{"id":109025,"date":"2017-02-15T11:59:05","date_gmt":"2017-02-15T13:59:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=109025"},"modified":"2017-02-15T11:59:05","modified_gmt":"2017-02-15T13:59:05","slug":"um-especialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/um-especialista","title":{"rendered":"Um Especialista"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>A bastos tigre era h\u00e1bito dos dous, todas as tardes, ap\u00f3s o jantar, jogar uma partida de bilhar em cinq\u00fcenta pontos, finda a qual iam, em pequenos passos, at\u00e9 ao Largo da Carioca tomar caf\u00e9 e licores, e, na mesa do botequim, trocando confid\u00eancias, ficarem esperando a hora dos teatros, enquanto que, dos charutos, fuma\u00e7as azuladas espiravam pregui\u00e7osamente pelo ar.<\/p>\n<p>Em geral, eram as conquistas amorosas o tema da palestra; mas, \u00e0s vezes; incidentemente, tratavam dos neg\u00f3cios, do estado da pra\u00e7a e da cota\u00e7\u00e3o das ap\u00f3lices.<\/p>\n<p>Amor e dinheiro, eles juntavam bem e sabiamente.<\/p>\n<p>O comendador era portugu\u00eas, tinha seus cinq\u00fcenta anos, e viera para o Rio aos vinte e quatro, tendo estado antes seis no Recife. O seu amigo, o Coronel Carvalho, tamb\u00e9m era portugu\u00eas, viera, por\u00e9m, aos sete para o Brasil, havendo sido no interior, logo ao chegar, caixeiro de venda, feitor e administrador de fazenda, influ\u00eancia pol\u00edtica; e, por fim, por ocasi\u00e3o da bolsa, especulara com propriedades, ficando da\u00ed em diante senhor de uma boa fortuna e da patente de coronel da Guarda Nacional. Era um pl\u00e1cido burgu\u00eas, gordo, ventrudo, cheio de brilhantes, empregando a sua mole atividade na ger\u00eancia de uma f\u00e1brica de f\u00f3sforos. Vi\u00favo, sem filhos, levava a vida de mo\u00e7o rico. Freq\u00fcentava cocotes; conhecia as escusas casas de rendez-vous, onde era ass\u00edduo c considerado; o outro, o comendador, que era casado, deixando, por\u00e9m, a mulher s\u00f3 no vasto casar\u00e3o do Engenho Velho a se interessar pelos namoricos das filhas, tinha a mesma vida solta do seu amigo e compadre.<\/p>\n<p>Gostava das mulheres de cor e as procurava com o afinco e ardor de um amador de raridades.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, pelas pra\u00e7as mal iluminadas, andava catando-as, joeirando-as com olhos chispantes de lubricidade e, por vezes mesmo, se atrevia a seguir qualquer mais airosa pelas ruas de baixa prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A mulata, dizia ele, \u00e9 a canela, \u00e9 o cravo, \u00e9 a pimenta; \u00e9, enfim, a especiaria de requeime acre e capitoso que n\u00f3s, os portugueses, desde Vasco da Gama, andamos a buscar, a procurar.<\/p>\n<p>O coronel era justamente o contr\u00e1rio: s\u00f3 queria \u00e0s estrangeiras; as francesas e italianas, bailarinas, cantoras ou simplesmente meretrizes, era o seu fraco.<\/p>\n<p>Entretanto havia j\u00e1 quinze dias, que n\u00e3o se encontravam no lugar aprazado e a faltar era o comendador, a quem o coronel sabia bem por informa\u00e7\u00f5es do seu guarda-livros.<\/p>\n<p>Ao acabar a segunda semana dessa aus\u00eancia imprevista, o coronel, ma\u00e7ado e saudoso, foi procurar o amigo na sua loja \u00e0 Rua dos Pescadores. L\u00e1 o encontrou am\u00e1vel e de boa sa\u00fade. Explicaram-se; e entre eles ficou assentado que se veriam naquele dia, \u00e0 tarde, na hora e lugar habituais.<\/p>\n<p>Como sempre, jantaram fartamente e regiamente regaram o repasto com bons vinhos portugueses. Jogaram a partida de bilhar e depois, como encarrilhados, seguiram para o caf\u00e9 de costume no Largo da Carioca.