{"id":108636,"date":"2017-02-13T18:30:07","date_gmt":"2017-02-13T20:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108636"},"modified":"2017-02-13T18:30:07","modified_gmt":"2017-02-13T20:30:07","slug":"o-cemiterio-dos-vivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cemiterio-dos-vivos","title":{"rendered":"O Cemit\u00e9rio dos Vivos"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"450\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  Parte I<br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   Parte II<br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<p>1&ordf; parte &#8211; Anota&ccedil;&otilde;es para O CEMIT&Eacute;RIO DOS<br \/>\n    VIVOS <br \/>\n    (4 de Janeiro de 1920) <\/p>\n<h4><a name=\"1\"><b>I &#8211; O Pavilh&atilde;o e a Pinel<\/b><\/a><\/h4>\n<p>Estou no Hosp&iacute;cio ou, melhor, em v&aacute;rias depend&ecirc;ncias<br \/>\n    dele, desde o dia 25 do m&ecirc;s passado. Estive no pavilh&atilde;o de observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que &eacute; a pior etapa de quem, como eu, entra para aqui pelas m&atilde;os<br \/>\n    da pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Tiram-nos a roupa que trazemos e d&atilde;o-nos uma outra, s&oacute; capaz<br \/>\n    de cobrir a nudez, e nem chinelos ou tamancos nos d&atilde;o. Da outra vez<br \/>\n    que l&aacute; estive me deram essa pe&ccedil;a do vestu&aacute;rio que me<br \/>\n    &eacute; hoje indispens&aacute;vel. Desta vez, n&atilde;o. O enfermeiro antigo<br \/>\n    era humano e bom; o atual &eacute; um portugu&ecirc;s (o outro o era) arrogante,<br \/>\n    com uma fisionomia bragantina e presumida. Deram-me uma caneca de mate e,<br \/>\n    logo em seguida, ainda dia claro, atiraram-me sobre um colch&atilde;o de capim<br \/>\n    com uma manta pobre, muito conhecida de toda a nossa pobreza e mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>N&atilde;o me incomodo muito com o hosp&iacute;cio, mas o que me aborrece<br \/>\n    &eacute; essa intromiss&atilde;o da pol&iacute;cia na minha vida. De mim para<br \/>\n    mim, tenho certeza que n&atilde;o sou louco, mas devido ao &aacute;lcool,<br \/>\n    misturado com toda a esp&eacute;cie de apreens&otilde;es que as dificuldades<br \/>\n    de minha vida material h&aacute; 6 anos me assoberbam, de quando em quando<br \/>\n    dou sinais de loucura: deliro. <\/p>\n<p>Al&eacute;m dessa primeira vez que estive no hosp&iacute;cio, fui atingido<br \/>\n    por crise id&ecirc;ntica, em Ouro Fino, e levado para a Santa Casa de l&aacute;,<br \/>\n    em 1916; em 1917, recolheram-me ao Hospital Central do Ex&eacute;rcito, pela<br \/>\n    mesma raz&atilde;o; agora, volto ao hosp&iacute;cio.<\/p>\n<p>Estou seguro que n&atilde;o voltarei a ele pela terceira vez; sen&atilde;o,<br \/>\n    saio dele para o S&atilde;o Jo&atilde;o Batista, que &eacute; pr&oacute;ximo.<br \/>\n    Estou incomodando muito os outros, inclusive os meus parentes. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; justo que tal continue. Quanto aos meus amigos, nenhum apareceu,<br \/>\n    sen&atilde;o o senhor Carlos Ventura e o sobrinho.<\/p>\n<p>Este senhor Carlos Ventura &eacute; um velho homem, tem uma venda na Rua<br \/>\n    Piau&iacute;, em Todos os Santos, fornece para a nossa casa, e foi com aux&iacute;lio<br \/>\n    dele que me conseguiram la&ccedil;ar e trazer-me at&eacute; ao hosp&iacute;cio.<br \/>\n    Acompanharam-me o Al&iacute;pio e o Jorge.<\/p>\n<p>Passei a noite de 25 no pavilh&atilde;o, dormindo muito bem, pois a de 24<br \/>\n    tinha passado em claro, errando pelos sub&uacute;rbios, em pleno del&iacute;rio.<\/p>\n<p>Amanheci, tomei caf&eacute; e p&atilde;o e fui &agrave; presen&ccedil;a de<br \/>\n    um m&eacute;dico, que me disseram chamar-se Adauto. Tratou-me ele com indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    fez-me perguntas e deu a entender que, por ele, me punha na rua.<\/p>\n<p>Voltei para o p&aacute;tio. Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru,<br \/>\n    no meio de muitos outros, pastoreado por um bom portugu&ecirc;s, que tinha<br \/>\n    um ar rude, mas doce e compassivo, de campon&ecirc;s transmontano. Ele j&aacute;<br \/>\n    me conhecia da outra vez. Chamava-me voc&ecirc; e me deu cigarros. Da outra<br \/>\n    vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro,<br \/>\n    onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos n&oacute;s est&aacute;vamos<br \/>\n    nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor<br \/>\n    de Dostoi&eacute;vski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei<br \/>\n    de Cervantes, do pr&oacute;prio Dostoi&eacute;vski, que pior deviam ter sofrido<br \/>\n    em Argel e na Sib&eacute;ria.<\/p>\n<p>Ah! A Literatura ou me mata ou me d&aacute; o que eu pe&ccedil;o dela.<\/p>\n<p>Desta vez, n&atilde;o me fizeram baldear a varanda, nem outro servi&ccedil;o.<br \/>\n    J&aacute; tinha pago o tributo&#8230; Fui para o p&aacute;tio, ap&oacute;s o doutor<br \/>\n    Adauto; mas, bem depressa, fui chamado &agrave; varanda de novo. Sentei-me<br \/>\n    ao lado de um preto mo&ccedil;o, tipo completo do esp&eacute;cimen mais humilde<br \/>\n    da nossa sociedade. Vestia umas cal&ccedil;as que me ficavam pelas canelas,<br \/>\n    uma camisa cujas mangas me ficavam por dois ter&ccedil;os do antebra&ccedil;o<br \/>\n    e cal&ccedil;ava uns chinelos muito sujos, que tinha descoberto no por&atilde;o<br \/>\n    da varanda.<\/p>\n<p>Tinha que ser examinado pelo Henrique Roxo. H&aacute; quatro anos, n&oacute;s<br \/>\n    nos conhecemos. &Eacute; bem curioso esse Roxo. Ele me parece inteligente,<br \/>\n    estudioso, honesto; mas n&atilde;o sei por que n&atilde;o simpatizo com ele.<br \/>\n    Ele me parece desses m&eacute;dicos brasileiros imbu&iacute;dos de um ar de<br \/>\n    certeza de sua arte, desdenhando inteiramente toda a outra atividade intelectual<br \/>\n    que n&atilde;o a sua e pouco capaz de examinar o fato por si. Acho-o muito<br \/>\n    livresco e pouco interessado em descobrir, em levantar um pouco o v&eacute;u<br \/>\n    do mist&eacute;rio &#8211; que mist&eacute;rio! &#8211; que h&aacute; na especialidade<br \/>\n    que professa. L&ecirc; os livros da Europa, dos Estados Unidos, talvez; mas<br \/>\n    n&atilde;o l&ecirc; a natureza. N&atilde;o tenho por ele antipatia; mas nada<br \/>\n    me atrai a ele.<\/p>\n<p>Perguntou-me por meu pai e eu lhe dei informa&ccedil;&otilde;es. Depois,<br \/>\n    disse-lhe que tinha sido posto ali por meu irm&atilde;o, que tinha f&eacute;<br \/>\n    na onipot&ecirc;ncia da ci&ecirc;ncia e a crendice do hosp&iacute;cio. Creio<br \/>\n    que ele n&atilde;o gostou.<\/p>\n<p>Acompanhava-o uma esp&eacute;cie de interno, que tinha uma cara bovina, apesar<br \/>\n    do pince-nez. Tanto l&aacute;, como aqui, no hosp&iacute;cio, os internos<br \/>\n    evitam conversar com os doentes: morgue ou regulamento? No tempo de meu pai<br \/>\n    n&atilde;o era assim e, desde que eles descobrissem um doente em nossa casa,<br \/>\n    se aproximavam e conversavam.<\/p>\n<p>Decididamente, a mocidade acad&ecirc;mica, de que fiz parte, cada vez mais<br \/>\n    fica mais presun&ccedil;osa e oca.<\/p>\n<p>Julguei, apesar de tudo, que o Roxo me mandasse embora, tanto assim que,<br \/>\n    ap&oacute;s o almo&ccedil;o-jantar, quando o tal bragan&ccedil;a enfermeiro<br \/>\n    me chamou, pensei que fosse para ir-me embora. N&atilde;o foi.<\/p>\n<p>Lembro-me agora de um fato; o guarda-civil, que me esperou na porta do hosp&iacute;cio,<br \/>\n    pois n&atilde;o veio comigo nenhum pol&iacute;cia, dirigindo-se a ele, tratou-o<br \/>\n    mais de uma vez de doutor; ele, por&eacute;m, nunca protestou.<\/p>\n<p>Chamou-me o bragantino e levou-me pelos corredores e p&aacute;tios at&eacute;<br \/>\n    ao hosp&iacute;cio propriamente. A&iacute; &eacute; que percebi que ficava<br \/>\n    e onde, na se&ccedil;&atilde;o, na de indigentes, aquela em que a imagem do<br \/>\n    que a Desgra&ccedil;a pode sobre a vida dos homens &eacute; mais formid&aacute;vel.<\/p>\n<p>O mobili&aacute;rio, o vestu&aacute;rio das camas, as camas, tudo &eacute;<br \/>\n    de uma pobreza sem par. Sem fazer monop&oacute;lio, os loucos s&atilde;o da<br \/>\n    proveni&ecirc;ncia mais diversa, originando-se em geral das camadas mais pobres<br \/>\n    da nossa gente pobre. S&atilde;o de imigrantes italianos, portugueses e outros<br \/>\n    mais ex&oacute;ticos, s&atilde;o os negros roceiros, que teimam em dormir<br \/>\n    pelos desv&atilde;os das janelas sobre uma esteira esmolambada e uma manta<br \/>\n    s&oacute;rdida; s&atilde;o copeiros, cocheiros, mo&ccedil;os de cavalari&ccedil;a,<br \/>\n    trabalhadores bra&ccedil;ais. No meio disto, muitos com educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas que a falta de recursos e prote&ccedil;&atilde;o atira naquela geena social.<\/p>\n<p>Vi l&aacute; o D&#8230; L&#8230;, um poeta alegre, companheiro do Tapaj&oacute;s,<br \/>\n    que conheci assim, assim e depois montou um col&eacute;gio em Vila Isabel.<br \/>\n    Parece-me que ele prosperou, mas, vindo a equipara&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o<br \/>\n    tendo ele recursos para equipar&aacute;-lo ao gin&aacute;sio (dep&oacute;sito<br \/>\n    de cinq&uuml;enta contos e quota de fiscaliza&ccedil;&atilde;o), foi perdendo<br \/>\n    a freq&uuml;&ecirc;ncia, ele se desgostou, endividou-se e enlouqueceu. Cumprimentou-me,<br \/>\n    mas n&atilde;o quis falar comigo.<\/p>\n<p>Esperei o m&eacute;dico. Era um doutor Airosa, creio eu ser esse o nome,<br \/>\n    interrogou-me, respondi-lhe com toda a verdade, e ele n&atilde;o me pareceu<br \/>\n    mau rapaz, mas sorriu enigmaticamente, ou, como dizendo: &quot;voc&ecirc;<br \/>\n    fica mesmo a&iacute;&quot; ou querendo exprimir que os meus m&eacute;ritos<br \/>\n    liter&aacute;rios nada valiam, naturalmente &agrave; vista das burrices do<br \/>\n    Alu&iacute;sio. Fosse uma coisa, fosse outra, fossem ambas conjuntamente,<br \/>\n    n&atilde;o me agastei. Ele era muito mo&ccedil;o; na sua idade, no caso dele,<br \/>\n    eu talvez pensasse da mesma forma.<\/p>\n<p>O enfermeiro-mor ou inspetor era o Santana.Um mulato forte, simp&aacute;tico,<br \/>\n    olhos firmes, um pouco desconfiados, rosto oval, que foi muito bom para mim.<br \/>\n    Ele fora empregado na ilha, quando meu pai l&aacute; era almoxarife ou administrador,<br \/>\n    e se lembrava dele com amizade.<\/p>\n<p>Deu-me uma cama, numa se&ccedil;&atilde;o mais razo&aacute;vel, arranjou<br \/>\n    que eu comesse com os pensionistas de quarta classe e, no dia seguinte, fez-me<br \/>\n    dormir num quarto, com um estudante de medicina, Queir&oacute;s, que um ataque<br \/>\n    tornara hemipl&eacute;gico e meio aluado.<\/p>\n<p>Tratou-me bem esse mo&ccedil;o, conquanto n&atilde;o deixasse de ter, como<br \/>\n    eu j&aacute; tive, essa presun&ccedil;&atilde;o infantil do nosso estudante,<br \/>\n    que se julga, s&oacute; por s&ecirc;-lo, diferente dos outros. Dei-lhe a entender<br \/>\n    que j&aacute; o havia sido; ele pareceu n&atilde;o acreditar.<\/p>\n<p>Dormi a noite de 26 no dormit&oacute;rio geral e a de 27 no quarto do estudante.<br \/>\n    Vinte e oito foi domingo, recebi visitas do meu irm&atilde;o e do senhor Ventura,<br \/>\n    ambos me trouxeram cigarros, e o senhor Ventura, passas e figos. Ainda desta<br \/>\n    vez, dormi no quarto, com o estudante.<\/p>\n<p>Na Se&ccedil;&atilde;o Pinel, que &eacute; a de que estou falando, reatei<br \/>\n    conhecimento com um rapaz portugu&ecirc;s, que me conheceu quando era estudante<br \/>\n    e comia na pens&atilde;o do Ferraz, isto deve ter sido h&aacute; vinte anos<br \/>\n    ou mais. Durante os dias em que l&aacute; estive, ele, o Jos&eacute; Pinto,<br \/>\n    me foi de um pr&eacute;stimo inesquec&iacute;vel. Relembrava ao porteiro a<br \/>\n    ordem que eu tinha do Santana de ir tomar refei&ccedil;&otilde;es no refeit&oacute;rio<br \/>\n    especial, arranjava-me jornais (Santana tamb&eacute;m), cigarros (contarei<br \/>\n    essa trag&eacute;dia manicomial em separado) e, na tarde de domingo, levou-me<br \/>\n    a passear pela ch&aacute;cara do hosp&iacute;cio.&Eacute; muito grande e,<br \/>\n    apesar de estiolada e maltratada, a sua arboriza&ccedil;&atilde;o devia ter<br \/>\n    sido maravilhosa. Os ricos de hoje n&atilde;o gostam de &aacute;rvores&#8230;<\/p>\n<p>O hosp&iacute;cio &eacute; bem constru&iacute;do e, pelo tempo em que o edificaram,<br \/>\n    com bem acentuados cuidados higi&ecirc;nicos. As salas s&atilde;o claras,<br \/>\n    os quartos amplos, de acordo com a sua capacidade e destino, tudo bem arejado,<br \/>\n    com o ar azul dessa linda enseada de Botafogo que nos consola na sua imarcesc&iacute;vel<br \/>\n    beleza, quando a olhamos levemente enrugada pelo terral, atrav&eacute;s das<br \/>\n    grades do manic&ocirc;mio, quando amanhecemos lembrando que n&atilde;o sabemos<br \/>\n    sonhar mais&#8230; L&aacute; entra por ela adentro uma falua, com velas enfunadas<br \/>\n    e sem violentar; e na rua embaixo passam mo&ccedil;as em traje de banho, com<br \/>\n    as suas bacias a desenharem-se n&iacute;tidas no cal&ccedil;&atilde;o, at&eacute;<br \/>\n    agora in&uacute;teis.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, antes que meu irm&atilde;o viesse, fui &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n    do doutor Juliano Moreira. Tratou-me com grande ternura, paternalmente, n&atilde;o<br \/>\n    me admoestou, fez-me sentar a seu lado e perguntou-me onde queria ficar. Disse-lhe<br \/>\n    que na Se&ccedil;&atilde;o Calmeil. Deu ordens ao Santana e, em breve, l&aacute;<br \/>\n    estava eu.<\/p>\n<p>Paro aqui, pois me canso; mas n&atilde;o posso deixar de consignar a singular<br \/>\n    mania que t&ecirc;m os doidos, principalmente os de baixa extra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de andarem nus. Na Pinel, dez por cento assim viviam, num p&aacute;tio que<br \/>\n    era uma bolgia do inferno. Por que ser&aacute;?<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p><b>Na Calmeil<\/b><\/p>\n<p><b>Os Primeiros Dias<\/b><\/p>\n<p><b>(de 29-12-19 a 4-1-20)<\/b><\/p>\n<p>Eu entrei na Se&ccedil;&atilde;o Calmeil, se&ccedil;&atilde;o dos pensionistas,<br \/>\n    na segunda-feira, 28 de dezembro. O inspetor da se&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um velho portugu&ecirc;s de perto de sessenta anos, que me conhece desde os<br \/>\n    nove. Ele foi em 90, com meu pai, nomeado escritur&aacute;rio das col&ocirc;nias<br \/>\n    da ilha do Governador, exerceu as fun&ccedil;&otilde;es de enfermeiro-mor<br \/>\n    da Col&ocirc;nia Conde de Mesquita. As suas fun&ccedil;&otilde;es eram &aacute;rduas,<br \/>\n    porquanto, ficando ela a dois quil&ocirc;metros e meio da sede da administra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ele arcava com toda a responsabilidade de governar uma centena de loucos,<br \/>\n    numa col&ocirc;nia aberta para um grande campo, cheio de vetustas mangueiras,<br \/>\n    a que o raio e o tempo tinham desmanchado os maravilhosos quadril&aacute;teros,<br \/>\n    um dentro do outro, formando uma alameda quadrangular, que devia ser soberba<br \/>\n    quando intacta, a&iacute; pelos tempos de Dom Jo&atilde;o VI, que a conheceu,<br \/>\n    pois o edif&iacute;cio principal dela tinha sido uma das muitas casas de recreio<br \/>\n    que o bom e gordo rei tinha pelos arredores do Rio.<\/p>\n<p>Ainda vi um curral de pedra, que mais parecia uma fortaleza, e um enorme<br \/>\n    pombal, alicer&ccedil;ado em pedra, mas constru&iacute;do de tijolos enormes<br \/>\n    e bem queimados, com as casuchas e pouso de entrada dos pombos feitos de um<br \/>\n    ladrilho grande, quase quadrangular, que certamente eram, ladrilhos e tijolos,<br \/>\n    de origem portuguesa.<\/p>\n<p>Na ilha n&atilde;o havia pedra, a n&atilde;o ser granito em franca decomposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esfoliando, de modo que curral e pombal foram pedreiras que forneceram material<br \/>\n    para reparos e acr&eacute;scimos nos edif&iacute;cios das duas col&ocirc;nias.<\/p>\n<p>Dias, desde esse tempo, e parece que j&aacute; mesmo antes, nunca largou<br \/>\n    esse of&iacute;cio de pajear malucos. N&atilde;o &eacute; dos mais agrad&aacute;veis<br \/>\n    e &eacute; preciso, al&eacute;m de paci&ecirc;ncia e resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para atur&aacute;-los, uma abdica&ccedil;&atilde;o de tudo aquilo que faz<br \/>\n    o encanto da vida de todo o homem. &Eacute; ele, por assim dizer, obrigado<br \/>\n    a viver no manic&ocirc;mio, s&oacute; podendo ir ter com a fam&iacute;lia,<br \/>\n    ou o que com isso se parece, a longos intervalos, demorando-se pouco no lar.<br \/>\n    Ouvir durante o dia e a noite toda a sorte de disparates, receber as reclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais desarrazoadas e infantis, adivinhar as manhas, os seus trucs e dissimula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &#8211; tudo isto e mais o que se pode facilmente adivinhar, transforma a<br \/>\n    vida desses guardas, enfermeiros, num verdadeiro sacerd&oacute;cio.<\/p>\n<p>Estive mais de uma vez no hosp&iacute;cio, passei por diversas se&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e eu posso dizer que me admirei que homens r&uacute;sticos, os portugueses,<br \/>\n    mal sa&iacute;dos da gleba do Minho, os brasileiros, da mais humilde extra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    urbana, pudessem ter tanta resigna&ccedil;&atilde;o, tanta delicadeza relativa,<br \/>\n    para suportar os loucos e as suas manias. Nem todos s&atilde;o insuport&aacute;veis;<br \/>\n    na maioria, s&atilde;o obedientes e d&oacute;ceis; mas os poucos rebeldes<br \/>\n    e aqueles que se enfurecem, de quando em quando, s&atilde;o por vezes de fazer<br \/>\n    um homem perder a cabe&ccedil;a. Tratarei deles mais minuciosamente. Pois<br \/>\n    o meu Dias, apesar dos gritos, dos gestos de mando, &eacute; um homem talhado<br \/>\n    para pastorear doidos, tanto ele como Santana, cuja se&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais trabalhosa, mas que eu deixei, n&atilde;o porque ele n&atilde;o me tratasse<br \/>\n    bem, o que ele me fez espontaneamente, mas para ter &agrave;s ordens a biblioteca<br \/>\n    da Se&ccedil;&atilde;o Calmeil, que eu descreverei devagar.<\/p>\n<p>Outra coisa que me fez arrepiar de medo na Se&ccedil;&atilde;o Pinel foi<br \/>\n    o alienista. Se entre n&oacute;s, no Rio, houvesse uma universidade, eu poderia<br \/>\n    dizer que ele havia sido meu colega, porquanto, quando ele freq&uuml;entava<br \/>\n    a Escola de Medicina, eu passeava pelos corredores da Escola Polit&eacute;cnica.<\/p>\n<p>Nunca travamos rela&ccedil;&otilde;es, mas n&oacute;s nos conhec&iacute;amos.<br \/>\n    Ele, por&eacute;m, n&atilde;o se deu a conhecer e eu, no estado de humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que estava, n&atilde;o devia ser o primeiro a me dar a conhecer.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe tenho nenhuma antipatia, mas julgo-o mais nevrosado e avoado<br \/>\n    do que eu. &Eacute; capaz de ler qualquer novidade de cirurgia aplicada &agrave;<br \/>\n    psiquiatria em uma revista norueguesa e aplicar, sem nenhuma reflex&atilde;o<br \/>\n    preliminar, num doente qualquer. &Eacute; muito amante de novidades, do vient<br \/>\n    de paraitre, das &uacute;ltimas cria&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas<br \/>\n    ou que outro nome tenham.<\/p>\n<p>Dei-me muito com o irm&atilde;o, cuja morte muito lamento; mas n&atilde;o<br \/>\n    posso deixar de dizer essa minha inocente opini&atilde;o que, talvez, possa<br \/>\n    parecer maldosa. Garanto que n&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>Logo ao entrar na se&ccedil;&atilde;o, no meado do dia da segunda-feira,<br \/>\n    notei que a biblioteca tinha mudado de lugar. Mudei a roupa, pois meu irm&atilde;o<br \/>\n    me apareceu com outra de casa. Esperei o Dias, que me marcasse o dormit&oacute;rio,<br \/>\n    e sentei-me na biblioteca e estava completamente desfalcada! N&atilde;o havia<br \/>\n    mais o Vapereau, Dicion&aacute;rio das Literaturas; dois romances de Dostoi&eacute;vski,<br \/>\n    creio que Les Poss&eacute;d&eacute;s, Les Humilli&eacute;s et Offens&eacute;s;<br \/>\n    um livro de Mello Morais, Festas e Tradi&ccedil;&otilde;es Populares do Brasil.<br \/>\n    O estudo sobre Colbert estava desfalcado do primeiro volume; a Hist&oacute;ria<br \/>\n    de Portugal, de Rebelo da Silva tamb&eacute;m, e assim por diante. Havia,<br \/>\n    por&eacute;m, em duplicado, a famosa Biblioteca Internacional de Obras C&eacute;lebres.<\/p>\n<p>Olhei as fisionomias e, tanto aqui, como na outra se&ccedil;&atilde;o, eu<br \/>\n    me surpreendi de encontrar tantas fisionomias vagamente conhecidas. Umas me<br \/>\n    pareciam de antigos colegas de col&eacute;gio, de escola superior, de reparti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    do Ex&eacute;rcito, de caf&eacute;s, de festas; mas n&atilde;o me animava<br \/>\n    a falar-lhes, pois me olhavam com ar est&uacute;pido e parado, que eu detinha<br \/>\n    o primeiro impulso de perguntar a cada um:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n&atilde;o me conhece?<\/p>\n<p>O engra&ccedil;ado &eacute; que aqueles que eu n&atilde;o conhecia prontamente,<br \/>\n    &eacute; que vinham a mim falar-me; e n&atilde;o veio um s&oacute;, vieram<br \/>\n    muitos, e todos me trataram com afeto e respeito, conquanto me caceteassem,<br \/>\n    lendo o que eu escrevia ou lia, querendo o meu jornal, pedindo-me cigarros,<br \/>\n    n&atilde;o me deixando de todo sossegar e aproveitar esse descanso que o &aacute;lcool<br \/>\n    e as apreens&otilde;es da minha atribulada vida me d&atilde;o.<\/p>\n<p>No dia seguinte &agrave; minha entrada na se&ccedil;&atilde;o e no outro<br \/>\n    imediato, fui &agrave; presen&ccedil;a do m&eacute;dico. &Eacute; um rapaz<br \/>\n    do meu tempo e deve ter a minha idade; conheci-o estudante; ele, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o me conheceu por esse tempo.<\/p>\n<p>Nos nossos jornalecos tro&ccedil;amo-lo muito. Eu, por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    me lembro de qualquer pilh&eacute;ria a seu respeito feita por mim. Ele me<br \/>\n    tratou muito bem, auscultou-me, disse-lhe tudo o que sabia das conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    do meu alcoolismo e eu sa&iacute; do exame muito satisfeito por ter visto<br \/>\n    no mo&ccedil;o uma boa criatura, que n&atilde;o guardava rancor das tro&ccedil;as<br \/>\n    que ele bem podia atribuir a mim.<\/p>\n<p>Era uma alma boa, em quem o dandismo era mais uma aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que uma manifesta&ccedil;&atilde;o de superficialidade de alma e intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>N&atilde;o me achou muito arruinado e, muito polidamente, deu-me conselhos,<br \/>\n    para reagir contra o meu v&iacute;cio. Oh! meu Deus! Como eu tenho feito o<br \/>\n    poss&iacute;vel para extirp&aacute;-lo e, parecendo-me que todas as dificuldades<br \/>\n    de dinheiro que sofro s&atilde;o devidas a ele, e por sofr&ecirc;-las, &eacute;<br \/>\n    que vou &agrave; bebida. Parece uma contradi&ccedil;&atilde;o; &eacute;, por&eacute;m,<br \/>\n    o que se passa em mim. Eu queria um grande choque moral, pois f&iacute;sico<br \/>\n    j&aacute; os tenho sofrido, semimorais, como toda a esp&eacute;cie de humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tamb&eacute;m. Se foi o choque moral da loucura progressiva de meu pai, do<br \/>\n    sentimento de n&atilde;o poder ter a liberdade de realizar o ideal que tinha<br \/>\n    na vida, que me levou a ela, s&oacute; um outro bem forte, mas agrad&aacute;vel,<br \/>\n    que abrisse outras perspectivas na vida, talvez me tirasse dessa imunda bebida<br \/>\n    que, al&eacute;m de me fazer porco, me faz burro.<\/p>\n<p>N&atilde;o quero morrer, n&atilde;o; quero outra vida.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe disse isto ao doutor H., mas lhe quis dizer. Tenho que falar<br \/>\n    dos doentes em cuja companhia estou, dos guardas, dos enfermeiros, mas preciso<br \/>\n    tratar com mais detalhe e j&aacute; me cansa o escrever estas notas.<\/p>\n<p>C&aacute; estou na Se&ccedil;&atilde;o Calmeil h&aacute; oito dias. Raro<br \/>\n    &eacute; o seu h&oacute;spede com quem se pode travar uma palestra sem jogar<br \/>\n    o disparate. Ressinto-me muito disto, pois gosto de conversar e pilheriar;<br \/>\n    e sei conversar com toda a gente, mas, com esses que deliram, outros a quem<br \/>\n    a mol&eacute;stia faz tatibitate, outros que se fizeram mudos e n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; nada que os fa&ccedil;a falar, outros que interpretam as nossas<br \/>\n    palavras de um modo inesperado e hostil, o melhor &eacute; calar-se, pouco<br \/>\n    dizer, mergulhar na leitura, no cigarro, que &eacute; a paix&atilde;o, a mania<br \/>\n    de todos n&oacute;s, internados, e o possu&iacute;-los em abund&acirc;ncia<br \/>\n    &eacute; um perigo que se corre e s&oacute; pode ser evitado pela ast&uacute;cia<br \/>\n    ou pela energia.<\/p>\n<p>Falarei disso com mais vagar.<\/p>\n<p>Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um ser<br \/>\n    estranho. N&atilde;o ser&aacute; bem isso, pois vejo bem que s&atilde;o meus<br \/>\n    semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre sombras<br \/>\n    &#8211; mas que sombras, que esp&iacute;ritos?! As que cercavam Dante tinham<br \/>\n    em comum o stock de id&eacute;ias indispens&aacute;vel para compreend&ecirc;-lo;<br \/>\n    estas n&atilde;o t&ecirc;m mais um para me compreender, parecendo que t&ecirc;m<br \/>\n    um outro diferente, se tiverem algum.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p><b>A Minha Bebedeira e a Minha Loucura<\/b><\/p>\n<p>Ao pegar agora no l&aacute;pis para explicar bem estas notas que vou escrevendo<br \/>\n    no hosp&iacute;cio, cercado de delirantes cujos del&iacute;rios mal compreendo,<br \/>\n    nessa incoer&ecirc;ncia verbal de manic&ocirc;mio, em que um diz isto, outro<br \/>\n    diz aquilo, e que, parecendo conversarem, as id&eacute;ias e o sentido das<br \/>\n    frases de cada um dos interlocutores v&atilde;o cada qual para o seu lado,<br \/>\n    eu me lembro muito bem que um amigo de minha fam&iacute;lia, m&eacute;dico<br \/>\n    ele mesmo de loucos, me deu, logo ao adoecer meu pai, o livro de Maudsley,<br \/>\n    O Crime e a Loucura. A obra me impressionou muito e de h&aacute; muito premedito<br \/>\n    repetir-lhe a leitura. Sa&iacute;do dela, escrevi um dec&aacute;logo para<br \/>\n    o governo da minha vida; entre os seus artigos havia o mandamento de n&atilde;o<br \/>\n    beber alco&oacute;licos, coisa aconselhada por Maudsley, para evitar a loucura.<br \/>\n    Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas causas influ&iacute;ram para que viesse a<br \/>\n    beber; mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem<br \/>\n    raz&atilde;o nem explica&ccedil;&atilde;o, de uma cat&aacute;strofe dom&eacute;stica<br \/>\n    sempre presente. Adivinhava a morte de meu pai e eu sem dinheiro para enterr&aacute;-lo;<br \/>\n    previa mol&eacute;stias com tratamento caro e eu sem recursos; amedrontava-me<br \/>\n    com uma demiss&atilde;o e eu sem fortes conhecimentos que me arranjassem coloca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    condigna com a minha instru&ccedil;&atilde;o; e eu me aborrecia e procurava<br \/>\n    distrair-me, ficar na cidade, avan&ccedil;ar pela noite adentro; e assim conheci<br \/>\n    o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa deste ou daquele.<\/p>\n<p>A minha casa me aborrecia, t&atilde;o triste era ela! Meu pai delirava, queixava-se,<br \/>\n    resmungava, com tal ar que me parecia [ &#8230;. ]. Eu me agastava, tanto mais<br \/>\n    que ele n&atilde;o tinha raz&atilde;o alguma. A n&atilde;o ser na ilha do<br \/>\n    Governador, plena ro&ccedil;a, por aquelas &eacute;pocas, cujas vantagens<br \/>\n    de moradia s&atilde;o f&aacute;ceis de adivinhar, eu n&atilde;o me lembrava<br \/>\n    de ter morado em melhor casa e ter comido melhor; mas ele resmungava.<\/p>\n<p>De resto, tinha horror &agrave; vizinhan&ccedil;a e, por isto e pelo que<br \/>\n    disse mais acima, procurei sempre entrar em casa ao anoitecer, quando todos<br \/>\n    estavam recolhidos. Era rematada tolice, porquanto eu sa&iacute;a para a reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dia claro e &agrave; vista de todos. Coisas de maluco&#8230;<\/p>\n<p>No come&ccedil;o, havia dinheiro na bolsa de todos e o parati entrava como<br \/>\n    mera extravag&acirc;ncia. O forte era cerveja; mas, bem depressa, com a fuga<br \/>\n    inexplic&aacute;vel do dinheiro das nossas algibeiras, a cacha&ccedil;a ficou<br \/>\n    sendo o nosso forte; e eu a bebia desbragadamente, a ponto de estar completamente<br \/>\n    b&ecirc;bedo &agrave;s nove ou dez horas da noite.<\/p>\n<p>O aparecimento do meu primeiro livro n&atilde;o me deu grande satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esperava que o atacassem, que me descompusessem e eu, por isso, tendo o dever<br \/>\n    de revidar, cobraria novas for&ccedil;as; mas tal n&atilde;o se deu; calaram-se<br \/>\n    uns e os que dele trataram o elogiaram. &Eacute; in&uacute;til dizer que nada<br \/>\n    pedi.<\/p>\n<p>A minha dor ou as minhas dores aumentavam ainda; e, cheio de d&iacute;vidas,<br \/>\n    sem saber como pag&aacute;-las, o J. M. aconselhou-me que escrevesse um livro<br \/>\n    e o levasse para ser publicado no Jornal do Commercio.<\/p>\n<p>Assim o fiz. Pus-me em casa dois meses e escrevi o livro. Saiu na edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da tarde e ningu&eacute;m o leu, e s&oacute; veio a fazer sucesso, para mim<br \/>\n    inesperado, quando o publiquei em livro. Desalentado e desanimado, sentindo<br \/>\n    que eu n&atilde;o podia dar nenhuma satisfa&ccedil;&atilde;o &agrave;queles<br \/>\n    que me instru&iacute;ram t&atilde;o generosamente, nem mesmo formando-me,<br \/>\n    n&atilde;o tendo nenhuma ambi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, administrativa,<br \/>\n    via escapar-se por falta de habilidade, de macieza, a &uacute;nica coisa que<br \/>\n    me alentava na vida &#8211; o amor das letras, da gl&oacute;ria, do nome,<br \/>\n    por ele s&oacute;.<\/p>\n<p>Eu me senti capaz de fazer, mas de antem&atilde;o sabia que n&atilde;o encontraria<br \/>\n    em parte alguma quem me imprimisse e tinha a &iacute;ntima certeza de que<br \/>\n    n&atilde;o encontraria dinheiro com que me fosse poss&iacute;vel editar o<br \/>\n    meu trabalho, especialmente o Gonzaga de S&aacute;.<\/p>\n<p>Bebi cada vez mais, e, dentre muitas aventuras, algumas humilhantes, e n&atilde;o<br \/>\n    foram as mais o parar duas ou tr&ecirc;s vezes nas delegacias de pol&iacute;cia,<br \/>\n    aconteceu-me uma, que se cerca de um mist&eacute;rio que at&eacute; hoje n&atilde;o<br \/>\n    pude desvendar. Conto. Uma noite, &agrave;s &uacute;ltimas horas, muito b&ecirc;bedo,<br \/>\n    pedi a V. que me levasse ao bonde, que passava na Rua Sete de Setembro. Esperei<br \/>\n    no poste, em frente ao canil, o ve&iacute;culo e, de repente, focinhei no<br \/>\n    ch&atilde;o. V., que j&aacute; morreu e era muito mais forte do que eu, levantou-me,<br \/>\n    equilibrou-me e p&ocirc;s-me de p&eacute;. De repente, veio uma rapariga preta,<br \/>\n    surgida n&atilde;o sei de onde, que perguntou a V. (foi ele que me contou):<\/p>\n<p>&#8211; A patroa manda perguntar o que tem o doutor L.<\/p>\n<p>V. respondeu: &#8211; O doutor L. est&aacute; um pouco incomodado, devido<br \/>\n    a ter se excedido um pouco. N&atilde;o &eacute; nada.<\/p>\n<p>A rapariga foi-se e logo ap&oacute;s voltou:<\/p>\n<p>&#8211; A patroa manda este rem&eacute;dio para o senhor fazer que o doutor<br \/>\n    L. cheire. Ela manda tamb&eacute;m que o senhor acompanhe o doutor L. at&eacute;<br \/>\n    em casa, com todo o cuidado.<\/p>\n<p>Era um vidro de am&ocirc;nia que, ainda, vazio, guardo em casa. Quem foi<br \/>\n    essa boa alma? Quem &eacute; essa &quot;patroa&quot;? N&atilde;o sei e creio<br \/>\n    que n&atilde;o saberei nunca. Ficam aqui, por&eacute;m, os meus ternos agradecimentos.<br \/>\n    As minhas dores e as minhas dificuldades, tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>N&atilde;o me preocupava com o meu corpo. Deixava crescer o cabelo, a barba,<br \/>\n    n&atilde;o me banhava a mi&uacute;do. Todo o dinheiro que apanhava bebia.<br \/>\n    Delirava de desespero e desesperan&ccedil;a; eu n&atilde;o obteria nada.<\/p>\n<p>Outras muitas me aconteceram, mas s&atilde;o banais a todos os bebedores.<br \/>\n    Dormi em capinzais, fiquei sem chap&eacute;u, roubaram-me mais de uma vez<br \/>\n    quantias vultuosas. Um dia, furtaram-me cerca de quinhentos mil-r&eacute;is<br \/>\n    e eu amanheci sentado a uma soleira, na Pra&ccedil;a da Bandeira, com mil-r&eacute;is<br \/>\n    no bolso, que, creio, me deixaram por comisera&ccedil;&atilde;o os que me<br \/>\n    roubaram.<\/p>\n<p>Tenho vergonha de contar algumas dessas aventuras, em que felizmente ainda<br \/>\n    me deixaram com roupa. Elas seriam pitorescas, mas n&atilde;o influiriam para<br \/>\n    o que tenho em vista.<\/p>\n<p>Resvalava para a embriaguez inveterada, faltava &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    semanas e meses. Se n&atilde;o ia ao centro da cidade, bebia pelos arredores<br \/>\n    de minha casa, desbragadamente. Embriagava-me antes do almo&ccedil;o, depois<br \/>\n    do almo&ccedil;o, at&eacute; ao jantar, depois deste at&eacute; &agrave; hora<br \/>\n    de dormir.<\/p>\n<p>Eu sou dado ao maravilhoso, ao fant&aacute;stico, ao hipersens&iacute;vel;<br \/>\n    nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concep&ccedil;&atilde;o mec&acirc;nica,<br \/>\n    r&iacute;gida do Universo e de n&oacute;s mesmos. No &uacute;ltimo, no fim<br \/>\n    do homem e do mundo, h&aacute; mist&eacute;rio e eu creio nele. Todas as pros&aacute;pias<br \/>\n    sabichonas, todas as senten&ccedil;as formais dos materialistas, e mesmo dos<br \/>\n    que n&atilde;o s&atilde;o, sobre as certezas da ci&ecirc;ncia, me fazem sorrir<br \/>\n    e, creio que este meu sorriso n&atilde;o &eacute; falso, nem precipitado,<br \/>\n    ele me vem de longas medita&ccedil;&otilde;es e de alanceantes d&uacute;vidas.<\/p>\n<p>Cheio de mist&eacute;rio e cercado de mist&eacute;rio, talvez as alucina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tive, as pessoas consp&iacute;cuas e sem tara possam atribu&iacute;-las<br \/>\n    &agrave; heran&ccedil;a, ao &aacute;lcool, a outro qualquer fator ao alcance<br \/>\n    da m&atilde;o. Prefiro ir mais longe&#8230;<\/p>\n<p>Certo dia, a minha alucina&ccedil;&atilde;o foi t&atilde;o forte, que resolveram<br \/>\n    levar-me para a casa de um parente, para ver se melhorava; foi pior. Mandaram-me<br \/>\n    para o hosp&iacute;cio. No mesmo dia que l&aacute; cheguei, no pavilh&atilde;o,<br \/>\n    nada sofri. Assim n&atilde;o foi no Hospital Central, nem na Santa Casa, de<br \/>\n    Ouro Fino, onde as vis&otilde;es continuaram, no hospital por mais de vinte<br \/>\n    e quatro horas e, em Ouro Fino, unicamente na noite da entrada.<\/p>\n<p>Agora, que creio ser a &uacute;ltima ou a pen&uacute;ltima, porque daqui<br \/>\n    n&atilde;o sairei vivo, se entrar outra vez, penetrei no pavilh&atilde;o calmo,<br \/>\n    tranq&uuml;ilo, sem nenhum sintoma de loucura, embora toda a noite tivesse<br \/>\n    andado pelos sub&uacute;rbios sem dinheiro, a procurar uma delegacia, a fim<br \/>\n    de queixar-me ao delegado das coisas mais fant&aacute;sticas dessa vida, vendo<br \/>\n    as coisas mais fant&aacute;sticas que se possa imaginar.<\/p>\n<p>No come&ccedil;o, eu gritava, gesticulava, insultava, descompunha; dessa<br \/>\n    forma, vi-as familiarmente, como a coisa mais natural deste mundo. S&oacute;<br \/>\n    a minha agita&ccedil;&atilde;o, uma frase ou outra desconexa, um gesto sem<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o denunciavam que eu n&atilde;o estava na minha raz&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>O que h&aacute; em mim, meu Deus? Loucura? Quem sabe l&aacute;?<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p><b>Alguns Doentes<\/b><\/p>\n<p>Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos,<br \/>\n    n&atilde;o se tem absolutamente uma impress&atilde;o geral dela. H&aacute;,<br \/>\n    como em todas as manifesta&ccedil;&otilde;es da natureza, indiv&iacute;duos,<br \/>\n    casos individuais, mas n&atilde;o h&aacute; ou n&atilde;o se percebe entre<br \/>\n    eles uma rela&ccedil;&atilde;o de parentesco muito forte. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    esp&eacute;cies, n&atilde;o h&aacute; ra&ccedil;as de loucos; h&aacute; loucos<br \/>\n    s&oacute;.<\/p>\n<p>H&aacute; os que deliram; h&aacute; os que se concentram num mutismo absoluto.<br \/>\n    H&aacute; tamb&eacute;m os que a mol&eacute;stia mental faz perder a fala<br \/>\n    ou quase isso. Quando menino, muito vi loucos e, quando estudante, muito conversei<br \/>\n    com os outros que essas coisas de sandice estudavam sobre eles, mas, pela<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o direta e pelo que li e ouvi dos entendidos, percebi<br \/>\n    bem a perplexidade deles em face de t&atilde;o angustioso problema da nossa<br \/>\n    natureza.<\/p>\n<p>H&aacute; uma nomenclatura, uma terminologia, segundo este, segundo aquele;<br \/>\n    h&aacute; descri&ccedil;&otilde;es pacientes de tais casos, revelando pacientes<br \/>\n    observa&ccedil;&otilde;es, mas uma explica&ccedil;&atilde;o da loucura n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;. Procuram os antecedentes do indiv&iacute;duo, mas n&oacute;s temos<br \/>\n    milh&otilde;es deles e, se nos fosse poss&iacute;vel conhec&ecirc;-los todos,<br \/>\n    ou melhor, ter mem&oacute;ria dos seus v&iacute;cios e h&aacute;bitos, &eacute;<br \/>\n    bem certo que, nessa popula&ccedil;&atilde;o que cada um de n&oacute;s resume,<br \/>\n    havia de haver loucos, viciosos, degenerados de toda a sorte.<\/p>\n<p>De resto, quase nunca os filhos dos loucos s&atilde;o gerados quando eles<br \/>\n    s&atilde;o loucos; os filhos de alco&oacute;licos, da mesma forma, n&atilde;o<br \/>\n    o s&atilde;o quando seus pais chegam ao estado agudo do v&iacute;cio e, pelo<br \/>\n    tempo da gera&ccedil;&atilde;o, bebem como todo o mundo.<\/p>\n<p>Todas essas explica&ccedil;&otilde;es da origem da loucura me parecem absolutamente<br \/>\n    pueris. Todo o problema de origem &eacute; sempre insol&uacute;vel; mas n&atilde;o<br \/>\n    queria j&aacute; que determinassem a origem, ou explica&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas que tratassem e curassem as mais simples formas. At&eacute; hoje, tudo<br \/>\n    tem sido em v&atilde;o, tudo tem sido experimentado; e os doutores mundanos<br \/>\n    ainda gritam nas salas diante das mo&ccedil;as embasbacadas, mostrando os<br \/>\n    colos e os brilhantes, que a ci&ecirc;ncia tudo pode.<\/p>\n<p>Se a est&aacute;tua de Isis l&aacute; estivesse, havia de cerrar mais o v&eacute;u<br \/>\n    impenetr&aacute;vel que cobre o seu rosto. Essa quest&atilde;o do &aacute;lcool,<br \/>\n    que me atinge, pois bebi muito e, como toda a gente, tenho que atribuir as<br \/>\n    minhas crises de loucura a ele, embora sabendo bem que ele n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o fator principal, acode-me refletir por que raz&atilde;o os m&eacute;dicos<br \/>\n    n&atilde;o encontram no amor, desde o mais baixo, mais carnal, at&eacute;<br \/>\n    a sua forma mais elevada, desdobrando-se num verdadeiro misticismo, numa diviniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do objeto amado; por que &#8211; pergunto eu &#8211; n&atilde;o &eacute; fator<br \/>\n    de loucura tamb&eacute;m?<\/p>\n<p>Por que a riqueza, base da nossa atividade, coisa que, desde menino, nos<br \/>\n    dizem ser o objeto da vida, da nossa atividade na terra, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m a causa da loucura?<\/p>\n<p>Por que as posi&ccedil;&otilde;es, os t&iacute;tulos, coisas tamb&eacute;m<br \/>\n    que o ensino quase tem por merit&oacute;rio obter, n&atilde;o &eacute; causa<br \/>\n    de loucura?<\/p>\n<p>H&aacute; um doente aqui, F. P., em que eu vejo misturados o amor e a presun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia e de saber. &Eacute; o mais bulhento e rixento da casa.<br \/>\n    Desde as cinco horas da manh&atilde; at&eacute; &agrave;s sete ou oito da<br \/>\n    noite, ri, vive a gritar, a berrar, proferindo as mais s&oacute;rdidas pornografias.<br \/>\n    Compra barulho com doentes e guardas, descomp&otilde;e-nos, como j&aacute;<br \/>\n    disse; mas, dentro em pouco, est&aacute; ele abra&ccedil;ado com aqueles mesmos<br \/>\n    com que brigou h&aacute; horas, h&aacute; dias.<\/p>\n<p>H&aacute; muita coisa de infantil nas suas atitudes, nas suas manias de amor,<br \/>\n    na estultice de se julgar com grande talento e saber, de provir de uma ra&ccedil;a<br \/>\n    nobre ou parecida. Diz-se descendente de um revolucion&aacute;rio pernambucano,<br \/>\n    em sexta gera&ccedil;&atilde;o, e que foi fuzilado.<\/p>\n<p>Vi-lhe a letra e uma carta que escreveu a uma pessoa da fam&iacute;lia. A<br \/>\n    letra &eacute; positivamente de tolo, gra&uacute;da e redonda. Tem sempre<br \/>\n    na boca a palavra formid&aacute;vel: meu talento &eacute; formid&aacute;vel;<br \/>\n    tenho uma for&ccedil;a formid&aacute;vel; o poder de Deus &eacute; formid&aacute;vel;<br \/>\n    H. &eacute; um general formid&aacute;vel. A sua pros&aacute;pia de educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de homem fino e de sala, n&atilde;o impede que, por d&aacute; c&aacute; aquela<br \/>\n    palha, empregue os termos mais chulos e porcos. Uma hora diz do m&eacute;dico,<br \/>\n    do chefe da se&ccedil;&atilde;o, dos companheiros e amigos os maiores elogios;<br \/>\n    daqui a pouco, est&aacute; a descomp&ocirc;-los com os seus termos habituais.<\/p>\n<p>Fila os jornais do m&eacute;dico, mas s&oacute; para t&ecirc;-los embaixo<br \/>\n    do bra&ccedil;o, pois n&atilde;o os l&ecirc; e nota-se mesmo em todos os seus<br \/>\n    atos, gestos e palavras, uma falta de seria&ccedil;&atilde;o, uma instabilidade<br \/>\n    mental, mais f&aacute;cil de perceber, quando se lhe exp&otilde;e qualquer<br \/>\n    coisa, do que quando ele pretende narrar um fato ou contar uma anedota. O<br \/>\n    orgulho dele, al&eacute;m do pai, que &eacute; totalmente desconhecido, est&aacute;<br \/>\n    nos irm&atilde;os, formados nisso e naquilo; entretanto, n&atilde;o o pai,<br \/>\n    mas estes &uacute;ltimos n&atilde;o escapam da sua l&iacute;ngua nas horas<br \/>\n    de f&uacute;ria. Tem a acompanh&aacute;-lo um guarda particular, que faz pena<br \/>\n    v&ecirc;-lo sofrer com ele. A toda a hora e a todo instante, al&eacute;m de<br \/>\n    outros insultos, est&aacute; a p&ocirc;r-lhe na cara que ele ganha sessenta<br \/>\n    mil-r&eacute;is para servi-lo.