{"id":111425,"date":"2017-03-01T11:50:42","date_gmt":"2017-03-01T13:50:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111425"},"modified":"2017-03-01T11:50:42","modified_gmt":"2017-03-01T13:50:42","slug":"mocidade-e-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/mocidade-e-morte","title":{"rendered":"Mocidade e Morte"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<p>Solevantado o corpo, os olhos fitos,<br \/>\nAs magras m\u00e3os cruzadas sobre o peito,<br \/>\nVede-o, t\u00e3o mo\u00e7o, velador de ang\u00fastias,<br \/>\nPela alta noite em solit\u00e1rio leito.<\/p>\n<p>Por essas faces p\u00e1lidas, cavadas,<br \/>\nOlhai, em fio as l\u00e1grimas deslizam;<br \/>\nE com o pulso, que apressado bate,<br \/>\nDo cora\u00e7\u00e3o os estos harmonizam.<\/p>\n<p>\u00cb que nas veias lhe circula a febre:<br \/>\n\u00c9 que a fronte lhe alaga o suor frio;<br \/>\n\u00c9 que l\u00e1 dentro \u00e0 dor, que o vai roendo,<br \/>\nResponde horr\u00edvel \u00edntimo cicio.<\/p>\n<p>Encostando na m\u00e3o o rosto aceso,<br \/>\nFitou os olhos h\u00famidos de pranto<br \/>\nNa l\u00e2mpada mortal ali pendente,<br \/>\nE l\u00e1 consigo modulou um canto.<\/p>\n<p>\u00c9 um hino de amor e de esperan\u00e7a?<br \/>\n\u00c9 ora\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia e de saudade?<br \/>\nResignado na dor, sa\u00fada a morte,<br \/>\nOu vibra aos c\u00e9us blasf\u00e9mia d&#8217;impiedade?<\/p>\n<p>\u00c9 isso tudo, tumultuando incerto<br \/>\nNo del\u00edrio febril daquela mente,<br \/>\nQue, balou\u00e7ada \u00e0 borda do sepulcro,<br \/>\nVolve ap\u00f3s si a vista longamente.<\/p>\n<p>\u00c9 a poesia a murmurar-lhe na alma<br \/>\n\u00daltima nota de quebrada lira;<br \/>\n\u00c9 o gemido do tombar do cedro;<br \/>\n\u00c9 triste adeus do trovador que expira.<\/p>\n<p>DESESPERAN\u00c7A<\/p>\n<p>Meia-noite bateu, volvendo ao nada<br \/>\nUm dia mais, e caminhando eu sigo!<br \/>\nVejo-te bem, \u00f3 campa misteriosa&#8230;<br \/>\nEu vou, eu vou! Breve serei contigo!<\/p>\n<p>Qual tuf\u00e3o, que ao passar agita o pego,<br \/>\nMeu pl\u00e1cido existir turvou a sorte:<br \/>\nH\u00e1lito impuro de pulm\u00f5es ralados<br \/>\nMe diz que neles se assentou a morte:<\/p>\n<p>Enquanto mil e mil no largo mundo<br \/>\nDormem em paz sorrindo, eu velo e penso,<br \/>\nE julgo ouvir as preces por finados,<br \/>\nE ver a tumba e o fumegar do incenso.<\/p>\n<p>Se dormito um momento, acordo em sustos;<br \/>\nPulos me d\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o no peito,<br \/>\nE abra\u00e7o e beijo de uma vida extinta<br \/>\nO \u00faltimo s\u00f3cio, o doloroso leito.<\/p>\n<p>De um abismo insondado \u00e0s agras bordas<br \/>\nInsan\u00e1vel doen\u00e7a me h\u00e1 guiado,<br \/>\nE disse-me: \u00abNo fundo o esquecimento:<br \/>\nDesce; mas desce com andar pausado.\u00bb<\/p>\n<p>E eu lento vou descendo, e sondo as trevas:<br \/>\nBusco parar; parar um s\u00f3 instante!