{"id":108829,"date":"2017-02-14T18:11:14","date_gmt":"2017-02-14T20:11:14","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108829"},"modified":"2017-02-14T18:11:14","modified_gmt":"2017-02-14T20:11:14","slug":"miss-edith-e-seu-tio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/miss-edith-e-seu-tio","title":{"rendered":"Miss Edith e Seu Tio"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>A pens\u00e3o familiar &#8220;Boa Vista&#8221; ocupava uma grande casa da praia do Flamengo, muito feia de fachada, com dois pavimentos, possuindo bons quartos, uns nascidos com o pr\u00e9dio e outros que a adapta\u00e7\u00e3o ao seu novo destino fizera surgir com a divis\u00e3o de antigas salas e a amputa\u00e7\u00e3o de outros aposentos.<\/p>\n<p>Tinha boas paredes de s\u00f3lida alvenaria de tijolos e pequenas janelas de portadas de granito e linha reta, que olhavam para o mar e para uma rua lateral, \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o devia datar de cerca de sessenta anos atr\u00e1s e, nos seus bons tempos, certamente possuiria, como complemento, uma ch\u00e1cara que se estendia para o lado direito e para os fundos, ch\u00e1cara desaparecida, em cujo ch\u00e3o se erguem atualmente pr\u00e9dios modernos, muito pelintras e enfezados, ao lado da velha, forte e pesadona edifica\u00e7\u00e3o dos outros tempos.<\/p>\n<p>Os aposentos e corredores da obsoleta moradia tinham uma luz especial, uma quase penumbra, esse toque de sombra do interior das velhas casas, no seio da qual flutuam sugest\u00f5es e lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio sofrera acr\u00e9scimos e mutila\u00e7\u00f5es. Da antiga ch\u00e1cara, das mangueiras que a &#8220;vira\u00e7\u00e3o&#8221; todas as tardes penteava a alta cabeleira verde, das jaqueiras, de ramos desorientados, das jabuticabeiras, dos sapotizeiros tristes, s\u00f3 restava um tamarineiro no fundo do ex\u00edguo quintal, para abrigar nos posmer\u00eddios de can\u00edcula, sob os ramos que ca\u00edam lentamente como l\u00e1grimas, algum h\u00f3spede sedent\u00e1rio e amoroso da sombra maternal das grandes \u00e1rvores.<\/p>\n<p>O grande sal\u00e3o da frente &#8211; a sala de honra das recep\u00e7\u00f5es e bailes &#8211; estava dividido em fatias de quartos e dele s\u00f3 ficara, para lembrar o seu antigo e nobre mister, um corredor acanhado, onde os h\u00f3spedes se reuniam, ap\u00f3s o jantar, conversando sentados em cadeiras de vime, ignobilmente mercen\u00e1rias.<\/p>\n<p>Dirigia a pens\u00e3o Mme. Barbosa, uma respeit\u00e1vel vi\u00fava de seus cinq\u00fcenta anos, um tanto gorda e atochada, am\u00e1vel como todas as donas de casas de h\u00f3spedes e ainda bem conservada, se bem que houvesse sido m\u00e3e muitas vezes, tendo at\u00e9 em sua companhia uma filha solteira, de vinte e poucos anos por a\u00ed, Mlle. Irene, que teimava em ficar noiva, de onde em onde, de um dos h\u00f3spedes de sua progenitora.<\/p>\n<p>Mlle. Irene, ou melhor: Dona Irene escolhia com muito cuidado os noivos. Procurava-os sempre entre os estudantes que residiam na pens\u00e3o, e, entre estes, aqueles que estivessem nos \u00faltimos anos do curso, para que o noivado n\u00e3o se prolongasse e o noivo n\u00e3o deixasse de pagar a mensalidade \u00e0 sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o impedia, entretanto, que o insucesso viesse coroar os seus esfor\u00e7os. J\u00e1 fora noiva de um estudante de direito, de um outro de medicina, de um de engenharia e descera at\u00e9 um de dentista sem, contudo, ser levada \u00e0 presen\u00e7a do pretor por qualquer deles.<\/p>\n<p>Voltara-se agora para os empregados p\u00fablicos e toda a gente na pens\u00e3o esperava o seu pr\u00f3ximo enlace com o Senhor Magalh\u00e3es, escritur\u00e1rio da alf\u00e2ndega, h\u00f3spede tamb\u00e9m da &#8220;Boa Vista&#8221;, mo\u00e7o muito estimado pelos chefes, n\u00e3o s\u00f3 pela assiduidade ao emprego como pela compet\u00eancia em cousas de sua burocracia aduaneira e outras mais distantes.