{"id":108792,"date":"2017-02-14T16:49:35","date_gmt":"2017-02-14T18:49:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108792"},"modified":"2017-02-14T16:49:35","modified_gmt":"2017-02-14T18:49:35","slug":"recordacoes-do-escrivao-isaias-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/recordacoes-do-escrivao-isaias-caminha","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es do Escriv\u00e3o Isa\u00edas Caminha"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"50%\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">VII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">XIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p align=\"right\">A Benedito de Souza meu compadre e meu amigo<\/p>\n<p class=\"imagem\"> <b>BREVE NOT&Iacute;CIA<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"> &quot;Mon coeur profond ressemble &agrave; ces vo&uacute;tes<br \/>\n    d&#8217;&eacute;glise O&ugrave; le moindre bruit s&#8217;enfle en une immense voix.&quot;<br \/>\n    (Vers d&#8217;un philosophe. Guyau.)<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando comecei a publicar, na Floreal, uma pequena revista<br \/>\n    que editei, pelos fins de 1907, as Recorda&ccedil;&otilde;es de meu amigo,<br \/>\n    Isa&iacute;as Caminha, escriv&atilde;o da Coletoria Federal de Caxamb&iacute;,<br \/>\n    Estado do Esp&iacute;rito Santo, publiquei-as com um pequeno pref&aacute;cio<br \/>\n    do autor. Mais tarde, gra&ccedil;as ao encorajamento que mereceu a modesta<br \/>\n    obra do escriv&atilde;o, tratei de public&aacute;-la em volume.<\/p>\n<p>O meu amigo e camarada Ant&ocirc;nio Noronha Santos, indo &agrave; Europa,<br \/>\n    ofereceu-se para arranjar, em Portugal, um editor.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Pereira Barreto recomendou-me aos Senhores A. M. Teixeira &amp;<br \/>\n    Cia, livreiros em Lisboa, com a Livraria Cl&aacute;ssica de l&aacute;; e elas<br \/>\n    foram impressas sob as vistas dedicadas do Senhor Albino Forjaz de Sampaio,<br \/>\n    a quem muito devem, em corre&ccedil;&atilde;o, as Recoroa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A todos tr&ecirc;s, n&atilde;o posso, em nome do meu querido Isa&iacute;as,<br \/>\n    deixar de agradecer-lhes mais uma vez o servi&ccedil;o que prestaram &agrave;<br \/>\n    obra.<\/p>\n<p>Eu, por&eacute;m, como tinha plena autoriza&ccedil;&atilde;o do autor, por<br \/>\n    ocasi&atilde;o de mandar o manuscrito para o prelo, suprimi o pref&aacute;cio,<br \/>\n    a donn&eacute;e, que agora epigrafa estas linhas, e algumas coisas mais.<\/p>\n<p>O meu intuito era lan&ccedil;ar o livro do meu amigo, sem escoras ou p&aacute;ra-balas.<\/p>\n<p>Assim foi. Hoje, por&eacute;m, que fa&ccedil;o uma segunda edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele, restabele&ccedil;o o original tal e qual o Caminha me enviou, pois n&atilde;o<br \/>\n    havia motivo para supress&atilde;o de tanta coisa interessante que muito concorre<br \/>\n    para a boa compreens&atilde;o do livro.<\/p>\n<p>E fa&ccedil;o isso, porque julgo que foram elas um tanto que levaram aquele<br \/>\n    esp&iacute;rito firme e independente, aquele sagaz cr&iacute;tico, com o seu<br \/>\n    nobre amor pelos grandes ideais nas letras, que se chamou Jos&eacute; Ver&iacute;ssimo,<br \/>\n    a dizer na sua Revista Liter&aacute;ria, &agrave;s segundas-feiras, no Jornal<br \/>\n    do Com&eacute;rcio, de 9 de dezembro de 1907, o seguinte, a respeito do que<br \/>\n    lhe pareceu uma novela:<\/p>\n<p>&quot;Ai de mim, se fosse a &#8216;revistar&#8217; aqui quanta revistinha por a&iacute;<br \/>\n    aparece com presun&ccedil;&atilde;o de liter&aacute;ria, art&iacute;stica<br \/>\n    e cient&iacute;fica.<\/p>\n<p>N&atilde;o teria m&atilde;os a medir e descontentaria a quase todos; pois<br \/>\n    a m&aacute;xima parte delas me parecem sem o menor valor, por qualquer lado<br \/>\n    que as encaremos. Abro uma justa exce&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o desejo<br \/>\n    fique como precedente, para uma magra brochurazinha que com o nome esperan&ccedil;oso<br \/>\n    de Floreal veio ultimamente a p&uacute;blico, e onde li um artigo &quot;Spencerismo<br \/>\n    e Anarquia&quot;, do Senhor M. Ribeiro de Almeida, e o come&ccedil;o de uma<br \/>\n    novela Recorda&ccedil;&otilde;es do Escriv&atilde;o Isa&iacute;as Caminha,<br \/>\n    pelo Senhor Lima Barreto, nos quais creio descobrir alguma cousa. E escritos<br \/>\n    com uma simplicidade e sobriedade, e j&aacute; tal qual sentimento de estilo<br \/>\n    que corroboram essa impress&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>Como v&ecirc;em, Jos&eacute; Ver&iacute;ssimo disse estas palavras, logo<br \/>\n    ao aparecerem os primeiros cap&iacute;tulos; e, pensando serem verdadeiras<br \/>\n    as raz&otilde;es que expus, restabele&ccedil;o o manuscrito, como me foi confiado,<br \/>\n    passando a transcrever o pref&aacute;cio inteiramente como saiu na inditosa<br \/>\n    Floreal.<\/p>\n<p>Ei-lo:<\/p>\n<p>&quot;Eu me lembrei de escrever estas recorda&ccedil;&otilde;es, h&aacute;<br \/>\n    dois anos, quando, um dia, por acaso, agarrei um fasc&iacute;culo de uma revista<br \/>\n    nacional, esquecida sobre o sof&aacute; de minha sala humilde, pelo promotor<br \/>\n    p&uacute;blico da comarca.<\/p>\n<p>Nela um dos seus colaboradores fazia multiplicadas considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    desfavor&aacute;veis &agrave; natureza da intelig&ecirc;ncia das pessoas do<br \/>\n    meu nascimento, notando a sua brilhante pujan&ccedil;a nas primeiras idades,<br \/>\n    desmentida mais tarde, na madureza, com a fraqueza dos produtos, quando os<br \/>\n    havia, ou em regra geral, pela aus&ecirc;ncia deles.<\/p>\n<p>Li-o a primeira vez com &oacute;dio, tive desejos de rasgar as p&aacute;ginas<br \/>\n    e escrever algumas verrinas contra o autor.<\/p>\n<p>Considerei melhor e vi que verrinas nada adiantam, n&atilde;o destroem; se,<br \/>\n    acaso, conseguem afugentar, magoar o advers&aacute;rio, os argumentos deste<br \/>\n    ficam vivos, de p&eacute;.<\/p>\n<p>O melhor, pensei, seria opor argumentos a argumentos, pois se uns n&atilde;o<br \/>\n    destru&iacute;ssem os outros, ficariam ambos face a face, &agrave; m&atilde;o<br \/>\n    de adeptos de um e de outro partido.<\/p>\n<p>Com essa reflex&atilde;o, que me animo a chamar de bom conselho e excelente<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia, vieram-me recorda&ccedil;&otilde;es de minha vida, de<br \/>\n    toda ela, do meu nascimento, inf&acirc;ncia, puer&iacute;cia e mocidade.<\/p>\n<p>Mentalmente comparei os meus extraordin&aacute;rios in&iacute;cios nos mist&eacute;rios<br \/>\n    das letras e das ci&ecirc;ncias e os progn&oacute;sticos dos meus professores<br \/>\n    de ent&atilde;o, com este meu triste e bastardo fim de escriv&atilde;o de<br \/>\n    coletoria de uma localidade esquecida.<\/p>\n<p>Por instantes, dei raz&atilde;o ao autor do escrito.<\/p>\n<p>Cheio de melancolia, daquela melancolia nativa que me ensombra nas horas<br \/>\n    de alegria e mais me deprime nas de desalento, acendi nervosamente um cigarro,<br \/>\n    fui &agrave; janela, olhei um momento o rio a correr e me pus a analisar detidamente<br \/>\n    os fatos de meu passado, que me acabavam de passar pelos olhos.<\/p>\n<p>Verifiquei, que, at&eacute; ao curso secund&aacute;rio as minhas manifesta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    quaisquer, de intelig&ecirc;ncia e trabalho, de desejos e ambi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tinham sido recebidas, sen&atilde;o com aplauso ou aprova&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao menos como coisa justa e do meu direito; e que da&iacute; por diante, d&ecirc;s<br \/>\n    que me dispus a tomar na vida o lugar que parecia ser de meu dever ocupar,<br \/>\n    n&atilde;o sei que hostilidade encontrei, n&atilde;o sei que est&uacute;pida<br \/>\n    m&aacute; vontade me veio ao encontro, que me fui abatendo, decaindo de mim<br \/>\n    mesmo, sentindo fugir-me toda aquela soma de id&eacute;ias e cren&ccedil;as<br \/>\n    que me alentaram na minha adolesc&ecirc;ncia e puer&iacute;cia.<\/p>\n<p>Cri-me fora de minha sociedade, fora do agrupamento a que tacitamente eu<br \/>\n    concedia alguma coisa e que em troca me dava tamb&eacute;m alguma coisa.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei bem o que cri; mas achei t&atilde;o cerrado o cipoal, t&atilde;o<br \/>\n    intrincada a trama contra a qual me fui debater, que a representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da minha personalidade na minha consci&ecirc;ncia, se fez outra, ou antes<br \/>\n    esfacelou-se a que tinha constru&iacute;do.<\/p>\n<p>Fiquei como um grande paquete moderno cujos tubos da caldeira se houvessem<br \/>\n    rompido e deixado fugir o vapor que movia suas m&aacute;quinas.<\/p>\n<p>E foram tantos os casos dos quais essa minha conclus&atilde;o ressaltava,<br \/>\n    que resolvi narrar trechos de minha vida, sem reservas nem per&iacute;frases,<br \/>\n    para de algum modo mostrar ao tal autor do artigo, que, sendo verdadeiras<br \/>\n    as suas observa&ccedil;&otilde;es, a senten&ccedil;a geral que tirava, n&atilde;o<br \/>\n    estava em n&oacute;s, na nossa carne e nosso sangue, mas fora de n&oacute;s,<br \/>\n    na sociedade que nos cercava, as causas de t&atilde;o feios fins de t&atilde;o<br \/>\n    belos come&ccedil;os.<\/p>\n<p>Com isso, n&atilde;o foi minha ten&ccedil;&atilde;o fazer obra d&#8217;arte, romance,<br \/>\n    embora aquele Taine que, certa vez, o doutor Graciliano, o promotor p&uacute;blico,<br \/>\n    me deu a ler, dissesse que a obra d&#8217;arte tem por fim dizer aquilo que os simples<br \/>\n    fatos n&atilde;o dizem.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; meu prop&oacute;sito tamb&eacute;m fazer uma obra de<br \/>\n    &oacute;dio; de revolta enfim; mas uma defesa a acusa&ccedil;&otilde;es deduzidas<br \/>\n    superficialmente de apar&ecirc;ncias cuja ess&ecirc;ncia explicadora, as mais<br \/>\n    das vezes, est&aacute; na sociedade e n&atilde;o no indiv&iacute;duo desprovido<br \/>\n    de tudo, de fam&iacute;lia, de afetos, de simpatias, de fortuna, isolado contra<br \/>\n    inimigos que o rodeiam, armados da velocidade da bala e da ins&iacute;dia<br \/>\n    do veneno.<\/p>\n<p>Perdoem-me os leitores a pobreza da minha narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o sou propriamente um literato, n&atilde;o me inscrevi nos registros<br \/>\n    da Livraria Garnier, do Rio, nunca vesti casaca e os grandes jornais da Capital<br \/>\n    ainda n&atilde;o me aclamaram como tal &#8211; o que de sobra, me parece, s&atilde;o<br \/>\n    motivos bastante s&eacute;rios, para desculparem a minha falta de estilo e<br \/>\n    capacidade liter&aacute;ria.<\/p>\n<p> Caxamb&iacute;, Esp&iacute;rito Santo, 12 de julho de 1905.<\/p>\n<p>Isa&iacute;as Caminha<\/p>\n<p>Escriv&atilde;o da Coletoria.<\/p>\n<p> * * *<\/p>\n<p> Afora as coisas da &quot;Garnier&quot;, e da &quot;casaca&quot; e dos &quot;jornais&quot;,<br \/>\n    que s&atilde;o preconceitos provincianos, o pref&aacute;cio, penso eu, consolida<br \/>\n    a obra e a explica, como os leitores ir&atilde;o ver.<\/p>\n<p>Disse bem preconceitos, porque, ap&oacute;s dez anos, tantos s&atilde;o os<br \/>\n    que v&atilde;o da composi&ccedil;&atilde;o das Recorda&ccedil;&otilde;es aos<br \/>\n    dias que correm, o meu amigo perdeu muito da sua amargura, tem passeado pelo<br \/>\n    Rio com belas fatiotas, j&aacute; foi ao Municipal, freq&uuml;enta as casas<br \/>\n    de ch&aacute;; e, segundo me escreveu, vai deixar de ser representante do<br \/>\n    Esp&iacute;rito Santo, na Assembl&eacute;ia Estadual, para ser, na pr&oacute;xima<br \/>\n    legislatura, deputado federal. Ele n&atilde;o se incomoda mais com o livro;<br \/>\n    tomou outro rumo. Hei de v&ecirc;-lo em breve entre as encantadoras, fazendo<br \/>\n    o tal footing domingueiro, no Flamengo, e figurando nas not&iacute;cias elegantes<br \/>\n    dos jornais. Isa&iacute;as deixou de ser escriv&atilde;o. Enviuvou sem filhos,<br \/>\n    enriqueceu e ser&aacute; deputado. Basta.<\/p>\n<p>Deus escreve direito por linhas tortas, dizem. Ser&aacute; mesmo isso ou<br \/>\n    ser&aacute; de lamentar que a felicidade vulgar tenha afogado, asfixiado um<br \/>\n    esp&iacute;rito t&atilde;o singular? Quem sabe l&aacute;?<\/p>\n<p>Para mim, no entanto, sem acreditar na interven&ccedil;&atilde;o de nenhuma<br \/>\n    Dejanira, sou de opini&atilde;o que ele est&aacute; vestindo a t&uacute;nica<br \/>\n    de N&eacute;ssus da Sociedade.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Todos os Santos, 31 de dezembro de 1916.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>LIMA BARRETO.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p> A tristeza, a compreens&atilde;o e a desigualdade de n&iacute;vel mental<br \/>\n    do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia. Meu pai, que era fortemente inteligente e ilustrado,<br \/>\n    em come&ccedil;o, na minha primeira inf&acirc;ncia, estimulou-me pela obscuridade<br \/>\n    de suas exorta&ccedil;&otilde;es. Eu n&atilde;o tinha ainda entrado para o<br \/>\n    col&eacute;gio, quando uma vez me disse: Voc&ecirc; sabe que nasceu quando<br \/>\n    Napole&atilde;o ganhou a Batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei:<br \/>\n    Quem era Napole&atilde;o? Um grande homem, um grande general&#8230; E n&atilde;o<br \/>\n    disse mais nada. Encostou-se &agrave; cadeira e continuou a ler o livro. Afastei-me<br \/>\n    sem entrar na significa&ccedil;&atilde;o de suas palavras; contudo, a entona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de voz, o gesto e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!&#8230;<\/p>\n<p> O espet&aacute;culo de saber do meu pai, real&ccedil;ado pela ignor&acirc;ncia<br \/>\n    de minha m&atilde;e e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos de crian&ccedil;a,<br \/>\n    como um deslumbramento.<\/p>\n<p> Pareceu-me ent&atilde;o que aquela sua faculdade de explicar tudo, aquele<br \/>\n    seu desembara&ccedil;o de linguagem, a sua capacidade de ler l&iacute;nguas<br \/>\n    diversas e compreend&ecirc;-las, constitu&iacute;am, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    uma raz&atilde;o de ser de felicidade, de abund&acirc;ncia e riqueza, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m um t&iacute;tulo para o superior respeito dos homens e para<br \/>\n    a superior considera&ccedil;&atilde;o de toda a gente.<\/p>\n<p> Sabendo, fic&aacute;vamos de alguma maneira sagrados, deificados&#8230; Se minha<br \/>\n    m&atilde;e me aparecia triste e humilde &#8211; pensava eu naquele tempo &#8211; era porque<br \/>\n    n&atilde;o sabia, como meu pai, dizer os nomes das estrelas do c&eacute;u<br \/>\n    e explicar a natureza da chuva&#8230;<\/p>\n<p> Foi com estes sentimentos que entrei para o curso prim&aacute;rio. Dediquei-me<br \/>\n    a&ccedil;odadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo foram-se desdobrando<br \/>\n    as minhas primitivas no&ccedil;&otilde;es sobre o saber.<\/p>\n<p> Acentuaram-se-me tend&ecirc;ncias; pus-me a colimar gl&oacute;rias extraordin&aacute;rias,<br \/>\n    sem lhes avaliar ao certo a significa&ccedil;&atilde;o e a utilidade. Houve<br \/>\n    na minha alma um tumultuar de desejos, de aspira&ccedil;&otilde;es indefinidas.<br \/>\n    Para mim era como se o mundo me estivesse esperando para continuar a evoluir&#8230;<\/p>\n<p> Eu ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante,<br \/>\n    na minha gl&oacute;ria futura. Agia desordenadamente e sentia a incoer&ecirc;ncia<br \/>\n    dos meus atos, mas esperava que o preenchimento final do meu destino me explicasse<br \/>\n    cabalmente. Veio-me a pose a necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestu&aacute;rio<br \/>\n    e era preciso que minha m&atilde;e me repreendesse para que eu fosse mais<br \/>\n    zeloso. Fugia aos brinquedos, evitava os grandes grupos, punha-me s&oacute;<br \/>\n    com um ou dois, &agrave; parte, no recreio do col&eacute;gio; l&aacute; vinha<br \/>\n    um dia, por&eacute;m, que brincava doidamente, apaixonadamente. Causava com<br \/>\n    isso espanto aos camaradas: Oh! Isa&iacute;as brincando! Vai chover&#8230;<\/p>\n<p> A minha energia no estudo n&atilde;o diminuiu com os anos, como era de esperar;<br \/>\n    cresceu sempre progressivamente. A professora admirou-me e come&ccedil;ou<br \/>\n    a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu hoje), ela imaginou que lhe<br \/>\n    passava pelas m&atilde;os um g&ecirc;nio. Correspondi-lhe &agrave; afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com tanta for&ccedil;a d&#8217;alma, que tive ci&uacute;mes dela, dos seus<br \/>\n    olhos azuis e dos seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu ent&atilde;o<br \/>\n    dois anos de escola e doze de idade. Da&iacute; a um ano, sa&iacute; do col&eacute;gio,<br \/>\n    dando-me ela como recorda&ccedil;&atilde;o, um exemplar do &quot;Poder da<br \/>\n    Vontade&quot;, luxuosamente encadernado, com uma dedicat&oacute;ria afetuosa<br \/>\n    e lisonjeira. Foi o meu livro de cabeceira. Li-o sempre com m&atilde;o diurna<br \/>\n    e noturna, durante o meu curso secund&aacute;rio, de cujos professores, poucas<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles<br \/>\n    tinha os olhos azuis de D. Ester, t&atilde;o meigos e transcendentais que<br \/>\n    pareciam ler o meu destino, beijando as p&aacute;ginas em que estava escrito!&#8230;<\/p>\n<p> Quando acabei o curso do Liceu, tinha uma boa reputa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    estudante, quatro aprova&ccedil;&otilde;es plenas, uma distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e muitas sabatinas &oacute;timas. Demorei-me na minha cidade natal ainda dois<br \/>\n    anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas notas &oacute;timas<br \/>\n    e pelos progn&oacute;sticos da minha professora, a quem sempre visitava e<br \/>\n    ouvia. Todas as manh&atilde;s, ao acordar-me, ainda com o esp&iacute;rito<br \/>\n    acariciado pelos nevoentos sonhos de bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido:<br \/>\n    Vai, Isa&iacute;as! vai!&#8230; Isto aqui n&atilde;o te basta&#8230; Vai para o Rio!<br \/>\n    Ent&atilde;o, durante horas, atrav&eacute;s das minhas ocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que o Rio era<br \/>\n    uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de ego&iacute;smo, onde eu<br \/>\n    n&atilde;o tinha conhecimentos, rela&ccedil;&otilde;es, protetores que me<br \/>\n    pudessem valer&#8230;<\/p>\n<p> Que faria l&aacute;, s&oacute;, a contar com as minhas pr&oacute;prias for&ccedil;as?<br \/>\n    Nada&#8230; Havia de ser como uma palha no redemoinho da vida &#8211; levado daqui,<br \/>\n    tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro&#8230; ladr&atilde;o&#8230; b&ecirc;bado&#8230;<br \/>\n    t&iacute;sico e quem sabe mais? Hesitava. De manh&atilde;, a minha resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era quase inabal&aacute;vel, mas, j&aacute; &agrave; tarde, eu me acobardava<br \/>\n    diante dos perigos que antevia.<\/p>\n<p> Um dia, por&eacute;m, li no &quot;Di&aacute;rio de * * *&quot; que o Fel&iacute;cio,<br \/>\n    meu antigo condisc&iacute;pulo, se formara em Farm&aacute;cia, tendo recebido<br \/>\n    por isso uma estrondosa, dizia o &quot;Di&aacute;rio&quot;, manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus colegas.<\/p>\n<p> Ora Fel&iacute;cio! pensei de mim para mim. O Fel&iacute;cio! T&atilde;o<br \/>\n    burro! Tinha vit&oacute;rias no Rio! Por que n&atilde;o as havia eu de ter<br \/>\n    tamb&eacute;m &#8211; eu que lhe ensinara, na aula de portugu&ecirc;s, de uma vez<br \/>\n    para sempre, diferen&ccedil;a entre o adjunto atributivo e o adverbial? Por<br \/>\n    qu&ecirc;!? Li essa not&iacute;cia na sexta-feira. Durante o s&aacute;bado,<br \/>\n    tudo enfileirei no meu esp&iacute;rito, as vantagens e as desvantagens de<br \/>\n    uma partida. Hoje, j&aacute; n&atilde;o me recordo bem das fases dessa batalha;<br \/>\n    por&eacute;m uma circunst&acirc;ncia me ocorre das que me demoveram a partir.<br \/>\n    Na tarde de s&aacute;bado, sa&iacute; pela estrada fora. Fazia mau tempo.<br \/>\n    Uma chuva intermitente ca&iacute;a desde dois dias.<\/p>\n<p> Sa&iacute; sem destino, a esmo, melancolicamente aproveitando a estiada.<\/p>\n<p> Passava por um largo descampado e olhei o c&eacute;u. Pardas nuvens cinzentas<br \/>\n    galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura parecia correr engastada<br \/>\n    nelas. A mancha aproximava-se e, pouco a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se;<br \/>\n    por fim, um bando de patos negros passou por sobre a minha cabe&ccedil;a,<br \/>\n    bifurcado em dois ramos, divergentes de um pato que voara na frente, a formar<br \/>\n    um V. Era a inicial de &quot;Vai&quot;. Tomei isso como sinal animador, como<br \/>\n    bom aug&uacute;rio do meu prop&oacute;sito audacioso. No domingo, de manh&atilde;,<br \/>\n    disse de um s&oacute; jato &agrave; minha m&atilde;e: &#8211; Amanh&atilde;, mam&atilde;e,<br \/>\n    vou para o Rio.<\/p>\n<p> Minha m&atilde;e nada respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente,<br \/>\n    sem aprova&ccedil;&atilde;o nem reprova&ccedil;&atilde;o; mas, minha tia,<br \/>\n    que costurava em uma ponta de mesa, ergueu um tanto a cabe&ccedil;a, descansou<br \/>\n    a costura no colo e falou persuasiva: &#8211; Veja l&aacute; o que vai fazer, rapaz!<br \/>\n    Acho que voc&ecirc; deve aconselhar-se com o Valentim! &#8211; Ora qual! fiz eu<br \/>\n    com enfado. Para que Valentim? N&atilde;o sou eu rapaz ilustrado? N&atilde;o<br \/>\n    tenho todo o curso de preparat&oacute;rios? Para que conselhos? &#8211; Mas olhe,<br \/>\n    Isa&iacute;as! voc&ecirc; &eacute; muito crian&ccedil;a&#8230; N&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    pr&aacute;tica&#8230; O Valentim conhece mais a vida do que voc&ecirc;. Tanto<br \/>\n    mais que j&aacute; esteve no Rio&#8230;<\/p>\n<p> Minha tia, irm&atilde; mais velha de minha m&atilde;e, n&atilde;o tinha<br \/>\n    acabado de dizer a &uacute;ltima palavra, quando o Valentim entrou envolvido<br \/>\n    num comprido capote de baeta.<\/p>\n<p> Descansou alguns pacotes de jornais manchados de selos e carimbos; tirou<br \/>\n    o bon&eacute; com o emblema do Correio e pediu caf&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; veio a prop&oacute;sito, Valentim. Isa&iacute;as quer ir para<br \/>\n    o Rio e eu acabo de recomendar que se aconselhasse com voc&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Quando voc&ecirc; pretende ir, Isa&iacute;as? indagou meu tio, sem surpresa<br \/>\n    e imediatamente: &#8211; Amanh&atilde;, disse eu cheio de resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ele nada mais disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando o capote<br \/>\n    molhado e logo depois voltou, trazendo o caf&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Quer parati, Valentim? &#8211; Quero.<\/p>\n<p> Revolvendo lentamente o a&ccedil;&uacute;car no fundo da x&iacute;cara,<br \/>\n    meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de caf&eacute;,<br \/>\n    depois um outro de aguardente, esteve com o c&aacute;lice suspenso alguns<br \/>\n    instantes, descansou-o na mesa automaticamente e, aos poucos, a sua fisionomia<br \/>\n    de largos tra&ccedil;os de ousadia, foi revelando um grande trabalho de concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interior. Minha m&atilde;e nada dissera at&eacute; a&iacute;.<\/p>\n<p> Num dado momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi aos fundos<br \/>\n    da casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta sobre o arranjo<br \/>\n    dom&eacute;stico, sem aludir &agrave; minha resolu&ccedil;&atilde;o e sem<br \/>\n    despertar meu tio da cisma profunda em que se engolfara.<\/p>\n<p> Ansioso, deixei-me ficar &agrave; espera de uma resposta dele, notando-lhe<br \/>\n    as menores contra&ccedil;&otilde;es do rosto e decifrando os mais t&ecirc;nues<br \/>\n    lampejos de seu olhar. Houve um segundo que ele me pareceu ter suspendido<br \/>\n    todo o movimento exterior de sua pessoa. A respira&ccedil;&atilde;o como que<br \/>\n    parara, tinha o cenho carregado, as rugas da testa larga e quadrada fixadas,<br \/>\n    como se tivessem sido vazadas em bronze, e os olhos im&oacute;veis, orientados<br \/>\n    para uma fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente brilhantes e salientes,<br \/>\n    como que a saltar das &oacute;rbitas, para farejar o rasto prov&aacute;vel<br \/>\n    da minha vida na intrincada floresta dos acontecimentos. Gostava dele. Era<br \/>\n    um homem leal, valoroso, de pouca instru&ccedil;&atilde;o, mas de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aberto e generoso. Contavam-lhe fa&ccedil;anhas, bravatas portentosas, levadas<br \/>\n    ao cabo, pelos tempos em que fora, nas elei&ccedil;&otilde;es, esteio do partido<br \/>\n    liberal. Pelas portas das vendas, quando passava, cavalgando o seu simp&aacute;tico<br \/>\n    cavalo magro, com um saco de cartas &agrave; garupa, murmuravam: &quot;Que<br \/>\n    songa-monga! J&aacute; liquidou dois&#8230;&quot; Eu sabia do caso, estava mesmo<br \/>\n    convencido de sua exatid&atilde;o; entretando, apesar das minhas precoces<br \/>\n    exig&ecirc;ncias de moral inflex&iacute;vel, n&atilde;o me envergonhava de<br \/>\n    estim&aacute;-lo, amava-o at&eacute;, sem mescla de terror, j&aacute; pela<br \/>\n    decis&atilde;o de seu car&aacute;ter, j&aacute; pelo apoio certo que nos dera,<br \/>\n    a mim e a minha m&atilde;e, quando veio a morrer meu pai, vig&aacute;rio da<br \/>\n    freguesia de * * * . Animara a continuar meus estudos, fizera sacrif&iacute;cios<br \/>\n    para me dar vestu&aacute;rio e livros, desenvolvendo assim uma atividade acima<br \/>\n    dos seus recursos e for&ccedil;as.<\/p>\n<p> Durante os dois anos que passei, depois de ter conclu&iacute;do humanidades,<br \/>\n    o seu car&aacute;ter atrevido conseguia de quando em quando arranjar-me um<br \/>\n    ou outro trabalho. Desse modo, eu ia vivendo uma doce e med&iacute;ocre vida<br \/>\n    roceira, sempre perturbada, por&eacute;m, pelo estonteante prop&oacute;sito<br \/>\n    de me largar para o Rio. Vai Isa&iacute;as! Vai! Meu tio ergueu a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    pousou o olhar demoradamente sobre mim e disse: &#8211; Fazes bem! Acabou de tomar<br \/>\n    o caf&eacute;, pediu o capote e convidou-me: &#8211; Vem comigo. Vamos ao coronel&#8230;<br \/>\n    Quero pedir-lhe que te recomende ao dr. Castro, deputado.<\/p>\n<p> Minha tia trouxe o capote, e quando &iacute;amos saindo apareceu tamb&eacute;m<br \/>\n    minha m&atilde;e, recomendando: &#8211; Agasalha-te bem, Isa&iacute;as! Levas o<br \/>\n    chap&eacute;u de chuva? &#8211; Sim, senhora, respondi.<\/p>\n<p> Durante quarenta minutos, patinhamos na lama do caminho, at&eacute; &agrave;<br \/>\n    casa do Coronel Belmiro. Mal t&iacute;nhamos empurrado a porteira que dava<br \/>\n    para a estrada, o vulto grande do fazendeiro assomou no portal da casa, redondo,<br \/>\n    num longo capote e coberto de um largo chap&eacute;u de feltro preto. Aproximamo-nos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Valentim! fez pregui&ccedil;osamente o Coronel. Voc&ecirc; traz cartas?<br \/>\n    Devem ser do Trajano, conhece? S&oacute;cio do Martins, da rua dos Pescadores&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o senhor, interrompeu meu tio.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &Eacute; seu sobrinho&#8230; Nem o conheci&#8230; Como vai, menino? N&atilde;o<br \/>\n    esperou minha resposta; continuou logo em seguida: &#8211; Ent&atilde;o, quando<br \/>\n    vai para o Rio? N&atilde;o fique aqui&#8230; V&aacute;&#8230; Olhe, o senhor conhece<br \/>\n    o Azevedo? &#8211; &Eacute; disso mesmo que v&iacute;nhamos tratar. Isa&iacute;as<br \/>\n    quer ir para o Rio e eu vinha pedir a V. S&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O qu&ecirc;? interrompeu assustado o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Eu queria que, V. S., Sr. Coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse<br \/>\n    o rapaz ao doutor Castro.<\/p>\n<p> O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente falou: &#8211;<br \/>\n    Voc&ecirc; tem direito, seu Valentim&#8230; &Eacute;&#8230; Voc&ecirc; trabalhou pelo<br \/>\n    Castro&#8230; Aqui para n&oacute;s: se ele est&aacute; eleito, deve-o a mim e<br \/>\n    aos defuntos, e voc&ecirc; que desenterrou alguns. Riu-se muito, cheio de<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o por ter repetido t&atilde;o velha pilh&eacute;ria<br \/>\n    e perguntou amavelmente em seguida: &#8211; O que &eacute; que voc&ecirc; quer que<br \/>\n    lhe pe&ccedil;a? &#8211; V. S. podia dizer na carta que o Isa&iacute;as ia ao Rio<br \/>\n    estudar, tendo j&aacute; todos os preparat&oacute;rios, e precisava, por ser<br \/>\n    pobre, que o Dr. lhe arranjasse um emprego.<\/p>\n<p> O Coronel n&atilde;o se deteve, fez-nos sentar, mandou vir caf&eacute; e<br \/>\n    foi a um compartimento junto escrever a missiva.<\/p>\n<p> N&atilde;o se demorou muito; as suas no&ccedil;&otilde;es gramaticais n&atilde;o<br \/>\n    eram suficientemente fortes para retardar a reda&ccedil;&atilde;o de uma carta.<br \/>\n    Demoramo-nos ainda um pouco e, quando nos desped&iacute;amos, o Coronel abra&ccedil;ou-me,<br \/>\n    dizendo: &#8211; Faz bem, menino. V&aacute;, trabalhe, estude, que isto aqui &eacute;<br \/>\n    uma terra &agrave;-toa com licen&ccedil;a da palavra, de m&#8230; O Castro deve<br \/>\n    fazer alguma coisa por voc&ecirc;. Ele foi assim tamb&eacute;m&#8230; O pai, voc&ecirc;<br \/>\n    o conheceu, seu Valentim? &#8211; Sim, Coronel, disse meu tio.<\/p>\n<p> &#8211; &#8230;era muito pobre, muito mesmo&#8230; O Hermenegildo, o Castro, quis estudar.<br \/>\n    N&oacute;s&#8230; n&oacute;s n&atilde;o, eu principalmente que era presidente,<br \/>\n    arranjei-lhe uma subven&ccedil;&atilde;o da C&acirc;mara&#8230; E foi assim. Hoje,<br \/>\n    acrescentou o Coronel imediatamente, n&atilde;o &eacute; preciso, o Rio &eacute;<br \/>\n    muito grande, h&aacute; muitos recursos&#8230; V&aacute;, menino! N&atilde;o chovia<br \/>\n    mais. As nuvens tinham corrido de um lado do horizonte, deixando ver uma nesga<br \/>\n    de c&eacute;u azul.<\/p>\n<p> Um pouco de sol banhava aquelas colinas tristes e fatigadas por entre as<br \/>\n    quais caminh&aacute;vamos.<\/p>\n<p> As cigarras puseram-se a estridular e vim vindo, de cabe&ccedil;a baixa,<br \/>\n    sem apreens&otilde;es, cheio de esperan&ccedil;as, exuberante de alegrias.<\/p>\n<p> A minha situa&ccedil;&atilde;o no Rio estava garantida. Obteria um emprego.<br \/>\n    Um dia pelos outros iria &agrave;s aulas, e todo o fim de ano, durante seis,<br \/>\n    faria os exames, ao fim dos quais seria doutor! Ah! Seria doutor! Resgataria<br \/>\n    o pecado original do meu nascimento humilde, amaciaria o supl&iacute;cio premente,<br \/>\n    cruciante e on&iacute;modo de minha cor&#8230; Nas dobras do pergaminho da carta,<br \/>\n    traria presa a considera&ccedil;&atilde;o de toda a gente. Seguro do respeito<br \/>\n    &agrave; minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela vida em<br \/>\n    fora. N&atilde;o titubearia, n&atilde;o hesitaria, livremente poderia falar,<br \/>\n    dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no meu c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida, oferecia logo aos ataques<br \/>\n    dos bons e dos maus, ficaria mascarado, disfar&ccedil;ado&#8230;<\/p>\n<p> Ah! Doutor! Doutor!&#8230; Era m&aacute;gico o t&iacute;tulo, tinha poderes<br \/>\n    e alcances m&uacute;ltiplos, v&aacute;rios, polif&oacute;rmicos&#8230; Era um<br \/>\n    pallium, era alguma coisa como cl&acirc;mide sagrada, tecida com um fio t&ecirc;nue<br \/>\n    e quase imponder&aacute;vel, mas a cujo encontro os elementos, os maus olhares,<br \/>\n    os exorcismos se quebravam. De posse dela, as gotas de chuva afastar-se-iam<br \/>\n    transidas do meu corpo, n&atilde;o se animariam a tocar-me nas roupas, no<br \/>\n    cal&ccedil;ado sequer. O invis&iacute;vel distribuidor dos raios solares escolheria<br \/>\n    os mais meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os inexor&aacute;veis,<br \/>\n    com o comum dos homens que n&atilde;o &eacute; doutor. Oh! Ser formado, de<br \/>\n    anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um sapo antes<br \/>\n    de ferir a martelada &agrave; beira do brejo; andar assim pelas ruas, pelas<br \/>\n    pra&ccedil;as, pelas estradas, pelas salas, recebendo cumprimentos: Doutor,<br \/>\n    como passou? Como est&aacute;, doutor? Era sobre-humano!&#8230;<\/p>\n<p> Est&aacute;vamos quase a chegar&#8230;<\/p>\n<p> Pelo caminho, viemos, os dois, calados. Eu todo entregue &agrave;s minhas<br \/>\n    reflex&otilde;es, que meu tio, uma vez ou outra, veio perturbar com uma pergunta<br \/>\n    qualquer. Era sem vontade de continuar a conversa que eu respondia; depois<br \/>\n    da terceira tentativa para entabul&aacute;-la, n&atilde;o insistiu mais. O<br \/>\n    sol fugia aos poucos, as cigarras deixaram de cantar e quando chegamos a casa,<br \/>\n    a chuva caiu novamente.<\/p>\n<p> Almocei, sa&iacute; at&eacute; &agrave; cidade pr&oacute;xima para fazer<br \/>\n    as minhas despedidas, jantei e, sempre, aquela vis&atilde;o doutoral que n&atilde;o<br \/>\n    me deixava. Uma face dela me aparecia, depois outra mais brilhante; esta provocava<br \/>\n    uma considera&ccedil;&atilde;o, aquela mais uma propriedade da carta onipotente.<br \/>\n    De noite, no teto da minha sala baixa, pelos portais, eu via escrito pela<br \/>\n    luz do lampi&atilde;o de petr&oacute;leo &#8211; Doutor! Doutor! Quantas prerrogativas,<br \/>\n    quantos direitos especiais, quantos privil&eacute;gios esse t&iacute;tulo<br \/>\n    dava! Pus-me a considerar que isso deveria ser antigo&#8230; Newton, C&eacute;sar,<br \/>\n    Plat&atilde;o e Miguel &Acirc;ngelo deviam ter sido doutores! Foram os primeiros<br \/>\n    legisladores que deram &agrave; carta esse prest&iacute;gio extraterrestre&#8230;<br \/>\n    Naturalmente, teriam escrito nos seus c&oacute;digos: tudo o que h&aacute;<br \/>\n    no mundo &eacute; propriedade do doutor, e se de alguma coisa outros homens<br \/>\n    gozam, devem-no &agrave; generosidade do doutor. Era uma outra casta, para<br \/>\n    qual eu entraria, e desde que penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne<br \/>\n    diferente dos outros &#8211; tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das<br \/>\n    leis gerais do Universo e acima das fatalidades da vida comum.<\/p>\n<p> &#8211; Levas toda a roupa, Isa&iacute;as? veio interromper minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8211; A que houver, mam&atilde;e.<\/p>\n<p> Eu estava deitado num velho sof&aacute; amplo. L&aacute; fora, a chuva ca&iacute;a<br \/>\n    com redobrado rigor e ventava fortemente. A nossa casa fr&aacute;gil parecia<br \/>\n    que, de um momento para outro, ia ser arrasada. Minha m&atilde;e ia e vinha<br \/>\n    de um quarto pr&oacute;ximo; removia ba&uacute;s, arcas; cosia, futicava.<br \/>\n    Eu devaneava e ia-lhe vendo o perfil esqu&aacute;lido, o corpo magro, premido<br \/>\n    de trabalhos, as faces cavadas com os malares salientes, tendo pela pele parda<br \/>\n    manchas escuras, como se fossem de fuma&ccedil;a entranhada. De quando em<br \/>\n    quando, ela lan&ccedil;ava-me os seus olhos aveludados, redondos, passivamente<br \/>\n    bons, onde havia raias de temor ao encarar-me. Supus que adivinhava os perigos<br \/>\n    que eu tinha de passar; sofrimentos e dores que a educa&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia, qualidades a mais na minha fr&aacute;gil consist&ecirc;ncia<br \/>\n    social, haviam de atrair fatalmente. N&atilde;o sei que de raro, excepcional<br \/>\n    e delicado, e ao mesmo tempo perigoso, ela via em mim, para me deitar aqueles<br \/>\n    olhares de amor e espanto, de piedade e orgulho. Aos seus olhos &#8211; muitas vezes<br \/>\n    se me veio a afigurar &#8211; eu era como uma rapariga, do meu nascimento e condi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    extraordinariamente bonita, vivaz e perturbadora&#8230; Seria demais tudo isso;<br \/>\n    cerc&aacute;-la-ia logo o ambiente de sedu&ccedil;&atilde;o e corrup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e havia de acabar por a&iacute;, por essas ruas&#8230;<\/p>\n<p> Por vezes, tamb&eacute;m acreditei que ela nada quisesse exprimir com eles;<br \/>\n    que tinha por mim a indiferen&ccedil;a da m&aacute;quina pelo seu produto.<br \/>\n    Que importa aos teares de Valenciennes o destino de suas rendas?! Eu cria-a,<br \/>\n    ent&atilde;o, resignada a ficar ali, nas proximidades de uma cidade de terceira<br \/>\n    ordem, tendo, de onde em onde, not&iacute;cias minhas naquela grande cidade<br \/>\n    que a sua imagina&ccedil;&atilde;o a custo havia de representar. E quem sabe<br \/>\n    se as not&iacute;cias seriam de ordem a provocar-lhe d&uacute;vidas sobre<br \/>\n    sua maternidade?! Coitada! Pobre de minha m&atilde;e! &#8211; Olhe, mam&atilde;e,<br \/>\n    disse eu, logo que me arrume mando-a buscar. A senhora est&aacute; ouvindo?<br \/>\n    &#8211; Sim, respondeu ela com fingida indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Alugaremos uma casa. Todos os dias, quando eu for trabalhar, tomarei a<br \/>\n    sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o; quando tiver de estudar at&eacute; alta noite,<br \/>\n    a senhora h&aacute; de dar-me caf&eacute;, para espantar o sono&#8230; Sim, mam&atilde;e?<br \/>\n    E me pus a abra&ccedil;&aacute;-la efusivamente.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; bom! Estuda Isa&iacute;as, fez ela, desvencilhando-se de mim<br \/>\n    brandamente. N&atilde;o te importes comigo&#8230; Estuda, meu filho! Eu j&aacute;<br \/>\n    estou velha demais&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;e, n&atilde;o acredita em mim.<\/p>\n<p> &#8211; Acredito, meu filho; mas&#8230; mas n&atilde;o quero sair daqui.<\/p>\n<p> No dia seguinte, quando me despedi, ela deu-me um forte abra&ccedil;o, afastou-se<br \/>\n    um pouco e olhou-me longamente, com aquele olhar que me lan&ccedil;ava sempre,<br \/>\n    fosse em que circunst&acirc;ncia fosse, onde havia mesclados, terror, pena,<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o e amor.<\/p>\n<p> &#8211; Vai, meu filho, disse-me ela afinal! Adeus!&#8230; E n&atilde;o te mostres<br \/>\n    muito, porque n&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p> E n&atilde;o acabou. O choro a tomou convulsa e foi chorando que me afastei.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\"> II<\/a><\/h4>\n<p> A viagem de trem correu enfadonha. N&atilde;o sei se devido &agrave; falta<br \/>\n    de comodidade do banco, n&atilde;o sei se &agrave;s grandes emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por que passara, o certo &eacute; que me invadiu durante toda ela um letargo,<br \/>\n    um torpor que me chumbou o corpo e me tornou a intelig&ecirc;ncia de dif&iacute;cil<br \/>\n    penetra&ccedil;&atilde;o. Encostado ao espaldar do banco, viajava meio acordado,<br \/>\n    meio dormindo; de quando em quando, um solavanco do carro abria-me violentamente<br \/>\n    os olhos e obrigava-me a considerar mais detidamente a paisagem que fugia<br \/>\n    pela portinhola do vag&atilde;o.<\/p>\n<p> Eram as mesmas charnecas &uacute;midas ao sop&eacute; de morros de porte<br \/>\n    m&eacute;dio, revestidos de um mato ralo, an&ecirc;mico, verde-escuro, onde,<br \/>\n    por vezes, uma &aacute;rvore de mais vulto se erguia soberbamente, como se<br \/>\n    o conseguisse pelo esfor&ccedil;o de uma vontade pr&oacute;pria.<\/p>\n<p> O sol coava-se com dificuldade por entre grossos novelos de nuvens erradias,<br \/>\n    distribuindo, sobre as coisas que eu ia vendo, uma luz amarelada e desigual.<\/p>\n<p> Pelo declive suave de uma encosta, o tapete escuro do mato aparecia mosqueado,<br \/>\n    com as manchas arredondadas, claras e escuras, salpicadas com relativa regularidade.<br \/>\n    Por aqui, por ali, trechos foscos e ba&ccedil;os contrastavam com tufos vivos,<br \/>\n    profusamente iluminados &#8211; rebentos de vida numa pele doente&#8230;<\/p>\n<p> O trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, por&eacute;m, o fiz;<br \/>\n    n&atilde;o sei mesmo em que esta&ccedil;&atilde;o. Tive fome e dirigi-me ao<br \/>\n    pequeno balc&atilde;o onde havia caf&eacute; e bolos. Encontravam-se l&aacute;<br \/>\n    muitos passageiros. Servi-me e dei uma pequena nota para pagar. Como se demorassem<br \/>\n    em trazer-me o troco reclamei: &quot;Oh! fez o caxeiro indignado e em tom<br \/>\n    desabrido. Que pressa tem voc&ecirc;?! Aqui n&atilde;o se rouba, fique sabendo?&quot;<br \/>\n    Ao mesmo tempo ao meu lado, um rapazola alourado, reclamava o dele, que lhe<br \/>\n    foi prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com os olhares que<br \/>\n    os presentes me lan&ccedil;aram, mais cresceu a minha indigna&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Curti durante segundos, uma raiva muda, e por pouco ela n&atilde;o rebentou<br \/>\n    em pranto. Tr&ocirc;pego e tonto, embarquei e tentei decifrar a raz&atilde;o<br \/>\n    da diferen&ccedil;a dos dois tratamentos. N&atilde;o atinei; em v&atilde;o<br \/>\n    passei em revista a minha roupa e a minha pessoa&#8230; Os meus dezenove anos<br \/>\n    eram sadios e poupados, e o meu corpo regularmente talhado. Tinha os ombros<br \/>\n    largos e os membros &aacute;geis e el&aacute;sticos. As minhas m&atilde;os<br \/>\n    fidalgas com dedos afilados e esguios, eram heran&ccedil;a de minha m&atilde;e,<br \/>\n    que as tinha t&atilde;o valentemente bonitas que se mantiveram assim, apesar<br \/>\n    do trabalho manual a que a sua condi&ccedil;&atilde;o a obrigava. Mesmo de<br \/>\n    rosto, se bem que os meus tra&ccedil;os n&atilde;o fossem extraordinariamente<br \/>\n    regulares, eu n&atilde;o era hediondo nem repugnante. Tinha-o perfeitamente<br \/>\n    oval, e a tez de cor pronunciadamente azeitonada.<\/p>\n<p> Al&eacute;m de tudo, eu sentia que a minha fisionomia era animada pelos<br \/>\n    meus olhos castanhos, que brilhavam doces e ternos nas arcadas superciliares<br \/>\n    profundas, tra&ccedil;o de sagacidade que herdei do meu pai. Demais, a emana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da minha pessoa, os desprendimentos da minha alma, deviam ser de mansuetude,<br \/>\n    de timidez e bondade&#8230; Por que seria ent&atilde;o, meu Deus? Os esfor&ccedil;os<br \/>\n    que fiz, mais espesso tornaram o capacete pl&uacute;mbeo que me oprimia o<br \/>\n    c&eacute;rebro. O torpor tomou-me mais fortemente e por fim dormi, dormi n&atilde;o<br \/>\n    sei quantas horas, n&atilde;o sei quantos minutos, pois que, ao despertar,<br \/>\n    era boca da noite, e o crep&uacute;sculo cobria as coisas com uma capa de<br \/>\n    melancolia por assim dizer tang&iacute;vel. Afagava, ro&ccedil;ava pelas minhas<br \/>\n    faces, tocava-me nas m&atilde;os de leve como uma pel&uacute;cia&#8230; Por entre<br \/>\n    laranjais dourados de pomos maduros, a locomotiva corria c&eacute;lere&#8230;<br \/>\n    Chegamos &agrave; esta&ccedil;&atilde;o terminal, mas n&atilde;o acabou a&iacute;<br \/>\n    a viagem. Passamo-nos para uma barca que atravessou vagarosamente por entre<br \/>\n    ilhotas at&eacute; alcan&ccedil;ar o largo da ba&iacute;a.<\/p>\n<p> O espet&aacute;culo chocou-me. Repentinamente senti-me outro. Os meus sentidos<br \/>\n    agu&ccedil;aram-se; a minha intelig&ecirc;ncia entorpecida durante a viagem,<br \/>\n    despertou com for&ccedil;a, alegre e cantante&#8230; Eu via nitidamente as coisas<br \/>\n    e elas penetraram em mim at&eacute; ao &acirc;mago. Convergi todo o meu aparelho<br \/>\n    de exame para o espet&aacute;culo que me surpreendia. Estive por instantes<br \/>\n    espasmodicamente arrebatado, para um outro mundo, adivinhado al&eacute;m das<br \/>\n    coisas sens&iacute;veis e materiais. Voluptuosamente, cerrei os olhos; depois,<br \/>\n    aos poucos, descerrei as p&aacute;lpebras para olhar embaixo o mar espelhento<br \/>\n    e misterioso. A barca vogava, as &aacute;guas negras abriam &#8211; fingindo resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    calculando a recusa.<\/p>\n<p> O casario defronte &#8211; o da orla da praia, envolvido j&aacute; nas brumas<br \/>\n    da noite, e o do alto, queimando-se na p&uacute;rpura do poente &#8211; surgia revolto<br \/>\n    aos meus olhos, bizarramente disposto sem uma ordem geometricamente definida,<br \/>\n    mas guardando com as montanhas que espreitavam a cidade, com as inflex&otilde;es<br \/>\n    caprichosas das colinas e o meandro dos vales, um acordo oculto, sutilmente<br \/>\n    l&oacute;gico.<\/p>\n<p> Evolava-se do ambiente um perfume, uma poesia, alguma coisa de unificador,<br \/>\n    a abra&ccedil;ar o mar, as casas, as montanhas e o c&eacute;u; pareciam erguidos<br \/>\n    por um s&oacute; pensamento, afastados e aproximados por uma intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    coordenadora que calculasse a divis&atilde;o dos planos, abrisse vales, recortasse<br \/>\n    curvas, a fim de agitar viva e harmoniosamente aquele amontoado de coisas<br \/>\n    diferentes&#8230; O aconchego, a tepidez da hora, a solenidade do lugar, o crenulado<br \/>\n    das montanhas engastadas no c&eacute;u c&ocirc;ncavo, deram-me impress&otilde;es<br \/>\n    v&aacute;rias, fant&aacute;sticas, discordantes e fugidias&#8230;<\/p>\n<p> Havia um brando ar de sonho, e eu fiquei todo penetrado dele. Andamos. Agora,<br \/>\n    a barca movia-se ao longo de uma comprida ilha pejada de edif&iacute;cios.<br \/>\n    Mais perto, mais longe, pequenas lanchas corriam, erguendo para a pureza do<br \/>\n    c&eacute;u irreverentes penachos de fumo; na linha horizontal de uma terra<br \/>\n    baixa, ao fundo, onde, dolentemente agitado pela vira&ccedil;&atilde;o, um<br \/>\n    esguio coqueiro, firme e orgulhoso, crescia solit&aacute;rio; grandes cascos<br \/>\n    escuros de saveiros e galeras ruminavam placidamente; e botes velozes, cruzando<br \/>\n    as respectivas derrotas, brincavam sobre as ondas como crian&ccedil;as travessas&#8230;<\/p>\n<p> Um escaler aproximou-se da barca, bem perto; a tripula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rubicunda entoava uma can&ccedil;&atilde;o, um hino. O escaler afastou-se<br \/>\n    logo, desdenhoso e superior.<\/p>\n<p> Antes de atracar, a noite caiu de todo.<\/p>\n<p> Na cidade longos riscos de fogo brilharam, juntos e espa&ccedil;ados, retos<br \/>\n    e curvos, paralelos e emaranhados&#8230; Chegamos.<\/p>\n<p> Quando saltei e me pus em plena cidade, na pra&ccedil;a para onde dava a<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o, tive uma decep&ccedil;&atilde;o. Aquela pra&ccedil;a<br \/>\n    inesperadamente feia, fechada em frente por um edif&iacute;cio sem gosto,<br \/>\n    ofendeu-me como se levasse uma bofetada. Enganaram-me os que me representavam<br \/>\n    a cidade bela e majestosa. Nas ruas, havia muito pouca gente e, do bonde em<br \/>\n    que as ia atravessando, pareciam-me feias, estreitas, lamacentas, marginadas<br \/>\n    de casas sujas e sem beleza alguma.<\/p>\n<p> A rua do Ouvidor, que vi de longe, iluminada e transitada, em pouco diminuiu<br \/>\n    a m&aacute; impress&atilde;o que me fez a cidade. Pouco antes de partir, havia-me<br \/>\n    informado dos hot&eacute;is e, por essa ocasi&atilde;o, recomendaram-me o<br \/>\n    Hotel Jenikal&eacute;, na pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica, de m&oacute;dica<br \/>\n    di&aacute;ria, me dirigi a ele, no prop&oacute;sito de me demorar os poucos<br \/>\n    dias exigidos para obter a coloca&ccedil;&atilde;o que me daria o deputado<br \/>\n    Castro. Fui jantar e sentei-me &agrave; mesa redonda, onde havia muita gente<br \/>\n    a falar de tudo e de todas as coisas. Evitei travar conversa com qualquer<br \/>\n    dos circunstantes. Jantei calado, de olhos desconfiados, baixos, erguendo-os<br \/>\n    de quando em quando do prato para as gravuras que guarneciam a sala, sem me<br \/>\n    animar a pous&aacute;-los na fisionomia de qualquer dos comensais. N&atilde;o<br \/>\n    obstante a isso, algu&eacute;m, pelo fim do jantar, venceu minha obstina&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Creio que viemos juntos&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me recorda, fiz eu polidamente.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeitamente. O senhor dormia quando embarquei.<\/p>\n<p> &#8211; Pode ser&#8230;Viajei quase sempre assim&#8230; Alonguei a resposta a muito custo<br \/>\n    e a medo; mas, arrependido, comecei a pes&aacute;-la bem e vi que por ela<br \/>\n    o meu interlocutor n&atilde;o me poderia roubar o fraco pec&uacute;lio.<\/p>\n<p> &#8211; Vim a neg&oacute;cios&#8230; O senhor sabe, continuou o desconhecido; o senhor<br \/>\n    sabe: quem quer vai, quem n&atilde;o quer manda&#8230; Se me limito e encomendar<br \/>\n    a farinha &#8211; &eacute; uma desgra&ccedil;a! Chega azeda e de p&eacute;ssima<br \/>\n    qualidade &#8211; ent&atilde;o &eacute; um inferno! Os fregueses reclamam; a pretexto<br \/>\n    disso, n&atilde;o pagam. Para evitar essas e outras venho de dois em dois<br \/>\n    meses compr&aacute;-la, eu mesmo&#8230; Veja o senhor s&oacute; &#8211; &eacute; uma<br \/>\n    despesa, mas que se h&aacute; de fazer?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O senhor est&aacute; estabelecido? &#8211; Em Itaporanga, sim senhor; tenho<br \/>\n    uma padaria, pequena sim, mas rende. O senhor sabe: o pobre n&atilde;o passa<br \/>\n    sem p&atilde;o.<\/p>\n<p> Aproveitei um instante em que se virara para o vizinho, para analisar o<br \/>\n    padeiro de Itaporanga.<\/p>\n<p> Era um homem baixo, de membros fortes, que respirava com for&ccedil;a e<br \/>\n    desembara&ccedil;adamente. Falando, torcia, com a m&atilde;o &aacute;spera<br \/>\n    de antigo trabalhador, o bigode farto. Descobria-se que na sua mocidade se<br \/>\n    entregara a trabalhos grosseiros, mas que, de uns tempos a esta parte, gozava<br \/>\n    de uma vida mais f&aacute;cil e leve. O seu olhar, inquieto e fugidio, mas<br \/>\n    vivo, quando se fixava, era de velhaco mercadejante, bem com o c&oacute;digo<br \/>\n    e as leis.<\/p>\n<p> &#8211; O senhor veio a passeio? perguntou-me &#8211; N&atilde;o senhor, disse-lhe de<br \/>\n    pronto. Vim estudar.<\/p>\n<p> &#8211; Estudar! &#8211; De que se admira? &#8211; De nada.<\/p>\n<p> Em seguida, abrindo o rosto queimado e ameigando a voz, em que havia longinquamente<br \/>\n    o sotaque portugu&ecirc;s, disse: &#8211; Venha comigo, doutor, vamos dar uma volta.<\/p>\n<p> N&atilde;o tive tempo de opor uma resposta. O padeiro voltou-se para os<br \/>\n    fundos da sala e gritou ao caixeiro: &#8211; Jos&eacute;! Charutos&#8230;<\/p>\n<p> Aquele homem ia pondo em mim uma singular inquieta&ccedil;&atilde;o. A sua<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o t&atilde;o explosiva ao meu projeto de estudo, as<br \/>\n    suas maneiras amb&iacute;guas e ao mesmo tempo desembara&ccedil;adas, o seu<br \/>\n    olhar cauteloso, perscrutador e sagaz, junto ao seu ar bonacheir&atilde;o<br \/>\n    e simpl&oacute;rio, provocavam-me desencontrados sentimentos de confian&ccedil;a<br \/>\n    e desconfian&ccedil;a. Havia nele tanta coisa oposta &agrave; profiss&atilde;o<br \/>\n    que dizia ter que me pus a desconfiar &#8211; Quem sabe! Entretanto, a sua afabilidade,<br \/>\n    as suas m&atilde;os grossas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Oacute; Jos&eacute;! Os charutos? fez impaciente o negociante.<\/p>\n<p> O caixeiro veio capengando sobre umas amplas botinas, e estendeu-nos uma<br \/>\n    caixa cheia de charutos claros, pimpantes, cujo aroma recendia e tentava a<br \/>\n    fum&aacute;-los.<\/p>\n<p> Sirva-se, doutor! S&atilde;o magn&iacute;ficos! O Machado recebe-os diretamente.<\/p>\n<p> E com um franzir de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa<br \/>\n    dos charutos. Picou a ponta com os dentes, e n&atilde;o sem uma certa eleg&acirc;ncia,<br \/>\n    chegou o f&oacute;sforo aceso ao seu e depois de esperar que eu tamb&eacute;m<br \/>\n    acendesse, falou-me: &#8211; O doutor conhece o Rio? &#8211; N&atilde;o, fiz eu prazenteiramente,<br \/>\n    pois que o tratamento me agradava. Era a primeira vez que o recebia; lisonjeava-me<br \/>\n    naturalmente.<\/p>\n<p> &#8211; Venha ent&atilde;o comigo. N&atilde;o saio nunca, mas posso acompanh&aacute;-lo<br \/>\n    na primeira visita. Podemos ir ao teatro, s&atilde;o oito e meia. Em dois<br \/>\n    minutos chego ali &agrave; confeitaria da Estrada, e antes das nove estamos<br \/>\n    no Recreio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu caro senhor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Laje da Silva, um seu criado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu caro Sr. Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria melhor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Oh! o senhor! Um menino! Deixe-se disso&#8230; Vamos, doutor.<\/p>\n<p> O doutor era m&aacute;gico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante com<br \/>\n    padaria em Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna esquerda, e dos<br \/>\n    profundos refolhos da algibeira da cal&ccedil;a respectiva tirou um ma&ccedil;o<br \/>\n    enorme de notas, escolheu uma e pagou os charutos que fum&aacute;vamos.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\"> III<\/a><\/h4>\n<p> &quot;Os antigos bebiam p&eacute;rolas dissolvidas em vinagre. N&atilde;o<br \/>\n    eram l&aacute; de gosto muito fino e a extravag&acirc;ncia nada significava.<br \/>\n    Eu bebo a verde esmeralda sadia, emblema da mater Natureza, num copo de Xerez.<br \/>\n    Em vez da p&eacute;rola m&oacute;rbida, doen&ccedil;a de um marisco, no acre<br \/>\n    vinagre, bebo o verde dos prados, a magn&iacute;fica coma das palmeiras, o<br \/>\n    perfume das flores, tudo que o verde lembra da grande m&atilde;e augusta!&quot;<br \/>\n    Lembrei-me no dia seguinte dessa frase que o Raul Gusm&atilde;o, um jovem<br \/>\n    jornalista, da amizade do Laje da Silva, pronunciou solenemente devagar no<br \/>\n    botequim do teatro, enquanto nos serv&iacute;amos de bebidas. Disse-a com<br \/>\n    a sua voz fanhosa, sem acento de sexo e emitida com grande esfor&ccedil;o<br \/>\n    doloroso. Falar era para a sua natureza obra dif&iacute;cil. Toda a sua pessoa<br \/>\n    se movia, se esfor&ccedil;ava extraordinariamente; todos os seus m&uacute;sculos<br \/>\n    entravam em a&ccedil;&atilde;o; toda a energia da sua vida se aplicava em<br \/>\n    articular os sons e sempre, quando falava, era como se falasse pela primeira<br \/>\n    vez, como indiv&iacute;duo e como esp&eacute;cie. Essa sua voz de parto dif&iacute;cil,<br \/>\n    esse espumar de sons ou gritos de um antrop&oacute;ide que h&aacute; pouco<br \/>\n    tivesse adquirido a palavra articulada, deu-me n&atilde;o sei que mal-estar,<br \/>\n    que n&atilde;o mais falei at&eacute; &agrave; sua despedida. Tive medo de<br \/>\n    que me fosse preciso empregar o mesmo esfor&ccedil;o, que a minha palavra<br \/>\n    custasse tamb&eacute;m aquela grande dor j&aacute; olvidada e vencida pela<br \/>\n    nossa esp&eacute;cie; e fiquei a ouvi-lo respeitosamente, tanto mais que nos<br \/>\n    tratou, a mim e ao padeiro, com tal desd&eacute;m, com tal superioridade que<br \/>\n    fiquei entibiado, esmagado, diante do retrato, que dele fiz intimamente, de<br \/>\n    um grande literato, universal e aclamado, esp&eacute;cie de Balzac ou Dickens,<br \/>\n    apesar da voz de Pithecanthropus.