{"id":108947,"date":"2017-02-15T11:22:12","date_gmt":"2017-02-15T13:22:12","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108947"},"modified":"2017-02-15T11:22:12","modified_gmt":"2017-02-15T13:22:12","slug":"o-filho-de-gabriela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-filho-de-gabriela","title":{"rendered":"O Filho de Gabriela"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>A Ant\u00f4nio Noronha Santos &#8220;Chaque progr\u00e8s, au fond, est un avortement<\/p>\n<p>Mais l&#8217;\u00e9chec m\u00eame sert&#8221;.Guyau Absolutamente n\u00e3o pode continuar assim&#8230; J\u00e1 passa&#8230; \u00c9 todo o dia! Arre! \u2014 Mas \u00e9 meu filho, minh&#8217;ama.<\/p>\n<p>E que tem isso? Os filhos de voc\u00eas agora t\u00eam tanto luxo. Antigamente, criavam-se \u00e0 toa; hoje, \u00e9 um deus-nos-acuda; exigem cuidados, t\u00eam mol\u00e9stias&#8230; Fique sabendo: n\u00e3o pode ir amanh\u00e3! \u2014 Ele vai melhorando, Dona Laura; e o doutor disse que n\u00e3o deixasse de lev\u00e1-lo l\u00e1, amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pode, n\u00e3o pode, j\u00e1 lhe disse! O conselheiro precisa chegar cedo \u00e0 escola; h\u00e1 exames e tem que almo\u00e7ar cedo&#8230; N\u00e3o vai, n\u00e3o senhora! A gente tem criados pra que? N\u00e3o vai, n\u00e3o ! \u2014 Vou, e vou sim !&#8230; Que bobagem!&#8230; Quer matar o pequeno, n\u00e3o \u00e9? Pois sim&#8230; Est\u00e1-se &#8220;ninando&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 que voc\u00ea disse, heim \u2014 \u00c9 isso mesmo: vou e vou! \u2014 Atrevida .<\/p>\n<p>\u2014 Atrevida \u00e9 voc\u00ea, sua&#8230; Pensa que n\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>Em seguida as duas mulheres se puseram caladas durante um instante: a patroa \u2014 uma alta senhora, ainda mo\u00e7a, de uma beleza suave e marm\u00f3rea \u2014 com os l\u00e1bios finos muito descorados e entreabertos, deixando ver os dentes aperolados, muito iguais, cerrados de c\u00f3lera; a criada agitada, transformada, com faisca\u00e7\u00f5es desusadas nos olhos pardos e tristes. A patroa n\u00e3o se demorou assim muito tempo. Violentamente contra\u00edda naquele segundo a sua fisionomia repentinamente se abriu num choro convulsivo.<\/p>\n<p>A inj\u00faria da criada, decep\u00e7\u00f5es matrimoniais, amarguras do seu ideal amoroso, fatalidades de temperamento, todo aquele obscuro drama de sua alma, feito de uma por\u00e7\u00e3o de coisas que n\u00e3o chegava bem a colher, mas nas malhas das quais se sentia presa e sacudida, subiu-lhe de repente \u00e0 consci\u00eancia, e ela chorou.<\/p>\n<p>Na sua simplicidade popular, a criada tamb\u00e9m se p\u00f4s a chorar, enternecida pelo sofrimento que ela mesma provocara na ama.<\/p>\n<p>E ambas, pelo fim dessa transfigura\u00e7\u00e3o inopinada, entreolharam-se surpreendidas, pensando que se acabavam de conhecer naquele instante, tendo at\u00e9 ali vagas not\u00edcias uma da outra, como se vivessem longe, t\u00e3o longe, que s\u00f3 agora haviam distinguido bem nitidamente o tom de voz pr\u00f3prio a cada uma delas.<\/p>\n<p>No entendimento peculiar de uma e de outra, sentiram-se irm\u00e3s na desoladora mesquinhez da nossa natureza e iguais, como fr\u00e1geis conseq\u00fc\u00eancias de um misterioso encadear de acontecimentos, cuja liga\u00e7\u00e3o e fim lhes escapavam completamente, inteiramente&#8230;<\/p>\n<p>A dona da casa, \u00e0 cabeceira da mesa de jantar, manteve-se silenciosa, correndo, de quando em quando, o olhar ainda \u00famido pelas ramagens do atoalhado, indo, \u00e0s vezes, com ele at\u00e9 \u00e0 bandeira da porta defronte, donde pendia a gaiola do can\u00e1rio, que se sacudia na pris\u00e3o niquelada.