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio, conversaram sobre a quest\u00e3o das minas de Itaoca, vindo ent\u00e3o \u00e0 baila a in\u00e9pcia e a desonestidade do governo; mas logo depois, o Coronel que &#8220;tinha a pulga atr\u00e1s da orelha&#8221;, indagou do companheiro o motivo de t\u00e3o longa aus\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! N\u00e3o te conto! Foi um &#8220;achado&#8221;, a cousa, disse o comendador, depois de chupar fortemente o charuto e soltar uma volumosa baforada; um petisco que encontrei&#8230; Uma mulata deliciosa, Chico! S\u00f3 vendo o que \u00e9, disse a rematar, estalando os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Como foi isso? inquiriu o coronel pressuroso. Como foi? Conta l\u00e1! \u2014 Assim. A Ultima vez que estivemos juntos, n\u00e3o te disse que no dia seguinte iria a bordo de um paquete buscar um amigo que chegava do Norte? \u2014 Disseste-me. E da\u00ed? \u2014 Ouve. Espera. Cos diabos isto n\u00e3o vai a matar! Pois bem, fui a bordo. O amigo n\u00e3o veio&#8230; N\u00e3o era bem meu amigo&#8230; Rela\u00e7\u00f5es comerciais&#8230; Em troca&#8230;<\/p>\n<p>Por essa ocasi\u00e3o rolou um carro no cal\u00e7amento. Travou em frente ao caf\u00e9 e por ele adentro entrou uma gorda mulher, cheia de plumas e sedas, e para v\u00ea-la virou-se o comendador, que estava de costas, interrompendo a narra\u00e7\u00e3o. Olhou-a e continuou depois: \u2014 Como te dizia: n\u00e3o veio o homem, mas enquanto tomava cerveja com o comiss\u00e1rio, vi atravessar a sala uma espl\u00eandida mulata; e tu sabes que eu&#8230;<\/p>\n<p>Deixou de fumar e com olhares canalhas sublinhou a frase magnificamente.<\/p>\n<p>\u2014 De indaga\u00e7\u00e3o em indaga\u00e7\u00e3o, soube que viera com um alferes do Ex\u00e9rcito; e murmuravam a bordo que a Alice (era seu nome, soube tamb\u00e9m) aproveitara a companhia, somente para melhor mercar aqui os seus encantos. Fazer a vida&#8230; Propositalmente, me pareceu, eu me achava ali e n\u00e3o perdia vaza, como tu vais ver.<\/p>\n<p>Dizendo isto, endireitou o corpo, al\u00e7ou um tanto a cabe\u00e7a, e seguiu narrando: \u2014 Saltamos juntos, pois viemos juntos na mesma lancha &#8211; a que eu alugara. Compreendes? E, quando embarcamos num carro, no Largo do Pa\u00e7o, para a pens\u00e3o, j\u00e1 \u00e9ramos conhecimentos velhos; assim pois&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o alferes? \u2014 Que alferes? \u2014 O alferes que vinha com a tua diva, filho? J\u00e1 te esqueceste ? \u2014 Ah! Sim! Esse saltou na lancha do Minist\u00e9rio da Guerra e nunca mais o vi.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 direito. Continua l\u00e1 a cousa.<\/p>\n<p>\u2014 E&#8230; e&#8230; Onde \u00e9 que estava? Hein? \u2014 Ficaste: quando ao saltar, foram para a pens\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 isto ! Fomos para a Pens\u00e3o Baldut, no Catete; e foi, pois, assim que me apossei de um lindo primor \u2014 uma maravilha, filho, que tem feito os meus encantos nestes quinze dias \u2014 com os raros intervalos em que me aborre\u00e7o em casa, ou na loja, j\u00e1 se v\u00ea bem.<\/p>\n<p>Repousou um pouco e, retomando logo ap\u00f3s a palavra, assim foi dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma cousa extraordin\u00e1ria! Uma maravilha! Nunca vi mulata igual. Como esta, filho, nem a que conheci em Pernambuco h\u00e1 uns vinte e sete anos! Qual! Nem de longe !. Calcula que ela \u00e9 alta, esguia, de bom corpo; cabelos negros corridos, bem corridos: olhos pardos. \u00c9 bem fornida de carnes, roli\u00e7a; nariz n\u00e3o muito afilado, mas bom! E que boca, Chico! Uma boca breve, pequena, com uns l\u00e1bios roxos, bem quentes&#8230; S\u00f3 vendo mesmo! S\u00f3! N\u00e3o se descreve.