{"id":111436,"date":"2017-03-01T11:58:35","date_gmt":"2017-03-01T13:58:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111436"},"modified":"2017-03-01T11:58:35","modified_gmt":"2017-03-01T13:58:35","slug":"o-bobo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-bobo","title":{"rendered":"O Bobo"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Alexandre Herculano<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<h2>Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A morte de Afonso VI, Rei de Le\u00e3o e Castela, quase no fim da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XII, deu origem a acontecimentos ainda mais graves do que os por ele previstos no momento em que ia trocar o brial de cavaleiro e o cetro de rei, pela mortalha com que o desceram ao sepulcro no Mosteiro de Sahagun. A \u00edndole inquieta dos bar\u00f5es leoneses, galegos e castelhanos facilmente achou pretextos para dar largas \u00e0s suas ambi\u00e7\u00f5es e m\u00fatuas malqueren\u00e7as na violenta situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que o falecido Rei deixara o pa\u00eds. Costumado a considerar a aud\u00e1cia, o valor militar e a paix\u00e3o da guerra como o principal dote de um pr\u00edncipe, e privado do \u00fanico filho var\u00e3o que tivera, o Infante D. Sancho, morto em tenros anos na batalha de Ucles, Afonso VI alongara os olhos pelas prov\u00edncias do imp\u00e9rio, buscando um homem temido nos combates e assaz en\u00e9rgico para que a fronte lhe n\u00e3o vergasse sob o peso da f\u00e9rrea coroa da Espanha crist\u00e3. Era mister escolher marido para D. Urraca, sua filha mais velha, vi\u00fava de Raimundo Conde de Galiza; porque a ela pertencia o trono por um costume gradualmente introduzido, a despeito das leis g\u00f3ticas, que atribu\u00edam aos grandes e at\u00e9 certo ponto ao alto clero a elei\u00e7\u00e3o dos reis. Entre os ricos-homens mais ilustres dos seus vastos estados, nenhum o velho Rei achou digno de t\u00e3o elevado cons\u00f3rcio. Afonso I de Arag\u00e3o tinha, por\u00e9m, todos os predicados que o altivo monarca reputava necess\u00e1rios no que devia ser o principal defensor da Cruz. Por isso, sentindo avizinhar-se a morte, ordenou que D. Urraca apenas herdasse a coroa desse a este a m\u00e3o de esposa. Esperava por um lado que a energia e severidade do novo Pr\u00edncipe contivessem as perturba\u00e7\u00f5es intestinas, e por outro que, ilustre j\u00e1 nas armas, n\u00e3o deixaria folgar os ismaelitas com a not\u00edcia da morte daquele que por tantos anos lhes fora flagelo e destrui\u00e7\u00e3o. Os acontecimentos posteriores provaram, todavia, mais uma vez, quanto podem falhar as previs\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do governo de D. Urraca, se tal nome se pode aplicar ao per\u00edodo do seu predom\u00ednio, nada mais foi do que um tecido de trai\u00e7\u00f5es, de vingan\u00e7as, de revolu\u00e7\u00f5es e lutas civis, de roubos e viol\u00eancias. A dissolu\u00e7\u00e3o da Rainha, a sombria ferocidade do marido, a cobi\u00e7a e orgulho dos pr\u00f3ceres do reino convertiam tudo num caos, e a guerra civil, deixando respirar os mu\u00e7ulmanos, rompia a cadeia de triunfos da sociedade crist\u00e3, \u00e0 qual tanto trabalhara por dar unidade o h\u00e1bil Afonso VI.<\/p>\n<p>As prov\u00edncias j\u00e1 ent\u00e3o libertadas do jugo ismaelita n\u00e3o tinham ainda, digamos assim, sen\u00e3o os rudimentos de uma nacionalidade. Faltavam-lhes, ou eram d\u00e9beis grande parte dos v\u00ednculos morais e jur\u00eddicos que constituem uma na\u00e7\u00e3o, uma sociedade. A associa\u00e7\u00e3o do rei aragon\u00eas no trono de Le\u00e3o n\u00e3o repugnava aos bar\u00f5es leoneses por ele ser um estranho, mas porque a antigos s\u00fabditos do novo rei se entregavam de prefer\u00eancia as ten\u00eancias e alcaidarias da monarquia. As resist\u00eancias, por\u00e9m, eram individuais, desconexas, e por isso sem resultados definitivos, efeito natural de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas viciosas ou incompletas. O conde ou rico-homem de Oviedo ou de Le\u00e3o, da Estremadura ou de Galiza, de Castela ou de Portugal, referia sempre a si, \u00e0s suas ambi\u00e7\u00f5es, esperan\u00e7as ou temores os resultados prov\u00e1veis de qualquer sucesso pol\u00edtico, e aferindo tudo por esse padr\u00e3o, procedia em conformidade com ele. Nem podia ser de outro modo. A id\u00e9ia de na\u00e7\u00e3o e de p\u00e1tria n\u00e3o existia para os homens d\u2019ent\u00e3o do mesmo modo que existe para n\u00f3s. O amor cioso da pr\u00f3pria autonomia que deriva de uma concep\u00e7\u00e3o forte, clara, consciente, do ente coletivo, era apenas, se era, um sentimento frouxo e confuso para os homens dos s\u00e9culos XI e XII. Nem nas cr\u00f4nicas, nem nas lendas, nem nos diplomas se encontra um voc\u00e1bulo que represente o espanhol, o indiv\u00edduo da ra\u00e7a godo-romana distinto do sarraceno ou mouro. Acha-se o asturiano, o c\u00e2ntabro, o galiciano, o portugalense, o castelhano, isto \u00e9, o homem da prov\u00edncia ou grande condado; e ainda o toledano, o barcelon\u00eas, o compostelado, o legionense, isto \u00e9, o homem de certa cidade. O que falta \u00e9 a designa\u00e7\u00e3o simples, precisa, do s\u00fabdito da coroa de Oviedo, Le\u00e3o e Castela. E por que falta? \u00c9 porque, em rigor, a entidade faltava socialmente. Havia-a, mas debaixo de outro aspecto: em rela\u00e7\u00e3o ao gr\u00eamio religioso. Essa sim, que aparece clara e distinta. A sociedade criada era uma, e preenchia at\u00e9 certo ponto o incompleto da sociedade temporal. Quando cumpria aplicar uma designa\u00e7\u00e3o que representasse o habitante da parte da Pen\u00ednsula livre do jugo do Islam, s\u00f3 uma havia: christianus. O ep\u00edteto que indicava a cren\u00e7a representava a nacionalidade. E assim cada catedral, cada par\u00f3quia, cada mosteiro, cada simples ascet\u00e9rio era um anel da cadeia moral que ligava o todo, na falta de um forte nexo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Tais eram os caracteres proeminentes da vida externa da monarquia neog\u00f3tica. A sua vida social interna; as rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas entre os indiv\u00edduos e entre estes e o estado, tinham sobretudo uma fei\u00e7\u00e3o bem distinta. Era a larga dist\u00e2ncia que separava das classes altivas, dominadoras, que fru\u00edam, das classes, em parte e at\u00e9 certo ponto servas, e em parte livres, que trabalhavam. A aristocracia compunha-se da nobreza de linhagem e da jerarquia sacerdotal, a espada e o livro, a for\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o e bra\u00e7o, e a superioridade relativa da intelig\u00eancia. A democracia constitu\u00edam-na dous grupos notavelmente desiguais em n\u00famero e em condi\u00e7\u00e3o. Era um o dos burgueses propriet\u00e1rios com pleno dom\u00ednio, moradores de certas povoa\u00e7\u00f5es de vulto, comerciantes, fabricantes, art\u00edfices, isto \u00e9, os que depois se chamaram entre n\u00f3s homens de rua, indiv\u00edduos mais abastados e mais insofridos, fazendo-se