{"id":108810,"date":"2017-02-14T17:40:05","date_gmt":"2017-02-14T19:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108810"},"modified":"2017-02-14T17:40:05","modified_gmt":"2017-02-14T19:40:05","slug":"como-o-homem-chegou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/como-o-homem-chegou","title":{"rendered":"Como o Homem Chegou"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>Deus est \u00e1 morto; a sua piedade pelos homens matou-o.<\/p>\n<p>Nietzsche<\/p>\n<p>A pol\u00edcia da rep\u00fablica, como toda a gente sabe, \u00e9 paternal e compassiva no tratamento das pessoas humildes que dela necessitam; e sempre, quer se trate de humildes, quer de poderosos, a velha institui\u00e7\u00e3o cumpre religiosamente a lei. Vem-lhe da\u00ed o respeito que aos pol\u00edticos os seus empregados tributam e a procura que ela merece desses homens, quase sempre interessados no cumprimento das leis que discutem e votam.<\/p>\n<p>O caso que vamos narrar n\u00e3o chegou ao conhecimento do p\u00fablico, certamente devido \u00e0 pouca aten\u00e7\u00e3o que lhe deram os rep\u00f3rteres; e \u00e9 pena, pois, se assim n\u00e3o fosse, teriam nele encontrado pretexto para clich\u00eas bem macabramente mortu\u00e1rios que alegrassem as p\u00e1ginas de suas folhas volantes.<\/p>\n<p>O delegado que funcionou na quest\u00e3o talvez n\u00e3o tivesse notado o grande alcance de sua obra; e tanto isso \u00e9 de admirar quanto as conseq\u00fc\u00eancias do fato concordam com luxuriantes sorites de um fil\u00f3sofo sempre capaz de sugerir, do p\u00e9 para a m\u00e3o, nov\u00edssimas est\u00e9ticas aos necessitados de apresent\u00e1-las ao p\u00fablico bem informado.<\/p>\n<p>Sabedores de acontecimento de tal monta, n\u00e3o nos era poss\u00edvel deixar de narr\u00e1-lo com algum minud\u00eancia, para edifica\u00e7\u00e3o dos delegados passados, presentes e futuros.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, tinha a delegacia um movimento desusado. Passavam-se semanas sem que houvesse uma simples pris\u00e3o, uma pequena admoesta\u00e7\u00e3o. A circunscri\u00e7\u00e3o era pacata e ordeira. Pobre, n\u00e3o havia furtos; sem com\u00e9rcio, n\u00e3o havia gatunos; sem ind\u00fastria, n\u00e3o havia vagabundos, gra\u00e7as \u00e0 sua extens\u00e3o e aos capoeir\u00f5es que l\u00e1 havia; os que n\u00e3o tinham domic\u00edlio arranjavam-no facilmente em chocas ligeiras sobre ch\u00e3os de outros donos mal conhecidos.<\/p>\n<p>Os regulamentos policiais n\u00e3o encontravam emprego; os funcion\u00e1rios do distrito viviam descansados e, sem desconfian\u00e7a, olhavam a popula\u00e7\u00e3o do lugarejo. Compunha-se o destacamento de um cabo e tr\u00eas soldados; todos os quatro, gente simples, esquecida de sua condi\u00e7\u00e3o de sustent\u00e1culos do Estado.<\/p>\n<p>O comandante, um cabo gordo que falava arrastando a voz, com a cantante pregui\u00e7a de um carro de bois a chiar, habitava com a fam\u00edlia um rancho pr\u00f3ximo e plantava ao redor melancias, colhendo-as de polpa bem rosada e doce, pelo ver\u00e3o inflex\u00edvel da nossa terra. Um dos soldados tecia redes de pescaria, chumbava-as com cuidado para dar cerco \u00e0s tainhas; e era de v\u00ea-las saltar por cima do fruto de sua ind\u00fastria com a agilidade de acrobatas, agilidade surpreendente naqueles entes sem m\u00e3os e pernas diferenciadas. Um outro camarada matava o \u00f3cio pescando de cani\u00e7o e quase nunca pescava crocorocas, pois diante do mar, da sua infinita grandeza, distra\u00eda-se, lembrando-se das quadrinhas que vinha compondo em louvor de uma beleza local.<\/p>\n<p>Tinham tamb\u00e9m os inspetores de pol\u00edcia essa concep\u00e7\u00e3o id\u00edlica, e n\u00e3o se aborreciam no morno vilarejo. Concei\u00e7\u00e3o, um deles, fabricava carv\u00e3o e os plant\u00f5es os fazia junto \u00e0s caieiras, bem protegidas por cruzes toscas para que o tinhoso n\u00e3o entrasse nelas e fabricasse cinza em vez do combust\u00edvel das engomadeiras. Um seu colega, de nome Nunes, aborrecido com o ar el\u00edsico daquela delegacia, imaginou quebr\u00e1-lo e lan\u00e7ou o jogo do bicho. Era uma cousa inocente: o m\u00ednimo da pule, um vint\u00e9m; o m\u00e1ximo, duzentos r\u00e9is, mas, ao chegar a riqueza do lugar, a\u00ed pelo tempo do caju, quando o sol saudoso da tarde dourava as areias e os frutos amarelos e vermelhos mais se intumesciam nos cajueiros fr\u00e1geis, jogavam-se pules de dez tost\u00f5es.<\/p>\n<p>Vivia tudo em paz; o delegado n\u00e3o aparecia. Se o fazia de m\u00eas em m\u00eas, de semestre em semestre, de ano em ano, logo perguntava: houve alguma pris\u00e3o? Respondiam alvissareiros: n\u00e3o, doutor; e a fronte do doutor se anuviava, como se sentisse naquele desuso do xadrez a morte pr\u00f3xima do Estado, da Civiliza\u00e7\u00e3o e do Progresso.<\/p>\n<p>De onde em onde, por\u00e9m, havia um caso de defloramento e este era o delito, o crime, a infra\u00e7\u00e3o do lugarejo &#8211; um crime, uma infra\u00e7\u00e3o, um delito muito pr\u00f3prio do Para\u00edso, que o tempo, por\u00e9m, levou a ser julgado pelos policiais, quando, nas primeiras eras das nossas origens b\u00edblicas, o fora pelo pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Em geral, os inspetores por eles mesmos resolviam o caso; davam paternos conselhos suas\u00f3rios e a lei sagrava o que j\u00e1 havia sido aben\u00e7oado pelas prateadas folhas das imba\u00fabas, nos capoeir\u00f5es cerrados.