<\/p>\n<p> Falava e n&atilde;o nos olhava quase; errava os olhos &#8211; os olhos pequeninos<br \/>\n    dentro de umas &oacute;rbitas quase circulares a lembrar vagamente uma ra&ccedil;a<br \/>\n    qualquer de su&iacute;no &#8211; errava os olhos, dizia, pelo p&aacute;tio do teatro,<br \/>\n    e quando nos fixava trazia uma express&atilde;o de esc&aacute;rnio que ele<br \/>\n    mantinha num razo&aacute;vel disp&ecirc;ndio de energia muscular. Veio ter<br \/>\n    &agrave; nossa mesa por inst&acirc;ncias do Laje da Silva. Ia passando um<br \/>\n    pouco afastado, quando meu companheiro lhe correu ao encontro e, com os maiores<br \/>\n    rogos, o trouxe para a mesa. Apresentou-nos e perguntou depois: &#8211; Que toma,<br \/>\n    dr.? &#8211; Nada.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Alguma coisa&#8230; Um licor&#8230; Um conhaque? &#8211; Vinho, Venha l&aacute;<br \/>\n    um vinho! Hoje n&atilde;o h&aacute; mais vinhos&#8230; O sr., acrescentou, voltando-se<br \/>\n    para mim com o seu ar fingidamente insolente; o sr. porventura me d&aacute;<br \/>\n    not&iacute;cias dos vinhos de Esmirna e de Quios? Desviou o rosto sem esperar<br \/>\n    a resposta, tirou uma pregui&ccedil;osa fuma&ccedil;a do charuto e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a olhar pausadamente o teatro, al&ccedil;ando a vista &agrave;s vezes at&eacute;<br \/>\n    &agrave; varanda; e, por fim, cheio de insol&ecirc;ncia e com aquela voz de<br \/>\n    parto dif&iacute;cil, chamou o caixeiro e encomendou meio c&aacute;lice de<br \/>\n    peppermint e uma dose de Xerez. Simulando n&atilde;o perceber o nosso espanto,<br \/>\n    fez algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre os vinhos antigos, confrontando-os<br \/>\n    com os modernos, no sabor, na cor e no preparo, com um exato conhecimento<br \/>\n    de ambos. Vieram-lhe as garrafas e o jornalista, pegando na colherzinha com<br \/>\n    dois dedos e estendendo os outros de sua m&atilde;o polpuda, abacial, como<br \/>\n    a qualificou mais tarde, misturou ritualmente o verde peppermint no Xerez<br \/>\n    e foi por a&iacute; que disse: &quot;Os antigos&#8230;&quot; Diante dele, dos<br \/>\n    seus gestos, das suas palavras, a impress&atilde;o das mulheres, da agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do teatro, apagou-se-me completamente. Ele resumiu-me o teatro, e fiquei com<br \/>\n    este encontro t&atilde;o indelevelmente gravado que ainda agora, ao tra&ccedil;ar<br \/>\n    estas linhas, estou a v&ecirc;-lo erguer-se da cadeira com vis&iacute;vel<br \/>\n    esfor&ccedil;o, ficar um instante parado junto a n&oacute;s, com o alentado<br \/>\n    corpanzil encostado &agrave; bengala vergada, dizer cheio de profundo aborrecimento<br \/>\n    &#8211; como isto &eacute; feio! &#8211; para ent&atilde;o se afastar por fim, vagarosamente&#8230;<\/p>\n<p> Mal saiu, pedi pormenorizadas informa&ccedil;&otilde;es ao Laje da Silva.<br \/>\n    Nos confins da minha aldeia natal, eu n&atilde;o podia adivinhar que o Rio<br \/>\n    contivesse exemplar t&atilde;o curioso do g&ecirc;nero humano, uma desencontrada<br \/>\n    mistura de porco e de s&iacute;mio adiantado, ainda por cima jornalista ou<br \/>\n    coisa que o valha, exuberante de gestos in&eacute;ditos e frases imprevistas.<br \/>\n    Laje da Silva, por&eacute;m, s&oacute; sabia que ele tinha a Aurora &agrave;<br \/>\n    sua disposi&ccedil;&atilde;o, jornal muito lido e antigo, respeitado e que,<br \/>\n    no tempo do Imp&eacute;rio, derrubou mais de um Minist&eacute;rio. Escrevia<br \/>\n    nos jornais; era o bastante. E essa sua admira&ccedil;&atilde;o, se era de<br \/>\n    fato esse o sentimento do padeiro pelos homens dos jornais, levava-o a respeit&aacute;-los<br \/>\n    a todos desde o mais graduado, o redator-chefe, o polemista de talento, at&eacute;<br \/>\n    ao rep&oacute;rter de pol&iacute;cia, ao revisor e ao caixeiro de balc&atilde;o.<br \/>\n    Todos para ele eram sagrados, seres superiores ou necess&aacute;rios aos seus<br \/>\n    neg&oacute;cios, pois viviam naquela oficina de ciclopes onde se forjavam<br \/>\n    os temerosos raios capazes de ferir deuses e mortais, e os escudos capazes<br \/>\n    tamb&eacute;m de proteger as trafic&acirc;ncias dos mortais e dos deuses.<br \/>\n    Laje n&atilde;o lhe conhecia as obras, nem mesmo os artigos e ficou satisfeito<br \/>\n    que um outro conhecido seu viesse sentar-se sem cerim&ocirc;nia alguma &agrave;<br \/>\n    nossa mesa, obrigando-me a n&atilde;o lhe fazer mais perguntas sobre o Pithecanthropus<br \/>\n    literato. Era o Oliveira &#8211; n&atilde;o me conhece? O Oliveira, do O Globo!&#8230;<br \/>\n    t&atilde;o conhecido!&#8230; Oh! O padeiro ofereceu-lhe alguma coisa e perguntou<br \/>\n    amavelmente o que havia de novo.<\/p>\n<p> &#8211; Uma inunda&ccedil;&atilde;o no Norte.<\/p>\n<p> &#8211; Onde? &#8211; No forte S. Joaquim, no Purus.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o! fiz eu muito colegialmente. O forte S. Joaquim n&atilde;o<br \/>\n    fica no Purus&#8230;<\/p>\n<p> O Oliveira olhou-me com alguma raiva e eu tive que comprimir a alegria colegial<br \/>\n    do quinau. Mas a sua raiva foi breve, o rep&oacute;rter Oliveira procurou<br \/>\n    uma sa&iacute;da conveniente para a sua ignor&acirc;ncia numa cr&iacute;tica<br \/>\n    larga e patri&oacute;tica: &#8211; Esta nossa geografia anda t&atilde;o baralhada&#8230;<br \/>\n    O governo n&atilde;o cuida nessas coisas. &Eacute; s&oacute; pol&iacute;tica<br \/>\n    e &quot;comidelas&quot;&#8230; Tudo come&#8230; Uma vergonha! Do que o pa&iacute;s<br \/>\n    precisa n&atilde;o cuidam&#8230; O sr. com certeza n&atilde;o conhece o rio das<br \/>\n    Capivaras? &#8211; N&atilde;o, senhor, fiz satisfeito por mostrar a meu turno a<br \/>\n    minha ignor&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute; um rio muito importante e nenhuma geografia d&aacute;! Eu<br \/>\n    o conhe&ccedil;o porque nasci perto, sen&atilde;o&#8230; N&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    temos governo&#8230;<\/p>\n<p> De manh&atilde;, pus-me a recapitular todos esses epis&oacute;dios; e sobre<br \/>\n    todos pairava a figura inflada, mescla de su&iacute;no e de s&iacute;mio,<br \/>\n    do c&eacute;lebre jornalista Raul Gusm&atilde;o. O pr&oacute;prio Oliveira,<br \/>\n    t&atilde;o parvo e t&atilde;o besta, tinha alguma coisa dele, do seu fingimento<br \/>\n    de superioridade, dos seus gestos fabricados, da sua procura de frases de<br \/>\n    efeito, de seu galope para o espanto e para a surpresa. Era j&aacute; genial,<br \/>\n    com quem viria travar conhecimento mais tarde, que me assombrava com o seu<br \/>\n    maquinismo de pose e me colhia nos al&ccedil;ap&otilde;es de apanhar os simples.<br \/>\n    E senti tamb&eacute;m que o espantoso Gusm&atilde;o e o bobo Oliveira me tinham<br \/>\n    desviado da observa&ccedil;&atilde;o meticulosa a que vinha submetendo o padeiro<br \/>\n    de Itaporanga. Achava extraordin&aacute;rio que um varejista de um vilarejo<br \/>\n    long&iacute;nquo cultivasse e mantivesse amizades t&atilde;o fora do seu c&iacute;rculo;<br \/>\n    n&atilde;o se explica bem aquele seu norteio para os jornalistas, a especial<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o com que os cercava, o carinho com que tratava a todos.<\/p>\n<p> No teatro e na rua, cumprimentou mais de uma dezena deles e apontou-me,<br \/>\n    sem lhes falar, uma d&uacute;zia de outros. &Eacute; de tal jornal di&aacute;rio,<br \/>\n    dizia; &eacute; de tal seman&aacute;rio; faz guerra, faz marinha&#8230; Conhecia<br \/>\n    minuciosamente toda a vida jornal&iacute;stica. Informava-me sobre os nomes<br \/>\n    dos redatores, dos propriet&aacute;rios, dos colaboradores; sabia a tiragem<br \/>\n    de cada um dos grandes jornais, como a de cada seman&aacute;rio de caricaturas&#8230;<br \/>\n    Havia nisso uma mania pueril ou o que era? N&atilde;o se manifestava homem<br \/>\n    de leituras, pol&iacute;tico ou dado &agrave;s letras; n&atilde;o lhe senti<br \/>\n    a mais elementar preocupa&ccedil;&atilde;o intelectual; todo ele me pareceu<br \/>\n    convergindo para os neg&oacute;cios, para as coisas de dinheiro, especula&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Por isso, a sua jovialidade e sociabilidade n&atilde;o impediram que, aqui<br \/>\n    e ali, repontassem em mim alguns prop&oacute;sitos sobre a sua honestidade.<\/p>\n<p> Houve um fato que tornou um pouco mais consistentes as flu&iacute;dicas<br \/>\n    suspeitas que alimentava.<\/p>\n<p> Acabando de cear, ao pagar a conta, o padeiro examinou com o cuidado especial<br \/>\n    de entendido o papel, a estampa e a numera&ccedil;&atilde;o das notas do troco.<br \/>\n    Notando que eu reparava com insist&ecirc;ncia para o seu exame pericial, com<br \/>\n    a mais tranq&uuml;ila das vozes e cheio de uma linda ingenuidade, pediu-me:<br \/>\n    &#8211; Fa&ccedil;a o favor, dr.: veja-me de que estampa &eacute; esta&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    posso ler direito&#8230;<\/p>\n<p> E passava-me a c&eacute;dula velha, mas ainda em bom estado, em que li:<br \/>\n    estampa 9a &#8211; perfeitamente leg&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado. &Eacute; preciso muito cuidado, meu caro dr. A Casa da Moeda<br \/>\n    tem muitas filiais por a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p> Com o seu gesto habitual, estendeu a perna, arrumou as notas no ma&ccedil;o<br \/>\n    e guardou-o no fundo da algibeira.<\/p>\n<p> Da&iacute; em diante, n&atilde;o sei se com justeza, mas certamente com<br \/>\n    muita seguran&ccedil;a &iacute;ntima, tive por afetadas a sua simplicidade<br \/>\n    e bonomia, e julguei que escondiam algo de grave que se desenrolava na sua<br \/>\n    vida e ainda n&atilde;o tivera termo.<\/p>\n<p> Pelo almo&ccedil;o, a uma pergunta minha, o copeiro avisou-me que o padeiro<br \/>\n    tinha ido aos sub&uacute;rbios e n&atilde;o voltaria sen&atilde;o &agrave;<br \/>\n    tarde. Almocei vagarosamente e tranq&uuml;ilo. O dia estava fresco e azul.<br \/>\n    Pela janela avistava os grandes relvados do jardim, muito verdes e macios,<br \/>\n    de uma macieza de tapete e de um verde que afagava o olhar. Soavam onze horas<br \/>\n    quando sa&iacute; do hotel e vim a p&eacute; at&eacute; &agrave;s ruas centrais<br \/>\n    da cidade. Era cedo; n&atilde;o fui logo &agrave; C&acirc;mara. Fiquei vagueando<br \/>\n    pelas ruas &agrave; espera da hora conveniente. Cansado de andar pelo centro,<br \/>\n    aventurei-me tomar um daqueles bondes pequenos; chegando ao termo, bebi um<br \/>\n    refresco num botequim s&oacute;rdido das proximidades e tomei outro bonde<br \/>\n    que, me informaram, levava &agrave; C&acirc;mara. N&atilde;o reparei que a<br \/>\n    meu lado se sentara um homem acobreado, de cabelo liso mas de barba rala e<br \/>\n    crespa, ar decidido e t&oacute;rax forte; mas notara que, bancos adiante,<br \/>\n    um senhor de cartola, fraque e cal&ccedil;as brancas, tomara lugar &agrave;<br \/>\n    direita de uma senhora, jovem ainda, cuja passagem pagara, sem que com ela<br \/>\n    trocasse sequer um olhar. Observei-os intrigado; em meio da viagem o vizinho<br \/>\n    segredou-me: &#8211; Est&aacute; vendo que pouca-vergonha? Um senador bolinar! N&atilde;o<br \/>\n    entendi. Bolinar&#8230; Senador&#8230; O que era? O homem, entretanto, insistiu: &#8211;<br \/>\n    Todo o dia &eacute; aquilo&#8230; Uma vergonha! Se fosse outro, mas um senador!<br \/>\n    Por esse tempo, o par saltou, isto &eacute;, o senador um pouco antes, com<br \/>\n    o ve&iacute;culo em movimento, e a senhora saltou adiante; e ambos, ao jeito<br \/>\n    de desconhecidos, tomaram uma rua transversal. O meu vizinho n&atilde;o fez<br \/>\n    mais nenhuma observa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o me deixando, por&eacute;m,<br \/>\n    de olhar durante a viagem toda e, quando saltei, mal tinha pisado o passeio,<br \/>\n    cortou-me os passos interpelando-me: &#8211; Olhe, menino, deixe-se disso, sen&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, o qu&ecirc;? &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o sabe! Ora, n&atilde;o se fa&ccedil;a<br \/>\n    de besta, continuou, atirando o chap&eacute;u para o alto da cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; isto que lhe digo; n&atilde;o se meta na vida de &quot;seu&quot;<br \/>\n    Carvalho&#8230; &Eacute; um gra&uacute;do, pode ter l&aacute; &quot;seus arranjos&quot;<br \/>\n    e n&atilde;o tem que dar satisfa&ccedil;&atilde;o a ningu&eacute;m &#8211; fique<br \/>\n    sabendo! &#8211; Eu! &#8211; Sim, voc&ecirc;! Olhou-me durante instantes cheio de desafio<br \/>\n    e perguntou-me com redobrado atrevimento: &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    rep&oacute;rter do O Azeite, um jornaleco que anda por a&iacute;? &#8211; Eu, n&atilde;o<br \/>\n    senhor.<\/p>\n<p> E com a humildade que ditava a minha seguran&ccedil;a, repliquei ao not&aacute;vel<br \/>\n    Lucr&eacute;cio &quot;Barba de Bode&quot;, que havia chegado do interior,<br \/>\n    que n&atilde;o conhecia o Senador Carvalho, que nada sabia dos &quot;seus<br \/>\n    arranjos&quot;, e que ia entregar uma carta (mostrei-lha) a um deputado na<br \/>\n    C&acirc;mara, etc., etc.<\/p>\n<p> O capanga acreditou, desculpou-se, disse-me o nome e ofereceu-me a casa.<br \/>\n    Dirigi-me para a C&acirc;mara. A minha simplicidade tinha julgado f&aacute;cil<br \/>\n    falar a um deputado na C&acirc;mara. Era proibido; s&oacute; se trouxesse<br \/>\n    ingresso; contudo, o porteiro disse-me que era melhor procurar o dr. Castro<br \/>\n    na sua resid&ecirc;ncia, que me ensinou; e eu fui assistir &agrave; sess&atilde;o<br \/>\n    para encher o tempo e para travar conhecimento com o misterioso trabalho de<br \/>\n    fazer leis para um pa&iacute;s. De fato, subi pensando no of&iacute;cio de<br \/>\n    legislador que ia ver exercer pela primeira vez, em plena C&acirc;mara dos<br \/>\n    Srs. Deputados &#8211; augustos e dign&iacute;ssimos representantes da Na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Brasileira. N&atilde;o foi sem espanto que descobri em mim um grande respeito<br \/>\n    por esse alto e vener&aacute;vel of&iacute;cio. Lembrei-me daqueles velhos<br \/>\n    legisladores da lenda e da hist&oacute;ria: os Manus, os Licurgos, os Mois&eacute;s.<br \/>\n    S&oacute;lons, os Numas &#8211; esses nomes todos que os povos agradecidos pela<br \/>\n    fecundidade e pela sabedoria de suas leis reverenciaram por dilatados anos,<br \/>\n    ergueram-nos &agrave; altura de deuses, consagraram-lhes templos magn&iacute;ficos.<\/p>\n<p>Embora n&atilde;o tendo mais a velha cren&ccedil;a de que eles fossem inspirados<br \/>\n    pelos deuses, o meu respeito baseava-se em motivos mais modernos, concordes<br \/>\n    com o feitio de pensar do nosso tempo. Imaginava-os com uma tresdobrada for&ccedil;a<br \/>\n    de sentidos e intelig&ecirc;ncia, podendo prever, adivinhar, sentindo antes<br \/>\n    de expressos os desejos, as necessidades de cada um dos milh&otilde;es de<br \/>\n    entes que sofriam e viviam, que pensavam e amavam pela vasta extens&atilde;o<br \/>\n    da p&aacute;tria. Foi com grande surpresa que n&atilde;o senti naquele dr.<br \/>\n    Castro, quando certa vez estive junto dele, nada que denunciasse t&atilde;o<br \/>\n    poderosas faculdades. Vi-o durante uma hora olhar tudo sem interesse e s&oacute;<br \/>\n    houve um movimento vivo e pr&oacute;prio, profundo e diferencial, na sua pessoa,<br \/>\n    quando passou por perto uma fornida rapariga de grandes ancas, ofuscante de<br \/>\n    sensualidade. Nada nele manifestava que tivesse um forte poder de pensar e<br \/>\n    uma grande for&ccedil;a de imaginar, capazes de analisar as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de vida de gentes que viviam sob c&eacute;us t&atilde;o diferentes e de resumir<br \/>\n    depois o que era preciso para sua felicidade e para o seu bem-estar em leis<br \/>\n    bastante gerais, para satisfazer a um tempo ao jagun&ccedil;o e ao seringueiro,<br \/>\n    ao camarada e ao vaqueano, ao elegante da Rua do Ouvidor e ao semibugre dos<br \/>\n    confins de Mato Grosso. Onde estava nele o poder de observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a simpatia necess&aacute;ria para entrar no mist&eacute;rio daquelas rudes<br \/>\n    almas que o cercavam e o elegiam? Nada transpirava na sua pregui&ccedil;osa<br \/>\n    e ba&ccedil;a personalidade.<\/p>\n<p> Entrando na C&acirc;mara, verifiquei que a grandiosa representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que eu fazia do legislador, n&atilde;o se me tinha diminu&iacute;do com o<br \/>\n    exame da opaca figura do dr. Castro. Era uma exce&ccedil;&atilde;o, mas certamente<br \/>\n    os outros deviam ser quase semi-deuses, mais que homens, pois eu queria-os<br \/>\n    com for&ccedil;a e com faculdades capazes de atender e de pesar t&atilde;o<br \/>\n    v&aacute;rios fatos, t&atilde;o desencontradas considera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tantas e t&atilde;o sutis condi&ccedil;&otilde;es da exist&ecirc;ncia de cada<br \/>\n    e da de todos. Para tirar regras seguras para a vida total desse entrechoque<br \/>\n    de paix&otilde;es, de desejos, de id&eacute;ias e de vontades, o legislador<br \/>\n    tinha que ter a ci&ecirc;ncia da terra e a clarivid&ecirc;ncia do c&eacute;u<br \/>\n    e sentir bem n&iacute;tido o alvo incerto para que marchamos, na bruma do<br \/>\n    futuro fugidio. Quanta penetra&ccedil;&atilde;o! quanto amor! que estudo e<br \/>\n    saber n&atilde;o lhe eram exigidos! Era preciso tudo, tudo! A quiromancia<br \/>\n    e a matem&aacute;tica, a grafologia e a qu&iacute;mica, a teologia e a f&iacute;sica,<br \/>\n    a alquimia!&#8230; Era preciso saber tudo e sentir tudo! Era na verdade um vasto<br \/>\n    e alevantado of&iacute;cio! Pensando, subia a escada da C&acirc;mara dos deputados<br \/>\n    da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos do Brasil. Ao transpor a porta que<br \/>\n    dava para a galeria, vieram-me recorda&ccedil;&otilde;es dos grandes nomes<br \/>\n    que aquela casa vira. Primeiro, as grandes figuras dos Andradas, orgulhosos<br \/>\n    e soberbos, no meio daquela agita&ccedil;&atilde;o dos nossos primeiros anos<br \/>\n    de vida pol&iacute;tica. Foi uma r&aacute;pida evoca&ccedil;&atilde;o: os<br \/>\n    dados hist&oacute;ricos faltavam-me e os da tradi&ccedil;&atilde;o nenhuns<br \/>\n    eram: e eu, no momento, s&oacute; relembrei a calma figura do patriarca que<br \/>\n    os retratos dos comp&ecirc;ndios nos d&atilde;o, e a eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    tumultu&aacute;ria de Ant&ocirc;nio Carlos a que freq&uuml;entemente se alude.<\/p>\n<p> Com mais insist&ecirc;ncia, em seguida, as conversas caseiras fizeram-me<br \/>\n    ver ali vultos mais pr&oacute;ximos dos meus dias. Deles, me falava meu pai,<br \/>\n    em raros dias, quando deixava a reserva eclesi&aacute;stica e narrava paternalmente<br \/>\n    &agrave; minha inf&acirc;ncia curiosa, cenas e fatos da vida pol&iacute;tica<br \/>\n    do Imp&eacute;rio. Foi com palavras suas que me recordei de Cotegipe, &aacute;gil<br \/>\n    e destro de esp&iacute;rito; do impetuoso Silveira Martins, cheio de vigor,<br \/>\n    mas difuso na aplica&ccedil;&atilde;o de sua for&ccedil;a; de Jos&eacute;<br \/>\n    Bonif&aacute;cio, o mo&ccedil;o, com a sua solenidade grandiosa e seus amplos<br \/>\n    per&iacute;odos de grande estilo; mas, sobretudo, do que mais me recordei<br \/>\n    naquele instante, foi da gra&ccedil;a, da eleg&acirc;ncia, da sutileza e da<br \/>\n    medida, desse aticismo que me pintaram em Francisco Otaviano de Almeida Rosa&#8230;<\/p>\n<p> Sentei-me no &uacute;ltimo degrau de uma arquibancada grosseira, junto &agrave;<br \/>\n    balaustrada, tendo embaixo o vazio da sala das sess&otilde;es. Faziam a chamada.<br \/>\n    Ouvi repetir uma chusma de nomes an&oacute;dinos e obscuros. Eu tinha na cabe&ccedil;a<br \/>\n    uma numerosidade de nomes de reis ass&iacute;rios, de fara&oacute;s, de fil&oacute;sofos<br \/>\n    gregos, de generais romanos, de romancistas franceses, de poetas nacionais,<br \/>\n    de navegadores portugueses; entretanto dos legisladores da P&aacute;tria s&oacute;<br \/>\n    um tinha na mem&oacute;ria: era o do dr. Castro, quase meu vizinho! Feita<br \/>\n    a chamada, as bancadas come&ccedil;aram a povoar-se. Junto ao Presidente &#8211;<br \/>\n    a seu lado, nas costas, junto aos secret&aacute;rios &#8211; foi-se fazendo uma<br \/>\n    aglomera&ccedil;&atilde;o imprevista. No espa&ccedil;o desguarnecido entre<br \/>\n    a mesa do Presidente e a primeira das bancadas, havia o tr&acirc;nsito de<br \/>\n    rua freq&uuml;entada; numa porta ao fundo, um ajuntamento de guichet de teatro<br \/>\n    em enchente.<\/p>\n<p> Um grande deputado de &oacute;culos e barba quadrada tonitruou: &quot;Pe&ccedil;o<br \/>\n    a palavra para uma explica&ccedil;&atilde;o pessoal.&quot; O Presidente voltou-se<br \/>\n    para um ajudante em p&eacute;, atr&aacute;s e &agrave; direita, ouviu-o e,<br \/>\n    depois de t&ecirc;-lo ouvido, retrucou. &quot;Tem a palavra o doutor Carlos<br \/>\n    Barromeu.&quot; Com certeza, pensei, esse homem foi ofendido e vai defender-se.<br \/>\n    . &quot;Senhor Presidente&quot;, come&ccedil;ou, &quot;h&aacute; uma patologia<br \/>\n    social como h&aacute; uma individual&#8230;&quot; Em resumo: o seu discurso afirmava<br \/>\n    que o chefe de pol&iacute;cia de Santa Catarina era um homem honesto e o jornalista<br \/>\n    que o insultara, um verme asqueroso e um r&eacute;ptil nojento.<\/p>\n<p> O deputado sentou-se; a desordem aumentou. Encostado &agrave; primeira bancada,<br \/>\n    um rapaz lia um folheto; ao longo da mesa presidencial, na frente, atr&aacute;s,<br \/>\n    dos lados, havia um vaiv&eacute;m continuado. Num momento dado, por entre<br \/>\n    aquela m&oacute; de gente, surgiu toda de branco a h&iacute;brida figura de<br \/>\n    Raul Gusm&atilde;o, com a sua fisionomia de porco Yorkshire e o seu corpo<br \/>\n    alentado de elefante indiano, tendo sempre nos l&aacute;bios aquele sorriso<br \/>\n    afetado, um horroroso r&iacute;ctus, decerto o jeito de sorrir do Pithecanthropus<br \/>\n    erectus.<\/p>\n<p> Um t&iacute;mpano soou forte e rouco; fez-se um pouco de sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    O Presidente disse algumas palavras, das quais as &uacute;ltimas davam a palavra<br \/>\n    ao deputado Jer&ocirc;nimo Fagot. O mi&uacute;do deputado subiu &agrave; tribuna,<br \/>\n    limpou o suor, arrumou os livros ao lado e preparou-se para falar. Fez-se<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, depois de uma infernal contradan&ccedil;a no recinto. Fagot<br \/>\n    come&ccedil;ou: &quot;&Eacute; sabido que a moeda boa expele a m&aacute;.<br \/>\n    Desde 1842, pela lei no 1.425, de 30 de Setembro desse ano, que o meio circulante<br \/>\n    nacional&#8230;&quot; Durante cinco minutos, a C&acirc;mara ouviu-o atenciosamente;<br \/>\n    dentro em breve, por&eacute;m, o zunzum recome&ccedil;ou. N&atilde;o havia<br \/>\n    o ru&iacute;do do come&ccedil;o, mas a desaten&ccedil;&atilde;o era geral.<br \/>\n    Para a mesa da presid&ecirc;ncia enxameava uma multid&atilde;o; o presidente<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o era o mesmo; era um mo&ccedil;o louro e magro.<\/p>\n<p> Parecia que as palavras de Fagot lhe morriam nos l&aacute;bios: movia a<br \/>\n    boca e gesticulava como um doido furioso. Os colegas desapegados da sua eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    dividiam-se em grupos. &Agrave; esquerda, l&aacute; ao longe, quase na minha<br \/>\n    frente, alguns viam cart&otilde;es-postais; um outro, sob os meus p&eacute;s,<br \/>\n    isolado no burburinho, escrevia febrilmente, erguendo, de quando em quando,<br \/>\n    a caneta para pensar; uma roda de tr&ecirc;s, &agrave; esquerda e ao fundo,<br \/>\n    conversava sorrindo; ao fundo, ainda, mas um pouco &agrave; direita, um deputado<br \/>\n    gordo, com o calor que com o correr do dia se fizera forte, esquecido no sono,<br \/>\n    por detr&aacute;s de um par de &oacute;culos azuis, roncava perceptivelmente.<br \/>\n    Fagot falou cerca de meia hora ou mais, e, quando deixou a tribuna, o presidente<br \/>\n    j&aacute; era um terceiro deputado, um velho com pince-nez de aros de ouro.<\/p>\n<p> Preparei-me para sair e, quando voltava as costas para o recinto, vi encostado<br \/>\n    a uma janela no andar do recinto, a figura espertalhona do Senhor Laje da<br \/>\n    Silva. Sa&iacute;mos eu e um outro popular, a quem perguntei: Que faz essa<br \/>\n    gente, hoje, aqui? Que fazem, respondeu-me, sei l&aacute;&#8230; Isto &eacute;,<br \/>\n    explicou-me logo o que fazem sempre: leis. Est&aacute;vamos na rua. O dia<br \/>\n    que amanhecera lindo, e relativamente fresco, esquentara e o calor por aquela<br \/>\n    hora era forte como se estiv&eacute;ssemos em pleno ver&atilde;o.<\/p>\n<p> Atravessei o largo do Pa&ccedil;o. A fachada do velho convento do Carmo<br \/>\n    apresentava uma grande calma; os anos j&aacute; lhe tinham dado a suficiente<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o para suportar o sol terr&iacute;vel dos tr&oacute;picos;<br \/>\n    o cavalo da est&aacute;tua, por&eacute;m, parecia ter um movimento de impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    para lhe fugir aos ardores implac&aacute;veis.<\/p>\n<p> O ar fizera-se rarefeito e percebia-se a poeira que flutuava na sua massa.<br \/>\n    As montanhas de Niter&oacute;i recortavam-se nitidamente sobre o c&eacute;u<br \/>\n    azul e fino, que come&ccedil;ava a ser manchado, l&aacute; no fundo da ba&iacute;a,<br \/>\n    por cima do casario da Alf&acirc;ndega e do Mercado, por grandes pastas de<br \/>\n    nuvens brancas. Ainda pouco familiarizado com o tr&acirc;nsito pesado da rua,<br \/>\n    atravessei a rua Direita cheio de susto, cercando-me de mil cautelas, olhando<br \/>\n    para aqui e para ali, admirado que aquela por&ccedil;&atilde;o de gente trabalhasse<br \/>\n    sob o sol t&atilde;o ardente, sem examinar que valor tinham as suas c&acirc;maras<br \/>\n    e o seu governo. E a facilidade com que as aceitava, pareceu-me sentimento<br \/>\n    mais profundo, mais espont&acirc;neo, mais natural que a minha ponta de cr&iacute;tica<br \/>\n    que j&aacute; come&ccedil;ava a duvidar delas. Aventurei-me pela rua do Ouvidor<br \/>\n    j&aacute; preso a outros pensamentos. Agora, tinha r&aacute;pidas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de minha casa. Por momentos, em face daquelas damas a arrastar toilettes de<br \/>\n    baile pela poeira da rua, lembrei-me dos tristes vestidos de minha m&atilde;e,<br \/>\n    da sua cassa eterna, da sua chita e do seu morim&#8230; Mas n&atilde;o pude continuar<br \/>\n    por a&iacute;. Do interior de um caf&eacute;, o Laje chamou-me. N&atilde;o<br \/>\n    estava s&oacute;; acompanhava-o o doutor Michel Michaelowsky, jornalista brasileiro<br \/>\n    a quem fui apresentado.<\/p>\n<p> &#8211; Do Jornal do Brasil? perguntei.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, senhor. Trabalhei no O Combate, de Bel&eacute;m; na Gazeta<br \/>\n    de Leopoldina; no &quot;Deutsches Tageblatt&quot;, de Blumenau; no &quot;Al-Barid&quot;,<br \/>\n    de S. Paulo e aqui, no Rio, no &quot;Harun-al-Raschid&quot;, &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    da col&ocirc;nia s&iacute;ria. Pretendo, por&eacute;m, acrescentou, entrar<br \/>\n    em breve para o O Globo, onde vou fazer o artigo de fundo e tratarei da pol&iacute;tica<br \/>\n    interna.<\/p>\n<p> &#8211; Escreve em muitas l&iacute;nguas?! &#8211; Em dez.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; extraordin&aacute;rio, fiz eu, n&atilde;o podendo conter a minha<br \/>\n    parva admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Tive sempre sempre muito jeito&#8230; Logo, em menino, pelas primeiras li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de franc&ecirc;s, comecei a escrever&#8230; Depois, houve sempre em mim um desejo<br \/>\n    de ver povos, de andar &agrave; aventura&#8230; Logo que sa&iacute; da universidade,<br \/>\n    parti para a &Iacute;ndia. Queria servir a um Raj&aacute;, mas n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; mais Raj&aacute;s. Fui &agrave; China, ver se entrava como instrutor<br \/>\n    do Ex&eacute;rcito do Vice-rei de Cant&atilde;o. N&atilde;o consegui. Parti<br \/>\n    para o Jap&atilde;o, onde fui chefe de uma f&aacute;brica de p&oacute;lvora&#8230;<br \/>\n    Tenho viajado muito.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; j&aacute; esteve em Paris, Michaelowsky? indagou o padeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Ora! fez o jornalista. Quem j&aacute; n&atilde;o esteve l&aacute;! Estive<br \/>\n    na &Iacute;ndia, em Calcut&aacute;, onde trabalhei do lado do grande Rai Kisto<br \/>\n    &#8211; conhece dr.? &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Quem? indagou o Laje.<\/p>\n<p> &#8211; Rai Kisto Das Pal Beader, um grande jornalista hindu&#8230; Admira-me que<br \/>\n    o dr. n&atilde;o o conhe&ccedil;a; na Europa j&aacute; se fala nele. O professor<br \/>\n    Brugl&eacute;, de Toulouse, cita o seu nome em uma das sua &uacute;ltimas<br \/>\n    obras&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; vivo? indaguei.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Morreu h&aacute; alguns anos.<\/p>\n<p> O caixeiro veio servir-nos caf&eacute; e o jornalista depois de sorver um<br \/>\n    trago, perguntou-me.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; est&aacute; formado? &#8211; Vou matricular-me ainda, respondi sob<br \/>\n    o olhar de censura do Laje da Silva.<\/p>\n<p> &#8211; Direito? &#8211; Medicina&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; mau&#8230; Toda a carreira serve, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O dr. &eacute; formado em Direito? indaguei por minha vez.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Formei-me em l&iacute;nguas orientais e exegese b&iacute;blica,<br \/>\n    na Universidade de S&oacute;fia.<\/p>\n<p> Disfarcei a vontade que me deu de rir, ouvindo t&atilde;o extravagante t&iacute;tulo<br \/>\n    escolar. Havia alguma coisa de opereta, mas o homem era t&atilde;o simp&aacute;tico,<br \/>\n    tinha sido t&atilde;o am&aacute;vel e parecia t&atilde;o ilustrado que me<br \/>\n    esforcei por sujeitar o meu &iacute;mpeto de rir, soltando uma frase &agrave;<br \/>\n    toa: &#8211; Na Europa, o homem de estudo tem campo, sabe onde deve chegar; aqui&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual, dr.! N&atilde;o h&aacute; como a sua terra! A quest&atilde;o &eacute;<br \/>\n    pendurar, quando se entra, a sobrecasaca de cavalheiro no P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car;<br \/>\n    e no mais &#8211; tudo vai &agrave;s mil maravilhas! O padeiro ficou at&ocirc;nito<br \/>\n    com a c&iacute;nica franqueza do julgamento do jornalista. Teve um assomo<br \/>\n    de virtude e objetou pudicamente: &#8211; Nem tanto, doutor! Nem tanto! Olhe que<br \/>\n    ainda h&aacute; homens honestos nesta terra e em altas posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &#8211; o que &eacute; mais raro! O dr. Michaelowsky dardejou-lhe um breve olhar<br \/>\n    sarc&aacute;stico e, expelindo uma longa fuma&ccedil;a cheia de d&uacute;vida<br \/>\n    e de tro&ccedil;a, disse devagar: &#8211; Pode ser, Laje! Quem sabe? S&oacute;,<br \/>\n    subindo a rua movimentada, pus-me a interrogar-me sobre o tal Gregor&oacute;vitch.<br \/>\n    De que nacionalidade era? Que esp&eacute;cie de moralidade seria a sua? Com<br \/>\n    que aquele t&iacute;tulo burlesco de doutor em l&iacute;nguas orientais e<br \/>\n    exegese b&iacute;blica, quem poderia ser ao certo? Um bandido? Um aventureiro<br \/>\n    simplesmente? Ou um homem honesto, de sensibilidade, pronto a fatigar-se logo<br \/>\n    o espet&aacute;culo di&aacute;rio e que por isso corria o mundo? Quem seria?<br \/>\n    E jornalista! Jornalista em dez l&iacute;nguas desencontradas! Mas era simp&aacute;tico<br \/>\n    o diabo, de fisionomia inteligente&#8230;<\/p>\n<p> Subia a rua. Evitando os grupos parados no centro e nas cal&ccedil;adas,<br \/>\n    eu ia caminhando como quem navega entre escolhos, recolhendo frases soltas,<br \/>\n    ditos, pilh&eacute;rias e grossos palavr&otilde;es tamb&eacute;m. Cruzava<br \/>\n    com mulheres bonitas e feias, grandes e pequenas, de plumas e la&ccedil;arotes,<br \/>\n    farfalhantes de sedas; eram como grandes e pequenas embarca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    movidas por um vento brando que lhes enfunasse igualmente o velame. Se uma<br \/>\n    ro&ccedil;ava por mim, eu ficava entontecido, agradavelmente entontecido dentro<br \/>\n    da atmosfera de perfumes que exalava. Era um gozo olh&aacute;-las, a elas<br \/>\n    e &agrave; rua, com sombra protetora, marginada de altas vitrinas atapetadas<br \/>\n    de j&oacute;ias e de sedas macias.<\/p>\n<p> Eu parava diante de uma e de outra, fascinado por aquelas coisas fr&aacute;geis<br \/>\n    e caras. As botinas, os chap&eacute;us petulantes, as linhas das roupas brancas,<br \/>\n    as gravatas ligeiras, pareciam dizer-me: Veste-me, &oacute; idiota! n&oacute;s<br \/>\n    somos a civiliza&ccedil;&atilde;o, a honestidade, a considera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a beleza e o saber. Sem n&oacute;s n&atilde;o h&aacute; nada disso; n&oacute;s<br \/>\n    somos, al&eacute;m de tudo, a majestade e o dom&iacute;nio! O ru&iacute;do<br \/>\n    de uma fanfarra militar, enchendo a rua, veio agitar a multid&atilde;o que<br \/>\n    passava. As janelas povoaram-se e os grupos arrimaram-se &agrave;s paredes<br \/>\n    e &agrave;s portas das lojas. S&atilde;o os fuzileiros, disse algu&eacute;m<br \/>\n    que ouvi. O batalh&atilde;o come&ccedil;ou a passar: na frente os pequenos<br \/>\n    garotos; depois a m&uacute;sica esturgindo a todo o pulm&atilde;o um dobrado<br \/>\n    canalha. Logo em seguida o Comandante, mal disfar&ccedil;ando o azedume que<br \/>\n    lhe causava aquela inocente exibi&ccedil;&atilde;o militar. Veio por fim o<br \/>\n    batalh&atilde;o. Os oficiais muito cheios de si, arrogantes, apurando a sua<br \/>\n    eleg&acirc;ncia militar; e as pra&ccedil;as bambas, moles e tr&ocirc;pegas<br \/>\n    arrastando o passo sem amor, sem convic&ccedil;&atilde;o, indiferentemente,<br \/>\n    passivamente, tendo as carabinas mort&iacute;feras com as baionetas caladas,<br \/>\n    sobre os ombros, como um instrumento de castigo. Os oficiais pareceram-me<br \/>\n    de um pa&iacute;s e as pra&ccedil;as de outro. Era como se fosse um batalh&atilde;o<br \/>\n    de sipaios ou de atiradores senegaleses.<\/p>\n<p> Era talvez a primeira vez que eu vi a for&ccedil;a armada de meu pa&iacute;s.<br \/>\n    Dela, s&oacute; tinha at&eacute; ent&atilde;o vagas not&iacute;cias. Uma,<br \/>\n    quando encontrei, num portal de uma venda, semi-embriagado, vestido escandalosamente<br \/>\n    de uma maneira hibridamente civil e militar, um velho soldado; a outra, quando<br \/>\n    vi a vi&uacute;va do General Bernardes receber na Coletoria um conto e tanto<br \/>\n    de pens&otilde;es a v&aacute;rios t&iacute;tulos, que lhe deixara o marido,<br \/>\n    um pl&aacute;cido general que envelhecera em v&aacute;rias comiss&otilde;es<br \/>\n    pac&iacute;ficas e bem retribu&iacute;das&#8230;<\/p>\n<p> O batalh&atilde;o passou de todo; e at&eacute; a pr&oacute;pria bandeira<br \/>\n    que passara, me deixou perfeitamente indiferente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\"> IV<\/a><\/h4>\n<p>Se os senhores algum dia quiserem encontrar um representante da grande na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    brasileira, n&atilde;o o procurem nunca na sua resid&ecirc;ncia. Seja a hora<br \/>\n    que for, de manh&atilde;, ao amanhecer mesmo, &agrave; hora de jantar, quando<br \/>\n    quiserem enfim, se o procurarem, o criado h&aacute; de dizer-lhes secamente:<br \/>\n    N&atilde;o est&aacute;. Falo-lhes de experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, porque,<br \/>\n    durante as in&uacute;meras vezes, a toda a hora do dia, em que fui ao Hotel<br \/>\n    T&eacute;rminus procurar o deputado Castro, apalpando a carta do Coronel,<br \/>\n    tive o desprazer de ouvir estas duas palavras do porteiro indiferente. Nas<br \/>\n    &uacute;ltimas vezes, antes mesmo de acabar a pergunta, j&aacute; o homenzinho<br \/>\n    respondia invariavelmente da mesma desesperadora forma negativa.<\/p>\n<p> &Eacute; bem f&aacute;cil de imaginar com que sorte de cogita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eu ia passando esses dias. O meu dinheiro dentro em breve, pago o hotel, ficaria<br \/>\n    reduzido a alguns mil-r&eacute;is insignificantes. N&atilde;o conhecia ningu&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o tinha a m&iacute;nima rela&ccedil;&atilde;o que me pudesse socorrer,<br \/>\n    dar-me qualquer coisa, casa ao menos, at&eacute; que me arranjasse. Sa&iacute;ra<br \/>\n    de meus penates, cheio de entusiasmo, certo de que aquela carta, mal fosse<br \/>\n    apresentada, me daria uma situa&ccedil;&atilde;o qualquer. Era essa a minha<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o, dos meus e do pr&oacute;prio Coronel. Tinha-se l&aacute;,<br \/>\n    por aquelas alturas, em grande conta a for&ccedil;a do doutor Castro nas decis&otilde;es<br \/>\n    dos governantes e a influ&ecirc;ncia do velho fazendeiro sobre o &acirc;nimo<br \/>\n    do deputado.<\/p>\n<p> N&atilde;o era ele o seu grande eleitor? N&atilde;o era ele o seu banqueiro<br \/>\n    para os efeitos eleitorais? E n&oacute;s, l&aacute; na ro&ccedil;a, t&iacute;nhamos<br \/>\n    quase a convic&ccedil;&atilde;o de que o verdadeiro deputado era o Coronel<br \/>\n    e o doutor Castro um simples preposto seu. As minhas idas e vindas ao hotel<br \/>\n    repetiam-se e n&atilde;o o encontrava. Vinham-me ent&atilde;o os terrores<br \/>\n    sombrios da falta de dinheiro, da falta absoluta. Voltava para o hotel taciturno,<br \/>\n    preocupado, cortado de ang&uacute;stias. Sentia-me s&oacute;, s&oacute; naquele<br \/>\n    grande e imenso formigueiro humano, s&oacute;, sem parentes, sem amigos, sem<br \/>\n    conhecidos que uma desgra&ccedil;a pudesse fazer amigos. Os meus &uacute;nicos<br \/>\n    amigos eram aquelas notas sujas, encardidas; eram elas o meu &uacute;nico<br \/>\n    apoio; eram elas que me evitavam as humilha&ccedil;&otilde;es, os sofrimentos,<br \/>\n    os insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas, quando as dava<br \/>\n    ao condutor do bonde, ao homem do caf&eacute;, era como se perdesse um amigo,<br \/>\n    era como se me separasse de uma pessoa bem-amada&#8230; Eu nunca compreendi tanto<br \/>\n    a avareza como naqueles dias que dei alma ao dinheiro, e o senti t&atilde;o<br \/>\n    forte para os elementos da nossa felicidade externa ou interna&#8230;<\/p>\n<p> A minha ignor&acirc;ncia de viver e falta de experi&ecirc;ncia quase deixavam<br \/>\n    transparecer a natureza das minhas preocupa&ccedil;&otilde;es. O gerente do<br \/>\n    hotel pareceu-me que as farejava. De quando em quando, procurava na conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amedrontar-me com o seu poderio, proveniente de estreitas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que mantinha com as autoridades. Assim entendi ser o sentido das anedotas<br \/>\n    que contava. Uma vez &#8211; narrou ele &#8211; depois de uma longa hospedagem, um h&oacute;spede<br \/>\n    quisera furtar-se ao pagamento. N&atilde;o tivera d&uacute;vidas, fora ao<br \/>\n    delegado-auxiliar, um seu amigo, o doutor Arnolpho, contara-lhe o caso e o<br \/>\n    homem teve que pagar, se quis tirar as malas. Com ele, era assim; n&atilde;o<br \/>\n    dormia. Nada de justi&ccedil;a, de pretorias&#8230; Qual! Com a pol&iacute;cia<br \/>\n    a coisa vai mais depressa, a quest&atilde;o &eacute; ter amigos bons e ele<br \/>\n    tinha-os excelentes; e, em seguida, interrogando-me diretamente: O senhor<br \/>\n    n&atilde;o viu, ontem, aquele homem gordo que jantou na cabeceira? &Eacute;<br \/>\n    o escriv&atilde;o da &quot;X&quot;. Os escriv&atilde;es, fique o senhor sabendo,<br \/>\n    &eacute; que s&atilde;o as verdadeiras autoridades. Os delegados n&atilde;o<br \/>\n    fazem sen&atilde;o o que eles querem; tecem os pauzinhos e&#8230; E o italiano<br \/>\n    rematou com um olhar canalha aquela sua informa&ccedil;&atilde;o sobre a onipot&ecirc;ncia<br \/>\n    dos escriv&atilde;es.<\/p>\n<p> Foram de imensa ang&uacute;stia esses meus primeiros dias no Rio de Janeiro.<br \/>\n    Eu era como uma &aacute;rvore cuja raiz n&atilde;o encontra mais terra em<br \/>\n    que se apoie e donde tire vida; era como um molusco que perdeu a concha protetora<br \/>\n    e que se v&ecirc; a toda a hora esmagado pela menor press&atilde;o.<\/p>\n<p> Oprimido com uma antevis&atilde;o de mis&eacute;rias a passar, de humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a tragar, o meu esp&iacute;rito deformava tudo que via. Os menores fatos que<br \/>\n    lhe ca&iacute;am ao alcance, eram aumentados de um lado, diminu&iacute;dos<br \/>\n    de outro; fazia-se outra coisa muito diversa para minha sensibilidade enfermi&ccedil;a,<br \/>\n    que a imagina&ccedil;&atilde;o guiava para sentir todos os terrores e amea&ccedil;as.<br \/>\n    Perdia a realidade da vista e vivia subdelirante num mundo de coisas grotescas,<br \/>\n    absurdas e n&atilde;o existentes. Punha-me a apelar para o Acaso, como se<br \/>\n    tivesse predile&ccedil;&otilde;es. Esperava encontrar fortunas perdidas, imaginava<br \/>\n    imposs&iacute;veis combina&ccedil;&otilde;es de acontecimentos que me favorecessem<br \/>\n    e cheguei mesmo, por instantes, a supor que atos de generosidade de minha<br \/>\n    parte bem podiam trazer-me o favor de g&ecirc;nios benfazejos. Pelo correr<br \/>\n    do dia, depois do almo&ccedil;o, quando me vinha o pensamento da minha situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    entrava no jardim, dia alto e morno. Aqui e ali, gozando o vi&ccedil;o educado<br \/>\n    do parque, encontrava fisionomias fatigadas, tristes, tendo estampadas na<br \/>\n    comissura dos l&aacute;bios sem for&ccedil;as a irrepar&aacute;vel derrota<br \/>\n    na vida. Ao sol do meio-dia, dormitavam pelos bancos, sob a sombra de &aacute;rvores<br \/>\n    vigorosas. Sentava-me por minha vez, sonhava alguns minutos, em seguida catava<br \/>\n    com o olhar o ch&atilde;o, esquadrinhava-o bem. Era ent&atilde;o com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    palpitante que me abaixava junto &agrave; relva para levantar do ch&atilde;o<br \/>\n    uma velha caixa de f&oacute;sforos, lavada e desbotada pelas chuvas, j&aacute;<br \/>\n    sem r&oacute;tulo, humilde objeto que tenazmente resistira &agrave;s vassouradas<br \/>\n    e &agrave;s intemp&eacute;ries para atrair o meu olhar maravilhoso. Como se<br \/>\n    fosse um furto, um crime, apanhava-a a medo e, depois de inspecionar com cuidado<br \/>\n    os arredores, abria-a com respeito, comovido, tr&ecirc;mulo, esperando &#8211; oh!<br \/>\n    meu Deus! &#8211; que dentro dela houvesse uma nota de quinhentos mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p> Oh! quantas vezes n&atilde;o apelei para o Acaso, para o Milagre! Quantas!<br \/>\n    Os deuses vinham-me ao pensamento com o seu indispens&aacute;vel cortejo de<br \/>\n    fadas e de anjos&#8230; Uma noite, andando eu deambulando por umas ruas desertas<br \/>\n    do interior da cidade, fui dar n&atilde;o sei a que pra&ccedil;a, em que havia<br \/>\n    ao fundo uma grande casa; ia distra&iacute;do, completamente entregue &agrave;s<br \/>\n    minhas preocupa&ccedil;&otilde;es, cabisbaixo, quando algu&eacute;m me tomou<br \/>\n    os passos e me falou com uma voz de apiedar. Era uma mulher andrajosa; parei<br \/>\n    e ouvia-a. Balbuciante, contou-me mis&eacute;rias, a fome dos filhos, mol&eacute;stias,<br \/>\n    por fim, n&atilde;o p&ocirc;de mais falar &#8211; prorrompeu em choro&#8230; Evoquei<br \/>\n    logo aquelas hist&oacute;rias de fadas e gnomos, aquelas hist&oacute;rias<br \/>\n    morais em que os g&ecirc;nios misteriosos v&ecirc;m pela Terra em disfarce,<br \/>\n    para experimentar os cora&ccedil;&otilde;es dos mortais e eu&#8230; e eu dei uma<br \/>\n    nota de esmola uma nota gra&uacute;da que me sangrou fortemente a algibeira<br \/>\n    linf&aacute;tica. Mesmo depois que sa&iacute; daquela pra&ccedil;a erma, e<br \/>\n    que de mim se foi a como&ccedil;&atilde;o da surpresa, eu esperei a recompensa,<br \/>\n    a recompensa dos c&eacute;us para aquele meu ato generoso. Alternativamente<br \/>\n    apelava para o Mist&eacute;rio e para as pot&ecirc;ncias terrestres. Aferrara-me<br \/>\n    a duas amarras, uma no Mist&eacute;rio e outra nas coisas do mundo. Todo o<br \/>\n    dia ia ao hotel, cheio de alacridade, figurando comigo mesmo o encontro com<br \/>\n    o deputado, imaginava-lhe a bondade do acolhimento, a piedade e a simpatia<br \/>\n    pelo meu estado e pelos meus desejos. Imaginava-me da&iacute; a dias empregado,<br \/>\n    num lugar modesto, de renda certa, dentro de um m&ecirc;s indo &agrave; faculdade,<br \/>\n    as atribui&ccedil;&otilde;es do trote, os apertos do Exame, os anos seguindo-se,<br \/>\n    as notas, os lentes, a tese, a formatura.<\/p>\n<p> Ia assim risonho, cheio de mim, contente de viver, chegava ao hotel, falava<br \/>\n    ao porteiro e voltava amargurado sobre os meus passos felizes. De tarde, repetia<br \/>\n    a visita, e mais uma vez voltava desalentado, para ficar na janela do hotel<br \/>\n    desanimado, oprimido de saudades do sossego, da quietude, da seguran&ccedil;a<br \/>\n    do meu lar origin&aacute;rio. Era quando me encontrava com os outros h&oacute;spedes.<br \/>\n    Laje da Silva andava sempre fora, mas os outros l&aacute; estavam depois do<br \/>\n    jantar. Ao p&ocirc;r-me &agrave; janela, l&aacute; vinha o velho Coronel Figueira,<br \/>\n    um fazendeiro, sem bigode, &agrave; antiga portuguesa, cheio de mansid&atilde;o<br \/>\n    na voz e orgulho no tratar.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; vendo a tarde, hein, menino? &#8211; Estou.<\/p>\n<p> &#8211; Como isto est&aacute; mudado! Conheci quando ainda era um brejo, um dep&oacute;sito<br \/>\n    de cisco&#8230; Havia barrancos, covas, capinzais&#8230; As lavadeiras faziam disto<br \/>\n    coradouro&#8230; Acol&aacute; (apontou) estava o teatro, o Provis&oacute;rio&#8230;<br \/>\n    Oh! o Provis&oacute;rio&#8230; Eu me lembro que&#8230; (eu era muito rapaz, muito&#8230;)<br \/>\n    Vim com meu pai assistir &agrave; &quot;Son&acirc;mbula&quot;&#8230; Nunca vi<br \/>\n    uma sala t&atilde;o bonita&#8230; A Stoltz cantava&#8230; Nunca ouviu falar nela?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor! E perguntei logo: O senhor &eacute; do Rio? &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    mas vinha quase sempre aqui. Meu pai tinha fazenda na Raiz da Serra&#8230; Hoje,<br \/>\n    aquilo n&atilde;o vale nada, mas no tempo dele a estrada a n&atilde;o tinha<br \/>\n    matado e era lugar rico&#8230; Conhe&ccedil;o muito o Rio&#8230; Quando fui para o<br \/>\n    Sul em 65, passei por aqui&#8230; O Imperador veio ver o desfilar do batalh&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Eu ia triste, pensava em morrer&#8230; N&atilde;o morri, voltei, estou aqui&#8230;<br \/>\n    Est&aacute; tudo mudado: aboli&ccedil;&atilde;o, rep&uacute;blica&#8230; Como<br \/>\n    isso mudou! Ent&atilde;o de uns tempos para c&aacute;, parece que essa gente<br \/>\n    est&aacute; doida; botam abaixo, demolem casas, levantam outras, tampam umas<br \/>\n    ruas, abrem outras&#8230; Est&atilde;o doidos!!! &#8211; H&aacute; quanto tempo n&atilde;o<br \/>\n    vem ao Rio, coronel? &#8211; Desde 1882.<\/p>\n<p> Semivazios, os bondes passavam ao chouto das bestas. Pelas cal&ccedil;adas,<br \/>\n    um vaiv&eacute;m de gente animava a pra&ccedil;a. &Agrave; direita, a grande<br \/>\n    e aca&ccedil;apada fachada do quartel-general come&ccedil;ava a recolher-se<br \/>\n    na sombra. Mulheres maltrapilhas, aos grupos, negras, mulatas, brancas, bamboleando<br \/>\n    as ancas, eram seguidas por soldados gingando. As cal&ccedil;as pareciam mais<br \/>\n    vermelhas e as mulheres mais sujas. Um coche de enterro arrancava respeitosamente<br \/>\n    os chap&eacute;us aos transeuntes; um caminh&atilde;o, pejado de fardos, por<br \/>\n    instantes interceptava a marcha dos bondes, ao desviar-se de uma andorinha<br \/>\n    que vomitava m&oacute;veis, mal suspensos por cordas &agrave; sua traseira&#8230;<br \/>\n    Passava tudo isto sob os meus olhos tristes e desalentados.<\/p>\n<p> O Coronel tinha-se ido; e eu deixava-me a ver e a meditar na solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do meu problema de vida. O meu olhar ia de baixo para o alto, onde flocos<br \/>\n    de nuvens alvadias, esgar&ccedil;adas, flutuavam e se tingiam de ouro, de<br \/>\n    p&uacute;rpura, de laranja, em r&aacute;pidas muta&ccedil;&otilde;es de teatro.<br \/>\n    Vinha a noite aos poucos e eu continuava a pensar, acariciando cismas, excitando<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es, rememorando a minha inf&acirc;ncia, as fisionomias<br \/>\n    que ela viu e os fatos que presenciou. Meu pai, o seu corpo anguloso, seco,<br \/>\n    a sua dor contida, que se escapava no seu olhar e na sua fisionomia transtornada.<br \/>\n    Via-os &agrave;s tardes, nos dias de bom humor, mud&aacute;-la de chofre,<br \/>\n    fazer-se risonho, vir para mim, sentar-se &agrave; mesa, e, &agrave; luz do<br \/>\n    lampi&atilde;o de querosene, explicar-me pitorescamente as li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do dia seguinte. Ou ent&atilde;o, da cadeira de balan&ccedil;o, contar-me<br \/>\n    as maravilhosas coisas do movimento da Terra, dos ant&iacute;podas, da gravita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    universal, e, enleado, minha pergunta se Deus podia parar a Terra, responder<br \/>\n    com hesita&ccedil;&atilde;o &#8211; Pode, sim.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas, depois dessas efus&otilde;es, dessa raras manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da sua paternidade, minha m&atilde;e punha, na mesa da sala de jantar, o ch&aacute;<br \/>\n    que ele tomava em geral sozinho no quarto.<\/p>\n<p> &#8211; Pode tirar o ch&aacute;, &quot;seu&quot; padre? &#8211; Pode, minha filha.<\/p>\n<p> Era assim que se falavam. Encontrei sempre esse tratamento distante entre<br \/>\n    eles. Pareceu-me que o seu encontro fora r&aacute;pido, o bastante para me<br \/>\n    dar nascimento. Uma crise violenta do sexo fizera esquecer os votos de seu<br \/>\n    sacerd&oacute;cio, vencera a sua vontade, mas, passada ela, viera, com o arrependimento<br \/>\n    da quebra do seu voto, a dor inqualific&aacute;vel de n&atilde;o poder confessar<br \/>\n    a sua paternidade.<\/p>\n<p> Ele amou-me sempre, talvez me quisesse mais por causa das condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que envolviam o meu nascimento. Em p&uacute;blico, olhava-me de soslaio, media<br \/>\n    as car&iacute;cias, esfor&ccedil;ava-se por faz&ecirc;-las banais; em casa,<br \/>\n    por&eacute;m, quando n&atilde;o havia testemunhas, beijava-me e afagava-me<br \/>\n    com transporte. Ele temia o murm&uacute;rio, temia dar-lhe for&ccedil;a com<br \/>\n    os atos ou palavras p&uacute;blicas; entretanto toda a redondeza quase seria<br \/>\n    capaz de atestar em papel timbrado a minha filia&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Vinha o ch&aacute;, n&oacute;s fic&aacute;vamos a toma-lo e ao menor ru&iacute;do<br \/>\n    minha m&atilde;e vinha do interior da casa para saber se meu pai queria alguma<br \/>\n    coisa. Acabado o ch&aacute;, eu ainda ouvia hist&oacute;rias da tia Benedita,<br \/>\n    uma preta velha, antiga escrava do meu reverendo pai. Eram c&acirc;ndidas<br \/>\n    hist&oacute;rias da Europa, causas delicadas de paix&otilde;es de pr&iacute;ncipes<br \/>\n    e pastoras formosas que a sua imagina&ccedil;&atilde;o selvagem transformava<br \/>\n    ou exertava com combates de g&ecirc;nios maus, com malef&iacute;cios de feiticeiras,<br \/>\n    toda uma ronda de for&ccedil;as poderosas e inimigas da vida feliz dos homens.<br \/>\n    Tal fora a minha inf&acirc;ncia, que, nas dobras da saudade, aquela tarde<br \/>\n    carregada de cogita&ccedil;&otilde;es vitais &agrave; minha vida, me vinha<br \/>\n    trazendo &agrave; mem&oacute;ria com uma nitidez assombrosa. Cansado de olhar<br \/>\n    a rua e de pensar, desci ao pavimento t&eacute;rreo, &agrave; sala de jantar<br \/>\n    onde o Coronel Figueira e o Senhor Laje da Silva conversavam. Mal entrava,<br \/>\n    prazenteiramente, este exclamou: &#8211; Oh doutor! Era assim sempre que ele falava<br \/>\n    ao encontrar-me. Tinha sempre aten&ccedil;&otilde;es, pequenas delicadezas;<br \/>\n    tratava-me como se eu fosse um &quot;doutor&quot; de fato, com influ&ecirc;ncia,<br \/>\n    inquirindo sobre os meus amigos e as minhas rela&ccedil;&otilde;es. Se me<br \/>\n    encontrava na rua, obsequiava-me, apresentava-me aos amigos, gabava-me o talento<br \/>\n    de que ele n&atilde;o tinha a m&iacute;nima not&iacute;cia. Quase sempre pela<br \/>\n    conversa, indagava das minhas amizades, das minhas rela&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    se eu era colega de F., se me dava com Beltrano, se estudava isto ou aquilo.