{"id":109358,"date":"2017-02-16T17:33:12","date_gmt":"2017-02-16T19:33:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=109358"},"modified":"2017-02-16T17:33:12","modified_gmt":"2017-02-16T19:33:12","slug":"bailes-e-divertimentos-suburbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/bailes-e-divertimentos-suburbanos","title":{"rendered":"Bailes e Divertimentos Suburbanos"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>H\u00e1 dias, na minha vizinhan\u00e7a, quase em frente \u00e0 minha casa, houve um baile. Como tinha passado um m\u00eas enfurnado na minha modesta resid\u00eancia, que para enfezar Copacabana denominei &#8220;Vila Quilombo&#8221;, pude perceber todos os preparativos da festa dom\u00e9stica: a matan\u00e7a de leit\u00f5es, as entradas das caixas de doces, a ida dos assados para a padaria, etc.<\/p>\n<p>Na noite do baile, fui deitar-me cedo, como sempre fa\u00e7o quando me resolvo a descansar a s\u00e9rio. \u00c0s 9 horas, por a\u00ed assim, estava dormindo a sono solto. O baile j\u00e1 havia come\u00e7ado e ainda com algumas polcas repinicadas ao piano. \u00c0s 2 e meia, interrompi o sono e estive acordado at\u00e9 \u00e0s 4 da madrugada, quando acabou o sarau. A n\u00e3o ser umas barcarolas cantadas em italiano, n\u00e3o ouvi outra esp\u00e9cie de m\u00fasica, a n\u00e3o ser polcas adoidadas e violentamente sincopadas, durante todo esse tempo.<\/p>\n<p>O dia veio se fazer inteiramente. Levantei-me da cama e, dentro em breve, tomava o caf\u00e9 matinal em companhia de meus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Perguntei a minha irm\u00e3, provocado pela mon\u00f3tona musicaria do baile da vizinhan\u00e7a, se nos dias presentes n\u00e3o se dan\u00e7avam mais valsas, mazurcas, quadrilhas ou quadras, etc. Justifiquei-lhe o motivo da pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! &#8211; disse-me ela. &#8211; N\u00e3o se gosta mais disso&#8230; O que apreciam os dan\u00e7armos de hoje, s\u00e3o m\u00fasicas apolcadas, tocadas &#8220;a la diable&#8221;, que servem para dan\u00e7ar o tango, fox-trot, rang-time, e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 &#8220;Cake-walk&#8221;? &#8211; perguntei.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o se dan\u00e7a, ou j\u00e1 se dan\u00e7ou; mas agora, est\u00e1 aparecendo um tal de &#8220;shimmy&#8221;.<\/p>\n<p>Nunca vi dan\u00e7ar tal coisa, nem me tenta v\u00ea-lo; mas a informa\u00e7\u00e3o me fez lembrar do que era um baile familiar h\u00e1 vinte anos passados. O baile, n\u00e3o sei se \u00e9, era ou foi, uma institui\u00e7\u00e3o nacional, mas tenho certeza de que era profundamente carioca, especialmente suburbano.<\/p>\n<p>Na escolha da casa, presidia sempre a capacidade da sala de visitas para a comemora\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica das datas festivas da fam\u00edlia. Os construtores das casas j\u00e1 sabiam disso e sacrificavam o resto da habita\u00e7\u00e3o \u00e0 sala nobre. Houve quem dissesse que n\u00f3s faz\u00edamos casa, ou as t\u00ednhamos para os outros, porque a melhor pe\u00e7a dela era destinada a estranhos.<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, as casas minguam em geral, e especialmente, na capacidade dos seus aposentos e c\u00f4modos. Nas salas de visitas das atuais mal cabem o piano e uma meia mob\u00edlia, adquirida a presta\u00e7\u00f5es. Meia d\u00fazia de pessoas, numa delas, est\u00e3o amea\u00e7adas de morrer asfixiadas com as janelas abertas. Como \u00e9 que elas podem comportar um baile \u00e0 moda antiga, em que dan\u00e7avam d\u00fazias de pares? Evidentemente, n\u00e3o. Isto acontece com as fam\u00edlias remediadas; com as verdadeiramente pobres, a coisa piora. Ou moram em c\u00f4modos ou em casitas de avenidas, que s\u00e3o um pouco mais amplas do que a gaiola dos passarinhos.