{"id":111351,"date":"2017-03-01T09:39:00","date_gmt":"2017-03-01T11:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=111351"},"modified":"2017-03-01T09:43:10","modified_gmt":"2017-03-01T11:43:10","slug":"a-arrabida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-arrabida","title":{"rendered":"A Arr\u00e1bida"},"content":{"rendered":"<p>I<\/p>\n<p>Salve, \u00f3 vale do sul, saudoso e belo!<br \/>\nSalve, \u00f3 p\u00e1tria da paz, deserto santo,<br \/>\nOnde n\u00e3o ruge a grande voz das turbas!<br \/>\nSolo sagrado a Deus, pudesse ao mundo<br \/>\nO poeta fugir, cingir-se ao ermo,<br \/>\nQual ao freixo robusto a fr\u00e1gil hera,<br \/>\nE a romagem do t\u00famulo cumprindo,<br \/>\nS\u00f3 conhecer, ao despertar na morte,<br \/>\nEssa vida sem mal, sem dor, sem termo,<br \/>\nQue \u00edntima voz cont\u00ednuo nos promete<br \/>\nNo tr\u00e2nsito chamado o viver do homem.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Suspira o vento no \u00e1lamo frondoso;<br \/>\nAs aves soltam matutino canto;<br \/>\nLate o lebr\u00e9u na encosta, e o mar sussurra<br \/>\nDos alcantis na base carcomida:<br \/>\nEis o ru\u00eddo de ermo! Ao longe o negro,<br \/>\nInsondado oceano, e o c\u00e9u cer\u00faleo<br \/>\nSe abra\u00e7am no horizonte. Imensa imagem<br \/>\nDa eternidade e do infinito, salve!<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Oh, como surge majestosa e bela,<br \/>\nCom vi\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o, a natureza<br \/>\nNo solit\u00e1rio vale! E o leve insecto<br \/>\nE a relva e os matos e a fragr\u00e2ncia pura<br \/>\nDas boninas da encosta est\u00e3o contando<br \/>\nMil saudades de Deus, que os h\u00e1 lan\u00e7ado,<br \/>\nCom m\u00e3o profusa, no rega\u00e7o ameno<br \/>\nDa solid\u00e3o, onde se esconde o justo.<\/p>\n<p>E l\u00e1 campeiam no alto das montanhas<br \/>\nOs escalvados p\u00edncaros, severos,<br \/>\nQuais guardadores de um lugar que \u00e9 santo;<br \/>\nAtalaias que ao longe o mundo observam,<br \/>\nCerrando at\u00e9 o mar o \u00faltimo abrigo<br \/>\nDa cren\u00e7a viva, da ora\u00e7\u00e3o piedosa,<br \/>\nQue se ergue a Deus de l\u00e1bios inocentes.<\/p>\n<p>Sobre esta cena o sol verte em torrentes<br \/>\nDa manh\u00e3 o fulgor; a brisa esvai-se<br \/>\nPelos rosmaninhais, e inclina os topos<br \/>\nDo zimbro e alecrineiro, ao r\u00e9s sentados<br \/>\nDesses tronos de fragas sobrepostas,<br \/>\nQue alpestres matas de medronhos vestem;<br \/>\nO rocio da noite \u00e0 branca rosa<br \/>\nNo seio derramou frescor suave,<br \/>\nE inda exist\u00eancia lhe dar\u00e1 um dia.<br \/>\nFormoso ermo do sul, outra vez, salve!