{"id":108627,"date":"2017-02-13T18:04:05","date_gmt":"2017-02-13T20:04:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108627"},"modified":"2017-02-14T07:35:51","modified_gmt":"2017-02-14T09:35:51","slug":"os-bruzundangas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-bruzundangas","title":{"rendered":"Os Bruzundangas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"60%\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#prefacio\" class=\"links\">Pref\u00e1cio<\/a><br \/>\t<br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">I &#8211; Um Grande Financeiro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">II &#8211; A Nobreza de Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">III &#8211; A Outra Nobreza da Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">IV &#8211; A Pol\u00edtica \u00e8 os Pol\u00edticos da Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">V &#8211; As Riquezas da Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">VI &#8211; O Ensino na Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">VII &#8211; A Diplomacia da Bruzundanga<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">VIII &#8211; A Constitui\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t  <a href=\"#9\" class=\"links\">IX &#8211; Um Mandachuva<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">X &#8211; For\u00e7a Armada<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">XI &#8211; Um Ministro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">XII &#8211; Os Her\u00f3is<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">XIII &#8211; A Sociedade<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">XIV &#8211; As Elei\u00e7\u00f5es<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">XXII &#8211; Notas Soltas<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Outras Hist\u00f3rias dos Bruzundangas<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<h4><a name=\"prefacio\"><strong>PREF&Aacute;CIO<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>Na Arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos,<br \/>\n    h&aacute; um cap&iacute;tulo, o quarto, que tem como ementa esta singular<br \/>\n    afirma&ccedil;&atilde;o: &quot;Como os maiores ladr&otilde;es s&atilde;o os<br \/>\n    que t&ecirc;m por oficio livrar-nos de outros ladr&otilde;es.&quot;<\/p>\n<p>N&atilde;o li o cap&iacute;tulo, mas abrindo ao acaso um exemplar do curioso<br \/>\n    livro, achei verdadeira a cousa e boa para justificar a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destas despretensiosas &quot;Notas&quot;.<\/p>\n<p>A &quot;Bruzundanga&quot; fornece mat&eacute;ria de sobra para livrar-nos,<br \/>\n    a n&oacute;s do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos.<br \/>\n    Sua miss&atilde;o &eacute;, portanto, como a dos &quot;maiores&quot; da Arte,<br \/>\n    livrar-nos dos outros, naturalmente menores. <\/p>\n<p>Bem precisados est&aacute;vamos n&oacute;s disto quando temos aqui ministros<br \/>\n    de Estado que s&atilde;o simples caixeiros de venda, a roubar-nos muito modestamente<br \/>\n    no peso da carne-seca, enquanto a Bruzundanga os tem que se ocupam unicamente,<br \/>\n    no seu of&iacute;cio de ministro, de encarecerem o a&ccedil;&uacute;car no<br \/>\n    mercado interno, conseguindo isto com o vend&ecirc;-lo abaixo do pre&ccedil;o<br \/>\n    da usina aos estrangeiros. L&aacute;, chama-se a isto prover necessidades<br \/>\n    p&uacute;blicas; aqui, n&atilde;o sei que nome teria&#8230; <\/p>\n<p>E semelhante ministro daqueles &quot;maiores&quot; de que a Arte nos fala,<br \/>\n    destinados a ensinar-nos como nos livrar dos nossos modestos caixeiros de<br \/>\n    mercearias ministeriais.<\/p>\n<p>N&atilde;o contente com ter dessas cousas, a Bruzundanga possui outras muitas<br \/>\n    que desejava enumerar todas, pois todas elas s&atilde;o dignas de apre&ccedil;o<br \/>\n    e portadoras de ensinamentos proveitosos.<\/p>\n<p>Como n&atilde;o poder&iacute;amos aproveitar aquele caso de um doutor da<br \/>\n    Bruzundanga, ele mesmo a&ccedil;ambarcador de cebolas, que vai para uma comiss&atilde;o,<br \/>\n    nomeada para estudar as causas da carestia da vida, e prop&otilde;e que se<br \/>\n    adotem leis contra os estancadores de mercadorias? <\/p>\n<p>&Eacute; que este doutor dos &quot;maiores&quot; de que nos fala o c&eacute;lebre<br \/>\n    livrinho sabia perfeitamente que n&atilde;o estancava e tinha o h&aacute;bito<br \/>\n    de reservas mentais. N&atilde;o a&ccedil;ambarcava, mas &quot;aliviava&quot;<br \/>\n    logo uma grande por&ccedil;&atilde;o de mercadorias para o estrangeiro, por<br \/>\n    qualquer cousa, de modo que&#8230; Le pauvre homme! Podia at&eacute; iludir o<br \/>\n    nosso pobre Beckman!<\/p>\n<p>Com este exemplo, os menores daqui poder&atilde;o ser denunciados por este<br \/>\n    grandalh&atilde;o de l&aacute;, t&atilde;o generoso e desinteressado, e o<br \/>\n    nosso povo poder&aacute; livrar-se deles.<\/p>\n<p>Conheci na Bruzundanga um rapaz (creio que est&aacute; nas &quot;Notas&quot;),<br \/>\n    de rabona de sarja e ares de familiar do Santo Of&iacute;cio, mas tresandando<br \/>\n    a Comte, sen&atilde;o a anticlericalismo, que, de uma hora para a outra, se<br \/>\n    fez reitor do Asilo de Enjeitados, apandilhado com padres e frades, depois<br \/>\n    de ter arranjado um rico casamento eclesi&aacute;stico, a fim de ver se, com<br \/>\n    o apoio da sotaina e do solid&eacute;u, se fazia ministro ou mesmo mandachuva<br \/>\n    da Rep&uacute;blica. Que &quot;maior&quot; n&atilde;o acham? <\/p>\n<p>E aquele que, tendo sido ministro do imperador da Bruzundanga e seu conselheiro,<br \/>\n    se transformou em a&ccedil;ougueiro para vender carne aos vizinhos a dez r&eacute;is<br \/>\n    de mel coado, gra&ccedil;as &agrave;s isen&ccedil;&otilde;es que obteve com<br \/>\n    o prest&iacute;gio do seu nome, dos seus amigos, da sua fam&iacute;lia e das<br \/>\n    suas antigas posi&ccedil;&otilde;es, enquanto os seus patr&iacute;cios pagavam-lhe<br \/>\n    o dobro? <\/p>\n<p>Quantos exemplos de l&aacute;, bem grandes, nos ir&atilde;o precaver contra<br \/>\n    os pequeninos de c&aacute;&#8230; A Arte fala a verdade&#8230;<\/p>\n<p>Outra cousa curiosa da Bruzundanga, das grandes, das extraordin&aacute;rias,<br \/>\n    &eacute; a sua &quot;Defesa Nacional&quot;. <\/p>\n<p>L&aacute;, como em toda a parte, se devia entender por isso a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de armamentos, muni&ccedil;&otilde;es, equipamentos, adestramento de tropas,<br \/>\n    etc.; mas os doges do Kaphet (vide texto) entenderam que n&atilde;o; que era<br \/>\n    dar-lhes dinheiro, para elevar artificialmente o pre&ccedil;o de sua especiaria.<br \/>\n    De que modo? Retendo o produto, proibindo-lhe a exporta&ccedil;&atilde;o desde<br \/>\n    certo limite, conquanto se houvessem tenazmente oposto a que semelhante medida<br \/>\n    fosse tomada no que toca &agrave;s utilidades indispens&aacute;veis &agrave;<br \/>\n    nossa vida: cereais, carnes, algod&atilde;o, a&ccedil;&uacute;car, etc.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso notar que tais utilidades, como j&aacute; fiz notar, iam<br \/>\n    para o estrangeiro por metade do pre&ccedil;o, menos at&eacute;.<\/p>\n<p>Aprendamos por a&iacute; a conhecer os nossos &quot;menores&quot;. <\/p>\n<p>Poderia muito bem falar de outros grossos casos de l&aacute;, capazes de<br \/>\n    nos livrar dos tais pequenos daqui; mas, para qu&ecirc;? <\/p>\n<p>As p&aacute;ginas que se seguem v&atilde;o revel&aacute;-los e eu me dispenso<br \/>\n    de narr&aacute;-los neste curto pref&aacute;cio, Pobre terra da Bruzundanga!<br \/>\n    Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua miss&atilde;o tem sido<br \/>\n    criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram,<br \/>\n    os que nela viveram, os que a amaram e sugaram-lhe o leite, tiveram sossego<br \/>\n    sobre o seu solo!<\/p>\n<p>Ainda hoje, quando o ge&oacute;logo encontra nela um queixal de Megatherium<br \/>\n    ou um f&ecirc;mur de Propithecus tem vontade de oferecer &agrave; Minerva<br \/>\n    uma hecatombe de bois brancos!<\/p>\n<p>Vivos, os bons s&atilde;o tangidos daqui para ali, corridos, vexados, se<br \/>\n    t&ecirc;m grandes ideais; mortos, os seus ossos esperam que os grandes rios<br \/>\n    da Bruzundanga os levem para fecundar a terra dos outros, l&aacute; embaixo,<br \/>\n    muito longe&#8230;<\/p>\n<p>Tudo nela &eacute; caprichoso, e v&aacute;rio e irregular. Aqui terreno f&eacute;rtil,<br \/>\n    &uacute;bere; acol&aacute;, bem perto, est&eacute;ril, arenoso. <\/p>\n<p>Se a jusante sobra cal, falta &aacute;gua; se h&aacute; para montante, falta<br \/>\n    cal&#8230; <\/p>\n<p>As suas florestas s&atilde;o caprichosas tamb&eacute;m; as ess&ecirc;ncias<br \/>\n    n&atilde;o se associam. Vivem orgulhosamente isoladas, tornando-lhes penosa<br \/>\n    a explora&ccedil;&atilde;o. Aqui, est&aacute; uma esp&eacute;cie e outra semelhante<br \/>\n    s&oacute; s&eacute; encontrar&aacute; mais al&eacute;m, distante&#8230;<\/p>\n<p>Envelheceu, est&aacute; caduca e tudo que vem para ela sofre-lhe o cont&aacute;gio<br \/>\n    da sua antiguidade: caduquece! <\/p>\n<p>Contudo, e talvez por isso mesmo, os seus costumes e h&aacute;bitos podem<br \/>\n    servir-nos de ensinamento, pois, conforme a Arte de furtar diz: &quot;os maiores<br \/>\n    ladr&otilde;es s&atilde;o os que t&ecirc;m por of&iacute;cio livrar-nos de<br \/>\n    outros ladr&otilde;es&quot;. <\/p>\n<p>Por interm&eacute;dio dos dela, dos dessa velha e ainda rica terra da Bruzundanga,<br \/>\n    livremo-nos dos nossos: &eacute; o escopo deste pequeno livro.<\/p>\n<p>LIMA BARRETO Todos os Santos, 2-9-17. <\/p>\n<h4>Cap&iacute;tulo especial &#8211; Os Samoiedas<\/h4>\n<p>Vazios estais de Cristo, v&oacute;s que vos justificais pela lei; da gra&ccedil;a<br \/>\n    tendes ca&iacute;do. S&atilde;o Paulo aos G&aacute;latas <\/p>\n<p>Queria evitar, mas me vejo obrigado a falar na literatura da Bruzundanga.<br \/>\n    &Eacute; um cap&iacute;tulo dos mais delicados, para tratar do qual n&atilde;o<br \/>\n    me sinto completamente habilitado.<\/p>\n<p>Dissertar sobre uma literatura estrangeira sup&otilde;e, entre muitas, o<br \/>\n    conhecimento de duas cousas primordiais: id&eacute;ias gerais sobre literatura<br \/>\n    e compreens&atilde;o f&aacute;cil do idioma desse povo estrangeiro. Eu cheguei<br \/>\n    a entender perfeitamente a l&iacute;ngua da Bruzundanga, isto &eacute;, a<br \/>\n    l&iacute;ngua falada pela gente instru&iacute;da e a escrita por muitos escritores<br \/>\n    que julguei excelentes; mas aquela em que escreviam os literatos importantes,<br \/>\n    solenes, respeitados, nunca consegui entender, porque redigem eles as suas<br \/>\n    obras, ou antes, os seus livros, em outra muito diferente da usual, outra<br \/>\n    essa que consideram como sendo a verdadeira, a l&iacute;dima, justificando<br \/>\n    isso por ter fei&ccedil;&atilde;o antiga de dois s&eacute;culos ou tr&ecirc;s.<\/p>\n<p>Quanto mais incompreens&iacute;vel &eacute; ela, mais admirado &eacute; o<br \/>\n    escritor que a escreve, por todos que n&atilde;o lhe entenderam o escrito.<\/p>\n<p>Lembrei-me, por&eacute;m, que as minhas noticias daquela distante rep&uacute;blica<br \/>\n    n&atilde;o seriam completas, se n&atilde;o desse algumas informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre as suas letras; e resolvi vencer a hesita&ccedil;&atilde;o imediatamente,<br \/>\n    como agora ven&ccedil;o. <\/p>\n<p>A Bruzundanga n&atilde;o podia deixar de t&ecirc;-las, pois todo o povo,<br \/>\n    tribo, cl&atilde;, todo o agregado humano, enfim, tem a sua literatura e o<br \/>\n    estudo dessas literaturas muito tem contribu&iacute;do para n&oacute;s nos<br \/>\n    conhecermos a n&oacute;s mesmos, melhor nos compreendermos e mais perfeitamente<br \/>\n    nos ligarmos em sociedade, em humanidade, afinal.<\/p>\n<p>Seria uma falha minha nada dizer eu sobre as belas-letras da Bruzundanga<br \/>\n    que as tem como todos os pa&iacute;ses, a n&atilde;o ser o nosso que, conforme<br \/>\n    sentenciou a Gazeta de Not&iacute;cias, n&atilde;o merece t&ecirc;-las, pois<br \/>\n    o literato n&atilde;o tem fun&ccedil;&atilde;o social na nossa sociedade,<br \/>\n    provocando tal opini&atilde;o o protesto de um soci&oacute;logo inesperado.<br \/>\n    Devem estar lembrados deste epis&oacute;dio &mdash; creio eu. Continuemos,<br \/>\n    por&eacute;m, na Bruzundanga. <\/p>\n<p>Nela, h&aacute; a literatura oral e popular de c&acirc;nticos, hinos, modinhas,<br \/>\n    f&aacute;bulas, etc.; mas todo esse folk-lore n&atilde;o tem sido coligido<br \/>\n    e escrito, de modo que, dele, pouco lhes posso comunicar.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, um canto popular que me foi narrado com todo o sabor da ingenuidade<br \/>\n    e dos modismos peculiares ao povo, posso reproduzir aqui, embora a reprodu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o guarde mais aquele encanto de frase simples e imagens familiares<br \/>\n    das an&ocirc;nimas narra&ccedil;&otilde;es das coletividades humanas. <\/p>\n<p>Na vers&atilde;o dos populares da curiosa rep&uacute;blica, o conto se intitula<br \/>\n    &mdash; &quot;O GENERAL E O DIABO&quot; &mdash; havendo uma variante sob a<br \/>\n    alcunha de &mdash; &quot;O PADRE E O DIABO&quot;. Como n&atilde;o tivesse<br \/>\n    de cor nem as palavras da vers&atilde;o mais geral, nem as da variante, aproveitei<br \/>\n    o tema, alguma cousa do corpo da &quot;hist&oacute;ria&quot; e narro-a aqui,<br \/>\n    certamente muito desfigurada, sob a crisma de: <\/p>\n<h4>SUA EXCEL&Ecirc;NCIA<\/h4>\n<p>O ministro saiu do baile da embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas<br \/>\n    horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar s&oacute;, s&oacute;<br \/>\n    com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as<br \/>\n    atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no coup&eacute;<br \/>\n    depressa, s&ocirc;frego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente,<br \/>\n    tangido por sentimentos complexos: orgulho, for&ccedil;a, valor, vaidade.<\/p>\n<p>Todo ele era um po&ccedil;o de certeza. Estava certo do seu valor intr&iacute;nseco;<br \/>\n    estava certo das suas qualidades extraordin&aacute;rias e excepcionais. A<br \/>\n    respeitosa atitude de todos e a defer&ecirc;ncia universal que o cercava eram<br \/>\n    nada mais, nada menos que o sinal da convic&ccedil;&atilde;o geral de ser<br \/>\n    ele o resumo do pa&iacute;s, a encarna&ccedil;&atilde;o dos seus anseios.<br \/>\n    Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos<br \/>\n    ricos. As obscuras determina&ccedil;&otilde;es das cousas, acertadamente,<br \/>\n    haviam-no erguido at&eacute; ali, e mais alto lev&aacute;-lo-iam, visto que<br \/>\n    s&oacute; ele, ele s&oacute; e unicamente, seria capaz de fazer o pa&iacute;s<br \/>\n    chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham&#8230; <\/p>\n<p>E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita<br \/>\n    em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer, Lembrou-se<br \/>\n    do seu discurso de ainda agora:<\/p>\n<p>&quot;Na vida das sociedades, como na dos indiv&iacute;duos&quot;&#8230;<\/p>\n<p>Que maravilha! Tinha algo de filos&oacute;fico, de transcendente. E o sucesso<br \/>\n    daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro: <\/p>\n<p>&quot;Arist&oacute;teles, Bacon, Descartes, Spinosa e Spencer, como S&oacute;lon,<br \/>\n    Justiniano, Portalis e Ihering, todos os fil&oacute;sofos, todos os juristas<br \/>\n    afirmam que as leis devem se basear nos costumes&quot;&#8230;<\/p>\n<p>O olhar, muito brilhante, cheio de admira&ccedil;&atilde;o &mdash; o olhar<br \/>\n    do leader da oposi&ccedil;&atilde;o &mdash; foi o mais seguro penhor do efeito<br \/>\n    da frase&#8230;<\/p>\n<p>E quando terminou! Oh! <\/p>\n<p>&quot;Senhor, o nosso tempo &eacute; de grandes reformas; estejamos com ele:<br \/>\n    reformemos!&quot;<\/p>\n<p>A cerim&ocirc;nia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse<br \/>\n    final foi recebido.<\/p>\n<p>O audit&oacute;rio delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande sal&atilde;o<br \/>\n    iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.<\/p>\n<p>O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um s&oacute;<br \/>\n    tra&ccedil;o de fogo; depois sumiram-se. <\/p>\n<p>O ve&iacute;culo agora corria vertiginosamente dentro de uma n&eacute;voa<br \/>\n    fosforescente. Era em v&atilde;o que seus augustos olhos se abriam desmedidamente;<br \/>\n    n&atilde;o havia contornos, formas, onde eles pousassem. <\/p>\n<p>Consultou o rel&oacute;gio. Estava parado? N&atilde;o; mas marcava a mesma<br \/>\n    hora, o mesmo minuto da sua sa&iacute;da da festa.<\/p>\n<p>&mdash; Cocheiro, onde vamos? <\/p>\n<p>Quis arriar as vidra&ccedil;as. N&atilde;o p&ocirc;de; queimavam.<\/p>\n<p>Redobrou os esfor&ccedil;os, conseguindo arriar as da frente. <\/p>\n<p>Gritou ao cocheiro: <\/p>\n<p>&mdash; Onde vamos? Miser&aacute;vel, onde me levas? <\/p>\n<p>Apesar de ter o carro algumas vidra&ccedil;as arriadas, no seu interior fazia<br \/>\n    um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as<br \/>\n    gr&atilde;-cruzes magn&iacute;ficas. Gra&ccedil;as a Deus, ainda n&atilde;o<br \/>\n    se haviam derretido. O Le&atilde;o da Birm&acirc;nia, o Drag&atilde;o da China,<br \/>\n    o Ling&atilde;o da &Iacute;ndia estavam ali, entre todas as outras, intactas.\n  <\/p>\n<p>&mdash; Cocheiro, onde me levas? <\/p>\n<p>N&atilde;o era o mesmo cocheiro, n&atilde;o era o seu. Aquele homem de nariz<br \/>\n    adunco, queixo longo com uma barbicha, n&atilde;o era o seu fiel Manuel! <\/p>\n<p>&mdash; Canalha, p&aacute;ra, p&aacute;ra, sen&atilde;o caro me pagar&aacute;s!<\/p>\n<p>O carro voava e o ministro continuava a vociferar: <\/p>\n<p>&mdash; Miser&aacute;vel! Traidor! P&aacute;ra! P&aacute;ra! <\/p>\n<p>Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escurid&atilde;o que se ia,<br \/>\n    aos poucos fazendo quase perfeita, s&oacute; lhe permitiu ver os olhos do<br \/>\n    guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, met&aacute;lico e cortante.<br \/>\n    Pareceu-lhe que estava a rir-se. <\/p>\n<p>O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. N&atilde;o podendo suportar<br \/>\n    o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as<br \/>\n    cal&ccedil;as&#8230; <\/p>\n<p>Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas<br \/>\n    e seus bra&ccedil;os, seu tronco e sua cabe&ccedil;a dan&ccedil;avam, separados.\n  <\/p>\n<p>Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles &quot;libr&eacute;&quot;<br \/>\n    e uma grotesca cartola, cochilando &agrave; porta do pal&aacute;cio em que<br \/>\n    estivera ainda h&aacute; pouco e de onde, sa&iacute;ra triunfalmente, n&atilde;o<br \/>\n    havia minutos. <\/p>\n<p>Nas proximidades um coup&eacute; estacionava. <\/p>\n<p>Quis verificar bem as cousas circundantes; mas n&atilde;o houve tempo. <\/p>\n<p>Pelas escadas de m&aacute;rmore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe<br \/>\n    isso) descia os degraus, envolvido no fard&atilde;o que despira, tendo no<br \/>\n    peito as mesmas magn&iacute;ficas gr&atilde;-cruzes&#8230;<\/p>\n<p>Logo que o personagem pisou na soleira, de um s&oacute; &iacute;mpeto aproximou-se<br \/>\n    e, abjectamente, como se at&eacute; ali n&atilde;o tivesse feito outra cousa,<br \/>\n    indagou: <\/p>\n<p>&mdash; Vossa Excel&ecirc;ncia quer o carro?<\/p>\n<p>Como esta h&aacute;, na Bruzundanga, muitas outras &quot;hist&oacute;rias&quot;<br \/>\n    que correm de boca em boca e se transmitem de pai a filho.<\/p>\n<p>Os literatos, propriamente, aqueles de bons vestu&aacute;rios e ademanes<br \/>\n    de encomenda, n&atilde;o lhes d&atilde;o import&acirc;ncia, embora de todo<br \/>\n    n&atilde;o desprezem a literatura oral. Ao contr&aacute;rio: todos eles quase<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m propriamente obras escritas; a bagagem deles consta de<br \/>\n    confer&ecirc;ncias, poesias recitadas nas salas, m&aacute;ximas pronunciadas<br \/>\n    na intimidade de amigos, discursos em batizados ou casamentos, em banquetes<br \/>\n    de figur&otilde;es ou em cerim&ocirc;nias escolares, cifrando-se, as mais<br \/>\n    das vezes, a sua obra escrita em uma plaquette de fantasias de menino, colet&acirc;neas<br \/>\n    de ligeiros artigos de jornal ou num ma&ccedil;udo comp&ecirc;ndio de aula,<br \/>\n    vendidos, na nossa moeda, &agrave; raz&atilde;o de quinze ou vinte mil-r&eacute;is<br \/>\n    o volume.<\/p>\n<p>Estes tais s&atilde;o at&eacute; os escritores mais estimados e representativos,<br \/>\n    sobretudo quando empregam palavras obsoletas e s&atilde;o m&eacute;dicos com<br \/>\n    larga freguesia. <\/p>\n<p>S&atilde;o eles l&aacute;, na Bruzundanga, conhecidos por &quot;expoentes&quot;<br \/>\n    e n&atilde;o h&aacute; mo&ccedil;a rica que n&atilde;o queira casar com eles.<br \/>\n    Fazem-no depressa porque vivem pouco e menos que os seus livros afortunados.<br \/>\n    H&aacute; outros aspectos. Vamos ver um peculiar. <\/p>\n<p>O que caracteriza a literatura daquele pa&iacute;s, &eacute; uma curiosa<br \/>\n    escola liter&aacute;ria l&aacute; conhecida por &quot;Escola Samoieda&quot;.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o que todo o escritor bruzundanguense perten&ccedil;a a semelhante<br \/>\n    rito liter&aacute;rio; os mais pretensiosos, por&eacute;m, e os que se t&ecirc;m<br \/>\n    na conta de sacerdotes da Arte, se dizem graduados, diplomados nela. Digo<br \/>\n    &mdash; &quot;caracteriza&quot;, porque, como os senhores ver&atilde;o no<br \/>\n    correr destas notas, n&atilde;o h&aacute; na maioria daquela gente uma profundeza<br \/>\n    de sentimento que a impila a ir ao &acirc;mago das cousas que fingem amar,<br \/>\n    de decifr&aacute;-las pelo amor sincero em que as t&ecirc;m, de quer&ecirc;-las<br \/>\n    totalmente, de absorv&ecirc;-las. S&oacute; querem a apar&ecirc;ncia das cousas.<br \/>\n    Quando (em geral) v&atilde;o estudar medicina, n&atilde;o &eacute; a medicina<br \/>\n    que eles pretendem exercer, n&atilde;o &eacute; curar, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ser um grande m&eacute;dico, &eacute; ser doutor; quando se fazem oficiais<br \/>\n    do ex&eacute;rcito ou da marinha, n&atilde;o &eacute; exercer as obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    atinentes a tais profiss&otilde;es, tanto assim que fogem de executar o que<br \/>\n    &eacute; pr&oacute;prio a elas. V&atilde;o ser uma ou outra cousa, pelo brilho<br \/>\n    do uniforme. Assim tamb&eacute;m s&atilde;o os literatos que simulam s&ecirc;-lo<br \/>\n    para ter a gl&oacute;ria que as letras d&atilde;o, sem querer arcar com as<br \/>\n    dores, com o esfor&ccedil;o excepcional, que elas exigem em troca. A gl&oacute;ria<br \/>\n    das letras s&oacute; as tem, quem a elas se d&aacute; inteiramente; nelas,<br \/>\n    como no amor, s&oacute; &eacute; amado quem se esquece de si inteiramente<br \/>\n    e se entrega com f&eacute; cega. Os samoiedas, como vamos ver, contentam-se<br \/>\n    com as apar&ecirc;ncias liter&aacute;rias e a banal simula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de notoriedade, umas vezes por incapacidade de intelig&ecirc;ncia, em outras<br \/>\n    por instru&ccedil;&atilde;o insuficiente ou viciada, quase sempre, por&eacute;m,<br \/>\n    por falta de verdadeiro talento po&eacute;tico, de sinceridade, e necessidade,<br \/>\n    portanto, de disfar&ccedil;ar os defeitos com pelotiquices e passes de m&aacute;gica<br \/>\n    intelectuais.<\/p>\n<p>Tendo convivido com alguns poetas samoiedas, pude estudar um tanto demoradamente<br \/>\n    os princ&iacute;pios te&oacute;ricos dessa escola e julgo estar habilitado<br \/>\n    a lhes dar um resumo de suas regras po&eacute;ticas e da sua est&eacute;tica.\n  <\/p>\n<p>Esses poetas da Bruzundanga, para dar uma origem altissonante e misteriosa<br \/>\n    &agrave; sua escola, sustentam que ela nasceu do poema de um pr&iacute;ncipe<br \/>\n    samoieda, que viveu nas margens do &Aacute;rtico, nas proximidades do &Oacute;bi<br \/>\n    ou do Lena, na Sib&eacute;ria, um original que se alimentava da carne de mamutes<br \/>\n    conservados h&aacute; centenas de s&eacute;culos nas geleiras daquelas regi&otilde;es.<\/p>\n<p>Essa esp&eacute;cie de alimenta&ccedil;&atilde;o do long&iacute;nquo pr&iacute;ncipe<br \/>\n    poeta dava aos olhos de todos eles, singular prest&iacute;gio aos seus versos<br \/>\n    e aos do fundador, embora pouco eles os conhecessem. <\/p>\n<p>O pr&iacute;ncipe chamava-se Tuque-Tuque Fit-Fit e o seu poema Parik&aacute;ithont<br \/>\n    Vakochan, o que quer dizer no nosso cal&atilde;o &mdash; O sil&ecirc;ncio<br \/>\n    das renas no campo de gelo.<\/p>\n<p>Tuque-Tuque Fit-Fit era descrito pelos &quot;samoiedas&quot; da Bruzundanga<br \/>\n    como sendo uma beleza sem par e triunfal entre as deidades daquelas regi&otilde;es<br \/>\n    &aacute;rticas.<\/p>\n<p>Tudo isto fant&aacute;stico, mas gra&ccedil;as &agrave; credulidade dos s&aacute;bios<br \/>\n    do pa&iacute;s, s&oacute; um ou outro desalmado tinha a coragem de contestar<br \/>\n    tais lendas.<\/p>\n<p>Como todos n&oacute;s sabemos, a ra&ccedil;a samoieda &eacute; de estatura<br \/>\n    baixa, pouco menos que a dos lap&otilde;es, cabelos longos, duros e negros<br \/>\n    de jade, vivendo da carne de renas, de urso branco, quando a felicidade lhe<br \/>\n    fornece um. Tais homens andam em tren&oacute;s e fazem kayacs de peles de<br \/>\n    renas ou focas que eles empregam para capturar estas &uacute;ltimas. <\/p>\n<p>As suas concep&ccedil;&otilde;es religiosas s&atilde;o reduzidas, e os seus<br \/>\n    &iacute;dolos, manipansos hediondos, tocos de pau besuntados de pinturas incoerentes.<br \/>\n    Vestem-se, os samoiedas, com peles de renas e outros animais hiperb&oacute;reos.\n  <\/p>\n<p>Entretanto, na opini&atilde;o dos poetas daquela rep&uacute;blica, que dizem<br \/>\n    seguir as teorias da literatura do oceano &Aacute;rtico, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    os samoiedas assim, como o contam os mais autorizados viajantes; mas sim os<br \/>\n    mais belos esp&eacute;cimens da ra&ccedil;a humana, possuindo uma civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    digna da Gr&eacute;cia antiga. <\/p>\n<p>Esta Gr&eacute;cia serve para tudo, especialmente na Bruzundanga&#8230; <\/p>\n<p>Em geral, os vates bruzundanguenses adeptos da tal escola samoieda, como<br \/>\n    os senhores v&ecirc;em, n&atilde;o primam pela ilustra&ccedil;&atilde;o; e,<br \/>\n    quando se conteste no tocante &agrave; beleza de tais esquim&oacute;s, respondem<br \/>\n    categoricamente que a devem ter extraordin&aacute;ria, pois quanto mais fria<br \/>\n    &eacute; a regi&atilde;o, mais belos s&atilde;o os seus tipos, mais altos,<br \/>\n    mais louros, e os samoiedas vivem em zona frigid&iacute;ssima.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; como discutir com eles, porque todos se guiam por id&eacute;ias<br \/>\n    feitas, receitas de julgamentos e nunca se aventuram a examinar por si qualquer<br \/>\n    quest&atilde;o, preferindo resolv&ecirc;-las por generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    quase sempre recebidas de segunda ou terceira m&atilde;o, dilu&iacute;das<br \/>\n    e desfiguradas pelas sucessivas passagens de uma cabe&ccedil;a para outra<br \/>\n    cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Atribuem, sem base alguma, a esse tal Tuque-Tuque a funda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da escola, apesar de nunca lhe terem lido as poesias nem a sua arte po&eacute;tica.<\/p>\n<p>Sempre procurei saber por que se enfeitavam com esse ex&oacute;tico avoengo;<br \/>\n    as raz&otilde;es psicol&oacute;gicas, eu as encontrei na vaidade deles, no<br \/>\n    seu desejo de disfar&ccedil;ar a sua in&oacute;pia po&eacute;tica com um padrinho<br \/>\n    esquisito e misterioso; mas o n&uacute;cleo da lenda, o gr&atilde;ozinho de<br \/>\n    areia em torno do qual se concretizava o mito &aacute;rtico da escola, s&oacute;<br \/>\n    ultimamente pude encontrar.<\/p>\n<p>Consegui descobrir entre os livros de um ingl&ecirc;s meu amigo, Senhor Parsons,<br \/>\n    um volume do Senhor H. T. Switbilter, de Bristol (Inglaterra) &mdash; Literature<br \/>\n    of the Stingy Peoples; e encontrei nele alguns versos samoiedas. S&atilde;o<br \/>\n    an&ocirc;nimos, mas o estudioso de Bristol declara que os recolheu da boca<br \/>\n    de um certo Tuck-Tuck, samoieda de na&ccedil;&atilde;o, que ele conheceu em<br \/>\n    1867, quando foi encarregado pela Sociedade Paleontol&oacute;gica de Bristol<br \/>\n    de descobrir na embocadura dos grandes rios da Sib&eacute;ria monstros antediluvianos<br \/>\n    conservados no gelo, como escaparam de encontrar, quase intactos, o naturalista<br \/>\n    Pallas, nos fins do s&eacute;culo XVIII, e o viajante Adams, em 1806. A hist&oacute;ria<br \/>\n    do tal pr&iacute;ncipe Tuque-Tuque alimentar-se de carne de elefantes f&oacute;sse,<br \/>\n    parece ter origem no fato bem sabido de terem os c&atilde;es devorado as carnes<br \/>\n    do mamute, cujo esqueleto Adams trouxe para o museu de S&atilde;o Petersburgo;<br \/>\n    e o pr&iacute;ncipe j&aacute; sabemos quem &eacute;.<\/p>\n<p>O Senhor Switbilter pouco acrescenta a algumas poesias que publica; e as<br \/>\n    que est&atilde;o no volume, traduzidas, s&atilde;o por demais monstruosas,<br \/>\n    sempre com um mesmo pensamento denunciando uma concep&ccedil;&atilde;o estreita<br \/>\n    da vida e do universo, muito explic&aacute;vel em b&aacute;rbaros glaciais.\n  <\/p>\n<p>O viajante ingl&ecirc;s que conhece o samoieda, entretanto, diz aqui e ali,<br \/>\n    que elas s&atilde;o enf&aacute;ticas, sem quantidade de sentimento ou um acento<br \/>\n    musical agrad&aacute;vel e individual, descaindo quase sempre para a melop&eacute;ia<br \/>\n    ou o &quot;tant&atilde;&quot; ignaro, quando n&atilde;o alternam uma cousa<br \/>\n    e outra. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o foi no livro do Senhor Switbilter que os augustos poetas da<br \/>\n    Bruzundanga foram encontrar as bases da sua escola. Eles n&atilde;o conhecem<br \/>\n    esse autor, pois nunca os vi cit&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Eles, os &quot;samoiedas&quot; da Bruzundanga, encontraram o mestre nos escritos<br \/>\n    de um tal Chamat ou Chalat, um aventureiro franc&ecirc;s que parece ter estado<br \/>\n    no pa&iacute;s daquela gente &aacute;rtica, aprendido um pouco da l&iacute;ngua<br \/>\n    dela e se servido do livro do viajante ingl&ecirc;s para defender uma po&eacute;tica<br \/>\n    que lhe viera &agrave; cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Esse Chamat ou Chalat, Flaubert, quando esteve no Egito, encontrou-o por<br \/>\n    l&aacute;, como m&eacute;dico do ex&eacute;rcito quedival; e ele se ocupava<br \/>\n    nos &oacute;cios de sua prov&aacute;vel mendic&acirc;n&ccedil;a em rimar uma<br \/>\n    trag&eacute;dia cl&aacute;ssica, Abdelc&aacute;der, em cinco atos, onde havia<br \/>\n    um c&eacute;lebre verso de que o grande romancista nunca se esqueceu. &Eacute;,<br \/>\n    o seguinte : <\/p>\n<p>&quot;C&rsquo;est de la&rsquo; par Allah! qu&rsquo; Abd-Allah s&rsquo;en<br \/>\n    alla&quot;.<\/p>\n<p>O escul&aacute;pio do Cairo insistia muito nele e esfor&ccedil;ava-se por<br \/>\n    demonstrar que, com semelhante &quot;harmonia imitativa&quot; como os antigos<br \/>\n    chamavam, obtinha traduzir, em verso, o sonido do galope de cavalo. <\/p>\n<p>Havia mais belezas de igual quilate e outras originalidades. N&atilde;o obstante,<br \/>\n    quando apareceu, foi um louco sucesso de riso muito parecido com o do Tremor<br \/>\n    de Terra de Lisboa, aquela c&eacute;lebre trag&eacute;dia do cabeleireiro<br \/>\n    Andr&eacute;, a quem Voltaire invejou e escreveu, entretanto, ao receber-lhe<br \/>\n    a obra, que continuasse a fazer sempre cabeleiras &mdash;&quot;toujours des<br \/>\n    perruques&quot;, Senhor Andr&eacute;.<\/p>\n<p>Chalat afrontou a cr&iacute;tica e n&atilde;o podendo defender-se com os<br \/>\n    cl&aacute;ssicos franceses, apelou para a poesia em l&iacute;ngua samoieda,<br \/>\n    que conhecia um pouco por ter sido marinheiro de um baleeiro que naufragou<br \/>\n    nas proximidades da terra desses lap&otilde;es, entre os quais passou alguns<br \/>\n    meses. N&atilde;o desconhecia o livro do Senhor Switbilter, como tive ocasi&atilde;o<br \/>\n    de verificar nos fragmentos de um seu tratado po&eacute;tico, citado na tradu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da obra de um seu disc&iacute;pulo basco por onde os &quot;samoiedas&quot;<br \/>\n    da Bruzundanga estudaram a escola que verdadeiramente Chalat ou Chamat fundara.\n  <\/p>\n<p>O seu desafio &agrave; cr&iacute;tica, escudado na po&eacute;tica e est&eacute;tica<br \/>\n    das margens do glacial &Aacute;rtico, trouxe-lhe logo uma certa notoriedade<br \/>\n    e disc&iacute;pulos. <\/p>\n<p>Estes vieram muito naturalmente, pois, dada a indig&ecirc;ncia mental daquela<br \/>\n    esp&eacute;cie de esquim&oacute;s, a sua pobreza de impress&otilde;es e sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a sua incapacidade para as id&eacute;ias gerais, os hinos, os c&acirc;nticos,<br \/>\n    os rond&oacute;s dos mesmos, citados pelo medicastro, facilitavam muito o<br \/>\n    of&iacute;cio de fazer verso, desde que se tivesse paci&ecirc;ncia; e a facilidade<br \/>\n    seduziu muitos dos seus patr&iacute;cios e determinou a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos bardos bruzundanguenses. <\/p>\n<p>Os disc&iacute;pulos de Chalat ou Chamat tiraram da sua obra regras infal&iacute;veis<br \/>\n    para fazer poetas e poesias e um certo at&eacute; aplicou a teoria dos erros<br \/>\n    &agrave; sua arte po&eacute;tica. <\/p>\n<p>A instru&ccedil;&atilde;o do grosso dos menestr&eacute;is bruzundanguenses<br \/>\n    n&atilde;o permitia esse apelo &agrave; matem&aacute;tica; e contentaram-se<br \/>\n    com umas regras simples que tinham na ponta da l&iacute;ngua, como as beatas<br \/>\n    as rezas que n&atilde;o lhes passam pelo cora&ccedil;&atilde;o, e outros desenvolvimentos<br \/>\n    te&oacute;ricos.<\/p>\n<p>Era pois essa po&eacute;tica e essa est&eacute;tica que dominavam entre os<br \/>\n    literatos da Bruzundanga; era assim como o seu dogma de arte donde se originavam<br \/>\n    as suas f&oacute;rmulas lit&uacute;rgicas, o seu ritual, os seus esconjuros,<br \/>\n    enfim, o seu culto &agrave; tal harmonia imitava, que tanto prezava Chalat.