{"id":111409,"date":"2017-03-01T11:38:16","date_gmt":"2017-03-01T13:38:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111409"},"modified":"2017-03-01T11:40:34","modified_gmt":"2017-03-01T13:40:34","slug":"arras-por-foro-de-espanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/arras-por-foro-de-espanha","title":{"rendered":"Arras por Foro de Espanha"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>I<\/h2>\n<h2>A Arraia-mi\u00fada<\/h2>\n<p>O sino das ave-marias ou da ora\u00e7\u00e3o, tinha dado na torre da S\u00e9 a \u00faltima badalada, e pelas frestas e portas dessa multid\u00e3o de casas que, apinhadas \u00e0 roda do castelo e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e acol\u00e1, as luzes interiores, enquanto as ruas, tortuosas e imundas, jaziam como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a hora dos terrores; porque durante a noite, naqueles boas tempos, a estreita senda de bosque deserto n\u00e3o era mais triste, temerosa e arriscada do que a pr\u00f3pria Rua Nova, a mais opulenta e formosa da capital. O que, por\u00e9m, havia a\u00ed desacostumado e estranho eram o completo sil\u00eancio e a escurid\u00e3o profunda em que jazia sepultado o Pa\u00e7o de a par S. Martinho, onde ent\u00e3o residia el-rei D. Fernando, ao mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido agitadas as ondas populares pelo vento de Deus e que ainda esse mar revolto n\u00e3o tinha inteiramente ca\u00eddo na calmaria e sonol\u00eancia que vem ap\u00f3s a procela.<\/p>\n<p>E assim era, com efeito, como o leitor poder\u00e1 averiguar por seus pr\u00f3prios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfar\u00e7ado quiser entrar connosco na mui afamada e antiga taberna do velho Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da S\u00e9, na rua que sobe para os Pa\u00e7os da Alc\u00e1\u00e7ova, sete ou oito portas acima dos Pa\u00e7os do Concelho.<\/p>\n<p>A taberna de micer Folco Taca, genov\u00eas que viera a Portugal ainda imp\u00fabere, como pajem de armas de famoso almirante Lan\u00e7arote Pessanha, e que havia anos abandonara o servi\u00e7o mar\u00edtimo para se dar \u00e0 merc\u00e2ncia, era a mais c\u00e9lebre entre todas as de Lisboa, n\u00e3o s\u00f3 pelo luxo do seu adere\u00e7o, e pela bondade dos l\u00edquidos encerrados nas cubas monumentais que a pejavam, mas tamb\u00e9m porque, em um aposento mais retirado e interior, uma vasta banca de pinho e muitos assentos rasos os escabelos ofereciam todo o c\u00f3modo aos tavolageiros de profiss\u00e3o para perderem ou ganharam a\u00ed, em noites de jogo infrene, os belos alfonsins e maravedis de ouro ou as estimadas dobras de D. Pedro I, o qual, ao contr\u00e1rio dos seus antecessores e sucessores, julgara ser mais rico e poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso do que roubando-lhe o valor intr\u00ednseco e aumentando-lhe o nominal, segundo o costume de todos os reis no come\u00e7o do seu reinar.<\/p>\n<p>Micer Folco soubera estender grossas n\u00e9voas sobre os olhos do corregedor da Corte e de todos os sai\u00f5es, algozes e mais fam\u00edlia da nobre ra\u00e7a dos aguazis sobre a ilegalidade de semelhante estabelecimento industrial. O elixir que ele empregara para produzir essa maravilhosa cegueira n\u00e3o sabemos n\u00f3s qual fosse; mas \u00e9 certo que n\u00e3o se perdeu com a alquimia, porque se v\u00ea que ele existe em m\u00e3os aben\u00e7oadas, produzindo, ainda hoje, repetidos milagres, em tudo an\u00e1logos a este.<\/p>\n<p>Era, pois, na taberna-tavolagem da Porta do Ferro, conhecida vulgarmente por tal nome em consequ\u00eancia da vizinhan\u00e7a dessa porta da antiga cerca, onde os ru\u00eddos vagos e incertos que sussurravam pelas ruas da cidade soavam mais alta e distintamente, como em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se, estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que trasbordava at\u00e9 o breve terreirinho da S\u00e9, falando todos a um tempo, acesos, ao que parecia, em violentas disputas, que \u00e0s vezes eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e blasf\u00eamias, ind\u00edcio evidente de que o sucesso que motivava aquela assuada ou tumulto era neg\u00f3cio que excitava vivamente a c\u00f3lera popular.<\/p>\n<p>J\u00e1 no fim do s\u00e9culo d\u00e9cimo quarto era o povo, assim como hoje, col\u00e9rico. Ent\u00e3o c\u00f3leras da puer\u00edcia; hoje aborrimentos da velhice.<\/p>\n<p>Se na rua o burburinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos lados, no meio de uma espessa m\u00f3 de populares, ouviam-se palavras amea\u00e7adoras, sem que fosse poss\u00edvel perceber contra qual ou quais indiv\u00edduos se acumulava tanta sanha. ara outra parte, dentre o vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdi\u00e7\u00e3o se revelava nos seus coromens de pano de arr\u00e1s, nos cintos escuros, nas camisas e v\u00e9us desadornados e lisos, rompiam risadas discordes e esgani\u00e7adas, nas quais se manifestavam, profundamente impressos, o descaro e a insol\u00eancia daquelas desgra\u00e7adas. Em cima dos vufetes viam-se pich\u00e9is e ta\u00e7as vazias, e debaixo de alguns deles corpos estirados, que simulariam cad\u00e1veres, se os assobios e roncos, que, \u00e0s vezes, sobressa\u00edam atrav\u00e9s do ru\u00eddo daquele respeit\u00e1vel congresso, n\u00e3o provassem que esses honrados cidad\u00e3os, suavemente embalados pelos vapores do vinho e do entusiasmo, tinham adormecido na paz de uma boa consci\u00eancia. Enfim, a composta e bem reputada taberna do antigo companheiro de gl\u00f3ria de micer Lan\u00e7arote estava vis\u00edvelmente prostitu\u00edda e nivelada com as mais imundas e vis baiucas de Lisboa. O gigante popular tinha a\u00ed assentado a sua c\u00faria feroz, e pela primeira vez o v\u00edcio e a corrup\u00e7\u00e3o tinham transposto aqueles umbrais sem a sua m\u00e1scara de mod\u00e9stia e gravidade. Sobre os farrapos do povo n\u00e3o t\u00eam cabida os adornos do ouropel. \u00c9 a \u00fanica diferen\u00e7a moral que h\u00e1 entre ele e as classes superiores que se cr\u00eaem melhores, porque no gin\u00e1sio da civiliza\u00e7\u00e3o aprendem desde a inf\u00e2ncia as destrezas e os mornos de compostura hip\u00f3crita.<\/p>\n<p>O astro que parecia alumiar com a sua luz, aquecer com o seu calor aquele turbilh\u00e3o de planetas, o centro moral \u00e0 roda do qual viravam todos aqueles esp\u00edritos, era um homem que dava mostras de ter bem quarenta anos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados e cintilantes, cabelo negro e revolto, barba grisalha e espessa. Encostado a um dos muitos bufetes que adornavam o amplo aposento e rodeado de uma grossa pinha de populares de ambos os sexos que o escutavam em respeitoso sil\u00eancio, a sua voz forte e sonora sobressa\u00eda no ru\u00eddo e s\u00f3 se confundia com alguma jura blasfema que se disparava do meio das outras pinhas de povo ou com as modula\u00e7\u00f5es das risadas que vibravam naquele ambiente denso e abafado, de certo modo semelhante a clar\u00e3o afogueado que sulcasse r\u00e0pidamente as trevas h\u00famidas e profundas da cripta subterr\u00e2nea de alguma igreja de sexto s\u00e9culo.<\/p>\n<p>De repente, dois cavaleiros, cuja gradua\u00e7\u00e3o se conhecia pelos barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas cal\u00e7as de seda golpeadas e pelos cintos de pele de gamo lavrados de prata, entraram na taberna e, rompendo por entre o povo, que lhe alargava a passagem, chegaram ao p\u00e9 do homem alto e trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo que nenhum dos circunstantes p\u00f4de conhecer quem eram. Bastantes desejos passaram por muitos daqueles c\u00e9rebros vinolentos de o indagar; mas a mesma reflex\u00e3o atou simult\u00e2neamente todas as m\u00e3os. Ao longo da coxa esquerda dos embu\u00e7ados via-se reluzir a espada, e no lado direito e apertado no cinto, que a ponta erguida do capeirote deixava aparecer, escortinava-se o punhal. O passaporte para virem assim aforrados era digno de considera\u00e7\u00e3o, e ainda que entre a turba se achassem alguns homens de armas, principalmente besteiros, quase todos estavam desarmados. Tinha seus riscos, portanto, o p\u00f4r-lhe o visto popular.<\/p>\n<p>Os dois desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao homem alto e magro, que, de quando em quando, meneava a cabe\u00e7a, fazendo um gesto de assentimento; depois romperam por entre a turba, que os examinava com uma esp\u00e9cie de receio misturado de respeito, e foram sentar-se em dois dos escabelos enfileirados ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bufete, com as cabe\u00e7as apertadas entre os punhos, ficaram im\u00f3veis e como alheios ao sussurro que come\u00e7ava a levantar-se de novo \u00e0 roda deles.<\/p>\n<p>Este durou breves instantes; um psiu do homem alto e magro fez voltar todos os olhos para aquela banda. Subindo a um escabelo, ele deu sinal com a m\u00e3o de que pretendia falar.<\/p>\n<p>&#8211; Ouvide, ouvide! &#8211; bradaram alguns que pareciam os maiores daquela multid\u00e3o desordenada.<\/p>\n<p>Todos os pesco\u00e7os se alongaram a um tempo, e viram-se muitas m\u00e3os calosas erguerem-se encurvadas e formarem em volta das orelhas de seus donos uma esp\u00e9cie de anel ac\u00fastico. O orador principiou:<\/p>\n<p>&#8211; Arraia-mi\u00fada!, tendes v\u00f3s j\u00e1 elegido, entre v\u00f3s outros, cidad\u00e3os bem falantes e avisados para propor vossos embargos e razoados contra este maldito e descomunal casamento de el-rei com a mulher de Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha?<\/p>\n<p>&#8211; Todos \u00e0 uma entendemos que deveis ser v\u00f3s, mestre Fern\u00e3o Vasques &#8211; respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios de uma das l\u00e2mpadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de conta entre os populares. &#8211; Quem h\u00e1 a\u00ed entre a arraia-mi\u00fada mais discreto e aposto para tais autos que v\u00f3s? Quem com mais urgentes raz\u00f5es proporia nosso agravo e a desonra e vilta de el-rei do que v\u00f3s o fizestes hoje na mostra que demos ao pa\u00e7o esta tarde?<\/p>\n<p>&#8211; Alc\u00e1cer, alc\u00e1cer!, por nosso capit\u00e3o Fern\u00e3o Vasques &#8211; bradou un\u00edssona a chusma.<\/p>\n<p>&#8211; Fico-vos obrigado, mestre Bartolomeu Chamb\u00e3o! &#8211; replicou Fern\u00e3o Vasques, sossegando o tumulto. &#8211; Pelo razoado de hoje terei em paga a forca, se a ad\u00faltera chega a ser rainha: pelo de amanh\u00e3 terei as m\u00e3os decepadas em vida, se el-rei com as suas palavras mansas e enganosas souber apaziguar o povo. E tende v\u00f3s por averiguado, mestre Bartolomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o n\u00f3 da corda na garganta que eu o ponto em peitilho de saio ou em costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais rijo no gasnete de um crist\u00e3o que a vossa enx\u00f3 numa aduela de pipa!<\/p>\n<p>&#8211; Nanja enquanto na minha aljava houver almaz\u00e9m, e a garrucha da besta me n\u00e3o estourar &#8211; exclamou um besteiro do conto, cambaleando e erguendo-se debaixo de um bufete, para onde o haviam derribado certas perturba\u00e7\u00f5es de entusiasmo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>-Amen, dico vobis! &#8211; gritou um beguino, cujas faces vermelhas e voz de estentor brigavam com o h\u00e1bito de grosseiro burel e com as desconformes cam\u00e2ndulas que lhe pendiam da cinta.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9, Frei Roy Zambrana, fala linguagem cristenga, se queres vir nesse bodo por nossa esteira &#8211; bradou um petintal de Alfama que, segundo parecia, capitaneava um grande tro\u00e7o de pescadores, barqueiros e baleotes daquele bairro, ent\u00e3o quase exclusivamente povoado de semelhante gente.<\/p>\n<p>&#8211; Digo por linguagem &#8211; acudiu o beguino &#8211; que ningu\u00e9m como mestre Fern\u00e3o Vasques \u00e9 homem de cordura e sages para amanh\u00e3 falar a el-rei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Teles, do mesmo modo que ningu\u00e9m leva vantagem ao petintal Airas Gil em ousadia para fugir \u00e0s gal\u00e9s de Castela e para doestar os bons servos da igreja.<\/p>\n<p>Era alus\u00e3o pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu \u00e0 mordente desforra de Frei Roy, que abaixou os olhos com certo modo hip\u00f2critamente contrito, semelhante ao gato que, depois de dar a unhada, vem ro\u00e7ar-se mansamente pela m\u00e3o que ensanguentou.<\/p>\n<p>Frei Roy era tamb\u00e9m, como Airas Gil, um \u00eddolo popular, e a m\u00e1 vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascera da emula\u00e7\u00e3o; de uma d\u00favida cruel sobre a altura relativa do trono de encruzilhada, do trono de lama e farrapos em que cada um deles se sentava.<\/p>\n<p>Se, pois, aquela multid\u00e3o n\u00e3o estivesse persuadida da superioridade intelectual do alfaiate Fern\u00e3o Vasques, a opini\u00e3o desses dois or\u00e1culos n\u00e3o lhe teria deixado a menor d\u00favida sobre isso. Todavia, nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento de ra\u00edzes que nascera num dia, e num dia lan\u00e7ara profundas ra\u00edzes nos cora\u00e7\u00f5es de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao mesmo tempo que, lisonjeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam juntamente dois resultados: o de ganharem mais cr\u00e9dito entre este e o de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas, erguido, havia poucas horas, sobre os broqu\u00e9is populares.<\/p>\n<p>Mas que auto era esse de que o povo falava? Sab\u00ea-lo-emos remontando um pouco mais alto.<\/p>\n<p>O amor cego de el-rei D. Fernando pela mulher de Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha, D\u00aa Leonor Teles, havia muito que era o pasto saboroso da maledic\u00eancia do povo, dos c\u00e1lculos dos pol\u00edticos e dos enredos dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principais cavaleiros de Portugal, D\u00aa Leonor, ambiciosa dissimulada e corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho pronto e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse favor\u00e1vel. Quanto a el-rei, a paix\u00e3o violenta em que este ardia lhe assegurava a ela o completo dom\u00ednio no seu cora\u00e7\u00e3o. Mas as miras daquela mulher, cuja alma era um abismo de cobi\u00e7a, de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do que na triste vangl\u00f3ria de ver a seus p\u00e9s um rei bom, generoso e gentil. Atrav\u00e9s do amor de D. Fernando ela s\u00f3 enxergava o refulgir da coroa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas car\u00edcias, a id\u00e9ia primordial de todas as suas id\u00e9ias. Leonor Teles n\u00e3o amava el-rei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor dela; e este pr\u00edncipe, que seria um dos melhores monarcas portugueses, e que a muitos respeitos o foi, deixou na hist\u00f3ria, quase sempre superficial, um nome desonrado, por ter escrito esse nome na horr\u00edvel cr\u00f3nica da nossa Lucr\u00e9cia B\u00f3rgia. Uma dificuldade, quase insuper\u00e1vel para outra que n\u00e3o fosse D\u00aa Leonor, se interpunha entre ela e os seus ambiciosos des\u00edgnios. Era casada! Um processo de div\u00f3rcio por parentesco, julgado por ju\u00edzes afectos a D\u00aa Leonor ou que sabiam at\u00e9 alcan\u00e7ava a sua vingan\u00e7a, a livrou desse trope\u00e7o. Seu marido, Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha, aterrado, fugiu para Castela, e D. Fernando, casado, segundo se dizia, a ocultas com ela, muito antes da \u00e9poca em que come\u00e7a esta narrativa, viu enfim satisfeito o seu amor insensato.<\/p>\n<p>Aqueles dentre os nobres que ainda conservavam puras as tradi\u00e7\u00f5es severas dos antigos tempos indignavam-se pelo opr\u00f3brio da coroa e pelas consequ\u00eancias que devia ter o rep\u00fadio da infanta de Castela, cujo casamento com el-rei, ajustado e jurado, este desfizera com a leveza que se nota como defeito principal no car\u00e1cter de D. Fernando. Entre os que altamente desaprovavam tais amores, o infante D. Dinis, o mais mo\u00e7o dos filhos de D\u00aa In\u00eas de Castro, e o velho Diogo Lopes Pacheco eram, segundo parece, os cabe\u00e7as da parcialidade contr\u00e1ria a D\u00aa Leonor: aquele pela altivez de seu \u00e2nimo; este por gratid\u00e3o a D. Henrique de Castela, em quem achara amparo e abrigo no tempo dos seus infort\u00fanios, e que o salvara da triste sorte de \u00c1lvaro Gon\u00e7alves Coutinho e de P\u00earo Coelho, seus companheiros no patri\u00f3tico crime da morte de D\u00aa In\u00eas.<\/p>\n<p>O casamento de el-rei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor vago, uma suspeita. Os nobres, por\u00e9m, que o desaprovavam souberam transmitir ao povo os pr\u00f3prios temores, e a agita\u00e7\u00e3o dos \u00e2nimos crescia \u00e0 medida que os amores de el-rei se tornavam mais p\u00fablicos. D. Fernando tinha j\u00e1 revelado aos seus conselheiros a resolu\u00e7\u00e3o que tomara, e estes, posto que a princ\u00edpio lhe falassem com a liberdade que ent\u00e3o se usava nos pa\u00e7os dos reis, vendo as suas dilig\u00eancias baldadas, contentaram-se de condenar com o sil\u00eancio essa mal-aventurada resolu\u00e7\u00e3o. O povo, por\u00e9m, n\u00e3o se contentou com isso.<\/p>\n<p>Conforme as id\u00e9ias daquele tempo, al\u00e9m das considera\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, semelhante cons\u00f3rcio era monstruoso aos olhos do vulgo, por um motivo de religi\u00e3o, o qual ainda de maior peso seria hoje, como o ser\u00e1 em todos os tempos em que a moral social for mais respeitada do que o era naquela \u00e9poca. Tal cons\u00f3rcio constitu\u00eda um verdadeiro adult\u00e9rio, e os filhos que dele procedessem mal poderiam ser considerados como infantes de Portugal e, por consequ\u00eancia, como fiadores da sucess\u00e3o da Coroa.<\/p>\n<p>A irrita\u00e7\u00e3o dos \u00e2nimos, assoprada pela nobreza, tinha chegado ao seu auge, e a c\u00f3lera popular rebentara violenta na tarde que precedeu a noite em que come\u00e7a esta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tr\u00eas mil homens se tinham dirigido tumultu\u00e0riamente \u00e0s portas do pa\u00e7o, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozearia e o estr\u00e9pido que fazia aquela multid\u00e3o desordenada assustou el-rei, que por um seu privado mandou perguntar o que \u201clhes prazia e para que estavam assim reunidos\u201d. Ent\u00e3o o alfaiate Fern\u00e3o Vasques, \u201ccapit\u00e3o e procurador por eles\u201d, como lhe chama Fern\u00e3o Lopes, afeiou em termos violentos as inten\u00e7\u00f5es de el-rei liberalizando a D\u00aa Leonor os t\u00edtulos de m\u00e1 mulher e feiticeira e asseverando que o povo nunca havia de consentir em seu casamento ad\u00faltero. A arenga rude e veemente do alfaiate orador, acompanhada e vitoriada de gritas insolentes e amea\u00e7adoras do tropel que o seguia, moveu el-rei a responder com agradecimento \u00e0s inj\u00farias, e a afirmar que nem D\u00aa Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, prometendo ir na manh\u00e3 seguinte aclarar com eles este neg\u00f3cio no Mosteiro de S. Domingos, para onde os emprazava. Com tais promessas, pouco a pouco se aquietou o motim, e ao cair da noite o terreiro de a par S. Martinho estava em completo sil\u00eancio. Como se, na solid\u00e3o, el-rei quisesse consultar consigo o que havia de dizer ao seu bom e fiel povo de Lisboa, as vidra\u00e7as coradas das esguias janelas dos pa\u00e7os reais, que vertiam quase todas as noites o ru\u00eddo e o esplendor dos saraus, cerradas nesta hora e caladas como sepulcro, contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estr\u00e9pido das ruas, com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com o perpassar cont\u00ednuo dos magotes e pinhas de gente que se encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacilavam, ficavam im\u00f3veis, aglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para se aglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como elas. Feroz na sua c\u00f3lera razoada, feroc\u00edssimo no seu rir insensato, o vulgo passava, rei de um dia. Esse ru\u00eddo, essa vertigem que o agitava era o seu baile, a sua festa de triunfo; e as estrelas de serena noite de Agosto, semelhantes a l\u00e2mpadas pendentes de ab\u00f3bada profunda, alumiavam o sarau popular, as salas do seu folguedo, a pra\u00e7a e a encruzilhada. Era conjuntamente truanesco e terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Na taberna de micer Folco (onde deix\u00e1mos as personagens principais desta hist\u00f3ria, para inserir, talvez fora de lugar, o pr\u00f3logo ou introdu\u00e7\u00e3o a ela) as aclama\u00e7\u00f5es fren\u00e9ticas dos populares tinham tornado indubit\u00e1vel que o \u201cpropoedor\u201d para o ajuntamento do dia seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fern\u00e3o Vasques. Frei Roy era de todos os circunstantes o que mais parecia ter a peito esta escolha, e o petintal Airas Gil ajudava-o poderosamente com o ru\u00eddo dos amplos pulm\u00f5es dos galeotes de Alfama, contra\u00eddos como em voga arrancada, vitoriando o seu capit\u00e3o. O alfaiate n\u00e3o p\u00f4de resistir, nem, porventura, tinha vontade disso, a tanta popularidade e, em p\u00e9 sobre o escabelo, com a cabe\u00e7a levemente inclinada para o peito, numa postura entre de resigna\u00e7\u00e3o e de bem-aventuran\u00e7a, tremulava-lhe nos l\u00e1bios semiabertos um sorriso que revelava uma parte dos mist\u00e9rios do seu cora\u00e7\u00e3o. Enfim, quando a grita come\u00e7ou a serenar, Fern\u00e3o Vasques ergueu a cabe\u00e7a e com aspecto grave deu sinal de que ainda pretendia falar.<\/p>\n<p>Fez-se de novo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Seja, pois, como quereis &#8211; disse o alfaiate -, mas vede o gr\u00e3o risco a que me ponho por v\u00f3s outros. Falarei a el-rei com liberdade portuguesa; proporei vosso agravo e a desonra e feio pecado da sua real senhoria: mas \u00e9 necess\u00e1rio que v\u00f3s todos quantos a\u00ed sois estejais de alcateia e ao romper da alva no alpendre de S\u00e3o Domingos. Dizem que a ad\u00faltera \u00e9 mulher de grande cora\u00e7\u00e3o e ousados pensamentos; em Lisboa est\u00e3o muitos cavaleiros seus parentes e parciais. Besteiros deste concelho, que n\u00e3o vos esque\u00e7am em casa vossas bestas e aljavas! Peoada de Lisboa, levai vossas ascumas! Os trons e engenhosos do castelo &#8211; acrescentou o alfaiate em voz mais baixa e hesitante &#8211; n\u00e3o vos apoquentar\u00e3o, ainda que el-rei o quisesse, porque o alcaide-mor Jo\u00e3o Louren\u00e7o Bubal n\u00e3o \u00e9 dos afei\u00e7oados a Dona Leonor Teles. Santa Maria e Sant\u2019Iago sejam convosco! Alc\u00e1cer, alc\u00e1cer pela arraia-mi\u00fada! A repousar, amigos!<\/p>\n<p>&#8211; Alc\u00e1cer, alc\u00e1cer &#8211; respondeu a turbamulta.<\/p>\n<p>&#8211; Morra a combor\u00e7a! &#8211; gritou Airas Gil com voz de trov\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Morra a combor\u00e7a! &#8211; repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos coromens de arr\u00e1s e cintos pretos que assistiam \u00e0quele conclave.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Airas, que S\u00e3o Martinho fica perto, e contam que Dna. Leonor tem ouvido subtil &#8211; disse Frei Roy ao petintal com um sorriso diab\u00f3lico.<\/p>\n<p>Dor de levadigas te consuma, echacorvos! &#8211; replicou o petintal. Quando eu quero que me ou\u00e7am \u00e9 que falo alto. Alc\u00e1cer por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castela e de feiti\u00e7os!<\/p>\n<p>O petintal emendava a m\u00e3o como podia. E entre morras e alc\u00e1ceres; entre risadas e pragas; entre amea\u00e7as v\u00e3s e insultos in\u00fateis, aquela vaga de povo contida na taberna de micer Folco espraiou-se pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se pelas casinhas e choupanas que nessa \u00e9poca jaziam, n\u00e3o raro, deitadas junto \u00e0s ra\u00edzes dos pal\u00e1cios na velha e opulenta Lisboa.<\/p>\n<p>Com os bra\u00e7os cruzados, o alfaiate contemplava aquela multid\u00e3o, que diminu\u00eda r\u00e0pidamente, e cujo sussurro, alongando-se, era compar\u00e1vel ao gemido do tuf\u00e3o que passa de noite pelas sar\u00e7as da campina. Ainda ele tinha os olhos fitos no portal por onde sa\u00edra o vulto indeline\u00e1vel chamado povo, e j\u00e1 ningu\u00e9m a\u00ed estava, salvo os dois cavaleiros, que se tinham conservado im\u00f3veis na mesma postura que haviam tomado, e Frei Roy, que se estirara sobre um dos bufetes e j\u00e1 roncava e assobiava, como em sono profundo.