{"id":108625,"date":"2017-02-13T18:01:06","date_gmt":"2017-02-13T20:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108625"},"modified":"2017-02-13T18:01:06","modified_gmt":"2017-02-13T20:01:06","slug":"aventuras-do-dr-bogoloff","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/aventuras-do-dr-bogoloff","title":{"rendered":"Aventuras do Dr. Bogoloff"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"450\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Lima Barreto<\/h2>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I &#8211; Fiz-me, ent&atilde;o, diretor da Pecu&aacute;ria Nacional<\/a><\/h4>\n<p>Sai de Odessa com as mais honestas e puras inten&ccedil;&otilde;es de trabalho.<br \/>\n    N&atilde;o era eu natural dessa cidade, mas desde muito ali vivia uma vida<br \/>\n    med&iacute;ocre de professor quase sem alunos, vendo alguns rublos com intervalos<br \/>\n    de longos meses. Nasci em Kazan, onde meu pai tinha uma pequena loja de livros<br \/>\n    usados, mantendo-se bem mal com os parcos lucros que ela lhe dava.<\/p>\n<p>Aquele contato com os livros desde o meu nascimento, deu-me &quot;fuma&ccedil;as&quot;<br \/>\n    e a inaptid&atilde;o do intelectual de origem obscura para o esfor&ccedil;o<br \/>\n    seguido, quando se choca com o meio naturalmente hostil. N&atilde;o foi assim<br \/>\n    logo; antes, fiz o meu curso na Faculdade de L&iacute;nguas Orientais da Universidade<br \/>\n    da cidade em que nasci, com certo vigor e muito entusiasmo. Aquela s&oacute;rdida<br \/>\n    loja de meu pai, por&eacute;m, foi para mim uma redoma de encantos, que me<br \/>\n    tirou toda a vis&atilde;o n&iacute;tida da vida, vis&atilde;o da sua injusti&ccedil;a<br \/>\n    natural, da sua baixeza imprescind&iacute;vel, do horror da sociedade e da<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p>Anos passei dentro dos meus &quot;indecentes sonhos&quot; de quimeras e justi&ccedil;a<br \/>\n    e fraternidade, e eles se fizeram tanto mais fortes quanto eu lia a mais n&atilde;o<br \/>\n    poder, com a f&uacute;ria de v&iacute;cio, com febre e terr&iacute;veis anseios.<br \/>\n    Inutilizei-me.<\/p>\n<p>Acabado o curso, eu n&atilde;o sabia fazer nada e levei alguns anos encostado<br \/>\n    a meu pais que continuava a ter uma admira&ccedil;&atilde;o amorosa pelo filho<br \/>\n    inepto e inapto.<\/p>\n<p>Toda manh&atilde; sonhava ir falar com fulano e com beltrano para obter um<br \/>\n    emprego em que o meu t&aacute;rtaro e o meu persa rendessem dinheiro, mas<br \/>\n    logo me vinha uma invenc&iacute;vel repugn&acirc;ncia de pedir, repugn&acirc;ncia<br \/>\n    em que havia delicadeza de incomod&aacute;-los e orgulho de fazer-lhes sentir<br \/>\n    as minhas necessidades.<\/p>\n<p>Era eu filho &uacute;nico, minha m&atilde;e havia morrido; viv&iacute;amos<br \/>\n    eu e meu pai s&oacute;s na loja. Continuei a ler, mas a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me veio de toda a ilustra&ccedil;&atilde;o era in&uacute;til para prover<br \/>\n    a nossa exist&ecirc;ncia, diminuiu-me o ardor pela leitura e levou-me a procurar<br \/>\n    no caf&eacute; distra&ccedil;&otilde;es e atordoamentos.<\/p>\n<p>Desde a Universidade que conheci muitos revolucion&aacute;rios, sinceros,<br \/>\n    falsos e simulados; e, se bem que eu conversasse com eles, nunca tomei compromisso<br \/>\n    definitivo, nunca aderi, n&atilde;o foi tanto por temor &agrave; pol&iacute;cia<br \/>\n    e &agrave;s masmorras, mas a certeza da excel&ecirc;ncia dos ideais revolucion&aacute;rios<br \/>\n    n&atilde;o me veio imediatamente.<\/p>\n<p>Procurei l&ecirc;-los, especialmente no pr&iacute;ncipe Kroporkine, que era<br \/>\n    o escritor revolucion&aacute;rio que mais me interessava. O seu rigor l&oacute;gico<br \/>\n    e a sua farta documenta&ccedil;&atilde;o davam aos seus livros alguma coisa<br \/>\n    de s&oacute;lido e eu os lia.<\/p>\n<p>Aborrecido, como dizia. dei em freq&uuml;entar os caf&eacute;s e l&aacute;<br \/>\n    travei conhecimento com v&aacute;rios rapazes j&aacute; enfronhados nas teorias<br \/>\n    anarquistas, tirando-me eles, aos poucos, as d&uacute;vidas que ainda pairavam<br \/>\n    no meu esp&iacute;rito. N&atilde;o o fizeram sem que eu resistisse muito,<br \/>\n    mas, afinal, convenceram-me.<\/p>\n<p>Em m&aacute; hora, fiz tais conhecimentos e mantive semelhantes rela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Houve, por esse tempo, um atentado contra o governador da cidade e fui com<br \/>\n    muitos outros metido na cadeia. Era completamente estranho ao caso; mas na<br \/>\n    R&uacute;ssia como em toda a parte, quando h&aacute; dessas coisas, a pol&iacute;cia<br \/>\n    prende todo o mundo, todos &quot;va-nu-pieds&quot;, todos os &quot;rotos&quot;,<br \/>\n    porque h&aacute; de encontrar, entre esses, alguns que percam a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para que a majestade do Estado seja mantida.<\/p>\n<p>Desgostou-se muito meu pai com essa minha pris&atilde;o. Ele tinha uma intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    simples e limitada. O lastro das gera&ccedil;&otilde;es se tinha depositado<br \/>\n    na sua mentalidade, de forma a encarar a autoridade do Czar como sagrada.<br \/>\n    Para ele, o autocrata era ainda o &quot;paizinho&quot; e sofreu muito em ter<br \/>\n    not&iacute;cia de que seu filho querido n&atilde;o participava dessa opini&atilde;o<br \/>\n    e fosse ao extremo de tentar contra a vida de um representante da autoridade<br \/>\n    transcendente do d&eacute;spota de S. Petersburgo.<\/p>\n<p>Verificaram com grane desgosto que eu era absolutamente inocente no caso<br \/>\n    e soltaram-me. Meu pai nada me disse, mas viveu dois anos taciturno, macamb&uacute;zio,<br \/>\n    olhando-me de quando de quando, de soslaio, com piedade e censura.<\/p>\n<p>Veio a morrer; vendi-lhe a livraria e sai de Kazan. Sa&iacute;, porque desde<br \/>\n    o tal atentado que a pol&iacute;cia n&atilde;o me deixava em paz. A R&uacute;ssia<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; governada pelo Czar, nem pelo Senado, nem, como em outros<br \/>\n    pa&iacute;ses, pelos Parlamentos, Minist&eacute;rios, favoritas ou favoritos;<br \/>\n    a R&uacute;ssia &eacute; governada pela pol&iacute;cia. O seu poder se estende<br \/>\n    sobre tudo e sobre todos, n&atilde;o perdendo ela de vista quem uma vez passou-lhe<br \/>\n    pelas m&atilde;os.<\/p>\n<p>Vim para Odessa, onde me fiz professor particular. N&atilde;o me foi f&aacute;cil<br \/>\n    e nunca fiz franca carreira na profiss&atilde;o que adotei. Logo ao chegar,<br \/>\n    nada obtive e vivi gra&ccedil;as aos remanescentes da venda da livraria de<br \/>\n    meu pai.<\/p>\n<p>Um dia em que, aborrecido da pocilga da minha moradia, sai a esmo pelas ruas<br \/>\n    de Odessa, encontrei o meu antigo colega Karatoff. Era ele filho de um rico<br \/>\n    negociante de trigo e sempre se mostrou c&eacute;tico, indiferente, gostando<br \/>\n    de p&acirc;ndegas, onde empregava o seu &oacute;cio e as fazia ser o destino<br \/>\n    de sua vida.<\/p>\n<p>Alexis Karatoff veio-me e falou-me:<\/p>\n<p>&#8212; Querido Bogoloff, que fazes por aqui?<\/p>\n<p>Disse-lhe a que vinha, contei-lhe as minhas desditas e ele tratou mesmo do<br \/>\n    caso do atentado.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me importo muito com isso, meu caro Bogoloff. Embora burgu&ecirc;s,<br \/>\n    como voc&ecirc;s me chamam, n&atilde;o tenho nenhum &oacute;dio de voc&ecirc;,<br \/>\n    nem me proponho a combater as suas id&eacute;ias. Se a coisa dependesse de<br \/>\n    mim, j&aacute; estava feita e logo que voc&ecirc;s consigam destruir a ordem<br \/>\n    existente, estou pronto em aderir &agrave; nova. A verdadeira sabedoria, meu<br \/>\n    velho, &eacute; n&atilde;o agir. N&atilde;o fa&ccedil;o nada; vivo e viverei<br \/>\n    de qualquer forma. Como voc&ecirc; anda necessitado, eu ofere&ccedil;o a minha<br \/>\n    bolsa, enquanto n&atilde;o me for poss&iacute;vel arranjar qualquer coisa<br \/>\n    para voc&ecirc;.<\/p>\n<p>N&atilde;o aceitei nesse dia o oferecimento, mas vim a precisar dos seus<br \/>\n    pr&eacute;stimos mais tarde e Alexis serviu-me generosamente.<\/p>\n<p>Um belo dia, ele me disse que um amigo de seu pai, o pr&iacute;ncipe Pakine,<br \/>\n    precisava de um professor para o seu filho e que fosse falar com o titular.<br \/>\n    O pr&iacute;ncipe recebeu-me polidamente e dirigiu-me a palavra em franc&ecirc;s.<br \/>\n    Respondi-lhe na mesma l&iacute;ngua e me pareceu que a minha pron&uacute;ncia<br \/>\n    n&atilde;o tinha o gosto aristocr&aacute;tico do pr&iacute;ncipe. Ele me disse<br \/>\n    ent&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Bem, o senhor me parece um rapaz preparado e digno de ser professor<br \/>\n    de meu filho; mas n&atilde;o posso lhe dar resposta j&aacute;, porquanto tenho<br \/>\n    que tomar outras informa&ccedil;&otilde;es a seu respeito. Depois de amanh&atilde;,<br \/>\n    procure-me que lhe darei resposta.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixei de procurar o pr&iacute;ncipe no dia marcado e n&atilde;o<br \/>\n    fui recebido polidamente como da outra vez. O homem tinha o sobrecenho carregado<br \/>\n    e me disse abruptamente:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o o posso admitir. O senhor j&aacute; esteve metido num<br \/>\n    &quot;complot&quot; revolucion&aacute;rio e n&atilde;o quero que meu filho<br \/>\n    tenha outras id&eacute;ias que n&atilde;o aquelas que naturalmente o seu nascimento<br \/>\n    lhe imp&otilde;e.<\/p>\n<p>Expliquei-lhe da melhor forma poss&iacute;vel, apelei para a minha inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas o pr&iacute;ncipe em nada me quis atender.<\/p>\n<p>Tratei de verificar de quem ele obtivera semelhante informa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Do meu amigo Karatoff n&atilde;o era, pois sen&atilde;o desde a primeira visita<br \/>\n    teria me recusado. Quem fora, pois? Depois de mil conjeturas, acertei logo<br \/>\n    em julgar que a coisa partira da pr&oacute;pria pol&iacute;cia. Era ela, ela<br \/>\n    por toda a parte, a seguir-me como uma sombra, a tirar-me o p&atilde;o da<br \/>\n    boca, a perseguir-me eternamente. Eu estava como aquelas mulheres p&uacute;blicas<br \/>\n    que, inscritas nos seus registros, n&atilde;o podem mais ser eliminadas. Era<br \/>\n    uma pena do inferno a que a moderna inquisi&ccedil;&atilde;o do Estado, a<br \/>\n    que os dominicanos do governo me condenavam. Toda a minha mocidade, todos<br \/>\n    os meus desejos e as minha aspira&ccedil;&otilde;es se haviam de quebrar naquela<br \/>\n    informa&ccedil;&atilde;o que vinha dos prontu&aacute;rios policiais.<\/p>\n<p>N&atilde;o sabia bem o que fazer e entreguei-me &agrave; minha sorte. Vivi<br \/>\n    uma miser&aacute;vel vida de quatro anos, comendo muito irregularmente e fazendo<br \/>\n    esfor&ccedil;os desesperados para pagar a pocilga em que morava.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio Karatoff esfriou um pouco comigo; n&atilde;o me pareceu<br \/>\n    ser o &quot;blas&eacute;&quot; de antigamente. Havia neles novas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e como que senti que a minha companhia o comprometia. Evitei-o e, sem o seu<br \/>\n    aux&iacute;lio, muito sofri.<\/p>\n<p>Pouco antes de romper a guerra russo-japonesa, um oper&aacute;rio com quem<br \/>\n    me dava, perguntou-me se eu poderia vir para o Brasil. N&atilde;o sabia bem<br \/>\n    onde ficava tal pa&iacute;s; sabia-o vagamente na Am&eacute;rica, mas, na<br \/>\n    minha imagina&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica, o colocava no lugar do M&eacute;xico<br \/>\n    e este no lugar dele.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe disse logo que sim e ele, para que ,me resolvesse, deu-me<br \/>\n    a ler umas brochuras escandalosamente apolog&eacute;ticas da desconhecida<br \/>\n    rep&uacute;blica da Am&eacute;rica do Sul. Nelas se dizia que era um pa&iacute;s<br \/>\n    onde n&atilde;o havia frio nem calor; onde tudo nascia com a m&aacute;xima<br \/>\n    rapidez; que tinha todos os produtos do globo; era, enfim, o pr&oacute;prio<br \/>\n    para&iacute;so. Descontei cinq&uuml;enta por cento, descontei mais e resolvi-me<br \/>\n    a emigrar. Um agente que andava catando desgra&ccedil;ados para a sua mercancia,<br \/>\n    deu-me passagem e eu, com um saco, meio cheio de roupas miser&aacute;veis,<br \/>\n    e alguns francos, embarquei em Odessa e singrei o mar Negro em busca de N&aacute;poles.<\/p>\n<p>Atravessei este velho mar cheio de legendas e hist&oacute;ria, absorvido<br \/>\n    nos meus pensamentos. Esse mar que vira Jas&atilde;o singr&aacute;-lo em busca<br \/>\n    do velo de ouro; esse mar, que era uma das etapas do caminho da seda, via-me<br \/>\n    agora em caminho inverso, buscar, n&atilde;o o velo, mas do que viver em long&iacute;nquas<br \/>\n    paragens.<\/p>\n<p>Que desgra&ccedil;ada viagem! Nada h&aacute; mais infernal que a terceira<br \/>\n    classe de um navio! N&atilde;o h&aacute; comodidade, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    limpeza; vive-se misturado. Homens e mulheres, as vidas e os seus detritos.<br \/>\n    A nossa &eacute;poca que tanto se esfor&ccedil;a para manter o pudor, que<br \/>\n    tem leis que punem os atentados a ele, permite essa terceira classe de navios<br \/>\n    em que as necessidades naturais, as mais baixas e as mais nobres s&atilde;o<br \/>\n    satisfeitas &agrave; vista de todos.<\/p>\n<p>E o navio continuava a sua rota por aquele mar cheio de gente e de hist&oacute;ria&#8230;<\/p>\n<p>Paramos em Constantinopla e eu n&atilde;o quis saltar para ver de relance<br \/>\n    aquela velha cidade, que j&aacute; foi a primeira do mundo e cobi&ccedil;a<br \/>\n    de todos os b&aacute;rbaros.<\/p>\n<p>At&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o tinha feito conhecimento com nenhum dos<br \/>\n    meus companheiros de viagem; mas, ao fim de certo tempo, uma das mulheres<br \/>\n    que viajavam no meu galinheiro, me impressionou e eu travei rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ela.<\/p>\n<p>Chamava-se Irma e era judia. Nos seus profundos olhos negros havia o mist&eacute;rio<br \/>\n    de vida e morte do mar. Pareceu-me triste e resignada; e toda vez que lhe<br \/>\n    perguntava sobre os seus projetos de vida, nas novas terras para que nos destin&aacute;vamos,<br \/>\n    ela se esquivava de dizer o que faria. Ia ao encontro de seu marido, respondia;<br \/>\n    e se fechava num rigoroso mutismo. Tinha ouvido falar muito naquele tr&aacute;fico<br \/>\n    de mulheres de que Odessa &eacute; um dos mais importantes portos; mas n&atilde;o<br \/>\n    quis, &agrave; primeira vista, supor que aquela mo&ccedil;a, t&atilde;o fresca<br \/>\n    e rosada, t&atilde;o inocente e reservada e modos, fosse tamb&eacute;m para<br \/>\n    aqueles a&ccedil;ougues de carne viva que os campos da Pol&ocirc;nia e da<br \/>\n    R&uacute;ssia fornecem &agrave;s duas Am&eacute;ricas. Uma vez que aludi a<br \/>\n    isso, com um pouco de &aacute;spera censura na voz, ela medisse cheia de indiferen&ccedil;a<br \/>\n    e fatalidade:<\/p>\n<p>&#8212; Se tem de morrer de fome, &eacute; melhor experimentar.<\/p>\n<p>N&oacute;s entramos no Egeu, no mar das primeiras civiliza&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    no mar grego, por excel&ecirc;ncia, cantado por tantas gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de poetas e sulcado pelos barcos de tantas civiliza&ccedil;&otilde;es; e eu<br \/>\n    vi, por entre a treva da noite ou sob o dossel de um maravilhoso c&eacute;u<br \/>\n    de cobalto, aquelas ilhas donde tem sa&iacute;do das suas sepulturas os espantosos<br \/>\n    m&aacute;rmores que est&atilde;o morrendo novamente nos museus frios da Europa<br \/>\n    Ocidental.<\/p>\n<p>Por um instante, sonhei aquele passado, naqueles dois mil&ecirc;nios e pouco<br \/>\n    de hist&oacute;ria escrita e vi toda a humanidade, toda ela, por maiores que<br \/>\n    sejam as suas aquisi&ccedil;&otilde;es presa &agrave; mesma ferocidade, com<br \/>\n    mais ou menos viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>N&atilde;o viram aquelas ondas os barcos dos fen&iacute;cios, dos gregos,<br \/>\n    dos romanos? Aquele mar n&atilde;o os vira remados por escravos presos e seguros<br \/>\n    &agrave;s suas bancadas? N&atilde;o viram os delfins e trit&otilde;es daquelas<br \/>\n    mitol&oacute;gicas vagas ser os mesmos chicoteados. para que n&atilde;o abrandassem<br \/>\n    na faina? N&atilde;o viram eles comboios de escravos passarem daqui e dali<br \/>\n    para a onipotente Roma, para a feroz Biz&acirc;ncio e para a sensual Istambul?<br \/>\n    E que continuavam a ser? Os grandes &quot;steamers&quot; ingleses e franceses<br \/>\n    com foguistas que sofriam mais que os remeiros antigos e navios, como aquele<br \/>\n    em que eu vinha, trazendo do fundo do Mar Negro mulheres tristes e famintas,<br \/>\n    para serem escravas em distantes regi&otilde;es do globo, transformando o<br \/>\n    seu corpo em fonte de renda, em mercancia, em objetos de com&eacute;rcio?<br \/>\n    E os homens? Quantos n&atilde;o eram como eu, a que a necessidade, a mis&eacute;ria,<br \/>\n    a fome mais que a sede de fortuna, levavam a sair da terra de nascimento para<br \/>\n    ir buscar em outra talvez ainda a fome e quem sabe se n&atilde;o a morte?<\/p>\n<p>A civiliza&ccedil;&atilde;o, a n&atilde;o ser que marchasse para o livre<br \/>\n    entendimento de todos n&oacute;s, para o apoio m&uacute;tuo de nossas necessidades,<br \/>\n    sem desejo de lucro, de riqueza e propriedade &#8212; a civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me pareceu sem sentido.<\/p>\n<p>N&oacute;s chegamos a Atenas e eu quis ter diante daquela famosa cidade uma<br \/>\n    emo&ccedil;&atilde;o superior; mas n&atilde;o senti coisa alguma, n&atilde;o<br \/>\n    vi coisa que me impressionasse, a n&atilde;o ser um grande tumulto nas ruas,<br \/>\n    uma manifesta&ccedil;&atilde;o ou coisa que valha. Onde estava a Atenas de<br \/>\n    P&eacute;ricles? de S&oacute;lon? de Arist&oacute;fanes? N&atilde;o havia<br \/>\n    nada disso, era uma pequena cidade moderna, comum, tendo em uma das de suas<br \/>\n    alturas uma ru&iacute;na, o esqueleto do Partenon, descarnado pelos abutre<br \/>\n    do tempo e ro&iacute;do pela fome dos arque&oacute;logos.<\/p>\n<p>O tumulto n&atilde;o cessava e tive a curiosidade em saber de que se tratava.<br \/>\n    Vi num caf&eacute; algu&eacute;m falando franc&ecirc;s e perguntei:<\/p>\n<p>&#8212; Trata-se da elei&ccedil;&atilde;o de Teamapulos, responderam-se.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute; este homem?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um orador, &eacute; um novo Dem&oacute;stenes.<\/p>\n<p>Por um instante pensei naquela velha Atenas discursiva e eleitoral, com a<br \/>\n    sua &quot;&Aacute;gora&quot; e o seu &quot;Pnyx&quot;. Ela n&atilde;o tinha<br \/>\n    morrido, ainda era bem ela que queria no governo belos oradores e se agitava<br \/>\n    por causa deles. De novo indaguei, curioso:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, quais s&atilde;o as id&eacute;ias pol&iacute;ticas desse Teamapulos?<\/p>\n<p>&#8212; Quer a grandeza da p&aacute;tria.