<p>Vejo ainda o que vi: da sepultura<\/p>\n<p>Ainda o h\u00e1lito frio me enregela<\/p>\n<p>O suor do pavor na fronte; o sangue<\/p>\n<p>Hesita imoto nas inertes veias;<\/p>\n<p>E embora os l\u00e1bios murmurar n\u00e3o ousem,<\/p>\n<p>Ainda, incessante, me repete na alma<\/p>\n<p>\u00cdntima voz: \u00abTremei! Do altar \u00e0 sombra<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<\/p>\n<h2>XVII<\/h2>\n<p>Mas troa a voz do monge, e, enfim, desperto<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o bateu. Eia, retumbem<\/p>\n<p>Pelos ecos do templo os sons dos salmos.<\/p>\n<p>Que em dia de afli\u00e7\u00e3o ignoto vate<\/p>\n<p>Teceu (2), banhado em dor. Talvez foi ele<\/p>\n<p>O primeiro cantor que em v\u00e1rias cordas,<\/p>\n<p>\u00c0 sombra das palmeiras da Idumeia,<\/p>\n<p>Soube entoar melodioso um hino.<\/p>\n<p>Deus inspirava ent\u00e3o os trovadores<\/p>\n<p>Do seu povo querido, e a Palestina,<\/p>\n<p>Rica dos meigos dons da natureza.<\/p>\n<p>Tinha o ceptro, tamb\u00e9m, do entusiasmo.<\/p>\n<p>Virgem o g\u00e9nio ainda, o estro puro<\/p>\n<p>Louvava Deus somente, \u00e0 luz da aurora,<\/p>\n<p>E ao esconder-se o Sol entre as montanhas<\/p>\n<p>De Bethoron (3). Agora o g\u00e9nio \u00e9 morto<\/p>\n<p>Para o Senhor, e os cantos dissolutos<\/p>\n<p>De lodoso folguedo os ares rompem,<\/p>\n<p>Ou sussurram por pa\u00e7os de tiranos,<\/p>\n<p>Asselados de p\u00fatrida lisonja,<\/p>\n<p>Por pre\u00e7o vil, como o cantor que os tece.<\/p>\n<h2>XVIII<\/h2>\n<h2>O SALMO (4)<\/h2>\n<p>Quando \u00e9 grande o meu Deus!&#8230; T\u00e9 onde chega<\/p>\n<p>O seu poder imenso!<\/p>\n<p>Ele abaixou os c\u00e9us. desceu, calcando<\/p>\n<p>Um nevoeiro denso.<\/p>\n<p>Dos querubins nas asas radiosas<\/p>\n<p>Librando-se, voou;<\/p>\n<p>E sobre turbilh\u00f5es de rijo vento<\/p>\n<p>O mundo rodeou.<\/p>\n<p>Ante o olhar do Senhor vacila a Terra,<\/p>\n<p>E os mares assustados<\/p>\n<p>Bramem ao longe, e os montes lan\u00e7am fumo,<\/p>\n<p>Da sua m\u00e3o tocados.<\/p>\n<p>Se pensou no universo, ei-lo patente<\/p>\n<p>Ante a face do eterno:<\/p>\n<p>Se o quis, o firmamento os seios abre,<\/p>\n<p>Abre os seios o Inferno.<\/p>\n<p>Dos olhos do Senhor, homem, se podes.<\/p>\n<p>Esconde-te um momento:<\/p>\n<p>V\u00ea onde encontrar\u00e1s lugar que fique<\/p>\n<p>Da sua vista isento:<\/p>\n<p>Sobe aos C\u00e9us, transp\u00f5e mares, busca o abismo,<\/p>\n<p>L\u00e1 teu Deus h\u00e1s-de achar;<\/p>\n<p>Ele te guiar\u00e1, e a dextra sua<\/p>\n<p>L\u00e1 te h\u00e1-de sustentar:<\/p>\n<p>Desce \u00e0 sombra da noite, e no seu manto<\/p>\n<p>Envolver-te procura&#8230;<\/p>\n<p>Mas as trevas para ele n\u00e3o s\u00e3o trevas,<\/p>\n<p>Nem \u00e9 a noite escura.