{"id":111364,"date":"2017-03-01T10:03:09","date_gmt":"2017-03-01T12:03:09","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111364"},"modified":"2017-03-01T10:03:09","modified_gmt":"2017-03-01T12:03:09","slug":"a-semana-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-semana-santa","title":{"rendered":"A Semana Santa"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<p>Der Gedanke Gott weckt einen<\/p>\n<p>f\u00fcrchterlichen Nachhar auf. Sein Name<\/p>\n<p>heisst Richter.<\/p>\n<p>SCHILLER<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>T\u00edbio o sol entre as nuvens do ocidente,<br \/>\nJ\u00e1 l\u00e1 se inclina ao mar. Grave e solene<br \/>\nVai a hora da tarde! O oeste passa<br \/>\nMudo nos troncos da alameda antiga,<br \/>\nQue \u00e0 voz da Primavera os gomos brota:<br \/>\nO oeste passa mudo, e cruza o \u00e1trio<br \/>\nPontiagudo do templo, edificado<br \/>\nPor m\u00e3os duras de av\u00f3s, em monumento<br \/>\nDe uma heran\u00e7a de f\u00e9 que nos legaram,<br \/>\nA n\u00f3s seus netos, homens de alto esfor\u00e7o,<br \/>\nQue nos rimos da heran\u00e7a, e que insultamos<br \/>\nA Cruz e o templo e a cren\u00e7a de outras eras;<br \/>\nN\u00f3s, homens fortes, servos de tiranos,<br \/>\nQue sabemos t\u00e3o bem rojar seus ferros<br \/>\nSem nos queixar, menosprezando a P\u00e1tria<br \/>\nE a liberdade, e o combater por ela.<br \/>\nEu n\u00e3o! \u2013 eu rujo escravo; eu creio e espero<br \/>\nNo Deus das almas generosas, puras,<br \/>\nE os d\u00e9spotas maldigo. Entendimento<br \/>\nBronco, lan\u00e7ado em s\u00e9culo fundido<br \/>\nNa servid\u00e3o de gozo ataviada,<br \/>\nCreio que Deus \u00e9 Deus e os homens livres!<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Oh, sim! \u2013 rude amador de antigos sonhos,<br \/>\nIrei pedir aos t\u00famulos dos velhos<br \/>\nReligioso entusiasmo; e canto novo<br \/>\nHei-de tecer, que os homens do futuro<br \/>\nEntender\u00e3o; um canto escarnecido<br \/>\nPelos filhos dest&#8217; \u00e9poca mesquinha.<br \/>\nEm que vim peregrino a ver o mundo,<br \/>\nE chegar a meu termo, e reclinar-me<br \/>\n\u00c0 branda sombra de cipreste amigo.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Passa o vento os do p\u00f3rtico da igreja<br \/>\nEsculpidos umbrais: correndo as naves<br \/>\nSussurrou, sussurrou entre as colunas<br \/>\nDe g\u00f3tico lavor: no \u00f3rg\u00e3o do coro<br \/>\nVeio, enfim, murmurar e esvaecer-se.<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Mas porque sou o vento? Est\u00e1 deserto,<br \/>\nSilencioso ainda o sacro templo:<br \/>\nNenhuma voz humana ainda recorda<br \/>\nOs hinos do Senhor. A natureza<br \/>\nFoi a primeira em celebrar seu nome<br \/>\nNeste dia de luto e de saudade!<br \/>\nTrevas da quarta-feira, eu vos sa\u00fado!<br \/>\nNegras paredes, mudos monumentos<br \/>\nDe todas essas ora\u00e7\u00f5es de m\u00e1goa,<br \/>\nDe gratid\u00e3o, de susto ou de esperan\u00e7a.<br \/>\nDepositadas ante v\u00f3s nos dias<br \/>\nDe fervorosa cren\u00e7a, a v\u00f3s que enluta<br \/>\nA solid\u00e3o e o d\u00f3, venho eu saudar-vos.<br \/>\nA loucura da Cruz n\u00e3o morreu toda (1)<br \/>\nAp\u00f3s dezoito s\u00e9culos! Quem chore<br \/>\nDo sofrimento o Her\u00f3i existe ainda.<br \/>\nEu chorarei \u2013 que as l\u00e1grimas s\u00e3o d\u00f3 homem \u2013<br \/>\nPelo Amigo do povo, assassinado<br \/>\nPor tiranos, e hip\u00f3critas, e turbas<br \/>\nEnvilecidas, b\u00e1rbaras, e servas.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Tu, Anjo do Senhor, que acendes o estro;<br \/>\nQue no espa\u00e7o entre o abismo e os c\u00e9us vagueias,<br \/>\nDonde mergulhas no oceano a vista;<br \/>\nTu que do trovador \u00e0 mente arrojas<br \/>\nQuanto h\u00e1 nos c\u00e9us esperan\u00e7oso e belo,<br \/>\nQuanto h\u00e1 no abismo tenebroso e triste,<br \/>\nQuanto h\u00e1 nos mares majestoso e vago,<br \/>\nHoje te invoco! \u2013 oh, vem! \u2013, lan\u00e7a em minha alma<br \/>\nA harmonia celeste e o fogo e o g\u00e9nio,<br \/>\nQue d\u00eaem vida e vigor a um carme pio.