respeitar ou temer, numas partes pela for\u00e7a do nexo municipal, concess\u00e3o do rei ou dos condes dos distritos em nome dele, noutras partes pelas irmandades (conjurationes, germanitates), associa\u00e7\u00f5es ajuramentadas para resistirem aos prepotentes, e cujas origens obscuras talvez v\u00e3o confundir-se com as origens n\u00e3o menos obscuras das beetrias. O outro grupo, incomparavelmente mais numeroso, constitu\u00edam-no os agricultores habitantes das par\u00f3quias rurais. Nessa \u00e9poca ainda eram raros os o\u00e1sis da liberdade chamados alfozes ou termos dos concelhos. Dispersa, possuindo a terra por t\u00edtulos de diversas esp\u00e9cies, todos mais ou menos opressivos e prec\u00e1rios, na depend\u00eancia do poderoso imunista, ou do inexor\u00e1vel agente do fisco, a popula\u00e7\u00e3o rural, ainda parcialmente adscrita \u00e0 gleba, quase que \u00e0s vezes se confundia com os sarracenos, mouros ou mo\u00e7\u00e1rabes, cativos nas freq\u00fcentes correrias dos leoneses, e cuja situa\u00e7\u00e3o se assemelhava \u00e0 dos escravos negros da Am\u00e9rica, ou a cousa ainda pior, dada a dureza e ferocidade dos homens daqueles tempos.<\/p>\n<p>A burguesia (burgenses), embri\u00e3o da moderna classe m\u00e9dia, assaz forte para se defender ou, pelo menos, opor \u00e0 opress\u00e3o a vingan\u00e7a tumultu\u00e1ria, era impotente para exercer a\u00e7\u00e3o eficaz na sociedade geral. Veio isso mais tarde. Assim, o \u00fanico poder que assegurava a unidade pol\u00edtica era o poder do rei. A monarquia ovetense-leonesa fora como uma restaura\u00e7\u00e3o da monarquia visig\u00f3tica, entre todos os estados b\u00e1rbaros a mais semelhante na \u00edndole e na a\u00e7\u00e3o ao cesarismo romano. Uma s\u00e9rie de pr\u00edncipes, se n\u00e3o distintos pelo g\u00eanio, como Carlos Magno, todavia de valor e de energia n\u00e3o vulgares, tinham sabido manter a supremacia real, anulada gradualmente al\u00e9m dos Pireneus pela sucessiva transforma\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em benef\u00edcios e dos benef\u00edcios em feudos. Entretanto \u00e0 autoridade central faltava um arrimo s\u00f3lido a que se encostasse; faltava-lhe uma classe m\u00e9dia, numerosa, rica, inteligente, \u00eamula do clero pela sua cultura. Essa classe, como j\u00e1 advertimos, ainda simples embri\u00e3o, s\u00f3 no s\u00e9culo XIII come\u00e7ou a ser uma fraca entidade pol\u00edtica, ali\u00e1s rapidamente desenvolvida e avigorada. Desde aquela \u00e9poca \u00e9 que a realeza aproveitou mais ou menos a sua alian\u00e7a para domar as aristocracias secular e eclesi\u00e1stica, como com o aux\u00edlio dela as monarquias de al\u00e9m dos Pireneus conseguiram tirar ao feudalismo a preponder\u00e2ncia, e quase inteiramente o car\u00e1ter pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 f\u00e1cil iludirmo-nos, crendo ver nas revolu\u00e7\u00f5es e lutas do ocidente da Pen\u00ednsula no decurso dos s\u00e9culos VIII a XII a anarquia feudal, confundindo esta com a anarquia aristocr\u00e1tica. N\u00e3o era a jerarquia constituindo uma esp\u00e9cie de fam\u00edlias militares, de cl\u00e3s ou tribos artificiais, cujos membros estavam ligados por m\u00fatuos direitos e deveres, determinados por um certo modo de frui\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio territorial, em que se achava incorporada a soberania com exclus\u00e3o do poder p\u00fablico. Em vez disto, era o individualismo rebelando-se contra esse poder, contra a unidade, contra o direito. Quando as m\u00e3os que retinham o cetro eram frouxas ou inabilmente violentas, as perturba\u00e7\u00f5es tornavam-se n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edveis, mas, at\u00e9, f\u00e1ceis. A febre da anarquia podia ser ardente: o que n\u00e3o havia era a anarquia cr\u00f4nica, a anarquia organizada.<\/p>\n<p>Eis as circunst\u00e2ncias, que, ajudadas pelos desvarios da filha de Afonso VI, converteram o seu reinado num dos mais desastrosos per\u00edodos de desordens, de rebeli\u00f5es e de guerras civis. A confus\u00e3o vinha a ser tanto maior, por isso mesmo que faltava o nexo feudal. Eram t\u00e3o t\u00eanues os la\u00e7os entre o conde e o conde, o maiorino e o maiorino, o alcaide e o alcaide, o prestameiro e o prestameiro, o homem de mesnada e o homem de mesnada, e, depois, entre estas diversas categorias, que as parcialidades se compunham, dividiam ou transformavam sem custo, \u00e0 merc\u00ea do primeiro \u00edmpeto de paix\u00e3o ou c\u00e1lculo ambicioso. Deste estado tumultu\u00e1rio derivou a separa\u00e7\u00e3o definitiva de Portugal, e a consolida\u00e7\u00e3o da autonomia portuguesa. Obra a principio de ambi\u00e7\u00e3o e orgulho, a desmembra\u00e7\u00e3o dos dous condados do Porto e de Coimbra veio por milagres de prud\u00eancia e de energia a constituir, n\u00e3o a na\u00e7\u00e3o mais forte, mas decerto a mais audaz da Europa nos fins do XV s\u00e9culo. Dir-se-ia um povo predestinado. Quais seriam hoje de feito as rela\u00e7\u00f5es do Oriente e do Novo Mundo com o Ocidente, se Portugal houvesse perecido no ber\u00e7o? Quem ousar\u00e1 afirmar que, sem Portugal, a civiliza\u00e7\u00e3o atual do g\u00eanero humano seria a mesma que \u00e9?<\/p>\n<p>O Conde Henrique pouco sobreviveu ao sogro: cinco anos escassos; mas durante esses cinco anos todos aqueles atos seus cuja mem\u00f3ria chegou at\u00e9 n\u00f3s indicam o exclusivo intuito de alimentar o inc\u00eandio das disc\u00f3rdias civis que devoraram a Espanha crist\u00e3. Nas lutas de D. Urraca, dos parciais de Afonso Raimundes e do Rei de Arag\u00e3o, qual foi o partido do Conde? Todos sucessivamente; porque nenhum era o seu. O seu consistia em constituir um estado independente nos territ\u00f3rios que governava. E no meio dos tumultos e guerras em que ardia o reino, ele teria visto coroadas de bom sucesso as suas dilig\u00eancias, se a morte n\u00e3o viesse atalhar-lhe os des\u00edgnios junto dos muros de Astorga.<\/p>\n<p>Mas a sua vi\u00fava, a bastarda de Afonso VI, era pela ast\u00facia e \u00e2nimo viril digna consorte do ousado e empreendedor borgonh\u00eas. A leoa defendeu o antro onde n\u00e3o se ouvia j\u00e1 o rugido do seu fero senhor, com a mesma energia e esfor\u00e7o de que ele lhe dera repetidos exemplos. Durante quinze anos lutou por conservar intacta a independ\u00eancia da terra que lhe chamava rainha, e quando o filho lhe arrancou das m\u00e3os a heran\u00e7a paterna, s\u00f3 havia um ano que a altiva dona curvara a cerviz ante a fortuna de seu sobrinho Afonso Raimundes, o jovem Imperador de Le\u00e3o e Castela. Era tarde. Portugal n\u00e3o devia tornar a ser uma prov\u00edncia leonesa.