{"id":111430,"date":"2017-03-01T11:53:15","date_gmt":"2017-03-01T13:53:15","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111430"},"modified":"2017-03-01T11:53:15","modified_gmt":"2017-03-01T13:53:15","slug":"o-alcaide-de-santarem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-alcaide-de-santarem","title":{"rendered":"O Alcaide de Santar\u00e9m"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>I<\/h2>\n<p>O Guadamelato \u00e9 uma Ribeira que, descendo das solid\u00f5es mais agras da Serra Morena, vem, atrav\u00e9s de um territ\u00f3rio montanhoso e selv\u00e1tico, desaguar no Guadalquivir, pela margem direita, pouco acima de C\u00f3rdova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma densa popula\u00e7\u00e3o: foi nas eras do dom\u00ednio sarraceno em Espanha. Desde o governo do amir Abul-Khatar o distrito de C\u00f3rdova fora distribu\u00eddo \u00e0s tribos \u00e1rabes do Iemem e da S\u00edria, as mais nobres e mais numerosas entre todas as ra\u00e7as da \u00c1frica e da \u00c1sia que tinham vindo residir na Pen\u00ednsula por ocasi\u00e3o da conquista ou depois dela. \u00c0s fam\u00edlias que se estabeleceram naquelas encostas meridionais das longas serranias chamadas pelos antigos Montes Marianos conservaram por mais tempo os h\u00e1bitos erradios dos povos pastores. Assim, no meado do d\u00e9cimo s\u00e9culo, posto que esse distrito fosse assaz povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao de um deserto; porque nem se descortinavam por aqueles cabe\u00e7os e vales vest\u00edgios alguns de cultura, nem alvejava uni \u00fanico edif\u00edcio no meio das colinas rasgadas irregularmente pelos algares das torrentes ou cobertas de selvas bravias e escuras. Apenas, um ou outro dia, se enxergava na extrema de algum almargem virente a tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte n\u00e3o se encontraria ali, se, porventura, se buscasse.<\/p>\n<p>Havia, contudo, povoa\u00e7\u00f5es fixas naqueles ermos; havia habita\u00e7\u00f5es humanas, por\u00e9m n\u00e3o de vivos. Os \u00e1rabes colocavam os cemit\u00e9rios nos lugares mais saudosos dessas solid\u00f5es, nos pendores meridionais dos outeiros, onde o sol, ao p\u00f4r-se, estirasse de soslaio os seus \u00faltimos raios pelas l\u00e1jeas lisas das campas, por entre os raminhos floridos das sar\u00e7as a\u00e7oitadas do vento. Era ali que, depois do vaguear incessante de muitos anos, eles vinham deitar-se mansamente uns ao p\u00e9 dos outros, para dormirem o longo sono sacudido sobre as suas p\u00e1lpebras das asas do anjo Asrael.<\/p>\n<p>A ra\u00e7a \u00e1rabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra fam\u00edlia humana, gostava de espalhar na terra aqueles padr\u00f5es, mais ou menos sumptuosos, do cativeiro e da imobilidade da morte, talvez para avivar mais o sentimento da sua independ\u00eancia ilimitada durante a vida.<\/p>\n<p>No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que subia das margens do Guadamelato para o Nordeste, estava assentado um desses cemit\u00e9rios pertencentes \u00e0 tribo Iemenita dos Benu-Homair. Subindo pelo rio viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas, como vasto estendal, e tr\u00eas \u00fanicas palmeiras, plantadas na coroa do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemit\u00e9rio Al-tamarah. Transpondo o cabe\u00e7o para o lado oriental, encontrava-se um desses brincos da natureza, que nem sempre a ci\u00eancia sabe explicar; era um cubo de granito de desconforme dimens\u00e3o, que parecia ter sido posto ali pelos esfor\u00e7os de centenares de homens, porque nada o prendia ao solo. Do cimo desta esp\u00e9cie de atalaia natural descortinavam-se para todos os lados vastos horizontes.<\/p>\n<p>Era um dia \u00e0 tarde: o sol descia rapidamente, e j\u00e1 as sombras principiavam do lado do Leste a empastar a paisagem ao longe em negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular, um \u00e1rabe dos Benu-Homair, armado da sua comprida lan\u00e7a, volvia olhos atentos, ora para o lado do Norte, ora para o de Oeste: depois, sacudia a cabe\u00e7a com um sinal negativo, inclinando-se para o lado oposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam ali, tamb\u00e9m, assentados em diversas posturas e em sil\u00eancio, o qual s\u00f3 era interrompido por algumas palavras r\u00e1pidas, dirigidas ao da lan\u00e7a, a que ele respondia sempre do mesmo modo com o seu menear de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Al-barr, &#8211; disse, por fim, um dos sarracenos, cujo trajo e gesto indicavam uma grande superioridade sobre os outros &#8211; parece que o caide de Chantaryn 1 esqueceu a sua inj\u00faria, como o wali de Zarkosta 2 a sua ambi\u00e7\u00e3o de independ\u00eancia. At\u00e9 os partid\u00e1rios de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por meu pai, n\u00e3o podem acreditar que Abdallah realize as promessas que me induziste a fazer-lhes.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Amir Al-melek 3 &#8211; replicou Al-barr &#8211; ainda n\u00e3o \u00e9 tarde: os mensageiros podem ter sido retidos por algum sucesso imprevisto. N\u00e3o creias que a ambi\u00e7\u00e3o e a vingan\u00e7a adorme\u00e7am t\u00e3o facilmente no cora\u00e7\u00e3o humano. Dize, Al-athar, n\u00e3o te juraram eles pela santa Kaaba 4 que os enviados com a not\u00edcia da sua rebeli\u00e3o e da entrada dos crist\u00e3os chegariam hoje a este lugar aprazado, antes de anoitecer?<\/p>\n<p>&#8220;Juraram &#8211; respondeu Al-athar -; mas que f\u00e9 merecem homens que n\u00e3o duvidam de quebrar as promessas solenes feitas ao califa e, al\u00e9m disso, de abrir o caminho aos infi\u00e9is para derramar o sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxal\u00e1 que falhassem as esperan\u00e7as que p\u00f5es nos teus ocultos aliados. Oxal\u00e1 n\u00e3o tivesse de tingir o sangue as ruas de K\u00f3rthoba 5, e n\u00e3o houvera de ser o suped\u00e2neo do trono que ambicionas o t\u00famulo de teu irm\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Al-athar cobriu a cara com as m\u00e3os, como se quisesse esconder a sua amargura. Abdallah parecia comovido por duas paix\u00f5es opostas. Depois de se conservar algum tempo em sil\u00eancio, exclamou:<\/p>\n<p>&#8220;Se os mensageiros dos levantados n\u00e3o chegarem at\u00e9 o anoitecer, n\u00e3o falemos mais nisso. Meu irm\u00e3o Al-hakem acaba de ser reconhecido sucessor do califado: eu pr\u00f3prio o aceitei por futuro senhor poucas horas antes de vir ter convosco. Se o destino assim o quer, fa\u00e7a-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassid\u00e9h 6 e que n\u00e3o soubeste acabar, como aquela que debalde tentaste repetir na presen\u00e7a dos embaixadores do Frandjat 7, e que foi causa de ca\u00edres no desagrado de meu pai e de Al-hakem e de conceberes esse \u00f3dio que alimentas contra eles, o mais terr\u00edvel \u00f3dio deste mundo, o do amor-pr\u00f3prio ofendido.