<\/p>\n<p>No dia do furor, em v\u00e3o buscaras<\/p>\n<p>Fugir ante o Deus forte,<\/p>\n<p>Quando do arco tremendo, irado, impele<\/p>\n<p>Seta em que pousa a morte.<\/p>\n<p>Mas o que o teme dormir\u00e1 tranquilo<\/p>\n<p>No dia extremo seu,<\/p>\n<p>Quando na campa se rasgar da vida<\/p>\n<p>Das ilus\u00f5es o v\u00e9u.<\/p>\n<h2>XIX<\/h2>\n<p>Calou-se o monge: sepulcral sil\u00eancio<\/p>\n<p>\u00c0 sua voz seguiu-se. Uma toada<\/p>\n<p>De \u00f3rg\u00e3o rompeu do coro (5). Assemelhava<\/p>\n<p>O suspiro saudoso, e os ais de filha,<\/p>\n<p>Que chora solit\u00e1ria o pai, que dorme<\/p>\n<p>Seu \u00faltimo, profundo e eterno sono.<\/p>\n<p>Melodias depois soltou mais doces.<\/p>\n<p>O severo instrumento: e ergueu-se o canto,<\/p>\n<p>O doloroso canto do profeta,<\/p>\n<p>Da p\u00e1tria sobre o fado. Ele, que o vira,<\/p>\n<p>Sentado entre ru\u00ednas, contemplando<\/p>\n<p>Seu avito esplendor, seu mal presente,<\/p>\n<p>A queda lhe chorou. L\u00e1 na alta noite,<\/p>\n<p>Modulando o N\u00e9bel (6), via-se o vate<\/p>\n<p>Nos derribados p\u00f3rticos, abrigo<\/p>\n<p>Do imundo st\u00e9lio (7) e gemedora poupa.<\/p>\n<p>Extasiado \u2013 e a lua cintilando<\/p>\n<p>Na sua calva fronte, onde pesavam<\/p>\n<p>Anos e anos de dor. Ao venerando<\/p>\n<p>Nas encovadas faces fundos regos<\/p>\n<p>Tinham aberto as l\u00e1grimas. Ao longe,<\/p>\n<p>Nas margens do C\u00e9dron, a r\u00e3 grasnando (8)<\/p>\n<p>Quebrava a paz dos t\u00famulos. Que t\u00famulo<\/p>\n<p>Era Si\u00e3o! \u2013 o vasto cemit\u00e9rio<\/p>\n<p>Dos fortes de Israel. Mais venturosos<\/p>\n<p>Que seus irm\u00e3os, morreram pela p\u00e1tria;<\/p>\n<p>A p\u00e1tria os sepultou dentro em seu seio.<\/p>\n<p>Eles, em Babil\u00f3nia, aos punhos ferros,<\/p>\n<p>Passam de escravos miseranda vida,<\/p>\n<p>Que Deus pesou seus crimes, e. ao pes\u00e1-los,<\/p>\n<p>A dextra lhe vergou. N\u00e3o mais no templo<\/p>\n<p>A nuvem repousara, e os c\u00e9us de bronze<\/p>\n<p>Dos profetas aos rogos se amostravam.<\/p>\n<p>O vate de Anatoth (9) a voz soltara<\/p>\n<p>Entre o povo infiel, de Eloha em nome (10):<\/p>\n<p>Amea\u00e7as, promessas, tudo in\u00fatil;<\/p>\n<p>De bronze os cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o se dobraram.<\/p>\n<p>Vibrou-se a maldi\u00e7\u00e3o. Bem como um sonho,<\/p>\n<p>Jerusal\u00e9m passou: sua grandeza<\/p>\n<p>Somente existe em derrocadas pedras.