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis, por\u00e9m, o delegado deixar que os seus subordinados liquidassem aquele caso. A paciente era filha do Sambabaia, chefe pol\u00edtico do partido do Senador Mela\u00e7o; e o agente era eleitor do partido contr\u00e1rio a Mela\u00e7o. O programa do partido de Mela\u00e7o era n\u00e3o fazer cousa alguma e o do contr\u00e1rio tinha o mesmo ideal; ambos, por\u00e9m, se diziam advers\u00e1rios de morte e essa oposi\u00e7\u00e3o, refletindo-se no caso, embara\u00e7ada sobremodo o subdelegado.<\/p>\n<p>Interrogado, confessara-se o agente pronto a reparar o mal; e, desde h\u00e1 muito, a paciente dera a tal respeito a sua indispens\u00e1vel opini\u00e3o.<\/p>\n<p>A autoridade, entretanto, hesitava, por causa da incompatibilidade pol\u00edtica do casal. As audi\u00eancias se sucediam e aquela era j\u00e1 a quarta. Estavam os soldados at\u00f4nitos com tanta demora, provinda de n\u00e3o saber bem o delegado se, unindo mais uma vez o par, n\u00e3o iria o caso desgostar Mela\u00e7o e mesmo o seu advers\u00e1rio Jati &#8211; ambos senadores poderosos, aquele do governo e este da oposi\u00e7\u00e3o; e, desgostar qualquer dele punha em perigo o seu emprego porque, quase sempre entre n\u00f3s, a oposi\u00e7\u00e3o passa a ser governo e o governo oposi\u00e7\u00e3o instantaneamente. O consentimento dos rapazes n\u00e3o bastava ao caso; era preciso, al\u00e9m, uma reconcilia\u00e7\u00e3o ou uma simples ades\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, o delegado tomava mais uma vez o depoimento do agente, inquirindo-o desta forma:<\/p>\n<p>\u2014J\u00e1 se resolveu?<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, doutor. Estou inteiramente a seu dispor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 bem ao meu. Quero saber se o senhor tem ten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 De que, doutor? De casar? Pois n\u00e3o, doutor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 de casar&#8230; Isto j\u00e1 sei&#8230; E&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas de que deve ser ent\u00e3o, doutor?<\/p>\n<p>\u2014 De entrar para o partido do doutor Mela\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sempre, doutor, fui pelo doutor Jati. N\u00e3o posso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem uma cousa com a outra? O senhor divide o seu voto: a metade d\u00e1 para um e a outra metade para outro. Est\u00e1 a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Mas como?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! O senhor saber\u00e1 arranjar as cousas da melhor forma; e, se o fizer com habilidade, ficarei contente e o senhor ser\u00e1 feliz, porquanto pode arranjar tanto com um como com outro, conforme andar a pol\u00edtica no pr\u00f3ximo quatri\u00eanio, um lugar de guarda dos mangues.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 vaga, doutor.<\/p>\n<p>\u2014 Qual! H\u00e1 sempre vaga, meu caro. O Felizardo n\u00e3o se tem querido alistar, n\u00e3o nasceu aqui, \u00e9 de fora, \u00e9 &#8220;estrangeiro&#8221;; e, dessa maneira, n\u00e3o pode continuar a fiscalizar os mangues. E vaga certa. O senhor adere ou antes: divide a vota\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014Divido ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Por a\u00ed, um dos inspetores veio avisar de que o guarda civil de nome Hane lhe queria falar. O doutor Cunsono estremeceu. Era cousa do chefe, do geral l\u00e1 de baixo; e, de relance, viu o seu h\u00e1bil trabalho de harmonizar Jati e Mela\u00e7o perdido inteiramente, talvez por causa de n\u00e3o ter, naquele ano, efetuado sequer uma pris\u00e3o. Estava na rua, suspendeu o interrogat\u00f3rio e veio receber o visitador com muita ang\u00fastia no cora\u00e7\u00e3o. Que seria?<\/p>\n<p>\u2014 Doutor, foi logo dizendo o guarda, temos um louco.<\/p>\n<p>Diante daquele caso novo, o delegado quis refletir, mas logo o guarda emendou:<\/p>\n<p>\u2014 O doutor Sili&#8230;<\/p>\n<p>Era assim o nome do ajudante do geral inacess\u00edvel; e dele, os delegados t\u00eam mais medo do que do chefe supremo todo-poderoso.<\/p>\n<p>Hane continuou:<\/p>\n<p>\u2014 O doutor Sili mandou dizer que o senhor o prendesse e o enviasse \u00e0 Central.<\/p>\n<p>Cunsono pensou bem que esse neg\u00f3cio de reclus\u00e3o de loucos \u00e9 por demais grave e delicado e n\u00e3o era propriamente da sua compet\u00eancia faz\u00ea-lo, a menos que fossem sem eira nem beira ou amea\u00e7assem a seguran\u00e7a p\u00fablica. Pediu a Hane que o esperasse e foi consultar o escriv\u00e3o. Este serventu\u00e1rio vivia ali de mau humor. O sossego da delegacia o aborrecia, n\u00e3o porque gostasse da agita\u00e7\u00e3o pela agita\u00e7\u00e3o, mas pelo simples fato de n\u00e3o perceber emolumentos ou quer que seja, tendo que viver de seus vencimentos. Aconselhou-se com ele o delegado e ficou perfeitamente informado do que dispunham a lei e a praxe. Mas Sili&#8230;<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 sala, o guarda reiterou as ordens do auxiliar, contando tamb\u00e9m que o louco estava em Manaus. Se o pr\u00f3prio Sili n\u00e3o o mandava buscar, elucidou o guarda, era porque competia a Cunsono deter o &#8220;homem&#8221;, porquanto a sua delegacia tinha costas do oceano e de Manaus se vinha por mar.