<\/p>\n<p>Irene ca\u00edra do seu ideal de doutor at\u00e9 aceitar um burocrata, sem saltos, suavemente; e consolava-se interiormente com essa degrada\u00e7\u00e3o do seu sonho matrimonial, sentindo que o seu namorado era t\u00e3o ilustrado como muitos doutores e tinha razo\u00e1veis vencimentos.<\/p>\n<p>Na mesa, quando a conversa se generalizava, ela via com orgulho Magalh\u00e3es discutir Gram\u00e1tica com o doutor Benevente, um mo\u00e7o formado que escrevia nos jornais, lev\u00e1-lo \u00e0 parede e explicar-lhe tropos de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>E n\u00e3o era s\u00f3 nesse ponto que o seu pr\u00f3ximo noivo demonstrava ser forte; ele o era tamb\u00e9m em Matem\u00e1tica, como provara questionando com um estudante da Polit\u00e9cnica sobre Geometria e com o doutorando Alves altercava sobre a efic\u00e1cia da vacina, dando a entender que conhecia alguma cousa de Medicina.<\/p>\n<p>N\u00e3o era, pois, por esse lado do saber que lhe vinha a ponta de descontentamento. De resto, em que pode interessar a uma noiva o saber do noivo?<\/p>\n<p>Aborrecia-lhe um pouco a pequenez do Magalh\u00e3es, verdadeiramente rid\u00edcula e, ainda por cima, o seu canhestrismo de maneiras e vestu\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o que ela fosse muito alta, como se pode supor; por\u00e9m, algo mais do que ele, era Irene fina de talhe, longa de pesco\u00e7o, ao contr\u00e1rio do futuro noivo que, grosso de corpo e curto de pesco\u00e7o, ainda parecia mais baixo.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, quando j\u00e1 se ia em meio dos preparativos do almo\u00e7o, o t\u00edmpano el\u00e9trico anunciou estrepitosamente um visitante.<\/p>\n<p>Mme. Barbosa, que superintendia na cozinha o preparo da primeira refei\u00e7\u00e3o dos seus h\u00f3spedes, \u00e0quele apelo da campainha el\u00e9trica, de l\u00e1 mesmo gritou \u00e0 Ang\u00e9lica:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 ver quem est\u00e1, Ang\u00e9lica!<\/p>\n<p>Essa Ang\u00e9lica era o bra\u00e7o direito da patroa. Cozinheira, copeira, arrumadeira e lavadeira, exercia alternativamente cada um dos of\u00edcios, quando n\u00e3o dois e mais a um s\u00f3 tempo.<\/p>\n<p>Muito nova, viera para a casa de Mme. Barbosa ao tempo em que esta n\u00e3o era ainda dona de pens\u00e3o; e, em companhia dela, ia envelhecendo sem revoltas, nem desgostos ou maiores desejos.<\/p>\n<p>Confidente da patroa e, tendo visto crian\u00e7as todos os seus filhos, partilhando as alegrias e agruras da casa, recebendo por isso festas e palavras doces de todos, n\u00e3o se julgava bem uma criada, mas uma parenta pobre, a quem as mais ricas haviam recolhido e posto a coberto dos azares da vida inexor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Cultivava por Mme. Barbosa uma gratid\u00e3o ilimitada e procurava com o seu aux\u00edlio humilde minorar as dificuldades da protetora.<\/p>\n<p>Tinha guardado uma ingenuidade e uma simplicidade de crian\u00e7a que, de modo algum, diminu\u00edam a atividade pouco met\u00f3dica e interesseira dos seus quarenta e tantos anos.<\/p>\n<p>Se faltava a cozinheira, l\u00e1 estava ela na cozinha; se bruscamente se despedia a lavadeira, l\u00e1 ia para o tanque; se n\u00e3o havia cozinheira e copeiro, Ang\u00e9lica fazia o servi\u00e7o de uma e de outro; e sempre alegre, sempre agradecida \u00e0 Mme. Barbosa, Dona Sinh\u00e1, como ela chamava e gostava de chamar, n\u00e3o sei por que irreprim\u00edvel manifesta\u00e7\u00e3o de ternura e intimidade.