<\/p>\n<p>O comendador falara com um ardor desusado nele; acalorara-se e se entusiasmara deveras, a ponto de haver na sua fisionomia estranhas muta\u00e7\u00f5es. Por todo ele havia aspecto de um su\u00edno, cheio de lasc\u00edvia, inebriado de gozo. Os olhos arredondaram-se e diminu\u00edram; os l\u00e1bios se haviam apertado fortemente e impelidos pra diante se juntavam ao jeito de um focinho; o rosto destilava gordura; e, ajudado isto pelo seu f\u00edsico, tudo nele era de um colossal su\u00edno.<\/p>\n<p>\u2014 O que pretendes fazer dela? Dize l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 boa&#8230; Que pergunta ! Prov\u00e1-la, enfeit\u00e1-la, enfeit\u00e1-la e &#8220;lan\u00e7\u00e1-la&#8221; E \u00e9 pouco? \u2014 N\u00e3o! Acho at\u00e9 que te excedes. V\u00ea l\u00e1, tu! \u2014 Hein? Oh! N\u00e3o! Tenho gasto pouco. Um conto e pouco&#8230; Uma mis\u00e9ria! Acendeu o charuto e disse subitamente, ao olhar o rel\u00f3gio: \u2014 Vou busc\u00e1-la de carro, porquanto vamos ao cassino, e tu me esperas l\u00e1, pois tenho um camarote. At\u00e9 j\u00e1.<\/p>\n<p>Saindo o seu amigo, o coronel considerou um pouco, mandou vir \u00e1gua Apolin\u00e1ris, bebeu e saiu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eram oito horas da noite.<\/p>\n<p>Defronte ao caf\u00e9, o casar\u00e3o de uma ordem terceira ensombrava a pra\u00e7a parcamente iluminada pelos combustores de g\u00e1s e por um foco el\u00e9trico ao centro. Das ruas que nela terminavam, delgados filetes de gente sa\u00edam e entravam constantemente. A pra\u00e7a era como um tanque a se encher e a se esvaziar eq\u00fcitativamente. Os bondes da Jardim semeavam pelos lados a branca luz de seus focos e, de onde em onde, um carro, um t\u00edlburi, a atravessava c\u00e9lere.<\/p>\n<p>O coronel esteve algum tempo olhando o largo, preparou um novo charuto, acendeu-o, foi at\u00e9 \u00e0 porta, mirou um e outro transeunte, olhou o c\u00e9u recamado de estrelas, e, finalmente, devagar, partiu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Lapa.<\/p>\n<p>Quando entrou no cassino, ainda o espet\u00e1culo n\u00e3o havia come\u00e7ado.<\/p>\n<p>Sentou-se a um banco no jardim, serviu-se de cerveja e entrou a pensar.<\/p>\n<p>Aos poucos, vinham chegando os espectadores. Naquele instante entrava um. Via-se pelo acanhamento, que era um estranho \u00e0s usan\u00e7as da casa. Esmerado no vestir, no cal\u00e7ar, n\u00e3o tinha em troca o desembara\u00e7o com que se anuncia o habitu\u00e9. Mo\u00e7o, moreno, seria elegante se n\u00e3o fosse a estreiteza de seus movimentos. Era um visitante ocasional, rec\u00e9m-chegado, talvez, do interior, que procurava ali uma curiosidade, um prazer da cidade.<\/p>\n<p>Em seguida, entrou um senhor barbado, de ma\u00e7\u00e3s salientes, rosto redondo, acobreado. Trazia cartola, e pelo ar solene, pelo olhar desdenhoso que atirava em volta, descobria-se nele um legislador da Cadeia Velha, deputado, representante de algum Estado do Norte, que, com certeza, h\u00e1 duas legislaturas influ\u00eda poderosamente nos destinos do pa\u00eds com o seu resignado apoiado. E assim, um a um, depois aos magotes, foram entrando os espectadores. Ao fim, na cauda, retardados, vieram os freq\u00fcentadores ass\u00edduos &#8211; pessoas variegadas de profiss\u00e3o e moral que com freq\u00fc\u00eancia blasonavam saber os nomes das cocotes, a proveni\u00eancia delas e as suas excentricidades libertinas. Entre os que entravam naquele momento, entrara tamb\u00e9m o comendador e o &#8221; achado&#8221; .<\/p>\n<p>A primeira parte do espet\u00e1culo correra quase friamente.<\/p>\n<p>Todos, homens e mulheres, guardavam as maneiras convencionadas de se estar em p\u00fablico. Era cedo ainda.