&#8221;<\/p>\n<p>Ahmed Al-athar e o outro \u00e1rabe sorriram ao ouvirem estas palavras de Abdallah. Os olhos, por\u00e9m, de Al-barr faiscaram de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>&#8220;Pagas mal, Abdallah &#8211; disse ele com a voz presa na garganta &#8211; os riscos que tenho corrido para te obter a heran\u00e7a do mais belo e poderoso Imp\u00e9rio do Isl\u00e3o. Pagas com alus\u00f5es afrontosas aos que jogam a cabe\u00e7a com o algoz para te p\u00f4r na tua uma coroa. \u00c9s filho de teu pai!&#8230; N\u00e3o importa. S\u00f3 te direi que \u00e9 j\u00e1 tarde para o arrependimento. Pensas, acaso, que uma conspira\u00e7\u00e3o sabida de tantos ficar\u00e1 oculta? No ponto a que chegaste, retrocedendo \u00e9 que h\u00e1s-de encontrar o abismo!<\/p>\n<p>No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza. Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se advertia o pr\u00edncipe da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irm\u00e3o Al-hakem. Um grito, por\u00e9m, do atalaia o interrompeu. Ligeiro como rel\u00e2mpago, um vulto sa\u00edra do cemit\u00e9rio, galgara o cabe\u00e7o e se aproximara sem ser sentido: vinha envolto num albornoz escuro, cujo capuz quase lhe encobria as fei\u00e7\u00f5es, vendo-se-lhe apenas a barba negra e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em p\u00e9 de um pulo e arrancaram as espadas.<\/p>\n<p>Ao ver aquele movimento, o que chegara n\u00e3o fez mais do que estender para eles a m\u00e3o direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz: ent\u00e3o as espadas baixaram-se, como se corrente el\u00e9trica tivesse adormecido os bra\u00e7os dos quatro sarracenos. Al-barr exclamara: -&#8220;Al-muulin 8 o profeta ! Al-muulin o santo!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Al-muulin o pecador &#8211; interrompeu o novo personagem -; Al-muulin, o pobre fakih 9 penitente e quase cego de chorar as pr\u00f3prias culpas e as culpas dos homens, mas a quem Deus, por isso, ilumina, \u00e0s vezes, os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo dos cora\u00e7\u00f5es. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambi\u00e7\u00e3o! Sereis satisfeitos! O Senhor pesou na balan\u00e7a dos destinos a ti, Abdallah, e a teu irm\u00e3o Al-hakem. Ele foi achado mais leve. A ti o trono; a ele o sepulcro. Est\u00e1 escrito. Vai; n\u00e3o pares na carreira, que n\u00e3o te \u00e9 dado parar! Volta a K\u00f3rthoba. Entra no teu pal\u00e1cio Merwan; \u00e9 o pal\u00e1cio dos califas da tua dinastia. N\u00e3o foi sem mist\u00e9rio que teu pai to deu por morada. Sobe ao s\u00f3t\u00e3o 10 da torre. Ali achar\u00e1s cartas do caide de Chantaryn e delas ver\u00e1s que nem ele, nem o wali de Zarkosta nem os Benu-Hafsun faltam ao que te juraram!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Santo fakih &#8211; replicou Abdallah, cr\u00e9dulo, como todos os mu\u00e7ulmanos daqueles tempos de f\u00e9 viva, e visivelmente perturbado &#8211; creio o que dizes, porque nada para ti \u00e9 oculto. O passado, o presente, o futuro domina-los com a tua intelig\u00eancia sublime. Asseguras-me o triunfo; mas o perd\u00e3o do crime podes tu assegur\u00e1-lo?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Verme, que te cr\u00eas livre! &#8211; atalhou com voz solene o fakih. &#8211; Verme, cujos passos, cuja vontade mesma, n\u00e3o s\u00e3o mais do que fr\u00e1geis instrumentos nas m\u00e3os do destino, e que te cr\u00eas autor de um crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o guerreiro, pede ela, acaso, a Deus perd\u00e3o do seu pecado? \u00c1tomo varrido pela c\u00f3lera de cima contra outro \u00e1tomo, que vais aniquilar, pergunta, antes, se nos tesouros do Misericordioso h\u00e1 perd\u00e3o para o orgulho insensato!&#8221;<\/p>\n<p>Fez ent\u00e3o uma pausa. A noite descia r\u00e1pida. Ao lusco-fusco ainda se viu sair da manga do albornoz um bra\u00e7o felpudo e mirrado, que apontava para as bandas de C\u00f3rdova. Nesta postura, a figura do fakih fascinava. Coando pelos l\u00e1bios as s\u00edlabas, ele repetiu tr\u00eas vezes:<\/p>\n<p>&#8220;Para Merwan!&#8221;<\/p>\n<p>Abdallah abaixou a cabe\u00e7a e partiu vagarosamente, sem olhar para tr\u00e1s. Os outros sarracenos seguiram-no. Al-muulin ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>Mas quem era este homem? Todos o conheciam em C\u00f3rdova; se viv\u00easseis, por\u00e9m, naquela \u00e9poca e o pergunt\u00e1sseis nessa cidade de mais de um milh\u00e3o de habitantes, ningu\u00e9m vo-lo saberia dizer. Era um mist\u00e9rio a sua p\u00e1tria, a sua ra\u00e7a, donde viera. Passava a vida pelos cemit\u00e9rios ou nas mesquitas. Para ele o ardor da can\u00edcula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se n\u00e3o existissem. Raras vezes se via que n\u00e3o fosse lavado em l\u00e1grimas. Fugia das mulheres, como de um objeto de horror. O que, por\u00e9m, o tornava geralmente respeitado ou, antes, temido, era o dom de profecia, o qual ningu\u00e9m lhe disputava. Mas era um profeta terr\u00edvel, porque as suas predi\u00e7\u00f5es reca\u00edam unicamente sobre futuros males. No mesmo dia em que nas fronteiras do imp\u00e9rio os crist\u00e3os faziam alguma correria ou destru\u00edam alguma povoa\u00e7\u00e3o, ele anunciava publicamente o sucesso nas pra\u00e7as de C\u00f3rdova. Qualquer membro da fam\u00edlia numerosa dos Benu-Umeyyas ca\u00eda debaixo do punhal de um assassino desconhecido, na mais remota prov\u00edncia do imp\u00e9rio, ainda das do Moghreb ou Maurit\u00e2nia, na mesma hora, no mesmo instante, \u00e0s vezes, ele o pranteava, redobrando os seus choros habituais. O terror que inspirava era tal, que, no meio de um tumulto popular, a sua presen\u00e7a bastava para fazer cair tudo em mortal sil\u00eancio. A imagina\u00e7\u00e3o exaltada do povo tinha feito dele um santo, santo como o islamismo os concebia; isto \u00e9, como um homem cujas palavras e cujo aspecto gelavam de terror.<\/p>\n<p>Ao passar por ele, Al-barr apertou-lhe a m\u00e3o, dizendo-lhe em voz quase impercept\u00edvel:<\/p>\n<p>&#8220;Salvaste-me!&#8221;<\/p>\n<p>O fakih deixou-o afastar e, fazendo um gesto de profundo desprezo, murmurou:<\/p>\n<p>&#8220;Eu?! Eu, teu c\u00famplice, miser\u00e1vel?!&#8221;<\/p>\n<p>Depois, alevantando ambas as m\u00e3os abertas para o ar, come\u00e7ou a agitar os dedos rapidamente e, rindo com um rir sem vontade, exclamou:<\/p>\n<p>&#8220;Pobres t\u00edteres!&#8221;<\/p>\n<p>Quando se fartou de representar com os dedos a id\u00e9ia de esc\u00e1rnio que lhe sorria l\u00e1 dentro, dirigiu-se, ao longo do cemit\u00e9rio, tamb\u00e9m para as bandas de C\u00f3rdova, mas por diverso atalho.