{"id":108641,"date":"2017-02-13T20:30:00","date_gmt":"2017-02-13T22:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108641"},"modified":"2017-04-28T17:35:12","modified_gmt":"2017-04-28T19:35:12","slug":"o-subterraneo-do-morro-do-castelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-subterraneo-do-morro-do-castelo","title":{"rendered":"O Subterr\u00e2neo do Morro do Castelo"},"content":{"rendered":"<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p><strong>Sexta-feira, 28 de abril de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabulosas riquezas &#8211; Outros Subterr\u00e2neos<\/strong><\/p>\n<p>Os leitores h\u00e3o de estar lembrados de que, h\u00e1 tempos, publicamos<br \/>\numa interessante s\u00e9rie de artigos da lavra do nosso colaborador L\u00e9o<br \/>\nJunius, subordinados ao t\u00edtulo Os Subterr\u00e2neos do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Neles vinham descritas conscienciosamente e com o carinho que sempre o autor<br \/>\ndedicou aos assuntos arqueol\u00f3gicos as galerias subterr\u00e2neas,<br \/>\nconstru\u00eddas h\u00e1 mais de dois s\u00e9culos pelos padres jesu\u00edtas,<br \/>\ncom o fim de ocultar as fabulosas riquezas da comunidade, amea\u00e7adas<br \/>\nde confisco pelo bra\u00e7o f\u00e9rreo do Marqu\u00eas de Pombal.<\/p>\n<p>Verdade ou lenda, caso \u00e9 que este fato nos foi trazido pela tradi\u00e7\u00e3o<br \/>\noral e com tanto mais viso de exatid\u00e3o quanto nada de inveross\u00edmil<br \/>\nnele se continha.<\/p>\n<p>De feito: a ordem fundada por In\u00e1cio de Loiola, em 1539, cedo se tornou<br \/>\nc\u00e9lebre pelas imensas riquezas que encerravam as suas arcas, a ponto<br \/>\nde ir tornando a pouco e pouco uma pot\u00eancia financeira e pol\u00edtica<br \/>\nna Europa e na Am\u00e9rica, para onde emigraram em grande parte, fugindo<br \/>\n\u00e0s persegui\u00e7\u00f5es que lhe eram movidas na Fran\u00e7a,<br \/>\nna R\u00fassia e mesmo na Espanha, principal baluarte da Companhia.<\/p>\n<p>Em todos estes pa\u00edses os bens da Ordem de Jesus foram confiscados,<br \/>\nn\u00e3o sendo pois admirar que, expulsos os disc\u00edpulos de Loiola,<br \/>\nem 1759, de Portugal e seus dom\u00ednios pelo fogoso ministro de D. Jos\u00e9<br \/>\nI, procurassem a tempo salvaguardar os seus bens contra a lei de exce\u00e7\u00e3o<br \/>\naplicada em outros pa\u00edses, em seu preju\u00edzo.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese, pois, de existirem no morro do Castelo, sob as funda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo vasto e velho convento dos jesu\u00edtas, objetos de alto lavor art\u00edstico,<br \/>\nem ouro e em prata, al\u00e9m de moedas sem conta e uma grande biblioteca,<br \/>\ntomou vulto em breve, provocando o faro arqueol\u00f3gico dos revolvedores<br \/>\nde ruinarias e a auri sacra fames de alguns capitalistas, que chegaram mesmo<br \/>\na se organizar em companhia, com o fim de explorar a empoeirada e \u00famida<br \/>\ncolchida dos Jesu\u00edtas. Isto foi pelos tempos do Encilhamento.<\/p>\n<p>Sucessivas escava\u00e7\u00f5es foram levadas a efeito, sem \u00eaxito<br \/>\napreci\u00e1vel; um velho, residente em Santa Teresa, prestou-se a servir<br \/>\nde guia aos bandeirantes da nova esp\u00e9cie, sem que de todo este insano<br \/>\ntrabalho rendesse afinal alguma coisa a mais que o pranto que derramaram os<br \/>\ncapitalistas pelo dinheiro despendido e o eco dos risos casquilhos de mofa,<br \/>\nde que foram alvo por longo tempo os novos Rob\u00e9rios Dias.<\/p>\n<p>Estes fatos j\u00e1 estavam quase totalmente esquecidos, quando ontem novamente<br \/>\nse voltou a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica para o desgracioso morro<br \/>\ncondenado a ruir em breve aos golpes da picareta demolidora dos construtores<br \/>\nda Avenida.<\/p>\n<p>Anteontem, ao cair da noite, era grande a az\u00e1fama naquele trecho das<br \/>\nobras.<\/p>\n<p>A turma de trabalhadores, em golpes is\u00f3cronos brandiam os alvi\u00f5es<br \/>\ncontra o terreno multissecular, e a cada golpe, um bloco de terra negra se<br \/>\ndeslocava, indo rolar, desfazendo-se, pelo talude natural do terreno revolvido.<\/p>\n<p>Em certo momento, o trabalhador Nelson, ao descarregar com pulso forte a<br \/>\npicareta sobre as \u00faltimas pedras de um alicerce, notou com surpresa<br \/>\nque o terreno cedia, desobstruindo a entrada de uma vasta galeria.<\/p>\n<p>O Dr. Dutra, engenheiro a cujo cargo se acham os trabalhos naquele local,<br \/>\ncorreu a verificar o que se passava e teve ocasi\u00e3o de observar a se\u00e7\u00e3o<br \/>\nreta da galeria (cerca de 1,60m de altura por 0,50m de largura).<\/p>\n<p>O trabalho foi suspenso a fim de que se dessem as provid\u00eancias convenientes<br \/>\nem t\u00e3o estranho caso; uma sentinela foi colocada \u00e0 porta do<br \/>\nsubterr\u00e2neo que guarda uma grande fortuna ou uma enorme e secular pilh\u00e9ria;<br \/>\ne, como era natural, o Sr. Ministro da Fazenda, que j\u00e1 tem habituada<br \/>\na pituit\u00e1ria aos perfumes do dinheiro, l\u00e1 compareceu, com o<br \/>\nDr. Frontin e outros engenheiros, a fim, talvez, de informar \u00e0 curiosa<br \/>\ncomiss\u00e3o se achava aquilo com cheiro de casa-forte&#8230; O comparecimento<br \/>\nde S. Exa., bem como a confer\u00eancia que hoje se deve realizar entre o<br \/>\nDr. Frontin e o Dr. Lauro Muller, levam-nos a supor que nas altas camadas<br \/>\nse acredita na exist\u00eancia de tesouros dos jesu\u00edtas no subterr\u00e2neo<br \/>\ndo morro do Castelo.<\/p>\n<p>Durante toda a tarde de ontem, crescido n\u00famero de curiosos estacionaram<br \/>\nno local onde se havia descoberto a entrada da galeria, numa natural sofreguid\u00e3o<br \/>\nde saber o que de certo existe sobre o caso.<\/p>\n<p>Hoje continuar\u00e3o os trabalhos, que ser\u00e3o executados por uma<br \/>\nturma especial, sob as imediatas vistas do engenheiro da turma.<\/p>\n<p>Que uma fada benfazeja conduza o Dr. Dutra no afanoso mister de descobridor<br \/>\nde tesouros, tornando-o em Mascotte da avenida do Dr. Frontin.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da descoberta deste subterr\u00e2neo, temos a acrescentar<br \/>\nque, segundo sup\u00f5e o Dr. Rocha Le\u00e3o, nesta cidade existem outros<br \/>\nsubterr\u00e2neos do mesmo g\u00eanero e de n\u00e3o menos import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que na Ch\u00e1cara da Floresta deve existir um, que termina<br \/>\nno local onde foi o Theatro Phenix; um outro que, partindo da praia de Santa<br \/>\nLuzia, vai terminar num \u00e2ngulo da sacristia da Igreja Nova.<\/p>\n<p>Ainda outro, partindo tamb\u00e9m de Santa Luzia, termina num p\u00e1tio,<br \/>\nem frente \u00e0 cozinha da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, al\u00e9m<br \/>\nde outros ainda, de menor import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>O Dr. Rocha Le\u00e3o, que obteve h\u00e1 tempos concess\u00e3o do<br \/>\ngoverno para explora\u00e7\u00e3o dos chamados subterr\u00e2neos do Rio<br \/>\nde Janeiro, assevera mais, em carta a n\u00f3s dirigida, que na Travessa<br \/>\ndo Pa\u00e7o h\u00e1 um armaz\u00e9m em ru\u00ednas, em uma de cujas<br \/>\nrefor\u00e7adas paredes est\u00e1 oculta a entrada para uma galeria que<br \/>\nvai at\u00e9 os fundos da Catedral; da\u00ed se dirige paralelamente \u00e0<br \/>\nRua do Carmo at\u00e9 o Beco do Cotovello, onde se bifurca e sobe pela ladeira<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>Segundo o mesmo arque\u00f3logo, nestes subterr\u00e2neos se devem encontrar,<br \/>\nal\u00e9m de grandes riquezas, o arquivo da capitania do Rio de Janeiro,<br \/>\na opulenta biblioteca dos padres e os mapas e roteiros das minas do Amazonas&#8230;<\/p>\n<p>Pelo que v\u00eaem, eis a\u00ed farta messe de assunto para os amadores<br \/>\nde literatura fant\u00e1stica e para os megal\u00f4manos, candidatos a<br \/>\num aposento na Praia da Saudade.<\/p>\n<p><strong>S\u00e1bado, 29 de abril de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Visita \u00e0 Galeria<\/strong><\/p>\n<p>Uma hora da tarde; o sol causticante ao alto e uma poeirada quente e sufocante<br \/>\nna Avenida em constru\u00e7\u00e3o; oper\u00e1rios cantam e voz dolente,<br \/>\nenquanto os m\u00fasculos fortes puxam cabos, vibram picaretas, revolvem<br \/>\na areia e a cal das argamassas.<\/p>\n<p>O trajeto pela Avenida, sob a can\u00edcula medonha, assusta-nos; um amigo<br \/>\npenalizado, resolve-se a servir-nos de Cirineu e l\u00e1 vamos os dois,<br \/>\nsatirizando os homens e as coisas, pelo caminho que conduz ao tesouro dos<br \/>\njesu\u00edtas ou \u00e0 blage da lenda.<\/p>\n<p>Estacamos para indagar de um grupo de trabalhadores onde pod\u00edamos<br \/>\nencontrar o Dr. Dutra.<\/p>\n<p>\u2014 Patr\u00e3o, n\u00e3o sabemos; n\u00f3s trabalhamos no theatro.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram atores, est\u00e1 visto; simples oper\u00e1rios, colaboradores<br \/>\nan\u00f4nimos nas gl\u00f3rias futuras da ribalta municipal.<\/p>\n<p>Mais alguns passos e aos nossos surge a mole argilosa do Castelo: um grande<br \/>\ntalho no ventre arroxeado da montanha nos faz adivinhar a entrada do famoso<br \/>\nsubterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Limitando uma larga extens\u00e3o, h\u00e1, em torno ao local de tantas<br \/>\nesperan\u00e7as, uma cerca de arame, barreira \u00e0 curiosidade p\u00fablica<br \/>\nque amea\u00e7ava atrapalhar a marcha dos trabalhos.<\/p>\n<p>O Dr. Pedro Dutra, enlameado e suarento, discreteava num pequeno grupo.<\/p>\n<p>Ao aproximarmo-nos, o novel engenheiro, am\u00e1vel, nos indicou com um<br \/>\nsorriso a passagem para o local vedado ao p\u00fablico.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, j\u00e1 foram descobertos os ap\u00f3stolos?<br \/>\n\u2014 Que ap\u00f3stolos?<br \/>\n\u2014 Os de ouro, com olhos de esmeralda?<br \/>\n\u2014 Por ora n\u00e3o, respondeu-nos risonho o engenheiro e, sol\u00edcito,<br \/>\nacompanhou-nos \u00e0 porta da galeria.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 alta, de 1 metro e 90 cent\u00edmetros, com cerca de 80 cent\u00edmetros<br \/>\nde largura; no interior oper\u00e1rios retiravam o barro mole e pegajoso,<br \/>\natolados no lameiro at\u00e9 o meio das canelas. Ao fundo bruxuleava uma<br \/>\nluzinha d\u00fabia, posta ali para facilitar a desobstru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo subterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio t\u00e9trico de dramalh\u00e3o.<\/p>\n<p>O Dr. Dutra d\u00e1-nos informa\u00e7\u00f5es sobre os trabalhos.<\/p>\n<p>Por ora, limitam-se estes \u00e0 limpeza da parte descoberta.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3 de ontem, ele a percorreu numa extens\u00e3o de 10 metros;<br \/>\n\u00e9 o primeiro trecho da galeria.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, esta conserva a mesma largura, aumentando a altura<br \/>\nque passa a ser de 2 metros e 10 cent\u00edmetros e dirigindo-se para a<br \/>\nesquerda num \u00e2ngulo de 55 graus, mais ou menos.<\/p>\n<p>O trabalho tem sido muito fatigante; n\u00e3o s\u00f3 pela exig\u00fcidade<br \/>\ndo espa\u00e7o, como pela exist\u00eancia d\u2019\u00e1gua de infiltra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o Dr. Dutra espera hoje limpar toda a parte explorada, continuando<br \/>\nem seguida a explora\u00e7\u00e3o no trecho que se dirige para a esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 agora nada se encontrou de interessante, se h\u00e1<br \/>\ntesouro ainda n\u00e3o lhe sentimos o cheiro.<br \/>\n\u2014 Mas o que imagina o doutor, sobre o destino desta galeria?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho opini\u00e3o formada; apenas conjecturas&#8230; Os<br \/>\njesu\u00edtas talvez hajam constru\u00eddo o subterr\u00e2neo para ref\u00fagio,<br \/>\nem caso de persegui\u00e7\u00e3o; o Marqu\u00eas de Pombal era um pouco<br \/>\nviolento&#8230;<\/p>\n<p>Gostamos da benevol\u00eancia do conceito; um pouco&#8230;<\/p>\n<p>E o engenheiro continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Nota-se que n\u00e3o houve a preocupa\u00e7\u00e3o de revestir<br \/>\nas paredes, o que seria natural fazer, caso se pretendesse ali guardar livros<br \/>\nou objetos de valor&#8230; Os construtores da galeria evitaram na sua perfura\u00e7\u00e3o<br \/>\no barro vermelho, procurando de prefer\u00eancia o moledo, mais resistente;<br \/>\ntodo o trabalho parece ter sido feito a ponteiro.<\/p>\n<p>\u2014E sobre a visita do Dr. Bulh\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014Esteve com efeito aqui, acompanhado pelo Dr. Frontin e penetrou com<br \/>\neste at\u00e9 o \u00faltimo ponto acess\u00edvel da galeria. Mas parece<br \/>\nque voltou desanimado&#8230;<\/p>\n<p>O nosso companheiro de excurs\u00e3o quis discutir ainda o papel do Marqu\u00eas<br \/>\nde Pombal no movimento pol\u00edtico religioso do s\u00e9culo XVIII; mas<br \/>\no calor sufocava e nada mais havia de interessante sobre o subterr\u00e2neo<br \/>\ndo Castelo.<\/p>\n<p>Despedimo-nos gratos \u00e0 amabilidade cativante do Dr. Pedro Dutra, cujo<br \/>\naspecto n\u00e3o era, entretanto, o de quem se julga \u00e0 porta de um<br \/>\ntesouro secular.<\/p>\n<p>Em torno, contida pela cerca de arame, apinhava-se a multid\u00e3o sonhadora<br \/>\ne desocupada&#8230;<\/p>\n<p>Ainda a prop\u00f3sito do subterr\u00e2neo do Castelo, conv\u00e9m notar<br \/>\nque h\u00e1 mais de vinte anos o Bar\u00e3o de Drummond, que depois se<br \/>\ntornou dono de uma fama imorredoura pela genial descoberta do jogo do bicho,<br \/>\ntentou a explora\u00e7\u00e3o do morro do Castelo, com o fim de retirar<br \/>\nde l\u00e1 os tesouros ocultos e promover por este modo o pagamento de d\u00edvida<br \/>\np\u00fablica e&#8230; das suas.<\/p>\n<p>Os trabalhos eram feitos com o emprego de minas de dinamite o que provocou<br \/>\nprotestos dos moradores do morro e conseq\u00fcentemente suspens\u00e3o<br \/>\ndo perigoso empreendimento.<\/p>\n<p>E ficou tudo em nada.<\/p>\n<p>O Dr. Rocha Le\u00e3o, que durante longos anos se tem dedicado aos estudos<br \/>\ndos subterr\u00e2neos do Rio de Janeiro declara-nos existir documentos positivos<br \/>\nsobre o local em que se acham tesouros dos jesu\u00edtas no Arquivo P\u00fablico<br \/>\ne na Antiga Secretaria de Ultramar, na Ilha das Cobras.<\/p>\n<p><strong>Ter\u00e7a-feira, 2 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p>Alegrem-se os que acreditam na exist\u00eancia de fabulosas riquezas na<br \/>\ngaleria do morro do Castelo.