{"id":109184,"date":"2017-02-16T09:29:40","date_gmt":"2017-02-16T11:29:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=109184"},"modified":"2017-02-16T09:44:22","modified_gmt":"2017-02-16T11:44:22","slug":"a-questao-dos-poveiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-questao-dos-poveiros","title":{"rendered":"A Quest\u00e3o dos &#8220;Poveiros&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Essa quest\u00e3o dos pescadores origin\u00e1rios de P\u00f3voa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre n\u00f3s, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas s\u00e3o as notas que se lhe podem apor \u00e0 margem.<\/p>\n<p>De parte a parte, nas afirma\u00e7\u00f5es e atos de um e outro advers\u00e1rio, um esp\u00edrito imparcial encontra o que observar e material para reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Os defensores lastimosos dos &#8220;poveiros&#8221;, que n\u00e3o se quiseram naturalizar brasileiros e, por isso, se repatriaram, encarni\u00e7aram-se contra os japoneses, entre outros motivos, porque eles se insulam na massa da popula\u00e7\u00e3o nacional, com a qual parece n\u00e3o quererem ter sen\u00e3o r\u00e1pidos contatos, os indispens\u00e1veis para os seus neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Curioso \u00e9 que encontrem, unicamente nos japoneses, essa repugn\u00e2ncia pela imita\u00e7\u00e3o com o geral da popula\u00e7\u00e3o brasileira, quando os tais &#8220;poveiros&#8221; a possuem ou possu\u00edam tamb\u00e9m, a ponto de n\u00e3o permitirem que, entre eles, houvesse outra gente, empregada nas suas pescarias, sen\u00e3o os naturais de P\u00f3voa do Varzim.<\/p>\n<p>Quando menino e adolescente, devido \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de meu pai, na ilha do Governador, andei enfronhado nessas coisas de pesca e sabia bem desse exclusivismo dos &#8220;poveiros&#8221;, extensivo at\u00e9 aos outros seus patr\u00edcios portugueses, oriundos de outras localidades de Portugal. Pessoa de toda a confian\u00e7a, h\u00e1 dias, informou-me que dos estatutos de uma sociedade de tais pescadores naturais de P\u00f3voa do Varzim constava, em letra redonda, n\u00e3o poder fazerem parte dela sen\u00e3o os nascidos naquele lugarejo de Portugal.<\/p>\n<p>Os portugueses de Outra origem, que possu\u00edam canoas, redes, &#8220;currais&#8221; e outros petrechos de pesca em escala mais ou menos desenvolvida, e a exerciam no interior da ba\u00eda, empregavam na sua ind\u00fastria indiferentemente auxiliares quaisquer, fossem ou n\u00e3o seus patr\u00edcios. Os &#8220;poveiros&#8221; n\u00e3o; quem n\u00e3o \u00e9 de P\u00f3voa n\u00e3o pesca com eles; e a sua vida \u00e9 toda feita \u00e0 parte dos outros portugueses e dos demais de outra qualquer nacionalidade, brasileira ou n\u00e3o. Por a\u00ed, v\u00ea-se bem que eles levavam o seu isolamento do resto dos habitantes do Brasil mais longe que os japon\u00eases. Estes fazem &#8211; estou disposto a crer &#8211; uma col\u00f4nia confinada em si mesma, ferozmente isolada do grosso da nossa popula\u00e7\u00e3o; mas os &#8220;poveiros&#8221; s\u00f3 faziam uma col\u00f4nia dentro da pr\u00f3pria col\u00f4nia de naturais do pa\u00eds de origem, com os quais pouco ou quase nada se misturavam.