{"id":108885,"date":"2017-02-15T09:12:13","date_gmt":"2017-02-15T11:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108885"},"modified":"2017-02-15T09:12:13","modified_gmt":"2017-02-15T11:12:13","slug":"o-falso-dom-henrique-v","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-falso-dom-henrique-v","title":{"rendered":"O Falso Dom Henrique V"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Nas notas da minha viagem \u00e0 Rep\u00fablica da Bruzundanga, que devem aparecer brevemente, eu me abstive, para n\u00e3o tornar enfadonho o livro, de tratar da sua hist\u00f3ria. N\u00e3o que ela deixe, por isso ou aquilo, de ser interessante; mas por ser trabalhosa a tarefa, \u00e0 vista das muitas identifica\u00e7\u00f5es das datas de certos fatos, que exigiam uma paciente transposi\u00e7\u00e3o de sua cronologia para a nossa e tamb\u00e9m porque certas formas de dizer e de pensar s\u00e3o muito expressivas na l\u00edngua de l\u00e1, mas que numa tradu\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea para a de c\u00e1 ficariam sem sal, sem o sainete pr\u00f3prio, a menos que n\u00e3o quisesse eu deter-me anos em tal af\u00e3.<\/p>\n<p>Conquanto n\u00e3o seja rigorosamente cient\u00edfico, como diria um antigo aluno da \u00c9cole Nationale des Chartes, de Paris; conquanto n\u00e3o seja assim, eu tomei a resolu\u00e7\u00e3o her\u00f3ica de aproximar a grosso modo, nesta breve not\u00edcia, os mais peculiares \u00e0 Bruzundanga dos nossos nomes portugueses e nomes t\u00edpicos assim como, do nosso calend\u00e1rio usual, as datas da cronologia nacional da Rep\u00fablica da Bruzundanga, que seria obrigado a fazer refer\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que o nome do principal personagem desta narra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem o germano-luso Henrique Costa; mas, no falar da Rep\u00fablica de que trato, Henbe-en-Rhinque.<\/p>\n<p>Avisados disso os eruditos, estou certo de que n\u00e3o tomar\u00e3o por inqualific\u00e1vel ignor\u00e2ncia da minha parte esse traduzir fant\u00e1stico \u00e0s vezes, mesmo, s\u00f3 se baseando na simples homofonia dos voc\u00e1bulos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do falso Dom Henrique, que foi Imperador da Bruzundanga, \u00e9 muito semelhante \u00e0 daquele falso Dem\u00e9trio que imperou na R\u00fassia onze meses. M\u00e9rim\u00e9e contou-lhe a hist\u00f3ria em um livro estim\u00e1vel.<\/p>\n<p>O imperador Dom Sajon (Shah-Jehon) reinava desde muito e o seu reinado parecia n\u00e3o querer tomar termo. Todos os seus filhos var\u00f5es tinham morrido e a sua heran\u00e7a passava para os seus netos var\u00f5es, os quais nos \u00faltimos anos do seu governo, se haviam reduzido a um \u00fanico.<\/p>\n<p>L\u00e1, conv\u00e9m lembrar, havia uma esp\u00e9cie de lei s\u00e1lica que n\u00e3o permitia princesa no trono, embora, em falta do filho do pr\u00edncipe var\u00e3o, pudessem os filhos delas governar e reinar.<\/p>\n<p>O Imperador Dom Sajon, conquanto fosse desp\u00f3tico, mesmo, em certas vezes, cruel e sanguin\u00e1rio, era amado do povo, sobre o qual a sua c\u00f3lera quase nunca se fazia sentir.<\/p>\n<p>Tinha no cora\u00e7\u00e3o que a sua gente pobre fosse o menos pobre poss\u00edvel; que no seu imp\u00e9rio n\u00e3o houvesse fome; que os nobres e pr\u00edncipes n\u00e3o esmagassem nem espoliassem os camponeses. Espalhava escolas e academias e, aos que se distinguiam, nas letras ou nas ci\u00eancias, dava as maiores fun\u00e7\u00f5es do Estado, sem curar-lhes da origem.