{"id":108962,"date":"2017-02-15T11:28:10","date_gmt":"2017-02-15T13:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108962"},"modified":"2017-02-15T11:28:10","modified_gmt":"2017-02-15T13:28:10","slug":"o-numero-da-sepultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-numero-da-sepultura","title":{"rendered":"O N\u00famero da Sepultura"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Que podia ela dizer, ap\u00f3s tr\u00eas meses de casada, sobre o casamento? Era bom? Era mau?<\/p>\n<p>N\u00e3o se animava a afirmar nem uma cousa, nem outra. Em ess\u00eancia, &#8220;aquilo&#8221; lhe parecia resumir-se em uma simples mudan\u00e7a de casa.<\/p>\n<p>A que deixara n\u00e3o tinha mais nem menos c\u00f4modos do que a que viera habitar; n\u00e3o tinha mais &#8220;largueza&#8221;; mas a &#8221; nova&#8221; possu\u00eda um jardinzito min\u00fasculo e uma pia na sala de jantar.<\/p>\n<p>Era, no fim de contas, a diminuta diferen\u00e7a que existia entre ambas.<\/p>\n<p>Passando da obedi\u00eancia dos pais, para a do marido, o que ela sentia, era o que se sente quando se muda de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, h\u00e1 nos que se mudam, agita\u00e7\u00e3o, atividade; puxa-se pela id\u00e9ia, a fim de adaptar os m\u00f3veis \u00e0 casa &#8220;nova&#8221; e, por conseguinte, eles, os seus recentes habitantes tamb\u00e9m; isso, por\u00e9m, dura poucos dias.<\/p>\n<p>No fim de um m\u00eas, os m\u00f3veis j\u00e1 est\u00e3o definitivamente &#8221; ancorados&#8221;, nos seus lugares, e os moradores se esquecem de que residem ali desde poucos dias.<\/p>\n<p>Demais, para que ela n\u00e3o sentisse, profunda modifica\u00e7\u00e3o, no seu viver, advinda com o casamento, havia a quase igualdade de g\u00eanios e h\u00e1bitos de seu pai e seu marido.<\/p>\n<p>Tanto um como outro, eram corteses com ela; brandos no tratar, serenos, sem improp\u00e9rios, e ambos, tamb\u00e9m, meticulosos, exatos e met\u00f3dicos. N\u00e3o houve, assim, abalo algum, na sua transplanta\u00e7\u00e3o de um lar para outro.<\/p>\n<p>Contudo, esperava, no casamento alguma cousa de in\u00e9dito at\u00e9 ali, na sua exist\u00eancia de mulher: uma exuberante e cont\u00ednua satisfa\u00e7\u00e3o de viver.<\/p>\n<p>N\u00e3o sentiu, por\u00e9m, nada disso.<\/p>\n<p>O que houve de particular na sua mudan\u00e7a de estado, foi insuficiente para lhe dar uma sensa\u00e7\u00e3o nunca sentida da vida e do mundo. N\u00e3o percebeu nenhuma novidade essencial&#8230;<\/p>\n<p>Os c\u00e9us cambiantes, com o rosado e dourado de arreb\u00f3is, que o casamento promete a todos, mo\u00e7os e mo\u00e7as; n\u00e3o os vira ela. O sentimento de inteira liberdade, com passeios, festas, teatros, visitas \u2014 tudo que se cont\u00e9m para as mulheres, na id\u00e9ia de casamento, durou somente a primeira semana de matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Durante ela, ao lado do marido, passeara, visitara, fora a festas, e a teatros; mas assistira todas essas cousas, sem muito se interessar por elas, sem receber grandes ou profundas emo\u00e7\u00f5es de surpresa, e ter sonhos fora do trivial da nossa mesquinha vida terrestre. Cansavam-na at\u00e9! No come\u00e7o, sentia alguma alegria e certo contentamento; por fim, por\u00e9m, veio o t\u00e9dio por elas todas, a nostalgia da quietude de sua casa suburbana, onde vivia \u00e0 n\u00e9glig\u00e9 e podia sonhar, sem desconfiar que os outros lhe pudessem descobrir os devaneios crepusculares de sua pequenina alma de burguesia, saudosa e enfuma\u00e7ada.