{"id":111439,"date":"2017-03-01T12:00:52","date_gmt":"2017-03-01T14:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111439"},"modified":"2017-03-01T12:00:52","modified_gmt":"2017-03-01T14:00:52","slug":"o-castelo-de-faria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-castelo-de-faria","title":{"rendered":"O Castelo de Faria"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<p>A breve dist\u00e2ncia da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de Franciscanos. Apraz\u00edvel \u00e9 o s\u00edtio, sombreado de velhas \u00e1rvores. Sentem-se ali o murmurar das \u00e1guas e a bafagem suave do vento, harmonia da natureza, que quebra o sil\u00eancio daquela solid\u00e3o, a qual, para nos servirmos de uma express\u00e3o de Fr. Bernardo de Brito, com a saudade de seus horizontes parece encaminhar e chamar o esp\u00edrito \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o das coisas celestes.<\/p>\n<p>O monte que se alevanta ao p\u00e9 do humilde convento \u00e9 formoso, mas \u00e1spero e severo, como quase todos os montes do Minho. Da sua coroa descobre-se ao longe o mar, semelhante a mancha azul entornada na face da terra. O espectador colocado no cimo daquela emin\u00eancia volta-se para um e outro lado, e as povoa\u00e7\u00f5es e os rios, os prados e as fragas, os soutos e os pinhais apresentam-lhe o panorama variad\u00edssimo que se descobre de qualquer ponto elevado da prov\u00edncia de Entre-Douro-e-Minho.<\/p>\n<p>Este monte, ora ermo, silencioso e esquecido, j\u00e1 se viu regado de sangue: j\u00e1 sobre ele se ouviram gritos de combatentes, \u00e2nsias de moribundos, estridor de habita\u00e7\u00f5es incendiadas, sibilar de setas e estrondo de m\u00e1quinas de guerra. Claros sinais de que ali viveram homens: porque \u00e9 com estas balizas que eles costumam deixar assinalados os s\u00edtios que escolheram para habitar na terra.<\/p>\n<p>O castelo de Faria, com suas torres e ameias, com a sua barbac\u00e3 e fosso, com seus postigos e al\u00e7ap\u00f5es ferrados, campeou a\u00ed como dominador dos vales vizinhos. Castelo real da Idade M\u00e9dia, a sua origem some-se nas trevas dos tempos que j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o h\u00e1 muito: mas a febre lenta que costuma devorar os gigantes de m\u00e1rmore e de granito, o tempo, coou-lhe pelos membros, e o antigo alc\u00e1cer das eras dos reis de Le\u00e3o desmoronou-se e caiu. Ainda no s\u00e9culo dezessete parte da sua ossada estava dispersa por aquelas encostas: no s\u00e9culo seguinte j\u00e1 nenhuns vest\u00edgios dele restavam, segundo o testemunho de um historiador nosso. Um eremit\u00e9rio, fundado pelo c\u00e9lebre Egas Moniz, era o \u00fanico eco do passado que a\u00ed restava. Na ermida servia de altar uma pedra trazida de Ceuta pelo primeiro Duque de Bragan\u00e7a, D. Afonso. Era esta l\u00e1jea a mesa em que costumava comer Salat-ibn-Salat, \u00faltimo senhor de Ceuta. D. Afonso, que seguira seu pai D. Jo\u00e3o I na conquista daquela cidade, trouxe esta pedra entre os despojos que lhe pertenceram, levando-a consigo para a vila de Barcelos, cujo conde era. De mesa de banquetes mouriscos converteu-se essa pedra em ara do cristianismo. Se ainda existe, quem sabe qual ser\u00e1 o seu futuro destino?