{"id":109863,"date":"2017-02-21T09:52:35","date_gmt":"2017-02-21T11:52:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=109863"},"modified":"2017-02-21T09:52:35","modified_gmt":"2017-02-21T11:52:35","slug":"o-destino-da-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-destino-da-literatura","title":{"rendered":"O Destino da Literatura"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Minhas senhoras e meus senhores:<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que fa\u00e7o o que n\u00f3s brasileiros convencionamos chamar confer\u00eancia liter\u00e1ria. Na forma que n\u00f3s o naturalizamos \u00e9 um g\u00eanero de literatura f\u00e1cil e ao mesmo tempo dif\u00edcil e isto porque ele n\u00e3o s\u00f3 exige de quem o cultiva saber nas letras, habilidade no tratar o assunto, eleg\u00e2ncia na exposi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m porque imp\u00f5e outras qualidades ao conferencista, que, quase de nenhum valor, para o sucesso, nas demais modalidades de atividade liter\u00e1ria, s\u00e3o, entretanto, capitais e indispens\u00e1veis para nele se obter um bom resultado.<\/p>\n<p>Pede tal g\u00eanero ao expositor desembara\u00e7o e gra\u00e7a distin\u00e7\u00e3o de pessoa, capricho no vestu\u00e1rio e &#8211; quem sabe l\u00e1? &#8211; beleza f\u00edsica e sedu\u00e7\u00e3o pessoal. \u00c9 o crit\u00e9rio nacional de que tenho muitas provas nas torturas por que t\u00eam passado aqueles meus amigos e confrades aos quais Deus galardoou com t\u00e3o raras virtudes.<\/p>\n<p>Explico-me.<\/p>\n<p>O meu belo camarada Oleg\u00e1rio Mariano canta as cigarras com voz melhor, menos estridente e mais suavemente amorosa do que aquela com que esses insetos o fazem quando inspirados pelos crep\u00fasculos aloirados do estio. Ele possui, em alto grau, a segunda s\u00e9rie de qualidades do bom conferencista, a que acima aludi. O audit\u00f3rio de suas confer\u00eancias \u00e9 monopolizado pelas mo\u00e7as e senhoras. Sabem o que lhe tem acontecido? Oleg\u00e1rio Mariano v\u00ea-se de tempos, a esta parte atrapalhado para guardar em casa, caixinhas, caixas, caix\u00f5es de cigarras secas que as suas admiradoras, do Amazonas ao Prata, lhe mandam insistentemente. \u00c9 um verdadeiro pesadelo.<\/p>\n<p>Um outro meu amigo, que \u00e9 excepcionalmente lindo e louro, embora da Terra do Sol, belo &#8220;diseur&#8221; de s\u00f3lidas confer\u00eancias, nas salas do bom-tom do Rio de Janeiro, foi proibido de continuar a faz\u00ea-las, pela respectiva esposa, porque, em uma das vezes, esta n\u00e3o viu no audit\u00f3rio um s\u00f3 homem. Tudo eram mo\u00e7as e senhoras.<\/p>\n<p>Conhecedor desse feitio caracter\u00edstico que tomaram entre n\u00f3s, pelo menos no Rio de Janeiro, as confer\u00eancias liter\u00e1rias, sempre que, para elas fui atra\u00eddo, solicitado por isto ou por aquilo, por este ou por aquele, me eximi de experimentar faz\u00ea-las, empregando para isto todos os subterf\u00fagios, todas as excusas, desde a simples desculpa de doen\u00e7a at\u00e9 \u00e0 fuga covarde diante do inimigo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o Sr. Augusto de Lima, grande poeta nacional e parlamentar conceituado, faz confer\u00eancias com sucesso; mas \u00e9 que, se n\u00e3o tem ou n\u00e3o teve a beleza de mo\u00e7o, possui hoje a imaterial da idade madura. \u00c9 verdade tamb\u00e9m que assisti confer\u00eancias concorridas de Anatole France e do professor George Dumas, e n\u00e3o eram eles, l\u00e1 para que se diga, homens bonitos e chiques. Em Anatole, achamos eu e alguns amigos um belo homem; mas n\u00e3o da beleza que fere as mulheres. E esta \u00e9 a qualidade fundamental para se fazer uma excelente confer\u00eancia, no julgar de todos ou de todas da cidade brasileira em que nasci.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 essa a opini\u00e3o de Botafogo, de Copacabana ou Laranjeiras; ela \u00e9 partilhada pelas minhas vizinhas do M\u00e9ier e tamb\u00e9m pelas deidades do morro da Favela e da Gamboa. \u00c9 opini\u00e3o geral da gente carioca.<\/p>\n<p>Est\u00e3o bem a ver que nunca quis fazer uma ou mais confer\u00eancias, n\u00e3o por orgulho nem por pretender ser mais profundo do que os meus confrades que as fazem; mas, s\u00f3 e cinicamente, pelo fato de conhecer a minha cidade natal, de alto a baixo, e de estar convencido de que, no tocante a elas, palestras ou confer\u00eancias, a minha organiza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tinha falhas.