<\/p>\n<p>O velho quer despedir-se, mas, ao que parece, ele precisa muito dessa mis&eacute;ria<br \/>\n    de ordenado. N&atilde;o &eacute; l&aacute; muito velho, mas sofre j&aacute;<br \/>\n    de decrepitude. Foi guarda-civil, guarda do hosp&iacute;cio e, nesse seu &uacute;ltimo<br \/>\n    quartel da vida, para ter com o que viver, tem de aturar o mais insuport&aacute;vel<br \/>\n    louco que eu tenho conhecido na minha longa conviv&ecirc;ncia com loucos.<br \/>\n    Mania de grandeza, del&iacute;rio de saber, de fam&iacute;lia, de valentia<br \/>\n    e coragem, uma agita&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o o faz dormir, nem deixa<br \/>\n    o seu guarda dormir, tudo nela concorre para faz&ecirc;-lo, nesta sombria<br \/>\n    cidade de lun&aacute;ticos, uma esp&eacute;cie &agrave; parte, e supliciar<br \/>\n    os que s&atilde;o encarregados de sua vigil&acirc;ncia.<\/p>\n<p>N&atilde;o me gabo, mas, com ele e muitos outros, tem-se dado um fato muito<br \/>\n    interessante: eu lhes inspiro simpatia. Quando estive na enfermaria preliminar,<br \/>\n    ao amanhecer do dia seguinte, mandei comprar um jornal e pus-me a ler no p&aacute;tio.<br \/>\n    Um doente recomendado, que l&aacute; havia &#8211; um velho nortista, moreno<br \/>\n    carregado, fei&ccedil;&otilde;es regulares, a n&atilde;o ser os malares salientes<br \/>\n    &#8211; sentou-se ao meu lado e quis ler de sociedade comigo o jornal. Disse-lhe<br \/>\n    que n&atilde;o era conveniente lermos juntos; que ele esperasse, eu lhe daria<br \/>\n    o jornal. Ouvindo isto, ele levantou-se amuado e amuado me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Mesmo mostra que voc&ecirc; &eacute; maluco.<\/p>\n<p>Ele foi transferido para o hosp&iacute;cio e, quando deu comigo, disse-me<br \/>\n    que tivera not&iacute;cias que eu era do jornal, e procurara-me para conversar;<br \/>\n    mas que eu j&aacute; me tinha vindo embora. Tratou-me com uma distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;ria, fez-se meu amigo, pediu-me obs&eacute;quios, deu-me<br \/>\n    conselhos e prometeu-me este mundo e outro.<\/p>\n<p>&Eacute; um louco cl&aacute;ssico, com del&iacute;rio de persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e grandeza. &Eacute; um homem inteligente, mas com cultura elementar, e o<br \/>\n    seu del&iacute;rio, desde que n&atilde;o se o interrogue pela base, parece<br \/>\n    &agrave; primeira vista a mais pura verdade. No come&ccedil;o, ele me enganou;<br \/>\n    e julguei certo tudo o que dizia, mas, por fim, ele me revelou toda a sua<br \/>\n    psicose. Por me parecer interessante, eu vou reproduzir as hist&oacute;rias<br \/>\n    que ele me contou, procurando n&atilde;o quebrar a l&oacute;gica m&oacute;rbida<br \/>\n    com a qual as articulava. Ele &eacute; de Sergipe e chama-se V. de O.<\/p>\n<p>Quando encontrei V. de O., no corredor do hosp&iacute;cio, e ele me falou<br \/>\n    de forma diferente de todos os outros, como se conhecesse de fato, houvesse<br \/>\n    lido alguma coisa minha, enumerou-me os seus t&iacute;tulos e trabalhos, dizendo-me<br \/>\n    at&eacute; que trabalhara em um jornal de Minas com o Senhor Augusto de Lima,<br \/>\n    a minha satisfa&ccedil;&atilde;o foi grande. Demais, recitou-me versos dele<br \/>\n    e, conquanto eles nada valessem, esperei encontrar nele um sujeito lido que,<br \/>\n    por isso ou aquilo tenha ca&iacute;do ali, eu podia conversar, por ser da<br \/>\n    minha ra&ccedil;a mental.<\/p>\n<p>Nesta se&ccedil;&atilde;o, como na outra em que estive, n&atilde;o faltam<br \/>\n    sujeitos que tenham recebido certa instru&ccedil;&atilde;o; h&aacute; at&eacute;<br \/>\n    os formados. Eu n&atilde;o tenho nenhuma esp&eacute;cie de supersti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelos nossos t&iacute;tulos escolares ou universit&aacute;rios; eles d&atilde;o<br \/>\n    algumas vezes algum saber profissional, muito restrito e ronceiro, e nunca<br \/>\n    uma verdadeira cultura; mas, em todo o caso, a conviv&ecirc;ncia nas escolas<br \/>\n    com rapazes de intelig&ecirc;ncia mais aguda, mais curiosos de saber e conhecer<br \/>\n    a atividade mental ind&iacute;gena ou estrangeira, d&aacute; a alguns uma<br \/>\n    tintura das altas coisas que, nesta minha solid&atilde;o intelectual, num<br \/>\n    meio delirante, seria um achado encontrar um.<\/p>\n<p>Coisa curiosa, entretanto, os formados nisto ou naquilo, que me apontam aqui,<br \/>\n    quase todos eles s&atilde;o possu&iacute;dos de uma mania depressiva que lhes<br \/>\n    tira n&atilde;o s&oacute; a enfatua&ccedil;&atilde;o doutoral, como tamb&eacute;m<br \/>\n    se votam, em geral, a um sil&ecirc;ncio perp&eacute;tuo. Mostraram-me v&aacute;rios,<br \/>\n    e todos eles eram de um mutismo absoluto. Contudo, um deles, bacharel, o mais<br \/>\n    mudo de todos, na sua ins&acirc;nia, n&atilde;o se esquecera do anel simb&oacute;lico<br \/>\n    e, com um peda&ccedil;o de arame e uma rodela n&atilde;o sei de que, improvisara<br \/>\n    um, que ele punha &agrave; vista de todos, como se fosse de esmeralda.<\/p>\n<p>Havia um outro, que diziam ser engenheiro; este guardava uma certa presun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do &quot;anelado&quot; brasileiro. Sentava-se perto de mim e sempre atirava<br \/>\n    com maus modos o seu prato servido para cima do meu. Andava sempre com um<br \/>\n    ponche, parecia ser isso um h&aacute;bito de viajante. O seu orgulho n&atilde;o<br \/>\n    parecia vir do t&iacute;tulo, mas de um sentimento desmedido da sua aptid&atilde;o<br \/>\n    para endireitar a p&aacute;tria. Soltava frases soltas como esta:<\/p>\n<p>&#8211; Que podem estes broncos de empregados conhecer das necessidades do<br \/>\n    Brasil?<\/p>\n<p>Ou sen&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; O presidente deve vir aqui para conferenciar comigo.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, na janela, atrav&eacute;s da grade, gritava para os bondes,<br \/>\n    a passar:<\/p>\n<p>&#8211; Digam ao doutor E. (o presidente) que n&atilde;o aceite alian&ccedil;as,<br \/>\n    que s&oacute; podem perder o Brasil.<\/p>\n<p>Os outros formados nada diziam, ou balbuciavam coisas inintelig&iacute;veis.<\/p>\n<p>Vendo aquele homem, que se dizia ter sido estudante do quarto ano de medicina,<br \/>\n    engenheiro agr&ocirc;nomo, agrimensor, jornalista e fazia versos, &eacute;<br \/>\n    de imaginar que prazer n&atilde;o foi o meu em encontr&aacute;-lo e como eu<br \/>\n    me esqueci da pequena m&aacute;goa, que seu mau humor me causou no pavilh&atilde;o.<br \/>\n    Mas estava escrito que eu n&atilde;o poderia, no meio de cento e tantos insanos,<br \/>\n    encontrar um com quem trocasse uma palavra.<\/p>\n<p>Os leitores h&atilde;o de dizer que n&atilde;o era poss&iacute;vel encontrar<br \/>\n    isso numa casa de loucos. &Eacute; um engano; h&aacute; muitas formas de loucura<br \/>\n    e algumas permitem aos doentes momentos de verdadeira e completa lucidez.<\/p>\n<p>No sal&atilde;o, h&aacute; um bilhar, e eu admirava que um rapaz, O., que<br \/>\n    passava o dia inteiro a cantarolar pornografias, em que misturava reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    de fam&iacute;lia, jogasse com consci&ecirc;ncia bilhar com um outro, que<br \/>\n    era dos m&eacute;dicos surdos a que me referi. Tinham ambos &quot;conta&quot;,<br \/>\n    conheciam os efeitos, e naquele momento o del&iacute;rio ou a loucura cessava.<\/p>\n<p>D&aacute;-se o mesmo com a instru&ccedil;&atilde;o, a educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A loucura d&aacute; intervalos. Eu vi um rapazote, de vinte e poucos anos,<br \/>\n    explicar aritm&eacute;tica a um outro, divisibilidade, e pelo que me lembro<br \/>\n    estava certo tudo o que ele expunha. N&atilde;o me quis aproximar, para n&atilde;o<br \/>\n    parecer importuno, mas pelo que ouvi ao longe nada tenho a atribuir como erro.<br \/>\n    Entretanto, ele vivia delirando.<\/p>\n<p>Mas o doutor V. de O. foi um desapontamento. Contarei tudo, porque &eacute;<br \/>\n    interessante contar. J&aacute; disse como ele travou rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    comigo. Disse-me que precisava de mim para uns servi&ccedil;os na imprensa.<br \/>\n    Pus-me logo &agrave;s suas ordens, e ele me explicou que vinha sendo perseguido<br \/>\n    por um complot que tinha at&eacute; conseguido desmoraliz&aacute;-lo pelos<br \/>\n    jornais. A alma dessa conspira&ccedil;&atilde;o contra ele era a mulher, ati&ccedil;ada<br \/>\n    pela sogra. Casara-se, depois de ser amante, e ela, no fim de cinco meses,<br \/>\n    abandonou o lar, levando tudo que nele havia, propondo em ju&iacute;zo uma<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o de nulidade de casamento.<\/p>\n<p>A sua causa era advogada por certo advogado que era seu amante e deputado<br \/>\n    pela Bahia; ele, por&eacute;m, tinha quatro advogados. Fora sua mulher que<br \/>\n    conseguira a sua interna&ccedil;&atilde;o no hosp&iacute;cio, dizendo &agrave;<br \/>\n    pol&iacute;cia que ele andava aluado e armado para mat&aacute;-la. Fora preso<br \/>\n    com um rev&oacute;lver na m&atilde;o, e, sem mais nem menos, constitu&iacute;ra<br \/>\n    advogado, ou melhor, advogados. Tinha quatro, mas depois disse-me que eram<br \/>\n    dois.<\/p>\n<p>Havia, no correr da sua exposi&ccedil;&atilde;o, muitas contradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e exageros. Ele, em come&ccedil;o, me dissera que fora o seu advogado que<br \/>\n    se interessara por ele para ser tratado com certa defer&ecirc;ncia no pavilh&atilde;o.<br \/>\n    Depois me dissera que o seu patrono se queixava de estar gastando dinheiro<br \/>\n    em bondes, que n&atilde;o tinha dinheiro.<\/p>\n<p>H&aacute;, em muita coisa, um fundo de verdade, mas a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua personalidade, a grande conta em que ele tem dos seus talentos, ora<br \/>\n    de m&eacute;dico, ora de dentista, ora de engenheiro, o seu del&iacute;rio<br \/>\n    de grandeza monet&aacute;ria, soa, na verdade que se sente em algumas de suas<br \/>\n    palavras, como uma nota falsa. A m&atilde;e &eacute; rica, acaba de receber<br \/>\n    dois mil contos, os irm&atilde;os, cada um tem dois mil contos, etc. etc.<br \/>\n    Ele mesmo tem tido muito dinheiro e tem dado. Promete-me mundos e fundos.<br \/>\n    Pijamas de seda, passeios a Petr&oacute;polis, dinheiro &#8211; a gruta de<br \/>\n    Ali-Bab&aacute;. &Eacute; exigente de roupas, que as tem possu&iacute;do de<br \/>\n    primeira qualidade &#8211; tudo bom e fino, vindo do estrangeiro para ele.<br \/>\n    Tem uma demanda com a administra&ccedil;&atilde;o, por causa de uns suspens&oacute;rios<br \/>\n    que lhe custaram dezoito mil-r&eacute;is. Em toda a sua narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de passeios, etc., n&atilde;o se esquece nunca de dizer o pre&ccedil;o do<br \/>\n    custo das coisas. Apesar de sua pros&aacute;pia sabichona, &eacute; de uma<br \/>\n    ignor&acirc;ncia crassa. Erra na ortografia como uma crian&ccedil;a de col&eacute;gio<br \/>\n    e a sintaxe &eacute; um Deus nos acuda. Obriga-me a rever os seus escritos.<br \/>\n    Fala com &ecirc;nfase, entre os dentes, sibila e tem a risada do Jo&atilde;o<br \/>\n    Barreto. N&atilde;o sabe onde fica Blumenau e quis me convencer que os ladrilhos<br \/>\n    do vest&iacute;bulo do hosp&iacute;cio eram m&aacute;rmore que vinha antigamente<br \/>\n    da It&aacute;lia, e me explicou uma coisa fant&aacute;stica de fornos, em<br \/>\n    que o m&aacute;rmore era transformado em ladrilhos. A sua pretens&atilde;o<br \/>\n    intelectual &eacute; uma coisa comum &agrave; gente de Sergipe e o enlouqueceu,<br \/>\n    ao que parece.<\/p>\n<p>N&atilde;o tem a m&iacute;nima no&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncias naturais<br \/>\n    e das suas aplica&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o diz minerais de um pa&iacute;s,<br \/>\n    diz a sua mineralogia. &Eacute; um caso curioso, com algum parentesco com<br \/>\n    o do F. P., mas mais seguro do que este no seu del&iacute;rio de grandeza<br \/>\n    intelectual e de fortuna, que F. P. n&atilde;o tem, mas em compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tem o de for&ccedil;a e de amor, e de f&ecirc;mea, que V. O. tamb&eacute;m<br \/>\n    tem.<\/p>\n<p>Diz-se conhecido em toda a parte, no Chile, na Argentina, mas nada sabe do<br \/>\n    Rio de Janeiro. De repente, por&eacute;m, conta que j&aacute; esteve aqui,<br \/>\n    que j&aacute; foi preso no estado de s&iacute;tio da vacina obrigat&oacute;ria<br \/>\n    com Jaques Ourique.<\/p>\n<p>Alia, &agrave; sua pretens&atilde;o intelectual, a sua cisma de fortuna,<br \/>\n    a um sentimento de uma grande import&acirc;ncia social.<\/p>\n<p>Para ele, ele &eacute; objeto de uma persegui&ccedil;&atilde;o de poderosos;<br \/>\n    entretanto, diz que disp&otilde;e de poderes quase sobrenaturais de hipnotismo.<br \/>\n    J&aacute; conseguiu furtar os autos de seu processo de nulidade com aux&iacute;lio<br \/>\n    dele e fez outras proezas.<\/p>\n<p>Todos o t&ecirc;m como homem tem&iacute;vel, e por isso procuram inutiliz&aacute;-lo.<br \/>\n    Nada sei sobre os seus antecedentes. S&oacute; posso ter como certas coisas<br \/>\n    que ele repete da mesma forma; entretanto, n&atilde;o garanto, pois esse homem,<br \/>\n    no seu del&iacute;rio, omite alguma coisa, para confessar mais tarde, e confessa<br \/>\n    outras, para negar logo depois. Disse-me que n&atilde;o esteve no xadrez dos<br \/>\n    loucos uma hora; outra, diz que esteve. Diz que n&atilde;o esteve na Pinel,<br \/>\n    outra hora diz que esteve. Disse-me que era o seu advogado quem se interessava<br \/>\n    por ele; outra hora, diz que &eacute; um pronto e n&atilde;o tem informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ele est&aacute; muito mais bem instalado do que eu. Tem um quarto com um<br \/>\n    s&oacute; companheiro, uma mesa para o seu uso, com uma gaveta e chave, onde<br \/>\n    pode escrever &agrave; vontade. Eu, se quero escrever, tenho que ir pedir<br \/>\n    para faz&ecirc;-lo no gabinete do m&eacute;dico, que isso me facilitou. Para<br \/>\n    mim, ele tem fortes recomenda&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e outras<br \/>\n    poderosas que fazem ter ele essas regalias excepcionais.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria do seu casamento me parece fant&aacute;stica e da sua pris&atilde;o<br \/>\n    tamb&eacute;m. Foram esses amigos pol&iacute;ticos, talvez, que, &agrave;<br \/>\n    vista do seu del&iacute;rio, conseguiram a sua interna&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    t&ecirc;m contribu&iacute;do para ter gratuitamente o tratamento que tem.<br \/>\n    A sua intelig&ecirc;ncia parece n&atilde;o ter sido nunca grande e a sua fortuna<br \/>\n    tamb&eacute;m. Ele conhece o Amazonas, pessoas e coisas de l&aacute;. Percebe-se.<br \/>\n    Diz que ganhou dinheiro viajando com uma lancha que rebocava batel&otilde;es<br \/>\n    carregados de mercadorias, que trocava com grande vantagem por borracha, que<br \/>\n    vendia em Manaus, em grande. Tenho ouvido de pessoas s&atilde;s, de ju&iacute;zo,<br \/>\n    que isto se faz ou se fez naquelas paragens. &Eacute;, portanto, poss&iacute;vel;<br \/>\n    mas logo vem o del&iacute;rio, quando diz que os seus batel&otilde;es carregavam<br \/>\n    cinq&uuml;enta mil toneladas de mercancia.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p><b>Guardas e Enfermeiros<\/b><\/p>\n<p>Poderia alongar-me mais na descri&ccedil;&atilde;o dos doentes que me cercam.<br \/>\n    Mas a loucura tem tantos pontos de contato de um indiv&iacute;duo para outro,<br \/>\n    que seria arriscar tornar-me fastidioso se quisesse descrever muitos doentes.<br \/>\n    H&aacute; uma grande parte que se condenam a um mutismo eterno. Como descrever<br \/>\n    estes? Estes silenciosos s&atilde;o bizarros. H&aacute; tr&ecirc;s aqui muito<br \/>\n    interessantes. Um &eacute; um tipo acaboclado, com um cavaignac crespo, denunciando<br \/>\n    sangue africano, que vive embrulhado em trapos, com dois alforjes pendurados<br \/>\n    &agrave; direita e &agrave; esquerda, sequioso de leitura, a ponto de ler<br \/>\n    qualquer fragmento de papel impresso que encontre. N&atilde;o chega aos extremos<br \/>\n    de um portugu&ecirc;s, que vive dia e noite, nas proximidades das latrinas,<br \/>\n    sen&atilde;o nelas, e que n&atilde;o trepida em retirar os fragmentos de jornais<br \/>\n    emporcalhados, para ler an&uacute;ncios e outras coisas sem interesse, mas<br \/>\n    sempre delirando. O silencioso ledor n&atilde;o faz tal, mas escolheu o v&atilde;o<br \/>\n    de uma janela, para a&iacute; passar horas inteiras deitado, como se fosse<br \/>\n    um beliche de navio. Outro silencioso, que tem a mesma atitude, &eacute; mulato,<br \/>\n    simp&aacute;tico, calmo, que s&oacute; vai para as refei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a correr. O refeit&oacute;rio fica fora da se&ccedil;&atilde;o e um pouco<br \/>\n    distante. Outro silencioso interessante &eacute; um matuto de Cabo Frio, que<br \/>\n    parece uma est&aacute;tua. &Eacute; de uma grande atonia, de uma in&eacute;rcia<br \/>\n    que n&atilde;o se concebe. Para deitar-se, &eacute; preciso ser trazido para<br \/>\n    a cama, mas logo se levanta e encosta-se &agrave; parede de um corredor e<br \/>\n    a&iacute; fica, at&eacute; que o tragam de novo. Ama o sil&ecirc;ncio e estar<br \/>\n    de p&eacute;. Encostado &agrave; parede, hirto, olhos parados, sem brilho<br \/>\n    nem express&atilde;o qualquer, parece uma est&aacute;tua eg&iacute;pcia, um<br \/>\n    cim&eacute;lio de templo.<\/p>\n<p>O guarda rondante, aquele que vigia os doentes, &agrave; noite, &eacute;<br \/>\n    um velho portugu&ecirc;s paciente e en&eacute;rgico, que n&atilde;o tem nenhuma<br \/>\n    esp&eacute;cie de mau humor, para traz&ecirc;-lo, duas, tr&ecirc;s e mais<br \/>\n    vezes para a cama.<\/p>\n<p>O que assombra nestes portugueses &eacute; que, sendo homens humildes, camponeses<br \/>\n    em geral, de fraca educa&ccedil;&atilde;o e quase nenhuma instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se possam conter, abafar os &iacute;mpetos de mau humor, de c&oacute;lera,<br \/>\n    de raiva, que o procedimento dos doentes provoca.<\/p>\n<p>V. de O., outro dia, chamou o enfermeiro de todos os nomes sujos que h&aacute;<br \/>\n    no portugu&ecirc;s do Brasil e de Portugal; o F. P., toda a hora, todo o instante,<br \/>\n    de envolta com as mais torpes inj&uacute;rias, descomp&otilde;e os guardas<br \/>\n    na sua nacionalidade: galegos, etc. Da&iacute; a pouco, est&aacute; a mim&aacute;-los<br \/>\n    e pedindo-lhes favores. O substituto do chefe de enfermeiros &eacute; uma<br \/>\n    v&iacute;tima dele. &Eacute; um portugu&ecirc;s, novo, doce, simp&aacute;tico.<br \/>\n    Ouve tudo o que ele diz, ri-se, e daqui a pouco est&aacute; atendendo os pedidos<br \/>\n    do F. P. N&atilde;o &eacute; s&oacute; com este que ele assim procede; &eacute;<br \/>\n    com o meu guarda tamb&eacute;m. Um rapaz espanhol, muito mo&ccedil;o, simp&aacute;tico,<br \/>\n    com uns bonitos olhos ternos, que suporta da mesma forma todos os insultos<br \/>\n    dele e de outros.<\/p>\n<p>Os enfermeiros, na se&ccedil;&atilde;o em que estou, s&atilde;o em geral<br \/>\n    bons. H&aacute;, por&eacute;m, uma casta deles que n&atilde;o presta. S&atilde;o<br \/>\n    os tais particulares. Estes s&atilde;o aqueles que os doentes abastados das<br \/>\n    primeiras classes s&atilde;o autorizados a trazer. Nem todos s&atilde;o assim,<br \/>\n    mas com dois eu implico solenemente; e me fazem lembrar a insol&ecirc;ncia<br \/>\n    do Bragan&ccedil;a do pavilh&atilde;o, que tem as costas quentes, por causa<br \/>\n    da prote&ccedil;&atilde;o que lhe dispensa o poeta &eacute;pico da Psiquiatria,<br \/>\n    H. R. Dizem que este est&aacute; acabando os Timbiras de Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Dias e, para embeber o seu esp&iacute;rito de cad&ecirc;ncia e harmonia, d&aacute;<br \/>\n    freq&uuml;entes bailes em casa, em que o Bragan&ccedil;a, o tal doutor do<br \/>\n    guarda-civil, figura como chefe do buffet.<\/p>\n<p>Esses dois enfermeiros s&atilde;o absolutamente insuport&aacute;veis. Um,<br \/>\n    pela conversa que ouvi dele, &eacute; xucro portugu&ecirc;s, sem as qualidades<br \/>\n    dos portugueses em geral, mas f&aacute;tuo dos seus namoros e da sua irresistibilidade<br \/>\n    como homem, em face das mulheres. Ouvi-o conversar e sinto n&atilde;o poder<br \/>\n    reproduzir a conversa. Enumerava as enfermeiras que havia namorado, e o seu<br \/>\n    interlocutor, perguntando:<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc&ecirc; n&atilde;o continuou o namoro com F.?<\/p>\n<p>&#8211; S&oacute; podia ser por carta.<\/p>\n<p>&#8211; Que tinha?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o gosto. O namoro s&oacute; serve quando se pode beijar<br \/>\n    e apertar os peitinhos.<\/p>\n<p>Creio que foi Maxime du Camp que disse ser uma lenda a hist&oacute;ria do<br \/>\n    senhor rico que desgra&ccedil;a as raparigas pobres. Tenho verificado que<br \/>\n    ele tem raz&atilde;o: s&atilde;o os rapazes pobres que as perdem. Este portuguesote<br \/>\n    tenho para mim que &eacute; candidato a um processo de defloramento ou de<br \/>\n    estupro.<\/p>\n<p>O outro &eacute; muito confiado, tem uns ares de fadista e guitarreiro, com<br \/>\n    quem eu implico mais do que com o ar fanfarr&atilde;o e meloso do nosso capad&oacute;cio.<\/p>\n<p>Os guardas em geral, principalmente os do pavilh&atilde;o e da se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos pobres, t&ecirc;m os loucos na conta de sujeitos sem nenhum direito a<br \/>\n    um tratamento respeitoso, seres inferiores, com os quais eles podem tratar<br \/>\n    e fazer o que quiserem. J&aacute; lhes contei como baldeei no pavilh&atilde;o,<br \/>\n    como lavei o banheiro e como um m&eacute;dico ou interno me tirou a vassoura<br \/>\n    da m&atilde;o quando estava varrendo o jardim.<\/p>\n<p>Mas na Se&ccedil;&atilde;o Pinel, aconteceu-me coisa mais manifesta, da estupidez<br \/>\n    do guarda e da sua cren&ccedil;a de que era meu feitor e senhor. Era este<br \/>\n    um rapazola de vinte e tantos anos, brasileiro, de cabeleira solta, com um<br \/>\n    ar de violeiro e modinheiro. Estava deitado no dormit&oacute;rio que me tinham<br \/>\n    marcado e ele chegou &agrave; porta e perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; a&iacute; Tito Flam&iacute;nio?<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, apressei-me.<\/p>\n<p>&#8211; O seu S. A. manda dizer que voc&ecirc; e sua cama v&atilde;o para<br \/>\n    o quarto do doutor Q.<\/p>\n<p>Era este um estudante, que tivera um ataque e vivia no hospital, para curar<br \/>\n    os efeitos do insulto, que o deixara semi-paral&iacute;tico.<\/p>\n<p>Fiquei tonto com o carregar eu s&oacute; a cama; o capad&oacute;cio nem se<br \/>\n    deu ao trabalho de mandar um colega me ajudar, j&aacute; que ele n&atilde;o<br \/>\n    queria faz&ecirc;-lo. Foi preciso um outro doente espontaneamente prestar-se.<br \/>\n    Este guarda &eacute; brasileiro. Depois da minha ascens&atilde;o no manic&ocirc;mio,<br \/>\n    ele, quando me encontra no refeit&oacute;rio, olha-me com uma certa desconfian&ccedil;a.<br \/>\n    Deste e do Bragan&ccedil;a, eu tenho alguma m&aacute;goa, mas dos outros que<br \/>\n    me trataram por voc&ecirc; e do Camilo, do pavilh&atilde;o, que me fez lavar,<br \/>\n    baldear e varrer, nenhuma.<\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; eu fora para l&aacute; remetido como sujeito sem eira<br \/>\n    nem beira, devido &agrave; tolice dos meus parentes, pois me podiam internar<br \/>\n    sem passar por l&aacute;, mesmo com aux&iacute;lio da pol&iacute;cia, como<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o tinha ele o ar de feitor do violeiro da Pinel, e<br \/>\n    trabalhava, isto &eacute;, baldeava, lavava, varria junto conosco.<\/p>\n<p>No hosp&iacute;cio, das duas vezes em que l&aacute; estive, nunca me fizeram<br \/>\n    executar qualquer servi&ccedil;o, mas, se quisessem fazer, eu me prestaria,<br \/>\n    desde que ele estivesse de acordo com as minhas for&ccedil;as e os meus h&aacute;bitos<br \/>\n    anteriores. Eu me prestava mesmo a aprender um of&iacute;cio que fosse leve,<br \/>\n    mas essas tarefas pesadas&#8230;<\/p>\n<p>Digo com franqueza, cem anos que viva eu, nunca poder&aacute; apagar-me da<br \/>\n    minha mem&oacute;ria essas humilha&ccedil;&otilde;es que sofri. N&atilde;o<br \/>\n    por elas mesmo, que pouco valem; mas pela convic&ccedil;&atilde;o que me trouxeram<br \/>\n    de que esta vida n&atilde;o vale nada, todas as posi&ccedil;&otilde;es falham<br \/>\n    e todas as precau&ccedil;&otilde;es para um grande futuro s&atilde;o v&atilde;s.<\/p>\n<p>Eu tinha tudo, ou tenho tudo, para n&atilde;o sofre-las, tanto mais que n&atilde;o<br \/>\n    as provoquei. Sou instru&iacute;do, sou educado, sou honesto, tenho procurado<br \/>\n    o mais poss&iacute;vel ter uma vida pura. Parecia que sendo assim, que &#8211;<br \/>\n    sendo eu um rapaz que, antes dos dezesseis anos, estava numa escola superior<br \/>\n    (que todos me gabavam a intelig&ecirc;ncia, e mesmo at&eacute; agora ningu&eacute;m<br \/>\n    nega) &#8211; estivesse a coberto de tudo isso. Mas eu e a sorte, a sorte<br \/>\n    e eu, nos juntamos de tal sorte, nos irmanamos, que vim a passar por transes<br \/>\n    desses.<\/p>\n<p>Desde a minha entrada na Escola Polit&eacute;cnica que venho caindo de sonho<br \/>\n    em sonho e, agora que estou com quase quarenta anos, embora a gl&oacute;ria<br \/>\n    me tenha dado beijos furtivos, eu sinto que a vida n&atilde;o tem mais sabor<br \/>\n    para mim. N&atilde;o quero, entretanto, morrer; queria outra vida, queria<br \/>\n    esquecer a que vivi, mesmo talvez com perda de certas boas qualidades que<br \/>\n    tenho, mas queria que ela fosse pl&aacute;cida, serena, med&iacute;ocre e<br \/>\n    pac&iacute;fica, como a de todos.<\/p>\n<p>Penso assim, &agrave;s vezes, mas, em outras, queria matar em mim todo o<br \/>\n    desejo, aniquilar aos poucos a minha vida e sumir-me no todo universal. Esta<br \/>\n    passagem v&aacute;rias vezes no hosp&iacute;cio e outros hospitais deu-me<br \/>\n    n&atilde;o sei que dolorosa ang&uacute;stia de viver que eu me parece ser<br \/>\n    sem rem&eacute;dio a minha dor.<\/p>\n<p>Vejo a vida torva e sem sa&iacute;da. A minha aposentadoria d&aacute;-me<br \/>\n    uma migalha, com que mal me daria para viver. A minha pena s&oacute; me pode<br \/>\n    dar dinheiro escrevendo banalidades para revistas de segunda ordem. Eu me<br \/>\n    envergonho e me aborre&ccedil;o de empregar, na minha idade, a minha intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    em tais futilidades. Ainda tenho alguma verve para a tarefa do dia a dia;<br \/>\n    mas tudo me leva para pensamentos mais profundos, mais doridos e uma vontade<br \/>\n    de penetrar no mist&eacute;rio da minha alma e do Universo.<\/p>\n<p>Eu me indago, de mim para mim, se, por acaso, n&atilde;o &eacute; amor que<br \/>\n    me corr&oacute;i. Mas vejo bem que n&atilde;o. Passei a idade de t&ecirc;-lo,<br \/>\n    fugindo dele, para que ele n&atilde;o me criasse sofrimento e n&atilde;o prejudicasse<br \/>\n    a minha ambi&ccedil;&atilde;o de gl&oacute;ria. A pr&oacute;pria Helo&iacute;sa<br \/>\n    achava-o nocivo nos homens de pensamento; &eacute; verdade que ela tamb&eacute;m<br \/>\n    achava o seu Abelardo virtuoso.<\/p>\n<p>Se fosse ele, eu teria explica&ccedil;&atilde;o, pois, conforme diz Bossuet,<br \/>\n    &quot;Posez l&#8217;amour, vous faites naitre toutes les passions; &ocirc;tez<br \/>\n    l&#8217;amour, vous les supprimerez toutes.&quot;<\/p>\n<p>N&atilde;o amei nunca, nem mesmo minha mulher que &eacute; morta e pela qual<br \/>\n    n&atilde;o tenho amor, mas remorso de n&atilde;o t&ecirc;-la compreendido,devido<br \/>\n    &agrave; oclus&atilde;o muda do meu orgulho intelectual; e te-la-ia amado<br \/>\n    certamente, se t&atilde;o est&uacute;pido sentimento n&atilde;o tivesse feito<br \/>\n    passar por mim a &uacute;nica alma e pessoa que me podiam inspirar t&atilde;o<br \/>\n    grave pensamento.<\/p>\n<p>Li-a e n&atilde;o a compreendi&#8230;<\/p>\n<p>Ah! meu Deus!<\/p>\n<p>Ontem, matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas:<\/p>\n<p>&quot;Suicidou-se no pavilh&atilde;o um doente. O dia est&aacute; lindo.<br \/>\n    Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia t&atilde;o<br \/>\n    belo como o de hoje.&quot;<\/p>\n<p>N&atilde;o me animo a dizer: venceste, Galileu; mas, ao morrer, quero com<br \/>\n    um sol belo, de um belo dia de ver&atilde;o!<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>Hoje &eacute; segunda-feira. Passei-a mais entediado do que nunca. Li o Plutarco,<br \/>\n    mas n&atilde;o tive &acirc;nimo de acabar com a leitura da vida de Pel&oacute;pidas.<br \/>\n    Mais ou menos, releio esta c&eacute;lebre obra, porque aos dezoito anos fiz<br \/>\n    uma leitura dela apressada e salteada. N&atilde;o tem o mesmo sabor, a que<br \/>\n    fa&ccedil;o agora, como tinha de del&iacute;cia a primeira. Observo que Plutarco<br \/>\n    p&otilde;e muito a interven&ccedil;&atilde;o dos deuses, nas proezas felizes<br \/>\n    dos seus her&oacute;is; h&aacute; rela&ccedil;&otilde;es de predica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ing&ecirc;nuas que, apesar de tudo, nos fazem rir, mesmo a mim que sou supersticioso.<\/p>\n<p>No almo&ccedil;o se deu um caso que me fez passar mal o dia. H&aacute; aqui<br \/>\n    um louco que n&atilde;o parece ser profundamente alterado das faculdades mentais.<br \/>\n    &Eacute; aleijado das pernas e chamam-no at&eacute; Caranguejo, porque, aqui,<br \/>\n    como em todas as cole&ccedil;&otilde;es de homens que vivem juntos, h&aacute;<br \/>\n    o gosto pela alcunha depreciativa. H&aacute; o Gato, h&aacute; o Tet&eacute;ia,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>H&aacute; muito que um certo doente o perseguia com chufas e gestos. Hoje,<br \/>\n    no refeit&oacute;rio, ao receber um destes do seu perseguidor, o Caranguejo<br \/>\n    atirou-lhe uns copos na cara. N&atilde;o pegou, mas ele, apesar de seu aleij&atilde;o,<br \/>\n    saiu atr&aacute;s do advers&aacute;rio, que se cobriu de pavor e tremia. O<br \/>\n    pobre do bom Caranguejo, com quem eu jogo bisca calmamente, teve um ataque<br \/>\n    de nervos, rasgou as vestes e, quase a chorar, dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o sou nada! Nada! Ponha tudo isto fora!<\/p>\n<p>Deram-lhe uma inje&ccedil;&atilde;o e ele dormiu, n&atilde;o podendo ir jantar.<\/p>\n<p>O tal que o persegue, eu j&aacute; lhe passei uma corrida. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    positivamente louco. &Eacute; antes um d&eacute;bil mental de um fundo perverso<br \/>\n    e de uma covardia sem nome. S&oacute; persegue os velhos, aleijados e os doentes<br \/>\n    mais imbecis que ele.<\/p>\n<p>Ele foi preso e, tendo que ir at&eacute; &agrave;s proximidades do dormit&oacute;rio<br \/>\n    dele, de l&aacute;, muito de longe e com a fuga garantida, deu em fazer-me<br \/>\n    gestos imorais.<\/p>\n<p>N&atilde;o o temo, mas me aborreci o dia inteiro, em imaginar que algu&eacute;m<br \/>\n    estaria na obriga&ccedil;&atilde;o de se atracar com semelhante idiota.<\/p>\n<p>&Eacute; uma triste conting&ecirc;ncia, esta, de estar um homem obrigado<br \/>\n    a viver com semelhante gente. Quando me vem semelhante reflex&atilde;o, eu<br \/>\n    n&atilde;o posso deixar de censurar a simplicidade dos meus parentes, que<br \/>\n    me atiraram aqui, e a ilegalidade da pol&iacute;cia que os ajudou.<\/p>\n<p>Ca&iacute;do aqui, todos os m&eacute;dicos temem p&ocirc;r logo o doente<br \/>\n    na rua. A sua ci&ecirc;ncia &eacute; muito curta, muito prev&ecirc;; mas seguro<br \/>\n    morreu de velho e &eacute; melhor empregar o processo da Idade M&eacute;dia:<br \/>\n    a reclus&atilde;o.<\/p>\n<p>Leio com relativa min&uacute;cia os jornais. At&eacute; os crimes de repercuss&atilde;o,<br \/>\n    eu leio. Por estes &uacute;ltimos dias, houve um nefando. Um oficial do Ex&eacute;rcito<br \/>\n    matou a mulher em circunst&acirc;ncias abomin&aacute;veis. De uns tempos para<br \/>\n    c&aacute;, est&atilde;o os oficiais a fornecer mat&eacute;ria para essa esp&eacute;cie<br \/>\n    de notici&aacute;rios dos jornais. Tenho, para mim, que h&aacute; nisso uma<br \/>\n    grande desilus&atilde;o por parte das mulheres e uma rala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos maridos, quando sentem as mulheres esfriar. A mo&ccedil;a, a nossa mo&ccedil;a<br \/>\n    casadoira da classe m&eacute;dia, v&ecirc;, nos dourados da farda do cadete<br \/>\n    ou do alferes, uma vida de del&iacute;cia, de luxo, de import&acirc;ncia.<br \/>\n    Casada, n&atilde;o &eacute; assim. O soldo, se bem que n&atilde;o seja mau,<br \/>\n    n&atilde;o d&aacute; para custear a metade do seu sonho de solteira. O marido,<br \/>\n    querendo conservar as boas gra&ccedil;as da mulher, faz empr&eacute;stimos,<br \/>\n    os vencimentos diminuem. Est&aacute; a&iacute; a desgra&ccedil;a feita. Dificuldades,<br \/>\n    em casa, credores, mau humor da mulher, rompantes do marido, descomposturas,<br \/>\n    casas de tavolagem, &aacute;lcool, etc.<\/p>\n<p>Aqui, no hosp&iacute;cio, h&aacute; dois oficiais uxoricidas, e o tal engenheiro,<br \/>\n    em quem n&atilde;o desculpo a arrog&acirc;ncia, apesar de sua ins&acirc;nia,<br \/>\n    o &eacute; tamb&eacute;m. Dos oficiais, um &eacute; positivamente louco. Delira,<br \/>\n    e o seu del&iacute;rio &eacute; t&iacute;pico, passa das coisas mais opostas<br \/>\n    e sem interm&eacute;dio algum logo, presente ou oculto. &Eacute; muito dif&iacute;cil<br \/>\n    reproduzir um del&iacute;rio de louco, principalmente o deste, que &eacute;<br \/>\n    de uma incoer&ecirc;ncia inacredit&aacute;vel. Eu quis segui-lo e guard&aacute;-lo,<br \/>\n    j&aacute; de mem&oacute;ria, j&aacute; por escrito; mas nada pude conseguir,<br \/>\n    mesmo aproximadamente. Ele acaba em casas de alugar, passa para o curso dos<br \/>\n    rios, hist&oacute;ria da guerra do Paraguai, etc., etc.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do del&iacute;rio em voz alta, a sua loucura se revela pela necessidade<br \/>\n    em que ele est&aacute; de quando em quando fazer o maior barulho poss&iacute;vel.<br \/>\n    Ele d&aacute; murros nas mesas, bate com estrondo as portas, levanta as cadeiras<br \/>\n    e f&aacute;-las cair sobre o assoalho com toda a for&ccedil;a, e assim por<br \/>\n    diante, tudo entremeado de palavras escabrosas e porcas. &Eacute; geral nos<br \/>\n    doentes essa necessidade de pornografia e de terminologia escatol&oacute;gica.<br \/>\n    O F. P. imita a parte brilhante da dem&ecirc;ncia do tenente. Haver&aacute;<br \/>\n    cont&aacute;gio na loucura? Ouvi sempre falar que alienistas not&aacute;veis<br \/>\n    atribu&iacute;am a loucura de velhos guardas &agrave; ambi&ecirc;ncia dos<br \/>\n    hospitais; aqui, contaram-me v&aacute;rios casos. A imita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; um poderoso fator de progresso social &uacute;til, positivo,<br \/>\n    pode bem ser contada em sentido contr&aacute;rio, um fator de regresso do<br \/>\n    indiv&iacute;duo, e aqui sobra intelig&ecirc;ncia d&eacute;bil de modo a faz&ecirc;-la<br \/>\n    copiar gestos e coisas dos loucos que a cercam.<\/p>\n<p>Lembro-me agora do Silvestre, um pequeno caibra que eu ensinei a ler e me<br \/>\n    chamava de tu e voc&ecirc;. Era um objeto perfeito para estudar a for&ccedil;a<br \/>\n    da imita&ccedil;&atilde;o sobre os indiv&iacute;duos. Ele era feio, desengon&ccedil;ado,<br \/>\n    escanifrado, mas se tinha na conta de namorador. Um dia de calor e de gazeta<br \/>\n    (ele iniciava a cansar-se), ele julgou que ficava muito elegante se cal&ccedil;asse<br \/>\n    luvas. Cal&ccedil;ou umas de tecido de meia, brancas, sapatos brancos, e correu<br \/>\n    as ruas dos sub&uacute;rbios debaixo de vaias e chufas.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do fato que narrei, da imita&ccedil;&atilde;o aos gestos do Tenente<br \/>\n    C. B. por parte do F. P., este ainda imita um portugu&ecirc;s, Pereira, mo&ccedil;o,<br \/>\n    cuja mania &eacute; simular com a boca uma deflagra&ccedil;&atilde;o baixa,<br \/>\n    muito baixa, e faz&ecirc;-la seguir com express&otilde;es esquisitas. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; s&oacute; F. P. que o copia, outros muitos.<\/p>\n<p>Com esp&iacute;rito normal, n&oacute;s imitamos, temos sempre modelos. Citam-se<br \/>\n    nas rodas liter&aacute;rias desses tipos que imitam em tudo Artur Azevedo<br \/>\n    e Joaquim Nabuco, este mesmo j&aacute; imitava n&atilde;o sei que parlamentar<br \/>\n    ingl&ecirc;s, que ele conheceu em Londres, na sua primeira mocidade.<\/p>\n<p>Conhecendo a vida dos guardas e pequenos empregados dos hosp&iacute;cios,<br \/>\n    que convivem familiarmente com os loucos, que, com eles, trocam chufas e familiaridades,<br \/>\n    &eacute; bem poss&iacute;vel que alguns gestos, manias e caprichos os impressionem<br \/>\n    de tal forma, lhes d&ecirc;em desejo de imit&aacute;-los, no come&ccedil;o<br \/>\n    por tro&ccedil;a, habituam-se, a impress&atilde;o se grava, e a exterioriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se segue e se desdobra com tempo.<\/p>\n<p>N&atilde;o sou psic&oacute;logo, nem psiquiatra, nem coisa parecida; mas<br \/>\n    tenho para mim que n&atilde;o &eacute; toda est&uacute;pida essa hip&oacute;tese.<br \/>\n    &Eacute; preciso levar em linha de conta a capacidade e a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    mental dos guardas e enfermeiros. Lembro-me que a Romualda n&atilde;o se capacitava<br \/>\n    de que meu pai estivesse sofrendo das faculdades mentais: &quot;N&atilde;o<br \/>\n    vejo nada. Sempre o conheci assim, zanga-se &agrave;s vezes; foi dessa forma<br \/>\n    sempre e logo passa&quot;.<\/p>\n<p>O outro uxoricida militar parece-me n&atilde;o ter nada. Creio que ele est&aacute;<br \/>\n    aqui para fugir a c&aacute;rcere mais duro. N&atilde;o se pode compreender<br \/>\n    este homem assassino; &eacute; polido, culto, gosta de leitura e de conversar<br \/>\n    coisas superiores.<\/p>\n<p>Nestes &uacute;ltimos dias, houve na cidade um assassinato de uma mulher,<br \/>\n    perpetrado por um tenente. Evitei falar nisto a ele; e a custo tenho me contido.<br \/>\n    Quisera a sua opini&atilde;o. O engenheiro, que me parece ter sido sempre<br \/>\n    muito burro, matou a mulher, num acesso de loucura, e o filho. Este &eacute;<br \/>\n    francamente e permanentemente doido. N&atilde;o l&ecirc; coisa alguma, a n&atilde;o<br \/>\n    ser a Gazeta de Not&iacute;cias, de cabo a rabo. &Eacute; insuport&aacute;vel<br \/>\n    de arrog&acirc;ncia. Ningu&eacute;m conversa com ele, a n&atilde;o ser um<br \/>\n    imbecil R. (que pena! &eacute; mo&ccedil;o, simp&aacute;tico e parece ter<br \/>\n    recebido educa&ccedil;&atilde;o). Ambos cochicham. H&aacute; perguntas e respostas.<\/p>\n<p>Deve haver outros nestas condi&ccedil;&otilde;es; mas eu os n&atilde;o conhe&ccedil;o;<br \/>\n    mas simples assassinos me apontaram tr&ecirc;s; um, na Se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Pinel, e os dois restantes aqui.<\/p>\n<p>O da Se&ccedil;&atilde;o Pinel &eacute; um velho, que anda sempre irrepreensivelmente<br \/>\n    vestido, muito limpo, engravatado, e foi empregado na Central, n&atilde;o<br \/>\n    sei com que t&iacute;tulo. Matou um colega, n&atilde;o me disseram por que<br \/>\n    motivo; mas o certo &eacute; que a sua apar&ecirc;ncia calma, de homem normal,<br \/>\n    causa um engano &agrave; primeira vista.<\/p>\n<p>Passa assim dias, meses; mas l&aacute; vem um minuto, &agrave; noite ou de<br \/>\n    dia, em que ele sai da se&ccedil;&atilde;o, fazendo gestos de f&uacute;ria,<br \/>\n    de raiva e raivosamente a exclamar referindo-se &agrave; sua v&iacute;tima:<\/p>\n<p>&#8211; D&aacute;-me um descanso, miser&aacute;vel!<\/p>\n<p>O outro &eacute; um pensionista de primeira, que tem curiosos h&aacute;bitos.<br \/>\n    Delira &agrave; meia voz, tem o seu quarto muito limpo pelas suas m&atilde;os,<br \/>\n    cuida dos gatos, das plantas, chegou at&eacute; a plantar batatas e colh&ecirc;-las,<br \/>\n    gosta de agarrar camundongos, esfol&aacute;-los e conservar as peles.<\/p>\n<p>Este homem est&aacute; no hosp&iacute;cio h&aacute; cerca de trinta anos;<br \/>\n    entrou muito mo&ccedil;o, e a sua entrada, ao que dizem, foi motivada pela<br \/>\n    loucura que se seguiu ao assassinato de um rival, que disputava a mo&ccedil;a<br \/>\n    de quem ele gostava.<\/p>\n<p>O outro &eacute; muito velho e &eacute; um fratricida. Est&aacute; mudo ou<br \/>\n    quase mudo. Certas formas de loucura t&ecirc;m esse efeito, e manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dela s&atilde;o as mais d&iacute;spares poss&iacute;veis. Debru&ccedil;ar<br \/>\n    sobre o mist&eacute;rio dela e decifr&aacute;-lo parece estar acima das for&ccedil;as<br \/>\n    humanas. Conhe&ccedil;o loucos, m&eacute;dicos de loucos, h&aacute; perto<br \/>\n    de trinta anos, e fio muito que a honestidade de cada um deles n&atilde;o<br \/>\n    lhes permitir&aacute; dizer que tenha curado um s&oacute;.<\/p>\n<p>Amaciado um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras,<br \/>\n    a supersti&ccedil;&atilde;o de rezas, exorcismos, bruxarias, etc., o nosso<br \/>\n    sistema de tratamento da loucura ainda &eacute; o da Idade M&eacute;dia: o<br \/>\n    seq&uuml;estro. N&atilde;o h&aacute; dinheiro que evite a Morte, quando ela<br \/>\n    tenha de vir; e n&atilde;o h&aacute; dinheiro nem poder que arrebate um homem<br \/>\n    da loucura. Aqui, no hosp&iacute;cio, com as suas divis&otilde;es de classes,<br \/>\n    de vestu&aacute;rio, etc., eu s&oacute; vejo um cemit&eacute;rio: uns est&atilde;o<br \/>\n    de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a Loucura zomba de<br \/>\n    todas as vaidades e mergulha todos no insond&aacute;vel mar de seus caprichos<br \/>\n    incompreens&iacute;veis.<\/p>\n<p>Ver o F. P. falar na sua intelig&ecirc;ncia formid&aacute;vel e V. O. na<br \/>\n    estramb&oacute;tica engenharia me parecem coisas semelhantes que assistir<br \/>\n    aquele preto da Se&ccedil;&atilde;o Pinel n&atilde;o querer dormir na cama<br \/>\n    do dormit&oacute;rio, para o fazer na proximidade da latrina, ou sorrir dolorosamente,<br \/>\n    quando vejo os trejeitos beatos do F., antigo dono de casa de pasto, e as<br \/>\n    suas rezas estapaf&uacute;rdias. Todos eles est&atilde;o na m&atilde;o de<br \/>\n    um poder que &eacute; mais forte do que a Morte. A esta, dizem, vence o amor;<br \/>\n    a Loucura, por&eacute;m, nem ele.