<\/p>\n<p>Os nobres fidalgos e mesmo os burgueses enriquecidos do p\u00e9 para a m\u00e3o murmuravam muito sobre a rotina do imperante e o seu viver modesto. Onde \u00e9 que se viu, diziam eles, um imperador que s\u00f3 tem dois pal\u00e1cios? E que pal\u00e1cios imundos! N\u00e3o t\u00eam m\u00e1rmores, n\u00e3o t\u00eam &#8220;frescos&#8221;, n\u00e3o t\u00eam quadros, n\u00e3o t\u00eam est\u00e1tuas&#8230;Ele, continuavam, que \u00e9 dado \u00e0 bot\u00e2nica, n\u00e3o tem um parque, como o menor do Rei da Fran\u00e7a, nem um castelo, como o mais insignificante do Rei da Inglaterra. Qualquer pr\u00edncipe italiano, cujo principado \u00e9 menos do que a sua capital, tem resid\u00eancias dez vezes mais magn\u00edficas do que esse boc\u00f3 de Sanjon.<\/p>\n<p>O imperador ouvia isso da boca dos seus esculcas e espi\u00f5es, mas n\u00e3o dizia nada. Sabia o sangue e a dor que essas constru\u00e7\u00f5es opulentas custam aos povos. Sabia quantas vidas, quantas mis\u00e9rias, quanto sofrimento custou \u00e0 Fran\u00e7a Versalhes. Lembrava-se bem da recomenda\u00e7\u00e3o que Luiz XIV, arrependido, na hora da morte, fez a seu bisneto e herdeiro, pedindo-lhe que n\u00e3o abusasse das constru\u00e7\u00f5es e das guerras, como ele o fizera.<\/p>\n<p>Serviu assim o velho imperador o seu longo reinado sem dar ouvidos aos fidalgos e grandes burgueses, desejosos todos eles de fazer parada das suas riquezas, t\u00edtulos e mulheres belas, em grandes pal\u00e1cios, luxuosos teatros, vastos parques, constru\u00eddos, por\u00e9m, com o suor do povo.<\/p>\n<p>Vivia modestamente, como j\u00e1 foi dito, sem fausto, ou antes com um fausto obsoleto, tanto pelo seu cerimonial propriamente quanto pelos apetrechos de que se servia. O carro de gala tinha sido do seu bisav\u00f4 e, ao que diziam, as libr\u00e9s dos palafreneiros ainda eram da \u00e9poca do pai, vendo-se at\u00e9 em algumas os remendos mal postos.<\/p>\n<p>Perdeu todas as filhas, por isso veio a ficar sendo, afinal, o \u00fanico herdeiro o seu neto Dom Carlos (Kh\u00e1rlithos). Era este um pr\u00edncipe bom como o av\u00f4, mas mais simples e mais triste do que Sanjon.<\/p>\n<p>Vivia sempre afastado, fora da corte e dos fidalgos, num castelo retirado, cercado de alguns amigos, de livros, de flores e \u00e1rvores. Dos prazeres reais e feudais s\u00f3 guardava um: o cavalo. Era a sua paix\u00e3o e ele n\u00e3o s\u00f3 os tinha dos melhores, como tamb\u00e9m, ensaiava cruzamentos, para selecionar as ra\u00e7as nacionais.<\/p>\n<p>Enviuvara dois anos ap\u00f3s um casamento de conveni\u00eancia e do seu enlace houvera um \u00fanico filho &#8211; o Pr\u00edncipe Dom Henrique.<\/p>\n<p>Apesar de vi\u00favo nada se dizia sobre os seus costumes que eram os mais puros e os mais morais que se podem exigir de um homem. O seu \u00fanico v\u00edcio era o cavalo e os passeios a cavalo pelos arredores do seu castelo, \u00e0s vezes com um amigo, \u00e0s vezes com um criado mas quase sempre s\u00f3.<\/p>\n<p>Os amigos \u00edntimos diziam que o seu sofrimento e a sua tristeza vinham de pensar em ser um dia imperador. Ele n\u00e3o disse, mas bem se podia admitir que raciocinasse com aquele pr\u00edncipe do romance que confessa ao primo: &#8220;Pois voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea logo que eu tenho vergonha, nesta \u00e9poca, de me fingir de Carlos Magno, com o tal manto de arminho, abelhas, coroas, ceptro &#8211; voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea mesmo? Fique voc\u00ea com a coroa, se quiser!