<\/p>\n<p>O vate de Anatoth, sobre seus restos,<\/p>\n<p>Com triste canto deplorou a p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Hino de morte al\u00e7ou: da noite as larvas<\/p>\n<p>O som lhe ouviram: &#8216;squ\u00e1lido esqueleto,<\/p>\n<p>Rangendo os ossos, dentre a hera e musgos<\/p>\n<p>Do p\u00f3rtico do templo erguia um pouco,<\/p>\n<p>Alvejando, a caveira. Era-lhe al\u00edvio<\/p>\n<p>Do sagrado cantor a voz suave<\/p>\n<p>Desferida ao luar, triste, no meio<\/p>\n<p>Da vasta solid\u00e3o que o circundava.<\/p>\n<p>O profeta gemeu: n\u00e3o era o estro,<\/p>\n<p>Ou o v\u00edvido j\u00fabilo que outrora<\/p>\n<p>Inspirara Mois\u00e9s (11): o sentimento<\/p>\n<p>Foi sim pungente de sil\u00eancio e morte,<\/p>\n<p>Que da p\u00e1tria lhe fez sobre o cad\u00e1ver<\/p>\n<p>A elegia da noite erguer e o pranto<\/p>\n<p>Derramar da esperan\u00e7a e da saudade.<\/p>\n<h2>XX<\/h2>\n<h2>A LAMENTA\u00c7\u00c3O (12)<\/h2>\n<p>Como assim jaz e solit\u00e1ria e queda<\/p>\n<p>Esta cidade outrora populosa!<\/p>\n<p>Qual vi\u00fava, ficou e tribut\u00e1ria<\/p>\n<p>A senhora das gentes.<\/p>\n<p>Chorou durante a noite; em pranto as faces,<\/p>\n<p>Sozinha, entregue \u00e1 dor, nas penas suas<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m a consolou: os mais queridos<\/p>\n<p>Contr\u00e1rios se tornaram.<\/p>\n<p>Ermas as pra\u00e7as de Si\u00e3o e as ruas,<\/p>\n<p>Cobre-as a verde relva: os sacerdotes<\/p>\n<p>Gemem; as virgens p\u00e1lidas suspiram<\/p>\n<p>Envoltas na amargura.<\/p>\n<p>Dos filhos de Israel nas cavas faces<\/p>\n<p>Est\u00e1 pintada a macilenta fome;<\/p>\n<p>Mendigos v\u00e3o pedir, pedir a estranhos,<\/p>\n<p>Um p\u00e3o de inf\u00e2mia eivado.<\/p>\n<p>O tr\u00e9mulo anci\u00e3o, de longe, os olhos<\/p>\n<p>Volve a Jerusal\u00e9m, dela fugindo:<\/p>\n<p>V\u00ea-a, suspira, cai, e em breve expira<\/p>\n<p>Com seu nome nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Que horror! \u2013 \u00edmpias as m\u00e3es os tenros filhos<\/p>\n<p>Despeda\u00e7aram: b\u00e1rbaras quais tigres,<\/p>\n<p>Os sanguinosos membros palpitantes<\/p>\n<p>No ventre sepultaram.<\/p>\n<p>Deus, compassivo olhar volve a n\u00f3s tristes:<\/p>\n<p>Cessa de Te vingar! V\u00ea-nos escravos,<\/p>\n<p>Servos de servos em pa\u00eds estranho.<\/p>\n<p>Tem d\u00f3 de nossos males!<\/p>\n<p>Acaso ser\u00e1s Tu sempre inflex\u00edvel?<\/p>\n<p>Esqueceste de todo a na\u00e7\u00e3o tua?<\/p>\n<p>O pranto dos Hebreus n\u00e3o Te comove?<\/p>\n<p>\u00c9s surdo a seus lamentos?<\/p>\n<h2>XXI<\/h2>\n<p>Doce era a voz do velho: o som do Nablo<\/p>\n<p>Sonoro: o c\u00e9u sereno: clara a Terra<\/p>\n<p>Pelo brando fulgor do astro da noite:<\/p>\n<p>E o profeta parou. Erguidos tinha<\/p>\n<p>Os olhos paru o c\u00e9u, onde buscava<\/p>\n<p>Um raio de esperan\u00e7a e de conforto:<\/p>\n<p>E ele calara j\u00e1, e ainda os ecos,<\/p>\n<p>Entre as ru\u00ednas sussurrando, ao longe<\/p>\n<p>Iam os sons levar de seus queixumes.