<\/p>\n<p>As minhas id\u00e9ias e os meus princ\u00edpios s\u00e3o inteiramente infensos a esse prurido de nacionaliza\u00e7\u00e3o qu\u00ea anda por a\u00ed, e do qual os &#8220;poveiros&#8221; foram vitimas, tanto mais que, no caso desses homens, se trata de uma profiss\u00e3o humilde, tendo liga\u00e7\u00f5es muito t\u00eanues e remotas com a administra\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica e coisas militares do Brasil, n\u00e3o exigindo, portanto, o tal &#8220;fogo sagrado do patriotismo&#8221;, a fim de apurar-lhe o exerc\u00edcio, junto a excelentes vencimentos.<\/p>\n<p>A verdade, por\u00e9m, deve ser dita; e n\u00e3o foi sen\u00e3o isto que fiz. A desorienta\u00e7\u00e3o a esse respeito \u00e9 tal que estamos vendo como essa quest\u00e3o se vai desdobrando em lament\u00e1veis espet\u00e1culos de viol\u00eancias inauditas.<\/p>\n<p>O inspetor de pesca, a quem n\u00e3o atribuo m\u00f3veis subalternos &#8211; longe de mim tal coisa! &#8211; n\u00e3o contente de exercer draconianamente as atribui\u00e7\u00f5es que as leis e os regulamentos conferem a seu cargo, sobre redes e outras coisas pr\u00f3prias ao of\u00edcio de pescar, meteu-se tamb\u00e9m a querer regular o com\u00e9rcio do pescado. Com a sua educa\u00e7\u00e3o militar, que s\u00f3 v\u00ea solu\u00e7\u00e3o para os problemas que a sociedade p\u00f5e na viol\u00eancia, n\u00e3o trepidou em empreg\u00e1-la, violando os mais elementares princ\u00edpios constitucionais. Com aux\u00edlio da marinhagem do cruzador sob seu comando e de sequazes paisanos, talvez mais brutais e ferozes do que as pr\u00f3prias pra\u00e7as de marinha, apesar de estarem habituadas estas, desde tenra idade, nas Escolas de Aprendizes, a ver, num oficial de marinha, um ente \u00e0 parte, um semideus arquipoderoso, cujas ordens s\u00e3o ditames celestiais &#8211; com semelhante gente, violentamente, p\u00f4s-se a apreender as &#8220;mar\u00e9s&#8221; nas canoas de pescaria, para vend\u00ea-las ao pre\u00e7o que entendesse, deduzir percentagem arbitrariamente calculada, e, ainda por cima, a intimar os pescadores isolados a se matricularem em umas famosas col\u00f4nias de pesca, improvisadas do p\u00e9 para a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo isto consta de jornais insuspeitos e n\u00e3o houve quem contestasse. Essa subvers\u00e3o das mais comezinhas garantias constitucionais, levada a efeito por um oficial que, por mais distinto que seja, n\u00e3o pode possuir autoridade para tanto, como ningu\u00e9m a tem, leva-nos a pensar como as nossas institui\u00e7\u00f5es republicanas v\u00e3o respondendo muito mal aos intuitos dos seus codificadores e legisladores.<\/p>\n<p>Seja qual for a emerg\u00eancia, pouco a pouco, n\u00e3o s\u00f3 nos Estados long\u00ednquos, at\u00e9 mesmo nos mais adiantados, e no pr\u00f3prio Rio de Janeiro, capital da Rep\u00fablica, a autoridade mais modesta e mais transit\u00f3ria que seja procura abandonar os meios estabelecidos em lei e recorre \u00e0 viol\u00eancia, ao chanfalho, ao chicote, ao cano de borracha, \u00e0 solit\u00e1ria a p\u00e3o e \u00e1gua, e outros processos torquemadescos e otomanos.<\/p>\n<p>\u00c9 o reg\u00edmen de &#8220;villayet&#8221; turco em que estamos; \u00e9 o governo de beis, pax\u00e1s e c\u00e1dis o que temos. Isto \u00e9 um sintoma de mol\u00e9stia generalizada. A \u00e9poca que atravessamos parece ser de loucura coletiva em toda a humanidade.