<\/p>\n<p>De p\u00e9, a criada avan\u00e7ou algumas palavras. Desculpou-se in\u00e1bil e despediu-se humilde.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-se disso, Gabriela, disse Dona Laura. J\u00e1 passou tudo; eu n\u00e3o guardo rancor; fique! Leve o pequeno amanh\u00e3&#8230; Que vai voc\u00ea fazer por esse mundo afora ? \u2014 N\u00e3o senhora&#8230; N\u00e3o posso&#8230; \u00c9 que&#8230;<\/p>\n<p>E de um hausto falou com tremuras na voz: \u2014 N\u00e3o posso, n\u00e3o minh&#8217;ama; vou-me embora! Durante um m\u00eas, Gabriela andou de bairro em bairro, \u00e0 procura de aluguel. Pedia lessem-lhe an\u00fancios, corria, seguindo as indica\u00e7\u00f5es, a casas de gente de toda a esp\u00e9cie. Sabe cozinhar? perguntavam. \u2014 Sim, senhora, o trivial. \u2014 Bem e lavar? Serve de ama? \u2014 Sim, senhora; mas se fizer uma coisa, n\u00e3o quero fazer outra. \u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o me serve, conclu\u00eda a dona da casa. \u00c9 um luxo&#8230; Depois queixam-se que n\u00e3o t\u00eam aonde se empreguem&#8230;<\/p>\n<p>Procurava outras casas; mas nesta j\u00e1 estavam servidas, naquela o sal\u00e1rio era pequeno e naquela outra queriam que dormisse em casa e n\u00e3o trouxesse o filho.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a, durante esse m\u00eas, viveu relegada a um canto da casa de uma conhecida da m\u00e3e. Um pobre quarto de estalagem, \u00famido que nem uma masmorra. De manh\u00e3, via a m\u00e3e sair; \u00e0 tarde, quase \u00e0 boca da noite, via-a entrar desconfortada. Pelo dia em fora, ficava num abandono de enternecer. A h\u00f3spede, de longe em longe, olhava-o cheia de raiva. Se chorava aplicava-lhe palmadas e gritava col\u00e9rica: &#8221; Arre diabo! A vagabunda de tua m\u00e3e anda saracoteando&#8230; Cala a boca, dem\u00f4nio! Quem te fez, que te ature&#8230;&#8221; Aos poucos, a crian\u00e7a torrou-se de medo; nada pedia, sofria fome, sede, calado. Enlanguescia a olhos vistos e sua m\u00e3e, na ca\u00e7a de aluguel, n\u00e3o tinha tempo para lev\u00e1-lo ao doutor do posto m\u00e9dico. Ba\u00e7o, amarelado, tinha as pernas que nem palitos e o ventre como o de um batr\u00e1quio. A m\u00e3e notava-lhe o enfraquecimento, os progressos da mol\u00e9stia e desesperava, n\u00e3o sabendo que alvitre tomar. Um dia pelos outros, chegava em casa semi \u2014 embriagada, escorra\u00e7ando o filho e trazendo algum dinheiro. N\u00e3o confessava a ningu\u00e9m a origem dele; em outros mal entrava, beijava muito o pequeno, abra\u00e7ava-o. E assim corria a cidade. Numa destas correrias passou pela porta do conselheiro, que era o marido de Dona Laura. Estava no port\u00e3o, a lavadeira, parou e falou-lhe; nisto, viu aparecer a sua antiga patroa numa janela lateral. &#8221; \u2014 Bom dia minh&#8217;ama,&#8221; \u2014 &#8220;Bom dia, Gabriela. Entre.&#8221; Entrou. A esposa do conselheiro perguntou-lhe se j\u00e1 tinha emprego; respondeu-lhe que n\u00e3o. &#8220;Pois olha, disse-he a senhora, eu ainda n\u00e3o arranjei cozinheira, se tu queres&#8230;&#8221; Gabriela quis recusar, mas Dona Laura insistiu.<\/p>\n<p>Entre elas, parecia que havia agora certo acordo \u00edntimo, um qu\u00ea de m\u00fatua prote\u00e7\u00e3o e simpatia. Uma tarde em que Dona Laura voltava da cidade, o filho da Gabriela, que estava no port\u00e3o, correu imediatamente para a mo\u00e7a e disse-lhe, estendendo a m\u00e3o: &#8220;a b\u00ean\u00e7\u00e3o&#8221; Havia tanta tristeza no seu gesto, tanta simpatia e sofrimento, que aquela alta senhora n\u00e3o lhe p\u00f4de negar a esmola de um afago, de uma car\u00edcia sincera. Nesse dia, a cozinheira notou que ela estava triste e, no dia seguinte, n\u00e3o foi sem surpresa que Gabriela se ouviu chamar.