\n  <\/p>\n<p>Al&eacute;m desta deusa, havia outras divindades: o ritmo, o estilo, a nobreza<br \/>\n    das palavras, a aristocracia dos assuntos e dos personagens, quando faziam<br \/>\n    romances, conto ou drama e a medi&ccedil;&atilde;o dos versos que exigiam<br \/>\n    fosse feita como se se tratasse da base de uma triangula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geod&eacute;sica. Ningu&eacute;m, no entanto, podia sacar-lhes da cabe&ccedil;a<br \/>\n    uma concep&ccedil;&atilde;o geral e larga de arte ou obter o motivo deles<br \/>\n    conceberem separados da obra d&rsquo;arte esses acess&oacute;rios, transformando-os<br \/>\n    em puros manipansos, fetiches, isolando-os, fazendo-os perder a sua fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    natural que sup&otilde;e sempre a obra liter&aacute;ria com o fim. &Eacute;<br \/>\n    ela, a sua concep&ccedil;&atilde;o, a id&eacute;ia anterior que a domina e<br \/>\n    o seu destino necess&aacute;rio, que unicamente regulam o emprego deles, graduam<br \/>\n    o seu uso, a sua necessidade, e como que ela mesma os dita. <\/p>\n<p>Todos os samoiedas limitavam-se quando se tratava dos tais assuntos, a falar<br \/>\n    muito de um modo confuso, esotericamente, em forma e fundo, com trejeitos<br \/>\n    de feiticeiros tribais. <\/p>\n<p>N&atilde;o nego que houvesse entre eles alguns de valor, mas os preconceitos<br \/>\n    da escola os matava. <\/p>\n<p>A maioria ia para ela, porque era c&ocirc;modo no fundo, pois n&atilde;o<br \/>\n    pedia se comunicasse qualquer emo&ccedil;&atilde;o, qualquer pensamento, qualquer<br \/>\n    importante revela&ccedil;&atilde;o de nossa alma que interessasse outras almas;<br \/>\n    que se dissesse usando dos processos art&iacute;sticos, novos ou velhos, de<br \/>\n    um pouco do universal que h&aacute; em n&oacute;s, alguma cousa do mist&eacute;rio<br \/>\n    do universo que o nosso esp&iacute;rito tivesse percebido e determinasse transmiti-la;<br \/>\n    enfim um julgamento, um conceito que pudesse influir no uso da vida, na nossa<br \/>\n    conduta e no problema do nosso destino, empregando os fatos simples, elementares,<br \/>\n    as imagens e os sons que por si s&oacute;s n&atilde;o exprimiriam a id&eacute;ia<br \/>\n    que se procura, mas que se acha com eles e se vai al&eacute;m por meio deles.\n  <\/p>\n<p>Isto de Hegel, de Taine, de Bruneti&egrave;re, n&atilde;o era com os samoiedas;<br \/>\n    a quest&atilde;o deles era encontrar uma esp&eacute;cie de tabuada que lhes<br \/>\n    fizesse multiplicar a versalhada. Como as tais regras po&eacute;ticas do suposto<br \/>\n    pr&iacute;ncipe eram bem acess&iacute;veis &agrave; sua paci&ecirc;ncia de<br \/>\n    correcionais, adotaram-nas como artigos de f&eacute;, exageraram-nas at&eacute;<br \/>\n    ao absurdo. <\/p>\n<p>Convinham elas por ir ao encontro da sua falta de uma larga intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    do mundo e do homem e facilitar-lhes uma cr&iacute;tica terra-a-terra de seminaristas<br \/>\n    mnem&ocirc;nicos. <\/p>\n<p>Para mais perfeito ensinamento dos leitores vou-lhes repetir um trecho de<br \/>\n    conversa que ouvi entre tr&ecirc;s dos tais poetas da Bruzundanga, adeptos<br \/>\n    extremados da Escola Samoieda.<\/p>\n<p>Quando cheguei, eles j&aacute; estavam sentados em torno da mesa do caf&eacute;.<br \/>\n    Acabava eu de assistir uma aula de geologia na Faculdade de Ci&ecirc;ncias<br \/>\n    do pa&iacute;s; o meu esp&iacute;rito vinha cheio de silhuetas de monstros<br \/>\n    de outras &eacute;pocas geol&oacute;gicas. Eram ictiossauros, megat&eacute;rios,<br \/>\n    mamutes; era do sinistro pterod&aacute;ctilo que eu me lembrava; e n&atilde;o<br \/>\n    sei por qu&ecirc;, quando deparei os tr&ecirc;s poetas samoiedas, me deu vontade<br \/>\n    de entrar no botequim e tomar parte na conversa deles.<\/p>\n<p>A Bruzundanga, como sabem, fica nas zonas tropical e subtropical, mas a est&eacute;tica<br \/>\n    da escola pedia que eles se vestissem com peles de urso, de renas, de martas<br \/>\n    e raposas &aacute;rticas.<\/p>\n<p>&Eacute; um vestu&aacute;rio barato para os samoiedas aut&ecirc;nticos, mas<br \/>\n    car&iacute;ssimo para os seus parentes liter&aacute;rios dos tr&oacute;picos.\n  <\/p>\n<p>Estes, por&eacute;m, crentes na efic&aacute;cia da vestimenta para a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica, morrem de fome, mas vestem-se &agrave; moda da Sib&eacute;ria.\n  <\/p>\n<p>Estavam assim vestidos, naquela tarde, quente, ali naquele caf&eacute; da<br \/>\n    capital da Bruzundanga, tr&ecirc;s dos seus novos e soberbos vates; estavam<br \/>\n    ali: Kotelniji, Wolpuk e Worspikt, o primeiro que tinha aplicado o vernier<br \/>\n    para &quot;medir&quot; versos. <\/p>\n<p>Abanquei-me e pude perceber que acabavam de ouvir uma poesia do poeta Worspikt.<br \/>\n    Tratava de lua, de iceberg, &mdash; descobri eu por uma e outra considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que fizeram.<\/p>\n<p>Nenhum deles tinha visto um iceberg, mas gabavam os ouvintes a emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com que o outro traduzira em verso o espet&aacute;culo desse fen&ocirc;meno<br \/>\n    das circunvizinhan&ccedil;as dos p&oacute;los.<\/p>\n<p>Num dado momento Kotelniji disse para Worspikt: <\/p>\n<p>&mdash; Gostei muito desse teu verso: &mdash; &quot;h&aacute; luna loura<br \/>\n    linda leve, luna bela!&quot; <\/p>\n<p>O autor cumprimentado retrucou: <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o fiz mais do que imitar Tuque-Tuque, quando encontrou aquela<br \/>\n    soberba harmonia imitativa, para dar id&eacute;ia do luar&mdash;&quot;Loga<br \/>\n    Kule Kulela logalam&quot;, no seu poema &quot;Kulelau&quot;.<\/p>\n<p>Wolpuk, por&eacute;m, objetou: <\/p>\n<p>&mdash; Julgo a tua excelente, mas teria escolhido a vogal forte &quot;u&quot;,<br \/>\n    para basear a minha sugest&atilde;o imitativa do luar. <\/p>\n<p>&mdash; Como? perguntou Worspikt.<\/p>\n<p>&mdash; Eu teria dito: &quot;Ui! lua uma pula, tu moo! sulla nuit!&quot;\n  <\/p>\n<p>&mdash; H&aacute; muitas l&iacute;nguas nela, objetou Kotelniji. <\/p>\n<p>&mdash; Quantas mais, melhor, para dar um car&aacute;ter universal &agrave;<br \/>\n    poesia que deve sempre t&ecirc;-lo, como ensina o mestre, defendeu-se Wolpuk.\n  <\/p>\n<p>&mdash; Eu, por&eacute;m, aduziu Kotelniji, conquanto permita nos outros<br \/>\n    certas licen&ccedil;as po&eacute;ticas, tenho por princ&iacute;pio obedecer<br \/>\n    &agrave;s mais duras e r&iacute;gidas regras, n&atilde;o me afastar delas,<br \/>\n    encarcerar bem o meu pensamento. No meu caso, eu empregaria a vogal &quot;a&quot;<br \/>\n    para a harmonia em vista.<\/p>\n<p>&mdash; Mas Tuque-Tuque&#8230; fez Worspikt. <\/p>\n<p>&mdash; Ele empregou o &quot;e&quot; no tal verso que voc&ecirc; citou, devido<br \/>\n    &agrave; pronuncia&ccedil;&atilde;o que essa letra l&aacute; tem. &Eacute;<br \/>\n    um &quot;e&quot; molhado que evoca bem o luar deles, mas&#8230; <\/p>\n<p>&mdash; E com &quot;a&quot;, como &eacute;? indagou Wolpuk. <\/p>\n<p>&mdash; O &quot;a&quot; &eacute; o espanto; seria ai o espanto do homem dos<br \/>\n    tr&oacute;picos, diante da estranheza do fen&ocirc;meno &aacute;rtico que<br \/>\n    ele n&atilde;o conhece e o assombra. <\/p>\n<p>&mdash; Mas Kotelniji, eu visava o luar. <\/p>\n<p>&mdash; Que tem isso? Na harmonia em &quot;a&quot; tamb&eacute;m entra esse<br \/>\n    fen&ocirc;meno que &eacute; o provocador do teu espanto, causado pela sua<br \/>\n    singularidade local, e pela hirta presen&ccedil;a do iceberg, branco, fant&aacute;stico,<br \/>\n    que a lua ilumina. <\/p>\n<p>&mdash; Bem, perguntou o autor da poesia; como voc&ecirc; faria, Kotelniji?\n  <\/p>\n<p>&mdash; Eu diria: &quot;A lua acaba de calar a cara&ccedil;a parva&quot;.\n  <\/p>\n<p>&mdash; Mas n&atilde;o teria nada que ver com o tema da poesia, objetou Wolpuk;\n  <\/p>\n<p>&mdash; Como? O iceberg toma as formas mais variadas&#8230; Demais, h&aacute;<br \/>\n    sempre onde encaixar, seja qual for a poesia, uma feliz &quot;imitativa&quot;.\n  <\/p>\n<p>&mdash; Voc&ecirc; tem raz&atilde;o, aplaudiu Wolpuk. <\/p>\n<p>Worspikt concordou tamb&eacute;m e prometeu aproveitar a maravilhosa trouvaille<br \/>\n    do amigo de letras.<\/p>\n<p>Kotelniji era considerado como um grande poeta &quot;samoieda&quot; e tinha<br \/>\n    mesmo estabelecido com assentimento de todos eles, as leis cient&iacute;ficas<br \/>\n    da escola perfeita, &quot;a samoieda&quot;, que ele definia como tendo por<br \/>\n    escopo n&atilde;o exprimir cousa alguma com rela&ccedil;&atilde;o ao assunto<br \/>\n    visado, ou dizer sobre ele, pomposamente, as mais vulgares banalidades.<\/p>\n<p>Dentre as leis que estatu&iacute;a, eu me lembro de algumas. Ei-las: <\/p>\n<p>1.&ordf; &mdash; Sendo a poesia o meio de transportar o nosso esp&iacute;rito<br \/>\n    do real para o ideal, deve ela ter como principal fun&ccedil;&atilde;o provocar<br \/>\n    o sono, estado sempre prof&iacute;cuo ao sonho.<\/p>\n<p>2.&ordf; &mdash;A monotonia deve ser sempre procurada nas obras po&eacute;ticas;<br \/>\n    no mundo, tudo &eacute; mon&oacute;tono (Tuque-Tuque). <\/p>\n<p>3.&ordf; &mdash;A beleza de um trabalho po&eacute;tico n&atilde;o deve ressaltar<br \/>\n    desse pr&oacute;prio trabalho, independente de qualquer explica&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    ela deve ser encontrada com as explica&ccedil;&otilde;es ou coment&aacute;rios<br \/>\n    fornecidos pelo autor ou por seus &iacute;ntimos. <\/p>\n<p>4.&ordf; &mdash;A composi&ccedil;&atilde;o de um poema deve sempre ser regulada<br \/>\n    pela harmonia imitativa em geral e seus derivados. <\/p>\n<p>E muitas outras de que me esqueci, mas julgo que s&oacute; estas ilustram<br \/>\n    perfeitamente o absurdo da qualifica&ccedil;&atilde;o de leis cient&iacute;ficas<br \/>\n    da arte. Alhos com bugalhos! <\/p>\n<p>Denuncia tal denomina&ccedil;&atilde;o, de modo cabal, a sua incapacidade<br \/>\n    paragrupar id&eacute;ias, no&ccedil;&otilde;es e imagens. Que pensaria ele<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia? Qual era a sua concep&ccedil;&atilde;o de arte? Ser&aacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel decifrar essa hist&oacute;ria de &quot;leis cient&iacute;ficas<br \/>\n    da arte&quot;? Qual! <\/p>\n<p>Era assim o grande poeta samoieda. <\/p>\n<p>Al&eacute;m de uma gramaticazinha que n&oacute;s aqui chamamos de tico-tico<br \/>\n    e da arte po&eacute;tica de Chalat aumentada e explicada com uma l&oacute;gica<br \/>\n    de gafanhotos, n&atilde;o possu&iacute;a ele um acervo de no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gerais, de id&eacute;ias, de observa&ccedil;&otilde;es, de emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pr&oacute;prias e diretas do mundo, de julgamentos sobre as cousas, tudo isso<br \/>\n    que forma o fundo do artista e que, sob a a&ccedil;&atilde;o de uma concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral, lhe permite fazer grupamentos ideais, originalmente, criar enfim. <\/p>\n<p>A import&acirc;ncia do vate lhe vinha de redigir A Kananga, &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    das casas de perfumarias, leques, luvas e receitas para doces, onde alguns<br \/>\n    rapazes, sob o seu olhar cioso, escreviam, para ganhar os cigarros, algumas<br \/>\n    cousas ligeiras. <\/p>\n<p>O bardo samoieda tomava, entretanto, a cousa a s&eacute;rio, como se estivesse<br \/>\n    escrevendo para a Revue de Deux Mondes uma f&oacute;rmula de m&atilde;e-benta;<br \/>\n    e evitava o mais poss&iacute;vel que algu&eacute;m tomasse p&eacute; na pueril<br \/>\n    A kananga. Era essa a sua m&aacute;xima preocupa&ccedil;&atilde;o de artista.<\/p>\n<p>De todos os posti&ccedil;os liter&aacute;rios, usava, e de todas as mesquinhezas<br \/>\n    da profiss&atilde;o, abusava.<\/p>\n<p>Era este de fato um samoieda t&iacute;pico no intelectual, no moral, no f&iacute;sico.<br \/>\n    Tinha fama.<\/p>\n<p>Poderia mais esclarecer semelhante escola, os seus processos, as suas regras,<br \/>\n    as suas supersti&ccedil;&otilde;es; mas n&atilde;o conv&eacute;m fazer semelhante<br \/>\n    cousa, porque bem podia acontecer que alguns dos meus compatriotas a quisessem<br \/>\n    seguir. <\/p>\n<p>J&aacute; temos muitas bobagens e s&atilde;o bastantes. <\/p>\n<p>Fico nisto. <\/p>\n<h4><a name=\"1\">I &#8211; Um Grande Financeiro<\/a><\/h4>\n<p>A Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga tinha, como todas as<br \/>\n    rep&uacute;blicas que se prezam, al&eacute;m do presidente e ju&iacute;zes<br \/>\n    de v&aacute;rias categorias, um Senado e uma C&acirc;mara de Deputados, ambos<br \/>\n    eleitos por sufr&aacute;gio direto e tempor&aacute;rios ambos, com certa diferen&ccedil;a<br \/>\n    na dura&ccedil;&atilde;o do mandato: o dos senadores, mais longo; o dos deputados,<br \/>\n    mais curto.<\/p>\n<p>O pa&iacute;s vivia de expedientes, isto &eacute;, de cinq&uuml;enta em cinq&uuml;enta<br \/>\n    anos, descobria-se nele um produto que ficava sendo a sua riqueza. Os governos<br \/>\n    taxavam-no a mais n&atilde;o poder, de modo que os pa&iacute;ses rivais, mais<br \/>\n    parcimoniosos na decreta&ccedil;&atilde;o de impostos sobre produtos semelhantes,<br \/>\n    acabavam, na concorr&ecirc;ncia, por derrotar a Bruzundanga; e, assim, ela<br \/>\n    fazia morrer a sua riqueza, mas n&atilde;o sem os estertores de uma valoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    duvidosa. Da&iacute; vinha que a grande na&ccedil;&atilde;o vivia aos solavancos,<br \/>\n    sem estabilidade financeira e econ&ocirc;mica; e, por isso mesmo, dando campo<br \/>\n    a que surgissem, a toda a hora, financeiros de todos os seus cantos e, sobretudo,<br \/>\n    do seu parlamento. <\/p>\n<p>Naquele ano, isto h&aacute; dez anos atr&aacute;s, surgiu na sua C&acirc;mara<br \/>\n    um deputado que falava muito em assuntos de finan&ccedil;as, or&ccedil;amentos,<br \/>\n    impostos diretos e indiretos e outras cousas cabal&iacute;sticas da ci&ecirc;ncia<br \/>\n    de obter dinheiro para o Estado. <\/p>\n<p>A sua ci&ecirc;ncia e saber foram logo muito gabados, pois o Tesouro da Bruzundanga,<br \/>\n    andando quase sempre vazio, precisava desses m&aacute;gicos financeiros, para<br \/>\n    n&atilde;o se esvaziar de todo. <\/p>\n<p>Chamava-se o deputado &mdash; Felixhimino Ben Karpatoso. Se era advogado,<br \/>\n    m&eacute;dico, engenheiro ou mesmo dentista, n&atilde;o se sabia bem; mas<br \/>\n    todos tratavam-no de doutor. <\/p>\n<p>O doutor Karpatoso tinha uma erudi&ccedil;&atilde;o s&oacute;lida e pr&oacute;pria<br \/>\n    em mat&eacute;ria de finan&ccedil;as. N&atilde;o citava Leroy-Beaulieu absolutamente.<br \/>\n    Os seus autores prediletos eram o russo-polaco Ladislau Poniatwsky, o australiano<br \/>\n    Gordon O&rsquo;Neill, o chin&ecirc;s Ma-Fi-Fu, o americano William Farthing<br \/>\n    e, sobretudo, o doutor Caracoles y Mientras, da Universidade de Caracas, capital<br \/>\n    da Venezuela, que, por ser pa&iacute;s sempre em bancarrota, dava grande autoridade<br \/>\n    ao financista de sua principal universidade. <\/p>\n<p>O f&iacute;sico do deputado era dos mais simp&aacute;ticos. Tinha um ar de<br \/>\n    Gil-Blas de Santillana, em certas ilustra&ccedil;&otilde;es do romance de<br \/>\n    Le Sage, com as suas barbas negras, cerradas, longas e sedosas, muito cuidadas<br \/>\n    e aparadas &agrave; tesoura diariamente. A tez era de um moreno espanhol;<br \/>\n    os cabelos, abundantes e de azeviche; os olhos, negros e brilhantes; e n&atilde;o<br \/>\n    largava a piteira de &acirc;mbar, com guarni&ccedil;&otilde;es de ouro, onde<br \/>\n    fumegava sempre um charuto caro. <\/p>\n<p>O seu saber em mat&eacute;ria de finan&ccedil;as e economia pol&iacute;tica<br \/>\n    determinava a sua constante escolha para relator do or&ccedil;amento da receita.<br \/>\n    Era de ver como ele escrevia um substancial pref&aacute;cio ao seu relat&oacute;rio.<br \/>\n    N&atilde;o me recordo de todas as passagens importantes de alguns deles; mas,<br \/>\n    de certas, e &eacute; pena que sejam t&atilde;o poucas, eu me lembro perfeitamente.<br \/>\n    Eis aqui algumas. Para o or&ccedil;amento de 1908, o doutor Karpatoso escreveu<br \/>\n    o seguinte trecho profundo: &quot;Os governos n&atilde;o devem pedir &agrave;s<br \/>\n    popula&ccedil;&otilde;es que dirigem, em mat&eacute;ria de impostos, mais<br \/>\n    do que elas possam dar, afirma Ladislau Poniatwsky. A nossa popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; em geral pobr&iacute;ssima e n&oacute;s n&atilde;o devemos sobrecarreg&aacute;-la<br \/>\n    fiscalmente.&quot; N&atilde;o impediu isto que ele propusesse o aumento da<br \/>\n    taxa sobre o bacalhau da Noruega, pretextando haver produtos similares nas<br \/>\n    costas do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>No or&ccedil;amento do ano seguinte, ainda como relator da receita, ele dizia:<br \/>\n    &quot;&Eacute; miss&atilde;o dos governos modernos, em pa&iacute;ses de fraca<br \/>\n    iniciativa individual (o nosso o &eacute;), fomentar o aparecimento de riquezas<br \/>\n    novas, no dizer de Gordon O&rsquo;Neill. A prov&iacute;ncia das Jazidas, segundo<br \/>\n    um s&aacute;bio professor franc&ecirc;s, &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ouro sob um peito de ferro. O pico de Ytabhira, etc.&quot;<\/p>\n<p>E lembrava &agrave; C&acirc;mara que indicasse medidas pr&aacute;ticas para<br \/>\n    o aproveitamento do ouro e do ferro da prov&iacute;ncia das Jazidas. A C&acirc;mara<br \/>\n    e o Senado ouviram-no e votaram algumas centenas de contos para uma comiss&atilde;o<br \/>\n    que estudasse o meio pr&aacute;tico de aproveitar o ferro da rica prov&iacute;ncia<br \/>\n    central. A comiss&atilde;o foi nomeada, montaram o escrit&oacute;rio de pesquisas<br \/>\n    na capital, em lugar semelhante ao Largo da Carioca, e o pico de Ytabhira<br \/>\n    ficou intacto. <\/p>\n<p>A fama do doutor Karpatoso subia e a sua eleg&acirc;ncia tamb&eacute;m. Fez<br \/>\n    uma viagem &agrave; Europa, para estudar o mecanismo financeiro dos pa&iacute;ses<br \/>\n    do Velho Mundo. Voltou de l&aacute; naturalmente mais s&aacute;bio; o que,<br \/>\n    <br \/>\n    por&eacute;m, ele trouxe de fato, nas malas, e foi verificado pelos elegantes<br \/>\n    do pa&iacute;s, foram fatos, botas, chap&eacute;us, bengalas, dernier bateau,<br \/>\n    como dizem os smarts das col&ocirc;nias francesas da &Aacute;sia, da &Aacute;frica,<br \/>\n    da Am&eacute;rica e da Oceania.<\/p>\n<p>Arreado de novo e inteiramente europeu, o doutor Karpatoso come&ccedil;ou<br \/>\n    a figurar nas sec&ccedil;&otilde;es mundanas dos jornais, e, vencendo o Senhor<br \/>\n    Mikel de Longueville, outro deputado da Bruzundanga, foi tido como o parlamentar<br \/>\n    mais chic do Congresso Nacional.<\/p>\n<p> &quot;A eleg&acirc;ncia do doutor Mikel de la Tour d&#8217;Auvergne &eacute; um<br \/>\n    tanto pesada; tem algo da solidez lusitana quando enrijou os m&uacute;sculos<br \/>\n    ao machado nos cepos dos a&ccedil;ougues; a do doutor Ben Karpatoso &eacute;<br \/>\n    mais<br \/>\n    leve, mais ligeira, mais nervosa. Parece ter sido obtida com o exerc&iacute;cio<br \/>\n    do florete.&quot;<\/p>\n<p>Tudo isto foi dito na sec&ccedil;&atilde;o elegante &#8212; &quot;De C&oacute;coras&quot;<br \/>\n    &#8212; do Di&aacute;rio Mercantil, jornal da capital, sec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    redigida por escritor que tinha, em mat&eacute;ria de compor romances, um<br \/>\n    grande parentesco com aquela<br \/>\n    raposa das uvas, cuja hist&oacute;ria La Fontaine contou. &quot;Ils sont trop<br \/>\n    verts, et bons pour des goujats&quot;, disse a raposa quando n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    atingir as uvas. Lembram-se? <\/p>\n<p>O elogio que o tal senhor fez aos ademanes do doutor Karpatoso tinha origem<br \/>\n    no boato a correr de que, muito em breve, ele seria indicado para ministro<br \/>\n    da Fazenda, e o tal redator da sec&ccedil;&atilde;o &#8212; &quot;De C&oacute;coras&quot;<br \/>\n    &#8212; tinha sempre em mira descobrir os ministros futuros, para ulteriores<br \/>\n    servi&ccedil;os de sua profiss&atilde;o e recompensas conseq&uuml;entes.<\/p>\n<p>Mikel de Bouillon &eacute; que ficou aborrecido com a cousa; mas como tinha<br \/>\n    certeza de sair, pelo menos, vice-presidente da Bruzundanga, abafou o azedume,<br \/>\n    encerou bem os bigodes e continuou a pisar os passeios das ruas centrais da<br \/>\n    capital, com uma estudada solenidade &#8212; lento, erecto como um soba africano<br \/>\n    que tivesse envergado um fard&atilde;o de oficial de marinha e se coberto<br \/>\n    com o respectivo chap&eacute;u armado, encontrados nos salvados de um naufr&aacute;gio,<br \/>\n    em uma praia deserta. Via-se bem que Turenne Calmon era daqueles que se satisfazem<br \/>\n    em ser o segundo em Roma, e que segundo! <\/p>\n<p>Desde que se rosnou que o doutor Karpatoso seria ministro da Fazenda do futuro<br \/>\n    quadri&ecirc;nio, a sua casa come&ccedil;ou a encher-se. Kaipatoso era casado<br \/>\n    com uma senhora da ro&ccedil;a, muito segura das suas origens nobres; ela<br \/>\n    pertencia &agrave; fam&iacute;lia dos Kilvas, cujo armorial e pergaminhos<br \/>\n    n&atilde;o tinham sido outorgados por nenhum pr&iacute;ncipe soberano. Como<br \/>\n    Napole&atilde;o que, segundo dizem, na sua sagra&ccedil;&atilde;o de imperador,<br \/>\n    p&ocirc;s ele mesmo a coroa na cabe&ccedil;a, Dona Hengr&aacute;cia Ben Manuela<br \/>\n    Kilva tinha ela mesmo se enobrecido.<\/p>\n<p>Felixhimino, como bom financeiro que era, possu&iacute;a qualidades harpagonescas<br \/>\n    de economia e poupan&ccedil;a, de forma que se zangava muito com aquelas despesas<br \/>\n    de ch&aacute; e biscoutos, que era obrigado a<br \/>\n    oferecer aos visitantes. A fim de n&atilde;o mexer nas economias que fazia<br \/>\n    sobre seu subs&iacute;dio teve a id&eacute;ia genial de fundar uma casa de<br \/>\n    herban&aacute;rio, em uma esp&eacute;cie de Rua Larga de S&atilde;o Joaquim<br \/>\n    da capital da Rep&uacute;blica da<br \/>\n    Bruzundanga. Arranjou uma pessoa de confian&ccedil;a, que p&ocirc;s &agrave;<br \/>\n    testa do neg&oacute;cio; e ei-lo a vender ch&aacute; mineiro, alfavaca, &quot;l&iacute;ngua-de-vaca&quot;,<br \/>\n    cip&oacute;-chumbo, mal&iacute;cia-de-mulher, erva-cidreira, jurubeba, catinga-de-bode,<br \/>\n    mata-p&atilde;o, erva-tost&atilde;o, bicu&iacute;ba, &oacute;leo de capivara,<br \/>\n    cascos de jacar&eacute;s, corujas empalhadas, caramujos, sapos secos, jabutis,<br \/>\n    etc. Em breve, ficou sendo o principal fornecedor dos feiticeiros da cidade,<br \/>\n    e os lucros foram<br \/>\n    grandes, de modo que ele p&ocirc;de, sem mais gravame nas suas finan&ccedil;as,<br \/>\n    sustentar o seu sal&atilde;o.<\/p>\n<p>Mme. Hengr&aacute;cia Ben Karpatoso, centro de conversa, n&atilde;o se cansava<br \/>\n    de gabar os &aacute;rduos trabalhos do marido.<\/p>\n<p>Certa ver, em que houvera recep&ccedil;&atilde;o na casa do famoso deputado,<br \/>\n    quando ele j&aacute; se tinha retirado para os aposentos do andar superior,<br \/>\n    a fim de estudar n&atilde;o sei o que sua mulher ficou na sala de visitas<br \/>\n    a conversar com algumas amigas e alguns amigos. Algu&eacute;m, a um tempo<br \/>\n    da conversa, observou:<\/p>\n<p>&#8212; Isto vai t&atilde;o mal, que n&atilde;o sei mesmo quem nos salvar&aacute;.<\/p>\n<p> Mme. Hengr&aacute;cia, tal e qual Mme. de Girardin, em certa ocasi&atilde;o,<br \/>\n    apontou o dedo para o teto e disse sacerdotalmente.<\/p>\n<p> &#8212; Ele! <\/p>\n<p>Todos se entreolharam e o doutor Moscoso completou:<\/p>\n<p> &#8212; Sim: Deus!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, &#8212; observou Dona Hengr&aacute;cia. &#8212; Ele,<br \/>\n    o Felixhimino, quando for ministro da Fazenda.<\/p>\n<p> Ele h&aacute; de s&ecirc;-lo em breve.<\/p>\n<p> Todos concordaram. N&atilde;o se cumpriu, por&eacute;m, a profecia da pitonisa<br \/>\n    conjugal, pois o novo presidente da Bruzundanga &#8212; Idle Bhras &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o fez Ben Karpatoso Ministro do Tesouro.<\/p>\n<p> O s&aacute;bio deputado continuou, por&eacute;m, na sua atividade financeira,<br \/>\n    a relatar or&ccedil;amentos com saldos, mas que sempre, ao fim do exerc&iacute;cio,<br \/>\n    se fechavam com deficits.<\/p>\n<p> Certo dia, Idle Bhras de Grafofone e Cinema mandou-o chamar a pal&aacute;cio<br \/>\n    e disse-lhe: <\/p>\n<p>&#8212; Karpatoso, o or&ccedil;amento fecha-se sempre com deficit. Este cresce<br \/>\n    de ano para ano&#8230; Tenho que satisfazer compromissos no estrangeiro&#8230; Espero<br \/>\n    que voc&ecirc; me arranje um jeito de aumentarmos a receita.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; tem estudos sobre finan&ccedil;as e n&atilde;o ser&aacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    para voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> A isto Felixhimino respondeu com toda a seguran&ccedil;a:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas! Vou arranjar a cousa.<\/p>\n<p>&#8212; Isto vai t&atilde;o mal, que n&atilde;o sei mesmo quem nos salvar&aacute;.<\/p>\n<p> Mme. Hengr&aacute;cia, tal e qual Mme. de Girardin, em certa ocasi&atilde;o,<br \/>\n    apontou o dedo para o teto e disse sacerdotalmente.<\/p>\n<p> &#8212; Ele!<\/p>\n<p> Todos se entreolharam e o doutor Moscoso completou:<\/p>\n<p> &#8212; Sim: Deus!<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, &#8212; observou Dona Hengr&aacute;cia. &#8212; Ele,<br \/>\n    o Felixhimino, quando for ministro da Fazenda.<\/p>\n<p> Ele h&aacute; de s&ecirc;-lo em breve. <\/p>\n<p>Todos concordaram. N&atilde;o se cumpriu, por&eacute;m, a profecia da pitonisa<br \/>\n    conjugal, pois o novo presidente da Bruzundanga &#8212; Idle Bhras &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o fez Ben Karpatoso Ministro do Tesouro. <\/p>\n<p>O s&aacute;bio deputado continuou, por&eacute;m, na sua atividade financeira,<br \/>\n    a relatar or&ccedil;amentos com saldos, mas que sempre, ao fim do exerc&iacute;cio,<br \/>\n    se fechavam com deficits.<\/p>\n<p> Certo dia, Idle Bhras de Grafofone e Cinema mandou-o chamar a pal&aacute;cio<br \/>\n    e disse-lhe: <\/p>\n<p>&#8212; Karpatoso, o or&ccedil;amento fecha-se sempre com deficit. Este cresce<br \/>\n    de ano para ano&#8230; Tenho que satisfazer compromissos no estrangeiro&#8230; Espero<br \/>\n    que voc&ecirc; me arranje um jeito de aumentarmos a receita.<\/p>\n<p> Voc&ecirc; tem estudos sobre finan&ccedil;as e n&atilde;o ser&aacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    para voc&ecirc;&#8230; <\/p>\n<p>A isto Felixhimino respondeu com toda a seguran&ccedil;a:<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas! Vou arranjar a cousa.<\/p>\n<p>&#8212; Tu &eacute;s um Colbert e mais ainda: &eacute;s o Jo&atilde;o Ben<br \/>\n    Venanko, aquele &#8212; n&atilde;o sabes? &#8212; que foi presidente da C&acirc;mara<br \/>\n    de Guapor&eacute;, minha terra.Ele sempre teve id&eacute;ias semelhantes &agrave;s<br \/>\n    tuas, mas n&atilde;o as aceitava, por isso nunca o munic&iacute;pio prosperou.<br \/>\n    Entretanto, era um pobre meirinho&#8230; Que financeiro! <\/p>\n<p>Apresentadas as id&eacute;ias de Felixhimino &agrave; C&acirc;mara, muitos<br \/>\n    deputados se insurgiram contra elas.<\/p>\n<p>Um objetou:<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia quer matar de fome o povo da Bruzundanga.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; tal; mas mesmo que viessem a morrer muitos,<br \/>\n    seria at&eacute; um benef&iacute;cio, visto que o pre&ccedil;o<\/p>\n<p> da oferta &eacute; regulado pela procura e, desde que a procura diminua<br \/>\n    com a morte de muitos, o pre&ccedil;o dos g&ecirc;neros baixar&aacute; fatalmente.<\/p>\n<p> Um outro observou:<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia vai obrigar o povo a andar nu.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o apoiado. O vestu&aacute;rio deve ser uma cousa majestosa<br \/>\n    e imponente, para bem impressionar os estrangeiros que nos visitem. A seda<br \/>\n    e a l&atilde; ficar&atilde;o pouco mais caras que os tecidos de algod&atilde;o.<br \/>\n    Toda a<br \/>\n    gente vestir-se-&aacute; de seda ou de l&atilde; e as popula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    das nossas cidades ter&atilde;o um ar de abastan&ccedil;a que muito favoravelmente<br \/>\n    h&aacute; de impressionar os estrangeiros.<\/p>\n<p> Um outro refletiu:<\/p>\n<p> &#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia vai impedir o movimento de passageiros dentro<br \/>\n    da cidade e dentro do pa&iacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; um benef&iacute;cio. O barateamento das passagens s&oacute;<br \/>\n    traz a desmoraliza&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia. Com as passagens caras,<br \/>\n    diminuir&atilde;o os passeios, os bailes, as festas, as visitas, os piqueniques,<br \/>\n    conseguintemente os<br \/>\n    encontros de namorados, a procura de casas suspeitas, etc., de forma que os<br \/>\n    adult&eacute;rios e as sedu&ccedil;&otilde;es sensivelmente h&atilde;o de<br \/>\n    ser mais raros. <\/p>\n<p>Dessa maneira, o genial Karpatoso, &ecirc;mulo do meirinho Ben Venanko, o<br \/>\n    financeiro, foi arredando uma por uma as obje&ccedil;&otilde;es que eram feitas<br \/>\n    ao seu projeto de or&ccedil;amento da receita. <\/p>\n<p>Houve uma crise no minist&eacute;rio e logo ele foi nomeado ministro da Fazenda,<br \/>\n    com o or&ccedil;amento que fizera votar. Foram tais os processos de contrabando<br \/>\n    que teve de estudar, tanto meditou sobre eles, que um<br \/>\n    dia, telegrafou a um seu subalterno que apreendera um grande, um imenso contrabando<br \/>\n    e prendera os infractores, desta forma: &quot;Fuzile todos&quot;. <\/p>\n<p>O homem estava louco e morreu pouco depois. A sec&ccedil;&atilde;o elegante<br \/>\n    de um jornal de l&aacute;, o Di&aacute;rio Mercantil &#8212; &quot;De C&oacute;coras&quot;<br \/>\n    &#8212; fez-lhe o necrol&oacute;gio; o novo ministro, entretanto, n&atilde;o<br \/>\n    pagou, ao redator dela,<br \/>\n    nada pelo servi&ccedil;o assombroso que prestar-a &agrave;s letras do pa&iacute;s.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II &#8211; A Nobreza de Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>UM leitor curioso e simp&aacute;tico, por ser curioso, escreveu-me uma am&aacute;vel<br \/>\n    cartinha, pedindo-me esclarecimentos sobre os usos, os costumes, as institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    civis sociais e pol&iacute;ticas da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da<br \/>\n    Bruzundanga. <\/p>\n<p>Diz-me ele que procurou informa&ccedil;&otilde;es de tal pa&iacute;s em comp&ecirc;ndios<br \/>\n    de geografia, em dicion&aacute;rios da mesma disciplina e v&aacute;rias obras,<br \/>\n    nada encontrando a respeito. <\/p>\n<p>O meu simp&aacute;tico leitor n&atilde;o me disse que obras consultou, mas<br \/>\n    certamente ele n&atilde;o procurou informa&ccedil;&otilde;es nos livros que<br \/>\n    o governo da Bruzundanga manda imprimir, dando fabulosos lucros aos impressores<br \/>\n    e editores, livros escritos em v&aacute;rias l&iacute;nguas e destinados a<br \/>\n    fazer a propaganda do pa&iacute;s no estrangeiro. <\/p>\n<p>&Eacute; estranho; pois que, por meio de tais livros, muita gente tem feito<br \/>\n    fortuna e adquirido notoriedade nos corredores das Secretarias e nos desv&atilde;os<br \/>\n    do Tesouro da Rep&uacute;blica da Bruzundanga. Pode ter acontecido, entretanto,<br \/>\n    que o meu leitor amigo os tivesse procurado nas livrarias principais; mas<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a&iacute; que eles podem ser encontrados. <\/p>\n<p>As obras que a rep&uacute;blica manda editar para a propaganda de suas riquezas<br \/>\n    e excel&ecirc;ncias, logo que s&atilde;o impressas completamente, distribuem-se<br \/>\n    a mancheias por quem as queira. Todos as aceitam e logo passam adiante, por<br \/>\n    meio de venda. N&atilde;o julgue o meu correspondente que os &quot;sebos&quot;<br \/>\n    as aceitem. S&atilde;o t&atilde;o mofinas, t&atilde;o escandalosamente mentirosas,<br \/>\n    t&atilde;o infladas de um optimismo de encomenda que ningu&eacute;m as compra,<br \/>\n    por sab&ecirc;-las falsas e destitu&iacute;das de toda e qualquer honestidade<br \/>\n    informativa, de forma a n&atilde;o oferecer nenhum lucro aos revendedores<br \/>\n    de livros, por falta de compradores.<\/p>\n<p>Onde o meu leitor poder&aacute; encontr&aacute;-las, se quer ter informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais ou menos transbordantes de entusiasmo pago, &eacute; nas lojas de merceeiros,<br \/>\n    nos a&ccedil;ougues, nas quitandas, assim mesmo em fragmentos, pois todos<br \/>\n    as pedem nas reparti&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas para vend&ecirc;-las<br \/>\n    a peso aos retalhistas de carne verde, aos vendeiros e aos vendedores de couves.<\/p>\n<p>Contudo, a fim de que o meu delicado missivista n&atilde;o fique fazendo<br \/>\n    mau ju&iacute;zo a meu respeito, vou dar-lhe algumas informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre o poderoso e rico pa&iacute;s da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Hoje lhe falarei das nobrezas da grande Na&ccedil;&atilde;o; proximamente,<br \/>\n    em artigos sucessivos, tratarei de outras institui&ccedil;&otilde;es e costumes.\n  <\/p>\n<p>A nobreza da Bruzundanga se divide em dous grandes ramos. Talqualmente como<br \/>\n    na Fran&ccedil;a de outros tempos, em que havia a nobreza de Toga e a de Espada,<br \/>\n    na Bruzundanga existe a nobreza doutoral e uma outra que, por falta de nome<br \/>\n    mais adequado, eu chamarei de palpite.<\/p>\n<p>A aristocracia doutoral &eacute; constitu&iacute;da pelos cidad&atilde;os<br \/>\n    formados nas escolas, chamadas superiores, que-s&atilde;o as de medicina,<br \/>\n    as de direito e as de engenharia. H&aacute; de parecer que n&atilde;o existe<br \/>\n    a&iacute; nenhuma nobreza; que os cidad&atilde;os que obt&ecirc;m t&iacute;tulos<br \/>\n    em tais escolas v&atilde;o exercer uma profiss&atilde;o como outra qualquer.<br \/>\n    &Eacute; um engano. Em outro qualquer pa&iacute;s, isto pode se dar; na Bruzundanga,<br \/>\n    n&atilde;o. <\/p>\n<p>L&aacute;, o cidad&atilde;o que se asma de um t&iacute;tulo em uma das escolas<br \/>\n    citadas, obt&eacute;m privil&eacute;gios especiais, alguns constantes das<br \/>\n    leis e outros consignados nos costumes. O povo mesmo aceita esse estado de<br \/>\n    cousas e tem um respeito religioso pela sua nobreza de doutores. Uma pessoa<br \/>\n    da plebe nunca dir&aacute; que essa esp&eacute;cie de br&acirc;mane tem carta,<br \/>\n    diploma; dir&aacute;: tem pergaminho. Entretanto, o tal pergaminho &eacute;<br \/>\n    de um med&iacute;ocre papel de Holanda.<\/p>\n<p>As mo&ccedil;as ricas n&atilde;o podem compreender o casamento sen&atilde;o<br \/>\n    com o doutor; e as pobres, quando alcan&ccedil;am um matrim&ocirc;nio dessa<br \/>\n    natureza, enchem de orgulho a fam&iacute;lia toda, os colaterais, e os afins.