{"id":108795,"date":"2017-02-14T17:01:38","date_gmt":"2017-02-14T19:01:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108795"},"modified":"2017-02-14T17:01:38","modified_gmt":"2017-02-14T19:01:38","slug":"triste-fim-de-policarpo-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/triste-fim-de-policarpo-quaresma","title":{"rendered":"Triste Fim de Policarpo Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"50%\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <strong>Primeira Parte<\/strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">V<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <strong>Segunda Parte<\/strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">V<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <strong>Terceira Parte<\/strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">V<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p><strong>Primeira Parte<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>Como de h&aacute;bito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma,<br \/>\n    bateu em casa &agrave;s quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos<br \/>\n    que isso acontecia. Saindo do Arsenal de Guerra, onde era subsecret&aacute;rio,<br \/>\n    bongava pelas confeitarias algumas frutas, comprava um queijo, &agrave;s vezes,<br \/>\n    e sempre o p&atilde;o da padaria francesa.<\/p>\n<p>N&atilde;o gastava nesses passos nem mesmo uma hora, de forma que, &agrave;s<br \/>\n    tr&ecirc;s e quarenta, por ai assim, tomava o bonde, sem erro de um minuto,<br \/>\n    ia pisar a soleira da porta de sua casa, numa rua afastada de S&atilde;o Janu&aacute;rio,<br \/>\n    bem exatamente &agrave;s quatro e quinze, como se fosse a apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um astro, um eclipse, enfim um fen&ocirc;meno matematicamente determinado,<br \/>\n    previsto e predito. <\/p>\n<p>A vizinhan&ccedil;a j&aacute; lhe conhecia os h&aacute;bitos e tanto que,<br \/>\n    na casa do Capit&atilde;o Cl&aacute;udio, onde era costume jantar-se a&iacute;<br \/>\n    pelas quatro e meia, logo que o viam passar, a dona gritava &agrave; criada:<br \/>\n    &quot;Alice, olha que s&atilde;o horas; o Major Quaresma j&aacute; passou.&quot;<\/p>\n<p>E era assim todos os dias, h&aacute; quase trinta anos. Vivendo em casa pr&oacute;pria<br \/>\n    e tendo outros rendimentos al&eacute;m do seu ordenado, o Major Quaresma podia<br \/>\n    levar um trem de vida superior ao seus recursos burocr&aacute;ticos, gozando,<br \/>\n    por parte da vizinhan&ccedil;a, da considera&ccedil;&atilde;o e respeito de<br \/>\n    homem abastado.<\/p>\n<p>N&atilde;o recebia ningu&eacute;m, vivia num isolamento monacal, embora fosse<br \/>\n    cort&ecirc;s com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo. Se n&atilde;o<br \/>\n    tinha amigos na redondeza, n&atilde;o tinha inimigos, e a &uacute;nica desafei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que merecera, fora a do doutor Segadas, um cl&iacute;nico afamado no lugar,<br \/>\n    que n&atilde;o podia admitir que Quaresma tivesse livros: &quot;Se n&atilde;o<br \/>\n    era formado, para qu&ecirc;? Pedantismo!&quot;<\/p>\n<p>O subsecret&aacute;rio n&atilde;o mostrava os livros a ningu&eacute;m, mas<br \/>\n    acontecia que, quando se abriam as janelas da sala de sua livraria, da rua<br \/>\n    poder-se-iam ver as estantes pejadas de cima a baixo.<\/p>\n<p>Eram esses os seus h&aacute;bitos; ultimamente, por&eacute;m, mudara um pouco;<br \/>\n    e isso provocava coment&aacute;rios no bairro. Al&eacute;m do compadre e da<br \/>\n    filha, as &uacute;nicas pessoas que o visitavam at&eacute; ent&atilde;o, nos<br \/>\n    &uacute;ltimos dias, era visto entrar em sua casa, tr&ecirc;s vezes por semana<br \/>\n    e em dias certos, um senhor baixo, magro, p&aacute;lido, com um viol&atilde;o<br \/>\n    agasalhado numa bolsa de camur&ccedil;a. Logo pela primeira vez o caso intrigou<br \/>\n    a vizinhan&ccedil;a. Um viol&atilde;o em casa t&atilde;o respeit&aacute;vel!<br \/>\n    Que seria?<\/p>\n<p>E, na mesma tarde, urna das mais lindas vizinhas do major convidou uma amiga,<br \/>\n    e ambas levaram um tempo perdido, de c&aacute; para l&aacute;, a palmilhar<br \/>\n    o passeio, esticando a cabe&ccedil;a, quando passavam diante da janela aberta<br \/>\n    do esquisito subsecret&aacute;rio.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi in&uacute;til a espionagem. Sentado no sof&aacute;, tendo<br \/>\n    ao lado o tal sujeito, empunhando o &quot;pinho&quot; na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tocar, o major, atentamente, ouvia: &quot;Olhe, major, assim&quot;. E as<br \/>\n    cordas vibravam vagarosamente a nota ferida; em seguida, o mestre aduzia:<br \/>\n    &quot;&Eacute; &#8216;r&eacute;&#8217;, aprendeu?&quot;<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi preciso p&ocirc;r na carta; a vizinhan&ccedil;a concluiu<br \/>\n    logo que o major aprendia a tocar viol&atilde;o. Mas que coisa? Um homem t&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;rio metido nessas malandragens!<\/p>\n<p>Uma tarde de sol &#8212; sol de mar&ccedil;o, forte e implac&aacute;vel &#8212; a&iacute;<br \/>\n    pelas cercanias das quatro horas, as janelas de uma erma rua de S&atilde;o<br \/>\n    Janu&aacute;rio povoaram-se r&aacute;pida e repentinamente, de um e de outro<br \/>\n    lado. At&eacute; da casa do general vieram mo&ccedil;as &agrave; janela! Que<br \/>\n    era? Um batalh&atilde;o? Um inc&ecirc;ndio? Nada disto: o Major Quaresma,<br \/>\n    de cabe&ccedil;a baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua,<br \/>\n    tendo debaixo do bra&ccedil;o um viol&atilde;o impudico.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que a guitarra vinha decentemente embrulhada em papel, mas<br \/>\n    o vestu&aacute;rio n&atilde;o lhe escondia inteiramente as formas. &Agrave;<br \/>\n    vista de t&atilde;o escandaloso fato, a considera&ccedil;&atilde;o e o respeito<br \/>\n    que o Major Policarpo Quaresma merecia nos arredores de sua casa, diminu&iacute;ram<br \/>\n    um pouco. Estava perdido, maluco, diziam. Ele, por&eacute;m, continuou serenamente<br \/>\n    nos seus estudos, mesmo porque n&atilde;o percebeu essa diminui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quaresma era um homem pequeno, magro, que usava pince-nez, olhava sempre<br \/>\n    baixo, mas, quando fixava algu&eacute;m ou alguma coisa, os seus olhos tomavam,<br \/>\n    por detr&aacute;s das lentes, um forte brilho de penetra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e era como se ele quisesse ir &agrave; alma da pessoa ou da coisa que fixava.<\/p>\n<p>Contudo, sempre os trazia baixos, como se se guiasse pela ponta do cavanhaque<br \/>\n    que lhe enfeitava o queixo. Vestia-se sempre de fraque, preto, azul, ou de<br \/>\n    cinza, de pano listrado, mas sempre de fraque, e era raro que n&atilde;o se<br \/>\n    cobrisse com uma cartola de abas curtas e muito alta, feita segundo um figurino<br \/>\n    antigo de que ele sabia com precis&atilde;o a &eacute;poca.<\/p>\n<p>Quando entrou em casa, naquele dia, foi a irm&atilde; quem lhe abriu a porta,<br \/>\n    perguntando:<\/p>\n<p>&#8212; Janta j&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o. Espere um pouco o Ricardo que vem jantar hoje consoco.<\/p>\n<p>&#8212; Policarpo, voc&ecirc; precisa tomar ju&iacute;zo. Um homem de idade, com<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o respeit&aacute;vel, como voc&ecirc; &eacute;, andar<br \/>\n    metido com esse seresteiro, um quase capad&oacute;cio &#8212; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    bonito!<\/p>\n<p>O major descansou o chap&eacute;u-de-sol &#8212; um antigo chap&eacute;u-de-sol,<br \/>\n    com a haste inteiramente de madeira, e um cabo de volta, incrustado de pequenos<br \/>\n    losangos de madrep&eacute;rola &#8212; e respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc&ecirc; est&aacute; muito enganada, mana. &Eacute; preconceito<br \/>\n    supor-se que todo homem que toca viol&atilde;o &eacute; um desclassificado.<br \/>\n    A modinha &eacute; a mais genu&iacute;na express&atilde;o da poesia nacional<br \/>\n    e o viol&atilde;o &eacute; o instrumento que ela pede. N&oacute;s &eacute;<br \/>\n    que temos abandonado o g&ecirc;nero, mas ele j&aacute; esteve em honra, em<br \/>\n    Lisboa, no s&eacute;culo passado, com o Padre Caldas, que teve um audit&oacute;rio<br \/>\n    de fidalgas. Beckford, um ingl&ecirc;s not&aacute;vel, muito o elogia.<\/p>\n<p>&#8212; Mas isso foi em outro tempo; agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que tem isso, Adelaide? Conv&eacute;m que n&oacute;s n&atilde;o deixemos<br \/>\n    morrer as nossas tradi&ccedil;&otilde;es, os usos genuinamente nacionais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem, Policarpo, eu n&atilde;o quero contrariar voc&ecirc;; continue l&aacute;<br \/>\n    com as suas manias.<\/p>\n<p>O major entrou para um aposento pr&oacute;ximo, enquanto sua irm&atilde;<br \/>\n    seguia em direitura ao interior da casa. Quaresma despiu-se, lavou-se,enfiou<br \/>\n    a roupa de casa, veio para a biblioteca, sentou-se a uma cadeira de balan&ccedil;o,<br \/>\n    descansando.<\/p>\n<p>Estava num aposento vasto, com janelas para uma rua lateral, e todo ele era<br \/>\n    forrado de estantes de ferro.<\/p>\n<p>Havia perto de dez, com quatro prateleiras, fora as pequenas com os livros<br \/>\n    de maior tomo. Quem examinasse vagarosamente aquela grande cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de livros havia de espantar-se ao perceber o esp&iacute;rito que presidia<br \/>\n    a sua reuni&atilde;o.<\/p>\n<p>Na fic&ccedil;&atilde;o, havia unicamente autores nacionais ou tidos como<br \/>\n    tais: o Bento Teixeira, da Prosopop&eacute;ia; o Greg&oacute;rio de Matos,<br \/>\n    o Bas&iacute;lio da Gama, o Santa Rita Dur&atilde;o, o Jos&eacute; de Alencar<br \/>\n    (todo), o Macedo, o Gon&ccedil;alves Dias (todo), al&eacute;m de muitos outros.<br \/>\n    Podia-se afian&ccedil;ar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados<br \/>\n    de oitenta ora l&aacute; faltava nas estantes do major.<\/p>\n<p>De Hist&oacute;ria do Brasil, era farta a messe: os cronistas, Gabriel Soares,<br \/>\n    Gandavo; e Rocha Pita, Frei Vicente do Salvador, Armitage, Aires do Casal,<br \/>\n    Pereira da Silva, Handelmann (Geschichte von Brasilien), Melo Morais, Capistrano<br \/>\n    de Abreu, Southey, Varnhagen, al&eacute;m de outros mais raros ou menos famosos.<br \/>\n    Ent&atilde;o no tocante a viagens e explora&ccedil;&otilde;es, que riqueza!<br \/>\n    L&aacute; estavam Hans Staden, o Jean de L&eacute;ry, o Saint-Hilaire, o Martius,<br \/>\n    o Pr&iacute;ncipe de Neuwied, o John Mawe, o von Eschwege, o Agassiz, Couto<br \/>\n    de Magalh&atilde;es e se se encontravam tamb&eacute;m Darwin, Freycinet, Cook,<br \/>\n    Bougainville e at&eacute; o famoso Pigafetta, cronista da viagem de Magalh&atilde;es,<br \/>\n    &eacute; porque todos esses &uacute;ltimos viajantes tocavam no Brasil, resumida<br \/>\n    ou amplamente.<\/p>\n<p>Al&eacute;m destes, havia livros subsidi&aacute;rios: dicion&aacute;rios,<br \/>\n    manuais, enciclop&eacute;dias, comp&ecirc;ndios, em v&aacute;rios idiomas.<\/p>\n<p>V&ecirc;-se assim que a sua predile&ccedil;&atilde;o pela po&eacute;tica<br \/>\n    de Porto Alegre e Magalh&atilde;es n&atilde;o lhe vinha de uma irremedi&aacute;vel<br \/>\n    ignor&acirc;ncia das l&iacute;nguas liter&aacute;rias da Europa; ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    o major conhecia bem sofrivelmente franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s e alem&atilde;o;<br \/>\n    e se n&atilde;o falava tais idiomas, lia-os e traduzia-os corretamente. A<br \/>\n    raz&atilde;o tinha que ser encontrada numa disposi&ccedil;&atilde;o particular<br \/>\n    de seu esp&iacute;rito, no forte sentimento que guiava sua vida. Policarpo<br \/>\n    era patriota. Desde mo&ccedil;o, a&iacute; pelos vinte anos, o amor da P&aacute;tria<br \/>\n    tomou-o todo inteiro. N&atilde;o fora o amor comum, palrador e vazio; fora<br \/>\n    um sentimento s&eacute;rio, grave e absorvente. Nada de ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que<br \/>\n    o patriotismo o fez pensar, foi num conhecimento inteiro do Brasil, levando-o<br \/>\n    a medita&ccedil;&otilde;es sobre os seus recursos, para depois ent&atilde;o<br \/>\n    apontar os rem&eacute;dios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento<br \/>\n    de causa.<\/p>\n<p>N&atilde;o se sabia bem onde nascera, mas n&atilde;o fora decerto em S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, nem no Rio Grande do Sul, nem no Par&aacute;. Errava quem quisesse<br \/>\n    encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro.<br \/>\n    N&atilde;o tinha predile&ccedil;&atilde;o por esta ou aquela parte de seu<br \/>\n    pa&iacute;s, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paix&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    eram s&oacute; os pampas do Sul com o seu gado, n&atilde;o era o caf&eacute;<br \/>\n    de S&atilde;o Paulo, n&atilde;o eram o ouro e os diamantes de Minas, n&atilde;o<br \/>\n    era a beleza da Guanabara, n&atilde;o era a altura da Paulo Afonso, n&atilde;o<br \/>\n    era o estro de Gon&ccedil;alves Dias ou o &iacute;mpeto de Andrade Neves &#8212;<br \/>\n    era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro.<\/p>\n<p>Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de sa&uacute;de<br \/>\n    julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas n&atilde;o maldisse a P&aacute;tria.<br \/>\n    O minist&eacute;rio era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do<br \/>\n    que nunca a amar a &quot;terra que o viu nascer&quot;. Impossibilitado de<br \/>\n    evoluir-se sob os dourados do ex&eacute;rcito, procurou a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dos seus ramos escolheu o militar.<\/p>\n<p>Era onde estava bem. No meio de soldados, de canh&otilde;es, de veteranos,<br \/>\n    de papelada in&ccedil;ada de quilos de p&oacute;lvora, de nomes de fuzis e<br \/>\n    termos t&eacute;cnicos de artilharia, aspirava diariamente aquele h&aacute;lito<br \/>\n    de guerra, de bravura, de vit&oacute;ria, de triunfo, que &eacute; bem o h&aacute;lito<br \/>\n    da P&aacute;tria.<\/p>\n<p>Durante os lazeres burocr&aacute;ticos, estudou, mas estudou a P&aacute;tria,<br \/>\n    nas suas riquezas naturais, na sua hist&oacute;ria, na sua geografia, na sua<br \/>\n    literatura e na sua pol&iacute;tica. Quaresma sabia as esp&eacute;cies de<br \/>\n    minerais, vegetais e animais que o Brasil continha; sabia o valor do ouro,<br \/>\n    dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do<br \/>\n    Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e<br \/>\n    paix&atilde;o a proemin&ecirc;ncia do Amazonas sobre todos os demais rios<br \/>\n    do mundo. Para isso ia at&eacute; ao crime de amputar alguns quil&ocirc;metros<br \/>\n    ao Nilo e era com este rival do &quot;seu&quot; rio que ele mais implicava.<br \/>\n    Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava<br \/>\n    agitado e malcriado, quando se discutia a extens&atilde;o do Amazonas em face<br \/>\n    da do Nilo.<\/p>\n<p>Havia um ano a esta parte que se dedicava ao tupi-guarani. Todas as manh&atilde;s,<br \/>\n    antes que a &quot;Aurora, com seus dedos rosados abrisse caminho ao louro<br \/>\n    Febo&quot;, ele se atracava at&eacute; ao almo&ccedil;o com o Montoya, Arte<br \/>\n    y diccionario de la lengua guaran&iacute; &oacute; m&aacute;s bien tup&iacute;,<br \/>\n    e estudava o jarg&atilde;o caboclo com afinco e paix&atilde;o. Na reparti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os pequenos empregados, amanuenses e escreventes, tendo not&iacute;cia desse<br \/>\n    seu estudo do idioma tupiniquim, deram n&atilde;o se sabe por que em cham&aacute;-lo<br \/>\n    &#8212; Ubirajara. Certa vez, o escrevente Azevedo, ao assinar o ponto, distra&iacute;do,<br \/>\n    sem reparar quem lhe estava &agrave;s costas, disse em tom chocarreiro: &quot;Voc&ecirc;<br \/>\n    j&aacute; viu que hoje o Ubirajara est&aacute; tardando?&quot;<\/p>\n<p>Quaresma era considerado no arsenal: a sua idade, a sua ilustra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a mod&eacute;stia e honestidade de seu viver impunham-no ao respeito de todos.<br \/>\n    Sentindo que a alcunha lhe era dirigida, n&atilde;o perdeu a dignidade, n&atilde;o<br \/>\n    prorrompeu em doestos e insultos. Endireitou-se, concertou o pince-nez, levantou<br \/>\n    o dedo indicador no ar e respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor Azevedo, n&atilde;o seja leviano. N&atilde;o queira levar ao rid&iacute;culo<br \/>\n    aqueles que trabalham em sil&ecirc;ncio, para a grandeza e a emancipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da P&aacute;tria.<\/p>\n<p>Nesse dia, o major pouco conversou. Era costume seu, assim pela hora do caf&eacute;,<br \/>\n    quando os empregados deixavam as bancas, transmitir aos companheiros o fruto<br \/>\n    de seus estudos, as descobertas que fazia, no seu gabinete de trabalho, de<br \/>\n    riquezas nacionais. Um dia era o petr&oacute;leo que lera em qualquer parte,<br \/>\n    como sendo encontrado na Bahia; outra vez, era um novo exemplar de &aacute;rvore<br \/>\n    de borracha que crescia no rio Pardo, em Mato Grosso; outra, era um s&aacute;bio,<br \/>\n    uma notabilidade, cuja bisav&oacute; era brasileira; e quando n&atilde;o tinha<br \/>\n    descoberta a trazer, entrava pela corografia, contava o curso dos rios, a<br \/>\n    sua extens&atilde;o naveg&aacute;vel, os melhoramentos insignificantes de<br \/>\n    que careciam para se prestarem a um franco percurso da foz &agrave;s nascentes.<br \/>\n    Ele amava sobremodo os rios; as montanhas lhe eram indiferentes, Pequenas<br \/>\n    talvez&#8230;<\/p>\n<p>Os colegas ouviam-no respeitosos e ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser esse<br \/>\n    tal Azevedo, se animava na sua frente a lhe fazer a menor obje&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a avan&ccedil;ar uma pilh&eacute;ria, um dito. Ao voltar as costas, por&eacute;m,<br \/>\n    vingavam-se da cacetada, cobrindo-o de tro&ccedil;as: &quot;Este Quaresma!<br \/>\n    Que cacete! Pensa que somos meninos de tico-tico&#8230; Arre! N&atilde;o tem outra<br \/>\n    conversa&quot;.<\/p>\n<p>E desse modo ele ia levando a vida, metade na reparti&ccedil;&atilde;o, sem<br \/>\n    ser compreendido, e a outra metade em casa, tamb&eacute;m sem ser compreendido.<br \/>\n    No dia em que o chamaram de Ubirajara, Quaresma ficou reservado, taciturno,<br \/>\n    mudo, e s&oacute; veio a falar porque, quando lavavam as m&atilde;os num aposento<br \/>\n    pr&oacute;ximo &agrave; secretaria e se preparavam para sair, algu&eacute;m,<br \/>\n    suspirando, disse: &quot;Ah! Meu Deus! Quando poderei ir &agrave; Europa!&quot;<br \/>\n    O major n&atilde;o se conteve: levantou o olhar, concertou o pince-nez e falou<br \/>\n    fraternal e persuasivo: &quot;Ingrato! Tens uma terra t&atilde;o bela, t&atilde;o<br \/>\n    rica, e queres visitar a dos outros! Eu, se algum dia puder, hei de percorrer<br \/>\n    a minha de princ&iacute;pio ao fim!&quot;<\/p>\n<p>O outro objetou-lhe que por aqui s&oacute; havia febres e mosquitos; o major<br \/>\n    contestou-lhe com estat&iacute;sticas e at&eacute; provou exuberantemente<br \/>\n    que o Amazonas tinha um dos melhores climas da terra. Era um clima caluniado<br \/>\n    pelos viciosos que de l&aacute; vinham doentes&#8230;<\/p>\n<p>Era assim o Major Policarpo Quaresma que acabava de chegar &agrave; sua resid&ecirc;ncia,<br \/>\n    &agrave;s quatro e quinze da tarde, sem erro de um minuto, como todas as tardes,<br \/>\n    exceto aos domingos, exatamente, ao jeito da apari&ccedil;&atilde;o de um<br \/>\n    astro ou de um eclipse.<\/p>\n<p>No mais, era um homem como todos os outros, a n&atilde;o ser aqueles que<br \/>\n    t&ecirc;m ambi&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas ou de fortuna, porque Quaresma<br \/>\n    n&atilde;o as tinha no m&iacute;nimo grau.<\/p>\n<p>Sentado na cadeira de balan&ccedil;o, bem ao centro de sua biblioteca, o<br \/>\n    major abriu um livro e p&ocirc;s-se a l&ecirc;-lo &agrave; espera do conviva.<br \/>\n    Era o velho Rocha Pita, o entusi&aacute;stico e gong&oacute;rico Rocha Pita<br \/>\n    da Hist&oacute;ria da Am&eacute;rica Portuguesa. Quaresma estava lendo aquele<br \/>\n    famoso per&iacute;odo: &quot;Em nenhuma outra regi&atilde;o se mostra o c&eacute;u<br \/>\n    mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisf&eacute;rio<br \/>\n    tem os raios mais dourados&#8230;&quot; mas n&atilde;o p&ocirc;de ir ao fim. Batiam<br \/>\n    &agrave; porta. Foi abri-la em pessoa.<\/p>\n<p>&#8212; Tardei, major? perguntou o visitante.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Chegaste &agrave; hora.<\/p>\n<p>Acabava de entrar em casa do Major Quaresma o Senhor Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Outros, homem c&eacute;lebre pela sua habilidade em cantar modinhas e<br \/>\n    tocar viol&atilde;o. Em come&ccedil;o, a sua fama estivera limitada a um pequeno<br \/>\n    sub&uacute;rbio da cidade, em cujos &quot;saraus&quot; ele e seu viol&atilde;o<br \/>\n    figuravam como Paganini e a sua rebeca em festas de duques; mas, aos poucos,<br \/>\n    com o tempo, foi tomando toda a extens&atilde;o dos sub&uacute;rbios, crescendo,<br \/>\n    solidificando-se, at&eacute; ser considerada como coisa pr&oacute;pria a eles.<br \/>\n    N&atilde;o se julgue, entretanto, que Ricardo fosse um cantor de modinhas<br \/>\n    a&iacute; qualquer, um capad&oacute;cio. N&atilde;o; Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Outros era um artista a freq&uuml;entar e a honrar as melhores fam&iacute;lias<br \/>\n    do M&eacute;ier, Piedade e Riachuelo. Rara era a noite em que n&atilde;o recebesse<br \/>\n    um convite. Fosse na casa do Tenente Marques, do doutor Bulh&otilde;es ou<br \/>\n    do &quot;Seu&quot; Castro, a sua presen&ccedil;a era sempre requerida, instada<br \/>\n    e apreciada, O doutor Bulh&otilde;es, at&eacute;, tinha pelo Ricardo uma admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial, um del&iacute;rio, um frenesi e, quando o trovador cantava, ficava<br \/>\n    em &ecirc;xtase. &quot;Gosto muito de canto&quot;, dizia o doutor no trem<br \/>\n    certa vez, &quot;mas s&oacute; duas pessoas me enchem as medidas: o tamagno<br \/>\n    e o Ricardo&quot;. Esse doutor tinha uma grande reputa&ccedil;&atilde;o nos<br \/>\n    sub&uacute;rbios, n&atilde;o como m&eacute;dico, pois que nem &oacute;leo<br \/>\n    de r&iacute;cino receitava, mas como entendido em legisla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    telegr&aacute;fica, por ser chefe de se&ccedil;&atilde;o da Secretaria dos<br \/>\n    Tel&eacute;grafos.<\/p>\n<p>Dessa maneira, Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros gozava da estima<br \/>\n    geral da alta sociedade suburbana. &Eacute; uma alta sociedade muito especial<br \/>\n    e que s&oacute; &eacute; alta nos sub&uacute;rbios. Comp&otilde;e-se em geral<br \/>\n    de funcion&aacute;rios p&uacute;blicos, de pequenos negociantes, de m&eacute;dicos<br \/>\n    com alguma cl&iacute;nica, de tenentes de diferentes mil&iacute;cias, nata<br \/>\n    essa que impa pelas ruas esburacadas daquelas distantes regi&otilde;es, assim<br \/>\n    como nas festas e nos bailes, com mais for&ccedil;a que a burguesia de Petr&oacute;polis<br \/>\n    e Botafogo. Isto &eacute; s&oacute; l&aacute;, nos bailes, nas festas e nas<br \/>\n    ruas, onde se algum dos seus representantes v&ecirc; um tipo mais ou menos,<br \/>\n    olha-o da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s, demoradamente, assim como quem diz:<br \/>\n    aparece l&aacute; em casa que te dou um prato de comida. Porque o orgulho<br \/>\n    da aristocracia suburbana est&aacute; em ter todo dia jantar e almo&ccedil;o,<br \/>\n    muito feij&atilde;o, muita carne-seca, muito ensopado &#8212; a&iacute;, julga<br \/>\n    ela, &eacute; que est&aacute; a pedra de toque da nobreza, da alta linha,<br \/>\n    da distin&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Fora dos sub&uacute;rbios, na Rua do Ouvidor, nos teatros, nas grandes festas<br \/>\n    centrais, essa gente m&iacute;ngua, apaga-se, desaparece, chegando at&eacute;<br \/>\n    as suas mulheres e filhas a perder a beleza com que deslumbram, quase diariamente,<br \/>\n    os lindos cavalheiros dos intermin&aacute;veis bailes di&aacute;rios daquelas<br \/>\n    redondezas.<\/p>\n<p>Ricardo, depois de ser poeta e o cantor dessa curiosa aristocracia, extravasou<br \/>\n    e passou &agrave; cidade, propriamente. A sua fama j&aacute; chegava a S&atilde;o<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o e em breve (ele o esperava) Botafogo convid&aacute;-lo-ia,<br \/>\n    pois os jornais j&aacute; falavam no seu nome e discutiam o alcance de sua<br \/>\n    obra e da sua po&eacute;tica&#8230;<\/p>\n<p>Mas que vinha ele fazer ali, na casa de pessoa de prop&oacute;sitos t&atilde;o<br \/>\n    altos e t&atilde;o severos h&aacute;bitos? N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    atinar. Decerto, n&atilde;o vinha auxiliar o major nos seus estudos de geologia,<br \/>\n    de po&eacute;tica, de mineralogia e hist&oacute;ria brasileiras.<\/p>\n<p>Como bem sup&ocirc;s a vizinhan&ccedil;a, o Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros<br \/>\n    vinha ali t&atilde;o-somente ensinar o major a cantar modinhas e a tocar viol&atilde;o,<br \/>\n    Nada mais, e &eacute; simples.<\/p>\n<p>De acordo com a sua paix&atilde;o dominante, Quaresma estivera muito tempo<br \/>\n    a meditar qual seria a express&atilde;o po&eacute;tica musical caracter&iacute;stica<br \/>\n    da alma nacional. Consultou historiadores, cronistas e fil&oacute;sofos e<br \/>\n    adquiriu certeza que era a modinha acompanhada pelo viol&atilde;o. Seguro<br \/>\n    dessa verdade, n&atilde;o teve d&uacute;vidas: tratou de aprender o instrumento<br \/>\n    genuinamente brasileiro e entrar nos segredos da modinha. Estava nisso tudo<br \/>\n    a quo, mas procurou saber quem era o primeiro executor da cidade e tomou li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ele. O seu fim era disciplinar a modinha e tirar dela um forte motivo<br \/>\n    original de arte.<\/p>\n<p>Ricardo vinha justamente dar-lhe li&ccedil;&atilde;o, mas, antes disso, por<br \/>\n    convite especial do disc&iacute;pulo, ia compartilhar o seu jantar; e fora<br \/>\n    por isso que o famoso trovador chegou mais cedo &agrave; casa do subsecret&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; sabe dar o &quot;r&eacute;&quot; sustenido, major? perguntou<br \/>\n    Ricardo logo ao sentar-se.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos ver.<\/p>\n<p>Dizendo isto, foi desencapotar o seu sagrado viol&atilde;o; mas n&atilde;o<br \/>\n    houve tempo. Dona Adelaide, a irm&atilde; de Quaresma, entrou e convidou-os<br \/>\n    a irem jantar. A sopa j&aacute; esfriava na mesa, que fossem!<\/p>\n<p>&#8212; O Senhor Ricardo h&aacute; de nos desculpar, disse a velha senhora, a<br \/>\n    pobreza do nosso jantar. Eu lhe quis fazer um frango com petit-pois, mas Policarpo<br \/>\n    n&atilde;o deixou. Disse-me que esse tal petit-pois &eacute; estrangeiro e<br \/>\n    que eu o substitu&iacute;sse por guando. Onde &eacute; que se viu frango com<br \/>\n    guando?<\/p>\n<p>Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros aventou que talvez fosse bom, seria uma<br \/>\n    novidade e n&atilde;o fazia mal experimentar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma mania de seu amigo, Senhor Ricardo, esta de s&oacute; querer<br \/>\n    coisas nacionais, e a gente tem que ingerir cada droga, chi!<\/p>\n<p>&#8212; Qual, Adelaide, voc&ecirc; tem certas ojerizas! A nossa terra, que tem<br \/>\n    todos os climas do mundo, &eacute; capaz de produzir tudo que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    para o est&ocirc;mago mais exigente. Voc&ecirc; &eacute; que deu para implicar.<\/p>\n<p>&#8212; Exemplo: a manteiga que fica logo ran&ccedil;osa.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; porque &eacute; de leite, se fosse como essas estrangeiras a&iacute;,<br \/>\n    fabricadas com gorduras de esgotos, talvez n&atilde;o se estragasse&#8230; &Eacute;<br \/>\n    isto, Ricardo! N&atilde;o querem nada da nossa terra&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Em geral &eacute; assim, disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute; um erro&#8230; N&atilde;o protegem as ind&uacute;strias nacionais&#8230;<br \/>\n    Comigo n&atilde;o h&aacute; disso: de tudo que h&aacute; nacional, eu n&atilde;o<br \/>\n    uso estrangeiro. Visto-me com pano nacional, cal&ccedil;o botas nacionais<br \/>\n    e assim por diante.<\/p>\n<p>Sentaram-se &agrave; mesa. Quaresma agarrou uma pequena garrafa de cristal<br \/>\n    e serviu dois c&aacute;lices de parati.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; do programa nacional, fez a irm&atilde;, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, e &eacute; um magn&iacute;fico aperitivo. Esses vermutes por<br \/>\n    ai, drogas; isto &eacute; &aacute;lcool puro, bom, de cana, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de batatas ou milho&#8230;<\/p>\n<p>Ricardo agarrou o c&aacute;lice com delicadeza e respeito, levou-o aos l&aacute;bios<br \/>\n    e foi como se todo ele bebesse o licor nacional.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bom, hein? indagou o major.<\/p>\n<p>&#8212; Magn&iacute;fico, fez Ricardo, estalando os l&aacute;bios.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; de Angra. Agora tu vais ver que magn&iacute;fico vinho do Rio<br \/>\n    Grande temos&#8230; Qual Borgonha! Qual Bordeaux! Temos no Sul muito melhores&#8230;<\/p>\n<p>E o jantar correu assim, nesse tom. Quaresma exaltando os produtos nacionais:<br \/>\n    a banha, o toucinho e o arroz; a irm&atilde; fazia pequenas obje&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e Ricardo dizia: &quot;&Eacute;, &eacute;, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida&quot;<br \/>\n    &#8212; rolando nas &oacute;rbitas os olhos pequenos, franzindo a testa diminuta<br \/>\n    que se sumia no cabelo &aacute;spero, for&ccedil;ando muito a sua fisionomia<br \/>\n    mi&uacute;da e dura a adquirir uma express&atilde;o sincera de delicadeza<br \/>\n    e satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Acabado o jantar foram ver o jardim. Era uma maravilha; n&atilde;o tinha<br \/>\n    nem uma flor&#8230; Certamente n&atilde;o se podia tomar por tal m&iacute;seros<br \/>\n    beijos-de-frade, palmas-de-santa-rita, quaresmas lutulentas, manac&aacute;s<br \/>\n    melanc&oacute;licos e outros belos exemplares dos nossos campos e prados.<br \/>\n    Como em tudo o mais, o major era em jardinagem essencialmente nacional. Nada<br \/>\n    de rosas, de cris&acirc;ntemos, de magn&oacute;lias &#8212; flores ex&oacute;ticas;<br \/>\n    as nossas terras tinham outras mais belas, mais expressivas, mais olentes,<br \/>\n    como aquelas que ele tinha ali, Ricardo ainda uma vez concordou e os dois<br \/>\n    entraram na sala, quando o crep&uacute;sculo vinha devagar, muito vagaroso<br \/>\n    e lento, como se fosse um longo adeus saudoso do sol ao deixar a terra, pondo<br \/>\n    nas coisas a sua poesia dolente e a sua deliq&uuml;esc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Mal foi aceso o g&aacute;s, o mestre de viol&atilde;o empunhou o instrumento,<br \/>\n    apertou as cravelhas, correu a escala, abaixando-se sobre ele como se o quisesse<br \/>\n    beijar. Tirou alguns acordes, para experimentar; e dirigiu-se ao disc&iacute;pulo,<br \/>\n    que j&aacute; tinha o seu em posi&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos ver. Tire a escala, major.<\/p>\n<p>Quaresma preparou os dedos, afinou a viola, mas n&atilde;o havia na sua execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nem a firmeza, nem o dengue com que o mestre fazia a mesma opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, major, &eacute; assim.<\/p>\n<p>E mostrava a posi&ccedil;&atilde;o do instrumento, indo do colo ao bra&ccedil;o<br \/>\n    esquerdo estendido, seguro levemente pelo direito; e em seguida acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Major, o viol&atilde;o &eacute; o instrumento da paix&atilde;o. Precisa<br \/>\n    de peito para falar&#8230; &Eacute; preciso encost&aacute;-lo, mas encost&aacute;-lo<br \/>\n    com maciez e amor, como se fosse a amada, a noiva, para que diga o que sentimos&#8230;<\/p>\n<p>Diante do viol&atilde;o, Ricardo ficava loquaz, cheio de senten&ccedil;as,<br \/>\n    todo ele fremindo de paix&atilde;o pelo instrumento desprezado.<\/p>\n<p>A li&ccedil;&atilde;o durou uns cinq&uuml;enta minutos. O major sentiu-se<br \/>\n    cansado e pediu que o mestre cantasse. Era a primeira vez que Quaresma lhe<br \/>\n    fazia esse pedido; embora lisonjeado, quis a vaidade profissional que ele,<br \/>\n    a princ&iacute;pio, se negasse.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! N&atilde;o tenho nada novo, uma composi&ccedil;&atilde;o minha.<\/p>\n<p>Dona Adelaide obtemperou ent&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Cante uma de outro.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Por Deus, minha senhora! Eu s&oacute; canto as minhas. O Bilac &#8212;<br \/>\n    conhecem? &#8212; quis fazer-me uma modinha, eu n&atilde;o aceitei; voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o entende de viol&atilde;o, &quot;Seu&quot; Bilac. A quest&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; em escrever uns versos certos que digam coisas bonitas;<br \/>\n    o essencial &eacute; achar-se as palavras que o viol&atilde;o pede e deseja.<br \/>\n    Por exemplo: se eu dissesse, como em come&ccedil;o quis, n&#8217; &quot;O P&eacute;&quot;<br \/>\n    uma modinha minha: &quot;o teu p&eacute; &eacute; uma folha de trevo&quot;<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o ia com o viol&atilde;o. Querem ver?<\/p>\n<p>E ensaiou em voz baixa, acompanhado pelo instrumento: o &#8212; teu &#8212; p&eacute;<br \/>\n    &#8212; &eacute; &#8212; uma &#8212; fo &#8212; lha &#8212; de &#8212; tre &#8212; vo.<\/p>\n<p>&#8212; Vejam, continuou ele, como n&atilde;o d&aacute;. Agora reparem: o &#8212; teu<br \/>\n    &#8212; p&eacute; &#8212; &eacute; &#8212; uma &#8212; ro &#8212; sa &#8212; de &#8212; mir &#8212; ra. &Eacute; outra<br \/>\n    coisa, n&atilde;o acham?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, disse a irm&atilde; de Quaresma.<\/p>\n<p>&#8212; Cante esta, convidou o major.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, objetou Ricardo. Est&aacute; velha, vou cantar a &quot;Promessa&quot;,<br \/>\n    conhecem?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, disseram os dois irm&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Anda por a&iacute; como as &quot;Pombas&quot; do Raimundo.<\/p>\n<p>&#8212; Cante l&aacute;, Senhor Ricardo, pediu Dona Adelaide.<\/p>\n<p>Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros por fim afinou ainda uma vez o viol&atilde;o<br \/>\n    e come&ccedil;ou em voz fraca: <br \/>\n    Prometo pelo Sant&iacute;ssimo Sacramento<\/p>\n<p>Que serei tua paix&atilde;o&#8230; <br \/>\n    &#8212; V&atilde;o vendo, disse ele num intervalo, quanta imagem, quanta imagem!<\/p>\n<p>E continuou. As janelas estavam abertas. Mo&ccedil;as e rapazes come&ccedil;aram<br \/>\n    a se amontoar na cal&ccedil;ada para ouvir o menestrel. Sentindo que a rua<br \/>\n    se interessava, Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros foi apurando a dic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tomando um ar feroz que ele supunha ser de ternura e entusiasmo; e, quando<br \/>\n    acabou, as palmas soaram do lado de fora e uma mo&ccedil;a entrou procurando<br \/>\n    Dona Adelaide.<\/p>\n<p>&#8212; Senta-te Ism&ecirc;nia, disse ela.<\/p>\n<p>&#8212; A demora &eacute; pouca.<\/p>\n<p>Ricardo aprumou-se na cadeira, olhou um pouco a mo&ccedil;a e continuou a<br \/>\n    dissertar sobre a modinha. Aproveitando uma pausa, a irm&atilde; de Quaresma<br \/>\n    perguntou &agrave; mo&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o quando te casas?<\/p>\n<p>Era a pergunta que se Lhe fazia sempre. Ela ent&atilde;o curvava do lado<br \/>\n    direito a sua triste cabecinha, coroada de magn&iacute;ficos cabelos castanhos,<br \/>\n    com tons de ouro, e respondia:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei&#8230; Cavalc&acirc;nti forma-se no fim do ano e ent&atilde;o<br \/>\n    marcaremos.<\/p>\n<p>Isto era dito arrastado, com uma pregui&ccedil;a de impressionar.<\/p>\n<p>N&atilde;o era feia a menina, a filha do general, vizinho de Quaresma. Era<br \/>\n    at&eacute; bem simp&aacute;tica, com a sua fisionomia de pequenos tra&ccedil;os<br \/>\n    mal desenhados e cobertos de umas tintas de bondade.<\/p>\n<p>Aquele seu noivado durava h&aacute; anos; o noivo, o tal Cavalc&acirc;nti,<br \/>\n    estudava para dentista, um curso de dois anos, mas que ele arrastava h&aacute;<br \/>\n    quatro, e Ism&ecirc;nia tinha sempre que responder &agrave; famosa pergunta:<br \/>\n    &#8212; &quot;Ent&atilde;o quando se casa?&quot; &#8212; &quot;N&atilde;o sei&#8230; Cavalc&acirc;nti<br \/>\n    forma-se para o ano e&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Intimamente ela n&atilde;o se incomodava. Na vida, para ela, s&oacute; havia<br \/>\n    uma coisa importante: casar-se; mas pressa n&atilde;o tinha, nada nela a pedia.<br \/>\n    J&aacute; agarrara um noivo, o resto era quest&atilde;o de tempo&#8230;<\/p>\n<p>Ap&oacute;s responder a Dona Adelaide, explicou o motivo da visita.<\/p>\n<p>Viera, em nome do pai, convidar Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros<br \/>\n    a cantar em casa dela.<\/p>\n<p>&#8212; Papai, disse Dona Ism&ecirc;nia, gosta muito de modinhas&#8230; &Eacute; do<br \/>\n    Norte; a senhora sabe, Dona Adelaide, que gente do Norte aprecia muito. Venham.<\/p>\n<p>E para l&aacute; foram. <\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">II REFORMAS RADICAIS<\/a><\/h4>\n<p> Havia bem dez dias que o Major Quaresma n&atilde;o sa&iacute;a de casa.<br \/>\n    Na sua meiga e sossegada casa de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o, enchia<br \/>\n    os dias da forma mais &uacute;til e agrad&aacute;vel &agrave;s necessidades<br \/>\n    do seu esp&iacute;rito e do seu temperamento. De manh&atilde;, depois da toilette<br \/>\n    e do caf&eacute;, sentava-se no div&atilde; da sala principal e lia os jornais.<br \/>\n    Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma not&iacute;cia<br \/>\n    curiosa, a sugest&atilde;o de uma id&eacute;ia &uacute;til &agrave; sua cara<br \/>\n    P&aacute;tria. Os seus h&aacute;bitos burocr&aacute;ticos faziam-no almo&ccedil;ar<br \/>\n    cedo, e, embora estivesse de f&eacute;rias, para os n&atilde;o perder, continuava<br \/>\n    a tomar a primeira refei&ccedil;&atilde;o de garfo &agrave;s nove e meia da<br \/>\n    manh&atilde;.<\/p>\n<p>Acabado o almo&ccedil;o, dava umas voltas pela ch&aacute;cara, ch&aacute;cara<br \/>\n    em que predominavam as fruteiras nacionais, recebendo a pitanga e o cambu&iacute;<br \/>\n    os mais cuidadosos tratamentos aconselhados pela pomologia, como se fossem<br \/>\n    bem cerejas ou figos.<\/p>\n<p>O passeio era demorado e filos&oacute;fico. Conversando com o preto Anast&aacute;cio,<br \/>\n    que lhe servia h&aacute; trinta anos, sobre coisas antigas &#8212; o casamento<br \/>\n    das princesas, a quebra do Souto e outras &#8212; o major continuava com o pensamento<br \/>\n    preso aos problemas que o preocupavam ultimamente. Ap&oacute;s uma hora ou<br \/>\n    menos, voltava &agrave; biblioteca e mergulhava nas revistas do Instituto<br \/>\n    Hist&oacute;rico, no Fern&atilde;o Cardim, nas cartas de N&oacute;brega, nos<br \/>\n    anais da Biblioteca, no von den Stein e tomava notas sobre notas, guardando-as<br \/>\n    numa pequena pasta ao lado. Estudava os &iacute;ndios, N&atilde;o fica bem<br \/>\n    dizer estudava, porque j&aacute; o fizera h&aacute; tempos, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    no tocante &agrave; l&iacute;ngua, que j&aacute; quase falava, como tamb&eacute;m<br \/>\n    nos simples aspectos etnogr&aacute;ficos e antropol&oacute;gicos. Recordava<br \/>\n    (&eacute; melhor dizer assim), afirmava certas no&ccedil;&otilde;es dos seus<br \/>\n    estudos anteriores, visto estar organizando um sistema de cerim&ocirc;nias<br \/>\n    e festas que se baseasse nos costumes dos nossos silv&iacute;colas e abrangesse<br \/>\n    todas as rela&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>Para bem se compreender o motivo disso, &eacute; preciso n&atilde;o esquecer<br \/>\n    que o major, depois de trinta anos de medita&ccedil;&atilde;o patri&oacute;tica,<br \/>\n    de estudos e reflex&otilde;es, chegava agora ao per&iacute;odo da frutifica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A convic&ccedil;&atilde;o que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro pa&iacute;s<br \/>\n    do mundo e o seu grande amor &agrave; P&aacute;tria eram agora ativos e impeliram-no<br \/>\n    a grandes cometimentos. Ele sentia dentro de si impulsos imperiosos de agir,<br \/>\n    de obrar e de concretizar suas id&eacute;ias. Eram pequenos melhoramentos,<br \/>\n    simples toques, porque em si mesma (era a sua opini&atilde;o), a grande P&aacute;tria<br \/>\n    do Cruzeiro s&oacute; precisava de tempo para ser superior &agrave; Inglaterra.<\/p>\n<p>Tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais &uacute;teis,<br \/>\n    as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais<br \/>\n    inteligente e mais doce do mundo &#8212; o que precisava mais? Tempo e um pouco<br \/>\n    de originalidade. Portanto, d&uacute;vidas n&atilde;o flutuavam mais no seu<br \/>\n    esp&iacute;rito, mas no que se referia &agrave; originalidade de costumes<br \/>\n    e usan&ccedil;as, n&atilde;o se tinham elas dissipado, antes se transformaram<br \/>\n    em certeza ap&oacute;s tomar parte na folia do &quot;Tangolomango&quot;, numa<br \/>\n    festa que o general dera em casa.<\/p>\n<p>Caso foi que a visita do Ricardo e do seu viol&atilde;o ao bravo militar<br \/>\n    veio despertar no general e na fam&iacute;lia um gosto pelas festan&ccedil;as,<br \/>\n    cantigas e h&aacute;bitos genuinamente nacionais, como se diz por a&iacute;.<br \/>\n    Houve em todos um desejo de sentir, de sonhar, de poetar &agrave; maneira<br \/>\n    popular dos velhos tempos. Albernaz, o general, lembrava-se de ter visto tais<br \/>\n    cerim&ocirc;nias na sua inf&acirc;ncia: Dona Maricota, sua mulher, at&eacute;<br \/>\n    ainda se lembrava de uns versos de Reis; e os seus filhos, cinco mo&ccedil;as<br \/>\n    e um rapaz, viram na coisa um pretexto de festas e, portanto, aplaudiram o<br \/>\n    entusiasmo dos progenitores. A modinha era pouco; os seus esp&iacute;ritos<br \/>\n    pediam coisa mais pleb&eacute;ia, mais caracter&iacute;stica e extravagante.<\/p>\n<p>Quaresma ficou encantado, quando Albernaz falou em organizar uma chegan&ccedil;a,<br \/>\n    &agrave; moda do Norte, por ocasi&atilde;o do anivers&aacute;rio de sua pra&ccedil;a.<br \/>\n    Em casa do general era assim: qualquer anivers&aacute;rio tinha a sua festa,<br \/>\n    de forma que havia bem umas trinta por ano, n&atilde;o contando domingos,<br \/>\n    dias feriados e santificados em que se dan&ccedil;ava tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>O major pensara at&eacute; ali pouco nessas coisas de festas e dan&ccedil;as<br \/>\n    tradicionais, entretanto viu logo a significa&ccedil;&atilde;o altamente patri&oacute;tica<br \/>\n    do intento. Aprovou e animou o vizinho. Mas quem havia de ensaiar, de dar<br \/>\n    os versos e a m&uacute;sica? Algu&eacute;m lembrou a tia Maria Rita, uma preta<br \/>\n    velha, que morava em Benfica, antiga lavadeira da fam&iacute;lia Albernaz.<br \/>\n    L&aacute; foram os dois, o General Albernaz e o Major Quaresma, alegres, apressados,<br \/>\n    por uma linda e cristalina tarde de abril.<\/p>\n<p>O general nada tinha de marcial, nem mesmo o uniforme que talvez n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;sse. Durante toda a sua carreira militar, n&atilde;o viu uma<br \/>\n    &uacute;nica batalha, n&atilde;o tivera um comando, nada fizera que tivesse<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o com a sua profiss&atilde;o e o seu curso de artilheiro.<br \/>\n    Fora sempre ajudante-de-ordens, assistente, encarregado disso ou daquilo,<br \/>\n    escritur&aacute;rio, almoxarife, e era secret&aacute;rio do Conselho Supremo<br \/>\n    Militar, quando se reformou em general. Os seus h&aacute;bitos eram de um<br \/>\n    bom chefe de se&ccedil;&atilde;o e a sua intelig&ecirc;ncia n&atilde;o era<br \/>\n    muito diferente dos seus h&aacute;bitos. Nada entendia de guerras, de estrat&eacute;gia,<br \/>\n    de t&aacute;tica ou de hist&oacute;ria militar; a sua sabedoria a tal respeito<br \/>\n    estava reduzida &agrave;s batalhas do Paraguai, para ele a maior e a mais<br \/>\n    extraordin&aacute;ria guerra de todos os tempos.<\/p>\n<p>O altissonante t&iacute;tulo de general, que lembrava coisas sobre-humanas<br \/>\n    dos C&eacute;sares, dos Turennes e dos Gustavos Adolfos, ficava mal naquele<br \/>\n    homem pl&aacute;cido, med&iacute;ocre, bonach&atilde;o cuja &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era casar as cinco filhas e arranjar &quot;pistol&otilde;es&quot; para fazer<br \/>\n    passar o filho nos exames do Col&eacute;gio Militar. Contudo, n&atilde;o era<br \/>\n    conveniente que se duvidasse das suas aptid&otilde;es guerreiras. Ele mesmo,<br \/>\n    percebendo o seu ar muito civil, de onde em onde, contava um epis&oacute;dio<br \/>\n    de guerra, uma anedota militar. &quot;Foi em Lomas Valentinas&quot;, dizia<br \/>\n    ele&#8230; Se algu&eacute;m perguntava: &quot;O general assistiu a batalha?&quot;<br \/>\n    Ele respondia logo: &quot;N&atilde;o pude. Adoeci e vim para o Brasil, nas<br \/>\n    v&eacute;speras. Mas soube pelo Camis&atilde;o, pelo Ven&acirc;ncio que a<br \/>\n    coisa esteve preta&quot;.<\/p>\n<p>O bonde que os levava at&eacute; &agrave; velha Maria Rita, percorria um<br \/>\n    dos trechos mais interessantes da cidade. Ia pelo Pedregulho, uma velha porta<br \/>\n    da cidade, antigo t&eacute;rmino de um picad&atilde;o que ia ter a Minas,<br \/>\n    se esgalhava para S&atilde;o Paulo e abria comunica&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    o Curato de Santa Cruz.<\/p>\n<p>Por a&iacute; em costas de bestas vieram ter ao Rio o ouro e o diamante de<br \/>\n    Minas e ainda ultimamente os chamados g&ecirc;neros do pa&iacute;s. N&atilde;o<br \/>\n    havia ainda cem anos que as carruagens d&#8217;El-Rei Dom Jo&atilde;o VI, pesadas<br \/>\n    como naus, a balou&ccedil;arem-se sobre as quatro rodas muito separadas, passavam<br \/>\n    por ali para irem ter ao long&iacute;nquo Santa Cruz. N&atilde;o se pode crer<br \/>\n    que a coisa fosse l&aacute; muito imponente; a Corte andava em apuros de dinheiro<br \/>\n    e o rei era relaxado. N&atilde;o obstante os soldados remendados, tristemente<br \/>\n    montados em &quot;pangar&eacute;s&quot; desanimados, o pr&eacute;stito devia<br \/>\n    ter a sua grandeza, n&atilde;o por ele mesmo, mas pelas humilhantes marcas<br \/>\n    de respeito que todos tinham que dar &agrave; sua lament&aacute;vel majestade.<\/p>\n<p>Entre n&oacute;s tudo &eacute; inconsistente, provis&oacute;rio, n&atilde;o<br \/>\n    dura. N&atilde;o havia ali nada que lembrasse esse passado. As casas velhas,<br \/>\n    com grandes janelas, quase quadradas, e vidra&ccedil;as de pequenos vidros<br \/>\n    eram de h&aacute; bem poucos anos, menos de cinq&uuml;enta.<\/p>\n<p>Quaresma e Albernaz atravessaram tudo aquilo sem reminisc&ecirc;ncias e foram<br \/>\n    at&eacute; ao ponto. Antes perlustraram a zona do turfe, uma pequena por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cidade onde se amontoam cocheiras e coudelarias de animais de corridas,<br \/>\n    tendo grandes ferraduras, cabe&ccedil;as de cavalos, pan&oacute;plias de chicotes<br \/>\n    e outros emblemas h&iacute;picos, nos pilares dos port&otilde;es, nas almofadas<br \/>\n    das portas, por toda parte onde tais distintivos fiquem bem e d&ecirc;em na<br \/>\n    vista.<\/p>\n<p>A casa da velha preta ficava al&eacute;m do ponto, para as bandas da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da estrada de ferro Leopoldina. L&aacute; foram ter. Passaram pela esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sobre um largo terreiro, negro de moinha de carv&atilde;o-de-pedra, medas<br \/>\n    de lenha e imensas tulhas de sacos de carv&atilde;o vegetal se acumulavam;<br \/>\n    mais adiante um dep&oacute;sito de locomotivas e sobre os trilhos algumas<br \/>\n    manobravam e outras arfavam sob press&atilde;o.<\/p>\n<p>Apanharam afinal o carreiro onde ficava a casa da Maria Rita. O tempo estivera<br \/>\n    seco e por isso se podia andar por ele. Para al&eacute;m do caminho, estendia-se<br \/>\n    a vasta regi&atilde;o de mangues, uma zona imensa, triste e feia, que vai<br \/>\n    at&eacute; ao fundo da ba&iacute;a e, no horizonte, morre ao sop&eacute; das<br \/>\n    montanhas azuis de Petr&oacute;polis. Chegaram &agrave; casa da velha. Era<br \/>\n    baixa, caiada e coberta com as pesadas telhas portuguesas. Ficava um pouco<br \/>\n    afastada da estrada. &Agrave; direita havia um monturo: restos de cozinha,<br \/>\n    trapos, conchas de mariscos, peda&ccedil;os de lou&ccedil;a caseira &#8212; um<br \/>\n    sambaqui a fazer-se para g&aacute;udio de um arque&oacute;logo de futuro remoto;<br \/>\n    &agrave; esquerda, crescia um mamoeiro e bem junto &agrave; cerca, no mesmo<br \/>\n    lado, havia um p&eacute; de arruda. Bateram. Uma pretinha mo&ccedil;a apareceu<br \/>\n    na janela aberta.<\/p>\n<p>&#8212; Que desejam?<\/p>\n<p>Disseram o que queriam e aproximaram-se. A mo&ccedil;a gritou para o interior<br \/>\n    da casa:<\/p>\n<p>&#8212; Vov&oacute; est&atilde;o a&iacute; dois &quot;mo&ccedil;os&quot; que querem<br \/>\n    falar com a senhora. Entrem, fa&ccedil;am o favor &#8212; disse ela depois, dirigindo-se<br \/>\n    ao general e ao seu companheiro.<\/p>\n<p>A sala era pequena e de telha-v&atilde;. Pelas paredes, velhos cromos de<br \/>\n    folhinhas, registros de santos, recortes de ilustra&ccedil;&otilde;es de jornais<br \/>\n    baralhavam-se e subiam por elas acima at&eacute; dois ter&ccedil;os da altura.<br \/>\n    Ao lado de uma Nossa Senhora da Penha, havia um retrato de V&iacute;tor Emanuel<br \/>\n    &quot; com enormes bigodes em desordem; um crini sentimental de folhinha &#8212;<br \/>\n    uma cabe&ccedil;a de mulher em posi&ccedil;&atilde;o de sonho &#8212; parecia olhar<br \/>\n    um S&atilde;o Jo&atilde;o Batista ao lado. No alto da porta que levava ao<br \/>\n    interior da casa, uma lamparina, numa cantoneira, enchia de fuligem a Concei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lou&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou vir a velha. Entrou em camisa de bicos de rendas, mostrando<br \/>\n    o peito descarnado, enfeitado com um colar de mi&ccedil;angas de duas voltas.<br \/>\n    Capengava de um p&eacute; e parecia querer ajudar a marcha com a m&atilde;o<br \/>\n    esquerda pousada na perna correspondente.<\/p>\n<p>&#8212; Boas tardes, tia Maria Rita, disse o general.<\/p>\n<p>Ela respondeu, mas n&atilde;o deu mostras de ter reconhecido quem lhe falava.<br \/>\n    O general atalhou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me conhece mais? Sou o general, o Coronel Albernaz.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &Eacute; s&ecirc; coron&eacute;!&#8230; H&aacute; quanto tempo! Como est&aacute;<br \/>\n    nh&atilde; Maricota?<\/p>\n<p>&#8212; Vai bem. Minha velha, n&oacute;s quer&iacute;amos que voc&ecirc; nos ensinasse<br \/>\n    umas cantigas.<\/p>\n<p>&#8212; Quem sou eu, ioi&ocirc;!<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Vamos, tia Maria Rita&#8230; voc&ecirc; n&atilde;o perde nada&#8230; voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o sabe o &quot;Bumba-meu-Boi&quot;?<\/p>\n<p>&#8212; Qu&aacute;, ioi&ocirc;, j&aacute; mi esqueceu.<\/p>\n<p>&#8212; E o &quot;Boi Esp&aacute;cio&quot;?<\/p>\n<p>&#8212; Coisa v&eacute;ia, do tempo do cativeiro &#8212; pra que s&ocirc; coron&eacute;<br \/>\n    qu&eacute; sab&ecirc; isso?<\/p>\n<p>Ela falava arrastando as s&iacute;labas, com um doce sorriso e um olhar vago.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; para uma festa&#8230; Qual &eacute; a que voc&ecirc; sabe?<\/p>\n<p>A neta que at&eacute; ali ouvia calada a conversa animou-se a dizer alguma<br \/>\n    coisa, deixando perceber rapidamente a fiada reluzente de seus dentes imaculados:<\/p>\n<p>&#8212; Vov&oacute; j&aacute; n&atilde;o se lembra.<\/p>\n<p>O general, que a velha chamava coronel, por t&ecirc;-la conhecido nesse posto,<br \/>\n    n&atilde;o atendeu a observa&ccedil;&atilde;o da mo&ccedil;a e insistiu:<\/p>\n<p>&#8212; Qual esquecida, o qu&ecirc;! Deve saber ainda alguma coisa, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, titia?<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; sei o &quot;Bicho Tutu&quot;, disse a velha.<\/p>\n<p>&#8212; Cante l&aacute;!<\/p>\n<p>&#8212; Ioi&ocirc; sabe! N&atilde;o sabe? Qu&aacute;, sabe!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, cante. Se eu soubesse n&atilde;o vinha aqui. Pergunte<br \/>\n    aqui ao meu amigo, o Major Policarpo, se sei.<\/p>\n<p>Quaresma fez com a cabe&ccedil;a sinal afirmativo e a preta velha, talvez<br \/>\n    com grandes saudades do tempo em que era escrava e ama de alguma grande casa,<br \/>\n    farta e rica, ergueu a cabe&ccedil;a, como para melhor recordar-se, e entoou:<br \/>\n    <br \/>\n    &Eacute; v&ecirc;m tutu<\/p>\n<p>Por detr&aacute;s do murundu<\/p>\n<p>Pra cum&ecirc; sinhozinho<\/p>\n<p>Com bucado de angu. <br \/>\n    &#8212; Ora! fez o general com enfado, isso &eacute; coisa antiga de embalar crian&ccedil;as.<br \/>\n    Voc&ecirc; n&atilde;o sabe outra?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, sinh&ocirc;. J&aacute; mi esqueceu.<\/p>\n<p>Os dois sa&iacute;ram tristes. Quaresma vinha desanimado. Como &eacute; que<br \/>\n    o povo n&atilde;o guardava as tradi&ccedil;&otilde;es de trinta anos passados?<br \/>\n    Com que rapidez morriam assim na sua lembran&ccedil;a os seus folgares e as<br \/>\n    suas can&ccedil;&otilde;es? Era bem um sinal de fraqueza, uma demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de inferioridade diante daqueles povos tenazes que os guardam durante s&eacute;culos!<br \/>\n    Tornava-se preciso reagir, desenvolver o culto das tradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mant&ecirc;-las sempre vivazes nas mem&oacute;rias e nos costumes&#8230;<\/p>\n<p>Albernaz vinha contrariado. Contava arranjar um n&uacute;mero bom para a<br \/>\n    festa que ia dar, e escapava-lhe. Era quase a esperan&ccedil;a de casamento<br \/>\n    de uma das quatro filhas que se ia, das quatro, porque uma delas j&aacute;<br \/>\n    estava garantida, gra&ccedil;as a Deus.<\/p>\n<p>O crep&uacute;sculo chegava e eles entraram em casa mergulhados na melancolia<br \/>\n    da hora.<\/p>\n<p>A decep&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, demorou dias. Cavalc&acirc;nti, o<br \/>\n    noivo de Ism&ecirc;nia, informou que nas imedia&ccedil;&otilde;es morava um<br \/>\n    literato, teimoso cultivador dos contos e can&ccedil;&otilde;es populares<br \/>\n    do Brasil. Foram a ele. Era um velho poeta que teve sua fama ai pelos setenta<br \/>\n    e tantos, homem doce e ing&ecirc;nuo que se deixara esquecer em vida, como<br \/>\n    poeta, e agora se entretinha em publicar cole&ccedil;&otilde;es que ningu&eacute;m<br \/>\n    lia, de contos, can&ccedil;&otilde;es, ad&aacute;gios e ditados populares.<\/p>\n<p>Foi grande a sua alegria quando soube o objeto da visita daqueles senhores.<br \/>\n    Quaresma estava animado e falou com calor; e Albernaz tamb&eacute;m, porque<br \/>\n    via na sua festa, com um n&uacute;mero de folklore, meio de chamar a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre sua casa, atrair gente e&#8230; casar as filhas.<\/p>\n<p>A sala em que foram recebidos, era ampla; mas estava t&atilde;o cheia de<br \/>\n    mesas, estantes, pejadas de livros, pastas, latas, que mal se podia mover<br \/>\n    nela. Numa lata lia-se: Santa Ana dos Tocos; numa pasta: S&atilde;o Bonif&aacute;cio<br \/>\n    do Cabresto.<\/p>\n<p>&#8212; Os senhores n&atilde;o sabem, disse o velho poeta, que riqueza &eacute;<br \/>\n    a nossa poesia popular! que surpresas ela reserva!&#8230; Ainda h&aacute; dias<br \/>\n    recebi uma carta de Urubu-de-Baixo com uma linda can&ccedil;&atilde;o. Querem<br \/>\n    ver?<\/p>\n<p>O colecionador revolveu pastas e afinal trouxe de l&aacute; um papel onde<br \/>\n    leu: <br \/>\n    Se Deus enxergasse pobre<\/p>\n<p>N&atilde;o me deixaria assim:<\/p>\n<p>Dava no cora&ccedil;&atilde;o dela<\/p>\n<p>Um lugarzinho pra mim, <br \/>\n    O amor que tenho por ela<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o cabe no meu peito;<\/p>\n<p>Sai-me pelos olhos afora<\/p>\n<p>Voa &agrave;s nuvens direito. <br \/>\n    &#8212; N&atilde;o &eacute; bonito?&#8230; Muito! Se os senhores conhecessem ent&atilde;o<br \/>\n    o ciclo do macaco, a cole&ccedil;&atilde;o de hist&oacute;rias que o povo<br \/>\n    tem sobre o s&iacute;mio?&#8230; Oh! Uma verdadeira epop&eacute;ia c&ocirc;mica!<\/p>\n<p>Quaresma olhava para o velho poeta com o espanto satisfeito de algu&eacute;m<br \/>\n    que encontrou um semelhante no deserto; e Albernaz, um momento contagiado<br \/>\n    pela paix&atilde;o do folclorista, tinha mais intelig&ecirc;ncia no olhar<br \/>\n    com que o encarava.<\/p>\n<p>O velho poeta guardou a can&ccedil;&atilde;o de Urubu-de-Baixo, numa pasta;<br \/>\n    e foi logo &agrave; outra, donde tirou v&aacute;rias folhas de papel. Veio<br \/>\n    at&eacute; junto aos dois visitantes e disse-lhes:<\/p>\n<p>&#8212; Vou ler aos senhores uma pequena hist&oacute;ria do macaco, das muitas<br \/>\n    que o nosso povo conta&#8230; S&oacute; eu j&aacute; tenho perto de quarenta e<br \/>\n    pretendo public&aacute;-las, sob o t&iacute;tulo Hist&oacute;rias do Mestre<br \/>\n    Sim&atilde;o.<\/p>\n<p>E, sem perguntar se os incomodava ou se estavam dispostos a ouvir, come&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&quot;O macaco perante o juiz de direito. Andava um bando de macacos em tro&ccedil;a,<br \/>\n    pulando de &aacute;rvore em &aacute;rvore, nas bordas de uma grota. Eis sen&atilde;o<br \/>\n    quando, um deles v&ecirc; no fundo uma on&ccedil;a que l&aacute; ca&iacute;ra.<br \/>\n    Os macacos se enternecem e resolvem salv&aacute;-la. Para isso, arrancaram<br \/>\n    cip&oacute;s, emendaram-nos bem, amarraram a corda assim feita &agrave; cintura<br \/>\n    de cada um deles e atiraram uma das pontas &agrave; on&ccedil;a. Com o esfor&ccedil;o<br \/>\n    reunido de todos, conseguiram i&ccedil;&aacute;-la e logo se desamarraram,<br \/>\n    fugindo. Um deles, por&eacute;m, n&atilde;o o p&ocirc;de fazer a tempo e a<br \/>\n    on&ccedil;a segurou-o imediatamente.<\/p>\n<p>&#8212; Compadre Macaco, disse ela, tenha paci&ecirc;ncia. Estou com fome e voc&ecirc;<br \/>\n    vai fazer-me o favor de deixar-se comer.<\/p>\n<p>O macaco rogou, instou, chorou; mas a on&ccedil;a parecia inflex&iacute;vel,<br \/>\n    Sim&atilde;o ent&atilde;o lembrou que a demanda fosse resolvida pelo juiz<br \/>\n    de direito. Foram a ele; o macaco sempre agarrado pela on&ccedil;a. &Eacute;<br \/>\n    juiz de direito entre os animais, o jabuti, cujas audi&ecirc;ncias s&atilde;o<br \/>\n    dadas &agrave; borda dos rios, colocando-se ele em cima de uma pedra. Os dois<br \/>\n    chegaram e o macaco exp&ocirc;s as suas raz&otilde;es.<\/p>\n<p>O jabuti ouvi-o e no fim ordenou:<\/p>\n<p>&#8212; Bata palmas.<\/p>\n<p>Apesar de seguro pela on&ccedil;a, o macaco p&ocirc;de assim mesmo bater<br \/>\n    palmas. Chegou a vez da on&ccedil;a, que tamb&eacute;m exp&ocirc;s as suas<br \/>\n    raz&otilde;es e motivos.<\/p>\n<p>O juiz, como da primeira vez, determinou ao felino:<\/p>\n<p>&#8212; Bata palmas.<\/p>\n<p>A on&ccedil;a n&atilde;o teve rem&eacute;dio sen&atilde;o largar o macaco,<br \/>\n    que se escapou, e tamb&eacute;m o juiz, atirando-se n&#8217;&aacute;gua&quot;.<\/p>\n<p>Acabando a leitura, o velho dirigiu-se aos dois:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o acham interessante? Muito! H&aacute; no nosso povo muita inven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    muita cria&ccedil;&atilde;o, verdadeiro material para fabliaux interessantes&#8230;<br \/>\n    No dia em que aparecer um literato de g&ecirc;nio que o fixe numa forma imortal&#8230;<br \/>\n    Ah! Ent&atilde;o!<\/p>\n<p>Dizendo isto, brincava nas suas faces um demorado sorriso de satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e nos seus olhos abrolhavam duas l&aacute;grimas furtivas.<\/p>\n<p>&#8212; Agora, continuou ele, depois de passada a emo&ccedil;&atilde;o &#8212; vamos<br \/>\n    ao que serve. O &quot;Boi Esp&aacute;cio&quot; ou o &quot;Bumba-meu-Boi&quot;<br \/>\n    ainda &eacute; muita coisa para voc&ecirc;s&#8230; &Eacute; melhor irmos devagar,<br \/>\n    come&ccedil;ar pelo mais f&aacute;cil&#8230; Est&aacute; a&iacute; o &quot;Tangolomango&quot;,<br \/>\n    conhecem?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, disseram os dois.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; divertido. Arranjem dez crian&ccedil;as, uma m&aacute;scara de<br \/>\n    velho, uma roupa estramb&oacute;lica para um dos senhores, que eu ensaio.<\/p>\n<p>O dia chegou. A casa do general estava cheia. Cavalc&acirc;nti viera; e ele<br \/>\n    e a noiva, &agrave; parte, no v&atilde;o de uma janela, pareciam ser os &uacute;nicos<br \/>\n    que n&atilde;o tinham interesse pela folia. Ele, falando muito, cheio de trejeitos<br \/>\n    no olhar; ela, meio fria, deitando de quando em quando, para o noivo, um olhar<br \/>\n    de gratid&atilde;o.<\/p>\n<p>Quaresma fez o &quot;Tangolomango&quot;, isto &eacute;, vestiu uma velha<br \/>\n    sobrecasaca do general, p&ocirc;s uma imensa m&aacute;scara de velho, agarrou-se<br \/>\n    a um bord&atilde;o curvo, em forma de b&aacute;culo, e entrou na sala. As<br \/>\n    dez crian&ccedil;as cantaram em coro: <br \/>\n    Uma m&atilde;e teve dez filhos<\/p>\n<p>Todos os dez dentro de um pote:<\/p>\n<p>Deu o Tangolomango nele<\/p>\n<p>N&atilde;o ficaram sen&atilde;o nove. <br \/>\n    Por a&iacute;, o major avan&ccedil;ava, batia com o b&aacute;culo no assoalho,<br \/>\n    fazia: hu! hu! hu! ; as crian&ccedil;as fugiam, afinal ele agarrava uma e<br \/>\n    levava para dentro. Assim ia executando com grande alegria da sala, quando,<br \/>\n    pela quinta estrofe, lhe faltou o ar, lhe ficou a vista escura e caiu. Tiraram-lhe<br \/>\n    a m&aacute;scara, deram-lhe algumas sacudidelas e Quaresma voltou a si.<\/p>\n<p>O acidente, entretanto, n&atilde;o lhe deu nenhum desgosto pelo folklore.<br \/>\n    Comprou livros, leu todas as publica&ccedil;&otilde;es a respeito, mas a decep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe veio ao fim de algumas semanas de estudo.<\/p>\n<p>Quase todas as tradi&ccedil;&otilde;es e can&ccedil;&otilde;es eram estrangeiras;<br \/>\n    o pr&oacute;prio &quot;Tangolomango&quot; o era tamb&eacute;m. Tornava-se,<br \/>\n    portanto, preciso arranjar alguma coisa pr&oacute;pria, original, uma cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da nossa terra e dos nossos ares.<\/p>\n<p>Essa id&eacute;ia levou-o a estudar os costumes tupinamb&aacute;s; e, como<br \/>\n    uma id&eacute;ia traz outra, logo ampliou o seu prop&oacute;sito e eis a raz&atilde;o<br \/>\n    por que estava organizando um c&oacute;digo de rela&ccedil;&otilde;es, de<br \/>\n    cumprimentos, de cerim&ocirc;nias dom&eacute;sticas e festas, calcado nos<br \/>\n    preceitos tupis.<\/p>\n<p>Desde dez dias que se entregava a essa &aacute;rdua tarefa, quando (era domingo)<br \/>\n    lhe bateram &agrave; porta, em meio de seu trabalho. Abriu, mas n&atilde;o<br \/>\n    apertou a m&atilde;o. Desandou a chorar, a berrar, a arrancar os cabelos,<br \/>\n    como se tivesse perdido a mulher ou um filho. A irm&atilde; correu l&aacute;<br \/>\n    de dentro, o Anast&aacute;cio tamb&eacute;m, e o compadre e a filha, pois<br \/>\n    eram eles, ficaram, estupefatos no limiar da porta.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que &eacute; isso, compadre?<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; isso, Policarpo?<\/p>\n<p>&#8212; Mas, meu padrinho&#8230;<\/p>\n<p>Ele ainda chorou um pouco. Enxugou as l&aacute;grimas e, depois, explicou<br \/>\n    com a maior naturalidade:<\/p>\n<p>&#8212; Eis a&iacute;! Voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m a m&iacute;nima no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das coisas da nossa terra, queriam que eu apertasse a m&atilde;o&#8230; Isto n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; nosso! Nosso cumprimento &eacute; chorar quando encontramos os amigos,<br \/>\n    era assim que faziam os tupinamb&aacute;s.<\/p>\n<p>O seu compadre Vicente, a filha e Dona Adelaide entreolharam-se, sem saber<br \/>\n    o que dizer. O homem estaria doido? Que extravag&acirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Senhor Policarpo, disse-lhe o compadre, &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que isto seja muito brasileiro, mas &eacute; bem triste, compadre.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, padrinho, acrescentou a mo&ccedil;a com vivacidade; parece at&eacute;<br \/>\n    agouro&#8230;<\/p>\n<p>Este seu compadre era italiano de nascimento. A hist&oacute;ria das suas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es vale a pena contar. Quitandeiro ambulante, fora fornecedor<br \/>\n    da casa de Quaresma h&aacute; vinte e tantos anos. O major j&aacute; tinha<br \/>\n    as suas id&eacute;ias patri&oacute;ticas, mas n&atilde;o desdenhava conversar<br \/>\n    com o quitandeiro e at&eacute; gostava de v&ecirc;-lo suado, curvado ao peso<br \/>\n    dos cestos, com duas rosas vermelhas nas faces muito brancas de europeu rec&eacute;m-chegado.<br \/>\n    Mas um belo dia, ia Quaresma pelo Largo do Pa&ccedil;o, muito distra&iacute;do,<br \/>\n    a pensar nas maravilhas arquitet&ocirc;nicas do chafariz do Mestre Valentim,<br \/>\n    quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. Falou-lhe com aquela<br \/>\n    simplicidade d&#8217;alma que era bem sua, e notou que o rapaz tinha alguma preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;ria. N&atilde;o s&oacute;, de onde em onde, soltava exclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sem liga&ccedil;&atilde;o alguma com a conversa atual, como tamb&eacute;m,<br \/>\n    cerrava os l&aacute;bios, rilhava os dentes e crispava raivosamente os punhos.<br \/>\n    Interrogou-o e veio a saber que tivera uma quest&atilde;o de dinheiro com<br \/>\n    um seu colega, estando disposto a mat&aacute;-lo, pois perdera o cr&eacute;dito<br \/>\n    e em breve estaria na mis&eacute;ria. Havia na sua afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma tal energia e um grande e estranho acento de ferocidade que fizeram empregar<br \/>\n    o major toda a sua do&ccedil;ura e persuas&atilde;o para dissuadi-lo do prop&oacute;sito.<br \/>\n    E n&atilde;o ficou nisto s&oacute;: emprestou-lhe tamb&eacute;m dinheiro.<br \/>\n    Vicente Coleoni p&ocirc;s uma quitanda, ganhou uns contos de r&eacute;is,<br \/>\n    fez-se logo empreiteiro, enriqueceu, casou, veio a ter aquela filha, que foi<br \/>\n    levada &agrave; pia pelo seu benfeitor. In&uacute;til &eacute; dizer que Quaresma<br \/>\n    n&atilde;o notou a contradi&ccedil;&atilde;o entre as suas id&eacute;ias patri&oacute;ticas<br \/>\n    e o seu ato.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que ele n&atilde;o as tinha ainda muito firmes, mas j&aacute;<br \/>\n    flutuavam na sua cabe&ccedil;a e reagiam sobre a sua consci&ecirc;ncia como<br \/>\n    t&ecirc;nues desejos, veleidades de rapaz de pouco mais de vinte anos, veleidades<br \/>\n    que n&atilde;o tardariam tomar consist&ecirc;ncia e s&oacute; esperavam os<br \/>\n    anos para desabrochar em atos.<\/p>\n<p>Fora, pois, ao seu compadre Vicente e &agrave; sua afilhada Olga que ele<br \/>\n    recebera com o mais leg&iacute;timo cerimonial guaitac&aacute;s, e, se n&atilde;o<br \/>\n    envergara o traje de rigor de t&atilde;o interessante povo, motivo n&atilde;o<br \/>\n    foi o n&atilde;o t&ecirc;-lo. Estava at&eacute; &agrave; m&atilde;o, mas faltava-lhe<br \/>\n    tempo para despir-se.<\/p>\n<p>&#8212; L&ecirc;-se muito, padrinho? perguntou-lhe a afilhada, deitando sobre<br \/>\n    ele os seus olhos muito luminosos.<\/p>\n<p>Havia entre os dois uma grande afei&ccedil;&atilde;o. Quaresma era um tanto<br \/>\n    reservado e o vexame de mostrar os seus sentimentos faziam-no econ&ocirc;mico<br \/>\n    nas demonstra&ccedil;&otilde;es afetuosas. Adivinha-se, entretanto, que a<br \/>\n    mo&ccedil;a ocupava-lhe no cora&ccedil;&atilde;o o lugar dos filhos que n&atilde;o<br \/>\n    tivera nem teria jamais. A menina vivaz, habituada a falar alto e desembara&ccedil;adamente,<br \/>\n    n&atilde;o escondia a sua afei&ccedil;&atilde;o tanto mais que sentia confusamente<br \/>\n    nele alguma coisa de superior, uma &acirc;nsia de ideal, uma tenacidade em<br \/>\n    seguir um sonho, uma id&eacute;ia, um v&ocirc;o enfim para as altas regi&otilde;es<br \/>\n    do esp&iacute;rito que ela n&atilde;o estava habituada a ver em ningu&eacute;m<br \/>\n    do mundo que freq&uuml;entava. Essa admira&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lhe<br \/>\n    vinha da educa&ccedil;&atilde;o. Recebera a comum &agrave;s mo&ccedil;as de<br \/>\n    seu nascimento. Vinha de um pendor pr&oacute;prio, talvez das proximidades<br \/>\n    europ&eacute;ias do seu nascimento, que a fizeram um pouco diferente das nossas<br \/>\n    mo&ccedil;as.