<\/p>\n<p>\u2014 O Gabriela! \u2014 Minh&#8217;ama.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1.<\/p>\n<p>Gabriela concertou-se um pouco e correu \u00e0 sala de jantar, onde estava a ama.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 batizaste o teu pequeno? Perguntou-lhe ela ao entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Porque? Com quatro anos! \u2014 Porque? Porque ainda n\u00e3o houve ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 tens padrinhos? \u2014 N\u00e3o, senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Bem; eu e o conselheiro vamos batiz\u00e1-lo. Aceitas? Gabriela n\u00e3o sabia como responder, balbuciou alguns agradecimentos e voltou ao fog\u00e3o com l\u00e1grimas nos olhos.<\/p>\n<p>O conselheiro condescendeu e cuidadosamente come\u00e7ou a procurar um nome adequado. Pensou em Hu\u00e1scar, Ataliba, Guatemozim; consultou dicion\u00e1rios, procurou nomes hist\u00f3ricos, afinal resolveu-se por &#8220;Hor\u00e1cio&#8221;, sem saber porque.<\/p>\n<p>Assim se chamou e cresceu. Conquanto tivesse recebido um tratamento m\u00e9dico regular e a sua vida na casa do conselheiro fosse relativamente confort\u00e1vel, o pequeno Hor\u00e1cio n\u00e3o perdeu nem a reserva nem o enfezado dos seus primeiros anos de vida. A propor\u00e7\u00e3o que crescia, os tra\u00e7os se desenhavam, alguns finos: o corte da testa, l\u00edmpida e reta; o olhar doce e triste, como o da m\u00e3e, onde havia, por\u00e9m, alguma coisa a mais \u2014 um fulgor, certas express\u00f5es particulares, principalmente quando calado e concentrado. N\u00e3o obstante, era feio, embora simp\u00e1tico e bom de ver.<\/p>\n<p>Pelos seis anos, mostrava-se taciturno, reservado e t\u00edmido, olhando interrogativamente as pessoas e coisas, sem articular uma pergunta. L\u00e1 vinha um dia, por\u00e9m, que o Hor\u00e1cio rompia numa alegria ruidosa; punha-se a correr, a brincar, a cantarolar, pela casa toda, indo do quintal para as salas, satisfeito, contente, sem motivo e sem causa.<\/p>\n<p>A madrinha espantava-se com esses bruscos saltos de humor, queria entend\u00ea-los, explic\u00e1-los e come\u00e7ou por se interessar pelos seus trejeitos. Um dia, vendo o afilhado a cantar, a brincar, muito contente, depois de uma por\u00e7\u00e3o de horas de sil\u00eancio e calma, correu ao piano e acompanhou-lhe a cantiga, depois, emendou com uma \u00e1ria qualquer. O menino calou-se, sentou-se no ch\u00e3o e p\u00f4s-se a olhar, com olhos tranq\u00fcilos e calmos, a madrinha, inteiramente delido nos sons que sa\u00edam dos seus dedos. E quando o piano parou, ele ainda ficou algum tempo esquecido naquela postura, com o olhar perdido numa cisma sem fim. A atitude imaterial do menino tocou a madrinha, que o tomou ao colo, abra\u00e7ando-o e beijando-o, num afluxo de ternura, a que n\u00e3o eram estranhos os desastres de sua vida sentimental.<\/p>\n<p>Pouco depois a m\u00e3e lhe morria. At\u00e9 ent\u00e3o vivia numa semidomesticidade. Da\u00ed em diante, por\u00e9m, entrou completamente na fam\u00edlia do Conselheiro Cala\u00e7a. Isso, entretanto, n\u00e3o lhe retirou a taciturnidade e a reserva; ao contr\u00e1rio, fechou\u2014 se em si e nunca mais teve crises de alegria.