<\/p>\n<p>Que vinha a ser isso? Nada, ou antes muito. Era a mesma Atenas de outros<br \/>\n    tempos; ainda eram os mesmos homens, ainda era o mesmo esp&iacute;rito que<br \/>\n    os guiava; e essa verifica&ccedil;&atilde;o como que me deu uma amarga certeza<br \/>\n    da imobilidade da humanidade. Por toda a parte o mesmo ideal de p&aacute;tria,<br \/>\n    por toda a parte a mesma esperan&ccedil;a no governo&#8230; E, quando naquela<br \/>\n    noite, atravessamos o canal de Corinto, eu procurei ouvir se da terra me chegava<br \/>\n    aquele velho brado: o Deus Pan n&atilde;o morreu!<\/p>\n<p>N&atilde;o me veio aos ouvidos. &Eacute; que Pan tinha morrido e estava bem<br \/>\n    morto, debaixo de dois mil anos de macera&ccedil;&otilde;es, de jejuns, de<br \/>\n    hipocrisias; e a alegria da natureza, a satisfa&ccedil;&atilde;o natural de<br \/>\n    viver, o sentimento de excel&ecirc;ncia da vida tinham sido enterrados com<br \/>\n    ele, tinham desaparecido da terra; mas a P&aacute;tria, esse monstro que tudo<br \/>\n    devora, continuava vitoriosa nas id&eacute;ias dos homens, levando-os &agrave;<br \/>\n    morte, &agrave; degrada&ccedil;&atilde;o, &agrave; mis&eacute;ria, para que<br \/>\n    sobre a desgra&ccedil;a de milh&otilde;es, um milhar vivesse regaladamente,<br \/>\n    fortemente ligados num sindicato macabro.<\/p>\n<p>Quem me levava a terras t&atilde;o distantes? Quem me tirava toda a minha<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o de viver? Quem fazia que eu at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o encontrasse na vida nem com que me vestir bem, nem com o que comer,<br \/>\n    nem amor, nem nada? era a p&aacute;tria, a famigerada p&aacute;tria, com as<br \/>\n    suas id&eacute;ias decorrentes. Que diabo, afinal, era ela? Um Deus, como<br \/>\n    outro qualquer. Uma cria&ccedil;&atilde;o subjetiva, j&aacute; sem utilidade,<br \/>\n    j&aacute; sem valor, Se eu nascesse no s&eacute;culo XIV, russo, como eu era,<br \/>\n    Odessa seria minha p&aacute;tria? Se a Sib&eacute;ria deixasse de ser russa<br \/>\n    e passasse a ser mong&oacute;lica ou t&aacute;rtara, a R&uacute;ssia morreria?<br \/>\n    Que diabo de exist&ecirc;ncia era essa que n&atilde;o se mutila, que cresce<br \/>\n    ou diminui conforme os conquistadores s&atilde;o mais ou menos felizes? Eu,<br \/>\n    ia ali, naquela miser&aacute;vel terceira classe, sofrendo frio, viajando<br \/>\n    num curral, por causa de uma deusa t&atilde;o fr&aacute;gil?<\/p>\n<p>N&oacute;s entramos no porto de N&aacute;poles &agrave; noite. Havia luar,<br \/>\n    um grande luar que enchia tudo e dava &agrave; famosa ba&iacute;a um toque<br \/>\n    deliciosos de imaterialidade. &Iacute;amos sofrer transbordo e &agrave; espera<br \/>\n    dele passamos a noite toda.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhes falarei de N&aacute;poles, lugar cl&aacute;ssico na terra,<br \/>\n    t&atilde;o falado e t&atilde;o descrito que &eacute; in&uacute;til tentar<br \/>\n    dizer qualquer coisa de novo sobre ele. Passamos, afinal, para o paquete que<br \/>\n    nos devia trazer diretamente ao Rio de Janeiro. Se a terceira classe daquele<br \/>\n    em que vim de Odessa era s&oacute;rdida, agora aquela do navio em que estava<br \/>\n    era mais s&oacute;rdida.<\/p>\n<p>&Eacute;ramos mais de quinhentos homens, mulheres e crian&ccedil;as, misturados<br \/>\n    nos beliches, amontoados como galinhas numa capoeira. A comida era uma inf&acirc;mia;<br \/>\n    a sentina n&atilde;o se descreve; e n&oacute;s t&iacute;nhamos que passar<br \/>\n    a&iacute; bem quinze dias ou mais.<\/p>\n<p>Na maioria eram italianos; mas havia alguns russos, uns poucos de arm&ecirc;nios<br \/>\n    e meia d&uacute;zia de gregos.<\/p>\n<p>N&atilde;o nos entend&iacute;amos e viv&iacute;amos em grupos conforme as<br \/>\n    nossas nacionalidades. A judia Irma tamb&eacute;m viera e logo que deixamos<br \/>\n    os portos espanh&oacute;is e entramos em pleno Atl&acirc;ntico, ela pareceu<br \/>\n    ganhar um pouco de alegria, uma certa esperan&ccedil;a, e, como que seus olhos,<br \/>\n    debaixo das suaves arcadas das suas sobrancelhas negras, viam na linha fugidia<br \/>\n    do horizonte a felicidade e a satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Perguntei-lhe se ia para o Rio de Janeiro ou para Buenos Aires, pois eu j&aacute;<br \/>\n    come&ccedil;ava a compreender a geografia da Am&eacute;rica do Sul. Fiz-lhe<br \/>\n    a pergunta e ela me respondeu muito naturalmente:<\/p>\n<p>&#8212; Vou par Buenos Aires. Quando estiver um pouco estragada, irei para<br \/>\n    o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O mar tenebroso dos navegantes da Renascen&ccedil;a foi atravessado por n&oacute;s.<br \/>\n    Dir-se-ia que eles temeram em v&atilde;o; estava espelhento que nem um lago,<br \/>\n    e doce e tranq&uuml;ilo.<\/p>\n<p>Eu que n&atilde;o conhecia quase a hist&oacute;ria daquelas &aacute;guas<br \/>\n    nem das terras que elas banhavam, s&oacute; me lembrava que aquele era o mar<br \/>\n    da escravid&atilde;o moderna, o mar dos negreiros, e que assistira durante<br \/>\n    tr&ecirc;s s&eacute;culos aquele drama de sangue, de opress&atilde;o e de<br \/>\n    saque, que foi o aproveitamento das terras da Am&eacute;rica pelas gentes<br \/>\n    da Europa.<\/p>\n<p>Pensei comigo que em presen&ccedil;a daquelas altas manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da natureza s&oacute; me vinham pensamentos tristes e, longe de ter a esperan&ccedil;a<br \/>\n    natural do emigrante, de riqueza e abastan&ccedil;a, ia-me n?alma o mesmo<br \/>\n    desespero que tinha em Odessa.<\/p>\n<p>A viagem fez-se sem incidentes, a n&atilde;o ser um curioso e eloq&uuml;ente<br \/>\n    para a vida da terceira classe dos vapores.<\/p>\n<p>Dois emigrantes italianos casados que dormiam no mesmo beliche, certo dia<br \/>\n    deixaram-se ficar at&eacute; bem tarde no conv&eacute;s, bebendo; e, quando<br \/>\n    desceram, semi embriagados, trocaram de beliches e dormiram com as mulheres<br \/>\n    trocadas.<\/p>\n<p>Ao amanhecer, dando pelo engano, cada um atribu&iacute;a alo outro o intuito<br \/>\n    de trai&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Patife! Canalha! &#8212; dizia um.<\/p>\n<p>O outro retrucava:<\/p>\n<p>&#8212; Canalha! Patife!<\/p>\n<p>E toda a popula&ccedil;&atilde;o do paquete acudiu para ver t&atilde;o estranha<br \/>\n    disputa. Embora os dois homens estivessem ferozes, toda a gente achava no<br \/>\n    acontecimento motivo de hilaridade e os coment&aacute;rios eram nesse sentido.<\/p>\n<p>Dizia um gaiato:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; motivo para briga. Quando nascerem os pequenos,<br \/>\n    troquem-nos que a cosa fica certa.<\/p>\n<p>Os dois, por&eacute;m, n&atilde;o abrandavam e houve a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pessoal de bordo para que se acalmassem. Fosse porque fosse, fosse porque<br \/>\n    a situa&ccedil;&atilde;o de ambos n&atilde;o comportasse uma tensa pend&ecirc;ncia<br \/>\n    de honra, o certo &eacute; que vieram a fazer as pazes e continuaram a viagem<br \/>\n    como bons amigos como dantes. Que importa &agrave; natureza que o pai seja<br \/>\n    este ou aquele? A quest&atilde;o &eacute; que nas&ccedil;a gente para ela<br \/>\n    preencher os seus obscuros destinos.<\/p>\n<p>Tocamos no Recife, na Bahia, e, afinal, chegamos ao Rio de Janeiro. Aqui,<br \/>\n    positivamente &eacute; que come&ccedil;am as minhas aventuras, mas eu lhes<br \/>\n    quis fornecer algumas notas anteriores a elas, para que meus leitores me julguem<br \/>\n    melhor e sintam bem o motivo ou os motivos que me levaram a abandonar os prop&oacute;sitos<br \/>\n    do trabalho honesto e lan&ccedil;ar-me com decis&atilde;o na vida de expedientes<br \/>\n    e de planos.<\/p>\n<p>N&atilde;o era essa a minha ten&ccedil;&atilde;o, mas o sentimento que se<br \/>\n    me apossou da injusti&ccedil;a da vida, da fraqueza das bases em que se alicer&ccedil;a<br \/>\n    a sociedade e o espet&aacute;culo da com&eacute;dia que &eacute; a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Brasil, levaram-me a procurar viver de modo menos afanoso e com emprego<br \/>\n    de menos esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>Chegamos afinal ao Rio e, ap&oacute;s as visitas regulamentares, j&aacute;<br \/>\n    come&ccedil;avam a desembarcar os passageiros de todas as classes, quando<br \/>\n    um empregado de bordo veio chamar-me. Prontamente fui e achei-me em presen&ccedil;a<br \/>\n    de um homem agaloado. Ele me perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Como se chama?<\/p>\n<p>O int&eacute;rprete que estava a seu lado, traduziu para uma l&iacute;ngua<br \/>\n    que ele julgava ser russo, mas que eu sem a entender bem, senti que era lituano.<br \/>\n    Respondi ent&atilde;o em franc&ecirc;s, que n&atilde;o entendia. O int&eacute;rprete<br \/>\n    &#8212; um tipo alto, muito magro, com uma pequena barbicha alourada &#8212;<br \/>\n    zangou-se e gritou em portugu&ecirc;s:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; russo, como &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    compreende russo?<\/p>\n<p>Respondi, ainda em franc&ecirc;s, que n&atilde;o entendia e o int&eacute;rprete<br \/>\n    quis ainda empregar o seu lituano. Eu continuava no meu franc&ecirc;s e parec&iacute;amos<br \/>\n    querer n&atilde;o sair disso, quando um dos circunstantes que falava franc&ecirc;s,<br \/>\n    prestou-se a auxiliar o policial mar&iacute;timo que me interrogava. Respondi<br \/>\n    desse feita que me chamava:<\/p>\n<p>&#8212; Gregory Petrovich Bogoloff<\/p>\n<p>O homem da pol&iacute;cia mar&iacute;tima pediu-me que eu escrevesse o nome<br \/>\n    num papel que me apresentou. Esteve olhando um instante o papel com as letras<br \/>\n    e, por fim, indagou de repente:<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute; a sua profiss&atilde;o?<\/p>\n<p>O int&eacute;rprete traduziu em franc&ecirc;s e eu o atendi:<\/p>\n<p>&#8212; Sou professor.<\/p>\n<p>O homem pareceu n&atilde;o se conformar, olhou-me muito e disse &agrave;<br \/>\n    queima-roupa:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; &quot;c&aacute;ften&quot;?<\/p>\n<p>Logo percebi o sentido da palavra, fiquei indignado, mas me contive e por<br \/>\n    minha vez indaguei:<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>O homem da pol&iacute;cia explicou muito ingenuamente:<\/p>\n<p>&#8212; Estes nomes em &quot;itch&quot;, em &quot;off&quot;, em &quot;sky&quot;,<br \/>\n    quase todos s&atilde;o de &quot;c&aacute;ftens&quot;. N&atilde;o falha!<\/p>\n<p>Disse-lhe ent&atilde;o que n&atilde;o era, nem nunca tinha sido, mas o homem<br \/>\n    n&atilde;o acreditou nas minhas palavras, e insistiu:<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o &eacute; &quot;c&aacute;ften&quot;, &eacute; anarquista.<\/p>\n<p>Ainda protestei, ainda desfiz-me em explica&ccedil;&otilde;es, mas o sujeito<br \/>\n    teimava na singular id&eacute;ia:<\/p>\n<p>&#8212; Esses nomes em &quot;itch&quot;, em &quot;off&quot;, em &quot;sky&quot;,<br \/>\n    polacos e russos, quando n&atilde;o s&atilde;o de &quot;c&aacute;ftens&quot;,<br \/>\n    s&atilde;o de anarquistas.<\/p>\n<p>Eu tive um grande espanto com t&atilde;o curiosas generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da pol&iacute;cia do Brasil e, como me parecia que o homem n&atilde;o me queria<br \/>\n    deixar desembarcar, apelei para os meus documentos. Trouxe os meus pap&eacute;is:<br \/>\n    o passaporte, a carta do agente de imigra&ccedil;&atilde;o, e a minha de bacharel<br \/>\n    em l&iacute;nguas orientais.<\/p>\n<p>O homem do lituano esteve a olh&aacute;-las e o int&eacute;rprete oficioso<br \/>\n    tamb&eacute;m. O policial tomou por sua conta a carta da Universidade de Kazan.<br \/>\n    Esteve a examin&aacute;-la com respeito que merecia um pergaminho, e perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que l&iacute;ngua &eacute; esta em que est&aacute; escrita?<\/p>\n<p>Adivinhando-lhe a pergunta, acudi logo:<\/p>\n<p>&#8212; Latim.<\/p>\n<p>Foi preciso que o int&eacute;rprete oficioso dissesse porque ele n&atilde;o<br \/>\n    entendeu bem o meu &#8212; latin &#8212; franc&ecirc;s e fiquei admirado que<br \/>\n    um funcion&aacute;rio neolatino n&atilde;o conhecesse nem uma palavra da l&iacute;ngua<br \/>\n    de que se originara a sua.<\/p>\n<p>O policial continuava com as suas desconfian&ccedil;as e ainda objetou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma l&iacute;ngua estrangeira. Devia estar traduzida para<br \/>\n    a nossa, por um tradutor p&uacute;blico juramentado.<\/p>\n<p>Quando soube da sua obje&ccedil;&atilde;o, quase me desmanchei numa gargalhada.<\/p>\n<p>Onde &eacute; que este homem ia encontrar um tradutor p&uacute;blico juramentado<br \/>\n    para o latim? pensei eu.<\/p>\n<p>O homem esteve a olhar-me durante alguns minutos; considerou-me bem a fisionomia,<br \/>\n    a roupa e ainda fez:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o o senhor n&atilde;o &eacute; &quot;c&aacute;ften&quot;<br \/>\n    nem anarquista?<\/p>\n<p>Tendo conhecimento de sua pergunta pelo int&eacute;rprete, protestei que<br \/>\n    n&atilde;o, e creio que ele ficou certo da sinceridade das minhas palavras,<br \/>\n    pois me deixou desembarcar.<\/p>\n<p>Fui para a Hospedaria dos Imigrantes, e dentro de uma semana estava colocado<br \/>\n    num n&uacute;cleo colonial de um Estado do Sul.<\/p>\n<p>Eu tinha os melhores prop&oacute;sitos de trabalho honesto e logo me pus<br \/>\n    a trabalhar com afinco. Deram-me ferramentas, sementes e um lote de terras<br \/>\n    duras e compactas.<\/p>\n<p>Comecei a derrubar o mato, constru&iacute; antes uma palho&ccedil;a e, aos<br \/>\n    poucos, ergui uma casa de madeira, feita ao jeito das &quot;isbas&quot; russas.<\/p>\n<p>A col&ocirc;nia era ocupada por fam&iacute;lias russas e polacas e, enquanto<br \/>\n    os meus trabalhos de instala&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se acabaram, n&atilde;o<br \/>\n    travei rela&ccedil;&otilde;es com ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Ao fim de dois meses, tinha j&aacute; onde dormir sem temer os temporais;<br \/>\n    mas, as minhas m&atilde;os estavam em m&iacute;sero estado, se bem que o meu<br \/>\n    corpo tivesse ganho mais sa&uacute;de e mais for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Aos administradores da col&ocirc;nia via pouco e evitava mesmo v&ecirc;-los,<br \/>\n    porque eram arrogantes e intrat&aacute;veis; mas travei rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o int&eacute;rprete que muito me orientou na vida brasileira.<\/p>\n<p>Este, de fato, falava russo e tinha certa instru&ccedil;&atilde;o. Nunca<br \/>\n    me disse os antecedentes da sua vida, mas havia nele certos tiques, certos<br \/>\n    gestos, que me pareceu ter o seu corpo sofrido trabalhos for&ccedil;ados.<\/p>\n<p>Quando soube que tinha um grau universit&aacute;rio, disse-me logo:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;s tolo, Bogoloff, devias ter-te feito tratar de doutor.<\/p>\n<p>&#8212; De que serve isso?<\/p>\n<p>&#8212; Aqui, muito! No Brasil, &eacute; um t&iacute;tulo que d&aacute; todos<br \/>\n    os direitos, toda a considera&ccedil;&atilde;o, mesmo quando se est&aacute;<br \/>\n    na pris&atilde;o. Se te fizesses chamar de doutor, terias um lote melhor,<br \/>\n    melhores ferramentas e sementes. Louro, doutor e estrangeiro, ias longe!<\/p>\n<p>&#8212; Ora bolas! Para que distin&ccedil;&otilde;es, se eu me quero anular?<br \/>\n    Se quero ser um simples cultivador?<\/p>\n<p>&#8212; &#8212; Cultivador? Isto &eacute; bom em outras terras que se prestam<br \/>\n    a culturas remuneradoras. As daqui s&atilde;o horrorosas e s&oacute; d&atilde;o<br \/>\n    bem aipim ou mandioca e batata doce. Dentro em breve, estar&aacute;s desanimado.<br \/>\n    Vais ver.<\/p>\n<p>Desprezando as amargas profecias do int&eacute;rprete da col&ocirc;nia, pus-me<br \/>\n    com decis&atilde;o a trabalhar a terra. Plantei dois hectares de milho e fiz<br \/>\n    uma horta em que plantei couves, nabos, repolhos.<\/p>\n<p>Esperei que nascesse e frutificasse o milho. De fato, veio rapidamente, mas<br \/>\n    as espigas, quando as colhi. estavam meio ro&iacute;das pelas lagartas; a<br \/>\n    horta foi um pouco melhor, mas, assim mesmo, a &quot;rosca&quot; e o piolho<br \/>\n    estragaram-me grande parte da minha obra.<\/p>\n<p>Tentei outras culturas, a do trigo, a da batata inglesa, mas n&atilde;o deram<br \/>\n    coisa que prestasse e voltei ao milho logo que o tempo se me apareceu prop&iacute;cio.<\/p>\n<p>A lagarta, por&eacute;m, n&atilde;o deixa a sociedade que fizera comigo e<br \/>\n    tirava do meu trabalho uma porcentagem bem forte. Entretanto, eu tinha que<br \/>\n    pagar o meu lote e as ferramentas. Com t&atilde;o magras e pouco remuneradoras<br \/>\n    culturas, fi-lo com sacrif&iacute;cios sobre humanos. Quer dizer que eu, no<br \/>\n    &quot;El-Dorado&quot;, continuava a viver da mesma forma atroz que no inferno<br \/>\n    de Odessa.<\/p>\n<p>Deite-me com todo o afinco &agrave; cultura da batata doce, do aipim e da<br \/>\n    ab&oacute;bora, e nisso imitei os naturais que n&atilde;o faziam sen&atilde;o<br \/>\n    pedir &agrave; terra esses produtos quase espont&acirc;neos e respeitados<br \/>\n    pelos insetos daninhos.<\/p>\n<p>A colheita foi tal que, pela primeira vez, tive lucro e satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Comecei a criar porcos que engordava com as batatas e os aipins e, embora<br \/>\n    n&atilde;o encontrasse mercados f&aacute;ceis para os meus su&iacute;nos,<br \/>\n    ganhei algum dinheiro, e, dentro em pouco, tive o meu lote em plena prosperidade.<\/p>\n<p>Ao fim de alguns anos, reparei que a minha cultura e a minha vida de cultivador<br \/>\n    tinham aos poucos ganho o aspecto dos naturais do pa&iacute;s. N&atilde;o<br \/>\n    comia mais p&atilde;o, mas broa de farinha de milho ou aipim cozido; o a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    com que eu temperava o meu caf&eacute;, era feito de um mela&ccedil;o de cana<br \/>\n    que eu obtinha numa engenhoca tosca de mina constru&ccedil;&atilde;o. Desanimava<br \/>\n    de culturas mais importantes e a base da minha vida era a batata doce, o aipim<br \/>\n    e a carne de porco.<\/p>\n<p>A terra, a sua estrutura e composi&ccedil;&atilde;o, o seu determinismo,<br \/>\n    enfim, me tinha levado a esse resultado e s&oacute; obedecendo a ele &eacute;<br \/>\n    que pudera tirar dela alguma coisa.<\/p>\n<p>Quem sabe se a vida no Brasil s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel facilmente<br \/>\n    baseando-se no aipim e na batata doce? N&atilde;o sei bem se isso tem visos<br \/>\n    de verdade, porque o conhe&ccedil;o pouco; mas verifiquei que a minha vida<br \/>\n    s&oacute; foi f&aacute;cil quando se estribou nesses dois produtos quase selvagens.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando pude verificar de um golpe a vida pol&iacute;tica do Brasil,<br \/>\n    voltou-me essa pergunta, tanto mais que eu notava em toda a sua hist&oacute;ria<br \/>\n    econ&ocirc;mica uma vida prec&aacute;ria de expedientes.