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; raro ouvir algu&eacute;m dizer com todo o orgulho: <\/p>\n<p>&#8212; Minha prima est&aacute; casada com o doutor Bacabau. <\/p>\n<p>Ele se julga tamb&eacute;m um pouco doutor. Joana d&#8217;Arc n&atilde;o enobreceu<br \/>\n    os parentes? <\/p>\n<p>A formatura &eacute; dispendiosa e demorada, de modo que os pobres, inteiramente<br \/>\n    pobres, isto &eacute;, sem fortuna e rela&ccedil;&otilde;es, poucas vezes<br \/>\n    podem alcan&ccedil;a-la.<\/p>\n<p> Cousa curiosa! O que mete medo aos candidatos &agrave; nobreza doutoral,<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o os exames da escola superior; s&atilde;o os exames preliminares,<br \/>\n    aqueles das matr&iacute;culas que constituem o nosso curso secund&aacute;rio&#8230;\n  <\/p>\n<p>Em geral, apesar de serem lentos e demorados, os cursos s&atilde;o med&iacute;ocres<br \/>\n    e n&atilde;o constituem para os aspirantes sen&atilde;o uma vig&iacute;lia<br \/>\n    de armas para serem armados cavaleiros.<\/p>\n<p>O t&iacute;tulo &#8212; doutor &#8212; anteposto ao nome, tem na Bruzundanga<br \/>\n    o efeito do &#8212; dom &#8212; em terra de Espanha. Mesmo no Ex&eacute;rcito,<br \/>\n    ele soa em todo o seu prest&iacute;gio nobili&aacute;rquico. Quando se est&aacute;<br \/>\n    em face de um coronel com o curso de engenharia, o modo de trat&aacute;-lo<br \/>\n    &eacute; mat&eacute;ria para atrapalha&ccedil;&otilde;es protocolares. Se<br \/>\n    s&oacute; se o chama tout court &#8212; doutor Kamis&atilde;o &#8212;, ele<br \/>\n    ficar&aacute; zangado porque &eacute; coronel; se se o designa unicamente<br \/>\n    por coronel, ele julgar&aacute; que o seu interlocutor n&atilde;o tem em grande<br \/>\n    considera&ccedil;&atilde;o o seu t&iacute;tulo universit&aacute;rio-militar.<\/p>\n<p>Os prudentes, quando se dirigem a tais pessoas, juntam os dous t&iacute;tulos,<br \/>\n    mas h&aacute; ainda a&iacute; uma dificuldade na preced&ecirc;ncia deles,<br \/>\n    isto &eacute;, se se devem designar tais senhores por &#8212; doutor coronel<br \/>\n    &#8212; ou &#8212; coronel doutor.<\/p>\n<p> Est&aacute; a&iacute; um problema que deve merecer acurado estudo do nosso<br \/>\n    s&aacute;bio Mayrinck. Se o nosso grande especialista em cousas protocolares<br \/>\n    resolver o problema, muito ganhar&aacute; a fama da intelig&ecirc;ncia brasileira.<\/p>\n<p> Quanto aos costumes, &eacute; isto que se observa em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; nobreza doutoral. Temos, agora, que ver no tocante &agrave;s leis.<\/p>\n<p>O nobre doutor tem pris&atilde;o especial, mesmo em se tratando dos mais<br \/>\n    repugnantes crimes. Ele n&atilde;o pode ser preso como qualquer do povo. Os<br \/>\n    regulamentos rezam isto, apesar da Constitui&ccedil;&atilde;o, etc., etc.\n  <\/p>\n<p>Tendo crescido imensamente o n&uacute;mero de doutores, eles, os seus pais,<br \/>\n    sogros, etc., trataram de reservar o maior n&uacute;mero de lugares do Estado<br \/>\n    para eles. Capciosamente, os regulamentos da Bruzundanga v&atilde;o conseguindo<br \/>\n    esse desideratum. <\/p>\n<p>Assim, &eacute; que os simples lugares de alcaides de pol&iacute;cia, equivalentes<br \/>\n    aos nossos delegados, cargos que exigem o conhecimento de simples rudimentos<br \/>\n    de direito, mas muito tiroc&iacute;nio e h&aacute;bito de lidar com malfeitores,<br \/>\n    s&oacute; podem ser exercidos por advogados, nomeados temporariamente. <\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o da Bruzundanga pro&iacute;be as acumula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    remuneradas, mas as leis ordin&aacute;rias acharam meios e modos de permitir<br \/>\n    que os doutores acumulassem. S&atilde;o cargos t&eacute;cnicos que exigem<br \/>\n    aptid&otilde;es especiais, dizem. A Constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    fez exce&ccedil;&atilde;o, mas os doutores hermeneutas acharam uma. <\/p>\n<p>H&aacute; m&eacute;dicos que s&atilde;o ao mesmo tempo cl&iacute;nicos do<br \/>\n    Hospital dos Indigentes, lentes da Faculdade de Medicina e inspetores dos<br \/>\n    tel&eacute;grafos; h&aacute;, na Bruzundanga, engenheiros que s&atilde;o a<br \/>\n    um s&oacute; tempo professores de grego no Gin&aacute;sio Secund&aacute;rio<br \/>\n    do Estado, professores de obo&eacute;, no Conservat&oacute;rio de M&uacute;sica,<br \/>\n    e peritos louvados e vital&iacute;cios dos escombros de inc&ecirc;ndios. <\/p>\n<p>Quando l&aacute; estive, conheci um bacharel em direito que era consultor<br \/>\n    jur&iacute;dico da principal estrada de ferro pertencente ao governo, inspetor<br \/>\n    dos servi&ccedil;os metal&uacute;rgicos do Estado e examinador das candidatas<br \/>\n    a irm&atilde;s de caridade. <\/p>\n<p>Como v&ecirc;em, eles exercem conjuntamente cargos bem t&eacute;cnicos e<br \/>\n    atinentes aos seus diplomas<\/p>\n<p>Um empregado p&uacute;blico qualquer que n&atilde;o seja graduado, n&atilde;o<br \/>\n    pode ser eleito deputado; mas a mesma lei eleitoral faz exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para aqueles funcion&aacute;rios que exercem cargos de natureza t&eacute;cnica,<br \/>\n    isto &eacute;, doutores. J&aacute; vimos que esp&eacute;cie de t&eacute;cnica<br \/>\n    &eacute; a tal t&atilde;o estimada na Bruzundanga. Conv&eacute;m, entretanto,<br \/>\n    contar um fato elucidativo. Um doutor de l&aacute; que era at&eacute; lente<br \/>\n    da Escola dos Engenheiros, apesar de ter outros empregos rendosos, quis ser<br \/>\n    inspetor da carteira cambial do banco da Bruzundanga. Conseguiu e, ao dia<br \/>\n    seguinte de sua nomea&ccedil;&atilde;o, quando se tratou de afixar a taxa<br \/>\n    do c&acirc;mbio, vendo que, na v&eacute;spera havia sido de 15 3\/16, o s&aacute;bio<br \/>\n    doutor mandou que o fizesse no valor de 15 3\/32. Um empregado objetou: <\/p>\n<p>&#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia quer fazer descer o c&acirc;mbio?<\/p>\n<p> &#8212; Como descer? Fa&ccedil;a o que estou mandando! Sou doutor em matem&aacute;tica.<\/p>\n<p> E a cousa foi feita, mas o s&aacute;bio deixou o lugar, para estudar aritm&eacute;tica.<\/p>\n<p> Continuemos a citar fatos para que esta narra&ccedil;&atilde;o tenha o maior<br \/>\n    cunho de verdade, apesar de que muita coisa possa parecer absurda aos leitores.<\/p>\n<p> Certo dia li nos atos oficiais do Minist&eacute;rio de Transportes e Comunica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquele pa&iacute;s, o seguinte:<\/p>\n<p> &quot;F., amanuense dos Correios da prov&iacute;ncia dos Cocos, pedindo<br \/>\n    fazer constar de seus assentamentos o seu t&iacute;tulo de doutor em medicina.<br \/>\n    &#8212; Deferido&quot;.<\/p>\n<p> O pedido e o despacho dispensam qualquer coment&aacute;rio; e, por eles,<br \/>\n    todos podem aquilatar at&eacute; que ponto chegou, na Bruzundanga, a supersti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doutoral. Um amanuense que se quer recomendar por ser m&eacute;dico, &eacute;<br \/>\n    fato que s&oacute; se v&ecirc; no interessante pa&iacute;s da Bruzundanga.<br \/>\n    Outros casos eloq&uuml;entemente comprobativos do que venho expondo, posso<br \/>\n    ainda citar.<\/p>\n<p> Vejamos.<\/p>\n<p>H&aacute; pouco tempo, no Conselho Municipal daquele long&iacute;nquo pa&iacute;s,<br \/>\n    votou-se um or&ccedil;amento, dobrando e triplicando todos os impostos. Sabem<br \/>\n    os que ele diminuiu? Os impostos sobre os m&eacute;dicos e advogados. Ainda<br \/>\n    mais.\n  <\/p>\n<p>Quando se tratou de organizar uma esp&eacute;cie de servi&ccedil;o militar<br \/>\n    obrigatorio, o governo da Bruzundanga, n&atilde;o podendo isentar totalmente<br \/>\n    os aspirantes a doutor, consentiu que eles n&atilde;o residissem e comessem<br \/>\n    nos quart&eacute;is, no intuito piedoso de n&atilde;o lhes interromper os<br \/>\n    estudos. Entretanto, um caixeiro que fosse sorteado perderia o emprego, como<br \/>\n    todo e qualquer empregado de casa particular. <\/p>\n<p>H&aacute; nessa nobreza doutoral uma hierarquia como em todas as aristocracias.<br \/>\n    O mandarinato chin&ecirc;s, ao qual muito se assemelha essa nobreza da Bruzundanga,<br \/>\n    tem os seus mandarins bot&otilde;es de safira, de top&aacute;zio, de rubi,<br \/>\n    etc. No pa&iacute;s em quest&atilde;o, eles n&atilde;o se distinguem por bot&otilde;es,<br \/>\n    mas pelos an&eacute;is. No intuito de n&atilde;o fatigar os leitores, vou<br \/>\n    dar-lhes um quadro sint&eacute;tico de tal nobreza da Bruzundanga com a sua<br \/>\n    respectiva hierarquia colocada em ordem descendente. Guardem-no bem. Ei-lo,<br \/>\n    com as pedras dos an&eacute;is:<\/p>\n<blockquote>\n<p> M&eacute;dicos (Esmeralda)<br \/>\n      Advogados (Rubi)<br \/>\n      Engenheiros (Safira)<br \/>\n      Engenheiros militares (Turqueza)<br \/>\n      Doutores<br \/>\n      Engenheiros ge&oacute;grafos (Safira e certos sinais no arco do anel)<br \/>\n      Farmac&ecirc;utico (Top&aacute;zio)<br \/>\n      Dentista (Granada)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p> Em linhas gerais, s&atilde;o estas as caracter&iacute;sticas mais not&aacute;veis<br \/>\n    da nobreza doutoral da Bruzundanga. Podia acrescentar outras, sobre todos<br \/>\n    os seus graus. Lembrarei, por&eacute;m, ao meu correspondente que os tr&ecirc;s<br \/>\n    primeiros graus s&atilde;o mais ou menos equivalentes; mas os tr&ecirc;s &uacute;ltimos<br \/>\n    gozam de um abatimento de 50% sobre o conceito que se faz dos primeiros. <\/p>\n<p>Da outra nobreza, tratarei mais tarde, deixando de lado as meninas das Escolas<br \/>\n    Normais, com os seus bon&eacute;s de universidade americana, e os bachar&eacute;is<br \/>\n    em letras da Bruzundanga, porque l&aacute; n&atilde;o s&atilde;o considerados<br \/>\n    nobres. Entretanto, as primeiras t&ecirc;m um anel distintivo que parece uma<br \/>\n    montra de joalheria, pela quantidade de pedras que possui; e os &uacute;ltimos<br \/>\n    anunciam o seu curso com uma opala vulgar. Ambos esses formados s&atilde;o<br \/>\n    l&aacute; considerados como falsa nobreza.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III &#8211; A outra nobreza da Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>\n    NO artigo precedente, dei r&aacute;pidas e curtas indica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a primeira esp&eacute;cie da nobiliarquia da Rep&uacute;blica da Bruzundanga.<br \/>\n    Falei da nobreza doutoral. Agora vou falar de uma outra mais curiosa e interessante.<\/p>\n<p> A nobreza dos doutores se baseia em alguma cousa. No conceito popular, ela<br \/>\n    &eacute; firmada na vaga supersti&ccedil;&atilde;o de que os seus representantes<br \/>\n    sabem; no conceito das mo&ccedil;as casadeiras &eacute; que os doutores t&ecirc;m<br \/>\n    direito, pelas leis divinas e humanas, a ocupar os lugares mais rendosos do<br \/>\n    Estado; no pensar dos pais de fam&iacute;lia, ele se escuda no direito que<br \/>\n    t&ecirc;m os seus filhos graduados nas faculdades em trabalhar pouco e ganhar<br \/>\n    muito.<\/p>\n<p>Enfim, em falta de outra qualquer base, h&aacute; o tal pergaminho, mais<br \/>\n    ou menos carimbado pelo governo, com um fit&atilde;o e uma lata de prata,<br \/>\n    onde h&aacute; um selo, e na tampa uma dedicat&oacute;ria &agrave; dama dos<br \/>\n    pensamentos do gentil cavalheiro que se fez doutor. <\/p>\n<p>A outra nobreza da Bruzundanga, por&eacute;m, n&atilde;o tem base em cousa<br \/>\n    alguma; n&atilde;o &eacute; firmada em lei ou costume; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    documentada por qualquer esp&eacute;cie de papel, &eacute;dito, c&oacute;digo,<br \/>\n    carta, diploma, lei ou o que seja. Foi por isso que eu a chamei de nobreza<br \/>\n    de palpite. Vou dar alguns exemplos dessa singular institui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para elucidar bem o esp&iacute;rito dos leitores. <\/p>\n<p>Um cidad&atilde;o da democr&aacute;tica Rep&uacute;blica da Bruzundanga chamava-se,<br \/>\n    por exemplo, Ricardo Silva da Concei&ccedil;&atilde;o. Durante a meninice<br \/>\n    e a adolesc&ecirc;ncia foi conhecido assim em todos os assentamentos oficiais.<br \/>\n    Um belo dia, mete-se em especula&ccedil;&otilde;es felizes e enriquece. N&atilde;o<br \/>\n    sendo doutor, julga o seu nome muito vulgar. Cogita mud&aacute;-lo de modo<br \/>\n    a parecer mais nobre. Muda o nome e passa a chamar-se: Ricardo Silva de la<br \/>\n    Concepci&oacute;n. Publica o an&uacute;ncio no Jornal do Com&eacute;rcio local<br \/>\n    e est&aacute; o homem mais satisfeito da vida. Vai para a Europa e, por l&aacute;,<br \/>\n    encontra por toda a parte pr&iacute;ncipes, duques, condes, marqueses da Birm&acirc;nia,<br \/>\n    do Afganist&atilde;o e do Tibete. Diabo! pensa o homem. Todos s&atilde;o nobres<br \/>\n    e titulares e eu n&atilde;o sou nada disso.<\/p>\n<p>Come&ccedil;a a pensar muito no problema e acaba lendo em um romance folhetim<br \/>\n    de A. Carrillo, &#8212; nos Cavalheiros do amor, por exemplo &#8211; um t&iacute;tulo<br \/>\n    espanhol qualquer. Suponhamos que seja: Pr&iacute;ncipe de Luna y Ortega.<br \/>\n    O homem diz l&aacute; consigo: &quot;Eu me chamo Concepci&oacute;n, esse nome<br \/>\n    &eacute; espanhol, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que eu sou nobre&quot;;<br \/>\n    e conclui logo que &eacute; descendente do tal Pr&iacute;ncipe de Luna y Ortega.<br \/>\n    Manda fazer cart&otilde;es com a coroa fechada de pr&iacute;ncipe, acaba convencido<br \/>\n    de que &eacute; mesmo pr&iacute;ncipe, e convencendo os seus amigos da sua<br \/>\n    pros&aacute;pia elevada.<\/p>\n<p>Com um destes que se improvisou pr&iacute;ncipe assim de uma hora para outra,<br \/>\n    aconteceu uma anedota engra&ccedil;ada. <\/p>\n<p>Ele se chamava assim como Ferreira, ou cousa que o valha. Fez uma viagem<br \/>\n    &agrave; Europa e voltou pr&iacute;ncipe n&atilde;o sei de qu&ecirc;. <\/p>\n<p>Foi visitar as terras dos pais e dos av&oacute;s que estavam abandonadas<br \/>\n    e entregues a antigos servidores. Um dos mais velhos destes, veio visit&aacute;-lo<br \/>\n    arrimado a um bast&atilde;o que escorava a sua grande velhice. Falou ao homem,<br \/>\n    ao filho do seu antigo patr&atilde;o como falara ao menino a quem ensinara<br \/>\n    a armar la&ccedil;os e arapucas.<\/p>\n<p> O novel pr&iacute;ncipe formalizou-se e disse:<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o sabe, Heduardo, que eu sou pr&iacute;ncipe?<\/p>\n<p> &#8212; Qu&aacute; o qu&ecirc;, nhonh&ocirc;. Vanc&ecirc; n&atilde;o pode<br \/>\n    s&ecirc; pr&iacute;ncipe. Vanc&ecirc; n&atilde;o &eacute; fio de imperad&ocirc;,<br \/>\n    cumo &eacute;?<\/p>\n<p> O recente nobre, ci-devant Ferreira, estomagou-se e n&atilde;o quis mais<br \/>\n    conversas com aquele velho decr&eacute;pito que tinha da nobreza id&eacute;ias<br \/>\n    t&atilde;o caducas. N&atilde;o lhe deu mais trela. <\/p>\n<p>Essa improvisa&ccedil;&atilde;o de t&iacute;tulos se d&aacute; pelas formas<br \/>\n    as mais estranhas.<\/p>\n<p>Um rapaz de certos haveres, cujo pai mourejera muito para arranjar alguns<br \/>\n    cobres, foi um dia para o estrangeiro, bem enroupado, com algumas libras no<br \/>\n    bolso. Fora das vistas paternas e sentindo longe a hipocrisia da Bruzundanga,<br \/>\n    meteu-se em todas as p&acirc;ndegas que lhe passou pela cabe&ccedil;a. <\/p>\n<p>Uma noite, em que estava cercado de damas alegres, em uma mesa de caf&eacute;<br \/>\n    cantante, uma delas deu na telha de trat&aacute;-lo de marqu&ecirc;s. Era<br \/>\n    senhor marqu&ecirc;s, para aqui; senhor marqu&ecirc;s para ali. <\/p>\n<p>O rapaz espantou-se a princ&iacute;pio, mas com o calor da conversa e a insist&ecirc;ncia<br \/>\n    da dama, ele perguntou ingenuamente:<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu sou marqu&ecirc;s?<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; &#8212; disse a dama galante.<\/p>\n<p> &#8212; Como?<\/p>\n<p> &#8212; Vou j&aacute; mostrar ao senhor marqu&ecirc;s. D&ecirc;-me vinte<br \/>\n    francos e os nomes de seus pais, que j&aacute; lhe dou a prova.<\/p>\n<p> Ele assim fez e, dentro de vinte minutos, o rapazola recebia a sua &aacute;rvore<br \/>\n    geneal&oacute;gica, donde se conclu&iacute;a que descendia dos marqueses de<br \/>\n    Libreville. <\/p>\n<p>A vista de t&atilde;o poderoso documento, o cidad&atilde;o que partira da<br \/>\n    Bruzundanga simplesmente chamando-se Carlos Chavantes (E uma hip&oacute;tese),<br \/>\n    voltou da estranja com o altissonante t&iacute;tulo de Marqu&ecirc;s de Libreville.<br \/>\n    O pai continuou a chamar-se Chavantes; ele, por&eacute;m, era marqu&ecirc;s.<br \/>\n    O&#8217; manes de d&#8217;Hozier! <\/p>\n<p>Alguns nobres da casta dos doutores acumulam tamb&eacute;m a outra nobreza.<br \/>\n    S&atilde;o condes ou duques e doutores; e usam alternativamente o t&iacute;tulo<br \/>\n    de uma e o da outra aristocracia. Passam assim a ser conhecidos por dous nomes<br \/>\n    &#8212; cousa que &eacute; quase verificada entre os malfeitores e outros<br \/>\n    conhecidos da pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Essa recrudesc&ecirc;ncia de t&iacute;tulos nobili&aacute;rquicos apareceu<br \/>\n    desde que a Bruzundanga se fez rep&uacute;blica, e desconheceu os t&iacute;tulos<br \/>\n    de nobreza porque o pa&iacute;s havia sido governado pelo reg&iacute;men mon&aacute;rquico,<br \/>\n    com uma nobreza modesta n&atilde;o heredit&aacute;ria, que mais parecia o<br \/>\n    tchin russo, isto &eacute;, uma nobreza de burocratas, do que mesmo uma nobreza<br \/>\n    feudal. O rei que a criou n&atilde;o a chamava mesmo &quot;nobreza&quot;,<br \/>\n    mas taffetas. <\/p>\n<p>No pa&iacute;s, esses titulares de palpite n&atilde;o t&ecirc;m-import&acirc;ncia<br \/>\n    alguma na massa popular. Os do povo respeitam mais um modesto doutor de farm&aacute;cia<br \/>\n    pobre do que um altissonante Medina Sidonia de &uacute;ltima hora; a &eacute;lite,<br \/>\n    por&eacute;m, a nata, &#8212; essa sim! &#8212; tem por eles o respeito que<br \/>\n    se devia aos antigos nobres. <\/p>\n<p>O povo sempre os recebe com o respeito que n&oacute;s t&iacute;nhamos, aqui,<br \/>\n    pelo Pr&iacute;ncipe Ub&aacute; II, d&#8217;Africa. <\/p>\n<p>A gente civilizada e rica, entretanto, n&atilde;o pensa assim, leva-os a<br \/>\n    s&eacute;rio e os seus t&iacute;tulos s&atilde;o berrados nos sal&otilde;es<br \/>\n    como se estivessem ali um Montmorency, um Conde de Vidigueira, um Duque d&#8217;Alba,<br \/>\n    que, por sinal, foi tomado para ascendente de um grave senhor da Bruzundanga,<br \/>\n    que desejava a incorpora&ccedil;&atilde;o do prolet&aacute;rio &agrave; sociedade<br \/>\n    moderna. <\/p>\n<p>Os costumes daquele long&iacute;nquo pa&iacute;s s&atilde;o assim interessantes<br \/>\n    e dignos de acurado estudo. Eles t&ecirc;m uma curiosa mistura de ingenuidade<br \/>\n    infantil e idiotice senil. Certas vezes, como que merecem invectivas de profeta<br \/>\n    judaico; mas, quase sempre, o riso bonanch&atilde;o de Rabelais. <\/p>\n<p>O que ficou dito sobre as suas duas nobrezas, penso eu, justifica esse ju&iacute;zo.<br \/>\n    E para elas ainda &eacute; bom n&atilde;o esquecer que devemos julg&aacute;-las<br \/>\n    como aconselha Anatole France; com ironia e piedade.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV &#8211; A pol&iacute;tica &egrave; os pol&iacute;ticos da Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>A minha estadia na Bruzundanga foi demorada e proveitosa. O pa&iacute;s,<br \/>\n    no dizer de todos, &eacute; rico, tem todos os minerais, todos os vegetais<br \/>\n    &uacute;teis, todas as condi&ccedil;&otilde;es de riqueza, mas vive na mis&eacute;ria.<br \/>\n    De onde em onde, faz uma &quot;parada&quot; feliz e todos respiram. As cidades<br \/>\n    vivem cheias de carruagens; as mulheres se arreiam de j&oacute;ias e vestidos<br \/>\n    caros; os cavalheiros chics se monstram, nas ruas, com bengalas e trajos apurados;<br \/>\n    os banquetes e as recep&ccedil;&otilde;es se sucedem.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; amanuense do Minist&eacute;rio do Exterior de l&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o ofere&ccedil;a banquetes por ocasi&atilde;o de sua promo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao cargo imediato.<\/p>\n<p> Isto dura dois ou tr&ecirc;s anos; mas, de repente, todo esse aspecto da<br \/>\n    Bruzundanga muda. Toda a gente come&ccedil;a a ficar na mis&eacute;ria. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; mais dinheiro. As confeitarias vivem &agrave;s moscas; as casas<br \/>\n    de eleg&acirc;ncias p&otilde;em &agrave; porta verdadeiros recrutadores de<br \/>\n    fregueses; e os judeus do a&ccedil;&uacute;car e das casas de prego come&ccedil;am<br \/>\n    a enriquecer doidamente. <\/p>\n<p>Por que ser&aacute; tal coisa? h&atilde;o de perguntar. <\/p>\n<p>E que a vida econ&ocirc;mica da Bruzundanga &eacute; toda artificial e falsa<br \/>\n    nas suas bases, vivendo o pa&iacute;s de expedientes. <\/p>\n<p>Entretanto, o povo s&oacute; acusa os pol&iacute;ticos, isto &eacute;, os<br \/>\n    seus deputados, os seus ministros, o presidente, enfim. <\/p>\n<p>O povo tem em parte raz&atilde;o. Os seus pol&iacute;ticos s&atilde;o o pessoal<br \/>\n    mais med&iacute;ocre que h&aacute;. Apegam-se a velharias, a cousas estranhas<br \/>\n    &agrave; terra que dirigem, para achar solu&ccedil;&atilde;o &agrave;s dificuldades<br \/>\n    do governo. A primeira cousa que um pol&iacute;tico de l&aacute; pensa, quando<br \/>\n    se guinda &agrave;s altas posi&ccedil;&otilde;es, &eacute; supor que &eacute;<br \/>\n    de carne e sangue diferente do resto da popula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O valo de separa&ccedil;&atilde;o entre ele e a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tem de dirigir faz-se cada vez mais profundo. <\/p>\n<p>A Na&ccedil;&atilde;o acaba n&atilde;o mais compreendendo a massa dos dirigentes,<br \/>\n    n&atilde;o lhe entendendo estes a alma, as necessidades, as qualidades e as<br \/>\n    possibilidades. <\/p>\n<p>Em face de um pa&iacute;s com uma popula&ccedil;&atilde;o j&aacute; numerosa<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao territ&oacute;rio ocupado efetivamente &#8212;<br \/>\n    na Bruzundanga, os seus pol&iacute;ticos s&oacute; pedem e proclamam a necessidade<br \/>\n    de introduzir milhares e milhares de forasteiros. <\/p>\n<p>Dessa maneira, em vez de procurarem encaminhar para a riqueza e para o trabalho<br \/>\n    a popula&ccedil;&atilde;o-que j&aacute; est&aacute;, eles, por meio de capciosas<br \/>\n    publica&ccedil;&otilde;es, mentirosas e falsas, atraem para a na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma multid&atilde;o de necessitados cuja desilus&atilde;o, ap&oacute;s certo<br \/>\n    tempo de estadia, mais concorre para o mal-estar do pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Bossuet dizia que o verdadeiro fim da pol&iacute;tica era fazer os povos<br \/>\n    felizes, o verdadeiro fim da pol&iacute;tica dos pol&iacute;ticos da Bruzundanga<br \/>\n    &eacute; fazer os povos infelizes.<\/p>\n<p>J&aacute; lhes contei aqui como o doutor Felixhimino Ben Karpatoso, tido<br \/>\n    como grande financista naquele pa&iacute;s, se saiu quando se tratou de resolver,<br \/>\n    grandes dificuldades financeiras da na&ccedil;&atilde;o. Pois bem: esse senhor<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o &uacute;nico exemplo da singular capacidade mental dos<br \/>\n    homens p&uacute;blicos da Bruzundanga.<\/p>\n<p> Outros muitos eu poderia citar. H&aacute; l&aacute; um que, depois de umas<br \/>\n    exibi&ccedil;&otilde;es vaidosas de retratos nos jornais e cousas equivalentes,<br \/>\n    se casou rico e deu para ser cat&oacute;lico praticante. <\/p>\n<p>Encontrou o caminho de Damasco que &eacute; ainda uma cidade opulenta. <\/p>\n<p>Entretanto, eu quando freq&uuml;entei a Universidade da Bruzundanga, o conheci<br \/>\n    como adepto do positivismo do rito do nosso Teixeira Mendes. Quis meter-se<br \/>\n    na pol&iacute;tica, fugiu do positivismo e, antes de dez anos, ei-lo de balandrau<br \/>\n    e vara a acompanhar prociss&otilde;es. <\/p>\n<p>Depois da sua convers&atilde;o, foi eleito definidor, fabriqueiro, escriv&atilde;o<br \/>\n    de v&aacute;rias irmandades e ordens terceiras. <\/p>\n<p>Ali&aacute;s, na Bruzundanga, n&atilde;o h&aacute; sujeito ateu ou materialista<br \/>\n    em regra que, ao se casar com mulher rica, n&atilde;o se fa&ccedil;a instantaneamente<br \/>\n    cat&oacute;lico apost&oacute;lico romano. Assim fez esse meu antigo colega.\n  <\/p>\n<p>Esse homem, ou antes este rapaz, que t&atilde;o rapidamente se passou de<br \/>\n    uma id&eacute;ia religiosa para a outra, esse rapaz cuja insinceridade &eacute;<br \/>\n    evidente, &eacute; ajudado em todas as suas pretens&otilde;es, veleidades,<br \/>\n    desejos, pelos bispos, frades, padres e irm&atilde;s de caridade. <\/p>\n<p>As irm&atilde;s de caridade gozam, l&aacute; na Bruzundanga, de uma, influ&ecirc;ncia<br \/>\n    poderosa. N&atilde;o quero negar que, como enfermeiras de hospitais, elas<br \/>\n    prestem servi&ccedil;os humanit&aacute;rios dignos de todo o nosso respeito;<br \/>\n    mas n&atilde;o s&atilde;o essas que os c&iacute;nicos ambicioaos da Bruzundanga<br \/>\n    cortejam. Eles cortejam aquelas que dirigem col&eacute;gios de meninas ricas.<br \/>\n    Casando-se com uma destas, obt&ecirc;m eles a influ&ecirc;ncia das colegas,<br \/>\n    casadas tamb&eacute;m com grandes figur&otilde;es, para arranjarem posi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e lugares rendosos. <\/p>\n<p>Toda a gente sabe como o pessoal eclesi&aacute;stico consegue manter a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    sobre os seus disc&iacute;pulos, mesmo depois de terminarem os seus cursos.<br \/>\n    Anatole France, em L&#8217;&Eacute;glise et lu R&eacute;publique,<br \/>\n    mostrou isso muito bem. Os padres, freiras, irm&atilde;s de caridade n&atilde;o<br \/>\n    abandonam os seus alunos absolutamente. Mant&ecirc;m sociedades, recep&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    etc., para os seus antigos educandos; seguem-lhes a vida de toda a forma,<br \/>\n    no <br \/>\n    casamento, nas carreiras, nos seus lutos, etc. <\/p>\n<p>De tal froma fazem isto que constituem uma esp&eacute;cie de ma&ccedil;onaria<br \/>\n    a influir no esp&iacute;rito dos homens, atrav&eacute;s das mulheres que eles<br \/>\n    esposam.<\/p>\n<p>De tal froma fazem isto que constituem uma esp&eacute;cie de ma&ccedil;onaria<br \/>\n    a influir no esp&iacute;rito dos homens, atrav&eacute;s das mulheres que eles<br \/>\n    esposam.<\/p>\n<p>E os malandros que sabem dessa teia formada acima dos n&eacute;scios, dos<br \/>\n    sinceros e dos honestas de pensamento, tratam de cavar um dote e uma menina<br \/>\n    das irm&atilde;s, o que vem a ser uma e &uacute;nica cousa. <\/p>\n<p>Disse-nos um velho que conheceu escravos na Bruzundanga que foram elas, as<br \/>\n    irm&atilde;s dos col&eacute;gios ricos, as mais tenazes inimigas da aboli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da escravid&atilde;o. Dominando as filhas e mulheres dos deputados, senadores,<br \/>\n    ministros, dominavam de fato os deputados, os senadores e os ministros. Ce<br \/>\n    que femme veut&#8230; <\/p>\n<p>Na Bruzundanga, onde os casamentos desastrosos abundam como em toda a parte,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; lei o div&oacute;rcio por causa dessa influ&ecirc;ncia<br \/>\n    hip&oacute;crita e tola, provinda dos ricos col&eacute;gios de religiosos,<br \/>\n    onde se ensina a papaguear o franc&ecirc;s e acompanhar a missa. <\/p>\n<p>Esta disserta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi &agrave; toa, em se tratando<br \/>\n    de pol&iacute;tica e pol&iacute;ticos da Bruzundanga, porque estes &uacute;ltimos<br \/>\n    s&atilde;o em geral casados com mo&ccedil;as educadas pelas religiosas e estas<br \/>\n    fazem a pol&iacute;tica do pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Com esse apoio forte, apoio que resiste &agrave;s revolu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    &agrave;s mudan&ccedil;as de reg&iacute;men, eles tratam, no poder, n&atilde;o<br \/>\n    de atender as necessidades da popula&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o de lhes<br \/>\n    resolver os problemas vitais, mas de enriquecerem e firmarem a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus descendentes e colaterais. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; l&aacute; homem influente que n&atilde;o tenha, pelo<br \/>\n    menos, trinta parentes ocupando cargos do Estado; n&atilde;o h&aacute; l&aacute;<br \/>\n    pol&iacute;tico influente que n&atilde;o se julgue com direito a deixar para<br \/>\n    os seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pens&otilde;es pagas pelo<br \/>\n    Tesouro da Rep&uacute;blica. <\/p>\n<p>No entanto, a terra vive na pobreza; os latif&uacute;ndios abandonados e<br \/>\n    indivisos; a popula&ccedil;&atilde;o rural, que &eacute; a base de todas as<br \/>\n    na&ccedil;&otilde;es, oprimida por chef&otilde;es pol&iacute;ticos, in&uacute;teis,<br \/>\n    incapazes de dirigir a cousa mas f&aacute;cil desta vida. <\/p>\n<p>Vive sugada; esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que, na sua<br \/>\n    capital, algumas centenas de parvos, com t&iacute;tulos altissonantes disso<br \/>\n    ou daquilo, gozem vencimentos, subs&iacute;dios, duplicados e triplicados,<br \/>\n    afora rendimentos que v&ecirc;m de outra e qualquer origem, empregando um<br \/>\n    grande palavreado de quem vai fazer milagres. <\/p>\n<p>Um povo desses nunca far&aacute; um haro, para obter terras. <\/p>\n<p>A Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga tem o governo que merece.<br \/>\n    N&atilde;o devemos estar a perder o latim com semelhante gente; eu, por&eacute;m,<br \/>\n    que me propus a estudar os seus usos e costumes, tenho que ir at&eacute; ao<br \/>\n    fim. <\/p>\n<p>N&atilde;o desanimarei e ainda mais uma vez lembro, para bem esclarecer o<br \/>\n    que fica dito acima, que o grande Bossuet disse que a pol&iacute;tica tinha<br \/>\n    por fim fazer a felicidade dos povos e a vida c&ocirc;moda. <\/p>\n<p>A &Aacute;guia de Meaux, creio eu, n&atilde;o afirmou isso somente para edifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de algumas beatas&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V &#8211; As Riquezas da Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>Quando abrimos qualquer comp&ecirc;ndio de geografia da Bruzundanga; quando<br \/>\n    se l&ecirc; qualquer poema patri&oacute;tico desse pais, ficamos com a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que essa na&ccedil;&atilde;o &eacute; a mais rica da terra. <\/p>\n<p>&quot;A Bruzundanga, diz um livro do grande s&aacute;bio Volkate Ben Volkate,<br \/>\n    possui nas entranhas do seu solo todos os minerais da terra. <\/p>\n<p>&quot;A prov&iacute;ncia das Jazidas tem ouro, diamantes; a dos Bois, carv&atilde;o<br \/>\n    de pedra e turfa; a dos Cocos, diamantes, ouro, m&aacute;rmore, safiras, esmeraldas;<br \/>\n    a dos Bambus, cobre, estanho e ferro. No reino mineral, nada pede o nosso<br \/>\n    pa&iacute;s aos outros. Assim tamb&eacute;m no vegetal, em que &eacute; sobremodo<br \/>\n    rica a nossa maravilhosa terra.<\/p>\n<p>&quot;A borracha, continua ele, pode ser extra&iacute;da de v&aacute;rias<br \/>\n    &aacute;rvores que crescem na nossa opulenta na&ccedil;&atilde;o; o algodoeiro<br \/>\n    &eacute; quase nativo; o cacau pode ser colhido duas vezes por ano; a cana-de-a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    nasce espontaneamente; o caf&eacute;, que &eacute; a sua principal riqueza,<br \/>\n    d&aacute; quase sem cuidado algum e assim todas as plantas &uacute;teis nascem<br \/>\n    na nossa Bruzundanga com facilidade e rapidez, proporcionando ao estrangeiro<br \/>\n    a sensa&ccedil;&atilde;o de que ela &eacute; o verdadeiro para&iacute;so terrestre&quot;.\n  <\/p>\n<p>Nesse tom, todos os escritores, tanto os mais calmos e independentes como<br \/>\n    os de encomenda, cantam a formosa terra da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Os seus acidentes naturais, as suas montanhas, os seus rios, os seus portos<br \/>\n    s&atilde;o tamb&eacute;m assim decantados. Os seus rios s&atilde;o os mais<br \/>\n    longos e profundos do mundo; os seus portos, os mais f&aacute;ceis ao acesso<br \/>\n    de grandes navios e os mais abrigados, etc., etc. <\/p>\n<p>Entretanto, quem examinar com calma esse ditirambo e o confrontar com a realidade<br \/>\n    dos fatos h&aacute; de achar estranho tanto entusiasmo. <\/p>\n<p>A Bruzundanga tem carv&atilde;o, mas n&atilde;o queima o seu nas fornalhas<br \/>\n    de suas locomotivas. Compra-o &agrave; Inglaterra, que o vende por bom pre&ccedil;o.<br \/>\n    Quando se pergunta aos s&aacute;bios do pa&iacute;s porque isto se d&aacute;,<br \/>\n    eles fazem um relat&oacute;rio deste tamanho e nada dizem. Falam em calorias,<br \/>\n    em teor de enx&ocirc;fre, em esc&oacute;rias, em grelhas, em fornalhas, em<br \/>\n    carv&atilde;o americano, em briquettes, em camadas e nada explicam de todo.<br \/>\n    Os do povo, por&eacute;m, concluem logo que o tal carv&atilde;o de pedra da<br \/>\n    Bruzundanga n&atilde;o serve para fornalhas, mas, com certeza, pode ser aproveitado<br \/>\n    como material de constru&ccedil;&atilde;o, por ser de pedra.<\/p>\n<p>O que se d&aacute;, com o carv&atilde;o, d&aacute;-se com as outras riquezas<br \/>\n    da Bruzundanga. Elas existem, mas ningu&eacute;m as conhece. O ouro, por exemplo,<br \/>\n    &eacute; tido como uma das fortunas da Bruzundanga, mas l&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    corre uma moeda desse metal. Mesmo, nas montras dos cambistas, as que vemos<br \/>\n    s&atilde;o estrangeiras. Podem ser turcas, abexins, chinas, gregas, mas do<br \/>\n    pais n&atilde;o h&aacute; nenhuma. Contudo, todos afirmam que o pa&iacute;s<br \/>\n    &eacute; a p&aacute;tria do ouro.<\/p>\n<p>O povo da Bruzundanga &eacute; doce e crente, mais supersticioso do quecrente,<br \/>\n    e entre as suas supersti&ccedil;&otilde;es est&aacute; esta do ouro. Ele nunca<br \/>\n    o viu, ele nunca sentiu o seu brilho fascinador; mas todo o bruzundanguense<br \/>\n    est&aacute; certo de que possui no seu quintal um fil&atilde;o de ouro. <\/p>\n<p>Com o caf&eacute; d&aacute;-se uma cousa interessante. O caf&eacute; &eacute;<br \/>\n    tido como uma das maiores riquezas do pa&iacute;s; entretanto &eacute; uma<br \/>\n    das maiores pobrezas. Sabem por qu&ecirc;? Porque o caf&eacute; &eacute; o<br \/>\n    maior &quot;mordedor&quot; das finan&ccedil;as da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Eu me explico. O caf&eacute;, ou antes, a cultura do caf&eacute; &eacute;<br \/>\n    a base da oligarquia pol&iacute;tica que domina a na&ccedil;&atilde;o. A sua<br \/>\n    &aacute;rvore &eacute; cultivada em grandes latif&uacute;ndios pertencentes<br \/>\n    a essa gente, que, em geral, mal os conhece, deixando-os entregues a administradores,<br \/>\n    senhores, nessas vastas terras, de bara&ccedil;o e cutelo, distribuindo soberanamente<br \/>\n    justi&ccedil;a, s&oacute; n&atilde;o cunhando moeda, porque, desde s&eacute;culos,<br \/>\n    tal cousa &eacute; privil&eacute;gio do Rei.