<\/p>\n<p>Os dois cavaleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um ainda a barba de homem n\u00e3o pungia nas faces; o outro, na alvura das melenas brancas, que trazia ca\u00eddas sobre os ombros \u00e0 moda de Castela, e no rosto sulcado de rugas certificava ser j\u00e1 bem larga a hist\u00f3ria da sua peregrina\u00e7\u00e3o na Terra.<\/p>\n<p>O mancebo olhou para Fern\u00e3o Vasques, que parecia absorto, e depois para o velho, com um gesto de impaci\u00eancia. Este olhou tamb\u00e9m para ele e sorriu-se. Depois o anci\u00e3o chamou o alfaiate em voz baixa, mas percept\u00edvel.<\/p>\n<p>Este, como se ca\u00edsse em terra da altura dos seus pensamentos, estremeceu e, saltando do escabelo, onde ainda se conservava em p\u00e9, encaminhou-se r\u00e0pidamente para os dois cavaleiros.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor infante, que vossa merc\u00ea em perdoe e o senhor Diogo Lopes Pacheco! \u00c0 f\u00e9 que, no meio deste arru\u00eddo, quase me esquecera de que \u00e9reis aqui. Estais desenganados por vossos olhos de que posso responder pelo povo, e de que amanh\u00e3 n\u00e3o faltar\u00e3o em S\u00e3o Domingos?<\/p>\n<p>&#8211; Na verdade &#8211; respondeu o mancebo &#8211; que tu governas mais nele que meu irm\u00e3o, com ser rei! Veremos se amanh\u00e3 te obedecem, como te obedeceram hoje.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um not\u00e1vel capit\u00e3o &#8211; acrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo no ombro do alfaiate.<\/p>\n<p>&#8211; Se fosses capaz de reger assim em hoste uma bandeira de homens de armas, merecerias a alcaidaria de um castelo.<\/p>\n<p>&#8211; Que s\u00f3 entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite ou de dia, \u00e0quele que de mim tivesse preito e menagem.<\/p>\n<p>&#8211; Bem dito! &#8211; interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que come\u00e7ara. &#8211; Se ta negarem, n\u00e3o ser\u00e1 por n\u00e3o trazeres j\u00e1 bem estudadas as palavras do preito. Tem a certeza de que h\u00e1s-de ir longe, Fern\u00e3o Vasques; muito longe! Assim eu a tivera de que n\u00e3o me ser\u00e1 preciso coser \u00e0 ponta do punhal a boca de quem ousar dizer que o infante Dom Dinis e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna do genov\u00eas Folco Taca.<\/p>\n<p>Quando estas \u00faltimas palavras, proferidas lentamente, sa\u00edram dos l\u00e1bios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino que dormia foram mais r\u00e1pidos e tr\u00e9mulos.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 aquele echacorvos? &#8211; prosseguiu Diogo Lopes, apontando para Frei Roy, com gesto de desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um dos nossos &#8211; respondeu o alfaiate -, um dos que mais t\u00eam encarni\u00e7ado a arraia-mi\u00fada contra a feiticeira ad\u00faltera. Na assuada desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos Pa\u00e7os de El-Rei. Por este respondo eu. N\u00e3o ereis, senhor Diogo Lopes de lhe coser a boca \u00e0 ponta de vosso punhal.<\/p>\n<p>&#8211; Responde por ti, honrado capit\u00e3o de arraia-mi\u00fada &#8211; replicou o velho cortes\u00e3o. &#8211; Quem me responde por ele \u00e9 o seu dormir profundo: quem me responderia por ele, se, acordando, nos visse aqui, seria este ferro que trago na cinta. Agora o que importa. Enquanto amanh\u00e3 el-rei se demorar em S\u00e3o Domingos, um tro\u00e7o da arraia-mi\u00fada e besteiros h\u00e1-de acometer o pa\u00e7o, e, ou do terreiro ou rompendo pelos aposentos interiores, \u00e9 necess\u00e1rio que uma pedra perdida, um tiro em algum corredor escuro nos assegure que el-rei n\u00e3o pode deixar de atender \u00e0s s\u00faplicas dos seus leais vassalos e dos cidad\u00e3os de Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Morta! &#8211; exclamou o infante, com um gesto de horror. &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, Diogo Lopes; n\u00e3o ensanguenteis os pa\u00e7os de meu irm\u00e3o, como&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como ensanguentei os Pa\u00e7os de Santa Clara &#8211; atalhou Pacheco -, dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram c\u00e1 dentro. Senhor infante, v\u00f3s esquecestes-vos disso, porque eu posso e valho com el-rei de Castela! Senhor infante, a ambi\u00e7\u00e3o tem que saltar muitas vezes por cima dos vest\u00edgios de sangue! V\u00f3s passaste avante e n\u00e3o vistes os do sangue de vossa m\u00e3e! Porque hesitareis, ao galgar os do sangue de Leonor Teles? Senhor, infante, quem sobre por sendas \u00edngremes e por despenhadeiros tem a certeza de precipitar-se no fogo, se covardemente recua.<\/p>\n<p>D. Dinis tinha-se tornado p\u00e1lido como cera. N\u00e3o respondeu nada: mas dos olhos rebentaram-lhe duas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Vasques escutou a prelec\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do velho matador de D\u00aa In\u00eas de Castro com religiosa aten\u00e7\u00e3o. E resolveu l\u00e1 consigo n\u00e3o se deixar cair no fojo.<\/p>\n<p>&#8211; Far-se-\u00e1 como apontais &#8211; disse ele, falando com Diogo Lopes -, mas, se os homens de armas e besteiros de Jo\u00e3o Louren\u00e7o Bubal descerem do castelo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te disse, ainda h\u00e1 pouco, que Jo\u00e3o Louren\u00e7o ficaria quedo no meio da revolta? Podes estar sossegado, que n\u00e3o te certifiquei disso para animares o povo. E a realidade. Agora trata de dispor as coisas para que n\u00e3o seja um dia in\u00fatil o dia de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Pegando ent\u00e3o na m\u00e3o do infante, o feroz Pacheco saiu da taberna e tomou com ele o caminho da alc\u00e1\u00e7ova. Fern\u00e3o Vasques ficou um pouco cismado: depois saiu, dirigindo-se para a Porta do Ferro e repetindo em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3o me precipitarei no fojo!<\/p>\n<p>Passados alguns instantes de sil\u00eancio, Frei Roy levantou devagarinho a cabe\u00e7a, sentou-se no bufete e p\u00f4s-se a escutar: depois saltou para o ch\u00e3o, apagou a l\u00e2mpada que ardia no meio da casa, abandonada por Folco Taca, logo que o povo tumultu\u00e0riamente a inundara, chegou \u00e0 porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso encaminhou-se para a torre da S\u00e9 da banda do norte e, como um fantasma, desapareceu cosido com a negra e alta parede da catedral.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>O Beguino<\/p>\n<p>Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edif\u00edcio imundo, miser\u00e1vel, insalubre, que por si s\u00f3 bastara a servir de castigo a grandes crimes, ainda v\u00ea na extremidade dele umas ru\u00ednas, uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca altura, onde se abre uma janela g\u00f3tica. Esta parede e esta janela s\u00e3o tudo o que resta dos antigos Pa\u00e7os de a par S. Martinho, igreja que tamb\u00e9m j\u00e1 desapareceu, sem deixar, sequer, por mem\u00f3ria um pano de muro, uma fresta de outro tempo. O Limoneiro \u00e9 um dos monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradi\u00e7\u00f5es de remotas eras. Nenhuns pa\u00e7os dos nossos reis da primeira e da segunda dinastia foram mais vezes habitados por eles. Conhecidos sucessivamente pelos nomes de \u201cPa\u00e7os de El-Rei\u201d, \u201cPa\u00e7os dos Infantes\u201d, \u201cPa\u00e7os da Moeda\u201d, \u201cPa\u00e7os do Limoeiro\u201d, a sua hist\u00f3ria vai sumir-se nas trevas dos tempos. S\u00e3o da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Santa Maria Maior, da venerando catedral de Lisboa, \u00e9 um mist\u00e9rio! Se, transfigurada pelos terramotos, pelos inc\u00eandios e pelos c\u00f3negos, nem no seu arquivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas pode achar a certid\u00e3o do seu nascimento e dos anos da sua vida! Como as da igreja, as ru\u00ednas da monarquia dormem em silencio \u00e0 roda de n\u00f3s, e, envolto nos seus eternos farrapos, o povo vive eterno em cima ou ao lado delas, e nem sequer indaga porque jazem a\u00ed!<\/p>\n<p>Na memor\u00e1vel noite em que se passaram os sucessos narrados no cap\u00edtulo antecedente, essa janela dos Pa\u00e7os de El-Rei era a \u00fanica aberta em todo o vasto edif\u00edcio, mas calada e escura, como todas as outras. S\u00f3, de quando em quando, quem para l\u00e1 olhasse atento do meio do terreiro enxergaria o que quer que fosse, alvacento, que ora se chegava \u00e0 janela, ora se retra\u00eda. Mas o sil\u00eancio que reinava naqueles s\u00edtios n\u00e3o era interrompido pelo menor ru\u00eddo. De repente, um vulto chegou debaixo da janela e bateu devagarinho as palmas: a figura alvacenta chegou \u00e0 janela, debru\u00e7ou-se, disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto que chegara subiu r\u00e0pidamente, e ambos desapareceram atrav\u00e9s dos corredores e aposentos do pa\u00e7o.<\/p>\n<p>Em um destes \u00faltimos, alumiado por tochas seguras por longos bra\u00e7os de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia idade e gentil presen\u00e7a. Os seus passos eram r\u00e1pidos e incertos, e o seu aspecto carregado. De quando em quando, parava e escutava a uma porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a passear, parando, \u00e0s vezes, com os bra\u00e7os cruzados e como entregue a cogita\u00e7\u00f5es dolorosas.<\/p>\n<p>Por fim, o reposteiro ondeou de alto a baixo e franziu-se no meio; m\u00e3o alva de mulher o segurava. Esta entrou, e ap\u00f3s ela um homem alto e robusto, vestido de burel e cingido de cinto de esparto, de onde pendiam umas grossas cam\u00e2ndulas. A dama atravessou vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura de palmo, que corria ao longo de uma das paredes do aposento. O homem que passeava sentou-se tamb\u00e9m, no \u00fanico escabelo que ali havia. Frei Roy, que o leitor j\u00e1 ter\u00e1 conhecido, ficou ao p\u00e9 da porta por onde entrara, com a cabe\u00e7a baixa e em postura abeatada.<\/p>\n<p>&#8211; Aproxima-te, beguino! &#8211; disse com voz tr\u00e9mula el-rei; porque era el-rei D. Fernando o homem que se sentara.<\/p>\n<p>Frei Roy deu uns poucos passos para diante.<\/p>\n<p>&#8211; Que h\u00e1 de novo? &#8211; perguntou el-rei.<\/p>\n<p>&#8211; O povo cada vez est\u00e1 mais alvorotado e jura falar rijamente amanh\u00e3 a vossa senhoria. Mas essa n\u00e3o \u00e9 a pior nova que eu trago!<\/p>\n<p>&#8211; Fala, fala, beguino! &#8211; acudiu el-rei, estendendo a m\u00e3o convulsa para o echacorvos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que amanh\u00e3, enquanto vossa senhoria estiver em S\u00e3o Domingos, o \u00e1co ser\u00e1 acometido. Pretendem matar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mentes, beguino! &#8211; gritou a dama, erguendo-se do estrado de um salto, semelhante a tigre descoberto pelos ca\u00e7adores nos matagais da \u00c1sia. &#8211; Mentes! Podem n\u00e3o me querer rainha: mas assassinar-me! Isso \u00e9 imposs\u00edvel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as merc\u00eas que posso, n\u00e3o me h\u00e1-de odiar assim de morte. Os fidalgos podem persuadi-lo a opor-se ao nosso casamento; mas nunca a p\u00f4r m\u00e3os violentas na pobre Leonor Teles.<\/p>\n<p>&#8211; Prouvera a Deus que eu mentisse hoje. Seria a primeira vez na minha vida &#8211; replicou o echacorvos, com ar contrito. &#8211; Mas ouvi com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execu\u00e7\u00e3o, haver\u00e1 tr\u00eas credos, na taberna de Folco Taca.<\/p>\n<p>&#8211; Miser\u00e1veis! &#8211; bradou, erguendo-se tamb\u00e9m, el-rei, a quem o risco da sua amante restitu\u00edra por um momento a energia. &#8211; Miser\u00e1veis! Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pai? T\u00ea-lo-\u00e3o. Quem ousa ordenar tal coisa?<\/p>\n<p>&#8211; Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate Fern\u00e3o Vasques, o coudel dos revoltossos, e vosso irm\u00e3o D. Dinis estava, tamb\u00e9m, com eles &#8211; respondeu Frei Roy.<\/p>\n<p>O beguino era o espia mais sincero e imperturb\u00e1vel de todo o mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Velho assassino! &#8211; exclamou D. Fernando -, cobriste de luto eterno o cora\u00e7\u00e3o do pai: queres cobrir o do filho. E tu, Dinis, que eu amei tanto, tamb\u00e9m entre os meus inimigos! Leonor, que faremos para te salvar?! Aconselha-me tu, que quase que enlouqueci!<\/p>\n<p>O pobre e irresoluto monarca cobriu o rosto com as m\u00e3os, arquejando violentamente. D\u00aa Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos l\u00e1bios esbranqui\u00e7ados revelavam mais \u00f3dio que terror, lan\u00e7ou-lhe um olhar de desprezo e, em tom de mofa, respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor rei, na falta de vossos leais conselheiros, posso eu, triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordai vossos pajens, que v\u00e3o pregar um poste \u00e0 porta destes pa\u00e7os, e mandai-me amarrar a ele, para que o vosso bom povo de Lisboa possa despeda\u00e7ar-me tranquilamente amanh\u00e3, sem profanar os vossos aposentos reais. Ser\u00e1 mais uma grande merc\u00ea que lhe fareis em recompensa do seu amor \u00e0 vossa pessoa, da sua obedi\u00eancia aos vossos mandados.<\/p>\n<p>&#8211; Leonor, Leonor, n\u00e3o me fales assim, que me matas! &#8211; gritou D. Fernando deitando-se aos p\u00e9s de D\u00aa Leonor e abra\u00e7ando-a pelos joelhos com um choro convulso. &#8211; Que te fiz eu para me tratares t\u00e3o cruelmente?<\/p>\n<p>&#8211; Dom Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se rege com a espada do cavaleiro, ou ele vem colocar a ascuma do pe\u00e3o sobre o trono real. Quem n\u00e3o sabe brandir o ferro cede; deixa-o reinar.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o, Leonor! &#8211; disse D. Fernando, enxugando as l\u00e1grimas e al\u00e7ando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indigna\u00e7\u00e3o. &#8211; Serei filho de Dom Pedro, o Cruel; serei sucessor de meu pai. Eu mesmo vou ao alc\u00e1\u00e7ar examinar os engenhos mais valentes que cubram o terreiro de S\u00e3o Martinho de pedras, de virot\u00f5es e de cad\u00e1veres: os montantes e as bestas dos homens de armas e besteiros do meu alcaide-mor de Lisboa far\u00e3o o resto. Jo\u00e3o Louren\u00e7o Bubal ser\u00e1 fiel a seu rei. Se necess\u00e1rio for, com minhas pr\u00f3prias m\u00e3os ajudarei a p\u00f4r fogo \u00e0 cidade, para que nem um revoltoso escape. Adeus, Leonor: conta que ser\u00e1s vingada.<\/p>\n<p>D. Fernando voltou-se r\u00e1pido para a porte do aposento. Frei Roy estava im\u00f3vel diante dele.<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o Louren\u00e7o Bubal &#8211; disse o espia, sem mudarde tom nem de gesto &#8211; \u00e9 dos revoltosos. Ouvi-o da boca do pr\u00f3prio Diogo Lopes, que o certificou a Fern\u00e3o Vasques. Os trons do alc\u00e1cer est\u00e3o desaparelhados, e a maior parte dos homens de armas e besteiros do alcaide-mor eram na taberna de Folco Taca os mais furiosos contra a que eles chamam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, beguino &#8211; gritou el-rei, empurrando-o com for\u00e7a e procurando tapar-lhe a boca.<\/p>\n<p>O echacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar e ficou outra fez im\u00f3vel diante de D. Fernando, a quem este \u00faltimo golpe lan\u00e7ava de novo na sua habitual perplexidade.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; a ad\u00faltera &#8211; prosseguiu Frei Roy acabando a frase, porque ainda a devia, e era escrupuloso e pontual no desempenho do seu minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211; Beguino! &#8211; atalhou D\u00aa Leonor, com voz tr\u00e9mula de raiva -, melhor fora que nunca essa palavra te houvesse passado pela boca; porque, talvez, um dia ela seja fatal para os que a tiverem proferido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que faremos?! &#8211; murmurou el-rei com gesto de indiz\u00edvel agonia.<\/p>\n<p>&#8211; Havia ainda h\u00e1 pouco tr\u00eas expedientes &#8211; respondeu D\u00aa Leonor, recobrando aparente serenidade -, combater, ceder, fugir. O primeiro \u00e9 j\u00e1 imposs\u00edvel; o segundo! &#8230; Porque n\u00e3o o aceitas, Fernando? Prestes estou para tudo. N\u00e3o me ver\u00e1s mais, ainda que, longe de ti, por certo estalarei de dor. Cede \u00e0 for\u00e7a: os teus vassalos o querem; qu\u00e9-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!<\/p>\n<p>&#8211; Esquecer-me de ti? N\u00e3o te ver mais? Nunca! Obedecer \u00e0 for\u00e7a? Quem h\u00e1 a\u00ed que ouse dizer ao rei de Portugal: \u201cRei de Portugal, obedece \u00e0 for\u00e7a\u201d? Os pe\u00f5es de Lisboa?! Porque sou manso na paz, n\u00e3o cr\u00eaem que a minha espada no campo da batalha corte arneses, como a do melhor cavaleiro? Bons escudeiros e homens de armas da minha hoste, por onde andais derramados? Dormis por vossas honras e solares? O povo vos acordar\u00e1, como me acordou a mim; bramir\u00e1, como os lobos da serra, ao redor de vossas moradas; saltar-vos-\u00e1 no meio de vossos banquetes, por entre o ru\u00eddo de vossos folgares. No ardor de vossos amores, dir-vos-\u00e1: \u201cDesamai!\u201d Ele ousa j\u00e1 diz\u00ea-lo a seu rei e senhor&#8230; Oh, desgra\u00e7ado de mim, desgra\u00e7ado de mim!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queres, pois, deixar-me entregue \u00e0 minha estrela? &#8211; disse D\u00aa Leonor, com voz entre de choro e de ternura, abra\u00e7ando pelo pesco\u00e7o o pobre monarca e chegando a sua fronte suave e p\u00e1lida \u00e0s faces afogueadas de D. Fernando, que, numa esp\u00e9cie de del\u00edrio, olhava espantado para ela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Viver contigo ou morrer contigo. Cairei do trono ou tu subir\u00e1s a ele.<\/p>\n<p>Um sorriso quase impercept\u00edvel se espraiou pelo rosto de Leonor Teles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo tempo de resigna\u00e7\u00e3o, prosseguiu com voz lenta, mas firme:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o resta o fugir.<\/p>\n<p>&#8211; Fugir! &#8211; exclamou el-rei. E s\u00f3 esta palavra era mais expressiva que narra\u00e7\u00e3o bem extensa dos atrozes mart\u00edrios que o mal-aventurado curtia no cora\u00e7\u00e3o irresoluto, mas generoso, com a ideia de um feito, vil e covarde em qualquer escudeiro, vil\u00edssimo num rei de Portugal, em um neto de Afonso IV.<\/p>\n<p>El-rei olhou para ela um momento. Era sereno o seu rosto ang\u00e9lico, semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas iluminuras de antigos c\u00f3dices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do s\u00e9culo d\u00e9cimo quinto, a arte moderna a muito custo p\u00f4de fazer ressurgir. O mais esperto fisionomista dificultosamente adivinharia a negrura de alma que se escondia debaixo das puras e c\u00e2ndidas fei\u00e7\u00f5es de D\u00aa Leonor, se n\u00e3o uniam entre os sobrolhos, contraindo-se e deslizando-se r\u00e0pidamente como as ves\u00edculas pe\u00e7onhentas das fauces de uma v\u00edbora.<\/p>\n<p>&#8211; Seja, pois, assim! Fujamos &#8211; murmurou D. Fernando com o tom e gesto com que o supliciado daria do alto do pat\u00edbulo o perd\u00e3o ao algoz.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor tirou do largo cinto com que apertava a airosa cintura uma bolsa de ouropel e atirou com ela aos p\u00e9s do beguino, que, de m\u00e3os cruzadas sobre o peito e os olhos semiabertos cravados na ab\u00f3boda do aposento, parecia ext\u00e1tico e engolfado nos pensamentos sublimes do c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Vinte dobras de Dom Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu sil\u00eancio. O resto da recompensa t\u00ea-lo-\u00e1s um dia, se a ad\u00faltera atravessar triunfadora o portal por onde vai sair fugitiva.<\/p>\n<p>O rir af\u00e1vel de que estas palavras foram acompanhadas dizeram correr um calafrio pela medula espinal do echacorvos, cujas pernas vacilaram. Mas o contacto das quarenta dobras que uniu imediatamente ao peito debaixo do escapul\u00e1rio lhe restituiu o vigor natural.<\/p>\n<p>El-rei havia-se sentado, quase desfalecido, no escabelo \u00fanico do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo terror e compaix\u00e3o. Quando o beguino levantou a bolsa, D. Fernando fitou nele os olhos e estendeu a m\u00e3o para o reposteiro, sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Frei Roy curvou a cabe\u00e7a, cruzou de novo as m\u00e3os sobre o peito e, recuando at\u00e9 \u00e0 porta, desapareceu no corredor escuro por onde entrara.<\/p>\n<p>Apenas os passos lentos e pesados do echacorvos deixaram de soar, D\u00aa Leonor encaminhou-se para uma janela que dava para um vasto terrado e afastou a cortina que servia durante o dia de mitigar a excess\u00edvel luz do sol. A noite ia em meio do seu curso, como o indicava o morti\u00e7o das tochas, que mal alumiavam o aposento, e a Lua, j\u00e1 no minguante, come\u00e7ava a subir na ab\u00f3bada do firmamento, mergulhando no seu clar\u00e3o sereno o brilho espl\u00eandido das estrelas. A janela estava aberta, e o escabelo de el-rei ficava pr\u00f3ximo e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto belo e triste de D. Fernando, que, embebido no seu amargurado cismar, parecia alheio ao que se passava \u00e0 roda dele e esquecido de que lhe restavam poucas horas para poder levar a cabo a resolu\u00e7\u00e3o que tomara. Leonor Teles, encostada ao mainel da janela, p\u00f4s-se a olhar atentamente. A cidade dormia, e apenas o ladro de algum c\u00e3o cortava aquela esp\u00e9cie de zumbido que \u00e9 como o respirar nocturno de uma grande povoa\u00e7\u00e3o que repousa. L\u00e1 em baixo, uma faixa tr\u00e9mula, semelhante a uma ponta de luz, cortava obl\u00ecquamente o Tejo, de onde mais largo se curvava pela margem esquerda. Os mastros de milhares de navios, emparelhados com a cidade, desde Sacav\u00e9m at\u00e9 o promont\u00f3rio onde campeava, fora dos arrabaldes, o Mosteiro de S. Francisco, formavam uma esp\u00e9cie de floresta lan\u00e7ada entre a cidade e a sua imensa ba\u00eda. Desde o terrado para o qual dava a janela at\u00e9 o rio, o bairro dos judeus, pendurado pela encosta \u00edngreme e fechado com traveses e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma esp\u00e9cie de tri\u00e2ngulo, cuja base assentava sobre o lan\u00e7o oriental da muralha mourisca, e cujo v\u00e9rtice, voltado para ocidente, se coroava com a sinagoga, abrigada \u00e0 sombra do vulto disforme da catedral. Pouco distante do terrado, entre o pal\u00e1cio e a judiaria, a claridade da Lua batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e meio arruinadas casas, que pela maior parte pareciam desabitadas. No meio dele, o que quer que era se erguia semelhante ao arco de um portal romano. Parecia ser uma ru\u00edna, um fragmento de edif\u00edcio da antiga Olisipo, que esquecera ali aos terremotos, \u00e0s guerras e aos inc\u00eandios, e ao qual finalmente chegara a sua hora de desabafar, porque uma alta escada de m\u00e3o estava encostada \u00e0 verga que assentava sobre os dois pilares laterais e os unia, como se ali a tivessem porto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e derribarem-no em terra.<\/p>\n<p>Era para esse vulto que D\u00aa Leonor se pusera a olhar atentamente.<\/p>\n<p>Depois voltou o rosto para el-rei, que, com a cabe\u00e7a baixa, os bra\u00e7os estendidos e as m\u00e3os encurvadas sobre os joelhos, parecia vergar sobre o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de compaix\u00e3o por alguns momentos e, estendendo para ele os bra\u00e7os, exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Fernando!<\/p>\n<p>Havia no tom com que foi proferida esta \u00fanica palavra um mundo de amor e voluptuosidade; mas, no meio da brandura da voz de Leonor Teles, havia tamb\u00e9m uma corda \u00e1spera; alguma cousa do rugir do tigre.<\/p>\n<p>El-rei deu um estreme\u00e7\u00e3o, como se pelos membros lhe houvera coado uma fa\u00edsca el\u00e9ctrica; ergueu-se, e atirou-se a chorar aos bra\u00e7os de Leonor Teles.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 &#8211; disse ele com voz afogada &#8211; o rei mais desonrado da cristande serei eu: o cavaleiro mais vil das Espanhas ser\u00e1 Dom Fernando de Portugal. Que me resta? S\u00f3 o teu amor; mais nada. Porque n\u00e3o me pedem antes a coroa real, que para mim tem sido coroa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh, Leonor, Leonor!, serias a mulher mais perversa, se um dia me atrai\u00e7oasses.