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito longe, objetou o delegado.<\/p>\n<p>O guarda teve o cuidado de explicar que Sili j\u00e1 vira a distancia no mapa e era bem reduzida: obra de palmo e meio. Cunsono perguntou ainda:<\/p>\n<p>\u2014 Qual a profiss\u00e3o do &#8220;homem&#8221;?<\/p>\n<p>\u2014 E empregado da delegacia fiscal.<\/p>\n<p>\u2014 Tem pai?<\/p>\n<p>\u2014 Tem.<\/p>\n<p>Pensou o delegado que competia ao pai o pedido de interna\u00e7\u00e3o, mas o guarda adivinhou-lhe o pensamento e afirmou:<\/p>\n<p>\u2014 Eu conhe\u00e7o muito e meu primo \u00e9 cunhado dele.<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 Cunsono irritado com as obje\u00e7\u00f5es do escriv\u00e3o e desejava servir a Sili, tanto mais que o caso desafiava a sua compet\u00eancia policial. A lei era ele; e mandou fazer o expediente.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o que, tratou Cunsono de ultimar o enlace de Mela\u00e7o e Jati, por interm\u00e9dio do casamento da filha do Sambabaia. Tudo ficou assentado da melhor forma; e, em pequena hora, voltava o delegado para as ruas onde n\u00e3o policiava, satisfeito consigo mesmo e com a sua tr\u00edplice obra, pois n\u00e3o conv\u00e9m esquecer a sua caridosa interven\u00e7\u00e3o no caso do louco de Manaus.<\/p>\n<p>Tomava a condu\u00e7\u00e3o que devia trazer \u00e0 cidade, quando a lembran\u00e7a do meio de transporte do dementado lhe foi presente. Ao guarda-civil, ao representante de Sili na zona, perguntou por esse instante:<\/p>\n<p>\u2014 Como h\u00e1 de vir o &#8220;sujeito&#8221;?<\/p>\n<p>O guarda, sem atender diretamente \u00e0 pergunta, disse:<\/p>\n<p>\u2014 E&#8230; E, doutor; ele est\u00e1 muito furioso.<\/p>\n<p>Cunsono pensou um instante, lembrou-se dos seus estudos e acudiu:<\/p>\n<p>\u2014 Talvez um coura\u00e7ado&#8230; O &#8220;Minas Gerais&#8221; n\u00e3o serve? Vou requisit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Hane, que tinha pr\u00e1tica do servi\u00e7o e conhecimento dos compassivos processos policiais, refletiu:<\/p>\n<p>\u2014 Doutor: n\u00e3o \u00e9 preciso tanto. O &#8220;carro-forte&#8221; basta para trazer 0 &#8220;homem&#8221;.<\/p>\n<p>Concordou Cunsono e olhou as alturas um instante sem notar as nuvens que vagavam sem rumo certo, entre o c\u00e9u e a terra.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Sili, o doutor Sili, bem como Cunsono, gra\u00e7as \u00e0 pr\u00e1tica que tinham do oficio, dispunham da liberdade dos seus pares com a maior facilidade. Tinham substitu\u00eddo os graves exames \u00edntimos provocados pelos deveres de seus cargos, as perigosas responsabilidades que lhes s\u00e3o pr\u00f3prias, pelo autom\u00e1tico ato de uma assinatura r\u00e1pida. Era um cont\u00ednuo trazer um oficio, logo, sem bem pensar no que faziam, sem l\u00ea-lo at\u00e9, assinavam e ia com essa assinatura um sujeito para a cadeia, onde ficava aguardando que se lembrasse de retir\u00e1-lo de l\u00e1 a sua m\u00e3o distra\u00edda e ligeira.<\/p>\n<p>Assim era; e foi sem dificuldade que atendeu ao pedido de Cunsono no que toca ao carro-forte. Prontamente deu as ordens para que fosse fornecida a seu colega a masmorra ambulante, pior do que masmorra, do que solit\u00e1ria, pois nessas pris\u00f5es sente-se ainda a algidez da pedra, alguma cousa ainda de meiguice de sepultura, mas ainda assim meiguice; mas, no tal carro feroz, \u00e9 tudo ferro, h\u00e1 inexor\u00e1vel antipatia do ferro na cabe\u00e7a, ferro nos p\u00e9s, aos lados uma iga\u00e7aba de ferro em que se vem sentado, im\u00f3vel, e para a qual se entra pelo pr\u00f3prio p\u00e9. E blindada e quem vai nela, levado aos trancos e barrancos de seu respeit\u00e1vel peso e do cal\u00e7amento das vias p\u00fablicas, tem a impress\u00e3o de que se lhe quer poupar a morte por um bombardeio de grossa artilharia para ser empalato aos olhos de um sult\u00e3o. Um requinte de potentado asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Essa pris\u00e3o de Calistenes, blindada, chapeada, coura\u00e7ada, foi posta em movimento; e saiu, abalando o cal\u00e7amento, a chocalhar ferragens, a trovejar pelas ruas afora em busca de um inofensivo.<\/p>\n<p>O &#8220;homem&#8221;, como dizem eles, era um ente pacato, l\u00e1 dos confins de Manaus, que tinha a mania da Astronomia e abandonara, n\u00e3o de todo, mas quase totalmente, a terra pelo c\u00e9u inacess\u00edvel. Vivia com o pai velho nos arrabaldes da cidade e constru\u00edra na ch\u00e1cara de sua resid\u00eancia um pequeno observat\u00f3rio, onde montou lunetas que lhe davam pasto \u00e0 inocente mania. Julgando insuficientes o olhar e as lentes, para chegar ao perfeito conhecimento da Aldebar\u00e3 long\u00ednqua, atirou-se ao c\u00e1lculo, \u00e0 intelig\u00eancia pura, \u00e0 Matem\u00e1tica e a estudar com afinco e f\u00faria de um doido ou de um g\u00eanio.