<\/p>\n<p>Os propriet&aacute;rios dos latif&uacute;ndios vivem nas cidades, gastando<br \/>\n    &agrave; larga, levando vida de nababos e com fuma&ccedil;as de aristocratas.<br \/>\n    Quando o caf&eacute; n&atilde;o lhes d&aacute; o bastante para as suas impon&ecirc;ncias<br \/>\n    e as da fam&iacute;lia, come&ccedil;am a clamar que o pa&iacute;s vai &agrave;<br \/>\n    garra; que &eacute; preciso salvar a lavoura; que o caf&eacute; &eacute; a<br \/>\n    base da vida econ&ocirc;mica do pa&iacute;s; e &mdash; z&aacute;s &mdash;<br \/>\n    arranjam meios e modos do governo central decretar um empr&eacute;stimo de<br \/>\n    milh&otilde;es para valorizar o produto.<\/p>\n<p>Curiosos economistas que pretendem elevar o valor de uma mercadoria cuja<br \/>\n    oferta excede &agrave;s necessidades da procura. Mais s&aacute;bios, parece,<br \/>\n    s&atilde;o os donos de armarinho que dizem vender barato para vender muito&#8230;\n  <\/p>\n<p>Arranjando o empr&eacute;stimo, est&aacute; a cousa acabada. Eles, os oligarcas,<br \/>\n    nadam em ouro durante cinco anos, todo o pa&iacute;s paga os juros e o povo<br \/>\n    fica mais escorchado de impostos e vexa&ccedil;&otilde;es fiscais. Passam-se<br \/>\n    os anos, o caf&eacute; n&atilde;o d&aacute; o bastante para o luxo dos doges,<br \/>\n    dogaresas e dogarinhas da baga rubra, e logo eles tratam de arranjar uma nova<br \/>\n    valoriza&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>A manobra da &quot;valoriza&ccedil;&atilde;o&quot; consiste em fazer que<br \/>\n    o governo compre o caf&eacute; por um pre&ccedil;o que seja vantajoso aos<br \/>\n    interessados e o retenha em dep&oacute;sito; mas, acontece que os interessados<br \/>\n    s&atilde;o, em geral, governo ou parentes dele, de modo que os interessados<br \/>\n    fixam para eles mesmos o pre&ccedil;o da venda, pre&ccedil;o que lhes d&ecirc;<br \/>\n    fartos lucros, sem se incomodar que &quot;o caf&eacute;&quot; venha a ser,<br \/>\n    sen&atilde;o a pobreza, ao menos a fonte da pobreza da Bruzundanga, com os<br \/>\n    tais empr&eacute;stimos para as valoriza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disto, o caf&eacute; esgota as terras, torna-as maninhas, de<br \/>\n    modo que regi&otilde;es do pa&iacute;s, que foram opulentas pela sua cultura,<br \/>\n    em menos de meio s&eacute;culo ficaram est&eacute;reis e s&aacute;faras. <\/p>\n<p>Sobre a cultura do caf&eacute; nas terras da Bruzundanga, eu podia muito<br \/>\n    dizer e podia tamb&eacute;m muito epilogar. N&atilde;o me despe&ccedil;o do<br \/>\n    assunto totalmente; talvez, mais tarde volte a ele. H&aacute; mat&eacute;ria<br \/>\n    para escrever sobre ela, muito; d&aacute; tanto assunto quanto os matadouros<br \/>\n    de Chicago. <\/p>\n<p>O cultivo da cana e o fabrico de aguardente e a&ccedil;&uacute;car s&atilde;o<br \/>\n    mat&eacute;ria de que me abstenho de tratar. Abstenho-me porque l&aacute;<br \/>\n    diz o ditado que, com teu amo, n&atilde;o jogues as peras. Le sage&#8230; <\/p>\n<p>A riqueza mais engra&ccedil;ada da Bruzundanga &eacute; a borracha. De fato,<br \/>\n    a &aacute;rvore da borracha &eacute; nativa e abundante no pa&iacute;s. Ela<br \/>\n    cresce em terras que, se n&atilde;o s&atilde;o alagadi&ccedil;as, s&atilde;o<br \/>\n    doentias e infestadas de febres e outras endemias. A extra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do l&aacute;tex &eacute; uma verdadeira batalha em que s&atilde;o ceifadas<br \/>\n    in&uacute;meras vidas. &Eacute; cara, portanto. Os ingleses levaram sementes<br \/>\n    e plantaram a &aacute;rvore da borracha nas suas col&ocirc;nias, em melhores<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es que as espont&acirc;neas da Bruzundanga. Pacientemente,<br \/>\n    esperaram que as &aacute;rvores crescessem; enquanto isto, os estadistas da<br \/>\n    Bruzundanga taxavam a mais n&atilde;o poder o produto. <\/p>\n<p>Durante anos, essa taxa fez a del&iacute;cia da prov&iacute;ncia dos Rios.<br \/>\n    Pal&aacute;cios foram constru&iacute;dos, teatros, hip&oacute;dromos, etc.\n  <\/p>\n<p>Das margens do seu rio principal, surgiram cidades maravilhosas e os seus<br \/>\n    magnatas faziam viagens &agrave; Europa em iates ricos. As cocottes caras<br \/>\n    infestavam as ruas da cidade. O Eldorado&#8230; <\/p>\n<p>Veio, por&eacute;m, a borracha dos ingleses e tudo foi por &aacute;gua abaixo,<br \/>\n    porque o pre&ccedil;o de venda da da Bruzundanga mal dava para pagar os impostos.<br \/>\n    A riqueza fez-se pobreza&#8230;<\/p>\n<p>A prov&iacute;ncia deixou de pagar as d&iacute;vidas e houve desembargadores<br \/>\n    dela a mendigar pelas ruas, por n&atilde;o receberem os vencimentos desde<br \/>\n    mais de dois anos. <\/p>\n<p>Eis como s&atilde;o as riquezas do pa&iacute;s da Bruzundanga. <\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI &#8211; O Ensino na Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>H&aacute; casos t&atilde;o escandalosos que, s&oacute; em cont&aacute;-los,<br \/>\n    metem d&oacute;. <\/p>\n<p>Passando assim pelo que n&oacute;s chamamos preparat&oacute;rios, os futuros<br \/>\n    diretores da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os<br \/>\n    cursos mais ignorantes e presun&ccedil;osos do que quando para l&aacute; entraram.<br \/>\n    S&atilde;o esses tais que berram: &quot;Sou formado! Est&aacute; falando com<br \/>\n    um homem formado!&quot; Ou sen&atilde;o quando algu&eacute;m lhes diz: <\/p>\n<p>&mdash; &quot;Fulano &eacute; inteligente, ilustrado&#8230;&quot;, acode o homenzinho<br \/>\n    logo:<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; formado? <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o. <\/p>\n<p>&mdash; Ahn! <\/p>\n<p>Raciocina ele muito bem. Em tal terra, quem n&atilde;o arranja um t&iacute;tulo<br \/>\n    como ele obteve o seu, deve ser muito burro, naturalmente. <\/p>\n<p>H&aacute; outros, espertos e menos poderosos, que empregam o seguinte truc.<br \/>\n    Sabem, por exemplo, que, na prov&iacute;ncia das Jazidas, os exames de matem&aacute;tica<br \/>\n    elementar s&atilde;o mais f&aacute;ceis. Que fazem eles? Inscrevem-se nos<br \/>\n    exames de l&aacute;, partem e voltam com as certid&otilde;es de aprova&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Continuam eles nessas manobras durante o curso superior. Em tal escola s&atilde;o<br \/>\n    mais f&aacute;ceis os exames de tais mat&eacute;rias. L&aacute; v&atilde;o<br \/>\n    eles para a tal escola, freq&uuml;entam o ano, decoram os pontos, prestam<br \/>\n    ato e, logo aprovados, voltam correndo para a escola ou faculdade mais famosa,<br \/>\n    a fim de receberem o grau. O ensino superior fascina todos na Bruzundanga.<br \/>\n    Os seus t&iacute;tulos, como sabeis, d&atilde;o tantos privil&eacute;gios,<br \/>\n    tantas regalias, que pobres e ricos correm para ele. Mas s&oacute; s&atilde;o<br \/>\n    tr&ecirc;s esp&eacute;cies que suscitam esse entusiasmo: o de m&eacute;dico,<br \/>\n    o de advogado e o de engenheiro. <\/p>\n<p>Houve quem pensasse em torn&aacute;-los mais caros, a fim de evitar a pletora<br \/>\n    de doutores. Seria um erro, pois daria o monop&oacute;lio aos ricos e afastaria<br \/>\n    as verdadeiras voca&ccedil;&otilde;es. De resto, &eacute; sabido que os lentes<br \/>\n    das escolas daquele pa&iacute;s s&atilde;o todos relacionados, t&ecirc;m neg&oacute;cios<br \/>\n    com os potentados financeiros e industriais do pa&iacute;s e quase nunca lhes<br \/>\n    reprovam os filhos. <\/p>\n<p>Extinguir-se as escolas seria um absurdo, pois seria entregar esse ensino<br \/>\n    a seitas religiosas, que tomariam conta dele, mantendo-lhe o prest&iacute;gio<br \/>\n    na opini&atilde;o e na sociedade. <\/p>\n<p>Apesar de n&atilde;o ser da Bruzundanga, eu me interesso muito por ela, pois<br \/>\n    l&aacute; passei uma grande parte da minha meninice e mocidade. <\/p>\n<p>Meditei muito sobre os seus problemas e creio que achei o rem&eacute;dio<br \/>\n    para esse mal que &eacute; o seu ensino. Vou explicar-me sucintamente. <\/p>\n<p>O Estado da Bruzundanga, de acordo com a sua carta constitucional, declararia<br \/>\n    livre o exerc&iacute;cio de qualquer profiss&atilde;o, extinguindo todo e<br \/>\n    qualquer privil&eacute;gio de diploma. <\/p>\n<p>Feito isso, declararia tamb&eacute;m extintas as atuais faculdades e escolas<br \/>\n    que ele mant&eacute;m. <\/p>\n<p>Substituiria o atual ensino seriado, reminisc&ecirc;ncia da Idade M&eacute;dia,<br \/>\n    onde, no trivium, se misturava a gram&aacute;tica com a dial&eacute;tica e,<br \/>\n    no quadrivium, a astronomia e a geometria com a m&uacute;sica, pelo ensino<br \/>\n    isolado de mat&eacute;rias, professadas pelos atuais lentes, com os seus preparadores<br \/>\n    e laborat&oacute;rios. <\/p>\n<p>Quem quisesse estudar medicina, freq&uuml;entaria as cadeiras necess&aacute;rias<br \/>\n    &agrave; especialidade a que se destinasse, evitando as disciplinas que julgasse<br \/>\n    in&uacute;teis. <\/p>\n<p>Aquele que tivesse voca&ccedil;&atilde;o para engenheiro de estrada de ferro,<br \/>\n    n&atilde;o precisava estar perdendo tempo estudando hidr&aacute;ulica. Freq&uuml;entaria<br \/>\n    t&atilde;o-somente as cadeiras de que precisasse, tanto mais que h&aacute;<br \/>\n    engenheiros que precisam saber disciplinas que at&eacute; bem pouco s&oacute;<br \/>\n    se exigiam dos m&eacute;dicos, tais como os sanit&aacute;rios; m&eacute;dicos<br \/>\n    &mdash; os higienistas &mdash; que t&ecirc;m de atender a dados de constru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    etc.; e advogados a estudos de medicina legal. <\/p>\n<p>Cada qual organizaria o programa do seu curso, de acordo com a especialidade<br \/>\n    da profiss&atilde;o liberal que quisesse exercer, com toda a honestidade e<br \/>\n    sem as escoras de privil&eacute;gio ou diploma todo poderoso. <\/p>\n<p>Semelhante forma de ensino, evitando o diploma e os seus privil&eacute;gios,<br \/>\n    extinguiria a nobreza doutoral; e daria aos jovens da Bruzundanga mais honestidade<br \/>\n    no estudo, mais seguran&ccedil;a nas profiss&otilde;es que fossem exercer,<br \/>\n    com a for&ccedil;a que vem da concorr&ecirc;ncia entre homens de valor e intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    nas carreiras que seguem. <\/p>\n<p>Eu n&atilde;o suponho, n&atilde;o tenho a ilus&atilde;o que algu&eacute;m<br \/>\n    tome a s&eacute;rio semelhante id&eacute;ia. <\/p>\n<p>Mas desejava bem que os da Bruzundanga a tomassem, para que mais tarde n&atilde;o<br \/>\n    tenham que se arrepender. <\/p>\n<p>A nobreza doutoral, l&aacute;, est&aacute; se fazendo aos poucos irritante,<br \/>\n    e at&eacute; sendo heredit&aacute;ria. Querem ver? Quando por l&aacute; andei,<br \/>\n    ouvi entre rapazes este curto di&aacute;logo: <\/p>\n<p>&mdash; Mas T. foi reprovado? <\/p>\n<p>&mdash; Foi. <\/p>\n<p>&mdash; Como? Pois se &eacute; filho do doutor F.? <\/p>\n<p>Os pais mesmo t&ecirc;m essa id&eacute;ia; as m&atilde;es tamb&eacute;m;<br \/>\n    as irm&atilde;s da mesma forma, de modo a s&oacute; desejarem casar-se com<br \/>\n    os doutores. Estes v&atilde;o ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras,<br \/>\n    pois o povo admite isto e o tem achado justo at&eacute; agora. H&aacute; algumas<br \/>\n    fam&iacute;lias que s&atilde;o de verdadeiros Polignacs doutorais. Ao lado,<br \/>\n    por&eacute;m, delas vai se formando outra corrente, mais ativa, mais consciente<br \/>\n    da injusti&ccedil;a que sofre, mais inteligente, que, pouco a pouco, h&aacute;<br \/>\n    de tirar do povo a ilus&atilde;o doutoral. <\/p>\n<p>&Eacute; bom n&atilde;o termos que ver, na minha querida Bruzundanga, aquela<br \/>\n    cena que a nobreza de sangue provocou, e Taine, no come&ccedil;o da sua grande<br \/>\n    obra Origens da Fran&ccedil;a Contempor&acirc;nea, descreve em poucas e eloq&uuml;entes<br \/>\n    palavras. Eu as traduzo: <\/p>\n<p>&quot;Na noite de 14 para 15 de julho de 1789, o Duque de Larochefoucaud-Liancourt<br \/>\n    fez despertar Lu&iacute;s XVI para lhe anunciar a tomada da Bastilha. <\/p>\n<p>&mdash; &Eacute;. uma revolta? diz o rei. <\/p>\n<p>&mdash; Sire, respondeu o duque, &mdash; &eacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o&quot;.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII &#8211; A Diplomacia da Bruzundanga<\/a><\/h4>\n<p>O ideal de todo e qualquer natural da Bruzundanga &eacute; viver fora do<br \/>\n    pa&iacute;s. Pode-se dizer que todos anseiam por isso; e, como Robinson, vivem<br \/>\n    nas praias e nos morros, &agrave; espera do navio que os venha buscar. <\/p>\n<p>Para eles, a Bruzundanga &eacute; tida como pa&iacute;s de ex&iacute;lio<br \/>\n    ou mais do que isso: como uma ilha de Juan Fern&aacute;ndez, onde os humanos<br \/>\n    perdem a fala, por n&atilde;o terem com quem conversar e n&atilde;o poderem<br \/>\n    entender o que dizem os p&aacute;ssaros, os animais silvestres e mesmo as<br \/>\n    cabras semi-selvagens. <\/p>\n<p>Um dos meios de que a nobreza doutoral lan&ccedil;a m&atilde;o para safar-se<br \/>\n    do pa&iacute;s, &eacute; obter empregos diplom&aacute;ticos ou consulares,<br \/>\n    em falta destes os de adidos e &quot;encostados&quot; &agrave;s lega&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e consulados. <\/p>\n<p>Conv&eacute;m notar que, quando digo que a &acirc;nsia geral &eacute; viver<br \/>\n    fora do pa&iacute;s, excetuo os ativos, aqueles que sugam dos minist&eacute;rios<br \/>\n    subven&ccedil;&otilde;es, propinas, percentagens e obt&ecirc;m concess&otilde;es,<br \/>\n    privil&eacute;gios, etc. Este demoram-se pouco fora dele e, seja governo o<br \/>\n    partido radical, seja governo o partido conservador, esteja o er&aacute;rio<br \/>\n    cheio, esteja ele vazio, sabem sempre obter fartos e abundantes recursos monet&aacute;rios<br \/>\n    de um modo de que s&oacute; eles t&ecirc;m o segredo.. Estes senhores gostam<br \/>\n    muito da Bruzundanga e s&atilde;o ferozes patriotas. <\/p>\n<p>Mas, como lhes contava, os nobres doutores tratam logo de representar o pa&iacute;s<br \/>\n    em terras estranhas. <\/p>\n<p>N&atilde;o fazem quest&atilde;o de lugar. Seja no Turquest&atilde;o ou na<br \/>\n    Groenl&acirc;ndia, eles aceitam os cargos diplom&aacute;ticos. <\/p>\n<p>A um, perguntei: <\/p>\n<p>&mdash; Mas tu vais mesmo para o Anam? <\/p>\n<p>&mdash; Por que n&atilde;o? N&atilde;o h&aacute; l&aacute; mulheres?<\/p>\n<p>O sonho do jovem diplom&aacute;tico n&atilde;o &eacute; ser Talleyrand; &eacute;<br \/>\n    ser Don Juan para uso externo. <\/p>\n<p>Ia at&eacute; bastante satisfeito, disse-me em seguida, porquanto, l&aacute;,<br \/>\n    n&atilde;o se distinguindo bem a mulher anamita do homem, devia acontecer<br \/>\n    surpresas bem agrad&aacute;veis com semelhante &quot;engano d&rsquo;arma ledo<br \/>\n    e cego&quot;. <\/p>\n<p>A sua aprendizagem para o of&iacute;cio &eacute; simples. Al&eacute;m do<br \/>\n    corriqueiro franc&ecirc;s e os usos da sociedade, os aspirantes a diplomatas<br \/>\n    come&ccedil;am nos passeios e reuni&otilde;es da capital da Rep&uacute;blica<br \/>\n    a ensaiar o uso de roupas, mais ou menos &agrave; &uacute;ltima moda. N&atilde;o<br \/>\n    esquecem nem o modo chic de atar os cord&otilde;es dos sapatos, nem o jeito<br \/>\n    ultra fashionable de agarrar a bengala; estudam os modos apurados de cumprimentar,<br \/>\n    de sorrir; e, quando se os v&ecirc; na rua, descobrindo-se para aqui, chap&eacute;u<br \/>\n    tirado da cabe&ccedil;a at&eacute; &agrave; cal&ccedil;ada para ali, balou&ccedil;ando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, lembramo-nos logo dos cavalos do Cabo de coup&eacute; de<br \/>\n    casamento rico. <\/p>\n<p>Outra cousa que um recomend&aacute;vel aspirante a diplomata deve possuir,<br \/>\n    s&atilde;o t&iacute;tulos liter&aacute;rios. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que um milhar de candidatos, pois sempre os h&aacute; nesse n&uacute;mero,<br \/>\n    tenham todos talento liter&aacute;rio, mas a maior parte deles n&atilde;o<br \/>\n    se atrapalham com a falta. <\/p>\n<p>Os mais escrupulosos escrevem uns mofinos artigos e tomam logo uns ares de<br \/>\n    Shakespeare; alguns publicam livros estafantes e solicitam dos cr&iacute;ticos<br \/>\n    honrosas refer&ecirc;ncias; outros, quando j&aacute; empregados no minist&eacute;rio,<br \/>\n    mandam os cont&iacute;nuos copiar velhos of&iacute;cios dos arquivos, colam<br \/>\n    as c&oacute;pias com goma-ar&aacute;bica em folhas de papel, mandam a cousa<br \/>\n    para a Tipografia Nacional do pa&iacute;s, p&otilde;em um t&iacute;tulo pomposo<br \/>\n    na cousa, s&atilde;o aclamados histo- riadores, s&aacute;bios, cientistas<br \/>\n    e logram conseguir boas nomea&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Houve um at&eacute; que n&atilde;o teve escr&uacute;pulo em copiar grandes<br \/>\n    trechos do Carlos Magno e os doze pares de Fran&ccedil;a, para ter um soberbo<br \/>\n    t&iacute;tulo intelectual, capaz de faz&ecirc;-lo secret&aacute;rio de lega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como ainda o &eacute; atualmente. <\/p>\n<p>O mais not&aacute;vel caso de acesso na &quot;carreira&quot; foi o que obteve<br \/>\n    o adido &agrave; Secretaria de Estrangeiros Horlando. Em um jantar de luxo,<br \/>\n    houve uma disputa entre dois convidados sobre uma qualidade de peixe que viera<br \/>\n    &agrave; mesa. Um dizia que era garoupa; o outro que era bijupir&aacute;.<br \/>\n    N&atilde;o houve meio de concordarem. Horlando foi chamado para &aacute;rbitro.<br \/>\n    Levou amostras para casa. Mandou tirar fotografias, fez que desenhassem estampas<br \/>\n    elucidativas, escreveu um relat&oacute;rio de duzentas p&aacute;ginas, e concluiu<br \/>\n    que n&atilde;o era nem garoupa, nem bijupir&aacute;, mas ca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O seu trabalho foi tido como um modelo da mais pura erudi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    culin&aacute;ria e o mo&ccedil;o foi logo encarregado de neg&oacute;cios na<br \/>\n    Guatemala. &Eacute; hoje considerado como um dos luzeiros da diplomacia da<br \/>\n    Bruzundanga.<\/p>\n<p>Cada mandachuva novo traz sempre em mente aumentar o n&uacute;mero de lega&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de modo que n&atilde;o h&aacute; pa&iacute;s no mundo em que a Bruzundanga<br \/>\n    n&atilde;o tenha um batalh&atilde;o de representantes. Muitos desses pa&iacute;ses<br \/>\n    n&atilde;o mant&ecirc;m, com a curiosa rep&uacute;blica que venho descrevendo,<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es de esp&eacute;cie alguma; mas, como &eacute; preciso<br \/>\n    mandar alguns filhos de &quot;figur&otilde;es&quot; para o estrangeiro, a<br \/>\n    munific&ecirc;ncia dos poderes p&uacute;blicos n&atilde;o trepida em criar<br \/>\n    nelas lega&ccedil;&otilde;es dispendiosas. H&aacute; l&aacute; at&eacute;<br \/>\n    quem reze para que certos pa&iacute;ses se desmanchem e surjam da separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    novos independentes, permitindo o aumento de lega&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Os rapazes, que v&atilde;o para elas, saem do pa&iacute;s muito bons rapazinhos,<br \/>\n    &agrave;s vezes mesmo mais ricos de influ&ecirc;ncia que de dinheiro; quando,<br \/>\n    por&eacute;m, de l&aacute; voltam, s&oacute; porque viram o emir de Afganist&atilde;o<br \/>\n    ou o sult&atilde;o de Ba&ccedil;ora, acreditam-se da melhor nobreza&#8230; certamente<br \/>\n    mu&ccedil;ulmana. <\/p>\n<p>Os seus modos s&atilde;o outros, os seus gestos estudados, pisam &agrave;<br \/>\n    &uacute;ltima moda do centro da &Aacute;sia e encetam a conversa sobre qualquer<br \/>\n    cousa, come&ccedil;ando sempre assim: <\/p>\n<p>&mdash; Estava eu em Cabul, quando a mulher do ministro russo&#8230; <\/p>\n<p>Cabul soa a&iacute; como se fosse Paris, Londres ou Roma e os seus auditores<br \/>\n    consentem em admitir que a capital de Afganist&atilde;o seja mesmo um dep&oacute;sito<br \/>\n    de eleg&acirc;ncias superiores. <\/p>\n<p>Pelo simples fato de terem palmilhado terras estranhas e terem visto naturalmente<br \/>\n    algumas obras-primas, os diplomatas da Bruzundanga se julgam todos eles artistas,<br \/>\n    literatos, homens finos, gentlemen. <\/p>\n<p>N&atilde;o pensem que eles publiquem obras maravilhosas, profundas de pensamentos,<br \/>\n    densas de id&eacute;ias; n&atilde;o &eacute; isso bem o que publicam. <\/p>\n<p>Afora um ou outro que n&atilde;o se veste pelo figurino da maioria, o que<br \/>\n    eles publicam s&atilde;o sonetos bem rimadinhos, penteadinhos, perfumadinhos,<br \/>\n    lambidinhos, cantando as esp&eacute;cies de j&oacute;ias e adere&ccedil;os<br \/>\n    que se encontram nas montras dos ourives. <\/p>\n<p>A isto, eles batizam, por conta pr&oacute;pria, de aristocracia da arte,<br \/>\n    arte superior, arte das delicadezas impalp&aacute;veis.<\/p>\n<p>Publicam esses cat&aacute;logos de ourivesaria, quando n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    de modistas e alfaiates, em edi&ccedil;&otilde;es luxuosas; e, imediatamente,<br \/>\n    apresentam-se candidatos &agrave; Academia de Letras da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Houve tempo em que ela os aceitava sem deten&ccedil;a; mas, ultimamente,<br \/>\n    devido &agrave; sua senilidade precoce, desprezou-os e s&oacute; vai aceitando<br \/>\n    os taumaturgos da cidade. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; m&eacute;dico milagreiro e afreguesado que n&atilde;o<br \/>\n    entre para ela e pretira os diplomatas. <\/p>\n<p>Nem sempre foi assim a diplomacia da Bruzundanga. Mesmo depois de l&aacute;<br \/>\n    se ter proclamado a Rep&uacute;blica, os seus diplomatas n&atilde;o tinham<br \/>\n    o recheio de rid&iacute;culo que atualmente t&ecirc;m. <\/p>\n<p>Eram simples homens como quaisquer, sem pretens&otilde;es do que n&atilde;o<br \/>\n    eram, sem fuma&ccedil;as de aristocracia, nada casquilhos, nem arrogantes.\n  <\/p>\n<p>Apareceu, por&eacute;m, um embaixador gordo e autorit&aacute;rio, megal&ocirc;mano<br \/>\n    e inteligente, o Visconde de Panc&ocirc;me, que fizeram ministro dos Estrangeiros,<br \/>\n    e ele transformou tudo. <\/p>\n<p>Empossado no minist&eacute;rio, a primeira cousa que fez foi acabar comas<br \/>\n    leis e regulamentos que governavam o seu departamento. A lei era ele. O novo<br \/>\n    ministro era muito popular na Bruzundanga; e vinha a sua popularidade do fato<br \/>\n    de ter obtido do rei da Inglaterra a comenda de Jarreteira para o mandachuva<br \/>\n    e seus ministros, assim como o Tos&atilde;o de Ouro da Espanha para os generais<br \/>\n    e almirantes. <\/p>\n<p>Todos os senhores h&atilde;o de se admirar que tal cousa tenha feito o homem<br \/>\n    popular. &Eacute; que os bruzundanguenses babam-se inteiramente por esse neg&oacute;cio<br \/>\n    de condecora&ccedil;&otilde;es e comendas; e, embora cada qual n&atilde;o<br \/>\n    tivesse recebido uma, eles se julgavam honrados pelo fato do mandachuva, do<br \/>\n    ministro, dos generais e almirantes terem recebido condecora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&atilde;o famosas no mundo inteiro. <\/p>\n<p>S&atilde;o assim como n&oacute;s que temos grande admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo Bar&atilde;o do Rio Branco por ter adjudicado ao Brasil n&atilde;o sei<br \/>\n    quantos milhares de quil&ocirc;metros quadrados de terras, embora, em geral,<br \/>\n    nenhum de n&oacute;s tenha de seu nem os sete palmos de terra para deitarmos<br \/>\n    o cad&aacute;ver. <\/p>\n<p>O visconde, exaltado no minist&eacute;rio, tendo por lei a sua vontade, baseado<br \/>\n    na popularidade, fez o que entendeu e a sua preocupa&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima<br \/>\n    foi dar &agrave; representa&ccedil;&atilde;o externa da Bruzundanga um brilho<br \/>\n    de beleza masculina, cujo c&acirc;non ele guardava secretamente para si. Da&iacute;<br \/>\n    veio essa total modifica&ccedil;&atilde;o no esp&iacute;rito da representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exterior do pa&iacute;s e n&atilde;o houve bonequinho mais ou menos vazio<br \/>\n    e empomadado que ele n&atilde;o nomeasse para esta ou aquela lega&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>O seu sucessor seguiu-lhe logo as pegadas, n&atilde;o s&oacute; neste ponto<br \/>\n    como em outros mais. <\/p>\n<p>O Visconde de Panc&ocirc;me era de fato um escritor; o novo ministro n&atilde;o<br \/>\n    o era absolutamente, mas como substituiu aquele, julgou-se no direito de o<br \/>\n    ser tamb&eacute;m e tamb&eacute;m membro da Academia de Letras, como tinha<br \/>\n    sido o seu predecessor. <\/p>\n<p>Publicou em papel&atilde;o um discurso, impresso em letras garrafais, conseguindo<br \/>\n    assim organizar um volume e foi da&iacute; em diante igual ao antecessor em<br \/>\n    tudo.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; mal algum que seja assim a diplomacia daquelas paragens.<br \/>\n    A Bruzundanga &eacute; um pa&iacute;s de terceira ordem e a sua diplomacia<br \/>\n    &eacute; meramente decorativa. N&atilde;o faz mal, nem bem: enfeita.<\/p>\n<p>E, se os maridos e pais da Bruzundanga t&ecirc;m que andar cheios de cuidados,<br \/>\n    &eacute; melhor que tais zelos fiquem ao cargo dos estrangeiros. A diplomacia<br \/>\n    do pa&iacute;s tem a sua utilidade&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII &#8211; A Constitui&ccedil;&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p>Quando se reuniu a Constituinte da Rep&uacute;blica da Bruzundanga, houve<br \/>\n    no pa&iacute;s uma grande esperan&ccedil;a. O pa&iacute;s tinha, at&eacute;<br \/>\n    a&iacute;, sido governado por uma lei b&aacute;sica que datava de cerca de<br \/>\n    um s&eacute;culo e todos os jovens julgavam-na avelhentada e j&aacute; caduca.<br \/>\n    Os militares do Ex&eacute;rcito, iniciados nas sete ci&ecirc;ncias do Pit&aacute;goras<br \/>\n    de Montpellier, &mdash; criticavam-na da seguinte forma: &quot;Qual! Esta<br \/>\n    constitui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o presta! Os que a fizeram n&atilde;o<br \/>\n    sabiam nem aritm&eacute;tica; como podiam decidir em sociologia?&quot; <\/p>\n<p>Escusado &eacute; dizer que isto n&atilde;o era verdade, mas o crit&eacute;rio<br \/>\n    hist&oacute;rico deles e o seu orgulho escolar pediam fosse.<\/p>\n<p>Os outros doutores tamb&eacute;m achavam a Constitui&ccedil;&atilde;o mon&aacute;rquica<br \/>\n    absolutamente tola, porque, desde que ela fora promulgada, havia surgido um<br \/>\n    certo jurista alem&atilde;o ou aparecido um novo rem&eacute;dio para erisipelas.<br \/>\n    A nova devia ser uma perfei&ccedil;&atilde;o e trazer a felicidade de todos.\n  <\/p>\n<p>Reuniu-se, pois, a Constituinte com toda a solenidade. Vieram para ela, jovens<br \/>\n    poetas, ainda tresandando &agrave; grossa bo&ecirc;mia; vieram para ela, imponentes<br \/>\n    tenentes de artilharia, ainda cheirando aos &quot;cadernos&quot; da escola;<br \/>\n    vieram para ela, velhos possuidores de escravos, cheios de &oacute;dio ao<br \/>\n    antigo regime por haver libertado os que tinham; vieram para ela, bisonhos<br \/>\n    jornalistas da ro&ccedil;a recheados de uma erudi&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    flor da pele, e tamb&eacute;m alguns dos seus colegas da capital, eivados<br \/>\n    do Lamartine, Hist&oacute;ria dos girondinos, e entusiastas dos caudilhos<br \/>\n    das rep&uacute;blicas espanholas da Am&eacute;rica. Era mais ou menos esse<br \/>\n    o pessoal de que se compunha a nova Constituinte. <\/p>\n<p>Tinham entrado no ritual da nova Rep&uacute;blica os banquetes pantagru&eacute;licos;<br \/>\n    e, nas v&eacute;speras da reuni&atilde;o, houve um de estrondo.<\/p>\n<p>&Agrave; sess&atilde;o inaugural, prestou guarda de honra uma brigada; mas,<br \/>\n    bem contando, era unicamente um batalh&atilde;o. <\/p>\n<p>Quando sa&iacute;ram os constituintes, Z., um deles, perguntava de si para<br \/>\n    si: <\/p>\n<p>&mdash; Que vou propor eu? <\/p>\n<p>H. excogitava: <\/p>\n<p>&mdash; Devo ser pelo div&oacute;rcio? Esses padres&#8230; <\/p>\n<p>B. meditava: <\/p>\n<p>&mdash; Antes n&atilde;o me metesse nisto. O imperador pode voltar e &eacute;<br \/>\n    o diabo&#8230; <\/p>\n<p>Quase todos, por&eacute;m, consideravam com toda a convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com todo o acendramento, com um recolhimento religioso: <\/p>\n<p>&mdash; Qual a Constitui&ccedil;&atilde;o que devemos imitar? <\/p>\n<p>Em geral, eles esperavam ser escolhidos para a comiss&atilde;o dos vinte<br \/>\n    e um que tinha de redigir o projeto da futura lei b&aacute;sica, e era justo<br \/>\n    que tivessem semelhante preocupa&ccedil;&atilde;o absorvente: <\/p>\n<p>&mdash; Qual a constitui&ccedil;&atilde;o que devemos imitar? <\/p>\n<p>Votado o regimento interno da grande assembl&eacute;ia e tomadas todas as<br \/>\n    outras disposi&ccedil;&otilde;es secund&aacute;rias, a comiss&atilde;o dos<br \/>\n    vinte e um membros, encarregada de redigir o projeto, foi escolhida; e, em<br \/>\n    reuni&atilde;o, houve entre os seus membros caloroso debate a respeito de<br \/>\n    quem deveria ser o relator ou os relatores.<\/p>\n<p>Escolheram, afinal, tr&ecirc;s sumidades: Fel&iacute;cio, Gracindo e Pelino,<br \/>\n    todos eles &mdash; ben &mdash; qualquer cousa. <\/p>\n<p>O resto p&ocirc;s-se a descansar e os tr&ecirc;s, em sala separada, no dia<br \/>\n    seguinte, juntaram-se e trataram dos moldes em que devia ser elaborada a nova<br \/>\n    Magna Carta.<\/p>\n<p>Pelino foi de parecer que a constitui&ccedil;&atilde;o futura devia ser vazada<br \/>\n    no cadinho em que fora a do pa&iacute;s dos Houyhhnnms. <\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; um pa&iacute;s de cavalos! exclamou Gracindo. <\/p>\n<p>&mdash; Que tem isto? retrucou Pelino. N&oacute;s somos bastante parecidos<br \/>\n    com eles.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o, n&atilde;o queremos, objetaram os dois outros. <\/p>\n<p>&mdash; Ent&atilde;o, como vai ser? perguntou Pelino. Se n&atilde;o querem<br \/>\n    &agrave; moda dos cavalos, n&atilde;o podemos achar outro modelo, pois o pa&iacute;s<br \/>\n    dos camelos n&atilde;o tem constitui&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&mdash; Fa&ccedil;amos a constitui&ccedil;&atilde;o aos modos da de Lilliput,<br \/>\n    fez Fel&iacute;cio. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o me serve! exclamou Pelino. Semelhante gente n&atilde;o<br \/>\n    pesa, &eacute; muito pequena!<\/p>\n<p>&mdash; Ent&atilde;o ao jeito da de Brobdingnag, o pa&iacute;s dos gigantes.<\/p>\n<p>Todos acharam justa a proposta e come&ccedil;aram a redigir o projeto de<br \/>\n    constitui&ccedil;&atilde;o da Bruzundanga republicana, conforme o paradigma<br \/>\n    da do pa&iacute;s dos gigantes.<\/p>\n<p>Quando Gulliver l&aacute; esteve (creio que os senhores se lembram disso),<br \/>\n    figurou como um verdadeiro brinquedo. Ningu&eacute;m o levava a s&eacute;rio<br \/>\n    como homem; era antes um boneco que dormia com as mo&ccedil;as e tinha outra:<br \/>\n    intimidades que, se n&atilde;o foram contadas, podem ser adivinhadas. <\/p>\n<p>A popula&ccedil;&atilde;o da Bruzundanga, tirante um atributo ou outro, n&atilde;o<br \/>\n    era composta de pessoas diferentes do doutor Gulliver; eram min&uacute;sculos<br \/>\n    bonecos, portanto, que queriam possuir uma constitui&ccedil;&atilde;o de gigantes.\n  <\/p>\n<p>Felizmente, por&eacute;m, j&aacute; na grande comiss&atilde;o, j&aacute;<br \/>\n    no plen&aacute;rio, a imita&ccedil;&atilde;o foi modificada; e, em muitos<br \/>\n    pontos, a Carta da Bruzundanga veio a afastar-se da de Brobdingnag.<\/p>\n<p>&mdash; Houve mesmo disposi&ccedil;&otilde;es originais que merecem ser citadas.<br \/>\n    Assim, por exemplo, a exig&ecirc;ncia principal para ser ministro era a de<br \/>\n    que o candidato n&atilde;o entendesse nada das cousas da pasta que ia gerir.\n  <\/p>\n<p>Por exemplo, um ministro da Agricultura n&atilde;o devia entender cousa alguma<br \/>\n    de agronomia. O que se exigia dele &eacute; que fosse um bom especulador,<br \/>\n    um agiota, um judeu, sabendo organizar trusts, monop&oacute;lios, estancos,<br \/>\n    etc. <\/p>\n<p>Os deputados n&atilde;o deviam ter opini&atilde;o alguma, sen&atilde;o aquelas<br \/>\n    dos governadores das prov&iacute;ncias que os elegiam. As prov&iacute;ncias<br \/>\n    n&atilde;o poderiam escolher livremente os seus governantes; as popula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tinham que os escolher entre certas e determinadas fam&iacute;lias, aparentadas<br \/>\n    pelo sangue ou por afinidade.<\/p>\n<p>Havia artigos muito bons, como por exemplo o que determinava a n&atilde;o<br \/>\n    acumula&ccedil;&atilde;o de cargos remunerados e aquele que estabelecia a<br \/>\n    liberdade de profiss&atilde;o; mas, logo, surgiu um deputado prudente que<br \/>\n    estabeleceu o seguinte artigo nas disposi&ccedil;&otilde;es gerais: &quot;Toda<br \/>\n    a vez que um artigo desta Constitui&ccedil;&atilde;o ferir os interesses de<br \/>\n    parentes de pessoas da &lsquo;situa&ccedil;&atilde;o&rsquo; ou de membros<br \/>\n    dela, fica subentendido que ele n&atilde;o tem aplica&ccedil;&atilde;o no<br \/>\n    caso&quot;. <\/p>\n<p>Na constituinte, todos esperavam ficar na &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot;,<br \/>\n    de modo que o artigo acima foi aprovado unanimemente. <\/p>\n<p>Com este artigo a Lei Suprema da Bruzundanga tomou uma elasticidade extraordin&aacute;ria.<br \/>\n    Os presidentes de prov&iacute;ncia, desde que estivessem de acordo com o presidente<br \/>\n    da rep&uacute;blica, &mdash; na Bruzundanga chama-se mandachuva &mdash; faziam<br \/>\n    o que queriam. <\/p>\n<p>Se algum recalcitrante, &agrave; vista de qualquer viola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Constitui&ccedil;&atilde;o, apelava para a Justi&ccedil;a (l&aacute; se<br \/>\n    chama Chicana), logo a Corte Suprema indagava se feria interesses de parentes<br \/>\n    de pessoas da situa&ccedil;&atilde;o e decidia conforme o famoso artigo. <\/p>\n<p>Um certo governador de uma das prov&iacute;ncias da Bruzundanga, grande plantador<br \/>\n    de caf&eacute;, verificando a baixa de pre&ccedil;o que o produto ia tendo,<br \/>\n    de modo a n&atilde;o lhe dar lucros fabulosos, proibiu o plantio de mais um<br \/>\n    p&eacute; que fosse da &quot;preciosa rubi&aacute;cea&quot;.<\/p>\n<p>Era uma lei colonial, uma verdadeira disposi&ccedil;&atilde;o da carta r&eacute;gia.