<\/p>\n<p>N\u00e3o era raro que tamb\u00e9m ocorresse saudades da casa paterna, provocadas por aquelas chinfrinadas de teatros ou cinematogr\u00e1ficas. Acudia-lhe, com indefin\u00edvel sentimento, a 1embran\u00e7a de velhos m\u00f3veis e outros pertences familiares da sua casa paterna, que a tinham visto desde menina. Era uma velha cadeira de balan\u00e7o de jacarand\u00e1; era uma leiteira de lou\u00e7a, pintada de azul, muito antiga; era o rel\u00f3gio sem p\u00eandula. octogonal. velho tamb\u00e9m; e outras bugigangas dom\u00e9sticas que, muito mais fortemente do que os m\u00f3veis e utens\u00edlios adquiridos recentemente, se haviam gravado na sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Seu marido era um rapaz de excelentes qualidades matrimoniais, e n\u00e3o havia, no nebuloso estado d&#8217;alma de Zilda, nenhum desgosto dele ou decep\u00e7\u00e3o que ele lhe tivesse causado.<\/p>\n<p>Morigerado, cumpridor exato dos seus deveres, na se\u00e7\u00e3o de que era chefe seu pai, tinha todas as qualidades m\u00e9dias, para ser um bom chefe de fam\u00edlia, cumprir o dever de continuar a esp\u00e9cie e ser um bom diretor de secretaria ou reparti\u00e7\u00e3o outra, de banco ou de escrit\u00f3rio comercial.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o possu\u00eda nenhuma proemin\u00eancia de intelig\u00eancia ou de a\u00e7\u00e3o. Era e seria sempre uma boa pe\u00e7a de m\u00e1quina, bem ajustada, bem polida e que, lubrificada convenientemente, n\u00e3o diminuiria o rendimento daquela, mas que precisava sempre do motor da iniciativa estranha, para se p\u00f4r em movimento.<\/p>\n<p>Os pais de Zilda tinham aproximado os dois; a av\u00f3, a quem a mo\u00e7a estimava deveras, fizera as insinua\u00e7\u00f5es de praxe; e, vendo ela que a coisa era do gosto de todos, por curiosidade mais do que por amor ou outra cousa parecida, resolveu-se a casar com o escritur\u00e1rio de seu pai. Casaram-se, viviam muito bem. Entre ambos, n\u00e3o havia a menor rusga, a menor desintelig\u00eancia que lhes toldasse a vida matrimonial; mas n\u00e3o existia tamb\u00e9m como era de esperar, uma profunda e constante penetra\u00e7\u00e3o, de um para o outro e vice-versa, de desejos, de sentimentos, de dores e alegrias.<\/p>\n<p>Viviam placidamente numa tranq\u00fcilidade de lagoa, cercada de altas montanhas, por entre as quais os ventos fortes n\u00e3o conseguiam penetrar, para encrespar-lhe as \u00e1guas imotas.<\/p>\n<p>A beleza do viver daquele novel casal, n\u00e3o era ter conseguido de duas fazer uma \u00fanica vontade; estava em que os dous continuassem a ser cada um uma personalidade, sem que, entanto, encontrassem nunca motivo de conflito, o mais ligeiro que fosse. Uma vez, por\u00e9m.. Deixemos isso para mais tarde&#8230; O g\u00eanio e a educa\u00e7\u00e3o de ambos muito contribu\u00edam para tal.<\/p>\n<p>O marido, exato burocrata, era cordato, de temperamento calmo, ponderado e seco que nem uma crise ministerial. A mulher era quase passiva e tendo sido educada na disciplina ultra-regrada e esmeriladora de seu pai, velho funcion\u00e1rio, obediente aos chefes, aos ministros, aos secret\u00e1rios destes e mais bajuladores, \u00e0s leis e regulamentos, n\u00e3o tinha assomos nem caprichos, nem fortes vontades. Refugiava-se no sonho e, desde que n\u00e3o fosse multado, estava por tudo.<\/p>\n<p>Os h\u00e1bitos do marido eram os mais regulares e executados, sem a m\u00ednima discrep\u00e2ncia. Erguia-se do leito muito cedo, quase ao alvorecer, antes mesmo da criada, a Genoveva, levantar-se da cama. Pondo-se de p\u00e9, ele mesmo coava o caf\u00e9 e, logo que estava pronto, tomava uma grande x\u00edcara.<\/p>\n<p>Esperando o jornal (s\u00f3 comprava um), ia para o pequeno jardim, varria-o, amarrava as roseiras e craveiros, nos espeques, em seguida, dava milho \u00e0s galinhas e pintos e tratava dos passarinhos.