<\/p>\n<p>Havia de parecer que a gente de ju\u00edzo e de cora\u00e7\u00e3o, com responsabilidade na dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e administrativa dos povos, depois dessa chacina horrorosa e in\u00fatil que foi a guerra de 1914, e das conseq\u00fc\u00eancias de mis\u00e9ria, fome e doen\u00e7a que, acabada, acarretou ainda como contrapeso procurasse afugentar, por todos os meios, dos seus pa\u00edses, os germens desse aterrador flagelo da guerra; entretanto n\u00e3o \u00e9 assim. Em vez de propugnarem uma aproxima\u00e7\u00e3o mais fraternal entre os povos do mundo, um m\u00fatuo, sincero e leal entendimento entre todos eles, como que timbram em mostrar desejarem mais guerra, pois estabelecem in\u00edquas medidas fiscais que isolam os pa\u00edses uns dos outros; tentam instalar artificialmente ind\u00fastrias que s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis em certas e determinadas regi\u00f5es do globo, devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es naturais, e isto ainda no fito de prescindirem da coopera\u00e7\u00e3o de outra na\u00e7\u00e3o qualquer, amiga ou inimiga; e &#8211; o que \u00e9 pior &#8211; todos se armam at\u00e9 os dentes, mesmo \u00e0 custa de empr\u00e9stimos oneros\u00edssimos ou da deprecia\u00e7\u00e3o das respectivas moedas, originada por emiss\u00f5es sucessivas e in\u00fameras, de papel-moeda. Estamos no tempo da cegueira e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Max-Nordau, em artigo que uma revista desta cidade traduziu, cujo t\u00edtulo \u00e9 Loucura Coletiva, &#8211; observa muito bem, ap\u00f3s examinar os desprop\u00f3sitos de toda a sorte que se seguiram \u00e0 termina\u00e7\u00e3o oficial da grande guerra:<\/p>\n<p>&#8220;Dizia-se antigamente: &#8220;Todo o homem tem duas p\u00e1trias, a pr\u00f3pria e depois a Fran\u00e7a&#8221;. Pois esta mesma Fran\u00e7a, t\u00e3o hospitaleira, t\u00e3o carinhosa, mostra agora a todos os estrangeiros um semblante hostil e, durante a maior parte do tempo, torna-se imposs\u00edvel a estada em seu solo. As rela\u00e7\u00f5es entre, povo e povo, entre homem e homem, quebraram-se violentamente e cada pa\u00eds encerra-se por detr\u00e1s das suas fronteiras, opondo-se a t\u00f4da a, infiltra\u00e7\u00e3o humana do exterior.<\/p>\n<p>&#8220;Esperava-se que \u00e0 guerra sucedesse a reconcilia\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, procura-se por todos os lados ati\u00e7ar os \u00f3dios, exasperar os rancores, excitar a sede de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais adiante, ele acrescenta esta observa\u00e7\u00e3o que pode ser verificada por qualquer:<\/p>\n<p>&#8220;Tamb\u00e9m se esperava um desarmamento geral, mas em toda a parte se reorganizam os ex\u00e9rcitos e as marinhas, com mais impetuosidade que nunca. O militarismo torna-se mais forte e vai imperando em pa\u00edses onde anteriormente era desconhecido.&#8221;<\/p>\n<p>Essa mania militar que se apossou de quase todos os pa\u00edses do globo, inclusive o nosso, levou todos eles a examinar e a imitar a poderosa m\u00e1quina guerreira alem\u00e3.