<\/p>\n<p>De resto, o discurso nunca foi o meu forte e desde bem cedo me convenci disso. Quando bem mo\u00e7o, quase menino, ainda imperfeitamente conhecedor da minha verdadeira personalidade, atrevia-me a freq\u00fcentar festas familiares e quase sempre delas saia fortemente despeitado com os oradores dos brindes de anivers\u00e1rio, de batizado, de casamento ou mesmo com aquele eloq\u00fcente conviva que erguera solenemente sua ta\u00e7a (era um simples copo, em geral) ao belo sexo.<\/p>\n<p>Quase com l\u00e1grimas, a minha adolesc\u00eancia vaidosa tentava explicar por que raz\u00e3o a minha relativa superioridade sobre tais oradores n\u00e3o permitia fazer os brilharetes de eloq\u00fc\u00eancia que eles faziam. Procurava ent\u00e3o desculpar essa minha incapacidade para orador de sobremesa, anotando anedotas da vida de grandes homens que n\u00e3o conseguiram falar, perante qualquer audit\u00f3rio, uma \u00fanica vez na sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Newton era um deles, e Gomes de Sousa, o maior ge\u00f4metra brasileiro, era outro.<\/p>\n<p>Muitos mais grandes homens tinha eu a meu lado e, com isso, me orgulhava; mas, naqueles tempos, era menino e \u00e9 pr\u00f3prio de menino n\u00e3o achar grande diferen\u00e7a entre um simples mortal e um grande homem, quando n\u00e3o \u00e9 o de tamb\u00e9m supor-se um verdadeiro g\u00eanio.<\/p>\n<p>Tudo isto, entretanto, n\u00e3o vem ao caso; e s\u00f3 a t\u00edtulo de amenidade pode ser explic\u00e1vel que aqui viesse aparecer, tanto mais que confer\u00eancia liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 bem discurso, nem parlamentar, nem dom\u00e9stico-festivo, nem judici\u00e1rio, nem mesmo mitingueiro. \u00c9 antes uma digress\u00e3o leve e am\u00e1vel, despretensiosa, que dispensa os estos demost\u00eanicos, as soberbas met\u00e1foras de Rui Barbosa, arroubos outros e tropos de toda sorte, antigamente t\u00e3o bem catalogados pela defunta ret\u00f3rica, os quais tanto assustavam os nossos av\u00f3s, quando esquartejavam esse nobre m\u00e1rtir dos gram\u00e1ticos e professores de portugu\u00eas de todos os tempos, que \u00e9 o grande Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Embora convencido disso, ainda sentia medo da confer\u00eancia porque h\u00e1 nela um elemento que a relaciona com o discurso, sem o qual ambos n\u00e3o teriam exist\u00eancia: \u00e9 o audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Quando se publica um livro, um artigo, em uma revista ou num jornal, a cr\u00edtica fica longe e se ela se manifesta, \u00e9 atrav\u00e9s de artigo ou de carta, onde a desaprova\u00e7\u00e3o vem filtrada, quando o censor \u00e9 educado, atrav\u00e9s de f\u00f3rmulas de polidez; mas, quando se fala, sobre este ou aquele assunto, diretamente ao p\u00fablico, um esto de impaci\u00eancia mal sopitado, uma manifesta\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o, um cochicho, enfim, o menor sinal de reprova\u00e7\u00e3o do audit\u00f3rio desnorteia quem exp\u00f5e e se atreveu a amolar pessoas de boa vontade e que tem mais que fazer do que ouvir uma xaropada qualquer. No presente caso, desde j\u00e1 vos aviso, n\u00e3o tenham medo; serei breve.<\/p>\n<p>Tenho, para mim, que, mais do que outros motivos, foi este pavor do audit\u00f3rio que me fez at\u00e9 hoje fugir \u00e0s confer\u00eancias. Afinal, este g\u00eanero de literatura e uma arte de sociedade, &#8211; que fica um pouco acima do jogo de prendas e muito abaixo de um step qualquer; e eu, apesar de ser um sujeito soci\u00e1vel e que passo, das vinte e quatro horas do dia, mais de quatorze na rua, conversando com pessoas de todas as condi\u00e7\u00f5es e classes, nunca fui homem de sociedade: sou um bicho-do-mato. Certas delicadezas de sofrer me acobardam mais diante dela do que os calabou\u00e7os da ilha das Cobras; e uma rebeldia, ali\u00e1s inocente, da minha parte contra ela, me p\u00f5e sempre canhestro quando sou obrigado a mergulhar no seu seio.<\/p>\n<p>Tem sido para mim desvantajoso esse proceder, pois, conforme me h\u00e3o dito confrades autorizados, \u00e9 a palestra aliteratada o mais proveitoso g\u00eanero de literatura que se possa cultivar no Brasil. \u00c9, como j\u00e1 vos disse, a primeira que fa\u00e7o e talvez seja a \u00faltima, porque estou encerrando o que prontamente se chama carreira liter\u00e1ria. Ven\u00e7o agora, todos os temores, e a muito custo; certamente fui levado a isto, por ter pisado em terras de iniciativa e de aud\u00e1cia, qualidades que este pr\u00f3spero munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo vai me emprestar por instantes, animando-me a falar-vos, c\u00f4nscio da minha obscuridade e a pesar da minha natural timidez.