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, a fortuna do Brasil veio do pau de tinturaria que lhe<br \/>\n    deu o nome, depois do a&ccedil;&uacute;car, depois do ouro e dos diamantes;<br \/>\n    aos poucos, por isso ou por aquilo, alguns desses produtos foram perdendo<br \/>\n    o valor ou, quando n&atilde;o, deixaram de ser encontrados em abund&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Mais tarde vieram o caf&eacute; e a borracha, produtos ambos, que, por concorr&ecirc;ncia,<br \/>\n    quanto ao primeiro, e tamb&eacute;m, quanto ao segundo, pelo adiantamento<br \/>\n    nas ind&uacute;strias qu&iacute;micas, est&atilde;o &agrave; merc&ecirc; de<br \/>\n    uma desvaloriza&ccedil;&atilde;o repentina.<\/p>\n<p>Nunca a sua vida se baseara num produto indispens&aacute;vel &agrave; vida<br \/>\n    ou &agrave;s ind&uacute;strias, no trigo, no boi, na l&atilde; ou no carv&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o era mesmo uma Austr&aacute;lia, n&atilde;o era mesmo uma Argentina,<br \/>\n    num uma &Iacute;ndia com os seus arrozais. A sua vida fora sempre de expedientes<br \/>\n    e, sem carv&atilde;o, e sem esses produtos prim&aacute;rios para a exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    tinha que pag&aacute;-los caro, n&atilde;o s&oacute; eles, mas os manufaturados,<br \/>\n    de forma a n&atilde;o ter reservas de riquezas.<\/p>\n<p>Se nem todos ele ia buscar no estrangeiro, como a carne, tinha, entretanto,<br \/>\n    que obt&ecirc;-los no seu solo mais caro que se os comprasse fora.<\/p>\n<p>O boi, que se abate nas cidades do litoral do Brasil, chega-lhe mais caro<br \/>\n    do seu interior do que se viesse da Rep&uacute;blica Argentina.<\/p>\n<p>N&atilde;o quero transformar a narra&ccedil;&atilde;o das minhas aventuras<br \/>\n    em ataque sistem&aacute;tico a essa boa terra do Brasil; e se falo nisso &eacute;<br \/>\n    para lhe mostrar quais os fatos que determinaram o mecanismo ps&iacute;quico<br \/>\n    que me levou a abandonar a vida honesta de trabalho.<\/p>\n<p>Ao fim de alguns anos de trabalhar e refletir, eu estava convencido de que,<br \/>\n    a n&atilde;o ser que a vida do Brasil se baseasse em certas tuberosas e solan&aacute;ceas,<br \/>\n    h&aacute; de ser por for&ccedil;a de expedientes e resolvi-me por esse fato<br \/>\n    a viver tamb&eacute;m de expedientes.<\/p>\n<p>Corri muitas aventuras, tive que dar muitos planos para viver, e se n&atilde;o<br \/>\n    conto umas e outras na ordem em que se verificaram, &eacute; porque resolvi<br \/>\n    cont&aacute;-los &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que me fosse lembrando.<\/p>\n<p>Uma das mais interessantes, por&eacute;m, foi aquela pela qual me fiz Diretor<br \/>\n    da Pecu&aacute;ria Nacional.<\/p>\n<p>Eu me dava com um mulato conhecido por Lucr&eacute;cio, o &quot;Barba-de-Bode&quot;,<br \/>\n    uma bela pessoa que exercia o rendoso of&iacute;cio de &quot;capanga&quot;<br \/>\n    pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>N&atilde;o era bem o &quot;espadachim&quot; de C&eacute;sar B&oacute;rgia,<br \/>\n    mas os seus patr&otilde;es n&atilde;o tinham nada de semelhante ao famoso<br \/>\n    filho do Papa Alexandre VI.<\/p>\n<p>Travei rela&ccedil;&otilde;es com ele em ocasi&atilde;o muito interessante<br \/>\n    e hei de lhes contar a maneira por que fizemos amizade.<\/p>\n<p>Certo dia vim a encontrar-me com ele e Lucr&eacute;cio me disse com toda<br \/>\n    a jovialidade de sua ra&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; Doutor, voc&ecirc; precisa sair disso. por que n&atilde;o arranja<br \/>\n    um emprego?<\/p>\n<p>&#8212; Sou estrangeiro, e, demais, n&atilde;o sei fazer nada.<\/p>\n<p>&#8212; Qual! Um doutor sabe fazer tudo? Voc&ecirc; n&atilde;o sabe pintar?<\/p>\n<p>Eu tinha algumas no&ccedil;&otilde;es de desenho, muito vagas e elementares,<br \/>\n    mas como me havia disposto a viver de expedientes, disse-lhe evasivamente:<\/p>\n<p>&#8212; Alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; Bem &#8212; disse-me Lucr&eacute;cio. &#8212; Vai haver uma reforma<br \/>\n    nas Belas-Artes e eu vou apresentar voc&ecirc; ao senador Sof&ocirc;nias.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias era nesse tempo o Diretor da pol&iacute;tica nacional e fiquei<br \/>\n    admirado que um humilde &quot;capanga&quot; tivesse pr&eacute;stimo para tanto.<br \/>\n    Ele ainda insistiu:<\/p>\n<p>&#8212; Veja l&aacute;, hein? N&atilde;o fa&ccedil;a feio.<\/p>\n<p>Dentro em breve, fui apresentado por Lucr&eacute;cio ao senador. Ele falava<br \/>\n    com um long&iacute;nquo sotaque espanhol, e tinha um olhar vidrado de agonizante.<br \/>\n    Recebeu-me prazenteiro, como todo brasileiro a quem se solicita qualquer coisa!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, menino, voc&ecirc; &eacute; pintor?<\/p>\n<p>Ele dizia menino com o &quot;e&quot; muito aberto; e &quot;pentor&quot; como<br \/>\n    se o &quot;i&quot; fosse &quot;e&quot;. Respondi-lhe que sim e, para provar-lhe,<br \/>\n    fiz ali mesmo um &quot;croquis&quot; de seu retrato. Achou-o muito parecido<br \/>\n    e guardou-o. Ao jeito de lisonja, disse-lhe eu:<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. parece-me com Suivaroff.<\/p>\n<p>&#8212; Quem? &#8212; indagou.<\/p>\n<p>&#8212; Suvaroff&#8230; Um grande general russo, vencedor dos turcos.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Gosto desses homens de energia.<\/p>\n<p>Estivemos conversando sobre a R&uacute;ssia que ele conhecia tanto como eu<br \/>\n    o M&eacute;xico ou a Nova Zel&acirc;ndia. Aludiu &agrave; guerra russo-japonesa:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;s perderam porque n&atilde;o s&atilde;o uma rep&uacute;blica.<br \/>\n    L&aacute; h&aacute; muitos revolucion&aacute;rios. O despotismo &eacute; grande<br \/>\n    l&aacute;.<\/p>\n<p>Quis objetar-lhe que o Jap&atilde;o era tamb&eacute;m um Imp&eacute;rio e<br \/>\n    ganhara, e a Fran&ccedil;a, por ser um pa&iacute;s teoricamente liberal, tinha<br \/>\n    uma corrente revolucion&aacute;ria t&atilde;o forte como a R&uacute;ssia.<br \/>\n    N&atilde;o lhe disse nada e concordei. N&atilde;o se discute nunca com os<br \/>\n    protetores. Sobre a minha pretens&atilde;o, ele me falou da seguinte maneira:<\/p>\n<p>&#8212; Menino, voc&ecirc; quer um lugar nas Belas-Artes, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, senador.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel. J&aacute; fiz muitos<br \/>\n    pedidos. Voc&ecirc; n&atilde;o entende nada de agricultura?<\/p>\n<p>Lembrei-me de meus dias de colono e respondi com toda a firmeza:<\/p>\n<p>&#8212; Entendo alguma coisa. At&eacute; em pecu&aacute;ria tenho certas<br \/>\n    id&eacute;ias e, caso o governo queira, posso experiment&aacute;-las.<\/p>\n<p>&#8212; Quais s&atilde;o?<\/p>\n<p>Acudiu-me ent&atilde;o dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Posso criar porcos que cheguem ao tamanho de bois e bois da altura<br \/>\n    de elefantes.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; maravilhoso! Como voc&ecirc; procede?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma quest&atilde;o de alimenta&ccedil;&atilde;o. processos<br \/>\n    bioqu&iacute;micos, j&aacute; experimentados em outras partes, que aperfei&ccedil;oei.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, menino. Vou mandar voc&ecirc; ao Xandu e l&aacute; voc&ecirc;<br \/>\n    exp&otilde;e as suas id&eacute;ias.<\/p>\n<p>Esse Xandu era ministro da Agricultura, para quem o senador Sof&ocirc;nias<br \/>\n    me deu uma carta eloq&uuml;ente e persuasiva.<\/p>\n<p>Procurei o ministro que me recebeu com certa frieza, mas, desde que leu a<br \/>\n    carta do senador, fez-se prazenteiro e am&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, Doutor! Desculpe-me! Desculpe-me! N&atilde;o sabe como ando<br \/>\n    atarefado. Hoje j&aacute; assinei 1597 decretos&#8230; Sobre tudo! Sobre tudo!<br \/>\n    Neste pa&iacute;s tudo est&aacute; por fazer! Tudo! Em tr&ecirc;s meses tenho<br \/>\n    feito mais que todos os governos deste pa&iacute;s. J&aacute; assinei 2.725.832<br \/>\n    decretos, 78.345 regulamentos&#8230; 1.725.384.671 avisos&#8230; Um trabalho insano!<br \/>\n    Fala ingl&ecirc;s?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, Excel&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; Eu falo. Desde que o falei com desembara&ccedil;o, as minhas faculdades<br \/>\n    mudaram. Penso em ingl&ecirc;s, da&iacute; me veio uma salutar rea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental que me interessou todo inteiro. Gosto muito do ingl&ecirc;s, com o<br \/>\n    sotaque americano. Experimente&#8230; Brederodes (gritou ele para o secret&aacute;rio)<br \/>\n    j&aacute; temos aquele regulamento sobre a &quot;postura&quot; de galinhas?<\/p>\n<p>Respondeu-lhe o secret&aacute;rio e voltou-se para mim, febril:<\/p>\n<p>&#8212; O que nos falta &eacute; o frio. Ah! A sua R&uacute;ssia! Eu, se<br \/>\n    quero ser sempre ativo, tomo todo o dia um banho de frio. Sabe como? Tenho<br \/>\n    em casa uma c&acirc;mara frigor&iacute;fica, 8 graus abaixo de zero, onde<br \/>\n    me meto todas as manh&atilde;s. Precisamos atividade e s&oacute; o frio pode<br \/>\n    nos dar. Penso em instalar grandes c&acirc;maras frigor&iacute;ficas nas escolas,<br \/>\n    para dar atividade aos nossos rapazes. O frio &eacute; o elemento essencial<br \/>\n    &agrave;s civiliza&ccedil;&otilde;es&#8230; Mas, &#8212; emendou a alta sumidade<br \/>\n    &#8212; ainda n&atilde;o lhe falei sobre os seus planos. O Sof&ocirc;nias<br \/>\n    fala-me aqui das suas id&eacute;ias sobre pecu&aacute;ria. Quais s&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o simples. Por meio de uma alimenta&ccedil;&atilde;o adequada,<br \/>\n    consigo porcos do tamanho de bois e bois do tamanho de elefantes.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, como?<\/p>\n<p>&#8212; O meu processo &eacute; baseado na bioqu&iacute;mica e j&aacute;<br \/>\n    foi experimentado alhures. O grande qu&iacute;mico H. G. Wells j&aacute; escreveu<br \/>\n    algo a respeito. N&atilde;o conhece?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; H. G. Wells, um grande s&aacute;bio ingl&ecirc;s, de reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    universal.<\/p>\n<p>&#8212; De forma que um boi seu, s&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Quatro.<\/p>\n<p>&#8212; Magn&iacute;fico! E o tempo de crescimento?<\/p>\n<p>&#8212; O comum.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma maravilha.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda consigo a completa extin&ccedil;&atilde;o dos ossos.<\/p>\n<p>&#8212; Completa.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um modo de dizer. Reduzo-os ao m&iacute;nimo, quando chegar<br \/>\n    &agrave; &eacute;poca da matan&ccedil;a, eu os transformo em carne.<\/p>\n<p>&#8212; Extraordin&aacute;rio! Est&aacute;s ouvindo Brederodes? gritou, para<br \/>\n    o secret&aacute;rio.<\/p>\n<p>Animei-me e aduzi com toda a convic&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Por meio de fecunda&ccedil;&atilde;o artificial, enxertando germes<br \/>\n    de um e outra esp&eacute;cie, consigo carneiros que s&atilde;o ao mesmo tempo<br \/>\n    cabritos e cabritos que s&atilde;o ao mesmo tempo carneiros.<\/p>\n<p>&#8212; Singular. O Doutor vai fazer uma revolu&ccedil;&atilde;o nos m&eacute;todos<br \/>\n    de criar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; a mesma revolu&ccedil;&atilde;o que a qu&iacute;mica fez<br \/>\n    na agricultura. Penso nisso h&aacute; muitos anos, mas n&atilde;o me tem sido<br \/>\n    poss&iacute;vel experimentar por falta de meios.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o seja essa a d&uacute;vida. Enquanto eu for ministro n&atilde;o<br \/>\n    lhe faltar&atilde;o. O governo tem muito prazer em ajudar a todas as tentativas<br \/>\n    nobre e fecundas para o levantamento das ind&uacute;strias agr&iacute;colas.<\/p>\n<p>&#8212; Agrade&ccedil;o muito e creia-me o Doutor que n&atilde;o ficam por<br \/>\n    a&iacute; os meus planos. Tenho outras id&eacute;ias.<\/p>\n<p>&#8212; Outras?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. Estudei um m&eacute;todo de criar peixe em seco.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; milagroso!<\/p>\n<p>&#8212; A ci&ecirc;ncia n&atilde;o faz milagres. A coisa &eacute; simples.<br \/>\n    Toda a vida veio do mar e, devido ao resfriamento dos mares e a sua concentra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    salina, nas &eacute;pocas geol&oacute;gicas, alguns dos seus habitantes foram<br \/>\n    obrigados a sair para a terra e nela criaram internamente meios salinos e<br \/>\n    t&eacute;rmicos iguais &agrave;queles que viviam nos mares, de forma a continuar<br \/>\n    perfeitamente a vida de suas c&eacute;lulas. Procedo artificialmente da forma<br \/>\n    que a cega natureza procedeu, eliminado o mais poss&iacute;vel o fator tempo;<br \/>\n    isto &eacute;, provoco o organismo do peixe a criar para sua c&eacute;lula<br \/>\n    um meio salino e t&eacute;rmico igual &agrave;quele em que se desenvolvia<br \/>\n    a sua vida no mar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; engenhoso!<\/p>\n<p>&#8212; Perfeitamente cient&iacute;fico.<\/p>\n<p>O homem esteve a considerar um tempo perdido, olhou-me muito com o mon&oacute;culo<br \/>\n    e depois me disse:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabe o Doutor, como me causa admira&ccedil;&atilde;o o<br \/>\n    arrojo de suas id&eacute;ias. S&atilde;o originais e engenhosa e o que tisna<br \/>\n    um pouco essa minha admira&ccedil;&atilde;o, &eacute; que elas n&atilde;o<br \/>\n    partam de um nacional. N&atilde;o sei, meu caro Doutor, como &eacute; que<br \/>\n    n&oacute;s n&atilde;o temos esses arrojos! Vivemos terra &agrave; terra, sempre<br \/>\n    presos &agrave; rotina. Pode ir descansado que o governo da Rep&uacute;blica<br \/>\n    vai aproveitar as suas id&eacute;ias, que h&atilde;o de enriquecer a p&aacute;tria.<\/p>\n<p>Ergueu-se do seu trono e me veio trazendo com o seu passo de reum&aacute;tico<br \/>\n    at&eacute; a porta do seu gabinete.<\/p>\n<p>No dia seguinte li nos jornais que tinha sido nomeado Diretor da Pecu&aacute;ria<br \/>\n    Nacional<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II &#8211; Como escapei de &quot;salvar&quot; o Estado dos Carapicus<\/a><\/h4>\n<p>De acordo com o que deve estar estabelecido no Manual do Perfeito Engrossador<br \/>\n    , jamais perdi de vista as pessoas poderosas influentes cujo conhecimento<br \/>\n    ia travando no curso da vida. Se as encontrava na rua, procurava todos os<br \/>\n    meios para que elas me vissem e lhes prestava a homenagem do meu cumprimento<br \/>\n    humilde; se faziam anos ou morria-lhes algum parente, mandava-lhes cart&otilde;es;<br \/>\n    se faziam rezar missas na inten&ccedil;&atilde;o da alma de defunto da fam&iacute;lia,<br \/>\n    l&aacute; estava eu na igreja, inteiramente de preto e cheio de dor; e, se<br \/>\n    o conhecimento era mais estreito, n&atilde;o deixava, pelo menos, de fazer-lhes<br \/>\n    uma visita por semana. Esse ritual de salamaleques foi observado por mim com<br \/>\n    cega obedi&ecirc;ncia de uma imposi&ccedil;&atilde;o da natureza.<\/p>\n<p>Tendo assim me resolvido a proceder, de quando em quando visitava o poderoso<br \/>\n    Senador Sof&ocirc;nias, no seu palacete, maravilhosamente situado em um dos<br \/>\n    mais pitorescos arrabaldes da cidade.<\/p>\n<p>Vivo h&aacute; muitos anos no Brasil e tenho visto nele coisas bem misteriosas<br \/>\n    e surpreendentes, uma delas &eacute; o prest&iacute;gio do Senador Sof&ocirc;nias;<br \/>\n    Nunca lhe encontrei qualidade superior, nem de intelig&ecirc;ncia, nem de<br \/>\n    sentimento, nem de car&aacute;ter. Privei com ele e s&oacute; lhe notei uma<br \/>\n    elementar ast&uacute;cia e uma ferocidade descuidada de papua.<\/p>\n<p>Na sua vida n&atilde;o havia nada de brilhante nem de grande. Soube que se<br \/>\n    fizera not&aacute;vel por ter armado uma pequena for&ccedil;a e se batido<br \/>\n    &agrave; frente dela contra os revolucion&aacute;rios. Fora um condotierre,<br \/>\n    mas um condotierre sul-americano a quem a incultura da terra n&atilde;o podia<br \/>\n    dar os toques de beleza de um Colleone, de um Francisco Storza, ou mesmo de<br \/>\n    um Wallestein. A bravura e a cupidez n&atilde;o alternavam nele com o gosto<br \/>\n    das altas coisas e gestos de homem superior. Era um Ararib&oacute;ia com a<br \/>\n    paix&atilde;o do lucro e das posi&ccedil;&otilde;es, um Ararib&oacute;ia do<br \/>\n    nosso tempo.<\/p>\n<p>Penso que foi esse halo de bravura e ferocidade que lhe deu o grau de ascend&ecirc;ncia<br \/>\n    que tinha sobre todos; e ele, dentro de uma grande cidade civilizada, o mantinha<br \/>\n    astutamente.<\/p>\n<p>Procurava divertimentos ferozes, corridas de touros, brigas de galos; ia<br \/>\n    &agrave;s matan&ccedil;as de Santa Cruz e, segundo me disseram, chegou a carnear<br \/>\n    uma r&ecirc;s num piquenique diante das damas em faniquitos e dos cavalheiros<br \/>\n    amedrontados. A sua casa tinha armas por todos os cantos, rev&oacute;lveres,<br \/>\n    pistolas, carabinas, lan&ccedil;as, alfanjes, fac&otilde;es, sabres. Lembrava<br \/>\n    muito Tartarin, mas havia tamb&eacute;m nele um pouco de Artigas e outros<br \/>\n    caudilhos sul americanos.<\/p>\n<p>Todo o pa&iacute;s obedecia-lhe e eu me resolvi a ter tamb&eacute;m uma grande<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o por esse manipanso brasileiro.<\/p>\n<p>Depois que fui nomeado Diretor da pecu&aacute;ria Nacional, nunca deixei<br \/>\n    de visit&aacute;-lo. Naquela semana, fui recebido no seu gabinete de trabalho.<br \/>\n    Era a primeira vez que entrava naquele santu&aacute;rio, donde o poderoso<br \/>\n    senador Sof&ocirc;nias Ant&ocirc;nio Macedo da Costa ditava ordens ao Brasil<br \/>\n    todo.<\/p>\n<p>Havia uma mesa rica, cheia de gavetas, com incrusta&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    marfim e sobre ela, al&eacute;m de objetos pr&oacute;prios para escrever,<br \/>\n    um galo de bronze, um touro no ato de dar a marrada, tamb&eacute;m de bronze,<br \/>\n    e os pesos para papel eram atributos de cavalari&ccedil;a e corridas de cavalos;<br \/>\n    ferraduras, chicotes, &quot;bonets&quot; de j&oacute;quei, etc.<\/p>\n<p>Olhei o arm&aacute;rio envidra&ccedil;ado meio cheio de livros. A obra mais<br \/>\n    importante que l&aacute; havia era a Hist&oacute;ria dos Girondinos, de Lamartine,<br \/>\n    uma tradu&ccedil;&atilde;o portuguesa da casa de David Corrazzi. Al&eacute;m<br \/>\n    destas, vi O Galo, O Cavalo, O Boi, monografias de baixo valor e pre&ccedil;o<br \/>\n    baixo; muitos relat&oacute;rios e alguns trabalhos sobre o Direito P&uacute;blico<br \/>\n    Brasileiro. N&atilde;o havia trinta volumes na biblioteca daquele homem poderoso<br \/>\n    que dirigia os destinos de um povo. N&atilde;o vi nelas sen&atilde;o livros<br \/>\n    em portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>Encontrei-o concentrado, sentado a uma &quot;voltaire&quot;, fumando um cigarro<br \/>\n    de palha, que parecia sempre apagado, mas que, a menor aspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se acendia logo.<\/p>\n<p>&#8212; Entra, menino &#8212; disse-me com aquele seu falar especial.