<br \/>\n    Eu respondia-lhe simplesmente, ingenuamente que n&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    conhecia ningu&eacute;m a n&atilde;o ser o doutor Castro, o deputado. Ele<br \/>\n    n&atilde;o deixava transpirar nada, nem uma contra&ccedil;&atilde;o, nem uma<br \/>\n    ruga que fizesse descobrir como recebia essas minhas respostas; mas tamb&eacute;m<br \/>\n    em coisa alguma modificava o tratamento; continuava a ser o mesmo, o mesmo<br \/>\n    Laje da Silva, mesuroso, af&aacute;vel, informado e loquaz a seu jeito. N&atilde;o<br \/>\n    sei o que esperava de mim, o certo &eacute; que, durante os meus primeiros<br \/>\n    dias no Rio, recebi dele as mais respeitosas homenagens, as maiores considera&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Embora ensoberbecesse a minha vaidade de colegial, eu continuava a sentir<br \/>\n    no padeiro muito de desonesto, de falcatrueiro, para me ligar inteiramente<br \/>\n    a ele. Evitava-o, fugia-lhe, mas n&atilde;o tinha coragem para lhe dar a entender<br \/>\n    francamente que n&atilde;o lhe queria a amizade. Aceitava-lhe as homenagens,<br \/>\n    os refrescos, conversava, mas sempre com um pequeno medo de que ele me metesse<br \/>\n    n&#8217;alguma embrulhada com a pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> Foi com grande surpresa que o encontrei: supunha-o fora e n&atilde;o pude<br \/>\n    reprimir o espanto que isso me causara. Ele n&atilde;o se alterou, respondeu-me<br \/>\n    cheio de bonacheirice: &#8211; &Eacute; verdade, doutor&#8230; sim, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    nada que fazer&#8230; tudo por a&iacute; est&aacute; explorado&#8230; Uma mis&eacute;ria!<br \/>\n    J&aacute; se colocou? A pergunta desagradava-me e ele fazia-ma sempre. Ensaiei<br \/>\n    diversas respostas e por fim respondi-lhe capaciosamente: &#8211; Ainda n&atilde;o;<br \/>\n    mas dentro em breve, creio&#8230;<\/p>\n<p> O Coronel Figueira, que falava quando entrei, desejoso de continuar a palestra<br \/>\n    interrompida, logo que percebeu acabados os cumprimentos, dirigiu-se a mim<br \/>\n    de supet&atilde;o: &#8211; Dr., pode haver ladroeira na loteria? Pensei um instante,<br \/>\n    mas sem encontrar base para uma resposta segura, respondi dubitativamente:<br \/>\n    &#8211; Pode.<\/p>\n<p> E logo o velho Coronel, com a sua voz nasal e cheia, em que havia no momento<br \/>\n    uma grande satisfa&ccedil;&atilde;o: &#8211; Eu n&atilde;o dizia?&#8230; &Eacute;, sim&#8230;<br \/>\n    Como n&atilde;o pode? &#8211; Mas por que, coronel? Ent&atilde;o explicou-me que<br \/>\n    discutia isso com Laje e como ele me soubesse um rapaz preparado, apelara<br \/>\n    para mim.<\/p>\n<p> &#8211; Mas como pode haver ladroeira&#8230; &Eacute; imposs&iacute;vel&#8230; As rodas<br \/>\n    s&atilde;o examinadas, suspensas do solo&#8230; Se houvesse qualquer fio, dava-se<br \/>\n    logo com ele &#8211; n&atilde;o acha? &#8211; Mas ent&atilde;o, &quot;seu&quot; Laje,<br \/>\n    como explica que o &quot;gato&quot; possa ficar &quot;preso&quot; tr&ecirc;s<br \/>\n    meses? &#8211; &Eacute; a sorte, objetou Laje.<\/p>\n<p> &#8211; Qual sorte, fez o Coronel furioso. &Eacute; bandalheira; &eacute; eletricidade&#8230;<br \/>\n    Ningu&eacute;m me tira disso&#8230; Olhe: h&aacute; vinte dias sigo a &quot;Borboleta&quot;&#8230;<br \/>\n    Dava sempre, agora n&atilde;o d&aacute; mais&#8230; Vejo os jornais, a Joaninha,<br \/>\n    a Chapinha, compro o Palpite, a Mascote, a Ronda &#8211; todos d&atilde;o a &quot;Borboleta&quot;.<br \/>\n    Jogo&#8230; &quot;Borboleta&quot; n&atilde;o d&aacute;. Fa&ccedil;a o favor, doutor,<br \/>\n    veja aqui o Jornal do Brasil.<\/p>\n<p> Desdobrou com cuidado a folha popular e apresentou-me o lugar em posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conveniente. Eu n&atilde;o cogitava que aquele assunto pudesse apaixonar t&atilde;o<br \/>\n    intensamente o velho Coronel que me parecia ser um homem rico; mesmo n&atilde;o<br \/>\n    entendia daquilo, mas embora admirado e fora de mat&eacute;ria, prestei-me<br \/>\n    graciosamente: &#8211; Procure, disse ele, &agrave; esquerda o n&uacute;mero 154&#8230;<br \/>\n    Viu? &#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Junte o &quot;Peru&quot;&#8230; N&atilde;o &eacute; &quot;Peru&quot; que est&aacute;<br \/>\n    pintado? &#8211; &Eacute;&#8230; Mas como? &#8211; Junte o &quot;Peru&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; Como? &#8211; Ora, some o &quot;Peru&quot;, grupo 20.<\/p>\n<p> &#8211; Ahn! 174.<\/p>\n<p> &#8211; Inverta.<\/p>\n<p> &#8211; 471.<\/p>\n<p> &#8211; Qual! nada! 714, borboleta &#8211; n&atilde;o &eacute;? E sem esperar a resposta<br \/>\n    continuou: Est&aacute; a&iacute; o jornal d&aacute;, a gazeta d&aacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    e o bicho n&atilde;o sai h&aacute; vinte dias&#8230; O dr. n&atilde;o joga? &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; N&atilde;o gosto; depois, &eacute; proibido.<\/p>\n<p> &#8211; Proibido! A pol&iacute;cia! exclamou Laje.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; isso, fiz eu vexado daquela minha confiss&atilde;o.<br \/>\n    Temo perder dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, bom! Diga isso! Pela pol&iacute;cia, n&atilde;o; ela vive com os bicheiros&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o serve pra nada, fique certo.<\/p>\n<p> &#8211; Eu pensava que&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual! Para o que foi feita, n&atilde;o serve. Serve para perseguir, executar<br \/>\n    vingan&ccedil;as, como eu j&aacute; fui&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O senhor! dissemos os dois a um s&oacute; tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Exato! eu! exclamou um tanto exaltado.<\/p>\n<p> &#8211; Como! &#8211; Ora, como?! Uma cilada&#8230; Vinha no trem, e, num dado lugar, um<br \/>\n    sujeito sentou-se a meu lado e p&ocirc;s o seu chap&eacute;u de sol junto<br \/>\n    &agrave; janela. Eu viajava desse lado. Saltou e levou o meu, deixando o dele.<br \/>\n    Quando chegamos, entrou pelo trem um magote de policiais, prenderam-me, revistaram-me<br \/>\n    e foram dar com o tal chap&eacute;u cheio de notas falsas de cem mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8211; Foi preso? &#8211; Preso, s&oacute;?! Fui esbordoado, metido numa enxovia, gastei<br \/>\n    dinheiro&#8230; O diabo! E sabe por que tudo isso? &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Porque eu apoiava a oposi&ccedil;&atilde;o l&aacute; no meu munic&iacute;pio&#8230;<br \/>\n    &Eacute; isso: a pol&iacute;cia, no Brasil&#8230; Eu posso falar: sou brasileiro&#8230;<br \/>\n    A pol&iacute;cia no Brasil s&oacute; serve para exercer vigan&ccedil;as, e<br \/>\n    mais nada.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o processou as autoridades, &quot;seu&quot; Laje? perguntei.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, menino! voc&ecirc; &eacute; muito ing&ecirc;nuo&#8230; Cr&ecirc; na<br \/>\n    justi&ccedil;a, ora! &#8211; O Coronel Figueira continuou as suas queixas contra<br \/>\n    as loterias e eu aproveitei uma calma na conversa para me retirar. Conforme<br \/>\n    o meu h&aacute;bito roceiro, dormia cedo. Dirigi-me logo para o quarto. A<br \/>\n    minha situa&ccedil;&atilde;o obcecava-me. Se n&atilde;o arranjasse o emprego,<br \/>\n    que faria? Vinha-me sempre essa pergunta, depois afigurava-se-me imposs&iacute;vel<br \/>\n    a sua condicional. N&atilde;o era a carta de pessoa influente?! Por que n&atilde;o<br \/>\n    havia de obter o emprego? Se at&eacute; ent&atilde;o eu n&atilde;o lograra<br \/>\n    falar ao deputado, a culpa era minha: n&atilde;o lhe indagara os costumes;<br \/>\n    n&atilde;o sabia ao certo a que horas se recolhia ou sa&iacute;a. Devia t&ecirc;-lo<br \/>\n    feito com cuidado e n&atilde;o limitar-me a ir l&aacute; todos os dias, &agrave;s<br \/>\n    mesmas horas, como estava fazendo h&aacute; tantos dias. E logo conclu&iacute;:<br \/>\n    amanh&atilde;, ao acordar-me, posto-me &agrave; porta do hotel; ficarei l&aacute;<br \/>\n    o dia inteiro at&eacute; v&ecirc;-lo sair ou entrar, e ent&atilde;o, cheio<br \/>\n    de decis&atilde;o, abord&aacute;-lo-ei como o meu estado exige. Fiquei admirado<br \/>\n    de que um alvitre t&atilde;o simples s&oacute; me tivesse lembrado tantos<br \/>\n    dias depois. Deitado, tive uma imensa alegria, de quem acaba de descobrir<br \/>\n    a solu&ccedil;&atilde;o de um problema, que preocupa a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quatro gera&ccedil;&otilde;es de s&aacute;bios. Dormi satisfeito, de um<br \/>\n    sono profundo e sem sonhos. Pela manh&atilde;, prescindi o caf&eacute; e pus-me<br \/>\n    a caminho.<\/p>\n<p> O hotel T&eacute;rminus estava ainda fechado. Esperei junto a um caf&eacute;<br \/>\n    aberto. Da&iacute; a instantes, aproximou-se da porta a carrocinha que vai<br \/>\n    ao mercado. Da bol&eacute;ia, saltou um rapazinho vivaz, simp&aacute;tico<br \/>\n    e ligeiro, com o cocheiro e veio em dire&ccedil;&atilde;o ao caf&eacute;.<br \/>\n    Tomei-lhe os passo e perguntei-lhe pelo dr. Castro.<\/p>\n<p> &#8211; O deputado? &#8211; Sim! O deputado&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mora, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida; mas quase nunca dorme no hotel.<br \/>\n    L&aacute; &eacute; sua resid&ecirc;ncia oficial; mas de fato onde ele mora,<br \/>\n    &eacute; na Rua dos Irm&atilde;os Ara&uacute;jos, 27, Vila Isabel.<\/p>\n<p> &#8211; U&eacute;! Por qu&ecirc;? &#8211; O senhor &eacute; do Rio? fez, sem responder-me<br \/>\n    diretamente o criado.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; se vendo, se n&atilde;o n&atilde;o se admirava. O senhor sabe:<br \/>\n    esses homens t&ecirc;m seus arranjos e n&atilde;o querem que ningu&eacute;m<br \/>\n    saiba. &Eacute; por isso. Agora, n&atilde;o v&aacute; dizer que eu&#8230; Veja<br \/>\n    l&aacute;! Eu n&atilde;o conhecia bem os bairros da cidade. N&atilde;o lhes<br \/>\n    sabia a import&acirc;ncia, o valor, nem as suas vias de comunica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o centro, donde n&atilde;o me tinha afastado at&eacute; ali, sen&atilde;o<br \/>\n    para fazer um passeio de pragm&aacute;tica a Botafogo, de que n&atilde;o gostei.<br \/>\n    Tive que indagar o caminho e o bonde, depois ent&atilde;o corri ao ponto respectivo.<br \/>\n    Viajei cheio de ansiedade, com o sangue a correr aceleradamente pelas art&eacute;rias,<br \/>\n    repetindo mentalmente o nome da rua e o n&uacute;mero da casa do dr. Castro.<br \/>\n    Houve uma vez que me saltaram pela boca fora, com grande espanto do meu vizinho<br \/>\n    da esquerda. As ruas estavam animadas, havia um grande tr&acirc;nsito de ve&iacute;culos,<br \/>\n    criadas com cestos, quitandeiros, vendedores de peixe. Aqui e ali, com os<br \/>\n    cestos arriados, &agrave; porta de uma ou outra casa, discutiam a venda das<br \/>\n    suas mercadorias com as donas das casas ainda quase em traje de dormir. Pelas<br \/>\n    esquinas, as vendas estavam cheias. O condutor ensinou-me a rua e eu segui<br \/>\n    a p&eacute; na dire&ccedil;&atilde;o indicada. N&atilde;o seriam ainda nove<br \/>\n    horas quando bati no n&uacute;mero vinte e sete, uma casa apalacetada, afastada<br \/>\n    da rua, no centro do terreno, entrada do lado e varanda, jardim na frente<br \/>\n    e bojudas compoteiras no telhado. A casa erguia-se do solo sobre um por&atilde;o<br \/>\n    de boa altura, com mezaninos gradeados e as janelas, de sacadas, a olhar para<br \/>\n    os pequenos canteiros do jardim, a essa hora povoados de flores que desabrochavam,<br \/>\n    murchas por aquela manh&atilde; quente.<\/p>\n<p> Bati. Quem &eacute;? &#8211; perguntou uma senhora do alto da escada, &agrave;<br \/>\n    soleira da porta de entrada. Que podia responder?! Quem era eu? Sei l&aacute;&#8230;<br \/>\n    dizer o meu nome?&#8230; como responder?&#8230; Afinal, disse bem idiotamente: Sou<br \/>\n    eu. Suba, respondeu-me ela. Entrei e subi. Que deseja? Era uma rapariga mo&ccedil;a,<br \/>\n    entre vinte e cinco ou trinta anos, de grandes quadris e seios altos; vinha<br \/>\n    envolta num roup&atilde;o rosado e tinha o cabelo, curto e pouco abundante,<br \/>\n    desnastrado por sobre uma toalha alvadia. Toda ela deu-me uma impress&atilde;o<br \/>\n    de veludo, de pel&uacute;cia, de coxim macio e acariciante. Logo que me aproximei,<br \/>\n    de novo, me perguntou languidamente, deixando ver os dentes imaculados: &#8211;<br \/>\n    Que deseja? Expliquei-lhe rapidamente que vinha ao distrito do deputado e<br \/>\n    lhe queria falar. Fez-me entrar na sala, descansou o jornal que at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o conservara na m&atilde;o esquerda, e explicou-me com bondade:<br \/>\n    &#8211; O dr. ainda n&atilde;o se levantou; mas n&atilde;o tarda&#8230; Esteve trabalhando<br \/>\n    at&eacute; tarde&#8230; O sr. sabe: s&atilde;o pareceres sobre pareceres&#8230; H&aacute;<br \/>\n    de esper&aacute;-lo um pouco, sim? &#8211; Pois n&atilde;o, minha senhora.<\/p>\n<p> N&atilde;o disse a resposta com naturalidade, esforcei-me por faz&ecirc;-la<br \/>\n    polida e am&aacute;vel, e saiu-me por isso completamente desajeitada. Sempre<br \/>\n    fui assim diante das senhoras, qualquer que seja a sua condi&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    desde que as veja num ambiente de sala, s&atilde;o todas para mim marquesas<br \/>\n    e grandes damas. &Eacute; um sentimento perfeitamente imbecil, de que at&eacute;<br \/>\n    hoje n&atilde;o me pude libertar. Certa ocasi&atilde;o mesmo fui por isso<br \/>\n    de um rid&iacute;culo sem nome. Michaelowsky ceava comigo num restaurante<br \/>\n    da moda. Era da meia-noite para uma hora; a sala estava cheia de raparigas<br \/>\n    de vida airada. Tendo esbarrado a minha cadeira na de uma delas, pedi com<br \/>\n    grande humildade cortes&atilde;: &#8211; Desculpe-me V. Ex&ordf;. A mulher, grande<br \/>\n    espanhola cheia de rugas e p&oacute;-de-arroz, olhou-me cheia de raiva e desandou-me<br \/>\n    uma descompostura, julgando que eu a tro&ccedil;ava. Michaelowsky, por&eacute;m,<br \/>\n    interveio e deu-lhe explica&ccedil;&otilde;es cabais na sua l&iacute;ngua<br \/>\n    de origem. Ela riu-se muito, contou &agrave; companheira e em breve a sala<br \/>\n    toda me olhava, com uma risota nos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> Diante daquela mulher, na casa particular do deputado, cuja situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nela era f&aacute;cil de descobrir, eu fiquei nessa atitude de menino t&iacute;mido<br \/>\n    que me invade, sempre que estou em presen&ccedil;a de mulheres, numa sala<br \/>\n    qualquer. N&atilde;o lhe falei: n&atilde;o pude provocar a palestra; ela fatigou-se<br \/>\n    de olhar, levantou-se desculpando-se: &#8211; O senhor h&aacute; de me desculpar&#8230;<br \/>\n    Tenho que fazer, vou at&eacute; l&aacute; dentro e o doutor n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de tardar.<\/p>\n<p> Ainda hoje, depois de tantos anos de desgostos, dessa rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cont&iacute;nua pela minha luta &iacute;ntima, precocemente velho pelo entrechoque<br \/>\n    de for&ccedil;as da minha imagina&ccedil;&atilde;o desencontrada, desproporcionada<br \/>\n    e monstruosa, lembro-me &#8211; com saudade! com que frenesi! &#8211; do inebriamento<br \/>\n    que essa mulher deu aos meus sentidos, com o seu perfume violentamente sexual,<br \/>\n    acre e estonteante, esp&eacute;cie de requeime das especiarias das &Iacute;ndias&#8230;<br \/>\n    Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor em fora; e eu segui com o olhar a<br \/>\n    sua nuca tentadora com tonalidade de bronze novo.<\/p>\n<p> Eu conhecia a leg&iacute;tima esposa do Castro. Que diferen&ccedil;a! Era<br \/>\n    quase uma velha encarquilhada, cheia de pelancas e fatuidade&#8230;<\/p>\n<p> Quando a perdi de vista, pus-me a reparar na sala, com umas oleogravuras<br \/>\n    sentimentais e uns bibelots de pacotilha. Demorei-me assim uma meia hora;<br \/>\n    por fim, o homem veio. Entreguei-lhe a carta. Leu-a num instante, tendo na<br \/>\n    testa uma ruga de aborrecimento; depois perguntou-me: &#8211; &Eacute; o senhor?<br \/>\n    &#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; (mudou logo de tratamento) sabe perfeitamente como as coisas<br \/>\n    v&atilde;o: o pa&iacute;s est&aacute; em crise, em apuros financeiros, est&atilde;o<br \/>\n    extinguindo reparti&ccedil;&otilde;es, cortando despesas; &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    arranjar qualquer coisa; entretanto&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas doutor eu n&atilde;o queria grande coisa&#8230; Cem mil-r&eacute;is por<br \/>\n    m&ecirc;s me bastava&#8230; Todos por a&iacute; arranjam e eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim&#8230; Sim&#8230;. Mas t&ecirc;m grandes recomenda&ccedil;&otilde;es, poderosos<br \/>\n    padrinhos &#8211; eu, o que valho? Nada! Ainda agora o Ministro do Interior n&atilde;o<br \/>\n    nomeou o meu candidato para juiz do j&uacute;ri&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se V. Ex&ordf; quisesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;, por que n&atilde;o faz um concurso? &#8211; N&atilde;o posso, n&atilde;o<br \/>\n    os h&aacute; anunciados e eu preciso qualquer coisa j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> E assim fomos conversando: ele falsamente paternal e eu, &agrave; medida<br \/>\n    que o di&aacute;logo se prolongava, caloroso e eloq&uuml;ente. Houve ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que ele exprobrou essa nossa mania de empregos e doutorado, citando os<br \/>\n    ingleses e os americanos. &#8211; Todo o mundo quer ser doutor&#8230; Corei indignado<br \/>\n    e respondi com alguma l&oacute;gica, que me era imposs&iacute;vel romper com<br \/>\n    ela; se os fortes, os aparentados, os relacionados para ela apelavam, como<br \/>\n    havia eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exce&ccedil;&atilde;o? Recomendou-me<br \/>\n    que o procurasse no escrit&oacute;rio, que havia de ver&#8230;<\/p>\n<p> Se bem que me tivesse acolhido com polidez, senti que o coronel nada decidia<br \/>\n    no &acirc;nimo do deputado. Julguei que mais do que pela carta o seu acolhimento<br \/>\n    fora ditado por uma frouxid&atilde;o de car&aacute;ter, por certa pregui&ccedil;a<br \/>\n    de vontade e desejo de mentir a si mesmo. A sua fisionomia empastada, o seu<br \/>\n    olhar morto e a sua economia de movimentos deram-me essa impress&atilde;o.<br \/>\n    Demais aquela ruga na testa quando deu comigo&#8230;<\/p>\n<p> No bonde, comprei um jornal. O ve&iacute;culo ia-se enchendo: meninas da<br \/>\n    Escola normal, cheias de livros, de l&aacute;pis e r&eacute;guas; funcion&aacute;rios<br \/>\n    de roupas surradas; pequenos militares com uniformes desbotados&#8230;<\/p>\n<p> Conversavam; discutiam os casos pol&iacute;ticos e os de pol&iacute;cia,<br \/>\n    enquanto eu lia. Num dado momento, na segunda p&aacute;gina, dei com esta<br \/>\n    not&iacute;cia: &quot;Parte hoje para S&atilde;o Paulo, onde vai estudar a<br \/>\n    cultura do caf&eacute;, o dr. H. de Castro Pedreira, deputado federal. S.<br \/>\n    Ex.&ordf; demorar-se-&aacute;&#8230;&quot; Patife! Patife! A minha indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    veio encontrar os palestradores no m&aacute;ximo de entusiasmo. O meu &oacute;dio,<br \/>\n    brotando naquele meio de satisfa&ccedil;&atilde;o, ganhou mais for&ccedil;a.<br \/>\n    Num rel&acirc;mpago, passaram-me pelos olhos todas as mis&eacute;rias que<br \/>\n    me esperavam, a minha irremedi&aacute;vel derrota, a minha queda aos poucos<br \/>\n    &#8211; at&eacute; onde? at&eacute; onde? E ficava assombrado que aquela gente n&atilde;o<br \/>\n    notasse o meu desespero, n&atilde;o sentisse a minha ang&uacute;stia&#8230; Imbecis!<br \/>\n    pensei eu. Idiotas que v&atilde;o pela vida sem examinar, vivendo quase por<br \/>\n    obriga&ccedil;&atilde;o, acorrentados &agrave;s suas mis&eacute;rias como<br \/>\n    galerianos &agrave; calceta! Gente miser&aacute;vel que d&aacute; san&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que n&atilde;o lhes examinam<br \/>\n    as a&ccedil;&otilde;es, o que fazem e para que servem? Se o fizessem&#8230; Ah!<br \/>\n    se o fizessem! Que surpresa! Riem-se, enquanto do suor, da resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de voc&ecirc;s, das priva&ccedil;&otilde;es de todos tiram &oacute;cios de<br \/>\n    nababo e uma vida de sult&atilde;o&#8230; Veio-me um assomo de &oacute;dio, de<br \/>\n    raiva m&aacute;, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar<br \/>\n    muita gente, para ter assim o crit&eacute;rio da minha exist&ecirc;ncia de<br \/>\n    fato. Depois dessa violenta sensa&ccedil;&atilde;o na minha natureza, invadiu-me<br \/>\n    uma grande covardia e um pavor sem nome: fiquei amedrontado em face das cordas,<br \/>\n    das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os por toda a parte, graduando<br \/>\n    os meus atos, anulando os meus esfor&ccedil;os; senti-os insuper&aacute;veis<br \/>\n    e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao m&iacute;nimo, a achatar-me completamente&#8230;<br \/>\n    Continuei a leitura. As letras dan&ccedil;avam sob meus olhos, a compreens&atilde;o<br \/>\n    faltava-me&#8230; Saltara dos meus desejos her&oacute;icos para imaginar expedientes<br \/>\n    com que me sa&iacute;sse da mis&eacute;ria em perspectiva. Aceitaria qualquer<br \/>\n    coisa, qualquer emprego&#8230; Recordei-me das minhas leituras, daquele Poder<br \/>\n    da Vontade, das suas biografias her&oacute;icas: Palissy, Watt, Franklin&#8230;<br \/>\n    Sorri satisfeito, orgulhoso; havia de fazer como eles. De novo, voltei &agrave;<br \/>\n    leitura do jornal. Ao fim de uma coluna, l&aacute; estava um nome conhecido.<br \/>\n    Senhor Manuel Laje da Silva, capitalista e industrial&#8230; Que acontecera? Recebera<br \/>\n    a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o papal at&eacute; a d&eacute;cima quinta gera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A not&iacute;cia vinha cheia de gabos &agrave; sua atividade e &agrave; sua<br \/>\n    honestidade&#8230;<\/p>\n<p>Um sujeito entrou no bonde, deu-me um grande safan&atilde;o, atirando-me<br \/>\n    o jornal ao colo, e n&atilde;o se desculpou. Esse incidente fez-me voltar<br \/>\n    de novo aos meus pensamentos amargos, ao &oacute;dio j&aacute; sopitado, ao<br \/>\n    sentimento de opress&atilde;o da sociedade inteira&#8230; At&eacute; hoje n&atilde;o<br \/>\n    me esqueci desse epis&oacute;dio insignificante que veio reacender na minha<br \/>\n    alma o desejo feroz de reivindica&ccedil;&atilde;o. Senti-me humilhado, esmagado,<br \/>\n    enfraquecido por uma vida de estudo, a servir de joguete, de irris&atilde;o<br \/>\n    a esses poderosos todos por a&iacute;. Hoje que sou um tanto letrado sei que<br \/>\n    Stendhal dissera que s&atilde;o esses momentos que fazem os Robespierres.<br \/>\n    O nome n&atilde;o me veio &agrave; mem&oacute;ria, mas foi isso que eu desejei<br \/>\n    chegar ser um dia.<\/p>\n<p> Escrevendo estas linhas, com que saudades me n&atilde;o recordo desse her&oacute;ico<br \/>\n    anseio dos meus dezoito anos esmagados e pisados! Hoje!&#8230; &Eacute; noite.<br \/>\n    Descanso a pena. No interior da casa, minha mulher acalenta meu filho mais<br \/>\n    mo&ccedil;o. A sua cantiga chega-me aos ouvidos cheia de um grande acento<br \/>\n    de resigna&ccedil;&atilde;o. Saiu, e vou &agrave; varanda. A lua, no crescente,<br \/>\n    banha-me com meiguice, a mim e a minha humilde casa roceira. Por momentos<br \/>\n    deixo-me ficar sem pensamentos, envolto na fria luz da lua, e embalado pela<br \/>\n    ing&ecirc;nua cantilena de minha mulher. Correm alguns instantes; ela cessa<br \/>\n    de cantar e o brilho do luar &eacute; empanado por uma nuvem passageira. Volto<br \/>\n    &agrave;s minhas reminisc&ecirc;ncias: vejo o bonde, a gente que o enchia,<br \/>\n    os sofrimentos que me agitavam, a rua agitada&#8230;<\/p>\n<p> Os meus desejos de vingan&ccedil;a fazem-me agora sorrir e n&atilde;o sei<br \/>\n    por que, do fundo da minha mem&oacute;ria, com essas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    todas, chega-me tamb&eacute;m a imagem de uma pesada carro&ccedil;a, com um<br \/>\n    grande lajedo suspenso por fortes correntes de ferro, vagarosamente arrastada<br \/>\n    pelos paralelep&iacute;pedos, por uma junta de bois enormes, que o carreteiro<br \/>\n    fazia andar com gritos e ferroadas desapiedadas&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\"> V &#8211; A sua intima&ccedil;&atilde;o era para as onze horas<\/a><\/h4>\n<p> &#8211; N&atilde;o me foi poss&iacute;vel vir a essa hora. S&oacute; a recebi<br \/>\n    &agrave;s duas&#8230; Estive fora&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Entretanto, segundo disseram no hotel, o sr. costuma almo&ccedil;ar l&aacute;<br \/>\n    e sai pouco antes das onze, n&atilde;o &eacute;? &#8211; &Eacute; verdade; mas,<br \/>\n    excepcionalmente, hoje, sa&iacute; muito cedo, almocei com um amigo e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Sente-se e espere o Delegado&#8230;<\/p>\n<p> Falava a verdade. Era de fato meu h&aacute;bito sair do hotel pouco antes<br \/>\n    das onze, para ir rondar as proximidades da C&acirc;mara. Nesse dia, por&eacute;m,<br \/>\n    aquela s&uacute;bita inspira&ccedil;&atilde;o de ir procurar de madrugada<br \/>\n    o deputado, tinha-me feito quebrar o h&aacute;bito. Acresce que, ao voltar,<br \/>\n    vim a encontrar o dr. Michaelowsky. Estivemos instantes conversando e ele<br \/>\n    convidou-me para almo&ccedil;ar. N&atilde;o era a primeira vez que o fazia;<br \/>\n    o meu orgulho obrigava-me sempre a recusar. Dessa feita acedi. Estava deprimido,<br \/>\n    desalentado; a minha vontade era frouxa; os meus sentimentos tinham-se enfraquecido<br \/>\n    durante aquela longa viagem de bonde a pensar na vida, a curtir &oacute;dios,<br \/>\n    a arquitetar vingan&ccedil;as e a farejar a mis&eacute;ria pr&oacute;xima.<br \/>\n    Fui desejoso de encontrar uma afei&ccedil;&atilde;o, uma simpatia, naquele<br \/>\n    estrangeiro, um aventureiro, um ente cujos precedentes n&atilde;o conhecia,<br \/>\n    cuja lhaneza de trato, comunicabilidade especial e generosidade, por&eacute;m,<br \/>\n    me atra&iacute;am e solicitavam fortemente. Foi almo&ccedil;o de camaradas,<br \/>\n    rico de confid&ecirc;ncias, trocamos id&eacute;ias, contou-me um pouco de<br \/>\n    sua vida e eu contei-lhe a minha. Era da Rom&acirc;nia. Seu pai era um emigrado<br \/>\n    russo; sua m&atilde;e, grega. Estudara no Cairo, correra a Europa, a &Aacute;sia<br \/>\n    e Am&eacute;rica. Tinha 45 anos e sentia-se absolutamente sem p&aacute;tria,<br \/>\n    livre de todas as tiranias morais e psicol&oacute;gicas que essa no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cont&eacute;m em si. Era capaz de aprender todas as l&iacute;nguas, escrev&ecirc;-las,<br \/>\n    fal&aacute;-las em tr&ecirc;s ou quatro meses. Em cada pa&iacute;s demorava-se<br \/>\n    pouco, cinco ou seis anos; procurava os jornais, defendia esta ou aquela quest&atilde;o,<br \/>\n    ganhava dinheiro e vivia. Contava-me isso bebendo e &agrave; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que bebia vinhos franceses os seus olhos de conta e azuis com reflexos met&aacute;licos<br \/>\n    ficavam mais brilhantes e mais penetrantes. Falou-me em poetas, em fil&oacute;sofos;<br \/>\n    tra&ccedil;ou, a grandes golpes, o destino da humanidade, provocou-me grandes<br \/>\n    e consoladoras vis&otilde;es patri&oacute;ticas, e s&oacute; vim a deix&aacute;-lo<br \/>\n    saudoso pelas duas horas, quando me dirigi ao hotel. Ali recebi a intima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do delegado e corri &agrave; delegacia obedientemente, depois desse delicioso<br \/>\n    almo&ccedil;o que quase me fez esquecer os dolorosos momentos da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Troquei as necess&aacute;rias explica&ccedil;&otilde;es com o inspetor de<br \/>\n    dia. O seu autoritarismo n&atilde;o me amedrontou. A sua pessoa era sem for&ccedil;a,<br \/>\n    combalida, desanimada, muito p&aacute;lido, com lindos cabelos negros e uma<br \/>\n    mis&eacute;ria f&iacute;sica de penalizar. Transpirava desgostos, resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e um pouco de bondade no seu olhar semi-aberto e nos seus l&aacute;bios frouxos.<\/p>\n<p> Obecedendo &agrave; sua ordem, sentei-me entre outras pessoas de cujas fisionomias<br \/>\n    n&atilde;o fiz grande reparo. Pus-me a olhar pela janela aberta uma nesga<br \/>\n    do c&eacute;u. As nuvens pardacentas que, pelo caminho, eu vira subirem por<br \/>\n    detr&aacute;s da cortina de montanhas, s&oacute; deixavam agora ver, do c&eacute;u,<br \/>\n    um rasg&atilde;o irregular.<\/p>\n<p> At&eacute; ent&atilde;o, eu n&atilde;o sabia ao certo o que viera fazer<br \/>\n    &agrave;quela delegacia. O copeiro que me transmitira a ordem da autoridade,<br \/>\n    falou-me por alto num roubo que houvera no hotel pela noite &uacute;ltima.<br \/>\n    Ao Coronel Figueira, furtaram cerca de seis contos em dinheiro, afora objetos<br \/>\n    de valor.<\/p>\n<p> &#8211; Que vou fazer l&aacute;? indaguei do copeiro.<\/p>\n<p> &#8211; Depor, naturalmente.<\/p>\n<p> Sentado na esta&ccedil;&atilde;o policial &eacute; que me lembrei que ele<br \/>\n    sublinhara a resposta com um piscar de olhos cheio de canalhice&#8230; Seria poss&iacute;vel?<br \/>\n    Qual! Eu era estudante, rapaz premiado&#8230; Qual! Nem por sombras!&#8230;<\/p>\n<p> A delegacia continuava silenciosa e as pessoas sentadas pelas cadeiras n&atilde;o<br \/>\n    ousavam entreolhar-se. N&atilde;o havia duas horas que eu, no restaurant,<br \/>\n    me pusera a imaginar grandes coisas. Michaelowsky incitara-me a trabalhar<br \/>\n    pela grandeza do Brasil; fez-me notar que era preciso difundir na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    coletiva um ideal de for&ccedil;a, de vigor, de viol&ecirc;ncia mesmo, destinado<br \/>\n    a corrigir a do&ccedil;ura nativa de todos n&oacute;s. Pela primeira vez de<br \/>\n    l&aacute;bios humanos, ouvi dizer mal da piedade e da caridade: sentimentos<br \/>\n    anti-sociais, enfraquecedores dos indiv&iacute;duos e das na&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    Virtudes dos fracos e dos covardes &#8211; resumia ele. Houve um grande estupor<br \/>\n    em mim; eu tinha do meu natural um grande respeito por essas virtudes e a<br \/>\n    minha educa&ccedil;&atilde;o isolada, comprida, &oacute;rf&atilde; de afetos,<br \/>\n    s&oacute; fizera estimular e aumentar esse meu respeito. N&atilde;o sei como<br \/>\n    a conversa foi variar para beleza. Ele riu-se do nosso crit&eacute;rio habitual<br \/>\n    dela, da insignific&acirc;ncia do crit&eacute;rio dos nossos literatos. Gente,<br \/>\n    disse-me ele, que vive perturbada, desejosa de realizar ideais de povos mortos,<br \/>\n    ideais que j&aacute; se esgotaram; prisioneira da arqueologia, e muito certa<br \/>\n    de que a verdade est&aacute; a&iacute;, como se houvesse uma beleza absoluta,<br \/>\n    existindo fora de n&oacute;s e independente de n&oacute;s? Por a&iacute; ele<br \/>\n    fez uma formid&aacute;vel charge aos nossos intelectuais. Eu sinto n&atilde;o<br \/>\n    poder reproduzi-la aqui. Est&aacute;vamos em meio do almo&ccedil;o e o vinho<br \/>\n    dava asas &agrave;s suas palavras e tornara mais l&uacute;cido o meu esp&iacute;rito.<br \/>\n    Referindo-se ao Laje, chamou-o de &aacute;guia, homem de presa, super-homem<br \/>\n    e por mais que eu quisesse tirar informa&ccedil;&otilde;es sobre o padeiro,<br \/>\n    ele se limitou sempre a ditos sibilinos que mais me aumentaram as velhas suspeitas.<\/p>\n<p> O meu conhecimento com o doutor Michaelowsky, se bem que recente, vinha<br \/>\n    sendo mantido e fortalecido com freq&uuml;entes encontros na rua do Ouvidor.<br \/>\n    O meu provincianismo e acanhamento davam-se perfeitamente no tumulto que a<br \/>\n    anima. Nela, eu combinava as minhas necessidades de sociabilidade com o meu<br \/>\n    temperamento delicado e desconfiado, ao qual uma sociabilidade mais perfeita<br \/>\n    expunha a ofensas e a indelicadezas dolorosas. Depois, olhava, olhava a fartar:<br \/>\n    homens, mo&ccedil;os e velhos, mulheres, senhoras. Quando acontecia encontrar<br \/>\n    o jornalista internacional, troc&aacute;vamos cumprimentos com os chap&eacute;us,<br \/>\n    polidamente, atenciosamente. O g&ecirc;nio comunicativo do russo e o h&aacute;bito<br \/>\n    de viajante de adquirir rapidamente rela&ccedil;&otilde;es e camaradas, foram<br \/>\n    vencendo aos poucos a minha reserva e a desconfian&ccedil;a. Convite como<br \/>\n    este, j&aacute; me fora feito v&aacute;rias vezes e eu sempre recusara com<br \/>\n    delicadeza e dignidade. Entrando no hotel, logo ao sentar-me, tive &iacute;mpetos<br \/>\n    de confessar os meus desgostos ao jornalista; o meu orgulho irracional fez-me<br \/>\n    calar&#8230;<\/p>\n<p> Por esse tempo, passos fortes na escada vieram perturbar os meus pensamentos.<br \/>\n    Todos nos viramos para a porta de entrada. Pela sala adentro entrou aquele<br \/>\n    senhor de cartola e cal&ccedil;as brancas que me disseram Senador, num bonde<br \/>\n    de barcas. Tirou a cartola com repugn&acirc;ncia, enquanto o inspetor levantava-se<br \/>\n    respeitosamente.<\/p>\n<p> &#8211; V. Ex&ordf;?! &#8211; Boa tarde. O Barros n&atilde;o est&aacute;? &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    senhor. Saiu e s&oacute; voltar&aacute; para a audi&ecirc;ncia das seis horas.<\/p>\n<p> &#8211; Que diabo! fez aborrecido o Senador.<\/p>\n<p> &#8211; Se V. Ex&ordf; quer alguma coisa urgente, pode procur&aacute;-lo agora<br \/>\n    no Pascoal&#8230; Ele disse-me que ia para l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> O alto dignit&aacute;rio da na&ccedil;&atilde;o fez men&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de retirar-se e o inspetor j&aacute; se tinha sentado, quando subitamente<br \/>\n    o Senador se voltou dizendo: &#8211; Era coisa urgente&#8230; voc&ecirc; bem me podia<br \/>\n    informar se&#8230;<\/p>\n<p> Olhou ao redor cautelosamente e depois continuou a falar naturalmente: &#8211;<br \/>\n    Voc&ecirc; bem me podia dizer se o &quot;Nove-dedos&quot; est&aacute; preso<br \/>\n    aqui? &#8211; Aqui, n&atilde;o. senhor Senador. At&eacute; agora, s&oacute; temos<br \/>\n    no xadrez um &eacute;brio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230; disseram-me que tinha feito um roubo&#8230; Esse rapaz &eacute; um<br \/>\n    doido! &#8211; Onde foi, Ex&ordf;? &#8211; No Largo de S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> &#8211; Ahn! N&atilde;o &eacute; aqui conosco; &eacute; com a nona.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado.<\/p>\n<p> Apertou a m&atilde;o do rapaz cheio de agradecimento e saiu murmurando de<br \/>\n    modo que fosse ouvido por todos n&oacute;s: Aquele doido s&oacute; me leva<br \/>\n    a incomodar! A sala da delegacia voltou novamente ao seu sil&ecirc;ncio primitivo.<br \/>\n    Um soldado veio apresentar-se, trocando r&aacute;pidas palavras com o inspetor.<br \/>\n    Um rel&oacute;gio pr&oacute;ximo bateu quatro horas. Dos compartimentos do<br \/>\n    fundo, chegou um personagem ventrudo, me&atilde;o de altura, de pernas curtas,<br \/>\n    furta-cor, tendo atravessado no peito um grilh&atilde;o de ouro, donde pendia<br \/>\n    uma imensa medalha cravejada de brilhantes. Dirigiu-se ao inspetor: &#8211; Raposo,<br \/>\n    vou sair: h&aacute; alguma coisa? &#8211; Nada. Capit&atilde;o Viveiros.<\/p>\n<p> &#8211; E o caso do Jenikal&eacute;? J&aacute; apareceu o tal &quot;mulatinho&quot;?<br \/>\n    N&atilde;o tenho pejo em confessar hoje que quando me ouvi tratado assim,<br \/>\n    as l&aacute;grimas me vieram aos olhos. Eu sa&iacute;ra do col&eacute;gio,<br \/>\n    vivera sempre num ambiente artificial de considera&ccedil;&atilde;o, de respeito,<br \/>\n    de aten&ccedil;&otilde;es comigo; a minha sensibilidade, portanto, estava<br \/>\n    cultivada e tinha uma delicadeza extrema que se juntava ao meu orgulho de<br \/>\n    inteligente e estudioso, para me dar n&atilde;o sei que exaltada representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mim mesmo, esp&eacute;cie de homem diferente do que era na realidade, ente<br \/>\n    superior e digno a quem um ep&iacute;teto daqueles feria como uma bofetada.<br \/>\n    Hoje, agora, depois n&atilde;o sei de quantos pontap&eacute;s destes e outros<br \/>\n    mais brutais, sou outro, insens&iacute;vel e c&iacute;nico, mais forte talvez;<br \/>\n    aos meus olhos, por&eacute;m, muito diminu&iacute;do de mim pr&oacute;prio,<br \/>\n    do meu primitivo ideal, ca&iacute;do dos meus sonhos, sujo, imperfeito, deformado,<br \/>\n    mutilado e lodoso. N&atilde;o sei a quem me compare, n&atilde;o sei mesmo<br \/>\n    se poderia ter sido inteiri&ccedil;o at&eacute; ao fim da vida; mas choro<br \/>\n    agora, choro hoje quando me lembro que uma palavra desprez&iacute;vel dessas<br \/>\n    n&atilde;o me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo &eacute; uma quest&atilde;o<br \/>\n    de sem&acirc;ntica: amanh&atilde;, dentro de um s&eacute;culo, n&atilde;o<br \/>\n    ter&aacute; mais significa&ccedil;&atilde;o injuriosa. Essa reflex&atilde;o,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o me confortava naquele tempo, porque sentia na baixeza<br \/>\n    do tratamento, todo o desconhecimento das minhas qualidades, o julgamento<br \/>\n    anterior da minha personalidade que n&atilde;o queriam ouvir, sentir e examinar.<br \/>\n    O que mais me feriu, foi que ele partisse de um funcion&aacute;rio, de um<br \/>\n    representante do governo, da administra&ccedil;&atilde;o que devia ter t&atilde;o<br \/>\n    perfeitamente, como eu, a consci&ecirc;ncia jur&iacute;dica dos meus direitos<br \/>\n    ao Brasil e como tal merecia dele um tratamento respeitoso.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas secaram-se nos olhos, antes que o inspetor me apresentasse<br \/>\n    ao escriv&atilde;o Viveiros. Olhou-me ele algum tempo, examinou-me com olhar<br \/>\n    de entendido. Creio que sondava as minhas algibeiras detidamente, antes de<br \/>\n    me fazer esta pergunta: &#8211; O senhor &eacute; o mo&ccedil;o do Hotel Jenikal&eacute;?<br \/>\n    &#8211; Sou um deles.<\/p>\n<p> &#8211; Qual &eacute; sua profiss&atilde;o? &#8211; Estudante.<\/p>\n<p> Houve algum espanto na sua fisionomia deslavada. Conteve-se e continuou-me<br \/>\n    a perguntar: &#8211; Tem documentos? &#8211; Alguns.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Pode-se justificar perfeitamente.<\/p>\n<p> &#8211; Como? &#8211; Com testemunhas e documentos.<\/p>\n<p> &#8211; Se n&atilde;o conhe&ccedil;o ningu&eacute;m aqui no Rio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu lhe arranjo.<\/p>\n<p> &#8211; Aceito e obrigado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas custa-lhe trinta mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso pagar, Capit&atilde;o. N&atilde;o tenho dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; E o seu correspondente? &#8211; N&atilde;o tenho.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o meu caro&#8230;<\/p>\n<p> Encolheu os ombros, afastou-se cheio de indiferen&ccedil;a, sem olhar qualquer<br \/>\n    dos circunstantes. O inspetor continuou a escrever o seu intermin&aacute;vel<br \/>\n    livro. De onde em onde, muito policialmente, passeava o olhar dissimuladamente<br \/>\n    sobre cada um de n&oacute;s. Nuvens pl&uacute;mbeas j&aacute; de todo tinham<br \/>\n    coberto a nesga do c&eacute;u vista pela janela. Havia como que fuligem na<br \/>\n    atmosfera e a luz do sol tornara-se de um amarelo pardacento e f&uacute;nebre.<br \/>\n    A temperatura continuava elevada e o ar abafado da sala incomodava-me. A resson&acirc;ncia<br \/>\n    especial das ruas subia at&eacute; n&oacute;s cada vez mais nitidamente. O<br \/>\n    bimbalho das campainhas era mais agudo, o rolar dos ve&iacute;culos mais redondo<br \/>\n    e mais dissonante, o ranger das ferragens dos bondes, os estalos dos chicotes<br \/>\n    e os apitos caprichosos dos cocheiros. Da delegacia, por entre essa bulha,<br \/>\n    percebemos que um vozeiro se aproximava. O inspetor levantou a pena e esperou.<br \/>\n    Um grande magote de povo invadia a sala. Os soldados correram e contiveram<br \/>\n    a multid&atilde;o. Na frente, vinham duas mulheres do povo, desgrenhadas,<br \/>\n    rotas, que dois soldados, com esfor&ccedil;o, mantinham separadas. Um deles,<br \/>\n    sem largar a mulher, explicou ao inspetor.<\/p>\n<p> &#8211; Estavam brigando e pelo caminho ainda se atracaram; n&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p> E logo ambas as duas se quiseram justificar, falando ao mesmo tempo. O inspetor<br \/>\n    repreendeu-as severamente. O soldado exp&ocirc;s. Moravam em uma estalagem<br \/>\n    pr&oacute;xima, eram lavadeiras, uma era casada e outra tinha &quot;seu homem&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; Por que foi? &#8211; perguntou o policial.<\/p>\n<p> De novo quiseram narrar ao mesmo tempo o motivo de t&atilde;o apaixonado<br \/>\n    pugilato.<\/p>\n<p> &#8211; Assim n&atilde;o pode ser, fez o inspetor. Ou uma ou outra&#8230; V&aacute;,<br \/>\n    fale a senhora, acabou designando uma delas.<\/p>\n<p> &#8211; V. S. sabe: sou pobre&#8230; Tenho uma galinha&#8230; Mais de uma; mas foi a pedr&ecirc;s.<br \/>\n    E n&atilde;o &eacute; de hoje, h&aacute; muito tempo, sim senhor. A gente<br \/>\n    n&atilde;o pode, &eacute; verdade; mas que se h&aacute; de fazer? Um bichinho<br \/>\n    &eacute; sempre bom, &quot;seu&quot; inspetor: d&aacute; alegria e ajuda a<br \/>\n    gente&#8230; &Eacute; por isso que a comadre&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Diga a Senhora afinal por que foi&#8230; V&aacute;! intimou o inspetor.<\/p>\n<p> &#8211; Eu j&aacute; digo, sim senhor. H&aacute; muito tempo que a minha galinha<br \/>\n    punha e eu nada de ver os ovos. Procurava daqui procurava dali, nada de achar&#8230;<br \/>\n    Hoje eu tinha sa&iacute;do para levar o jantar do Manduca e quando voltei<br \/>\n    vi que a galinha vinha saindo da casa dessa mulher com a cara de quem j&aacute;<br \/>\n    p&ocirc;s&#8230; Ah! &quot;seu&quot; inspetor! deu-me uma gana, uma coisa que<br \/>\n    eu mesma n&atilde;o sei&#8230; Xinguei, fez ela por fim; e foi por isso&#8230;<\/p>\n<p> Acabou a narra&ccedil;&atilde;o humilde, muito humilde com uma modula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de choro na voz.<\/p>\n<p> &#8211; E a senhora que diz a isso? perguntou a autoridade &agrave; outra.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o foi assim, n&atilde;o senhor&#8230; Essa mulher sempre embicava<br \/>\n    comigo&#8230; N&atilde;o sei por que, sempre andava com rezinga&#8230; Um dia era<br \/>\n    isso, outro dia era aquilo&#8230; Se o vento punha a sua roupa no ch&atilde;o,<br \/>\n    era eu; se&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas afinal a galinha saiu ou n&atilde;o saiu de sua casa? &#8211; Saiu, sim<br \/>\n    senhor; mas foi por acaso&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por acaso o qu&ecirc;! sua ladra, sua p&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isso! exclamou severamente o inspetor. Isto aqui &eacute;<br \/>\n    estalagem? Meto-a no xadrez! Est&aacute; ouvindo? A mulher descaiu logo a<br \/>\n    cabe&ccedil;a, que tinha erguido de um s&oacute; movimento cheio de arrog&acirc;ncia<br \/>\n    e, com voz entrecortada pelo choro, desculpou-se: &#8211; Me perdoe, &quot;seu&quot;<br \/>\n    inspetor! A gente &eacute; pobre&#8230; Foi a patroa que me deu o &quot;bichinho&quot;&#8230;<br \/>\n    A gente pensa: vamos ter uma gemada, uma fritada, um doce, uma coisa ou outra&#8230;<br \/>\n    Compra-se milho e se espera&#8230; e se espera&#8230; No fim a gente vem a saber que<br \/>\n    os outros &eacute; que comem os ovos&#8230; Ah! Meu Deus!&#8230; &Eacute; duro! &Eacute;<br \/>\n    duro! &Eacute; a sina da gente&#8230;<\/p>\n<p> A rapariga falava desigualmente: ora, alongava as s&iacute;labas, ora fazia<br \/>\n    desaparecer outras; mas sempre premida das palavras, com um forte acento de<br \/>\n    paix&atilde;o, superposto ao choro. As palavras sa&iacute;am-lhe animadas,<br \/>\n    cheias de uma grande dor, bem distante da pueril querela que as provocara.<br \/>\n    Vinham das profundezas do seu ser, das long&iacute;nquas partes que guardam<br \/>\n    uma inconsciente mem&oacute;ria do passado, para manifestarem o desespero<br \/>\n    daquela vida, os sofrimentos milenares que a natureza fazia sofrer e os homens<br \/>\n    conseguiram aumentar. Senti-me comunicado de sua imensa emo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    ela penetrava-me t&atilde;o fundo que despertava nas minhas c&eacute;lulas<br \/>\n    j&aacute; esquecidas a mem&oacute;ria enfraquecida desses sofrimentos cont&iacute;nuos<br \/>\n    que me pareciam eternos; e achando-os por debaixo das no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    livrescas, por debaixo da palavra articulada, no fundo da minha organiza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    espantei-me, aterrei-me, tive desesperos e cristalizei uma ang&uacute;stia<br \/>\n    que me andava esparsa.<\/p>\n<p> O inspetor procurou acalm&aacute;-la; a outra, muito popularmente, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a chorar explicando que n&atilde;o furtara os ovos, que n&atilde;o os comera,<br \/>\n    mas que guardara unicamente o primeiro, temendo que fosse &quot;mandinga&quot;,<br \/>\n    &quot;coisa-feita&quot;, e que, depois, com a continua&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    os restitu&iacute;ra com vergonha, mas que o faria logo que chegasse a casa.<br \/>\n    Acalmadas e repreendidas, foram-se e a delegacia em breve regressou &agrave;<br \/>\n    sua atmosfera enervante. A ela e ao meu abalo moral, juntavam-se a tonalidade<br \/>\n    amarela&ccedil;a da tarde e o ambiente de forja para me dar um mal-estar nunca<br \/>\n    sentido. Esperava o delegado, procurando devanear, sonhar, analisar-me, mas<br \/>\n    era em v&atilde;o: a intelig&ecirc;ncia n&atilde;o me obedecia. Havia em mim<br \/>\n    um grande vazio mental, e a imagem que me vinha aos olhos era a da pobre mulher<br \/>\n    a imprecar, sem nenhuma grandeza, contra o destino implac&aacute;vel, dentro<br \/>\n    daquela feia e triste sala. De repente a treva fez-se mais espessa. Na sala<br \/>\n    da delegacia acenderam as luzes, ao tempo que um rel&acirc;mpago veio ilumin&aacute;-la<br \/>\n    instantaneamente. Ouviu-se um estalido agudo, um ronco de trov&atilde;o e,<br \/>\n    estremecendo, sentimos n&oacute;s todos que um raio ca&iacute;ra nas proximidades.<br \/>\n    A chuva come&ccedil;ou a cair fracamente, sem a viol&ecirc;ncia que o rigor<br \/>\n    do c&eacute;u amea&ccedil;ava, quando a poderosa autoridade entrou. Passava<br \/>\n    das seis horas; a opress&atilde;o da atmosfera diminu&iacute;ra muito e o<br \/>\n    calor abrandara razoavelmente.<\/p>\n<p> Chegou e eu esperei ainda. Afinal, fui levado &agrave; sua presen&ccedil;a.<br \/>\n    Ao lado, em uma mesa mais baixa, l&aacute; estava o Capit&atilde;o Viveiros,<br \/>\n    muito solene, com a pena atr&aacute;s da orelha, o seu olhar c&uacute;pido<br \/>\n    e a sua papada farta. O delegado pareceu-me um med&iacute;ocre bacharel, uma<br \/>\n    vulgaridade com desejos de chegar a altas posi&ccedil;&otilde;es; no entanto,<br \/>\n    havia na sua fisionomia uma assustadora irradia&ccedil;&atilde;o de poder<br \/>\n    e de for&ccedil;a. Talvez se sentisse t&atilde;o ungido da gra&ccedil;a especial<br \/>\n    de mandar, que na rua, ao ver tanta gente mover-se livremente, havia de considerar<br \/>\n    que o fazia porque ele deixava. Interrogou-me de mau humor, impaciente, distra&iacute;do,<br \/>\n    &agrave;s sacudidelas. Repisava uma mesma pergunta; repetia as minhas respostas.<br \/>\n    A sua impaci&ecirc;ncia levava-o a perder tempo. N&atilde;o dava grande aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao interrogat&oacute;rio; olhava com insist&ecirc;ncia a rua, os bondes que<br \/>\n    passavam com cortinas arriadas. Num dado momento, como querendo levar a coisa<br \/>\n    ao cabo, perguntou pela terceira vez: &#8211; Qual &eacute; a sua profiss&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; Estudante.<\/p>\n<p> &#8211; Estudante?! &#8211; Sim, senhor, estudante, repeti com firmeza.<\/p>\n<p> &#8211; Qual estudante, qual nada! A sua surpresa deixara-me at&ocirc;nito. Que<br \/>\n    havia nisso de extraordin&aacute;rio, de imposs&iacute;vel? Se havia tanta<br \/>\n    gente que o era, por que n&atilde;o o podia ser eu? Donde lhe vinha a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    duvidosa? Quis-lhe dar uma resposta mas as interroga&ccedil;&otilde;es a mim<br \/>\n    mesmo me enleavam. Ele, por sua vez, tomou o meu embara&ccedil;o como prova<br \/>\n    de que mentia.<\/p>\n<p> Com ar escarninho perguntou: &#8211; Ent&atilde;o, voc&ecirc; &eacute; estudante?<br \/>\n    Dessa vez tinha-o compreendido, cheio de &oacute;dio, cheio de um santo &oacute;dio<br \/>\n    que nunca mais vi chegar em mim. Era mais uma variante daquelas poucas humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que eu j&aacute; sofrera; era o sentimento geral da minha inferioridade, decretada<br \/>\n    a priori, que eu adivinhei na sua pergunta. E afirmei ent&atilde;o com a voz<br \/>\n    transtornada: &#8211; Sou, sim, senhor! &#8211; Pois ent&atilde;o diga-me de quem &eacute;<br \/>\n    este verso: &#8211; &quot;Estava mudo e s&oacute; na rocha de granito&quot;? &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    sei, n&atilde;o senhor; n&atilde;o leio versos habitualmente&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas um estudante sempre os conhece, fez ele com falsa bonomia. &Eacute;<br \/>\n    de admirar que o sr. n&atilde;o conhe&ccedil;a&#8230; Sabe de quem &eacute; este<br \/>\n    outro: &#8211; &quot;&Eacute; o triunfo imortal da carne e da beleza&quot;? &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    sei absolutamente, e &eacute; in&uacute;til perguntar-mo, pois nunca li poetas.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o senhor, um estudante, n&atilde;o saber de quem s&atilde;o estes<br \/>\n    versos! Admira! &#8211; Que tem uma coisa com outra, &quot;seu&quot; doutor? fiz<br \/>\n    eu sem poder reprimir um sorriso.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; rindo-se, &quot;seu&quot; malcriado! fez ele mudando repentinamente<br \/>\n    de tom. Muita coisa! &Eacute; que voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; estudante<br \/>\n    nem nada; n&atilde;o passa de um &quot;malandro&quot; muito grande! &#8211; Perd&atilde;o!<br \/>\n    O sr. n&atilde;o me pode insultar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual o qu&ecirc;! continuou o Delegado no auge da c&oacute;lera. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; patife, tratante, malandro por a&iacute;, que n&atilde;o se diga<br \/>\n    estudante&#8230;<\/p>\n<p> Eu come&ccedil;ava a exaltar-me tamb&eacute;m, a sentir-me ofendido injustamente,<br \/>\n    agredido sem causa e sem motivo; contive-me, no entanto.<\/p>\n<p> &#8211; Mas eu sou, asseguro-lhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual o qu&ecirc;! Pensa que me embrulha&#8230; voc&ecirc; o que &eacute;,<br \/>\n    &eacute; um gatuno, sabe? Por a&iacute;, houve em mim o que um autor russo<br \/>\n    chamou a convuls&atilde;o da personalidade. Todo eu me agitei, todo eu me<br \/>\n    indignei. Senti num segundo todas as injusti&ccedil;as que vinha sofrendo;<br \/>\n    revoltei-me contra todos os sofrimentos que vinha suportando. Injusti&ccedil;as,<br \/>\n    sofrimentos, humilha&ccedil;&otilde;es, mis&eacute;rias, juntaram-se dentro<br \/>\n    de mim, subiram &agrave; tona da minha consci&ecirc;ncia, passaram pelos meus<br \/>\n    olhos e ent&atilde;o expectorei sacudindo as s&iacute;labas: &#8211; Imbecil! &#8211;<br \/>\n    Que diz? perguntou ele com autoridade.<\/p>\n<p> &#8211; Que voc&ecirc; &eacute; um imbecil, ouviu? N&atilde;o me disse mais nada;<br \/>\n    n&atilde;o se lembrou mesmo de determinar que o escriv&atilde;o lavrasse auto<br \/>\n    de flagrante. Ergueu-se cheio de f&uacute;ria, esperei-o pronto para jogar<br \/>\n    os sopapos; mas o terr&iacute;vel delegado ia unicamente &agrave; porta para<br \/>\n    ordenar que me metessem no xadrez.<\/p>\n<p> Fui para o xadrez convenientemente escoltado. Pelo caminho, tudo aquilo<br \/>\n    me pareceu um pesadelo. Custava-me a crer que, no intervalo de horas, eu pudesse<br \/>\n    ter os entusiasmos patri&oacute;ticos do almo&ccedil;o e fosse detido como<br \/>\n    um reles vagabundo num xadrez degradante. Entrei aos empurr&otilde;es; desnecess&aacute;rios<br \/>\n    ali&aacute;s, porque n&atilde;o opus a menor resist&ecirc;ncia. As l&aacute;grimas<br \/>\n    correram-me e eu pensei comigo: A p&aacute;tria! <\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>Despertei hoje cheio de um mal-estar que n&atilde;o sei donde me vem. Nada<br \/>\n    ocorreu que o determinasse. Ontem, vivi um dia igual a todos. N&atilde;o tive<br \/>\n    nem mesmo uma quest&atilde;o com o coletor. Por que n&atilde;o estou satisfeito?<br \/>\n    N&atilde;o sei. E quem o poder&aacute; saber! H&aacute; em n&oacute;s tanta<br \/>\n    coisa misteriosa, tantos sentimentos cujas origens nos escapam, que me esfor&ccedil;o<br \/>\n    em v&atilde;o por explicar este meu atual estado d&#8217;alma. De uns tempos<br \/>\n    a esta parte, acontece-me isso amiudadas vezes. Tudo vai correndo normalmente;<br \/>\n    os dias com o mesmo enfado de sempre, e as noites serenas e pl&aacute;cidas;<br \/>\n    entretanto, esta ou aquela manh&atilde;, ergo-me e olho pela janela aberta<br \/>\n    o rio que desliza l&aacute; embaixo, ensombrado de melancolia, cheio de lassid&atilde;o,<br \/>\n    com maus desejos passando-me pela cabe&ccedil;a. Penso &#8211; n&atilde;o sei por<br \/>\n    que &#8211; que &eacute; este meu livro que me est&aacute; fazendo mal&#8230; E quem<br \/>\n    sabe se excitar recorda&ccedil;&otilde;es de sofrimentos, avivar as imagens<br \/>\n    de que nasceram n&atilde;o &eacute; fazer com que, obscura e confusamente,<br \/>\n    me venham as sensa&ccedil;&otilde;es dolorosas j&aacute; semimortas? Talvez<br \/>\n    mesmo seja ang&uacute;stia de escritor, porque vivo cheio de d&uacute;vidas,<br \/>\n    e hesito de dia para dia em continuar a escrev&ecirc;-lo. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o seu valor liter&aacute;rio que me preocupa; &eacute; a sua utilidade para<br \/>\n    o fim que almejo.<\/p>\n<p> Quem sabe se ele me n&atilde;o vai saindo um puro falat&oacute;rio?! Eu<br \/>\n    n&atilde;o sou literato, detesto com toda a paix&atilde;o essa esp&eacute;cie<br \/>\n    de animal. O que observei neles, no tempo em que estive na reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do O Globo, foi o bastante para n&atilde;o os amar, nem os imitar. S&atilde;o<br \/>\n    em geral de uma lastim&aacute;vel limita&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias,<br \/>\n    cheios de f&oacute;rmulas, de receitas, s&oacute; capazes de colher fatos<br \/>\n    detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e &agrave;s<br \/>\n    id&eacute;ias vencedoras, e antigas, adstritos a um infantil fetichismo do<br \/>\n    estilo e guiados por conceitos e um pueril e err&ocirc;neo crit&eacute;rio<br \/>\n    de beleza. Se me esfor&ccedil;o por faz&ecirc;-lo liter&aacute;rio &eacute;<br \/>\n    para que ele possa ser lido, pois quero falar das minhas dores e dos meus<br \/>\n    sofrimentos ao esp&iacute;rito geral e no seu interesse, com a linguagem acess&iacute;vel<br \/>\n    a ele. &Eacute; esse o meu prop&oacute;sito, o meu &uacute;nico prop&oacute;sito.