<\/p>\n<p>Muitas vezes todos v\u00f3s que me ouvis, haveis de formular intimamente, de v\u00f3s para v\u00f3s mesmos, ao topardes, em um jornal ou em uma revista, com um soneto ou um artigo, perguntas como estas: para que serve &#8220;isto&#8221;? por que se honram os homens que fazem essas coisas, quando, as mais das vezes, se as suas vidas n\u00e3o s\u00e3o cheias de torpes epis\u00f3dios, s\u00e3o, entretanto, as de verdadeiros vagabundos? como \u00e9 que todos lhes guardam os nomes e muitos se honram com a sua amizade? como \u00e9 que n\u00f3s os cercamos de honrarias, de est\u00e1tuas, de bustos, e nos esquecemos do inventor da util\u00edssima m\u00e1quina de costura? em que pode a Literatura, ou a Arte, contribuir para a felicidade de um povo, de uma na\u00e7\u00e3o, da humanidade, enfim?<\/p>\n<p>S\u00e3o perguntas naturais e espont\u00e2neas que n\u00e3o h\u00e1 um homem que as n\u00e3o tenha feito no seu f\u00f4ro \u00edntimo e que eu mesmo as fiz, quando, h\u00e1 cerca de vinte anos, me pus juvenilmente a escrever para o p\u00fablico, em revistas, e jornalecos que nasciam, eram lidos e morriam na rua do Ouvidor, n\u00e3o em toda ela, porque uma parte dessa c\u00e9lebre rua, nas proximidades do velho Mercado, mais se ocupa em coisas s\u00e9rias que dizem respeito ao nosso est\u00f4mago, desprezando tais caprichos liter\u00e1rios, a menos que eles se traduzam em fartos \u00e1gapes, no famoso Hotel do Minho. \u00c0s vezes, isto acontece e a literatura e os literatos ficam valorizados no seio da finan\u00e7a cautelosa.<\/p>\n<p>Tais perguntas, meus senhores e senhoras, constituem em s\u00famula o resumo do problema da import\u00e2ncia e do destino da Literatura que se cont\u00e9m no da Arte em geral. Em redor dele, como todos v\u00f3s sabeis, muito se h\u00e1 debatido e as mais contr\u00e1rias teorias tem sido constru\u00eddas, para resolv\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Fil\u00f3sofos e moralistas, soci\u00f3logos e doutrin\u00e1rios de toda a sorte t\u00eam-no discutido. Muitos, para condenar a Arte, em conjunto, ou t\u00e3o-somente a Literatura; outros, para exalt\u00e1-la. Plat\u00e3o que, com o ser grande fil\u00f3sofo, n\u00e3o deixava de ser tamb\u00e9m um grande poeta, n\u00e3o admitia artistas do verso na sua Rep\u00fablica ideal.<\/p>\n<p>O debate a esse respeito n\u00e3o est\u00e1 encerrado e nunca ficar\u00e1 encerrado enquanto n\u00e3o concordarem os s\u00e1bios e as autoridades no assunto que o fen\u00f4meno art\u00edstico \u00e9 um fen\u00f4meno social e o da Arte \u00e9 social, para n\u00e3o dizer sociol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Como os senhores sabem perfeitamente, entre as muitas ci\u00eancias ocultas e destinadas a iniciados que ultimamente tem surgido, h\u00e1 uma que pretende ser a da teoria geral da Arte.<\/p>\n<p>Segundo Tolstoi, na sua s\u00f3lida e acess\u00edvel obra &#8211; O que \u00e9 a arte? &#8211; o fundador dessa absconsa ci\u00eancia foi o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Baumgarten, que a definia como tendo por objeto o conhecimento da Beleza, sendo que esta \u00e9 o perfeito ou o absoluto, percebido pelos sentidos e tem por destino deleitar e excitar este ou aquele desejo nosso.<\/p>\n<p>Uma por\u00e7\u00e3o de defini\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia est\u00e9tica se baseia, como esta, na beleza, tendo cada uma delas, por sua vez, um determinado crit\u00e9rio do que seja Belo, do que seja Beleza.<\/p>\n<p>Deixo de citar muitas, entre as quais a de Hegel, que \u00e9 muito interessante, para n\u00e3o me tornar fastidioso, tanto mais que estou longe dos meus livros e dos meus apontamentos; mas, se algum dos ouvintes quiser ter o trabalho de ler muitas delas, pode procur\u00e1-las no livro de Tolstoi que citei, e de que, como os de Taine, de Guyau, de Bruneti\u00e8re e outros, me sirvo aqui, com mais ou menos liberdade, em virtude de n\u00e3o t\u00ea-los \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas defini\u00e7\u00f5es de arte, em que se inclui a Literatura, sugerem logo a interroga\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 a Beleza? Eis a\u00ed uma pergunta que \u00e0s senhoras e \u00e0s senhoritas, por estarem muito familiarizadas, com o assunto da indica\u00e7\u00e3o, parecer\u00e1 ociosa; mas que, para os fil\u00f3sofos,<\/p>\n<p>os abstratores de quinta-ess\u00eancia, os estetas profundos que doutrinam sobre o Amor e o Belo sem nunca terem amado, para essa multid\u00e3o de senhores sombrios, relaxados e distra\u00eddos, que fogem das recep\u00e7\u00f5es e dos ch\u00e1s dan\u00e7antes; enfim, para toda essa gente livresca constitui tal pergunta objeto de apaixonadas discuss\u00f5es que, \u00e0s vezes, baixam at\u00e9 \u00e0 troca de soezes insultos, enquanto a verdadeira Beleza foge deles com a velocidade do aeroplano.