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s os cumprimentos e sentar-me, encolhi-me em respeitosa reserva,<br \/>\n    temendo perturbar a marcha dos pensamentos daquele guia de povos. Certamente,<br \/>\n    ele imaginava coisas poderos&iacute;ssimas para a grandeza do Brasil; certamente,<br \/>\n    pensava em algum problema nacional, atinente &agrave; agricultura, &agrave;<br \/>\n    ind&uacute;stria, ou mesmo &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es internacionais<br \/>\n    do pa&iacute;s; certamente, naquele instante, pesavam no seu pensamento as<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es de felicidade de toda uma popula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e eu me calei para que as minhas parvas palavras n&atilde;o fossem de qualquer<br \/>\n    forma estragar a maravilhosa solu&ccedil;&atilde;o que ele ia encontrar. Fiquei<br \/>\n    assim alguns minutos, olhando os dois quadros que havia na sala. Eram duas<br \/>\n    oleogravuras baratas em molduras caras, representando o &quot;Nascente&quot;<br \/>\n    e o &quot;Poente&quot; no alto mar.<\/p>\n<p>O Senador tirou uma longa fuma&ccedil;a do seu teimoso cigarro de palha e<br \/>\n    a sua fisionomia dura perdeu o ar de concentra&ccedil;&atilde;o. Disse-me<br \/>\n    ent&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Menino! Esta pol&iacute;tica!<\/p>\n<p>Repetiu depois de algum tempo, com uma lament&aacute;vel express&atilde;o<br \/>\n    de des&acirc;nimo, sen&atilde;o de desgosto, abanando a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Esta pol&iacute;tica! Esta pol&iacute;tica!<\/p>\n<p>N&atilde;o nego que tivesse no momento uma certa admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelos homens de Estado. Apesar das minhas secretas id&eacute;ias anarquistas,<br \/>\n    com a vis&atilde;o que me veio das suas responsabilidades, das suas dificuldades,<br \/>\n    da necessidade do emprego, de intelig&ecirc;ncia e imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que necessitavam as medidas que punham em pr&aacute;tica, veio-me tamb&eacute;m<br \/>\n    por eles um respeito que nunca se tinha aninhado em mim. Sinceramente, disse-lhe<br \/>\n    por a&iacute;:<\/p>\n<p>&#8212; O senador tem raz&atilde;o em estar preocupado, mas um homem dos<br \/>\n    seus recursos n&atilde;o pode desanimar. As quest&otilde;es mais dif&iacute;ceis<br \/>\n    se resolvem &agrave; custa de muito pensar nelas. Se n&atilde;o for hoje,<br \/>\n    ser&aacute; amanh&atilde; ou depois e o povo brasileiro n&atilde;o perde por<br \/>\n    esperar uns dias.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias n&atilde;o me respondeu logo. Levantou-se da cadeira e respirou<br \/>\n    com for&ccedil;a como se de h&aacute; muito a preocupa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    lhe deixasse respirar. Era alto e fino de corpo, mas sem flexibilidade, &quot;souplesse&quot;,<br \/>\n    que lhe desse uma eleg&acirc;ncia natural . Debaixo daquelas roupas muito<br \/>\n    justas, via-se sempre o homem do campo mal habituado &agrave;quelas roupagens<br \/>\n    e cioso de se mostrar elegante e majestoso. Foi at&eacute; a uma janela, atirou<br \/>\n    a ponta do cigarro fora e respondeu-me:<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Bogoloff! Se fosse s&oacute; o povo, n&atilde;o me preocupava<br \/>\n    tanto. Ele est&aacute; habituado a esperar; mas se trata do Chiquinho e as<br \/>\n    elei&ccedil;&otilde;es est&atilde;o na porta.<\/p>\n<p>Calou-se um pouco e eu n&atilde;o encontrei nada que lhe dizer. Ap&oacute;s<br \/>\n    instantes, continuou, com voz lastimosa:<\/p>\n<p>&#8212; Pobre Chiquinho! T&atilde;o amigo, t&atilde;o dedicado, t&atilde;o<br \/>\n    leal! Quer ser deputado e eu lhe prometi que o faria; mas n&atilde;o sei por<br \/>\n    onde! Pelo meu Estado n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, o Chico diz que<br \/>\n    a vaga que vai haver &eacute; para o Xisto. O Chico &eacute; muito caprichoso<br \/>\n    e eu n&atilde;o gosto de contrari&aacute;-lo. J&aacute; falei ao Machado,<br \/>\n    mas mostrou-me a impossibilidade de servir-me. A vaga do Castrioto, eleito<br \/>\n    governador, j&aacute; tinha sido prometida ao Nunes. O Nogueira disse-me que<br \/>\n    ia ver&#8230; Qual, menino! Esta pol&iacute;tica &eacute; uma burla. Sirvo todos<br \/>\n    e, quando quero que me sirvam, n&atilde;o me atendem.<\/p>\n<p>Eu j&aacute; estava h&aacute; muito tempo sem dizer nada e n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    conveniente calarmo-nos diante dos poderosos. O sil&ecirc;ncio &eacute; sempre<br \/>\n    interpretado mal. Conhecia muito pouco o Chiquinho, ou, antes: o Dr. Francisco<br \/>\n    Cotiassu, bacharel em Direito, com um emprego qualquer, e mais nada. Assim<br \/>\n    mesmo e sabendo o motivo da pressa em faz&ecirc;-lo deputado, adiantei:<\/p>\n<p>&#8212; Talvez ele pudesse esperar&#8230;<\/p>\n<p>O senador respondeu quase irritado:<\/p>\n<p>&#8212; Esperar! Como? Pois se vai casar dentro de quatro meses, como pode<br \/>\n    esperar? A fortuna dele &eacute; insignificante e o emprego que tem rende<br \/>\n    a ninharia de novecentos mil r&eacute;is. Preciso faz&ecirc;-lo deputado quanto<br \/>\n    antes&#8230; Veremos<\/p>\n<p>Estivemos falando um pouco e sa&iacute;mos juntos. Vim at&eacute; o seu carro<br \/>\n    e, por toda a parte por onde pass&aacute;vamos, todos olhavam o poderoso Senador<br \/>\n    Sof&ocirc;nias Ant&ocirc;nio Macedo da Costa, o homem encarregado pela soberania<br \/>\n    da na&ccedil;&atilde;o de lhe fazer a felicidade e respeitar sua vontade e<br \/>\n    conquistas liberais.<\/p>\n<p>A arte de governar &eacute; de fato uma coisa dific&iacute;lima e, como eu<br \/>\n    estava em posi&ccedil;&atilde;o prop&iacute;cia, resolvi estud&aacute;-la<br \/>\n    mais de perto, examinando os seus &oacute;rg&atilde;os e analisando as suas<br \/>\n    fun&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Desde o dia em que encontrei o Senador Sof&ocirc;nias t&atilde;o intensamente<br \/>\n    concentrado no problema de fazer o Chiquinho deputado, tomei o alvitre de<br \/>\n    procurar ver como funcionava o mecanismo pol&iacute;tico do Brasil. Ele me<br \/>\n    pareceu, por aquela espantosa manifesta&ccedil;&atilde;o do Senador, t&atilde;o<br \/>\n    maravilhoso e t&atilde;o s&aacute;bio, que n&atilde;o esperei mais tempo e<br \/>\n    pus-me &agrave; obra. Pedi uma licen&ccedil;a e tracei meu plano. A minha<br \/>\n    id&eacute;ia era v&ecirc;-lo funcionar nos Estados e, depois ent&atilde;o,<br \/>\n    na Capital. A &eacute;poca era maravilhosa, porque se aproximavam as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    federais para deputado e o ter&ccedil;o do Senado e, em alguns Estados, ia<br \/>\n    ter lugar as elei&ccedil;&otilde;es de governadores. Como n&atilde;o tinha<br \/>\n    predile&ccedil;&atilde;o por este ou aquele, tirei a sorte. Pus dentro da<br \/>\n    copa do chap&eacute;u vinte peda&ccedil;os de papel com os nomes deles muito<br \/>\n    bem enrolados e mandei que o meu criado tirasse um dos tais peda&ccedil;os.<br \/>\n    Caiu por sorte o Estado dos Caranguejos, para onde parti em breve tempo.<\/p>\n<p>Antes de lhes contar as minhas aventuras pelos Estados, conv&eacute;m que<br \/>\n    lhes diga o que fiz como Diretor da Pecu&aacute;ria Nacional.<\/p>\n<p>Logo que tomei posse tive uma confer&ecirc;ncia com o Ministro, no qual lhe<br \/>\n    mostrei a necessidade de darmos come&ccedil;o &agrave;s experi&ecirc;ncias<br \/>\n    de meu processo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, Doutor, organize o seu plano<br \/>\n    e exponha o que necessita, que aqui estou para fornecer-lhe os meios. O Doutor<br \/>\n    compreende que tenho o m&aacute;ximo empenho em levar avante esse empreendimento,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; porque &eacute; de um valor cient&iacute;fico extraordin&aacute;rio,<br \/>\n    como tamb&eacute;m oferece aspectos pr&aacute;ticos de alcance transcendente.<br \/>\n    Sou pela pr&aacute;tica, pela atividade &uacute;til. Hoje, por exemplo, tenho<br \/>\n    que assinar 2069 decretos e levo ao Presidente 400 regulamentos, ente os quais<br \/>\n    um sobre a postura das galinhas que lhe vai agradar muito. N&atilde;o se dedica<br \/>\n    &agrave; avicultura, Doutor?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; mas os meus processos s&atilde;o gerais, destinam-se<br \/>\n    a toda esp&eacute;cie da cria&ccccedil;&atilde;o de animais. Havemos de experiment&aacute;-los,<br \/>\n    se V. Exa. me fornecer os meios necess&aacute;rios.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida. Fa&ccedil;a o or&ccedil;amento.<\/p>\n<p>N&atilde;o me demorei muito em organiz&aacute;-lo com todo o capricho. Nele,<br \/>\n    al&eacute;m de muitas coisas, exigia dez auxiliares h&aacute;beis, pr&aacute;ticos<br \/>\n    e sabidos na bioqu&iacute;mica, os quais deviam ser contratados na Europa;<br \/>\n    exigia uma fazenda &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o; pedia um numeroso<br \/>\n    pessoal subalterno e uma grande verba para material. O or&ccedil;amento ia<br \/>\n    a quase oitocentos contos anuais. Apresentei-o ao Ministro que n&atilde;o<br \/>\n    o examinou logo:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o lhe posso dar resposta j&aacute;, meu caro Doutor. Estou<br \/>\n    muito atrapalhado&#8230; Nesse pa&iacute;s est&aacute; tudo por prover e eu trabalho<br \/>\n    dia e noite. Nunca teve ministros e um que vem com disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de trabalho, esgota-se em pouco tempo&#8230; Imagine, que n&atilde;o pude tomar<br \/>\n    hoje o meu banho de frio, tanto estou atrasado!&#8230; Um dia em que n&atilde;o<br \/>\n    o fa&ccedil;o, volto a ser o brasileiro mole que os senhores conhecem&#8230; Assim<br \/>\n    mesmo j&aacute; assinei 382 decretos e organizei 49 regulamentos&#8230; Ah! Doutor!<br \/>\n    Esse Brasil precisa de frio, muito frio!<\/p>\n<p>Despedi &#8212; me de homem t&atilde;o ativo e voltou ao meu gabinete. Durante<br \/>\n    um m&ecirc;s o Ministro n&atilde;o me deu resposta e o meu trabalho, na Dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Pecu&aacute;ria Nacional limitava-se t&atilde;o somente assinar os registros<br \/>\n    de est&aacute;bulos e vacarias da cidade.<\/p>\n<p>Houve um dia em que o ministro me chamou e falou-me a respeito da minha Pecu&aacute;ria<br \/>\n    intensiva:<\/p>\n<p>&#8212; Li o seu or&ccedil;amento e a sua exposi&ccedil;&atilde;o. Muito<br \/>\n    bons, ambos! O or&ccedil;amento est&aacute; um pouco salgado. Por que o senhor<br \/>\n    quer um laborat&oacute;rio de qu&iacute;mica t&atilde;o completo?<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. compreende &#8212; disse-lhe eu &#8212; que os nossos processos<br \/>\n    se baseiam na bioqu&iacute;mica; da&iacute; essa necessidade.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, concordo; mas o Doutor podia<br \/>\n    bem dispensar a fazenda.<\/p>\n<p>&#8212; E os meus bois onde viveriam? N&atilde;o acha V. Exa. necess&aacute;rio<br \/>\n    pastagens?<\/p>\n<p>&#8212; O seu m&eacute;todo n&atilde;o se baseia na alimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    artificial, Doutor?<\/p>\n<p>&#8212; Baseia-se na superalimenta&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o? O seu gado podia at&eacute; ser criado em uma<br \/>\n    sala.<\/p>\n<p>&#8212; Isto podia dar-se se fosse um ou dois, mas muitos n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas, Doutor! O senhor sabe que o<br \/>\n    governo est&aacute; em economias e n&atilde;o pode atend&ecirc;-lo. Em todo<br \/>\n    o caso o Estado tem uma casa dispon&iacute;vel com um razo&aacute;vel quintal,<br \/>\n    &agrave; rua Conde de Bonfim, e, em pequena escala, o senhor podia experimentar.<br \/>\n    V&aacute; ver a casa.<\/p>\n<p>In&uacute;til &eacute; dizer que eu n&atilde;o tinha nenhum interesse em<br \/>\n    por em pr&aacute;tica as minhas fant&aacute;sticas id&eacute;ias. Fui ver<br \/>\n    a casa e fiz um relat&oacute;rio completamente desfavor&aacute;vel. Nem outro<br \/>\n    podia ser. A casa era um pardieiro arruinado e o quintal tinha para pastagem<br \/>\n    algumas touceiras desse capim que se chama &quot;p&eacute;s de galinhas&quot;.<br \/>\n    O Ministro aconselhou-me por essa ocasi&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Doutor, n&atilde;o se aborre&ccedil;a. Ningu&eacute;m mais do que<br \/>\n    eu conhece as vantagens do seu processo, a barateza que ia trazer para um<br \/>\n    g&ecirc;nero de primeira necessidade, mas o governo est&aacute; em apuros.<br \/>\n    Aconselho que se ocupe do expediente ordin&aacute;rio e espere um pouco.<\/p>\n<p>Levei quase um ano a assinar licen&ccedil;as e registros das vacarias da<br \/>\n    cidade e tanto isso me aborreceu que, quando vi a dolorosa preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica do Senador Sof&ocirc;nias, resolvi atirar-me ao exame da pol&iacute;tica<br \/>\n    do Brasil, colhendo dados nos Estados.<\/p>\n<p>N&atilde;o julguem, pois, que foi um estado d?alma de &quot;p&iacute;caro&quot;<br \/>\n    e vagabundo que me lan&ccedil;ou nessa peregrina&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    sou absolutamente um Guzman d?Alfarrache, um Lazarilho de Tormes, nem um Gil<br \/>\n    Blas ; tenho &acirc;nsia de certeza e de verdade, e quis, provocado pelo espet&aacute;culo<br \/>\n    pungente que o alto Senador Macedo da Costa me deu, examinar bem o que era<br \/>\n    pol&iacute;tica, quais as suas vantagens, quais as suas belezas e qual a sua<br \/>\n    import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>J&aacute; lhes disse como escolhi o Estado dos Caranguejos para come&ccedil;ar<br \/>\n    o meu exame. Parti para ele, a bordo de um vapor do L&oacute;ide, em fins<br \/>\n    do ano. O paquete estava com a partida marcada para 26 de dezembro; mas, como<br \/>\n    o governo queria n&uacute;mero na C&acirc;mara e temia que muitos deputados<br \/>\n    fugissem nele para os Estados, adiou-a para o dia 30.<\/p>\n<p>Embarquei &agrave;s 10 horas da manh&atilde;, pois os an&uacute;ncios diziam<br \/>\n    que o navio levantava ferros ao meio dia. Havia congressistas passageiros<br \/>\n    e, tendo as sess&otilde;es da C&acirc;mara se prolongado at&eacute; tarde,<br \/>\n    o vapor s&oacute; deixou as amarras &agrave;s nove horas da noite.<\/p>\n<p>Foi, portanto, vendo a cidade iluminada, a se mirar nas &aacute;guas negras<br \/>\n    da baia, que atravessei a barra em demanda ao Estado dos Caranguejos.<\/p>\n<p>Naveg&aacute;vamos num mar calmo sob um c&eacute;u negro em que as estrela<br \/>\n    faiscavam como diamantes nas trevas.<\/p>\n<p>A linha da costa era de longe em longe marcada por fracas luzernas &agrave;<br \/>\n    altura das &aacute;guas. As &aacute;guas estavam negras e o mar tinha de noite<br \/>\n    menos atra&ccedil;&atilde;o e aparentava mais seguran&ccedil;a. A luz manifestava<br \/>\n    toda a sua fascina&ccedil;&atilde;o e esclarece os perigos e as suas perf&iacute;dias.<\/p>\n<p>De quando em quando, o jorro luminoso do farol da Rasa cobria um instante<br \/>\n    o navio. N&atilde;o havia quase fosforesc&ecirc;ncia e, na coberta. s&oacute;<br \/>\n    ouvia o ritmo das m&aacute;quinas e o escachoar das h&eacute;lices.<\/p>\n<p>Havia poucos passageiros na tolda e, entre eles, n&atilde;o se estabelecera<br \/>\n    conversa. Todos se tinham mergulhado no insond&aacute;vel mist&eacute;rio<br \/>\n    daquela noite de trevas sobre o oceano imenso. De repente, um grito quebrou<br \/>\n    aquele augusto sil&ecirc;ncio:<\/p>\n<p>&#8212; Meu bin&oacute;culo! &Oacute; comandante! Pare! Pare!<\/p>\n<p>Todos n&oacute;s acudimos para ver o que era e topamos com um senhor envolto<br \/>\n    em roupas de dormir que gesticulava possesso e gritava furiosamente:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; comandante! Meu bin&oacute;culo! Pare! Pare!<\/p>\n<p>A todas as nossas perguntas de explica&ccedil;&atilde;o, ele se limitava<br \/>\n    a responder:<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; o comandante?<\/p>\n<p>Vindo o capit&atilde;o, entre o tom de pedido e o de ordem, ele disse:<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Seu&quot; comandante, &eacute; preciso voltarmos ao Rio. Esqueci-me<br \/>\n    do meu bin&oacute;culo.<\/p>\n<p>O comandante fez-lhe ver que isso era imposs&iacute;vel e tal coisa iria<br \/>\n    causar graves preju&iacute;zos &agrave; companhia e aos passageiros. O homem<br \/>\n    enfureceu-se e gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe com quem est&aacute; falando?<\/p>\n<p>O comandante disse que n&atilde;o sabia, mas que n&atilde;o havia necessidade<br \/>\n    de sab&ecirc;-lo, pois se tratava de medida de suas atribui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sendo ali a sua autoridade em tudo soberana.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem &#8212; disse o homem &#8212; tenho imunidades; sou o senador<br \/>\n    Carrapatoso.<\/p>\n<p>O comandante retorquiu no mesmo tom de voz:<\/p>\n<p>&#8212; Vossa Excel&ecirc;ncia h&aacute; de perdoar-me, Sr. Senador, mas<br \/>\n    n&atilde;o posso voltar.<\/p>\n<p>Nisso apareceu um sujeito alto e espada&uacute;do, acaboclado, com um bambolear<br \/>\n    de corpo expressivo e foi dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Volte essa jo&ccedil;a. V&aacute;! O senador est&aacute; mandando.<\/p>\n<p>O comandante ainda recalcitrou, tentando convencer o homem que havia muitos<br \/>\n    bin&oacute;culos a bordo, mas o senador intimou:<\/p>\n<p>&#8212; Quero o meu bin&oacute;culo. N&atilde;o quero outro. Ou o senho volta<br \/>\n    e eu voto a autoriza&ccedil;&atilde;o para o empr&eacute;stimo da companhia,<br \/>\n    ou n&atilde;o volta e eu e a minha bancada faremos uma guerra tremenda ao<br \/>\n    projeto.<\/p>\n<p>&Agrave; vista disso, o comandante que sabia das dificuldades da empresa,<br \/>\n    tanto assim que n&atilde;o recebia os seus vencimentos havia tr&ecirc;s meses,<br \/>\n    virou de bordo e voltamos para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>S&oacute; levantamos de novo o ferro, na madrugada do dia seguinte e penosamente<br \/>\n    o navio levou-me a Tatui, capital do Estado dos Caranguejos.<\/p>\n<p>Como os senhores sabem, esse Estado n&atilde;o &eacute; dos maiores do Brasil,<br \/>\n    nem mesmo dos m&eacute;dios, mas n&atilde;o &eacute; o menor deles.. Tem uma<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o de pouco mais de meio milh&atilde;o de habitantes<br \/>\n    e uma lavoura de cana de a&ccedil;&uacute;car que se arrasta atrav&eacute;s<br \/>\n    de dolorosas crises. A n&atilde;o ser a ind&uacute;stria do fabrico do a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    quase sempre em crise como a lavoura em que se baseia, n&atilde;o havia no<br \/>\n    Estado outra ind&uacute;stria de vulto.<\/p>\n<p>A sua capital, a cidade de Tatui, tem uns trinta mil habitantes. Era uma<br \/>\n    desgraciosa cidade de casas baixas, quase sem cal&ccedil;amento, sem esgotos<br \/>\n    e com pouca ilumina&ccedil;&atilde;o el&eacute;trica.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias que l&aacute; passei espantou-me a quantidade de mendigos<br \/>\n    e pobres, al&eacute;m da grande quantidade de gente que exerce of&iacute;cios<br \/>\n    miser&aacute;veis, como baleiros, carregadores, vendedores de &aacute;gua,<br \/>\n    (n&atilde;o havia &aacute;gua encanada) e outros.<\/p>\n<p>Possu&iacute;a uma linha de bondes pregui&ccedil;osos, servida por um &uacute;nico<br \/>\n    ve&iacute;culo, que s&oacute; parte dos pontos quando estava pela metade de<br \/>\n    passageiros.