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Nos pa\u00e7os de Azzahrat, o magn\u00edfico alc\u00e1\u00e7ar dos califas de C\u00f3rdova, h\u00e1 muitas horas que cessou o estr\u00e9pito de uma grande festa. O luar de noite serena de abril bate pelos jardins, que se dilatam desde o alc\u00e2\u00e7ar at\u00e9 o Guad-al-kebir, e alveja tr\u00eamulo pelas fitas cinzentas dos caminhos tortuosos, em que parecem enredados os bosquezinhos de arbustos, os maci\u00e7os de \u00e1rvores silvestres, as veigas de boninas, os verg\u00e9is embalsamados, onde a laranjeira, o limoeiro e as demais \u00e1rvores frut\u00edferas, trazidas da P\u00e9rsia, da S\u00edria e do Catai, espalham os aromas variados das suas flores. L\u00e1 ao longe, C\u00f3rdova, a capital da Espanha mu\u00e7ulmana, repousa da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o ilustre califa, vela pela seguran\u00e7a do imp\u00e9rio. A vasta cidade repousa profundamente, e o ru\u00eddo mal distinto que parece revoar por cima dela \u00e9 apenas o respiro lento dos seus largos pulm\u00f5es, o bater regular das suas robustas art\u00e9rias. Das alm\u00e1denas de seiscentas mesquitas n\u00e3o soa uma \u00fanica voz de almuadem, e os sinos das igrejas mo\u00e7\u00e1rabes guardam tamb\u00e9m sil\u00eancio. \u00c1s ruas, as pra\u00e7as, os azoques ou mercados est\u00e3o desertos. Somente o murm\u00fario das novecentas fontes ou banhos p\u00fablicos, destinados \u00e0s ablu\u00e7\u00f5es dos crentes, ajuda o zumbido noturno da sumptuosa rival de Bagdad.<\/p>\n<p>Que festa fora esta que expirara algumas horas antes de nascer a lua e de tingir com a brancura p\u00e1lida da sua luz aqueles dois vultos enormes de Azzahrat e de C\u00f3rdova, que olham um para o outro, a cinco milhas de dist\u00e2ncia, como dois fantasmas gigantes envoltos em largos sud\u00e1rios? Na manh\u00e3 do dia que findara, Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fora associado ao trono. Os walis, wasires e khatebs da monarquia dos Benu-Umeyyas tinham vindo reconhec\u00ea-lo Wali-al-ahdi, isto \u00e9, futuro califa do Andaluz e do Moghreb. Era uma id\u00e9ia, afagada longamente pelo velho pr\u00edncipe dos crentes, que se realizara, e o j\u00fabilo de Abdu-r-rahman havia-se espraiado numa dessas festas, por assim dizer fabulosas, que s\u00f3 sabia dar no s\u00e9culo d\u00e9cimo a corte mais polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno de Espanha.<\/p>\n<p>O pal\u00e1cio Merwan, junto dos muros de C\u00f3rdova, distingue-se \u00e0 claridade duvidosa da noite pelas suas formas maci\u00e7as e retangulares, e a sua cor tisnada, bafo dos s\u00e9culos que entristece e santifica os monumentos, contrasta com a das c\u00fapulas a\u00e9reas e douradas dos edif\u00edcios, com a das alm\u00e1denas esguias e leves das mesquitas e com a dos campan\u00e1rios crist\u00e3os, cuja tez docemente p\u00e1lida suaviza, ainda mais, o brando raio de luar que se quebra naqueles estreitos panos de pedra branca, donde n\u00e3o se reflete, mas cai na terra pregui\u00e7oso e dormente. Como Azzahrat e como C\u00f3rdova, calado e aparentemente tranq\u00fcilo, o pal\u00e1cio Merwan, a antiga morada dos primeiros califas, suscita id\u00e9ias sinistras, enquanto o aspecto da cidade e da vila imperial unicamente inspiram um sentimento de quieta\u00e7\u00e3o e paz. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a negrid\u00e3o das suas vastas muralhas a que produz essa apertura de cora\u00e7\u00e3o que experimenta quem o considera assim solit\u00e1rio e carrancudo; \u00e9, tamb\u00e9m, o clar\u00e3o avermelhado que ressumbra da mais alta das raras frestas abertas na face exterior da sua torre albarr\u00e3, a maior de todas as que o cercam, a que atalaia a campanha. Aquela luz, no ponto mais elevado do grande e escuro vulto da torre, \u00e9 como um olho de dem\u00f4nio, que contempla col\u00e9rico a paz profunda do imp\u00e9rio e que espera ansioso o dia em que renas\u00e7am as lutas e as devasta\u00e7\u00f5es de que por mais de dois s\u00e9culos fora teatro o solo ensang\u00fcentado da Espanha.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m vela, talvez, no pa\u00e7o de Merwan. No de Azzahrat, posto que nenhuma luz bruxoleie nos centenares de varandas, de miradouros, de p\u00f3rticos, de balc\u00f5es que lhe arrendam o imenso circuito, algu\u00e9m vela por certo.<\/p>\n<p>A sala denominada do Califa, a mais espa\u00e7osa entre tantos aposentos quantos encerra aquele rei dos edif\u00edcios, devera a estas horas mortas estar deserta, e n\u00e3o o est\u00e1. Dois lampad\u00e1rios de muitos lumes pendem dos artes\u00f5es primorosamente lavrados, que, cruzando-se em \u00e2ngulos retos, servem de moldura ao almofadado de azul e ouro que reveste as paredes e o teto. A \u00e1gua de fonte perene murmura, caindo num tanque de m\u00e1rmore constru\u00eddo no centro do aposento, e no topo da sala ergue-se o trono de Abdu-r-rahman; alcatifado dos mais ricos tapetes do pa\u00eds de Fars. Abdu-r-rahman est\u00e1 a\u00ed sozinho. O califa passeia de um para outro lado, com olhar inquieto, e de instante a instante p\u00e1ra e escuta, como se esperasse ouvir um ru\u00eddo long\u00ednquo. No seu gesto e meneios pinta-se a mais viva ansiedade; porque o \u00fanico ru\u00eddo que lhe fere os ouvidos \u00e9 o dos pr\u00f3prios passos sobre o xadrez variegado que forma o pavimento da imensa quadra. Passado algum tempo, uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do trono, abre-se lentamente, e um novo personagem aparece. No rosto de Abdu-r-rahman, que o v\u00ea aproximar, pinta-se inquieta\u00e7\u00e3o ainda mais viva.<\/p>\n<p>O rec\u00e9m-chegado oferecia not\u00e1vel contraste no seu gesto e vestiduras com as pompas do lugar em que se introduzia e com o aspecto majestoso de Abdu-r-rahman, ainda belo, apesar dos anos e das c\u00e3s que come\u00e7avam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba negra. Os p\u00e9s do que entrara apenas faziam um rumor sumido no ch\u00e3o de m\u00e1rmore. Vinha descal\u00e7o. A sua aljarabia ou t\u00fanica era de l\u00e1 grosseiramente tecida, o cinto uma corda de esparto. Divisava-se-lhe, por\u00e9m, no despejo do andar e na firmeza dos movimentos que nenhum espanto produzia nele aquela magnific\u00eancia. N\u00e3o era velho; e, todavia, a sua tez tostada pelas inj\u00farias do tempo estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao p\u00e9 do califa, que ficara im\u00f3vel, cruzou os bra\u00e7os e p\u00f4s-se a contempl\u00e1-lo calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8220;Tardaste muito e foste menos pontual do que costumas, quando anuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua \u00e9 sempre triste, como o teu nome. Nunca entraste a ocultas em Azzahrat, sen\u00e3o para me saciares de amargura: mas, apesar disso, n\u00e3o deixarei de aben\u00e7oar a tua presen\u00e7a, porque Al-ghafir &#8211; dizem-no todos e eu o creio &#8211; \u00e9 um homem de Deus. Que vens anunciar-me, ou que pretendes de mim?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Amir Al-muminin 11, que pode pretender de ti um homem cujos dias se passam \u00e0 sombra dos t\u00famulos, pelos cemit\u00e9rios, e a cujas noites de ora\u00e7\u00e3o basta por abrigo o p\u00f3rtico de um templo; cujos olhos tem queimado o choro, e que n\u00e3o esquece um instante que tudo neste desterro, a dor e o gozo, a morte e a vida, est\u00e1 escrito l\u00e1 em cima? Que venho anunciar-te?&#8230; O mal; porque s\u00f3 mal h\u00e1 na terra para o homem que vive, como tu, como eu, como todos, entre o apetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto \u00e9, entre os seus eternos e implac\u00e1veis inimigos!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Vens, pois, anunciar-me uma desventura?!