<\/p>\n<p>Chegando o jornal, lia-o meticulosamente, organizando, para uso do dia, as suas opini\u00f5es liter\u00e1rias, cient\u00edficas, art\u00edsticas, sociais e, tamb\u00e9m, sobre a pol\u00edtica internacional e as guerras que havia pelo mundo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 pol\u00edtica interna, constru\u00eda algumas, mas n\u00e3o as manifestava a ningu\u00e9m, porque quase sempre eram contra o governo e ele precisava ser promovido.<\/p>\n<p>\u00c0s nove e meia, j\u00e1 almo\u00e7ado e vestido, despedia-se da mulher, com o cl\u00e1ssico beijo, e l\u00e1 ia tomar o trem. Assinava o ponto, de acordo como regulamento, isto \u00e9, nunca depois das dez e meia.<\/p>\n<p>Na reparti\u00e7\u00e3o, cumpria religiosamente os seus sacrat\u00edssimos deveres de funcion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sempre foi assim; mas, ap\u00f3s o casamento, aumentou de zelo, a fim de p\u00f4r a se\u00e7\u00e3o do sogro que nem um brinco, em quest\u00e3o de rapidez e presteza no andamento e informa\u00e7\u00f5es de pap\u00e9is.<\/p>\n<p>Andava pelas bancas dos colegas, pelos protocolos, quando o servi\u00e7o lhe faltava e se, nessa correi\u00e7\u00e3o, topava com expediente em atraso, n\u00e3o hesitava: punha-se a &#8220;desunhar&#8221;.<\/p>\n<p>Acontecendo-lhe isto, ao sentar-se \u00e0 mesa, para jantar, j\u00e1 em trajes caseiros, apressava-se em dizer a mulher \u2014 Arre ! Trabalhei hoje, Zilda, que nem o diabo ! \u2014 Porque ? \u2014 Ora, porque? Aqueles meus colegas s\u00e3o uma pin\u00f3ia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que houve ? \u2014 Pois o Pantale\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 com o protocolo dele, o da Marinha, atrasado de uma semana? Tive que o p\u00f4r em dia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Papai foi quem te mandou? \u2014 N\u00e3o; mas era meu dever, como genro dele, evitar que a se\u00e7\u00e3o que ele dirige, fosse tachada de relaxada. Demais n\u00e3o posso ver expediente atrasado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, esse Pantale\u00e3o falta muito? \u2014 Um horror ! Desculpa-se com estar estudando direito. Eu tamb\u00e9m estudei, quase sem faltas.<\/p>\n<p>Com semelhantes not\u00edcias e outras de mexericos sobre a vida \u00edntima, defeitos morais e v\u00edcios dos colegas, que ele relatava \u00e0 mulher, Zilda ficou enfronhada no viver da diretoria em que funcionava seu marido, tanto no aspecto puramente burocr\u00e1tico, como nos da vida particular e fam\u00edlias dos respectivos empregados.<\/p>\n<p>Ela sabia que o Cal\u00e7oene bebia cacha\u00e7a; que o Z\u00e9 Fagundes vivia amancebado com uma crioula, tendo filhos com ela, um. dos quais com concurso e ia ser em breve colega do marido; que o Feliciano Brites das Novas jogava nos dados todo o dinheiro que conseguia arranjar que a mulher do Nepomuceno era amante do General T., com aux\u00edlio do qual ele preteria todos nas promo\u00e7\u00f5es, etc., etc.<\/p>\n<p>O marido n\u00e3o conversava com Zilda sen\u00e3o essas coisas da reparti\u00e7\u00e3o; n\u00e3o tinha outro assunto para palestrar com a mulher.Com as visitas e raros colegas com quem discutia, a mat\u00e9ria da conversa\u00e7\u00e3o eram coisas patri\u00f3ticas: as for\u00e7as de terra e mar, as nossas riquezas naturais, etc.<\/p>\n<p>Para tais argumentos tinha predile\u00e7\u00e3o especial e um especial orgulho em desenvolv\u00ea-los com entusiasmo. Tudo o que era brasileiro era primeiro do mundo ou, no m\u00ednimo, da Am\u00e9rica do Sul. E \u2014 ai! \u2014 de quem o contestasse; levava uma sarabanda que resumia nesta frase cl\u00e1ssica: \u2014 \u00c9 por isso que o Brasil n\u00e3o vai para adiante. O brasileiro \u00e9 o maior inimigo de sua p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Zilda, pequena burguesa, de reduzida instru\u00e7\u00e3o e, como todas as mulheres, de fraca curiosidade intelectual quando o ouvia discutir assim com os amigos, enchia-se de enfado e