<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Negro, est\u00e9ril rochedo, que contrastas,<br \/>\nNa mudez tua, o pl\u00e1cido sussurro<br \/>\nDas \u00e1rvores do vale, que vicejam<br \/>\nRicas d\u2019encantos, coa esta\u00e7\u00e3o prop\u00edcia;<br \/>\nSuav\u00edssimo aroma, que, manando<br \/>\nDas variegadas flores, derramadas<br \/>\nNa sinuosa encosta da montanha,<br \/>\nDo altar da solid\u00e3o subindo aos ores,<br \/>\n\u00c9s digno incenso ao Criador erguido;<br \/>\nLivres aves, filhas da espessura,<br \/>\nQue s\u00f3 teceis da natureza as hinos,<br \/>\nO que cr\u00ea, o cantor, que foi lan\u00e7ado,<br \/>\nEstranho no mundo, no bul\u00edcio dele,<br \/>\nVem saudar-vos, sentir um gozo puro,<br \/>\nDus homens esquecer paix\u00f5es e opr\u00f3bio,<br \/>\nE ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,<br \/>\nO Sol, e uma s\u00f3 vez puro saudar-lha.<\/p>\n<p>Convosco eu sou maior; mais longe a mente<br \/>\ndos c\u00e9us se imerge livre,<br \/>\nE se desprende de mortais mem\u00f3rias<br \/>\nNa solid\u00e3o solene, onde, incessante,<br \/>\nEm cada pedra, em cada flor se escuta<br \/>\nDo Sempiterno a voz, e v\u00ea-se impressa<br \/>\nA dextra sua em multiforme quadro.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Escalvado penedo, que repousas<br \/>\nL\u00e1 no cimo do monte, amea\u00e7ando<br \/>\nRu\u00edna ao roble secular da encosta,<br \/>\nQue sonolento move a coma estiva<br \/>\nAnte a aragem do mar, foste formoso;<br \/>\nJ\u00e1 te cobriram cespedes virentes;<br \/>\nMus o tempo voou, e nele envolta<br \/>\nA formosura tua. Despedidos<br \/>\nDas negras nuvens o chuveiro espesso<br \/>\nE o granizo, que o solo fustigando<br \/>\nTritura a tenra lanceolada relva,<br \/>\nDurante largos s\u00e9culos, no Inverno,<br \/>\nDos vendavais no dorso a ti desceram.<br \/>\nQual amplexo brutal de ardos grosseiro,<br \/>\nQue, maculando virginal pureza.<br \/>\nDo pudor varre a aur\u00e9ola celeste,<br \/>\nE deixa, em vez de um serafim m Terra,<br \/>\nQueimada flor que devorou o raio.<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>Caveira da montanha, ossada imensa,<br \/>\n\u00c9 tua campa o C\u00e9u: sepulcro o vale<br \/>\nUm dia te ser\u00e1. Quando sentires<br \/>\nRugir com som medonho a Terra ao longe,<br \/>\nNa expans\u00e3o dos vulc\u00f5es, e o mar, bramindo,<br \/>\nLan\u00e7ar \u00e0 praia vagalh\u00f5es cruzados;<br \/>\nTremer-te a larga base, e sacudir-te<br \/>\nDe sobre si, o fundo deste vale<br \/>\nTe vai servir de t\u00famulo; e os carvalhos<br \/>\nDo mundo primog\u00e9nitos, e os sobros,<br \/>\nArrastados por ti l\u00e1 da colina,<br \/>\nContigo h\u00e3o-de jazer. De novo a terra<br \/>\nTe cobrir\u00e1 o dorso sinuoso:<br \/>\nOutra vez sobre ti nascendo os l\u00edrios,<br \/>\nDo seu puro candor h\u00e3o-de adornar-te;<br \/>\nE tu, ora medonho e nu e triste,<br \/>\nAinda belo ser\u00e1s, vestido e alegre.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Mais que o homem feliz! Quando eu no vale<br \/>\nDos t\u00famulos cair; quando uma pedra<br \/>\nOs ossos me esconder, se me for dada,<br \/>\nN\u00e3o mais reviverei; n\u00e3o mais meus olhos<br \/>\nVer\u00e3o, ao p\u00f4r-se, o Sol em dia estivo,<br \/>\nSe em turbilh\u00f5es de p\u00farpura, que ondeiam<br \/>\nPelo extremo dos c\u00e9us sobre o ocidente.