<\/p>\n<p>Se D. Teresa se mostrara na viuvez digna politicamente do marido, o filho era digno de ambos. O tempo provou que os excedia em perseveran\u00e7a e aud\u00e1cia. A natureza dera-lhe as formas atl\u00e9ticas e o valor indom\u00e1vel de um desses her\u00f3is dos antigos romances de cavalaria, cujos dotes extraordin\u00e1rios os trovadores exageravam mais ou menos nas lendas e poemas, mas que eram copiados da exist\u00eancia real. Tal fora o Cid. Os amores ad\u00falteros de D. Teresa com o Conde de Trava, Fernando Peres, fizeram com que cedo se manifestassem as aspira\u00e7\u00f5es do mo\u00e7o Afonso Henriques. Os bar\u00f5es da prov\u00edncia que tendia a constituir-se em novo estado achavam naturalmente nele o centro da resist\u00eancia \u00e0 preponder\u00e2ncia de um homem que deviam considerar como intruso, e a quem a cegueira da Infanta-Rainha cedia o poder que dantes t\u00e3o energicamente exercera. \u00c0 irrita\u00e7\u00e3o e inveja que a eleva\u00e7\u00e3o desse estranho devia despertar no cora\u00e7\u00e3o de cada um deles, ajuntava-se decerto a considera\u00e7\u00e3o das conseq\u00fc\u00eancias inevit\u00e1veis da ilimitada preponder\u00e2ncia do Conde. Fernando Peres pertencia a uma das mais poderosas fam\u00edlias da Galiza e a mais adicta ao mo\u00e7o soberano de Le\u00e3o e Castela. Seu pai fora o aio e tutor do Pr\u00edncipe quando as paix\u00f5es sensuais de D. Urraca o cercavam de s\u00e9rios perigos. Nada mais natural do que resultar daquela preponder\u00e2ncia a ru\u00edna da nascente independ\u00eancia do novo estado.<\/p>\n<p>O que se passava em Portugal era em resumido teatro o que pouco antes se passara em Le\u00e3o. Ali, os amores de D. Urraca com o Conde Pedro de Lara tinham favorecido as ambiciosas pretens\u00f5es de Afonso Raimundes, concitando contra ela os \u00f3dios dos bar\u00f5es leoneses e castelhanos. Aqui, os amores de D. Teresa acenderam ainda mais os \u00e2nimos e trouxeram uma revolu\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>Se na batalha do Campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das m\u00e3os de sua m\u00e3e, ou antes das do Conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituir\u00edamos provavelmente hoje uma prov\u00edncia de Espanha. Mas no progresso da civiliza\u00e7\u00e3o humana t\u00ednhamos uma miss\u00e3o que cumprir. Era necess\u00e1rio que no \u00faltimo ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de atividade e vigor, para cuja a\u00e7\u00e3o fosse insuficiente o \u00e2mbito da terra p\u00e1tria, um povo de homens de imagina\u00e7\u00e3o ardente, apaixonados do inc\u00f3gnito, do misterioso, amando balou\u00e7ar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envoltos no temporal, e cujos destinos eram conquistar para o Cristianismo e para a civiliza\u00e7\u00e3o tr\u00eas partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a gl\u00f3ria. E a gl\u00f3ria dele \u00e9 tanto maior quanto encerrado na estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes imp\u00e9rios da terra, o seu nome retumbou por todo o globo.<\/p>\n<p>Pobres, fracos, humilhados, depois dos t\u00e3o formosos dias de poderio e de renome, que nos resta sen\u00e3o o passado? L\u00e1 temos os tesouros dos nossos afetos e contentamentos. Sejam as mem\u00f3rias da p\u00e1tria, que tivemos, o anjo de Deus que nos revoque \u00e0 energia social e aos santos afetos da nacionalidade. Que todos aqueles a quem o engenho e o estudo habilitam para os graves e profundos trabalhos da hist\u00f3ria se dediquem a ela. No meio de uma na\u00e7\u00e3o decadente, mas rica de tradi\u00e7\u00f5es, o mister de recordar o passado \u00e9 uma esp\u00e9cie de magistratura moral, \u00e9 uma esp\u00e9cie de sacerd\u00f3cio. Exercitem-se os que podem e sabem; porque n\u00e3o o fazer \u00e9 um crime.<\/p>\n<p>E a Arte? Que a Arte em todas as suas formas externas represente este nobre pensamento; que o drama, o poema, o romance sejam sempre um eco das eras po\u00e9ticas da nossa terra. Que o povo encontre em tudo e por toda a parte o grande vulto dos seus antepassados. Ser-lhe-\u00e1 amarga a compara\u00e7\u00e3o. Mas como ao inocentinho infante da Jerusal\u00e9m Libertada, homens da arte, asperge de suave licor a borda da ta\u00e7a onde est\u00e1 o rem\u00e9dio que pode salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Enquanto, por\u00e9m, n\u00e3o chegam os dias em que o puro e nobre engenho dos que ent\u00e3o h\u00e3o de ser homens celebre exclusivamente as solenidades da Arte no altar do amor p\u00e1trio, alevantemos uma das muitas pedras tombadas dos templos e dos pal\u00e1cios, para que os obreiros robustos que n\u00e3o tardam a surgir digam quando a virem: \u201cas m\u00e3os que te puseram a\u00ed eram d\u00e9beis, mas o cora\u00e7\u00e3o que as guiava antevia j\u00e1 algum raio da luz que nos alumia\u201d.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Dom Bibas<\/p>\n<p>O Castelo de Guimar\u00e3es, qual existiu nos princ\u00edpios do s\u00e9culo XII, diferen\u00e7ava-se entre os outros, que cobriam quase todas as emin\u00eancias das honras e pr\u00e9stamos de Portugal e da Galiza, por sua fortaleza, vastid\u00e3o e eleg\u00e2ncia. A maior parte dos edif\u00edcios desta esp\u00e9cie eram apenas ent\u00e3o um agregado de grossas vigas, travadas entre si, e formando uma s\u00e9rie de torres irregulares, cujas paredes, muitas vezes feitas de cantaria sem cimento, mal resistiam aos golpes dos ar\u00edetes e aos tiros das catapultas, ao passo que os madeiros que ligavam esses fracos muros, e lhes davam certo aspecto de fortifica\u00e7\u00e3o duradoura, tinham o grave inconveniente de poderem facilmente incendiar-se. Assim n\u00e3o havia castelo onde entre as armas e bastimentos de guerra n\u00e3o ocupassem um dos mais importantes lugares as amplas cubas de vinagre, l\u00edquido que a experi\u00eancia tinha mostrado ser o mais pr\u00f3prio para apagar o alcatr\u00e3o incendido, que como instrumento de ru\u00edna usavam nos s\u00edtios dos lugares afortalezados. Quando o gato ou v\u00ednea, esp\u00e9cie de barraca ambulante, coberta de couros crus, se aproximava, pesada e lenta como um espectro, aos muros de qualquer castelo, enquanto os cavaleiros mais possantes arcavam com pedras enormes, levando-as aos v\u00e3os das ameias, para da\u00ed as deixarem cair sobre o teto da m\u00e1quina, os pe\u00f5es conduziam para o lan\u00e7o de muralha ou torre, a que esta se dirigia, uma quantidade daquele l\u00edquido salvador capaz de abafar as chamas envoltas em rolos de fumo f\u00e9tido, que n\u00e3o tardariam a lamber as traves angulares do guerreiro edif\u00edcio. Muitas vezes essas precau\u00e7\u00f5es eram in\u00fateis, principalmente contra os sarracenos.<\/p>\n<p>Entre estes uma civiliza\u00e7\u00e3o mais adiantada tinha moderado o fanatismo, quebrado os brios selvagens, diminu\u00eddo a robustez f\u00edsica dos homens d\u2019armas: a sua mestria, por\u00e9m, da arte da guerra supria estas faltas e equilibrava nos combates o soldado muslim com o guerreiro crist\u00e3o, mais robusto, mais fan\u00e1tico e por isso mais impetuoso do que ele. Era principalmente nos ass\u00e9dios, quer defendendo-se, quer acometendo, que os \u00e1rabes conheciam todo o pre\u00e7o da pr\u00f3pria superioridade intelectual. As m\u00e1quinas de guerra, mais perfeitas que as dos nazarenos, n\u00e3o s\u00f3 pela melhor combina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as mec\u00e2nicas, como pela maior variedade de engenhos e inven\u00e7\u00f5es, davam-lhes not\u00e1veis vantagens sobre a grosseira t\u00e1tica dos seus advers\u00e1rios. Sem o socorro da v\u00ednea os \u00e1rabes sabiam incendiar de longe os castelos com os escorpi\u00f5es arrojados pelas manganelas de fogo. D\u2019enxofre, salitre e nafta compunham eles um misto terr\u00edvel, com que despediam dos engenhos globos de ferro cheios do mesmo composto, que, serpeando e sussurrando nos ares, iam estourar e verter dentro dos muros assediados uma esp\u00e9cie de lava inextingu\u00edvel e infernal, contra cuja viol\u00eancia eram baldadas quase sempre todas as preven\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o menos baldadas a valentia e a for\u00e7a dos mais duros cavaleiros e homens de armas.