<\/p>\n<p>Fora com um olhar luminoso e perscrutador que ela perguntara ao padrinho:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o padrinho, l&ecirc;-se muito?<\/p>\n<p>&#8212; Muito, minha filha. Imagina que medito grandes obras, uma reforma, a emancipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um povo.<\/p>\n<p>Vicente fora com Dona Adelaide para o interior da casa e os dois conversavam<br \/>\n    a s&oacute;s na sala dos livros. A afilhada notou que Quaresma tinha alguma<br \/>\n    coisa de mais. Falava agora com tanta seguran&ccedil;a, ele que antigamente<br \/>\n    era t&atilde;o modesto, hesitante mesmo no falar &#8212; que diabo! N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o era poss&iacute;vel&#8230; Mas, quem sabe? E que singular alegria havia<br \/>\n    nos seus olhos &#8212; uma alegria de matem&aacute;tico que resolveu um problema,<br \/>\n    de inventor feliz!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se v&aacute; meter em alguma conspira&ccedil;&atilde;o, disse<br \/>\n    a mo&ccedil;a gracejando. <\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o te assustes por isso. A coisa vai naturalmente, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; preciso viol&ecirc;ncias&#8230;<\/p>\n<p>Nisto Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros entrou com o seu longo e rabudo<br \/>\n    fraque de sarja e o seu viol&atilde;o encapotado em camur&ccedil;a. O major<br \/>\n    fez as apresenta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; o conhecia de nome, Senhor Ricardo, disse Olga.<\/p>\n<p>Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros encheu-se de um alvissareiro contentamento.<br \/>\n    A sua fisionomia minguada dilatou-se ao brilho do seu olhar satisfeito; e<br \/>\n    a sua c&uacute;tis que era ressecada e de um tom de velho m&aacute;rmore,<br \/>\n    como que ficou macia e jovem. Aquela mo&ccedil;a parecia rica, era fina e<br \/>\n    bonita, conhecia-o &#8212; que satisfa&ccedil;&atilde;o! Ele que era sempre um<br \/>\n    tanto parvo e atrapalhado, quando se encontrava diante das mo&ccedil;as, fossem<br \/>\n    de que condi&ccedil;&atilde;o fossem, animava-se, soltava a l&iacute;ngua,<br \/>\n    amaciava a voz e ficava numeroso e eloq&uuml;ente.<\/p>\n<p>&#8212; Leu ent&atilde;o os meus versos, n&atilde;o &eacute;, minha senhora?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tive esse prazer, mas li, h&aacute; meses, uma aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre um trabalho seu.<\/p>\n<p>&#8212; No Tempo, n&atilde;o foi?<\/p>\n<p>&#8212; Foi.<\/p>\n<p>&#8212; Muito injusta! acrescentou Ricardo. Todos os cr&iacute;ticos se at&ecirc;m<br \/>\n    a essa quest&atilde;o de metrifica&ccedil;&atilde;o. Dizem que os meus versos<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o versos&#8230; S&atilde;o, sim, mas s&atilde;o versos para<br \/>\n    viol&atilde;o. Vossa Excel&ecirc;ncia sabe que os versos para m&uacute;sica<br \/>\n    t&ecirc;m alguma coisa de diferente dos comuns, n&atilde;o &eacute;? N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;, portanto, nada a admirar que os meus versos, feitos para o viol&atilde;o,<br \/>\n    sigam outra m&eacute;trica e outro sistema, n&atilde;o acha?<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, disse a mo&ccedil;a. Mas parece-me que o Senhor faz versos para<br \/>\n    a m&uacute;sica e n&atilde;o m&uacute;sica para os versos.<\/p>\n<p>E ela sorriu devagar, enigmaticamente, deixando parado o seu olhar luminoso,<br \/>\n    enquanto Ricardo, desconfiado, lhe sondava a inten&ccedil;&atilde;o com os<br \/>\n    seus olhinhos vivos e mi&uacute;dos de camundongo.<\/p>\n<p>Quaresma, que at&eacute; ali se conservava calado, interveio:<\/p>\n<p>&#8212; O Ricardo, Olga, &eacute; um artista&#8230; Tenta e trabalha para levantar<br \/>\n    o viol&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei, padrinho. Eu sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Entre n&oacute;s, minha senhora, falou Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros,<br \/>\n    n&atilde;o se levam a s&eacute;rio essas tentativas nacionais, mas, na Europa,<br \/>\n    todos respeitam e auxiliam&#8230; Como &eacute; que se chama, major, aquele poeta<br \/>\n    que escreveu em franc&ecirc;s popular?<\/p>\n<p>&#8212; Mistral, acudiu Quaresma, mas n&atilde;o &eacute; franc&ecirc;s popular;<br \/>\n    &eacute; o proven&ccedil;al, uma verdadeira l&iacute;ngua.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, &eacute; isso, confirmou Ricardo. Pois o Mistral n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    considerado, respeitado? Eu, no tocante ao viol&atilde;o, estou fazendo o<br \/>\n    mesmo.<\/p>\n<p>Olhou triunfante para um e outro circunstante; e Olga dirigindo-se a ele,<br \/>\n    disse:<\/p>\n<p>&#8212; Continue na tentativa, Senhor Ricardo, que &eacute; digno de louvor.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado. Fique certa, minha senhora, que o viol&atilde;o &eacute; um<br \/>\n    belo instrumento e tem grandes dificuldades. Por exemplo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual! Interroumpeu Quaresma abruptamente. H&aacute; outros mais dif&iacute;ceis.<\/p>\n<p>&#8212; O piano? perguntou Ricardo.<\/p>\n<p>&#8212; Que piano! O marac&aacute;, a in&uacute;bia.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o conheces? &Eacute; boa! Os instrumentos mais nacionais poss&iacute;veis,<br \/>\n    os &uacute;nicos que o s&atilde;o verdadeiramente; instrumentos dos nossos<br \/>\n    antepassados, daquela gente valente que se bateu e ainda se bate pela posse<br \/>\n    desta linda terra. Os caboclos!<\/p>\n<p>&#8212; Instrumento de caboclo, ora! disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8212; De caboclo! Que &eacute; que tem? O L&eacute;ry diz que s&atilde;o muito<br \/>\n    sonoros e agrad&aacute;veis de ouvir&#8230; Se &eacute; por ser de caboclo, o<br \/>\n    viol&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o vale nada. &#8212; &eacute; um instrumento<br \/>\n    de capad&oacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; De capad&oacute;cio, major! N&atilde;o diga isso&#8230;<\/p>\n<p>E os dois ainda discutiram acaloradamente diante da mo&ccedil;a, surpresa,<br \/>\n    espantada, sem atinar, sem explica&ccedil;&atilde;o para aquela inopinada<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nio do seu padrinho, at&eacute; ali<br \/>\n    t&atilde;o sossegado e t&atilde;o calmo. <\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">III &#8211; A NOT&Iacute;CIA DO GENEL&Iacute;CIO<\/a><\/h4>\n<p>Ent&atilde;o quando se casa, Dona Ism&ecirc;nia?<\/p>\n<p>&#8212; Em mar&ccedil;o. Cavalc&acirc;nti j&aacute; est&aacute; formado e&#8230;<\/p>\n<p>Afinal a filha do general p&ocirc;de responder com seguran&ccedil;a &agrave;<br \/>\n    pergunta que se lhe vinha fazendo h&aacute; quase cinco anos. O noivo finalmente<br \/>\n    encontrara o fim do curso de dentista e marcara o casamento para dai a tr&ecirc;s<br \/>\n    meses. A alegria foi grande na fam&iacute;lia; e, como em tal caso, uma alegria<br \/>\n    n&atilde;o podia passar sem um baile, uma festa foi anunciada para o s&aacute;bado<br \/>\n    que se seguia ao pedido da pragm&aacute;tica.<\/p>\n<p>As irm&atilde;s da noiva, Quinota, Zizi, Lal&aacute; e Vivi, estavam mais<br \/>\n    contentes que a irm&atilde; nubente. Parecia que ela lhes ia deixar o caminho<br \/>\n    desembara&ccedil;ado, e fora a irm&atilde; quem at&eacute; ali tinha impedido<br \/>\n    que se casassem.<\/p>\n<p>Noiva havia quase cinco anos, Ism&ecirc;nia j&aacute; se sentia meio casada.<br \/>\n    Esse sentimento junto &agrave; sua natureza pobre f&ecirc;-la n&atilde;o sentir<br \/>\n    um pouco mais de alegria. Ficou no mesmo. Casar, para ela, n&atilde;o era<br \/>\n    neg&oacute;cio de paix&atilde;o, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos;<br \/>\n    era uma id&eacute;ia, uma pura id&eacute;ia. Aquela sua intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    rudimentar tinha separado da id&eacute;ia de casar o amor, o prazer dos sentidos,<br \/>\n    uma tal ou qual liberdade, a maternidade, at&eacute; o noivo. Desde menina,<br \/>\n    ouvia a mam&atilde;e dizer: &quot;Aprenda a fazer isso, porque quando voc&ecirc;<br \/>\n    se casar&quot;&#8230; ou sen&atilde;o: &quot;Voc&ecirc; precisa aprender a pregar<br \/>\n    bot&otilde;es, porque quando voc&ecirc; se casar&#8230;&quot;<\/p>\n<p>A todo instante e a toda hora, l&aacute; vinha aquele &#8212; &quot;porque, quando<br \/>\n    voc&ecirc; se casar&#8230;&quot; &#8212; e a menina foi se convencendo de que toda<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia s&oacute; tendia para o casamento. A instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as satisfa&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas, a alegria, tudo isso era in&uacute;til;<br \/>\n    a vida se resumia numa coisa: casar.<\/p>\n<p>De resto, n&atilde;o era s&oacute; dentro de sua fam&iacute;lia que ela encontrava<br \/>\n    aquela preocupa&ccedil;&atilde;o. No col&eacute;gio, na rua, em casa das fam&iacute;lias<br \/>\n    conhecidas, s&oacute; se falava em casar. &quot;Sabe, Dona Maricota, a Lili<br \/>\n    casou-se, n&atilde;o fez grande neg&oacute;cio, pois parece que o noivo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; l&aacute; grande coisa&quot;; ou ent&atilde;o: &quot;A Zez&eacute;<br \/>\n    est&aacute; doida para arranjar casamento, mas &eacute; t&atilde;o feia, meu<br \/>\n    Deus!&#8230;&quot; <\/p>\n<p>A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das id&eacute;ias,<br \/>\n    o nosso pr&oacute;prio direito &agrave; felicidade, foram parecendo ninharias<br \/>\n    para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe representou coisa<br \/>\n    importante, uma esp&eacute;cie de dever, que n&atilde;o se casar, ficar solteira,<br \/>\n    &quot;tia&quot;, parecia-lhe um crime, uma vergonha.<\/p>\n<p>De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer coisa profunda<br \/>\n    e intensamente, sem quantidade emocional para a paix&atilde;o ou para um grande<br \/>\n    afeto, na sua intelig&ecirc;ncia a id&eacute;ia de &quot;casar-se&quot; incrustou-se<br \/>\n    teimosamente como uma obsess&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o era feia; amorenada, com os seus tra&ccedil;os acanhados,<br \/>\n    o narizinho mal feito, mas galante, n&atilde;o muito baixa nem muito magra<br \/>\n    e a sua apar&ecirc;ncia de bondade passiva, de indol&ecirc;ncia de corpo,<br \/>\n    de id&eacute;ia e de sentidos &#8212; era at&eacute; um bom tipo das meninas a<br \/>\n    que os namorados chamam &#8212; &quot;bonitinhas&quot;. O seu tra&ccedil;o de beleza<br \/>\n    dominante, por&eacute;m, eram seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos,<br \/>\n    com tons de ouro, sedosos at&eacute; ao olhar.<\/p>\n<p>Aos dezenove anos arranjou namoro com o Cavalc&acirc;nti, e &agrave; fraqueza<br \/>\n    de sua vontade e ao temor de n&atilde;o encontrar marido n&atilde;o foi estranha<br \/>\n    a facilidade com que o futuro dentista a conquistou.<\/p>\n<p>O pai fez m&aacute; cara. Ele andava sempre ao par dos namoros da filhas:<br \/>\n    &quot;Diga-me sempre, Maricota &#8212; dizia ele &#8212; quem s&atilde;o. Olho vivo!&#8230;<br \/>\n    &Eacute; melhor prevenir que curar&#8230; Pode ser um valdevinos e&#8230;&quot; Sabendo<br \/>\n    que o pretendente &agrave; Ism&ecirc;nia era um dentista, n&atilde;o gostou<br \/>\n    muito. Que &eacute; um dentista? perguntava ele de si para si. Um cidad&atilde;o<br \/>\n    semiformado, uma esp&eacute;cie de barbeiro. Preferia um oficial, tinha montepio<br \/>\n    e meio soldo; mas a mulher convenceu-o de que os dentistas ganham muito, e<br \/>\n    ele acedeu.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou ent&atilde;o Cavalc&acirc;nti a freq&uuml;entar a casa na<br \/>\n    qualidade de noivo &quot;paisano&quot;, isto &eacute;, que n&atilde;o pediu,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; ainda &quot;oficial&quot;.<\/p>\n<p>No fim do primeiro ano, tendo not&iacute;cia das dificuldades com que o futuro<br \/>\n    genro lutava para acabar os estudos, o general foi generosamente em seu socorro.<br \/>\n    Pagou-lhe taxas de matr&iacute;culas, livros e outras coisas. N&atilde;o era<br \/>\n    raro que ap&oacute;s uma longa conversa com a filha, Dona Maricota viesse<br \/>\n    ao marido e dissesse: &quot;Chico, arranja-me vinte mil-r&eacute;is que o<br \/>\n    Cavalc&acirc;nti precisa comprar uma Anatomia&quot;.<\/p>\n<p>O general era leal, bom e generoso; a n&atilde;o ser a sua pretens&atilde;o<br \/>\n    marcial, n&atilde;o havia no seu car&aacute;ter a m&iacute;nima falha. Demais,<br \/>\n    aquela necessidade de casar as filhas ainda o faziam melhor quando se tratava<br \/>\n    dos interesses delas.<\/p>\n<p>Ele ouvia a mulher, co&ccedil;ava a cabe&ccedil;a e dava o dinheiro; e at&eacute;<br \/>\n    para evitar despesas ao futuro genro, convidou-o a jantar em casa todo dia;<br \/>\n    e assim o namoro foi correndo at&eacute; ali.<\/p>\n<p>Enfim &#8212; dizia Albernaz &agrave; mulher, na noite do pedido, quando j&aacute;<br \/>\n    recolhidos &#8212; a coisa vai acabar. Felizmente, respondia-lhe Dona Maricota,<br \/>\n    vamos descontar esta letra.<\/p>\n<p>A satisfa&ccedil;&atilde;o resignada do general era por&eacute;m, falsa;<br \/>\n    ao contr&aacute;rio: ele estava radiante. Na rua, se encontrava um camarada,<br \/>\n    no primeiro momento azado, l&aacute; dizia ele:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um inferno, esta vida! Imagina tu, Castro, que ainda por cima<br \/>\n    tenho que casar uma filha!<\/p>\n<p>Ao que Castro interrogava:<\/p>\n<p>&#8212; Qual delas?<\/p>\n<p>&#8212; A Ism&ecirc;nia, a segunda, respondia Albernaz e logo acrescentava: tu<br \/>\n    &eacute; que &eacute;s feliz: s&oacute; tiveste filhos.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! meu amigo! falava o outro cheio de mal&iacute;cia, aprendi a receita.<br \/>\n    Por que n&atilde;o fizeste o mesmo?<\/p>\n<p>Despedindo-se, o velho Albernaz corria aos armaz&eacute;ns, &agrave;s lojas<br \/>\n    de lou&ccedil;a, comprava mais pratos, mais compoteiras, um centro de mesa,<br \/>\n    porque a festa devia ser imponente e ter um ar de abund&acirc;ncia e riqueza<br \/>\n    que traduzisse o seu grande contentamento.<\/p>\n<p>Na manh&atilde; do dia da festa comemorativa do pedido, Dona Maricota amanheceu<br \/>\n    cantando. Era raro que o fizesse: mas nos dias de grande alegria, ela cantarolava<br \/>\n    uma velha &aacute;ria, uma coisa do seu tempo de mo&ccedil;a e as filhas que<br \/>\n    sentiam nisto sinal certo de alegria corriam a ela, pedindo-lhe isto ou aquilo.<\/p>\n<p>Muito ativa, muito diligente, n&atilde;o havia dona-de-casa mais econ&ocirc;mica,<br \/>\n    mais poupada e que fizesse render mais o dinheiro do marido e o servi&ccedil;o<br \/>\n    das criadas. Logo que despertou, p&ocirc;s tudo em atividade, as criadas e<br \/>\n    as filhas. Vivi e Quinota foram para os doces; Lal&aacute; e Zizi auxiliaram<br \/>\n    as raparigas na arruma&ccedil;&atilde;o das salas e dos quartos, enquanto<br \/>\n    ela e Ism&ecirc;nia iam arrumar a mesa, disp&ocirc;-la com muito gosto e esplendor.<br \/>\n    O m&oacute;vel ficaria assim galhardo desde as primeiras horas do dia. A alegria<br \/>\n    de Dona Maricota era grande; ela n&atilde;o compreendia que uma mulher pudesse<br \/>\n    viver sem estar casada. N&atilde;o eram s&oacute; os perigos a que se achava<br \/>\n    exposta, a falta de arrimo; parecia-lhe feio e desonroso para a fam&iacute;lia.<br \/>\n    A sua satisfa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vinha do simples fato de ter descontado<br \/>\n    uma letra, como ele dizia. Vinha mais profundamente dos seus sentimentos maternos<br \/>\n    e de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ela arrumava a mesa, nervosa e alegre; e a filha fria e indiferente, &#8212; Mas,<br \/>\n    minha filha, dizia ela, at&eacute; parece que n&atilde;o &eacute; voc&ecirc;<br \/>\n    quem se vai casar! Que cara! Voc&ecirc; parece a&iacute; uma &quot;mosca-morta&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Mam&atilde;e, que quer que eu fa&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; bonito rir-se muito, andar a&iacute; como uma sirigaita,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m assim como voc&ecirc; est&aacute;! Eu nunca vi noiva assim.<\/p>\n<p>Durante uma hora, a mo&ccedil;a esfor&ccedil;ou-se por parecer muito alegre,<br \/>\n    mas logo lhe tornava toda a pobreza de sua natureza, incapaz de vibra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sentimental, e o natural do seu temperamento vencia-a e n&atilde;o tardava<br \/>\n    em cair naquela doentia lassid&atilde;o que lhe era pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Veio muita gente. Al&eacute;m das mo&ccedil;as e as respeit&aacute;veis m&atilde;es,<br \/>\n    acudiram ao convite do general, o Contra-Almirante Caldas, o doutor Flor&ecirc;ncio,<br \/>\n    engenheiro das &aacute;guas, o Major honor&aacute;rio Inoc&ecirc;ncio Bustamante,<br \/>\n    o Senhor Bastos, guarda-livros, ainda parente de Dona Maricota, e outras pessoas<br \/>\n    importantes. Ricardo n&atilde;o fora convidado porque o general temia a opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica sobre a presen&ccedil;a dele em festa s&eacute;ria; Quaresma<br \/>\n    o fora, mas n&atilde;o viera; e Cavalc&acirc;nti jantara com os futuros sogros.<\/p>\n<p>&Agrave;s seis horas, a casa j&aacute; estava cheia. As mo&ccedil;as cercavam<br \/>\n    Ism&ecirc;nia, cumprimentando-a, n&atilde;o sem um pouco de inveja no olhar.<\/p>\n<p>Irene, uma alourada e alta, aconselhava:<\/p>\n<p>&#8212; Eu, se fosse voc&ecirc;, comprava tudo no Parque.<\/p>\n<p>Tratava-se do enxoval. Todas elas, embora solteiras, davam conselhos, sabiam<br \/>\n    as casas barateiras, as pe&ccedil;as mais importantes e as que podiam ser<br \/>\n    dispensadas. Estavam ao par.<\/p>\n<p>A Armanda indicava com um requebro feiticeiro nos olhos:<\/p>\n<p>&#8212; Eu, ontem, vi na Rua da Constitui&ccedil;&atilde;o um dormit&oacute;rio<br \/>\n    de casal, muito bonito, voc&ecirc; por que n&atilde;o vai ver, Ism&ecirc;nia?<br \/>\n    Parece barato.<\/p>\n<p>A Ism&ecirc;nia era a menos entusiasmada, quase n&atilde;o respondia &agrave;s<br \/>\n    perguntas; e, se as respondia, era por monoss&iacute;labos. Houve um momento<br \/>\n    em que sorriu quase com alegria e abandono. Estef&acirc;nia, a doutora, normalista,<br \/>\n    que tinha nos dedos um anel, com tantas pedras que nem uma joalheria, num<br \/>\n    dado momento, chegou a boca carnuda aos ouvidos da noiva e fez uma confid&ecirc;ncia.<br \/>\n    Quando deixou de segredar-lhe, assim como se quisesse confirmar o dito, dilatou<br \/>\n    muito os seus olhos maliciosos e quentes, e disse alto:<\/p>\n<p>&#8212; Eu quero ver isso&#8230; Todas dizem que n&atilde;o&#8230; Eu sei&#8230;<\/p>\n<p>Ela aludia &agrave; resposta que, &agrave; sua confid&ecirc;ncia, Ism&ecirc;nia<br \/>\n    tinha dado com parcim&ocirc;nia: qual o qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Todas elas, conversando, tinham os olhos no piano. Os rapazes e uma parte<br \/>\n    dos velhos rodeavam Cavalc&acirc;nti, muito solene, dentro de um grande fraque<br \/>\n    preto.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, doutor, acabou, hein? dizia este a jeito de um cumprimento.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade! Trabalhei. Os senhores n&atilde;o imaginam os trope&ccedil;os,<br \/>\n    os embargos &#8212; fui de um hero&iacute;smo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Conhece o Chavantes? perguntava um outro.<\/p>\n<p>&#8212; Conhe&ccedil;o. Um cr&ocirc;nico, um p&acirc;ndego&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Foi seu colega?<\/p>\n<p>&#8212; Foi, isto &eacute;, ele &eacute; do curso de medicina. Matriculamo-nos<br \/>\n    no mesmo ano.<\/p>\n<p>Cavalc&acirc;nti ainda n&atilde;o tinha tido tempo de atender a este e j&aacute;<br \/>\n    era obrigado a ouvir a observa&ccedil;&atilde;o de outro.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; muito bonito ser formado. Se eu tivesse ouvido meu pai, n&atilde;o<br \/>\n    estava agora a quebrar a cabe&ccedil;a no &quot;deve&quot; e &quot;haver&quot;.<br \/>\n    Hoje, tor&ccedil;o a orelha e n&atilde;o sai sangue.<\/p>\n<p>&#8212; Atualmente, n&atilde;o vale nada, meu caro senhor, dizia modestamente<br \/>\n    Cavalc&acirc;nti. Com essas academias livres&#8230; Imaginem que j&aacute; se<br \/>\n    fala numa Academia Livre de Odontologia! &Eacute; o c&uacute;mulo! Um curso<br \/>\n    dif&iacute;cil e caro, que exige cad&aacute;vares, aparelhos, bons professores,<br \/>\n    como &eacute; que particulares poder&atilde;o mant&ecirc;-lo? Se o governo<br \/>\n    mant&eacute;m mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois doutor, acudia um outro, dou-lhe meus parab&eacute;ns, Digo-lhe o<br \/>\n    que disse ao meu sobrinho, quando se formou: v&aacute; furando!<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Seu sobrinho &eacute; formado? inquiria delicadamente Cavalc&acirc;nti.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Em engenharia. Est&aacute; no Maranh&atilde;o, na estrada de Caxias.<\/p>\n<p>&#8212; Boa carreira.<\/p>\n<p>Nos intervalos da conversa, todos eles olhavam o novel dentista como se fosse<br \/>\n    um ente sobrenatural.<\/p>\n<p>Para aquela gente toda, Cavalc&acirc;nti n&atilde;o era mais um simples homem,<br \/>\n    era homem e mais alguma coisa sagrada e de ess&ecirc;ncia superior; e n&atilde;o<br \/>\n    juntavam &agrave; imagem que tinham dele atualmente, as coisas que porventura<br \/>\n    ele pudesse saber ou tivesse aprendido. Isto n&atilde;o entrava nela de modo<br \/>\n    algum; e aquele tipo, para alguns, continuava a ser vulgar, comum, na apar&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas a sua subst&acirc;ncia tinha mudado, era outra diferente da deles e fora<br \/>\n    ungido de n&atilde;o sei que coisa vagamente fora da natureza terrestre, quase<br \/>\n    divina.<\/p>\n<p>Para o lado de Cavalc&acirc;nti, que se achava na sala de visitas, vieram<br \/>\n    os menos importantes. O general ficara na sala de jantar, fumando, cercado<br \/>\n    dos mais titulados e dos mais velhos. Estavam com ele o Contra-Almirante Caldas,<br \/>\n    o Major Inoc&ecirc;ncio, o doutor Flor&ecirc;ncio e o Capit&atilde;o de Bombeiros<br \/>\n    Sigismundo.<\/p>\n<p>Inoc&ecirc;ncio aproveitou a ocasi&atilde;o para fazer uma consulta a Caldas<br \/>\n    sobre assunto de legisla&ccedil;&atilde;o militar. O contra-almirante era<br \/>\n    interessant&iacute;ssimo, Na Marinha, por pouco que n&atilde;o fazia pendant<br \/>\n    com Albernaz no Ex&eacute;rcito. Nunca embarcara, a n&atilde;o ser na guerra<br \/>\n    do Paraguai, mas assim mesmo por muito pouco tempo. A culpa, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o era dele. Logo que se viu primeiro-tenente, Caldas foi aos poucos<br \/>\n    se metendo consigo, abandonando a roda dos camaradas, de forma que, sem empenhos<br \/>\n    e sem amigos nos altos lugares, se esqueciam dele e n&atilde;o lhe davam comiss&otilde;es<br \/>\n    de embarque. &Eacute; curiosa essa coisa das administra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    militares: as comiss&otilde;es s&atilde;o merecimento, mas s&oacute; se as<br \/>\n    d&aacute; aos protegidos.<\/p>\n<p>Certa vez, quando era j&aacute; capit&atilde;o-tenente, deram-lhe um embarque<br \/>\n    em Mato Grosso. Nomearam-no para comandar o coura&ccedil;ado &quot;Lima Barros&quot;.<br \/>\n    Ele l&aacute; foi, mas, quando se apresentou ao comandante da flotilha, teve<br \/>\n    not&iacute;cia de que n&atilde;o existia no rio Paraguai semelhante navio.<br \/>\n    Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal &quot;Lima<br \/>\n    Barros&quot; fizesse parte da esquadrilha do alto Uruguai. Consultou o comandante.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia imediatamente para a flotilha<br \/>\n    do Rio Grande.<\/p>\n<p>Ei-lo a fazer malas para o alto Uruguai, onde chegou enfim, depois de uma<br \/>\n    penosa e fatigante viagem. Mas a&iacute; tamb&eacute;m n&atilde;o estava o<br \/>\n    tal &quot;Lima Barros&quot;. Onde estaria ent&atilde;o? Quis telegrafar para<br \/>\n    o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais que n&atilde;o<br \/>\n    andava em cheiro de santidade. Esteve assim um m&ecirc;s em Itaqui, hesitante,<br \/>\n    sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veio a id&eacute;ia<br \/>\n    de que o navio bem poderia estar no Amazonas. Embarcou na inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se<br \/>\n    &agrave;s altas autoridades da Marinha. Foi preso e submetido a conselho.<\/p>\n<p>O &quot;Lima Barros&quot; tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguai.\n  <\/p>\n<p>Embora absolvido, nunca mais entrou em gra&ccedil;a dos ministros e dos seus<br \/>\n    generais. Todos o tinham na conta de parvo, de um comandante de opereta que<br \/>\n    andava &agrave; cata do seu navio pelos quatro pontos cardeais. Deixaram-no<br \/>\n    &quot;encostado&quot;, como se diz na g&iacute;ria militar, e ele levou quase<br \/>\n    quarenta anos para chegar de guarda-marinha a capit&atilde;o-de-fragata. Reformado<br \/>\n    no posto imediato, com gradua&ccedil;&atilde;o do seguinte, todo o seu azedume<br \/>\n    contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos,<br \/>\n    alvar&aacute;s, avisos, consultas, que se referissem a promo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de oficiais. Comprava repert&oacute;rios de legisla&ccedil;&atilde;o, armazenava<br \/>\n    cole&ccedil;&otilde;es de leis, relat&oacute;rios, e encheu a casa de toda<br \/>\n    essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo<br \/>\n    a modifica&ccedil;&atilde;o da sua reforma, choviam sobre os ministros da<br \/>\n    Marinha. Corriam meses o infinito ros&aacute;rio de reparti&ccedil;&ocirc;es<br \/>\n    e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo<br \/>\n    Tribunal Militar. Ultimamente constitu&iacute;ra advogado junto &agrave; justi&ccedil;a<br \/>\n    federal e l&aacute; andava ele de cart&oacute;rio em cart&oacute;rio, acotovelando-se<br \/>\n    com meirinhos, escriv&atilde;es, ju&iacute;zes e advogados &#8212; esse povil&eacute;u<br \/>\n    rebarbativo do foro que parece ter contra&iacute;do todas as mis&eacute;rias<br \/>\n    que lhe passam pelas m&atilde;os e pelos olhos.<\/p>\n<p>Inoc&ecirc;ncio Bustamante tamb&eacute;m tinha a mesma mania demandista.<br \/>\n    Era renitente, teimoso mas servil e humilde. Antigo volunt&aacute;rio da p&aacute;tria,<br \/>\n    possuindo honras de major, n&atilde;o havia dia em que n&atilde;o fosse ao<br \/>\n    quartel-general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia<br \/>\n    inclus&atilde;o no Asilo dos Inv&aacute;lidos, noutro honras de tenente-coronel,<br \/>\n    noutro tal ou qual medalha; e, quando n&atilde;o tinha nenhum, ia ver o dos<br \/>\n    outros.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pejou mesmo de tratar do pedido de um man&iacute;aco que, por<br \/>\n    ser tenente honor&aacute;rio e tamb&eacute;m: da Guarda Nacional, requereu<br \/>\n    lhe fosse passada a patente de major, visto que dois gal&otilde;es mais outros<br \/>\n    dois fazem quatro &#8212; o que quer dizer: major.<\/p>\n<p>Conhecedor dos estudos meticulosos do almirante, Bustamante fez a sua consulta.<\/p>\n<p>&#8212; Assim de pronto, n&atilde;o sei. N&atilde;o &eacute; a minha especialidade<br \/>\n    o Ex&eacute;rcito, mas vou ver. Isto tamb&eacute;m anda t&atilde;o atrapalhado!<\/p>\n<p>Acabando de responder co&ccedil;ava um dos seus favoritos brancos, que lhe<br \/>\n    davam um ar de &quot;comodoro&quot; ou de chacareiro portugu&ecirc;s, pois<br \/>\n    era forte nele o tipo lusitano.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! meu tempo, observou Albernaz. Quanta ordem! Quanta disciplina!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; mais gente que preste, disse Bustamante.<\/p>\n<p>Sigismundo por a&iacute; aventurou tamb&eacute;m a sua opini&atilde;o, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o sou militar, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como n&atilde;o &eacute; militar? fez Albernaz, com &iacute;mpeto. Os<br \/>\n    senhores &eacute; que s&atilde;o os verdadeiros: est&atilde;o sempre com o<br \/>\n    inimigo na frente, n&atilde;o acha, Caldas?<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, decerto, fez o almirante cofiando os favoritos.<\/p>\n<p>&#8212; Como ia dizendo, continuou Sigismundo, apesar de n&atilde;o ser militar,<br \/>\n    eu me animo a dizer que a nossa for&ccedil;a est&aacute; muito por baixo.<br \/>\n    Onde est&aacute; um Porto Alegre, um Caxias?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; mais, meu caro, confirmou com voz t&ecirc;nue o doutor<br \/>\n    Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei por que, pois tudo hoje n&atilde;o vai pela ci&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>Fora Caldas quem falara, tentando a ironia. Albernaz indignou-se e retrucou-lhe<br \/>\n    com certo calor:<\/p>\n<p>&#8212; Eu queria ver esses meninos bonitos, cheios de &quot;xx&quot; e &quot;yy&quot;<br \/>\n    em Curupaiti, hein Caldas? hein Inoc&ecirc;ncio?<\/p>\n<p>O doutor Flor&ecirc;ncio era o &uacute;nico paisano da roda. Engenheiro e<br \/>\n    empregado p&uacute;blico, os anos e o sossego da vida lhe tinham feito perder<br \/>\n    todo o saber que porventura pudesse ter tido ao sair da escola, Era mais um<br \/>\n    guarda de encanamentos do que mesmo um engenheiro. Morando perto de Albernaz,<br \/>\n    era raro que n&atilde;o viesse toda a tarde jogar o solo com o general. O<br \/>\n    doutor Flor&ecirc;ncio perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; O senhor assistiu, n&atilde;o foi, general?<\/p>\n<p>O general n&atilde;o se deteve, n&atilde;o se atrapalhou, n&atilde;o gaguejou<br \/>\n    e disse com a m&aacute;xima naturalidade:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o assisti. Adoeci e vim para o Brasil nas v&eacute;speras. Mas<br \/>\n    tive muitos amigos l&aacute;: o Camis&atilde;o, o Ven&acirc;ncio&#8230;<\/p>\n<p>Todos se calaram e olharam a noite que chegava. Da janela da sala onde estavam,<br \/>\n    n&atilde;o se via nem um monte. O horizonte estava circunscrito aos fundos<br \/>\n    dos quintais das casas vizinhas com as suas cordas de roupa a lavar, suas<br \/>\n    chamin&eacute;s e o piar de pintos. Um tamarineiro sem folhas lembrava tristemente<br \/>\n    o ar livre, as grandes vistas sem fim. O sol j&aacute; tinha desaparecido<br \/>\n    do horizonte e as t&ecirc;nues luzes dos bicos de g&aacute;s e dos lampi&otilde;es<br \/>\n    familiares come&ccedil;avam a acender-se por detr&aacute;s das vidra&ccedil;as.<\/p>\n<p>Bustamante quebrou o sil&ecirc;ncio:<\/p>\n<p>&#8212; Este pa&iacute;s n&atilde;o vale mais nada. Imaginem que o meu requerimento,<br \/>\n    pedindo honras de tenente-coronel, est&aacute; no minist&eacute;rio h&aacute;<br \/>\n    seis meses!<\/p>\n<p>&#8212; Uma desordem, exclamaram todos.<\/p>\n<p>Era noite. Dona Maricota chegou at&eacute; onde eles estavam, muito ativa,<br \/>\n    muito diligente e com o rosto aberto de alegria.<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o rezando? E logo ajuntou: D&atilde;o licen&ccedil;a que diga<br \/>\n    uma coisa ao Chico, sim?<\/p>\n<p>Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi at&eacute; a um canto da sala,<br \/>\n    onde a mulher lhe disse alguma coisa em voz baixa. Ouviu a mulher, depois<br \/>\n    voltou aos amigos e, no meio do caminho, falou alto, nestes termos:<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o dan&ccedil;am &eacute; porque n&atilde;o querem. Estou pegando<br \/>\n    algu&eacute;m?<\/p>\n<p>Dona Maricota aproximou-se dos amigos do marido e explicou:<\/p>\n<p>&#8212; Os senhores sabem: se a gente n&atilde;o animar, ningu&eacute;m tira par,<br \/>\n    ningu&eacute;m toca. Est&atilde;o l&aacute; tantas mo&ccedil;as, tantos rapazes,<br \/>\n    &eacute; uma pena!<\/p>\n<p>&#8212; Bem; eu vou l&aacute;, disse Albernaz.<\/p>\n<p>Deixou os amigos e foi &agrave; sala de visitas dar come&ccedil;o ao baile.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, meninas! Ent&atilde;o o que &eacute; isso? Zizi, uma valsa!<\/p>\n<p>E ele mesmo em pessoa ia juntando os pares: &quot;N&atilde;o, general, j&aacute;<br \/>\n    tenho par&quot;, dizia uma mo&ccedil;a. &quot;N&atilde;o faz mal&quot;, retrucava<br \/>\n    ele, &quot;dance com o Raimundinho; o outro espera&quot;.<\/p>\n<p>Depois de ter dado in&iacute;cio ao baile, veio para a roda dos amigos suado,<br \/>\n    mas contente.<\/p>\n<p>&#8212; Isto de fam&iacute;lia! Qual! A gente at&eacute; parece bobo, dizia. Voc&ecirc;<br \/>\n    &eacute; que faz bem, Caldas; n&atilde;o se quis casar!<\/p>\n<p>&#8212; Mas tenho mais filhos que voc&ecirc;. S&oacute; sobrinhos, oito; e os<br \/>\n    primos? <\/p>\n<p>&#8212; Vamos jogar o solo, convidou Albernaz.<\/p>\n<p>&#8212; Somos cinco, como h&aacute; de ser? observou Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, eu n&atilde;o jogo, disse Bustamante.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o jogamos os quatro de garrancho? lembrou Albernaz.<\/p>\n<p>As cartas vieram e tamb&eacute;m uma pequena mesa de tripe&ccedil;a. Os parceiros<br \/>\n    sentaram-se e tiraram a sorte para ver quem dava. Coube a Flor&ecirc;ncio<br \/>\n    dar. Come&ccedil;aram. Albernaz tinha um ar atento quando jogava: a cabe&ccedil;a<br \/>\n    lhe ca&iacute;a sobre as costas e os seus olhos tomavam uma grande express&atilde;o<br \/>\n    de reflex&atilde;o. Caldas aprumava o busto na cadeira e jogava com a serenidade<br \/>\n    de um lorde-almirante numa partida de whist. Sigismundo jogava com todo o<br \/>\n    cuidado, com o cigarro no canto da boca e a cabe&ccedil;a do lado para fugir<br \/>\n    &agrave; fuma&ccedil;a. Bustamante fora &agrave; sala ver as dan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Tinham come&ccedil;ado a partida, quando Dona Quinota, uma das filhas do<br \/>\n    general, atravessou a sala e foi beber &aacute;gua; Caldas, co&ccedil;ando<br \/>\n    um dos favoritos, perguntou &agrave; mo&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Dona Quinota, qued&ecirc; o Genel&iacute;cio?<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a virou o rosto com faceirice, deu um pequeno muxoxo e respondeu<br \/>\n    com falso mau humor:<\/p>\n<p>&#8212; U&eacute;! Sei l&aacute;! Ando atr&aacute;s dele?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o precisa zangar-se, Dona Quinota; &eacute; uma simples pergunta,<br \/>\n    advertiu Caldas.<\/p>\n<p>O general que examinava atentamente as cartas recebidas, interrompeu a conversa<br \/>\n    com voz grave:<\/p>\n<p>&#8212; Eu passo.<\/p>\n<p>Dona Quinota retirou-se. Este Genel&iacute;cio era o seu namorado. Parente<br \/>\n    ainda de Caldas, tinha-se como certo o seu casamento na fam&iacute;lia. A<br \/>\n    sua candidatura era favorecida por todos. Dona Maricota e o marido enchiam-no<br \/>\n    de festas. Empregado do Tesouro, j&aacute; no meio da carreira, mo&ccedil;o<br \/>\n    de menos de trinta anos, amea&ccedil;ava ter um grande futuro. N&atilde;o<br \/>\n    havia ningu&eacute;m mais bajulador e submisso do que ele. Nenhum pudor, nenhuma<br \/>\n    vergonha! Enchia os chefes e os superiores de todo incenso que podia. Quando<br \/>\n    sa&iacute;a, remancheava, lavava tr&ecirc;s ou quatro vezes as m&atilde;os,<br \/>\n    at&eacute; poder apanhar o diretor na porta. Acompanhava-o, conversava com<br \/>\n    ele sobre o servi&ccedil;o, dava pareceres e opini&otilde;es, criticava este<br \/>\n    ou aquele colega, e deixava-o no bonde, se o homem ia para casa. Quando entrava<br \/>\n    um ministro, fazia-se escolher como int&eacute;rprete dos companheiros e deitava<br \/>\n    um discurso; nos anivers&aacute;rios de nascimento, era um soneto que come&ccedil;ava<br \/>\n    sempre por &#8212; &quot;Salve&quot; &#8212; e acabava tamb&eacute;m por &#8212; &quot;Salve!<br \/>\n    Tr&ecirc;s vezes Salve!&quot;.<\/p>\n<p>O modelo era sempre o mesmo; ele s&oacute; mudava o nome do ministro e punha<br \/>\n    a data.<\/p>\n<p>No dia seguinte, os jornais falavam do seu nome, e publicavam o soneto.<\/p>\n<p>Em quatro anos, tinha tido duas promo&ccedil;&otilde;es e agora trabalhava<br \/>\n    para ser aproveitado no Tribunal de Contas, a se fundar, num posto acima.<\/p>\n<p>Na bajula&ccedil;&atilde;o e nas manobras para subir, tinha verdadeiramente<br \/>\n    g&ecirc;nio. N&atilde;o se limitava ao soneto, ao discurso; buscava outros<br \/>\n    meios, outros processos. Um dos que se servia, eram as publica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nas folhas di&aacute;rias. No intuito de anunciar aos ministros e diretores<br \/>\n    que tinha uma erudi&ccedil;&atilde;o superior, de quando em quando desovava<br \/>\n    nos jornais longos artigos sobre contabilidade p&uacute;blica. Eram meras<br \/>\n    compila&ccedil;&otilde;es de bolorentos decretos, salpicadas aqui e ali com<br \/>\n    cita&ccedil;&otilde;es de autores franceses ou portugueses.<\/p>\n<p>Interessante &eacute; que os companheiros o respeitavam, tinham em grande<br \/>\n    conta o seu saber e ele vivia na se&ccedil;&atilde;o cercado do respeito de<br \/>\n    um g&ecirc;nio, um g&ecirc;nio do papel&oacute;rio e das informa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Acresce que Genel&iacute;cio juntava &agrave; sua segura posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    administrativa, um curso de direito a acabar; e tantos t&iacute;tulos juntos<br \/>\n    n&atilde;o podiam deixar de impressionar favoravelmente &agrave;s preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    casamenteiras do casal Albernaz.<\/p>\n<p>Fora da reparti&ccedil;&atilde;o, tinha um empertigamento que o seu pobre<br \/>\n    f&iacute;sico fazia c&ocirc;mico, mas que a convic&ccedil;&atilde;o do alto<br \/>\n    aux&iacute;lio que prestava ao Estado, mantinha e sustentava. Um empregado<br \/>\n    modelo!&#8230;<\/p>\n<p>O jogo continuava silenciosamente e a noite avan&ccedil;ava. No fim das &quot;m&atilde;os&quot;<br \/>\n    fazia-se um breve coment&aacute;rio ou outro, e no come&ccedil;o ouviam-se<br \/>\n    unicamente as &quot;falas&quot; sacramentais do jogo: &quot;solo, bolo, melhoro,<br \/>\n    passo.&quot; Feitas elas, jogava-se em sil&ecirc;ncio; da sala, por&eacute;m,<br \/>\n    vinha o ru&iacute;do festivo das dan&ccedil;as e das conversas.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem quem est&aacute; a&iacute;!<\/p>\n<p>&#8212; O Genel&iacute;cio, fez Caldas. Onde estiveste, rapaz?<\/p>\n<p>Deixou o chap&eacute;u e a bengala numa cadeira e fez os cumprimentos. Pequeno,<br \/>\n    j&aacute; um tanto curvado, chupado de rosto, com um pince-nez azulado, todo<br \/>\n    ele tra&iacute;a a profiss&atilde;o, os seus gostos e h&aacute;bitos. Era<br \/>\n    um escritur&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, meus amigos! Estou tratando dos meus neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>&#8212; V&atilde;o bem? perguntou Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Quase garantido. O ministro prometeu&#8230; N&atilde;o h&aacute; nada, estou<br \/>\n    bem &quot;cunhado&quot;!<\/p>\n<p>&#8212; Estimo muito, disse o general.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado. Sabe de uma coisa, general?<\/p>\n<p>&#8212; O que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; O Quaresma est&aacute; doido.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; o qu&ecirc;? Quem foi que te disse?<\/p>\n<p>&#8212; Aquele homem do viol&atilde;o. J&aacute; est&aacute; na casa de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>&#8212; Eu logo vi, disse Albernaz, aquele requerimento era de doido.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute;, general, acrescentou Genel&iacute;cio.<br \/>\n    Fez um of&iacute;cio em tupi e mandou ao ministro.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que eu dizia, fez Albernaz.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;? perguntou Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Aquele vizinho, empregado do arsenal; n&atilde;o conhece?<\/p>\n<p>&#8212; Um baixo, de pince-nez?<\/p>\n<p>&#8212; Este mesmo, confirmou Caldas.<\/p>\n<p>&#8212; Nem se podia esperar outra coisa, disse o doutor Flor&ecirc;ncio. Aqueles<br \/>\n    livros, aquela mania de leitura&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.<\/p>\n<p>&#8212; Telha de menos, disse Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio atalhou com autoridade:<\/p>\n<p>&#8212; Ele n&atilde;o era formado, para que meter-se em livros?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, fez Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Isto de livros &eacute; bom para os s&aacute;bios, para os doutores, observou<br \/>\n    Sigismundo.<\/p>\n<p>&#8212; Devia at&eacute; ser proibido, disse Genel&iacute;cio, a quem n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;sse um t&iacute;tulo &quot;acad&ecirc;mico&quot; ter livros.<br \/>\n    Evitavam-se assim essas desgra&ccedil;as. N&atilde;o acham?<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, disse Albernaz.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, fez Caldas.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, disse tamb&eacute;m Sigismundo.<\/p>\n<p>Calaram-se um instante, e as aten&ccedil;&otilde;es convergiram para o jogo.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; sa&iacute;ram todos os trunfos?<\/p>\n<p>&#8212; Contasse, meu amigo.<\/p>\n<p>Albernaz perdeu e l&aacute; na sala fez-se sil&ecirc;ncio. Cavalc&acirc;nti<br \/>\n    ia recitar. Atravessou a sala triunfantemente, com um largo sorriso na face<br \/>\n    e foi postar-se ao lado do piano. Zizi acompanhava. Tossiu e, com a sua voz<br \/>\n    met&aacute;lica, apurando muito os finais em &quot;s&quot;, come&ccedil;ou:<br \/>\n    <br \/>\n    A vida &eacute; uma com&eacute;dia sem sentido,<\/p>\n<p>Uma hist&oacute;ria de sangue e de poeira<\/p>\n<p>Um deserto sem luz&#8230; <br \/>\n    E o piano gemia. <\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">IV &#8211; DESASTROSAS CONSEQU&Ecirc;NCIAS DE UM REQUERIMENTO<\/a><\/h4>\n<p>Os acontecimentos a que aludiam os graves personagens reunidos em torno da<br \/>\n    mesa de solo, na tarde memor&aacute;vel da festa comemorativa do pedido de<br \/>\n    casamento de Ism&ecirc;nia, se tinham desenrolado com rapidez fulminante.<br \/>\n    A for&ccedil;a de id&eacute;ias e sentimentos contidos em Quaresma se havia<br \/>\n    revelado em atos imprevistos com uma seq&uuml;&ecirc;ncia brusca e uma velocidade<br \/>\n    de turbilh&atilde;o. O primeiro fato surpreendeu, mas vieram outros e outros,<br \/>\n    de forma que o que pareceu no come&ccedil;o uma extravag&acirc;ncia, uma pequena<br \/>\n    mania, se apresentou logo em ins&acirc;nia declarada.<\/p>\n<p>Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sess&atilde;o<br \/>\n    da C&acirc;mara, o secret&aacute;rio teve que proceder &agrave; leitura de<br \/>\n    um requerimento singular e que veio a ter uma fortuna de publicidade e coment&aacute;rio<br \/>\n    pouco usual em documentos de tal natureza.<\/p>\n<p>O burburinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispens&aacute;vel<br \/>\n    ao elevado trabalho de legislar, n&atilde;o permitiram que os deputados o<br \/>\n    ouvissem; os jornalistas, por&eacute;m, que estavam pr&oacute;ximo &agrave;<br \/>\n    mesa, ao ouvi-lo, prorromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes &agrave;<br \/>\n    majestade do lugar. O riso &eacute; contagioso. O secret&aacute;rio, no meio<br \/>\n    da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, j&aacute; ria-se o presidente,<br \/>\n    ria-se o oficial da ata, ria-se o cont&iacute;nuo &#8212; toda a mesa e aquela<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o que a cerca, riram-se da peti&ccedil;&atilde;o, largamente,<br \/>\n    querendo sempre conter o riso, havendo em alguns t&atilde;o franca alegria<br \/>\n    que as l&aacute;grimas vieram.<\/p>\n<p>Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esfor&ccedil;o,<br \/>\n    de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa<br \/>\n    tristeza, ouvindo aquele rir inofensivo diante dela. Merecia raiva, &oacute;dio,<br \/>\n    um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava &agrave; mesa da C&acirc;mara,<br \/>\n    mas n&atilde;o aquele recebimento hil&aacute;rico, de uma hilaridade inocente,<br \/>\n    sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma palha&ccedil;ada, de<br \/>\n    uma sorte de circo de cavalinhos ou de uma careta de clown.<\/p>\n<p>Os que riam, por&eacute;m, n&atilde;o lhe sabiam a causa e s&oacute; viam<br \/>\n    nele um motivo para riso franco e sem maldade. A sess&atilde;o daquele dia<br \/>\n    fora fria; e, por ser assim, as se&ccedil;&otilde;es dos jornais referentes<br \/>\n    &agrave; C&acirc;mara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento<br \/>\n    e glosaram-no em todos os tons.<\/p>\n<p>Era assim concebida a peti&ccedil;&atilde;o: <br \/>\n    &quot;Policarpo Quaresma, cidad&atilde;o brasileiro, funcion&aacute;rio p&uacute;blico,<br \/>\n    certo de que a l&iacute;ngua portuguesa &eacute; emprestada ao Brasil; certo<br \/>\n    tamb&eacute;m de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo<br \/>\n    no campo das letras, se v&ecirc;em na humilhante conting&ecirc;ncia de sofrer<br \/>\n    continuamente censuras &aacute;speras dos propriet&aacute;rios da l&iacute;ngua;<br \/>\n    sabendo, al&eacute;m, que, dentro do nosso pa&iacute;s, os autores e os escritores,<br \/>\n    com especialidade os gram&aacute;ticos, n&atilde;o se entendem no tocante<br \/>\n    &agrave; corre&ccedil;&atilde;o gramatical, vendo-se, diariamente, surgir<br \/>\n    azedas pol&ecirc;micas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma<br \/>\n    &#8212; usando do direito que lhe confere a Constitui&ccedil;&atilde;o, vem pedir<br \/>\n    que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani, como l&iacute;ngua oficial<br \/>\n    e nacional do povo brasileiro.<\/p>\n<p>O suplicante, deixando de parte os argumentos hist&oacute;ricos que militam<br \/>\n    em favor de sua id&eacute;ia, pede v&ecirc;nia para lembrar que a l&iacute;ngua<br \/>\n    &eacute; a mais alta manifesta&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia de um<br \/>\n    povo, &eacute; a sua cria&ccedil;&atilde;o mais viva e original; e, portanto,<br \/>\n    a emancipa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do pa&iacute;s requer como complemento<br \/>\n    e consequ&ecirc;ncia a sua emancipa&ccedil;&atilde;o idiom&aacute;tica.<\/p>\n<p>Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, l&iacute;ngua original&iacute;ssima,<br \/>\n    aglutinante, &eacute; verdade, mas a que o polissintetismo d&aacute; m&uacute;ltiplas<br \/>\n    fei&ccedil;&otilde;es de riqueza, &eacute; a &uacute;nica capaz de traduzir<br \/>\n    as nossas belezas, de p&ocirc;r-nos em rela&ccedil;&atilde;o com a nossa natureza<br \/>\n    e adaptar-se perfeitamente aos nossos &oacute;rg&atilde;os vocais e cerebrais,<br \/>\n    por ser cria&ccedil;&atilde;o de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto<br \/>\n    possuidores da organiza&ccedil;&atilde;o fisiol&oacute;gica e psicol&oacute;gica<br \/>\n    para que tendemos, evitando-se dessa forma as est&eacute;reis controv&eacute;rsias<br \/>\n    gramaticais, oriundas de uma dif&iacute;cil adapta&ccedil;&atilde;o de uma<br \/>\n    l&iacute;ngua de outra regi&atilde;o &agrave; nossa organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cerebral e ao nosso aparelho vocal &#8212; controv&eacute;rsias que tanto empecem<br \/>\n    o progresso da nossa cultura liter&aacute;ria, cient&iacute;fica e filos&oacute;fica.<\/p>\n<p>Seguro de que a sabedoria dos legisladores saber&aacute; encontrar meios<br \/>\n    para realizar semelhante medida e c&ocirc;nscio de que a C&acirc;mara e o<br \/>\n    Senado pesar&atilde;o o seu alcance e utilidade<\/p>\n<p>P. e E. deferimento&quot;. <br \/>\n    Assinado e devidamente estampilhado, este requerimento do major foi durante<br \/>\n    dias assunto de todas as palestras. Publicado em todos os jornais, com coment&aacute;rios<br \/>\n    facetos, n&atilde;o havia quem n&atilde;o fizesse uma pilh&eacute;ria sobre<br \/>\n    ele, quem n&atilde;o ensaiasse um esp&iacute;rito &agrave; custa da lembran&ccedil;a<br \/>\n    de Quaresma. N&atilde;o ficaram nisso; a curiosidade mals&atilde; quis mais.<br \/>\n    Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma ilustra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    semanal publicou-lhe a caricatura e o major foi apontado na rua. Os pequenos<br \/>\n    jornais alegres, esses seman&aacute;rios de esp&iacute;rito e tro&ccedil;a,<br \/>\n    ent&atilde;o! eram de um encarni&ccedil;amento atroz com o pobre major. Com<br \/>\n    uma abund&acirc;ncia que marcava a felicidade dos redatores em terem encontrado<br \/>\n    um assunto f&aacute;cil, o texto vinha cheio dele: O Major Quaresma disse<br \/>\n    isso; o Major Quaresma fez aquilo. Um deles, al&eacute;m de outras refer&ecirc;ncias,<br \/>\n    ocupou uma p&aacute;gina inteira com o assunto da semana. Intitulava-se a<br \/>\n    ilustra&ccedil;&atilde;o: &quot;O Matadouro de Santa Cruz, segundo o Major<br \/>\n    Quaresma&quot;, e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar<br \/>\n    para o choupo que se via &agrave; esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando<br \/>\n    um a&ccedil;ougue, &quot;O A&ccedil;ougue Quaresma&quot;; legenda: a cozinheira<br \/>\n    perguntava ao a&ccedil;ougueiro: &#8212; O senhor tem l&iacute;ngua de vaca? O<br \/>\n    a&ccedil;ougueiro respondia: &#8212; N&atilde;o, s&oacute; temos l&iacute;ngua<br \/>\n    de mo&ccedil;a, quer?<\/p>\n<p>Com mais ou menos esp&iacute;rito, os coment&aacute;rios n&atilde;o cessavam<br \/>\n    e a aus&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es de Quaresma no meio de que sa&iacute;am,<br \/>\n    fazia com que fossem de uma const&acirc;ncia pouco habitual. Levaram duas<br \/>\n    semanas com o nome do subsecret&aacute;rio.<\/p>\n<p>Tudo isto irritava profundamente Quaresma. Vivendo h&aacute; trinta anos<br \/>\n    quase s&oacute;, sem se chocar com o mundo, adquirira uma sensibilidade muito<br \/>\n    viva e capaz de sofrer profundamente com a menor coisa. Nunca sofrera cr&iacute;ticas,<br \/>\n    nunca se atirou &agrave; publicidade, vivia imerso no seu sonho, incubado<br \/>\n    e mantido vivo pelo calor dos seus livros. Fora deles, ele n&atilde;o conhecia<br \/>\n    ningu&eacute;m; e, com as pessoas com quem falava, trocava pequenas banalidades,<br \/>\n    ditos de todo dia, coisas com que a sua alma e o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nada tinham que ver.<\/p>\n<p>Nem mesmo a afilhada o tirava dessa reserva, embora a estimasse mais que<br \/>\n    a todos.<\/p>\n<p>Esse encerramento em si mesmo deu-lhe n&atilde;o sei que ar de estranho a<br \/>\n    tudo, &agrave;s competi&ccedil;&otilde;es, &agrave;s ambi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pois nada dessas coisas que fazem os &oacute;dios e as lutas tinha entrado<br \/>\n    no seu temperamento.<\/p>\n<p>Desinteressado de dinheiro, de gl&oacute;ria e posi&ccedil;&atilde;o, vivendo<br \/>\n    numa reserva de sonho, adquirira a candura e a pureza d&#8217;alma que v&atilde;o<br \/>\n    habitar esses homens de uma id&eacute;ia fixa, os grandes estudiosos, os s&aacute;bios,<br \/>\n    e os inventores, gente que fica mais terna, mais ing&ecirc;nua, mais inocente<br \/>\n    que as donzelas das poesias de outras &eacute;pocas.<\/p>\n<p>&Eacute; raro encontrar homens assim, mas os h&aacute; e, quando se os encontra,<br \/>\n    mesmo tocados de um gr&atilde;o de loucura, a gente sente mais simpatia pela<br \/>\n    nossa esp&eacute;cie, mais orgulho de ser homem e mais esperan&ccedil;a na<br \/>\n    felicidade da ra&ccedil;a.<\/p>\n<p>A continuidade das tro&ccedil;as feitas nos jornais, a maneira com que o<br \/>\n    olhavam na rua, exasperavam-no e mais forte se enraizava nele a sua id&eacute;ia.<br \/>\n    &Agrave; medida que engulia uma tro&ccedil;a, uma pilh&eacute;ria, vinha-lhe<br \/>\n    meditar sobre a sua lembran&ccedil;a, pesar-lhe todos os aspectos, examin&aacute;-la,<br \/>\n    detidamente, compar&aacute;-la a coisas semelhantes, recordar os autores e<br \/>\n    autoridades; e, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que fazia isso, a sua pr&oacute;pria<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o mostrava a inanidade da cr&iacute;tica, a ligeireza<br \/>\n    da pilh&eacute;ria, e a id&eacute;ia o tomava, o avassalava, o absorvia cada<br \/>\n    vez mais.<\/p>\n<p>Se os jornais tinham recebido o requerimento com fac&eacute;cias de fundo<br \/>\n    inofensivo e sem &oacute;dio, a reparti&ccedil;&atilde;o ficou furiosa. Nos<br \/>\n    meios burocr&aacute;ticos, uma superioridade que nasce fora deles, que &eacute;<br \/>\n    feita e organizada com outros materiais que n&atilde;o os of&iacute;cios,<br \/>\n    a saben&ccedil;a de textos de regulamentos e a boa caligrafia, &eacute; recebida<br \/>\n    com a hostilidade de uma pequena inveja. <\/p>\n<p>&Eacute; como se se visse no portador da superioridade um traidor &agrave;<br \/>\n    mediocridade, ao anonimato papeleiro. N&atilde;o h&aacute; s&oacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    de promo&ccedil;&atilde;o, de interesse pecuni&aacute;rio; h&aacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    de amor-pr&oacute;prio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele<br \/>\n    gal&eacute; como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes,<br \/>\n    &agrave;s olhadelas superiores dos ministros, com mais t&iacute;tulos &agrave;<br \/>\n    considera&ccedil;&atilde;o, com algum direito a infringir as regras e os preceitos.<\/p>\n<p>Olha-se para ele com o &oacute;dio dissimulado com que o assassino plebeu<br \/>\n    olha para o assassino marqu&ecirc;s que matou a mulher e o amante. Ambos s&atilde;o<br \/>\n    assassinos, mas, mesmo na pris&atilde;o, ainda o nobre e o burgu&ecirc;s trazem<br \/>\n    o ar do seu mundo, um resto da sua delicadeza e uma inadapta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ferem o seu humilde colega de desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Assim, quando surge numa secretaria algu&eacute;m cujo nome n&atilde;o lembra<br \/>\n    sempre o t&iacute;tulo de sua nomea&ccedil;&atilde;o, aparecem as pequeninas<br \/>\n    perf&iacute;dias, as maledic&ecirc;ncias ditas ao ouvido, as indiretas, todo<br \/>\n    o arsenal do ci&uacute;me invejoso de uma mulher que se convenceu de que a<br \/>\n    vizinha se veste melhor do que ela.<\/p>\n<p>Amam-se ou antes suportam-se melhor aqueles que se fazem c&eacute;lebres<br \/>\n    nas informa&ccedil;&otilde;es, na reda&ccedil;&atilde;o, na assiduidade ao<br \/>\n    trabalho, mesmo os doutores, os bachar&eacute;is, do que os que t&ecirc;m<br \/>\n    nomeada e fama. Em geral, a incompreens&atilde;o da obra ou do m&eacute;rito<br \/>\n    do colega e total e nenhum deles se pode capacitar que aquele tipo, aquele<br \/>\n    amanuense, como eles, fa&ccedil;a qualquer coisa que interesse os estranhos<br \/>\n    e d&ecirc; que falar a uma cidade inteira.<\/p>\n<p>A brusca popularidade de Quaresma, o seu sucesso e nomeada ef&ecirc;mera<br \/>\n    irritaram os seus colegas e superiores. J&aacute; se viu! dizia o secret&aacute;rio.<br \/>\n    Este tolo dirigir-se ao Congresso e propor alguma coisa! Pretensioso! O diretor,<br \/>\n    ao passar pela secretaria, olhava-o de soslaio e sentia que o regulamento<br \/>\n    n&atilde;o cogitasse do caso para lhe infligir uma censura. O colega arquivista<br \/>\n    era o menos terr&iacute;vel, mas chamou-o logo de doido.<\/p>\n<p>O major sentia bem aquele ambiente falso, aquelas alus&otilde;es e isso mais<br \/>\n    aumentava o seu desespero e a teimosia na sua id&eacute;ia. N&atilde;o compreendia<br \/>\n    que o seu requerimento suscitasse tantas tempestades, essa m&aacute; vontade<br \/>\n    geral; era uma coisa inocente, uma lembran&ccedil;a patri&oacute;tica que<br \/>\n    merecia e devia ter o assentimento de todo mundo; e meditava, voltava a id&eacute;ia,<br \/>\n    e a examinava com mais aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A extensa publicidade, que o fato tomou, atingiu o palacete de Real Grandeza,<br \/>\n    onde morava o seu compadre Coleoni. Rico com os lucros das empreitadas de<br \/>\n    constru&ccedil;&otilde;es de pr&eacute;dios, vi&uacute;vo, o antigo quitandeiro<br \/>\n    retirarase dos neg&oacute;cios e vivia sossegado na ampla casa que ele mesmo<br \/>\n    edificara e tinha todos os remates arquitet&ocirc;nicos do seu gosto predileto:<br \/>\n    compoteiras na cimalha, um imenso monograma sobre a porta da entrada, dois<br \/>\n    c&atilde;es de lou&ccedil;a, nos pilares do port&atilde;o da entrada e outros<br \/>\n    detalhes equivalentes.<\/p>\n<p>A casa ficava ao centro do terreno, elevava-se sobre um por&atilde;o alto,<br \/>\n    tinha um razo&aacute;vel jardim na frente, que avan&ccedil;ava pelos lados,<br \/>\n    pontilhado de bolas multicores; varanda, um viveiro, onde pelo calor os p&aacute;ssaros<br \/>\n    morriam tristemente. Era uma instala&ccedil;&atilde;o burguesa, no gosto nacional,<br \/>\n    vistosa, cara, pouco de acordo com o clima e sem conforto.<\/p>\n<p>No interior o capricho dominava, tudo obedecendo a uma fantasia barroca,<br \/>\n    a um ecletismo desesperador. Os m&oacute;veis se amontoavam, os tapetes, as<br \/>\n    sanefas, os bibelots e a fantasia da filha, irregular e indisciplinada, ainda<br \/>\n    trazia mais desordem &agrave;quela cole&ccedil;&atilde;o de coisas caras.<\/p>\n<p>Vi&uacute;vo, havia j&aacute; alguns anos, era uma velha cunhada quem dirigia<br \/>\n    a casa e a filha, quem o encaminhava nas distra&ccedil;&otilde;es e nas festas.<br \/>\n    Coleoni aceitava de bom cora&ccedil;&atilde;o esta doce tirania. Queria casar<br \/>\n    a filha, bem e ao gosto dela; n&atilde;o punha, portanto, nenhum obst&aacute;culo<br \/>\n    ao programa de Olga.<\/p>\n<p>Em come&ccedil;o, pensou em d&aacute;-la a seu ajudante ou contramestre,<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de arquiteto que n&atilde;o desenhava, mas projetava casas<br \/>\n    e grandes edif&iacute;cios. Primeiro sondou a filha. N&atilde;o encontrou<br \/>\n    resist&ecirc;ncia, mas n&atilde;o encontrou tamb&eacute;m assentimento. Convenceu-se<br \/>\n    de que aquela vaporosidade da menina, aquele seu ar distante de hero&iacute;na,<br \/>\n    a sua intelig&ecirc;ncia, o seu fant&aacute;stico, n&atilde;o se dariam bem<br \/>\n    com as rudezas e a simplicidade camp&ocirc;nias de seu auxiliar.<\/p>\n<p>Ela quer um doutor &#8212; pensava ele &#8212; que arranje! Com certeza, n&atilde;o<br \/>\n    ter&aacute; ceitil, mas eu tenho e as coisas se acomodam.<\/p>\n<p>Ele se havia habituado a ver no doutor nacional, o marqu&ecirc;s ou o bar&atilde;o<br \/>\n    de sua terra natal. Cada terra tem a sua nobreza; l&aacute;, &eacute; visconde;<br \/>\n    aqui, &eacute; doutor, bacharel ou dentista; e julgou muito aceit&aacute;vel<br \/>\n    comprar a satisfa&ccedil;&atilde;o de enobrecer a filha com umas meias d&uacute;zias<br \/>\n    de contos de r&eacute;is.<\/p>\n<p>Havia momentos que se aborrecia um tanto com os prop&oacute;sitos da menina.<br \/>\n    Gostando de dormir cedo, tinha que perder noites e noites no L&iacute;rico,<br \/>\n    nos bailes; amando estar sentado em chinelas a fumar cachimbo, era obrigado<br \/>\n    a andar horas e horas pelas ruas, saltitando de casa em casa de modas, atr&aacute;s<br \/>\n    da filha, para no fim do dia ter comprado meio metro de fita, uns grampos<br \/>\n    e um frasco de perfume.<\/p>\n<p>Era engra&ccedil;ado v&ecirc;-lo nas lojas de fazendas cheio de complac&ecirc;ncia<br \/>\n    de pai que quer enobrecer o filho, a dar opini&atilde;o sobre o tecido, achar<br \/>\n    este mais bonito, comparar um com outro, com uma falta de sentimento daquelas<br \/>\n    coisas que se adivinhava at&eacute; no peg&aacute;-las. Mas ele ia, demorava-se<br \/>\n    e esfor&ccedil;ava-se por entrar no segredo, no mist&eacute;rio, cheio de<br \/>\n    tenacidade e candura perfeitamente paternais.<\/p>\n<p>At&eacute; a&iacute; ele ia bem e calcava a contrariedade. S&oacute; o contrariavam<br \/>\n    bastante as visitas, as colegas da filha, suas m&atilde;es, suas irm&atilde;s,<br \/>\n    com seus modos de falsa nobreza, os seus desd&eacute;ns dissimulados, deixando<br \/>\n    perceber ao velho empreiteiro o quanto estava ele distante da sociedade das<br \/>\n    amigas e das colegas de Olga.<\/p>\n<p>N&atilde;o se aborrecia, por&eacute;m, muito profundamente; ele assim o quisera<br \/>\n    e a fizera, tinha que se conformar. Quase sempre, quando chegavam tais visitas,<br \/>\n    Coleoni afastava-se, ia para o interior da casa. Entretanto, n&atilde;o lhe<br \/>\n    era sempre poss&iacute;vel fazer isso; nas grandes festas e recep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tinha que estar presente e era quando mais sentia o velado pouco-caso da alta<br \/>\n    nobreza da terra que o freq&uuml;entava. Ele ficava sempre empreiteiro, com<br \/>\n    poucas id&eacute;ias al&eacute;m do seu of&iacute;cio, n&atilde;o sabendo<br \/>\n    fingir, de modo que n&atilde;o se interessava por aquelas tagarelices de casamentos,<br \/>\n    de bailes, de festas e passeios caros.<\/p>\n<p>Uma vez ou outra um mais delicado propunha-lhe jogar o poker, aceitava e<br \/>\n    sempre perdia. Chegou mesmo a formar uma roda em casa, de que fazia parte<br \/>\n    o conhecido advogado Pacheco. Perdeu e muito, mas n&atilde;o foi isso que<br \/>\n    o fez suspender o jogo. Que perdia? Uns contos &#8212; uma ninharia! A quest&atilde;o,<br \/>\n    por&eacute;m, &eacute; que Pacheco jogava com seis cartas. A primeira vez<br \/>\n    que Coleoni deu com isso, pareceu-lhe simples distra&ccedil;&atilde;o do distinto<br \/>\n    jornalista e famoso advogado. Um homem honesto n&atilde;o ia fazer aquilo!<br \/>\n    E na segunda, seria tamb&eacute;m? E na terceira?<\/p>\n<p>N&atilde;o era poss&iacute;vel tanta distra&ccedil;&atilde;o. Adquiriu a<br \/>\n    certeza da trampolinagem, calou-se, conteve-se com uma dignidade n&atilde;o<br \/>\n    esperada em um antigo quitandeiro, e esperou. Quando vieram a jogar outra<br \/>\n    vez e o passe foi posto em pr&aacute;tica, Vicente acendeu o charuto e observou<br \/>\n    com a maior naturalidade deste mundo:<\/p>\n<p>&#8212; Os senhores sabem que h&aacute; agora, na Europa, um novo sistema de jogar<br \/>\n    o poker?<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute;? perguntou algu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; A diferen&ccedil;a &eacute; pequena: joga-se com seis cartas, isto &eacute;,<br \/>\n    um dos parceiros, somente.<\/p>\n<p>Pacheco deu-se por desentendido, continuou a jogar e a ganhar, despediu-se<br \/>\n    &agrave; meia-noite cheio de delicadeza, fez alguns coment&aacute;rios sobre<br \/>\n    a partida e n&atilde;o voltou mais.<\/p>\n<p>Conforme o seu velho h&aacute;bito, Coleoni lia de manh&atilde; os jornais,<br \/>\n    com o vagar e a lentid&atilde;o de homem pouco habituado &agrave; leitura,<br \/>\n    quando se lhe deparou o requerimento do seu compadre do arsenal.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o compreendeu bem o requerimento, mas os jornais faziam tro&ccedil;a,<br \/>\n    ca&iacute;am t&atilde;o a fundo sobre a coisa, que imaginou o seu antigo benfeitor<br \/>\n    enleado numa meada criminosa, tendo praticado, por inadvert&ecirc;ncia, alguma<br \/>\n    falta grave.<\/p>\n<p>Sempre o tivera na conta do homem mais honesto deste mundo e ainda tinha,<br \/>\n    mas da&iacute; quem sabe? Na &uacute;ltima vez que o visitou ele n&atilde;o<br \/>\n    veio com aqueles modos estranhos? Podia ser uma pilh&eacute;ria&#8230;<\/p>\n<p>Apesar de ter enriquecido, Coleoni tinha em grande conta o seu obscuro compadre.<br \/>\n    Havia nele n&atilde;o s&oacute; a gratid&atilde;o de campon&ecirc;s que recebeu<br \/>\n    um grande benef&iacute;cio, como um duplo respeito pelo major, oriundo da<br \/>\n    sua qualidade de funcion&aacute;rio e de s&aacute;bio.<\/p>\n<p>Europeu, de origem humilde e alde&atilde;, guardava no fundo de si aquele<br \/>\n    sagrado respeito dos camponeses pelos homens que recebem a investidura do<br \/>\n    Estado; e, como, apesar dos bastos anos de Brasil, ainda n&atilde;o sabia<br \/>\n    juntar o saber aos t&iacute;tulos, tinha em grande considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a erudi&ccedil;&atilde;o do compadre.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;, pois, de estranhar que ele visse com m&aacute;goa o<br \/>\n    nome de Quaresma envolvido em fatos que os jornais reprovavam. Leu de novo<br \/>\n    o requerimento, mas n&atilde;o entendeu o que ele queria dizer. Chamou a filha.<\/p>\n<p>&#8212; Olga!<\/p>\n<p>Ele pronunciava o nome da filha quase sem sotaque; mas, quando falava portugu&ecirc;s,<br \/>\n    punha nas palavras uma rouquid&atilde;o singular, e salpicava as frases de<br \/>\n    exclama&ccedil;&otilde;es e pequenas express&otilde;es italianas.<\/p>\n<p>&#8212; Olga, que quer dizer isto? Non capisco&#8230;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a sentou-se a um cadeira pr&oacute;xima e leu no jornal, o requerimento<br \/>\n    e os coment&aacute;rios.<\/p>\n<p>&#8212; Che! Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; O padrinho quer substituir o portugu&ecirc;s pela l&iacute;ngua tupi,<br \/>\n    entende o senhor?<\/p>\n<p>&#8212; Como?<\/p>\n<p>&#8212; Hoje, n&oacute;s n&atilde;o falamos portugu&ecirc;s? Pois bem: ele quer<br \/>\n    que daqui em diante falemos tupi.<\/p>\n<p>&#8212; Tutti?<\/p>\n<p>&#8212; Todos os brasileiros, todos.<\/p>\n<p>&#8212; Ma che coisa! N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel?<\/p>\n<p>&#8212; Pode ser. Os tcheques t&ecirc;m uma l&iacute;ngua pr&oacute;pria, e foram<br \/>\n    obrigados a falar alem&atilde;o, depois de conquistados pelos austr&iacute;acos;<br \/>\n    os lorenos, franceses&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Per la madonna! Alem&atilde;o &eacute; l&iacute;ngua, agora esse acujel&ecirc;,<br \/>\n    ecco!<\/p>\n<p>&#8212; Acujel&ecirc; &eacute; da &Aacute;frica, papai; tupi &eacute; daqui.<\/p>\n<p>&#8212; Per Bacco! &Eacute; o mesmo&#8230; Est&aacute; doido!<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o h&aacute; loucura alguma, papai.<\/p>\n<p>&#8212; Como? Ent&atilde;o &eacute; coisa de um homem bene?<\/p>\n<p>&#8212; De ju&iacute;zo, talvez n&atilde;o seja; mas de doido, tamb&eacute;m n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Non capisco.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma id&eacute;ia, meu pai, &eacute; um plano, talvez &agrave;<br \/>\n    primeira vista absurdo, fora dos moldes, mas n&atilde;o de todo doido. &Eacute;<br \/>\n    ousado, talvez, mas&#8230;<\/p>\n<p>Por mais que quisesse, ela n&atilde;o podia julgar o ato do padrinho sob<br \/>\n    o crit&eacute;rio de seu pai. Neste falava o bom senso e nela o amor &agrave;s<br \/>\n    grandes coisas, aos arrojos e cometimentos ousados. Lembrou-se de que Quaresma<br \/>\n    lhe falara em emancipa&ccedil;&atilde;o; e se houve no fundo de si um sentimento<br \/>\n    que n&atilde;o fosse de admira&ccedil;&atilde;o pelo atrevimento do major,<br \/>\n    n&atilde;o foi decerto o de reprova&ccedil;&atilde;o ou l&aacute;stima; foi<br \/>\n    de piedade simp&aacute;tica por ver mal compreendido o ato daquele homem que<br \/>\n    ela conhecia h&aacute; tantos anos, seguindo o seu sonho, isolado, obscuro<br \/>\n    e tenaz.<\/p>\n<p>&#8212; Isto vai causar-lhe transtorno, observou Coleoni.<\/p>\n<p>E ele tinha raz&atilde;o. A senten&ccedil;a do arquivista foi vencedora nas<br \/>\n    discuss&otilde;es dos corredores e a suspeita de que Quaresma estivesse doido<br \/>\n    foi tomando foros de certeza. Em princ&iacute;pio, o subsecret&aacute;rio<br \/>\n    suportou bem a tempestade; mas tendo adivinhado que o supunham insciente no<br \/>\n    tupi, irritou-se, encheu-se de uma raiva surda, que se continha dificilmente.<br \/>\n    Como eram cegos! Ele que h&aacute; trinta anos estudava o Brasil minuciosamente,<br \/>\n    ele que em virtude desses estudos, fora obrigado a aprender o rebarbativo<br \/>\n    alem&atilde;o, n&atilde;o saber tupi, a l&iacute;ngua brasileira, a &uacute;nica<br \/>\n    que o era &#8212; que suspeita miser&aacute;vel!<\/p>\n<p>Que o julgassem doido &#8212; v&aacute;! Mas que desconfiassem da sinceridade<br \/>\n    de suas afirma&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o! E ele pensava, procurava meios<br \/>\n    de se reabilitar, ca&iacute;a em distra&ccedil;&otilde;es, mesmo escrevendo<br \/>\n    e fazendo a tarefa quotidiana. Vivia dividido em dois: uma parte nas obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de todo dia, e a outra, na preocupa&ccedil;&atilde;o de provar que sabia o<br \/>\n    tupi.<\/p>\n<p>O secret&aacute;rio veio a faltar um dia e o major lhe ficou fazendo as vezes.<br \/>\n    O expediente fora grande e ele mesmo redigira e copiara uma parte. Tinha come&ccedil;ado<br \/>\n    a passar a limpo um of&iacute;cio sobre coisas de Mato Grosso, onde se falava<br \/>\n    em Aquidauana e Ponta Por&atilde;, quando o Carmo disse l&aacute; do fundo<br \/>\n    da sala, com acento escarninho:<\/p>\n<p>&#8212; Homero, isto de saber &eacute; uma coisa, dizer &eacute; outra.