<br \/>\nMas a cruel, travando-me da dextra,<br \/>\nMe faz cair mais fundo, e grita: \u00abAvante!\u00bb<\/p>\n<p>Porque escutar o tr\u00e2nsito das horas?<br \/>\nAlguma delas trar-me-\u00e1 conforto?<br \/>\nN\u00e3o! Esses golpes, que no bronze ferem,<br \/>\nS\u00e3o pura mim como dobrar por morto.<\/p>\n<p>\u00abMorto!, morto!\u00bb me clama a consci\u00eancia:<br \/>\nDiz-mo este respirar rouco e profundo.<br \/>\nAi!, porque fremes, cora\u00e7\u00e3o de fogo,<br \/>\nDentro de um seio corrompido e imundo?<\/p>\n<p>Beber um ar di\u00e1fano e suave,<br \/>\nQue renovou da tarde o brando vento,<br \/>\nE convert\u00ea-lo, no aspirar cont\u00ednuo,<br \/>\nEm bafo apodrecido e pe\u00e7onhento!<\/p>\n<p>Estender para o amigo a m\u00e3o mirrada,<br \/>\nE ele negar a m\u00e3o ao pobre amigo;<br \/>\nQuerer uni-lo ao seio descarnudo,<br \/>\nE ele fugir, temendo o seu perigo!<\/p>\n<p>E ver ap\u00f3s um dia ainda cem dias,<br \/>\nNus d&#8217;esperan\u00e7a, f\u00e9rteis de amargura;<br \/>\nSocorrer-me ao porvir, e ach\u00e1-lo um ermo,<br \/>\nE s\u00f3, bem l\u00e1 no extremo, a sepultura!<\/p>\n<p>Agora!&#8230; quando a vida me sorria:<br \/>\nAgora!&#8230; que meu estro se acendera;<br \/>\nQue eu me enla\u00e7ava a um mundo d&#8217;esperan\u00e7as,<br \/>\nComo se enla\u00e7a pelo choupo a hera,<\/p>\n<p>Deixar tudo, e partir, sozinho e mudo;<br \/>\nVarrer-me o nome escuro esquecimento:<br \/>\nN\u00e3o ter um eco de louvor, que afague<br \/>\nDo desgra\u00e7ado o humilde monumento!<\/p>\n<p>\u00d3 tu, sede de um nome glorioso,<br \/>\nQue t\u00e3o fagueiros sonhos me tecias,<br \/>\nFugiste, e s\u00f3 me resta a pobre heran\u00e7a<br \/>\nDe ver a luz do Sol mais alguns dias.<\/p>\n<p>Vestem-se os campos do verdor primeiro:<br \/>\nJ\u00e1 das aves can\u00e7\u00f5es no bosque ecoam:<br \/>\nN\u00e3o para mim, que s\u00f3 escuto atento<br \/>\nFun\u00e9reos dobres que no templo soam!<\/p>\n<p>Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,<br \/>\nIrei t\u00e3o cedo repousar na terra?!<br \/>\nOh, meu Deus, oh, meu Deus!, um ano ao menos;<br \/>\nUm louro s\u00f3&#8230; e meu sepulcro cerra!<\/p>\n<p>E t\u00e3o bom respirar, e a luz brilhante<br \/>\nDo sol oriental saudar no outeiro!<br \/>\nAi, na manh\u00e3 saud\u00e1-la posso ainda;<br \/>\nMas ser\u00e1 este Inverno o derradeiro!<\/p>\n<p>Quando de pomos o vergel for cheio;<br \/>\nQuando ondear o trigo na planura;<br \/>\nQuando pender com \u00e1ureo fruto a vide,<br \/>\nEu tamb\u00e9m penderei na sepultura.<\/p>\n<p>Dos que me cercam no turbado aspecto,<br \/>\nNa voz que prende desusado enleio,<br \/>\nNo pranto a furto, no fingido riso<br \/>\nFatal senten\u00e7a de morrer eu leio.<\/p>\n<p>Vistes v\u00f3s criminoso, que h\u00e3o lan\u00e7ado<br \/>\nSeus ju\u00edzes nos trances da agonia,<br \/>\nEm orat\u00f3rio estreito, onde n\u00e3o entra<br \/>\nSuav\u00edssima luz do claro dia;<\/p>\n<p>Diante a cruz, ao lado o sacerdote,<br \/>\nO cadafalso, o crime, o algoz na mente,<br \/>\nO povo tumultuando, o extremo arranco,<br \/>\nE C\u00e9u, e Inferno, e as maldi\u00e7\u00f5es da gente?