<\/p>\n<p>Cada um desses doutos, minhas senhoras e meus senhores, explica de seu modo o que seja Beleza e cada um deles o faz mais incompreensivelmente, mais rebarbativamente, mais nevoentamente. Os alem\u00e3es mais do que os ingleses, e os franceses mais do que aqueles, porque, segundo Tolstoi, quando a tradicional clareza dos franceses \u00e9 fascinada pela proverbial n\u00e9voa germ\u00e2nica, aquela gabada qualidade gaulesa capricha em se fazer densa, mais densa ainda do que, em geral, a neblina germ\u00e2nica.<\/p>\n<p>N\u00e3o os seguirei nas suas nebulosidades de procurarei um autor claro, profundo e autorizado, para responder \u00e0 pergunta que angustia os fil\u00f3sofos e que a metade do g\u00eanero humano, talvez, segundo a opini\u00e3o geral, \u00e9 a mais interessante parte dele, n\u00e3o suspeita at\u00e9 que possa ser formulada.<\/p>\n<p>A Beleza, para Taine, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o, por meio dos elementos art\u00edsticos e liter\u00e1rios, do car\u00e1ter essencial de uma id\u00e9ia mais completamente do que ela se acha expressa nos fatos reais.<\/p>\n<p>Portanto, ela j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na forma, no encanto pl\u00e1stico, na propor\u00e7\u00e3o e harmonia das partes, como querem os helenizantes de \u00faltima hora e dentro de cuja concep\u00e7\u00e3o muitas vezes n\u00e3o cabem as grandes obras modernas e, mesmo, algumas antigas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um car\u00e1ter extr\u00ednseco da obra, mas intr\u00ednseco, perante o qual aquele pouco vale. \u00c9 a subst\u00e2ncia da obra, n\u00e3o s\u00e3o as suas apar\u00eancias.<\/p>\n<p>Sendo assim, a import\u00e2ncia da obra liter\u00e1ria que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfei\u00e7\u00e3o de forma, de estilo, de corre\u00e7\u00e3o gramatical, de ritmo vocabular, de jogo e equil\u00edbrio das partes em vista de um fim, de obter unidade na variedade; uma tal import\u00e2ncia, dizia eu, deve residir na exterioriza\u00e7\u00e3o de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mist\u00e9rio que nos cerca, e aluda \u00e0s quest\u00f5es de nossa conduta na vida.<\/p>\n<p>\u00c9, em outras palavras, o parecer de Bruneti\u00e8re.<\/p>\n<p>Tomo como exemplo, a fim de esclarecer esse pensamento, um livro famoso, hoje universal &#8211; Crime e Castigo, de Dostoiewsky &#8211; que deveis conhecer.<\/p>\n<p>Trata-se de um estudante que curte as maiores mis\u00e9rias em S\u00e3o Petersburgo. Lembrem-se bem que se trata de mis\u00e9ria russa e de um estudante russo.<\/p>\n<p>As que passa n\u00e3o o fazem sofrer tanto; mas, por sofr\u00ea-las, compreende melhor as dos outros. Isto leva-o a meditar teimosamente sobre os erros da nossa organiza\u00e7\u00e3o social. Obrigado pela sua vida miser\u00e1vel, vem a conhecer uma velha s\u00f3rdida, sem alma e sem piedade, que emprestava n\u00edqueis sobre objetos de pequeno valor intr\u00ednseco, cobrando juros despropositados.<\/p>\n<p>A velha onzen\u00e1ria n\u00e3o tem o m\u00ednimo remorso de explorar a mis\u00e9ria dos que a procuram.<\/p>\n<p>Rel\u00edquias de fam\u00edlia, ensopadas de ternuras de m\u00e3e e afetos de irm\u00e3s; fetiches de amor, enriquecidos de beijos de noivas e de amantes, tudo ela recebe, dando miser\u00e1veis vint\u00e9ns para receb\u00ea-los triplicados, no fim de uma quinzena e, por muito favor, de um m\u00eas, sabendo perfeitamente que os objetos ser\u00e3o resgatados, porque, neles, h\u00e1 muito da alma e dos sonhos dos que os levam a penhor.<\/p>\n<p>O estudante chama-se Raskolnikoff. \u00c9 bom, \u00e9 honesto, \u00e9 inteligente, tanto assim que o sacodem id\u00e9ias para acabar com as mis\u00e9rias dos homens. Mas&#8230; precisa dinheiro; ele n\u00e3o o tem. Precisa dinheiro para estudar, para transmitir as suas id\u00e9ias aos outros, por meio de livros, jornais e revistas. Como h\u00e1 de ser? Eis o problema&#8230;<\/p>\n<p>Um dia, Raskolnikoff, indo em transa\u00e7\u00e3o \u00e0 casa da tal velha, percebe que ela tem na gaveta uma grossa quantia em notas de banco. A descoberta fere-o profundamente; a ign\u00f3bil onzen\u00e1ria possui naturalmente o dinheiro de que ele precisa para realizar, para lan\u00e7ar a sua obra generosa que far\u00e1 a felicidade de muitos, sen\u00e3o a de todo o g\u00eanero humano; mas como se apoderar dele?<\/p>\n<p>Furt\u00e1-lo? N\u00e3o podia porque a imunda agiota n\u00e3o arredava o p\u00e9 da pocilga de seus imund\u00edssimos neg\u00f3cios. Como obt\u00ea-lo, ent\u00e3o? S\u00f3 matando-a. \u00c9 um crime; mas &#8211; pergunta ele de si para si &#8211; todos os benfeitores da humanidade e os seus grandes homens em geral, diretamente ou indiretamente, n\u00e3o praticaram ou n\u00e3o autorizaram a pr\u00e1tica de crimes, para a plena realiza\u00e7\u00e3o de sua obra? Napole\u00e3o n\u00e3o foi um deles e, como ele, tantos outros?