<br \/>\n    Houve ent&atilde;o um cidad&atilde;o que pediu habeas corpus para plantar<br \/>\n    caf&eacute;. A Suprema Corte, &agrave; vista do tal artigo citado, n&atilde;o<br \/>\n    o concedeu, visto ferir os interesses do presidente da prov&iacute;ncia, que<br \/>\n    pertencia &agrave; &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Como todo o mundo n&atilde;o podia pertencer &agrave; &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot;,<br \/>\n    os que ficavam fora dela, vendo os seus direitos postergados, come&ccedil;avam<br \/>\n    a berrar, a pedir justi&ccedil;a, a falar em princ&iacute;pios, e organizavam,<br \/>\n    desta ou daquela maneira, masorcas. <\/p>\n<p>Se eram vitoriosos, formavam a sua &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot; e come&ccedil;avam<br \/>\n    a fazer o mesmo que os outros. <\/p>\n<p>Havia apelo para a &quot;Chicana&quot;, mas a Suprema Corte, considerando<br \/>\n    bem o tal artigo j&aacute; citado, decidia de acordo com a &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot;.<br \/>\n    Era tudo a &quot;situa&ccedil;&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Todos os partidos que n&atilde;o pertenciam a ela, pregavam a reforma da<br \/>\n    constitui&ccedil;&atilde;o; mas, logo que a ela aderiam, repeliam a reforma<br \/>\n    como um sacril&eacute;gio. <\/p>\n<p>A constitui&ccedil;&atilde;o afirmava que ningu&eacute;m podia ser obrigado<br \/>\n    a fazer ou deixar de fazer alguma cousa, sen&atilde;o em virtude de lei. N&atilde;o<br \/>\n    havia lei que permitisse as prov&iacute;ncias deportar indiv&iacute;duos de<br \/>\n    uma para outra, mas o Estado do Kaphet, gra&ccedil;as ao tal artigo, deportava<br \/>\n    quem queria e ainda encomendava aos jornais que o chamassem de prov&iacute;ncia<br \/>\n    modelo. <\/p>\n<p>A constitui&ccedil;&atilde;o da Bruzundanga era s&aacute;bia no que tocava<br \/>\n    &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es para elegibilidade do mandachuva, isto &eacute;,<br \/>\n    o presidente. <\/p>\n<p>Estabelecia que devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse<br \/>\n    mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma intelig&ecirc;ncia; que n&atilde;o<br \/>\n    tivesse vontade pr&oacute;pria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total.\n  <\/p>\n<p>Nessa parte a constitui&ccedil;&atilde;o foi sempre obedecida. <\/p>\n<p>A rep&uacute;blica dura, na Bruzundanga, h&aacute; cerca de trinta anos.<br \/>\n    T&ecirc;m passado pela curul presidencial nada menos do que seis mandachuvas,<br \/>\n    e n&atilde;o houve, talvez, um que infringisse t&atilde;o s&aacute;bias disposi&ccedil;&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>A Carta da Bruzundanga, que come&ccedil;ou imitando a do pa&iacute;s dos<br \/>\n    gigantes, foi inteiramente obedecida nessa passagem, e de um modo religioso.\n  <\/p>\n<p>No que toca ao resto, por&eacute;m, ela tem sofrido v&aacute;rias mutila&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    desfigura&ccedil;&otilde;es e interpreta&ccedil;&otilde;es de modo a n&atilde;o<br \/>\n    me permitir continuar a dar mais apanhados dela, a menos que quisesse escrever<br \/>\n    um livro de seiscentas p&aacute;ginas.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX &#8211; Um mandachuva<\/a><\/h4>\n<p>OS leitores que t&ecirc;m seguido estas r&aacute;pidas notas sobre os usos<br \/>\n    e costumes, leis e supersti&ccedil;&otilde;es da Rep&uacute;blica da Bruzundanga,<br \/>\n    n&atilde;o devem ter esquecido que o seu presidente &eacute; chamado &quot;Mandachuva&quot;,<br \/>\n    e oficialmente.<\/p>\n<p> J&aacute; dei at&eacute; algumas das exig&ecirc;ncias constitucionais que<br \/>\n    os candidatos t&ecirc;m de preencher, a fim de ascenderem &agrave; curul presidencial<br \/>\n    daquele pa&iacute;s, que fica pr&oacute;ximo da ilha dos Lagartos, t&atilde;o<br \/>\n    bem descrita pelo meu concidad&atilde;o Ant&ocirc;nio Jos&eacute;, que as<br \/>\n    fogueiras da Inquisi&ccedil;&atilde;o queimaram em Lisboa. <\/p>\n<p>O que pretendo agora, nestas linhas, &eacute; fornecer aos leitores o tipo<br \/>\n    de um presidente da curiosa Rep&uacute;blica, infelizmente t&atilde;o mal<br \/>\n    conhecida entre n&oacute;s &#8212; cousa de lastimar, pois ela nos podia fornecer<br \/>\n    modelos que nos levassem de vez a completo desastre. Il faut finir, pour recommencer&#8230;\n  <\/p>\n<p>A n&atilde;o ser que suba ao poder, por uma revolta mais ou menos disfar&ccedil;ada,<br \/>\n    um General mais ou menos decorativo, o Mandachuva &eacute; sempre escolhido<br \/>\n    entre os membros da nobreza doutoral; e, dentre os doutores, a escolha recai<br \/>\n    sobre um advogado. <\/p>\n<p>&Eacute; justo, pois s&atilde;o os advogados ou bachar&eacute;is em direito<br \/>\n    que devem ter obriga&ccedil;&atilde;o de conhecer a barafunda de leis de toda<br \/>\n    a natureza, embora a arte de governar, segundo o crit&eacute;rio dos que filosofam<br \/>\n    sobre o Estado e o admitem necess&aacute;rio, n&atilde;o pe&ccedil;a unicamente<br \/>\n    o seco conhecimento de textos de leis, de artigos de c&oacute;digos, de opini&otilde;es<br \/>\n    de praxistas e hermeneutas. <\/p>\n<p>As leis s&atilde;o o esqueleto das sociedades, mas a fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sa&uacute;de ou doen&ccedil;a destas, as suas necessidades terap&ecirc;uticas<br \/>\n    ou cir&uacute;rgicas, s&atilde;o dadas pelo pr&eacute;vio conhecimento e exame,<br \/>\n    no momento, do estado de certas partes externas e dos seus &oacute;rg&atilde;os<br \/>\n    vitais, que s&atilde;o o seu com&eacute;rcio, a sua ind&uacute;stria, as suas<br \/>\n    artes, os sonhos do seu povo, os sofrimentos dele &#8212; toda essa parte<br \/>\n    mut&aacute;vel das comunh&otilde;es humanas, cambiantes e fugidia, que s&oacute;<br \/>\n    os fortes observadores, com grande intelig&ecirc;ncia, colhem em alguns instantes,<br \/>\n    sugerindo os rem&eacute;dios eficazes e as provid&ecirc;ncias adequadas, para<br \/>\n    tal ou qual caso.<\/p>\n<p>Gomo dizia, por&eacute;m, na Bruzundanga, em geral, o Mandachuva &eacute;<br \/>\n    escolhido entre os advogados, mas n&atilde;o julguem que ele venha dos mais<br \/>\n    not&aacute;veis, dos mais ilustrados, n&atilde;o: ele surge e &eacute; indicado<br \/>\n    dentre os mais n&eacute;scios e os mais med&iacute;ocres. Quase sempre, &eacute;<br \/>\n    um leguleio da ro&ccedil;a que, logo ap&oacute;s a for- matura, isto &eacute;,<br \/>\n    desde os primeiros anos de sua mocidade at&eacute; aos quarenta, quando o<br \/>\n    fizeram deputado provincial, n&atilde;o teve outro ambiente que a sua cidadezinha<br \/>\n    de cinco a dez mil habitantes, mais outra leitura que a dos jornais e livros<br \/>\n    comuns da profiss&atilde;o &#8212; indicadores, manuais, etc.; e outra conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    que n&atilde;o a do botic&aacute;rio, do m&eacute;dico local, do professor<br \/>\n    p&uacute;blico e de algum fazendeiro menos dorminhoco, com os quais jogava<br \/>\n    o solo, ou mesmo o &quot;truque&quot; nos fundos da botica. <\/p>\n<p>&Eacute; este homem que assim viveu a parte melhor da vida, &eacute; este<br \/>\n    homem que s&oacute; viu a vida de sua p&aacute;tria na pacatez de quase uma<br \/>\n    aldeia; &eacute; este homem que n&atilde;o conheceu sen&atilde;o a sua camada<br \/>\n    e que o seu estulto orgulho de doutor da ro&ccedil;a levou a ter sempre um<br \/>\n    desd&eacute;m bonanch&atilde;o pelos inferiores; &eacute; este homem que empregou<br \/>\n    vinte anos, ou pouco menos, a conversar com o botic&aacute;rio sobre as intrigas<br \/>\n    pol&iacute;ticas de seu lugarejo; &eacute; este homem cuja cultura art&iacute;stica<br \/>\n    se cifrou em dar corda no gramofone familiar; &eacute; este homem cuja &uacute;nica<br \/>\n    habilidade se resume em contar anedotas; &eacute; um homem destes, meus senhores,<br \/>\n    que depois de ser deputado provincial, geral, senador, presidente de prov&iacute;ncia,<br \/>\n    vai ser o Mandachuva da Bruzundanga. <\/p>\n<p>H&atilde;o de dizer que, passando por t&atilde;o-altos cargos que se exercem<br \/>\n    em grandes cidades, nas capitais, o futuro Mandachuva h&aacute; de ter recebido<br \/>\n    outras impress&otilde;es e ganhar, portanto, id&eacute;ias mais amplas. Naturalmente,<br \/>\n    ele h&aacute; de adquirir algumas, mas n&atilde;o tantas que modifiquem a<br \/>\n    sua primitiva estrutura mental.<\/p>\n<p> Durante este longo tempo em que ele passa como deputado, senador, isto e<br \/>\n    aquilo, o esperan&ccedil;oso Mandachuva &eacute; absorvido pelas intrigas<br \/>\n    pol&iacute;ticas, pelo esfor&ccedil;o de ajeitar os correligion&aacute;rios,<br \/>\n    pelo trabalho de amaciar os influentes e os preponderantes, na pol&iacute;tica<br \/>\n    geral e regional. A sua atividade espiritual limita-se a isto. <\/p>\n<p>Os preponderantes e influentes t&ecirc;m todo o interesse em n&atilde;o fazer<br \/>\n    subir os inteligentes, os ilustrados, os que entendem de qualquer cousa; e<br \/>\n    tratam logo de colocar em destaque um med&iacute;ocre razo&aacute;vel que<br \/>\n    tenha mais ambi&ccedil;&atilde;o de subs&iacute;dios do que mesmo a vaidade<br \/>\n    do poder. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, eles t&ecirc;m que atender aos capatazes pol&iacute;ticos<br \/>\n    das localidades das prov&iacute;ncias; e, em geral, estes &uacute;ltimos indicam,<br \/>\n    para os primeiros postos pol&iacute;ticos, os seus filhos, os seus sobrinhos<br \/>\n    e de prefer&ecirc;ncia a estes: os seus genros. <\/p>\n<p>A ternura do pai quer sempre dar essa satisfa&ccedil;&atilde;o &agrave; vaidade<br \/>\n    das filhas. <\/p>\n<p>O futuro chefe do governo da Bruzundanga come&ccedil;a a sua carreira pol&iacute;tica<br \/>\n    pela m&atilde;o do sogro; e, relacionando-se com os bonzos de sua prov&iacute;ncia,<br \/>\n    se &eacute; esperto e apoucado de intelig&ecirc;ncia e saber, faz-se ainda<br \/>\n    mais; na maioria dos casos, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; preciso tanto.<br \/>\n    Os caides ficam logo contentes com ele. Mandam-no para a C&acirc;mara Geral;<br \/>\n    e, durante a primeira legislatura, encarregam-no de comprar ceroulas, pares<br \/>\n    de meias, espingardas de dous canos, &oacute;culos de grau tanto, de ir &agrave;s<br \/>\n    reparti&ccedil;&otilde;es ver tal requerimento, de empenhar-se pelos exames<br \/>\n    dos nhonh&ocirc;s, etc&#8230; <\/p>\n<p>Quando acaba a legislatura, o Messias anunciado para salvar a Bruzundanga<br \/>\n    &eacute; possuidor de todo esse acervo de servi&ccedil;os ao partido. &Eacute;<br \/>\n    reeleita. A sua lealdade e o seu natural prestativo indicam-no logo para leader<br \/>\n    da bancada, sen&atilde;o da C&acirc;mara, Ei-lo em evid&ecirc;ncia. Os jornalistas,<br \/>\n    grandes e pequenos, n&atilde;o o deixam, elogiam-no, d&atilde;o-lhe o retrato<br \/>\n    nas folhas, fazem pilh&eacute;rias a respeito do homem; e ele autoriza a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de atos oficiais do governo de sua prov&iacute;ncia, cujas contas o er&aacute;rio<br \/>\n    departamental paga generosamente aos seus jornais e revistas. <\/p>\n<p>Os calenders provincianos est&atilde;o cada vez mais contentes com ele e<br \/>\n    o nosso homem j&aacute; economizou, sobre subs&iacute;dios, mais do que a<br \/>\n    mulher trouxe para a sociedade conjugal.<\/p>\n<p>&Eacute; um homem met&oacute;dico, pontual nos pagamentos, n&atilde;o gasta<br \/>\n    dinheiro em cousas in&uacute;teis, como seja em livros. <\/p>\n<p>Uma noite ou outra, vai ao Teatro L&iacute;rico, mas logo se aborrece, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; ele como a futura Mme. Mandachuva. Preferia, madame, estar a dormir<br \/>\n    naquela hora, e ele a jogar solo na botica, antes do que permanecerem ali,<br \/>\n    apertados nos vestu&aacute;rios, a ouvir umas cantorias em l&iacute;ngua que<br \/>\n    n&atilde;o entendem. Que saudades do gramofone! Para ele, h&aacute; secas<br \/>\n    piores&#8230; <\/p>\n<p>Ainda a m&uacute;sica ele suporta um tanto, mas as tais exposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pintura, as sess&otilde;es de Academias&#8230; Irra! Que estafa! <\/p>\n<p>Foge de ir a elas; e todo o seu medo &eacute; vir a ser presidente da Bruzundanga,<br \/>\n    pois ser&aacute; obrigado a comparecer a tais festas. <\/p>\n<p>A sua leitura continua a ser os jornais, por&eacute;m n&atilde;o pega mais<br \/>\n    nos manuais, nos indicadores de legisla&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>As necessidades art&iacute;sticas de sua natureza se cifram no gramofone<br \/>\n    dom&eacute;stico e nos cinemas urbanos ou do arrabalde em que reside. Faz<br \/>\n    cole&ccedil;&atilde;o dos programas destes &uacute;ltimos e, com eles, organiza<br \/>\n    a sua opulenta biblioteca liter&aacute;ria. <\/p>\n<p>A propor&ccedil;&atilde;o que sobe, mostra-se mais carola; n&atilde;o falta<br \/>\n    &agrave; missa, aos serm&otilde;es, comunga, confessa-se e os padres e irm&atilde;s<br \/>\n    de caridade t&ecirc;m-no j&aacute; por aliado. Ah! Quem o visse contar certas<br \/>\n    anedotas sobre padres, jogando o &quot;truque&quot;, nos fundos da botica<br \/>\n    de sua terra!&#8230; Hist&oacute;ria antiga! O homem, hoje, &eacute; sinceramente<br \/>\n    cat&oacute;lico, e tanto assim que acompanha prociss&otilde;es de opa ou balandrau.\n  <\/p>\n<p>A ascens&atilde;o dele a Senador at&eacute; coincidiu com a sua elei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para irm&atilde;o fabriqueiro da Sant&iacute;ssima Irmandade e Santo Afonso<br \/>\n    de Lig&oacute;rio e tamb&eacute;m com a de definidor da Sant&iacute;ssima<br \/>\n    e Vener&aacute;vel Irmandade de Santo Onofre. <\/p>\n<p>As cousas v&atilde;o assim marchando; e ele, sempre calado, deixa-se ficar,<br \/>\n    rodando a manivela do gramofone e do seu moinho de rezas. <\/p>\n<p>H&aacute; uma complica&ccedil;&atilde;o na escolha do Governador da prov&iacute;ncia<br \/>\n    das Jazidas, onde ele nasceu. Os caides n&atilde;o se entendem e o seu nome<br \/>\n    &eacute; apontado como conciliador, escolhido e eleito. Aborrece-se um pouco,<br \/>\n    pois j&aacute; estava habituado com a capital do pa&iacute;s, e muito gostava<br \/>\n    dela, apesar de mal a conhecer. Toma posse, entretanto. Surge, ao meio do<br \/>\n    seu governo regional, n&atilde;o entre os caides, mas na comunh&atilde;o dos<br \/>\n    emires que governam o pa&iacute;s, um desaguisado, com o problema da sucess&atilde;o<br \/>\n    do Mandachuva, cujo tempo est&aacute; a acabar. O nosso homem n&atilde;o se<br \/>\n    define. Continua a dar corda no seu enorme e fanhoso gramofone e a rodar a<br \/>\n    manivela do seu moinho de rezas. Os padres, que s&atilde;o seus aliados, n&atilde;o<br \/>\n    o abandonam; e nos bastidores, por interm&eacute;dio das mulheres dos pol&iacute;ticos,<br \/>\n    insinuam-lhe o nome para o alto cargo de Mandachuva. Ei-lo eleito, toma posse<br \/>\n    do cargo e do alcatifado pal&aacute;cio que a na&ccedil;&atilde;o lhe d&aacute;<br \/>\n    para resid&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>O seu primeiro cuidado, e tamb&eacute;m da mulher, &eacute; fechar diversos<br \/>\n    aposentos para diminuir o n&uacute;mero de servi&ccedil;ais, de modo afazer<br \/>\n    economias na verba de representa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O cargo d&aacute;-lhe certos inc&ocirc;modos, mas muitas vantagens: n&atilde;o<br \/>\n    paga selo nas cartas, n&atilde;o paga bonde, trem, nem teatros, onde continua<br \/>\n    a quase n&atilde;o ir. O que o aborrece, sobretudo, s&atilde;o as audi&ecirc;ncias<br \/>\n    p&uacute;blicas &#8212; uma importuna&ccedil;&atilde;o para esse parente de<br \/>\n    S&atilde;o Luiz. Mais o amolar que lhe d&atilde;o fadiga. Ao sair de uma delas,<br \/>\n    diz &agrave; mulher:<\/p>\n<p> &#8212; Que povo aborrecido!<\/p>\n<p> &#8212; Mas que tem voc&ecirc; com o povo? &#8212; pergunta Mme. Mandachuva,<br \/>\n    a Eg&eacute;ria conjugal.<\/p>\n<p> Para distrair-se, o esclarecido Mandachuva compra um bom gramofone e instala<br \/>\n    no pal&aacute;cio um cinema.<\/p>\n<p>&Eacute; conveniente lembrar que, nesse mesmo pal&aacute;cio, ao tempo em<br \/>\n    que a Bruzundanga era Imp&eacute;rio, executores famosos no mundo inteiro<br \/>\n    tinham tocado obras-primas musicais, no violino e no piano. Houve progresso&#8230;<\/p>\n<p> Eis a&iacute; um Mandachuva perfeito.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X &#8211; For&ccedil;a Armada<\/a><\/h4>\n<p>NA Bruzundanga n&atilde;o existe absolutamente for&ccedil;a armada. H&aacute;,<br \/>\n    por&eacute;m, cento e setenta e cinco generais e oitenta e sete almirantes.<br \/>\n    Al&eacute;m disto, h&aacute; quatro ou cinco milheiros de oficiais, tanto<br \/>\n    de terra como de mar, que se ocupam em fazer of&iacute;cios nas reparti&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O fim principal dessas reparti&ccedil;&otilde;es, no que toca ao Ex&eacute;rcito,<br \/>\n    &eacute; estudar a mudan&ccedil;a de uniformes dos mesmos oficiais. Os grandes<br \/>\n    costureiros de Paris n&atilde;o t&ecirc;m tanto trabalho em imaginar modas<br \/>\n    femininas como os militares da Bruzundanga em conceber, de ano em ano, novos<br \/>\n    fardamentos para eles. <\/p>\n<p>Quando n&atilde;o lhes &eacute; poss&iacute;vel de todo mud&aacute;-los,<br \/>\n    reformam o feitio do bon&eacute; ou do cal&ccedil;ado. &Eacute; assim que<br \/>\n    j&aacute; usaram os oficiais do Ex&eacute;rcito de l&aacute;, coturnos, borzeguins,<br \/>\n    sand&aacute;lias, sabots e aquilo que n&oacute;s chamamos aqui &#8212; tamancos.\n  <\/p>\n<p>Entretanto, o Ex&eacute;rcito da Bruzundanga merece considera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pois tem boas qualidades que desculpam esses pequenos defeitos. &Eacute; &agrave;s<br \/>\n    vezes abnegado e quase sempre generoso, e eu, que vivi entre os seus oficiais<br \/>\n    muito tempo, tendo tido muitas quest&otilde;es com eles, posso dizer que jamais<br \/>\n    os supus t&atilde;o tolerantes. Foi, no que me toca, um tra&ccedil;o que,<br \/>\n    al&eacute;m de me surpreender, me cativou imensamente. Demais, apesar de toda<br \/>\n    e qualquer presun&ccedil;&atilde;o que se lhes possa atribuir, eles t&ecirc;m<br \/>\n    sempre um sincero respeito pelas manifesta&ccedil;&otilde;es da intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    partam elas de onde partirem. <\/p>\n<p>O mesmo n&atilde;o se pode dizer da Marinha. Ela &eacute; estrictamente militar<br \/>\n    e os seus oficiais julgam-se descendentes dos primeiros homens que sa&iacute;ram<br \/>\n    de Pamir. N&atilde;o h&aacute; neles a preocupa&ccedil;&atilde;o de constante<br \/>\n    mudan&ccedil;a de fardamento; mas h&aacute; a de ra&ccedil;a, para que a Bruzundanga<br \/>\n    n&atilde;o seja envergonhada no estrangeiro possuindo entre os seus oficiais<br \/>\n    de mar alguns de origem javanesa. Os mesti&ccedil;os de javaneses, entretanto,<br \/>\n    t&ecirc;m dado grandes intelig&ecirc;ncias ao pa&iacute;s, e muitas.<\/p>\n<p>A marinha da Bruzundanga, por&eacute;m, com muito pouco entra para o invent&aacute;rio<br \/>\n    intelectual da p&aacute;tria que ela diz representar no estrangeiro com os<br \/>\n    seus navios paral&iacute;ticos. <\/p>\n<p>Se, de fato, l&aacute; houvesse Marinha, podia-se dizer que era mantida pelo<br \/>\n    povo da Bruzundanga para g&aacute;udio e alegria dos pa&iacute;ses estranhos.\n  <\/p>\n<p>As principais produ&ccedil;&otilde;es dos arsenais de guerra do pa&iacute;s<br \/>\n    s&atilde;o brinquedos aperfei&ccedil;oados; e os da Marinha s&atilde;o muito<br \/>\n    estimados na na&ccedil;&atilde;o pela perfei&ccedil;&atilde;o das redes de<br \/>\n    pescaria que lhe saem dos estaleiros. <\/p>\n<p>Uma das curiosidades da Armada daquele pa&iacute;s &eacute; a indol&ecirc;ncia<br \/>\n    tropical dos seus navios que, &agrave;s vezes, por mero capricho, teimam em<br \/>\n    n&atilde;o andar. <\/p>\n<p>Enfim, a for&ccedil;a armada da Bruzundanga &eacute; a cousa mais inocente<br \/>\n    deste mundo. Em face dela, todo o pacifismo ou humanitarismo &eacute; perfeitamente<br \/>\n    rid&iacute;culo.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">XI &#8211; Um ministro<\/a><\/h4>\n<p>ESTAS &quot;notas&quot; sobre a Bruzundanga amea&ccedil;am n&atilde;o acabar<br \/>\n    mais. Temo, ao escrev&ecirc;-las t&atilde;o longas como as Hist&oacute;rias<br \/>\n    de Her&oacute;doto, n&atilde;o virem elas, apesar disso, merecer a imortalidade<br \/>\n    da obra do viajante grego.<\/p>\n<p>Contudo, se a posteridade n&atilde;o encontrar nelas algum ensinamento, e<br \/>\n    as desprezar, os contempor&acirc;neos do meu pa&iacute;s podem achar nestas<br \/>\n    r&aacute;pidas narra&ccedil;&otilde;es de coisas de na&ccedil;&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    remota, moldes, receitas e meios para esbodegar de vez o Brasil. <\/p>\n<p>Esbocei em um cap&iacute;tulo antecedente o tipo de Mandachuva da Bruzundanga;<br \/>\n    agora, vou ver se debuxo o de um ministro daquele pa&iacute;s. <\/p>\n<p>A Bruzundanga, como o Brasil, &eacute; um pa&iacute;s essencialmente agr&iacute;cola;<br \/>\n    e, como o Brasil, pode-se dizer que n&atilde;o tem agricultura. <\/p>\n<p>O reg&iacute;men de propriedade agr&iacute;cola l&aacute;, reg&iacute;men<br \/>\n    de latif&uacute;ndios com toques feudais, faz que o trabalhador agr&iacute;cola<br \/>\n    seja um p&aacute;ria, quase sempre errante de fazenda em fazenda, donde &eacute;<br \/>\n    expulso por d&aacute; c&aacute; aquela palha, sem garantias de esp&eacute;cie<br \/>\n    alguma &#8212; situa&ccedil;&atilde;o mais agravada ainda pela sua ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    pela natureza das culturas, pela politicagem roceira e pela incapacidade e<br \/>\n    cupidez dos propriet&aacute;rios.<\/p>\n<p> Estes, em geral, s&atilde;o completamente in&aacute;beis para dirigir qualquer<br \/>\n    coisa, indignos da fun&ccedil;&atilde;o que a obscura marcha das coisas depositou<br \/>\n    em suas m&atilde;os. Pouco instru&iacute;dos, apesar de formados, nisto ou<br \/>\n    naquilo, e sem iniciativa de qualquer natureza, despidos de qualquer sentimento<br \/>\n    de nobreza e generosidade para com os seus inferiores, mais &aacute;vidos<br \/>\n    de riqueza que o mais feroz taverneiro, pimp&atilde;os e arrogantes, as suas<br \/>\n    fazendas ou usinas s&atilde;o governadas por eles, quando o s&atilde;o, com<br \/>\n    a dureza e os processos violentos de uma antiga fazenda brasileira de escravos.<\/p>\n<p>Todos eles s&atilde;o pol&iacute;ticos, sen&atilde;o de destaque, ao menos<br \/>\n    com influ&ecirc;ncia nos lugares em que t&ecirc;m as suas fazendas agr&iacute;colas;<br \/>\n    e, apoiados na pol&iacute;tica, fazem o que querem, s&atilde;o senhores de<br \/>\n    bara&ccedil;o e cutelo, eles ou os seus prepostos.\n  <\/p>\n<p>O p&aacute;ria agr&iacute;cola (chamam l&aacute; colono ou caboclo), quando<br \/>\n    se estabelece nas suas propriedades, tem todas as promessas e todas as garantias<br \/>\n    verbais. Constr&oacute;i o seu rancho, que &eacute; uma cabana de taipa coberta<br \/>\n    <br \/>\n    com o que n&oacute;s chamamos sap&ecirc;, e come&ccedil;a a trabalhar para<br \/>\n    o bar&atilde;o, desta ou daquela maneira. N&atilde;o me alongo mais sobre<br \/>\n    a vida deles, porque pouco vivi na ro&ccedil;a da Bruzundanga; mas posso asseverar<br \/>\n    que o trabalhador agr&iacute;cola daquele pa&iacute;s &#8212; esteja o caf&eacute;<br \/>\n    em alta, esteja em baixa, suba o a&ccedil;&uacute;car, des&ccedil;a o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    &#8212; h&aacute; trinta anos ganha o mesmo sal&aacute;rio, isto &eacute;,<br \/>\n    dez t&ocirc;nios por dia, a seco, o que quer dizer, na nossa moeda, mil quinhentos<br \/>\n    e dous mil-r&eacute;is, sem alimenta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Todos os sal&aacute;rios t&ecirc;m subido na Bruzundanga, menos os dos trabalhadores<br \/>\n    agr&iacute;colas. A parte povoada e cultivada do pa&iacute;s tem j&aacute;<br \/>\n    uma razo&aacute;vel popula&ccedil;&atilde;o e talvez suficiente para as suas<br \/>\n    necessidades, mas,<br \/>\n    &agrave; vista do pouco lucro que os trabalhadores agr&iacute;colas tiram<br \/>\n    do seu suor, em breve deixam-se cair em marasmo, em des&acirc;nimo, ou v&ecirc;m<br \/>\n    a morrer de mis&eacute;ria nas cidades, onde se sentem mais garantidos contra<br \/>\n    o arb&iacute;trio dos fazendeiros e seus prepostos. <\/p>\n<p>Como os grandes agricultores e seus parentes s&atilde;o pol&iacute;ticos,<br \/>\n    e deputados, e senadores, e ministros, logo que sentem o &ecirc;xodo dos naturais,<br \/>\n    come&ccedil;am a berrar que h&aacute; falta de bra&ccedil;os. Publicam uns<br \/>\n    fasc&iacute;culos desonestamente optimistas, onde h&aacute; as maiores hip&eacute;rboles<br \/>\n    laudat&oacute;rias ao clima e &agrave; fertilidade da Bruzundanga e atraem<br \/>\n    emigrantes incautos. <\/p>\n<p>Os primeiros que chegam com aquele fervor de quem &quot;queimou os seus navios&quot;,<br \/>\n    trabalham vigorosamente e abarrotam de dinheiro os r&eacute;gulos das feitorias;<br \/>\n    mas j&aacute; seus filhos n&atilde;o s&atilde;o assim. Logo se enchem do mesmo<br \/>\n    des&acirc;nimo que os seus patr&iacute;cios mais antigos, na terra, e come&ccedil;am<br \/>\n    a cair naquele marasmo, naquela apatia, naquela tristeza, que se evola, com<br \/>\n    um grande apelo &agrave; embriaguez sexual, das cantigas populares do pa&iacute;s<br \/>\n    e cobre a ro&ccedil;a da Bruzundanga de um sud&aacute;rio impalp&aacute;vel.<\/p>\n<p>A manobra dos fazendeiros e outros agricultores &eacute; mudar, de quando<br \/>\n    em quando, a nacionalidade dos emigrantes que v&atilde;o buscar. Assim, eles<br \/>\n    conseguem manter o fogo sagrado e ter trabalhadores abnegados. <\/p>\n<p>Tudo isto se d&aacute; porque o fazendeiro ou grande agricultor da Bruzundanga<br \/>\n    quer ter da sua cultura lucros imensos que lhe proporcionem uma vida de fausto,<br \/>\n    a ele, aos filhos que estudam para doutor, &agrave;s filhas para casarem com<br \/>\n    a nobreza do pa&iacute;s. O cr&eacute;dito agr&iacute;cola &eacute;, por isso,<br \/>\n    at&eacute; prejudicial &agrave; lavoura da paradoxal Rep&uacute;blica. <\/p>\n<p>Em geral, vivem fora das propriedades, nas grandes cidades, sob o pretexto<br \/>\n    de educarem as filhas e os filhos mas com o secreto intuito de arranjar bons<br \/>\n    partidos matrimoniais para as meninas.<\/p>\n<p> Foi entre semelhantes morubixabas que certo Mandachuva escolheu um seu Ministro<br \/>\n    da Agricultura. Remontemos as origens desse cacique do a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    os piores da Bruzundanga, pois lidam em geral com os naturais do pais que<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m a quem se queixar. Na prov&iacute;ncia das Canas, houvera<br \/>\n    m turumbamba mais ou menos oficialmente protegido por um Manda-chuva, motivo<br \/>\n    esse que derrubou a oligarquia da fam&iacute;lia dos Cravhos. Um usineiro<br \/>\n    muito rico da mesma prov&iacute;ncia, Phrancisco Novilho Ben Kosta, mais conhecido<br \/>\n    por Chico Caiana, tinha adiantado dinheiro e assoldadado gente para que o<br \/>\n    general Tupinamb&aacute; tomasse o lugar do soba-mor Cravho Ben Mathos. O<br \/>\n    general vitorioso ficou muito agradecido ao Chico, e prometeu dar-lhe uma<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o de destaque na pol&iacute;tica. <\/p>\n<p>Chico era o tipo do grande agricultor da Bruzundanga: nada entendia de agricultura,<br \/>\n    mesmo daquela que dizia exercer. <\/p>\n<p>As canas que mo&iacute;a nos seus engenhos, eram plantadas por outros, a<br \/>\n    quem ele impunha o pre&ccedil;o do carro como bem entendia; e, no que toca<br \/>\n    &agrave; moagem e preparo do a&ccedil;&uacute;car, a&iacute; j&aacute; de<br \/>\n    ind&uacute;stria, ele nada ou pouco conhecia.<\/p>\n<p>Apesar de bacharel em direito, mal lia os jornais e o seu forte, em aritm&eacute;tica,<br \/>\n    era a conta de juros, de cabe&ccedil;a. A sua usina era de fato dirigida por<br \/>\n    um franc&ecirc;s bo&ecirc;mio, Ormesson, a quem chamavam de doutor,<br \/>\n    apesar de ter ele unicamente um simples curso do Conservatoire des Arts et<br \/>\n    M&eacute;tiers, de Paris. <\/p>\n<p>Charles Ormesson, o tal franc&ecirc;s, com o ser pr&aacute;tico e h&aacute;bil<br \/>\n    no of&iacute;cio, era um extravagante incorrig&iacute;vel; e, como tal, pouco<br \/>\n    exigente de dinheiro e facilmente explor&aacute;vel. Bebia desregradamente<br \/>\n    e fazia do feroz doutor Chico Novilho gato e sapato. O doutor Novilho n&atilde;o<br \/>\n    o despedia, apesar de seus pruridos disciplinadores at&eacute; &agrave; tirania,<br \/>\n    por sord&iacute;cia. Caiana nada entendia daqueles mist&eacute;rios de fazer<br \/>\n    da cana, a&ccedil;&uacute;car; e, se fosse mexer nos aparelhos, nas turbinas,<br \/>\n    dosar o caldo, etc., etc., a cousa era capaz de explodir como p&oacute;lvora.<br \/>\n    Acrescia mais ainda que ele conseguia pagar a Ormesson o que bem entedia;<br \/>\n    e, se quisesse substitu&iacute;-lo, o outro talvez custasse mais caro. Aturava<br \/>\n    o franc&ecirc;s e explorava-o. Conservando Ormesson, reservava o seu autoritarismo<br \/>\n    para os outros pobres diabos de empregados subalternos, colonos e mais gente<br \/>\n    sob o seu guante.<\/p>\n<p>Toda a manh&atilde;, em tempo de safra, inteiramente de branco, montado no<br \/>\n    &quot;Quitute&quot;, um cavalo ru&ccedil;o-malhado, Caiana, corria os canaviais;<br \/>\n    e, sese encontrava com um comboio de canas, nas usineiras linhas Decauville,<br \/>\n    olhava a pequena locomotiva e sempre se lembrava de admoestar o foguista-maquinista:\n  <\/p>\n<p> &#8212; Olhe o man&ocirc;metro que n&atilde;o est&aacute; limpo.<\/p>\n<p> Eis a&iacute; a sua agricultura, de que veio tir&aacute;-lo o bra&ccedil;o<br \/>\n    forte do general Tupinamb&aacute;. Vejamos como. Ascendendo &agrave; governan&ccedil;a<br \/>\n    da Prov&iacute;ncia das Canas, Tupinamb&aacute; tratou logo de eleger senador<br \/>\n    da Bruzundanga o seu forte esteio eleitoral, o doutor Chico Caiana. Arranjaram<br \/>\n    as atas e mandaram-nas, e mais ele, para a capital do pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Quando saltou, era um gozo ver o Chico Caiana atravessar as ruas com um ostentoso<br \/>\n    chap&eacute;u Panam&aacute;, terno de linho branco, botinas inteiri&ccedil;as<br \/>\n    de pelica amarela e a&ccedil;oiteira pendente do pulso direito.<br \/>\n    Olhava tudo alvarmente; e, de quando em quando, ficava surpreendido de que<br \/>\n    ningu&eacute;m o conhecesse. O doutor Chico Caiana, da usina do Cambambu!<br \/>\n    N&atilde;o conhecem? Que gente f&uacute;til! <\/p>\n<p>O Senado n&atilde;o o quis reconhecer; por&eacute;m, Mandachuva, que tinha<br \/>\n    a palavra empenhada com Tupinamb&aacute;, arranjou as cousas. Determinou que<br \/>\n    o Ministro da Guerra fosse estudar na Europa o fabrico dos mais modernos medicamentos<br \/>\n    alem&atilde;es; transferiu o Ministro da Agricultura para a pasta da Guerra<br \/>\n    e nomeou Caiana para aquela outra. <\/p>\n<p>Tomando posse, o famoso e pr&aacute;tico usineiro imediatamente teve uma<br \/>\n    grande admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; aqui agricultura?&#8230; Estes pap&eacute;is&#8230; Isto<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; pr&aacute;tico!&#8230; Quero cousas pr&aacute;ticas!&#8230; Canaviais&#8230;<br \/>\n    Engenhos&#8230; Qual! Isto n&atilde;o &eacute; pr&aacute;tico! Vou fazer uma reforma!<\/p>\n<p> Mandou chamar Ormesson para ajud&aacute;-lo e, nesse &iacute;nterim, andou<br \/>\n    &agrave;s cristas com os seus subalternos. Vinha o chefe da Contabilidade<br \/>\n    e ele gritava: <\/p>\n<p>&#8212; Qual verba 29, letra A! Isto &eacute; uma trapalhada! Quero cousas<br \/>\n    pr&aacute;ticas! Vou chamar o F&eacute;lix, o meu guarda-livros, l&aacute;<br \/>\n    do Cambambu, a minha usina. Conhece? <\/p>\n<p>O inspetor do servi&ccedil;o de veterin&aacute;ria vinha pedir-lhe autoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para instalar um laborat&oacute;rio e Caiana berrava:<\/p>\n<p> &#8212; Qual laborat&oacute;rio! Qual nada! Tudo isto &eacute; pomada! Vou<br \/>\n    mandar chamar o Nicodemo. Conhece? Pois trata toda a esp&eacute;cie de mol&eacute;stias<br \/>\n    de animais com sangria ou &oacute;leo de andaia&ccedil;u. Quero cousas pr&aacute;ticas!<br \/>\n    Pr&aacute;ticas, est&aacute; ouvindo?\n  <\/p>\n<p>Tendo chegado o franc&ecirc;s e o guarda-livros, ele recomendou ao primeiro:<\/p>\n<p> &#8212; Ormesson, v&ecirc; como havemos de fazer isto aqui ser mesmo de<br \/>\n    agricultura. Quero cousa pr&aacute;tica! Hein? V&ecirc; l&aacute;, se vais<br \/>\n    beber! Hein?<\/p>\n<p>Ao guardo-livros, ele disse: <\/p>\n<p>&#8212; Tome conta dessas cousas de pap&eacute;is a&iacute;, que n&atilde;o<br \/>\n    pesco nada disso. <\/p>\n<p>A Nicodemo, nada o doutor Chico recomendou, porque o alveitar n&atilde;o<br \/>\n    quis deixar as Canas. <\/p>\n<p>O franc&ecirc;s n&atilde;o bebeu e, dias depois, trouxe o projeto de transformar<br \/>\n    a ch&aacute;cara da Secretaria em campo agr&iacute;cola. <\/p>\n<p>&#8212; Amendoim! &#8212; exclamou o Ministro. &#8212; N&atilde;o d&aacute;<br \/>\n    nada! Se fosse cana&#8230; &quot;Mindobi&quot;, s&oacute; para preta velha vender<br \/>\n    torrado&#8230;<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o conhecia, n&atilde;o admitia outra cultura que n&atilde;o<br \/>\n    fosse a da cana-de-a&ccedil;&uacute;car. Ormesson convenceu-o e o ministro<br \/>\n    determinou o plantio aconselhado. Um dos diretores pediu autoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para admitir trabalhadores.<\/p>\n<p> &#8212; Trabalhadores! Ponha l&aacute; os escritur&aacute;rios, esses escreventes<br \/>\n    todos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem mas, n&atilde;o tem nada! Quem n&atilde;o quiser,<br \/>\n    deixe o lugar, que eu arranjo outros mais baratos.<\/p>\n<p> N&atilde;o houve rem&eacute;dio sen&atilde;o os oficiais da sua Secretaria<br \/>\n    de Estado irem puxar o rabo da enxada. <\/p>\n<p>Houve, no ano seguinte, uma complica&ccedil;&atilde;o internacional e o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    come&ccedil;ou a ser procurado. Chico Caiana n&atilde;o se importou mais com<br \/>\n    as cousas do minist&eacute;rio e aproveitou a posi&ccedil;&atilde;o para ganhar<br \/>\n    dinheiro. Durante muito tempo, o Mandachuva n&atilde;o o viu. O guarda-livros<br \/>\n    era quem lhe levava os atos necessitados da assinatura presidencial.<\/p>\n<p> Um dia o chefe do governo perguntou ao auxiliar do grande agricultor: <\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; o doutor Phrancisco Novilha?