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>Dia de S&atilde;o Sebasti&atilde;o. Um dia feio, nevoento. Olho a ba&iacute;a<br \/>\n    de Botafogo, cheio de tristeza. N&atilde;o acho t&atilde;o bela como sempre<br \/>\n    achei. Os longes dos &Oacute;rg&atilde;os n&atilde;o se v&ecirc;em; est&atilde;o<br \/>\n    mergulhados em n&eacute;voa. As montanhas de Niter&oacute;i est&atilde;o sem<br \/>\n    o cobalto de sempre; e as manchas de cortes e chanfraduras nelas aparecem<br \/>\n    como chagas. O casario est&aacute; mergulhado, confuso, n&atilde;o se desenha<br \/>\n    bem no horizonte. Tudo &eacute; triste. O c&eacute;u muito baixo, cheio de<br \/>\n    fuligem, fuma&ccedil;a. O P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car est&aacute; emoldurado<br \/>\n    de nuvens brancas, parecem abaixar do cume. V&ecirc;-se o chalet do caminho<br \/>\n    a&eacute;reo. A Urca, tamb&eacute;m chanfrada, &eacute; de uma estupidez diante<br \/>\n    daquele cen&aacute;rio! A Urca n&atilde;o muda. Lembro-me que j&aacute; estive<br \/>\n    l&aacute; no alto. Como &eacute; diferente! O bosque &eacute; convidativo,<br \/>\n    fresco, h&aacute; um lago natural no centro. As &aacute;rvores ainda tinham<br \/>\n    os cip&oacute;s da floresta, os p&aacute;ssaros chilreavam; parecia n&atilde;o<br \/>\n    se estar no Rio. N&atilde;o me lembro de tudo visto; mas vi a Rasa e o oceano<br \/>\n    infinito, um pouco de Copacabana, da velha Copacabana. Um grande transatl&acirc;ntico<br \/>\n    sai. Vai vagaroso, vai para o mar largo, que se estende pelas cinco partes<br \/>\n    do mundo; beija-lhes e morde-lhes a praia. Corre perigo, mas est&aacute; solto,<br \/>\n    entre dois infinitos; como diz o poeta: o mar e o c&eacute;u. Vejo passar<br \/>\n    por Villegagnon, atrav&eacute;s das grades do sal&atilde;o. Villegagnon ainda<br \/>\n    tem muros, mas n&atilde;o lhes vejo as palmeiras. Acode-me pensar na funda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Rio de Janeiro, que a data comemora. Nesta enseada houve, segundo a hist&oacute;ria,<br \/>\n    um combate com os franceses &#8211; o das canoas. Olho-a, est&aacute; um tanto<br \/>\n    crespa, e as &aacute;guas s&atilde;o turvas e d&atilde;o ao olhar a impress&atilde;o<br \/>\n    de que est&atilde;o mais povoadas do que nas outras. H&aacute; pescadores<br \/>\n    em faina. Canoas ainda! Heran&ccedil;a dos &iacute;ndios! O remo tamb&eacute;m<br \/>\n    vem deles! Quantas coisas, dos seus usos e costumes, eles nos legaram? Muitas!<br \/>\n    A farinha da mandioca, do milho, certas tuberosas, nomes de rios e lugares,<br \/>\n    muitos, adequados e expressivos. Hoje, a vaidade nacional batiza os lugares<br \/>\n    com os mais feios nomes que se podem esperar. Enseada Almirante Batista das<br \/>\n    Neves! S&oacute; falta um doutor, tamb&eacute;m. Esta nossa sociedade &eacute;<br \/>\n    absolutamente idiota. Nunca se viu tanta falta de gosto. Nunca se viu tanta<br \/>\n    atonia, tanta falta de iniciativa e autonomia intelectual! &Eacute; um rebanho<br \/>\n    de Pan&uacute;rgio, que s&oacute; quer ver o doutor em tudo, e isso cada vez<br \/>\n    mais se justifica, quanto mais os doutores se desmoralizam pela sua ignor&acirc;ncia<br \/>\n    e voracidade de empregos. Quem quiser lutar aqui e tiver de fato um ideal<br \/>\n    qualquer superior, h&aacute; de por for&ccedil;a cair. N&atilde;o encontra<br \/>\n    quem o siga, n&atilde;o encontra quem o apoie. Pobre, h&aacute; de cair pela<br \/>\n    sua pr&oacute;pria pobreza; rico, h&aacute; de cair pelo des&acirc;nimo e<br \/>\n    pelo desd&eacute;m por esta Bruzundanga. Nos grandes pa&iacute;ses de grandes<br \/>\n    inven&ccedil;&otilde;es, de grandes descobertas, de teorias ousadas, n&atilde;o<br \/>\n    se v&ecirc; nosso fetichismo pelo t&iacute;tulo universit&aacute;rio que aqui<br \/>\n    se transformou em t&iacute;tulo nobili&aacute;rquico. &Eacute; o Don espanhol.<\/p>\n<p>O dia &eacute; de t&eacute;dio e eu procuro meios e modos de fugir dele,<br \/>\n    de voltar-me para mim mesmo e examinar-me. N&atilde;o posso e sofro. Arrependo-me<br \/>\n    de tudo, de n&atilde;o ter sido um outro, de n&atilde;o seguir os caminhos<br \/>\n    batidos e esperar que eu tivesse sucesso, onde todos fracassaram.<\/p>\n<p>Tenho orgulho de me ter esfor&ccedil;ado muito para realizar o meu ideal;<br \/>\n    mas me aborrece n&atilde;o ter sabido concomitantemente arranjar dinheiro<br \/>\n    ou posi&ccedil;&otilde;es rendosas que me fizessem respeitar. Sonhei Spinosa,<br \/>\n    mas n&atilde;o tive for&ccedil;a para realizar a vida dele; sonhei Dostoi&eacute;vski,<br \/>\n    mas me faltou a sua n&eacute;voa.<\/p>\n<p>Aborrece-me este hosp&iacute;cio; eu sou bem tratado; mas me falta ar, luz,<br \/>\n    liberdade. N&atilde;o tenho meus livros &agrave; m&atilde;o; entretanto, minha<br \/>\n    casa, o del&iacute;rio de minha m&atilde;e&#8230; Oh! Meu Deus! Tanto faz, l&aacute;<br \/>\n    ou aqui&#8230; Sairei desta catacumba, mas irei para a sala mortu&aacute;ria que<br \/>\n    &eacute; minha casa. Meu filho ainda n&atilde;o delira; mas a toda a hora<br \/>\n    espero que tenha o primeiro ataque&#8230;<\/p>\n<p>Minha mulher faz-me falta, e nestas horas eu tenho remorsos como se a tivesse<br \/>\n    feito morrer. Logo, por&eacute;m, como vem de mim mesmo ou de fora de mim<br \/>\n    uma voz que me diz: &Eacute; mentira.<\/p>\n<p>Os outros deliram em redor de mim e, se n&atilde;o choro, &eacute; para n&atilde;o<br \/>\n    me julgarem totalmente louco. Imagino que essa convic&ccedil;&atilde;o se<br \/>\n    enra&iacute;ze nos m&eacute;dicos e me fa&ccedil;a ficar aqui o resto da vida.<br \/>\n    Ainda agora, meu irm&atilde;o veio visitar-me e, nos primeiros dias, um amigo;<br \/>\n    mas, dos que me vieram ver, na primeira vez que estive aqui, nenhum veio.<br \/>\n    Se me demorar mais tempo, ainda, ficarei completamente abandonado, sem cigarros,<br \/>\n    sem roupa minha, e ficarei como o Gato e o Ferraz, que aqui envelheceram,<br \/>\n    vivendo aquele a fazer transa&ccedil;&otilde;es de forma t&atilde;o c&iacute;nica,<br \/>\n    para arranjar cigarros. Troca p&atilde;o por fumo e furta l&aacute;pis dos<br \/>\n    companheiros, para arranjar moeda para barganhar. Todos o perseguem, o maltratam,<br \/>\n    o chasqueiam, na sua velhice, a ele que foi rico, filho de ex-ministro e senador<br \/>\n    do Imp&eacute;rio. &quot;Sic transic gloria mundi. &quot;<\/p>\n<p>Aceito todos os fins, mas n&atilde;o permita Deus que o tenha um destes.<br \/>\n    Enche-me de ang&uacute;stia, quando este quadro se desenha a meus olhos; atribuo<br \/>\n    a mim mesmo a culpa do que me sucede, ao mesmo tempo culpo F., culpo Z., culpo<br \/>\n    X. e toda a humanidade, a sociedade em que vivo, mas n&atilde;o quero. Contudo,<br \/>\n    eu queria viver isolado, fora dessa paix&atilde;o pela literatura, pelo estudo.<br \/>\n    Creio que ela me faz mal e lastimo n&atilde;o ter outra forma de talento em<br \/>\n    que minha intelig&ecirc;ncia pudesse trabalhar, absorver toda a minha atividade,<br \/>\n    sem comunh&atilde;o com os meus semelhantes. Queria ser um ge&ocirc;metra,<br \/>\n    mesmo med&iacute;ocre, mas da fam&iacute;lia de Arquimedes, conforme o desenha<br \/>\n    Plutarco, na vida de Marcellus, p&aacute;gina 109.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel, a minha pouco certa intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; de outra ra&ccedil;a; sou levado incoercivelmente para o estudo da<br \/>\n    sociedade, para os seus mist&eacute;rios, para os motivos dos seus choques,<br \/>\n    para a contempla&ccedil;&atilde;o e an&aacute;lise de todos os sentimentos.<br \/>\n    As formas das coisas que as cercam, e as suas cria&ccedil;&otilde;es, e os<br \/>\n    seus rid&iacute;culos, me interessam e d&atilde;o-me vontade de reproduzi-los<br \/>\n    no papel e descrever-lhe a sua alma, e particularidades. Ao mesmo tempo, levado<br \/>\n    para o estudo das sociedades, da sua hist&oacute;ria, do quid que as anima,<br \/>\n    arrastado para o estudo do seu destino, sou tamb&eacute;m capaz de me emocionar<br \/>\n    diante das coisas e da natureza. N&atilde;o serei nunca soci&oacute;logo,<br \/>\n    historiador, n&atilde;o serei nunca romancista. Falta-me amor ou ter amado.<br \/>\n    Mas&#8230; Minha mulher!<\/p>\n<p>N&atilde;o posso tratar dela. N&atilde;o se ama uma morta; e eu n&atilde;o<br \/>\n    a soube amar em vida. Fui tomar caf&eacute; matutino, j&aacute; melanc&oacute;lico;<br \/>\n    li os jornais, hipocondr&iacute;aco; almocei, ainda pior. N&atilde;o pude<br \/>\n    acabar de ler a vida de Pel&oacute;pidas. &Agrave; uma hora fui para o caf&eacute;<br \/>\n    com p&atilde;o, que &eacute; a refei&ccedil;&atilde;o mais apreciada por mim<br \/>\n    aqui.<\/p>\n<p>Festa de S&atilde;o Sebasti&atilde;o. Uma enfermeira, com consentimento da<br \/>\n    alta administra&ccedil;&atilde;o do hosp&iacute;cio, certamente uma canivetada<br \/>\n    na constitui&ccedil;&atilde;o, organizou na capela uma festa, flores, missa,<br \/>\n    serm&atilde;o, etc. Na hora do caf&eacute;, os internos almo&ccedil;aram uma<br \/>\n    b&oacute;ia superfina, digna do santo do dia e da Constitui&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Alguns nos olhavam naturalmente; mas outros, com a enfatua&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o tanto da idade, mas de estudantes, com a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que estavam muito acima de n&oacute;s e se podiam permitir debochar-nos. &Eacute;<br \/>\n    verdade que se limitaram ao Gato; mas, logo a uma reclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste, falaram poderosamente em casa-forte.<\/p>\n<p>Voltei do caf&eacute; entediado. Um vago desejo de morte de aniquilamento.<br \/>\n    Via minha vida esgotar-se, sem fulgor, e toda a minha canseira feita, &agrave;s<br \/>\n    guinadas. Eu quisera a resplandec&ecirc;ncia da gl&oacute;ria e vivia amea&ccedil;ado<br \/>\n    de acabar numa turva, polar loucura. Polar, porque me parecia que nenhuma<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o me aquecia, e turva, pois eu n&atilde;o via, n&atilde;o<br \/>\n    compreendia nada em torno de mim. Eu me comparava a um explorador das regi&otilde;es<br \/>\n    &aacute;rticas, que tivesse durante anos atravessado florestas lindas, cascatas,<br \/>\n    c&eacute;us epin&iacute;cios, lagos de anil, mares de esmeraldas, nessas paisagens<br \/>\n    mais belas da terra, as suas serv&ecirc;ncias mais majestosas, e se houvesse<br \/>\n    de motu proprio atirado &agrave;s banquises do p&oacute;lo e se deixasse mergulhar<br \/>\n    na sua noite imensa que, para o meu caso, era infinita.<\/p>\n<p>Quase me arrependia de n&atilde;o ter querido ser como os outros. Seguir<br \/>\n    os caminhos do burro e ter feito da minha vida um paradoxo. Quis ler ainda,<br \/>\n    mas n&atilde;o me era poss&iacute;vel. Pensava e triava todos os meus sonhos<br \/>\n    que se iam esvaindo. J&aacute; tinha vivido dois ter&ccedil;os da minha prov&aacute;vel<br \/>\n    vida e s&oacute; um pouco deles realizara. O que mais desesperava era a ang&uacute;stia<br \/>\n    de dinheiro. N&atilde;o tinha contado com ele, como n&atilde;o contara com<br \/>\n    muitos elementos que eu desprezara; agora, eles se vingavam&#8230;<\/p>\n<p>Sentia-me impotente por isso, e os obst&aacute;culos invenc&iacute;veis.<br \/>\n    N&atilde;o me quisera curvar, revoltara-me; entretanto, mais de uma vez me<br \/>\n    vira obrigado a pedir pequenos favores humilhantes aos camaradas. Curiosa<br \/>\n    independ&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>Mastigava esse racioc&iacute;nio, quando um colega de manic&ocirc;mio me<br \/>\n    chamou, para ver um doente da Se&ccedil;&atilde;o Pinel, que fica na loja,<br \/>\n    impando no telhado. L&aacute; fui e vi-o. Era o D. E., parente de um funcion&aacute;rio<br \/>\n    da casa, de real import&acirc;ncia. Tinha o v&iacute;cio da bebida, que o<br \/>\n    fazia louco e desatinado. J&aacute; sa&iacute;ra e entrara no hosp&iacute;cio,<br \/>\n    mais de vinte vezes. Apesar de tudo, era simpatizado, e muito, pelo pessoal<br \/>\n    subalterno. N&atilde;o subira propriamente &agrave; cumeeira do edif&iacute;cio,<br \/>\n    mas &agrave; de uma depend&ecirc;ncia, no flanco esquerdo do edif&iacute;cio,<br \/>\n    onde fica a rouparia. Em chegando ao alto, come&ccedil;ou a destelhar o edif&iacute;cio<br \/>\n    e atirar telhas em todas as dire&ccedil;&otilde;es, sobretudo para a rua,<br \/>\n    para as ruas, pois a tal rouparia ficava numa esquina.<\/p>\n<p>Entre um e outro arremesso, prorrompia em descomposturas &agrave; diretoria<br \/>\n    e sorvia goles de cacha&ccedil;a, que levara num vidro de medicamentos.<\/p>\n<p>N&atilde;o era a primeira vez que, zombando de todos os esfor&ccedil;os da<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o, do inspetor e guardas, obtinha aguardente e se<br \/>\n    embriagava, preso, no estabelecimento.<\/p>\n<p>Desta vez, ele o fazia em presen&ccedil;a da cidade toda, pois na rua se<br \/>\n    havia aglomerado uma multid&atilde;o consider&aacute;vel.<\/p>\n<p>Jogava telhas e eles se apartavam para a borda do cais que beira o mar, no<br \/>\n    momento, turvo, e atmosfera fosca. Num dado momento, tirou o palet&oacute;.<br \/>\n    Ficou seminu; estava sem camisa. Atirava telhas e berrava. Algu&eacute;m,<br \/>\n    de onde n&oacute;s est&aacute;vamos, um tanto pr&oacute;ximo dele, gritou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Atira para aqui!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o, entre n&oacute;s, n&atilde;o! Voc&ecirc;s s&atilde;o<br \/>\n    os infelizes como eu.<\/p>\n<p>Continuou, durante algum tempo, nessa pantomima, quando acudiu o corpo de<br \/>\n    bombeiros com escadas. A sua f&uacute;ria cresceu. Desandou a atirar pedras<br \/>\n    sobre os autom&oacute;veis. Berros, palmas; e ele, como equilibrista, correu<br \/>\n    toda a cumeeira e foi buscar a flecha que lhe dava a semelhan&ccedil;a de<br \/>\n    chalet e arrematava a cumeeira, para se armar. Os bombeiros fingiram que iam<br \/>\n    estender mangueira e obrig&aacute;-lo a descer com jactos d&#8217;&aacute;gua.<br \/>\n    Distraiu-se, deu pouca import&acirc;ncia, e veio para a borda da cimalha falar<br \/>\n    &agrave; multid&atilde;o.<\/p>\n<p>Enquanto isso, guardas e bombeiros subiam pelo outro lado, sem que ele desse<br \/>\n    f&eacute; disso, e, surpreendendo, amarraram, n&atilde;o sem tenaz defesa<br \/>\n    dele a unhas e dentes.<\/p>\n<p>O diretor veio ver, e os loucos amolavam-no.<\/p>\n<p>O V. O. fez-lhe esta recrimina&ccedil;&atilde;o que ouvi:<\/p>\n<p>&#8211; V&ecirc; Vossa Excel&ecirc;ncia isso, numa casa desta! Que esc&acirc;ndalo!<\/p>\n<p>Este V. O. n&atilde;o sai mais daqui. Cada dia, torna mais completo o seu<br \/>\n    depoimento de doido.<\/p>\n<p>O diretor nada disse, e eu percebi; mas foi preciso ele vencer, com a sua<br \/>\n    do&ccedil;ura, a sua paci&ecirc;ncia e a simplicidade de sua alma, a indelicadeza<br \/>\n    desse seu hospitalizado.<\/p>\n<p>Hei de falar mais longamente sobre ele, que &eacute; uma interessante figura<br \/>\n    que conheci.<\/p>\n<p>A proeza do D. O. agitou todo o hosp&iacute;cio, p&ocirc;s a rua em polvorosa<br \/>\n    e suspendeu o tr&aacute;fego da Light, e havia no seu procedimento muita coisa,<br \/>\n    que parecia ser ele premeditado.<\/p>\n<p>Doentes l&aacute; de baixo, e outros com os quais vim a conversar depois,<br \/>\n    disseram-me que sim, que ele tinha feito veladas amea&ccedil;as do que ia<br \/>\n    fazer.<\/p>\n<p>Num dado momento, trepado e de p&eacute; na cumeeira, falando, cabelos revoltos,<br \/>\n    os bra&ccedil;os levantados para o c&eacute;u fumacento, esse pobre homem<br \/>\n    surgiu-me como a imagem da revolta&#8230; Contra quem? Contra os homens? Contra<br \/>\n    Deus? N&atilde;o; contra todos, ou melhor, contra o Irremedi&aacute;vel!<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>O hosp&iacute;cio tem uma biblioteca; antigamente, isto &eacute;, h&aacute;<br \/>\n    cinco anos, quando aqui estive, estava nos fundos da se&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em uma pequena sala. Tinha uma por&ccedil;&atilde;o de livros, at&eacute;<br \/>\n    um Dostoi&eacute;vski l&aacute; havia e um excelente dicion&aacute;rio das<br \/>\n    literaturas, de Vapereau, que eu lia com muito agrado; atualmente, por&eacute;m,<br \/>\n    conquanto tenha pequenas mesas, meia d&uacute;zia, pr&oacute;prias para ler<br \/>\n    e tomar notas, duas cadeiras de balan&ccedil;o e duas esp&eacute;cies de div&atilde;s<br \/>\n    (estas &uacute;ltimas pe&ccedil;as j&aacute; existiam), n&atilde;o possui<br \/>\n    mais a mesma quantidade de livros, e a freq&uuml;&ecirc;ncia &eacute; dos<br \/>\n    delirantes, que l&aacute; v&atilde;o dar pasto a seu del&iacute;rio, berrar,<br \/>\n    gritar, fazer bulha com as cadeiras sobre o assoalho, n&atilde;o permitindo<br \/>\n    nenhuma leitura.<\/p>\n<p>H&aacute; ainda livros curiosos que eu queria ler, mas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel absolutamente. Vi uma obra em dois volumes sobre finan&ccedil;as<br \/>\n    de Colbert, F&eacute;lix Joubleau, que me tentava l&aacute;; vi um Daniol,<br \/>\n    Hist&oacute;ria das Classes Rurais na Fran&ccedil;a, que devia ser interessante,<br \/>\n    apesar de um pouco antigo; vi o romance de Pedro, o Grande, de Merejc&oacute;vski;<br \/>\n    um Boh&egrave;me Galante, de G&eacute;rard de Nerval; mas n&atilde;o me animei<br \/>\n    a ler. &Agrave;s vezes, para variar, ia at&eacute; l&aacute; e pegava ao acaso<br \/>\n    um volume da Biblioteca Internacional de Obras C&eacute;lebres e lia. Foi<br \/>\n    a&iacute; que se me ofereceu pela primeira vez o ensejo de ler uma carta de<br \/>\n    Helo&iacute;sa e a biografia de Abelardo, por Lewis, o c&eacute;lebre bi&oacute;grafo<br \/>\n    de Goethe e amante n&atilde;o menos c&eacute;lebre de George Eliot.<\/p>\n<p>O lugar era c&ocirc;modo e agrad&aacute;vel. Dava para a enseada, e se avistava<br \/>\n    doutra banda Niter&oacute;i e os navios livres que se iam pelo mar em fora,<br \/>\n    orgulhosos de sua liberdade, mesmo quando tangidos pelos temporais. &Agrave;s<br \/>\n    vezes, lendo, eu me punha a v&ecirc;-los, com inveja e muita dor na alma.<br \/>\n    Eu estava preso, via-os por entre as grades e sempre sonhei ir por a&iacute;<br \/>\n    afora, ver terras, coisas e gentes&#8230;<\/p>\n<p>Um dia, n&atilde;o sei se foi na biblioteca ou no sal&atilde;o de bilhar,<br \/>\n    vi entrar barra adentro um grande quatro mastros &agrave; vela. H&aacute;<br \/>\n    muito tempo que n&atilde;o via esses quadros mar&iacute;timos, que foram o<br \/>\n    encanto da minha meninice e da minha adolesc&ecirc;ncia. A minha literatura<br \/>\n    come&ccedil;ou por Jules Verne, cuja obra li toda. Aos s&aacute;bados, quando<br \/>\n    sa&iacute;a do internato, meu pai me dava uma obra dele, comprando no Daniel<br \/>\n    Corrazzi, na Rua da Quitanda. Custavam mil-r&eacute;is o volume, e os lia,<br \/>\n    no domingo todo, com af&atilde; e prazer inocente. Fez-me sonhar e desejar<br \/>\n    saber e deixou-me na alma n&atilde;o sei que vontade de andar, de correr aventuras,<br \/>\n    que at&eacute; hoje n&atilde;o morreu, no meu sedentarismo for&ccedil;ado<br \/>\n    na minha cidade natal. O mar e Jules Verne me enchiam de melancolia e de sonho.<\/p>\n<p>N&atilde;o gostava muito das viagens fant&aacute;sticas, como &agrave; lua,<br \/>\n    ou que tivessem por entrecho uma coisa inveross&iacute;mil, como no Pa&iacute;s<br \/>\n    das Peles; assim mesmo apreciava o C&eacute;sar Cascabel e a Viagem ao Centro<br \/>\n    da Terra. Do que mais gostava, eram aquelas que se passavam em regi&otilde;es<br \/>\n    ex&oacute;ticas, como a &Iacute;ndia, a China, a Austr&aacute;lia; mas, de<br \/>\n    todos os livros, o que mais amei e durante muito tempo fez o ideal da minha<br \/>\n    vida foram as Vinte Mil L&eacute;guas Submarinas. Sonhei-me um Capit&atilde;o<br \/>\n    Nemo, fora da humanidade, s&oacute; ligado a ela pelos livros preciosos, not&aacute;veis<br \/>\n    ou n&atilde;o, que me houvessem impressionado, sem liga&ccedil;&atilde;o sentimental<br \/>\n    alguma no planeta, vivendo no meu sonho, no mundo estranho que n&atilde;o<br \/>\n    me compreendia a m&aacute;goa, nem ma debicava, sem luta, sem abdica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem atritos, no meio de maravilhas.<\/p>\n<p>Entretanto, nestes &uacute;ltimos dez anos, rara vez eu vinha ver o mar.<br \/>\n    Vivia numa cidade mar&iacute;tima, sem ir v&ecirc;-lo nem contempl&aacute;-lo.<br \/>\n    Atolava-me na bebida, no desgosto e na apreens&atilde;o&#8230; Pensava bem em<br \/>\n    morrer, mas me faltavam for&ccedil;as para buscar a morte. Comprava livros<br \/>\n    e n&atilde;o os lia. Planejava estudos e n&atilde;o os fazia. Delineava obras<br \/>\n    e n&atilde;o as realizava. Minha capacidade inventiva e criadora, a minha<br \/>\n    instru&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica e a minha pretens&atilde;o eram insuficientes<br \/>\n    para fabricar um N&aacute;utilus, e eu bebia cacha&ccedil;a.<\/p>\n<p>Lembrava-me disso, vendo a biblioteca, o mar, os paquetes, os perus e faluas,<br \/>\n    que entravam na enseada de Botafogo, os pescadores a colher as redes, em canoas<br \/>\n    quase atracadas ao cais, e sonhava o mar livre que se adivinhava, l&aacute;<br \/>\n    fora da barra, ali bem perto&#8230;<\/p>\n<p>O grande veleiro, a g&aacute;bia de quatro mastros, entrava por ela afora,<br \/>\n    sem aux&iacute;lio de rebocador, com o ter&ccedil;o do velame solto, sem denunciar<br \/>\n    o esfor&ccedil;o e sem ter a arrog&acirc;ncia dos paquetes, a vogar, sereno,<br \/>\n    parecendo de acordo com a natureza, com o c&eacute;u e o mar, em que todo<br \/>\n    ele estava mergulhado. Neste momento, apareceu-me o V. O., que me veio dizer<br \/>\n    que n&atilde;o lhe davam a sua roupa fina, que tinha dezenove malas, que o<br \/>\n    m&eacute;dico estava no complot que se organizava contra ele e o inspetor<br \/>\n    tamb&eacute;m. N&atilde;o sei como este &uacute;ltimo apareceu, e ele se p&ocirc;s<br \/>\n    a esbravejar contra ele, gritou, chamou-o dos nomes mais feios desta vida,<br \/>\n    contra todas as suas pros&aacute;pias de t&iacute;tulos, e acabou tirando<br \/>\n    da palmilha dos sapatos algumas notas, dizendo que ali tinha trezentos e tantos<br \/>\n    mil-r&eacute;is. Dias antes, tinha me dito que tinha duzentos. Na loucura<br \/>\n    deste homem, h&aacute; muita impostura. Deixei de ler a carta de Helo&iacute;sa<br \/>\n    e de ver o mar, ambas as coisas me faziam sonhar.<\/p>\n<p>Resolvi deixar de freq&uuml;entar a biblioteca, porque, quando n&atilde;o<br \/>\n    era o V. O., eram o F. P., com suas disserta&ccedil;&otilde;es de tico-tico<br \/>\n    e enumera&ccedil;&atilde;o dos seus parentes doutores e bachar&eacute;is,<br \/>\n    o C. B., com o seu estardalha&ccedil;o, que n&atilde;o me permitiam ler com<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o. Resolvi faz&ecirc;-lo no dormit&oacute;rio e durante<br \/>\n    muito tempo sorvi sossegadamente o meu Plutarco. A minha leitura atual desse<br \/>\n    c&eacute;lebre livro &eacute; feita com outro olhar que o de antigamente.<br \/>\n    Noto-lhe uma por&ccedil;&atilde;o de atributos sempre os mesmos, para os seus<br \/>\n    her&oacute;is. Ele os quer sempre belos, como filhos mais belos do seu tempo,<br \/>\n    e o paralelo entre os her&oacute;is de Gr&eacute;cia e Roma, &agrave;s vezes,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; feliz; mas h&aacute; sempre nele muita coisa que nos faz<br \/>\n    refletir. Vejam s&oacute; esta observa&ccedil;&atilde;o de um antepassado<br \/>\n    dos atuais bolchevistas, do cita Anac&aacute;rsis, feita a S&oacute;lon: &quot;As<br \/>\n    leis s&atilde;o como as teias de aranha que prendem os fracos e pequenos insetos,<br \/>\n    mas s&atilde;o rompidas pelos grandes e fortes&quot;. Os nossos milion&aacute;rios<br \/>\n    e pol&iacute;ticos n&atilde;o pagam os impostos e, muitas vezes, os criados,<br \/>\n    quando os alugam, se n&atilde;o mandam busc&aacute;-los na pol&iacute;cia<br \/>\n    militar e na guarda civil; entretanto, h&aacute; uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de leis, de fiscais, etc., etc.<\/p>\n<p>Ora, a lei! Que burla! Que trabuco para saquear os fracos e os ing&ecirc;nuos&#8230;<\/p>\n<p>Mas, como dizia, resolvi abandonar a biblioteca e vir ler no dormit&oacute;rio.<\/p>\n<p>Infelizmente, n&atilde;o tenho um quarto, para mim s&oacute;, nem com outro<br \/>\n    companheiro. Habito, com mais dezenove companheiros, um sal&atilde;o amplo,<br \/>\n    com tr&ecirc;s janelas para a frente da rua, olhando para o mar. A minha cama<br \/>\n    fica perto da janela, mas, entre ela e eu, h&aacute; um colega dos mais estranhos<br \/>\n    da casa. S&oacute; sai do dormit&oacute;rio para as refei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para lavar o rosto de manh&atilde;, conjuntamente com os seus trapos, na pia;<br \/>\n    e, afora disto, vive a dormir, ou &agrave; janela, dizendo uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de coisas desconexas, em que ele repete sempre coisas de jogo e batota. O<br \/>\n    seu acesso foi na rua, e intitulou-se capit&atilde;o de pol&iacute;cia, e<br \/>\n    os outros aqui o chamam por esse t&iacute;tulo militar. Esquecia de dizer<br \/>\n    que ele l&ecirc; um volume do Dicion&aacute;rio Ilustrado, do Pinheiro Chagas,<br \/>\n    ou, sen&atilde;o, jornais velhos, que arrepanha aqui ou ali. Todas essas coisas<br \/>\n    n&atilde;o me incomodariam, se n&atilde;o se julgasse no seu direito de estar<br \/>\n    a abrir e a fechar a janela, desde que lhe d&ecirc; na telha sair dela ou<br \/>\n    de ler, para deitar-se ou ir a qualquer parte. Muda-me a luz e incomoda-me<br \/>\n    na leitura.<\/p>\n<p>Meu vizinho de dormit&oacute;rio &eacute; um rapaz cuja loucura reagiu sobre<br \/>\n    o seu aparelho vocal a ponto dele mal falar e com esfor&ccedil;o. Olha-me<br \/>\n    estupidamente, e com um olhar parado e de um &uacute;nico brilho, e tem a<br \/>\n    mania de incapacidade de ingerir qualquer alimento. Tudo se tem experimentado:<br \/>\n    leite, frutas, at&eacute; um irrigador; mas &eacute; em v&atilde;o. Ele n&atilde;o<br \/>\n    ingere nada e, se ingere &agrave; for&ccedil;a, logo vomita, debilita-se e<br \/>\n    d&aacute; em suar &agrave;s catadupas.<\/p>\n<p>Esperando a sua morte pr&oacute;xima, a fam&iacute;lia levou-o para casa.<br \/>\n    Vai mudar de cemit&eacute;rio &#8211; coitado! Para esse, n&atilde;o houve<br \/>\n    um intervalo entre os dois. Foi substitu&iacute;do pelo Pinto. <\/p>\n<p>Um outro companheiro de dormit&oacute;rio &eacute; um tal Cabo Frio. Tem<br \/>\n    os tra&ccedil;os todos do nosso camarada roceiro, com um fundo muito forte<br \/>\n    de &iacute;ndio, cabelos negros e barba tamb&eacute;m grossas e luzidias.<\/p>\n<p>Est&aacute; completamente est&uacute;pido, n&atilde;o fala e vive hieraticamente<br \/>\n    esteado nas paredes, ou nos cantos, como uma est&aacute;tua de templo eg&iacute;pcio.<br \/>\n    Em come&ccedil;o, era preciso, &agrave; hora de recolher, traz&ecirc;-lo para<br \/>\n    o quarto; mas, dias depois, j&aacute; vinha pelo seu p&eacute;. Com essa conquista<br \/>\n    sobre o seu c&eacute;rebro ocluso, ele ganhou tamb&eacute;m outra atividade.<br \/>\n    Remexe os baixos dos travesseiros e colch&otilde;es dos outros, carrega o<br \/>\n    que encontra e vai esconder os objetos onde cisma. Sempre antipatizei com<br \/>\n    ele &#8211; Deus n&atilde;o me castigue! &#8211; e depois que desapareceu,<br \/>\n    de debaixo do colch&atilde;o, um livro, mais o fiquei aborrecendo. Desconfiei<br \/>\n    que fosse ele, o que me aborrece extraordinariamente. O que me aborrece &eacute;<br \/>\n    a sua in&eacute;rcia, a sua falta de iniciativa, e o furto do livro, como<br \/>\n    j&aacute; disse, fez-me aborrec&ecirc;-lo mais, conquanto suspeite de outros:<br \/>\n    um tal Veiga, o F. P., o sargento e mais um tal Gast&atilde;o.<\/p>\n<p>Este &uacute;ltimo, que j&aacute; foi do meu dormit&oacute;rio, &eacute;<br \/>\n    um rapazola de seus dezoito anos, que tem uns ataques de forma epil&eacute;ptica.<br \/>\n    &Eacute; uma natureza de dissimula&ccedil;&atilde;o e falsidade. Gosta de<br \/>\n    escambar, gosto que n&atilde;o &eacute; s&oacute; dele aqui, mas que se encontra<br \/>\n    em muitos outros. O Gato &eacute; um deles. Carrega p&atilde;es e troca por<br \/>\n    cigarros, estes por jornais, vende os jornais por len&ccedil;os, furta camisas<br \/>\n    e livros, para cambiar por qualquer coisa, ou vender. Creio que j&aacute;<br \/>\n    lhes falei na sua pros&aacute;pia de fam&iacute;lia, das suas constantes alus&otilde;es<br \/>\n    ao seu pai ex-ministro do Imp&eacute;rio, chama todos de negros, ladr&otilde;es.<br \/>\n    Ele j&aacute; me furtou um l&aacute;pis. A sua mania de descomposturas lhe<br \/>\n    tem valido muitas sovas. Uma das &uacute;ltimas foi a do Borges, um negro<br \/>\n    pret&iacute;ssimo, de pais ricos, mas fa&ccedil;anhudo, rixento, que n&atilde;o<br \/>\n    pode estar na se&ccedil;&atilde;o para que paga, pois agride todos por d&aacute;<br \/>\n    c&aacute; aquela palha. &Eacute; um belo tipo de cabra ou caibra, com fortes<br \/>\n    peitorais, magn&iacute;ficos b&iacute;ceps, delt&oacute;ides. Um pouco curto<br \/>\n    de corpo, sobretudo de pernas, como ele todo, robust&iacute;ssimas, respira<br \/>\n    aud&aacute;cia, bravura, desaforo.<\/p>\n<p>Ao entrar, ele se chegou a mim e olhou-me ferozmente:<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; que voc&ecirc; deixa a farda?<\/p>\n<p>&#8211; Que farda? N&atilde;o uso farda.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; oficial do Ex&eacute;rcito? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; &eacute; meu irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Bem dizia eu.<\/p>\n<p>Falou abruptamente, as suas palavras saltavam dos l&aacute;bios, aos jactos,<br \/>\n    descont&iacute;nuas, mas sem prop&oacute;sito de me ofender, mas de acariciar-me;<br \/>\n    da&iacute; a dias, deu-me biscoitos caros, que recebeu de casa.<\/p>\n<p>O Gato, o Marqu&ecirc;s de Gato, insultou-o de negro, vagabundo e ladr&atilde;o.<br \/>\n    B. n&atilde;o teve d&uacute;vidas e intimou-o amea&ccedil;adoramente:<\/p>\n<p>&#8211; Repete, se voc&ecirc; &eacute; gente, seu este, seu aquele.<\/p>\n<p>O Gato, o nobili&aacute;rquico Gato, repetiu, e o B. deu-lhe tais murros,<br \/>\n    que o p&ocirc;s todo em sangue, com o nariz quebrado. Penalizei-me, porque<br \/>\n    o Gato era um velho, a ro&ccedil;ar pelos sessenta anos, cheio de uma loucura<br \/>\n    infantil de insultar, fazer caretas e julgar-se muito, com ter sua parentela<br \/>\n    obscura, mas colocada em bons lugares, e o seu t&iacute;tulo de bacharel em<br \/>\n    Direito, por S&atilde;o Paulo, obtido adivinha-se como. Depois de levar os<br \/>\n    bofetes de B., andou dias com o emplasto, e o nariz, que era grande, rubicundo,<br \/>\n    proeminente at&eacute; &agrave; altura da boca, encurtou um pouco e cambou<br \/>\n    para um dos lados. A sua fisionomia era c&ocirc;mica, com esse nariz, a sua<br \/>\n    cabe&ccedil;a redonda, os seus olhinhos verdes e, quando se enfurecia, com<br \/>\n    o seu falar esgani&ccedil;ado e r&aacute;pido.<\/p>\n<p>Implicava com todo o mundo; comigo, s&oacute; da primeira vez que estive,<br \/>\n    quando sa&iacute; para ir n&atilde;o sei onde, que ele disse ao passar:<\/p>\n<p>&#8211; Este negro entrou ontem e j&aacute; se vai embora.<\/p>\n<p>Agora ele me trata muito bem. <\/p>\n<p>Ontem, ele me chamou confidencialmente e me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; sabe de uma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; Vou para S&atilde;o Paulo e l&aacute; me casar com uma filha do S.<br \/>\n    L., que tem noventa milh&otilde;es de contos.<\/p>\n<p>Ele n&atilde;o se contentava com pouco.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>Outras considera&ccedil;&otilde;es referentes ao meu dormit&oacute;rio me<br \/>\n    arrastaram a abandonar os motivos por que o deixei como lugar de leitura,<br \/>\n    para voltar &agrave; biblioteca. <\/p>\n<p>Queria reatar a narra&ccedil;&atilde;o das raz&otilde;es, mas n&atilde;o<br \/>\n    me &eacute; poss&iacute;vel. Um vizinho foi, afinal, quem me levou a faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    S&oacute; este, porque, em geral, como j&aacute; descrevi, pouco os outros<br \/>\n    me incomodavam. Os mais pr&oacute;ximos eram excelentes, tanto o da cama,<br \/>\n    &agrave; direita, de que j&aacute; sobre ele falei, como o da esquerda.<\/p>\n<p>Era este um menino, moreno, completamente idiota. Tinha as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    regulares, a n&atilde;o ser a boca, os olhos negros cravados nas &oacute;rbitas,<br \/>\n    e balbuciava que nem um crian&ccedil;a. Tinha poucas id&eacute;ias e quatro<br \/>\n    ou cinco palavras. Parece que tinha mais id&eacute;ias que palavras. Repetia:<\/p>\n<p>&#8211; Papai &eacute; mau.<\/p>\n<p>&#8211; F. &eacute; mau!<\/p>\n<p>&#8211; Papai tem dinheiro!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; mau!<\/p>\n<p>&#8211; Que pena!<\/p>\n<p>Eram mais ou menos estas as palavras que se entendiam na sua boca. Doce e<br \/>\n    bom, geralmente estimado, tinha tudo e de todos, e figurava no hosp&iacute;cio<br \/>\n    como um c&atilde;ozinho de estima&ccedil;&atilde;o de todos. H&atilde;o de<br \/>\n    estranhar que n&atilde;o houvesse quem criasse animais, gatos, c&atilde;es,<br \/>\n    p&aacute;ssaros, etc. A bem dizer, n&atilde;o havia; mas o Torres, o &uacute;nico<br \/>\n    pensionista de primeira classe, o tal que matara o rival e era o decano do<br \/>\n    estabelecimento, no almo&ccedil;o e no jantar, juntava restos de comidas e<br \/>\n    levava aos gatos ariscos que andavam pelos p&aacute;tios e jardins. F. tinha<br \/>\n    toda a liberdade e andava onde queria. Fora deste, n&atilde;o vi louco algum<br \/>\n    que se interessasse por animais.<\/p>\n<p>Na outra casa de sa&uacute;de em que estive, havia um oficial reformado do<br \/>\n    Ex&eacute;rcito, declaradamente dementado, que tinha a cisma de que conversava<br \/>\n    com os pardais.<\/p>\n<p>Em todas as refei&ccedil;&otilde;es, munia-se de miolo de p&atilde;o, mergulhava-o<br \/>\n    em &aacute;gua, na pia do seu quarto, e atirava peda&ccedil;os da pasta assim<br \/>\n    obtida aos p&aacute;ssaros, que voejavam em torno do pavilh&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    centenas. N&atilde;o contente com isso, comprava chocalhos, apitos infantis,<br \/>\n    fazia poleiros, gangorras, para divertir ou chamar os pardais. Estes p&aacute;ssaros<br \/>\n    acorriam aos montes na varanda, que se estendia em face dos quartos, cujas<br \/>\n    janelas para ela davam, e tudo emporcalhavam com os seus dejetos. A irm&atilde;<br \/>\n    zangava-se, amea&ccedil;ava-o, mas o tenente n&atilde;o se emendava. Continuava.<\/p>\n<p>No hosp&iacute;cio, n&atilde;o vi nada semelhante. Os loucos me pareciam<br \/>\n    pouco emotivos, e quase todos eles se queixavam dos seus parentes e das suas<br \/>\n    mulheres.<\/p>\n<p>V. O. abrangia, na mesma queixa, a mulher, a sogra e os irm&atilde;os; o<br \/>\n    F. P. descompunha os irm&atilde;os e afirmava em alto e bom som que havia<br \/>\n    de falar mal da fam&iacute;lia at&eacute; morrer.<\/p>\n<p>Na minha conviv&ecirc;ncia, ou melhor, nas minhas conviv&ecirc;ncias com<br \/>\n    loucos, dois ou tr&ecirc;s vi chorar. O tal rapazola da cama, &agrave; esquerda<br \/>\n    da minha; e um outro, na janela do sal&atilde;o de bilhar, quando delirava.<br \/>\n    Algu&eacute;m repreendeu-o por isso, mas ele, com propriedade e urbanidade,<br \/>\n    respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor nada deve observar-me, porque n&atilde;o sabe quais s&atilde;o<br \/>\n    os meus sofrimentos. <\/p>\n<p>Como dizia, por&eacute;m, eu tive que ir para a biblioteca ler, por causa<br \/>\n    do meu companheiro de dormit&oacute;rio. Tinha evitado travar rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ele, mas, aos poucos, pedindo fogo e outros pequenos favores muitos, fomos<br \/>\n    travando conhecimento mais profundo.<\/p>\n<p>Era um rapaz p&aacute;lido, de fei&ccedil;&otilde;es delicadas, franzino,<br \/>\n    que vivia sempre com um len&ccedil;o na cabe&ccedil;a, bem molhado. A princ&iacute;pio,<br \/>\n    julguei que fosse para manter a pastinha inalter&aacute;vel, com o seu vinco<br \/>\n    muito n&iacute;tido no meado da cabe&ccedil;a; mas, bem cedo, vi que n&atilde;o.<br \/>\n    Uma noite, delirando, ele gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Est&atilde;o me queimando a cabe&ccedil;a!<\/p>\n<p>Atinei logo com o seu del&iacute;rio, e em breve ele explicou todo o seu<br \/>\n    sofrimento imagin&aacute;rio, fazendo quest&atilde;o de que eu escrevesse<br \/>\n    e tirasse nota do que ele me expunha.<\/p>\n<p>Trouxe-me escrito o seguinte:<\/p>\n<p>[ &#8230;. ]<\/p>\n<p>Deu-me isto a l&aacute;pis, em papel amarelo de embrulho, dizendo-me: &quot;resolva<br \/>\n    este problema&quot;. Mas n&atilde;o esperou a minha resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ele mesmo se encarregou de explicar-me a coisa, e eu pude registrar, mesmo<br \/>\n    &agrave; vista dele, alguma coisa, o essencial do seu del&iacute;rio. Dizia-me<br \/>\n    ele: <\/p>\n<p>[ &#8230;. ]<\/p>\n<p>Quando me explicou isso, foi nas primeiras horas do dia, depois do caf&eacute;<br \/>\n    matinal, e n&atilde;o me deu tempo de ler os jornais. Quando voltei do almo&ccedil;o,<br \/>\n    &agrave;s nove e meia, pude faz&ecirc;-lo, mas acabado que ele foi, ele reencetou<br \/>\n    a explica&ccedil;&atilde;o, e, para me livrar dele, fugi para a biblioteca.<br \/>\n    Lia eu o doutor Jousseaux, um livro sobre a geologia e fisiografia do Mar<br \/>\n    Vermelho, aqui e ali, interessante, no maior sossego, pois &eacute;ramos dois<br \/>\n    malucos dos menos malucos &#8211; eu e o E. P. (o da cabe&ccedil;a branca)<br \/>\n    &#8211; quando vi que o inspetor seguia um visitante vestido de casimira,<br \/>\n    sem ar de m&eacute;dico, e entrava ele pela se&ccedil;&atilde;o com o m&aacute;ximo<br \/>\n    desembara&ccedil;o. Ele deu comigo e eu com ele, encontrando-se os nossos<br \/>\n    olhares. Pareceu-me j&aacute; t&ecirc;-lo visto e a ele, n&atilde;o sei porque,<br \/>\n    suspeitei que acontecesse a mesma coisa em rela&ccedil;&atilde;o a mim.<\/p>\n<p>Quem &eacute;? Quem n&atilde;o &eacute;? Soube-se logo que era um dos fiscais<br \/>\n    do governo para casas de sa&uacute;de e recolhimentos.<\/p>\n<p>Logo que se soube isso, toda a se&ccedil;&atilde;o se p&ocirc;s em polvorosa.<br \/>\n    N&atilde;o houve quem n&atilde;o apresentasse a sua queixa. V. O. fez um discurso<br \/>\n    e leu representa&ccedil;&otilde;es, cartas, que eu tinha corrigido e mesmo<br \/>\n    escrito. Ficou muito contente, porque o doutor ia tratar de tir&aacute;-lo<br \/>\n    de l&aacute;, tanto, isso depois, que ele sabia (ele sempre sabia do que se<br \/>\n    passava fora do alcance das suas vistas e ouvidos) que o fiscal falara a respeito<br \/>\n    dele, V. O., energicamente, com a alta administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O meu vizinho do holofote do monte Ararat n&atilde;o lhe deu a m&iacute;nima<br \/>\n    import&acirc;ncia. Limitou-se a perguntar, horas depois da sa&iacute;da do<br \/>\n    tal fiscal:<\/p>\n<p>&#8211; Quem &eacute; esse doutor boa-vida que a&iacute; esteve?<\/p>\n<p>Mais feliz do que V. O., ele se ria de todas as provid&ecirc;ncias e solicitudes<br \/>\n    do governo. O fato &eacute; que o tal doutor boa-vida, como o chamou o A.<br \/>\n    de Oliveira, devia ter voltado para a casa, meditando sobre os percal&ccedil;os<br \/>\n    de visitar casa de loucos.<\/p>\n<p>Quando saiu, deu por falta de sua bengala com cast&atilde;o de ouro&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p><b>Sem data<\/b><\/p>\n<p>O meu transplante for&ccedil;ado para outro meio que n&atilde;o o meu. A<br \/>\n    necessidade de conviv&ecirc;ncia com os de meu esp&iacute;rito e educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Estranheza. A minha ojeriza por aqueles meus companheiros que se animam a<br \/>\n    falar de coisas de letras e etc. O J. P., que se animava a discutir comigo<br \/>\n    Zola e falar sobre edi&ccedil;&otilde;es, datas, etc. Entretanto, eu gostava<br \/>\n    dele. Ri-me mais que nunca quando, percebendo tudo isto, lembrei-me que me<br \/>\n    supunha um homem do povo e capaz de lidar e viver com o povo. Conclu&iacute;<br \/>\n    que nem com ele, nem com ningu&eacute;m. Lembran&ccedil;a da mulher, a &uacute;nica<br \/>\n    que podia ter feito viver comigo e eu n&atilde;o compreendera.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Cigarro. Insist&ecirc;ncia em pedir. Negar. Arrependimento. O caso do velho.<br \/>\n    Remorso: dei o cigarro, muito depois de t&ecirc;-lo negado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um pequeno meteu-se no por&atilde;o, armou-se de tijolos e amea&ccedil;ou<br \/>\n    n&atilde;o sair de l&aacute;. Os guardas entraram l&aacute; com escudos de<br \/>\n    travesseiros.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um maluco vendo-me passar com um livro debaixo do bra&ccedil;o, quando ia<br \/>\n    para o refeit&oacute;rio, disse: &#8211; Isto aqui est&aacute; virando col&eacute;gio.<\/p>\n<p>A Noite, de 15-1-20, sobre desapropria&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dia 16-1-20.<\/p>\n<p>Suicidou-se no pavilh&atilde;o um doente. O dia est&aacute; lindo. Se voltar<br \/>\n    terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja um dia bonito como<br \/>\n    o de hoje.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Os s&aacute;bios que seguiram Napole&atilde;o na expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Egito, montavam em jumentos. Quando os mamelucos amea&ccedil;avam um ataque,<br \/>\n    ao formar um quadrado, os soldados gritavam: &quot;No centro do quadrado,<br \/>\n    os asnos&quot; &#8211; &quot;Au centre du carr&eacute;, les &acirc;nes&quot;<br \/>\n    &#8211; porque estavam montados em burricos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>What is gipsy?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O engenheiro diz que o Pires de Albuquerque foi promovido devido a ele, tendo-lhe<br \/>\n    dado at&eacute; dinheiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Revolta das mulheres por causa da comida. Loucas e enfermeiras. Diferen&ccedil;a<br \/>\n    entre a reclama&ccedil;&atilde;o delas e a dos homens, que foi anteriormente.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Conversa de loucos. Dificuldade de reproduzi-la e o del&iacute;rio tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Rabelais XIII.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Abelardo: Viveu infeliz e morreu humilhado, mas teve a gl&oacute;ria e foi<br \/>\n    amado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O B., homem de mais de cinq&uuml;enta anos, dizia ter oito ou nove anos e<br \/>\n    tomava a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o a outro doente (V. O.).<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; um doente, o tal dos berloques, que toca piano, &eacute; o que<br \/>\n    toca melhor; ele toca coisas do meu tempo de rapazola, quando eu dan&ccedil;ava.