<\/p>\n<p>Se o ouro ainda n\u00e3o refulgiu ao golpe explorador da picareta, um modesto<br \/>\nsom met\u00e1lico j\u00e1 se fez ouvir, eri\u00e7ando os cabelos dos<br \/>\nnovos bandeirantes e dando-lhes \u00e0 espinha o frio solene das grandes<br \/>\nocasi\u00f5es; som feio e inarm\u00f4nico de ferro velho, contudo som animador<br \/>\nque faz pregoar orquestra\u00e7\u00f5es de barras de ouro, cruzados do<br \/>\ntempo do D. Jo\u00e3o VI, pedrarias policr\u00f4micas, raras baixelas de<br \/>\nrepastos r\u00e9gios, tudo isto desmoronando-se, rolando vertiginosamente<br \/>\ncomo o cascalho humilde pelo talude escarpado da montanha predestinada.<\/p>\n<p>Por agora contentemo-nos com o ferro velho; ferro cujo passado destino, ao<br \/>\nque se diz, honra pouco a do\u00e7ura de costumes dos disc\u00edpulos<br \/>\nde Loiola, ferro em cuja superf\u00edcie oxidada a Academia de Medicina<br \/>\nainda poder\u00e1 achar resqu\u00edcios do sangue dos crist\u00e3os-novos.<\/p>\n<p>Ainda bem que hoje em dia nem mais para os museus poder\u00e3o servir as<br \/>\ncarcomidas correntes levantadas pelas m\u00e3os dos buscadores de ouro.<\/p>\n<p>Agora que tanto se fala na candidatura do Sr. Bernardino de Campos seria<br \/>\nassaz de temer que as golilhas e pol\u00e9s encontradas no Castelo ainda<br \/>\nestivessem capazes de uso.<\/p>\n<p>O Sr. Presidente da Rep\u00fablica l\u00e1 esteve, na galeria dos jesu\u00edtas,<br \/>\ngaleria em que, diga-se a verdade, sente-se bem a sua ang\u00e9lica pessoa.<\/p>\n<p>Foi isto ontem pela manh\u00e3, depois do caf\u00e9 e antes da segunda<br \/>\ninaugura\u00e7\u00e3o do primeiro dec\u00edmetro de c\u00e3es.<\/p>\n<p>S. Exa., acompanhado da casa civil e militar, do Dr. Frontin e de outras<br \/>\npessoas gratas (gratas, sr. revisor!), enveredou pelo buraco, iluminado por<br \/>\num foco de acetileno, que dava \u00e0 galeria o tom macabro da furna de<br \/>\nAli Bab\u00e1.<\/p>\n<p>Entrou, olhou e nada disse; se o chefe de pol\u00edcia estivesse presente<br \/>\nteria exclamado como de outra vez (e desta com alguma raz\u00e3o): \u2014Senhores,<br \/>\nestamos com um vulc\u00e3o por cima da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A frase n\u00e3o seria de toda absurda, desde que por uma fic\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica se concedessem por um momento ao inofensivo Castelo as honras<br \/>\nvulc\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Mas, em suma, nem o Sr. Bulh\u00f5es nem o Sr. Frontin, nem mesmo o Presidente<br \/>\nda Rep\u00fablica tiveram a dita de encontrar os ap\u00f3stolos de ouro<br \/>\nde olhos esmeraldinos; e como S. Tom\u00e9, que tamb\u00e9m era ap\u00f3stolo,<br \/>\nficam aprovisionando entusiasmo para quando os seus dedos ass\u00e9pticos<br \/>\nconseguirem tocar as imagens que nos v\u00e3o salvar da crise econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>E contem conosco para a inaugura\u00e7\u00e3o do curso met\u00e1lico.<\/p>\n<p><strong>Quarta-feira, 3 de maio de 1905<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma galeria subterr\u00e2nea foi descoberta ontem no morro do Castelo.<br \/>\nDecididamente a velha mole geol\u00f3gica, esventrada pela picareta do oper\u00e1rio<br \/>\ndescrente, despe o mist\u00e9rio que a envolvia e escancara o seu bojo oco<br \/>\ne cobi\u00e7ado \u00e0 pesquisa dos curiosos.<\/p>\n<p>J\u00e1 ningu\u00e9m contesta que o morro lend\u00e1rio, c\u00e9lula<br \/>\nmatriz de Sebastian\u00f3polis, encerra nas arcas de seus po\u00e7os interiores,<br \/>\natulhados pela cali\u00e7a de tr\u00eas s\u00e9culos e meio, um alto,<br \/>\num elevado tesouro&#8230; bibliogr\u00e1fico, pelo menos.<\/p>\n<p>Em toda a parte do morro, onde a picareta fere mais fundo, responde um eco<br \/>\ngrave no interior, eco que vai de galeria em galeria quebrar-se nas vastas<br \/>\nab\u00f3bodas onde repousam os doze ap\u00f3stolos de ouro.<\/p>\n<p>Mais um m\u00eas, mais 8 dias, quem sabe, e o Santo In\u00e1cio de Loiola,<br \/>\nh\u00e1 trezentos anos afundando na tenebrosa escurid\u00e3o do c\u00e1rcere<br \/>\ncalafetado, emergir\u00e1 \u00e0 luz dos nossos dias, todo refulgente<br \/>\nnos doirados de sua massa fulva.<\/p>\n<p>H\u00e1 por for\u00e7a dentro do morro do Castelo uma riqueza fabulosa<br \/>\ndeixada pelos disc\u00edpulos de Loiola na sua precipitada fuga sob o a\u00e7oite<br \/>\nde Pombal.<\/p>\n<p>Tanto metal precioso em barra, em p\u00f3, em est\u00e1tuas e objetos<br \/>\ndo culto, n\u00e3o podia passar despercebido \u00e0 arguta pol\u00edcia<br \/>\ndo ministro incr\u00e9u e atilado.<\/p>\n<p>Na sua mudez de catacumbas seculares, os subterr\u00e2neos do Castelo bem<br \/>\nserviriam para guardar os tesouros da Ordem mais rica do mundo e ainda os<br \/>\nguardam certamente.<\/p>\n<p>Mas agora chegou o tempo de quebrar o segredo de sua riqueza e ser espoliado<br \/>\nde seu ol\u00edmpico dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>O homem j\u00e1 n\u00e3o se contenta em querer escalar o c\u00e9u,<br \/>\nquer tamb\u00e9m descer ao cora\u00e7\u00e3o da terra e n\u00e3o poder\u00e1<br \/>\no morro do Castelo embara\u00e7ar-lhe a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 de rasgar-se, h\u00e1 de mostrar o labirinto de suas acidentadas<br \/>\ngalerias e h\u00e1 de espirrar para fora os milh\u00f5es que v\u00eam<br \/>\npulverizando numa digest\u00e3o secular.<\/p>\n<p>Um dia destes foi num dos flancos que se abriu a boca silenciosa de um corredor<br \/>\nescuro que os homens interrogam entre curiosos e assustados; hoje \u00e9<br \/>\na pr\u00f3pria cripta do morro que se parte como a querer bradar para o<br \/>\nc\u00e9u o seu protesto contra a irrever\u00eancia e avidez dos homens!<\/p>\n<p>Mas os oper\u00e1rios prosseguem cada vez mais porfiados em ver quem primeiro<br \/>\ncolhe o prazer ultra-marinho de descobrir o moderno Eldorado.<\/p>\n<p>Foi ontem; uma turma explorava o dorso imoto do morro; s\u00fabito a ponta<br \/>\nda picareta de um oper\u00e1rio bate num vazio e some-se&#8230;<\/p>\n<p>A boca negra de um outro subterr\u00e2neo escancarava-se.<\/p>\n<p>Pensam uns que \u00e9 a entrada, arteiramente disfar\u00e7ada, de uma<br \/>\noutra galeria, opinam outros que \u00e9 simples ventilador dos corredores<br \/>\nocultos.<\/p>\n<p>Seja o que for, por\u00e9m, a coisa \u00e9 verdadeira, l\u00e1 est\u00e1<br \/>\na 8 metros abaixo do solo emparedada a tijolo velho.<\/p>\n<p>Trouxemos uma ter\u00e7a parte de um dos tijolos para nosso escrit\u00f3rio<br \/>\nonde quem quiser a pode examinar<\/p>\n<p><strong>Quinta-feira, 4 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p>A multid\u00e3o apinhava-se curiosa, diante do morro do Castelo, em cujo<br \/>\nimenso bojo se entesouram riquezas fabulosas, abandonadas pelos jesu\u00edtas<br \/>\nna precipita\u00e7\u00e3o da retirada.<\/p>\n<p>Olhos \u00e1vidos de descobrir na sombra pesada da galeria o rebrilho de<br \/>\numa pe\u00e7a de ouro, ouvidos atentos ao m\u00ednimo ru\u00eddo vindo<br \/>\nde dentro, toda aquela gente, nos lazeres do feriado de ontem, se acotovelava<br \/>\nao longo da cerca de arame, que a previd\u00eancia oficial construiu, para<br \/>\nmaior seguran\u00e7a do subterr\u00e2neo opulento.<\/p>\n<p>\u00cdamos sequiosos de novas do Castelo e das suas lend\u00e1rias coisas;<br \/>\nmas, a dilatada \u00e1rea defesa ao p\u00fablico, n\u00e3o havia o movimento<br \/>\nhabitual dos dias de labor.<\/p>\n<p>Pequerruchos despreocupados revolviam a terra e \u00e0 porta soturna da<br \/>\ngaleria dois negros c\u00e9rberos vigiavam, modorrentos, o tesouro secular.<\/p>\n<p>Aproximamo-nos. Havia uma franca comunicatividade entre os curiosos, trocavam-se<br \/>\ncoment\u00e1rios estranhos sobre a dire\u00e7\u00e3o dos subterr\u00e2neos,<br \/>\nas salas amplas, em m\u00e1rmore rosado, nas quais se enfileiram, pejadas<br \/>\nde ouro e pedrarias, as arcas dos disc\u00edpulos de Loiola.<\/p>\n<p>Mas, em meio a multid\u00e3o, salienta-se um senhor alto, de bigodes grisalhos<br \/>\ne grandes olhos penetrantes, cuja voz pausada e forte atrai a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde toda gente. O c\u00edrculo de curiosos se aperta a pouco e pouco e os<br \/>\nouvidos recebem deleitados as palavras do or\u00e1culo.<\/p>\n<p>De coisas extraordin\u00e1rias sabe este homem; tem talvez cinq\u00fcenta<br \/>\nanos de idade, dois ter\u00e7os deles gastos no esmerilhamento das verdades<br \/>\nocultas nas entrelinhas de pergaminhos seculares.<\/p>\n<p>Ele sabe de todo um Rio subterr\u00e2neo, um Rio in\u00e9dito e fant\u00e1stico,<br \/>\nem que se cruzam extensas ruas abobadadas, caminhos de um Eldorado como n\u00e3o<br \/>\nno sonhara Pangloss.<\/p>\n<p>Acercamo-nos tamb\u00e9m, na \u00e2nsia de escutar a palavra s\u00e1bia;<br \/>\nele j\u00e1 enveredara por um detalhe tr\u00e1gico da hist\u00f3ria<br \/>\nconventual do Castelo: a hist\u00f3ria de uma condessa italiana, da fam\u00edlia<br \/>\ndos M\u00e9dicis, raptada, em noite escura, de um pal\u00e1cio florentino<br \/>\ne conduzida num bergantim para o claustro dos jesu\u00edtas, onde, em babil\u00f4nicas<br \/>\norgias, seu alvo corpo palpitante de mocidade e seiva corria de m\u00e3o<br \/>\nem m\u00e3o, como a ta\u00e7a de Hebe; dep\u00f3sito sagrado de um capitoso<br \/>\nvinho antigo.<\/p>\n<p>Os circunstantes ouviam boquiabertos a interessante narrativa; um senhor,<br \/>\nn\u00e9dio e rosado, aparteava de quando em vez, pilh\u00e9rico.<\/p>\n<p>Ousamos uma pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 documentos a respeito?<\/p>\n<p>\u2014 Precios\u00edssimos, meu amigo; eu tive sob os olhos todo o roteiro<br \/>\ndas galerias; conhe\u00e7o-as como a palma das minhas m\u00e3os. A reconstru\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela \u00e9poca tr\u00e1gica seria uma obra de fazer arrepiar os cabelos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E quanto \u00e0s duas galerias recentemente descobertas?<\/p>\n<p>Ele disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o valem nada, meu amigo; o caminho est\u00e1 errado; por<br \/>\na\u00ed n\u00e3o dar\u00e3o no vinte.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, neste caso, que utilidade tem estas?<\/p>\n<p>\u2014 Estas e muitas mais foram feitas, umas para os supl\u00edcios e<br \/>\noutras com o \u00fanico fim de atordoar, desnortear os investigadores. O<br \/>\nverdadeiro dep\u00f3sito dos tesouros, onde se encontram arcas de ferro<br \/>\nabarrotadas de ouro e pedras finas, acha-se a 430 metros do sop\u00e9 do<br \/>\nmorro; a\u00ed o ar \u00e9 quase irrespir\u00e1vel em vista das exala\u00e7\u00f5es<br \/>\nsulf\u00faricas; \u00e9 mesmo de crer que o morro n\u00e3o seja mais<br \/>\nque o tampo de um vulc\u00e3o. De tudo isto h\u00e1 documentos irrefut\u00e1veis<br \/>\ne n\u00e3o s\u00f3 referentes ao Castelo como aos demais subterr\u00e2neos,<br \/>\nquais os da ilha do Raimundo, pr\u00f3xima \u00e0 do Governador, e da<br \/>\nFazenda de Santa Cruz e tantos outros que minam a velha cidade de Mem de S\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 E o cavalheiro me pode dar alguns apontamentos a respeito?<\/p>\n<p>\u2014 Com prazer; o meu maior desejo \u00e9 elucidar todos os pontos<br \/>\ndesta interessante hist\u00f3ria para que o governo n\u00e3o esteja a<br \/>\nperder tempo e dinheiro com buscas fatalmente improf\u00edcuas<\/p>\n<p>\u2014 Neste caso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Apare\u00e7a em minha resid\u00eancia; mostrar-lhe-ei os documentos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 favor; l\u00e1 irei hoje mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s oito horas, est\u00e1 dito.<\/p>\n<p>E com um forte aperto de m\u00e3o, depedimo-nos, de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npalpitando de curiosidade, prelibando o cheiro dos documentos arcaicos e a<br \/>\nimaginar toda a complicada trag\u00e9dia de supl\u00edcios inquisitoriais,<br \/>\nde pesados laj\u00f5es, sepultando ouro em barra, e de condessas louras,<br \/>\na desmaiar de amor nas celas do claustro imenso.<\/p>\n<p>Da longa hist\u00f3ria que ouvimos, fartamente documentada e narrada em<br \/>\nlinguagem simples e fluente, por um homem de esp\u00edrito cultivado e arguto<br \/>\nconhecedor do assunto, daremos amanh\u00e3 circunstanciada not\u00edcia<br \/>\naos leitores, justamente \u00e1vidos de desvendar os mist\u00e9rios do<br \/>\nvener\u00e1vel morro.<\/p>\n<p>O Dr. Rocha Le\u00e3o escreve-nos, \u00e0 prop\u00f3sito do palpitante<br \/>\nassunto:<\/p>\n<p>&#8220;Sr. redator,<br \/>\nDigna-se V.S. dar-me pequeno espa\u00e7o para uma reclama\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFui hoje surpreendido com a publica\u00e7\u00e3o que fez O Paiz de documentos<br \/>\nque foram entregues ao Ex.mo Sr. Presidente da Rep\u00fablica.<br \/>\nN\u00e3o tenho a honra de conhecer, nem ao menos de vista, o Ex.mo Sr. Almirante<br \/>\nNepomuceno.<br \/>\nJ\u00e1 h\u00e1 tempos declarei que os documentos que eu possu\u00eda<br \/>\nsobre o Castelo entreguei-os ao meu finado amigo o engenheiro Jorge Mirandola<br \/>\ne n\u00e3o Miranda, quando ele foi h\u00e1 anos \u00e0 Inglaterra.<br \/>\nFalecendo esse engenheiro em Lisboa, procurei aqui em Icara\u00ed (Niter\u00f3i)<br \/>\na sua vi\u00fava para lhe pedir a entrega dos meus pergaminhos.<br \/>\nNessa visita fui acompanhado pelo meu amigo Sr. Camanho.<br \/>\nDisse-me a senhora que nenhum papel ou documento se arrecadou em Lisboa.<br \/>\nAgora vejo uma oferta desses pergaminhos que me pertencem, pois est\u00e3o<br \/>\ncom o meu nome.<br \/>\nDeclaro que s\u00e3o dois pergaminhos antigos, n\u00e3o tinham cor vermelha<br \/>\nnenhuma, nem declara\u00e7\u00e3o por minha letra donde foram achados;<br \/>\num deles estava dobrado como uma carta e o sobre-scripto \u00e9 uma cruz<br \/>\nlongitudinal com cifras que significam o endere\u00e7o ao Geral da Companhia<br \/>\nem Roma.<br \/>\nAl\u00e9m disto, ainda confiei ao finado Mirandola um grosso volume em franc\u00eas<br \/>\nencontrado por mim, com o t\u00edtulo Portrait des sciences, com gravuras<br \/>\nde colunas e anotado em cifras pelos padres.<br \/>\nResponderei ao artigo do ilustrado Sr. Dr. Vieira Fazenda.<br \/>\nO abaixo assinado teve ao seu dispor os mais importantes documentos do seu<br \/>\nfinado amigo, o Dr. Alexandre Jos\u00e9 de Mello Moraes.<br \/>\nAinda mais descendentes de fam\u00edlias que governaram o Brasil como os<br \/>\nBarretos de Menezes, Telles e outros, em seus pap\u00e9is colhi not\u00edcia<br \/>\nde tudo.