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>A noite escura desce: o Sol de todo<br \/>\nNos mares se atufou. A luz dos mortos,<br \/>\nDos brand\u00f5es o clar\u00e3o, fulgura ao longe<br \/>\nNo cruzeiro somente e em volta da ara:<br \/>\nE pelas naves come\u00e7ou ru\u00eddo<br \/>\nDe compassado andar. Fi\u00e9is acodem<br \/>\n\u00c0 morada de Deus, a ouvir queixumes<br \/>\nDo vate de Si\u00e3o. Em breve os monges,<br \/>\nSuspirosas can\u00e7\u00f5es aos C\u00e9us erguendo,<br \/>\nSua voz unir\u00e3o \u00e0 voz desse \u00f3rg\u00e3o,<br \/>\nE os sons e os ecos reboar\u00e3o no templo.<br \/>\nMudo o coro depois, neste recinto<br \/>\nDentro em bem pouco reinar\u00e1 sil\u00eancio,<br \/>\nO sil\u00eancio dos t\u00famulos, e as trevas<br \/>\nCobrir\u00e3o por esta \u00e1rea a luz escassa<br \/>\nDespedida das l\u00e2mpadas. que pendem<br \/>\nAnte os altares, bruxuleando frouxas.<br \/>\nImagem da exist\u00eancia! Enquanto passam<br \/>\nOs dias infantis, as paix\u00f5es tuas,<br \/>\nHomem, qual ent\u00e3o \u00e9s, s\u00e3o d\u00e9beis todas.<br \/>\nCresceste: ei-las torrente, em cujo dorso<br \/>\nSobrenadam a dor e o pranto e o longo<br \/>\nGemido do remorso, a qual lan\u00e7ar-se<br \/>\nVai com rouco estridor no antro da morte,<br \/>\nL\u00e1, onde \u00e9 tudo horror, sil\u00eancio, noite.<br \/>\nDa vida tua instantes florescentes<br \/>\nForam dois, e n\u00e3o mais: as c\u00e3s e rugas,<br \/>\nLogo, rebate de teu fim te deram.<br \/>\nTu foste apenas som, que, o ar ferindo,<br \/>\nMurmurou, esqueceu, passou no espa\u00e7o.<br \/>\nE a casa do Senhor ergueu-se. O ferro<br \/>\nCortou a penedia; e o canto enorme<br \/>\nPolido alveja ali no espesso pano<br \/>\nDo muro colossal, que era ap\u00f3s era,<br \/>\nComo onda e onda ao desdobrar na areia,<br \/>\nViu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.<br \/>\nO ulmo e o choupo no cair rangeram<br \/>\nSob o machado: a trave afei\u00e7oou-se;<br \/>\nL\u00e1 no cimo pousou: restruge ao longe<br \/>\nDe martelos fragor, e eis ergue o templo,<br \/>\nPor entre as nuvens, bronzeadas grimpas.<br \/>\nHomem, do que \u00e9s capaz! Tu, cujo alento<br \/>\nSe esvai, como da cerva a leve pista<br \/>\nNo p\u00f3 se apaga ao respirar da tarde,<br \/>\nDo seio dessa terra em que \u00e9s estranho,<br \/>\nSair fazes as moles seculares,<br \/>\nQue por ti, mono, falem; d\u00e1s na ideia<br \/>\nEterna dura\u00e7\u00e3o \u00e0s obras tuas.<br \/>\nTua alma \u00e9 imortal, e a prova a deste!<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Anoiteceu. Nos claustros ressoando<br \/>\nAs pisadas dos monges ou\u00e7o: eis entram;<br \/>\nEis se curvaram paru o ch\u00e3o, beijando<br \/>\nO pavimento, a pedra. Oh, sim, beijai-a!<br \/>\nIgual vos cobrir\u00e1 a cinza um dia,<br \/>\nTalvez em breve \u2013 e a mim. Consolo ao morto<br \/>\n\u00c9 a pedra do t\u00famulo. S\u00ea-lo-ia<br \/>\nMais, se do justo s\u00f3 a heran\u00e7a fora;<br \/>\nMas tamb\u00e9m ao malvado \u00e9 dada a campa.<br \/>\nE o criminoso dormir\u00e1 quieto<br \/>\nEntre os bons soterrado? Oh, n\u00e3o! Enquanto<br \/>\nNo templo ondeiam silenciosas turbas,<br \/>\nExultar\u00e3o do abismo os moradores,<br \/>\nVendo o hip\u00f3crita vil, mais \u00edmpio que eles,<br \/>\nQue escarnece do Eterno, e a si se engana;<br \/>\nVendo o que julga que ora\u00e7\u00f5es apagam<br \/>\nV\u00edcios \u00e9 crimes. e o motejo e o riso<br \/>\nDado em resposta \u00e0s l\u00e1grimas do pobre;<br \/>\nVendo os que nunca ao infeliz disseram<br \/>\nDe consolo palavra ou de esperan\u00e7a.<br \/>\nSim: malvados tamb\u00e9m h\u00e3o-de pisar-lhes<br \/>\nOs frios restos que separa a terra,<br \/>\nUm punhado de terra, a qual os ossos<br \/>\nDestes h\u00e1-de cobrir em tempo breve,<br \/>\nComo cobriu os seus; qual vai sumindo<br \/>\nNo segredo da campa a humana ra\u00e7a.<br \/>\nVIII<\/p>\n<p>Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos<br \/>\nDo templo na amplid\u00e3o: s\u00f3 l\u00e1 no escuro<br \/>\nDe afumada capela o justo as preces<br \/>\nErgue pio ao Senhor, as preces puras<br \/>\nDe um cora\u00e7\u00e3o que espera, e n\u00e3o mentidas<br \/>\nDe l\u00e1bios de impostor, que engana os homens<br \/>\nCom seu meneio hip\u00f3crita, calando<br \/>\nNa alma lodosa da blasf\u00e9mia o grito.<br \/>\nEnt\u00e3o exultar\u00e3o os bons, e o \u00edmpio,<br \/>\nQue passou, tremer\u00e1. Enfim, de vivos,<br \/>\nDa voz, do respirar o som confuso<br \/>\nVem confundir-se no ferver das pra\u00e7as,<br \/>\nE pela galil\u00e9 s\u00f3 ruge o vento.