<br \/>\n    Observo o seu modo de tocar. Embrulho. O Hino Nacional. Nunca acaba.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>C. B., jogando xadrez, vai muito bem e de repente vem-lhe o del&iacute;rio<br \/>\n    e complica tudo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Comparar com o bilhar. Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Quem toca &eacute; o tal bacharel que se condenou &agrave; mudez. E&#8230;, M&#8230;,<br \/>\n    o velho que dizem matou a m&atilde;e, quase mudos. Observar as rea&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da loucura sobre a articula&ccedil;&atilde;o da palavra; alguns, tr&ocirc;pegos<br \/>\n    de l&iacute;ngua; alguns balbuciam, e outros, quase mudos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>B., quase preto, o terror da enfermaria. A briga dele com o Gato, o Caranguejo.<br \/>\n    Falar desse tipo curioso de man&iacute;aco.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Eu vi o P. esfregando o assoalho com a vassoura pesada.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A., companheiro de dormit&oacute;rio; tem a mania de trazer a cabe&ccedil;a<br \/>\n    molhada e os cabelos presos por um len&ccedil;o fino. Uma noite, despertou<br \/>\n    gritando: Est&atilde;o me ateando fogo na cabe&ccedil;a! Dorme com uma venda<br \/>\n    nos olhos e tem ao lado um verdadeiro guarda-comidas. Mania liter&aacute;ria.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um velho portugu&ecirc;s que tem a vaga semelhan&ccedil;a com Francisco Jos&eacute;,<br \/>\n    imperador da &Aacute;ustria, se cr&ecirc; por isso imperador. Se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Pinel.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Haver&aacute; cont&aacute;gio na loucura? Creio que sim. Ambi&ecirc;ncia<br \/>\n    do hospital. A imita&ccedil;&atilde;o como pr&oacute;pria &agrave; natureza<br \/>\n    da nossa intelig&ecirc;ncia. Notar P. imita dois loucos: C. B. (tenente) que<br \/>\n    d&aacute; para bater portas e cadeiras, d&aacute; murros na mesa, etc., e<br \/>\n    Pereira, que imita dar traques. Este &eacute; copiado por diversos. As falas<br \/>\n    com que acompanham os gestos com a boca n&atilde;o se podem repetir: s&atilde;o<br \/>\n    porcas demais.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio ningu&eacute;m me procura. Da outra vez, fui muito. Sou<br \/>\n    muito estimado na Rua do Ouvidor; mas quem n&atilde;o o &eacute; a&iacute;?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O F. P. batuca no piano coisas t&atilde;o est&uacute;pidas como a sua loucura.<br \/>\n    N&atilde;o sei como o povo julga que a loucura &eacute; sintoma de intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e de muito estudo. No hosp&iacute;cio, n&atilde;o se v&ecirc; tal coisa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um louco perguntou-me se Lisboa ficava em Minas Gerais e V. O., ali&aacute;s<br \/>\n    doutor, n&atilde;o sabia onde ficava Blumenau.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Diz F. &#8211; est&aacute; h&aacute; vinte e seis anos, tendo entrado com<br \/>\n    vinte e oito &#8211; que as mulheres temem refeit&oacute;rio devido &agrave;<br \/>\n    revolta do Jo&atilde;o C&acirc;ndido.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; tr&ecirc;s doentes que mataram ou tentaram matar as mulheres, dos<br \/>\n    quais dois s&atilde;o oficiais do Ex&eacute;rcito, sendo que um nada tem.<br \/>\n    &Eacute; o engenheiro, o tenente e o Tenente P. M.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A for&ccedil;a da loucura do V. O. est&aacute; nas suas pretens&otilde;es<br \/>\n    intelectuais. Ele me disse que tem os instrumentos de engenharia mais aperfei&ccedil;oados,<br \/>\n    e um teodolito, car&iacute;ssimo, [ileg&iacute;vel], e uma b&uacute;ssola<br \/>\n    que faz levantamentos autom&aacute;ticos e os registra numa esp&eacute;cie<br \/>\n    de fita telegr&aacute;fica, indo no bolso. Instrumentos de cirurgia, etc.<br \/>\n    A sua casa &eacute; uma lindeza de coisas pequeninas, at&eacute; a mesa de<br \/>\n    opera&ccedil;&otilde;es &eacute; de tamanho de uma boneca. Quando mora em<br \/>\n    sobrados, tem as flores em potes. Entre elas, catl&eacute;ias, catl&eacute;ias<br \/>\n    em pote!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dia 20-1 -20.<\/p>\n<p>Hoje, o D. E., sobrinho de um funcion&aacute;rio daqui, embriagou-se e, no<br \/>\n    furor alco&oacute;lico, conseguiu subir at&eacute; o telhado de uma depend&ecirc;ncia<br \/>\n    do hosp&iacute;cio e de l&aacute;, prorrompendo nos maiores improp&eacute;rios,<br \/>\n    p&ocirc;s-se nu em p&ecirc;lo, enquanto bebia aguardente. Na hora do caf&eacute;,<br \/>\n    l&aacute; estavam os caibras ou coisa parecida. Alguns t&ecirc;m um ar bom<br \/>\n    e modesto; mas outros t&ecirc;m a morgue de estudantes. Eu j&aacute; tive.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Houve festa na capela e ao sair do caf&eacute; (&agrave; uma hora) cruzei-me<br \/>\n    com os padres. Que lorpas! E a constitui&ccedil;&atilde;o! Padres como esses<br \/>\n    n&atilde;o fariam mal, se n&atilde;o fossem eles a guarda-avan&ccedil;ada<br \/>\n    do estado-maior jesu&iacute;tico que nos pretende oprimir, favorecendo os<br \/>\n    ricos e pavoneando os seus preconceitos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>D. E. Veio o corpo de bombeiros, com uma escada, para tir&aacute;-lo de cima<br \/>\n    do telhado. Ele partiu as telhas e p&ocirc;s-se a atir&aacute;-las em cima<br \/>\n    do povo que assistia o espet&aacute;culo do lado da rua. N&atilde;o parece<br \/>\n    intimidado. Est&aacute; seminu e, apesar de saber perfeitamente que est&aacute;<br \/>\n    tomado de loucura alco&oacute;lica, de p&eacute;, na cumeeira do pavilh&atilde;o,<br \/>\n    destinado &agrave; rouparia, como que vi, naquele desgra&ccedil;ado, a imagem<br \/>\n    da revolta.<\/p>\n<p>Esse acontecimento causa-me apreens&otilde;es e terror. A natureza deles.<br \/>\n    Espelho.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Guardas e bombeiros conseguiram apanhar o homem e amarr&aacute;-lo. Ele estava<br \/>\n    acocorado na borda da emalha, acocorado da forma daqueles animais fant&aacute;sticos<br \/>\n    que se v&ecirc;em nas cimalhas das igrejas g&oacute;ticas. Suspendeu o tr&acirc;nsito,<br \/>\n    durante mais de uma hora. O edif&iacute;cio ficava no canto da Rua General<br \/>\n    Severiano.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O F. F. tinha no quarto tamb&eacute;m um estudo sobre mol&eacute;stias cr&ocirc;nicas,<br \/>\n    em franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O barbeiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dizia Cat&atilde;o, segundo Plutarco, que os s&aacute;bios tiram mais ensinamentos<br \/>\n    dos loucos que estes deles, porque os s&aacute;bios evitam os erros nos quais<br \/>\n    caem os loucos, enquanto estes &uacute;ltimos n&atilde;o imitam os bons exemplos<br \/>\n    daqueles. Plutarco, p&aacute;gina 178. 2v.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ouvindo Cat&atilde;o, que pronunciava poucas palavras para o int&eacute;rprete<br \/>\n    traduzi-las em muitas, aos grupos, observaram estes que as palavras do romano<br \/>\n    sa&iacute;am do cora&ccedil;&atilde;o e as dos gregos da ponta da l&iacute;ngua<br \/>\n    (bout des l&eacute;vres).<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>22-1-20. <\/p>\n<p>Vi hoje entrar um navio &agrave; vela, sem aux&iacute;lio de rebocador, com<br \/>\n    um ter&ccedil;o do velame. Outra impress&atilde;o do vapor. N&atilde;o denunciava<br \/>\n    esfor&ccedil;o e parecia docemente ir a navegar sereno.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O. N., o tal de engenheiro, qualificou de vermelhas as cascas das laranjas,<br \/>\n    quando as mandou cortar pelo cozinheiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>V. O. diz comprar um yacht logo que sa&iacute;sse e convidou o comandante<br \/>\n    e o farmac&ecirc;utico.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O. V. lavador de pe&ccedil;as de roupas dos p&aacute;tios. Foi aluno da Escola<br \/>\n    de Minas. O tipo. Condenou-se ao sil&ecirc;ncio. Gosto pela leitura. Vive<br \/>\n    nos v&atilde;os das janelas. Uma sesta, com outros que t&ecirc;m a mesma mania.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O alem&atilde;o grand&atilde;o, que &eacute; meu vizinho no refeit&oacute;rio,<br \/>\n    por ocasi&atilde;o do caf&eacute; teve um amea&ccedil;o de ataque epil&eacute;ptico.<br \/>\n    Bem est&uacute;pido e malcriado. Tratar dos nomes de pavilh&otilde;es e depend&ecirc;ncias.<br \/>\n    Pinel, Esquirol &#8211; mulheres &#8211; Calmeil. O mais conhecido &eacute;<br \/>\n    o Esquirol porque foi m&eacute;dico do Augusto Comte.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O F. P., a sua mania de amolar todo o dia o m&eacute;dico e seu esfor&ccedil;o<br \/>\n    para impedir que os outros fizessem o mesmo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Juliano (Tito) C&eacute;sar Flam&iacute;nio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Vive-se aqui pensando na hora das refei&ccedil;&otilde;es. Acaba-se do caf&eacute;,<br \/>\n    logo se anseia pelo almo&ccedil;o; mal se vai deste, cogita-se imediatamente<br \/>\n    no caf&eacute; com p&atilde;o; &agrave; uma hora, volta-se e, no mesmo instante,<br \/>\n    se nos apresenta a imagem do jantar &agrave;s quatro horas. Da&iacute; at&eacute;<br \/>\n    dormir, s&atilde;o as horas piores de passar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O V. O. logo se informou de tudo, costumes dos doentes, guardas, mexericos,<br \/>\n    puxava conversa com todos, doentes e guardas, para saber novidades.<\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>23-1-20.<\/p>\n<p>O S., que parecia idiota completo, a ponto de carregar tro&ccedil;os dos<br \/>\n    outros, para os dar a um meu vizinho de dormit&oacute;rio, desapareceu. Emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na se&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O C., sempre com um pano preto. Tipo eclesi&aacute;stico. Mal encarado. Companheiro<br \/>\n    de bisca com o P. Uma voz fortemente nasal. Era tip&oacute;grafo. Tinha um<br \/>\n    r&iacute;ctus constante de mau humor e aborrecimento.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>24-1-20.<\/p>\n<p>Hoje, antes das sete horas, F., o que tem mania religiosa, desaveio-se com<br \/>\n    um belga, que tem mania de milion&aacute;rio e condecorado, e deu-lhe um golpe<br \/>\n    com uma faca improvisada.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Visita do procurador da Rep&uacute;blica, Olinto Braga. Agita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Reclama&ccedil;&atilde;o dos malucos. Inspe&ccedil;&atilde;o das camas, etc.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Um doente chamou-o de boa-vida.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Furtaram da sala do diretor a bengala do procurador.<\/p>\n<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O A. disse que o faziam ficar sem ju&iacute;zo e a alma se esva&iacute;a.<\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>O servente do laborat&oacute;rio. A sua pretens&atilde;o. O avental que,<br \/>\n    no interior dos hospitais, se confunde com a tal esmeralda simb&oacute;lica.<br \/>\n    Livros cient&iacute;ficos. Meios de cultura. N&atilde;o sabia franc&ecirc;s.<br \/>\n    Quis que lhe traduzisse p&aacute;ginas. Pede a P., embara&ccedil;o deste.<br \/>\n    Caso semelhante, Hospital Central, com F., diferen&ccedil;a entre este e aquele.<br \/>\n    Jo&atilde;o e Hor&aacute;cio, nos laborat&oacute;rios de qu&iacute;mica da<br \/>\n    Escola Polit&eacute;cnica.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>F. diz que a m&atilde;e dele tem quatrocentos e vinte anos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Suas fa&ccedil;anhas. Casa-forte. Pai rico. Transferido de se&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sa&iacute;da da casa-forte. O [&#8230;] estava no p&aacute;tio na outra se&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Negro. Vassoura na m&atilde;o. Reflex&otilde;es a respeito.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Vieram visitar-me o Lu&iacute;s Pinto, o Paix&atilde;o e um amigo deste,<br \/>\n    25-1-20, quando fazia um m&ecirc;s que eu aqui estava.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A loucura, a degrada&ccedil;&atilde;o humana &#8211; o horror desse espet&aacute;culo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>V. O., sua preocupa&ccedil;&atilde;o de ser o primeiro maluco que faz reclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e sua pretens&atilde;o de que fala muito bem e com toda a clareza.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>V. O. disse-me que tinha duzentos e tantos mil-r&eacute;is na palmilha da<br \/>\n    botina; quando brigou com o Dias, disse que tinha trezentos e tantos. No dia<br \/>\n    de S&atilde;o Sebasti&atilde;o, foi &agrave; capela do hosp&iacute;cio pelo<br \/>\n    correr do dia e &agrave; tarde. Voltou de l&aacute; dizendo que tinha arrematado<br \/>\n    prendas. Est&aacute;vamos no sal&atilde;o, e ele apontou uma menina que passava,<br \/>\n    como tendo recebido dele o presente de uma flor arrematada. Vendo que a menina<br \/>\n    n&atilde;o levava flor alguma, emendou que esta estava no chap&eacute;u. Na<br \/>\n    ocasi&atilde;o da proeza do D. E. no telhado, viu a sogra e a mulher. Ele<br \/>\n    toma-me as palavras e as repete como dele. Quando o B. quebrou o nariz do<br \/>\n    Gato, eu, narrando-lhe o fato, classifiquei o estado do nariz do Gato como<br \/>\n    estando &agrave; meia nau; imediatamente, contando a outro, ele repetiu a<br \/>\n    classifica&ccedil;&atilde;o. Vendo os padres no refeit&oacute;rio, achei-os<br \/>\n    indecentes, antip&aacute;ticos, com ar de p&aacute;rocos portugueses. Ele,<br \/>\n    na minha vista, repetiu a opini&atilde;o. As cartas que lhe dou minuta, que<br \/>\n    lhe emendo, quando eu o procuro para que ele aluda a esse servi&ccedil;o,<br \/>\n    m&iacute;nimo, ele desconversa. Ele &eacute; mais ignorante do que eu pensava.<br \/>\n    &Eacute; um caso interessante.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Diz Plutarco que, mais do que outra qualquer divindade, V&ecirc;nus tem horror<br \/>\n    &agrave; viol&ecirc;ncia e &agrave; guerra.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N&atilde;o sabe suportar nem a boa nem a m&aacute; fortuna.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; sempre prod&iacute;gios, no Plutarco, at&eacute; os ratos roem<br \/>\n    o ouro do templo de J&uacute;piter, raios advertissadores, crian&ccedil;as<br \/>\n    que nascem com cabe&ccedil;a de elefante, eclipses, etc. Todos os seus her&oacute;is<br \/>\n    t&ecirc;m filhos mais belos da cidade.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Houve quem perguntasse: bebemos porque j&aacute; somos loucos ou ficamos<br \/>\n    loucos porque bebemos?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A mania do F. P. pelos jornais que ele n&atilde;o l&ecirc;. A raz&atilde;o.<br \/>\n    Os livros tamb&eacute;m. Um livro de matem&aacute;tica em alem&atilde;o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Havia no hosp&iacute;cio um louco completamente imbecil, cuja mania era tirar<br \/>\n    os tro&ccedil;os da cama de um e lev&aacute;-los para as de outros. Constantemente<br \/>\n    fazia isso. Hoje, 26-1-20, desapareceu-me um livro que me fora oferecido,<br \/>\n    dentre os tr&ecirc;s que ali tinha. Al&eacute;m do mutismo e ficar ereto nos<br \/>\n    cantos, a sua mania era esta. Tive-o sempre em antipatia, e o fato, que me<br \/>\n    aborreceu muito mais, aumentou a minha antipatia por ele. Os furtos aqui,<br \/>\n    antes dele, eram de onde em onde; agora se sucedem com freq&uuml;&ecirc;ncia.<br \/>\n    &Eacute; preciso saber que n&atilde;o tenho dormit&oacute;rio e tudo que tenho<br \/>\n    &#8211; livros, toalha, papel, sabonete, etc. &#8211; guardo debaixo do travesseiro<br \/>\n    ou do colch&atilde;o.<\/p>\n<p>Na primeira vez que aqui estive, consegui n&atilde;o me intrometer muito<br \/>\n    na vida do hosp&iacute;cio; agora n&atilde;o, sou a isso obrigado, pois todos<br \/>\n    me procuram e contam-me mexericos e novidades. Esse conv&iacute;vio, obrigado,<br \/>\n    com indiv&iacute;duos dos quais n&atilde;o gostamos, &eacute; para mim, hoje,<br \/>\n    insuport&aacute;vel e ainda mais esse furto e as minhas apavorantes d&iacute;vidas<br \/>\n    fazem-me desejar imensamente sair daqui. O m&eacute;dico me ofereceu alta,<br \/>\n    mas n&atilde;o aceitei j&aacute;, porque s&oacute; quero sair depois do carnaval.<br \/>\n    Demais, eu penso que o tal del&iacute;rio me possa voltar, com o uso da bebida.<\/p>\n<p>Ah! Meu Deus! Que alternativa!<\/p>\n<p>E eu n&atilde;o sei morrer.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Sarar&aacute; das drogas, o tal chibante, tem o cabelo crespo. Para assent&aacute;-lo,<br \/>\n    usa uma touca e naturalmente vaselina. Dorme com a touca e a usa pela manh&atilde;<br \/>\n    em fora.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>V. O., desde dias, vinha brigando com M. Ant&ocirc;nio, guarda, o substituto<br \/>\n    de Dias, na inspetoria da se&ccedil;&atilde;o. Sabendo aquele que ele tinha<br \/>\n    uma tesoura em seu poder, tomou-a. Ele se enfureceu e disse que tinha um punhal;<br \/>\n    deram uma busca mais rigorosa e descobriram que ele furtava roupas particulares<br \/>\n    de outros doentes, cujas marcas trocava. Al&eacute;m disso, encontraram uma<br \/>\n    chave da porta dos fundos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O caso dos jornais atrasados e a sua pris&atilde;o no dormit&oacute;rio-c&aacute;rcere.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A sala de bilhar &eacute; uma das melhores pe&ccedil;as da parte do edif&iacute;cio<br \/>\n    que ocupamos. Fica no extremo da ala esquerda do hosp&iacute;cio. Tem tr&ecirc;s<br \/>\n    janelas de sacada para a frente, que olha para o mar; e tr&ecirc;s outras<br \/>\n    do lado esquerdo. J&aacute; foi melhor mobiliada. Nas paredes h&aacute; quadrinhos,<br \/>\n    com recortes de revistas ilustradas, emoldurados modestamente com passe-partout<br \/>\n    improvisados. Representam castelos nas pontas de montanhas, com torres cil&iacute;ndricas<br \/>\n    com os tectos c&ocirc;nicos, das condessinhas do s&eacute;culo XIII ou XIV,<br \/>\n    paisagens de Estaque, no inverno; uns carvalheiros sem folhas ou peupliers<br \/>\n    tristes. H&aacute; um desenho de um senhor gordo deitado num div&atilde; rico,<br \/>\n    ele mesmo em vestu&aacute;rio de baile, que me parece ser de Leandro.<\/p>\n<p>Quem teve esse trabalho de decora&ccedil;&atilde;o? H&aacute; vest&iacute;gios<br \/>\n    de que foi pessoa de gosto e educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dia 27-1 -20.<\/p>\n<p>Logo ap&oacute;s o caf&eacute;, o V. O. provocou um barulho dos diabos com<br \/>\n    o F. P., porque este tinha sido transferido para um quarto melhor, com c&ocirc;moda,<br \/>\n    etc., e n&atilde;o pagava nada, enquanto ele pagava quinze mil-r&eacute;is<br \/>\n    e n&atilde;o tem essas regalias. Trocavam insultos mutuamente os mais vis<br \/>\n    e baixos. V. O. mostrou todo o seu fundo de soberba, de presun&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de vaidade e mesquinharia. Entretanto, ele n&atilde;o paga.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Tem-se na conta do doente mais rico, mais importante, o que mete medo aos<br \/>\n    guardas, aos m&eacute;dicos, ao pessoal superior.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A sua loucura veio-lhe da vaidade doentia.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O T., o tal que matou o rival em amor, diz que viveu doze anos num ovo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>V. O. tem o riso algo parecido com o J. B. e algumas vezes sublinha as frases<br \/>\n    com contra&ccedil;&otilde;es da fisionomia e do canto dos l&aacute;bios, e<br \/>\n    tem gestos parecidos com ele.<\/p>\n<p>O riso &eacute; antip&aacute;tico. Dostoi&eacute;vski diz que se o riso de<br \/>\n    um desconhecido &eacute; agrad&aacute;vel, ele &eacute; homem honesto. O do<br \/>\n    V. O. &eacute; desagrad&aacute;vel, soa como um chocalho de coco ou caba&ccedil;a.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; outro caso de imita&ccedil;&atilde;o entre loucos: um doente que<br \/>\n    esteve na minha se&ccedil;&atilde;o foi transferido para outra e l&aacute;<br \/>\n    espiava o A., que vivia pelas salas e corredores a dizer coisas desconexas,<br \/>\n    palavr&otilde;es, e repetir, a espa&ccedil;os, a palavra pinacoteca, derivadas<br \/>\n    e ou acompanhadas de outras, que n&atilde;o fazem sentido com ela. Ao imitador<br \/>\n    n&atilde;o vi, mas fui informado por pessoa segura que andava de um lado para<br \/>\n    outro a dizer: pinacoteca, Piabanha.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O doente borrado, seminu, o seu aspecto horripilante.<\/p>\n<p>O seu maneio de sombra no corredor.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Gabrielle Coni &#8211; Vers l&#8217;oeuvre douce e Fleurs de l&#8217;air.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Annuaire international du cr&eacute;dit public.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Attala.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dia 27-1-20.<\/p>\n<p>Revolta dos presos na casa-forte, &agrave;s sete horas da noite. Baderna,<br \/>\n    etc. A revolta &eacute; capitaneada pelo D. E., o tal que subiu no telhado.<br \/>\n    Est&atilde;o chegando bombeiros e for&ccedil;a de pol&iacute;cia. Previ isto.<br \/>\n    Os revoltosos s&atilde;o vizinhos de quase metade da Se&ccedil;&atilde;o Pinel.<br \/>\n    Armaram-se de trancas. Vejo-os c&aacute; de cima. O resto da Se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Pinel mant&eacute;m calma. A nossa est&aacute; quase sem guardas nem enfermeiros,<br \/>\n    mas a atitude de todos &eacute; de curiosidade. Um acontecimento desses quebra<br \/>\n    a monotonia e distrai. O Ferraz diz que o Santana &eacute; v&iacute;tima de<br \/>\n    inimigos trai&ccedil;oeiros, por ser mulato. Santana &eacute; um velho empregado<br \/>\n    da assist&ecirc;ncia e muito bom para os doentes em geral. Ferraz, em seguida,<br \/>\n    acrescenta que ele &eacute; um homem velho, tem quatrocentos e vinte anos,<br \/>\n    j&aacute; foi M&aacute;rcio N&eacute;ri e outros despaut&eacute;rios que eu<br \/>\n    n&atilde;o pude guardar; mas pode com eles todos. O que &eacute; evidente<br \/>\n    &eacute; que algu&eacute;m fornece meios e modos ao D. E. para ele fazer esses<br \/>\n    esc&acirc;ndalos todos, no intuito de desacreditar alguma pessoa influente<br \/>\n    no hosp&iacute;cio ou mesmo toda a diretoria. A rua encheu-se; h&aacute; um<br \/>\n    movimento de carros, autom&oacute;veis com personagens, e for&ccedil;a de<br \/>\n    pol&iacute;cia e bombeiros; h&aacute; toques de corneta &#8211; um aspecto<br \/>\n    de grosso motim. <\/p>\n<p>Consta que ele lan&ccedil;ou cimentos e var&otilde;es de ferro. J&aacute;<br \/>\n    tenho medo de ficar aqui.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; alguns que n&atilde;o s&atilde;o aparentemente doentes, mas que<br \/>\n    em dados momentos se denunciam em contr&aacute;rio. Os epil&eacute;pticos,<br \/>\n    os sujeitos a certas manias que t&ecirc;m um del&iacute;rio de tempos em tempos.<br \/>\n    Conhe&ccedil;o o E. P. desde que entrei aqui, como homem polido, de certa<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o, servi&ccedil;al, n&atilde;o aparentando a menor mania,<br \/>\n    sen&atilde;o a de n&atilde;o sair daqui. Foi estabelecido com tabacaria e<br \/>\n    mostra ter boas rela&ccedil;&otilde;es de amizade. Uma vez atrasou-se no banho;<br \/>\n    o guarda, ao passar pelo banho para o caf&eacute;, disse-lhe uma coisa sem<br \/>\n    import&acirc;ncia, ele vestiu-se rapidamente, chegou a tempo, o guarda repetiu<br \/>\n    uma pilh&eacute;ria sem alcance e, por isso, ele se fez p&aacute;lido, bei&ccedil;os<br \/>\n    roxos e tremendo que nem uma pilha. Que seria capaz de fazer?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>28-1-20.<\/p>\n<p>O diretor proibiu a entrada dos jornais.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O F. P. atirou fora os abacates que lhe deram, porque os temperaram com a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    de terceira. Ele &eacute; branco de primeira ordem e n&atilde;o negro, nem<br \/>\n    mulato, para usar tal a&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O nu no hosp&iacute;cio. A Liga pela Moralidade. Poucos homens bem feitos;<br \/>\n    o mesmo no banho de mar. Um &uacute;nico eu vi no hosp&iacute;cio. Era um<br \/>\n    rapaz moreno, olhos e sobrancelhas negras, assim como os cabelos, de um negro<br \/>\n    bonito e luzente. Perfeitamente imbecil, olhava-me com um sorriso parado,<br \/>\n    sem dizer nada e nada pedir.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Os jornais foram proibidos, mas todos tinham jornais, entre eles o F. P.<br \/>\n    e o tal engenheiro C. P. Aquele me&ccedil;o bem alto, que n&atilde;o emprestava<br \/>\n    a ningu&eacute;m, olhando para mim, ele que n&atilde;o cessa de pedir-me cigarros,<br \/>\n    f&oacute;sforos, jornais e at&eacute; dinheiro, eu lhe dei para comprar revista.<br \/>\n    Contudo, o Gast&atilde;o dos cigarros guarda um para mim. O maluco &eacute;<br \/>\n    em geral mau e ego&iacute;sta, especialmente o Porto, cujo del&iacute;rio<br \/>\n    &eacute; de grandeza. Raro &eacute; o liberal e agradecido. S&oacute; aqueles<br \/>\n    que caem em profunda loucura &eacute; que perdem o sentimento de propriedade.<br \/>\n    Descobri quem me furtou o livro. Foi o Gato a quem tratei bem e nunca lhe<br \/>\n    atirei chufas. Deu-o ao Gast&atilde;o, que viu meu nome e n&atilde;o mo restituiu.<br \/>\n    Este G. &eacute; um rapazola de que j&aacute; falei, e n&atilde;o tem nada<br \/>\n    de louco. Simplesmente sujeito a ataques. A Esse tempo, agarrou de aborrecer-me<br \/>\n    muito, tenho feito muitos obs&eacute;quios. Este pequeno tem de sair daqui,<br \/>\n    por for&ccedil;a; &eacute; muito mo&ccedil;o e n&atilde;o tem cura; mas ter&aacute;<br \/>\n    um mau destino.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Conv&eacute;m falar no J. C., de Santa Teresa, um louco. A sua loucura. A<br \/>\n    hist&oacute;ria dos seus estudos, as suas crises, apelo a misticismo, v&iacute;cios,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Custa a crer que esses loucos, dois principalmente, V. O. e F. P., me aborrecem<br \/>\n    e irritam-me. Esque&ccedil;o de que s&atilde;o loucos e d&aacute;-me vontade<br \/>\n    de vociferar. Vou pedir alta, para n&atilde;o dar essa demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de loucura.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Un partenaire au jeu est un individu tr&eacute;s &eacute;merdant.<br \/>\n    Toujours il me demande: Est-ce que vous connaissez monsieur un tel? En attendant<br \/>\n    ma repouse, il dit: Ce monsieur un tel est mari&eacute; avec ma cousinne qui<br \/>\n    est fille du docteur un tel. Connaissez vous? &#8211; Non. &#8211; Au moins<br \/>\n    le docteur&#8230; II a &eacute;t&eacute; une notabilit&eacute; &agrave; Valparaiso.<br \/>\n    &#8211; Non. J&#8217;avait dit &agrave; lui que je suis &eacute;t&eacute;<br \/>\n    au Hospital Central. &#8211; Vous avez connut sans doute le general Travassos.<br \/>\n    Je me fache et en tire fach&eacute;. Je dit: &#8211; Hier j&#8217;ait dit<br \/>\n    ainsi que je mis &eacute;t&eacute; au H. C. le dernier ann&eacute;e. Oh! Mon<br \/>\n    Dieu de la France! J&#8217;&eacute;touffe.&quot;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>F. Porto diz que &eacute; t&atilde;o inteligente que, depois de seis meses<br \/>\n    de estudar latim, p&ocirc;s-se a declinar grego, enquanto o irm&atilde;o levou<br \/>\n    dois anos para traduzir Virg&iacute;lio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Torres matava camundongos, pelava-os, estripava-os, para dar aos gatos,<br \/>\n    a fim que n&atilde;o tivessem trabalho de fazer isto.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>As rixas! Os her&oacute;is delas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A loucura do cigarro. Um doente, homem r&uacute;stico, tipo de nosso roceiro,<br \/>\n    veio para o meu dormit&oacute;rio. Nos primeiros dias, passou bem; mas, n&atilde;o<br \/>\n    recebendo visitas e, conseq&uuml;entemente, fumo ou cigarro, perdeu a quietude<br \/>\n    e ficou doido. Descrever a noite.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>No sal&atilde;o, havia um recorte representando uma pescaria de f&uacute;cea<br \/>\n    feita por mulheres de coifa, &agrave; noite ao luar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Telefone do Schettino &#8211; 3863 C<\/p>\n<p>* * * <\/p>\n<p>&quot;As leis s&atilde;o como as teias de aranha que prendem os fracos e<br \/>\n    pequenos insetos, mas s&atilde;o rompidas pelos grandes e fortes.&quot; &#8211;<br \/>\n    Palavras de um s&aacute;bio cita Anac&aacute;rsis, citado por Plutarco, na<br \/>\n    vida de S&oacute;lon.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A., primeiro, repetia &#8211; suavemente perfumas a tua lembran&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; frase que ele encontrou num livro que me deram.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Este mesmo fez-me ler, na biblioteca, a Dor do Alcindo, com m&aacute; pros&oacute;dia,<br \/>\n    em que pronunciava &quot;inercia&quot; e &quot;ester&iacute;l.&quot; Aconselhou-me<br \/>\n    que a lesse, porque educaria melhor o meu esp&iacute;rito que o livro de Renan<br \/>\n    que estava lendo. Lia um artigo sobre Amiel. A Dor est&aacute; no volume 24<br \/>\n    da Biblioteca das Obras C&eacute;lebres.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Leio o Plutarco (hosp&iacute;cio) vida de Coriolano a Alcib&iacute;ades.<br \/>\n    Ambos puseram os seus talentos a servi&ccedil;o dos inimigos de sua p&aacute;tria,<br \/>\n    por despeito de serem perseguidos politicamente. Tem&iacute;stocles matou-se.<br \/>\n    O be&oacute;cio P. considera todos os tr&ecirc;s homens ilustres; hoje, aqueles<br \/>\n    dois n&atilde;o tomariam arma, mas vend&ecirc;-la-iam em conv&ecirc;nios e<br \/>\n    declara&ccedil;&otilde;es de guerra, mediante ouro do estrangeiro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N&atilde;o esquecer o poltr&atilde;o do Veiga. Tipo de d&eacute;bil mental.<\/p>\n<p><strong>2&ordf; parte: CEMIT&Eacute;RIO DOS VIVOS<\/strong><\/p>\n<p><b>[FRAGMENTOS]<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"11\"><b>I<\/b><\/a><\/h4>\n<p>Quando minha mulher morreu, as &uacute;ltimas palavras que dela ouvi, foram<br \/>\n    estas, ditas em voz cava e sumida:<\/p>\n<p>&#8211; Vicente, voc&ecirc; deve desenvolver aquela hist&oacute;ria da rapariga,<br \/>\n    num livro.<\/p>\n<p>Ainda durou cerca de dois dias, mas quase sem fala. Balbuciava unicamente;<br \/>\n    em geral, n&atilde;o entendia o que queria por a&iacute;, mas pelos gestos<br \/>\n    e sinais que fazia.<\/p>\n<p>Nas ocasi&otilde;es em que me aproximava dela, nos seus &uacute;ltimos momentos,<br \/>\n    o seu olhar de moribunda tinha uma doce e transcendente express&atilde;o de<br \/>\n    piedade. Era como se ela dissesse: &quot;Vou morrer! Que pena! Vou deix&aacute;-lo<br \/>\n    s&oacute; por este mundo afora&quot;.<\/p>\n<p>Para o filho, que andava pr&oacute;ximo dos quatro anos, n&atilde;o lobriguei<br \/>\n    nos seus olhos uma t&atilde;o profunda manifesta&ccedil;&atilde;o de comisera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Parecia-lhe, certamente, que ele seria mais feliz do que eu. N&atilde;o sei,<br \/>\n    n&atilde;o me recordo se, logo ap&oacute;s a sua morte, pus-me a pensar nas<br \/>\n    suas palavras, a bem dizer as &uacute;ltimas, e no meu casamento e outros<br \/>\n    fatos dom&eacute;sticos. Mas o certo &eacute; que elas me ficaram gravadas;<br \/>\n    e nunca mais se foi de mim a imagem daquela pobre mo&ccedil;a a morrer, com<br \/>\n    pouco mais de vinte e cinco anos, e o sentimento da dor que se lhe estampava<br \/>\n    no olhar m&iacute;stico, por me deixar no mundo, dor que n&atilde;o era bem<br \/>\n    de mulher, mas de m&atilde;e amant&iacute;ssima.<\/p>\n<p>O melhor &eacute; contar como foi o meu casamento, um pouco da minha vida,<br \/>\n    para que se possa bem compreender porque esse espet&aacute;culo dom&eacute;stico,<br \/>\n    em geral de t&atilde;o pouco alcance, trouxe para mim conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    desenvolvidamente dolorosas, um verdadeiro drama psicol&oacute;gico e moral,<br \/>\n    que todas as satisfa&ccedil;&otilde;es posteriores n&atilde;o puderam dar<br \/>\n    termo na minha consci&ecirc;ncia, nem tampouco o trabalho e o v&iacute;cio.<\/p>\n<p>A minha hist&oacute;ria de casamento &eacute; singular. Vou narr&aacute;-la.<br \/>\n    Como toda a gente, quis ser &quot;doutor&quot; em alguma coisa. N&atilde;o<br \/>\n    tendo quem me custeasse os estudos, logo pelos dezessete anos, com uma falsa<br \/>\n    certid&atilde;o de idade, fiz um concurso em uma reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica e obtive um pequeno lugar de funcion&aacute;rio. Minha fam&iacute;lia<br \/>\n    vivia fora do Rio de Janeiro; e eu, apresentado por outro colega, fui morar<br \/>\n    na pens&atilde;o da vi&uacute;va Dias, &agrave; rua XXX. Canhestro e t&iacute;mido,<br \/>\n    apesar de ter vivido fora do ambiente dom&eacute;stico, em internatos, no<br \/>\n    meio de meninos e rapazes desenvoltos, nunca fui dado &agrave; sociabilidade<br \/>\n    feminina, muito menos a namoros, e sempre que, por esta obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou aquele obs&eacute;quio, me impunham a tomar parte em sociedade de mo&ccedil;as<br \/>\n    e senhoras, sa&iacute;a da&iacute; aborrecido. No dia seguinte, fazia um exame<br \/>\n    retrospectivo dos fatos da v&eacute;spera e verificava, com amargura e vexame,<br \/>\n    que tinha dado tal &quot;rata&quot;, tinha sido rid&iacute;culo, por isso,<br \/>\n    por aquilo, e jurava n&atilde;o mais me meter em semelhantes rodas.<\/p>\n<p>Crente da minha irremedi&aacute;vel inabilidade para tratar com damas de<br \/>\n    todo o jaez, evitava-lhes o com&eacute;rcio o mais que podia. Se minha irm&atilde;<br \/>\n    me pedia, l&aacute; donde estava, que comprasse qualquer coisa em loja servida<br \/>\n    por mo&ccedil;as, dava a encomenda a outrem, para execut&aacute;-la, mediante<br \/>\n    ou n&atilde;o gratifica&ccedil;&atilde;o. At&eacute; agora, ainda de todo<br \/>\n    n&atilde;o perdi essa cisma, pois evito comprar selos a funcion&aacute;rios<br \/>\n    de saias.<\/p>\n<p>Com esse g&ecirc;nio, n&atilde;o me agradou muito quando deparei na pens&atilde;o<br \/>\n    uma mo&ccedil;a de pouco menos idade do que eu, vivendo familiarmente com<br \/>\n    os fregueses. Era dona Efig&ecirc;nia, a filha da dona da casa, que superintendia<br \/>\n    o servi&ccedil;o na sala das refei&ccedil;&otilde;es. Guiava o copeiro, ralhava-o,<br \/>\n    atendia as reclama&ccedil;&otilde;es dos fregueses; enfim, como j&aacute;<br \/>\n    disse, vigiava na marcha das refei&ccedil;&otilde;es das pensionistas, no<br \/>\n    sal&atilde;o a elas destinado.<\/p>\n<p>A velha, sua m&atilde;e, dona Clementina, ficava l&aacute; nos fundos, dosava<br \/>\n    os pratos, racionava, como se diz hoje, e fazia outras miudezas da copa.<\/p>\n<p>A descoberta da mo&ccedil;a quase me fez abandonar o hotel de dona Clementina<br \/>\n    Dias, no fim do primeiro m&ecirc;s; mas temi agastar o meu colega e parecer-lhe<br \/>\n    ao mesmo tempo rid&iacute;culo, se confessasse o motivo. Contudo, no come&ccedil;o,<br \/>\n    envergonhado, quer para uma, quer para outra refei&ccedil;&atilde;o, esperava-o<br \/>\n    sempre para t&ecirc;-lo como companhia.<\/p>\n<p>Dona Efig&ecirc;nia, que deu com o meu embara&ccedil;o, veio ao meu encontro.<br \/>\n    Respondi-lhe &agrave;s perguntas, mas temia encar&aacute;-la. Com quase vinte<br \/>\n    anos, habituado a todas as tro&ccedil;as de rapazes, ficava que nem um seminarista<br \/>\n    diante daquela mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>Furtivamente, eu a observava. N&atilde;o era feia, nem bonita. Pequena, mesmo<br \/>\n    mi&uacute;da, com uma cabecinha min&uacute;scula de cabelos escassos, parecia<br \/>\n    uma gatinha, com os seus olhos estriados muito firmes de mirada, agachada<br \/>\n    na escrivaninha alta, donde dirigia o servi&ccedil;o do refeit&oacute;rio<br \/>\n    e aonde ficava melhor, com mais elegante figura, do que de p&eacute;, quando<br \/>\n    a isto era obrigada, para providenciar sobre qualquer coisa em cima das mesas,<br \/>\n    &agrave;s importuna&ccedil;&otilde;es e reclama&ccedil;&otilde;es de um dos<br \/>\n    fregueses de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p>Assim, nessa postura, ficava inteiramente insignificante, e o seu lindo olhar<br \/>\n    de for&ccedil;a e penetra&ccedil;&atilde;o se sumia todo na justeza de sua<br \/>\n    figurinha; e na rua, ent&atilde;o, ainda mais&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o gostava de v&ecirc;-la sen&atilde;o na escrivaninha alta, sobre<br \/>\n    um estrado; e era onde, positivamente, apreciava os seus olhos pardos, pequenos,<br \/>\n    penetrantes, como que estriados, ao redor das pupilas negras.<\/p>\n<p>De onde em onde, ela os punha sobre mim, denotando uma grande vontade de<br \/>\n    me adivinhar, e eu fugia deles com medo de me trair.<\/p>\n<p>No fim de dois meses, ela me fez as perguntas do costume sobre os meus estudos<br \/>\n    e os meus avan&ccedil;os neles. Aborrecia-me com isto, porque j&aacute; come&ccedil;ava<br \/>\n    a aborrecer-me com eles. O que os estudos normais e consagrados do Brasil<br \/>\n    me podiam dar, eu j&aacute; supunha ter obtido; o mais era ter um t&iacute;tulo<br \/>\n    de que me n&atilde;o iria servir e s&oacute; me serviria de trambolho e enfeite<br \/>\n    de botocudo.<\/p>\n<p>N&atilde;o me queria absolutamente ignorante nas ci&ecirc;ncias f&iacute;sico-matem&aacute;ticas<br \/>\n    e estava seguro de que as no&ccedil;&otilde;es que tinha eram suficientes.<br \/>\n    As carreiras especiais, em uso na nossa terra, n&atilde;o me tentavam, tanto<br \/>\n    mais que sabia eu, pois tinha percebido logo ap&oacute;s a minha matr&iacute;cula,<br \/>\n    que em nenhuma delas se enriquece ou mesmo se sobe em honrarias, sem ter nascimento<br \/>\n    ou fortuna, ou sen&atilde;o empregando muita abdica&ccedil;&atilde;o de suas<br \/>\n    opini&otilde;es, ou &#8211; o que &eacute; pior &#8211; perdendo muito de<br \/>\n    sua autonomia e independ&ecirc;ncia intelectual na gratid&atilde;o por seu<br \/>\n    protetor.<\/p>\n<p>O meu esfor&ccedil;o em &quot;formar-me&quot;, como se diz por a&iacute;,<br \/>\n    era para atender a um capricho de meu pai, que, at&eacute; o &uacute;ltimo<br \/>\n    momento de vida, desejou isso, para vingar-se.<\/p>\n<p>&Eacute; caso que ele tinha um parente ou contraparente, com quem viera &agrave;s<br \/>\n    m&atilde;os por causa de uma quest&atilde;o de heran&ccedil;a do av&ocirc;,<br \/>\n    meu bisav&ocirc;, portanto, e dera-lhe uns tiros. Processado, fora absolvido,<br \/>\n    mas n&atilde;o deixou de passar um ano na cadeia e sofrer o supl&iacute;cio<br \/>\n    moral do j&uacute;ri. Nunca me contara isso, mas todos que ouvi a respeito<br \/>\n    eram un&acirc;nimes em dizer-me que esse tal meu primo era um fanfarr&atilde;o,<br \/>\n    presun&ccedil;oso de seu t&iacute;tulo de engenheiro pela B&eacute;lgica ou<br \/>\n    Estados Unidos. Tratava com muito desprezo o meu pai, e este o suportava,<br \/>\n    porque fora amigo do irm&atilde;o, pai dele, de quem n&atilde;o tirara a bondade<br \/>\n    e o carinho.<\/p>\n<p>Antes do doloroso fato, demonstrava publicamente n&atilde;o querer rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    estreitas com meu pai e, a quem o inquirisse sobre a natureza de seu parentesco<br \/>\n    com o meu genitor, respondia desdenhoso:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute;, &eacute; meu parente; mas muito longe.<\/p>\n<p>Acredito que dissesse isso, porque meu pai ainda tinha em muita evid&ecirc;ncia<br \/>\n    tra&ccedil;os de ra&ccedil;a negra; e o meu primo, o doutor belga, como todos<br \/>\n    os antropologistas nacionais, p&otilde;e os defeitos e qualidades da ra&ccedil;a<br \/>\n    nos tra&ccedil;os e sinais que ficam &agrave; vista de todos.<\/p>\n<p>No suspeito doutor americano, eles se haviam detido muito, apesar do cabelo<br \/>\n    liso e cor de fogo.<\/p>\n<p>Apesar dos tiros terem todos errado o alvo, o seu &oacute;dio se sentiu cevado.<br \/>\n    Casou-se meu pai, vindo eu a nascer em breve, e todo o seu esfor&ccedil;o<br \/>\n    foi encaminhar-me para a formatura, numa escola nacional, bem direitinho,<br \/>\n    para dar uma outra li&ccedil;&atilde;o no filho do seu irm&atilde;o mais velho,<br \/>\n    que o era em muitos anos sobre ele, numa diferen&ccedil;a de quase vinte.<\/p>\n<p>Comecei cedo a fazer os preparat&oacute;rios, sen&atilde;o com brilho, ao<br \/>\n    menos com muita seguran&ccedil;a; e cedo acabei-os; mas sobrevieram dificuldades<br \/>\n    de fam&iacute;lia, meu pai enfermo veio a morrer, fiquei sobre mim, longe<br \/>\n    de minha m&atilde;e e dos meus irm&atilde;os.<\/p>\n<p>Tinha grandes ambi&ccedil;&otilde;es intelectuais, um grande orgulho de intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas n&atilde;o sentia nenhuma atra&ccedil;&atilde;o pelo &quot;doutorado&quot;<br \/>\n    nacional, eu visava o Kamtchatka, os pa&iacute;ses ex&oacute;ticos, as regi&otilde;es<br \/>\n    defesas &agrave; intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Ainda mais: era meu prop&oacute;sito ambicioso de menino examinar a certeza<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia e isto &#8211; vejam s&oacute; os senhores &#8211; porque,<br \/>\n    lendo um dia, nos meus primeiros anos de adolesc&ecirc;ncia, uma defesa de<br \/>\n    j&uacute;ri, encontrei este per&iacute;odo:<\/p>\n<p>&quot;O r&eacute;u, meus senhores, &eacute; um irrespons&aacute;vel. O peso<br \/>\n    da tara paterna dominou todos os seus atos, durante toda a sua vida, dos quais<br \/>\n    o crime de que &eacute; acusado, n&atilde;o &eacute; mais do que o resultado<br \/>\n    fatal. Seu pai era um alco&oacute;lico, rixento, mais de uma vez foi processado<br \/>\n    por ferimentos graves e leves. O povo diz: tal pai, tal filho; a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    moderna tamb&eacute;m.&quot;<\/p>\n<p>Muito menino, sem instru&ccedil;&atilde;o suficiente, entretanto, semelhante<br \/>\n    aranzel me pareceu abstruso e sobretudo baldo de l&oacute;gica e em desacordo<br \/>\n    com os fatos. Conhecia filhos de alco&oacute;licos, abstinentes; e abstinentes<br \/>\n    pais, com filhos alco&oacute;licos.