<br \/>\nBobadella era compadre e amigo do Dr. Francisco Telles de Barreto de Menezes<br \/>\ne lhe dizia sempre que um dia apareceriam as riquezas dos padres que eram<br \/>\navultadas e estavam ocultas em v\u00e1rios lugares.<br \/>\nAguardo a resposta do Ex.mo Sr. Almirante Nepomuceno, relativa aos meus pergaminhos.<\/p>\n<p>&#8221;Dr. Rocha Le\u00e3o.&#8221;quot;<\/p>\n<p><strong>Sexta-feira, 5 de maio de 1905<\/strong><\/p>\n<p>Os Tesouros dos Jesu\u00edtas<br \/>\nChovia torrencialmente quando apeamos do bonde que nos conduzia \u00e0 resid\u00eancia<br \/>\ndaquele senhor alto de bigodes grisalhos e olhar penetrante que ontem apresentamos<br \/>\naos leitores como um grande sabedor das extraordin\u00e1rias coisas do Morro<br \/>\ndo Castelo.<\/p>\n<p>Uma ladeira \u00edngreme, l\u00e1 para os lados de Gamboa, lamacenta<br \/>\ne negra a nos recordar o passado Porto Artur com toda a bravura dos vencidos<br \/>\ne todo o rid\u00edculo dos vencedores.<\/p>\n<p>C\u00e9u caliginoso ao alto, de nuvens pardas, pesadas de chuva&#8230;<\/p>\n<p>A luz d\u00fabia e intermitente das lamparinas el\u00e9tricas da Central,<br \/>\nque dificilmente nos aponta o caminho da resid\u00eancia do &#8220;nosso homem&#8221;.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio tr\u00e1gico nos encaminhamos pelas tortuosas vilas<br \/>\nda Gamboa, \u00e0 cata das preciosas informa\u00e7\u00f5es que nos prometera<br \/>\nde v\u00e9spera o senhor alto, de olhos penetrantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguma dificuldade em encontrar a casa; a escurid\u00e3o tenebrosa<br \/>\nda noite e da ilumina\u00e7\u00e3o nos n\u00e3o consente distinguir<br \/>\nos n\u00fameros dos portais.<\/p>\n<p>Indagamos da vizinhan\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. Coelho? Sabe nos dizer onde mora o Sr. Coelho?<\/p>\n<p>\u2014 Ali adiante, mo\u00e7o, informa-nos opulenta mulata que goza a<br \/>\nnoite, refestelada \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Caminhamos; em meio \u00e0 ladeira \u00edngreme, um velho abanando o<br \/>\ncachimbo. Informa-nos:<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. Coelho mora no 27, passando aquela casa grande, a outra.<\/p>\n<p>O Sr. Coelho, conclu\u00edmos, \u00e9 conhecido de toda gente; toda gente<br \/>\nnos d\u00e1 not\u00edcias precisas do Sr. Coelho, inda bem&#8230;<\/p>\n<p>Encontramos, por fim, o 27, entramos. Casa modesta de empregado p\u00fablico,<br \/>\nsem altas ambi\u00e7\u00f5es; ef\u00edgies de santos pendem das paredes;<br \/>\nh\u00e1 no ambiente o perfume misterioso da gruta de um derviche ou do laborat\u00f3rio<br \/>\nde um alquimista.<\/p>\n<p>\u00c0 luz macilenta de um l\u00e2mpada de querosene os nossos olhos divisam<br \/>\nretratos em fotogravura de Allan Kardec e Pombal, que &#8220;hurlent de se<br \/>\ntrouver ensemble&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Tem aqui o Pombal! hein Sr. Coelho?<\/p>\n<p>\u2014 O Pombal? Meu grande amigo, meu grande amigo!&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e1vel, o dono da casa lamenta o of\u00edcio de jornalista.<\/p>\n<p>\u2014 Com esta chuva&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que quer? \u00c9 preciso informar o p\u00fablico; o p\u00fablico<br \/>\n\u00e9 exigente, quer novidades a todo transe e agora a novidade que se<br \/>\nimp\u00f5e \u00e9 o Castelo, s\u00e3o os seus subterr\u00e2neos e o<br \/>\nsenhor \u00e9 o homem fadado a nos tornar capazes de satisfazer a curiosidade<br \/>\ncarioca.<\/p>\n<p>O Sr. Coelho desfaz-se em mod\u00e9stia: n\u00e3o \u00e9 tanto assim,<br \/>\nele sabe alguma coisa, mas o seu maior prazer \u00e9 abrir os olhos ao p\u00fablico<br \/>\ncontra as falsidades dos embusteiros.<\/p>\n<p>E levanta-se para nos trazer seus documentos.<\/p>\n<p>S\u00e3o largas folhas de papel amarelado, cheirando a velho, preciosos<br \/>\npergaminhos em que se mal descobrem caracteres indecifr\u00e1veis, figuras<br \/>\ncabal\u00edsticas, coisas intraduz\u00edveis aos nossos olhos profanos.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui temos n\u00f3s toda a verdade sobre os t\u00e3o falados<br \/>\ntesouros, diz-nos, num gesto en\u00e9rgico. Mas antes de enveredar neste<br \/>\ncaos, uma r\u00e1pida explica\u00e7\u00e3o! As galerias agora encontradas,<br \/>\ncomo j\u00e1 disse, nada significam; s\u00e3o esgotos, s\u00e3o esconderijos<br \/>\ne nada mais. O atual edif\u00edcio do convento compunha-se antigamente de<br \/>\ntr\u00eas andares; dois deles est\u00e3o atualmente soterrados. A porta<br \/>\nque conduzia ao Morro, corresponde ao antigo 2o andar do edif\u00edcio,<br \/>\ne estava por conseguinte muito abaixo do primitivo convento.<\/p>\n<p>Todas as galerias que atravessam a montanha com diversos sentidos n\u00e3o<br \/>\nforam constru\u00eddas, como se tem imaginado, no tempo de Pombal, nas v\u00e9speras<br \/>\nda expuls\u00e3o da Companhia de Jesus; elas datam da instala\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Companhia no Brasil.<\/p>\n<p>Os jesu\u00edtas argutos e previdentes, imaginaram o que, de futuro, lhes<br \/>\npoderia suceder; e da\u00ed o se aprestarem com tempo, construindo na mesma<br \/>\n\u00e9poca em que fizeram as galerias de esgotos e as que serviam para o<br \/>\ntransporte de mercadorias, os subterr\u00e2neos de defesa e os grande dep\u00f3sitos<br \/>\ndos seus avultados bens.<\/p>\n<p>Os jesu\u00edtas eram senhores e donos de quase todo o Rio de Janeiro;<br \/>\npossu\u00edam milhares de escravos, propriedades agr\u00edcolas, engenhos<br \/>\nde a\u00e7\u00facar e casas comerciais. Quando a 10 de maio de 1710 aportou<br \/>\na esta cidade a expedi\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Francisco Duclerc cuja<br \/>\nmisteriosa morte vai ser em breve conhecida por documentos que possuo, os<br \/>\njesu\u00edtas perceberam com fina clarivid\u00eancia que os franceses n\u00e3o<br \/>\ndeixariam impune o assassinato do seu compatriota. Prevendo assim a expedi\u00e7\u00e3o<br \/>\nvingadora de Duguay Trouin, os padres da Companhia cuidaram de p\u00f4r em<br \/>\nlugar seguro os tesouros da Ordem, receosos de um prov\u00e1vel saque dos<br \/>\nfranceses. Aproveitaram para este fim os subterr\u00e2neos, j\u00e1 constru\u00eddos,<br \/>\ndo Castelo e l\u00e1 encerraram todos os tesouros lavrando-se por esta ocasi\u00e3o<br \/>\numa ata em latim cuja tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte:<\/p>\n<p>Ad perpetuam memoriam<\/p>\n<p>&#8220;Aos 23 dias do m\u00eas de novembro de 1710, reinando El Rei D. Jo\u00e3o<br \/>\nV, sendo capit\u00e3o-general desta capitania Francisco de Castro Moraes<br \/>\ne superior deste Col\u00e9gio o Padre Martins Gon\u00e7alves, por ordem<br \/>\ndo nosso Rev.mo Geral foram postos \u00e0 boa guarda, nos subterr\u00e2neos<br \/>\nque se fabricaram sob este Col\u00e9gio, no monte do Castelo, as preciosidades<br \/>\ne tesouros da ordem nesta prov\u00edncia, para ficarem a coberto de uma<br \/>\nnova invas\u00e3o que possa haver. Consiste este tesouro de:\u2014Uma imagem<br \/>\nde Santo In\u00e1cio de Loiola, de ouro maci\u00e7o pesando 180 marcos;<br \/>\numa imagem de S. Sebasti\u00e3o e outra de S. Jos\u00e9, ambas de ouro<br \/>\nmaci\u00e7o pesando cada uma 240 marcos, uma imagem da Santa Virgem, de<br \/>\nouro maci\u00e7o pesando 290 marcos; a coroa da Santa Virgem, de ouro maci\u00e7o<br \/>\ne pedrarias, pesando, s\u00f3 o ouro, 120 marcos; 1400 barras de ouro de<br \/>\nquatro marcos cada uma; dois mil marcos de ouro em p\u00f3; dez milh\u00f5es<br \/>\nde cruzados, em moeda velha e tr\u00eas milh\u00f5es de cruzados em moeda<br \/>\nnova, tudo em ouro; onze milh\u00f5es de cruzados em diamantes e outras<br \/>\npedras preciosas, al\u00e9m de um diamante de 11 oitavas, 9 quilates e 8<br \/>\ngr\u00e3os, que n\u00e3o est\u00e1 avaliado. Al\u00e9m destes tesouros<br \/>\nfoi tamb\u00e9m guardada uma banqueta do altar-mor da Igreja, seis casti\u00e7ais<br \/>\ngrandes e um crucifixo, tudo em ouro, pesando 664 marcos. O que tudo foi arrecadado<br \/>\nem presen\u00e7a dos nossos padres, lavrando-se duas atas do mesmo teor,<br \/>\ndas quais uma fica neste col\u00e9gio e outra segue para Roma a ser entregue<br \/>\nao nosso Rev.mo Geral, dando-se uma c\u00f3pia aut\u00eantica a cada um<br \/>\ndos nossos padres. Feita nesta cidade de S. Sebasti\u00e3o do Rio de Janeiro,<br \/>\naos 24 dias do m\u00eas de novembro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de<br \/>\n1710 (Assinados) Martins Gon\u00e7alves, superior. \u2014Padre Manuel Soares,<br \/>\nvisitador. \u2014Frei Juan de Diaz, prior.&#8221;<\/p>\n<p><strong>S\u00e1bado, 6 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Os Tesouros dos Jesu\u00edtas<\/strong><\/p>\n<p>Diante do documento, em que se v\u00eaem arrolados os bens da companhia,<br \/>\nsem dissimular o espanto, indagamos do nosso informante:<\/p>\n<p>\u2014 E tais riquezas existir\u00e3o ainda nos subterr\u00e2neos do<br \/>\nmorro?<\/p>\n<p>\u2014 Certamente e eu explico: Quando chegou \u00e0s m\u00e3os do Conde<br \/>\nde Bobadella, Gomes Freire de Andrade, o decreto de 4 de novembro de 1759,<br \/>\nem que D. Jos\u00e9 I por influ\u00eancia de seu grande ministro expulsara<br \/>\nos jesu\u00edtas de Portugal e seus dom\u00ednios, j\u00e1 de h\u00e1<br \/>\nmuito que se achavam em lugar seguro os bens da ordem; em obedi\u00eancia<br \/>\n\u00e0 carta r\u00e9gia de 4 de novembro, Bobadella fez cercar o Col\u00e9gio,<br \/>\naprisionando os padres e cuidou sem deten\u00e7a do confisco dos seus m\u00faltiplos<br \/>\nhaveres; pois bem, tudo quanto se apurou em dinheiro importou apenas na rid\u00edcula<br \/>\nquantia de 4.173$220!<\/p>\n<p>\u00c9 cr\u00edvel que a riqu\u00edssima Comunidade, propriet\u00e1ria<br \/>\nde vastos terrenos, engenhos, casas de com\u00e9rcio, escravos, etc., nada<br \/>\nmais possu\u00edsse em moedas que aquela insignificante quantia?<\/p>\n<p>E as valiosas baixelas de prata, e os objetos de culto, tais como c\u00e1lices,<br \/>\ntur\u00edbulos, l\u00e2mpadas, casti\u00e7ais e as alfaias de seda e<br \/>\ndamasco bordadas a ouro?<\/p>\n<p>Que fim levou tudo isto?<\/p>\n<p>Gomes Freire Conseguiu apenas seq\u00fcestrar os bens im\u00f3veis e os<br \/>\nescravos, e esta parte de sua fortuna montava a alguns milhares de contos<br \/>\nde r\u00e9is; quanto ao resto, ele pr\u00f3prio declara, em carta dirigida<br \/>\nao rei em data de 8 de dezembro de 1759:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 certo que, sabendo os padres que em mais ou menos tempo havia<br \/>\nde chegar a tormenta, puseram o seu tesouro em salvamento, pelo que se lhes<br \/>\nn\u00e3o encontrou mais dinheiro (eles dizem ser quase todo alheio) que<br \/>\n4.173$220 de que se v\u00e3o sustentando como se me decretou.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, passada a &#8220;tormenta&#8221;, n\u00e3o teriam eles arranjado<br \/>\nmeios de retirar os tesouros ocultos, conduzindo-os para Roma, sede capital<br \/>\nda Ordem?<\/p>\n<p>\u2014 Esta obje\u00e7\u00e3o tem sido formulada centenas de vezes e<br \/>\ncentenas de vezes destru\u00edda como uma bolha de sab\u00e3o.<\/p>\n<p>O morro do Castelo ficou sempre, depois da sa\u00edda dos jesu\u00edtas,<br \/>\nsob a guarda vigilante das autoridades civis portuguesas e depois brasileiras;<br \/>\nal\u00e9m disso, n\u00e3o era f\u00e1cil empresa penetrar nos subterr\u00e2neos<br \/>\ne de l\u00e1 retirar arcas e cofres pejados de ouro e pedrarias sem provocar<br \/>\nsuspeitas, ocultamente, sem o menor arru\u00eddo.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Os tesouros l\u00e1 est\u00e3o ainda, nas vastas salas subterr\u00e2neas,<br \/>\nat\u00e9 que m\u00e3os h\u00e1beis, trabalhando com prud\u00eancia<br \/>\ne m\u00e9todo, os v\u00e3o arrancar do secular dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>Parece que o momento \u00e9 chegado; \u00e9 necess\u00e1rio, entretanto,<br \/>\nn\u00e3o perder tempo com escava\u00e7\u00f5es in\u00fateis; \u00e9<br \/>\npreciso atacar o morro com seguran\u00e7a, de acordo com os documentos existentes<br \/>\ne que dizem respeito \u00e0 topografia dos subterr\u00e2neos.<\/p>\n<p>Estes, os que conduzem ao lugar do tesouro, s\u00e3o em n\u00famero de<br \/>\nquatro, constru\u00eddos na dire\u00e7\u00e3o dos pontos cardeais.<\/p>\n<p>V\u00e3o ter a um vasto sal\u00e3o de forma quadrada e abobadado, que<br \/>\npor sua vez tem comunica\u00e7\u00e3o com o Col\u00e9gio por meio de<br \/>\nescadas em espiral abertas no interior das paredes.<\/p>\n<p>Esta sala fica inscrita a um largo fosso onde v\u00e3o ter, antes de a<br \/>\nelas chegar, as quatro galerias.<\/p>\n<p>Duas grossas paredes dividem em quatro compartimentos a referida sala.<\/p>\n<p>Em um deles acham-se os cofres de moedas de ouro e prata, os cofres de ouro<br \/>\nem p\u00f3 e, as imagens de S. In\u00e1cio, S. Sebasti\u00e3o, S. Jos\u00e9<br \/>\ne da Virgem, todas de ouro maci\u00e7o e grande quantidade de objetos do<br \/>\nculto cat\u00f3lico.<\/p>\n<p>Em outra divis\u00e3o se encontram as arcas com diamantes e pedras preciosas<br \/>\ne numerosas barras de ouro.<\/p>\n<p>As duas restantes cont\u00eam os instrumentos de supl\u00edcio, a riqu\u00edssima<br \/>\nbiblioteca dos padres, as alfaias e uma mob\u00edlia completa de m\u00e1rmore,<br \/>\nassim como todos os pap\u00e9is referentes \u00e0 Ordem no Brasil e que<br \/>\nse acham guardados em grandes arm\u00e1rios de ferro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, meu amigo, e quem for vivo h\u00e1 de ver; contanto<br \/>\nque abandonem o caminho errado e tratem de penetrar no subterr\u00e2neo do<br \/>\nalto para baixo, o que n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil visto a exist\u00eancias<br \/>\ndas escadas em espiral que conduzem ao grande sal\u00e3o que lhes descrevi.<br \/>\nE ningu\u00e9m est\u00e1 em melhores condi\u00e7\u00f5es de descobrir<br \/>\no que est\u00e1 l\u00e1 dentro que o pr\u00f3prio Marqu\u00eas de Pombal,<br \/>\nque pretendia confiscar todas as riquezas da Companhia.<\/p>\n<p>\u2014 Quem? O Marqu\u00eas de Pombal? exclamamos sem compreender.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor; o Marqu\u00eas de Pombal ou o Dr. Frontin, que s\u00e3o<br \/>\numa e a mesma pessoa.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 a fazer perf\u00eddia, hein?<\/p>\n<p>E rimos a bom rir.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o graceje, meu amigo, protestou, severo, o Sr. Coelho; o<br \/>\nque lhe digo n\u00e3o \u00e9 nenhuma pilh\u00e9ria; o Dr. Frontin \u00e9<br \/>\no Marqu\u00eas de Pombal; ou melhor, aquele encarna atualmente a alma do<br \/>\nministro de D. Jos\u00e9!