<\/p>\n<p>A preta andava l\u00e1 pelo primeiro andar na faina de arrumar os quartos dos h\u00f3spedes mais madrugadores e n\u00e3o ouviu nem o tinir do t\u00edmpano, nem a ordem da patroa. N\u00e3o tardou que a campainha soasse outra vez e desta, imperiosa e autorit\u00e1ria, forte e rude, dando a entender que falava por ela a pr\u00f3pria alma impaciente e voluntariosa da pessoa que a tocava.<\/p>\n<p>Sentiu a dona da pens\u00e3o que o est\u00fapido aparelho lhe queria dizer qualquer cousa importante e n\u00e3o mais esperou a mansa Ang\u00e9lica. Foi em pessoa ver quem batia. Quando atravessou o &#8220;sal\u00e3o&#8221;, reparou um instante na arruma\u00e7\u00e3o e ainda ajeitou a palmeirita que, no seu pote de faian\u00e7a, se esfor\u00e7ava por embelezar a mesa do centro e fazer gracioso todo o aposento.<\/p>\n<p>Prontificou-se em abrir a porta envidra\u00e7ada e logo encontrou um casal de apar\u00eancia estrangeira. Sem mais pre\u00e2mbulos, o cavalheiro foi dizendo com voz breve e de comando:<\/p>\n<p>\u2014 Mim quer quarto.<\/p>\n<p>Percebeu Mme. Barbosa que lidava com ingleses e, com essa descoberta, muito se alegrou porque, como todos n\u00f3s, ela tinha tamb\u00e9m a imprecisa e parva admira\u00e7\u00e3o que os ingleses, com a sua arrog\u00e2ncia e l\u00edngua pouco compreendida, souberam nos inspirar. De resto, os ingleses t\u00eam fama de dispor de muito dinheiro e ganhem duzentos, trezentos, quinhentos mil-r\u00e9is por m\u00eas, todos n\u00f3s logo os supomos dispondo dos milh\u00f5es dos Rothschilds.<\/p>\n<p>Mme. Barbosa alegrou-se, portanto, com a distin\u00e7\u00e3o social de tais h\u00f3spedes e com a perspectiva dos extraordin\u00e1rios lucros, que certamente lhe daria a riqueza deles. Apressou-se em ir pessoalmente mostrar a t\u00e3o nobres personagens os c\u00f4modos que havia vagos.<\/p>\n<p>Subiram ao primeiro andar e a dona da pens\u00e3o apresentou com os maiores gabos um amplo quarto com vista para a entrada da ba\u00eda &#8211; um rasg\u00e3o na tela mut\u00e1vel do oceano infinito.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que servir\u00e1 este. Aqui morou o doutor Elesb\u00e3o, deputado por Sergipe. Conhecem?<\/p>\n<p>\u2014 Oh, n\u00e3o, fez o ingl\u00eas, secamente.<\/p>\n<p>\u2014 Mando p\u00f4r uma cama de casal&#8230;<\/p>\n<p>Ia continuando Mme. Barbosa, quando o cidad\u00e3o brit\u00e2nico interrompeu-a, como se estivesse zangado:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Mim n\u00e3o \u00e9 casada. Miss aqui, meu sobrinha.<\/p>\n<p>A miss por a\u00ed baixou os olhos cheios de candura e inoc\u00eancia; Mme. Barbosa arrependeu-se da culpa que n\u00e3o tinha, e desculpou-se:<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me&#8230; N\u00e3o sabia&#8230;<\/p>\n<p>E ajuntou logo:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o querem dois quartos?<\/p>\n<p>A companheira do ingl\u00eas, at\u00e9 a\u00ed muda, respondeu com calor pouco brit\u00e2nico:<\/p>\n<p>\u2014 Oh! sim, senhora!<\/p>\n<p>Mme. Barbosa prontificou-se:<\/p>\n<p>\u2014 Tenho, al\u00e9m deste quarto, um outro.<\/p>\n<p>\u2014 Where? perguntou o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Como? fez a propriet\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u2014 Onde? traduziu miss.<\/p>\n<p>\u2014 Ali.<\/p>\n<p>E Mme. Barbosa indicou uma porta quase fronteira \u00e0 do aposento que mostrara em primeiro lugar. Os olhos do ingl\u00eas fuzilaram bruscamente de alegria e, nos de miss, houve um rel\u00e2mpago de satisfa\u00e7\u00e3o. A um tempo, exclamaram:<\/p>\n<p>\u2014 Muito bom!<\/p>\n<p>\u2014 All right!<\/p>\n<p>Examinaram com pressa os aposentos e j\u00e1 se dispunham a descer quando, no patamar da escada, se encontraram com a Ang\u00e9lica. A preta olhou-os demorada e fixamente, com espanto e respeito; parou ext\u00e1tica, como em face de uma vis\u00e3o radiante. A luz morti\u00e7a da clarab\u00f3ia empoeirada, ela viu, naqueles rostos muito alvos, naqueles cabelos louros, naqueles olhos azuis, de um azul t\u00e3o doce e imaterial, santos, g\u00eanios, alguma cousa de orat\u00f3rio, de igreja, da mitologia de suas cren\u00e7as h\u00edbridas e ainda selvagens.