<\/p>\n<h2>XXII<\/h2>\n<p>Choro piedoso, o choro consagrado<\/p>\n<p>\u00c0s desditas dos seus. Honra ao profeta:<\/p>\n<p>Oh, margens do Jord\u00e3o, pa\u00eds formoso<\/p>\n<p>Que fostes e n\u00e3o sois, tamb\u00e9m suspiro<\/p>\n<p>Condo\u00eddo vos dou. Assim fenecem<\/p>\n<p>Imp\u00e9rios, reinos, solid\u00f5es tornados!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o: Nenhum deste morto: o peregrino<\/p>\n<p>P\u00e1ra em Palmira e pensa. O bra\u00e7o do homem<\/p>\n<p>A sacudiu \u00e0 Terra, e fez dormissem<\/p>\n<p>O seu \u00faltimo sono os filhos dela \u2013<\/p>\n<p>E ele o veio dormir pouco mais longe&#8230;<\/p>\n<p>Mas se chega a Si\u00e3o treme, enxergando<\/p>\n<p>Seus lacerados restos. Pelas pedras,<\/p>\n<p>Aqui e ali dispersas, ainda escrita<\/p>\n<p>Parece ver-se uma inscri\u00e7\u00e3o de agouros,<\/p>\n<p>Bem como aquela que alertou um \u00edmpio (13),<\/p>\n<p>Quando, no meio de ruidosa festa,<\/p>\n<p>Blasfemava dos C\u00e9us, e m\u00e3o ignota<\/p>\n<p>O dia extremo lhe apontou dos crimes.<\/p>\n<p>A maldi\u00e7\u00e3o do Eterno est\u00e1 vibrada<\/p>\n<p>Sobre Jerusal\u00e9m! Quanto \u00e9 terr\u00edvel<\/p>\n<p>A vingan\u00e7a de Deus! O Israelita,<\/p>\n<p>Sem p\u00e1tria e sem abrigo, vagabundo,<\/p>\n<p>\u00d3dio dos homens, neste mundo arrasta<\/p>\n<p>Urna exist\u00eancia mais cruel que a morte,<\/p>\n<p>E que vem terminar a morte e inferno.<\/p>\n<p>Desgra\u00e7ada na\u00e7\u00e3o! Aquele solo<\/p>\n<p>Onde manava o mel, onde o carvalho,<\/p>\n<p>O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,<\/p>\n<p>T\u00e3o grato \u00e0 vista, em bosques misturavam;<\/p>\n<p>Onde o l\u00edrio e a cec\u00e9m nos prados tinham<\/p>\n<p>Crescimento espont\u00e2neo entre as roseiras,<\/p>\n<p>Hoje, campo de l\u00e1grimas, s\u00f3 cria<\/p>\n<p>Humilde musgo de escalvados cerros (14).<\/p>\n<h2>XXIII<\/h2>\n<p>Ide v\u00f3s a Mambr\u00e9 (15). L\u00e1, bem no meio<\/p>\n<p>De um vale, outrora de verdura ameno,<\/p>\n<p>Erguia-se um carvalho majestoso.<\/p>\n<p>Debaixo de seus ramos largos dias<\/p>\n<p>Abra\u00e3o repousou. Na Primavera<\/p>\n<p>Vinham os mo\u00e7os adornar-lhe o tronco (16)<\/p>\n<p>De capelas cheirosas de boninas,<\/p>\n<p>E coreias gentis tra\u00e7ar-lhe em roda.<\/p>\n<p>Nasceu com o orbe a planta vener\u00e1vel,<\/p>\n<p>Viu passar gera\u00e7\u00f5es, julgou seu dia<\/p>\n<p>Final fosse o do mundo, e quando airosa<\/p>\n<p>Por entre as densas nuvens se elevava,<\/p>\n<p>Mandou o Nume aos aquil\u00f5es rugissem.