<\/p>\n<p>\u00cdamos desmaiar; o Sr. Coelho bate-nos amigavelmente ao ombro e promete-nos<br \/>\ndar os motivos por que com tanta seguran\u00e7a afirma que o reconstrutor<br \/>\nde Lisboa anda entre n\u00f3s, metido na pele do construtor da Avenida Central.<\/p>\n<p>E prestamos ouvido atento entre pasmados e incr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 contaremos aos leitores esta bizarra e maravilhosa hist\u00f3ria<\/p>\n<p><strong>Domingo, 7 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Os Tesouros dos Jesu\u00edtas<\/strong><\/p>\n<p>O Sr. Frontin \u00e9 o Marqu\u00eas de Pombal na segunda encarna\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Esta frase, dita num tom firme e catedr\u00e1tico, na meia-luz de uma sala<br \/>\nfrancamente iluminada, deu-nos calafrios \u00e0 alma, j\u00e1, de resto,<br \/>\nhabituada \u00e0s surpreendentes coisas de que tem sido pr\u00f3digo este<br \/>\nencantado morro do Castelo.<\/p>\n<p>Mas o Sr. Coelho explica-nos em poucas palavras o motivo do seu acerto.<\/p>\n<p>Ou\u00e7amo-lo:<\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 anos passados, ocupava a diretoria da Estrada de Ferro<br \/>\nCentral, o atual construtor da Avenida sentiu-se seriamente impressionado<br \/>\ncom os desastres consecutivos que ali tinham lugar; abatia-o uma neurastenia<br \/>\nprofunda, qui\u00e7\u00e1 uma \u00edntima desconfian\u00e7a das suas<br \/>\nhabilita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo! Eu emprego todos os meios, dou todas as provid\u00eancias<br \/>\npara evitar desastres e sempre esta danada c\u00e1bula, exclamava S. Exa.,<br \/>\namarrotando a barba ruiva.<\/p>\n<p>Mas os desastres continuavam e o povo insistia em chamar a Central, pelas<br \/>\niniciais: Estrada de Ferro Caveira de Burro.<\/p>\n<p>Certa vez, lamentava-se o Sr. Frontin, numa roda de amigos, da jettatura<br \/>\nque o perseguia, quando um dos circunstantes, not\u00e1vel engenheiro, sugeriu-lhe<br \/>\numa id\u00e9ia.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Frotin, eu lhe darei a explica\u00e7\u00e3o de tudo: venha<br \/>\ncomigo a uma sess\u00e3o&#8230; O Sr. Frotin sorriu, incr\u00e9dulo.<\/p>\n<p>Mas o amigo insistiu; que n\u00e3o fazia mal experimentar, era sempre uma<br \/>\ntentativa, que diabo!<\/p>\n<p>Enfim, o ilustre engenheiro decidiu-se; foram combinados dia e hora e a sess\u00e3o<br \/>\nrealizou-se em uma casa da Rua D. Polixena, em Botafogo.<\/p>\n<p>O medium, um conhecido jornalista vidente, de \u00f3culos e barbas negras,<br \/>\ninvocou o esp\u00edrito do Visconde de Mau\u00e1, fundador das estradas<br \/>\nde ferro no Brasil, e este, apresentando-se, teve esta frase:<\/p>\n<p>\u2014 Que queres tu, Pombal?<\/p>\n<p>O Sr. Frontin ficou surpreso e come\u00e7ou a empalidecer.<\/p>\n<p>Em torno, os circunstantes n\u00e3o dissimulavam o espanto.<\/p>\n<p>\u2014 Pombal? Por que Pombal?<\/p>\n<p>Nova invoca\u00e7\u00e3o foi feita; e o esp\u00edrito, j\u00e1 desta<br \/>\nvez irritado, escreveu pela m\u00e3o do medium:<\/p>\n<p>\u2014 Ora, Pombal, n\u00e3o me amole!<\/p>\n<p>Era baldado insistir; ou o esp\u00edrito estava enganado ou era algum brejeiro<br \/>\n(que l\u00e1 por cima tamb\u00e9m os h\u00e1) que queria fazer esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Pelo sim pelo n\u00e3o, foi chamado D. Jos\u00e9 I para deslindar aquele<br \/>\nembrulho.<\/p>\n<p>O mofino monarca apresentou-se sem demora, tratando o Sr. Frotin pelo nome<br \/>\nde seu dominador ministro.<\/p>\n<p>O medium pediu-lhe explica\u00e7\u00f5es; e D. Jos\u00e9, sem se fazer<br \/>\nrogado, declarou que efetivamente o Conde de Oeiras encarnara no diretor da<br \/>\nCentral e que estava na terra a expiar as passadas culpas; que os desastres<br \/>\no haviam de perseguir por toda a vida e que assim como Sebasti\u00e3o Jos\u00e9<br \/>\nreconstru\u00edra Lisboa, assim tamb\u00e9m Andr\u00e9 Gustavo seria<br \/>\no encarregado de reconstruir o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do subterr\u00e2neo do Castelo nada disse o esp\u00edrito;<br \/>\nmas f\u00e1cil \u00e9 concluir que, tendo sido Pombal o predestinado a<br \/>\ntornar efetiva a expuls\u00e3o dos jesu\u00edtas e a confiscar-lhes os<br \/>\nbens, era just\u00edssimo que, na segunda encarna\u00e7\u00e3o, reparasse<br \/>\no mal, descobrindo os seus tesouros ocultos e distribuindo-os com os pobres.<\/p>\n<p>Era esmagadora a conclus\u00e3o; realmente a carta r\u00e9gia de 4 de<br \/>\nnovembro de 1759 n\u00e3o podia ficar sem conseq\u00fc\u00eancia nos fastos<br \/>\nda Humanidade.<\/p>\n<p>E h\u00e1 de ter l\u00e1 pelo Castelo mais pessoal daquela \u00e9poca;<br \/>\nconcluiu o Sr. Coelho.<\/p>\n<p>\u2014 Quem nos poder\u00e1 garantir que o engenheiro Pedro Dutra n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 o Conde de Bobadella?<\/p>\n<p>Os fatos no-lo dir\u00e3o.<\/p>\n<p>Continuaremos amanh\u00e3 a narrativa da nossa entrevista com o Sr. Coelho<br \/>\ne dos extraordin\u00e1rios casos que se cont\u00eam nos seus velh\u00edssimos<br \/>\npap\u00e9is.<\/p>\n<p>Por hoje, informemos aos leitores do estado da galeria atualmente explorada.<\/p>\n<p>Tem ela, como \u00e9 sabido, dois lances que se encontram em \u00e2ngulo<br \/>\nobtuso e est\u00e1 iluminada a luz el\u00e9trica, o que lhe d\u00e1<br \/>\numa tenue mais com o s\u00e9culo.<\/p>\n<p>O segundo trecho esbarra num po\u00e7o cheio d\u2019\u00e1gua at\u00e9<br \/>\na borda; \u00e9 quase certo que este po\u00e7o n\u00e3o \u00e9 mais<br \/>\nque a descida para outra galeria de n\u00edvel mais baixo, coisa f\u00e1cil<br \/>\nde concluir pelo seguinte fato:<\/p>\n<p>Nas paredes do subterr\u00e2neo v\u00eaem-se, de espa\u00e7o a espa\u00e7o,<br \/>\nprovavelmente destinados a coloca\u00e7\u00e3o de l\u00e2mpadas no tempo<br \/>\nem que foi este constru\u00eddo e de certo ponto em diante estes nichos<br \/>\nv\u00e3o descendo, acompanhando sempre o declive da galeria, de modo que<br \/>\no \u00faltimo avistado est\u00e1 \u00e0 flor d\u2019\u00e1gua do<br \/>\npo\u00e7o que o delimita.<\/p>\n<p>O Dr. Dutra vai tratar de dessec\u00e1-lo e ent\u00e3o ficar\u00e1<br \/>\neste ponto esclarecido.<\/p>\n<p>Ontem, \u00e0s 2 horas da tarde, foram as galerias visitadas pelos srs.<br \/>\nintendentes municipais que l\u00e1 se demoraram cerca de duas horas, recebendo<br \/>\ndo Dr. Dutra de Carvalho todas as explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os dignos edis mostraram-se entusiasmad\u00edssimos com os trabalhos de<br \/>\nengenharia t\u00e3o bem executados pelos jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>A galeria, franqueada ao p\u00fablico, tem sido extraordinariamente concorrida,<br \/>\nentre os coment\u00e1rios mais estranhos e c\u00f4micos dos viajantes;<br \/>\nsobem a tr\u00eas mil o n\u00famero de curiosos que ontem l\u00e1 estiveram.<\/p>\n<p><strong>Segunda-feira, 8 de maio de 1905<\/strong><\/p>\n<p>Os Tesouros dos Jesu\u00edtas &#8211; Uma Narrativa de Amor<br \/>\n[editar] O Velho C\u00f3dice<br \/>\nEntre os preciosos documentos pertencentes ao nosso precioso informante, e<br \/>\nde cujo conte\u00fado temos transmitido aos leitores a parte de que ele<br \/>\nn\u00e3o faz absoluto segredo, ressaltam algumas narrativas da \u00e9poca,<br \/>\nsobre casos de que foram teatro os subterr\u00e2neos do morro do Castelo,<br \/>\nnarrativas estas que, pelo seu requintado sabor rom\u00e2ntico, bem merecem<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico carioca, atualmente absorvido em<br \/>\nconhecer nos m\u00ednimos detalhes a hist\u00f3ria daquela \u00e9poca<br \/>\nlegend\u00e1ria.<\/p>\n<p>O grande Martius, cujos trabalhos sobre a nossa natureza e sobre a etnografia<br \/>\nsul-americana merecem o aplauso dos institutos s\u00e1bios de todo o mundo,<br \/>\nfaz notar que no Brasil as lendas sobre tesouros ocultos substituam as dos<br \/>\nsombrios castelos medievos que s\u00e3o o encanto dos povos ribeirinhos<br \/>\ndo Dan\u00fabio e, sobre os quais grandes g\u00eanios da arte t\u00eam<br \/>\nbordado obras de um pichoso lavor est\u00e9tico em todos os moldes da fantasia<br \/>\nhumana, seja a m\u00fasica, a pintura, a poesia ou o romance.<\/p>\n<p>Uma tradi\u00e7\u00e3o velh\u00edssima tem alimentado entre n\u00f3s<br \/>\nno esp\u00edrito do povo a id\u00e9ia da exist\u00eancia de tesouros<br \/>\nenterrados, dormindo h\u00e1 s\u00e9culos sob pesadas paredes de monast\u00e9rios,<br \/>\nresistindo \u00e0 arg\u00facia de olhares perscrutadores e acirrando a<br \/>\ncuriosidade e a cobi\u00e7a de seguidas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algo de real existe certamente em meio \u00e0s exagera\u00e7\u00f5es<br \/>\nda lenda; documentos antigos falam dessas riquezas e indicam mesmo, com relativa<br \/>\nprecis\u00e3o, os pontos em que se acham elas ocultas.<\/p>\n<p>A recente descoberta de galerias subterr\u00e2neas no morro do Castelo vem<br \/>\nmais uma vez provar \u00e0 evid\u00eancia n\u00e3o ser de todo destitu\u00edda<br \/>\nde fundamento a cren\u00e7a que, de h\u00e1 s\u00e9culos, vem alimentando<br \/>\na imaginativa popular.<\/p>\n<p>Prendendo-se por um la\u00e7o natural \u00e0 hist\u00f3ria das riquezas<br \/>\namontoadas, aparece aqui e ali um perfil feminino, um vago perfume de carne<br \/>\nmo\u00e7a, o ro\u00e7agar frufruante de uma saia de mulher que vem dar<br \/>\naos racontos a nota rom\u00e2ntica do eterno feminino, indispens\u00e1vel<br \/>\nao interesse de uma lenda que se preza&#8230;<\/p>\n<p>Pois o nosso morro do Castelo neste ponto tamb\u00e9m nada fica a dever<br \/>\naos castelos feudais da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 papelada arcaica que revolvemos em busca de informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre o palpitante assunto, fomos encontrar a hist\u00f3ria de uma condessa<br \/>\nflorentina conduzida para o Brasil num bergantim e aqui recolhida ao claustro<br \/>\ndo Castelo aos tempos da invas\u00e3o de Duclerc.<\/p>\n<p>A este fato j\u00e1 aludimos de passagem em um dos nossos artigos e agora<br \/>\nvamos dar ao leitor a sua narrativa completa.<\/p>\n<p>Trata-se da hist\u00f3ria de um desses amores sombrios, tr\u00e1gicos,<br \/>\nquase medievais, cheirando a barbac\u00e3 e a castelo ameado; e que, por<br \/>\numa singular capita\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, na Idade Moderna, a<br \/>\nAm\u00e9rica do Sul foi teatro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 narrativa de uma dessas afei\u00e7\u00f5es do nosso<br \/>\ntempo, convencionais e pautadas; \u00e9 a do desprender de um forte impulso<br \/>\nd\u2019alma irresist\u00edvel e absorvente.<\/p>\n<p>Um velho c\u00f3dice manuscrito em italiano dos meados do s\u00e9culo<br \/>\nXVIII conta-o; e pela dignidade do seu dizer e pela luz que traz a um ponto<br \/>\nobscuro da hist\u00f3ria de nossa p\u00e1tria, merecia que, transladando-o<br \/>\npara o vern\u00e1culo, n\u00e3o o mutilassem em uma forma moderna, que<br \/>\no desvigoraria sobremodo.<\/p>\n<p>Consoantes as altas autoridades filol\u00f3gicas e liter\u00e1rias, ao<br \/>\nportugu\u00eas Gusm\u00e3o, ou melhor, de Pitta, coevos com certeza do<br \/>\nautor dele, dev\u00edamos ir buscar o equivalente de sua fogosa e hiperb\u00f3lica<br \/>\nlinguagem; entretanto, n\u00e3o nos sobrando erudi\u00e7\u00e3o para<br \/>\nempresa de tal monta, abandonamos o prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Guardando no tom geral da vers\u00e3o o modo de falar moderno \u2014 embora<br \/>\nimperfeito para exprimir paix\u00f5es de dois s\u00e9culos atr\u00e1s,<br \/>\naqui e ali, procuramos com um modismo, uma an\u00e1strofe, ou com uma exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquelas eras, tingir levemente a narra\u00e7\u00e3o de um matiz arcaico.<\/p>\n<p>O original \u00e9 um grosso volume, encadernado em couro. A letra escorre-lhe<br \/>\nmi\u00fada e firme pelas folhas de papel de linho, resistentes e flex\u00edveis.<\/p>\n<p>A tinta indel\u00e9vel, talvez negra, tomou com o tempo um tom vermelho<br \/>\nsobre o papel amarelecido, cor de marfim velho; absolutamente an\u00f4nimo.<\/p>\n<p>Nenhum sinal, ind\u00edcio, escudo her\u00e1ldico ou mote denuncia o<br \/>\nautor. N\u00e3o obstante, uma emenda, tra\u00e7os fugazes, fazem-nos crer<br \/>\nque a m\u00e3o que o tra\u00e7ou foi de jesu\u00edta.<\/p>\n<p>Um \u2014 n\u00f3s \u2014 riscado e precedendo a express\u00e3o \u2014<br \/>\nos jesu\u00edtas \u2014 entre v\u00edrgulas, e a maneira familiar de<br \/>\nque o c\u00f3dice fala das coisas da poderosa Ordem, levam-nos a tal suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os leitores julguem pela leitura que v\u00e3o fazer da cr\u00f4nica intitulada:<\/p>\n<p><b>D. Gar\u00e7a ou O que se passou em meados do s\u00e9culo XVIII, nos<br \/>\nsubterr\u00e2neos dos padres da Companhia de Jesus, na cidade de S. Sebasti\u00e3o<br \/>\ndo Rio de Janeiro, a mui her\u00f3ica, por ocasi\u00e3o da primeira invas\u00e3o<br \/>\ndos franceses a mando de Clerc.<\/b><\/p>\n<p>Como v\u00eaem, o t\u00edtulo se alonga num enorme subt\u00edtulo,<br \/>\ne, de acordo com a conveni\u00eancia do jornal, n\u00f3s iremos publicando<br \/>\no vetusto palimpsesto encimado unicamente pela primeira parte: D. Gar\u00e7a<br \/>\n\u2014 elegante alcunha da estranha hero\u00edna que o velho cronicou.<\/p>\n<p><strong>Ter\u00e7a-feira, 9 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Um Caso de Amor<\/strong><\/p>\n<p>Conforme ontem prometemos ao leitor, iniciamos hoje a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda interessante narrativa por n\u00f3s encontrada entre vetustos pap\u00e9is<br \/>\nreferentes \u00e0 hist\u00f3ria dos jesu\u00edtas do morro do Castelo.<\/p>\n<p>Traduzimo-la, como ficou dito, em portugu\u00eas moderno, conservando apenas<br \/>\nno di\u00e1logo o sabor pitoresco caracter\u00edstico daquela \u00e9poca,<br \/>\nna impossibilidade de conserv\u00e1-lo em todo o correr da narrativa.<\/p>\n<h2>D. Gar\u00e7a<\/h2>\n<h5>I &#8211; Boas e Novas M\u00e1s<\/h5>\n<p>\u2014 Vai-te deitar, B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Com o demo, que hoje muito queres transformar \u00e0s matinas?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sinh\u00e1 dona, meu senhor ainda n\u00e3o veio; e o ch\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Porventura todos os dias esperas Gon\u00e7alves para te recolher?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, sinh\u00e1 dona.