<\/p>\n<p>Ocorrem racioc\u00ednios dessa natureza a Raskolnikoff; e ele conclui que, possuidor de um ideal &#8211; generoso e alto, tinha, em face dele e dos augustos destinos da humanidade, direito a matar aquela vil\u00edssima velha, a qual, tendo deixado apagar-se-lhe na consci\u00eancia todos os nobres sentimentos humanos, como que se havia posto fora da esp\u00e9cie e se feito menos que um verme asqueroso.<\/p>\n<p>Mata-a, a ela e tamb\u00e9m \u00e0 irm\u00e3, que entrava quando ele acabava de perpetrar o assass\u00ednio. Mata a ambas da forma mais cruel e horrorosa que se pode imaginar, com o furor homicida de bandido consumado. Mata as duas mulheres com uma embotada machadinha de rachar lenha que encontrara no quintal do casar\u00e3o da sua resid\u00eancia, pois nem dinheiro tivera para comprar outra arma mais pr\u00f3pria e capaz.<\/p>\n<p>Depois de consumado o crime, \u00e9 em v\u00e3o que procura fugir dele. O testemunho da consci\u00eancia o persegue sempre e Raskolnikoff se torna, por assim dizer, o remorso dele mesmo. Quer o castigo; n\u00e3o pode sentir-se bem na vida sem o sofrer, porque as suas rela\u00e7\u00f5es com o resto da humanidade j\u00e1 s\u00e3o outras e ele se sente perfeitamente fora da comunh\u00e3o humana, cujos la\u00e7os ele mesmo rompera.<\/p>\n<p>Nisso tudo que \u00e9, resumida e palidamente, a obra do grande escritor russo, n\u00e3o h\u00e1 nada de comum com o que os escritores mais ou menos helenizantes chamam belo; mas, se assim \u00e9, onde est\u00e1 a beleza dessa estranha obra? &#8211; pergunto eu.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na manifesta\u00e7\u00e3o sem aux\u00edlio dos processos habituais do romance, do car\u00e1ter saliente da id\u00e9ia. N\u00e3o h\u00e1 l\u00f3gica nem rigor de racioc\u00ednio que justifiquem perante a nossa consci\u00eancia o assassinato, nem mesmo quando \u00e9 perpetrado no mais \u00ednfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execu\u00e7\u00e3o de um nobre ideal; e ainda mais no ressumar de toda a obra que quem o pratica, embora obedecendo a generaliza\u00e7\u00f5es aparentemente verdadeiras, executado que seja o crime, logo se sente outro &#8211; n\u00e3o \u00e9 ele mesmo.<\/p>\n<p>Mas esta pura id\u00e9ia, s\u00f3 como id\u00e9ia, tem fraco poder sobre a nossa conduta, assim expressa sob essa forma seca que os antigos chamavam de argumentos e os nossos Cam\u00f5es escolares dessa forma ainda chamam aos resumos, em prosa ou verso, dos cantos dos Lus\u00edadas. \u00c9 preciso que esse argumento se transforme em sentimento; e a arte, a literatura salutar tem o poder de faz\u00ea-lo, de transformar a id\u00e9ia, o preceito, a regra, em sentimento; e, mais do que isso, torn\u00e1-lo assimil\u00e1vel \u00e0 mem\u00f3ria, incorpor\u00e1-lo ao leitor, com aux\u00edlio dos seus recursos pr\u00f3prios, com aux\u00edlio de sua t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m. \u00c9 verificado por todos n\u00f3s que quando acabamos de ler um livro verdadeiramente art\u00edstico, convencemo-nos de que j\u00e1 hav\u00edamos sentido a sensa\u00e7\u00e3o que o outro nos transmitiu, e pensado no assunto.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o soubemos, dizem uns, foi escrever &#8220;a hist\u00f3ria&#8221;. Estes s\u00e3o os modestos; mas os pretensiosos dizem logo: &#8220;Isto! Tamb\u00e9m eu fazia!&#8221; Tal fato se d\u00e1 mais comumente com as grandes obras de que com as med\u00edocres. Toda a gente se julga capaz de escrever o D. Quixote, o Robinson, as Viagens de Gulliver, o Crainquebille, etc.; mas poucos se afirmam com aptid\u00f5es para alinhavar o Rocambole, o Nick Carter ou outro qualquer romance-folhetim. Passemos al\u00e9m: mais do que nenhuma outra arte, mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em n\u00f3s o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve, a arte liter\u00e1ria se apresenta com um verdadeiro -poder de cont\u00e1gio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, em tra\u00e7o de uni\u00e3o, em for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o entre os homens, sendo capaz, portanto, de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas, aparentemente mais diferentes, reveladas, por\u00e9m, por elas, como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos.<\/p>\n<p>\u00c9 por a\u00ed, segundo a minha humilde opini\u00e3o, que devemos orientar a nossa atividade liter\u00e1ria e n\u00e3o nos ideais arcaicos e mortos, como este, vari\u00e1vel e inexato, que a nossa poesia, tanto velha, como nova, tem por h\u00e1bito atribuir \u00e0 Gr\u00e9cia. Insisto neste ponto porque ele me apaixona, tanto assim que, aqui e ali, sempre que posso, tenho combatido esse ideal grego que anda por a\u00ed.