<\/p>\n<p>Em uma terra inteiramente entregue \u00e0 chatinagem e \u00e0 veniaga, Fernando foi tomando a fama de louco, e n\u00e3o era ela sem algum motivo. Certos gestos, certas despreocupa\u00e7\u00f5es e mesmo outras manifesta\u00e7\u00f5es mais palp\u00e1veis pareciam justificar o julgamento comum; entretanto, ele vivia bem com o pai e cumpria os seus deveres razoavelmente. Por\u00e9m, parentes oficiosos e outros long\u00ednquos aderentes entenderam cur\u00e1-lo, como se se curassem assomos de alma e anseios de pensamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhes vinha tal prop\u00f3sito de perversidade inata, mas de estultice cong\u00eanita, juntamente com a comisera\u00e7\u00e3o explic\u00e1vel em parentes. Julgavam que o ser descompassado envergonhava a fam\u00edlia e esse julgamento era refor\u00e7ado pelos cochichos que ouviam de alguns homens esfor\u00e7ados por parecerem inteligentes.<\/p>\n<p>O mais c\u00e9lebre deles era o doutor Barrado, um catita do lugar, cheiroso e apurado no corte das cal\u00e7as. Possu\u00eda esse doutor a obsess\u00e3o das cousas extraordin\u00e1rias, transcendentes, sem par, originais; e, como sabia Fernando simples e desdenhoso pelos mand\u00f5es, sup\u00f4s que ele, com esse procedimento, censurava Barrado por demais mesureiro com os magnates. Come\u00e7ou, ent\u00e3o, Barrado a dizer que Fernando n\u00e3o sabia Astronomia; ora, este \u00faltimo n\u00e3o afirmava semelhante cousa. Lia, estudava e contava o que lia, mais ou menos o que aquele fazia nas salas, com os ditos e opini\u00f5es dos outros.<\/p>\n<p>Houve quem o desmentisse; teimava, no entanto, Barrado no prop\u00f3sito. Entendeu tamb\u00e9m de estudar uma Astronomia e bem oposta \u00e0 de Fernando: a Astronomia do centro da terra. O seu comp\u00eandio favorito era A Morgadinha de Val-Flor e os livros auxiliares: A Dama de Monsoreau e O Rei dos Grilhetas, numa biblioteca de Herschell.<\/p>\n<p>Com isto, e cantando, e espalhando que Fernando vivia nas tascas com vagabundos, auxiliado pelo poeta Machino, o jornalista Cosm\u00e9tico e o antropologista Tucolas, que fazia s\u00e1bias mensura\u00e7\u00f5es nos cr\u00e2nios das formigas, conseguiu emover os simpl\u00f3rios parentes de Fernando, e foi bastante que, de parente para conhecido, de conhecido para Hane, de Hane, para Sili e Cunsono, as coisas se encadeassem e fosse obtida a ordem de partida daquela fortaleza coura\u00e7ada, roncando pelas ruas, chocalhando ferragens, abalando cal\u00e7adas, para ponto t\u00e3o long\u00ednquo.<\/p>\n<p>Quando, por\u00e9m, o carro chegou \u00e0 pra\u00e7a mais pr\u00f3xima, foi que o cocheiro lembrou-se de que n\u00e3o lhe tinham ensinado onde ficava Manaus. Voltou e Sili, com a energia de sua origem brit\u00e2nica, determinou que fretassem uma falua e fossem a reboque do primeiro paquete.<\/p>\n<p>Sabedor do caso e como tivesse conhecimento de que Fernando era desafeto do poderoso chefe pol\u00edtico Sofonias, Barrado que, desde muito, lhe queria ser agrad\u00e1vel, calou o seu despeito, apresentou-se pronto para auxiliar a dilig\u00eancia. Esse chefe pol\u00edtico dispunha de um prestigio imenso e nada entendia de Astronomia; mas, naquele tempo, era a ci\u00eancia da moda e tinham em grande considera\u00e7\u00e3o os membros da Sociedade Astron\u00f4mica, da qual Barrado queria fazer parte.<\/p>\n<p>Sofonias influ\u00eda nas elei\u00e7\u00f5es da Sociedade, como em todas as outras, e podia determinar que Barrado fosse escolhido. Andava, portanto, o doutor captando a boa vontade da potente influ\u00eancia eleitoral, esperando obter, depois de eleito, o lugar de Diretor Geral das Estrelas de Segunda Grandeza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar, pois, que aceitasse t\u00e3o \u00e1rdua incumb\u00eancia e, com Hane e carri\u00e3o, veio at\u00e9 \u00e0 praia; mas n\u00e3o havia canoa, ca\u00edque, bote, jangada, catraia, chalana, falua, lancha, calunga, poveiro, peru, macacuano, pont\u00e3o, alvarenga, saveiro, que os quisesse levar a tais alturas.<\/p>\n<p>Hane desesperava, mas o companheiro, lembrando-se dos seus conhecimentos de Astronomia, indicou um alvitre:<\/p>\n<p>\u2014 O carro pode ir boiando.<\/p>\n<p>\u2014 Como, doutor? E de ferro&#8230; muito pesado, doutor!<\/p>\n<p>\u2014 Qual o qu\u00ea! O &#8220;Minas&#8221;, o &#8220;Arag\u00f3n&#8221;, o &#8220;S\u00e3o Paulo&#8221; n\u00e3o b\u00f3iam? Ele vai, sim!<\/p>\n<p>\u2014 E os burros?<\/p>\n<p>\u2014 Ir\u00e3o a nadar, rebocando o carro.<\/p>\n<p>Curvou-se o guarda diante do saber do doutor e deixou-lhe a miss\u00e3o confiada, conforme as ordens terminantes que recebera.<\/p>\n<p>A calist\u00eanica entrou pela \u00e1gua adentro, consoante as ordens promanadas do saber de Barrado e, logo que achou \u00e1gua suficiente, foi ao fundo com grande desprezo pela hidrost\u00e1tica do doutor. Os burros, que tinham sempre protestado contra a f\u00edsica do jovem s\u00e1bio, partiram os arreios e salvaram-se; e gra\u00e7as a uma poderosa c\u00e1brea, p\u00f4de a almanjarra ser salva tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Havia poucos paquetes para Manaus e o tempo urgia. Barrado tinha ordem franca de fazer o que quisesse. N\u00e3o hesitou e, energicamente, fez reparar as avarias e tratou de embarcar num paquete todo o trem, fosse como fosse.<\/p>\n<p>Ao embarc\u00e1-lo, por\u00e9m, surgiu uma d\u00favida entre ele e o pessoal de bordo. Teimava Barrado que o carro merecia ir para um camarote de primeira classe, teimavam os mar\u00edtimos que isso n\u00e3o era pr\u00f3prio, tanto mais que ele n\u00e3o indicava o lagar dos burros.