<\/p>\n<p>Se adormece, l\u00e1 surge um pesadelo,<br \/>\nCom os mart\u00edrios da sua alma acorde;<br \/>\nDesperta logo, e \u00e0 terra se arremessa,<br \/>\nE os punhos cerra, e delirante os morde.<\/p>\n<p>Sobre as l\u00e1jeas do duro pavimento<br \/>\nDe verg\u00f5es e de sangue o rosto cobre.<br \/>\nErgue-se e escuta com cabelos hirtos<br \/>\nDo sino ao longe o compassado dobre.<\/p>\n<p>Sem esperan\u00e7a!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o! Do cadafalso<br \/>\nSobe as escudas o perd\u00e3o \u00e0s vezes;<br \/>\nPor\u00e9m a mim&#8230; n\u00e3o me dir\u00e3o: \u00ab\u00c9s salvo!\u00bb<br \/>\nE o meu supl\u00edcio durar\u00e1 por meses.<\/p>\n<p>Dizer posso: \u00abExisti: que a dor conhe\u00e7o!\u00bb<br \/>\nDo gozo a ta\u00e7a s\u00f3 provei por horas:<br \/>\nE serei teu, calado cemit\u00e9rio,<br \/>\nQue engenho, gl\u00f3ria, amor, tudo devoras.<\/p>\n<p>Se o furac\u00e3o rugiu, e o d\u00e9bil tronco<br \/>\nDe \u00e1rvore tenra espeda\u00e7ou passando,<br \/>\nQuem se doeu de a ver jazendo em terra?<br \/>\nTal \u00e9 o meu destino miserando!<\/p>\n<p>N\u00famen de santo amor, mulher querida,<br \/>\nAnjo do C\u00e9u, encanto da exist\u00eancia.<br \/>\nOra por mim a Deus, que h\u00e1-de escutar-te.<br \/>\nPor ri me salve a m\u00e3o da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Vem: aperta-me a dextra&#8230; Oh, foge, foge!<br \/>\nUm beijo ardente aos l\u00e1bios teus voara:<br \/>\nE neste beijo venenoso a morte<br \/>\nTalvez este infeliz s\u00f3 te entregara!<\/p>\n<p>Se eu pudesse viver&#8230; como teus dias<br \/>\nCercaria de amor suave e puro!<br \/>\nComo te fora pl\u00e1cido o presente;<br \/>\nQuanto risonho o aspecto do futuro!<\/p>\n<p>Por\u00e9m, medonho espectro ante meus olhos,<br \/>\nComo sombra infernal perp\u00e9tuo ondeia,<br \/>\nBradando-me que vai partir-se o fio<br \/>\nCom que da minha vida se urde a teia.<\/p>\n<p>Entregue \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o enquanto eu durmo,<br \/>\nNo turbilh\u00e3o do mundo hei-de deixar-te!<br \/>\nQuem velar\u00e1 por ti, pomba inocente?<br \/>\nQuem do perj\u00fario poder\u00e1 salvar-te?<\/p>\n<p>Quando eu cerrar os olhos moribundos<br \/>\nTu verter\u00e1s por mim pranto saudoso;<br \/>\nMas quem me diz que n\u00e3o vir\u00e1 o riso<br \/>\nBanhar teu rosto triste e lacrimoso?<\/p>\n<p>Ai, o extinto s\u00f3 herda o esquecimento!<br \/>\nUm novo amor te agitar\u00e1 o peito:<br \/>\nE a dura l\u00e1jea cobrir\u00e1 meus ossos<br \/>\nFrios, despidos sobre t\u00e9rreo leito!&#8230;<\/p>\n<p>\u00d3 Deus, porque este c\u00e1lix de agonia<br \/>\nAt\u00e9 as bordas de amargor me encheste?<br \/>\nSe eu devia acabar na juventude,<br \/>\nPorque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?