&#8221;<\/p>\n<p>Dom Carlos n\u00e3o falava assim, pois n\u00e3o era dado a blagues, nem a boutades; mas, de quando em quando, ao sair dos r\u00e1pidos acessos de mutismo e melancolia a que era sujeito, no meio da conversa\u00e7\u00e3o, dizia como num suspiro:<\/p>\n<p>&#8211; No dia em que for imperador, o que farei, meu Deus !<\/p>\n<p>Um belo dia, um pr\u00edncipe t\u00e3o bom como este aparece assassinado num caminho que atravessa uma floresta do seu dom\u00ednio de Cubahand\u00ea, nos arredores da capital.<\/p>\n<p>A dor foi imensa em todos os pontos do imp\u00e9rio e ningu\u00e9m sabia explicar porque pessoa t\u00e3o boa, t\u00e3o ativamente boa, seria trucidada assim misteriosamente. Naquela manh\u00e3, sa\u00edra a cavalo, na Hallumatu, a sua \u00e9gua negra, de um \u00e9bano reluzente, como carb\u00fanculo; e ela voltara desbocada, sem o cavalheiro, para as estrebarias. Procuraram-no e foram encontr\u00e1-lo cad\u00e1ver com uma punhalada no peito.<\/p>\n<p>O povo perquiriu os culpados e boquejou que o assass\u00ednio devia ter sido a mandado de uns parentes long\u00ednquos da fam\u00edlia imperial, em nome da qual, h\u00e1 v\u00e1rios s\u00e9culos, o seu chefe e fundador tinha desistido das suas prerrogativas e privil\u00e9gios feudais, para traficar com escravos malaios. Enriquecidos, aos poucos, entraram de novo na hierarquia de que se tinham degradado voluntariamente, mas n\u00e3o obtiveram o t\u00edtulo de pr\u00edncipes imperiais. Eram somente pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>O assassinato ficou esquecido e o velho Rei Sanjon teimava em viver. Fosse enfraquecimento das faculdades, originado pela velhice, fosse o emprego de sortil\u00e9gios e feiti\u00e7os, como querem os incr\u00e9dulos cronistas de Bruzundanga, o fato \u00e9 que o velho imperador entregou-se de corpo e alma ao mais evidente representante da fam\u00edlia aparentada, a dos Hjanlhianes, o tal que se havia degradado. Fazia este e desfazia no imp\u00e9rio; e falou-se mesmo em permiti-los voltar \u00e0s dignidades imperiais, mediante um senatusconsultum. A isso, o povo e sobretudo o ex\u00e9rcito se opuseram e come\u00e7aram a murmurar. O ex\u00e9rcito era republicano, queria uma rep\u00fablica de verdade, na sua ingenuidade e inexperi\u00eancia pol\u00edtica; os Hjanlhianes logo perceberam que, por a\u00ed, podiam chegar a altas dignidades e muitos deles se fizeram republicanos.<\/p>\n<p>Entretanto, o bisneto de Sanjon continuava seq\u00fcestrado no castelo de Cubahand\u00ea. Devia ter sete ou oito anos.<\/p>\n<p>Quando menos se esperava, num dado momento em que se representava, no Teatro Imperial da Bruzundanga, o Brutus de Voltaire, vinte generais, seis coron\u00e9is, doze capit\u00e3es e cerca de oitenta alferes proclamaram a rep\u00fablica e sa\u00edram para a rua, seguidos de muitos paisanos que tinham ido buscar as armas de flandres, na arrecada\u00e7\u00e3o do teatro, a gritar: Viva a rep\u00fablica! Abaixo o tirano! etc., etc.<\/p>\n<p>O povo, propriamente, vem assim, \u00e0quela hora, nas janelas para ver o que se passava; e, no dia seguinte, quando se soube da verdade, um olhava para o outro e ambos ficavam estupidamente mudos.<\/p>\n<p>Tudo aderiu; e o velho imperador e os seus parentes, exceto os Hjanlhianes, foram exilados. Ficou tamb\u00e9m o pequeno pr\u00edncipe Dom Henrique como ref\u00e9m e sonhou que os imperiais parentes dele n\u00e3o tentariam nenhum golpe de m\u00e3o contra as institui\u00e7\u00f5es populares, que acabavam de trazer a pr\u00f3xima felicidade da Bruzundanga.<\/p>\n<p>Foi escolhida uma junta governativa, cujo chefe foi aquele Hjanlhianes, T\u00e9trech, que era favorito do Imperador Sanjon.