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil essa quest\u00e3o da coloca\u00e7\u00e3o dos burros. Os homens de bordo queriam que fossem para o interior do navio; mas, objetava o doutor:<\/p>\n<p>\u2014 Morrem asfixiados, tanto mais que s\u00e3o burros e mesmo por isso.<\/p>\n<p>De comum acordo, resolveram telegrafar a Sili para resolver a curiosa contenda. N\u00e3o tardou viesse a resposta, que foi clara e precisa: &#8220;Burros sempre em cima. Sili.&#8221;<\/p>\n<p>Opini\u00e3o como esta, t\u00e3o s\u00e1bia e t\u00e3o verdadeira, t\u00e3o cheia de filosofia e sagacidade da vida, aliviou todos os cora\u00e7\u00f5es e abra\u00e7os fraternais foram trocados entre conhecidos e inimigos, entre amigos e desconhecidos.<\/p>\n<p>A senten\u00e7a era de Salom\u00e3o e houve mesmo quem quisesse aproveitar o apotegma para construir uma nova ordem social.<\/p>\n<p>Restava a pequena dificuldade de fazer entrar o carro para o camarote do doutor Barrado. O conv\u00e9s foi aberto convenientemente, teve a sala de jantar mesas arrancadas e o bendeg\u00f3 ficou no centro dela, em exposi\u00e7\u00e3o, feio e brutal, est\u00fapido e in\u00fatil, como um monstro de museu.<\/p>\n<p>O paquete moveu-se lentamente em demanda da barra. Antes fez uma doce curva, longa, muito suave, reverente \u00e0 beleza da Guanabara. As gaivotas voavam tranq\u00fcilas, cansavam-se, pousavam na \u00e1gua\u2014n\u00e3o precisavam de terra&#8230;<\/p>\n<p>A cidade sumia-se vagarosamente e o carro foi atraindo a aten\u00e7\u00e3o de bordo.<\/p>\n<p>\u2014 O que vem a ser isto?<\/p>\n<p>Diante da almanjarra, muitos viajantes murmuravam protestos contra a presen\u00e7a daquele estafermo ali; outras pessoas diziam que se destinava a encarcerar um bandoleiro da Para\u00edba; outras que era um salva-vidas; mas, quando algu\u00e9m disse que aquilo ia acompanhando um recomendado de Sofonias, a admira\u00e7\u00e3o foi geral e imprecisa.<\/p>\n<p>Um oficial disse:<\/p>\n<p>\u2014 Que constru\u00e7\u00e3o engenhosa!<\/p>\n<p>Um m\u00e9dico afirmou:<\/p>\n<p>\u2014 Que linhas elegantes!<\/p>\n<p>Um advogado refletiu:<\/p>\n<p>\u2014 Que soberba cria\u00e7\u00e3o mental!<\/p>\n<p>Um literato sustentou:<\/p>\n<p>\u2014 Parece um m\u00e1rmore de F\u00eddias!<\/p>\n<p>Um sicofanta berrou:<\/p>\n<p>\u2014 E obra mesmo de Sofonias! Que republicano!<\/p>\n<p>Uma mo\u00e7a adiantou:<\/p>\n<p>\u2014 Deve ter sons magn\u00edficos!<\/p>\n<p>Houve mesmo escala para dar ra\u00e7\u00e3o aos burros, pois os mais graduados se disputavam a honraria. Um criado, por\u00e9m, por ter. passado junto ao monstro e o olhado com desd\u00e9m, quase foi duramente castigado pelos passageiros. O erg\u00e1stulo ambulante vingou-se do servi\u00e7al; durante todo o trajeto perturbou-lhe o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Apesar de ir correndo a viagem sem mais incidentes, quis ao meio dela Barrado desembarcar e continu\u00e1-la por terra. Consultou, nestes termos, Sili: &#8220;Melhor carro ir terra faltam tr\u00eas dedos mar alonga caminho&#8221;; e a resposta veio depois de alguns dias: &#8220;N\u00e3o conv\u00e9m desembarque embora mais curto carro chega sujo. Siga.&#8221;<\/p>\n<p>Obedeceu e o meteorito, durante duas semanas, foi objeto da adora\u00e7\u00e3o do paquete. Nos \u00faltimos dias, quando um qualquer dos passageiros dele se acercava, passava-lhe pelo dorso negro a m\u00e3o espalmada com a contri\u00e7\u00e3o religiosa de um maometano ao tocar na pedra negra da Caaba.<\/p>\n<p>Sofonias, que nada tinha com o caso, n\u00e3o teve nunca noticia dessa tocante adora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Muito rica \u00e9 Manaus, mas, como em todo o Amazonas, nela \u00e9 vulgar a moeda de cobre. E um singular tra\u00e7o de riqueza que muito impressiona o viajante, tanto mais que n\u00e3o se quer outra e as rendas do Estado s\u00e3o avultadas. O Eldorado n\u00e3o conhece o ouro, nem o estima.<\/p>\n<p>Outro tra\u00e7o de sua riqueza \u00e9 o jogo. L\u00e1, n\u00e3o \u00e9 divertimento nem vicio: \u00e9 para quase todos profiss\u00e3o. O valor dos noivos, segundo dizem, \u00e9 avaliado pela m\u00e9dia das paradas felizes que fazem, e o das noivas pelo mesmo processo no tocante aos pais.<\/p>\n<p>Chegou o navio a t\u00e3o curiosa cidade quinze dias ap\u00f3s fazendo uma pl\u00e1cida viagem, com o fetiche a bordo. Desembarc\u00e1-lo foi motivo de absorvente cogita\u00e7\u00e3o para o doutor Barrado. Temia que fosse de novo ao fundo, n\u00e3o porque o quisesse encaminh\u00e1-lo por sobre as \u00e1guas do Rio Negro; mas, pelo simples motivo de que, sendo o cais flutuante, o peso do carri\u00e3o talvez trouxesse desastrosas conseq\u00fc\u00eancias para ambos, cais e carro.<\/p>\n<p>O capataz n\u00e3o encontrava perigo algum, pois desembarcavam e embarcavam pelos flutuantes volumes pesad\u00edssimos, toneladas at\u00e9.<\/p>\n<p>Barrado, por\u00e9m, que era observador, lembrava-se da aventura do rio, e objetou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o s\u00e3o de ferro.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso? fez o capataz.<\/p>\n<p>Barrado, que era observador e inteligente, afinal compreendeu que um quilo de ferro pesa tanto quanto um de algod\u00e3o; e s\u00f3 se convenceu inteiramente disso, como observador que era, quando viu o erg\u00e1stulo em salvamento, rolando pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p>Continuou a ser \u00eddolo e o doutor agastou-se deveras porque o governador visitou a caranguejola, antes que ele o fizesse.