<\/p>\n<p>Por isso entre a gente m\u00e9dia os bailes est\u00e3o quase desaparecendo dos seus h\u00e1bitos; e, na gente pobre, eles ficaram reduzidos ao m\u00ednimo de um concerto de viol\u00e3o ou a um recibo de s\u00f3cio de um clube dan\u00e7ante na vizinhan\u00e7a, onde as mo\u00e7as vigiadas pelas m\u00e3es possam pirutear em sal\u00e3o vasto.<\/p>\n<p>O meu amigo Sussekind de Mendon\u00e7a, no seu interessante livro &#8211; O Esporte est\u00e1 deseducando a mocidade brasileira &#8211; refere-se \u00e0 licenciosidade das dan\u00e7as modernas.<\/p>\n<p>Hei de falar mais detidamente sobre esse vigoroso livro: agora, por\u00e9m, cabe s\u00f3 uma observa\u00e7\u00e3o. Mendon\u00e7a alude ao que se passa no &#8220;set&#8221; carioca; mas pelo que me informam, o sub\u00farbio n\u00e3o lhe fica atr\u00e1s. Nos tempos idos, essa gente verde das nossas eleg\u00e2ncias &#8211; verde \u00e9 sempre uma esp\u00e9cie de argot &#8211; sempre mut\u00e1vel e vari\u00e1vel de ano para ano, &#8211; desdenhava o sub\u00farbio e acusava-o falsamente de dan\u00e7ar maxixe; hoje, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a: todo o Rio de Janeiro, de alto a baixo, inclu\u00eddos os Democr\u00e1ticos e o Music-Club das Laranjeiras, o dan\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma coisa a notar: \u00e9 que esse maxixe familiar n\u00e3o foi dos &#8220;Escorregas&#8221; de Cascadura para o Acchilleon do Flamengo; ao contr\u00e1rio, veio deste para aquela.<\/p>\n<p>O meu estimado Mendon\u00e7a atribui o &#8220;anda\u00e7o&#8221; dessas dan\u00e7as desavergonhadas ao futebol. O Sr. Ant\u00f4nio Le\u00e3o Veloso achou isso exagerado. Pode haver exagero &#8211; n\u00e3o ponho em d\u00favida tal coisa &#8211; mas o tal de futebol pos tanta grosseria no ambiente, tanto desd\u00e9m pelas coisas de gosto, e reveladoras de cultura, tanta brutalidade de maneiras, de frases e de gestos, que \u00e9 bem poss\u00edvel n\u00e3o ser ele isento de culpa no recrudescimento geral, no Rio de Janeiro, dessas dan\u00e7as luxuriosas que os hip\u00f3critas estadunidenses foram buscar entre os negros e os apaches. Conv\u00e9m notar que, entre esses retardados exemplares da nossa humanidade, quando em estado selvagem, semelhantes dan\u00e7as n\u00e3o t\u00eam a significa\u00e7\u00e3o luxuriosa e lasciva que se julga. Fazem parte dos rituais dos seus Deuses, e com elas invocam a sua prote\u00e7\u00e3o nas v\u00e9speras de guerras e em outras ocasi\u00f5es solenes.<\/p>\n<p>Passando para os p\u00e9s dos civilizados, elas s\u00e3o deturpadas, acentuadas na dire\u00e7\u00e3o de um apelo claro \u00e0 atividade sexual, perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas, provocantes e imorais.<\/p>\n<p>Isto, por\u00e9m, n\u00e3o nos interessa, porque n\u00e3o interessa tanto ao sub\u00farbio como ao &#8220;set&#8221; carioca, que dan\u00e7am &#8220;one-step&#8221; e o tango argentino, e nessas b\u00e1rbaras dan\u00e7as se nivelam. O sub\u00farbio civiliza-se, diria o saudoso Figueiredo Pimentel, que era tamb\u00e9m suburbano; mas de que forma, santo Deus?<\/p>\n<p>Quando fui morar naquelas paragens n\u00e3o havia noite em que voltando tarde para casa, n\u00e3o topasse no caminho com um baile, com um ch\u00f4ro, como se dizia na g\u00edria do tempo. Havia fam\u00edlias que davam um por m\u00eas, fora os extraordin\u00e1rios, e havia tamb\u00e9m cavalheiros e damas que n\u00e3o faltavam a eles, al\u00e9m de irem a outros de fam\u00edlias diferentes.