<\/p>\n<p>Quando nos afast&aacute;vamos da zona urbana, o espet&aacute;culo era mais<br \/>\n    miser&aacute;vel ainda. S&oacute; h&aacute; palho&ccedil;as de sap&eacute;,<br \/>\n    cercadas de pobres ro&ccedil;as desanimadas; pelos caminhos encontravam-se<br \/>\n    mulheres p&uacute;blicas meio rotas, carregando as esteiras em que realizavam<br \/>\n    os seus tristes amores.<\/p>\n<p>Constru&iacute;a-se um teatro majestoso, num estilo comp&oacute;sito e abracadabrante.<\/p>\n<p>N&atilde;o dava um passo sem que os moleques me fizessem oferecimento de<br \/>\n    levar-me a lugares equ&iacute;vocos.<\/p>\n<p>Esse Estado j&aacute; estava &quot;salvo&quot;. Sabem os senhores o que isso<br \/>\n    quer dizer. Chama-se, &quot;salvar um Estado&quot;, entregar a sua governan&ccedil;a<br \/>\n    a um militar. Para isso contribuem duas coisas: a fome de grandes e pequenas<br \/>\n    posi&ccedil;&otilde;es dos civis e a vaidade demasiada de alguns militares.<br \/>\n    O Dr. Fulano e o chefe pol&iacute;tico Fu&atilde;o n&atilde;o tinham sido<br \/>\n    at&eacute; ali satisfeitos nas suas pretens&otilde;es pelo governador. Que<br \/>\n    fazer? Dizem-se em oposi&ccedil;&atilde;o, arranjam meia d&uacute;zia de asseclas,<br \/>\n    publicam um jornaleco e apresentam candidatos &agrave; sucess&atilde;o governamental<br \/>\n    o general Z. ou o coronel B.<\/p>\n<p>O general Z. ou o coronel B., como coron&eacute;is ou generais que s&atilde;o,<br \/>\n    muito convencidos das suas virtudes excepcionais, aceitam logo a coisa e tecem<br \/>\n    os pauzinhos de forma a encher o Estado com batalh&otilde;es, cujos oficiais<br \/>\n    lhes s&atilde;o dedicados inteiramente.<\/p>\n<p>Ao chegar a ocasi&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es, oprimem os advers&aacute;rios,<br \/>\n    enchem-se de votos falsos e verdadeiros e, depois, obrigam os respectivos<br \/>\n    Congressos a reconhec&ecirc;-los.<\/p>\n<p>Eles mesmos se intitulam C&eacute;sares e Marcos Aur&eacute;lios, jactam-se<br \/>\n    de puros, sapientes e imaculados.<\/p>\n<p>Em geral s&atilde;o tipos inteiramente desconhecidos, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    do pa&iacute;s como dos Estados que v&atilde;o &quot;salvar&quot;, mas n&atilde;o<br \/>\n    trepidam em tomar os mais altissonantes pseud&ocirc;nimos e em dizer-se escolhidos<br \/>\n    do povo.<\/p>\n<p>Um &eacute; C&eacute;sar porque &eacute; um general de talentos nunca postos<br \/>\n    &agrave; prova e um p&eacute;ssimo escritor; o outro &eacute; Marco Aur&eacute;lio<br \/>\n    porque nunca furtou dez tost&otilde;es.<\/p>\n<p>Este deixa de lado aquela sede de perfei&ccedil;&atilde;o do imperador romano,<br \/>\n    a sua profunda piedade e a sua &acirc;nsia de bondade e fraternidade; aquele,<br \/>\n    abandona os talentos do grande J&uacute;lio e cobre a sua mod&eacute;stia<br \/>\n    not&oacute;ria com o nome do autor dos Coment&aacute;rios .<\/p>\n<p>N&atilde;o dizem quais sejam as suas id&eacute;ias de governo, o que pretendem<br \/>\n    fazer, quais as medidas que v&atilde;o empregar. Mandam os batalh&otilde;es,<br \/>\n    chamam os advers&aacute;rios de gatunos, proclamam-se honestos e fazem-se<br \/>\n    presidentes, governadores, custe o que custar.<\/p>\n<p>De posse do governo, esbordoam, empastelam jornais, degolam, matam, procedem,<br \/>\n    enfim, mais como Domiciano ou C&ocirc;modo do que como Marco Aur&eacute;lio<br \/>\n    ou mesmo J&uacute;lio C&eacute;sar.<\/p>\n<p>Esta palha&ccedil;ada j&aacute; tinha tido lugar no Estado dos Caranguejos<br \/>\n    e estava &agrave; sua frente o General Contreiras.<\/p>\n<p>Foi engra&ccedil;ado como apresentaram a candidatura desse general, ent&atilde;o<br \/>\n    coronel. Era um oficial obscuro, que tinha subido posto a posto pelos processos<br \/>\n    comuns. Um belo dia, o rep&oacute;rter de um jornal levantou a sua candidatura<br \/>\n    &agrave; presid&ecirc;ncia, porque era filho do venerando Frutuoso. Ningu&eacute;m<br \/>\n    mais se lembrava desse her&oacute;i, que morrera havia dez anos, e, nas ruas,<br \/>\n    n&atilde;o era raro ouvir-se a seguinte conversa:<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute; esse Contreiras?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; filho do venerando Frutuoso.<\/p>\n<p>&#8212; Quem foi esse Frutuoso?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me lembro bem<\/p>\n<p>Tudo marchava nessa conformidade e era com t&atilde;o fortes t&iacute;tulos<br \/>\n    que se conflagravam os Estados, causando mortes e viol&ecirc;ncias de toda<br \/>\n    ordem sobre as propriedades e as pessoas.<\/p>\n<p>O Estado de Caranguejos j&aacute; estava portanto &quot;salvo&quot;, pois<br \/>\n    tinha &agrave; frente do seu governo o general Contreiras<\/p>\n<p>Contreiras, logo que tomou conta do governo, mandou empastelar o jornal da<br \/>\n    oposi&ccedil;&atilde;o e, em seguida, fez um inqu&eacute;rito em que o seu<br \/>\n    delegado procurava demonstrar que haviam sido os propriet&aacute;rios do jornal<br \/>\n    os autores do empastelamento.<\/p>\n<p>Para isso, al&eacute;m do seu cinismo em afirmar, o tal delegado empregou<br \/>\n    a coa&ccedil;&atilde;o e a amea&ccedil;a sobre os depoentes, pobres oper&aacute;rios<br \/>\n    que eram obrigados a dizer tudo o que convinha &agrave; autoridade.<\/p>\n<p>N&atilde;o contente com isso, dividiu o Estado em v&aacute;rios distritos<br \/>\n    agr&iacute;colas, &agrave; frente dos quais p&ocirc;s um inspetor e meia d&uacute;zia<br \/>\n    de auxiliares; todos capangas seus, que se encarregavam de esbordoar aqueles<br \/>\n    que demonstrassem de qualquer modo n&atilde;o concordarem com &quot;o salvador&quot;.<\/p>\n<p>As reclama&ccedil;&otilde;es choviam e os delegados policiais faziam inqu&eacute;ritos<br \/>\n    onde diziam que n&atilde;o havia nos casos coisa alguma de pol&iacute;tica,<br \/>\n    mas simples rixas por quest&otilde;es de mulheres ou de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Reparei que havia nesses ditadores todos um terror extremo diante da lei<br \/>\n    que violavam. N&atilde;o tinham coragem de faz&ecirc;-lo francamente, claramente,<br \/>\n    ousadamente; mascaravam as suas viol&ecirc;ncias, os seus assassinatos, com<br \/>\n    subterf&uacute;gios legais e outros, falando sempre em liberdade, em ordem,<br \/>\n    em paz e prosperidade.<\/p>\n<p>Tive vontade de visitar o governador e pedir-lhe uma audi&ecirc;ncia, mesmo<br \/>\n    porque, se n&atilde;o o fizesse, corria perigo a minha seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>J&aacute; come&ccedil;avam a desconfiar &quot;daquele estrangeiro&quot;.<br \/>\n    isto &eacute;, de mim, mas o estrangeiro n&atilde;o significava estranho ao<br \/>\n    pa&iacute;s. mas ao Estado.<\/p>\n<p>Vi-me muitas vezes seguido por tipos suspeitos, e &agrave; vista disso, declarei<br \/>\n    a minha qualidade de oficial e pedi uma audi&ecirc;ncia ao governador. Ele<br \/>\n    ma deu sem demora e pude conversar com ele.<\/p>\n<p>N&atilde;o se imagina homem mais comum, de fei&ccedil;&otilde;es e intelig&ecirc;ncia.<br \/>\n    N&atilde;o lhe pode sacar nem uma id&eacute;ia sobre a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o governo. Ele s&oacute; me dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Este Estado tem sido muito roubado. Agora a coisa vai entrar nos<br \/>\n    eixos. Sou honesto e n&atilde;o consinto que ningu&eacute;m roube &agrave;<br \/>\n    minha sombra.<\/p>\n<p>Quando lhe falei sobre a mis&eacute;ria da popula&ccedil;&atilde;o, na lament&aacute;vel<br \/>\n    impress&atilde;o que isso fazia a quem vinha de fora, ele me disse:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;&#8230; &Eacute;&#8230; S&atilde;o uns madra&ccedil;os. Estou tratando<br \/>\n    de fundar uma col&ocirc;nia correcional.<\/p>\n<p>Aquele homem n&atilde;o via que era o pr&oacute;prio governo quem criava<br \/>\n    aquela situa&ccedil;&atilde;o; que era, al&eacute;m de outras coisas, a quantidade<br \/>\n    formid&aacute;vel de impostos cobrados pelos governos municipal, estadual<br \/>\n    e federal?<\/p>\n<p>Perguntou-me ent&atilde;o pela pol&iacute;tica central, se o Sof&ocirc;nias<br \/>\n    era muito poderoso, se faziam muita oposi&ccedil;&atilde;o a ele, governador.<br \/>\n    Disse-lhe que os jornais do Rio atacavam-no muito e ele observou:<\/p>\n<p>&#8212; Sei&#8230; Sei&#8230;. A culpa &eacute; do Simpl&iacute;cio (o presidente)<br \/>\n    que n&atilde;o os faz calar&#8230;<\/p>\n<p>Tomou por a&iacute; uma express&atilde;o feroz que trouxe &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    do russo Tamerl&atilde;o e Gengis Khan.<\/p>\n<p>Despedi-me governador, e, no dia seguinte, para completar as minhas notas,<br \/>\n    fui assistir a uma sess&atilde;o da C&acirc;mara dos Representantes.<\/p>\n<p>A Constitui&ccedil;&atilde;o do Estado, moldada na Federal, estabelecia a<br \/>\n    independ&ecirc;ncia e a harmonia dos poderes estaduais, que eram o judici&aacute;rio,<br \/>\n    o executivo e o legislativo.<\/p>\n<p>O Estado n&atilde;o tinha Senado e o &oacute;rg&atilde;o do seu poder legislativo<br \/>\n    era unicamente a C&acirc;mara dos Representantes, que funcionava numa ala<br \/>\n    do pal&aacute;cio do governador.<\/p>\n<p>A sala n&atilde;o era apropriada ao seu destino, mas era ampla e bem iluminada;<br \/>\n    e, como j&aacute; fosse conhecida a minha qualidade, deram-me uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de camarote, ao n&iacute;vel do recinto, a que chamavam de tribuna.<\/p>\n<p>Cheguei cedo e pode ver a entrada dos deputados. Havia alguns jovens bachar&eacute;is<br \/>\n    e tenentes, muito pimpantes nos seus trajes &agrave; &uacute;ltima moda, e<br \/>\n    havia tamb&eacute;m aqueles curiosos tipos de coron&eacute;is de ro&ccedil;a,<br \/>\n    que vinham &agrave;s sess&otilde;es em terno de brim, com botas de montar<br \/>\n    e a a&ccedil;oiteira de couro cru, pendendo na m&atilde;o esquerda, presa<br \/>\n    por uma corrente ao respectivo pulso.<\/p>\n<p>Eles chegavam e se espalhavam pelas bancadas, conversando e fumando. Junto<br \/>\n    a mim, havia dois, uma dos quais lia, &agrave; meia voz, um artigo de jornal<br \/>\n    para o outro ouvir.<\/p>\n<p>N&atilde;o passavam de vinte e tantos e eu perguntei a algu&eacute;m se era<br \/>\n    aquele o n&uacute;mero exato de representantes. Foi-me dito que n&atilde;o,<br \/>\n    que eram quarenta e cinco, mas que s&oacute; pouco mais da metade freq&uuml;entavam<br \/>\n    as sess&otilde;es. Os outros, acrescentou o meu informante, ficavam nas suas<br \/>\n    fazendas e mandam unicamente receber o subs&iacute;dio por seus procuradores<br \/>\n    bastantes.<\/p>\n<p>A sess&atilde;o custou a ter come&ccedil;o. Afinal o presidente e secret&aacute;rios<br \/>\n    tomaram seus lugares e a chamada foi feita.<\/p>\n<p>Notei que, quase em frente a mim e ao lado da mesa, um pouco distante, havia<br \/>\n    uma ampla cadeira de balan&ccedil;o, cujo destino ali era dif&iacute;cil atinar.<\/p>\n<p>Lida a ordem do dia, foi anunciado o expediente, e um deputado gritou do<br \/>\n    fundo da sala:<\/p>\n<p>&#8212; Pe&ccedil;o a palavra.<\/p>\n<p>No mesmo instante, a cadeira de balan&ccedil;o foi ocupada. Imaginem por<br \/>\n    quem? Pelo presidente do Estado, o General Contreiras. Estava muito simplesmente<br \/>\n    vestido, com uniforme de cor c&aacute;qui, sem colarinho, em chinelas de marroquim<br \/>\n    e at&eacute; o d&oacute;lm&atilde; estava desabotoado. Acudindo o pedido do<br \/>\n    deputado, o presidente da C&acirc;mara falou:<\/p>\n<p>&#8212; Tem a palavra o deputado Salvador da Costa.<\/p>\n<p>O deputado n&atilde;o abandonou a bancada e come&ccedil;ou com voz cantante:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor presidente &#8212; A cidade de Cubangoisolada do resto do<br \/>\n    atal, s&atilde;o absolutamente desanimadoras. A inspetoria de obras no seu<br \/>\n    habitual relaxamento&#8230;<\/p>\n<p>Por a&iacute;, o orador foi interrompido por um vibrante grito do governador:<\/p>\n<p>&#8212; Senta-te, Salvador! Fala agora o Jo&atilde;o.<\/p>\n<p>O deputado Salvador, abandonando o fio do seu discurso, desculpou-se:<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de perdoar-me, Senhor General Doutor Governador. Trato<br \/>\n    pura e simplesmente de uma quest&atilde;o administrativa. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>O governador n&atilde;o lhe deu ouvidos e continuou a gritar l&aacute; da<br \/>\n    cadeira de balan&ccedil;o:<\/p>\n<p>&#8212; Senta-te, Salvador! N&atilde;o prestas pra nada! Fala agora o Jo&atilde;o!<\/p>\n<p>Salvador ainda esteve uns minutos em p&eacute; sem saber o que fazer, olhando<br \/>\n    aqui e ali; por&eacute;m, um berro mais en&eacute;rgico do presidente f&ecirc;-lo<br \/>\n    cair sentado sobre a cadeira, como se tivesse sido derrubado por um raio.<\/p>\n<p>Assisti todo o resto da sess&atilde;o. N&atilde;o houve mais a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    en&eacute;rgica do general doutor presidente. Por fim, um deputado apresentou<br \/>\n    uma mo&ccedil;&atilde;o de congratula&ccedil;&atilde;o com o coronel Firmino,<br \/>\n    chefe pol&iacute;tico em Caxox&oacute;, por fazer anos naquele dia.<\/p>\n<p>Inteirado do funcionamento dos dois poderes do Estado, tendo a respeito t&atilde;o<br \/>\n    excelentes notas, quis observar em outra unidade pol&iacute;tica da Federa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a marcha de sua administra&ccedil;&atilde;o. Embarquei para o Estado dos Carapicus,<br \/>\n    que fica muito ao sul do dos Caranguejos.<\/p>\n<p>Pouco tinha a mais que ver, pois o que me fora dado assistir nos dom&iacute;nios<br \/>\n    do General Contreiras me pareceu ser o resumo da pol&iacute;tica estadual;<br \/>\n    contudo, dispus-me a ver como se passavam as coisas em outro Estado, porquanto<br \/>\n    podia tomar nota de um ou outro detalhe expressivo.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha muita esperan&ccedil;a nisso, &agrave; vista da parecen&ccedil;a<br \/>\n    estreita que t&ecirc;m as partes do Brasil entre si.<\/p>\n<p>Todas as cidades se parecem, tem a mesma fisionomia, possuem casas edificadas<br \/>\n    da mesma forma e at&eacute; as ruas t&ecirc;m os mesmo nomes e os apelidos<br \/>\n    das lojas de com&eacute;rcio s&atilde;o os mesmos.<\/p>\n<p>Um pa&iacute;s t&atilde;o vasto, que se desenvolveu atrav&eacute;s de climas<br \/>\n    e regi&otilde;es t&atilde;o diferentes, &eacute;, entretanto, nos seus aspectos<br \/>\n    sociais, mon&oacute;tono e uno.<\/p>\n<p>Tinha verificado isso na minha viagem para o Estado dos Caranguejos e certifiquei-me<br \/>\n    da verdade dessa verifica&ccedil;&atilde;o quando voltei.<\/p>\n<p>Imaginei que a coisa tamb&eacute;m se desse nos aspectos pol&iacute;ticos,<br \/>\n    mas n&atilde;o quis ficar em suposi&ccedil;&atilde;o e tratei de certificar-me<br \/>\n    da verdade, vendo os fatos que eram objeto dos meus estudos.<\/p>\n<p>Cheguei a capital do Estado dos Carapicus num domingo &agrave; tarde. No<br \/>\n    logradouro de desembarque, tocava uma fanhosa banda de m&uacute;sica e as<br \/>\n    mo&ccedil;as do lugar, muito enfunadas nos seus vestidos domingueiros, passeavam<br \/>\n    pelo largo com uma satisfa&ccedil;&atilde;o de prisioneiras em tempor&aacute;ria<br \/>\n    liberdade.<\/p>\n<p>Vista Alegre, essa capital, &eacute; uma pequena cidade de vinte mil habitantes,<br \/>\n    muito montuosa, sem monumentos, nem mesmo as velhas igrejas de estilo jesu&iacute;tico<br \/>\n    que se encontram pelo Brasil todo. O Estado dos Carapicus &eacute; dos mais<br \/>\n    pobres do Brasil; n&atilde;o tem uma produ&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica<br \/>\n    e importante. Vive de magras culturas estritamente ind&iacute;genas e possui<br \/>\n    riquezas florestais de dif&iacute;cil aproveitamento.<\/p>\n<p>Saltei na sua capital com o nome trocado e isso havia feito ap&oacute;s as<br \/>\n    ma&ccedil;adas que o meu nome estrangeiro e a minha qualidade de diretor da<br \/>\n    Pecu&aacute;ria me haviam dado em Tatui.<\/p>\n<p>Quando l&aacute; souberam que eu tinha t&atilde;o elevado cargo na administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nacional, n&atilde;o me deixaram fazer consultas, a respeito das mol&eacute;stias<br \/>\n    de bois e cavalos.<\/p>\n<p>Vi-me sempre em s&eacute;rias atrapalha&ccedil;&otilde;es para resolv&ecirc;-las<br \/>\n    e, quase sempre, receitei e aconselhei drogas que mais matavam os animais<br \/>\n    que a pr&oacute;pria mol&eacute;stia.<\/p>\n<p>Tendo sido t&atilde;o terr&iacute;vel exemplo do quanto custa ser-se diretor<br \/>\n    da Pecu&aacute;ria Nacional, troquei de nome, adotando um bem portugu&ecirc;s,<br \/>\n    e fiz chamar-me de Dr. Manoel da Silva.<\/p>\n<p>Eu falava j&aacute; muito bem portugu&ecirc;s, sem o mais leve acento estrangeiro,<br \/>\n    de forma a poder iludir perfeitamente os nacionais sob o meu disfarce de Silva.<br \/>\n    Abandonado os meus nomes russos, conservei, por&eacute;m, o Doutor, t&iacute;tulo<br \/>\n    indispens&aacute;vel para se ter no Brasil a considera&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    os hoteleiros, os copeiros, os catraieiros etc., dispensam a qualquer cavalheiro<br \/>\n    em todas as partes do mundo, com ou sem t&iacute;tulos.<\/p>\n<p>Saltando em Vista Alegre, dirigi-me logo a um hotel, Hotel Barbosa, onde<br \/>\n    pedi um quarto. Reparei que, quando dava o meu nome portugu&ecirc;s ao hoteleiro,<br \/>\n    o homem fez uma careta e olhou-me com espanto. Tomei banho, mudei de roupa<br \/>\n    e fui jantar. Logo que me pus &agrave; mesa, o meu hospedeiro veio sentar-se<br \/>\n    ao meu lado e falou-me cheio de aten&ccedil;&otilde;es e delicadezas.<\/p>\n<p>&#8212;Ent&atilde;o, Doutor, resolveu-se a vir, n&atilde;o foi?<\/p>\n<p>N&atilde;o atinava com o motivo dessa pergunta, porquanto, por mais que me<br \/>\n    lembrasse das minhas ten&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o achava nas minhas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    hesita&ccedil;&atilde;o em vir ou deixar de vir ao Estado dos Carapicus; entretanto,<br \/>\n    por complac&ecirc;ncia, respondi:<\/p>\n<p>&#8212; Pensei muito e resolvi-me.<\/p>\n<p>O Sr. Barbosa fez-se mais blandicioso e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; temos aqui dois batalh&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; &uacute;til &#8212; disse-lhe eu &#8212; sempre traz lucros<br \/>\n    para o com&eacute;rcio.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, mas demoram pouco. Ainda se ficassem&#8230;.<\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe l&aacute;? Aqui &eacute; lugar saud&aacute;vel e talvez<br \/>\n    o governo os deixe ficar.<\/p>\n<p>&#8212; N&oacute;s estimar&iacute;amos bem , porque assim fic&aacute;vamos<br \/>\n    mais garantidos, a n&atilde;o ser que&#8230;<\/p>\n<p>Por a&iacute;, como que teve medo de adiantar-se muito, calou-se, mas em<br \/>\n    breve recome&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. sabe que n&atilde;o sou pol&iacute;tico, mas h&aacute; certas<br \/>\n    coisas que a gente n&atilde;o pode ver sem protestar. O governador parece<br \/>\n    que perdeu a cabe&ccedil;a e est&aacute; dando por paus e pedras&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    sou pol&iacute;tico, mas h&aacute; certas coisas que fazem a gente ficar indignado.