<br \/>\n    N&atilde;o nego que para isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os,<br \/>\n    confesso; e, agora mesmo, ao alcance das m&atilde;os, tenho os autores que<br \/>\n    mais amo. Est&atilde;o ali o Crime e Castigo de Dostoi&eacute;vski, um volume<br \/>\n    dos Contos de Voltaire, A Guerra e a Paz de T&oacute;lstoi, o Le Rouge et<br \/>\n    le Noir de Stendhal, a Cousine Bette de Balzac, a Education Sentimentale de<br \/>\n    Flaubert, o Ant&eacute;christ de Renan, o E&ccedil;a; na estante, sob as minhas<br \/>\n    vistas, tenho o Taine, o Bougl&eacute;, o Ribot e outros autores de literatura<br \/>\n    propriamente, ou n&atilde;o. Confesso que os leio, que os estudo, que procuro<br \/>\n    descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer. Mas, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a ambi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria que me move ao procurar esse dom<br \/>\n    misterioso para animar e fazer viver estas p&aacute;lidas Recorda&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Com elas, queria modificar a opini&atilde;o dos meus concidad&atilde;os, obrig&aacute;-los<br \/>\n    a pensar de outro modo, a n&atilde;o se encherem de hostilidade e m&aacute;<br \/>\n    vontade quando encontrarem na vida um rapaz como eu e com os desejos que tinha<br \/>\n    h&aacute; dez anos passados. Tento mostrar que s&atilde;o leg&iacute;timos<br \/>\n    e, se n&atilde;o merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Entretanto, quantas dores, quantas ang&uacute;stias! Vivo aqui s&oacute;,<br \/>\n    isto &eacute;, sem rela&ccedil;&otilde;es intelectuais de qualquer ordem.<br \/>\n    Cercam-me dois ou tr&ecirc;s bachar&eacute;is idiotas e um m&eacute;dico mezinheiro,<br \/>\n    repletos de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. Claudicam na<br \/>\n    ortografia, e um mesmo, o Juiz municipal, acaba de publicar um artigo no Di&aacute;rio<br \/>\n    de Caxambi sobre a &quot;Sociedade atual em face da Ci&ecirc;ncia&quot;, onde<br \/>\n    fala em raios hertzianos. Entretanto, se eu amanh&atilde; lhes fosse falar<br \/>\n    neste livro &#8211; que espanto! que sarcasmo! que cr&iacute;tica desanimadora n&atilde;o<br \/>\n    fariam. Depois que se foi o dr. Graciliano, excepcionalmente simples e esquecido<br \/>\n    de sua carta apergaminhada, nada digo das minhas leituras, n&atilde;o falo<br \/>\n    das minhas lucubra&ccedil;&otilde;es intelectuais a ningu&eacute;m, e minha<br \/>\n    mulher, quando me demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:<br \/>\n    &#8211; Vem dormir, Isa&iacute;as! Deixa esse Relat&oacute;rio para amanh&atilde;!<br \/>\n    De forma que n&atilde;o tenho por onde aferir se as minhas Recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    preenchem o fim a que as destino; se a minha inabilidade liter&aacute;ria<br \/>\n    est&aacute; prejudicando completamente o seu pensamento. Que tortura! E n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; s&oacute; isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em que<br \/>\n    me acho, em que me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher p&uacute;blica&#8230;<br \/>\n    Sofro assim de tantos modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar,<br \/>\n    com que &agrave;s vezes acordo, vem dela, unicamente dela. Quero abandon&aacute;-la;<br \/>\n    mas n&atilde;o posso absolutamente. De manh&atilde;, ao almo&ccedil;o, na<br \/>\n    coletoria, na botica, jantando, banhando-me, s&oacute; penso nela. &Agrave;<br \/>\n    noite, quando todos em casa se v&atilde;o recolhendo, insensivelmente aproximo-me<br \/>\n    da mesa e escrevo furiosamente. Estou no sexto cap&iacute;tulo e ainda n&atilde;o<br \/>\n    me preocupei em faz&ecirc;-la p&uacute;blica, anunciar e arranjar um bom recebimento<br \/>\n    dos detentores da opini&atilde;o nacional. Que ela tenha a sorte que merecer,<br \/>\n    mas que possa tamb&eacute;m, amanh&atilde; ou daqui a s&eacute;culos, despertar<br \/>\n    um escritor mais h&aacute;bil que a refa&ccedil;a e que diga o que n&atilde;o<br \/>\n    pude nem soube dizer.<\/p>\n<p> &Eacute; esta passagem do xadrez que me faz vir estes pensamentos amargos.<br \/>\n    Imagino como um escritor h&aacute;bil n&atilde;o saberia dizer o que eu senti<br \/>\n    l&aacute; dentro. Eu que sofri e pensei n&atilde;o o sei narrar. J&aacute;<br \/>\n    por duas vezes, tentei escrever; mas relendo a p&aacute;gina, achei-a incolor,<br \/>\n    comum, e, sobretudo, pouco expressiva do que eu de fato tinha sentido. Estive<br \/>\n    no xadrez mais de tr&ecirc;s horas, depois fui de novo &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n    do delegado. Encontrei-o outro homem, mais brando e disposto &agrave; simpatia,<br \/>\n    tratando-me por &quot;menino&quot; e &quot;meu filho&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; menino, precisa deixar esse g&ecirc;nio. Olhe que a vida n&atilde;o<br \/>\n    se leva assim&#8230; Voc&ecirc; sabe o que eu lhe podia fazer? Lavrar um processo<br \/>\n    por desrespeito &agrave; autoridade&#8230; N&atilde;o fa&ccedil;a nunca mais isso,<br \/>\n    meu filho; hoje foi comigo, que enfim&#8230; mas amanh&atilde; &#8211; quem sabe? Em<br \/>\n    come&ccedil;o mantive o mesmo humor agressivo, respondendo-lhe secamente &agrave;s<br \/>\n    perguntas que fazia sobre os meus precedentes; por fim, rendendo-me &agrave;<br \/>\n    sua brandura, desculpei-me, satisfazendo-as com respeito, acatando-as com<br \/>\n    toda a do&ccedil;ura de que &eacute; capaz o meu natural, doce e sens&iacute;vel<br \/>\n    ao bom tratamento.<\/p>\n<p> H&aacute; muita bondade no nosso car&aacute;ter, mas tamb&eacute;m muita<br \/>\n    arrog&acirc;ncia, muito exagero no mandar e um doentio impudor no desobedecer.<br \/>\n    Esses arrependimentos, essas voltas atr&aacute;s s&atilde;o freq&uuml;entes<br \/>\n    e fatais no modo de agir das nossas autoridades. Eu n&atilde;o sei at&eacute;<br \/>\n    que ponto me excedi, at&eacute; onde fui inconveniente; n&atilde;o tenho ainda<br \/>\n    observado essa face do car&aacute;ter nacional, espantei-me com a delicadeza<br \/>\n    com que me tratou a autoridade, pela segunda vez em que fui &agrave; presen&ccedil;a.<br \/>\n    Julgava-a transformada pela interven&ccedil;&atilde;o de algum protetor desconhecido,<br \/>\n    mas fiquei certo de que n&atilde;o era esse o motivo, pois me perguntou logo:<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o tem rela&ccedil;&otilde;es aqui no Rio, menino? &#8211;<br \/>\n    Nenhuma.<\/p>\n<p> Admirou-se muito, extraordinariamente, a ponto de repetir de outro modo<br \/>\n    a pergunta: &#8211; Mas ningu&eacute;m? Ningu&eacute;m? &#8211; O meu conhecimento mais<br \/>\n    &iacute;ntimo &eacute; o doutor Iv&atilde; Gregor&oacute;vitch Rost&oacute;loff<br \/>\n    &#8211; conhece? &#8211; Oh! como n&atilde;o? Um jornalista, do O Globo n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    &#8211; Esse mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Por que n&atilde;o me disse logo? Quando se est&aacute; em presen&ccedil;a<br \/>\n    da pol&iacute;cia, a nossa obriga&ccedil;&atilde;o &eacute; dizer toda a nossa<br \/>\n    vida, procurar atestados de nossa conduta, dizer os amigos, a profiss&atilde;o,<br \/>\n    o que se faz, o que se n&atilde;o faz&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sabia que era um homem importante, por isso&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o! Um jornalista &eacute; sempre um homem importante, respeitado,<br \/>\n    e n&oacute;s, da pol&iacute;cia, temo-lo sempre em grande conta&#8230; V&aacute;-se<br \/>\n    embora, disse-me ele por fim, e procure mudar-se daquele hotel quanto antes&#8230;<br \/>\n    Aquilo &eacute; muito conhecido&#8230; Os furtos se repetem e os ladr&otilde;es<br \/>\n    nunca aparecem&#8230; Mude-se quanto antes, &eacute; o meu conselho. V&aacute;!<br \/>\n    Eu ia saindo e, antes de transpor a porta, o delegado veio ao meu encontro<br \/>\n    e recomendou em voz baixa: &#8211; N&atilde;o diga nada ao dr. Rost&oacute;loff<br \/>\n    &#8211; sabe? Ele pode publicar e ambos n&oacute;s temos que perder&#8230;<\/p>\n<p> Dirigi-me ao hotel indiferente &agrave; chuva que continuava a cair. Ia<br \/>\n    profundamente vexado e firmemente decidido a abandon&aacute;-lo quanto antes.<br \/>\n    Pressentindo que o hoteleiro tinha insinuado ao delegado que eu bem podia<br \/>\n    ser o autor do furto, refletia sobre uma decis&atilde;o a tomar. O meu primeiro<br \/>\n    pensamento foi insult&aacute;-lo, dar-lhe pancada; mas seria recome&ccedil;ar<br \/>\n    as humilha&ccedil;&otilde;es da delegacia&#8230; Andando, cheguei ao Campo de<br \/>\n    Sant&#8217;Ana. A&iacute; j&aacute; tinha deliberado. Entraria naturalmente<br \/>\n    e nada diria a respeito, esperaria que ele falasse. Entrei; estavam todos<br \/>\n    na sala de jantar, dei-lhes boas-noites e troquei com os circunstantes algumas<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es sobre o fato. Nenhum deles se animou &agrave; mais<br \/>\n    leve insinua&ccedil;&atilde;o e subi ao meu quarto aparentando a maior calma.<br \/>\n    N&atilde;o conciliei logo o sono. Encarei a eventualidade de voltar para minha<br \/>\n    casa familiar. O caminho na vida parecia-me fechado completamente, por m&atilde;os<br \/>\n    mais fortes que as dos homens. N&atilde;o eram eles que n&atilde;o me queriam<br \/>\n    deixar passar, era o meu sangue covarde, era a minha do&ccedil;ura, eram os<br \/>\n    defeitos de meu car&aacute;ter que n&atilde;o sabiam abrir um. Eu mesmo amontoava<br \/>\n    obst&aacute;culos &agrave; minha carreira; n&atilde;o eram eles&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    seria tolice, pusilanimidade escondida fazer repousar a minha felicidade na<br \/>\n    presteza com que um qualquer deputado atendesse um pedido de emprego? Era<br \/>\n    poss&iacute;vel t&ecirc;-los sempre &agrave; m&atilde;o para os dar ao primeiro<br \/>\n    que aparecesse? As condi&ccedil;&otilde;es de minha felicidade n&atilde;o<br \/>\n    deviam repousar sen&atilde;o em mim mesmo &#8211; conclu&iacute;&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    era s&oacute; isso que eu via. O que me fazia combalido, o que me desanimava<br \/>\n    eram as malhas de desd&eacute;m, de esc&aacute;rnio, de condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que me sentia preso.<\/p>\n<p> Na viagem, vira-as manifestar-se; no Lage da Silva, na Delegacia, na atitude<br \/>\n    do deputado, numa frase meio dita, num olhar, eu sentia que a gente que me<br \/>\n    cercava, me tinha numa conta inferior. Como que sentia que estava proibido<br \/>\n    de viver e fosse qual fosse o fim da minha vida os esfor&ccedil;os haviam<br \/>\n    de ser tit&acirc;nicos. Foi talvez esse adjetivo que me fez deliberar de outro<br \/>\n    modo. Passou-me pela mem&oacute;ria a anedota mitol&oacute;gica que ele evoca.<br \/>\n    Representou-se-me a luta daqueles her&oacute;is com os Deuses, a sua teimosia<br \/>\n    em escalar o c&eacute;u, a energia que puseram em t&atilde;o insensata empresa&#8230;<br \/>\n    Vi o quadro com todas as cores e com todas as figuras&#8230; Abalei-me de emo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    achei nessa atitude uma estranha grandeza, n&atilde;o sei que fulgurante beleza<br \/>\n    que me tornou logo interiormente alegre &#8211; tanto &eacute; verdade dizer-se<br \/>\n    que a beleza &eacute; uma promessa de felicidade! Abandonei a volta covarde<br \/>\n    para a casa materna e decidi-me a lutar, a bater-me para chegar &#8211; aonde? &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o sabia bem; para chegar fosse como fosse. Trabalharia &#8211; em qu&ecirc;?<br \/>\n    em tudo. E, enquanto considerava a delicadeza das minhas m&atilde;os e a fragilidade<br \/>\n    dos meus m&uacute;sculos, adormeci placidamente, satisfeito comigo e com a<br \/>\n    minha coragem e firme na resolu&ccedil;&atilde;o de procurar no dia seguinte<br \/>\n    qualquer ocupa&ccedil;&atilde;o, por mais humilde que ela fosse. A noite passou<br \/>\n    depressa e, quando desci &agrave; rua, ainda brilhava em frente &agrave; Prefeitura<br \/>\n    um combustor de g&aacute;s. O ambiente n&atilde;o era de luz nem de treva<br \/>\n    &#8211; era uma penumbra algodoada e nevoenta com que come&ccedil;am certas manh&atilde;s<br \/>\n    no Rio de Janeiro. Os raros transeuntes moviam-se esbatidos naquela ambi&ecirc;ncia<br \/>\n    indecisa. Andei. Ao chegar &agrave; rua do Ouvidor, a rua dos lentos passeios<br \/>\n    elegantes, havia uma agita&ccedil;&atilde;o de mercado. Cestos de verduras,<br \/>\n    de peixes, de carnes, passavam &agrave; cabe&ccedil;a de mulheres e homens;<br \/>\n    os quitandeiros ambulantes corriam por ela acima; pequenas carro&ccedil;as<br \/>\n    de hot&eacute;is caros davam-se ao luxo de atravess&aacute;-la em toda a extens&atilde;o;<br \/>\n    e pelas soleiras das portas imensas moles de jornais di&aacute;rios eram subdivididos<br \/>\n    pelos vendedores de todos os pontos da cidade. As pol&ecirc;micas malcriadas<br \/>\n    de uns contra os outros sobrepunham-se, abra&ccedil;avam-se fraternalmente<br \/>\n    ao impulso do italiano indiferente: Gazeta! Pa&iacute;s! Jornal do Com&eacute;rcio!<br \/>\n    Os caf&eacute;s j&aacute; estavam abertos e ainda iluminados. Comprei um jornal<br \/>\n    e entrei num deles. Por essa hora, t&ecirc;m uma freguesia apressada e especial.<br \/>\n    Noct&iacute;vagos, vagabundos, oper&aacute;rios, jogadores, empregados em<br \/>\n    jornais &#8211; gente um tanto heterog&ecirc;nea que l&aacute; vai e se serve rapidamente.<\/p>\n<p> &Eacute; raro uma mulher; nesse dia, por acaso, havia duas mo&ccedil;as,<br \/>\n    acompanhadas de uma senhora e um rapaz. Tomavam chocolate e vinham naturalmente<br \/>\n    de um baile.<\/p>\n<p> A velha cochilava e as duas mo&ccedil;as tinham os olhos pisados, e o rosto<br \/>\n    macerado pela longa e fatigante vig&iacute;lia.<\/p>\n<p> Saturadas de notas musicais, uma delas ainda balan&ccedil;ava a cabe&ccedil;a<br \/>\n    como se estivesse ouvindo um dolente compasso de valsa. Estavam desbotadas,<br \/>\n    com os olhos encovados, e pelo rosto, neste ou naquele ponto, uma parte de<br \/>\n    pintura resistira e ficara. Viam-se os ossos da face e os rostos estavam escaveirados.<br \/>\n    O rapaz, entretanto, continuava a conversa ternamente embevecido&#8230; Observei-as<br \/>\n    muito tempo ainda, considerando como era dif&iacute;cil &agrave;queles dois<br \/>\n    entes achar o fim natural de sua vida&#8230; Quantos trope&ccedil;os as praxes<br \/>\n    punham! A quanto trabalho eram obrigadas! Dan&ccedil;ar-se noites e noites!&#8230;<br \/>\n    Levado por tais considera&ccedil;&otilde;es ia esquecendo os meus pr&oacute;prios<br \/>\n    interesses. Pus-me a ler o jornal, os an&uacute;ncios de &quot;precisa-se&quot;.<br \/>\n    Dentre eles, um pareceu-me aceit&aacute;vel. Tratava-se de um rapaz, de conduta<br \/>\n    afian&ccedil;ada para acompanhar um cesto de p&atilde;o. Era nas Laranjeiras.<br \/>\n    Estava resolvido a aceitar; trabalharia um ano ou mais; guardaria dinheiro<br \/>\n    suficiente que me desse tempo para pleitear mais tarde um lugar melhor. N&atilde;o<br \/>\n    havia nada que me impedisse: eu era desconhecido, sem fam&iacute;lia, sem<br \/>\n    origens&#8230; que mal havia? Mais tarde, se chegasse a alguma coisa, n&atilde;o<br \/>\n    me envergonharia, por certo? Fui, contente at&eacute;. Falei ao gordo propriet&aacute;rio<br \/>\n    do estabelecimento. N&atilde;o me recordo mais das suas fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mas tenho na mem&oacute;ria as suas grandes m&atilde;os com um enorme &quot;solit&aacute;rio&quot;<br \/>\n    e o seu alentado corpo de arrobas.<\/p>\n<p> &#8211; Foi o senhor que anunciou um rapaz para&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Foi; &eacute; o senhor? respondeu-me logo sem me dar tempo de acabar.<\/p>\n<p> &#8211; Sou, pois n&atilde;o.<\/p>\n<p> O gordo propriet&aacute;rio esteve um instante a considerar, agitou os pequenos<br \/>\n    olhos perdidos no grande rosto, examinou-me convenientemente e disse por fim,<br \/>\n    voltando-me as costas com mau humor: &#8211; N&atilde;o me serve.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? atrevi-me eu.<\/p>\n<p> &#8211; Porque n&atilde;o me serve.<\/p>\n<p> E veio vagarosamente at&eacute; uma das portas da rua, enquanto eu sa&iacute;a<br \/>\n    literalmente esmagado. Naquela recusa do padeiro em me admitir, eu descobria<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de s&iacute;tio posto &agrave; minha vida. Sendo obrigado<br \/>\n    a trabalhar, o trabalho era-me recusado em nome de sentimentos injustific&aacute;veis.<br \/>\n    Facilmente generalizei e convenci-me de que esse seria o proceder geral. Imaginei<br \/>\n    as longas marchas que tinha que fazer para arranjar qualquer coisa com que<br \/>\n    viver; as humilha&ccedil;&otilde;es que teria que tragar; e, de novo, me veio<br \/>\n    aquele &oacute;dio do bonde, quando de volta da casa do deputado Castro. Revoltava-me<br \/>\n    que me obrigassem a despender tanta for&ccedil;a de vontade, tanta energia<br \/>\n    com coisas em que os outros pouco gastavam. Era uma desigualdade absurda,<br \/>\n    est&uacute;pida, contra a qual se iam quebrar o meu pensamento angustiado<br \/>\n    e os meus sentimentos liberais que n&atilde;o podiam acusar particularmente<br \/>\n    o padeiro. Que diabo! eu oferecia-me, ele n&atilde;o queria! que havia nisso<br \/>\n    demais? Era uma simples manifesta&ccedil;&atilde;o de um sentimento geral,<br \/>\n    e era contra esse sentimento, aos poucos descoberto por mim, que eu me revoltava.<br \/>\n    Vim descendo a rua, e perdendo-me aos poucos no meu pr&oacute;prio racioc&iacute;nio.<br \/>\n    Preliminarmente descobria-lhe absurdos, voltava ao interior, misturava os<br \/>\n    dois, embrulhava-me. No largo do Machado, contemplei durante momentos aquela<br \/>\n    igreja de front&atilde;o grego e colunas d&oacute;ricas e tive a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de estar em pa&iacute;s estrangeiro.<\/p>\n<p> O &aacute;lcool n&atilde;o entrava nos meus h&aacute;bitos. Em minha casa,<br \/>\n    raramente o bebia. Naquela ocasi&atilde;o, por&eacute;m, deu-me uma vontade<br \/>\n    de beber, de me embriagar, estava cansado de sentir, queria um narc&oacute;tico<br \/>\n    que fizesse descansar os nervos tendidos pelos constantes abalos daqueles<br \/>\n    &uacute;ltimos dias. Entrei no caf&eacute;, mas tive nojo. Limitei-me a beber<br \/>\n    uma x&iacute;cara de caf&eacute; e caminhei tristemente em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao mar, olhando com inveja um carregador que bebia um grande c&aacute;lice<br \/>\n    de parati. Eu tinha uma imensa lassid&atilde;o e uma grande fraqueza de energia<br \/>\n    mental. Quis descansar, debrucei-me na muralha do cais e olhei o mar. Estava<br \/>\n    calmo; a limpidez do c&eacute;u e a luz macia da manh&atilde; faziam-no aveludado.<br \/>\n    Os &uacute;ltimos sinais da tempestade da v&eacute;spera tinham desaparecido.<br \/>\n    Havia satisfa&ccedil;&atilde;o e felicidade no ar, uma grande meiguice, tudo<br \/>\n    respirava; e isso pareceu-me hostil. Continuei a olhar o mar fixamente, de<br \/>\n    costas para os bondes que passavam. Aos poucos ele hipnotizou-me, atraiu-me,<br \/>\n    parecia que me convidava a ir viver nele, a dissolver-me nas suas &aacute;guas<br \/>\n    infinitas, sem vontade nem pensamentos; a ir nas suas ondas experimentar todos<br \/>\n    os climas da Terra, a gozar todas as paisagens, fora do dom&iacute;nio dos<br \/>\n    homens, completamente livre, completamente a coberto de suas regras e dos<br \/>\n    seus caprichos&#8230; Tive &iacute;mpetos de descer a escada, de entrar corajosamente<br \/>\n    pelas &aacute;guas adentro, seguro de que ia passar a uma outra vida melhor,<br \/>\n    afagado e beijado constantemente por aquele monstro que era triste como eu.<br \/>\n    Os el&eacute;tricos subiam vazios e desciam cheios. Ingleses de chap&eacute;us<br \/>\n    de palha cintados de fitas multicores, com pretens&otilde;es &agrave; originalidade,<br \/>\n    enchiam-nos. Fumavam com desd&eacute;m e iam convencidos na sua ignor&acirc;ncia<br \/>\n    assombrosa que a l&iacute;ngua incompreens&iacute;vel escondia de n&oacute;s,<br \/>\n    que davam espet&aacute;culo a essa gente mais ou menos negra, de uma energia<br \/>\n    sobre-humana e de uma intelig&ecirc;ncia sem medida. Os bondes continuavam<br \/>\n    a passar muito cheios, tilintando e dan&ccedil;ando sobre os trilhos. Se acaso<br \/>\n    um dos viajantes dava comigo, afastava logo o olhar com desgosto. Eu n&atilde;o<br \/>\n    tinha nem a simpatia com que se olham as &aacute;rvores; o meu sofrimento<br \/>\n    e as minhas dores n&atilde;o encontravam o menor eco fora de mim. As plumas<br \/>\n    dos chap&eacute;us das senhoras e as bengalas dos homens pareceram-me ser<br \/>\n    enfeites de selvagens, a cuja terra eu tivesse sido atirado por um naufr&aacute;gio.<br \/>\n    N&oacute;s n&atilde;o nos entend&iacute;amos; as suas alegrias n&atilde;o<br \/>\n    eram as minhas; as minhas dores n&atilde;o eram sequer percebidas&#8230; Por for&ccedil;a,<br \/>\n    pensei, devia haver gente boa a&iacute;&#8230; Talvez tivesse sido destronada,<br \/>\n    presa e perseguida; mas devia haver&#8230; Havia por isso tanta repulsa nos seus<br \/>\n    olhos, tanta paix&atilde;o baixa, tanta ferocidade que eu me cri entre yahoos<br \/>\n    e tive &iacute;mpetos de fugir antes de ser devorado&#8230; S&oacute; o mar me<br \/>\n    contemplava com piedade, sugestionando-me e prometendo-me grandes satisfa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no meio de sua imensa massa l&iacute;quida&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Vem, dizia-me ele, vem comigo e, no meu seio, viver&aacute;s esquecido,<br \/>\n    livre e independente&#8230; Aqui, eu te abrirei perspectivas infinitas &agrave;<br \/>\n    tua vida limitada e os conceitos, as no&ccedil;&otilde;es e as id&eacute;ias<br \/>\n    nada valer&atilde;o. Zombar&aacute;s deles, n&atilde;o os sentir&aacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o ter&aacute;s consci&ecirc;ncia, nem pensamento, nem vontade&#8230;<\/p>\n<p> Deviam ser oito horas e eu vim descendo a p&eacute; pela borda do cais.<br \/>\n    Pensava num alvitre a tomar. Precisava sair do hotel. Estava sem dinheiro;<br \/>\n    depois de paga a pens&atilde;o, restar-me-iam uns seis mil e tanto. Tinha<br \/>\n    que o deixar em breve, fosse como fosse. Aquela sociedade com pessoas que<br \/>\n    me tinham suspeitado ladr&atilde;o, pesava-me, abatia-me. A esperan&ccedil;a<br \/>\n    num emprego humilde esva&iacute;ra-se. A recusa sistem&aacute;tica do padeiro<br \/>\n    fizera-me supor que era assim em todas as profiss&otilde;es. Assim seriam<br \/>\n    os hoteleiros, os donos de caf&eacute;s, de confeitarias, de cocheiras&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o sabia por onde sair; era de um verdadeiro s&iacute;tio &agrave;<br \/>\n    minha vida que eu tinha sensa&ccedil;&atilde;o. Durante o dia inteiro n&atilde;o<br \/>\n    me deixaram esses pensamentos. Almocei no hotel silenciosamente, sentindo<br \/>\n    a irritante observa&ccedil;&atilde;o do copeiro. Sa&iacute; logo demandando<br \/>\n    a cidade. Tinha entrado na rua do Ros&aacute;rio, quando algu&eacute;m me<br \/>\n    bateu no ombro: &#8211; O senhor n&atilde;o &eacute; Isa&iacute;as Caminha? &#8211; Sou.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se lembra de mim? Eu sou o Agostinho&#8230; o Agostinho Marques&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o se lembra? &#8211; Recordo-me sim. Voc&ecirc; se sentava junto ao Fel&iacute;cio<br \/>\n    da Costa, n&atilde;o era? &#8211; &Eacute; verdade. Chegou h&aacute; muito tempo,<br \/>\n    Isa&iacute;as? &#8211; H&aacute; um m&ecirc;s, e voc&ecirc; o que est&aacute; fazendo?<br \/>\n    &#8211; Sou empregado no escrit&oacute;rio do dr. Leit&atilde;o Fr&oacute;is &#8211; e<br \/>\n    voc&ecirc;? &#8211; Eu!&#8230; Procuro a vida&#8230;<\/p>\n<p> O meu antigo colega n&atilde;o se demorou muito, tinha pressa e eu prometi-lhe<br \/>\n    que o procuraria para conversar, tanto mais que ele tinha servi&ccedil;o a<br \/>\n    dar-me. Passei o resto do dia vagueando. Veio a tarde, uma tarde doce e azul,<br \/>\n    e eu n&atilde;o tive for&ccedil;a para me apresentar no hotel. Fui ao Passeio<br \/>\n    P&uacute;blico. Entrei e sentei-me num banco afastado, fora do caminho habitual<br \/>\n    dos visitantes. Estive instantes pensando a olhar o regato na minha frente<br \/>\n    e as &aacute;rvores que me cercavam. Os patos e os gansos nadavam satisfeitos<br \/>\n    e as gar&ccedil;as pensativas perfiladas nas margens espiavam assombreadas<br \/>\n    vendo tanta alegria. A tarde punha um brilho particular nas coisas, de do&ccedil;ura<br \/>\n    e satisfa&ccedil;&atilde;o. Aquele descanso no jardim, fez-me lembrar n&atilde;o<br \/>\n    sei que passagem do meu livro, desse perverso livro de que eu quis fazer b&uacute;ssola<br \/>\n    para minha vida. Abri-o e, desejoso por encontrar a passagem, n&atilde;o reparei<br \/>\n    que uma pessoa viera sentar-se no mesmo banco que eu. Num dado momento, virei-me<br \/>\n    e dei com uma rapariga de cor, de olhos tristes e fei&ccedil;&otilde;es agrad&aacute;veis.<br \/>\n    Tinha uma bolsinha na m&atilde;o, um chap&eacute;u de sol de alpaca e o vestu&aacute;rio<br \/>\n    era pobre. Considerei-a um instante e continuei a ler o livro, cheio de uma<br \/>\n    natural indiferen&ccedil;a pela vizinha. A rapariga come&ccedil;ou a murmurar,<br \/>\n    perguntou-me qualquer coisa que respondi sem me voltar. Subitamente, depois<br \/>\n    de fazer estalar um desprez&iacute;vel muxoxo, ela me disse &agrave; queima-roupa:<br \/>\n    &#8211; Que tipo! Pensa mesmo que &eacute; doutor&#8230;<\/p>\n<p> Fechei o livro, levantei-me e, j&aacute; afastado, ainda ouvi dela alguns<br \/>\n    desaforos. Cheguei ao port&atilde;o. Os bondes passavam, havia um grande movimento<br \/>\n    de carros e pedestres. Considerei a rua, as casas, as fisionomias que passavam.<br \/>\n    Olhei uma, duas, mil vezes, os pobres e os ricos.<\/p>\n<p> Eu estava s&oacute;.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\"> VII<\/a><\/h4>\n<p>Havia dias que notava com surpresa a indiferen&ccedil;a que tinha ent&atilde;o<br \/>\n    pelos meus destinos. Aquele meu fervor primeiro, tinha sido substitu&iacute;do<br \/>\n    por uma apatia superior a mim. Tudo me parecia acima de minhas for&ccedil;as,<br \/>\n    tudo me parecia imposs&iacute;vel; e que n&atilde;o era eu propriamente que<br \/>\n    n&atilde;o podia fazer isso ou aquilo, mas eram todos os outros que n&atilde;o<br \/>\n    queriam, contra a vontade dos quais a minha era insuficiente e d&eacute;bil.<br \/>\n    A minha individualidade n&atilde;o reagia; portava-se em presen&ccedil;a do<br \/>\n    querer dos outros como um corpo neutro; adormecera, encolhera-se timidamente<br \/>\n    acobardada.<\/p>\n<p> Houve duas ou tr&ecirc;s crises de vontade que me obrigaram a procurar emprego.<br \/>\n    Nas duas primeiras, recuei passado o primeiro &iacute;mpeto; na terceira,<br \/>\n    fi-lo de tal modo, t&atilde;o transtornado, t&atilde;o lamuriento e frouxo<br \/>\n    que fui mal-sucedido. Vendi os meus livros para apurar algum dinheiro. Pago<br \/>\n    o hotel, fiquei reduzido &agrave; &uacute;ltima extremidade, com um curto<br \/>\n    prazo para dele retirar a minha insignificante bagagem. Esperava resposta<br \/>\n    de uma carta em que pedira algum dinheiro a minha m&atilde;e. N&atilde;o se<br \/>\n    demorou em responder, mandando-me cinq&uuml;enta mil-r&eacute;is. Aluguei<br \/>\n    um quarto e os primeiros dias que nele passei foram do mais absoluto enfado.<\/p>\n<p> Sa&iacute;a, mas evitava a rua do Ouvidor e o Laje da Silva, que passara<br \/>\n    a tratar-me de outro modo. Dei em passear de bonde, saltando de um para outro,<br \/>\n    aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o ve&iacute;culo em outros<br \/>\n    bairros. Da Tijuca ia ao Andara&iacute; e da&iacute; a Vila Isabel; e assim,<br \/>\n    passando de um bairro para outro, procurando travessas despovoadas e sem cal&ccedil;amento,<br \/>\n    conheci a cidade &#8211; tal qual os bondes a fizeram alternativamente povoada e<br \/>\n    despovoada, com grandes hiatos entre ruas de popula&ccedil;&atilde;o condensada<br \/>\n    e toda ela, agitada, dividida, convulsionada pelas colinas e contrafortes<br \/>\n    da montanha em cujas vertentes crescera. Jantava, uns dias; em outros, almo&ccedil;ava<br \/>\n    unicamente; e houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. Descobri a Biblioteca<br \/>\n    Nacional, para onde muitas vezes fui, cheio de fome, ler Maupassant e Daudet.<br \/>\n    Estava na casa de c&ocirc;modos havia perto de quinze dias. Uma noite, acabara<br \/>\n    de chegar e despia-me, quando me bateram &agrave; porta. Abri: &quot;Boa noite&quot;,<br \/>\n    falou-me um rapaz do lado de fora. &quot;O senhor podia permitir que eu acendesse<br \/>\n    a minha vela na sua? Cheguei sem f&oacute;sforos e vendo que no seu quarto<br \/>\n    havia luz, vinha-lhe pedir esse favor.&quot; Ficamo-nos conhecendo, aos poucos<br \/>\n    nos aproximamos e entabulamos rela&ccedil;&otilde;es mais estreitas. Abelardo<br \/>\n    Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta e revolucion&aacute;rio. Como<br \/>\n    poeta tinha a mais sincera admira&ccedil;&atilde;o pela beleza das meninas<br \/>\n    e senhoras do Botafogo. N&atilde;o faltava &agrave;s regatas, &agrave;s quermesses,<br \/>\n    &agrave;s t&ocirc;mbolas, a todos os lugares em que elas apareciam em massa;<br \/>\n    e a sua musa &#8211; uma p&aacute;lida musa, decentemente abotoada no Castilho e<br \/>\n    penteada diante dos espelhos de B. Lopes e Macedo Papan&ccedil;a &#8211; quase diariamente<br \/>\n    lhes cantava a beleza &quot;ol&iacute;mpica e lirial&quot;. Como revolucion&aacute;rio,<br \/>\n    dizia-se socialista adiantado, apoiando-se nas pr&eacute;dicas e brochuras<br \/>\n    do Sr. Teixeira Mendes, lendo tamb&eacute;m formid&aacute;veis folhetos de<br \/>\n    capa vermelha, e era secret&aacute;rio do Centro de Resist&ecirc;ncia dos<br \/>\n    Varredores de Rua. Vivia pobremente, curtindo mis&eacute;rias e lendo, entre<br \/>\n    duas refei&ccedil;&otilde;es afastadas, as suas obras prediletas e enchendo<br \/>\n    a cidade com os longos passos de homem de grandes pernas.<\/p>\n<p> Depois de nossas rela&ccedil;&otilde;es, era freq&uuml;ente passearmos juntos.<br \/>\n    Sa&iacute;amos &agrave;s dez horas, tom&aacute;vamos caf&eacute; e and&aacute;vamos<br \/>\n    at&eacute; as tr&ecirc;s ou quatro da tarde. A essa hora separ&aacute;vamo-nos<br \/>\n    em obedi&ecirc;ncia a uma conven&ccedil;&atilde;o t&aacute;cita. Tratava-se<br \/>\n    de jantar e cada um de n&oacute;s ia arranjar-se. &Agrave; tarde, encontr&aacute;vamo-nos<br \/>\n    e &iacute;amos conversar a um caf&eacute; com alguns outros amigos dele, na<br \/>\n    mor parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes empregos, pretendendo<br \/>\n    virar a face do mundo para ter almo&ccedil;o e jantar diariamente. Leiva era<br \/>\n    o chefe, era a intelig&ecirc;ncia do grupo, pois, al&eacute;m de poeta, tinha<br \/>\n    todos os preparat&oacute;rios para o curso de dentista. Eu gostava de notar<br \/>\n    a adora&ccedil;&atilde;o pela viol&ecirc;ncia que as suas almas pac&iacute;ficas<br \/>\n    tinham, e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam rem&eacute;dios.<br \/>\n    Embora mais mo&ccedil;o do que ele, v&aacute;rias vezes cheguei a sorrir aos<br \/>\n    seus entusiasmos. Creio que lhes n&atilde;o faltava intelig&ecirc;ncia, sinceridade<br \/>\n    tamb&eacute;m; o que n&atilde;o encontravam era uma soma de necessidades a<br \/>\n    que viessem responder e sobre as quais apoiassem as suas furiosas declama&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Insurgiam-se contra o seu estado particular, oriundo talvez mais de suas qualidades<br \/>\n    de car&aacute;ter do que de falhas de temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos,<br \/>\n    independentes e isso n&atilde;o leva ningu&eacute;m &agrave; riqueza e &agrave;<br \/>\n    abastan&ccedil;a. Leiva era quem mais exagerava nos tra&ccedil;os do car&aacute;ter<br \/>\n    comum e se encarregava de pintar os sofrimentos da massa humana. Era um grupo<br \/>\n    de protestantes, detestando a pol&iacute;tica, dando-se ares de trabalhar<br \/>\n    para obra maior, a quem as peri&oacute;dicas &quot;revolu&ccedil;&otilde;es&quot;<br \/>\n    n&atilde;o serviam. Um ou outro acontecimento vinha-lhes dar a ilus&atilde;o<br \/>\n    de que eram g&ecirc;nios da opini&atilde;o. Leiva gabava-se de ter feito duas<br \/>\n    greves e de ter modificado as opini&otilde;es do operariado do Bangu com as<br \/>\n    suas confer&ecirc;ncias aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura, os seus<br \/>\n    rompantes de atrevimento e a sua ambi&ccedil;&atilde;o oculta, mais sinceros<br \/>\n    talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar as suas terr&iacute;veis<br \/>\n    opini&otilde;es em publica&ccedil;&otilde;es pouco lidas.<\/p>\n<p> No entanto, Leiva parecia-me mais sincero na sua poesia palaciana e de modista<br \/>\n    do que nas id&eacute;ias revolucion&aacute;rias. N&atilde;o o julgava perfeitamente<br \/>\n    hip&oacute;crita; era a sua situa&ccedil;&atilde;o que lhe determinava aquelas<br \/>\n    opini&otilde;es; o seu fundo era c&eacute;tico e amoroso das comodidades que<br \/>\n    a riqueza d&aacute;. Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e<br \/>\n    surgiria ent&atilde;o o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba,<br \/>\n    dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado com uma ruga no fraque novo<br \/>\n    que viera do alfaiate.<\/p>\n<p>No caf&eacute;, em certos momentos, quase sem transi&ccedil;&atilde;o, ele<br \/>\n    passava das objurgat&oacute;rias mais terr&iacute;veis a recitar versos, cheios<br \/>\n    de detalhes de modas e ardendo de admira&ccedil;&atilde;o pelas coisas do<br \/>\n    luxo. Havia nisso muito da sua forte mocidade para que eu me lembrasse de<br \/>\n    Georges Ohnet. Bem parecido, de rosto bem feito e um nariz cl&aacute;ssico<br \/>\n    e uns bigodes e uns cabelos pretos, tratados com especial carinho de manh&atilde;<br \/>\n    e &agrave; tarde, ele tinha a insignificante boniteza dos homens, tanto do<br \/>\n    agrado das nossas mulheres. Era um namorador tem&iacute;vel. No seu quarto,<br \/>\n    al&eacute;m da mesa e alguns volumes com que preparava as arengas revolucion&aacute;rias,<br \/>\n    tinha uma cama-de-vento, nua e &oacute;rf&atilde; de len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    e travesseiros com fronhas, uma grande mala cheia de camisas, colarinhos,<br \/>\n    punhos, gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-r&eacute;is no Centro dos<br \/>\n    Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava era mais para<br \/>\n    as coisas de toillette do que para a sua alimenta&ccedil;&atilde;o. Freq&uuml;entava<br \/>\n    os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite levou-me ao Parque Fluminense,<br \/>\n    onde encontrei o Agostinho Marques, o elegante Agostinho, cheio de an&eacute;is<br \/>\n    e alfinetes, que n&atilde;o quis reconhecer. Desde que nos demos a conhecer,<br \/>\n    isso havia perto de um m&ecirc;s, nunca mais o tinha visto; ele, por&eacute;m,<br \/>\n    chamou-me amigavelmente. Era o solicitador do dr. Leit&atilde;o Fr&oacute;is,<br \/>\n    ganhava um conto e tanto por m&ecirc;s e pretendia formar-se em direito precisando<br \/>\n    de mim, para lhe explicar uns preparat&oacute;rios. Disse-me isso no momento<br \/>\n    em que Leiva se deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhan&ccedil;a.<br \/>\n    Est&aacute;vamos sentados a uma mesa do botequim, e serv&iacute;amo-nos de<br \/>\n    cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extra-revolucion&aacute;ria, Agostinho queixou-se dos calos: &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; sapateiro que preste no Rio de Janeiro&#8230; Mandei fazer essas botinas<br \/>\n    no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-r&eacute;is e &eacute; esta desgra&ccedil;a!<br \/>\n    Apertam-me como diabo&#8230;<\/p>\n<p> O Abelardo tinha opini&atilde;o um pouco diferente sobre os sapateiros da<br \/>\n    cidade. Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda; ultimamente, por&eacute;m,<br \/>\n    comprava-as feitas. Eram estrangeiras e melhores&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas o Martinelli, &quot;seu&quot; Abelardo! objetou semi-indignado o solicitador.<br \/>\n    O cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; s&oacute; s&atilde;o cortadas<br \/>\n    e montadas aqui&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora, continuava Leiva, eu j&aacute; tive botinas dele e sei tudo isso;<br \/>\n    mas n&atilde;o vale a pena, &eacute; um engano&#8230; Olhe, o Sr. d&aacute; trinta<br \/>\n    e cinco mil-r&eacute;is por uma Walk-Over ou Clark e fica mais bem servido<br \/>\n    do que com ele. E s&atilde;o bonitas&#8230; Veja! Mostrou o p&eacute; e durante<br \/>\n    minutos os dois estiveram a debater-se, procurando toda a sorte de argumentos<br \/>\n    para defenderem as suas firmes opini&otilde;es sobre a distin&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a comodidade do cal&ccedil;ado comprado feito e mandado fazer de encomenda.<\/p>\n<p> Agostinho Marques, &quot;solicitador nos audit&oacute;rios desta Capital&quot;,<br \/>\n    chegou a empregar argumentos de natureza jur&iacute;dica; Abelardo Leiva,<br \/>\n    ap&oacute;stolo do socialismo revolucion&aacute;rio, inimigo da execr&aacute;vel<br \/>\n    burguesia, procurou justificativa nos elegantes do mundo chic parisiense.<br \/>\n    A minha reserva s&oacute; os fazia prolongar a discuss&atilde;o; estavam diante<br \/>\n    de um juiz, a quem expunham as suas raz&otilde;es com delicadeza e urbanidade.<\/p>\n<p> &#8211; L&aacute; vai o Raul Gusm&atilde;o, exclamou Marques.<\/p>\n<p> Voltei-me um pouco. Era de fato ele de bra&ccedil;o com o Oliveira. Vestia<br \/>\n    um grande fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano e<br \/>\n    marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e procurando os<br \/>\n    mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um rapaz de talento, disse Marques.<\/p>\n<p> O carroussel mo&iacute;a uma m&uacute;sica banal, pregui&ccedil;osa e irritante.<br \/>\n    Leiva esteve pensando um instante e disse: &#8211; &Eacute;, e parece que faz prosperar<br \/>\n    o seu talento com pr&aacute;ticas suspeitas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade o que se diz por a&iacute; dele? indagou a meia voz o<br \/>\n    solicitador.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei, nunca vi, mas, no domingo, n&oacute;s&#8230; &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    foi Caminha? Fiz um sinal afirmativo e o meu amigo continuou: &#8211; &#8230;no domingo<br \/>\n    vimo-lo entrar numa hospedaria da rua da Alf&acirc;ndega com um fuzileiro<br \/>\n    naval.<\/p>\n<p> &#8211; Que coisa! Mas ser&aacute; verdade? &#8211; Qual, disse Leiva, n&atilde;o creio.<br \/>\n    Ele faz constar isso e faz suspeitar, para se ter em melhor conta o seu talento.<br \/>\n    O p&uacute;blico quer que o seu talento art&iacute;stico tenha um pouco de<br \/>\n    v&iacute;cio; aos seus olhos, isso o aumenta extraordinariamente, d&aacute;-lhe<br \/>\n    mais valor e faz com que o escritor ganhe mais dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Como &eacute; ent&atilde;o que entrou na hospedaria? indagou Marques.<\/p>\n<p> &#8211; Tinha-nos visto e, mediante uma gorjeta, obrigou o soldado a prestar-se<br \/>\n    ao papel&#8230; Aquilo &eacute; o g&ecirc;nio do r&eacute;clame&#8230;<\/p>\n<p> Em torno de n&oacute;s, sob a chuva mi&uacute;da do vapor condensado do<br \/>\n    motor de ilumina&ccedil;&atilde;o, grupos de passeantes moviam-se de um lado<br \/>\n    para outro, isocronamente, lenta, tristemente, como se obedecessem a uma lei<br \/>\n    inflex&iacute;vel a cujo imp&eacute;rio n&atilde;o se pudessem furtar. S&oacute;<br \/>\n    o Carnaval tira essa triste gravidade aos nossos passeios. Os rapazes excedem-se,<br \/>\n    saem fora da bitola, e as mo&ccedil;as e as senhoras abandonam-se aos impulsos<br \/>\n    do temperamento. Lembro-me que em um dos &uacute;ltimos carnavais a que assisti,<br \/>\n    &agrave;s oito e meia da noite, vi duas mo&ccedil;as afastarem-se um pouco<br \/>\n    para o interior da Gazeta de Not&iacute;cias, donde assistiam &agrave; passagem<br \/>\n    de cord&otilde;es, e l&aacute; dentro requebrarem lascivamente com as exig&ecirc;ncias<br \/>\n    que um &quot;maxixe&quot; tocado por uma banda de m&uacute;sica a passar pedia.<br \/>\n    Fora do carnaval sempre senti essa mesma tristeza nos nossos passeios p&uacute;blicos,<br \/>\n    tendo presente sempre a tirania dom&eacute;stica e a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do dia seguinte.<\/p>\n<p> Os dois continuavam a conversar, quando voltei a ouvi-los. Tinham passado<br \/>\n    imprevistamente para a reforma social que Leiva anunciava. Agostinho, que<br \/>\n    se sentia chegar a homem rico e considerado, fazia imensos esfor&ccedil;os<br \/>\n    para contestar as doutrinas subversivas de Leiva: &#8211; Mas o sr. o que quer &eacute;<br \/>\n    desordem, &eacute; anarquia, &eacute; extin&ccedil;&atilde;o da ordem social&#8230;<\/p>\n<p> E Leiva sorria um instante, satisfeito que ele viesse ao encontro da sua<br \/>\n    resposta querida.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; isso mesmo, n&atilde;o quero outra coisa! Pois o senhor acha<br \/>\n    justo que esses senhores gordos, que andam por a&iacute;, gastem numa hora<br \/>\n    com as mulheres, com as filhas e com as amantes, o que bastava para fazer<br \/>\n    viver fam&iacute;lias inteiras? O sr. n&atilde;o v&ecirc; que a p&aacute;tria<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais do que a explora&ccedil;&atilde;o de uma minoria,<br \/>\n    ligada entre si, estreitamente ligada, em virtude dessa mesma explora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que domina fazendo crer &agrave; massa que trabalha para a felicidade dela?<br \/>\n    O p&uacute;blico ainda n&atilde;o entrou nos mist&eacute;rios da religi&atilde;o<br \/>\n    da P&aacute;tria&#8230; Ah! quando ele entrar! Levado pelo calor da frase Leiva<br \/>\n    continuou a falar cheio de for&ccedil;a, entusiasmado: &#8211; N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    na natureza nada que se pare&ccedil;a com a nossa sociedade governada pelo<br \/>\n    Estado&#8230; Observe o sr. que todas as sociedades animais se governam por leis<br \/>\n    para as quais elas n&atilde;o colaboraram, s&atilde;o como preexistentes a<br \/>\n    elas, independentes de sua vontade; e s&oacute; n&oacute;s inventamos esse<br \/>\n    absurdo de fazer leis para n&oacute;s mesmos &#8211; leis que, em &uacute;ltima<br \/>\n    an&aacute;lise, n&atilde;o s&atilde;o mais que a express&atilde;o da vontade,<br \/>\n    dos caprichos, dos interesses de uma minoria insignificante&#8230; No nosso corpo<br \/>\n    h&aacute; uma multid&atilde;o de organismos, todos eles interdependem, mas<br \/>\n    vivem autonomamente sem serem propriamente governados por nenhum, e o equil&iacute;brio<br \/>\n    se faz por isso mesmo&#8230; O sistema solar&#8230; Na natureza, todo o equil&iacute;brio<br \/>\n    se obt&eacute;m pela a&ccedil;&atilde;o livre de cada uma das for&ccedil;as<br \/>\n    particulares&#8230;<\/p>\n<p> Agostinho precisava arranjar uma obje&ccedil;&atilde;o, mas o desconhecimento<br \/>\n    das no&ccedil;&otilde;es que Leiva punha em jogo estava completamente fora<br \/>\n    da sua atividade mental. O ap&oacute;stolo-poeta, sentindo a fraqueza do advers&aacute;rio,<br \/>\n    exultou, e, deitando um olhar em torno, exclamou vitoriosamente: &#8211; Eu quero<br \/>\n    a confus&atilde;o geral, para que a ordem natural surja triunfante e vitoriosa!<br \/>\n    Deitou um longo e terno olhar para a linda burguesa da vizinhan&ccedil;a e<br \/>\n    bebeu voluptuosamente um grande gole de cerveja. Eu creio que se a nova era<br \/>\n    dependesse do seu bra&ccedil;o, ele n&atilde;o deitaria a bomba para n&atilde;o<br \/>\n    assustar as meninas bonitas e delicadas.<\/p>\n<p> Foi Leiva o meu iniciador no Rio de Janeiro. Deu-me rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ensinou-me as maneiras, o cal&atilde;o da bo&ecirc;mia, levou-me aos lugares<br \/>\n    curiosos e consagrados. Com ele fui ao Apostolado Positivista ouvir o Sr.<br \/>\n    Teixeira Mendes. Um grande matem&aacute;tico, disse-me; a primeira cabe&ccedil;a<br \/>\n    do Brasil, uma intelig&ecirc;ncia enciclop&eacute;dica, uma erudi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    segura, e, sobretudo, um car&aacute;ter e um cora&ccedil;&atilde;o! Um domingo,<br \/>\n    em que hav&iacute;amos sa&iacute;do do Apostolado, v&iacute;nhamos descendo<br \/>\n    pachorrentamente o cais da Gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Leiva viera pela rua de Benjamin Constant abaixo gabando a eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    do vener&aacute;vel Sr. Mendes, a sua virtude, a sua sobriedade e contara-me<br \/>\n    por alto a surra que ele dera no Bertrand, da Academia Francesa, em assunto<br \/>\n    de matem&aacute;tica. Eu ouvia-o sem coragem de contestar, embora n&atilde;o<br \/>\n    compartilhasse as suas cren&ccedil;as. N&atilde;o era a primeira vez que ia<br \/>\n    ao Apostolado, mas quando via o vice-diretor sair rapidamente por detr&aacute;s<br \/>\n    de um ret&aacute;bulo, na absida da capela, ao som de um t&iacute;mpano rouco,<br \/>\n    arrepanhando a batina, com aquele la&ccedil;o verde no bra&ccedil;o, dava-me<br \/>\n    vontade de rir &agrave;s gargalhadas. Demais, ficava assombrado com a firmeza<br \/>\n    com que ele anunciava a felicidade contida no positivismo e a simplicidade<br \/>\n    dos meios necess&aacute;rios para a sua vit&oacute;ria: bastava tal medida,<br \/>\n    bastava essa outra &#8211; e todo aquele r&iacute;gido sistema de regras, abrangendo<br \/>\n    todas as manifesta&ccedil;&otilde;es da vida coletiva e individual, passaria<br \/>\n    a governar, a modificar costumes, h&aacute;bitos e tradi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um trecho e procurava o caminho<br \/>\n    por alus&otilde;es a quest&otilde;es atuais, repetindo f&oacute;rmulas para<br \/>\n    se obter um bom governo que tendesse a preparar a era normal &#8211; o advento final<br \/>\n    da Religi&atilde;o da Humanidade. E eu achava toda aquela disserta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o intelectual, t&atilde;o balda de comunica&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o<br \/>\n    incapaz de erguer dentro de mim o devotamento, o altru&iacute;smo, &quot;o<br \/>\n    esfor&ccedil;o sobre mim mesmo em favor dos outros&quot;, como dizia o ap&oacute;stolo,<br \/>\n    que me quedava a indagar at&eacute; que ponto o audit&oacute;rio respeitoso<br \/>\n    estava convencido e at&eacute; que ponto fingia convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Havia trechos em que ele insistia com particular agrado. Via-se que neles<br \/>\n    repousava a convers&atilde;o dos esp&iacute;ritos. N&atilde;o me esqueci que<br \/>\n    ele amava repetir que a f&iacute;sica, a qu&iacute;mica, a biologia, a sociologia,<br \/>\n    todas as ci&ecirc;ncias e todo o esfor&ccedil;o humano de qualquer ordem tinham<br \/>\n    preparado lentamente e tendiam para a religi&atilde;o da humanidade; era ela<br \/>\n    como a coroa&ccedil;&atilde;o, a c&uacute;pula do edif&iacute;cio do pensamento<br \/>\n    e dos grandes sentimentos da humanidade. Citava trechos de grandes poetas<br \/>\n    nesse sentido, e procurava dados hist&oacute;ricos. Quando se oferecia ocasi&atilde;o,<br \/>\n    esbo&ccedil;ava a ordem futura, cotejando-a com a presente. O m&eacute;dico,<br \/>\n    o professor e o sacerdote estariam juntos em um mesmo homem, cujos servi&ccedil;os<br \/>\n    seriam gratuitos: todos exerceriam um of&iacute;cio manual e os capitais acumulados<br \/>\n    em poucas m&atilde;os, seriam empregados em benef&iacute;cio social. A quantas<br \/>\n    necessidades presentes daquele audit&oacute;rio n&atilde;o iria dar rem&eacute;dio<br \/>\n    a promessa daquela sociedade a vir?! Os homens t&ecirc;m amor &agrave; utopia<br \/>\n    quando condensada em f&oacute;rmulas de felicidade; e aqueles militares, funcion&aacute;rios,<br \/>\n    estudantes, encontravam naquelas afirma&ccedil;&otilde;es, repetidas com tanta<br \/>\n    seguran&ccedil;a e cuja verdade n&atilde;o procuravam examinar, um alimento<br \/>\n    para a forma de felicidade da esp&eacute;cie e um consolo para os seus maus<br \/>\n    dias presentes.<\/p>\n<p> Pelo caminho, ouvi repetirem as palavras do Mestre e apoiarem-se nelas para<br \/>\n    criticar atos do Governo, projetos da C&acirc;mara &#8211; esse viveiro de bachar&eacute;is<br \/>\n    ignorantes que n&atilde;o sabem matem&aacute;tica.<\/p>\n<p> Observei que o meu pr&oacute;prio amigo Leiva partia tamb&eacute;m dessa<br \/>\n    cren&ccedil;a pitag&oacute;rica das virtudes da matem&aacute;tica para condenar<br \/>\n    e criticar o Governo e os governantes; entretanto, al&eacute;m daquelas explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    filos&oacute;ficas do sr. Teixeira Mendes, ele sabia pouco mais das quatro<br \/>\n    opera&ccedil;&otilde;es na ci&ecirc;ncia divina.<\/p>\n<p> &#8211; V&ecirc; tu, dizia-me ele, quem no Brasil tem conhecimentos mais seguros<br \/>\n    que o T. Mendes? E acrescentava logo: como se pode acreditar que, na nossa<br \/>\n    &eacute;poca cient&iacute;fico-industrial, um homem que n&atilde;o conhece<br \/>\n    como se fabricam os encanamentos d&#8217;&aacute;gua, as propriedades do ferro<br \/>\n    e o seu tratamento industrial, as teorias hidr&aacute;ulicas, saber&aacute;<br \/>\n    aquilatar e dirigir as necessidades de uma cidade moderna, cuja primeira necessidade<br \/>\n    &eacute; um seguro e farto abastecimento d&#8217;&aacute;gua? Leiva gostava<br \/>\n    de falar; e, quando a mat&eacute;ria lhe agradava, o cansa&ccedil;o dificilmente<br \/>\n    vinha. Eu amava ouvi-lo, pois tinha uma bela voz, acariciante e de agrad&aacute;vel<br \/>\n    timbre, e que vibrava musicalmente ao chegar-lhe a paix&atilde;o. Continuou:<br \/>\n    &#8211; Antigamente, todos os governantes tinham, ou antes, estavam a par do saber<br \/>\n    de seu tempo, e s&oacute; com a necessidade do estabelecimento de novas ci&ecirc;ncias<br \/>\n    &#8211; o que fez a especializa&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos &#8211; deixaram t&atilde;o<br \/>\n    salutar regra. Hoje, por&eacute;m, gra&ccedil;as ao sobre-humano c&eacute;rebro<br \/>\n    de Comte &#8211; o maior talvez depois de Arist&oacute;teles &#8211; o saber voltou &agrave;<br \/>\n    unidade &uacute;til e moral dos outros tempos. A s&iacute;ntese foi feita<br \/>\n    e os estadistas verdadeiramente dignos, servidores pr&aacute;ticos da Humanidade,<br \/>\n    poder&atilde;o encontrar nela um seguro farol para gui&aacute;-los.<\/p>\n<p> N&atilde;o me animei a perguntar-lhe se a s&iacute;ntese de que falava continha<br \/>\n    tamb&eacute;m a quest&atilde;o do abastecimento d&#8217;&aacute;gua. Senti<br \/>\n    a sinceridade moment&acirc;nea de suas palavras, ditas at&eacute; com certo<br \/>\n    entusiasmo; e quando algu&eacute;m me fala desse modo, encho-me de respeito<br \/>\n    e de amizade. V&iacute;nhamos descendo a rua e assim continuamos um instante<br \/>\n    calados. Houve uma ocasi&atilde;o, que, quase sem refletir, perguntei ao Leiva:<br \/>\n    &#8211; Como voc&ecirc; &eacute; ao mesmo tempo anarquista e positivista &#8211; uma doutrina<br \/>\n    de ordem, de submiss&atilde;o, que espera a vit&oacute;ria pelo resultado<br \/>\n    fatal das leis sociol&oacute;gicas? &#8211; Ora voc&ecirc;? Eu quero uma confus&atilde;o<br \/>\n    geral, um abalo completo desta ordem in&iacute;qua, para ent&atilde;o&#8230; O<br \/>\n    Mendes &eacute; simples, &eacute; bom, pensa que isso vai como ele quer; mas<br \/>\n    &eacute; preciso&#8230; Olhe, o Cristianismo&#8230;<\/p>\n<p> Olhei um instante a seda azul do mar levemente enrugada e sorvi um pouco<br \/>\n    da vibra&ccedil;&atilde;o que soprava da barra; depois perdemo-la de vista<br \/>\n    e a vibra&ccedil;&atilde;o deixou de a&ccedil;oitar-nos com for&ccedil;a e<br \/>\n    fomos descendo a rua da Lapa, transitada, ladeada de sobrados, donde pendiam<br \/>\n    mulheres p&uacute;blicas em peignoir, como descoradas orqu&iacute;deas de<br \/>\n    milion&aacute;rio europeu, cujo brilho natural o ambiente de estufa lhes tirou<br \/>\n    ou n&atilde;o soube dar. N&oacute;s olhamo-las com um pouco da nossa mocidade<br \/>\n    e com um pouco das preocupa&ccedil;&otilde;es que traz&iacute;amos; e caminhamos<br \/>\n    para o Passeio P&uacute;blico, onde &iacute;amos esquecer que n&atilde;o jant&aacute;vamos,<br \/>\n    olhando a turba resignada que aproveitava o domingo.<\/p>\n<p> Uma banda de m&uacute;sica enchia o jardim com os seus estridentes compassos.<br \/>\n    Nas proximidades do coreto, Leiva encontrara um conhecido com quem ficara<br \/>\n    a conversar. Eu n&atilde;o me detive; avancei vagarosamente para o terra&ccedil;o<br \/>\n    que deita para o mar. O meu companheiro veio ter comigo meia hora depois e<br \/>\n    vinha acompanhado de outro rapaz. Apresentou-nos. Um instante, contemplei<br \/>\n    a angustiada cabe&ccedil;a do desconhecido, o seu ar orgulhoso e todo ele<br \/>\n    esguio e alto, ligeiramente curvado como um teimoso cani&ccedil;o que n&atilde;o<br \/>\n    se p&ocirc;de erguer completamente depois das muitas tempestades que suportou.<\/p>\n<p> &#8211; O Pl&iacute;nio, Caminha, disse Leiva, vinha-me contando o seguinte: h&aacute;<br \/>\n    dias, o Flor&ecirc;ncio &#8211; conheces? Fiz sinal que n&atilde;o e ele insistiu:<br \/>\n    o Flor&ecirc;ncio que redige a se&ccedil;&atilde;o do Jornal do Rio &#8211; conheces,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;? Pois bem; o Flor&ecirc;ncio entrou na Garnier e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a ler um livro. De quando em quando mudava de lugar, aproximando-se da porta.<br \/>\n    Assim leva hora e tanto. Ele, por&eacute;m, n&atilde;o tinha reparado que<br \/>\n    os empregados vigiavam-no. Num dado momento, meteu a brochura debaixo do palet&oacute;<br \/>\n    e encaminhou-se para a porta. Os caixeiros cortaram-lhe os passos, intimidando-o<br \/>\n    a entregar a obra. Flor&ecirc;ncio ataranta-se, prontifica-se a pagar, do<br \/>\n    dinheiro cai e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pagou? perguntei.