sono; entretanto, gostava das suas alcovitices sobre os lares dos colegas&#8230;<\/p>\n<p>Assim ela ia repassando a sua vida de casada, que j\u00e1 tinha mais de tr\u00eas meses feitos, na qual, para quebrar-lhe a monotonia e a igualdade, s\u00f3 houvera um acontecimento que a agitara, a torturara, mas, em compensa\u00e7\u00e3o, espantara por algumas horas o t\u00e9dio daquele morno e pl\u00e1cido viver. \u00c9 preciso cont\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Augusto \u2014 Augusto Serpa de Castro \u2014 tal era o nome de seu marido \u2014 tinha um ar mofino e enfezado; alguma cousa de \u00edndio nos cabelos muito negros, corredios e brilhantes, e na tez acobreada. Seus olhos eram negros e grandes, com muito pouca luz, morti\u00e7os e pobres de express\u00e3o, sobretudo de alegria.<\/p>\n<p>A mulher, mais mo\u00e7a do que ele uns cinco ou seis anos, ainda n\u00e3o havia completado os vinte. Era de uma grande vivacidade de fisionomia, muito m\u00f3bil e v\u00e1ria, embora o seu olhar castanho claro tivesse, em geral, uma forte express\u00e3o de melancolia e sonho interior. Mi\u00fada de fei\u00e7\u00f5es, franzina, de boa estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a gra\u00e7a do cani\u00e7o, a sua esbelteza, que n\u00e3o teme os ventos, mas que se curva \u00e0 for\u00e7a deles com mais eleg\u00e2ncia ainda, para ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se, por\u00e9m, que \u00e9 esta que o faz vitorioso.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pitoresca rua, afastada alguma cousa das linhas da Central, cheia de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de n\u00edvel, tanto no sentido longitudinal como no transversal.<\/p>\n<p>Povoada de \u00e1rvores e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte para sul, as habita\u00e7\u00f5es do lado do nascente, em grande n\u00famero, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento; e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os Cip\u00f3s se tecem.<\/p>\n<p>Do lado do poente, por\u00e9m, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham em primeira m\u00e3o a Aurora, com os seus inexprim\u00edveis cambiantes de cores e matizes.<\/p>\n<p>Como no fim do m\u00eas anterior, naquele outro, o segundo t\u00e9rmino de m\u00eas depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou o dinheiro necess\u00e1rio \u00e0 mulher, para pag\u00e1-los, e tamb\u00e9m a import\u00e2ncia do aluguel da casa.<\/p>\n<p>Zilda apressou-se em faz\u00ea-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o procurador do propriet\u00e1rio da casa em que moravam, demorou-se um pouco. Disso, avisou o marido, em certa manh\u00e3, quando ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com ela.<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do propriet\u00e1rio n\u00e3o aparecia.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva.<\/p>\n<p>Tinha sonhado; e que sonho ! Sonhou com a av\u00f3, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se o seu enlace com ele; mas ambos j\u00e1 eram noivos.<\/p>\n<p>Sonhara a mo\u00e7a com o n\u00famero da sepultura da av\u00f3 \u2014 1724; e ouvira a voz dela, da sua vov\u00f3, que lhe dizia: &#8220;Filha, joga neste n\u00famero ! &#8221;<\/p>\n<p>O sonho impressionou-a muito; nada, por\u00e9m, disse ao marido. Sa\u00eddo que ele foi para a reparti\u00e7\u00e3o, determinou \u00e0 criada o que tinha a fazer e procurou afastar da mem\u00f3ria t\u00e3o estranho sonho.