<\/p>\n<p>A preta velha, respondendo, ia arrumando cuidadosamente os bilros sobre a<br \/>\nalmofada das rendas. E, assim que acabou, ergueu-se com dificuldade do assento<br \/>\nraso em que estava, e tirou o len\u00e7o de Alcoba\u00e7a, que, em coifa,<br \/>\nlhe cobria a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de tomar a ben\u00e7\u00e3o respeitosa, a escrava<br \/>\naventurou ainda algumas palavras:<\/p>\n<p>\u2014 Sinh\u00e1 dona soube que hoje entrou no Rio a frota do reino?<\/p>\n<p>\u2014 Soube&#8230; e por qu\u00ea? indagou pressurosa a senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez meu senhor n\u00e3o viesse cedo por ter ficado com o governador<br \/>\na ajudar o despacho da correspond\u00eancia das Minas e Piratininga, chegada<br \/>\nna frota. N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser&#8230; e no que te importa isso?<\/p>\n<p>\u2014 Nada, sinh\u00e1. Lembrava s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Bem. Vai-te deitar, disse ent\u00e3o com imp\u00e9rio \u00e0<br \/>\nescrava a senhora, descansando sobre a mesa o livro que lia.<\/p>\n<p>Saindo a negra, a mulher que lhe dera ordens ergueu o busto acima do bufete<br \/>\ne cravou o olhar num grande arm\u00e1rio defronte, reluzente de prata e<br \/>\ncoberto de lavores de talha, em carvalho.<\/p>\n<p>Pouco tempo esteve assim. Dentro de alguns minutos a pesada pe\u00e7a moveu-se<br \/>\num tanto, sem bulha e suavemente; e da fresta aberta, de roupeta e solidel,<br \/>\nsurgiu um religioso, trazendo na m\u00e3o esquerda uma lanterna surda. Mal<br \/>\na depondo sobre um consolo pr\u00f3ximo, saudou familiarmente \u00e0 senhora,<br \/>\nque parecia esper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, Alda.<\/p>\n<p>\u2014 Louvado seja, Jean.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sentou logo; antes de faz\u00ea-lo sacudiu das mangas da batina<br \/>\nalguns salpicos de barro molhado.<\/p>\n<p>Era um homem alto, alongado, de formas finas. Um tanto obeso j\u00e1, a<br \/>\nsua obesidade discrepava lamentavelmente do seu todo aristocr\u00e1tico.<br \/>\nNos seus olhos azuis, ora indagadores, ora morti\u00e7os e apagados, \u00e0s<br \/>\nvezes penetrantes, havia um inteiro arsenal de an\u00e1lise d\u2019almas.<\/p>\n<p>Se outro ind\u00edcio n\u00e3o houvesse, este bastava para caracterizar<br \/>\no religioso. Era jesu\u00edta, e professor tamb\u00e9m,\u2014o que se<br \/>\nadivinhava na convic\u00e7\u00e3o interior a irradiar-lhe pela fisionomia.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o houvesse chovido e ele limpasse das manchas pegajosas de<br \/>\nbarro umedecido, bem parecia que as havia apanhado ao atravessar um lugar<br \/>\nlamacento e \u00famido.<\/p>\n<p>E o cheiro de terra que, \u00e0 sua entrada, logo recendeu pela sala, dava<br \/>\na supor que viesse por caminho subterr\u00e2neo, guiado pela luz da lanterna.<\/p>\n<p>Tudo fazia acreditar que aquele religioso n\u00e3o passara pelas ruas.<br \/>\n\u00c0quelas horas era excepcional transeuntes pela cidade; e um cl\u00e9rigo<br \/>\nlevantaria maldosas suspeitas.<\/p>\n<p>Em 1709, o Rio de Janeiro era uma pequena cidade de 12 a 15 mil habitantes.<br \/>\nIlumina\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia de esp\u00e9cie alguma, a n\u00e3o<br \/>\nser em alguns nichos devotos, velas ou candeias acesas aqui, ali, nas beiradas<br \/>\ndos telhados baixos, povoando as vielas de sombras fant\u00e1sticas.<\/p>\n<p>Depois do anoitecer, a cidade morria: e somente um ou outro corredor de aventuras<br \/>\nousava atravessar a treva, armado at\u00e9 os dentes.<\/p>\n<p>O jesu\u00edta que ali estava n\u00e3o era desses; viera com certeza<br \/>\npor caminho seguro e s\u00f3 dele sabido.<\/p>\n<p>Do Col\u00e9gio ao alto do Castelo, ele descia para a grande cripta embaixo<br \/>\nda pra\u00e7a de S. Sebasti\u00e3o. N\u00e3o penetrava em qualquer de<br \/>\nsuas salas. Seguia pelo corredor circular at\u00e9 \u00e0 galeria de Oeste,<br \/>\nque ia ter a Santo Ant\u00f4nio e ao morro da Concei\u00e7\u00e3o; e<br \/>\nem certa altura, subia em rampa um desvio \u00e0 direita, feito adrede,<br \/>\nat\u00e9 encontrar um segundo, em conveniente plano horizontal, pelo qual<br \/>\npenetrava naquela casa da Rua da Ajuda, pr\u00f3ximo \u00e0 de S. Jos\u00e9,<br \/>\npor um flanco dela que beijava a colina.<\/p>\n<p>Quem da rua contemplasse essa casa, nada encontraria de anormal. Tinha dois<br \/>\npavimentos. No superior se abriam tr\u00eas janelas com sacadas de grade<br \/>\nde pau, em xadrez; e estava ocupado pelos donos. O t\u00e9rreo possu\u00eda<br \/>\nduas largas portas e abrigava alguns escravos com a preciosa cadeirinha, que<br \/>\nlevava os senhores pelas martirizantes ruas da incipiente cidade.<\/p>\n<p>Tal era a casa de Martim Gon\u00e7alves Albernaz, almoxarife do paiol da<br \/>\nalf\u00e2ndega da cidade de S. Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>O seu servi\u00e7o era luxuoso. Havia baixela de prata e porcelana da \u00cdndia;<br \/>\ne os portadores de sua liteira tinha libr\u00e9 pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>As m\u00e1s l\u00ednguas diziam que nelas se cortava Fazenda Real&#8230;<br \/>\nmas outros pretendiam que a senhora possu\u00eda bens e abundantes cabedais<br \/>\nna terra do seu nascimento&#8230;<\/p>\n<p>Logo que se sentou, \u00e0 margem do bufete de jacarand\u00e1, na cadeira<br \/>\nde alto espaldar e assento de couro lavrado e repregado com pregaria de cobre,<br \/>\no jesu\u00edta disse:<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me de beber, Alda. J\u00e1 faz frio.<\/p>\n<p>D. Alda levantou-se e tirou do arm\u00e1rio um pichel com vinho branco<br \/>\ne dois copos.<\/p>\n<p>De p\u00e9, ela era como um fr\u00e1gil cani\u00e7o. Delgada, esguia,<br \/>\nnem a eleva\u00e7\u00e3o dos seios lhe quebrava a unidade da linha. Por<br \/>\ntodo o seu corpo, n\u00e3o havia interrup\u00e7\u00f5es ou soldagens<br \/>\nde partes: era feira de um s\u00f3 tra\u00e7o. Vestia de branco; e as<br \/>\nc\u00e2nulas do cabe\u00e7\u00e3o em leque, erguido atr\u00e1s da nuca,<br \/>\neram como p\u00e9talas de uma d\u00e1lia extravagante, sua cabe\u00e7a<br \/>\nde tra\u00e7os regulares figurava como um disforme pistilo imprevisto.<\/p>\n<p>Movia-se lentamente, levemente, como uma cegonha nos banhados.<\/p>\n<p>Quer na rua, quer em casa, vestia-se com rigor.<\/p>\n<p>Era sempre branco o corpete e, aberto triangularmente no colo, permitia entrever<br \/>\na opala de sua pele. O resto do corpo ficava-lhe envolvido no abundante panejamento<br \/>\ndo vestu\u00e1rio da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Os cabelos negros, longe de traz\u00ea-los \u00e0 moda do tempo, repartia-os<br \/>\nao meio da testa, e empastando-os \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, deixava-os<br \/>\ncair sobre as orelhas, unindo-os nas costas em novelo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Quarta-feira, 10 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p>O padre seguiu-a com os olhos. E logo que ela voltou, encheu os dois copos,<br \/>\nprovou o seu, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Esse miser\u00e1vel j\u00e1 veio?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, respondeu Alda.<\/p>\n<p>\u2014 Tem dado um imenso trabalho, esse tal teu marido&#8230;<\/p>\n<p>Alda sorriu e baixou um tanto a cabela enigmaticamente.<\/p>\n<p>\u2014 Como? indagou complacente.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dias, o governador queixou-se dele ao reitor. N\u00e3o<br \/>\nguarda as conveni\u00eancias; freq\u00fcentemente se embriaga; anda amancebado<br \/>\ncom negras. Disse o mesmo governador que a dignidade do servi\u00e7o de<br \/>\nS.M. n\u00e3o pode tolerar tais desmandos. Hoje, para a tarefa extraordin\u00e1ria<br \/>\nda chegada da frota, foi preciso ir busc\u00e1-lo a um batuque, l\u00e1<br \/>\npara as bandas do Valongo. At\u00e9 agora t\u00eamo-lo salvo, mas n\u00e3o<br \/>\nsei&#8230;<\/p>\n<p>O padre calou-se, e depois de alguns instantes, perguntou, despedindo um<br \/>\nolhar diab\u00f3lico:<\/p>\n<p>\u2014 E se tu enviuvasses?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! N\u00e3o, Jean. N\u00e3o! deixa-o viver&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se sempre poderei fazer isso. Ele tem segredos que<br \/>\ntalvez n\u00e3o os guarde sempre. Amanh\u00e3, despedido do servi\u00e7o<br \/>\nreal, errar\u00e1 na mis\u00e9ria, e o desespero&#8230;<\/p>\n<p>Ajud\u00e1-lo n\u00e3o nos ser\u00e1 poss\u00edvel&#8230; Todos saber\u00e3o<br \/>\nque auxiliamos um incontinente \u00edmpio&#8230; At\u00e9 aqui temos dito<br \/>\nque \u00e9 \u00edmpio nos atos, mas nos sentimentos n\u00e3o. E eu n\u00e3o<br \/>\nsei, Alda, at\u00e9 quando a nossa casu\u00edstica lhe valer\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-o viver, Jean, deixa-o. \u00c9 desgra\u00e7ado, merece<br \/>\npiedade.<\/p>\n<p>\u2014 Quem sabe que n\u00e3o o amas? perguntou gracejando o cl\u00e9rigo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu! oh! fez com um muxoxo a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>O que sinto por ele, continuou, \u00e9 d\u00f3, pena, unicamente; pena<br \/>\nde o ver perseguido pelo mau fado. Sabes que ele come\u00e7ou alto. Dava<br \/>\ngrandes esperan\u00e7as em Coimbra; mas, de uma hora para outra, transformou-se;<br \/>\ne, esquecido dos livros, foi viver indignamente pelas sarjetas de Lisboa,<br \/>\nat\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei, Alda, sei; mas a popula\u00e7\u00e3o murmura, e n\u00e3o<br \/>\ntarda que os seus murm\u00farios cheguem aos ouvidos da Corte.<\/p>\n<p>Os dois misturaram o franc\u00eas e o italiano, e uma frase portuguesa que<br \/>\nrepontava, sonorizava mais o di\u00e1logo.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes que temos novas do Reino? perguntou o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Boas? inquiriu a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Boas e m\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Quais s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 El-Rei foi aclamado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 velho. E da guerra?<\/p>\n<p>\u2014 Que guerra? espantou-se o religioso.<\/p>\n<p>\u2014 A da coroa da Espanha, ora!<\/p>\n<p>\u2014 Em que te interessa ela?<\/p>\n<p>\u2014 Muito.<\/p>\n<p>\u2014 Pretendes?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pretendo, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ouve, Alda. Tu me inquietas; enches-me de zelos.. Ah! Se algum dia&#8230;<br \/>\nfez com raiva o cl\u00e9rigo, levantando-se da cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9, Jean? perguntou com meiguice a mo\u00e7a. Que<br \/>\n\u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Olha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas que olhar, Jean. Que coisa! Tu nem pareces o mesmo. Metes-me<br \/>\nmedo. Que \u00e9 que tens?<\/p>\n<p>\u2014 Eu te explico com vagar, disse o padre sentando-se. Olha, na frota<br \/>\nque chegou hoje veio para n\u00f3s um aviso. Sire, Lu\u00eds XIV, vai<br \/>\nproteger uma expedi\u00e7\u00e3o que se arma contra esta cidade. Ser\u00e1<br \/>\nforte e trar\u00e1 grande c\u00f3pia de homens para o desembarque.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 estava armada? indagou com curiosidade a mo\u00e7a. O<br \/>\njesu\u00edta, como estranhando a pergunta, esteve algum tempo analisando<br \/>\na fisionomia da mulher. Ela tinha um ar ing\u00eanuo, e respirava uma enorme<br \/>\nfranqueza. O padre, desesperado do esfor\u00e7o que fizera para penetrar-lhe<br \/>\nno \u00edntimo, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o, mas se aprestava. Os capit\u00e3es j\u00e1<br \/>\nestavam levantados e o Intendente das Finan\u00e7as tratava com o Ministro<br \/>\nda Frota os navios reais a ceder.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 certo que se dirija p\u2019r aqui, Jean?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 seguro o aviso, respondeu sem refletir o padre.<\/p>\n<p>Sentindo que o segredo, pouco a pouco, se lhe escapava arrancado pela dama<br \/>\ndos seus pensamentos, o padre resolveu falar pouco, tomando precau\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Alda! Toma ten\u00eancia! Eu te vou transmitir um sagrado dep\u00f3sito<br \/>\ndo meu voto, e embora seja de pequena import\u00e2ncia a sua revela\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconv\u00e9m que fique oculto, para que n\u00e3o se suspeite at\u00e9<br \/>\nonde vai o poder da Companhia.<\/p>\n<p>Ouve-te e cala-te, sen\u00e3o, nem o meu amor te salvar\u00e1, disse<br \/>\ncom ardor o jesu\u00edta.<\/p>\n<p>\u2014 Acaso, alguma vez, revelei o que confidencias? Tenho amizades na<br \/>\ncidade, para que o possa fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Bem. Ouve, retrucou mais seguro o cl\u00e9rigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ou\u00e7o e&#8230; perinde ac cadaver, fez com galanteria D. Alda.<\/p>\n<p>O padre ent\u00e3o prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2014 A expedi\u00e7\u00e3o \u00e9 contra S. Sebasti\u00e3o. Os<br \/>\nnossos irm\u00e3os da Fran\u00e7a sabem-no com firmeza. Est\u00e1 rica<br \/>\na cidade, e a riqueza das minas fazem-na cobi\u00e7ada. \u00c9 presa certa<br \/>\ne farta e em breve ela aportar\u00e1. Comanda-a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Alda! Que pressa!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 admirar. \u00c9 do teu saber que tenho grandes<br \/>\nconhecimentos em Fran\u00e7a, e por isso convinha que soubesse quem era<br \/>\no comandante, para evitar encontr\u00e1-lo. Isso em meu bem, e no teu&#8230;<br \/>\nAssim n\u00e3o cr\u00eas, Marqu\u00eas de Fressenec?<\/p>\n<p>O jesu\u00edta, assim chamado pelo seu antigo nome do s\u00e9culo, estremeceu<br \/>\nna cadeira. Bem depressa recobrando a primitiva calma, foi ao chamado da pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 Bof\u00e9! Que tens raz\u00e3o, Condessa Alda de Lambertini.<br \/>\nTens raz\u00e3o&#8230; Quem a comanda, Condessa, \u00e9 Fran\u00e7ois Duclerc,<br \/>\nda Guadalupe.<\/p>\n<p><strong>Sexta-feira, 12 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Ahn! \u00c9 Duclerc, refletiu com indiferen\u00e7a D. Alda.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te espantas?<\/p>\n<p>\u2014 De qu\u00ea? De medo, n\u00e3o podia ser; estou bem protegida.<br \/>\nDemais, o nome n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ilustre assim; um marinheiro<br \/>\nobscuro que quer fazer fortuna em empresas arriscadas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Alda! Dissimulas&#8230; escondes algum segredo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu?!