{"id":109559,"date":"2017-02-17T11:14:41","date_gmt":"2017-02-17T13:14:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=109559"},"modified":"2017-02-17T11:14:41","modified_gmt":"2017-02-17T13:14:41","slug":"contos-e-historias-de-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/contos-e-historias-de-animais","title":{"rendered":"Contos e Hist\u00f3rias de Animais"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Os animais dom\u00e9sticos, domesticados e selvagens, sempre entraram em toda e qualquer literatura, quer na popular, quer na an\u00f4nima, quer na pessoal e cultivada. Desde muito cedo que os homens se associaram aos animais para fazer a sua jornada na vida. Seja como simples companheiros, seja para sacrific\u00e1 -los, a fim de obter alimento, eles sempre viveram entrela\u00e7ados aos sonhos e devaneios da humanidade. Comte incorporou, com aquela sua generosidade de fil\u00f3sofo pobre, orgulhoso e bom, certos animais \u00e0 pr\u00f3pria Humanidade; e Buda, o iluminado \u00c7akia-Muni, n\u00e3o admitia o sacrif\u00edcio de nenhum para sustento do homem.<\/p>\n<p>Os paladinos, os altissonantes de alma e coura\u00e7a, os &#8220;preux&#8221; esfor\u00e7ados das batalhas, dos combates singulares, das justas e torneios medievais, batizavam os seus ginetes de guerra com nomes flamejantes e significativos que ainda vivem na literatura e na mem\u00f3ria<\/p>\n<p>dos homens. Reinaud de Montauban, um dos quatro filhos d&#8217;Aymon, tem Bayard, o melhor corcel da cristandade; Rolando, o paladino dos paladinos, tem Neillantif, o &#8220;bon cheval courant&#8221; da sua imortal gesta; e todos os outros guerreiros de antanho possuem os seus &#8220;destriers&#8221; bem crismados e extremados da turbamulta dos cavalos an\u00f4nimos. Os troveiros, os trovadores, os &#8220;clercs&#8221;, que lhes contaram as fa\u00e7anhas nas festas, cr\u00f4nicas e romances, e as conservaram para a nossa atual edifica\u00e7\u00e3o, s\u00f3 lhes viram as apar\u00eancias, os aspectos de bravura, de \u00edmpeto, de ardor, mas n\u00e3o nos deram as suas qualidades irredut\u00edveis de car\u00e1ter, de cora\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia &#8211; a sua alma, enfim.<\/p>\n<p>Foi preciso que Cervantes nos pintasse o doce e resignado Rocinante, esse hipogrifo cheio de candura que suportava candidamente os arrebatamentos do sonho generoso de justi\u00e7a do seu amo e amigo, para que o cavalo entrasse na literatura com a posse de sua alma individual. Rocinante n\u00e3o se parece com outro qualquer cavalo; ele \u00e9 unicamente o corcel de D. Quixote.<\/p>\n<p>Al\u00e9m deste animal, quem n\u00e3o se lembra do irrequieto e falador papagaio de Robinson Cruso\u00e9? Dessa ave dom\u00e9stica, em geral ma\u00e7ante, mas que no livro de Cruso\u00e9 nos parece t\u00e3o simp\u00e1tica, a minorar, a quebrar o isolamento que oprime o seu companheiro da ilha deserta, dando-lhe a larga vis\u00e3o da sociedade e dos homens &#8211; quem n\u00e3o se lembra dela?<\/p>\n<p>Podia ainda falar no &#8220;Roman de Renard&#8221;, das f\u00e1bulas, dos poemas hindus, mas meu prop\u00f3sito \u00e9 outro e n\u00e3o conv\u00e9m perd\u00ea-lo de vista, para exibir leituras ou erudi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A mistura dos animais com os deuses, seja como atributos de sua for\u00e7a e do seu poder, seja com qualquer outro sentido, \u00e9 coisa f\u00e1cil de verificar em todas as religi\u00f5es. Na greco-romana, o cavalo \u00e9 animal de Netuno; a serpente, de Minerva; a \u00e1guia, de J\u00fapiter; os pombos, de V\u00eanus e assim por diante.<\/p>\n<p>Na nossa religi\u00e3o cat\u00f3lica, que n\u00e3o \u00e9 das mais naturalistas e zoom\u00f3rficas, certos santos t\u00eam o acompanhamento de animais.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, como toda gente sabe, \u00e9 figurado com um carneiro ao lado; e nos presepes, com os quais se comemora o nascimento de Jesus Cristo, h\u00e1 o burro, a vaca, galos, galinhas, etc. A transcendente imaterialidade do Divino Esp\u00edrito Santo \u00e9 representada na iconografia cat\u00f3lica por um pombo.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que, na espont\u00e2nea atividade liter\u00e1ria de todos os povos, os animais que os cercam figuram humanizados, falando, discreteando, sentenciando, narrando, ora com esta inten\u00e7\u00e3o, ora com aquela moralidade ou aquela outra filosofia.