<\/p>\n<p>Quaresma nem levantou os olhos do papel. Fosse pelas palavras em tupi que<br \/>\n    se encontravam na minuta, fosse pela alus&atilde;o do funcion&aacute;rio Carmo,<br \/>\n    o certo &eacute; que ele insensivelmente foi traduzindo a pe&ccedil;a oficial<br \/>\n    para o idioma ind&iacute;gena.<\/p>\n<p>Ao acabar, deu com a distra&ccedil;&atilde;o, mas logo vieram outros empregados<br \/>\n    com o trabalho que fizeram, para que ele examinasse. Novas preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    afastaram a primeira, esqueceu-se e o of&iacute;cio em tupi seguiu com os<br \/>\n    companheiros. O diretor n&atilde;o reparou, assinou e o tupinamb&aacute; foi<br \/>\n    dar ao minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>N&atilde;o se imagina o rebuli&ccedil;o que tal coisa foi causar l&aacute;.<br \/>\n    Que l&iacute;ngua era? Consultou-se o doutor Rocha, o homem mais h&aacute;bil<br \/>\n    da secretaria, a respeito do assunto. O funcion&aacute;rio limpou o pince-nez,<br \/>\n    agarrou o papel, voltou-o de tr&aacute;s para diante, p&ocirc;-lo de pernas<br \/>\n    para o ar e concluiu que era grego, por causa do &quot;yy&quot;.<\/p>\n<p>O doutor Rocha tinha na secretaria a fama de s&aacute;bio, porque era bacharel<br \/>\n    em direito e n&atilde;o dizia coisa alguma.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, indagou o chefe, oficialmente as autoridades se podem comunicar em<br \/>\n    l&iacute;nguas estrangeiras? Creio que h&aacute; um aviso de 84&#8230; Veja, Senhor<br \/>\n    doutor Rocha&#8230;<\/p>\n<p>Consultaram-se todos os regulamentos e repert&oacute;rios de legisla&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    andou-se de mesa em mesa pedindo auxilio &agrave; mem&oacute;ria de cada um<br \/>\n    e nada se encontrara a respeito. Enfim, o doutor Rocha, ap&oacute;s tr&ecirc;s<br \/>\n    dias de medita&ccedil;&atilde;o, foi ao chefe e disse com &ecirc;nfase e seguran&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; O aviso de 84 trata de ortografia.<\/p>\n<p>O diretor olhou o subalterno com admira&ccedil;&atilde;o e mais ficou considerando<br \/>\n    as suas qualidades de empregado zeloso, inteligente e&#8230; ass&iacute;duo. Foi<br \/>\n    informado de que a legisla&ccedil;&atilde;o era omissa no tocante &agrave;<br \/>\n    l&iacute;ngua em que deviam ser escritos os documentos oficiais; entretanto<br \/>\n    n&atilde;o parecia regular usar uma que n&atilde;o fosse a do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O ministro, tendo em vista esta informa&ccedil;&atilde;o e v&aacute;rias<br \/>\n    outras consultas, devolveu o of&iacute;cio e censurou o arsenal.<\/p>\n<p>Que manh&atilde; foi essa no arsenal! Os t&iacute;mpanos soavam furiosamente,<br \/>\n    os cont&iacute;nuos andavam numa dobadoura terr&iacute;vel e a toda hora perguntavam<br \/>\n    pelo secret&aacute;rio que tardava em chegar.<\/p>\n<p>Censurado! monologava o diretor, Ia-se por &aacute;gua abaixo o seu generalato.<br \/>\n    Viver tantos anos a sonhar com aquelas estrelas e elas se escapavam assim,<br \/>\n    talvez por causa da molecagem de um escritur&aacute;rio!<\/p>\n<p>Ainda se a situa&ccedil;&atilde;o mudasse&#8230; Mas qual!<\/p>\n<p>O secret&aacute;rio chegou, foi ao gabinete do diretor. Inteirado do motivo,<br \/>\n    examinou o of&iacute;cio e pela letra conheceu que fora Quaresma que o escrevera.<br \/>\n    Mande-o c&aacute;, disse o coronel. O major encaminhou-se pensando nuns versos<br \/>\n    tupis que lera de manh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o o senhor leva a divertir-se comigo, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Como? fez Quaresma espantado.<\/p>\n<p>&#8212; Quem escreveu isso?<\/p>\n<p>O major nem quis examinar o papel. Viu a letra, lembrou-se da distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e confessou com firmeza:<\/p>\n<p>&#8212; Fui eu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o confessa?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o. Mas Vossa Excel&ecirc;ncia n&atilde;o sabe&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabe! que diz?<\/p>\n<p>O diretor levantou-se da cadeira, com os l&aacute;bios brancos e a m&atilde;o<br \/>\n    levantada &agrave; altura da cabe&ccedil;a. Tinha sido ofendido tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes: na sua honra individual, na honra de sua casta e na do estabelecimento<br \/>\n    de ensino que freq&uuml;entara, a escola da Praia Vermelha, o primeiro estabelecimento<br \/>\n    cient&iacute;fico do mundo. Al&eacute;m disso escrevera no Pritaneu, a revista<br \/>\n    da escola, um conto &#8212; &quot;A Saudade&quot; &#8212; produ&ccedil;&atilde;o muito<br \/>\n    elogiada pelos colegas. Dessa forma, tendo em todos os exames plenamente e<br \/>\n    distin&ccedil;&atilde;o, uma dupla coroa de s&aacute;bio e artista cingia-lhe<br \/>\n    a fronte. Tantos t&iacute;tulos valiosos e raros de se encontrarem reunidos<br \/>\n    mesmo em Descartes ou Shakespeare, transformavam aquele &#8212; n&atilde;o sabe<br \/>\n    &#8212; de um amanuense em ofensa profunda, em inj&uacute;ria.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabe! Como &eacute; que o senhor ousa dizer-me isto! Tem o<br \/>\n    senhor porventura o curso de Benjamim Constant? Sabe o senhor Matem&aacute;tica,<br \/>\n    Astronomia, F&iacute;sica, Qu&iacute;mica, Sociologia e Moral? Como ousa ent&atilde;o?<br \/>\n    Pois o senhor pensa que por ter lido uns romances e saber um francesinho a&iacute;,<br \/>\n    pode ombrear-se com quem tirou grau 9 em C&aacute;lculo, 10 em Mec&acirc;nica,<br \/>\n    8 em Astronomia, 10 em Hidr&aacute;ulica, 9 em Descritiva? Ent&atilde;o?!<\/p>\n<p>E o homem sacudia furiosamente a m&atilde;o e olhava ferozmente para Quaresma<br \/>\n    que j&aacute; se julgava fuzilado.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, senhor coronel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tem mas, n&atilde;o tem nada! Considere-se suspenso, at&eacute;<br \/>\n    segunda ordem.<\/p>\n<p>Quaresma era doce, bom e modesto. Nunca fora seu prop&oacute;sito duvidar<br \/>\n    da sabedoria do seu diretor. Ele n&atilde;o tinha nenhuma pretens&atilde;o<br \/>\n    a s&aacute;bio e pronunciara a frase para come&ccedil;ar a desculpa; mas,<br \/>\n    quando viu aquela enxurrada de saber, de t&iacute;tulos, a sobrenadar em &aacute;guas<br \/>\n    t&atilde;o furiosas, perdeu o fio do pensamento, a fala, as id&eacute;ias<br \/>\n    e nada mais soube nem p&ocirc;de dizer.<\/p>\n<p>Saiu abatido, como um criminoso, do gabinete do coronel, que n&atilde;o deixava<br \/>\n    de olh&aacute;-lo furiosamente, indignadamente, ferozmente, como quem foi<br \/>\n    ferido em todas as fibras do seu ser. Saiu afinal. Chegando &agrave; sala<br \/>\n    do trabalho nada disse: pegou no chap&eacute;u, na bengala e atirou-se pela<br \/>\n    porta afora, cambaleando como um b&ecirc;bado. Deu umas voltas, foi ao livreiro<br \/>\n    buscar uns livros. Quando ia tomar o bonde encontrou o Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Outros.<\/p>\n<p>&#8212; Cedo, hein major?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade.<\/p>\n<p>E calaram-se ficando um diante do outro num mutismo contrafeito. Ricardo<br \/>\n    avan&ccedil;ou algumas palavras:<\/p>\n<p>&#8212; O major, hoje, parece que tem uma id&eacute;ia, um pensamento muito forte.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho, filho, n&atilde;o de hoje, mas de h&aacute; muito tempo.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; bom pensar, sonhar consola.<\/p>\n<p>&#8212; Consola, talvez; mas faz-nos tamb&eacute;m diferentes dos outros, cava<br \/>\n    abismos entre os homens&#8230;.<\/p>\n<p>E os dois separaram-se. O major tomou o bonde e Ricardo desceu descuidado<br \/>\n    a Rua do Ouvidor, com o seu passo acanhado e as cal&ccedil;as dobradas nas<br \/>\n    canelas, sobra&ccedil;ando o viol&atilde;o na sua armadura de camur&ccedil;a.<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">V &#8211; O BIBELOT<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o era a primeira vez que ela vinha ali. Mais de uma dezena j&aacute;<br \/>\n    subira aquela larga escada de pedra, com grupos de m&aacute;rmores de Lisboa<br \/>\n    de um lado e do outro, a Caridade e Nossa Senhora da Piedade; penetrara por<br \/>\n    aquele p&oacute;rtico de colunas d&oacute;ricas, atravessara o &aacute;trio<br \/>\n    ladrilhado, deixando &agrave; esquerda e &agrave; direita, Pinel e Esquirol,<br \/>\n    meditando sobre o angustioso mist&eacute;rio da loucura; subira outra escada<br \/>\n    encerada cuidadosamente e fora ter com o padrinho l&aacute; em cima, triste<br \/>\n    e absorvido no seu sonho e na sua mania. Seu pai a trazia &agrave;s vezes,<br \/>\n    aos domingos, quando vinha cumprir o piedoso dever de amizade, visitando Quaresma.<br \/>\n    H&aacute; quanto tempo estava ele ali? Ela n&atilde;o se lembrava ao certo;<br \/>\n    uns tr&ecirc;s ou quatro meses, se tanto. <\/p>\n<p>S&oacute; o nome da casa metia medo. O hosp&iacute;cio! &Eacute; assim como<br \/>\n    uma sepultura em vida, um semi-enterramento, enterramento do esp&iacute;rito,<br \/>\n    da raz&atilde;o condutora, de cuja aus&ecirc;ncia os corpos raramente se ressentem.<\/p>\n<p>A sa&uacute;de n&atilde;o depende dela e h&aacute; muitos que parecem at&eacute;<br \/>\n    adquirir mais for&ccedil;a de vida, prolongar a exist&ecirc;ncia, quando ela<br \/>\n    se evola n&atilde;o se sabe por que orif&iacute;cio do corpo e para onde.<\/p>\n<p>Com que terror, uma esp&eacute;cie de pavor de coisa sobrenatural, espanto<br \/>\n    de inimigo invis&iacute;vel e onipresente, n&atilde;o ouvia a gente pobre<br \/>\n    referir-se ao estabelecimento da Praia das Saudades! Antes uma boa morte,<br \/>\n    diziam.<\/p>\n<p>No primeiro aspecto, n&atilde;o se compreendia bem esse pasmo, esse espanto,<br \/>\n    esse terror do povo por aquela casa imensa, severa e grave, meio hospital,<br \/>\n    meio pris&atilde;o, com seu alto gradil, suas janelas gradeadas, a se estender<br \/>\n    por uns centos de metros, em face do mar imenso e verde, l&aacute; na entrada<br \/>\n    da ba&iacute;a, na Praia das Saudades. Entrava-se, viam-se uns homens calmos,<br \/>\n    pensativos, meditabundos, como monges em recolhimento e prece.<\/p>\n<p>De resto, com aquela entrada silenciosa, clara e respeit&aacute;vel, perdia-se<br \/>\n    logo a id&eacute;ia popular da loucura; o escarc&eacute;u, os trejeitos, as<br \/>\n    f&uacute;rias, o entrechoque de tolices ditas aqui e ali.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia nada disso; era uma calma, um sil&ecirc;ncio, uma ordem<br \/>\n    perfeitamente naturais. No fim, por&eacute;m, quando se examinavam bem, na<br \/>\n    sala das visitas, aquelas faces transtornadas, aqueles ares aparvalhados,<br \/>\n    alguns idiotas e sem express&atilde;o, outros como alheados e mergulhados<br \/>\n    em um sonho &iacute;ntimo sem fim, e via-se tamb&eacute;m a excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uns, mais viva em face &agrave; atonia de outros, &eacute; que se sentia<br \/>\n    bem o horror da loucura, o angustioso mist&eacute;rio que ela encerra, feito<br \/>\n    n&atilde;o sei de que inexplic&aacute;vel fuga do esp&iacute;rito daquilo<br \/>\n    que se sup&otilde;e o real, para se apossar e viver das apar&ecirc;ncias das<br \/>\n    coisas ou de outras apar&ecirc;ncias das mesmas.<\/p>\n<p>Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifr&aacute;vel da nossa pr&oacute;pria<br \/>\n    natureza, fica amedrontado, sentindo que o g&eacute;rmen daquilo est&aacute;<br \/>\n    depositado em n&oacute;s e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma,<br \/>\n    nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreens&atilde;o inversa e absurda<br \/>\n    de n&oacute;s mesmos, dos outros e do mundo. Cada louco traz em si o seu mundo<br \/>\n    e para ele n&atilde;o h&aacute; mais semelhantes: o que foi antes da loucura<br \/>\n    &eacute; outro muito outro do que ele vem a ser ap&oacute;s.<\/p>\n<p>E essa mudan&ccedil;a n&atilde;o come&ccedil;a, n&atilde;o se sente quando<br \/>\n    come&ccedil;a e quase nunca acaba. Com o seu padrinho, como fora? A princ&iacute;pio,<br \/>\n    aquele requerimento&#8230; Mas que era aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa<br \/>\n    sem import&acirc;ncia, uma id&eacute;ia de velho sem conseq&uuml;&ecirc;ncia.<br \/>\n    Depois, aquele of&iacute;cio? N&atilde;o tinha import&acirc;ncia, uma simples<br \/>\n    distra&ccedil;&atilde;o, coisa que acontece a cada passo&#8230; E enfim? A loucura<br \/>\n    declarada, a torva e ir&ocirc;nica loucura que nos tira a nossa alma e p&otilde;e<br \/>\n    uma outra, que nos rebaixa&#8230; Enfim, a loucura declarada, a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do eu, a mania de n&atilde;o sair, de se dizer perseguido, de imaginar como<br \/>\n    inimigos, os amigos, os melhores. Como fora doloroso aquilo! A primeira fase<br \/>\n    do seu del&iacute;rio, aquela agita&ccedil;&atilde;o desordenada, aquele falar<br \/>\n    sem nexo, sem acordo com que se realizava fora dele e com os atos passados,<br \/>\n    um falar que n&atilde;o se sabia donde vinha, donde saia, de que ponto do<br \/>\n    seu ser tomava nascimento! E o pavor do doce Quaresma? Um pavor de quem viu<br \/>\n    um cataclismo, que o fazia tremer todo, desde os p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a<br \/>\n    e enchia-o de indiferen&ccedil;a para tudo mais que n&atilde;o fosse o seu<br \/>\n    pr&oacute;prio del&iacute;rio.<\/p>\n<p>A casa, os livros e os seus interesses de dinheiro andavam &agrave; matroca.<br \/>\n    Para ele, nada disso valia, nada disso tinha exist&ecirc;ncia e import&acirc;ncia.<br \/>\n    Eram sombras, apar&ecirc;ncias; o real eram os inimigos, os inimigos terr&iacute;veis<br \/>\n    cujos nomes o seu del&iacute;rio n&atilde;o chegava a criar. A velha irm&atilde;,<br \/>\n    atarantada, atordoada, sem dire&ccedil;&atilde;o, sem saber que alvitre tomar.<br \/>\n    Educada em casa sempre com um homem ao lado, o pai, depois o irm&atilde;o,<br \/>\n    ela n&atilde;o sabia lidar com o mundo, com neg&oacute;cios, com as autoridades<br \/>\n    e pessoas influentes. Ao mesmo tempo, na sua inexperi&ecirc;ncia e ternura<br \/>\n    de irm&atilde;, oscilava entre a cren&ccedil;a de que aquilo fosse verdade<br \/>\n    e a suspeita de que fosse loucura pura e simples.<\/p>\n<p>Se n&atilde;o fosse seu pai (e Olga amava mais por isso o seu rude pai) que<br \/>\n    se interessava, chamando a si os interesses da fam&iacute;lia e evitando a<br \/>\n    demiss&atilde;o de que estava amea&ccedil;ado, transformando-a em aposentadoria,<br \/>\n    que seria dele? Como &eacute; f&aacute;cil na vida tudo ruir! Aquele homem<br \/>\n    pautado, regrado, honesto, com emprego seguro, tinha uma apar&ecirc;ncia inabal&aacute;vel;<br \/>\n    entretanto bastou um gr&atilde;ozinho de sandice&#8230;<\/p>\n<p>Estava h&aacute; uns meses no hosp&iacute;cio, o seu padrinho, e a irm&atilde;<br \/>\n    n&atilde;o o podia visitar. Era tal o seu abalo de nervos, era tal a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao v&ecirc;-lo ali naquela meia-pris&atilde;o, deca&iacute;do dele mesmo que<br \/>\n    um ataque se seguia e n&atilde;o podia ser evitado.<\/p>\n<p>Vinham ela e o pai, &agrave;s vezes o pai s&oacute;, algumas vezes Ricardo,<br \/>\n    e eram s&oacute; os tr&ecirc;s a visit&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Aquele domingo estava particularmente lindo, principalmente em Botafogo,<br \/>\n    nas proximidades do mar e das montanhas altas que se recortavam num c&eacute;u<br \/>\n    de seda. O ar era macio e docemente o sol faiscava nas cal&ccedil;adas.<\/p>\n<p>O pai vinha lendo os jornais e ela, pensando, de quando em quando, folheando<br \/>\n    as revistas ilustradas que trazia para alegrar e distrair o padrinho.<\/p>\n<p>Ele estava como pensionista; mas, embora assim, no come&ccedil;o, ela teve<br \/>\n    um certo pudor em se misturar com os visitantes.<\/p>\n<p>Parecia-lhe que a sua fortuna a punha acima de presenciar mis&eacute;rias;<br \/>\n    recalcou por&eacute;m, dentro de si esse pensamento ego&iacute;sta, o seu<br \/>\n    orgulho de classe, e agora entrava naturalmente, pondo em mais destaque a<br \/>\n    sua eleg&acirc;ncia natural. Amava esses sacrif&iacute;cios, essas abnega&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tinha o sentimento da grandeza deles, e ficou contente consigo mesma.<\/p>\n<p>No bonde vinham outros visitantes e todos n&atilde;o tardaram em saltar no<br \/>\n    port&atilde;o do manic&ocirc;mio. Como em todas as portas dos nossos infernos<br \/>\n    sociais, havia de toda gente, de v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es, nascimentos<br \/>\n    e fortunas. N&atilde;o &eacute; s&oacute; a morte que nivela; a loucura, o<br \/>\n    crime e a mol&eacute;stia passam tamb&eacute;m a sua rasoura pelas distin&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que inventamos.<\/p>\n<p>Os bem vestidos e os mal vestidos, os elegantes e os pobres, os feios e os<br \/>\n    bonitos, os inteligentes e os n&eacute;scios, entravam com respeito, com concentra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com uma ponta de pavor nos olhos como se penetrassem noutro mundo.<\/p>\n<p>Chegavam aos parentes e os embrulhos se desfaziam: eram guloseimas, fumo,<br \/>\n    meias, chinelas, &agrave;s vezes livros e jornais, Dos doentes uns conversavam<br \/>\n    com os parentes; outros mantinham-se calados, num mutismo feroz e inexplic&aacute;vel;<br \/>\n    outros indiferentes; e era tal a variedade de aspectos dessas recep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que se chegava a esquecer o imp&eacute;rio da doen&ccedil;a sobre todos aqueles<br \/>\n    infelizes, tanto ela variava neste ou naquele, para se pensar em caprichos<br \/>\n    pessoais, em ditames das vontades livres de cada um.<\/p>\n<p>E ela pensava como esta nossa vida &eacute; variada e diversa, como ela &eacute;<br \/>\n    mais rica de aspectos tristes que de alegres, e como na variedade da vida<br \/>\n    a tristeza pode mais variar que a alegria e como que d&aacute; o pr&oacute;prio<br \/>\n    movimento da vida.<\/p>\n<p>Verificando isso, quase teve satisfa&ccedil;&atilde;o, pois a sua natureza<br \/>\n    inteligente e curiosa se comprazia nas mais simples descobertas que seu esp&iacute;rito<br \/>\n    fazia.<\/p>\n<p>Quaresma estava melhor. A exalta&ccedil;&atilde;o passara e o del&iacute;rio<br \/>\n    parecia querer desaparecer completamente. Chocando-se com aquele meio, houve<br \/>\n    logo nele uma rea&ccedil;&atilde;o salutar e necess&aacute;ria. Estava doido,<br \/>\n    pois se o punham ali&#8230;<\/p>\n<p>Quando veio a ter com o compadre e a afilhada at&eacute; trazia um sorriso<br \/>\n    de satisfa&ccedil;&atilde;o por baixo do bigode j&aacute; grisalho. Tinha<br \/>\n    emagrecido um pouco, os cabelos pretos estavam um pouco brancos, mas o aspecto<br \/>\n    geral era o mesmo. N&atilde;o perdera totalmente a mansuetude e a ternura<br \/>\n    no falar, mas quando a mania lhe tomava ficava um tanto seco e desconfiado.<br \/>\n    Ao v&ecirc;-los disse amavelmente:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o vieram sempre&#8230; Estava &agrave; espera&#8230;<\/p>\n<p>Cumprimentaram-se e ele deu mesmo um largo abra&ccedil;o na afilhada.<\/p>\n<p>&#8212; Como est&aacute; Adelaide?<\/p>\n<p>&#8212; Bem. Mandou lembran&ccedil;as e n&atilde;o veio porque&#8230; adiantou Coleoni.<\/p>\n<p>&#8212; Coitada! disse ele, e pendeu a cabe&ccedil;a como se quisesse afastar<br \/>\n    uma recorda&ccedil;&atilde;o triste; em seguida, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; E o Ricardo?<\/p>\n<p>A afilhada apressou-se em responder ao padrinho, com alvoro&ccedil;o e alegria.<br \/>\n    Via-o j&aacute; escapo &agrave; semi-sepultura de ins&acirc;nia.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bom, padrinho. Procurou papai h&aacute; dias e disse que a<br \/>\n    sua aposentadoria j&aacute; est&aacute; quase acabada.<\/p>\n<p>Coleoni tinha-se sentado. Quaresma tamb&eacute;m e a mo&ccedil;a estava de<br \/>\n    p&eacute;, para melhor olhar o padrinho com os seus olhos muito luminosos<br \/>\n    e firmes no encarar. Guardas, internos e m&eacute;dicos passavam pelas portas<br \/>\n    com a indiferen&ccedil;a profissional. Os visitantes n&atilde;o se olhavam,<br \/>\n    pareciam que n&atilde;o queriam conhecer-se na rua. L&aacute; fora, era o<br \/>\n    dia lindo, os ares macios, o mar infinito e melanc&oacute;lico, as montanhas<br \/>\n    a se recortar num c&eacute;u de seda &#8212; a beleza da natureza imponente e indecifr&aacute;vel,<br \/>\n    Coleoni, embora mais ass&iacute;duo nas visitas, notava as melhoras do compadre<br \/>\n    com satisfa&ccedil;&atilde;o que errava na sua fisionomia, num ligeiro sorriso.<br \/>\n    Num-dado momento aventurou:<\/p>\n<p>&#8212; O major j&aacute; est&aacute; muito melhor; quer sair?<\/p>\n<p>Quaresma n&atilde;o respondeu logo; pensou um pouco e respondeu firme e vagarosamente:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; melhor esperar um pouco. Vou melhor&#8230; Sinto incomodar-te tanto<br \/>\n    mas voc&ecirc;s que t&ecirc;m sido t&atilde;o bons, h&atilde;o de levar tudo<br \/>\n    isso para conta da pr&oacute;pria bondade. Quem tem inimigos deve ter tamb&eacute;m<br \/>\n    bons amigos&#8230;<\/p>\n<p>O pai e a filha entreolharam-se; o major levantou a cabe&ccedil;a e parecia<br \/>\n    que as l&aacute;grimas queriam rebentar. A mo&ccedil;a interveio de pronto:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe, padrinho, vou casar-me.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, confirmou o pai. A Olga vai casar-se e n&oacute;s v&iacute;nhamos<br \/>\n    preveni-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute; teu noivo? perguntou Quaresma.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um rapaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, interrompeu o padrinho sorrindo.<\/p>\n<p>E os dois acompanharam-no com familiaridade e contentamento. Era um bom sinal.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o Senhor Armando Borges, doutorando. Est&aacute; satisfeito,<br \/>\n    padrinho? fez Olga gentilmente.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; para depois do fim do ano.<\/p>\n<p>&#8212; Esperamos que seja por a&iacute;, disse o italiano.<\/p>\n<p>&#8212; Gostas muito dele? indagou o padrinho.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o sabia responder aquela pergunta. Queria sentir que gostava,<br \/>\n    mas estava que n&atilde;o. E por que casava? N&atilde;o sabia&#8230; Um impulso<br \/>\n    do seu meio, uma coisa que n&atilde;o vinha dela &#8212; n&atilde;o sabia&#8230; Gostava<br \/>\n    de outro? Tamb&eacute;m n&atilde;o. Todos os rapazes que ela conhecia n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;am relevo que a ferisse, n&atilde;o tinham o &quot;qu&ecirc;&quot;,<br \/>\n    ainda indeterminado na sua emo&ccedil;&atilde;o e na sua intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    que a fascinasse ou subjugasse. Ela n&atilde;o sabia bem o que era, n&atilde;o<br \/>\n    chegava a extremar na percep&ccedil;&atilde;o das suas inclina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a qualidade que ela queria ver dominante no homem. Era o her&oacute;ico, era<br \/>\n    o fora do comum, era a for&ccedil;a de proje&ccedil;&atilde;o para as grandes<br \/>\n    coisas; mas nessa confus&atilde;o mental dos nossos primeiros anos, quando<br \/>\n    as id&eacute;ias e os desejos se entrela&ccedil;am e se embaralham, Olga n&atilde;o<br \/>\n    podia colher e registrar esse anelo, esse modo de se lhe representar e de<br \/>\n    amar o indiv&iacute;duo masculino.<\/p>\n<p>E tinha raz&atilde;o em se casar sem obedecer &agrave; sua concep&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil ver nitidamente num homem, de vinte a trinta<br \/>\n    anos, o que ela sonhara que era bem poss&iacute;vel tornasse a nuvem por Juno&#8230;<br \/>\n    Casava por h&aacute;bito de sociedade, um pouco por curiosidade e para alargar<br \/>\n    o campo de sua vida e agu&ccedil;ar a sensibilidade. Lembrou-se disso tudo<br \/>\n    rapidamente e respondeu sem convic&ccedil;&atilde;o ao padrinho:<\/p>\n<p>&#8212; Gosto.<\/p>\n<p>A visita n&atilde;o se demorou muito mais. Era conveniente que fosse r&aacute;pida,<br \/>\n    n&atilde;o convinha fatigar a aten&ccedil;&atilde;o do convalescente. Os dois<br \/>\n    sa&iacute;ram sem esconder que iam esperan&ccedil;ados e satisfeitos.<\/p>\n<p>Na porta j&aacute; havia alguns visitantes &agrave; espera do bonde. Como<br \/>\n    n&atilde;o estivesse o ve&iacute;culo no ponto, foram indo ao longo da fachada<br \/>\n    do manic&ocirc;mio at&eacute; l&aacute;. Em meio do caminho, encontraram,<br \/>\n    encostada ao gradil, uma velha preta a chorar. Coleoni, sempre bom, chegou-se<br \/>\n    a ela:<\/p>\n<p>&#8212; Que tem, minha velha?<\/p>\n<p>A pobre mulher deitou sobre ele um demorado olhar, &uacute;mido e doce, cheio<br \/>\n    de uma irremedi&aacute;vel tristeza, e respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Ah! meu sinh&ocirc;!&#8230; &Eacute; triste&#8230; Um filho, t&atilde;o bom, coitado!<\/p>\n<p>E continuou a chorar. Coleoni come&ccedil;ou a comover-se; a filha olhou-a<br \/>\n    com interesse e perguntou no fim de um instante:<\/p>\n<p>&#8212; Morreu?<\/p>\n<p>&#8212; Antes fosse, sinhazinha.<\/p>\n<p>E por entre l&aacute;grimas e solu&ccedil;os contou que o filho n&atilde;o<br \/>\n    a conhecia mais, n&atilde;o lhe respondia &agrave;s perguntas; era como estranho,<br \/>\n    Enxugou as l&aacute;grimas e concluiu:<\/p>\n<p>&#8212; Foi &quot;coisa-feita&quot;.<\/p>\n<p>Os dois afastaram-se tristes, levando n&#8217;alma um pouco daquela humilde dor.<\/p>\n<p>O dia estava fresco e a vira&ccedil;&atilde;o, que come&ccedil;ava a soprar,<br \/>\n    enrugava a face do mar em pequenas ondas brancas. O P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    erguia-se negro, hirto, solene, das ondas espumejantes e como que punha uma<br \/>\n    sombra no dia muito claro.<\/p>\n<p>No Instituto dos Cegos, tocavam violino: e a voz plangente e demorada do<br \/>\n    instrumento parecia sair daquelas coisas todas, da sua tristeza e da sua solenidade.<\/p>\n<p>O bonde tardou um pouco. Chegou. Tomaram. Desceram no Largo da Carioca. &Eacute;<br \/>\n    bom ver-se a cidade nos dias de descanso, com as suas lojas fechadas, as suas<br \/>\n    estreitas ruas desertas, onde os passos ressoam como em claustros silenciosos.<br \/>\n    A cidade &eacute; como um esqueleto, faltam-lhe as carnes, que s&atilde;o<br \/>\n    a agita&ccedil;&atilde;o, o movimento de carros, de carro&ccedil;as e gente.<br \/>\n    Na porta de uma loja ou outra, os filhos do negociante brincam em veloc&iacute;pedes,<br \/>\n    atiram bolas e ainda mais se sente a diferen&ccedil;a da cidade do dia anterior.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o havia ainda o h&aacute;bito de procurar os arrabaldes pitorescos<br \/>\n    e s&oacute; encontravam, por vezes, casais que iam apressadamente a visitas,<br \/>\n    como eles agora. O Largo de S&atilde;o Francisco estava silencioso e a est&aacute;tua,<br \/>\n    no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite.<br \/>\n    Os bondes chegavam pregui&ccedil;osamente ao largo com poucos passageiros.<br \/>\n    Coleoni e sua filha tomaram um que os levasse &agrave; casa de Quaresma. L&aacute;<br \/>\n    foram. A tarde se aproximava e as toilettes domingueiras j&aacute; apareciam<br \/>\n    nas janelas. Pretos com roupas claras e grandes charutos ou cigarros; grupos<br \/>\n    de caixeiros com flores estardalhantes; meninas em cassas bem engomadas: cartolas<br \/>\n    antediluvianas ao lado de vestidos pesados de cetim negro, envergados em corpos<br \/>\n    fartos de matronas sedent&aacute;rias; e o domingo aparecia assim decorado<br \/>\n    com a simplicidade dos humildes, com a riqueza dos pobres e a ostenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos tolos.<\/p>\n<p>Dona Adelaide n&atilde;o estava s&oacute;. Ricardo viera visit&aacute;-la<br \/>\n    e conversavam. Quando o compadre de seu irm&atilde;o bateu no port&atilde;o,<br \/>\n    ele contava &agrave; velha senhora o seu &uacute;ltimo triunfo:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei como h&aacute; de ser, Dona Adelaide. Eu n&atilde;o guardo<br \/>\n    as minhas m&uacute;sicas, n&atilde;o escrevo &#8212; &eacute; um inferno!<\/p>\n<p>O caso era de p&ocirc;r um autor em maus len&ccedil;&oacute;is. O Senhor<br \/>\n    Paysand&oacute;n, de C&oacute;rdoba (Rep&uacute;blica Argentina), autor muito<br \/>\n    conhecido na mesma cidade, lhe tinha escrito, pedindo exemplares de suas m&uacute;sicas<br \/>\n    e can&ccedil;&otilde;es. Ricardo estava atrapalhado, Tinha os versos escritos,<br \/>\n    mas a m&uacute;sica n&atilde;o. &Eacute; verdade que as sabia de cor, por&eacute;m,<br \/>\n    escrev&ecirc;-las de uma hora para outra era trabalho acima de sua for&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o diabo! continuou ele. N&atilde;o &eacute; por mim; a quest&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que se perde uma ocasi&atilde;o de fazer o Brasil conhecido no estrangeiro.<\/p>\n<p>A velha irm&atilde; de Quaresma n&atilde;o tinha grande interesse pelo viol&atilde;o.<br \/>\n    A sua educa&ccedil;&atilde;o, que se fizera vendo semelhante instrumento entregue<br \/>\n    a escravos ou gente parecida, n&atilde;o podia admitir que ele preocupasse<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o de pessoas de certa ordem, Delicada, entretanto, suportava<br \/>\n    a mania de Ricardo, mesmo porque j&aacute; come&ccedil;ava a ter uma ponta<br \/>\n    de estima pelo famoso trovador dos suburbanos. Nasceu-lhe essa estima pela<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o com que ele se houve no seu drama familiar. Os pequenos<br \/>\n    servi&ccedil;os e trabalhos, os passos para ali e para aqui, ficaram a cargo<br \/>\n    de Ricardo, que os desempenhara com boa vontade e dilig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Atualmente era ele o encarregado de tratar da aposentadoria do seu antigo<br \/>\n    disc&iacute;pulo. &Eacute; um trabalho &aacute;rduo, esse de liquidar uma<br \/>\n    aposentadoria, como se diz na g&iacute;ria burocr&aacute;tica. Aposentado<br \/>\n    o sujeito, solenemente por um decreto, a coisa corre uma dezena de reparti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e funcion&aacute;rios para ser ultimada. Nada h&aacute; mais grave do que<br \/>\n    a gravidade com que o empregado nos diz; ainda estou fazendo o c&aacute;lculo;<br \/>\n    e a coisa demora um m&ecirc;s, mais at&eacute;, como se se tratasse de mec&acirc;nica<br \/>\n    celeste.<\/p>\n<p>Coleoni era o procurador do major, mas n&atilde;o sendo entendido em coisas<br \/>\n    oficiais, entregou ao Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros aquela parte do seu<br \/>\n    mandato.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as &agrave; popularidade de Ricardo, e da sua lhaneza, vencera<br \/>\n    a resist&ecirc;ncia da m&aacute;quina burocr&aacute;tica e a liquida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estava anunciada para breve.<\/p>\n<p>Foi isso que ele anunciou a Coleoni, quando este entrou seguido da filha.<br \/>\n    Pediram, tanto ele como Dona Adelaide, not&iacute;cias do amigo e do irm&atilde;o.<\/p>\n<p>A irm&atilde; nunca entendera direito o irm&atilde;o, com a crise n&atilde;o<br \/>\n    o ficou compreendendo melhor; mas o sentira profundamente com o sentimento<br \/>\n    simples de irm&atilde; e desejava ardentemente a sua cura.<\/p>\n<p>Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros gostava do major, encontrara nele<br \/>\n    certo apoio moral e intelectual de que precisava. Os outros gostavam de ouvir<br \/>\n    o seu canto, apreciavam como simples diletantes; mas o major era o &uacute;nico<br \/>\n    que ia ao fundo da sua tentativa e compreendia o alcance patri&oacute;tico<br \/>\n    de sua obra. <\/p>\n<p>De resto, ele agora sofria particularmente &#8212; sofria na sua gl&oacute;ria,<br \/>\n    produto de um lento e seguido trabalho de anos. &Eacute; que aparecera um<br \/>\n    crioulo a cantar modinhas e cujo nome come&ccedil;ava a tomar for&ccedil;a<br \/>\n    e j&aacute; era citado ao lado do seu.<\/p>\n<p>Aborrecia-se com o rival, por dois fatos: primeiro: pelo sujeito ser preto;<br \/>\n    e segundo: por causa das suas teorias.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; que ele tivesse ojeriza particular aos pretos. O que<br \/>\n    ele via no fato de haver um preto famoso tocar viol&atilde;o, era que tal<br \/>\n    coisa ia diminuir ainda mais o prest&iacute;gio do instrumento. Se o seu rival<br \/>\n    tocasse piano e por isso ficasse c&eacute;lebre, n&atilde;o havia mal algum;<br \/>\n    ao contr&aacute;rio: o talento do rapaz levantava a sua pessoa, por interm&eacute;dio<br \/>\n    do instrumento considerado; mas, tocando viol&atilde;o, era o inverso: o preconceito<br \/>\n    que lhe cercava a pessoa, desmoralizava o misterioso viol&atilde;o que ele<br \/>\n    tanto estimava. E al&eacute;m disso com<\/p>\n<p>aquelas teorias! Ora! Querer que a modinha diga alguma coisa e tenha versos<br \/>\n    certos! Que tolice!<\/p>\n<p>E Ricardo levava a pensar nesse rival inesperado que se punha assim diante<br \/>\n    dele como um obst&aacute;culo imprevisto na subida maravilhosa para a sua<br \/>\n    gl&oacute;ria. Precisava afast&aacute;-lo, esmag&aacute;-lo, mostrar a sua<br \/>\n    superioridade indiscut&iacute;vel; mas como?<\/p>\n<p>A r&eacute;clame j&aacute; n&atilde;o bastava; o rival a empregava tamb&eacute;m.<br \/>\n    Se ele tivesse um homem not&aacute;vel, um grande literato, que escrevesse<br \/>\n    um artigo sobre ele e a sua obra, a vit&oacute;ria estava certa. Era dif&iacute;cil<br \/>\n    encontrar. Esses nossos literatos eram t&atilde;o tolos e viviam t&atilde;o<br \/>\n    absorvidos em coisas francesas&#8230; Pensou num jornal, O Viol&atilde;o, em que<br \/>\n    ele desafiasse o rival e o esmagasse numa pol&ecirc;mica.<\/p>\n<p>Era isso que precisava obter e a esperan&ccedil;a estava em Quaresma, atualmente<br \/>\n    recolhido ao hosp&iacute;cio, mas felizmente em via de cura, A sua alegria<br \/>\n    foi justamente quando soube que o amigo estava melhor.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o pude ir hoje, disse ele, mas irei domingo. Est&aacute; mais<br \/>\n    gordo?<\/p>\n<p>&#8212; Pouca coisa, disse a mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Conversou bem, acrescentou Coleoni. At&eacute; ficou contente quando soube<br \/>\n    que Olga ia casar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Vai casar-se, Dona Olga? Parab&eacute;ns.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigada, fez ela.<\/p>\n<p>&#8212; Quando &eacute;, Olga? perguntou Dona Adelaide.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; para o fim do ano&#8230; Tem tempo&#8230;<\/p>\n<p>E logo choveram perguntas sobre o noivo e afloraram as considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre o casamento.<\/p>\n<p>E ela se sentia vexada; julgava, tanto as perguntas como as considera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    impudentes e irritantes; queria fugir &agrave; conversa, mas voltavam ao mesmo<br \/>\n    assunto, n&atilde;o s&oacute; Ricardo, mas a velha Adelaide, mais loquaz e<br \/>\n    curiosa que comumente. Esse supl&iacute;cio que se repetia em todas as visitas,<br \/>\n    quase a fazia arrepender-se de ter aceitado o pedido. Por fim, achou um subterf&uacute;gio,<br \/>\n    perguntando:<\/p>\n<p>&#8212; Como vai o general?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o o tenho visto, mas a filha sempre vem aqui. Ele deve andar<br \/>\n    bem, a Ism&ecirc;nia &eacute; que anda triste, desolada &#8212; coitadinha!<\/p>\n<p>Dona Adelaide contou ent&atilde;o o drama que agitava a pequenina alma da<br \/>\n    filha do general. Cavalc&acirc;nti, aquele Jac&oacute; de cinco anos, embarcara<br \/>\n    para o interior, h&aacute; tr&ecirc;s ou quatro meses, e n&atilde;o mandara<br \/>\n    nem uma carta nem um cart&atilde;o. A menina tinha aquilo como um rompimento;<br \/>\n    e ela, t&atilde;o incapaz de um sentimento mais profundo, de uma aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais s&eacute;ria de energia mental e f&iacute;sica, sentia-o muito, como<br \/>\n    coisa irremedi&aacute;vel que absorvia toda a sua aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Para Ism&ecirc;nia, era como se todos os rapazes casadoiros tivessem deixado<br \/>\n    de existir. Arranjar outro era problema insol&uacute;vel, era trabalho acima<br \/>\n    de suas for&ccedil;as. Coisa dif&iacute;cil! Namorar, escrever cartinhas,<br \/>\n    fazer acenos, dan&ccedil;ar, ir a passeios &#8212; ela n&atilde;o podia mais com<br \/>\n    isso. Decididamente, estava condenada a n&atilde;o se casar, a ser tia, a<br \/>\n    suportar durante toda a exist&ecirc;ncia esse estado de solteira que a apavorava.<br \/>\n    Quase n&atilde;o se lembrava das fei&ccedil;&otilde;es do noivo, dos seus<br \/>\n    olhos esgazeados, do seu nariz duro e fortemente &oacute;sseo; independente<br \/>\n    da mem&oacute;ria dele, vinha-lhe sempre &agrave; consci&ecirc;ncia, quando,<br \/>\n    de manh&atilde;, o estafeta n&atilde;o lhe entregava carta, essa outra id&eacute;ia:<br \/>\n    n&atilde;o casar. Era um castigo&#8230; A Quinota ia casar-se, o Genel&iacute;cio<br \/>\n    j&aacute; estava tratando dos pap&eacute;is; e ela que esperara tanto, e fora<br \/>\n    a primeira a noivar-se, ia ficar maldita, rebaixada diante de todas. Parecia<br \/>\n    at&eacute; que ambos estavam contentes com aquela fuga inexplic&aacute;vel<br \/>\n    de Cavalc&acirc;nti. Como eles se riam durante o carnaval! Como eles atiraram<br \/>\n    aos seus olhos aquela viuvez prematura, durante os folguedos carnavalescos!<br \/>\n    Punham tanta f&uacute;ria no jogo de confetes e bisnagas, de modo a deixar<br \/>\n    bem claro a felicidade de ambos, aquela marcha gloriosa e invejada para o<br \/>\n    casamento, em face do seu abandono.<\/p>\n<p>Ela disfar&ccedil;ava bem a impress&atilde;o da alegria deles que lhe parecia<br \/>\n    indecente e hostil; mas o esc&aacute;rnio da irm&atilde; que lhe dizia constantemente:<br \/>\n    &quot;Brinca, Ism&ecirc;nia! Ele est&aacute; longe, vai aproveitando&quot;<br \/>\n    &#8212; metia-lhe raiva, a raiva terr&iacute;vel de gente fraca, que corr&oacute;i<br \/>\n    interiormente, por n&atilde;o poder arrebentar de qualquer forma.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, para espantar os maus pensamentos, ela se punha a olhar o aspecto<br \/>\n    pueril da rua, marchetada de papeluchos multicores, e as serpentinas irisadas<br \/>\n    pendentes nas sacadas, mas o que fazia bem &agrave; sua natureza pobre, comprimida,<br \/>\n    eram os cord&otilde;es, aquele ru&iacute;do de atabaques, e adufes, de tambores<br \/>\n    e pratos. Mergulhando nessa barulheira, o seu pensamento repousava e como<br \/>\n    que a id&eacute;ia que a perseguia desde tanto tempo ficava impedida de lhe<br \/>\n    entrar na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>De resto, aqueles vestu&aacute;rios extravagantes de &iacute;ndios, aqueles<br \/>\n    adornos de uma mitologia francamente selvagem, jacar&eacute;s, cobras, jabutis,<br \/>\n    vivos, bem vivos, traziam &agrave; pobreza de sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imagens risonhas de rios claros, florestas imensas, lugares de sossego e pureza<br \/>\n    que a reconfortavam.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma<br \/>\n    grande indig&ecirc;ncia mel&oacute;dica, vinham como reprimir a m&aacute;goa<br \/>\n    que ia nela, abafada, comprimida, contida, que pedia uma explos&atilde;o de<br \/>\n    gritos, mas para o que n&atilde;o lhe sobrava for&ccedil;a bastante e suficiente.<\/p>\n<p>O noivo partira um m&ecirc;s antes do carnaval e depois do grande festejo<br \/>\n    carioca a sua tortura foi maior. Sem h&aacute;bito de leitura e de conversa,<br \/>\n    sem atividade dom&eacute;stica qualquer, ela passava os dias deitada, sentada,<br \/>\n    a girar em torno de um mesmo pensamento: n&atilde;o casar. Era-lhe doce chorar.<\/p>\n<p>Nas horas da entrega da correspond&ecirc;ncia, tinha ainda uma alegre esperan&ccedil;a.<br \/>\n    Talvez? Mas a carta n&atilde;o vinha, e, voltava ao seu pensamento: n&atilde;o<br \/>\n    casar.<\/p>\n<p>Dona Adelaide, acabando de contar o desastre da triste Ism&ecirc;nia, comentou:<\/p>\n<p>&#8212; Merecia um castigo isso, n&atilde;o acham?<\/p>\n<p>Coleoni interveio com brandura e boa vontade:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para desesperar. H&aacute; muita gente<br \/>\n    que tem pregui&ccedil;a de escrever&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual! fez Dona Adelaide. H&aacute; tr&ecirc;s meses, Senhor Vicente!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o volta, disse Ricardo sentenciosamente.<\/p>\n<p>&#8212; E ela ainda o espera, Dona Adelaide? perguntou Olga.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, minha filha. Ningu&eacute;m entende essa mo&ccedil;a.<br \/>\n    Fala pouco, se fala diz meias palavras&#8230; &Eacute; mesmo uma natureza que<br \/>\n    parece sem sangue nem nervos. Sente-se a sua tristeza, mas n&atilde;o fala.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; orgulho? perguntou ainda Olga.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o&#8230; Se fosse orgulho, ela n&atilde;o se referia<br \/>\n    de vez em quando ao noivo. &Eacute; antes moleza, pregui&ccedil;a&#8230; Parece<br \/>\n    que ela tem medo de falar para que as coisas n&atilde;o venham a acontecer.<\/p>\n<p>&#8212; E os pais que dizem a isso? indagou Coleoni.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei bem. Mas pelo que pude perceber, o inc&ocirc;modo do general<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; grande e Dona Maricota julga que ela deve arranjar &quot;outro&quot;.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Era o melhor, disse Ricardo.<\/p>\n<p>&#8212; Eu creio que ela n&atilde;o tem mais pr&aacute;tica, disse sorrindo Dona<br \/>\n    Adelaide. Levou tanto tempo noiva&#8230;<\/p>\n<p>E a conversa j&aacute; tinha virado para outros assuntos, quando a Ism&ecirc;nia<br \/>\n    veio fazer a sua visita di&aacute;ria &agrave; irm&atilde; de Quaresma.<\/p>\n<p>Cumprimentou todos e todos sentiram que ela penava. O sofrimento dava-lhe<br \/>\n    mais atividade &agrave; fisionomia.<\/p>\n<p>As p&aacute;lpebras estavam roxas e at&eacute; os seus pequenos olhos pardos<br \/>\n    tinham mais brilho e expans&atilde;o. Indagou da sa&uacute;de de Quaresma<br \/>\n    e depois calaram-se um instante. Por fim Dona Adelaide lhe perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Recebeste carta, Ism&ecirc;nia?<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o, respondeu ela, com grande economia de voz.<\/p>\n<p>Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o bra&ccedil;o num dunkerque, veio<br \/>\n    atirar ao ch&atilde;o uma figurinha de biscuit, que se esfacelou em in&uacute;meros<br \/>\n    fragmentos, quase sem ru&iacute;do.<\/p>\n<p><strong>SEGUNDA PARTE<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">I &#8211; NO &quot;SOSSEGO&quot;<\/a><\/h4>\n<p> N&atilde;o era feio o lugar, mas n&atilde;o era belo. Tinha, entretanto,<br \/>\n    o aspecto tranq&uuml;ilo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.<\/p>\n<p>A casa erguia-se sobre um socalco, uma esp&eacute;cie de degrau, formando<br \/>\n    a subida para a maior altura de uma pequena colina que lhe corria nos fundos.<br \/>\n    Em frente, por entre os bambus da cerca, olhava uma plan&iacute;cie a morrer<br \/>\n    nas montanhas que se viam ao longe; um regato de &aacute;guas paradas e sujas<br \/>\n    cortava-a paralelamente &agrave; testada da casa; mais adiante, o trem passava<br \/>\n    vincando a plan&iacute;cie com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro,<br \/>\n    com casas, de um e de outro lado, saia da esquerda e ia ter &agrave; esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    atravessando o regato e serpeando pelo plano. A habita&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a &quot;noruega&quot;,<br \/>\n    e era tamb&eacute;m risonha e graciosa nos seus muros caiados. Edificada com<br \/>\n    a desoladora indig&ecirc;ncia arquitet&ocirc;nica das nossas casas de campo,<br \/>\n    possu&iacute;a, por&eacute;m, vastas salas, amplos quartos, todos com janelas,<br \/>\n    e uma varanda com uma colunata heterodoxa. Al&eacute;m desta principal, o<br \/>\n    s&iacute;tio do &quot;Sossego&quot;, como se chamava, tinha outras constru&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada,<br \/>\n    e uma estrebaria coberta de sap&ecirc;.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia tr&ecirc;s meses que viera habitar aquela casa, naquele<br \/>\n    ermo lugar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, ap&oacute;s ter passado<br \/>\n    seis meses no hosp&iacute;cio da Praia das Saudades. Sa&iacute;ra curado?<br \/>\n    Quem sabe l&aacute;? Parecia; n&atilde;o delirava e os seus gestos e prop&oacute;sitos<br \/>\n    eram de homem comum embora, sob tal apar&ecirc;ncia, se pudesse sempre crer<br \/>\n    que n&atilde;o se lhe despedira de todo, j&aacute; n&atilde;o se dir&aacute;<br \/>\n    a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos anos. Foram mais seis meses<br \/>\n    de repouso e &uacute;til seq&uuml;estra&ccedil;&atilde;o que mesmo de uso<br \/>\n    de uma terap&ecirc;utica psiqui&aacute;trica.<\/p>\n<p>Quaresma viveu l&aacute;, no manic&ocirc;mio, resignadamente, conversando<br \/>\n    com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que<br \/>\n    se queriam ricos, s&aacute;bios a maldizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem<br \/>\n    s&aacute;bios: mas deles todos, daquele que mais se admirou, foi de um velho<br \/>\n    e pl&aacute;cido negociante da Rua dos Pescadores que se supunha &Aacute;tila.<br \/>\n    Eu, dizia o pacato velho, sou &Aacute;tila, sabe? Sou &Aacute;tila. Tinha<br \/>\n    fracas not&iacute;cias da personagem, sabia o nome e nada mais, Sou &Aacute;tila,<br \/>\n    matei muita gente &#8212; e era s&oacute;.<\/p>\n<p>Saiu o major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as coisas<br \/>\n    tristes de ver, no mundo, a mais triste &eacute; a loucura; &eacute; a mais<br \/>\n    depressora e pungente.<\/p>\n<p>Aquela continua&ccedil;&atilde;o da nossa vida tal e qual, com um desarranjo<br \/>\n    impercept&iacute;vel, mas profundo e quase sempre insond&aacute;vel, que a<br \/>\n    inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma coisa mais forte que n&oacute;s,<br \/>\n    que nos guia, que nos impele e em cujas m&atilde;os somos simples joguetes.<br \/>\n    Em v&aacute;rios tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve<br \/>\n    haver raz&atilde;o nisso no sentimento que se apodera de n&oacute;s quando,<br \/>\n    ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que j&aacute; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ele quem fala, &eacute; algu&eacute;m, &eacute; algu&eacute;m que v&ecirc;<br \/>\n    por ele, interpreta as coisas por ele, est&aacute; atr&aacute;s dele, invis&iacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p>Quaresma saiu envolvido, penetrado da tristeza do manic&ocirc;mio. Voltou<br \/>\n    &agrave; sua casa, mas a vista das suas coisas familiares n&atilde;o lhe tirou<br \/>\n    a forte impress&atilde;o de que vinha impregnado. Embora nunca tivesse sido<br \/>\n    alegre, a sua fisionomia apresentava mais desgosto que antes, muito abatimento<br \/>\n    moral, e foi para levantar o &acirc;nimo que se recolheu &agrave;quela risonha<br \/>\n    casa de ro&ccedil;a, onde se dedicava a modestas culturas.<\/p>\n<p>N&atilde;o fora ele, por&eacute;m, quem se lembrara; fora a afilhada que<br \/>\n    lhe trouxe &agrave; id&eacute;ia aquele doce acabar para a sua vida. Vendo-o<br \/>\n    naquele estado de abatimento, triste e taciturno, sem coragem de sair, enclausurado<br \/>\n    em sua casa de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o, Olga dirigiu-se um dia<br \/>\n    ao padrinho meiga e filialmente:<\/p>\n<p>&#8212; O padrinho por que n&atilde;o compra um s&iacute;tio? Seria t&atilde;o<br \/>\n    bom fazer as suas culturas, ter o seu pomar, a sua horta&#8230; n&atilde;o acha?<\/p>\n<p>T&atilde;o taciturno que ele estivesse, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de modificar<br \/>\n    imediatamente a sua fisionomia &agrave; lembran&ccedil;a da mo&ccedil;a. Era<br \/>\n    um velho desejo seu, esse de tirar da terra o alimento, a alegria e a fortuna;<br \/>\n    e foi lembrando dos seus antigos projetos que respondeu &agrave; afilhada:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, minha filha. Que magn&iacute;fica id&eacute;ia, tens<br \/>\n    tu! H&aacute; por ai tantas terras f&eacute;rteis sem emprego&#8230; A nossa terra<br \/>\n    tem os terrenos mais f&eacute;rteis do mundo&#8230; O milho pode dar at&eacute;<br \/>\n    duas colheitas e quatrocentos por um&#8230;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a esteve quase arrependida da sua lembran&ccedil;a. Pareceu-lhe<br \/>\n    que ia atear no esp&iacute;rito do padrinho manias j&aacute; extintas.<\/p>\n<p>&#8212; Em toda a parte &#8212; n&atilde;o acha, meu padrinho? &#8212; h&aacute; terras<br \/>\n    f&eacute;rteis.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como no Brasil, apressou-se ele em dizer, h&aacute; poucos pa&iacute;ses<br \/>\n    que as tenham. Vou fazer o que tu dizes: plantar, criar, cultivar o milho,<br \/>\n    o feij&atilde;o, a batata inglesa&#8230; Tu ir&aacute;s ver as minhas culturas,<br \/>\n    a minha horta, o meu pomar &#8212; ent&atilde;o &eacute; que te convencer&aacute;s<br \/>\n    como s&atilde;o fecundas as nossas terras!<\/p>\n<p>A id&eacute;ia caiu-lhe na cabe&ccedil;a e germinou logo. O terreno estava<br \/>\n    amanhado e s&oacute; esperava uma boa semente. N&atilde;o lhe voltou a alegria<br \/>\n    que jamais teve, mas a taciturnidade foi-se com o abatimento moral, e veio-lhe<br \/>\n    a atividade mental cerebrina, por assim dizer, de outros tempos. Indagou dos<br \/>\n    pre&ccedil;os correntes das frutas, dos legumes, das batatas, dos aipins;<br \/>\n    calculou que cinq&uuml;enta laranjeiras, trinta abacateiros, oitenta pessegueiros,<br \/>\n    outras &aacute;rvores frut&iacute;feras, al&eacute;m dos abacaxis (que mina!),<br \/>\n    das ab&oacute;boras e outros produtos menos importantes, podiam dar o rendimento<br \/>\n    anual de mais de quatro contos, tirando as despesas. Seria ocioso trazer para<br \/>\n    aqui os detalhes dos seus c&aacute;lculos, baseados em tudo no que vem estabelecido<br \/>\n    nos boletins da Associa&ccedil;&atilde;o de Agricultura Nacional. Levou em<br \/>\n    linha de conta a produ&ccedil;&atilde;o m&eacute;dia de cada p&eacute; de<br \/>\n    fruteira, de hectare cultivado, e tamb&eacute;m os sal&aacute;rios, as perdas<br \/>\n    inevit&aacute;veis; e, quanto aos pre&ccedil;os, ele foi em pessoa ao mercado<br \/>\n    busc&aacute;-los.<\/p>\n<p>Planejou a sua vida agr&iacute;cola com a exatid&atilde;o e meticulosidade<br \/>\n    que punha em todos os seus projetos. Encarou-a por todas as faces, pesou as<br \/>\n    vantagens e &ocirc;nus; e muito contente ficou em v&ecirc;-la monetariamente<br \/>\n    atraente, n&atilde;o por ambi&ccedil;&atilde;o de fazer fortuna, mas por haver<br \/>\n    nisso mais uma demonstra&ccedil;&atilde;o das excel&ecirc;ncias do Brasil.<\/p>\n<p>E foi obedecendo a essa ordem de id&eacute;ias que comprou aquele s&iacute;tio,<br \/>\n    cujo nome &#8212; &quot;Sossego&quot; &#8212; cabia t&atilde;o bem &agrave; nova vida<br \/>\n    que adotara, ap&oacute;s a tempestade que o sacudira durante quase um ano.<br \/>\n    N&atilde;o ficava longe do Rio e ele o escolhera assim mesmo maltratado, abandonado,<br \/>\n    para melhor demonstrar a for&ccedil;a e o poder da tenacidade, do carinho,<br \/>\n    no trabalho agr&iacute;cola. Esperava grandes colheitas de frutas, de gr&atilde;os,<br \/>\n    de legumes; e do seu exemplo, nasceriam mil outros cultivadores, estando em<br \/>\n    breve a grande capital cercada de um verdadeiro celeiro, virente e abundante<br \/>\n    a dispensar os argentinos e europeus.<\/p>\n<p>Com que alegria ele foi para l&aacute;! Quase n&atilde;o teve saudades de<br \/>\n    sua velha casa de S&atilde;o Janu&aacute;rio, agora propriedade de outras<br \/>\n    m&atilde;os, talvez destinada ao mercen&aacute;rio mister de lar de aluguel&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o sentiu que aquela vasta sala, abrigo calmo dos seus livros durante<br \/>\n    tantos anos, fosse servir para sal&atilde;o de baile f&uacute;til, fosse testemunhar<br \/>\n    talvez rixas de casais desentendidos, &oacute;dios de fam&iacute;lia &#8212; ela<br \/>\n    t&atilde;o boa, t&atilde;o doce, t&atilde;o simp&aacute;tica, com o seu teto<br \/>\n    alto e as suas paredes lisas, em que se tinham incrustado os desejos de sua<br \/>\n    alma e toda ela penetrada da exala&ccedil;&atilde;o dos seus sonhos!&#8230;<\/p>\n<p>Ele foi contente. Como era t&atilde;o simples viver na nossa terra! Quatro<br \/>\n    contos de r&eacute;is por ano, tirados da terra, facilmente, docemente, alegremente!<br \/>\n    Oh! terra aben&ccedil;oada! Como &eacute; que toda a gente queria ser empregado<br \/>\n    p&uacute;blico, apodrecer numa banca, sofrer na sua independ&ecirc;ncia e<br \/>\n    no seu orgulho? Como &eacute; que se preferia viver em casas apertadas, sem<br \/>\n    ar, sem luz, respirar um ambiente epid&ecirc;mico, sustentar-se de maus alimentos,<br \/>\n    quando se podia t&atilde;o facilmente obter uma vida feliz, farta, livre,<br \/>\n    alegre e saud&aacute;vel?&quot;<\/p>\n<p>E era agora que ele chegava a essa conclus&atilde;o, depois de ter sofrido<br \/>\n    a mis&eacute;ria da cidade e o emasculamento da reparti&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica,<br \/>\n    durante tanto tempo! Chegara tarde, mas n&atilde;o a ponto de que n&atilde;o<br \/>\n    pudesse antes da morte travar conhecimento com a doce vida campestre e a feracidade<br \/>\n    das terras brasileiras. Ent&atilde;o pensou que foram v&atilde;os aqueles<br \/>\n    seus desejos de reformas capitais nas institui&ccedil;&otilde;es e costumes:<br \/>\n    o que era principal &agrave; grandeza da p&aacute;tria estremecida, era uma<br \/>\n    forte base agr&iacute;cola, um culto pelo seu solo ub&eacute;rrimo, para alicer&ccedil;ar<br \/>\n    fortemente todos os outros destinos que ela linha de preencher,<\/p>\n<p>Demais, com terras t&atilde;o f&eacute;rteis, climas variados, a permitir<br \/>\n    uma agricultura f&aacute;cil e rendosa, este caminho estava naturalmente indicado.<\/p>\n<p>E ele viu ent&atilde;o diante dos seus olhos as laranjeiras, em flor, olentes,<br \/>\n    muito brancas, a se enfileirar pelas encostas das colinas, como teorias de<br \/>\n    noivas; os abacateiros, de troncos rugosos, a sopesar com esfor&ccedil;o os<br \/>\n    grandes pomos verdes; as jabuticabas negras a estalar dos caules rijos; os<br \/>\n    abacaxis coroados que nem reis, recebendo a un&ccedil;&atilde;o quente do<br \/>\n    sol; as abobreiras a se arrastarem com flores carnudas cheias de p&oacute;len;<br \/>\n    as melancias de um verde t&atilde;o fixo que parecia pintado; os p&ecirc;ssegos<br \/>\n    veludosos, as jacas monstruosas, os jambos, as mangas capitosas; e dentre<br \/>\n    tudo aquilo surgia uma linda mulher, com o rega&ccedil;o cheio de frutos e<br \/>\n    um dos ombros nu, a lhe sorrir agradecida, com um imaterial sorriso demorado<br \/>\n    de deusa &#8212; era Pomona, a deusa dos verg&eacute;is e dos jardins!&#8230;<\/p>\n<p>As primeiras semanas que passou no &quot;Sossego&quot;, Quaresma as empregou<br \/>\n    numa explora&ccedil;&atilde;o em regra da sua nova propriedade. Havia nela<br \/>\n    terra bastante, velhas &aacute;rvores frut&iacute;feras, um capoeir&atilde;o<br \/>\n    grosso com camar&aacute;s, bacurubus, tinguacibas, tibibuias, monjolos, e<br \/>\n    outros esp&eacute;cimes. Anast&aacute;cio que o acompanhara, apelava para<br \/>\n    as suas recorda&ccedil;&otilde;es de antigo escravo de fazenda, e era quem<br \/>\n    ensinava os nomes dos indiv&iacute;duos da mata a Quaresma muito lido e sabido<br \/>\n    em coisas brasileiras.<\/p>\n<p>O major logo organizou um museu dos produtos naturais do &quot;Sossego&quot;.<br \/>\n    As esp&eacute;cies florestais e campesinas foram etiquetadas com os seus nomes<br \/>\n    vulgares, e quando era poss&iacute;vel com os cient&iacute;ficos. Os arbustos,<br \/>\n    em herb&aacute;rio, e as madeiras, em pequenos tocos, seccionados longitudinal<br \/>\n    e transversalmente.<\/p>\n<p>Os azares de leituras tinham-no levado a estudar as ci&ecirc;ncias naturais<br \/>\n    e o furor autodidata dera a Quaresma s&oacute;lidas no&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    Bot&acirc;nica, Zoologia, Mineralogia e Geologia.<\/p>\n<p>N&atilde;o foram s&oacute; os vegetais que mereceram as honras de um invent&aacute;rio;<br \/>\n    os animais tamb&eacute;m, mas como ele n&atilde;o tinha espa&ccedil;o suficiente<br \/>\n    e a conserva&ccedil;&atilde;o dos exemplares exigia mais cuidado, Quaresma<br \/>\n    limitou-se a fazer o seu museu no papel, por onde sabia que as terras eram<br \/>\n    povoadas de tatus, cutias, pre&aacute;s, cobras variadas, saracuras, san&atilde;s,<br \/>\n    avinhados, coleiros, ti&ecirc;s, etc. A parte mineral era pobre, argilas,<br \/>\n    areia e, aqui e ali, uns blocos de granito esfoliando-se.<\/p>\n<p>Acabado esse invent&aacute;rio, passou duas semanas a organizar a sua biblioteca<br \/>\n    agr&iacute;cola e uma rela&ccedil;&atilde;o de instrumentos meteorol&oacute;gicos<br \/>\n    para auxiliar os trabalhos da lavoura.<\/p>\n<p>Encomendou livros nacionais, franceses, portugueses; comprou term&ocirc;metros,<br \/>\n    bar&ocirc;metros, pluvi&ocirc;metros, higr&ocirc;metros, anem&ocirc;metros.<br \/>\n    Vieram estes e foram arrumados e colocados convenientemente.<\/p>\n<p>Anast&aacute;cio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que<br \/>\n    tanta coisa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu antigo patr&atilde;o<br \/>\n    dando para farmac&ecirc;utico? A d&uacute;vida do preto velho n&atilde;o durou<br \/>\n    muito, Estando certa vez Quaresma a ler o pluvi&ocirc;metro, Anast&aacute;cio,<br \/>\n    ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um passe de feiti&ccedil;aria.<br \/>\n    O patr&atilde;o notou o espanto do criado e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Sabes o que estou fazendo, Anast&aacute;cio?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Estou vendo se choveu muito.<\/p>\n<p>&#8212; Pra que isso, patr&atilde;o? A gente sabe logo &quot;de olho&quot; quando<br \/>\n    chove muito ou pouco&#8230; Isso de plantar &eacute; capinar, p&ocirc;r a semente<br \/>\n    na terra, deixar crescer e apanhar&#8230;<\/p>\n<p>Ele falava com a voz mole de africano, sem &quot;rr&quot; fortes, com lentid&atilde;o<br \/>\n    e convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o conselho de seu empregado, O capim e o mato cobriam as suas terras. As laranjeiras,<br \/>\n    os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos<br \/>\n    de uma medusina cabeleira de erva-de-passarinho; mas, como n&atilde;o fosse<br \/>\n    &eacute;poca pr&oacute;pria &agrave; poda e ao corte dos galhos, Quaresma<br \/>\n    limitou-se a capinar por entre os p&eacute;s das fruteiras. De manh&atilde;,<br \/>\n    logo ao amanhecer, ele mais o Anast&aacute;cio, l&aacute; iam, de enxada ao<br \/>\n    ombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o ver&atilde;o estava<br \/>\n    no auge, mas Quaresma era inflex&iacute;vel e corajoso. L&aacute; ia.<\/p>\n<p>Era de v&ecirc;-lo, coberto com um chap&eacute;u de palha de coco, atracado<br \/>\n    a um grande enxad&atilde;o de cabo nodoso, ele, muito pequeno, m&iacute;ope,<br \/>\n    a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso p&eacute; de guaximba.<br \/>\n    A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento<br \/>\n    agr&iacute;cola. Anast&aacute;cio, junto ao patr&atilde;o, olhava-o com piedade<br \/>\n    e espanto. Por gosto andar naquele sol a capinar sem saber?&#8230; H&aacute; cada<br \/>\n    coisa neste mundo!<\/p>\n<p>E os dois iam continuando. O velho preto, ligeiro, r&aacute;pido, raspando<br \/>\n    o mato rasteiro, com a m&atilde;o habituada, a cujo impulso a enxada resvalava<br \/>\n    sem obst&aacute;culo pelo solo, destruindo a erva m&aacute;; Quaresma, furioso,<br \/>\n    a arrancar torr&otilde;es de terra daqui, dali, demorando-se muito em cada<br \/>\n    arbusto e, &agrave;s vezes, quando o golpe falhava e a l&acirc;mina do instrumento<br \/>\n    ro&ccedil;ava a terra, a for&ccedil;a era tanta que se erguia uma poeira infernal,<br \/>\n    fazendo supor que por aquelas paragens passara um pelot&atilde;o de cavalaria.<br \/>\n    Anast&aacute;cio, ent&atilde;o, intervinha humildemente, mas em tom professoral:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; assim, &quot;seu maj&oacute;&quot;. N&atilde;o se<br \/>\n    mete a enxada pela terra adentro. &Eacute; de leve, assim.<\/p>\n<p>E ensinava ao Cincinato inexperiente o jeito de servir-se do velho instrumento<br \/>\n    de trabalho.<\/p>\n<p>Quaresma agarrava-o, punha-se em posi&ccedil;&atilde;o e procurava com toda<br \/>\n    a boa vontade us&aacute;-lo da maneira ensinada. Era em v&atilde;o. O flange<br \/>\n    batia na erva, a enxada saltava e ouvia-se um p&aacute;ssaro ao alto soltar<br \/>\n    uma piada ir&ocirc;nica: bem-te-vi! O major enfurecia-se, tentava outra vez,<br \/>\n    fatigava-se, suava, enchia-se de raiva e batia com toda a for&ccedil;a; e<br \/>\n    houve v&aacute;rias vezes que a enxada, batendo em falso, escapando ao ch&atilde;o,<br \/>\n    f&ecirc;-lo perder o equil&iacute;brio, cair, e beijar a terra, m&atilde;e<br \/>\n    dos frutos e dos homens. O pince-nez saltava, partia-se de encontro a um seixo.<\/p>\n<p>O major ficava todo enfurecido e voltava com mais rigor e energia &agrave;<br \/>\n    tarefa que se impusera; mas, tanto &eacute; em nossos m&uacute;sculos firme<br \/>\n    a mem&oacute;ria ancestral desse sagrado trabalho de tirar da terra o sustento<br \/>\n    de nossa vida, que n&atilde;o foi imposs&iacute;vel a Quaresma acordar nos<br \/>\n    seus o jeito, a maneira de empregar a enxada vetusta.<\/p>\n<p>Ao fim de um m&ecirc;s, ele capinava razoavelmente, n&atilde;o seguido, de<br \/>\n    sol a sol, mas com grandes repousos de hora em hora que a sua idade e falta<br \/>\n    de h&aacute;bito requeriam.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, o fiel Anast&aacute;cio seguia-o no descanso e ambos, lado<br \/>\n    a lado, &agrave; sombra de uma fruteira mais copada, ficavam a ver o ar pesado<br \/>\n    daqueles dias de ver&atilde;o que enrodilhava as folhas das &aacute;rvores<br \/>\n    e punha nas coisas um forte acento de resigna&ccedil;&atilde;o m&oacute;rbida.<br \/>\n    Ent&atilde;o, a&iacute; por depois do meio-dia, quando o calor parecia narcotizar<br \/>\n    tudo e mergulhar em sil&ecirc;ncio a vida inteira, &eacute; que o velho major<br \/>\n    percebia bem a alma dos tr&oacute;picos, feita de desencontros como aquele<br \/>\n    que se via agora, de um sol alto, claro, ol&iacute;mpico, a brilhar sobre<br \/>\n    um torpor de morte, que ele mesmo provocava.<\/p>\n<p>Almo&ccedil;avam mesmo no eito, comidas do dia anterior, aquecidas rapidamente<br \/>\n    sobre um improvisado fog&atilde;o de calhaus, e o trabalho ia assim at&eacute;<br \/>\n    &agrave; hora do jantar. Havia em Quaresma um entusiasmo sincero, entusiasmo<br \/>\n    de ide&oacute;logo que quer p&ocirc;r em pr&aacute;tica a sua id&eacute;ia.<br \/>\n    N&atilde;o se agastou com as primeiras ingratid&otilde;es da terra, aquele<br \/>\n    seu m&oacute;rbido amor pelas ervas daninhas e o incompreens&iacute;vel &oacute;dio<br \/>\n    pela enxada fecundante. Capinava e capinava sempre at&eacute; vir jantar.<\/p>\n<p>Esta refei&ccedil;&atilde;o ele fazia mais demorada. Conversava um pouco<br \/>\n    com a irm&atilde;, contava-lhe a tarefa do dia, consistindo sempre em avaliar<br \/>\n    a &aacute;rea j&aacute; limpa.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes, Adelaide, amanh&atilde; estar&atilde;o as laranjeiras limpas, n&atilde;o<br \/>\n    ficar&aacute; nem mais uma touceira de mato.<\/p>\n<p>A irm&atilde;, mais velha que ele, n&atilde;o partilhava aquele seu entusiasmo<br \/>\n    pelas coisas da ro&ccedil;a. Considerava-o silenciosa, e, se viera viver com<br \/>\n    ele, n&atilde;o foi sen&atilde;o pelo h&aacute;bito de acompanh&aacute;-lo.<br \/>\n    Decerto, ela o estimava, mas n&atilde;o o compreendia. N&atilde;o chegava<br \/>\n    a entender nem os seus gestos nem a sua agita&ccedil;&atilde;o interna. Por<br \/>\n    que n&atilde;o seguira ele o caminho dos outros? N&atilde;o se formara e se<br \/>\n    fizera deputado? Era t&atilde;o bonito&#8230; Andar com livros, anos e anos, para<br \/>\n    n&atilde;o ser nada, que doideira! Seguira-o ao &quot;Sossego&quot; e, para<br \/>\n    entreter-se, criava galinhas, com grande alegria do irm&atilde;o cultivador.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; direito, dizia ela, quando o irm&atilde;o lhe contava as coisas<br \/>\n    do seu trabalho. N&atilde;o v&aacute; ficares doente&#8230; Neste sol todo o dia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual, doente, Adelaide! N&atilde;o est&aacute;s vendo como essa gente<br \/>\n    tem tanta sa&uacute;de por a&iacute;&#8230; Se adoecem, &eacute; porque n&atilde;o<br \/>\n    trabalham.<\/p>\n<p>Acabado o jantar, Quaresma chegava &agrave; janela que dava para o galinheiro<br \/>\n    e atirava migalhas de p&atilde;o &agrave;s aves.<\/p>\n<p>Ele gostava desse espet&aacute;culo, daquela luta encarni&ccedil;ada entre<br \/>\n    patos, gansos, galinhas, pequenos e grandes. Dava-lhe uma imagem reduzida<br \/>\n    da vida e dos pr&ecirc;mios que ela comporta. Depois, fazia indaga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a vida do galinheiro:<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; nasceram os patos, Adelaide?<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o. Faltam oito dias ainda.<\/p>\n<p>E logo a irm&atilde; acrescentava:<\/p>\n<p>&#8212; Tua afilhada deve casar-se s&aacute;bado, tu n&atilde;o vais?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. N&atilde;o posso&#8230; Vou incomodar-me, luxo&#8230; Mando um leit&atilde;o<br \/>\n    e um peru.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, tu! Que presente!<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que tem? &Eacute; da tradi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Justamente estavam nesse dia assim a conversar as dois irm&atilde;os na sala<br \/>\n    de jantar da velha casa roceira, quando Anast&aacute;cio veio avisar-lhes<br \/>\n    que se achava um cavalheiro na porteira.<\/p>\n<p>Desde que ali se instalara, nenhuma visita batera &agrave; porta de Quaresma,<br \/>\n    a n&atilde;o ser a gente pobre do lugar, a pedir isso ou aquilo, esmolando<br \/>\n    disfar&ccedil;adamente. Ele mesmo n&atilde;o travara conhecimento com ningu&eacute;m,<br \/>\n    de modo que foi com surpresa que recebeu o aviso do velho preto.<\/p>\n<p>Apressou-se em ir receber o visitante na sala principal. Ele j&aacute; subia<br \/>\n    a pequena escada da frente e penetrava pela varanda adentro.<\/p>\n<p>&#8212; Boas tardes, major.<\/p>\n<p>&#8212; Boas tardes. Fa&ccedil;a o favor de entrar.<\/p>\n<p>O desconhecido entrou e sentou-se. Era um tipo comum, mas o que havia nele<br \/>\n    de estranho, era a gordura. N&atilde;o era desmedida ou grotesca, mas tinha<br \/>\n    um aspecto desonesto. Parecia que a fizera de repente e comia, a mais n&atilde;o<br \/>\n    poder, com medo de a perder de um dia para outro. Era assim como a de um lagarto<br \/>\n    que entesoura enx&uacute;ndia para o inverno ingrato. Atrav&eacute;s da gordura<br \/>\n    de suas bochechas, via-se perfeitamente a sua magreza natural, normal, e se<br \/>\n    devia ser gordo n&atilde;o era naquela idade, com pouco mais de trinta anos,<br \/>\n    sem dar tempo que todo ele engordasse; porque, se as suas faces eram gordas,<br \/>\n    as suas m&atilde;os continuavam magras com longos dedos fusiformes e &aacute;geis.<br \/>\n    O visitante falou:<\/p>\n<p>&#8212; Eu sou o Tenente Antonino Dutra, escriv&atilde;o da coletoria&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Alguma formalidade? indagou medroso Quaresma.<\/p>\n<p>&#8212; Nenhuma, major. J&aacute; sabemos quem o senhor &eacute;; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    novidade nem nenhuma exig&ecirc;ncia legal.<\/p>\n<p>O escriv&atilde;o tossiu, tirou um cigarro, ofereceu outro a Quaresma e continuou.<\/p>\n<p>&#8212; Sabendo que o major vem estabelecer-se aqui, tomei a iniciativa de vir<br \/>\n    incomod&aacute;-lo&#8230; N&atilde;o &eacute; coisa de import&acirc;ncia&#8230; Creio<br \/>\n    que o major&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Por Deus, tenente!<\/p>\n<p>&#8212; Venho pedir-lhe um pequeno aux&iacute;lio, um &oacute;bulo, para a festa<br \/>\n    da Concei&ccedil;&atilde;o, a nossa padroeira, de cuja irmandade sou tesoureiro.<\/p>\n<p>&#8212; Perfeitamente. &Eacute; muito justo. Apesar de n&atilde;o ser religioso,<br \/>\n    estou&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Uma coisa nada tem com a outra. &Eacute; uma tradi&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    lugar que devemos manter.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; justo.