<\/p>\n<p>Mas o Castelo de Guimar\u00e3es podia, do teso sobre que estava assentado, olhar com tranq\u00fcilo desd\u00e9m para os formid\u00e1veis e variados engenhos militares de crist\u00e3os e sarracenos. A melhor fortaleza da Galiza, o Castro Honesto, que o mui poderoso e venerando Senhor Diogo Gelmires, primeiro Arcebispo de Compostela, reformara de novo, com todo o esmero de quem sabia ser aquele castro como a chave da extensa Honra e Senhorio Compostelano, era, por trinta l\u00e9guas em roda, o \u00fanico, talvez, que ousaria disputar primazias com os de Guimar\u00e3es. Como o daquele, a carcova deste era larga e profunda; as suas barreiras eram amplas e defendidas por boas barbac\u00e3s, e as suas muralhas, torreadas com curtos intervalos, altas, ameadas e desmarcadamente grossas, do que dava testemunho o espa\u00e7oso dos adarves que corriam por cima delas. O circuito, que t\u00e3o temerosas fortifica\u00e7\u00f5es abrangiam, encerrava uma nobre alc\u00e1\u00e7ova, que, tamb\u00e9m coberta de ameias, campeava sobranceira os lan\u00e7os de muros entre torre e torre, e ainda assoberbava estas, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da alvarr\u00e3 ou de menagem, que, maci\u00e7a e quadrangular, com os seus esguios miradouros bojando nos dous \u00e2ngulos exteriores, e erguida sobre o escuro portal da entrada, parecia um gigante em p\u00e9 e com os punhos cerrados sobre os quadris, amea\u00e7ando o burgo rasteiro e humilde que, l\u00e1 embaixo no sop\u00e9 da suave encosta, se escondia e apoquentava, como vil\u00e3o que era, diante de tamanho senhor.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o vedes a\u00ed ao longe, por entre a casaria da povoa\u00e7\u00e3o e verdura das almuinhas, que, entressachadas com os edif\u00edcios burgueses, servem como vasto tapete, onde assentam os panos de muros alvos, e os telhados vermelhos e aprumados das casas modestas dos pe\u00f5es? \u2013 N\u00e3o vedes, digo, a alpendrada de uma igreja, a portaria de um ascet\u00e9rio, a grimpa de um campan\u00e1rio? \u00c9 o Mosteiro de D. Mumadona: \u00e9 um claustro de monges negros: \u00e9 a origem desse burgo, do castelo roqueiro e dos seus pa\u00e7os reais. Havia duzentos anos que neste vale viviam apenas alguns servos, que cultivavam a vila ou herdade de Vimaranes. Mas o mosteiro edificou-se, e a povoa\u00e7\u00e3o nasceu. O ameno e apraz\u00edvel s\u00edtio atraiu os poderosos: o Conde Henrique quis a\u00ed habitar algum tempo, e sobre as ru\u00ednas de um fraco e pequeno castelo, a que os monges se acolhiam ante o assolador tuf\u00e3o das correrias dos mouros, se alevantou aquela m\u00e1quina. O trato e freq\u00fc\u00eancia da corte enriqueceu os burgueses: muitos francos, vindos em companhia do Conde, a\u00ed se tinham estabelecido, e os homens de rua, ou moradores do burgo, constitu\u00edram-se em sociedade civil. Ent\u00e3o surgiu o munic\u00edpio: e essas casas, aparentemente humildes, encerravam j\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o do fermento da resist\u00eancia antiteocr\u00e1tica e antiaristocr\u00e1tica que, espalhado gradualmente pelo pa\u00eds, devia em tr\u00eas s\u00e9culos p\u00f4r manietadas aos p\u00e9s dos reis a aristocracia e a teocracia. Os imperantes supremos, enfarados j\u00e1 na ca\u00e7a, que abasteceria de futuro as mesas dos banquetes triunfais dos seus sucessores, atrelavam perto dela os lebr\u00e9us: punham o concelho ao p\u00e9 do castelo do mosteiro e da catedral. Guimar\u00e3es breve obteve do Conde um foral, uma carta de munic\u00edpio, tudo pro bono pacis, como reza o respectivo documento.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta alc\u00e1\u00e7ova, cingida das suas fortifica\u00e7\u00f5es lustrosas, virgens, elegantes, e todavia formid\u00e1veis, onde a nossa hist\u00f3ria come\u00e7a. Habitavam ent\u00e3o nela a mui virtuosa dona, e honrada Rainha, D. Teresa, Infanta dos portugueses, e o mui nobre e excelente Senhor Fernando Peres, Conde de Trava, c\u00f4nsul da terra portugalense e da colimbriense, alcaide-mor na Galiza do Castelo de Faro, e em Portugal dos de Santa Ovaia e de Soure. Era ele a primeira personagem da corte de Guimar\u00e3es depois de D. Teresa, a formos\u00edssima Infanta, para nos servirmos do ep\u00edteto que em seus diplomas lhe dava o Conde D. Henrique, o qual devia saber perfeitamente se esta denomina\u00e7\u00e3o lhe quadrava. Apesar de entrada em anos, n\u00e3o cremos que, na \u00e9poca a que se refere a nossa narrativa, este ep\u00edteto fosse inteiramente anacr\u00f4nico, porque nem a bastarda de Afonso VI era ainda idosa, nem devemos imaginar que a afei\u00e7\u00e3o de Fernando Peres fosse nua e simplesmente um c\u00e1lculo ambicioso.<\/p>\n<p>Esta afei\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ardente e m\u00fatua, como pelo menos parecia ser, sobremaneira afiava, tempos havia, as l\u00ednguas dos maldizentes. Pouco a pouco muitas graves matronas, em quem a idade fizera seu of\u00edcio de mestra da virtude, se tinham alongado da corte para suas honras e solares. Com mais alguma resigna\u00e7\u00e3o as donzelas ofereciam a Deus o pr\u00f3prio sofrimento em presenciar este esc\u00e2ndalo. Demais, a vida cortes\u00e3 era t\u00e3o risonha de saraus, de torneios, de banquetes, de festas! \u2013 alegravam-na tanto a chusma de cavaleiros mancebos, muitos dos quais tinham pela primeira vez vestido as armas na guerra do ano antecedente contra o Rei de Le\u00e3o! \u2013 Al\u00e9m disso, que igreja havia a\u00ed, a n\u00e3o ser a S\u00e9 de Braga, onde as solenidades religiosas fossem celebradas com mais pompa que no Mosteiro de D. Muma, t\u00e3o devotamente assentado l\u00e1 em baixo no burgo? Que catedral ou ascet\u00e9rio tinha \u00f3rg\u00e3o mais harmonioso que este? Onde se podiam encontrar cl\u00e9rigos ou monges, que em mais afinadas vozes entoassem um gloria in excelsis, ou um exsurge domine? Culto, amor, saraus, tr\u00edplice encanto da Idade M\u00e9dia, como vos resistiriam estes cora\u00e7\u00f5es inocentes? As donzelas, bem que lhes custasse, continuavam, portanto, a cercar a sua bela Infanta, que muito amavam. As velhas, essas pouco importava que tivessem desaparecido.