<\/p>\n<p>Um beijo da ad\u00faltera cortou as l\u00e1stimas de el-rei. A formosura desta mulher tinha um toque divino \u00e0 claridade da lua. D. Fernando, embriagado de amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam para fugir do seu povo enganado e ludibriado por ele.<\/p>\n<p>&#8211; Fernando! &#8211; prosseguiu D\u00ba Leonor -, jura-me ainda uma vez que ser\u00e1s sempre meu, como eu serei sempre tua.<\/p>\n<p>Dizendo isto, afastou-o brandamente de si.<\/p>\n<p>&#8211; Juro-to uma e mil vezes pela f\u00e9 de leal cavaleiro que at\u00e9 hoje fui. Juro-to pelo c\u00e9u que nos cobre. Juro-to pelos ossos de meu nobre e valente av\u00f4, que ali dorme junto do altar-mor da S\u00e9, debaixo das bandeiras infi\u00e9is que conquistou no Salado. Juro-to por mais que tudo isso: juro-to pelo meu amor!<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"corpo\">\n<p>&#8211; N\u00e3o me pe\u00e7as Lisboa, que essa sabe Deus se tornar\u00e1 a ser minha, rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a cabe\u00e7a nestes pa\u00e7os de meus antepassados, passando por cima das ru\u00ednas dela! N\u00e3o me pe\u00e7as Lisboa, que talvez amanh\u00e3 deixe de um chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quiseres.<\/p>\n<p>&#8211; Quero que me d\u00eas as minhas arras: quero o pre\u00e7o do meu corpo, conforme foro de Espanha.<\/p>\n<p>&#8211; Vila Vi\u00e7osa \u00e9 alegre como um horto de flores, e Vila Vi\u00e7osa dar-ta-ei eu. O Castela de \u00d3bidos \u00e9 forte e roqueiro, s\u00e3o numerosos e prestes para defesa os seus engenhos, e o Castelo de \u00d3bidos ser\u00e1 teu. Sintra pendura-se pela montanha entre len\u00e7\u00f3is de \u00e1guas vivas, e respira o cheiro das ervas e flores que crescem \u00e0 sombra das penedias: podes ter por tua a Sintra. Alenquer \u00e9 rica no meio das suas vinhas e pomares, e Alenquer te chamar\u00e1 senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Guarda as tuas vilas, Dom Fernando, que eu n\u00e3o tas pe\u00e7o em dote; quero, apenas, uma promessa de coisa de bem pouca valia.<\/p>\n<p>&#8211; De muita ou de pouca, n\u00e3o me importa! Dar-te-ei o que me pedires.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor estendeu a m\u00e3o para a esp\u00e9cie de portada romana que se erguia solit\u00e1ria no meio do terreiro deserto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ali que tu me dar\u00e1s o pre\u00e7o do meu copo, se um dia a cerviz da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo do teu jogo real.<\/p>\n<p>El-rei lan\u00e7ou um r\u00e1pido volver de olhos para onde Leonor Teles tinha o bra\u00e7o estendido, mas recuou horrorizado. O vulto que negrejava no meio do terreiro era o pat\u00edbulo popular e pe\u00e3o: era a forca, t\u00e9trica, temerosa, maldita!<\/p>\n<p>&#8211; Leonor, Leonor! &#8211; disse el-rei com som de voz cavo e d\u00e9bil -, porque vens misturar pensamentos de sangue com pensamentos de amor? Porque interp\u00f5es um instrumento de morte e de afronta entre mim e ti? Porque preferes o fruto do cadafalso \u00e0s vilas e castelos de que te fa\u00e7o senhora? Porque trocas a estola do cl\u00e9rigo que h\u00e1-de unir-nos pelo bara\u00e7o \u00e1spero do algoz?<\/p>\n<p>&#8211; Rei de Portugal! &#8211; respondeu a mulher de Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha, com um brado de furor -, ainda me perguntas porque o fa\u00e7o? Tu nunca ser\u00e1s digno do ceptro de teu pai! Queres saber porque junto pensamentos de sangue a pensamentos de amor? \u00c9 porque esses de quem eu o pe\u00e7o pediram tamb\u00e9m o meu sangue. Queres saber porque interponho entre mim e ti um instrumento de morte e de afronta? \u00c9 porque o teu bom povo de Lisboa quis tamb\u00e9m interpor entre n\u00f3s a morte e saciar-me de afrontas. Queres que te diga porque prefiro o fruto do cadafalso \u00e0s vilas e castelos que me ofereces? \u00c9 porque para os \u00e2nimos generosos n\u00e3o h\u00e1 vender vingan\u00e7as por ouro. Vingan\u00e7a, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva! Jura-me que um dia os teus vassalos que me perseguem ser\u00e3o tamb\u00e9m perseguidos, e que essa vil plebe que cobre de inj\u00farias e pragas o meu nome, porque te amo, o amaldi\u00e7oem porque levo os seus caudilhos ao pat\u00edbulo. Este \u00e9 o pre\u00e7o do meu acorpo. Sem esse pre\u00e7o, a neta de Dom Ordonho de Le\u00e3o nunca ser\u00e1 mulher de Dom Fernando de Portugal.<\/p>\n<p>E com um bra\u00e7o estendido para o lugar sem nome do supl\u00edcio e com o outro curvado, como quem afastava de si el-rei, esta mulher vingativa era sublime de atrocidade.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o, Leonor &#8211; disse por fim D. Fernando, depois de largo sil\u00eancio, em que se afectos inconstantes do seu car\u00e1cter vol\u00favel mudaram gradualmente. &#8211; Tens raz\u00e3o. A futura rainha de Portugal ter\u00e1 o seu desagravo: as l\u00ednguas que te ofenderam calar-se-\u00e3o para sempre; os cora\u00e7\u00f5es que te desejaram a morte deixar\u00e3o de bater. No meu trono, at\u00e9 aqui de mansid\u00e3o e bondade, assentar-se-\u00e1 a crueza. Com Judas, o traidor, seja eu sepultado no Inferno, se faltar ao juramento que te fa\u00e7o de lavar em sangue a tua e a minha inj\u00faria.<\/p>\n<p>A estas palavras, o aspecto severo de D\u00aa Leonor Teles mudou-se em um sorrir de inexplic\u00e1vel do\u00e7ura.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, como te hei-de amar sempre! &#8211; murmurou ela. E estas palavras ca\u00edam dos seus l\u00e1bios meigos e suaves como o arrulhar de pomba amorosa. Um beijo ardente, que sussurou levado nas asas da brisa fresca da noite, selou esse pacto de \u00f3dio e de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Um bulh\u00e3o e uma agulha de alfaiate<\/p>\n<p>O Sol, que havia mais de meia hora subira do Oriente, cingido da sua aur\u00e9ola da vermelhid\u00e3o, no meio da atmosfera turva e acinzentada de um dia dos fins de Agosto, dava de chapa no rossio ou pra\u00e7a onde avultava o Mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas oriente, e pelo de Valverde, ao norte. J\u00e1 muitos besteiros e pe\u00f5es armados de ascumas se derramavam ao longo da parede dos pa\u00e7os de Lan\u00e7arote Pessanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas de Almafala, outros do arrabalde da Pedreira ou bairro do Almirante, outros da banda da alc\u00e1\u00e7ova, outros, enfim, desembocando das ruas estreitas e irregulares que iam dar \u00e0 opulente e c\u00e9lebre Rua Nova. Homens e mulheres apinhavam-se, aos dez e aos doze, no meio da pra\u00e7a, e \u00e0s bocas das ruas; falavam, meneavam-se, riam, chamavam-se uns aos outros. \u00c0s vezes, aquela m\u00f3 de gente, cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como a superf\u00edcie de um pego, passando o tuf\u00e3o. Incerta, vacilante, informe, s\u00f9bitamente se configurava, alinhava-se e, semelhante a tri\u00e2ngulo enorme, a quadrela gigante desfechada de trom monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro, cujas portas ainda estavam fechadas. A\u00ed hesitava, ondeava e retra\u00eda-se, como ressaltaria a folha cortadora de uma acha de armas quando n\u00e3o pudesse romper as portas chapeadas de forte castelo. Ent\u00e3o aquela multid\u00e3o tomava a forma de meia-luz, cujas pontas se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria e vinham topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira, de onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam pela vastid\u00e3o do terreiro. O povo, que dorme \u00e0s vezes por s\u00e9culos, fora acometido de uma das suas raras ins\u00f3nias e vivia essa possante vida da pra\u00e7a p\u00fablica, em que de ordin\u00e1rio \u00e9 rid\u00edculo e feroz, mas em que n\u00e3o raro \u00e9 sublime e terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Era a manh\u00e3 imediata \u00e0 noite em que ocorreram os sucessos narrados antecedentemente. O povo preparava-se para uma luta moral com seu rei; mas n\u00e3o se descuidara de vir prestes para uma luta f\u00edsica, se D. Fernando quisesse apelas para esse \u00faltimo argumento. Era a primeira vez neste reinado que a arraia-mi\u00fada dava mostras da sua for\u00e7a e reivindicava o direito de dizer armada \u201cn\u00e3o quero!\u201d O elemento democr\u00e1tico erguia-se para influir activamente na monarquia; enxertava-se nela, como princ\u00edpio pol\u00edtico, a par da aristocracia, que com a manopla de ferro arrojava a plebe contra o trono, sem pensar que brevemente este, conhecendo assim a for\u00e7a popular, se valeria dela para esmagar aqueles que ora sopravam os \u00e2nimos para a revolta e davam nova exist\u00eancia ao vulgo.<\/p>\n<p>A hora aprazada para a vinda de el-rei ainda n\u00e3o havia batido: mas o povo orgulhoso da import\u00e2ncia que s\u00f9bitamente se lhe dera, embevecido na ideia de que obrigaria el-rei a quebrar os la\u00e7os adulterinos que o uniam a Leonor Teles, n\u00e3o media o tempo pelo curso do Sol, mas sim pelo fervor da sua impaci\u00eancia. Duas vezes se espalhava a voz de que D. Fernando chegara, e duas vezes o povo correra para o alpendre do mosteiro. As portas da igreja estavam, por\u00e9m, fechadas, bem como a portaria e as estreitas e agudas frestas do mosteiro g\u00f3tico que, formado apenas de um pavimento t\u00e9rreo e humilde, contrastava com a magnific\u00eancia do templo, em cujas portadas profundas, sobre os colunelos pontiagudos que sustinham os fechos e chaves da ab\u00f3bada, os animais monstruosos e h\u00edbridos, os centauros, os s\u00e1tiros e os dem\u00f3nios, avultados na pedra dos capit\u00e9is por entre as folhagens de carvalho e de l\u00f3d\u00e3o, pareciam, com as visagens truanescas que nas faces mortas lhes imprimira o escultor, escarnecerem da c\u00f3lera popular, que, lenta como os estos do oceano, come\u00e7ava a crescer e a trasbordar. Apenas, l\u00e1 dentro, se ouviam de vez em quando as harmonias saudosas do \u00f3rg\u00e3o e do cantoch\u00e3o mon\u00f3tono dos frades, que ofereciam a Deus as preces matutinas. Era ent\u00e3o que o povo escutava: e retra\u00eda-se arrastado pelas blasf\u00eamias e pragas que sa\u00edam de mil bocas e que eram repelidas do santu\u00e1rio pelo sussuro dos c\u00e2nticos que reboavam dentro da igreja, e que transudavam por todos os poros do gigante de pedra um murm\u00fario de paz, de resigna\u00e7\u00e3o e de confian\u00e7a em Deus.<\/p>\n<p>O povo, por\u00e9m, era como os homens robustos do g\u00e9nesis: era \u00edmpio, porque era robusto.<\/p>\n<p>O dia crescia, e crescia com ele a desconfian\u00e7a. As not\u00edcias corriam encontradas: ora se dizia que el-rei cedia aos desejos dos seus vassalos e dos pe\u00f5es, e que viria anunciar ao povo a sua separa\u00e7\u00e3o de Leonor Teles; ora, pelo contr\u00e1rio, se asseverava que ele era firme em sustentar a resolu\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Havia, at\u00e9, quem asseverasse que na alc\u00e1\u00e7ova e no terreiro de S. Martinho se come\u00e7avam a ajuntar homens de armas e besteiros. A c\u00f3lera popular crescia, porque a ati\u00e7ava j\u00e1 o temor.<\/p>\n<p>No meio de uma pilha de galeotes, carniceiros, pescadores, moleiros, lagareiros e alfagemas, dois homens altercavam violentamente. Eram Airas Gil e Frei Roy: objecto da disputa Fern\u00e3o Vasques; arguente o petintal; defendente o beguino.<\/p>\n<p>&#8211; Que n\u00e3o vir\u00e1 vos digo eu &#8211; gritava Airas Gil. &#8211; Disse-mo Garciordonez, o mercador de panos que mora ao cabo da Rua Nova, aos a\u00e7ougues, defronte das taracenas del-rei.<\/p>\n<p>&#8211; Mentiu pela gorja, como um perro judeu &#8211; replicou Frei Roy. &#8211; N\u00e3o era Fern\u00e3o Vasques homem que faltasse a este auto, tendo-o a arraia-mi\u00fada elegido por seu propoedor.<\/p>\n<p>&#8211; Medo ou dobras do pa\u00e7o podem tapar a boca aos mais ousados e faz\u00ea-los dormir at\u00e9 desoras &#8211; retrucou o petintal.<\/p>\n<p>&#8211; Que fazem falar as dobras do pa\u00e7o, seu eu &#8211; tornou o beguino com riso sard\u00f3nico, lembrando-se do que nessa noite passara -: medo sabeis v\u00f3s que faz fugir; inveja sabemos n\u00f3s todos que faz imaginar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Descaro e garganto\u00edce que faz mendigar &#8211; interrompeu Airas Gil, vermelho de c\u00f3lera, cerrando os punhos e descaindo para o echacorvos como gal\u00e9 que vai aferrar outra em combate naval.<\/p>\n<p>&#8211; Ecommunicabo vos &#8211; murmurou Frei Roy, fazendo-se prestes para resistir ao abalroar do petintal.<\/p>\n<p>E o vulgacho que estava de roda ria e batia as palmas.<\/p>\n<p>Nisto os gritos de alc\u00e1cer!, alc\u00e1cer!\u201d reboaram para outro lado da pra\u00e7a: o povo correu para l\u00e1. Os dois campeadores voltaram-se: era o alfaiate.<\/p>\n<p>Sem dizer palavra, o beguino olhou com gesto de profundo desprezo para Airas Gil e, tomando uma postura entre her\u00f3ica e de inspirado, estendeu o bra\u00e7o e o \u00edndex para o lugar onde passava Fern\u00e3o Vasques. Depois, partiu com a turbamulta que o rodeava, enquanto o petintal o seguia de longe lento e cabisbaixo.<\/p>\n<p>O alfaiate, cercado de outros cabe\u00e7as do tumulto da v\u00e9spera, encaminhou-se para alpendrada de S. Domingos. Trazia vestida uma saia de valencina refor\u00e7ada, cal\u00e7as de bifa, sapatos de pele de gamo, chapeir\u00e3o de ingr\u00eas com fita de momperle e cinta de couro, tudo escuro, ao modo popular. Com passos firmes subiu os degraus do alpendre. Dali, em p\u00e9, com os bra\u00e7os cruzados, correu com os olhos a pra\u00e7a, onde entre o povo apinhado se fizera repentino sil\u00eancio. Depois tirando o chapeir\u00e3o, cortejou a turbamulta para um e outro lado; os seus gestos e ademanes eram j\u00e1 os de um tribuno.<\/p>\n<p>&#8211; Alc\u00e1cer, alc\u00e1cer pela arraia-mi\u00fada! Alc\u00e1cer por el-rei Dom Fernando de Portugal, se desfizer nosso torto e sua vilta, sen\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Esta exclama\u00e7\u00e3o de um alentado alfageme que estava pegado com a balaustrada do alpendre foi repetida em grita confusa por milhares de bocas.<\/p>\n<p>De repente, do lado da Rua de Gileanes, sentiu-se um tropear de cavalgaduras, que parecia correrem \u00e0 r\u00e9dea solta. Todos os olhos se volveram para aquela banda: muitos rostos empalideceram.<\/p>\n<p>Uma voz de terror girou pelo meio das turbas. \u201cS\u00e3o homens de armas de el-rei!\u201d Aquele oceano de cabe\u00e7as humanas redemoinhou, a estas palavras, e come\u00e7ou a dividir-se como o mar Vermelho diante de Mois\u00e9s. Num momento viu-se uma larga faixa esbranqui\u00e7ada cortar aquela superf\u00edcie m\u00f3vel e escura: era ampla estrada que se abria por entre ela, desde a Rua de Gileanes at\u00e9 S. Domingos. As paredes dessa estrada adelga\u00e7avam-se r\u00e0pidamente. Para as bandas da Mouraria e da Pedreira, os becos e encruzilhadas apinhavam-se de gente, e os reflexos dos ferros das ascumas populares, que erguidas cintilavam ao sol, come\u00e7aram a descer e a sumir-se, como as luzinhas das bruxas em s\u00edtio brejoso aos primeiros assomos do alvorecer. Fern\u00e3o Vasques olhou em redor de si: estava s\u00f3. Descorou, mas ficou im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Entretanto, o tropear aproximava-se cada vez com mais alto ru\u00eddo. Os besteiros do concelho postados ao longo dos Pa\u00e7os do Almirante eram, talvez, os \u00fanicos em quem o terror n\u00e3o fizera profunda impress\u00e3o: alguns j\u00e1 haviam estendido sobre o bra\u00e7o da besta os virotes ervados e, revolvendo a pol\u00e9, faziam encurvar o arco para o tiro. Os besteiros de garrucha tinham j\u00e1 o dente desta embebido na corda, prontos a desfechar ao primeiro refulgir dos montantes nus dos cavaleiros e escudeiros reais. Do resto do povo, os ousados eram os que recuavam; porque o maior n\u00famero voltava as costas e internava-se pelas azinhagas dos hortos de Valverde e das vinhas de Almafala ou trepava pelas ruas escuras e mal-gradadas do bairro do Almirante.<\/p>\n<p>Mas, no meio deste susto geral, aparecera um her\u00f3i. Era Frei Roy. Ou fosse imprudente confian\u00e7a no cargo oculto que lhe dera D\u00aa Leonor, ou fosse robustez de \u00e2nimo, ou fosse, finalmente, a persuas\u00e3o de que o h\u00e1bito de beguino lhe serviria de broquel, longe de recuar ou titubear, correu para a quina da rua de onde rompia o ru\u00eddo e, mirando pela aresta do \u00e2ngulo um breve espa\u00e7o, voltou-se para o povo e, curvando-se com as m\u00e3os nas ilhargas, desatou em estrondosas gargalhadas.<\/p>\n<p>Tudo ficou pasmado; mas, vendo e ouvindo o rir descompassado do echacorvos, o povo come\u00e7ou a refluir para a pra\u00e7a. Aquelas risadas produziam mais \u00e2nimo e entusiasmo que os \u201cquarenta s\u00e9culos vos contemplam\u201d de Napole\u00e3o na batalha das Pir\u00e2mides. Os amotinados recobraram num instante toda a anterior energia.<\/p>\n<p>Esta cera tinha sido rapid\u00edssima: todavia, ainda grande parte dos populares hesitava entre o ficar e o fugir, quando se reconheceu claramente a causa daquele temor que apertara por algum tempo todos os cora\u00e7\u00f5es. Era a Corte que chegava.<\/p>\n<p>Montados em mulas possantes, os oficiais da casa real, os ricos-homens, conselheiros e ju\u00edzes do Desembargo vinham assistir ao auto solene em que da boca de el-rei a na\u00e7\u00e3o devia ouvir ou uma resolu\u00e7\u00e3o conforme com os desejos tanto da arraia-mi\u00fada como dos senhores e cavaleiros, ou a confirma\u00e7\u00e3o de um casamento mal agourado por muitos nobres e por todos os burgueses, e condenado, de n\u00e3o duvidoso modo, por estes \u00faltimos. No meio das variadas cores dos trajos cortes\u00f5es negrejavam as garnachas dos letrados e cl\u00e9rigos do pa\u00e7o, e entre o reduzir dos espl\u00eandidos arreios das mulas alentadas e fogosas dos vassalos seculares, dos alcaides-mores e senhores viam-se rojar os gualdrapas dos mestres em leis e degredos, dos sabedores e letrados que constitu\u00edam o supremo tribunal da monarquia, a c\u00faria ou desembargo de el-rei.<\/p>\n<p>A numerosa cavalgada atravessou o terreiro por entre o povo apinhado. Em todos os rostos transluzia o receio acerca de qual seria o desfecho deste drama terr\u00edvel e imenso, em que entravam representantes de todas as classes sociais.<\/p>\n<p>Entre os membros daquela lustrosa companhia distingui-a por seu porte altivo o conde de Barcelos, D. Jo\u00e3o Afonso Telo, tio de D\u00aa Leonor, a quem nos diplomas dessa \u00e9poca se d\u00e1 por excel\u00eancia o nome de \u201cfiel conselheiro\u201d. Quando os amores de el-rei com sua sobrinha come\u00e7aram, ele fizera, sincera ou simuladamente, grandes dilig\u00eancias para desviar o monarca de levar avante os seus intentos. D. Fernando persistia, todavia, neles, e ent\u00e3o o conde, juntamente com a infanta D\u00aa Beatriz e com D\u00aa Maria Teles, irm\u00e3 de D\u00aa Leonor, suscitara a ideia de a divorciar de Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha. O povo sabia isto e, posto que houvesse estendido a sua m\u00e1 vontade a todos os parentes de Leonor Teles, odiava principalmente o conde, como protector daqueles ad\u00falteros amores. Foi, portanto, nele que se cravaram os olhos dos populares, que, tendo-se em poucas horas elevado at\u00e9 \u00e0 altura do trono, ousavam, tamb\u00e9m, dar testemunho p\u00fablico do seu \u00f3dio contra o mais distinto membro da fidalguia.<\/p>\n<p>&#8211; Velha raposa, em que te pese, n\u00e3o ser\u00e1 a ad\u00faltera rainha da boa terra de Portugal! &#8211; gritava um carniceiro, voltando-se para uma velha que estava ao p\u00e9 dele, mas olhando de trav\u00e9s para o conde, que perpassava.<\/p>\n<p>&#8211; Leal conselheiro de barreguices, por quanto vendeste a honra do compadre Louren\u00e7o? &#8211; perguntava um alfageme, fingindo falar com um vizinho, mas lan\u00e7ando tamb\u00e9m os olhos para D. Jo\u00e3o Afonso Telo.<\/p>\n<p>&#8211; Que tendes v\u00f3s com o lobo que empece ao lobo? &#8211; acudiu um lagareiro calvo e curvado debaixo do peso dos anos. &#8211; Deixai-os morder uns aos outros, que \u00e9 sinal de Deys se amercear de n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; O que eles mereciam &#8211; interrompeu uma regateira &#8211; era serem atagantados com boas tiras de couro cru.<\/p>\n<p>&#8211; E ela, tia Dordia? &#8211; acrescentou um ferreiro. &#8211; Conheceis v\u00f3s a combor\u00e7a? \u00c0s vezes a quisera eu: uma do alcaide no chuma\u00e7o; outra do coitado nas costas dela!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 costume, ergo direita a pena &#8211; notou um procurador, que gravemente contemplava aquele espect\u00e1culo e que at\u00e9 ali guardara sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Estas inj\u00farias, que, como o fogo de um pelot\u00e3o, se disparavam ao longo das extensas e fundas fileiras dos populares, iam ferir os ouvidos do conde de Barcelos, que, fingindo n\u00e3o lhes dar aten\u00e7\u00e3o, empalidecia e corava sucessivamente e mordia os bei\u00e7os de c\u00f3lera.<\/p>\n<p>De quando em quando, o vociferar afrontoso da gentalha era afogado no ru\u00eddo de risadas descompostas, mais insolentes cem vezes que as inj\u00farias; porque no rir do vulgo h\u00e1 o que quer que seja t\u00e3o cruel e insultuoso, que faz dar em terra o maior cora\u00e7\u00e3o e o \u00e2nimo mais robusto.<\/p>\n<p>Entre os parciais de D\u00aa Leonor que vinham naquela comitiva viam-se, por\u00e9m, muitos fidalgos e letrados que ou eram pessoalmente seus inimigos ou, pelo menos, desaprovavam alta e francamente a sua uni\u00e3o com el-rei. Diogo Lopes Pacheco era o principal entre eles, e o povo, ao v\u00ea-lo passar, saudou-o com um murm\u00fario que foi como a recompensa do velho pelas desventuras da sua vida, desventuras que devera a um caso an\u00e1logo, a morte de D\u00aa In\u00eas de Castro.<\/p>\n<p>Quando os fidalgos, cavaleiros e letrados da casa e conselho de el-rei se apearam junto aos degraus do alpendre do mosteiro, o alfaiate, que viera misturar-se com o povo logo que desembocaram na pra\u00e7a, subiu ap\u00f3s eles e esperou que se sentassem no extenso banco de castanho que corria ao longo da alpendrada. Depois voltou-se para a multid\u00e3o apinhada em redor:<\/p>\n<p>&#8211; Se el-rei ainda n\u00e3o \u00e9 presente &#8211; disse em voz intelig\u00edvel e firme &#8211; a\u00ed tendes para ouvir vossos agravamentos os senhores de seu conselho: porventura que eles poder\u00e3o dar-vos resposta em nome de sua senhoria, e ele vir\u00e1 depois confirmar o seu dito.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Fern\u00e3o Vasques, sois o nossos propoedor: a v\u00f3s toca falar &#8211; replicou um do povo.<\/p>\n<p>&#8211; Assim o queremos! Assim o queremos! &#8211; bradou a turbamulta.<\/p>\n<p>O alfaiate voltou-se ent\u00e3o para os cortes\u00e3os, conselheiros e letrados do Desembargo de el-rei e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Senhores, a mim deram carrego estas gentes que aqui est\u00e3o juntas de dizer algumas cousas a el-rei nosso senhor que entendem por sua honra e servi\u00e7o; e porque \u00e9 direito escrito que, sendo as partes principais presentes, o of\u00edcio de procurador deve cessar no que elas bem souberem dizer, v\u00f3s outros que sois principais partes neste feito, e a que isto mais tange que a n\u00f3s, dev\u00edeis dizer isto, e eu n\u00e3o: por\u00e9m, n\u00e3o embargando que assim seja, eu direi aquilo de que me deram carrego, pois v\u00f3s outros em elo n\u00e3o quereis p\u00f4r m\u00e3o, mostrando que vos doeis pouco da honra e do servi\u00e7o de el-rei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, vil\u00e3o! &#8211; bradou, erguendo-se, o conde de Barcelos, com voz afogada da c\u00f3lera, que j\u00e1 n\u00e3o podia conter -, se n\u00e3o queres que seja eu quem te fa\u00e7a resfolgar sangue, em vez de inj\u00farias, por essa boca sandia.<\/p>\n<p>O velho Pacheco p\u00f4s-se tamb\u00e9m em p\u00e9, exclamando:<\/p>\n<p>&#8211; Conde de Barcelos, lembrai-vos de que os burgueses t\u00eam por costume antigo o direito de dizerem aos reis seus agravamentos, de se queixarem e de os repreenderem. N\u00f3s somos menos que os reis.