<\/p>\n<p>Demais, um v&iacute;cio que vem, em geral, pelo h&aacute;bito individual,<br \/>\n    como pode de tal forma impressionar o aparelho da gera&ccedil;&atilde;o, a<br \/>\n    n&atilde;o ser para inutiliz&aacute;-lo, at&eacute; o ponto de determinar<br \/>\n    modifica&ccedil;&otilde;es transmiss&iacute;veis pelas c&eacute;lulas pr&oacute;prias<br \/>\n    &agrave; fecunda&ccedil;&atilde;o? Por que mecanismo iam essas modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    transformar-se em caracteres adquiridos e capazes de se constitu&iacute;rem<br \/>\n    em heran&ccedil;a?<\/p>\n<p>N&atilde;o sabia responder isto e at&eacute; hoje n&atilde;o sei responder,<br \/>\n    e ainda mais se me perguntava, nesse caso de alco&oacute;lico: no ato da gera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dado que fosse a verdade essa sinistra teoria da heran&ccedil;a de defeitos<br \/>\n    e v&iacute;cios, o pai j&aacute; seria deveras um alco&oacute;lico que tivesse<br \/>\n    as suas c&eacute;lulas fecundantes suficientemente modificadas, igualmente,<br \/>\n    para transmitir a sua desgra&ccedil;a ao filho virtual?<\/p>\n<p>Menino, pouco lido nessa coisa, como ainda hoje sou, a afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele advogado de j&uacute;ri me pareceu menos certa do que se ele dissesse<br \/>\n    que um desvario, um mau g&ecirc;nio, tinha feito o seu constituinte errar,<br \/>\n    pecar, roubar ou assassinar. &Eacute; mais decente p&ocirc;r a nossa ignor&acirc;ncia<br \/>\n    no mist&eacute;rio, do que querer mascar&aacute;-la em explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que a nossa l&oacute;gica comum, quotidiana, de dia a dia, repele imediatamente,<br \/>\n    e para as quais as justifica&ccedil;&otilde;es com argumentos de ordem especial<br \/>\n    n&atilde;o fazem mais do que embrulh&aacute;-las, obscurec&ecirc;-las a mais<br \/>\n    n&atilde;o poder.<\/p>\n<p>Sou, e hoje posso afirmar sem temor, sujeito a certas impress&otilde;es duradouras,<br \/>\n    tenazes, que me acodem todos os dias &agrave; lembran&ccedil;a, por estas<br \/>\n    ou aquelas circunst&acirc;ncias aparentemente sem rela&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    o fundo delas. N&atilde;o sei nunca por que me ficaram e, as mais das vezes,<br \/>\n    n&atilde;o posso verificar o instante em que elas me ficaram.<\/p>\n<p>Lembro-me de um grande p&eacute; de eucalipto que havia na estrada da casa<br \/>\n    de um amigo de minha fam&iacute;lia, e isto vi quando tinha sete anos ou menos;<br \/>\n    lembro-me de uma cadeira de jacarand&aacute;, estilo antigo, com um alto e<br \/>\n    largo espaldar, em que minha av&oacute; materna sentava-se, tendo os p&eacute;s<br \/>\n    num tamborete e todos os netos sentados no ch&atilde;o a ouvir-lhe hist&oacute;rias<br \/>\n    ou a responder as suas perguntas afetuosas, e ela morreu antes de completar<br \/>\n    eu vinte anos; entretanto, n&atilde;o tinha a menor lembran&ccedil;a de fatos<br \/>\n    importantes que se deram depois, quer dom&eacute;sticos, quer particulares<br \/>\n    a mim, quer p&uacute;blicos.<\/p>\n<p>N&atilde;o me recordo mais quais foram os meus examinadores de Hist&oacute;ria<br \/>\n    Universal, dos seus nomes, nem das suas fisionomias. S&oacute; me lembro de<br \/>\n    que todos os tr&ecirc;s eram velhos, bem velhos, e me tratavam filialmente.<\/p>\n<p>Tinha, entretanto, j&aacute; treze anos de idade.<\/p>\n<p>Esse fraseado de advogado, que mais acima citei, jamais me saiu da mem&oacute;ria.<br \/>\n    De mim para mim pensei: se um simples b&ecirc;bedo pode gerar um assassino;<br \/>\n    um quase-assassino (meu pai) bem &eacute; capaz de dar origem a um bandido<br \/>\n    (eu). Assustava-me e revoltava-me. Seria poss&iacute;vel que a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    tal dissesse? N&atilde;o era poss&iacute;vel. Havia ali, por for&ccedil;a,<br \/>\n    uma ilus&atilde;o cient&iacute;fica, um exagero, sen&atilde;o uma verdadeira<br \/>\n    imperfei&ccedil;&atilde;o; e o meu pensamento de menino foi estud&aacute;-la,<br \/>\n    mas bem depressa, depois que a freq&uuml;&ecirc;ncia das pr&eacute;dicas positivistas<br \/>\n    deram-me, por nega&ccedil;&atilde;o, algumas vistas sobre as bases metaf&iacute;sicas<br \/>\n    das ci&ecirc;ncias, planejei estud&aacute;-las, decomp&ocirc;-las e marcar<br \/>\n    o grau de exatid&atilde;o dos seus m&eacute;todos, a sua conex&atilde;o com<br \/>\n    o real, a deforma&ccedil;&atilde;o que ele trazia ao que passava de fato bruto<br \/>\n    para o dado na teoria cient&iacute;fica; havia de aquilatar a colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fatalidade da nossa intelig&ecirc;ncia nas leis, na conting&ecirc;ncia<br \/>\n    delas, as id&eacute;ias primeiras &#8211; todo um programa de alta filosofia,<br \/>\n    de alta l&oacute;gica e metaf&iacute;sica eu esbo&ccedil;ava nas voltas com<br \/>\n    o c&aacute;lculo de &quot;pi&quot;.<\/p>\n<p>Parecia-me que est&aacute;vamos, quanto &agrave; experi&ecirc;ncia, ao m&eacute;todo<br \/>\n    experimental, caindo nos mesmos erros e exageros que os escol&aacute;sticos<br \/>\n    medievais com os seus princ&iacute;pios aristot&eacute;licos, seus silogismos<br \/>\n    e outras ilus&otilde;es e preconceitos l&oacute;gicos, bem etiquetados, enfileirados<br \/>\n    e disciplinados. Sobretudo, no que tocava aos confins da biologia e do que<br \/>\n    chamam sociologia ou estudos sociais, havia v&iacute;cios insan&aacute;veis<br \/>\n    de pensar, e tudo o que parecia indu&ccedil;&atilde;o, resultado de experi&ecirc;ncias<br \/>\n    honestas e conclus&otilde;es de documentos que os eq&uuml;ivaliam, devia merecer<br \/>\n    uma cr&iacute;tica rigorosa, n&atilde;o s&oacute; dessas experi&ecirc;ncias<br \/>\n    e documentos, como tamb&eacute;m dos instrumentos de observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de exame &#8211; cr&iacute;tica que, neste e naquele ponto, j&aacute; vinha<br \/>\n    sendo feita por esp&iacute;ritos mais livres, mais ousados, libertos das tiranias<br \/>\n    da tradi&ccedil;&atilde;o das academias e universidades.<\/p>\n<p>Tinha firme o prop&oacute;sito, quando pisava a pens&atilde;o, de abandonar<br \/>\n    o que vulgarmente se chama, entre n&oacute;s, estudos superiores e fazer com<br \/>\n    todo o afinco, segundo programa meu e o destino que tinha em vista, o que<br \/>\n    entendesse e da forma que entendesse.<\/p>\n<p>Por isso eu me aborrecia, como j&aacute; disse, quando dona Efig&ecirc;nia,<br \/>\n    com toda a sua un&ccedil;&atilde;o de mulher e de mo&ccedil;a, me perguntava<br \/>\n    pelos meus estudos oficiais.<\/p>\n<p>De acordo com o meu sistema, a ningu&eacute;m fizera confid&ecirc;ncia dessas<br \/>\n    minhas ten&ccedil;&otilde;es. Tinha para mim que todos, admitindo que eu fosse<br \/>\n    capaz de tudo ser, at&eacute; poeta, haviam de rir-se do meu singular e estupendo<br \/>\n    plano de trabalhos intelectuais. Se n&atilde;o me julgassem totalmente incapaz,<br \/>\n    certamente haviam de aconselhar-me:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Est&aacute; direito! Mas voc&ecirc; pode formar-se, pois uma<br \/>\n    coisa n&atilde;o impede outra.<\/p>\n<p>Impedia, sim. Com o diploma, o &quot;pergaminho&quot; da supersti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular, n&atilde;o permitia a censura geral que havia de reagir sobre mim,<br \/>\n    que ficasse eu copiando of&iacute;cios numa reparti&ccedil;&atilde;o do governo.<br \/>\n    Tinha que obter um emprego adequado ao meu t&iacute;tulo, para isto era necess&aacute;rio<br \/>\n    dar passos que me repugnavam: arranjar pistol&otilde;es, mendig&aacute;-los<br \/>\n    mesmo, para me colocar e, de acordo com a alta conta em que ent&atilde;o tinha<br \/>\n    as minhas faculdades mentais, para n&atilde;o fazer feio, estudar, estar ao<br \/>\n    par das coisas da profiss&atilde;o de que o Estado me investira solenemente,<br \/>\n    num canudo de folhas-de-flandres, curtindo um papel encorpado e uma caixa<br \/>\n    de prata com selo de lacre.<\/p>\n<p>Sobretudo este &uacute;ltimo passo n&atilde;o me convinha dar. Queria depender,<br \/>\n    o menos poss&iacute;vel, das pessoas poderosas, as &uacute;nicas capazes de<br \/>\n    me darem um emprego, e, conquanto elas nada exigissem, eu ficava tacitamente<br \/>\n    obrigado a n&atilde;o expender umas certas opini&otilde;es radicais sobre<br \/>\n    v&aacute;rias quest&otilde;es que as podiam interessar proximamente. De resto,<br \/>\n    aplicar-lhe, ao estudo de uma profiss&atilde;o liberal, o que exigia o meu<br \/>\n    amor-pr&oacute;prio, se a fosse exercer, seria desviar da aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    normal, da inclina&ccedil;&atilde;o natural e espont&acirc;nea da minha intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    que n&atilde;o me levava para isso.<\/p>\n<p>Sem nenhuma autoridade moral sobre mim, pois a &uacute;nica que tinha era<br \/>\n    meu pai, que morrera, estava firmemente decidido a executar o meu plano de<br \/>\n    vida, sem atender a conselhos quaisquer.<\/p>\n<p>Mandaria &agrave;s urtigas o &quot;pergaminho&quot;, o canudo, o lacre, o<br \/>\n    grau, o retrato de tabuleta, numa casa de modas na Rua do Ouvidor, e resignar-me-ia<br \/>\n    a ser tratado desgraciosamente por &quot;seu fulano&quot;.<\/p>\n<p>Aquele ano em que fui para a pens&atilde;o da vi&uacute;va Dias, ainda resolvi<br \/>\n    freq&uuml;entar, por minha conta e risco, sem cuidar da seria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oficial das mat&eacute;rias, certas aulas da escola, para aprender umas dadas<br \/>\n    no&ccedil;&otilde;es e id&eacute;ias que julgava necess&aacute;rio t&ecirc;-las;<br \/>\n    mas, no ano seguinte, n&atilde;o mais l&aacute; iria. Foi quando apareceu<br \/>\n    dona Efig&ecirc;nia.<\/p>\n<p>Apesar de fugir dela, a mo&ccedil;a estava sempre a puxar-me pela l&iacute;ngua.<br \/>\n    N&atilde;o sabia a que atribuir essa irresist&iacute;vel simpatia que se denunciava<br \/>\n    assim por mim. N&atilde;o me tinha como repelente, julgava-me mesmo simp&aacute;tico<br \/>\n    para os rapazes e homens; mas supor que o mesmo fosse para raparigas e mo&ccedil;as,<br \/>\n    era vaidade que n&atilde;o penetrava em minha pessoa.<\/p>\n<p>Ao menor pretexto, conversasse ela qualquer coisa com outro comensal da pens&atilde;o,<br \/>\n    voltava-se para mim e indagava:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o &eacute;, seu Mascarenhas? N&atilde;o &eacute; assim?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; isso?<\/p>\n<p>E deitava sobre mim aquele seu olhar de flecha, que fazia baixar o meu, timidamente.<\/p>\n<p>Estava sempre a procurar jeitos e modos para que eu falasse. Ora falava-me<br \/>\n    na guerra russo-japonesa, ora sobre os m&eacute;ritos de uma dessas ef&ecirc;meras<br \/>\n    celebridades que os jornais noticiavam a sua estadia; e eu respondia com muito<br \/>\n    acanhamento e timidez, e at&eacute;, em come&ccedil;o, com certo mau humor.<\/p>\n<p>Aos poucos, por&eacute;m, fui perdendo o medo; e, por fim, j&aacute; dava<br \/>\n    respostas mais longas, sustentava a palestra, levantava o olhar, n&atilde;o<br \/>\n    me limitando a respostas secas e curtas.<\/p>\n<p>Seguiu-se o cap&iacute;tulo dos livros emprestados: romances, livros de versos.<br \/>\n    Com as minhas fuma&ccedil;as de fil&oacute;sofo e sabich&atilde;o adolescente,<br \/>\n    desdenhava tudo isso, muito tolamente, porque ainda n&atilde;o houve s&aacute;bio<br \/>\n    ou fil&oacute;sofo de verdade que os desdenhasse, a n&atilde;o ser os do Brasil,<br \/>\n    que o s&atilde;o em fam&iacute;lia e, mal morrem, todos se esquecem deles<br \/>\n    e da sua portentosa mentalidade inovadora.<\/p>\n<p>As minhas leituras liter&aacute;rias eram poucas. Em menino, lia os autores<br \/>\n    nacionais: Alencar, Macedo, Manuel de Almeida, Alu&iacute;sio, Machado de<br \/>\n    Assis; e tamb&eacute;m os poetas: Gon&ccedil;alves Dias, Varela, Castro Alves<br \/>\n    e Gonzaga, de quem soube de cor v&aacute;rias liras da Mar&iacute;lia de Dirceu.<br \/>\n    J&uacute;lio Verne, por&eacute;m, era o meu encanto, pois me fazia sonhar<br \/>\n    no concreto de novas terras, novos mares, novos c&eacute;us e at&eacute; novos<br \/>\n    meios diferentes dos poss&iacute;veis de admitir, mesmo imaginando.<\/p>\n<p>Depois dos dezesseis anos, pouco procurei literatura, a n&atilde;o ser o<br \/>\n    Paulo e Virg&iacute;nia, o D. Quixote, o Robinson, que s&atilde;o livros geralmente<br \/>\n    conhecidos e universalmente prezados.<\/p>\n<p>N&atilde;o os tinha por&eacute;m, para emprestar &agrave; mo&ccedil;a, e<br \/>\n    tive que os pedir, por empr&eacute;stimo, para ser galante e servi&ccedil;al.<\/p>\n<p>A mos emprestar, era um meu colega, Nepomuceno, positivista simp&aacute;tico,<br \/>\n    pela m&atilde;o do qual fui &agrave;s confer&ecirc;ncias do senhor Teixeira<br \/>\n    Mendes e a outras festividades da Religi&atilde;o da Humanidade. A minha passagem<br \/>\n    pelo positivismo foi breve e ligeira. Freq&uuml;entei o apostolado cerca de<br \/>\n    um ano; mas, apesar de me ter convencido de muita coisa da escola, eu, at&eacute;<br \/>\n    hoje, nunca pude acreditar que aquele conjunto de doutrinas, capazes de falar<br \/>\n    e seduzir intelig&ecirc;ncias, fosse capaz de arrebatar cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o ardor e o fogo de uma f&eacute; religiosa.<\/p>\n<p>Deu-me, entretanto, a freq&uuml;&ecirc;ncia daquela curiosa igreja, o gosto<br \/>\n    pelas leituras de autores antigos, dos mestres que todos n&oacute;s, em geral,<br \/>\n    s&oacute; conhecemos de nome ou por cita&ccedil;&otilde;es de cita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Lembro-me bem que l&aacute; adquiri uma brochura do Discours de la M&eacute;thode,<br \/>\n    de Descartes, em tradu&ccedil;&atilde;o. Lia-a com aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem fadiga, antes com prazer. O que me encantou no livrinho do fil&oacute;sofo<br \/>\n    franc&ecirc;s foi preconizar ele a d&uacute;vida met&oacute;dica, sen&atilde;o<br \/>\n    sistem&aacute;tica, a t&aacute;bua rasa preliminar, para se chegar &agrave;<br \/>\n    certeza. Quando, mais tarde, pude ler, nos resumos, as suas Medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    Metaf&iacute;sicas, a minha admira&ccedil;&atilde;o cresceu ainda muito, aumentou<br \/>\n    sobremaneira, n&atilde;o tanto que o seguisse t&atilde;o r&aacute;pido quanto<br \/>\n    ele, da an&aacute;lise e da cr&iacute;tica, &agrave; constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    final&#8230; Demorava-me na an&aacute;lise&#8230;<\/p>\n<p>Al&eacute;m disto, gostava de Hist&oacute;ria e dos estudos hist&oacute;ricos<br \/>\n    e sociol&oacute;gicos das civiliza&ccedil;&otilde;es; dos fil&oacute;sofos<br \/>\n    franceses do s&eacute;culo XVIII, constitu&iacute; durante muito tempo minha<br \/>\n    leitura predileta. Tive mesmo, por aqueles tempos, um magn&iacute;fico exemplar<br \/>\n    da Esquisse d&#8217;un tableau du progr&eacute;s de l&#8217;espirit humain,<br \/>\n    seguido de v&aacute;rios op&uacute;sculos de estudos sociais de Condorcet,<br \/>\n    exemplar que n&atilde;o sei que sumi&ccedil;o teve.<\/p>\n<p>Com tais leituras rebarbativas, sen&atilde;o pedantes, e a biblioteca ortodoxa<br \/>\n    do Nepomuceno, via-me &agrave;s vezes muito embara&ccedil;ado, quando dona<br \/>\n    Efig&ecirc;nia me pedia:<\/p>\n<p>&#8211; Doutor Mascarenhas, o senhor n&atilde;o tem os versos do Bilac?<\/p>\n<p>N&atilde;o me vinha felizmente a burrice de dizer que os n&atilde;o lia;<br \/>\n    mas, constrangido, dizia que n&atilde;o tinha. Se dissesse mesmo que n&atilde;o<br \/>\n    lia, seria rematada hipocrisia, pois o fazia com emo&ccedil;&atilde;o e gozo,<br \/>\n    em toda a parte que os encontrava.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a, por&eacute;m, insistia:<\/p>\n<p>&#8211; Veja se me arranja.<\/p>\n<p>&#8211; Vou ver.<\/p>\n<p>Dava-me com um rapaz do Cear&aacute;, meu colega de curso, de nome Chagas,<br \/>\n    vadio que nem ele, mesmo estr&oacute;ina e desregrado, mas inteligente, bom<br \/>\n    camarada e dado a versos e a poetas, em cujo meio vivia. Possu&iacute;a muitos<br \/>\n    livros de versos e outros de autores liter&aacute;rios que eu me abstinha<br \/>\n    de ler. Morava na mesma casa de c&ocirc;modos que eu, &agrave; rua do Lavradio,<br \/>\n    o famoso 69, que conheceu gera&ccedil;&otilde;es e gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de estudantes. Era um sobrad&atilde;o de dois andares e loja, que devia ter<br \/>\n    sido constru&iacute;do nos fins da Reg&ecirc;ncia ou no come&ccedil;o do Segundo<br \/>\n    Reinado, forte, com amplas salas, &aacute;reas, mas assim mesmo escuro, iluminado<br \/>\n    somente por aquela meia-luz dos templos e dos mosteiros. Chagas levava na<br \/>\n    tro&ccedil;a o meu positivismo, mas &eacute;ramos amigos. Pedi-lhe o livro<br \/>\n    de Bilac. Ele sorriu e disse-me, entre malicioso e contente:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; est&aacute; namorando, Mascarenhas?<\/p>\n<p>&#8211; Porqu&ecirc;? Homessa!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Voc&ecirc;, positivista, lendo Bilac &#8211; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel! Isto &eacute; para &quot;algu&eacute;m&quot;, seu manata!<br \/>\n    Vou emprestar a voc&ecirc; o Bilac e &eacute; j&aacute;!<\/p>\n<p>Nunca me tinha passado semelhante coisa pela cabe&ccedil;a, pois me julgava<br \/>\n    completamente inapto para semelhante atividade e conformava-me orgulhosamente,<br \/>\n    por julgar tal incapacidade de bom aug&uacute;rio, para realizar os estudos<br \/>\n    que meditava. Chagas, por&eacute;m, fez-me ver melhor a mim mesmo, examinar<br \/>\n    mais detidamente as minhas atitudes diante da mo&ccedil;a e as modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que elas tinham sofrido, naqueles oito meses de conviv&ecirc;ncia pelo jantar<br \/>\n    e pelo almo&ccedil;o. N&atilde;o deixava de ter ele raz&atilde;o, em parte&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o me assustei com a descoberta e, da&iacute; por diante, as minhas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es com a mo&ccedil;a, filha da dona da pens&atilde;o,<br \/>\n    se estreitaram; e a minha solicitude pelas suas leituras chegou a tal ponto,<br \/>\n    que eu mesmo comprei livros para emprestar-lhe e at&eacute; lhe dar. Ela passou<br \/>\n    a chamar-me somente por &quot;doutor&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Uma manh&atilde;, levei Chagas a almo&ccedil;ar comigo. Chagas era um excelente<br \/>\n    rapaz de cora&ccedil;&atilde;o, generoso, cavalheiro, poeta sem verso nem<br \/>\n    prosa, mas tomava para mexer comigo, no dizer familiar, uma atitude sat&acirc;nica<br \/>\n    e c&iacute;nica. Logo que entrou e deu com a mo&ccedil;a, disse-me em vez<br \/>\n    baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Olha que ela n&atilde;o &eacute; m&aacute;, Mascarenhas. Para Musa<br \/>\n    &eacute; pouco escultural, tem muito pouco de Deusa; na rua das Marrecas,<br \/>\n    h&aacute; mais perfeitas; mas, para o fabrico dos feij&otilde;es e dos beb&ecirc;s,<br \/>\n    deve ser excelente.<\/p>\n<p>Fechei a cara e Chagas n&atilde;o continuou nesse diapas&atilde;o.<\/p>\n<p>Veio o Pinto, um dos fregueses da vi&uacute;va Dias, e, n&atilde;o havendo<br \/>\n    lugar nas outras mesas, sentou-se na nossa, justamente na cabeceira. Empenhou-se<br \/>\n    em uma conversa com Chagas, sobre Zola. Esse Pinto era um rapaz do com&eacute;rcio,<br \/>\n    que vim encontrar mais tarde em circunst&acirc;ncias bem tristes e de que<br \/>\n    falarei com vagar no decorrer desta narra&ccedil;&atilde;o; era inteligente,<br \/>\n    curioso, razoavelmente lido, tendo feito a sua educa&ccedil;&atilde;o e instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por si. Gostava de Zola, mas Chagas, que era nefelibata, decadente, s&iacute;mbolista<br \/>\n    ou coisa parecida, detestava o romancista franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>Tanto eu como o Pinto, pouco ou nada sab&iacute;amos dessas coisas de escolas<br \/>\n    liter&aacute;rias; e Chagas, apesar de enfronhado e devoto desses assuntos<br \/>\n    de literatura, n&atilde;o explicava claramente, nitidamente, a diferen&ccedil;a<br \/>\n    ou as diferen&ccedil;as que existiam entre elas. Falava nevoentamente, com<br \/>\n    grande calor, frases bonitas e novas; mas n&atilde;o as definia cabalmente.<br \/>\n    A discuss&atilde;o foi absolutamente in&oacute;cua, mas a mo&ccedil;a seguiu-a<br \/>\n    com aten&ccedil;&atilde;o e, com algum travo de ci&uacute;me, observei que<br \/>\n    ela bebia, saboreando, o palavreado de Chagas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ou no jantar desse mesmo dia &#8211; n&atilde;o me recordo<br \/>\n    bem &#8211; ela, mal me sentava &agrave; mesa para tomar a refei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ela se dirigiu a mim e perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Doutor Mascarenhas, aquele seu camarada que almo&ccedil;ou consigo,<br \/>\n    falou nos Cegos, de um autor belga, cujo nome&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Maeterlinck.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; isto. Ele ter&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei; mas, se tiver, h&aacute; de ser em franc&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o faz mal; serve assim mesmo.<\/p>\n<p>Muito indelicadamente, perguntei sem reflex&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora l&ecirc; franc&ecirc;s?<\/p>\n<p>&#8211; Com dificuldade, respondeu ela, mas leio. Aprendi com as irm&atilde;s,<br \/>\n    no col&eacute;gio.<\/p>\n<p>Trouxe o livro que, de fato, Chagas possu&iacute;a; e esse epis&oacute;dio<br \/>\n    me passou com muitos outros que, por aqueles tempos, me pareceram sem import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Escrevendo estas linhas hoje e percorrendo na lembran&ccedil;a toda a minha<br \/>\n    vida passada, causa-me assombro de que, em face de todos esses epis&oacute;dios,<br \/>\n    a minha atitude fosse de completo alheamento. Mais do que os grandes acontecimentos,<br \/>\n    na nossa vida, s&atilde;o os m&iacute;nimos que decidem o nosso destino; e<br \/>\n    esses pequenos fatos encadeados, aparentemente insignificantes, vieram influir<br \/>\n    na minha exist&ecirc;ncia, para a satisfa&ccedil;&atilde;o e para o desgosto.<br \/>\n    Entretanto, quando se davam, eu me limitava a responder o que ela me perguntava<br \/>\n    e, sem for&ccedil;a de consci&ecirc;ncia, fazia uma observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    banal.<\/p>\n<p>Foram precisos muitos e dolorosos acontecimentos, erros e guinadas, na minha<br \/>\n    vida, para que eu os reunisse todos na imagina&ccedil;&atilde;o e reconstitu&iacute;sse<br \/>\n    com eles a figura excepcional de minha mulher, que eu n&atilde;o soube ver<br \/>\n    quando viva.<\/p>\n<p>N&atilde;o era menino, mas o meu sonho interior, o meu orgulho, o pavor de<br \/>\n    parecer rid&iacute;culo, de mistura com uma forte deprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a que, &agrave; minha personalidade, eu mesmo tinha levado, tudo isso e outros<br \/>\n    fatores dif&iacute;ceis de registrar contribu&iacute;ram para que eu n&atilde;o<br \/>\n    visse, ou mal visse, a alma excepcional daquela pobre mo&ccedil;a, cujo olhar,<br \/>\n    onde n&atilde;o havia &oacute;dio, me amedrontava como se n&atilde;o fosse<br \/>\n    humano.<\/p>\n<p>Arrependo-me, embora n&atilde;o me sinta em nada culposo para com ela; arrependo-me<br \/>\n    por n&atilde;o a ter bem visto e n&atilde;o a ter extremado da massa humana,<br \/>\n    onde s&oacute; via indiferen&ccedil;a e incapacidade para o amor e para a<br \/>\n    bondade.<\/p>\n<p>Expiei bem duramente essa minha falta &iacute;ntima, que tantos sentimentos<br \/>\n    desencontrados fez surgir em mim, tantas dores deu nascimento, como ver&atilde;o<br \/>\n    no decorrer destas p&aacute;ginas, que s&atilde;o mais de uma simples obra<br \/>\n    liter&aacute;ria, mas uma confiss&atilde;o que se quer exteriorizar, para<br \/>\n    ser eficaz e salutar o arrependimento que ela manifesta.<\/p>\n<p>O abismo abriu-se a meus p&eacute;s e pe&ccedil;o a Deus que ele jamais me<br \/>\n    trague, nem mesmo o veja hiante aos meus olhos, como o vi por v&aacute;rias<br \/>\n    vezes&#8230;<\/p>\n<p>Como ia dizendo, por&eacute;m, continuei a emprestar livros a dona Efig&ecirc;nia<br \/>\n    e mesmo lia alguns dos que emprestava, para poder conversar com ela sobre<br \/>\n    as suas leituras. Assim, pouco a pouco, fui vencendo o fingido desprezo que<br \/>\n    tinha pela literatura; e, quase sem sentir, dei em me interessar pelas suas<br \/>\n    coisas. Deixei aquela falsa e tola atitude positivista de s&oacute; falar<br \/>\n    em Shakespeare, Dante e Moli&ecirc;re; e falei sem fingido pudor em outros<br \/>\n    autores, alguns menores, mas alguns t&atilde;o grandes quanto aqueles. De<br \/>\n    h&aacute; muito eu percebia, mas minha toleima infantil n&atilde;o queria<br \/>\n    dar o bra&ccedil;o a torcer, confess&aacute;-la. A conviv&ecirc;ncia com a<br \/>\n    mo&ccedil;a tirou-me afinal desse empacamento de muar letrado.<\/p>\n<p>Deu-se um incidente, por a&iacute;, que muita influ&ecirc;ncia teve ao depois<br \/>\n    no desenvolvimento da minha exist&ecirc;ncia: comecei a escrever.<\/p>\n<p>Animou-me a isto um outro colega meu, camarada &iacute;ntimo de Chagas, com<br \/>\n    quem morava e discutia dia e noite literatura.<\/p>\n<p>Era ele dado a escrever versos sat&iacute;ricos aos professores e a coisas<br \/>\n    de estudantes, para o que demonstrava singular habilidade e uma virtuosidade<br \/>\n    invej&aacute;vel. Tinha mesmo fundado um jornalzinho de estudante e arrastou-me<br \/>\n    a escrever nele. Colaborava com artiguetes t&iacute;midos, vacilantes, tratando<br \/>\n    de assuntos adequados ao meio, tro&ccedil;as a este ou &agrave;quele, pequenos<br \/>\n    coment&aacute;rios sobre este ou aquele fato. Foi assim que comecei. Houve<br \/>\n    quem apreciasse e gabasse mesmo; e tratei de aperfei&ccedil;oar-me. Tratei<br \/>\n    de ler os autores com cuidado, de observar como dispunham a mat&eacute;ria,<br \/>\n    como desenvolviam, a procurar teorias de estilo, e isto, como todo principiante,<br \/>\n    fui procurar no enfado dos cl&aacute;ssicos; mas, bem depressa, abandonei<br \/>\n    esse sestro e o meu escopo foi unicamente vazar o melhor poss&iacute;vel o<br \/>\n    pensamento que queria vazar no papel.<\/p>\n<p>Tinha um grande medo da gram&aacute;tica, dos galicismos, da reg&ecirc;ncia<br \/>\n    dos complementos, das concord&acirc;ncias especiais, por isso os escritos<br \/>\n    sa&iacute;am-me cautelosos, numa prosa um pouco dura, sem flu&ecirc;ncia;<br \/>\n    mas os outros, assim mesmo, achavam gra&ccedil;a no escrito.<\/p>\n<p>Apurei-me, afinei-me, escrevendo duas, tr&ecirc;s e mais vezes a mesma coisa;<br \/>\n    e estendi a minha colabora&ccedil;&atilde;o a jornaizinhos equivalentes ao<br \/>\n    do amigo de Chagas e, por interm&eacute;dio dele, meti-me na roda de estudantes<br \/>\n    literatos que abandonam as letras mal se formam, e tamb&eacute;m na de profissionais.<\/p>\n<p>Esqueci-me um momento dos meus prop&oacute;sitos de alto debate metaf&iacute;sico,<br \/>\n    de ferir a Ci&ecirc;ncia nas suas bases e contestar-lhe esse car&aacute;ter<br \/>\n    de confid&ecirc;ncia dos Deuses, que os pedantes querem dar-lhe, para justificarem<br \/>\n    a vaidade de que tresandam, por saber dela um poucochito, levando, com as<br \/>\n    suas asser&ccedil;&otilde;es arrogantes, tristeza no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos outros e disc&oacute;rdia entre os homens.<\/p>\n<p>Certo dia em que me pus a pensar nisso, veio-me a reflex&atilde;o de que<br \/>\n    n&atilde;o era mau que andasse eu a escrever aquelas tolices. Seriam como<br \/>\n    que exerc&iacute;cios para bem escrever, com fluidez, claro, simples, atraente,<br \/>\n    de modo a dirigir-me &agrave; massa comum dos leitores, quando tentasse a<br \/>\n    grande obra, sem nenhum aparelho rebarbativo e pedante de fraseologia especial<br \/>\n    ou um falar abstrato que faria afastar de mim o grosso dos legentes. Todo<br \/>\n    o homem, sendo capaz de discernir o verdadeiro do falso, por simples e natural<br \/>\n    intui&ccedil;&atilde;o, desde que se lhe ponha este em face daquele, seria<br \/>\n    muito melhor que me dirigisse ao maior n&uacute;mero poss&iacute;vel, com<br \/>\n    aux&iacute;lio de livros singelos, ao alcance das intelig&ecirc;ncias m&eacute;dias<br \/>\n    com uma instru&ccedil;&atilde;o geral, do que gastar tempo com obras s&oacute;<br \/>\n    capazes de serem entendidas por sabich&otilde;es enfatuados, abarrotados de<br \/>\n    t&iacute;tulos e tiranizados na sua intelig&ecirc;ncia pelas tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de escolas e academias e por preconceitos livrescos e de autoridades. Devia<br \/>\n    tratar de quest&otilde;es particulares com o esp&iacute;rito geral e exp&ocirc;-las<br \/>\n    com esse esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>De resto, &eacute; bem sabido que os especialistas, sobretudo de pa&iacute;ses<br \/>\n    sat&eacute;lites, como o nosso, s&atilde;o meros repetidores de asser&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    das notabilidades europ&eacute;ias, dispensando-se do dever mental de examinar<br \/>\n    a certeza das suas teorias, princ&iacute;pios, etc., mesmo quando versam sobre<br \/>\n    fatos ou fen&ocirc;menos que os cercam aqui, dia e noite, fazendo falta, por<br \/>\n    completo, aos seus colegas da estranja. Abdicam do direito de cr&iacute;tica,<br \/>\n    de exame, de livre-exame; e &eacute; como se volt&aacute;ssemos ao reg&iacute;men<br \/>\n    da autoridade.<\/p>\n<p>A verdade, por&eacute;m, &eacute; que, raciocinando assim, eu n&atilde;o<br \/>\n    fazia sen&atilde;o justificar-me, iludindo-me, de um desfalecimento no caminho<br \/>\n    que tinha prometido a mim mesmo trilhar. N&atilde;o s&oacute; abandonei os<br \/>\n    meus estudos particulares, satisfeito como sucesso de estima que tinha obtido<br \/>\n    no estreit&iacute;ssimo c&iacute;rculo de estudantes, como tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    liguei import&acirc;ncia alguma mais &agrave;s disciplinas escolares.<\/p>\n<p>Adiei os exames e deixei passar as duas &eacute;pocas, sem prestar nenhum.<br \/>\n    Pouco demorou que Efig&ecirc;nia n&atilde;o soubesse de minha estr&eacute;ia<br \/>\n    nas letras; e instasse comigo para que lhe trouxesse os jornais. Trouxe um<br \/>\n    ou outro e percebi que ela n&atilde;o tinha entendido as croniquetas. N&atilde;o<br \/>\n    era poss&iacute;vel ser de outra forma. Eram momentos, observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre epis&oacute;dios de uma classe, de vida muito &agrave; parte, com costumes<br \/>\n    muito seus e sempre a variar. Um dia, por&eacute;m, tentei um conto. Havia<br \/>\n    j&aacute; uma certa naturalidade na narra&ccedil;&atilde;o, alguma l&oacute;gica<br \/>\n    no encadeamento e no desenlace, mas sem frescura de emo&ccedil;&atilde;o diante<br \/>\n    das coisas vivas e mortas, e uma falta de ingenuidade doce, que precisava<br \/>\n    acentuar-se na hero&iacute;na.<\/p>\n<p>Era a tal hist&oacute;ria da rapariga que Efig&ecirc;nia me falou na hora<br \/>\n    da morte&#8230; A dar-lhe o continho, n&atilde;o fui eu; e at&eacute; hoje n&atilde;o<br \/>\n    sei como lhe chegou &agrave;s m&atilde;os. O certo &eacute; que sempre me<br \/>\n    falou nele, fazendo observa&ccedil;&otilde;es a respeito, como se o tivesse<br \/>\n    de cor. Ainda me lembro que um dia, j&aacute; est&aacute;vamos casados, ela,<br \/>\n    aludindo ao conteco, me perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc&ecirc; n&atilde;o descreveu mais o amor da rapariga?<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc&ecirc; pergunta isto? fiz eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, porqu&ecirc;! Porque ficava mais bonito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tive vergonha.<\/p>\n<p>Ela dardejou sobre mim o seu olhar de mal&iacute;cia, em que n&atilde;o havia<br \/>\n    o menor sinal de raiva, mas s&oacute; esfor&ccedil;o de penetra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e inquiriu:<\/p>\n<p>&#8211; Vergonha de qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sei.<\/p>\n<p>Disse isso, vexamos e nos calamos, como n&atilde;o precisando mais de palavras<br \/>\n    para nos entendermos.<\/p>\n<p>Tenho me alongado em detalhes que parecem n&atilde;o ter interesse algum<br \/>\n    para o meu primitivo objetivo; mas espero que, quem tiver a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    de me ler, h&aacute; de ach&aacute;-los necess&aacute;rios para a boa compreens&atilde;o<br \/>\n    desta hist&oacute;ria de uma vida sacudida por ang&uacute;stias &iacute;ntimas<br \/>\n    e dores silenciosas.<\/p>\n<p>Havia quase dois anos que eu comia na pens&atilde;o da vi&uacute;va Dias,<br \/>\n    quando ela caiu doente. Um ataque prostrou-a, e perdeu movimentos, e tudo<br \/>\n    levava a crer que morresse ou ficasse paral&iacute;tica. Parecia n&atilde;o<br \/>\n    ter parentes no Rio; e, a tal respeito, pouco sabia, pois nunca foi dos meus<br \/>\n    h&aacute;bitos essa nacional bisbilhotice dom&eacute;stica. Daqui e dali,<br \/>\n    uma frase hoje ou uma recorda&ccedil;&atilde;o amanh&atilde;, tinham-me feito<br \/>\n    crer que ela tinha ainda dois filhos, mas em Mato Grosso. Um, o mais velho,<br \/>\n    era oficial do Ex&eacute;rcito e l&aacute; vivia muito bem casado, interessado<br \/>\n    na pol&iacute;tica local e de l&aacute; n&atilde;o queria afastar-se; o outro<br \/>\n    era o mais mo&ccedil;o, mais mo&ccedil;o ainda que Efig&ecirc;nia, e vivia<br \/>\n    com o irm&atilde;o que, por n&atilde;o poder dar-lhe caminho qualquer, o fizera<br \/>\n    soldado, depois cabo, mas n&atilde;o conseguindo, por mais que se esfor&ccedil;asse,<br \/>\n    faz&ecirc;-lo sargento do seu batalh&atilde;o.<\/p>\n<p>S&oacute; isso sabia sobre a fam&iacute;lia da velha Dias e, conforme o meu<br \/>\n    g&ecirc;nio, dei-me por satisfeito.<\/p>\n<p>Durante alguns dias ainda, a mo&ccedil;a sua filha, fazendo todos os sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    dirigiu a pens&atilde;o; mas, ao chegar o fim do m&ecirc;s, avisou a todos<br \/>\n    n&oacute;s que ia fech&aacute;-la. N&atilde;o podia mais; a m&atilde;e exigia<br \/>\n    todos os cuidados, e ela n&atilde;o podia atender as duas coisas ao mesmo<br \/>\n    tempo: &agrave; m&atilde;e e ao neg&oacute;cio. Tiv&eacute;ssemos paci&ecirc;ncia<br \/>\n    e desculp&aacute;ssemos.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n&atilde;o vende? perguntou algu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o posso perder tempo em esperar quem apare&ccedil;a para<br \/>\n    comprar. Faremos leil&atilde;o de tudo. Eu, mam&atilde;e e Ana vamos morar<br \/>\n    nos sub&uacute;rbios, onde talvez minha m&atilde;e melhore.<\/p>\n<p>Ana era uma crioula de meia-idade, que chefiava a cozinha. N&atilde;o era<br \/>\n    bem uma criada; era uma esp&eacute;cie de agregada desse tipo especial de<br \/>\n    negras e pretas, criado pela escravatura, que seguem as fam&iacute;lias nos<br \/>\n    seus altos e baixos, s&atilde;o como parte integrante delas e morrem nelas.<\/p>\n<p>Reparei que, quando Efig&ecirc;nia respondeu daquela forma, olhou para mim,<br \/>\n    com menos afinco do que lhe era habitual, e que seu olhar, sempre enxuto e<br \/>\n    polido, tinha alguma n&eacute;voa &uacute;mida, uma angustiosa express&atilde;o<br \/>\n    de dor de quem n&atilde;o sabe ou n&atilde;o quer chorar.<\/p>\n<p>Aquele pequeno drama dom&eacute;stico, embora seja eu de natural bom, naquela<br \/>\n    ocasi&atilde;o, n&atilde;o me feriu muito, porque tinha ainda o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessecado por disparatadas ambi&ccedil;&otilde;es; agora, por&eacute;m, relembro,<br \/>\n    censurando-me a mim mesmo, por n&atilde;o ter sabido avaliar logo o tormento<br \/>\n    daquela pobre mo&ccedil;a, s&oacute; no mundo, a acompanhar a m&atilde;e que<br \/>\n    mal se movia no leito.<\/p>\n<p>Acabada a pens&atilde;o, deixei de saber not&iacute;cias delas, durante tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro meses. J&aacute; me passavam mesmo da lembran&ccedil;a, iam ficando<br \/>\n    no rol das fracas impress&otilde;es da vida, quando, com espanto, recebo um<br \/>\n    bilhete de Efig&ecirc;nia, pedindo-me fosse v&ecirc;-las, numa esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos sub&uacute;rbios. &quot;Minha m&atilde;e, dizia-me ela, tem melhorado;<br \/>\n    mas, mesmo assim e por isso, talvez, pede que o senhor venha at&eacute; c&aacute;,<br \/>\n    em aten&ccedil;&atilde;o a ela&quot;.<\/p>\n<p>N&atilde;o enxerguei no bilhete coisa alguma de extraordin&aacute;rio. O<br \/>\n    que me passou pela id&eacute;ia foi que precisassem de algum recurso de dinheiro<br \/>\n    e, em falta de outrem, apelassem para mim. Isto me punha em s&eacute;rios<br \/>\n    embara&ccedil;os, porquanto n&atilde;o dispunha de pronto de qualquer quantia<br \/>\n    e ser-me-ia doloroso negar-lhes o que me pedissem, pois era f&aacute;cil de<br \/>\n    supor as suas necessidades. Em todo o caso, disse de mim para mim, vou l&aacute;.<\/p>\n<p>Uma tarde, tomei o trem de sub&uacute;rbios e fui em demanda da casa das<br \/>\n    pobres senhoras. Viajei despreocupado, sem dar nenhuma import&acirc;ncia ao<br \/>\n    caso. O meu pensamento ia vagabundo para todos os lados, sem me deter em coisa<br \/>\n    alguma. A observa&ccedil;&atilde;o mais demorada que fiz, foi a da grotesca<br \/>\n    e impr&oacute;pria edifica&ccedil;&atilde;o dos sub&uacute;rbios, com as suas<br \/>\n    casas pretensiosas e palermas, ao jeito das dos bairros chics, a falta de<br \/>\n    jardins e &aacute;rvores, real&ccedil;ada pelos morros pelados, pedroucentos,<br \/>\n    que, de um lado, correm quase paralelamente ao leito da estrada e quase nele<br \/>\n    v&ecirc;m tocar&aacute; N&atilde;o parecia aquilo sub&uacute;rbios de uma<br \/>\n    grande e rica cidade; mas uma s&eacute;rie de vilarejos pedantes, a querer<br \/>\n    imitar as grandes cidades do pa&iacute;s. Totalmente lhes fazia falta de gracilidade<br \/>\n    e de frescor de meia ro&ccedil;a.<\/p>\n<p>Destarte, cheguei &agrave; esta&ccedil;&atilde;o em que moravam e fui ter<br \/>\n    &agrave; casa de dona Clementina Dias. Ficava longe da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    numa rua improvisada, mal delineada pelas casas escassas que se erguiam, tendo<br \/>\n    de permeio terrenos baldios, onde cresciam &aacute;rvores de capoeira de certo<br \/>\n    porte. Por toda a parte, jaqueiras, mangueiras, sebes de maric&aacute;s, al&eacute;m<br \/>\n    das ess&ecirc;ncias silvestres de que falei, enfim, muita &aacute;rvore e<br \/>\n    muita sombra doce e amiga. Se os arredores da esta&ccedil;&atilde;o tinham<br \/>\n    um ar pretensioso, de pretender-se um pequeno Rio de Janeiro, aquela rua long&iacute;nqua,<br \/>\n    simplesmente esbo&ccedil;ada, ensombrada de grandes &aacute;rvores, atapetada<br \/>\n    de capim e arbustos, tinha a parecen&ccedil;a de uma estrada, ou antes, de<br \/>\n    um trilho de ro&ccedil;a.<\/p>\n<p>Bati na porteira, pois tinha uma, ficando o chalezinho afastado da cerca<br \/>\n    que bordeava a rua. Era come&ccedil;o de mar&ccedil;o e os espinheiros dela<br \/>\n    estavam em flor, tocados de um branco flocoso e macio. Olhei as montanhas<br \/>\n    distantes; a tarde ia adiantada e elas se enegreciam e douravam-se e prateavam-se&#8230;<\/p>\n<p>Abriu-me a porta a mo&ccedil;a e, juntos, entramos na casa modesta, cuja<br \/>\n    planta &eacute; conhecida de todos na sua simplicidade mais que elementar.<br \/>\n    Um quadrado, ou quase isso, divide-se em quatro partes desiguais, as menores<br \/>\n    s&atilde;o quartos e as maiores salas que se comunicam entre si por uma porta.<br \/>\n    Um quarto fica do lado esquerdo e d&aacute; para a sala de visitas; e outro,<br \/>\n    do lado direito e tem comunica&ccedil;&atilde;o para a sala de jantar. H&aacute;<br \/>\n    um puxado, aos fundos, para a cozinha.<\/p>\n<p>Descansei o chap&eacute;u na sala de visitas e logo Efig&ecirc;nia me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Venha ver mam&atilde;e.<\/p>\n<p>Abriu a porta do quarto que dava para onde est&aacute;vamos e nele deparei<br \/>\n    a velha dona Clementina.<\/p>\n<p>Pareceu-me melhor. Tinha a fisionomia mais repousada. Estava deitada, n&atilde;o<br \/>\n    bem deitada, assim como que meio sentada, com o busto reclinado sobre grandes<br \/>\n    almofadas. Os olhos estavam bons e, ao contr&aacute;rio da filha, que tinha<br \/>\n    nos seus sempre uma grande firmeza, os dela eram incertos, distra&iacute;dos<br \/>\n    e erradios, humildes sempre de bondade e n&atilde;o sei de que vaga e indeterminada<br \/>\n    cisma.<\/p>\n<p>Perguntando-lhe se ia melhor, ela me disse lentamente:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, vou melhor, doutor; mas vivemos t&atilde;o s&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem tanto, dona Clementina. Tem a companhia de sua filha, da Ana,<br \/>\n    que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E do Nicolau, fez a mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8211; Que Nicolau? perguntei eu.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele que carregava marmitas, explicou a velha senhora. Ele n&atilde;o<br \/>\n    p&aacute;ra aqui.., vai trabalhar.<\/p>\n<p>&#8211; Qual trabalhar! acudiu a Ana, que chegava naquele momento. N&atilde;o<br \/>\n    sai das vendas e dos botequins&#8230; Uma vez ou outra faz um carreto, um biscate&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o digas isso, Ana. Sempre foi bom para n&oacute;s&#8230; Soube<br \/>\n    da minha mol&eacute;stia e veio logo nos ver&#8230; Que ser&iacute;amos n&oacute;s,<br \/>\n    neste deserto, sem um homem em casa. Ele nos serve e nos ajuda nas medidas<br \/>\n    de suas posses&#8230;<\/p>\n<p>Este Nicolau n&atilde;o era bem preto; tinha a tinta do rosto azeitonada,<br \/>\n    cabelos lisos e negros, embora a barba e o bigode fossem crespos. Fora pra&ccedil;a<br \/>\n    do Ex&eacute;rcito e muito chegado ao pai de Efig&ecirc;nia, que morrera capit&atilde;o.<br \/>\n    Tendo baixa, quando cismava e deixava os seus empregos de ocasi&atilde;o,<br \/>\n    procurava a casa da vi&uacute;va, ajudava-a nisto ou naquilo e um belo dia<br \/>\n    desaparecia, pois arranjava um trabalho neste ou naquele ponto da cidade e<br \/>\n    arredores. Corria o Rio de Janeiro, da Penha &agrave; G&aacute;vea, da Pra&ccedil;a<br \/>\n    do Mercado a Santa Cruz; conhecia-o todo, pois o palmilhava a p&eacute;, de<br \/>\n    bonde, de carro&ccedil;a, de autom&oacute;vel, s&oacute; n&atilde;o empregava<br \/>\n    o cavalo, e, assim mesmo, n&atilde;o se sabe se o fazia nas freguesias rurais.