<\/p>\n<p>Eram c\u00e9lebres nos sub\u00farbios, certos rapazes e mo\u00e7as, como tipos de dan\u00e7arinos dom\u00e9sticos. Conheci alguns, e ouvi muitos falar neles. Lembro-me bem, dentre eles, de uma mo\u00e7a que, \u00e0s vezes, atualmente ainda encontro, gordinha, com dois ou tr\u00eas filhos que lhe d\u00e3o um imenso trabalho para acomodar nos bondes. Chamavam-na Santinha, e tinha uma notoriedade digna de um poeta de &#8220;Amor&#8221; ou de um gatimanhas de cinemat\u00f3grafo. N\u00e3o&#8217; era bonita na rua, longe disso. A sua apar\u00eancia era de uma mo\u00e7a como muitas outras, de fei\u00e7\u00f5es mi\u00fadas, sem grande relevo, cabelos abundantes e sedosos. Tinha, por\u00e9m, um tra\u00e7o pr\u00f3prio, pouco vulgar nas mo\u00e7as. A sua testa era alta e reta, testa de deusa a pedir um diadema. Era estimada como discipula de Terps\u00edcore burguesa. A sua especialidade estava na valsa americana que dan\u00e7ava como ningu\u00e9m. N\u00e3o desdenhava as outras contradan\u00e7as, mas a valsa era a sua especialidade. Dos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, s\u00f3 nos dias de luto da semana santa e no de finados, n\u00e3o dan\u00e7ava. Em todos os mais, Santinha valsava at\u00e9 de madrugada. Dizia a todos que, por tanto dan\u00e7ar n\u00e3o tinha tempo de namorar. De fato, sempre requestada para esta e aquela contradan\u00e7a, via tantos e tantos cavalheiros, que acabava n\u00e3o vendo nenhum ou n\u00e3o firmando a fisionomia de nenhum.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o era bela na rua, em atitude comum de passeio, valsando ficava outra, tomava um ar de s\u00edlfide, de divindade a\u00e9rea, vaporosa e adquiria um ar esvoa\u00e7ante de vis\u00e3o extra-real. Fugia ao solo e como que pairava no espa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Os que a viram dan\u00e7ar e me falam dela, at\u00e9 hoje n\u00e3o escondem a profunda impress\u00e3o que a mo\u00e7a, ao valsar, lhes causou; e quando hoje, por acaso, a encontro atrapalhada com os filhos, penso de mim para mim: para que essa mo\u00e7a se cansou tanto? Chegou afinal ao ponto em que tantas outras chegam com muito menos esfor\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>O &#8220;pendant&#8221; masculino de Santinha era o seu Gast\u00e3o. Baile em que n\u00e3o aparecia seu Gast\u00e3o, n\u00e3o merecia considera\u00e7\u00e3o. S\u00f3 dan\u00e7ava de &#8220;smoking&#8221;, e o resto do vestu\u00e1rio de acordo. Era um rapaz de boa altura, simp\u00e1tico, grandes e bastos bigodes, de uma delicadeza exagerada; A sua especialidade n\u00e3o era a valsa; era o &#8220;pas-de-quatre&#8221;, que dan\u00e7ava com ademanes de dan\u00e7a antiga, de minueto ou de coisa parecida. Fazia cumprimentos hier\u00e1ticos e dava os passos com a dignidade e convic\u00e7\u00e3o art\u00edstica de um Vestris. Seu Gast\u00e3o ainda existe, e prosperou na vida. Quando rei suburbano do &#8220;pas-de-quatre&#8221; era empregado de um banco ou de um grande escrit\u00f3rio comercial. Hoje \u00e9 diretor-gerente de uma casa banc\u00e1ria, est\u00e1 casado, tem filhos, mora em Conde de Bonfim, numa vasta casa, mas raramente d\u00e1 bailes. Dan\u00e7ou para a vida inteira e tamb\u00e9m pelos filhos e filhas.