<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; ocupado com coisas pr&aacute;ticas.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">XII &#8211; Os her&oacute;is<\/a><\/h4>\n<p>A Rep&uacute;blica da Bruzundanga, como toda a p&aacute;tria que se preza,<br \/>\n    tem tamb&eacute;m os seus her&oacute;is e as suas hero&iacute;nas. <\/p>\n<p>N&atilde;o era poss&iacute;vel deixar de ser assim, tanto mais que a pr&aacute;tica<br \/>\n    sempre foi feita para os her&oacute;is, e estes, sinceros ou n&atilde;o, cobrem<br \/>\n    e desculpam o que ela tem de sindicato declarado. <\/p>\n<p>Um pa&iacute;s como a Bruzundanga precisa ter os seus her&oacute;is e as<br \/>\n    suas hero&iacute;nas para justificar aos olhos do seu povo a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    f&aacute;cil e opulenta das fac&ccedil;&otilde;es que a t&ecirc;m dirigido.<\/p>\n<p> O mais curioso her&oacute;i da p&aacute;tria bruzundanguense &eacute; sem<br \/>\n    d&uacute;vida uma senhora que nada fez por ela, antes perturbou-lhe a vida,<br \/>\n    auxiliando um aventureiro estrangeiro que se meteu nas suas guerras civis.<\/p>\n<p> Para bem compreenderem o meu pensamento, &eacute; preciso que antes lhes<br \/>\n    recorde por alto alguns pontos da hist&oacute;ria pol&iacute;tica da Bruzundanga.<br \/>\n    Vou faz&ecirc;-lo. <\/p>\n<p>A atual rep&uacute;blica consta de territ&oacute;rios descobertos pelos iberos<br \/>\n    e povoados por eles e por outros povos das mais variadas origens. <\/p>\n<p>Os colonizadores fundaram v&aacute;rias feitorias; e, quando fizeram a independ&ecirc;ncia<br \/>\n    da Bruzundanga, essas feitorias ficaram sendo prov&iacute;ncias do Imp&eacute;rio<br \/>\n    que foi criado.<\/p>\n<p> Feita a Rep&uacute;blica, elas ficaram mais ou menos como eram, com mais<br \/>\n    independ&ecirc;ncia e outras regalias. Portanto, &eacute; claro que a evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica da Bruzundanga tinha por express&atilde;o a unidade dessas<br \/>\n    prov&iacute;ncias, e era mesmo o seu fim. Qualquer pessoa que tenha tentado,<br \/>\n    ou venha a tentar, o desmembramento dessas prov&iacute;ncias, n&atilde;o pode<br \/>\n    ser tido como her&oacute;i nacional.<\/p>\n<p>Pois bem: um senhor estrangeiro, cheio de qualidades, talvez, meteu-se de<br \/>\n    parceria com uns rebeldes, para separar uma dessas prov&iacute;ncias do bloco<br \/>\n    bruzundanguense. Isto ao tempo do imp&eacute;rio. Em caminho, em uma de suas<br \/>\n    correrias, encontrou-se com uma mo&ccedil;a da Bruzundanga que se apaixonou<br \/>\n    por ele. Seguiu-o nas suas aventuras e combates contra a uni&atilde;o bruzundanguense.\n  <\/p>\n<p>At&eacute; a&iacute; nada de novo. &Eacute; comum, at&eacute;. Mas querer<br \/>\n    fazer de semelhante dama hero&iacute;na da Bruzundanga, &eacute; que nunca<br \/>\n    pude compreender. Eu me ponho aqui no ponto de vista dos patriotas, para os<br \/>\n    quais a p&aacute;tria &eacute; uma e indivis&iacute;vel. Se me pusesse sob<br \/>\n    qualquer outro ponto de vista, ent&atilde;o a tal dama hero&iacute;na nada<br \/>\n    de not&aacute;vel teria a meus olhos a n&atilde;o ser a dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    at&eacute; ao sacrif&iacute;cio pelo seu amante, mais tarde seu marido. Isto<br \/>\n    mesmo, por&eacute;m, n&atilde;o &eacute; virtude que torne uma mulher excepcional,<br \/>\n    pois &eacute; comum nelas, a menos que tal dedica&ccedil;&atilde;o sirva de<br \/>\n    moldura &agrave;s qualidades excepcionais do seu marido ou do seu amante.<br \/>\n    No caso, por&eacute;m, encarando-o estrictamente sob o aspecto da evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica da Bruzundanga, o seu marido n&atilde;o era mais do que um<br \/>\n    aventureiro. <\/p>\n<p>&Eacute; semelhante senhora que l&aacute;, naquelas plagas, comparam &agrave;<br \/>\n    Jeanne d&#8217;Arc. Admir&aacute;vel! <\/p>\n<p>Por a&iacute;, podem os senhores ver de que estofo s&atilde;o os her&oacute;is<br \/>\n    da Bruzundanga; mas h&aacute; outros. <\/p>\n<p>Como sabem, a Bruzundanga foi, durante um s&eacute;culo, Imp&eacute;rio ou<br \/>\n    Monarquia. H&aacute; seis ou sete lustros os oficiais do seu ex&eacute;rcito<br \/>\n    come&ccedil;aram a ficar descontentes e juntaram-se a outros descontentes<br \/>\n    civis, que tinham achado para resumir as suas vagas aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a palavra Rep&uacute;blica. Come&ccedil;aram a agitar-se e, em breve, tinham<br \/>\n    a ades&atilde;o dos senhores de escravos, cuja liberta&ccedil;&atilde;o os<br \/>\n    fizera desgostosos com o trono da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Os amigos do Imp&eacute;rio, vendo que as cousas perigavam, trataram de enfrentar<br \/>\n    a corrente com decis&atilde;o e chamaram, para condest&aacute;vel da Bruzundanga,<br \/>\n    um velho general que vivia retirado nas suas propriedades agr&iacute;colas.\n  <\/p>\n<p>Era de crer que semelhante condest&aacute;vel pudesse ser vencido, mas que<br \/>\n    confabulasse com os inimigos que vinha combater, n&atilde;o era poss&iacute;vel<br \/>\n    admitir! Pois foi o que ele fez. N&atilde;o sou eu quem o diz; s&atilde;o<br \/>\n    os seus pr&oacute;prios companheiros. Ainda h&aacute; meses, recebi um jornal<br \/>\n    da Bruzundanga, em que um grande e not&aacute;vel fabricante da Rep&uacute;blica<br \/>\n    de l&aacute; contava como as cousas se tinham passado. Narra esse senhor,<br \/>\n    como o condest&aacute;vel, nas v&eacute;speras da proclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Rep&uacute;blica, enganara aqueles que tinham depositado confian&ccedil;a<br \/>\n    nele, para servir os contr&aacute;rios. Eis a&iacute; os come&ccedil;os de<br \/>\n    um her&oacute;i da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga! Ele,<br \/>\n    por&eacute;m, ainda nos merece mais algumas palavras. Este &uacute;ltimo her&oacute;i<br \/>\n    &eacute; l&aacute; chamado Consolidador da Rep&uacute;blica. Sabem por qu&ecirc;?<br \/>\n    Porque n&atilde;o consolidou cousa alguma. N&atilde;o houve Mandachuva, pois<br \/>\n    ele o foi, da Bruzundanga, quem mais desrespeitasse as leis da Rep&uacute;blica.<br \/>\n    Entender-se-ia que a havia consolidado se o seu governo fosse fecundo dentro<br \/>\n    das leis da Bruzundanga. Ele, por&eacute;m, saltou por cima de todas elas<br \/>\n    e governou a seu talante. Mostrou que as leis da Rep&uacute;blica n&atilde;o<br \/>\n    prestavam e, longe de consolid&aacute;-las, abalou-as nos seus fundamentos.<br \/>\n    Tal cousa, na hip&oacute;tese do seu governo ter sido bom e fecundo; mas n&atilde;o<br \/>\n    o foi. Isto, por&eacute;m, n&atilde;o nos interessa. Ele &eacute; um dos her&oacute;is<br \/>\n    da Bruzundanga que, em falta de um Carlyle, teve um aqui escultor que lhe<br \/>\n    fez um monumento, erecto em uma das pra&ccedil;as da capital, monumento t&atilde;o<br \/>\n    curioso que precisa de um guia, de um tratado escrito, para ser compreendido.<br \/>\n    Arte do futuro; Beyreuth da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Outro her&oacute;i da Bruzundanga &eacute; o Visconde de Pancome. Este senhor<br \/>\n    era de fato um homem inteligente, mesmo de talento; mas lhe faltava o senso<br \/>\n    do tempo e o sentimento do seu pa&iacute;s. Era um histori&oacute;grafo; mas<br \/>\n    n&atilde;o era um historiador. As suas id&eacute;ias sobre hist&oacute;ria<br \/>\n    eram as mais estreitas poss&iacute;veis: datas, fatos estes mesmos pol&iacute;ticos.<br \/>\n    A hist&oacute;ria social, ele n&atilde;o a sentia e n&atilde;o a estudava.<br \/>\n    Tudo nele se norteava para a a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e, sobretudo,<br \/>\n    diplom&aacute;tica. Para ele (os seus atos deram a entender isto) um pa&iacute;s<br \/>\n    s&oacute; existe para ter import&acirc;ncia diplom&aacute;tica nos meios internacionais.<br \/>\n    N&atilde;o se voltava para o interior do pa&iacute;s, n&atilde;o lhe via a<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o com as suas necessidades e desejos. Pancome sempre<br \/>\n    tinha em mira saber como havia de pesar, l&aacute; fora, e ter o aplauso dos<br \/>\n    estrangeiros. <\/p>\n<p>Sabendo bem a hist&oacute;ria pol&iacute;tica da Bruzundanga, julgava conhecer<br \/>\n    bem a na&ccedil;&atilde;o. Sabendo bem a geografia da Bruzundanga, imaginava<br \/>\n    ter o pa&iacute;s no cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Entretanto, for&ccedil;oso &eacute; dizer que Pancome desconhecia as &acirc;nsias,<br \/>\n    as dificuldades, as qualidades e defeitos de seu povo. A hist&oacute;ria econ&ocirc;mica<br \/>\n    e social da Bruzundanga ainda est&aacute; por fazer, mas um estadista (crit&eacute;rio<br \/>\n    cl&aacute;ssico) deve t&ecirc;-la no sentimento. Pancome n&atilde;o a tinha<br \/>\n    absolutamente. A sua vis&atilde;o era unicamente diplom&aacute;tica e tradicionalista.\n  <\/p>\n<p>Estava como embaixador em um pa&iacute;s qualquer e um Mandachuva f&ecirc;-lo<br \/>\n    Ministro de Estrangeiros. Logo que tomou posse, o seu primeiro cuidado foi<br \/>\n    mudar o fardamento dos cont&iacute;nuos. P&ocirc;s-lhes umas longas sobrecasacas<br \/>\n    com bot&otilde;es dourados. A primeira reforma. Tendo conseguido adjudicar<br \/>\n    &agrave; Bruzundanga vastos territ&oacute;rios, gra&ccedil;as &agrave; leitura<br \/>\n    atenta de modestos autores esquecidos, a sua influ&ecirc;ncia sobre o &acirc;nimo<br \/>\n    do Mandachuva, era imensa. Convenceu-o que devia modificar radicalmente o<br \/>\n    aspecto da capital. Era preciso, mas devia ser feito lentamente. Ele n&atilde;o<br \/>\n    quis assim e eis a Bruzundanga, tornando dinheiro emprestado, para p&ocirc;r<br \/>\n    as velhas casas de sua capital abaixo. De uma hora para outra, a antiga cidade<br \/>\n    desapareceu e outra surgiu como se fosse obtida por uma muta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de teatro. Havia mesmo na cousa muito de cenografia. <\/p>\n<p>N&atilde;o contente com isto, convenceu o Mandachuva que devia adquirir uma<br \/>\n    esquadra poderosa. Eis a Bruzundanga a pedir dinheiro aos judeus da City para<br \/>\n    construir uma esquadra poderosa. E as festas? E os an&uacute;ncios? <\/p>\n<p>&Agrave; vista do seu exemplo, nenhum ministro quis ficar atr&aacute;s. Todos<br \/>\n    porfiaram nos gastos. Anos depois, os deficits aumentavam, os impostos aumentavam,<br \/>\n    os pre&ccedil;os de todos os g&ecirc;neros aumentavam; mas a gente do pa&iacute;s<br \/>\n    n&atilde;o deu pela origem da crise, tanto assim que, quando Pancome morreu,<br \/>\n    lhe fez a maior apoteose que l&aacute; se h&aacute; visto. Os her&oacute;is<br \/>\n    e o povo da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga, s&atilde;o<br \/>\n    assim, caros senhores.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">XIII &#8211; A Sociedade<\/a><\/h4>\n<p>Esses, por&eacute;m, fatigados, embotados, n&atilde;o formam bem a sociedade,<br \/>\n    embora as suas filhas e mulheres fa&ccedil;am parte dela. <\/p>\n<p>Os que formam direitamente a grande sociedade, s&atilde;o os m&eacute;dicos<br \/>\n    ricos, os advogados afreguesados, os tabeli&atilde;es, os pol&iacute;ticos,<br \/>\n    os altos funcion&aacute;rios e os acumuladores de empregos p&uacute;blicos.\n  <\/p>\n<p>Por mais que se esforcem, por mais que queiram, semelhantes homens, atarefados<br \/>\n    dia e noite, nos escrit&oacute;rios, nas reparti&ccedil;&otilde;es, nos tribunais,<br \/>\n    nos cart&oacute;rios, na ind&uacute;stria pol&iacute;tica, n&atilde;o podem<br \/>\n    ter o repouso de esp&iacute;rito, o &oacute;cio mental necess&aacute;rio &agrave;<br \/>\n    contempla&ccedil;&atilde;o desinteressada e &agrave; medita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    carinhosa das altas cousas. Limitam-se a pousar sobre elas um olhar ligeiro<br \/>\n    e apressado; e a preocupa&ccedil;&atilde;o de manter os empregos e fazer render<br \/>\n    os cart&oacute;rios, tirar-lhes-&aacute; o sossego de esp&iacute;rito para<br \/>\n    apreciar as grandes manifesta&ccedil;&otilde;es da intelig&ecirc;ncia humana<br \/>\n    e da natureza. <\/p>\n<p>Pode ser definida a fei&ccedil;&atilde;o geral da sociedade da Bruzundanga<br \/>\n    com a palavra &mdash; med&iacute;ocre. <\/p>\n<p>Vem-lhe isto n&atilde;o de uma incapacidade nativa, mas do cont&iacute;nuo<br \/>\n    tormento de cavar dinheiro, por meio de empregos e favores governamentais,<br \/>\n    do sentimento de inseguran&ccedil;a de sua pr&oacute;pria situa&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Em uma sala, se se ouve conversa das senhoras (digo senhoras), a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; outra sen&atilde;o saber se fulano ser&aacute; ministro,<br \/>\n    para dar tal ou qual comiss&atilde;o ao marido ou ao filho. Uma outra criticar&aacute;<br \/>\n    tal ou qual pessoa poderosa porque n&atilde;o arranjou para o pai uma concess&atilde;o<br \/>\n    qualquer. &Eacute; assim. <\/p>\n<p>Uma t&atilde;o vulgar preocupa&ccedil;&atilde;o pauta toda a vida intelectual<br \/>\n    da sociedade bruzundanguense, de modo que, nas salas, nos sal&otilde;es, nas<br \/>\n    festas, o tema geral dos comensais &eacute; a pol&iacute;tica; s&atilde;o<br \/>\n    as combina&ccedil;&otilde;es de senatorias, de governan&ccedil;as, de prov&iacute;ncias<br \/>\n    e quejandos. <\/p>\n<p>A pol&iacute;tica n&atilde;o &eacute; a&iacute; uma grande cogita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de guiar os nossos destinos; por&eacute;m, uma vulgar especula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cargos e propinas. <\/p>\n<p>Sendo assim, todas as manifesta&ccedil;&otilde;es de cultura dessa sociedade<br \/>\n    s&atilde;o inferiores. A n&atilde;o ser em m&uacute;sica, isto mesmo no que<br \/>\n    toca somente a executantes, os seus produtos intelectuais s&atilde;o de uma<br \/>\n    pobreza lastim&aacute;vel. <\/p>\n<p>H&aacute; l&aacute; sal&otilde;es liter&aacute;rios e art&iacute;sticos,<br \/>\n    mas de nenhum deles surgiu um Montesquieu com o Esp&iacute;rito das Leis,<br \/>\n    como saiu do de Mme. du Deffand. As obras mais not&aacute;veis que l&aacute;<br \/>\n    t&ecirc;m aparecido s&atilde;o escritas por homens que vivem arredados da<br \/>\n    sociedade bruzundanguense. <\/p>\n<p>Em uma sala desse pa&iacute;s, quando n&atilde;o se trata de intrigas pol&iacute;ticas<br \/>\n    ou cousas fr&iacute;volas de todos os dias, surge logo um t&eacute;dio inconceb&iacute;vel.<br \/>\n    Ele sepulta o pensamento, antes de mat&aacute;-lo: enterra-o vivo. Mereceria<br \/>\n    detalhes, mas s&oacute; fazendo romance ou com&eacute;dia. <\/p>\n<p>A gente da Bruzundanga gosta de raciocinar por aforismos. Sobre todas as<br \/>\n    cousas, eles t&ecirc;m etiquetadas uma cole&ccedil;&atilde;o deles. <\/p>\n<p>Se se fala em uma sala ou em outro qualquer lugar de sociedade de cousas<br \/>\n    liter&aacute;rias, logo um aforista sentencia: <\/p>\n<p>&mdash; A arte deve ser impessoal. Os grandes artistas, etc. <\/p>\n<p>Naturalmente, ele se lembrou de Dante, que p&ocirc;s no inferno os seus inimigos<br \/>\n    e no c&eacute;u os seus amigos. <\/p>\n<p>Incapaz de fazer aparecer do seu seio razo&aacute;veis manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    intelectuais, ela &eacute; ainda mais incapaz de apoiar as que nascem fora<br \/>\n    dela. <\/p>\n<p>A pintura, que sempre foi arte dos ricos e abastados, n&atilde;o tem, na<br \/>\n    Bruzundanga, sen&atilde;o raros amadores. Os pintores vivem &agrave; m&iacute;ngua<br \/>\n    e, se querem ganhar algum dinheiro, t&ecirc;m que se rojar aos p&eacute;s<br \/>\n    dos poderosos, para que estes lhes encomendem quadros, por conta do governo.\n  <\/p>\n<p>Porque eles n&atilde;o os compram com o dinheiro seu, sen&atilde;o os de<br \/>\n    vagas celebridades estrangeiras que aportam &agrave;s plagas do pa&iacute;s<br \/>\n    com grandes carrega&ccedil;&otilde;es de telas. &Eacute; outro feitio da gente<br \/>\n    imperante da Bruzundanga de s&oacute; querer ser generosa com os dinheiros<br \/>\n    do Estado. Quando aquilo foi imp&eacute;rio, n&atilde;o era assim; mas, desde<br \/>\n    que passou a rep&uacute;blica, apesar da fortuna particular ter aumentado<br \/>\n    muito, a moda da generosidade &agrave; custa do governo se generalizou.<\/p>\n<p>Se um desses engra&ccedil;ados mecenas julga que deve proteger tal ou qual<br \/>\n    pessoa; que esta precisa viajar a Europa, aperfei&ccedil;oar-se, n&atilde;o<br \/>\n    lhe subvenciona a viagem, n&atilde;o tira nem um ceitil dos seus mil e mais<br \/>\n    contos. Sabem o que faz? Influi para que ele receba um pagamento indevido<br \/>\n    do Tesouro ou promove uma fant&aacute;stica comiss&atilde;o para o indiv&iacute;duo.\n  <\/p>\n<p>&Eacute; assim o mecenato da Bruzundanga. A falta de generosidade e a sua<br \/>\n    inquietude pelo dia de amanh&atilde; ferem logo a quem examina a sociedade<br \/>\n    daquele pa&iacute;s, mesmo perfunctoriamente. <\/p>\n<p>Basta ler os testamentos dos seus ricos e compar&aacute;-los com os que fazem<br \/>\n    os humildes iberos, que l&aacute; enriqueceram em misteres humildes, para<br \/>\n    sentir a inferioridade moral da sociedade da Bruzundanga.<\/p>\n<p>Nestes &uacute;ltimos, h&aacute; mesmo um grande pensamento da hora da morte,<br \/>\n    quando fazem legados a amigos, a parentes afastados, a criados, a institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de caridade; mas, nos daqueles, s&oacute; se topa com o mais atroz ego&iacute;smo.<br \/>\n    Lembro-me de um rica&ccedil;o de l&aacute; que, ao morrer, fez avultados legados<br \/>\n    aos netos, filhos de sua filha, com a condi&ccedil;&atilde;o de que deviam<br \/>\n    usar o nome dele &mdash; cousa que, como se sabe, se n&atilde;o &eacute; contr&aacute;ria<br \/>\n    &agrave;s leis, ofende os costumes. O sobrenome tira-se do do pai, l&aacute;<br \/>\n    como aqui. <\/p>\n<p>Por falar em cousas de morte, conv&eacute;m recordar que os cemit&eacute;rios<br \/>\n    dessa gente, ou por outra, os t&uacute;mulos das pessoas da alta roda da Bruzundanga<br \/>\n    s&atilde;o outra manifesta&ccedil;&atilde;o da sua pobreza mental. <\/p>\n<p>S&atilde;o caros jazigos ou carneiros de m&aacute;rmore de Carrara, mas os<br \/>\n    ornatos, as est&aacute;tuas, toda a concep&ccedil;&atilde;o deles, enfim,<br \/>\n    &eacute; de uma grande indig&ecirc;ncia art&iacute;stica. Raros s&atilde;o<br \/>\n    aqueles que pedem a escultores que os fa&ccedil;am. Todos os encomendam a<br \/>\n    simples marmoristas, que os recebem, aos montes, da It&aacute;lia. <\/p>\n<p>As suas casas s&atilde;o desoladoras arquitetonicamente. H&aacute; modas<br \/>\n    para elas. Houve tempo em que era a de compoteiras na cimalha; houve tempo<br \/>\n    das c&uacute;pulas bizantinas; ultimamente era de mansardas falsas. Carneiros<br \/>\n    de Pan&uacute;rgio&#8230; <\/p>\n<p>A sua capital, que &eacute; um dos lugares mais pitorescos do mundo, n&atilde;o<br \/>\n    tem nos arredores casas de campo, risonhas e pl&aacute;cidas, como se v&ecirc;em<br \/>\n    em outras terras. <\/p>\n<p>Tudo l&aacute; &eacute; conforme a moda. Um antigo arrabalde da capital que,<br \/>\n    h&aacute; quantos anos era lugar de ch&aacute;caras e casas roceiras, passou<br \/>\n    a ser bairro aristocr&aacute;tico; e logo os panurgianos ricos, os que se<br \/>\n    fazem ricos ou fingem s&ecirc;-lo, banalizaram o sub&uacute;rbio, que ainda<br \/>\n    assim &eacute; lindo. <\/p>\n<p>Um dos toques da mediocridade da sociedade da Bruzundanga &eacute; a sua<br \/>\n    incapacidade para manter um teatro nacional. <\/p>\n<p>O teatro &eacute; por excel&ecirc;ncia uma arte de sociedade, de gente rica.<br \/>\n    Ele exige vestu&aacute;rios caros, j&oacute;ias, carros &mdash; tudo isso<br \/>\n    que s&oacute; se pode obter com a riqueza. Pois os ricos da Bruzundanga n&atilde;o<br \/>\n    animam as tentativas que se t&ecirc;m feito para fazer surgir um teatro ind&iacute;gena,<br \/>\n    e todas t&ecirc;m fracassado. <\/p>\n<p>Ela se contenta com a &oacute;pera italiana ou com as representa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de celebridades estrangeiras. <\/p>\n<p>Poderia ainda falar nas suas festas &iacute;ntimas, nos seus casamentos,<br \/>\n    nos seus batizados, nas suas datas familiares; mas, por hoje, basta o que<br \/>\n    vai dito, e &eacute; o bastante para mostrar de que maneira a aristocracia<br \/>\n    da Bruzundanga &eacute; incapaz de representar o papel normal das aristocracias:<br \/>\n    criar o gosto, afinar a civiliza&ccedil;&atilde;o, suscitar e amparar grandes<br \/>\n    obras. <\/p>\n<p>Se falei aqui em aristocracia, foi abusando da ret&oacute;rica. O meu intento<br \/>\n    &eacute; designar com t&atilde;o altissonante palavra, n&atilde;o uma classe<br \/>\n    est&aacute;vel que detenha o dom&iacute;nio da sociedade da Bruzundanga, e<br \/>\n    a represente constantemente; mas os ef&ecirc;meros que, por instantes, representam<br \/>\n    esse papel naquele interessante pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Explicado este ponto, posso ir adiante nas minhas breves &quot;notas&quot;<br \/>\n    sobre o pa&iacute;s da Bruzundanga.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">XIV &#8211; As Elei&ccedil;&otilde;es<\/a><\/h4>\n<p> DENTRE as muitas supersti&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas do nosso tempo,<br \/>\n    uma das mais curiosas &eacute; sem d&uacute;vida a das elei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Admiss&iacute;veis quando se trata de pequenas cidades, para a escolha de<br \/>\n    autoridades verdadeiramente locais, quase municipais, como eram na antig&uuml;idade,<br \/>\n    elas tomam um aspecto de sortil&eacute;gio, de adivinha&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao serem transplantadas para os nossos imensos estados modernos. Um deputado<br \/>\n    eleito por um dos nossos imensos distritos eleitorais, com as nossas dificuldades<br \/>\n    de comunica&ccedil;&atilde;o, quer materiais, quer intelectuais, sai das urnas<br \/>\n    como um manipanso a quem se v&atilde;o emprestar virtudes e poderes que ele<br \/>\n    quase sempre n&atilde;o tem. Os seus eleitores n&atilde;o sabem quem ele &eacute;,<br \/>\n    quais s&atilde;o os seus talentos, as suas id&eacute;ias pol&iacute;ticas,<br \/>\n    as suas vistas sociais, o grau de interesse que ele pode ter pela causa p&uacute;blica;<br \/>\n    &eacute; um puro nome sem nada atr&aacute;s ou dentro dele. O eleito, por&eacute;m,<br \/>\n    depois de certos passes e benzeduras legais, vai para a C&acirc;mara representar-lhes<br \/>\n    a vontade, os desejos e, certamente, procurar minorar-lhes os sofrimentos,<br \/>\n    sem nada conhecer de tudo isto. <\/p>\n<p>A supersti&ccedil;&atilde;o eleitoral &eacute; uma das nossas cousas modernas<br \/>\n    que mais h&aacute; de fazer rir os nossos futuros bisnetos. <\/p>\n<p>Na Bruzundanga, como no Brasil, todos os representantes do povo, desde o<br \/>\n    vereador at&eacute; ao presidente da rep&uacute;blica, eram eleitos por sufr&aacute;gio<br \/>\n    universal, e, l&aacute;, como aqui, de h&aacute; muito que os pol&iacute;ticos<br \/>\n    pr&aacute;ticos tinham conseguido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral<br \/>\n    este elemento perturbador &mdash; &quot;o voto&quot;. <\/p>\n<p>Julgavam os chefes e capatazes pol&iacute;ticos que apurar os votos dos seus<br \/>\n    concidad&atilde;os era anarquizar a institui&ccedil;&atilde;o e provocar um<br \/>\n    trabalho infernal na apura&ccedil;&atilde;o porquanto cada qual votaria em<br \/>\n    um nome, visto que, em geral, os eleitores t&ecirc;m a tend&ecirc;ncia de<br \/>\n    votar em conhecidos ou amigos. Cada cabe&ccedil;a, cada senten&ccedil;a; e,<br \/>\n    para obviar os inconvenientes de semelhante fato, os mes&aacute;rios da Bruzundanga<br \/>\n    lavravam as atas conforme entendiam e davam vota&ccedil;&otilde;es aos candidatos,<br \/>\n    conforme queriam. <\/p>\n<p>Na capital da Bruzundanga, Bosomsy, onde assisti diversas elei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o espet&aacute;culo delas &eacute; o mais ineditamente pitoresco que se pode<br \/>\n    imaginar. <\/p>\n<p>As ruas ficam quase desertas, perdem o seu tr&acirc;nsito habitual de mulheres<br \/>\n    e homens atarefados; mas para compensar tal desfalque passam constantemente<br \/>\n    por elas carros, autom&oacute;veis, pejados de passageiros heterog&ecirc;neos.<br \/>\n    O doutor-candidato vai neles com os mais cru&eacute;is assassinos da cidade,<br \/>\n    quando ele mesmo n&atilde;o &eacute; um assassino; o grave chefe de se&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    interessado na elei&ccedil;&atilde;o de F., que prometeu faz&ecirc;-lo diretor;<br \/>\n    o grave chefe, o homem severo com os vadios de sua burocracia, n&atilde;o<br \/>\n    trepida em andar de cabe&ccedil;a descoberta, com dois ou tr&ecirc;s calaceiros<br \/>\n    conhecid&iacute;ssimos. A fisionomia aterrada e curiosa da cidade d&aacute;<br \/>\n    a entrever que se est&aacute; &agrave; espera de uma verdadeira batalha; e<br \/>\n    a julgar-se pelas fisionomias que se amontoam nas se&ccedil;&otilde;es, nos<br \/>\n    carros, nos caf&eacute;s, e botequins, parece que as pris&otilde;es foram<br \/>\n    abertas e todos os seus h&oacute;spedes soltos, naquele dia. <\/p>\n<p>Raro &eacute; o homem de bem que se faz eleitor, e se se alista, para atender<br \/>\n    a pedidos de amigos, n&atilde;o tarda que o seu diploma sirva a outro cidad&atilde;o<br \/>\n    mais prestante, que no dia do pleito, para fins eleitorais, muda de nome e<br \/>\n    toma o do pacato burgu&ecirc;s que se deixa ficar em casa, e vota com eles.<br \/>\n    Isto &eacute; o que l&aacute; se chama: &mdash; &quot;um f&oacute;sforo&quot;.\n  <\/p>\n<p>&Agrave;s vezes semelhantes eleitores votam at&eacute; com nomes de mortos,<br \/>\n    cujos diplomas apresentam aos mes&aacute;rios solenes e hier&aacute;ticos<br \/>\n    que nem sacerdotes de antigas religi&otilde;es. Quer um, quer outro servi&ccedil;o<br \/>\n    eleitoral, constituem os pr&eacute;stimos mais relevantes que se podem prestar<br \/>\n    aos pol&iacute;ticos de profiss&atilde;o. <\/p>\n<p>Tais costumes eleitorais da Bruzundanga s&atilde;o fonte de muitos casos<br \/>\n    c&ocirc;micos, mas, por serem quase semelhantes aos que se passam entre n&oacute;s,<br \/>\n    abstenho-me de narr&aacute;-los. Entretanto, vou dar-lhes o depoimento de<br \/>\n    um ing&ecirc;nuo e inteligente eleitor, que descreve a sua inicia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eleitoral na Bruzundanga e os caracter&iacute;sticos do exerc&iacute;cio dos<br \/>\n    direitos pol&iacute;ticos que a sua constitui&ccedil;&atilde;o outorga aos<br \/>\n    cidad&atilde;os. <\/p>\n<p>Trata-se de uma das melhores rela&ccedil;&otilde;es que travei naquele pa&iacute;s.<br \/>\n    Ao tempo em que nos conhecemos, ele tinha a&iacute; os seus vinte e seis anos<br \/>\n    e j&aacute; havia publicado algumas mem&oacute;rias interessantes sobre a<br \/>\n    paleontologia da Bruzundanga. <\/p>\n<p>N&atilde;o sei, ao certo, se continuou com brilho a sua estr&eacute;ia brilhante;<br \/>\n    mas, suspeito que n&atilde;o. <\/p>\n<p>A sociedade da Bruzundanga mata os seus talentos, n&atilde;o porque os desdenhe,<br \/>\n    mas porque os quer idiotamente mundanos, cheios de empregos, como enfeites<br \/>\n    de sala banal. <\/p>\n<p>O meio inconsciente de que ela se serve para tal fim, &eacute; o casamento.\n  <\/p>\n<p>O rapaz come&ccedil;a a fazer ru&iacute;do e logo todos o cercam, j&aacute;<br \/>\n    os de sua camada, j&aacute; os de camada superior, se &eacute; de extra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    modesta. <\/p>\n<p>&Eacute; natural que ele encontre entre tantas damas da roda que o cerca<br \/>\n    a do seu pensamento. <\/p>\n<p>Ei-lo casado; a mulher, por&eacute;m, n&atilde;o pode compreender s&aacute;bio<br \/>\n    que n&atilde;o ganhe muito dinheiro e viva modestamente. N&atilde;o compreende<br \/>\n    nem Spinosa, nem Fabre. Se n&atilde;o se faz cat&oacute;lico praticamente,<br \/>\n    o rapaz, para arranjar bons empregos, faz-se charlat&atilde;o, ac&oacute;lito<br \/>\n    de pol&iacute;ticos, j&aacute; n&atilde;o medita, perde a pertin&aacute;cia,<br \/>\n    para as pesquisas originais, publica compila&ccedil;&otilde;es rendosas e<br \/>\n    enche-se de cargos p&uacute;blicos e particulares. &Eacute; esta a trajet&oacute;ria<br \/>\n    de todas as &quot;esperan&ccedil;as&quot; intelectuais da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Penso, por isso, que o meu amigo, Halak&eacute; Ben Thoreca, como todos os<br \/>\n    seus iguais, se banalizou com o casamento e a conseq&uuml;ente cava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de empregos. Tratemos, por&eacute;m, da sua estr&eacute;ia eleitoral, como<br \/>\n    ele me contou. Vamos ouvi-lo: <\/p>\n<p>&quot;Pelos meus vinte e dois anos, uma manh&atilde;, li um artigo eloq&uuml;ente<br \/>\n    em que se lembrava aos bruzundanguenses a necessidade, o dever de inscrever<br \/>\n    os seus nomes no pr&oacute;ximo alistamento eleitoral. Li e fiquei convencido,<br \/>\n    Depois de &aacute;rduos trabalhos, obtive o diploma; e, nas v&eacute;speras<br \/>\n    da elei&ccedil;&atilde;o, pus-me a estudar os manifestos dos candidatos ao<br \/>\n    cargo espinhoso de deputado. Fiquei perplexo. <\/p>\n<p>Julho Ben Khosta, com mais de vinte anos de pr&aacute;tica no of&iacute;cio<br \/>\n    de candidato, prometia, caso fosse eleito, propugnar a dissemina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de livros e estampas; e, hoje mesmo, apesar de homem feito, passa horas e<br \/>\n    horas a folhe&aacute;-los. A promessa de Julho Ben Khosta demoveu-me a empenhar-lhe<br \/>\n    o meu voto. N&atilde;o durou muito essa minha resolu&ccedil;&atilde;o. Na<br \/>\n    mesma coluna dos apedidos do jornal, a plataforma do doutor Karaban acenava-me<br \/>\n    com uma grande esperan&ccedil;a. <\/p>\n<p>Este doutor gastava frases e juramentos, prometendo que faria decretar a<br \/>\n    aprova&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria dos estudantes reprovados. <\/p>\n<p>Calculem que eu tinha quatro bombas em mec&acirc;nica e, por a&iacute;, poder&atilde;o<br \/>\n    imaginar como fiquei contente com semelhante candidato. <\/p>\n<p>Foi tiro e queda: decidi votar no doutor Karaban. Sa&iacute; bem cedo, para<br \/>\n    almo&ccedil;ar qualquer cousa. <\/p>\n<p>Na pens&atilde;o um meu amigo pediu-me que votasse no Kasthriotoh. &Eacute;<br \/>\n    um mo&ccedil;o muito pobre, est&aacute; quase na mis&eacute;ria, disse-me<br \/>\n    o amigo, cheio de fam&iacute;lia; precisa muito do subs&iacute;dio. <\/p>\n<p>Tive d&oacute; e, quando deixei o almo&ccedil;o, tinha o arraigado prop&oacute;sito<br \/>\n    de votar no indigente Kasthriotoh. Dirigi-me, no dia pr&oacute;prio, para<br \/>\n    a se&ccedil;&atilde;o eleitoral, e esperei. Chamaram-me, afinal. <\/p>\n<p>Quase a tremer, no alevantado fito de influir nos destinos da P&aacute;tria<br \/>\n    consegui atravessar por entre duas filas de homens de aspecto feroz, que me<br \/>\n    olhavam desdenhosamente.<\/p>\n<p>Em geral, os ministros n&atilde;o l&ecirc;em o que despacham; limitam-se<br \/>\n    a rubricar o despacho do secret&aacute;rio ou oficial-de-gabinete. Panc&ocirc;me<br \/>\n    n&atilde;o fazia exce&ccedil;&atilde;o na regra, mas aquele papel, com fotografias,<br \/>\n    despertou-lhe a aten&ccedil;&atilde;o. Leu-o. Tratava-se do bacharel Sune<br \/>\n    Wolfe, que requeria ser provido no lugar vago de amanuense; e, para que avaliar<br \/>\n    pudesse o senhor ministro da sua beleza f&iacute;sica, juntava aqueles dois<br \/>\n    retratos, um de perfil e outro de frente.<\/p>\n<p>A secretaria tinha exigido selos de juntada em tais documentos e o despacho<br \/>\n    do secret&aacute;rio era nesse sentido. O visconde, como sempre, pouco disposto<br \/>\n    a obedecer &agrave;s leis, n&atilde;o se incomodou; e, cheio de admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela boniteza do requerente, riscou o despacho e escreveu com a sua letra<br \/>\n    um outro, determinando que o candidato comparecesse &agrave; sua presen&ccedil;a.\n  <\/p>\n<p>No dia seguinte o rapaz foi ter com o ministro, que ficou embasbacado diante<br \/>\n    do lindo candidato. <\/p>\n<p>De fato, era bonito, bonitinho mesmo, desbotado de c&uacute;tis, e parecia<br \/>\n    at&eacute; fabricado em Saxe ou em S&egrave;vres. Tinha uns lindos dentes,<br \/>\n    um belo cabelo cuidado, n&atilde;o era alto, mas era bem apessoado. Merecia<br \/>\n    muito bem um bom casamento rico; contudo, o visconde quis melhor examin&aacute;-lo<br \/>\n    e perguntou: <\/p>\n<p>&mdash; O senhor sabe sorrir bem? <\/p>\n<p>O candidato n&atilde;o se atrapalhou e acudiu com firmeza: <\/p>\n<p>&mdash; Sei, Excel&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&mdash; Vamos ver. <\/p>\n<p>E o lindo mo&ccedil;o repuxou os l&aacute;bios, entortou o pesco&ccedil;o<br \/>\n    de um lado, gracilmente, ajeitou os olhos e todo ele foi uma lindeza de impressionar<br \/>\n    o pacato secret&aacute;rio que, ao lado, assistia ao exame, completamente<br \/>\n    embrulhado em um fraque vener&aacute;vel e cheio de embevecimento. <\/p>\n<p>Contente com isto, o ministro tratou de ir mais longe na experi&ecirc;ncia<br \/>\n    das excepcionais qualidades que o candidato revelava e convidou-o com voz<br \/>\n    paternal: <\/p>\n<p>&mdash; Aperte a m&atilde;o, ali, do Major Marmeleiro (o secret&aacute;rio).<br \/>\n    Fa&ccedil;a o favor.<\/p>\n<p>O examinando n&atilde;o se fez de rogado. Juntou os p&eacute;s, curvou docemente<br \/>\n    o busto, levantou o bra&ccedil;o e, sempre sorrindo, cumprimentou: <\/p>\n<p>&mdash; Senhor Major Marmeleiro&#8230; <\/p>\n<p>Panc&ocirc;me n&atilde;o cabia em si de contentamento com a sideral aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que estava ali. Que eleg&acirc;ncia! Que lindeza! Dessa feita &eacute; que<br \/>\n    ele ia fazer uma nomea&ccedil;&atilde;o justa e s&aacute;bia. Arre! N&atilde;o<br \/>\n    era sem tempo&#8230; <\/p>\n<p>Era preciso, por&eacute;m, ver se o donzel conhecia algumas outras cousas<br \/>\n    de sociedade. <\/p>\n<p>&mdash; O senhor sabe dan&ccedil;ar? perguntou. <\/p>\n<p>&mdash; Sei, Excelent&iacute;ssimo. <\/p>\n<p>&mdash; Vamos ver. <\/p>\n<p>&mdash; Mas s&oacute; e sem m&uacute;sica, senhor visconde?! <\/p>\n<p>Ordenou o ministro que o cont&iacute;nuo fosse chamar um certo empregado,<br \/>\n    ex&iacute;mio em dan&ccedil;a; e, enquanto ele ia buscar o funcion&aacute;rio,<br \/>\n    disse Panc&ocirc;me a Marmeleiro: <\/p>\n<p>&mdash; Voc&ecirc; sabe assoviar, major? <\/p>\n<p>O secret&aacute;rio estava sempre disposto a responder afirmativamente ao<br \/>\n    visconde e n&atilde;o se deteve um minuto: <\/p>\n<p>&mdash; Sei, senhor visconde. <\/p>\n<p>&mdash; Bem, disse Panc&ocirc;me, assovie a&iacute; uma valsa. <\/p>\n<p>A &quot;dama&quot; j&aacute; tinha chegado e Marmeleiro agora hesitava. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o sabe? indagou o ministro severamente. <\/p>\n<p>&mdash; S&oacute; sei as &quot;Laranjeiras&quot;. <\/p>\n<p>&mdash; De quem &eacute; isso? perguntou Panc&ocirc;me. <\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; do Ham&eacute;lio. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o &eacute; l&aacute; muito elegante, considerou o visconde,<br \/>\n    mas&#8230; serve, serve! <\/p>\n<p>Marmeleiro come&ccedil;ou a assoviar com todo o recato que o lugar exigia<br \/>\n    &mdash; fiu, fiu, fiu&#8230; &mdash; e os dois dan&ccedil;aram com todas as cerim&ocirc;nias<br \/>\n    e ademanes dignos de gabinete t&atilde;o diplom&aacute;tico e do respeito<br \/>\n    que merecia a presen&ccedil;a daquele alto her&oacute;i ministerial. Panc&ocirc;me<br \/>\n    verificou com um j&uacute;bilo paternal que o tal Sune continuava a ser uma<br \/>\n    maravilha! Que soberbo amanuense ia ele ser! Bendita Bruzundanga que produzia<br \/>\n    daquilo! <\/p>\n<p>Acabaram de valsar ao som do melodioso assovio de Marmeleiro, e o visconde<br \/>\n    falou, ent&atilde;o, com mansuetude, ao candidato: <\/p>\n<p>&mdash; Descanse um pouco, meu filho; e, depois, escreva-me uma carta ao<br \/>\n    ministro de Interior sobre a necessidade da Bruzundanga se fazer representar<br \/>\n    no Congresso de Encaixotamento de Pianos em Seul. <\/p>\n<p>O lindo Wolfe esteve a pensar um pouco e retrucou titubeando: <\/p>\n<p>&mdash; Vossa Excel&ecirc;ncia compreende que&#8230; Eu! De uma hora para outra&#8230;<br \/>\n    Compreende Vossa Excel&ecirc;ncia que n&atilde;o tenho pr&aacute;tica&#8230; Com<br \/>\n    o tempo&#8230; Mais tarde&#8230; <\/p>\n<p>Era s&oacute; redigir cartas o que ele n&atilde;o sabia; mas, sendo elegante,<br \/>\n    bonitinho, bom dan&ccedil;ador, tinha todas as boas qualidades para um aperfei&ccedil;oado<br \/>\n    amanuense do extraordin&aacute;rio Panc&ocirc;me. <\/p>\n<p>Tendo em vista as necessidades da representa&ccedil;&atilde;o da Bruzundanga,<br \/>\n    o visconde nomeou-o logo, sem deten&ccedil;a alguma. Foi uma acertada nomea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e s&aacute;bia, que veio provar o quanto s&atilde;o tolos os regulamentos<br \/>\n    e as leis que exigem dos amanuenses a vetusta ci&ecirc;ncia de saber redigir<br \/>\n    cartas. <\/p>\n<p>Se n&atilde;o fosse um her&oacute;i, uma notabilidade universal o ministro,<br \/>\n    talvez o galante Sune n&atilde;o tivesse sido aproveitado e os estrangeiros<br \/>\n    n&atilde;o teriam uma favor&aacute;vel id&eacute;ia da boniteza dos homens<br \/>\n    da Bruzundanga; mas era, felizmente, e p&ocirc;de, portanto, p&ocirc;r de<br \/>\n    parte as tolas exig&ecirc;ncias legais, e o pa&iacute;s, com tal aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o seu funcionalismo, adiantou um s&eacute;culo. <\/p>\n<p>&Eacute; verdade que o Marechal Soult, duque da Dalm&aacute;cia, e Guizot<br \/>\n    que em celebridade e notoriedade universal talvez n&atilde;o invejassem as<br \/>\n    de Panc&ocirc;me, foram ministros de Fran&ccedil;a, e, ao que consta, nunca<br \/>\n    desrespeitaram ostensivamente as leis do seu tempo. Isto aconteceu em Fran&ccedil;a;<br \/>\n    mas na Bruzundanga as cousas se passam de outro modo e aquele pa&iacute;s<br \/>\n    s&oacute; tem ganho com tal proceder, como acabamos de ver. <\/p>\n<p>Feito amanuense, aprendeu logo a copiar minutas e, em menos de seis anos,<br \/>\n    Sune, o tal da carta, acabou eleito, por unanimidade, membro da Academia de<br \/>\n    Letras da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Ficou sendo o que aqui se chama &mdash; um &quot;expoente&quot;. <\/p>\n<h4><a name=\"15\">XXII &#8211; Notas Soltas<\/a><\/h4>\n<p>Um an&uacute;ncio de livraria, na Bruzundanga: <\/p>\n<p>&quot;Acaba de aparecer o extraordin&aacute;rio romance &mdash; Meu caro<br \/>\n    senhor&#8230;, de Dona Adhel Karat&aacute; (pseud&ocirc;nimo de Hiralhema Sokothara<br \/>\n    Lomes, filha do grande poeta e escritor Sokothara Lomes, cujas assombrosas<br \/>\n    gl&oacute;rias liter&aacute;rias ela continua com muito brilho, e irm&atilde;<br \/>\n    do fino estilista e elegante parlamentar Carol Sokothara Lomes). &Agrave;<br \/>\n    venda, etc., etc.&quot; <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>L&aacute;, na Bruzundanga, os mandachuvas, quando s&atilde;o eleitos, e empossados,<br \/>\n    tratam logo de colocar em bons lugares os da sua clientela. Fazem reformas,<br \/>\n    inventam reparti&ccedil;&otilde;es, para executarem esse seu alto fim pol&iacute;tico.\n  <\/p>\n<p>H&aacute;, por&eacute;m, dois cargos estritamente municipais e atinentes<br \/>\n    &agrave; administra&ccedil;&atilde;o local da capital da Bruzundanga, que<br \/>\n    todos os matutos amigos dos mandachuvas disputam. Os mandachuvas, em geral,<br \/>\n    s&atilde;o do interior do pa&iacute;s. Estes cargos s&atilde;o: o de prefeito<br \/>\n    de pol&iacute;cia e o de almotac&eacute;-mor da cidade. N&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    eles s&atilde;o rendosos, pelos vencimentos marcados em lei, como d&atilde;o<br \/>\n    direito a propinas e outros achegos. <\/p>\n<p>O de chefe de pol&iacute;cia rende, na nossa moeda, cerca de vinte contos<br \/>\n    por ano, s&oacute; nas taxas cobradas &agrave;s mulheres p&uacute;blicas;<br \/>\n    o de almotac&eacute;-mor da cidade, esse ent&atilde;o n&atilde;o se fala&#8230;\n  <\/p>\n<p>Sendo, assim, lugares em que se pode enriquecer, n&atilde;o faltam doutores<br \/>\n    da ro&ccedil;a que os queiram e empreguem todas as armas para obt&ecirc;-los.\n  <\/p>\n<p>Eles mal conhecem a cidade. Se a visitaram ou se mesmo residiram nela, nunca<br \/>\n    lhes foi poss&iacute;vel passar das ruas principais e daquela em que estiveram<br \/>\n    morando; de forma que lhe ignoram as necessidades, os defeitos a corrigir,<br \/>\n    a sua hist&oacute;ria, a sua economia e as queixas de sua popula&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Houve um prefeito de pol&iacute;cia que, vindo diretamente da prov&iacute;ncia<br \/>\n    das Jazidas para a sua prefeitura em Bosomsy, nada sabia da cidade, nem mesmo<br \/>\n    as ruas principais. Met&oacute;dico, econ&ocirc;mico, por estar muito preocupado<br \/>\n    em desagravar as suas propriedades, de hipotecas, nos primeiros meses de sua<br \/>\n    gest&atilde;o limitava-se a ir de casa para a prefeitura no seu autom&oacute;vel<br \/>\n    oficial, e voltar dela para a sua resid&ecirc;ncia, tamb&eacute;m no seu autom&oacute;vel<br \/>\n    burocr&aacute;tico. <\/p>\n<p>Certo dia cismou em percorrer, a p&eacute;, um dos mais centrais boulevards<br \/>\n    da cidade. Esta recente via p&uacute;blica cortava muitas outras estreitas<br \/>\n    da antiga cidade e, em todas as esquinas, ele encontrou os urbanos (guardas<br \/>\n    civis) nos seus postos. Todos estes modestos policiais da cidade o cumprimentavam<br \/>\n    respeitosamente e o prefeito ficou muito contente com a sua administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Chegou, por&eacute;m, em um dado cruzamento de rua donde, de uma estreitinha,<br \/>\n    tanto da direita como da esquerda, sa&iacute;am e entravam magotes de povo.<br \/>\n    Que rebuli&ccedil;o ser&aacute; esse? pensou ele. Ser&aacute; uma gr&egrave;ve?<br \/>\n    Um motim? Que ser&aacute;? <\/p>\n<p>O prefeito, assustado, medita logo provid&ecirc;ncias, quando se lembra de<br \/>\n    pedir ao urbano explica&ccedil;&otilde;es diretas, sem ir pelos canais competentes:\n  <\/p>\n<p>&mdash; Que quer dizer tanto povo a&iacute;, nessa rua? perguntou ele esquecido<br \/>\n    da celestial altura em que estava. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o h&aacute; nada, senhor prefeito. &Eacute; sempre assim,<br \/>\n    acudiu o urbano, levando a m&atilde;o ao bon&eacute;. <\/p>\n<p>&mdash; Como? <\/p>\n<p>&mdash; Vossa Excel&ecirc;ncia n&atilde;o sabe que esta &eacute; a rua mais<br \/>\n    transitada da cidade, e que &eacute; a antiga Rua do Desembargador? <\/p>\n<p>O prefeito n&atilde;o conhecia, sen&atilde;o de ouvido, a rua mais c&eacute;lebre<br \/>\n    do pa&iacute;s, dentre todas as ruas c&eacute;lebres das suas principais cidades.\n  <\/p>\n<p>Com um almotac&eacute;-mor da cidade, deu-se um caso quase semelhante. Este<br \/>\n    arconte tinha nascido na prov&iacute;ncia dos Bois, e, apesar de viver desde<br \/>\n    h&aacute; muitos anos na capital da Bruzundanga, pouco a conhecia. Quando<br \/>\n    foi provido no seu cargo, quis fazer em horas o que n&atilde;o havia feito<br \/>\n    em anos. Tomou o autom&oacute;vel oficial (certamente) e mandou toc&aacute;-lo<br \/>\n    para os arredores de Bosomsy. Admirou-se muito de que n&atilde;o houvesse<br \/>\n    por eles, matadouros de gado bovino, pois nos da sua pequena, pequen&iacute;ssima<br \/>\n    cidade natal, os havia em quantidade. N&atilde;o viu sen&atilde;o essa falta<br \/>\n    e deixou de ver as terras abandonadas, incultas, as estradas esburacadas,<br \/>\n    terras em que um bom almotac&eacute; ainda podia, com proveito, animar o plantio<br \/>\n    de &aacute;rvores frut&iacute;feras, hortali&ccedil;as, legumes e a cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pequeno gado, na zona rural.<\/p>\n<p>Com essa decep&ccedil;&atilde;o na alma, pois n&atilde;o podia admitir que<br \/>\n    uma cidade n&atilde;o tivesse nos arredores matadouros, para o fabrico da<br \/>\n    carne salgada, resolveu certo dia visitar as depend&ecirc;ncias da sua reparti&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Chegou ao arquivo. O arquivista, que era zeloso e conhecia bem a hist&oacute;ria<br \/>\n    da cidade, prontificou-se a mostrar-lhe os documentos curiosos da vida passada<br \/>\n    da linda capital: <\/p>\n<p>&mdash; Vossa Excel&ecirc;ncia vai ver as atas das sess&otilde;es do Senado<br \/>\n    da C&acirc;mara, que&#8230; <\/p>\n<p>Eram documentos escritos dos mais antigos, n&atilde;o s&oacute; da hist&oacute;ria<br \/>\n    da cidade, como da do pa&iacute;s inteiro; mas o almotac&eacute;, com grande<br \/>\n    surpresa de toda a comitiva, exclamou amuado: <\/p>\n<p>&mdash; Como? O qu&ecirc;? <\/p>\n<p>&mdash; &#8230;as atas do Senado da C&acirc;mara, Excel&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&mdash; Qual! Senado &eacute; uma cousa e C&acirc;mara &eacute; outra. Como<br \/>\n    Senado da C&acirc;mara? Que embrulho? Cada um se governa por si&#8230; A Constitui&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; Mas&#8230; <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o tem mas, n&atilde;o tem nada. Mande o que &eacute; do<br \/>\n    Senado, para o Senado; e o que &eacute; da C&acirc;mara, para a C&acirc;mara.<\/p>\n<p>Um grande fil&oacute;sofo afirmou que, para bem se conhecer uma institui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma ci&ecirc;ncia, um pa&iacute;s, era necess&aacute;rio saber-lhes a hist&oacute;ria;<br \/>\n    e ningu&eacute;m, penso, pode admitir que se possa administrar bem qualquer<br \/>\n    cousa sem a conhecer perfeitamente. <\/p>\n<p>Os administradores de Bosomsy nada conhecem, como j&aacute; disse, da cidade,<br \/>\n    cujos destinos v&atilde;o reger e cuja vida v&atilde;o superintender. Exemplifico.\n  <\/p>\n<p>Um prefeito de pol&iacute;cia, como lhes contei, n&atilde;o lhe conhecia<br \/>\n    a rua principal; e um almotac&eacute;-mor, encarregado da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral do munic&iacute;pio, n&atilde;o lhe conhecia a natureza de suas produ&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nem a sua hist&oacute;ria, como ficou contado. Ele n&atilde;o sabia que a<br \/>\n    antiga c&acirc;mara dos edis chamava-se &mdash; Senado da C&acirc;mara.<\/p>\n<p>Como estes muitos outros se repetem na administra&ccedil;&atilde;o da capital.\n  <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Via eu todos os dias passar na rua principal de Bosomsy um sujeito cheio<br \/>\n    de impon&ecirc;ncia e ademanes fidalgos; perguntei a um amigo: <\/p>\n<p>&mdash; Quem &eacute; aquele? &Eacute; algum duque? &Eacute; marqu&ecirc;s?\n  <\/p>\n<p>&mdash; Qual! E um tabeli&atilde;o. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&quot;O Senhor F. de Tal, redator da Warkad-Gazette, contratou casamento<br \/>\n    com a Senhorita Hilvia Kamond, filha da vi&uacute;va Almirante Bartel Kamond&quot;,<br \/>\n    informava um jornal. <\/p>\n<p>&Eacute; caso de perguntar: que diabo de cousa &eacute; esta &mdash; &quot;vi&uacute;va<br \/>\n    almirante&quot;? Por que a noiva n&atilde;o &eacute; logo e simplesmente filha<br \/>\n    do falecido almirante? <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&mdash; Quem &eacute; aquele sujeito que ali vai? <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o lhe sei o nome. Sei, por&eacute;m, que vive muito bem<br \/>\n    e &eacute; o marido da Klarindhah. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&mdash; O doutor Sicrano j&aacute; escreveu alguma cousa? <\/p>\n<p>&mdash; Por que perguntas? <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o dizem que ele vai ser eleito para a Academia de Letras?\n  <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o &eacute; preciso escrever cousa alguma, meu caro; entretanto,<br \/>\n    quando esteve na Europa, enviou lindas cartas aos amigos e&#8230; <\/p>\n<p>&mdash; Quem as leu? <\/p>\n<p>&mdash; Os amigos, certamente; e, demais, &eacute; um m&eacute;dico de grande<br \/>\n    cl&iacute;nica. N&atilde;o &eacute; bastante? <\/p>\n<p>Sobre o Teatro<\/p>\n<p>Tendo lido na Warkad-Gazette uma not&iacute;cia elogiosa da estr&eacute;ia<br \/>\n    da revista &quot;Mel de Pau&quot;, no Teatro Mundh&eacute;u, l&aacute; fui<br \/>\n    uma noite. Quando entrei j&aacute; o espet&aacute;culo tinha come&ccedil;ado<br \/>\n    e uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava ao som de uma<br \/>\n    m&uacute;sica roufenha: <\/p>\n<p>Eu hei de saber <\/p>\n<p>Quem foi aquela <\/p>\n<p>A dizer ali em frente <\/p>\n<p>Que eu chupava <\/p>\n<p>Charuto de canela.<\/p>\n<p>Por a&iacute; os pratos estridulavam, o bombo roncava e a orquestra iniciava<br \/>\n    alguns compassos de tango, ao som dos quais a dama bamboleava as ancas. As<br \/>\n    palmas choviam e, quase sempre, a cantora repetia a maravilha, que tanto fazia<br \/>\n    rir a plat&eacute;ia. <\/p>\n<p>Na noite seguinte, passando pelo &quot;Harapuka-Palace&quot;, li no cartaz:<br \/>\n    &quot;Todo o servi&ccedil;o&quot;, revista hilariante, em tr&ecirc;s atos,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>Entrei. No palco uma dama, em fraldas de camisa, fumando um cigarro, cantava<br \/>\n    acompanhada de uma m&uacute;sica rouca: <\/p>\n<p>Eu hei de saber <\/p>\n<p>Quem foi aquela <\/p>\n<p>A dizer ali em frente <\/p>\n<p>Que eu chupava <\/p>\n<p>Charuto de canela. <\/p>\n<p>Acabando os pratos eram feridos, o bombo trovejava, a m&uacute;sica inteira<br \/>\n    iniciava uns compassos de &quot;maxixe&quot; e a dama, com as m&atilde;os<br \/>\n    nos quadris, bamboleava as ancas. Risos, palmas e o portento era repetido.\n  <\/p>\n<p>Interessei-me por t&atilde;o variado teatro e foi com agrado que em certa<br \/>\n    noite, muito pr&oacute;xima destas duas &uacute;ltimas, aceitei um convite<br \/>\n    para ir ao &quot;Mussuah Theatre&quot;. L&aacute; dei com uma outra dama,<br \/>\n    em fraldas de camisa, fumando e cantando, sob a dire&ccedil;&atilde;o da batuta<br \/>\n    do maestro: <\/p>\n<p>Eu hei de saber<\/p>\n<p>Quem foi aquela <\/p>\n<p>A dizer ali em frente <\/p>\n<p>Que eu chupava <\/p>\n<p>Charuto de canela. <\/p>\n<p>Risos, palmas, pratos, chocalhos, bombos; a m&uacute;sica iniciava alguns<br \/>\n    compassos, e a dama remexia bem os quadris. Tratava-se da revista &quot;Est&aacute;<br \/>\n    pra tudo&quot;. <\/p>\n<p>Assim, fui a tr&ecirc;s ou quatro teatros e sempre dei com uma dama a cantar<br \/>\n    esta cousa t&atilde;o linda: Eu hei de saber etc., etc., etc.<\/p>\n<p><strong>Sobre os Literatos<\/strong><\/p>\n<p>Quantas cartas tens a&iacute;! disse-lhe eu ao v&ecirc;-lo abrir a carteira<br \/>\n    para tirar uma nota com que pagasse a despesa. <\/p>\n<p>&mdash; S&atilde;o &quot;pistol&otilde;es&quot;.<\/p>\n<p>&mdash; Pra tanta gente? <\/p>\n<p>&mdash; Sim; para os cr&iacute;ticos dos jornais e das revistas. N&atilde;o<br \/>\n    sabes que vou publicar um livro? <\/p>\n<p><strong>Sobre os Jornais<\/strong><\/p>\n<p>Novidades telegr&aacute;ficas sensacionais:<\/p>\n<p>&quot;Cocos, 2 &mdash; Foi aposentado o Primeiro Escritur&aacute;rio da Intend&ecirc;ncia<br \/>\n    F (A. A.), Correio Vespertino, de 3-6-07.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Caranguejos, 22 &mdash; Os padres maristas comemoraram ontem com grandes<br \/>\n    festas o centen&aacute;rio da funda&ccedil;&atilde;o da respectiva ordem (J.<br \/>\n    C., ed. t., de 22-6-17).&quot; <\/p>\n<p>&quot;Guarabariba, 22 &mdash; Foi desligado do quadro da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Correios daqui o praticante de segunda classe Virg&iacute;lio C&eacute;sar,<br \/>\n    por ter sido removido para os Correios de Santa Catarina. <\/p>\n<p>Chegaram a esta capital os doutores Ascendino Cunha e Guilherme Silveira<br \/>\n    (J. C., ed. t., de 22-6-17).&quot; <\/p>\n<p><strong>Erudi&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>&quot;Costumava o Imperador Tito L&iacute;vio dizer que tinha ganho o seu<br \/>\n    dia sempre que lhe era dado realizar um benef&iacute;cio.&quot; (Correio Matutino,<br \/>\n    de 2-11-13). <\/p>\n<p>Tito L&iacute;vio foi imperador? <\/p>\n<p>&quot;E &eacute; o motivo dessa antecipa&ccedil;&atilde;o que est&aacute;<br \/>\n    sendo explicado, agora, nos jornais da Fortaleza, pelos entendidos na mat&eacute;ria,<br \/>\n    um dos quais acusa como raz&atilde;o desse desequil&iacute;brio a abertura<br \/>\n    do canal de Panam&aacute;, que p&ocirc;s em contato duas grandes massas d&rsquo;&aacute;gua<br \/>\n    de n&iacute;vel diferente&quot; (O Imparcial, de 12-11-15). <\/p>\n<p>A que fica reduzida a tal hist&oacute;ria do equil&iacute;brio dos l&iacute;quidos<br \/>\n    em vasos comunicantes? Pobre Ganot, quer o grande, quer o pequeno! <\/p>\n<p>Sobre a Administra&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>&quot; A extra&ccedil;&atilde;o deste combust&iacute;vel na Am&eacute;rica<br \/>\n    do Sul se eleva, contudo, a mais de 1.500.000 toneladas, produzindo o M&eacute;xico<br \/>\n    500.000 toneladas e o Chile o restante&quot; (Relat&oacute;rio oficial sobre<br \/>\n    &mdash; A Ind&uacute;stria Sider&uacute;rgica no Mundo, pelo general F. M.<br \/>\n    de S. A., p&aacute;g. 198)<\/p>\n<p>O M&eacute;xico na Am&eacute;rica do Sul? Que terremoto! <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Cousas maravilhosas de um tradutor burocr&aacute;tico: <\/p>\n<p>1.o) arbustos de serra (arbrisseaux de serre) <\/p>\n<p>2.o) bilhetes de bilhar (billes de billard)<\/p>\n<p>3.o) Tecidos de&#8230; c&acirc;nhamo ou de ramia (ramie) <\/p>\n<p>4.o) fetos de serra (foug&egrave;res de serre)<\/p>\n<p>5.o) berloques, colorados&#8230; (breloques, colori&eacute;es).<\/p>\n<p>Todas estas e muitas outras lindezas semelhantes vieram publicadas no D.O.<br \/>\n    da Bruzundanga, em 23 de mar&ccedil;o de 1917: e o ato era assinado pelo grande<br \/>\n    ministro &mdash; Kallokeras. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&quot;A sele&ccedil;&atilde;o nas reparti&ccedil;&otilde;es &eacute; feita<br \/>\n    inversamente de forma que os em- pregados mais graduados s&atilde;o os mais<br \/>\n    n&eacute;scios e inscientes. Houve quem propusesse para corrigir tal defeito<br \/>\n    que se mudasse a hierarquia burocr&aacute;tica: o cargo de diretor passava<br \/>\n    a ser o primeiro da escala e o de praticante, o &uacute;ltimo.&quot; <\/p>\n<p><strong>No Gabinete do Ministro<\/strong><\/p>\n<p>&mdash; O senhor quer ser diretor do Servi&ccedil;o Geol&oacute;gico da Bruzundanga?<br \/>\n    pergunta o ministro. <\/p>\n<p>&mdash; Quero, Excel&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&mdash; Onde estudou geologia? <\/p>\n<p>&mdash; Nunca estudei, mas sei o que &eacute; vulc&atilde;o. <\/p>\n<p>&mdash; Que &eacute;? <\/p>\n<p>&mdash; Chama-se vulc&atilde;o a montanha que, de uma abertura, em geral<br \/>\n    no cimo, jorra turbilh&otilde;es de fogo e subst&acirc;ncias em fus&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>&mdash; Bem. O senhor ser&aacute; nomeado. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Panc&ocirc;me, quando se deu uma vaga de amanuense na sua secretaria de Estado,<br \/>\n    de acordo com o seu crit&eacute;rio n&atilde;o abriu concurso, como era de<br \/>\n    lei, e esperou o acaso para preench&ecirc;-la convenientemente. <\/p>\n<p>Houve um rapaz que, julgando que o poderoso visconde queria um amanuense<br \/>\n    chic e lindo, supondo-se ser tudo isso, requereu o lugar, juntando os seus<br \/>\n    retratos, tanto de perfil como de frente. Panc&ocirc;me f&ecirc;-lo vir &agrave;<br \/>\n    sua presen&ccedil;a. Olhou o rapaz e disse: <\/p>\n<p>&mdash; Sabe sorrir? <\/p>\n<p>&mdash; Sei, Excelent&iacute;ssimo Senhor Ministro. <\/p>\n<p>&mdash; Ent&atilde;o mostre. <\/p>\n<p>Panc&ocirc;me ficou contente e indagou ainda: <\/p>\n<p>&mdash; Sabe cumprimentar? <\/p>\n<p>&mdash; Sei, Senhor Visconde. <\/p>\n<p>&mdash; Ent&atilde;o, cumprimente ali o Major Marmeleiro. <\/p>\n<p>Este major era o seu secret&aacute;rio e estava sentado, em outra mesa, ao<br \/>\n    lado da do ministro, todo ele embrulhado em uma vasta sobrecasaca. <\/p>\n<p>O rapaz n&atilde;o se fez de rogado e cumprimentou o major com todos os &quot;ff&quot;<br \/>\n    e &quot;rr&quot; diplom&aacute;ticos. <\/p>\n<p>O visconde ficou contente e perguntou ainda: <\/p>\n<p>&mdash; Sabe dan&ccedil;ar? <\/p>\n<p>&mdash; Sei. Excelent&iacute;ssimo Senhor Visconde. <\/p>\n<p>&mdash; Dance. <\/p>\n<p>&mdash; Sem m&uacute;sica? <\/p>\n<p>O visconde n&atilde;o se atrapalhou. Determinou ao secret&aacute;rio: <\/p>\n<p>&mdash; Marmeleiro, ensaia a&iacute; uma valsa. <\/p>\n<p>&mdash; S&oacute; sei &quot;Morrer sonhando&quot; (exemplo). <\/p>\n<p>&mdash; Serve. <\/p>\n<p>O candidato dan&ccedil;ou &agrave;s mil maravilhas e o visconde n&atilde;o<br \/>\n    escondia o grande contentamento de que sua alma exuberava. <\/p>\n<p>Indagou afinal. <\/p>\n<p>&mdash; Sabe escrever com desembara&ccedil;o? <\/p>\n<p>&mdash; Ainda n&atilde;o, doutor. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o faz mal. O essencial, o senhor sabe. O resto o senhor<br \/>\n    aprender&aacute; com os outros. <\/p>\n<p>E foi nomeado, para bem documentar, aos olhos dos estranhos, a beleza dos<br \/>\n    homens da Bruzundanga. <\/p>\n<p><strong>Sobre os S&aacute;bios<\/strong><\/p>\n<p>(a desenvolver)<\/p>\n<p>Os engenheiros, tanto os civis como os militares, mais estes que aqueles,<br \/>\n    julgam-se ge&ocirc;metras. N&atilde;o o s&atilde;o absolutamente; os melhores<br \/>\n    s&atilde;o simples professores. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Os m&eacute;dicos da Bruzundanga imaginam-se s&aacute;bios e literatos.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que n&atilde;o s&atilde;o nem uma coisa nem outra. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&Eacute; s&aacute;bio, na Bruzundanga, aquele que cita mais autores estrangeiros;<br \/>\n    e quanto mais de pa&iacute;s desconhecido, mais s&aacute;bio &eacute;. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, como se podia crer, aquele que assimilou o saber anterior e concorre<br \/>\n    para aument&aacute;-lo com os seus trabalhos individuais. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    esse o conceito de s&aacute;bio que se tem em tal pais. <\/p>\n<p>S&aacute;bio, &eacute; aquele que escreve livros com as opini&otilde;es dos<br \/>\n    outros. <\/p>\n<p>Houve um que, quando morreu, n&atilde;o se p&ocirc;de vender-lhe a biblioteca,<br \/>\n    pois todos os livros estavam mutilados. Ele cortava-lhes as p&aacute;ginas<br \/>\n    para pregar no papel em que escrevia os trechos que citava e evitar a tarefa<br \/>\n    ma&ccedil;ante de os copiar. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H&aacute; mais de s&eacute;culo que se estudam nas suas escolas superiores,<br \/>\n    as altas ci&ecirc;ncias; entretanto os s&aacute;bios da Bruzundanga n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m contribu&iacute;do com cousa alguma para o avan&ccedil;o delas.\n  <\/p>\n<p>Em toda a parte, os s&aacute;bios, de qualquer natureza, s&atilde;o homens<br \/>\n    de recursos medianos, modestos, retra&iacute;dos, pouco mundanos, mesmo quando<br \/>\n    ricos. Na Bruzundanga, n&atilde;o; os s&aacute;bios s&atilde;o nababos, t&ecirc;m<br \/>\n    carros e autom&oacute;veis de luxo, pal&aacute;cios; freq&uuml;entam teatros<br \/>\n    caros, durante temporadas completas; d&atilde;o festas suntuosas nos seus<br \/>\n    hot&eacute;is, etc., etc. <\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; m&eacute;dico afreguesado que n&atilde;o seja considerado<br \/>\n    um s&aacute;bio pela gente da Bruzundanga, e, para firmar tal reputa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o fabrique uma compila&ccedil;&atilde;o escrita em s&acirc;nscrito.<br \/>\n    O m&eacute;dico s&aacute;bio n&atilde;o pode escrever em outra l&iacute;ngua<br \/>\n    que o s&acirc;nscrito. Isto lhe d&aacute; foros de literato e aumenta-lhe<br \/>\n    a cl&iacute;nica. <\/p>\n<p>Com a vida dos s&aacute;bios da Bruzundanga ningu&eacute;m poderia escrever<br \/>\n    Os M&aacute;rtires da Ci&ecirc;ncia. T&ecirc;m eles a precau&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    preliminar de inaugurarem a sua sabedoria com um casamento rico.<\/p>\n<p><strong>Sobre a M&uacute;sica<\/strong><\/p>\n<p>A m&uacute;sica, na Bruzundanga, &eacute;, em geral, a arte das mulheres.\n  <\/p>\n<p>&Eacute; raro aparecer no pa&iacute;s uma obra musical. <\/p>\n<p>Sobre a Ind&uacute;stria<\/p>\n<p>A ind&uacute;stria nacional da Bruzundanga tem por fim espoliar o povo com<br \/>\n    os altos pre&ccedil;os dos seus produtos. &Eacute; nacional, mas recebe a<br \/>\n    mat&eacute;ria-prima, j&aacute; em meia manufatura, do estrangeiro. <\/p>\n<p><strong>A &Uacute;ltima Nota Solta<\/strong><\/p>\n<p>A habilidade dos governantes da Bruzundanga &eacute; tal, e com tanto e acendrado<br \/>\n    carinho velam pelos interesses da popula&ccedil;&atilde;o, que lhes foram<br \/>\n    confiados, que os produtos mais normais &agrave; Bruzundanga, mais de acordo<br \/>\n    com a sua natureza, s&atilde;o comprados pelos estrangeiros por menos da metade<br \/>\n    do pre&ccedil;o pelo qual os seus nacionais os adquirem. <\/p>\n<h4><a name=\"16\"><strong>OUTRAS HIST&Oacute;RIAS DOS BRUZUNDANGAS<\/strong><\/a><\/h4>\n<p><strong>As Letras na Bruzundanga<\/strong><\/p>\n<p>&quot;A solenidade que aqui nos re&uacute;ne e para a qual foram convocados<br \/>\n    os poderes do C&eacute;u e da Terra, e o mar, &eacute; de tanta magnitude<br \/>\n    que a n&atilde;o podemos avaliar sen&atilde;o rastreando, atrav&eacute;s das<br \/>\n    sombras do Tempo, a sua proje&ccedil;&atilde;o no Futuro.&quot;<\/p>\n<p>Coelho Neto. Discurso na inaugura&ccedil;&atilde;o da piscina do Fluminense<br \/>\n    F.C. <\/p>\n<p>O meu livro de viagem &agrave; Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga<br \/>\n    est&aacute; a sair das m&atilde;os do editor carioca Jacinto Ribeiro dos Santos;<br \/>\n    por isso nada lhe posso adicionar, sen&atilde;o quando estiver em segunda<br \/>\n    edi&ccedil;&atilde;o, caso tenha ele essa felicidade. <\/p>\n<p>Nesse meio tempo, por&eacute;m, tenho recebido not&iacute;cias de l&aacute;<br \/>\n    que, sem implicar numa total modifica&ccedil;&atilde;o dos costumes e h&aacute;bitos<br \/>\n    daquele not&aacute;vel povo e daquela curiosa terra, observados j&aacute;<br \/>\n    por mim, revelam, entretanto, pequenas altera&ccedil;&otilde;es interessantes<br \/>\n    que n&atilde;o devem ficar sem registro. Uma delas &eacute; a que se est&aacute;<br \/>\n    passando com os seus literatos e poetas. <\/p>\n<p>Em todos os tempos os homens de letras, maus ou bons, geniais ou med&iacute;ocres,<br \/>\n    ricos ou pobres, gloriosos ou rat&eacute;s, sempre se julgaram inspirados<br \/>\n    pelos deuses e confabulando intimamente com eles. A vida dos escritores, poetas,<br \/>\n    comedi&oacute;grafos, romancistas, etc., est&aacute; cheia de epis&oacute;dios<br \/>\n    que denunciam esse singular orgulho deles mesmos e da miss&atilde;o da arte<br \/>\n    de escrever a que se dedicam. Todos eles se deixariam morrer &agrave; fome<br \/>\n    ou de mis&eacute;ria, antes de transformar a sua Musa em passatempo de poderosos<br \/>\n    e rica&ccedil;os. Entregaram essa fun&ccedil;&atilde;o aos buf&otilde;es,<br \/>\n    aos histri&otilde;es, aos bobos da corte, etc. <\/p>\n<p>Mesmo quando um duque ou um pr&iacute;ncipe tinha um poeta a seu soldo, o<br \/>\n    estro dele s&oacute; era empregado para solenizar os grandes acontecimentos<br \/>\n    privados ou p&uacute;blicos em que o duque ou o pr&iacute;ncipe estivesse<br \/>\n    de qualquer forma metido. Se se tratasse de um batizado na fam&iacute;lia,<br \/>\n    de um casamento, do anivers&aacute;rio da duquesa, de uma vit&oacute;ria ganha<br \/>\n    pelo pr&iacute;ncipe, de sua nomea&ccedil;&atilde;o para embaixador junto<br \/>\n    &agrave; corte de Gr&atilde;o-Mongol, sim! O poeta palaciano tinha que puxar<br \/>\n    a mitologia do tempo, escrever uma ode, um epin&iacute;cio, um ditirambo ou<br \/>\n    mesmo um simples soneto, conforme fosse a natureza da festa. Mesmo para as<br \/>\n    mortes havia a elegia com todas as suas regras marcadas na ret&oacute;rica<br \/>\n    e po&eacute;tica daqueles tempos de reis, marqueses e duques. <\/p>\n<p>Esses fidalgos mesmo aceitavam de bom grado o orgulho profissional dos seus<br \/>\n    poetas attach&eacute;s. Alguns destes mereciam at&eacute; homenagens excepcionais,<br \/>\n    como um tal Alain Chartier, poeta franc&ecirc;s do s&eacute;culo XV. Conta-se<br \/>\n    que a delfina Margarida da Esc&oacute;cia, passando com o seu s&eacute;q&uuml;ito<br \/>\n    de damas e cavalheiros de honor, por uma sala em que estava cochilando o poeta,<br \/>\n    n&atilde;o trepidou em beij&aacute;-lo na boca diante de todo o seu acompanhamento.<br \/>\n    A mulher do pr&iacute;ncipe que foi mais tarde o sombrio e velhaco Lu&iacute;s<br \/>\n    XI de Fran&ccedil;a justificou o ato dizendo que apesar do desgracioso f&iacute;sico<br \/>\n    de Alain, a encerrar, contudo, t&atilde;o belo esp&iacute;rito, daquela boca<br \/>\n    tinham sa&iacute;do tantas palavras douradas, que ele merecia aquela sua imprevista<br \/>\n    homenagem. As cr&ocirc;nicas do tempo contam esse epis&oacute;dio que me parece<br \/>\n    n&atilde;o ter eu adulterado e, al&eacute;m deste, muitos outros interessantes,<br \/>\n    em que se mostra at&eacute; que ponto os homens de pena eram prezados pelos<br \/>\n    poderosos de antanho, e como eles tinham em grande conta a sua miss&atilde;o<br \/>\n    de troveiros e trovadores. <\/p>\n<p>Na Bruzundanga, at&eacute; bem pouco, era assim tamb&eacute;m. A sua nobreza<br \/>\n    territorial e agr&iacute;cola estimava muito, a seu jeito, os homens de intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    sobremodo os poetas, aos quais ela perdoava todos os v&iacute;cios e defeitos.<br \/>\n    Essa fidalguia &agrave; roceira daquele pa&iacute;s era assim semelhante aos<br \/>\n    nossos &quot;fazendeiros&quot;, antes da lei de 13 de Maio; e poeta, ou mesmo<br \/>\n    poetastro, que aportasse nas suas fazendas, que l&aacute; s&atilde;o chamadas<br \/>\n    &mdash; &quot;ampli&uacute;das&quot; &mdash; tinha casa, comida, roupa nova,<br \/>\n    quando dela precisasse, e lavada toda a semana, podendo demorar-se no latif&uacute;ndio<br \/>\n    o tempo que quisesse, e fazendo o que bem lhe parecesse, desde que nada tentasse<br \/>\n    contra a dec&ecirc;ncia e a honra da fam&iacute;lia. Por agradecimento, ent&atilde;o,<br \/>\n    em dia festivo da fam&iacute;lia ou da religi&atilde;o, ao jantar cerimonioso<br \/>\n    e votivo, o vate recitava uma poesia in&eacute;dita, alusiva ou n&atilde;o<br \/>\n    ao ato, e tomava uma grande e alegre carraspana.<\/p>\n<p>Houve um at&eacute; &mdash; uma esp&eacute;cie do nosso Fagundes Varela &mdash;<br \/>\n    que &eacute; ainda l&aacute; muito c&eacute;lebre, recitador nas salas, e<br \/>\n    cujas obras t&ecirc;m tido muitas edi&ccedil;&otilde;es, que viveu anos inteiros<br \/>\n    em peregrina&ccedil;&otilde;es de &quot;ampli&uacute;da&quot; para &quot;ampli&uacute;da&quot;,<br \/>\n    sem saber o que era uma moeda, por mais insignificante que fosse de valor,<br \/>\n    comendo, bebendo, fumando, sem que nada lhe faltasse, a n&atilde;o ser dinheiro<br \/>\n    de que ele mesmo n&atilde;o sentia nenhuma necessidade. Tinha tudo&#8230; <\/p>\n<p>Recentemente, na Bruzundanga, uma revolu&ccedil;&atilde;o social e, logo<br \/>\n    em seguida, uma pol&iacute;tica, deslocaram essa boa gente da fortuna, e muitos<br \/>\n    deles, at&eacute;, dos seus dom&iacute;nios, que vieram a cair nas m&atilde;os<br \/>\n    de aventureiros recentemente chegados &agrave; terra ou, quando nascidos nela,<br \/>\n    eram de primeira gera&ccedil;&atilde;o, descendendo diretamente de imigrantes<br \/>\n    recentes cujo &uacute;nico pensamento era fazer fortuna do p&eacute; para<br \/>\n    a m&atilde;o, cheios de uma avidez monet&aacute;ria e inescrupulosa que transmitiram<br \/>\n    decuplicada aos filhos, e logo os lindos costumes de antiga nobreza agr&aacute;ria<br \/>\n    se perderam. Os poetas foram postos &agrave; margem e n&atilde;o tiveram mais<br \/>\n    nem considera&ccedil;&atilde;o nem desprezo. Era como se n&atilde;o existissem,<br \/>\n    como se fosse poss&iacute;vel isso, seja em sociedade humana, fora de qualquer<br \/>\n    grau de civiliza&ccedil;&atilde;o que ela esteja. <\/p>\n<p>Aos poucos, por&eacute;m, os parvenus viram bem que era preciso p&ocirc;r<br \/>\n    um pouco de beleza e de sonho nas suas exist&ecirc;ncias de mascates broncos<br \/>\n    e ferozes saqueadores legais. Deram em pagar sonetos que festejassem o nascimento<br \/>\n    dos filhos e elegias que lhes dessem lenitivo por ocasi&atilde;o da morte<br \/>\n    dos pais. Pagavam bem e pontualmente, como hoje se pagam as missas de s&eacute;timo<br \/>\n    dia aos sacerdotes que oficiam nelas, ou em outras cerim&ocirc;nias menos<br \/>\n    tristes. <\/p>\n<p>Alguns, por&eacute;m, quiseram mais ainda e, tendo not&iacute;cias que os<br \/>\n    nobres feudais, de espada e cavalo de batalha encoura&ccedil;ado e intr&eacute;pido,<br \/>\n    tinham os seus vates e trovadores, nos seus castelos e manoirs, pensaram em<br \/>\n    t&ecirc;-los tamb&eacute;m, pagando-os a bom pre&ccedil;o, a fim de que contribu&iacute;ssem<br \/>\n    com as suas &quot;palavras douradas&quot; para o brilho de suas festas. <\/p>\n<p>Um desses milion&aacute;rios, caprichoso e voluntarioso, quis ir mais longe<br \/>\n    ainda. Tendo constru&iacute;do nos fundos de sua ch&aacute;cara, situada em<br \/>\n    um pitoresco arrabalde da capital da Rep&uacute;blica da Bruzundanga, um tanque<br \/>\n    imenso, para dar banho aos cavalos de ra&ccedil;a das suas opulentas cavalari&ccedil;as,<br \/>\n    teimou que havia de inaugur&aacute;-los soberbamente, com not&iacute;cias<br \/>\n    nos jornais, b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os religiosas e um discurso feito pelo<br \/>\n    maior literato de Bruzundanga, ou tido como tal, enfim, pelo mais famoso.