<\/p>\n<p>Nicolau era nortista, do Piau&iacute; ou do Cear&aacute;, mas viera muito<br \/>\n    mo&ccedil;o para um corpo do Ex&eacute;rcito, estacionado no Rio de Janeiro,<br \/>\n    e nunca mais quis sair da capital do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc&ecirc; n&atilde;o vai para sua terra, Nicolau, comer<br \/>\n    buriti e mangaba?<\/p>\n<p>&#8211; Pra que? dizia ele. Aqui tem tamb&eacute;m boa fruta; o carioca &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o sabe&#8230; Olhe: eu sempre acho.<\/p>\n<p>De fato, ele sempre descobria frutas, que trazia a dona Clementina, se n&atilde;o<br \/>\n    lhe acontecia achar comprador pelo caminho. Era fiel como um cachorro, servi&ccedil;al,<br \/>\n    prest&aacute;vel, mas despido de toda a ambi&ccedil;&atilde;o na vida. N&atilde;o<br \/>\n    procurava outro prazer na vida sen&atilde;o servir e beber cacha&ccedil;a.<br \/>\n    S&oacute; bebia cacha&ccedil;a; n&atilde;o suportava outra bebida.<\/p>\n<p>Ouvindo o que a m&atilde;e dizia a respeito de Nicolau, Efig&ecirc;nia observou<br \/>\n    com certa dureza:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, qual! Mam&atilde;e! Nicolau n&atilde;o serve pra nada&#8230; Se<br \/>\n    f&ocirc;ssemos fiar nele, est&aacute;vamos bem arranjados. Ele chega &agrave;<br \/>\n    noite, deita-se e dorme que nem uma pedra at&eacute; o dia seguinte. De que<br \/>\n    serve?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o diga isso, Efig&ecirc;nia; &eacute; sempre um companheiro.<br \/>\n    Tenha pena.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, mas a verdade deve se dizer.<\/p>\n<p>Com intuito de variar de conversa, perguntei de chofre:<\/p>\n<p>&#8211; E os seus filhos, dona Clementina?<\/p>\n<p>Ela me olhou com espanto, e eu, at&ocirc;nito, olhei dela para a mo&ccedil;a,<br \/>\n    que parecia censurar-me amargamente com os olhos.<\/p>\n<p>A velha, afinal, falou, e com raiva:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o me fale neles! Deixe-me&#8230; Deixe-me&#8230;<\/p>\n<p>Efig&ecirc;nia chamou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Venha c&aacute;, doutor Mascarenhas. Mam&atilde;e quer descansar.<\/p>\n<p>Anoitecia. Ainda havia cigarras retardat&aacute;rias a chilrear dentro da<br \/>\n    melancolia do fim do crep&uacute;sculo. Quando &iacute;amos saindo, a velha<br \/>\n    chamou:<\/p>\n<p>&#8211; Efig&ecirc;nia, endireita-me na cama.<\/p>\n<p>A sua voz j&aacute; era outra; a filha apressou-se em ajust&aacute;-la, em<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o conveniente nos travesseiros. Paral&iacute;tica de um<br \/>\n    lado, precisava a todo o instante de quem a auxiliasse para tudo. Mesmo com<br \/>\n    a m&atilde;o esquerda, que j&aacute; tinha ganho alguns movimentos, ela n&atilde;o<br \/>\n    podia afastar os cabelos, quando lhe ca&iacute;am sobre os olhos, sen&atilde;o<br \/>\n    com aux&iacute;lio de algu&eacute;m. Ao contr&aacute;rio de Efig&ecirc;nia,<br \/>\n    que os tinha escassos, os da m&atilde;e eram ainda abundantes e tinham poucos<br \/>\n    fios brancos.<\/p>\n<p>Logo que se viu em posi&ccedil;&atilde;o, disse-me:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Meu filho! Que supl&iacute;cio! Tenho que, a toda a hora e todo<br \/>\n    o instante, incomodar os outros&#8230; Estar parada n&atilde;o me incomoda tanto,<br \/>\n    mas&#8230; ter que aborrecer todos&#8230; e eu&#8230; e eu que s&oacute; tenho essa filha!<br \/>\n    Coitada!<\/p>\n<p>Sossegou um pouco e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; O que me aborrece tamb&eacute;m&#8230; O que me aborrece, doutor, &eacute;<br \/>\n    deix&aacute;-la s&oacute; por a&iacute;&#8230; Se, ao menos, ela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mam&atilde;e, sossega! Vamos falar em outra coisa! observou-lhe com<br \/>\n    alguma rispidez a filha.<\/p>\n<p>Eu e a Ana n&atilde;o diz&iacute;amos nada. N&oacute;s ambos adivinh&aacute;vamos<br \/>\n    que daquele di&aacute;logo entre m&atilde;e e filha sairia alguma coisa que<br \/>\n    interessava o Destino.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o! N&atilde;o! fez a velha com teimosia. Disseste que falavas,<br \/>\n    que confessavas&#8230; E tua m&atilde;e que te pede, diz a verdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>A velha tinha falado com uma energia pouco comum, com um forte acento de<br \/>\n    desespero; e a filha, s&uacute;plice e vexada. Eu n&atilde;o entendia nada<br \/>\n    daquela cena e a Ana, a quem interroguei com olhos, parecia sem espanto. Sorria<br \/>\n    a meio at&eacute;.<\/p>\n<p>Depois do balbucio, dirigindo-se a mim e &agrave; Efig&ecirc;nia, dona Clementina<br \/>\n    continuou com entono de ordem:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc;s devem se entender para o meu sossego.. V&atilde;o para<br \/>\n    a sala conversar, enquanto eu descanso um pouco. Ana, acende as l&acirc;mpadas.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia meio de eu atinar com o sentido de tudo aquilo. Estava no<br \/>\n    ar e me parecia ao mesmo tempo estar entre doidos. A vi&uacute;va ainda ordenou:<\/p>\n<p>&#8211; V&atilde;o.<\/p>\n<p>E obedeci ao convite de Efig&ecirc;nia:<\/p>\n<p>&#8211; Venha para a sala, &quot;seu&quot; Mascarenhas.<\/p>\n<p>Notei a mudan&ccedil;a de tratamento e segui-a. Sentou-se ela e uma cadeira<br \/>\n    e eu tamb&eacute;m. A porta do quarto estava fechada. A preta Ana ficara do<br \/>\n    lado de dentro. Ficamos uns instantes calados. A fisionomia de Efig&ecirc;nia<br \/>\n    era de opress&atilde;o, de vergonha, de ang&uacute;stia&#8230; Parecia sofrer<br \/>\n    por n&atilde;o poder chorar. J&aacute; tinha percebido nela essa dificuldade<br \/>\n    para o pranto. N&atilde;o dizia nada. Ao fim de instantes, ousei:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que h&aacute;, dona Efig&ecirc;nia?<\/p>\n<p>&#8211; Que h&aacute;? fez num ofego.<\/p>\n<p>&#8211; Sim; o que h&aacute;?<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute;&#8230; sim&#8230; h&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>Depois, como se tomasse coragem e alento, falou de um s&oacute; hausto:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n&atilde;o me tomar&aacute; mal, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>O tom de voz, o olhar, a atitude toda ela da mo&ccedil;a me pareceu de vergonha,<br \/>\n    de humilha&ccedil;&atilde;o, mas, ao mesmo tempo, do desejo de dizer, de confessar<br \/>\n    qualquer coisa que a trabalhava interiormente.<\/p>\n<p>Eu me perturbava, mas respondi com firmeza:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; motivo&#8230; Fale, minha senhora; seja franca!<\/p>\n<p>Ela acalmou-se, olhou-me com a sua firmeza habitual de olhar e perguntou-me<br \/>\n    naturalmente:<\/p>\n<p>&#8211; Eu amo, seu Mascarenhas; o senhor quer casar comigo?<\/p>\n<p>Esperava tudo, menos uma pergunta dessas. Vi logo as desvantagens do casamento.<br \/>\n    Ficaria preso, n&atilde;o poderia com liberdade executar o meu plano de vida,<br \/>\n    fugiria ao meu destino pelo dever em que estava de amparar minha mulher e<br \/>\n    a prole futura. Com os anos cresceriam as necessidades de dinheiro; e teria<br \/>\n    ent&atilde;o de pleitear cargos, promo&ccedil;&otilde;es, fosse formado ou<br \/>\n    n&atilde;o, e havia de ter for&ccedil;osamente patronos e protetores, que<br \/>\n    n&atilde;o deveria melindrar para n&atilde;o parecer ingrato. Onde ficaria<br \/>\n    o meu sonho de gl&oacute;ria, mesmo que fosse s&oacute; de demoli&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Onde ocultaria o meu &quot;pensamento de mocidade&quot;? Havia de sofrer muito,<br \/>\n    por ter fugido dele&#8230;<\/p>\n<p>De resto, mesmo que conseguisse aproximar-me da realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que planejava, o meu casamento era a nega&ccedil;&atilde;o da minha pr&oacute;pria<br \/>\n    obra.<\/p>\n<p>Apesar de toda a minha superioridade no momento, o meu orgulho me determinava<br \/>\n    que n&atilde;o desse essa prova p&uacute;blica de fraqueza; que n&atilde;o<br \/>\n    sancionasse com esse gesto o pensar geral; que n&atilde;o amaciasse o meu<br \/>\n    desgosto e n&atilde;o o tornasse in&uacute;til, para orquestrar superiormente<br \/>\n    a obra que meditava&#8230; Tudo isso me passou num segundo pelo pensamento e s&oacute;<br \/>\n    pude responder com uma exclama&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Eu!<\/p>\n<p>&#8211; Sim; voc&ecirc;, Mascarenhas!<\/p>\n<p>Ela percebia bem o meu car&aacute;ter, o meu natural hesitante e a minha<br \/>\n    disposi&ccedil;&atilde;o de inclinar-me sempre para o lado simp&aacute;tico.<br \/>\n    Ela j&aacute; me governava. Eu tremia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, minha senhora, &#8211; animei-me &#8211; sou apanhado assim<br \/>\n    de sopet&atilde;o&#8230; A senhora n&atilde;o me conhece bem&#8230; Sou cheio de defeitos,<br \/>\n    de caprichos&#8230; N&atilde;o v&aacute; se arrepender&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o sei como cheguei at&eacute; a&iacute;. Fosse arrastado pela fatalidade<br \/>\n    da palavra ou determinado por outra qualquer for&ccedil;a, o certo &eacute;<br \/>\n    que pronunciei aquele meio &quot;consinto&quot; &#8211; &quot;n&atilde;o v&aacute;<br \/>\n    se arrepender&quot;.<\/p>\n<p>Parece-me que tinha falado mais alto, a ponto de dona Clementina ouvir l&aacute;,<br \/>\n    de dentro do quarto, e dizer, que eu escutei:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb&eacute;m eu quero, doutor!<\/p>\n<p>Havia me esquecido desta. Olhei mais firme a filha. N&atilde;o tinha mais<br \/>\n    o aspecto de ang&uacute;stia, de vergonha, de humilha&ccedil;&atilde;o; os<br \/>\n    seus olhos n&atilde;o tinham mais aquela vontade incoerc&iacute;vel de chorar.<br \/>\n    A sua fisionomia estava risonha, banhada de alegria. Acudindo &agrave; m&atilde;e,<br \/>\n    ela respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Ele aceita, mam&atilde;e.<\/p>\n<p>N&atilde;o a desmenti e fomos at&eacute; a borda da cama de dona Clementina.<br \/>\n    A custo apertou-me a m&atilde;o, eu a beijei depois, e ela me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Abracem-se, meus filhos. Como estou satisfeita!<\/p>\n<p>Deu um suspiro muito longo e n&oacute;s nos abra&ccedil;amos. A Ana chorava,<br \/>\n    eu tamb&eacute;m, mas me sentia feliz&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\">II<\/a><\/h4>\n<p>Entrei no hosp&iacute;cio no dia de Natal. Passei as famosas festas, as tradicionais<br \/>\n    festas de ano, entre as quatro paredes de um manic&ocirc;mio. Estive no pavilh&atilde;o<br \/>\n    pouco tempo, cerca de vinte e quatro horas. O pavilh&atilde;o de observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma esp&eacute;cie de depend&ecirc;ncia do hosp&iacute;cio a que<br \/>\n    v&atilde;o ter os doentes enviados pela pol&iacute;cia, isto &eacute;, os<br \/>\n    tidos e havidos por miser&aacute;veis e indigentes, antes de serem definitivamente<br \/>\n    internados.<\/p>\n<p>Em si, a provid&ecirc;ncia &eacute; boa, porque entrega a liberdade de um<br \/>\n    indiv&iacute;duo, n&atilde;o ao alvedrio de policiais de todos os matizes<br \/>\n    e t&iacute;tulos, gente sempre pouco disposta a contrariar os poderosos; mas<br \/>\n    &agrave; consci&ecirc;ncia de um professor vital&iacute;cio, pois o diretor<br \/>\n    do pavilh&atilde;o deve ser o lente de psiquiatria da faculdade, pessoa que<br \/>\n    deve ser perfeitamente independente, possuir uma cultura superior e um julgamento<br \/>\n    no caso acima de qualquer injun&ccedil;&atilde;o subalterna.<\/p>\n<p>Entretanto, tal n&atilde;o se d&aacute;, porque as generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    policiais e o horror dos homens da Rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s responsabilidades<br \/>\n    se juntam ao horror &agrave;s responsabilidades dos homens do pavilh&atilde;o,<br \/>\n    para anularem o intuito do legislador.<\/p>\n<p>A pol&iacute;cia, n&atilde;o sei como e porqu&ecirc;, adquiriu a mania das<br \/>\n    generaliza&ccedil;&otilde;es, e as mais infantis. Suspeita de todo o sujeito<br \/>\n    estrangeiro com nome arrevesado, assim os russos, polacos, romaicos s&atilde;o<br \/>\n    para ela for&ccedil;osamente c&aacute;ftens; todo o cidad&atilde;o de cor<br \/>\n    h&aacute; de ser por for&ccedil;a um malandro; e todos os loucos h&atilde;o<br \/>\n    de ser por for&ccedil;a furiosos e s&oacute; transport&aacute;veis em carros<br \/>\n    blindados.<\/p>\n<p>Os super-agudos homens policiais deviam perceber bem que h&aacute; tantas<br \/>\n    formas de loucura quanto h&aacute; de temperamentos entre as pessoas mais<br \/>\n    ou menos s&atilde;s, e os furiosos s&atilde;o exce&ccedil;&atilde;o; h&aacute;<br \/>\n    at&eacute; dementados que, talvez, fossem mais bem transportados num coche<br \/>\n    f&uacute;nebre e dentro de um caix&atilde;o, que naquela antip&aacute;tica<br \/>\n    almanjarra de ferro e grades.<\/p>\n<p>&Eacute; indescrit&iacute;vel o que se sofre ali, assentado naquela esp&eacute;cie<br \/>\n    de solit&aacute;ria, pouco mais larga que a largura de um homem, cercado de<br \/>\n    ferro por todos os lados, com uma vigia gradeada, por onde se enxergam as<br \/>\n    caras curiosas dos transeuntes a procurarem descobrir quem &eacute; o doido<br \/>\n    que vai ali. A carriola, pesadona, arfa que nem uma nau antiga, no cal&ccedil;amento;<br \/>\n    sobe, desce, tomba pra aqui, tomba para ali; o pobre-diabo l&aacute; dentro,<br \/>\n    tudo liso, n&atilde;o tem onde se agarrar e bate com o corpo em todos os sentidos,<br \/>\n    de encontro &agrave;s paredes de ferro; e, se o jogo da carruagem d&aacute;-lhe<br \/>\n    um impulso para frente, arrisca-se a ir de fu&ccedil;as de encontro &agrave;<br \/>\n    porta de pra&ccedil;a-forte do carro-forte, a cair no v&atilde;o que h&aacute;<br \/>\n    entre o banco e ela, arriscando a partir as costelas&#8230; Um supl&iacute;cio<br \/>\n    destes, a que n&atilde;o sujeita a pol&iacute;cia os mais repugnantes e desalmados<br \/>\n    criminosos, entretanto, ela aplica a um desgra&ccedil;ado que teve a infelicidade<br \/>\n    de ensandecer, &agrave;s vezes, por minutos&#8230;<\/p>\n<p>&Eacute; uma provid&ecirc;ncia in&uacute;til e est&uacute;pida que, anteriormente,<br \/>\n    em parte, me aplicaram; contudo, posso garantir que iria para o hosp&iacute;cio<br \/>\n    muito pacificamente, com qualquer agente, fardado ou n&atilde;o. Era o bastante<br \/>\n    que me ordenassem segui-lo, em nome do poderoso chefe de pol&iacute;cia, eu<br \/>\n    obedeceria incontinenti, porquanto estou disposto a obedecer tanto ao de hoje<br \/>\n    como ao de amanh&atilde;, pois n&atilde;o quero, com a minha rebeldia, perturbar<br \/>\n    a felicidade que eles v&ecirc;m trazendo &agrave; sociedade nacional, extinguindo<br \/>\n    aos poucos o v&iacute;cio e o crime, que diminuem a olhos vistos.<\/p>\n<p>Por mais passageiro que seja o del&iacute;rio, um erg&aacute;stulo ambulante<br \/>\n    dessa conformidade s&oacute; pode servir para exacerb&aacute;-lo mais e tornar<br \/>\n    odiosa aos olhos do paciente uma provid&ecirc;ncia que pode ser ben&eacute;fica.<br \/>\n    A medicina, ou a sua subdivis&atilde;o que qualquer outro nome possua, deve<br \/>\n    dispor de inje&ccedil;&otilde;es ou l&aacute; que for, para evitar esse antip&aacute;tico<br \/>\n    e violento recurso, que transforma um doente em assassino nato involu&iacute;do<br \/>\n    para fera.<\/p>\n<p>Dessa feita, por&eacute;m, pouparam-me o carro-forte. Fui de. autom&oacute;vel<br \/>\n    e desde o Largo da Lapa sabia para onde ia. N&atilde;o tive o menor gesto<br \/>\n    de contrariedade, quando percebi isto, embora me aborrecesse passar pelo pavilh&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o guardava nenhum ressentimento dessa depend&ecirc;ncia da assist&ecirc;ncia<br \/>\n    a alienados, mas o seu horror &agrave; responsabilidade, que o impede de dar<br \/>\n    altas por si, fazia-me ver que eu, apesar de sentir-me perfeitamente s&atilde;o,<br \/>\n    tendo de passar por ele, teria for&ccedil;osamente de ficar segregado mais<br \/>\n    de um ou dois meses, entre doentes de todos matizes, educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    manias e quiz&iacute;lias. Tristes e dolorosas lembran&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>Feria-me tamb&eacute;m o meu amor-pr&oacute;prio ir ter ali pela m&atilde;o<br \/>\n    da pol&iacute;cia, do&iacute;a-me; e, mais me doeu, quando, nesse dia de Natal,<br \/>\n    eu tomei caf&eacute; num p&aacute;tio, sem ser mesa, e, sem ser em mesa, com<br \/>\n    prato sobre os joelhos, comi a refei&ccedil;&atilde;o elementar que me deram,<br \/>\n    servida numa escudela de estanho e que eu levava &agrave; boca com uma colher<br \/>\n    de penitenci&aacute;ria. Jamais pensei que tal coisa me viesse acontecer um<br \/>\n    dia; hoje, por&eacute;m, acho uma tal aventura &uacute;til, pois temperou<br \/>\n    o meu car&aacute;ter e certifiquei-me capaz de resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando, pela primeira vez, me recolheram ao hosp&iacute;cio, de fato a minha<br \/>\n    crise era profunda e exigia o meu afastamento do meio que me era habitual,<br \/>\n    para varrer do meu esp&iacute;rito as alucina&ccedil;&otilde;es que o &aacute;lcool<br \/>\n    e outros fatores lhe tinham trazido. Durou ela alguns dias seguintes; mas,<br \/>\n    ao chegar ao pavilh&atilde;o, j&aacute; estava quase eu mesmo e n&atilde;o<br \/>\n    apresentava e n&atilde;o me conturbava a m&iacute;nima perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental. Em l&aacute; chegando, tiraram-me a roupa que vestia, deram-me uma<br \/>\n    da &quot;casa&quot;, como l&aacute; se diz, formei em fileira ao lado de outros<br \/>\n    loucos, numa varanda, deram-me uma caneca de mate e gr&atilde;o e, depois<br \/>\n    de ter tomado essa refei&ccedil;&atilde;o vesperal, meteram-me num quarto-forte.<\/p>\n<p>At&eacute; ali, apesar de me terem despido &agrave; vista de todos &#8211;<br \/>\n    coisa que sempre me desagradou &#8211; n&atilde;o tinha raz&atilde;o de queixa;<br \/>\n    mas aquele quarto-forte provocou-me l&aacute;grimas. Eis em que tinham dado<br \/>\n    os meus altos projetos de menino. Por a&iacute;, n&atilde;o sei porqu&ecirc;,<br \/>\n    me lembrei de minha mulher morta, cuja lembran&ccedil;a o del&iacute;rio tinha<br \/>\n    afastado de minha mente; ganhei mais for&ccedil;as e entrei mais confiante<br \/>\n    naquela pris&atilde;o in&uacute;til&#8230;<\/p>\n<p>A&iacute;, tive tr&ecirc;s companheiros, dos quais dois eram inteiramente<br \/>\n    insuport&aacute;veis, que, a bem dizer, n&atilde;o me deixaram dormir. Um<br \/>\n    deles era um velho de cerca de sessenta anos, com umas vener&aacute;veis barbas<br \/>\n    de imagem, alto, a que chamavam os outros por S&atilde;o Pedro; o outro era<br \/>\n    um portugu&ecirc;s esguio, anguloso, mas s&oacute;lido de m&#038;uacutuacute;sculos<br \/>\n    e de p&eacute;s.<\/p>\n<p>Tinha este a mania de sapatear com for&ccedil;a e gesticular como se guiasse<br \/>\n    animais de carro ou carro&ccedil;a. Soltava, de onde em onde, interjei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    assovios; e fazia outros gestos e sinais usados pelos cocheiros, ao mesmo<br \/>\n    tempo que imitava com os p&eacute;s o esfor&ccedil;o de tra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos burros, quando se ap&oacute;iam nas patas a que o ch&atilde;o foge, a<br \/>\n    fim de arrastar a carro&ccedil;a. N&atilde;o esquecia de chamar as imagin&aacute;rias<br \/>\n    alim&aacute;rias pelos seus nomes de cocheira:<\/p>\n<p>&#8211; Eia, Jupira! Acerta, Corisco!<\/p>\n<p>&quot;S&atilde;o Pedro&quot; ficava, enquanto isto, ficava em outro canto,<br \/>\n    rezando, &agrave; meia voz, litanias, ou a orar em voz alta, tudo acompanhado<br \/>\n    de persigna&ccedil;&otilde;es rituais.<\/p>\n<p>Em certas ocasi&otilde;es, o palafreneiro e as invis&iacute;veis bestas corria<br \/>\n    para onde estava aquele, cego inteiramente. &quot;S&atilde;o Pedro&quot; afastava-se,<br \/>\n    mas prorrompendo em inj&uacute;rias muito pouco pr&oacute;prias a um santo<br \/>\n    t&atilde;o vener&aacute;vel.<\/p>\n<p>Quando n&atilde;o encontrava, de pronto, caminho livre para a sua fuga, atirava-se<br \/>\n    para qualquer lado. Mais de uma vez, quer um quer outro, quase me pisaram<br \/>\n    em cima da simples enxerga de capim que, com um travesseiro e uma manta, me<br \/>\n    haviam dado, para dormir.<\/p>\n<p>De uma feita, fugi de vez para a cama de um deles. Parecia-me que l&aacute;<br \/>\n    ficaria mais sossegado. Foi por a&iacute; que interveio o quarto companheiro.<br \/>\n    Era um preto que tinha toda a apar&ecirc;ncia de s&atilde;o, simp&aacute;tico,<br \/>\n    com aqueles belos dentes dos negros, l&iacute;mpidos e alvos, como o marfim<br \/>\n    daqueles elefantes que as florestas das terras dos seus pais criam. A sua<br \/>\n    apar&ecirc;ncia de sanidade era ilus&oacute;ria; soube, mais tarde, que ele<br \/>\n    era um epil&eacute;ptico declarado. O crioulo, vendo o meu embara&ccedil;o<br \/>\n    e a minha falta de h&aacute;bito daquela hospedaria, gritou en&eacute;rgico:<\/p>\n<p>&#8211; &quot;S&atilde;o Pedro&quot; vai rezar l&aacute; pra porta! E voc&ecirc;,<br \/>\n    cavalgadura (falava ao portugu&ecirc;s), fica dando coices &agrave; vontade,<br \/>\n    mas na cama de voc&ecirc;&#8230; Deixa o rapaz dormir sossegado!<\/p>\n<p>Agradeci ao negro e ele se p&ocirc;s a conversar comigo. Respondi-lhe com<br \/>\n    medo e cautela. Hoje, n&atilde;o me lembro de tudo o que ele me perguntou<br \/>\n    e do que lhe respondi; mas de uma pergunta me recordo:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o foi aprendiz marinheiro?<\/p>\n<p>Esta pergunta me p&ocirc;s bem ao par da situa&ccedil;&atilde;o onde tinha<br \/>\n    ca&iacute;do; era ela t&atilde;o humilde e pleb&eacute;ia, que s&oacute; se<br \/>\n    podia supor de mim, na vida, essa inicia&ccedil;&atilde;o modest&iacute;ssima<br \/>\n    de aprendiz marinheiro. Verifiquei tal fato, mas n&atilde;o me veio &#8211;<br \/>\n    confesso &#8211; um desgosto mais ou menos forte. Tive um desd&eacute;m por<br \/>\n    todas as minhas presun&ccedil;&otilde;es e fil&aacute;ucias, e at&eacute;<br \/>\n    fiquei satisfeito de me sentir assim. Encheu-me de contentamento tirar a prova<br \/>\n    provada de que, na vida, n&atilde;o era coisa alguma; estava mais livre, e<br \/>\n    os ventos e as correntes podiam-me levar de p&oacute;lo a p&oacute;lo, das<br \/>\n    costas da &Aacute;frica &agrave;s ilhas da Polin&eacute;sia&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando o guarda que nos veio abrir a porta, deu-me uma vassoura<br \/>\n    e um pano com que eu ajudasse a ele e outros a baldear o quarto-forte e a<br \/>\n    varanda, n&atilde;o fiz nenhum movimento de repulsa. Tomei os dois objetos<br \/>\n    e cumpri docilmente o mandato. O que me aborreceu, por&eacute;m, foi a minha<br \/>\n    falta de for&ccedil;as e h&aacute;bito de abaixar-me, para realizar t&atilde;o<br \/>\n    &uacute;til servi&ccedil;o. Havia-me preparado para todas as eventualidades<br \/>\n    da vida, menos para aquela, com que n&atilde;o contei nunca. Imaginei-me amarrado<br \/>\n    para ser fuzilado, esfor&ccedil;ando-me para n&atilde;o tremer nem chorar;<br \/>\n    imaginei-me assaltado por fac&iacute;noras e ter coragem para enfrent&aacute;-los;<br \/>\n    supus-me reduzido a maior mis&eacute;ria e a mendigar; mas por aquele transe<br \/>\n    eu jamais pensei ter de passar&#8230; Realizei, entretanto, o servi&ccedil;o at&eacute;<br \/>\n    o fim, e foi com uma fome honesta que comi p&atilde;o e tomei caf&eacute;.<\/p>\n<p>A faina n&atilde;o tinha cessado, e fui com outros levado a lavar o banheiro.<br \/>\n    Depois de lavado o banheiro, intimou-nos o guarda, que era bom espanhol (galego)<br \/>\n    r&uacute;stico, a tomar banho. T&iacute;nhamos que tirar as roupas e ficarmos,<br \/>\n    portanto, nus, uns em face dos outros. Quis ver se o guarda me dispensava,<br \/>\n    n&atilde;o pelo banho em si, mas por aquela nudez desavergonhada, que me repugnava,<br \/>\n    tanto mais que at&eacute; de outras depend&ecirc;ncias me parecia que nos<br \/>\n    viam. Ele, com os melhores modos, n&atilde;o me dispensou, e n&atilde;o tive<br \/>\n    rem&eacute;dio: pus-me nu tamb&eacute;m. Lembrei-me um pouco de Dostoi&eacute;vski,<br \/>\n    no c&eacute;lebre banho da Casa dos Mortos; mas n&atilde;o havia nada de parecido.<br \/>\n    Tudo estava limpo e o espet&aacute;culo era inocente, de uma traquinada de<br \/>\n    colegiais que ajustaram tomar banho em comum. As duchas, principalmente as<br \/>\n    de chicote, deram-me um prazer imenso e, se fora rico, havia de t&ecirc;-las<br \/>\n    em casa. Fazem-me saudades do pavilh&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>O guarda, como j&aacute; disse, era um galego baixo, forte, olhar medido,<br \/>\n    sagaz e bom. Era um primitivo, um camp&ocirc;nio, mas nunca o vi maltratar<br \/>\n    um doente.<\/p>\n<p>A sua sagacidade camp&ocirc;nia tinha emprego ali no adivinhar as manhas,<br \/>\n    planos de fuga dos clientes, e mais maroscas deles; mas, pouco habituado &agrave;s<br \/>\n    coisas urbanas, diante daquela maluqueira toda, uniformemente vestida, n&atilde;o<br \/>\n    sabia distinguir em nenhum deles variantes de instru&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    para ele, devia ser o seu pensar, e isto sem maldade, todos ali eram iguais<br \/>\n    e deviam saber baldear varandas. <\/p>\n<p>Teria para si, sem desprezar nenhum, que aqueles homens todos que para ali<br \/>\n    iam, eram pobres, humildes como ele e habituados aos mesteres mais humildes,<br \/>\n    sen&atilde;o, iriam diretamente para o hosp&iacute;cio. N&atilde;o deviam,<br \/>\n    por conseq&uuml;&ecirc;ncia da vexar-se por execut&aacute;-los.<\/p>\n<p>Desde l&aacute;, n&atilde;o o levei a mal, por ter-me conduzido &agrave;quelas<br \/>\n    baldea&ccedil;&otilde;es. Estava ele no seu papel, tanto mais que eu n&atilde;o<br \/>\n    era melhor do que outros a que o Destino me nivelara. Sofri, com resigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e, como j&aacute; disse, &agrave;s vezes mesmo com orgulho, o que poderia<br \/>\n    parecer a outrem humilha&ccedil;&atilde;o. Esqueci-me da minha instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da minha educa&ccedil;&atilde;o, para n&atilde;o demonstrar, com uma in&uacute;til<br \/>\n    insubordina&ccedil;&atilde;o, como que uma inj&uacute;ria aos meus companheiros<br \/>\n    de Desgra&ccedil;a. N&atilde;o reclamei; n&atilde;o reclamo e n&atilde;o reclamarei;<br \/>\n    conto unicamente.<\/p>\n<p>Parece-me que ele gostou da minha obedi&ecirc;ncia, pois deu-me cigarros;<br \/>\n    e, naquele dia ou no seguinte, escolheu-me para ir varrer os canteiros do<br \/>\n    jardim, isto &eacute;, os que circulavam o edif&iacute;cio da enfermaria.<\/p>\n<p>Por essa ocasi&atilde;o, confesso, vieram-me as l&aacute;grimas aos olhos.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o era mais o varrer, porque, mais de uma vez, varri a minha<br \/>\n    resid&ecirc;ncia; em menino, minha m&atilde;e fazia-me varrer a casa e fazer<br \/>\n    outros servi&ccedil;os menores, para n&atilde;o ficar em prosa; quando estudante,<br \/>\n    para poupar dinheiro, vasculhava o meu c&ocirc;modo. N&atilde;o era o varrer;<br \/>\n    era o varrer quase em p&uacute;blico, sob o olhar de tanta gente a que n&atilde;o<br \/>\n    ligava a infelicidade comum.<\/p>\n<p>Veio-me, repentinamente, um horror &agrave; sociedade e a vida; uma vontade<br \/>\n    de absoluto aniquilamento, mais do que aquele que a morte traz; um desejo<br \/>\n    de perecimento total da minha mem&oacute;ria na terra; um desespero por ter<br \/>\n    sonhado e terem me acenado tanta grandeza, e ver agora, de uma hora para outra,<br \/>\n    sem ter perdido de fato a minha situa&ccedil;&atilde;o, cair t&atilde;o, t&atilde;o<br \/>\n    baixo, que quase me pus a chorar que nem uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Senti muito a falta de minha mulher e toda a minha culpa, puramente moral<br \/>\n    e de consci&ecirc;ncia, subiu-me &agrave; mente&#8230; Pensei&#8230; N&atilde;o&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o&#8230; Era um crime&#8230;<\/p>\n<p>Tomei a vassoura de jardim, e foi com toda a decis&atilde;o que, cal&ccedil;ado<br \/>\n    com uns chinelos encardidos que haviam sido de outros, com umas cal&ccedil;as<br \/>\n    pelos tornozelos, em mangas de camisa, que fui varrer o jardim, mais mal vestido<br \/>\n    que um pobre gari.<\/p>\n<p>N&atilde;o dei, por&eacute;m, duas vassouradas. Um rapaz de bigode alourado,<br \/>\n    baixo, vestido com aquele roup&atilde;o de brim apropriado aos trabalhos de<br \/>\n    enfermaria, m&eacute;dico ou interno, cujo nome at&eacute; hoje n&atilde;o<br \/>\n    sei, aproximou-se de mim, chamou-me e perguntou-me quem tinha determinado<br \/>\n    fazer eu aquele servi&ccedil;o. Disse-lhe e o m&eacute;dico ou interno determinou<br \/>\n    que encostasse a vassoura e me fosse embora. Se nesse epis&oacute;dio, houve<br \/>\n    raz&atilde;o de desesperar, houve tamb&eacute;m a de n&atilde;o perder a esperan&ccedil;a<br \/>\n    nos homens e na sua bondade.<\/p>\n<p>Disse mais atr&aacute;s que tinha do pavilh&atilde;o recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tristes e dolorosas. Uma delas &eacute; a desse epis&oacute;dio e a outra<br \/>\n    &eacute; do p&aacute;tio, do terreiro em que est&aacute;vamos encurralados<br \/>\n    todo o dia, at&eacute; vir a hora de ir para os dormit&oacute;rios, pois eu<br \/>\n    estava num bem asseado.<\/p>\n<p>Habituado a andar por toda a parte, a fantasiar passeios extravagantes, quando<br \/>\n    n&atilde;o me prendem as obriga&ccedil;&otilde;es de escrever e de ler, ou<br \/>\n    ent&atilde;o a estar na reparti&ccedil;&atilde;o, enervava-me ficar, bem doze<br \/>\n    horas por dia, em t&atilde;o limitado espa&ccedil;o, sob a compassiva sombra<br \/>\n    de umas paineiras e amendoeiras.<\/p>\n<p>Os cigarros que tinha, fumava-os um sobre o outro, guardando as pontas para<br \/>\n    fabricar novos, com papel comum de jornal. Fumar assim era um meio de afastar<br \/>\n    o t&eacute;dio. Jornais, recebia irregularmente dos meus parentes, dos meus<br \/>\n    amigos e, uma ou outra vez, do chefe dos enfermeiros, que era muito af&aacute;vel.<\/p>\n<p>Conversar com os colegas era quase imposs&iacute;vel. N&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    nos entend&iacute;amos. Quando a mol&eacute;stia n&atilde;o os levava para<br \/>\n    um mutismo sinistro, o del&iacute;rio n&atilde;o lhes permitia juntar coisa<br \/>\n    com coisa.<\/p>\n<p>Um dia, um menino, ou antes, um rapaz dos seus dezessete anos, chegou-se<br \/>\n    perto de mim e me perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est&aacute; aqui por causa de algum assassinato?<\/p>\n<p>Estranhei a pergunta, que me encheu de espanto.<\/p>\n<p>Respondi:<\/p>\n<p>&#8211; Deus me livre! Estou aqui por causa de bebida &#8211; mais nada.<\/p>\n<p>O meu interlocutor acudiu com toda a naturalidade:<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu estou. O meu advogado arranjou&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o p&ocirc;de concluir. O guarda chamou-o com aspereza:<\/p>\n<p>&#8211; Narciso (ou outro nome), venha para c&aacute;. J&aacute; disse que<br \/>\n    n&atilde;o quero voc&ecirc; perto da cerca.<\/p>\n<p>N&atilde;o pude apurar a verdade do que me dizia esse tal Narciso ou que<br \/>\n    outro nome tenha. Soube que era fuj&atilde;o e, talvez por causa disso, foi<br \/>\n    logo transferido para o hosp&iacute;cio propriamente.<\/p>\n<p>Vivi assim cerca de uma semana, condenado ao sil&ecirc;ncio e ao isolamento<br \/>\n    mais est&uacute;pidos que se podem imaginar, junto a uma quase imobilidade<br \/>\n    de preso na solit&aacute;ria.<\/p>\n<p>Foram dias atrozes por isso, e s&oacute; por isso, os que padeci no pavilh&atilde;o;<br \/>\n    mas, em breve, depois que um m&eacute;dico moreno, de &oacute;culos, um mo&ccedil;o,<br \/>\n    pois o era, em toda a linha, inteligente, simp&aacute;tico e bom, ter-me minuciosamente<br \/>\n    examinado o estado mental e nervoso, a monotonia do p&aacute;tio foi quebrada<br \/>\n    com o fazer eu as refei&ccedil;&otilde;es no comedouro dos enfermeiros. Deixava<br \/>\n    um pouco o p&aacute;tio, aquele curral de malucos vulgares.<\/p>\n<p>Pouco me recordo dos doentes que ali encontrei, a n&atilde;o ser do tal menino,<br \/>\n    cuja palestra comigo interrompeu-a uma reprimenda do guarda.<\/p>\n<p>N&atilde;o me lembro se tudo que j&aacute; narrei, foi tudo o que ele me<br \/>\n    disse ou perguntou; mas, fosse del&iacute;rio ou fosse verdade, &eacute; &agrave;<br \/>\n    imagem dele que ainda hoje associo a lembran&ccedil;a do pavilh&atilde;o e<br \/>\n    a do seu p&aacute;tio.<\/p>\n<p>Doutra forma n&atilde;o era poss&iacute;vel a contasse, &agrave; vista de<br \/>\n    um conhecimento que se trava por interm&eacute;dio de t&atilde;o fant&aacute;stica<br \/>\n    pergunta: <\/p>\n<p>&#8211; O senhor est&aacute; aqui por causa de algum assassinato?<\/p>\n<p>Criminoso que fosse, ele mesmo, a sua pessoa n&atilde;o me meteu medo, como,<br \/>\n    em geral, n&atilde;o me assustam os criminosos; mas a candura, a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    e a naturalidade, em que n&atilde;o senti cinismo, com que ele respondeu &#8211;<br \/>\n    &quot;pois eu estou&quot; &#8211; causaram-me n&atilde;o sei que ang&uacute;stia,<br \/>\n    n&atilde;o sei que tristeza, n&atilde;o sei que mal-estar.<\/p>\n<p>Aquele menino, quase imberbe, falava-me de seu crime, como se fosse a coisa<br \/>\n    mais trivial desta vida, um simples incidente, uma p&acirc;ndega ou um contratempo<br \/>\n    sem import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Todas as minhas id&eacute;ias anteriores a tal respeito estavam completamente<br \/>\n    abaladas; e me veio a pensar, coisa que sempre fiz, no fundo da nossa natureza,<br \/>\n    na cl&aacute;ssica indaga&ccedil;&atilde;o da sua subst&acirc;ncia ativa,<br \/>\n    na alma, na parte que ele tomava nos nossos atos e na sua origem.<\/p>\n<p>At&eacute; bem pouco, quase nada me preocupava com tais quest&otilde;es;<br \/>\n    tinha-as por insol&uacute;veis, e tomar tempo com o querer resolv&ecirc;-las<br \/>\n    era trabalho perdido. Entretanto, os transtornos e as dores da minha vida<br \/>\n    dom&eacute;stica tinham-me levado &agrave;s vezes a pensar nelas. Procurei<br \/>\n    estabelecer, para meu uso particular, uma teoria que, for&ccedil;osamente,<br \/>\n    me saiu por demais simplista, a fim de explicar a nossa exist&ecirc;ncia e<br \/>\n    a do mundo, assim como as rela&ccedil;&otilde;es entre os dois. N&atilde;o<br \/>\n    tinha chegado ao mist&eacute;rio, ao espesso mist&eacute;rio impenetr&aacute;vel,<br \/>\n    em n&oacute;s e fora de n&oacute;s. Isto que escrevo, agora, aqui, n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; propriamente muito meu; mas o g&eacute;rmen que havia em mim n&atilde;o<br \/>\n    fez mais que se desenvolver mais tarde, com o adubo das id&eacute;ias dos<br \/>\n    outros.<\/p>\n<p>Repugnava-me personalizar com este ou aquele nome o desconhecido, o informe,<br \/>\n    o vago. Dar um apelido seria limitar o ilimitado, definir o indefinido, distinguir<br \/>\n    o indistinto, fazer perec&iacute;vel o imperec&iacute;vel. Sendo tudo, em<br \/>\n    face do nada, e nada, em face de tudo, esse ser n&atilde;o devia ter corpo,<br \/>\n    nem forma, nem extens&atilde;o, nem movimento, nem outra qualidade qualquer<br \/>\n    com que n&oacute;s conhecemos as coisas existentes. O nosso ideal, a nossa<br \/>\n    felicidade seria ser como ele, e, para alcan&ccedil;&aacute;-lo, dev&iacute;amos<br \/>\n    procurar a nossa desincorpora&ccedil;&atilde;o, pela imobilidade e pela contempla&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O s&aacute;bio &eacute; n&atilde;o agir. Quando li esta conclus&atilde;o nos<br \/>\n    meus manuais baratos de filosofia, assustei-me. Aceitava a concep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas a conclus&atilde;o me repugnava. Se verdade era que, em presen&ccedil;a<br \/>\n    desse tumulto da vida, desse entrechocar de ambi&ccedil;&otilde;es, as mais<br \/>\n    vis e imundas, desse batalhar sem termo e sem causa, o homem beneficiado pela<br \/>\n    sabedoria tinha o dever superior de afastar-se disso tudo e tudo isso contemplar<br \/>\n    com piedade; era verdade tamb&eacute;m que a a&ccedil;&atilde;o, julguei assim,<br \/>\n    seria favor&aacute;vel &agrave; nossa reincorpora&ccedil;&atilde;o no indistinto,<br \/>\n    no imperec&iacute;vel, desde que fosse orientada para o Bem. Como conhecer<br \/>\n    o Bem? O meu esp&iacute;rito n&atilde;o encontrava, para sinal de seu conhecimento,<br \/>\n    sen&atilde;o na revela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima. Os problemas &uacute;ltimos<br \/>\n    da nossa natureza moral, nas minhas cogita&ccedil;&otilde;es, ficaram a&iacute;,<br \/>\n    e dei-me por satisfeito; mas &#8211; chega-me esse pequeno criminoso e me<br \/>\n    p&otilde;e tudo de pernas para o ar! Por que, pensei eu, se cada consci&ecirc;ncia<br \/>\n    fala ao indiv&iacute;duo de uma maneira, sobre o bem e sobre o mal, como na<br \/>\n    desse rapazola, que n&atilde;o podia ter sofrido outras influ&ecirc;ncias<br \/>\n    duradouras que n&atilde;o as dele mesmo; se os homens n&atilde;o se encontram<br \/>\n    a respeito numa opini&atilde;o &uacute;nica, como distingui-las &#8211; Deus<br \/>\n    do C&eacute;u? <\/p>\n<p>O curto encontro com esse rapazola criminoso, ali, naquele p&aacute;tio,<br \/>\n    mergulhado entre malucos a delirar, a fazer esgares, uns; outros, semimortos,<br \/>\n    aniquilados, anulados, encheram-me de um grande pavor pela vida e de um sentimento<br \/>\n    profundo da nossa incapacidade para compreender a vida e o universo.<\/p>\n<p>Lembrei-me, ent&atilde;o, dos outros tempos em que supus o universo guiado<br \/>\n    por leis certas e determinadas, em que nenhuma vontade, humana ou n&atilde;o,<br \/>\n    a elas estranhas, poderia intervir, leis que a ci&ecirc;ncia humana iria aos<br \/>\n    poucos desvendando&#8230; N&atilde;o sorri inteiramente; mas achei tal coisa ing&ecirc;nua<br \/>\n    e que todo o saber humano s&oacute; seria &uacute;til para as suas necessidades<br \/>\n    elementares de vida e nunca conseguiria explicar a sua origem e o seu destino.<br \/>\n    Tudo mist&eacute;rio e sempre mist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Em tal estado de esp&iacute;rito, penetrado de um profundo niilismo intelectual,<br \/>\n    foi que penetrei no hosp&iacute;cio, pela primeira vez; e o grosso espet&aacute;culo<br \/>\n    doloroso da loucura mais arraigou no esp&iacute;rito essa concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um mundo brumoso, quase mergulhado nas trevas, sendo unicamente percept&iacute;vel<br \/>\n    o sofrimento, a dor, a mis&eacute;ria, e a tristeza a envolver tudo, tristeza<br \/>\n    que nada pode espancar ou reduzir. Entretanto, pareceu-me que ver a vida assim<br \/>\n    era v&ecirc;-la bela, pois acreditei que s&oacute; a tristeza, s&oacute; o<br \/>\n    sofrimento, s&oacute; a dor faziam com que n&oacute;s nos comunic&aacute;ssemos<br \/>\n    com o Logos, com a Origem das Coisas e de l&aacute; troux&eacute;ssemos alguma<br \/>\n    coisa transcendente e divina. Shelley, se bem me recordo, j&aacute; dizia:<br \/>\n    &quot;Os nossos mais belos cantos s&atilde;o aqueles que falam de pensamentos<br \/>\n    tristes&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Toda a minha vida particular, toda a minha exist&ecirc;ncia dom&eacute;stica,<br \/>\n    quer de filho, quer de chefe, tendia para conceber e praticar essa concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Universo, s&oacute; sentido e representado em n&oacute;s pelos seus aspectos<br \/>\n    sombrios.<\/p>\n<p>Casado, como j&aacute; contei, com tantas reservas &iacute;ntimas, vivi cinco<br \/>\n    anos com minha mulher, at&eacute; &agrave; sua morte, na mais perfeita paz<br \/>\n    de dec&ecirc;ncia dom&eacute;stica. Logo ap&oacute;s passar o meu primeiro<br \/>\n    ano de casamento, a&iacute; pelo nascimento do meu primeiro e &uacute;nico<br \/>\n    filho, sua m&atilde;e, a minha sogra, melhorara muito das conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    do ataque, ganhara quase todos os movimentos, mas de ju&iacute;zo n&atilde;o<br \/>\n    me saiu muito s&atilde; e o foi perdendo aos poucos, at&eacute; chegar &agrave;<br \/>\n    mania declarada.<\/p>\n<p>Foi depois da morte de Efig&ecirc;nia que o meu pensamento fez-me viver uma<br \/>\n    vida desnorteada, que me levou duas vezes ao manic&ocirc;mio.<\/p>\n<p>O meu primeiro ano de casamento correu mansamente, da forma mansa e vulgar<br \/>\n    de todos os enlaces da esp&eacute;cie do meu. N&atilde;o tinha por minha mulher<br \/>\n    grandes extremos de sentimento; dominava em mim, por&eacute;m, a imagem das<br \/>\n    minhas responsabilidades de marido, e as cumpri como um dever sagrado. Estimava-a,<br \/>\n    prezava-a, mais como um companheiro, como um amigo, do que mesmo objeto de<br \/>\n    uma profunda solicita&ccedil;&atilde;o da minha total natureza. Reprimia mesmo<br \/>\n    o m&iacute;nimo movimento nesse sentido, porque sempre tive vexame, pudor<br \/>\n    de amar.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe dizia as coisas mais secretas a mim mesmo. Dos meus planos<br \/>\n    de vida, dos meus projetos intelectuais, n&atilde;o lhe confidenciava palavra,<br \/>\n    nem dos meus des&acirc;nimos, nem dos meus desalentos. Mal lhe noticiava o<br \/>\n    aparecimento de um trabalho nesta ou naquela pequena revista ou jornal obscuro.<br \/>\n    N&atilde;o s&oacute; motivava isso um certo desd&eacute;m pela sua intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e instru&ccedil;&atilde;o, como tamb&eacute;m por temer que ela me desanimasse<br \/>\n    e censurasse os meus prop&oacute;sitos liter&aacute;rios, porque ela sempre<br \/>\n    teve sobre mim um grande ascendente, sen&atilde;o imp&eacute;rio moral.<\/p>\n<p>Os nossos sentimentos nunca s&atilde;o l&oacute;gicos, por isso mesmo n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o simples. Eu respeitava muito minha mulher, via-a, &agrave;s vezes,<br \/>\n    interessada pelas minhas tentativas; mas n&atilde;o me queria abrir com ela,<br \/>\n    dizer tudo, temendo que a sua med&iacute;ocre condi&ccedil;&atilde;o de pequena<br \/>\n    e modesta burguesa n&atilde;o se assustasse com as minhas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    intelectuais. Encerrava-me em mim mesmo e sofria. Sem inquietar-me que toda<br \/>\n    a gente percebesse a minha rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima, para a qual<br \/>\n    n&atilde;o sabiam, at&eacute;, onde procurar a fonte, fazia, contudo, todos<br \/>\n    os esfor&ccedil;os, para que Efig&ecirc;nia n&atilde;o a percebesse em mim<br \/>\n    e nos meus escritos.