<\/p>\n<p>Ao fim de instantes de muda contempla\u00e7\u00e3o, continuou o seu caminho, carregando baldes, jarros, moringues, inebriada na vis\u00e3o, enquanto a sua patroa e os ingleses iniciaram a descida, durante a qual n\u00e3o se cansou Mme. Barbosa de elogiar o sossego e o respeito que havia na sua casa. Mister dizia &#8211; yes; e miss tamb\u00e9m- yes.<\/p>\n<p>Prometeram mandar as malas no dia seguinte e a dona da pens\u00e3o, t\u00e3o comovida e honrada com a futura presen\u00e7a de t\u00e3o soberbos h\u00f3spedes, que nem lhes falou no pagamento adiantado ou fian\u00e7a.<\/p>\n<p>Na porta da rua, ainda madame se deixou ficar embevecida, contemplando os ingleses. Viu-os entrar no bonde; admirou-lhes o imp\u00e9rio verdadeiramente brit\u00e2nico com que ordenaram a parada do ve\u00edculo e a seguran\u00e7a com que se colocaram nele; e s\u00f3 depois de perd\u00ea-los de vista foi que leu o cart\u00e3o que o cavalheiro lhe dera:<\/p>\n<p>\u2014 George T. Mac. Nabs\u2014C. E.<\/p>\n<p>Radiante, certa da prosperidade de sua pens\u00e3o, antevendo a sua futura riqueza e descanso dos seus velhos dias, Dona Sinh\u00e1, no carinhoso tratamento da Ang\u00e9lica, penetrou pelo interior do casar\u00e3o adentro com um demorado sorriso nos l\u00e1bios e uma grande satisfa\u00e7\u00e3o no olhar.<\/p>\n<p>Quando chegou a hora do almo\u00e7o, logo que os h\u00f3spedes se reuniram na sala de jantar, Mme. Barbosa procurou um pretexto para anunciar aos seus comensais a boa nova, a not\u00edcia maravilhosamente feliz da vinda de dois ingleses para a sua casa de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhando a sala, escolhera a mesa que destinaria ao tio e sobrinha. Ficaria a um canto, bem junto \u00e0 \u00faltima janela, que dava para a rua, ao lado, e \u00e0 primeira que se voltava para o quintal. Era o lugar mais fresco da sala e tamb\u00e9m o mais c\u00f4modo, por ficar bem distante das outras mesas. E, pensando nessa homenagem aos seus novos fregueses, de p\u00e9 na sala, encostada ao imenso \u00e9tag\u00e8re, foi que Mme. Barbosa recomendou ao copeiro em voz alta:<\/p>\n<p>\u2014 Pedro, amanh\u00e3 reserve a &#8220;mesa das janelas&#8221; para os novos h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>A sala de jantar da Pens\u00e3o &#8220;Boa Vista&#8221; tinha a cl\u00e1ssica mesa de centro e outras pequenas ao redor. Forrada de papel cor-de-rosa com ramagens, era decorada com umas velhas e empoeiradas oleogravuras, representando pe\u00e7as de ca\u00e7a, mortas, entre as quais um coelho que teimava em voltar o ventre encardido para fora do quadro, dando aos fregueses de Mme. Barbosa sugest\u00f5es de festins luculescos. Havia tamb\u00e9m algumas de frutas e um espelho oval. Era dos poucos compartimentos da casa que n\u00e3o sofrera altera\u00e7\u00e3o o mais bem iluminado. Tinha tr\u00eas janelas que davam para a rua, \u00e0 esquerda, e duas outras, com uma porta ao centro, que miravam o quintal, al\u00e9m das comunica\u00e7\u00f5es interiores.<\/p>\n<p>Ouvindo t\u00e3o imprevista recomenda\u00e7\u00e3o, os h\u00f3spedes todos dirigiram o olhar para ela, cheios de estranheza, como querendo perguntar quem eram os h\u00f3spedes merecedores de t\u00e3o excessiva homenagem; mas a pergunta que estava em todos os olhos s\u00f3 foi feita por Dona Sofia. Sendo a mais antiga h\u00f3spede e possuindo uma razo\u00e1vel renda em pr\u00e9dios e ap\u00f3lices, gozava esta \u00faltima senhora de uma tal ou qual intimidade com a propriet\u00e1ria. Dessa forma, sem rodeios, suspendendo um instante a refei\u00e7\u00e3o j\u00e1 come\u00e7ada, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Quem s\u00e3o esses pr\u00edncipes, madame?