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Vasques tinha-se entretanto voltado para o povo apinhado ao redor do alpendre, com o rosto enfiado, mas era de indigna\u00e7\u00e3o, e havia feito um sinal com a cabe\u00e7a. No mesmo instante o povo abrira uma larga clareira, e quando os fidalgos e conselheiros, atentos para o conde e para Diogo Lopes, voltaram os olhos para o rossio, ao tropear da multid\u00e3o, um semic\u00edrculo de mais de quinhentos besteiros e pe\u00f5es armados fazia uma grossa parede em frente dos populares.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Vasques encaminhou-se ent\u00e3o para D. Jo\u00e3o Afonso Telo e, com a m\u00e3o tr\u00e9mula de raiva, segurando-o por um bra\u00e7o, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor conde, v\u00f3s sois que doestais os honrados burgueses desta leal cidade em minha pessoas; porque eu nada fiz, sen\u00e3o repetir em voz alta o que cada um e todos me ordenaram repetisse. O que propus n\u00e3o \u00e9 meu. Eis seus autores! Pelo que a mim toca, senhor conde, n\u00e3o receio vossas amea\u00e7as. Quando o nobre despe o gib\u00e3o de ferro para vestir o de tela, n\u00e3o sei eu se este \u00e9 mais forte que o do pe\u00e3o e se, tamb\u00e9m, a sua boca n\u00e3o pode golfar sangue, como a de um pobre vil\u00e3o.<\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o forcejava por desasir-se do alfaiate, procurando levar a m\u00e3o \u00e0 cinta, onde tinha o punhal; mas Fern\u00e3o Vasques era mais for\u00e7oso, e o conde j\u00e1 tinha entrado na idade em que costuma minguar a robustez do homem. N\u00e3o p\u00f4de chegar com a m\u00e3o ao cinto.<\/p>\n<p>&#8211; Conde de Barcelos &#8211; prosseguiu o alfaiate, com um sorriso -, n\u00e3o recorrais a esse argumento; porque eu tamb\u00e9m estou habituado a lidar com ferros azerados, ainda que mais delgados e curtos que o vosso bulh\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras, ditas em tom de esc\u00e1rnio, mal foram ouvidas: a grita na pra\u00e7a era j\u00e1 espantosa; ares, produziam aquele rouco e grande brado da f\u00faria abismando-se por cavernas imensas.<\/p>\n<p>Os fidalgos e letrados tinham rodeado os dois contendores: os parciais de D\u00e9 Leonor, o conde; os outros, cujo n\u00famero era muito maior, o alfaiate. E tanto estes como aqueles trabalhavam em apazigu\u00e1-los, posto que todos os \u00e2nimos estivessem quase t\u00e3o irritados como os dos dois contendores.<\/p>\n<p>Finalmente, o conde cedeu. O aspecto da multid\u00e3o, que se agitava furiosa, contribuiu, porventura, mais para isso que todas as raz\u00f5es e rogativas dos fidalgos e cavaleiros, at\u00f3nitos com o espect\u00e1culos da ousadia popular: desta ousadia que, menoscabando as amea\u00e7as do primeiro entre os nobres, era mais incr\u00edvel que a da v\u00e9spera, a qual apenas se atrevera ao trono.<\/p>\n<p>Que fazia, por\u00e9m, o nosso beguino no meio destes prel\u00fadios de uma eminente assuada? \u00c9 o que o leitor ver\u00e1 no seguinte cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Mil dobras p\u00e9-terra e trezentas barbudas<\/p>\n<p>Mal Fern\u00e3o Vasques travara do bra\u00e7o do conde de Barcelos, e a grita popular come\u00e7ara a atroar a pra\u00e7a, Frei Roy, escoando-se ao longo da parede do mosteiro, dobrara a quina que voltava para a Corredoura e, seguindo seu caminho por vielas torcidas e desertas, chegara \u00e0 Porta do Ferro, de onde, atravessando o cont\u00edguo e mal-assombrado terreirinho que os raios do sol apenas alumiavam poucas horas do dia, embargados, ao nascer, pelos agigantados campan\u00e1rios da catedral e, ao declinar, pelos panos e torres da muralha mourisca, chegara esbaforido a S. Martinho. A porta do pa\u00e7o estava fechada, mas a da igreja estava aberta. Entrou. Ao lado direito uma escada de caracol descia da tribuna real para a capela-mor, e a tribuna comunicava com o pal\u00e1cio por um passadi\u00e7o que atravessava a rua. O beguino olhou ao redor de si e escutou um momento: ningu\u00e9m estava na igreja. Subindo r\u00e0pidamente a escada, Frei Roy atravessou o passadi\u00e7o e encaminhou-se, sem hesitar no meio dos corredores e escadas interiores, para uma passagem escura. No fim dela havia uma porta fechada. O monge vagabundo parou e escutou de novo. Dentro altercavam tr\u00eas pessoas: Frei Roy bateu devagarinho tr\u00eas vezes, e p\u00f4s-se outra vez a escutar.<\/p>\n<p>Ouviram-se uns passos lentos que se aproximavam da porta, e uma voz esgani\u00e7ada e col\u00e9rica perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; Eu &#8211; respondeu o beguino.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 eu? &#8211; replicou a voz.<\/p>\n<p>&#8211; Honrado Dom Judas, \u00e9 Frei Roy Zambrana, indigno servo de Deus, que pretende falar a el-rei ou \u00e0 mui excelente senhora Dona Leonor, para neg\u00f3cio de vulto.<\/p>\n<p>&#8211; Abre, Dom Judas, abre! &#8211; disse outra voz, que pelo metal parecia feminina e que soou do lado oposto do aposento.<\/p>\n<p>A porta rodou nos gonzos, e o echacorvos entrou.<\/p>\n<p>Era o lugar onde Frei Roy se achava uma quadra pequena, alumiada escassamente por uma fresta esguia e engradada de grossos var\u00f5es de ferro, a qual dava para uma esp\u00e9cie de sagu\u00e3o, ainda mais acanhado que o aposento. A ab\u00f3bada deste era de pedra; de pedra as paredes e o pavimento: ao redor viam-se por \u00fanico adere\u00e7o muitas arcas chapeadas de ferro. O monge entrara na casa das arcas da Coroa &#8211; do \u201crec\u00e1bedo do regno\u201d. As duas personagens que ali estavam, afora a que abrira a porta, eram D. Fernando e D\u00aa Leonor. El-rei, de p\u00e9, curvado sobre uma das arcas, com a fronte firmada sobre o bra\u00e7o esquerdo, folheava um desconforme volume de folhas de pergaminho, cujas guardas eram duas alentadas t\u00e1buas de castanho, forradas exteriormente de couro cru de boi, ainda com p\u00ealo. D\u00aa Leonor, tamb\u00e9m em p\u00e9 por detr\u00e1s de el-rei, olhava atentamente para as p\u00e1ginas do livro. O que abrira a porta era o tesoureiro-mor, D. Judas, grande afei\u00e7oado de D\u00aa Leonor e valido de el-rei. O judeu apenas voltara a ponderosa chave, sem volver sequer os olhos para o rec\u00e9m-chegado, tornara imediatamente para o p\u00e9 da arca a que el-rei estava encostado e prosseguira a veemente conversa\u00e7\u00e3o cujos \u00faltimos ecos Frei Roy ouvira ao aproximar-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mil dobras p\u00e9-terra e trezentas barbudas s\u00e3o todo o dinheiro que o vosso fiel tesoureiro vos p\u00f3de apurar neste momento, respigando, como a pobre Rute, no campo do vosso tesouro, ceifado e bem ceifado (aqui o judeu supirou) por aqueles que, talvez, menos leais vos sejam. Jurar-vos-ei sobre a toura, se o quereis, que n\u00e3o fica em meu poder uma pojeia.<\/p>\n<p>El-rei n\u00e3o o escutava. Apenas Frei Roy entrara, D\u00aa Leonor havia-se encaminhado para o echacorvos e, lan\u00e7ando-lhe um olhar escrutador, perguntava com vis\u00edvel ansiedade:<\/p>\n<p>&#8211; Beguino, a que voltaste aqui?<\/p>\n<p>&#8211; A cumprir com minha obriga\u00e7\u00e3o, apesar de v\u00f3s me terdes dado ontem por quite e livre. Vim a dizer-vos que, a estas horas, talvez tenha j\u00e1 corrido sangue no rossio de Lisboa, e que \u00e9 espantoso o tumulto dos populares contra os do conselho e contra os senhores e fidalgos da casa e valia de el-rei.<\/p>\n<p>Fora \u00e0 palavra \u201csangue\u201d que D. Fernando havia cessado de atender \u00e0 voz esgani\u00e7ada do tesoureiro-mor, que continuava em tom de lamenta\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabeis, senhor, que tenho empobrecido em vosso servi\u00e7o e que hoje sou um dos mais mesquinhos e miser\u00e1veis entre os filhos de Israel. Aonde irei eu buscar dois mil maravedis velhos de Al\u00e9m-Douro, que s\u00e3o, em moeda vossa, trezentos e noventa mil soldos?<\/p>\n<p>&#8211; Sangue, dizes tu, beguino? &#8211; exclamou el-rei. &#8211; Oh, que \u00e9 muito! A quem se atreveram assim esses populares malditos?<\/p>\n<p>&#8211; Eu pr\u00f3prio vi o nobre conde de Barcelos travar-se com Fern\u00e3o Vasques; mui grande n\u00famero de besteiros e pe\u00f5es armados de ascumas rodeavam j\u00e1 o alpendre de S\u00e3o Domingos, e os clamores de \u201cmorram os traidores\u201d atroavam a pra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que me d\u00eaem o meu arn\u00eas brunido, a minha capelina de camal e o meu estoque franc\u00eas &#8211; gritou D. Fernando, escumando de c\u00f3lera. &#8211; Eu irei a S\u00e3o Domingos e salvarei os ricos-homens de Portugal ou acabarei ao p\u00e9 deles. Pajens!, onde est\u00e1 o meu donzel de armas?<\/p>\n<p>&#8211; O teu donzei de armas, rei Dom Fernando &#8211; interrompeu com voz pausada e firme D\u00aa Leonor -, segue com os outros pajens caminho de Santar\u00e9m, montado no teu cavalo de batalha. Aqui, s\u00f3 tens a mula do teu corpo para seguires jornada.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o conde de Barcelos! O meu leal conselheiro, deix\u00e1-lo-ei despeda\u00e7ar pelos pe\u00f5es desta cidade abomin\u00e1vel? Lembra-te de que \u00e9 teu tio; que foi o teu protector, quando o bra\u00e7o de Dom Fernando ainda se n\u00e3o erguera para te coroar rainha.<\/p>\n<p>&#8211; Rei de Portugal, \u00e9s tu que deves lembrar-te dele, quando o dia da vingan\u00e7a chegar. Ent\u00e3o cumprir\u00e1 que os traidores e vis te vejam montado no teu ginete de guerra. Hoje n\u00e3o podes sen\u00e3o deixar entregue \u00e0 sua sorte o nobre Dom Jo\u00e3o Afonso e os senhores que s\u00e3o com ele; mas n\u00e3o te esque\u00e7a que, se o seu sangue correr, todo o sangue que derramares para o vingar ser\u00e1 pouco, como ser\u00e3o poucas todas as l\u00e1grimas que eu verterei sem consola\u00e7\u00e3o sobre os seus vener\u00e1veis restos. Combateres? Ajudado por quem, numa cidade revolta? Os homens de armas do teu castelo quebraram seu preito e tumultuam na pra\u00e7a: muitos de teus ricos-homens est\u00e3o conjurados contra ti: teu pr\u00f3prio irm\u00e3o o est\u00e1. Partir!, partir! H\u00e1 quantas horas sabes tu que a \u00faltima esperan\u00e7a est\u00e1 no partir breve? Porque, depois de tantas hesita\u00e7\u00f5es, ainda hesitar uma vez? Asseguremos ao menos a vingan\u00e7a, se n\u00e3o pudermos salvar aqueles que, leais a seu senhor, se foram expor \u00e0 f\u00faria da vilanagem para esconder nossa fuga&#8230; fuga; que \u00e9 o seu nome!<\/p>\n<p>O furor e o despeito revelavam-se nas faces e nos l\u00e1bios esbranqui\u00e7ados da ad\u00faltera, e a afli\u00e7\u00e3o e o temor comprimidos atrai\u00e7oavam-se numa l\u00e1grima que lhe rolou insens\u00ecvelmente dos olhos. Era uma das rar\u00edssimas que derramara na sua vida.<\/p>\n<p>El-rei tinha escutado im\u00f3vel. Desacostumado de ter vontade pr\u00f3pria, desde que (como dizia o povo) esta mulher o enfeiti\u00e7ara, ainda mais uma vez cedeu da sua resolu\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o de homem cordato, ao menos de valoroso, e respondeu em voz sumida:<\/p>\n<p>&#8211; Partamos. E seja feita a vontade de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c1men! &#8211; murmurou o echacorvos.<\/p>\n<p>&#8211; Beguino &#8211; interrompeu D\u00aa Leonor, voltado-se para Frei Roy -, corre j\u00e1 no rossio de S\u00e3o Domingos e diz em voz bem alta aos populares amotinados que me viste partir com el-rei caminho de Santar\u00e9m. Talvez assim o conde seja salvo, porque a f\u00faria desses vis sandeus se voltar\u00e1 contra mim. Dize-o, que dir\u00e1s a verdade: quando l\u00e1 houveres chegado o meu palafr\u00e9m ter\u00e1 transposto as Prtas da Cruz. Guardai-vos, mesquinhos, que ele a torne a passar com sua dona. Echacorvos!, esse dia ser\u00e1 aquele em que a \u201cad\u00faltera\u201d pague todas as suas d\u00edvidas.<\/p>\n<p>Frei Roy sentiu pela medula dorsal o mesmo calafrio que sentira na noite antecedente; porque o olhar que Leonor Teles cravou nele era diag\u00f3lico, e a palavra \u201cad\u00faltera\u201d, proferida por ela, soava como um dobrar de campa e vinha como envolta num h\u00e1lito de sepulcro: o beguino arrependeu-se, desta vez mui s\u00e8riamente, de ter sido t\u00e3o mi\u00fado e exacto na \u201cparte oficial\u201d, que apresentara na v\u00e9spera. Calou-se, todavia, e saiu com o seu adem\u00e3 do costume, cabe\u00e7a baixa e m\u00e3os cruzadas no peito.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas ficaram outra vez s\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Dom Judas, meu bom Dom Judas &#8211; disse el-rei com gesto de afli\u00e7\u00e3o -, n\u00e3o entendo estas embrulhadas letras mouriscas da tua aritm\u00e9tica. Estou certo de que n\u00e3o deves ao tesouro real uma \u00fanica mealha e de que nas arcas do haver n\u00e3o existe sen\u00e3o o que tu dizes: mas, decerto, n\u00e3o queres que um rei de Portugal caminhe por seu reino como romeiro mendigo. Ao menos os dois mil maravedis de ouro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai &#8211; suspirou o tesoureiro-mor -, juro a vossa real senhoria que me \u00e9 imposs\u00edvel achar agora outra quantia maior que a de mil dobras p\u00e9-terra e trezentas barbudas.<\/p>\n<p>&#8211; Fernando &#8211; atalhou Leonor Teles -, ordena aos mo\u00e7os do monte que a\u00ed ficaram que enfreiem as mulas: devemos partir j\u00e1. \u00c9 t\u00e3o meu afei\u00e7oado Dom Judas que, com duas palavras, eu obterei o que tu n\u00e3o pudeste obter com tantas rogativas.<\/p>\n<p>Ela sorriu alternativamente com um sorriso ang\u00e9lico para el-rei e para o tesoureiro-mor. D. Fernando obedeceu e, alevantando o reposteiro que encobria uma porta fronteira \u00e0quela por onde entrara o beguino, desapareceu. O tesoureiro ia a falar; mas ficou com a boca semiaberta, o rosto p\u00e1lido e como petrificado, vendo-se a s\u00f3s com D\u00aa Leonor. Era que j\u00e1 a conhecia havia largos tempos.<\/p>\n<p>&#8211; Dom Judas &#8211; disse esta em tom mavioso -, tu h\u00e1s-de fazer servi\u00e7o a el-rei para esta jornada. Dar\u00e1s os dois mil maravedis velhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso! &#8211; respondeu D. Judas com voz tr\u00e9mula e afogada.<\/p>\n<p>&#8211; Judeu! &#8211; replicou D\u00aa Leonor, apontando para um cofre pequeno que estava no canto mais escuro do aposento, coberto de tr\u00eas altos de p\u00f3 -, o que est\u00e1 naquela arca?<\/p>\n<p>O tesoureiro-mor, depois de hesitar por momentos, balbuciou estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; ou, a falar verdade&#8230; quase nada. Bem sabeis que, dantes, guardava ali algumas mealhas que me sobejavam da minha quantia; mas h\u00e1 muito que nem essas poucas mealhas me restam.<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos, todavia &#8211; tornou D\u00aa Leonor, cujo aspecto se carregava.<\/p>\n<p>&#8211; Miseric\u00f3rdia! &#8211; bradou D. Judas com indiz\u00edvel agonia. Mas, reportando-se, por um destes arrojos que os grandes perigos inspiram, procurou disfar\u00e7ar o seu susto, continuando com riso contrafeito:<\/p>\n<p>&#8211; Miseric\u00f3rdia, digo; porque fora mais f\u00e1cil achar entre os amotinados do rossio um homem leal a seu rei, do que eu lembrar-me agora do lugar onde terei a chave de uma arca h\u00e1 tanto tempo in\u00fatil e vazia.<\/p>\n<p>&#8211; Perro infiel! Eu te vou recordar quem pode dizer onde a havemos de achar.<\/p>\n<p>&#8211; Estais hoje, mui excelente senhora, merenc\u00f3ria e irosa &#8211; replicou o tesoureiro-mor, trabalhando por dar \u00e0s suas palavras o tom da galantaria, mas, vis\u00ecvelmente, cada vez mais enfiado e tr\u00e9mulo. &#8211; Assim chamais perro infiel ao vosso leal servidor, por causa de uma chave in\u00fatil que se perdeu? Todavia, dizei quem sabe dela, que eu a irei procurar.<\/p>\n<p>&#8211; Generoso e leal tesoureiro! &#8211; interrompeu D\u00aa Leonor, imitando o tom das palavras do judeu, como quem gracejava -, n\u00e3o te d\u00eas a esse trabalho, por tua vida. Quem pode faz\u00ea-la aparecer \u00e9 um velho c\u00e3o descrido que mora na comuna de Santar\u00e9m. Eu sei de um rem\u00e9dio que lhe restituir\u00e1 \u00e0 l\u00edngua a presteza de uma l\u00edngua de mancebo de vinte anos. O seu nome \u00e9 Issachar. Conhece-lo?<\/p>\n<p>&#8211; Alta e poderosa senhora, v\u00f3s falais de meu pobre pai! &#8211; respondeu o tesoureiro-mor, redobrando-lhe a palidez. &#8211; Mas tratemos agora do que importa. Com mil e quinhentos dobras p\u00e9-terra e trezentas barbudas, que eu disse a meu senhor el-rei estarem prestes&#8230;<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor lan\u00e7ou para o judeu um olhar de esc\u00e1rnio e prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Do que importa \u00e9 que eu trato. Sabes tu, meu querido Dom Judas, que, sejam as tuas dobras mil ou quinhentas, amanh\u00e3, a estas horas, eu Dona Leonor Teles, a rainha de Portugal. estarei em Santar\u00e9m? Ouviste j\u00e1 dizer que, em n\u00e3o sei qual das torres do alc\u00e1cer, h\u00e1 um excelente potro, capaz de desconjuntar num instante os membros do mais robusto vil\u00e3o? Veio-me agora \u00e0 ideia de que o velho Issachar, amarrado a ele, deve ser gracioso; porque, tendo vivido muito, constrangido a falar, h\u00e1-de contar cousas incr\u00edveis, quanto mais dizer onde est\u00e1 uma chave cujo paradouro ele n\u00e3o pode ignorar. N\u00e3o achas tu, tamb\u00e9m, que \u00e9 folgan\u00e7a e desporto digno de qualquer rainha o ver como estouram os ossos carunchosos de um perro de noventa anos?<\/p>\n<p>Um suor fio manou da fronte de D. Judas, cujas pernas vacilantes se esquivavam a sust\u00ea-lo. Quando D\u00aa Leonor acabou de fazer as suas atrozes perguntas o judeu tinha ca\u00eddo de joelhos aos p\u00e9s dela.<\/p>\n<p>&#8211; Por merc\u00ea, senhora &#8211; exclamou ele, em transe horroroso de ang\u00fastia -, mandai-me a\u00e7outar como o mais vil servo mouro: mandai-me rasgar as carnes com os mais atrozes tormentos; mas perdoai a meu velho pai, que n\u00e3o tem culpa da pobreza de seu filho. Se eu tivera ou pudera alcan\u00e7ar mais que as duas mil dobras e as quinhentas barbudas que ofereci a meu senhor el-rei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Judeu atalhou D\u00aa Leonor -, tu deves saber tr\u00eas cousas: a primeira \u00e9 que os tratos do potro s\u00e3o intoler\u00e1veis; a segunda \u00e9 que eu costumo cumprir as minhas promessas; a terceira \u00e9 que, se, neste momento de aperto, eu teu pudesse aplicar o rem\u00e9dio, n\u00e3o o guardaria para a ossada bolorente de um lebr\u00e9u desdentado.<\/p>\n<p>&#8211; Vendido cem vezes &#8211; prosseguiu o tesoureiro-mor, lavado em l\u00e1grimas e procurando abra\u00e7\u00e1-la pelos joelhos &#8211; eu n\u00e3o poderia apresentar neste momento mais que a soma j\u00e1 dita de duas mil e quinhentas dobras e quinhentas barbudas, ainda que vossa merc\u00ea me mandasse assar vivo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um louco, Dom Judas! &#8211; interrompeu D\u00aa Leonor, afastando de si o judeu, com um gesto de brandura. &#8211; Por uma mis\u00e9ria de pouco mais de quinhentos p\u00e9s-terras, consentir\u00e1s que Issachar, que teu pai, honrado velho!, pragueje, nas \u00e2nsias do potro, contra o Deus de Abra\u00e3o, de Jacob e de Mois\u00e9s?<\/p>\n<p>O tesoureiro-mor conservou-se por alguns momentos calado e na postura em que estava. Depois, passando o bra\u00e7o de rev\u00e9s pelos olhos, enxugou as l\u00e1grimas e ergueu-se. A resolu\u00e7\u00e3o que tomara era a de um desesperado que vai suicidar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estar\u00e3o, senhora &#8211; murmurou ele -, os dois mil maravedis quando os quiserdes. Procurarei obt\u00ea-los; mas ficarei perdido. Agora podeis dar ordem \u00e0 vossa partida.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, meu mui honrado Dom Judas &#8211; disse D\u00aa Leonor, sorrindo. &#8211; N\u00e3o perder\u00e1s nada em ter cedido aos meus rogos.<\/p>\n<p>Dito isto, saiu pela mesma porta por onde sa\u00edda el-rei.<\/p>\n<p>O judeu estendeu os bra\u00e7os, com os punhos cerrados, para o reposteiro, que ainda ondeava, e levou-os depois \u00e0 cabe\u00e7a, de onde trouxe uma boa por\u00e7\u00e3o de melenas grisalhas. Feito isto, tirou da aljubeta uma chave, abriu o cofre pequeno e pulverulento, sacou para fora um saquitel pesado, selado e numerado, e os dois mil maravedis rolaram sobre o grande livro, que ainda estava aberto sobre uma das arcas. Contou-os quatro vezes, empilhou-os aos centos e, como se as for\u00e7as se khe tivessem exaurido no espantoso combate que se passava na sua alma, atirou-se de bru\u00e7os sobre a pequena arca e, abra\u00e7ado com ela, desatou a chorar.<\/p>\n<p>Meu pobre tesouro, junto com tanto trabalho! &#8211; exclamou por fim, entre solu\u00e7os. &#8211; Guardei-te neste cofre com medo de te ver roubado, e os salteadores vim encontr\u00e1-los aqui! Mas que se livrem de eu tornar a receber os direitos reais das m\u00e3os dos mordomos. Meus ricos dois mil maravedis de bom ouro, n\u00e3o voltareis s\u00f2zinhos quando vos tornardes a ajuntar com os vossos abandonados companheiros!<\/p>\n<p>Esta ideia pareceu consolar de alguma modo D. Judas. Levantou-se, tornou a contar os dois mil maravedis: desconfiou de que havia engano, e que eram dois mil e um: tornou-os a contar, e, quando el-rei entrou no aposento, j\u00e1 prestes para cavalgar, tinha o bom do judeu obtido a certeza de que n\u00e3o dava uma pojeia de mais da soma que lhe fora requerida em nome do potro da torre de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Oh &#8211; exclamou el-rei, lan\u00e7ando os olhos para cima do desalmado f\u00f3lio, sobre cujas p\u00e1ginas amareladas estava empilhado o dinheiro -, temos os dois mil maravedis?!<\/p>\n<p>&#8211; Saiba vossa real senhoria que, felizmente, tinha em meu poder uma soma pertencente a Jerobo\u00e3o Abarbanel, o mercador da Porta do Mar, soma de que n\u00e3o me lembrava: ao vasculhar as arcas, dei com ela; a quantia est\u00e1 completa, e o honrado mercador n\u00e3o levar\u00e1, por certo, mais de cinco por cento ao m\u00eas, enquanto os oven\u00e7ais de vossa senhoria n\u00e3o vierem entregar no tesouro o produto dos direitos reais vencidos. Ent\u00e3o pagar-lhe-ei, at\u00e9 \u00e0 \u00faltima mealha, a quantia e os seus lucros, se vossa senhoria n\u00e3o ordena o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Faze o que entenderes, Dom Judas &#8211; respondeu el-rei, que n\u00e3o o ouvira, atento a meter numa ampla bolsa de argempel, que trazia pendente do cinto, os dois mil maravedis. &#8211; Tudo fio de ti, honrado e leal servidor.<\/p>\n<p>E, recolhendo os maravedis, saiu. O judeu ficou s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; No Inferno ardas tu, com Dat\u00e3, Cor\u00e9 e Abir\u00e3o, maldito nazareno!,,, &#8211; murmurou ele. &#8211; Por\u00e9m n\u00e3o antes de eu haver colhido os dois&#8230; quero dizer, os tr\u00eas mil e duzentos maravedis que me tiraste com tanta consci\u00eancia quanta pode ter a alma tisnada de um crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Feita esta jaculat\u00f3ria ao Deus de Israel, D. Judas aferrolhou interiormente a porta do reposteiro, atravessou o aposento, saiu pela porta fronteira, que tamb\u00e9m aferrolhou, e a bulha dos seus passos, que se alongavam, soou atrav\u00e9s dos corredores por onde passara Frei Roy, at\u00e9 que, por aquela parte do pal\u00e1cio, tudo caiu em completo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Mestre Bartolomeu Chamb\u00e3o<\/p>\n<p>Frei Roy, saindo da casa das arcas, atravessara os corredores vizinhos: mas, em vez de seguir o que dava para o passadi\u00e7o de S. Martinho, tomara por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior a esse passadi\u00e7o. Esta escadinha descia para o \u00e1trio do pa\u00e7o. O beguino, habituado, pelo seu minist\u00e9rio, a entrar na morada real \u00e0s horas mortas e a sair nas menos frequentadas, sabia por diuturna experi\u00eancia que a porta principal devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja, por onde entrara, j\u00e1 come\u00e7aria a povoar-se de fi\u00e9is, porque, como \u00e9 f\u00e1cil de supor, as igrejas eram naquela \u00e9poca mais frequentadas do que hoje. Desceu, pois, com passo firme, resolvido a encaminhar-se ao rossio e a espalhar entre os amotinados a not\u00edcia da partida de el-rei.