&#8230; Cumpra-se a vontade de Deus. Tenho reinado perto de quarenta anos, sempre poderoso, vencedor e respeitado; todas as minhas ambi\u00e7\u00f5es t\u00eam sido satisfeitas; todos os meus desejos realizados; e, todavia, nesta longa carreira de gl\u00f3ria e prosperidade, s\u00f3 fui inteiramente feliz catorze dias da minha vida 12. Pensava que este fosse o d\u00e9cimo quinto. Devo, acaso, apag\u00e1-lo do registo em que conservo a mem\u00f3ria deles e em que j\u00e1 o tinha escrito?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Podes apag\u00e1-lo &#8211; replicou o rude fakih -: podes, at\u00e9, rasgar todas as folhas brancas que restam no livro. Califa! v\u00eas estas faces sulcadas pelas l\u00e1grimas? v\u00eas estas p\u00e1lpebras requeimadas por elas? Duro \u00e9 o teu cora\u00e7\u00e3o, mais que o meu, se, em breve, as tuas p\u00e1lpebras e as tuas faces n\u00e3o est\u00e3o semelhantes \u00e0s minhas.&#8221;<\/p>\n<p>O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente p\u00e1lido de Abdu-r-rahman: os seus olhos serenos, como o c\u00e9u, que imitavam na cor, tomaram a terr\u00edvel express\u00e3o que ele costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que, s\u00f3 por si, fazia recuar os inimigos. O fakih n\u00e3o se moveu, e p\u00f4s-se tamb\u00e9m a olhar fito para ele.<\/p>\n<p>&#8220;Al-muulin, o herdeiro de Benu-Umeyyas pode chorar arrependido dos seus erros diante de Deus; mas quem disser que h\u00e1 neste mundo desventura capaz de lhe arrancar uma l\u00e1grima, diz-lhe ele que mentiu!&#8221;<\/p>\n<p>Os cantos da boca de Al-ghafir encresparam-se com um quase impercept\u00edvel sorriso. Houve um largo espa\u00e7o de sil\u00eancio. Abdu-r-rahman n\u00e3o o interrompeu: o fakih prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8220;Amir Al-muminin, qual de teus dois filhos amas tu mais? Al-hakem, o sucessor do trono, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah, o s\u00e1bio e guerreiro Abdallah, o \u00eddolo do povo de K\u00f3rthoba?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ah &#8211; replicou o califa, sorrindo &#8211; j\u00e1 sei o que me queres dizer. Devias prever que a nova viria tarde e que eu havia de sab\u00ea-la&#8230; Os crist\u00e3os passaram a um tempo as fronteiras do Norte e as do Oriente. Meu velho tio Almoddhafer j\u00e1 dep\u00f4s a espada vitoriosa, e cr\u00eas necess\u00e1rio expor a vida de um deles aos golpes dos infi\u00e9is. Vens profetizar-me a morte do que partir. N\u00e3o \u00e9 isto? Fakih, creio em ti, que \u00e9s aceito ao Senhor; mas ainda creio mais na estrela dos Benu-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro, n\u00e3o hesitaria na escolha; fora esse que eu mandara n\u00e3o \u00e0 morte, mas ao triunfo. Se, por\u00e9m, essas s\u00e3o as tuas previs\u00f5es, e elas t\u00eam de realizar-se, Deus \u00e9 grande! Que melhor leito de morte posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha, em al-djihed 13 contra os infi\u00e9is?&#8221;<\/p>\n<p>Al-ghafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor sinal de impaci\u00eancia. Quando ele acabou de falar, repetiu tranq\u00fcilamente a pergunta:<\/p>\n<p>&#8220;Califa, qual amas tu mais dos teus dois filhos?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quando a imagem pura e santa do meu bom Al-hakem se me representa no esp\u00edrito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e inteligente do meu Abdallab, amo-o mais a ele. Como te posso eu, pois, responder, fakih?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E, todavia, \u00e9 necess\u00e1rio que escolhas, hoje mesmo, neste momento, entre um e outro. Um deles deve morrer na pr\u00f3xima noite, obscuramente, nestes pa\u00e7os, aqui mesmo, talvez, sem gl\u00f3ria, debaixo do cutelo do algoz ou do punhal do assassino.&#8221;<\/p>\n<p>Abdu-r-rahman recuara ao ouvir estas palavras, o suor come\u00e7ou a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma firmeza fingida, sentira apertar-se-lhe o cora\u00e7\u00e3o desde que o fakih come\u00e7ara a falar. A reputa\u00e7\u00e3o de iluminado de que gozava Al-muulin, o car\u00e1ter supersticioso do califa e, mais que tudo, o haverem-se verificado todas as negras profecias que num longo decurso de anos ele lhe fizera, tudo contribu\u00eda para aterrar o pr\u00edncipe dos crentes. Com voz tr\u00eamula replicou:<\/p>\n<p>&#8220;Deus \u00e9 grande e justo. Que lhe fiz eu para me condenar no fim da vida a perp\u00e9tua afli\u00e7\u00e3o, a ver correr o sangue de meus filhos queridos, \u00e0s m\u00e3os da desonra ou da perf\u00eddia?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Deus \u00e9 grande e justo &#8211; interrompeu o fakih. &#8211; Acaso, nunca fizeste correr injustamente o sangue? Nunca, por \u00f3dio brutal, despeda\u00e7aste de dor nenhum cora\u00e7\u00e3o de pai, de irm\u00e3o, de amigo?&#8221;<\/p>\n<p>Al-muulin tinha carregado na palavra irm\u00e3o, com um acento singular. Abdu-r-rahman, possu\u00eddo de mal refreado susto, n\u00e3o atentou por isso.<\/p>\n<p>&#8220;Posso eu acreditar t\u00e3o estranha, direi antes, t\u00e3o incr\u00edvel profecia &#8211; exclamou ele por fim &#8211; sem que me expliques o modo como se deve realizar esse terr\u00edvel sucesso? Como h\u00e1-de o ferro do assassino ou do algoz vir, dentro dos muros de Azzahrat, verter o sangue de um dos filhos do califa de K\u00f3rthoba, cujo nome, seja-me l\u00edcito diz\u00ea-lo, \u00e9 o terror dos crist\u00e3os e a gl\u00f3ria do islamismo?&#8221;<\/p>\n<p>Al-munliu tomou um ar imperioso e solene, estendeu a m\u00e3o para o trono e disse:<\/p>\n<p>&#8220;Assenta-te, califa, no teu trono e escuta-me; porque, em nome da futura sorte do Andaluz, da paz e da prosperidade do imp\u00e9rio e das vidas e do repouso dos mu\u00e7ulmanos, eu venho denunciar-te um grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te um filho. Sucessor do profeta, \u00edm\u00e3 14 da divina religi\u00e3o do Cor\u00e3o, escuta-me; porque \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o tua ouvir-me.&#8221;<\/p>\n<p>O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o negro mist\u00e9rio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Maquinalmente subiu ao trono, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que ele rematava, e, encostando ao punho o rosto desnudado, disse com voz presa: &#8211; &#8220;Podes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-ghafir!