<\/p>\n<p>Veio, por&eacute;m, um acontecimento, que me obrigou a desvendar-me um tanto.<br \/>\n    Gra&ccedil;as ao meu amigo Chagas, pouco depois do nascimento de meu filho,<br \/>\n    fiz parte, como colaborador, da reda&ccedil;&atilde;o de uma revista do g&ecirc;nero<br \/>\n    denominado humor&iacute;stico, que se acabava de fundar e era dirigida por<br \/>\n    quem sabia explorar a ind&uacute;stria da publicidade. Tinha eu a&iacute;<br \/>\n    um razo&aacute;vel ordenado mensal, que sempre empreguei honestamente, e a<br \/>\n    Gatimanhas, tal era o nome da publica&ccedil;&atilde;o, fez sucesso. N&atilde;o<br \/>\n    pude esconder isso &agrave; minha mulher e ela pareceu alegrar-se; mas, com<br \/>\n    o meu esp&iacute;rito sistem&aacute;tico, n&atilde;o quis ver, na sua alegria,<br \/>\n    sen&atilde;o o contentamento pelo acr&eacute;scimo da renda do casal.<\/p>\n<p>De h&aacute; muito tinha abandonado a escola superior que freq&uuml;entava;<br \/>\n    e, embriagado com o sucesso de estima que ia fazendo, na revistinha, esquecia-me<br \/>\n    dos meus estudos, das minhas leituras, sem, contudo, procurar reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no g&ecirc;nero que ela representava. Sa&iacute;a da reparti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ia ao escrit&oacute;rio da publica&ccedil;&atilde;o, entregava originais,<br \/>\n    conversava um pouco, jantava nos freges liter&aacute;rios e ficava at&eacute;<br \/>\n    &agrave; meia-noite nas cervejarias. Quase sempre encontrava minha mulher<br \/>\n    acordada, costurando, fazendo crochet ou mesmo lendo.<\/p>\n<p>N&atilde;o chegava muito s&atilde;o, mas minha embriaguez era discreta e<br \/>\n    pouco evidente. Nunca ela me disse nada; nunca lhe fiz a m&iacute;nima m&aacute;-cria&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Passava assim durante a semana; e s&oacute; no domingo ficava em casa ou sa&iacute;a<br \/>\n    com ela a passeio ou a visitas. Evitava muito estas, pois me aborreciam; eu<br \/>\n    estava naquele per&iacute;odo inicial de literato que s&oacute; quer ouvir<br \/>\n    falar de literatura ou coisas liter&aacute;rias. As conversas familiares me<br \/>\n    entediavam, e n&atilde;o sabia sustent&aacute;-las. Enquanto minha sogra n&atilde;o<br \/>\n    ficou declaradamente doida, era ela as mais das vezes quem acompanhava minha<br \/>\n    mulher; mas, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que ensandecia, deixou de faze-lo,<br \/>\n    e eu tive de acompanh&aacute;-la.<\/p>\n<p>A minha entrada na Gatimanhas e o h&aacute;bito de freq&uuml;entar chopes,<br \/>\n    adquiri depois de ter meu filho, Boaventura, um ano. Antes, eu vinha cedo<br \/>\n    para a casa. Minha sogra, apesar da decad&ecirc;ncia de seu estado mental,<br \/>\n    e a preta Ana gostavam muito do pequenote, que havia nascido robusto, forte,<br \/>\n    mas com um mau feitio de cabe&ccedil;a, que me desgostava.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha eu, por&eacute;m, conquanto pai, tanto gasto de ternura<br \/>\n    com ele; e se o queria animar e acalentar, fazia-o com a mais total falta<br \/>\n    de jeito de que uma criatura &eacute; capaz.<\/p>\n<p>&#8211; Arre, Vicente! dizia minha mulher. Voc&ecirc; n&atilde;o sabe pegar<br \/>\n    numa crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe dizia nada ou sen&atilde;o passava-lhe a crian&ccedil;a, observando:<\/p>\n<p>&#8211; Pega l&aacute;, voc&ecirc;, que sabe! Isto &eacute; mesmo servi&ccedil;o<br \/>\n    de mulher.<\/p>\n<p>Mais de uma vez, ao lhe dizer isto, minha mulher dizia, meio s&eacute;ria,<br \/>\n    meio brincando:<\/p>\n<p>&#8211; D&aacute; c&aacute;, meu caboclinho! D&aacute; c&aacute;! Diz pra<br \/>\n    ele, meu filhinho, diz: deixa estar! Quando voc&ecirc; se casar, segunda vez,<br \/>\n    h&aacute; de saber tamb&eacute;m. Diz, meu filhinho.<\/p>\n<p>E se punha a acalentar a crian&ccedil;a, cantarolando qualquer coisa adequada.<br \/>\n    Em outras vezes, o di&aacute;logo continuava, desta maneira, ap&oacute;s a<br \/>\n    minha pergunta, cheia de surpresa:<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; isto, Efig&ecirc;nia, segunda vez?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, quando eu morrer; porque eu s&oacute; me casei com voc&ecirc;,<br \/>\n    para ensinar a voc&ecirc; estas coisas.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; tem cada uma&#8230; Ora, bolas!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Eu sei&#8230; Voc&ecirc; ganha nome, &eacute; capaz de formar-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Disse a voc&ecirc;, antes de nos casarmos, que n&atilde;o me formava<br \/>\n    mais, n&atilde;o foi? Quanto a mulher, voc&ecirc; sabe muito bem o que vale&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Enfeita, pelo menos.<\/p>\n<p>&#8211; Se &eacute; assim, voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; recebendo os<br \/>\n    enfeites.<\/p>\n<p>&#8211; A mim! Voc&ecirc; nem ao menos me diz o que escreve&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Foi. Mas pensei que voc&ecirc; se entregasse a estudos altos. Voc&ecirc;<br \/>\n    se enveredou, por&eacute;m, por essas coisinhas de revistas sem import&acirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>Por a&iacute;, eu olhei minha mulher, espantado com a sua reflex&atilde;o,<br \/>\n    e ela, que estava sentada do outro lado da mesa em que eu escrevia, olhava-me<br \/>\n    muito s&eacute;ria, sem dureza, debru&ccedil;ada, com a m&atilde;o na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    apoiada no m&oacute;vel, com um ar misterioso que n&atilde;o pude decifrar.<\/p>\n<p>Tentei dizer alguma coisa:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o dou import&acirc;ncia a essas tolices, tanto que n&atilde;o<br \/>\n    as assino&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; verdade, mas n&atilde;o vejo voc&ecirc; pegar mais nos livros.<br \/>\n    Ainda ontem, vi-os t&atilde;o cheios de p&oacute;, que tratei de limp&aacute;-los.<br \/>\n    Voc&ecirc; sabe onde estava o Bougl&eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; La D&eacute;mocratie devant&#8230;<\/p>\n<p>Cada vez me espantava mais minha mulher. Com aquele interesse pelos meus<br \/>\n    livros, sabendo-lhes os nomes, os t&iacute;tulos&#8230; Olhei-a mais e demoradamente<br \/>\n    para ela, estava ainda na mesma postura de sondagem, de exame, de interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    misteriosa. N&atilde;o me contive:<\/p>\n<p>&#8211; Efig&ecirc;nia, &eacute; voc&ecirc; mesmo quem me fala?<\/p>\n<p>&#8211; Sou, meu filho. Sou eu, Efig&ecirc;nia, tua mulher.<\/p>\n<p>No momento, eu vi, na censura disfar&ccedil;ada de minha mulher, a manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um pequeno desgosto dom&eacute;stico, por chegar eu, em casa, geralmente<br \/>\n    tarde; hoje, por&eacute;m, a fisionomia e a express&atilde;o de minha mulher<br \/>\n    naquela ocasi&atilde;o me parece totalmente outra, e, no correr da narra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    eu tenho bem dito que a senti misteriosa e estranha.<\/p>\n<p>Minha mulher nunca teve para mim uma palavra azeda, uma palavra m&aacute;;<br \/>\n    e, conquanto &agrave;s vezes birrento, mudo, nunca a tratei sen&atilde;o com<br \/>\n    delicadeza e cordura. Se tenho algum arrependimento das minhas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ela, n&atilde;o &eacute; por nenhum dos meus atos externos; era pela minha<br \/>\n    reserva de alma e de pensamento, que sempre mantive em face dela; &eacute;<br \/>\n    da minha incompreens&atilde;o dela, enquanto viveu, e da grande esperan&ccedil;a<br \/>\n    e do grande desejo que eu realizasse o meu destino.<\/p>\n<p>Fosse pela sua meiga e disfar&ccedil;ada censura, fosse porque fosse, o certo<br \/>\n    &eacute; que deixei um pouco as rodas bulhentas da minha literatice incipiente,<br \/>\n    fugi aos caf&eacute;s e pus-me a meditar em um livro. A obra que meditava,<br \/>\n    assim que travei conhecimento mais &iacute;ntimo com a cozinha liter&aacute;ria,<br \/>\n    percebi logo que me seria dif&iacute;cil public&aacute;-la, sem que, antes,<br \/>\n    eu adquirisse um certo nome, uma certa posi&ccedil;&atilde;o que me garantisse<br \/>\n    o bem-querer dos livreiros. Demais, eu precisava anos para realiz&aacute;-la,<br \/>\n    tal qual eu a meditava. Pobre, n&atilde;o me seria poss&iacute;vel custear<br \/>\n    a impress&atilde;o, e mesmo era preciso que eu fosse criando um n&uacute;cleo<br \/>\n    de leitores. Resolvi, portanto, publicar alguma coisa que atra&iacute;sse<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o sobre mim, que me abrisse as portas, como se diz, que<br \/>\n    me fizesse conhecido, mas queria p&ocirc;r nessa obra alguma coisa das minhas<br \/>\n    medita&ccedil;&otilde;es, das minhas cogita&ccedil;&otilde;es, atacar em s&iacute;ntese<br \/>\n    os inimigos das minhas id&eacute;ias e ridicularizar as suas supersti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e id&eacute;ias feitas. Pensei em diversas formas, procurei modelos, mas me<br \/>\n    veio, ao fim dessas cogita&ccedil;&otilde;es todas, a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que o romance ou a novela seria o g&ecirc;nero liter&aacute;rio mais pr&oacute;prio,<br \/>\n    mais acess&iacute;vel a exprimir o que eu pensava e atrair leitores, amigos<br \/>\n    e inimigos.<\/p>\n<p>Mas o romance, como a can&ocirc;nica liter&aacute;ria do Rio ou do Brasil<br \/>\n    tinha estabelecido, n&atilde;o me parecia pr&oacute;prio. Seria obra muito<br \/>\n    fria, teria de tratar de um caso amoroso, ou haver nele alguma coisa de parecido<br \/>\n    com isso. Eu tinha um grande pudor de tratar de amor. Parecia-me rid&iacute;culo<br \/>\n    ter esse sentimento e ainda mais rid&iacute;culo analis&aacute;-lo ou trat&aacute;-lo<br \/>\n    em livro. Todo o amor, parecia isto a mim, me humilhava, e n&atilde;o queria<br \/>\n    o fato de descrever um qualquer encontrasse em mim prova de fraqueza e rebaixamento<br \/>\n    de mim mesmo.<\/p>\n<p>Evitando o amor, voltei as minhas vistas para os grandes livros de aventuras;<br \/>\n    e, por eles, vi bem que os romances que as narram s&atilde;o talvez os que<br \/>\n    mais resistem ao tempo. N&atilde;o foi, por&eacute;m, por isso, nem mesmo<br \/>\n    pela sua aparente facilidade; foi t&atilde;o-somente para evitar o escolho<br \/>\n    do Amor, que comecei a escrever um.<\/p>\n<p>T&iacute;nhamos entrado no terceiro ano do casamento; meu filho j&aacute;<br \/>\n    tinha dois, j&aacute; tinha mais apar&ecirc;ncia de gente e me atra&iacute;a<br \/>\n    com mais naturalidade de sentimento. Minha sogra n&atilde;o o deixava, o pequeno;<br \/>\n    era o seu enlevo, era a sua &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o. Tinha<br \/>\n    quest&otilde;es com a filha, por causa dele; atribu&iacute;a-lhe a culpa das<br \/>\n    suas manhas naturais de crian&ccedil;a, ensinava-o a andar. A velha Ana, que<br \/>\n    o era um pouco mais do que minha sogra, tamb&eacute;m tinha um grande pendor<br \/>\n    pelo pequeno, embora n&atilde;o demonstrasse grande simpatia por mim.<\/p>\n<p>N&atilde;o era bem preta e tinha sido cria do pai de minha sogra, sen&atilde;o<br \/>\n    filha ou parenta pr&oacute;xima dele. As duas velhas se tratavam pelos apelidos<br \/>\n    e por tu e voc&ecirc;. Era voc&ecirc;, Aninhas, pra ali; era tu, Clementina,<br \/>\n    pra l&aacute;.<\/p>\n<p>Entre as duas, havia muitos vest&iacute;gios daqueles singulares costumes<br \/>\n    existentes entre senhores e escravos, nas pequenas propriedades rurais, antes<br \/>\n    das agita&ccedil;&otilde;es abolicionistas. Eram todos parentes e &iacute;ntimos,<br \/>\n    mucamas e sinhazinhas. Fingia sempre n&atilde;o perceber a antipatia de Aninhas<br \/>\n    por mim e sempre, afora o que minha mulher lhe dava, eu lhe oferecia dinheiro,<br \/>\n    que era aceito com pressa. Tinha um fundo religioso, n&atilde;o era bem este<br \/>\n    ou aquele credo que a tomava: eram todos. Todo o domingo ia &agrave; missa,<br \/>\n    confessava-se e comungava com freq&uuml;&ecirc;ncia, nos dias pr&oacute;prios<br \/>\n    levava a benzer palmas, ramos de alecrim e arruda, mas isso n&atilde;o impedia<br \/>\n    que tamb&eacute;m freq&uuml;entasse sess&otilde;es esp&iacute;ritas e procurasse<br \/>\n    feiticeiros quando julgava necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>Se conversava com ela, n&atilde;o cessava de dizer-me a todo o prop&oacute;sito:<\/p>\n<p>&#8211; No tempo de seu Zuzu, as coisas eram outras&#8230; Havia sempre de &quot;um<br \/>\n    tudo&quot; a fartar em casa&#8230; N&atilde;o era, Clementina?<\/p>\n<p>Esse Zuzu era o falecido marido de minha sogra, que tinha umas propriedades<br \/>\n    agr&iacute;colas no Estado do Rio, mas que, depois da Rep&uacute;blica, liquidara<br \/>\n    tudo e se fizera tesoureiro ou pagador de uma reparti&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    Minist&eacute;rio da Via&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Outras vezes, quando eu estava presente, a velha Aninhas lembrava:<\/p>\n<p>&#8211; Clementina, voc&ecirc; se lembra daquele S&atilde;o Jo&atilde;o em<br \/>\n    que seu pai matou um boi, para receber a visita do deputado?<\/p>\n<p>Minha sogra n&atilde;o gostava dessas rememora&ccedil;&otilde;es; mas nada<br \/>\n    objetava, limitando-se a dizer: &quot;Sim, eu me lembro&quot;. Minha mulher,<br \/>\n    por&eacute;m, era mais franca:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, Aninhas! &Aacute;guas passadas n&atilde;o movem moinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o movem! exclamava a velha cabrocha, tirando o cachimbo<br \/>\n    da boca. &Eacute; que naqueles tempos havia &quot;homens&#8230;.&quot;<\/p>\n<p>E olhava para mim significativamente. Compreendia que ela queria p&ocirc;r<br \/>\n    nos meus olhos a grandeza passada dos parentes de minha mulher, em face da<br \/>\n    mediania atual, que, se n&atilde;o era eu culpado, demonstrava, por continuar<br \/>\n    ela, incapaz e indigno de me ter casado com Iai&aacute; Figena. Disse isto<br \/>\n    a minha mulher e ela me observou:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; assim, Aninhas: pensa sempre em muito; mas se contenta com<br \/>\n    pouco e nada exige quando n&atilde;o se tem. Essas lembran&ccedil;as do passado<br \/>\n    s&atilde;o para ela como os nossos sonhos de futuro.<\/p>\n<p>Tive ocasi&atilde;o de verificar isto nos transes de vida por que vim a passar.<br \/>\n    Escrevia meu livro, mas n&atilde;o com seguimento e vontade. Interrompia,<br \/>\n    ora por uma coisa, ora por outra. Continuava a escrever nas minhas revistecas,<br \/>\n    para ganhar dinheiro e mesmo por gosto; mas via bem que elas n&atilde;o me<br \/>\n    dariam o que sonhava e estavam abaixo dos meus prop&oacute;sitos e da minha<br \/>\n    instru&ccedil;&atilde;o. Procurava campo mais vasto&#8230;<\/p>\n<p>Uma tarde, era domingo, estava eu sentado com minha mulher no jardim, quando<br \/>\n    ela me perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; leu a opini&atilde;o de F. sobre o livro do teu amigo<br \/>\n    Oliveira?<\/p>\n<p>&#8211; Li.<\/p>\n<p>&#8211; Achei justa.<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; o leu?<\/p>\n<p>&#8211; Li. Ele n&atilde;o ofereceu a voc&ecirc;? Peguei-o em cima da mesa<br \/>\n    e li-o&#8230; Uma coisa, Vicente?<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; abandonou a sua obra?<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha dito nunca a minha mulher que fazia uma tentativa liter&aacute;ria,<br \/>\n    mas n&atilde;o escondia nada, nem fechava m&oacute;vel algum. Espantei-me<br \/>\n    e indaguei:<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; que voc&ecirc; sabe disso?<\/p>\n<p>&#8211; Muito simplesmente: via voc&ecirc; escrever tantas folhas de papel<br \/>\n    e descobri que voc&ecirc; fazia uma obra.<\/p>\n<p>Fiquei envergonhado e arrependido com aquela falta de franqueza com minha<br \/>\n    mulher e tentei uma desculpa:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o disse isso a voc&ecirc; porque podia falhar e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas que mal havia nisso para a sua mulher, Vicente? Voc&ecirc; tem<br \/>\n    vexames, temores, com sua mulher? O que &eacute; preciso &eacute; acab&aacute;-lo&#8230;<br \/>\n    H&aacute; quase um m&ecirc;s que voc&ecirc; n&atilde;o escreve nele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como &eacute; que voc&ecirc; sabe disso?<\/p>\n<p>&#8211; Antes de S&atilde;o Jo&atilde;o, voc&ecirc; estava na p&aacute;gina<br \/>\n    cento e catorze; ontem, eu vi que voc&ecirc; continuava na mesma p&aacute;gina,<br \/>\n    e n&oacute;s estamos em fins de julho!<\/p>\n<p>Todo esse interesse de minha mulher pelos meus trabalhos, pela minha vida<br \/>\n    mental, passava-me desapercebido. Eu os n&atilde;o unia, eu os n&atilde;o<br \/>\n    coordenava, para completar a figura dela, a sua intelig&ecirc;ncia, o seu<br \/>\n    amor por mim. Duas coisas levavam-me a isto: a certeza de que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    dado as mulheres brasileiras de seu nascimento se preocuparem com essas coisas,<br \/>\n    e o meu vexame de fazer confid&ecirc;ncias a quem quer que fosse do que planejava<br \/>\n    em letras.<\/p>\n<p>A interven&ccedil;&atilde;o dela, por&eacute;m, n&atilde;o foi em v&atilde;o.<br \/>\n    Terminei a obra e, apesar de antem&atilde;o saber que n&atilde;o arranjaria<br \/>\n    editor, procurei um, dois, tr&ecirc;s. Todos eles me diziam: &quot;O senhor<br \/>\n    j&aacute; mostrou a F.?&quot; &quot;N&atilde;o&quot;, dizia eu. &quot;Deve<br \/>\n    mostrar&quot;, objetavam; e restitu&iacute;am-me o manuscrito intacto. N&atilde;o<br \/>\n    conhecia nem fulano, nem beltrano, e desconfiava que eles n&atilde;o gostassem<br \/>\n    da minha literatura, das minhas poucas opini&otilde;es existentes no livro,<br \/>\n    na forma da narra&ccedil;&atilde;o e, sobretudo, a timidez junto ao orgulho<br \/>\n    impediam-me de pedir-lhes opini&atilde;o.<\/p>\n<p>Correram tempos e minha mulher, vendo-me uma vez ler o meu manuscrito, ao<br \/>\n    trazer-me caf&eacute; que lhe pedi, perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; por que n&atilde;o publica isto?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; quem o queira imprimir.<\/p>\n<p>&#8211; Publique voc&ecirc; mesmo. Custa caro?<\/p>\n<p>&#8211; Muito.<\/p>\n<p>Ela convenceu-me que devia pedir emprestado o dinheiro necess&aacute;rio<br \/>\n    sobre os meus vencimentos. Assim fiz, e o livro ia em meio da composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando ela adoeceu gravemente. A sua mol&eacute;stia foi dolorosa e duradoura.<br \/>\n    Mais de quatro meses, ela esteve acamada, morrendo aos bocados. No fim, s&oacute;<br \/>\n    tinha de humano o olhar, aquele seu olhar vivo, penetrante, com express&otilde;es<br \/>\n    indefin&iacute;veis. Penou muito e muito me fez penar. No fim, parecia estranha<br \/>\n    a tudo, at&eacute; ao filho, at&eacute; &agrave; m&atilde;e, e estava j&aacute;<br \/>\n    quase assim, quando me fez aquela recomenda&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; deve desenvolver aquela hist&oacute;ria da rapariga num<br \/>\n    livro&#8230;<\/p>\n<p>J&aacute; estava morta, quando meu livro apareceu. Vendi toda a edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase pelo pre&ccedil;o de impress&atilde;o, para pagar d&iacute;vidas, e<br \/>\n    ma comprou um daqueles livreiros que me editara. N&atilde;o pude desagravar<br \/>\n    os meus ordenados; a minha colabora&ccedil;&atilde;o rendia pouco. Minha sogra,<br \/>\n    depois da morte da filha, ficou aluada. N&atilde;o se movia do lugar, n&atilde;o<br \/>\n    queria sair, n&atilde;o queria ver ningu&eacute;m. Os atos e requerimentos<br \/>\n    para receber a sua pens&atilde;o de montepio, era uma dificuldade para obter<br \/>\n    dela a assinatura. Do pequeno, cuidava, mas a seu jeito; enfurecia-se com<br \/>\n    qualquer repreens&atilde;o a ele e a todo o instante relembrava-lhe a m&atilde;e:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; isto, a Efig&ecirc;nia n&atilde;o est&aacute; a&iacute;&#8230;<\/p>\n<p>O meu consolo era o meu livro. A cr&iacute;tica assinada, a respons&aacute;vel,<br \/>\n    honrou-o muito, particulares insuspeitos gabaram-mo &agrave; queima-roupa.<br \/>\n    Ele era cochichado, e eu pressentia no ar a emo&ccedil;&atilde;o e a surpresa<br \/>\n    que tinha causado.<\/p>\n<p>Devia alegrar-me, mas a alegria que me podia causar era abafada pelas minhas<br \/>\n    dificuldades de dinheiro e pela doen&ccedil;a de minha sogra.<\/p>\n<p>Ela sempre me estimara, eu via bem; ela sempre me quisera, eu percebia; ela<br \/>\n    mesma fora que nos casara; mas a loucura sua, que ia a passos largos, como<br \/>\n    sempre, virava-se para os parentes pr&oacute;ximos e para as pessoas amigas.<\/p>\n<p>Sem aproveitar o pequeno e restrito sucesso que havia obtido, eu n&atilde;o<br \/>\n    sabia como haver dinheiro. N&atilde;o queria tentar o jornal. Muitas coisas<br \/>\n    me faziam pensar. Repugnava-me aceitar um lugar subalterno, sentia-me capaz<br \/>\n    de outra coisa; mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o me queria hipotecar por gratid&atilde;o<br \/>\n    ou dinheiro a pessoas e influ&ecirc;ncias, que fariam sepultar em mim as minhas<br \/>\n    id&eacute;ias e abafar a paix&atilde;o com que elas deviam ser expostas.<\/p>\n<p>Voltou-me o h&aacute;bito de beber, e, desta vez, sem dinheiro, mal vestido,<br \/>\n    sentindo a cat&aacute;strofe pr&oacute;xima da minha vida, fui levado &agrave;s<br \/>\n    bebidas fortes e, aparentemente, baratas, as que embriagam mais depressa.<br \/>\n    Desci do whiskhy, &agrave; genebra, ao gin e, da&iacute;, at&eacute; &agrave;<br \/>\n    cacha&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tinha recebido um sobrinho para se empregar no Rio, no decorrer desses cinco<br \/>\n    anos que mediaram entre a morte de minha mulher e a minha primeira entrada<br \/>\n    no hosp&iacute;cio. Era um rapaz simples, bom, de pouca instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e intelig&ecirc;ncia. Filho de uma irm&atilde; que ficara e se casara no interior,<br \/>\n    eu n&atilde;o o conhecia; mas foi bom para mim. Ele e a preta Aninhas.<\/p>\n<p>Esta perdera a antipatia por mim, adivinhava-me as dificuldades, n&atilde;o<br \/>\n    todas, e, das origens, ela s&oacute; supunha consolar-me da morte de Efig&ecirc;nia:<\/p>\n<p>&#8211; Sossega, &quot;seu&quot; Mascarenhas! dizia-me ela em certas manh&atilde;s<br \/>\n    que eu amanhecia terr&iacute;vel. Que se h&aacute; de fazer? Deus assim quis.<\/p>\n<p>Meu filho crescia sob os cuidados desta pobre rapariga. Ele tinha pouco mais<br \/>\n    de dois anos, quando a m&atilde;e morreu. Pouco depois dos cinco, veio a ter<br \/>\n    em certas noites umas convuls&otilde;es, um choro, um tremer que me assustou.<br \/>\n    Levei-o a um m&eacute;dico, meu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Mascarenhas, disse-me ele, toma cuidado com este teu filho&#8230; Evita<br \/>\n    contrari&aacute;-lo&#8230;<\/p>\n<p>Deu-me uma po&ccedil;&atilde;o calmante e n&atilde;o me quis dizer mais nada.<br \/>\n    Foi crescendo e, aos sete anos, tentei ensinar-lhe a ler. Come&ccedil;ava<br \/>\n    &quot;a-e-i-o-u&quot;; quando passei a juntar as letras, ele ia at&eacute;<br \/>\n    certo ponto e desandava a chorar. Minha sogra intervinha, &agrave;s vezes<br \/>\n    com bons modos, &agrave;s vezes malcriada:<\/p>\n<p>&#8211; Deixem o pequeno! Malvados!<\/p>\n<p>Tentava convenc&ecirc;-la, mas era em v&atilde;o. Tratei de experimentar<br \/>\n    o col&eacute;gio; a professora me disse que era d&oacute;cil, o meu filho,<br \/>\n    mas n&atilde;o sabia o que tinha ele. A verdade &eacute; que n&atilde;o havia<br \/>\n    jeito de poder-lhe prender a aten&ccedil;&atilde;o na cartilha.<\/p>\n<p>Tinha trinta e poucos anos, um filho fatalmente analfabeto, uma sogra louca,<br \/>\n    eu mesmo com uma fama de b&ecirc;bedo, tolerado na reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me aborrecia, pobre, eu vi a vida fechada. Mo&ccedil;o, eu n&atilde;o<br \/>\n    podia apelar para minha mocidade; ilustrado, n&atilde;o podia fazer valer<br \/>\n    a minha ilustra&ccedil;&atilde;o; educado, era tomado por um vagabundo por<br \/>\n    todo o mundo e sofria as maiores humilha&ccedil;&otilde;es. A vida n&atilde;o<br \/>\n    me tinha mais sabor e parecia que me abandonava a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Depois de beber consecutivamente durante unia semana, certa noite, amanheci<br \/>\n    de tal forma gritando e o dia seguinte passei de tal forma cheio de terrores,<br \/>\n    que o meu sobrinho Andr&eacute;, que j&aacute; era empregado e muito me auxiliava,<br \/>\n    n&atilde;o teve outro rem&eacute;dio sen&atilde;o pedir &agrave; pol&iacute;cia<br \/>\n    que me levasse para o hosp&iacute;cio.<\/p>\n<p>Foi esta a primeira vez.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">III<\/a><\/h4>\n<p>O espet&aacute;culo da loucura, n&atilde;o s&oacute; no indiv&iacute;duo<br \/>\n    isolado, mas, e sobretudo, numa popula&ccedil;&atilde;o de manic&ocirc;mio,<br \/>\n    &eacute; dos mais dolorosos e tristes espet&aacute;culos que se pode oferecer<br \/>\n    a quem ligeiramente meditar sobre ele. Dizia Cat&atilde;o que os s&aacute;bios<br \/>\n    tiram mais ensinamentos dos loucos que estes deles. Deve ser assim, conforme<br \/>\n    quem os interpela e o tempo que o faz, mas o certo &eacute; que, &agrave;<br \/>\n    primeira vista, o ensinamento n&atilde;o &eacute;, como queria o orgulho romano,<br \/>\n    para melhoramento e progresso dos ajuizados; ao contr&aacute;rio, a primeira<br \/>\n    impress&atilde;o &eacute; de abje&ccedil;&atilde;o para o esp&iacute;rito,<br \/>\n    pelo enigma que nele se p&otilde;e, diante de uma misteriosa interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sem resposta. Donde vem isto? Que inimigo da nossa esp&eacute;cie &eacute;<br \/>\n    esse que se compraz em nos rebaixar?<\/p>\n<p>No pavilh&atilde;o, devido ao n&uacute;mero ex&iacute;guo de doentes, n&atilde;o<br \/>\n    se sente bem essa dor especial, esse tomado de amargura pelo nosso destino,<br \/>\n    o nosso pensamento n&atilde;o se angustia tanto em querer resolver t&atilde;o<br \/>\n    sombrio problema da nossa exist&ecirc;ncia que a loucura provoca; mas na Se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Pinel &eacute; de abater, &eacute; de esmagar, a contempla&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o contato, o conv&iacute;vio com quase duas centenas de loucos.<\/p>\n<p>Da primeira vez, n&atilde;o sa&iacute; do pavilh&atilde;o para essa se&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; a dos gratuitos, a dos indigentes, mas, na qual, como uma considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a bondade da administra&ccedil;&atilde;o pode ter, sem ferir os regulamentos,<br \/>\n    h&aacute; muitos que n&atilde;o o eram. De forma que, quando sa&iacute; do<br \/>\n    pavilh&atilde;o, para ela, na segunda vez, foi-me um espet&aacute;culo novo,<br \/>\n    in&eacute;dito, denso, a que fui obrigado a assistir nela.<\/p>\n<p>Logo ap&oacute;s o caf&eacute;, fui chamado &agrave; presen&ccedil;a de um<br \/>\n    jovem m&eacute;dico, muito simp&aacute;tico, pouco certo dos seus poderes<br \/>\n    para curar-me. Fez-me umas perguntas, e senti mesmo que seu desejo era mandar-me<br \/>\n    embora. Disse-me mais ou menos isso, ou melhor, as suas palavras foram estas,<br \/>\n    depois de dizer o que eu tinha tido:<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida&#8230; Mas o senhor ou voc&ecirc;<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o me recordo &#8211; veio pela pol&iacute;cia, tem que se<br \/>\n    demorar um pouco.<\/p>\n<p>Concordei e voltei para o p&aacute;tio. Vestia umas cal&ccedil;as que me<br \/>\n    ficavam pelas canelas, uma camisa que me ficava pela metade do antebra&ccedil;o.<br \/>\n    Um tal vestu&aacute;rio me aborrecia deveras e n&atilde;o porque eu me julgava<br \/>\n    mais &iacute;nfimo ali com ele do que se outro tivesse. Pouco tempo depois,<br \/>\n    fui de novo para a varanda, onde me puseram num banco, ao lado de outros companheiros.<br \/>\n    Estava em uma extremidade, e o doente a meu lado era um preto mo&ccedil;o,<br \/>\n    tipo completo do esp&eacute;cimen mais humilde da nossa sociedade.<\/p>\n<p>Era ocasi&atilde;o da visita do m&eacute;dico-em-chefe, que me conhecia de<br \/>\n    vista e eu a ele; mas n&atilde;o fez alus&atilde;o a isso, e tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o me dei por achado. Sempre me disseram um excelente rapaz, mas o<br \/>\n    supunha muito cheio de certeza, por isso embirrava com ele.<\/p>\n<p>Acabada a visita do m&eacute;dico-em-chefe, voltei para o terreiro, &agrave;<br \/>\n    espera da minha alta. Estava certo dela; e, quando o enfermeiro-mor me chamou<br \/>\n    do alto da varanda que dava para onde eu estava sentado, sorri de alegria.<\/p>\n<p>Esse enfermeiro n&atilde;o me fez mal algum, mas impliquei com ele. Era alto,<br \/>\n    bem apessoado, tinha uma fisionomia bragantina, papada, bochechas, olhos pequenos&#8230;<br \/>\n    O guarda-civil que me esperava no port&atilde;o do hosp&iacute;cio, chamou-o<br \/>\n    de doutor e ele se deixou tratar assim. Pareceu-me um pouco pedante; se n&atilde;o<br \/>\n    me maltratou, tratou-me com desd&eacute;m e sobranceria&#8230; Muitas vezes, rio-me<br \/>\n    interiormente, quando tal acontece, mas com ele irritei-me.<\/p>\n<p>Veio-me chamar e levantei-me alvissareiro:<\/p>\n<p>&#8211; Venha c&aacute;!<\/p>\n<p>Olhando para ele, perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, voc&ecirc;.<\/p>\n<p>Levou-me o bragantino por corredores e p&aacute;tios at&eacute; ao hosp&iacute;cio<br \/>\n    propriamente. A&iacute; &eacute; para n&atilde;o me ir embora, mas ficar.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o vou-me embora?<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o; voc&ecirc; fica.<\/p>\n<p>Ainda esperei que fosse cair na se&ccedil;&atilde;o dos pensionistas; mas<br \/>\n    assim n&atilde;o foi. Entrei para a Pinel, para a se&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    pobres, dos sem-ningu&eacute;m, para aquela em que a imagem do que a Desgra&ccedil;a<br \/>\n    pode sobre a vida dos homens &eacute; mais formid&aacute;vel e mais cortante.<\/p>\n<p>O mobili&aacute;rio, o vestu&aacute;rio das camas, as camas &#8211; tudo<br \/>\n    &eacute; de uma pobreza sem-par. O ac&uacute;mulo dos doentes, o sombrio da<br \/>\n    depend&ecirc;ncia que fica no andar t&eacute;rreo e o p&aacute;tio interno<br \/>\n    &eacute; quase ocupado pelo pavilh&atilde;o das latrinas de ambos os andares<br \/>\n    &#8211; tirando-lhe a luz, tudo isso lhe d&aacute; m&aacute; atmosfera de<br \/>\n    hospital, de emana&ccedil;&otilde;es de desinfetantes, uma morrinha terr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Os loucos s&atilde;o de proveni&ecirc;ncias as mais diversas; originam-se,<br \/>\n    em geral, das camadas mais pobres da nossa gente pobre. S&atilde;o pobres<br \/>\n    imigrantes italianos, portugueses, espanh&oacute;is e outros mais ex&oacute;ticos;<br \/>\n    s&atilde;o negros roceiros, que levam a sua humildade, teimando em dormir<br \/>\n    pelos desv&atilde;os das janelas sobre uma esteira ensebada e uma manta s&oacute;rdida;<br \/>\n    s&atilde;o copeiros, s&atilde;o cocheiros, cozinheiros, oper&aacute;rios,<br \/>\n    trabalhadores bra&ccedil;ais e prolet&aacute;rios mais finos: tip&oacute;grafos,<br \/>\n    marceneiros, etc.<\/p>\n<p>No meio desse baralhamento de homens de t&atilde;o diferentes ra&ccedil;as<br \/>\n    e educa&ccedil;&atilde;o, fazem-se &agrave;s vezes descobertas. Um dia, um<br \/>\n    maluco diz a outro:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc; sabe? Aquele novo &eacute; padre.<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; Aquele alem&atilde;o, que veio h&aacute; dias do pavilh&atilde;o.<\/p>\n<p>A not&iacute;cia corre de boca em boca e vai at&eacute; ao enfermeiro-chefe.<br \/>\n    Este, ent&atilde;o, verifica e procura melhorar o tratamento do pobre n&aacute;ufrago<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p>Quando l&aacute; estive, havia um religioso alem&atilde;o ou teuto-brasileiro,<br \/>\n    mo&ccedil;o, forte, silencioso, com aquele doce olhar que h&aacute; em certos<br \/>\n    alem&atilde;es, em que a gente v&ecirc; o mar raso e a areia faiscando no<br \/>\n    fundo. Parecia um frade concentrado e, sem rezar, parecia rezar, andando de<br \/>\n    um lado para outro do corredor. Pelo que se entendia do seu portugu&ecirc;s,<br \/>\n    ele o falava bem, com certo acento, mas correto. N&atilde;o se o entendia,<br \/>\n    porque n&atilde;o pronunciava as palavras: balbuciava, ciciava&#8230;<\/p>\n<p>Vi tamb&eacute;m o D. L., meu antigo conhecido, poeta das pequenas coisas,<br \/>\n    par&oacute;dias, sonetos sat&iacute;ricos. Era companheiro do T., que foi<br \/>\n    meu colega de col&eacute;gio, e agora se fez esquecer; mas foi um grande estr&oacute;ina.<br \/>\n    D. L. montou um col&eacute;gio num arrabalde modesto e, segundo not&iacute;cias,<br \/>\n    ele prosperou. Deixou de andar em rodas dos literatos, parece que estudou,<br \/>\n    pois eu o conheci com pouca instru&ccedil;&atilde;o, e os seus disc&iacute;pulos<br \/>\n    gabavam-lhe o saber e o m&eacute;todo. Veio, por&eacute;m, a equipara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao gin&aacute;sio, ele n&atilde;o tinha dinheiro, para equiparar o seu col&eacute;gio<br \/>\n    ao oficial, foi perdendo alunos, endividou-se e enlouqueceu.<\/p>\n<p>Foi o primeiro a me falar e, pelo jeito com que o fez, parecia que me esperava<br \/>\n    ali desde muito tempo&#8230;<\/p>\n<p>Fui de novo &agrave; presen&ccedil;a de um m&eacute;dico; era tamb&eacute;m<br \/>\n    mo&ccedil;o, mas n&atilde;o t&atilde;o c&eacute;tico como o primeiro que me<br \/>\n    viu no pavilh&atilde;o, nem t&atilde;o crente como o chefe deste. Interrogou-me<br \/>\n    pacientemente, sobre o meu del&iacute;rio, sobre os meus h&aacute;bitos e<br \/>\n    antecedentes. Disse-lhe toda a verdade. N&atilde;o me desgostou este m&eacute;dico,<br \/>\n    sen&atilde;o quando ele me perguntou assim, com um pouco de menosprezo:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor colabora nos jornais?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor; e j&aacute; at&eacute; publiquei um livro.<\/p>\n<p>O doutor, por a&iacute;, sorriu desdenhosamente, mas foi um instante. Sa&iacute;<br \/>\n    do exame e fiquei pelos corredores. Eu tinha passado bem a noite passada;<br \/>\n    mas tudo aquilo me parecia mais extravagante. Como &eacute; que eu, em vinte<br \/>\n    e quatro horas, deixava de ser um funcion&aacute;rio do Estado, com ficha<br \/>\n    na sociedade e lugar no or&ccedil;amento, para ser um mendigo sem eira nem<br \/>\n    beira, atirado para ali que nem um desclassificado?<\/p>\n<p>Por que o Estado queria-me gratuito, comendo &agrave; sua custa, quando era<br \/>\n    mais simples tomar-me o ordenado e dar-me pelo menos um palet&oacute;?&#8230;<\/p>\n<p>Recordei-me um pouco da casa do meu sobrinho, da sua infantil mania de supor<br \/>\n    que o hosp&iacute;cio me curava e de supor que era o &aacute;lcool e as companhias<br \/>\n    que me punham a delirar. O meu sofrimento era mais profundo, mais &iacute;ntimo,<br \/>\n    mais meu. O que havia no fundo dele, eu n&atilde;o podia dizer, a sua ess&ecirc;ncia<br \/>\n    era meu segredo; tudo mais: &aacute;lcool, dificuldades materiais, a loucura<br \/>\n    de minha sogra. a incapacidade de meu filho, eram conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    dele e do desnorteamento em que eu estava na minha vida. Depois de quase dez,<br \/>\n    ou antes, logo nos primeiros anos da morte de minha mulher, &eacute; que eu<br \/>\n    senti bem a falta dela e que me convenci que ela viera ao meu encontro, para<br \/>\n    realizar o meu destino e o meu sonho. Perdida ela, perdida nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em que foi, parecia-me que eu tinha praticado um crime, uma falta grave, sem<br \/>\n    rem&eacute;dio e sem resgate. Embora n&atilde;o a tivesse nunca maltratado<br \/>\n    de nenhuma sorte, eu me sentia culpado por n&atilde;o a ter compreendido em<br \/>\n    tempo, por n&atilde;o a ter adivinhado.<\/p>\n<p>Vinha-me um desespero &iacute;ntimo, um aborrecimento de mim mesmo, um sinal<br \/>\n    da evid&ecirc;ncia da minha incapacidade para qualquer obra maior, pois &#8211;<br \/>\n    raciocinava eu &#8211; quem teve um ente humano a seu lado, com ele viveu<br \/>\n    na mais total intimidade em que dois entes humanos podem viver, n&atilde;o<br \/>\n    o compreendeu, n&atilde;o pode absolutamente compreender mais coisa alguma.<br \/>\n    E eu atirava meus livros para o lado, e eu me punha a beber, e eu n&atilde;o<br \/>\n    tratava do meu, e eu me queria anular, ficar um desclassificado, uma bola<br \/>\n    de lama aos pontap&eacute;s dos pol&iacute;cias&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha lido o trecho de Plutarco a que aludi, pois o li no pr&oacute;prio<br \/>\n    hosp&iacute;cio; mas, agora, relembrando as minhas impress&otilde;es, sinto<br \/>\n    bem que ele tem bastante raz&atilde;o. Eu estava ajuizado e tinha muito que<br \/>\n    aprender com loucos.<\/p>\n<p>Da primeira vez, n&atilde;o me demorei observando loucos. Revoltei-me, censurei<br \/>\n    meu sobrinho; mas desta vez, voltava mais capaz de faz&ecirc;-lo. Eu me tinha<br \/>\n    esquecido de mim mesmo, tinha adquirido um grande desprezo pela opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica, que v&ecirc; de soslaio, que v&ecirc; como criminoso um sujeito<br \/>\n    que passa pelo hosp&iacute;cio, eu n&atilde;o tinha mais ambi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    nem esperan&ccedil;as de riqueza ou posi&ccedil;&atilde;o: o meu pensamento<br \/>\n    era para a humanidade toda, para a mis&eacute;ria, para o sofrimento, para<br \/>\n    os que sofrem, para os que todos amaldi&ccedil;oam. Eu sofria honestamente<br \/>\n    por um sofrimento que ningu&eacute;m podia adivinhar; eu tinha sido humilhado,<br \/>\n    e estava, a bem dizer, ainda sendo, eu andei sujo e imundo, mas eu sentia<br \/>\n    que interiormente eu resplandecia de bondade, de sonhos de atingir a verdade,<br \/>\n    do amor pelos outros, de arrependimento dos meus erros e um desejo imenso<br \/>\n    de contribuir para que os outros fossem mais felizes do que eu, e procurava<br \/>\n    e sondava os mist&eacute;rios da nossa natureza moral, uma vontade de descobrir<br \/>\n    nos nossos defeitos o seu n&uacute;cleo primitivo de amor e de bondade.<\/p>\n<p>O hosp&iacute;cio me retemperava. Lembrava-me do plano de minha obra, dos<br \/>\n    grandes trabalhos que ela demandava, dos estudos que pedia; e, de mim para<br \/>\n    mim, eu me prometia lev&aacute;-la a cabo, empregando todos os argumentos,<br \/>\n    tirando-os de toda a parte, n&atilde;o s&oacute; os l&oacute;gicos, como os<br \/>\n    sentimentais; havia de escrev&ecirc;-la, empregando todos os recursos da dial&eacute;tica<br \/>\n    e da arte de escrever.<\/p>\n<p>Voltava-me para tr&aacute;s da minha vida e l&aacute; via minha sogra louca,<br \/>\n    &agrave;s vezes, delirando; &agrave;s vezes, calada, a olhar tudo com um olhar<br \/>\n    intraduz&iacute;vel e sobretudo meu filho, seu neto, que passava dos dez anos<br \/>\n    e n&atilde;o sabia absolutamente nada. N&atilde;o havia amea&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    havia afago, n&atilde;o havia promessa que o fizesse dar um pouco de aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; cartilha. Eu n&atilde;o sabia o que fazer. Deixava o tempo correr;<br \/>\n    e, quando me vinha a id&eacute;ia que havia de ter um filho completamente<br \/>\n    analfabeto, eu amaldi&ccedil;oava tudo e me arrependia de t&ecirc;-lo gerado.<br \/>\n    No hosp&iacute;cio, por&eacute;m, estas duas lembran&ccedil;as dolorosas n&atilde;o<br \/>\n    me abatiam tanto quanto em casa ou solto em qualquer parte. A conclus&atilde;o<br \/>\n    a que chegava era ser preciso transmont&aacute;-las, para executar o meu prop&oacute;sito<br \/>\n    de mo&ccedil;o e o meu sonho de menino&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Seu&quot; Vicente, venha ver sua cama.<\/p>\n<p>Era o inspetor. Era bom homem, conhecera meu pai e se lembrava dele com amizade.<br \/>\n    Eu n&atilde;o me recordava dele; havia-o visto menino. Ele, entretanto, fez<br \/>\n    tudo para suavizar a minha sorte, sem pedido nem rogo meu. Era um mulato escuro,<br \/>\n    forte, mesmo muito forte, rosto redondo grande, olhos negros brilhantes, com<br \/>\n    uma pequena ja&ccedil;a de desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Deu-me uma cama num dormit&oacute;rio mais razo&aacute;vel, com melhor companhia;<br \/>\n    e, por sua iniciativa, fez que eu tomasse as minhas refei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com os doentes mais escolhidos.<\/p>\n<p>Entre estes fui encontrar um rapaz portugu&ecirc;s da minha idade, a quem<br \/>\n    conhecera quando estudante. Travamos rela&ccedil;&otilde;es na pens&atilde;o<br \/>\n    da senhora que veio a ser minha sogra. Parece que ele fora daqueles que tinham<br \/>\n    de voltar pobres. Era um tanto instru&iacute;do e me foi de um pr&eacute;stimo<br \/>\n    inesquec&iacute;vel. N&atilde;o tinha cigarros, ele mos deu; n&atilde;o sabia<br \/>\n    ir ao refeit&oacute;rio, ele me ensinou; enfim, amaciou as dificuldades do<br \/>\n    primeiro estabelecimento.<\/p>\n<p>Apesar de n&atilde;o demonstrar vest&iacute;gio algum de loucura, nem mesmo<br \/>\n    a alco&oacute;lica ou t&oacute;xica, Misael era veterano no hosp&iacute;cio<br \/>\n    e me informou muito sobre os loucos, suas manias, seus antecedentes. O meu<br \/>\n    mergulho naquele mundo estranho foi logo profundo, naqueles quatro dias que<br \/>\n    nele passei.<\/p>\n<p>Vista assim de longe, a no&ccedil;&atilde;o do horror que se tem da loucura<br \/>\n    n&atilde;o parte da verdadeira causa. O que todos julgam, &eacute; que a coisa<br \/>\n    pior de um manic&ocirc;mio &eacute; o ru&iacute;do, s&atilde;o os desatinos<br \/>\n    dos loucos, o seu delirar em voz alta. &Eacute; um engano. Perto do louco,<br \/>\n    quem os observa bem, cuidadosamente, e une cada observa&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    outra, as associa num quadro geral, o horror misterioso da loucura &eacute;<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio, s&atilde;o as atitudes, as manias mudas dos doidos.<\/p>\n<p>H&aacute; indiv&iacute;duos que se condenam a um mutismo absoluto, que n&atilde;o<br \/>\n    conversam com ningu&eacute;m, n&atilde;o dizem palavra anos e anos. Destes,<br \/>\n    uns vivem de um lado para outro, outros deitados; ainda outros fazem gestos,<br \/>\n    e certos outros prorrompem em berreiros.