<br \/>\nEm trevas n\u00e3o, ficou silenciosas<br \/>\nO sagrado recinto: os candeeiros,<br \/>\nNo gelado ambiente ardendo a custo,<br \/>\nEspalham d\u00e9beis raios, que reflectem<br \/>\nDas pedras pela alvura; o negro mocho,<br \/>\nCompanheiro do morto, h\u00f3rrido pio<br \/>\nSolta l\u00e3 da cornija: pelas fendas<br \/>\nDos sepulcros desliza fumo espesso;<br \/>\nOndeia pela nave, e esvai-se. Longo<br \/>\nSuspirar n\u00e3o se ouviu? Olhai!, l\u00e1 se erguem,<br \/>\nSacudindo o sud\u00e1rio, em peso os morros!<br \/>\nMortos, quem vos chamou? O som da tuba<br \/>\nAinda do Josafat n\u00e3o fere os vales.<br \/>\nDormi, dormi: deixai passar as eras&#8230;<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Mas foi uma vis\u00e3o: foi como cena<br \/>\nD&#8217; imaginar febril. Criou-se, acaso<br \/>\nDo poeta na mente, ou desvendou-lhe<br \/>\nA m\u00e3o de Deus o \u00edntimo ver da alma,<br \/>\nQue devassa a exist\u00eancia misteriosa<br \/>\nDo mundo dos esp\u00edritos? Quem sabe?<br \/>\nDos vivos j\u00e1 deserta, a igreja torva<br \/>\nRepovoou-se, para mim ao menos,<br \/>\nDos extintos, que ao p\u00e9 das santas aras<br \/>\nLeito comum na sonol\u00eancia extrema<br \/>\nBuscaram. O terror, que arreda o homem<br \/>\nDo limiar do tempo \u00e0s horas mortas,<br \/>\nN\u00e3o vem de cren\u00e7a v\u00e3. Se fulgem astros,<br \/>\nSe a luz da Lua estira a sombra eterna<br \/>\nDa cruz gigante (que campeia erguida<br \/>\nNo v\u00e9rtice do t\u00edmpano, ou no cimo<br \/>\nDo coruch\u00e9u do campan\u00e1rio) ao longo<br \/>\nDos inclinados tectos, afastai-vos!<br \/>\nAfastai-vos daqui, onde se passam<br \/>\nA meia-noite ins\u00f3litos mist\u00e9rios;<br \/>\nDaqui, onde desperta a voz do arcanjo<br \/>\nOs dormentes da morte; onde re\u00fane<br \/>\nO que foi forte e o que foi fraco, o pobre<br \/>\nE o opulento, o orgulhoso e o humilde,<br \/>\nO bom e o mau, o ignorante e o s\u00e1bio,<br \/>\nQuantos, enfim, depositar vieram<br \/>\n!unto do altar o que era seu no mundo,<br \/>\nUm corpo nu, e corrompido e inerte.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>E seguia a vis\u00e3o. Cria ainda achar-me,<br \/>\nAlta noite, na igreja solit\u00e1ria<br \/>\nEntre os mortos, que, erectos sobre as campas,<br \/>\nEram \u00e1 pouco um fumo que ondeava<br \/>\nPelas fisgas do vasto pavimento.<br \/>\nOlhei. Do erguido tecto o pano espesso<br \/>\nRareava; rareava-me ante os olhos,<br \/>\nComo t\u00e9nue cendal; mais t\u00e9nue ainda,<br \/>\nComo o vapor de Outono em quarto d&#8217;alva,<br \/>\nQue se libra no espa\u00e7o antes que des\u00e7a<br \/>\nA consolar as plantas conglobado<br \/>\nEm matutino orvalho. O firmamento<br \/>\nEra profundo e amplo. Envolto em gl\u00f3ria,<br \/>\nSobre vagas de nuvens, rodeado<br \/>\nDas legi\u00f5es do C\u00e9u, o Anci\u00e3o dos dias,<br \/>\nO Santo, o Deus descia. Ao sumo aceno<br \/>\nParava o tempo, a imensidade, a vida<br \/>\nDos mundos a escutar. Era esta a hora<br \/>\nDo julgamento desses que se al\u00e7avam,<br \/>\n\u00c0 voz de cima, sobre as sepulturas?<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>Era ainda a vis\u00e3o. Do templo em meio<br \/>\nDo anjo da morte a espada flamejante<br \/>\nCrepitando bateu. Bem como insectos,<br \/>\nQue \u00e0 flor de pego pantanoso e triste<br \/>\nSe balou\u00e7avam \u2013 quando a tempestade<br \/>\nVeio as asas molhar nas \u00e1guas turvas,<br \/>\nQue marulhando sussurraram \u2013 surgem<br \/>\nVolteando, zumbindo em dan\u00e7a doida,<br \/>\nE, lassos, v\u00e3o pousar em longas filas<br \/>\nNas margens do paul, de um lado e de outro;<br \/>\nTal o murm\u00fario e a agita\u00e7\u00e3o incerta<br \/>\nCiciava das sombras remoinhando<br \/>\nAnte o sopro de Deus. As melodias<br \/>\nDos coros celestiais, long\u00ednquas, frouxas,<br \/>\nCom fr\u00e9mito infernal se misturavam<br \/>\nEm caos de dor e j\u00fabilo.<br \/>\nDos mortos<br \/>\nParava, enfim, o v\u00f3rtice enredado;<br \/>\nE os grupos vagos em distintas turmas<br \/>\nSe enfileiravam de uma parle e de outra.<br \/>\nDepois, o gl\u00e1dio do anjo entre os dois bandos<br \/>\nFicou, \u00fanica luz, que se estirava<br \/>\nDesde o cruzeiro ao p\u00f3rtico, e feria<br \/>\nDe reflexo vermelho os largos panos<br \/>\nDas paredes de m\u00e1rmore, bem como<br \/>\nMar de sangue, onde inertes flutuassem<br \/>\nDe humanos vultos indecisas formas.