&#8221;<\/p>\n<p>Tomando ent\u00e3o uma postura humilde e cruzando os bra\u00e7os sobre o peito, Al-ghafir, o triste, come\u00e7ou da seguinte maneira a sua narrativa:<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>&#8220;Califa! &#8211; come\u00e7ou Al-muulin &#8211; tu \u00e9s grande; tu \u00e9s poderoso. N\u00e3o sabes o que \u00e9 a afronta ou a injusti\u00e7a cruel que esmaga o cora\u00e7\u00e3o nobre e en\u00e9rgico, se este n\u00e3o pode repeli-la e, sem demora, com o mal ou com a afronta, ving\u00e1-la \u00e0 luz do sol! Tu n\u00e3o sabes o que ent\u00e3o se passa na alma desse homem, cujo inteiro desagravo consiste em deixar fugir alguma l\u00e1grima furtiva, e que at\u00e9, \u00e0s vezes, \u00e9 obrigado a beijar a m\u00e3o que o feriu nos seus mais santos afetos. N\u00e3o sabes o que isto \u00e9; porque todos os teus inimigos t\u00eam ca\u00eddo diante do alfanje do almogaure ou deixado despenhar a cabe\u00e7a de cima do cepo do algoz. Ignoras, por isso, o que \u00e9 o \u00f3dio; o que s\u00e3o essas solid\u00f5es tenebrosas por onde o ressentimento que n\u00e3o pode vir ao gesto se dilata e vive, \u00e0 espera do dia da vingan\u00e7a. Dir-to-ei eu. Nessa noite imensa, em que se envolve o cora\u00e7\u00e3o chagado, h\u00e1 uma luz sanguinolenta que vem do inferno e que alumia o esp\u00edrito vagabundo. H\u00e1 a\u00ed terr\u00edveis sonhos, cm que o mais rude e ignorante descobre sempre um meio de desagravo. Imagina como ser\u00e1 f\u00e1cil aos altos entendimentos encontr\u00e1-lo! E por isso que a vingan\u00e7a, que parecia morta e esquecida, aparece, \u00e0s vezes, inesperada, tremenda, irresist\u00edvel, e morde-nos, surgindo debaixo dos p\u00e9s, como a v\u00edbora, ou despeda\u00e7a-los, como o le\u00e3o pulando dentre os juncais. Que lhe importa a ela a majestade do trono, a santidade do templo, a paz dom\u00e9stica, o ouro do rico, o ferro do guerreiro? Mediu as dist\u00e2ncias, calculou as dificuldades, meditou no sil\u00eancio e riu-se de tudo isso!&#8221;<\/p>\n<p>E Al-ghafir o triste desatou a rir ferozmente. Abdu-r-rahman olhava para ele espantado.<\/p>\n<p>&#8220;Mas &#8211; prosseguiu o fakih &#8211; \u00e0s vezes Deus suscita um dos seus servos, um dos seus servos de \u00e2nimo tenaz e forte, possu\u00eddo, tamb\u00e9m, de alguma id\u00e9ia oculta e profunda, que se alevante e rompa a trama urdida das trevas. Este homem no caso presente, sou eu. Para bem? Para mal? &#8211; N\u00e3o sei; mas sou! Sou eu que venho revelar-te como se prepara a ru\u00edna do teu trono e a destrui\u00e7\u00e3o da tua dinastia.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A ru\u00edna do meu trono e a destrui\u00e7\u00e3o da minha dinastia? &#8211; gritou Abdu-r-rahman, pondo-se em p\u00e9 e levando a m\u00e3o ao punho da espada. &#8211; Quem, a n\u00e3o ser algum louco, imagina que o trono dos Benu-Umeyyas pode, n\u00e3o digo desconjuntar-se, mas apenas vacilar debaixo dos p\u00e9s de Abdu-r-rahman? Quando, por\u00e9m, falar\u00e1s enfim claro, Al-muulin?&#8221;<\/p>\n<p>E a c\u00f3lera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual impassibilidade o fakih prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8220;Esqueces-te, califa, da tua reputa\u00e7\u00e3o de prud\u00eancia e longanimidade. Pelo profeta! Deixa divagar um velho tonto, como eu&#8230; N\u00e3o!&#8230; Tens raz\u00e3o&#8230; Basta! O raio que fulmina o cedro desce r\u00e1pido do c\u00e9u. Quero ser como ele&#8230; Amanh\u00e3, a estas horas, teu filho Abdallah ter-te-\u00e1 j\u00e1 privado da coroa para a cingir na pr\u00f3pria fronte, e o teu sucessor Al-hakem ter\u00e1 perecido sob um punhal d&#8217;assassino. Ainda te encolerizas? Foi acaso demasiado extensa a minha narrativa?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Infame! &#8211; exclamou Abdu-r-rahman. &#8211; Hip\u00f3crita, que me tens enganado! Tu ousas caluniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue h\u00e1-de correr, mas \u00e9 o teu. Crias que, com essas visagens de inspirado, com esses trajos de penit\u00eancia, com essa linguagem dos santos, poderias quebrar a afei\u00e7\u00e3o mais pura, a de um pai? Enganas-te, Al-ghafir! A minha reputa\u00e7\u00e3o de prudente, ver\u00e1s que \u00e9 bem merecida.&#8221;<\/p>\n<p>Dizendo isto, o califa ergueu as m\u00e3os, como quem ia a bater as palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o menor ind\u00edcio de perturba\u00e7\u00e3o ou de terror.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o chames ainda os eunucos; porque assim \u00e9 que d\u00e1s provas de que n\u00e3o a merecias. Conheces que me seria imposs\u00edvel fugir. Para matar ou morrer sempre \u00e9 tempo. Escuta, pois, o infame, o hip\u00f3crita, at\u00e9 o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e altivo Abdallah? Bem sabes que ele \u00e9 incapaz de mentir a seu amado pai, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O fakih desatara de novo num rir tremulo e hediondo. Meteu a m\u00e3o no peitilho da aljarabia e tirou, uma a uma muitas tiras de pergaminho: p\u00f4-las sobre a cabe\u00e7a e entregou-as ao califa, que come\u00e7ou a ler com avidez. A pouco e pouco, Abdu-r-rahman foi empalidecendo, as pernas vergaram-lhe e, por fim, deixou-se cair sobre os coxins do trono e, cobrindo a cara com as m\u00e3os, murmurou: &#8211; &#8220;Meu Deus! por que te mereci isto!&#8221;<\/p>\n<p>Al-muulin fitara nele um olhar de gerifalte, e nos l\u00e1bios vagueava-lhe um riso sard\u00f4nico e quase impercept\u00edvel.<\/p>\n<p>Os pergaminhos eram v\u00e1rias cartas dirigidas por Abdallah aos rebeldes das fronteiras do oriente, os Benu-Hafsun, e a diversos xeques bereberes, dos que se haviam domiciliado na Espanha, conhecidos pelo seu pouco afeto aos Benu-Umeyyas. O mais importante, por\u00e9m, de tudo era uma extensa correspond\u00eancia com Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro c\u00e9lebre e antigo alcaide de Santar\u00e9m, que, por graves ofensas, passara ao servi\u00e7o dos crist\u00e3os de Oviedo com muitos cavaleiros ilustres da sua clientela. Esta correspond\u00eancia era completa de parte a parte. Por ela se via que Abdallah contava, n\u00e3o s\u00f3 com os recursos dos mu\u00e7ulmanos seus parciais, mas tamb\u00e9m com importantes socorros dos infi\u00e9is por interven\u00e7\u00e3o de Umeyya. A revolu\u00e7\u00e3o devia rebentar em C\u00f3rdova pela morte de Al-hakem e pela deposi\u00e7\u00e3o de Abdu-r-rahman. Uma parte da guarda do alc\u00e1\u00e7ar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que figurava muito nestas cartas, seria o hajibe ou primeiro ministro do novo califa. Ali se viam, enfim, os nomes dos principais conspiradores e todas as circunst\u00e2ncias da entrepresa eram explicadas ao antigo alcaide de Santar\u00e9m, com aquela individua\u00e7\u00e3o que nas suas cartas ele constantemente exigia. Al-muulin falara verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de si a longa teia da conspira\u00e7\u00e3o, escrita com letras de sangue pela m\u00e3o do seu pr\u00f3prio filho.<\/p>\n<p>Durante algum tempo o califa conservou-se, como a est\u00e1tua da dor, na postura que tomara. O fakih olhava fito para ele com uma esp\u00e9cie de cruel complac\u00eancia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu o sil\u00eancio; o pr\u00edncipe Benu-Umeyya, esse parecia ter perdido o sentimento da vida.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 tarde &#8211; disse o fakih. &#8211; Chegar\u00e1 em breve a manh\u00e3. Chama os eunucos. Ao romper do sol a minha cabe\u00e7a pregada nas portas de Azzahrat deve dar testemunho da prontid\u00e3o da tua justi\u00e7a. Elevei ao trono de Deus a \u00faltima ora\u00e7\u00e3o e estou aparelhado para morrer, eu o hip\u00f3crita, eu o infame, que pretendia lan\u00e7ar sementes de \u00f3dio entre ti e teu virtuoso filho. Califa, quando a justi\u00e7a espera, n\u00e3o s\u00e3o boas horas para meditar ou dormir.