<\/p>\n<p>Em geral, n\u00f3s, os brasileiros, pouco sabemos de arqueologia antiga; estamos na inf\u00e2ncia, e nem lhe acompanhamos os estudos feitos nessa l\u00edngua; mas, quem curiosamente os segue, pode concluir, com r\u00e1pidas leituras, que nada autoriza a admitirmos um certo e exato ideal de arte hel\u00eanica. Em outra parte, j\u00e1 tive ocasi\u00e3o de observar isto, nas seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Sainte-Beuve disse algures que, de cinq\u00fcenta em cinq\u00fcenta anos, faz\u00edamos da Gr\u00e9cia uma id\u00e9ia nova. Tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 bem pouco o Sr. Teodoro Reinach, que deve entender bem dessas coisas de Gr\u00e9cia, vinha dizer que Safo n\u00e3o era nada disso que n\u00f3s dela pensamos; que era assim como Mme. de Sevign\u00e9. Devia-se interpretar a sua linguagem misturada de fogo, no dizer de Plutarco, como s\u00e1fica s\u00e9ria, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, o que o di\u00e1logo de Plat\u00e3o \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao homem. Houve esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 este o \u00fanico detalhe, entre muitos, para mostrar de que maneira podem variar as nossas id\u00e9ias sobre a velha Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Creio que, pela mesma \u00e9poca em que o Sr. Reinach lia, na sess\u00e3o das cinco Academias de Fran\u00e7a reunidas, o resultado das suas investiga\u00e7\u00f5es sobre Safo, se representou na \u00d3pera, de Paris, um drama l\u00edrico de Saint-Saens &#8211; Djanira. Sabem os leitores (sic) como vinham vestidos os personagens? Sabem? Com o que n\u00f3s chamamos nas casas das nossas fam\u00edlias pobres &#8211; colchas de retalhos. Li isto em um folhetim do Sr. P. Lalo, no Temps.<\/p>\n<p>Esta modifica\u00e7\u00e3o no trajar tradicional dos her\u00f3is gregos, pois se tratava deles no drama, obedecia a injun\u00e7\u00f5es das \u00faltimas descobertas arqueol\u00f3gicas. O meu simp\u00e1tico missivista (sic) pode ver por a\u00ed como a sua Gr\u00e9cia \u00e9, para n\u00f3s, inst\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em mat\u00e9ria de escultura grega, podia eu, com o muito pouco que sei sobre ela, epilogar bastamente. \u00c9 suficiente lembrar que era regra admitida pelos artistas da Renascen\u00e7a que, de acordo com os preceitos gregos, as obras esculturais n\u00e3o podiam ser pintadas.<\/p>\n<p>\u00c9 que eles tinham visto os m\u00e1rmores gregos lavados pelas chuvas; entretanto, hoje, segundo Max Collignon, est\u00e1 admitido que as frisas do P\u00e1rtenon eram coloridas.<\/p>\n<p>A nossa Gr\u00e9cia varia muito e o que nos resta dela s\u00e3o ossos descarnados, insuficientes talvez para recomp\u00f4-la como foi em vida, e totalmente incapazes para nos mostrar ela viva, a sua alma, as id\u00e9ias que a animavam, os sonhos que queria ver realizados na Terra, segundo os seus pensamentos religiosos.<\/p>\n<p>Atemo-nos a ela, assim vari\u00e1vel e fugidia, \u00e9 impedir que realizemos o nosso ideal, aquele que est\u00e1 na nossa consci\u00eancia, vivo no fundo de n\u00f3s mesmos, para procurar a beleza em uma carca\u00e7a cujos ossos j\u00e1 se fazem p\u00f3.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o nos pode mais falar, talvez nem mesmo balbuciar, e o que nos tinha a dar j\u00e1 nos deu e vive em n\u00f3s inconscientemente.&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo que a Gr\u00e9cia &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 verdade &#8211; tivesse por ideal de arte realizar unicamente a beleza pl\u00e1stica, esse ideal n\u00e3o podia ser o nosso, porque, com o ac\u00famulo de id\u00e9ias que trouxe o tempo, com as descobertas modernas que alargaram o mundo e a consci\u00eancia do homem, e outros fatores mais, o destino da Literatura e da Arte deixou de ser unicamente a beleza, o prazer, o deleite dos sentidos, para ser coisa muito diversa.<\/p>\n<p>Tolstoi, no livro de que me venho servindo e a cujo t\u00edtulo mais atr\u00e1s aludi, critica muito justamente semelhante opini\u00e3o, com as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Quando se quer definir todo um ramo de atividade humana, \u00e9 necess\u00e1rio procurar-lhe o seu sentido e o seu alcance. Para isto fazer, \u00e9 primeiramente indispens\u00e1vel estudar tal atividade em si mesma, na depend\u00eancia de suas causas e efeitos, e n\u00e3o exclusivamente nas suas rela\u00e7\u00f5es com os prazeres que ela nos proporciona.