<br \/>\nVai provar que um Deus h\u00e1 o estranhos povos<br \/>\nE al\u00e9m das ondas tr\u00e9mulo sumir-se;<br \/>\nNem, quando, l\u00e1 do cimo das montanhas,<br \/>\nCom torrentes de luz inunda as veigas:<br \/>\nN\u00e3o mais verei o refulgir da Lua<br \/>\nNo irrequieto mar, na paz da noite,<br \/>\nPor horas em que vela o criminoso,<br \/>\nA quem \u00edntima voz rouba o sossego.<br \/>\nE em que o justo descansa, ou, solit\u00e1rio,<br \/>\nErgue ao Senhor um hino harmonioso.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Ontem, sentado num penhasco, e perto<br \/>\nDos \u00e1guas, ent\u00e3o quedas, do oceano,<br \/>\nEu tamb\u00e9m o louvei sem ser um justo:<br \/>\nE meditei, e a mente extasiada<br \/>\nDeixei correr pela amplid\u00e3o das ondas.<\/p>\n<p>Como abra\u00e7o materno era suave<br \/>\nA aragem fresca do cair das trevas.<br \/>\nEnquanto, envolta em gl\u00f3ria, a clara Lua<br \/>\nSumia em seu fulgor milh\u00f5es d\u2019estrelas.<\/p>\n<p>Tudo calado estava: o mar somente<br \/>\nAs harmonias da cria\u00e7\u00e3o soltava,<br \/>\nEm seu rugido; e o ulmeiro do deserto<br \/>\nSe agitava, gemendo e murmurando.<br \/>\nAnte o sopro de oeste: ali dos olhos<br \/>\nO pranto me correu, sem que o sentisse.<br \/>\nE aos p\u00e9s de Deus se derramou minha alma.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Oh, que viesse o que n\u00e3o cr\u00ea, comigo,<br \/>\n\u00c0 vicejante Arr\u00e1bida de noite,<br \/>\nE se assentasse aqui sobre estas fragas,<br \/>\nEscutando o sussurro incerto e triste<br \/>\nDas movedi\u00e7as ramas, que povoa<br \/>\nDe saudade e de amor nocturna brisa;<br \/>\nQue visse a lua, o espa\u00e7o opresso de astros,<br \/>\nE ouvisse o mar soando: \u2013 ele chorara,<br \/>\nQual eu chorei, as l\u00e1grimas do gozo,<br \/>\nE, adorando o Senhor, detestaria<br \/>\nDe uma ci\u00eancia v\u00e3 seu v\u00e3o orgulho.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>\u00c9 aqui neste vale, ao qual n\u00e3o chega<br \/>\nHumana voz e o tumultuar das turbas,<br \/>\nOnde o nada da vida sonda livre<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o, que busca ir abrigar-se<br \/>\nNo futuro, e debaixo do amplo manto<br \/>\nDa piedade de Deus: aqui serena<br \/>\nVem a imagem da campa, como a imagem<br \/>\nDa p\u00e1tria ao desterrado; aqui, solene,<br \/>\nBrada a montanha, memorando a morte.<\/p>\n<p>Essas penhas, que, l\u00e1 no alto das serras<br \/>\nNuas, crestadas, solit\u00e1rias dormem,<br \/>\nParecem imitar da sepultura<br \/>\nO aspecto melanc\u00f3lico e o repouso<br \/>\nT\u00e3o desejado do que em Deus confia.<br \/>\nBem semelhante \u00e0 paz. que se h\u00e1 sentado<br \/>\nPor s\u00e9culos, ali, nas cordilheiras<br \/>\n\u00c9 o sil\u00eancio do adro, onde re\u00fanem<br \/>\nOs ciprestes e a Cruz, o C\u00e9u e a Terra.