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>Mas embargou-lhe os passos dificuldade imprevista. Ou fosse que os acontecimentos da v\u00e9spera obrigassem a maiores cautelas, n\u00e3o havendo ainda ent\u00e3o ex\u00e9rcito permanente, nem guardas pagas para defens\u00e3o da pessoa real, cuja melhor protec\u00e7\u00e3o estava na pr\u00f3pria espada, ou fosse por qualquer outro motivo, a porta ainda se n\u00e3o abrira. O beguino hesitou sobre se devia retroceder para sair pela igreja, se esperar. As considera\u00e7\u00f5es que o tinham movido a seguir este caminho obrigaram-no a ficar. Metido no estreito e escuro v\u00e3o da escada, o echacorvos assemelhava-se, envolto nas suas roupas de burel e reluzindo-lhe os olhos \u00e0 meia luz que dava o p\u00e1tio interior, a um moderno funcion\u00e1rio, que hoje, nesses mesmos pa\u00e7os e em desv\u00e3o igual, talvez no mesmo s\u00edtio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez da sua alma, esperando que a vindicta p\u00fablica o convide a algum banquete de carne humana, e, no esperar atroz, rodeia com as garras os ferros do seu covil, como o tigre cativo. O espia era ali, por assim dizer, uma \u201cpre-exist\u00eancia\u201d, uma \u201charmonia preestabelecida\u201d do algoz.<\/p>\n<p>Passara obra de meia hora, e o beguino come\u00e7ava a impacientar-se mui s\u00e8riamente quando sentiu p\u00e9s de cavalgadura no p\u00e1tio interior do edif\u00edcio. Da\u00ed a pouco, um donzel, trazendo na m\u00e3o uma desconforme chave e as r\u00e9deas de valente mula enfiadas no bra\u00e7o, chegou \u00e0 porta e come\u00e7ou a abri-la. Era um dos donz\u00e9is de el-rei. Costumado a disfar\u00e7ar a sua frequente entrada no pa\u00e7o sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a m\u00e3o \u00e0 espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavaleiros e escudeiros, ao que ele retribuia com alonga lenda das suas ora\u00e7\u00f5es em aleijado latim. Frei Roy era aceito a quase todos os moradores da casa de el-rei, que respeitavam a sua aparente santidade. Por isso, saindo do seu desv\u00e3o, encaminhou-se para a porta.<\/p>\n<p>A madre Santa Maria vos guarde de mau olhado, de feiti\u00e7os e de ligamentos &#8211; disse ele, chegando-se ao donzel e fazendo sobressair esta \u00faltima palavra.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00f3s aqui, Frei Rou, por estas horas? &#8211; replicou o donzel, voltando-se admirado.<\/p>\n<p>&#8211; Que quereis! &#8211; tornou o beguino. &#8211; Quando ontem os malditos burgueses acometeram os pa\u00e7os reais com a sua grita e revolta, estava eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquela desv\u00e3o, e quando se fecharam as portas achei-me encurralado c\u00e1 dentro, como um emparedado em seu nicho. A minha profiss\u00e3o de paz e de religi\u00e3o n\u00e3o me consentia passar por meio de homens possu\u00eddos do esp\u00edrito de c\u00f3lera e inspirados por Belzebu, nem o susto me deixava \u00e2nimo desafogado para ir ro\u00e7ar o burel do meu santo h\u00e1bito pelos trajos empestados dos filhos de Belial. Tamb\u00e9m a humildade e mortifica\u00e7\u00e3o crist\u00e3 se opunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum de v\u00f3s outros, os moradores da casa de nosso senhor el-rei. Assim, louvando a Deus por me concedor uma noite de padecimento, ali me deixei ficar sobre as lajes h\u00famidas, sobre as duras e agudas aresas dos degraus daquela escada. Agora, que a revolta \u00e9 finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos e confiado na provid\u00eancia de Jesus Cristo, vou-me ao meu giro di\u00e1rio, para ver se obtenho da caridade dos devotos a pitan\u00e7a usual com que possa matar a foma de vinte e quatro horas, pela qual dou louvores ao justo juiz, que reina eternamente nos altos c\u00e9us.<\/p>\n<p>O beguino revirou benignamente os olhos e fez uma visagem entre aflita e resignada, levando ao mesmo tempo a m\u00e3o ao joelho, como se ali sentisse dor agud\u00edssima.<\/p>\n<p>&#8211; Vener\u00e1vel Frei Roy! &#8211; atalhou o donzel, com as l\u00e1grimas nos olhos -, se tiv\u00e9sseis procurado o aposento dos donz\u00e9is, n\u00f3s vos dar\u00edamos, ao menos, um almadraque para repousar e repartir\u00edamos convosco da nossa ceia. Mas o mal est\u00e1 feito, e o pior \u00e9 que para hoje n\u00e3o vos posso oferecer abrigo. V\u00f3s credes, santo homem que a revolta \u00e9 finda, e nunca ela esteve mais acesa. Sua senhoria vai partir j\u00e1 da cidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Santa Maria vale! Santo nome de Jesus! Acorrei-nos, Virgem bendita! &#8211; interrompeu Frei Roy. &#8211; Pois os populares teimam em sua assuada, e el-rei deixa-nos aos coitados de n\u00f3s, humildes religiosos e cidad\u00e3os pac\u00edficos, entregues ao furor dos pe\u00f5es?<\/p>\n<p>&#8211; E que rem\u00e9dio, bom Frei Roy?! &#8211; replicou tristemente o donzel. &#8211; Sem cavaleiros, escudeiros e besteiros n\u00e3o se faz guerra, nem se desfazem assuadas, e nada disto tem el-rei. Agora vou eu ao rossio de S\u00e3o Domingos avisar os senhores do conselho, os privados e fidalgos que l\u00e1 est\u00e3o, que sigam caminho de Santar\u00e9m, sob pena de incorrerem em caso de trai\u00e7\u00e3o, se ficarem em Lisboa: por sinal que el-rei me recomendou procurasse avisar primeiro que ningu\u00e9m sua merc\u00ea o infante Dom Dinis.<\/p>\n<p>&#8211; No rossio de S\u00e3o Domingos, dizeis v\u00f3s? &#8211; tornou o beguino, arregalando os olhos. &#8211; Confesso que vos n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>Durante este di\u00e1logo o donzel tinha acabado de destrancar a porta do pa\u00e7o, cavalgado na mula que trazia a r\u00e9dea e sa\u00eddo ao terreiro seguido de Frei Roy, que coxeava, estorcia-se e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo e sofreando a mula, caminho da S\u00e9, o pajem narrou ao beguino todas as particularidades sucedidas aquela manh\u00e3, as quais Frei Roy sabia melhor do que ele. Chegados defronte dos Pa\u00e7os do Concelho, o pajem tomou pelo sop\u00e9 da alc\u00e1\u00e7ova e Frei Roy pela Porta do Ferro n\u00e3o sem terem primeiro sa\u00eddo da bolsa do donzel para a manga do beguino alguns pilartes, e da boca deste para os ouvidos daquele alguns latin\u00f3rios pios devidamente escorchados.<\/p>\n<p>Apenas passara o largo da S\u00e9 e transpusera a velha e soturna Porta do Ferro, Frei Roy tinha-se achado perfeitamente s\u00e3o do seu violento reumatismo. Ligeiro como galgo, desceu por entre as antigas terecenas reais, e em menos de tr\u00eas credos estava no pelourinho. A\u00ed viu cousa que o fez parar.<\/p>\n<p>Um homem vestido de valencina, e coberta a cabe\u00e7a com um grande feltro, arengava a um tro\u00e7o de besteiros e pe\u00f5es armados de lan\u00e7as ou ascumas, de alm\u00e1rcovas ou cutelos: tinha nas m\u00e3os um desconforme montante e na cinta uma espada curta. A turba ora o escutava atentamente, ora prorrompia em gritos confusos e estrondosos. Frei Roy chegou-se. O homem do feltro amplo era o mestre tanoeiro Bartolomeu Chamb\u00e3o, que, entusiasmado, prosseguia o seu veemente discurso, sem reparar no beguino:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vo-lo disse: daqui ningu\u00e9m bole p\u00e9 antes de el-rei nosso senhor sair para S\u00e3o Domingos. Nada de bulha fora de saz\u00e3o, que l\u00e1 est\u00e3o os esculcas. Daremos mostra ao po\u00e7o quando a\u00ed for s\u00f3 a ad\u00faltera. Se, como ontem, nos fecharem as portas, isso \u00e9 outro caso. \u00c9 preciso que isto se desfa\u00e7a. A cobra pe\u00e7onhenta deve sair da toca. N\u00e3o digo que ent\u00e3o n\u00e3o seja poss\u00edvel esmargar-se-lhe a cabe\u00e7a&#8230; Num brandir de ascuma&#8230; Mas cautela, n\u00e3o haja sangue!&#8230; Pelo menos de inocentes&#8230; Leais e esfor\u00e7ados cidad\u00e3os desta mui leal cida&#8230; Safa, bruto!<\/p>\n<p>Esta perora\u00e7\u00e3o inesperada com que mestre Bartolomeu interrompera o seu discurso, que se ia elevar ao \u00e1pice da eloqu\u00eancia, procedera de lhe ter descido a grossa e espa\u00e7osa m\u00e3o do echacorvos sobre o ombro, que lhe vergara, como se houvessem descarregado em cima dele uma aduela de cuba. A Frei Roy ocorrera uma ideia aben\u00e7oada, a de comunicar a mestre Bartolomeu a nova que D\u00aa Leonor lhe recomendara espalhasse entre os amotinados; a nova da sua partida de Lisboa com el-rei. O mendicante sabia que o tanoeiro era de bofes lavados, e que, dentro de meia hora n\u00e3o s\u00f3 a ser visto no rossio pelo donzel, de quem naquele instante se apartara, mas tamb\u00e9m a achar-se envolvido em qualquer desordem que semelhante not\u00edcia pudesse produzir, atenta a irrita\u00e7\u00e3o dos \u00e2nimos. Al\u00e9m disso, a lembran\u00e7a do arrepio dorsal que as \u00faltimas palavras de D\u00aa Leonor lhe tinham causado fazia-lhe quase desejar que o tanoeiro, encarregado (segundo percebera do fim da sua arenga) da comiss\u00e3o que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbira a Fern\u00e3o Vasques, pudesse ainda desempenh\u00e1-la, atalhando a fuga de D\u00aa Leonor. Estas considera\u00e7\u00f5es, que lhe haviam passado r\u00e0pidamente pelo esp\u00edrito, e o ver que mestre Bartolomeu n\u00e3o levava jeito de concluir moveram-no a falar ao tanoeiro, que s\u00f3 o sentira quando ele lhe descarregara sobre o ombro a ponderosa, mas amig\u00e1vel, palmada.<\/p>\n<p>&#8211; Com mil e quinhentos satanases! &#8211; exclamou mestre Bartolomeu, voltando-se e vendo ao p\u00e9 de si o beguino. &#8211; Sabia que a m\u00e3o da Santa Madre Igreja era pesada; mas n\u00e3o pensava que o fosse tanto! Que me quereis, Frei Roy?<\/p>\n<p>&#8211; Dizer-vos que podeis mandar sair vossos esculcas de sua atalaia; porque poderiam chegar a curtir o Inverno a\u00ed, antes de verem el-rei chegar e passar para S\u00e3o Domingos.<\/p>\n<p>&#8211; Frei Roy &#8211; replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de c\u00f3lera -, para interromper-me com uma de vossas bufonarias, n\u00e3o valia a pena de me aleijardes este ombro!<\/p>\n<p>&#8211; Tomai como quiserdes as minhas palavras; chamai-me o que vos aprouver, buf\u00e3o ou mentiroso, mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 hoje que os populares falar\u00e3o com el-rei.<\/p>\n<p>&#8211; Pois qu\u00ea, morreu dos feiti\u00e7os da ad\u00faltera ou tornou-o invis\u00edvel algum encantador seu amigo?!<\/p>\n<p>&#8211; Nem uma cousa, nem outra: mas, com estes olhos de grande pecador (aqui o echacorvos fez o gesto habitual de cruzar as m\u00e3os sobre o peito) eu o vi sair para a banda da Porta da Cruz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Frei Roy, olhai que estes honrados cidad\u00e3os vos escutam e que o auto \u00e9 mui grave para gastar truanices.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse, mestre Bartolomeu, que falo verdade. Pelo bento cercilho do santo padre vos juro que, hoje, el-rei n\u00e3o dormir\u00e1 em Lisboa, segundo o jeito que lhe vejo. Ele cavalgava uma possante mula de caminho; noutra ia uma dona coberta com um longo v\u00e9u: seguiam-no donz\u00e9is, falcoeiros e mo\u00e7os de monte. Ao passar, ainda lhe ouvi estas palavras: Olhai aqueles vil\u00e3os traidores como se juntavam: certamente prender-me quiseram, se l\u00e1 fora!\u201d N\u00e3o pude perceber mais nada. Que mais, por\u00e9m, \u00e9 preciso? Deixastes fugir a preia: agora catai-lhe o rasto.<\/p>\n<p>&#8211; Traidor \u00e9 ele, que nos h\u00e1 mentido, como um pag\u00e3o! &#8211; bradou o tanoeiro, sopesando o montante. &#8211; Mas que se guarde de outra vez trazer a Lisboa a ad\u00faltera! Rainha ou barreg\u00e3, arrancar-lhe-emos os olhos. A arraia-mi\u00fada foi escarnida; mas n\u00e3o o ser\u00e1 em v\u00e3o. Que dizeis v\u00f3s outros, honrados burgueses?<\/p>\n<p>&#8211; Escarnidos, escarnidos! &#8211; respondeu com grande grito o tropel. &#8211; Mas, \u00e0 f\u00e9, que nunca a ad\u00faltera ser\u00e1 rainha de Portugal. Morra a combor\u00e7a!<\/p>\n<p>E no meio do alarido, as pontas das lan\u00e7as e os largos ferros das alm\u00e1rcovas agitadas nos ares cintilavam aos raios do sol oriental, como vasto brasido.<\/p>\n<p>&#8211; A S\u00e3o Domingos! &#8211; gritou mestre Bartolomeu. &#8211; Vamos, rapazes: j\u00e1 que n\u00e3o fazemos aqui nada, ao menos que o povo n\u00e3o seja por mais tempo burlado!<\/p>\n<p>E, pondo o montante \u00e0s costas, mestre Bartolomeu tomou por uma das ruas que davam para a banda de Frei Roy, que procurava ret\u00ea-lo, ponderando que ainda poderia alcan\u00e7ar el-rei e faz\u00ea-lo retroceder. O tanoeiro, por\u00e9m, n\u00e3o tinha valor para afrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu n\u00e3o ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou s\u00f3 no meio do terreiro calado e deserto.<\/p>\n<p>Entretanto, junto a S. Domingos, se bem que a rixa come\u00e7ada entre os nobres partid\u00e1rios de D\u00aa Leonor e Fern\u00e3o Vasques se houvesse desvanecido, a agita\u00e7\u00e3o dos populares, cujo n\u00famero crescia cont\u00ecnuamente, n\u00e3o tinha diminu\u00eddo. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate, ora lan\u00e7ava os olhos de rev\u00e9s para os senhores da Corte e conselho, que, esperando por el-rei, passeavam de um para outro lado, ora os espraiava por aquele mar de vultos humanos, que ele sabia poder agitar ou tornar im\u00f3veis com uma palavra ou com um simples aceno. Semelhante \u00e0 hora que precede a procela, em que apenas se v\u00eaem correr na atmosfera abafada os castelos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar dos trov\u00f5es roufenhos e prolongados, aquela hora que ent\u00e3o passava era espantosa e amea\u00e7adora de estragos, sobretudo quando, ap\u00f3s um rugido terr\u00edvel do tigre popular, se fazia na pra\u00e7a, apinhada de gente, um sil\u00eancio ainda mais temeroso e t\u00e9trico.<\/p>\n<p>Foi numa destas interrup\u00e7\u00f5es do motim que um pajem, saindo ao galope do lado da Corredoura, veio apear-se junto do alpendre e, tirando da cinta um pergaminho aberto, o entregou ao infante D. Dinis.<\/p>\n<p>Este fitou os olhos na escritura, descorou s\u00f9bitamente e passou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Estamos perdidos!<\/p>\n<p>Diogo Lopes leu o conte\u00fado daquele escrito fatal e, no mesmo tom, respondeu ao infante:<\/p>\n<p>&#8211; O caminho de salva\u00e7\u00e3o que nos resta \u00e9 o de Santar\u00e9m. Obedi\u00eancia e circunspec\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O pergaminho passou r\u00e0pidamente de m\u00e3o em m\u00e3o: os fidalgos, letrados e cavaleiros fizeram um c\u00edrculo no meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros olhos desassossegados. Todos receavam falar. O manhoso Pacheco foi o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando h\u00e0bilmente a hesita\u00e7\u00e3o dos outros fidalgos e conselheiros.<\/p>\n<p>&#8211; Vistes a ordem de el-rei. Como um dos mais velhos entre v\u00f3s, direi meu parecer. Embora o risco seja grande, achando-nos cercados de povo armado e furioso, o nosso dever \u00e9 p\u00f4r a vida por obedecer a nosso senhor el-rei.<\/p>\n<p>&#8211; Mas &#8211; atalhou o doutor Gil d\u2019Ocem, que por mui letrado e prudente, era ouvido como or\u00e1culo pelos cortes\u00e3os -, o caso \u00e9 grave: o povo, se nos vir retirar, enviar-se-\u00e1 a n\u00f3s; se lhe dizemos o motivo da nossa partida, \u00e9 capaz de desconcertos maiores que os j\u00e1 cometidos. Sua senhoria n\u00e3o devera ter-nos emprazado para este auto, se a sua inten\u00e7\u00e3o era n\u00e3o dar resposta aos populares.<\/p>\n<p>Vis\u00ecvelmente, o doutor \u00ebm leis e degredos\u201d estava tomado de medo, no que n\u00e3o levava vantagem \u00e0 maior parte dos outros membros do conselho real.<\/p>\n<p>O conde de Barcelos guardava sil\u00eancio. N\u00e3o podia conceber como D\u00aa Leonor o n\u00e3o avisara a tempo, e por isso preocupava-o a indigna\u00e7\u00e3o, ignorando que a resolu\u00e7\u00e3o da fuga fora tomada mui tarde. Na v\u00e9spera ela aconselhara a el-rei que cedesse a tudo quanto o povo quisesse; porque, dissolvido o tumulto, f\u00e1cil era chamar \u00e0 Corte os senhores e cavaleiros de mais confian\u00e7a, acompanhados de gente de guerra, com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem opor-se aceitara o conselho, que, se n\u00e3o era o mais leal, era, ao menos, o mais seguro; mas as revela\u00e7\u00f5es do echacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu, a situa\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>A reflex\u00e3o de Gil d\u2019Ocem estava em todas as cabe\u00e7as e por isso os cortes\u00e3os ficaram outra vez em sil\u00eancio, como buscando um expediente para sair daquele dificultoso passo. A incerteza, o despeito, o receito pintavam-se nos rostos demudados de muitos.<\/p>\n<p>E as vagas do oceano que amea\u00e7ava trag\u00e1-los encapelavam-se aos p\u00e9s deles: o povo, vendo os fidalgos erguidos, calados e em c\u00edrculo, apinhava-se, cada vez mais basto, ao redor da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbara demais os \u00e2nimos para n\u00e3o poderem achar um expediente acertado.<\/p>\n<p>Era por isso que esperava o astuto Pacheco.<\/p>\n<p>&#8211; De um lado a c\u00f3lera do povo: do outro os mandados de el-rei &#8211; disse, apertando com a m\u00e3o a fronte, o velho conselheiro de Afonso IV. &#8211; Resta-nos s\u00f3 um arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>&#8211; Dizei, dizei! &#8211; clamaram a um tempo todos, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o do conde de Barcelos, que fitou nele os olhos desconfiados.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 necess\u00e1rio que anunciemos a nova da partida de el-rei e que sejamos os primeiros a afear este procedimento: \u00e9 necess\u00e1rio que vamos adiante da indigna\u00e7\u00e3o dos pe\u00f5es. Depois, dir-lhes-emos que, burlando como eles, nada fazemos aqui. Ent\u00e3o apartar-nos-emos sem custo e sairemos da cidade como pudermos, na certeza de que n\u00e3o serei eu o \u00faltimo, apesar de velho, que cruze as portas da Alc\u00e1\u00e7ova de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem h\u00e1-de falar em nosso nome? &#8211; perguntou Gil d\u2019Ocem.<\/p>\n<p>&#8211; No vosso, mestre Gil das Leis! &#8211; interrompeu o conde de Barcelos. &#8211; Nem o receito das afrontas de alguns milhares de sandeus nem o da pr\u00f3pria morte me obrigariam a cuspir maldi\u00e7\u00f5es sobre o nome daquele a quem uma vez jurei preito e leal menagem.<\/p>\n<p>&#8211; Vitam impendere vero nemo tenetur replicou Gil d\u2019Ocem -, ou, como quem o dissesse por linguagem, ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. V\u00f3s fazei o que vos aprouver.<\/p>\n<p>\u00c0 autoridade de um texto latino, trazido assim a ponto por t\u00e3o insigne doutor, n\u00e3o havia resistir. Os fidalgos e conselheiros aprovaram, un\u00e2nimemente, o alvitre de Diogo Lopes.<\/p>\n<p>&#8211; Mas quem h\u00e1-de falar ao povo? &#8211; insistiu o mestre em leis, que n\u00e3o parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa gloriosa tarefa.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, se assim o quiserdes &#8211; replicou imediatamente Diogo Lopes.<\/p>\n<p>O manhoso cortes\u00e3o vira claramente que a partida de el-rei transtornava todos os seus desenhos: todavia calculara num momento como, sem suscitar a indigna\u00e7\u00e3o de Fern\u00e3o Vasques, e por consequ\u00eancia alguma revela\u00e7\u00e3o perigosa, podia salvar-se e ao infante. Logo que el-rei se esquivara \u00e0 influ\u00eancia do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo, o casamento de D\u00aa Leonor era inevit\u00e1vel, e ainda supondo, o que n\u00e3o era de esperar, que o tumulto fosse avante, e que Lisboa se rebelasse claramente contra D. Fernando, o resultado favor\u00e1vel a el-rei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquela conjuntura dos principais meios com que poderia sustentar uma luta intestina. Assim, o alvitre que oferecera para a salva\u00e7\u00e3o dos cortes\u00e3os era s\u00f3 para se haver se salvar a si, conservando ao mesmo tempo a afei\u00e7\u00e3o dos cabe\u00e7as da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse decair da gra\u00e7a de D. Fernando.<\/p>\n<p>Para os c\u00e1lculos de Diogo Lopes faltara, por\u00e9m, um elemento: era a dela\u00e7\u00e3o do beguino, e era justamente esta falta que os destru\u00eda todos. Assim \u00e9 a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O \u201csacrif\u00edcio\u201d de Diogo Lopes foi geralmente recebido com aprova\u00e7\u00e3o e agradecimento. Ent\u00e3o ele, saindo do c\u00edrculo, aproximou-se `de Fern\u00e3o Vasques, que, de quando em quando, volvia os olhos inquietos para a pinha dos fidalgos e cavaleiros.<\/p>\n<p>&#8211; Falhou a tra\u00e7a &#8211; disse o velho cortes\u00e3o em voz sumida ao alfaiate. &#8211; El-rei acaba de sair da cidade.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Vasques recuou, e p\u00f4s-se a olhar espantado para Diogo Lopes, como quem n\u00e3o acreditava o que ouvia.<\/p>\n<p>&#8211; O que vos digo \u00e9 a verdade &#8211; continuou Pacheco. &#8211; Mas n\u00e3o afrouxar! El-rei de Castela \u00e9 por n\u00f3s, e bom n\u00famero de fidalgos portugueses o s\u00e3o tamb\u00e9m. Mas: s\u00e3o por n\u00f3s a maior parte dos que ora aqui vedes presentes. Conservai o bom \u00e2nimo do povo, fiai o resto de mim e&#8230; de quem v\u00f3s sabeis.<\/p>\n<p>Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lan\u00e7ou de relance os olhos para D. Dinis.<\/p>\n<p>&#8211; Mas el-rei tomar\u00e1 por mulher, Dona Leonor &#8211; acudiu o alfaiate aterrado -, voltar\u00e1 a Lisboa com seus cavaleiros e homens de armas, e, ent\u00e3o, coitados de n\u00f3s!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o temais: o matrim\u00f3nio ad\u00faltero ser\u00e1 condenado pelo papa. V\u00f3s j\u00e1 tereis ouvido contar o que sucedeu a el-rei Dom Sancho: a Dom Fernando pode suceder o mesmo. Tamb\u00e9m os fidalgos de Portugal t\u00eam homens de armas. Podeis estar certos de que n\u00e3o vos abandonaremos. Agora resta uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leais burgueses, que t\u00e3o ousadamente se opuseram \u00e0 desonra da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por eles. Mandai-lhes que fa\u00e7am sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Fern\u00e3o Vasques obedeceu: o ru\u00eddo dos populares, que n\u00e3o descontinuara durante esta cena, acalmou a um aceno do alfaiate.<\/p>\n<p>Diogo Lopes fez ent\u00e3o um largo discurso, com o qual n\u00e3o cansaremos os leitores, e cujo assunto f\u00e1cil \u00e9 de adivinhar. Misturando amargas repreens\u00f5es contra D. Fernando com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente, de que toda a fidalguia estava cheia de indigna\u00e7\u00e3o. Aludiu \u00e0 resist\u00eancia por armas que el-rei podia encontrar entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e, no caso de vir ste a cabo, a probabilidade de ser anulado pelas censuras da Igreja. Enfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem na revolta e tratassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra o poder real, suscitou todas as ideias que podiam levar os populares a este excesso. Faltava o ponto dificultoso: o da partida dos fidalgos. Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperan\u00e7a aos pe\u00f5es de que se encaminhavam para as suas alcaidarias e honras, com o louv\u00e1vel intento de se aperceberem em socorro dos burgueses de Lisboa, e com tal arte o fez que os senhores e cavaleiros que se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o pr\u00f3prio conde de Barcelos, n\u00e3o viram nas suas palavras sen\u00e3o uma feliz inspira\u00e7\u00e3o para os salvar da c\u00f3lera da arraia-mi\u00fada.<\/p>\n<p>Durante aquela larga arenga, esta guardara sil\u00eancio, interrompido a espa\u00e7os por um desses burburinhos que s\u00e3o como os an\u00fancios das erup\u00e7\u00f5es do vulc\u00e3o popular. Pacheco, enfim, concluiu: mas o espect\u00e1culo que tinha diante de si f\u00ea-lo ficar im\u00f3vel por alguns momentos, e estes foram terr\u00edveis. Aqueles centenares de olhos avermelhados, cintilantes de furor, cravados nele e nos outros fidalgos; aquelas bocas semiabertas, prestes a prorromper em brados de morte, eram como um pesadelo diab\u00f3lico, como uma vertigem de loucura. Os populares pareciam ainda escut\u00e1-lo, e n\u00e3o puderam acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.