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tivesse completas as instru\u00e7\u00f5es para deten\u00e7\u00e3o de Fernando, pediu-as a Sili. A resposta veio num longo telegrama, minucioso e elucidativo. Devia requisitar for\u00e7a ao governador, arregimentar capangas e n\u00e3o desprezar as balas de alt\u00e9ia. Assim fez o comiss\u00e1rio. Pediu uma companhia de soldados, foi \u00e0s alfurjas da cidade catar bravos e adquirir uma confeitaria de alt\u00e9ia. Partiu em demanda do &#8220;homem&#8221; com esse trem de guerra; e, pondo-se cautelosamente em observa\u00e7\u00e3o, lobrigou os \u00f3culos do observat\u00f3rio, donde concluiu que a sua for\u00e7a era insuficiente. Normas para o seu procedimento requereu a Sili. Vieram secas e perempt\u00f3rias: &#8220;Empregue tamb\u00e9m artilharia.&#8221;<\/p>\n<p>De novo p\u00f4s-se em marcha com um parque do Krupp. Desgra\u00e7adamente, n\u00e3o encontrou o homem perigoso. Recolheu a expedi\u00e7\u00e3o a quart\u00e9is; e, certo dia, quando de passeio, por acaso, foi parar a um caf\u00e9 do centro comercial. Todas as mesas estavam ocupadas; e s\u00f3 em uma delas havia um \u00fanico consumidor. A esta ele sentou-se. Travou por qualquer motivo conversa com o mazombo; e, durante alguns minutos, aprendeu com o solit\u00e1rio alguma cousa.<\/p>\n<p>Ao despedirem-se, foi que ligou o nome \u00e0 pessoa, e ficou atarantado sem saber como proceder no momento. A a\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, lhe veio prontamente; e, sem dificuldade, falando em nome da lei e da autoridade, deteve o pacifico ferrabr\u00e1s em um dos bail\u00e9us do c\u00e1rcere ambulante.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia paquete naquele dia e Sili havia recomendado que o trouxessem imediatamente. &#8220;Venha por terra,&#8221; disse ele; e Barrado, lembrado do conselho, tratou de segui-lo. Procurou quem o guiasse at\u00e9 ao Rio, embora lhe parecesse curta e f\u00e1cil a viagem. Examinou bem o mapa e, vendo que a distancia era de palmo e meio, considerou que dentro dela n\u00e3o lhe cabia o carro. Por este e aquele, soube que os fabricantes de mapas n\u00e3o t\u00eam crit\u00e9rio seguro: era fazer uns muito grandes, ou muito pequenos, conforme s\u00e3o para enfeitar livros ou adornar paredes. Sendo assim, a tal distancia de doze polegadas bem podia esconder viagem de um dia e mais.<\/p>\n<p>Aconselhado pelo cocheiro, tomou um guia e encontrou-o no seu antigo conhecido Tucolas, sabedor como ningu\u00e9m do interior do Brasil, pois o palmilhara \u00e0 cata de formigas para bem firmar documentos \u00e0s suas investiga\u00e7\u00f5es antropol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Aceitou a incumb\u00eancia o curioso antropologista de himen\u00f3pteros, aconselhando, entretanto, a modifica\u00e7\u00e3o do itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me parece, Senhor Barrado, que devamos atravessar o Amazonas. Melhor seria, Senhor Barrado, irmos at\u00e9 a Venezuela, alcan\u00e7ar as Guianas e descermos, Senhor Barrado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o teremos rios a atravessar, Tucolas?<\/p>\n<p>\u2014 Homem! Meu caro senhor, eu n\u00e3o sei bem; mas, Senhor Barrado me parece que n\u00e3o, e sabe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Por que?<\/p>\n<p>\u2014 Por que? Porque este Amazonas, Senhor Barrado, n\u00e3o pode ir at\u00e9 l\u00e1, ao Norte, pois s\u00f3 corre de oeste para leste&#8230;<\/p>\n<p>Discutiram assim sabiamente o caminho; e, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que manifestava o seu profundo trato com a geografia da Am\u00e9rica do Sul, mais Tucolas passava a m\u00e3o pela cabeleira de inspirado.<\/p>\n<p>Achou que os conselhos do doutor eram justos, mas temia as surpresas do carr\u00e3o. Ora, ia ao fundo, por ser pesado; ora, sendo pesado, n\u00e3o fazia ir ao fundo fr\u00e1geis flutuantes. N\u00e3o fosse ele estranhar o ch\u00e3o estrangeiro e pregar-lhe alguma pe\u00e7a? O cocheiro n\u00e3o queria tamb\u00e9m ir pela Venezuela, temia pisar em terra de gringos e encarregou-se da travessia do Amazonas &#8211; o que foi feito em paz e salvamento, com a m\u00e1xima simplicidade.<\/p>\n<p>Logo que foi ultimada, Tucolas tratou de guiar a caravana. Prometeu que o faria com muito acerto e contentamento geral, pois aproveit\u00e1-la-ia, dilatando as suas pesquisas antropol\u00f3gicas aos moluscos dos nossos rios. Era s\u00e1bio naturalista, e antropologista, e etnografista da nov\u00edssima escola do Conde de Gobineau, novidade de uns sessenta anos atr\u00e1s; e, desde muito, desejava fazer uma viagem daquelas para completar os seus estudos antropol\u00f3gicos nas formigas e nas ostras dos nossos rios.<\/p>\n<p>A viagem correu maravilhosamente durante as primeiras horas. Sob um sol de fogo, o carro solavancava pelos maus caminhos; e o doente, \u00e0 mingua de n\u00e3o ter onde se agarrar, ia ao encontro de uma e outra parede de sua pris\u00e3o coura\u00e7ada. Os burros, impelidos pelas violentas oscila\u00e7\u00f5es dos varais, encontravam-se e repeliam-se, ainda mais aumentando os \u00e1speros solavancos da traquitana; e o cocheiro, na bol\u00e9ia, oscilava de l\u00e1 para c\u00e1, de c\u00e1 para l\u00e1, marcando o compasso da m\u00fasica chocalhante daquela marcha vagarosa.