<\/p>\n<p>Os seus c\u00f3digos e regulamentos militares v\u00e3o sendo mais ou menos estudados e imitados, quando n\u00e3o s\u00e3o copiados. N\u00e3o se fica s\u00f3 nisso. A tend\u00eancia alem\u00e3, ou melhor, prussiana, de militarizar tudo, os mais elementares atos da nossa vida civil, por meio de c\u00f3digos, regulamentos, penas e multas, vai-se tamb\u00e9m apossando dos c\u00e9rebros dos governantes que, com af\u00e3, adotam t\u00e3o nociva pr\u00e1tica de asfixiar o indiv\u00edduo num &#8220;batras&#8221; legislativo.<\/p>\n<p>O ideal dos militares atuais n\u00e3o \u00e9 ser um grande general, ao jeito dos passados, que, aos seus predicados guerreiros, sabiam unir vistas pr\u00e1ticas de soci\u00f3logo e de pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O ideal deles \u00e9 o cabe\u00e7udo Ludendorff, cujas mem\u00f3rias denunciam uma curiosa deforma\u00e7\u00e3o mental, obtida pelo ensino de uma multid\u00e3o de escolas militares que o militarismo prussiano inventou, as quais t\u00eam de ser freq\u00fcentadas pelos oficiais que ambicionam altos postos. Tais escolas tiram-lhes toda e qualquer faculdade cr\u00edtica, todo o poder de observa\u00e7\u00e3o pessoal, fazendo-os perder de vista as rela\u00e7\u00f5es que tem a guerra com outras manifesta\u00e7\u00f5es de atividade social, para s\u00f3 ver a guerra, s\u00f3 a guerra com os seus petrechos, suas divis\u00f5es, seus corpos, etc., citados pelo &#8220;Cabe\u00e7udo&#8221;, cabalisticamente, pelas iniciais de suas denomina\u00e7\u00f5es. Esqueceu-se ele que seu livro era destinado, por sua natureza, a ser lido pelo mundo inteiro, e o mundo inteiro n\u00e3o podia viver enfronhado nas coisas pasmosas da burocracia militar alem\u00e3, para decifrar tais hier\u00f3glifos.<\/p>\n<p>Ludendorff n\u00e3o \u00e9 um general; \u00e9 uma consolida\u00e7\u00e3o viva das leis e regulamentos militares da Alemanha.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa que o c\u00e9lebre jornalista alem\u00e3o Maximiliano Harden, falando do livro do general franc\u00eas Buat sobre esse famigerado Ludendorff, a mais alta express\u00e3o da lament\u00e1vel limita\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito militar em todos os tempos, disse: &#8220;&#8230; \u00e9 uma obra -prima, de clara psicologia latina, dominada em toda sua extens\u00e3o por um esp\u00edrito cavalheiresco e uma forte consci\u00eancia de justi\u00e7a, que fornecer\u00e1 ao leitor alem\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o maior de verdades que as execr\u00e1veis e copiosas banalidades editadas por quase todos os generais alem\u00e3es&#8221;.<\/p>\n<p>Houve quem chamasse o Sr. general Ludendorff, autor tamb\u00e9m de &#8220;execr\u00e1veis e copiosas banalidades&#8221;, de C\u00e9sar. Sim, ele pode ser C\u00e9sar; mas um C\u00e9sar que n\u00e3o escrever\u00e1 nunca a Guerra das G\u00e1lias e n\u00e3o transformar\u00e1 nenhuma sociedade.<\/p>\n<p>O mundo todo, por\u00e9m, est\u00e1 fascinado pelos m\u00e9todos alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que a Alemanha, depois de vencida, \u00e9 vencedora pela for\u00e7a hipn\u00f3tica de sua mania organizadora, at\u00e9 as menores min\u00facias.<\/p>\n<p>O brutal e odioso Estados Unidos, com a Alemanha aparentemente vencida, \u00e9 outro pa\u00eds modelo para os que est\u00e3o sofrendo de mal de imita\u00e7\u00e3o e maluquice organizadora, concomitantemente.