<\/p>\n<p>Os fidalgos aproveitaram esse instante de torpor moral que precedia a procela. Desceram da alpendrada e, montando nas suas possantes mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da Corredoura. No meio da cavalgada, e rodeado dos cavaleiros mais benquistos do povo, ia o conde de Barcelos, e Diogo Lopes com os seus pajens fechava o s\u00e9quito. Se houvessem atravessado a pra\u00e7a, o conde teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o \u00e2ngulo do mosteiro, j\u00e1 os doestos grosseiros e violentos voavam contra ele do meio do povo apinhado, e, at\u00e9, dois virotes de besta pareceu sibilarem por cima da sua cabe\u00e7a. Mas, apertando os acicates, os cavaleiros seguiram ao longo da Corredoura, enquanto Diogo Lopes, vitoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribu\u00eda aquelas mostras de afecto, obstava a que as ondas populares rodeassem o diminuto n\u00famero de cortes\u00e3os, alguns dos quais tinham fundados motivos para recear a irrita\u00e7\u00e3o desses animais ferozes, exaltados pela fuga de el-rei.<\/p>\n<p>A cavalgada havia desaparecido, quando um troc\u00f3 de besteiros e pe\u00f5es desembocou do lado da Rua Nova. Eram mestre Bartolomeu e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes Pacheco.<\/p>\n<p>Mas as palavras que Frei Roy dissera ter ouvido proferir a el-rei, lan\u00e7adas entre os amotinados como um facho sobre mont\u00e3o de lenha por onde lavra h\u00e1 muito fogo oculto, levaram o tumulto a ponto medonho. As afrontas, que at\u00e9 a\u00ed quase s\u00f3 se encaminhavam contra Leonor Teles e seus parentes, voltaram-se contra D. Fernando. As maldi\u00e7\u00f5es, as pragas, os nomes de traidor e covarde ajuntavam-se \u00e0s mais violentas amea\u00e7as. Uns juravam que nunca mais ele entraria em Lisboa; outros propunham que se lan\u00e7asse fogo aos pa\u00e7os reais. Debalde Fern\u00e3o Vasques trabalhava por aquiet\u00e1-los; nem j\u00e1 escutavam o seu \u00eddolo. Furiosos, espalhavam-se pelas ruas, que atroavam com gritos, brandindo as armas; e por certo que, se neste momento D. Fernando lhes tivesse aparecido, n\u00e3o teriam, talvez, respeitado a vida do filho do seu t\u00e3o querido D. Pedro I, o mais popular de todos os nossos reis, chamados da primeira dinastia.<\/p>\n<p>Este motim sem objecto, sem resist\u00eancia, e sem resultado, acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha ca\u00eddo no seu habitual sil\u00eancio, e, pouco a pouco, os fidalgos e cavaleiros, atravessando as Portas da Cruz, seguiam caminho de Santar\u00e9m. O sistema militar dos antigos partos dera a vit\u00f3ria a el-rei: ele vencera fugindo!<\/p>\n<p>O povo adormeceu: os cabe\u00e7as da revolta estavam irremedi\u00e0velmente perdidos.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Uma barreg\u00e3 rainha<\/p>\n<p>O Douro \u00e9 bem carregado e triste! A sua corrente r\u00e1pida, como que angustiada pelos agudos e escarpados rochedos que a comprimem, volve \u00e1guas turvas e mal-assombradas. Nas suas ribas fragosas raras vezes podeis saudar um sol puro ao romper da alvorada, porque o rio cobre-se durante a noite com o seu manto de n\u00e9voas, e, atrav\u00e9s desse manto, a atmosfera embaciada faz cair sobre a vossa cabe\u00e7a os raios do sol semimortos, quase como um frio reflexo de lua ou como a luz sem calor de tocha distante. \u00c9 depois de alto dia que esse ambiente, semelhante ao que rodeava os guerreiros de Ossian, vos desoprime os pulm\u00f5es, onde muitas vezes tem depositado j\u00e1 os germes da morte. Ent\u00e3o, se, trepando a um pin\u00e1culo das ribas, espraiais os olhos para a banda do sert\u00e3o, l\u00e1 vedes uma como serpente imensa e alvacenta, que se enrosca por entre as montanhas, e cujo colo est\u00e1 por baixo de vossos p\u00e9s. \u00c9 o nevoeiro que se acama e dissolve sobre as \u00e1guas que o geraram. O horizonte, at\u00e9 a\u00ed turvo, limitado, indistinto, expande-se ao longe: recortam-nos os cimos franjados das montanhas, que parecem engastadas na cortina azul do c\u00e9u, e a terra, a perder de vista, afigura-se-nos como um mar de verdura violentamente agitado; porque em desenhar as paisagens do Douro a natureza empregou um pincel semelhante ao de Miguel \u00c2ngelo: foi robusta, solene e profunda.<\/p>\n<p>Como sobre um circo convertido em naumaquia, o Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de tr\u00eas prov\u00edncias e tendo nas m\u00e3os as chaves dos haveres delas, o seu aspecto \u00e9 severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada. Mas n\u00e3o o julgueis antes de o tratar familiarmente. N\u00e3o fa\u00e7ais cabedal de certo modo \u00e1spero e rude que lhe haveis de notar; trazei-o \u00e0 prova, e achar-lhe-eis um cora\u00e7\u00e3o bom, generoso e leal. Rudeza e virtude s\u00e3o muitas vezes companheiras; e entre n\u00f3s, degenerados netos do velho Portugal, talvez seja ele quem guarda ainda maior por\u00e7\u00e3o da desbaratada heran\u00e7a do antigo car\u00e1cter portugu\u00eas no que tinha bom, que era muito, e no que tinha mau, que n\u00e3o passava de algumas demasias de orgulho.<\/p>\n<p>Nos fins do s\u00e9culo d\u00e9cimo quarto, o Porto ia ainda longe da sorte que o aguardava. O fermento da sua futura grandeza estava no car\u00e1cter dos seus filhos, na sua situa\u00e7\u00e3o e nas mudan\u00e7as pol\u00edticas e industriais que depois sobrevieram em portugal. Posto que nobre e lembrado como origem do nome desta linhagem portuguesa, os seus destinos eram humildes, comparados com os da teocr\u00e1tica Braga, com os da cavaleirosa Coimbra, com os de Santar\u00e9m, a cortes\u00e3, com os de \u00c9vora, a romana e monumental, com os de Lisboa, a mercadora, guerreira e turbulenta. Quem o visse, coroado da sua catedral, semi\u00e1rabe, semig\u00f3tica, em vez de alc\u00e1cer ameiado; sotoposto, em vez de o ser a uma torre de menagem, aos dois campan\u00e1rios lisos, quadrangulares e maci\u00e7os, t\u00e3o diferentes dos campan\u00e1rios dos outros povos crist\u00e3os, talvez porque entre n\u00f3s os arquitectos \u00e1rabes quiseram deixar as alm\u00e1demas das mesquitas estampadas, como ferrete da antiga servid\u00e3o, na face do templo dos nazarenos; quem assim visse o \u201cburgo\u201d episcopal do Porto, pendurado \u00e0 roda da igreja e defendido, antes por an\u00e1temas secerdotais que por engenhos de guerra, mal pensaria que desse burgo submisso nasceria um emp\u00f3rio de com\u00e9rcio, onde, dentro de cinco s\u00e9culos, mais que em nenhuma outra povoa\u00e7\u00e3o do Reino, a classe, ent\u00e3o fraca e n\u00e3o definida, a que chamavam burgueses, teria a consci\u00eancia da sua for\u00e7a e dos seus direitos e daria a Portugal exemplos singulares de amor tenaz de independ\u00eancia e de liberdade.<\/p>\n<p>A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma l\u00e9gua, desde o Semin\u00e1rio at\u00e9 al\u00e9m de Miragaia ou, antes, at\u00e9 \u00e0 Foz, pela margem direita do rio, entranhando-se amplamente para o sert\u00e3o, mostrava ainda nos fins do s\u00e9culo d\u00e9cimo quarto os elementos distintos de que se comp\u00f4s. Ao oriente, o \u201cburgo do bispo\u201d, edificado pelo pendor do monte da S\u00e9, vinha morre nas hortas que cobriam todo o vale onde hoje est\u00e3o lan\u00e7adas a Pra\u00e7a de D. Pedro e as Ruas das Flores e de S. Jo\u00e3o e que o separavam dos Mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco. Do poente, a povoa\u00e7\u00e3o de Miragaia, assentada ao redor da Ermida de S. Pedro, trepava j\u00e1 para o lado do Olival e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita e pelo oriente com a vila ou burgo episcopal. A Igreja, o Munic\u00edpio e a Monarquia, entre esses limites pelejaram por s\u00e9culos as suas batalhas de predom\u00ednio, at\u00e9 que triunfou a Coroa. Ent\u00e3o a linha que dividia as tr\u00eas povoa\u00e7\u00f5es desapareceu r\u00e0pidamente debaixo dos fundamentos dos templos e dos pal\u00e1cios. O Porto constituiu-se a exemplo da unidade mon\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Era neste burgo eclesi\u00e1stico, nesta cidade nascente, que por formoso dia de Janeiro da era de C\u00e9sar de 1410 (1372) se viam varridas e cobertas de espadanas e flores as estreitas e tortuosas ruas que pela encosta do monte guiavam ao burgo primitivo fundado ou restaurado pelos Gasc\u00f5es, se n\u00e3o mentem mem\u00f3rias remotas. Na Rua do Souto, j\u00e1 assim chamada, talvez pela vizinhan\u00e7a de algum bosque de castanheiros, como principal entrada da povoa\u00e7\u00e3o, andavam as dan\u00e7as judengas e folias mouriscas com m\u00fasicas e trebelhos ou ogos, por entre o povo vestido de festa, o que era ind\u00edcio evidente de que se esperava el-rei, cuja vinda a qualquer povoa\u00e7\u00e3o era o \u00fanico motivo legal para fazer dan\u00e7ar e foliar judeus e mouros, que, decerto, n\u00e3o folgavam nada com estes for\u00e7ados e dispendiosos sinais de contentamento p\u00fablico.<\/p>\n<p>Com efeito, uma numerosa e espl\u00eandida cavalgada vinha da banda do bailiado de Le\u00e7a. El-rei D. Fernando ajuntara em Santar\u00e9m os seus ricos-homens e conselheiros e, amestrado por Leonor Teles na arte de dissimular, recebera com todas as mostras de boa-vontade o infante D. Dinis e Diogo Lopes Pacheco, ao qual, para maior disfarce, n\u00e3o escasseara merc\u00eas. Depois, em folgares e ca\u00e7adas vagueara pelo Reino com D\u00aa Leonor, at\u00e9 que em Eixo fizera um como manifesto da resolu\u00e7\u00e3o que tomara de a receber por mulher, o que neste dia cumprira na antiga igreja daquela c\u00e9lebre comenda dos Hospital\u00e1rios. Era, pois, para celebrar esse matrim\u00f3nio ad\u00faltero, agourado pelas maldi\u00e7\u00f5es populares, que o bispo D. Afonso, menos escrupuloso que o povo de Lisboa acerca de adult\u00e9rios, vestia de festa o seu mui can\u00f3nico burgo.<\/p>\n<p>A cavalgada que se vira descer ao longo do vale j\u00e1 atravessava o rio da vila pela ponte do Souto e encaminhava-se para uma antiga porta da povoa\u00e7\u00e3o primitiva, porta conhecida ainda hoje, como ent\u00e3o, pelo nome de Vandoma. Ao lado direito de el-rei ia D\u00aa Leonor, a rainha de Portugal: ele montando em um cavalo de guerra; ela em um palafr\u00e9m branco, levado de r\u00e9dea desde a entrada da ponte pelo infante D. Jo\u00e3o, que familiarmente falava e ria com a formosa cavaleira. Da banda esquerda, o bispo D. Afonso, curvado e enfraquecido pela velhice, oscilava e fazia cortesias involunt\u00e1rias a cada passada da mans\u00edssima e veneranda mula episcopal. Junto ao velho prelado, o infante D. Dinis caminhava em sil\u00eancio, e no aspecto melanc\u00f3lico do mancebo divisava-se qu\u00e3o profunda tristeza lhe consumia o cora\u00e7\u00e3o, vendo-se como atado ao carro triunfal da mulher que pouco a pouco se convertera em sua irreconcili\u00e1vel inimiga. Ap\u00f3s estas principais personagens, via-se uma grande multid\u00e3o de cavaleiros, cl\u00e9rigos, cortes\u00e3os, conselheiros, ju\u00edzes da Corte; companhia espl\u00eandida, por entre a qual brilhava o ouro, a prata e as variadas cores dos trajos de festa, que sobressa\u00edam no ch\u00e3o negro das vestiduras ro\u00e7agantes dos magistrados e cl\u00e9rigos. Adiante de el-rei, as dan\u00e7as dos mouros e judeus volteavam r\u00e1pidas, ao som da viola ou ala\u00fade \u00e1rabe, das trombetas e das soalhas. Segundo o antigo uso, seguiam-se \u00e0s dan\u00e7as coros de donzelas burguesas, que celebravam com seus cantos o amor e ventura dos noivos.<\/p>\n<p>Mas esse canto tinha o quer que era triste na toada. Triste era, tamb\u00e9m, o aspecto dos populares, que, sem um s\u00f3 grito de regozijo, se apinhavam para ver passar aquele pr\u00e9stito real. Mil olhos se cravavam no infante D. Dinis, cujo rosto melanc\u00f3lico revelava que os seus pensamentos eram acordes com os do povo, que por toda a parte n\u00e3o via neste cons\u00f3rcio sen\u00e3o um crime e uma fonte de desventuras. Os cortes\u00e3os, por\u00e9m, fingiam n\u00e3o perceber o que se passava \u00e0 roda deles e pareciam trasbordar de alegria. Muitos eram daqueles que mais contr\u00e1rios haviam sido aos amores de el-rei, mas, que, vendo, enfim, D\u00aa Leonor rainha, voltavam-se para o sol que nascia e calculavam j\u00e1 quantas terras e que soma de direitos reais lhes poderia render da parte de um rei pr\u00f3digo a sua mudan\u00e7a de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre estes n\u00e3o se via o tenaz e astuto Pacheco. Habituado ao trato da Corte por largos anos, experimentado em todos os enredos dos pa\u00e7os, h\u00e1bil em traduzir sorrisos e gestos, palavras avulsas e discursos fingidos, n\u00e3o tardara em perceber que as merc\u00eas e agrados de el-rei e de D\u00aa Leonor encobriam intentos de irrevog\u00e1vel vingan\u00e7a. Conhecendo que a sedi\u00e7\u00e3o popular fora in\u00fatil e que, ainda renovada com mais f\u00faria, n\u00e3o poderia resistir \u00e0s armas de D. Fernando, havia-se afastado da Corte e, posto que s\u00f3 nos fins desse ano ele passasse a servir o seu antigo protector e amigo, D. Henrique de Castela, buscara entretanto esquivar-se ao \u00f3dio da nova rainha, conservando ao mesmo tempo a boa opini\u00e3o entre o vulgo.<\/p>\n<p>Abandonado assim do seu guia, o infante D. Dinis sofrera resignado um sucesso que n\u00e3o podia embargar; mas, digno filho de D. Pedro, conservara intacta a sua m\u00e1 vontade a D\u00aa Leonor. Desamparado dos seus parciais, vendo, se n\u00e3o tra\u00edda, ao menos quase morta e inactiva a alian\u00e7a de Pacheco, e, para maior desalento, seu irm\u00e3o mais velho, o infante D. Jo\u00e3o, ligado com essa mulher, da qual este pr\u00edncipe mal pensava ent\u00e3o lhe viria a \u00faltima ru\u00edna; no meio de tantos desenganos, o infante, a princ\u00edpio t\u00edmido e irresoluto, sentira crescer a ousadia com os perigos; sentira girar-lhe nas veias o sangue paterno. Obrigado a seguir a Corte, nunca D\u00aa Leonor achara um sorriso nos seus l\u00e1bios; nunca o vira conter diante dela um s\u00f3 sinal de desprezo. Assim, a c\u00f3lera de el-rei contra seu irm\u00e3o havia chegado ao maior auge, e os c\u00e1lculos de fria e paciente vingan\u00e7a estavam resolvidos no \u00e2nimo de Leonor Teles.<\/p>\n<p>A cavalgada tinha subido a encosta, atravessado a Porta de Vandoma, que em parte ainda subsiste, e passado em frente da S\u00e9, junto da qual se dilatavam os pa\u00e7os episcopais. A\u00ed as dan\u00e7as e folias pararam e fizeram por um momento sil\u00eancio. Ent\u00e3o o infante D. Jo\u00e3o, tomando nos bra\u00e7os a formosa rainha, apeou-se do palafr\u00e9m, e, ap\u00f3s ela, el-rei saltou ligeiro do seu fogoso e agigantando ginete. Dentro em pouco toda a comitiva tinha desaparecido no profundo portal dos pa\u00e7os, e os donz\u00e9is conduziam os elegantes cavalos, as mulas inquietas e os mansos palafr\u00e9ns para as vastas e bem providas cavalari\u00e7as do mui devoto e poderoso prelado da antiga Festabole.<\/p>\n<p>O aposento principal dos pa\u00e7os, quadra vasta e grandiosa, estava de antem\u00e3o ornado para receber os h\u00f3spedes reais do velho bispo D. Afonso. Um trono com dois assentos de espaldas indicava que a ele ia subir, tamb\u00e9m, uma rainha. D\u00aa Leonor entrou seguida das cuvilheiras e donzelas da sua c\u00e2mara; el-rei de todos os principais cavaleiros. Viam-se entre estes o alferes-mor Airas Gomes da Silva, anci\u00e3o vener\u00e1vel, que fora aio do rei, quando infante, o orgulhoso mordomo-mor D. Jo\u00e3o Afonso Telo, Gil Vasques de Resende, aio do infante D. Dinis, o prior da Ordem do Hospital, \u00c1lvaro Gon\u00e7alves Pereira, e muitos outros fidalgos que ou seguiam a Corte ou tinham vindo assistir \u00e0s bodas reais.<\/p>\n<p>Guiada por D. Fernando, Leonor Teles subiu com passo firme os degraus do trono. Como o navegante, que, afrontando temporais desfeitos por mares inc\u00f3gnitos e aprocelados e chegando ao porto long\u00ednquo, quase que n\u00e3o cr\u00ea pisar a terra de seus desejos, assim esta mulher ambiciosa e audaz parecia duvidar da realidade da sua eleva\u00e7\u00e3o. A alma sorria-lhe a mil esperan\u00e7as; a vida trasbordava nela. A seu lado um rei, a seus p\u00e9s um reino! Era mais que embriaguez; era del\u00edrio. Ela sentia um novo afecto, um como desejo de perd\u00e3o aos seus inimigos! Tremeu de si mesma e, convocando todas as for\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o, salvou a sua ferocidade hip\u00f3crita, que parecia querer abandon\u00e1-la. Era severo o seu aspecto quando esses pensamentos estranhos lhe passaram pelo esp\u00edrito; mas o sorriso tornou a espraiar-se-lhe no rosto quando o instinto de tigre p\u00f4de faz\u00ea-la triunfar desse momento em que a generosidade costuma acometer com viol\u00eancia as almas vingativas e ferozes, o momento em que se realiza a suma ventura por largo tempo sonhada.<\/p>\n<p>Do alto do trono e em p\u00e9, D. Fernando estendeu a m\u00e3o: o tropel de cortes\u00e3os e cavaleiros, de donas e donzelas formaram aos lados da espa\u00e7osa sala fileiras espl\u00eandidas, im\u00f3veis e silenciosas: e el-rei volveu olhar lentos para um e outro lado e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Ricos-homens, infan\u00e7\u00f5es e cavaleiros de Portugal, um dos mais nobres sacramentos que Deus neste mundo ordenou foi o matrim\u00f3nio: como para os outros homens, para os reis se instituiu ele; porque por ele as coroas se perpetuam na linhagem real. \u00c9 por isso que eu desposei hoje a mui ilustre Dona Leonor, filha de Dom Afonso Telo, descendente dos antigos reis e ligada com os mais nobres de entre v\u00f3s pelo d\u00edvido do sangue. Assim, a rainha de Portugal ser\u00e1 mais um la\u00e7o que vos una a mim como parentes, que de hoje avante sois meus. Leais, como tendes sido a vosso rei pelo preito que lhe fizestes, muito mais o sereis por este novo t\u00edtulo. Em que p\u00eas a traidores, Dona Leonor Teles \u00e9 minha mulher! Fidalgos portugueses, beijai a m\u00e3o \u00e0 vossa rainha.<\/p>\n<p>O velho alferes-mor, Airas Gomes, aproximou-se ent\u00e3o do trono, \u00e0 voz do seu mo\u00e7o pupilo; ajoelhou e beijou \u00e0 m\u00e3o a D\u00aa Leonor; mas o olhar que lan\u00e7ou para el-rei era como o de pedagogo que de mau humor se acomoda ao capricho infantil de um pr\u00edncipe. Ao volver de olhos do anci\u00e3o, D. Fernando corou e voltou o rosto.<\/p>\n<p>O infante D. Jo\u00e3o, por\u00e9m, dobrando o joelho aos p\u00e9s da formosa rainha, parecia trasbordar de alegria. Contemplando-o, Leonor Teles deixou assomar aos l\u00e1bios um daqueles amb\u00edguos e quase impercept\u00edveis sorrisos que, vindos dela, sempre tinham uma significa\u00e7\u00e3o profunda. Porventura que no infante D. Jo\u00e3o ela j\u00e1 n\u00e3o via mais que o precursor da humilha\u00e7\u00e3o de D. Dinis, do seu capital inimigo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o infante, os fidalgos vieram sucessivamente curvar-se ante D\u00aa Leonor. Boa parte deles era como capit\u00e3es vencidos seguindo ao capit\u00f3lio um triunfador romano. Podia com efeito dizer-se que, mau grado desses que se rojavam a seus p\u00e9s, ela conquistara o trono.<\/p>\n<p>Toda a comprida fileira de nobres oficiais da Coroa tinha passado e ajoelhado no estrado real. Faltava um; e era este, que, menosprezando tantas frontes ilustres por valor ou ci\u00eancia, por fidalguia ou riqueza, inclinadas perante ela, a mulher orgulhosa e implac\u00e1vel esperava cogitando no momento em que o mancebo ainda imp\u00fabere, sem renome, sem poderio, c\u00e9lebre s\u00f3 por seu ber\u00e7o e pelo desgra\u00e7ado drama da morte de D\u00aa In\u00eas, viesse tributar homenagem \u00e0 que representava uma papel an\u00e1logo ao daquela desventurada, salvo na sinceridade do amor e na inoc\u00eancia da vida.<\/p>\n<p>Mas esse para quem D\u00aa Leonor mais de uma vez volvera r\u00e0pidamente os olhos considerava com os bra\u00e7os cruzados aquele espect\u00e1culo em perfeita imobilidade, de que \u00f9nicamente sa\u00edra quando Gil Vasques de Resende, que estava a seu lado, se afastara, caminhando para os degraus do estrado. O mancebo apertara a m\u00e3o do idoso aio, tr\u00e9mula da idade, com a m\u00e3o ainda mais tr\u00e9mula de c\u00f3lera. Na conta de pai o tinha; venerava-o como filho, e a ideia de o ver prostituir os seus cabelos brancos aos p\u00e9s de uma ad\u00faltera o levara a esse movimento involunt\u00e1rio; involunt\u00e1rio, porque ele naquela postura e naquela hora n\u00e3o fazia sen\u00e3o coligir todas as for\u00e7as da alma para salvar a honra do nome de seus av\u00f3s, do nome dos reis portugueses, esquecida por um de seus irm\u00e3os e, talvez, mercadejada por outro em troco de valimento infame. O velho entendeu o que significava este convulso apertar de m\u00e3o: duas l\u00e1grimas lhe ca\u00edram pelas faces; mas obedeceu a el-rei.<\/p>\n<p>S\u00f3 faltava D. Dinis, que continuara a ficar im\u00f3vel. Houve um momento de sil\u00eancio sepulcral na vasta sala, e este sil\u00eancio era para todos indefinido, mas terr\u00edvel.<\/p>\n<p>D. Fernando p\u00f4s-se a olhar fito para seu irm\u00e3o, enleado, ao que parecia, em cismar profundo.<\/p>\n<p>Dentro de pouco, poder-se-ia crer que todos os fidalgos que povoavam aquela vasta quadra estavam convertidos em pedra semelhante \u00e0 das colunas g\u00f3ticas que sustinham as voltas pontiagudas do tecto, se n\u00e3o fosse o respidar ansiado e r\u00e1pido que lhes fazia ranger sobre os peitos e ombros os seus ricos briais.<\/p>\n<p>Os l\u00e1bios de el-rei tremeram, como a superf\u00edcie do mar encrespada pela leve e repentina aragem que precede imediatamente o tuf\u00e3o. Depois, entreabrindo-os, com os dentes cerrados, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Infante Dom Dinis, beijai a m\u00e3o \u00e0 vossa rainha.<\/p>\n<p>Foi um s\u00f3 o volver de todos os olhos para o mo\u00e7o infante: o sussuro das respira\u00e7\u00f5es cessara.<\/p>\n<p>D. Dinis n\u00e3o respondeu; encaminhou-se para o meio do aposento: parou defronte do trono e, olhando em redor de si, perguntou com sorriso de amargo esc\u00e1rnio:<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 aqui a rainha de Portugal?<\/p>\n<p>&#8211; Infante Dom Dinis! &#8211; disse el-rei, cujo rosto o furor mal reprimido demudara. &#8211; Sofredor e bom irm\u00e3o tenho sido por largo tempo: n\u00e3o queirais que seja hoje s\u00f3 juiz inflex\u00edvel do filho querido daquele que tamb\u00e9m me gerou! Infante Dom Dinis!, beijai a m\u00e3o da mui nobre e virtuosa Dona Leonor Teles, como fez vosso irm\u00e3os mais velho, de quem dever\u00edeis haver vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca um neto de Dom Afonso do Salado &#8211; replicou o infante, com aparente tranquilidade &#8211; beijar\u00e1 a m\u00e3o da que el-rei seu irm\u00e3o e senhor que chamar rainha. Nunca Dom Dinis de Portugal beijar\u00e1 a m\u00e3o da mulher de Jo\u00e3o Louren\u00e7o da Cunha. Primero ela descer\u00e1 desse trono e vir\u00e1 ajoelhar a meus p\u00e9s; que de reis venho eu, n\u00e3o ela.<\/p>\n<p>&#8211; De joelhos, dom traidor! &#8211; gritou D. Fernando, pondo-se em p\u00e9 e descendo dois degraus do estrado. &#8211; De joelhos, vil parceiro de rev\u00e9is sandeus! Se a taberna de Folco Taca vos ouviu fazer preito infame aos pe\u00f5es de Lisboa, quebra-lo-eis diante do vosso rei: quebra-lo-eis, que vo-lo digo eu!<\/p>\n<p>D. Dinis viu ent\u00e3o que todos os seus passos estavam descobertos: achava-se, por isso, \u00e0 borda de um abismo. Hesitou um momento; mas lembrou-se de que era neto do her\u00f3i do Salado e precipitou-se na voragem.<\/p>\n<p>&#8211; Vil \u00e9 a mulher barreg\u00e3 e ad\u00faltera, e essa \u00e9 ambas as cousas. Traidor seria um rei de Portugal que assentasse o adult\u00e9rio no trono, e v\u00f3s o fizestes, rei desonrado e maldito de vosso Deus e do vosso povo! Quem neste lugar \u00e9 o vil e o traidor?<\/p>\n<p>O infante, acabando de proferir estas palavras, abaixou a cabe\u00e7a e deixou descair os bra\u00e7os. Ele bem sabia que se seguia o morrer.<\/p>\n<p>Apenas el-rei se alevantara, D\u00aa Leonor, cujas faces se haviam tingido da amarelid\u00e3o da morte, tinha-se erguido tamb\u00e9m. Naquele rosto, semelhante ao de uma est\u00e1tua de sepulcro, apenas se conhecia o viver no profundar, cada vez maior, das duas rugas frontais que se lhe vinham juntar entre os sobrolhos.