&#8221;<\/p>\n<p>Al-ghafir retomava a sua habitual linguagem, sempre ir\u00f4nica e insolente, e ao redor dos l\u00e1bios vagueava-lhe de novo o riso mal reprimido.<\/p>\n<p>A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas cogita\u00e7\u00f5es. P\u00f4s-se em p\u00e9. As l\u00e1grimas haviam corrido por aquelas faces; mas estavam enxutas. A procela de paix\u00f5es encontradas tumultuava l\u00e1 dentro; mas o gesto do pr\u00edncipe dos crentes recobrara aparente serenidade. Descendo do trono, pegou na m\u00e3o mirrada de Al-muulin e, apertando-a entre as suas, disse:<\/p>\n<p>&#8220;Homem que guias teus passos pelo caminho do c\u00e9u, homem afeito ao profeta, perdoa as inj\u00farias de um insensato! Cria ser superior \u00e0 fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas tu esquec\u00ea-lo! Agora estou tranq\u00fcilo&#8230; bem tranq\u00fcilo&#8230; Abdallah, o traidor que era meu filho, n\u00e3o concebeu t\u00e3o atroz des\u00edgnio. Algu\u00e9m lho inspirou: algu\u00e9m verteu naquele \u00e2nimo soberbo as v\u00e3s e criminosas esperan\u00e7as de subir ao trono por cima do meu cad\u00e1ver e do de Al-hakem. N\u00e3o desejo sab\u00ea-lo para o absolver; porque ele j\u00e1 n\u00e3o pode evitar o destino fatal que o aguarda. Morrer\u00e1; que antes de ser pai fui califa, e Deus confiou-me no Andaluz a espada da suprema justi\u00e7a. Morrer\u00e1; mas h\u00e3o-de acompanh\u00e1-lo todos os que o precipitaram no abismo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ainda h\u00e1 pouco te disse &#8211; replicou Al-ghafir &#8211; o que pode inventar o \u00f3dio que \u00e9 obrigado a esconder-se debaixo do manto da indiferen\u00e7a e, at\u00e9, da submiss\u00e3o. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu ofendeste no seu amor-pr\u00f3prio de poeta, que expulsaste de Azzahrat, como um homem sem engenho nem saber, quis provar-te que, ao menos, possu\u00eda o talento de conspirador. Foi ele que preparou este terr\u00edvel sucesso. H\u00e1s-de confessar que se houve com destreza. S\u00f3 numa coisa n\u00e3o: em pretender associar-me aos seus des\u00edgnios. Associar-me?&#8230;, n\u00e3o digo bem&#8230; fazer-me seu instrumento&#8230; A mim!&#8230; Queria que eu te apontasse ao povo como um \u00edmpio pelas tuas alian\u00e7as com os amires infi\u00e9is de Frandjat. Fingi estar por tudo, e chegou a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o aliado dos crist\u00e3os, o antigo caide de Chantaryn. Foi assim que pude coligir estas provas da conspira\u00e7\u00e3o. Loucos! As suas esperan\u00e7as eram a miragem do deserto&#8230; Dos seus aliados, apenas os de Zarkosta e os das montanhas de Al-kibla n\u00e3o foram um sonho. As cartas de Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia 15, tudo era feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra de Umeyya, esse \u00e9 um segredo que, depois de tantas revela\u00e7\u00f5es, tu deixar\u00e1s, califa, que eu guarde para mim&#8230; Oh, os insensatos! os insensatos!&#8221;<\/p>\n<p>E desatou a rir.<\/p>\n<p>A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolu\u00e7\u00e3o que amea\u00e7ava trazer \u00e0 Espanha mu\u00e7ulmana todos os horrores da guerra civil devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necess\u00e1rio afog\u00e1-la em sangue. O longo h\u00e1bito de reinar, junto ao car\u00e1ter en\u00e9rgico de Abdu-r-rahman, fazia com que, nestas crises, ele desenvolvesse de modo admir\u00e1vel todos os recursos que o g\u00eanio amestrado pela experi\u00eancia lhe sugeria. Recalcando no fundo do cora\u00e7\u00e3o a cruel lembran\u00e7a de que era um filho que ia sacrificar \u00e0 paz e \u00e0 seguran\u00e7a do imp\u00e9rio, o califa despediu Al-muulin e, mandando imediatamente reunir o diwan, deu largas instru\u00e7\u00f5es ao chefe da guarda dos eslavos. Ao romper da manh\u00e3 todos os conspiradores que residiam em C\u00f3rdova estavam presos, e muitos mensageiros tinham partido, levando as ordens de Abdu-r-rahman aos walis das prov\u00edncias e aos generais das fronteiras. Apesar das l\u00e1grimas e rogos do generoso Al-hakem, que lutou tenazmente por salvar a vida de seu irm\u00e3o, o califa mostrou-se inflex\u00edvel. A cabe\u00e7a de Abdallah caiu aos p\u00e9s do algoz na pr\u00f3pria c\u00e2mara do pr\u00edncipe no pal\u00e1cio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra em que o tinham lan\u00e7ado, evitou assim o supl\u00edcio.<\/p>\n<p>O dia imediato \u00e0 noite em que se passou a cena entre Abdu-r-rahman e Al-ghafir que tentamos descrever foi um dia de sangue para C\u00f3rdova e de luto para muitas das mais ilustres fam\u00edlias.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Era pelo fim da tarde. Numa alcova do pal\u00e1cio de Azzahrat via-se reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatr\u00e1 ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de peles alv\u00edssimas, faziam sobressair as fei\u00e7\u00f5es enrugadas, a palidez do rosto, o encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todos os sintomas de cad\u00e1ver. Pela imobilidade dir-se-ia que era uma destas m\u00famias que se encontram pelas catacumbas do Egito, apertadas entre as cem voltas das suas faixas mortu\u00e1rias e inteiri\u00e7adas dentro dos sarc\u00f3fagos de pedra. Um \u00fanico sinal revelava a vida nessa grande ru\u00edna de um homem grande; era o movimento da barba longa e pontiaguda que se lhe estendia, como um cone de neve pendurado sobre o peitilho da t\u00fanica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o ilustre califa dos mu\u00e7ulmanos do ocidente, jazia a\u00ed e falava com outro velho, que, em p\u00e9 defronte dele, o escutava atentamente; mas a sua voz sa\u00eda t\u00e3o fraca e lenta que, apesar do sil\u00eancio que reinava no aposento, s\u00f3 na curta dist\u00e2ncia a que estava o outro velho se poderiam perceber as palavras do califa.<\/p>\n<p>O seu interlocutor \u00e9 uma personagem que o leitor conhecer\u00e1 apenas reparar no modo como est\u00e1 trajado. A sua vestidura \u00e9 uma aljarabia de burel cingida de uma corda de esparto. H\u00e1 muitos anos que nisto cifrou todos os c\u00f4modos que aceita \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 descal\u00e7o, e a grenha hirsuta e j\u00e1 grisalha cai-lhe sobre os ombros em madeixas revoltas e emaranhadas. A sua tez n\u00e3o \u00e9 p\u00e1lida, os seus olhos n\u00e3o perderam o brilho, como a tez e como os olhos de Abdu-r-rahman. Naquela, cori\u00e1cea e crestada, domina a cor mista de verde-negro e amarelo do ventre de um crocodilo; nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paix\u00f5es ardentes que lhe sussurram dentro d&#8217;alma, como a lava prestes a jorrar do vulc\u00e3o que ainda parece dormir. \u00c9 Al-muulin, o santo fakih, que vimos salvar, onze anos antes, o califa e o imp\u00e9rio da intentada revolu\u00e7\u00e3o de Abdallah.