<\/p>\n<p>Serviram os fragmentos do castelo de Faria para se construir o convento edificado ao sop\u00e9 do monte. Assim se converteram em dormit\u00f3rios as salas de armas, as ameias das torres em bordas de sepulturas, os umbrais das balhesteiras e postigos em janelas claustrais. O ru\u00eddo dos combates calou no alto do monte, e nas faldas dele alevantaram-se a harmonia dos salmos e o sussurro das ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este antigo castelo tinha recorda\u00e7\u00f5es de gl\u00f3ria. Os nossos maiores, por\u00e9m, curavam mais de praticar fa\u00e7anhas do que de conservar os monumentos delas. Deixaram, por isso, sem remorsos, sumir nas paredes de um claustro pedras que foram testemunhas de um dos mais her\u00f3icos feitos de cora\u00e7\u00f5es portugueses.<\/p>\n<p>Reinava entre n\u00f3s D. Fernando. Este pr\u00edncipe, que tanto degenerava de seus antepassados em valor e prud\u00eancia, fora obrigado a fazer paz com os castelhanos, depois de uma guerra infeliz, intentada sem justificados motivos, e em que se esgotaram inteiramente os tesouros do Estado. A condi\u00e7\u00e3o principal, com que se p\u00f4s termo a esta luta desastrosa, foi que D. Fernando casasse com a filha del-rei de Castela: mas, brevemente, a guerra se acendeu de novo; porque D. Fernando, namorado de D. Leonor Teles, sem lhe importar o contrato de que dependia o repouso dos seus vassalos, a recebeu por mulher, com afronta da princesa castelhana. Resolveu-se o pai a tomar vingan\u00e7a da inj\u00faria, ao que o aconselhavam ainda outros motivos. Entrou em Portugal com um ex\u00e9rcito e, recusando D. Fernando aceitar-lhe batalha, veio sobre Lisboa e cercou-a. N\u00e3o sendo o nosso prop\u00f3sito narrar os sucessos deste s\u00edtio, volveremos o fio do discurso para o que sucedeu no Minho.<\/p>\n<p>O Adiantado de Galiza, Pedro Rodriguez Sarmento, entrou pela prov\u00edncia de Entre-Douro-e-Minho com um grosso corpo de gente de p\u00e9 e de cavalo, enquanto a maior parte do pequeno ex\u00e9rcito portugu\u00eas trabalhava inutilmente ou por defender ou por descercar Lisboa. Prendendo, matando e saqueando, veio o Adiantado at\u00e9 as imedia\u00e7\u00f5es de Barcelos, sem achar quem lhe atalhasse o passo; aqui, por\u00e9m, saiu-lhe ao encontro D. Henrique Manuel, conde de Ceia e tio del-rei D. Fernando, com a gente que p\u00f4de ajuntar. Foi terr\u00edvel o conflito; mas, por fim, foram desbaratados os portugueses, caindo alguns nas m\u00e3os dos advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entre os prisioneiros contava-se o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno Gon\u00e7alves. Sa\u00edra este com alguns soldados para socorrer o conde de Ceia, vindo, assim, a ser companheiro na comum desgra\u00e7a. Cativo, o valoroso alcaide pensava em como salvaria o castelo del-rei seu senhor das m\u00e3os dos inimigos. Governava-o em sua aus\u00eancia, um seu filho, e era de crer que, vendo o pai em ferros, de bom grado desse a fortaleza para o libertar, muito mais quando os meios de defens\u00e3o escasseavam. Estas considera\u00e7\u00f5es sugeriram um ardil a Nuno Gon\u00e7alves. Pediu ao Adiantado que o mandasse conduzir ao p\u00e9 dos muros do castelo, porque ele, com as suas exorta\u00e7\u00f5es, faria com que o filho o entregasse, sem derramamento de sangue.