<\/p>\n<p>Virgem do meu amor, porque perd\u00ea-la?<br \/>\nPorque entre n\u00f3s a campa h\u00e1-de assentar-se?<br \/>\nTua suprema paz com gozo ou dores<br \/>\nDo mortal, que em ti cr\u00ea, pode turbar-se?<\/p>\n<p>N\u00e3o haver quem me salve! e vir um dia<br \/>\nEm que de minha o nome ainda lhe desse!<br \/>\nEnt\u00e3o, Senhor, o umbral da eternidade,<br \/>\nTalvez sem um queixume, transpusesse.<\/p>\n<p>Mas, qual flor em bot\u00e3o pendida e murcha,<br \/>\nSem de fragr\u00e2ncias perfumar a brisa,<br \/>\nEu poeta, eu amante, ir esconder-me<br \/>\nSob uma lousa desprezada e lisa!<\/p>\n<p>Porqu\u00ea? Qual foi meu crime, \u00f3 Deus terr\u00edvel?<br \/>\nEm te adorar que fui, sen\u00e3o insano?&#8230;<br \/>\nO teu fatal poder hoje maldigo!<br \/>\nO que te chama pai, mente: \u00e9s tirano.<\/p>\n<p>E se aos p\u00e9s de teu trono os ais n\u00e3o chegam;<br \/>\nSe os gemidos da terra os ares somem;<br \/>\nSe a Provid\u00eancia \u00e9 cren\u00e7a v\u00e3, mentida,<br \/>\nPorque geraste a intelig\u00eancia do homem?<\/p>\n<p>Porque da virgem no sorrir puseste<br \/>\nSanto press\u00e1gio de suprema dita,<br \/>\nE apontaste ao poeta a imensidade<br \/>\nNa \u00e2nsia de gl\u00f3ria que em sua alma habita?<\/p>\n<p>A imensidade!&#8230; E que me importa herd\u00e1-la,<br \/>\nSe na Terra passei sem ser sentido?<br \/>\nQue vale eterno vaguear no espa\u00e7o,<br \/>\nSe nosso nome se afundou no olvido?<\/p>\n<p>O ANJO-DA-GUARDA<\/p>\n<p>\u00cdmpio, sil\u00eancio! A tua voz blasfema<br \/>\nDa noite a paz perturba.<br \/>\nVerme, que te rebelas<br \/>\nSob a m\u00e3o do Senhor,<br \/>\nV\u00eas os milh\u00f5es d&#8217;estrelas<br \/>\nDe n\u00edtido fulgor,<br \/>\nQue, em ordenada turba,<br \/>\nA Deus entoam incessantes hinos?<br \/>\nQuantas vezes apaga<br \/>\nDo livro da exist\u00eancia<br \/>\nUm orbe a m\u00e3o do Eterno!<br \/>\nE o belo astro que expira<br \/>\nMaldiz a Provid\u00eancia,<br \/>\nMaldiz a m\u00e3o que o esmaga?<br \/>\nAcaso p\u00e1ra o c\u00e2ntico superno?<br \/>\nOu apenas suspira<br \/>\nO moribundo,<br \/>\nQue se chamava um mundo?<br \/>\nQuem vai p\u00f4r uma campa sobre os restos<br \/>\nDesse inerte planeta,<br \/>\nQue o destrutor cometa<br \/>\nIncinerou na r\u00e1pida passagem?<br \/>\nE tu, \u00e1tomo obscuro,<br \/>\nQue varre \u00e0 tarde a aragem,<br \/>\nSoltas do seio impuro<br \/>\nMaldi\u00e7\u00e3o insensata,<br \/>\nPorque o teu Deus te evoca \u00e0 eternidade?<br \/>\nQue \u00e9 o viver? O umbral, a que um momento<br \/>\nO esp\u00edrito, surgindo<br \/>\nDas solid\u00f5es do nada<br \/>\n\u00c0 voz do Criador, se encosta, e atento<br \/>\nContempla a luz e o c\u00e9u; donde desata<br \/>\nSeu voo \u00e0 imensidade.<br \/>\nGeme acaso o passarinho<br \/>\nDe saudade,<br \/>\nQuando as asas expande, e deixa o ninho<br \/>\nA vez primeira, a mergulhar nos ares?<br \/>\nVolve olhos lacrimosos<br \/>\nAos mares tormentosos<br \/>\nO navegante, quando aproa \u00e0s plagas<br \/>\nDa p\u00e1tria suspirada?