<\/p>\n<p>Mme. Barbosa retrucou bem alto e com certo orgulho:<\/p>\n<p>\u2014 Uns ingleses ricos\u2014tio e sobrinha.<\/p>\n<p>Dona Sofia, que farejava desconfiada o contentamento da vi\u00fava Barbosa com os novos inquilinos, n\u00e3o p\u00f4de evitar um movimento de mau humor: arrebitou mais o nariz, j\u00e1 de si arrebitado, deu um muxoxo e observou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gosto desses estrangeiros.<\/p>\n<p>Dona Sofia havia sido casada com um negociante portugu\u00eas que a deixara vi\u00fava rica; por isso, e muito naturalmente, n\u00e3o gostava desses estrangeiros; mas teve logo, para contrari\u00e1-la, a opini\u00e3o do doutor Benevente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o diga tal, Dona Sofia. O que n\u00f3s precisamos \u00e9 de estrangeiros&#8230; Que venham&#8230; Demais, os ingleses s\u00e3o, por todos os t\u00edtulos, credores da nossa admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De h\u00e1 muito, o doutor procurava captar a simpatia da rica vi\u00fava, cuja abastan\u00e7a, famosa na pens\u00e3o, atra\u00eda-o, embora a vulgaridade dela devesse repeli-lo.<\/p>\n<p>Dona Sofia n\u00e3o respondeu \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o do bacharel e continuou a almo\u00e7ar, cheia do mais absoluto desd\u00e9m.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es, no entanto, julgou-se obrigado a dizer qualquer cousa, e o fez nestes termos:<\/p>\n<p>\u2014 O doutor gosta dos ingleses; pois olhe: n\u00e3o simpatizo com eles&#8230; Um povo frio, ego\u00edsta. `<\/p>\n<p>\u2014 E um engano, veio com pressa Benevente. A Inglaterra est\u00e1 cheia de grandes estabelecimentos de caridade, de instru\u00e7\u00e3o, criados e mantidos pela iniciativa particular&#8230; Os ingleses n\u00e3o s\u00e3o esses ego\u00edstas que dizem. O que eles n\u00e3o s\u00e3o \u00e9 esses sentimentais piegas que n\u00f3s somos, choramingas e incapazes. S\u00e3o fortes e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fortes! Uns ladr\u00f5es! Uns usurpadores! exclamou o Major Meto.<\/p>\n<p>Meto era um empregado p\u00fablico, promovido, guindado pela Rep\u00fablica, que impressionava \u00e0 primeira vista pelo seu aspecto de candidato \u00e0 apoplexia. Quem lhe visse o rosto sang\u00fc\u00edneo, o pesco\u00e7o taurino, n\u00e3o lhe podia vaticinar outro fim. Morava com a mulher na pens\u00e3o, desde que casara as filhas; e, tendo sido auxiliar, ou cousa que valha do Marechal Floriano, guardava no esp\u00edrito aquele jacobinismo do 93, jacobinismo de exclama\u00e7\u00f5es e objurgat\u00f3rias, que era o seu modo habitual de falar.<\/p>\n<p>Benevente, muito calmo, sorrindo com ironia superior, como se estivesse a discutir numa academia, com outro confrade, foi ao encontro do advers\u00e1rio furioso:<\/p>\n<p>\u2014 Meu caro senhor; \u00e9 do mundo: os fortes devem vencer os fracos. Estamos condenados&#8230;<\/p>\n<p>O bacharel usava e abusava desse f\u00e1cil darwinismo de segunda m\u00e3o; era o seu sistema favorito, com o qual se dava ares de erudi\u00e7\u00e3o superior. A bem dizer, nunca lera Darwin e confundia o que o pr\u00f3prio s\u00e1bio ingl\u00eas chama de met\u00e1foras, com realidades, exist\u00eancias, verdades inconcussas. Do que a cr\u00edtica tem oposto aos exageros dos disc\u00edpulos de Darwin, dos seus amplificadores liter\u00e1rios ou sociais, do que, enfim, se vem chamando as limita\u00e7\u00f5es do darwinismo, ele nada sabia, mas falava com a seguran\u00e7a de inovador de h\u00e1 quarenta anos passados e \u00eanfase de bacharel recente, sem as hesita\u00e7\u00f5es e d\u00favidas do verdadeiro estudioso, como se tivesse entre as m\u00e3os a explica\u00e7\u00e3o cabal do mist\u00e9rio da vida e das sociedades. Essa seguran\u00e7a, certamente inferior, dava-lhe for\u00e7a e o impunha aos tolos e n\u00e9scios; e, s\u00f3 uma intelig\u00eancia mais fina, mais apta a desmontar m\u00e1quinas de embuste, seria capaz de fazer reservas discretas aos m\u00e9ritos de Benevente. Na pens\u00e3o, por\u00e9m, onde as n\u00e3o havia, todos recebiam aquelas afirma\u00e7\u00f5es como ousadias inteligentes, s\u00e1bias e ultramodernas.