<\/p>\n<p>Nesses bailes suburbanos, o m\u00e1rtir era o dono da casa: Seu Nepomuceno come\u00e7ava por n\u00e3o conhecer mais da metade da gente que, transitoriamente, abrigava, porque Cacilda trazia Nen\u00ea e esta o irm\u00e3o que era namorado daquela &#8211; a \u00fanica cuja fam\u00edlia tinha rela\u00e7\u00f5es com a do Seu Nepomuceno; e, assim, a casa se enchia de desconhecidos. Al\u00e9m destes subconvidados, ainda existiam os penetras. Chamava-se assim certos rapazes que, sem nenhuma esp\u00e9cie de convite, usavam deste ou daquele truque, para entrar nos bailes &#8211; penetrar.<\/p>\n<p>Em geral, apesar da multid\u00e3o dos convidados, essas festas dom\u00e9sticas tinham um grande cunho de honestidade e respeito. Eram raros os excessos e as dan\u00e7as, com o intervalo de um hora, para uma ceia modesta, se prolongavam at\u00e9 o clarear do dia sem que o mais arguto do sereno pudesse notar uma discrep\u00e2ncia nas atitudes dos pares, dan\u00e7ando ou n\u00e3o. Sereno, era chamado o agrupamento de curiosos que ficavam na rua a espiar o baile. Quase sempre era formado de pessoas das vizinhan\u00e7as e outras que n\u00e3o haviam sido convidadas e l\u00e1 se postavam para ter assunto em que baseassem a sua despeitada cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Esses bailes burgueses n\u00e3o eram condenados pela religi\u00e3o. Se algumas nada diziam, calavam-se. Outras at\u00e9 elogiavam. O puritanismo era francamente favor\u00e1vel a eles. Afirmava ele, pela b\u00f4ca de adeptos autorizados, que essas reuni\u00f5es facilitavam a aproxima\u00e7\u00e3o dos mo\u00e7os de dois sexos, cuja vida particular a cada um deles se fazia isoladamente, sem terem ocasi\u00e3o de trocar impress\u00f5es, sem comunicarem mutuamente quais os seus anelos, quais os seus desgostos, favorecendo tudo isso os saraus familiares.<\/p>\n<p>Estou certo de que os positivistas, hoje, julgariam que os atuais bailes aproximam por demais os sexos, e&#8230; &#8220;anathema sit&#8221;.<\/p>\n<p>O pequeno povo por\u00e9m ainda n\u00e3o sabe o &#8220;fox-trot&#8221;, nem o &#8220;shimmy&#8221;. Nos seus clubes, ao som do piano ou de estridulantes charangas, dan\u00e7a ainda \u00e0 antiga; e, no recesso do lar com um terno de flauta, um cavaquinho e viol\u00e3o ou sob o compasso de um prestativo gramofone, ainda volteia a sua valsa ou requebra uma polca, extraordinariamente honesta em compara\u00e7\u00e3o com os tais &#8220;steps&#8221; da moda.<\/p>\n<p>Sem receio de errar, entretanto, pode-se dizer que o baile familiar e burgu\u00eas, democr\u00e1tico e efusivo, est\u00e1 fora da moda, nos sub\u00farbios. A carestia da vida, a exig\u00fcidade das casas atuais e a imita\u00e7\u00e3o da alta burguesia desfiguraram-no muito e tendem a extingui-lo.<\/p>\n<p>O viol\u00e3o e a modinha que Catulo, com sua tenacidade, com o seu talento e a sua obedi\u00eancia cega a um grande ideal, dignificou e tornou capaz da aten\u00e7\u00e3o dos intelectuais, v\u00e3o sendo mais prezados e j\u00e1 se fazem encantos dos saraus burgueses em que, pelas causas apontadas, as dan\u00e7as m\u00ednguam. \u00c9 pena que para um Catulo, artista honesto, sob todos os pontos de vista, haja uma dezena de Casanovas dispon\u00edveis, que, maus de natureza e sem talento algum, se servem da arte reabilitada pelo autor de Sertanejo, a fim de, por interm\u00e9dio de horr\u00edveis cantarolas, levarem a desgra\u00e7a a lares pobres e perder mo\u00e7as ing\u00eanuas e inexperientes. H\u00e1 por l\u00e1 monstros desses que contam tais proezas \u00e0s dezenas. \u00c9 o caso de imitar o outro e escrever: O C\u00f3digo Penal e a inutilidade das leis.