<br \/>\nPorque morres?! Pergunta \u00e0 Provid\u00eancia<br \/>\nPorque te fez nascer.<br \/>\nQual era o teu direito a ver o mundo;<br \/>\nTeu jus \u00e0 exist\u00eancia?<br \/>\nOlha no Outono o ulmeiro<br \/>\nQue o vendaval agita,<br \/>\nE cujas t\u00e9nues folhas<br \/>\nAos centos precipita.<br \/>\nS\u00e3o a folha do ulmeiro o nome e a fama,<br \/>\nE o amar dos humanos:<br \/>\nAo nada do que foi assim se atiram<br \/>\nNo v\u00f3rtice dos anos.<br \/>\nQue \u00e9 a gl\u00f3ria na Terra? Um eco frouxo,<br \/>\nQue somem mil ru\u00eddos.<br \/>\nE a voz da Terra o que \u00e9, na voz imensa<br \/>\nDos orbes reunidos?<br \/>\nAmor!, amor terreno!&#8230; Ai, se pudesses<br \/>\nCompreender a amargura,<br \/>\nCom que te choro, \u00f3 alma transviada!<br \/>\nEu, que te amei do ber\u00e7o, e qual do\u00e7ura<br \/>\nH\u00e1 no afecto que liga o anjo ao homem,<br \/>\nRindo despiras esse corpo enfermo,<br \/>\nParu te unir a mim, para aspirares<br \/>\nO gozo celestial de amor sem termo!<br \/>\nAlma triste, que mesquinha<br \/>\nTe debru\u00e7as sobre o Inferno,<br \/>\nOuve o anjo, pobrezinha;<br \/>\nVem ao gozo sempiterno.<br \/>\nResigna-te e espera, e os dias de prova<br \/>\nSer\u00e3o para o crente quais breves instantes.<br \/>\nTomar-te-ei nos bra\u00e7os no trance da morte,<br \/>\nFendendo o infinito coas asas radiantes.<br \/>\nDepois, das alturas teu t\u00e9rreo vestido<br \/>\nSorrindo veremos na Terra guardar<br \/>\nE ao hino de Hossana nos coros celestes<br \/>\nA voz de um remido iremos juntar.<\/p>\n<p>A GRA\u00c7A<\/p>\n<p>Que harmonia suave<br \/>\n\u00c9 esta, que na mente<br \/>\nEu sinto murmurar,<br \/>\nOra profunda e grave,<br \/>\nOra meiga e cadente,<br \/>\nOra que faz chorar?<br \/>\nPorque da morte a sombra,<br \/>\nQue para mim em tudo<br \/>\nNegra se reproduz,<br \/>\nSe aclara, e desassombra<br \/>\nSeu gesto carrancudo,<br \/>\nBanhada em branda luz?<br \/>\nPorque no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o sinto pesar tanto<br \/>\nO f\u00e9rreo p\u00e9 da dor,<br \/>\nE o hino da ora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nEm vez de irado canto,<br \/>\nMe pede \u00edntimo ardor?<\/p>\n<p>\u00c9s tu, meu anjo, cuja voz divina<br \/>\nVem consolar a solid\u00e3o do enfermo,<br \/>\nE a contemplar com placidez o ensina<br \/>\nDe curta vida o derradeiro termo?<\/p>\n<p>Oh, sim!, \u00e9s tu, que na infantil idade,.<br \/>\nDa aurora \u00e0 frouxa luz,<br \/>\nMe dizias: \u00abAcorda, inocentinho,<br \/>\nFaz o sinal da Cruz.\u00bb<br \/>\n\u00c9s tu, que eu via em sonhos, nesses anos<br \/>\nDe inda puro sonhar,<br \/>\nEm nuvem d&#8217;ouro e p\u00farpura descendo<br \/>\nCoas roupas a alvejar.<br \/>\n\u00c9s tu, \u00e9s tu!, que ao p\u00f4r do Sol, na veiga,<br \/>\nJunto ao bosque fremente,<br \/>\nMe contavas mist\u00e9rios, harmonias<br \/>\nDos C\u00e9us, do mar dormente.