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou logo a construir pal\u00e1cios e teatros, a p\u00f4r casas abaixo, para fazer avenidas suntuosas. O dinheiro da receita n\u00e3o chegava, aumentou os impostos, e vexa\u00e7\u00f5es, multas, etc. Enquanto a constituinte n\u00e3o votava a nova Constitui\u00e7\u00e3o, decuplicou os direitos de entrada de produtos estrangeiros manufaturados. Os espertos come\u00e7aram a manter curiosas f\u00e1bricas de produtos nacionais da seguinte forma, por exemplo : adquiriam em outros pa\u00edses solas, sapatos j\u00e1 recortados. Importavam tudo isso, como mat\u00e9ria-prima, livre de impostos, montavam as botas nas suas singulares f\u00e1bricas e vendiam pelo triplo do que custavam os estrangeiros.<\/p>\n<p>Outra forma de extorquir dinheiro ao povo e enriquecer mais ainda os ricos eram as isen\u00e7\u00f5es de direitos alfandeg\u00e1rios.<\/p>\n<p>T\u00e9trech decretou isen\u00e7\u00f5es de direitos para maquinismos, etc., destinados a usinas modelos de a\u00e7\u00facar, por exemplo, e pr\u00eamios para a exporta\u00e7\u00e3o dos mesmos produtos. Os ricos somente podiam mant\u00ea-los e trataram de faz\u00ea-lo logo. Fabricaram a\u00e7\u00facar \u00e0 vontade, mas mandavam para o exterior, pela metade do custo, a quase totalidade da produ\u00e7\u00e3o, pois os pr\u00eamios cobriam o preju\u00edzo e o encarecimento fatal de produto, nos mercados da Bruzundanga, tamb\u00e9m. Nunca houve tempo, em que se inventassem com tanta perfei\u00e7\u00e3o tantas ladroeiras legais.<\/p>\n<p>A fortuna particular de alguns, em menos de dez anos, quase que quintuplicou; mas o Estado, os pequenos burgueses e o povo, pouco a pouco, foram caindo na mis\u00e9ria mais atroz.<\/p>\n<p>O povo do campo, dos latif\u00fandios (fazendas) e empresas deixou a agricultura e correu para a cidade atra\u00eddo pela alta dos sal\u00e1rios; era, por\u00e9m, uma ilus\u00e3o, pois a vida tornou-se car\u00edssima. Os que l\u00e1 ficaram, ro\u00eddos pelas doen\u00e7as e pela bebida, deixavam-se ficar vivendo num des\u00e2nimo de agruras.<\/p>\n<p>Os sal\u00e1rios eram baix\u00edssimos e n\u00e3o lhes davam com o que se alimentassem razoavelmente; andavam quase nus; as suas casas eram suj\u00edssimas e cheias de insetos parasitas, transmissores de mol\u00e9stias terr\u00edveis. A ra\u00e7a da Bruzundanga tinha por isso uma caligem de tristeza que lhe emprestava tudo quanto ela continha: as armas, o escachoar das cachoeiras, o canto doloroso dos p\u00e1ssaros, o cicio da chuva nas cobertas de sap\u00e9 da cho\u00e7a &#8211; tudo nela era dor, choro e tristeza. Dir-se-ia que aquela terra t\u00e3o velha se sentia aos poucos sem viver&#8230;<\/p>\n<p>Antes disso, por\u00e9m, houve um acontecimento que abalou profundamente o povo. O Pr\u00edncipe Dom Henrique e o seu preceptor, Dom Hobhathy, foram encontrados numa tarde, afogados num lago do jardim do castelo de Cubahand\u00ea. A nova correu c\u00e9lere por todo o pa\u00eds, mas ningu\u00e9m quis acreditar no fato, tanto mais que T\u00e9trech Hjanlhianes mandou executar todos os servidores do pal\u00e1cio. Se ele os mandou matar, considerava a gente humilde, \u00e9 porque n\u00e3o queria que ningu\u00e9m dissesse que o menino tinha fugido. E n\u00e3o saiu da\u00ed. Os padres das aldeias e arraiais, que se viam vexados e perseguidos &#8211; os das cidades sempre dispostos a esmagar aqueles, para servir os potentados nas suas viol\u00eancias e opress\u00f5es contra os trabalhadores rurais &#8211; n\u00e3o cessavam de manter veladamente essa cren\u00e7a da exist\u00eancia do Pr\u00edncipe Henrique. Estava oculto, havia de aparecer&#8230;<\/p>\n<p>Sofrimentos de toda a ordem ca\u00edram sobre o pobre povo da ro\u00e7a e do sert\u00e3o; priva\u00e7\u00f5es de toda a natureza ca\u00edram sobre ele; e colaram-lhe a fria sanguessuga, a ventosa dos impostos, cujo produto era empregado diretamente, num fausto governamental de opereta, e, indiretamente, numa ostenta\u00e7\u00e3o rid\u00edcula de ricos sem educa\u00e7\u00e3o nem instru\u00e7\u00e3o. Para beneficio geral, nada .