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor sabe, continuou o escriv&atilde;o, a gente daqui &eacute; muito<br \/>\n    pobre e a irmandade tamb&eacute;m, de forma que somos obrigados a apelar para<br \/>\n    a boa vontade dos moradores mais remediados. Desde j&aacute;, portanto, major&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Espere um pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! major, n&atilde;o se incomode, N&atilde;o &eacute; pra j&aacute;.<\/p>\n<p>Enxugou o suor, guardou o len&ccedil;o, olhou um pouco l&aacute; fora e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Que calor! Um ver&atilde;o como este nunca vi aqui. Tem-se dado bem, major?<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem.<\/p>\n<p>&#8212; Pretende dedicar-se &agrave; agricultura?<\/p>\n<p>&#8212; Pretendo, e foi mesmo por isso que vim para a ro&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Isto hoje n&atilde;o presta, mas noutro tempo!&#8230; Este s&iacute;tio j&aacute;<br \/>\n    foi uma lindeza, major! Quanta fruta, quanta farinha! As terras est&atilde;o<br \/>\n    cansadas e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual cansadas, Seu Antonino! N&atilde;o h&aacute; terras cansadas&#8230; A<br \/>\n    Europa &eacute; cultivada h&aacute; milhares de anos, entretanto&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas l&aacute; se trabalha.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o se h&aacute; de trabalhar aqui tamb&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; isso &eacute; verdade; mas h&aacute; tantas contrariedades na<br \/>\n    nossa terra que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual, meu caro tenente! N&atilde;o h&aacute; nada que n&atilde;o se ven&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor ver&aacute; com o tempo, major. Na nossa terra n&atilde;o se<br \/>\n    vive sen&atilde;o de pol&iacute;tica, fora disso, babau! Agora mesmo anda<br \/>\n    tudo brigado por causa da quest&atilde;o da elei&ccedil;&atilde;o de deputados&#8230;<\/p>\n<p>Ao dizer isto, o escriv&atilde;o lan&ccedil;ou por baixo das suas p&aacute;lpebras<br \/>\n    gordas um olhar pesquisador sobre a ing&ecirc;nua fisionomia de Quaresma.<\/p>\n<p>&#8212; Que quest&atilde;o &eacute;? indagou Quaresma.<\/p>\n<p>O tenente parecia que esperava a pergunta e logo fez com alegria: <\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o sabe?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu lhe explico: o candidato do governo &eacute; o doutor Castrioto, mo&ccedil;o<br \/>\n    honesto, bom orador; mas entenderam aqui certos presidentes de C&acirc;maras<br \/>\n    Municipais do Distrito que se h&atilde;o de sobrepor ao governo, s&oacute;<br \/>\n    porque o Senador Guariba rompeu com o governador; e &#8212; z&aacute;s &#8212; apresentaram<br \/>\n    um tal Neves que n&atilde;o tem servi&ccedil;o algum ao partido e nenhuma<br \/>\n    influ&ecirc;ncia&#8230; Que pensa o senhor?<\/p>\n<p>&#8212; Eu&#8230; Nada!<\/p>\n<p>O serventu&aacute;rio do fisco ficou espantado. Havia no mundo um homem que,<br \/>\n    sabendo e morando no munic&iacute;pio de Curuzu, n&atilde;o se incomodasse<br \/>\n    com a briga do Senador Guariba com o governador do Estado! N&atilde;o era<br \/>\n    poss&iacute;vel! Pensou e sorriu levemente. Com certeza, disse ele consigo,<br \/>\n    este malandro quer ficar bem com os dois, para depois arranjar-se sem dificuldade.<br \/>\n    Estava tirando sardinha com m&atilde;o de gato&#8230; Aquilo devia ser um ambicioso<br \/>\n    matreiro; era preciso cortar as asas daquele &quot;estrangeiro&quot;, que<br \/>\n    vinha n&atilde;o se sabe donde!<\/p>\n<p>&#8212; O major &eacute; um fil&oacute;sofo, disse ele com mal&iacute;cia.<\/p>\n<p>&#8212; Quem me dera? fez com ingenuidade Quaresma.<\/p>\n<p>Antonino ainda fez rodar um pouco a conversa sobre a grave quest&atilde;o,<br \/>\n    mas, desanimado de penetrar nas ten&ccedil;&otilde;es ocultas do major, apagou<br \/>\n    a fisionomia e disse em ar de despedida:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o o major n&atilde;o se recusa a concorrer para a nossa festa,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;? <\/p>\n<p>&#8212; Decerto.<\/p>\n<p>Os dois se despediram. Debru&ccedil;ado na varanda, Quaresma ficou a v&ecirc;-lo<br \/>\n    montar no seu pequeno castanho, luzidio de suor, gordo e vivo. O escriv&atilde;o<br \/>\n    afastou-se, desapareceu na estrada, e o major ficou a pensar no interesse<br \/>\n    estranho que essa gente punha nas lutas pol&iacute;ticas, nessas tricas eleitorais,<br \/>\n    como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante. N&atilde;o atinava<br \/>\n    porque uma rezinga entre dois figur&otilde;es importantes vinha p&ocirc;r<br \/>\n    desarmonia entre tanta gente, cuja vida estava t&atilde;o fora da esfera daqueles.<br \/>\n    N&atilde;o estava ali a terra boa para cultivar e criar? N&atilde;o exigia<br \/>\n    ela uma &aacute;rdua luta di&aacute;ria? Por que n&atilde;o se empregava o<br \/>\n    esfor&ccedil;o que se punha naqueles barulhos de votos, de atas, no trabalho<br \/>\n    de fecund&aacute;-la, de tirar dela seres, vidas &#8212; trabalho igual ao de Deus<br \/>\n    e dos artistas? Era tolo estar a pensar em governadores e guaribas, quando<br \/>\n    a nossa vida pede tudo &agrave; terra e ela quer carinho, luta, trabalho e<br \/>\n    amor&#8230;<\/p>\n<p>O sufr&aacute;gio universal pareceu-lhe um flagelo.<\/p>\n<p>O trem apitou e ele demorou-se a v&ecirc;-lo chegar. &Eacute; uma emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial de quem mora longe, essa de ver chegar os meios de transporte que<br \/>\n    nos p&otilde;em em comunica&ccedil;&atilde;o com o resto do mundo. H&aacute;<br \/>\n    uma mescla de medo e de alegria, Ao mesmo tempo que se pensa em boas novas,<br \/>\n    pensamse tamb&eacute;m m&aacute;s. A alternativa angustia&#8230;<\/p>\n<p>O trem ou o vapor como que vem do indeterminado, do Mist&eacute;rio, e traz,<br \/>\n    al&eacute;m de not&iacute;cias gerais, boas ou m&aacute;s, tamb&eacute;m o<br \/>\n    gesto, um sorriso, a voz das pessoas que amamos e est&atilde;o longe.<\/p>\n<p>Quaresma esperou o trem. Ele chegou arfando e se estirando como um r&eacute;ptil<br \/>\n    pela esta&ccedil;&atilde;o afora &agrave; luz forte do sol poente. N&atilde;o<br \/>\n    se demorou muito. Apitou de novo e saiu a levar not&iacute;cias, amigos, riquezas,<br \/>\n    tristezas por outras esta&ccedil;&otilde;es al&eacute;m. O major pensou ainda<br \/>\n    um pouco como aquilo era bruto e feio, e como as inven&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    nosso tempo se afastam tanto da linha imagin&aacute;ria da beleza que os nossos<br \/>\n    educadores de dois mil anos atr&aacute;s nos legaram. Olhou a estrada que<br \/>\n    levava &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. Vinha um sujeito&#8230; Dirigia-se para<br \/>\n    a sua casa&#8230; Quem podia ser? Limpou o pince-nez e assestou-o para o homem<br \/>\n    que caminhava com pressa&#8230; Quem era? Aquele chap&eacute;u dobrado, como um<br \/>\n    morri&atilde;o&#8230; Aquele fraque comprido&#8230; Passo mi&uacute;do&#8230; Um viol&atilde;o!<br \/>\n    Era ele!<\/p>\n<p>&#8212; Adelaide, est&aacute; a&iacute; o Ricardo. <\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">II &#8211; ESPINHOS E FLORES<\/a><\/h4>\n<p>Os sub&uacute;rbios do Rio de Janeiro s&atilde;o a mais curiosa coisa em<br \/>\n    mat&eacute;ria de edifica&ccedil;&atilde;o da cidade. A topografia do local,<br \/>\n    caprichosamente montuosa, influiu decerto para tal aspecto, mais influ&iacute;ram,<br \/>\n    por&eacute;m, os azares das constru&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado.<br \/>\n    As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas, as<br \/>\n    ruas se fizeram. H&aacute; algumas delas que come&ccedil;am largas como boulevards<br \/>\n    e acabam estreitas que nem vielas; d&atilde;o voltas, circuitos in&uacute;teis<br \/>\n    e parecem fugir ao alinhamento reto com um &oacute;dio tenaz e sagrado. <\/p>\n<p>&Agrave;s vezes se sucedem na mesma dire&ccedil;&atilde;o com uma freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    irritante, outras se afastam, e deixam de permeio um longo intervalo coeso<br \/>\n    e fechado de casas. Num trecho, h&aacute; casas amontoadas umas sobre outras<br \/>\n    numa ang&uacute;stia de espa&ccedil;o desoladora, logo adiante um vasto campo<br \/>\n    abre ao nosso olhar uma ampla perspectiva.<\/p>\n<p>Marcham assim ao acaso as edifica&ccedil;&otilde;es e conseguintemente o<br \/>\n    arruamento. H&aacute; casas de todos os gostos e constru&iacute;das de todas<br \/>\n    as formas.<\/p>\n<p>Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela, parede<br \/>\n    de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara uma casa burguesa,<br \/>\n    dessas de compoteiras na cimalha rendilhada, a se erguer sobre um por&atilde;o<br \/>\n    alto com mezaninos gradeados. Passada essa surpresa, olha-se acol&aacute;<br \/>\n    e d&aacute;-se com uma choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo<br \/>\n    palha, em torno da qual formiga uma popula&ccedil;&atilde;o; adiante, &eacute;<br \/>\n    uma velha casa de ro&ccedil;a, com varanda e colunas de estilo pouco classific&aacute;vel,<br \/>\n    que parece vexada e querer ocultar-se diante daquela onda de edif&iacute;cios<br \/>\n    disparatados e novos.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; nos nossos sub&uacute;rbios coisa alguma que nos lembre<br \/>\n    os famosos das grandes cidades europ&eacute;ias, com as suas vilas de ar repousado<br \/>\n    e satisfeito, as suas estradas e ruas macadamizadas e cuidadas, nem mesmo<br \/>\n    se encontram aqueles jardins, cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque<br \/>\n    os nossos, se os h&aacute;, s&atilde;o em geral pobres, feios e desleixados.<\/p>\n<p>Os cuidados municipais tamb&eacute;m s&atilde;o vari&aacute;veis e caprichosos.<br \/>\n    &Agrave;s vezes, nas ruas, h&aacute; passeios, em certas partes e outras n&atilde;o;<br \/>\n    algumas vias de comunica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o cal&ccedil;adas e outras<br \/>\n    da mesma import&acirc;ncia est&atilde;o ainda em estado de natureza. Encontra-se<br \/>\n    aqui um pontilh&atilde;o bem cuidado sobre o rio seco e passos al&eacute;m<br \/>\n    temos que atravessar um ribeir&atilde;o sobre uma pinguela de trilhos mal<br \/>\n    juntos.<\/p>\n<p>H&aacute; pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando a custo<br \/>\n    que a lama ou o p&oacute; lhes empanem o brilho do vestido; h&aacute; oper&aacute;rios<br \/>\n    de tamancos; h&aacute; peralvilhos &agrave; &uacute;ltima moda; h&aacute;<br \/>\n    mulheres de chita; e assim pela tarde, quando essa gente volta do trabalho<br \/>\n    ou do passeio, a mescla se faz numa mesma rua, num quarteir&atilde;o, e quase<br \/>\n    sempre o mais bem posto n&atilde;o &eacute; que entra na melhor casa.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disto, os sub&uacute;rbios t&ecirc;m mais aspectos interessantes,<br \/>\n    sem falar no namoro epid&ecirc;mico e no espiritismo end&ecirc;mico; as casas<br \/>\n    de c&ocirc;modos (quem as suporia l&aacute;!) constituem um deles bem in&eacute;dito.<br \/>\n    Casas que mal dariam para uma pequena fam&iacute;lia, s&atilde;o divididas,<br \/>\n    subdivididas, e os min&uacute;sculos aposentos assim obtidos, alugados &agrave;<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o miser&aacute;vel da cidade. A&iacute;, nesses caixotins<br \/>\n    humanos, &eacute; que se encontra a fauna menos observada da nossa vida, sobre<br \/>\n    a qual a mis&eacute;ria paira com um rigor londrino.<\/p>\n<p>N&atilde;o se podem imaginar profiss&otilde;es mais tristes e mais inopinadas<br \/>\n    da gente que habita tais caixinhas. Al&eacute;m dos serventes de reparti&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    cont&iacute;nuos de escrit&oacute;rios, podemos deparar velhas fabricantes<br \/>\n    de rendas de bilros, compradores de garrafas vazias, castradores de gatos,<br \/>\n    c&atilde;es e galos, mandingueiros, catadores de ervas medicinais, enfim,<br \/>\n    uma variedade de profiss&otilde;es miser&aacute;veis que as nossas pequena<br \/>\n    e grande burguesias n&atilde;o podem adivinhar. &Agrave;s vezes num cub&iacute;culo<br \/>\n    desses se amontoa uma fam&iacute;lia, e h&aacute; ocasi&otilde;es em que os<br \/>\n    seus chefes v&atilde;o a p&eacute; para a cidade por falta do n&iacute;quel<br \/>\n    do trem.<\/p>\n<p>Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros morava em uma pobre casa de c&ocirc;modos<br \/>\n    de um dos sub&uacute;rbios. N&atilde;o era das s&oacute;rdidas, mas era uma<br \/>\n    casa de c&ocirc;modos dos sub&uacute;rbios.<\/p>\n<p>Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre<br \/>\n    uma colina, olhando a janela do seu quarto para uma ampla extens&atilde;o<br \/>\n    edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim do alto, os sub&uacute;rbios<br \/>\n    t&ecirc;m a sua gra&ccedil;a. As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco,<br \/>\n    de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio,<br \/>\n    aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa<br \/>\n    e a falta de percep&ccedil;&atilde;o do desenho das ruas p&otilde;e no panorama<br \/>\n    um sabor de confus&atilde;o democr&aacute;tica, de solidariedade perfeita<br \/>\n    entre as gentes que as habitam; e o trem min&uacute;sculo, r&aacute;pido,<br \/>\n    atravessa tudo aquilo, dobrando &agrave; esquerda, inclinando-se para a direita,<br \/>\n    muito flex&iacute;vel nas suas grandes v&eacute;rtebras de carros, como uma<br \/>\n    cobra entre pedrou&ccedil;os.<\/p>\n<p>Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas satisfa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os seus triunfos e tamb&eacute;m os seus sofrimentos e m&aacute;goas.<\/p>\n<p>Ainda agora estava ele l&aacute;, debru&ccedil;ado no peitoril, com a m&atilde;o<br \/>\n    em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande parte daquela bela, grande<br \/>\n    e original cidade, capital de um grande pa&iacute;s, de que ele a modos que<br \/>\n    era e se sentia ser, a alma, consubstanciando os seus t&ecirc;nues sonhos<br \/>\n    e desejos em versos discut&iacute;veis, mas que a plang&ecirc;ncia do viol&atilde;o,<br \/>\n    se n&atilde;o lhes dava sentido, dava um qu&ecirc; de balbucio, de queixume<br \/>\n    dorido da p&aacute;tria crian&ccedil;a ainda, ainda na sua forma&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Em que pensava ele? N&atilde;o pensava s&oacute;, sofria tamb&eacute;m. Aquele<br \/>\n    tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha dizer alguma coisa,<br \/>\n    e tinha adeptos. Alguns j&aacute; o citavam como rival dele, Ricardo; outros<br \/>\n    j&aacute; afirmavam que o tal rapaz deixava longe o Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Outros, e alguns mais &#8212; ingratos! &#8212; j&aacute; esqueciam os trabalhos,<br \/>\n    o tenaz trabalhar de Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros em prol do levantamento<br \/>\n    da modinha e do viol&atilde;o, e nem nomeavam o abnegado obreiro.<\/p>\n<p>Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua inf&acirc;ncia, daquela sua<br \/>\n    aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu curral e o mugido dos<br \/>\n    vitelos&#8230; E o queijo? Aquele queijo t&atilde;o substancial, t&atilde;o forte,<br \/>\n    feio como aquela terra, mas feraz como ela tanto que bastava comer dele uma<br \/>\n    pequena fatia para se sentir almo&ccedil;ado&#8230; E as festas? Saudades&#8230; E<br \/>\n    o viol&atilde;o, como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, n&atilde;o<br \/>\n    lhe predissera o futuro: &quot;Ir&aacute;s longe, Ricardo. A viola quer teu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o&quot;?<\/p>\n<p>Por que ent&atilde;o aquele encarni&ccedil;amento, aquele &oacute;dio contra<br \/>\n    ele &#8212; ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a alma, o suco, a<br \/>\n    subst&acirc;ncia do pa&iacute;s!<\/p>\n<p>E as l&aacute;grimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou um pouco<br \/>\n    as montanhas, farejou o mar l&aacute; longe&#8230; Era bela a terra, era linda,<br \/>\n    era majestosa, mas parecia ingrata e &aacute;spera no seu granito onipresente<br \/>\n    que se fazia negro e mau quando n&atilde;o era amaciado pela verdura das &aacute;rvores.<\/p>\n<p>E ele estava ali s&oacute;, s&oacute; com a sua gl&oacute;ria e o seu tormento,<br \/>\n    sem amor, sem confidente, sem amigo, s&oacute; como um deus ou como um ap&oacute;stolo<br \/>\n    em terra ingrata que n&atilde;o lhe quer ouvir a boa nova.<\/p>\n<p>Sofria em n&atilde;o ter um peito amado, amigo em que derramasse aquelas<br \/>\n    l&aacute;grimas que iam cair no solo indiferente. Por a&iacute;, lembrou-se<br \/>\n    dos famosos versos: <br \/>\n    &quot;Se choro&#8230; bebe o pranto a areia ardente&quot;&#8230; <\/p>\n<p>Com a lembran&ccedil;a, ele baixou um pouco o olhar &agrave; terra e viu<br \/>\n    que, no tanque da casa, um tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava.<br \/>\n    Ela abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a<br \/>\n    ligeira, batia-a de encontro &agrave; pedra, e recome&ccedil;ava. Teve pena<br \/>\n    daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condi&ccedil;&atilde;o e na<br \/>\n    sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois, p&ocirc;s-se a pensar no<br \/>\n    mundo, nas desgra&ccedil;as, ficando um instante enleado no enigma do nosso<br \/>\n    miser&aacute;vel destino humano.<\/p>\n<p>A rapariga n&atilde;o o viu, distra&iacute;da com o trabalho; e se p&ocirc;s<br \/>\n    a cantar: <br \/>\n    Da do&ccedil;ura dos teus olhos<\/p>\n<p>A brisa inveja j&aacute; tem <br \/>\n    Era dele. Ricardo sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre<br \/>\n    mulher, abra&ccedil;&aacute;-la&#8230;<\/p>\n<p>E como eram as coisas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era a sua humilde<br \/>\n    e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe ent&atilde;o &agrave;<br \/>\n    mem&oacute;ria aqueles versos do Padre Caldas, esse seu antecessor feliz que<br \/>\n    teve um audit&oacute;rio de fidalgas: <br \/>\n    Lereno alegrou os outros<\/p>\n<p>E nunca teve alegria&#8230; <br \/>\n    Enfim era uma miss&atilde;o!&#8230; A rapariga acabou de cantar e Ricardo n&atilde;o<br \/>\n    se p&ocirc;de conter:<\/p>\n<p>&#8212; Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se n&atilde;o fosse, por que lhe pedia bis?\n  <\/p>\n<p>A rapariga estendeu a cabe&ccedil;a, reconheceu quem falava e disse:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabia que o senhor estava a&iacute;, sen&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    cantava na vista do senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Qual o qu&ecirc;! Posso garantir-lhe que est&aacute; bom, muito bom. Cante.<\/p>\n<p>&#8212; Deus me livre! Para o senhor me &quot;acriticar&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Embora insistisse muito, a rapariga n&atilde;o quis continuar. As m&aacute;goas<br \/>\n    pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veio ao interior do quarto<br \/>\n    e p&ocirc;s-se &agrave; mesa na ten&ccedil;&atilde;o de escrever.<\/p>\n<p>O seu quarto tinha o mobili&aacute;rio mais reduzido poss&iacute;vel. Havia<br \/>\n    uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ela objetos de escrever;<br \/>\n    uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado a uma parede, o viol&atilde;o<br \/>\n    na sua armadura de camur&ccedil;a. Havia tamb&eacute;m uma m&aacute;quina<br \/>\n    para fazer caf&eacute;.<\/p>\n<p>Sentou-se e quis come&ccedil;ar uma modinha sobre a Gl&oacute;ria, essa coisa<br \/>\n    fugace, que se tem e se pensa que n&atilde;o se tem, alguma coisa impalp&aacute;vel,<br \/>\n    incolh&iacute;vel como um sopro, que nos alanceia, queima, inquieta e abrasa<br \/>\n    como o Amor.<\/p>\n<p>Tentou come&ccedil;ar, disp&ocirc;s o papel, mas n&atilde;o p&ocirc;de. A<br \/>\n    emo&ccedil;&atilde;o tinha sido forte, toda a sua natureza tinha sido lavrada,<br \/>\n    baralhada, com a id&eacute;ia daquele furto que se queria fazer ao seu m&eacute;rito.<br \/>\n    N&atilde;o conseguiu assentar o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir<br \/>\n    a m&uacute;sica zumbir no ouvido. <\/p>\n<p>A manh&atilde; ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro desfolhado;<br \/>\n    come&ccedil;ava a esquentar e o c&eacute;u estava de um azul ligeiro, t&ecirc;nue,<br \/>\n    fino. Quis sair, procurar um amigo, espairecer com ele, mas quem? Ainda se<br \/>\n    o Quaresma&#8230; Ah! O Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que ultimamente esse seu amigo achava-se pouco interessada<br \/>\n    pela modinha; mas assim mesmo compreendia o seu prop&oacute;sito, os fins<br \/>\n    e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha. Ainda se o major estivesse<br \/>\n    perto, mas t&atilde;o longe! Consultou as algibeiras. N&atilde;o chegava a<br \/>\n    dois mil-r&eacute;is a sua fortuna. Como ir? Arranjaria um passe e iria. Bateram<br \/>\n    &agrave; porta. Traziam-lhe uma carta. N&atilde;o reconheceu a letra; rasgou<br \/>\n    o envelope com emo&ccedil;&atilde;o. Que seria? Leu:<\/p>\n<p>&quot;Meu caro Ricardo &#8212; Sa&uacute;de &#8212; Minha filha Quinota casa-se depois<br \/>\n    de amanh&atilde;, quinta-feira. Ela e o noivo fazem muito gosto que voc&ecirc;<br \/>\n    apare&ccedil;a. Se o amigo n&atilde;o estiver comprometido com algu&eacute;m,<br \/>\n    agarre o viol&atilde;o e venha at&eacute; c&aacute; tomar uma ch&aacute;vena<br \/>\n    de ch&aacute; conosco &#8212; Seu amigo Albernaz&quot;. <\/p>\n<p>O trovador, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que lia, ia mudando de fisionomia.<br \/>\n    At&eacute; ent&atilde;o estava carregada e dura; quando acabou de ler o bilhete,<br \/>\n    um sorriso brincava por toda ela, descia e subia, ia de uma face a outra.<br \/>\n    O general n&atilde;o o abandonara; para o respeit&aacute;vel militar, Ricardo<br \/>\n    Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros ainda era o rei do viol&atilde;o. Iria e<br \/>\n    arranjaria passagem com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco<br \/>\n    o viol&atilde;o, demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse<br \/>\n    um &iacute;dolo benfazejo.<\/p>\n<p>Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o &uacute;ltimo brinde<br \/>\n    havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas em pequenos<br \/>\n    grupos. Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto curto parecia ainda<br \/>\n    mais abafado, mais socado, naquele tecido caro que parece requerer corpos<br \/>\n    elegantes e flex&iacute;veis. Quinota estava radiante no vestido de noiva.<br \/>\n    Ela era alta, de fei&ccedil;&otilde;es mais regulares que a irm&atilde; Ism&ecirc;nia,<br \/>\n    mas menos interessante e mais comum de temperamento e alma, embora faceira.<br \/>\n    Lal&aacute;, a terceira filha do general, que j&aacute; se ajeitava a mo&ccedil;a,<br \/>\n    tinha muito p&oacute;-de-arroz, estava sempre a concertar o penteado e o sorrir<br \/>\n    para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado. Genel&iacute;cio<br \/>\n    dava o bra&ccedil;o &agrave; noiva, encasacado numa casaca mal talhada, que<br \/>\n    punha bem &agrave; mostra a sua gibosidade, e caminhava todo atrapalhado nos<br \/>\n    apertados sapatos de verniz.<\/p>\n<p>Ricardo n&atilde;o os viu passar, pois ao entrar, a fila estava no general,<br \/>\n    metido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe ia mal como a farda<br \/>\n    de um guarda-nacional endomingado; mas, quem tinha um ar importante, marcial<br \/>\n    e navegado, ao mesmo tempo palaciano, era o Contra-Almirante Caldas. Fora<br \/>\n    padrinho e estava irrepreens&iacute;vel na sua casaca do uniforme. As &acirc;ncoras<br \/>\n    reluziam como metais de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito<br \/>\n    penteados, alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos<br \/>\n    do vasto oceano sem fim. Ism&ecirc;nia estava de rosa e andava pelas salas<br \/>\n    com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos lentos, dando provid&ecirc;ncias.<br \/>\n    O Lulu, o &uacute;nico filho do general, impava no seu uniforme do Col&eacute;gio<br \/>\n    Militar, cheio de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, gra&ccedil;as<br \/>\n    aos empenhos do pai.<\/p>\n<p>O general n&atilde;o tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando<br \/>\n    o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e at&eacute; Quinota disse<br \/>\n    um &#8212; &quot;sou muito feliz&#8230;&quot; &#8212; deitando a cabe&ccedil;a de lado e<br \/>\n    sorrindo para o ch&atilde;o, sorriso que encheu de imenso transporte a c&acirc;ndida<br \/>\n    alma do menestrel.<\/p>\n<p>Deram come&ccedil;o &agrave;s dan&ccedil;as e o general, o almirante, o Major<br \/>\n    Inoc&ecirc;ncio Bustamante, que tamb&eacute;m viera de uniforme, com a sua<br \/>\n    banda roxa de honor&aacute;rio, o doutor Flor&ecirc;ncio, Ricardo e dois convidados<br \/>\n    outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.<\/p>\n<p>O general estava satisfeito. Sonhava h&aacute; tantos anos uma cerim&ocirc;nia<br \/>\n    daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse anseio.<\/p>\n<p>A Ism&ecirc;nia foi aquela desgra&ccedil;a&#8230; O ingrato!&#8230; Mas para que<br \/>\n    recordar?<\/p>\n<p>Os cumprimentos se repetiram.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um rapag&atilde;o, o seu novo genro, disse um dos convidados<br \/>\n    novos.<\/p>\n<p>O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto<br \/>\n    o limpava, respondeu, olhando com aquele jeito dos m&iacute;opes:<\/p>\n<p>&#8212; Estou muito contente.<\/p>\n<p>Por a&iacute; p&ocirc;s o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Creio que casei bem minha filha; rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.<\/p>\n<p>O almirante acudiu:<\/p>\n<p>&#8212; E que carreira! N&atilde;o &eacute; por ser meu parente, mas com trinta<br \/>\n    e dois anos primeiro escritur&aacute;rio do Tesouro, &eacute; coisa nunca<br \/>\n    vista.<\/p>\n<p>&#8212; O Genel&iacute;cio n&atilde;o est&aacute; no Tribunal de Contas, n&atilde;o<br \/>\n    passou? perguntou Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Passou, mas &eacute; a mesma coisa, replicou o outro convidado novo, que<br \/>\n    era da amizade do rec&eacute;m-casado.<\/p>\n<p>De fato, Genel&iacute;cio tinha arranjado a transfer&ecirc;ncia e n&atilde;o<br \/>\n    fora s&oacute; isso que o decidira a casar-se. Tendo escrito uma &#8212; S&iacute;ntese<br \/>\n    de Contabilidade P&uacute;blica Cient&iacute;fica &#8212; viu-se, sem saber como,<br \/>\n    cumulado de elogios pela &quot;imprensa desta capital.&quot; O ministro, atendendo<br \/>\n    ao m&eacute;rito excepcional da obra, mandou-lhe dar dois contos de pr&ecirc;mio,<br \/>\n    tendo sido a edi&ccedil;&atilde;o feita &agrave; custa do Estado, na Imprensa<br \/>\n    Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas p&aacute;ginas, tipo doze,<br \/>\n    escrito em estilo de of&iacute;cio, com uma basta documenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de decretos e portarias, ocupando dois ter&ccedil;os do livro.<\/p>\n<p>A primeira frase da primeira parte, o quinh&atilde;o do livro verdadeiramente<br \/>\n    sint&eacute;tico e cient&iacute;fico, fora at&eacute; muito notada e gabada<br \/>\n    pelos cr&iacute;ticos, n&atilde;o s&oacute; pela novidade da id&eacute;ia,<br \/>\n    como tamb&eacute;m pela beleza da express&atilde;o.<\/p>\n<p>Dizia assim: &quot;A Contabilidade P&uacute;blica &eacute; a arte ou ci&ecirc;ncia<br \/>\n    de escriturar convenientemente a despesa e receita do Estado&quot;.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do pr&ecirc;mio e da transfer&ecirc;ncia, ele j&aacute; tinha<br \/>\n    promessa de ser subdiretor na primeira vaga.<\/p>\n<p>Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados<br \/>\n    novos, o major n&atilde;o p&ocirc;de deixar de observar:<\/p>\n<p>&#8212; Depois da militar, a melhor carreira &eacute; a de Fazenda, n&atilde;o<br \/>\n    acham?<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; Bem entendido, fez o doutor Flor&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses&#8230;<\/p>\n<p>Ricardo sentia-se na obriga&ccedil;&atilde;o de dizer qualquer coisa e foi<br \/>\n    soltando a primeira frase que lhe veio aos l&aacute;bios:<\/p>\n<p>&#8212; Quando se prospera, todas as profiss&otilde;es s&atilde;o boas.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; tanto assim, obtemperou o almirante, alisando um dos<br \/>\n    favoritos. N&atilde;o &eacute; para desfazer nas outras, mas a nossa, hein<br \/>\n    Albernaz? hein Inoc&ecirc;ncio?<\/p>\n<p>Albernaz levantou a cabe&ccedil;a como se quisesse apanhar no ar uma lembran&ccedil;a<br \/>\n    e depois replicou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, mas tem os seus percal&ccedil;os, Quando se est&aacute; numa<br \/>\n    trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaiti,<br \/>\n    ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O senhor esteve l&aacute;, general? perguntou o convidado amigo de Genel&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o estive, Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camis&atilde;o&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o imaginam o que foi &#8212; voc&ecirc; sabe, n&atilde;o &eacute; Inoc&ecirc;ncio?<\/p>\n<p>&#8212; Se estive l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores &agrave; esquerda e &quot;n&oacute;s&quot;<br \/>\n    ca&iacute;mos sobre os paraguaios. Mas os malandros estavam bem entrincheirados,<br \/>\n    tinham aproveitado o tempo.<\/p>\n<p>&#8212; Foi &quot;Seu&quot; Mitre, disse Inoc&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Foi. Atacamos com f&uacute;ria. Era um ribombar de canh&otilde;es que<br \/>\n    metia medo, bala por todo canto, os homens morriam como moscas&#8230; Um inferno!<\/p>\n<p>&#8212; Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.<\/p>\n<p>Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria<br \/>\n    do Paraguai excepcional.<\/p>\n<p>&#8212; Foram os paraguaios, isto &eacute;, repeliram o nosso ataque. &Eacute;<br \/>\n    por isso que eu digo que a nossa profiss&atilde;o &eacute; bela, mas tem as<br \/>\n    suas &quot;coisas&quot;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o quer dizer nada, Tamb&eacute;m na passagem de Humait&aacute;&#8230;<br \/>\n    ia dizendo o almirante.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor estava a bordo?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, eu fui mais tarde. Persegui&ccedil;&otilde;es fizeram com<br \/>\n    que eu n&atilde;o fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promo&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Mas, na passagem de Humait&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>Na sala de visitas as dan&ccedil;as continuavam com anima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era raro que algu&eacute;m viesse l&aacute; de dentro at&eacute; onde eles<br \/>\n    estavam. Os risos, a m&uacute;sica, e o mais que se adivinhava n&atilde;o<br \/>\n    distra&iacute;am aqueles homens das suas preocupa&ccedil;&otilde;es belicosas.<\/p>\n<p>O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pac&iacute;ficos,<br \/>\n    contando batalhas em que n&atilde;o estiveram e pugnas valorosas que n&atilde;o<br \/>\n    pelejaram.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; como um cidad&atilde;o pacato, bem comido, tendo tomado<br \/>\n    alguns vinhos generosos, para apreciar as narra&ccedil;&otilde;es de guerra.<br \/>\n    Ele s&oacute; v&ecirc; a parte pitoresca, a parte por assim dizer espiritual<br \/>\n    das batalhas, dos encontros; os tiros s&atilde;o os de salva e se matam &eacute;<br \/>\n    coisa de somenos. A Morte mesmo, nas narra&ccedil;&otilde;es feitas assim,<br \/>\n    perde a sua import&acirc;ncia tr&aacute;gica: tr&ecirc;s mil mortos, s&oacute;!!!<\/p>\n<p>De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto a guerra,<br \/>\n    a coisa ficava edulcorada, uma guerra biblioth&egrave;que rose, guerra de<br \/>\n    estampa popular, em que n&atilde;o aparecem a carni&ccedil;aria, a brutalidade<br \/>\n    e a ferocidade normais.<\/p>\n<p>Estavam Ricardo, o doutor Flor&ecirc;ncio, o exato empregado como engenheiro<br \/>\n    das &aacute;guas, aqueles dois recentes conhecimentos de Albernaz, embevecidos,<br \/>\n    boquiabertos e invejosos diante das proezas imagin&aacute;rias daqueles tr&ecirc;s<br \/>\n    militares, um honor&aacute;rio, talvez o menos pac&iacute;fico dos tr&ecirc;s,<br \/>\n    o &uacute;nico que tivesse mesmo tomado parte em alguma coisa guerreira &#8212;<br \/>\n    quando Dona Maricota chegou, sempre diligente, altiva, dando movimento e vida<br \/>\n    &agrave; festa. Era mais mo&ccedil;a que o marido, tinha ainda inteiramente<br \/>\n    pretos os cabelos na sua cabe&ccedil;a pequena, que contrastava tanto com<br \/>\n    o seu corpo enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao marido:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Chico, que &eacute; isso? Ficam ai e eu que fa&ccedil;a<br \/>\n    sala, que anime as mo&ccedil;as&#8230; Pra sala todos!<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; vamos, Dona Maricota, disse algu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, fez com rapidez a dona da casa, &eacute; j&aacute;. Vamos,<br \/>\n    &quot;Seu&quot; Caldas, &quot;Seu&quot; Ricardo, os senhores!<\/p>\n<p>E foi empurrando um a um pelo ombro.<\/p>\n<p>&#8212; Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois &eacute;<br \/>\n    o senhor&#8230; Est&aacute; ouvindo, &quot;Seu&quot; Ricardo!<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o, minha senhora. &Eacute; uma ordem&#8230;<\/p>\n<p>E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Outros e perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Diga-me uma coisa: como vai o nosso amigo Quaresma?<\/p>\n<p>&#8212; Vai bem.<\/p>\n<p>&#8212; Tem-lhe escrito?<\/p>\n<p>&#8212; &Agrave;s vezes. Eu queria, general&#8230;<\/p>\n<p>O general suspendeu a cabe&ccedil;a, levantou um pouco o pince-nez que come&ccedil;ava<br \/>\n    a cair, e perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez a pergunta.<br \/>\n    Depois de uma ligeira hesita&ccedil;&atilde;o, respondeu de um jato, com medo<br \/>\n    de perder as palavras.<\/p>\n<p>&#8212; Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para ir v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>O general esteve uns instantes de cabe&ccedil;a baixa, co&ccedil;ou o cabelo<br \/>\n    e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Isso &eacute; dif&iacute;cil, mas voc&ecirc; apare&ccedil;a l&aacute;,<br \/>\n    na reparti&ccedil;&atilde;o, amanh&atilde;.<\/p>\n<p>E continuaram a andar. Ainda andando, Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos&#8230; O senhor sabe:<br \/>\n    um homem que tem nome&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; V&aacute; l&aacute; amanh&atilde;.<\/p>\n<p>Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;s n&atilde;o v&ecirc;m!<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; vamos, fez o general.<\/p>\n<p>E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:<\/p>\n<p>&#8212; Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros&#8230; &Eacute;<br \/>\n    isto! Eu, h&aacute; bem quarenta anos, que n&atilde;o pego em livro&#8230;<\/p>\n<p>Chegaram &agrave; sala. Era vasta. Tinha dois grandes retratos em pesadas<br \/>\n    molduras douradas, furiosos retratos a &oacute;leo de Albernaz e da mulher;<br \/>\n    um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decora&ccedil;&atilde;o estava completa.<br \/>\n    Da mob&iacute;lia n&atilde;o se pode julgar, tinha sido retirada, para dar<br \/>\n    mais espa&ccedil;o aos dan&ccedil;antes. A noiva e o noivo estavam no sof&aacute;<br \/>\n    sentados a presidir a festa. Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas<br \/>\n    sobrecasacas e muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo<br \/>\n    p&ocirc;de ver a rua. A cal&ccedil;ada defronte estava cheia. A casa era alta<br \/>\n    e tinha jardim; s&oacute; de l&aacute; os curiosos, os &quot;serenos&quot;,<br \/>\n    podiam ver alguma coisa da festa. Lal&aacute;, no v&atilde;o de uma sacada,<br \/>\n    conversava com o Tenente Fontes. O general contemplou-os e aben&ccedil;oou-os<br \/>\n    com um olhar aprovador&#8230;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, a famosa filha do Lemos, disp&ocirc;s-se a cantar. Foi ao<br \/>\n    piano, colocou a partitura e come&ccedil;ou. Era uma romanza italiana que<br \/>\n    ela cantou com a perfei&ccedil;&atilde;o e o mau gosto de uma mo&ccedil;a<br \/>\n    bem-educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias, soaram.<\/p>\n<p>O doutor Flor&ecirc;ncio que ficara atr&aacute;s do general, comentou:<\/p>\n<p>&#8212; Tem uma bela voz esta mo&ccedil;a. Quem &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; a filha do Lemos, o doutor Lemos da Higiene, respondeu o general.<\/p>\n<p>&#8212; Canta muito bem.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; no &uacute;ltimo ano do conservat&oacute;rio, observou ainda<br \/>\n    Albernaz.<\/p>\n<p>Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o viol&atilde;o,<br \/>\n    afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar tr&aacute;gico de quem vai<br \/>\n    representar o &Eacute;dipo-Rei e falou com voz grossa: &quot;Senhoritas, senhores<br \/>\n    e senhoras&quot;. Concertou a voz e continuou: &quot;Vou cantar &#8216;Os teus bra&ccedil;os&#8217;,<br \/>\n    modinha de minha composi&ccedil;&atilde;o, m&uacute;sica e versos. &Eacute;<br \/>\n    uma composi&ccedil;&atilde;o terna, decente e de uma poesia exaltada&quot;.<br \/>\n    Seus olhos, por a&iacute;, quase lhe sa&iacute;am das &oacute;rbitas. Emendou:<br \/>\n    &quot;Espero que nenhum ru&iacute;do se ou&ccedil;a, porque sen&atilde;o a<br \/>\n    inspira&ccedil;&atilde;o se evola. &Eacute; o viol&atilde;o instrumento muito&#8230;<br \/>\n    mui&#8230; to &#8216;d&ecirc;-li-c&aacute;-do&#8217;. Bem&quot;.<\/p>\n<p>A aten&ccedil;&atilde;o era geral. Deu come&ccedil;o. Principiou brando,<br \/>\n    gemebundo, macio e longo, como um solu&ccedil;o de onda; depois, houve uma<br \/>\n    parte r&aacute;pida, saltitante, em que o viol&atilde;o estalava. Alternando<br \/>\n    um andamento e outro, a modinha acabou.<\/p>\n<p>Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das mo&ccedil;as<br \/>\n    e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O general abra&ccedil;ou-o,<br \/>\n    Genelicio levantou-se e deu-lhe a m&atilde;o, Quinota, no seu imaculado vestido<br \/>\n    de noiva, tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu &agrave; sala de jantar. No corredor<br \/>\n    chamavam-no: &quot;Senhor Ricardo, Senhor Ricardo!&quot; Voltou-se. &quot;Que<br \/>\n    ordena minha senhora?&quot; Era uma mo&ccedil;a que lhe pedia uma c&oacute;pia<br \/>\n    da modinha.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se esque&ccedil;a, dizia ela com meiguice, n&atilde;o se esque&ccedil;a.<br \/>\n    Gosto tanto das suas modinhas&#8230; S&atilde;o t&atilde;o ternas, t&atilde;o<br \/>\n    delicadas&#8230; Olhe: d&ecirc; aqui a Ism&ecirc;nia para me entregar.<\/p>\n<p>A noiva de Cavalc&acirc;nti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;, Dulce?<\/p>\n<p>A outra explicou-lhe. Ela aceitou a incumb&ecirc;ncia e, por sua vez, perguntou<br \/>\n    a Ricardo com a sua voz dolente:<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Seu&quot; Ricardo, quando &eacute; que o senhor pretende estar com<br \/>\n    Dona Adelaide?<\/p>\n<p>&#8212; Depois de amanh&atilde;, espero eu.<\/p>\n<p>&#8212; Vai l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Vou.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber uma<br \/>\n    carta&#8230;<\/p>\n<p>E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino len&ccedil;o rendado.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">III &#8211; GOLIAS<\/a><\/h4>\n<p>No s&aacute;bado da semana seguinte &agrave;quela em que a filha do general<br \/>\n    recebera como marido o grave e giboso Genel&iacute;cio, gl&oacute;ria e orgulho<br \/>\n    do nosso funcionalismo p&uacute;blico, Olga casara-se. A cerim&ocirc;nia correra<br \/>\n    com a pompa e a riqueza acostumada em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos<br \/>\n    parisienses de corbeille de noiva e outros pequenos detalhes chics, que n&atilde;o<br \/>\n    a aborreceram, mas que n&atilde;o a encheram l&aacute; de satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi para a igreja em virtude de uma determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    certa de sua vontade. Continuava a n&atilde;o encontrar dentro de si motivo<br \/>\n    para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha &agrave; sua<br \/>\n    influ&iacute;ra para isso. O marido &eacute; que estava contente. N&atilde;o<br \/>\n    seria muito com a noiva, mas com a volta que a sua vida ia tomar. Ficando<br \/>\n    rico e sendo m&eacute;dico, cheio de talento nas notas e recompensas escolares,<br \/>\n    via diante de si uma larga estrada de triunfos nas posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e na ind&uacute;stria cl&iacute;nica. N&atilde;o tinha fortuna alguma, mas<br \/>\n    julgava o seu banal t&iacute;tulo um foral de nobreza, equivalente &agrave;queles<br \/>\n    com que os aut&ecirc;nticos fidalgos da Europa brunem o nascimento das filhas<br \/>\n    dos salchicheiros yankees. Apesar de ser seu pai um importante fazendeiro<br \/>\n    por a&iacute;, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe dera tudo e tudo ele<br \/>\n    aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque, duque de plenamentes e medalhas,<br \/>\n    a receber homenagens de um vil&atilde;o que n&atilde;o ro&ccedil;ou os bancos<br \/>\n    de uma &quot;academia&quot;.<\/p>\n<p>Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso t&iacute;tulo, o pergaminho;<br \/>\n    &eacute; verdade que foi, n&atilde;o tanto pelo t&iacute;tulo, mas pela sua<br \/>\n    simula&ccedil;&atilde;o de intelig&ecirc;ncia, de amor &agrave; ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    de desmedidos sonhos de s&aacute;bio. Tal imagem que dele fizera, durara instantes<br \/>\n    em Olga; depois foi a in&eacute;rcia da sociedade, a sua tirania e a timidez<br \/>\n    natural da mo&ccedil;a em romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que<br \/>\n    ela, de si para si, pensava que se n&atilde;o fosse este, seria outro a ele<br \/>\n    igual, e o melhor era n&atilde;o adiar.<\/p>\n<p>Era por isso que ela n&atilde;o ia para a igreja, em virtude de uma determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    certa de sua vontade, embora sem perceber o constrangimento de um comando<br \/>\n    fora dela.<\/p>\n<p>Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. N&atilde;o obstante<br \/>\n    as origens puramente europ&eacute;ias, era pequena, muito mesmo, ao lado do<br \/>\n    noivo, alto, ereto, com uma fisionomia irradiante de felicidade; e, desse<br \/>\n    modo, ela desaparecia dentro do vestido, dos v&eacute;us e daqueles atavios<br \/>\n    obsoletos com que se arreiam as mo&ccedil;as que se v&atilde;o casar. De resto,<br \/>\n    a sua beleza n&atilde;o era a grande beleza &#8212; aquela que n&oacute;s exigimos<br \/>\n    das noivas ricas, segundo o modelo das estampas cl&aacute;ssicas.<\/p>\n<p>No seu rosto, nada de grego, desse grego aut&ecirc;ntico ou de pacotilha,<br \/>\n    ou tamb&eacute;m dessa majestade de &oacute;pera l&iacute;rica. Havia nos<br \/>\n    seus tra&ccedil;os muita irregularidade, mas a sua fisionomia era profunda<br \/>\n    e pr&oacute;pria. N&atilde;o s&oacute; a luz dos seus grandes olhos negros,<br \/>\n    que quase cobriam toda a cavidade orbit&aacute;ria, fazia fulgurar o seu rosto<br \/>\n    m&oacute;bil, como a sua pequena boca, de um desenho fino, exprimia bondade,<br \/>\n    mal&iacute;cia e o seu ar geral era de reflex&atilde;o e curiosidade.<\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do costume, n&atilde;o sa&iacute;ram da cidade e foram<br \/>\n    morar em casa do antigo empreiteiro.<\/p>\n<p>Quaresma n&atilde;o fora &agrave; festa, mandara o leit&atilde;o e o peru<br \/>\n    da tradi&ccedil;&atilde;o e escrevera uma longa carta. O s&iacute;tio empolgara-o,<br \/>\n    o calor ia passar, vinha a &eacute;poca das chuvas, das semeaduras, e n&atilde;o<br \/>\n    queria afastar-se de suas terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo<br \/>\n    um dia ou dois, era como se come&ccedil;asse a desertar da batalha.<\/p>\n<p>O pomar estava todo limpo e j&aacute; estavam preparados os canteiros da<br \/>\n    horta. A visita de Ricardo veio distra&iacute;-lo um pouco, sem desvi&aacute;-lo<br \/>\n    contudo, dos seus afazeres agr&iacute;colas.<\/p>\n<p>Passou um m&ecirc;s com o major, e foi um triunfo. A fama do seu nome precedia-o,<br \/>\n    de forma que todo o munic&iacute;pio o disputava e festejava.<\/p>\n<p>O seu primeiro trabalho foi ir &agrave; vila. Ficava a quatro quil&ocirc;metros<br \/>\n    adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    l&aacute;. Ricardo dispensou a estrada e foi a p&eacute;, pela estrada de<br \/>\n    rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeir&otilde;es, que<br \/>\n    subia e descia morros, cortava plan&iacute;cies e rios em toscas pontes. A<br \/>\n    vila!&#8230; Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada pelo velho caminho<br \/>\n    de tropas, e a nova, cuja origem veio da liga&ccedil;&atilde;o da velha com<br \/>\n    a estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo o bra&ccedil;o vertical<br \/>\n    o caminho da esta&ccedil;&atilde;o. As outras partiam delas, as casas juntavam-se<br \/>\n    urbanamente no come&ccedil;o, depois iam espa&ccedil;ando, espa&ccedil;ando,<br \/>\n    at&eacute; acabar em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro,<br \/>\n    ex-Imperador; e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades<br \/>\n    da Rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, que ia ter &agrave; igreja, ao<br \/>\n    alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesu&iacute;tico. &Agrave;<br \/>\n    esquerda da esta&ccedil;&atilde;o, num campo, a Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica,<br \/>\n    a que ia dar uma rua mal esbo&ccedil;ada por espa&ccedil;adas casas, ficava<br \/>\n    a C&acirc;mara Municipal. <\/p>\n<p>Era um grande paralelep&iacute;pedo de tijolo, cimalha, janela com sacadas<br \/>\n    de grade de ferro, puro estilo mestre-de-obras. Compungia essa pobreza de<br \/>\n    gosto a quem se lembrasse dos edif&iacute;cios da mesma natureza das pequenas<br \/>\n    comunas francesas e belgas da Idade M&eacute;dia.<\/p>\n<p>Ricardo entrou num barbeiro da Rua Marechal Deodoro, Sal&atilde;o Rio de<br \/>\n    Janeiro, e fez a barba. O f&iacute;garo deu-lhe informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes, um deles<br \/>\n    tomou-o a seu cargo e da&iacute; em pouco estava relacionado.<\/p>\n<p>Quando voltou para a casa do major j&aacute; tinha convite para o baile do<br \/>\n    doutor Campos, presidente da C&acirc;mara, festa que teria lugar na quartafeira<br \/>\n    pr&oacute;xima.<\/p>\n<p>Chegara s&aacute;bado e fora passear &agrave; vila domingo.<\/p>\n<p>Tinha havido missa e o trovador assistiu a sa&iacute;da. A concorr&ecirc;ncia<br \/>\n    nunca &eacute; grande na ro&ccedil;a, mas Ricardo p&ocirc;de ver algumas daquelas<br \/>\n    mo&ccedil;as do interior, linf&aacute;ticas e tristes, ataviadinhas, cheias<br \/>\n    de la&ccedil;os, descendo silenciosas a colina em que se erguia a igreja,<br \/>\n    espalhando-se pela rua e logo entrando para as casas, onde iriam passar uma<br \/>\n    semana de reclus&atilde;o e t&eacute;dio. Foi na sa&iacute;da da missa que<br \/>\n    lhe apresentaram o doutor Campos.<\/p>\n<p>Era o m&eacute;dico do lugar, morava, por&eacute;m, fora, na sua fazenda,<br \/>\n    e viera de &quot;aranha&quot;&quot; com a sua filha, Nair, assistir o of&iacute;cio<br \/>\n    religioso.<\/p>\n<p>O trovador e o m&eacute;dico estiveram um instante conversando, enquanto<br \/>\n    a filha, muito magra, p&aacute;lida, com uns longos bra&ccedil;os descarnados,<br \/>\n    olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua. Quando eles partiram,<br \/>\n    ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento dos ares livres do Brasil.<\/p>\n<p>&Agrave; festa do doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo deu a honra<br \/>\n    de sua presen&ccedil;a e alegria da sua voz. Quaresma n&atilde;o o acompanhava,<br \/>\n    mas gozava a sua vit&oacute;ria. Se bem que o major tivesse abandonado o viol&atilde;o,<br \/>\n    ainda continuava a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. As conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    desastrosas do seu requerimento em nada tinham abalado as suas convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    patri&oacute;ticas. Continuavam as suas id&eacute;ias profundamente arraigadas,<br \/>\n    t&atilde;o-somente ele as escondia, para n&atilde;o sofrer com a incompreens&atilde;o<br \/>\n    e maldade dos homens.<\/p>\n<p>Gozava, portanto a fulminante vit&oacute;ria de Ricardo, que indicava bem<br \/>\n    naquela popula&ccedil;&atilde;o a exist&ecirc;ncia de um res&iacute;duo forte<br \/>\n    da nossa nacionalidade a resistir &agrave;s invas&otilde;es das modas e gostos<br \/>\n    estrangeiros.<\/p>\n<p>Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de todos os<br \/>\n    partidos. O doutor Campos, presidente da C&acirc;mara, era quem mais o cumulava<br \/>\n    de homenagens. Naquela manh&atilde; at&eacute; esperava um dos cavalos do<br \/>\n    edil, para dar um passeio ao Carico; e, esperando, foi dizendo a Quaresma,<br \/>\n    que ainda n&atilde;o tinha partido para o eito:<\/p>\n<p>&#8212; Major, foi uma boa id&eacute;ia vir para a ro&ccedil;a. Vive-se bem e<br \/>\n    pode-se subir&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenho nenhum desejo disso. Voc&ecirc; sabe como me s&atilde;o<br \/>\n    estranhas todas essas coisas.<\/p>\n<p>&#8212; Sei&#8230; &Eacute;&#8230; N&atilde;o digo que se pe&ccedil;a, mas, quando nos<br \/>\n    oferecem, n&atilde;o devemos rejeitar, n&atilde;o acha?<\/p>\n<p>&#8212; Conforme, meu caro Ricardo. Eu n&atilde;o podia aceitar encargo de comandar<br \/>\n    uma esquadra.<\/p>\n<p>&#8212; At&eacute; a&iacute; n&atilde;o vou. Olhe, major: eu gosto muito de viol&atilde;o,<br \/>\n    mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento moral e intelectual, entretanto,<br \/>\n    se amanh&atilde; o presidente dissesse: &quot;Seu Ricardo, voc&ecirc; vai<br \/>\n    ser deputado&quot;, o senhor pensa que eu n&atilde;o aceitava, sabendo perfeitamente<br \/>\n    que n&atilde;o podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora se n&atilde;o!<br \/>\n    N&atilde;o se deve perder vaza, major.<\/p>\n<p>&#8212; Cada um tem as suas teorias.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto. Outra coisa, major: conhece o doutor Campos?<\/p>\n<p>&#8212; De nome.<\/p>\n<p>&#8212; Sabe que ele &eacute; presidente da C&acirc;mara?<\/p>\n<p>Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfian&ccedil;a.<br \/>\n    O menestrel n&atilde;o notou o gesto do amigo e emendou:<\/p>\n<p>&#8212; Mora daqui a uma l&eacute;gua. J&aacute; lhe toquei em casa e hoje vou<br \/>\n    a cavalo passear com ele.<\/p>\n<p>&#8212; Fazes bem.<\/p>\n<p>&#8212; Ele quer conhec&ecirc;-lo. Posso traz&ecirc;-lo aqui?<\/p>\n<p>&#8212; Podes.<\/p>\n<p>Um camarada do doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira trazendo<br \/>\n    o cavalo prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para a ro&ccedil;a ao<br \/>\n    encontro dos seus dois empregados. Eram agora dois, pois, al&eacute;m do Anast&aacute;cio,<br \/>\n    que n&atilde;o era bem um empregado, mas agregado, admitira o Felizardo.<\/p>\n<p>Era manh&atilde; de ver&atilde;o, mas as chuvas continuadas dos dias anteriores<br \/>\n    tinham atenuado a temperatura.<\/p>\n<p>Havia uma grande profus&atilde;o de luz e os ares estavam doces. Quaresma<br \/>\n    foi caminhando por entre aquele rumor de vida, rumor que vinha do farfalhar<br \/>\n    do mato e do piar das aves e p&aacute;ssaros. Esvoa&ccedil;avam ti&ecirc;s<br \/>\n    vermelhos, bandos de coleiros; anuns voavam e punham pequenas manchas negras<br \/>\n    no verdor das &aacute;rvores. At&eacute; as flores, essas tristes flores dos<br \/>\n    nossos campos, no momento, parece que tinham sa&iacute;do &agrave; luz, n&atilde;o<br \/>\n    somente para a fecunda&ccedil;&atilde;o vegetal mas tamb&eacute;m para a beleza.<\/p>\n<p>Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um ro&ccedil;ado,<br \/>\n    e fora para auxiliar esse servi&ccedil;o que contratou o Felizardo. Era este<br \/>\n    um camarada magro, alto, de longos bra&ccedil;os, longas pernas, como um s&iacute;mio.<br \/>\n    Tinha a face cor de cobre, a barba rala e, sob uma apar&ecirc;ncia de fraqueza<br \/>\n    muscular, n&atilde;o havia ningu&eacute;m mais valente que ele a ro&ccedil;ar.<br \/>\n    Com isto era um tagarela incans&aacute;vel. De manh&atilde;, quando chegava,<br \/>\n    a&iacute; pelas seis horas, j&aacute; sabia todas as intriguinhas do munic&iacute;pio.<\/p>\n<p>O ro&ccedil;ado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado do norte do<br \/>\n    s&iacute;tio, que o cap&atilde;o invadira. Obtido ele, o major plantaria obra<br \/>\n    de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos batatas inglesas,<br \/>\n    cultura nova em que depositava grandes esperan&ccedil;as. J&aacute; se fizera<br \/>\n    a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma, por&eacute;m, n&atilde;o lhe<br \/>\n    quisera atear fogo. Evitava assim calcinar o terreno, eliminando dele os princ&iacute;pios<br \/>\n    vol&aacute;teis ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos,<br \/>\n    para aproveitar como lenha; os galhos mi&uacute;dos e folhas, ele removia<br \/>\n    para longe, onde ent&atilde;o queimaria em coivaras pequenas.<\/p>\n<p>Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos cip&oacute;s<br \/>\n    e tocos; mas prometia dar um rendimento maior ao plantio.<\/p>\n<p>Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para se distrair.<br \/>\n    H&aacute; quem cante, ele falava e pouco se incomodava que lhe dessem ou n&atilde;o<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Essa gente anda acesa por a&iacute;, disse Felizardo logo que o major<br \/>\n    chegou. <\/p>\n<p>Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa, raras<br \/>\n    n&atilde;o. Anast&aacute;cio era silencioso e grave. Nada dizia: trabalhava<br \/>\n    e, de quando em quando, parava, considerava, numa postura hier&aacute;tica<br \/>\n    de uma pintura mural tebana. O major perguntou ao Felizardo:<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que h&aacute;, Felizardo?<\/p>\n<p>O camarada descansou o grosso tronco de camar&aacute; no monte, limpou o<br \/>\n    suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:<\/p>\n<p>&#8212; Neg&oacute;cio de pol&iacute;tica&#8230; &quot;Seu&quot; Tenente Antonino<br \/>\n    quase briga ontem com &quot;Seu dot&ocirc; Campo&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Onde?<\/p>\n<p>&#8212; Na esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Neg&oacute;cio de partido. Pelo que ouvi: &quot;Seu&quot; Tenente Antonino<br \/>\n    &eacute; pelo &quot;governad&ocirc;&quot; e &quot;Seu dot&ocirc; Campo&quot;<br \/>\n    &eacute; pelo &quot;senad&ocirc;&quot;&#8230; Um &quot;sarcero&quot;, patr&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8212; E voc&ecirc;, por quem &eacute;?<\/p>\n<p>Felizardo n&atilde;o respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de cortar um<br \/>\n    galho que enleava o tronco a remover. Anast&aacute;cio estava de p&eacute;<br \/>\n    e considerou um instante a figura do companheiro palrador. Respondeu afinal:<\/p>\n<p>&#8212; Eu! Sei l&aacute;&#8230; Urubu pelado n&atilde;o se mete no meio dos coroados.<\/p>\n<p>Isso &eacute; bom pro &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sou como voc&ecirc;, Felizardo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem me dera, meu &quot;sinh&ocirc;&quot;. Inda &quot;trasantonte&quot;<br \/>\n    ouvi &quot;diz&ecirc;&quot; que o patr&atilde;o &eacute; amigo do &quot;marech&aacute;&quot;.<\/p>\n<p>Afastou-se com o pau; e, quando voltou Quaresma indagou assustado:<\/p>\n<p>&#8212; Quem disse?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, n&atilde;o &quot;sinh&ocirc;&quot;. Ouvi a modo de &quot;diz&ecirc;&quot;<br \/>\n    l&aacute; na venda do espanhol, tanto assim que &quot;dot&ocirc; Campo t&aacute;&quot;<br \/>\n    inchado que nem sapo com a sua amizade.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute; falso, Felizardo. Eu n&atilde;o sou amigo coisa alguma&#8230;<br \/>\n    Conheci-o&#8230; E nunca disse isso aqui a ningu&eacute;m&#8230; Qual amigo!<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Qu&aacute;!&quot; fez Felizardo com um riso largo e duro. O patr&atilde;o<br \/>\n    &quot;t&aacute;&quot; &eacute; varrendo a testada.<\/p>\n<p>Apesar de todo o esfor&ccedil;o de Quaresma, n&atilde;o houve meio de tirar<br \/>\n    daquela cabe&ccedil;a infantil a id&eacute;ia de que ele fosse amigo do Marechal<br \/>\n    Floriano. &quot;Conheci-o no meu emprego&quot; &#8212; dizia o major; Felizardo<br \/>\n    sorria grosso e por uma vez dizia: &quot; &#8216;Qu&aacute;!&#8217; o patr&atilde;o &eacute;<br \/>\n    fino que nem cobra&quot;.<\/p>\n<p>Tal teimosia n&atilde;o deixou de impressionar Quaresma. Que queria dizer<br \/>\n    aquilo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pela manh&atilde;&#8230; Ele tinha o trovador em conta de homem leal e amigo fiel,<br \/>\n    incapaz de lhe estar armando la&ccedil;os para passar maus momentos; os entusiasmos<br \/>\n    dele, entretanto, junto &agrave; vontade de ser bom amigo, podiam iludi-lo<br \/>\n    e faz&ecirc;-lo instrumento de algum perverso. Quaresma ficou um instante<br \/>\n    pensativo, deixando de remover os galhos cortados; em breve, por&eacute;m,<br \/>\n    esqueceu-se e a preocupa&ccedil;&atilde;o dissipou-se. &Agrave; tarde, quando<br \/>\n    foi jantar, j&aacute; nem mais se lembrava da conversa e a refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra alguma<br \/>\n    de cogita&ccedil;&otilde;es por parte dele.<\/p>\n<p>Dona Adelaide, sempre com a sua matin&eacute;e creme e saia preta, sentava-se<br \/>\n    &agrave; cabeceira; Quaresma &agrave; direita e &agrave; esquerda, Ricardo.<br \/>\n    Era a velha quem sempre puxava a l&iacute;ngua do trovador.<\/p>\n<p>&#8212; Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?<\/p>\n<p>N&atilde;o havia meio dela dizer &quot;seu&quot;. A sua educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &quot;senhora&quot; de outros tempos, n&atilde;o lhe permitia usar esse<br \/>\n    plebe&iacute;smo generalizado. Vira os pais, gente ainda fortemente portugueses,<br \/>\n    dizerem &quot;senhor&quot; e continuava a dizer, sem fingimento, naturalmente.<\/p>\n<p>&#8212; Muito. Que lugar! Uma catadupa&#8230; Que maravilha! Aqui, na ro&ccedil;a,<br \/>\n    &eacute; que se tem inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E ele tomava aquela atitude de arroubo: uma fisionomia de m&aacute;scara<br \/>\n    de tr&aacute;gico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma trovoada abafada.<\/p>\n<p>&#8212; Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.<\/p>\n<p>&#8212; Hoje acabei uma modinha.<\/p>\n<p>&#8212; Como se chama? indagou Dona Adelaide.<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Os L&aacute;bios da Carola&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Bonito! J&aacute; fez a m&uacute;sica?<\/p>\n<p>Era ainda a irm&atilde; de Quaresma a perguntar, Ricardo levava agora o garfo<br \/>\n    &agrave; boca; deixou-o suspenso entre os l&aacute;bios e o prato e respondeu<br \/>\n    com toda a convic&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; A m&uacute;sica, minha senhora, &eacute; a primeira coisa que fa&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute;s de no-la cantar logo.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o, major.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s o jantar, Quaresma e Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros sa&iacute;ram<br \/>\n    a passear no s&iacute;tio. Fora essa a &uacute;nica concess&atilde;o que ao<br \/>\n    amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime de seus trabalhos agr&iacute;colas.<br \/>\n    Levava sempre o peda&ccedil;o de p&atilde;o, que esfarelava em migalhas no<br \/>\n    galinheiro, para ver a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante<br \/>\n    a considerar aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da<br \/>\n    sua. Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito<br \/>\n    vivos e &aacute;vidos, e demorava se a apreciar a estupidez do peru, imponente,<br \/>\n    fazendo roda, a dar estouros presun&ccedil;osos. Em seguida ia ao chiqueiro;<br \/>\n    assistia Anast&aacute;cio dar a ra&ccedil;&atilde;o, despejando-a nos cochos.<br \/>\n    O enorme cevado de grandes orelhas pendentes levantava-se dificilmente, e<br \/>\n    solenemente vinha mergulhar a cabe&ccedil;a na caldeira; noutro compartimento<br \/>\n    os bacorinhos grunhiam e grunhindo vinham com a m&atilde;e chafurdar-se na<br \/>\n    comida.<\/p>\n<p>A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos tinham<br \/>\n    uma longa do&ccedil;ura bem humana que os fazia simp&aacute;ticos.<\/p>\n<p>Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma ficava<br \/>\n    minutos esquecido a contempl&aacute;-las numa demorada interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muda. Sentavam-se a um tronco de &aacute;rvore, e Quaresma olhava o c&eacute;u<br \/>\n    alto, enquanto Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros contava qualquer hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>A tarde ia adiantada. A terra j&aacute; come&ccedil;ava a amolecer, pelo<br \/>\n    fim daquele beijo ardente e demorado do sol. Os bambus suspiravam; as cigarras<br \/>\n    ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos, o major voltou-se.<br \/>\n    Padrinho! Olga!<\/p>\n<p>Mal se viram, abra&ccedil;aram-se, e quando se separaram ficaram ainda a<br \/>\n    olhar um para o outro, com as m&atilde;os presas. E vieram aquelas est&uacute;pidas<br \/>\n    e tocantes frases dos encontros satisfeitos: Quando chegaste? N&atilde;o esperava&#8230;<br \/>\n    &Eacute; longe&#8230; Ricardo olhava embevecido com a ternura dos dois; Anast&aacute;cio<br \/>\n    tirara o chap&eacute;u e olhava a &quot;sinhazinha&quot;, com o seu terno<br \/>\n    e vazio olhar de africano.<\/p>\n<p>Passada a emo&ccedil;&atilde;o, a mo&ccedil;a se debru&ccedil;ou sobre o<br \/>\n    chiqueiro, depois passou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Qued&ecirc; teu marido?<\/p>\n<p>&#8212; O doutor?&#8230; Est&aacute; l&aacute; dentro.<\/p>\n<p>O marido tinha resistido muito em acompanh&aacute;-la at&eacute; ali. N&atilde;o<br \/>\n    lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito sem t&iacute;tulo, sem posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    brilhante e sem fortuna. Ele n&atilde;o compreendia como o seu sogro, apesar<br \/>\n    de tudo um homem rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com um pequeno empregado de uma reparti&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria,<br \/>\n    e at&eacute; faz&ecirc;lo seu compadre! Que o contr&aacute;rio se desse, era<br \/>\n    justo; mas como estava a coisa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade<br \/>\n    nacional. Mas, em definitivo, quando Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso<br \/>\n    respeito, de uma particular considera&ccedil;&atilde;o, ele ficou desarmado<br \/>\n    e todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.<\/p>\n<p>Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Imp&eacute;rio armava essa<br \/>\n    nobreza escolar, possu&iacute;a em si uma particular rever&ecirc;ncia, um<br \/>\n    culto pelo doutorado; e n&atilde;o lhe foi, pois, dif&iacute;cil demonstr&aacute;-lo<br \/>\n    quando se viu diante do doutor Armando Borges, de cujas notas e pr&ecirc;mios<br \/>\n    ela tinha exata not&iacute;cia.<\/p>\n<p>Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o doutor, gozando aquele seu sobre-humano prest&iacute;gio, ia conversando<br \/>\n    pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que conversava, talvez para que o efeito n&atilde;o se dissipasse, virava<br \/>\n    com a m&atilde;o direita o grande anel&atilde;o &quot;simb&oacute;lico&quot;,<br \/>\n    o talism&atilde;, que cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito<br \/>\n    de marquise.<\/p>\n<p>Conversaram muito. O jovem par contou a agita&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica<br \/>\n    do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; Dona Adelaide a epop&eacute;ia<br \/>\n    da mudan&ccedil;a, m&oacute;veis quebrados, objetos partidos. Pela meia-noite<br \/>\n    todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto os sapos levantavam<br \/>\n    no riacho defronte o seu grave hino &agrave; transcendente beleza do c&eacute;u<br \/>\n    negro, profundo e estrelado.<\/p>\n<p>Acordaram cedo. Quaresma n&atilde;o foi logo para o trabalho. Tomou caf&eacute;<br \/>\n    e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal.<br \/>\n    Rasgou a cinta e leu o t&iacute;tulo. Era o O Munic&iacute;pio, &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    local, hebdomad&aacute;rio, filiado ao partido situacionista. O doutor se<br \/>\n    havia afastado; ele aproveitou a ocasi&atilde;o para ler o jornaleco. P&ocirc;s<br \/>\n    o pince-nez, recostou-se na cadeira de balan&ccedil;o e desdobrou o jornal.<br \/>\n    Estava na varanda; o terral<\/p>\n<p>soprava nos bambus que se inclinavam molemente. Come&ccedil;ou a leitura.<br \/>\n    O artigo de fundo intitulava-se &quot;Intrusos&quot; e consistia em uma tremenda<br \/>\n    descompostura aos n&atilde;o nascidos no lugar que moravam nele &#8212; &quot;verdadeiros<br \/>\n    estrangeiros que se vinham intrometer na vida particular e pol&iacute;tica<br \/>\n    da fam&iacute;lia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranq&uuml;ilidade&quot;.<\/p>\n<p>Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando lhe pareceu<br \/>\n    ler seu nome entre versos. Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas: <\/p>\n<p>POL&Iacute;TICA DE CURUZU <\/p>\n<p>Quaresma, meu bem, Quaresma!<br \/>\n    Quaresma do cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Deixa as batatas em paz,<br \/>\n    Deixa em paz o feij&atilde;o.<\/p>\n<p>Jeito n&atilde;o tens para isso<br \/>\n    Quaresma, meu cocumbi!<br \/>\n    Volta &agrave; mania antiga<br \/>\n    De redigir em tupi.<\/p>\n<p> OLHO VIVO. <\/p>\n<p>O major ficou estuporado. Que vinha ser aquilo? Por qu&ecirc;? Quem era?<br \/>\n    N&atilde;o atinava, n&atilde;o achava o motivo e o fundo de semelhante ataque.<br \/>\n    A irm&atilde; aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe<br \/>\n    o jornal com o bra&ccedil;o tremendo: &quot;L&ecirc; isto, Adelaide&quot;.<\/p>\n<p>A velha senhora viu logo a perturba&ccedil;&atilde;o do irm&atilde;o e leu<br \/>\n    com pressa e solicitude. Ela tinha aquela ampla maternidade das solteironas;<br \/>\n    pois parece que a falta de filhos refor&ccedil;a e alarga o interesse da mulher<br \/>\n    pelas dores dos outros. Enquanto ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu?<br \/>\n    que tenho com pol&iacute;tica? E co&ccedil;ava os cabelos j&aacute; bastante<br \/>\n    encanecidos.<\/p>\n<p>Dona Adelaide disse ent&atilde;o docemente:<\/p>\n<p>&#8212; Sossega, Policarpo. Por isso s&oacute;?&#8230; Ora!<\/p>\n<p>A afilhada leu tamb&eacute;m os versos e perguntou ao padrinho:<\/p>\n<p>&#8212; O senhor se meteu algum dia nessa pol&iacute;tica daqui?<\/p>\n<p>&#8212; Eu nunca!&#8230; Vou at&eacute; declarar que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando a<br \/>\n    irm&atilde;:<\/p>\n<p>&#8212; Isto seria uma covardia&#8230; Uma satisfa&ccedil;&atilde;o&#8230; Nunca!<\/p>\n<p>O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os tr&ecirc;s nessas considera&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Notaram a altera&ccedil;&atilde;o de Quaresma. Estava p&aacute;lido, tinha<br \/>\n    os olhos &uacute;midos e co&ccedil;ava sucessivamente a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute;, major? indagou o troveiro.<\/p>\n<p>As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo depois<br \/>\n    contou o que ouvira na vila. Acreditavam todos que o major viera para ali<br \/>\n    no intuito de fazer pol&iacute;tica, tanto assim que dava esmolas, deixava<br \/>\n    o povo fazer lenha no seu mato, distribu&iacute;a rem&eacute;dios homeop&aacute;ticos&#8230;<br \/>\n    O Antonino afirmara que havia de desmascarar semelhante tartufo.<\/p>\n<p>&#8212; E n&atilde;o desmentiste? perguntou Quaresma.<\/p>\n<p>Ricardo afirmou que sim, mas o escriv&atilde;o n&atilde;o quisera acreditar<br \/>\n    nele e reiterara os seus prop&oacute;sitos de ataque.