<\/p>\n<p>O Sr. Van Gennep, no seu conhecid\u00edssimo livro, traz uma narrativa de animais que me parece t\u00edpica para o g\u00eanero e que me atrai entre todas. \u00c9 aquela em que se explica a origem de certas deformidades ou melhor singularidades morfol\u00f3gicas de determinados animais.<\/p>\n<p>A que reproduzo aqui, mais abaixo, para esclarecer o meu pensamento, \u00e9 origin\u00e1ria da \u00c1frica. Ei-la:<\/p>\n<p>&#8220;O elefante, rei dos animais, convocou um dia todos os seus s\u00faditos para uma assembl\u00e9ia, sob pena de morte em caso de desobedi\u00eancia. Todos compareceram, exceto o caramujo.<\/p>\n<p>&#8220;A confer\u00eancia teve lugar, como era de esperar, sob a presid\u00eancia do elefante, e ia j\u00e1 pelo fim, quando os animais se puseram a gritar:<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Vem a\u00ed o caramujo! Est\u00e1 a\u00ed o caramujo!<\/p>\n<p>&#8220;O caracol aproximou-se todo tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Donde vens? perguntou-lhe o elefante.<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Da minha aldeia, respondeu-lhe o caramujo.<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 E por que tardaste? N\u00e3o recebeste a ordem?<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Recebi-a, pai elefante, e me pus logo em caminho. Mas, tu s\u00f3 me deste um p\u00e9 para andar, os ramos me cegavam, e eu temo muito o frio e a chuva. Foram esses os motivos que me fizeram voltar e me decidiram a carregar a minha casa nas costas.<\/p>\n<p>&#8220;O elefante-rei riu-se muito e durante longo tempo com essa explica\u00e7\u00e3o. Depois, assim disse:<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Tu falaste claro, pai caramujo. Doravante, ter\u00e1s teus olhos na ponta dos chifres, e poder\u00e1s escond\u00ea-los, logo que os ramos das \u00e1rvores os ameacem. Em todo o caso, para punir-te de ter faltado \u00e0 confer\u00eancia, carregar\u00e1s sempre, durante toda a vida, a tua casa nas costas.&#8221;<\/p>\n<p>Diz o Sr. Van Gennep que certa tribo africana acrescenta a esta hist\u00f3ria a considera\u00e7\u00e3o de que o castigo n\u00e3o foi grande, porquanto o caramujo n\u00e3o precisou trabalhar mais para ter casa.<\/p>\n<p>Assim, por\u00e9m, n\u00e3o procederam os nossos severos e terr\u00edveis deuses mais ou menos judaicos com o linguado. Todos conhecem esse peixe que tem a boca numa disposi\u00e7\u00e3o especial e anormal, torta, como diz o povo. \u00c9 corrente, entre n\u00f3s, que ele assim ficou por ter tomado a liberdade de ca\u00e7oar com Nossa Senhora. Andava a m\u00e3e de Jesus por uma praia, contam as nossas velhas, passeando, levando naturalmente o filho ao colo, a fazer n\u00e3o sei o qu\u00ea.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia meio de atinar se o mar estava enchendo ou vazando. Nossa Senhora n\u00e3o encontrava ningu\u00e9m que a tirasse da perplexidade, quando se aproximou mais das \u00e1guas e viu um linguado que andava pr\u00f3ximo. Perguntou com toda do\u00e7ura e delicadeza:<\/p>\n<p>\u2014 Linguado, a mar\u00e9 enche ou vaza?<\/p>\n<p>O peixe que devia ser, por esse tempo, quando os animais ouviam e falavam, de um natural mofador e grosseiro, sem lhe responder \u00e0 pergunta, arremedou-a nas palavras e exagerou para melhor debicar o modo por que Nossa Senhora tinha articulado os l\u00e1bios, a fim de pronunci\u00e1-los. O linguado n\u00e3o sabia com quem estava falando, mas veio a sab\u00ea-lo, quando Nossa Senhora lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ficar\u00e1s com a boca torta, tu e toda a tua gera\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos!<\/p>\n<p>Assim foi e ainda hoje, mesmo no prato, \u00e0 mesa do almo\u00e7o ou do jantar, n\u00f3s lhe vemos o estigma, que como castigo lhe deixou no seu corpo o justo ressentimento de nossa M\u00e3e Sant\u00edssima.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esse animal que mereceu dos nossos deuses cat\u00f3licos puni\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o pelo seu mau proceder em rela\u00e7\u00e3o a eles.