<\/p>\n<p>Foi talvez nas coisas peculiares do pa\u00eds de &#8220;Uncle Sam&#8221; que, certamente, o Sr. Norton de Matos, ministro de Estado de Portugal, buscou inspirar-se para estabelecer a seguinte cl\u00e1usula, a que se deviam obrigar os &#8220;poveiros&#8221; repatriados, no caso de quererem estabelecer-se nas col\u00f4nias portuguesas da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Ei-la, como vem estampada na P\u00f3tria, de 28 de novembro \u00faltimo: &#8220;&#8230;que evitem (os &#8220;poveiros&#8221;) a comunica\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de ordem sexual com o elemento nativo da \u00c1frica, de cor&#8221;.<\/p>\n<p>Uma cl\u00e1usula destas \u00e9 por demais pueril e rid\u00edcula.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso dizer por qu\u00ea; e seria escabroso.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 vista dela, n\u00f3s nos podemos lembrar de dois casos c\u00e9lebres que deviam incidir na puni\u00e7\u00e3o do Sr. Norton de Matos, se ele fosse ministro ou coisa que o valha, no grande s\u00e9culo das descobertas e conquistas portuguesas.<\/p>\n<p>Um \u00e9 com Cam\u00f5es, cuja gl\u00f3ria universal \u00e9 um dos mais justos orgulhos de Portugal.<\/p>\n<p>Pois bem: o grande \u00e9pico andou l\u00e1, pelo ultramar, de gorra, com uma rapariga de c\u00f4r. Creio at\u00e9 que se chamava B\u00e1rbara e o autor dos Lusiadas fez-lhe versos, aos quais intitulou se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria &#8220;Pretid\u00e3o do Amor&#8221;. Li isto h\u00e1 bastantes anos no Cancioneiro Alegre, de Camilo Castelo Branco.<\/p>\n<p>O outro caso dessa esp\u00e9cie de comunica\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es que o Sr. Norton de Matos divinamente pro\u00edbe, ao jeito da na\u00e7\u00e3o do Para\u00edso, passou-se com o Albuquerque terr\u00edbil. Ele mandou matar sumariamente um seu soldado ou homem d&#8217;armas (parece que se chamava Rui Dias), por suspeit\u00e1-lo amoroso de uma escrava, da qual o extraordin\u00e1rio Afonso d&#8217;Albuquer que n\u00e3o desprezava totalmente os encantos secretos, segundo tudo leva a crer.<\/p>\n<p>Cam\u00f5es, no seu maravilhoso poema, alude ao fato; e Te\u00f3filo Braga, no seu Cam\u00f5es o elucida.<\/p>\n<p>E assim que o vate lusitano comenta o caso, no &#8211; Canto X, XLVII. Vou transcrever os quatro primeiros versos da oitava. Ei-los:<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 a culpa abominoso incesto,<br \/>\nNem violento estupro em virgem pura<br \/>\nNem menos adult\u00e9rio desonesto<br \/>\nMas cuma escrava vil, lasciva, e escura.<\/p>\n<p>Vejam bem como Cam\u00f5es diz quem foi a causa do terr\u00edbil Albuquerque por na sua &#8220;fama alva, n\u00f3doa negra e feia&#8221;. Estou vendo daqui o Sr. Norton de Matos, quando foi aos embarques, para a \u00cdndia, de Albuquerque, em 1503 (primeira vez), e de Cam\u00f5es, em 1553.<\/p>\n<p>E preciso supor que o Sr. Matos pudesse ser ministro durante t\u00e3o dilatado lapso de tempo.<\/p>\n<p>Admitido isso, certamente o ministro havia de recomendar a cada um deles ter sempre presente \u00e0 lembran\u00e7a, a sua prescri\u00e7\u00e3o mais ou menos de Deus que larga um qualquer Ad\u00e3o no Para\u00edso. E falaria assim: &#8211; Olhe, Sr. d&#8217;Albuquerque, V.M. foi estribeiro-mor del-Rei D. Jo\u00e3o lI, a quem Deus tenha em sua santa guarda; V.M. \u00e9 um grande fidalgo e deu mostras em N\u00e1poles de ser um grande guerreiro &#8211; n\u00e3o v\u00e1 V.M. meter-se l\u00e1 nas \u00cdndias com as negras. Cuide V.M. nisto que lho digo, para a salva\u00e7\u00e3o de su&#8217;alma e prest\u00edgio da na\u00e7\u00e3o portugu\u00easa.