<\/p>\n<p>Alguns, a sua doen&ccedil;a atacou-os no aparelho de emiss&atilde;o da palavra.<br \/>\n    Havia um, mas na outra se&ccedil;&atilde;o, velho e dizem que de fam&iacute;lia<br \/>\n    importante, que falava de onde em onde, mas logo perdia o jeito e emudecia.<br \/>\n    Tinha del&iacute;rios terr&iacute;veis. Corria que em estado de loucura matara<br \/>\n    uma irm&atilde;, na fazenda paterna, com m&atilde;o-de-pil&atilde;o.<\/p>\n<p>Alguns n&atilde;o suportam roupa no corpo, &agrave;s vezes totalmente, outras<br \/>\n    vezes em parte. Na Se&ccedil;&atilde;o Pinel, num p&aacute;tio que ficavam<br \/>\n    os mais insuport&aacute;veis, dez por cento deles andava nu ou seminu. Esse<br \/>\n    p&aacute;tio &eacute; a coisa mais horr&iacute;vel que se pode imaginar. Devido<br \/>\n    &agrave; pigmenta&ccedil;&atilde;o negra de uma grande parte dos doentes a&iacute;<br \/>\n    recolhidos, a imagem que se fica dele, &eacute; que tudo &eacute; negro. O<br \/>\n    negro &eacute; a cor mais cortante, mais impressionante; e contemplando uma<br \/>\n    por&ccedil;&atilde;o de corpos negros nus, faz ela que as outras se ofusquem<br \/>\n    no nosso pensamento. &Eacute; uma luz negra sobre as coisas, na suposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que, sob essa luz, o nosso olhar pudesse ver alguma coisa. A&iacute; &eacute;<br \/>\n    que h&aacute; os berradores; mas, como em toda a parte, s&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    os seus gritos que enchem o ambiente. Eles s&atilde;o relativamente poucos.<\/p>\n<p>H&aacute; outros que se degradam no sexo, com uma indiferen&ccedil;a de amaldi&ccedil;oados<br \/>\n    a isso&#8230; &Eacute; um horror silencioso, que nos apavora e faz-nos cobrir<br \/>\n    a humanidade de piedade, e nos amedronta sobre a nossa vida a vir.<\/p>\n<p>Olham-se os quartos e todos aqueles homens, muitas vezes mo&ccedil;os, sem<br \/>\n    mol&eacute;stia comum, que n&atilde;o falam, que n&atilde;o se erguem da cama<br \/>\n    nem para exercer as mais tir&acirc;nicas e baixas exig&ecirc;ncias da nossa<br \/>\n    natureza, que se urinam, que se rebolcariam no pr&oacute;prio excremento,<br \/>\n    se n&atilde;o fossem os cuidados dos guardas e enfermeiros, pensa-se profundamente,<br \/>\n    dolorosamente, angustiosamente sobre n&oacute;s, sobre o que somos; pergunta-se<br \/>\n    a si mesmo se cada um de n&oacute;s est&aacute; reservado aquele destino de<br \/>\n    sermos n&oacute;s mesmos, o nosso pr&oacute;prio pensamento, a nossa pr&oacute;pria<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia, que, por um desarranjo funcional qualquer, se h&aacute;<br \/>\n    de encarregar de levar-nos &agrave;quela depress&atilde;o de nossa pr&oacute;pria<br \/>\n    pessoa, &agrave;quela deprecia&ccedil;&atilde;o da nossa natureza, que as<br \/>\n    religi&otilde;es querem semelhante a Deus, &agrave;quela quase morte em vida.<\/p>\n<p>Parece tal espet&aacute;culo com os c&eacute;lebres cemit&eacute;rios de<br \/>\n    vivos, que um diplomata brasileiro, numa narra&ccedil;&atilde;o de viagem,<br \/>\n    diz ter havido em Cant&atilde;o, na China.<\/p>\n<p>Nas imedia&ccedil;&otilde;es dessa cidade, um lugar apropriado de dom&iacute;nio<br \/>\n    p&uacute;blico era reservado aos indigentes que se sentiam morrer. Dava-se-lhes<br \/>\n    comida, roupa e o caix&atilde;o f&uacute;nebre em que se deviam enterrar.<br \/>\n    Esperavam tranquilamente a Morte.<\/p>\n<p>Assim me pareceu pela primeira vez que deparei com tal quadro, com repugn&acirc;ncia,<br \/>\n    que provoca a pensar mais profundamente sobre ele, e aquelas sombrias vidas<br \/>\n    sugerem a no&ccedil;&atilde;o em torno de n&oacute;s, de nossa exist&ecirc;ncia<br \/>\n    e a nossa vida, s&oacute; vemos uma grande ab&oacute;bada de trevas, de negro<br \/>\n    absoluto. N&atilde;o &eacute; mais o dia azul-cobalto e o c&eacute;u ofuscante,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais o negror da noite picado de estrelas palpitantes;<br \/>\n    &eacute; a treva absoluta, &eacute; toda aus&ecirc;ncia de luz, &eacute; o<br \/>\n    mist&eacute;rio impenetr&aacute;vel e um n&atilde;o poder&aacute;s ir al&eacute;m<br \/>\n    que confessam a nossa pr&oacute;pria intelig&ecirc;ncia e o pr&oacute;prio<br \/>\n    pensamento.<\/p>\n<p>A loucura se reveste de v&aacute;rias e infinitas formas; &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que os estudiosos tenham podido reduzi-las em uma classifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas ao leigo ela se apresenta como as &aacute;rvores, arbustos e lianas de<br \/>\n    uma floresta: &eacute; uma por&ccedil;&atilde;o de coisas diferentes.<\/p>\n<p>Uma generaliza&ccedil;&atilde;o sobre o seu fundo pecaria pela base. Choques<br \/>\n    morais, defici&ecirc;ncia de intelig&ecirc;ncia, educa&ccedil;&atilde;o, instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    v&iacute;cios, todas essas causas determinam formas variadas e desencontradas<br \/>\n    de loucura; e, &agrave;s vezes, nenhuma delas o &eacute;.<\/p>\n<p>Apela-se para a hereditariedade que tanto pode ser causa nestes como naqueles;<br \/>\n    e que, se ela fosse exercer t&atilde;o despoticamente o seu poder, n&atilde;o<br \/>\n    haveria um s&oacute; homem de ju&iacute;zo, na terra. &Eacute; bastante pensar<br \/>\n    que n&oacute;s somos como herdeiros de milhares de av&oacute;s, em cada um<br \/>\n    de n&oacute;s se vem encontrar o sangue, as taras deles; por for&ccedil;a<br \/>\n    que, em tal multid&atilde;o, h&aacute; de haver detraqu&eacute;s, viciosos,<br \/>\n    etc., portanto a hereditariedade n&atilde;o h&aacute; de pesar s&oacute; sobre<br \/>\n    este e sobre aquele, cujos antecedentes s&atilde;o conhecidos, mas sobre todos<br \/>\n    n&oacute;s homens. Por ser remota? Mas as for&ccedil;as da natureza n&atilde;o<br \/>\n    contam o tempo; e, &agrave;s vezes mesmo, as mais poderosas s&oacute; se fazem<br \/>\n    notar quando se exercem lentamente, durante s&eacute;culos e s&eacute;culos.<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o por hereditariedade &eacute; c&ocirc;moda, mas<br \/>\n    talvez seja pouco l&oacute;gica.<\/p>\n<p>Sem capacidade nem compet&ecirc;ncia para tratar de semelhante assunto, eu<br \/>\n    me lembrei de fazer estas considera&ccedil;&otilde;es, por ter observado entre<br \/>\n    os meus colegas da Pinel um caso singular de mania.<\/p>\n<p>Eu via um portugu&ecirc;s velho, sempre com um gorro e borla, de barba cerrada,<br \/>\n    enroupado num grande sobretudo marron, passear de um lado para o outro nos<br \/>\n    corredores. A sua fisionomia tinha um ar de estampa, sorridente, mas orgulhosa.<br \/>\n    Perguntei certo dia:<\/p>\n<p>&#8211; Misael, quem &eacute; aquele doente?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; um portugu&ecirc;s que foi barbeiro. Os fregueses chamavam-no<br \/>\n    de Francisco I, imperador da &Aacute;ustria. Ele se parece, convenceu-se e<br \/>\n    acabou aqui. H&aacute; dias, quando embarcaram uma turma para a col&ocirc;nia,<br \/>\n    ele foi at&eacute; ao grupo e recomendou: &quot;Olhem, voc&ecirc;s v&atilde;o<br \/>\n    para l&aacute;. Se forem maltratados, queixem-se a mim, que sou seu imperador&quot;.<\/p>\n<p>Que rela&ccedil;&atilde;o teria a sua loucura com a sua fortuita semelhan&ccedil;a<br \/>\n    com o imperador da &Aacute;ustria? &Eacute; poss&iacute;vel que ela tivesse<br \/>\n    alguma interven&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Parecia pueril uma tal quest&atilde;o, mas eu a pus sempre, de mim para mim,<br \/>\n    essa pergunta do poder de auto-sugest&atilde;o na loucura e tamb&eacute;m<br \/>\n    da imita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Tomei posse do meu dormit&oacute;rio e despertei maravilhosamente. O meu<br \/>\n    dormit&oacute;rio era no canto da ala direita do pavimento t&eacute;rreo.<\/p>\n<p>O hosp&iacute;cio &eacute; bem constru&iacute;do e seria adequado, se n&atilde;o<br \/>\n    tivesse quatro vezes o n&uacute;mero de doentes para que foi planejado. &Eacute;<br \/>\n    obra de iniciativa individual, e a sua constru&ccedil;&atilde;o, pode-se dizer,<br \/>\n    foi custeada pela caridade p&uacute;blica. Nas d&aacute;divas e doa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    como sempre, nas obras, muito concorreram os portugueses que enriqueceram<br \/>\n    no com&eacute;rcio. Os ch&atilde;os parece que j&aacute; eram da Santa Casa,<br \/>\n    mas o edif&iacute;cio propriamente &eacute; resultado de d&aacute;divas e<br \/>\n    doa&ccedil;&otilde;es. &Eacute; grande de fachada, com fundo proporcional,<br \/>\n    acabamento e remates cuidadosos, um pouco sombrio no andar t&eacute;rreo,<br \/>\n    mais devido aos acr&eacute;scimos, do que ao plano primitivo, que se adivinha.<br \/>\n    Acabado de construir em 1852, todo ele trai, no aspecto exterior, ao gosto<br \/>\n    do pseudocl&aacute;ssico da Revolu&ccedil;&atilde;o e do Imp&eacute;rio Napole&ocirc;nico.<br \/>\n    O seu arquiteto, Domingos Monteiro, foi certamente disc&iacute;pulo da antiga<br \/>\n    Academia de Belas-Artes e certamente do arquiteto Grandjean de Montigny. &Eacute;<br \/>\n    de aspecto frio, severo, solene, com pouco movimento nas massas arquiteturais.<br \/>\n    Custou naquela &eacute;poca cerca de mil e quinhentos contos, e por a&iacute;<br \/>\n    se pode avaliar a tenacidade de Jos&eacute; Clemente, que o ideou e o ergueu,<br \/>\n    no espa&ccedil;o curto de dez anos. Dizem que h&aacute;, no sal&atilde;o nobre,<br \/>\n    uma est&aacute;tua dele, mandada fazer pelo segundo imperador, que tamb&eacute;m<br \/>\n    tem a sua, diante da daquele. Este Jos&eacute; Clemente parece n&atilde;o<br \/>\n    ter sido estadista de grandes vistas pol&iacute;ticas, mas pelas posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em que passou deixou tra&ccedil;os do seu amor a obras de utilidade p&uacute;blica,<br \/>\n    sobretudo de assist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Interiormente &eacute; dividido em sal&otilde;es e quartos, maiores e menores,<br \/>\n    com janelas todas para o exterior, e portas para os corredores, que olham<br \/>\n    para os p&aacute;tios internos.<\/p>\n<p>O meu dormit&oacute;rio ficava no extremo da ala esquerda do edif&iacute;cio,<br \/>\n    como j&aacute; disse, e as camas ficavam encostadas ao longo das quatro paredes.<br \/>\n    Tinha tr&ecirc;s janelas de sacada para a rua, mas eram inteiramente gradeadas.<br \/>\n    Via-se o jardim, a rua, os bondes, o mar e as montanhas de Niter&oacute;i<br \/>\n    e Teres&oacute;polis.<\/p>\n<p>Com o ar azul da enseada de Botafogo, para quem olha, devia ser um alegre<br \/>\n    retiro, tivesse ele outro destino; mas a beleza do local pouco deve consolar,<br \/>\n    apreciada atrav&eacute;s das grades, da triste condi&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    se est&aacute;, torvo o ambiente moral em que ali se respira. A beleza da<br \/>\n    natureza faz mais triste a quem tem consci&ecirc;ncia do lugar em que est&aacute;<br \/>\n    e, olhando-a com os olhos tristes, ao amanhecer, a impress&atilde;o que se<br \/>\n    tem &eacute; que n&atilde;o se pode mais sonhar felicidade diante das belas<br \/>\n    paisagens e das belas coisas&#8230;<\/p>\n<p>Assim amanheci. Olhei o mar atrav&eacute;s das grades, com esses sombrios<br \/>\n    pensamentos, e recebi essa emo&ccedil;&atilde;o. Demorei-me pouco vendo-o&#8230;<br \/>\n    Pela enseada adentro, entrava uma falua, com velas enfunadas e muito suavemente<br \/>\n    deslizava sobre o mar levemente encrespado pelo terral fresco&#8230; Passavam<br \/>\n    banhistas de ambos os sexos. As mulheres, envolvidas em roup&otilde;es ou<br \/>\n    len&ccedil;&oacute;is, escondiam as pernas e os bra&ccedil;os, mais ainda<br \/>\n    que os cal&ccedil;&otilde;es e as blusas; os homens, por&eacute;m, ostentavam-nos<br \/>\n    com garbo. As pernas, embora musculosas, &agrave;s vezes, eram hediondas.<\/p>\n<p>Todos olhavam para a grade, e logo sa&iacute; dela vexado com aquela curiosidade<br \/>\n    mals&atilde;. Domingo, eu n&atilde;o amanheci mais nesse dormit&oacute;rio.<br \/>\n    O inspetor, tinha resolvido, me transferia para um quarto em que havia um<br \/>\n    outro doente de considera&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o me agradou, porque<br \/>\n    se tratava de um estudante e porque, &agrave; sua enfatua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    (eu a tive tamb&eacute;m) de estudante, n&atilde;o devia agradar um companheiro<br \/>\n    que lhe surgia no estado de mendigo. Tratou-me bem e eu n&atilde;o tive queixa<br \/>\n    dele durante as duas noites que fui seu companheiro de aposento.<\/p>\n<p>Estava h&aacute; quatro dias no hospital e n&atilde;o havia recebido visita<br \/>\n    alguma. Misael salvou-me no que toca a cigarros, o inspetor emprestava-me<br \/>\n    os jornais; mas n&atilde;o me contentava com isso.<\/p>\n<p>Chamaram-me &agrave; noite e, de p&eacute;, no corredor para onde se abria<br \/>\n    a porta da se&ccedil;&atilde;o, falei com meu sobrinho. N&atilde;o tive aborrecimento<br \/>\n    algum, eu tinha convic&ccedil;&atilde;o da minha manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de loucura. O que me amedrontava era a se&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o os<br \/>\n    loucos propriamente, mas do que o seu aspecto geral me trazia ao pensamento.<br \/>\n    Trouxe-me cigarros e eu s&oacute; lhe reclamei a sa&iacute;da da se&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fosse como fosse. De tanto pensar no meu destino, entrela&ccedil;ado com o<br \/>\n    daqueles que me eram companheiros, eu me apavorava mais do que se estivesse<br \/>\n    no Inferno, perseguido por mil diabos.<\/p>\n<p>Perguntei por todos de casa e despedi-me. Voltei ao interior da se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e fizeram-me mudar a roupa. Foi a primeira satisfa&ccedil;&atilde;o que me<br \/>\n    oferecia o manic&ocirc;mio. Senti mais integrado na minha dignidade, na minha<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o, com aquele pijama que me cobria os tornozelos e os<br \/>\n    bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>N&atilde;o pude fumar um cigarro at&eacute; ao fim. Vieram-me chamar. Era<br \/>\n    um bom vizinho, negociante dos sub&uacute;rbios, humano e compassivo. Minha<br \/>\n    fam&iacute;lia comprava na sua venda e, a bem dizer, foi dela que sa&iacute;<br \/>\n    da segunda vez para o hosp&iacute;cio. Deu-me cigarros e jornais. Conversamos<br \/>\n    dez minutos, e senti bem, naquele homem simples, de pouca cultura, a piedade<br \/>\n    profunda que lhe inspirava. Foi a segunda satisfa&ccedil;&atilde;o que o hosp&iacute;cio<br \/>\n    me dava. Havia bondade, simpatia de homem para homem, independente de interesse<br \/>\n    e parentesco.<\/p>\n<p>Pus-me a ler os jornais. A minha sensa&ccedil;&atilde;o j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era de m&aacute;goa e de dor de estar ali; era de esperan&ccedil;a da minha<br \/>\n    corre&ccedil;&atilde;o e da melhoria de todos os homens. A afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o amor, a simpatia e a piedade haviam de inspirar um dia algu&eacute;m que<br \/>\n    curasse aqueles pobres homens&#8230;<\/p>\n<p>Naquele instante, conversando com um companheiro, um outro doente delirava<br \/>\n    de fazer rir. N&atilde;o me ri, mas prestei-lhe aten&ccedil;&atilde;o, simulando<br \/>\n    ler.<\/p>\n<p>Dizia o doente a outro que, no banco em que era empregado, certas vezes dava<br \/>\n    a fazer a cobran&ccedil;a de que estava encarregado a outro colega. Este lhe<br \/>\n    pedia a roupa, os sapatos, o chap&eacute;u, o rel&oacute;gio, etc. Um dia,<br \/>\n    por&eacute;m, pediu-lhe por empr&eacute;stimo o nariz, os olhos, os bigodes,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>Neguei-lhe, afirmava com energia; como havia eu de viver sem nariz, sem olhos,<br \/>\n    sem bigodes, enfim, sem a minha cabe&ccedil;a?<\/p>\n<p>O outro, que era tamb&eacute;m delirante, n&atilde;o vi a que prop&oacute;sito,<br \/>\n    veio a falar em livros, poetas, etc., porque &eacute; pr&oacute;prio do del&iacute;rio,<br \/>\n    como toda a gente sabe, n&atilde;o ligar nunca as id&eacute;ias, &agrave;s<br \/>\n    vezes s&oacute; &agrave;s palavras, outras vezes nem a uma nem a outra coisa,<br \/>\n    para continuar a sua manifesta&ccedil;&atilde;o, em estilha&ccedil;os de pensamentos,<br \/>\n    de uma que arrebentou sob a press&atilde;o da loucura:<\/p>\n<p>&#8211; Livros! Tive-os muito bons! fez o homem que n&atilde;o queria emprestar<br \/>\n    os bigodes. Voc&ecirc; j&aacute; ouviu falar em Lu&iacute;s de Cam&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o autor dos Lus&iacute;adas, portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o que! Sou eu! Era uma obra em que eu h&aacute; muito tempo<br \/>\n    trabalhava. Escrevia-o em papel muito bom, com uma excelente caligrafia, quando<br \/>\n    sa&iacute;a, guardava-o numa escrivaninha &agrave; chave. Eu tinha uma criada,<br \/>\n    uma negra, que era amigada com um portugu&ecirc;s. Certo dia, esqueci-me da<br \/>\n    chave e, ao voltar para a casa, n&atilde;o encontrei a negra, nem o livro.<br \/>\n    Ela tinha fugido com o meu trabalho&#8230; Passam-se anos e um dia li que, em<br \/>\n    Lisboa, morrera na mis&eacute;ria um poeta que vivia com uma negra, deixando<br \/>\n    um poema, intitulado Lus&iacute;adas, primoroso&#8230; Adivinhei logo a coisa:<br \/>\n    era o meu trabalho, que a negra tinha roubado e dado ao galego&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o reclamou?<\/p>\n<p>&#8211; Qual! N&atilde;o arranjei nada!<\/p>\n<p>O parentesco do del&iacute;rio do meu companheiro de dormit&oacute;rio com<br \/>\n    o epis&oacute;dio do jau, da vida de Cam&otilde;es, toda a gente percebe;<br \/>\n    eu, por&eacute;m, n&atilde;o intervim na conversa e, at&eacute;, forcei a<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o para os jornais, a fim de que ela n&atilde;o me arrastasse<br \/>\n    de novo a pensamentos agoureiros.<\/p>\n<p>Li-os com cuidado, li se&ccedil;&otilde;es que, normalmente, desprezava,<br \/>\n    mas n&atilde;o findei a leitura. Misael chamou-me para o jantar.<\/p>\n<p>Nos domingos, era mais cedo, e, como das outras vezes, atravessamos o p&aacute;tio<br \/>\n    cheio dos doentes mais incorrig&iacute;veis, uns em p&eacute;, do lado para<br \/>\n    outro, outros deitados debaixo daquele sol de dezembro, outros nus e sobre<br \/>\n    uma esteira, um inteiramente nu, de bru&ccedil;os, com um curativo negro de<br \/>\n    um c&aacute;ustico qualquer, que denunciava uma das mais nojentas formas de<br \/>\n    sodomia. Misael perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe o que &eacute; isso?<\/p>\n<p>&#8211; Sei&#8230; H&aacute; muitos?<\/p>\n<p>&#8211; Muitos.<\/p>\n<p>N&atilde;o quis mais continuar o di&aacute;logo, mesmo porque cheg&aacute;vamos<br \/>\n    ao refeit&oacute;rio.<\/p>\n<p>O domingo, que tinha amanhecido toldado, nevoento, com o correr do dia se<br \/>\n    tornou claro e luminoso. O calor bastante sens&iacute;vel n&atilde;o era de<br \/>\n    sufocar, a vira&ccedil;&atilde;o soprou bem cedo, e a tarde se fez uma espl&ecirc;ndida<br \/>\n    tarde tropical, t&eacute;pida, embalsamada de azul e de sil&ecirc;ncio imaterial<br \/>\n    das coisas. Do refeit&oacute;rio, n&oacute;s v&iacute;amos as montanhas, e<br \/>\n    at&eacute; o Corcovado inclinava-se para o hosp&iacute;cio. Acabado o jantar,<br \/>\n    eu e Misael fomos dar um passeio pela ch&aacute;cara. &Eacute; vasta e, apesar<br \/>\n    das modifica&ccedil;&otilde;es, mutila&ccedil;&otilde;es, que tem sofrido,<br \/>\n    ainda guarda exemplares das grandes fruteiras que deviam povo&aacute;-la h&aacute;<br \/>\n    quarenta anos passados. Vi nela uma grande horta, sem vi&ccedil;o, sem verdura<br \/>\n    tenra das couves e repolhos, por ser ver&atilde;o; mas, assim mesmo, ela me<br \/>\n    interessava todo, me recordava sonhos e projetos.<\/p>\n<p>Gostei sempre muito da casa, do lar; e o meu sonho seria nascer, viver e<br \/>\n    morrer, na mesma casa. A nossa vida &eacute; breve, a experi&ecirc;ncia s&oacute;<br \/>\n    vem depois de um certo n&uacute;mero de anos vividos, s&oacute; os dep&oacute;sitos<br \/>\n    de reminisc&ecirc;ncias, de rel&iacute;quias, as narra&ccedil;&otilde;es caseiras<br \/>\n    dos pais, dos velhos parentes, dos antigos criados e agregados &eacute; que<br \/>\n    t&ecirc;m o poder de nos encher a alma do passado, de ligar-nos aos que foram<br \/>\n    e de nos fazer compreender certas peculiaridades do lugar do nosso nascimento.<br \/>\n    Todos os desastres da minha vida fizeram que nunca eu pudesse manter uma inabal&aacute;vel,<br \/>\n    minha, a &uacute;nica propriedade que eu admitia, com as lembran&ccedil;as<br \/>\n    dos meus antecedentes, com rel&iacute;quias dos meus amigos, para que tudo<br \/>\n    isso passasse por sua vez aos meus descendentes, pap&eacute;is, livros, lou&ccedil;as,<br \/>\n    retratos, quadros, a fim de que eles sentissem bem que tinham ra&iacute;zes<br \/>\n    fortes no tempo e no espa&ccedil;o e n&atilde;o eram s&oacute; eles a viver<br \/>\n    um instante, mas o elo de uma cadeia infinita, precedida de outras cadeias<br \/>\n    de n&uacute;meros infinitos de elos.<\/p>\n<p>Uma horta, um pomar com grandes jaqueiras, mangueiras, laranjeiras, abacateiros,<br \/>\n    sempre foi o meu sonho; e estavam ali aqueles restos de uma grande ch&aacute;cara,<br \/>\n    com &aacute;rvores de mais de meio s&eacute;culo de exist&ecirc;ncia, maltratadas,<br \/>\n    abandonadas, talvez, de toda a contempla&ccedil;&atilde;o sonhadora de olhos<br \/>\n    humanos, mas que ainda assim davam prazer, consolavam aquele sombrio lugar<br \/>\n    de dor e de ang&uacute;stia.<\/p>\n<p>Misael tinha n&atilde;o sei que mol&eacute;stia nos m&uacute;sculos de uma<br \/>\n    das pernas que o faziam capengar, e n&oacute;s, sob a luz coada maternalmente<br \/>\n    pelas &aacute;rvores, andamos devagar pela ch&aacute;cara afora.<\/p>\n<p>Havia por ela outros pavilh&otilde;es, al&eacute;m do de observa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Havia o de epil&eacute;pticos, o de tuberculosos, e neste eu vi um chin, no<br \/>\n    &uacute;ltimo grau, deitado numa cama, debaixo de uma &aacute;rvore frondosa,<br \/>\n    que me lembrou de novo o Cemit&eacute;rio dos Vivos de Cant&atilde;o. Ele<br \/>\n    tinha todas as duas magrezas: a de tuberculoso e a de chin; e, falando a Misael,<br \/>\n    eu me admirei que n&atilde;o tivesse tido piedade dele. Quis afastar-me logo;<br \/>\n    e o china nos ofereceu cigarros. Recusei, por temer o cont&aacute;gio. Surpreendi-me<br \/>\n    com esse motivo que calara, porque nunca temo pegar mol&eacute;stia alguma.<br \/>\n    &Eacute; espont&acirc;neo em mim esse destemor, mesmo nas maiores epidemias<br \/>\n    que tenho atravessado.<\/p>\n<p>Continuamos a nossa peregrina&ccedil;&atilde;o. A tarde ainda estava alta<br \/>\n    e clara; a noite ainda se demoraria a vir.<\/p>\n<p>Por baixo das &aacute;rvores, havia doentes; e deparei ao lado cerradas touceiras<br \/>\n    de bambus, cujos colmos se entrela&ccedil;avam no alto. N&atilde;o eram as<br \/>\n    do Jardim Bot&acirc;nico; mas, no momento, tinham a beleza de me lembrar as<br \/>\n    ogivais dele. Quem as teria plantado? De quem teria sido aquela ch&aacute;cara?<br \/>\n    Como as coisas t&ecirc;m &agrave;s vezes o destino il&oacute;gico!<\/p>\n<p>Aquelas &aacute;rvores, aqueles bambus, destinavam-se a uma remansosa esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de recreio, teriam assistido festas de junho, bulhentas de foguetes e outros<br \/>\n    fogos, e iluminadas por fogueiras de cultos esquecidos. Os anos as fizeram<br \/>\n    ver a mais triste mol&eacute;stia da humanidade, aquela que nos faz outro,<br \/>\n    aquela que parece querer mostrar que n&atilde;o somos verdadeiramente nada,<br \/>\n    nos aniquilando na nossa for&ccedil;a fundamental.<\/p>\n<p>Parecia que bastava esta ali; mas n&atilde;o era assim.<\/p>\n<p>Fomos ver outra pior, a horrorosa morf&eacute;ia, que, junta com a loucura,<br \/>\n    &eacute; para juntar o horror at&eacute; ao mais alto grau. Uma deforma, degrada<br \/>\n    o pensamento; a outra, o corpo, o rosto sobretudo.<\/p>\n<p>N&atilde;o quis olhar onde estavam alojados os l&aacute;zaros dementes. Era<br \/>\n    numa barraca de campanha, erguida sobre espeques, e cujas bordas eram presas<br \/>\n    por pedregulhos respeit&aacute;veis.<\/p>\n<p>A sua moradia era provis&oacute;ria; a Morte n&atilde;o tardaria em lev&aacute;-los&#8230;<\/p>\n<p>Era no fundo da ch&aacute;cara. Os autom&oacute;veis passavam fonfonando.<br \/>\n    Adivinhava-os cheios de senhoras, mo&ccedil;as, rapazes, homens, cheios de<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o por ir gozar aquele domingo em Copacabana; na frente,<br \/>\n    era o mesmo movimento dos que se dirigiam a contemplar a ba&iacute;a, a cidade,<br \/>\n    o mar e as &aacute;rvores das montanhas, por cima do P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p>O hosp&iacute;cio estava naquele dia de passeio, quase cercado de alegria,<br \/>\n    e movimento. Ele, por&eacute;m, continuava tranq&uuml;ilo, silencioso, s&oacute;<br \/>\n    &agrave;s vezes o sil&ecirc;ncio se quebrava, com um grito isolado de alienado<br \/>\n    l&aacute; nos pavilh&otilde;es da frente; e n&oacute;s est&aacute;vamos diante<br \/>\n    da mais terr&iacute;vel associa&ccedil;&atilde;o de males que uma pessoa humana<br \/>\n    pode reunir.<\/p>\n<p>Voltamos pelo mesmo caminho. Olhei o c&eacute;u tranq&uuml;ilo, doce, de<br \/>\n    um azul muito fino. N&atilde;o se via o sol, que descambava pelas nossas costas.<\/p>\n<p>A tarde continuava bela e agrad&aacute;vel. Em meio do caminho, encontramos<br \/>\n    bandos de crian&ccedil;as loucas, de menos de dez anos, que iam brincar, sob<br \/>\n    a vigil&acirc;ncia de uma enfermeira estrangeira, alem&atilde;, parecia.<\/p>\n<p>Havia de todas as cores, e todas eram feias, algumas mesmo aleijadas.<\/p>\n<p>Continuamos a volta. Eu olhei o muro que dava para uma das ruas, onde corriam<br \/>\n    os autom&oacute;veis, e calculei sua altura pela minha, que eu sabia de cor&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"14\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Segunda-feira, logo ap&oacute;s o almo&ccedil;o, o superintendente da se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    chamou-me e disse-me:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Mascarenhas, vamos &agrave; presen&ccedil;a do diretor. Pus<br \/>\n    o cigarro fora, ele mesmo ajudou-me a compor o meu vestu&aacute;rio, e l&aacute;<br \/>\n    fui eu. Em caminho, perguntou-me o chefe da enfermaria:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor conhece o diretor?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o, respondi.<\/p>\n<p>A seguran&ccedil;a da minha resposta pareceu intrigar o meu caridoso pastor.<br \/>\n    Adivinhei, de mim para mim, que ele se fazia a seguinte pergunta: como &eacute;<br \/>\n    que este rapaz conhece assim o diretor, e logo n&atilde;o reclamou uma melhoria<br \/>\n    de situa&ccedil;&atilde;o, e deixou que eu espontaneamente o fizesse?<\/p>\n<p>Seria simples a explica&ccedil;&atilde;o, se ele me conhecesse melhor. A<br \/>\n    minha consci&ecirc;ncia, a certeza em que eu estava de que o culpado de estar<br \/>\n    ali era eu, era a minha fraca vontade, que, entretanto, era forte em outros<br \/>\n    sentidos, obrigavam-me, para meu decoro moral, a nada pedir aos camaradas<br \/>\n    que me suavizassem a minha situa&ccedil;&atilde;o. De resto, eu j&aacute;<br \/>\n    tinha obtido o razo&aacute;vel para um sujeito que foi recolhido a um hospital<br \/>\n    p&uacute;blico como um va-nu-pieds Longe de acusar os outros, longe de censurar<br \/>\n    aqueles desconhecidos e semi-desconhecidos com os quais lidei com essa classifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social, eu s&oacute; tinha que dizer bem deles, pois me julgando assim, em<br \/>\n    nada me ofenderam ou maltrataram. As pequenas coisas que feriam o meu amor-pr&oacute;prio<br \/>\n    e que me desgostavam intimamente, eram decorrentes do modo por que eu ia me<br \/>\n    conduzindo na vida, deixando cair, aniquilando-me. &Eacute; curioso agora<br \/>\n    notar que o que mais me impressionava nos loucos era a mania depressiva, eram<br \/>\n    os efeitos da mol&eacute;stia, a conduzir o indiv&iacute;duo para o esquecimento<br \/>\n    do seu corpo, da sua dignidade de homem, da oblitera&ccedil;&atilde;o, sen&atilde;o<br \/>\n    apagamento, de todas as manifesta&ccedil;&otilde;es externas de sua alma,<br \/>\n    de sua vida&#8230;<\/p>\n<p>Conhecia perfeitamente o diretor e travei conhecimento com ele espontaneamente.<br \/>\n    Havia em mim uma atra&ccedil;&atilde;o para ele, e eu me espantava que ele<br \/>\n    pudesse, sem barulho, mansamente, se fazer at&eacute; onde estava. Pouco conhecia<br \/>\n    de sua vida, mas conhecia bem a geral e de outros no seu caso, para achar<br \/>\n    a dele surpreendente. Ele tinha mesmo qualidades nativas de sedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e despertar simpatias; mas, se isso se dava nele, e se d&aacute; em muitos<br \/>\n    outros, entretanto, n&atilde;o despertava, n&atilde;o provocava antipatias,<br \/>\n    o que &eacute; inevit&aacute;vel, desde que a nossa for&ccedil;a na vida venha<br \/>\n    da capacidade oposta, como acontecia com ele.<\/p>\n<p>Todos gabavam muito o seu talento, a sua ilustra&ccedil;&atilde;o; mas n&atilde;o<br \/>\n    era bem por isso que eu o amava. Nunca lhe tinha lido um trabalho, s&oacute;<br \/>\n    mais tarde me foi dado fazer isso, n&atilde;o tinha nenhuma ilustra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no assunto do seu caber para julgar; mas, conquanto sentisse logo um homem<br \/>\n    superior, eu o amava pela sua exala&ccedil;&atilde;o de do&ccedil;ura.<\/p>\n<p>Logo que fui &agrave; sua presen&ccedil;a, estava ele sentado a uma pequena<br \/>\n    mesa, modesta e sem traduzir nenhuma impon&ecirc;ncia burocr&aacute;tica,<br \/>\n    muito semelhante &agrave;quela em que escrevo em casa. Deu comigo, fez-me<br \/>\n    sentar a seu lado e perguntou-me, sem nenhuma censura nas palavras e nem no<br \/>\n    acento da fala ou no olhar:<\/p>\n<p>&#8211; Voc&ecirc;, Mascarenhas, quer ficar embaixo ou em cima?<\/p>\n<p>&#8211; Em cima, doutor; l&aacute; h&aacute; uma biblioteca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem; v&aacute; l&aacute; pra cima.<\/p>\n<p>E foi assim que, antes de ter meu sobrinho dado o menor passo para a minha<br \/>\n    transfer&ecirc;ncia, ela me foi dada, e tive um pequeno al&iacute;vio na minha<br \/>\n    sorte de maluco peri&oacute;dico.<\/p>\n<p>A biblioteca era a depend&ecirc;ncia da se&ccedil;&atilde;o de que mais me<br \/>\n    recordava. Quando estive l&aacute; pela primeira vez, enchia o tempo l&aacute;,<br \/>\n    lendo. Havia um razo&aacute;vel n&uacute;mero de livros, mas, al&eacute;m<br \/>\n    dos muitos dilacerados, havia obras desfalcadas nos seus volumes. Logo ao<br \/>\n    entrar, depois de mudar de roupa, tratei de me instalar nela. Tinha mudado<br \/>\n    de local; era agora logo na entrada, quando antigamente era no fundo. Fui<br \/>\n    v&ecirc;-la. Estava pobr&iacute;ssima, n&atilde;o havia mais o Vapereau, dicion&aacute;rio<br \/>\n    de literatura, t&atilde;o interessante; n&atilde;o havia mais uns volumes<br \/>\n    de Dostoi&eacute;vski, nenhum deles escapara; os segundos rom&acirc;nticos<br \/>\n    nacionais tinham desaparecido; e, dos primeiros, s&oacute; restava um volume<br \/>\n    de Gon&ccedil;alves Dias.<\/p>\n<p>Mesmo da vez passada, a biblioteca do hosp&iacute;cio n&atilde;o era um modelo<br \/>\n    de l&oacute;gica, n&atilde;o a tinha presidido nenhum esp&iacute;rito; tinha<br \/>\n    de tudo, mas como a massa dos volumes era de literatura de fic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o se observava bem o absurdo de certas associa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de obras. Agora, n&atilde;o; ele ressaltava francamente. Os livros de fic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eram poucos; entretanto de Bourget, de quem n&atilde;o havia s&oacute; romance,<br \/>\n    se encontravam os dois volumes de Essais de psychologie contemporaine, em<br \/>\n    magn&iacute;fico estado; a Boh&egrave;me galante, de G&eacute;rard de Nerval,<br \/>\n    estava conservada, assim como o Romance de Pedro, o Grande tinha os dois volumes<br \/>\n    em magn&iacute;fico estado.<\/p>\n<p>Encontravam-se, por&eacute;m, outros livros, que n&atilde;o se sabia bem<br \/>\n    como foram ali parar. Por exemplo, eu achei nela livros estreitamente especiais,<br \/>\n    como estes: L&#8217;&Eacute;tat civil des nouveau-n&eacute;s, cujo autor n&atilde;o<br \/>\n    me recordo; safados relat&oacute;rios oficiais de v&aacute;rios minist&eacute;rios,<br \/>\n    que, entretanto, apesar da sua aridez, eram muito procurados; &Eacute;tudes<br \/>\n    sur Colbert, por Jubleaux, que me pareceu uma bela obra, embora a n&atilde;o<br \/>\n    pudesse ler; Histoire des classes rurales en France; E. Poirier &#8211; Le<br \/>\n    Chili en 1908; e um La mer rouge, Le darwinisme, em que o doutor F. Jousseaume<br \/>\n    combatia as opini&otilde;es de Darwin sobre a forma&ccedil;&atilde;o dos bancos<br \/>\n    e recifes calc&aacute;rios, com muito luxo de palavras de m&aacute; literatura,<br \/>\n    assim como a teoria do calor central, ou por outra, de um n&uacute;cleo &iacute;gneo<br \/>\n    no centro da terra, com bastante raz&atilde;o. Pode parecer fatigante, mas<br \/>\n    n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel deixar de citar mais estas tr&ecirc;s<br \/>\n    obras ex&oacute;ticas por demais ali: Le chien, Gayot; um tratado de xadrez;<br \/>\n    Annuaire du cr&eacute;dit public, de 60 a 61. Dois romances dessa curiosa<br \/>\n    literatura de col&eacute;gio de irm&atilde;s de caridade encontrei tamb&eacute;m.<br \/>\n    Eram de uma virtuosa, certamente, dama &#8211; Dona Gabrielle Coni e se intitulavam:<br \/>\n    Vers l&#8217;oeuvre douce e Fleur n&atilde;o sei de que. Um estava dilacerado,<br \/>\n    mas no outro procurei descobrir ind&iacute;cios de quem fosse, n&atilde;o<br \/>\n    encontrei. Em alguns, havia. O forte, por&eacute;m, da biblioteca eram duas<br \/>\n    cole&ccedil;&otilde;es, com vinte e tantos volumes, da Biblioteca das Obras<br \/>\n    C&eacute;lebres.<\/p>\n<p>O sal&atilde;o da biblioteca era mobiliado com pequenas mesas de peroba,<br \/>\n    em tr&ecirc;s filas com quatro delas, cadeiras comuns, duas em cada mesa,<br \/>\n    cadeiras de balan&ccedil;o e duas esp&eacute;cies de div&atilde;s com enxerg&atilde;o<br \/>\n    de arame, pr&oacute;prios &agrave; leitura, mas no qual dormiam aqueles que<br \/>\n    precisavam companheiros, sen&atilde;o bulha, para conciliar o sono.<\/p>\n<p>Tinha tr&ecirc;s janelas de sacada, mas gradeadas, e via-se bem pr&oacute;ximo<br \/>\n    o P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car, a Urca, surgindo das ondas suavemente,<br \/>\n    sem luta, nem a interrup&ccedil;&atilde;o que a denunciasse na transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma praia.<\/p>\n<p>Entrando na biblioteca, muito naturalmente, pois j&aacute; estava acostumado<br \/>\n    aos costumes da casa, tirei a esmo um volume dos vinte e dois ou quatro das<br \/>\n    Obras C&eacute;lebres. N&atilde;o conhecia essa obra, implicava mesmo com<br \/>\n    ela; mas, como v&atilde;o ver, ela tem o dom de sugerir, de encaminhar, pelos<br \/>\n    excertos que traz, em geral bem escolhidos, &agrave; leitura dos autores que<br \/>\n    recorta.<\/p>\n<p>Deixei mesmo Renan: Dialogues philosophiques e Feuilles d&eacute;tach&eacute;es,<br \/>\n    que n&atilde;o me causaram surpresa ach&aacute;-los ali, embora n&atilde;o<br \/>\n    me lembrasse de t&ecirc;-los visto da outra vez em que estive.<\/p>\n<p>Os doentes continuavam a passar ao corredor, a entrar e a sair no sal&atilde;o,<br \/>\n    a tirar livros e consult&aacute;-los durante minutos, e, depois, desandavam<br \/>\n    a delirar. Um ou outro de fato lia, mas as obras mais vulgares que l&aacute;<br \/>\n    existiam.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha at&eacute; ent&atilde;o falado com nenhum. Tanto nesta como<br \/>\n    na outra se&ccedil;&atilde;o, eu me surpreendi de topar com tanta fisionomia<br \/>\n    conhecida vagamente. Umas me pareciam de antigos colegas do col&eacute;gio<br \/>\n    ou de escola superior; outras, de caf&eacute;s, de festas, de vizinhan&ccedil;a,<br \/>\n    de condu&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. Conquanto isso, n&atilde;o me<br \/>\n    atrevia a dirigir-lhes a palavra e perguntar-lhes:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n&atilde;o me conhece? Eu me lembro do senhor.<\/p>\n<p>Era preciso travar conhecimento com os meus tristes companheiros de isolamento<br \/>\n    e de segrega&ccedil;&atilde;o social. Deixei para depois e dispus-me a ler.<br \/>\n    Procurei no &iacute;ndice e encontrei este artigo: Lewis &#8211; &quot;Abelardo<br \/>\n    e Helo&iacute;sa.&quot;<\/p>\n<p>O autor do artigo que precedia uma ou duas cartas de Helo&iacute;sa era o<br \/>\n    muito conhecido autor ingl&ecirc;s, autor de uma famosa vida de Goethe, e<br \/>\n    cujas rela&ccedil;&otilde;es com George Eliot ficaram famosas. Trabalho muito<br \/>\n    curioso o seu artigo sobre o famoso fil&oacute;sofo do Medievo, mas que, em<br \/>\n    resumo, censura em Abelardo o que se pode censurar em todo o grande homem:<br \/>\n    um amor muito maior &agrave; sua obra, ou talvez aos seus projetos, do que<br \/>\n    &agrave;s pessoas que o amam. Ele vai a ponto de dizer que no forte amor que<br \/>\n    ele inspirou a Helo&iacute;sa, entrou c&aacute;lculo de aproveitar as defici&ecirc;ncias<br \/>\n    de sua instru&ccedil;&atilde;o com as sobras da de sua amada, fugindo ao casamento<br \/>\n    p&uacute;blico, para obter grandes posi&ccedil;&otilde;es na clericatura.<\/p>\n<p>N&atilde;o me sobra conhecimento para contrariar esse julgamento; mas, conquanto<br \/>\n    achasse justo na primeira leitura, hoje partilho a opini&atilde;o de Helo&iacute;sa,<br \/>\n    que mais o queria glorioso, do que exemplar chefe de fam&iacute;lia, porquanto<br \/>\n    a sua gl&oacute;ria, que unicamente ele a podia realizar, precisava da sua<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o e do sacrif&iacute;cio de outros muitos, para ser<br \/>\n    &uacute;til a todos.<\/p>\n<p>Quando pensei nisso, compreendi melhor minha mulher. O que me assoberbavam<br \/>\n    eram dificuldades de toda a ordem, especialmente de dinheiro, coisas caseiras<br \/>\n    e triviais; e eu, que nunca lhe tinha confiado meus projetos e escrevera coisas<br \/>\n    vulgares e pouco acima do m&eacute;dio, merecia que Efig&ecirc;nia nunca me<br \/>\n    atormentasse com as coisas triviais da casa. O que me ro&iacute;a, era o sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    era calar, esconder o que eu tinha de mais eu mesmo na minha vida. Nunca confiei<br \/>\n    e n&atilde;o sei como, talvez lendo uma nota ou outra, ela veio a compreender,<br \/>\n    como s&oacute; muito mais tarde vim a inferir pelas suas frases isoladas,<br \/>\n    pelos seus conselhos, pelos seus olhares.<\/p>\n<p>Essa descoberta n&atilde;o s&oacute; me trouxe um grande desgosto e arrependimento,<br \/>\n    como uma convic&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima da fraqueza da minha intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Vieram-me essas e outras considera&ccedil;&otilde;es menores, &agrave; leitura<br \/>\n    daqueles extraordin&aacute;rios fragmentos, e eu chegava a este per&iacute;odo<br \/>\n    de uma carta de Helo&iacute;sa: &quot;Se &eacute; verdade que os pesares comunicados<br \/>\n    a quem deveras nos ama, se dividem e partem ao meio, v&oacute;s, meu caro<br \/>\n    Abelardo, vos vereis por este modo (escrevendo a ela) aliviado de metade do<br \/>\n    peso que vos oprime&quot;.<\/p>\n<p>Mal tinha acabado a leitura, quando uma voz forte, jovial e atraente, falou<br \/>\n    a meu lado:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n&atilde;o &eacute; o Vicente Mascarenhas?<\/p>\n<p>&#8211; Sou.<\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o-o de vista e de nome. N&atilde;o escreveu na Lux,<br \/>\n    do Ribeiro Botelho?<\/p>\n<p>De fato, eu havia escrito nessa pequena revista uma coisa sem valor algum;<br \/>\n    e aquele rapaz que me falava a tinha lido, por ser amigo do editor da publica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Deu-se a conhecer. Era irm&atilde;o do Samuel Cavalcanti, jornalista, amigo<br \/>\n    do Tib&eacute;rio de Bel&eacute;m, tamb&eacute;m poeta e homem de jornal,<br \/>\n    e chamava-se Godofredo Cavalcanti. O todo do rapaz n&atilde;o era do maluco<br \/>\n    comum, ele falava com desembara&ccedil;o e siso, e obedecia em tudo as regras<br \/>\n    da conveni&ecirc;ncia e polidez. Achei estranho que, ali, afinal dentro de<br \/>\n    casa, ele vivesse sobra&ccedil;ando um ma&ccedil;o de jornais, assim como<br \/>\n    quem est&aacute; fora e vai lev&aacute;-los para a sua resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Godofredo apresentou-me logo a diversos doentes e eles me cercaram a mesa.<br \/>\n    A um ele me apresentou como o Capit&atilde;o do Ex&eacute;rcito Carvalho Nascimento,<br \/>\n    a outro como o doutor Rufino Bezerra, e assim por diante. Por fim, ficamos<br \/>\n    n&oacute;s ambos s&oacute;s, e Godofredo come&ccedil;ava a contar-me uma hist&oacute;ria,<br \/>\n    quando se aproximou um rapaz de menos de trinta anos, magro, de uma boniteza<br \/>\n    feminina, pele fina, com a cabe&ccedil;a coberta com um len&ccedil;o &uacute;mido.<br \/>\n    O meu introdutor interrompeu o que dizia e, de mau humor exclamou:<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; vem voc&ecirc;, Ribeiro! N&atilde;o se pode conversar uma<br \/>\n    coisa que voc&ecirc; n&atilde;o venha se meter! Que falta de educa&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; sei, fez o outro, que voc&ecirc;, Godofredo, &eacute; o<br \/>\n    homem mais polido do hosp&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8211; Sou, sim. Meu pai, que n&atilde;o tinha t&iacute;tulo algum, que<br \/>\n    n&atilde;o era bacharel em Ci&ecirc;ncias Jur&iacute;dicas e Sociais, como<br \/>\n    meu irm&atilde;o Samuel, foi convidado pelo doutor Jo&atilde;o Barbalho Uchoa<br \/>\n    Cavalcanti para representar o Brasil nos Estados Unidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Parte I Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Parte II Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Lima Barreto 1&ordf; parte &#8211; Anota&ccedil;&otilde;es para O CEMIT&Eacute;RIO DOS VIVOS (4 de Janeiro 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