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>E seguia a vis\u00e3o. Do templo \u00e0 esquerda,<br \/>\nMestas as faces, inclinada afronte,<br \/>\nDa noite as larvas tinham sobre o solo<br \/>\nFito o espantado olhar, e as dilatadas<br \/>\nBa\u00e7as pupilas lhes tingia o susto.<br \/>\nMas, como zona l\u00facida de estrelas,<br \/>\nNessa atmosfera crassa e afogueada<br \/>\nPela espada rubente, refulgiam<br \/>\nDa direita os esp\u00edritos, banhado<br \/>\nDe inenarr\u00e1vel placidez seu gesto.<br \/>\nEra inteiro o sil\u00eancio, e no sil\u00eancio<br \/>\nUma voz ressoou: \u00abEleitos, vinde!<br \/>\nIde, precitos!\u00bb Vacilava a Terra,<br \/>\nE ajoelhando eu me curvei tremendo.<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>Quando me ergui e olhei, no c\u00e9u profundo<br \/>\nUm rastilho de luz pura e serena<br \/>\nSe ia embebendo nesses mares de orbes<br \/>\nInfinitos, perdidos no infinito,<br \/>\nA que chamamos o universo. Um hino<br \/>\nDe saudade e de amor, quase inaud\u00edvel,<br \/>\nParecia romper desde as alturas<br \/>\nDe tempo a tempo. Vinha como envolto<br \/>\nNas lufadas do vento, at\u00e9 perder-se<br \/>\nEm sossego mortal.<br \/>\nO curvo tecto<br \/>\nDo templo, ent\u00e3o, se condensou de novo,<br \/>\nE para a Terra o meu olhar volveu-se.<br \/>\nDa direita os esp\u00edritos radiosos<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o estavam l\u00e1. Chispando a espa\u00e7os,<br \/>\nQual o ferro na incude, a espada do anjo<br \/>\nO morti\u00e7o rubor mandava. apenas,<br \/>\nD&#8217;aurora boreal quando se extingue.<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>Prosseguia a vis\u00e3o. Da esquerda \u00e0s sombras<br \/>\nAnsiava o seio a dor: tinham no gesto<br \/>\nImpressa a maldi\u00e7\u00e3o, que lhes secara<br \/>\nEternamente a seiva da esperan\u00e7a.<br \/>\nComo se v\u00ea, em noite estiva e negra,<br \/>\nCintilar sobre as \u00e1guas a ardentia,<br \/>\nDumas frontes \u00e0s outras vagueavam<br \/>\nCer\u00faleos lumes no esquadr\u00e3o dos mortos,<br \/>\nE ao estalar das lousas, grito imenso<br \/>\nSubterr\u00e2neo, abafado e delirante,<br \/>\nInef\u00e1vel comp\u00eandio de agonias,<br \/>\nMisturado se ouviu com rir do Inferno,<br \/>\nE a vis\u00e3o se desfez. Era ermo o templo:<br \/>\nE despertei do pesadelo em trevas.<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>Era loucura ou sonho? Entre as tristezas<br \/>\nE os terrores e ang\u00fastias, que resume<br \/>\nNeste dia e lugar a avita cren\u00e7a,<br \/>\nIrresist\u00edvel for\u00e7a arrebatou-me<br \/>\nDa sepultura a devassar segredos,<br \/>\nPara dizer: \u00bbTremei! Do altar \u00e0 sombra<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<br \/>\nA justi\u00e7a de Deus visita os mortos,<br \/>\nEmbora a cruz da reden\u00e7\u00e3o proteja<br \/>\nA pedra tumular; embora a h\u00f3stia<br \/>\nDo sacrif\u00edcio o sacerdote eleve<br \/>\nSobre as vizinhas aras. Quando a igreja<br \/>\nRodeiam trevas, solid\u00e3o e medos,<br \/>\nQue a resguardam coas asas acurvadas<br \/>\nDa vista do que vive, a m\u00e3o do Eterno<br \/>\nSepara o joio ao bom gr\u00e3o e arroja<br \/>\nPara os abismos a ruim semente.<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>N\u00e3o! \u2013 n\u00e3o foi sonho v\u00e3o, vago del\u00edrio<br \/>\nDe imaginar ardente. Eu fui levado,<br \/>\nGalgando al\u00e9m do tempo, \u00e0s tardas horas,<br \/>\nEm que se passam cenas de mist\u00e9rio,<br \/>\nPara dizer: \u00abTremei! Do altar \u00e0 sombra<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<br \/>\nVejo ainda o que vi: da sepultura<br \/>\nAinda o h\u00e1lito frio me enregela<br \/>\nO suor do pavor na fronte; o sangue<br \/>\nHesita imoto nas inertes veias;<br \/>\nE embora os l\u00e1bios murmurar n\u00e3o ousem,<br \/>\nAinda, incessante, me repete na alma<br \/>\n\u00cdntima voz: \u00abTremei! Do altar \u00e0 sombra<br \/>\nTamb\u00e9m h\u00e1 mau dormir de sono extremo!\u00bb<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>Mas troa a voz do monge, e, enfim, desperto<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o bateu. Eia, retumbem<br \/>\nPelos ecos do templo os sons dos salmos.