<\/p>\n<p>Como tu vens cercado de esperan\u00e7a,<br \/>\nPara o inocente, \u00f3 pl\u00e1cido sepulcro!<br \/>\nJunto das tuas bordas pavorosas<br \/>\nO perverso recua horrorizado:<br \/>\nAp\u00f3s si volve os olhos; na exist\u00eancia<br \/>\nDeserto \u00e1rido s\u00f3 descobre ao longe.<br \/>\nOnde a virtude n\u00e3o deixou um trilho.<\/p>\n<p>Mas o justo, chegando \u00e0 meta extrema,<br \/>\nQue separa de n\u00f3s a eternidade,<br \/>\nTransp\u00f5e-na sem temor, e em Deus exulta..<br \/>\nO infeliz e o feliz l\u00e1 dormem ambos,<br \/>\nTranquilamente: e o trovador mesquinho,<br \/>\nQue peregrino vagueou na Terra,<br \/>\nSem encontrar um cora\u00e7\u00e3o ardente<br \/>\nQue o entendesse, a p\u00e1tria de seus sonhos,<br \/>\nIgnota, por l\u00e1 busca; e quando as eras<br \/>\nVierem junto \u00e0s cinzas colocar-lhe<br \/>\nTardios louros, que escondera a inveja,<br \/>\nEle n\u00e3o erguer\u00e1 a m\u00e3o mirrada,<br \/>\nPara os cingir na regelada fronte.<br \/>\nJusti\u00e7a, gl\u00f3ria, amor, saudade, tudo,<br \/>\nAn p\u00e9 da sepultura, \u00e9 som perdido<br \/>\nDe harpa e\u00f3lia esquecida em brenha ou selva:<br \/>\nO despertar um pai, que saboreia<br \/>\nEntre os bru\u00e7os da morte o extremo sono,<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o \u00e9 dado ao filial suspiro;<br \/>\nEm v\u00e3o o amante, ali, da amada sua<br \/>\nDe rosas sobre a c&#8217;roa debru\u00e7ado,<br \/>\nRega de amargo pranto as murchas flores<br \/>\nE a fria pedra: a pedra \u00e9 sempre fria.<br \/>\nE para sempre as flores se murcharam.<br \/>\nXI<\/p>\n<p>Belo ermo!, eu hei-de amar-te enquanto esta alma,<br \/>\nAspirando o futuro al\u00e9m da vida<br \/>\nE um h\u00e1lito dos C\u00e9us, gemer atada<br \/>\n\u00c0 coluna do ex\u00edlio, a que se chama<br \/>\nEm l\u00edngua vil e mentirosa o mundo.<br \/>\nEu hei-de amar-te, \u00f3 vale, como um filho<br \/>\nDos sonhos meus. A imagem do deserto<br \/>\nGuard\u00e1-la-ei no cora\u00e7\u00e3o, bem junto<br \/>\nCom minha f\u00e9, meu \u00fanico tesouro.<\/p>\n<p>Qual pomposo jardim de verme ilustre,<br \/>\nChamado rei ou nobre, h\u00e1-de contigo<br \/>\nComparar-se, \u00f3 deserto? Aqui n\u00e3o cresce<br \/>\nEm vaso de alabastro a flor cativa,<br \/>\nOu \u00e1rvore educada por m\u00e3o de homem,<br \/>\nQue lhe diga: \u00ab\u00c9s escrava\u00bb, e erga um ferro<br \/>\nE lhe decepe os troncos. Como \u00e9 livre<br \/>\nA vaga do oceano, \u00e9 livre no ermo<br \/>\nA bonina rasteira ou freixo altivo!<br \/>\nN\u00e3o lhes diz: \u00abNasce aqui, ou l\u00e1 n\u00e3o cres\u00e7as\u00bb.<br \/>\nHumana voz. Se baqueou o freixo,<br \/>\nDeus o mandou: se a flor pendida murcha,<br \/>\n\u00c9 que o rocio n\u00e3o desceu de noite,<br \/>\nE da vida o Senhor lhe nega a vida.<\/p>\n<p>C\u00e9u livre, Terra livre, e livre a mente,<br \/>\nPaz \u00edntima, e saudade, mas saudade<br \/>\nQue n\u00e3o d\u00f3i, que n\u00e3o mirra, e que consola,<br \/>\nS\u00e3o as riquezas do ermo, onde sorriem<br \/>\nDas procelas do mundo os que o deixaram.