<\/p>\n<p>Ainda mais:<\/p>\n<p>&#8220;Se dissermos que o fim de uma certa atividade humana \u00e9 unicamente o prazer, e s\u00f3 sobre ele fizermos repousar a nossa defini\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 ela evidentemente falsa. \u00c9 o que se d\u00e1 com a defini\u00e7\u00e3o de Arte assim concebida. Com efeito; examinando-se as quest\u00f5es de nutri\u00e7\u00e3o, por exemplo, ningu\u00e9m se atrever\u00e1 a afirmar que o prazer de comer \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o principal da nutri\u00e7\u00e3o. Toda a gente compreende que a satisfa\u00e7\u00e3o do nosso paladar n\u00e3o pode servir de base \u00e0 nossa defini\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito dos nossos alimentos.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos que s\u00e3o agrad\u00e1veis, digo agora eu, que n\u00e3o s\u00e3o nutritivos, antes s\u00e3o prejudiciais \u00e0 economia do nosso organismo; e h\u00e1 outros que n\u00e3o s\u00e3o l\u00e1 muito saborosos, mas que preenchem perfeitamente o fim da nutri\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o de conservar a vida do nosso corpo.<\/p>\n<p>Ver o fim, o destino de qualquer arte no prazer que ela nos proporciona, \u00e9 imitar os homens de uma moralidade primitiva, como os selvagens, que n\u00e3o v\u00eaem na alimenta\u00e7\u00e3o outro alcance que n\u00e3o seja o da satisfa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel que lhes proporciona a ingest\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>Guyau, num curioso livro, t\u00e3o profundo quanto claro &#8211; A Arte sob o ponto de vista sociol\u00f3gico &#8211; ensinou &#8220;que beleza n\u00e3o \u00e9 uma coisa exterior ao objeto: que ela n\u00e3o pode ser admitida como uma excresc\u00eancia paras\u00edtica na obra de arte; ela \u00e9, no fim de contas, a verdadeira flora\u00e7\u00e3o da planta em que aparece<\/p>\n<p>A arte, incluindo nela a literatura, continua Guyau &#8220;e a express\u00e3o da vida refletida e consciente, e evoca em n\u00f3s ao mesmo tempo, a consci\u00eancia mais profunda da exist\u00eancia, os sentimentos mais elevados, os pensamentos mais sublimes. Ela ergue o homem de sua vida pessoal \u00e0 vida universal, n\u00e3o s\u00f3 pela sua participa\u00e7\u00e3o nas id\u00e9ias e cren\u00e7as gerais, mas tamb\u00e9m ainda pelos sentimentos profundamente humanos que exprime&#8221;.<\/p>\n<p>Quer dizer: o homem, por interm\u00e9dio da Arte, n\u00e3o fica adstrito aos preceitos e preconceitos de seu tempo, de seu nascimento, de sua p\u00e1tria, de sua ra\u00e7a; ele vai al\u00e9m disso, mais longe que pode, para alcan\u00e7ar a vida total do Universo e incorporar a sua vida na do Mundo.<\/p>\n<p>S\u00e3o ainda dele, de Jean Marie Guyau, o genial fil\u00f3sofo, esteta, moralista e poeta, morto prematuramente aos trinta e tr\u00eas anos; s\u00e3o dele, meus senhores e minhas senhoras, as palavras desta formosa divisa:<\/p>\n<p>&#8220;Ama tudo para tudo compreender; tudo compreender para tudo perdoar.&#8221;<\/p>\n<p>Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa esp\u00e9cie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com que me casei; mais do que ela nenhum outro qualquer meio de comunica\u00e7\u00e3o entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de cont\u00e1gio, teve, tem e ter\u00e1 um grande destino na nossa triste Humanidade.<\/p>\n<p>Os homens s\u00f3 dominam os outros animais e conseguem em seu proveito ir captando as for\u00e7as naturais porque s\u00e3o inteligentes. A sua verdadeira for\u00e7a \u00e9 a intelig\u00eancia; e o progresso e o desenvolvimento desta decorrem do fato de sermos n\u00f3s animais soci\u00e1veis, dispondo de um meio quase perfeito de comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a linguagem, com a qual nos \u00e9 permitido somar e multiplicar a for\u00e7a de pensamento do indiv\u00edduo, da fam\u00edlia, das na\u00e7\u00f5es e das ra\u00e7as, e, at\u00e9, mesmo, das gera\u00e7\u00f5es passadas, gra\u00e7as \u00e0 escrita e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o oral que guardam as cogita\u00e7\u00f5es e conquistas mentais delas e as ligam \u00e0s subseq\u00fcentes.<\/p>\n<p>Portanto, meus senhores, quanto mais perfeito for esse poder de associa\u00e7\u00e3o; quanto mais compreendermos os outros que nos parecem, \u00e0 primeira vista, mais diferentes, mais intensa ser\u00e1 a liga\u00e7\u00e3o entre os homens, e mais nos amaremos mutuamente, ganhando com isso a nossa intelig\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 a coletiva como a individual. A arte, tendo o poder de transmitir sentimentos e id\u00e9ias, sob a forma de sentimentos, trabalha pela uni\u00e3o da esp\u00e9cie; assim trabalhando, concorre, portanto, para o seu acr\u00e9scimo de intelig\u00eancia e de felicidade.