<\/p>\n<p>Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,<\/p>\n<p>Murcharam-se caindo, e o rei dos bosques<\/p>\n<p>Serviu de pasto aos tragadores vermes.<\/p>\n<p>Deus estendeu a m\u00e3o: no mesmo instante<\/p>\n<p>A vinha se mirrou: junto aos ribeiros<\/p>\n<p>Da Palestina os pl\u00e1tanos frondosos<\/p>\n<p>N\u00e3o mais cresceram, como dantes, belos:<\/p>\n<p>O armento, em vez de relva, achou nos prados<\/p>\n<p>Somente ingratas, espinhosas urzes.<\/p>\n<p>No G\u00f3lgota plantada, a Cruz clamara (17)<\/p>\n<p>\u00abJusti\u00e7a!\u00bb A tal clamor h\u00f3rrido espectro<\/p>\n<p>No Mori\u00e1 surgiu (18). Era seu nome<\/p>\n<p>Assola\u00e7\u00e3o. E, despregando um grito,<\/p>\n<p>Caiu com longo som de um povo a campa.<\/p>\n<p>Assim a heran\u00e7a de Jud\u00e1, outrora<\/p>\n<p>Grata ao Senhor, existe s\u00f3 nos ecos<\/p>\n<p>Do tempo que j\u00e1 foi, e que h\u00e1 passado<\/p>\n<p>Como hora de prazer entre desditas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<h2>XXIV<\/h2>\n<p>Minha p\u00e1tria onde existe?<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00e1 somente!<\/p>\n<p>Oh, lembran\u00e7a da P\u00e1tria acabrunhada<\/p>\n<p>Um suspiro tamb\u00e9m tu me h\u00e1s pedido;<\/p>\n<p>Um suspiro arrancado aos seios d&#8217;alma<\/p>\n<p>Pela ofuscada gl\u00f3ria, e pelos crimes<\/p>\n<p>Dos homens que ora s\u00e3o, e pelo opr\u00f3brio<\/p>\n<p>Da mais ilustre das na\u00e7\u00f5es da Terra!<\/p>\n<p>A minha triste p\u00e1tria era t\u00e3o bela,<\/p>\n<p>E forte, e virtuosa!, e ora o guerreiro<\/p>\n<p>E o s\u00e1bio e o homem bom acol\u00e1 dormem,<\/p>\n<p>Acol\u00e1, nos sepulcros esquecidos,<\/p>\n<p>Que a seus netos infames nada contam<\/p>\n<p>Da antiga honra e pudor e eternos feitos.<\/p>\n<p>O escravo portugu\u00eas agrilhoado<\/p>\n<p>Carcomir-se lhes deixa junto \u00e0s lousas<\/p>\n<p>Os decepados troncos desse arbusto,<\/p>\n<p>Por m\u00e3os deles plantado \u00e0 liberdade,<\/p>\n<p>E por tiranos derribado em breve,<\/p>\n<p>Quando p\u00e1trias virtudes se acabaram,<\/p>\n<p>Como um sonho da inf\u00e2ncia!&#8230;<\/p>\n<p>O vil escravo,<\/p>\n<p>Imerso em v\u00edcios, em bruteza e inf\u00e2mia,<\/p>\n<p>N\u00e3o erguer\u00e1 os macerados olhos<\/p>\n<p>Para esses troncos, que destroem vermes<\/p>\n<p>Sobre as cinzas de her\u00f3is, e, aceso em pejo,<\/p>\n<p>N\u00e3o surgir\u00e1 jamais? N\u00e3o h\u00e1 na Terra<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00e3o portugu\u00eas que mande um brado<\/p>\n<p>De maldi\u00e7\u00e3o atroz, que v\u00e1 cravar-se<\/p>\n<p>Na vig\u00edlia e no sono dos tiranos,<\/p>\n<p>E envenenar-lhes o prazer por noites<\/p>\n<p>De vil prostitui\u00e7\u00e3o, e em seus banquetes<\/p>\n<p>De embriaguez lan\u00e7ar fel e amarguras?