<br \/>\nQue em dia de afli\u00e7\u00e3o ignoto vate<br \/>\nTeceu (2), banhado em dor. Talvez foi ele<br \/>\nO primeiro cantor que em v\u00e1rias cordas,<br \/>\n\u00c0 sombra das palmeiras da Idumeia,<br \/>\nSoube entoar melodioso um hino.<br \/>\nDeus inspirava ent\u00e3o os trovadores<br \/>\nDo seu povo querido, e a Palestina,<br \/>\nRica dos meigos dons da natureza.<br \/>\nTinha o ceptro, tamb\u00e9m, do entusiasmo.<br \/>\nVirgem o g\u00e9nio ainda, o estro puro<br \/>\nLouvava Deus somente, \u00e0 luz da aurora,<br \/>\nE ao esconder-se o Sol entre as montanhas<br \/>\nDe Bethoron (3). Agora o g\u00e9nio \u00e9 morto<br \/>\nPara o Senhor, e os cantos dissolutos<br \/>\nDe lodoso folguedo os ares rompem,<br \/>\nOu sussurram por pa\u00e7os de tiranos,<br \/>\nAsselados de p\u00fatrida lisonja,<br \/>\nPor pre\u00e7o vil, como o cantor que os tece.<\/p>\n<p>XVIII<\/p>\n<p>O SALMO (4)<\/p>\n<p>Quando \u00e9 grande o meu Deus!&#8230; T\u00e9 onde chega<br \/>\nO seu poder imenso!<br \/>\nEle abaixou os c\u00e9us. desceu, calcando<br \/>\nUm nevoeiro denso.<br \/>\nDos querubins nas asas radiosas<br \/>\nLibrando-se, voou;<br \/>\nE sobre turbilh\u00f5es de rijo vento<br \/>\nO mundo rodeou.<br \/>\nAnte o olhar do Senhor vacila a Terra,<br \/>\nE os mares assustados<br \/>\nBramem ao longe, e os montes lan\u00e7am fumo,<br \/>\nDa sua m\u00e3o tocados.<br \/>\nSe pensou no universo, ei-lo patente<br \/>\nAnte a face do eterno:<br \/>\nSe o quis, o firmamento os seios abre,<br \/>\nAbre os seios o Inferno.<br \/>\nDos olhos do Senhor, homem, se podes.<br \/>\nEsconde-te um momento:<br \/>\nV\u00ea onde encontrar\u00e1s lugar que fique<br \/>\nDa sua vista isento:<br \/>\nSobe aos C\u00e9us, transp\u00f5e mares, busca o abismo,<br \/>\nL\u00e1 teu Deus h\u00e1s-de achar;<br \/>\nEle te guiar\u00e1, e a dextra sua<br \/>\nL\u00e1 te h\u00e1-de sustentar:<br \/>\nDesce \u00e0 sombra da noite, e no seu manto<br \/>\nEnvolver-te procura&#8230;<br \/>\nMas as trevas para ele n\u00e3o s\u00e3o trevas,<br \/>\nNem \u00e9 a noite escura.<br \/>\nNo dia do furor, em v\u00e3o buscaras<br \/>\nFugir ante o Deus forte,<br \/>\nQuando do arco tremendo, irado, impele<br \/>\nSeta em que pousa a morte.<br \/>\nMas o que o teme dormir\u00e1 tranquilo<br \/>\nNo dia extremo seu,<br \/>\nQuando na campa se rasgar da vida<br \/>\nDas ilus\u00f5es o v\u00e9u.<\/p>\n<p>XIX<\/p>\n<p>Calou-se o monge: sepulcral sil\u00eancio<br \/>\n\u00c0 sua voz seguiu-se. Uma toada<br \/>\nDe \u00f3rg\u00e3o rompeu do coro (5). Assemelhava<br \/>\nO suspiro saudoso, e os ais de filha,<br \/>\nQue chora solit\u00e1ria o pai, que dorme<br \/>\nSeu \u00faltimo, profundo e eterno sono.<br \/>\nMelodias depois soltou mais doces.<br \/>\nO severo instrumento: e ergueu-se o canto,<br \/>\nO doloroso canto do profeta,<br \/>\nDa p\u00e1tria sobre o fado. Ele, que o vira,<br \/>\nSentado entre ru\u00ednas, contemplando<br \/>\nSeu avito esplendor, seu mal presente,<br \/>\nA queda lhe chorou. L\u00e1 na alta noite,<br \/>\nModulando o N\u00e9bel (6), via-se o vate<br \/>\nNos derribados p\u00f3rticos, abrigo<br \/>\nDo imundo st\u00e9lio (7) e gemedora poupa.<br \/>\nExtasiado \u2013 e a lua cintilando<br \/>\nNa sua calva fronte, onde pesavam<br \/>\nAnos e anos de dor. Ao venerando<br \/>\nNas encovadas faces fundos regos<br \/>\nTinham aberto as l\u00e1grimas. Ao longe,<br \/>\nNas margens do C\u00e9dron, a r\u00e3 grasnando (8)<br \/>\nQuebrava a paz dos t\u00famulos. Que t\u00famulo<br \/>\nEra Si\u00e3o! \u2013 o vasto cemit\u00e9rio<br \/>\nDos fortes de Israel. Mais venturosos<br \/>\nQue seus irm\u00e3os, morreram pela p\u00e1tria;<br \/>\nA p\u00e1tria os sepultou dentro em seu seio.<br \/>\nEles, em Babil\u00f3nia, aos punhos ferros,<br \/>\nPassam de escravos miseranda vida,<br \/>\nQue Deus pesou seus crimes, e. ao pes\u00e1-los,<br \/>\nA dextra lhe vergou. N\u00e3o mais no templo<br \/>\nA nuvem repousara, e os c\u00e9us de bronze<br \/>\nDos profetas aos rogos se amostravam.<br \/>\nO vate de Anatoth (9) a voz soltara<br \/>\nEntre o povo infiel, de Eloha em nome (10):<br \/>\nAmea\u00e7as, promessas, tudo in\u00fatil;<br \/>\nDe bronze os cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o se dobraram.<br \/>\nVibrou-se a maldi\u00e7\u00e3o. Bem como um sonho,<br \/>\nJerusal\u00e9m passou: sua grandeza<br \/>\nSomente existe em derrocadas pedras.