<\/p>\n<p>N&atilde;o respondi ao hoteleiro e ele n&atilde;o sei como interpretou o<br \/>\n    meu mutismo. Calou-se e se foi. Dormi maravilhosamente aquela noite e bem<br \/>\n    cedo sa&iacute; pela cidade.<\/p>\n<p>Uma cidade, como aquela, sem f&aacute;bricas de qualquer esp&eacute;cie,<br \/>\n    n&atilde;o tem, ao amanhecer, movimento de esp&eacute;cie algum. Encontram-se,<br \/>\n    a espa&ccedil;os, vendedores de p&atilde;o, uma carro&ccedil;a ou outra e<br \/>\n    mais nada. Ap&oacute;s o passeio, voltei a almo&ccedil;ar e reparei que os<br \/>\n    meus companheiros d hotel olhavam-me de uma forma indecentemente insistente.<br \/>\n    Que teria eu? Almocei &agrave; pressa e sa&iacute; logo &agrave; passeio.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha a cidade muito onde ir; n&atilde;o possu&iacute;a arrabaldes<br \/>\n    nem s&iacute;tios pitorescos, mas descobri uma f&aacute;brica de cerveja,<br \/>\n    num dos seus extremos, com um botequim anexo, onde me deixei ficar por algumas<br \/>\n    horas.<\/p>\n<p>Voltei ao centro, ao entardecer, e procurei o lugar de mais movimento. Procurei<br \/>\n    um caf&eacute; e entrei para tomar cerveja. Olhando ao derredor, verifiquei<br \/>\n    que continuavam a olhar-me da mesma forma que no hotel. Que teria eu? Levantei-me<br \/>\n    resolvido a ir-me no dia seguinte. Quem sabe se n&atilde;o me tomavam como<br \/>\n    espi&atilde;o, como pol&iacute;tico advers&aacute;rio da situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e n&atilde;o premeditavam alguma viol&ecirc;ncia contra mim? A situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos Estados do Brasil era t&atilde;o confusa que tudo era poss&iacute;vel.<br \/>\n    Levantei-me amedrontado e, cheio de temor, atravessei por entre as mesas.<br \/>\n    Atravessando-as, ouvi que partiam dos grupos nela sentados frases destacadas<br \/>\n    como estas:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ele.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;. Tem o mesmo nome e &eacute; louro.<\/p>\n<p>N&atilde;o tive logo certeza que se tratasse de minha pessoa, mas em caminho<br \/>\n    do hotel, nas ruas por onde passei, continuei a ouvir:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ele.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;. &Eacute; louro.<\/p>\n<p>N&atilde;o imaginam o pavor que fiquei possu&iacute;do e foi apressado que<br \/>\n    entrei no hotel. Que diabo queriam aqueles homens comigo? Fui ao quarto, fiz<br \/>\n    a minha &quot;toilette&quot; de jantar e abanquei-me &agrave; sala respectiva.<\/p>\n<p>Dei come&ccedil;o &agrave; refei&ccedil;&atilde;o e, ainda estava no meio<br \/>\n    dela, quando um capit&atilde;o, inteiramente fardado, veio ao p&eacute; de<br \/>\n    mim e me disse:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; com o Dr. Manoel da Silva que tenho a honra de falar?<\/p>\n<p>&#8212; Um seu criado &#8212; disse-lhe eu.<\/p>\n<p>&#8212; Desejava ter uma confer&ecirc;ncia reservada com o senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Para j&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Pode jantar e depois, ent&atilde;o, falaremos.<\/p>\n<p>Fiz o poss&iacute;vel para conservar o meu sangue frio, mas n&atilde;o consegui<br \/>\n    comer mais nada e dei-me por satisfeito antes de acabar as iguarias do sr.<br \/>\n    Barbosa. Dirigi-me logo para o quarto e o capit&atilde;o seguiu-me. L&aacute;<br \/>\n    chegando, ele me foi dizendo &aacute; queima roupa:<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; tudo pronto! N&atilde;o h&aacute; tempo a perder.<\/p>\n<p>&#8212; Como? Que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenha medo. A for&ccedil;a garante.<\/p>\n<p>&#8212; Garante o qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; A sua posse.<\/p>\n<p>&#8212; Que posse?<\/p>\n<p>&#8212; No lugar do governador. N&atilde;o &eacute; o senhor o Doutor Manoel<br \/>\n    da Silva?<\/p>\n<p>N&atilde;o tive outro rem&eacute;dio sen&atilde;o dizer quem era e o capit&atilde;o<br \/>\n    insistiu:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, prepare-se. Tenho ordem do Bonif&aacute;cio. Aqui est&aacute;<br \/>\n    o telegrama. Leia!<\/p>\n<p>Passou-me o telegrama e eu li o seguinte: &quot;D&ecirc; posse ao Manoel<br \/>\n    da Silva, custe o que custar. Bonif&aacute;cio&quot;.<\/p>\n<p>De h&aacute; muito n&atilde;o lia jornais e n&atilde;o sabia que havia para<br \/>\n    o Estado de Carapicus um candidato, com o nome que eu usava, &agrave; sua<br \/>\n    governan&ccedil;a. Esse candidato era inteiramente desconhecido no Estado<br \/>\n    e fora apresentado porque mantinha estreita amizade com esse tal Bonif&aacute;cio,<br \/>\n    esp&eacute;cie de mordomo do Presidente da Rep&uacute;blica, sobre cujo &acirc;nimo<br \/>\n    tinha esse servi&ccedil;al uma domina&ccedil;&atilde;o sem limites.<\/p>\n<p>Depois de muitos disparates, consegui saber tudo isso e protestei ao capit&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o era o tal Manoel da Silva que ele pensava; o homem, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o acreditou e julgando-me cheio de medo, intimou-me:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o senhor, por for&ccedil;a. Disseram-me que era louro; o<br \/>\n    senhor &eacute; louro, &eacute; por for&ccedil;a ele. Temos &quot;trabalhado&quot;<br \/>\n    muito e ou o senhor aceita e n&oacute;s o pomos no pal&aacute;cio, ou foge<br \/>\n    &agrave;s suas responsabilidades e eu o mato.<\/p>\n<p>Estava em s&eacute;ria colis&atilde;o e tinha que escolher entre essas duas<br \/>\n    pasmosas coisas: ser governador do Estado de Carapicus ou morrer.<\/p>\n<p>Levei toda a noite a pensar, a imaginar um meio de sair-me daquela atrapalha&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quis fugir, mas certamente, desconhecendo inteiramente a cidade, seria pior,<br \/>\n    pois logo cairia nas m&atilde;os de um ou de outro partido, e o meu fim seria<br \/>\n    o mesmo.<\/p>\n<p>De manh&atilde;, muito cedo, chegou-me o tal capit&atilde;o que me mostrou<br \/>\n    um outro telegrama: &quot;Emposse o homem, custe o que custar. Bonif&aacute;cio.&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &#8212; perguntou-me ele &#8212; aceita ou n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Aceito.<\/p>\n<p>&#8212; Fez bem, Doutor, porque sen&atilde;o o senhor n&atilde;o voltaria<br \/>\n    mais ao Rio. Prepare-se para receber uma manifesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o sa&iacute; do hotel naquele dia e, &agrave; tardinha, apareceu-me<br \/>\n    na rua uma charanga militar, seguida de algumas centenas de pessoas, parando<br \/>\n    na frente do estabelecimento do Sr. Barbosa.<\/p>\n<p>&#8212; Viva o Dr. Manoel da Silva! Viva! &#8212; gritavam.<\/p>\n<p>Estava cheio de medo, mas o hoteleiro e mais o tal capit&atilde;o empurravam-me<br \/>\n    para a janela, de onde comecei a ouvir os oradores.<\/p>\n<p>Dizia um, na perora&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&quot; Dr. Manoel da Silva, salvai-nos, libertai-nos desse monstro que nos<br \/>\n    devora, que mata os nossos filhos, que nos furta, que nos esmaga! Sede o nosso<br \/>\n    Mois&eacute;s! Levai-nos &agrave; terra da Promiss&atilde;o, &agrave; Cana&atilde;<br \/>\n    sonhada!&quot;<\/p>\n<p>Os outros repetiam a mesma coisa e eu estava diante daquilo tudo completamente<br \/>\n    besta. N&atilde;o haveria um rem&eacute;dio, um meio de esclarecer aqueles<br \/>\n    tolos todos de que eu n&atilde;o tinha tais predicados. Os oradores acabaram<br \/>\n    e vivas foram erguidos.<\/p>\n<p>&#8212; Viva o Dr. Manoel da Silva! Viva o nosso salvador! Viva!<\/p>\n<p>Quando acabaram, o capit&atilde;o intimou-me ferozmente:<\/p>\n<p>&#8212; Fale!<\/p>\n<p>N&atilde;o tive outro rem&eacute;dio sen&atilde;o gaguejar qualquer coisa,<br \/>\n    que foi ouvida no maior sil&ecirc;ncio. N&atilde;o sa&iacute; mais do hotel<br \/>\n    e, &agrave; noite, ouvi o espocar de fuzis, tropel na rua, uma bulha de grosso<br \/>\n    motim.<\/p>\n<p>No dia seguinte, soube que haviam empastelado o jornal da jornal do governo,<br \/>\n    destro&ccedil;ado a pol&iacute;cia, atacado o pal&aacute;cio e o governador<br \/>\n    renunciara.<\/p>\n<p>O capit&atilde;o n&atilde;o tardou a procurar-me prazenteiro:<\/p>\n<p>&#8212; O patife do Bastos saiu. Agora o governo est&aacute; com o Guedes<br \/>\n    que &eacute; nosso. A sua posse &eacute; depois de amanh&atilde;.<\/p>\n<p>Recebia aquelas not&iacute;cias cheio de terror, de medo que semelhante aventura<br \/>\n    n&atilde;o resultasse na minha morte. Se soubessem que eu n&atilde;o era o<br \/>\n    tal &quot;salvador&quot;, certamente matavam-me.<\/p>\n<p>Aquilo me parecia um mero sonho, um pesadelo ou sen&atilde;o um cap&iacute;tulo<br \/>\n    de um romance jocoso. Onde iria parar, meu Deus?<\/p>\n<p>O hoteleiro continuava com as suas zombarias e, durante a v&eacute;spera<br \/>\n    da posse, n&atilde;o tive m&atilde;os a medir para atender &agrave;s visitas.<br \/>\n    Dizia-me um: fui eu quem lan&ccedil;ou a sua candidatura; dizia-me outro:<br \/>\n    fui eu quem o defendeu nos jornais. Os pr&oacute;prios situacionistas me procuravam,<br \/>\n    propunham acordos, &quot;modus vivendi&quot;. N&atilde;o lhes respondia coisa<br \/>\n    com coisa e partiam fazendo uma triste id&eacute;ia do seu &quot;salvador&quot;;<br \/>\n    entretanto continuavam a buzinar nos seus jornais que eu era um homem de raro<br \/>\n    talento, extraordin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Chegou o dia da posse e, quase arrastado pelo tal capit&atilde;o, levaram-me<br \/>\n    ao Congresso e me dispus a acabar com a farsa. Um paquete entrava na ba&iacute;a<br \/>\n    despejando pelas chamin&eacute;s grossas baforadas de fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p>Reuniram-se os congressistas e, quando eu ia prestar o compromisso, entra<br \/>\n    pela sala um sujeito pequeno e louro, que gritava:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; este o Dr. Manoel da Silva; sou eu.<\/p>\n<p>Os congressistas ficaram petrificados, ningu&eacute;m sabia o que dizer e<br \/>\n    o tal sujeito continuou a gritar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; este, sou eu.<\/p>\n<p>Na sala, logo se formaram dois partidos: um a meu favor, outro a favor do<br \/>\n    rec&eacute;m chegado.<\/p>\n<p>Houve uma barafunda geral, gritos, palavr&otilde;es, come&ccedil;o de discursos.<\/p>\n<p>Daqui se gritou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ele! &Eacute;!<\/p>\n<p>Dali se berrou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;! Sai usurpador!<\/p>\n<p>No meio daquela barulhada, daquele berreiro, fiquei mais morto do que vivo.<br \/>\n    A bulha continuou e cada vez mais feroz. Por fim veio a calma e pude dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Deve ser esse senhor, porque eu n&atilde;o sou.<\/p>\n<p>Houve propostas de morte, mas a maioria me protegeu e eu pude sair. E foi<br \/>\n    assim que escapei de &quot;salvar&quot; o Estado de Carapicus<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III &#8211; Dei alguns planos e pintei a batalha de Salamina<\/a><\/h4>\n<p>O que se passou comigo no Estado dos Carapicus pode parecer imposs&iacute;vel<br \/>\n    a quem n&atilde;o estiver lembrado da situa&ccedil;&atilde;o de desmando por<br \/>\n    que passava &agrave;quela &eacute;poca a pol&iacute;tica brasileira. Se at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o um resto de pudor faziam com que se disfar&ccedil;assem as viol&ecirc;ncias<br \/>\n    e as ilegalidades, apoiados pela for&ccedil;a federal, ao servi&ccedil;o de<br \/>\n    ambiciosos sa&iacute;dos de seu seio ou fortemente protegidos por pessoas<br \/>\n    influentes nela, os sindicatos pol&iacute;ticos faziam o que entendiam e n&atilde;o<br \/>\n    guardavam conveni&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Havia exig&ecirc;ncias terr&iacute;veis nas leis para as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de governadores, como fossem: um dilatado prazo de resid&ecirc;ncia no Estado,<br \/>\n    n&atilde;o exercer algum tempo antes das elei&ccedil;&otilde;es cargos de<br \/>\n    mando e outros; mas, quando se tratava de ajuntar Fulano ou Beltrano para<br \/>\n    usurparem as governan&ccedil;as regionais, n&atilde;o atendiam a isso e procuravam<br \/>\n    pessoas que dispusessem da dedica&ccedil;&atilde;o do Presidente ou de homens<br \/>\n    que, por sua vez, dominassem o &acirc;nimo presidencial.<\/p>\n<p>Entre estas &uacute;ltimas havia um tal Bonif&aacute;cio, que fora seu copeiro<br \/>\n    e deixara de s&ecirc;-lo para se transformar numa esp&eacute;cie de &quot;maitre<br \/>\n    du palais&quot;. N&atilde;o se sabia bem de onde lhe vinha esse ascendente,<br \/>\n    mas o certo &eacute; que ele fazia e desfazia na Rep&uacute;blica. As nomea&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as mais baixas e as mais altas, eram em geral feitas por sua inspira&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    exigia demiss&otilde;es e indicava presidentes de Estado.<\/p>\n<p>Esse Dr. Manoel da Silva, de quem, em t&atilde;o m&aacute; hora, me fiz hom&ocirc;nimo,<br \/>\n    era seu m&eacute;dico, e, muito agradecido aos seus pr&eacute;stimos profissionais,<br \/>\n    Bonif&aacute;cio, sabendo-o natural dos Carapicus, f&ecirc;-lo de conchavo<br \/>\n    com certos ambiciosos de l&aacute;, candidatos &agrave; presid&ecirc;ncia<br \/>\n    de t&atilde;o obscuro Estado.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m o conhecia nos Carapicus, pois l&aacute; nascera quando seu<br \/>\n    pai estivera em comiss&atilde;o na respectiva Alf&acirc;ndega; viera de l&aacute;<br \/>\n    com um ou dois anos e desenvolvera a sua vida na Capital, rompendo o caminho<br \/>\n    comum aos rapazes de ju&iacute;zo e prudentes, isto &eacute;, formara-se em<br \/>\n    Medicina, arranjara um emprego de m&eacute;dico na Marinha e, assim, vivia<br \/>\n    ignorado, quando Bonif&aacute;cio lhe acenou com a alta situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de presidente do Estado.<\/p>\n<p>O fato de tomarem-me por ele n&atilde;o proveio absolutamente de qualquer<br \/>\n    semelhan&ccedil;a f&iacute;sica. N&atilde;o lhe era s&oacute;sia, havia, ao<br \/>\n    contr&aacute;rio, entre n&oacute;s dois, muitas dessemelhan&ccedil;as. Era<br \/>\n    eu alto e ele baixo; era eu p&aacute;lido, &quot;mate&quot;, e ele, corado;<br \/>\n    eu tinha o rosto comprido e ele, redondo; eu tinha o nariz alto e aquilino<br \/>\n    e ele, um largo e achatado.<\/p>\n<p>N&atilde;o fora pois a semelhan&ccedil;a, mas unicamente o nome e o fato<br \/>\n    de sermos ambos louros, coisas que, ajudadas pelo seu total desconhecimento<br \/>\n    no Estado, convenceram os seus partid&aacute;rios de que eu era o seu &quot;salvador&quot;.<\/p>\n<p>Viram os senhores at&eacute; que ponto os acontecimentos me levaram; mas<br \/>\n    n&atilde;o lhes pude dizer as conseq&uuml;&ecirc;ncias que tais sucessos determinaram.<br \/>\n    No Estado, as coisas se explicaram e todos ficaram satisfeitos; mas, conhecida<br \/>\n    a hist&oacute;ria no Rio de Janeiro, n&atilde;o tardaram os jornais oposicionistas,<br \/>\n    que eram quase todos, a explor&aacute;-la, a tro&ccedil;&aacute;-la em todos<br \/>\n    os tons e alguns mais ferozes frisaram bem a minha condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de funcion&aacute;rio p&uacute;blico e os governistas acusaram-me de ter-me<br \/>\n    vendido aos oposicionistas para, de tal maneira, desmoralizar o benem&eacute;rito<br \/>\n    governo do general Simpl&iacute;cio, &quot;o &uacute;nico que at&eacute; agora<br \/>\n    tinha sido verdadeiramente republicano&quot;.<\/p>\n<p>Quem mais zangado ficou comigo foi o tal Bonif&aacute;cio, o poderoso heril<br \/>\n    do presidente fain&eacute;aut . Era um tipo de sujeito comum, mas azedado<br \/>\n    pelos baixos of&iacute;cios que tinha exercido e desmedidamente envaidecido<br \/>\n    pela posi&ccedil;&atilde;o em que a sorte o colocara. Fora sargento de batalh&atilde;o<br \/>\n    e trazia para a alta administra&ccedil;&atilde;o a concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de governo de uma companhia. N&atilde;o tinha podido ainda formar-lhe na cauda;<br \/>\n    n&atilde;o se me oferecera ocasi&atilde;o, de modo que fui sacrificado e ningu&eacute;m<br \/>\n    se animou a defender-me diante dele.<\/p>\n<p>Ao chegar ao Rio, tive not&iacute;cia de demiss&atilde;o, a bem de tudo.<br \/>\n    N&atilde;o deixava de ser um acontecimento bem importante na minha vida. Ganhava<br \/>\n    quase dois contos de r&eacute;is e nada fazia, a n&atilde;o ser despachar<br \/>\n    licen&ccedil;as para as vacarias e est&aacute;bulos da cidade.<\/p>\n<p>Tendo vivido sempre na mis&eacute;ria e, possuindo pela minha educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gosto pelas altas coisas, logo que vi dinheiro, comecei a gast&aacute;-lo.<br \/>\n    Comprei alfaias, roupas, m&oacute;veis e livros.<\/p>\n<p>A minha casa, nas Laranjeiras, era um primor e, tendo bem forte os sentimento<br \/>\n    da mis&eacute;ria e das necessidades, tive a bolsa sempre aberta aos grandes<br \/>\n    e pequenos pedidos de dinheiro que me faziam.<\/p>\n<p>Desse jeito, ao me despedirem, eu me encontrava completamente desprevenido.<br \/>\n    N&atilde;o desesperei e procurei o Senador Sof&ocirc;nias para ver se ele<br \/>\n    inutilizava a minha exonera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Recebeu-me o Senador com a cara fechada e uma solenidade grotesca de grande<br \/>\n    sacerdote de uma extravag&acirc;ncia religiosa da &Aacute;frica ou da &Aacute;sia.<br \/>\n    Foi-me dizendo logo:<\/p>\n<p>&#8212; Menino, n&atilde;o gosto que os meus amigos concorram para a desmoraliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do regime.<\/p>\n<p>Apanhei o ar mais humilde que me era dado ter, e disse ao sumo pont&iacute;fice<br \/>\n    do regime:<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. n&atilde;o sabe como as coisas se passaram. N&atilde;o tenho<br \/>\n    absolutamente culpa. O &quot;homem&quot; n&atilde;o era l&aacute; conhecido.<br \/>\n    Quis livrar-me das cacetadas das consultas sobre mol&eacute;stias de bois,<br \/>\n    cavalos, cabras e at&eacute; de cachorros e gatos e dei aquele nome no hotel,<br \/>\n    sem saber que, por ele, acudia o eminente pol&iacute;tico que V. Exa. apoia.<br \/>\n    N&atilde;o o conhecendo, tomaram-me por ele e, sob amea&ccedil;as, fizeram-me<br \/>\n    aceitar o papel a contragosto&#8230; Foi assim.<\/p>\n<p>Dei-lhe mais detalhes, narrei-lhe toda a verdade e ainda acrescentei:<\/p>\n<p>&#8212; Admira-me que V. Exa. tenha patrocinado a candidatura de pessoa que<br \/>\n    ningu&eacute;m conhece no Estado.<\/p>\n<p>&#8212; Eu! Isto est&aacute; tudo de patas para o ar&#8230;<\/p>\n<p>Depois, como se quisesse apagar o efeito daquele desabafo, ajuntou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o patrocino coisa alguma. Disseram-me que era o povo, o<br \/>\n    Bonif&aacute;cio o quer e eu tamb&eacute;m o quero. Menino, no nosso regimen,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; patroc&iacute;nio; h&aacute; escolha da soberania popular.