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, escondes.<\/p>\n<p>Ainda amas o crioulo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o amo, Jean, objetou firmemente a senhora, e bem deves<br \/>\nter verificado isto.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o de quem foi a carta da Am\u00e9rica portuguesa que<br \/>\nele recebeu?<\/p>\n<p>\u2014 Que carta?<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230; uma carta. Os nossos irm\u00e3os de Fran\u00e7a pretendem<br \/>\nque ele recebeu uma carta de Pernambuco ou daqui; e que, depois dela, provocou<br \/>\na expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Compreendo. Queres dizer que a carta foi minha, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, ora, Marqu\u00eas, gargalhou a condessa. Nem pareces o fidalgo<br \/>\nde quem Mme. de Mainte me dizia ter tanto esp\u00edrito como o famoso cura<br \/>\nde Meudon! Nem pareces o jesu\u00edta que em poucos anos preencheu os quatro<br \/>\ndificultosos votos da Ordem! Pois numa terra em que abundam aventureiros de<br \/>\ntoda a casta, vingativos, sequiosos e d\u00facteis; pois numa terra dessas,<br \/>\nhavia de ser eu, uma fraca mulher, a quem a Ordem de Jesus protege \u2014havia<br \/>\nde ser eu quem chamaria cors\u00e1rios contra ela?<\/p>\n<p>A condessa italiana tinha falafo com v\u00e1rias entona\u00e7\u00f5es<br \/>\nna voz. Cedo bordava as palavras de uma t\u00eanue ironia para, depois, falar<br \/>\ncom ardor e paix\u00e3o. Em outras vezes ameigava a voz com um forte acento<br \/>\nhumilde; e quando, de um s\u00f3 jato, lhe saiu dos l\u00e1bios a \u00faltima<br \/>\nfrase, o pranto aljofrava-lhe as faces de cetim.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chores, Alda! \u00c9 meu amor que me faz assim. Conheces<br \/>\no quanto ele \u00e9 forte e imperioso. \u00c9 um amor infernal. Por ele<br \/>\nsofri, sofro e sofrerei durante as minhas duas vidas. Perdoa-me, Alda.<\/p>\n<p>Quando o passado me vem, continuou o jesu\u00edta com ternura, quando o<br \/>\npassado me vem, n\u00e3o sei que zelos me sobem \u00e0 alma. Quero penetrar,<br \/>\ndevassar arcanos do teu pensamento; e, como a bala que, por ter demasiada<br \/>\nfor\u00e7a, transmonta e passa al\u00e9m do alvo, a minha penetra\u00e7\u00e3o<br \/>\nme engana, me desvaira. No teu gesto mais familiar, numa palavra dita a meio,<br \/>\nno modo por que bebes o vinho, eu vejo trai\u00e7\u00f5es, trai\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De resto, andas sempre triste&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E tu me querias alegre, quando deixei a considera\u00e7\u00e3o,<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o, o imp\u00e9rio, para viver nesta feitoria cheia<br \/>\nde negros e selvagens?<\/p>\n<p>\u2014 Mas, e eu?<\/p>\n<p>\u2014N\u00e3o \u00e9 o mesmo, Jean; sempre tens considera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne poder. \u00c9s o respeitado irm\u00e3o professo da Companhia de Jesus,<br \/>\nenquanto que eu, que tenho o sangue de Louren\u00e7o, o Magn\u00edfico,<br \/>\na gentalha deste lugar tem por mim d\u00f3, piedade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E te aborrece?<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o? como n\u00e3o se h\u00e1 de aborrecer a &#8220;considerada&#8221;<br \/>\ncondessa, com a piedade da mais \u00ednfima gente da terra toda?<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Alda!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E por que isso? Porque \u00e9 bonita mulher de um funcion\u00e1rio<br \/>\nsecund\u00e1rio, que a abandona e se embriaga.<\/p>\n<p>Entretanto, essa bela mulher n\u00e3o o ama, n\u00e3o se casou com ele;<br \/>\ne tem por esse indiv\u00edduo a piedade que envolve tamb\u00e9m os vermes.<br \/>\nSup\u00f5em-me am\u00e1-lo, ah! nem sabem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sossega, Alda. N\u00e3o v\u00eas que tamb\u00e9m eu desmereci<br \/>\nda honra de freq\u00fcentar a mais bela corte do orbe, e a gl\u00f3ria de<br \/>\nemular com os Racine e os Corneille? Os dois sacrif\u00edcios se equivalem,<br \/>\nAlda.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Jean. N\u00e3o compares. Ningu\u00e9m se apieda de ti. Ningu\u00e9m<br \/>\nse lembrou ainda de te p\u00f4r doces alcunhas.<\/p>\n<p>Nesta cidade, sou a GAR\u00c7A, a D. GAR\u00c7A, como me chegam a chamar<br \/>\nfamiliarmente; e quando o povil\u00e9u p\u00f5e alcunhas meigas \u00e9<br \/>\nporque sente muita desgra\u00e7a no alcunhado, Jean.<\/p>\n<p>\u2014 Espera&#8230; Alda. De volta da miss\u00e3o que vou pregar, voltarei<br \/>\n\u00e0 Europa; e l\u00e1, ent\u00e3o, ser\u00e1s restabelecida na<br \/>\ntua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca mais. Nunca. Aqui enxovalhei-me.<\/p>\n<p>O di\u00e1logo, depois de impetuoso, tinha, aos poucos, baixado de tom,<br \/>\ne seguiram-se a estas palavras pequenas frases explicativas, que o cl\u00e9rigo<br \/>\nrematou, aconselhando:<\/p>\n<p>\u2014 Dorme; sossega; pensa melhor, Alda.<\/p>\n<p>\u2014 Tu te vais? inquiriu com espanto a condessa, vendo o padre acender<br \/>\na lanterna.<\/p>\n<p>\u2014 Vou. H\u00e1 cap\u00edtulos. Adeus, D. Gar\u00e7a; ama-me sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus, Jean.<\/p>\n<p>E os dois beijaram-se por longo tempo.<\/p>\n<p>A condessa, logo que o cl\u00e9rigo saiu, ajoelhou-se ao orat\u00f3rio<br \/>\ne, imperceptivelmente, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Gra\u00e7as a ti, minha Nossa Senhora. Gra\u00e7as! Ele vem.<\/p>\n<p><strong>Domingo, 14 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p>Os Tesouros<br \/>\nO padre Jo\u00e3o de Jouqui\u00e8res, irm\u00e3o professo de quatro<br \/>\nvotos da Companhia de Jesus, antes de penetrar a estreita porta do subterr\u00e2neo,<br \/>\nmurmurou em voz quase impercept\u00edvel algumas palavras \u00e0 escrava,<br \/>\nem seguida ao que, tomou o seu rumo, demandando o sal\u00e3o dos cap\u00edtulos<br \/>\nsecretos.<\/p>\n<p>J\u00e1 alcan\u00e7ava o grande conduto oeste das galerias do Col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Seus passos na crasta lajeada ressoavam lugubremente. Marchava vagaroso.<br \/>\nUm pensamento tenaz e sombrio retardava o seu andar. De onde em onde parava,<br \/>\nfazia como quem quer voltar; e, ap\u00f3s freq\u00fcentes hesita\u00e7\u00f5es,<br \/>\npenetrou na grande galeria em circunfer\u00eancia. Quatro salas, esquarteladas,<br \/>\nabriam as portas para o grande toro oco que a galeria formava.<\/p>\n<p>Uma das quatro destinava-se aos cap\u00edtulos secretos; as restantes eras<br \/>\nas casas-fortes da Ordem.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o dos cap\u00edtulos, embora fortemente iluminado por um grande<br \/>\nalampad\u00e1rio de prata e uma profus\u00e3o de candelabros, guardava<br \/>\nainda a penumbra caracter\u00edstica das salas religiosas.<\/p>\n<p>Alto e c\u00f4ncavo, guarnecido de grandes arm\u00e1rios cheios de livros,<br \/>\nera um toda a sua extens\u00e3o revestido de grossas lajes com as juntas<br \/>\ntomadas \u00e0 argamassa romana.<\/p>\n<p>Estudando as constru\u00e7\u00f5es combalidas da Cidade Eterna, a mil\u00edcia<br \/>\nde Cristo lograra saber a composi\u00e7\u00e3o dos cimentos usados nelas;<br \/>\ne nas suas edifica\u00e7\u00f5es eram empregados iguais com profici\u00eancia<br \/>\ne sabedoria.<\/p>\n<p>Todos os capitulares n\u00e3o tinham ainda chegado. A seda vazia aguardava<br \/>\no Reitor, e as c\u00e1tedras do Procurador e do Secret\u00e1rio, ao dela<br \/>\ne em frente \u00e0 grande mesa oval, n\u00e3o estavam ocupadas.<\/p>\n<p>As amplas curuis, nove, dos capitulares, em curva aberta para a mesa, tinham<br \/>\num ou outro professo.<\/p>\n<p>Em um canto repousavam instrumentos de pedreiro e um caix\u00e3o com argamassa<br \/>\ndosada.<\/p>\n<p>Assim que o padre Jo\u00e3o entrou na sala, correu ao jesu\u00edta mais<br \/>\npr\u00f3ximo, dando-lhe o toque simb\u00f3lico de professo. Procurou entre<br \/>\nas nove cadeiras a sua; sentou-se com desembara\u00e7o e esperou.<\/p>\n<p>Vagarosamente chegaram os restantes e, logo que foram doze, o Reitor ergueu-se,<br \/>\nacompanhado dos demais, e pronunciou claramente:<\/p>\n<p>\u2014 Ad majorem Dei gloriam.<\/p>\n<p>Os padres repetiram as palavras; e, tendo lembrado alguns trechos da Monita<br \/>\nSecreta, o presidente do conclave explicou o motivo da reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Amea\u00e7ada a cidade de uma invas\u00e3o, as grandes riquezas da Ordem<br \/>\ncorriam perigo de saque. Era conveniente precav\u00ea-las em lugar seguro;<br \/>\ntanto mais que tinham decuplicado com o recebimento de extraordin\u00e1rios<br \/>\nvalores da \u00c1sia, do Col\u00e9gio de Angola e de algumas prov\u00edncias<br \/>\nda Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Lembrava tamb\u00e9m que, com elas, se deviam guardar as ricas alfaias,<br \/>\nos paramentos e as imagens de Cristo e dos ap\u00f3stolos, em ouro de lei.<\/p>\n<p>O reitor falava em latim. As s\u00edlabas destacadas da l\u00edngua arcaica<br \/>\nvoavam pela sala com um estalido seco.<\/p>\n<p>Quando o reitor acabou, deu a palavra ao padre Saraiva, encarregado do acondicionamento<br \/>\ndas riquezas.<\/p>\n<p>O cl\u00e9rigo exp\u00f4s o que fizera. Guardara-as em 16 grandes arcas<br \/>\nde madeira do pa\u00eds. Cristo e os ap\u00f3stolos j\u00e1 estavam<br \/>\nna sala do Sol, \u00e0 esquerda; e tamb\u00e9m lhe parecia, segundo o<br \/>\nseu modesto julgar, que as portas das salas deviam ser vedadas e parte dos<br \/>\nsubterr\u00e2neos destru\u00edda, de forma que, se viesse a durar duzentos<br \/>\nanos ou mais, a ocupa\u00e7\u00e3o da cidade, nunca lograssem descobrir<br \/>\nos valores.<\/p>\n<p>Deu fim \u00e0 sua explica\u00e7\u00e3o, com a leitura da ata que lavrara.<br \/>\nLida e assinada pelos doze iniciados na Monita Secreta, o padre reitor anunciou<br \/>\na segunda parte do cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Exp\u00f4s:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 alguns anos, o paulista Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhang\u00fcera,<br \/>\npenetrou no sert\u00e3o dos \u00edndios Goianases, e a\u00ed encontrou<br \/>\nminas de ouro fartas e ricas. E como Sua Paternidade, o Padre Provincial,<br \/>\nme haja ordenado receber o mais poss\u00edvel aos Paulistas nas suas entradas,<br \/>\nseguir-lhes as pegadas, resolvi despachar um pregador \u00e0queles brasis.<\/p>\n<p>Humildemente, rematou o Reitor, espero a opini\u00e3o de Vossas Rever\u00eancias.<\/p>\n<p>Padre Manuel de Assun\u00e7\u00e3o, chegado de Piratininga, achando o<br \/>\nalvitre bom, observou.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser quanto antes a partida da miss\u00e3o, porquanto, ao que<br \/>\nouvi em S. Paulo, o filho do Anhang\u00fcera re\u00fane meios para continuar<br \/>\na empresa do pai.<\/p>\n<p>Todas as conclus\u00f5es foram acordes com o padre Reitor. Devia partir<br \/>\num mission\u00e1rio o quanto antes.<\/p>\n<p>O presidente da Assembl\u00e9ia ent\u00e3o continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Sendo o voto de todos o meu parecer, penso que o escolhido tamb\u00e9m<br \/>\nser\u00e1 da vontade de Vossas Rever\u00eancias.<\/p>\n<p>\u2014 Assim ser\u00e1, padre Reitor, responderam os capitulares em coro.<\/p>\n<p>\u2014 Exige-se-lhe coragem, intelig\u00eancia, boa c\u00f3pia de letras<br \/>\ne sol\u00e9rcia; e, como dentre Vossas Rever\u00eancias sobre desses, grande<br \/>\nfoi a minha dificuldade na escolha; entretanto, o Santo Esp\u00edrito iluminou-me<br \/>\ne escolhi-o no padre professo Jo\u00e3o de Jouqui\u00e8res.<\/p>\n<p>A assist\u00eancia recebeu com um estreme\u00e7o a decis\u00e3o. Ningu\u00e9m<br \/>\nsupunha fosse ela recair no irm\u00e3o Jean, antigo Marqu\u00eas de Fressenec.<br \/>\nA permiss\u00e3o que tinha do Geral para se servir dos subterr\u00e2neos<br \/>\nda Ordem a fim de experimentar as grosserias do mundo, parecia p\u00f4-lo<br \/>\na coberto das expedi\u00e7\u00f5es long\u00ednquas. O escolhido foi<br \/>\nquem na apar\u00eancia menos se admirou. Pedindo a necess\u00e1ria v\u00eania,<br \/>\nobservou:<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Paternidade muito se h\u00e1 de espantar do pedido que vou<br \/>\nfazer.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Rever\u00eancia pode faz\u00ea-lo, retrucou o Reitor.<\/p>\n<p>\u2014 Solicito de Vossa Paternidade dispensa de t\u00e3o gloriosa miss\u00e3o,<br \/>\nfez com do\u00e7ura o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Rever\u00eancia far\u00e1 merc\u00ea de relatar os embargos?<br \/>\nobjetou o Reitor.<\/p>\n<p>\u2014 Creio escusado diz\u00ea-los, pois que bem s\u00e3o sabidas de<br \/>\nVossa Paternidade as raz\u00f5es do alegado, disse o padre Jouqui\u00e8res,<br \/>\ntrocando um olhar de intelig\u00eancia com o Reitor.<\/p>\n<p>\u2014 Contudo Vossa Rever\u00eancia deve declar\u00e1-las \u00e0 casa,<br \/>\npadre Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e9bil de corpo, care\u00e7o de for\u00e7as para suportar<br \/>\nas agruras do sert\u00e3o. Demais, n\u00e3o conhe\u00e7o suficientemente<br \/>\na l\u00edngua geral&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 mais Vossa Rever\u00eancia o douto s\u00e1bio<br \/>\nque, com os novos elementos colhidos, corrigia o catecismo do padre Navarro?<br \/>\nindagou com ironia o Reitor.<\/p>\n<p>Sem se dar por achado, o jesu\u00edta franc\u00eas explicou:<\/p>\n<p>\u2014 De fato, desde dois anos dedico-me ao estudo acurado das l\u00ednguas<br \/>\namericanas, mas da\u00ed a falar, a dist\u00e2ncia \u00e9 grande!<\/p>\n<p>\u2014 A pr\u00e1tica de meses ajudar\u00e1 Vossa Rever\u00eancia,<br \/>\nobjetou teimoso o Reitor.<\/p>\n<p><strong>Segunda-feira, 15 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>II &#8211; Os Tesouros <\/strong><\/p>\n<p>O padre reitor, velha raposa jesu\u00edta, tinha aos poucos anulado todas<br \/>\nas raz\u00f5es do mo\u00e7o religioso, que sentindo-se derrotado, se encheu<br \/>\nde \u00f3dio e raiva, at\u00e9 ali contidos, assegurando com firmeza:<\/p>\n<p>\u2014 Saber\u00e1 Vossa Paternidade que n\u00e3o irei.<\/p>\n<p>Os dez capitulares ficaram at\u00f4nitos e p\u00e1lidos. Conheciam o reitor,<br \/>\na pureza de sua f\u00e9, a sua inquebrant\u00e1vel energia. Temeram pelo<br \/>\nantigo Marqu\u00eas.<\/p>\n<p>Entreolhavam-se.<\/p>\n<p>O reitor crispou os dedos e ergueu-se da c\u00e1tedra.