<br \/>\n\u00c9s tu, \u00e9s tu!, que, l\u00e1, nesta alma absorta<br \/>\nModulavas o canto,<br \/>\nQue de noite, ao luar, sozinho erguia<br \/>\nAo Deus tr\u00eas vezes santo.<br \/>\n\u00c9s tu, que eu esqueci na idade ardente<br \/>\nDas paix\u00f5es juvenis,<br \/>\nE que voltas a mim, sincero amigo,<br \/>\nQuando sou infeliz.<br \/>\nSinta a tua voz de novo,<br \/>\nQue me revoca a Deus:<br \/>\nInspira-me a esperan\u00e7a,<br \/>\nQue te seguiu dos C\u00e9us!&#8230;<\/p>\n<p>RESIGNA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>No teu seio, reclinado<br \/>\nDormirei, Senhor, um dia,<br \/>\nQuando for na terra fria<br \/>\nMeu repouso procurar;<\/p>\n<p>Quando a lousa do sepulcro<br \/>\nSobre mim tiver ca\u00eddo,<br \/>\nE este esp\u00edrito afligido<br \/>\nVir a tua luz brilhar!<\/p>\n<p>No teu seio, de pesares<br \/>\nO existir n\u00e3o se entretece;<br \/>\nL\u00e1 eterno o amor florece;<br \/>\nL\u00e1 florece eterna paz:<\/p>\n<p>L\u00e1 bramir junto ao poeta<br \/>\nN\u00e3o ir\u00e3o paix\u00f5es e dores,<br \/>\nV\u00e3os desejos, v\u00e3os temores<br \/>\nDo desterro em que ele jaz.<\/p>\n<p>Hora extrema, eu te sa\u00fado!<br \/>\nSalve, \u00f3 trevas da jazida,<br \/>\nDonde espera erguer-se \u00e0 vida<br \/>\nMeu esp\u00edrito imortal!<\/p>\n<p>Anjo bom, n\u00e3o me abandones<br \/>\nNeste trance dilatado;<br \/>\nQue contrito, resignado,<br \/>\nMe achar\u00e1s na hora fatal.<\/p>\n<p>E depois&#8230; perdoa, \u00f3 anjo,<br \/>\nAo amor do moribundo,<br \/>\nQue s\u00f3 deixa neste mundo<br \/>\nPouco p\u00f3, muito gemer.<\/p>\n<p>Oh&#8230; depois&#8230; diz \u00e0 mesquinha<br \/>\nUm segredo de do\u00e7ura:<br \/>\nQue na p\u00e1tria o amor se apura,<br \/>\nQue o desterro viu nascer.<\/p>\n<p>Que \u00e9 o C\u00e9u a p\u00e1tria nossa;<br \/>\nQue \u00e9 o mundo ex\u00edlio breve;<br \/>\nQue o morrer \u00e9 cousa leve;<br \/>\nQue \u00e9 princ\u00edpio, n\u00e3o \u00e9 fim:<\/p>\n<p>Que duas almas que se amaram<br \/>\nV\u00e3o l\u00e1 ter nova exist\u00eancia,<br \/>\nConfundidas numa ess\u00eancia,<br \/>\nA de um novo querubim.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Solevantado o corpo, os olhos fitos, As magras m\u00e3os cruzadas sobre o peito, Vede-o, t\u00e3o mo\u00e7o, velador de ang\u00fastias, Pela alta noite em solit\u00e1rio leito. Por essas faces p\u00e1lidas, cavadas, Olhai, em fio as l\u00e1grimas deslizam; E com o pulso, que apressado bate, Do cora\u00e7\u00e3o os estos harmonizam. \u00cb que nas veias lhe circula a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-111425","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Mocidade e Morte, Alexandre Herculano Mocidade e Morte<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Mocidade e Morte, Alexandre Herculano, Obras, Poesias Mocidade e Morte\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" 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