<\/p>\n<p>A Bruzundanga era um sarc\u00f3fago de m\u00e1rmore, ouro e pedrarias, em cujo seio, por\u00e9m, o cad\u00e1ver mal embalsamado do povo apodrecia e fermentava.<\/p>\n<p>De norte a sul, sucediam-se epidemias de loucuras, umas maiores, outras menores. Para debelar uma, foi preciso um verdadeiro ex\u00e9rcito de vinte mil homens. No interior era assim: nas cidades, os hosp\u00edcios e asilos de alienados regurgitavam. O sofrimento e a pen\u00faria levavam ao \u00e1lcool, &#8220;para esquecer&#8221;; e o \u00e1lcool levava ao manic\u00f4mio.<\/p>\n<p>Profetas regurgitavam, cartomantes, pr\u00e1ticos de feiti\u00e7aria, abusos de toda a ordem. A prostitui\u00e7\u00e3o, clara ou clandestina, era quase geral, de alto a baixo; e os adult\u00e9rios cresciam devido ao m\u00fatuo engano dos nubentes em repres\u00e1lia, um ao outro, fortuna ou meios, de obt\u00ea-la. Na classe pobre, tamb\u00e9m, por cont\u00e1gio. Apesar do luxo tosco, b\u00e1rbaro e bronco, dos pal\u00e1cios e &#8220;perspectivas&#8221; cenogr\u00e1ficas, a vida das cidades era triste, de provocar l\u00e1grimas. A indol\u00eancia dos ricos tinha abandonado as alturas dela, as suas colinas pitorescas, e os pobres, os mais pobres, de mistura em toda esp\u00e9cie de desgra\u00e7ados criminosos e vagabundos, ocupavam as emin\u00eancias urbanas com casebres miser\u00e1veis, sujos, frios, feitos de t\u00e1buas de caix\u00f5es de sab\u00e3o e cobertos com folhas desdobradas de latas em que veio acondicionado o querosene.<\/p>\n<p>Era a coroa, o laurel daquela glacial transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8230;<\/p>\n<p>As dores do pa\u00eds tiveram eco num peito r\u00fastico e humilde. Surgiu num domingo o profeta, que gemia por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Rapidamente, pela na\u00e7\u00e3o toda, foram conhecidas as profecias, em verso, do professor Lopes. Quem era? Numa aldeia da prov\u00edncia de Auril\u00e2ndia, um velho mesti\u00e7o que tivera algumas luzes de semin\u00e1rio e vivera muito tempo a ensinar as primeiras letras, apareceu alistando profecias, umas claras, outras confusas. Em instantes, espalharam-se pelo pa\u00eds e foram do ouvido do povo cr\u00e9dulo ao entendimento do burgu\u00eas com algumas luzes.<\/p>\n<p>Todos os que tinham &#8220;a f\u00e9 no cora\u00e7\u00e3o&#8221; ouviram-nas; e todos queriam o reaparecimento d&#8217;Ele, do pequeno Imperador Dom Henrique, que n\u00e3o fora assassinado. A tens\u00e3o espiritual chegava ao auge; a mis\u00e9ria batia em todos os pontos, uma epidemia desconhecida de tal forma foi violenta que, na capital da Bruzundanga, foi preciso apelar para a caridade dos gal\u00e9s, a fim de enterrar os mortos!&#8230;<\/p>\n<p>Desaparecida que ela foi, muito tempo, a cidade, os sub\u00farbios, at\u00e9 as estradas rurais cheiravam a defunto&#8230;<\/p>\n<p>E quase todas recitavam como ora\u00e7\u00e3o, as profecias do professor Lopes: .<\/p>\n<p>Este pa\u00eds da Bruzundanga<\/p>\n<p>Parece de Deus deslembrado.<\/p>\n<p>Nele, o povo anda na canga<\/p>\n<p>Amarelo, pobre, esfaimado.