<\/p>\n<p>O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo com seu<br \/>\n    g&ecirc;nio, incubou nos primeiros tempos a impress&atilde;o, e, enquanto<br \/>\n    estiveram com ele os seus amigos, n&atilde;o demonstrou preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Olga e o marido passaram no &quot;Sossego&quot; cerca de quinze dias. O marido,<br \/>\n    ao fim de uma semana, j&aacute; parecia cansado. Os passeios n&atilde;o eram<br \/>\n    muitos. Em geral, os nossos lugarejos s&atilde;o de uma grande pobreza do<br \/>\n    pitoresco; h&aacute; um ou dois lugares c&eacute;lebres, assim como na Europa<br \/>\n    cada aldeia tem a sua curiosidade hist&oacute;rica.<\/p>\n<p>Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante duas l&eacute;guas<br \/>\n    da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas que lhe barravam o horizonte<br \/>\n    fronteiro. O doutor Campos j&aacute; travara rela&ccedil;&otilde;es com o<br \/>\n    major e, gra&ccedil;as a ele, houve cavalos e silh&atilde;o que tamb&eacute;m<br \/>\n    permitissem &agrave; mo&ccedil;a ir &agrave; cachoeira.<\/p>\n<p>Foram de manh&atilde;, o presidente da C&acirc;mara, o doutor, sua mulher<br \/>\n    e a filha de Campos. O lugar n&atilde;o era feio. Uma pequena cachoeira, de<br \/>\n    uns quinze metros de altura, despenhava-se em tr&ecirc;s partes, pelo flanco<br \/>\n    da montanha abaixo. A &aacute;gua estremecia na queda, como que se enrodilhava<br \/>\n    e vinha pulverizar-se numa grande bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia<br \/>\n    muita verdura e como que toda a cascata vivia sob uma ab&oacute;bada de &aacute;rvores.<br \/>\n    O sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a &aacute;gua ou sobre as<br \/>\n    pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos, de um verde<br \/>\n    mais claro, pousados nos galhos eram como as incrusta&ccedil;&otilde;es daquele<br \/>\n    sal&atilde;o fant&aacute;stico.<\/p>\n<p>Olga p&ocirc;de ver tudo isso bem &agrave; vontade, andando de um para outro<br \/>\n    lado, porque a filha do presidente era de um sil&ecirc;ncio de t&uacute;mulo<br \/>\n    e o pai desta tomava com o seu marido informa&ccedil;&otilde;es sobre novidades<br \/>\n    medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se usa muito o t&aacute;rtaro<br \/>\n    em&eacute;tico?<\/p>\n<p>O que mais a impressionou no passeio foi a mis&eacute;ria geral, a falta<br \/>\n    de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da gente pobre. Educada<br \/>\n    na cidade, ela tinha dos roceiros id&eacute;ia de que eram felizes, saud&aacute;veis<br \/>\n    e alegres. Havendo tanto barro, tanta &aacute;gua, por que as casas n&atilde;o<br \/>\n    eram de tijolos e n&atilde;o tinham telhas? Era sempre aquele sap&ecirc; sinistro<br \/>\n    e aquele &quot;sopapo&quot; que deixava ver a trama de varas, como o esqueleto<br \/>\n    de um doente. Por que, ao redor dessas casas, n&atilde;o havia culturas, uma<br \/>\n    horta, um pomar? N&atilde;o seria t&atilde;o f&aacute;cil, trabalho de horas?<br \/>\n    E n&atilde;o havia gado, nem grande nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro.<br \/>\n    Por qu&ecirc;? Mesmo nas fazendas, o espet&aacute;culo n&atilde;o era mais<br \/>\n    animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta.<br \/>\n    A n&atilde;o ser o caf&eacute; e um milharal, aqui e ali, ela n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    ver outra lavoura, outra ind&uacute;stria agr&iacute;cola. N&atilde;o podia<br \/>\n    ser pregui&ccedil;a s&oacute; ou indol&ecirc;ncia. Para o seu gasto, para<br \/>\n    uso pr&oacute;prio, o homem tem sempre energia para trabalhar. As popula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais acusadas de pregui&ccedil;a, trabalham relativamente. Na &Aacute;frica,<br \/>\n    na &Iacute;ndia, na Cochinchina, em toda parte, os casais, as fam&iacute;lias,<br \/>\n    as tribos, plantam um pouco, algumas coisas para eles. Seria a terra? Que<br \/>\n    seria? E todas essas quest&otilde;es desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo<br \/>\n    de saber, e tamb&eacute;m a sua piedade e simpatia por aqueles p&aacute;rias,<br \/>\n    maltrapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumb&aacute;ticos!&#8230;<\/p>\n<p>Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades meses<br \/>\n    e anos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar o motivo e<br \/>\n    o rem&eacute;dio. Aquilo era uma situa&ccedil;&atilde;o do campon&ecirc;s<br \/>\n    da Idade M&eacute;dia e come&ccedil;o da nossa: era o famoso animal de La<br \/>\n    Bruy&egrave;re que tinha face humana e voz articulada&#8230;<\/p>\n<p>Como no dia seguinte fosse passear ao ro&ccedil;ado do padrinho, aproveitou<br \/>\n    a ocasi&atilde;o para interrogar a respeito o tagarela Felizardo. A faina<br \/>\n    do ro&ccedil;ado ia quase no fim; o grande trato da terra estava quase inteiramente<br \/>\n    limpo e subia um pouco em ladeira a colina que formava a lombada do s&iacute;tio.<\/p>\n<p>Olga encontrou o camarada c&aacute; embaixo, cortando a machado as madeiras<br \/>\n    mais grossas; Anast&aacute;cio estava no alto, na orla do mato, juntando,<br \/>\n    a ancinho, as folhas ca&iacute;das. Ela lhe falou.<\/p>\n<p>&#8212; Bons dias, &quot;s&aacute; dona&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o trabalha-se muito, Felizardo?<\/p>\n<p>&#8212; O que se pode.<\/p>\n<p>&#8212; Estive ontem no Carico, bonito lugar&#8230; Onde &eacute; que voc&ecirc; mora,<br \/>\n    Felizardo?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; doutra banda, na estrada da vila.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; grande o s&iacute;tio de voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Tem alguma terra, sim senhora, &quot;s&aacute; dona&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; por que n&atilde;o planta para voc&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Qu&aacute; s&aacute; dona!&quot; O que &eacute; que a gente come?<\/p>\n<p>&#8212; O que plantar ou aquilo que a planta&ccedil;&atilde;o der em dinheiro.<\/p>\n<p>&#8212; &quot;S&aacute; dona t&aacute;&quot; pensando uma coisa e a coisa &eacute;<br \/>\n    outra. Enquanto planta cresce, e ent&atilde;o? &quot;Qu&aacute;, s&aacute;<br \/>\n    dona&quot;, n&atilde;o &eacute; assim.<\/p>\n<p>Deu uma machadada; o tronco escapou: colocou-o melhor no picador e, antes<br \/>\n    de desferir o machado, ainda disse:<\/p>\n<p>&#8212; Terra n&atilde;o &eacute; nossa&#8230; E &quot;frumiga&quot;?&#8230; N&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o &quot;tem&quot; ferramenta&#8230; isso &eacute; bom para italiano ou<br \/>\n    &quot;alam&atilde;o&quot;, que governo d&aacute; tudo&#8230; Governo n&atilde;o<br \/>\n    gosta de n&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p>Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em duas partes,<br \/>\n    quase iguais, de um claro amarelado, onde o cerne escuro come&ccedil;ava a<br \/>\n    aparecer.<\/p>\n<p>Ela voltou querendo afastar do esp&iacute;rito aquele desacordo que o camarada<br \/>\n    indicara, mas n&atilde;o p&ocirc;de. Era certo. Pela primeira vez notava que<br \/>\n    o self-help do Governo era s&oacute; para os nacionais; para os outros todos<br \/>\n    os aux&iacute;lios e facilidades, n&atilde;o contando com a sua anterior educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e apoio dos patr&iacute;cios.<\/p>\n<p>E a terra n&atilde;o era dele? Mas de quem era ent&atilde;o, tanta terra<br \/>\n    abandonada que se encontrava por a&iacute;? Ela vira at&eacute; fazendas fechadas,<br \/>\n    com as casas em ru&iacute;nas&#8230; Por que esse acaparamento, esses latif&uacute;ndios<br \/>\n    in&uacute;teis e improdutivos?<\/p>\n<p>A fraqueza de aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lhe permitiu pensar mais no<br \/>\n    problema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de jantar e a fome<br \/>\n    lhe chegava.<\/p>\n<p>Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco da sua<br \/>\n    morgue, havia mesmo ocasi&atilde;o em que era at&eacute; natural. Quando ela<br \/>\n    chegou, o padrinho exclamava:<\/p>\n<p>&#8212; Adubos! &Eacute; l&aacute; poss&iacute;vel que um brasileiro tenha tal<br \/>\n    id&eacute;ia! Pois se temos as terras mais f&eacute;rteis do mundo!<\/p>\n<p>&#8212; Mas se esgotam, major, observou o doutor.<\/p>\n<p>Dona Adelaide, calada, seguia com aten&ccedil;&atilde;o o crochet que estava<br \/>\n    fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga intrometeu-se na<br \/>\n    conversa:<\/p>\n<p>&#8212; Que zanga &eacute; essa, padrinho?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; teu marido que quer convencer-me que as nossas terras precisam<br \/>\n    de adubos&#8230; Isto &eacute; at&eacute; uma inj&uacute;ria!<\/p>\n<p>&#8212; Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor, ensaiava<br \/>\n    uns fosfatos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar viol&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o queria aprender m&uacute;sica&#8230; Qual m&uacute;sica! Qual nada!<br \/>\n    A inspira&ccedil;&atilde;o basta!&#8230; Hoje vejo que &eacute; preciso&#8230; &Eacute;<br \/>\n    assim, resumia ele.<\/p>\n<p>Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com toda a for&ccedil;a<br \/>\n    d&#8217;alma:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor doutor, o Brasil &eacute; o pa&iacute;s mais f&eacute;rtil do mundo,<br \/>\n    &eacute; o mais bem dotado e as suas terras n&atilde;o precisam &quot;empr&eacute;stimos&quot;<br \/>\n    para dar sustento ao homem. Fique certo!<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; mais f&eacute;rteis, avan&ccedil;ou o doutor.<\/p>\n<p>&#8212; Onde?<\/p>\n<p>&#8212; Na Europa.<\/p>\n<p>&#8212; Na Europa!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, na Europa. As terras negras da R&uacute;ssia, por exemplo.<\/p>\n<p>O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante: <\/p>\n<p>&#8212; O senhor n&atilde;o &eacute; patriota! Esses mo&ccedil;os&#8230;<\/p>\n<p>O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre o viol&atilde;o. &Agrave; noite, o menestrel cantou a sua &uacute;ltima<br \/>\n    produ&ccedil;&atilde;o: &quot;Os L&aacute;bios da Carola&quot;. Suspeitava-se<br \/>\n    que Carola fosse uma criada do doutor Campos; mas ningu&eacute;m aludiu a<br \/>\n    isso, Ouviram-no com interesse e ele foi muito aclamado. Olga tocou no velho<br \/>\n    piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.<\/p>\n<p>Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a ler um velho elogio das riquezas e opul&ecirc;ncias do Brasil.\n  <\/p>\n<p>A casa estava em sil&ecirc;ncio; do lado de fora, n&atilde;o havia a m&iacute;nima<br \/>\n    bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orquestra noturna. Quaresma<br \/>\n    lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos.<br \/>\n    Tudo na nossa terra &eacute; extraordin&aacute;rio! pensou. Da despensa, que<br \/>\n    ficava junto a seu aposento, vinha um ru&iacute;do estranho. Apurou o ouvido<br \/>\n    e prestou aten&ccedil;&atilde;o. Os sapos recome&ccedil;aram o seu hino. Havia<br \/>\n    vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia &agrave; outra,<br \/>\n    num dado instante todas se juntaram num unisono sustentado. Suspenderam um<br \/>\n    instante a m&uacute;sica. O major apurou o ouvido; o ru&iacute;do continuava,<br \/>\n    Que era? Eram uns estalos t&ecirc;nues; parecia que quebravam gravetos, que<br \/>\n    deixavam outros cair no ch&atilde;o&#8230; Os sapos recome&ccedil;aram; o regente<br \/>\n    deu uma martelada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma<br \/>\n    p&ocirc;de ler umas cinco p&aacute;ginas. Os batr&aacute;quios pararam; a<br \/>\n    bulha continuava. O major levantou-se, agarrou o casti&ccedil;al e foi &agrave;<br \/>\n    depend&ecirc;ncia da casa donde partia o ru&iacute;do, assim mesmo como estava,<br \/>\n    em camisa de dormir.<\/p>\n<p>Abriu a porta; nada viu. la procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada<br \/>\n    no peito do p&eacute;. Quase gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu<br \/>\n    com uma enorme sa&uacute;va agarrada com toda a f&uacute;ria &agrave; sua<br \/>\n    pele magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco<br \/>\n    no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas<br \/>\n    de milho e feij&atilde;o, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por<br \/>\n    inadvert&ecirc;ncia. O ch&atilde;o estava negro, e carregadas com os gr&atilde;os,<br \/>\n    elas, em pelot&otilde;es cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade<br \/>\n    subterr&acirc;nea.<\/p>\n<p>Quis afugent&aacute;-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares<br \/>\n    e cada vez mais o ex&eacute;rcito aumentava. Veio uma, mordeu-o, depois outra,<br \/>\n    e o foram mordendo pelas pernas, pelos p&eacute;s, subindo pelo seu corpo.<br \/>\n    N&atilde;o p&ocirc;de ag&uuml;entar, gritou, sapateou e deixou a vela cair.<\/p>\n<p>Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquele<br \/>\n    &iacute;nfimo inimigo que, talvez, nem mesmo &agrave; luz radiante do sol<br \/>\n    o visse distintamente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\"> IV &#8211; &quot;PECO ENERGIA, SIGO J&Aacute;&quot;<\/a><\/h4>\n<p>Dona Adelaide, a irm&atilde; de Quaresma, tinha uns quatro anos mais que<br \/>\n    ele. Era uma bela velha, com um corpo m&eacute;dio, uma tez que come&ccedil;ava<br \/>\n    a adquirir aquela p&aacute;tina da grande velhice, uma espessa cabeleira j&aacute;<br \/>\n    inteiramente amarelada e um olhar tranq&uuml;ilo, calmo e doce. Fria, sem<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o, de intelig&ecirc;ncia l&uacute;cida e positiva,<br \/>\n    em tudo formava um grande contraste com o irm&atilde;o; contudo, nunca houve<br \/>\n    entre eles uma separa&ccedil;&atilde;o profunda nem tampouco uma penetra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perfeita. Ela n&atilde;o entendia nem procurava entender a subst&acirc;ncia<br \/>\n    do irm&atilde;o, e sobre ele em nada reagia aquele ser met&oacute;dico, ordenado<br \/>\n    e organizado, de id&eacute;ias simples, m&eacute;dias e claras.<\/p>\n<p>Ela j&aacute; atingira aos cinq&uuml;enta e ele para l&aacute; marchava;<br \/>\n    mas ambos tinham ar saud&aacute;vel, poucos achaques, e prometiam ainda muita<br \/>\n    vida. A exist&ecirc;ncia calma, doce e regrada que tinham levado at&eacute;<br \/>\n    ali, concorrera muito para a boa sa&uacute;de de ambos. Quaresma incubou as<br \/>\n    suas manias at&eacute; depois dos quarenta e ela nunca tivera qualquer.<\/p>\n<p>Para Dona Adelaide, a vida era coisa simples, era viver, isto &eacute;, ter<br \/>\n    uma casa, jantar e almo&ccedil;o, vestu&aacute;rio, tudo modesto, m&eacute;dio.<br \/>\n    N&atilde;o tinha ambi&ccedil;&otilde;es, paix&otilde;es, desejos. Mo&ccedil;a,<br \/>\n    n&atilde;o sonhara pr&iacute;ncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido.<br \/>\n    Se n&atilde;o casou foi porque n&atilde;o sentiu necessidade disso; o sexo<br \/>\n    n&atilde;o lhe pesava e de alma e corpo ela sempre se sentiu completa.<\/p>\n<p>O seu aspecto tranq&uuml;ilo e o sossego dos seus olhos verdes, de um brilho<br \/>\n    lunar de esmeralda, emolduravam e real&ccedil;avam naquele interior familiar<br \/>\n    a agita&ccedil;&atilde;o e a inquietude, o alanceado do irm&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o se v&aacute; supor que Quaresma andasse transtornado como um doido.<br \/>\n    Felizmente n&atilde;o. Na apar&ecirc;ncia at&eacute; poder-se-ia imaginar<br \/>\n    que nada conturbava sua alma; por&eacute;m, se mais vagarosamente se examinassem<br \/>\n    os seus h&aacute;bitos, gestos e atitudes, logo se havia de ver que o sossego<br \/>\n    e a placidez n&atilde;o moravam no seu pensamento.<\/p>\n<p>Ocasi&otilde;es havia em que ficava a olhar, durante minutos seguidos, ao<br \/>\n    longe o horizonte, perdido em cisma; outras, isso quando no trabalho da ro&ccedil;a,<br \/>\n    em que suspendia todos os movimentos, fincava o olhar rio ch&atilde;o, demorava-se<br \/>\n    assim um instante, co&ccedil;ando uma m&atilde;o com a outra, dava depois<br \/>\n    um muxoxo, continuava o trabalho; e mesmo momentos surgiam em que n&atilde;o<br \/>\n    reprimia uma exclama&ccedil;&atilde;o ou uma frase.<\/p>\n<p>Anast&aacute;cio em tais instantes, olhava por baixo dos olhos o patr&atilde;o.<br \/>\n    O antigo escravo n&atilde;o os sabia mais fixar, e nada dizia; Felizardo continuava<br \/>\n    a contar a fuga da filha do Cust&oacute;dio com o Manduca da venda; e o trabalho<br \/>\n    marchava.<\/p>\n<p>In&uacute;til dizer que a irm&atilde; n&atilde;o fazia reparo nisso, mesmo<br \/>\n    porque, a n&atilde;o ser no jantar e nas primeiras horas do dia, eles viviam<br \/>\n    separados. Quaresma na ro&ccedil;a, nas planta&ccedil;&otilde;es, e ela superintendendo<br \/>\n    o servi&ccedil;o dom&eacute;stico.<\/p>\n<p>As outras pessoas de suas rela&ccedil;&otilde;es n&atilde;o podiam tamb&eacute;m<br \/>\n    notar as preocupa&ccedil;&otilde;es absorventes do major, pelo simples motivo<br \/>\n    de que estavam longe. <\/p>\n<p>Ricardo havia seis meses que n&atilde;o lhe visitava e da afilhada e do compadre<br \/>\n    as &uacute;ltimas cartas que recebera datavam de uma semana, n&atilde;o vendo<br \/>\n    aquela h&aacute; tanto tempo, quanto ao trovador, e aquele desde quase um<br \/>\n    ano, isto &eacute;, o tempo em que estava no &quot;Sossego&quot;.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, Quaresma n&atilde;o cessou de se interessar pelo aproveitamento<br \/>\n    de suas terras. Os seus h&aacute;bitos n&atilde;o foram mudados e a sua atividade<br \/>\n    continuava sempre a mesma. &Eacute; verdade que deixara de parte os instrumentos<br \/>\n    de meteorologia.<\/p>\n<p>O higr&ocirc;metro, o bar&ocirc;metro e os outros companheiros n&atilde;o<br \/>\n    eram mais consultados e as observa&ccedil;&otilde;es registradas num caderno.<br \/>\n    Dera-se mal com eles. Fosse inexperi&ecirc;ncia e ignor&acirc;ncia das bases<br \/>\n    te&oacute;ricas deles, fosse porquefosse, o certo &eacute; que toda a previs&atilde;o<br \/>\n    que Quaresma fazia baseado em combina&ccedil;&otilde;es dos seus dados, sa&iacute;am<br \/>\n    erradas. Se esperava tempo seguro, l&aacute; vinha chuva; se esperava chuva,<br \/>\n    l&aacute; vinha seca.<\/p>\n<p>Assim perdeu muita semente e Felizardo mesmo sorria dos seus aparelhos, com<br \/>\n    aquele grosso e cavernoso sorriso de troglodita:<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Qu&aacute;&quot; patr&atilde;o! Isso de chuva vem quando Deus &quot;qu&eacute;&quot;.<\/p>\n<p>O bar&ocirc;metro aner&oacute;ide continuava a um canto a dan&ccedil;ar o<br \/>\n    seu ponteiro sem ser percebido; o term&ocirc;metro de m&aacute;xima e m&iacute;nima,<br \/>\n    leg&iacute;timo Casella, jazia dependurado na varanda sem receber um olhar<br \/>\n    amigo; a ca&ccedil;amba do pluvi&ocirc;metro estava no galinheiro e servia<br \/>\n    de bebedouro &agrave;s aves; s&oacute; o anem&ocirc;metro continuava teimosamente<br \/>\n    a rodar, a rodar, j&aacute; sem fio, no alto do mastro, como se protestasse<br \/>\n    contra aquele desprezo pela ci&ecirc;ncia que Quaresma representava.<\/p>\n<p>Quaresma vivia assim, sentindo que a campanha que lhe tinham movido, embora<br \/>\n    tendo deixado de ser p&uacute;blica, lavrava ocultamente. Havia no seu esp&iacute;rito<br \/>\n    e no seu car&aacute;ter uma vontade de acab&aacute;-la de vez, mas como? Se<br \/>\n    n&atilde;o o acusavam, se n&atilde;o articulavam nada contra ele diretamente?<br \/>\n    Era um combate com sombras, com apar&ecirc;ncias, que seria rid&iacute;culo<br \/>\n    aceitar.<\/p>\n<p>De resto, a situa&ccedil;&atilde;o geral que o cercava, aquela mis&eacute;ria<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o campestre que nunca suspeitara, aquele abandono<br \/>\n    de terras &agrave; improdutividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo<br \/>\n    a preocupa&ccedil;&otilde;es angustiosas.<\/p>\n<p>Via o major com tristeza n&atilde;o existir naquela gente humilde sentimento<br \/>\n    de solidariedade, de apoio m&uacute;tuo. N&atilde;o se associavam para coisa<br \/>\n    alguma e viviam separados, isolados, em fam&iacute;lias geralmente irregulares,<br \/>\n    sem sentir a necessidade de uni&atilde;o para o trabalho da terra. Entretanto,<br \/>\n    tinham bem perto o exemplo dos portugueses que, unidos aos seis e mais, conseguiam<br \/>\n    em sociedade cultivar a arado ro&ccedil;as de certa import&acirc;ncia, lucrar<br \/>\n    e viver. Mesmo o velho costume do &quot;moitir&atilde;o&quot; j&aacute; se<br \/>\n    havia apagado.<\/p>\n<p>Como remediar isso?<\/p>\n<p>Quaresma desesperava&#8230;<\/p>\n<p>A tal afirma&ccedil;&atilde;o de falta de bra&ccedil;os pareceu-lhe uma afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de m&aacute;-f&eacute; ou est&uacute;pida, e est&uacute;pido ou de m&aacute;-f&eacute;<br \/>\n    era o Governo que os andava importando aos milhares, sem se preocupar com<br \/>\n    os que j&aacute; existiam. Era como se no campo em que pastavam mal meia d&uacute;zia<br \/>\n    de cabe&ccedil;as de gado, fossem introduzidas mais tr&ecirc;s, para aumentar<br \/>\n    o estrume!&#8230;<\/p>\n<p>Pelo seu caso, ele via bem as dificuldades, os &oacute;bices de toda sorte<br \/>\n    que havia para fazer a terra produtiva e remunerada. Um fato veio mostrar-lhe<br \/>\n    com eloq&uuml;&ecirc;ncia um dos aspectos da quest&atilde;o. Vencendo a erva-de-passarinho,<br \/>\n    os maus-tratos e o abandono de tantos anos, os abacateiros de suas terras<br \/>\n    conseguiram frutificar, fracamente &eacute; verdade, mas de forma superior<br \/>\n    &agrave;s necessidades de sua casa.<\/p>\n<p>A sua alegria foi grande. Pela primeira vez, ia passar-lhe pelas m&atilde;os<br \/>\n    dinheiro que lhe dava a terra, sempre m&atilde;e e sempre virgem. Tratou de<br \/>\n    vender, mas como? a quem? No lugar havia um ou outro que os queria comprar<br \/>\n    por pre&ccedil;os &iacute;nfimos. Com decis&atilde;o foi ao Rio procurar comprador.<br \/>\n    Andou de porta em porta. N&atilde;o queriam, eram muitos. Ensinaram-lhe que<br \/>\n    procurasse um tal Senhor Azevedo no Mercado, o rei das frutas. L&aacute; foi.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Abacates! Ora! Tenho muitos&#8230; Est&atilde;o muito baratos!<\/p>\n<p>&#8212; Entretanto, disse Quaresma, ainda hoje indaguei em uma confeitaria e pediram-me<br \/>\n    pela d&uacute;zia cinco mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p>&#8212; Em por&ccedil;&atilde;o, o senhor sabe que&#8230; &Eacute; isso&#8230; Enfim,<br \/>\n    se quer mande-os&#8230;<\/p>\n<p>Depois, tilintou a pesada corrente de ouro, p&ocirc;s uma das m&atilde;os<br \/>\n    na cava do colete e quase de costas para o major:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; preciso v&ecirc;-los&#8230; O tamanho influi&#8230;<\/p>\n<p>Quaresma os mandou e, quando lhe veio o dinheiro, teve a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    orgulhosa de quem acaba de ganhar uma grande batalha imortal. Acariciou uma<br \/>\n    por uma aquelas notas encardidas, leu-lhes bem o n&uacute;mero e a estampa,<br \/>\n    arrumou-as todas uma ao lado da outra sobre uma mesa e muito tempo levou sem<br \/>\n    &acirc;nimo de troc&aacute;-las.<\/p>\n<p>Para avaliar o lucro, descontou o frete, de estrada de ferro e carro&ccedil;a,<br \/>\n    o custo dos caix&otilde;es, o sal&aacute;rio dos auxiliares e, ap&oacute;s<br \/>\n    esse c&aacute;lculo que n&atilde;o era laborioso, teve a evid&ecirc;ncia de<br \/>\n    que ganhara mil e quinhentos r&eacute;is, nem mais nem menos. O Senhor Azevedo<br \/>\n    tinha-lhe pago pelo cento a quantia com que se compra uma d&uacute;zia.<\/p>\n<p>Assim mesmo o seu orgulho n&atilde;o diminuiu e ele viu naquele rid&iacute;culo<br \/>\n    lucro objeto para maior contentamento do que se recebesse um avultado ordenado.<\/p>\n<p>Foi, portanto, com redobrada atividade que se p&ocirc;s ao trabalho. Para<br \/>\n    o ano, o lucro seria maior. Tratava-se agora de limpar as fruteiras. Anast&aacute;cio<br \/>\n    e Felizardo continuavam ocupados nas grandes planta&ccedil;&otilde;es; contratou<br \/>\n    um outro empregado para ajud&aacute;-lo no tratamento das velhas &aacute;rvores<br \/>\n    frut&iacute;feras.<\/p>\n<p>Foi, pois, com o Man&eacute; Candeeiro que ele se p&ocirc;s a serrar os galhos<br \/>\n    das &aacute;rvores, os galhos mortos e aqueles em que a erva daninha segurava<br \/>\n    as suas ra&iacute;zes. Era &aacute;rduo e dif&iacute;cil o trabalho. Tinham<br \/>\n    &agrave;s vezes que subir &agrave;s grimpas para a extirpa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do galho atingido; os espinhos rasgavam as roupas e feriam as carnes; e em<br \/>\n    muitas ocasi&otilde;es estiveram em risco de vir ao ch&atilde;o serrote e<br \/>\n    Quaresma ou o camarada.<\/p>\n<p>Man&eacute; Candeeiro falava pouco, a n&atilde;o ser que se tratasse de coisas<br \/>\n    de ca&ccedil;a; mas cantava que nem passarinho. Estava a serrar, estava a<br \/>\n    cantar trovas roceiras, ing&ecirc;nuas, onde com surpresa o major n&atilde;o<br \/>\n    via entrar a fauna, a flora locais, os costumes das profiss&otilde;es roceiras.<br \/>\n    Eram vaporosamente sensuais e muito ternas, melosas at&eacute;; por acaso<br \/>\n    l&aacute; vinha uma em que um p&aacute;ssaro local entrava; ent&atilde;o o<br \/>\n    major escutava: <br \/>\n    Eu vou dar a despedida<\/p>\n<p>Como deu o bacurau,<\/p>\n<p>Uma perna no caminho<\/p>\n<p>Outra no galho de pau. <br \/>\n    Este bacurau que entrava a&iacute; satisfazia particularmente &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Quaresma. A observa&ccedil;&atilde;o popular j&aacute; come&ccedil;ava<br \/>\n    a interessar-se pelo espet&aacute;culo ambiente, j&aacute; se emocionava com<br \/>\n    ele e a nossa ra&ccedil;a deitava, portanto, ra&iacute;zes na grande terra<br \/>\n    que habitava. Ele a copiou e mandou ao velho poeta de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Felizardo dizia que Man&eacute; Candeeiro era um mentiroso, pois todas aquelas<br \/>\n    ca&ccedil;adas de caitetus, jacus, on&ccedil;as eram patranhas; mas, respeitava<br \/>\n    o seu talento po&eacute;tico, principalmente no desafio: o moleque &eacute;<br \/>\n    bom!<\/p>\n<p>Ele era claro e tinha umas fei&ccedil;&otilde;es regulares, cesarianas, duras<br \/>\n    e fortes, um tanto amolecidas pelo sangue africano.<\/p>\n<p>Quaresma procurou descobrir nele aquela odiosa catadura que Darwin achou<br \/>\n    nos mesti&ccedil;os; mas, sinceramente, n&atilde;o a encontrou.<\/p>\n<p>Com aux&iacute;lio de Man&eacute; Candeeiro, foi que Quaresma conseguiu acabar<br \/>\n    de limpar as fruteiras daquele velho s&iacute;tio abandonado h&aacute; quase<br \/>\n    dez anos. Quando o servi&ccedil;o ficou pronto, ele viu com tristeza aquelas<br \/>\n    velhas &aacute;rvores amputadas, mutiladas, com folhas aqui e sem folhas ali&#8230;<br \/>\n    Pareciam sofrer e ele se lembrou das m&atilde;os que as tinham plantado h&aacute;<br \/>\n    vinte ou trinta anos, escravos, talvez, banzeiros e desesperan&ccedil;ados!&#8230;<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o tardou que os bot&otilde;es rebentassem e tudo reverdecesse,<br \/>\n    e o renascimento das &aacute;rvores como que trouxe o contentamento das aves<br \/>\n    e do passaredo solto. De manh&atilde;, esvoa&ccedil;avam os ti&ecirc;s vermelhos,<br \/>\n    com o seu pio pobre, esp&eacute;cie de ave t&atilde;o in&uacute;til e t&atilde;o<br \/>\n    bela de plumas que parece ter nascido para os chap&eacute;us das damas; as<br \/>\n    rolas pardas e caboclas em bando, mariscando, no ch&atilde;o capinado; pelo<br \/>\n    correr do dia, eram os sanha&ccedil;us a cantar nos galhos altos, os papa-capins,<br \/>\n    as nuvens de coleiros; e de tarde como que todos eles se reuniam, piando,<br \/>\n    cantando, chilreando, pelas altas mangueiras, pelos cajueiros, pelos abacateiros,<br \/>\n    entoando louvores ao trabalho tenaz e fecundo do velho Major Quaresma.<\/p>\n<p>N&atilde;o durou muito essa alegria. Um inimigo apareceu inopinadamente,<br \/>\n    com a rapidez ousad&iacute;ssima de um general consumado. At&eacute; ali ele<br \/>\n    se mostrara t&iacute;mido, parecia que somente mandava esclarecedores.<\/p>\n<p>Desde aquele ataque &agrave;s provis&otilde;es de Quaresma, logo afugentadas,<br \/>\n    n&atilde;o mais as formigas reapareceram; mas, naquela manh&atilde;, quando<br \/>\n    contemplou o seu milharal, foi como se lhe tirassem a alma, e ficou sem a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e as l&aacute;grimas lhe vieram aos olhos.<\/p>\n<p>O milho que j&aacute; tinha repontado, muito verde, pequenino, com uma timidez<br \/>\n    de crian&ccedil;a, crescera cerca de meio palmo acima da terra; o major at&eacute;<br \/>\n    mandara buscar o sulfato de cobre para a solu&ccedil;&atilde;o em que ia lavar<br \/>\n    a batata inglesa a plantar nos intervalos dos p&eacute;s.<\/p>\n<p>Toda a manh&atilde;, ele ia l&aacute; e j&aacute; via o milharal crescido<br \/>\n    com o seu pend&atilde;o branco e as espigas de coma cor de vinho, oscilando<br \/>\n    ao vento; naquela, ele n&atilde;o viu nada mais, At&eacute; os tenros colmos<br \/>\n    tinham sido cortados e levados para longe! &quot;A modo que &eacute; obra<br \/>\n    de gente&quot; disse Felizardo; entretanto, tinham sido as sa&uacute;vas,<br \/>\n    os terr&iacute;veis himen&oacute;pteros, piratas &iacute;nfimos que lhe ca&iacute;am<br \/>\n    em cima do trabalho com uma rapacidade turca&#8230; Era preciso combat&ecirc;-los.<br \/>\n    Quaresma p&ocirc;s-se logo em campo, descobriu as aberturas principais do<br \/>\n    formigueiro e em cada uma queimou o formicida mortal. Passaramse dias; os<br \/>\n    inimigos pareciam derrotados; mas, certa noite, indo ao pomar para melhor<br \/>\n    apreciar a noite estrelada, Quaresma ouviu uma bulha esquisita, como se algu&eacute;m<br \/>\n    esmagasse as folhas mortas das &aacute;rvores&#8230; Um estalido&#8230; E era perto&#8230;<br \/>\n    Acendeu um f&oacute;sforo e o que viu, meu Deus! Quase todas as laranjeiras<br \/>\n    estavam negras de imensas sa&uacute;vas. Havia delas &agrave;s centenas, pelos<br \/>\n    troncos e pelos galhos acima e agitavam-se, moviam-se, andavam como em ruas<br \/>\n    transitadas e vigiadas a popula&ccedil;&atilde;o de uma grande cidade: umas<br \/>\n    subiam, outras desciam; nada de atropelos, de confus&atilde;o, de desordem.<br \/>\n    O trabalho como que era regulado a toques de corneta. L&aacute; em cima umas<br \/>\n    cortavam as folhas pelo pec&iacute;olo; c&aacute; embaixo, outras serravam-nas<br \/>\n    em peda&ccedil;os e afinal eram carregadas por terceiras, levantando-as acima<br \/>\n    da descomunal cabe&ccedil;a, em longas fileiras pelo trilho limpo, aberto<br \/>\n    entre a erva rasteira.<\/p>\n<p>Houve um instante de des&acirc;nimo na alma do major. N&atilde;o tinha contado<br \/>\n    com aquele obst&aacute;culo nem o supusera t&atilde;o forte. Agora via bem<br \/>\n    que era a uma sociedade inteligente, organizada, ousada e tenaz com quem se<br \/>\n    tinha de haver. Veio-lhe ent&atilde;o &agrave; lembran&ccedil;a aquela frase<br \/>\n    de Saint-Hilaire. Se n&oacute;s n&atilde;o expuls&aacute;ssemos as formigas,<br \/>\n    elas nos expulsariam.<\/p>\n<p>O major n&atilde;o estava lembrado ao certo se eram essas as palavras, mas<br \/>\n    o sentido era, e ficou admirado que s&oacute; agora ela lhe ocorresse.<\/p>\n<p>No dia seguinte, tinha recobrado o &acirc;nimo. Comprou ingredientes e ei-lo<br \/>\n    mais o Man&eacute; Candeeiro, a abrir picadas, a fazer esfor&ccedil;os de<br \/>\n    sagacidade, para descobrir os redutos centrais, as &quot;panelas&quot; dos<br \/>\n    insetos terr&iacute;veis. Ent&atilde;o era como se os bombardeassem; o sulfeto<br \/>\n    queimava, estourava em tiros seguidos, mort&iacute;feros, letais!<\/p>\n<p>E da&iacute; em diante, foi uma batalha sem tr&eacute;guas. Se aparecia uma<br \/>\n    abertura, um &quot;olho&quot;, logo se lhe aplicava o formicida, pois do contr&aacute;rio,<br \/>\n    nenhuma planta&ccedil;&atilde;o era poss&iacute;vel, tanto mais que extintos<br \/>\n    os das suas terras, n&atilde;o tardariam os formigueiros das vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    ou dos logradouros p&uacute;blicos a deitar can&iacute;culos para o seu terreno.<\/p>\n<p>Era um supl&iacute;cio, um castigo, uma esp&eacute;cie de vigil&acirc;ncia<br \/>\n    a dique holand&ecirc;s e Quaresma viu bem que s&oacute; uma autoridade central,<br \/>\n    um governo qualquer, ou um acordo entre os cultivadores, podia levar a efeito<br \/>\n    a extin&ccedil;&atilde;o daquele flagelo, pior que a saraiva, que a geada,<br \/>\n    que a seca, sempre presente, inverno ou ver&atilde;o, outono ou primavera.<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante essa luta di&aacute;ria, o major n&atilde;o desanimou<br \/>\n    e p&ocirc;de colher alguns produtos das planta&ccedil;&otilde;es que tinha<br \/>\n    feito. Se por ocasi&atilde;o das frutas, a sua alegria foi grande, mais expressiva<br \/>\n    e mais profunda ela foi, quando viu partir para a esta&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    sucessivas carretas, as ab&oacute;boras, os aipins, as batatas-doces, em cestos<br \/>\n    cobertos com sacos cosidos. Os frutos, em parte, eram de outras m&atilde;os;<br \/>\n    as &aacute;rvores n&atilde;o tinham sido plantadas por ele; mas aquilo n&atilde;o,<br \/>\n    vinha do seu suor, da sua iniciativa, do seu trabalho!<\/p>\n<p>Ele ainda foi ver aqueles cestos na esta&ccedil;&atilde;o, com a ternura<br \/>\n    de um pai que v&ecirc; partir seu filho para a gl&oacute;ria e para a vit&oacute;ria.<br \/>\n    Recebeu o dinheiro dias depois, contou-o e esteve deduzindo os lucros.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi &agrave; ro&ccedil;a nesse dia; o trabalho de guarda-livros<br \/>\n    roubou o de cultivador. A sua aten&ccedil;&atilde;o, j&aacute; um tanto gasta,<br \/>\n    n&atilde;o lhe favorecia a tarefa das cifras, e s&oacute; pelo meio-dia p&ocirc;de<br \/>\n    dizer &agrave; irm&atilde;:<\/p>\n<p>&#8212; Sabes qual foi o lucro, Adelaide?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Menor do que o dos abacates?<\/p>\n<p>&#8212; Um pouco mais.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o&#8230; Quanto?<\/p>\n<p>&#8212; Dois mil quinhentos e setenta r&eacute;is, respondeu Quaresma, destacando<br \/>\n    s&iacute;laba por s&iacute;laba.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Foi isso. S&oacute; de frete paguei cento e quarenta e dois mil e quinhentos.<\/p>\n<p>Dona Adelaide esteve algum tempo com os olhos baixos, seguindo a costura<br \/>\n    que fazia, depois, levantando o olhar:<\/p>\n<p>&#8212; Homem, Policarpo, o melhor &eacute; deixares isso&#8230; Tens gasto muito<br \/>\n    dinheiro&#8230; S&oacute; com as formigas!<\/p>\n<p>&#8212; Ora, Adelaide! Pensas que quero fazer fortuna? Fa&ccedil;o isso para dar<br \/>\n    exemplo, levantar a agricultura, aproveitar as nossas terras ferac&iacute;ssimas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; isto&#8230; Queres sempre ser a abelha-mestra&#8230; J&aacute; viste<br \/>\n    os grandes fazerem esses sacrif&iacute;cios?&#8230; V&ecirc; l&aacute; se fazem!<br \/>\n    Hist&oacute;rias&#8230; Metem-se no caf&eacute; que tem todas as prote&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, fa&ccedil;o eu.<\/p>\n<p>A irm&atilde; prestou mais aten&ccedil;&atilde;o &agrave; costura, Policarpo<br \/>\n    levantou-se, foi at&eacute; &agrave; janela que dava para o galinheiro. Fazia<br \/>\n    um dia fosco e irritante. Ele concertou o pince-nez, esteve olhando e de l&aacute;<br \/>\n    falou:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Adelaide! Aquilo n&atilde;o &eacute; uma galinha morta?<\/p>\n<p>A velha senhora ergueu-se com a costura, foi at&eacute; &agrave; janela e<br \/>\n    verificou com a vista:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;&#8230; &Eacute; j&aacute; a segunda que morre hoje.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s esta leve conversa, Quaresma voltou &agrave; sua sala de estudos.<br \/>\n    Meditava grandes reformas agr&iacute;colas. Mandara buscar cat&aacute;logos<br \/>\n    e ia examin&aacute;-los. Tinha j&aacute; em mente uma charrua dupla, um capinador<br \/>\n    mec&acirc;nico, um semeador, um destocador, grades, tudo americano, de a&ccedil;o,<br \/>\n    dando o rendimento efetivo de vinte homens. At&eacute; ent&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    quisera essas inova&ccedil;&otilde;es; as terras mais ricas do mundo, n&atilde;o<br \/>\n    precisavam desses processos que lhe pareciam artificiais, para produzir; estava,<br \/>\n    por&eacute;m, agora disposto a empreg&aacute;-los como experi&ecirc;ncia.<br \/>\n    Aos adubos, no entanto, o seu esp&iacute;rito resistia. Terra virada, dizia<br \/>\n    Felizardo, terra estrumada; parecia a Quaresma uma profana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estar a empregar nitratos, fosfatos ou mesmo estrume comum, numa terra brasileira&#8230;<br \/>\n    Uma inj&uacute;ria!<\/p>\n<p>Quando se convencesse de que eram necess&aacute;rios, parecia-lhe que todo<br \/>\n    o seu sistema de id&eacute;ias ia por terra e os m&oacute;veis de sua vida<br \/>\n    desapareceriam. Estava assim a escolher arados e outros &quot;Planets&quot;,<br \/>\n    &quot;Bajacs&quot; e &quot;Brabants&quot; de v&aacute;rios feitios, quando<br \/>\n    o seu pequeno copeiro lhe anunciou a visita do doutor Campos.<\/p>\n<p>O edil entrou com a sua jovialidade, a sua mansid&atilde;o e o seu grande<br \/>\n    corpo. Era alto e gordo, pan&ccedil;udo um pouco, tinha os olhos castanhos,<br \/>\n    quase &agrave; flor do rosto, uma testa m&eacute;dia e reta; o nariz, malfeito.<br \/>\n    Um tanto trigueiro, cabelos corridos e j&aacute; grisalhos, era o que se chama<br \/>\n    por ai um caboclo, embora o seu bigode fosse crespo. N&atilde;o nascera em<br \/>\n    Curuzu, era da Bahia ou de Sergipe, habitava, por&eacute;m, o lugar h&aacute;<br \/>\n    mais de vinte anos, onde casara e prosperara, gra&ccedil;as ao dote da mulher<br \/>\n    e &agrave; sua atividade cl&iacute;nica. Com esta, n&atilde;o gastava grande<br \/>\n    energia mental: tendo de cor uma meia d&uacute;zia de receitas, ele, desde<br \/>\n    muito, conseguira enquadrar as mol&eacute;stias locais noseu reduzido formul&aacute;rio.<\/p>\n<p>Presidente da C&acirc;mara, era das pessoas mais consider&aacute;veis de<br \/>\n    Curuzu, e Quaresma o estimava particularmente pela sua familiaridade, pela<br \/>\n    sua afabilidade e simplicidade.<\/p>\n<p>&#8212; Ora viva, major! Como vai isto por a&iacute;? Muita formiga? L&aacute;<br \/>\n    em casa j&aacute; n&atilde;o h&aacute; mais.<\/p>\n<p>Quaresma respondeu com menos entusiasmo e jovialidade, mas contente com a<br \/>\n    alegria comunicativa do doutor. Ele continuava a falar com desembara&ccedil;o<br \/>\n    e naturalidade.<\/p>\n<p>&#8212; Sabe o que me traz aqui, major? N&atilde;o sabe, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    Preciso de um pequeno obs&eacute;quio seu.<\/p>\n<p>O major n&atilde;o se espantou; simpatizava com o homem e abriu-se em oferecimentos.<\/p>\n<p>&#8212; Como o major sabe&#8230;<\/p>\n<p>Agora a sua voz era doce, flex&iacute;vel, sutil; as palavras ca&iacute;am-lhe<br \/>\n    da boca adocicadas, dobravam-se, coleavam-se:<\/p>\n<p>&#8212; Como o major sabe, as elei&ccedil;&otilde;es se devem realizar por estes<br \/>\n    dias. A vit&oacute;ria &eacute; &quot;nossa&quot;. Todas as mesas est&atilde;o<br \/>\n    conosco, exceto uma&#8230; A&iacute; mesmo, se o major quiser&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, como? se eu n&atilde;o sou eleitor, n&atilde;o me meto, nem quero<br \/>\n    meter-me em pol&iacute;tica? perguntou Quaresma ingenuamente.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente por isso, disse o doutor com voz forte; e em seguida brandamente:<br \/>\n    a se&ccedil;&atilde;o funciona na sua vizinhan&ccedil;a, &eacute; ali, na<br \/>\n    escola, se&#8230; &#8212; E dai?<\/p>\n<p>&#8212; Tenho aqui uma carta do Neves, dirigida ao senhor. Se o major quer responder<br \/>\n    (&eacute; melhor j&aacute;) que n&atilde;o houve elei&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Quer?<\/p>\n<p>Quaresma olhou o doutor com firmeza, co&ccedil;ou um instante o cavanhaque<br \/>\n    e respondeu claramente, firmemente:<\/p>\n<p>&#8212; Absolutamente n&atilde;o.<\/p>\n<p>O doutor n&atilde;o se zangou. P&ocirc;s mais un&ccedil;&atilde;o e maciez<br \/>\n    na voz, aduziu argumentos: que era para o partido, o &uacute;nico que pugnava<br \/>\n    pelo levantamento da lavoura. Quaresma foi inflex&iacute;vel; disse que n&atilde;o,<br \/>\n    que lhe eram absolutamente antip&aacute;ticas tais disputas, que n&atilde;o<br \/>\n    tinha partido e mesmo que tivesse n&atilde;o iria afirmar uma coisa que ele<br \/>\n    n&atilde;o sabia ainda se era mentira ou verdade.<\/p>\n<p>Campos n&atilde;o deu mostras de aborrecimento, conversou um pouco sobre<br \/>\n    coisas banais e despediu-se com o ar am&aacute;vel, com a jovialidade mais<br \/>\n    sua que era poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Isto se passou na ter&ccedil;a-feira, naquele dia de luz fosca e irritante.<br \/>\n    &Agrave; tarde houve trovoada, choveu muito, O tempo s&oacute; levantou na<br \/>\n    quinta-feira, dia em que o major foi surpreendido com a visita de um sujeito<br \/>\n    com um uniforme velho e lament&aacute;vel, portador de um papel oficial para<br \/>\n    ele, propriet&aacute;rio do &quot;Sossego&quot;, conforme mesmo disse o tal<br \/>\n    homem fardado.<\/p>\n<p>Em virtude das posturas e leis municipais, rezava o papel, o Senhor Policarpo<br \/>\n    Quaresma, propriet&aacute;rio do s&iacute;tio &quot;Sossego&quot; era intimado,<br \/>\n    sob as penas das mesmas posturas e leis, a ro&ccedil;ar e capinar as testadas<br \/>\n    do referido s&iacute;tio que confrontavam com as vias p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>O major ficou um tempo pensando. Julgava imposs&iacute;vel uma tal intima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Seria mesmo? Brincadeira&#8230; Leu de novo o papel, viu a assinatura do doutor<br \/>\n    Campos. Era certo&#8230; Mas que absurda intima&ccedil;&atilde;o esta de capinar<br \/>\n    e limpar estradas na extens&atilde;o de mil e duzentos metros, pois seu s&iacute;tio<br \/>\n    dava de frente para um caminho e de um dos lados acompanhava outro na extens&atilde;o<br \/>\n    de oitocentos metros &#8212; era poss&iacute;vel!?<\/p>\n<p>A antiga corv&eacute;ia!&#8230; Um absurdo! Antes confiscassem-lhe o s&iacute;tio.<br \/>\n    Consultando a irm&atilde;, ela lhe aconselhou que falasse ao doutor Campos.<br \/>\n    Contou-lhe ent&atilde;o Quaresma a conversa que tivera com ele dias antes.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute;s tolo, Policarpo. Foi ele mesmo&#8230;<\/p>\n<p>A luz se lhe fez no pensamento&#8230; Aquela rede de leis, de posturas, de c&oacute;digos<br \/>\n    e de preceitos, nas m&atilde;os desses regulotes, de tais caciques, se transformava<br \/>\n    em potro, em pol&eacute;, em instrumento de supl&iacute;cios para torturar<br \/>\n    os inimigos, oprimir as popula&ccedil;&otilde;es, crestar-lhes a iniciativa<br \/>\n    e a independ&ecirc;ncia, abatendo-as e desmoralizando-as.<\/p>\n<p>Pelos seus olhos passaram num instante aquelas faces amareladas e chupadas<br \/>\n    que se encostavam nos portais das vendas pregui&ccedil;osamente; viu tamb&eacute;m<br \/>\n    aquelas crian&ccedil;as maltrapilhas e sujas, d&#8217;olhos baixos, a esmolar disfar&ccedil;adamente<br \/>\n    pelas estradas; viu aquelas terras abandonadas, improdutivas, entregues &agrave;s<br \/>\n    ervas e insetos daninhos; viu ainda o desespero de Felizardo, homem bom, ativo<br \/>\n    e trabalhador, sem &acirc;nimo de plantar um gr&atilde;o de milho em casa<br \/>\n    e bebendo todo o dinheiro que lhe passava pelas m&atilde;os &#8212; este quadro<br \/>\n    passou-lhe pelos olhos com a rapidez e o brilho sinistro do rel&acirc;mpago;<br \/>\n    e s&oacute; se apagou de todo, quando teve que ler a carta que a sua afilhada<br \/>\n    lhe mandara.<\/p>\n<p>Vinha viva e alegre. Contava pequenas hist&oacute;rias de sua vida, a viagem<br \/>\n    pr&oacute;xima do papai, &agrave; Europa, o desespero do marido no dia em<br \/>\n    que saiu sem anel, pedia not&iacute;cias do padrinho, de Dona Adelaide e,<br \/>\n    sem desrespeito, recomendava &agrave; irm&atilde; de Quaresma que tivesse<br \/>\n    muito cuidado com o manto de arminho da &quot;Duquesa&quot;.<\/p>\n<p>A &quot;Duquesa&quot; era uma grande pata branca, de penas alvas e macias<br \/>\n    ao olhar, que, pela lentid&atilde;o e majestade do andar, com o pesco&ccedil;o<br \/>\n    alto e o passo firme, merecera de Olga esse apelido nobre. O animal tinha<br \/>\n    morrido havia dias. E que morte! Uma peste que lhe levava duas d&uacute;zias<br \/>\n    de patos, levara &quot;Duquesa&quot; tamb&eacute;m. Era uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de paralisia que tomava as pernas, depois o resto do corpo. Tr&ecirc;s dias<br \/>\n    levou a agonizar. Deitada sobre o peito, com o bico colado ao ch&atilde;o,<br \/>\n    atacada pelas formigas, o animal s&oacute; dava sinal de vida por uma lenta<br \/>\n    oscila&ccedil;&atilde;o do pesco&ccedil;o em torno do bico, espantando as<br \/>\n    moscas que a importunavam na sua &uacute;ltima hora.<\/p>\n<p>Era de ver como aquela vida t&atilde;o estranha &agrave; nossa, naquele instante<br \/>\n    penetrava em n&oacute;s e sent&iacute;amos-lhe o sofrimento, a agonia e a<br \/>\n    dor.<\/p>\n<p>O galinheiro ficou como uma aldeia devastada; a peste atacou galinhas, perus,<br \/>\n    patos; ora sobre uma forma, ora sobre outra, foi ceifando, matando, at&eacute;<br \/>\n    reduzir a sua popula&ccedil;&atilde;o a menos de metade.<\/p>\n<p>E n&atilde;o havia quem soubesse curar. Numa terra, cujo governo tinha tantas<br \/>\n    escolas que produziam tantos s&aacute;bios, n&atilde;o havia um s&oacute;<br \/>\n    homem que pudesse reduzir, com as suas drogas ou receitas, aquele consider&aacute;vel<br \/>\n    preju&iacute;zo.<\/p>\n<p>Esses contratempos, essas contrariedades abateram muito o cultivador entusi&aacute;stico<br \/>\n    dos primeiros meses; entretanto n&atilde;o passara pela mente de Quaresma<br \/>\n    abandonar os seus prop&oacute;sitos. Adquiriu comp&ecirc;ndios de veterin&aacute;ria<br \/>\n    e at&eacute; j&aacute; tratava de comprar as m&aacute;quinas agr&iacute;colas<br \/>\n    descritas nos cat&aacute;logos.<\/p>\n<p>Uma tarde, por&eacute;m, estava &agrave; espera da junta de bois que encomendara<br \/>\n    para o trabalho do arado, quando lhe apareceu &agrave; porta um soldado de<br \/>\n    pol&iacute;cia com um papel oficial. Ele se lembrou da intima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    municipal. Estava disposto a resistir, n&atilde;o se incomodou muito.<\/p>\n<p>Recebeu o papel e leu. N&atilde;o vinha mais da municipalidade, mas da coletoria,<br \/>\n    cujo escriv&atilde;o, Antonino Dutra, conforme estava no papel, intimava o<br \/>\n    Senhor Policarpo Quaresma a pagar quinhentos mil-r&eacute;is de multa, por<br \/>\n    ter enviado produtos de sua lavoura sem pagamento dos respectivos impostos.<\/p>\n<p>Viu bem o que havia nisso de vingan&ccedil;a mesquinha; mas o seu pensamento<br \/>\n    voou logo para as coisas gerais, levado pelo seu patriotismo profundo.<\/p>\n<p>A quarenta quil&ocirc;metros do Rio, pagavam-se impostos para se mandar ao<br \/>\n    mercado umas batatas? Depois de Turgot, da Revolu&ccedil;&atilde;o, ainda<br \/>\n    havia alf&acirc;ndegas interiores?<\/p>\n<p>Como era poss&iacute;vel fazer prosperar a agricultura, com tantas barreiras<br \/>\n    e impostos? Se ao monop&oacute;lio dos atravessadores do Rio se juntavam as<br \/>\n    exa&ccedil;&otilde;es do Estado, como era poss&iacute;vel tirar da terra a<br \/>\n    remunera&ccedil;&atilde;o consoladora?<\/p>\n<p>E o quadro que j&aacute; lhe passara pelos olhos, quando recebeu a intima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da municipalidade, voltou-lhe de novo, mais t&eacute;trico, mais sombrio,<br \/>\n    mais l&uacute;gubres; e anteviu a &eacute;poca em que aquela gente teria de<br \/>\n    comer sapo, cobras, animais mortos, como em Fran&ccedil;a os camponeses, em<br \/>\n    tempos de grandes reis.<\/p>\n<p>Quaresma veio a recordar-se do seu tupi, do seu folk-lore, das modinhas,<br \/>\n    das suas tentativas agr&iacute;colas &#8212; tudo isso lhe pareceu insignificante,<br \/>\n    pueril, infantil.<\/p>\n<p>Era preciso trabalhos maiores, mais profundos; tornava-se necess&aacute;rio<br \/>\n    refazer a administra&ccedil;&atilde;o. Imaginava um governo forte, respeitado,<br \/>\n    inteligente, removendo todos esses &oacute;bices, esses entraves, Sully e<br \/>\n    Henrique IV, espalhando s&aacute;bias leis agr&aacute;rias, levantando o cultivador&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o sim! o celeiro surgiria e a p&aacute;tria seria feliz.<\/p>\n<p>Felizardo entregou-lhe o jornal que toda manh&atilde; mandava comprar &agrave;<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o, e lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Seu patr&atilde;o, amanh&atilde; n&atilde;o venho &quot;trabai&aacute;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Por certo; &eacute; dia feriado&#8230; A Independ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; por isso.<\/p>\n<p>&#8212; Por que ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; &quot;baruio&quot; na Corte e dizem que v&atilde;o &quot;arrecrut&aacute;&quot;.<br \/>\n    Vou pro mato&#8230; Nada!<\/p>\n<p>&#8212; Que barulho?<\/p>\n<p>&#8212; &quot;T&aacute;&quot; nas &quot;foias&quot;, sim &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>Abriu o jornal e logo deu com a not&iacute;cia de que os navios da esquadra<br \/>\n    se haviam insurgido e intimado ao presidente a sair do poder. Lembrou-se das<br \/>\n    suas reflex&otilde;es de instantes atr&aacute;s; um governo forte, at&eacute;<br \/>\n    &agrave; tirania&#8230; Medidas agr&aacute;rias&#8230; Sully e Henrique IV&#8230;<\/p>\n<p>Os seus olhos brilhavam de esperan&ccedil;a. Despediu o empregado. Foi ao<br \/>\n    interior da casa, nada disse &agrave; irm&atilde;, tomou o chap&eacute;u,<br \/>\n    e dirigiu-se &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Chegou ao tel&eacute;grafo e escreveu:<\/p>\n<p>&quot;Marechal Floriano, Rio. Pe&ccedil;o energia. Sigo j&aacute;. &#8212; Quaresma&quot;.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\"> V &#8211; O TROVADOR<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Decerto, Albernaz, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel continuar assim&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o mete-se um sujeito num navio, assesta os canh&otilde;es pra terra<br \/>\n    e diz: sai da&iacute; &quot;seu&quot; presidente; e o homem vai saindo?&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o! &Eacute; preciso um exemplo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu penso tamb&eacute;m da mesma maneira, Caldas. A Rep&uacute;blica precisa<br \/>\n    ficar forte, consolidada&#8230; Esta terra necessita de governo que se fa&ccedil;a<br \/>\n    respeitar&#8230; &Eacute; incr&iacute;vel! Um pa&iacute;s como este, t&atilde;o<br \/>\n    rico, talvez o mais rico do mundo, &eacute;, no entanto, pobre, deve a todo<br \/>\n    mundo&#8230; Por qu&ecirc;? Por causa dos governos que temos tido que n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m prest&iacute;gio, for&ccedil;a&#8230; &Eacute; por isso. <\/p>\n<p>Vinham andando, &agrave; sombra das grandes e majestosas &aacute;rvores do<br \/>\n    parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois de um curto<br \/>\n    intervalo, continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; viu o imperador, o Pedro II&#8230; N&atilde;o havia jornaleco,<br \/>\n    pasquim por a&iacute;, que o n&atilde;o chamasse de &quot;banana&quot; e outras<br \/>\n    coisas&#8230; Saia no carnaval&#8230; Um desrespeito sem nome! Que aconteceu? Foi-se<br \/>\n    como um intruso. <\/p>\n<p>&#8212; E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu pa&iacute;s&#8230; Deodoro<br \/>\n    nunca soube o que fez.<\/p>\n<p>Continuavam a andar. O almirante co&ccedil;ou um dos favoritos e Albernaz<br \/>\n    olhou um instante para todos os lados, acendeu o cigarro de palha e retomou<br \/>\n    a conversa:<\/p>\n<p>&#8212; Morreu arrependido&#8230; Nem com a farda quis ir para a cova!&#8230; Aqui para<br \/>\n    n&oacute;s que ningu&eacute;m nos ouve: foi um ingrato; o imperador tinha<br \/>\n    feito tanto por toda a fam&iacute;lia, n&atilde;o acha?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida nenhuma!&#8230; Albernaz, voc&ecirc; quer<br \/>\n    saber de uma coisa: est&aacute;vamos melhor naquele tempo, digam l&aacute;<br \/>\n    o que disserem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quem diz o contr&aacute;rio? Havia mais moralidade&#8230; Onde est&aacute;<br \/>\n    um Caxias? um Rio Branco?<\/p>\n<p>&#8212; E mais justi&ccedil;a mesmo, disse com firmeza o almirante. O que eu sofri,<br \/>\n    n&atilde;o foi por causa do &quot;velho&quot;, foi a canalha&#8230; Demais, tudo<br \/>\n    barato&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o sei, disse Albernaz com particular acento, como h&aacute;<br \/>\n    ainda quem se case&#8230; Anda tudo pela hora da morte!<\/p>\n<p>Eles olharam um instante as velhas &aacute;rvores da Quinta Imperial, por<br \/>\n    onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e agora parecialhes<br \/>\n    que jamais tinham pousado os olhos sobre &aacute;rvores t&atilde;o soberbas,<br \/>\n    t&atilde;o belas, t&atilde;o tranq&uuml;ilas e seguras de si, como aquelas<br \/>\n    que espalhavam sob os seus grandes ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia.<br \/>\n    Pareciam que medravam sentindo-se em terra pr&oacute;pria, delas, da qual<br \/>\n    nunca sairiam desalojadas a machado, para edifica&ccedil;&atilde;o de casebres;<br \/>\n    e esse sentimento lhes havia dado muita for&ccedil;a de vegetar e uma ampla<br \/>\n    vontade de se expandirem. O solo sobre o qual cresciam, era delas e agradeciam<br \/>\n    &agrave; terra estendendo muito os seus ramos, cerrando e tecendo a folhagem,<br \/>\n    para dar &agrave; boa m&atilde;e, frescura e prote&ccedil;&atilde;o contra<br \/>\n    a inclem&ecirc;ncia do sol.<\/p>\n<p>As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas, quase<br \/>\n    beijavam o ch&atilde;o. As jaqueiras se espregui&ccedil;avam; os bambus se<br \/>\n    inclinavam, de um lado e outro da al&eacute;ia, e cobriam a terra com uma<br \/>\n    ogiva verde&#8230;<\/p>\n<p>O velho edif&iacute;cio imperial se erguia sobre a pequena colina, Eles lhe<br \/>\n    viam o fundo, aquela parte de constru&ccedil;&atilde;o mais antiga, joanina,<br \/>\n    com a torre do rel&oacute;gio um pouco afastada e separada do corpo do edif&iacute;cio.<\/p>\n<p>N&atilde;o era belo o pal&aacute;cio, n&atilde;o tinha mesmo nenhum tra&ccedil;o<br \/>\n    de beleza, era at&eacute; pobre e mon&oacute;tono. As janelas acanhadas daquela<br \/>\n    fachada velha, os andares de pequena altura impressionavam mal; todo ele,<br \/>\n    por&eacute;m, tinha uma tal ou qual seguran&ccedil;a de si, um ar de confian&ccedil;a<br \/>\n    pouco comum nas nossas habita&ccedil;&otilde;es, uma certa dignidade, alguma<br \/>\n    coisa de quem se sente viver, n&atilde;o para um instante, mas para anos,<br \/>\n    para s&eacute;culos&#8230; As palmeiras cercavam-no, eretas, firmes, com os seus<br \/>\n    grandes penachos verdes, muito altos, alongados para o c&eacute;u&#8230;<\/p>\n<p>Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa do seu<br \/>\n    mister e fun&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Albernaz interrompeu o sil&ecirc;ncio:<\/p>\n<p>&#8212; Em que dar&aacute; isto tudo, Caldas?<\/p>\n<p>&#8212; Sei l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; O &quot;homem&quot; deve estar atrapalhado&#8230; J&aacute; tinha o Rio Grande,<br \/>\n    agora o Cust&oacute;dio&#8230; hum!<\/p>\n<p>&#8212; O poder &eacute; o poder, Albernaz.<\/p>\n<p>Vinham andando em demanda &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o.<br \/>\n    Atravessaram o velho parque imperial transversalmente, desde o port&atilde;o<br \/>\n    da Cancela at&eacute; &agrave; linha da estrada de ferro. Era de manh&atilde;,<br \/>\n    e o dia estava l&iacute;mpido e fresco.<\/p>\n<p>Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes de sa&iacute;rem<br \/>\n    da quinta, deram com um soldado a dormir numa moita. Albernaz teve vontade<br \/>\n    de acord&aacute;-lo: camarada! camarada! O soldado levantou-se estremunhado;<br \/>\n    e, dando com aqueles dois oficiais superiores, concertou-se rapidamente, fez<br \/>\n    a contin&ecirc;ncia que lhes era devida e ficou com a m&atilde;o no bon&eacute;,<br \/>\n    um instante firme, mas logo bambeou.<\/p>\n<p>&#8212; Abaixe a m&atilde;o, fez o general. Que faz voc&ecirc; aqui?<\/p>\n<p>Albernaz falou em tom r&iacute;spido e de comando. A pra&ccedil;a, falando<br \/>\n    a medo, explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda a noite. A for&ccedil;a<br \/>\n    se recolhera aos quart&eacute;is; ele obtivera licen&ccedil;a para ir em casa<br \/>\n    mas o sono fora muito e descansava ali um pouco.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o como v&atilde;o as coisas? perguntou o general.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, n&atilde;o &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Os &quot;homens&quot; desistem ou n&atilde;o?<\/p>\n<p>O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e tinha os<br \/>\n    cabelos alourados, de um louro sujo e degradado; as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eram feias: malares salientes, testa &oacute;ssea e todo ele anguloso e desconjuntado.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Donde voc&ecirc; &eacute;? perguntou-lhe ainda Albernaz.<\/p>\n<p>&#8212; Do Piau&iacute;, sim &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Da capital?<\/p>\n<p>&#8212; Do sert&atilde;o, de Paranagu&aacute;, sim &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>O almirante at&eacute; ali n&atilde;o interrogara o soldado que continuava<br \/>\n    amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalm&aacute;-lo, resolveu<br \/>\n    falar-lhe com do&ccedil;ura.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o sabe, camarada, quais s&atilde;o os navios que &quot;eles&quot;<br \/>\n    t&ecirc;m?<\/p>\n<p>&#8212; O &quot;Aquidab&atilde;&quot;&#8230; A &quot;Luci&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; A &quot;Luci&quot; n&atilde;o &eacute; navio.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, sim &quot;sinh&ocirc;&quot;. O &quot;Aquidab&atilde;&quot;&#8230;<br \/>\n    Um &quot;band&atilde;o&quot; deles, sim, &quot;sinh&ocirc;&quot;.<\/p>\n<p>O general interveio ent&atilde;o, Falou-lhe com brandura, quase paternal,<br \/>\n    mudando o tratamento de voc&ecirc; para tu, que parece mais doce e &iacute;ntimo<br \/>\n    quando se fala aos inferiores:<\/p>\n<p>&#8212; Bem, descansa, meu filho. &Eacute; melhor ires para casa&#8230; Podem furtar-te<br \/>\n    o sabre e est&aacute;s na &quot;in&aacute;cia&quot;.<\/p>\n<p>Os dois generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam na plataforma<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o. A pequena esta&ccedil;&atilde;o tinha um razo&aacute;vel<br \/>\n    movimento. Um grande n&uacute;mero de oficiais, ativos, reformados, honor&aacute;rios<br \/>\n    moravamlhe nas cercanias e os editais chamavam todos a se apresentar &agrave;s<br \/>\n    autoridades competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio<br \/>\n    de contin&ecirc;ncias. O general era mais conhecido, em virtude de seu emprego;<br \/>\n    o almirante, n&atilde;o. Quando passavam, ouviam perguntar: &quot;Quem &eacute;<br \/>\n    este almirante?&quot; Caldas ficava contente e orgulhava-se um pouco do seu<br \/>\n    posto e do seu inc&oacute;gnito.<\/p>\n<p>Havia uma &uacute;nica mulher na esta&ccedil;&atilde;o, uma mo&ccedil;a.<br \/>\n    Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ism&ecirc;nia&#8230; Coitada!&#8230;<br \/>\n    Ficaria boa?<\/p>\n<p>Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as l&aacute;grimas, mas ele as<br \/>\n    reteve com for&ccedil;a.<\/p>\n<p>J&aacute; a levara a uma meia d&uacute;zia de m&eacute;dicos e nenhum fazia<br \/>\n    parar aquele escapamento do ju&iacute;zo que parecia fugir aos poucos do c&eacute;rebro<br \/>\n    da mo&ccedil;a. <\/p>\n<p>A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estr&eacute;pido, apitando<br \/>\n    com f&uacute;ria e deixando fuma&ccedil;a pesada pelos ares que rompia, afastou-o<br \/>\n    de pensar na filha. Passou o monstro, pejado de soldados, de uniformes e os<br \/>\n    trilhos, depois de ter passado, ainda estremeciam.<\/p>\n<p>Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem, para apresentar-se.<br \/>\n    Trazia o seu velho uniforme do Paraguai, talhado segundo os moldes dos guerreiros<br \/>\n    da Crim&eacute;ia. A barretina era um tronco de cone que avan&ccedil;ava para<br \/>\n    a frente; e, com aquela banda roxa e casaquinha curta, parecia ter sa&iacute;do,<br \/>\n    fugido, saltado de uma tela de V&iacute;tor Meireles&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o por aqui?&#8230; Que &eacute; isto? indagou o honor&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; Viemos pela quinta, disse o almirante.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    me importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por ai, &agrave;<br \/>\n    toa, sem saber como, n&atilde;o vai comigo&#8230;<\/p>\n<p>O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam pr&oacute;ximo,<br \/>\n    olharam-no com mal disfar&ccedil;ada censura. Albernaz percebeu e ajuntou<br \/>\n    imediatamente:<\/p>\n<p>&#8212; Conhe&ccedil;o bem esse neg&oacute;cio de balas&#8230; J&aacute; vi muito<br \/>\n    fogo&#8230; Voc&ecirc; sabe, Bustamante, que, em Curuzu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A coisa foi terr&iacute;vel, acrescentou Bustamante.<\/p>\n<p>O trem atracava na esta&ccedil;&atilde;o. Veio chegando manso, vagaroso;<br \/>\n    a locomotiva, muito negra, bufando, suando gordurosamente, com a sua grande<br \/>\n    lanterna na frente, um olho de ciclope, avan&ccedil;ava que nem uma apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobrenatural. Foi chegando; o comboio estremeceu todo e parou por fim.<\/p>\n<p>Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio devia<br \/>\n    ter uma guarni&ccedil;&atilde;o de cem mil homens. Os militares palravam alegres,<br \/>\n    e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo apavorados. Se falavam, era<br \/>\n    cochichando, olhando com precau&ccedil;&atilde;o para os bancos de tr&aacute;s.<\/p>\n<p>A cidade andava in&ccedil;ada de secretas, &quot;familiares&quot; do Santo<br \/>\n    Of&iacute;cio Republicano, e as dela&ccedil;&otilde;es eram moedas com que<br \/>\n    se obtinham postos e recompensas.<\/p>\n<p>Bastava a m&iacute;nima critica, para se perder o emprego, a liberdade, &#8212;<br \/>\n    quem sabe? &#8212; a vida tamb&eacute;m. Ainda est&aacute;vamos no come&ccedil;o<br \/>\n    da revolta, mas o regime j&aacute; publicara o seu pr&oacute;logo e todos<br \/>\n    estavam avisados. O chefe de pol&iacute;cia organizara a lista dos suspeitos.<br \/>\n    N&atilde;o havia distin&ccedil;&atilde;o de posi&ccedil;&atilde;o e talentos.<br \/>\n    Mereciam as mesmas persegui&ccedil;&otilde;es do governo um pobre cont&iacute;nuo<br \/>\n    e um influente senador; um lente e um simples empregado de escrit&oacute;rio.<br \/>\n    Demais surgiam as vingan&ccedil;as mesquinhas, o revide de pequenas implic&acirc;ncias&#8230;<br \/>\n    Todos mandavam; a autoridade estava em todas as m&atilde;os.<\/p>\n<p>Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidad&atilde;o,<br \/>\n    sem fun&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica alguma, prendia e ai de quem ca&iacute;a<br \/>\n    na pris&atilde;o, l&aacute; ficava esquecido, sofrendo angustiosos supl&iacute;cios<br \/>\n    de uma imagina&ccedil;&atilde;o dominicana. Os funcion&aacute;rios disputavam-se<br \/>\n    em bajula&ccedil;&atilde;o, em servilismo&#8230; Era um terror, um terror ba&ccedil;o,<br \/>\n    sem coragem, sangrento, &agrave;s ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem<br \/>\n    raz&atilde;o e sem responsabilidades&#8230; Houve execu&ccedil;&otilde;es; mas<br \/>\n    n&atilde;o houve nunca um Fouquier-Tinville.<\/p>\n<p>Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes, os<br \/>\n    tenentes e os capit&atilde;es. Para a maioria a satisfa&ccedil;&atilde;o vinha<br \/>\n    da convic&ccedil;&atilde;o de que iam estender a sua autoridade sobre o pelot&atilde;o<br \/>\n    e a companhia, a todo esse rebanho de civis; mas, em outros muitos havia sentimento<br \/>\n    mais puro, desinteresse e sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hip&oacute;crita<br \/>\n    positivismo, um pedantismo tir&acirc;nico, limitado e estreito, que justificava<br \/>\n    todas as viol&ecirc;ncias, todos os assass&iacute;nios, todas as ferocidades<br \/>\n    em nome da manuten&ccedil;&atilde;o da ordem, condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria,<br \/>\n    l&aacute; diz ele, ao progresso e tamb&eacute;m ao advento do regime normal,<br \/>\n    a religi&atilde;o da humanidade, a adora&ccedil;&atilde;o do gr&atilde;o-fetiche,<br \/>\n    com fanhosas m&uacute;sicas de cornetins e versos detest&aacute;veis, o para&iacute;so<br \/>\n    enfim, com inscri&ccedil;&otilde;es em escritura fon&eacute;tica e eleitos<br \/>\n    cal&ccedil;ados com sapatos de sola de borracha!&#8230;<\/p>\n<p>Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mec&acirc;nica para justificar<br \/>\n    as suas id&eacute;ias de governo, em tudo semelhantes aos canatos e emirados<br \/>\n    orientais.<\/p>\n<p>A matem&aacute;tica do positivismo foi sempre um puro falat&oacute;rio que,<br \/>\n    naqueles tempos, amedrontava toda gente. Havia mesmo quem estivesse convencido<br \/>\n    que a matem&aacute;tica tinha sido feita e criada para o positivismo, como<br \/>\n    se a B&iacute;blia tivesse sido criada unicamente para a Igreja Cat&oacute;lica<br \/>\n    e n&atilde;o tamb&eacute;m para a Anglicana. O prest&iacute;gio dele era,<br \/>\n    portanto, enorme.<\/p>\n<p>O trem correu, parou inda em uma esta&ccedil;&atilde;o e foi ter &agrave;<br \/>\n    Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica. O almirante, cosido com as paredes, seguiu<br \/>\n    para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante entraram no Quartel-General.<br \/>\n    Penetraram no grande casar&atilde;o, no meio do retinir de espadas, de toques<br \/>\n    de cornetas; o grande p&aacute;tio estava cheio de soldados, bandeiras, canh&otilde;es,<br \/>\n    feixes de armas ensarilhadas, baionetas reluzindo ao sol obl&iacute;quo&#8230;<\/p>\n<p>No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaiv&eacute;m<br \/>\n    de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de v&aacute;rias corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e mil&iacute;cias, no meio dos quais os trajes escuros dos civis eram importunos<br \/>\n    como moscas. Misturavam-se oficiais da guarda nacional, da pol&iacute;cia,<br \/>\n    da armada, do ex&eacute;rcito, de bombeiros e de batalh&otilde;es patri&oacute;ticos<br \/>\n    que come&ccedil;avam a surgir.<\/p>\n<p>Apresentaram-se e, depois de t&ecirc;-lo feito ao ajudante general e ministro<br \/>\n    da Guerra, a um s&oacute; tempo, ficaram a conversar nos corredores, com bastante<br \/>\n    prazer, pois que tinham encontrado o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.<\/p>\n<p>O general porque j&aacute; era noivo de sua filha Lal&aacute;, e Bustamante<br \/>\n    porque aprendia com ele alguma coisa de nomenclatura dos armamentos modernos.<\/p>\n<p>Fontes estava indignado, todo ele era horror, maldi&ccedil;&atilde;o contra<br \/>\n    os insurretos, e propunha os piores castigos.<\/p>\n<p>&#8212; H&atilde;o de ver o resultado&#8230; Piratas! Bandidos! Eu, no caso do marechal,<br \/>\n    se os pegasse&#8230; ai deles!<\/p>\n<p>O tenente n&atilde;o era feroz nem mau, antes bom e at&eacute; generoso,<br \/>\n    mas era positivista e tinha da sua Rep&uacute;blica uma id&eacute;ia religiosa<br \/>\n    e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade humana e n&atilde;o<br \/>\n    admitia que a quisessem de outra forma que n&atilde;o aquela que imaginava<br \/>\n    boa. Fora da&iacute; n&atilde;o havia boa-f&eacute;, sinceridade; eram her&eacute;ticos<br \/>\n    interesseiros, e, dominicano do seu barrete fr&iacute;gio, raivoso por n&atilde;o<br \/>\n    poder queim&aacute;-los em autos-de-f&eacute;, congesto, via passar por seus<br \/>\n    olhos uma s&eacute;rie enorme de r&eacute;us confitentes, relapsos, contumazes,<br \/>\n    falsos, simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p>Albernaz n&atilde;o tinha tanta f&uacute;ria contra os advers&aacute;rios,<br \/>\n    No fundo d&#8217;alma, ele os queria at&eacute;, tinha amigos l&aacute;, e essas<br \/>\n    diverg&ecirc;ncias nada significavam para a sua idade e experi&ecirc;ncia,<\/p>\n<p>Depositava, entretanto, uma certa esperan&ccedil;a na a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do marechal. Estando em apuros financeiros, n&atilde;o lhe dando o bastante<br \/>\n    a sua reforma e a gratifica&ccedil;&atilde;o de organizador do arquivo do<br \/>\n    Largo do Moura, esperava obter uma outra comiss&atilde;o, que lhe permitisse<br \/>\n    mais folgadamente adquirir o enxoval de Lal&aacute;.