<\/p>\n<p>Com sua m\u00e3e ainda tinha abandonos de amizade, efus\u00f5es de car\u00edcias e abra\u00e7os. Morta que ela foi, n\u00e3o encontrou naquele mundo t\u00e3o diferente, pessoa a quem se pudesse abandonar completamente, embora pela madrinha continuasse a manter uma respeitosa e distante amizade, raramente aproximada por uma car\u00edcia, por um afago. Ia para o col\u00e9gio calado, taciturno, quase carrancudo, e, se, pelo recreio, o cont\u00e1gio obrigava-o a entregar-se \u00e0 alegria e aos folguedos, bem cedo se arrependia, encolhia-se e sentava-se, vexado, a um canto. Voltava do col\u00e9gio como fora, sem brincar pelas ruas, sem traquinadas, severo e insens\u00edvel. Tendo uma vez brigado com um colega, a professora o repreendeu severamente, mas o conselheiro, seu padrinho, ao saber do caso, disse com rispidez: &#8220;N\u00e3o continue, heim? O senhor n\u00e3o pode brigar \u2014 est\u00e1 ouvindo?&#8221;<\/p>\n<p>E era assim sempre o seu padrinho, duro, desdenhoso, severo em demasia com o pequeno, de quem n\u00e3o gostava, suportando-o unicamente em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher \u2014 maluquices da Laura, dizia ele. Por vontade dele, tinha-o posto logo num asilo de menores, ao morrer-lhe a m\u00e3e; mas a madrinha n\u00e3o quis e chegou at\u00e9 a conseguir que o marido o colocasse num estabelecimento oficial de instru\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, quando acabou com brilho o curso prim\u00e1rio.N\u00e3o foi sem resist\u00eancia que ele acedeu, mas os rogos da mulher, que agora juntava \u00e0 afei\u00e7\u00e3o pelo pequeno uma secreta esperan\u00e7a no seu talento, tanto fizeram que o conselheiro se empenhou e obteve.<\/p>\n<p>Em come\u00e7o, aquela ado\u00e7\u00e3o fora um simples capricho de Dona Laura; mas, com o tempo, os seus sentimentos pelo menino foram ganhando import\u00e2ncia e ficando profundos, embora exteriormente o tratasse com um pouco de cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Havia nela mais medo da opini\u00e3o, das senten\u00e7as do conselheiro, do que mesmo necessidade de disfar\u00e7ar o que realmente sentia, e pensava.<\/p>\n<p>Quem a conheceu solteira, muito bonita, n\u00e3o a julgaria capaz de tal afei\u00e7\u00e3o; mas, casada, sem filhos, n\u00e3o encontrando no casamento nada que sonhara, nem mesmo o marido, sentiu o vazio da exist\u00eancia, a insanidade dos seus sonhos, o pouco alcance da nossa vontade; e, por uma reviravolta muito comum, come\u00e7ou a compreender confusamente todas as vidas e almas, a compadecer-se e a amar tudo, sem amar bem coisa alguma. Era uma parada de sentimento e a corrente que se acumulara nela, perdendo-se do seu leito natural, extravasara e inundara tudo.<\/p>\n<p>Tinha um amante e j\u00e1 tivera outros, mas n\u00e3o era bem a parte m\u00edstica do amor que procurara neles. Essa, ela tinha certeza que jamais podia encontrar; era a parte dos sentidos t\u00e3o exuberantes e exaltados depois das suas contrariedades morais.<\/p>\n<p>Pelo tempo em que o seu afilhado entrara para o col\u00e9gio secund\u00e1rio, o amante rompera com ela; e isto a fazia sofrer, tinha medo de n\u00e3o possuir mais beleza suficiente para arranjar um outro como &#8220;aquele&#8221;. e a esse desastre sentimental n\u00e3o foi estranha a energia dos seus rogos junto ao marido para admiss\u00e3o do Hor\u00e1cio no estabelecimento oficial.