<\/p>\n<p> &#8211; Pagou sim, apressou-se em responder Pl&iacute;nio de Andrade; mas um dos<br \/>\n    empregados disse-lhe insolentemente: Voc&ecirc; paga este sobre a Gr&eacute;cia,<br \/>\n    que queria levar agora e tamb&eacute;m o romance franc&ecirc;s que levou anteontem&#8230;<br \/>\n    A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem voc&ecirc;s sabendo que, se o Barba-Roxa<br \/>\n    ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formid&aacute;veis<br \/>\n    coura&ccedil;ados, s&oacute; poderia dar plena expans&atilde;o &agrave; sua<br \/>\n    atividade se se fizesse jornalista. Nada h&aacute; t&atilde;o parecido como<br \/>\n    o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida<br \/>\n    por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de<br \/>\n    que lan&ccedil;am m&atilde;o e um olhar seguro, uma adivinha&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma aus&ecirc;ncia de senso<br \/>\n    moral a toda a prova&#8230; E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as<br \/>\n    manifesta&ccedil;&otilde;es de nossa vida coletiva dependam do assentimento<br \/>\n    e da sua aprova&ccedil;&atilde;o&#8230; Todos n&oacute;s temos que nos submeter<br \/>\n    a eles, adul&aacute;-los, cham&aacute;-los g&ecirc;nios, embora intimamente<br \/>\n    os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas&#8230; S&oacute; se &eacute;<br \/>\n    ge&ocirc;metra com o seu placet, s&oacute; se &eacute; calista com a sua confirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e se o Sol nasce &eacute; porque eles afirmam tal coisa&#8230; E como eles aproveitam<br \/>\n    esse poder que lhes d&aacute; a fatal estupidez das multid&otilde;es! Fazem<br \/>\n    de imbecis g&ecirc;nios, de g&ecirc;nios imbecis; trabalham para a sele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das mediocridades, de modo que&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; exagera, objetou Leiva. O jornal j&aacute; prestou servi&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Decerto&#8230; n&atilde;o nego&#8230; mas quando era manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    individual, quando n&atilde;o era coisa que desse lucro; hoje, &eacute; a<br \/>\n    mais tir&acirc;nica manifesta&ccedil;&atilde;o do capitalismo e a mais terr&iacute;vel<br \/>\n    tamb&eacute;m&#8230; &Eacute; um poder vago, sutil, impessoal, que s&oacute; poucas<br \/>\n    intelig&ecirc;ncias podem colher-lhe for&ccedil;a e a aus&ecirc;ncia da mais<br \/>\n    elementar moralidade, dos mais rudimentares sentimentos de justi&ccedil;a<br \/>\n    e honestidade! S&atilde;o grandes empresas, propriedade de venturosos donos<br \/>\n    destinadas a lhes dar o m&iacute;nimo sobre as massas, em cuja linguagem falam,<br \/>\n    e a cuja inferioridade mental v&atilde;o ao encontro, conduzindo os governos,<br \/>\n    os caracteres para os seus desejos inferiores&#8230; N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    a um indiv&iacute;duo qualquer, pobre, cheio de grandes id&eacute;ias, fundar<br \/>\n    um que os combata&#8230; H&aacute; necessidade de dinheiro; s&atilde;o preciosos,<br \/>\n    portanto, capitalistas que saibam bem o que se deve fazer num jornal&#8230; Voc&ecirc;s<br \/>\n    vejam: antigamente, entre n&oacute;s, o jornal era de Ferreira de Ara&uacute;jo,<br \/>\n    de Jos&eacute; do Patroc&iacute;nio, de Fulano, de Beltrano&#8230; Hoje de quem<br \/>\n    s&atilde;o? A Gazeta &eacute; do Gaffr&eacute;e, o Pa&iacute;s &eacute; do<br \/>\n    Visconde de Morais e assim por diante. E por detr&aacute;s dela est&atilde;o<br \/>\n    os estrangeiros, inimigos nossos naturalmente, indiferentes &agrave;s nossas<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Andrade acabou de falar e tirou o chap&eacute;u um instante. Vi-lhe o cabelo<br \/>\n    crespo, lanudo e revolto e toda a sua grande cabe&ccedil;a angustiada e inteligente<br \/>\n    assomou aos meus olhos com uma grande express&atilde;o de rebeldia. Coado<br \/>\n    atrav&eacute;s das &aacute;rvores, um jato de luz veio bater-lhe em cheio<br \/>\n    e ela mais bela me apareceu quando inundada por aquela luz de ouro. Sentando-se,<br \/>\n    o seu ar j&aacute; era outro, manso, passivo, e a sua voz, antes t&atilde;o<br \/>\n    en&eacute;rgica, passou a ser macia, pregui&ccedil;osa e tomou um ar distra&iacute;do<br \/>\n    at&eacute; despedir-se. N&oacute;s fomos jantar com o dinheiro que ele deu<br \/>\n    ao Leiva e soube por este alguma coisa da sua vida passada. Fora estudante<br \/>\n    de medicina na Bahia, e freq&uuml;entava o segundo ano quando um estudante<br \/>\n    mais antigo lhe dissera: &quot;Apanha isto a&iacute;, &#8216;seu&#8217; calouro!&quot;<br \/>\n    Andrade olhou-o devagar e virou-lhe as costas. O veterano exacerbou-se com<br \/>\n    o olhar, quis obrig&aacute;-lo a obedecer, empregando a for&ccedil;a; e, como<br \/>\n    fosse mais forte, Pl&iacute;nio bruscamente apanha de cima da mesa de um guarda<br \/>\n    uma raspadeira, crava-a v&aacute;rias vezes no colega e mata-o. Atualmente,<br \/>\n    vivia ensinando Hist&oacute;ria Natural nos col&eacute;gios e publicando panfletos<br \/>\n    em que a sua irrita&ccedil;&atilde;o lhe congestionava a frase indignada.<br \/>\n    Era odiado e gostava de s&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Esse domingo foi um dos &uacute;ltimos que passei com relativa satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Invadia-me uma indiferen&ccedil;a, uma atonia, que me fazia viver sem me decidir<br \/>\n    a tentar o menor passo para sair da situa&ccedil;&atilde;o em que me achava.<br \/>\n    Media as dificuldades, os &oacute;bices, os trope&ccedil;os, achava-os in&iacute;quos<br \/>\n    mas superiores &agrave;s minhas for&ccedil;as. Abandonara-me &agrave; mis&eacute;ria<br \/>\n    que a prote&ccedil;&atilde;o de Agostinho Marques impedia que chegasse a ser<br \/>\n    declarada. Fizera-me seu professor e secret&aacute;rio; mas era dif&iacute;cil<br \/>\n    dar-me o ordenado que me tinha marcado. Fazia-lhe requerimentos, cartas de<br \/>\n    amor, ensinava-lhe os proleg&ocirc;menos de alguns preparat&oacute;rios; mas<br \/>\n    a sua pobreza intelectual e a sua malandragem resistiam particularmente &agrave;<br \/>\n    entrada na sua cabe&ccedil;a da menor no&ccedil;&atilde;o. Nunca chegou a<br \/>\n    compreender os teoremas de divisibilidade e a sua mem&oacute;ria n&atilde;o<br \/>\n    guardava as regras do plural franc&ecirc;s. Aos poucos, desistiu da li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e diminuiu-me o ordenado, que era anteriormente de quarenta mil-r&eacute;is,<br \/>\n    dados aos bocados. Entretanto, cada dia se apurava mais no trajar, fazia amigos<br \/>\n    entre a gente importante, cercava-os, tinha um cumprimento e um sorriso para<br \/>\n    cada um.<\/p>\n<p> Num dia de abandono em que lhe cheguei de manh&atilde; a casa, pedindo-lhe<br \/>\n    dez tost&otilde;es, contou-me que estivera na v&eacute;spera numa grande &quot;esb&oacute;rnia&quot;.<br \/>\n    Tinham sido seus companheiros o deputado S., leader do Governo, e o doutor<br \/>\n    H.; o primeiro foi mais tarde Ministro e o segundo ainda &eacute; desembargador<br \/>\n    da Corte de Apela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Marques preferia que eu lhe pedisse dinheiro a experimentar o seu prest&iacute;gio<br \/>\n    junto aos seus poderosos amigos, solicitando uma coloca&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    mim. Uma vez que lhe falei a respeito, esfor&ccedil;ou-se por me mostrar que<br \/>\n    era imposs&iacute;vel enquanto os seus amigos estivessem por baixo. Enquanto<br \/>\n    ele esteve no Rio, deu-me roupas; tive com que pagar o quarto e dinheiro para<br \/>\n    comer com intervalo de quarenta e oito horas. Um belo dia, por&eacute;m, disse-me<br \/>\n    que ia para fora, para um estado do Norte, tratar de neg&oacute;cios, demorando-se<br \/>\n    dois ou tr&ecirc;s meses. Foi uma grande &eacute;poca de fome e sofrimentos<br \/>\n    na minha vida. Leiva era incapaz do menor obs&eacute;quio; nada lhe fazia<br \/>\n    retirar um tost&atilde;o dos seus perfumes e das suas roupas. Vendi as melhores<br \/>\n    roupas que tinha, tudo que tinha valor vendi, e, quando nada mais tinha que<br \/>\n    vender, passei dias inteiros sem tomar caf&eacute;. L&aacute; chegava uma<br \/>\n    ocasi&atilde;o que algu&eacute;m, um quase desconhecido, uma fisionomia encontrada<br \/>\n    momentaneamente, me convidava a tomar caf&eacute; ou a jantar; e se n&atilde;o<br \/>\n    fossem eles, eu talvez tivesse morrido de inani&ccedil;&atilde;o ou furtado<br \/>\n    bolos &agrave;s confeitarias. Esperava resposta de uma carta minha que n&atilde;o<br \/>\n    tardou a vir. Recebi-a na &quot;Posta-Restante&quot; e, encostado a uma coluna,<br \/>\n    pus-me a l&ecirc;-la. Tio Valentim dizia-me que l&aacute; atravessavam uma<br \/>\n    grande crise. Minha m&atilde;e estava de cama, muito mal, desenganada&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o continuei a leitura; deixei cair a m&atilde;o ao longo do corpo<br \/>\n    e estive a olhar a rua, sem ver coisa alguma. Morria minha m&atilde;e! E via-a<br \/>\n    logo morta, muito magra, os c&iacute;rios, o crucifixo, o choro&#8230; Passou-me<br \/>\n    pelos olhos a sua triste vida, humilde e humilhada, sempre atirada a um canto<br \/>\n    como um m&oacute;vel velho, sem alegria, sem fortuna, sem amizade e sem amor&#8230;<\/p>\n<p> Durante aqueles meses de aus&ecirc;ncia, eu pouco me detive na sua recorda&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas agora elas eram freq&uuml;entes e a sua figura flutuava a meus olhos:<br \/>\n    magra, esqu&aacute;lida, com o corpo premido pelos trabalhos e tendo pelas<br \/>\n    faces aquelas manchas que pareciam de fuma&ccedil;a entranhada&#8230; Eu quis<br \/>\n    envolver essa recorda&ccedil;&atilde;o com o que havia em mim de mais terno<br \/>\n    e tamb&eacute;m as outras que me vieram: a volta do col&eacute;gio, o abra&ccedil;o<br \/>\n    que eu lhe dava; a minha doen&ccedil;a, como ela me dava rem&eacute;dios&#8230;<br \/>\n    E tudo vinha com pressa do fundo de mim mesmo, subia uma recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que expulsava outra; por fim, tudo se baralhou, tornou-se confuso e os meus<br \/>\n    olhos se orvalharam de pranto.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Caminha! Onde tens andado? Que tens, rapaz? Era Gregor&oacute;vitch<br \/>\n    Rost&oacute;loff. Falei, contei-lhe a vida. Os seus olhos de conta mais se<br \/>\n    arredondaram de desconfian&ccedil;a; mas, depois de duas ou tr&ecirc;s perguntas,<br \/>\n    de examinar-me o vestu&aacute;rio e algumas palavras de consolo, ao despedir-se,<br \/>\n    assim me convidou: &#8211; Aparece-me logo, &agrave; noitinha, na reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do O Globo.<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\"> VIII<\/a><\/h4>\n<p>Era uma sala pequena, mais comprida que larga, com duas filas paralelas de<br \/>\n    min&uacute;sculas mesas, em que se sentavam os redatores e rep&oacute;rteres,<br \/>\n    escrevendo em mangas de camisa. Pairava no ar um forte cheiro de tabaco; os<br \/>\n    bicos de g&aacute;s queimavam baixo e eram muitos.<\/p>\n<p> O espa&ccedil;o era diminuto, acanhado, e bastava que um redator arrastasse<br \/>\n    um pouco a cadeira para esbarrar na mesa de tr&aacute;s, do vizinho. Um tabique<br \/>\n    separava o gabinete do Diretor, onde trabalhavam o secret&aacute;rio e o redator-chefe;<br \/>\n    era tamb&eacute;m de superf&iacute;cie diminuta, mas duas janelas para a rua<br \/>\n    davam-lhe ar, desafogavam-no muito. Estava na reda&ccedil;&atilde;o do O Globo,<br \/>\n    jornal de grande circula&ccedil;&atilde;o, di&aacute;rio e matutino, recentemente<br \/>\n    fundado e j&aacute; dispondo de grande prest&iacute;gio sobre a opini&atilde;o.<br \/>\n    Falei ao Oliveira, perguntando-lhe pelo dr. Gregor&oacute;vitch. O eminente<br \/>\n    rep&oacute;rter levantou um pouco o olhar de cima do importante escrito (rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos decretos assinados no &uacute;ltimo despacho), ao dar com a minha fisionomia<br \/>\n    conhecida e humilde, abaixou-o logo e, entre dentes, transcendentalmente superior,<br \/>\n    respondeu: &quot;Ainda n&atilde;o veio.&quot; Eu n&atilde;o tinha mais onde<br \/>\n    dormir, havia dois dias que n&atilde;o comia, tinha a m&aacute;xima necessidade<br \/>\n    de falar ao russo. Intimidado com a secura do Oliveira, fiquei de p&eacute;<br \/>\n    hesitando fazer-lhe uma segunda pergunta. Medroso e esfomeado, deixei-me assim<br \/>\n    permanecer alguns minutos debaixo daquele teto que abrigava a falange sagrada<br \/>\n    que vinha combatendo pelos fracos e oprimidos.<\/p>\n<p> Felizmente, houve algu&eacute;m que me fez sentar e me convidou a esperar.<br \/>\n    Debaixo das penas, algumas nervosas e r&aacute;pidas, outras, calmas e vigorosas,<br \/>\n    o papel rinchava sob o maior sil&ecirc;ncio. Eram sete horas e pouco; as pessoas<br \/>\n    importantes do jornal ainda n&atilde;o tinham chegado. Laje da Silva, sempre<br \/>\n    com aquelas suas maneiras atenciosas, com aquele seu ar indecifr&aacute;vel,<br \/>\n    entrou na reda&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o me olhou sequer e foi direito<br \/>\n    ao Oliveira. Estiveram alguns momentos falando em voz baixa, depois saiu cumprimentando<br \/>\n    aqui, ali, deixando no ambiente um grande desprendimento de simpatia e sedu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Houve quem dissesse quando saiu: &#8211; Que queria esta &quot;&aacute;guia&quot;<br \/>\n    Oliveira? &#8211; Nada&#8230; Procurava o Rabelo&#8230; E depois ajuntou: voc&ecirc;s s&atilde;o<br \/>\n    injustos, n&atilde;o &eacute; uma &quot;&aacute;guia&quot;&#8230;. &quot;&Aacute;guia&quot;<br \/>\n    &eacute; um cavador de negociatas, de arranjos desonestos; ele n&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; uma bandalheira em que se diga que ele se meteu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E as notas falsas? &#8211; Ora! Ningu&eacute;m est&aacute; livre de que um tratante<br \/>\n    pague uma d&iacute;vida em notas falsas e, na boa f&eacute;, vir fazer pagamentos<br \/>\n    com elas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Coitado! fez o outro com um arzinho canalha.<\/p>\n<p> &#8211; Afinal, objetou o Oliveira indignado, quem &eacute; honesto para voc&ecirc;,<br \/>\n    Meneses? Todos s&atilde;o ladr&otilde;es, prevaricadores&#8230; Livra! Que l&iacute;ngua!<br \/>\n    A conversa tinha cessado quando o diretor penetrou na sala. Era o dr. Ricardo<br \/>\n    Loberant, um homem muito alto e muito magro, anguloso, com um grande bigode<br \/>\n    de grandes guias, louro, de um louro sujo, tirando para o castanho, e um olhar<br \/>\n    erradio, cheio de desconfian&ccedil;a. Era um homem temido, temido pelos fortes,<br \/>\n    pela gente mais poderosa do Brasil, ministros, senadores, capitalistas; mas<br \/>\n    em quem, com espanto, notei uma falta de firmeza, de certa seguran&ccedil;a<br \/>\n    de gestos e olhar, pr&oacute;pria dos vencedores. Fora uma irrup&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ningu&eacute;m o sabia jornalista, mesmo durante o seu curso mal amanhado<br \/>\n    n&atilde;o sacrificara &agrave;s letras: fora sempre tido como viveur, gostando<br \/>\n    de gastar e freq&uuml;entar a sociedade das grandes cocottes. Um belo dia,<br \/>\n    o p&uacute;blico da cidade ouviu os italianos gritarem: O Globo! O Globo!<br \/>\n    Os curiosos compraram-no e com indiferen&ccedil;a leram ao alto o nome do<br \/>\n    diretor: Ricardo Loberant. Quem &eacute;? Ningu&eacute;m sabia. Mas o jornal<br \/>\n    atra&iacute;a, tinha um desempenho de linguagem, um grande atrevimento, uma<br \/>\n    cr&iacute;tica corajosa &agrave;s coisas governamentais, que, n&atilde;o se<br \/>\n    sabendo justa, era acerba e parecia severa. Este gostou, aquele apreciou,<br \/>\n    e dentro de oito dias ele tinha criado na multid&atilde;o focos de cont&aacute;gio<br \/>\n    para o prest&iacute;gio de sua folha. Vieram as informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a seu respeito. Algumas pessoas do foro informaram que o dr. Ricardo Loberant<br \/>\n    era um advogado violento, atrevido, que tinha por h&aacute;bito discutir pelos<br \/>\n    &quot;apedidos&quot; do Jornal do Com&eacute;rcio, com mais azedume que l&oacute;gica,<br \/>\n    as causas intrincadas que lhe eram confiadas. E o jornal pegou. Trazia novidade:<br \/>\n    al&eacute;m de desabrimento de linguagem e um franco ataque aos dominantes,<br \/>\n    uma afeta&ccedil;&atilde;o de absoluta austeridade e independ&ecirc;ncia,<br \/>\n    uma colabora&ccedil;&atilde;o dos nomes amados do p&uacute;blico, lembrando<br \/>\n    por este aspecto os jornais antigos que a nossa gera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    conhecera. O Rio de Janeiro tinha ent&atilde;o poucos jornais, quatro ou cinco,<br \/>\n    de modo que era f&aacute;cil ao governo e aos poderosos comprar-lhes opini&atilde;o<br \/>\n    favor&aacute;vel. Subvencionados, a cr&iacute;tica em suas m&atilde;os ficava<br \/>\n    insuficiente e covarde. Limitavam-se aos atos dos pequenos e fracos subalternos<br \/>\n    da administra&ccedil;&atilde;o; o aparecimento d&#8217;O Globo levantou a<br \/>\n    cr&iacute;tica, ergueu-a aos gra&uacute;dos, ao Presidente, aos ministros,<br \/>\n    aos capitalistas, aos ju&iacute;zes, e nunca os houve t&atilde;o c&iacute;nicos<br \/>\n    e t&atilde;o ladr&otilde;es. Foi um sucesso; os amigos do governo ficaram<br \/>\n    em come&ccedil;o estuporados, tontos, sem saber como agir. Respondiam frouxamente<br \/>\n    e houve quem quisesse armar o bra&ccedil;o do sic&aacute;rio. A opini&atilde;o<br \/>\n    salvou-o, e a cidade, agitada pela palavra do jornal, fez arrua&ccedil;as,<br \/>\n    pequenos motins e obrigou o governo a demitir esta e aquela autoridade. E<br \/>\n    O Globo vendeu-se, vendeu-se, vendeu-se&#8230;<\/p>\n<p> Aquele jornal que era sua propriedade, recebia tamb&eacute;m a sua inspira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nenhum dos seus redatores tinha uma personalidade suficientemente forte para<br \/>\n    resistir ao ascendente da sua. Med&iacute;ocres de car&aacute;ter e intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    embora alguns fossem mais ilustrados que ele, a a&ccedil;&atilde;o deles no<br \/>\n    jornal recebia impuls&atilde;o do dr. Ricardo, o sinete de sua paix&atilde;o<br \/>\n    dominante, a sua caracter&iacute;stica; e esta era, despeito de sua fraca<br \/>\n    capacidade intelectual, a resist&ecirc;ncia que o seu c&eacute;rebro oferecia<br \/>\n    ao trabalho mental cont&iacute;nuo, de modo a n&atilde;o lhe permitir chegar<br \/>\n    &agrave;s altas posi&ccedil;&otilde;es pelo prest&iacute;gio do talento e<br \/>\n    do estudo, n&atilde;o lhe deixando o seu grande orgulho que chegasse de outra<br \/>\n    forma mais geral e mais f&aacute;cil. Com uma grande sede de dom&iacute;nio<br \/>\n    e grandes apetites de mulheres e prazeres, mas sem talento, sem pertin&aacute;cia<br \/>\n    e paci&ecirc;ncia, para atingir &agrave; fortuna e aos grandes cargos, consciente<br \/>\n    dessas falhas, o dr. Ricardo tinha a&iacute; um dep&oacute;sito inexaur&iacute;vel<br \/>\n    de emo&ccedil;&otilde;es, sempre a espore&aacute;-lo, a excit&aacute;-lo e<br \/>\n    bastante forte para marcar a sua pessoa e os seus atos.<\/p>\n<p> Demais, o seu desgosto e o seu despeito podiam cevar-se na mediocridade<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia e na geral desonestidade dos que governavam e dominavam;<br \/>\n    era s&oacute; fechar os olhos e estender a m&atilde;o. Diziam que os primeiros<br \/>\n    artigos n&atilde;o tinham sido escritos por ele, mas deviam ter sido inspirados;<br \/>\n    foi a sua paix&atilde;o contagiosa que os ditou ao amigo complacente que os<br \/>\n    escreveu. Durante os cinco anos que estive na reda&ccedil;&atilde;o, senti<br \/>\n    que o seu estado d&#8217;alma &quot;pegava&quot;, alastrava-se pelos amigos<br \/>\n    e subalternos, tanto que, nas suas aus&ecirc;ncias, o di&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    perdia o tom e os artigos pareciam ter sido revistos por ele na v&eacute;spera<br \/>\n    e sa&iacute;rem de sua fonte inexaur&iacute;vel de desgosto, despeito e rancor.<br \/>\n    Entretanto, fora do momento, fora do minuto em que se punham a escrever e<br \/>\n    sentiam a presen&ccedil;a do O Globo diante dos olhos, aqueles redatores eram<br \/>\n    a gente mais satisfeita desta vida, satisfeita consigo, com a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tinham e com a sociedade que os cercava.<\/p>\n<p> O dr. Ricardo Loberant entrou fumando com for&ccedil;a seguido de Pacheco<br \/>\n    Rabelo (Aires d&#8217;&Aacute;vila), redator-chefe do jornal, a segunda cabe&ccedil;a<br \/>\n    da casa. Era um homem gordo que se movia pela sala com a dificuldade de um<br \/>\n    boi que arrasta a relha enterrada da charrua. Havia na sua marcha um grande<br \/>\n    esfor&ccedil;o de tra&ccedil;&atilde;o e um mon&oacute;culo petulante na face<br \/>\n    im&oacute;vel n&atilde;o lhe diminu&iacute;a o peso da figura. Os dois penetraram<br \/>\n    na reda&ccedil;&atilde;o pondo na sala uma inexplic&aacute;vel atmosfera de<br \/>\n    terror. Pelos longos anos em que estive na reda&ccedil;&atilde;o do O Globo,<br \/>\n    tive ocasi&atilde;o de verificar que o respeito, que a submiss&atilde;o dos<br \/>\n    subalternos ao diretor de um jornal s&oacute; deve ter equivalente na administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    turca. &Eacute; de santo o que ele faz, &eacute; de s&aacute;bio o que ele<br \/>\n    diz. Ningu&eacute;m mais s&aacute;bio e mais poderoso do que ele na Terra.<br \/>\n    Todos t&ecirc;m por ele um santo terror e medo de cair da sua gra&ccedil;a,<br \/>\n    e isto d&aacute;-se desde o cont&iacute;nuo at&eacute; o redator competente<br \/>\n    em literatura e coisas internacionais.<\/p>\n<p> Passando por entre as mesas, tal era a concentra&ccedil;&atilde;o das faces<br \/>\n    e o ar aterrado daqueles homens t&atilde;o arrogantes l&aacute; fora, t&atilde;o<br \/>\n    sublimes na rua, que eu pensei que se fossem atirar ao ch&atilde;o para serem<br \/>\n    pisados por aquele novo deus, dando-me ali um espet&aacute;culo da &Iacute;ndia<br \/>\n    m&iacute;stica.<\/p>\n<p> Ricardo Loberant e Aires d&#8217;&Aacute;vila entraram no gabinete onde<br \/>\n    estava Leporace. O diretor tirou o chap&eacute;u, descansou a bengala num<br \/>\n    canto, sentou-se ao bureau-ministre e gritou bem alto: &#8211; &quot;Seu&quot; Leporace,<br \/>\n    como &eacute; que o senhor deixa publicar esta porcaria (apontou o jornal)<br \/>\n    na primeira p&aacute;gina? Leporace era o secret&aacute;rio, arrogante como<br \/>\n    todo jornalista, apesar de ser uma pura cria&ccedil;&atilde;o de Loberant.<br \/>\n    Formado, sem emprego, sem fortuna, sem &quot;pistol&otilde;es&quot;, veio<br \/>\n    a encontrar-se com o dr. Ricardo. Loberant gostou da sua submiss&atilde;o,<br \/>\n    do ar respeitoso com que era tratado pelo rapaz, daquela esp&eacute;cie de<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o muda pelo seu g&ecirc;nio que ningu&eacute;m sentia,<br \/>\n    e come&ccedil;ou a interessar-se por ele, dando-lhe sociedade na banca, arranjando-lhe<br \/>\n    clientes. Come&ccedil;ou precisando dele para apoiar a sua pessoa, teve pena<br \/>\n    depois da sua covardia, da sua inaptid&atilde;o para &quot;cavar&quot; acabou<br \/>\n    amando-o inteiramente. Quando fundou o jornal, trouxe-o como redator. Leporace<br \/>\n    foi aprendendo com os outros o of&iacute;cio e acabou Secret&aacute;rio, sumidade<br \/>\n    em literatura e jornalismo, &aacute;rbitro do m&eacute;rito, distribuidor<br \/>\n    de g&ecirc;nios e talentos &#8211; ele que nunca tivera o m&iacute;nimo gosto, a<br \/>\n    menor inclina&ccedil;&atilde;o por essas coisas e passara a meninice e as<br \/>\n    duas mocidades atracado com comp&ecirc;ndios e fazendo Exames como toda a<br \/>\n    gente! Hoje, &eacute; quase uma celebridade e passeia de carro pelas ruas<br \/>\n    asfaltadas do Rio de Janeiro, tendo ao lado a mulher e os pimpolhos.<\/p>\n<p> O berro de Loberant fez estremecer a natureza gelatinosa de Leporace. Ergueu-se,<br \/>\n    foi at&eacute; &agrave; mesa do diretor, falou-lhe ciciando, desculpando-se<br \/>\n    e explicando-se. Na sala, ouvimos todos e o autor da &quot;porcaria&quot;,<br \/>\n    Adelermos Caxias, recebeu aquela inj&uacute;ria sem o mais leve movimento<br \/>\n    de revolta, resignadamente, com resigna&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil de<br \/>\n    esperar em escritor do seu talento, uma grande esperan&ccedil;a das gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    novas.<\/p>\n<p> Estava ali havia mais de meia hora. Depois da brusca reprimenda do diretor,<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio fez-se de novo, e os redatores continuaram a escrever, indo<br \/>\n    um, de onde em onde, consultar outro timidamente em voz baixa ou procurar<br \/>\n    uma cole&ccedil;&atilde;o de jornais distante.<\/p>\n<p> A presen&ccedil;a do diretor na sala cont&iacute;gua era sentida pelo ru&iacute;do<br \/>\n    constante do papel rasgado; parecia que ele escrevia tiras para rasg&aacute;-las<br \/>\n    logo que estavam escritas a meio. Do meu lugar, via-lhe a ponta dos ombros<br \/>\n    e a Aires d&#8217;&Aacute;vila inteiramente. O jogo de luzes projetava fantasticamente<br \/>\n    este &uacute;ltimo no v&atilde;o da parede defronte. A sua face alongava-se<br \/>\n    desmedidamente e o cr&acirc;nio diminu&iacute;a: o maxilar inferior avan&ccedil;ava<br \/>\n    muito, o nariz ficava colado ao superior e vinha terminar com ele; e tudo<br \/>\n    tomava uma posi&ccedil;&atilde;o obl&iacute;qua, como se fosse uma imensa<br \/>\n    cabe&ccedil;a de porco. Escreveria, ora com mon&oacute;culo, ora sem ele;<br \/>\n    e fumava com a satisfa&ccedil;&atilde;o de um turco que repousa do jantar<br \/>\n    para se fatigar no har&eacute;m. Num dado momento, o dr. Ricardo ergueu-se<br \/>\n    impetuosamente e surgiu na sala como um vendaval. Gritou: &#8211; Eu j&aacute; disse<br \/>\n    aos senhores que isto n&atilde;o &eacute; escada para ningu&eacute;m subir&#8230;<br \/>\n    &Eacute; um esc&acirc;ndalo! Todo o dia elogios, adjetivos e encher o&#8230; desses<br \/>\n    pulhas a&iacute;! J&aacute; disse que &quot;eminente&quot; aqui &eacute; s&oacute;<br \/>\n    o Jos&eacute; Bonif&aacute;cio. &#8211; Arre! Quem &eacute; esse tal Ruskin que<br \/>\n    morreu? Ningu&eacute;m se animou a responder e ele continuou no seu primeiro<br \/>\n    tom: &#8211; Um literato a&iacute; qualquer, um contador de caraminholas&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    quero mais que se chame ningu&eacute;m de eminente nas colunas do meu jornal,<br \/>\n    sen&atilde;o o Jos&eacute; Bonif&aacute;cio &#8211; saibam de uma vez por todas!<\/p>\n<p>O doutor Gregor&oacute;vitch n&atilde;o chegava e comecei a sentir-me tamb&eacute;m<br \/>\n    invadido por aquela atmosfera de terror. O diretor tinha voltado ao seu gabinete<br \/>\n    e continuou a rasgar papel. Certa vez, levantou-se, foi at&eacute; &agrave;<br \/>\n    janela e, na volta, eu pude ver o seu maxilar proeminente e quadrado e o ar<br \/>\n    terr&iacute;vel que tinha a sua fisionomia banhada da turva luz que se desprendia<br \/>\n    do olhar. Ent&atilde;o, admirei-me que aquele homem, sob cujo nome apareciam<br \/>\n    t&atilde;o formid&aacute;veis ataques aos nossos problem&aacute;ticos tiranos<br \/>\n    fosse ele mesmo, na administra&ccedil;&atilde;o de sua folha, um tirano malcriado<br \/>\n    e feroz. Ele parecia n&atilde;o achar sossego: sentava-se, levantava-se, ia<br \/>\n    &agrave; janela; por fim saiu estrepitosamente. Ao chegar &agrave; porta que<br \/>\n    dava para o corredor, voltou e gritou a esmo: &#8211; O Gregor&oacute;vitch j&aacute;<br \/>\n    veio? A um s&oacute; tempo quase todos responderam prestamente: &#8211; Ainda n&atilde;o,<br \/>\n    sr. dr.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, retrucou o dr. Ricardo. Quando ele chegar, digam-lhe que escreva<br \/>\n    um artigo sobre o empr&eacute;stimo da Prefeitura&#8230; &Eacute; preciso n&atilde;o<br \/>\n    deixar descansar esses tratantes! L&aacute; em cima da minha mesa, acrescentou<br \/>\n    logo, est&aacute; o come&ccedil;o do meu e ele continue&#8230;<\/p>\n<p> Leporace veio at&eacute; &agrave; porta receber as recomenda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    embora Loberant n&atilde;o se tivesse dirigido a ele. Logo que o diretor saiu,<br \/>\n    correu-lhe &agrave; mesa para apanhar os preciosos escritos. Vi-os. Eram tr&ecirc;s<br \/>\n    delgadas tiras de papel cheias de emendas e de algumas frases em grandes letras.<br \/>\n    Sentindo-o longe, os seus auxiliares voltaram a conversar.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; com a bicha, disse o Meneses. Ainda n&atilde;o tinhas visto<br \/>\n    disso, hein, Adelermo? Aqui &eacute; assim&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Admira-me que s&oacute; agora tivesse visto que era porcaria&#8230; De manh&atilde;,<br \/>\n    nada disse.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; admirar, fez um outro. A mulher s&oacute; lhe fala<br \/>\n    nas coisas do jornal ao jantar, e ele guia-se muito pela opini&atilde;o dela&#8230;<\/p>\n<p> Adelermo acendeu um cigarro, tirou uma fuma&ccedil;a calado; depois, impregnado<br \/>\n    de tristeza, disse vagarosamente que era triste que os seus trabalhos tivessem<br \/>\n    que ficar sujeitos ao veredictum de uma menina das irm&atilde;s de caridade.<br \/>\n    Os outros nada lhe disseram e ele acendeu de novo o cigarro, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a olhar ao longe com tristeza, em seguida essa express&atilde;o desfez-se<br \/>\n    e quando voltou a trabalhar sua fisionomia sorria de orgulho interior. O Oliveira<br \/>\n    ent&atilde;o interveio: &#8211; &Eacute;s injusto com D. In&ecirc;s, Adelermo&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; como tu dizes: uma simples menina das Irm&atilde;s&#8230;<br \/>\n    &Eacute; uma senhora ilustrada; fala franc&ecirc;s, monta a cavalo e&#8230; Ainda<br \/>\n    outro dia, eu vi uma carta dela&#8230; Que letra! E que ortografia! Imagina que<br \/>\n    eram s&oacute; termos de medicina&#8230; terap&ecirc;utica&#8230; psicologia&#8230; agapanto&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; brinquedo! E todos corretos! Eu fui ver no dicion&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p> No gabinete, o anafado redator-chefe continuava a escrever, fingindo n&atilde;o<br \/>\n    dar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; conversa. O charuto estava pelo meio e<br \/>\n    era aspirado com o vigor de uma bomba poderosa. Acabando de escrever, leu<br \/>\n    o artigo vagarosamente, e ergueu-se e veio ao umbral do tabique: &#8211; Est&aacute;s<br \/>\n    zangado com o Ricardo, Adelermo? &#8211; N&atilde;o, dr., mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;s s&atilde;o assomados&#8230; &Eacute; da idade&#8230; Se n&atilde;o<br \/>\n    se atravessar certas coisas, n&atilde;o se vai mesmo. Olhem: eu, logo ao sair<br \/>\n    da Academia (!), fui trabalhar com meu pai, no Di&aacute;rio Fluminense. Uma<br \/>\n    noite, escrevi um artigo e julgava-o sofr&iacute;vel. Pois bem: o velho era<br \/>\n    casmurro, veio at&eacute; &agrave; sala de reda&ccedil;&atilde;o e rasgou-o<br \/>\n    todinho na minha cara e &agrave; vista de uma por&ccedil;&atilde;o de gente&#8230;<\/p>\n<p> Parou de falar, tirou uma fuma&ccedil;a e depois de ter franzido a fisionomia<br \/>\n    para manter o mon&oacute;culo no lugar, perguntou vitoriosamente: &#8211; E agora,<br \/>\n    n&atilde;o estou aqui? &#8211; Eu sei, doutor, falou o Adelermo; mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;s n&atilde;o t&ecirc;m outro patr&atilde;o como o Ricardo, continuou<br \/>\n    Aires d&#8217;&Aacute;vila, sem se incomodar com o Adelermo. Vejam (por a&iacute;<br \/>\n    ele teve um arroto do jantar saboroso). Vejam o que ele fez com o Sanches?!<br \/>\n    &Eacute; isso&#8230; H&aacute; poucos com a sua generosidade e grandeza d&#8217;alma&#8230;<br \/>\n    &Eacute; um fidalgo, um m&atilde;os-abertas! O Oliveira confirmou as assevera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pachorrento redator, acrescentando: &#8211; E demais vejam quem fala mal dele&#8230;<br \/>\n    S&atilde;o esses ladr&otilde;es, esses rufi&otilde;es, gente desmoralizada<br \/>\n    que quer avan&ccedil;ar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu digo isso sempre dos que o julgam mal, disse algu&eacute;m. Ainda ontem,<br \/>\n    conversando com o Andrade, tive ocasi&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; se d&aacute; com esse Andrade? indagou o Oliveira.<\/p>\n<p> &#8211; Dou-me. &Eacute; um belo rapaz, meio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual! exclamou Oliveira. &Eacute; uma besta! &#8211; N&atilde;o &eacute;, Oliveira;<br \/>\n    &eacute; um rapaz que escreve&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual! Eu quero ver esses literatos escreverem duas colunas de inc&ecirc;ndio,<br \/>\n    aqui, no duro&#8230; O pr&oacute;prio Rui&#8230;<\/p>\n<p> Aires d&#8217;&Aacute;vila prudentemente interrompeu a cr&iacute;tica do<br \/>\n    Oliveira. N&atilde;o era tanto pela sua admira&ccedil;&atilde;o pelo famoso<br \/>\n    advogado; com certeza era pelo respeito que lhe inspirava a sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica. Interrompeu, perguntando: &#8211; Quem &eacute; esse Andrade? A<br \/>\n    amizade subalterna do Oliveira esperava essa pergunta para explodir em arras<br \/>\n    de sua dedica&ccedil;&atilde;o ao dr. Loberant.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um moleque a&iacute;, uma besta! O paquiderme colocou o mon&oacute;culo<br \/>\n    e disse com toda a gravidade: &#8211; Ah! J&aacute; sei&#8230; Um b&acirc;bleur! Gente<br \/>\n    que confunde o brilho com a intelig&ecirc;ncia&#8230; Fracas intelig&ecirc;ncias&#8230;<br \/>\n    Fracas intelig&ecirc;ncias a que mocidade d&aacute; um brilho fugaz&#8230;<\/p>\n<p> E o monstruoso redator desandou dizendo asneiras. Eu estava ali de colarinho<br \/>\n    sujo, esfomeado, mas tive &iacute;mpeto de discutir e de quebrar a cara dos<br \/>\n    idiotas que o ouviam. Entre eles, havia alguns a quem cabia bem a carapu&ccedil;a,<br \/>\n    mas que se calaram covardemente. Eu queria perguntar-lhe se aqueles seus artigos<br \/>\n    acacianos, cheirando ainda muito &agrave; brochura francesa de dois mil e<br \/>\n    quinhentos se podiam p&ocirc;r ao par do Tito L&iacute;vio, do Tobias Barreto;<br \/>\n    eu queria perguntar-lhe se a sua genialidade no artiguete seria capaz de aparecer<br \/>\n    se tivesse nascido nas condi&ccedil;&otilde;es desfavor&aacute;veis do Caldas<br \/>\n    Barbosa, do Jos&eacute; Maur&iacute;cio, do Silva Alvarenga e outros! E n&atilde;o<br \/>\n    sei que movimento fiz na cadeira, sopitando a vontade de falar, que o Megatherium<br \/>\n    notou e perguntou-me: &#8211; Que &eacute; que o senhor deseja? &#8211; Falar ao dr. Gregor&oacute;vitch.<\/p>\n<p> &#8211; Oliveira, o Gregor&oacute;vitch quando vem? &#8211; &Agrave;s oito horas.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc;, meu filho, tem muito que esperar, disse ele com do&ccedil;ura.<br \/>\n    S&atilde;o sete e um quarto ainda&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Esperarei, disse eu.<\/p>\n<p> E eles recome&ccedil;aram a conversar sobre outro assunto e vieram a cessar<br \/>\n    instantaneamente quando se ouviram passos na escada. Esperava-se o dr. Loberant,<br \/>\n    mas entrou o fino, o elegante, o diplom&aacute;tico, o macio Frederico Louren&ccedil;o<br \/>\n    do Couto, com a sua linda barba perfumada e o seu grande queixo erguido e<br \/>\n    atirado para adiante como um ar&iacute;ete de coura&ccedil;ado. Vinha todo<br \/>\n    perfumado, de olhar lustroso, desprendendo ess&ecirc;ncias, com o peitilho<br \/>\n    da camisa a brilhar imaculadamente e um grande bot&atilde;o de coral ao centro,<br \/>\n    rodeado de brilhantes. Trazia o sobretudo debaixo do bra&ccedil;o e entrou<br \/>\n    pisando forte, dando am&aacute;veis boas-noites. Vim a conhec&ecirc;-lo melhor<br \/>\n    e a minha antipatia n&atilde;o diminuiu; entretanto, hoje, ao recordar-me<br \/>\n    com que sombria energia ele p&ocirc;s fim ao seu desespero, ao ver diante<br \/>\n    de meus olhos a imagem do seu cad&aacute;ver com aquela fraca cabecinha estourada<br \/>\n    por uma bala, tenho uma grande e imensa pena e lastimo que a minha total ignor&acirc;ncia<br \/>\n    das coisas da Igreja n&atilde;o me permitia rezar uma ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em favor de sua alma. Era o Floc, pseud&ocirc;nimo com que assinava os seus<br \/>\n    artigos, os artigos de tr&ecirc;s tiras, ligeiros e originais, em que, na<br \/>\n    m&aacute;xima parte, ele contava uma linda anedota liter&aacute;ria donde<br \/>\n    conclu&iacute;a as suas substanciosas opini&otilde;es.<\/p>\n<p> Na reda&ccedil;&atilde;o, era conhecido e respeitado como entendido em literatura<br \/>\n    e coisas internacionais. Ele e o Lobo, o consultor gramatical, eram os dois<br \/>\n    mais altos &aacute;pices da intelectualidade do O Globo. Eram os intelectuais,<br \/>\n    os desinteressados, ficavam fora da a&ccedil;&atilde;o ordin&aacute;ria daquele<br \/>\n    ex&eacute;rcito. Nunca se metiam nas pol&ecirc;micas, n&atilde;o procuravam<br \/>\n    esc&acirc;ndalos, n&atilde;o escreviam alus&otilde;es. Gregor&oacute;vitch<br \/>\n    era a artilharia. Com seu estilo desconjuntado e a sua viol&ecirc;ncia injuriosa,<br \/>\n    abria brecha nas linhas advers&aacute;rias e dizimava-as de longe. Estrangeiro,<br \/>\n    nada sabendo da nossa hist&oacute;ria, nem pelo estudo nem a sentindo pela<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o e pelo sangue, a sua cr&iacute;tica e o seu ataque<br \/>\n    tinham uma viol&ecirc;ncia desmedida. N&atilde;o poupava, n&atilde;o desculpava,<br \/>\n    n&atilde;o sentia at&eacute; que ponto o homem era culpado, at&eacute; que<br \/>\n    ponto a marcha das coisas fazia o homem culpado. Ligeiramente enfronhado nas<br \/>\n    causas da pol&iacute;tica do momento, ele s&oacute; via diante de si um aspecto<br \/>\n    do fato, n&atilde;o sentia inconscientemente os outros que se ligavam com<br \/>\n    o passado que ele n&atilde;o conhecia, nem os outros que o futuro pressentido<br \/>\n    condicionava. Um brasileiro, educado e criado no meio das tradi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    dos usos, dos h&aacute;bitos, das qualidades, dos defeitos do seu meio, n&atilde;o<br \/>\n    teria a viol&ecirc;ncia de sua linguagem, a sua for&ccedil;a de cr&iacute;tica,<br \/>\n    a brutalidade de seu ataque.<\/p>\n<p> Acharia na sua educa&ccedil;&atilde;o e nos seus costumes desculpa para<br \/>\n    as faltas dos outros que ele sentia tamb&eacute;m ser suas. Gregor&oacute;vitch<br \/>\n    que, al&eacute;m de estrangeiro, n&atilde;o tinha p&aacute;tria ao certo,<br \/>\n    era incapaz de apanhar rela&ccedil;&otilde;es, explica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    s&oacute; via faltas, erros, onde havia simplesmente efeitos, resultados,<br \/>\n    e atirava-se com toda a viol&ecirc;ncia de seu temperamento de aventureiro<br \/>\n    e condottiere da pena contra aquele reino de Incas, de Astecas que ele n&atilde;o<br \/>\n    compreendia. Al&eacute;m dele, havia o Losque e o Lara homens de esp&iacute;rito,<br \/>\n    humoristas, esp&eacute;cie de cavalaria parta viva no ataque e capaz ainda<br \/>\n    de deitar frechas mortais na retirada. O resto era a infantaria, o grosso<br \/>\n    do ex&eacute;rcito, de quem faziam parte o Oliveira, admirando o diretor como<br \/>\n    um deus e supondo-se extraordin&aacute;rio no seu of&iacute;cio de rep&oacute;rter;<br \/>\n    o resignado Menezes, indulgente criatura que naquele ambiente de fatuidade<br \/>\n    e ignor&acirc;ncia, era o &uacute;nico simples e o &uacute;nico que estudava;<br \/>\n    o Rolim, o elegante Rolim, vigorosamente analfabeto, mas lindo como Narciso;<br \/>\n    o Costa, o Barros, e quantos mais? Era assim composta aquela pe&ccedil;a com<br \/>\n    que tinha irrompido pela vida pol&iacute;tica e administrativa do Brasil a<br \/>\n    viol&ecirc;ncia e com o inesperado de um fen&ocirc;meno vulc&acirc;nico.<\/p>\n<p> &Agrave; frente, estava o doutor Ricardo Loberant, bacharel em direito,<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia duvidosa e saber inconsciente, com o seu estado-maior,<br \/>\n    formado de Aires d&#8217;&Aacute;vila, um monstro geol&oacute;gico com prematuros<br \/>\n    instintos de raposa, e o Leporace, um secret&aacute;rio mec&acirc;nico, autom&aacute;tico,<br \/>\n    ser sem alma, sem defeitos nem qualidades, que recebia os seus movimentos<br \/>\n    do exterior e os comunicava &agrave;s outras pe&ccedil;as da m&aacute;quina;<br \/>\n    &agrave; parte, um tanto afastado, como aqueles traficantes que acompanham<br \/>\n    os ex&eacute;rcitos, havia o Alberto Pranzin, o gerente, um italiano de olhar<br \/>\n    turvo a abranger um grande c&iacute;rculo no horizonte, calculador de n&iacute;queis,<br \/>\n    que escumilhara a despesa e trazia para as gavetas do jornal os tost&otilde;es<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o e um pouco dos lucros do com&eacute;rcio portugu&ecirc;s<br \/>\n    no Rio de Janeiro, isto &eacute;, de todo o com&eacute;rcio da cidade, que<br \/>\n    todo ele &eacute; portugu&ecirc;s, tem o seu esp&iacute;rito, a sua alma,<br \/>\n    e as suas regras.<\/p>\n<p> Floc, por&eacute;m, sobre todos tinha o grande prest&iacute;gio de ter estado<br \/>\n    em Paris e ter sido segundo-secret&aacute;rio da nossa lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em Quito. Por isso ele mesmo se julgava mais depuradamente artista que o resto<br \/>\n    dos rapazes que faziam literatura pelo Brasil em fora; e o seu est&aacute;gio<br \/>\n    diplom&aacute;tico em Quito dava-lhe tamb&eacute;m um infal&iacute;vel julgamento<br \/>\n    nas coisas de alta eleg&acirc;ncia e um saber inarr&aacute;vel nas maneiras<br \/>\n    de tratar duquesas e princesas. Fazia a cr&ocirc;nica liter&aacute;ria, as<br \/>\n    cr&ocirc;nicas teatrais dos espet&aacute;culos de todas as celebridades, as<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es sobre literatura e pintura, al&eacute;m do plant&atilde;o<br \/>\n    semanal em que ajeitava frases lindamente liter&aacute;rias, dados da psicologia<br \/>\n    chic, &agrave;s not&iacute;cias de assassinatos perpetrados por soldados &eacute;brios<br \/>\n    na rua de S&atilde;o Jorge, n&atilde;o esquecendo nunca de dizer que o &quot;criminoso<br \/>\n    &eacute; o tipo acabado do criminoso nato, descrito pelo genial criminalista<br \/>\n    italiano Lombroso&quot;. Ia a um banquete diplom&aacute;tico. A sua entrada<br \/>\n    n&atilde;o perturbou a conversa.<\/p>\n<p> &#8211; &#8230; um moleque! zurrou o Oliveira.<\/p>\n<p> &#8211; De quem falas, Oliveira? indagou o rec&eacute;m-chegado.<\/p>\n<p> &#8211; Um mulato a&iacute;, um tal Andrade&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Incomoda-te o que ele escreve? &#8211; Com certeza, pois se chama o dr. Ricardo<br \/>\n    de pirata, de Barba-Roxa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora! Tu! Essa gente est&aacute; condenada a desaparecer; a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    j&aacute; lhes lavrou a senten&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> Ele de ci&ecirc;ncia sabia o nome e ignorava a conta de dividir. Calou-se<br \/>\n    um instante e acrescentou: &#8211; &Eacute; preciso fulminar os nulos! Lobo tinha-se<br \/>\n    mantido calado. Durante toda a conversa, dissera uma ou outra frase ligeira.<br \/>\n    Revia absorvido um artigo e n&atilde;o queria distrair-se de modo a perder<br \/>\n    a menor regra gramatical com que pudesse emendar o original.<\/p>\n<p> Tendo o Floc e o Oliveira cessado de falar, algu&eacute;m perguntou-lhe:<br \/>\n    &#8211; Dr. Lobo, como &eacute; certo: um copo d&#8217;&aacute;gua ou um copo com<br \/>\n    &aacute;gua? O gram&aacute;tico descansou a pena, tirou o pince-nez de aros<br \/>\n    de ouro, cruzou os bra&ccedil;os em cima da mesa e disse com pachorra e solenidade:<br \/>\n    &#8211; Conforme: Se se tratar de um copo cheio, &eacute; um copo d&#8217;&aacute;gua;<br \/>\n    se n&atilde;o estiver perfeitamente cheio, um copo com &aacute;gua. Explanou<br \/>\n    exemplos, mas n&atilde;o p&ocirc;de lev&aacute;-los &agrave; dezena, pois<br \/>\n    algu&eacute;m apontou na porta, o que mereceu uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Aires d&#8217;&Aacute;vila: o Veiga!<\/p>\n<p>Todos se viraram e imediatamente apanharam no ar uma fisionomia sorridente<br \/>\n    repassada de admira&ccedil;&atilde;o. Voltei-me tamb&eacute;m. Descobri logo<br \/>\n    quem era. Os retratos, espalhados pelos quatro cantos do Brasil, tinham tornado<br \/>\n    familiar aquela fisionomia; mas, de perto, ali a dois passos de mim, o seu<br \/>\n    olhar fixo, atr&aacute;s de fortes lentes, a testa baixa e fugidia, quase<br \/>\n    me fizeram duvidar que fosse aquele o Veiga Filho, o grande romancista de<br \/>\n    frases campanudas, o fecundo conteur, o enf&aacute;tico escritor a quem eu<br \/>\n    me tinha habituado a admirar desde os quatorze anos&#8230; Era aquele o homem<br \/>\n    extraordin&aacute;rio que a gente tinha que ler com um dicion&aacute;rio na<br \/>\n    m&atilde;o? Era aquela a forte cerebra&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria que<br \/>\n    escrevia dois e tr&ecirc;s volumes por ano e cuja gl&oacute;ria repousava<br \/>\n    sobre uma biblioteca inteira? Fiquei pasmado. Com aquele frontal estreito,<br \/>\n    com aquele olhar de desvairado, com aquela fisionomia fechada, balda de simpatia,<br \/>\n    apareceu-me sem mobilidade, sem ductibilidade, r&iacute;gido, sinistro e limitado.<br \/>\n    Acresce que o branco da sua tez soava falso, e do seu esp&iacute;rito julguei<br \/>\n    logo, vendo o esfor&ccedil;o que punha a escova na testa para ganhar diariamente<br \/>\n    terreno ao cabelo! &#8211; Veiga, disse Floc depois dos cumprimentos, gostei muito<br \/>\n    da tua confer&ecirc;ncia. Foi uma epop&eacute;ia, uma ode triunfal ao grande<br \/>\n    Corso! &#8211; Houve pedacinhos lindos, intrometeu-se o Oliveira. Quando por exemplo,<br \/>\n    o dr. falou naquele ingl&ecirc;s l&aacute; da ilha que tinha feito sofrer<br \/>\n    &quot;o &uacute;ltimo grande homem da nossa esp&eacute;cie&quot;, foi como<br \/>\n    se eu tivesse visto o pr&oacute;prio Napole&atilde;o &#8211; grande, alto, com aquele<br \/>\n    cavanhaque.<\/p>\n<p> &#8211; Napole&atilde;o era baixo e n&atilde;o tinha barba, disse algu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um modo de dizer, quero falar na figura, na&#8230; Era extraordin&aacute;rio<br \/>\n    mesmo! E a gente, continuou Oliveira, e a gente fica admirado que um homem<br \/>\n    desses tenha sido cercado, acuado em Sedan! &#8211; Em Waterloo, &eacute; que voc&ecirc;<br \/>\n    quer dizer&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Em Waterloo! N&atilde;o foi em Sedan? O Zola, na Derrocada&#8230; Eu li! &#8211;<br \/>\n    Ah! Isto &eacute; Napole&atilde;o III, acudiu Floc.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; VERDADE! Fez o Oliveira. Que confus&atilde;o! Veiga Filho passeava<br \/>\n    o olhar pela sala, distra&iacute;do, sem dar grande aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao Oliveira. Digeriu o seu triunfo e s&oacute; saiu dessa digest&atilde;o<br \/>\n    dif&iacute;cil quando Floc lhe disse: &#8211; E quanta gente! Muitas senhoras&#8230;<br \/>\n    mo&ccedil;as&#8230; gente fina&#8230; Estavam as Waliesteins, as Bostocks, as Clarks<br \/>\n    Walkovers&#8230; Podes-te gabar que tens o melhor audit&oacute;rio feminino da<br \/>\n    cidade&#8230; Nem o Bilac.<\/p>\n<p> Por a&iacute; os seus olhos tiveram uma grande e forte express&atilde;o<br \/>\n    de triunfo. Disfar&ccedil;ou com um movimento de mod&eacute;stia e perguntou:<br \/>\n    &#8211; J&aacute; deste a not&iacute;cia? &#8211; Ainda n&atilde;o; n&atilde;o tenho tempo&#8230;<br \/>\n    Vou ao banquete do Ministro e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quando a vais fazer? &#8211; Hoje n&atilde;o posso, vou ao banquete; mas o Leporace<br \/>\n    podia dar&#8230; Leporace (gritou para o secret&aacute;rio), escreve a not&iacute;cia<br \/>\n    da confer&ecirc;ncia do Veiga! &#8211; N&atilde;o tenho tempo, objetou o fanhoso<br \/>\n    secret&aacute;rio, aproximando-se do grupo.<\/p>\n<p> Durante minutos estiveram discutindo quem devia dar ou n&atilde;o a not&iacute;cia,<br \/>\n    sem chegar a um acordo. Leporace, ent&atilde;o, lembrou que o pr&oacute;prio<br \/>\n    Veiga Filho a fizesse: &#8211; Est&aacute;s doido! objetou o romancista. N&atilde;o<br \/>\n    viste o que aconteceu da outra vez? Que diriam? &#8211; Ora! Que tolice! Como se<br \/>\n    houvesse algu&eacute;m que acreditasse no murm&uacute;rio desses literatecos&#8230;<br \/>\n    Umas bestas, uns vagabundos; escreve, anda! Eu demorei-me ainda muito e pude<br \/>\n    ouvi-lo ler a not&iacute;cia. Come&ccedil;ou dizendo que era imposs&iacute;vel<br \/>\n    resumir uma confer&ecirc;ncia de um artista como Veiga Filho. Para ele, as<br \/>\n    palavras eram a pr&oacute;pria subst&acirc;ncia de sua arte. Dizer em alguns<br \/>\n    per&iacute;odos o que ele dissera em hora e meia, era querer mostrar a beleza<br \/>\n    do fundo do mar com uma gota d&#8217;&aacute;gua trazida de l&aacute; (n&atilde;o<br \/>\n    citou o autor). Em seguida, a grande gl&oacute;ria das letras p&aacute;trias<br \/>\n    mostrou como tinha come&ccedil;ado: citou Nietzsche, de quem, hoje, entre<br \/>\n    n&oacute;s, Veiga Filho &eacute; um dos mais profundos conhecedores e a cuja<br \/>\n    filosofia a sua inspira&ccedil;&atilde;o obedece. Come&ccedil;ou com o Zaratustra:<br \/>\n    o homem &eacute; uma ponte entre o animal e o super-homem. Da&iacute; partiu<br \/>\n    seguindo o grande Corso na passagem desta ponte. Serviu-se dos mais modernos<br \/>\n    historiadores: Masson, Albert Sorel, Lord Rosebery. Descreveu a batalha de<br \/>\n    Austerlitz, contou a campanha da R&uacute;ssia e a passagem do Berezina foi<br \/>\n    motivo para uma descri&ccedil;&atilde;o das mais art&iacute;sticas que ainda<br \/>\n    se fez na nossa l&iacute;ngua. Pelo audit&oacute;rio, quando ele mostrou aqueles<br \/>\n    milhares de homens, caindo ao rio gelado, amontoando-se uns sobre os outros,<br \/>\n    debatendo-se, lutando sob uma chuva de metralha, correu um frisson de terror.<br \/>\n    Contestou teorias de T&oacute;lstoi, p&ocirc;s finas nota&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    aos ataques feitos a Napole&atilde;o e ao estudo do seu g&ecirc;nio por Lombroso.<br \/>\n    Patenteou uma grande erudi&ccedil;&atilde;o e conhecimento n&atilde;o suspeitados;<br \/>\n    e, quando a sua palavra colorida descreveu os s&uacute;plices desse tit&atilde;<br \/>\n    ro&iacute;do pelo enfado, houve na sala um solu&ccedil;o.<\/p>\n<p> Foi um duplo triunfo, terminava assim a not&iacute;cia, de Veiga Filho e<br \/>\n    de Napole&atilde;o, o &uacute;ltimo grande homem que a nossa esp&eacute;cie<br \/>\n    viu, cuja grandeza e cujos triunfos aquele grande artista soube pintar e descrever,<br \/>\n    jogando com as palavra como um malabarista h&aacute;bil faz com as suas bolas<br \/>\n    multicores. Raro e fugace gozo foi essa confer&ecirc;ncia do eminente cultor<br \/>\n    das letras p&aacute;trias.<\/p>\n<p> Veiga Filho acabou de ler a not&iacute;cia no meio da sala, cercada de redatores<br \/>\n    e rep&oacute;rteres. Enquanto ele lia cheio de paix&atilde;o, esquecido de<br \/>\n    que fora ele mesmo o autor de t&atilde;o lindos elogios, fiquei tamb&eacute;m<br \/>\n    esquecido e convencido do seu malabarismo vocabular, do sopro her&oacute;ico<br \/>\n    de sua palavra, da sua erudi&ccedil;&atilde;o e do seu saber&#8230;<\/p>\n<p> Cessando, lembrei-me que amanh&atilde; tudo aquilo ia ser lido pelo Brasil<br \/>\n    boquiaberto de admira&ccedil;&atilde;o, como um elogio valioso, isto &eacute;,<br \/>\n    nascido de entusiasmo sem depend&ecirc;ncia com a pessoa, como coisa feita<br \/>\n    por um admirador mal conhecido! A Gl&oacute;ria! Gl&oacute;ria! E de repente,<br \/>\n    repontaram-me d&uacute;vidas: e todos os que passaram n&atilde;o teriam sido<br \/>\n    assim? e os estrangeiros n&atilde;o seriam assim tamb&eacute;m?&#8230;<\/p>\n<p> Presenciando tudo aquilo, eu senti que tinha travado conhecimento com um<br \/>\n    engenhoso aparelho de apari&ccedil;&otilde;es e eclipses, esp&eacute;cie complicada<br \/>\n    de tablado de m&aacute;gica e espelho de prestidigitador, provocando ilus&otilde;es,<br \/>\n    fantasmagorias, ressurgimentos, glorifica&ccedil;&otilde;es e apoteoses com<br \/>\n    pedacinhos de chumbo, uma m&aacute;quina Marinoni e a estupidez das multid&otilde;es.<\/p>\n<p> Era a Imprensa, a Onipotente Imprensa, o quarto poder fora da Constitui&ccedil;&atilde;o!\n  <\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>Aos poucos, me esqueci dos dias de fome passados a deambular pelas ruas da<br \/>\n    cidade. Tinha j&aacute; um quarto, cama e um lavat&oacute;rio de ferro, pens&atilde;o<br \/>\n    de almo&ccedil;o e jantar; e, ainda, do ordenado, me sobravam sempre alguns<br \/>\n    mil-r&eacute;is para comprar, de quando em quando, umas botinas de abotoar<br \/>\n    ou um chap&eacute;u de palha mais catita. Gregor&oacute;vitch dera-me um terno<br \/>\n    de roupa em por todo o tempo em que fui cont&iacute;nuo, conheci v&aacute;rios<br \/>\n    alfaiates caros por interm&eacute;dio do corpo dos outros.<\/p>\n<p> No come&ccedil;o, n&atilde;o foi sem pezar que aceitei as fatiotas daqueles<br \/>\n    desconhecidos. Custou-me muito curvar-me a t&atilde;o vil necessidade; com<br \/>\n    o tempo, por&eacute;m, conformei-me e de tal modo me habituei que, mais tarde,<br \/>\n    quando a minha situa&ccedil;&atilde;o mudou, foi-me preciso um grande esfor&ccedil;o,<br \/>\n    para me habituar a comprar roupa em primeira m&atilde;o. Achava-a cara, e<br \/>\n    o dinheiro gasto nela, despendido inutilmente, como se o gastasse em orgias<br \/>\n    e bebedeiras. Os meus vencimentos eram aumentados pelas gorjetas. Havia-as<br \/>\n    de duzentos r&eacute;is, mas, em geral, eram de quinhentos r&eacute;is para<br \/>\n    cima. A gente dos jornais &eacute; pr&oacute;diga como jogadores e gosta de<br \/>\n    aparentar desprezo pelo dinheiro e generosidade. Uma vez, recordo-me bem,<br \/>\n    um rep&oacute;rter, entrando alta noite na reda&ccedil;&atilde;o, com o olhar<br \/>\n    brilhante e o passo um tanto tr&ocirc;pego, disse-me cheio de efus&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Caminhas, tens dinheiro? &#8211; Tenho, sim senhor, dois mil-r&eacute;is&#8230; O<br \/>\n    sr&#8230;<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o entendeu bem a minha resposta e continuou com a voz pastosa:<br \/>\n    &#8211; Sabes donde venho? Do Aplomb Club. Ganhei oitocentos mil-r&eacute;is no<br \/>\n    bacarat&#8230; Arre! Que desta vez levei a melhor ao Laje&#8230; Sabes quem bancava?