<\/p>\n<p>Manuel de Oliveira, um negro velho, cabinda de na\u00e7\u00e3o, muito fiel e dedicado, que viveu com a minha fam\u00edlia e me viu menino de sete ou oito anos, tendo morrido h\u00e1 pouco tempo, n\u00e3o gostava de gatos e n\u00e3o me cessava de explicar essa sua ojeriza:<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Seu Lifonso&#8221;, gato \u00e9 bicho do diabo&#8230; \u00c9 bicho que Nosso &#8220;Sinh\u00f4&#8221; n\u00e3o gosta; \u00e9 bicho &#8220;madi\u00e7uado&#8221; por Deus. Cachorro, sim&#8230;<\/p>\n<p>Contava-me, ent\u00e3o, meu saudoso preto velho o motivo por que ficaram malditos os gatos, que, nos nossos dias, depois de P\u00f6e e Baudelaire, est\u00e3o em moda entre os literatos poetas, damas de sociedade e outras pessoas dignas de verem o seu &#8220;interior&#8221; estampado nos jornais catitas e revistas de eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Nosso Senhor Jesus Cristo estava na cruz e teve sede. Passaram homens, mulheres, bichos e ele pedia \u00e1gua. Ningu\u00e9m se importou e n\u00e3o lha trouxe. Passou, ent\u00e3o, um gato que Nosso Senhor julgou ser capaz de fazer a obra de caridade que o Homem-Deus suplicava lhe fizessem. Rogou ao gato que lhe trouxesse um pouco d&#8217;\u00e1gua para lhe abrandar a ard\u00eancia dos seus l\u00e1bios ressecados.<\/p>\n<p>\u2014 Gato, &#8220;Seu Lifonso&#8221; &#8211; fala o Manuel de Oliveira, &#8211; que \u00e9 bicho mau e do &#8220;dem\u00f4nho&#8221;, sabe o que fez? Pois fez isto: &#8220;mix\u00f4&#8221; numa caneca e deu a &#8220;beb\u00ea&#8221; a &#8220;Nosso Sinh\u00f4&#8221;. &#8220;Nosso Sinh\u00f4&#8221; mardi\u00e7u\u00f4 ele pra sempre e at\u00e9 hoje &#8220;ele&#8221; \u00e9 &#8220;mardi\u00e7uado&#8221; por Deus, \u00e9 bicho que tem parte com o &#8220;capeta&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 E o cachorro, Manuel? &#8211; perguntava eu.<\/p>\n<p>\u2014 Cachorro n\u00e3o fez isso. Buscou \u00e1gua fresca e deu a &#8220;Nosso Sinh\u00f4&#8221;, por isso ele \u00e9 bicho de Deus.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Manuel de Oliveira \u00e9 muito conhecida e familiar entre n\u00f3s, havendo outras muitas que explicam a maldi\u00e7\u00e3o de certos animais, as suas deformidades, mas que, infelizmente, agora n\u00e3o me acodem.<\/p>\n<p>Algumas n\u00e3o personificam o Deus ou o Santo que os castigou, mas outras personalizam-nos francamente.<\/p>\n<p>\u00c9 coisa muito sabida o horror que os judeus e mu\u00e7ulmanos t\u00eam ao porco e a tudo que a ele se refere.<\/p>\n<p>Por suporem ser de porco a graxa com que deviam umedecer os cartuchos de umas certas espingardas antigas, tendo de mordisc\u00e1-los antes de enfi\u00e1-los na culatra das carabinas, os cipaios mu\u00e7ulmanos da \u00cdndia, a servi\u00e7o da Inglaterra, levantaram-se em uma formid\u00e1vel revolta que p\u00f4s em perigo a domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica nas terras do Ganges.<\/p>\n<p>Muitos autores querem ver nessa ojeriza, t\u00e3o poderosa sobre as almas duma grande parte da humanidade, uma prescri\u00e7\u00e3o com fim higi\u00eanico feita religiosamente pela Biblia; outros, por\u00e9m, julgam encontrar em tal coisa uma singular deforma\u00e7\u00e3o de um totemismo primitivo e esquecido.<\/p>\n<p>Num caso ou noutro, seja qual for a raz\u00e3o, podemos afirmar que os animais irracionais, desta ou daquela forma, entram mais na nossa vida do que supomos. \u00c9 sobre o seu sofrimento, sobre as suas pr\u00f3prias vidas que n\u00f3s erguemos a nossa.<\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 meses, estive no Hospital Central do Ex\u00e9rcito, e vi em uma sua depend\u00eancia, em gaiolas, coelhos de olhar meigo e cobaias de grande esperteza, para pesquisas bacteriol\u00f3gicas, lembrei-me daquele &#8220;Manel Capineiro&#8221;, portugu\u00eas carreiro de capinzais da minha vizinhan\u00e7a, que chorou, quando certa vez, ao atravessar a linha da Estrada de Ferro com o seu carro, a locomotiva matou-lhe os burros, a &#8220;Jupepa&#8221; e o &#8220;Garoto&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u2014 Antes fosse eu! ai m\u00f4 gado!&#8221; disseram-me que ele pronunciara ao chorar.<\/p>\n<p>Na sua manifesta\u00e7\u00e3o ing\u00eanua, o pobre portugu\u00eas mostrava como aquelas humildes alim\u00e1rias interessavam o seu destino e o seu viver&#8230;<\/p>\n<p><b>Hoje, 17-4-1919<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Os animais dom\u00e9sticos, domesticados e selvagens, sempre entraram em toda e qualquer literatura, quer na popular, quer na an\u00f4nima, quer na pessoal e cultivada. 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