<\/p>\n<p>O conselheiro, homem de mais de sessenta anos, continuava superiormente frio, ego\u00edsta e fechado, sonhando sempre uma posi\u00e7\u00e3o mais alta ou que julgava mais alta. Casara-se por necessidade decorativa. Um homem de sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia continuar vi\u00favo; atiraram-lhe aquela menina pelos olhos, ela o aceitou por ambi\u00e7\u00e3o e ele por conveni\u00eancia. No mais, lia os jornais, o c\u00e2mbio especialmente, e, de manh\u00e3 passava os olhos nas apostilas de sua cadeira \u2014 apostilas por ele organizadas, h\u00e1 quase trinta anos, quando dera as suas primeiras li\u00e7\u00f5es, mo\u00e7o, de vinte e cinco anos, genial nas aprova\u00e7\u00f5es e nos pr\u00eamios.<\/p>\n<p>Hor\u00e1cio, toda a manh\u00e3, ao sair para o col\u00e9gio, l\u00e1 avistava o padrinho atarraxado na cadeira de balan\u00e7o a ler atentamente o jornal: &#8221; A b\u00ean\u00e7\u00e3o, meu mesmo tom de voz com que pediria os chinelos \u00e0 criada.<\/p>\n<p>Em geral, a madrinha estava deitada ainda e o menino sa\u00eda para o ambiente ingrato da escola, sem um adeus, sem dar um beijo, sem ter quem lhe reparasse familiarmente o palet\u00f3. L\u00e1 ia. A viagem de bonde, ele a fazia humilde, espremido a um canto do ve\u00edculo, medroso que seu palet\u00f3 ro\u00e7asse as sedas de uma rechonchuda senhora ou que seus livros tocassem nas cal\u00e7as de um esquel\u00e9tico capit\u00e3o de uma mil\u00edcia qualquer. Pelo caminho, arquitetava fantasias; seu esp\u00edrito divagava sem nexo. \u00c0 passagem de um oficial a cavalo, imaginava-se na guerra, feito general, voltando vencedor, vitorioso de ingleses, de alem\u00e3es, de americanos e entrando pela Rua do Ouvidor aclamado como nunca se fora aqui. Na sua cabe\u00e7a ainda infantil, em que a fraqueza de afetos pr\u00f3ximos concentrava o pensamento, a imagina\u00e7\u00e3o palpitava, tinha uma grande atividade, criando toda a esp\u00e9cie de fantasmagorias que lhe apareciam como fatos poss\u00edveis, virtuais.<\/p>\n<p>Eram-lhe as horas de aula um bem triste momento. N\u00e3o que fosse vadio, estudava o seu bocado, mas o espet\u00e1culo do saber, por um lado grandioso e apote\u00f3tico, pela boca dos professores, chegava-lhe tisnado e um qu\u00ea desarticulado. N\u00e3o conseguia ligar bem umas coisas \u00e0s outras, al\u00e9m do que tudo aquilo lhe aparecia solene, carrancudo e feroz. Um teorema tinha o ar autorit\u00e1rio de um r\u00e9gulo selvagem; e aquela gram\u00e1tica cheia de regrinhas, de exce\u00e7\u00f5es, uma coisa cabal\u00edstica, caprichosa e sem aplica\u00e7\u00e3o \u00fatil.<\/p>\n<p>O mundo parecia-lhe uma coisa dura, cheia de arestas cortantes, governado por uma por\u00e7\u00e3o de regrinhas de tr\u00eas linhas, cujo segredo e aplica\u00e7\u00e3o estavam entregues a uma casta de senhores, trat\u00e1veis uns, secos outros, mas todos velhos e indiferentes.<\/p>\n<p>Aos seus exames ningu\u00e9m assistia, nem por eles algu\u00e9m se interessava; contudo. foi sempre regularmente aprovado.<\/p>\n<p>Quando voltava do col\u00e9gio, procurava a madrinha e contava-lhe o que se dera nas aulas. Narrava-lhe pequenas particularidades do dia, as notas que obtivera e as travessuras dos colegas.<\/p>\n<p>Uma tarde, quando isso ia fazer, encontrou Dona Laura atendendo a uma visita. Vendo-o entrar e falar \u00e0 dona da casa, tomando-lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o a senhora estranha perguntou: &#8220;Quem \u00e9 este pequeno?&#8221; \u2014 &#8220;E meu afilhado&#8221;, disse-lhe Dona Laura. &#8220;Teu afilhado? Ah! sim! \u00c9 o filho da Gabriela&#8230;&#8221; Hor\u00e1cio ainda esteve um instante calado, estatelado e depois chorou nervosamente.