<br \/>\nO vate de Anatoth, sobre seus restos,<br \/>\nCom triste canto deplorou a p\u00e1tria.<br \/>\nHino de morte al\u00e7ou: da noite as larvas<br \/>\nO som lhe ouviram: &#8216;squ\u00e1lido esqueleto,<br \/>\nRangendo os ossos, dentre a hera e musgos<br \/>\nDo p\u00f3rtico do templo erguia um pouco,<br \/>\nAlvejando, a caveira. Era-lhe al\u00edvio<br \/>\nDo sagrado cantor a voz suave<br \/>\nDesferida ao luar, triste, no meio<br \/>\nDa vasta solid\u00e3o que o circundava.<br \/>\nO profeta gemeu: n\u00e3o era o estro,<br \/>\nOu o v\u00edvido j\u00fabilo que outrora<br \/>\nInspirara Mois\u00e9s (11): o sentimento<br \/>\nFoi sim pungente de sil\u00eancio e morte,<br \/>\nQue da p\u00e1tria lhe fez sobre o cad\u00e1ver<br \/>\nA elegia da noite erguer e o pranto<br \/>\nDerramar da esperan\u00e7a e da saudade.<\/p>\n<p>XX<\/p>\n<p>A LAMENTA\u00c7\u00c3O (12)<\/p>\n<p>Como assim jaz e solit\u00e1ria e queda<br \/>\nEsta cidade outrora populosa!<br \/>\nQual vi\u00fava, ficou e tribut\u00e1ria<br \/>\nA senhora das gentes.<br \/>\nChorou durante a noite; em pranto as faces,<br \/>\nSozinha, entregue \u00e1 dor, nas penas suas<br \/>\nNingu\u00e9m a consolou: os mais queridos<br \/>\nContr\u00e1rios se tornaram.<br \/>\nErmas as pra\u00e7as de Si\u00e3o e as ruas,<br \/>\nCobre-as a verde relva: os sacerdotes<br \/>\nGemem; as virgens p\u00e1lidas suspiram<br \/>\nEnvoltas na amargura.<br \/>\nDos filhos de Israel nas cavas faces<br \/>\nEst\u00e1 pintada a macilenta fome;<br \/>\nMendigos v\u00e3o pedir, pedir a estranhos,<br \/>\nUm p\u00e3o de inf\u00e2mia eivado.<br \/>\nO tr\u00e9mulo anci\u00e3o, de longe, os olhos<br \/>\nVolve a Jerusal\u00e9m, dela fugindo:<br \/>\nV\u00ea-a, suspira, cai, e em breve expira<br \/>\nCom seu nome nos l\u00e1bios.<br \/>\nQue horror! \u2013 \u00edmpias as m\u00e3es os tenros filhos<br \/>\nDespeda\u00e7aram: b\u00e1rbaras quais tigres,<br \/>\nOs sanguinosos membros palpitantes<br \/>\nNo ventre sepultaram.<br \/>\nDeus, compassivo olhar volve a n\u00f3s tristes:<br \/>\nCessa de Te vingar! V\u00ea-nos escravos,<br \/>\nServos de servos em pa\u00eds estranho.<br \/>\nTem d\u00f3 de nossos males!<br \/>\nAcaso ser\u00e1s Tu sempre inflex\u00edvel?<br \/>\nEsqueceste de todo a na\u00e7\u00e3o tua?<br \/>\nO pranto dos Hebreus n\u00e3o Te comove?<br \/>\n\u00c9s surdo a seus lamentos?<\/p>\n<p>XXI<\/p>\n<p>Doce era a voz do velho: o som do Nablo<br \/>\nSonoro: o c\u00e9u sereno: clara a Terra<br \/>\nPelo brando fulgor do astro da noite:<br \/>\nE o profeta parou. Erguidos tinha<br \/>\nOs olhos paru o c\u00e9u, onde buscava<br \/>\nUm raio de esperan\u00e7a e de conforto:<br \/>\nE ele calara j\u00e1, e ainda os ecos,<br \/>\nEntre as ru\u00ednas sussurrando, ao longe<br \/>\nIam os sons levar de seus queixumes.<\/p>\n<p>XXII<\/p>\n<p>Choro piedoso, o choro consagrado<br \/>\n\u00c0s desditas dos seus. Honra ao profeta:<br \/>\nOh, margens do Jord\u00e3o, pa\u00eds formoso<br \/>\nQue fostes e n\u00e3o sois, tamb\u00e9m suspiro<br \/>\nCondo\u00eddo vos dou. Assim fenecem<br \/>\nImp\u00e9rios, reinos, solid\u00f5es tornados!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o: Nenhum deste morto: o peregrino<br \/>\nP\u00e1ra em Palmira e pensa. O bra\u00e7o do homem<br \/>\nA sacudiu \u00e0 Terra, e fez dormissem<br \/>\nO seu \u00faltimo sono os filhos dela \u2013<br \/>\nE ele o veio dormir pouco mais longe&#8230;<br \/>\nMas se chega a Si\u00e3o treme, enxergando<br \/>\nSeus lacerados restos. Pelas pedras,<br \/>\nAqui e ali dispersas, ainda escrita<br \/>\nParece ver-se uma inscri\u00e7\u00e3o de agouros,<br \/>\nBem como aquela que alertou um \u00edmpio (13),<br \/>\nQuando, no meio de ruidosa festa,<br \/>\nBlasfemava dos C\u00e9us, e m\u00e3o ignota<br \/>\nO dia extremo lhe apontou dos crimes.<br \/>\nA maldi\u00e7\u00e3o do Eterno est\u00e1 vibrada<br \/>\nSobre Jerusal\u00e9m! Quanto \u00e9 terr\u00edvel<br \/>\nA vingan\u00e7a de Deus! O Israelita,<br \/>\nSem p\u00e1tria e sem abrigo, vagabundo,<br \/>\n\u00d3dio dos homens, neste mundo arrasta<br \/>\nUrna exist\u00eancia mais cruel que a morte,<br \/>\nE que vem terminar a morte e inferno.