<\/p>\n<p>Na primeira venda que passaram, uma dessas vendas perdidas, quase isoladas, dos caminhos desertos, onde o viajante se abastece e os vagabundos descansam de sua err\u00e2ncia pelos descambados e montanhas, o encarcerado foi saudado com uma vaia: \u00f3 maluco! \u00f3 maluco!<\/p>\n<p>Andava Tucolas distra\u00eddo a fossar e cavocar, catando formigas; e, mal encontrava uma mais assim, logo examinava bem o cr\u00e2nio do inseto, procurava-lhe os ossos componentes, enquanto n\u00e3o fazia uma mensura\u00e7\u00e3o cuidadosa do \u00e2ngulo de Camper ou mesmo de Cloquet. Barrado, cuja preocupa\u00e7\u00e3o era ser \u00eamulo do Padre Vieira, aproveitara o tempo para firmar bem as regras de coloca\u00e7\u00e3o de pronomes, sobretudo a que manda que o &#8220;que&#8221; atraia o pronome complemento.<\/p>\n<p>E assim andando foi o carro, ap\u00f3s dias de viagem, encontrar uma aldeia pobre, \u00e0 margem de um rio, onde chalanas e naviecos a vapor tocavam de quando em quando.<\/p>\n<p>Cuidaram imediatamente de obter hospedagem e alimenta\u00e7\u00e3o no lugarejo. O cocheiro lembrou o &#8220;homem&#8221; que traziam. Barrado, a respeito, n\u00e3o tinha com seguran\u00e7a uma norma de proceder. N\u00e3o sabia mesmo se essa esp\u00e9cie de doentes comia e consultou Sili, por telegrama. Respondeu-lhe a autoridade, com a energia brit\u00e2nica que tinha no sangue, que n\u00e3o era do regulamento retirar aquela esp\u00e9cie de enfermos do carro, o &#8220;ar&#8221; sempre lhes fazia mal. De resto, era curta a viagem e t\u00e3o s\u00e1bia recomenda\u00e7\u00e3o foi cegamente obedecida.<\/p>\n<p>Em pequena hora, Barrado e o guia sentavam-se \u00e0 mesa do professor p\u00fablico, que lhes oferecera do jantar. O \u00e1gape ia fraternal e alegre, quando houve a visita da Disc\u00f3rdia, a visita da Gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>O ing\u00eanuo professor n\u00e3o tinha conhecimento do pichoso saber gramatical do doutor Barrado e expunha candidamente os usos e costumes do lugar com a sua linguagem roceira:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 aqui entre n\u00f3s muito pouco caso pelo estudo, doutor. Meus filhos mesmo e todos quase n\u00e3o querem saber de livros. Tirante este defeito, doutor, a gente quer mesmo o progresso.<\/p>\n<p>Barrado implicou com o &#8220;tirante&#8221; e o &#8220;a gente&#8221;, e tentou ironizar. Sorriu e observou:<\/p>\n<p>\u2014 Fala-se mal, estou vendo.<\/p>\n<p>O matuto percebeu que o doutor se referia a ele. Indagou mansamente:<\/p>\n<p>\u2014 Por que o doutor diz isso?<\/p>\n<p>\u2014 Por nada, professor. Por nada!<\/p>\n<p>\u2014 Creio, aduziu o sertanejo, que, tirante eu, o doutor aqui n\u00e3o falou com mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Barrado notou ainda o &#8220;tirante&#8221; e olhou com intelig\u00eancia para Tucolas, que se distra\u00eda com um naco de tartaruga.<\/p>\n<p>Observou o caipira, momentaneamente, o af\u00e3 de comer do antropologista e disse, meigamente:<\/p>\n<p>\u2014 Aqui, a gente come muito isso. Tirante a ca\u00e7a e a pesca, n\u00f3s raramente temos carne fresca.<\/p>\n<p>A insist\u00eancia do professor sertanejo irritava sobremaneira o doutor inigual\u00e1vel. Sempre aquele &#8220;tirante&#8221;, sempre o tal &#8220;a gente, a gente, a gente&#8221;\u2014um falar de preto mina! O professor, por\u00e9m, continuou a informar calmamente:<\/p>\n<p>\u2014 A gente aqui planta pouco, mesmo n\u00e3o vale a pena. Felizardo do Catol\u00e9 plantou uns leir\u00f5es de horta, h\u00e1 anos, e quando veio o calor e a enchente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E demais! E demais! exclamou Barrado.<\/p>\n<p>Docemente, o pedagogo indagou:<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? Por que, doutor?<\/p>\n<p>Estava o doutor sinistramente raivoso e explicou-se a custo:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, n\u00e3o sabe? N\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, doutor. Eu n\u00e3o sei, fez o professor, com seguran\u00e7a e mansuetude.<\/p>\n<p>Tucolas tinha parado de saborear a tartaruga, a fim de atinar com a origem da disputa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe, ent\u00e3o, rematou Barrado, n\u00e3o sabe que at\u00e9 agora o senhor n\u00e3o tem feito outra coisa sen\u00e3o errar em portugu\u00eas?<\/p>\n<p>\u2014 Como, doutor?<\/p>\n<p>\u2014 E &#8220;tirante&#8221;, \u00e9 &#8220;a gente, a gente, a gente&#8221;; e, por cima de tudo, um solecismo!<\/p>\n<p>\u2014 Onde, doutor?<\/p>\n<p>\u2014 Veio o calor e a chuva &#8211; \u00e9 portugu\u00eas?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, doutor, \u00e9, doutor! Veja o doutor Jo\u00e3o Ribeiro! Tudo isso est\u00e1 l\u00e1. Quer ver?<\/p>\n<p>O professor levantou-se, apanhou sobre a mesa pr\u00f3xima uma velha gram\u00e1tica ensebada e mostrou a respeit\u00e1vel autoridade ao s\u00e1bio doutor Barrado. Sem saber desd\u00e9ns simular, ordenou:<\/p>\n<p>\u2014 Tucolas, vamo-nos embora.<\/p>\n<p>\u2014 E a tartaruga? diz o outro.