<br \/>\n    O Dem&oacute;stenes, dr. Dem&oacute;stenes Brand&atilde;o, pretor, primo do<br \/>\n    Ministro do Interior.<\/p>\n<p> O rep&oacute;rter falava bamboleando a cabe&ccedil;a e agitando os bra&ccedil;os<br \/>\n    molemente. Esteve alguns instantes calado, a revirar os olhos, e depois puxou<br \/>\n    da algibeira uma nota de vinte mil-r&eacute;is e disse-me: &#8211; Toma! Vai procurar<br \/>\n    um bom fim de noite&#8230;<\/p>\n<p> Eu tinha cem mil-r&eacute;is por m&ecirc;s. Vivia satisfeito e as minhas<br \/>\n    ambi&ccedil;&otilde;es pareciam assentes. N&atilde;o fora s&oacute; a mis&eacute;ria<br \/>\n    passada que assim me fizera; fora tamb&eacute;m a ambi&ecirc;ncia hostil,<br \/>\n    a certeza de que um passo para diante me custava grandes dores, fortes humilha&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ofensas terr&iacute;veis. Relembrava-me da minha vida anterior; sentia ainda<br \/>\n    muito abertos os ferimentos que aquele choque com o mundo me causara. Sem<br \/>\n    os achar, em consci&ecirc;ncia, justos, acovardava-me diante da perspectiva<br \/>\n    de novas dores e apavorei-me diante da imagem de novas torturas. Considerei-me<br \/>\n    feliz no lugar de cont&iacute;nuo da reda&ccedil;&atilde;o do O Globo. Eu<br \/>\n    tinha atravessado um grande bra&ccedil;o de mar, agarrara-me a um ilh&eacute;u<br \/>\n    e n&atilde;o tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava<br \/>\n    o horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me e aos insetos<br \/>\n    j&aacute; se me tinham feito grossa a pele&#8230;<\/p>\n<p> De tal maneira &eacute; forte o poder de nos iludirmos, que um ano depois<br \/>\n    cheguei a ter at&eacute; orgulho da minha posi&ccedil;&atilde;o. Senti-me<br \/>\n    muito mais que um cont&iacute;nuo qualquer, mesmo mais que um cont&iacute;nuo<br \/>\n    de Ministro. As conversas da reda&ccedil;&atilde;o tinham-me dado a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que o doutor Loberant era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia<br \/>\n    Ministros, demitia diretores, julgava ju&iacute;zes e o Presidente, logo ao<br \/>\n    amanhecer lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha tido o<br \/>\n    placet desejado do dr. Ricardo. Participar de uma reda&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    jornal era algo extraordin&aacute;rio, superior, acima das for&ccedil;as comuns<br \/>\n    dos mortais; e eu tive a confirma&ccedil;&atilde;o disso quando, certa vez,<br \/>\n    na casa de c&ocirc;modos em que morava, dizendo-o ao encarregado que trabalhava<br \/>\n    na reda&ccedil;&atilde;o do O Globo, vi o pobre homem esbugalhar muito os<br \/>\n    olhos, olhar-me de alto a baixo, tomar-se de grande espanto como se estivesse<br \/>\n    diante de um ente extraordin&aacute;rio. As raparigas que residiam junto a<br \/>\n    mim, lavadeiras e costureiras, criadas de servir apelidaram-me &quot;o jornalista&quot;,<br \/>\n    e mesmo quando vieram a ter exato conhecimento da minha real situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no jornal, continuei a ser por esse apelido conhecido, respeitado e debochado.<\/p>\n<p> Fiquei enervado de orgulho pueril, tratando toda a gente com um desd&eacute;m<br \/>\n    sobranceiro, sentindo-me tocado, atingido por um pouco de grandeza que cabia<br \/>\n    ao dr. Loberant, ao Losque e ao inimit&aacute;vel Floc.<\/p>\n<p> Depois de acobardado, tornei-me superior e enervado e n&atilde;o tentei<br \/>\n    mais mudar de situa&ccedil;&atilde;o, julgando que n&atilde;o havia no Rio<br \/>\n    de Janeiro lugar mais digno para o genial aluno de Dr. Ester que o de cont&iacute;nuo<br \/>\n    numa reda&ccedil;&atilde;o sagrada. N&atilde;o estudei mais, n&atilde;o mais<br \/>\n    abri livro. S&oacute; a leitura d&#8217;O Globo me agradava, me dava prazer.<br \/>\n    Comecei a admirar as senten&ccedil;as liter&aacute;rias do Floc, a pilh&eacute;rias<br \/>\n    do Losque, a decorar a gram&aacute;tica homeop&aacute;tica do Lobo e a n&atilde;o<br \/>\n    suportar uma leitura mais dif&iacute;cil, mais densa de id&eacute;ias, mais<br \/>\n    logicamente arquitetada, mesmo quando vinha em jornal. Era pesado e&#8230;<\/p>\n<p> Em menos de ano e tanto, tinha j&aacute; constru&iacute;do uma pequena consci&ecirc;ncia<br \/>\n    jornal&iacute;stica para meu uso. Julguei-me superior ao resto da humanidade<br \/>\n    que n&atilde;o pisa familiarmente no interior das reda&ccedil;&otilde;es e<br \/>\n    cheio de intelig&ecirc;ncia e de talento, s&oacute; porque levara tinta aos<br \/>\n    tinteiros dos rep&oacute;rteres e dos redatores e participava assim de um<br \/>\n    jornal, onde todos t&ecirc;m g&ecirc;nio. Os cont&iacute;nuo, os revisores,<br \/>\n    os caixeiros de balc&atilde;o, o gerente, os redatores, os homens das m&aacute;quinas,<br \/>\n    os tip&oacute;grafos, os agentes de an&uacute;ncios, todos t&ecirc;m g&ecirc;nio,<br \/>\n    muito g&ecirc;nio mesmo, quando de sobra n&atilde;o t&ecirc;m tamb&eacute;m<br \/>\n    muito esp&iacute;rito, muito mesmo! Aquela casa, como todas do seu feitio,<br \/>\n    em que se fabricam novidades para o p&uacute;blico, era uma colmeia de g&ecirc;nios.<br \/>\n    Colmeia &eacute; bem o termo porque era pequena e acanhada. Os redatores escreviam<br \/>\n    uns em cima dos outros; na revis&atilde;o, que ficava misturada com a composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o se podia andar; e pela noite os bicos de g&aacute;s sem vidros<br \/>\n    iluminavam tudo aquilo lobregamente, com grandes hiatos de sombras como um<br \/>\n    por&atilde;o de navio. Pela sala em que esses dois departamentos funcionavam,<br \/>\n    flutuava um forte odor de urina, desprendido de um mict&oacute;rio, que existia<br \/>\n    entre duas caixas de tipografia. No dia que notei isso, n&atilde;o fazia oito,<br \/>\n    que um artigo furioso atacava o governo pelas m&aacute;s condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    higi&ecirc;nicas do Hosp&iacute;cio Nacional de Alienados.<\/p>\n<p> Quando se tratava de per si com qualquer dos empregados do jornal, ficava-se<br \/>\n    admirado que a folha se imprimisse e se escrevesse diariamente. Floc tinha<br \/>\n    em pouca conta Losque: um buf&atilde;o, dizia ele; Bandeira desprezava Floc:<br \/>\n    um eunuco; e todos como que pareciam querer entredevorar-se at&eacute; aos<br \/>\n    ossos. Entretanto, quando um fazia anos, a se&ccedil;&atilde;o competente<br \/>\n    gemia e os adjetivos mais ternos e mais camarad&aacute;rios n&atilde;o eram<br \/>\n    poupados. De se&ccedil;&atilde;o para se&ccedil;&atilde;o, a guerra era terr&iacute;vel.<br \/>\n    A revis&atilde;o dizia que a reda&ccedil;&atilde;o era analfabeta; a tipografia<br \/>\n    acusava ambas de incompetentes; e at&eacute; a impress&atilde;o que n&atilde;o<br \/>\n    lia nem via originais tinha uma opini&atilde;o desfavor&aacute;vel sobre todas<br \/>\n    tr&ecirc;s.<\/p>\n<p> A reda&ccedil;&atilde;o n&atilde;o perdoava a menor falha da revis&atilde;o.<br \/>\n    &Agrave;s vezes, eram os originais defeituosos; em outras, havia descuido<br \/>\n    ou a pretens&atilde;o fazia emendar o que estava certo; mas sempre as reclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    choviam por parte dos redatores, dos colaboradores e dos rep&oacute;rteres.<\/p>\n<p> Um caso curioso deu-se com um artigo de Aires d&#8217;&Aacute;vila. Na sua<br \/>\n    cantilena di&aacute;ria, o paquid&eacute;rmico plumitivo tinha escrito &quot;pesados<br \/>\n    200$000 impostos pelo Congresso&quot;, mas, passando de uma linha para outra,<br \/>\n    cortara a quantia pelo cifr&atilde;o, sem o qual, a revis&atilde;o e a tipografia<br \/>\n    entenderam: &quot;200 ovos postos pelo Congresso&quot;. &Aacute;vila &agrave;s<br \/>\n    nove horas da manh&atilde; veio ao jornal furioso, com as banhas agitadas,<br \/>\n    todo ele nervoso de pasmar, pois sempre me pareceu sem nervos. O que tinha<br \/>\n    sido uma simples obra do acaso, atribu&iacute;a-a ele uma canalhice da revis&atilde;o,<br \/>\n    uma pilh&eacute;ria de mau gosto.<\/p>\n<p> De tarde o chefe da revis&atilde;o foi chamado, quis explicar o &quot;gato&quot;;<br \/>\n    mas a nada se atendeu e houve algumas demiss&otilde;es. N&atilde;o eram raras<br \/>\n    ali&aacute;s. No jornal, h&aacute;-as de m&ecirc;s a m&ecirc;s; por d&aacute;<br \/>\n    c&aacute; aquela palha, o diretor ou o secret&aacute;rio demite, suspende,<br \/>\n    multa nos ordenados. Da&iacute; vem o terror dos subalternos, a lisonja, o<br \/>\n    respeito religioso de que s&atilde;o cercados. Entretanto, quantas vezes se<br \/>\n    n&atilde;o l&ecirc;em acres censuras ao Ministro que demitiu este ou aquele<br \/>\n    funcion&aacute;rio, por motivo em geral mais plaus&iacute;veis! Unicamente<br \/>\n    Michaelowsky n&atilde;o fazia carga sobre a revis&atilde;o. Para ele, tanto<br \/>\n    se lhe dava sair &quot;n&oacute;s fomos&quot; como &quot;n&oacute;s foi&quot;.<br \/>\n    N&atilde;o tinha nenhum amor pelos escritos; eram como cutiladas, tanto fazia<br \/>\n    matar, ferindo no pesco&ccedil;o como rachando a cabe&ccedil;a meio a meio.<br \/>\n    O que ele queria era matar, ferir, golpear: a maneira pouca se lhe dava. E<br \/>\n    era uma felicidade para a revis&atilde;o que ele pensasse assim. No jornal,<br \/>\n    s&oacute; o russo tinha prest&iacute;gio e iniciativa. Os outros curvavam-se<br \/>\n    servilmente ao diretor. O que n&atilde;o seria se o doutor em exegese b&iacute;blica<br \/>\n    tivesse os cuidados puristas do Oliveira, que reclamava um &quot;propositalmente&quot;<br \/>\n    por propositadamente! Toda a sua gram&aacute;tica estava a&iacute;. Ele conseguira<br \/>\n    saber que &quot;propositalmente&quot; n&atilde;o era aconselhado pelo Rui<br \/>\n    e ai do revisor que deixasse escapar um na sua se&ccedil;&atilde;o! O pr&oacute;prio<br \/>\n    Loberant, t&atilde;o ignorante como o Oliveira, p&eacute;ssimo escritor, tinha<br \/>\n    f&uacute;rias extraordin&aacute;rias quando lhe trocavam uma palavra no luminoso<br \/>\n    artigo. Diariamente, mesmo quando n&atilde;o escrevia, corria o jornal de<br \/>\n    manh&atilde;, de princ&iacute;pio ao fim, auxiliado pela mulher, para descobrir<br \/>\n    erros segundo a gram&aacute;tica do Lobo. Gra&ccedil;as a leituras das &quot;sorites&quot;<br \/>\n    do esqu&aacute;lido gram&aacute;tico, Loberant julgava-se um purista; demais,<br \/>\n    ele sempre tivera culto pelo dicion&aacute;rio, pelo purismo. Era um gosto<br \/>\n    ver surgir nos seus artigos-descomposturas, termos, catados ao Morais e ao<br \/>\n    Domingos Vieira. E essa sua cren&ccedil;a de purista e cultor da l&iacute;ngua,<br \/>\n    juntara-se com o tempo, a de ser tamb&eacute;m um grande homem, um messias,<br \/>\n    um homem providencial. Com cuidado e atilamento, afastara do jornal toda e<br \/>\n    qualquer pessoa de mais talento que ele. Propriet&aacute;rio da folha absorvera-a<br \/>\n    toda em si: os artigos, a cria&ccedil;&atilde;o das se&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as refer&ecirc;ncias elogiosas, as &quot;cava&ccedil;&otilde;es&quot;, tudo<br \/>\n    s&oacute; se fazia com sua audi&ecirc;ncia e aprova&ccedil;&atilde;o. Ele<br \/>\n    pairava sobre o jornal como um s&aacute;trapa que desconhecesse completamente<br \/>\n    qualquer esp&eacute;cie de lei, fosse jur&iacute;dica, moral ou religiosa.<br \/>\n    N&atilde;o havia regulamentos, praxes; o jornal era ele e a coer&ecirc;ncia<br \/>\n    de suas opini&otilde;es vinha dos impulsos desordenados de sua alma, que o<br \/>\n    despeito agitava em todos os sentidos. No curto prazo de uma semana, o seu<br \/>\n    jornal atacou, elogiou e qualificou her&oacute;i o Ministro da Guerra; e nenhum<br \/>\n    dos tr&ecirc;s artigos saiu da sua pena; foram escritos &agrave; sua ordem<br \/>\n    pelo Adelermo Caxias, que se gabava de honestidade intelectual. Na reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era assim: escrevia-se, mediante ordem do Diretor, hoje contra e amanh&atilde;<br \/>\n    a favor. Floc, entretanto, gabava-se de ter autonomia nos seus artigos. Eram<br \/>\n    puramente liter&aacute;rios, ou tinham esse prop&oacute;sito, e, &agrave;<br \/>\n    luz da intelig&ecirc;ncia de Loberant, era-lhe perfeitamente indiferente que<br \/>\n    o naturalismo fosse elogiado e o nefelibatismo detratado; que a Academia de<br \/>\n    Letras tivesse refer&ecirc;ncias elogiosas ou recebesse epigramas acerados.<br \/>\n    Floc era contra a Academia, contra os novos, contra os poetas, contra os prosadores;<br \/>\n    s&oacute; admitia, al&eacute;m dele, com a sua obra subjacente, que se juntassem<br \/>\n    e fizessem versos, certos rapazes de sua amizade, bem-nascidos, limpinhos<br \/>\n    e candidatos &agrave; diplomacia. Confundia arte, literatura, pensamento com<br \/>\n    distra&ccedil;&otilde;es de sal&atilde;o; n&atilde;o lhes sentia o grande<br \/>\n    fundo natural, o que pode haver de grandioso na fun&ccedil;&atilde;o da Arte.<br \/>\n    Para ele, arte era recitar versos nas salas, requestar atrizes e pintar umas<br \/>\n    aquarelas lambidas, falsamente melanc&oacute;licas.<\/p>\n<p> Na cr&iacute;tica, tinha-se na convic&ccedil;&atilde;o de um fazedor de<br \/>\n    poetas, um consagrador de reputa&ccedil;&otilde;es; com aquele endosso da<br \/>\n    firma burlesca &#8211; Floc &#8211; o autor que lhe recebesse elogios, passava imediatamente<br \/>\n    para o Larousse. Ignorante, insciente, com uma leitura de pacotilha, n&atilde;o<br \/>\n    se animava a desenvolver qualquer teoria, a ter um ponto de vista qualquer;<br \/>\n    bordava umas banalidades &#8211; &quot;uns deliciosos momentos de gozo est&eacute;tico<br \/>\n    deu-nos, etc.; a sua alma vibra e palpita, etc.&quot; Com isso, e repetidos<br \/>\n    elogios aos outros jornalistas, adquiriu ele uma linda reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e um grande prest&iacute;gio de talento e de artista. Quando se suicidou (oh!<br \/>\n    como isto &eacute; triste de recordar!), quando se suicidou fui-lhe ver os<br \/>\n    livros; l&aacute; havia a Grande Marni&egrave;re, de Ohnet; Je Suis Belle,<br \/>\n    de Victorien de Saussay; uns volumes de Bourget, alguns de Maupassant, nenhum<br \/>\n    historiador, nenhum fil&oacute;sofo, nenhum estudo de cr&iacute;tica liter&aacute;ria,<br \/>\n    mas dez de anedotas liter&aacute;rias de autores de todos os tempos e de todos<br \/>\n    os pa&iacute;ses. A sua cr&iacute;tica n&atilde;o obedecia a nenhum sistema;<br \/>\n    n&atilde;o seguia escola alguma. O &uacute;nico crit&eacute;rio era as suas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es com o autor, as recomenda&ccedil;&otilde;es recebidas,<br \/>\n    os t&iacute;tulos universit&aacute;rios, o nascimento e a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social. Elogiava nefelibatas, se eram de sua amizade, se eram &quot;limpos&quot;;<br \/>\n    detratava se n&atilde;o eram. Tinha dois princ&iacute;pios: a aristocracia<br \/>\n    da arte e a fulmina&ccedil;&atilde;o dos nulos. Entendia a seu modo aristocracia<br \/>\n    da arte, isto &eacute;, arte feita pelos aristocratas como ele, cujo pai tivera<br \/>\n    na primeira mocidade uma taverna em Barra Mansa.<\/p>\n<p> Uma tarde, chegou &agrave; reda&ccedil;&atilde;o com uma plaquette, impressa<br \/>\n    em Portugal, tendo por t&iacute;tulo &#8211; Cora&ccedil;&atilde;o Magoado. Encontrando<br \/>\n    Leporace, mostrou-lhe a brochura: &#8211; Conheces? &#8211; N&atilde;o. Deixa-me v&ecirc;-la.<\/p>\n<p> Leporace quis dar &agrave; sua fisionomia ba&ccedil;a, aos m&uacute;sculos<br \/>\n    inexpressivos de sua face, uma express&atilde;o de finura, de atilamento particular<br \/>\n    de entendimento. Leu o t&iacute;tulo, o nome do autor, folheou o livro e perguntou:<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; Odalina? &#8211; Uma poetisa portuguesa de muito talento&#8230; Est&aacute;<br \/>\n    de passagem e vem tratar de uma revista &#8211; O Bandolim&#8230; Os versos s&atilde;o<br \/>\n    l&iacute;ricos, mas de uma pureza de sentimento e cheios de um acento pessoal<br \/>\n    de encantar&#8230; Eu n&atilde;o gosto da arte pessoal; a arte (tomou outra atitude)<br \/>\n    deve refletir o mundo e o homem, e n&atilde;o a pessoa&#8230; Penso com o Flaubert&#8230;<br \/>\n    V&ecirc; s&oacute; este: Meu cora&ccedil;&atilde;o por desgra&ccedil;a Entrou<br \/>\n    no meu pensamento &Eacute; como crime de faca Que nunca tem livramento.<\/p>\n<p> &#8211; Notaste, acrescentou ao terminar a leitura, como est&aacute; bem aproveitada<br \/>\n    a devida cad&ecirc;ncia da trova popular para exprimir um alto conceito filos&oacute;fico?<br \/>\n    Ela quer dizer que o seu, a perigo sua intelig&ecirc;ncia &eacute; perturbada<br \/>\n    pelo Amor, pelo sentimento&#8230; E como ela compara bem com um dizer popular,<br \/>\n    essa coisa alta e transcendente! O livro &eacute; not&aacute;vel&#8230; V&ecirc;<br \/>\n    s&oacute; esta quadrinha, que perfei&ccedil;&atilde;o! Quanta emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; nela! Ouve: Quem tem amores vai dormir Na porta do seu amor Das<br \/>\n    pedras faz cabeceira Das estrelas cobertor.<\/p>\n<p> Leporace pediu de novo o livro e p&ocirc;s-se a folhe&aacute;-lo, lendo<br \/>\n    aqui e ali. N&atilde;o teve uma palavra para dizer, descansou o livro e perguntou:<br \/>\n    &#8211; Quem te apresentou? &#8211; O Raul de Gusm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; O Raul! Com mulheres! &Eacute; casada? &#8211; &Eacute;, com o Visconde de Varennes,<br \/>\n    um fidalgo franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Ol&aacute;! Deve ser uma grande fam&iacute;lia, nobreza antiga&#8230; O nome<br \/>\n    &eacute; hist&oacute;rico, rematou Leporace satisfeito por ter encontrado<br \/>\n    uma observa&ccedil;&atilde;o a fazer.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei se &eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; O marido veio com ela? &#8211; N&atilde;o. Ela vive separada do marido&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ahn! Vais escrever sobre ela, n&atilde;o? &#8211; Naturalmente.<\/p>\n<p> E os dois sorriam: Floc cheio de satisfa&ccedil;&atilde;o, recordando vagamente<br \/>\n    as mulheres j&aacute; gozadas; Leporace com um evidente travo de amargura<br \/>\n    nos l&aacute;bios. O cr&iacute;tico preparava-se para se p&ocirc;r &agrave;<br \/>\n    mesa, quando entraram o doutor Loberant e Michaelowsky. O diretor vinha com<br \/>\n    a fisionomia alegre. Floc e Leporace, este mais que aquele, acolheram com<br \/>\n    as grandes mostras de respeito de sempre a presen&ccedil;a do dr. Ricardo<br \/>\n    Loberant. O desbotado secret&aacute;rio deu-lhe conta das recomenda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do dia seguinte. Tinha posto mais uma &quot;brotoeja&quot; contra o Prefeito<br \/>\n    e fizera escrever um solto combatendo o empr&eacute;stimo da Prefeitura; e,<br \/>\n    se n&atilde;o sa&iacute;ra a &quot;porrada&quot; na gente do Paran&aacute;,<br \/>\n    fora porque o vira a conversar com o Chavantes.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, &quot;seu&quot; Leporace! exclamou o diretor. Que &eacute; que tem<br \/>\n    isso! O jornal &eacute; uma coisa e eu sou outra&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pensei&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bem&#8230; Foi bom&#8230; Mas n&atilde;o me deixe de bater na Prefeitura&#8230; &Eacute;<br \/>\n    um esc&acirc;ndalo! Uma vergonha! S&oacute; o Machado vai ganhar mil contos&#8230;<br \/>\n    Embirro com esse Machado&#8230; Um tratante que n&atilde;o me cumprimenta&#8230; Ainda<br \/>\n    se fosse outro, v&aacute;! E n&atilde;o &eacute; isso; &eacute; um nulo, um<br \/>\n    t&iacute;tulo desvantajoso, e que juro!&#8230; N&atilde;o o deixem, n&atilde;o<br \/>\n    o deixem; havemos de ver se o O Globo vale ou n&atilde;o vale&#8230;<\/p>\n<p> E o diretor rematou as suas recomenda&ccedil;&otilde;es com um baixo palavr&atilde;o<br \/>\n    insultuoso. Floc e Leporace tinham ficado a ouvir o vener&aacute;vel diretor;<br \/>\n    Michaelowsky, sentado, fumando, estivera a ler o livro da poetisa portuguesa.<\/p>\n<p> &#8211; De quem &eacute; isto? perguntou.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; meu.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o autor que pergunto.<\/p>\n<p> &#8211; O autor! &Eacute; uma fidalga portuguesa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Livra! S&atilde;o versos de folhinha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De folhinha! &#8211; De folhinha, sim. Este aqui. &quot;Quem tem amores vai<br \/>\n    dormir&quot; &#8211; &eacute; &quot;verso&quot; de hoje at&eacute;! &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel! N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel! reclamou o<br \/>\n    cr&iacute;tico liter&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Queres ver? Caminha, gritou o russo para mim, traze-me a&iacute; o &quot;verso&quot;<br \/>\n    de hoje.<\/p>\n<p> Procurei-o nos pap&eacute;is de uma cesta e entreguei-o ao redator poliglota.<br \/>\n    O estrangeiro passou os olhos no papelucho e entregou-o ao Floc. O or&aacute;culo<br \/>\n    art&iacute;stico do jornal correu rapidamente os versos e confessou: &eacute;<br \/>\n    verdade, acrescentando &#8211; que cinismo! mas sem convic&ccedil;&atilde;o nem<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O Diretor tinha entrado para o gabinete seguido de Leporace e nenhum dos<br \/>\n    dois ouvira o breve di&aacute;logo trocado na sala entre os dois redatores.<br \/>\n    De repente, com aquela sofreguid&atilde;o que lhe era peculiar e que ele punha<br \/>\n    nos atos, nos afetos e nos seus med&iacute;ocres artigos, chegou-se &agrave;<br \/>\n    porta e perguntou ao Floc: &#8211; Vi esse tal Andrade na rua&#8230; O jornaleco dele<br \/>\n    ainda continua a sair? &#8211; Penso que sim.<\/p>\n<p> &#8211; Tens lido? &#8211; &Agrave;s vezes.<\/p>\n<p> &#8211; Continua a insultar-me? &#8211; Sempre. E acrescentou: o dr. se incomoda com<br \/>\n    o que diz esse vagabundo? &#8211; N&atilde;o&#8230; Ora! Mas&#8230; Deixa estar que ele<br \/>\n    h&aacute; de precisar de mim, h&aacute; de cair em alguma; ent&atilde;o veremos&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o se esque&ccedil;am dele, quando for ocasi&atilde;o, casquem&#8230;<br \/>\n    Patife!!! E passou por mim ainda com os dentes rilhados, cheio de raiva, desabotoando<br \/>\n    a braguilha, apressado para o mict&oacute;rio, olhando para o lado em que<br \/>\n    eu estava, como querendo dar a entender que ele era forte, muito forte, e<br \/>\n    havia de esmagar um dia aquele pigmeu que ousava p&ocirc;r-se diante do seu<br \/>\n    caminho triunfante, atirando-lhe alfinetadas com uma c&ocirc;mica viol&ecirc;ncia<br \/>\n    liliputiana. Havia de esmag&aacute;-lo, inutiliz&aacute;-lo para sempre e<br \/>\n    faz&ecirc;-lo sofrer eternamente o grande desaforo de o n&atilde;o supor Deus<br \/>\n    no &quot;Domingo&quot;, a ele, doutor Ricardo Loberant, diretor-propriet&aacute;rio<br \/>\n    d&#8217;O Globo, jornal independente, &oacute;rg&atilde;o do povo e dos sofredores,<br \/>\n    pesadelo dos Ministros, espada de D&acirc;mocles suspensa sobre a tr&iacute;ade<br \/>\n    pol&iacute;tica e administrativa da Rep&uacute;blica. E ele tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> O terror, que inspirava dentro do jornal, irradiava para fora. Aquele homem<br \/>\n    magrinho, fraco de corpo e de intelig&ecirc;ncia, sem cultura, amedrontava<br \/>\n    a cidade e o pa&iacute;s. Todos o cortejavam; os colegas que o combatiam,<br \/>\n    evitavam feri-lo de frente. Um ou outro, num momento de desespero, tinha a<br \/>\n    coragem de enfrent&aacute;-lo; mas era num momento de desespero. Armados,<br \/>\n    cercados de todos os lados, tinham uma convuls&atilde;o e atiravam-se, desferindo<br \/>\n    golpes para a esquerda e para a direita. Se porventura algum era mais certeiro<br \/>\n    e parecia esmagar o dr. Loberant, ficava-se pasmado que se desse o contr&aacute;rio.<br \/>\n    Longe de perder prest&iacute;gio, esses ferimentos aumentavam-no. O povo n&atilde;o<br \/>\n    queria ver a sua ignor&acirc;ncia, a sua inabilidade no escrever; era valente<br \/>\n    e dizia a verdade. Houve uma pol&ecirc;mica sobre um trabalho de limites em<br \/>\n    que o seu desconhecimento da geografia p&aacute;tria ficou patente; o jornal<br \/>\n    foi mais lido. Em outra vez, deu como tendo feito oferecimentos a conventos<br \/>\n    do Brasil, reis da dinastia de Borgonha; recebeu uma ova&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    De dia para dia o jornal crescia em venda. Todos o liam; era o jornal dos<br \/>\n    desgostosos, dos pequenos empregados, dos rat&eacute;s de todas as profiss&otilde;es<br \/>\n    e tamb&eacute;m dos ricos que n&atilde;o podem ganhar mais e dos destronados<br \/>\n    das posi&ccedil;&otilde;es e das honras. Na venda avulsa, nenhum o excedia,<br \/>\n    nem o pr&oacute;prio Correio da Manh&atilde;. S&oacute; o Jornal do Brasil<br \/>\n    se mantinha emparelhado com ele, e a rivalidade era acesa. Julgando que a<br \/>\n    prosperidade do outro era devida aos bonecos, Loberant punha na sua folha<br \/>\n    bonecos. Parecendo-lhe que isso n&atilde;o era o bastante, forjava an&uacute;ncios,<br \/>\n    &quot;calhaus&quot;, calhaus de &quot;precisa-se&quot;, de &quot;aluga-se&quot;,<br \/>\n    de pequenos an&uacute;ncios que, em abund&acirc;ncia, parecem ser o &iacute;ndice<br \/>\n    da prosperidade de um jornal. Mas n&atilde;o contente com esses expedientes<br \/>\n    todos, um dia o doutor Loberant, supondo a popularidade do rival devido &agrave;<br \/>\n    falta de gram&aacute;tica nos artigos, chegou &agrave; reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    furioso e, com o seu modo habitual, berrou: &#8211; N&atilde;o quero mais gram&aacute;tica,<br \/>\n    nem literatura aqui!&#8230; Nada! Nada! De lado essas porcarias todas&#8230; Coisa<br \/>\n    para o povo, &eacute; que eu quero! O Lobo, que estava na sala, teve em come&ccedil;o<br \/>\n    um grande olhar de tristeza com que envolveu toda a sala e a cole&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de jornais dependurados pelas paredes. Depois de um momento de hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tomou coragem e observou: &#8211; Mas, dr&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora, Lobo! J&aacute; vem voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, dr., a l&iacute;ngua &eacute; uma coisa sagrada. O culto da l&iacute;ngua<br \/>\n    &eacute; um pouco o culto da p&aacute;tria. Ent&atilde;o o senhor quer que<br \/>\n    o seu jornal contribua para corrup&ccedil;&atilde;o deste lindo idioma de<br \/>\n    Barros e Vieira&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Qual Barros, qual Vieira! Isto &eacute; brasileiro &#8211; coisa muito diversa!<br \/>\n    &#8211; Brasileiro, doutor! falou mansamente o gram&aacute;tico. Isto que se fala<br \/>\n    aqui n&atilde;o &eacute; l&iacute;ngua, n&atilde;o &eacute; nada: &eacute;<br \/>\n    um vazadouro de imund&iacute;cies. Se frei Lu&iacute;s de Sousa ressuscitasse,<br \/>\n    n&atilde;o reconheceria a sua bela l&iacute;ngua nessa am&aacute;lgama, nessa<br \/>\n    mistura diab&oacute;lica de galicismos, africanismos, indianismos, anglicismos,<br \/>\n    cacofonias, cacotenias, hiatos, colis&otilde;es&#8230; Um inferno! Ah, doutor!<br \/>\n    N&atilde;o se esque&ccedil;a disto: os romanos desapareceram, mas a sua l&iacute;ngua<br \/>\n    ainda &eacute; estudada&#8230;<\/p>\n<p> Loberant n&atilde;o ficou calado com a exorta&ccedil;&atilde;o do gram&aacute;tico.<br \/>\n    Manteve a ordem que lhe parecia necess&aacute;ria para o aumento de alguns<br \/>\n    milheiros na venda de sua folha. Conquanto afetasse desprezo pela literatura,<br \/>\n    ele n&atilde;o deixava de ter pretens&otilde;es a intelectual. Com a prosperidade<br \/>\n    do jornal, a sua pretens&atilde;o aumentava. Julgava-se um Patroc&iacute;nio,<br \/>\n    um Ferreira de Ara&uacute;jo, um Bocai&uacute;va; embora n&atilde;o escrevesse<br \/>\n    com destaque, ele ia buscar o seu parentesco espiritual em Rochefort, Lu&iacute;s<br \/>\n    Veuillot e outros nomes de jornalistas estrangeiros de que tinha informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> O seu gabinete era alvo de uma peregrina&ccedil;&atilde;o. Durante o dia<br \/>\n    e nas primeiras horas da noite, entrava toda a gente, militares, funcion&aacute;rios,<br \/>\n    professores, m&eacute;dicos, ge&ocirc;metras, fil&oacute;sofos. Uns vinham<br \/>\n    &agrave; cata de elogios, de gabos aos seus talentos e servi&ccedil;os. Grandes<br \/>\n    s&aacute;bios e ativos parlamentares eu vi escrevendo os seus pr&oacute;prios<br \/>\n    elogios. O leader do governo enviava notas, j&aacute; redigidas, denunciando<br \/>\n    os conchavos pol&iacute;ticos, as combina&ccedil;&otilde;es, os jogos de interesses<br \/>\n    que se discutiam no recesso das antec&acirc;maras ministeriais. Foi sempre<br \/>\n    coisa que me surpreendeu ver que amigos, homens que se abra&ccedil;avam efusivamente,<br \/>\n    com as maiores mostras de amigos, vinham ao jornal denunciar-se uns aos outros.<br \/>\n    Nisso &eacute; que se alicer&ccedil;ou o O Globo; foi nessa divis&atilde;o<br \/>\n    infinitesimal de interesses, em uma forte diminui&ccedil;&atilde;o de todos<br \/>\n    os la&ccedil;os morais.<\/p>\n<p> Cada qual mais queria, ningu&eacute;m se queria submeter nem esperar; todos<br \/>\n    lutavam desesperadamente como se estivessem num naufr&aacute;gio. Nada de<br \/>\n    cerim&ocirc;nias, nada de piedade; era para a frente, para as posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    rendosas e para os privil&eacute;gios e concess&otilde;es. Era um galope para<br \/>\n    a riqueza, em que se atropelava a todos, os amigos e inimigos, parentes e<br \/>\n    estranhos. A rep&uacute;blica soltou de dentro das nossas almas toda uma grande<br \/>\n    press&atilde;o de apetites de luxo, de f&ecirc;meas, de brilho social. O nosso<br \/>\n    imp&eacute;rio decorativo tinha virtudes de torneira. O encilhamento, com<br \/>\n    aquelas fortunas de mil e uma noites, deu-nos o gosto pelo esplendor, pelo<br \/>\n    milh&atilde;o, pela eleg&acirc;ncia, e n&oacute;s atiramo-nos &agrave; ind&uacute;stria<br \/>\n    das indeniza&ccedil;&otilde;es. Depois, esgotado, vieram os arranjos, as gordas<br \/>\n    negociatas sob todos os disfarces, os desfalques, sobretudo a ind&uacute;stria<br \/>\n    pol&iacute;tica, a mais segura e a mais honesta. Sem a grande ind&uacute;stria,<br \/>\n    sem a grande agricultura, com o grosso com&eacute;rcio nas m&atilde;os dos<br \/>\n    estrangeiros, cada um de n&oacute;s, sentindo-se solicitado por um ferver<br \/>\n    de desejos caros e satisfa&ccedil;&otilde;es opulentas, come&ccedil;ou a imaginar<br \/>\n    meios de fazer dinheiro &agrave; margem do c&oacute;digo e a detestar os detentores<br \/>\n    do poder que tinham a fe&eacute;rica vara legal capaz de fornec&ecirc;-lo<br \/>\n    a rodo. Da&iacute; a receptividade do p&uacute;blico por aquela esp&eacute;cie<br \/>\n    de jornal, com descomposturas di&aacute;rias, pondo abaixo um grande por dia,<br \/>\n    abrindo caminho, dando esperan&ccedil;as di&aacute;rias aos desejosos, aos<br \/>\n    descontentes, aos aborrecidos. E os outros jornais? Nos outros o suborno era<br \/>\n    patente; a prote&ccedil;&atilde;o &agrave;s negociatas dos dominantes n&atilde;o<br \/>\n    sofria ataques; n&atilde;o demoliam, conservavam, escoravam os que estavam.<\/p>\n<p>Loberant sabia o segredo do seu sucesso e velava pela folha com cuidados<br \/>\n    especiais. Diariamente lhe vinham informa&ccedil;&otilde;es sobre a venda<br \/>\n    avulsa, sobre o movimento de an&uacute;ncios. Se deca&iacute;am um pouco,<br \/>\n    logo procurava um esc&acirc;ndalo, uma den&uacute;ncia, um barulho, em falta<br \/>\n    um artigo violento fosse contra quem fosse. Havia na reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    farejadores de esc&acirc;ndalos; um, para os p&uacute;blicos; outro, para<br \/>\n    os particulares. Este era o mais interessante. Tinha uma imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doentia; forjava coisas terr&iacute;veis, inventava, criava crimes. Eram c&aacute;rceres<br \/>\n    privados, enterramentos clandestinos, incestos, tutores dolosos, etc.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, os grandes esc&acirc;ndalos, os grossos, as ladroeiras p&uacute;blicas<br \/>\n    eram denunciadas pelos pr&oacute;prios funcion&aacute;rios desgostosos, por<br \/>\n    pol&iacute;ticos pedich&otilde;es e n&atilde;o satisfeitos e pelos pr&oacute;prios<br \/>\n    subornados. A venda cresceu sempre, mas com todos esses alvitres houve um<br \/>\n    momento em que estacionou. Loberant encheu-se de temor, carregou mais nas<br \/>\n    descomposturas, come&ccedil;ou a implicar com o chefe de pol&iacute;cia; mas<br \/>\n    nem assim subia. Uma frase equ&iacute;voca que lhe sa&iacute;ra da pena, determinou<br \/>\n    o aparecimento de um &quot;apedido&quot; no Jornal do Com&eacute;rcio, denunciando-o<br \/>\n    como inimigo da col&ocirc;nia portuguesa, tanto assim que n&atilde;o tinha<br \/>\n    um portugu&ecirc;s na reda&ccedil;&atilde;o da sua gazeta. Foi Aires d&#8217;&Aacute;vila<br \/>\n    quem leu o &quot;apedido&quot; e o mostrou ao diretor. Era h&aacute;bito de<br \/>\n    muitos anos, depois de ver o palpite do bicho correr os &quot;apedidos&quot;<br \/>\n    dos jornais e l&ecirc;-los atentamente. Ali, ele procurava caminho para as<br \/>\n    &quot;cava&ccedil;&otilde;es&quot;, informava-se das reputa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    preparava os &quot;ganchos&quot;. Loberant, quando teve not&iacute;cia da<br \/>\n    mofina, considerou bem a falta e pediu o alvitre do Floc.<\/p>\n<p> &#8211; Conheces a&iacute; algum capaz? &#8211; Qual, n&atilde;o h&aacute;! &#8211; Como poder&iacute;amos<br \/>\n    arranjar um portugu&ecirc;s para redator, dize l&aacute;? Anos mais tarde,<br \/>\n    ele n&atilde;o teria dificuldades.<\/p>\n<p> &#8211; Encomenda-se a Portugal.<\/p>\n<p> E fui eu encarregado de levar o telegrama ao submarino. N&atilde;o se tratava<br \/>\n    j&aacute; de um redator; pedia-se a uma livraria de Lisboa um redator e dois<br \/>\n    correspondentes liter&aacute;rios. Nos dias seguintes, era o seu primeiro<br \/>\n    cuidado indagar se j&aacute; tinha chegado a resposta. Veio afinal. Os correspondentes<br \/>\n    j&aacute; estavam arranjados, mas n&atilde;o havia quem quisesse vir. Iam<br \/>\n    ver. Dias depois, ao abrir a correspond&ecirc;ncia, Leporace deu com a resposta<br \/>\n    de Lisboa e correu alvissareiro para o diretor.<\/p>\n<p> &#8211; C&aacute; est&aacute; ele&#8230; Est&aacute; arranjado&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O qu&ecirc;? &#8211; O redator portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Ahn! E leu o telegrama. Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso,<br \/>\n    entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil-r&eacute;is fracos.<br \/>\n    Aceitou e nesse sentido telegrafou para Lisboa. Quando voltei da Western,<br \/>\n    Pranzini, o gerente, entrava na reda&ccedil;&atilde;o. Chegava com o sobrecenho<br \/>\n    carregado e os olhos fuzilando indignados. Pranzini era o c&atilde;o de fila<br \/>\n    do diretor. O cofre e a economia do jornal estavam-lhe inteiramente entregues.<br \/>\n    Ele pagava e recebia, depositava dinheiro, arbitrava os pre&ccedil;os da mat&eacute;ria<br \/>\n    paga. Todos estavam debaixo da sua tirania; precisavam adul&aacute;-lo, anim&aacute;-lo,<br \/>\n    e ele abusava extraordinariamente dos grandes poderes de que estava investido.<br \/>\n    Ficava-lhe bem a fun&ccedil;&atilde;o. Era c&uacute;pido, met&oacute;dico,<br \/>\n    organizado. No jornal, vivia sempre em mangas de camisa e a fieira dos bot&otilde;es<br \/>\n    do colete n&atilde;o se afastava nunca do eixo do peito. A fisionomia era<br \/>\n    larga e dura; grandes faces assim&eacute;tricas, queixo forte e quadrado,<br \/>\n    pouco distinto do maxilar, uma grande dificuldade em sorrir. Aquela intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    rudimentar de alde&atilde;o italiano tinha finuras de doutor da escol&aacute;stica.<br \/>\n    Certa vez furtou-se ao pagamento de uma comiss&atilde;o do an&uacute;ncio<br \/>\n    de uma casa, sob o pretexto de que a autoriza&ccedil;&atilde;o falava em &quot;Bal<br \/>\n    Masqu&eacute;&quot; e o nome do estabelecimento era &quot;Au Bal Masqu&eacute;&quot;.<br \/>\n    Murmurava-se no jornal que ele desviava um pouco as rendas do diretor, mas<br \/>\n    dizia-se tamb&eacute;m que este n&atilde;o se importava porque assim indiretamente<br \/>\n    pagava as doces intimidades com a mulher do italiano, uma pequena mulher,<br \/>\n    coberta de um p&ecirc;lo fino e abundante, de carnes duras e grandes ancas<br \/>\n    provocadoras. Filha de um usu&aacute;rio vaidoso que vivia pelos corredores<br \/>\n    do Pa&ccedil;o a implorar um t&iacute;tulo nobili&aacute;rquico, conta-se<br \/>\n    que, desflorada por um dos netos do Imperador, foi casada precipitadamente<br \/>\n    com Pranzini, ex-croupier de casa de jogar, para salvar a reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fam&iacute;lia e evitar um grande esc&acirc;ndalo p&uacute;blico. O antigo<br \/>\n    croupier, gra&ccedil;as ao dote, fez-se em breve cavalheiro da nossa alta<br \/>\n    sociedade e, aos poucos insinuou-se nos jornais e foi chamado pelos entrelinhados<br \/>\n    &quot;nosso colega da imprensa&quot;. Logo que o gerente se aproximou do diretor,<br \/>\n    este disse-lhe prontamente: &#8211; Sabes, Pranzini? Temos um homem&#8230; De Lisboa<br \/>\n    chegou-nos a resposta.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; bom&#8230; Voc&ecirc;s sabem, sem portugu&ecirc;s, nada aqui vai<br \/>\n    adiante. Os patr&iacute;cios exigem, &eacute; justo: eles s&atilde;o talvez<br \/>\n    trezentos mil, pagam rios de dinheiro em an&uacute;ncios &#8211; &eacute; justo!<br \/>\n    Depois tomando outro tom de voz falou assim ao diretor: &#8211; Tenho aqui este<br \/>\n    vale para o senhor visar.<\/p>\n<p> &#8211; Eu j&aacute; disse a voc&ecirc; que n&atilde;o &eacute; preciso&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; isso. &Eacute; que com este tive d&uacute;vidas. Tratava-se<br \/>\n    de um artigo que n&atilde;o saiu assinado. N&atilde;o parecia ser colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De quem &eacute; o vale? &#8211; Do Veiga Filho.<\/p>\n<p> &#8211; De que artigo? &#8211; Um sobre o Teixeira de Almeida.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o qu&ecirc;! exclamou o diretor. Pois se foi ele pr&oacute;prio que<br \/>\n    pediu para escrev&ecirc;-lo, dizendo-me que tinha sido colega de escola do<br \/>\n    homem, como &eacute; que cobra?&#8230; Enfim deixa-me v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> O doutor considerou bem o peda&ccedil;o de papel que tinha na m&atilde;o,<br \/>\n    abanou a cabe&ccedil;a e veio dizendo: &#8211; Esses literatos! Livra! At&eacute;<br \/>\n    as l&aacute;grimas cobram.<\/p>\n<p> Floc nada dissera. Evitava fazer qualquer cr&iacute;tica ao mestre incompar&aacute;vel<br \/>\n    da nossa l&iacute;ngua. Losque, tendo deixado de escrever, meteu-se na palestra.<br \/>\n    Tinha a mania do &quot;esp&iacute;rito&quot;; mas n&atilde;o era propriamente<br \/>\n    esp&iacute;rito que ele queria ter. A sua mania era ser um ironista, &agrave;<br \/>\n    moda inglesa &#8211; um humorista. Fazia de si um retrato de Sterne, de Lamb, de<br \/>\n    Swift; embora n&atilde;o soubesse uma linha de ingl&ecirc;s filiava a sua<br \/>\n    gra&ccedil;a, o seu feitio de rir, no g&ecirc;nio brit&acirc;nico. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que isso, de fato, houvesse nele; faltava-lhe na ironia o imprevisto,<br \/>\n    o alcance moral e filos&oacute;fico, aquela medita&ccedil;&atilde;o por absurdo<br \/>\n    que Taine achou em Swift. Ele tinha a gra&ccedil;a f&aacute;cil dos pequenos<br \/>\n    autores e muitas das suas boutades tinham origem nos autores portugueses e<br \/>\n    franceses de segunda ordem. N&atilde;o era uma atitude de pensamento, um estado<br \/>\n    d&#8217;alma constante, um julgamento sobre os homens e as coisas: era uma<br \/>\n    profiss&atilde;o, um ganha-p&atilde;o, que ele executava automaticamente.<\/p>\n<p> Adapt&aacute;vel, sem rebeldia nem independ&ecirc;ncia de car&aacute;ter,<br \/>\n    escrevia pilh&eacute;rias como um amanuense faz of&iacute;cios. Nunca tinha<br \/>\n    escrito obra de vulto, a n&atilde;o ser uma novela de calembourgs, em que<br \/>\n    explorava esse velho fil&atilde;o do roceiro acanhado. Combinava a sua intensidade<br \/>\n    pilh&eacute;rica com a de escritor de estirados artigos sobre a crise do a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    e o policiamento da cidade. Era autor de v&aacute;rias revistas, com algumas<br \/>\n    pilh&eacute;rias novas e bem achadas. Sem ser mo&ccedil;o, n&atilde;o era<br \/>\n    velho e ia fazendo a sua carreira nos jornais com vagar e submiss&atilde;o,<br \/>\n    tendo j&aacute; uma vaga reputa&ccedil;&atilde;o no seio do p&uacute;blico.<br \/>\n    Sabendo da vida de todo o mundo, inventando mesmo, quando os dados lhe faltavam,<br \/>\n    punha um grande esfor&ccedil;o, uma nota de arte no cultivo da maledic&ecirc;ncia,<br \/>\n    da &quot;trepa&ccedil;&atilde;o&quot;. Diariamente estudava assuntos, organizava<br \/>\n    pilh&eacute;rias e logo que o momento se oferecia desandava. Viera disposto<br \/>\n    nesse dia. Ao entrar, enquanto Leporace conversava na sala, pusera-se a escrever<br \/>\n    a sua celebrada se&ccedil;&atilde;o &#8211; &quot;Pulgas e Brotoejas&quot; &#8211; constantemente<br \/>\n    cheia de alus&otilde;es, de ditinhos, de versos aos pol&iacute;ticos, em que<br \/>\n    ele gastava uma certa dose de talento, j&aacute; um tanto diminu&iacute;do<br \/>\n    pelo automatismo adquirido. Acabando de escrever a se&ccedil;&atilde;o, procurou<br \/>\n    um rodeio e dirigiu a conversa para o ponto que queria: &#8211; De fato este Rio<br \/>\n    tem coisas bem singulares. Voc&ecirc;s conhecem a vi&uacute;va Pais Brand&atilde;o?<br \/>\n    Nem todos responderam, mas Leporace que se gabava de conhecer toda a cidade<br \/>\n    &#8211; as ruas, becos, segredos &#8211; acudiu prontamente: &#8211; Ora! Como n&atilde;o? Uma<br \/>\n    loura de forte nariz romano, que anda sempre de preto? Ora, muito! &#8211; &Eacute;<br \/>\n    essa mesma. Mora num pal&aacute;cio na rua das Laranjeiras&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas que tem ela? indagou Floc.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um caso curioso.<\/p>\n<p> Leiva veio interromper a conversa. H&aacute; dias que ele estava no jornal,<br \/>\n    fazendo pol&iacute;cia. Sabendo que eu me fizera cont&iacute;nuo, come&ccedil;ou<br \/>\n    a procurar-me e por a&iacute; foi travando rela&ccedil;&otilde;es, &quot;engrossando&quot;<br \/>\n    habilmente, at&eacute; que um dia entrou como rep&oacute;rter e come&ccedil;ou<br \/>\n    a gritar comigo para que eu lhe trouxesse penas. Losque continuou: &#8211; Passa<br \/>\n    por s&eacute;ria, por ser um po&ccedil;o de virtudes. Ningu&eacute;m se anima<br \/>\n    a request&aacute;-la. O rosto &eacute; de Messalina, mas a alma &eacute; de<br \/>\n    Corn&eacute;lia; entretanto&#8230;<\/p>\n<p> Calou-se um pouco, suspendeu o audit&oacute;rio, para obter o efeito desejado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; curioso, continuou devagar; &eacute; curioso que o seu ego&iacute;smo<br \/>\n    familiar a tivesse levado t&atilde;o longe.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? perguntou algu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;!? Porque vive em mancebia com o sobrinho e com o filho.<\/p>\n<p> Os circunstantes n&atilde;o se espantaram; sorriram incredulamente.<\/p>\n<p> &#8211; Qual! fez um.<\/p>\n<p> &#8211; Engra&ccedil;ado, aduziu sem ir de encontro &agrave; d&uacute;vida geral,<br \/>\n    &eacute; que ela n&atilde;o pode suportar um s&oacute;! H&atilde;o de ser<br \/>\n    os dois, juntos, um do lado esquerdo e outro do lado direito&#8230; Disse-me a<br \/>\n    Fulg&ecirc;ncia, que foi l&aacute; criada, que uma noite, n&atilde;o vindo<br \/>\n    um deles, ela a passou toda na sala de jantar chorando e arrancando os cabelos.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um caso curioso de psicopatia sexual, falou Loberant. Em Londres,<br \/>\n    h&aacute; casos especiais quase em g&ecirc;nero semelhante; mas ao contr&aacute;rio:<br \/>\n    &eacute; um homem para duas mulheres, parentas pr&oacute;ximas, irm&atilde;s,<br \/>\n    m&atilde;e e filha; mas como este n&atilde;o conhecia&#8230; Mas quem te informou,<br \/>\n    Losque? &#8211; Uma rapariga que &eacute; minha criada, e foi da vi&uacute;va. &Eacute;<br \/>\n    maravilhoso! Que revuls&atilde;o na alma! Que m&oacute;veis &iacute;ntimos<br \/>\n    a levaram a isso! Que forte ideal amoroso n&atilde;o encontrado foi esse que<br \/>\n    a obrigou a arruinar dois rapazes para satisfaz&ecirc;-lo! Leporace ent&atilde;o<br \/>\n    observou: &#8211; Esta sociedade est&aacute; muito corrupta.<\/p>\n<p> Michaelowsky entrava e ainda ouviu as palavras do secret&aacute;rio. Parou<br \/>\n    um instante, concertou os &oacute;culos de aros de ouro e exclamou com mal&iacute;cia:<br \/>\n    &#8211; Oh! Cat&atilde;o! &#8211; N&atilde;o sou Cat&atilde;o, mas o que h&aacute; por<br \/>\n    a&iacute;, pelos bastidores, causa espanto. A sociedade, ao que parece, despenha-se&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sempre houve quem dissesse isso, objetou o russo. Se examinares os sat&iacute;ricos<br \/>\n    de todos os tempos, eles te revelar&atilde;o a sociedade sempre corrupta e<br \/>\n    desbocada&#8230; Eu julgo a moral imposs&iacute;vel! &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; Porque<br \/>\n    &eacute; feita para diminuir em n&oacute;s o que &eacute; de mais estrutural<br \/>\n    e de mais profundo: a individualidade, o prazer e os instintos! &#8211; Mas a sociedade<br \/>\n    precisa repousar nela; sen&atilde;o&#8230; disse Leporace.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida! &#8211; Ent&atilde;o concordas que, em face<br \/>\n    da pr&oacute;pria sociedade, n&oacute;s nos devemos esfor&ccedil;ar por justificar<br \/>\n    as regras morais, manter sempre de p&eacute; os seus preceitos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas se t&ecirc;m sido in&uacute;teis todos os esfor&ccedil;os das religi&otilde;es<br \/>\n    &#8211; a for&ccedil;a mais poderosa para uma modifica&ccedil;&atilde;o inteira<br \/>\n    do indiv&iacute;duo, como havemos de consegui-lo? Demais&#8230; demais, para qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Para eternidade da esp&eacute;cie, falou com &ecirc;nfase Leporace.<\/p>\n<p> &#8211; Valeria a pena? retrucou Michaelowsky.<\/p>\n<p> E todos se calaram sem achar de pronto uma resposta cabal.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\"> X <\/a><\/h4>\n<p>Os meus primeiros conhecimentos foram-se paulatinamente afastando de mim.<br \/>\n    Laje da Silva, desde que me vira de botas rotas e esfomeado, passara a cumprimentar-me<br \/>\n    friamente, superiormente; Leiva tratava-me bem ainda, mas marcando dist&acirc;ncia,<br \/>\n    desde que se fizera rep&oacute;rter; e o pr&oacute;prio Michaelowsky esquecera-se<br \/>\n    da maneira que nos conhec&ecirc;ramos e tratava-me com a brandura que usava<br \/>\n    com todos os inferiores. S&oacute; o Pl&iacute;nio Gravata, mais por sistema<br \/>\n    do que por qualquer outra coisa, continuava a dispensar-me a considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de igual. Fora ele que me explicara a quest&atilde;o do empr&eacute;stimo<br \/>\n    da Prefeitura. Era verdade que o t&iacute;tulo n&atilde;o era bom; mas a quest&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o girava s&oacute; em torno disto. O pomo de disc&oacute;rdia residia<br \/>\n    na comiss&atilde;o do lan&ccedil;amento do empr&eacute;stimo, e sendo esta<br \/>\n    avultada, perto de mil e tantos contos, permitia gordas gorjetas aos jornalistas<br \/>\n    e pol&iacute;ticos. O governo queria o corretor Machado, mas organizara-se<br \/>\n    um sindicato no intuito de obt&ecirc;-lo para o banqueiro Rodrigues. Aires<br \/>\n    d&#8217;&Aacute;vila, ocultamente, fazia parte do partido de Rodrigues e o<br \/>\n    dr. Ricardo, que j&aacute; de h&aacute; muito antipatizava com o Machado,<br \/>\n    foi por ele convencido que devia combater com todas as for&ccedil;as a opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    projetada. Raro era o dia em que na folha n&atilde;o sa&iacute;ssem algumas<br \/>\n    linhas tendentes a contrariar o lan&ccedil;amento do grande empr&eacute;stimo<br \/>\n    interno. Todos colaboraram para esse fim. Aires d&#8217;&Aacute;vila, sempre<br \/>\n    na estacada, desovava argumentos no seu artigo di&aacute;rio, escrito num<br \/>\n    estilo de exerc&iacute;cio de classe; Michaelowsky escrevia os soltos, sueltos,<br \/>\n    curtos, breves, mas fortes, cheios de inj&uacute;rias, atrevidos; Floc, nas<br \/>\n    suas esfor&ccedil;adas cr&ocirc;nicas liter&aacute;rias ou teatrais, dava<br \/>\n    alfinetadas; mas quem ia desmoralizando a opera&ccedil;&atilde;o era Losque<br \/>\n    com as quadrinhas sat&iacute;ricas das &quot;Brotoejas&quot;. A cidade inteira<br \/>\n    sabia-as de cor e pelos bondes, nas confeitarias, nos caf&eacute;s, nas escolas,<br \/>\n    nas estancas, nas casas mal afamadas, por qualquer coisa se dizia o estribilho<br \/>\n    com que elas acabavam: &#8211; &quot;e dinheiro n&atilde;o vir&aacute;&quot;. Se<br \/>\n    algu&eacute;m perdia no jogo e era jocoso, ao apostar segunda vez, dizia:<br \/>\n    &quot;e dinheiro n&atilde;o vir&aacute;&quot;. Em conversa de fam&iacute;lia,<br \/>\n    se qualquer pessoa queria referir-se ao gorado casamento rico de um desembargador,<br \/>\n    que partira para Paris &agrave; ca&ccedil;a de uma herdeira, comentava: ele<br \/>\n    vai e&#8230; &quot;o dinheiro n&atilde;o vir&aacute;&quot;. Era bastante que em<br \/>\n    qualquer momento, fosse como fosse, se encaixasse o estribilho, para se obter<br \/>\n    um franco sucesso de riso.<\/p>\n<p>A atitude do governo era curiosa. &Agrave;s vezes ostentava-se forte, mandava<br \/>\n    dizer pelos seus jornalistas que o lan&ccedil;aria pelo corretor que entendesse.<br \/>\n    Os artigos rompiam, mostrando as vantagens da opera&ccedil;&atilde;o, mas<br \/>\n    Loberant, ou algu&eacute;m por ele, atirava no dia seguinte um artigo descompassado,<br \/>\n    pesado de descomposturas, e os advers&aacute;rios esfriavam. Neles n&atilde;o<br \/>\n    se raciocinava, n&atilde;o se ia adiante dos argumentos dos advers&aacute;rios.<br \/>\n    Afirmava-se e insultava-se o contendor com alguns palavr&otilde;es do cal&atilde;o<br \/>\n    do Quinhentos ou de Seiscentos. E essas palavras ressuscitadas eram de efeito<br \/>\n    seguro. A multid&atilde;o guardava-as de cor, procurando-lhes a significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o sentido.<\/p>\n<p> Nos &quot;apedidos&quot; do Jornal do Com&eacute;rcio, era interessante<br \/>\n    o combate. Havia artigos sisudos, cheios de cita&ccedil;&otilde;es, L&eacute;on<br \/>\n    Say, Leroy-Beaulieu, versos de Racine; havia epigramas, ligeiros e &aacute;geis<br \/>\n    que nem um torpedeiro, e venenosos que nem uma cascavel; o mais not&aacute;vel,<br \/>\n    por&eacute;m, eram as verrinas, alus&otilde;es a v&iacute;cios e maus h&aacute;bitos<br \/>\n    dos advers&aacute;rios. Causava pasmo o esfor&ccedil;o de imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    despendido em se obter circunl&oacute;quios bastante claros para serem compreendidos<br \/>\n    no seu verdadeiro sentido por toda a gente e bastante velados para n&atilde;o<br \/>\n    haver impedimento na sua publica&ccedil;&atilde;o. O diretor era alvejado<br \/>\n    com encarni&ccedil;amento; n&atilde;o se incomodava, mas nos artigos fingia-se<br \/>\n    ferido, desgostoso. Aires d&#8217;&Aacute;vila recebia tamb&eacute;m um bom<br \/>\n    quinh&atilde;o. Veio at&eacute; publicado um epit&aacute;fio seu, em verso,<br \/>\n    terrivelmente sarc&aacute;stico, que era atribu&iacute;do a um poeta famoso<br \/>\n    pela perfei&ccedil;&atilde;o dos seus versos, pelo seu humor bo&ecirc;mio<br \/>\n    e veia sat&iacute;rica. Dizia assim: P.R.<\/p>\n<p> (A.A.) Quando ele se viu sozinho Da cova na escurid&atilde;o, Surripiou<br \/>\n    de mansinho Os bordados do caix&atilde;o Apesar disso tudo, ambos se mantinham<br \/>\n    inalter&aacute;veis e calmos. Aquilo era como um torneio de xadrez e eles<br \/>\n    o estavam jogando calmamente a fumar um charuto. A popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que vivia inquieta, ora pendendo para aqui, ora para ali, mas sempre<br \/>\n    tendo em vista a opini&atilde;o d&#8217;O Globo. Havia, por&eacute;m, nesse<br \/>\n    torneio um pr&ecirc;mio, um grande pr&ecirc;mio, de mil e tantos contos, dos<br \/>\n    quais algumas dezenas iriam parar &agrave;s algibeiras de Aires d&#8217;&Aacute;vila<br \/>\n    e de Laje da Silva, cujas visitas ao ventrudo jornalista eram ass&iacute;duas<br \/>\n    e prolongadas. O antigo padeiro de Itaporanga continuava no seu semimist&eacute;rio,<br \/>\n    mas sempre sol&iacute;cito, bem relacionado, procurando um e outro. Ultimamente<br \/>\n    explorava uma casa de divertimentos na Lapa, &quot;Folies Berg&egrave;res&quot;,<br \/>\n    onde se dizia haver jogo oculto. N&atilde;o havia estr&eacute;ia de uma cantora<br \/>\n    que n&atilde;o mandasse convites individuais para o pessoal de todos os jornais.<br \/>\n    Ele sabia os nomes de um por um, desde a reda&ccedil;&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    &agrave; administra&ccedil;&atilde;o, passando pelas oficinas, revis&atilde;o<br \/>\n    e expedi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A batalha, entretanto, n&atilde;o se decidia. As duas hostes em luta n&atilde;o<br \/>\n    ganhavam terreno. Um dia era da gente do prefeito; outro dia, era dos advers&aacute;rios.