<\/p>\n<p>Em meio, por\u00e9m, da segunda, as atitudes mudaram. Na cena, uma delgadinha senhora (chanteuse \u00e0 diction \u2014 no cartaz) berrava uma can\u00e7oneta francesa. Os espectadores, com batidos das bengalas nas mesas, no assoalho, e com a voz mais ou menos comprometida, estribilhavam-na doidamente. O espet\u00e1culo ia no auge. Da sala aos camarotes subia um estranho cheiro \u2014 um odor azedo de orgia.<\/p>\n<p>Centenas de charutos e cigarros a fumegar enevoavam todo ambiente.<\/p>\n<p>Desprendimentos do tabaco, emana\u00e7\u00f5es alco\u00f3licas, e, a mais, uma fort\u00edssima exala\u00e7\u00e3o de sensualidade e lubricidade, davam \u00e0 sala o aspecto repugnante de uma vasta bodega.<\/p>\n<p>Mais ou menos embriagado, cada um dos espectadores tinha para com a mulher com quem bebia, gestos livres de alcova. Francesas, italianas, h\u00fangaras, espanholas, essas mulheres, de dentro das rendas, surgiam espectrais, apagadas, l\u00edvidas como moribundas. Entretanto, ou fosse o \u00e1lcool ou o prest\u00edgio de peregrinas, tinham sobre aqueles homens um misterioso ascendente. A esquerda, na plat\u00e9ia, o majestoso deputado da entrada co\u00e7ava despudoradamente a nuca da Dermalet, uma francesa; em frente o doutor Castrioto, lente de uma escola superior, babava-se todo a olhar as pernas da cantora em cena, enquanto em um camarote defronte, o Juiz Siqueira apertava-se \u00e0 Mercedes, uma bailarina espanhola, com o fogo de um rec\u00e9m-casado \u00e0 noiva.<\/p>\n<p>Um sopro de deboche percorria homem a homem.<\/p>\n<p>Dessa forma o espet\u00e1culo desenvolvia-se no mais fervoroso entusiasmo e o coronel, no camarote, de soslaio, pusera-se a observar a mulata. Era bonita de fato e elegante tamb\u00e9m. Viera com um vestido creme de pintas pretas, que lhe assentava magnificamente.<\/p>\n<p>O seu rosto harmonioso, enquadrado num magn\u00edfico chap\u00e9u de palha preta, sa\u00eda firme do pesco\u00e7o roli\u00e7o que a blusa decotada deixava ver. Seus olhos curiosos, inquietos, voavam de um lado a outro e a tez de bronze novo cintilava \u00e0 luz dos focos. Atrav\u00e9s do vestido se lhe adivinhavam as formas; e, por vezes, ao arfar, ela toda trepidava de vol\u00fapia&#8230;<\/p>\n<p>O comendador pachorrentamente assistia ao espet\u00e1culo e fora do costume, pouco conversou. O amigo, pudicamente n\u00e3o insistiu no exame.<\/p>\n<p>Quando sa\u00edram de permeio \u00e0 multid\u00e3o, acumulada no corredor da entrada, o coronel teve ocasi\u00e3o de verificar o efeito que fizera a companheira do amigo. Ficando mais atr\u00e1s, p\u00f4de ir recolhendo os ditos e as observa\u00e7\u00f5es que a passagem deles ia sugerindo a cada um.<\/p>\n<p>Um rapazola dissera: \u2014 Que &#8220;mulat\u00e3o&#8221;! Um outro refletiu:<\/p>\n<p>\u2014 Esses portugueses s\u00e3o os dem\u00f4nios para descobrir boas mulatas. \u00c9 faro.<\/p>\n<p>Ao passarem os dois, algu\u00e9m, a quem ele n\u00e3o viu, maliciosamente observou: \u2014 Parecem pai e filha.<\/p>\n<p>E essa reflex\u00e3o de pequeno alcance na boca que a proferiu, calou fundo no \u00e2nimo do coronel.<\/p>\n<p>Os queixos eram iguais, as sobrancelhas, arqueadas, tamb\u00e9m; o ar, um n\u00e3o sei qu\u00ea de ambos assemelhavam-se&#8230; Vagas semelhan\u00e7as, concluiu o coronel ao sair \u00e0 rua, quando uma baforada de brisa marinha lhe acariciou o rosto afogueado.