<\/p>\n<p>Houve fome, seca e peste<\/p>\n<p>Brigas e saques tamb\u00e9m<\/p>\n<p>E agora a \u00e1gua investe<\/p>\n<p>Sem cobrir a guerra que vem.<\/p>\n<p>No ano que tem dois sete<\/p>\n<p>Ele por for\u00e7a voltar\u00e1<\/p>\n<p>E oito ningu\u00e9m sofrer\u00e1.<\/p>\n<p>Pois flagelos j\u00e1 s\u00e3o sete<\/p>\n<p>E oito ningu\u00e9m sofrer\u00e1.<\/p>\n<p>Estes toscos versos eram sabidos de cor por toda a gente e recitados em uma un\u00e7\u00e3o m\u00edstica. O governo tentou desmoraliz\u00e1-los, por interm\u00e9dio dos seus jornais, mas n\u00e3o conseguiu. O povo acreditava. Tentou prender Lopes mas recuou, diante da amea\u00e7a de uma subleva\u00e7\u00e3o em massa da prov\u00edncia de Auril\u00e2ndia. As coisas pareciam querer sossegar, quando se anunciou que, nesta pen\u00faria, aparecera o Pr\u00edncipe Dom Henrique. Em come\u00e7o, ningu\u00e9m fez caso; mas o fato tomou vulto. Todos por l\u00e1 recebiam-no como tal, desde o mais rico at\u00e9 o mais pobre. Um velho servidor do antigo imperador jurou reconhecer, naquele mancebo de trinta anos, o bisneto do seu antigo imperial amo.<\/p>\n<p>Os hjanlhianes, com estes e aquele nome, continuavam a suceder-se no governo, espenicando o saque e a vergonha do pa\u00eds em regra. Tinham, logo que esgotavam as for\u00e7as dos naturais, apelado para a imigra\u00e7\u00e3o, a fim de evitar velhaduras nos seus latif\u00fandios. Vieram homens mais robustos e mais cheios de ousadia, sem mesmo depend\u00eancia sentimental com os dominadores, pois n\u00e3o se deixavam explorar facilmente, como os naturais. Revoltavam-se continuadamente; e os hjanlhianes, esquecidos do mal que tinham dito dos seus patr\u00edcios pobres, deram em animar estes e a tanger o chocalho da p\u00e1tria e do Patriotismo. Mas, era tarde ! Quando se soube que a Bruzundanga tinha declarado guerra ao Imp\u00e9rio dos Oges para que muitos hjanlhianes se metessem em grandes comiss\u00f5es e gorjetas, que os banqueiros da Europa lhes davam, n\u00e3o foi mais a primazia de Auril\u00e2ndia que se conheceu naquele mancebo desconhecido, o seu leg\u00edtimo Imperador Dom Henrique V, bisneto do bom Dom Sajon: foi todo pa\u00eds, oper\u00e1rios, soldados, cansados de curtir mis\u00e9ria tamb\u00e9m; estrangeiros, vagabundos, criminosos, prostitutas, todos enfim, que sofriam.<\/p>\n<p>O chefe dos hjanlhianes morreu como um c\u00e3o, envenenado por ele mesmo ou por outros, no seu pal\u00e1cio, enquanto os seus criados e f\u00e2mulos queimavam no p\u00e1tio, em auto-de-f\u00e9, os tapetes que tinham custado mis\u00e9rias e l\u00e1grimas de um povo d\u00f3cil e bom. A cidade se iluminou; n\u00e3o houve pobre que n\u00e3o pusesse uma vela, um coto, na janela do seu casebre&#8230;<\/p>\n<p>Dom Henrique reinou durante muito tempo e, at\u00e9 hoje, os mais conscienciosos s\u00e1bios da Bruzundanga n\u00e3o afirmam com seguran\u00e7a se ele era verdadeiro ou falso.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tivesse descend\u00eancia, quando chegou aos sessenta anos, aquele s\u00e1bio pr\u00edncipe proclamou por sua pr\u00f3pria boca a rep\u00fablica, que \u00e9 ainda a forma de governo da Bruzundanga mas para a qual, ao que parece, o pa\u00eds n\u00e3o tem nenhuma voca\u00e7\u00e3o. Ela espera ainda a sua forma de governo&#8230;<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ads-baixo\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Nas notas da minha viagem \u00e0 Rep\u00fablica da Bruzundanga, que devem aparecer brevemente, eu me abstive, para n\u00e3o tornar enfadonho o livro, de tratar da sua hist\u00f3ria. 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