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Ali naquela encosta, ontem de noite,<br \/>\nAlvejava por entre os medronheiros<br \/>\nDo solit\u00e1rio a habita\u00e7\u00e3o tranquila:<br \/>\nE eu vagueei por l\u00e1. Patente estava<br \/>\nO pobre albergue do eremita humilde,<br \/>\nOnde jazia o filho da esperan\u00e7a<br \/>\nSob as asas de Deus, \u00e0 luz dos astros,<br \/>\nEm leito, duro sim, n\u00e3o de remorsos.<br \/>\nOh, com quanto sossego o bom do velho<br \/>\nDormia! A leve aragem lhe ondeava<br \/>\nAs raras c\u00e3s na fronte, onde se lia<br \/>\nA bela hist\u00f3ria de passados anos.<br \/>\nDe alto choupo atrav\u00e9s passava um raio<br \/>\nDa Lua \u2013 astro de paz, astro que chama<br \/>\nOs olhos para o c\u00e9u, e a Deus a mente \u2013<br \/>\nE em luz p\u00e1lida as faces lhe banhava:<br \/>\nE talvez neste raio o Pai celeste<br \/>\nDa p\u00e1tria eterna, lhe enviava a imagem,<br \/>\nQue o sorriso dus l\u00e1bios lhe fugia,<br \/>\nComo se um sonho de ventura e gl\u00f3ria<br \/>\nNa Terra de antem\u00e3o o consolasse.<br \/>\nE eu comparei o solit\u00e1rio obscuro<br \/>\nAo inquieto filho das cidades:<br \/>\nComparei o deserto silencioso<br \/>\nAo perp\u00e9tuo ru\u00eddo que sussurra<br \/>\nPelos pal\u00e1cios do abastado e nobre,<br \/>\nPelos pa\u00e7os dos reis; e condo\u00ed-me<br \/>\nDo cortes\u00e3o soberbo, que s\u00f3 cura<br \/>\nDe honras, haveres, gl\u00f3ria, que se compram<br \/>\nCom maldi\u00e7\u00f5es e perenal remorso.<br \/>\nGl\u00f3ria! A sua qual \u00e9? Pelas campinas,<br \/>\nCobertas de cad\u00e1veres, regadas<br \/>\nDe negro sangue, ele segou seus louros;<br \/>\nLouros que v\u00e3o cingir-lhe a fronte altiva<br \/>\nAo som do choro da vi\u00fava e do \u00f3rf\u00e3o;<br \/>\nOu, dos sustos senhor, em seu del\u00edrio,<br \/>\nOs homens, seu irm\u00e3os, flagela e oprime.<br \/>\nL\u00e1 o filho do p\u00f3 se julga um nume,<br \/>\nPorque a Terra o adorou; o desgra\u00e7ado<br \/>\nPensa, talvez, que o verme dos sepulcros<br \/>\nNunca se h\u00e1-de chegar para trag\u00e1-lo<br \/>\nAo banquete da morte, imaginando<br \/>\nQue uma l\u00e1jea de m\u00e1rmore, que esconde<br \/>\nO cad\u00e1ver do grande, \u00e9 mais dur\u00e1vel<br \/>\nDo que esse ch\u00e3o sem inscri\u00e7\u00e3o, sem nome.<br \/>\nPor onde o opresso, o m\u00edsero, procura<br \/>\nO repouso, e se atira aos p\u00e9s do trono<br \/>\nDo Omnipotente, a demandar justi\u00e7a<br \/>\nContra os fortes do mundo, os seus tiranos.<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>\u00d3 cidade, cidade, que transbordas<br \/>\nDe v\u00edcios, de paix\u00f5es e de amarguras!