<\/p>\n<p>N\u00e3o! Bem como um cad\u00e1ver j\u00e1 corrupto,<\/p>\n<p>A Na\u00e7\u00e3o se dissolve: e em seu letargo<\/p>\n<p>O povo, envolto na mis\u00e9ria, dorme.<\/p>\n<h2>XXV<\/h2>\n<p>Oh, talvez. como o vate, ainda algum dia<\/p>\n<p>Terei de erguer \u00e0 P\u00e1tria hino de morte,<\/p>\n<p>Sobre seus mudos restos vagueando!<\/p>\n<p>Sobre seus restos? Nunca! Eterno, escuta<\/p>\n<p>Minhas preces e l\u00e1grimas: s\u00e9 em breve,<\/p>\n<p>Qual jaz Si\u00e3o, jazer deve Ulisseia;<\/p>\n<p>Se o anjo do exterm\u00ednio h\u00e1-de risc\u00e1-la<\/p>\n<p>Do meio das na\u00e7\u00f5es, que dentre os vivos<\/p>\n<p>Risque tamb\u00e9m meu nome, e n\u00e3o me deixe<\/p>\n<p>Na Terra vaguear, \u00f3rf\u00e3o de p\u00e1tria.<\/p>\n<h2>XXVI<\/h2>\n<p>Cessou da noite a gr\u00e3o solenidade<\/p>\n<p>Consagrada \u00e0 tristeza e a memorandas<\/p>\n<p>Recorda\u00e7\u00f5es: os monges se prostraram,<\/p>\n<p>A face unida \u00e0 pedra. A mim, a todos,<\/p>\n<p>Correm dos alhos l\u00e1grimas suaves<\/p>\n<p>De compun\u00e7\u00e3o. Ateu, entra no templo:<\/p>\n<p>N\u00e3o temas esse Deus, que os l\u00e1bios negam<\/p>\n<p>E o cora\u00e7\u00e3o confessa. A corda do arco<\/p>\n<p>Da vingan\u00e7a, em que a morte se debru\u00e7a,<\/p>\n<p>Frouxa est\u00e1; Deus \u00e9 bom: entra no templo.<\/p>\n<p>Tu, para quem a morte ou vida \u00e9 forma,<\/p>\n<p>Forma somente de mais puro barro,<\/p>\n<p>Que nada cr\u00eas, e em nada esperas, olha,<\/p>\n<p>Olha o conforto do crist\u00e3o. Se o c\u00e1lix<\/p>\n<p>Da amargura a provar os C\u00e9us lhe deram,<\/p>\n<p>Ele se consolou: b\u00e1lsamo santo<\/p>\n<p>Piedosa f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o lhe verte.<\/p>\n<p>\u00abDeus compaix\u00e3o ter\u00e1!\u00bb Eis seu gemido:<\/p>\n<p>Porque a esperan\u00e7a lhe sussurra em torno:<\/p>\n<p>\u00abAqui, ou l\u00e1&#8230; a Provid\u00eancia \u00e9 justa.\u00bb<\/p>\n<p>Ateu, a quem o mal fizera escravo,<\/p>\n<p>Teu futuro qual \u00e9? Quais s\u00e3o teus sonhos?<\/p>\n<p>No dia da afli\u00e7\u00e3o emudeceste<\/p>\n<p>Ante o espectro do mal. E a quem al\u00e7aras<\/p>\n<p>O gemente clamor? Ao mar, que as ondas<\/p>\n<p>N\u00e3o altera por ti? Ao ar, que some<\/p>\n<p>Pela sua amplid\u00e3o as queixas tuas?<\/p>\n<p>Aos rochedos alpestres, que n\u00e3o sentem,<\/p>\n<p>Nem sentir podem teu gemido in\u00fatil?<\/p>\n<p>Tua dor, teu prazer, existem, passam,<\/p>\n<p>Sem porvir, sem passado e sem sentido.