<\/p>\n<p>O almirante, tamb&eacute;m, tinha grande confian&ccedil;a nos talentos guerreiros<br \/>\n    e de estadista de Floriano. A sua causa n&atilde;o ia l&aacute; muito bem.<br \/>\n    Perdera-a em primeira inst&acirc;ncia, estava gastando muito dinheiro&#8230; O<br \/>\n    governo precisava de oficiais de Marinha, quase todos estavam na revolta;<br \/>\n    talvez lhe dessem uma esquadra a comandar&#8230; &Eacute; verdade que&#8230; Mas,<br \/>\n    que diabo! Se fosse um navio, ent&atilde;o sim: mas uma esquadra a coisa n&atilde;o<br \/>\n    era dif&iacute;cil: bastava coragem para combater.<\/p>\n<p>Bustamante cria com for&ccedil;a na capacidade do General Peixoto, tanto<br \/>\n    assim que, para apoi&aacute;-lo e defender o seu governo, imaginava organizar<br \/>\n    um batalh&atilde;o patri&oacute;tico, de que j&aacute; tinha o nome &quot;Cruzeiro<br \/>\n    do Sul&quot; e naturalmente seria o seu comandante, com todas as vantagens<br \/>\n    do posto de coronel.<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio, cuja atividade nada tinha de guerreira, esperava muito<br \/>\n    da energia e da decis&atilde;o do governo de Floriano: esperava ser subdiretor<br \/>\n    e n&atilde;o podia um governo s&eacute;rio, honesto e en&eacute;rgico, fazer<br \/>\n    outra coisa, desde que quisesse p&ocirc;r ordem na sua se&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Essas secretas esperan&ccedil;as eram mais gerais do que se pode supor. N&oacute;s<br \/>\n    vivemos do governo e a revolta representava uma confus&atilde;o nos empregos,<br \/>\n    nas honrarias e nas posi&ccedil;&otilde;es que o Estado espalha. Os suspeitos<br \/>\n    abririam vagas e as dedica&ccedil;&otilde;es supririam os t&iacute;tulos e<br \/>\n    habilita&ccedil;&otilde;es para ocup&aacute;las; al&eacute;m disso, o governo,<br \/>\n    precisando de simpatias e homens, tinha que nomear, espalhar, prodigalizar,<br \/>\n    inventar, criar e distribuir empregos, ordenados, promo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e gratifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio doutor Armando Borges, o marido de Olga e s&aacute;bio sereno<br \/>\n    e dedicado quando estudante, colocava na revolta a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de risonhos anelos.<\/p>\n<p>M&eacute;dico e rico, pela fortuna da mulher, ele n&atilde;o andava satisfeito.<br \/>\n    A ambi&ccedil;&atilde;o de dinheiro e o desejo de nomeada esporeavam-no. J&aacute;<br \/>\n    era m&eacute;dico do Hospital S&iacute;rio, onde ia tr&ecirc;s vezes por semana<br \/>\n    e, em meia hora, via trinta e mais doentes. Chegava, o enfermeiro dava-lhe<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es, o doutor ia, de cama em cama, perguntando: &quot;Como<br \/>\n    vai?&quot; &quot;Vou melhor, seu doutor&quot;, respondia o s&iacute;rio com<br \/>\n    voz gutural. Na seguinte, indagava: &quot;J&aacute; est&aacute; melhor?&quot;<br \/>\n    E assim passava a visita; chegando ao gabinete, receitava: &quot;Doente n.<br \/>\n    I, repita a receita; doente 5&#8230; quem &eacute;?&quot;&#8230; &quot;&Eacute; aquele<br \/>\n    barbado&quot;&#8230; &quot;Ahn!&quot; E receitava.<\/p>\n<p>Mas m&eacute;dico de um hospital particular n&atilde;o d&aacute; fama a ningu&eacute;m:<br \/>\n    o indispens&aacute;vel &eacute; ser do governo, sen&atilde;o ele n&atilde;o<br \/>\n    passava de um simples pr&aacute;tico. Queria ter um cargo oficial, m&eacute;dico,<br \/>\n    diretor ou mesmo lente da faculdade.<\/p>\n<p>E isso n&atilde;o era dif&iacute;cil, desde que arranjasse boas recomenda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pois j&aacute; tinha certo nome, gra&ccedil;as &agrave; sua atividade e fertilidade<br \/>\n    de recursos.<\/p>\n<p>De quando em quando, publicava um folheto O Cobreiro, Etiologia, Profilaxia<br \/>\n    e Tratamento ou Contribui&ccedil;&atilde;o para o Estudo da Sarna no Brasil;<br \/>\n    e mandava o folheto, quarenta e sessenta p&aacute;ginas, aos jornais que se<br \/>\n    ocupavam dele duas ou tr&ecirc;s vezes por ano; o &quot;operoso doutor Armando<br \/>\n    Borges, o ilustre cl&iacute;nico, o proficiente m&eacute;dico dos nossos hospitais&quot;,<br \/>\n    etc., etc.<\/p>\n<p>Obtinha isso gra&ccedil;as &agrave; precau&ccedil;&atilde;o que tomara em<br \/>\n    estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.<\/p>\n<p>N&atilde;o contente com isso escrevia artigos, estiradas compila&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em que n&atilde;o havia nada de pr&oacute;prio, mas ricos de cita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s e alem&atilde;o.<\/p>\n<p>O lugar de lente &eacute; que o tentava mais; o concurso por&eacute;m, metia-lhe<br \/>\n    medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado na congrega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas aquela hist&oacute;ria de arg&uuml;i&ccedil;&atilde;o apavorava-o.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia dia em que n&atilde;o comprasse livros, em franc&ecirc;s,<br \/>\n    ingl&ecirc;s e italiano, tomara at&eacute; um professor de alem&atilde;o,<br \/>\n    para entrar na ci&ecirc;ncia germ&acirc;nica; mas faltava-lhe energia para<br \/>\n    o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se a pequena<br \/>\n    que tivera quando estudante.<\/p>\n<p>A sala da frente do alto por&atilde;o tinha sido transformada em biblioteca.<br \/>\n    As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao peso dos grandes tratados.<br \/>\n    &Agrave; noite, ele abria as janelas das venezianas, acendia todos os bicos-de-g&aacute;s<br \/>\n    e se punha &agrave; mesa, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.<\/p>\n<p>O sono n&atilde;o tardava a vir ao fim da quinta p&aacute;gina&#8230; Isso era<br \/>\n    o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances franceses, Goncourt,<br \/>\n    Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam dormir da mesma maneira que<br \/>\n    os tratados. Ele n&atilde;o compreendia a grandeza daquelas an&aacute;lises,<br \/>\n    daquelas descri&ccedil;&otilde;es, o interesse e o valor delas, revelando<br \/>\n    a todos, &agrave; sociedade, a vida, os sentimentos, as dores daqueles personagens,<br \/>\n    um mundo! O seu pedantismo, a sua falsa ci&ecirc;ncia e a pobreza de sua instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral faziam-no ver, naquilo tudo, brinquedos, passatempos, falat&oacute;rios,<br \/>\n    tanto mais que ele dormia &agrave; leitura de tais livros.<\/p>\n<p>Precisava, por&eacute;m, iludir-se, a si mesmo e &agrave; mulher, De resto,<br \/>\n    da rua, viam-no e se dessem com ele a dormir sobre os livros?!&#8230; Tratou de<br \/>\n    encomendar algumas novelas de Paulo de Kock em lombadas com t&iacute;tulos<br \/>\n    trocados e afastou o sono.<\/p>\n<p>A sua cl&iacute;nica, entretanto, prosperava. De comandita com o tutor, chegou<br \/>\n    a ganhar uns seis contos, tratando de um febr&atilde;o de uma &oacute;rf&atilde;<br \/>\n    rica.<\/p>\n<p>Desde muito que a mulher lhe entrara na sua simula&ccedil;&atilde;o de intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas aquela manobra indecorosa, indignou-a. Que necessidade tinha ele disso?<br \/>\n    N&atilde;o era j&aacute; rico? N&atilde;o era mo&ccedil;o? N&atilde;o tinha<br \/>\n    o privil&eacute;gio de um t&iacute;tulo universit&aacute;rio? Tal ato pareceu<br \/>\n    &agrave; mo&ccedil;a mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o<br \/>\n    aluguel de uma pena&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o foi desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento<br \/>\n    mais calmo, menos ativo; desinteressou-se dele, destacou-se de sua pessoa.<br \/>\n    Ela sentiu que tinham cortado todos os la&ccedil;os de afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de simpatia, que prendiam ambos, toda a liga&ccedil;&atilde;o moral, enfim.<\/p>\n<p>Mesmo quando noiva, verificara que aquelas coisas de amor ao estudo, de interesse<br \/>\n    pela ci&ecirc;ncia, de ambi&ccedil;&otilde;es de descobertas, nele, eram superficiais,<br \/>\n    estavam &agrave; flor da pele; mas desculpou. Muitas vezes n&oacute;s nos<br \/>\n    enganamos sobre as nossas pr&oacute;prias for&ccedil;as e capacidades; sonhamos<br \/>\n    ser Shakespeare e sa&iacute;mos Mal das Vinhas, Era perdo&aacute;vel, mas<br \/>\n    charlat&atilde;o? Era demais!<\/p>\n<p>Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?&#8230;<br \/>\n    Todos os homens deviam ser iguais; era in&uacute;til mudar deste para aquele&#8230;<\/p>\n<p>Quando chegou a esta conclus&atilde;o, sentiu um grande al&iacute;vio, e<br \/>\n    a sua fisionomia se iluminou de novo como se j&aacute; estivesse de todo passada<br \/>\n    a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.<\/p>\n<p>Naquela carreira atropelada para o nome f&aacute;cil, ele n&atilde;o deu<br \/>\n    pelas modifica&ccedil;&otilde;es da mulher. Ela dissimulava os seus sentimentos,<br \/>\n    mais por dignidade e delicadeza, que mesmo por qualquer outro motivo; e a<br \/>\n    ele faltavam a sagacidade e finura necess&aacute;rias para descobri-los sob<br \/>\n    o seu esconderijo.<\/p>\n<p>Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe um do<br \/>\n    outro! &#8230;<\/p>\n<p>A revolta veio encontr&aacute;-los assim; e o doutor, desde tr&ecirc;s dias,<br \/>\n    pois h&aacute; tanto ela rebentara, meditava a sua ascens&atilde;o social<br \/>\n    e monet&aacute;ria.<\/p>\n<p>O sogro suspendera a viagem &agrave; Europa, e, naquela manh&atilde;, ap&oacute;s<br \/>\n    o almo&ccedil;o, conforme o seu h&aacute;bito, lia recostado numa cadeira<br \/>\n    de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a filha ocupava-se com sua<br \/>\n    correspond&ecirc;ncia, escrevendo &agrave; cabeceira da mesa de jantar. Ela<br \/>\n    tinha um gabinete, com todo o luxo, livros, secret&aacute;ria, estantes, mas<br \/>\n    gostava pela manh&atilde;, de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia<br \/>\n    mais clara, a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade<br \/>\n    ao pensamento e a vastid&atilde;o da sala mais liberdade no escrever.<\/p>\n<p>Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse:<\/p>\n<p>&#8212; Sabes quem vem ai, minha filha?<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Teu padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha&#8230; Est&aacute;<br \/>\n    aqui, n&#8217;O Pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir do fato sobre<br \/>\n    as id&eacute;ias e sentimentos de Quaresma. Quis desaprovar, censurar; sentiu-o,<br \/>\n    por&eacute;m, t&atilde;o coerente com ele mesmo, t&atilde;o de acordo com<br \/>\n    a subst&acirc;ncia da vida que ele mesmo fabricara, que se limitou a sorrir<br \/>\n    complacente:<\/p>\n<p>&#8212; O padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; doido, disse Coleoni. Per la madonna! Pois um homem que est&aacute;<br \/>\n    quieto, sossegado, vem meter-se nesta barafunda, neste inferno&#8230;<\/p>\n<p>O doutor voltara j&aacute; inteiramente vestido, com a sobrecasaca f&uacute;nebre<br \/>\n    e a cartola reluzente na m&atilde;o. Vinha irradiante e o seu rosto redondo<br \/>\n    reluzia, exceto onde o grande bigode punha sombras. Ainda ouviu as &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras do sogro, pronunciadas com aquele seu portugu&ecirc;s rouco:<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute;? perguntou ele.<\/p>\n<p>Coleoni explicou e repetiu os coment&aacute;rios que j&aacute; fizera:<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o h&aacute; tal, disse o doutor. &Eacute; o dever de todo<br \/>\n    patriota&#8230; Que tem a idade? Quarenta e poucos anos, n&atilde;o &eacute; l&aacute;<br \/>\n    velho&#8230; Pode ainda bater-se pela Rep&uacute;blica&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o tem interesse nisso, objetou o velho.<\/p>\n<p>&#8212; E h&aacute; de ser s&oacute; quem tem interesse que se deve bater pela<br \/>\n    Rep&uacute;blica? interrogou o doutor.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a que acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo sem levantar<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Decerto.<\/p>\n<p>&#8212; E vem voc&ecirc; com as suas teorias, filhinha. O patriotismo n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; na barriga&#8230;<\/p>\n<p>E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes posti&ccedil;os<br \/>\n    mais falsificava.<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc&ecirc;s s&oacute; falam em patriotismo? E os outros? &Eacute;<br \/>\n    monop&oacute;lio de voc&ecirc;s o patriotismo? fez Olga.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto. Se eles fossem patriotas n&atilde;o estariam a despejar balas<br \/>\n    para a cidade, a entorpecer, a desmoralizar a a&ccedil;&atilde;o da autoridade<br \/>\n    constitu&iacute;da.<\/p>\n<p>&#8212; Deviam continuar a presenciar as pris&otilde;es, as deporta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os fuzilamentos, toda a s&eacute;rie de viol&ecirc;ncias que se v&ecirc;m<br \/>\n    cometendo, aqui e no Sul?<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;, no fundo, &eacute; uma revoltosa, disse o doutor, fechando<br \/>\n    a discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inteira era pelos insurgentes. N&atilde;o s&oacute; isso sempre acontece em<br \/>\n    toda parte, como particularmente, no Brasil, devido a m&uacute;ltiplos fatores,<br \/>\n    h&aacute; de ser assim normalmente.<\/p>\n<p>Os governos, com os seus inevit&aacute;veis processos de viol&ecirc;ncia<br \/>\n    e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais,<br \/>\n    esquecidos de sua vital impot&ecirc;ncia e inutilidade, levam a prometer o<br \/>\n    que n&atilde;o podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre<br \/>\n    mudan&ccedil;as e mudan&ccedil;as.<\/p>\n<p>N&atilde;o era, pois, de admirar que a mo&ccedil;a tendesse para os revoltosos;<br \/>\n    e Coleoni, estrangeiro e conhecendo, gra&ccedil;as &agrave; sua vida, as nossas<br \/>\n    autoridades, calasse as suas simpatias num mutismo prudente.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me v&aacute; comprometer, hein Olga?<\/p>\n<p>Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco, deitou-lhe<br \/>\n    o seu grande olhar luminoso, e com os finos l&aacute;bios um pouco franzidos:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; sabe bem que eu n&atilde;o te comprometo.<\/p>\n<p>O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda do port&atilde;o<br \/>\n    disse adeus &agrave; mulher, que lhe seguia a sa&iacute;da, debru&ccedil;ada<br \/>\n    na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.<\/p>\n<p>Por esse tempo, Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros sonhava desligado das conting&ecirc;ncias<br \/>\n    terrenas.<\/p>\n<p>Ricardo vivia ainda na sua casa de c&ocirc;modos dos sub&uacute;rbios, cuja<br \/>\n    vista ia de Todos os Santos &agrave; Piedade, abrangendo um grande trato de<br \/>\n    &aacute;rea edificada, um panorama de casas e &aacute;rvores.<\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o se falava mais no seu rival e a sua m&aacute;goa tinha<br \/>\n    assentado. <\/p>\n<p>Por esses dias o seu triunfo desfilava sem contesta&ccedil;&atilde;o. Toda<br \/>\n    a cidade o tinha na considera&ccedil;&atilde;o devida e ele quase se julgava<br \/>\n    ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento de Botafogo, mas estava certo<br \/>\n    de obter. <\/p>\n<p>J&aacute; publicara mais de um volume de can&ccedil;&otilde;es; e agora pensava<br \/>\n    em publicar mais outro.<\/p>\n<p>H&aacute; dias vivia em casa, pouco saindo, organizando o seu livro. Passava<br \/>\n    confinado no seu quarto, almo&ccedil;ando caf&eacute;, que ele mesmo fazia,<br \/>\n    e p&atilde;o, indo &agrave; tarde jantar a uma tasca pr&oacute;xima &agrave;<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que jantavam<br \/>\n    nas mesas sujas, abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados; mas n&atilde;o<br \/>\n    deu import&acirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>Apesar de popular no lugar, n&atilde;o encontrara pessoa alguma conhecida<br \/>\n    durante os tr&ecirc;s &uacute;ltimos dias; ele mesmo evitava falar e, em sua<br \/>\n    casa, limitava-se ao &quot;bom dia&quot; e &agrave; &quot;boa tarde&quot;<br \/>\n    trocados com os vizinhos.<\/p>\n<p>Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o lia jornais para n&atilde;o distrair a aten&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de<br \/>\n    ser mais uma vit&oacute;ria para ele e para o viol&atilde;o estremecido.<\/p>\n<p>Naquela tarde estava sentado &agrave; mesa, corrigindo um dos seus trabalhos,<br \/>\n    um dos &uacute;ltimos, aquele que compusera no s&iacute;tio de Quaresma &#8212;<br \/>\n    &quot;Os L&aacute;bios de Carola&quot;.<\/p>\n<p>Primeiro, leu toda a produ&ccedil;&atilde;o, cantarolando; voltou a l&ecirc;-la,<br \/>\n    agarrou o viol&atilde;o para melhor apanhar o efeito e empacou nestes: <br \/>\n    &Eacute; mais bela que Helena e Margarida,<\/p>\n<p>Quando sorri meneando a ventarola.<\/p>\n<p>S&oacute; se encontra a ilus&atilde;o que ado&ccedil;a a vida<\/p>\n<p>Nos l&aacute;bios de Carola. <br \/>\n    Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro&#8230; Que diabo? pensou. H&atilde;o<br \/>\n    de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o viol&atilde;o e continuou<br \/>\n    a cantar os l&aacute;bios de Carola, onde encontrava a ilus&atilde;o que ado&ccedil;a<br \/>\n    a vida&#8230; <\/p>\n<p><strong>TERCEIRA PARTE<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">I &#8211; PATRIOTAS<\/a><\/h4>\n<p>Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande sal&atilde;o do pal&aacute;cio,<br \/>\n    vendo o marechal, mas sem lhe poder falar. Quase n&atilde;o se encontravam<br \/>\n    dificuldades para se chegar &agrave; sua presen&ccedil;a, mas falar-lhe, a<br \/>\n    cousa n&atilde;o era t&atilde;o f&aacute;cil.<\/p>\n<p>O pal&aacute;cio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento, representativo<br \/>\n    e eloq&uuml;ente. N&atilde;o era raro ver-se pelos div&atilde;s, em outras<br \/>\n    salas, ajudantes-de-ordens, ordenan&ccedil;as, cont&iacute;nuos, cochilando,<br \/>\n    meio deitados e desabotoados. Tudo nele era desleixo e moleza. Os cantos dos<br \/>\n    tetos tinham teias de aranha; dos tapetes, quando pisados com mais for&ccedil;a,<br \/>\n    subia uma poeira de rua mal varrida. Quaresma n&atilde;o pudera vir logo,<br \/>\n    como anunciara no telegrama. Fora preciso p&ocirc;r em ordem os seus neg&oacute;cios,<br \/>\n    arranjar quem fizesse companhia &agrave; irm&atilde;. Fizera Dona Adelaide<br \/>\n    mil obje&ccedil;&otilde;es &agrave; sua partida; mostrara-lhe os riscos da<br \/>\n    luta, da guerra, incompat&iacute;veis com a sua idade e superiores &agrave;<br \/>\n    sua for&ccedil;a; ele, por&eacute;m, n&atilde;o se deixara abater, fizera<br \/>\n    p&eacute; firme, pois sentia, indispens&aacute;vel, necess&aacute;rio que<br \/>\n    toda a sua vontade, que toda a sua intelig&ecirc;ncia, que tudo o que ele<br \/>\n    tinha de vida e atividade fosse posto &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    governo, para<br \/>\n    ent&atilde;o!&#8230; oh! <\/p>\n<p>Aproveitara os dias at&eacute; para redigir um memorial que ia entregar a<br \/>\n    Floriano. Nele expunham-se as medidas necess&aacute;rias para o levantamento<br \/>\n    da agricultura e mostravam-se todos os entraves, oriundos da grande propriedade,<br \/>\n    das exa&ccedil;&otilde;es fiscais, da carestia de fretes, da estreiteza dos<br \/>\n    mercados e das viol&ecirc;ncias pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p>O major apertava o manuscrito na m&atilde;o e lembrava-se da sua casa, l&aacute;<br \/>\n    longe, no canto daquela plan&iacute;cie feia, olhando, no poente, as montanhas<br \/>\n    que se alongavam, se afilavam nos dias claros e transparentes, lembrava-se<br \/>\n    de sua irm&atilde;,<br \/>\n    dos seus olhos verdes e pl&aacute;cidos que o viram partir com uma impassibilidade<br \/>\n    que n&atilde;o era natural; mas do que se lembrava mais, naquele momento,<br \/>\n    era do Anast&aacute;cio, o seu preto velho, do seu longo olhar, n&atilde;o<br \/>\n    mais com aquela ternura passiva de animal dom&eacute;stico, mas cheio de assombro,<br \/>\n    de espanto e piedade, rolando muito nas &oacute;rbitas as escler&oacute;ticas<br \/>\n    muito brancas, quando o viu penetrar no vag&atilde;o da estrada de ferro.<br \/>\n    Parecia que farejava desgra&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto<br \/>\n    nas cousas sinais de dolorosos acontecimentos a vir&#8230; Ora!&#8230;<\/p>\n<p> Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, &agrave; espera que<br \/>\n    o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o meio-dia, e Floriano<br \/>\n    tinha ainda, como sinal do almo&ccedil;o, o palito na boca.<\/p>\n<p> Falou em primeiro lugar a uma comiss&atilde;o de senhoras que vinham oferecer<br \/>\n    o seu bra&ccedil;o e o seu sangue em defesa das institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e da p&aacute;tria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto, gorda,<br \/>\n    com grandes seios altos e<br \/>\n    falava agitando o leque fechado na m&atilde;o direita. <\/p>\n<p>N&atilde;o se podia dizer bem qual a sua cor, sua ra&ccedil;a, ao menos:<br \/>\n    andavam tantas nela que uma escondia a outra, furtando toda ela a uma classifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    honesta. Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes<br \/>\n    olhos<br \/>\n    que despediam chispas. Floriano parecia incomodado com aquele chamejar; era<br \/>\n    como se temesse derreter-se ao calor daquele olhar que queimava mais sedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que patriotismo. Fugia encar&aacute;-la, abaixava o rosto como<br \/>\n    um adolescente, batia com os dedos na mesa&#8230; <\/p>\n<p>Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas sem encarar<br \/>\n    a mulher, e, com um grosso e dif&iacute;cil sorriso de roceiro, declinou da<br \/>\n    oferta, visto a Rep&uacute;blica ainda dispor de bastante for&ccedil;a para<br \/>\n    vencer.<\/p>\n<p>A &uacute;ltima frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente. As<br \/>\n    damas despediram-se; o marechal girou o olhar em torno do sal&atilde;o e deu<br \/>\n    com Quaresma:<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Quaresma? fez ele familiarmente<\/p>\n<p>O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava. Uma chusma<br \/>\n    de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e a sua aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    convergiu para eles. N&atilde;o se ouvia o que diziam. Falavam ao ouvido de<br \/>\n    Floriano, cochichavam, batiam-lhe nas esp&aacute;duas. O marechal quase n&atilde;o<br \/>\n    falava: movia com a cabe&ccedil;a ou pronunciava um monoss&iacute;labo, cousa<br \/>\n    que Quaresma percebia pela articula&ccedil;&atilde;o dos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>Come&ccedil;aram a sair. Apertavam a m&atilde;o do ditador e, um deles, mais<br \/>\n    jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com for&ccedil;a a m&atilde;o<br \/>\n    mole, bateu-lhe no ombro com intimidade, e disse alto e com &ecirc;nfase:<\/p>\n<p>&#8211; Energia, marechal!<\/p>\n<p>Aquilo tudo parecia t&atilde;o natural, normal, tendo entrado no novo cerimonial<br \/>\n    da Rep&uacute;blica, que ningu&eacute;m, nem o pr&oacute;prio Floriano, teve<br \/>\n    a m&iacute;nima surpresa, ao contr&aacute;rio alguns at&eacute; sorriram alegres<br \/>\n    por ver o califa, o c&atilde;, o emir, transmitir um pouco do que tinha de<br \/>\n    sagrado ao subalterno desabusado. N&atilde;o se foram todos imediatamente.<br \/>\n    Um deles demorou-se mais a segredar cousas &agrave; suprema autoridade do<br \/>\n    pa&iacute;s. Era um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa,<br \/>\n    talim e sabre de pra&ccedil;a de pr&eacute;.<\/p>\n<p>Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada.<\/p>\n<p>Tinham todos os privil&eacute;gios e todos os direitos; precediam ministros<br \/>\n    nas entrevistas com o ditador e abusavam dessa situa&ccedil;&atilde;o de esteio<br \/>\n    do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira. Uns trapos de positivismo<br \/>\n    se tinham colado naquelas intelig&ecirc;ncias e uma religiosidade especial<br \/>\n    brotara-lhes no sentimento, transformando a autoridade, especialmente Floriano<br \/>\n    e vagamente a Rep&uacute;blica, em artigo e f&eacute;, em feiti&ccedil;o,<br \/>\n    em &iacute;dolo mexicano, em cujo altar todas as viol&ecirc;ncias e crimes<br \/>\n    eram oblatas dignas e oferendas &uacute;teis para a sua satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e eternidade.<\/p>\n<p>O cadete l&aacute; estava&#8230;<\/p>\n<p> Quaresma p&ocirc;de ent&atilde;o ver melhor a fisionomia do homem que ia<br \/>\n    feixar em suas m&atilde;os, durante quase um ano, t&atilde;o fortes poderes,<br \/>\n    poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo, limitando tudo, sem encontrar<br \/>\n    obst&aacute;culo algum aos seus caprichos, &agrave;s suas fraquezas e vontades,<br \/>\n    nem nas leis, nem nos costumes, nem na piedade universal e humana.<\/p>\n<p>Era vulgar e desoladora. O bigode ca&iacute;do; o l&aacute;bio inferior pendente<br \/>\n    e mole a que se agarrava uma grande &#8220;mosca&#8221;; os tra&ccedil;os<br \/>\n    fl&aacute;cidos e grosseiros; n&atilde;o havia nem o desenho do queixo ou<br \/>\n    olhar que fosse pr&oacute;prio, que revelasse algum dote superior. Era um<br \/>\n    olhar morti&ccedil;o, redondo, pobre de express&otilde;es, a n&atilde;o ser<br \/>\n    de tristeza que n&atilde;o lhe era individual, mas nativa, de ra&ccedil;a;<br \/>\n    e todo ele era gelatinoso &#8211; parecia n&atilde;o ter nervos.<\/p>\n<p>N&atilde;o quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse o car&aacute;ter,<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia e o temperamento. Essas cousas n&atilde;o vogam, disse<br \/>\n    ele de si para si.<\/p>\n<p>O seu entusiasmo por aquele &iacute;dolo pol&iacute;tico era forte, sincero<br \/>\n    e desinteressado. Tinha-o na conta de en&eacute;rgico, de fino e supervidente,<br \/>\n    tenaz e conhecedor das necessidades do pa&iacute;s, manhoso talvez um pouco,<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de Lu&iacute;s XI forrado de um Bismarck. Entretanto, n&atilde;o<br \/>\n    era assim. Com uma aus&ecirc;ncia total de qualidades intelectuais, havia<br \/>\n    no car&aacute;ter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tibieza<br \/>\n    de &acirc;nimo; e no seu temperamento, muita pregui&ccedil;a. N&atilde;o a<br \/>\n    pregui&ccedil;a comum, essa pregui&ccedil;a de n&oacute;s todos; era uma pregui&ccedil;a<br \/>\n    m&oacute;rbida, como que uma pobreza de irriga&ccedil;&atilde;o nervosa, provinda<br \/>\n    de uma insuficiente quantidade de fluido no seu organismo. Pelos lugares que<br \/>\n    passou, tornou-se not&aacute;vel pela indol&ecirc;ncia e desamor &agrave;s<br \/>\n    obriga&ccedil;&ootilde;es dos seus cargos.<\/p>\n<p>Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assinar o<br \/>\n    expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da Guerra, passava<br \/>\n    meses e meses sem l&aacute; ir, deixando tudo por assinar, pelo que &#8220;legou&#8221;<br \/>\n    ao seu substituto um trabalho avultad&iacute;ssimo.<\/p>\n<p>Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napole&atilde;o,<br \/>\n    de um Filipe II, de Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos os grandes<br \/>\n    homens de Estado, n&atilde;o compreende o descaso florianesco pela expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ordens, explica&ccedil;&otilde;es aos subalternos, de suas vontades, de<br \/>\n    suas vistas, certamente necess&aacute;rias deviam ser tais transmiss&otilde;es<br \/>\n    para que o seu senso superior se fizesse sentir e influ&iacute;sse na marcha<br \/>\n    das cousas governamentais e administrativas.<\/p>\n<p>Dessa pregui&ccedil;a de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus misteriosos<br \/>\n    monoss&iacute;labos, levados &agrave; altura de ditos sibilinos, as famosas<br \/>\n    &#8220;encruzilhadas dos talvezes&#8221;, que tanto reagiram sobre a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e imagina&ccedil;&atilde;o nacionais, mendigas de her&oacute;is e grandes<br \/>\n    homens. Essa doentia pregui&ccedil;a fazia-o andar de chinelos e deu-lhe aquele<br \/>\n    aspecto de calma superior, calma de grande homem de Estado ou de guerreiro<br \/>\n    extraordin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses de governo.<br \/>\n    A bra&ccedil;os com o levante de presos, pra&ccedil;as e inferiores da fortaleza<br \/>\n    de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inqu&eacute;rito, abafou-o com medo<br \/>\n    que as pessoas indicadas como instigadoras n&atilde;o fizessem outra sedi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e, n&atilde;o contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas<br \/>\n    recompensas. Demais, ningu&eacute;m pode admitir um homem forte, um C&eacute;sar,<br \/>\n    um Napole&atilde;o, que permita aos subalternos aquelas intimidades deprimentes<br \/>\n    e tenha com eles as condescend&ecirc;ncias que ele tinha, consentindo que<br \/>\n    o seu nome servisse de l&aacute;baro para uma vasta s&eacute;rie de crimes<br \/>\n    de toda a esp&eacute;cie.<\/p>\n<p>Uma recorda&ccedil;&atilde;o basta. Sabe-se bem sob que atmosfera de m&aacute;<br \/>\n    vontade Napole&atilde;o assumiu o comando do ex&eacute;rcito da It&aacute;lia.<br \/>\n    Augereau, que o chamava &#8220;general de rua&#8221;, disse a algu&eacute;m,<br \/>\n    ap&oacute;s lhe ter falado: &#8220;O homem meteu-me medo&#8221;; e o corso<br \/>\n    estava senhor do ex&eacute;rcito sem batidelas no ombro, sem delegar t&aacute;cita<br \/>\n    ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irrespons&aacute;veis. De<br \/>\n    resto, a lentid&atilde;o com que sufocou a revolta de 6 de setembro mostra<br \/>\n    bem a incerteza, a vacila&ccedil;&atilde;o de vontade de um homem que dispunha<br \/>\n    daqueles extraordin&aacute;rios recursos que estavam &agrave;s suas ordens.<\/p>\n<p>H&aacute; uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos,<br \/>\n    atos e gestos. Era o seu amor &agrave; fam&iacute;lia, um amor entranhado,<br \/>\n    alguma cousa de patriarcal, de antigo que j&aacute; se vai esvaindo com a<br \/>\n    marcha da civiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Em virtude de insucessos na explora&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola de duas<br \/>\n    das suas propriedades, a sua situa&ccedil;&atilde;o particular era prec&aacute;ria,<br \/>\n    e n&atilde;o queria morrer sem deixar &agrave; fam&iacute;lia as suas propriedades<br \/>\n    agr&iacute;colas desoneradas do peso das d&iacute;vidas.<\/p>\n<p>Honesto e probo como era, a &uacute;nica esperan&ccedil;a que lhe restava<br \/>\n    repousava nas economias sobre os seus ordenados. Da&iacute; lhe veio essa<br \/>\n    dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispens&aacute;vel para<br \/>\n    conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se tenazmente &agrave;<br \/>\n    Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica. A hipoteca do &#8220;Brej&atilde;o&#8221;<br \/>\n    e do &#8220;Duarte&#8221; foi o seu nariz de Cle&oacute;patra&#8230;<\/p>\n<p>A sua pregui&ccedil;a, a sua tibieza de &acirc;nimo e o seu amor fervoroso<br \/>\n    pelo lar deram em resultado esse &#8220;homem-talvez&#8221; que, refratado<br \/>\n    nas necessidades mentais e sociais dos homens do tempo, foi transformado em<br \/>\n    estadista, em Richelieu, e p&ocirc;de resistir a uma s&eacute;ria revolta<br \/>\n    com mais teimosia que vigor, obtendo vidas, dinheiro e despertando at&eacute;<br \/>\n    entusiasmo e fanatismo.<\/p>\n<p>Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o<br \/>\n    sustentaram, s&oacute; teriam sido poss&iacute;veis, depois de ter ele sido<br \/>\n    ajudante general do Imp&eacute;rio, senador, ministro, isto &eacute;, ap&oacute;s<br \/>\n    se ter &#8220;fabricado&#8221; &agrave; vista de todos e cristalizado a lenda<br \/>\n    na mente de todos.<\/p>\n<p>A sua concep&ccedil;&atilde;o de governo n&atilde;o era o despotismo, nem<br \/>\n    a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania dom&eacute;stica. O<br \/>\n    beb&ecirc; portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande, o portar-se<br \/>\n    mal era fazer-lhe oposi&ccedil;&atilde;o, ter opini&otilde;es contr&aacute;rias<br \/>\n    &agrave;s suas e o castigo n&atilde;o eram mais palmadas, sim, por&eacute;m,<br \/>\n    pris&atilde;o e morte. N&atilde;o h&aacute; dinheiro no Tesouro; ponham-se<br \/>\n    as notas recolhidas em circula&ccedil;&atilde;o, assim como se faz em casa<br \/>\n    quando chegam visitas e a sopa &eacute; pouca: p&otilde;e-se mais &aacute;gua.<\/p>\n<p>Demais, a sua educa&ccedil;&atilde;o militar e a sua fraca cultura deram<br \/>\n    mais realce a essa concep&ccedil;&atilde;o infantil, raiando-a de viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o tanto por ele em si, pela sua perversidade natural, pelo seu desprezo<br \/>\n    pela vida humana, mas pela fraqueza com que acobertou e n&atilde;o reprimiu<br \/>\n    a ferocidade dos seus auxiliares e asseclas.<\/p>\n<p>Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens honestos<br \/>\n    e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso que Floriano<br \/>\n    conseguira despertar. Pensava na grande obra que o Destino reservava &agrave;quela<br \/>\n    figura pl&aacute;cida e triste; na reforma radical que ele ia levar ao organismo<br \/>\n    aniquilado da p&aacute;tria, que o major se habituara a crer a mais rica do<br \/>\n    mundo, embora, de uns tempos para c&aacute;, j&aacute; tivesse d&uacute;vidas<br \/>\n    a certos respeitos.<\/p>\n<p>Decerto, ele n&atilde;o negaria tais esperan&ccedil;as e a sua a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milh&otilde;es de quil&ocirc;metros<br \/>\n    quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, seguran&ccedil;a, prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.<\/p>\n<p>N&atilde;o se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro<br \/>\n    de espera, desde que o marechal lhe falou familiarmente, come&ccedil;ou a<br \/>\n    considerar aquele homem pequenino, taciturno, de pince-nez e foi-se chegando,<br \/>\n    se aproximando e, quando j&aacute; perto, disse a Quaresma, quase como um<br \/>\n    terr&iacute;vel segredo:<\/p>\n<p>&#8211; Eles v&atilde;o ver o &#8220;caboclo&#8221;&#8230; O major h&aacute; muito<br \/>\n    que o conhece?<\/p>\n<p> Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta; o presidente,<br \/>\n    por&eacute;m, ficara s&oacute; e Quaresma avan&ccedil;ou.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, Quaresma? fez Floriano.<\/p>\n<p> &#8211; Venho oferecer a Vossa Excel&ecirc;ncia os meus fracos pr&eacute;stimos.<\/p>\n<p> O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu com<br \/>\n    dificuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfa&ccedil;&atilde;o. Sentiu<br \/>\n    por a&iacute; a for&ccedil;a de sua popularidade e sen&atilde;o a raz&atilde;o<br \/>\n    boa de sua causa.<\/p>\n<p>&#8211; Agrade&ccedil;o-te muito&#8230; Onde tens andado? Sei que deixaste o Arsenal.<\/p>\n<p>Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos, situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma cousa de asi&aacute;tico; era<br \/>\n    cruel e paternal ao mesmo tempo. Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou<br \/>\n    a ocasi&atilde;o para lhe falar em leis agr&aacute;rias, medidas tendentes<br \/>\n    a desafogar e dar novas bases &agrave; nossa vida agr&iacute;cola. O marechal<br \/>\n    ouviu-o distra&iacute;do, com uma dobra de aborrecimento no canto dos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>&#8211; Trazia a Vossa Excel&ecirc;ncia at&eacute; este memorial&#8230;<\/p>\n<p>O presidente teve um gesto de mau humor, um quase &#8220;n&atilde;o me amole&#8221;<br \/>\n    e disse com pregui&ccedil;a a Quaresma:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p>Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se ao interlocutor<br \/>\n    de ainda agora:<\/p>\n<p>&#8211; Que h&aacute;, Bustamante? E o batalh&atilde;o, vai?<\/p>\n<p>O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:<\/p>\n<p>&#8211; Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel&#8230; Se Vossa Excel&ecirc;ncia<br \/>\n    desse ordem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar&#8230; Ou<br \/>\n    antes: leva-lhe este bilhete. Rasgou um peda&ccedil;o de uma das primeiras<br \/>\n    p&aacute;ginas do manuscrito de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquela ponta<br \/>\n    de papel, a l&aacute;pis azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da<br \/>\n    Guerra. Ao acabar &eacute; que deu com a desconsidera&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito&#8230; N&atilde;o faz mal&#8230; Era a parte<br \/>\n    de cima, n&atilde;o tinha nada escrito. O major confirmou e o presidente,<br \/>\n    em seguida, voltando-se para Bustamante:<\/p>\n<p>&#8211; Aproveita Quaresma no teu batalh&atilde;o. Que posto queres?<\/p>\n<p> &#8211; Eu! fez Quaresma estupidamente.<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Voc&ecirc;s l&aacute; se entendam.<\/p>\n<p>Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as escadas do<br \/>\n    Itamarati. At&eacute; &agrave; rua nada disseram um ao outro. Quaresma vinha<br \/>\n    um pouco frio. O dia estava claro e quente; o movimento da cidade parecia<br \/>\n    n&atilde;o ter sofrido altera&ccedil;&atilde;o apreci&aacute;vel. Havia a<br \/>\n    mesma agita&ccedil;&atilde;o de bondes, carros e carro&ccedil;as; mas nas<br \/>\n    fisionomias, um terror, um espanto, alguma cousa de tremendo amea&ccedil;ava<br \/>\n    todos e parecia estar suspenso no ar.<\/p>\n<p>Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel,<br \/>\n    velho amigo do marechal, seu companheiro do Paraguai.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n&oacute;s nos conhecemos! exclamou ele.<\/p>\n<p>Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande barba<br \/>\n    mosaica e olhos espertos, mas n&atilde;o se lembrou de t&ecirc;-lo j&aacute;<br \/>\n    encontrado algum dia.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me recordo&#8230; Donde?<\/p>\n<p>&#8211; Da casa do General Albernaz&#8230; N&atilde;o se lembra?<\/p>\n<p> Policarpo ent&atilde;o teve uma vaga recorda&ccedil;&atilde;o e o outro<br \/>\n    explicou-lhe a forma&ccedil;&atilde;o do seu batalh&atilde;o patri&oacute;tico<br \/>\n    &#8220;Cruzeiro do Sul&#8221;. <\/p>\n<p>&#8211; O senhor quer fazer parte? <\/p>\n<p>&#8211; Pois n&atilde;o, fez Quaresma.<\/p>\n<p> &#8211; Estamos em dificuldades&#8230; Fardamento, cal&ccedil;ado para as pra&ccedil;as&#8230;<br \/>\n    Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo&#8230; N&atilde;o conv&eacute;m<br \/>\n    sangrar o Tesouro, n&atilde;o acha?<\/p>\n<p> &#8211; Certamente, disse com entusiasmo Quaresma. <\/p>\n<p>&#8211; Folgo muito que o senhor concorde comigo&#8230; Vejo que &eacute; um patriota&#8230;<br \/>\n    Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais, em propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao posto: um alferes concorre com cem mil-r&eacute;is, um tenente com duzentos&#8230;<br \/>\n    O senhor que patente quer? Ah! &Eacute; verdade! O Senhor &eacute; major,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;? <\/p>\n<p>Quaresma ent&atilde;o explicou por que o tratavam por major. Um amigo, influ&ecirc;ncia<br \/>\n    no Minist&eacute;rio do Interior, lhe tinha metido o nome numa lista de guardas-nacionais,<br \/>\n    com esse posto. Nunca tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre<br \/>\n    tratado major, e a cousa pegou. A princ&iacute;pio, protestou, mas como teimassem<br \/>\n    deixou. <\/p>\n<p>&#8211; Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major. <\/p>\n<p>&#8211; Qual &eacute; a minha quota?<\/p>\n<p> &#8211; Quatrocentos mil-r&eacute;is. Um pouco forte, mas&#8230; O senhor sabe; &eacute;<br \/>\n    um posto importante&#8230; Aceita?<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o.<\/p>\n<p>Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de l&aacute;pis<br \/>\n    e despediu-se jovialmente:<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, major, &agrave;s seis, no quartel provis&oacute;rio.<\/p>\n<p> A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo de Sant&#8217;Ana.<br \/>\n    Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao centro da cidade. Tencionava<br \/>\n    visitar o compadre em Botafogo, fazendo, assim, horas para a sua inicia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    militar. <\/p>\n<p>A pra&ccedil;a estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto compassado<br \/>\n    das mulas; de quando em quando ouvia-se um toque de corneta, rufos de tambor,<br \/>\n    e do port&atilde;o central do quartel-general sa&iacute;a uma for&ccedil;a,<br \/>\n    armas ao ombro, baionetas caladas, dan&ccedil;ando nos ombros dos recrutas,<br \/>\n    faiscando com um brilho duro e mau.<\/p>\n<p>Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia e o seco<br \/>\n    espoucar dos fuzis. N&atilde;o durou muito; antes que o bonde atingisse &agrave;<br \/>\n    Rua da Constitui&ccedil;&atilde;o, todos os rumores guerreiros tinham cessado,<br \/>\n    e quem n&atilde;o estivesse avisado havia de supor-se em tempos normais.<\/p>\n<p>Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que comprara.<br \/>\n    Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido; bateram-lhe no ombro.<br \/>\n    Voltou-se. <\/p>\n<p>&#8211; Oh! general!<\/p>\n<p>O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerim&ocirc;nias<br \/>\n    e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emo&ccedil;&atilde;o em reatar conhecimentos<br \/>\n    que se tinham enfraquecido por uma separa&ccedil;&atilde;o qualquer. Estava<br \/>\n    fardado, com aquele seu uniforme maltratado; n&atilde;o trazia espada e o<br \/>\n    pince-nez continuava preso por um trancelim de ouro que lhe passava por detr&aacute;s<br \/>\n    da orelha esquerda. <\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o veio ver a cousa? <\/p>\n<p>&#8211; Vim. J&aacute; me apresentei ao marechal.<\/p>\n<p> &#8211; &#8220;Eles&#8221; v&atilde;o ver com quem se meteram. Pensam que tratam<br \/>\n    com o Deodoro, enganam-se!&#8230; A Rep&uacute;blica, gra&ccedil;as a Deus, tem<br \/>\n    agora um homem na sua frente&#8230; O &#8220;caboclo&#8221; &eacute; de ferro&#8230;<br \/>\n    No Paraguai&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O senhor conheceu-o l&aacute;, n&atilde;o, general?<\/p>\n<p> &#8211; Isto &eacute;&#8230; N&atilde;o chegamos a nos encontrar; mas o Camis&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &Eacute; duro, o homem. Estou como encarregado das muni&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    &Eacute; o fino o &#8220;caboclo&#8221;: n&atilde;o me quis no litoral. Sabe<br \/>\n    muito bem quem sou e que muni&ccedil;&atilde;o que saia das minhas m&atilde;os,<br \/>\n    &eacute; muni&ccedil;&atilde;o&#8230; L&aacute;, no dep&oacute;sito, n&atilde;o<br \/>\n    me sai um caixote que eu n&atilde;o examine&#8230; &Eacute; necess&aacute;rio&#8230;<br \/>\n    No Paraguai, houve muita desordem e comilan&ccedil;a: mandou-se muita cal<br \/>\n    por p&oacute;lvora &#8211; n&atilde;o sabia?<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas o &#8220;homem&#8221;<br \/>\n    quer que eu fique com as muni&ccedil;&otilde;es&#8230; Capit&atilde;o manda, marinheiro<br \/>\n    faz&#8230; Ele sabe l&aacute;&#8230; Deu de ombros, concertou o trancelim que j&aacute;<br \/>\n    ca&iacute;a da orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Como vai a fam&iacute;lia?<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Sabe que Quinota casou-se?<\/p>\n<p> &#8211; Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ism&ecirc;nia, como vai?<\/p>\n<p> A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:<\/p>\n<p> &#8211; Vai no mesmo.<\/p>\n<p>O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha enlouquecera<br \/>\n    de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros calada, a um canto,<br \/>\n    olhando estupidamente tudo, com um olhar morto de est&aacute;tua, numa atonia<br \/>\n    de inanimado, como que ca&iacute;ra em imbecilidade; mas vinha uma hora, por&eacute;m,<br \/>\n    em que se penteava toda, enfeitava-se e corria &agrave; m&atilde;e, dizendo:<br \/>\n    &#8220;Apronta-me, mam&atilde;e. O meu noivo n&atilde;o deve tardar&#8230; &eacute;<br \/>\n    hoje o meu casamento.&#8221; Outras vezes recortava papel, em forma de participa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e escrevia: Ism&ecirc;nia de Albernaz e Fulano (variava) participam o seu<br \/>\n    casamento.<\/p>\n<p>O general j&aacute; consultara uma d&uacute;zia de m&eacute;dicos, o espiritismo<br \/>\n    e agora andava &agrave;s voltas com um feiticeiro milagroso; a filha, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o sarava, n&atilde;o perdia a mania e cada vez mais se embrenhava<br \/>\n    o seu esp&iacute;rito naquela obsess&atilde;o de casamento, alvo que fizeram<br \/>\n    ser da sua vida, a que n&atilde;o atingira, aniquilando-se, por&eacute;m,<br \/>\n    o seu esp&iacute;rito e a sua mocidade em pleno verdor.<\/p>\n<p>Entristecia o seu estado aquela casa outrora t&atilde;o alegre, t&atilde;o<br \/>\n    festiva. Os bailes tinham diminu&iacute;do; e, quando eram obrigados a dar<br \/>\n    um, nas datas principais, a mo&ccedil;a, com todos os cuidados, &agrave; custa<br \/>\n    de todas as promessas, era levada para casa da irm&atilde; casada, l&aacute;<br \/>\n    ficava, enquanto as outras dan&ccedil;avam, um instante esquecidas da irm&atilde;<br \/>\n    que sofria.<\/p>\n<p>Albernaz n&atilde;o quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e continuou no tom mais natural, naquele seu tom familiar e &iacute;ntimo<br \/>\n    que usava com todos:<\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute; uma inf&acirc;mia, Senhor Quaresma. Que atraso para o pa&iacute;s.<br \/>\n    E os preju&iacute;zos? Um porto destes fechado a com&eacute;rcio nacional<br \/>\n    quantos anos de retardamento n&atilde;o representa!<\/p>\n<p> O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo, de forma<br \/>\n    a tornar imposs&iacute;vel a reprodu&ccedil;&atilde;o de levantes e insurrei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Decerto, aduziu o general. Assim n&atilde;o progredimos, n&atilde;o nos<br \/>\n    adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito!<\/p>\n<p> O bonde chegara ao Largo de S&atilde;o Francisco e os dous se separaram.<br \/>\n    Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para a Rua do<br \/>\n    Ros&aacute;rio.<\/p>\n<p>Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre. N&atilde;o<br \/>\n    foi indiferen&ccedil;a que sentiu, foi espanto, assombro, quase medo, embora<br \/>\n    soubesse perfeitamente que ele estava a chegar. Entretanto, n&atilde;o havia<br \/>\n    mudan&ccedil;a na fisionomia de Quaresma, no seu corpo, em todo ele. Era o<br \/>\n    mesmo homem baixo, p&aacute;lido, com aquele cavanhaque apontado e o olhar<br \/>\n    agudo por detr&aacute;s do pince-nez&#8230; Nem mesmo estava mais queimado e o<br \/>\n    jeito de apertar os l&aacute;bios era o mesmo que ela conhecia h&aacute; tantos<br \/>\n    anos. Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma for&ccedil;a<br \/>\n    estranha, por um turbilh&atilde;o; bem examinando, entretanto, verificou que<br \/>\n    ele entrara naturalmente,<br \/>\n    com o seu passo mi&uacute;do e firme. Donde lhe vinha ent&atilde;o essa cousa<br \/>\n    que a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa t&atilde;o amada?<br \/>\n    N&atilde;o atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma n&atilde;o se<br \/>\n    fazia anunciar; ia entrando conforme o velho h&aacute;bito. Respondeu ao padrinho<br \/>\n    ainda sob a dolorosa impress&atilde;o da sua entrada:<\/p>\n<p> &#8211; Papai saiu; e o Armando est&aacute; l&aacute; embaixo escrevendo.<\/p>\n<p> De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia para o<br \/>\n    &#8220;cl&aacute;ssico&#8221; um grande artigo sobre &#8220;Ferimentos por<br \/>\n    arma de fogo&#8221;. O seu &uacute;ltimo truc intelectual era este do cl&aacute;ssico.<br \/>\n    Buscava nisto uma distin&ccedil;&atilde;o, uma separa&ccedil;&atilde;o intelectual<br \/>\n    desses meninos por a&iacute; que escrevem contos e romances nos jornais. Ele,<br \/>\n    um s&aacute;bio, e sobretudo, um doutor, n&atilde;o podia escrever da mesma<br \/>\n    forma que eles. A sua sabedoria superior e o seu t&iacute;tulo &#8220;acad&ecirc;mico&#8221;<br \/>\n    n&atilde;o podiam usar da mesma l&iacute;ngua, dos mesmos modismos, da mesma<br \/>\n    sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe ent&atilde;o a id&eacute;ia<br \/>\n    do cl&aacute;ssico. O processo era simples: escrevia do modo comum, com as<br \/>\n    palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as ora&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    picava o per&iacute;odo com v&iacute;rgulas e substitu&iacute;a incomodar<br \/>\n    por molestar, ao redor por derredor, isto por esto, qu&atilde;o grande ou<br \/>\n    t&atilde;o grande por quamanho, sarapintava tudo de ao inv&eacute;s, em-p&oacute;s,<br \/>\n    e assim obtinha o seu estilo cl&aacute;ssico que come&ccedil;ava a causar<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o aos seus pares e ao p&uacute;blico em geral.<\/p>\n<p>Gostava muito da express&atilde;o &#8211; &agrave;s rebatinhas; usava-a a todo<br \/>\n    o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu<br \/>\n    estilo uma for&ccedil;a e um brilho pascalianos e &agrave;s suas id&eacute;ias<br \/>\n    uma sufici&ecirc;ncia transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo<br \/>\n    &agrave;s primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se &#8220;f&iacute;sico&#8221;,<br \/>\n    tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e &aacute;gua<br \/>\n    quente, tal e qual o doutor Sangrado.<\/p>\n<p>A sua tradu&ccedil;&atilde;o estava quase no fim, j&aacute; estava bastante<br \/>\n    pr&aacute;tico, pois com o tempo adquirira um vocabul&aacute;rio suficiente<br \/>\n    e a vers&atilde;o era feita mentalmente, em quase metade, logo na primeira<br \/>\n    escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe a visita, com um pequeno<br \/>\n    aborrecimento, mas, como teimasse em n&atilde;o encontrar um equivalente cl&aacute;ssico<br \/>\n    para &#8220;orif&iacute;cio&#8221;, julgou &uacute;til a interrup&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Queria p&ocirc;r &#8220;buraco&#8221;, mas era plebeu; &#8220;orif&iacute;cio&#8221;,<br \/>\n    se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse,<br \/>\n    pensou: e subiu &agrave; sala de jantar. Ele entrou prazenteiro, com o seu<br \/>\n    grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada<br \/>\n    empenhados em uma<br \/>\n    discuss&atilde;o sobre autoridade. <\/p>\n<p>Dizia ela: <\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o posso compreender esse tom divino com que os senhores falam<br \/>\n    da autoridade. N&atilde;o se governa mais em nome de Deus, por que ent&atilde;o<br \/>\n    esse respeito, essa venera&ccedil;&atilde;o de que querem cercar os governantes?<\/p>\n<p>O doutor, que ouvira toda a frase, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de objetar:<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; preciso, indispens&aacute;vel&#8230; N&oacute;s sabemos bem que<br \/>\n    eles s&atilde;o homens como n&oacute;s, mas, se for assim, tudo vai por &aacute;gua<br \/>\n    abaixo.<\/p>\n<p> Quaresma acrescentou:<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; em virtude das pr&oacute;prias necessidades internas e externas<br \/>\n    da nossa sociedade que ela existe&#8230; Nas formigas, nas abelhas&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Admito. Mas h&aacute; revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade<br \/>\n    se mant&eacute;m l&aacute; &agrave; custa de assass&iacute;nios, exa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e viol&ecirc;ncias?<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se sabe&#8230; Quem sabe? Talvez&#8230; fez evasivamente Quaresma.<br \/>\n    O doutor n&atilde;o teve d&uacute;vidas e foi logo dizendo:<\/p>\n<p> &#8211; Que temos n&oacute;s com as abelhas? Ent&atilde;o n&oacute;s, os homens,<br \/>\n    o pin&aacute;culo da escala zool&oacute;gica iremos buscar normas de vida<br \/>\n    entre insectos?<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos deles<br \/>\n    a certeza da generalidade do fen&ocirc;meno, da sua iman&ecirc;ncia, por assim<br \/>\n    dizer, disse Quaresma com do&ccedil;ura. <\/p>\n<p>Ele n&atilde;o tinha acabado a explica&ccedil;&atilde;o e j&aacute; Olga<br \/>\n    refletia:<\/p>\n<p> &#8211; Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade &#8211; v&aacute;; mas n&atilde;o;<br \/>\n    de que vale?<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A quest&atilde;o<br \/>\n    &eacute; consolid&aacute;-la.<\/p>\n<p> Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano, a<br \/>\n    sua pr&oacute;xima incorpora&ccedil;&atilde;o ao batalh&atilde;o &#8220;Cruzeiro<br \/>\n    do Sul&#8221;. O doutor teve uma ponta de inveja, quando ele se referiu ao<br \/>\n    modo familiar por que Floriano o tratara. Fizeram um pequeno lunch e Quaresma<br \/>\n    saiu. Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas lojas<br \/>\n    profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em um subterr&acirc;neo.<br \/>\n    A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua da Assembl&eacute;ia, a casquilha<br \/>\n    Rua do Ouvidor davam-lhe saudades. <\/p>\n<p>A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e mo&ccedil;as a passeio;<br \/>\n    no Caf&eacute; do Rio, uma multid&atilde;o. Eram os avan&ccedil;ados, os &#8220;jacobinos&#8221;,<br \/>\n    a guarda abnegada da Rep&uacute;blica, os intransigentes a cujos olhos a modera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a toler&acirc;ncia e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes<br \/>\n    de lesa-p&aacute;tria, sintomas de monarquismo criminoso e abdica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desonesta diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o portugu&ecirc;s,<br \/>\n    o que n&atilde;o impedia de haver jornais &#8220;jacobin&iacute;ssimos&#8221;<br \/>\n    redigidos por portugueses da mais bela &aacute;gua. <\/p>\n<p>A n&atilde;o ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do Ouvidor era<br \/>\n    a mesma. Os namoros se faziam e as mo&ccedil;as iam e vinham. Se uma bala<br \/>\n    zunia no alto c&eacute;u azul, luminoso, as mo&ccedil;as davam gritinhos de<br \/>\n    gata, corriam para dentro das lojas, esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes,<br \/>\n    o sangue a subir &agrave;s faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.<\/p>\n<p> Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funcionava provisoriamente<br \/>\n    num velho corti&ccedil;o condenado pela higiene, l&aacute; pelos lados da<br \/>\n    Cidade Nova. Tinha o tal corti&ccedil;o andar t&eacute;rreo e sobrado, ambos<br \/>\n    divididos em cub&iacute;culos do tamanho de camarotes de navio. No sobrado,<br \/>\n    havia uma varanda de grade de pau e uma escada de madeira levava at&eacute;<br \/>\n    l&aacute;, escada tosca e oscilante, que gemia &agrave; menor passada. A casa<br \/>\n    da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o p&aacute;tio, j&aacute;<br \/>\n    sem as cordas de secar ao sol a roupa, mas com as pedras manchadas das barrelas<br \/>\n    e da &aacute;gua de sab&atilde;o, servia para a instru&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    recrutas. O instrutor era um sargento reformado, um tanto coxo, e admitido<br \/>\n    no batalh&atilde;o com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa:<br \/>\n    &#8220;om &#8211; br&ocirc;&#8221;&#8230; armas!<\/p>\n<p>O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe o modelo<br \/>\n    do fardamento.<\/p>\n<p> Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o d&oacute;lm&atilde; era<br \/>\n    verde-garrafa e tinha uns vivos azulferrete, alamares dourados e quatro estrelas<br \/>\n    prateadas, em cruz, na gola. Uma gritaria f&ecirc;-los vir at&eacute; &agrave;<br \/>\n    varanda. Entre soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar,<br \/>\n    ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada. <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor n&atilde;o o conhece, coronel?<br \/>\n    continuou ele com interesse e piedade.<\/p>\n<p> Bustamante estava impass&iacute;vel na varanda e s&oacute; respondeu depois<br \/>\n    de algum tempo: <\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o&#8230; &Eacute; um volunt&aacute;rio recalcitrante, um patriota<br \/>\n    rebelde. <\/p>\n<p>Os soldados subiram com o &#8220;volunt&aacute;rio&#8221; e Ricardo logo<br \/>\n    que deu com o major, suplicou-lhe: <\/p>\n<p>&#8211; Salve-me, major! <\/p>\n<p>Quaresma chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas foi in&uacute;til&#8230;<br \/>\n    H&aacute; necessidade de gente&#8230; Enfim, fazia-o cabo. <\/p>\n<p>Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa e exclamou:<\/p>\n<p> &#8211; Eu sirvo sim, sim, mas d&ecirc;em-me o meu viol&atilde;o.<\/p>\n<p> Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:<\/p>\n<p> &#8211; Restituam o viol&atilde;o ao cabo Ricardo!<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">II<\/a><\/h4>\n<p>Voc&ecirc;, Quaresma, &Eacute; um Vision&aacute;rio<\/p>\n<p> Oito horas da manh&atilde;. A cerra&ccedil;&atilde;o ainda envolve tudo.<br \/>\n    Do lado da terra, mal se enxergam as partes baixas dos edif&iacute;cios pr&oacute;ximos;<br \/>\n    para o lado do mar, ent&atilde;o, a vista &eacute; impotente contra aquela<br \/>\n    treva esbranqui&ccedil;ada e flutuante, contra aquela muralha de flocos e<br \/>\n    opaca, que se condensa ali e aqui em apari&ccedil;&otilde;es, em semelhan&ccedil;as<br \/>\n    de cousas. O mar est&aacute; silencioso: h&aacute; grandes intervalos entre<br \/>\n    o seu fraco marulho. V&ecirc;-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto<br \/>\n    de algas, e o odor da maresia parece mais forte com a neblina. Para a esquerda<br \/>\n    e para a direita, &eacute; o desconhecido, o Mist&eacute;rio. Entretanto,<br \/>\n    aquela pasta espessa, de uma claridade difusa, est&aacute; povoada de ru&iacute;dos.<br \/>\n    O chiar das serras vizinhas, os apitos de f&aacute;bricas e locomotivas, os<br \/>\n    guinchos de guindastes dos navios enchem aquela manh&atilde; indecifr&aacute;vel<br \/>\n    e taciturna; e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar.<br \/>\n    Acreditase, dentro daquele decoro, que &eacute; Caronte que traz a sua barca<br \/>\n    para uma das margens do Estige&#8230; Aten&ccedil;&atilde;o! Todos perscrutam<br \/>\n    a cortina de n&eacute;voa pastosa. Os rostos est&atilde;o alterados; parece<br \/>\n    que, do seio da bruma, v&atilde;o surgir dem&ocirc;nios&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o se ouve a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias respiram<br \/>\n    aliviadas&#8230; N&atilde;o &eacute; noite, n&atilde;o &eacute; dia; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o dil&uacute;culo, n&atilde;o &eacute; o crep&uacute;sculo; &eacute;<br \/>\n    a hora da ang&uacute;stia, &eacute; a luz da incerteza. No mar, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves morrem de encontro<br \/>\n    &agrave;s paredes brancas das casas. A nossa mis&eacute;ria &eacute; mais<br \/>\n    completa e a falta daqueles mudos marcos da nossa atividade d&aacute; mais<br \/>\n    forte percep&ccedil;&atilde;o do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.<br \/>\n    <br \/>\n    Os ru&iacute;dos continuam, e, como nada se v&ecirc;, parece que v&ecirc;m<br \/>\n    do fundo da terra ou s&atilde;o alucina&ccedil;&otilde;es auditivas. A realidade<br \/>\n    s&oacute; nos vem do peda&ccedil;o de mar que se avista, marulhando com grandes<br \/>\n    intervalos, fracamente, tenuemente, a medo, de encontro &agrave; areia da<br \/>\n    praia, suja de bodelhas, algas e sarga&ccedil;os. <\/p>\n<p>Aos grupos, ap&oacute;s o rumor dos remos, os soldados deitaram-se pela relva<br \/>\n    que continua a praia. Alguns j&aacute; cochilam; outros procuram com os olhos<br \/>\n    o c&eacute;u atrav&eacute;s do nevoeiro que lhes umedece o rosto.<\/p>\n<p>O cabo Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros, de rifle &agrave; cintura<br \/>\n    e gorro &agrave; cabe&ccedil;a, sentado numa pedra, est&aacute; de parte,<br \/>\n    sozinho, e olha aquela manh&atilde; angustiosa. <\/p>\n<p>Era a primeira vez que via a cerra&ccedil;&atilde;o assim perto do mar, onde<br \/>\n    ela faz sentir toda a sua for&ccedil;a de desesperar. Em geral, ele s&oacute;<br \/>\n    tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas, macias e fragrantes; aquele<br \/>\n    amanhecer brumoso e feio era uma novidade para ele. <\/p>\n<p>Sob o fardamento de cabo, o menestrel n&atilde;o se aborrece. Aquela vida<br \/>\n    solta da caserna vai-lhe bem n&#8217;alma; o viol&atilde;o est&aacute; l&aacute;<br \/>\n    dentro e, em horas de folga, ele o experimenta, cantarolando em voz baixa.<br \/>\n    &Eacute; preciso n&atilde;o enferrujar os dedos&#8230; O seu pequeno aborrecimento<br \/>\n    &eacute; n&atilde;o poder, de quando em quando, soltar o peito.<\/p>\n<p>O comandante do destacamento &eacute; Quaresma que, talvez, consentisse&#8230;<br \/>\n    O major est&aacute; no interior da casa que serve de quartel, lendo. O seu<br \/>\n    estudo predileto &eacute; agora artilharia. Comprou comp&ecirc;ndios; mas,<br \/>\n    como sua instru&ccedil;&atilde;o &eacute; insuficiente, da artilharia vai<br \/>\n    &agrave; bal&iacute;stica, da bal&iacute;stica &agrave; mec&acirc;nica, da<br \/>\n    mec&acirc;nica ao c&aacute;lculo e &agrave; geometria anal&iacute;tica; desce<br \/>\n    mais a escada; vai &agrave; trigonometria, &agrave; geometria e &agrave; &aacute;lgebra<br \/>\n    e &agrave; aritm&eacute;tica. Ele percorre essa cadeia de<br \/>\n    ci&ecirc;ncias entrela&ccedil;adas com uma f&eacute; de inventor. Aprende<br \/>\n    uma no&ccedil;&atilde;o elementar&iacute;ssima ap&oacute;s um ros&aacute;rio<br \/>\n    de consultas, de comp&ecirc;ndio em comp&ecirc;ndio; e leva assim aqueles<br \/>\n    dias de &oacute;cio guerreiro enfronhado na matem&aacute;tica, nessa matem&aacute;tica<br \/>\n    rebarbativa e hostil aos c&eacute;rebros que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    mo&ccedil;os.<\/p>\n<p>H&aacute; no destacamento um canh&atilde;o Krupp, mas ele nada tem a ver<br \/>\n    com o mort&iacute;fero aparelho; contudo, estuda artilharia. &Eacute; encarregado<br \/>\n    dele o Tenente Fontes, que n&atilde;o d&aacute; obedi&ecirc;ncia ao patriota<br \/>\n    major. Quaresma n&atilde;o se incomoda com isso; vai aprendendo lentamente<br \/>\n    a servir-se da boca-de-fogo e submete-se &agrave; arrog&acirc;ncia do subalterno.<\/p>\n<p> O comandante do &#8220;Cruzeiro do Sul&#8221;, o Bustamente da barba mosaica,<br \/>\n    continua no quartel, superintendendo a vida do batalh&atilde;o. A unidade<br \/>\n    tem poucos oficiais e muito poucas pra&ccedil;as; mas o Estado paga o pr&eacute;<br \/>\n    de quatrocentas. H&aacute; falta de capit&atilde;es, o n&uacute;mero de alferes<br \/>\n    est&aacute; justo, o de tenentes quase, mas j&aacute; h&aacute; um major,<br \/>\n    que &eacute; Quaresma, e o comandante, Bustamente, que, por mod&eacute;stia,<br \/>\n    se fez simplesmente tenente-coronel.<\/p>\n<p>Tem quarenta pra&ccedil;as o destacamento que Quaresma comanda, tr&ecirc;s<br \/>\n    alferes, dous tenentes; mas os oficiais pouco aparecem. Est&atilde;o doentes<br \/>\n    ou licenciados e s&oacute; ele, o antigo agricultor do &#8220;Sossego&#8221;,<br \/>\n    e um alferes, Polidoro, este mesmo s&oacute; &agrave; noite, est&atilde;o<br \/>\n    a postos. Um soldado entrou: <\/p>\n<p>&#8211; Senhor comandante, posso ir almo&ccedil;ar?<\/p>\n<p> &#8211; Pode. Chama-me o cabo Ricardo.<\/p>\n<p> A pra&ccedil;a saiu capengando em cima de grandes botinas; o pobre homem<br \/>\n    usava aquela pe&ccedil;a protetora como um castigo. Assim que se viu no mato,<br \/>\n    que levava a sua casa, tirou-as e sentiu pelo rosto o sopro da liberdade.<\/p>\n<p> O comandante chegou &agrave; janela. A cerra&ccedil;&atilde;o se ia dissipando.<br \/>\n    J&aacute; se via o sol que brilhava como um disco de ouro fosco.<\/p>\n<p> Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros apareceu. Estava engra&ccedil;ado<br \/>\n    dentro do seu fardamento de caporal. A blusa era curt&iacute;ssima, sungada;<br \/>\n    os punhos lhe apareciam inteiramente; e as cal&ccedil;as eram comprid&iacute;ssimas<br \/>\n    e arrastavam no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Como vais, Ricardo? <\/p>\n<p>&#8211; Bem. E o senhor, major?<\/p>\n<p>Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo e demorado:<\/p>\n<p> &#8211; Andas aborrecido, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p> O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante:<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o&#8230; Para que dizer, major, que sim&#8230; Se a coisa for assim at&eacute;<br \/>\n    ao fim, n&atilde;o &eacute; mau&#8230; O diabo &eacute; quando h&aacute; tiro&#8230;<br \/>\n    Uma coisa, major; n&atilde;o se poderia, assim, a&iacute; pelas horas em que<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; que fazer, ir nas mangueiras, cantar um pouco&#8230;<\/p>\n<p> O major co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a, alisou o cavanhaque e disse:<\/p>\n<p> &#8211; Eu, n&atilde;o sei&#8230; &Eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O senhor sabe que isso de cantar baixo &eacute; remar em seco&#8230; Dizem<br \/>\n    que no Paraguai&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Cante l&aacute;; mas n&atilde;o grite, hein?<\/p>\n<p> Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o major recordou:<\/p>\n<p> &#8211; Manda-me trazer o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p>Quaresma jantava e almo&ccedil;ava ali mesmo. N&atilde;o era raro tamb&eacute;m<br \/>\n    dormir. As refei&ccedil;&otilde;es eram-lhe fornecidas por um &#8220;frege&#8221;<br \/>\n    pr&oacute;ximo e ele dormia em um quarto daquela edifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    imperial. Porque a casa em que se acantonara o destacamento era o pavilh&atilde;o<br \/>\n    do imperador, situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. Ficavam nela tamb&eacute;m<br \/>\n    a esta&ccedil;&atilde;o da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande e barulhenta<br \/>\n    serraria. Quaresma veio at&eacute; &agrave; porta, olhou a praia suja e ficou<br \/>\n    admirado que o imperador a quisesse para banhos. A cerra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se ia dissipando inteiramente.<\/p>\n<p> As formas das cousas sa&iacute;am modeladas do seio daquela massa de n&eacute;voa<br \/>\n    pesada; e, satisfeitas, como se o pesadelo tivesse passado. Primeiro surgiam<br \/>\n    as partes baixas, lentamente; e por fim, quase repentinamente, as altas.<\/p>\n<p>&Agrave; direita, havia a Sa&uacute;de, a Gamboa, os navios de com&eacute;rcio:<br \/>\n    galeras de tr&ecirc;s mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos &agrave;<br \/>\n    vela &#8211; que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo tudo tinha um ar<br \/>\n    de paisagem holandesa; &agrave; esquerda, era o saco da Raposa, o Retiro Saudoso,<br \/>\n    a Sapucaia horrenda, a ilha do Governador, os &Oacute;rg&atilde;os azuis,<br \/>\n    altos de tocar no c&eacute;u; em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus<br \/>\n    dep&oacute;sitos de carv&atilde;o; e, alongando a vista pelo mar sossegado,<br \/>\n    Niter&oacute;i, cujas montanhas acabavam de recortar-se no c&eacute;u azul,<br \/>\n    &agrave; luz daquela manh&atilde; atrasada. <\/p>\n<p>A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse &agrave;<br \/>\n    terra; era uma aleluia. Aqueles chiados, aqueles apitos, os guinchos tinham<br \/>\n    um acento festivo de contentamento. Chegou o almo&ccedil;o e o sargento veio<br \/>\n    dizer a Quaresma que havia duas deser&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8211; Mais duas? fez admirado o major.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte n&atilde;o<br \/>\n    responderam hoje a revista.<\/p>\n<p> &#8211; Fa&ccedil;a a parte.<\/p>\n<p> Quaresma almo&ccedil;ava. O Tenente Fontes, o homem do canh&atilde;o, chegou.<br \/>\n    Quase nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o dia, vinha ver as<br \/>\n    cousas como iam.<\/p>\n<p> Uma madrugada, ele n&atilde;o estava. A treva ainda era profunda. O soldado<br \/>\n    de vigia viu l&aacute; ao longe um vulto que se movia dentro da sombra, resvalando<br \/>\n    sobre as &aacute;guas do mar. N&atilde;o trazia luz alguma: s&oacute; o movimento<br \/>\n    daquela mancha escura revelava uma embarca&ccedil;&atilde;o, e tamb&eacute;m<br \/>\n    a ligeira fosforesc&ecirc;ncia das &aacute;guas. O soldado deu rebate; o pequeno<br \/>\n    destacamento p&ocirc;s-se a postos e Quaresma apareceu. <\/p>\n<p>&#8211; O canh&atilde;o! J&aacute;! Avante! ordenou o comandante. E em seguida,<br \/>\n    nervoso, recomendou: <\/p>\n<p>&#8211; Esperem um pouco.