<\/p>\n<p>Tinham, de feito, passado onze anos desde os terr\u00edveis sucessos acontecidos naquela noite em que Al-muulin descobrira a conspira\u00e7\u00e3o que se urdia, e desde ent\u00e3o nunca mais se vira Abdu-r-rahman sorrir. O sangue de tantos mu\u00e7ulmanos vertido pelo ferro do algoz e, sobretudo, o sangue de seu pr\u00f3prio filho descera como a maldi\u00e7\u00e3o do profeta sobre a cabe\u00e7a do pr\u00edncipe dos crentes. Entregue a melancolia profunda, nem as novas de vit\u00f3rias, nem a certeza do estado florente do imp\u00e9rio o podiam distrair dela, sen\u00e3o momentaneamente. Encerrado, durante os \u00faltimos tempos da vida, no pal\u00e1cio de Azzahrat, a maravilha de Espanha, abandonara os cuidados do governo ao seu sucessor Al-hakem. Os gracejos da escrava Nuirat-eddia, a conversa\u00e7\u00e3o instrutiva da bela Ayecha, e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o \u00fanico al\u00edvio que ado\u00e7ava a exist\u00eancia aborrida do velho le\u00e3o do islamismo. Mas, apenas Al-ghafir, o triste, se apresentava perante o califa, ele fazia retirar todos e ficava encerrado horas e horas com este homem, t\u00e3o temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas doutrinas, pregadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo. Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e, ao v\u00ea-lo, qualquer poderia ler no rosto do velho pr\u00edncipe os sentimentos opostos do terror e do afeto, como se metade da sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquele homem, e a outra metade o repelisse com repugn\u00e2ncia invenc\u00edvel. O mist\u00e9rio que havia entre ambos ningu\u00e9m o podia entender.<\/p>\n<p>E, todavia, a explica\u00e7\u00e3o era bem simples: estava no car\u00e1ter extremamente religioso do califa, na sua velhice e no seu passado de pr\u00edncipe absoluto, situa\u00e7\u00e3o em que s\u00e3o f\u00e1ceis grandes virtudes e grandes crimes. Habituado \u00e0 lisonja, a linguagem \u00e1spera e altivamente sincera de Al-muulin tivera, a princ\u00edpio, o atrativo de ser para ele inaudita; depois, a reputa\u00e7\u00e3o de virtude de Al-ghafir, a cren\u00e7a de que era um profeta, a maneira por que, para o salvar e ao imp\u00e9rio, arrostara com a sua c\u00f3lera e provara desprezar completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman visse nele, como o mais cr\u00e9dulo dos seus s\u00faditos, um homem predestinado, um verdadeiro santo. Sentindo avizinhar a morte, Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salva\u00e7\u00e3o at\u00e9 o trono de Deus. Cifrava-se nele a esperan\u00e7a de um futuro incerto, que n\u00e3o podia tardar, e, assim, o esp\u00edrito do monarca, enfraquecido pelos anos, estudava ansiosamente a m\u00ednima palavra, o menor gesto de Al-muulin; prendia-se ao monge mu\u00e7ulmano, como a hera antiga ao carvalho em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vai trepando para o c\u00e9u. Mas, \u00e0s vezes, Al-ghafir repugnava-lhe. No meio das expans\u00f5es mais sinceras, dos mais ardentes v\u00f4os de piedade profunda, de confian\u00e7a inteira na miseric\u00f3rdia divina, o fakih fitava de repente nele os olhos cintilantes e, com sorriso diab\u00f3lico, vibrava uma frase ir\u00f4nica, insolente e desanimadora, que ia gelar no cora\u00e7\u00e3o do califa as consola\u00e7\u00f5es da piedade e despertar remorsos e terrores ou completa desespera\u00e7\u00e3o. Era um jogo terr\u00edvel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o palpitar dos membros da r\u00eas que se lhe agita moribunda entre as garras sangrentas. Nessa luta infernal em que lhe trazia a alma estava o segredo da atra\u00e7\u00e3o e da repugn\u00e2ncia que, ao mesmo tempo, o velho monarca mostrava para com o fakih, cujo aparecimento em Azzahrat cada vez se tornara mais freq\u00fcente e, agora, se renovava todos os dias.<\/p>\n<p>A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do Oeste e deixavam, de quando em quando, passar um raio afogueado do sol que se punha. O vento t\u00e9pido, \u00famido e violento fazia ramalhar as arvores dos jardins que circundavam os aposentos de Abdu-r-rahman. As folhas, retintas j\u00e1 de verde amarelado e mortal, desprendiam-se das fran\u00e7as das romeiras, dos sarmentos das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam, e, remoinhando nas correntes da ventania, iam, iam, at\u00e9 rastejar pelo ch\u00e3o e empe\u00e7ar na grama seca dos prados. O califa, exausto, sentia aquele cicio da vegeta\u00e7\u00e3o moribunda cham\u00e1-lo, tamb\u00e9m, para a terra, e a melancolia da morte pesava-lhe sobre o esp\u00edrito. Al-muulin, durante a conversa\u00e7\u00e3o daquela tarde, havia-se mostrado, contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras havia o que quer que fosse acorde com a tristeza que o rodeava:<\/p>\n<p>&#8220;Conhe\u00e7o que se aproxima a hora fatal &#8211; dizia o califa. Nestas veias em breve se gelar\u00e1 o sangue; mas, santo fakih, n\u00e3o me ser\u00e1 l\u00edcito confiar na miseric\u00f3rdia de Deus? Derramei o bem entre os mu\u00e7ulmanos, o mal entre os infi\u00e9is, fiz emudecer o livro de Jesus perante o de Mohammed, e deixo a meu filho um trono firmado no amor dos s\u00fabditos e na venera\u00e7\u00e3o e no temor dos inimigos da dinastia dos Benu-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer pela gl\u00f3ria do Isl\u00e3o. Que mais pretendes? &#8211; Por que, n\u00e3o tens nos l\u00e1bios para o pobre moribundo, sen\u00e3o palavras de terror? &#8211; Por que, h\u00e1 tantos anos, me fazes beber, gole a gole, a ta\u00e7a da desespera\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado fulgor, e uni daqueles sorrisos diab\u00f3licos, com que costumava fazer gelar todas as ardentes id\u00e9ias m\u00edsticas do pr\u00edncipe, lhe assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento o do velho monarca, onde, de feito, j\u00e1 vagueavam as sombras da morte: depois, dirigiu-se \u00e0 porta da c\u00e2mara, assegurou-se bem de que n\u00e3o era poss\u00edvel abrirem-na exteriormente e, voltando para ao p\u00e9 do almatr\u00e1, tirou do peitilho um rolo de pergaminho e come\u00e7ou a ler em tom de indiz\u00edvel esc\u00e1rnio:<\/p>\n<p>&#8220;Resposta de Al-ghafir, o triste, \u00e0s \u00faltimas perguntas do poderoso Abdu-r-rahman, oitavo califa de C\u00f3rdova, o sempre vencedor, justiceiro e bem-aventurado entre to dos os pr\u00edncipes da ra\u00e7a dos Benu-Umeyyas. Cap\u00edtulo avulso da sua hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p>Um rir prolongado seguiu a leitura do t\u00edtulo do manuscrito. Al-muulin continuou:<\/p>\n<p>&#8220;No tempo deste c\u00e9lebre, virtuoso, ilustrado e justiceiro monarca havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do profeta e que n\u00e3o sabia torcer por humanos respeitos a voz da sua consci\u00eancia. Chamava-se Mohammed-ibn-Ishak, e era irm\u00e3o de Umeyya-ibn-Ishak, caide de Chantaryn, um dos guerreiros mais ilustres do Isl\u00e3o, segundo diziam.