<\/p>\n<p>O h\u00f3spede ofereceu-a, o original antropologista embrulhou-a e saiu com o companheiro. C\u00e1 fora, tudo era sil\u00eancio e o c\u00e9u estava negro. As estrelas pequeninas piscavam sem cessar o seu olhar eterno para a terra muito grande. O doutor foi ao encontro da curiosidade recalcada de Tucolas:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea, Tucolas, como anda o nosso ensino? Os professores n\u00e3o sabem os elementos de gram\u00e1tica, e falam como negros de senzala.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor Barrado, julgo que o senhor deve a esse respeito chamar a aten\u00e7\u00e3o do ministro competente, pois me parece que o pa\u00eds, atualmente, possui um dos mais autorizados na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Vou tratar, Tucolas, tanto mais que o Semica \u00e9 amigo do Sofonias.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor Barrado, uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 falou, Senhor Barrado, a meu respeito com o senhor Sofonias?<\/p>\n<p>\u2014 Desde muito, meu caro Tucolas. Est\u00e1 \u00e0 espera da reforma do museu e tu vais para l\u00e1 direitinho. E o teu lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, Senhor Barrado. Obrigado.<\/p>\n<p>A viagem continuou monotonamente. Transmontaram serras, vadearam rios e, num deles, houve um ataque de jacar\u00e9s, dos quais se salvou Barrado gra\u00e7as \u00e0 sua pele muito dura. Entretanto, um dos animais de tiro perdeu uma das patas dianteiras e mesmo assim conseguiu p\u00f4r-se a salvo na margem oposta.<\/p>\n<p>Sarou-lhe a ferida n\u00e3o se sabe como e o animal n\u00e3o deixou de acompanhar a caravana. \u00c0s vezes, distanciava-se; \u00e0s vezes, aproximava-se; e sempre a pobre alim\u00e1ria olhava longamente, demoradamente, aquele forno ambulante, manquejando sempre, impotente para a carreira, e como se se lastimasse de n\u00e3o poder auxiliar eficazmente o lento reboque daquela almanjarra pesadona.<\/p>\n<p>Em dado momento, o cocheiro avisa Barrado de que o &#8220;homem&#8221; parecia estar morto; havia at\u00e9 um mau cheiro indicador. O regulamento n\u00e3o permitia a abertura da pris\u00e3o e o doutor n\u00e3o quis verificar o que havia de verdade no caso. Comia aqui, dormia ali, Tucolas tamb\u00e9m e os burros tamb\u00e9m\u2014que mais era preciso para ser agrad\u00e1vel a Sofonias? Nada, ou antes: trazer o &#8220;homem&#8221; at\u00e9 ao Rio de Janeiro. As doze polegadas da sua cartografia desdobravam-se em um infinito n\u00famero de quil\u00f4metros. Tucolas que conhecia o caminho, dizia sempre: estamos a chegar, Senhor Barrado! Estamos a chegar! Assim levaram meses andando, com o burro aleijado a manquejar atr\u00e1s do erg\u00e1stulo ambulante, olhando-o docemente, cheio de piedade impotente.<\/p>\n<p>Os urubus crocitavam por sobre a caravana, estreitavam o v\u00f4o, desciam mais, mais, mais, at\u00e9 quase debicar no carro-forte. Barrado punha-se furioso a enxot\u00e1-los a pedradas; Tucolas imaginava aparelhos para examinar a caixa craniana das ostras de que andava \u00e0 ca\u00e7a; o cocheiro obedecia.<\/p>\n<p>Mais ou menos assim, levaram dois anos e foram chegar \u00e0 aldeia dos Serradores, margem do Tocantins.<\/p>\n<p>Quando aportaram, havia na pra\u00e7a principal uma grande disputa, tendo por motivo o preenchimento de uma vaga na Academia dos Lambrequins.<\/p>\n<p>Logo que Barrado soube do que se tratava, meteu-se na disputa e foi gritando l\u00e1 a seu jeito e sacudindo as perninhas:<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m sou candidato! Eu tamb\u00e9m sou candidato!<\/p>\n<p>Um dos circunstantes perguntou-lhe a tempo, com toda a paci\u00eancia:<\/p>\n<p>\u2014 Mo\u00e7o: o senhor sabe fazer lambrequins?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, n\u00e3o sei, mas aprendo na academia e \u00e9 para isso que quero entrar.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o teve lugar e a escolha recaiu sobre um outro mais h\u00e1bil no uso da serra que o doutor rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>Precipitou-se por isso a partida e o carro continuou a sua odiss\u00e9ia, com o acompanhamento do burro, sempre a olh\u00e1-lo longamente, infinitamente, demoradamente, cheio de piedade impotente. Aos poucos os urubus se despediram; e, no fim de quatro anos, o carri\u00e3o entrou pelo Rio adentro, a roncar pelas cal\u00e7adas, chocalhando duramente as ferragens, com o seu manco e compassivo burro a manquejar-lhe \u00e0 sirga.<\/p>\n<p>Logo que foi chegado, um h\u00e1bil serralheiro veio abri-lo, pois a fechadura desarranjara-se devido aos trancos e \u00e0s intemp\u00e9ries da viagem, e desobedecia \u00e0 chave competente. Sili determinou que os m\u00e9dicos examinassem o doente, exame que, mergulhados numa atmosfera de desinfetantes, foi feito no necrot\u00e9rio p\u00fablico.<\/p>\n<p>Foi este o destino do enfermo pelo qual o delegado Cunsono se interessou com tanta solicitude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Deus est \u00e1 morto; a sua piedade pelos homens matou-o. Nietzsche A pol\u00edcia da rep\u00fablica, como toda a gente sabe, \u00e9 paternal e compassiva no tratamento das pessoas humildes que dela necessitam; e sempre, quer se trate de humildes, quer de poderosos, a velha institui\u00e7\u00e3o cumpre religiosamente a lei. 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