<\/p>\n<p>J\u00e1 o carro rolava r\u00e1pido pela rua quieta \u2014 quietude agora perturbada pelas vozes esquentadas dos espectadores sa\u00eddos e pelas falsas risadas de suas companheiras \u2014 quando o comendador, levantando-se no estrado da carruagem, ordenou ao cocheiro que parasse no hotel, antes de tocar para a pens\u00e3o. A sala sombria e pobre do hotel tinha sempre por aquela hora uma apar\u00eancia brilhante. A agita\u00e7\u00e3o que ia nela; as sedas ro\u00e7agantes e os chap\u00e9us vistosos das mulheres; a profus\u00e3o de luzes, o irisado das plumas, os perfumes requintados que voavam pelo ambiente; transmudavam-na de sua habitual fisionomia pacata e remediada. As pequenas mesas, pejadas de pratos e garrafas, estavam todas elas ocupadas. Em cada, uma ou duas mulheres sentavam-se, seguidas de um ou dous cavalheiros. S\u00edlabas breves do franc\u00eas, sons guturais do espanhol, dul\u00e7orosas termina\u00e7\u00f5es italianas, chocavam-se, brigavam.<\/p>\n<p>Do portugu\u00eas nada se ouvia, parecia que se escondera de vergonha.<\/p>\n<p>Alice, o comendador e o coronel, sentaram-se a uma mesa redonda em frente \u00e0 entrada. A ceia foi lauta e abundante. A sobremesa, os tr\u00eas convivas repentinamente animados, puseram-se a conversar com calor. A mulata n\u00e3o gostara do Rio; preferia o Recife. L\u00e1 sim ! O c\u00e9u era outro; as comidas tinham outro sabor, melhor e mais quente. Quem n\u00e3o se recordaria sempre de uma frigideira de camar\u00f5es com maturins ou de um bom feij\u00e3o com leite de coco? Depois, mesmo a cidade era mais bonita; as pontes, os rios, o teatro, as igrejas.<\/p>\n<p>E os bairros ent\u00e3o? A Madalena, Olinda&#8230; No Rio, ela concordava, havia mais povo, mais dinheiro; mas Recife era outra cousa, era tudo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem raz\u00e3o, disse o comendador; Recife \u00e9 bonito, e muito mais . .<\/p>\n<p>\u2014 O senhor, j\u00e1 esteve l\u00e1 ? \u2014 Seis anos; filha, seis anos; e levantou a m\u00e3o esquerda \u00e0 altura dos olhos, correu-a pela testa, contornou com ela a cabe\u00e7a, descansou-a afinal na perna e acrescentou: comecei l\u00e1 minha carreira comercial e tenho muitas saudades. Onde voc\u00ea morava? \u2014 Ultimamente \u00e0 Rua da Penha, mas nasci na de Jo\u00e3o de Barro, perto do Hospital de Santa \u00c1gueda&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Morei l\u00e1 tamb\u00e9m, disse ele distra\u00eddo.<\/p>\n<p>\u2014 Criei-me pelas bandas de Olinda, continuou Alice, e por morte de minha m\u00e3e vim para a casa do doutor Hildebrando, colocada pelo juiz&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que tua m\u00e3e morreu? indagou o coronel.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 oito anos quase, respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 muito tempo, refletiu o coronel; e logo perguntou: que idade tens?<\/p>\n<p>\u2014 Vinte e seis anos, fez ela. Fiquei \u00f3rf\u00e3 aos dezoito. Durante esses oito anos tenho rolado por esse mundo de Cristo e comido o p\u00e3o que o diabo amassou. Passando de m\u00e3o em m\u00e3o, ora nesta, ora naquela, a minha vida tem sido um tormento. At\u00e9 hoje s\u00f3 tenho conhecido tr\u00eas homens que me dessem alguma coisa; os outros Deus me livre deles! &#8211; s\u00f3 querem meu corpo e o meu trabalho. Nada me davam, espancavam-me, maltratavam-me. Uma vez, quando vivia com um sargento do Regimento de Pol\u00edcia, ele chegou em casa embriagado, tendo jogado e perdido tudo, queria obrigar-me a lhe dar trinta mil-r\u00e9is, fosse como fosse. Quando lhe disse que n\u00e3o tinha e o dinheiro das roupas que eu lavava, s\u00f3 chegava naquele m\u00eas para pagar a casa, ele fez um escarc\u00e9u. Descomp\u00f4s-me. Ofendeu-me. Por fim, cheio de f\u00faria agarrou-me pelo pesco\u00e7o, esbofeteou-me, deitou-me em terra, deixando-me sem fala e a tratar-me no hospital. Um outro &#8211; um malvado em cujas m\u00e3os n\u00e3o sei como fui cair &#8211; certa vez, altercamos, e deu-me uma facada do lado esquerdo, da qual ainda tenho sinal.! Tem sido um tormento&#8230; Bem me dizia minha m\u00e3e: toma cuidado, minha filha, toma cuidado. Esses homens s\u00f3 querem nosso corpo por segundos, depois v\u00e3o-se e nos deixam um filho nos quartos, quando n\u00e3o nos roubam como fez teu pai comigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como?