<\/p>\n<p>Ouvindo as derradeiras e fulminantes palavras de D. Dinis, el-rei soltara um destes rugidos de desespera\u00e7\u00e3o e c\u00f3lera humanas que nem o rugido da mais brava fera pode igualar; grito de ventr\u00edloquo, que \u00e9 como o estridor de todas as fibras do cora\u00e7\u00e3o que se despeda\u00e7am a um tempo; gemido como o do rodado ao primeiro giro do instrumento do supl\u00edcio: rugido, grito, gemido, conglobados num s\u00f3 hiato, fundidos num som \u00fanico pela raiva, pelo \u00f3dio, pela ang\u00fastia &#8211; brado que s\u00f3 ter\u00e1 eco pleno no bramido que h\u00e1-de soltar o r\u00e9probo quando no derradeiro ju\u00edzo o julgador dos mundos lhe disser: \u201cPara ti as penas eternas.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"corpo\">\n<p>do fizera tremer os mais esfor\u00e7ados cavaleiros que se achavam presentes: o movimento que o seguiu fez gelar o sangue em todas as veias.<\/p>\n<p>Como um rel\u00e2mpago ele tinha arrancado da cinta o agudo bulh\u00e3o e, com os olhos desvairados, encaminhava-se para o meio da sala, onde seu irm\u00e3o o esperava im\u00f3vel, com a m\u00e3o sobre o peito, como se dissesse: \u201cAqui!\u201d<\/p>\n<p>Mas D. Fernando n\u00e3o p\u00f4de oferecer nas aras do adult\u00e9rio um fratric\u00eddio; uma barreira se tinha alevantado a seus p\u00e9s. Era um velho de fronte calva e de longas melenas brancas e desbastadas pelos anos: era aquele que lhe fora mais que pai e que ele respeitava mais que a mem\u00f3ria deste; era o seu alferes-mor, o vener\u00e1vel Airas Gomes, que, ajoelhado, lhe clamava com vozes truncadas de solu\u00e7os e l\u00e1grimas:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor!, que \u00e9 vosso irm\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um covarde traidor, que deve morrer! Irm\u00e3o!? Mentes, velho! Ele j\u00e1 o n\u00e3o \u00e9!<\/p>\n<p>\u00c0 palavra \u201cmentes!\u201d um rel\u00e2mpado de vermelhid\u00e3o passou pelas faces cavadas do antigo cavaleiro: abaixou os olhos e correu-os pela espada. Fora esta a primeira vez que ela ficara na bainha depois de t\u00e3o funda afronta. Mas aquele era o momento dos grandes sacrif\u00edcios. Airas Gomes replicou, alimpando as l\u00e1grimas:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca vos menti, senhor, nem quando \u00e9reis na puer\u00edcia, nem depois que sois meu rei. Sabei-lo. Criminoso ou inocente, Dom Dinis \u00e9 filho de meu bom senhor Dom Pedro. A vosso pai servi com lealdade; por v\u00f3s j\u00e1 me andou arriscada a vida. Hoje tendes por defensores todos os cavaleiros de Portugal, ele \u00e9 que n\u00e3o tem, talvez, um s\u00f3. Senhor rei, ficai certo de que, para assassinar vosso irm\u00e3o, vos \u00e9 mister passar por cima do ca\u00e1ver de vosso segundo pai.<\/p>\n<p>Atalhado assim o primeiro \u00edmpeto, o car\u00e1cter do mo\u00e7o monarca revelou-se inteiro neste momento. Comoveu-o a postura do venerando anci\u00e3o, que pela primeira vez via a seus p\u00e9s, e, com a irresolu\u00e7\u00e3o pintada nos olhos, fitou-os em Leonor Teles.<\/p>\n<p>Por uma reflex\u00e3o instant\u00e2nea, a hiena previra que o sangue derramado pelo fratricida n\u00e3o cairia s\u00f2mente sobre a cabe\u00e7a deste, mas tamb\u00e9m sobre a dela. Naquele rosto, ent\u00e3o semelhante ao de uma est\u00e1tua, D. Fernando n\u00e3o p\u00f4de ler a senten\u00e7a do infante, bem que l\u00e1 no fundo do cora\u00e7\u00e3o ela estivesse escrita com sangue.<\/p>\n<p>Entretanto os cortes\u00e3os, que no furor rompente de el-rei haviam ficado estupefactos e quedos, vendo-o vacilar, rodearam o infante. O velho Gil Vasques de Resende, que ia interpor-se, tamb\u00e9m, entre D. Dinis e el-rei, quando este arrancara o punhal, parara ao ver a her\u00f3ica resolu\u00e7\u00e3o do alferes-mor; mas, ao hesitar de D. Fernando, correra a abra\u00e7ar-se com o seu pupilo, que, no meio de tantos \u00e2nimos agitados por paix\u00f5es diversas, era quem \u00f9nicamente parecia tranquilo e alheio ao terror que se pintava em todos os semblantes.<\/p>\n<p>Finalmente, el-rei meteu vagarosamente o punhal no cinto e, com voz pausada, mas tr\u00e9mula e presa, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Que esse mal-aventurado sai de ante mim.<\/p>\n<p>O tom em que estas poucas palavras foram proferidas fez vergar o \u00e2nimo de D. Dinis, cujo cora\u00e7\u00e3o, antes disso, parecera de bronze. Os olhos arrasaram-se-lhe de \u00e1gua. Sentira que, at\u00e9 ent\u00e3o, era uma c\u00f3lera cega, repentina, insensata, que o amea\u00e7ava: agora, por\u00e9m, no modo e na express\u00e3o de D. Fernando vira claramente que era um amor de irm\u00e3o que expirava.<\/p>\n<p>Com a cabe\u00e7a pendida em cima do ombro de Gil Vasques de Resende, saiu do aposento.<\/p>\n<p>Era, talvez, o velho o \u00fanico amigo que lhe restava no mundo.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor levou ambas as m\u00e3os ao rosto, e via-se-lhe arquejar o colo formoso, agitado por mal contido suspiro.<\/p>\n<p>\u201cCora\u00e7\u00e3o compadecido e generoso!\u201d, pensou l\u00e1 consigo o alferes-mor, que havia pouco a tratara de perto pela primeira vez.<\/p>\n<p>\u201cHora maldita e negra, em que perdi metade de minha t\u00e3o espera vingan\u00e7a\u201d, pensava Leonor Teles, e o choro rebentou-lhe com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te aflijas, Leonor &#8211; disse D. Fernando, apertando-a ao peito. &#8211; Que nunca mais eu o veja, e viva, se puder, em paz!<\/p>\n<p>Mas as l\u00e1grimas correram ainda com mais abund\u00e2ncia e amargura.<\/p>\n<p>O resto daquele dia foi triste: triste o banquete e o sarau. A atmosfera em que respirava a nova rainha tinha o que quer que fosse pesado e mortal, que resfriava todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 meia-noite, por um claro luar de c\u00e9u limpo de Inverno, uma barca subia com dificuldade a corrente r\u00e1pida do Douro: \u00e0 popa viam-se reluzir, nas toucas e mantos negros de dois cavaleiros que a\u00ed iam sentados, as orlas e bordaduras de ouro e prata: um dos remeiros cantava uma cantiga melanc\u00f3lica, a que respondia o companheiro, e dizia assim:<\/p>\n<p>\u201cMortos me s\u00e3o padre e madre:<\/p>\n<p>Eu tamanho fiquei.<\/p>\n<p>Irm\u00e3os meus mal me quiseram.<\/p>\n<p>Eu mal n\u00e3o lhes quererei.<\/p>\n<p>Vou-me correr esse mundo;<\/p>\n<p>Sabe Deus se o correrei!<\/p>\n<p>A alma deixo-a c\u00e1 presa;<\/p>\n<p>O corpo s\u00f3 levarei.<\/p>\n<p>De meus av\u00f3s nos solares<\/p>\n<p>Nasci: dous dias passei:<\/p>\n<p>Meus irm\u00e3os, nada vos tenho<\/p>\n<p>Sen\u00e3o o nome que herdei.\u201d<\/p>\n<p>Esta cantiga, cuja toada mon\u00f3tona repercutia nos rochedos aprumados das margens, foi interrompida por doloroso suspiro. Um dos cavaleiros o dera.<\/p>\n<p>Os remeiros calaram-se: arrancaram da voga com mais \u00e2nsia e, depois, continuaram:<\/p>\n<p>\u201cSe fui rico, ora sou pobre:<\/p>\n<p>Choro hoje, se j\u00e1 folguei:<\/p>\n<p>Vilas troquei por desvios;<\/p>\n<p>Muito fui: nada serei.<\/p>\n<p>Sem padre, madre ou irm\u00e3os<\/p>\n<p>A quem me socorrerei?<\/p>\n<p>A ti, meu Senhor Jesus:<\/p>\n<p>Senhor Jesus, me acorrei!\u201d<\/p>\n<p>Um gemido mais angustiado, que saiu envolto em solu\u00e7os, cortou de novo a cantiga: era do mesmo que j\u00e1 a interrompera. O seu companheiro bradou aos barqueiros, com a voz tr\u00e9mula e cansada de um anci\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Calai-vos a\u00ed com vossas trovas malditas!<\/p>\n<p>Os remeiros vogaram em sil\u00eancio; mas pensaram l\u00e1 consigo que muito danadas deviam ser as almas de cavaleiros que assim maldiziam t\u00e3o devoto trovar.<\/p>\n<p>Repararam, por\u00e9m, que, dos dois desconhecidos, o que suspirava e gemera lan\u00e7ara os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o do que falara, e que este, afagando-o, lhe dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Quando todos, senhor, vos abandonarem n\u00e3o vos abandonarei eu; que o devo ao amor com que vos criei e \u00e0 esclarecida e santa mem\u00f3ria de vosso virtuoso pai.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os barqueiros, bem que rudes, desconfiaram de que podia muito bem ser que n\u00e3o fossem duas almas danadas aquelas, mas sim mal-aventuradas.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Juramento, pagamento<\/p>\n<p>Passara mais de um ano depois do casamento de el-rei. Este casamento, que explicava o rep\u00fadio da infanta de Castela, n\u00e3o bastara, em verdade, para acender a guerra entre D. Henrique e D. Fernando, estando j\u00e1 de algum modo previsto nos cap\u00edtulos adicionais do Tratado de Alcoutim. Mas, como se o desgosto que semelhante ofensa devia gerar no \u00e2nimo do rei castelhano n\u00e3o fosse assaz forte para servir de fermente a futuras guerras, D. Fernando suscitara novos motivos de s\u00e9rias desaven\u00e7as, que n\u00e3o particularizaremos aqui, por n\u00e3o virem a nosso intento. Baste saber-se que, depois de in\u00fateis mensagens e queixas, D. Henrique de Castela, entrando s\u00f9bitamente em Portugal e tomando muitas terras fortificadas, atravessara r\u00e0pidamente a Beira, passara junto aos muros de Coimbra, onde se achava D\u00aa Leonor Teles, e, vindo oferecer batalha a el-rei D. Fernando, que estava em Santar\u00e9m e que n\u00e3o aceitou o combate, se encaminhara para Lisboa, cujos habitantes desapercebidos apenas tivera tempo de se acolherem aos antigos muros do tempo de D. Affonso III, de cujas torres e adarves viram os Castelhanos saquearem e queimarem o bairro mais povoado e rico da cidade, o Arrabalde, sem lhes poderem p\u00f4r obst\u00e1culo. No meio deste apertado cerco, desamparados de el-rei, que apenas lhes enviara alguns dos seus cavaleiros, os moradores de Lisboa n\u00e3o tinham desanimado. Com v\u00e1ria fortuna, haviam resistido aos cometimentos dos Castelhanos e, o que mais duro era de sofrer, \u00e0 fome, \u00e0 sede e, at\u00e9, ao receio de trai\u00e7\u00f5es de seus naturais. Finalmente, D. Fernando fizera uma paz vergonhosa, depois de ter suscitado uma injusta guerra, e Lisboa viu afastar dos seus muros o ex\u00e9rcito de el-rei de Castela, que a tivera sitiada durante quase dois meses.<\/p>\n<p>Era nos fins de Mio de 1373, pela volta da tarde de um formoso dia de Primavera. O ar estava t\u00e9pido e o c\u00e9u limpo. Pelos campos e vales via-se verdejar a relva; a madressilva e as rosas bravias, enredadas pelos valados, embalsamavam a atmosfera. Mas estes eram os \u00fanicos sinais que, nos arredores de Lisboa, revelavam aquela esta\u00e7\u00e3o suave no seu clima suav\u00edssimo. Tudo o mais contrastava horr\u00ecvelmente com eles. Os extensos e bastos olivedos e azinhais que nessas eras a rodeavam jaziam aqui e ali por terra, como se por l\u00e1 tivesse passado fouce gigante meneada por bra\u00e7o de ferro. Pelos outeirinhos, coroados pouco havia de vinhas frondosas, viam-se espalhadas as videiras cobertas de folhas ressecadas antes de tempo ou enegrecidas pelo fogo, assemelhando-se a g\u00e2ntara coberta de urzes que foi desbravada por fins do Outono. As vastas hortas que se derramavam por Valverde, trilhadas pelos p\u00e9s dos cavalos, estavam incultas e abandonadas. Mas, sobre este mal-assombrado e triste ch\u00e3o do painel, mais melanc\u00f3lica e aflitiva avultava ainda a figura principal, a cidade.<\/p>\n<p>O populoso bairro chamado o Arrabalde, onde, dantes, era cont\u00ednuo o ru\u00eddo discorde de trato imenso, achava-se convertido em mont\u00e3o de ru\u00ednas. Para os lados do sul e poente, n\u00e3o se viam, desde os antigos muros (cujo per\u00edmetro pouco mais abrangia do que o castelo e o bairro a que hoje damos geralmente o nome de Alfama), sen\u00e3o edif\u00edcios queimados, ruas entulhadas, pra\u00e7as desfeitas, vest\u00edgios de sangue, pe\u00e7as de armadura aboladas ou falsadas, hastilhas e ferros partidos de virotes, de lan\u00e7as e de espadas, e, aqui e acol\u00e1, cad\u00e1veres f\u00e9tidos, n\u00e3o s\u00f3 de cavalos, mas tamb\u00e9m de homens, cujas carnes, meio devoradas pelos c\u00e3es ou pelo tempo, lhes deixavam branquejar as ossadas. Sobre os entulhos apareciam como fantasmas os servos mouros, revolvendo as pedras derrocadas, em busca de alguma preciosidade que tivesse escapado \u00e0s chamas e ao inimigo; e junto \u00e0s paredes negras da sinagoga os mercadores judeus, olhando para o seu bairro assolado, depenavam as barbas \u00e0 roda dos rabis, que recitavam em tom de pranto os vers\u00edculos hebraicos dos trenos.<\/p>\n<p>Por meio deste vasto quadro de assola\u00e7\u00e3o rompia uma numerosa companhia de cavaleiros e damas, de donas e escudeiros, de donzelas e pajens brilhante cavalgada que descia da banda de Santo Ant\u00e3o para S. Domingos e tomava pela Corredoura para a Porta do Ferro. A formosura e o luxo das mulheres, as figuras atl\u00e9ticas e os rostos varonis dos cavaleiros, o brunido das armas, o lou\u00e7\u00e3o dos trajos, o rico dos arreios, tudo, enfim, dava clara mostra de que naquela cavalgada vinha a mais nobre gente de Portugal. Os risos das damas, os ditos galantes e agudos dos fidalgos, o rinchar alegre dos corc\u00e9is briosos e dos delicados palafr\u00e9ns, as doudices dos donz\u00e9is, que, ora correndo \u00e0 r\u00e9dea solta, ora sofreando os cavalos, ao perpassar pelas mulas pac\u00edficas dos cortes\u00e3os letrados, os faziam vacilar e debru\u00e7ar sobre os ar\u00e7\u00f5es, o bater das asas dos nebris e gerifaltes empoleirados nos punhos dos falcoeiros, o latir dos galgos e al\u00e3os, que, atrelados, forcejavam por se atirarem acima daqueles centenares de habita\u00e7\u00f5es derrocadas, de onde sa\u00eda de vez em quando uma exala\u00e7\u00e3o de carni\u00e7a: esse rir, este folgar, este ru\u00eddo de contentamento, este matiz de reflexos met\u00e1licos, de cores variegadas, passando, como turbilh\u00e3o, atrav\u00e9s daquele sil\u00eancio sepulcral, parecia rasgar o v\u00e9u de tristeza que cobria a vasta \u00e1rea da cidade destru\u00edda e revoc\u00e1-la a uma nova exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o povo, apesar disso, continuava a estar triste.<\/p>\n<p>A cavalgada chegou ao terreiro da S\u00e9. Um engenho de arremessar pedras estava assentado no meio dele, e os grossos madeiros de que era constru\u00eddo viam-se ainda manchados de rastos de sangue. Uma dama que vinha na frente da comitiva parou: um cavaleiro de boa idade e gentil-homem, que caminhava a seu lado, parou tamb\u00e9m. A dama apontou para o engenho, disse algumas palavras ao cavaleiro e, depois, desatou a rir.<\/p>\n<p>Era ela a mui nobre e virtuosa rainha D\u00aa Leonor: ele o mui excelente e esclarecido rei D. Fernando de Portugal.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor tinha raz\u00e3o para rir.<\/p>\n<p>Durante o cerco de Lisboa, uma voz, verdadeira ou falsa, se espalhara de que v\u00e1rios moradores da cidade estavam preitejados com el-rei de Castela para lhe abrirem uma das portas. Dava for\u00e7a a tais suspeitas o acharem-se no campo castelhano Diogo Lopes Pacheco e D. Dinis, que com ele se haviam ajuntado na sua entrada em Portugal, e as desconfian\u00e7as reca\u00edam naturalmente sobre aqueles que, dois anos antes, tinham seguido o partido contr\u00e1rio a D\u00aa Leonor, de que o infante e o velho privado de D. Afonso IV eram cabe\u00e7as. Assim a popularidade dos parciais de D. Dinis tinha diminu\u00eddo consider\u00e0velmente, porque o povo, em vez de atribuir a sua ru\u00edna a causas remotas, \u00e0s paix\u00f5es insensatas de D\u00aa Leonor e \u00e0 imprud\u00eancia de el-rei, s\u00f3 nas sugest\u00f5es de Diogo Lopes e do infante via agora a origem de todos os males presentes, e o \u00f3dio que contra os dois havia concebido se estendera a todos os que cria serem-lhes afei\u00e7oados.<\/p>\n<p>Apenas, portanto, se divulgou a not\u00edcia da intentada trai\u00e7\u00e3o, o povo furioso correu \u00e0s moradas daqueles que, como fica dito, lhe eram mais suspeitos. Seguiu-se uma festa de canibais, festa de vulgacho em qualquer tempo e lugar que ele reine. Aqueles que n\u00e3o puderam provar de modo ineg\u00e1vel a sua inoc\u00eancia foram metidos aos mais cru\u00e9is tormentos, onde nenhum se confessou culpado. Um desgra\u00e7ado, contra o qual eram mais veementes as desconfian\u00e7as, foi arrastado pelas ruas e feito depois em peda\u00e7os: \u201coutro &#8211; diz o cronista &#8211; tomarom e pozoromno na fumda d\u2019huum engenho, que estava armado ante a porte da see; e quando desfechou lan\u00e7ouo em \u00e7ima dessa igreja antre duas torres dos sinos que hi ha, e quando cahio acharomno vivo; e tomaromno outra vez e pozeromno na funda do engenho, e deitouho contra o mar, omde elles desejavom, e assi acabou sua vida\u201d.<\/p>\n<p>Era por isso que D\u00aa Leonor olhava para o engenho e se rira. O pr\u00f3prio povo tinha pagado uma parte das arras do seu casamento.<\/p>\n<p>A noite descera entretanto. A cavalgada parou no terreiro de S. Martinho, e \u00e0 luz de muitas tochas parte daquela multid\u00e3o escoou-se, pouco a pouco, por diversas ruas, enquanto outra parte subia \u00e0 sala principal ou se derramava pelos aposentos dos pa\u00e7os, cujo sil\u00eancio de quase dois anos, depois da fuga de el-rei com D\u00aa Leonor Teles, era a primeira vez interrompido pelo ru\u00eddo de uma corte numerosa, mas bem diferente da antiga. A rainha havia quase exclusivamente chamado a ela os seus parentes ou aqueles fidalgos que lhe tinham dado provas n\u00e3o equ\u00edvocas de sincera afei\u00e7\u00e3o e substitu\u00edra \u00e0 severidade antiga do pa\u00e7o todo o brilho de luxo insensato e, o que mais era, a dissolu\u00e7\u00e3o dos costumes, que quase sempre acompanha esse luxo. Depois de uma ceia espl\u00eandida como o devia ser nesta corte voluptu\u00e1ria, apenas ficara na c\u00e2mara real D. Fernando e sua mulher, o conde de Barcelos, D. Jo\u00e3o, D. Gon\u00e7alo Teles, irm\u00e3o de D\u00aa Leonor, e um donzel da rinha, filho bastardo de outro bastardo, do prior do Hospital \u00c1lvaro Gon\u00e7alves Pereira, donzel que ela mais que nenhum estimava. Estas personagens achavam-se reunidas no mesmo aposento onde, dois anos antes, o beguino Frei Roy viera revelar \u00e0 ent\u00e3o amante de D. Fernando os intentos dos seus inimigos. Era deste aposento que ela sa\u00edra fugitiva e amaldi\u00e7oada do povo. Mas era a\u00ed, tamb\u00e9m, que D\u00aa Leonor vinha depois de tantos sustos, de tantas dificuldades vencidas, de tanto sangue derramado por sua causa, repousar triunfadora, segura j\u00e1 na fronte a coroa real. Tudo estava do mesmo modo, salvo as personagens, que, em parte, eram diversas e em diversa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>El-rei, habitualmente alegre, sentara-se triste na cadeira de espaldas, \u00fanico m\u00f3vel do aposento, e encostara a cabe\u00e7a sobre o punho cerrado: D\u00aa Leonor, posto que naturalmente loquaz, sentada no estrado defronte de D. Fernando, conservava-se, tamb\u00e9m, em sil\u00eancio: em p\u00e9, um pouco atr\u00e1s da cadeira de el-rei, o donzel querido de D\u00aa Leonor, com os olhos fitos nela, esperava atento as determina\u00e7\u00f5es de sua senhora: ao longo da sala o conde de Barcelos e D. Gon\u00e7alo Teles passeavam lentamente, conversando em voz submissa e pausada.<\/p>\n<p>Mas a taciturnidade de cada uma das duas personagens principais tinha bem diferentes motivos.<\/p>\n<p>A imagem da sua capital destru\u00edda havia-se embebido na alma de el-rei, como remorso cruel. Pelas sugest\u00f5es de seu tio adoptivo, consentira que D. Henrique viesse livremente destruir a opulenta Lisboa. Ele, neto de Afonso IV, rejeitara os socorros de seus valorosos vassalos, que, ao esvoa\u00e7ar dos pend\u00f5es inimigos, de toda a parte haviam corrido, lan\u00e7a em punho, para combaterem debaixo da signa real: ele, cavaleiro, fora vil instrumento de vingan\u00e7a covarde: ele, rei de Portugal, fora o destruidor do seu povo: ele, portugu\u00eas, recebera o nome de fraco de um castelhano, sem que ousasse desmentir a afronta! Estas ideias, que o tinham assaltado ao atravessar as ru\u00ednas dos arrabaldes, tomavam vulto e for\u00e7a na solid\u00e3o e no sil\u00eancio. O pobre monarca, bom, mas excessivamente brando e irresoluto, tinha sobeja raz\u00e3o de estar triste. A Lua, que come\u00e7ava a subir, dava de chapa, atrav\u00e9s da janela oriental do aposento, no rosto de D. Fernando, como dois anos antes, quase a essa hora, lhe alumiara, tamb\u00e9m, as faces demudadas de afli\u00e7\u00e3o. Este lugar, esta luz e esta hora eram para ele funestos!<\/p>\n<p>Nesse momento, passos mais r\u00e1pidos e mais pesados que os dos dois fidalgos come\u00e7aram a soar na sala cont\u00edgua: quem quer que era passeava tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Dos olhos de D. Fernando sa\u00edam dois t\u00e9nues reflexos; eram os raios da luz que os espelhavam em duas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>A rainha, alevantando-se ent\u00e3o, disse ao donzel:<\/p>\n<p>&#8211; Nun\u2019\u00c1lvares Pereira, vede quem est\u00e1 nessa sala.<\/p>\n<p>Nun\u2019\u00c1lvares abriu a porta e, alongando a cabe\u00e7a, voltou imediatamente e disse:<\/p>\n<p>&#8211; O corregedor da Corte.<\/p>\n<p>Os dois fidalgos pararam na extremidade do aposento, calaram-se e conservaram-se im\u00f3veis.<\/p>\n<p>A rainha fez sinal com a m\u00e3o a Nun\u2019\u00c1lvares para que esperasse: o donzel ficou \u00e0 porte sem pestanejar.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor encaminhou-se ent\u00e3o para el-rei, que, embebido no seu profundo cismar, n\u00e3o vira, nem ouvira o que se fazia ou dizia. Curvando-se e firmando o cotovelo no bra\u00e7o da cadeira de el-rei, encostou a cabe\u00e7a sobre o ombro dele, com a face unida \u00e0 sua.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu, Fernando? &#8211; perguntou ela, com essa inflex\u00e3o de voz meiga que s\u00f3 sabem l\u00e1bios de esposa que muito ama, mas com que tamb\u00e9m soubera atinar esta mulher sublime de hipocrisia.<\/p>\n<p>&#8211; Nada! &#8230; nada! &#8211; respondeu el-rei, lan\u00e7ando-lhe o bra\u00e7o em redor do pesco\u00e7o e apertando a face incendiada \u00e0quele rosto de anjo, que dissimulava um cora\u00e7\u00e3o de dem\u00f3nio.<\/p>\n<p>Os dois t\u00e9nues reflexos da lua tinham esmorecido nos olhos de D. Fernando: o h\u00e1lito de Leonor Teles queimara as l\u00e1grimas da compaix\u00e3o e do remorso.<\/p>\n<p>&#8211; Enganas-me ou enganas-te a ti pr\u00f3prio, Fernando! &#8211; replicou a rainha. &#8211; Tu \u00e9s infeliz, e eu sei porque o \u00e9s. Aborreces j\u00e1 a pobre Leonor Teles.<\/p>\n<p>O tom com que estas palavras foram proferidas era capaz de partir um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>&#8211; Enlouqueceste, Leonor? &#8211; exclamou el-rei. &#8211; Aborrecer-te? Sem ti, este mundo fora para mim soldade, a coroa mart\u00edrio, a vida maldi\u00e7\u00e3o de Deus. Como nos primeiros dias dos nossos amores, no leito da morte amar-te-ei ainda. Gl\u00f3ria, riqueza, poderio, tudo te sacrifiquei; n\u00e3o me pesa. Mil vezes que tu o queiras to sacrificarei de novo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, prouvera a Deus que o teu amor fosse metade do que dizes: fosse metade do meu!<\/p>\n<p>&#8211; Busca, inventa, aponta-me algum modo de provar o que te digo, e ver\u00e1s se as minhas palavras s\u00e3o sinceras!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 um, rei de Portugal! &#8211; replicou Leonor Teles, em cujos olhos cintilava o contentamento.<\/p>\n<p>Dizendo isto, ela se afastara de el-rei. O seu aspecto tomou s\u00f9bitamente a express\u00e3o grave e severa de uma rainha. A um gesto que fez, Nun\u2019\u00c1lvares ergueu o reposteiro, e o corregedor da Corte entrou. Trazia na m\u00e3o um pergaminho aberto. Chegou ao p\u00e9 de Leonor Teles, ajoelhou e entregou-lho.<\/p>\n<p>A rainha pegou nele e apresentou-o a el-rei: o donzel trouxe uma das tochas que estavam nos \u00e2ngulos do aposento e colocou-se \u00e0 esquerda da cadeira de D. Fernando.<\/p>\n<p>&#8211; A prova do que dissestes, rei de Portugal, est\u00e1 em estampardes no fim desse pergaminho o vosso selo de puridade.<\/p>\n<p>D. Fernando recebeu o pergaminho e come\u00e7ou a ler: a cada uma das extensas linhas, que o obrigavam a descrever com a fronte uma curva, o remor das m\u00e3os tornava-se-lhe mais violento e as contrac\u00e7\u00f5es do rosto mais profundas. Antes de acabar de ler, atirou o pergaminho ao ch\u00e3o e, com voz terr\u00edvel, exclamou, cravando os olhos reluzentes em Leonor Teles:<\/p>\n<p>&#8211; Mulher, que me pedes tu?<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a e as minhas arras.