<br \/>\nTu l\u00e1 est\u00e1s, na tua pompa envolta,<br \/>\nSoberba prostituta, alardeando<br \/>\nOs teatros, e os pa\u00e7os, e o ru\u00eddo<br \/>\nDas carro\u00e7as dos nobres recamadas<br \/>\nDe ouro e prata, e os prazeres de uma vida<br \/>\nTempestuosa, e o tropear cont\u00ednuo<br \/>\nDos f\u00e9rvidos ginetes, que alevantam<br \/>\nO p\u00f3 e o lodo cortes\u00e3o das pra\u00e7as;<br \/>\nE as gera\u00e7\u00f5es corruptas de teus filhos<br \/>\nL\u00e1 se revolvem, qual mont\u00e3o de vermes<br \/>\nSobre um cad\u00e1ver p\u00fatrido! Cidade,<br \/>\nBranqueado sepulcro, que misturas<br \/>\nA opul\u00eancia, a mis\u00e9ria, a dor e o gozo,<br \/>\nHonra e inf\u00e2mia, pudor e impud\u00edcia<br \/>\nC\u00e9u e inferno, que \u00e9s tu? Esc\u00e1rnio ou gl\u00f3ria<br \/>\nDa humanidade? O que o souber que o diga!<\/p>\n<p>Bem negra avulta aqui, na paz do vale,<br \/>\nA imagem desse povo, que reflui<br \/>\nDas moradas \u00e0 rua, \u00e0 pra\u00e7a, ao templo;<br \/>\nQue ri, e chora, folga, e geme, e morre,<br \/>\nQue adora Deus, e que o pragueja, e o teme;<br \/>\nAbsurdo misto de baixeza extrema<br \/>\nE de extrema ousadia; vulto enorme,<br \/>\nOra aos p\u00e9s de um vil d\u00e9spota estendido,<br \/>\nOra surgindo, e arremessando ao nada<br \/>\nAs mem\u00f3rias dos s\u00e9culos que foram,<br \/>\nE depois sobre o nada adormecendo.<\/p>\n<p>V\u00ea-lo, rico de opr\u00f3brio, ir assentar-se<br \/>\nEm joelhos nos \u00e1trios dos tiranos.<br \/>\nOnde, entre o lampejar de armas de servos,<br \/>\nO servo popular adora um tigre ?<br \/>\nEsse tigre \u00e9 o \u00eddolo do povo!<br \/>\nSaudai-o; que ele o manda: aben\u00e7oai-lhe<br \/>\nO f\u00e9rreo ceptro: ide folgar em roda<br \/>\nDe cadafalsos, povoados sempre<br \/>\nDe v\u00edtimas ilustres, cujo arranco<br \/>\nSeja como harmonia, que adormente<br \/>\nEm seus terrores o senhor das turbas.<br \/>\nPassai depois. Se a m\u00e3o da Provid\u00eancia<br \/>\nEsmigalhou a fronte \u00e0 tirania;<br \/>\nSe o d\u00e9spota caiu, e est\u00e1 deitado<br \/>\nNo loda\u00e7al da sua inf\u00e2mia, a turba<br \/>\nL\u00e1 vai buscar o ceptro dos terrores,<br \/>\nE diz: \u00ab\u00c9 meu\u00bb; e assenta-se na pra\u00e7a,<br \/>\nE envolta em roto manto. e julga, e reina.<br \/>\nSe um \u00edmpio, ent\u00e3o, na afogueada boca<br \/>\nDe vulc\u00e3o popular sacode um facho,<br \/>\nEis o inc\u00eandio que muge, e a lava sobe,<br \/>\nE referve, e trasborda, e se derrama<br \/>\nPelas ruas al\u00e9m: clamor retumba<br \/>\nDe anarquia impudente, e o brilho de armas<br \/>\nPelo escuro transluz, como um press\u00e1gio<br \/>\nDe assola\u00e7\u00e3o, e se amontoam vagas<br \/>\nDesse mar d&#8217;abjec\u00e7\u00e3o, chamado o vulgo;<br \/>\nDesse vulgo, que ao som de infernais hinos<br \/>\nCava fundo da P\u00e1tria a sepultura,<br \/>\nOnde, abra\u00e7ando a gl\u00f3ria do passado<br \/>\nE do futuro a \u00faltima esperan\u00e7a,<br \/>\nAs esmaga consigo, e ri morrendo.<\/p>\n<p>Tal \u00e9s, cidade, licenciosa ou serva!<br \/>\nOutros louvem teus pa\u00e7os sumptuosos,<br \/>\nTeu ouro, teu poder: sentina impura<br \/>\nDe corrup\u00e7\u00f5es, teus n\u00e3o ser\u00e3o meus hinos!