<\/p>\n<p>Um tro\u00e7o de besteiros e de homens d&#8217;armas subiu a encosta do monte da Franqueira, levando no meio de si o bom alcaide Nuno Gon\u00e7alves. O Adiantado de Galiza seguia atr\u00e1s com o grosso da hoste, e a costaneira ou ala direita, capitaneada por Jo\u00e3o Rodrigues de Viedma, estendia-se, rodeando os muros pelo outro lado. O ex\u00e9rcito vitorioso ia tomar posse do castelo de Faria, que lhe prometera dar nas m\u00e3os o seu cativo alcaide.<\/p>\n<p>De roda da barbac\u00e3 alvejavam as casinhas da pequena povoa\u00e7\u00e3o de Faria: mas silenciosas e ermas. Os seus habitantes, apenas enxergaram ao longe as bandeiras castelhanas, que esvoa\u00e7avam soltas ao vento, e viram o refulgir cintilante das armas inimigas, abandonando os seus lares, foram acolher-se no terreiro que se estendia entre os muros negros do castelo e a cerca exterior ou barbac\u00e3.<\/p>\n<p>Nas torres, os atalaias vigiavam atentamente a campanha, e os almocadens corriam com a rolda 1 pelas quadrelas do muro e subiam aos cubelos colocados nos \u00e2ngulos das muralhas.<\/p>\n<p>O terreiro onde se haviam acolhido os habitantes da povoa\u00e7\u00e3o estava coberto de choupanas colmadas, nas quais se abrigava a turba dos velhos, das mulheres e das crian\u00e7as, que ali se julgavam seguros da viol\u00eancia de inimigos desapiedados.<\/p>\n<p>Quando o tro\u00e7o dos homens d&#8217;armas que levavam preso Nuno Gon\u00e7alves vinha j\u00e1 a pouca dist\u00e2ncia da barbac\u00e3, os besteiros que coroavam as ameias encurvaram as bestas, e os homens dos engenhos prepararam-se para arrojar sobre os contr\u00e1rios as suas quadrelas e virot\u00f5es, enquanto o clamor e o choro se alevantavam no terreiro, onde o povo inerme estava apinhado.<\/p>\n<p>Um arauto saiu do meio da gente da vanguarda inimiga e caminhou para a barbac\u00e3, todas as bestas se inclinaram para o ch\u00e3o, e o ranger das m\u00e1quinas converteu-se num sil\u00eancio profundo.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Mo\u00e7o alcaide, mo\u00e7o alcaide! &#8211; bradou o arauto &#8211; teu pai, cativo do mui nobre Pedro Rodriguez Sarmento, Adiantado de Galiza pelo mui excelente e temido D. Henrique de Castela, deseja falar contigo, de fora do teu castelo.&#8221;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Nunes, o filho do velho alcaide, atravessou ent\u00e3o o terreiro e, chegando \u00e0 barbac\u00e3, disse ao arauto &#8211; &#8220;A Virgem proteja meu pai: dizei-lhe que eu o espero.&#8221;<\/p>\n<p>O arauto voltou ao grosso de soldados que rodeavam Nuno Gon\u00e7alves, e depois de breve demora, o tropel aproximou-se da barbac\u00e3. Chegados ao p\u00e9 dela, o velho guerreiro saiu dentre os seus guardadores, e falou com o filho:<\/p>\n<p>&#8220;Sabes tu, Gon\u00e7alo Nunes, de quem \u00e9 esse castelo, que, segundo o regimento de guerra, entreguei \u00e0 tua guarda quando vim em socorro e ajuda do esfor\u00e7ado conde de Ceia?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;\u00c9 &#8211; respondeu Gon\u00e7alo Nunes &#8211; de nosso rei e senhor D. Fernando de Portugal, a quem por ele fizeste preito e menagem.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Sabes tu, Gon\u00e7alo Nunes, que o dever de um alcaide \u00e9 de nunca entregar, por nenhum caso, o seu castelo a inimigos, embora fique enterrado debaixo das ru\u00ednas dele?&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Sei, oh meu pai! &#8211; prosseguiu Gon\u00e7alo Nunes em voz baixa, para n\u00e3o ser ouvido dos castelhanos, que come\u00e7avam a murmurar. &#8211; Mas n\u00e3o v\u00eas que a tua morte \u00e9 certa, se os inimigos percebem que me aconselhaste a resist\u00eancia?