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia, entretanto, meios para conseguir isso. A recorda\u00e7\u00e3o dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os seus esfor\u00e7os em contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A press\u00e3o que lhe fazia no c\u00e9rebro a 1embran\u00e7a do sonho, pedia uma sa\u00edda, uma v\u00e1lvula de descarga, pois j\u00e1 excedia a sua for\u00e7a de conten\u00e7\u00e3o. Tinha que falar, que contar, que comunic\u00e1-lo a algu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Fez confid\u00eancia do sucedido \u00e0 Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse: \u2014 Nhanh\u00e3: eu se fosse a senhora arriscava alguma cousa no &#8220;bicho&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Que &#8220;bicho&#8221; \u00e9 ? \u2014 24 \u00e9 cabra; mas n\u00e3o deve jogar s\u00f3 por um lado. Deve cercar por todos e fazer f\u00e9 na dezena, na centena, at\u00e9 no milhar. Um sonho destes n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed cousa \u00e0 toa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe fazer a lista? \u2014 N\u00e3o, senhora. Quando jogo \u00e9 o Seu Manuel do botequim quem faz &#8221; ela&#8221;. mas a vizinha, Dona Iracema, sabe bem e pode ajudar a senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Chame &#8221; ela&#8221; e diga que quero lhe falar.<\/p>\n<p>Em breve chegava a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido.<\/p>\n<p>Dona Iracema refletiu um pouco e aconselhou: \u2014 Um sonho desses, menina, n\u00e3o se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava forte.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Dona Iracema, eu s\u00f3 tenho os oitenta mil-r\u00e9is para pagar a casa. Como h\u00e1 de ser? A vizinha cautelosamente respondeu: \u2014 N\u00e3o lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Fa\u00e7a o que disser o seu cora\u00e7\u00e3o; mas um sonho desses&#8230;<\/p>\n<p>Zilda que era muito mais mo\u00e7a que Iracema, teve respeito pela sua experi\u00eancia e sagacidade. Percebeu logo que ela era favor\u00e1vel a que ela jogasse. Isto estava a quarentona da vizinha, a tal Dona Iracema, a dizer-lhe pelos olhos.<\/p>\n<p>Refletiu ainda alguns minutos e, por fim, disse de um s\u00f3 hausto: \u2014 Jogo tudo.<\/p>\n<p>E acrescentou: \u2014 Vamos fazer a lista &#8211; n\u00e3o \u00e9 Dona Iracema? \u2014 Como \u00e9 que a senhora quer? \u2014 N\u00e3o sei bem. A Genoveva \u00e9 quem sabe.<\/p>\n<p>E gritou, para o interior da casa: \u2014 O Genoveva! Genoveva! Venha c\u00e1, depressa! N\u00e3o tardou que a cozinheira viesse. Logo que a patroa lhe comunicou o embara\u00e7o, a humilde preta apressou-se em explicar:<\/p>\n<p>\u2014 Eu disse a nhanh\u00e3 que cercasse por todos os lados o grupo, jogasse na dezena, na centena e no milhar.<\/p>\n<p>Zilda perguntou \u00e0 Dona Iracema: \u2014 A senhora entende dessas cousas? \u2014 Ora! Sei muito bem. Quanto quer jogar? \u2014 Tudo ! Oitenta mil-r\u00e9is ! \u2014 \u00c9 muito, minha filha. Por aqui n\u00e3o h\u00e1 quem aceite. S\u00f3 se for no Engenho de Dentro, na casa do Halavanca, que \u00e9 forte. Mas quem h\u00e1 de levar o jogo? A senhora tem algu\u00e9m? \u2014 A Genoveva.<\/p>\n<p>A cozinheira, que ainda estava na sala, de p\u00e9, assistindo os preparativos de t\u00e3o grande ousadia dom\u00e9stica, acudiu com pressa: \u2014 N\u00e3o posso ir, nhanh\u00e3. Eles me embrulham e, se a senhora ganhar, a mim eles n\u00e3o pagam. \u00c9 preciso pessoa de mais respeito.<\/p>\n<p>Dona Iracema, por a\u00ed, lembrou : \u2014 \u00c9 poss\u00edvel que o Carlito tenha vindo j\u00e1 de Cascadura, onde foi ver a av\u00f3&#8230; Vai ver, Genoveva! A rapariga foi e voltou em companhia do Carlito, filho de Dona Iracema. Era um rapag\u00e3o dos seus dezoito anos, espada\u00fado e saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>A lista foi feita convenientemente; e o rapaz levou-a ao &#8220;banqueiro&#8221;.<\/p>\n<p>Passava de uma hora da tarde, mas ainda faltava muito para as duas. Zilda lembrou-se ent\u00e3o do cobrador da casa. N\u00e3o havia perigo. Se n\u00e3o tinha vindo at\u00e9 ali, n\u00e3o viria mais.