<\/p>\n<p>Era um homem baixo, magro, anguloso. Sob a sua tez tostada havia o ba\u00e7o<br \/>\ndos ict\u00e9ricos. Espanhol de nascimento, professara no Col\u00e9gio<br \/>\nde \u00c9vora. Mandado para o Par\u00e1, bem cedo mostrara o seu grande<br \/>\nardor apost\u00f3lico. Andara 20 anos pelo Solim\u00f5es, levando aos<br \/>\nselvagens boas novas do sagrado evangelho. Tinha a confian\u00e7a que os<br \/>\nimpressiona e a afabilidade que os rende.<\/p>\n<p>Depois de professo s\u00f3 tivera um desejo \u2014 apostolar, e s\u00f3<br \/>\nquisera uma gl\u00f3ria \u2014 o mart\u00edrio.<\/p>\n<p>Este, quase obtivera; mas a sua for\u00e7a d\u2019alma afastara-o dele.<\/p>\n<p>Apostolando no Madeira, prisioneiro dos Muras, fora amarrado ao poste do<br \/>\nsacrif\u00edcio. Pr\u00f3ximo o fogo crepitava. Um enxame de vespas, repentinamente<br \/>\nespantadas com a fuma\u00e7a, voou feroz. Mordilharam-lhe o corpo, descarnado<br \/>\ne nu; transformaram-no numa chaga s\u00f3.<\/p>\n<p>Quando os selvagens voltaram e contemplaram a sua fisionomia pl\u00e1cida,<br \/>\nserena, de olhos untados de beatitude postos ao alto, admiraram aquela insensibilidade,<br \/>\ne plenos de supersti\u00e7\u00e3o soltaram-no respeitosos.<\/p>\n<p>Esfarrapado, doente, esfaimado, Gaspar Hurtado continuou a pregar e fundou<br \/>\nquatro aldeias. Era a esse homem que o padre Jouqui\u00e8res t\u00e3o<br \/>\nabruptamente desafiara.<\/p>\n<p>\u2014 Porventura estareis esquecido da obedientia coeca, que juraste? indagou<br \/>\no reitor.<\/p>\n<p>Absolutamente, padre Hurtado, n\u00e3o estou. Vossa Paternidade, me parece,<br \/>\n\u00e9 que j\u00e1 est\u00e1 esquecido em demasia.<\/p>\n<p>\u2014 Quereis falar da autoriza\u00e7\u00e3o especial que tendes?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Do Geral que tudo pode e manda, e quer ser obedecido.<\/p>\n<p>\u2014 E quem vos disse que ele est\u00e1 sendo desmandado, Marqu\u00eas<br \/>\nde Fressenec? Quem vos disse?<\/p>\n<p>\u2014 Relembrai-lhe os termos, padre Reitor.<\/p>\n<p>\u2014 Lerei. Ser\u00e1 melhor.<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; concedo-lhe a gra\u00e7a de experimentar as grosserias do mundo,<br \/>\nenquanto for para bem dos interesses da Ordem&#8230;&#8221; N\u00e3o \u00e9<br \/>\nisso?<\/p>\n<p>O velho mission\u00e1rio, logo ao tirar a c\u00f3pia da carta de sob<br \/>\nas vestes, tinha dado com o t\u00f3pico; e a presteza com que o achou dava<br \/>\na entender que muito meditara sobre ela e a interpretara segundo as suas conveni\u00eancias.<\/p>\n<p>O antigo marqu\u00eas percebera argutamente a finura do superior; mas quis,<br \/>\nno entanto, argumentar.<\/p>\n<p>Tenazmente refutado, caiu em c\u00f3lera. Com o olhar aceso, levantou-se<br \/>\nde um salto da cadeira, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Na terra, n\u00e3o h\u00e1 quem me possa tolher os passos. Desconhe\u00e7o<br \/>\nem v\u00f3s esse poder. Sou homem, sou livre.<\/p>\n<p>Sabei. Quero amar, hei de amar. N\u00e3o irei; n\u00e3o me apraz&#8230;<\/p>\n<p>Os professos cabisbaixos, assistiam com ceticismo \u00e0quela revolta.<br \/>\nSabiam at\u00e9 onde ia o poder da Ordem de Jesus. Mediam as suas for\u00e7as<br \/>\nocultas e os perigos que corriam um perjuro dela.<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Rever\u00eancia parece ter esquecido o juramento: perinde<br \/>\nac cadaver, disse o Reitor com calma e reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que me importam os juramentos, os compromissos; que me importam eles,<br \/>\nse se antep\u00f5em ao meu amor, ao meu cora\u00e7\u00e3o. Quero o inferno<br \/>\nnas minhas duas vidas; quero persegui\u00e7\u00f5es, mis\u00e9rias,<br \/>\nmas quero amar, Padre, quero amar; quero t\u00ea-la bem perto de mim, bem<br \/>\njunto, a minha Alda, o meu Amor. N\u00e3o irei, Padre! Dentro da minha alma,<br \/>\nsou rei, sou Deus!<\/p>\n<p>Os professos continuavam calados.<\/p>\n<p>O Reitor levantou-se e mansueto discorreu:<\/p>\n<p>\u2014 Deus \u00e9 rei dentro de v\u00f3s. Pensais isso? Que engano!<br \/>\nHumilhado, despicado com o mundo, h\u00e1 quinze anos, batestes \u00e0s<br \/>\nnossas portas. V\u00ednheis corrido da gl\u00f3ria, do amor. De nada vos<br \/>\nvaleu vossa nobreza, vosso talento&#8230; S\u00f3 a Ordem brilhava nas trevas<br \/>\ndessa noite de vossa vida. Batestes e receberam-vos.<\/p>\n<p>Ela, a Ordem, vos deu paz, sossego, abund\u00e2ncia; n\u00e3o contente,<br \/>\nvos deu tamb\u00e9m amor. Tudo o que quisestes em Fran\u00e7a, h\u00e1<br \/>\nquinze anos, a Companhia vos deu aqui. N\u00e3o vos pediu ela, s\u00f3<br \/>\nobedi\u00eancia. Nada vos exigiu de sacrif\u00edcio at\u00e9 hoje. Entretanto,<br \/>\nela vos pede agora uma pequena priva\u00e7\u00e3o, objetais orgulhosamente<br \/>\nque sois Deus, que sois rei, que vosso amor n\u00e3o quer&#8230; Como se vosso<br \/>\namor n\u00e3o proviesse da Companhia; como se ele n\u00e3o fosse uma esmola<br \/>\nda Ordem!<\/p>\n<p>Marqu\u00eas de Fressenec, sede rei, sede Deus, mas notai bem: o que aqui<br \/>\nvistes, n\u00e3o vistes; o que aqui ouvistes, n\u00e3o ouvistes.<\/p>\n<p>Acabando de dizer estas palavras, padre Gaspar voltou-se para o irm\u00e3o<br \/>\nSecret\u00e1rio, recomendando:<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Rever\u00eancia far\u00e1 merc\u00ea de lavrar o compromisso<br \/>\nde expuls\u00e3o, de acordo com as Instru\u00e7\u00f5es Secretas.<\/p>\n<p>O jesu\u00edta puxou uma folha de papel e p\u00f4s-se a escrever.<\/p>\n<p><strong>Sexta-feira, 19 de maio de 1905<\/strong><\/p>\n<p>Entrementes, o marqu\u00eas recostado \u00e0 guarda da curul, pensava.<br \/>\nA [ileg\u00edvel], flex\u00edvel, por toda a parte segui-lo-ia. Expulso,<br \/>\nsem classe, erraria pelas aldeias e vilas. O amor fugir-lhe-ia, porque tinha<br \/>\nraz\u00e3o o Reitor, seu amor era uma esmola da Ordem.<\/p>\n<p>Que seria dele? S\u00f3, sem parceiros, sem mulher&#8230;<\/p>\n<p>Na alma do marqu\u00eas havia o caos. Tudo se chocava, tudo se baralhava;<br \/>\nnem um sentimento definido. Por fim, acovardado, ajoelhou-se e implorou:<\/p>\n<p>\u2014 Perdoai-me, padre reitor, perdoai-me.<\/p>\n<p>O semblante do velho religioso resplandeceu e, como de antem\u00e3o se<br \/>\ncontasse com aquela cena, ergueu o professo do lajedo, calmo e meigo, e lhe<br \/>\ndisse:<\/p>\n<p>\u2014 Prolfa\u00e7as que obrastes bem, Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Em seguida recomendou ao padre secret\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u2014 Rasgai o ato.<\/p>\n<p>E para os capitulares reunidos:<\/p>\n<p>\u2014 Transportemos agora para as salas as riquezas da Ordem.<\/p>\n<p>Os padres se ergueram. Quatro sa\u00edram e foram se postar em um compartimento<br \/>\nmais alto. Os oito restantes ficaram no mesmo aposento, arredando um grande<br \/>\narm\u00e1rio de junto da parede. Retirado o m\u00f3vel, padre Saraiva<br \/>\nintroduziu uma talhadeira entre os lajedos, deixando ver um largo conduto<br \/>\ninclinado, que come\u00e7ava no aposento a cavaleiro. Com um sistema misto<br \/>\nde roldanas, cabos e plano inclinado, as grandes arcas desciam por ele, cada<br \/>\numa de per si. Mal ajuntavam na abertura, dois padres, nas al\u00e7as da<br \/>\ncabeceira, e dois nos p\u00e9s, tal como as esquifes, removiam as arcazes<br \/>\npara as salas pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Todas estas precau\u00e7\u00f5es foram tomadas a fim de melhor guardar<br \/>\nsegredo. Para o aposento superior, as riquezas tinham sido, aos poucos, levadas<br \/>\npor escravos e gente a soldada da companhia; e da\u00ed para baixo vinham<br \/>\ndessa maneira.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinham descido quinze caixas, quando a d\u00e9cima sexta, a das<br \/>\npedrarias, trope\u00e7ou no caminho e resistiu \u00e0 tra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a \u00faltima, e a noite ia alta. O alampad\u00e1rio tinha a mesma<br \/>\nluz e os candelabros haviam recebido novas velas.<\/p>\n<p>A um s\u00f3 tempo os oito padres deram um \u00fanico pux\u00e3o no<br \/>\ncabo de linho.<\/p>\n<p>A caixa escorregou e, dado o impulso que tinha, veio cair no centro do sal\u00e3o,<br \/>\ndespeda\u00e7ando-se.<\/p>\n<p>Diamantes e rubis; cor\u00edndons e ametistas; p\u00e9rolas, cris\u00f3litas,<br \/>\nturquezas, turmalinas, \u00e1gatas; grandes, pequenas e mi\u00fadas, semeadas<br \/>\npelo lajedo, brilhavam, faiscando. Tons cambiantes, matizes do verde, do azul,<br \/>\ndo vermelho, misturavam-se, caldeavam-se. Por baixo da pel\u00edcula verde<br \/>\ndo brilho das esmeraldas havia coriscos azuis do cintilar das safiras. Rubros<br \/>\npingos de sangue vivo desmaiavam \u00e0 fosca luz das p\u00e9rolas. Um<br \/>\ngrande diamante da \u00cdndia, principescamente, como um sol, faiscava no<br \/>\ncentro.<\/p>\n<p>E \u00e0 indiferente luz da grande al\u00e2mpada de prata, febrilmente,<br \/>\numa a uma, os padres, agachados, ficaram a reunir aquelas riquezas dispersas&#8230;<\/p>\n<p>Padre Jo\u00e3o conservava-se a dist\u00e2ncia, bra\u00e7os cruzados<br \/>\nsobre o espaldar da cadeira, na humildade do seu arrependimento; o seu olhar,<br \/>\nintenso e vivo, fixava-se nas pedrarias espalhadas pelo lajedo.<\/p>\n<p>Em seu esp\u00edrito uma \u00edntima revolta flamejava; o marqu\u00eas<br \/>\nrelembrava o seu passado, cheio de nobres e cavalheirescas a\u00e7\u00f5es;<br \/>\njamais ele se curvara a uma imposi\u00e7\u00e3o ou a uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Fora sempre um forte nas lutas de pol\u00edtica como nas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto agora se haviam dobrado os seus joelhos numa s\u00faplica e<br \/>\nos seus l\u00e1bios afeitos ao mando tinham murmurado frases de perd\u00e3o!<\/p>\n<p>E tudo isso por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Um amor intenso, fatal, dominador, obcecava-lhe a raz\u00e3o, apagara-lhe<br \/>\ndo peito a chama v\u00edvida de um orgulho indomado.<\/p>\n<p>A expuls\u00e3o seria a perda do poderio, da paz mon\u00e1stica do col\u00e9gio,<br \/>\nseria talvez a perda de sua vida; nada disso, por\u00e9m, era de for\u00e7a<br \/>\na abater o \u00e2nimo do cl\u00e9rigo.<\/p>\n<p>O que o obrigara \u00e0quela humilha\u00e7\u00e3o, \u00e0 quebra<br \/>\nde vaidade de homem, fora o amor, unicamente o amor; fora o receio de perder,<br \/>\ncom a roupeta de jesu\u00edta, a sua Alda, a sua querida Alda.<\/p>\n<p>A Companhia era forte, era quase onipotente.<\/p>\n<p>Expulso dela, vagaria solit\u00e1rio pelo mundo, e aquela por quem abandonara<br \/>\no mundo, entre as paredes do claustro do Castelo, seria pasto da lubricidade<br \/>\ndos outros.<\/p>\n<p>Padre Jo\u00e3o fizera bem; a vingan\u00e7a viria depois, cedo ou tarde.<\/p>\n<p>E com os bra\u00e7os apoiados no espaldar da velha curul, o jesu\u00edta<br \/>\nfixava as pedrarias esparsas, com um sorriso diab\u00f3lico a brincar-lhe<br \/>\nnos l\u00e1bios.<\/p>\n<p><strong>S\u00e1bado, 20 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>A Descoberta de uma Nova Galeria<\/strong><\/p>\n<p>Ontem, \u00e0 uma hora da madrugada, os trabalhadores sob a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo h\u00e1bil engenheiro Pedro Dutra, encarregados do arrasamento do morro<br \/>\ndo Castelo, descobriram uma nova galeria, que parece ser a mais importante<br \/>\ndas tr\u00eas at\u00e9 agora encontradas.<\/p>\n<p>Segundo as informa\u00e7\u00f5es fidedignas que em dias consecutivos<br \/>\npublicamos, deve ser esta a galeria mestra, conduzindo \u00e0 vasta sala<br \/>\nsubterr\u00e2nea, onde, segundo rezam a cr\u00f4nica e a lenda, est\u00e3o<br \/>\nencerrados os tesouros dos jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>Foram encontrados no meio do barro lamacento restos carcomidos pela ferrugem<br \/>\nde instrumentos de supl\u00edcio, pregos, correntes, pol\u00e9s, gargalheiras,<br \/>\netc.<\/p>\n<p>O novo subterr\u00e2neo, ao que parece, n\u00e3o \u00e9, como os precedentes,<br \/>\naberto simplesmente a ponteiro no moledo; a sua constru\u00e7\u00e3o foi<br \/>\nmais cuidada e obedeceu aos preceitos da arte de construir compat\u00edveis<br \/>\ncom os progressos da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Abre-se a porta que para ele d\u00e1 ingresso ao p\u00e9 de uma velha<br \/>\nescada do Semin\u00e1rio, agora destru\u00edda por via do arrasamento<br \/>\ndo secular edif\u00edcio. Uma enorme pedra de cantaria obstru\u00eda-lhe<br \/>\na entrada; removida esta, penetraram no subterr\u00e2neo o engenheiro Dutra<br \/>\ne alguns oper\u00e1rios de confian\u00e7a e logo ficou patente a import\u00e2ncia<br \/>\nda descoberta.<\/p>\n<p>Pessoa que assistiu a este trabalho garantiu-nos ter sido encontrado um pequeno<br \/>\ncofre de madeira cintado de ferro, que de pronto chamou a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Dr. Dutra o qual resolveu sem demora comunicar ao Dr. Frontin o interessante<br \/>\nachado, guardando sobre o caso o mais completo sigilo.<\/p>\n<p>Pela leveza do cofre, parece n\u00e3o conter ele metal, sen\u00e3o documentos<br \/>\nda Ordem de Jesus.<\/p>\n<p>A nova galeria, que segue a dire\u00e7\u00e3o do Convento dos Capuchinhos,<br \/>\nj\u00e1 est\u00e1 explorada na extens\u00e3o de dez metros, tendo sido<br \/>\nontem visitada pelos Drs. Lauro M\u00fcller, Paulo de Frontin,Get\u00falio<br \/>\ndas Neves, Em\u00edlio Berla, general Sousa Aguiar, Chagas D\u00f3ria<br \/>\ne v\u00e1rios engenheiros da avenida, que em seguida percorreram, em bonde<br \/>\nespecial, a Avenida Central.<\/p>\n<p>Continuaremos amanh\u00e3 a publica\u00e7\u00e3o de D. Gar\u00e7a,<br \/>\na narrativa que tanto interesse tem despertado e que t\u00e3o intimamente<br \/>\nse prende \u00e1s descobertas dos subterr\u00e2neos do morro do Castelo.<\/p>\n<p><strong>Domingo, 21 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>Novas Galerias &#8211; Uma Visita<\/strong><\/p>\n<p>Pouco a pouco v\u00e3o se desvendando os mist\u00e9rios das lendas seculares<br \/>\ndo morro do Castelo e a picareta dos trabalhadores vai descobrindo galerias,<br \/>\nsalas subterr\u00e2neas, confirmando o que dizem os roteiros.<\/p>\n<p>Sobre a not\u00edcia que demos ontem do aparecimento de uma nova galeria,<br \/>\ntemos a retificar um ponto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma galeria e sim de uma sala subterr\u00e2nea revestida<br \/>\nde tijolos. Desta saem duas galerias: uma que corre paralela \u00e0 avenida<br \/>\ne outra que segue em dire\u00e7\u00e3o ao convento dos Capuchinhos.<\/p>\n<p>A primeira est\u00e1 com a ab\u00f3bada descoberta e ainda n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 desentulhada.