<\/p>\n<p>Ao cantor inigual\u00e1vel das proezas e feitos do Portugal glorioso, ele aconselharia desta forma:<\/p>\n<p>\u2014 Sr. Lu\u00eds de Cam\u00f5es, V.S. \u00e9 um poeta, ao que se diz, de bom e valioso engenho; V.S. freq\u00fcentou o pa\u00e7o dei-Rei; V.S. versejou para as damas e a\u00e7afatas da c\u00f4rte. Depois de tudo isto, n\u00e3o v\u00e1 V.S. meter-se l\u00e1, nas \u00edndias, com as negras. Tome VS. tento nisso.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma que a provid\u00eancia do Sr. Matos \u00e9 muito boa; mas a verdade \u00e9 que os tais Amon, Lapouge, Gobineau e outros trapalh\u00f5es antrop\u00f3logos e etnogr\u00e1ficos, t\u00e3o do paladar dos antinip\u00f5es, n\u00e3o admitem como l\u00e1 muito puros os portugueses. Oliveira Martins tamb\u00e9m. D\u00e1-lhes uma boa dose de sangue berbere.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o vem ao caso e s\u00f3 tratei de tal por mera digress\u00e3o, mesmo porque este modesto artigo n\u00e3o passa de um ajustamento da margin\u00e1lia que fiz \u00e0s not\u00edcias lidas por mim, nos quotidianos, enquanto durou a quest\u00e3o dos &#8220;poveiros&#8221;.<\/p>\n<p>Era tal a falta de uma segura orienta\u00e7\u00e3o nos que se digladiavam, que s\u00f3 tive um rem\u00e9dio para estud\u00e1-la mais tarde: cortar as not\u00edcias dos jornais, colar os retalhos num caderno e anotar \u00e0 margem as reflex\u00f5es que esta e aquela passagem me sugerissem. Organizei assim uma Margin\u00e1lia a esses artigos e not\u00edcias. Uma parte vai aqui; a mais importante, por\u00e9m, que \u00e9 sobre os Estados Unidos, omito por prud\u00eancia. Hei de public\u00e1-la um dia.<\/p>\n<p>Contudo, explico por que entram os Estados Unidos nela. O motivo \u00e9 simples. Os defensores dos &#8220;poveiros&#8221; atacam os japon\u00eases e se servem dos exemplos da grande rep\u00fablica da Am\u00e9rica do Norte no seu proceder com os nip\u00f5es. Fui estudar alguma coisa da hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es yankees com outros Estados estrangeiros; \u00e9 deplor\u00e1vel, \u00e9 cheia de felonias. Lembrei-me tamb\u00e9m como l\u00e1 se procede com os negros e mulatos. Pensei. Se os doutrin\u00e1rios que querem que procedamos com os japon\u00eases, da mesma forma com que os Estados Unidos se comportam com eles, forem vitoriosos, com a sua singular teoria, n\u00e3o faltar\u00e1 quem proponha que tamb\u00e9m os imitemos, no tocante aos negros e mulatos. \u00c9 l\u00f3gico. Ent\u00e3o, meus senhores, ai de mim e de&#8230; muita gente!<\/p>\n<p><b>Gazeta de Not\u00edcias, 2-1-1921.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Essa quest\u00e3o dos pescadores origin\u00e1rios de P\u00f3voa do Varzim, em Portugal, que, desde muitos anos, se haviam especializado, entre n\u00f3s, na pesca em alto mar, e como que a tinham monopolizado, por parecer terminada, merece ser epilogada, pois muitas s\u00e3o as notas que se lhe podem apor \u00e0 margem. 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