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ora esse wasir caiu no desagrado de Abdu-r-rahman, porque lhe falava verdade e rebatia as adula\u00e7\u00f5es dos seus lisonjeiros. Como o califa era generoso, o desagrado para com Mohammed converteu-se em \u00f3dio, e como era justo, o \u00f3dio breve se traduziu numa senten\u00e7a de morte. A cabe\u00e7a do ministro caiu no cadafalso, e a sua mem\u00f3ria passou \u00e0 posteridade manchada pela cal\u00fania. Todavia, o pr\u00edncipe dos fi\u00e9is sabia bem que tinha assassinado um inocente.&#8221;<\/p>\n<p>As fei\u00e7\u00f5es transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma express\u00e3o horr\u00edvel de ang\u00fastia; quis falar, mas apenas p\u00f4de fazer um sinal, como que pedindo ao fakih que se calasse. Este prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8220;Parece-me que o ouvir a leitura dos anais do teu ilustre reinado te alivia e revoca \u00e0 vida. Continuarei. Pudesse eu prolongar assim os teus dias, clement\u00edssimo califa!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Umeyya, o caide, quando soube da morte ignominiosa do seu querido irm\u00e3o, ficou como insensato. A saudade ajuntava-se o horror do ferrete posto sobre o nome, sempre imaculado, da sua fam\u00edlia. Dirigiu as s\u00faplicas mais veementes ao pr\u00edncipe dos fi\u00e9is para que, ao menos, reabilitasse a mem\u00f3ria da pobre v\u00edtima; mas soube-se que, ao ler a sua carta, o virtuoso pr\u00edncipe desatara a rir&#8230; Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que ele ria.&#8221;<\/p>\n<p>E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman e soltou uma gargalhada. O moribundo arrancou um gemido.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1s um pouco melhor&#8230; n\u00e3o \u00e9 verdade, invenc\u00edvel califa? Prossigamos. Umeyya, quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro que chegara de K\u00f3rthoba partiu para Oviedo. O rei crist\u00e3o de Al-djuf n\u00e3o se riu da sua mensagem. Da\u00ed a pouco, Radmiro tinha passado o Douro, e as fortalezas e cidades mu\u00e7ulmanas at\u00e9 o Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do caide de Chantaryn. Com um numeroso esquadr\u00e3o de amigos leais, este ajudou a devastar o territ\u00f3rio mu\u00e7ulmano do Gharb at\u00e9 M\u00e9rida. Foi uma espl\u00eandida festa; um sacrif\u00edcio digno da mem\u00f3ria de seu irm\u00e3o. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu em torrentes. Pouco a pouco, por\u00e9m, Umeyya come\u00e7ou a refletir. Era Abdu-r-rahman quem o ofendera. Para que tanto sangue vertido? A sua vingan\u00e7a fora a de uma besta-fera; fora est\u00fapida e v\u00e3. Ao califa, quase sempre vitorioso, que importava os que por ele pereciam? O caide de Chantaryn mudou ent\u00e3o de sistema. A guerra p\u00fablica e in\u00fatil converteu-a em persegui\u00e7\u00e3o oculta e eficaz: \u00e0 for\u00e7a op\u00f4s a destreza. Fingiu abandonar os seus aliados e sumiu-se nas trevas. Esqueceram-se dele. Quando tornou a aparecer \u00e0 luz do dia ningu\u00e9m o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda de esparto; os cabelos ca\u00edam-lhe desordenados sobre os ombros e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lhas tisnado o sol dos desertos. Correra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por toda a parte os tesouros da sua fam\u00edlia e os pr\u00f3prios tesouros at\u00e9 o \u00faltimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos fi\u00e9is. Depois veio viver nos cemit\u00e9rios de K\u00f3rthoba, junto dos p\u00f3rticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos em que pudesse oferecer-lhe a amargura e as ang\u00fastias em troca do sangue de Mohammed-ibn-Ishak. O guerreiro chamou-se desde esse tempo Al-ghafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o santo fakih&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Como sacudido por uma corrente el\u00e9trica, Abdu-r-rahman dera um pulo no almatr\u00e1 ao ouvir estas \u00faltimas palavras e ficara assentado, hirto e com as m\u00e3os estendidas. Queria bradar, mas o sangue escumou-lhe nos l\u00e1bios, e s\u00f3 p\u00f4de murmurar, j\u00e1 quase ininteligivelmente:<\/p>\n<p>&#8220;Maldito!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Boa coisa \u00e9 a hist\u00f3ria &#8211; prosseguiu o seu algoz, sem mudar de postura &#8211; quando nos recordamos do nosso passado, e n\u00e3o achamos l\u00e1 para colher um \u00fanico espinho de remorsos! \u00c9 o teu caso, virtuoso pr\u00edncipe! Mas sigamos avante. O santo fakih Al-muulin foi quem instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu Abdallah; quem delatou a conspira\u00e7\u00e3o; quem se apoderou do teu \u00e2nimo cr\u00e9dulo; quem te puniu com os terrores de tantos anos; quem te acompanha no transe derradeiro, para te lembrar junto \u00e0s portas do inferno que, se foste o assassino de seu irm\u00e3o, tamb\u00e9m o foste do pr\u00f3prio filho; para te dizer que, se cobriste o seu nome de ignom\u00ednia, tamb\u00e9m ao teu se ajuntar\u00e1 o de tirano. Ouve pela \u00faltima vez o rir que responde ao teu riso de h\u00e1 dez anos. Ouve, ouve, califa!&#8221;<\/p>\n<p>A1-ghafir, ou antes Umeyya, levantara gradualmente a voz e estendia os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nele os olhos reluzentes e desvairados. O velho monarca tinha os seus abertos e parecia, tamb\u00e9m, olhar para ele, mas perfeitamente tranq\u00fcilo. A quem houvesse presenciado aquela tremenda cena n\u00e3o seria f\u00e1cil dizer qual dos dois tinha mais horrendo gesto.<\/p>\n<p>Era um cad\u00e1ver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante do cad\u00e1ver era a express\u00e3o mais en\u00e9rgica da atrocidade de cora\u00e7\u00e3o vingativo.<\/p>\n<p>&#8220;Oh, se n\u00e3o ouviria as minhas derradeiras palavras!&#8230;&#8221; &#8211; murmurou o fakih, depois de ter conhecido que o califa estava morto. P\u00f4s-se a cismar largo espa\u00e7o; as l\u00e1grimas rolavam-lhe a quatro e quatro pelas faces rugosas. &#8211; &#8220;Um ano mais de tormentos, e ficava satisfeito! &#8211; exclamou por fim. &#8211; Pudera eu dilatar-lhe a vida!&#8221;<\/p>\n<p>Dirigiu-se ent\u00e3o para a porta, abriu-a de par em par e bateu palmas. Os eunucos, as mulheres e o pr\u00f3prio Al-hakem, inquieto pelo estado de seu pai, precipitaram-se no aposento. Al-muulin parou no limiar da porta, voltou-se para tr\u00e1s e, com voz lenta e grave, disse:<\/p>\n<p>&#8220;Orai ao profeta pelo repouso do califa.&#8221;<\/p>\n<p>Houve quem o visse sair; quem, \u00e0 luz ba\u00e7a do crep\u00fasculo, o visse tomar para o lado de C\u00f3rdova com passos vagarosos, apesar das lufadas violentas de Oeste, que anunciavam uma noite procelosa. Mas nem em C\u00f3rdova, nem em Azzahrat, ningu\u00e9m mais o viu desde aquele dia.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: www.biblio.com.br<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I O Guadamelato \u00e9 uma Ribeira que, descendo das solid\u00f5es mais agras da Serra Morena, vem, atrav\u00e9s de um territ\u00f3rio montanhoso e selv\u00e1tico, desaguar no Guadalquivir, pela margem direita, pouco acima de C\u00f3rdova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma densa popula\u00e7\u00e3o: foi nas eras do dom\u00ednio sarraceno em Espanha. 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