<\/p>\n<p>Correu a casa e foi consultar os seus comp&ecirc;ndios e tabelas. Demorou-se<br \/>\n    e a lancha avan&ccedil;ava, os soldados estavam tontos e um deles tomou a<br \/>\n    iniciativa: carregou a pe&ccedil;a e disparou-a. Quaresma reapareceu correndo,<br \/>\n    assustado, e disse, entrecortado pelo resfolegar: <\/p>\n<p>&#8211; Viram bem&#8230; a dist&acirc;ncia&#8230; a al&ccedil;a&#8230; o &acirc;ngulo&#8230; &Eacute;<br \/>\n    preciso ter sempre em vista a efici&ecirc;ncia do fogo. <\/p>\n<p>Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito: <\/p>\n<p>&#8211; Ora, major, voc&ecirc; pensa que est&aacute; em um pol&iacute;gono, fazendo<br \/>\n    estudos pr&aacute;ticos&#8230; Fogo para diante! E assim era. Quase todas as tardes<br \/>\n    havia bombardeio, do mar para as fortalezas, e das fortalezas para o mar;<br \/>\n    e, tanto os navios como os fortes sa&iacute;am inc&oacute;lumes de t&atilde;o<br \/>\n    terr&iacute;veis provas.<\/p>\n<p>L&aacute; vinha uma ocasi&atilde;o, por&eacute;m, que acertavam, ent&atilde;o<br \/>\n    os jornais noticiavam: &#8220;Ontem, o forte Acad&ecirc;mico fez um maravilhoso<br \/>\n    disparo. Com o canh&atilde;o tal, meteu uma bala no &#8216;Guanabara&#8217;.&#8221;<br \/>\n    No dia seguinte, o mesmo jornal retificava, a pedido da bateria do cais Pharoux,<br \/>\n    que era a que tinha feito o disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa j&aacute;<br \/>\n    estava esquecida, quando aparecia uma carta de Niter&oacute;i, reclamando<br \/>\n    as honras do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.<\/p>\n<p> O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canh&atilde;o com o faro de<br \/>\n    entendedor. Havia uma trincheira de fardo de alfafa e a boca da pe&ccedil;a<br \/>\n    sa&iacute;a por entre os fiapos de palha, como as goelas de um animal feroz<br \/>\n    oculto entre ervas.<br \/>\n    Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canh&atilde;o, e considerava<br \/>\n    a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do viol&atilde;o e uma voz que dizia:<\/p>\n<p>Prometo pelo Sant&iacute;ssimo Sacramento&#8230;<\/p>\n<p>Dirigiu-se para o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lind&iacute;ssimo<br \/>\n    quadro: &agrave; sombra de uma grande &aacute;rvore, os soldados deitados<br \/>\n    ou sentados em c&iacute;rculo, em torno de Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    Outros, que entoava endechas magoadas. <\/p>\n<p>As pra&ccedil;as tinham acabado de almo&ccedil;ar e beber a pinga, e estavam<br \/>\n    t&atilde;o embevecidas na can&ccedil;&atilde;o de Ricardo que n&atilde;o deram<br \/>\n    pela chegada do jovem oficial. <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto? disse ele severamente. <\/p>\n<p>Os soldados levantaram-se todos, em contin&ecirc;ncia; e Ricardo, com a m&atilde;o<br \/>\n    direita no gorro, perfilado, e a esquerda, segurando o viol&atilde;o, que<br \/>\n    repousava no ch&atilde;o, desculpou-se: <\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Seu&#8221; tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria sabe<br \/>\n    que se n&oacute;s n&atilde;o tiv&eacute;ssemos ordem, n&atilde;o ir&iacute;amos<br \/>\n    brincar.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. N&atilde;o quero mais isto, disse o oficial.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o temos aqui Major Quaresma. N&atilde;o quero, j&aacute; disse!<\/p>\n<p> Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa imperial,<br \/>\n    ao encontro do major do &#8220;Cruzeiro do Sul&#8221;. Quaresma continuava<br \/>\n    no seu estudo, um rolar de S&iacute;sifo, mas volunt&aacute;rio, para a grandeza<br \/>\n    da p&aacute;tria. Fontes foi entrando e dizendo: <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; isto, &#8220;Seu&#8221; Quaresma! Ent&atilde;o o senhor permite<br \/>\n    cantorias no destacamento?<\/p>\n<p> O major n&atilde;o se lembrava mais da cousa e ficou espantado com o ar<br \/>\n    severo e r&iacute;spido do mo&ccedil;o. Ele repetiu:<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o o senhor permite que os inferiores cantem modinhas e toquem<br \/>\n    viol&atilde;o, em pleno servi&ccedil;o?<\/p>\n<p> &#8211; Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E a disciplina? E o respeito?<\/p>\n<p> &#8211; Bem, vou proibir, disse Quaresma.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; preciso. J&aacute; proibi.<\/p>\n<p>Quaresma n&atilde;o se deu por agastado, n&atilde;o percebeu motivo para<br \/>\n    agastamento e disse com do&ccedil;ura:<\/p>\n<p> &#8211; Fez bem.<\/p>\n<p> Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada de uma<br \/>\n    fra&ccedil;&atilde;o decimal; o rapaz ensinou-lhe e eles estiveram cordialmente<br \/>\n    conversando sobre cousas vulgares. Fontes era noivo de Lal&aacute;, a terceira<br \/>\n    filha do general Albernaz, e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento.<\/p>\n<p> Durante uma hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato<br \/>\n    familiar a que estavam ligados aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene<br \/>\n    disputa entre duas ambi&ccedil;&otilde;es. Subitamente, a corneta feriu o<br \/>\n    ar com a sua voz met&aacute;lica. Fontes assestou o ouvido; o major perguntou:<\/p>\n<p> &#8211; Que toque &eacute;?<\/p>\n<p> &#8211; Sentido.<\/p>\n<p> Os dous sa&iacute;ram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando<br \/>\n    o talim, sem encontrar jeito, trope&ccedil;ando na espada vener&aacute;vel<br \/>\n    que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Os soldados j&aacute;<br \/>\n    estavam nas trincheiras, armas &agrave; m&atilde;o; o canh&atilde;o tinha<br \/>\n    ao lado a muni&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria. Uma lancha avan&ccedil;ava<br \/>\n    lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua<br \/>\n    borda um golf&atilde;o de fuma&ccedil;a espessa: Queimou! &#8211; gritou uma voz.<br \/>\n    Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha<br \/>\n    continuava a avan&ccedil;ar imp&aacute;vida. Al&eacute;m dos soldados, havia<br \/>\n    curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!<\/p>\n<p> E assim sempre. &Agrave;s vezes eles chegavam bem perto &agrave; tropa,<br \/>\n    &agrave;s trincheiras, atrapalhando o servi&ccedil;o; em outras, um cidad&atilde;o<br \/>\n    qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor d&aacute;<br \/>\n    licen&ccedil;a que d&ecirc; um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam<br \/>\n    a pe&ccedil;a e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.<\/p>\n<p>Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade&#8230;<br \/>\n    Quando se anunciava um bombardeio, num segundo, o terra&ccedil;o do Passeio<br \/>\n    P&uacute;blico se enchia. Era como se fosse uma noite de luar, no tempo em<br \/>\n    que era do tom apreci&aacute;-las no velho jardim de Dom Lu&iacute;s de Vasconcelos,<br \/>\n    vendo o astro solit&aacute;rio pratear a &aacute;gua e encher o c&eacute;u.<\/p>\n<p>Alugavam-se bin&oacute;culos e tanto os velhos como as mo&ccedil;as, os rapazes<br \/>\n    como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de teatro: &#8220;Queimou Santa Cruz! Agora &eacute; o &#8216;Aquidab&atilde;&#8217;!<br \/>\n    L&aacute; vai!&#8221; E dessa maneira a revolta ia, familiarmente, entrando<br \/>\n    nos h&aacute;bitos e nos costumes da cidade. <\/p>\n<p>Nos cais Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates,<br \/>\n    quitandeiros ficavam atr&aacute;s das portadas, dos urin&aacute;rios, das<br \/>\n    &aacute;rvores, a ver, a esperar a queda das balas; e quando acontecia cair<br \/>\n    uma, corriam todos em bolo, a apanh&aacute;-la como se fosse uma moeda ou<br \/>\n    guloseima. <\/p>\n<p>As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de rel&oacute;gios,<br \/>\n    lapiseiras, feitas com as pequenas balas de fuzis; faziam-se tamb&eacute;m<br \/>\n    cole&ccedil;&otilde;es das m&eacute;dias e com os seus estojos de metal, areados,<br \/>\n    polidos, lixados, ornavam os consolos, os dunkerques das casas m&eacute;dias;<br \/>\n    as grandes, os &#8220;mel&otilde;es&#8221; e as &#8220;ab&oacute;boras&#8221;,<br \/>\n    como chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faian&ccedil;a ou est&aacute;tuas.<\/p>\n<p>A lancha continuava a atirar; Fontes fez um disparo. O canh&atilde;o vomitou<br \/>\n    o proj&eacute;til, recuou um pouco e logo foi posto em posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A embarca&ccedil;&atilde;o respondeu e o rapazote gritou: queimou! <\/p>\n<p>Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal viam o<br \/>\n    fuzilar breve e a fuma&ccedil;a, l&aacute; longe, no navio, jorrar devagar,<br \/>\n    muito pesada, gritavam: queimou!<\/p>\n<p> Houve um em Niter&oacute;i que teve o seu quarto de hora de celebridade.<br \/>\n    Chamavam-no &#8220;Trinta-R&eacute;is&#8221;; os jornais do tempo ocuparam-se<br \/>\n    com ele, fizeram-se subscri&ccedil;&otilde;es a seu favor. Um her&oacute;i!<br \/>\n    Passou a revolta e foi esquecido, tanto ele como a &#8220;Luci&#8221;, uma<br \/>\n    bela lancha que chegou fazer-se entidade na imagina&ccedil;&atilde;o da urbs,<br \/>\n    a interess&aacute;-la, a criar inimigos e admiradores. <\/p>\n<p>A embarca&ccedil;&atilde;o deixou de provocar a f&uacute;ria do posto do<br \/>\n    Caju, e Fontes deu instru&ccedil;&otilde;es ao seu chefe da pe&ccedil;a, e<br \/>\n    foi-se embora.<\/p>\n<p>Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros.<br \/>\n    Os mais dias que passou naquele extremo da cidade n&atilde;o eram diferentes<br \/>\n    deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra ca&iacute;a na banalidade<br \/>\n    da repeti&ccedil;&atilde;o dos mesmos epis&oacute;dios. <\/p>\n<p>A espa&ccedil;os, quando o aborrecimento lhe vinha, sa&iacute;a. Descia a<br \/>\n    cidade e deixava o posto entregue a Polidoro ou a Fontes, se estava. Raras<br \/>\n    vezes o fazia de dia, porque Polidoro, o mais ass&iacute;duo, marceneiro de<br \/>\n    profiss&atilde;o e em atividade<br \/>\n    numa f&aacute;brica de m&oacute;veis, s&oacute; vinha &agrave; noite. No centro<br \/>\n    da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro, o governo pagava<br \/>\n    soldos dobrados, e, &agrave;s vezes, gratifica&ccedil;&otilde;es, al&eacute;m<br \/>\n    do que havia tamb&eacute;m a morte sempre presente; e tudo isso estimulava<br \/>\n    o divertir-se. Os teatros eram freq&uuml;entados e os restaurants noturnos<br \/>\n    tamb&eacute;m. <\/p>\n<p>Quaresma, por&eacute;m, n&atilde;o se metia naquele ru&iacute;do de pra&ccedil;a<br \/>\n    semi-sitiada. Ia &agrave;s vezes ao teatro, &agrave; paisana, e, logo acabado<br \/>\n    o espet&aacute;culo, voltava para o quarto da cidade ou para o posto. Em outras<br \/>\n    tardes, logo que Polidoro chegava, sa&iacute;a a p&eacute;, pelas ruas dos<br \/>\n    arredores, pelas praias at&eacute; o Campo de S&atilde;o Crist&oacute;v&atilde;o.<\/p>\n<p> Ia vendo aquela sucess&atilde;o de cemit&eacute;rios, com as suas campas<br \/>\n    alvas que sobem montanhas, como carneiros tosquiados e limpos a pastar; aqueles<br \/>\n    ciprestes meditativos que as vigiam; e como que se lhe representava que aquela<br \/>\n    parte da cidade era feudo e senhorio da morte.<\/p>\n<p>As casas tinham um aspecto f&uacute;nebre, recolhidas e concentradas; o mar<br \/>\n    marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras ciciavam doridas;<br \/>\n    e at&eacute; o tilintar da campainha dos bondes era triste e l&uacute;gubre.<\/p>\n<p> A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava ali mais<br \/>\n    ainda, para fazer sentir nela t&atilde;o forte aspecto fun&eacute;reo. <\/p>\n<p>Foi vindo at&eacute; ao Campo; a&iacute; deu-lhe vontade de ver a sua antiga<br \/>\n    casa e afinal entrou na resid&ecirc;ncia do General Albernaz. Devia-lhe aquela<br \/>\n    visita e aproveitou o ensejo.<\/p>\n<p> Acabavam de jantar e jantara com o general, al&eacute;m do Tenente Fontes<br \/>\n    e o Almirante Caldas, o comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel Inoc&ecirc;ncio<br \/>\n    Bustamante.<\/p>\n<p> Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. N&atilde;o havia<br \/>\n    quem como ele se interessasse pelos livros, pela boa caligrafia com que eram<br \/>\n    escritos os livros mestres, as rela&ccedil;&otilde;es de mostra, os mapas<br \/>\n    de companhia e outros documentos. Com aux&iacute;lio deles, a organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu batalh&atilde;o era irrepreens&iacute;vel; e, para n&atilde;o deixar<br \/>\n    de vigiar a escritura&ccedil;&atilde;o, aparecia de onde em onde nos destacamentos<br \/>\n    do seu corpo.<\/p>\n<p>Havia dez dias que Quaresma o n&atilde;o via. Ap&oacute;s os cumprimentos,<br \/>\n    ele logo perguntou ao major:<\/p>\n<p> &#8211; Quantas deser&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; hoje, nove, disse Quaresma.<\/p>\n<p> Bustamante co&ccedil;ou a cabe&ccedil;a desesperado e refletiu:<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o sei o que tem essa gente&#8230; &Eacute; um desertar sem nome&#8230;<br \/>\n    Falta-lhes patriotismo! <\/p>\n<p>&#8211; Fazem muito bem&#8230; Ora! disse o almirante.<\/p>\n<p> Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e at&eacute;<br \/>\n    agora o governo n&atilde;o lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo<br \/>\n    se enfraquecia com o diluir-se da esperan&ccedil;a de ser algum dia vice-almirante.<br \/>\n    &Eacute; verdade que o governo ainda n&atilde;o organizara a sua esquadra;<br \/>\n    entretanto, pelo rumor que corria, ele n&atilde;o comandaria nem uma divis&atilde;o.<br \/>\n    Uma iniq&uuml;idade! Era velho um pouco, &eacute; verdade; mas, por n&atilde;o<br \/>\n    ter nunca comandado, nessa mat&eacute;ria ele podia despender toda uma energia<br \/>\n    mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; O almirante n&atilde;o deve falar assim&#8230; A p&aacute;tria est&aacute;<br \/>\n    logo abaixo da humanidade. <\/p>\n<p>&#8211; Meu caro tenente, o senhor &eacute; mo&ccedil;o&#8230; Eu sei o que s&atilde;o<br \/>\n    essas cousas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se deve desesperar&#8230; N&atilde;o trabalhamos para n&oacute;s,<br \/>\n    mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.<\/p>\n<p> &#8211; Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.<\/p>\n<p> Bustamente, o general e Quaresma assistiam &agrave; pequena discuss&atilde;o<br \/>\n    calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a f&uacute;ria de Caldas,<br \/>\n    que n&atilde;o se cansava de dan&ccedil;ar a perna e alisar os longos favoritos<br \/>\n    brancos. O tenente respondeu: <\/p>\n<p>&#8211; Muito, almirante. N&oacute;s todos devemos trabalhar para que surjam &eacute;pocas<br \/>\n    melhores, de ordem, de felicidade e evolu&ccedil;&atilde;o moral.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca houve e nunca haver&aacute;! disse de um jato Caldas.<\/p>\n<p> &#8211; Eu tamb&eacute;m penso assim, acrescentou Albernaz.<\/p>\n<p> &#8211; Isto h&aacute; de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.<\/p>\n<p> O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face<br \/>\n    daquelas contesta&ccedil;&otilde;es, ao contr&aacute;rio dos seus cong&ecirc;neres<br \/>\n    de seita, n&atilde;o se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado<br \/>\n    e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.<\/p>\n<p> Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a m&atilde;o direita no jeito<br \/>\n    favorito dos sermon&aacute;rios, depois de ouvir todos, falou com un&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p> &#8211; Houve j&aacute; um esbo&ccedil;o: a Idade M&eacute;dia.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m ali lhe podia contestar. Quaresma s&oacute; sabia hist&oacute;ria<br \/>\n    do Brasil e os outros nenhuma. E a sua afirma&ccedil;&atilde;o fez calar todos,<br \/>\n    embora no &iacute;ntimo duvidosos. &Eacute; uma curiosa Idade M&eacute;dia,<br \/>\n    essa de eleva&ccedil;&atilde;o moral, que a gente n&atilde;o sabe onde fica,<br \/>\n    em que ano? Se a gente diz: &#8220;No tempo de Clot&aacute;rio, ele pr&oacute;prio,<br \/>\n    com suas m&atilde;os, atacou fogo na palho&ccedil;a em que encerrava o seu<br \/>\n    filho Crame mais a mulher deste e filhos&#8221; &#8211; o positivista objeta: &#8220;Ainda<br \/>\n    n&atilde;o estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja.&#8221;<br \/>\n    &#8220;S&atilde;o Lu&iacute;s&#8221;, diremos logo n&oacute;s, &#8220;quis<br \/>\n    executar um senhor feudal porque mandou enforcar tr&ecirc;s crian&ccedil;as<br \/>\n    que tinham morto um coelho nas suas matas.&#8221; Objeta o fiel: &#8220;Voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o sabe que a nossa Idade M&eacute;dia vai at&eacute; o aparecimento<br \/>\n    da Divina Com&eacute;dia? S&atilde;o Lu&iacute;s j&aacute; era a decad&ecirc;ncia&#8221;&#8230;<br \/>\n    Citam-se as epidemias de mol&eacute;stias nervosas, a mis&eacute;ria dos camp&ocirc;nios,<br \/>\n    as ladroagens &agrave; m&atilde;o armada dos bar&otilde;es, as alucina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do mil&ecirc;nio, as cru&eacute;is matan&ccedil;as que Carlos Magno fez aos<br \/>\n    sax&otilde;es; eles respondem: uma hora que ainda n&atilde;o estava perfeitamente<br \/>\n    estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele j&aacute; tinha desaparecido.<\/p>\n<p> Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta.<br \/>\n    O almirante criticava severamente o governo. <\/p>\n<p>N&atilde;o tinha plano algum, levava a dar tiros &agrave; toa; na sua opini&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; devia ter feito todo o esfor&ccedil;o para ocupar a ilha das Cobras,<br \/>\n    embora isso custasse rios de sangue. Bustamente n&atilde;o tinha opini&atilde;o<br \/>\n    assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que n&atilde;o: seria uma aventura<br \/>\n    arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz ainda n&atilde;o tinha<br \/>\n    dado o seu aviso, e veio a faz&ecirc;-lo assim: <\/p>\n<p>&#8211; Mas n&oacute;s reconhecemos Humait&aacute;, e por pouco!<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, n&atilde;o a tomaram, disse Fontes. As condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente in&uacute;til&#8230;<br \/>\n    O senhor sabe, esteve l&aacute;! <\/p>\n<p>&#8211; Isto &eacute;&#8230; Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camis&atilde;o<br \/>\n    disse-me que foi arriscado.<\/p>\n<p> Quaresma voltara ao sil&ecirc;ncio. Ele procurava ver Ism&ecirc;nia. Fontes<br \/>\n    lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por qualquer cousa preso<br \/>\n    &agrave; mol&eacute;stia da mo&ccedil;a. Viu todos: Dona Maricota, sempre<br \/>\n    ativa e diligente; Lal&aacute;, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa<br \/>\n    intermin&aacute;vel, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala<br \/>\n    de visitas &agrave; sala de jantar onde ele estava. Por fim, n&atilde;o se<br \/>\n    conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irm&atilde; casada e ia pior,<br \/>\n    cada vez mais abismada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general<br \/>\n    contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua<br \/>\n    desgra&ccedil;a &iacute;ntima, disse com um longo suspiro:<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei, Quaresma&#8230; N&atilde;o sei.<\/p>\n<p>Eram dez horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para a Ponta do<br \/>\n    Caju. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio da perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial que p&otilde;e em n&oacute;s o luar que estava lindo, terno e leitoso,<br \/>\n    naquela noite. &Eacute; uma emo&ccedil;&atilde;o de desafogo do corpo, de<br \/>\n    del&iacute;quio; parece que nos tiram o envolt&oacute;rio material e ficamos<br \/>\n    s&oacute; alma, envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. O major<br \/>\n    n&atilde;o colhia bem a sensa&ccedil;&atilde;o transcendente, mas sofria sem<br \/>\n    perceber o efeito da luz p&aacute;lida e fria do luar. Deitou-se um pouco,<br \/>\n    vestido, n&atilde;o por sono, mas em virtude daquela doce embriaguez que o<br \/>\n    astro lhe tinha posto nos sentidos.<\/p>\n<p> Dentro em pouco Ricardo veio cham&aacute;-lo: o marechal estava a&iacute;.<br \/>\n    Era seu h&aacute;bito sair &agrave; noite, &agrave;s vezes, de madrugada,<br \/>\n    e ir de posto em posto. O fato se espalhou pelo p&uacute;blico que o apreciava<br \/>\n    extraordinariamente, e o Presidente teve mais esse documento para firmar a<br \/>\n    sua fama de estadista consumado.<\/p>\n<p> Quaresma veio ao seu encontro. Floriano vestia chap&eacute;u de feltro mole,<br \/>\n    abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha um ar de malfeitor ou<br \/>\n    de exemplar chefe de fam&iacute;lia em aventuras extraconjugais.<\/p>\n<p> O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe not&iacute;cias do ataque que<br \/>\n    fora feito ao seu posto, h&aacute; dias passados. O marechal respondia por<br \/>\n    monoss&iacute;labos pregui&ccedil;osos e olhava ao redor. Quase ao despedir-se,<br \/>\n    falou mais, dizendo vagarosamente, lentamente: <\/p>\n<p>&#8211; Hei de mandar p&ocirc;r um holofote aqui. <\/p>\n<p>Quaresma veio acompanh&aacute;-lo at&eacute; ao bonde. Atravessaram o velho<br \/>\n    s&iacute;tio de recreio dos imperadores. <\/p>\n<p>Um pouco afastada da esta&ccedil;&atilde;o uma locomotiva, semi-acesa, resfolegava.<br \/>\n    Semelhava roncar, dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar, muito<br \/>\n    quietos, sossegados como que dormiam. As anosas mangueiras, com falta de galhos<br \/>\n    aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente de prata. O luar estava magn&iacute;fico.<br \/>\n    Os dous andavam, o marechal perguntou:<\/p>\n<p> &#8211; Quantos homens tem voc&ecirc;?<\/p>\n<p> &#8211; Quarenta.<\/p>\n<p>O marechal mastigou um: &#8220;n&atilde;o &eacute; muito&#8221;; e voltou<br \/>\n    ao mutismo. Num dado momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado pela luz da<br \/>\n    lua. Pareceu-lhe mais simp&aacute;tica a fisionomia do ditador. Se lhe falasse&#8230;<\/p>\n<p> Preparou a pergunta; mas n&atilde;o teve coragem de pronunci&aacute;-la.<br \/>\n    Continuaram a andar. O major pensou: que &eacute; que tem? n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    desrespeito algum. Aproximaram-se do port&atilde;o. Num dado momento como<br \/>\n    que houve uma bulha atr&aacute;s. Quaresma voltou-se, mas Floriano quase n&atilde;o<br \/>\n    o fez. <\/p>\n<p>Os edif&iacute;cios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto era o branco<br \/>\n    luar. O major continuou a mastigar a sua pergunta; urgia, era indispens&aacute;vel;<br \/>\n    o port&atilde;o estava a dous passos. Tomou coragem, ousou e falou:<\/p>\n<p> &#8211; Vossa Excel&ecirc;ncia j&aacute; leu o meu memorial, marechal?<\/p>\n<p> Floriano respondeu lentamente, quase sem levantar o l&aacute;bio pendente:<\/p>\n<p> &#8211; Li.<\/p>\n<p> Quaresma entusiasmou-se:<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc; Vossa Excel&ecirc;ncia como &eacute; f&aacute;cil erguer este<br \/>\n    pa&iacute;s. Desde que se cortem todos aqueles empecilhos que eu apontei,<br \/>\n    no memorial que Vossa Excel&ecirc;ncia teve a bondade de ler; desde que se<br \/>\n    corrijam os erros de uma legisla&ccedil;&atilde;o defeituosa e inadapt&aacute;vel<br \/>\n    &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es do pa&iacute;s, Vossa Excel&ecirc;ncia ver&aacute;<br \/>\n    que tudo isto muda, que, em vez de tribut&aacute;rios, ficaremos com a nossa<br \/>\n    independ&ecirc;ncia feita&#8230; Se Vossa Excel&ecirc;ncia quisesse&#8230;<\/p>\n<p>&Agrave; propor&ccedil;&atilde;o que falava, mais Quaresma se entusiasmava.<br \/>\n    Ele n&atilde;o podia ver bem a fisionomia do ditador, encoberto agora como<br \/>\n    lhe estava o rosto pelas abas do chap&eacute;u de feltro; mas, se a visse,<br \/>\n    teria de esfriar, pois havia na sua m&aacute;scara sinais do aborrecimento<br \/>\n    mais mortal. Aquele falat&oacute;rio de Quaresma, aquele apelo &agrave; legisla&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a medidas governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por mais que n&atilde;o<br \/>\n    quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse: <\/p>\n<p>&#8211; Mas, pensa voc&ecirc;, Quaresma, que eu hei de p&ocirc;r a enxada na m&atilde;o<br \/>\n    de cada um desses vadios?! N&atilde;o havia ex&eacute;rcito que chegasse&#8230;<\/p>\n<p> Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu: <\/p>\n<p>&#8211; Mas, n&atilde;o &eacute; isso, marechal. Vossa Excel&ecirc;ncia, com o<br \/>\n    seu prest&iacute;gio e poder, est&aacute; capaz de favorecer, com medidas<br \/>\n    en&eacute;rgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas, de encaminhar<br \/>\n    o trabalho, de favorec&ecirc;-lo e torn&aacute;-lo remunerador&#8230; Bastava,<br \/>\n    por exemplo&#8230; <\/p>\n<p>Atravessavam o port&atilde;o da velha quinta de Pedro I. O luar continuava<br \/>\n    lindo, pl&aacute;stico e opalescente. <\/p>\n<p>Um grande edif&iacute;cio inacabado que havia na rua parecia terminado, com<br \/>\n    vidra&ccedil;as e portas feitas com a luz da lua. Era um pal&aacute;cio de<br \/>\n    sonho. <\/p>\n<p>Floriano j&aacute; ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou; ele se<br \/>\n    despediu do major, dizendo com aquela sua placidez de voz:<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;, Quaresma, &eacute; um vision&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p> O bonde partiu. A lua povoava os espa&ccedil;os, dava fisionomia &agrave;s<br \/>\n    cousas, fazia nascer sonhos em nossa alma, enchia a vida, enfim, com a sua<br \/>\n    luz emprestada&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">III &#8230; E TORNARAM LOGO SILENCIOSOS&#8230;<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Eu tenho experimentado tudo, Quaresma, mas n&atilde;o sei&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; meio!<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; a levou a um m&eacute;dico especialista?<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute;. Tenho corrido m&eacute;dicos, esp&iacute;ritas, at&eacute;<br \/>\n    feiticeiros, Quaresma!<\/p>\n<p>E os olhos do velho se orvalharam por baixo do pince-nez. Os dois se haviam<br \/>\n    encontrado na pagadoria da Guerra e vinham pelo campo de Sant&#8217;Ana, a p&eacute;,<br \/>\n    andando a pequenos passos e conversando. O general era mais alto que Quaresma,<br \/>\n    e enquanto este tinha a cabe&ccedil;a sobre um pesco&ccedil;o alto, aquele<br \/>\n    a tinha metida entre os ombros proeminentes, como cotos de asas. Albernaz<br \/>\n    reatou:<\/p>\n<p>&#8212; E rem&eacute;dios! Cada m&eacute;dico receita uma coisa; os esp&iacute;ritas<br \/>\n    s&atilde;o os melhores, d&atilde;o homeopatia; os feiticeiros tisanas, rezas<br \/>\n    e defuma&ccedil;&otilde;es&#8230; Eu n&atilde;o sei, Quaresma!<\/p>\n<p>E levantou os olhos para o c&eacute;u, que estava um tanto pl&uacute;mbeo.<br \/>\n    N&atilde;o se demorou, por&eacute;m, muito nessa postura; o pince-nez n&atilde;o<br \/>\n    permitia, j&aacute; come&ccedil;ava a cair.<\/p>\n<p>Quaresma abaixou a cabe&ccedil;a e andou assim um pouco olhando as granula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do granito do passeio. Levantou o olhar ao fim de algum tempo, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o a recolhe a uma casa de sa&uacute;de, general?<\/p>\n<p>&#8212; Meu m&eacute;dico j&aacute; me aconselhou isso&#8230; A mulher n&atilde;o<br \/>\n    quer e agora mesmo, no estado em que a menina est&aacute;, n&atilde;o vale<br \/>\n    a pena&#8230;<\/p>\n<p>Falava da filha, da Ism&ecirc;nia, que, naqueles &uacute;ltimos meses, piorara<br \/>\n    sensivelmente, n&atilde;o tanto da sua mol&eacute;stia mental, mais da sa&uacute;de<br \/>\n    comum, vivendo de cama, sempre febril, enlanguescendo, definhando, marchando<br \/>\n    a passos largos para o abra&ccedil;o frio da morte.<\/p>\n<p>Albernaz dizia a verdade; para cur&aacute;-la tanto de sua loucura como da<br \/>\n    atual mol&eacute;stia intercorrente, lan&ccedil;ara m&atilde;o de todos os<br \/>\n    recursos, de todos os conselhos apontados por quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Era de fazer refletir ver aquele homem, general, marcado com um curso governamental,<br \/>\n    procurar m&eacute;diuns e feiticeiros, para sarar a filha.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes at&eacute; levava-os em casa. Os m&eacute;diuns chegavam<br \/>\n    perto da mo&ccedil;a, davam um estreme&ccedil;&atilde;o, ficavam com uns olhos<br \/>\n    desvairados, fixos, gritavam: &quot;Sai, irm&atilde;o!&quot; &#8212; e sacudiam<br \/>\n    as m&atilde;os, do peito para a mo&ccedil;a, de l&aacute; para c&aacute;,<br \/>\n    rapidamente, nervosamente, no intuito de descarregar sobre ela os fluidos<br \/>\n    milagrosos.<\/p>\n<p>Os feiticeiros tinham outros passes e as cerim&ocirc;nias para entrar no<br \/>\n    conhecimento das for&ccedil;as ocultas que nos cercam eram demoradas, lentas<br \/>\n    e acabadas. Em geral, eram pretos africanos. Chegavam, acendiam um fogareiro<br \/>\n    no quarto, tiravam de um cesto um sapo empalhado ou outra coisa esquisita,<br \/>\n    batiam com feixes de ervas, ensaiavam passos de dan&ccedil;a e pronunciavam<br \/>\n    palavras inintelig&iacute;veis. O ritual era complicado e tinha a sua demora.<\/p>\n<p>Na sa&iacute;da, a pobre Dona Maricota, um tanto j&aacute; diminu&iacute;da<br \/>\n    da sua atividade e dilig&ecirc;ncia, olhando ternamente aquele grande rosto<br \/>\n    negro do mandingueiro, onde a barba branca punha mais venera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e certa grandeza, perguntava:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, titio?<\/p>\n<p>O preto considerava um instante, como se estivesse recebendo as &uacute;ltimas<br \/>\n    comunica&ccedil;&otilde;es do que n&atilde;o se v&ecirc; nem se percebe, e<br \/>\n    dizia com a sua majestade de africano:<\/p>\n<p>&#8212; V&ocirc; v&ecirc;, nh&atilde;nh&atilde;&#8230; T&ocirc; crotando mandinga&#8230;<\/p>\n<p>Ela e o general tinham assistido a cerim&ocirc;nia e o amor de pais e tamb&eacute;m<br \/>\n    esse fundo de supersti&ccedil;&atilde;o que h&aacute; em todos n&oacute;s,<br \/>\n    levavam a olh&aacute;-la com respeito, quase com f&eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o foi feiti&ccedil;o que fizeram &agrave; minha filha? perguntava<br \/>\n    a senhora.<\/p>\n<p>&#8212; Foi, sim, nh&atilde;nh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Quem?<\/p>\n<p>&#8212; Santo n&atilde;o qu&eacute; diz&ecirc;.<\/p>\n<p>E o preto obscuro, velho escravo, arrancado h&aacute; um meio s&eacute;culo<br \/>\n    dos confins da &Aacute;frica, sa&iacute;a arrastando a sua velhice e deixando<br \/>\n    naqueles dois cora&ccedil;&otilde;es uma esperan&ccedil;a fugaz.<\/p>\n<p>Era uma singular situa&ccedil;&atilde;o, a daquele preto africano, ainda<br \/>\n    certamente pouco esquecido das dores do seu longo cativeiro, lan&ccedil;ando<br \/>\n    m&atilde;o dos res&iacute;duos de suas ing&ecirc;nuas cren&ccedil;as tribais,<br \/>\n    res&iacute;duos que t&atilde;o a custo tinham resistido ao seu transplante<br \/>\n    for&ccedil;ado para terras de outros deuses &#8212; e empregando-os na consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus senhores de outro tempo. Como que os deuses de sua inf&acirc;ncia<br \/>\n    e de sua ra&ccedil;a, aqueles sanguin&aacute;rios manipansos da &Aacute;frica<br \/>\n    indecifr&aacute;vel, quisessem ving&aacute;-lo &agrave; legend&aacute;ria<br \/>\n    maneira do Cristo dos Evangelhos&#8230;<\/p>\n<p>A doente assistia a tudo aquilo sem compreender e se interessar por aqueles<br \/>\n    trejeitos e passes de t&atilde;o poderosos homens que se comunicavam, que<br \/>\n    tinham &agrave;s suas ordens os seres imateriais, as exist&ecirc;ncias fora<br \/>\n    e acima da nossa.<\/p>\n<p>Andando, ao lado de Quaresma, o general lembrava-se de tudo isso e teve um<br \/>\n    pensamento amargo contra a ci&ecirc;ncia, contra os esp&iacute;ritos, contra<br \/>\n    os feiti&ccedil;os, contra Deus que lhe ia tirando a filha aos poucos, sem<br \/>\n    piedade e comisera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O major n&atilde;o sabia o que dizer diante daquela imensa dor de pai e parecia-lhe<br \/>\n    toda e qualquer palavra de consolo parva e idiota. Afinal disse:<\/p>\n<p>&#8212; General, o senhor permite que eu a fa&ccedil;a ver por um m&eacute;dico?<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o marido de minha afilhada&#8230; o senhor conhece&#8230; &Eacute; mo&ccedil;o,<br \/>\n    quem sabe l&aacute;! N&atilde;o acha? Pode ser, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>O general consentiu e a esperan&ccedil;a de ver curada a filha lhe afagou<br \/>\n    as faces enrugadas. Cada m&eacute;dico que consultava, cada esp&iacute;rita,<br \/>\n    cada feiticeiro reanimava-o, pois de todos ele esperava o milagre. Nesse mesmo<br \/>\n    dia, Quaresma foi procurar o doutor Armando.<\/p>\n<p>A revolta j&aacute; tinha mais de quatro meses de vida e as vantagens do<br \/>\n    governo eram problem&aacute;ticas. No Sul, a insurrei&ccedil;&atilde;o chegava<br \/>\n    &agrave;s portas de S&atilde;o Paulo, e s&oacute; a Lapa resistia tenazmente,<br \/>\n    uma das poucas p&aacute;ginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paix&otilde;es.<br \/>\n    A pequena cidade tinha dentro de suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro,<br \/>\n    uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante<br \/>\n    e justo. N&atilde;o se desmanchou em viol&ecirc;ncias de apavorado e soube<br \/>\n    tornar verdade a gasta frase grandiloq&uuml;ente: resistir at&eacute; a morte.<\/p>\n<p>A ilha do Governador tinha sido ocupada e Maj&eacute; tomado; os revoltosos,<br \/>\n    por&eacute;m, tinham a vasta baia e a barra apertada, por onde saiam e entravam,<br \/>\n    sem temer o estorvo das fortalezas.<\/p>\n<p>As viol&ecirc;ncias, os crimes que tinham assinalado esses dois marcos de<br \/>\n    atividade guerreira do governo, chegavam ao ouvido de Quaresma e ele sofria.<\/p>\n<p>Da ilha do Governador fez-se uma verdadeira mudan&ccedil;a de m&oacute;veis,<br \/>\n    roupas e outros haveres. O que n&atilde;o podia ser transportado era destru&iacute;do<br \/>\n    pelo fogo e pelo machado.<\/p>\n<p>A ocupa&ccedil;&atilde;o deixou l&aacute; a mais execranda mem&oacute;ria<br \/>\n    e at&eacute; hoje os seus habitantes ainda se recordam dolorosamente de um<br \/>\n    capit&atilde;o, patri&oacute;tico ou da guarda nacional, Ortiz, pela sua ferocidade<br \/>\n    e insofrido gosto pelo saque e outras vexa&ccedil;&otilde;es. Passava um pescador,<br \/>\n    com uma tampa de peixe, e o capit&atilde;o chamava o pobre homem:<\/p>\n<p>&#8212; Venha c&aacute;!<\/p>\n<p>O homem aproximava-se amedrontado e Ortiz perguntava:<\/p>\n<p>&#8212; Quanto quer por isso?<\/p>\n<p>&#8212; Tr&ecirc;s mil-r&eacute;is, capit&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele sorria diabolicamente e familiarmente regateava:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o deixa por menos?&#8230; Est&aacute; caro&#8230; Isso &eacute;<br \/>\n    peixe ordin&aacute;rio&#8230; Carapebas! Ora!<\/p>\n<p>&#8212; Bem, capit&atilde;o, v&aacute; l&aacute; por dois e quinhentos.<\/p>\n<p>&#8212; Leve isso l&aacute; dentro.<\/p>\n<p>Ele falava na porta de casa. O pescador voltava e ficava um tempo em p&eacute;,<br \/>\n    demonstrando que esperava o dinheiro. Ortiz balan&ccedil;ava a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e dizia escarninho:<\/p>\n<p>&#8212; Dinheiro! hein? V&aacute; cobrar ao Floriano.<\/p>\n<p>Entretanto, Moreira C&eacute;sar deixou boas recorda&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    si e ainda hoje h&aacute; l&aacute; quem se lembre dele, agradecido por este<br \/>\n    ou aquele benef&iacute;cio que o famoso coronel lhe prestou.<\/p>\n<p>As for&ccedil;as revoltosas pareciam n&atilde;o ter enfraquecido; tinham,<br \/>\n    por&eacute;m, perdido dois navios, sendo um destes o &quot;Javari&quot;, cuja<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o na revolta era das mais altas e consideradas. As for&ccedil;as<br \/>\n    de terra detestavam-no particularmente. Era um monitor, chato, raso com a<br \/>\n    &aacute;gua, uma esp&eacute;cie de s&aacute;urio ou quel&ocirc;nio de ferro,<br \/>\n    de constru&ccedil;&atilde;o francesa. A sua artilharia era temida; mas o que<br \/>\n    sobremodo enraivecia os advers&aacute;rios era ele n&atilde;o ter quase borda<br \/>\n    acima d&#8217;&aacute;gua, ficar quase ao n&iacute;vel do mar e fugir assim aos<br \/>\n    tiros incertos de terra. As suas m&aacute;quinas n&atilde;o funcionavam, e<br \/>\n    a grande tartaruga vinha colocar-se em posi&ccedil;&atilde;o de combate com<br \/>\n    aux&iacute;lio de um rebocador.<\/p>\n<p>Um dia em que estava nas proximidades de Villegagnon, foi a pique. N&atilde;o<br \/>\n    se soube e at&eacute; hoje n&atilde;o foi esclarecido por que foi. Os legalistas<br \/>\n    afirmaram que foi uma bala de Gragoat&aacute;; mas os revoltosos asseguraram<br \/>\n    que foi a abertura de uma v&aacute;lvula ou um outro acidente qualquer.<\/p>\n<p>Como o do seu irm&atilde;o, o &quot;Solim&otilde;es&quot;, que desapareceu<br \/>\n    nas costas do cabo Pol&ocirc;nio, o fim do &quot;Javari&quot; ainda est&aacute;<br \/>\n    envolvido no mist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Quaresma permanecia de guarni&ccedil;&atilde;o no Caju, e viera receber dinheiro.<br \/>\n    Deixara l&aacute; Polidoro, pois os outros oficiais estavam doentes ou licenciados,<br \/>\n    e Fontes, que, sendo uma esp&eacute;cie de inspetor geral, ao contr&aacute;rio<br \/>\n    de seus h&aacute;bitos, dormira aquela noite no pequeno pavilh&atilde;o imperial<br \/>\n    e ia ficar at&eacute; &agrave; tarde.<\/p>\n<p>Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros, desde o dia da proibi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tocar viol&atilde;o, andava macamb&uacute;zio. Tinham-lhe tirado o sangue,<br \/>\n    o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de &aacute;rvore,<br \/>\n    maldizendo no fundo de si a incompreens&atilde;o dos homens e os caprichos<br \/>\n    do destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto,<br \/>\n    obrigara a Bustamante a faz&ecirc;-lo sargento. N&atilde;o foi sem custo,<br \/>\n    porque o antigo veterano do Paraguai encarecia muito essa gradua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e s&oacute; a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas<br \/>\n    importantes.<\/p>\n<p>A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de quando<br \/>\n    em quando, ele se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a<br \/>\n    tinha e n&atilde;o fugira como o fumo dos disparos.<\/p>\n<p>Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu<br \/>\n    demorar-se mais, e, ap&oacute;s despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para<br \/>\n    a casa do seu compadre, a fim de cumprir a promessa que fizera ao general.<\/p>\n<p>Coleoni ainda n&atilde;o decidira a sua viagem &agrave; Europa. Hesitava,<br \/>\n    esperando o fim da rebeli&atilde;o que n&atilde;o parecia estar pr&oacute;ximo.<br \/>\n    Ele nada tinha com ela; at&eacute; ali, n&atilde;o dissera a ningu&eacute;m<br \/>\n    a sua opini&atilde;o; e, se era muito instado, apelava para a sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de estrangeiro e metia-se numa reserva prudente. Mas, aquela exig&ecirc;ncia<br \/>\n    de passaporte, tirado na chefatura de pol&iacute;cia, dava-lhe susto. Naqueles<br \/>\n    tempos, toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta m&aacute;<br \/>\n    vontade com os estrangeiros, tanta arrog&acirc;ncia nos funcion&aacute;rios<br \/>\n    que ele n&atilde;o se animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra,<br \/>\n    que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funcion&aacute;rio<br \/>\n    zeloso e dedicado, n&atilde;o o levassem a sofrer maus quartos de hora.<\/p>\n<p>Verdade &eacute; que ele era italiano e a It&aacute;lia j&aacute; fizera<br \/>\n    ver ao ditador que era uma grande pot&ecirc;ncia, mas no caso de que se lembrava,<br \/>\n    tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extinta por uma descarga das for&ccedil;as<br \/>\n    legais, Floriano pagara a quantia de cem contos. Ele, Coleoni, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o era marinheiro, e n&atilde;o sabia, caso fosse preso, se os representantes<br \/>\n    diplom&aacute;ticos de seu pa&iacute;s tomariam interesse pela sua liberdade.<\/p>\n<p>De resto, n&atilde;o tendo protestado manter a sua nacionalidade, quando<br \/>\n    o governo provis&oacute;rio expediu o famoso decreto de naturaliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    era bem poss&iacute;vel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para desinteressar-se<br \/>\n    dele ou mant&ecirc;-lo na famosa galeria n. 7, da Casa de Corre&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    transformada, por uma penada m&aacute;gica, em pris&atilde;o de Estado.<\/p>\n<p>A &eacute;poca era de susto e temor, e todos esses que ele sentia, s&oacute;<br \/>\n    os comunicava &agrave; filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista<br \/>\n    e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros.<\/p>\n<p>E o doutor tinha raz&atilde;o; j&aacute; obtivera uma gra&ccedil;a governamental.<br \/>\n    Fora nomeado m&eacute;dico do Hospital de Santa B&aacute;rbara, na vaga de<br \/>\n    um colega, demitido a bem do servi&ccedil;o p&uacute;blico como suspeito por<br \/>\n    ter ido visitar um amigo na pris&atilde;o. Como o hospital, por&eacute;m,<br \/>\n    ficasse no ilh&eacute;u do mesmo nome, dentro da baia, em frente &agrave;<br \/>\n    Sa&uacute;de e a Guanabara ainda estivesse em m&atilde;o dos revoltosos, ele<br \/>\n    nada tinha que fazer, pois at&eacute; agora o governo n&atilde;o aceitara<br \/>\n    os seus oferecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos. <\/p>\n<p>O major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sa&iacute;do, ido<br \/>\n    dar uma volta pela cidade, dar arras de sua dedica&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Caf&eacute; do<br \/>\n    Rio, n&atilde;o esquecendo tamb&eacute;m de passear pelos corredores do Itamarati,<br \/>\n    fazendo-se ver pelos ajudantes-de-ordens, secret&aacute;rios e outras pessoas<br \/>\n    influentes no &acirc;nimo de Floriano.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a viu entrar Quaresma com aquele sentimento estranho que o seu<br \/>\n    padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava<br \/>\n    quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a passagem de<br \/>\n    balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, como se fossem<br \/>\n    fei&ccedil;&otilde;es de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer<br \/>\n    em que a morte n&atilde;o estivesse presente.<\/p>\n<p>Tanto mais que o via apreensivo, deixando perceber numa frase e noutra des&acirc;nimo<br \/>\n    e desesperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Na verdade o major tinha um espinho n&#8217;alma. Aquela recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Floriano &agrave;s suas lembran&ccedil;as de reformas n&atilde;o esperavam<br \/>\n    nem o seu entusiasmo e sinceridade nem tampouco a id&eacute;ia que ele fazia<br \/>\n    do ditador, Sa&iacute;ra ao encontro de Henrique IV e de Sully e vinha esbarrar<br \/>\n    com um presidente que o chamava de vision&aacute;rio, que n&atilde;o avaliava<br \/>\n    o alcance dos seus projetos, que os n&atilde;o examinava sequer, desinteressado<br \/>\n    daquelas altas coisas de governo como se n&atilde;o o fosse!&#8230; Era pois para<br \/>\n    sustentar tal homem que deixava o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras?<br \/>\n    Era, pois, por esse homem que tanta gente morria? Que direito tinha ele de<br \/>\n    vida e de morte sobre os seus concidad&atilde;os, se n&atilde;o se interessava<br \/>\n    pela sorte deles, pela sua vida feliz e abundante, pelo enriquecimento do<br \/>\n    pa&iacute;s, o progresso de sua lavoura e o bem-estar de sua popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rural?<\/p>\n<p>Pensando assim, havia instantes que lhe vinha um mortal desespero, uma raiva<br \/>\n    de si mesmo; mas em seguida considerava: o homem est&aacute; atrapalhado,<br \/>\n    n&atilde;o pode agora; mais tarde com certeza ele far&aacute; a coisa&#8230;<\/p>\n<p>Vivia nessa alternativa dolorosa e era ela que lhe trazia apreens&otilde;es,<br \/>\n    des&acirc;nimo e desesperan&ccedil;a, notados por sua afilhada na sua fisionomia<br \/>\n    j&aacute; um pouco acabrunhada.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou, por&eacute;m, que, abandonando os epis&oacute;dios da<br \/>\n    sua vida militar, Quaresma explicasse o motivo de sua visita.<\/p>\n<p>&#8212; Mas qual delas? perguntou a afilhada.<\/p>\n<p>&#8212; A segunda, a Ism&ecirc;nia.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela que estava para casar com o dentista?<\/p>\n<p>&#8212; Esta mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Ahn! &#8230;<\/p>\n<p>Ela pronunciou este &quot;ahn&quot; muito longo e profundo, como se pusesse<br \/>\n    nele tudo que queria dizer sobre o caso. Via bem o que fazia o desespero da<br \/>\n    mo&ccedil;a, mas via melhor a causa, naquela obriga&ccedil;&atilde;o que incrustam<br \/>\n    no esp&iacute;rito das meninas, que elas se devem casar a todo custo, fazendo<br \/>\n    do casamento o p&oacute;lo e fim da vida, a ponto de parecer uma desonra,<br \/>\n    uma inj&uacute;ria ficar solteira.<\/p>\n<p>O casamento j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais amor, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    maternidade, n&atilde;o &eacute; nada disso: &eacute; simplesmente casamento,<br \/>\n    uma coisa vazia, sem fundamento nem na nossa natureza nem nas nossas necessidades.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as &agrave; frouxid&atilde;o, &agrave; pobreza intelectual e fraqueza<br \/>\n    de energia vital de Ism&ecirc;nia, aquela fuga do noivo se transformou em<br \/>\n    certeza de n&atilde;o casar mais e tudo nela se abismou nessa id&eacute;ia<br \/>\n    desesperada.<\/p>\n<p>Coleoni enterneceu-se muito e interessou-se. Sendo bom de fundo, quando lutava<br \/>\n    pela fortuna se fez duro e &aacute;spero, mas logo que se viu rico, perdeu<br \/>\n    a dureza de que se revestira, pois percebia bem que s&oacute; se pode ser<br \/>\n    bom quando se &eacute; forte de algum modo.<\/p>\n<p>Ultimamente o major tinha diminu&iacute;do um pouco o interesse pela mo&ccedil;a;<br \/>\n    andava atormentado com o seu caso de consci&ecirc;ncia; entretanto, se n&atilde;o<br \/>\n    tinha um constante e particular pensamento pela desdita da filha de Albernaz,<br \/>\n    abrangia-a ainda na sua bondade geral, larga e humana.<\/p>\n<p>N&atilde;o se demorou muito na casa do compadre; ele queria, antes de voltar<br \/>\n    ao Caju, passar pelo quartel do seu batalh&atilde;o. Ia ver se arranjava uma<br \/>\n    pequena licen&ccedil;a, para visitar a irm&atilde; que deixara l&aacute;,<br \/>\n    no &quot;Sossego&quot;, e de quem tinha not&iacute;cias, por carta, tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes por semana. Eram elas satisfat&oacute;rias, contudo ele tinha necessidade<br \/>\n    de ver tanto ela como o Anast&aacute;cio, fisionomias com quem se encontrava<br \/>\n    diariamente h&aacute; tantos anos e cuja contempla&ccedil;&atilde;o lhe fazia<br \/>\n    falta e talvez lhe restitu&iacute;sse a calma e a paz de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>A &uacute;ltima carta que recebera de Dona Adelaide, havia uma frase de que,<br \/>\n    no momento, se lembrava sorrindo: &quot;N&atilde;o te exponhas muito, Policarpo.<br \/>\n    Toma muita cautela&quot;. Pobre Adelaide! Estava a pensar que esse neg&oacute;cio<br \/>\n    de balas &eacute; assim como a chuva?!&#8230;<\/p>\n<p>O quartel ainda ficava no velho corti&ccedil;o condenado pela higiene, l&aacute;<br \/>\n    para as bandas da Cidade Nova. Assim que Quaresma apontou na esquina, a sentinela<br \/>\n    deu um grande berro, fez uma imensa bulha com a arma e ele entrou, tirando<br \/>\n    o chap&eacute;u da cabe&ccedil;a baixa, pois estava &agrave; paisana e tinha<br \/>\n    abandonado a cartola com medo de que esse traje fosse ferir as suscetibilidades<br \/>\n    republicanas dos jacobinos.<\/p>\n<p>No p&aacute;tio, o instrutor coxo adestrava novos volunt&aacute;rios e os<br \/>\n    seus majestosos e demorados gritos: ombro&ocirc;&ocirc;&#8230; armas! mei-&atilde;&atilde;&atilde;<br \/>\n    volta&#8230; volver! subiam ao c&eacute;u e ecoavam longamente pelos muros da<br \/>\n    antiga estalagem.<\/p>\n<p>Bustamante estava no seu cub&iacute;culo, mais conhecido por gabinete, irrepreens&iacute;vel<br \/>\n    no seu uniforme verde-garrafa, alamares dourados e vivos azul-ferrete. Com<br \/>\n    auxilio de um sargento, examinava a escrita de um livro quarteleiro.<\/p>\n<p>&#8212; Tinta vermelha, sargento! &Eacute; como mandam as instru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de 1864. <\/p>\n<p>Tratava-se de uma emenda ou de coisa semelhante.<\/p>\n<p>Logo que viu Quaresma entrar, o comandante exclamou radiante:<\/p>\n<p>&#8212; O major adivinhou!<\/p>\n<p>Quaresma descansou placidamente o chap&eacute;u, bebeu um pouco d&#8217;&aacute;gua,<br \/>\n    e o Coronel Inoc&ecirc;ncio explicou a alegria:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe que temos de marchar?<\/p>\n<p>&#8212; Para onde?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei&#8230; Recebi ordem do Itamarati.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o dizia nunca do quartel-general, nem mesmo do ministro da Guerra;<br \/>\n    era do Itamarati, do presidente, do chefe supremo. Parecia que assim dava<br \/>\n    mais import&acirc;ncia a si mesmo e ao seu batalh&atilde;o, fazia-o uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de batalh&atilde;o da guarda, favorito e amado do ditador.<\/p>\n<p>Quaresma n&atilde;o se espantou, nem se aborreceu. Percebeu que era imposs&iacute;vel<br \/>\n    obter a licen&ccedil;a e tamb&eacute;m necess&aacute;rio mudar os seus estudos:<br \/>\n    da artilharia, tinha que passar para a infantaria.<\/p>\n<p>&#8212; O major &eacute; que vai comandar o corpo, sabia?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, coronel. E o senhor n&atilde;o vai?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, disse Bustamante, alisando o cavanhaque mosaico e abrindo<br \/>\n    a boca para o lado esquerdo. Tenho que acabar a organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da unidade e n&atilde;o posso&#8230; N&atilde;o se assuste, mais tarde irei l&aacute;<br \/>\n    ter&#8230;<\/p>\n<p>Come&ccedil;ava a tarde, quando Quaresma saiu do quartel. O instrutor coxo<br \/>\n    continuava, com for&ccedil;a, majestade e demora, a gritar: om-br&ocirc;&ocirc;&ocirc;&#8230;<br \/>\n    armas! A sentinela n&atilde;o p&ocirc;de fazer a bulha da entrada, porque<br \/>\n    s&oacute; viu o major, quando j&aacute; ia longe. Ele desceu at&eacute; &agrave;<br \/>\n    cidade e foi ao correio. Havia alguns tiros espa&ccedil;ados; no Caf&eacute;<br \/>\n    do Rio, os levitas continuavam a trocar id&eacute;ias para a consolida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definitiva da Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p>Antes de chegar ao correio, Quaresma lembrou-se de sua partida. Correu a<br \/>\n    uma livraria e comprou livros sobre infantaria; precisava tamb&eacute;m dos<br \/>\n    regulamentos: arranjaria no quartel-general.<\/p>\n<p>Para onde ia? Para o Sul, para Maj&eacute;, para Niter&oacute;i? N&atilde;o<br \/>\n    sabia&#8230; N&atilde;o sabia&#8230; Ah! se isso fosse para realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus desejos e sonhos! Mas quem sabe?&#8230; Podia ser&#8230; talvez&#8230; Mais tarde&#8230;<\/p>\n<p>E passou o dia atormentado pela d&uacute;vida do bom emprego de sua vida<br \/>\n    e de suas energias.<\/p>\n<p>O marido de Olga n&atilde;o fez nenhuma quest&atilde;o em ir ver a filha<br \/>\n    do general. Ele levava a &iacute;ntima convic&ccedil;&atilde;o de que a sua<br \/>\n    ci&ecirc;ncia toda nova pudesse fazer alguma coisa; mas assim n&atilde;o se<br \/>\n    deu.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a continuou a definhar, e, se a mania parecia um pouco atenuada,<br \/>\n    o seu organismo caia. Estava magra e fraca, a ponto de quase n&atilde;o poder<br \/>\n    sentar-se na cama. Era sua m&atilde;e quem mais junto a ela vivia; as irm&atilde;s<br \/>\n    se desinteressavam um pouco, pois as exig&ecirc;ncias de sua mocidade levavamnas<br \/>\n    para outros lados.<\/p>\n<p>Dona Maricota, tendo perdido todo aquele antigo fervor pelas festas e bailes,<br \/>\n    estava sempre no quarto da filha, a consol&aacute;-la, anim&aacute;-la e,<br \/>\n    &agrave;s vezes, quando a olhava muito, como que se sentia um tanto culpada<br \/>\n    pela sua infelicidade.<\/p>\n<p>A mol&eacute;stia tinha posto mais firmeza nos tra&ccedil;os de Ism&ecirc;nia,<br \/>\n    tinha-lhe diminu&iacute;do a lassid&atilde;o, tirado o morti&ccedil;o dos<br \/>\n    olhos e os seus lindos cabelos castanhos, com reflexos de ouro, mais belos<br \/>\n    se faziam quando cercavam a palidez de sua face.<\/p>\n<p>Raro era falar muito; e assim foi que, naquele dia, se espantou muito Dona<br \/>\n    Maricota com a loquacidade da filha.<\/p>\n<p>&#8212; Mam&atilde;e, quando se casa Lal&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Quando se acabar a revolta.<\/p>\n<p>&#8212; A revolta ainda n&atilde;o acabou?<\/p>\n<p>A m&atilde;e respondeu-lhe e ela esteve um instante calada, olhando o teto,<br \/>\n    e, ap&oacute;s essa contempla&ccedil;&atilde;o disse &agrave; m&atilde;e:<\/p>\n<p>&#8212; Mam&atilde;e&#8230; Eu vou morrer&#8230;<\/p>\n<p>As palavras sa&iacute;ram-lhe dos l&aacute;bios, seguras, doces e naturais.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga isso, minha filha, adiantou-se Dona Maricota. Qual morrer!<br \/>\n    Voc&ecirc; vai ficar boa; seu pai vai levar voc&ecirc; para Minas; voc&ecirc;<br \/>\n    engorda, toma for&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>A m&atilde;e dizia-lhe tudo isso devagar, alisando-lhe a face com a m&atilde;o,<br \/>\n    como se se tratasse de uma crian&ccedil;a. Ela ouvia tudo com paci&ecirc;ncia<br \/>\n    e voltou por sua vez serenamente:<\/p>\n<p>&#8212; Qual, mam&atilde;e! Eu sei; vou morrer e pe&ccedil;o uma coisa &agrave;<br \/>\n    senhora&#8230;<\/p>\n<p>A m&atilde;e ficou espantada com a seriedade e firmeza da filha. Olhou em<br \/>\n    redor, deu com a porta semicerrada e levantou-se para fech&aacute;-la. Quis<br \/>\n    ainda ver se a dissuadia daquele pensamento; Ism&ecirc;nia, por&eacute;m,<br \/>\n    continuava a repeti-lo pacientemente, docemente, serenamente;<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei, mam&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8212; Bem. Suponho que &eacute; verdade: o que &eacute; que voc&ecirc; quer?<\/p>\n<p>&#8212; Eu quero, mam&atilde;e, ir vestida de noiva.<\/p>\n<p>Dona Maricota ainda quis brincar, tro&ccedil;ar; a filha, por&eacute;m, voltou-se<br \/>\n    para o outro lado, p&ocirc;s-se a dormir, com um leve respirar espa&ccedil;ado.<br \/>\n    A m&atilde;e saiu do quarto, comovida, com l&aacute;grimas nos olhos e a secreta<br \/>\n    certeza de que a filha falava a verdade.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou muito a se verificar. O doutor Armando a tinha visitado<br \/>\n    naquela manh&atilde; pela quarta vez; ela parecia melhor, desde alguns dias,<br \/>\n    falava com discernimento, sentava-se &agrave; cama e conversava com prazer.<\/p>\n<p>Dona Maricota teve que fazer uma visita e deixou a doente entregue &agrave;s<br \/>\n    irm&atilde;s. Elas foram l&aacute; ao quarto v&aacute;rias vezes e parecia<br \/>\n    dormir. Distra&iacute;ram-se.<\/p>\n<p>Ism&ecirc;nia despertou: viu, por entre a porta do guarda-vestidos meio aberto,<br \/>\n    o seu traje de noiva. Teve vontade de v&ecirc;-lo mais de perto. Levantou-se<br \/>\n    descal&ccedil;a e estendeu-o na cama para contempl&aacute;-lo. Chegou-lhe<br \/>\n    o desejo de vesti-lo. P&ocirc;s a saia; e, por a&iacute;, vieram recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do seu casamento falhado. Lembrou-se do seu noivo, do nariz fortemente &oacute;sseo<br \/>\n    e dos olhos esgazeados de Cavalc&acirc;nti; mas n&atilde;o se recordou com<br \/>\n    &oacute;dio, antes como se fosse um lugar visto h&aacute; muito tempo, e que<br \/>\n    a tivesse impressionado.<\/p>\n<p>De quem ela se lembrava com raiva era da cartomante. Iludindo sua m&atilde;e,<br \/>\n    acompanhada por uma criada, tinha conseguido consultar Mme. Sinh&aacute;.<br \/>\n    Com que indiferen&ccedil;a ela lhe respondeu: n&atilde;o volta! Aquilo doeu-lhe&#8230;<br \/>\n    Que mulher m&aacute;! Desde esse dia&#8230; Ah!&#8230; Acabou de abotoar a saia em<br \/>\n    cima do corpinho, pois n&atilde;o encontrara colete; e foi ao espelho. Viu<br \/>\n    os seus ombros nus, o seu colo muito branco&#8230; Surpreendeu-se. Era dela aquilo<br \/>\n    tudo? Apalpou-se um pouco e depois colocou a coroa. O v&eacute;u afagou-lhe<br \/>\n    as esp&aacute;duas carinhosamente, como um adejo de borboleta. Teve uma fraqueza,<br \/>\n    uma coisa, deu um ai e caiu de costas na cama, com as pernas para fora&#8230;<br \/>\n    Quando a vieram ver, estava morta. Tinha ainda a coroa na cabe&ccedil;a e<br \/>\n    um seio, muito branco e redondo, saltava-lhe do corpinho.<\/p>\n<p>O enterro foi feito no dia imediato e a casa de Albernaz esteve os dois dias<br \/>\n    cheia, como nos dias de suas melhores festas.<\/p>\n<p>Quaresma foi ao enterro; ele n&atilde;o gostava muito dessa cerim&ocirc;nia;<br \/>\n    mas veio, e foi ver a pobre mo&ccedil;a, no caix&atilde;o, coberta de flores,<br \/>\n    vestida de noiva, com um ar imaculado de imagem. Pouco mudara, entretanto.<br \/>\n    Era ela mesma ali; era a Ism&ecirc;nia dolente e pobre de nervos, com os seus<br \/>\n    tra&ccedil;os mi&uacute;dos e os seus lindos cabelos, que estava dentro daquelas<br \/>\n    quatro t&aacute;buas. A morte tinha fixado a sua pequena beleza e o seu aspecto<br \/>\n    pueril; e ela ia para a cova com a insignific&acirc;ncia, com a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    e a falta de acento pr&oacute;prio que tinha tido em vida.<\/p>\n<p>Contemplando aqueles tristes restos, Quaresma viu o caix&atilde;o do coche<br \/>\n    parar na porta do cemit&eacute;rio, atravessar pelas ruas de t&uacute;mulos<br \/>\n    &#8212; uma multid&atilde;o que trepava, se tocava, lutava por espa&ccedil;o, na<br \/>\n    estreiteza da v&aacute;rzea e nas encostas das colinas. Algumas sepulturas<br \/>\n    como se olhavam com afeto e se queriam aproximar; em outras transparecia repugn&acirc;ncia<br \/>\n    por estarem perto. Havia ali, naquele mudo laborat&oacute;rio de decomposi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    solicita&ccedil;&otilde;es incompreens&iacute;veis, repuls&otilde;es, simpatias<br \/>\n    e antipatias; havia t&uacute;mulos arrogantes, vaidosos, orgulhosos, humildes,<br \/>\n    alegres e tristes; e de muitos, ressumava o esfor&ccedil;o, um esfor&ccedil;o<br \/>\n    extraordin&aacute;rio, para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento<br \/>\n    que ela traz &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es e &agrave;s fortunas.<\/p>\n<p>Quaresma ainda contemplava o cad&aacute;ver da mo&ccedil;a e o cemit&eacute;rio<br \/>\n    surgia aos seus olhos com as esculturas que se amontoavam, com vasos, cruzes<br \/>\n    e inscri&ccedil;&otilde;es, em alguns t&uacute;mulos; noutros, eram pir&acirc;mides<br \/>\n    de pedra tosca, retratos, caramanch&otilde;es extravagantes, complica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ornatos, coisas barrocas e delirantes, para fugir ao anonimato do t&uacute;mulo,<br \/>\n    ao fim dos fins.<\/p>\n<p>As inscri&ccedil;&otilde;es exuberam: s&atilde;o longas, s&atilde;o breves;<br \/>\n    t&ecirc;m nomes, t&ecirc;m datas, sobrenomes, filia&ccedil;&otilde;es, toda<br \/>\n    a certid&atilde;o de idade do morto que, l&aacute; embaixo, n&atilde;o se<br \/>\n    pode mais conhecer e &eacute; lama p&uacute;trida.<\/p>\n<p>E se sente um desespero em n&atilde;o se deparar com um nome conhecido, nem<br \/>\n    uma celebridade, uma notabilidade, um desses nomes que enchem d&eacute;cadas<br \/>\n    e, &agrave;s vezes mesmo, j&aacute; mortos, parece que continuam a viver.<br \/>\n    Tudo &eacute; desconhecido; todos aqueles que querem fugir do t&uacute;mulo<br \/>\n    para a mem&oacute;ria dos vivos, s&atilde;o an&oacute;dinos felizes e med&iacute;ocres<br \/>\n    exist&ecirc;ncias que passaram pelo mundo sem ser notadas.<\/p>\n<p>E l&aacute; ia aquela mo&ccedil;a por ali afora para o buraco escuro, para<br \/>\n    o fim, sem deixar na vida um tra&ccedil;o mais fundo de sua pessoa, de seus<br \/>\n    sentimentos, de sua alma!<\/p>\n<p>Quaresma quis afastar essa vis&atilde;o triste e encaminhou-se para o interior<br \/>\n    da casa. Ele estivera na sala de visitas, onde Dona Maricota tamb&eacute;m<br \/>\n    estava, cercada de outras senhoras amigas que nada lhe diziam. O Lulu, fardado<br \/>\n    do col&eacute;gio, com fumo no bra&ccedil;o, cochilava a uma cadeira. As irm&atilde;s<br \/>\n    iam e vinham. Na sala de jantar, estava o general silencioso, tendo ao lado<br \/>\n    Fontes e outros amigos.<\/p>\n<p>Caldas e Bustamante conversavam baixo, afastados; e quando Quaresma passou,<br \/>\n    p&ocirc;de ouvir o almirante dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Qual! Os homens est&atilde;o dentro em pouco aqui&#8230; O governo est&aacute;<br \/>\n    exausto.<\/p>\n<p>O major ficou na janela que dava para o quintal. O tecido do c&eacute;u se<br \/>\n    tinha adelga&ccedil;ado: o azul estava sedoso e fino; e tudo tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    sereno e calmo.<\/p>\n<p>A Estef&acirc;nia, a doutora, a de olhos maliciosos e quentes, passou, tendo<br \/>\n    ao lado Lal&aacute;, que levava, de quando em quando, o len&ccedil;o aos olhos<br \/>\n    j&aacute; secos, a quem aquela dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Eu, se fosse voc&ecirc;, n&atilde;o comprava l&aacute;&#8230; &Eacute; caro!<br \/>\n    Vai ao &quot;Bonheur des Dames&quot;&#8230; Dizem que tem coisas boas e &eacute;<br \/>\n    pechincheiro.<\/p>\n<p>O major voltou de novo a contemplar o c&eacute;u que cobria o quintal. Tinha<br \/>\n    uma tranq&uuml;ilidade quase indiferente. Genel&iacute;cio apareceu demasiadamente<br \/>\n    f&uacute;nebre. Todo de preto, ele tinha afivelado ao rosto a mais profunda<br \/>\n    m&aacute;scara de tristeza. O seu pince-nez azulado tamb&eacute;m parecia<br \/>\n    de luto.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe fora poss&iacute;vel deixar de ir trabalhar; um servi&ccedil;o<br \/>\n    urgente fizera-o indispens&aacute;vel na reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; isto, general, disse ele, n&atilde;o est&aacute; l&aacute; o<br \/>\n    doutor Genel&iacute;cio, nada se faz&#8230; N&atilde;o h&aacute; meio da Marinha<br \/>\n    mandar os processos certos&#8230; &Eacute; um relaxamento&#8230;<\/p>\n<p>O general n&atilde;o respondeu; estava deveras combalido. Bustamante e Caldas<br \/>\n    continuavam a conversar baixo. Ouviu-se o rodar de uma carruagem na rua. Quinota<br \/>\n    chegou &agrave; sala de jantar:<\/p>\n<p>&#8212; Papai, est&aacute; a&iacute; o coche.<\/p>\n<p>O velho levantou-se a custo e foi para a sala de visitas. Falou &agrave;<br \/>\n    mulher que se ergueu com a face contra&iacute;da, exprimindo uma grande contens&atilde;o.<br \/>\n    Os seus cabelos j&aacute; tinham muitos fios de prata. N&atilde;o deu um passo;<br \/>\n    esteve um instante parada e logo caiu na cadeira, chorando. Todos estavam<br \/>\n    vendo sem saber o que fazer; alguns choravam; Genel&iacute;cio tomou um partido:<br \/>\n    foi retirando os c&iacute;rios de ao redor do caix&atilde;o. A m&atilde;e<br \/>\n    levantou-se, veio at&eacute; ao esquife, beijou o cad&aacute;ver: minha filha!<\/p>\n<p>Quaresma adiantou-se, foi saindo com o chap&eacute;u na m&atilde;o. No corredor,<br \/>\n    ainda ouviu Estef&acirc;nia dizer a algu&eacute;m: o coche &eacute; bonito.<\/p>\n<p>Saiu. Na rua parecia que havia festa. As crian&ccedil;as da vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    cercavam o carro f&uacute;nebre e faziam inocentes coment&aacute;rios sobre<br \/>\n    os dourados e enfeites. As grinaldas foram aparecendo e sendo dependuradas<br \/>\n    nas extremidades das colunas do coche: &quot;&Agrave; minha querida filha&quot;,<br \/>\n    &quot;&Agrave; minha irm&atilde;&quot;. As fitas roxas e pretas, com letras<br \/>\n    douradas, moviam-se lentamente ao leve vento que soprava.<\/p>\n<p>Apareceu o caix&atilde;o, todo roxo, com guarni&ccedil;&otilde;es de gal&otilde;es<br \/>\n    dourados, muito brilhantes. Tudo aquilo ia pra terra. As janelas se povoaram,<br \/>\n    de um lado e doutro da rua; um menino na casa pr&oacute;xima, gritou da rua<br \/>\n    para o interior: &quot;Mam&atilde;e, l&aacute; vai o enterro da mo&ccedil;a!&quot;<\/p>\n<p>O caix&atilde;o foi afinal amarrado fortemente no carro mortu&aacute;rio,<br \/>\n    cujos cavalos, ru&ccedil;os, cobertos com uma rede preta, escarvavam o ch&atilde;o<br \/>\n    cheios de impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Aqueles que iam acompanhar at&eacute; ao cemit&eacute;rio, procuravam os<br \/>\n    seus carros. Embarcaram todos, e o enterro rodou.<\/p>\n<p>A esse tempo, na vizinhan&ccedil;a, alguns pombos imaculadamente brancos,<br \/>\n    as aves de V&ecirc;nus, ergueram o v&ocirc;o, ruflando estrepitosamente; deram<br \/>\n    volta por cima do coche e tornaram logo silenciosos, quase sem bater asas,<br \/>\n    para o pombal que se ocultava nos quintais burgueses&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\"> IV &#8211; O BOQUEIR&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p>O s&iacute;tio de Quaresma, em Curuzu, voltava aos poucos ao estado de abandono<br \/>\n    em que ele o encontrara. A erva daninha crescia e cobria tudo. As planta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que fizera, tinham desaparecido na invas&atilde;o do capim, do carrapicho,<br \/>\n    das urtigas e outros arbustos. Os arredores da casa ofereciam um aspecto desolador,<br \/>\n    apesar dos esfor&ccedil;os de Anast&aacute;cio, sempre vigoroso e trabalhador<br \/>\n    na sua forte velhice africana, mas baldo de iniciativa, de m&eacute;todo,<br \/>\n    de continuidade no esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>Um dia capinava aqui, outro dia ali, outro peda&ccedil;o, e assim ia saltando<br \/>\n    de trecho em trecho, sem fazer trabalho que se visse, permitindo que as terras<br \/>\n    e os arredores da casa adquirissem um aspecto de desleixo que n&atilde;o condizia<br \/>\n    com o seu trabalho efetivo.<\/p>\n<p>As formigas voltaram tamb&eacute;m, mais terr&iacute;veis e depredadoras,<br \/>\n    vencendo obst&aacute;culos, devastando tudo, restos de seara, brotos de fruteiras,<br \/>\n    at&eacute; os ara&ccedil;azeiros depenavam com uma energia e bravura que sorriam<br \/>\n    aos fracos expedientes da intelig&ecirc;ncia crestada do antigo escravo, incapaz<br \/>\n    de achar meios eficazes de bat&ecirc;-las ou afugent&aacute;-las.<\/p>\n<p>Entretanto ele cultivava. Era a sua mania, o seu v&iacute;cio, uma teimosia<br \/>\n    de caduco. Tinha uma horta que disputava diariamente &agrave;s sa&uacute;vas;<br \/>\n    e, como os animais da vizinhan&ccedil;a a tivessem um dia invadido, ele a<br \/>\n    protegeu pacientemente com uma cerca de materiais mais inconceb&iacute;veis:<br \/>\n    latas de querosene desdobradas, caibros bons, folhas de coqueiros, t&aacute;buas<br \/>\n    de caix&atilde;o, n&atilde;o obstante ter &agrave; m&atilde;o bambus &agrave;<br \/>\n    vontade.<\/p>\n<p>Na sua intelig&ecirc;ncia havia uma necessidade do tortuoso, do aparentemente<br \/>\n    f&aacute;cil; e, em tudo ele punha esse jeito de sua psique, tanto no falar,<br \/>\n    com grandes rodeios, como nos canteiros que tra&ccedil;ava, irregulares, maiores<br \/>\n    aqui, menores ali, fugindo &agrave; regularidade, ao paralelismo, &agrave;<br \/>\n    simetria, com um horror art&iacute;stico.<\/p>\n<p>A revolta tinha tido sobre a pol&iacute;tica local efeito pacificador. Todos<br \/>\n    os partidos se fizeram dedicadamente governistas, de forma que, entre os dois<br \/>\n    poderosos contendores, o doutor Campos e o Tenente Antonino houve um tra&ccedil;o<br \/>\n    de uni&atilde;o que os reconciliou e os fez entenderem-se. Ao osso que ambos<br \/>\n    disputavam encarni&ccedil;adamente, chegou um outro mais forte que p&ocirc;s<br \/>\n    em perigo a seguran&ccedil;a de ambos e eles se puseram em expectativa, um<br \/>\n    instante unidos.