&#8230; Como foi isso? interrogou admirado o coronel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei bem como foi, retrucou ela. Minha m\u00e3e me contava que ela era honesta; que vivia na cidade do Cabo com seus pais, de cuja companhia fora seduzida por um caixeiro portugu\u00eas que l\u00e1 aparecera e com quem veio para o Recife. Nasci deles e dous meses, ou mais depois do meu nascimento, meu pai foi ao Cabo liquidar a heran\u00e7a (um s\u00edtio, uma vaca, um cavalo) que coubera \u00e0 minha m\u00e3e por morte de seus pais. Vindo de receber a heran\u00e7a, partiu dias depois para aqui e nunca mais ela soube not\u00edcias dele, nem do dinheiro, que, vendido o herdado, lhe ficara dos meus av\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2014 Como se chamava teu pai? indagou o comendador com estranho entono.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembra bem; era Mota ou Costa&#8230; N\u00e3o sei&#8230; Mas o que \u00e9 isso? disse ela de repente, olhando o comendador. Que tem o senhor ? \u2014 Nada&#8230; Nada&#8230; retrucou o comendador experimentando um sorriso. Voc\u00ea n\u00e3o se lembra das fei\u00e7\u00f5es desse homem? interrogou ele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me lembra, n\u00e3o. Que interesse! Quem sabe que o senhor n\u00e3o \u00e9 meu pai? gracejou ela.<\/p>\n<p>O gracejo caiu de chofre naqueles dous esp\u00edritos tensos, como uma ducha frigid\u00edssima. O coronel olhava o comendador que tinha as faces em brasa; este, \u00e0quele; por fim depois de alguns segundos o coronel querendo dar uma sa\u00edda \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, simulou rir-se e perguntou: \u2014 Voc\u00ea nunca mais soube alguma cousa&#8230; qualquer cousa ? Hein ? \u2014 Nada&#8230; Que me lembre, nada&#8230; Ah ! Espere&#8230; Foi&#8230; \u00c9. Sim! Seis meses antes da morte de minha m\u00e3e, ouvi dizer em casa, n\u00e3o sei por quem, que ele estava no Rio implicado num caso de moeda falsa. \u00c9 o que me lembra, disse ela.<\/p>\n<p>\u2014 O que? Quando foi isso? indagou pressuroso o comendador.<\/p>\n<p>A mulata, que ainda n\u00e3o se havia bem apercebido do estado do comendador, respondeu ingenuamente:- Mam\u00e3e morreu em setembro de l893, por ocasi\u00e3o da revolta&#8230; Ouvi contar essa hist\u00f3ria em fevereiro. \u00c9 isso.<\/p>\n<p>O comendador n\u00e3o perdera uma s\u00edlaba; e, com a boca meio aberta, parecia quer\u00ea-las engolir uma e uma; com as faces congestionadas e os olhos esbugalhados, a sua fisionomia estava horr\u00edvel.<\/p>\n<p>O coronel e a mulata, ext\u00e1ticos, estuporados, entreolhavam-se.<\/p>\n<p>Durante um segundo nada se lhes antolhava fazer. Ficaram como idiotas; em breve, por\u00e9m, o comendador, num supremo esfor\u00e7o, disse com voz sumida: \u2014 Meu Deus! \u00c9 minha filha!<\/p>\n<p><strong>Fim<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto A bastos tigre era h\u00e1bito dos dous, todas as tardes, ap\u00f3s o jantar, jogar uma partida de bilhar em cinq\u00fcenta pontos, finda a qual iam, em pequenos passos, at\u00e9 ao Largo da Carioca tomar caf\u00e9 e licores, e, na mesa do botequim, trocando confid\u00eancias, ficarem esperando a hora dos teatros, enquanto que, dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-109025","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast 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