<\/p>\n<p>Tais raz\u00f5es, e v\u00e1rias outras, davam as damas a seus naturais senhores, para continuarem a viver a vida folgada do pa\u00e7o: aos pais a devo\u00e7\u00e3o: aos maridos o acatamento \u00e0 mui generosa Rainha, de quem eles eram prestameiros e alcaides: aos irm\u00e3os, sempre indulgentes, a paix\u00e3o pelas dan\u00e7as e torneios, cujo engodo eles melhor ainda sabiam avaliar. Debaixo, por\u00e9m, destes urgentes motivos outro havia n\u00e3o menos poderoso, e em que nenhuma reparava, ou que, se reparava, n\u00e3o se atreveria a mencionar. Este motivo era uma bruxaria, um feiti\u00e7o inexplic\u00e1vel, uma fascina\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel, que em todos aqueles esp\u00edritos um \u00fanico homem produzia. Cousa incr\u00edvel, por certo, mas verdadeira como a pr\u00f3pria verdade. Palavra de romancista!<\/p>\n<p>E n\u00e3o era l\u00e1 nenhum grande homem: era um vulto de pouco mais de quatro p\u00e9s de altura: feio como um judeu; barrigudo como um c\u00f4nego de Toledo; imundo como a consci\u00eancia do c\u00e9lebre Arcebispo Gelmires, e insolente como um vil\u00e3o de beetria. Chamava-se de seu nome Dom Bibas. Oblato do Mosteiro de D. Muma, quando chegou \u00e0 idade, que se diz da raz\u00e3o, por ser a das grandes loucuras, achou que n\u00e3o era feito para ele o remanso da vida mon\u00e1stica. Atirou \u00e0s malvas o h\u00e1bito, a que desde o ber\u00e7o o tinham condenado: e, ao cruzar a porta do ascet\u00e9rio, escarrou ali em peso o latim com que os monges come\u00e7avam a empe\u00e7onhentar-lhe o esp\u00edrito. Depois, sacudindo o p\u00f3 das suas sapatas, voltou-se para o mui reverendo porteiro, e por um esfor\u00e7o sublime de abnega\u00e7\u00e3o atirou-lhe \u00e0 cara com toda a ci\u00eancia hebraica, que tinha alcan\u00e7ado naquela santa casa, gritando-lhe com uma visagem de esc\u00e1rnio \u2013 racca maranatha, racca maranatha \u2013 e desaparecendo ap\u00f3s isso, como a zebra perseguida desaprecia naqueles tempos aos olhos dos monteiros nas florestas do Gerez.<\/p>\n<p>N\u00e3o referiremos aqui a hist\u00f3ria da solta mocidade do nosso oblato. Por meses a sua vida foi uma destas vidas como era comumente naquela \u00e9poca, e o \u00e9 ainda hoje, a do homem do povo que, a n\u00e3o ser nos claustros, tentava cravar os dentes no pomo vedado ao pobre \u2013 a aristocr\u00e1tica mandriice; uma vida inexplic\u00e1vel e milagrosa; uma vida, na qual ao dia folgado da fartura e beberr\u00f4nia impensadas seguiam muitos de perfeita abstin\u00eancia. A mis\u00e9ria, por\u00e9m, criou-lhe uma ind\u00fastria: Dom Bibas come\u00e7ou a sentir em si as inspira\u00e7\u00f5es de trovista e os garbos de foli\u00e3o: pouco a pouco a sua presen\u00e7a tornou-se t\u00e3o desejada nas tabernas do burgo, como as cubas de boa cerveja, ent\u00e3o bebida trivial, ou antes t\u00e3o agrad\u00e1vel como os efl\u00favios do vinho, que naquela \u00e9poca ainda escasseava algum tanto nas ta\u00e7as dos pe\u00f5es. A fama de Dom Bibas tinha subido a altura incomensur\u00e1vel, quando o Conde Henrique assentou sua corte em Guimar\u00e3es. Felizmente para o antigo oblato, o buf\u00e3o que o Pr\u00edncipe franc\u00eas trouxera de Borgonha, lan\u00e7ado entre estranhos, que mal entendiam seus motejos, conhecera que era uma palavra sem sentido neste mundo. Morreu declarando a seu nobre senhor, em descargo de consci\u00eancia, que buscasse entre os homens do condado algu\u00e9m que exercesse este importante cargo; porque sorte igual \u00e0 sua esperava qualquer bobo civilizado da civilizada Borgonha no meio destes selvagens est\u00fapidos do Ocidente. Na c\u00faria dos bar\u00f5es, ricos-homens e prelados, que ent\u00e3o se achavam na corte, prop\u00f4s o Conde o neg\u00f3cio. Havia votos que tal bobo se n\u00e3o procurasse. Fundavam-se os que seguiam esta opini\u00e3o em que nem nas leis civis de Portugal, Coimbra e Galiza (o livro dos ju\u00edzes), nem nos degredos do Padre-Santo, nem nos costumes tradicionais dos filhos dos bem-nascidos, ou fidalgos de Portugal, havia vest\u00edgios ou mem\u00f3ria deste of\u00edcio palatino. Venceu, por\u00e9m, o progresso: os bispos e uma grande parte dos senhores, que eram franceses, defenderam as institui\u00e7\u00f5es p\u00e1trias, e a alegre truanice daquela na\u00e7\u00e3o triunfou, enfim, da triste gravidade portuguesa na corte de D. Henrique, bem como o brevi\u00e1rio galo-romano triunfara poucos anos antes do brevi\u00e1rio g\u00f3tico perante D. Afonso VI.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Dom Bibas se viu elevado, sem prote\u00e7\u00f5es nem empenhos, a uma situa\u00e7\u00e3o, a que nos seus mais ambiciosos e agrad\u00e1veis sonhos de felicidade nunca tinha imaginado trepar. O pr\u00f3prio m\u00e9rito e gl\u00f3ria lhe puseram nas m\u00e3os a palheta do seu antecessor, a gorra asiniauricular, o gib\u00e3o de mil cores e o saio orlado de guizos. De um para outro dia o homem ilustre p\u00f4de olhar senhoril e estender a m\u00e3o protetora para aqueles mesmos que na v\u00e9spera o apupavam. Diga-se, por\u00e9m, a verdade em honra de Dom Bibas: at\u00e9 o tempo em que sucederam os acontecimentos extraordin\u00e1rios que come\u00e7amos a narrar, ele foi sempre generoso, nem nos consta abusasse jamais do seu valimento e da sua import\u00e2ncia pol\u00edtica em dano dos pequenos e humildes.<\/p>\n<p>O leitor que n\u00e3o conhecesse por dentro e por fora, como se usa dizer, a vida da Idade M\u00e9dia, riria da pequice com que atribu\u00edmos valor pol\u00edtico ao bobo do Conde de Portugal. Pois o caso n\u00e3o \u00e9 de rir. Naquela \u00e9poca o cargo de tru\u00e3o correspondia at\u00e9 certo ponto ao dos censores da Rep\u00fablica Romana. Muitas paix\u00f5es, sobre as quais a civiliza\u00e7\u00e3o estampou o ferrete de ign\u00f3beis, ainda n\u00e3o eram hip\u00f3critas: porque a hipocrisia foi o magn\u00edfico resultado que a civiliza\u00e7\u00e3o tirou de sua senten\u00e7a. Os \u00f3dios e as vingan\u00e7as eram lealmente ferozes, a dissolu\u00e7\u00e3o sincera, a tirania sem mis\u00e9ria. No s\u00e9culo XVI Filipe II envenenava seu filho nas trevas de um calabou\u00e7o: no princ\u00edpio do XIII Sancho I de Portugal arrancando os olhos aos cl\u00e9rigos de Coimbra, que recusavam celebrar os of\u00edcios divinos nas igrejas interditas, chamava para testemunhas daquele feito todos os parentes das v\u00edtimas. Filipe era um parricida polidamente covarde; Sancho um selvagem atrozmente vingativo. Entre os dous pr\u00edncipes h\u00e1 quatro s\u00e9culos nas dist\u00e2ncias do tempo e o infinito nas dist\u00e2ncias morais.<\/p>\n<p>Numa sociedade em que as torpezas humanas assim apareciam sem v\u00e9u, o julg\u00e1-las era f\u00e1cil. O dificultoso era conden\u00e1-las. Na extensa escala do privil\u00e9gio, quando um feito ign\u00f3bil ou criminoso se praticava, a sua a\u00e7\u00e3o reca\u00eda, por via de regra, sobre aqueles que se achavam colocados nos degraus inferiores ao perpetrador do atentado. O sistema das jerarquias mal consentia os gemidos: como seria portanto poss\u00edvel a condena\u00e7\u00e3o? As leis civis, na verdade, procuravam anular ou pelo menos modificar esta situa\u00e7\u00e3o absurda; mas era a sociedade que devorava as institui\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o a compreendiam a ela, nem ela compreendia. Por que de reinado para reinado, quase de ano para ano, vemos renovar essas leis, que tendiam a substituir pela igualdade da justi\u00e7a a desigualdade das situa\u00e7\u00f5es? \u00c9 porque semelhante legisla\u00e7\u00e3o era letra morta, protesto in\u00fatil de algumas almas formosas e puras, que pretendiam fosse presente o que s\u00f3 podia ser futuro.