<\/p>\n<p>Nas ang\u00fastias da vida, o teu consolo<\/p>\n<p>O suic\u00eddio \u00e9 s\u00f3, que te promete<\/p>\n<p>Rica messe de gozo, a paz do nada!<\/p>\n<p>E ai de ti, se buscaste, enfim, repouso,<\/p>\n<p>No limiar da morte indo assentar-te!<\/p>\n<p>Ali grita uma voz no \u00faltimo instante<\/p>\n<p>Do passamento: a voz aterradora<\/p>\n<p>Da consci\u00eancia \u00e9 ela. E h\u00e1s-de escut\u00e1-la<\/p>\n<p>Mau grado teu: e tremer\u00e1s em sustos,<\/p>\n<p>Desesperado aos C\u00e9us erguendo os olhos<\/p>\n<p>Irados, de trav\u00e9s, amortecidos;<\/p>\n<p>Aos C\u00e9us, cujo caminho a Eternidade<\/p>\n<p>Coa vagarosa m\u00e3o te vai cerrando,<\/p>\n<p>Para guiar-te \u00e0 solid\u00e3o das dores,<\/p>\n<p>Onde maldigas teu primeiro alento,<\/p>\n<p>Onde maldigas teu extremo arranco,<\/p>\n<p>Onde maldigas a exist\u00eancia e a morte.<\/p>\n<h2>XXVII<\/h2>\n<p>Calou tudo no templo: o c\u00e9u \u00e9 puro,A tempestade amea\u00e7adora dorme.<\/p>\n<p>No espa\u00e7o imenso os astros cintilantes<\/p>\n<p>O rei da cria\u00e7\u00e3o louvam com hinos,<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvidos por n\u00f3s nas profundezas<\/p>\n<p>Do nosso abismo. E aos cantos do universo,<\/p>\n<p>Ante milh\u00f5es de estrelas, que recamam<\/p>\n<p>O firmamento, ajuntar\u00e1 seu canto<\/p>\n<p>Mesquinho trovador? Que vale uma haspa<\/p>\n<p>Mortal no meio da harmonia et\u00e9rea,<\/p>\n<p>No concerto da noite? Oh, no sil\u00eancio,<\/p>\n<p>Eu pequenino verme irei sentar-me<\/p>\n<p>Aos p\u00e9s da Cruz nas trevas do meu nada.<\/p>\n<p>Assim se apaga a l\u00e2mpada nocturna<\/p>\n<p>Ao despontar do Sol o alvor primeiro:<\/p>\n<p>Por entre a escurid\u00e3o deu claridade;<\/p>\n<p>Mas do dia ao nascer, que j\u00e1 rutila,<\/p>\n<p>As torrentes de luz vertendo ao longe,<\/p>\n<p>Da l\u00e2mpada o clar\u00e3o sumiu-se, in\u00fatil,<\/p>\n<p>Nesse f\u00falgido mar, que inunda a Terra.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.biblio.com.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I T\u00edbio o sol entre as nuvens do ocidente, J\u00e1 l\u00e1 se inclina ao mar. Grave e solene Vai a hora da tarde! O oeste passa Mudo nos troncos da alameda antiga, ue \u00e0 voz da Primavera os gomos brota: O oeste passa mudo, e cruza o \u00e1trio Pontiagudo do templo, edificado Por m\u00e3os duras [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-111447","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Schiller, Alexandre Herculano Schiller<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Schiller, Alexandre Herculano, Obras, Poesias Schiller\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" 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