<br \/>\n    Este &eacute; que &eacute; o seu &quot;status quo&quot;.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixei e admirar as conseq&uuml;&ecirc;ncias de tal teoria, dando<br \/>\n    em resultado o advento de um desconhecido ao tal povo e tamb&eacute;m aquele<br \/>\n    emprego engra&ccedil;ado de &quot;status quo&quot;, mas evitei fazer qualquer<br \/>\n    coment&aacute;rio e falei-lhe na minha reintegra&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Compreende V. Exa. que nem tive tempo de dar come&ccedil;o &aacute;s<br \/>\n    minhas experi&ecirc;ncias. Sinto at&eacute; remorsos de ter recebido do governo<br \/>\n    tanto dinheiro e nada ter feito. Desejava muito poder voltar para mostrar<br \/>\n    de que forma os meus projetos s&atilde;o excelentes.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias acendeu o cigarro, ergueu-se, p&ocirc;s uma das m&atilde;os<br \/>\n    &agrave; cintura e, agitando a direita com um jeito sacerdotal, aconselhou-me:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; preciso ter muito cuidado com os pequenos fatos. S&atilde;o<br \/>\n    os gr&atilde;os de areia que mudam a sorte dos imp&eacute;rios. N&atilde;o<br \/>\n    me posso meter no teu, porque o autor da demiss&atilde;o &eacute; o Bonif&aacute;cio,<br \/>\n    um rapaz orientado, verdadeiro republicano, respeitador fet&iacute;chico do<br \/>\n    regimen&#8230; Deves procur&aacute;-lo e, antes, explicar como foi a coisa pelos<br \/>\n    jornais.<\/p>\n<p>Sentou-se, quando acabou, e eu lhe objetei:<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Senador, V. Exa. h&aacute; de anuir que eu n&atilde;o posso<br \/>\n    confessar que me obrigaram &agrave; for&ccedil;a a ir ao pal&aacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, menino. mas tens um bom &quot;desgarro&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Afirmas que foi a multid&atilde;o. Procura por a&iacute; um rapazola<br \/>\n    h&aacute;bil nessas coisas de escrever e pode ser que arranjes a coisa.<\/p>\n<p>Senti bem que a minha entrevista estava terminado e despedi-me. Segui o alvitre<br \/>\n    do Senador e imediatamente redigi a explica&ccedil;&atilde;o que ia dar ao<br \/>\n    p&uacute;blico e aos meus amigos. Publiquei-a nos &quot;a pedidos&quot; do<br \/>\n    Jornal do Com&eacute;rcio e, nela, eu dizia que, tendo tomado aquele nome<br \/>\n    ao acaso, para, mais em sossego e seguran&ccedil;a, inspecionar os servi&ccedil;os<br \/>\n    do Minist&eacute;rio, sem me lembrar que era o do eminente pol&iacute;tico<br \/>\n    eleito governador dos Carapicus, a multid&atilde;o, sem verificar identidades,<br \/>\n    mas apaixonada pelo nome que representava o seu &iacute;dolo, que resumia<br \/>\n    uma sua esperan&ccedil;a de farta prosperidade, obrigou-me a ir tomar posse<br \/>\n    do alto cargo. Quem conhece a psicologia das multid&otilde;es, dizia eu, sabe<br \/>\n    perfeitamente como essas coisas se passam e diante delas qualquer de n&oacute;s<br \/>\n    tem e se curvar &agrave;s suas vontades, como nos curvamos diante das manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    das for&ccedil;as da natureza. Elas s&atilde;o o raio, o vento, a chuva, ao<br \/>\n    mesmo tempo; elas s&atilde;o verdadeiros cataclismos. Apontava testemunhas,<br \/>\n    citava epis&oacute;dios, e fiquei mesmo contente com o meu escrito.<\/p>\n<p>No dia seguinte, resolvi-me a procurar o Bonif&aacute;cio, no pal&aacute;cio<br \/>\n    governamental. Havia, na sua antec&acirc;mara, mais de cinq&uuml;enta pessoas,<br \/>\n    metade das quais eram mulheres, mo&ccedil;as bem postas e galantes.<\/p>\n<p>A ansiedade se estampava naquelas caras e, em muitas, havia tamb&eacute;m<br \/>\n    o vexame.<\/p>\n<p>O Estado &eacute; o mais forte desmoralizador do car&aacute;ter. Mais que<br \/>\n    os v&iacute;cios, o &aacute;lcool, o jogo, a morfina, a coca&iacute;na, o<br \/>\n    tabaco, ele nos tira toda a nossa dignidade, todo o nosso amor-pr&oacute;prio,<br \/>\n    todo o sentimento de realeza de n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>Muitas daquelas eram pessoas de cultura, de educa&ccedil;&atilde;o; entretanto,<br \/>\n    para obter isso ou aquilo, se tinham que agachar, que adular um tal Bonif&aacute;cio<br \/>\n    que, no fim de contas, n&atilde;o passava de um criado do Sr. Presidente.<\/p>\n<p>Depois disso, que sensa&ccedil;&atilde;o delas mesmas poderiam ter? Fossem<br \/>\n    servidas ou n&atilde;o, sairiam degradadas.<\/p>\n<p>Bonif&aacute;cio passou por n&oacute;s e entrou no seu gabinete. Todos n&oacute;s<br \/>\n    nos desfizemos em sorrisos e cumprimentos e, quase sem nos corresponder, como<br \/>\n    se fosse um imperador, foi atravessando aquela chusma de s&uacute;ditos necessitados.<\/p>\n<p>O seu tipo f&iacute;sico n&atilde;o lhe dava majestade, mas arrog&acirc;ncia.<br \/>\n    Era baixo, com o pesco&ccedil;o enterrado nos ombros; a roupa assentava-lhe<br \/>\n    mal, embora fosse cara de pre&ccedil;o e de alfaiate. No seu rosto acobreado<br \/>\n    com malares salientes, os seus olhos pardos e pequenos morriam sem brilho.<br \/>\n    Donde lhe vinha aquele poder de Charles Martell? Donde lhe vinha aquela domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;ria? Ningu&eacute;m sabia. O certo, por&eacute;m, &eacute;<br \/>\n    que ele se pusera acima de tudo e n&atilde;o havia obje&ccedil;&atilde;o legal<br \/>\n    que detivesse os seus caprichos.<\/p>\n<p>Tardei muito em ir &agrave; sua presen&ccedil;a, pois fui um dos &uacute;ltimos.<br \/>\n    Quando atravessava a porta do seu gabinete, veio-me ao esp&iacute;rito uma<br \/>\n    pequena dificuldade. Como devia trat&aacute;-lo? Sabia que tinha uma patente<br \/>\n    da guarda nacional, mas de que posto ignorava. Seria melhor trat&aacute;-lo<br \/>\n    de Doutor e, logo que me pus na sua frente, fui dizendo, sem reflex&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Doutor&#8230;<\/p>\n<p>Estava quase a arrepender-me, mas notei que ele n&atilde;o se aborrecera.<br \/>\n    Ao contr&aacute;rio; a sua m&aacute; fisionomia tomara uma r&aacute;pida express&atilde;o<br \/>\n    de satisfa&ccedil;&atilde;o. Continuei:<\/p>\n<p>&#8212; Doutor, eu sou o Dr. Gregory Bogoloff que&#8230;<\/p>\n<p>Bonif&aacute;cio adiantou-se e interrompeu-me:<\/p>\n<p>&#8212; Sei. Li sua explica&ccedil;&atilde;o. Sente-se, pois preciso falar-lhe<br \/>\n    demoradamente.<\/p>\n<p>Animei-me com acolhimento t&atilde;o lisonjeiro e eu mesmo me disputei em<br \/>\n    baixeza e adula&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Vi logo que o esclarecido esp&iacute;rito de V. Exa. ficaria satisfeito<br \/>\n    com as minhas palavras.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o digo que n&atilde;o, mas h&aacute; um ponto que n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; bem explicado.<\/p>\n<p>&#8212; Qual &eacute;, Doutor?<\/p>\n<p>&#8212; Por que voc&ecirc; (gostei da mudan&ccedil;a) n&atilde;o fugiu?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o havia meios. Temi que na estrada de ferro me reconhecessem<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas podia fugir de canoa para o Estado das Ab&oacute;boras, que fica<br \/>\n    perto.<\/p>\n<p>&#8212; Perto! S&atilde;o duzentos quil&ocirc;metros!<\/p>\n<p>&#8212; Tanto? No mapa ficam t&atilde;o juntos!<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Isto &eacute; no mapa.<\/p>\n<p>&#8212; Bem. S&atilde;o coisas de astronomia que n&atilde;o entendo. A minha<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o &eacute; n&atilde;o deixar o Simpl&iacute;cio ser<br \/>\n    embrulhado, por isso meto-me nessas coisas&#8230; S&oacute; quero amigos no governo<br \/>\n    dos Estados.<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. faz muito bem, porque n&atilde;o faltam a&iacute; traidores.<br \/>\n    Aprovo &quot;in totum&quot; o procedimento de V. Exa. O governo e as leis<br \/>\n    s&atilde;o feitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Leis! Bacharelices! Espolia&ccedil;&otilde;es!<\/p>\n<p>Expliquei-lhe que desejava a minha reintegra&ccedil;&atilde;o, tanto mais<br \/>\n    que eu era inocente, como se havia verificado.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o posso fazer isso que voc&ecirc; pede. O lugar j&aacute;<br \/>\n    foi preenchido, mas n&atilde;o faltar&aacute; ocasi&atilde;o para servir ao<br \/>\n    amigo. Conte comigo.<\/p>\n<p>Deu-me uma amig&aacute;vel palmada no ombro e eu sai certo de que ele n&atilde;o<br \/>\n    me arranjaria coisa alguma.<\/p>\n<p>Vendo-me nessa situa&ccedil;&atilde;o, tratei de liquidar a minha casa, apurar<br \/>\n    o dinheiro que pudesse e viver o mais economicamente poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Vivi assim cerca de seis meses folgadamente, mas ao fim desse tempo, come&ccedil;ou<br \/>\n    o dinheiro a escassear e eu passava os dias a arquitetar planos que me fizessem<br \/>\n    sair do embara&ccedil;o.<\/p>\n<p>Tinha ainda bastante roupa branca e ternos bons; mas, as botinas e o chap&eacute;u<br \/>\n    come&ccedil;avam a ficar velhos. Influi muito no nosso destino um chap&eacute;u<br \/>\n    ensebado ou umas botinas cambaias e, como eu n&atilde;o desanimava de encontrar<br \/>\n    uma posi&ccedil;&atilde;o oficial, era-me necess&aacute;rio t&ecirc;-los novos,<br \/>\n    para que os pol&iacute;ticos n&atilde;o fugissem de mim.<\/p>\n<p>A principal fun&ccedil;&atilde;o dos pol&iacute;ticos &eacute; dar empregos,<br \/>\n    mas eles n&atilde;o gostam de ser atormentados com pedidos e detestam que<br \/>\n    os maltrapilhos o fa&ccedil;am.<\/p>\n<p>De modo que, para eles, quem precisa de emprego, para viver, deve estar cheio<br \/>\n    de dinheiro com que pague bons vestu&aacute;rios.<\/p>\n<p>Sabendo muito bem desse ponto de psicologia pol&iacute;tica, assisti com<br \/>\n    pesar &agrave; ru&iacute;na dos meus chap&eacute;us e o acalcanhamento das<br \/>\n    minhas botas. Tinha uma cartola que, por pouco uso, estava nova em folha e<br \/>\n    dei em us&aacute;-la comumente.<\/p>\n<p>Sem querer aumentei minha considera&ccedil;&atilde;o e muita gente que me<br \/>\n    supunha na mis&eacute;ria, passou-me a tratar de forma mais atenciosa poss&iacute;vel.<br \/>\n    Resolvi, por esse tempo, dar um plano que me trouxesse um chap&eacute;u novo,<br \/>\n    porquanto aquela cartola usada todo dia podia dar a entender que eu n&atilde;o<br \/>\n    tinha outro chap&eacute;u. N&atilde;o conv&eacute;m usar muito repetidamente<br \/>\n    a cartola. No come&ccedil;o, faz sucesso; mas, com o correr dos dias, denuncia<br \/>\n    a mis&eacute;ria em que estamos.<\/p>\n<p>A quest&atilde;o do chap&eacute;u era para mim importante e decidi-me a resolv&ecirc;-la<br \/>\n    quanto antes.<\/p>\n<p>Quase sempre nas minhas excurs&otilde;es pelas casas dos pol&iacute;ticos,<br \/>\n    ia tomar uma garrafa de cerveja a uma pequena confeitaria situada num arrabalde.<br \/>\n    Desde a segunda vez que l&aacute; fui, o caixeiro, &agrave; falta do que fazer,<br \/>\n    p&ocirc;s-se de conversa comigo. N&atilde;o deixei de dar-lhe aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a todas as suas perguntas respondia com o m&aacute;ximo desenvolvimento.<br \/>\n    Gostou ele muito da minha prosa e apreciou sobremodo a minha erudi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Passei a tomar duas garrafas em vez de uma e fui estreitando a amizade que<br \/>\n    tinha com ele.<\/p>\n<p>Certo dia, estava eu conversando com a minha recente amizade, quando fiz<br \/>\n    reparo que, defronte &agrave; confeitaria, havia uma chapelaria. Notei ainda<br \/>\n    que os chap&eacute;us n&atilde;o eram maus e, n&atilde;o sei bem por que,<br \/>\n    veio-me a id&eacute;ia de que aquele era o estabelecimento destinado a fornecer-me<br \/>\n    o chap&eacute;u. Eu queria um chap&eacute;u bom e os meus cobres n&atilde;o<br \/>\n    chegavam para isso. Pensei e achei um excelente plano para obter um.<\/p>\n<p>Creio que a coisa se passou numa sexta feira. Cheguei muito cedo &agrave;<br \/>\n    confeitaria e disse ao caixeiro, meu amigo:<\/p>\n<p>&#8212; Tenho que dar uma festa l&aacute; em casa e preciso de doces. Fui<br \/>\n    a diversas confeitarias e n&atilde;o puderam aceitar-me a encomenda, pelo<br \/>\n    simples motivo de que j&aacute; t&ecirc;m muitas. Voc&ecirc; podia servir-me?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o, Dr.<\/p>\n<p>Tinha com jeito dado a entender ao caixeiro que era doutor, mas n&atilde;o<br \/>\n    lhe disse o meu verdadeiro nome.<\/p>\n<p>&#8212; Bem. Ent&atilde;o voc&ecirc; me manda preparar isso e mais cinq&uuml;enta<br \/>\n    past&eacute;is.<\/p>\n<p>O caixeiro j&aacute; ia correr aos fundos para fazer a encomenda, mas eu<br \/>\n    o detive e intimei:<\/p>\n<p>&#8212; E mais cinq&uuml;enta past&eacute;is! N&atilde;o se esque&ccedil;a!<\/p>\n<p>O amigo foi &agrave; cozinha. voltou e eu disse-lhe ent&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; E mais cinq&uuml;enta past&eacute;is! Veja bem!<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o encomendados.<\/p>\n<p>&#8212; Logo mais, quando vier busc&aacute;-los, pagarei.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida, Doutor.<\/p>\n<p>Sa&iacute; muito contente e entrei na chapelaria como um rei. Pedi um chap&eacute;u<br \/>\n    e o caixeiro n&atilde;o tardou em servir-me. Escolhi com todo o vagar, mirei-o<br \/>\n    no espelho e disse com todo o garbo:<\/p>\n<p>&#8212; Quanto custa?<\/p>\n<p>&#8212; Vinte e cinco mil r&eacute;is.<\/p>\n<p>Aprumei-me todo e disse com toda &ecirc;nfase:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenho aqui o dinheiro bastante; mas n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    d&uacute;vida. Deixei ali, na confeitaria, cinq&uuml;enta mil, para pagar<br \/>\n    uma conta e vou ordenar que lhe deem vinte e cinco. Venha c&aacute;!<\/p>\n<p>O caixeiro seguiu-me e, ao chegarmos &agrave; porta, apontava um bonde.<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo! &#8212; disse eu. &#8212; L&aacute; vem o bonde&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; d&uacute;vida. Falo daqui mesmo.<\/p>\n<p>E gritei para a confeitaria, chamando o caixeiro:<\/p>\n<p>&#8212; Chico! Chico!<\/p>\n<p>N&atilde;o tardou que o meu espont&acirc;neo amigo aparecesse na porta. Eu<br \/>\n    lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Daqueles cinq&uuml;enta, manda vinte e cinco para o senhor, ouviu?<\/p>\n<p>E apontei o empregado da chapelaria, que estava ao meu lado.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor! &#8212; respondeu o Chico<\/p>\n<p>O bonde chegava, despedi-me do caixeiro da chapelaria, que muito contente<br \/>\n    me oferecia o chap&eacute;u embrulhado.<\/p>\n<p>Tomei o lugar no bonde e n&atilde;o sei do seguimento a aventura, porque<br \/>\n    nunca mais voltei por aquelas bandas, mas fiquei com o chap&eacute;u e n&atilde;o<br \/>\n    fui perseguido nem pelo confeiteiro nem pelo chapeleiro.<\/p>\n<p>Animado com o sucesso da aventura, planejei logo obter os sapatos, tanto<br \/>\n    mais que queria procurar o Bonif&aacute;cio e n&atilde;o me convinha ir com<br \/>\n    os sapatos cambaios.<\/p>\n<p>Acontecia comigo uma coisa que se d&aacute; com todos. Desde que se tem uma<br \/>\n    id&eacute;ia feliz, a tend&ecirc;ncia de nosso esp&iacute;rito &eacute; respeit&aacute;-la.<br \/>\n    Por isso, levei alguns dias, pensando em obter os sapatos da mesma forma que<br \/>\n    o chap&eacute;u. Ora, unicamente o acaso me havia protegido, pondo uma confeitaria<br \/>\n    em frente de uma chapelaria e, ainda por cima, fazendo o caixeiro simpatizar<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p>Para o caso das botinas, podia n&atilde;o acontecer a mesma coisa, e eu sair-me<br \/>\n    mal. Resolvi, ent&atilde;o, tentar outro caminho. De resto, era ele necess&aacute;rio,<br \/>\n    pois n&atilde;o tinha nem dez tost&otilde;es de meu e dos &uacute;ltimos que<br \/>\n    me restavam, do&iacute;a-me muito desfazer-me.<\/p>\n<p>Conhecia vagamente um sujeito que tinha numa rua central da cidade um escrit&oacute;rio<br \/>\n    de advogado, creio eu, onde fora duas vezes ver se ele me pagava uma conta<br \/>\n    que me deram para cobrar.<\/p>\n<p>Escusado &eacute; dizer que ele nunca pagou e, certa manh&atilde;, resolvido<br \/>\n    a pregar-lhe uma pe&ccedil;a e obter sapatos, fui at&eacute; l&aacute;.<\/p>\n<p>O pequeno criado, esses pequenos criados maltrapilhos de advogados, varria<br \/>\n    o escrit&oacute;rio quando eu entrava . Perguntei-lhe?<\/p>\n<p>&#8212; O Doutor n&atilde;o est&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o senhor. S&oacute; chega ao meio dia.<\/p>\n<p>O pequeno me conhecia e eu ent&atilde;o lhe pedi:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; deixa-me experimentar aqui umas botinas? Estou com as<br \/>\n    meias rotas e n&atilde;o me conv&eacute;m ir a uma loja. Posso?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Bem &#8212; disse-lhe eu &#8212; voc&ecirc; vai &agrave; casa tal<br \/>\n    e diz que mande um par de botinas, bons, n&uacute;mero tanto.<\/p>\n<p>Dei-lhe o meu &uacute;ltimo n&iacute;quel e o pequeno l&aacute; foi. N&atilde;o<br \/>\n    tardou que viesse um empregado com os sapatos. Experimentei e disse ao caixeiro<br \/>\n    da loja:<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o bons; mas o p&eacute; direito aperta-me um pouco. Leva-o<br \/>\n    e p&otilde;e-no na forma uma meia hora.<\/p>\n<p>Assim fez e eu, logo a seguir, disse ao pequeno do advogado:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; bom a gente sempre experimentar. Voc&ecirc; vai na loja<br \/>\n    n&uacute;mero tal e pede que mande um par de botinas.<\/p>\n<p>O criado do advogado foi e eu tive o cuidado de esconder o p&eacute; que<br \/>\n    j&aacute; tinha. Quando chegou o caixeiro da outra loja, experimentei e depois<br \/>\n    lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o muito bons, mas o p&eacute; esquerdo aperta-me um pouco.<br \/>\n    &Eacute; bom por na forma.<\/p>\n<p>O caixeiro seguiu a minha recomenda&ccedil;&atilde;o, deixando-me o p&eacute;<br \/>\n    direito e eu me vi de posse de um magn&iacute;fico par de botinas.<\/p>\n<p>Aproveitei a ida do pequeno ao interior do pr&eacute;dio e sa&iacute; a todo<br \/>\n    vapor, antes que me surpreendessem naquele casamento de p&eacute;s de botina<br \/>\n    de uma e outra casa.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei o que se seguiu, mas o certo &eacute; que ningu&eacute;m me<br \/>\n    incomodou, tanto mais que, por precau&ccedil;&atilde;o, deixei-me ficar uns<br \/>\n    dias em casa, roendo uns restos de p&atilde;o dur&iacute;ssimo, que ficara<br \/>\n    abandonado em cima da mesa em que fazia caf&eacute;.<\/p>\n<p>Foram esses os piores dias da minha vida, n&atilde;o s&oacute; pela fome<br \/>\n    que passava, mas tamb&eacute;m por sofrer as maiores ang&uacute;stias. N&atilde;o<br \/>\n    tinha mais j&oacute;ias, restava-me alguma roupa de pano e a primeira coisa<br \/>\n    que fiz, ao sair, foi vender uma parte delas no primeiro &quot;belchior&quot;<br \/>\n    que encontrei. Pude ent&atilde;o comer e, satisfeita a fome, foram-se de mim<br \/>\n    todos os tristes pensamentos que me assediavam.