<\/p>\n<p>Melo, ouvindo a afirma\u00e7\u00e3o do doutor, n\u00e3o se conteve, exaltou-se e exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 E por isso que n\u00e3o progredimos&#8230; Homens h\u00e1, como o senhor, que dizem tais cousas&#8230; N\u00f3s precis\u00e1vamos de Floriano&#8230; Aquele sim&#8230;<\/p>\n<p>O nome de Floriano era para Melo uma esp\u00e9cie de amuleto patri\u00f3tico, de \u00e9gide da nacionalidade. O seu g\u00eanio pol\u00edtico seria capaz de fazer todos os milagres, de realizar todos os progressos e modifica\u00e7\u00f5es na \u00edndole do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Benevente n\u00e3o lhe deixou muito tempo e objetou, pondo de lado a parte de Floriano:<\/p>\n<p>\u2014 E um fato, meu caro senhor. O nosso amor \u00e0 verdade leva-nos a tal convic\u00e7\u00e3o. Que se h\u00e1 de fazer? A ci\u00eancia prova.<\/p>\n<p>A palavra altissonante de ci\u00eancia, pronunciada naquela sala mediocremente espiritual, ressoou com estrid\u00eancias de clarim a anunciar vit\u00f3ria. Dona Sofia virou-se e olhou com espanto o bacharel; Magalh\u00e3es abaixou afirmativamente a cabe\u00e7a; Irene arregalou os olhos; e Mme. Barbosa deixou de arrumar as x\u00edcaras de ch\u00e1 no \u00e9tug\u00e8re.<\/p>\n<p>Melo n\u00e3o discutiu mais e Benevente continuou a exaltar as virtudes dos ingleses. Todos concordaram com ele sobre os grandes m\u00e9ritos do povo brit\u00e2nico: a sua capacidade de iniciativa, a sua aud\u00e1cia comercial, industrial e financeira, a sua honestidade, a sua lealdade e, sobretudo, rematou Florentino: a sua moralidade.<\/p>\n<p>\u2014 Na Inglaterra, afirmou este \u00faltimo, os rapazes se casam t\u00e3o puros como as raparigas.<\/p>\n<p>Irene enrubesceu ligeiramente e Dona Sofia levantou-se estrepitosamente, arrastando a cadeira em que estava sentada.<\/p>\n<p>Florentino, h\u00f3spede quase sempre mudo, era um velho juiz de direito aposentado, espiritista convencido, que vagava no mundo o olhar perdido de quem perscruta o invis\u00edvel.<\/p>\n<p>N\u00e3o percebeu que a sua afirma\u00e7\u00e3o havia escandalizado as senhoras e continuou serenamente:<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 esse nosso desregramento, essa falta de respeito, essa impudic\u00edcia de costumes&#8230; H\u00e1 moral&#8230; O senhor quer ver uma cousa: outro dia fui ao teatro. Quer saber o que me aconteceu? N\u00e3o pude ficar l\u00e1&#8230; Era tal a imoralidade que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que pe\u00e7a era, doutor?\u2014indagou Mme. Barbosa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei bem&#8230; Era Iai\u00e1 me deixe.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o vi, disse candidamente Irene.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o v\u00e1, menina! fez com indigna\u00e7\u00e3o o doutor Florentino. N\u00e3o se esque\u00e7a do que Marcos diz: &#8220;Qualquer que fizer a vontade de Deus, esse \u00e9 meu irm\u00e3o, e minha irm\u00e3, e minha m\u00e3e, isto \u00e9, de Jesus.