<\/p>\n<p>Quando se retirou observou a visita \u00e0 madrinha: \u2014 Voc\u00ea est\u00e1 criando mal esta crian\u00e7a. Faz-lhe muitos mimos, est\u00e1 lhe dando nervos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal. Podem lev\u00e1-lo longe.<\/p>\n<p>E assim corria a vida do menino em casa do conselheiro.<\/p>\n<p>Um domingo ou outro, s\u00f3 ou com um companheiro, vagava pelas praias, pelos bondes ou pelos jardins. O Jardim Bot\u00e2nico era-lhe preferido. Ele e o seu constante amigo Salvador sentavam-se a um banco, conversavam sobre os estudos comuns, maldiziam este ou aquele professor. Por fim, a conversa vinha a enfraquecer; os dois se calavam instantes. Hor\u00e1cio deixava-se penetrar pela flutuante poesia das coisas, das \u00e1rvores, dos c\u00e9us, das nuvens; acariciava com o olhar as angustiadas colunas das montanhas, simpatizava com o arremesso dos p\u00edncaros, depois deixava-se ficar, ao chilreio do passaredo, cismando vazio, sem que a cisma lhe fizesse ver coisa definida, palp\u00e1vel pela intelig\u00eancia. Ao fim, sentia-se como que liq\u00fcefeito, vaporizado nas coisas era como se perdesse o feitio humano e se integrasse naquele verde escuro da mata ou naquela mancha faiscante de prata que a \u00e1gua a correr deixava na encosta da montanha. Com que vol\u00fapia, em tais momentos, ele se via dissolvido na natureza, em estado de fragmentos, em \u00e1tomos, sem sofrimento, sem pensamento, sem dor! Depois de ter ido ao indefinido, apavorava-se com o aniquilamento e voltava a si, aos seus desejos, \u00e0s suas preocupa\u00e7\u00f5es com pressa e medo. \u2014 Salvador, de que gostas mais, do ingl\u00eas ou franc\u00eas? \u2014 Eu do franc\u00eas; e tu? \u2014 Do ingl\u00eas. \u2014 Porque? Porque pouca gente o sabe.<\/p>\n<p>A confid\u00eancia sa\u00eda-lhe a contragosto, era dita sem querer. Temeu que o amigo o supusesse vaidoso. N\u00e3o era bem esse sentimento que o animava; era uma vontade de distin\u00e7\u00e3o, de refor\u00e7ar a sua individualidade, que ele sentia muito diminu\u00edda pelas circunst\u00e2ncias ambientes. O amigo n\u00e3o entrava na natureza do seu sentimento e despreocupadamente perguntou: \u2014 Hor\u00e1cio, j\u00e1 assististe uma festa de S\u00e3o Jo\u00e3o? \u2014 Nunca. \u2014 Queres assistir uma? Quero, onde ? \u2014 Na ilha, em casa de meu tio.<\/p>\n<p>Pela \u00e9poca, a madrinha consentiu. Era um espet\u00e1culo novo; era um outro mundo que se abria aos seus olhos. Aquelas longas curvas das praias, que perspectivas novas n\u00e3o abriam em seu esp\u00edrito! Ele se ia todo nas cristas brancas das ondas e nos largos horizontes que descortinava.<\/p>\n<p>Em chegando a noite, afastou-se da sala. N\u00e3o entendia aqueles folguedos, aquele dan\u00e7ar s\u00f4frego, sem pausa, sem alegria, como se fosse um castigo. Sentado a um banco do lado de fora, p\u00f4s-se a apreciar a noite, isolado, oculto, fugido, solit\u00e1rio, que se sentia ser no ru\u00eddo da vida. Do seu canto escuro, via tudo mergulhado numa vaga semi luz. No c\u00e9u negro, a luz p\u00e1lida das estrelas; na cidade defronte, o rev\u00e9rbero da ilumina\u00e7\u00e3o; luz, na fogueira votiva, nos bal\u00f5es ao alto, nos foguetes que espoucavam, nos fogar\u00e9us das proximidades e das dist\u00e2ncias \u2014 luzes cont\u00ednuas, instant\u00e2neas, p\u00e1lidas, fortes; e todas no conjunto pareciam representar um esfor\u00e7o enorme para espancar as trevas daquela noite de mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>No seio daquela bruma iluminada, as formas das \u00e1rvores boiavam como espectros; o murm\u00fario do mar tinha alguma coisa de penalizado diante do esfor\u00e7o dos homens e dos astros para clarear as trevas. Havia naquele instante, em todas as almas, um louco desejo de decifrar o mist\u00e9rio que nos cerca; e as fantasias trabalhavam para idear meios que nos fizessem comunicar com o Ignorado, com o Invis\u00edvel. Pelos cantos sombrios da ch\u00e1cara pessoas deslizavam. Iam ao po\u00e7o ver a sombra \u2014 sinal de que viveriam o ano; iam disputar galhos de arruda ao diabo; pelas janelas, deixavam copos com ovos partidos para que o sereno, no dia seguinte, trouxesse as mensagens do Futuro.