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o posso garantir que o Creso tivesse pago ao celeb&eacute;rrimo<br \/>\n    poeta ou que este lhe devesse algum dinheiro; mas o certo &eacute; que, desprezando<br \/>\n    a dignidade de sua Arte e a Gl&oacute;ria, a reputa&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria<br \/>\n    mais absorvente e mais tir&acirc;nica da Bruzundanga, pescou latim, grego,<br \/>\n    a cabala judaica, o Ram&acirc;iana, os Evangelhos e inaugurou com um discurso<br \/>\n    assim pomposo, e grandiloq&uuml;ente, no estilo hugoano, o banheiro dos ginetes<br \/>\n    do multimilion&aacute;rio Har-al-Nhardo Ben Kh&eacute;nly. <\/p>\n<p>O altitudo! <\/p>\n<p>O Parafuso, S&atilde;o Paulo, 12-3-1919. <\/p>\n<p><strong>A Arte<\/strong><\/p>\n<p>O pa&iacute;s da Bruzundanga, hoje Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da<br \/>\n    Bruzundanga, antigamente imp&eacute;rio, tem-se na conta de civilizado e,<br \/>\n    para isso, entre outras cousas, possui escolas para o ensino de belas-artes.\n  <\/p>\n<p>Naturalmente dessas escolas saem compet&ecirc;ncias em pintura, escultura,<br \/>\n    gravura e arquitetura que devem ter mais ou menos talento; entretanto, ningu&eacute;m<br \/>\n    lhes d&aacute; import&acirc;ncia, seja qual for o seu m&eacute;rito. <\/p>\n<p>Se n&atilde;o conseguem lugares de professores, mesmo de desenho linear,<br \/>\n    nenhum favor p&uacute;blico ou particular recebem da sua na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do seu povo. <\/p>\n<p>Houve um at&eacute;, pintor de m&eacute;rito, que se fez fabricante de tabuletas,<br \/>\n    para poder viver; os mais, quando perdida a for&ccedil;a de entusiasmo da<br \/>\n    mocidade, se entregam a narc&oacute;ticos, especialmente a uma esp&eacute;cie<br \/>\n    da nossa cacha&ccedil;a, chamada l&aacute; sodka, para esquecer os sonhos<br \/>\n    de arte e gl&oacute;ria dos seus primeiros anos. <\/p>\n<p>D&aacute;-se o mesmo com os poetas, principalmente os pouco audazes, aos<br \/>\n    quais os jornais nem not&iacute;cia d&atilde;o dos livros. <\/p>\n<p>Conheci um dos maiores, de mais encanto, de mais vibra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de mais estranheza, que, apesar de ter publicado mais de dez volumes, morreu<br \/>\n    abandonado num sub&uacute;rbio da capital da Bruzundanga, bebendo sodka com<br \/>\n    tristes e humildes pessoas que nada entendiam de poesia; mas o amavam.<\/p>\n<p>A gente solene da Bruzundanga dizia dele o seguinte: &quot;&Eacute; um javan&ecirc;s<br \/>\n    (equivalente ao nosso &quot;mulato&quot; aqui) e n&atilde;o sabe s&acirc;nscrito.&quot;\n  <\/p>\n<p>Essa gente sublime daquele pa&iacute;s &eacute; quase sempre mais ou menos<br \/>\n    javanesa e, quase nunca, sabe s&acirc;nscrito.<\/p>\n<p>Todo est&iacute;mulo se vai e uma arte pr&oacute;pria l&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se cria por falta de correspond&ecirc;ncia entre o her&oacute;i art&iacute;stico<br \/>\n    e a sua sociedade. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; que ela n&atilde;o tenha necessidade dessa atividade<br \/>\n    do esp&iacute;rito humano, tanto assim que os jornais da Bruzundanga v&ecirc;m<br \/>\n    pejados de not&iacute;cias, enc&ocirc;mios, ditirambos &agrave;s mediocridades<br \/>\n    mais ou menos louras do que as de l&aacute;. <\/p>\n<p>Tenho aqui adiante dos olhos um jornal da Bruzundanga que trata de um poeta<br \/>\n    da Austr&aacute;lia, cujos melhores versos s&atilde;o como estes: <\/p>\n<p>Fui l&aacute; em cima ver meu Deus; <\/p>\n<p>Voltei triste, por nada encontrar. <\/p>\n<p>Mas se tiver for&ccedil;as hei de voltar <\/p>\n<p>Para v&ecirc;-lo de novo outra vez. <\/p>\n<p>A not&iacute;cia est&aacute; assinada com o nome do autor e justifica os<br \/>\n    elogios que lhe faz, com estas palavras, cuja aplica&ccedil;&atilde;o devia<br \/>\n    caber aos seus camaradas e contempor&acirc;neos, para anim&aacute;-los a fazer<br \/>\n    grandes cousas. Ei-las: <\/p>\n<p>&quot;Nada mais agrad&aacute;vel e, sobretudo, nada mais &uacute;til que<br \/>\n    aplaudir aos esp&iacute;ritos que apenas desabotoam, ainda cheios do calor<br \/>\n    dos primeiros sonhos, ainda ressoantes da vibra&ccedil;&atilde;o dos primeiros<br \/>\n    v&ocirc;os. Para eles n&atilde;o deve ser a cr&iacute;tica um instrumento<br \/>\n    frio, insens&iacute;vel, com as asperezas de uma medida certa, sen&atilde;o<br \/>\n    uma voz de est&iacute;mulo, uma alentadora voz que embale o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e penetre, carinhosamente, a intelig&ecirc;ncia que reponta. O coment&aacute;rio,<br \/>\n    sem ser exagerado, para n&atilde;o se tornar prejudicial, sem ser fr&iacute;volo,<br \/>\n    para n&atilde;o se transformar em elemento nocivo, em fonte de erros e v&iacute;cios,<br \/>\n    deve procurar os aspectos mais significativos do temperamento que surge, apontando,<br \/>\n    com amoroso intuito, as insufici&ecirc;ncias, as indecis&otilde;es da primeira<br \/>\n    hora, as d&uacute;vidas e as hesita&ccedil;&otilde;es peculiares aos que come&ccedil;am.<br \/>\n    Geralmente, por&eacute;m, n&atilde;o costumam os cr&iacute;ticos profissionais<br \/>\n    usar de tais cautelas antes preferem exercer o seu mister, com rudeza e impassibilidade,<br \/>\n    confundindo autores novos, sem responsabilidades liter&aacute;rias ainda firmadas,<br \/>\n    para os quais o maior rigor &eacute; brandura.&quot; <\/p>\n<p>&Eacute; engra&ccedil;ado que seja s&oacute; maior rigor a brandura quando<br \/>\n    se trata de poetas da Austr&aacute;lia; mas quando se trata de vates da Bruzundanga<br \/>\n    a maior brandura &eacute; o rigor. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; s&oacute; assim em poesia. Nas artes pl&aacute;sticas,<br \/>\n    na m&uacute;sica, tudo &eacute; assim. <\/p>\n<p>Chega &agrave; capital da Bruzundanga um pintor que se diz pintor e espanhol,<br \/>\n    a quem ningu&eacute;m nunca viu ou conheceu, e logo os cr&iacute;ticos dos<br \/>\n    jornais, viajados e lidos, finos e limpos de colarinhos, logo dizem: &quot;Este<br \/>\n    Dom Tuas y Trias &eacute; Vel&aacute;zquez, &eacute; Zurbar&aacute;n, &eacute;<br \/>\n    o Greco, &eacute; Goya, etc., etc.&quot; <\/p>\n<p>Os quadros que ele traz, talvez, n&atilde;o sejam dele; s&atilde;o de uma<br \/>\n    banalidade de concep&ccedil;&atilde;o e de uma infantilidade de execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lament&aacute;veis; mas os tais homens lidos, viajados, que desprezam os javaneses<br \/>\n    (os mulatos de l&aacute;), afirmam que o homem &eacute; extraordin&aacute;rio.\n  <\/p>\n<p>Dito isto, logo todos os bobos ricos, enriquecidos com o tr&aacute;fico do<br \/>\n    &oacute;pio e outras coisas mal&eacute;ficas, a fim de imitarem os pr&iacute;ncipes<br \/>\n    da Renascen&ccedil;a &mdash; j&aacute; se viu! &mdash; correm &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e compram os quadros a pre&ccedil;o de ouro, enquanto os pobres-diabos naturais<br \/>\n    ou vivendo na Bruzundanga, que s&atilde;o conscienciosos do seu mister, morrem<br \/>\n    em of&iacute;cios humildes ou de sodka.<\/p>\n<p>&Eacute; assim o gosto da gente superior da Bruzundanga, gente feita de doutores<br \/>\n    e aventureiros, ambas dadas &agrave; chatinagem e &agrave; veniaga, desde<br \/>\n    os primeiros ca&ccedil;ando casamentos ricos e os segundos na cava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    comercial e industrial, sem ter tido tempo para se deter nessas cousas de<br \/>\n    pensamento e arte. <\/p>\n<p>Quando ficam ricos, est&atilde;o completamente embotados, para n&atilde;o<br \/>\n    dizer mais&#8230; <\/p>\n<p>Houve um pintor viri&aacute;tico que veio com uns quadros dram&aacute;ticos,<br \/>\n    cenogr&aacute;ficos para a Bruzundanga, precedido de uma fama de todos os<br \/>\n    diabos, a ponto de um guarda-livros, Filinto, n&atilde;o hesitar em dizer<br \/>\n    que era Leonardo Da Vinci. <\/p>\n<p>Quando publicar estas notas em volume, que est&aacute; a aparecer em edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jacinto Ribeiro dos Santos, meu bom amigo e camarada, hei de juntar uma<br \/>\n    reprodu&ccedil;&atilde;o do retrato eq&uuml;estre de um rei dele, o pintor,<br \/>\n    que &eacute; o modelo mais perfeito do maneirismo, do apelo aos uniformes,<br \/>\n    aos chamalotes, &agrave;s plumas que conhe&ccedil;o, em pintura.<\/p>\n<p>Estas notas foram escritas ao correr da pena; mas, entretanto, poderei desenvolv&ecirc;-las<br \/>\n    se os interessados me provocarem. Escrevo em dia oportuno. <\/p>\n<p>ABC, Rio, 7-9-1919. <\/p>\n<p><strong>Lei de Promo&ccedil;&otilde;es<\/strong><\/p>\n<p>(Cr&ocirc;nica Militar)<\/p>\n<p>O que tem at&eacute; agora regulado as promo&ccedil;&otilde;es, quer no ex&eacute;rcito<br \/>\n    e armada, quer na pol&iacute;cia e guarda nacional, &eacute; o arb&iacute;trio,<br \/>\n    o capricho e a ignor&acirc;ncia cega dos elementos da genes&iacute;aca cartesiana,<br \/>\n    que os metaf&iacute;sicos definem erroneamente como aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da &aacute;lgebra &agrave; geometria. <\/p>\n<p>No semi-s&eacute;culo genial e fecundo que medeou entre Descartes e Leibnitz,<br \/>\n    muita conquista &uacute;til foi obtida, no terreno da an&aacute;lise transcendente,<br \/>\n    mesmo antes da sua completa sistematiza&ccedil;&atilde;o pelo g&ecirc;nio<br \/>\n    do &uacute;ltimo daqueles fil&oacute;sofos.<\/p>\n<p>Fermat, Cavallieri, Roberval e outros muitos concorreram para o estabelecimento<br \/>\n    definitivo do instrumento leibnitziano &mdash; uma imortal conquista cient&iacute;fica,<br \/>\n    para obten&ccedil;&atilde;o da qual o esp&iacute;rito humano estava assaz<br \/>\n    maduro, tanto assim que Newton, pela mesma &eacute;poca, apresentou o seu<br \/>\n    c&aacute;lculo das flux&otilde;es. <\/p>\n<p>Todo esse lento e paciente trabalho que absorveu o esp&iacute;rito de tantos<br \/>\n    grandes homens da Humanidade, obriga-nos a dispensar um culto acendrado &agrave;<br \/>\n    mem&oacute;ria deles, por isso lhes cito aqui os nomes, ao lembrar as suas<br \/>\n    descobertas que muito lucraram com o rigor e a justi&ccedil;a das promo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nos batalh&otilde;es dos col&eacute;gios equiparados e linhas de tiro. <\/p>\n<p>Nestas unidades, o acesso ao posto imediato &eacute; determinado por um processo<br \/>\n    rigorosamente cient&iacute;fico, de um rigor verdadeiramente astron&ocirc;mico.\n  <\/p>\n<p>&Eacute; preciso estend&ecirc;-lo ao resto das for&ccedil;as armadas. <\/p>\n<p>Suponhamos um sargento que quer ser alferes. Pega-se o candidato e faz-se<br \/>\n    engolir a seguinte beberagem:<\/p>\n<p>&Aacute;cido az&oacute;tico &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;5 g<\/p>\n<p>Oxalato de pot&aacute;ssio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;7 g <\/p>\n<p>Magn&eacute;sia calcinada &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;3 g <\/p>\n<p>Bicloreto de merc&uacute;rio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;2 g<\/p>\n<p>&Aacute;gua destilada &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. 100 g<\/p>\n<p>Deve-se dar ao paciente tudo isto de uma s&oacute; vez. Se o sujeito n&atilde;o<br \/>\n    bater a bota, examinam-se as fezes com o papel tournesol, que, no caso de<br \/>\n    avermelhar-se, indica que o tipo pode ser alferes. No contr&aacute;rio, n&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Isto n&atilde;o tem nada que ver com Leibnitz, nem com o seu c&aacute;lculo<br \/>\n    infinitesimal; mas n&atilde;o me ficava bem deixar de citar o imortal fil&oacute;sofo<br \/>\n    e a sua magna obra, podendo, se assim n&atilde;o procedesse, ser confundido<br \/>\n    com um qualquer legislador metaf&iacute;sico e anarquizado, por a&iacute;,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; senhor do saber integral da humanidade. <\/p>\n<p>A dosagem que indiquei, deve variar quando se tratar de pol&iacute;cias,<br \/>\n    guardas nacionais e oficiais de fazenda. Para os primeiros carregar no &aacute;cido<br \/>\n    az&oacute;tico, para os segundos e terceiros, dobrar a dose de bicloreto de<br \/>\n    merc&uacute;rio. <\/p>\n<p>Com o emprego deste m&eacute;todo que &eacute; rigorosamente cient&iacute;fico,<br \/>\n    o governo pode ter, em breve, um corpo de oficiais perfeitamente selecionados<br \/>\n    pela Morte e um povoamento r&aacute;pido e instant&acirc;neo dos cemit&eacute;rios<br \/>\n    &mdash; o que, afinal, &eacute; o fim natural de todas as guerras a que os<br \/>\n    oficiais, sejam desta ou daquela corpora&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o obrigados<br \/>\n    a servir com todos os riscos e vantagens. <\/p>\n<p>H&aacute;, por&eacute;m, o m&eacute;todo emp&iacute;rico que &eacute; mais<br \/>\n    humano e compat&iacute;vel com o grau de adiantamento a que chegou a nossa<br \/>\n    humanidade atualmente. N&atilde;o h&aacute; morte, nem sangue, nem bravura,<br \/>\n    nem salvas. <\/p>\n<p>Este m&eacute;todo &eacute; muito usado na guarda nacional e poucas outras<br \/>\n    entidades (vocabul&aacute;rio do football) militares. Vamos ver em que consiste.\n  <\/p>\n<p>Um tal m&eacute;todo tem por princ&iacute;pio b&aacute;sico s&oacute; admitir<br \/>\n    &agrave; promo&ccedil;&atilde;o, oficiais que nunca tenham visto soldados,<br \/>\n    fortalezas, quart&eacute;is, etc. <\/p>\n<p>Por esse processo, est&atilde;o fatalmente eliminados todos os oficiais que<br \/>\n    hajam servido em guarni&ccedil;&otilde;es long&iacute;nquas. <\/p>\n<p>O mais relevante conhecimento exigido, para as promo&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    acordo com esse processo emp&iacute;rico, &eacute; o de uma perfeita sabedoria<br \/>\n    nas marcas de papel de of&iacute;cios, de grampos, colchetes e alfinetes,<br \/>\n    para pap&eacute;is. Contam-se como ultramerit&oacute;rios os servi&ccedil;os<br \/>\n    pac&iacute;ficos em linhas telegr&aacute;ficas, em leitura de pluvi&ocirc;metros,<br \/>\n    em conversas com bugres fil&oacute;sofos e em constru&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    estradas de ferro que n&atilde;o acabam mais.<\/p>\n<p>Em caso de merecimento igual, entre os candidatas, promovido ser&aacute;<br \/>\n    o que tiver melhor &quot;pistol&atilde;o&quot;. <\/p>\n<p>Para isso, o oficial precavido n&atilde;o se deve afastar da capital do pa&iacute;s;<br \/>\n    e, nela, sempre cultivar a amizade de poderosos pol&iacute;ticos e pessoas<br \/>\n    de seu amor e amizade; e &eacute;, por isso, que os oficiais que servem em<br \/>\n    guarni&ccedil;&otilde;es long&iacute;nquas, fronteiras, etc., n&atilde;o podem<br \/>\n    entrar na lista das promo&ccedil;&otilde;es, determina&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    se subentende nesse sistema emp&iacute;rico que a sabedoria dos tempos consagrou<br \/>\n    com alguns retoques. <\/p>\n<p>N&atilde;o falei nas promo&ccedil;&otilde;es nos bombeiros. Emendo a m&atilde;o.<br \/>\n    Nos bombeiros &mdash; corpora&ccedil;&atilde;o reduzida &mdash; as promo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    devem ser feitas em fam&iacute;lia. &Eacute; o melhor. <\/p>\n<p>O que acabo de dizer, s&atilde;o como o croquis das minhas id&eacute;ias<br \/>\n    sobre promo&ccedil;&otilde;es nas classes armadas, sendo que algumas n&atilde;o<br \/>\n    me pertencem propriamente, antes a todos os militares, suas mulheres, filhas<br \/>\n    e noivas. Eis a&iacute;.<\/p>\n<p>Capit&atilde;o Ortiz y Valdueza (Do Ex&eacute;rcito da Bruzundanga). <\/p>\n<p>Reconhe&ccedil;o a rubrica supra e a letra do Capit&atilde;o Ortiz y Valdueza,<br \/>\n    do Corpo de Submarinos do Ex&eacute;rcito da Rep&uacute;blica dos Estados<br \/>\n    Unidos da Bruzundanga. <\/p>\n<p>(Tenho o sinal p&uacute;blico e, &agrave; margem, &quot;gr&aacute;tis&quot;),<br \/>\n    &mdash; O COPISTA. <\/p>\n<p>Careta, Rio, 29-1-21.<\/p>\n<p><strong>Rejuvenescimento<\/strong><\/p>\n<p>(Cr&ocirc;nica Militar)<\/p>\n<p>&quot;Todas as medidas esperadas para resolver o problema do rejuvenescimento<br \/>\n    dos quadros do Ex&eacute;rcito, das discutidas no Congresso, n&atilde;o conseguiram<br \/>\n    sair do campo das discuss&otilde;es. <\/p>\n<p>Rejuvenescer os quadros n&atilde;o significa somente melhorar o futuro dos<br \/>\n    oficiais; &eacute; concorrer para que n&atilde;o reine o des&acirc;nimo, para<br \/>\n    que seja mantido o ardor profissional. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel esperar dum oficial que moireja de seis<br \/>\n    a oito anos em cada posto, que ele tenha sempre o mesmo entusiasmo, que a<br \/>\n    pr&oacute;pria idade consegue arrefecer. <\/p>\n<p>E com a idade vem naturalmente a diminui&ccedil;&atilde;o do vigor f&iacute;sico<br \/>\n    exigido para o desempenho do &aacute;rduo trabalho de oficial de tropa.&quot;\n  <\/p>\n<p>&Eacute; assim que se exprime sabiamente um jornal desta cidade. Estamos<br \/>\n    de pleno acordo com as opini&otilde;es do nosso colega di&aacute;rio; mas<br \/>\n    julgamos, no nosso humilde parecer, que ele s&oacute; encara uma face do problema.<br \/>\n    &Eacute; nossa opini&atilde;o que essa quest&atilde;o de rejuvenescimento,<br \/>\n    &eacute; uma quest&atilde;o geral e interessa, n&atilde;o s&oacute; aos militares,<br \/>\n    como tamb&eacute;m a outras classes da sociedade.<\/p>\n<p>Que ardor profissional pode ter um carpinteiro que tem cinq&uuml;enta anos<br \/>\n    de idade e trabalha no of&iacute;cio desde os dezesseis? <\/p>\n<p>A sua obra h&aacute; de se ressentir da fadiga dos seus m&uacute;sculos cansados<br \/>\n    e do desinteresse que traz a monotonia de fazer durante anos a mesma tarefa.<br \/>\n    A sociedade perde muito com isso, pois os seus trabalhos n&atilde;o ter&atilde;o<br \/>\n    a perfei&ccedil;&atilde;o que havia nos que executava com trinta anos de vida.<\/p>\n<p>Seria in&uacute;til repetir exemplos como este, pois eles est&atilde;o a&iacute;<br \/>\n    aos pontap&eacute;s, para mostrar o quanto &eacute; indispens&aacute;vel decretar<br \/>\n    medidas que rejuvenes&ccedil;am os quadros de todas as profiss&otilde;es.\n  <\/p>\n<p>Para as fun&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, inclusive as militares, j&aacute;<br \/>\n    o c&eacute;lebre fil&oacute;sofo pol&iacute;tico-militar dinamarqu&ecirc;s,<br \/>\n    Hans Reykavyk prop&ocirc;s dois m&eacute;todos para obter o remo&ccedil;amento<br \/>\n    dos quadros:<\/p>\n<p>Um, aparente meramente, e de origem feminina; o segundo substancial e rigorosamente<br \/>\n    cient&iacute;fico. <\/p>\n<p>O primeiro m&eacute;todo se baseia nas pinturas, pomadas e massagens. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; negar que o seu emprego, quando executado por operador h&aacute;bil,<br \/>\n    d&aacute; ao indiv&iacute;duo que a ele se sujeita a apar&ecirc;ncia de mocidade;<br \/>\n    mas &eacute; s&oacute; apar&ecirc;ncia e n&atilde;o restitui a quantidade<br \/>\n    de for&ccedil;a vital que o indiv&iacute;duo perdeu com o correr dos anos.\n  <\/p>\n<p>De resto, ele ia levar para a caserna h&aacute;bitos de camarim de atriz.\n  <\/p>\n<p>A guerra em si mesma nada tem de teatral; s&oacute; acham essa cousa nela<br \/>\n    os pintores de batalhas que recebem encomendas dos governos, e os literatos<br \/>\n    da moda. <\/p>\n<p>A guerra em si &eacute; uma cousa brutal e horrendamente ign&oacute;bil;<br \/>\n    a &uacute;nica considera&ccedil;&atilde;o que rege a batalha, se h&aacute;<br \/>\n    uma, est&aacute; na cabe&ccedil;a de quem a dirige, e isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mat&eacute;ria para tela, nem para p&aacute;ginas liter&aacute;rias, mas notas<br \/>\n    e riscos numa carta topogr&aacute;fica, em escala conveniente com conven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    adequadas. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disto, introduzindo h&aacute;bitos teatrais no viver guerreiro,<br \/>\n    iria isso perturbar a a&ccedil;&atilde;o dos combatentes, diminuir-lhes a<br \/>\n    efici&ecirc;ncia com a suposi&ccedil;&atilde;o de que deviam tomar belas atitudes,<br \/>\n    para obter o aplauso da galeria, distraindo-lhes do verdadeiro objetivo de<br \/>\n    sua a&ccedil;&atilde;o que &eacute; dar cabo do inimigo, por fas ou nefas.\n  <\/p>\n<p>Esse sistema de academia de beleza n&atilde;o pode ser adotado, sendo essa<br \/>\n    tamb&eacute;m a conclus&atilde;o a que chega, depois de exaustiva an&aacute;lise,<br \/>\n    o grande fil&oacute;sofo dinamarqu&ecirc;s que nos guia nestas despretensiosas<br \/>\n    notas. <\/p>\n<p>Resta o m&eacute;todo cient&iacute;fico que se estriba na psicologia experimental<br \/>\n    e &eacute; corrigido pela sociologia transcendente. <\/p>\n<p>N&atilde;o posso transcrever aqui todas as considera&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    precedem a exposi&ccedil;&atilde;o que o Senhor Hans Reykavyk faz desse m&eacute;todo.<\/p>\n<p>Bastar&aacute; dizer-lhes que, depois de expor fatos concretos em abund&acirc;ncia,<br \/>\n    ele estabelece o postulado de que o general deve ser mo&ccedil;o; de menos<br \/>\n    de trinta anos, pois &eacute; nessa idade que os homens t&ecirc;m o m&aacute;ximo<br \/>\n    de iniciativa.<\/p>\n<p>Sa&iacute;do das escolas militares o oficial ser&aacute; logo general, ganhando<br \/>\n    como tenente, depois ir&aacute; descendo de gradua&ccedil;&atilde;o, de forma<br \/>\n    a chegar aos sessenta como tenente, ganhando como general. <\/p>\n<p>Eis em linhas gerais o plano de rejuvenescimento dos quadros de oficiais<br \/>\n    militares, a que chega o ilustre Reykavyk, ap&oacute;s uma an&aacute;lise<br \/>\n    detalhada das conclus&otilde;es da psicologia experimental, convenientemente<br \/>\n    corrigidas pela sociologia transcendente. <\/p>\n<p>Al&eacute;m de outras vantagens, tem este m&eacute;todo a de fazer que os<br \/>\n    tenentes deixem, por morte, para as vi&uacute;vas, filhos, filhas, genros<br \/>\n    e netos um montepio que por&aacute; estes a coberto de todas as necessidades<br \/>\n    &mdash; montepio de general. <\/p>\n<p>Pelo seu car&aacute;ter geral e abstrato, com as necess&aacute;rias modifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ele pode aplicar-se, n&atilde;o s&oacute; a todas as corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    militares, como tamb&eacute;m a quaisquer outras civis, estipendiadas pelo<br \/>\n    governo. <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; preciso mais dizer, a fim de p&ocirc;r em evid&ecirc;ncia<br \/>\n    o grande alcance do sistema do pensador dinamarqu&ecirc;s e chamar para ele<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o do legislativo brasileiro.<\/p>\n<p>Creio que, fazendo isso, cumpro um dos deveres da miss&atilde;o militar de<br \/>\n    que me acho incumbido no Brasil. <\/p>\n<p>Capit&atilde;o Ortiz y Valdueza, do corpo de Submarinos dos Estados Unidos<br \/>\n    da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Pela tradu&ccedil;&atilde;o do &quot;bengali&quot;.&mdash;Lima Barreto &mdash;<br \/>\n    (Tradutor p&uacute;blico ad-hoc).<\/p>\n<p>Careta, Rio, 19-3-1921. <\/p>\n<p><strong>No Sal&atilde;o da Marquesa<\/strong><\/p>\n<p>Na Rep&uacute;blica da Bruzundanga, nunca houve grande gosto pelas coisas<br \/>\n    de esp&iacute;rito. A atividade espiritual daquelas terras se limita a uns<br \/>\n    doutorados de sabedoria equ&iacute;voca; entretanto, alguns esp&iacute;ritos<br \/>\n    daquele Fonkim se esfor&ccedil;avam por dar um verniz espiritual &agrave;<br \/>\n    sociedade da terra. Escreviam livros e folhetos, revistas e revistecas, de<br \/>\n    modo que, artificialmente, o pa&iacute;s tinha uma certa atividade espiritual.\n  <\/p>\n<p>Notavam todos a falta de salas liter&aacute;rias, de sal&otilde;es espirituais,<br \/>\n    tais aqueles que tanto brilho deram ao s&eacute;culo XVIII franc&ecirc;s,<br \/>\n    revelando n&atilde;o s&oacute; grandes escritores e fil&oacute;sofos, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m esp&iacute;ritos femininos que, pela sua gra&ccedil;a, pelo<br \/>\n    seu talento de penetra&ccedil;&atilde;o, muito distinguiram o sexo am&aacute;vel,<br \/>\n    antes desse feminismo truculento e burocr&aacute;tico que anda por a&iacute;.\n  <\/p>\n<p>Consciente desta falta, a Marquesa de Bor&oacute;s, uma senhora de alta estirpe<br \/>\n    e n&atilde;o menos alta intelig&ecirc;ncia, tomou o alvitre de fundar um sal&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;rio. <\/p>\n<p>Ela residia em um grande pal&aacute;cio que se dependurava sobre a cidade<br \/>\n    capital, do alto de uma verdejante colina; e nele, em certas e determinadas<br \/>\n    tardes reunia os intelectuais do pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Em come&ccedil;o, recebeu alguns de valia; mas, bem depressa, os fariseus<br \/>\n    e simuladores de talento tomaram conta da sala. <\/p>\n<p>A sua delicadeza e a sua bondade se vira obrigada a receber toda essa chusma<br \/>\n    de mediocridades que, sem ter talento nem voca&ccedil;&atilde;o, se julgam<br \/>\n    literatos e artistas, como se se tratasse de condecora&ccedil;&otilde;es e<br \/>\n    t&iacute;tulos fornecidos pelo presidente da Rep&uacute;blica do Cunany. <\/p>\n<p>A esse pessoal, acompanhou o equivalente feminino; e era de ver como Cathos<br \/>\n    fazia pendant ao farmac&ecirc;utico Homais; Madelon ao gram&aacute;tico Vaugelas;<br \/>\n    e Filaminta ao artista P&egrave;lerin. <\/p>\n<p>Uma sociedade, ou antes: este sal&atilde;o come&ccedil;ou a dominar a atividade<br \/>\n    espiritual do pa&iacute;s; e n&atilde;o havia recompensa do esfor&ccedil;o<br \/>\n    intelectual em que ele n&atilde;o se metesse e at&eacute; pusesse o seu veto.\n  <\/p>\n<p>O parecer dele era sempre sobremodo n&eacute;scio e tolo. <\/p>\n<p>Para uns, ele opinava: <\/p>\n<p>&mdash; O Jagodes receber pr&ecirc;mio &mdash; qual! Um filho natural! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel! <\/p>\n<p>Para outros, ele sentenciava: <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o julgo o Fagundes digno de figurar no Gr&ecirc;mio Liter&aacute;rio<br \/>\n    Nacional&#8230; Ele n&atilde;o bebe champagne! <\/p>\n<p>A prop&oacute;sito destoutro, ele dogmatizava: <\/p>\n<p>&mdash; O Bustamante n&atilde;o pode receber a medalha. &Eacute; verdade<br \/>\n    que ele tem merecimento; mas veste-se muito mal&#8230; <\/p>\n<p>Essa opini&atilde;o acabava de ser pronunciada pelo ilustre literato Manuel<br \/>\n    das Regras, cuja obra por ser desconhecida era de alto valor, quando, num<br \/>\n    canto da sala, foi visto um sujeito malvestido, relaxado, sujo mesmo, com<br \/>\n    um todo de homem de outros tempos.<\/p>\n<p>Todos se entreolharam com certo medo, apesar do estranho n&atilde;o ter nenhum<br \/>\n    ar de exist&ecirc;ncia sobrenatural.<\/p>\n<p>Um mais animoso resolveu-se a falar ao intruso: <\/p>\n<p>&mdash; Quem &eacute; o senhor?! <\/p>\n<p>&mdash; Eu! Eu sou Francisco II, rei da Pr&uacute;ssia. <\/p>\n<p>E toda aquela miudeza de gente escafedeu-se por todas as portas e janelas<br \/>\n    da sala. <\/p>\n<p>Careta, Rio, 5-11-21. <\/p>\n<p><strong>Outras Not&iacute;cias<\/strong><\/p>\n<p>Da minha viagem &agrave; Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga,<br \/>\n    tenho publicado, no A.B.C., algumas notas com as quais organizei um volume<br \/>\n    que deve sair dentro em breve das m&atilde;os do editor Jacinto Ribeiro dos<br \/>\n    Santos. <\/p>\n<p>Estou fora da Bruzundanga h&aacute; alguns anos; mas, de quando em quando,<br \/>\n    recebo cartas de amigos que l&aacute; deixei, dando-me not&iacute;cias de<br \/>\n    t&atilde;o interessante terra.<\/p>\n<p>De algumas vale a pena dar conhecimento ao p&uacute;blico que se interessa<br \/>\n    pela vida desses povos ex&oacute;ticos e paradoxais.<\/p>\n<p>Diz-me um amigo, em carta de meses atr&aacute;s, que a Bruzundanga declarou<br \/>\n    guerra ao imp&eacute;rio dos Ogres; mas n&atilde;o mandou tropas para combat&ecirc;-los<br \/>\n    ao lado dos outros pa&iacute;ses que j&aacute; o faziam. Tratou unicamente<br \/>\n    de vender uma grande partida de t&acirc;maras dos seus virtuais aliados, com<br \/>\n    o que o intermedi&aacute;rio ganhou uma fabulosa comiss&atilde;o. <\/p>\n<p>Outra carta que de l&aacute; recebi, mais tarde, conta-me que os governantes<br \/>\n    da Bruzundanga resolveram afinal mandar uma esquadra para auxiliar os pa&iacute;ses<br \/>\n    amigos que combatiam os Ogres. <\/p>\n<p>Logo toda a Bruzundanga se entusiasmou e batizou a sua divis&atilde;o naval<br \/>\n    de &quot;Invenc&iacute;vel Armada&quot;.<\/p>\n<p>Como l&aacute; n&atilde;o houvesse um Duque de Medina Sidonia, como na Espanha<br \/>\n    de Felipe II, foi escolhido um simples almirante para comand&aacute;-la.<\/p>\n<p>A esquadra levou longos meses a preparar-se e com ela, mas em paquete, partiu<br \/>\n    tamb&eacute;m uma miss&atilde;o m&eacute;dica, para tratar dos feridos da<br \/>\n    guerra contra os Ogres. <\/p>\n<p>Tanto a esquadra como a miss&atilde;o chegaram a um porto intermedi&aacute;rio,<br \/>\n    onde, em ambas, se declarou uma peste pouco conhecida. Chamado o chefe da<br \/>\n    comiss&atilde;o m&eacute;dica, este respondeu: <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o entendo disto&#8230; N&atilde;o &eacute; comigo&#8230; Sou parteiro.\n  <\/p>\n<p>Um outro doutor da miss&atilde;o dizia: <\/p>\n<p>&mdash; Sou psiquiatra. <\/p>\n<p>E n&atilde;o saiu da&iacute;. <\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o sei &mdash; acudiu um terceiro, ao se lhe pedir os seus<br \/>\n    servi&ccedil;os profissionais &mdash; n&atilde;o curo defluxos. Sou ortopedista.\n  <\/p>\n<p>N&atilde;o houve meio de vencer-lhes a vaidade de suas especialidades, de<br \/>\n    an&uacute;ncio de jornal. <\/p>\n<p>Assim, sem socorros m&eacute;dicos, a &quot;Invenc&iacute;vel Armada&quot;<br \/>\n    demorou-se longo tempo no tal porto, de modo que chegou aos mares da batalha,<br \/>\n    quando a guerra tinha acabado.<\/p>\n<p>Melhor assim&#8230; <\/p>\n<p>N&atilde;o foram s&oacute; estas duas cartas que me trouxeram novas excelentes<br \/>\n    da Bruzundanga. <\/p>\n<p>Muitas outras me chegaram &agrave;s m&atilde;os; a mais curiosa, por&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; a que me narra a nomea&ccedil;&atilde;o de um papagaio para um cargo<br \/>\n    p&uacute;blico, feita pelo poder executivo, sem que houvesse lei regular que<br \/>\n    a permitisse. <\/p>\n<p>Um ministro de l&aacute; muito jeitoso, que andava fabricando em vida, ele<br \/>\n    mesmo, as pe&ccedil;as de sua est&aacute;tua, julgou que fazendo uma tal nomea&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    tinha j&aacute; em bronze o baixo-relevo do monumento futuro &agrave; sua<br \/>\n    gl&oacute;ria. <\/p>\n<p>Consultou um dos seus empregados que estudava leis e a interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delas em Bug&acirc;ncio, sabia a casu&iacute;stica jesu&iacute;tica, al&eacute;m<br \/>\n    de conhecer as sutilezas da Escol&aacute;stica, a ponto de ser capaz de provar<br \/>\n    com a mesma solidez a tese e a ant&iacute;tese, desde que os interessados<br \/>\n    em uma e na outra o retribu&iacute;ssem bem. <\/p>\n<p>Dizia a lei fundamental da Bruzundanga: <\/p>\n<p>&quot;Todos os cargos p&uacute;blicos s&atilde;o acess&iacute;veis aos bruzundanguenses,<br \/>\n    mediante as provas de capacidade que a lei exigir&quot;. <\/p>\n<p>O exegeta ministerial, depois de verificar que o papagaio tinha nascido na<br \/>\n    Bruzundanga, e era, portanto, bruzundanguense, concluiu, muito logicamente,<br \/>\n    que ele podia e lhe assistia todo o direito de ser provido em um cargo p&uacute;blico<br \/>\n    de seu pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Argumentou mais com Augusto Comte que incorporava &agrave; Humanidade certos<br \/>\n    animais; com o &quot;artemismo&quot;, cren&ccedil;a de determinados povos<br \/>\n    primitivos que se julgam descendentes ou parentes de tal ou qual animal, para<br \/>\n    mostrar que o anelo &iacute;ntimo dos homens &eacute; elevar esses seus semelhantes<br \/>\n    e companheiros de sofrimentos na terra. Emancip&aacute;-los. <\/p>\n<p>A Arte, dizia ele, foi sempre por eles. Citava as esculturas ass&iacute;rias,<br \/>\n    eg&iacute;pcias, gregas, g&oacute;ticas que, embora idealizados ou estilizados,<br \/>\n    denunciavam um culto pelos animais que, injustamente, chamamos inferiores.<\/p>\n<p>Na arte escrita, para demonstrar o que o s&aacute;bio consultor vinha asseverando,<br \/>\n    lembrava La Fontaine, com as suas f&aacute;bulas, e modernamente, Jules Renard,<br \/>\n    com as suas interessantes Histoires Naturelles.<\/p>\n<p>Nas modernas artes pl&aacute;sticas, nem se falava, continuava ele. A representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica de animais, por meio delas, j&aacute; constitu&iacute;a uma<br \/>\n    especialidade.<\/p>\n<p>Foi por a&iacute;&#8230; <\/p>\n<p>E, de resto, dizia ele quase no fim, quem n&atilde;o se lembra do papagaio<br \/>\n    de Robinson Crusoe? <\/p>\n<p>Devemos, portanto, exal&ccedil;ar o papagaio, que &eacute; um animal que<br \/>\n    fala, rematou afinal.<\/p>\n<p>O ministro gostou muito do parecer; julgou dispens&aacute;vel pedir uma lei<br \/>\n    ao corpo legislativo que, na Bruzundanga, &eacute; composto de duas c&acirc;maras:<br \/>\n    a dos vulgares e a dos doutores; n&atilde;o julgou tamb&eacute;m necess&aacute;rio<br \/>\n    avisar os outros papagaios da sua resolu&ccedil;&atilde;o, para que concorressem<br \/>\n    e nomeou o do seu amigo Fagundes&#8230; <\/p>\n<p>E foi assim, segundo me conta a missiva que recebi, que um &quot;louro&quot;<br \/>\n    bem falante foi nomeado arauto d&rsquo;armas da Secretaria de Estado de Mesuras<br \/>\n    e Salamaleques da Rep&uacute;blica dos Estados Unidos da Bruzundanga.<\/p>\n<p>A.B.C., Rio, 23-11-18. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Pref\u00e1cio I &#8211; Um Grande Financeiro II &#8211; A Nobreza de Bruzundanga III &#8211; A Outra Nobreza da Bruzundanga IV &#8211; A Pol\u00edtica \u00e8 os Pol\u00edticos da Bruzundanga V &#8211; As Riquezas da Bruzundanga VI &#8211; O Ensino na Bruzundanga VII &#8211; A Diplomacia da Bruzundanga [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108627","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - 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