&#8221;<\/p>\n<p>Florentino gostava dos Evangelhos e os citava a cada passo, com ou sem prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Alguns h\u00f3spedes levantaram-se, muitos j\u00e1 se tinham retirado. A sala esvaziava-se e n\u00e3o tardou que o jovem Benevente se erguesse tamb\u00e9m e sa\u00edsse. Antes passeou pela sala o seu olhar de pequeno s\u00edmio, cheio de pequeninas espertezas, rematou sentenciosamente:<\/p>\n<p>\u2014 Todos os povos fortes, como os homens, s\u00e3o morais, isto \u00e9, s\u00e3o castos, doutor Florentino. Concordo com o senhor.<\/p>\n<p>Conforme tinham prometido, no dia seguinte, vieram as malas dos ingleses; mas n\u00e3o apareceram nesse dia na sala de jantar, nem em outras partes da pens\u00e3o se mostraram aos h\u00f3spedes. S\u00f3 no outro dia imediato, pela manh\u00e3, \u00e0 hora do almo\u00e7o, foram vistos. Entraram sem descansar o olhar sobre ningu\u00e9m; cumprimentaram entre os dentes e foram sentar-se no lugar que Mme. Barbosa lhes indicou.<\/p>\n<p>Como parecessem n\u00e3o gostar dos pratos que lhes foram apresentados, Dona Sinh\u00e1 apressou-se em ir receber as suas ordens e logo se p\u00f4s a par de suas exig\u00eancias e correu \u00e0 cozinha para as provid\u00eancias necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Miss Edith, como se sonhe mais tarde chamar-se a mo\u00e7a inglesa, e o tio comiam calados, lendo cada um para o seu lado, desinteressados de toda a sala.<\/p>\n<p>Vendo Dona Sofia os rapap\u00e9s que a dona da pens\u00e3o fazia ao par albi\u00f4nico, n\u00e3o p\u00f4de deixar de dar um muxoxo, que era o seu modo costumeiro de criticar e desprezar.<\/p>\n<p>Todos, por\u00e9m, olhavam de soslaio para os dois, sem animo de dirigir-lhes a palavra ou fix\u00e1-los mais demoradamente. Assim foi o primeiro e nos dias que se seguiram. A sala fez-se silenciosa; as conversas bulhentos cessaram; e, se algu\u00e9m queria pedir qualquer cousa ao copeiro, falava baixo. Era como se de todos se tivesse apossado a emo\u00e7\u00e3o que a presen\u00e7a dos ingleses trouxera ao d\u00e9bil e infantil esp\u00edrito da preta Ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Os h\u00f3spedes acharam neles n\u00e3o sei o que de superior, de superterrestre; deslumbraram-se e acharam-se de um respeito religioso diante daquelas banal\u00edssimas criaturas nascidas numa ilha da Europa ocidental.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a, mais que o homem, inspirava esse respeito. Ela n\u00e3o tinha a fealdade habitual das inglesas de exporta\u00e7\u00e3o. Era at\u00e9 bem gentil de rosto, com uma boca leve e uns lindos cabelos louros, a puxar para o veneziano de fogo. As suas atitudes eram graves e os seus movimentos lentos, sem pregui\u00e7a ou indol\u00eancia. Vestia-se com simplicidade e discreta eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas era outra coisa: brutal de modos e fisionomia. Posava sempre de Lord Nelson ou Duque de Wellington; olhava todos com desd\u00e9m e superioridade esmagadora e real\u00e7ava essa sua superioridade n\u00e3o usando ceroulas, ou vestindo blusas de jogadores de golf ou bebendo cerveja com rum.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ligaram a ningu\u00e9m na pens\u00e3o e todos suportavam aquele desprezo como justo e digno de entes t\u00e3o superiores.<\/p>\n<p>Nem mesmo \u00e0 tarde, quando, ap\u00f3s o jantar, vinham todos, ou quase, para a sala da frente, eles se dignavam trocar palavras com os companheiros de casa. Afastavam-se e iam para a porta da rua, onde se mantinham geralmente calados: o ingl\u00eas fumando, com os olhos semicerrados, como se incubasse pensamentos transcendentes; e Miss Edith, com o cotovelo direito apoiado no bra\u00e7o da cadeira e a m\u00e3o na face, olhando as nuvens, o c\u00e9u, as montanhas, o mar, todos esses mist\u00e9rios fundidos na hora misteriosa do crep\u00fasculo, como se o quisesse absorver, decifr\u00e1-lo e tirar dele o segredo das cousas futuras. Os poetas que passassem no bonde, certamente, veriam nela uma casta druidesa, uma Veleda, descobrindo naquele instante imperec\u00edvel o que havia de ser pelos dias vindouros em fora.