<br \/>\n    Vinha um assassinato, um inc&ecirc;ndio, havia uma tr&eacute;gua. O governo<br \/>\n    temia um fracasso e esperava. Surgiu, por&eacute;m, a quest&atilde;o dos sapatos<br \/>\n    obrigat&oacute;rios que precipitou os acontecimentos. &Eacute; de pouco tempo<br \/>\n    esse motim e muitos dos meus leitores ainda se recordam perfeitamente os acontecimentos.<br \/>\n    Escrevendo agora estas p&aacute;ginas, eu tenho escr&uacute;pulos. Parece-me<br \/>\n    que vou acusar o dr. Loberant de ter movido essa sangrenta arrua&ccedil;a<br \/>\n    e ser culpado da morte de algumas dezenas de cidad&atilde;os nas barricadas<br \/>\n    improvisadas. N&atilde;o &eacute; o meu fito esse, pois estou bem certo de<br \/>\n    que ele, como ningu&eacute;m, n&atilde;o &eacute; capaz de medir e avaliar<br \/>\n    as m&uacute;ltiplas rea&ccedil;&otilde;es que as nossas palavras podem operar<br \/>\n    nos outros quando transmitidas. Seria ign&oacute;bil que eu o quisesse acusar.<br \/>\n    Ele foi, por assim dizer, um benfeitor meu e todos menos eu podem faz&ecirc;-lo<br \/>\n    e t&ecirc;m esse direito que me escapa. Contudo, embora possam ser tomadas<br \/>\n    nesse sentido as minhas palavras dir&atilde;o fielmente o que vi e o que senti.<\/p>\n<p> Nascera a quest&atilde;o dos sapatos obrigat&oacute;rios de um projeto do<br \/>\n    Conselho Municipal, que foi aprovado e sancionado, determinando que todos<br \/>\n    os transeuntes da cidade, todos que sa&iacute;ssem &agrave; rua seriam obrigados<br \/>\n    a vir cal&ccedil;ados. N&oacute;s pass&aacute;vamos ent&atilde;o por uma dessas<br \/>\n    crises de eleg&acirc;ncia, que, de quando em quando, nos visita. Est&aacute;vamos<br \/>\n    fatigados da nossa mediania, do nosso relaxamento; a vis&atilde;o de Buenos<br \/>\n    Aires, muito limpa, catita, elegante, provocava-nos e enchia-nos de loucos<br \/>\n    desejos de igual&aacute;-la. Havia nisso uma grande quest&atilde;o de amor-pr&oacute;prio<br \/>\n    nacional e um estulto desejo de n&atilde;o permitir que os estrangeiros, ao<br \/>\n    voltarem, enchessem de cr&iacute;ticas a nossa cidade e a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&oacute;s invej&aacute;vamos Buenos Aires imbecilmente. Era como se um literato<br \/>\n    tivesse inveja dos carros e dos cavalos de um banqueiro. Era o argumento apresentado<br \/>\n    logo contra os advers&aacute;rios das leis sumptu&aacute;rias que apareceram<br \/>\n    pelo tempo: &quot;A Argentina n&atilde;o nos devia vencer; o Rio de Janeiro<br \/>\n    n&atilde;o podia continuar a ser uma esta&ccedil;&atilde;o de carv&atilde;o,<br \/>\n    enquanto Buenos Aires era uma verdadeira capital europ&eacute;ia. Como &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o t&iacute;nhamos largas avenidas, passeios de carruagens, hot&eacute;is<br \/>\n    de casaca, clubes de jogo?&quot; Laje da Silva, farejando o que continha de<br \/>\n    negociatas nos melhoramentos em projeto, propugnava-os com ardor. Nas suas<br \/>\n    conversas na reda&ccedil;&atilde;o constantemente dizia: &#8211; Que s&atilde;o<br \/>\n    dez ou vinte mil contos que o estado gaste! Em menos de cinco anos, s&oacute;<br \/>\n    com as visitas dos estrangeiros, esse capital &eacute; recuperado&#8230; H&aacute;<br \/>\n    cidade no mundo com tantas belezas naturais como esta? Qual! Aires d&#8217;&Aacute;vila<br \/>\n    chegou mesmo a escrever um artigo, mostrando a necessidade de ruas largas<br \/>\n    para diminuir a prostitui&ccedil;&atilde;o e o crime e desenvolver a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    nacional.<\/p>\n<p> E os da frente, os cinco mil de cima, esfor&ccedil;avam-se por obter as<br \/>\n    medidas legislativas favor&aacute;veis &agrave; transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cidade e ao enriquecimento dos patrim&ocirc;nios respectivos com indeniza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    fabulosas e especula&ccedil;&otilde;es sobre terrenos. Os Haussmanns pululavam.<br \/>\n    Projetavam-se avenidas; abriam-se nas plantas squares, delineavam-se pal&aacute;cios,<br \/>\n    e, como complemento, queriam tamb&eacute;m uma popula&ccedil;&atilde;o catita,<br \/>\n    limpinha, elegante: cocheiros irrepreens&iacute;veis, engraxates de libr&eacute;,<br \/>\n    criadas louras, de olhos azuis, com o uniforme como se viam nos jornais de<br \/>\n    moda da Inglaterra. Foi esse estado de esp&iacute;rito que ditou o famoso<br \/>\n    projeto dos sapatos.<\/p>\n<p> Ao ser apresentado, ningu&eacute;m lhe deu import&acirc;ncia, mesmo porque<br \/>\n    dias antes houvera um crime sensacional que prolongara a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da cidade.<\/p>\n<p> Eu tinha feito o servi&ccedil;o de dia e ia sair. Seriam cinco para as seis<br \/>\n    horas, quando o Lemos, rep&oacute;rter de pol&iacute;cia, entrou ofegante<br \/>\n    e deslumbrado. Chegou e falou o secret&aacute;rio, nervoso de contentamento,<br \/>\n    com a palavra entrecortada, oprimido de felicidade: &#8211; Um crime! Um grande<br \/>\n    crime! &#8211; Onde? &#8211; Em Santa Cruz, nos campos de S. Marcos&#8230; Uma mulher e um<br \/>\n    homem foram encontrados mortos a facadas e decapitados&#8230; Vestiam com luxo&#8230;<br \/>\n    Parecem pessoas de tratamento&#8230; Um mist&eacute;rio! Todos os circunstantes<br \/>\n    ouviram estuporados a breve narra&ccedil;&atilde;o do rep&oacute;rter. Depois<br \/>\n    de um curto sil&ecirc;ncio, choveram as perguntas. Lemos nada sabia; recebera<br \/>\n    a not&iacute;cia de Teixeira que estivera na pol&iacute;cia, onde pouco mais<br \/>\n    sabiam. A not&iacute;cia viera de Santa Cruz pelo tel&eacute;grafo&#8230; Leporace,<br \/>\n    que raramente sa&iacute;a de sua natureza de celent&eacute;rio, p&#038;ocircocirc;s-se<br \/>\n    nervoso e come&ccedil;ou a dar as provid&ecirc;ncias, a regular o caso: &#8211;<br \/>\n    J&aacute; um boletim&#8230; J&aacute;! E logo rapidamente, Adelermo come&ccedil;ou<br \/>\n    a tra&ccedil;ar em letras garrafais a not&iacute;cia que o Lemos trouxera.<br \/>\n    Eu fui preg&aacute;-lo &agrave; porta; da sacada, Leporace avaliava o efeito.<br \/>\n    O primeiro curioso que passou, parou e quedou-se a ler. Vieram outros e em<br \/>\n    breve uma multid&atilde;o estacionava em frente do jornal. A not&iacute;cia<br \/>\n    espalhou-se rapidamente, com uma rapidez de tel&eacute;grafo, com essa rapidez<br \/>\n    peculiar &agrave;s not&iacute;cias sensacionais que nas grandes cidades se<br \/>\n    transmitem de homem a homem quase com a velocidade espantosa da eletricidade.<br \/>\n    O doutor Loberant entrou, atravessando a custo por entre a multid&atilde;o.<br \/>\n    Tinha ouvido qualquer coisa e correu ao jornal. Que houve? perguntou. Contaram-lhe.<br \/>\n    A sua fisionomia abriu-se risonha, sorridente e feliz. Ia vender mais mil<br \/>\n    ou dois mil exemplares. Chegou &agrave; janela e viu a multid&atilde;o crescer<br \/>\n    sempre. Veio at&eacute; &agrave; sala da reda&ccedil;&atilde;o e perguntou<br \/>\n    com imp&eacute;rio: &#8211; Quem est&aacute; fazendo a &quot;cabe&ccedil;a&quot;?<br \/>\n    &quot;Cabe&ccedil;a&quot; se chama nos jornais &agrave;s considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que precedem uma not&iacute;cia. Feita com a moral de Sim&atilde;o de N&acirc;ntua<br \/>\n    e a leitura dos folhetins policiais, a &quot;cabe&ccedil;a&quot; &eacute;<br \/>\n    a pedra de toque da intelig&ecirc;ncia dos pequenos rep&oacute;rteres e dos<br \/>\n    redatores an&ocirc;nimos. No Despacho havia um especialista nesse g&ecirc;nero<br \/>\n    jornal&iacute;stico que era tido por g&ecirc;nio.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; como o Matoso! Que felicidade! Que rapidez! Escreve<br \/>\n    trinta tiras em uma hora! diziam os colegas.<\/p>\n<p> Isto lhe valia uma fama e um conceito, entre os seus, superior &agrave;<br \/>\n    que o Conselheiro Rui Barbosa goza em todo o Brasil. &Eacute; preciso saber-se<br \/>\n    que as tiras no jornal s&atilde;o menores e levam menos palavras que as redigidas<br \/>\n    por qualquer pessoa n&atilde;o afeita ao of&iacute;cio. S&atilde;o escritas<br \/>\n    com grandes intervalos entre as linhas e grandes espa&ccedil;os entre as palavras,<br \/>\n    para facilitar a composi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Demais eram as banalidades, os conceitos familiares sobre o crime e os criminosos<br \/>\n    que ele desenvolvia com a convic&ccedil;&atilde;o de quem estivesse fazendo<br \/>\n    um estudo profundamente psicol&oacute;gico e social. Oh! A vaidade dos desconhecidos<br \/>\n    da imprensa &eacute; imensa! Todos eles se julgam com fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    excepcionais, propriet&aacute;rios da arte de escrever, acima de todo o mundo.<br \/>\n    N&atilde;o reconhecem que s&atilde;o como um empregado qualquer, funcionando<br \/>\n    automaticamente, burocraticamente, e que uma not&iacute;cia &eacute; feita<br \/>\n    com chav&otilde;es, chav&otilde;es t&atilde;o evidentes como os da reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oficial. Quase todos os rep&oacute;rteres e burocratas dos jornais desprezam<br \/>\n    a literatura e os literatos. N&atilde;o os grandes nomes vitoriosos que ele<br \/>\n    veneram e cumulam de elogios; mas os pequenos, os que principiam. Estranha<br \/>\n    ignor&acirc;ncia de quem, por interm&eacute;dio dos artigos dos que sabem,<br \/>\n    copia os processos dos romancistas, as frases dos poetas e deturpa os conceitos<br \/>\n    dos historiadores, imitando-lhes o estilo com uma habilidade simiesca&#8230;<\/p>\n<p> Leporace, apanhado em falta, respondeu timidamente, ao diretor: &#8211; Ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Pois j&aacute; deviam ter pensado nisso&#8230; V&aacute;, &quot;seu&quot;<br \/>\n    Adelermo, fa&ccedil;a a &quot;cabe&ccedil;a&quot;; e o senhor, &quot;seu&quot;<br \/>\n    Lemos, j&aacute; para Santa Cruz! &#8211; S&oacute; h&aacute; trem daqui a uma hora<br \/>\n    e com certeza n&atilde;o apanho o que volta de l&aacute; &agrave;s sete e<br \/>\n    quarenta e cinco&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o faz mal. V&aacute;, durma l&aacute;, telegrafe&#8230; Passe na<br \/>\n    caixa e diga ao Pranzini que lhe d&ecirc; duzentos mil-r&eacute;is&#8230;<\/p>\n<p> O diretor retirou-se e Adelermo come&ccedil;ou a escrever.<\/p>\n<p> &#8211; Qual ser&aacute; o t&iacute;tulo? fez ele suspendendo a pena.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Crime no Pampa&quot;, gritou o Oliveira.<\/p>\n<p> Oliveira, Carlos Oliveira, era da Bahia. Maneiroso, mesureiro, captara a<br \/>\n    amizade e o compadresco do diretor, de Aires d&#8217;&Aacute;vila e Losque;<br \/>\n    fizera-se grande influ&ecirc;ncia no jornal, no qual j&aacute; colocara dois<br \/>\n    redatores, Adelermo e Losque, e muitos rep&oacute;rteres. Ganhava como redator<br \/>\n    importante; mas o seu servi&ccedil;o era trazer not&iacute;cias da Estrada<br \/>\n    de Ferro e dos Tel&eacute;grafos. Na reda&ccedil;&atilde;o, limitava-se a<br \/>\n    escrever: &quot;Foram concedidos passes aos telegrafistas F. e S., a linha<br \/>\n    de Vista Alegre, 9o distrito, est&aacute; interrompida, devido, etc.&quot;;<br \/>\n    na rua, por&eacute;m, entre os auxiliares de escrita e os diretores, fazia<br \/>\n    constar que escrevia artigos e cr&ocirc;nicas. Vendia a sua pomada.<\/p>\n<p> Adelermo Caxias n&atilde;o compreendeu bem o t&iacute;tulo de Oliveira e<br \/>\n    perguntou: &#8211; Por que pampa? &#8211; Pampa, n&atilde;o &eacute; campo? Caxias, apesar<br \/>\n    da justificativa, n&atilde;o o quis e perguntou a outro: &#8211; Qual deve ser,<br \/>\n    Floc? &#8211; &quot;Bucolismo e trag&eacute;dia&quot;? &#8211; Qual! &Eacute; erudito&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Ci&uacute;me e crime&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; Por que ci&uacute;me? Por fim, chegou Leporace e lembrou um t&iacute;tulo<br \/>\n    rocambolesco, sonoramente popular; &quot;Descampado da morte&quot;. Boa id&eacute;ia!<br \/>\n    &#8211; gritaram todos; e Adelermo p&ocirc;s-se a escrever.<\/p>\n<p> A calma voltou um instante &agrave; reda&ccedil;&atilde;o, mas foi logo<br \/>\n    interrompida pelo tilintar do telefone. Lemos, que estava na pol&iacute;cia,<br \/>\n    mandava dizer que se tinha encontrado um chap&eacute;u de palha, quase junto<br \/>\n    aos cad&aacute;veres. A multid&atilde;o, em frente ao jornal, aumentava sempre.<br \/>\n    Muitos subiam pedindo informa&ccedil;&otilde;es. A curiosidade era geral;<br \/>\n    o crime impressionara a popula&ccedil;&atilde;o. Por essa estranha e misteriosa<br \/>\n    faculdade das multid&otilde;es, aquele caso, vulgar um m&ecirc;s antes ou<br \/>\n    depois, naquele dia tomou a propor&ccedil;&atilde;o de um acontecimento, de<br \/>\n    um fato pouco comum. Para atender &agrave; impaci&ecirc;ncia da massa, constantemente<br \/>\n    se telefonava para a pol&iacute;cia. A resposta era a mesma; n&atilde;o havia<br \/>\n    not&iacute;cias. O diretor, por detr&aacute;s da veneziana semicerrada, espreitava<br \/>\n    o povil&eacute;u embaixo. Os rep&oacute;rteres chegaram trazendo para a reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a ansiedade das ruas, a emo&ccedil;&atilde;o dos caf&eacute;s &#8211; toda a imprevista<br \/>\n    vibra&ccedil;&atilde;o da cidade em face daquele fato de pol&iacute;cia quase<br \/>\n    banal.<\/p>\n<p> C&aacute; do outro lado da sala de reda&ccedil;&atilde;o, sent&iacute;amos<br \/>\n    que o &quot;doutor&quot; ouvia todas aquelas not&iacute;cias com interesse.<br \/>\n    Havia estalidos na cadeira, t&ecirc;nues ru&iacute;dos de movimentos de aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Houve um momento em que n&atilde;o se conteve. Veio at&eacute; a sala geral,<br \/>\n    inquirindo este, perguntando &agrave;quele; e certo da superexcita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do p&uacute;blico, da extens&atilde;o que a not&iacute;cia tinha alcan&ccedil;ado<br \/>\n    na cidade, da intensa curiosidade que dominava toda a gente e ainda mais que<br \/>\n    o Jornal do Brasil punha, de quando em quando, um boletim &#8211; determinou que<br \/>\n    o Adelermo inventasse qualquer coisa, ind&iacute;cios, depoimentos, quaisquer<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es. E fez isso em altas vozes, congestionando, meio<br \/>\n    zangado e meio contente, expectorando inj&uacute;rias contra o rival.<\/p>\n<p> Adelermo era a imagina&ccedil;&atilde;o do jornal. Nascera no Maranh&atilde;o<br \/>\n    e escrevia regularmente. Apesar de nunca se ter feito notar por uma associa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais original de id&eacute;ias, no jornal era imaginoso porque nascera no<br \/>\n    Norte e tinha uma boa dose de sangue negro nas veias. As generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos jornais s&atilde;o infal&iacute;veis&#8230;<\/p>\n<p> Mas&#8230; Adelermo era a imagina&ccedil;&atilde;o do jornal, e em seus ombros<br \/>\n    reca&iacute;a todo o peso da necessidade de informa&ccedil;&otilde;es imediatas<br \/>\n    ao p&uacute;blico quando os documentos faltavam ou eram omissos.<\/p>\n<p> Se havia um atentado anarquista ou um terremoto na Europa e o telegrama<br \/>\n    era por demais conciso, Adelermo tinha o encargo de desenvolv&ecirc;-lo, de<br \/>\n    explic&aacute;-lo, de reconstruir a cena para o gosto p&uacute;blico. &Agrave;s<br \/>\n    vezes, pediam-se-lhe mais detalhes; o diretor queria a descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do complot, a cena da &quot;sorte&quot;, &agrave; l&ocirc;brega luz de uma<br \/>\n    mansarda. Adelermo era obediente e fazia. Intimamente desgostava-se com aquele<br \/>\n    papel de mentiroso; mas temia ser despedido, posto na rua. Era esse o grande<br \/>\n    terror de todos. N&atilde;o eram os ordenados, n&atilde;o era a mis&eacute;ria<br \/>\n    que os apavorava; temiam n&atilde;o encontrar outro lugar nos jornais e perderem<br \/>\n    por isso a import&acirc;ncia, a honra suprema de pertencer ao jornalismo.<br \/>\n    Eles n&atilde;o valiam por si; o jornal &eacute; que lhes dava brilho.<\/p>\n<p> Nas inven&ccedil;&otilde;es de Adelermo, quase sempre se passavam coisas<br \/>\n    fant&aacute;sticas e curiosas.<\/p>\n<p> Havia ent&atilde;o complica&ccedil;&otilde;es de topografia, ruas metidas<br \/>\n    umas nas outras; mas o terremoto, que a potente imagina&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Adelermo levava &agrave;s grandes cidades da Europa, passava completamente<br \/>\n    desapercebido ao p&uacute;blico e ningu&eacute;m, dias depois, se lembrava<br \/>\n    de cotejar as not&iacute;cias dadas pelo O Globo com as que vinham nos jornais<br \/>\n    da Europa.<\/p>\n<p> Caxias n&atilde;o se deteve; p&ocirc;s-se logo a escrever. Ele n&atilde;o<br \/>\n    conhecia a regi&atilde;o; nunca passara de S&atilde;o Francisco Xavier e fora<br \/>\n    uma vez acompanhar um figur&atilde;o argentino a Belo Horizonte em servi&ccedil;o<br \/>\n    de reportagem, num r&aacute;pido. Para os lados de Santa Cruz, nunca tinha<br \/>\n    ido, n&atilde;o sabia coisa alguma da situa&ccedil;&atilde;o da localidade,<br \/>\n    da sua posi&ccedil;&atilde;o relativa &agrave;s outras esta&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Tendo tido not&iacute;cia que os empregados da Estrada n&atilde;o se lembravam<br \/>\n    de ter visto desembarcar na esta&ccedil;&atilde;o um par nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do assassinado, concluiu que o casal tinha ido a p&eacute; at&eacute; Cascadura<br \/>\n    &#8211; esta&ccedil;&atilde;o que lhe parecia ser muito pr&oacute;xima do tradicional<br \/>\n    curato.<\/p>\n<p> O boletim ia ser posto, quando algu&eacute;m mais bem informado objetou:<br \/>\n    &#8211; Cascadura! N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, Adelermo? Fica l&eacute;guas<br \/>\n    distante de Santa Cruz.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o de onde podia ser? Eles foram a p&eacute; da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais pr&oacute;xima&#8230; Isso n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida! Qual a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais pr&oacute;xima que conheces? O outro fez um grande esfor&ccedil;o de<br \/>\n    mem&oacute;ria, esteve uns instantes a pensar, e disse por fim: &#8211; H&aacute;<br \/>\n    Realengo&#8230; Depois&#8230; Depois&#8230; Campo Grande! Devia ser Campo Grande! Imediatamente,<br \/>\n    sem que de todo ficasse apagada a palavra Cascadura, Caxias emendou e o novo<br \/>\n    boletim foi pregado.<\/p>\n<p> A rua encheu-se ainda mais. Havia gente de toda a sorte: velhos, mo&ccedil;os,<br \/>\n    burgueses, oper&aacute;rios, senhoras &#8211; gente de todas as idades e condi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Os que ficavam mais distante, no passeio fronteiro, para ver melhor, punham-se<br \/>\n    nos bicos dos p&eacute;s, cheios de ansiedade. Quando subi a escada, voltei-me<br \/>\n    um instante e vi aquela centena de pessoas, com as p&aacute;lpebras arregaladas,<br \/>\n    o pesco&ccedil;o erguido, esfor&ccedil;ando-se por ler aquele carapet&atilde;o<br \/>\n    formid&aacute;vel, forjicado naquela f&aacute;brica de carapet&otilde;es que<br \/>\n    se chama o jornal.<\/p>\n<p> A reda&ccedil;&atilde;o recebera uma visita. Era a Viscondessa de Varennes,<br \/>\n    que conversava com Floc. Os dois estavam no per&iacute;odo de namoro; ela,<br \/>\n    retirando todo o proveito, em not&iacute;cias, p&eacute;ssimos sonetos publicados<br \/>\n    na primeira p&aacute;gina; ele, oleoso, gastando os seus melhores mimos e<br \/>\n    alguns mil-r&eacute;is de sua algibeira econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Sr. dr. Cunha! dizia ela. Que coisa! Como isto est&aacute;! Que malvadez!<br \/>\n    Eu vinha rindo, quando li&#8230; Fiquei apavorada!&#8230; N&atilde;o sei. Meu Deus!<br \/>\n    Quando vejo isso at&eacute; tenho medo de viver&#8230;<\/p>\n<p> Leporace passou e deitou sobre a poetisa um olhar cheio de desejos. Os enormes<br \/>\n    olhos de boi da poetisa voltaram um instante para o Secret&aacute;rio que<br \/>\n    se desfez em cortesias. A Viscondessa estava em rela&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    todos os redatores e rep&oacute;rteres e todos eles esperavam cedo ou tarde<br \/>\n    t&ecirc;-la uma noite nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Com a sua finura de profissional do Amor, ela bem percebia a fome que todos<br \/>\n    aqueles homens tinham do seu corpo fatigado. N&atilde;o desanimava a nenhum,<br \/>\n    recebia homenagens, sorria com o seu longo sorriso, contraindo as grandes<br \/>\n    massas carminadas, abanava-se um instante com o leque, ajeitava a saia de<br \/>\n    s&ecirc;da de modo a lhe desenhar melhor as pernas e pedia favores: uma refer&ecirc;ncia,<br \/>\n    uma not&iacute;cia, a publica&ccedil;&atilde;o de um soneto, de um conto.<br \/>\n    Assim se valorizava. Os &uacute;nicos da gazeta que n&atilde;o a queriam absolutamente,<br \/>\n    eram o diretor e Michaelowsky. Este quando a ouviu t&atilde;o temerosa, prorrompeu<br \/>\n    bruscamente com a sua voz met&aacute;lica.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, minha senhora! N&oacute;s todos somos criminosos&#8230; A senhora tamb&eacute;m<br \/>\n    o &eacute;! &#8211; Eu, dr.! &#8211; Sim! A senhora para viver tirou a vida de muita gente;<br \/>\n    para ter esse vestido, esses la&ccedil;arotes, tira a de muitos outros&#8230;<br \/>\n    A nossa vida s&oacute; se desenvolve com grandes viol&ecirc;ncias sobre as<br \/>\n    coisas, sobre os animais e sobre os semelhantes&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas dessas n&atilde;o o sabemos! &#8211; Talvez n&atilde;o seja tanto assim&#8230;<\/p>\n<p> A viscondessa estendeu a m&atilde;o ao vi&ccedil;oso Floc, abarcou com o<br \/>\n    olhar a sala toda e saiu arrastando o corpo pequeno e pesado.<\/p>\n<p> Caxias continuava no seu servi&ccedil;o dos boletins peri&oacute;dicos.<br \/>\n    Alguns jornais da tarde deram uma segunda edi&ccedil;&atilde;o. O Globo, por&eacute;m,<br \/>\n    com os seus cartazes cont&iacute;nuos, distra&iacute;a os compradores. Nos<br \/>\n    portais, j&aacute; n&atilde;o havia mais lugar. Os boletins iam de cima a<br \/>\n    baixo; alguns j&aacute; cobriam os outros. O povo continuava aglomerado. Escurecia.<br \/>\n    Houve algu&eacute;m que acendeu um f&oacute;sforo para ler melhor. O doutor<br \/>\n    Ricardo, que viera de jantar, vendo o gesto do popular, mandou que o foco<br \/>\n    el&eacute;trico da fachada fosse aceso.<\/p>\n<p> Nos outros jornais, que tinham tamb&eacute;m afixado boletins, logo o imitaram;<br \/>\n    e a rua do Ouvidor, &agrave;quela hora da tarde excepcionalmente transitada<br \/>\n    e iluminada, surgiu como num dia de festa. Todo o jornal convergia para o<br \/>\n    crime. Mandou-se retirar uma grande parte da mat&eacute;ria, sair o lindo<br \/>\n    artigo da festejada colaboradora Pilar de Giralda, uma velha senhora das salas<br \/>\n    burguesas de Botafogo e Petr&oacute;polis, que dera em escrever, depois de<br \/>\n    av&oacute;, uns contos colegialmente er&oacute;ticos ou uns artigos com pretens&otilde;es<br \/>\n    a propagar a emancipa&ccedil;&atilde;o da mulher e o div&oacute;rcio. Saiu<br \/>\n    tamb&eacute;m o folhetim do jovem Deodoro Ramalho, um disc&iacute;pulo de<br \/>\n    Veiga Filho, autor de uns contos pastosos, pejados de frases redondas, redondinhas,<br \/>\n    que escapavam quase diariamente pelas colunas d&#8217;O Globo, com a mole<br \/>\n    resist&ecirc;ncia da massa de tinta que sai de uma bisnaga.<\/p>\n<p> O seu folhetim tinha sempre pretens&atilde;o &agrave; gra&ccedil;a, a coisa<br \/>\n    ligeira e leve, sem deixar de ser intelectual; al&eacute;m do folhetim semanal,<br \/>\n    escrevia tamb&eacute;m um conto aos domingos, hist&oacute;rias juvenis de<br \/>\n    namoros burgueses e casamentos de bachar&eacute;is e doutores. Era de uma<br \/>\n    fecundidade de parvo. N&atilde;o havia tolice que lhe passasse pela cabe&ccedil;a,<br \/>\n    que n&atilde;o escrevesse. Mas tinha admiradores: sua noiva, os futuros sogros,<br \/>\n    alguns colegas de escola e meia d&uacute;zia de meninas da rua dos Volunt&aacute;rios.<\/p>\n<p> O dr. Ricardo respeitava a sua literatura por sab&ecirc;-lo com distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em Mat&eacute;ria M&eacute;dica, no que ele encontrava grande compet&ecirc;ncia<br \/>\n    para o valor liter&aacute;rio de suas produ&ccedil;&otilde;es. Demais, as<br \/>\n    suas rela&ccedil;&otilde;es, o rigor colegial da sua vida, os seus olhos azuis,<br \/>\n    tinham-lhe valido a respeitosa considera&ccedil;&atilde;o de todos os rep&oacute;rteres,<br \/>\n    redatores e colaboradores.<\/p>\n<p> Raul Gusm&atilde;o, com aquela covardia moral que o caracterizava, logo<br \/>\n    que o soube t&atilde;o relacionado nas Laranjeiras, com influ&ecirc;ncia entre<br \/>\n    os colegas, falando familiarmente com deputados e senadores &#8211; gente influente<br \/>\n    para a gl&oacute;ria e tudo o mais &#8211; come&ccedil;ou a elogi&aacute;-lo pelo<br \/>\n    seu jornal. O Bin&oacute;culo n&atilde;o cessava de acusar-lhe a passagem<br \/>\n    pela rua do Ouvidor: o doutor Deodoro Ramalho, o fino conteur de O Globo.<br \/>\n    E ele, por sua vez, ecoava no jornal de Loberant: &quot;O nosso amigo Flor&ecirc;ncio<br \/>\n    Silva, cujo temperamento tumultu&aacute;rio foi um belo espet&aacute;culo<br \/>\n    para a gera&ccedil;&atilde;o atual, acaba, etc., etc.&quot; E assim se foi<br \/>\n    fazendo uma celebridade, homem not&aacute;vel, admirado nos sal&otilde;es<br \/>\n    e houve (ele disse uma vez na reda&ccedil;&atilde;o) uma mo&ccedil;a que o<br \/>\n    achou de qualquer modo parecido com o Pierre Weber, no estilo e na fisionomia.<br \/>\n    Ele perguntou ent&atilde;o ao Floc quem era esse tal Weber.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! N&atilde;o conheces?! &Eacute; uma celebridade ultraparisiense, &quot;parisian&iacute;ssima&quot;&#8230;<br \/>\n    S&oacute; l&aacute; pode haver destas&#8230; Nada de calhama&ccedil;os, de coisas<br \/>\n    pantafa&ccedil;udas e solenes; ligeirezas, garleseries, um quase tudo e um<br \/>\n    quase nada, como disse algu&eacute;m&#8230; &Eacute; dos cinco reis do esp&iacute;rito<br \/>\n    franc&ecirc;s atual: ele, o Tristan Bernard, o Courteline, o Alphonse Allais&#8230;<br \/>\n    Nunca leste &#8211; Vous m&#8217;en direz tant &#8211; dele e do Tristan Bernard? &#8211; Nunca.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute; preciso&#8230; Voc&ecirc;s levam-se voltados para o calhama&ccedil;o,<br \/>\n    t&ecirc;m a mania livresca, e n&atilde;o conhecem a verdadeira literatura<br \/>\n    francesa&#8230; &Eacute; o pap&aacute; Flaubert e o vov&ocirc; Hugo&#8230;<\/p>\n<p> E, durante todo o seu curso, o jovem Deodoro Ramalho desovou contos, artigos,<br \/>\n    folhetins e tirou dezenas de distin&ccedil;&otilde;es na Faculdade de Medicina.<br \/>\n    Na escola, as distin&ccedil;&otilde;es vinham-lhe do seu prest&iacute;gio<br \/>\n    de jornalista; no jornal, a sua superioridade partia das suas distin&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    na escola.<\/p>\n<p> No dia do crime, por&eacute;m, o diretor n&atilde;o poupou o seu folhetim<br \/>\n    engra&ccedil;ad&iacute;ssimo. Ordenou que n&atilde;o sa&iacute;sse, pois queria<br \/>\n    p&aacute;gina e meia sobre o crime; que se inventasse, que se dessem os menores<br \/>\n    pormenores, as suspeitas mais desarrozoadas; que se fizesse o hist&oacute;rico<br \/>\n    de Santa Cruz e da E. de Ferro Central do Brasil. Fosse com que fosse, ele<br \/>\n    queria p&aacute;gina e meia e vinte e cinco mil exemplares para venda avulsa.<\/p>\n<p> Dividido o servi&ccedil;o, cada um dos rep&oacute;rteres e redatores ficou<br \/>\n    encarregado de uma parte das muitas em que se dividiu a not&iacute;cia do<br \/>\n    crime sensacional. A primeira p&aacute;gina, a p&aacute;gina sagrada dos conselhos<br \/>\n    sisudos do austero Aires d&#8217;&Aacute;vila, da alta literatura do Veiga<br \/>\n    Filho, do ciciar amoroso da velha Pilar, foi literalmente cheia com o hist&oacute;rico<br \/>\n    de Santa Cruz (coluna e meia), a &quot;cabe&ccedil;a&quot; de Caxias, os retratos<br \/>\n    de D. Jo&atilde;o VI, da rainha Dona Carlota, de D. Pedro I, de Jos&eacute;<br \/>\n    Bonif&aacute;cio, do Visconde de Cairu. Os cad&aacute;veres vinham descritos<br \/>\n    com muita min&uacute;cia e larga fantasia e n&atilde;o se esqueceram de informar<br \/>\n    tamb&eacute;m que junto a eles havia fragmentos de &quot;gr&eacute;s&quot;,<br \/>\n    granito em decomposi&ccedil;&atilde;o, segundo a petrografia jornal&iacute;stica.<\/p>\n<p> Os dicion&aacute;rios, os manuais, os indicadores de toda a sorte, andavam<br \/>\n    de m&atilde;o em m&atilde;o. A reda&ccedil;&atilde;o trabalhava sofregamente,<br \/>\n    quando veio interromp&ecirc;-la o jovem doutor Franco de Andrade, grande pr&ecirc;mio<br \/>\n    da Faculdade da Bahia, literato, tenista e cl&iacute;nico ao mesmo tempo.<br \/>\n    Viera na comitiva de um ministro baiano e j&aacute; possu&iacute;a quatro<br \/>\n    empregos. Al&eacute;m de lente substituto, era m&eacute;dico do Hosp&iacute;cio,<br \/>\n    legista da Pol&iacute;cia e subdiretor da Sa&uacute;de P&uacute;blica. Escrevera<br \/>\n    um volume de poesias m&iacute;sticas e espalhava nas aulas o mais vulgar materialismo.<br \/>\n    Era idealista em verso; em prosa, positivista. Com isso, era duro de umas<br \/>\n    maneiras delicadas, de uma amabilidade que cativava as reda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em peso. Penetrou na sala sorridente, dizendo uma pilh&eacute;ria a um, fazendo<br \/>\n    uma pergunta a outro. Algu&eacute;m perguntou a sua valiosa opini&atilde;o<br \/>\n    sobre o crime; o extraordin&aacute;rio s&aacute;bio n&atilde;o se fez de rogado:<br \/>\n    &#8211; Penso que o exame m&eacute;dico-legal n&atilde;o se deve limitar a uma simples<br \/>\n    aut&oacute;psia&#8230; Convinha que se fizesse mais amplo&#8230; A exemplo do que<br \/>\n    se procede na &Iacute;ndia, onde a confus&atilde;o de ra&ccedil;as &eacute;<br \/>\n    imensa e, portanto, a ra&ccedil;a &eacute; um bom dado para identificar, seria<br \/>\n    bom que se fizessem mensura&ccedil;&otilde;es antropol&oacute;gicas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sem a cabe&ccedil;a, &eacute; poss&iacute;vel doutor? perguntou Losque.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeitamente.<\/p>\n<p> E o grande pr&ecirc;mio da Bahia, alternativamente Maeterlinck, Charcot<br \/>\n    e Legrand du Saule, uns ares doutorais como convinha, e continuou: &#8211; O professor<br \/>\n    Broca indicava trinta e quatro mensura&ccedil;&otilde;es de primeira ordem;<br \/>\n    Topinard era de opini&atilde;o que havia dezoito necess&aacute;rias e quinze<br \/>\n    facultativas; mas Quetelet, na sua Anthropom&eacute;trie, exige quarenta e<br \/>\n    duas.<\/p>\n<p> A reda&ccedil;&atilde;o estava embasbacada. Todos deixaram de escrever para<br \/>\n    ouvir o s&aacute;bio mo&ccedil;o. O jovem medalhado passeou um instante pela<br \/>\n    sala o seu imenso olhar cheio de apetites e ambi&ccedil;&otilde;es, e emendou:<br \/>\n    &#8211; Dessas, muitas s&atilde;o tomadas nos membros e no tronco: o talhe, a bacia,<br \/>\n    o f&ecirc;mur, etc., etc. Demais, ainda se t&ecirc;m outros dados auxiliares:<br \/>\n    a se&ccedil;&atilde;o dos cabelos, o exame microsc&oacute;pico do pigmento&#8230;<br \/>\n    Um operador h&aacute;bil pode com tais meios indicar perfeitamente a ra&ccedil;a<br \/>\n    e a sub-ra&ccedil;a do indiv&iacute;duo&#8230;<\/p>\n<p> No dia seguinte, o jornal desenvolvia os conselhos do jovem e not&aacute;vel<br \/>\n    dr. Franco de Andrade; e a medida era t&atilde;o s&aacute;bia que, no mesmo<br \/>\n    dia, o chefe de pol&iacute;cia escalava-o para fazer o servi&ccedil;o m&eacute;dico-legal,<br \/>\n    exigindo-lhe o estudo antropol&oacute;gico dos cad&aacute;veres.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe foi dif&iacute;cil faz&ecirc;-lo. Vinte e quatro horas depois<br \/>\n    o laudo estava publicado e o O Globo desfazia-se em elogios ao not&aacute;vel<br \/>\n    trabalho cient&iacute;fico do dr. Franco de Andrade, &quot;um mo&ccedil;o,<br \/>\n    desta nossa forte gera&ccedil;&atilde;o moderna, que sabe aliar o saber e<br \/>\n    a simplicidade.&quot; E como se o valente &oacute;rg&atilde;o tivesse falado<br \/>\n    no interior de uma ab&oacute;bada, todos os outros jornais, neutros, governistas,<br \/>\n    oposicionistas, lhe repetiram as frases e os gabos ao talento do dr. Franco.<\/p>\n<p> O crime ficou sendo a grande preocupa&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica durante<br \/>\n    os sete dias que se seguiram. O laudo do doutor Franco conclu&iacute;a que<br \/>\n    o homem era mulato, muito adiantado &eacute; verdade, um quarter&atilde;o,<br \/>\n    mas ainda com grandes sinais antropol&oacute;gicos da ra&ccedil;a negra. As<br \/>\n    testemunhas, por&eacute;m, entre elas o chefe e os condutores dos trens, n&atilde;o<br \/>\n    se lembravam de ter transportado nenhum par em tais condi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    S&oacute; um dentista, pol&iacute;tico na localidade, depusera ter cruzado<br \/>\n    na estrada com um casal nas condi&ccedil;&otilde;es indicadas pelo laudo do<br \/>\n    dr. Franco. As indaga&ccedil;&otilde;es continuavam e o crime sacudia a cidade.<br \/>\n    A sua brutalidade e o seu mist&eacute;rio como que continham amea&ccedil;as<br \/>\n    a todos: al&eacute;m do que estava envolvido numa atmosfera de amor, de amor<br \/>\n    proibido, embalsamada de luxo, de eleg&acirc;ncia e mocidade, que abalava<br \/>\n    e preocupava todas as imagina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Durante a semana o dr. Ricardo n&atilde;o se esqueceu um s&oacute; dia de<br \/>\n    indagar como ia a venda. A tens&atilde;o da opini&atilde;o era grande e aumentava.<br \/>\n    N&atilde;o se falava em outra coisa nas casas, nos bondes, nas reparti&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Os jornais superexcitavam-na mais, inventando detalhes, fazendo suposi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    indicando pistas. Adelermo n&atilde;o cessava de imaginar: foi o rei do jornal<br \/>\n    naqueles dias, com grande inveja de Floc.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Como voc&ecirc; tem imagina&ccedil;&atilde;o! dizia ele com amargura.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes, fora de todo o prop&oacute;sito, fingia desdenhar a faculdade<br \/>\n    primordial de Adelermo, tachando-a de qualidade inferior. N&atilde;o bastando<br \/>\n    este, veio tamb&eacute;m com a sua &ecirc;nfase Veiga Filho, que ganhou algumas<br \/>\n    centenas de mil-r&eacute;is&#8230;<\/p>\n<p> Passaram oito dias e nada se adiantava. Um acaso permitiu a identifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos assassinados. Um dono de hotel, tendo um dos seus quartos ocupados por<br \/>\n    um casal que n&atilde;o aparecia, desconfiou que tivesse sido ele o assassinado.<br \/>\n    Foi &agrave; pol&iacute;cia, as autoridades arrombaram as portas e as malas.<br \/>\n    Numa delas, encontraram uma carteira de identifica&ccedil;&atilde;o, passada<br \/>\n    pela pol&iacute;cia de Buenos Aires. Um sargento teve a id&eacute;ia de confrontar<br \/>\n    a ficha dactilosc&oacute;pica com a do cad&aacute;ver do homem; e descobriu-se<br \/>\n    que o morto era o cidad&atilde;o italiano Pascoal Martinelli, estabelecido<br \/>\n    com f&aacute;brica de massas na capital portenha, que partira para a Europa<br \/>\n    com a mulher, tencionando demorar-se uns dias no Rio de Janeiro. Um dia antes<br \/>\n    dessa elucida&ccedil;&atilde;o, o dr. Franco de Andrade era nomeado diretor<br \/>\n    do servi&ccedil;o m&eacute;dico-legal da Pol&iacute;cia do Distrito Federal.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\"> XI<\/a><\/h4>\n<p>Durante todo esse tempo, residi em uma casa de c&ocirc;modos na altura do<br \/>\n    Rio Comprido. Era longe, mas escolhera-a por ser barato o aluguel. Ficava<br \/>\n    a casa numa emin&ecirc;ncia, a cavaleiro da rua Malvino Reis e, atualmente,<br \/>\n    os dois andares do antigo palacete que ela fora, estavam divididos em duas<br \/>\n    ou tr&ecirc;s dezenas de quartos, onde moravam mais de cinq&uuml;enta pessoas.<\/p>\n<p> O jardim, de que ainda restavam alguns gramados amarelecidos, servia de<br \/>\n    coradouro. Da ch&aacute;cara toda, s&oacute; ficaram as altas &aacute;rvores,<br \/>\n    testemunhas da grandeza passada e que davam, sem fadiga nem simpatia, sombra<br \/>\n    &agrave;s lavadeiras, cocheiros e criados, como antes o fizeram aos rica&ccedil;os<br \/>\n    que ali tinham habitado. Guardavam o port&atilde;o duas esguias palmeiras<br \/>\n    que marcavam o ritmo do canto de saudades que a velha casa suspirava; e era<br \/>\n    de ver, pelo estio, a resigna&ccedil;&atilde;o de uma velha e nodosa mangueira,<br \/>\n    furiosamente atacada pela varia pequenada a disputar-lhe os grandes frutos,<br \/>\n    que alguns anos atr&aacute;s bastavam de sobra para os antigos propriet&aacute;rios.<\/p>\n<p> Houve noites em que como que ouvi aquelas paredes falarem, recordando o<br \/>\n    fausto sossegado que tinham presenciado, os cuidados que tinham merecido e<br \/>\n    os quadros e retratos vener&aacute;veis que tinham suportado por tantos anos.<br \/>\n    Lembrar-se-iam certamente dos lindos dias de festa, dos casamentos, dos anivers&aacute;rios,<br \/>\n    dos batizados, em que pares bem-postos dan&ccedil;avam entre elas os lanceiros<br \/>\n    e uma veloz valsa &agrave; francesa.<\/p>\n<p> &Agrave; noite, quando entravam aqueles cocheiros de grandes p&eacute;s,<br \/>\n    aqueles carregadores suados, o soalho gemia, gemia particularmente, dolorosamente,<br \/>\n    angustiadamente&#8230; Que saudades n&atilde;o havia nesses gemidos dos breves<br \/>\n    p&eacute;s das meninas quebradi&ccedil;as que o tinham palmilhado tanto tempo!<br \/>\n    A casa pertencera talvez a um oficial de marinha, um chefe de esquadra. Havia<br \/>\n    ainda no teto do sal&atilde;o principal um Netuno com todos os atributos.<br \/>\n    O sal&atilde;o estava dividido ao meio por um tabique; os cavalos-marinhos<br \/>\n    e uma parte da concha ficaram de um lado e o Deus do outro, com um peda&ccedil;o<br \/>\n    do tridente, cercado de trit&otilde;es e nereidas.<\/p>\n<p> Num c&ocirc;modo (em alguns) moravam &agrave;s vezes fam&iacute;lias inteiras<br \/>\n    e eu tive ali ocasi&atilde;o de observar de que maneira forte a mis&eacute;ria<br \/>\n    prende solidamente os homens.<\/p>\n<p> De longe, parece que toda essa gente pobre, que vemos por a&iacute;, vive<br \/>\n    separada, afastada pelas nacionalidades ou pela cor; no palacete, todos se<br \/>\n    misturavam e se confundiam. Talvez n&atilde;o se amassem, mas viviam juntos,<br \/>\n    trocando presentes, protegendo-se, prestando-se m&uacute;tuos servi&ccedil;os.<br \/>\n    Bastava que surgisse uma desintelig&ecirc;ncia para que os tratamentos desprez&iacute;veis<br \/>\n    estalassem de parte a parte.<\/p>\n<p> Certo, quando assistia a tais cenas, n&atilde;o ficava contente, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o sabia refletir por aquele tempo, que, seja entre que homens for,<br \/>\n    desde que surjam desintelig&ecirc;ncias, logo rompem os tratamentos desprez&iacute;veis<br \/>\n    mais &agrave; m&atilde;o.<\/p>\n<p> Vi a&iacute;, na casa do Rio Comprido, os mais disparatados casos; e, pela<br \/>\n    manh&atilde;, aos domingos, quando me debru&ccedil;ava &agrave; janela, olhava<br \/>\n    brincando no terreiro uma pequenada em que se misturava o sangue de muitas<br \/>\n    partes do mundo. Em nenhum deles havia o g&aacute;rrulo e a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    dos meninos ricos; quando n&atilde;o eram humildes e tristes, eram irrit&aacute;veis.<br \/>\n    Facilmente surgia uma rixa entre eles e o choro passava do contendor vencido<br \/>\n    a ser geral entre todos, com os castigos infligidos pelas m&atilde;es aos<br \/>\n    culpados e n&atilde;o-culpados.<\/p>\n<p> Admirava-me que essa gente pudesse viver, lutando contra a fome, contra<br \/>\n    a mol&eacute;stia e contra a civiliza&ccedil;&atilde;o; que tivesse energia<br \/>\n    para viver cercada de tantos males, de tantas priva&ccedil;&otilde;es e dificuldades.<br \/>\n    N&atilde;o sei que estranha tenacidade a leva a viver e por que essa tenacidade<br \/>\n    &eacute; tanto mais forte quanto mais humilde e miser&aacute;vel. Vivia na<br \/>\n    casa uma rapariga preta que suportava dias inteiros de fome, mal vivendo do<br \/>\n    que lhe dava uma miser&aacute;vel prostitui&ccedil;&atilde;o; entretanto &agrave;<br \/>\n    menor dor de dentes chorava, temendo que a morte estivesse pr&oacute;xima.<\/p>\n<p> Quando refletia assim, era tarde e, da janela do meu quarto, eu via bem<br \/>\n    a cortina de montanhas desde Santa Teresa ao Andara&iacute;. O sol descambara<br \/>\n    de todo e a garganta da Tijuca estava cheia de nuvens douradas. Um peda&ccedil;o<br \/>\n    do c&eacute;u era violeta, um outro azul e havia mesmo uma parte em que o<br \/>\n    matiz era puramente verde.<\/p>\n<p> Olhei aquelas encostas cobertas de &aacute;rvores, de florestas que quase<br \/>\n    desciam por elas abaixo at&eacute; &agrave;s ruas da cidade cortadas de bondes<br \/>\n    el&eacute;tricos. Quantas flores j&aacute; as cobriram &#8211; quantas formas j&aacute;<br \/>\n    as n&atilde;o tinham pisado! Depois que a civiliza&ccedil;&atilde;o viera,<br \/>\n    quantas vezes elas n&atilde;o tinham sido despovoadas, e perdido o seu tapete<br \/>\n    de verdura?! E pelos s&eacute;culos, apesar dos cataclismos, das revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    geol&oacute;gicas, da a&ccedil;&atilde;o do homem, nem uma s&oacute; vez aquela<br \/>\n    terra deixara de fazer surgir plenamente, com as ramagens das &aacute;rvores<br \/>\n    e com as plumagens do passaredo, a energia vital que estava nas suas entranhas!<br \/>\n    A minha vida passava-se um pouco &agrave; parte naquele grande casar&atilde;o.<br \/>\n    Cumprimentava a todos, mas pouco falava. S&oacute; a minha lavadeira mantinha<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es comigo, e era por ela que eu sabia da vida daquele<br \/>\n    vasto corti&ccedil;o.<\/p>\n<p> Era uma velha mulata, j&aacute; muito feia e de fisionomia desfeita. De<br \/>\n    g&ecirc;nio folgaz&atilde;o, e comunicativo, gostava de conversar, considerando<br \/>\n    com ceticismo especial as coisas da vida, as suas varia&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    &#8211; J&aacute; fora gente, dizia, hoje&#8230; &#8211; Assim &eacute; a vida, continuava,<br \/>\n    a noite vem depois do dia, isto para uns como eu. Para outros, &eacute; o<br \/>\n    contr&aacute;rio, o dia vem depois da noite. N&atilde;o viu a Maria, exemplificava,<br \/>\n    em sua voz pregui&ccedil;osa enquanto eu conferia a roupa. N&atilde;o conheceu?<br \/>\n    Respondia-lhe que n&atilde;o; ela ent&atilde;o explicava: aquela rapariga<br \/>\n    clara casada, que morava num quarto l&aacute; em baixo. Eu insistia que n&atilde;o,<br \/>\n    e a velha mulher retorquia &#8211; n&atilde;o vem ao caso &#8211; e continuava &#8211; O marido<br \/>\n    dera em beber, e em maltrat&aacute;-la. Uma noite, voltando muito b&ecirc;bado<br \/>\n    da rua, espancou-a. Foi para a Miseric&oacute;rdia e l&aacute; encontrou algu&eacute;m,<br \/>\n    um doutor, n&atilde;o sei, que se enfeiti&ccedil;ou por ela&#8230; Hoje, menino,<br \/>\n    anda num estad&atilde;o! Xi! &Eacute; assim: para uns, a noite vem depois<br \/>\n    do dia, para outros &eacute; o contr&aacute;rio&#8230; E por fim acrescentava<br \/>\n    com desgosto; eu tamb&eacute;m tive homem por mim; mas n&atilde;o soube aproveitar&#8230;<br \/>\n    Quando ele morreu, as filhas quase me tiraram a roupa do corpo&#8230; Ah! Esta<br \/>\n    vida!&#8230; Est&atilde;o certos, os colarinhos? Ent&atilde;o calava-se e ficava<br \/>\n    olhando o ch&atilde;o, absorta em recorda&ccedil;&otilde;es e em saudades.<br \/>\n    Eu ent&atilde;o indagava: &#8211; N&atilde;o teve filhos, D. Felismina? &#8211; Tive dois:<br \/>\n    uma mo&ccedil;a e um rapaz.<\/p>\n<p> &#8211; Est&atilde;o bem, n&atilde;o? &#8211; Um, o rapaz, morreu; e a mo&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; casada? &#8211; N&atilde;o&#8230; Vive com um homem&#8230; Deu muitas cabe&ccedil;adas&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o foi ela&#8230; O senhor sabe: n&oacute;s, quando n&atilde;o temos ningu&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; isso&#8230;<\/p>\n<p> E levantou-se, sacudindo a cabe&ccedil;a como querendo enxotar a m&aacute;goa<br \/>\n    que a queria invadir&#8230;<\/p>\n<p>Levantara-me muito cedo naquela manh&atilde; para ir ao jornal. N&atilde;o<br \/>\n    me competia o servi&ccedil;o diurno naquele dia; mas o redator portugu&ecirc;s<br \/>\n    chegava &agrave;s dez horas e eu recebera ordem para ir receb&ecirc;-lo no<br \/>\n    cais. No jornal, o diretor &eacute; uma esp&eacute;cie de senhor feudal a<br \/>\n    quem todos prestam vassalagem e juramento de inteira depend&ecirc;ncia: s&atilde;o<br \/>\n    seus homens. As suas festas, s&atilde;o festas do feudo a que todos t&ecirc;m<br \/>\n    obriga&ccedil;&atilde;o de se associar; os seus &oacute;dios s&atilde;o &oacute;dios<br \/>\n    de soberano, que devem ser compartilhados por todos os vassalos, vil&otilde;es<br \/>\n    ou n&atilde;o. A recep&ccedil;&atilde;o do redator portugu&ecirc;s era uma<br \/>\n    festa sua e ele exigia esse aparato para que tivesse uma repercuss&atilde;o<br \/>\n    favor&aacute;vel na grande col&ocirc;nia portuguesa. Todos tinham que ir.<br \/>\n    E se bem que simples cont&iacute;nuo, o diretor exigia terminantemente a minha<br \/>\n    presen&ccedil;a, para mostrar aos outros peri&oacute;dicos rivais que no seu<br \/>\n    n&atilde;o havia distin&ccedil;&otilde;es v&atilde;s, &quot;era uma tenda<br \/>\n    de trabalho onde mourejavam irm&atilde;os&quot;.<\/p>\n<p> &Eacute; outra mentira dos jornais que logo senti.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; reparti&ccedil;&atilde;o, casa de neg&oacute;cio em<br \/>\n    que a hierarquia seja mais ferozmente tir&acirc;nica. O redator despreza o<br \/>\n    rep&oacute;rter; o rep&oacute;rter, o revisor; este por sua vez, o tip&oacute;grafo,<br \/>\n    o impressor, os caixeiros do balc&atilde;o. A separa&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a mais n&iacute;tida poss&iacute;vel e o sentimento de superioridade, de uns<br \/>\n    para os outros, &eacute; palp&aacute;vel, perfeitamente palp&aacute;vel. O<br \/>\n    diretor &eacute; um Deus inacess&iacute;vel, caprichoso, esp&eacute;cie de<br \/>\n    Tup&atilde; ou de J&uacute;piter Tonante, cujo menor gesto faz todo o jornal<br \/>\n    tremer. Para ci&ecirc;ncia dos povos, por&eacute;m, aquilo &eacute; &quot;uma<br \/>\n    tenda de trabalho onde mourejam irm&atilde;os&quot;; e por ser assim eu tive<br \/>\n    que me levantar cedo e pedir na v&eacute;spera um par de punhos a dona Felismina.<br \/>\n    Ela entregou-mos, indagando: &#8211; Diga-me uma coisa &quot;seu&quot; Caminha:<br \/>\n    h&aacute; a&iacute; uma lei que obriga todos a andarem cal&ccedil;ados? &#8211;<br \/>\n    H&aacute; uma postura municipal.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; verdade isso mesmo? Pois ent&atilde;o todos, todos? &#8211; Na<br \/>\n    rua, &eacute;. Por que se assusta? &#8211; Dizem que as folhas falam nisso e que<br \/>\n    at&eacute;, contam a&iacute;, que quem tiver p&eacute; grande tem que sofrer<br \/>\n    uma opera&ccedil;&atilde;o para diminuir os p&eacute;s, como os chinas&#8230;<br \/>\n    &Eacute; verdade? &#8211; Qual! &Eacute; balela! Quem lhe contou? Ao sair, ainda<br \/>\n    ouvi que, pelos corredores, se discutia o assunto com calor, girando sempre<br \/>\n    a conversa em torno daquela opera&ccedil;&atilde;o chinesa que o governo queria<br \/>\n    impor &agrave; popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> No escrit&oacute;rio j&aacute; encontrei Floc, perfeitamente escanhoado,<br \/>\n    a preparar a not&iacute;cia da chegada do novo redator. Lia um per&iacute;odo<br \/>\n    alto e ouvi que descrevia o estado do mar e a agita&ccedil;&atilde;o das pequenas<br \/>\n    embarca&ccedil;&otilde;es em torno do transatl&acirc;ntico. Nos jornais, os<br \/>\n    artigos impressionistas s&atilde;o sempre feitos antes das impress&otilde;es.<\/p>\n<p> Premeditou-se certa ocasi&atilde;o uma corrida de autom&oacute;veis que<br \/>\n    foi mais tarde proibida pela pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> O filho de Aires d&#8217;&Aacute;vila, que fazia por esse tempo um curso<br \/>\n    manhoso de direito e escrevia no grande jornal umas sensaborias, comp&ocirc;s<br \/>\n    com anteced&ecirc;ncia uma descri&ccedil;&atilde;o eloq&uuml;ente da corrida.<br \/>\n    Veio a proibi&ccedil;&atilde;o; mas o artigo saiu, sob o pretexto de que tinha<br \/>\n    raros m&eacute;ritos liter&aacute;rios! Floc escrevia nervosamente as impress&otilde;es<br \/>\n    que ia sentir no desembarque. Estava de costas e, de quando em quando, rasgava<br \/>\n    uma ou duas das tiras escritas. Num dado momento, ergueu-se bruscamente, deixou<br \/>\n    escapar uma exclama&ccedil;&atilde;o desesperada, amarrotou todo o papel que<br \/>\n    tinha escrito, e atirou-o com raiva &agrave; cesta. Depois de ter ido a janela,<br \/>\n    voltou a escrever com os mesmos trejeitos, com as mesmas mostras de desespero,<br \/>\n    que s&oacute; desapareceu e se ocultou com a entrada do velho e esqu&aacute;lido<br \/>\n    gram&aacute;tico Lobo.<\/p>\n<p> O caturra vinha tamb&eacute;m de mau humor. N&atilde;o raro isso acontecia<br \/>\n    mas naquela manh&atilde; a tempestade interior parecia ser amedrontadora.<br \/>\n    Vestia de preto, como habitualmente: uma velha sobrecasaca curta, desusada,<br \/>\n    com as abas espapadas e grandes placas luzentes nas costas. Tinha um pesco&ccedil;o<br \/>\n    de ave a sair de uns colarinhos muito baixos que a gravata cobria inteiramente.<br \/>\n    Usava cabelo curto, &oacute;culos sem aros e possu&iacute;a uma testa curta<br \/>\n    com uma grande e constante ruga horizontal. Tinha curiosas manias. Se estava<br \/>\n    de bom humor, traduzia de uma l&iacute;ngua para outra os prov&eacute;rbios<br \/>\n    e os anexins que surgissem na conversa. Era bastante algu&eacute;m dizer:<br \/>\n    &quot;De gr&atilde;o em gr&atilde;o a galinha enche o papo&quot;, para ele<br \/>\n    retorquir da sua mesa, abandonando a revis&atilde;o gramatical: &#8211; Em franc&ecirc;s:<br \/>\n    &quot;Petit &agrave; petit l&#8217;oiseau fait son nid&quot;, os ingleses,<br \/>\n    por&eacute;m, dizem&#8230;<\/p>\n<p> Naquela manh&atilde; n&atilde;o parecia disposto ao seu sport favorito.<br \/>\n    Entrou carrancudo, com a ruga mais acentuada, cumprimentou ligeiramente Floc,<br \/>\n    e, j&aacute; sentado, perguntou-lhe, olhando-o por cima dos &oacute;culos:<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute; este Sanches que escreveu este artigo sobre &quot;Bancos emissores&quot;?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sei bem, disse Floc. Creio que &eacute; um advogado a&iacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Que ignorante! Pois esta besta n&atilde;o escreveu &#8211; um dos que foram<br \/>\n    &#8211; isso se admite? Qual! Como &eacute; que saem batatas destas?! Estou desmoralizado&#8230;<br \/>\n    Todos sabem que tenho aqui a responsabilidade da l&iacute;ngua&#8230; Que dir&aacute;<br \/>\n    o Jo&atilde;o Ribeiro? o Said &Aacute;li? o Fausto? E o Rui, que dir&aacute;?<br \/>\n    Naturalmente v&atilde;o acusar-me de ignorante&#8230; Vou dizer ao Ricardo que<br \/>\n    preciso ver todos os originais, se n&atilde;o declarar publicamente que n&atilde;o<br \/>\n    tenho responsabilidade com a gram&aacute;tica do O Globo. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel ser assim! Lobo gozava de uma grande ascend&ecirc;ncia sobre<br \/>\n    o &acirc;nimo do diretor. Emendava-lhe os artigos e fora imposto ao jornal<br \/>\n    por sua mulher, D. In&ecirc;s, a quem o padre Bos, das Irm&atilde;s, recomendara<br \/>\n    como s&aacute;bio. N&#8217;O Globo todos lhe temiam o mau humor, por sab&ecirc;-lo<br \/>\n    influente e prestigiado, como sabich&atilde;o em gram&aacute;tica, em geografia<br \/>\n    e em l&iacute;nguas. Loberant n&atilde;o escondia o seu respeito. Para ele,<br \/>\n    a mais alta express&atilde;o de cultura era falar ingl&ecirc;s e Lobo sabia<br \/>\n    pedir &aacute;gua na l&iacute;ngua do grande imp&eacute;rio.<\/p>\n<p> A gram&aacute;tica do velho professor era de miopia exagerada.<\/p>\n<p> N&atilde;o admitia equival&ecirc;ncias, variantes: era um c&oacute;digo<br \/>\n    tir&acirc;nico, uma esp&eacute;cie de colete de for&ccedil;as em que vestira<br \/>\n    as suas pobres id&eacute;ias e queria vestir as dos outros. H&aacute; tr&ecirc;s<br \/>\n    ou cinco gram&aacute;ticas portuguesas, porque h&aacute; tr&ecirc;s ou cinco<br \/>\n    opini&otilde;es sobre uma mesma mat&eacute;ria. Lobo organizara uma s&eacute;rie<br \/>\n    delas sobre as in&uacute;meras d&uacute;vidas nas regras do nosso escrever<br \/>\n    e o nosso falar e ai de quem discrepasse no jornal! Era emendado da primeira<br \/>\n    vez, da segunda repreendido, da terceira podia ser at&eacute; despedido, se<br \/>\n    ele estivesse de mau humor.<\/p>\n<p> Nos seus bons dias, tinha a mansuetude e os modos convincentes de um professor<br \/>\n    de primeiras letras e recitava muitas vezes aos ouvidos do rep&oacute;rter<br \/>\n    recalcitrante todas as regras do Sotero sobre o emprego do infinito pessoal,<br \/>\n    chamando-o por filho, repetindo exemplo. N&atilde;o admitia que se escrevesse<br \/>\n    &quot;vieram lhe chamar&quot;, se algu&eacute;m o fizesse em dias de mau humor,<br \/>\n    era certo ter de refazer de come&ccedil;o ao fim o seu trabalho.<\/p>\n<p> Nem todos, por&eacute;m, se sujeitavam &agrave; sua inspe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gramatical; Floc, Leporace e Caxias eximiam-se e Michaelowsky amedrontara-o<br \/>\n    com alguns berros e palavr&otilde;es, quando o fiel gram&aacute;tico do jornal<br \/>\n    quis corrigir o seu original.<\/p>\n<p> O russo entrava naquele momento na reda&ccedil;&atilde;o. O paquete chegava<br \/>\n    &agrave;s onze horas e pouco faltava. Vendo-o entrar, Floc perguntou: &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    vais, Michaelowsky? &#8211; A qu&ecirc;? &#8211; Ao desembarque do nosso redator.<\/p>\n<p> O russo n&atilde;o lhe respondeu logo. Sentou-se, encolheu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dentro do corpo como uma tartaruga, franziu a grande boca, depois retrucou:<br \/>\n    &#8211; Eu! Eu vou l&aacute; a esses espet&aacute;culos&#8230; Isso &eacute; um baixo<br \/>\n    &quot;engrossamento&quot;&#8230;<\/p>\n<p> O diretor entrava e Michaelowsky n&atilde;o dissimulou a resposta. Loberant<br \/>\n    sempre autorit&aacute;rio com todos, era de uma delicadeza excepcional com<br \/>\n    o doutor pelo Cairo.