<\/p>\n<p>Mas no meio do sil\u00eancio tremendo de padecer incr\u00edvel e de sofrimento for\u00e7ado, um homem havia que, leve como a pr\u00f3pria cabe\u00e7a, livre como a pr\u00f3pria l\u00edngua, podia descer e subir a \u00edngreme e longa escada do privil\u00e9gio, soltar em todos os degraus dela uma voz de repreens\u00e3o, punir todos os crimes com uma injuria amarga e patentear desonras de poderosos, vingando assim, muitas vezes sem o saber, males e opress\u00f5es de humildes. Esse homem era o tru\u00e3o. O tru\u00e3o foi uma entidade misteriosa da Idade M\u00e9dia. Hoje a sua significa\u00e7\u00e3o social \u00e9 desprez\u00edvel e impalp\u00e1vel; mas ent\u00e3o era um espelho que refletia, cruelmente sincero, as fei\u00e7\u00f5es hediondas da sociedade desordenada e incompleta. O bobo, que habitava nos pa\u00e7os dos reis e dos bar\u00f5es, desempenhava um terr\u00edvel minist\u00e9rio. Era ao mesmo tempo juiz e algoz; mas julgando, sem processo, no seu foro \u00edntimo, e pregando, n\u00e3o o corpo, mas o esp\u00edrito do criminoso no potro material do vilip\u00eandio.<\/p>\n<p>E ele ria: ria cont\u00ednuo! Era rir diab\u00f3lico o do bobo: porque nunca deixava de ir pulsar dolorosamente as fibras de algum cora\u00e7\u00e3o. Os seus ditos sat\u00edricos, ao passo que suscitavam a hilaridade dos cortes\u00e3os, faziam sempre uma v\u00edtima. Como o Ciclope da Odiss\u00e9ia, na sala d\u2019armas ou do banquete; nos balc\u00f5es da pra\u00e7a do tavolado, ou das tauromaquias; pela noite brilhante e ardente dos saraus, e at\u00e9 junto dos altares, ao reboar o templo com as harmonias dos c\u00e2nticos e salmos, com as vibra\u00e7\u00f5es dos sons do \u00f3rg\u00e3o, no meio da atmosfera engrossada pelos rolos do fumo alvacento do incenso; em toda a parte e a todas as horas, o buf\u00e3o tomava ao acaso o temor que infundia o pr\u00edncipe, o bar\u00e3o ou o ilustre cavaleiro, e o respeito que se devia a dona veneranda ou a dama formosa, e tocando-os com a ponta da sua palheta, ou fazendo-os voltear nos tintin\u00e1bulos do seu adufe, convertia esse temor e respeito numa cousa truanesca e rid\u00edcula. Depois, envolvendo o car\u00e1ter da nobre e grave personagem, atassalhado e cuspido, num epigrama sangrento ou numa alus\u00e3o insolente, atirava-o aos p\u00e9s da turba dos cortes\u00e3os. No meio, por\u00e9m, das risadas estrepitosas ou do rir abafado, lan\u00e7ando de passagem um olhar brilhante e vago ao gesto confrangido e p\u00e1lido da v\u00edtima, e, como o tigre, recrudescendo com o cheiro da carni\u00e7a, o bobo cravava de salto as garras naquele a quem \u00f3dio profundo ou inveja solapada fazia saborear com mais entranh\u00e1vel deleite a vergonha e abatimento do seu inimigo. Ent\u00e3o a palidez deste pouco a pouco deslizava num sorriso, e ia tingir as faces do cortes\u00e3o que, havia instantes, se recreava folgado na vingan\u00e7a satisfeita. Se era em banquete ou sarau, onde o fumo do vinho e a ebriedade que nasce do contacto de muitos homens juntos, das dan\u00e7as, do perpassar das mulheres voluptuariamente adornadas, do cheiro das flores, da torrente de luz que em milh\u00f5es de raios aquece o ambiente, a loucura fict\u00edcia do tru\u00e3o parecia dilatar-se, agitar-se, converter-se num turbilh\u00e3o infernal. Os motejos e as insol\u00eancias volteavam sobre as cabe\u00e7as com incr\u00edvel rapidez: as m\u00e3os que iam unir-se para aprovar estrondosamente o fel da inj\u00faria vertido sobre uma fronte odiada ficavam muitas vezes im\u00f3veis, contra\u00eddas, convulsas, porque entre elas tinha passado a seta de um epigrama azeirado, e havia batido no cora\u00e7\u00e3o ou na consci\u00eancia de quem imaginava s\u00f3 aplaudir a alheia ang\u00fastia. E por cima daquele estr\u00e9pito de palmas, de gritos, de rugidos de indigna\u00e7\u00e3o, de gargalhadas, que gelavam freq\u00fcentemente nos l\u00e1bios dos que as iam soltar, ouvia-se uma voz esgani\u00e7ada que bradava e ria, um tinir argentino de guizos, um som ba\u00e7o de adufe; viam-se brilhar dous olhos reluzentes e desvairados num rosto disforme, onde se pintava o esc\u00e1rnio, o desprezo, a c\u00f3lera, o desfa\u00e7amento, confundidos e indistintos. Era o bobo que nesse momento imperava desp\u00f3tico, tir\u00e2nico, inexor\u00e1vel, convertendo por horas a fr\u00e1gil palheta em cetro de ferro, e erguendo-se altivo sobre a sua miser\u00e1vel exist\u00eancia como sobre um trono de rei \u2013 mais porventura que trono; porque nesses momentos ele podia dizer: \u201cos reis tamb\u00e9m s\u00e3o meus servos!\u201d<\/p>\n<p>Tal era o aspecto grandioso e po\u00e9tico daquela entidade social exclusivamente pr\u00f3pria da Idade M\u00e9dia, padr\u00e3o levantado \u00e0 mem\u00f3ria da liberdade e igualdade, e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o antiga, no meio dos s\u00e9culos da jerarquia e da grada\u00e7\u00e3o infinita entre homens e homens. Quando, por\u00e9m, chamamos miser\u00e1vel \u00e0 exist\u00eancia do tru\u00e3o, a esta exist\u00eancia que descrev\u00earamos t\u00e3o folgada e risonha, t\u00e3o cheia de orgulho, d\u2019esplendor, de predom\u00ednio, era que nesse instante ela nos aparecera sob outro aspecto, contr\u00e1rio ao primeiro, e todavia n\u00e3o menos real. Passadas estas horas de conviv\u00eancia ou de deleite, que eram como uns o\u00e1sis na vida triste, dura, trabalhosa e arriscada da Idade M\u00e9dia, o bobo perdia o seu valor moment\u00e2neo, e voltava \u00e0 obscuridade, n\u00e3o \u00e0 obscuridade de um homem, mas \u00e0 de um animal dom\u00e9stico. Ent\u00e3o os desprezos, as ignom\u00ednias, os maus tratos daqueles que em p\u00fablico haviam sido alvos dos ditos agudos do chocarreiro, ca\u00edam sobre a sua cabe\u00e7a humilhada cerrados como granizo, sem piedade, sem resist\u00eancia, sem limite; era um rei desentronizado; era o tipo e o resumo das mais profundas mis\u00e9rias humanas. Se naqueles olhos ent\u00e3o assomassem l\u00e1grimas, essas l\u00e1grimas eram rid\u00edculas, e cumpria-lhe trag\u00e1-las em sil\u00eancio: se um gemido se lhe alevantasse da alma, fora necess\u00e1rio recalc\u00e1-lo; porque lhe responderia uma risada: se a vergonha lhe tingisse as faces, deveria esconder o rosto; porque essa vermelhid\u00e3o seria bafejada pelo h\u00e1lito de um dito de torpeza: se uma grande c\u00f3lera lhe carregasse o gesto, tornar-lhe-iam como rem\u00e9dio um insolente esc\u00e1rnio. Assim no largo tiroc\u00ednio de um dificultoso mister, o seu primeiro e capital estudo era varrer da alma todos os afetos, todos os sentimentos nobres, todos os vest\u00edgios da dignidade moral; esquecer-se de que havia no mundo