<\/p>\n<p>Eram assim na pens\u00e3o, onde faziam trabalhar as imagina\u00e7\u00f5es no imenso campo do sonho. Benevente julgava-os nobres, um duque e sobrinha; tinham o ar de ra\u00e7a, maneiras de comando, dep\u00f3sito da hereditariedade secular dos seus ancestrais, come\u00e7ando por algum vagabundo companheiro de Guilherme da Normandia; Magalh\u00e3es pensava-os parentes dos Rothschilds; Mme. Barbosa supunha Mr. Mac. Nabs gerente de um banco, metendo todos os dias as m\u00e3os em tesouros da gruta de Ali-Bab\u00e1; Irene admitia que ele fosse um almirante, viajando por todos os mares da terra, a bordo de poderoso coura\u00e7ado; Florentino, que consultara os espa\u00e7os, sabia-os protegidos por um esp\u00edrito superior; e o pr\u00f3prio Meio calara a sua indigna\u00e7\u00e3o jacobina para admirar as fortes botas do ingl\u00eas, que pareciam durar a eternidade.<\/p>\n<p>Todo o tempo em que estiveram na pens\u00e3o, o sentimento, que a respeito deles dominava os seus companheiros de casa, n\u00e3o se modificou. At\u00e9 em alguns cresceu, solidificou-se, cristalizou-se em uma admira\u00e7\u00e3o beata e a pr\u00f3pria Dona Sofia, vendo que a sua considera\u00e7\u00e3o na casa n\u00e3o diminu\u00eda, partilhou a admira\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p>Em Ang\u00e9lica, a cousa tomara fei\u00e7\u00e3o intensamente religiosa. Pela manh\u00e3, quando levava chocolate ao quarto da miss, a pobre preta entrava medrosa, t\u00edmida, sem saber como tratar a mo\u00e7a, se de dona, se de mo\u00e7a, se de patroa, se de minha Nossa Senhora.<\/p>\n<p>Muitas vezes temia interromper-lhe o sono, quebrar-lhe o sereno encanto do rosto adormecido na moldura dos cabelos louros. Deixava o chocolate sobre a mesa de cabeceira; a infus\u00e3o esfriava e a pobre negra era mais tarde repreendida, em uma algaravia inintelig\u00edvel, pela deusa que ela adorava. N\u00e3o se emendava, por\u00e9m; e, se encontrava a inglesa dormindo, a emo\u00e7\u00e3o do momento apagava a lembran\u00e7a da repreens\u00e3o. Ang\u00e9lica deixava o chocolate a esfriar, n\u00e3o despertava a mo\u00e7a e era de novo repreendida.<\/p>\n<p>Em uma dessas manh\u00e3s, em que a preta foi levar o chocolate \u00e0 sobrinha de Mr. George, com grande surpresa sua, n\u00e3o a encontrou no quarto. Em come\u00e7o pensou que estivesse no banheiro; mas havia passado por ele e o vira aberto. Onde estaria? Farejou um milagre, uma ascens\u00e3o aos c\u00e9us, por entre nuvens douradas; e a miss bem o merecia, com o seu rosto t\u00e3o puramente oval e aqueles olhos de c\u00e9u sem nuvens&#8230;<\/p>\n<p>Premida pelo servi\u00e7o, Ang\u00e9lica saiu do aposento da inglesa; e foi nesse instante que viu a santa sair do quarto do tio, em trajes de dormir. O espanto foi imenso, a sua ingenuidade dissipou-se e a verdade queimou-lhe os olhos. Deixou-a entrar no quarto e, c\u00e1 no corredor, mal equilibrando a bandeja nas m\u00e3os, a deslumbrada criada murmurou entre os dentes:<\/p>\n<p>\u2014 Que pouca vergonha! V\u00e1 a gente fiar-se nesses estrangeiros&#8230; Eles s\u00e3o como n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>E continuou pelos quartos, no seu humilde e desprezado mister.<\/p>\n<p>Todos os Santos (Rio de Janeiro), marco de 1914.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto A pens\u00e3o familiar &#8220;Boa Vista&#8221; ocupava uma grande casa da praia do Flamengo, muito feia de fachada, com dois pavimentos, possuindo bons quartos, uns nascidos com o pr\u00e9dio e outros que a adapta\u00e7\u00e3o ao seu novo destino fizera surgir com a divis\u00e3o de antigas salas e a amputa\u00e7\u00e3o de outros aposentos. 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