<\/p>\n<p>O candidato foi imposto pelo governo central e as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    chegaram. &Eacute; um momento bem curioso esse das elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    na ro&ccedil;a. N&atilde;o se sabe bem donde saem tantos tipos ex&oacute;ticos.<br \/>\n    De tal forma s&atilde;o eles esquisitos que se pode mesmo esperar que apare&ccedil;am<br \/>\n    cal&ccedil;&otilde;es e bofes de renda, espadins e gib&atilde;o. H&aacute;<br \/>\n    sobrecasacas de cintura, h&aacute; cal&ccedil;as boca-de-sino, h&aacute; chap&eacute;us<br \/>\n    de seda &#8212; todo um museu de indument&aacute;ria que aqueles roceiros vestem<br \/>\n    e por um instante fazem viver por entre as ruas esburacadas e estradas poeirentas<br \/>\n    das vilas e lugarejos. N&atilde;o faltam tamb&eacute;m os valent&otilde;es,<br \/>\n    com cal&ccedil;as bombachas e grandes bengal&otilde;es de pequi&aacute;, &agrave;<br \/>\n    espera do que der e vier.<\/p>\n<p>Para a mon&oacute;tona vida que levava Dona Adelaide, esse desfile de manequins<br \/>\n    de museu, por sua porteira, em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eleitoral que lhe ficava nas proximidades, foi um divertimento. Ela passava<br \/>\n    longos e tristes dias naquele isolamento. Fazia-lhe companhia desde muito<br \/>\n    a mulher de Felizardo, a Sinh&aacute; Chica, uma velha cafuza, esp&eacute;cie<br \/>\n    de Med&eacute;ia esquel&eacute;tica, cuja fama de rezadeira pairava por sobre<br \/>\n    todo o munic&iacute;pio. N&atilde;o havia quem como ela soubesse rezar dores,<br \/>\n    cortar febres, curar cobreiros e conhecesse os efeitos das ervas medicinais:<br \/>\n    a l&iacute;ngua-de-vaca, a silvina, o cip&oacute;chumbo &#8212; toda aquela drogaria<br \/>\n    que crescia pelos campos, pelas capoeiras, e pelos troncos de &aacute;rvores.<\/p>\n<p>Al&eacute;m desse saber que a fazia estimada e respeit&aacute;vel, tinha<br \/>\n    tamb&eacute;m a habilidade de assistir partos. Na redondeza, entre a gente<br \/>\n    pobre e mesmo remediada, todos os nascimentos se faziam aos cuidados de suas<br \/>\n    luzes.<\/p>\n<p>Era de ver como pegava um faca e agitava o pequeno instrumento dom&eacute;stico<br \/>\n    em cruz, repetidas vezes, sobre a sede da dor ou da tarefa, rezando em voz<br \/>\n    baixa, balbuciando preces que afugentavam o esp&iacute;rito maligno que estava<br \/>\n    ali. Contavam-se dela milagres, vit&oacute;rias extraordin&aacute;rias, denunciadoras<br \/>\n    do seu estranho poder quase m&aacute;gico, sobre as for&ccedil;as ocultas,<br \/>\n    que nos perseguem ou nos auxiliam.<\/p>\n<p>Um dos mais curiosos, e era contado em toda parte e a toda hora, consistia<br \/>\n    no afastamento das lagartas, Os vermes haviam dado num feijoal, aos milheiros,<br \/>\n    cobrindo as folhas e os colmos; o propriet&aacute;rio j&aacute; desesperava<br \/>\n    e tinha tudo por perdido quando se lembrou dos maravilhosos poderes de Sinh&aacute;<br \/>\n    Chica. A velha l&aacute; foi. P&ocirc;s cruzes de gravetos pelas bordas da<br \/>\n    ro&ccedil;a, assim como se fizesse uma cerca de invis&iacute;vel material<br \/>\n    que nela se apoiasse: deixou uma extremidade aberta e colocou-se na oposta<br \/>\n    a rezar. N&atilde;o tardou o milagre a verificar-se. Os vermes, num rebanho<br \/>\n    moroso e serpejante, como se fossem tocados pela vara de um pastor, foram<br \/>\n    saindo na sua frente, devagar, aos dois, aos quatro, aos cinco, aos dez, aos<br \/>\n    vinte, e um s&oacute; n&atilde;o ficou.<\/p>\n<p>O doutor Campos n&atilde;o tinha absolutamente nenhuma esp&eacute;cie de<br \/>\n    ci&uacute;me dessa rival. Armou-se de um pequeno desd&eacute;m pelo poder<br \/>\n    sobre-humano da mulher, mas n&atilde;o apelou nunca para o arsenal de leis,<br \/>\n    que vedava o exerc&iacute;cio de sua transcendente medicina. Seria a impopularidade;<br \/>\n    ele era pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>No interior, e n&atilde;o &eacute; preciso afastar-se muito do Rio de Janeiro,<br \/>\n    as duas medicinas coexistem sem raiva e ambas atendem &agrave;s necessidades<br \/>\n    mentais e econ&ocirc;micas da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A da Sinh&aacute; Chica, quase gr&aacute;tis, ia ao encontro da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pobre, daquela em cujos c&eacute;rebros, por cont&aacute;gio ou heran&ccedil;a,<br \/>\n    ainda vivem os manitus e manipansos, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras<br \/>\n    e fumiga&ccedil;&otilde;es. A sua clientela, entretanto, n&atilde;o se resumia<br \/>\n    s&oacute; na gente pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo rec&eacute;m-chegados<br \/>\n    de outros ares, italianos, portugueses e espanh&oacute;is, que se socorriam<br \/>\n    da sua for&ccedil;a sobrenatural, n&atilde;o tanto pelo pre&ccedil;o ou cont&aacute;gio<br \/>\n    das cren&ccedil;as ambientes, mas tamb&eacute;m por aquela estranha supersti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    europ&eacute;ia de que todo negro ou gente colorida penetra e &eacute; sagaz<br \/>\n    para descobrir as coisas malignas e exercer a feiti&ccedil;aria. <\/p>\n<p>Enquanto a terap&ecirc;utica flu&iacute;dica ou herb&aacute;cea de Sinh&aacute;<br \/>\n    Chica atendia aos miser&aacute;veis, aos pobret&otilde;es, a do doutor Campos<br \/>\n    era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolu&ccedil;&atilde;o mental<br \/>\n    exigia a medicina regular e oficial.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas mol&eacute;stias<br \/>\n    graves, nas complicadas, nas incur&aacute;veis, quando as ervas e as rezas<br \/>\n    da milagrosa nada podiam ou os xaropes e p&iacute;lulas do doutor eram impotentes.<\/p>\n<p>Sinh&aacute; Chica n&atilde;o era l&aacute; uma companheira muito agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino, abismada nos misteriosos poderes<br \/>\n    dos feiti&ccedil;os, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos,<br \/>\n    de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de m&uacute;mia tanto ela era<br \/>\n    encarquilhada e seca. <\/p>\n<p>N&atilde;o esquecia tamb&eacute;m o santos, a santa madre Igreja, os mandamentos,<br \/>\n    as ora&ccedil;&otilde;es ortodoxas; embora n&atilde;o soubesse ler, era forte<br \/>\n    no catecismo e conhecia a hist&oacute;ria sagrada aos peda&ccedil;os, aduzindo<br \/>\n    a eles interpreta&ccedil;&otilde;es suas e interpola&ccedil;&otilde;es pitorescas.<\/p>\n<p>Com o Apolin&aacute;rio, o famoso capel&atilde;o das ladainhas, era ela o<br \/>\n    forte poder espiritual da terra. O vig&aacute;rio ficava relegado a um papel<br \/>\n    de funcion&aacute;rio, esp&eacute;cie de oficial de registro civil, encarregado<br \/>\n    dos batizados e casamentos, pois toda a comunica&ccedil;&atilde;o com Deus<br \/>\n    e o Invis&iacute;vel se fazia por interm&eacute;dio de Sinh&aacute; Chica<br \/>\n    ou do Apolin&aacute;rio. &Eacute; de dever falar em casamentos, mas bem podiam<br \/>\n    ser esquecidos, porque a nossa gente pobre faz uso reduzido de tal sacramento<br \/>\n    e a simples mancebia, por toda a parte, substitui a solene institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cat&oacute;lica.<\/p>\n<p>Felizardo, o marido dela, aparecia pouco em casa de Quaresma; e, se aparecia,<br \/>\n    era &agrave; noite, passando os dias pelos matos com medo do recrutamento<br \/>\n    e logo que chegava indagava da mulher se o barulho j&aacute; tinha acabado.<\/p>\n<p>Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janela e embrenhando-se<br \/>\n    na capoeira, &agrave; menor bulha ouvida.<\/p>\n<p>Tinham dois filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam &agrave; depress&atilde;o<br \/>\n    moral dos pais uma pobreza de vigor f&iacute;sico e uma indol&ecirc;ncia repugnante.<br \/>\n    Eram dois rapazes: o mais velho, Jos&eacute;, or&ccedil;ava pelos vinte anos;<br \/>\n    ambos inertes, moles, sem for&ccedil;a e sem cren&ccedil;as, nem mesmo a da<br \/>\n    feiti&ccedil;aria, das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da m&atilde;e<br \/>\n    e merecia o respeito do pai.<\/p>\n<p>N&atilde;o houve quem os fizesse aprender qualquer coisa e os sujeitasse<br \/>\n    a um trabalho cont&iacute;nuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze<br \/>\n    dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade<br \/>\n    do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um len&ccedil;o de<br \/>\n    cores vivas, um vidro de &aacute;gua-de-col&ocirc;nia, um espelho, bugigangas<br \/>\n    que denunciavam ainda neles gostos bastante selvagens.<\/p>\n<p>Passavam ent&atilde;o uma semana em casa, a dormir ou a perambular pelas<br \/>\n    estradas e vendas; &agrave; noite, quase sempre nos dias de festas e domingos,<br \/>\n    saiam com a &quot;harm&ocirc;nica&quot; a tocar pe&ccedil;as, no que eram<br \/>\n    ex&iacute;mios, sendo a presen&ccedil;a deles muito req&uuml;estada nos bailes<br \/>\n    da vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Embora seus pais vivessem em casa de Quaresma, raramente l&aacute; apareciam;<br \/>\n    e, se o faziam, era porque de todo n&atilde;o tinham que comer. Levavam o<br \/>\n    descuido da vida, a imprevid&ecirc;ncia, a ponto de n&atilde;o terem medo<br \/>\n    do recrutamento. Eram, entretanto, capazes de dedica&ccedil;&atilde;o, de<br \/>\n    lealdade e bondade, mas o trabalho continuado, todo o dia, repugnava-lhes<br \/>\n    &agrave; natureza, como uma pena ou um castigo.<\/p>\n<p>Essa atonia da nossa popula&ccedil;&atilde;o, essa esp&eacute;cie de des&acirc;nimo<br \/>\n    doentio, de indiferen&ccedil;a nirvanesca por tudo e todas as coisas, cercam<br \/>\n    de uma caligem de tristeza desesperada a nossa ro&ccedil;a e tira-lhe o encanto,<br \/>\n    a poesia e o vi&ccedil;o sedutor de plena natureza.<\/p>\n<p>Parece que nem um dos grandes pa&iacute;ses oprimidos, a Pol&ocirc;nia, a<br \/>\n    Irlanda, a &Iacute;ndia apresentar&aacute; o aspecto catal&eacute;ptico do<br \/>\n    nosso interior. Tudo a&iacute; dorme, cochila, parece morto; naqueles h&aacute;<br \/>\n    revolta, h&aacute; fuga para o sonho; no nosso&#8230; Oh!&#8230; dorme-se&#8230;<\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia de Quaresma trouxera para o seu s&iacute;tio essa atmosfera<br \/>\n    geral da ro&ccedil;a. O &quot;Sossego&quot; parecia dormir, dormir de encantamento,<br \/>\n    &agrave; espera que o pr&iacute;ncipe o viesse despertar.<\/p>\n<p>M&aacute;quinas agr&iacute;colas, que n&atilde;o haviam ainda servido, enferrujavam<br \/>\n    com a etiqueta da casa. Aqueles arados de ponta de a&ccedil;o, que tinham<br \/>\n    chegado com a relha reluzente, de um brilho azulado e doce, estavam hediondos<br \/>\n    e morriam de t&eacute;dio no abandono em que jaziam, bracejando angustiosamente<br \/>\n    para o c&eacute;u mudo. De manh&atilde;, n&atilde;o se ouvia mais o cacarejar<br \/>\n    das aves no galinheiro, o esvoa&ccedil;ar dos pombos &#8212; todo esse hino matinal<br \/>\n    de vida, de trabalho, de fartura n&atilde;o mais se casava com as auroras<br \/>\n    rosadas e com o chilreio &aacute;lacre do passaredo; e ningu&eacute;m sabia<br \/>\n    ver as paineiras em flor, com as suas lindas flores rosadas e brancas que,<br \/>\n    a espa&ccedil;os, ca&iacute;am docemente como aves feridas.<\/p>\n<p>Dona Adelaide n&atilde;o tinha nem gosto nem atividade para superintender<br \/>\n    aqueles servi&ccedil;os e fruir a poesia da ro&ccedil;a. Sofria com a separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do irm&atilde;o e vivia como se estivesse na cidade. Comprava os g&ecirc;neros<br \/>\n    na venda e n&atilde;o se incomodava com as coisas do s&iacute;tio.<\/p>\n<p>Ansiava pela volta do irm&atilde;o; escrevia-lhe cartas desesperadas, &agrave;s<br \/>\n    quais ele respondia aconselhando calma, fazendo promessas. A &uacute;ltima<br \/>\n    recebida, por&eacute;m, tinha de sopet&atilde;o outro acento; n&atilde;o era<br \/>\n    mais confiante, entusi&aacute;stica, tra&iacute;a des&acirc;nimo, desalento,<br \/>\n    mesmo desespero.<\/p>\n<p>&quot;Querida Adelaide. S&oacute; agora posso responder-te a carta que recebi<br \/>\n    h&aacute; quase duas semanas. Justamente quando ela me chegou &agrave;s m&atilde;os,<br \/>\n    acabava de ser ferido, ferimento ligeiro &eacute; verdade, mas que me levou<br \/>\n    &agrave; cama e trar-me-&aacute; uma convalescen&ccedil;a longa. Que combate,<br \/>\n    minha filha! Que horror! Quando me lembro dele, passo as m&atilde;os pelos<br \/>\n    olhos como para afastar uma vis&atilde;o m&aacute;. Fiquei com horror &agrave;<br \/>\n    guerra que ningu&eacute;m pode avaliar&#8230; Uma confus&atilde;o, um infernal<br \/>\n    zunir de balas, clar&otilde;es sinistros, impreca&ccedil;&otilde;es &#8212; e tudo<br \/>\n    isto no seio da treva profunda da noite&#8230; Houve momentos que se abandonaram<br \/>\n    as armas de fogo: bat&iacute;amo-nos &agrave; baioneta, a coronhadas, a machado,<br \/>\n    fac&atilde;o. Filha: um combate de trogloditas, uma coisa pr&eacute;-hist&oacute;rica&#8230;<br \/>\n    Eu duvido, eu duvido, duvido da justi&ccedil;a disso tudo, duvido da sua raz&atilde;o<br \/>\n    de ser, duvido que seja certo e necess&aacute;rio ir tirar do fundo de n&oacute;s<br \/>\n    todos a ferocidade adormecida, aquela ferocidade que se fez e se depositou<br \/>\n    em n&oacute;s nos milen&aacute;rios combates com as feras, quando disput&aacute;vamos<br \/>\n    a terra a elas&#8230; E n&atilde;o vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon,<br \/>\n    do Neanderthal armados com machados de s&iacute;lex, sem piedade, sem amor,<br \/>\n    sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar&#8230; Este teu irm&atilde;o que<br \/>\n    est&aacute;s vendo, tamb&eacute;m fez das suas, tamb&eacute;m foi descobrir<br \/>\n    dentro de si muita brutalidade, muita ferocidade, muita crueldade&#8230; Eu matei,<br \/>\n    minha irm&atilde;; eu matei! E n&atilde;o contente de matar, ainda descarreguei<br \/>\n    um tiro quando o inimigo arquejava a meus p&eacute;s&#8230; Perdoa-me! Eu te pe&ccedil;o<br \/>\n    perd&atilde;o, porque preciso de perd&atilde;o e n&atilde;o sei a quem pedir,<br \/>\n    a que Deus, a que homem, a algu&eacute;m enfim&#8230; N&atilde;o imaginas como<br \/>\n    isto faz-me sofrer&#8230; Quando ca&iacute; embaixo de uma carreta, o que me do&iacute;a<br \/>\n    n&atilde;o era a ferida, era a alma, era a consci&ecirc;ncia; e Ricardo, que<br \/>\n    foi ferido e caiu ao meu lado, a gemer e pedir &#8212; &#8216;capit&atilde;o, meu gorro,<br \/>\n    meu gorro!&#8217; &#8212; parecia que era o meu pr&oacute;prio pensamento que ironizava<br \/>\n    o meu destino&#8230;<\/p>\n<p>Esta vida &eacute; absurda e il&oacute;gica; eu j&aacute; tenho medo de viver,<br \/>\n    Adelaide. Tenho medo, porque n&atilde;o sabemos para onde vamos, o que faremos<br \/>\n    amanh&atilde;, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol&#8230;<\/p>\n<p>O melhor &eacute; n&atilde;o agir, Adelaide; e desde que o meu dever me livre<br \/>\n    destes encargos, irei viver na quietude, na quietude mais absoluta poss&iacute;vel,<br \/>\n    para que do fundo de mim mesmo ou do mist&eacute;rio das coisas n&atilde;o<br \/>\n    provoque a minha a&ccedil;&atilde;o o aparecimento de energias estranhas &agrave;<br \/>\n    minha vontade, que mais me fa&ccedil;am sofrer e tirem o doce sabor de viver&#8230;<\/p>\n<p>Al&eacute;m do que, penso que todo este meu sacrif&iacute;cio tem sido in&uacute;til.<br \/>\n    Tudo o que nele pus de pensamento n&atilde;o foi atingido, e o sangue que<br \/>\n    derramei, e o sofrimento que vou sofrer toda a vida, foram empregados, foram<br \/>\n    gastos, foram estragados, foram vilipendiados e desmoralizados em prol de<br \/>\n    uma tolice pol&iacute;tica qualquer&#8230;<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m compreende o que quero, ningu&eacute;m deseja penetrar e sentir;<br \/>\n    passo por doido, tolo, man&iacute;aco e a vida se vai fazendo inexoravelmente<br \/>\n    com a sua brutalidade e fealdade.&quot;<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>Como Quaresma dizia na carta, o seu ferimento n&atilde;o era grave, era,<br \/>\n    por&eacute;m, delicado e exigia tempo para uma cura completa e sem perigos.<br \/>\n    Ricardo, este, fora ferido mais gravemente. E se o sofrimento de Quaresma<br \/>\n    era profundamente moral, o de Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros era f&iacute;sico<br \/>\n    e n&atilde;o se cansava de gemer e imprecar contra a sorte que o arrastara<br \/>\n    at&eacute; &agrave; posi&ccedil;&atilde;o de combatente.<\/p>\n<p>Os hospitais em que se tratavam estavam separados pela ba&iacute;a, agora<br \/>\n    intranspon&iacute;vel, exigindo a viagem de uma margem &agrave; outra bem<br \/>\n    doze horas por estrada de ferro.<\/p>\n<p>Tanto na ida como na volta, ferido como estava, Quaresma passara pela esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que morava. O trem, por&eacute;m, n&atilde;o parava, e ele se limitou a<br \/>\n    deitar pela portinhola um longo e saudoso olhar para aquele seu &quot;Sossego&quot;,<br \/>\n    de terras pobres e &aacute;rvores velhas, onde sonhara repousar calmamente<br \/>\n    por toda a vida; e, entretanto, o lan&ccedil;ara na mais terr&iacute;vel das<br \/>\n    aventuras.<\/p>\n<p>E ele perguntava de si para si, onde, na terra, estava o verdadeiro sossego,<br \/>\n    onde se poderia encontrar esse repouso de alma e corpo, pelo qual tanto ansiava,<br \/>\n    depois dos sacolejamentos por que vinha passando &#8212; onde? E o mapa dos continentes,<br \/>\n    as cartas dos pa&iacute;ses, as plantas das cidades, passavam-lhe pelos olhos<br \/>\n    e n&atilde;o viu, n&atilde;o encontrou um pa&iacute;s, uma prov&iacute;ncia,<br \/>\n    uma cidade, uma rua onde o houvesse.<\/p>\n<p>A sua sensa&ccedil;&atilde;o era de fadiga, n&atilde;o f&iacute;sica, mas<br \/>\n    moral e intelectual, Tinha vontade de n&atilde;o mais pensar, de n&atilde;o<br \/>\n    mais amar; queria, contudo, viver, por prazer f&iacute;sico; pela sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    material pura e simples de viver. Assim, convalesceu longamente, demoradamente,<br \/>\n    melancolicamente, sem uma visita, sem ver uma face amiga.<\/p>\n<p>Coleoni e fam&iacute;lia se haviam retirado para fora; o general, por pregui&ccedil;a<br \/>\n    e desleixo, n&atilde;o viera v&ecirc;-lo. Vivia s&oacute;, envolvido na suavidade<br \/>\n    da convalescen&ccedil;a, a pensar no Destino, na sua vida, nas id&eacute;ias<br \/>\n    e mais que tudo nas suas desilus&otilde;es.<\/p>\n<p>Entretanto, a revolta na ba&iacute;a chegava ao fim; toda gente j&aacute;<br \/>\n    pressentia isso e queria esse al&iacute;vio.<\/p>\n<p>O almirante e Albernaz, ambos pelos mesmos motivos, observavam esse fim com<br \/>\n    tristeza. O primeiro via fugir o seu sonho de comandar uma esquadra e a conseq&uuml;ente<br \/>\n    volta para o quadro; e o general sentia perder a sua comiss&atilde;o, cujos<br \/>\n    rendimentos faziam de forma t&atilde;o not&aacute;vel melhorar a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Naquela manh&atilde;, bem cedo, Dona Maricota acordara o marido:<\/p>\n<p>&#8212; Chico, levanta-te! Olha que tens que ir &agrave; missa do Senador Clarimundo&#8230;<\/p>\n<p>Ouvindo a recomenda&ccedil;&atilde;o da mulher, Albernaz ergueu-se logo do<br \/>\n    leito. Era preciso n&atilde;o faltar. A sua presen&ccedil;a se impunha e significava<br \/>\n    muito. Clarimundo fora um republicano hist&oacute;rico, agitador, tribuno<br \/>\n    temido, no tempo do Imp&eacute;rio; ap&oacute;s a Rep&uacute;blica, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o apresentara aos seus pares do Senado nada de &uacute;til e benfazejo.<br \/>\n    Embora assim, a sua influ&ecirc;ncia ficara sendo grande; e, com diversos<br \/>\n    outros, era chamado patriarca da Rep&uacute;blica. H&aacute; nos pr&oacute;ceres<br \/>\n    republicanos uma necessidade extraordin&aacute;ria de serem gloriosos e n&atilde;o<br \/>\n    esquecidos pelo futuro, a que eles se recomendam com teimoso interesse.<\/p>\n<p>Clarimundo era um desses pr&oacute;ceres e, durante a como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o se sabia bem por qu&ecirc;, o seu prest&iacute;gio cresceu e j&aacute;<br \/>\n    se falava nele para substituir o marechal. Albernaz conhecera-o vagamente,<br \/>\n    mas assistir a sua missa era quase uma afirma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A dor da morte da filha j&aacute; se esva&iacute;ra muito na sua mem&oacute;ria.<br \/>\n    O que o fazia sofrer era aquela semivida da mo&ccedil;a, mergulhada na loucura<br \/>\n    e na mol&eacute;stia. A morte tem a virtude de ser brusca, de chocar, mas<br \/>\n    n&atilde;o corroer, como essas mol&eacute;stias duradouras nas pessoas amadas;<br \/>\n    passado que &eacute; o choque, vai ficando em n&oacute;s uma suave recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do ente querido, uma boa fisionomia sempre presente aos nossos olhos.<\/p>\n<p>Dava-se isso com Albernaz e a sua satisfa&ccedil;&atilde;o de viver e a sua<br \/>\n    jovialidade natural foram voltando insensivelmente.<\/p>\n<p>Obediente &agrave; mulher, preparou-se, vestiu-se e saiu. Conquanto se estivesse<br \/>\n    ainda em plena revolta, esses of&iacute;cios f&uacute;nebres se faziam nas<br \/>\n    igrejas do centro da cidade. O general chegou a tempo e &agrave; hora. Havia<br \/>\n    uniformes e cartolas e todos se comprimiam para assinar as listas de presen&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o tanto que quisessem atestar &agrave; fam&iacute;lia do morto esse<br \/>\n    ato delicado; dominava-os, al&eacute;m disso, a esperan&ccedil;a de ter os<br \/>\n    nomes nos jornais.<\/p>\n<p>Albernaz n&atilde;o deixou de atirar-se tamb&eacute;m a uma das listas que<br \/>\n    andavam pelas mesas da sacristia; e quando ia assinar, algu&eacute;m lhe falou.<br \/>\n    Era o almirante. A missa ia come&ccedil;ar, mas ambos evita,&quot;am entrar<br \/>\n    na nave cheia, e ficaram a um v&atilde;o de janela, na sacristia, conversando.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o acaba breve, hein?<\/p>\n<p>&#8212; Dizem que a esquadra j&aacute; saiu de Pernambuco.<\/p>\n<p>Fora Caldas quem falara primeiro e a resposta do general f&ecirc;-lo sorrir<br \/>\n    ir&ocirc;nico dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Enfim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A baia est&aacute; cercada de canh&otilde;es, continuou o general, ap&oacute;s<br \/>\n    uma pausa, e o marechal vai intim&aacute;-los a renderem-se.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; era tempo, fez Caldas&#8230; Comigo, a coisa j&aacute; estava acabada&#8230;<br \/>\n    Levar quase sete meses para dar cabo de uns calhambeques!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; exagera, Caldas; a coisa n&atilde;o era t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    assim&#8230; E o mar?<\/p>\n<p>&#8212; Que fez a esquadra tanto tempo no Recife, voc&ecirc; n&atilde;o me dir&aacute;?<br \/>\n    Ah! Se fosse com este seu criado, tinha logo partido e atacado&#8230; Sou pelas<br \/>\n    decis&otilde;es prontas&#8230;<\/p>\n<p>O padre, no interior da igreja, continuava a pedir a Deus repouso para a<br \/>\n    alma do Senador Clarimundo. O m&iacute;stico cheiro de incenso vinha at&eacute;<br \/>\n    eles e o votivo perfume, votivo ao Deus da paz e da bondade, n&atilde;o os<br \/>\n    demovia dos seus pensamentos guerreiros.<\/p>\n<p>&#8212; Entre n&oacute;s, aduziu Caldas, n&atilde;o h&aacute; mais gente que preste&#8230;<br \/>\n    Isto &eacute; um pa&iacute;s perdido, acaba col&ocirc;nia inglesa&#8230;<\/p>\n<p>Co&ccedil;ou nervoso um dos favoritos e esteve um instante a olhar o ladrilho<br \/>\n    do ch&atilde;o. Albernaz avan&ccedil;ou, meio sarc&aacute;stico:<\/p>\n<p>&#8212; Agora n&atilde;o; agora a autoridade est&aacute; prestigiada, consolidada,<br \/>\n    e uma era de progresso vai abrir-se para o Brasil.<\/p>\n<p>&#8212; Qual o qu&ecirc;! Onde &eacute; que voc&ecirc; viu um governo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mais baixo, Caldas!<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; onde &eacute; que se viu um governo que n&atilde;o aproveita as aptid&otilde;es,<br \/>\n    abandona-as, deixa-as por ai vegetar?&#8230; D&aacute;-se o mesmo com as nossas<br \/>\n    riquezas naturais: jazem por a&iacute; &agrave; toa!<\/p>\n<p>A sineta soou e olharam um pouco a nave cheia. Pela porta, via-se uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de homens, todos de negro, ajoelhados, contrictos, batendo nos peitos, a confessar<br \/>\n    de si para si; mea culpa, mea maxima culpa&#8230;<\/p>\n<p>Uma r&eacute;stia de sol coava-se por uma das aberturas do alto e resplandecia<br \/>\n    sobre algumas cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p>Insensivelmente, os dois, na sacristia, levaram a m&atilde;o ao peito e confessaram<br \/>\n    tamb&eacute;m: mea culpa, mea maxima culpa&#8230;<\/p>\n<p>A missa veio a acabar e ambos entraram para o abra&ccedil;o da pragm&aacute;tica.<br \/>\n    A nave rescendia a incenso e tinha um aspecto tranq&uuml;ilo de imortalidade.<\/p>\n<p>Todos tinham um grande ar de compun&ccedil;&atilde;o: amigos, parentes, conhecidos<br \/>\n    e desconhecidos pareciam sofrer igualmente. Albernaz e Caldas, logo que penetraram<br \/>\n    no corpo da igreja, apanharam no ar um sentimento profundo e afivelaram-no<br \/>\n    ao rosto.<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio tamb&eacute;m viera; ele tinha o v&iacute;cio das missas<br \/>\n    das pessoas importantes, dos cart&otilde;es de p&ecirc;sames, dos cumprimentos<br \/>\n    em dias de anivers&aacute;rio. Temendo que a mem&oacute;ria n&atilde;o lhe<br \/>\n    ajudasse, possu&iacute;a um caderninho onde as datas anivers&aacute;rias estavam<br \/>\n    assentadas e as resid&ecirc;ncias tamb&eacute;m. O &iacute;ndice era organizado<br \/>\n    com muito cuidado. N&atilde;o havia sogra, prima, tia, cunhada, de homem importante,<br \/>\n    que, em dia de anivers&aacute;rio, n&atilde;o recebesse os seus parab&eacute;ns,<br \/>\n    e, por morte, n&atilde;o o levasse &agrave; igreja em missa de s&eacute;timo<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p>O seu traje de luto era de pano grosso, pesado; e, olhando-o, lembrava-nos<br \/>\n    logo de um castigo dantesco.<\/p>\n<p>Na rua, Genel&iacute;cio escovava a cartola com a manga da sobrecasaca e<br \/>\n    dizia ao sogro e ao almirante:<\/p>\n<p>&#8212; A coisa est&aacute; pra acabar&#8230;! Breve&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E se resistirem? perguntou o general.<\/p>\n<p>&#8212; Qual! N&atilde;o resistem. Corre que j&aacute; propuseram rendi&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &Eacute; preciso arranjar uma manifesta&ccedil;&atilde;o ao marechal.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o acredito, fez o almirante. Conhe&ccedil;o muito o Saldanha,<br \/>\n    &eacute; orgulhoso e n&atilde;o se entrega assim&#8230;<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio ficou um pouco assustado com a entona&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    voz do seu<\/p>\n<p>parente; teve medo que ele falasse mais alto, desse na vista e o comprometesse.<br \/>\n    Calou-se; Albernaz, por&eacute;m, avan&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; orgulho que resista a uma esquadra mais forte.<\/p>\n<p>&#8212; Forte! Uns calhambeques, homem!<\/p>\n<p>Caldas continha a custo a f&uacute;ria que lhe ia n&#8217;alma. O c&eacute;u estava<br \/>\n    azul e calmo. Havia nele nuvens brancas, leves, esgar&ccedil;adas, que se<br \/>\n    moviam lentamente, como velas, naquele mar infinito. Genel&iacute;cio olhou-o<br \/>\n    um pouco e aconselhou:<\/p>\n<p>&#8212; Almirante, n&atilde;o fale assim&#8230; Olhe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qual! N&atilde;o tenho medo&#8230; Porcarias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bom, fez Genel&iacute;cio, eu tenho que ir &agrave; Rua Primeiro de Mar&ccedil;o<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p>Despediu-se e saiu com o seu traje de chumbo, curvado, olhando o ch&atilde;o<br \/>\n    com o seu pince-nez azulado, palmilhando a rua com passo mi&uacute;do e cauteloso.<\/p>\n<p>Albernaz e Caldas ainda estiveram conversando um tempo e se despediram sempre<br \/>\n    amigos, cada um com o seu desgosto e a sua decep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tinham raz&atilde;o: a revolta veio a acabar dai a dias. A esquadra legal<br \/>\n    entrou; os oficiais revoltosos se refugiaram nos navios de guerra portugueses<br \/>\n    e o Marechal Floriano ficou senhor da ba&iacute;a.<\/p>\n<p>No dia da entrada, acreditando que houvesse canhoneio, uma grande parte da<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o abandonou a cidade, refugiando-se nos sub&uacute;rbios,<br \/>\n    por baixo das &aacute;rvores, na casa de amigos ou nos galp&otilde;es constru&iacute;dos<br \/>\n    adrede pelo Estado.<\/p>\n<p>Era de ver o terror que se estampava naquelas fisionomias, a &acirc;nsia<br \/>\n    e a ang&uacute;stia tamb&eacute;m. Levavam trouxas, sambur&aacute;s, pequenas<br \/>\n    malas; crian&ccedil;as de peito, a chorar, o papagaio querido, o cachorro<br \/>\n    de estima&ccedil;&atilde;o, o passarinho que de h&aacute; muito quebrava a<br \/>\n    tristeza de uma casa pobre.<\/p>\n<p>O que mais metia medo era o famoso canh&atilde;o de dinamite, do &quot;Niter&oacute;i&quot;,<br \/>\n    uma espalhafatosa inven&ccedil;&atilde;o americana, instrumento terr&iacute;vel,<br \/>\n    capaz de causar terremotos e de abalar os fundamentos das montanhas gran&iacute;ticas<br \/>\n    do Rio.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as e as mulheres, mesmo fora do alcance de seu poder, temiam<br \/>\n    uvir o seu estrondo; entretanto, esse fantasma yankee, esse pesadelo, essa<br \/>\n    quase for&ccedil;a da natureza, foi morrer abandonado num cais, desprezado<br \/>\n    e inofensivo.<\/p>\n<p>O fim do levante foi um al&iacute;vio; a coisa j&aacute; estava ficando mon&oacute;tona<br \/>\n    e o marechal ganhou fei&ccedil;&otilde;es sobre-humanas com a vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Quaresma teve alta por esse tempo; e uma ala de seu batalh&atilde;o foi destacada<br \/>\n    para guarnecer a ilha das Enxadas. Inoc&ecirc;ncio Bustamante continuava a<br \/>\n    superintender o corpo com muito zelo, do interior do seu gabinete, na estalagem<br \/>\n    condenada que lhe servia de quartel. A escritura&ccedil;&atilde;o estava em<br \/>\n    dia e era feita com a melhor letra.<\/p>\n<p>Policarpo aceitou com repugn&acirc;ncia o papel de carcereiro, pois na ilha<br \/>\n    das Enxadas estavam depositados os marinheiros prisioneiros. Os seus tormentos<br \/>\n    d&#8217;alma mais cresceram com o exerc&iacute;cio de tal fun&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quase os n&atilde;o olhava; tinha vexame, piedade e parecia-lhe que dentre<br \/>\n    eles um conhecia o segredo de sua consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>De resto, todo o sistema de id&eacute;ias que o fizera meter-se na guerra<br \/>\n    civil se tinha desmoronado. N&atilde;o encontrara o Sully e muito menos o<br \/>\n    Henrique IV. Sentia tamb&eacute;m que o seu pensamento motriz n&atilde;o residia<br \/>\n    em nenhuma das pessoas que encontrara. Todos tinham vindo ou com pueris pensamentos<br \/>\n    pol&iacute;ticos, ou por interesse; nada de superior os animava. Mesmo entre<br \/>\n    os mo&ccedil;os, que eram muitos, se n&atilde;o havia baixo interesse, existia<br \/>\n    uma adora&ccedil;&atilde;o fet&iacute;chica pela forma republicana, um exagero<br \/>\n    das virtudes dela, um pendor para o despotismo que os seus estudos e medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o podiam achar justos. Era grande a sua desilus&atilde;o.<\/p>\n<p>Os prisioneiros se amontoavam nas antigas salas de aulas e alojamentos dos<br \/>\n    aspirantes. Havia simples marinheiros; havia inferiores; havia escreventes<br \/>\n    e oper&aacute;rios de bordo. Brancos, pretos, mulatos, caboclos, gente de<br \/>\n    todas as cores e todos os sentimentos, gente que se tinha metido em tal aventura<br \/>\n    pelo h&aacute;bito de obedecer, gente inteiramente estranha &agrave; quest&atilde;o<br \/>\n    em debate, gente arrancada &agrave; for&ccedil;a aos lares ou &agrave; cala&ccedil;aria<br \/>\n    das ruas, pequeninos, tenros, ou que se haviam alistado por mis&eacute;ria;<br \/>\n    gente ignara, simples, &agrave;s vezes cruel e perversa como crian&ccedil;as<br \/>\n    inconscientes; &agrave;s vezes, boa e d&oacute;cil como um cordeiro, mas,<br \/>\n    enfim, gente sem responsabilidade, sem anseio pol&iacute;tico, sem vontade<br \/>\n    pr&oacute;pria, simples aut&ocirc;matos nas m&atilde;os dos chefes e superiores<br \/>\n    que a tinham abandonado &agrave; merc&ecirc; do vencedor.<\/p>\n<p>De tarde, ele ficava a passear, olhando o mar. A vira&ccedil;&atilde;o soprava<br \/>\n    ainda e as gaivotas continuavam a pescar. Os barcos passavam. Ora, eram lanchas<br \/>\n    fumarentas que l&aacute; iam para o fundo da ba&iacute;a; ora pequenos botes<br \/>\n    ou canoas, ro&ccedil;ando carinhosamente a superf&iacute;cie das &aacute;guas,<br \/>\n    pendendo para l&aacute; e para c&aacute;, como se as suas alvas velas enfunadas<br \/>\n    quisessem afagar a espelhenta superf&iacute;cie do abismo. Os &Oacute;rg&atilde;os<br \/>\n    vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial<br \/>\n    que inebriava, embriagava, como um licor capitoso.<\/p>\n<p>Ficava assim um tempo longo, a ver, e quando se voltava, olhava a cidade<br \/>\n    que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do ocaso.<\/p>\n<p>A noite chegava e Quaresma continuava a passear na borda do mar, meditando,<br \/>\n    pensando, sofrendo com aquelas lembran&ccedil;as de &oacute;dios, de sangueiras<br \/>\n    e ferocidade.<\/p>\n<p>A sociedade e a vida pareceram-lhe coisas horrorosas, e imaginou que do exemplo<br \/>\n    delas vinham os crimes que aquela punia, castigava e procurava restringir.<br \/>\n    Eram negras e desesperadas, as suas id&eacute;ias; muita vez julgou que delirava.<\/p>\n<p>E ent&atilde;o se lamentava por estar sozinho, por n&atilde;o ter um companheiro<br \/>\n    com quem conversar, que lhe fizesse fugir &agrave;queles tristes pensamentos<br \/>\n    que o assediavam e se estavam transformando em obsess&atilde;o.<\/p>\n<p>Ricardo estava de guarni&ccedil;&atilde;o na ilha das Cobras; e, mesmo que<br \/>\n    ali estivesse, os rigores da disciplina n&atilde;o lhe permitiriam uma conversa<br \/>\n    mais amig&aacute;vel. Vinha a noite inteiramente, e o sil&ecirc;ncio e a treva<br \/>\n    envolviam tudo.<\/p>\n<p>Quaresma ainda ficava horas ao ar livre a pensar, olhando o fundo da ba&iacute;a,<br \/>\n    onde quase n&atilde;o havia luzes que interrompessem a continuidade do negror<br \/>\n    noturno.<\/p>\n<p>Fixava bem os olhos para l&aacute;, como se os quisesse habituar a penetrar<br \/>\n    nas coisas indecifr&aacute;veis e adivinhar dentro da sombra negra a forma<br \/>\n    das montanhas, o recorte das ilhas que a noite tinha feito desaparecer. <\/p>\n<p>Fatigado, ia dormir. Nem sempre dormia bem; tinha ins&ocirc;nias e, se queria<br \/>\n    ler, a aten&ccedil;&atilde;o recusava fixar-se e o pensamento vagabundava<br \/>\n    muito longe do livro.<\/p>\n<p>Certa noite em que ia dormindo melhor, um inferior veio acord&aacute;-lo<br \/>\n    pela madrugada:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor major, est&aacute; a&iacute; o &quot;home&quot; do Itamarati.<\/p>\n<p>&#8212; Que homem?<\/p>\n<p>&#8212; O oficial que vem buscar a turma do Boqueir&atilde;o.<\/p>\n<p>Sem atinar do que se tratava, levantou-se e foi ao encontro do visitante.<br \/>\n    O homem j&aacute; estava no interior de um dos alojamentos. Uma escolta estava<br \/>\n    &agrave; porta. Seguiam-no algumas pra&ccedil;as, das quais uma levava uma<br \/>\n    lanterna que derramava no sal&atilde;o uma fraca luzerna amarelada. A vasta<br \/>\n    sala estava cheia de corpos, deitados, seminus, e havia todo o &iacute;ris<br \/>\n    das cores humanas. Uns roncavam, outros dormiam somente; e, quando Quaresma<br \/>\n    entrou, houve algu&eacute;m que em sonho, gemeu &#8212; ai! Cumprimentaram-se,<br \/>\n    Quaresma e o emiss&aacute;rio do Itamarati, e nada disseram. Ambos tiveram<br \/>\n    medo de falar. O oficial despertou um dos prisioneiros e disse para as pra&ccedil;as:<br \/>\n    &quot;Levem este&quot;.<\/p>\n<p>Seguiu adiante e despertou outro: &#8212; &quot;Onde voc&ecirc; esteve?&quot;<br \/>\n    &quot;Eu&quot; &#8212; respondeu o marinheiro &#8212; &quot;na Guanabara&quot;&#8230; &quot;Ah!<br \/>\n    patife&quot; acudiu o homem do Itamarati&#8230; &quot;Este tamb&eacute;m&#8230; Levem!&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Os soldados condutores iam at&eacute; &agrave; porta, deixavam o prisioneiro<br \/>\n    e voltavam.<\/p>\n<p>O oficial passou por uma por&ccedil;&atilde;o deles e n&atilde;o fez reparo;<br \/>\n    adiante, deu com um rapaz claro, franzino, que n&atilde;o dormia. Gritou ent&atilde;o:<br \/>\n    &quot;Levante-se!&quot; O rapaz ergueu-se tremendo. &#8212; &quot;Onde esteve voc&ecirc;?&quot;<br \/>\n    perguntou. &#8212; &quot;Eu era enfermeiro&quot;, retrucou o rapaz. &#8212; &quot;Que<br \/>\n    enfermeiro!&quot; fez o emiss&aacute;rio. &quot;Levem este tamb&eacute;m&quot;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, &quot;seu&quot; tenente, deixe-me escrever &agrave; minha m&atilde;e,<br \/>\n    pediu o rapaz quase chorando.<\/p>\n<p>&#8212; Que m&atilde;e! respondeu o homem do Itamarati. Siga! V&aacute;!<\/p>\n<p>E assim foi uma d&uacute;zia, escolhida a esmo, ao acaso, cercada pela escolta,<br \/>\n    a embarcar num batel&atilde;o que uma lancha logo rebocou para fora das &aacute;guas<br \/>\n    da ilha.<\/p>\n<p>Quaresma n&atilde;o atinou de pronto com o sentido da cena e foi, ap&oacute;s<br \/>\n    o afastamento da lancha, que ele encontrou uma explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixou de pensar ent&atilde;o por que for&ccedil;a misteriosa,<br \/>\n    por que injun&ccedil;&atilde;o ir&ocirc;nica ele se tinha misturado em t&atilde;o<br \/>\n    tenebrosos acontecimentos, assistindo ao sinistro alicer&ccedil;ar do regime&#8230;<\/p>\n<p>A embarca&ccedil;&atilde;o n&atilde;o ia longe. O mar gemia demoradamente<br \/>\n    de encontro &agrave;s pedras do cais. A esteira da embarca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estrelejava fosforescente. No alto, num c&eacute;u negro e profundo, as estrelas<br \/>\n    brilhavam serenamente. <\/p>\n<p>A lancha desapareceu nas trevas do fundo da ba&iacute;a. Para onde ia? Para<br \/>\n    o Boqueir&atilde;o&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">V &#8211; A AFILHADA<\/a><\/h4>\n<p>Como lhe parecia il&oacute;gico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito<br \/>\n    calabou&ccedil;o? Pois ele, o Quaresma pl&aacute;cido, o Quaresma de t&atilde;o<br \/>\n    profundos pensamentos patri&oacute;ticos, merecia aquele triste fim? De que<br \/>\n    maneira sorrateira o Destino o arrastara at&eacute; ali, sem que ele pudesse<br \/>\n    pressentir o seu extravagante prop&oacute;sito, t&atilde;o aparentemente sem<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o com o resto da sua vida? Teria sido ele com os seus<br \/>\n    atos passados, com as suas a&ccedil;&otilde;es encadeadas no tempo, que fizera<br \/>\n    com que aquele velho deus docilmente o trouxesse at&eacute; &agrave; execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tal des&iacute;gnio? Ou teriam sido os fatos externos, que venceram a ele,<br \/>\n    Quaresma, e fizeram-no escravo da senten&ccedil;a da onipotente divindade?<br \/>\n    Ele n&atilde;o sabia, e, quando teimava em pensar, as duas coisas se baralhavam,<br \/>\n    se emaranhavam e a conclus&atilde;o certa e exata lhe fugia. <\/p>\n<p>N&atilde;o estava ali h&aacute; muitas horas. Fora preso pela manh&atilde;,<br \/>\n    logo ao erguer-se da cama; e, pelo c&aacute;lculo aproximado do tempo, pois<br \/>\n    estava sem rel&oacute;gio e mesmo se o tivesse n&atilde;o poderia consult&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave; fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.<\/p>\n<p>Por que estava preso? Ao certo n&atilde;o sabia; o oficial que o conduzira,<br \/>\n    nada lhe quisera dizer; e, desde que sa&iacute;ra da ilha das Enxadas para<br \/>\n    a das Cobras, n&atilde;o trocara palavra com ningu&eacute;m, n&atilde;o vira<br \/>\n    nenhum conhecido no caminho, nem o pr&oacute;prio Ricardo que lhe podia, com<br \/>\n    um olhar, com um gesto, trazer sossego &agrave;s suas d&uacute;vidas. Entretanto,<br \/>\n    ele atribu&iacute;a a pris&atilde;o &agrave; carta que escrevera ao presidente,<br \/>\n    protestando contra a cena que presenciara na v&eacute;spera.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pudera conter. Aquela leva de desgra&ccedil;ados a sair assim,<br \/>\n    a desoras, escolhidos a esmo, para uma carni&ccedil;aria distante, falara<br \/>\n    fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos seus olhos todos os seus<br \/>\n    princ&iacute;pios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade<br \/>\n    humana; e ele escrevera a carta com veem&ecirc;ncia, com paix&atilde;o, indignado.<br \/>\n    Nada omitiu do seu pensamento; falou claro, franca e nitidamente.<\/p>\n<p>Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado,<br \/>\n    isolado dos seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na<br \/>\n    treva, sofrendo umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer&#8230;<br \/>\n    Como acabarei? Como acabarei? E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de<br \/>\n    pensamentos que aquela ang&uacute;stia provocava pensar. N&atilde;o havia<br \/>\n    base para qualquer hip&oacute;tese. Era de conduta t&atilde;o irregular e<br \/>\n    incerta o Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais<br \/>\n    esta que aquela.<\/p>\n<p>O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para<br \/>\n    afirmar mais a vit&oacute;ria e senti-la bem na consci&ecirc;ncia coisa sua,<br \/>\n    pr&oacute;pria, e altamente honrosa.<\/p>\n<p>Iria morrer, quem sabe se naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua<br \/>\n    vida? Nada. Levara toda ela atr&aacute;s da miragem de estudar a p&aacute;tria,<br \/>\n    por am&aacute;-la e quer&ecirc;-la muito, no intuito de contribuir para a<br \/>\n    sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade<br \/>\n    tamb&eacute;m; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como<br \/>\n    ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o. E o que n&atilde;o deixara<br \/>\n    de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. N&atilde;o brincara, n&atilde;o<br \/>\n    pandegara, n&atilde;o amara &#8212; todo esse lado da exist&ecirc;ncia que parece<br \/>\n    fugir um pouco &agrave; sua tristeza necess&aacute;ria, ele n&atilde;o vira,<br \/>\n    ele n&atilde;o provara, ele n&atilde;o experimentara.<\/p>\n<p>Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a<br \/>\n    tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes?<br \/>\n    Pois que fossem&#8230; Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome<br \/>\n    dos her&oacute;is do Brasil? Em nada&#8230; O importante &eacute; que ele tivesse<br \/>\n    sido feliz. Foi? N&atilde;o. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folk-lore,<br \/>\n    das suas tentativas agr&iacute;colas&#8230; Restava disso tudo em sua alma uma<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o? Nenhuma! Nenhuma!<\/p>\n<p>O tupi encontrou a incredulidade geral, o riso, a mofa, o esc&aacute;rnio;<br \/>\n    e levou-o &agrave; loucura. Uma decep&ccedil;&atilde;o. E a agricultura? Nada.<br \/>\n    As terras n&atilde;o eram ferazes e ela n&atilde;o era f&aacute;cil como diziam<br \/>\n    os livros. Outra decep&ccedil;&atilde;o. E, quando o seu patriotismo se fizera<br \/>\n    combatente, o que achara? Decep&ccedil;&otilde;es. Onde estava a do&ccedil;ura<br \/>\n    de nossa gente? Pois ele n&atilde;o a viu combater como feras? Pois n&atilde;o<br \/>\n    a via matar prisioneiros, in&uacute;meros? Outra decep&ccedil;&atilde;o. A<br \/>\n    sua vida era uma decep&ccedil;&atilde;o, uma s&eacute;rie, melhor, um encadeamento<br \/>\n    de decep&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A p&aacute;tria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele<br \/>\n    no sil&ecirc;ncio do seu gabinete. Nem a f&iacute;sica, nem a moral, nem a<br \/>\n    intelectual, nem a pol&iacute;tica que julgava existir, havia, A que existia<br \/>\n    de fato, era a do Tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati.<\/p>\n<p>E, bem pensado, mesmo na sua pureza, o que vinha a ser a P&aacute;tria? N&atilde;o<br \/>\n    teria levado toda a sua vida norteado por uma ilus&atilde;o, por uma id&eacute;ia<br \/>\n    a menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou uma Deusa cujo imp&eacute;rio<br \/>\n    se esva&iacute;a? N&atilde;o sabia que essa id&eacute;ia nascera da amplifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da crendice dos povos greco-romanos de que os ancestrais mortos continuariam<br \/>\n    a viver como sombras e era preciso aliment&aacute;-las para que eles n&atilde;o<br \/>\n    perseguissem os descendentes? Lembrou-se do seu Fustel de Coulanges&#8230; Lembrou-se<br \/>\n    de que essa no&ccedil;&atilde;o nada &eacute; para os Menenan&atilde;, para<br \/>\n    tantas pessoas&#8230; Pareceu-lhe que essa id&eacute;ia como que fora explorada<br \/>\n    pelos conquistadores por instantes sabedores das nossas subservi&ecirc;ncias<br \/>\n    psicol&oacute;gicas, no intuito de servir &agrave;s suas pr&oacute;prias ambi&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>Reviu a hist&oacute;ria; viu as mutila&ccedil;&otilde;es, os acr&eacute;scimos<br \/>\n    em todos os pa&iacute;ses hist&oacute;ricos e perguntou de si para si: como<br \/>\n    um homem que vivesse quatro s&eacute;culos sendo franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s,<br \/>\n    italiano, alem&atilde;o, podia sentir a P&aacute;tria? <br \/>\n    Uma hora, para o franc&ecirc;s, o Franco-Condado era terra dos seus av&oacute;s,<br \/>\n    outra n&atilde;o era; num dado momento, a Als&aacute;cia n&atilde;o era, depois<br \/>\n    era e afinal n&atilde;o vinha a ser.<\/p>\n<p>N&oacute;s mesmos n&atilde;o tivemos a Cisplatina e n&atilde;o a perdemos;<br \/>\n    e, porventura, sentimos que haja l&aacute; manes dos nossos av&oacute;s e<br \/>\n    por isso sofremos qualquer m&aacute;goa?<\/p>\n<p>Certamente era uma no&ccedil;&atilde;o sem consist&ecirc;ncia racional e<br \/>\n    precisava ser revista.<\/p>\n<p>Mas, como &eacute; que ele t&atilde;o sereno, t&atilde;o l&uacute;cido, empregara<br \/>\n    sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atr&aacute;s de tal quimera? Como<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o viu nitidamente a realidade, n&atilde;o a pressentiu<br \/>\n    logo e se deixou enganar por um falaz &iacute;dolo, absorver-se nele, dar-lhe<br \/>\n    em holocausto toda a sua exist&ecirc;ncia? Foi o seu isolamento, o seu esquecimento<br \/>\n    de si mesmo; e assim &eacute; que ia para a cova, sem deixar tra&ccedil;o<br \/>\n    seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo,<br \/>\n    e sem sequer uma asneira!<\/p>\n<p>Nada deixava que afirmasse a sua passagem e a terra n&atilde;o lhe dera nada<br \/>\n    de saboroso.<\/p>\n<p>Contudo, quem sabe se outros que lhe seguissem as pegadas n&atilde;o seriam<br \/>\n    mais felizes? E logo respondeu a si mesmo: mas como? Se n&atilde;o se fizera<br \/>\n    comunicar, se nada dissera e n&atilde;o prendera o seu sonho, dando-lhe corpo<br \/>\n    e subst&acirc;ncia?<\/p>\n<p>E esse seguimento adiantaria alguma coisa? E essa continuidade traria enfim<br \/>\n    para a terra alguma felicidade? H&aacute; quantos anos vidas mais valiosas<br \/>\n    que a dele, se vinham oferecendo, sacrificando e as coisas ficaram na mesma,<br \/>\n    a terra na mesma mis&eacute;ria, na mesma opress&atilde;o, na mesma tristeza.\n  <\/p>\n<p>E ele se lembrava que h&aacute; bem cem anos, ali, naquele mesmo lugar onde<br \/>\n    estava, talvez naquela mesma pris&atilde;o, homens generosos e ilustres estiveram<br \/>\n    presos por quererem melhorar o estado de coisas de seu tempo. Talvez s&oacute;<br \/>\n    tivessem pensado, mas sofreram pelo seu pensamento. Tinha havido vantagem?<br \/>\n    As condi&ccedil;&otilde;es gerais tinham melhorado? Aparentemente sim; mas,<br \/>\n    bem examinado, n&atilde;o.<\/p>\n<p>Aqueles homens, acusados de crime t&atilde;o nefando em face da legisla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &eacute;poca, tinham levado dois anos a ser julgados; e ele, que n&atilde;o<br \/>\n    tinha crime algum, nem era ouvido, nem era julgado; seria simplesmente executado!<\/p>\n<p>Fora bom, fora generoso, fora honesto, fora virtuoso &#8212; ele que fora tudo<br \/>\n    isso, ia para a cova sem o acompanhamento de um parente, de um amigo, de um<br \/>\n    camarada&#8230;<\/p>\n<p>Onde estariam eles? Sobre o Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros, t&atilde;o<br \/>\n    simples e t&atilde;o inocente na sua mania de viol&atilde;o, ele n&atilde;o<br \/>\n    poria mais os olhos? Era t&atilde;o bom que o pudesse, para mandar &agrave;<br \/>\n    sua irm&atilde; o &uacute;ltimo recado, ao preto Anast&aacute;cio um adeus,<br \/>\n    &agrave; sua afilhada um abra&ccedil;o! Nunca mais v&ecirc;-los-ia, nunca!<\/p>\n<p>E ele chorou um pouco.<\/p>\n<p>Quaresma, por&eacute;m, enganava-se em parte. Ricardo soubera de sua pris&atilde;o<br \/>\n    e procurava solt&aacute;-lo. Teve noticia do exato motivo dela; mas n&atilde;o<br \/>\n    se intimidou. Sabia perfeitamente que corria grande risco, pois a indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no pal&aacute;cio contra Quaresma fora geral. A vit&oacute;ria tinha feito<br \/>\n    os vitoriosos inclementes e ferozes, e aquele protesto soou entre eles como<br \/>\n    um desejo de diminuir o valor das vantagens alcan&ccedil;adas. N&atilde;o<br \/>\n    havia mais piedade, n&atilde;o havia mais simpatia, nem respeito pela vida<br \/>\n    humana; o que era necess&aacute;rio era dar o exemplo de um massacre &agrave;<br \/>\n    turca, por&eacute;m clandestino, para que jamais o poder constitu&iacute;do<br \/>\n    fosse atacado ou mesmo discutido. Era a filosofia social da &eacute;poca,<br \/>\n    com for&ccedil;as de religi&atilde;o, com os seus fan&aacute;ticos, com os<br \/>\n    seus sacerdotes e pregadores, e ela agia com a maldade de uma cren&ccedil;a<br \/>\n    forte, sobre a qual fiz&eacute;ssemos repousar a felicidade de muitos. <\/p>\n<p>Ricardo, entretanto, n&atilde;o se amedrontou; procurou influ&ecirc;ncias<br \/>\n    de amigos. Ao entrar no Largo de S&atilde;o Francisco encontrou Genel&iacute;cio.<br \/>\n    Vinha da missa da irm&atilde; da sogra do Deputado Castro. Como sempre, trajava<br \/>\n    uma pesada sobrecasaca preta que parecia de chumbo. J&aacute; estava subdiretor<br \/>\n    e o seu trabalho era agora imaginar meios e modos de ser diretor. A coisa<br \/>\n    era dif&iacute;cil; mas trabalhava num livro: Os Tribunais de Contas nos Pa&iacute;ses<br \/>\n    Asi&aacute;ticos &#8212; o qual, demonstrando uma erudi&ccedil;&atilde;o superior,<br \/>\n    talvez lhe levasse ao alto lugar cobi&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Vendo-o, Ricardo n&atilde;o se deteve. Correu-lhe ao encal&ccedil;o e falou-lhe:\n  <\/p>\n<p>&#8212; Doutor, Vossa Excel&ecirc;ncia d&aacute; licen&ccedil;a que lhe d&ecirc;<br \/>\n    uma palavra?<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio perfilou-se todo e, como tivesse p&eacute;ssima mem&oacute;ria<br \/>\n    das fisionomias humildes, perguntou com solenidade e arrog&acirc;ncia:<\/p>\n<p>&#8212; Que deseja, camarada?<\/p>\n<p>Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros estava com a sua farda do &quot;Cruzeiro<br \/>\n    do Sul&quot; e n&atilde;o ficava bem a Genel&iacute;cio dar-se como conhecido<br \/>\n    de um soldado. O trovador julgou-o mesmo esquecido e indagou ingenuamente:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me conhece mais, doutor?<\/p>\n<p>Genel&iacute;cio fechou um pouco os olhos por detr&aacute;s do pince-nez<br \/>\n    azulado e disse secamente:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, fez com humildade Ricardo, sou Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros,<br \/>\n    que cantou no seu casamento.<\/p>\n<p>Genelicio n&atilde;o sorriu, n&atilde;o deu mostras de alegria e limitou-se:<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &Eacute; o senhor! Bem: que deseja?<\/p>\n<p>&#8212; O senhor n&atilde;o sabe que o Major Quaresma est&aacute; preso?<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Aquele que foi vizinho do seu sogro.<\/p>\n<p>&#8212; Aquele maluco&#8230; Ahn!&#8230; E da&iacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Eu queria que o senhor se interessasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me meto nessas coisas, meu amigo. O governo tem sempre raz&atilde;o.<br \/>\n    Passe bem.<\/p>\n<p>E Genel&iacute;cio seguiu com o seu passo cauteloso de quem poupa as solas<br \/>\n    das botas, enquanto Ricardo ficava de p&eacute; a olhar o largo, a gente que<br \/>\n    passava, a est&aacute;tua im&oacute;vel, as casas feias, a igreja&#8230; Tudo<br \/>\n    lhe pareceu hostil, mau ou indiferente; aquelas caras de homens tinham cataduras<br \/>\n    de feras e ele quis por um momento chorar de desespero por n&atilde;o poder<br \/>\n    salvar o amigo.<\/p>\n<p>Lembrou-se, por&eacute;m, de Albernaz, e correu a procur&aacute;-lo. N&atilde;o<br \/>\n    era longe, mas o general ainda n&atilde;o tinha chegado. Ao fim de uma hora<br \/>\n    o general chegou e, dando com Ricardo, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute;?<\/p>\n<p>O trovador, bastante emocionado, explicou-lhe com voz dorida todo o fato.<br \/>\n    Albernaz concertou o pince-nez, ajeitou bem o trancelim de ouro na orelha<br \/>\n    e disse com do&ccedil;ura:<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho, eu n&atilde;o posso&#8230; Voc&ecirc; sabe; sou governista e parece,<br \/>\n    se eu for pedir por um preso, que j&aacute; n&atilde;o o sou bastante&#8230; Sinto<br \/>\n    muito, mas&#8230; que se h&aacute; de fazer? Paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>E entrou para o seu gabinete prazenteiro, muito seguro de si, dentro do seu<br \/>\n    pl&aacute;cido uniforme de general.<\/p>\n<p>Os oficiais continuavam a entrar e a sair; as campainhas soavam; os cont&iacute;nuos<br \/>\n    iam e vinham; e Ricardo procurava entre todas aquelas fisionomias uma que<br \/>\n    lhe pudesse valer. N&atilde;o havia e ele desesperava. Mas quem havia de ser?<br \/>\n    Quem? Lembrou-se: o comandante; e foi ter com o Coronel Bustamante, na velha<br \/>\n    estalagem que servia de quartel ao garboso &quot;Cruzeiro do Sul&quot;.<\/p>\n<p>O batalh&atilde;o ainda continuava em p&eacute; de guerra. Embora terminada<br \/>\n    a revolta no porto do Rio de Janeiro era preciso mandar for&ccedil;as para<br \/>\n    o Sul; de forma que os batalh&otilde;es n&atilde;o tinham sido dissolvidos<br \/>\n    e um dos apontados para partir era o &quot;Cruzeiro&quot;.<\/p>\n<p>O alferes coxo, no ensaboado p&aacute;tio da antiga estalagem, continuava<br \/>\n    na sua faina de instrutor dos novos recrutas. Om &#8212; brooo&#8230; armas! Mei &#8212;<br \/>\n    &atilde;&atilde; volta!<\/p>\n<p>Ricardo entrou, subiu rapidamente a oscilante escada do velho corti&ccedil;o<br \/>\n    e logo que chegou ao cub&iacute;culo do comandante, gritou: &quot;Com licen&ccedil;a,<br \/>\n    comandante!&quot;<\/p>\n<p>Bustamante andava de mau humor. Aquele neg&oacute;cio de partir para o Paran&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o lhe agradava. Como &eacute; que havia de superintender a escrita<br \/>\n    do batalh&atilde;o, no fervor de batalhas, nas desordens de marchas e contramarchas?<br \/>\n    Isso era uma tolice do comandante marchar; o chefe devia ficar a resguardo,<br \/>\n    para providenciar e dirigir a escritura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele pensava nessas coisas, quando Ricardo pediu licen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Entre, disse ele.<\/p>\n<p>O bravo coronel co&ccedil;ava a grande barba mosaica, tinha o d&oacute;lm&atilde;<br \/>\n    desabotoado e acabava de cal&ccedil;ar um dos p&eacute;s de botina, para com<br \/>\n    mais dec&ecirc;ncia receber o inferior.<\/p>\n<p>Ricardo exp&ocirc;s o seu pedido e esperou com paci&ecirc;ncia a resposta,<br \/>\n    que custou a vir. Por fim, Inoc&ecirc;ncio disse sacudindo a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e olhando o inferior cheio de severidade:<\/p>\n<p>&#8212; Vai-te embora, sen&atilde;o mando-te prender! J&aacute;!<\/p>\n<p>E apontou com o dedo a porta da sa&iacute;da num gesto marcial e energico.<br \/>\n    O cabo n&atilde;o se demorou mais. No p&aacute;tio o instrutor coxo, veterano<br \/>\n    do Paraguai, continuava com solenidade a encher a arruinada estalagem com<br \/>\n    as suas vozes de comando! Om-br&ocirc;&ocirc;&#8230; armas! Meia-&atilde;&atilde;&#8230;<br \/>\n    volta&#8230; volver!<\/p>\n<p>Ricardo veio andando triste e desalentado, O mundo lhe parecia vazio de afeto<br \/>\n    e de amor. Ele que sempre decantara nas suas modinhas a dedica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o amor, as simpatias, via agora que tais sentimentos n&atilde;o existiam.<br \/>\n    Tinha marchado atr&aacute;s de coisas fora da realidade, de quimeras. Olhou<br \/>\n    o c&eacute;u alto. Estava tranq&uuml;ilo e calmo. Olhou as &aacute;rvores.<br \/>\n    As palmeiras cresciam com orgulho e titanicamente pretendiam atingir o c&eacute;u.<br \/>\n    Olhou as casas, as igrejas, os pal&aacute;cios e lembrou-se das guerras, do<br \/>\n    sangue, das dores que tudo aquilo custara. E era assim que se fazia a vida,<br \/>\n    a hist&oacute;ria e o hero&iacute;smo: com viol&ecirc;ncia sobre os outros,<br \/>\n    com opress&otilde;es e sofrimentos.<\/p>\n<p>Logo, por&eacute;m, recordou que era preciso salvar o amigo e que era necess&aacute;rio<br \/>\n    dar mais uns passos. Quem poderia? Consultou sua mem&oacute;ria. Viu um, viu<br \/>\n    outro e por fim lembrou-se da afilhada de Quaresma, e foi procur&aacute;-la<br \/>\n    na Real Grandeza.<\/p>\n<p>Chegou, narrou-lhe o fato e as suas sinistras apreens&otilde;es. Ela estava<br \/>\n    s&oacute;, pois o marido cada vez mais trabalhava para aproveitar os despojos<br \/>\n    da vit&oacute;ria; n&atilde;o perdia um minuto, andando atr&aacute;s de um<br \/>\n    e de outro.<\/p>\n<p>Olga lembrou-se bem do padrinho, do seu eterno sonhar, da sua ternura, da<br \/>\n    tenacidade que punha em seguir as suas id&eacute;ias, da sua candura de donzela<br \/>\n    rom&acirc;ntica&#8230;<\/p>\n<p>Durante um instante uma grande pena tomou-a toda inteira e tirou-lhe a vontade<br \/>\n    de agir. Pareceu-lhe que era bastante a sua piedade e ela ia de algum modo<br \/>\n    dar lenitivo ao sofrimento do padrinho; mas bem cedo o viu ensang&uuml;entado<br \/>\n    &#8212; ele, t&atilde;o generoso, ele, t&atilde;o bom, e pensou em salv&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que fazer, meu caro Senhor Ricardo, que fazer? Eu n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    ningu&eacute;m&#8230; Eu n&atilde;o tenho rela&ccedil;&otilde;es&#8230; Minhas amigas&#8230;<br \/>\n    A Alice, a mulher do doutor Brand&atilde;o, est&aacute; fora&#8230; A Cassilda,<br \/>\n    a filha do Castrioto, n&atilde;o pode&#8230; N&atilde;o sei, meu Deus!<\/p>\n<p>E acentuou estas &uacute;ltimas palavras com grande e lancinante desespero.<br \/>\n    Os dois ficaram calados. A mo&ccedil;a, que estava sentada, tomou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre as m&atilde;os e as suas unhas longas e aperoladas engastaram-se nos<br \/>\n    seus cabelos negros. Ricardo estava de p&eacute; e aparvalhado.<\/p>\n<p>&#8212; Que hei de fazer, meu Deus? repetiu ela.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, ela sentiu que a vida tinha coisas desesperadoras. Possu&iacute;a<br \/>\n    a mais forte disposi&ccedil;&atilde;o de salvar seu padrinho: faria sacrif&iacute;cio<br \/>\n    de tudo, mas era imposs&iacute;vel, imposs&iacute;vel! N&atilde;o havia um<br \/>\n    meio; n&atilde;o havia um caminho. Ele tinha que ir para o posto de supl&iacute;cio,<br \/>\n    tinha que subir o seu Calv&aacute;rio, sem esperan&ccedil;a de ressurrei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Talvez seu marido, disse Ricardo.<\/p>\n<p>Pensou um pouco, demorou-se mais no exame do car&aacute;ter do esposo; mas,<br \/>\n    em breve, viu bem que o seu ego&iacute;smo, a sua ambi&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    a sua ferocidade interesseira n&atilde;o permitiriam, que ele desse o m&iacute;nimo<br \/>\n    passo.<\/p>\n<p>&#8212; Qual, esse&#8230;<\/p>\n<p>Ricardo n&atilde;o sabia o que aconselh&aacute;-la e olhava sem pensamento<br \/>\n    os m&oacute;veis e a montanha negra e alta que se avistava da sala onde estavam.<br \/>\n    Queria encontrar um alvitre, um conselho; mas nada!<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a continuava a cravar os dedos nos seus cabelos negros e a olhar<br \/>\n    a mesa em que repousavam os seus cotovelos. O sil&ecirc;ncio era augusto.<\/p>\n<p>Num dado momento, Ricardo teve uma grande alegria no olhar e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Se a senhora fosse l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>Ela levantou a cabe&ccedil;a; os seus olhos se dilataram de espanto e o rosto<br \/>\n    lhe ficou r&iacute;gido. Pensou um pouco, um nada, e falou com firmeza:<\/p>\n<p>&#8212; Vou.<\/p>\n<p>Ricardo ficou s&oacute; e sentou-se, Olga foi vestir-se.<\/p>\n<p>Ele ent&atilde;o pensou com admira&ccedil;&atilde;o naquela mo&ccedil;a que<br \/>\n    por simples amizade se dava a t&atilde;o arriscado sacrif&iacute;cio, que<br \/>\n    tinha a alma t&atilde;o ao alcance dela mesma e a sentiu bem longe desse nosso<br \/>\n    mundo, deste nosso ego&iacute;smo, dessa nossa baixeza e cobriu a sua imagem<br \/>\n    com um grande olhar de reconhecimento.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou que ela ficasse pronta e ainda abotoava as luvas, na sala<br \/>\n    de jantar, quando o marido entrou. Vinha radiante, com os seus grandes bigodes<br \/>\n    e o seu rosto redondo cheio de satisfa&ccedil;&atilde;o de si mesmo. Nem fez<br \/>\n    men&ccedil;&atilde;o de ter visto Ricardo e foi logo direto &agrave; mulher:<\/p>\n<p>&#8212; Vais sair?<\/p>\n<p>Ela, afogueada pela &acirc;nsia desesperada de salvar Quaresma, disse com<br \/>\n    certa vivacidade:<\/p>\n<p>&#8212; Vou.<\/p>\n<p>Armando ficou admirado de v&ecirc;-la falar daquele modo. Voltou-se um instante<br \/>\n    para Ricardo, quis interrog&aacute;-lo, mas logo, dirigindo-se &agrave; mulher,<br \/>\n    perguntou com autoridade:<\/p>\n<p>&#8212; Onde vais?<\/p>\n<p>A mulher n&atilde;o lhe respondeu logo e, por sua vez, o doutor interrogou<br \/>\n    o trovador:<\/p>\n<p>&#8212; Que faz o senhor aqui?<\/p>\n<p>Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros n&atilde;o teve &acirc;nimo de responder;<br \/>\n    adivinhava uma cena violenta que ele teria querido evitar; mas Olga adiantou-se:<\/p>\n<p>&#8212; Vai acompanhar-me ao Itamarati, para salvar da morte meu padrinho. J&aacute;<br \/>\n    sabe?<\/p>\n<p>O marido pareceu acalmar-se. Acreditou que, com meios suas&oacute;rios, poderia<br \/>\n    evitar que a mulher desse passo t&atilde;o perigoso para os seus interesses<br \/>\n    e ambi&ccedil;&otilde;es. Falou docemente:<\/p>\n<p>&#8212; Fazes mal.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;? perguntou ela com calor.<\/p>\n<p>&#8212; Vais comprometer-me. Sabes que&#8230;<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o lhe respondeu logo e mirou-o um instante com os seus grandes<br \/>\n    olhos cheios de esc&aacute;rnio; mirou-o um, dois minutos; depois, riu-se<br \/>\n    um pouco e disse:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; isto! &quot;Eu&quot;, porque &quot;eu&quot;, porque &quot;eu&quot;,<br \/>\n    &eacute; s&oacute; &quot;eu&quot; para aqui, &quot;eu&quot; para ali&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    pensas noutra coisa&#8230; A vida &eacute; feita para ti, todos s&oacute; devem<br \/>\n    viver para ti&#8230; Muito engra&ccedil;ado! De forma que eu (agora digo &quot;eu&quot;<br \/>\n    tamb&eacute;m) n&atilde;o tenho direito de me sacrificar, de provar a minha<br \/>\n    amizade, de ter na minha vida um tra&ccedil;o superior? &Eacute; interessante!<br \/>\n    N&atilde;o sou nada, nada! Sou alguma coisa como um m&oacute;vel, um adorno,<br \/>\n    n&atilde;o tenho rela&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o tenho amizades, n&atilde;o<br \/>\n    tenho car&aacute;ter? Ora!&#8230;<\/p>\n<p>Ela falava, ora vagarosa e ir&ocirc;nica, ora rapidamente e apaixonada; e<br \/>\n    o marido tinha diante de suas palavras um grande espanto, Ele vivera sempre<br \/>\n    t&atilde;o longe dela que n&atilde;o a julgara nunca capaz de tais assomos.<br \/>\n    Ent&atilde;o aquela menina? Ent&atilde;o aquele bibelot? Quem lhe teria ensinado<br \/>\n    tais coisas? Quis desarm&aacute;-la com uma ironia e disse risonho:<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s no teatro?<\/p>\n<p>Ela lhe respondeu logo:<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; s&oacute; no teatro que h&aacute; grandes coisas, estou.<\/p>\n<p>E acrescentou com for&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que te digo: vou e vou, porque devo, porque quero, porque &eacute;<br \/>\n    do meu direito.<\/p>\n<p>Apanhou a sombrinha, concertou o v&eacute;u e saiu solene, firme, alta e<br \/>\n    nobre. O marido n&atilde;o sabia o que fazer. Ficou assombrado e assombrado<br \/>\n    e silencioso viu-a sair pela porta fora.<\/p>\n<p>Em breve, estava no pal&aacute;cio da Rua Larga. Ricardo n&atilde;o entrou:<br \/>\n    deixou que a mo&ccedil;a o fizesse e foi esper&aacute;-la no Campo de Sant&#8217;Ana.<\/p>\n<p>Ela subiu. Havia um imenso burburinho, uma agita&ccedil;&atilde;o de entradas<br \/>\n    e sa&iacute;das. Toda a gente queria mostrar-se a Floriano, queria cumpriment&aacute;-lo,<br \/>\n    queria dar mostras da sua dedica&ccedil;&atilde;o, provar os seus servi&ccedil;os,<br \/>\n    mostrando-se co-participante na sua vit&oacute;ria. Lan&ccedil;avam m&atilde;o<br \/>\n    de todos os meios, de todos os planos, de todos os processos. O ditador t&atilde;o<br \/>\n    acess&iacute;vel antes, agora se esquivava. Havia quem lhe quisesse beijar<br \/>\n    as m&atilde;os, como ao papa ou a um imperador; e ele j&aacute; tinha nojo<br \/>\n    de tanta subservi&ecirc;ncia. O califa n&atilde;o se supunha sagrado e aborrecia-se.<\/p>\n<p>Olga falou aos cont&iacute;nuos, pedindo ser recebida pelo marechal. Foi<br \/>\n    in&uacute;til. A muito custo conseguiu falar a um secret&aacute;rio ou ajudante-de-ordens.<br \/>\n    Quando ela lhe disse a que vinha, a fisionomia terrosa do homem tornou-se<br \/>\n    de oca e sob as suas p&aacute;lpebras correu um firme e r&aacute;pido lampejo<br \/>\n    de espada:<\/p>\n<p>&#8212; Quem, Quaresma? disse ele. Um traidor! Um bandido!<\/p>\n<p>Depois, arrependeu-se da veem&ecirc;ncia, fez com certa delicadeza:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, minha senhora. O marechal n&atilde;o<br \/>\n    a atender&aacute;.<\/p>\n<p>Ela nem lhe esperou o fim da frase. Ergueu-se orgulhosamente, deu-lhe as<br \/>\n    costas e teve vergonha de ter ido pedir, de ter descido do seu orgulho e ter<br \/>\n    enxovalhado a grandeza moral do padrinho com o seu pedido. Com tal gente,<br \/>\n    era melhor t&ecirc;-lo deixado morrer s&oacute; e heroicamente num ilh&eacute;u<br \/>\n    qualquer, mas levando para o t&uacute;mulo inteiramente intacto o seu orgulho,<br \/>\n    a sua do&ccedil;ura, a sua personalidade moral, sem a m&aacute;cula de um<br \/>\n    empenho que diminu&iacute;sse a injusti&ccedil;a de sua morte, que de algum<br \/>\n    modo fizesse crer aos seus algozes que eles tinham direito de mat&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Saiu e andou. Olhou o c&eacute;u, os ares, as &aacute;rvores de Santa Teresa,<br \/>\n    e se lembrou que, por estas terras, j&aacute; tinham errado tribos selvagens,<br \/>\n    das quais um dos chefes se orgulhava de ter no sangue o sangue de dez mil<br \/>\n    inimigos. Fora h&aacute; quatro s&eacute;culos. Olhou de novo o c&eacute;u,<br \/>\n    os ares, as &aacute;rvores de Santa Teresa, as casas, as igrejas; viu os bondes<br \/>\n    passarem; uma locomotiva apitou; um carro, puxado por uma linda parelha, atravessou-lhe<br \/>\n    na frente, quando j&aacute; a entrar do campo&#8230; Tinha havido grandes e in&uacute;meras<br \/>\n    modifica&ccedil;&otilde;es. Que fora aquele parque? Talvez um charco. Tinha<br \/>\n    havido grandes modifica&ccedil;&otilde;es nos aspectos, na fisionomia da terra,<br \/>\n    talvez no clima&#8230; Esperemos mais, pensou ela; e seguiu serenamente ao encontro<br \/>\n    de Ricardo Cora&ccedil;&atilde;o dos Outros. <\/p>\n<p><strong>Todos os Santos (Rio de Janeiro), janeiro &#8212; mar&ccedil;o de 1911.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Primeira Parte I II III IV V Segunda Parte I II III IV V Terceira Parte I II III IV V Lima Barreto Primeira Parte I Como de h&aacute;bito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa &agrave;s quatro e quinze da tarde. 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