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; &eacute; um esquisito, Michaelowsky &#8211; foi s&oacute; o que ele<br \/>\n    observou.<\/p>\n<p> E sa&iacute;mos. &Eacute;ramos um bando &agrave; frente do qual marchava<br \/>\n    o dr. Ricardo, apressado, com as guias dos bigodes esfareladas ao vento e<br \/>\n    as abas da sobrecasaca cinzenta a baterem como asas de uma grande ave sultanina.<br \/>\n    Levava a bengala erguida e, com todos n&oacute;s atr&aacute;s, andando celeremente,<br \/>\n    parecia um delegado em dilig&ecirc;ncia ou um chefe eleitoral que vai perturbar<br \/>\n    com capangas a elei&ccedil;&atilde;o num col&eacute;gio que lhe n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; favor&aacute;vel.<\/p>\n<p> Fazia um sol inclemente &#8211; sol de dezembro pela manh&atilde;. No cais j&aacute;<br \/>\n    estavam a fam&iacute;lia do diretor, mulher e filhas pequenas, as filhas de<br \/>\n    Aires d&#8217;&Aacute;vila, cuja beleza tinha gabos especiais nas conversas<br \/>\n    dos caf&eacute;s e confeitarias &#8211; a claque inteira do O Globo, o n&uacute;cleo<br \/>\n    que gerava e transmitia pela cidade o talento de &Aacute;vila, as qualidades<br \/>\n    c&iacute;vicas do doutor Ricardo e os dotes liter&aacute;rios do jovem Juli&atilde;o<br \/>\n    Bandeira, que l&aacute; estava com sua noiva e o seu passo de valsista impenitente.<br \/>\n    Outros chegaram depois, Floc ficou entre as senhoras. As suas faces, os olhos,<br \/>\n    a testa breve e at&eacute; os longos bigodes pretos adquiriram uma radia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial; o pr&oacute;prio queixo aproximou-se do plano do peito e vim a conhecer<br \/>\n    outro Floc, simp&aacute;tico, interessante, todo ele cativante e natural.<\/p>\n<p> In&uacute;til &eacute; dizer que fiquei de longe, sozinho, como sempre fiquei<br \/>\n    nessas coisas e como parece ser meu destino ficar sempre. Dona In&ecirc;s,<br \/>\n    a mulher do doutor Ricardo, entretanto, deu-me bom dia e fez um &quot;como<br \/>\n    vais Isa&iacute;as&quot;, bondoso e superior. Tinha-se na conta de ilustrada<br \/>\n    e nobre. Era o or&aacute;culo liter&aacute;rio e intelectual do marido. Julgava-se<br \/>\n    ilustrada porque aprendera a recitar umas coisas das Irm&atilde;s de Botafogo<br \/>\n    e pintar flores; nobre, porque tinha um irm&atilde;o deputado e o seu pai<br \/>\n    chicanara no interior do Brasil.<\/p>\n<p>O cais estava agitado e concorrido. O Congresso estava a fechar-se, partia<br \/>\n    um paquete para o Norte e os congressistas come&ccedil;avam a fugir. Os magnatas:<br \/>\n    ministros, ju&iacute;zes, coron&eacute;is, rica&ccedil;os, engrossadores com<br \/>\n    as suas mulheres e filhas, encontravam-se ali em tocantes despedidas a amigos<br \/>\n    das duas c&acirc;maras. A viscondessa de Varennes, a famosa Odalina, poetisa<br \/>\n    de muito m&eacute;rito e t&atilde;o do gosto de Floc, viera tamb&eacute;m.<br \/>\n    O doutor Ricardo afastou-se logo dela com a senhora; mas a fidalga insinuara-se<br \/>\n    no grupo das filhas de &Aacute;vila e l&aacute; ficara a deitar os seus grandes<br \/>\n    olhos de Juno para a massa masculina, brilhante e rica, que se apinhava no<br \/>\n    cais. Chegou por &uacute;ltimo Aires d&#8217;&Aacute;vila, com a sua marcha<br \/>\n    dif&iacute;cil, agitando a cabe&ccedil;a e balou&ccedil;ando os bra&ccedil;os,<br \/>\n    no intuito de mais depressa impelir o corpo de chumbo.<\/p>\n<p> Chegavam carros, coup&eacute;s e espalhavam-se pelo jardim, disputando a<br \/>\n    escassa sombra das &aacute;rvores, grupos de homens e senhoras. O pessoal<br \/>\n    masculino era soberbo: a nata &#8211; senado, c&acirc;mara, altos tribunais, grandes<br \/>\n    patentes do ex&eacute;rcito e da marinha &#8211; cartolas reluzente e negras sobrecasacas<br \/>\n    a enquadrar os dourados dos uniformes. Tudo vergado ao sol indiferente e forte.<br \/>\n    As senhoras sentiam-se mal, envolvidas naquelas fartas ondas de luz e calor.<br \/>\n    Os bosquetes de arbustos tinham uma despreocupa&ccedil;&atilde;o divina e<br \/>\n    as grandes &aacute;rvores nodosas davam uma escassa e compassiva sombra. As<br \/>\n    lanchas do pessoal com bandeira em que se lia o t&iacute;tulo, n&atilde;o<br \/>\n    tinham chegado. Eu esperava, afastado do grosso da claque, t&iacute;mido diante<br \/>\n    de tanta grandeza inabal&aacute;vel. Chegou um Ministro. Um movimento igual<br \/>\n    fez todos voltarem-se para o lado em que ele vinha. A atitude foi instant&acirc;nea<br \/>\n    em cada homem e em cada mulher; era como se ao centro de uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de limalha de ferro espalhada, se houvesse chegado um pequeno &iacute;m&atilde;.<\/p>\n<p> O doutor Ricardo cumprimentou a alta autoridade e, a seu chamado, foi-lhe<br \/>\n    falar. Al&eacute;m do Ministro, intermeteu-se uma nova personagem; um preto<br \/>\n    velho, quase centen&aacute;rio, de fisionomia simiesca e meio cego.<\/p>\n<p> Trazia na m&atilde;o esquerda um cani&ccedil;o que distendia um arame de<br \/>\n    pescaria; com a direita, auxiliado por uma varinha, vibrava dolentemente a<br \/>\n    corda, enquanto balbuciava qualquer coisa. Ia de grupo em grupo, tangendo<br \/>\n    o seu monoc&oacute;rdio extravagante. Cantava talvez uma &aacute;ria de uma<br \/>\n    extraordin&aacute;ria beleza, certamente s&oacute; percebida por ele e feita<br \/>\n    pela sua alma para a sua alma&#8230; Tocava e esperava a esmola. Em todas as fisionomias,<br \/>\n    havia decerto piedade, comisera&ccedil;&atilde;o, e mais alguma coisa que<br \/>\n    n&atilde;o me foi dado perceber. Era constrangimento, era n&atilde;o sei o<br \/>\n    qu&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> O preto tinha os p&eacute;s espalmados e, com a cecidez e a velhice, andava<br \/>\n    de leve, sem quase tocar no ch&atilde;o, escorregava, deslizava &#8211; era como<br \/>\n    uma sombra&#8230;<\/p>\n<p> Sob aquele sol muito forte, &agrave; rebrilhante luz daquela manh&atilde;<br \/>\n    de ver&atilde;o, por entre tanta gente rica e forte, aquele seu instrumento<br \/>\n    infantil, a puerilidade da m&uacute;sica, o seu aspecto de sombra juntavam-se<br \/>\n    para dar um rebordo cortante &agrave; sua mis&eacute;ria e &agrave; sua fragilidade&#8230;<br \/>\n    Ele, com a sua resigna&ccedil;&atilde;o e mis&eacute;ria, e o sol, com a sua<br \/>\n    for&ccedil;a e indiferen&ccedil;a, tinham um certo acordo oculto, uma rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre si quase perfeita. O negro ia&#8230; Ia tocando j&aacute; sem for&ccedil;as<br \/>\n    a plangente m&uacute;sica das recorda&ccedil;&otilde;es do adusto solo da<br \/>\n    &Aacute;frica, da vida f&aacute;cil da m&uacute;sica e do cativeiro semi-secular!<br \/>\n    As lanchas aproximaram-se e embarcamos. O paquete ainda fumegava, rodeado<br \/>\n    de lanchas e pequenas embarca&ccedil;&otilde;es de remos. Logo ao entrar,<br \/>\n    demos com o novo redator. As filhas de Aires d&#8217;&Aacute;vila cercaram-no.<br \/>\n    Elas eram as figuras decorativas do jornal. Bonitas, como toda a mo&ccedil;a<br \/>\n    que sabe dispor dos seus atavios e vestidos, n&atilde;o faltavam a qualquer<br \/>\n    festa do O Globo. Nos banquetes, nos piqueniques, nas soir&eacute;es do diretor,<br \/>\n    nos embarques e desembarques, l&aacute; estavam elas com as suas lindas toilettes,<br \/>\n    irrepreensivelmente cal&ccedil;adas e enluvadas. Tinham uma emana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    luxuriante e uns grandes olhos inquietos, banhados de muita luz; as narinas<br \/>\n    m&oacute;veis aspiravam com &acirc;nsia todos os perfumes e exala&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e uma delas tinha o tic de morder os l&aacute;bios. Era um gosto v&ecirc;-las<br \/>\n    por entre os homens, animadas, com grande satisfa&ccedil;&atilde;o nos olhos,<br \/>\n    sorrindo para este, atendendo aquele, namorando. Amavam as grandes festas,<br \/>\n    em lugares afastados, onde vai muita gente&#8230;<\/p>\n<p> Cercaram logo o novo redator, estabeleceram a cordialidade entre ele e o<br \/>\n    pessoal do jornal e ficaram junto dele, quando fomos &agrave; mesa tomar champagne.<br \/>\n    O dr. Ricardo julgou do seu dever erguer um brinde; o novo redator respondeu:<br \/>\n    &#8211; Me falece compet&ecirc;ncia para falar de si, come&ccedil;ou.<\/p>\n<p> Lobo, que continuava de mau humor, n&atilde;o se conteve e exclamou do canto:<br \/>\n    &#8211; Xi! Quanta asneira! O rec&eacute;m-chegado n&atilde;o se vexou e todos ficaram<br \/>\n    calados de espanto diante da grosseria do velho gram&aacute;tico. Loberant<br \/>\n    olhou-o severamente e Lobo suportou-lhe o olhar com coragem. O novo redator<br \/>\n    continuou, insistindo na primeira frase, sem mais sequer olhar o pedagogo.<\/p>\n<p> De volta, ainda se deu um incidente desagrad&aacute;vel no cais. Dona In&ecirc;s<br \/>\n    e as filhas do diretor j&aacute; iam longe, quando ele se aproximou de um<br \/>\n    senhor de cartola. Lembrei-me que tinha sido aquele senhor que tinha chamado<br \/>\n    o Ministro para embarcar, quando o dr. Ricardo conversava com o potentado.<br \/>\n    Era deputado e o dr. Ricardo altercava com ele: &#8211; &quot;Seu&quot; patife!<br \/>\n    &quot;Seu&quot; c&aacute;ften! Ent&atilde;o voc&ecirc; pensa que eu preciso<br \/>\n    de emprego?&#8230; Sou independente, tenho o meu jornal&#8230;<\/p>\n<p> O outro respondia: &#8211; Apulcro de Castro! Canalha! B&ecirc;bedo! N&atilde;o<br \/>\n    se demoraram muito; em breve se atracaram e rolaram pela areia do jardim.<br \/>\n    Ricardo saiu da luta deitando sangue pela boca e foi levado para um hotel<br \/>\n    pr&oacute;ximo. Veio o m&eacute;dico e eu fiquei a seu lado, dando-lhe a po&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de hora em hora.<\/p>\n<p> Acalmou-se e pareceu dormir. Deixei-o s&oacute;, mas voltei logo. Acordara<br \/>\n    e, de bru&ccedil;os na borda da cama, com boca semicerrada, olhava fincadamente<br \/>\n    o ch&atilde;o. Cismava na vida e considerava a terra. Animei-me: &#8211; Precisa<br \/>\n    alguma coisa, doutor? &#8211; Preciso.<\/p>\n<p> &#8211; O qu&ecirc;, doutor? E virou-se para o lado sem me responder&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">XII<\/a><\/h4>\n<p>&#8211; O senhor &eacute; da reda&ccedil;&atilde;o? &#8211; Sim, senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Trago este volume de versos &#8211; Anelos &#8211; para oferecer ao jornal&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pode deix&aacute;-lo.<\/p>\n<p> O poeta falava-me de p&eacute;, desconfiado e com longas interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no olhar. Na sala, n&atilde;o havia ningu&eacute;m da reda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    propriamente e quando me perguntou se eu o era, respondi-lhe afirmativamente,<br \/>\n    por pura vaidade.<\/p>\n<p> O rapaz n&atilde;o me entregou logo o livro. Manteve-o na m&atilde;o, olhando<br \/>\n    muitas vezes as cole&ccedil;&otilde;es de jornais, os retratos nas paredes,<br \/>\n    a sala toda como se procurasse guardar de cor aquele aspecto e familiarizar-se<br \/>\n    inteiramente com ele.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o senhor o autor da obra? perguntei.<\/p>\n<p> &#8211; Sou, pois n&atilde;o. O Sr. sabe: ningu&eacute;m pode nunca estar certo<br \/>\n    de ter ou n&atilde;o habilidade. Escreve-se os amigos gostam; mas, se n&atilde;o<br \/>\n    se tem coragem para sujeitar um volume &agrave; cr&iacute;tica, fica-se sempre<br \/>\n    na d&uacute;vida se &eacute; a simples amizade dos camaradas que louva as<br \/>\n    nossas produ&ccedil;&otilde;es, ou se h&aacute; m&eacute;rito, de fato, nelas&#8230;<br \/>\n    Sou muito mo&ccedil;o, tenho vinte e dois anos, fa&ccedil;o versos desde os<br \/>\n    dezoito; agora, fiz uma escolha e publiquei este volume&#8230; Queria que os senhores<br \/>\n    dissessem alguma coisa, que notassem os defeitos, para eu me corrigir, caso<br \/>\n    fosse poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; com o cr&iacute;tico liter&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Quem &eacute;? &#8211; &Eacute; o Floc, n&atilde;o conhece? &#8211; Muito! Leio-o<br \/>\n    sempre. At&eacute; tenho aqui uma opini&atilde;o dele que achei muito acertada.<br \/>\n    Creio que &eacute; do folhetim da semana passada&#8230;<\/p>\n<p> O jovem poeta descansou o chap&eacute;u sobre uma mesa, puxou a carteira<br \/>\n    e esteve a procurar entre os pap&eacute;is o retalho de Floc, sempre perseguido<br \/>\n    por um cacho de cabelos louros que teimava em lhe cobrir o olho direito. O<br \/>\n    cacho ca&iacute;a, ele retirava-o com a m&atilde;o; teimava em voltar, ele<br \/>\n    sacudia a cabe&ccedil;a para lev&aacute;-lo para cima, e assim custou a achar<br \/>\n    o pequeno ret&acirc;ngulo de papel, perdido entre uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cartas, cart&otilde;es e versos de que estava pejada a carteira.<\/p>\n<p> Encontrando-o n&atilde;o se demorou em l&ecirc;-lo; tinha a secreta inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de me convencer do grande apre&ccedil;o em que tinha o talento do vi&ccedil;oso<br \/>\n    Floc. Leu: &#8211; &quot;Para mim, a verdadeira Arte &eacute; aquela que consorcia<br \/>\n    o ideal com o real; &eacute; aquela que, n&atilde;o desprezando os elementos<br \/>\n    representativos da realidade, sabe pelo ideal arrebatar as almas aos p&aacute;ramos<br \/>\n    do incognosc&iacute;vel.&quot; Guardou a carteira com a valiosa opini&atilde;o<br \/>\n    e continuou j&aacute; um tanto desembara&ccedil;ado: &#8211; Concordo plenamente<br \/>\n    com ele. Nos Anelos, se o Sr. ler, h&aacute; de ver que sempre procurei n&atilde;o<br \/>\n    me afastar desse ponto de vista&#8230; E acho que deve ser assim real e ideal,<br \/>\n    junto &eacute; verdade, mas este espiritualizando aquele, dominando-o e vencendo-o&#8230;<br \/>\n    Gosto imensamente do Senhor Floc; acho-o um cr&iacute;tico sagaz, ilustrado,<br \/>\n    cujo julgamento sobre os meus versos, eu receberia com especial agrado&#8230;<br \/>\n    O senhor falar&aacute; a ele, n&atilde;o &eacute;? Prometi-lhe e o c&acirc;ndido<br \/>\n    poeta F&eacute;lix da Costa saiu satisfeito, apertando-me a m&atilde;o demoradamente,<br \/>\n    oferecendo-me a casa e os pr&eacute;stimos. Folheei um instante o livro; era<br \/>\n    uma plaquette de cento e tantas p&aacute;ginas, povoadas de sonetos e outras<br \/>\n    poesias soltas. Depositei-o sobre a mesa do Secret&aacute;rio. De antem&atilde;o,<br \/>\n    sabia que Floc n&atilde;o se deteria na sua leitura. Os livros nas reda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&ecirc;m a mais desgra&ccedil;ada sorte se n&atilde;o s&atilde;o recomendados<br \/>\n    e apadrinhados convenientemente. Ao receber-se um, l&ecirc;-se-lhe o t&iacute;tulo<br \/>\n    e o nome do autor. Se &eacute; de autor consagrado e da fac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do jornal, o cr&iacute;tico apressa-se em repetir aquelas frases vagas muito<br \/>\n    bordadas, aqueles elogios em clich&eacute; que nada dizem da obra e dos seus<br \/>\n    intuitos; se &eacute; de outro consagrado mas com antipatias na reda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o clich&eacute; &eacute; outro, elogioso sempre mas n&atilde;o afetuoso nem<br \/>\n    entusi&aacute;stico. H&aacute; casos em que absolutamente n&atilde;o se diz<br \/>\n    uma palavra do livro. Acontecia isso com tr&ecirc;s ou quatro autores. Um<br \/>\n    destes era Raul Gusm&atilde;o, a quem o diretor invejava o talento de escrever;<br \/>\n    al&eacute;m dele, havia um grande poeta, respeitado em todo o Brasil, e um<br \/>\n    outro mo&ccedil;o que se rebelara contra a ditadura do jornal. Com os nomes<br \/>\n    novos n&atilde;o havia hesita&ccedil;&otilde;es; calava-se, ou dava-se uma<br \/>\n    not&iacute;cia an&oacute;dina, &quot;recebemos, etc.&quot;, quando n&atilde;o<br \/>\n    se descompunha.<\/p>\n<p> Aos olhos dos homens da imprensa, publicar um livro &eacute; uma ousadia<br \/>\n    sem limites, uma temeridade e uma pretens&atilde;o inqualific&aacute;veis<br \/>\n    e dignas de castigo.<\/p>\n<p> &#8211; Como &eacute;, disse certa vez Oliveira, que este sujeito publicou um<br \/>\n    livro?&#8230; um desconhecido! Um idiota magro! Um tipo que nunca escreveu coisa<br \/>\n    alguma&#8230;<\/p>\n<p> Ele queria dar a entender como n&atilde;o tendo escrito coisa alguma, o<br \/>\n    fato do rapaz n&atilde;o ter publicado artigos nos jornais ou feito mesmo<br \/>\n    a reportagem dos Tel&eacute;grafos. O pensamento comum dos empregados em jornais<br \/>\n    &eacute; que eles formam o pensamento, e n&atilde;o s&oacute; o formam, mas<br \/>\n    &quot;s&atilde;o a mais alta representa&ccedil;&atilde;o dele&quot;. Fora<br \/>\n    deles, ningu&eacute;m pode ter talento e escrever, e, por pensarem assim,<br \/>\n    hostilizam a todos que n&atilde;o querem aderir &agrave; sua grei, impedem<br \/>\n    com a sua cr&iacute;tica hostil o advento de talentos e obras, a&ccedil;ambarcam<br \/>\n    as livrarias, os teatros, as revista, desacreditando a nossa prov&aacute;vel<br \/>\n    capacidade de fazer alguma coisa digna com as suas obras ligeiras e mercantis.<\/p>\n<p> Os mais h&aacute;beis daqueles que est&atilde;o de fora, por&eacute;m, quando<br \/>\n    premeditam a infame ousadia de publicar, arranjam preliminarmente rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de amizade nos jornais, de modo a obter um bom acolhimento para o seu trabalho.<br \/>\n    Isso acontece com os de pequeno nascimento, com os que v&ecirc;m dos estados;<br \/>\n    mas autor que aqui nasceu, em certa camada, que tenha t&iacute;tulos e empregos,<br \/>\n    pode estar seguro que a cr&iacute;tica an&ocirc;nima dos jornais lhe ser&aacute;<br \/>\n    un&acirc;nime em elogios e anima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&#8217;O Globo, as coisas corriam assim. O secret&aacute;rio recebia o<br \/>\n    volume e dava-o a Floc. Quimera, romance, Ab&iacute;lio Gon&ccedil;alves,<br \/>\n    lia Floc alto; e logo perguntava: &#8211; Quem &eacute; este Ab&iacute;lio Gon&ccedil;alves?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o conheces? &Eacute; o filho do Senador Gon&ccedil;alves, de S.<br \/>\n    Paulo.<\/p>\n<p> Floc olhava outra vez o livro e voltava: &#8211; &Eacute; formado? &#8211; &Eacute;,<br \/>\n    retorquia Leporace; &eacute; engenheiro de minas.<\/p>\n<p> &#8211; Hum! fazia Floc com seguran&ccedil;a, mudando a primitiva antipatia que<br \/>\n    se lia na contra&ccedil;&atilde;o dos l&aacute;bios, para um breve sorrir<br \/>\n    de benevol&ecirc;ncia. No dia consagrado, o folhetim aparecia cheio de bland&iacute;cias,<br \/>\n    de elogios, fosse o livro bom ou mau, fosse o pai senador da oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou do governo. Houve uma ocasi&atilde;o em que Floc, para mais erguer o filhote<br \/>\n    criticado, forjou um elogio de um autor franc&ecirc;s, como tendo sido feito<br \/>\n    a um livro que aparecera h&aacute; duas semanas no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p> Se o nome do autor era obscuro, se as informa&ccedil;&otilde;es colhidas<br \/>\n    lhe n&atilde;o davam de pronto um estado civil decente, Floc adiava a not&iacute;cia<br \/>\n    e esperava que os grandes nomes da cr&iacute;tica se pronunciassem. Se eram<br \/>\n    favor&aacute;veis ao livro, ele repetia os elogios, ampliava as observa&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    se eram desfavor&aacute;veis, o elegante e vi&ccedil;oso cr&iacute;tico dava<br \/>\n    curso &agrave; sua natural hostilidade aos nomes novos que n&atilde;o surgiam<br \/>\n    nos jornais. Havia, por&eacute;m, uma casta de autores, que ele sempre elogiava;<br \/>\n    eram os diplomatas. Um destes senhores publicou certa vez uma compila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de naturalistas e de receitas agr&iacute;colas, com fingimentos de Maeterlinck,<br \/>\n    sobre as frutas nacionais. Floc n&atilde;o se conteve: desandou um folhetim<br \/>\n    inteiro sobre o volume, elogiando a sua virtuosidade art&iacute;stica, o seu<br \/>\n    estilo l&iacute;mpido e sereno, mostrou o pensamento pante&iacute;stico que<br \/>\n    o animava, s&oacute; porque o primeiro-secret&aacute;rio da Lega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Caracas dissera que o mam&atilde;o era terno e resignado.<\/p>\n<p> Dado que o livro tratasse do assunto que ele desconhecesse inteiramente,<br \/>\n    o processo era outro. Ele fazia como o abiss&iacute;nio faz com o boi em que<br \/>\n    viaja montado: tirava-lhe peda&ccedil;os da pr&oacute;pria obra e criticava.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o quis dizer tudo isso ao poeta dos Anelos. Era melhor mant&ecirc;-lo<br \/>\n    na ilus&atilde;o de que pudesse haver alguma independ&ecirc;ncia e espontaneidade<br \/>\n    no julgamento dos jornais; e quando Floc chegou, com o seu grande queixo atirado<br \/>\n    para diante como um ar&iacute;ete e os seus bigodes de azeviche, dei-lhe o<br \/>\n    livro. Depois de manuse&aacute;-lo um instante, falou com azedume: &#8211; Que nome!<br \/>\n    F&eacute;lix da Costa! Parece at&eacute; enjeitado! &Eacute; algum mulatinho?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o. &Eacute; mais branco que o sr. &Eacute; louro e tem olhos azuis.<\/p>\n<p> &#8211; Homem, voc&ecirc; hoje est&aacute; zangado&#8230;<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o compreendia, que eu tamb&eacute;m sentisse e sofresse. E<br \/>\n    arredou o livro para a ponta da mesa e p&ocirc;s-se a escrever. Era a sua<br \/>\n    tortura; era o eu pesadelo. Quase sempre as cr&ocirc;nicas liter&aacute;rias,<br \/>\n    as fantasias, as not&iacute;cias de teatro, as trazia escritas de casa; mas<br \/>\n    o servi&ccedil;o normal, era obrigado a faz&ecirc;-lo na pr&oacute;pria reda&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Preferia ficar s&oacute;, e quando estava, escrevia para adiantar servi&ccedil;o.<br \/>\n    A sua oclus&atilde;o mental n&atilde;o fora capaz de me julgar e ele n&atilde;o<br \/>\n    me supunha bastante atilado para observar a sua dificuldade. Ent&atilde;o,<br \/>\n    mesmo na minha presen&ccedil;a, mordiscava os bigodes, dava suspiros, falava<br \/>\n    alto; mas ao chegar um outro dos colegas, continha-se a contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos superc&iacute;lios e o franzir da testa, denunciavam o desespero e o esfor&ccedil;o.<br \/>\n    Floc n&atilde;o tinha o dom de improvisar o artigo, n&atilde;o possu&iacute;a<br \/>\n    esse talento especial de presteza de pensamento, essa facilidade em vaz&aacute;-lo<br \/>\n    logo no papel, com que se fizeram conhecidos Jos&eacute; do Patroc&iacute;nio<br \/>\n    e Justiniano Jos&eacute; da Rocha. Na reda&ccedil;&atilde;o, havia alguns<br \/>\n    que escreviam com facilidade e rapidez, mas sem brilho nem relevo. Meneses<br \/>\n    era quem tinha mais destaque, quem mais for&ccedil;a possu&iacute;a no dizer,<br \/>\n    mas a sua pessoa resistia muito, n&atilde;o se queria transmitir ao artigo,<br \/>\n    temia, e por isso ele perdia muito.<\/p>\n<p> Quem tivesse perfeitamente o dom de inventar, de arquitetar instantaneamente<br \/>\n    o artigo e escrev&ecirc;-lo com sabor liter&aacute;rio, brilhante, vigoroso,<br \/>\n    org&acirc;nico, n&atilde;o havia. Losque, muito mais fraco do que Meneses,<br \/>\n    fingia-se de posse desse dom sagrado. Faltava-lhe novidade, inven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    for&ccedil;a no dizer; tinha uns certos per&iacute;odos, um constante arranjo<br \/>\n    de frases que ele adaptava ao assunto do momento, com as variantes necess&aacute;rias.<br \/>\n    Michaelowsky escrevia rapidamente, desenvolvia o artigo com muita for&ccedil;a<br \/>\n    e paix&atilde;o, mas era tumultu&aacute;rio at&eacute; ao emaranhado e a falta<br \/>\n    de sentimento da l&iacute;ngua n&atilde;o lhe dava uma arquitetura aos per&iacute;odos.<br \/>\n    A m&uacute;sica do idioma fazia-lhe falta, completamente. No mais, todos escreviam<br \/>\n    com acanhamento, sem naturalidade; as palavras fugiam-lhe no momento de escrever.<br \/>\n    Isso que num temperamento liter&aacute;rio pode transform&aacute;-lo em grande<br \/>\n    escritor, num jornalista a nada leva. Ali&aacute;s, nenhum deles tinha o sentimento<br \/>\n    do seu defeito. Floc unicamente, com certeza devido aos seus grandes desejos<br \/>\n    liter&aacute;rios e art&iacute;sticos, sentia bem essa inferioridade e sofria<br \/>\n    com ela. N&atilde;o procurava corrigir-se, adquirir a plasticidade necess&aacute;ria;<br \/>\n    o of&iacute;cio n&atilde;o permitia e fora dele n&atilde;o tentava nada, com<br \/>\n    medo do desastre e do insucesso, embora na tentativa muito pudesse ganhar<br \/>\n    a sua vontade e o escritor que houvesse nele. Sofria&#8230;<\/p>\n<p> Nos dias seguintes &agrave;s festas de luxo, quando era encarregado dos<br \/>\n    comptes-rendus, era de ver o seu azedume contra o Raul Gusm&atilde;o, que<br \/>\n    os fazia tamb&eacute;m para o Despacho. Em geral sa&iacute;am antes dos seus,<br \/>\n    &agrave; tarde, de modo que ele chegava &agrave; reda&ccedil;&atilde;o notando-lhe<br \/>\n    as inven&ccedil;&otilde;es e os exageros. Sempre, por&eacute;m, senti na sua<br \/>\n    cr&iacute;tica a impot&ecirc;ncia e o despeito de n&atilde;o ver citada pelas<br \/>\n    senhoras conhecidas uma imagem mais faiscante, como faziam com as do rival.<br \/>\n    Entretanto eram amigos e elogiavam-se sempre que podiam.<\/p>\n<p> Floc, naquele momento, recebera uma aragem de inspira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Escrevia com desembara&ccedil;o, quando Losque entrou. O rec&eacute;m-vindo<br \/>\n    descansou o ma&ccedil;o de jornais que sempre trazia, limpou o pince-nez,<br \/>\n    acendeu o cigarro de palha e perguntou camaradariamente: &#8211; Que escreves? &#8211;<br \/>\n    A not&iacute;cia do baile do Pal&aacute;cio&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E o Rolim? &#8211; &Eacute; a &quot;cabe&ccedil;a&quot;&#8230; Tu bem sabes que<br \/>\n    o Rolim n&atilde;o escreve nada que preste&#8230;<\/p>\n<p> Este Rolim era o rep&oacute;rter do pal&aacute;cio. Tinha mais de quarenta<br \/>\n    anos, uns grandes p&eacute;s espalmados e o queixo erguido para o alto quase<br \/>\n    a bater nos bigodes fartos e negros. Tinha-se na conta de elegante, de fino<br \/>\n    e descendente de um vice-rei do Brasil, o seu of&iacute;cio no jornal era<br \/>\n    ir diariamente ao pal&aacute;cio presidencial, tomar nota dos nomes dos visitantes,<br \/>\n    ou, em ocasi&otilde;es excepcionais, representar o jornal nas festas do bom-tom,<br \/>\n    em que a distin&ccedil;&atilde;o de maneiras fosse exigida e um ar sedutor<br \/>\n    n&atilde;o ficasse mal. De volta, trazia os nomes dos circunstantes, a hora<br \/>\n    certa em que come&ccedil;aram as dan&ccedil;as, procurava a not&iacute;cia<br \/>\n    anterior e mutatis-mutandis a copiava.<\/p>\n<p> &#8211; Este Rolim!&#8230; &Eacute; jornalista para uso externo, disse Losque acrescentando<br \/>\n    em seguida: Voc&ecirc; leu o Jornal do Com&eacute;rcio? &#8211; N&atilde;o. Por<br \/>\n    qu&ecirc;? &#8211; O Teixeira Mendes ataca a lei dos sapatos obrigat&oacute;rios.<br \/>\n    Diz que isso de andar cal&ccedil;ado, de corre&ccedil;&atilde;o de traje,<br \/>\n    em &uacute;ltima an&aacute;lise, entra no campo da est&eacute;tica, assim<br \/>\n    no espiritual em que n&atilde;o pode o poder temporal intervir absolutamente&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o &eacute; com o Papa? Os dois sorriram e Floc refletiu vagarosamente:<br \/>\n    &#8211; Eu creio que as coisas v&atilde;o mal. H&aacute; muita irrita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    muito azedume por a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu penso tamb&eacute;m que isso n&atilde;o acaba bem. Hoje quando vinha<br \/>\n    de bonde, vi coment&aacute;rios ao artigo do Ricardo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Estava bom. N&atilde;o achaste? &#8211; Achei, fez o outro com seguran&ccedil;a.<br \/>\n    Ele atacou bem a quest&atilde;o; podia ir mesmo pelo higi&ecirc;nico&#8230;<\/p>\n<p> Entrava no momento Leiva, que fazia pol&iacute;cia e &quot;Vida Oper&aacute;ria&quot;.<br \/>\n    Sentindo que se falava na quest&atilde;o dos sapatos, interveio na palestra:<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc;s n&atilde;o imaginam&#8230; As coisas est&atilde;o feias! Estive<br \/>\n    na Gamboa e na Sa&uacute;de&#8230; Os estivadores dizem que n&atilde;o se cal&ccedil;am<br \/>\n    nem a ponta de espada. N&atilde;o falam noutra coisa. Vi um carroceiro dizer<br \/>\n    para outro que lhe ia na frente guiando pachorrentamente: Ol&aacute;, h&eacute;!<br \/>\n    Est&aacute;s bom para andares cal&ccedil;ado que nem um doutor! Por a&iacute;<br \/>\n    voc&ecirc;s avaliam&#8230; Creio que h&aacute; &quot;tumbabumba&quot;! &#8211; Agora,<br \/>\n    aqui para n&oacute;s, aduzia Floc, a coisa &eacute; necess&aacute;ria&#8230; Causa<br \/>\n    m&aacute; impress&atilde;o ver essa gente descal&ccedil;a&#8230; Isso s&oacute;<br \/>\n    nos pa&iacute;ses atrasados! Eu nunca vi isso na Europa&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora, deixa-te disso, Floc, observou Michaelowsky que entrara. No Norte,<br \/>\n    &eacute; justo, o clima, o gelo; mas no Sul, em N&aacute;poles, na Gr&eacute;cia,<br \/>\n    v&ecirc;-se muito&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Isso n&atilde;o &eacute; Europa.<\/p>\n<p> &#8211; Engra&ccedil;ado! Com que liberdade modificas a geografia&#8230; E em Londres?<br \/>\n    &#8211; Que tem Londres? &#8211; Que tem! N&atilde;o h&aacute; cidade do mundo em que<br \/>\n    a multid&atilde;o seja mais andrajosa, mais repugnante&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Andam de casaco e sapatos! gritou triunfantemente Floc.<\/p>\n<p> &#8211; Que casaco! Que sapatos! Naturalmente que h&atilde;o de procurar coberturas<br \/>\n    para o frio, mas onde v&atilde;o busc&aacute;-las? Ao lixo e &eacute; um disparate!<br \/>\n    Se queres uma multid&atilde;o catita, arranja meios de serem todos remediados.<br \/>\n    Voc&ecirc;s querem fazer disto uma Paris em que se viva sem gastar a import&acirc;ncia<br \/>\n    da passagem, ao mesmo tempo ganhando dinheiro, e esquecem de que o deserto<br \/>\n    cerca a cidade, n&atilde;o h&aacute; lavoura, n&atilde;o h&aacute; trabalho<br \/>\n    enfim&#8230;<\/p>\n<p> Quase todos previam um motim; julgavam-no certo pelas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tinham feito.<\/p>\n<p> O dr. Ricardo entrou seguido de Aires d&#8217;&Aacute;vila. O diretor vinha<br \/>\n    satisfeito. Cumprimentou sorrindo e foi ao gabinete escrever. Aires d&#8217;&Aacute;vila<br \/>\n    fez algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre o projeto e perguntou ao Floc<br \/>\n    por uma cantora nova. Loberant, por esse tempo, gritou: &#8211; Isa&iacute;as, vem<br \/>\n    c&aacute;! Leva-me esta carta ao senador F. Olha, recomendou-me ao sair, entrega<br \/>\n    em m&atilde;o dele, est&aacute;s ouvindo? No momento em que come&ccedil;ava<br \/>\n    a descer a escada ouvi que dizia alto: &#8211; Esses f&#8230; h&atilde;o de ver se valho<br \/>\n    ou n&atilde;o valho alguma coisa! S&uacute;cia! Embaixo o gerente, em colete,<br \/>\n    sentado diante da grande mesa, contava harpagonescamente uma chusma de n&iacute;queis<br \/>\n    que ia dividindo em colunas, alinhando-as depois para o lado esquerdo &agrave;<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o que contava.<\/p>\n<p> O m&ecirc;s de maio tinha come&ccedil;ado naquele ano com particular do&ccedil;ura.<br \/>\n    Eu que j&aacute; tinha mais de dois anos de Rio de Janeiro, nunca o vi t&atilde;o<br \/>\n    formoso, t&atilde;o primaveril e nunca assisti a manh&atilde;s t&atilde;o<br \/>\n    lindas e azuis. Fazia uma temperatura carinhosa e eu olhava as nuvens, as<br \/>\n    montanhas e as &aacute;rvores sob uma luz aveludada. A terra era todo um estojo<br \/>\n    macio e t&eacute;pido, feita especialmente para o viver do nosso corpo. Os<br \/>\n    boatos da reda&ccedil;&atilde;o e a tempestade que eu mesmo sentia preparar-se,<br \/>\n    em nada diminu&iacute;am a minha sensa&ccedil;&atilde;o de bem-estar f&iacute;sico.<br \/>\n    Aquele come&ccedil;o de m&ecirc;s foi para mim de grande sossego e de muito<br \/>\n    ego&iacute;smo. Embora minha m&atilde;e tivesse afinal morrido havia dois<br \/>\n    meses, eu n&atilde;o tinha sentido sen&atilde;o uma leve e ligeira dor. Depois<br \/>\n    de empregado no jornal, pouco lhe escrevi. Sabia-a muito doente, arrastando<br \/>\n    a vida com esfor&ccedil;o. N&atilde;o me preocupava&#8230; Os ditos do Floc, as<br \/>\n    pilh&eacute;rias de Losque, as senten&ccedil;as do jovem Deodoro Ramalho,<br \/>\n    tinham feito chegar a mim uma esp&eacute;cie de vergonha pelo meu nascimento,<br \/>\n    e esse vexame n&atilde;o me veio diminuir em muito a amizade e a ternura com<br \/>\n    que sempre envolvi a sua lembran&ccedil;a. Sentia-me separado dela. Enquanto<br \/>\n    a julgava a esp&eacute;cie de besta de carga e m&aacute;quina de gracejos<br \/>\n    com aqueles idiotas a abrangiam no seu pensamento genu&iacute;no eu, seu filho,<br \/>\n    julgava-me a meus pr&oacute;prios olhos muito diverso dela, sa&iacute;do de<br \/>\n    outra estirpe, de outro sangue e de outra carne. Ainda n&atilde;o tinha coordenado<br \/>\n    todos os elementos que mais tarde vieram encher-me de profundo desgosto e<br \/>\n    a minha intelig&ecirc;ncia e a minha sensibilidade n&atilde;o tinham ainda<br \/>\n    organizado bem e disposto convenientemente o grande stock de observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e de emo&ccedil;&otilde;es que eu vinha fazendo e sentindo dia a dia. Vinham<br \/>\n    uma a uma, invadindo-me a personalidade insidiosamente para saturar-me mais<br \/>\n    tarde at&eacute; ao aborrecimento e ao desgosto de viver. Vivia, ent&atilde;o,<br \/>\n    satisfeito, gozando a temperatura, com almo&ccedil;o e jantar, ignobilmente<br \/>\n    esquecido do que sonhara e desejara. Houve mesmo um dia em que quis avaliar<br \/>\n    ainda o que sabia. Tentei repetir a lista dos C&eacute;sares &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    sabia; quis resolver um problema de regra de tr&ecirc;s composta, n&atilde;o<br \/>\n    sabia; tentei escrever a f&oacute;rmula da &aacute;rea da esfera, n&atilde;o<br \/>\n    sabia. E notei essa ru&iacute;na dos meus primeiros estudos cheio de indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    sem desgosto, lembrando-me daquilo tudo como impress&otilde;es de uma festa<br \/>\n    a que fora e a que n&atilde;o devia voltar mais. Nada me afastava da del&iacute;cia<br \/>\n    de almo&ccedil;ar e jantar por sessenta mil-r&eacute;is mensais.<\/p>\n<p> A irrita&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito popular que eu tinha observado<br \/>\n    na minha pr&oacute;pria casa n&atilde;o me fez pensar nem temer. Julguei-a<br \/>\n    especial &agrave;queles a quem tocavam e nunca que aquelas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ing&ecirc;nuas se tivessem transformado em grito de guerra, em amuleto excitador<br \/>\n    para a multid&atilde;o toda. Mais tarde, entretanto, verifiquei que a cren&ccedil;a<br \/>\n    de que o Governo pretendia operar violentamente os homens e mulheres de p&eacute;s<br \/>\n    grandes, como os Chinas, &eacute; que tinha impressionado fortemente os esp&iacute;ritos<br \/>\n    levando-os ao sangrento motim que estalou.<\/p>\n<p> Tinha-me recolhido cedo, depois de ter ido ao clube buscar provas ao Aires<br \/>\n    d&#8217;&Aacute;vila. Era h&aacute;bito seu ir pelas cinco horas ao clube<br \/>\n    arriscar alguma coisa antes de jantar e quanto pretendia demorar-se levava<br \/>\n    as provas, indo eu ou o outro cont&iacute;nuo busc&aacute;-las j&aacute; revistas.<br \/>\n    Em certas ocasi&otilde;es, quando pelo correr do dia, n&atilde;o tinha tempo<br \/>\n    de escrever, era t&atilde;o forte o seu h&aacute;bito que, dada a hora, corria<br \/>\n    ao clube e voltava de l&aacute; &agrave;s dez ou onze horas para escrever<br \/>\n    o artigo. Noites havia que o sono e a fadiga eram t&atilde;o fortes que, entre<br \/>\n    uma tira e outra, o gordo e pesado jornalista cochilava e dormia at&eacute;.<br \/>\n    Ent&atilde;o, com a precisa delicadeza, qualquer pessoa da reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acordava-o e Aires continuava a escrever o artigo sem mesmo reler as tiras<br \/>\n    anteriores. Alguns dias, o sono obrigava-o a interromper o artigo mais de<br \/>\n    uma vez.<\/p>\n<p> Recolhi-me cedo nessa noite e dormi profundamente durante toda ela. N&atilde;o<br \/>\n    vi a destrui&ccedil;&atilde;o dos combustores de ilumina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que os populares tinham levado a efeito. S&oacute; a notei de manh&atilde;,<br \/>\n    j&aacute; pelas oito horas, descendo a ladeira. Na rua, o tr&acirc;nsito era<br \/>\n    raro e o tr&aacute;fego dos bondes parecia ter cessado completamente. Nas<br \/>\n    esquinas, havia patrulhas de infantaria e cavalaria e, de dist&acirc;ncia<br \/>\n    em dist&acirc;ncia, &agrave; porta de estalagens, afastados da pol&iacute;cia,<br \/>\n    havia grupos compactos de populares. Um bonde aproximou-se, e embora cheio,<br \/>\n    dependurei-me com dificuldade num dos bala&uacute;stres. A fisionomia das<br \/>\n    ruas era de expectativa. As patrulhas subiam e desciam; nas janelas havia<br \/>\n    muita gente espiando e esperando qualquer coisa. T&iacute;nhamos deixado a<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o do Mangue, quando de todos os lados, das esquinas, das<br \/>\n    portas e do pr&oacute;prio bonde partiram gritos: Vira! Vira! Salta! Salta!<br \/>\n    Queima! Queima! O cocheiro parou. Os passageiros saltaram. Num momento o bonde<br \/>\n    estava cercado por um grande magote de populares &agrave; frente do qual se<br \/>\n    movia um bando multicor de moleques, esp&eacute;cie de poeira humana que os<br \/>\n    motins levantam alto e d&atilde;o heroicidade. Num &aacute;pice, o ve&iacute;culo<br \/>\n    foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu. Continuei a p&eacute;.<br \/>\n    Pelo caminho a mesma atmosfera de terror e expectativa. Uma for&ccedil;a de<br \/>\n    cavalaria de pol&iacute;cia, de sabre desembainhado, corria em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao bonde incendiado. Logo que ela se afastou um pouco, de um grupo partiu<br \/>\n    uma tremenda assuada. Os assobios eram estridentes e longos; havia muito da<br \/>\n    for&ccedil;a e da fraqueza do populacho naquela ing&ecirc;nua arma. E por<br \/>\n    todo caminho, o cen&aacute;rio se repetia.<\/p>\n<p> Uma for&ccedil;a passava, era vaiada; se carregava sobre o povo, este dispersava-se,<br \/>\n    fragmentava-se, pulverizava-se, ficando um ou outro a receber lambadas num<br \/>\n    canto ou num portal fechado. O Largo de S. Francisco era mesmo uma pra&ccedil;a<br \/>\n    de guerra. Por detr&aacute;s da Escola Polit&eacute;cnica, havia uma for&ccedil;a<br \/>\n    e os toques da ordenan&ccedil;a sucediam-se conforme as regras e preceitos<br \/>\n    militares. Parei. Um oficial a cavalo percorria a pra&ccedil;a, intimando<br \/>\n    o povo a retirar-se. Obedeci e, antes de entrar na rua do Ouvidor, a cavalaria,<br \/>\n    com os grandes sabres reluzindo ao sol, varria o largo com est&uacute;pido.<br \/>\n    Os curiosos encostavam-se &agrave;s portas das casas fechadas, mas a&iacute;<br \/>\n    mesmo os soldados iam surr&aacute;-los com vontade e sem pena. Era o motim.<\/p>\n<p> As vocifera&ccedil;&otilde;es da minha gazeta tinham produzido o necess&aacute;rio<br \/>\n    resultado. Aquele repetir di&aacute;rio em longos artigos solenes de que o<br \/>\n    governo era desonesto e desejava oprimir o povo, que aquele projeto visava<br \/>\n    enriquecer um sindicato de fabricantes de cal&ccedil;ado, que atentava contra<br \/>\n    a liberdade individual, que se devia correr a chicote tais administradores,<br \/>\n    tinha-se encrostado nos esp&iacute;ritos e a irrita&ccedil;&atilde;o alastrava<br \/>\n    com a viol&ecirc;ncia de uma epidemia.<\/p>\n<p> Durante tr&ecirc;s dias a agita&ccedil;&atilde;o manteve-se. Ilumina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase n&atilde;o havia. Na rua do Ouvidor armavam-se barricadas, cobria-se<br \/>\n    o pavimento de rolhas para impedir as cargas de cavalaria. As for&ccedil;as<br \/>\n    eram recebidas a bala e respondiam. Pl&iacute;nio Gravata, com quem h&aacute;<br \/>\n    muito n&atilde;o me encontrava, veio a morrer num desses combates. Da sacada<br \/>\n    do jornal, eu pude ver os amotinados. Havia a poeira de garotos e moleques;<br \/>\n    havia o vagabundo, o desordeiro profissional, o pequeno burgu&ecirc;s, empregado,<br \/>\n    caixeiro e estudante; havia emiss&aacute;rios de pol&iacute;ticos descontentes.<br \/>\n    Todos se misturavam, ajuntavam as balas, unidos pela mesma irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e pelo mesmo &oacute;dio &agrave; pol&iacute;cia, onde uns viam o seu inimigo<br \/>\n    natural e outros o Estado, que n&atilde;o dava a felicidade, a riqueza e a<br \/>\n    pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> O motim n&atilde;o tem fisionomia, n&atilde;o tem forma, &eacute; improvisado.<br \/>\n    Propaga-se, espalha-se, mas n&atilde;o se liga. O grupo que opera aqui n&atilde;o<br \/>\n    tem liga&ccedil;&atilde;o alguma com o que tiroteia acol&aacute;. Agora independentes;<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; um chefe geral nem um plano estabelecido. Numa esquina,<br \/>\n    numa travessa, forma-se um grupo, seis, dez, vinte pessoas diferentes, de<br \/>\n    profiss&atilde;o, intelig&ecirc;ncia, e moralidade. Come&ccedil;a-se a discutir,<br \/>\n    ataca-se o governo; passa o bonde e algu&eacute;m lembra: vamos queim&aacute;-lo.<br \/>\n    Os outros n&atilde;o refletem, nada objetam e correm a incendiar o bonde.<\/p>\n<p> O apagamento moment&acirc;neo da honestidade e a revolta contra pessoas<br \/>\n    inacess&iacute;veis levam os melhores a esses atentados brutais contra a propriedade<br \/>\n    particular e p&uacute;blica. Concorre tamb&eacute;m muito a nossa perversidade<br \/>\n    natural, o nosso desejo de destruir que, adormecido no fundo de n&oacute;s<br \/>\n    mesmos, surge nesses momentos, quando a lei esqueceu e a opini&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    nos vigia.<\/p>\n<p> No jornal exultava-se. As vit&oacute;rias do povo tinham hinos de vit&oacute;rias<br \/>\n    da p&aacute;tria. Exagerava-se, mentia-se, para se exaltar a popula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Em tal lugar, a pol&iacute;cia foi repelida; em tal outro, recusou-se a atirar<br \/>\n    sobre o povo. Eu n&atilde;o fui para casa, dormi pelos cantos da reda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e assisti &agrave; tiragem do jornal: tinha aumentado cinco mil exemplares.<br \/>\n    Parecia que a multid&atilde;o o procurava como estimulante para a sua atitude<br \/>\n    belicosa. O servi&ccedil;o normal da folha fazia-se com atividade. Os rep&oacute;rteres<br \/>\n    iam aos lugares perigosos, aos pontos mais castigados pela pol&iacute;cia,<br \/>\n    corriam a cidade em t&iacute;lburis. Nem os revisores nem os seus suplentes<br \/>\n    faltavam &agrave; chamada; outro tanto sucedia com os tip&oacute;grafos e<br \/>\n    os outros oper&aacute;rios.<\/p>\n<p> Toda essa abnega&ccedil;&atilde;o era para garantir os seus mesquinhos empregos.<br \/>\n    Um pobre tip&oacute;grafo, que morava para a Sa&uacute;de, onde o tr&acirc;nsito<br \/>\n    se fazia com os maiores perigos, ficou todos os tr&ecirc;s dias no jornal.<br \/>\n    Temia ser morto por uma bala perdida. Houvera muitas mortes assim, mas os<br \/>\n    jornais n&atilde;o as noticiavam. Todos eles procuravam lisonjear a multid&atilde;o,<br \/>\n    mant&ecirc;-la naquelas refregas sangrentas, que lhes aumentava a venda. N&atilde;o<br \/>\n    queriam abater a coragem do povo com a imagem aterradora da morte. A pol&iacute;cia<br \/>\n    atirava e n&atilde;o matava; os populares atiravam e n&atilde;o matavam. Parecia<br \/>\n    um torneio&#8230; Entretanto eu vi morrer quase em frente ao jornal um popular.<br \/>\n    Era de tarde. O pequeno italiano, na esquina, apregoava os jornais da tarde:<br \/>\n    Not&iacute;cia! Tribuna! Despacho! De h&aacute; muito que a rua parecia retomar<br \/>\n    a sua vida normal. Durante todo o dia os passeios se fizeram como nos dias<br \/>\n    comuns; repentinamente, por&eacute;m, uns grupos que paravam no canto do largo<br \/>\n    de S. Francisco, vaiaram a pol&iacute;cia. O esquadr&atilde;o, com o Alferes<br \/>\n    na frente, partiu como uma flecha e foi descendo a rua do Ouvidor, distribuindo<br \/>\n    cutiladas para todos os lados. O pequeno vendedor de jornais n&atilde;o teve<br \/>\n    tempo de fugir e foi derrubado pelos primeiros cavalos e envolvido nas patas<br \/>\n    dos seguintes, que o atiraram de um lado para o outro como se fosse um bocado<br \/>\n    de lama.<\/p>\n<p> Quando suspenderam a carga, alguns populares trouxeram-no morto para o escrit&oacute;rio<br \/>\n    do jornal. O cad&aacute;ver estava num estado ign&oacute;bil: tinha quase<br \/>\n    todos os ossos partidos, o cr&acirc;nio esmagado e o ventre roto. Recordei-me<br \/>\n    ent&atilde;o daquelas palavras de Loberant: &#8211; Esses f&#8230; h&atilde;o de ver<br \/>\n    se valho ou n&atilde;o valho alguma coisa! S&uacute;cia! <\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">XIII<\/a><\/h4>\n<p>O homem que acaba de morrer, n&atilde;o era um homem vulgar. No dom&iacute;nio<br \/>\n    de sua dif&iacute;cil arte, era uma notabilidade respeitada. Para n&oacute;s,<br \/>\n    era muito mais: era um amigo, um dedicado e leal amigo a quem muito dev&iacute;amos<br \/>\n    e prez&aacute;vamos. Todos os que mourejam nesta tenda de trabalho, certamente<br \/>\n    n&atilde;o h&atilde;o de esquec&ecirc;-lo e n&atilde;o h&aacute; nenhum que<br \/>\n    n&atilde;o tenha recebido um favor, uma alegria, uma satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de suas m&atilde;os.<\/p>\n<p> O p&uacute;blico que nos l&ecirc;, n&atilde;o sabe o quanto esta vida de<br \/>\n    jornalista &eacute; esgotante e ingrata; n&atilde;o sabe que soma de energia<br \/>\n    ela exige e como nos tira os melhores momentos de &oacute;cio e os melhores<br \/>\n    minutos de prazer. Vivemos por assim dizer para os outros; e quem vive para<br \/>\n    os outros, &eacute; claro que muito pouco pode viver para si.<\/p>\n<p> Charles de Foustangel atravessava a nossa vida como um anjo protetor; dele,<br \/>\n    tir&aacute;vamos alguns raros instantes de alegria no meio das agruras que<br \/>\n    nos cercam. Era de ver como ele sabia desenvolver um menu, como imaginava<br \/>\n    um &#8216;quitute&#8217; in&eacute;dito, um prato saboroso, que verve especial<br \/>\n    punha nos nomes com que os batizava e que raros gozos eles traziam aos nossos<br \/>\n    paladares fatigados por esses hot&eacute;is detest&aacute;veis que nos impingem<br \/>\n    solas dur&iacute;ssimas por bifes de grelha. Quantas ocasi&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    fomos n&oacute;s de mau humor para a mesa de jantar, enervados, sem vontade<br \/>\n    de trabalhar, com a encomenda do artigo, da reportagem, da cr&ocirc;nica para<br \/>\n    o dia seguinte e sem coragem para faz&ecirc;-los, e nos levant&aacute;vamos,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; brandura do seu tempero e &agrave; eurritmia dos seus<br \/>\n    molhos, satisfeitos, solertes, cheios de novas energias! A sua morte &eacute;<br \/>\n    uma grande desgra&ccedil;a que nos acabrunha; e, desde que esta folha existe,<br \/>\n    &eacute; o primeiro que a maldita Parca leva. Muitos, &eacute; verdade, j&aacute;<br \/>\n    se foram; mas n&atilde;o os levou a Parca. S&atilde;o felizes? S&atilde;o<br \/>\n    infelizes? Eles l&aacute; saber&atilde;o&#8230; Este ficou no seu posto at&eacute;<br \/>\n    &agrave; &uacute;ltima hora, e ainda nas v&eacute;speras de morrer, quando<br \/>\n    a arrua&ccedil;a fazia cessar todo o movimento, deu num s&oacute; dia quatro<br \/>\n    mesas fartas ao pessoal deste jornal.<\/p>\n<p> Era um her&oacute;i, um her&oacute;i como o nosso tempo sabe compreender,<br \/>\n    isto &eacute;, um homem que p&otilde;e tudo o que h&aacute; em si de for&ccedil;a,<br \/>\n    de coragem, de intelig&ecirc;ncia e de dedica&ccedil;&atilde;o para um dado<br \/>\n    e &uacute;nico fim &uacute;til aos seus semelhantes.<\/p>\n<p> Nada lhe faltava de grande. O car&aacute;ter, a intelig&ecirc;ncia e o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nele, chegavam, &agrave; mesma altura e agiam de concerto. Falava tr&ecirc;s<br \/>\n    l&iacute;nguas: portugu&ecirc;s, ingl&ecirc;s e franc&ecirc;s. Nascido em<br \/>\n    Arcis-sur-Aube, p&aacute;tria de Danton, em 1864, e oriundo de uma fam&iacute;lia<br \/>\n    nobre, em breve emigrou para a Inglaterra, onde abra&ccedil;ou a profiss&atilde;o<br \/>\n    em que morreu. Da&iacute; depois de exerc&ecirc;-la com paix&atilde;o, veio<br \/>\n    para o Brasil esse excelente representante da grande ra&ccedil;a de Vatel.<br \/>\n    Era de um grande orgulho e conta-se que n&atilde;o entrou para o c&eacute;lebre<br \/>\n    Savoy de Londres porque n&atilde;o tinham permitido que assinasse o menu.<br \/>\n    Saudades.&quot; Um pouco abaixo do retrato, seguia-se esse artigo de Losque<br \/>\n    e o jornal vinha tarjado em sinal de luto. Tratava-se do cozinheiro particular<br \/>\n    do Diretor, mas a est&eacute;tica do necrol&oacute;gio pedia que se fizesse<br \/>\n    um auxiliar do jornal. A morte desse servi&ccedil;al obscuro da domesticidade<br \/>\n    do Diretor, veio trazer-lhe os maiores testemunhos da sua vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Todos os jornais se referiram ao inditoso Charles de Foustangel e alguns<br \/>\n    abriram subscri&ccedil;&otilde;es para socorrer a fam&iacute;lia do cozinheiro.<br \/>\n    Fora do conv&iacute;vio jornal&iacute;stico, as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pesar n&atilde;o foram menores: o Centro dos Estudantes passou um telegrama<br \/>\n    de p&ecirc;sames ao Presidente da Rep&uacute;blica Francesa e ao cortejo do<br \/>\n    enterro concorreram mais de cinq&uuml;enta carros, levando perto de uma centena<br \/>\n    de pessoas, entre as quais altas patentes do ex&eacute;rcito e marinha, diretores<br \/>\n    de reparti&ccedil;&otilde;es, homens da bolsa, literatos aclamados, revolucion&aacute;rios<br \/>\n    temidos e um Capit&atilde;o do Estado-Maior, representando o Presidente da<br \/>\n    Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p> A viscondessa de Varennes n&atilde;o faltou. Passou por mim, no carro, a<br \/>\n    olhar um lado e outro com os seus grandes olhos de Juno, as olheiras viol&aacute;ceas,<br \/>\n    mordiscando os l&aacute;bios muito pintados, abanando-se com o seu grande<br \/>\n    leque rococ&oacute; e toda envolvida num pesado vestido de gorgor&atilde;o.<\/p>\n<p> Antes de embarcar, Floc foi at&eacute; o trem e ela despediu-se dele, estendendo<br \/>\n    a m&atilde;o pela portinhola do coup&eacute;, com metade do rosto a aparecer,<br \/>\n    sorrindo, muito graciosa, muito lenta, numa atitude de fidalga do s&eacute;culo<br \/>\n    XVIII. E o negro cortejo desfilou pela rua como um triunfo sui generis para<br \/>\n    a vit&oacute;ria do Diretor. Na frente, ia o coche f&uacute;nebre, sarapintado<br \/>\n    de dourados, crivado de grinaldas com flores roxas e brancas de pano e as<br \/>\n    fitas votivas cheias de inscri&ccedil;&otilde;es a esvoa&ccedil;ar lentamente<br \/>\n    como se fossem todos os adeuses que o morto quisesse dar naquele momento,<br \/>\n    &agrave;s coisas e &agrave;s pessoas. Seguiam-se-lhe as cale&ccedil;as, as<br \/>\n    vit&oacute;rias e coup&eacute;s, transportando a alta administra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    civil e militar, as finan&ccedil;as, as letras e a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    profissional, em tocante homenagem ao grande homem que era o cozinheiro do<br \/>\n    dr. Ricardo Loberant, diretor-propriet&aacute;rio d&#8217;O Globo.<\/p>\n<p> O motim obrigara o Presidente a demitir a maioria dos Ministros, isto &eacute;,<br \/>\n    os Ministros atacados pelo O Globo; o prefeito e o chefe de pol&iacute;cia<br \/>\n    tamb&eacute;m sa&iacute;ram. A lei dos sapatos foi para as cole&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    legislativas e o empr&eacute;stimo ficou prometido ao Rodrigues. O di&aacute;rio<br \/>\n    de Loberant ficou sendo quase a s&eacute;tima Secretaria do Estado. As nomea&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sa&iacute;am de l&aacute; e as demiss&otilde;es tamb&eacute;m. Bastava um<br \/>\n    aceno seu para um chefe ser dispensado, e bastava qualquer dos seus empregados<br \/>\n    abrir a boca para obter os mais rendosos lugares. Leporace foi nomeado Diretor<br \/>\n    das antig&uuml;idades eg&iacute;pcias do Museu Nacional; e Rolim, o Rolim<br \/>\n    dos grandes p&eacute;s, subdiretor da Reparti&ccedil;&atilde;o Cartogr&aacute;fica<br \/>\n    da Rep&uacute;blica. Leiva fora modesto: pediu e obtivera o lugar de quarto<br \/>\n    escritur&aacute;rio do Tribunal de Contas, independente de concurso. Os empregos<br \/>\n    foram assim satisfazendo a natural voracidade dos auxiliares de Loberant.<br \/>\n    Todos eles viviam agora calmos, sorridentes, satisfeitos, convencidos de que<br \/>\n    tinham moralizado a Rep&uacute;blica. Tudo ia bem e a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fazia-se com a moralidade e a limpeza de uma pequena casa burguesa. Tinham-se<br \/>\n    cinq&uuml;enta mil-r&eacute;is, comprava-se; n&atilde;o se tinha, diminu&iacute;a-se<br \/>\n    a conta do armaz&eacute;m. O jornal passou do mais formal pessimismo ao otimismo<br \/>\n    mais idiota. O pr&oacute;prio Loberant perdera a &quot;atrab&iacute;lis&quot;,<br \/>\n    fumava com mais calma, sorria com afabilidade e dispunha de empenhos. Era<br \/>\n    um gosto v&ecirc;-lo dando audi&ecirc;ncia aos necessitados de empregos. Apareciam<br \/>\n    diariamente aos vinte. A uns, atendia; a outros respondia com gravidade ministerial:<br \/>\n    venha amanh&atilde;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII Lima Barreto A Benedito de Souza meu compadre e meu amigo BREVE NOT&Iacute;CIA &quot;Mon coeur profond ressemble &agrave; ces vo&uacute;tes d&#8217;&eacute;glise O&ugrave; le moindre bruit s&#8217;enfle en une immense voix.&quot; (Vers d&#8217;un philosophe. 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