&#8221;<\/p>\n<p>Nuno Gon\u00e7alves, como se n\u00e3o tivera ouvido as reflex\u00f5es do filho, clamou ent\u00e3o: &#8211; &#8220;Pois se o sabes, cumpre o teu dever, alcaide do castelo de Faria! Maldito por mim, sepultado sejas tu no inferno, como Judas o traidor, na hora em que os que me cercam entrarem nesse castelo, sem trope\u00e7arem no teu cad\u00e1ver.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Morra! &#8211; gritou o almocadem castelhano &#8211; morra o que nos atrai\u00e7oou.&#8221; &#8211; E Nuno Gon\u00e7alves caiu no ch\u00e3o atravessado de muitas espadas e lan\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Defende-te, alcaide!&#8221; &#8211; foram as \u00faltimas palavras que ele murmurou.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Nunes corria como louco ao redor da barbac\u00e3, clamando vingan\u00e7a. Uma nuvem de frechas partiu do alto dos muros; grande por\u00e7\u00e3o dos assassinos de Nuno Gon\u00e7alves misturaram o pr\u00f3prio sangue com o sangue do homem leal ao seu juramento.<\/p>\n<p>Os castelhanos acometeram o castelo; no primeiro dia de combate o terreiro da barbac\u00e3 ficou alastrado de cad\u00e1veres tisnados e de colmos e ramos reduzidos a cinzas. Um soldado de Pedro Rodriguez Sarmento tinha sacudido com a ponta da sua longa chu\u00e7a um colmeiro incendiado para dentro da cerca; o vento su\u00e3o soprava nesse dia com viol\u00eancia, e em breve os habitantes da povoa\u00e7\u00e3o, que haviam buscado o amparo do castelo, pereceram juntamente com as suas fr\u00e1geis moradas.<\/p>\n<p>Mas Gon\u00e7alo Nunes lembrava-se da maldi\u00e7\u00e3o de seu pai: lembrava-se de que o vira moribundo no meio dos seus matadores, e ouvia a todos os momentos o \u00faltimo grito do bom Nuno Gon\u00e7alves &#8211; &#8220;Defende-te, alcaide!&#8221;<\/p>\n<p>O orgulhoso Sarmento viu a sua soberba abatida diante dos torvos muros do castelo de Faria. O mo\u00e7o alcaide defendia-se como um le\u00e3o, e o ex\u00e9rcito castelhano foi constrangido a levantar o cerco.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Nunes, acabada a guerra, era altamente louvado pelo seu brioso procedimento e pelas fa\u00e7anhas que obrara na defens\u00e3o da fortaleza cuja guarda lhe fora encomendada por seu pai no \u00faltimo trance da vida. Mas a lembran\u00e7a do horr\u00edvel sucesso estava sempre presente no esp\u00edrito do mo\u00e7o alcaide. Pedindo a el-rei o desonerasse do cargo que t\u00e3o bem desempenhara, foi depor ao p\u00e9 dos altares a cervilheira e o saio de cavaleiro, para se cobrir com as vestes pacificas do sacerd\u00f3cio. Ministro do santu\u00e1rio, era com l\u00e1grimas e preces que ele podia pagar a seu pai o ter coberto de perp\u00e9tua gl\u00f3ria o nome dos alcaides de Faria.<\/p>\n<p>Mas esta gl\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 hoje ai uma \u00fanica pedra que a ateste. As rela\u00e7\u00f5es dos historiadores foram mais duradouras que o m\u00e1rmore.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.biblio.com.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A breve dist\u00e2ncia da vila de Barcelos, nas faldas do Franqueira, alveja ao longe um convento de Franciscanos. Apraz\u00edvel \u00e9 o s\u00edtio, sombreado de velhas \u00e1rvores. 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