<\/p>\n<p>Ela sempre fez baixar das altas regi\u00f5es, das abstra\u00e7\u00f5es da Filosofia e das inacess\u00edveis revela\u00e7\u00f5es da F\u00e9, para torn\u00e1-las sens\u00edveis a todos, as verdades que interessavam e interessam \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da nossa sociedade; ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas d\u00favidas destes, \u00e0queles; ela faz compreender, umas \u00e0s outras, as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos, das mais diversas \u00e9pocas, das mais divergentes ra\u00e7as; ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napole\u00e3o prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo \u00e0 guilhotina; ela, n\u00e3o cansada de ligar as nossas almas, umas \u00e0s outras, ainda nos liga \u00e0 \u00e1rvore, \u00e0 flor, ao c\u00e3o, ao rio, ao mar e \u00e0 estrela inacess\u00edvel; ela nos faz compreender o Universo, a Terra, Deus e o Mist\u00e9rio que nos cerca e para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e de altos desejos.<\/p>\n<p>Fazendo-nos assim tudo compreender; entrando no segredo das vidas e das coisas, a Literatura refor\u00e7a o nosso natural sentimento de solidariedade com os nossos semelhantes, explicando-lhes os defeitos, real\u00e7ando-lhes as qualidades e zombando dos f\u00fateis motivos que nos separam uns dos outros. Ela tende a obrigar a todos n\u00f3s a nos tolerarmos e a nos compreendermos; e, por a\u00ed, n\u00f3s nos chegaremos a amar mais perfeitamente na superf\u00edcie do planeta que rola pelos espa\u00e7os sem fim. O Amor sabe governar com sabedoria e acerto, e n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Dante diz que ele move o C\u00e9u e a alta Estrela.<\/p>\n<p>Atualmente, nesta hora de tristes apreens\u00f5es para o mundo inteiro, n\u00e3o devemos deixar de pregar, seja como for, o ideal de fraternidade, e de justi\u00e7a entre os homens e um sincero entendimento entre eles.<\/p>\n<p>E o destino da Literatura \u00e9 tornar sens\u00edvel, assimil\u00e1vel, vulgar esse grande ideal de poucos a todos, para que ela cumpra ainda uma vez a sua miss\u00e3o quase divina.<\/p>\n<p>Conquanto n\u00e3o se saiba quando ele ser\u00e1 vencedor; conquanto a opini\u00e3o externada em contr\u00e1rio cubra-nos de rid\u00edculo, de chufas e bald\u00f5es, o hero\u00edsmo dos homens de letras, tendo diante dos olhos o exemplo de seus antecessores, pede que todos os que manejam uma pena n\u00e3o esmore\u00e7am no prop\u00f3sito de pregar esse ideal. A literatura \u00e9 um sacerd\u00f3cio, dizia Carlyle.<\/p>\n<p>Que me importa o presente! No futuro \u00e9 que est\u00e1 a, exist\u00eancia dos verdadeiros homens. Guyau, a quem n\u00e3o me canso de citar, disse em uma de suas obras, estas palavras que ouso faz\u00ea-las minhas:<\/p>\n<p>&#8220;Porventura sei eu se viverei amanh\u00e3, se viverei mais uma hora, se a minha m\u00e3o poder\u00e1 terminar esta linha que come\u00e7o? A vida est\u00e1, por todos os lados, cercada pelo Desconhecido. Todavia executo, trabalho, empreendo; e em todos os meus atos, em todos os meus pensamentos, eu pressuponho este futuro com o qual nada me autoriza a contar. A minha atividade excede em cada minuto o instante presente, estende-se ao futuro. Eu consumo a minha energia sem recear que este consumo seja uma perda est\u00e9ril, imponho-me priva\u00e7\u00f5es, contando que o futuro as resgatar\u00e1 &#8211; e sigo o meu caminho. Esta incerteza que me comprime de todos os lados equivale, para mim, a uma certeza e torna poss\u00edvel a minha liberdade &#8211; \u00e9 o fundamento da moral especulativa com todos os risos. O meu pensamento vai adiante dela, com a minha atividade; de prepara o mundo, disp\u00f5e do futuro. Parece-me que sou senhor do infinito, porque o meu poder n\u00e3o \u00e9 equivalente a nenhuma quantidade determinada; quanto mais trabalho mais espero.<\/p>\n<p>Possam estas palavras de grande f\u00e9; possam elas na sua imensa beleza de for\u00e7a e de esperan\u00e7a atenuar o mau efeito que vos possa ter causado as minhas palavras desenxavidas. \u00c9 que eu n\u00e3o soube dizer com clareza e brilho o que pretendi; mas uma coisa garanto-vos: pronunciei-as com toda a sinceridade e com toda a honestidade de pensar.<\/p>\n<p>Talvez isso fa\u00e7a que eu mere\u00e7a perd\u00e3o pelo aborrecimento que vos acabo de causar.<\/p>\n<p><b>Revista Sousa Cruz, ns. 58-59, outubro e novembro de 1921<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Minhas senhoras e meus senhores: \u00c9 a primeira vez que fa\u00e7o o que n\u00f3s brasileiros convencionamos chamar confer\u00eancia liter\u00e1ria. 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