<\/p>\n<p>Dona Iracema foi para a sua casa; Genoveva foi para a cozinha e Zilda foi repousar daqueles embates morais e alternativas cruciantes, provocados pelo passo arriscado que dera. Deitou-se j\u00e1 arrependida do que fizera.<\/p>\n<p>Se perdesse, como havia de ser? O marido&#8230; sua c\u00f3lera&#8230; as repreens\u00f5es&#8230; Era uma tonta, uma doida&#8230; Quis cochilar um pouco; mas logo que cerrou os olhos, l\u00e1 viu o n\u00famero \u2014 1724. Tomava-se ent\u00e3o de esperan\u00e7a e sossegava um pouco da sua \u00e2nsia angustiosa.<\/p>\n<p>Passando, assim, da esperan\u00e7a ao des\u00e2nimo, prelibando a satisfa\u00e7\u00e3o de ganhar e antevendo os desgostos que sofreria, caso perdesse \u2014 Zilda, chegou at\u00e9 \u00e0 hora do resultado, suportando os mais desencontrados estados de esp\u00edrito e os mais hostis ao seu sossego. Chegando o tempo de saber &#8220;o que dera&#8221; , foi at\u00e9 \u00e0 janela. De onde em onde, naquela rua esquecida e morta, passava uma pessoa qualquer.<\/p>\n<p>vergonha e continha-se.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, surge o Carlito a gritar: \u2014 Dona Zilda! Dona Zilda! A senhora ganhou, menos no milhar e na centena.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu um &#8220;ai&#8221; e ficou desmaiada no sof\u00e1 da sua modesta sala de visitas.<\/p>\n<p>Voltou em breve a si, gra\u00e7as \u00e0s esfrega\u00e7\u00f5es de vinagre de Dona Iracema e de Genoveva. Carlito foi buscar o dinheiro que subia a mais de dous contos de r\u00e9is. Recebeu-o e gratificou generosamente o rapaz, a m\u00e3e dele e a sua cozinheira, a Genoveva. Quando Augusto chegou, j\u00e1 estava inteiramente calma. Esperou que ele mudasse de roupa e viesse \u00e0 sala de jantar, a fim de dizer-lhe: \u2014 Augusto: se eu tivesse jogado o aluguel da casa no &#8220;bicho&#8221;. \u2014 voc\u00ea ficava zangado? \u2014 Por certo! Ficaria muito e havia de censurar voc\u00ea com muita veem\u00eancia, pois que uma dona de casa n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois, joguei.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea fez isto, Zilda? \u2014 Fiz.<\/p>\n<p>\u2014 Mas quem virou a cabe\u00e7a de voc\u00ea para fazer semelhante tolice? Voc\u00ea n\u00e3o sabe que ainda estamos pagando despesas do nosso casamento? \u2014 Acabaremos de pagar agora mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Como? Voc\u00ea ganhou? \u2014 Ganhei. Est\u00e1 aqui o dinheiro.<\/p>\n<p>Tirou do seio o pacote de notas e deu-o ao marido, que se tornara mudo de surpresa. Contou as pelejas muito bem, levantou-se e disse com muita sinceridade. abra\u00e7ando e beijando a mulher..<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem muita sorte. \u00c9 o meu anjo bom.<\/p>\n<p>E todo o resto da tarde, naquela casa, tudo foi alegria.<\/p>\n<p>Vieram Dona Iracema, o marido, o Carlito, as filhas e outros vizinhos.<\/p>\n<p>Houve doces e cervejas. Todos estavam sorridentes, palradores; e o contentamento geral s\u00f3 n\u00e3o desandou em baile, porque os rec\u00e9m-casados n\u00e3o tinham piano. Augusto deitou patriotismo com o marido de Iracema.<\/p>\n<p>Entretanto, por causa das d\u00favidas, no m\u00eas seguinte, quem fez os pagamentos dom\u00e9sticos foi ele pr\u00f3prio, Augusto em pessoa.<\/p>\n<p><b>Revista Sousa Cruz, Rio, maio 1921.<\/b><\/p>\n<p><strong>Fim<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Que podia ela dizer, ap\u00f3s tr\u00eas meses de casada, sobre o casamento? Era bom? Era mau? N\u00e3o se animava a afirmar nem uma cousa, nem outra. Em ess\u00eancia, &#8220;aquilo&#8221; lhe parecia resumir-se em uma simples mudan\u00e7a de casa. 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