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que el-rei ousava resistir \u00e0 vontade de Leonor Teles. Ela ainda n\u00e3o o cria. Habituada a ser obedecida pelo pobre monarca, estas \u00faltimas palavras foram proferidas com a insol\u00eancia de uma resolu\u00e7\u00e3o incontrast\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a? Contra quem a pedes? Contra ca\u00e1veres e moribundos. As tuas arras? Tiveste em dote as mais formosas vilas dos meus senhorios: tiveste o que mais desejavas, as arras de sangue e ru\u00ednas. Para te contentar, deixei Lisboa entregue ao furor de inimigos; para te contentar, fui vil e fraco; para te contentar, dos pat\u00edbulos j\u00e1 t\u00eam pendido sobejos cad\u00e1veres. E, ainda n\u00e3o satisfeita, pretendes que, antes de dormir uma \u00fanica noite na minha capital assolada, confirme uma senten\u00e7a de morte! Leonor!, tu eras digna de seres filha de meu implac\u00e1vel pai!<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor repelira o olhar, entre col\u00e9rico e t\u00edmido de D. Fernando, que mal acreditava a pr\u00f3pria aud\u00e1cia, com um olhar em que se misturava a indigna\u00e7\u00e3o e o desprezo. Ela ouviu as suas palavras sem mudar de aspecto; mas, apenas el-rei acabou, encaminhou-se para a janela onde batia o luar e estendeu a m\u00e3o para o c\u00e9u:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois anos, senhor rei, que neste aposento, a estas mesmas horas, um cavaleiro jurava a uma dama, de quem pretendia quanto mulher pode ceder a desejos de homem, que a amaria sempre; jurava-o pelo c\u00e9u, pelos ossos de seus av\u00f3s, pela sua f\u00e9 de cavaleiro &#8211; e o cavaleiro mentiu. As bocas de homens vis vomitavam contra essa mulher e a essa mesma hora os nomes de ad\u00faltera, de barreg\u00e3, de prostituta; e pediam a sua morte. O cavaleiro sabia que tais afrontas escrevem-se para sempre na fronte de quem as recebe, se o sangue de quem as proferiu n\u00e3o as lava um dia. O cavaleiro ofereceu a sua alma aos dem\u00f3nios, se n\u00e3o as lavasse com sangue &#8211; e esse cavaleiro blasfemou e mentiu. Senhor rei, diante do c\u00e9u que ele invocou, perto dos ossos de seus av\u00f3s, pelos quais jurou, \u00e0 luz da lua, que o alumiava, dir-vos-ei: aquele cavaleiro foi perjuro, blasfemo, desleal e covarde, e eu a sua v\u00edtima. \u00c9 contra ele que ora vos pe\u00e7o justi\u00e7a. Rei de Portugal, justi\u00e7a!<\/p>\n<p>Esta \u00faltima palavra restrugiu horr\u00ecvelmente pelo aposento. El rei, que, durante o discurso de D\u00aa Leonor, se erguera pouco a pouco, fascinado pelo seu gesto diab\u00f3lico e pelo seu olhar fulminante, caiu outra vez, arquejando, sobre a cadeira. O desgra\u00e7ado cobriu a cada com ambas as m\u00e3os e, depois de um momento de sil\u00eancio, murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas como punir aqueles que, talvez, s\u00e3o cad\u00e1veres? A guerra e a f\u00faria popular os puniram!<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor triunfara.<\/p>\n<p>&#8211; Nem todos! &#8211; prosseguiu a astuta e sanguin\u00e1ria pantera, acometendo o \u00faltimo entrincheiramento em que D. Fernando, j\u00e1 debalde, procurava defender-se. &#8211; Os seus mais vis inimigos ainda respiram e, porventura, ainda sonham vingan\u00e7a. Corregedor da Corte, lede os nomes escritos em vossa senten\u00e7a.<\/p>\n<p>O corregedor da Corte alevantou o pergaminho, afastando-o dos olhos e interpondo a m\u00e3o aberta entre estes e a tocha que Nun\u2019\u00c1lvares segurava; tossiu duas veses, inclinou para tr\u00e1s a cabe\u00e7a e, com o tom cheio e solene de um mestre em degredos, leu:<\/p>\n<p>&#8211; Item: Fern\u00e3o Vaasques, peom, alfayate, cabe\u00e7a e propoedor dos ssusodictos rreveis.<\/p>\n<p>Aqui abriu o peitilho da garnacha, tirou a sua ementa particular e leu a seguinte cota:<\/p>\n<p>&#8211; Vivo: muy malferido dhu\u00f9a ffrechada com herva no ffecto do meirinho-moor, quando hos da \u00e7idade llevarom os castell\u00e3os de vencida at\u00e9 m\u00eaa rrua nova.<\/p>\n<p>Lida esta observa\u00e7\u00e3o, o corregedor continuou a ler sucessivamente os nomes dos r\u00e9us e as respectivas cotas.<\/p>\n<p>&#8211; Item: Stevom Martins Bexigosso, mercador, peom, capit\u00e3o dhuu corpo dos ssusodictos rreveis. &#8211; Fizia a ementa: &#8211; Morto de ssua door naturall.<\/p>\n<p>\u201cItem: Bertholameu Martijs, ourives, peom, dizidor de pallavras de desacatamento contra ssua rreal ssenhoria e de gr\u00e3o ssamdi\u00e7e e desavergonhamento. &#8211; Dizia a ementa: &#8211; Morto dhuua pedrada dhuu engenho dos imiguos.<\/p>\n<p>\u201cItem: Joham Lobeira, escudeiro, homem darmas, acostado do alcayde moor que ffoy do castello desta lyal cidade, capit\u00e3o dos beesteiros que fforam a Ssam domingos. &#8211; Dizia a cota: &#8211; Foi cativo dhos castell\u00e3os: dado em reendi\u00e7om e a bo\u00f5 rrequado na pryssom Dalca\u00e7ova.<\/p>\n<p>\u201cItem: Bertholameu Chamb\u00e3o, peom, tanoeiro, cabe\u00e7a da beesteria do concelho, deputado pera ffazer vilta e affronta a ssua rreal ssenhoria ha muy excellente e muy vertuosa de gramdes vertudes, rrainha dona llyanor. &#8211; Rezava a ementa: &#8211; Morto dhuua lan\u00e7ada aa porta dho fferro.<\/p>\n<p>\u201cItem: Ayras Gil, petintal, capit\u00e3o dos rreveis, gualiotes, arraizes e pesquadores Dalfama. &#8211; Dizia a cota: &#8211; Ffogido com os castell\u00e3os.<\/p>\n<p>\u201cItem: Fr. Roy, dalcunha Zambrana, biguino, ffolliom, jograll de sseu officio, bevedo, assoalhador de pallavras e dictos devedados, scuita dhos rreveis. &#8211; Notava a ementa: &#8211; Enssande\u00e7eu na pryssom ao lleer da senten\u00e7a.<\/p>\n<p>Pobre Frei Roy! Vendo-se condenado \u00e0 morte, desesperado, revelara o que tinha sido na sedi\u00e7\u00e3o &#8211; um espia de Leonor Teles. A cota da ementa fora tudo o que tirara das suas revela\u00e7\u00f5es. O corregedor, homem agudo, como o melhor mestre em leis ou em degredos, deduzira das suas palavras que o beguino endoudecera, Frei Roy trocara as ideias. Tinha sido espia, mas dos sediciosos.<\/p>\n<p>Alevantado o cerco de Lisboa, o corregedor da Corte fora o primeiro presente que a nova rainha enviara \u00e0 cidade. \u00c0quele perspeicaz e diligente magistrado poucos dias haviam bastado para preparar um sarau digno dela, uma senten\u00e7a de morte. A prova da sua perspic\u00e1cia e dilig\u00eancia estava em ter j\u00e1 no caminho da forca os desgra\u00e7ados cuja senten\u00e7a vinha trazer \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o real. Numa execu\u00e7\u00e3o nocturna n\u00e3o havia a recear tumultos populares, e a brevidade que a rainha lhe recomendara neste neg\u00f3cio lhe fazia crer que n\u00e3o seria desagrad\u00e1vel a sua real senhoria a imediata execu\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us.<\/p>\n<p>Quando acabou a leitura, el-rei tirou da bolsa que trazia no cinto o selo de camafeu e, sem dizer palavra, entregou-o ao corregedor. Este pegou na tocha de Nun\u2019\u00c1lvares, deixou cair alguns pingos de cera no fundo do pergaminho, assentou-lhe em cima um fragmento de papel que tirara da ementa e cravou neste o selo. As armas de el-rei ficaram a\u00ed estampadas. O corregedor fizera isto com a prontid\u00e3o e asseio com que o mais h\u00e1bil algoz enforcaria o seu pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Depois o honesto magistrado entregou o selo a el-rei, cujo tremor nervoso se renovara durante a fatal cerim\u00f3nia. Ao pegar-lhe, o pobre monarca deixou-o cair no ch\u00e3o. O selo foi rolando e parou aos p\u00e9s de D\u00aa Leonor Teles. Ela empalideceu. Porqu\u00ea? Talvez se lhe figurou uma cabe\u00e7a humana que rolava diante dela.<\/p>\n<p>O corregedor fez uma profunda v\u00e9nia e perguntou em voz sumida \u00e0 rainha:<\/p>\n<p>&#8211; Quando, senhora?<\/p>\n<p>No mesmo tom, D\u00aa Leonor respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1.<\/p>\n<p>O destro e activo corregedor tinha dado no vinte. O \u201cj\u00e1\u201d da rainha seria mais \u201cj\u00e1\u201d do que ela pr\u00f3pria pensava.<\/p>\n<p>O corregedor saiu.<\/p>\n<p>A um aceno de D\u00aa Leonor, o donzel meteu a tocha no anel de ferro embebido na parede de onde a tinha tirado e encaminhou-se para junto da porta. Ali ficou de bra\u00e7os cruzados, olhos no ch\u00e3o, e im\u00f3vel como est\u00e1tua. Desde este dia, o formoso donzel odiou do fundo da alma a sua mui nobre senhora, aquela que lhe cingira a espada. O generoso Nun\u2019\u00c1lvares conhecera que debaixo desse rosto suave se escondia um instinto de besta-fera.<\/p>\n<p>Os dois fidalgos continuaram a passear de um para outro lado, conversando em voz baixa, e como alheios \u00e0 cena que ali se passava.<\/p>\n<p>El-rei tomara a primeira postura em que estava, com o cotovelo firmado no bra\u00e7o da cadeira, e a cabe\u00e7a encostada no punho; mas os seus olhos, revolvendo-se-lhe nas \u00f3rbitas, incertos e espantados, exprimiam a dolorosa aliena\u00e7\u00e3o daquela alma t\u00edmida, atormentada por mil afectos opostos.<\/p>\n<p>Ouvia-se apenas o cicio dos dois que conversavam. E, por largo espa\u00e7o, aquele murm\u00fario e o respirar alto e convulso de D. Fernando foram o \u00fanico ru\u00eddo que interrompeu o sil\u00eancio do vasto aposento.<\/p>\n<p>El-rei, com a m\u00e3o esquerda pendente sobre os joelhos, deixava-se ir ao som das ideias tenebrosas que lhe ofuscavam o esp\u00edrito e que, protra\u00eddas, o levariam bem pr\u00f3ximo das raias de completa loucura. A imagem de Leonor Teles aparecia-lhe como composto monstruoso de vulto de anjo e de olhar de dem\u00f3nio. Um amor infinito arrastava-o para essa imagem; o horror afastava-o dela. Via-a como um simulacro das virgens que, na inf\u00e2ncia, imaginava, ao ouvir ler ao bom de seu aio Airas Gomes as lendas dos m\u00e1rtires; mas logo cuidava ouvi-la dar risada infernal, passando por cima das ru\u00ednas da cidade deserta. O pat\u00edbulo e os del\u00edrios amorosos; o cheiro do sangue e o h\u00e1lito dos banquetes, misturavam-se-lhe no senso \u00edntimo: e o pobre monarca, nos seus desvarios, perdera a consci\u00eancia do lugar, da hora e da situa\u00e7\u00e3o em que se achava naquele terr\u00edvel momento.<\/p>\n<p>Mas um beijo ardente, dado nessa m\u00e3o que tinha estendida, e l\u00e1grimas ainda mais ardentes, que a regavam, foram como fa\u00edsca el\u00e9ctrica, revocando-o \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 realidade da vida.<\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o indiz\u00edvel e misteriosa que sentira fez-lhe abaixar os olhos: a rainha estava a seus p\u00e9s; era ela quem lhe cobria a m\u00e3o de beijos e lha regava de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>D. Fernando afastou-a suavemente de si: ela alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto; era, de feito, a imagem de uma das m\u00e1rtires que ele via no seu imaginar de inf\u00e2ncia. D\u00aa Leonor ergueu as m\u00e3os suplicantes, com um gesto de profunda ang\u00fastia: ent\u00e3o, era mais formosa que elas.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! &#8211; murmurou el-rei -, porque \u00e9 o teu cora\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel, ou porque te amei eu tanto?!<\/p>\n<p>&#8211; Desgra\u00e7ada de mim! &#8211; acudiu D\u00aa Leonor entre solu\u00e7os. 0 O teu amor era como o \u00edris do c\u00e9u: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperan\u00e7a; mas desvaneceu-se e passou; a vida de Leonor Teles desvancer-se-\u00e1 e passar\u00e1 com ele!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque sabes que esse amor n\u00e3o pode perecer; que esse amor \u00e9 como um fado escrito l\u00e1 em cima &#8211; interrompeu D. Fernando -, que tu me fazes tingir as m\u00e3os de sangue, para satisfazer as tuas cru\u00e9is vingan\u00e7as: \u00e9 porque sabes que esgoto sempre o c\u00e1lix das ignom\u00ednias quando as tuas m\u00e3os mo apresentam, que me sacias de desonra. Ter\u00e1s, acaso, algum dia piedade daquele que fizeste teu servo, e que n\u00e3o pode esquivar-se a ser tua v\u00edtima?<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, quanto \u00e9s injusto, Fernando, e qu\u00e3o mal me conheces! &#8211; exclamou Leonor Teles, limpando as l\u00e1grimas. &#8211; Foi a tua dignidade real, e a tua justi\u00e7a, o teu nome que eu quis salvar da tua pr\u00f3pria brandura. Aos mesquinhos que me ofenderam perdoei de todo o cora\u00e7\u00e3o; mas tu, que eras rei e juiz, n\u00e3o o podias fazer. Se o nome de teu virtuoso pai ainda hoje lembra a todos com venera\u00e7\u00e3o e amor, \u00e9 porque teu pai foi implac\u00e1vel contra os criminosos, e aquilo em que p\u00f5es a desonra e a ignom\u00ednia \u00e9 a coroa de gl\u00f3ria imortal que cera o seu nome. Se as minhas palavras te constrangeram a escolher entre a confirma\u00e7\u00e3o dessa fatal senten\u00e7a e a deslealdade e a blasf\u00e9mia, que n\u00e3o cabem em cora\u00e7\u00e3o e l\u00e1bios de cavaleiro, foi por te salvar de ti mesmo. Se cr\u00eas que nisto fui culpada, dize-me s\u00f3 \u201cLeonor, j\u00e1 te n\u00e3o amo!\u201d, e eu ficarei punida; porque nessas palavras estar\u00e1 escrita a minha senten\u00e7a de morte! Possas tu depois perdoar-me e proferir sobre a campa da pobre Leonor uma express\u00e3o de piedade!<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas e os solu\u00e7os parecia n\u00e3o a deixarem prosseguir. Reclinou a cabe\u00e7a sobre os joelhos de el-rei, apertando-lhe a m\u00e3o entre as suas com um movimento convulso.<\/p>\n<p>Formosa, querida, humilhada a seus p\u00e9s, como resistiria o pobre monarca? Unindo a face \u00e0quela fronte divina, s\u00f3 lhe disse: \u201cOh, Leonor, Leonor!\u201d, e as suas l\u00e1grimas misturavam-se com as dela.<\/p>\n<p>Durante esta luta da dor e da hipocrisia, em que como sempre acontece, a \u00faltima triunfava, o conde de Barcelos e D. Gon\u00e7alo Teles tinham-se encostado \u00e0 janela fatal que dava para o rio e que, tamb\u00e9m, dominava grande por\u00e7\u00e3o do arrabalde ocidental da cidade. O espect\u00e1culo da noite era de melanc\u00f3lica magnific\u00eancia.<\/p>\n<p>A Lua caminhava nos c\u00e9us limpos de nuvens, e pela face da terra nem suspirava uma aragem. A claridade do luar refrangia-se nas \u00e1guas, mas esmorecia batendo na povoa\u00e7\u00e3o, na qual n\u00e3o achava, al\u00e9m dos antigos muros, uma parede branqueada, uma pedra alva, onde espelhar-se, ou um sussurro de festa acorde com as suas harmonias. O inc\u00eandio e o ferro tinham passado por l\u00e1, e Lisboa era um caos de ru\u00ednas, um cemit\u00e9rio sem l\u00e1pides. Apenas, no extremo do seu, dantes, mais rico e povoado arrabalde, amarelejava, polido pelo tempo, o g\u00f3tico Mosteiro de S. Francisco, junto de sua irm\u00e3 mais velha, a Igreja dos M\u00e1rtires. No vale que ficava em meio a luz de cima embebia-se in\u00f9tilmente na povoa\u00e7\u00e3o que jazia extinta. A bela Lua de Maio, t\u00e3o fagueira para esta cidade querida, assemelhava-se \u00e0 leoa que, voltando ao antro, acha o seu cachorrinho morto. A pobre fera ameiga-o como se fosse vivo, e vendo-o quedo, indiferente e frio, n\u00e3o cr\u00ea, e vai e volta muitas vezes, renovando os seus in\u00fateis afagos. Lisboa era um cad\u00e1ver, e a Lua passava e sorria-lhe ainda!<\/p>\n<p>Mas, no meio daquele ch\u00e3o irregular, negro, calado, viam-se, aqui e acol\u00e1, luzinhas que se meneavam de um para outro lado, ao que parecia, sem rumo certo. Era que os frades de S. Francisco e de S. Domingos faziam procurar por entre os entulhos as rel\u00edquias dos mortos, para lhes darem sepultura crist\u00e3. Neste piedoso trabalho, que seguiam sem descontinuar havia muito tempo, eram acompanhados por alguns do povo, que, para se esfor\u00e7arem, cantavam uma cantiga pia, cujas coplas, bem que interrompidas, vinham, com triste som, bater de vez em quando nos ouvidos dos dois cavaleiros. Rezavam as coplas:<\/p>\n<p>\u201cDe amigos e imigos,<\/p>\n<p>Que a\u00ed s\u00e3o deitados,<\/p>\n<p>Levemos os ossos<\/p>\n<p>Ao ch\u00e3o dos finados.<\/p>\n<p>Ave-maria!<\/p>\n<p>Santa Maria!<\/p>\n<p>Madre gloriosa,<\/p>\n<p>Dessa alta ventura<\/p>\n<p>Demovei os olhos<\/p>\n<p>\u00c0 nossa tristura.<\/p>\n<p>Ave-maria!<\/p>\n<p>Santa Maria!<\/p>\n<p>Ao bento Jesus,<\/p>\n<p>E ao padre eternal<\/p>\n<p>Pedi que perdoe<\/p>\n<p>A quem morreu mal.<\/p>\n<p>Ave-maria!<\/p>\n<p>Santa Maria!\u201d<\/p>\n<p>Esta long\u00edqua toada perdeu-se no som de outra bem diversa, que se alevantou mais perto dos dois cavaleiros. Uma voz esgani\u00e7ada dava o seguinte preg\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Justi\u00e7a que manda fazer el-rei em Fern\u00e3o Vasques, Jo\u00e3o Lobeira e Frei Roy: que morram na forca, sendo ao primeiro as m\u00e3os decepadas em vida.<\/p>\n<p>Os cavaleiros abaixaram os olhos para o lugar de onde subira a voz: era no terreiro pr\u00f3ximo: os tr\u00eas padecentes e o algoz, cercados de alguns besteiros, aproximavam-se do cadafalso: v\u00e1rios vultos negros fechavam o pr\u00e9stito: daquela pinha partira a voz do pregoeiro.<\/p>\n<p>Este preg\u00e3o, dado a horas mortas e numa pra\u00e7a deserta, parecia um esc\u00e1rnio. Mas o corregedor da Corte era afamado jurisconsulto, e n\u00f3s temos ouvido a alguns que na execu\u00e7\u00e3o das leis as formas s\u00e3o tudo. Assim piamente o cremos.<\/p>\n<p>Duas se tinham, por\u00e9m, esquecido: os desgra\u00e7ados morriam, como aqueles que o salteador assassina na estrada, pela alta noite, e sem um sacerdote que os consolasse na extrema agonia.<\/p>\n<p>O algoz empurrou brutalmente um dos padecentes para uma esp\u00e9cie de marco escuro que estava ao p\u00e9 do pat\u00edbulo. Da\u00ed a nada, os cavaleiros viram reluzir duas vezes um ferro: ouviram sucessivamente dois golpes, dados como em v\u00e3o, seguindo-se a cada um deles um grito de terr\u00edvel ang\u00fastia.<\/p>\n<p>O conde de Barcelos quis rir-se, mas a risada gelou-se-lhe na garganta, e, como Gon\u00e7alo Teles, recuou involunt\u00e0riamente.<\/p>\n<p>O grito que restrugira chegara aos ouvidos de el-rei.<\/p>\n<p>&#8211; Que bradar de homem que matam \u00e9 este? &#8211; perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Justi\u00e7a de sua senhoria que se executa &#8211; respondeu o conde, que neste momento retrocedia da janela.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, desgra\u00e7ados!, t\u00e3o breve! &#8211; disse el-rei, passando a m\u00e3o pela fronte, de onde manava o suor da afli\u00e7\u00e3o e do terror. Olhando ent\u00e3o para Leonor Teles, acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 \u00e0 derradeira mealha est\u00e3o pagas vossas arras, rainha de Portugal! Que mais pretendeis de mim?<\/p>\n<p>E deixou pender a cabe\u00e7a sobre o peito.<\/p>\n<p>D\u00aa Leonor n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>D. Gon\u00e7alo Teles aproximou-se ent\u00e3o da cadeira de D. Fernando e curvou um joelho em terra.<\/p>\n<p>El-rei alevantou os olhos e perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Que me quereis?<\/p>\n<p>&#8211; Senhor &#8211; respondeu o honrado e nobre cavaleiro -, se vossa senhoria consentisse neste momento em ouvir a s\u00faplica de um dos seus mais leais vassalos! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Falai &#8211; replicou D. Fernando.<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o de Lobeira acaba de receber o pr\u00e9mio da sua trai\u00e7\u00e3o &#8211; prosseguiu D. Gon\u00e7alo. &#8211; O desleal escudeiro possu\u00eda avultados bens, que ficam pertencendo \u00e0 coroa real. Por vossa muita piedade, podeis fazer merc\u00ea deles a seu filho Vasco de Lobeira; mas o pobre mo\u00e7o ensandeceu h\u00e1 tempos! Tresleu com livros de cavalarias, e t\u00e3o varrido est\u00e1 que n\u00e3o fala em al, sen\u00e3o em um que anda imaginando e a que p\u00f4s o nome Amadis. Para um mesquinho parvo e sandeu pouco basta, e vossa real senhoria bem sabe que a minha escassa quantia mal chega&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Calai-vos, calai-vos; que isso \u00e9 negro e vil &#8211; bradou el-rei, redobrando-lhe o horror que tinha pintado no rosto. &#8211; Deixai ao menos que a sua alma chegue perante o trono de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Apenas cinquenta maravedis! &#8211; murmurou D. Gon\u00e7alo, erguendo-se, e abaixando os olhos, aflito com a lembran\u00e7a de sua extrema pobreza.<\/p>\n<p>seis de Junho da era de C\u00e9sar de 1411 (1373), em um dos andares da torre do castelo, o veador da chancelaria, \u00c1lvaro Pires, passeando de um para outro lado, ditava a um mancebo, vestido de garnacha preta, o qual tinha diante de si tinteiro, penas e folhas avulsas de pergaminho, a seguinte nota:<\/p>\n<p>&#8211; Item. Pera se spreuer a ffolhas cento e vinte-oyto do llivro prymeyro da Can\u00e7elaria Delrrey nosso senhor: &#8211; Doa\u00e7om dos bees de rraiz e moviis de Joham Lobeira, confisquado e morto por treedor contra ho servi\u00e7o de ssua real senhoria, ao muy nobre D. Gon\u00e7alo Tellez, per ho muyto divedo que c\u00f5 elrrey ha, e polos muytos servi\u00e7os que del tee ree\u00e7ebido e ao deante espera de rre\u00e7eber.<\/p>\n<p>E o povo? &#8230; Oh, este, sim! Nistrava-se agradecido e bom no meio de tantas inf\u00e2mias e crimes.<\/p>\n<p>Os populares que, na manh\u00e3 imediata \u00e0quela horr\u00edvel noite dos fins de Maio, passavam pelo terreiro maldito onde pendiam da forca os tr\u00eas cad\u00e1veres, meneavam a cabe\u00e7a e seguindo avante, diziam:<\/p>\n<p>\u201cBoa e prestes foi a justi\u00e7a de el-rei nos traidores. Alc\u00e1cer por sua senhoria.\u201d<\/p>\n<p>D. Fernando guardou at\u00e9 \u00e0 Primavera de 73 a vingan\u00e7a contra os populares de Lisboa e de outras terras que no ano de 71 se tinham amotinado por causa do seu casamento. V\u00ea-se isto dos documentos registrados na sua chancelaria e citados por Frei Manuel dos Santos. Quem atentamente tiver estudado o car\u00e1cter atroz e dissimulado de Leonor Teles, t\u00e3o bem pintado por Fern\u00e3o Lopes, e os factos que provam a sua influ\u00eancia sem limites no \u00e1nimo daquele pr\u00edncipe, n\u00e3o poder\u00e1 esquivar-se a veementes suspeitas sobre os motivos que, num romance, n\u00f3s danos como reais, porque a\u00ed \u00e9 licito faz\u00ea-lo, da, ali\u00e1s inexplic\u00e1vel, inac\u00e7\u00e3o com que D. Fernando n\u00e3o quis opor-se \u00e0 vinda de el-rei de Castela sobre Lisboa, vinda que reduziu os seus moradores aos mais espantosos apuros e que converteu a cidade, por assim dizer, em um mont\u00e3o de ru\u00ednas. Daqueles documentos resulta que, depois de tirada toda a for\u00e7a aos habitantes de Lisboa pela guerra de Castela, em que se viram quase s\u00f3s e abandonados, el-rei viera, sobre as ru\u00ednas da maior e melhor parte dela, satisfazer os \u00f3dios de D. Leonor; porque, levantando o cerco em Mar\u00e7o de 73, achamos el-rei em Lisboa (aonde n\u00e3o volta desde a sua fuga no Outono de 71) durante alguns dias de Maio, e em Santar\u00e9m e outros lugares nos meses seguintes, fazendo merc\u00eas dos bens dos cidad\u00e3os mortos, decepados ou fugidos, do que se pode concluir que ent\u00e3o foram executados ou banidos, n\u00e3o sendo de crer que a cobi\u00e7a cortes\u00e3 tivesse esperado muitos dias sem prear estes sanguinolentos despojos.<\/p>\n<p>O casamento de Leonor Teles e as consequ\u00eancias dele s\u00e3o o primeiro acto do drama terr\u00edvel, da Il\u00edada scelerum da sua vida pol\u00edtica. Foi este primeiro acto que n\u00f3s procur\u00e1mos dispor na tela do romance hist\u00f3rico. Todo o drama daria, nessa forma da arte, uma terr\u00edvel \u201ccr\u00f3nica\u201d. Desde esta conjuntura at\u00e9 ser arrastada em ferros para Castela, por aqueles mesmos que chamara a assolar o seu pa\u00eds, a Lucr\u00e9cia B\u00f3rgia portuguesa \u00e9, na hist\u00f3ria dessa \u00e9poca, uma esp\u00e9cie de fantasma diab\u00f3lico, que aparece onde quer que haja um feito de trai\u00e7\u00f5es, de sangue ou de atrocidade.<\/p>\n<h3>FIM<\/h3>\n<p class=\"fonte\">Fonte: virtualbooks.terra.com.br<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I A Arraia-mi\u00fada O sino das ave-marias ou da ora\u00e7\u00e3o, tinha dado na torre da S\u00e9 a \u00faltima badalada, e pelas frestas e portas dessa multid\u00e3o de casas que, apinhadas \u00e0 roda do castelo e como enfeixadas e comprimidas pela apertada cinta das muralhas primitivas de Lisboa, pareciam mal caberem nelas, viam-se fulgurar, aqui e 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