justi\u00e7a, pudor, brio, virtude; esquecer-se de que o primeiro homem entrara no Para\u00edso animado pelo sopro do Senhor, para s\u00f3 se lembrar que sa\u00edra dele, j\u00e1 precito, por uma inspira\u00e7\u00e3o de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>Tudo isso \u2013 dir\u00e1 o leitor \u2013 \u00e9 muito bom; por\u00e9m n\u00e3o explica o prest\u00edgio, a esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o que Dom Bibas exercitava no esp\u00edrito das damas e donzelas da vi\u00fava do Conde Henrique, a bela Infanta de Portugal. L\u00e1 vamos. O nosso Dom Bibas com os seus cinco palmos de altura era um homem extraordin\u00e1rio, e a truanice, essencialmente francesa, tinha por arte dele feito em Portugal um verdadeiro progresso: estava visivelmente melhorada em terreno alheio, como os alperches, de que reza em seus cantares o adail dos poetas portugueses. O novo buf\u00e3o do Conde Henrique, ao come\u00e7ar os graves estudos e as dificultosas experi\u00eancias de que carecia para preencher dignamente o seu cargo, teve a feliz inspira\u00e7\u00e3o de associar algumas doutrinas cavaleirosas com os mais prosaicos elementos da chocarrice fidalga. Na torrente dos desvarios, quando mais violento derramava em roda de si a lava ardente dos ditos insultuosos e cru\u00e9is, nunca dos l\u00e1bios lhe saiu palavra que fosse despeda\u00e7ar a alma de uma dama. Dom Bibas debaixo da cruz da sua espada de lenho sentia bater um cora\u00e7\u00e3o de portugu\u00eas, portugu\u00eas da boa ra\u00e7a dos godos. Suponde o mais humilde dos homens; suponde a mais nobre, a mais altiva mulher; que esse homem a salpique do lodo da inj\u00faria, e ser\u00e1 t\u00e3o infame e covarde como o poderoso entre os poderosos, que insultasse a donzela inocente e desvalida. E por qu\u00ea? Porque um tal feito sai fora das raias da humanidade: n\u00e3o o praticam homens: n\u00e3o o julgam as leis: julga-o a consci\u00eancia como um imposs\u00edvel moral, como um ato bestial e monstruoso. Para aquele que usa de semelhante feridade, nunca luziu, nunca luzir\u00e1 no mundo um raio de poesia? E h\u00e1 a\u00ed algu\u00e9m a quem n\u00e3o sorrisse uma vez, ao menos, esta filha do C\u00e9u? Dom Bibas n\u00e3o pensava nisso; mas sentia-o, tinha-o no sangue das veias. Daqui a sua influ\u00eancia; daqui o gasalhado, o carinho, o amor, com que donas e donzelas tratavam o pobre tru\u00e3o. Quando contra este indiv\u00edduo, fraco e ao mesmo tempo terror e flagelo dos fortes, se alevantava alguma grande c\u00f3lera, alguma vingan\u00e7a implac\u00e1vel, ele tinha um asilo seguro onde iam quebrar em v\u00e3o todas as tempestades: era o bastidor, \u00e0 roda do qual as nobres damas daqueles tempos matavam as horas tediosas do dia, bordando na refor\u00e7ada tela com fios de mil cores hist\u00f3rias de guerras ou folguedos de paz. Ali Dom Bibas agachado, enovelado, sumido, desafiava o seu furioso agressor, que muitas vezes sa\u00eda malferido daquele combate desigual, em que o bobo se cobria das armas mais temidas de um nobre cavaleiro, a prote\u00e7\u00e3o das formosas.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>O Sarau<\/p>\n<p>O aspecto do burgo de Guimar\u00e3es indicaria tudo, menos um desses raros per\u00edodos de paz e repouso; de festas e pompas civis e religiosas, que, semelhantes aos raios do Sol por entre nuvens \u00famidas de noroeste, alegravam a terra, sorrindo a espa\u00e7os no meio das tempestades pol\u00edticas que varriam, naquela \u00e9poca, o solo ensang\u00fcentado da Pen\u00ednsula. Como se houvera alargado um bra\u00e7o at\u00e9 ent\u00e3o pendente, o castelo roqueiro tinha estendido do \u00e2ngulo esquerdo da torre do miradouro uma comprida coura\u00e7a de vigas e entulho que vinha morrer em um cubelo na orla exterior do burgo. Depois, da extremidade daquela muralha inclinada, do outeiro para a planura, corria a um e outro lado do baluarte uma tranqueira de pouca altura, donde facilmente besteiros e frecheiros poderiam despejar a salvo seu armaz\u00e9m em quaisquer inimigos que cometessem a povoa\u00e7\u00e3o. O cubelo era como o punho cerrado do disforme bra\u00e7o que sa\u00eda da torre albarr\u00e3, e a tranqueira como uma faixa com a qual o gigante de pedra parecia tentar unir a si o burgo apinhado l\u00e1 em baixo em volta do edif\u00edcio mon\u00e1stico, que j\u00e1 contava dous s\u00e9culos, o Mosteiro de D. Muma. O pr\u00f3prio edif\u00edcio, posto que avelhentado e fraco, tamb\u00e9m parecia animado d\u2019esp\u00edrito guerreiro; porque as ameias que coroavam o terrado do campan\u00e1rio, pouco antes cobertas de ervas e musgo, estavam agora limpas e gateadas de novo, ao passo que por entre elas se divisava uma grossa manganela assentada no meio do eirado em disposi\u00e7\u00e3o de arranjar pedras para a campanha, que se dilatava diante do formid\u00e1vel engenho.<\/p>\n<p>Todavia estas evidentes cautelas e precau\u00e7\u00f5es militares desdiziam bastante do que ent\u00e3o se passava no castelo. Era pela volta das dez horas de uma noite calmosa de junho. A Lua cheia batia de chapa nas muralhas esbranqui\u00e7adas, e as sombras das torres maci\u00e7as listravam de alto a baixo as paredes dos pa\u00e7os interiores de faixas negras sobre a p\u00e1lida silharia de m\u00e1rmore, tornando-a semelhante ao dorso da zebra selv\u00e1tica. Contrastavam, porem, a melancolia e sil\u00eancio deste espet\u00e1culo noturno as torrentes de luz avermelhada jorrando por entre os main\u00e9is que sustinham ao meio das altas e esguias janelas as bandeiras e la\u00e7arias de pedra. Estes main\u00e9is e bandeiras, formando flores e arabescos, recortavam de mil modos aqueles v\u00e3os afogueados e brilhantes, rotos atrav\u00e9s das listas alvacentas e negras, de que a Lua arraiava a fronte do soberbo edif\u00edcio. Na penumbra do extenso p\u00e1tio que corria entre as muralhas e a frontaria do pa\u00e7o, branquejavam os saios dos cavalari\u00e7os1, que tinham de r\u00e9dea as mulas de corpo dos senhores e ricos-homens; cintilavam os freios de ferro polido e as selas \u00e0 mourisca, tauxiadas de ouro e prata; ouvia-se o patear dos animais e o sussurro dos servos conversando e rindo em tom sumido. Mas era l\u00e1 em cima, nas salas espl\u00eandidas, que se viam passar r\u00e1pidos como sombras os vultos de damas e cavaleiros arrebatados no turbilh\u00e3o das dan\u00e7as; l\u00e1 soavam as melodias das c\u00edtulas, das harpas, das do\u00e7a\u00ednas, por entre as quais rompiam os sons v\u00edvidos das charamelas, o estr\u00e9pito das trombetas, o rebombo dos t\u00edmpanos; e quando aquelas todas afrouxavam e morriam em sussurrar confuso, retinia uma voz \u00e1spera e aguda no meio daquele ru\u00eddo de festa. Ent\u00e3o fazia-se um profundo sil\u00eancio, que n\u00e3o tardava a ser partido por gritos e risadas estrondosas, que restrugiam pelas ab\u00f3badas, cruzavam-se e confundiam-se repercutidas em burburinho infernal. Via-se claramente que a embriaguez da alegria havia chegado ao auge do del\u00edrio, e que da\u00ed avante n\u00e3o podia sen\u00e3o decrescer. O t\u00e9dio e o cansa\u00e7o n\u00e3o tardariam a separar aquela companhia lustrosa que parecia esquecer, nos bra\u00e7os do deleite, que tudo ao redor dela, no castelo e no burgo, anunciava as tristezas da guerra e os riscos dos combates.