<br \/>\nDesgra\u00e7ada na\u00e7\u00e3o! Aquele solo<br \/>\nOnde manava o mel, onde o carvalho,<br \/>\nO cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,<br \/>\nT\u00e3o grato \u00e0 vista, em bosques misturavam;<br \/>\nOnde o l\u00edrio e a cec\u00e9m nos prados tinham<br \/>\nCrescimento espont\u00e2neo entre as roseiras,<br \/>\nHoje, campo de l\u00e1grimas, s\u00f3 cria<br \/>\nHumilde musgo de escalvados cerros (14).<\/p>\n<p>XXIII<\/p>\n<p>Ide v\u00f3s a Mambr\u00e9 (15). L\u00e1, bem no meio<br \/>\nDe um vale, outrora de verdura ameno,<br \/>\nErguia-se um carvalho majestoso.<br \/>\nDebaixo de seus ramos largos dias<br \/>\nAbra\u00e3o repousou. Na Primavera<br \/>\nVinham os mo\u00e7os adornar-lhe o tronco (16)<br \/>\nDe capelas cheirosas de boninas,<br \/>\nE coreias gentis tra\u00e7ar-lhe em roda.<br \/>\nNasceu com o orbe a planta vener\u00e1vel,<br \/>\nViu passar gera\u00e7\u00f5es, julgou seu dia<br \/>\nFinal fosse o do mundo, e quando airosa<br \/>\nPor entre as densas nuvens se elevava,<br \/>\nMandou o Nume aos aquil\u00f5es rugissem.<br \/>\nEi-la por terra! As folhas, pouco a pouco,<br \/>\nMurcharam-se caindo, e o rei dos bosques<br \/>\nServiu de pasto aos tragadores vermes.<br \/>\nDeus estendeu a m\u00e3o: no mesmo instante<br \/>\nA vinha se mirrou: junto aos ribeiros<br \/>\nDa Palestina os pl\u00e1tanos frondosos<br \/>\nN\u00e3o mais cresceram, como dantes, belos:<br \/>\nO armento, em vez de relva, achou nos prados<br \/>\nSomente ingratas, espinhosas urzes.<br \/>\nNo G\u00f3lgota plantada, a Cruz clamara (17)<br \/>\n\u00abJusti\u00e7a!\u00bb A tal clamor h\u00f3rrido espectro<br \/>\nNo Mori\u00e1 surgiu (18). Era seu nome<br \/>\nAssola\u00e7\u00e3o. E, despregando um grito,<br \/>\nCaiu com longo som de um povo a campa.<br \/>\nAssim a heran\u00e7a de Jud\u00e1, outrora<br \/>\nGrata ao Senhor, existe s\u00f3 nos ecos<br \/>\nDo tempo que j\u00e1 foi, e que h\u00e1 passado<br \/>\nComo hora de prazer entre desditas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>XXIV<\/p>\n<p>Minha p\u00e1tria onde existe?<br \/>\n\u00c9 l\u00e1 somente!<br \/>\nOh, lembran\u00e7a da P\u00e1tria acabrunhada<br \/>\nUm suspiro tamb\u00e9m tu me h\u00e1s pedido;<br \/>\nUm suspiro arrancado aos seios d&#8217;alma<br \/>\nPela ofuscada gl\u00f3ria, e pelos crimes<br \/>\nDos homens que ora s\u00e3o, e pelo opr\u00f3brio<br \/>\nDa mais ilustre das na\u00e7\u00f5es da Terra!<br \/>\nA minha triste p\u00e1tria era t\u00e3o bela,<br \/>\nE forte, e virtuosa!, e ora o guerreiro<br \/>\nE o s\u00e1bio e o homem bom acol\u00e1 dormem,<br \/>\nAcol\u00e1, nos sepulcros esquecidos,<br \/>\nQue a seus netos infames nada contam<br \/>\nDa antiga honra e pudor e eternos feitos.<br \/>\nO escravo portugu\u00eas agrilhoado<br \/>\nCarcomir-se lhes deixa junto \u00e0s lousas<br \/>\nOs decepados troncos desse arbusto,<br \/>\nPor m\u00e3os deles plantado \u00e0 liberdade,<br \/>\nE por tiranos derribado em breve,<br \/>\nQuando p\u00e1trias virtudes se acabaram,<br \/>\nComo um sonho da inf\u00e2ncia!&#8230;<br \/>\nO vil escravo,<br \/>\nImerso em v\u00edcios, em bruteza e inf\u00e2mia,<br \/>\nN\u00e3o erguer\u00e1 os macerados olhos<br \/>\nPara esses troncos, que destroem vermes<br \/>\nSobre as cinzas de her\u00f3is, e, aceso em pejo,<br \/>\nN\u00e3o surgir\u00e1 jamais? N\u00e3o h\u00e1 na Terra<br \/>\nCora\u00e7\u00e3o portugu\u00eas que mande um brado<br \/>\nDe maldi\u00e7\u00e3o atroz, que v\u00e1 cravar-se<br \/>\nNa vig\u00edlia e no sono dos tiranos,<br \/>\nE envenenar-lhes o prazer por noites<br \/>\nDe vil prostitui\u00e7\u00e3o, e em seus banquetes<br \/>\nDe embriaguez lan\u00e7ar fel e amarguras?<br \/>\nN\u00e3o! Bem como um cad\u00e1ver j\u00e1 corrupto,<br \/>\nA Na\u00e7\u00e3o se dissolve: e em seu letargo<br \/>\nO povo, envolto na mis\u00e9ria, dorme.<\/p>\n<p>XXV<\/p>\n<p>Oh, talvez. como o vate, ainda algum dia<br \/>\nTerei de erguer \u00e0 P\u00e1tria hino de morte,<br \/>\nSobre seus mudos restos vagueando!<br \/>\nSobre seus restos? Nunca! Eterno, escuta<br \/>\nMinhas preces e l\u00e1grimas: s\u00e9 em breve,<br \/>\nQual jaz Si\u00e3o, jazer deve Ulisseia;<br \/>\nSe o anjo do exterm\u00ednio h\u00e1-de risc\u00e1-la<br \/>\nDo meio das na\u00e7\u00f5es, que dentre os vivos<br \/>\nRisque tamb\u00e9m meu nome, e n\u00e3o me deixe<br \/>\nNa Terra vaguear, \u00f3rf\u00e3o de p\u00e1tria.