<\/p>\n<p>O mesmo acontece \u00e0 sala.<\/p>\n<p>A outra galeria, onde ontem penetramos gra\u00e7as \u00e0 gentileza do<br \/>\nDr. Dutra de Carvalho, tem a boca estreita, que come\u00e7a a se alargar<br \/>\ndepois de tr\u00eas metros. Da\u00ed em diante \u00e9 uma vasta galeria<br \/>\nrevestida de tijolos e onde pode andar \u00e0 vontade o homem mais gordo<br \/>\ne alto.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o est\u00e1 desentulhada e a sessenta metros torna-se nela<br \/>\ndif\u00edcil a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00eam sido encontradas v\u00e1rias balas rasas e outros instrumentos<br \/>\nde ferro carcomidos pela ferrugem.<\/p>\n<p>Foram tamb\u00e9m encontradas algumas garrafas.<\/p>\n<p>Os trabalhos continuaram toda a noite devendo ser suspensos hoje de manh\u00e3.<\/p>\n<p>A galeria que est\u00e1 sendo desobstru\u00edda ficava exatamente num<br \/>\ncorredor do semin\u00e1rio de serventia privada dos padres. Acima da ab\u00f3bada,<br \/>\ngrandes lajes suportavam a terra, sobre as quais foram constru\u00eddos<br \/>\nos suportes das vigas que ag\u00fcentam o corredor.<\/p>\n<p>Obra antiga e s\u00f3lida, s\u00f3 a picareta poderia p\u00f4-la a descoberto<\/p>\n<p><strong>Ter\u00e7a-feira, 23 de maio de 1905<\/strong><\/p>\n<p>Os trabalhos de desobstru\u00e7\u00e3o das novas galerias descobertas<br \/>\nno s\u00e1bado, suspensos por motivo do descanso dominical recome\u00e7aram<br \/>\nontem sob a dire\u00e7\u00e3o do Dr. Dutra de Carvalho.<\/p>\n<p>A galeria que seguia sentido ascendente do morro ficou limpa at\u00e9 a<br \/>\ndist\u00e2ncia de sessenta metros, e a\u00ed bifurca-se em duas dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Dr. Paulo Frotin, em visita que se fez, deu v\u00e1rias instru\u00e7\u00f5es<br \/>\npara este servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Foram instaladas l\u00e2mpadas el\u00e9tricas na parte desobstru\u00edda<br \/>\ndevendo o servi\u00e7o prosseguir sem interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m daquele engenheiro visitou as galerias o Dr. Lauro M\u00fcller,<br \/>\nMinistro da Via\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00eam sido encontrados v\u00e1rios peda\u00e7os de ferro carcomidos<br \/>\npela ferrugem e cuja serventia n\u00e3o se pode precisar.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o em que se procedia ao desentulho da grande galeria desabou<br \/>\num peda\u00e7o da ab\u00f3bada, n\u00e3o tendo felizmente havido v\u00edtimas<\/p>\n<p><strong>Quarta-feira, 24 de maio de 1905 <\/strong><\/p>\n<p><strong>As Galerias do Castelo<\/strong><\/p>\n<p>O caso do dia que ainda preocupa a aten\u00e7\u00e3o do povo \u00e9<br \/>\nincontestavelmente o das galerias do Morro do Castelo.<\/p>\n<p>Tenazmente a picareta dos trabalhadores da Avenida, sob a h\u00e1bil dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ativo engenheiro Dr. Dutra de Carvalho, vai desvendando os mist\u00e9rios<br \/>\ndas galerias.<\/p>\n<p>Ontem \u00e0 tarde foi encontrado um crucifixo, que se sup\u00f5e ser<br \/>\nde ouro e que mede cerca de oito cent\u00edmetros.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi encontrada uma imagem de madeira do Senhor dos Passos.<\/p>\n<p>A galeria, que segue em sentido ascendente do morro, bifurca-se, como dissemos<br \/>\nontem, em duas galerias: uma em sentido reto e outra em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao convento dos Capuchinhos.<\/p>\n<p>A primeira interrompe o seu trajeto por uma laje, presumindo-se que seja<br \/>\numa porta falsa, o que em breve saberemos com o prosseguimento das explora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, o morro do Castelo ainda por muito tempo fornecer\u00e1<br \/>\naos curiosos novas not\u00edcias.<\/p>\n<p><strong>A Vingan\u00e7a do Jesu\u00edta<\/strong><\/p>\n<p>Demandando os \u00edndios Goianases, cujas mulheres, segundo a fabulosa<br \/>\nnarra\u00e7\u00e3o do Anhang\u00fcera, traziam como enfeites palhetas<br \/>\nde ouro virgem, o jesu\u00edta parte do Col\u00e9gio de S. Paulo. Voga<br \/>\nrio abaixo. A montaria desliza mansamente ao sabor da corrente.<\/p>\n<p>Quatro caraj\u00e1s, ainda dos que vieram meninos no resgate de Pires de<br \/>\nCampos, remam vagarosos e sem esfor\u00e7o. A velocidade das \u00e1guas<br \/>\narrasta a tosca embarca\u00e7\u00e3o; e \u00e9 bastante aproveitar-lhe<br \/>\no \u00edmpeto para navegar c\u00e9lere.<\/p>\n<p>\u00c0 popa, o padre e o coadjutor se estreitam. Pequenos fardos de alimentos<br \/>\nrepousam aos seus p\u00e9s e tamb\u00e9m na proa; \u00e9 pouca coisa&#8230;<br \/>\nDeus dar\u00e1 o resto para a viagem toda!&#8230;<\/p>\n<p>O antigo marqu\u00eas olha as margens.<\/p>\n<p>Aqui, uma praiazita alva, l\u00edmpida, ondula em graciosa curva. A canoa<br \/>\na descer \u00e9 como um l\u00e1pis a tra\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>De repente, dois pavorosos blocos negros de pedra avan\u00e7am pelas duas<br \/>\nmargens. O rio se adelga\u00e7a e a correnteza aumenta. Seguem-se barrancos<br \/>\nde dois lados.<\/p>\n<p>O fio d\u2019\u00e1gua escorre entre dois diques abruptos. A mata vem<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s margens. As \u00faltimas \u00e1rvores se inclinam<br \/>\ne as lianas pendentes rasam \u00e0 superf\u00edcie prateada, oscilando<br \/>\nao impulso da \u00e1gua que corre.<\/p>\n<p>Chega a noite. Os quatro remeiros, em l\u00edngua indi\u00e1tica onde<br \/>\nse misturam vagas son\u00e2ncias portuguesas, entoam uma melop\u00e9ia<br \/>\nnost\u00e1lgica. Os padres rezam; e as \u00e1rvores da margem a que se<br \/>\ndirigem, estremecem e farfalham ao sopro da brisa.<\/p>\n<p>Abicados em lugar prop\u00edcio, armam uma tenda passageira; e passada<br \/>\na sombria noite, povoada de g\u00eanios e duendes, seguem caminho.<\/p>\n<p>Assim dias e dias: e \u00e0s vezes a chuva, mol\u00e9stia, o cansa\u00e7o<br \/>\nretardam a rota sem termo preciso. Mais do que uma noite, demoram-se no ligeiro<br \/>\nacampamento.<\/p>\n<p>Os \u00edndios pescam e ca\u00e7am pelos arredores com as suas primitivas<br \/>\narmas. N\u00e3o h\u00e1 mosquetes, nem espingardas. Uma miss\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o as usa. Conseguem dessa maneira refazer as escassas provis\u00f5es.<br \/>\nPouco se falam. Cada qual, ante a augusta presen\u00e7a do deserto, recolhe-se<br \/>\ndentro de sua alma.<\/p>\n<p>Padre Jo\u00e3o medita e relembra o passado.<\/p>\n<p>Recorda sua mocidade. Que grandeza n\u00e3o amea\u00e7ava ela! A chegada<br \/>\nem Paris&#8230; a sua primeira trag\u00e9dia representada!&#8230;<\/p>\n<p>Os elogios e as sauda\u00e7\u00f5es que recebeu prometiam-lhe um destino<br \/>\nseguro, feliz e alto.<\/p>\n<p>Depois encontrou a condessa Alda, esposa do velho embaixador de Floren\u00e7a,<br \/>\no Conde Ruffo de Lambertini. Era uma maravilha de mocidade, de beleza e de<br \/>\ngra\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi em Versailles que a viu pela primeira vez e logo se apaixonou. Duclerc,<br \/>\npor esse tempo, chegou tamb\u00e9m \u00e0 corte. O almirante Touville<br \/>\napresentou-o como um dos bravos da batalha do cabo de S\u00e3o Vicente que<br \/>\nacabava de ganhar. Tanto ele como Duclerc cortejavam a condessa, que parecia<br \/>\nhesitar entre dois amores.<\/p>\n<p>Mas, ai! que foi ele pr\u00f3prio quem a desviou para o rival&#8230;<\/p>\n<p>Um duelo cruel e injusto com o marinheiro atraiu-lhe a animosidade de Alda.<br \/>\nAos poucos, o esc\u00e2ndalo que ele levantou, fez-lhe perder o valimento.<br \/>\nOs amigos fugiam-lhe; o rei n\u00e3o o recebia mais.<\/p>\n<p>Desgostoso, n\u00e3o encontrando sa\u00edda para aquele angustioso momento,<br \/>\nprocurou a Ordem. Em breve preencheu os quatro votos&#8230;<\/p>\n<p>A tarde vinha. Agora, subindo o rio mais largo, a canoa se move com dificuldade.<br \/>\nCava na superf\u00edcie das \u00e1guas um sulco profundo.<\/p>\n<p>O jesu\u00edta professo continuava agitando nas recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Lembrava-se agora da entrevista que tivera com o Geral, em Roma.<\/p>\n<p>\u2014 Que vos fez entrar para a Ordem, Marqu\u00eas? perguntou-lhe o superior<br \/>\nda Companhia.<\/p>\n<p>\u2014 O amor, Emin\u00eancia. O amor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desanimaste dele?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; sou padre.<\/p>\n<p>E em seguida relatou-lhe todo o seu sofrimento, a sua ang\u00fastia e o<br \/>\nseu desespero. Descreveu-lhe o nome, a posi\u00e7\u00e3o e a beleza do<br \/>\nobjeto do seu amor.<\/p>\n<p>O Geral ouviu complacentemente a sua narra\u00e7\u00e3o e, ao retirar-se<br \/>\nele, lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 Vossa Rever\u00eancia vai para Lisboa. Esperar\u00e1 e ver\u00e1<br \/>\nent\u00e3o o quanto pode a Companhia.<\/p>\n<p>Na capital do reino luso esperou. Dentro de um ano a condessa chegava em<br \/>\num navio da Companhia, que a resgatara aos piratas de Argel, dos quais fora<br \/>\nprisioneira na embarca\u00e7\u00e3o a cujo bordo voltara de Fran\u00e7a<br \/>\nem busca de sua terra. A tripula\u00e7\u00e3o trucidada e passageiros<br \/>\ntamb\u00e9m, s\u00f3 ela escapara cativa.<\/p>\n<p>Trazida secretamente do gale\u00e3o Santo In\u00e1cio, da Ordem, desembarcava<br \/>\nem S\u00e3o Sebasti\u00e3o figurando como esposa de Martim Gon\u00e7alves<br \/>\nAlbernaz, criatura da Companhia e despachado por El-Rei, almoxarife do paiol<br \/>\nda Alf\u00e2ndega&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, meu padre, por aqui, falou uma voz da margem da qual<br \/>\nse aproximaram.<\/p>\n<p>O jesu\u00edta e os companheiros ficaram surpreendidos. Naquelas alturas,<br \/>\nt\u00e3o boa linguagem portuguesa era para admirar.<\/p>\n<p>Investigaram a margem. Em p\u00e9 com a espingarda descansada no solo e<br \/>\ninclinada a bra\u00e7o frouxo, havia um homem alto coberto de um largo chap\u00e9u.<br \/>\nEra o chefe de uma bandeira, talvez. Saindo de moitas, um a um, foram-lhe<br \/>\naparecendo os companheiros. O jesu\u00edta n\u00e3o tivera not\u00edcia<br \/>\ndaquela entrada. Por aquelas \u00e9pocas era assim; um punhado de homens<br \/>\nse juntavam e um belo dia seguidos de alguns \u00edndios e negros, partiam<br \/>\ndiscretamente para o interior encantado. De algumas dessas correrias os povos<br \/>\nguardavam mem\u00f3ria, de poucas a hist\u00f3ria conservou o resultado,<br \/>\nmas da maioria, nem os alvadios casos da sua gente, pelos tempos em fora,<br \/>\nficaram marcando nos valedos a grandeza do seu esfor\u00e7o. Apagaram-se.<\/p>\n<p>O jesu\u00edta estava em frente a uma dessas. Era pequena: quatorze paulistas<br \/>\ne alguns \u00edndios e negros.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, irm\u00e3o, retrucou o padre ao bandeirante, vou<br \/>\nem busca de almas para o purgat\u00f3rio. De que vos admirais?<\/p>\n<p>\u2014 Padre, as cidades est\u00e3o cheias de almas precisadas de vosso<br \/>\nsocorro. Deixai-nos os sert\u00f5es; quando eles se tornarem vilas, ent\u00e3o<br \/>\nsim, padre, obrai.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do jesu\u00edta n\u00e3o foi suficiente para demover<br \/>\naqueles rudes. De manh\u00e3, no dia seguinte, logo ao romper d\u2019alva<br \/>\no chefe veio ao padre:<\/p>\n<p>\u2014 Voltai, reverendo, voltai sobre os vossos passos. E a intima\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeita a berros pelo ajuntamento todo foi t\u00e3o perempt\u00f3ria e en\u00e9rgica<br \/>\nque o jesu\u00edta no dia seguinte retomava o caminho pelo qual jornadeara<br \/>\nquatro longos meses.<\/p>\n<p>A volta durou mais da metade que a ida. Foi penosa, mas, de esfor\u00e7o<br \/>\nem esfor\u00e7o, a miss\u00e3o chegou afinal ao ponto de partida.<\/p>\n<p>O alvoro\u00e7o da invas\u00e3o do Rio enchia a vila. Apesar de j\u00e1<br \/>\nse ter dado h\u00e1 meses, as not\u00edcias n\u00e3o eram seguras.<\/p>\n<p>Padre Jouqui\u00e8res recolheu-se ao Col\u00e9gio, onde dias depois recebeu<br \/>\num dos estudantes do Col\u00e9gio do Rio que tomara parte nos encontros.<\/p>\n<p>\u2014 Onde foi o desembarque? indagava um outro jesu\u00edta ao rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Na Guaratiba. Marchou oito dias; e eu me gabo de haver sido um dos<br \/>\nprimeiros a atac\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Onde?<\/p>\n<p>\u2014 Na lagoa da Sentinela, com Bento do Amaral Gurgel. \u00c9 bravo<br \/>\no Bento, meus padres! Com dois deles n\u00e3o haveria franceses capazes.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o o combatestes mais? interrogou o padre Jouqui\u00e8res.<\/p>\n<p>\u2014 O franc\u00eas desceu por Mata-Cavalos, frei Meneses o atacou no<br \/>\nDesterro e n\u00f3s, com o Bento, esperamo-lo pelas ruas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se deteve Duclerc em parte alguma? continuou a interrogar<br \/>\no jesu\u00edta franc\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Qual, padre, vinha que nem um raio. Na Rua d\u2019Ajuda parou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em que lugar?<\/p>\n<p>\u2014 Numa casa, onde entrou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que casa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me recorda agora&#8230;<\/p>\n<p>Espere&#8230; Foi na casa do Almoxarife Albernaz, casa essa que foi destru\u00edda<br \/>\npor uma bala do Castelo.<\/p>\n<p>\u2014 E o almoxarife e a mulher onde param?<\/p>\n<p>\u2014 Albernaz morreu na explos\u00e3o do paiol da Alf\u00e2ndega e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E a mulher?<\/p>\n<p>\u2014 A mulher foi morar na Rua do Vaz Vi\u00e7oso, pr\u00f3ximo \u00e0<br \/>\ncasa do tenente Gomes da Silva, onde hoje habita Duclerc.<\/p>\n<p>O antigo marqu\u00eas fez-se p\u00e1lido, depois rubro. A custo continha<br \/>\na c\u00f3lera. Compreendeu o modo por que os dois lhe ludibriavam; e antes<br \/>\nque os seus interlocutores percebessem o seu estado d\u2019alma, disse pausadamente:<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 irei para S. Sebasti\u00e3o. Padre, fazei preparar<br \/>\nas malas para a madrugada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima Barreto Sexta-feira, 28 de abril de 1905 Fabulosas riquezas &#8211; Outros Subterr\u00e2neos Os leitores h\u00e3o de estar lembrados de que, h\u00e1 tempos, publicamos uma interessante s\u00e9rie de artigos da lavra do nosso colaborador L\u00e9o Junius, subordinados ao t\u00edtulo Os Subterr\u00e2neos do Rio de Janeiro. 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