<\/p>\n<p>O menino, sentindo-se arrastado por aquele fr\u00eamito de aug\u00fario e feiti\u00e7aria, percebeu bem como vivia envolvido, mergulhado, no indistinto, no indecifr\u00e1vel; e uma onda de pavor, imensa e aterradora, cobriu-lhe o sentimento.<\/p>\n<p>Dolorosos foram os dias que se seguiram. O esp\u00edrito sacolejou-lhe o corpo violentamente. Com afinco estudava, lia os comp\u00eandios; mas n\u00e3o compreendia, nada retinha. O seu entendimento como que vazava. Voltava, lia, lia e lia e, em seguida, virava as folhas sofregamente, nervosamente, como se quisesse descobrir debaixo delas um outro mundo cheio de bondade e satisfa\u00e7\u00e3o. Horas havia que ele desejava abandonar aqueles livros, aquela lenta aquisi\u00e7\u00e3o de no\u00e7\u00f5es e id\u00e9ias, reduzir-se e anular-se; horas havia, por\u00e9m, que um desejo ardente lhe vinha de saturar-se de saber, de absorver todo o conjunto das ci\u00eancias e das artes. Ia de um sentimento para outro; e foi v\u00e3 a agita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o encontrava solu\u00e7\u00e3o, sa\u00edda; a desordem das id\u00e9ias e a incoer\u00eancia das sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o lhe podiam dar uma e cavavam-lhe a sa\u00fade. Tornou-se mais fl\u00e9bil, fatigava-se facilmente. Amanhecia cansado de dormir e dormia cansado de estar em vig\u00edlia. Vivia irritado, raivoso, n\u00e3o sabia contra quem.<\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, ao entrar na sala de jantar, deu com o padrinho a ler os jornais, segundo o seu h\u00e1bito querido.<\/p>\n<p>\u2014 Hor\u00e1cio, voc\u00ea passe na casa do Guedes e traga-me a roupa que mandei consertar.<\/p>\n<p>\u2014 Mande outra pessoa buscar.<\/p>\n<p>\u2014 O que? \u2014 N\u00e3o trago.<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato! Era de esperar&#8230;<\/p>\n<p>E o menino ficou admirado diante de si mesmo, daquela sa\u00edda de sua habitual timidez.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia onde tinha ido buscar aquele desaforo imerecido, aquela tola m\u00e1-cria\u00e7\u00e3o; saiu-lhe como uma coisa soprada por outro e que ele unicamente pronunciasse.<\/p>\n<p>A madrinha interveio, aplainou as dificuldades; e, com a agilidade de esp\u00edrito peculiar ao sexo, compreendeu o estado d&#8217;alma do rapaz. Reconstituiu-o com os gestos, com os olhares, com as meias palavras, que percebera em tempos diversos e cuja significa\u00e7\u00e3o lhe escapara no momento, mas que aquele ato, desusadamente brusco e violento, aclarava por completo. Viu-lhe o sofrimento de viver \u00e0 parte, a transplanta\u00e7\u00e3o violenta, a falta de simpatia, o princ\u00edpio de ruptura que existia em sua alma, e que o fazia passar aos extremos das sensa\u00e7\u00f5es e dos atos.<\/p>\n<p>Disse-lhe coisas doces, ralhou-o, aconselhou-o, acenou-lhe com a fortuna, a gl\u00f3ria e o nome.