<\/p>\n<p>XXVI<\/p>\n<p>Cessou da noite a gr\u00e3o solenidade<br \/>\nConsagrada \u00e0 tristeza e a memorandas<br \/>\nRecorda\u00e7\u00f5es: os monges se prostraram,<br \/>\nA face unida \u00e0 pedra. A mim, a todos,<br \/>\nCorrem dos alhos l\u00e1grimas suaves<br \/>\nDe compun\u00e7\u00e3o. Ateu, entra no templo:<br \/>\nN\u00e3o temas esse Deus, que os l\u00e1bios negam<br \/>\nE o cora\u00e7\u00e3o confessa. A corda do arco<br \/>\nDa vingan\u00e7a, em que a morte se debru\u00e7a,<br \/>\nFrouxa est\u00e1; Deus \u00e9 bom: entra no templo.<br \/>\nTu, para quem a morte ou vida \u00e9 forma,<br \/>\nForma somente de mais puro barro,<br \/>\nQue nada cr\u00eas, e em nada esperas, olha,<br \/>\nOlha o conforto do crist\u00e3o. Se o c\u00e1lix<br \/>\nDa amargura a provar os C\u00e9us lhe deram,<br \/>\nEle se consolou: b\u00e1lsamo santo<br \/>\nPiedosa f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o lhe verte.<br \/>\n\u00abDeus compaix\u00e3o ter\u00e1!\u00bb Eis seu gemido:<br \/>\nPorque a esperan\u00e7a lhe sussurra em torno:<br \/>\n\u00abAqui, ou l\u00e1&#8230; a Provid\u00eancia \u00e9 justa.\u00bb<br \/>\nAteu, a quem o mal fizera escravo,<br \/>\nTeu futuro qual \u00e9? Quais s\u00e3o teus sonhos?<br \/>\nNo dia da afli\u00e7\u00e3o emudeceste<br \/>\nAnte o espectro do mal. E a quem al\u00e7aras<br \/>\nO gemente clamor? Ao mar, que as ondas<br \/>\nN\u00e3o altera por ti? Ao ar, que some<br \/>\nPela sua amplid\u00e3o as queixas tuas?<br \/>\nAos rochedos alpestres, que n\u00e3o sentem,<br \/>\nNem sentir podem teu gemido in\u00fatil?<br \/>\nTua dor, teu prazer, existem, passam,<br \/>\nSem porvir, sem passado e sem sentido.<br \/>\nNas ang\u00fastias da vida, o teu consolo<br \/>\nO suic\u00eddio \u00e9 s\u00f3, que te promete<br \/>\nRica messe de gozo, a paz do nada!<br \/>\nE ai de ti, se buscaste, enfim, repouso,<br \/>\nNo limiar da morte indo assentar-te!<br \/>\nAli grita uma voz no \u00faltimo instante<br \/>\nDo passamento: a voz aterradora<br \/>\nDa consci\u00eancia \u00e9 ela. E h\u00e1s-de escut\u00e1-la<br \/>\nMau grado teu: e tremer\u00e1s em sustos,<br \/>\nDesesperado aos C\u00e9us erguendo os olhos<br \/>\nIrados, de trav\u00e9s, amortecidos;<br \/>\nAos C\u00e9us, cujo caminho a Eternidade<br \/>\nCoa vagarosa m\u00e3o te vai cerrando,<br \/>\nPara guiar-te \u00e0 solid\u00e3o das dores,<br \/>\nOnde maldigas teu primeiro alento,<br \/>\nOnde maldigas teu extremo arranco,<br \/>\nOnde maldigas a exist\u00eancia e a morte.<\/p>\n<p>XXVII<\/p>\n<p>Calou tudo no templo: o c\u00e9u \u00e9 puro,<br \/>\nA tempestade amea\u00e7adora dorme.<br \/>\nNo espa\u00e7o imenso os astros cintilantes<br \/>\nO rei da cria\u00e7\u00e3o louvam com hinos,<br \/>\nN\u00e3o ouvidos por n\u00f3s nas profundezas<br \/>\nDo nosso abismo. E aos cantos do universo,<br \/>\nAnte milh\u00f5es de estrelas, que recamam<br \/>\nO firmamento, ajuntar\u00e1 seu canto<br \/>\nMesquinho trovador? Que vale uma haspa<br \/>\nMortal no meio da harmonia et\u00e9rea,<br \/>\nNo concerto da noite? Oh, no sil\u00eancio,<br \/>\nEu pequenino verme irei sentar-me<br \/>\nAos p\u00e9s da Cruz nas trevas do meu nada.<br \/>\nAssim se apaga a l\u00e2mpada nocturna<br \/>\nAo despontar do Sol o alvor primeiro:<br \/>\nPor entre a escurid\u00e3o deu claridade;<br \/>\nMas do dia ao nascer, que j\u00e1 rutila,<br \/>\nAs torrentes de luz vertendo ao longe,<br \/>\nDa l\u00e2mpada o clar\u00e3o sumiu-se, in\u00fatil,<br \/>\nNesse f\u00falgido mar, que inunda a Terra.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Der Gedanke Gott weckt einen f\u00fcrchterlichen Nachhar auf. Sein Name heisst Richter. SCHILLER I T\u00edbio o sol entre as nuvens do ocidente, J\u00e1 l\u00e1 se inclina ao mar. Grave e solene Vai a hora da tarde! O oeste passa Mudo nos troncos da alameda antiga, Que \u00e0 voz da Primavera os gomos brota: O oeste [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-111364","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Semana Santa, Alexandre Herculano A Semana Santa<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Semana Santa, Alexandre Herculano, Obras, Poesias A Semana Santa\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" 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