<\/p>\n<p>De feito, j\u00e1 nos reais aposentos da bela Infanta de Portugal muitos dos ricos-homens e infan\u00e7\u00f5es, apinhados aos cinco e seis, aqui e acol\u00e1, ou encostados aos balc\u00f5es da sala d\u2019armas, come\u00e7avam a falar com viva agita\u00e7\u00e3o dos sucessos do tempo. As donzelas iam assentar-se nas almadraquexas enfileiradas junto da parede no topo da sala, onde se erguia, cousa de um p\u00e9 acima do pavimento, o vasto estrado da Infanta. Esta, na sua cadeira de espaldas, escutava Fernando Peres, que firmando a m\u00e3o no bra\u00e7o da cadeira, e curvado para ela por detr\u00e1s do espaldar, com aspecto carregado, parecia dirigir-lhe de quando em quando palavras breves e veementes, a que D. Teresa, que n\u00e3o sa\u00edra do seu lugar desde o come\u00e7ar do sarau, respondia muitas vezes com monoss\u00edlabos, ou com um volver de olhos em que se pintava a ang\u00fastia, desmentindo o sorriso for\u00e7ado que, frouxo e passageiro, lhe adejava nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Junto ao topo do estrado, do lado esquerdo da Infanta, um jovem cavaleiro em p\u00e9 falava tamb\u00e9m em voz baixa com uma formosa donzela, que, reclinada na \u00faltima almadraquexa, respondia entre risadas aos ditos do seu interlocutor. E todavia no gesto do cavaleiro, na vivacidade das suas express\u00f5es, no seu olhar ardente se revelava que as respostas alegres da donzela desdiziam das palavras apaixonadas do mancebo, cujo aspecto se entristecia visivelmente com aquela alegria intempestiva e cruel.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 de uma das colunas de pedras, que subindo ao teto se dividiam como os ramos de uma palmeira em artes\u00f5es de castanho, os quais morrendo nos v\u00e9rtices das ogivas em bocetes dourados pareciam sustentar a renque de lampad\u00e1rios gigantes pendentes da escura profundeza daquelas voltas; \u2013 ao p\u00e9 de uma destas colunas, no lado oposto da sala, tr\u00eas personagens falavam tamb\u00e9m havia largo tempo, sem fazerem caso do tanger dos menestr\u00e9is, do doudejar das dan\u00e7as, do sussurrar confuso que redemoinhava em volta deles. Era a sua conversa\u00e7\u00e3o de g\u00eanero diverso das duas que j\u00e1 descrevemos. Aqui os tr\u00eas indiv\u00edduos pareciam tomar todos vivo interesse no objeto de que se ocupavam, ainda que de modo diferente. Um deles, alto, magro, trigueiro e calvo, por\u00e9m n\u00e3o de velhice, porque era homem de quarenta anos, trajava um saio negro, comprido e apertado pela cintura com uma larga faixa da mesma cor, vestu\u00e1rio pr\u00f3prio do clero daquele tempo: o outro, anci\u00e3o vener\u00e1vel, tinha vestida uma cogula monastical, igualmente negra, segundo a usan\u00e7a dos monges bentos; o terceiro finalmente, o mais mo\u00e7o dos tr\u00eas, era um cavaleiro que mostrava ter pouco mais de trinta anos, membrudo, alvo, cabelos anelados e louros \u2013 um verdadeiro nobre da ra\u00e7a germ\u00e2nica dos visigodos. O cl\u00e9rigo calvo, com os olhos quase sempre fitos no ch\u00e3o, s\u00f3 os punha de relance naquele dos dous que falava; mas este olhar incerto e sorrateiro bastava para descobrir nele uma indiferen\u00e7a hip\u00f3crita e uma curiosidade real. No rosto do velho pintava-se profunda aten\u00e7\u00e3o, principalmente \u00e0s palavras do mancebo, as quais en\u00e9rgicas, veementes e r\u00e1pidas davam testemunho das vivas como\u00e7\u00f5es que agitavam a sua alma.<\/p>\n<p>Dos tr\u00eas grupos em que no meio de tantos outros fizemos principalmente reparar o leitor, j\u00e1 ele conhece as personagens do primeiro \u2013 a vi\u00fava do Conde Henrique e Fernando Peres de Trava. Para clareza desta importante hist\u00f3ria necess\u00e1rio \u00e9 que lhe digamos quem eram os que compunham os outros dous, e lhe expliquemos os porqu\u00eas da situa\u00e7\u00e3o respectiva de cada um desses indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Entre as donzelas da Infanta-Rainha uma havia em que ela, mais que em nenhuma outra, tinha posto as suas afei\u00e7\u00f5es e complac\u00eancias; e com raz\u00e3o: criara-a de pequenina. Dulce era filha de D. Gomes Nunes de Bravais, rico-homem, que morrera na rota de Vatalandi combatendo como esfor\u00e7ado a par do Conde borgonh\u00eas. Expirando, o nobre cavaleiro encomendou sua filha \u00f3rf\u00e3 \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do Conde. Este n\u00e3o se esqueceu da s\u00faplica do guerreiro moribundo; trouxe a \u00f3rf\u00e3 para seus pa\u00e7os e entregou-a a sua mulher. Nos tenros anos, Dulce prometia ser formosa, e, o que n\u00e3o era de menos valor, de um car\u00e1ter nobre e en\u00e9rgico e ao mesmo tempo meigo e bondoso. Pouco a pouco D. Teresa lhe ganhou amor de m\u00e3e. At\u00e9 os vinte anos, que j\u00e1 Dulce contava, este amor n\u00e3o afrouxara, nem no meio dos graves cuidados que cercaram a Infanta nos primeiros anos da sua viuvez, nem com a louca afei\u00e7\u00e3o do Conde Fernando Peres. As esperan\u00e7as que a donzela dera se haviam inteiramente realizado. Dulce era um anjo de bondade e de formosura.<\/p>\n<p>Mas este anjo inocente, rodeado de carinhos das mais nobres damas, das adora\u00e7\u00f5es dos mais ilustres cavaleiros da corte, parecia ter cerrado inteiramente o cora\u00e7\u00e3o ao amor. Verdade \u00e9 que entre os mancebos, sempre atentos a indagar as inclina\u00e7\u00f5es das donzelas, tinham existido suspeitas de que esta indiferen\u00e7a e frieza era mais simulada que verdadeira. Eles haviam observado que os olhos de Dulce costumavam fitar-se com desusada complac\u00eancia num donzel, que bem como ela fora criado na corte. Era este Egas Moniz Coelho, primo do anci\u00e3o Egas Moniz, Senhor de Cresconhe e Resende e aio do mo\u00e7o Infante Afonso Henriques. Pouco diferentes em idades, semelhantes em g\u00eanio e car\u00e1ter, e educados juntos, desde tenros anos, pelo respeit\u00e1vel Senhor da Honra de Cresconhe, os dous mancebos haviam contra\u00eddo amizade \u00edntima. Na mesma noite e na S\u00e9 de Zamora tinham velado as armas. Como prova da sua independ\u00eancia pol\u00edtica, D. Afonso tomara do altar a armadura e a si pr\u00f3prio se fizera cavaleiro. Das m\u00e3os dele recebeu depois o mesmo grau, alvo da ambi\u00e7\u00e3o de todos os mancebos nobres, o seu amigo de inf\u00e2ncia; e o Infante e Egas, at\u00e9 a\u00ed irm\u00e3os pela afei\u00e7\u00e3o m\u00fatua, ficaram ainda mais unidos pela fraternidade das armas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alexandre Herculano I Introdu\u00e7\u00e3o A morte de Afonso VI, Rei de Le\u00e3o e Castela, quase no fim da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XII, deu origem a acontecimentos ainda mais graves do que os por ele previstos no momento em que ia trocar o brial de cavaleiro e o cetro de rei, pela mortalha com que 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