<\/p>\n<p>Foi Hor\u00e1cio para o col\u00e9gio abatido, preso de um estranho sentimento de repulsa, de nojo por si mesmo. Fora ingrato, de fato; era um monstro. Os padrinhos lhe tinham dado tudo, educado, instru\u00eddo. Fora sem querer, fora sem pensar; e sentia bem que a sua reflex\u00e3o n\u00e3o entrara em nada naquela resposta que dera ao padrinho. Em todo o caso, as palavras foram suas, foram ditas com sua voz e a sua boca, e se lhe nasceram do \u00edntimo sem a colabora\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia, devia acusar- se de ser fundamentalmente mau&#8230;<\/p>\n<p>Pela segunda aula, pediu licen\u00e7a. Sentia-se doente, do\u00eda-lhe a cabe\u00e7a e parecia que lhe passavam um archote fumegante pelo rosto.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1, Hor\u00e1cio? Perguntou-lhe a madrinha, vendo-o entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Estou doente.<\/p>\n<p>E dirigiu-se para o quarto. A madrinha seguiu-o. Chegado que foi, atirou-se \u00e0 cama, ainda meio-vestido.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 que voc\u00ea tem, meu filho? \u2014 Dores de cabe\u00e7a&#8230; um calor&#8230;<\/p>\n<p>A madrinha tomou-lhe o pulso, assentou as costas da m\u00e3o na testa e disse-lhe ainda algumas palavras de consola\u00e7\u00e3o : que aquilo n\u00e3o era nada; que o padrinho n\u00e3o lhe tinha rancor; que sossegasse.<\/p>\n<p>O rapaz, deitado, com os olhos semicerrados, parecia n\u00e3o ouvir; voltava-se de um lado para outro; passava a m\u00e3o pelo rosto, arquejava e debatia-se. Um instante pareceu sossegar; ergueu-se sobre o travesseiro e chegou a m\u00e3o aos olhos, no gesto de quem quer avistar alguma coisa ao longe. A estranheza do gesto assustou a madrinha.<\/p>\n<p>\u2014 Hor\u00e1cio!&#8230; Hor\u00e1cio!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Estou dividido&#8230; N\u00e3o sai sangue&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hor\u00e1cio, Hor\u00e1cio, meu filho ! \u2014 Faz sol&#8230; Que sol !&#8230; Queima&#8230;\u00c1rvores enormes&#8230; Elefantes&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hor\u00e1cio, que \u00e9 isso? Olha; \u00e9 tua madrinha! \u2014 Homens negros&#8230; fogueiras&#8230; Um se estorce&#8230; Chi ! Que coisa!&#8230; O meu peda\u00e7o dan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hor\u00e1cio! Genoveva, traga \u00e1gua de flor&#8230; Depressa, um m\u00e9dico&#8230; V\u00e1 chamar, Genoveva! \u2014 J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo&#8230; \u00e9 outro&#8230; lugar, mudou&#8230; uma casinha branca&#8230; carros de bois&#8230; nozes&#8230; figos&#8230; len\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acalma-te, meu filho! \u2014 U\u00e9! Chi! Os dois brigam&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante a prostra\u00e7\u00e3o tomou-o inteiramente. As \u00faltimas palavras n\u00e3o sa\u00edam perfeitamente articuladas. Pareceu sossegar. O m\u00e9dico entrou, tomou a temperatura, examinou-o e disse com a m\u00e1xima seguran\u00e7a: \u2014 N\u00e3o se assuste, minha senhora. \u00c9 del\u00edrio febril, simplesmente. D\u00ea-lhe o purgante, depois as c\u00e1psulas, que, em breve, estar\u00e1 bom.<\/p>\n<p><strong>Fim<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ads-baixo\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto A Ant\u00f4nio Noronha Santos &#8220;Chaque progr\u00e8s, au fond, est un avortement Mais l&#8217;\u00e9chec m\u00eame sert&#8221;.Guyau Absolutamente n\u00e3o pode continuar assim&#8230; J\u00e1 passa&#8230; \u00c9 todo o dia! Arre! \u2014 Mas \u00e9 meu filho, minh&#8217;ama. E que tem isso? Os filhos de voc\u00eas agora t\u00eam tanto luxo. 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