<\/p>\n<p>Uma outra divers\u00e3o que, antigamente, os suburbanos apreciavam muito e hoje est\u00e1 quase morta, era a do teatrinho de amadores. Quase todas as esta\u00e7\u00f5es tinham mantido um Clube. O do Riachuelo, teve a sua meia hora de celebridade; possu\u00eda um edif\u00edcio de razo\u00e1veis propor\u00e7\u00f5es; mas desapareceu, e, atualmente, foi transformado em escola municipal. O que havia de caracter\u00edstico na vida suburbana, em mat\u00e9ria de divers\u00e3o, pouco ou quase nada existe mais. O cinema absorveu todas elas e, pondo de parte o Mafu\u00e1 semi-eclesi\u00e1stico, \u00e9 o maior divertimento popular da gente suburbana.<\/p>\n<p>At\u00e9 o pianista, o c\u00e9lebre pianista de bailes, ele arrebatou e monopolizou.<\/p>\n<p>Nada tem, por\u00e9m, de pr\u00f3prio ao lugar, \u00e9 tal e qual outro e qualquer cinema do centro ou qualquer parte da cidade em que haja pessoas cujo gosto de se divertir no escuro arrasta a ver-lhes as fitas durante hora e tanto.<\/p>\n<p>O futebol flagela tamb\u00e9m aquelas paragens como faz ao Rio de Janeiro inteiro. Os clubes pululam e os h\u00e1 em cada terreno baldio de certa extens\u00e3o.<\/p>\n<p>Nunca lhes vi uma partida, mas sei que as suas regras de bom-tom em nada ficam a dever \u00e0s dos cong\u00eaneres dos bairros elegantes.<\/p>\n<p>A \u00fanica novidade que notei, e essa mesma n\u00e3o me parece ser grave, foi a de festejarem a vit\u00f3ria sobre um rival, cantando os vencedores pelas ruas, com gambitos nus, a sua proeza hom\u00e9rica com letra e m\u00fasica da escola dos cord\u00f5es carnavalescos. Vi isto s\u00f3 uma vez e n\u00e3o garanto que essa hibrida\u00e7\u00e3o do samba, mais ou menos africano com o futebol anglo-sax\u00f4nio, se haja hoje generalizado nos sub\u00farbios. Pode ser, mas n\u00e3o tenho documentos para tanto afian\u00e7ar.<\/p>\n<p>Resta-nos o Carnaval; \u00e9 ele, por\u00e9m, t\u00e3o igual por toda a parte, que foi imposs\u00edvel, segundo tudo faz crer, ao sub\u00farbio dar-lhe alguma coisa de original. L\u00e1, como na Avenida, como em Niter\u00f3i, como em Maxambomba, como em todo este Brasil inteiro, s\u00e3o os mesmos cord\u00f5es, blocos, grupos, os mesmos versos indignos de manic\u00f4mio, as mesmas m\u00fasicas indigestas e, enfim, o Carnaval em que como l\u00e1 diz Gamaliel de Mendon\u00e7a, no seu \u00faltimo livro &#8211; Revela\u00e7\u00e3o: &#8211; Os homens s\u00e3o jograis; as mulheres, bacantes. &#8211;<\/p>\n<p>O sub\u00farbio n\u00e3o se diverte mais. A vida \u00e9 cara e as apreens\u00f5es muitas, n\u00e3o permitindo prazeres simples e suaves, doces divers\u00f5es familiares, equilibradas e pl\u00e1cidas. Precisa-se de ru\u00eddo, de zambumba, de cansa\u00e7o, para esquecer, para espan\u00e7ar as trevas que em torno da nossa vida, mais densas se fazem, dia para dia, acompanhando &#8220;pari-passu&#8221; as suntuosidades republicanas.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o mais se diverte inocentemente; o sub\u00farbio se atordoa e se embriaga n\u00e3o s\u00f3 com o \u00e1lcool, com a lasc\u00edvia das dan\u00e7as novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. Para as dificuldades materiais de sua prec\u00e1ria exist\u00eancia, criou esse seu para\u00edso artificial, em cujas del\u00edcias transit\u00f3rias mergulha, inebria-se minutos, para esperar, durante horas, dias e meses, um aumentozinho de vencimentos&#8230;<\/p>\n<p><b>Gazeta de Not\u00edcias, 7-2-1922<\/b><\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto H\u00e1 dias, na minha vizinhan\u00e7a, quase em frente \u00e0 minha casa, houve um baile. 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