<\/p>\n<p>XIV<\/p>\n<p>Cantor da solid\u00e3o, vim assentar-me<br \/>\nJunto do verde c\u00e9spede do vale,<br \/>\nE a paz de Deus do mundo me consola.<\/p>\n<p>Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,<br \/>\nUm pobre conventinho. Homem piedoso<br \/>\nO alevantou h\u00e1 s\u00e9culos, passando,<br \/>\nComo orvalho do c\u00e9u, por este s\u00edtio,<br \/>\nDe virtudes depois t\u00e3o rico e f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Como um pai de seus filhos rodeado,<br \/>\nPelos matos do outeiro o v\u00e3o cercando<br \/>\nOs tug\u00farios de humildes eremitas,<br \/>\nOnde o cil\u00edcio e a compun\u00e7\u00e3o apagam<br \/>\nDa lembran\u00e7a de Deus passados erros<br \/>\nDo pecador, que reclinou a fronte<br \/>\nPenitente no p\u00f3. O sacerdote<br \/>\nDos remorsos lhe ouviu as amarguras;<br \/>\nE perdoou-lhe, e consolou-o em nome<br \/>\nDo que expirando perdoava, o Justo,<br \/>\nQue entre os humanos n\u00e3o achou piedade.<\/p>\n<p>XV<\/p>\n<p>Religi\u00e3o! do m\u00edsero conforto,<br \/>\nAbrigo extremo de alma, que h\u00e1 mirrado<br \/>\nO longo agonizar de uma saudade.<br \/>\nDa desonra, do ex\u00edlio, ou da injusti\u00e7a,<br \/>\nTu consolas aquele, que ouve o Verbo.<br \/>\nQue renovou o corrompido mundo,<br \/>\nE que mil povos pouco a pouco ouviram.<br \/>\nNobre, plebeu, dominador, ou servo,<br \/>\nO rico, o pobre, o valoroso, o fraco,<br \/>\nDa desgra\u00e7a no dia ajoelharam<br \/>\nNo limiar do solit\u00e1rio templo.<br \/>\nAo p\u00e9 desse portal, que veste o musgo,<br \/>\nEncontrou-os chorando o sacerdote,<br \/>\nQue da serra descia \u00e0 meia-noite,<br \/>\nPelo sino das preces convocado:<br \/>\nA\u00ed os viu ao despontar do dia,<br \/>\nSob os raios do Sol, ainda chorando,<br \/>\nPassados meses, o burel grosseiro,<br \/>\nO leito de corti\u00e7a, e a fervorosa<br \/>\nE cont\u00ednua ora\u00e7\u00e3o foram cerrando<br \/>\nNos cora\u00e7\u00f5es dos m\u00edseros as chagas,<br \/>\nQue o mundo sabe abrir, mas que n\u00e3o cura.<br \/>\nAqui, depois, qual h\u00e1lito suave.<br \/>\nDa Primavera, lhes correu a vida,<br \/>\nAt\u00e9 sumir-se no adro do convento,<br \/>\nDebaixo de uma l\u00e1jea tosca e humilde,<br \/>\nSem nome, nem palavra, que recorde<br \/>\nO que a terra abrigou no sono extremo.<\/p>\n<p>Eremit\u00e9rio antigo, oh, se pudesses<br \/>\nDos anos que l\u00e1 v\u00e3o contar a hist\u00f3ria;<br \/>\nSe ora, \u00e0 voz do cantor, poss\u00edvel fosse<br \/>\nTransudar desse ch\u00e3o, gelado e mudo,<br \/>\nO mudo pranto, em noites dolorosas,<br \/>\nPor n\u00e1ufragos do mundo derramado<br \/>\nSobre ele, e aos p\u00e9s da Cruz!&#8230; Se v\u00f3s pud\u00e9sseis,<br \/>\nBroncas pedras, falar, o que dir\u00edeis!<\/p>\n<p>Quantos nomes mimosos da ventura,<br \/>\nConvertidos em f\u00e1bula das gentes.<br \/>\nDespertariam o eco das montanhas,<br \/>\nSe aos negros troncos do sobreiro antigo<br \/>\nMandasse o Eterno sussurrar a hist\u00f3ria<br \/>\nDos que vieram desnudar-lhe o cepo,<br \/>\nPara um leito formar, onde velassem<br \/>\nDa m\u00e1goa, ou do remorso, as longas noites!<br \/>\nAqui veio, talvez, buscar asilo<br \/>\nUm poderoso, outrora anjo da Terra,<br \/>\nDespenhado nas trevas do infort\u00fanio;<br \/>\nAqui gemeu, talvez, o amor tra\u00eddo,<br \/>\nOu pela morte convertido em cancro<br \/>\nDe infernal desespero; aqui soaram<br \/>\nDo arrependido os \u00faltimos gemidos,<br \/>\nDepois da vida derramada em gozos,<br \/>\nDepois do gozo convertido em t\u00e9dio.<br \/>\nMas quem foram? Nenhum, depondo em terra<br \/>\nVestidura mortal, deixou vest\u00edgios<br \/>\nDe seu breve passar. E isso que importa,<br \/>\nSe Deus o viu; se as l\u00e1grimas do triste<br \/>\nEle contou, para as pagar com gl\u00f3ria?<\/p>\n<p>XVI<\/p>\n<p>Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda<br \/>\nQue serpeia do monte ao fundo vale,<br \/>\nSobre o marco de pedra a cruz se eleva,<br \/>\nComo um farol de vida em mar de escolhos:<br \/>\nAo crist\u00e3o infeliz acolhe no ermo.<br \/>\nE consolando-o, diz-lhe: \u00abA p\u00e1tria tua<br \/>\n\u00c9 l\u00e1 no C\u00e9u: abra\u00e7a-te comigo.\u00bb<br \/>\nJunto dela esses homens, que passaram<br \/>\nAcurvados na dor, as m\u00e3os ergueram<br \/>\nPara o Deus, que perdoa, e que \u00e9 conforto<br \/>\nDos que aos p\u00e9s deste s\u00edmbolo da esp&#8217;ran\u00e7a<br \/>\nV\u00eam derramar seu cora\u00e7\u00e3o aflito:<br \/>\n\u00c9 do deserto a hist\u00f3ria, a cruz e a campa;<br \/>\nE sobre tudo o mais pousa o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>XVII<\/p>\n<p>Feliz da Terra, os monges n\u00e3o maldigas;<br \/>\nDo que em Deus confiou n\u00e3o escarne\u00e7as:<br \/>\nFolgando segue a trilha, que h\u00e1 juncado,<br \/>\nPara teus p\u00e9s, de flores a fortuna.<br \/>\nE sobre a morta cren\u00e7a em paz descansa.<br \/>\nQue mal te faz. Que gozo vai roubar-te<br \/>\nO que ensanguenta os p\u00e9s no tojo agreste,<br \/>\nE sobre a fria pedra encosta a fronte?<br \/>\nQue mal te faz uma ora\u00e7\u00e3o erguida,<br \/>\nNas solid\u00f5es, por voz sumida e frouxa,<br \/>\nE que, subindo aos C\u00e9us, s\u00f3 Deus escuta?<br \/>\nOh, n\u00e3o insultes l\u00e1grimas alheias,<br \/>\nE deixa a f\u00e9 ao que n\u00e3o tem mais nada!&#8230;<\/p>\n<p>E se estes versos te contristam, rasga-os.<br \/>\nTeus menestr\u00e9is te vender\u00e3o seus hinos,<br \/>\nNos banquetes op\u00edparos, enquanto<br \/>\nO negro p\u00e3o repartir\u00e1 comigo,<br \/>\nSeu trovador, o pobre anacoreta,<br \/>\nQue n\u00e3o te inveja as ditas, como as c&#8217;roas<br \/>\nDo prazer ao cantor eu n\u00e3o invejo;<br \/>\nTristes coroas, sob as quais \u00e0s vezes<br \/>\nEst\u00e1 gravada uma inscri\u00e7\u00e3o d&#8217;inf\u00e2mia.<\/p>\n<p class=\"fonte\">Fonte: bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Salve, \u00f3 vale do sul, saudoso e belo! 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