<\/p>\n<p>Essa venda de alguns ternos de roupa que me tinham ficado da boa &eacute;poca<br \/>\n    de Diretor da Pecu&aacute;ria Nacional deu-me apenas alguns mil-r&eacute;is<br \/>\n    com que passar uns dias, mas bem cedo vi-me na mais completa pen&uacute;ria<br \/>\n    e tive que engendrar um plano para obter dinheiro, a menos que n&atilde;o<br \/>\n    quisesse vender a &uacute;nica roupa que tinha.<\/p>\n<p>No quarto em que morava, cujo aluguel fora pago adiantado, durante um ano,<br \/>\n    havia um bra&ccedil;o de g&aacute;s, com o respectivo bico.<\/p>\n<p>Agarrei-o. limpei-o convenientemente e sa&iacute; decidido a fazer dinheiro<br \/>\n    com ele.<\/p>\n<p>Tomei um trem de sub&uacute;rbios e saltei, ao acaso, em uma esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A primeira coisa que fiz, foi procurar uma vendola e nestes termos dirigi-me<br \/>\n    ao dono:<\/p>\n<p>&#8212; Senhorre n&atilde;o quer compra um bico de gaz aperfei&ccedil;oado<br \/>\n    que faz economia?<\/p>\n<p>Sabem que falava bem portugu&ecirc;s, mas iludia melhor falando dessa forma.<br \/>\n    O dono da venda, do alto do seu protuberante ventre, disse-me:<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo de coisa &eacute; esta, &oacute; homem?<\/p>\n<p>Repeti-lhe eu:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma bica&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Fingi que n&atilde;o lhe entendia a interroga&ccedil;&atilde;o maliciosa<br \/>\n    e respondi ingenuamente:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma bica de gaz que luz melhor e economia&#8230;<\/p>\n<p>O taverneiro pegou-me na mercadoria e a esteve examinando atentamente:<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo! &#8212; disse-me ele, afinal. &#8212; N&atilde;o lhe vejo<br \/>\n    nada de novo.<\/p>\n<p>&#8212; Senhorre, fiz eu , a quest&atilde;o n&atilde;o est&aacute; na coisa<br \/>\n    nova&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc; &#8212; acudiu ele, rindo &agrave;s gargalhadas.<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o me dei por achado e continuei muito humildemente:<\/p>\n<p>&#8212; Quest&atilde;o n&atilde;o est&aacute; na coisa nova mas &quot;di&acirc;metro&quot;<br \/>\n    do tubo por onde passe o gaz. Diz fisique &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem &#8212; perguntou-me o cr&eacute;dulo merceeiro &#8212; quanto<br \/>\n    queres por isso?<\/p>\n<p>&#8212; Quatro mil r&eacute;is.<\/p>\n<p>&#8212; Muito caro. Demais, n&atilde;o sei se isso presta.<\/p>\n<p>&#8212; Senhorre experimenta. Se n&atilde;o prest&aacute; pode d&aacute;<br \/>\n    de novo a mim.<\/p>\n<p>&#8212; Bem. Fico.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, senhorre, eu deixa ficar, mas senhorre d&aacute; uma garantia.<\/p>\n<p>&#8212; Que garantia?<\/p>\n<p>&#8212; Pode d&aacute; cinco tost&otilde;es e o outro bico e eu volta amanh&atilde;<br \/>\n    ver senhorre compra.<\/p>\n<p>&#8212; V&aacute; l&aacute;.<\/p>\n<p>Logo que me pilhei fora das vistas do homem, tratei de arear o bico que me<br \/>\n    dera e fui &agrave; outra casa propor a venda do meu bico aperfei&ccedil;oado.<br \/>\n    Muitos n&atilde;o quiseram, mas doze aceitaram e voltei, &agrave; tarde, para<br \/>\n    a cidade, com um bico.<\/p>\n<p>Continuei a fazer a mesma coisa por outros bairros e assim pude viver cerca<br \/>\n    de um m&ecirc;s.<\/p>\n<p>Todos esses planos e expedientes n&atilde;o me davam sen&atilde;o insignificantes<br \/>\n    resultados, de modos que eu estava sempre a bra&ccedil;os com a mais atroz<br \/>\n    mis&eacute;ria.<\/p>\n<p>Sa&iacute;a de uma semana de necessidades, entrava em outra em que comia,<br \/>\n    mas levavaassim, sem dar um passo definitivo e seguro.<\/p>\n<p>Muitas vezes pensei no roubo, mas este nunca d&aacute; coisa que se possa<br \/>\n    fazer o restante da vida segura e os riscos s&atilde;o muitos.<\/p>\n<p>Seria magn&iacute;fico um estelionato, mas, para tal, eram indispens&aacute;veis<br \/>\n    elementos que me faltavam: conhecimento do mecanismo da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou do com&eacute;rcio, capacidade para falsificar documentos e outros de igual<br \/>\n    jaez.<\/p>\n<p>Pensava nessas coisas todas com a mesma frieza com que um general determina<br \/>\n    tal ou qual movimento, sabendo que as suas ordens v&atilde;o determinar a<br \/>\n    morte de milhares de pessoas.<\/p>\n<p>N&atilde;o me vinha ao pensamento nenhuma impossibilidade moral nem qualquer<br \/>\n    considera&ccedil;&atilde;o sobre o julgamento que a opini&atilde;o podia ter<br \/>\n    do meu ato.<\/p>\n<p>Sofria necessidades, tinha fome e queria viver de qualquer forma, fazendo<br \/>\n    s&oacute; o que os grandes capitalistas, os pol&iacute;ticos, os comerciantes<br \/>\n    e os industriais fazem, baseando-se nas leis e em transa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    m&uacute;tuas entre eles.<\/p>\n<p>Se em Odessa n&atilde;o me vieram esses desejos, &eacute; porque l&aacute;<br \/>\n    ainda estava mo&ccedil;o e tinha dentro de mim essa horrorosa esperan&ccedil;a<br \/>\n    que nos faz escravos desses exploradores todos, disfar&ccedil;ados sob os<br \/>\n    mais pomposos r&oacute;tulos. No Brasil, n&atilde;o; j&aacute; tinha mais<br \/>\n    de trinta anos e estava vendo a minha vida escorrer sem satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem sossego e sem ventura.<\/p>\n<p>Demais, l&aacute;, se bem que n&atilde;o quisesse, tinha um resto de respeito<br \/>\n    pelas institui&ccedil;&otilde;es p&aacute;trias; mas aqui o meu desprezo era<br \/>\n    total, era completo e por mais que me esfor&ccedil;asse por ter alguma venera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelos senadores, deputados e autoridades restantes, n&atilde;o me era poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Eu as tinha visto por assim dizer no nascedouro e sabia perfeitamente como<br \/>\n    se faziam, o que representavam de fraude, de compress&atilde;o e corrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Conhecia-lhes, al&eacute;m do mais, a sua ignor&acirc;ncia, a sua falta de<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia e a nenhuma sinceridade deles todos.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixava de influir tamb&eacute;m nesse grande desprezo que tinha<br \/>\n    pelos homens do Brasil, uma boa dose de preconceito de ra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Aos meus olhos, todos eles eram mais ou menos negros e eu me supunha superior<br \/>\n    a todos.<\/p>\n<p>De resto, eu &#8212; eu que era um pobre imigrante &#8212; n&atilde;o fora<br \/>\n    um dia aclamado como &quot;salvador&quot; de um Estado! De resto, eu &#8212;<br \/>\n    eu que n&atilde;o sabia o tempo de gesta&ccedil;&atilde;o de uma vaca &#8212;<br \/>\n    n&atilde;o fora Diretor da Pecu&aacute;ria do Brasil!<\/p>\n<p>Eu desprezava tal terra, desprezava-a soberanamente, olimpicamente, inteiramente.<\/p>\n<p>Para mim, era uma sociedade de ladr&otilde;es, de mistificadores, de exploradores,<br \/>\n    sem tradi&ccedil;&otilde;es, sem id&eacute;ias, disposta sempre &agrave; viol&ecirc;ncia<br \/>\n    e opress&atilde;o. A R&uacute;ssia me pareceu mil vezes melhor&#8230;<\/p>\n<p>L&aacute;, se Plewnw era um tirano, &eacute; porque acredita no czarismo,<br \/>\n    na excel&ecirc;ncia daquela esp&eacute;cie de governo, sup&otilde;em-no capaz<br \/>\n    de trazer felicidade. Ele n&atilde;o &eacute; simplesmente um s&oacute;cio<br \/>\n    nos lucros do governo, n&atilde;o &eacute; simplesmente governo porque quer<br \/>\n    proventos; h&aacute; nele alguma coisa de pensamento, de ideal, de saber.<\/p>\n<p>Na terra em que estava, n&atilde;o havia nada disso, n&atilde;o havia nada<br \/>\n    de superior naqueles homens todos que t&atilde;o de perto conheci. Eles queriam<br \/>\n    os subs&iacute;dios, os ordenados e as gratifica&ccedil;&otilde;es e a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pueril de mandar.<\/p>\n<p>Falavam em princ&iacute;pios republicanos e democr&aacute;ticos; enchiam<br \/>\n    a boca de tiradas empoladas sobre a soberania do povo; mas n&atilde;o havia<br \/>\n    nenhum deles que n&atilde;o lan&ccedil;asse m&atilde;o da fraude, da corrup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da viol&ecirc;ncia, para impedir que essa soberania se manifestasse.<\/p>\n<p>De resto, esse povo do Brasil metia-me um &oacute;dio terr&iacute;vel. Eram<br \/>\n    de uma fraqueza e puerilidade revoltantes. Viviam &agrave; beira dos caminhos<br \/>\n    de ferro, quase nus, com fome, sem terras em que plantassem um aipim, deixando-as<br \/>\n    como propriedades de terr&iacute;veis senhores feudais, que n&atilde;o as<br \/>\n    aproveitavam por falta de bra&ccedil;os!<\/p>\n<p>A verdade &eacute; que, no intuito de obterem lucros fabulosos, ofereciam<br \/>\n    sal&aacute;rios mesquinhos e os trabalhadores que podiam empregar preferiam<br \/>\n    morrer &agrave; fome, a revoltar-se a aproveit&aacute;-las de qualquer modo.<br \/>\n    Eles n&atilde;o se associavam, eles n&atilde;o se entendiam, e os mais adiantados<br \/>\n    n&atilde;o seguiam, n&atilde;o apoiavam os seus raros grandes homens.<\/p>\n<p>Com as convic&ccedil;&otilde;es que j&aacute; tinha e um pa&iacute;s desses,<br \/>\n    n&atilde;o podia ter qualquer escr&uacute;pulo a respeito do que chama pomposamente<br \/>\n    a sagrada propriedade.<\/p>\n<p>Naquela manh&atilde;, levantei-me bem cedo e sa&iacute; a passear pela cidade.<br \/>\n    Estava bem lindo o tempo, e a cidade toda tomava um banho de azul.<\/p>\n<p>Cansado, comprei um jornal e entrei num jardim, para descansar enquanto lia.<br \/>\n    Corri todas as se&ccedil;&otilde;es da folha meio distra&iacute;do, sem deter-me<br \/>\n    em nenhuma com mais aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Havia entre as not&iacute;cias uma que particularmente me chamou a aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tratava-se da chegada do pintor sueco Hans Ingegered, grande artista de reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    universal. Vinha fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o e o jornal se alongava<br \/>\n    em elogios aos seus m&eacute;ritos, afian&ccedil;ados por medalhas e diplomas<br \/>\n    de exposi&ccedil;&otilde;es universit&aacute;rias.<\/p>\n<p>Aquela not&iacute;cia fez-me mossa no esp&iacute;rito e, n&atilde;o sei como,<br \/>\n    deu-me uma extravagante id&eacute;ia: intitular-me pintor.<\/p>\n<p>Nada sabia de pintura, mesmo de desenho tinha fracas no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da escola secund&aacute;ria; entretanto me parecia que era pela pintura que<br \/>\n    sairia daquelas atrapalha&ccedil;&otilde;es todas. Pensei em fazer uma exposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    convidar o presidente, os ministros, Sof&ocirc;nias, enfim todos os homens<br \/>\n    poderosos do Brasil, por interm&eacute;dio dos quais pudesse vender um ou<br \/>\n    mias quadros ao Estado.<\/p>\n<p>Quando se est&aacute; na mis&eacute;ria, surgem essas id&eacute;ias extravagantes;<br \/>\n    s&atilde;o as vis&otilde;es radiantes que o afogado tem nas portas da morte.<\/p>\n<p>O pensamento n&atilde;o me deixava e eu o julgava a coisa mais exeq&uuml;&iacute;vel<br \/>\n    desse mundo. Passeei ainda muito e vim ter ao centro da cidade. Encontrei<br \/>\n    um rapaz que tinha tido, no meu tempo de Diretor, um pequeno emprego na minha<br \/>\n    diretoria. N&atilde;o o reconheci e foi ele quem me falou:<\/p>\n<p>&#8212; Dr. Bogoloff, como vai o senhor? Onde tem andado?<\/p>\n<p>Disse-lhe com certa reserva as minhas dificuldades, porque o meu aspecto<br \/>\n    ainda era bom; mas ele farejou que eu passava necessidades e fez-se mais efusivo.<br \/>\n    Contou-me que estava pr&oacute;spero, pois, al&eacute;m de ter tido dois acessos,<br \/>\n    ainda era redator de um jornal. Dei-lhe parab&eacute;ns e ele me disse:<\/p>\n<p>&#8212; Estimo encontr&aacute;-lo, porque tenho uma obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o senhor.<\/p>\n<p>N&atilde;o me recordava mais que lhe emprestara cem mil r&eacute;is; e, dando-me<br \/>\n    todas as desculpas pela demora, fez com que os aceitasse. Convidou-me para<br \/>\n    almo&ccedil;ar, mas n&atilde;o aceitei e fiquei de procur&aacute;-lo no jornal<br \/>\n    em que trabalhava.<\/p>\n<p>Deixando-o, a id&eacute;ia de fazer-me pintor voltou-me e continuou a perseguir-me<br \/>\n    at&eacute; o quarto. Pensado melhor, resolvi tentar a cr&iacute;tica da arte<br \/>\n    e, pretextando a chegado do pintor sueco, escrevi um artigo sobre as artes<br \/>\n    pl&aacute;sticas no Norte da Europa, que eu n&atilde;o conhecia absolutamente.<br \/>\n    Levei o artigo que foi publicado, mas no dia imediato saiu-me pela frente<br \/>\n    um contraditor.<\/p>\n<p>No calor da pol&ecirc;mica, excedi-me e, al&eacute;m de desenvolver considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gerais, fiz uma cr&iacute;tica severa &agrave; arte brasileira. Afirmei que<br \/>\n    ela n&atilde;o tinha interpreta&ccedil;&atilde;o, nem julgamento; que era<br \/>\n    simplesmente fotogr&aacute;fica.<\/p>\n<p>O meu contendor caiu-me em cima cheio de f&uacute;ria e ele e mais outros<br \/>\n    desafiaram-me a que eu definisse o meu ideal art&iacute;stico.<\/p>\n<p>Respondi-lhes mais ou menos nestes termos: &quot;que a pintura devia ser<br \/>\n    intensiva e psicol&oacute;gica; que um quadro devia ter n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    aquilo que ele queria dizer objetivamente. mas tamb&eacute;m subjetivamente;<br \/>\n    que pintar a batalha de Salamina, por exemplo, n&atilde;o era grupar mais<br \/>\n    ou menos bem soldados gregos e persas; mas era oferecer ao espectador a s&uacute;mula<br \/>\n    de todos os pensamentos que lhe sugerisse a lembran&ccedil;a dessa pugna.<br \/>\n    Era evocar o hero&iacute;smo grego, o seu amor &agrave; beleza, a sua influ&ecirc;ncia<br \/>\n    na civiliza&ccedil;&atilde;o humana, o g&ecirc;nio especulativo, sem esquecer<br \/>\n    que ali, naquela batalha, se havia jogado o destino da civiliza&ccedil;&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>Havia dito isso a esmo, para sair-me da embrulhada e mesmo com certo entusiasmo,<br \/>\n    porquanto os meus artigos come&ccedil;avam a fazer sucesso e as minhas teorias<br \/>\n    a obter ades&otilde;es. Apesar disso, n&atilde;o mas pagaram absolutamente.<\/p>\n<p>O meu advers&aacute;rio, por&eacute;m, ao ler t&atilde;o curiosas afirma&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    levou-me ao s&eacute;rio e desafiou-me a que eu pintasse a tal batalha da<br \/>\n    Salamina.<\/p>\n<p>A princ&iacute;pio quis fugir, mas vi tanta gente convencida da verdade das<br \/>\n    minhas teorias que eu resolvi levar a coisa at&eacute; o fim. Retruquei afirmando<br \/>\n    que a pintaria e, em breve, teria o prazer de convidar o meu contraditor a<br \/>\n    ver o meu quadro.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as &agrave; larga publicidade dos jornais em que se travara, a<br \/>\n    pol&ecirc;mica tinham repercutido em meios em que absolutamente n&atilde;o<br \/>\n    se cuidam dessas coisas.<\/p>\n<p>Bonif&aacute;cio, a quem vim a encontrar em certo dia na rua, falou-me a<br \/>\n    respeito dela com o interesse que a sua cultura lhe dava:<\/p>\n<p>&#8212; Li os seus artigos. Magn&iacute;ficos! Essa gente por a&iacute; n&atilde;o<br \/>\n    sabe o que &eacute; uma batalha&#8230; Voc&ecirc;, sim, Bogoloff, mostrou que<br \/>\n    as conhece. Fa&ccedil;a a sua exposi&ccedil;&atilde;o que l&aacute; iremos&#8230;<br \/>\n    O Presidente ir&aacute; tamb&eacute;m; voc&ecirc; n&atilde;o sabe como ele<br \/>\n    se interessa por essas coisas&#8230;<\/p>\n<p>Al&eacute;m de Bonif&aacute;cio, muitas outras pessoas das altas regi&otilde;es<br \/>\n    oficiais falaram nas minhas teorias est&eacute;ticas, entre as quais o ilustre<br \/>\n    Sof&ocirc;nias.<\/p>\n<p>&#8212; Menino &#8212; disse-me ele &#8212; voc&ecirc; &eacute; o diabo.<br \/>\n    N&atilde;o sabia que voc&ecirc; entendia dessas coisas de quadros.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se recorda V. Exa. que, a princ&iacute;pio, lhe pedi um<br \/>\n    lugar nas Belas Artes?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &Eacute; verdade. Quando voc&ecirc; pretende expor?<\/p>\n<p>&#8212; Dentro de seis meses.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; estarei, para ver a derrota dos turcos.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se trata de turco, mas de persas; V. Exa. quer talvez<br \/>\n    falar na batalha de Navarino.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &Eacute; verdade, menino; esses nomes causam uma certa confus&atilde;o.<\/p>\n<p>A vista do interesse que t&atilde;o altas pessoas mostravam pelas minhas<br \/>\n    aptid&otilde;es pinturiais, tomei o alvitre de atacar a credulidade p&uacute;blica<br \/>\n    at&eacute; o seu entrincheiramento: dispus-me a fazer qualquer coisa na tela<br \/>\n    e p&ocirc;r por baixo o t&iacute;tulo &#8212; Batalha de Salamina &#8212;<br \/>\n    para ver no que dava.<\/p>\n<p>Andava de novo em apuros de dinheiro; gra&ccedil;as, por&eacute;m, &agrave;s<br \/>\n    minhas novas rela&ccedil;&otilde;es no jornalismo, obtive ser de um velho<br \/>\n    rico o seu secret&aacute;rio, para os efeitos da correspond&ecirc;ncia em<br \/>\n    franc&ecirc;s que mantinha com uma certa criatura francesa.<\/p>\n<p>Com o dinheiro que ele me dava, comprei os apetrechos de pintar, mas a minha<br \/>\n    insufici&ecirc;ncia era tal que nem as tintas pegavam na tela.<\/p>\n<p>N&atilde;o desanimei e, conhecendo um borrador italiano, que vivia de pintar<br \/>\n    tabuletas e ilustrar quiosques, tratei com ele o aux&iacute;lio que necessitava.<\/p>\n<p>Sobre uma tela de cinco metros sobre dois e meio de altura, mandei que ele<br \/>\n    pintasse as coisas mais desencontradas desse mundo. No primeiro plano, pus<br \/>\n    um &quot;embrulho&quot; de palavra ileg&iacute;vel que mais pareciam caravelas;<br \/>\n    o mar parecia de um azul t&atilde;o carregado que tendia para o negro; ao<br \/>\n    alto pus numa grande desordem a Torre Eifel, a V&ecirc;nus de Milo, um trem<br \/>\n    de ferro, um prelo de imprimir, etc. O c&eacute;u fiz vermelho como se estivesse<br \/>\n    pegando fogo. Enquadrei coisa t&atilde;o doida em uma moldura durada e anunciei<br \/>\n    a minha exposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nas v&eacute;speras, por meio de uma &quot;interview&quot; tive o cuidado<br \/>\n    de explicar a teoria do meu quadro. Afastava-me, dizia eu, das modernas regras<br \/>\n    de perspectiva, para dar a impress&atilde;o e antig&uuml;idade; a batalha<br \/>\n    era simplesmente delineada, no intuito de n&atilde;o se obter, com a sobrecarga<br \/>\n    de detalhes, uma diminui&ccedil;&atilde;o do s&iacute;mbolo, transformando-a<br \/>\n    em uma grosseria fotogr&aacute;fica, etc.<\/p>\n<p>Convidei todas as altas autoridades e com quem mais instei que viesse foi<br \/>\n    com o Bonif&aacute;cio. era nele que eu depositava toda a minha esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>No dia marcado, muito solene e convencido, dentro de uma enorme sobrecasaca,<br \/>\n    l&aacute; estava eu &agrave; espera das autoridades.<\/p>\n<p>N&atilde;o tardaram a chegar e, entre Bonif&aacute;cio e o Presidente, dirigi-me<br \/>\n    para o sal&atilde;o em que o quadro estava exposto. Logo que o viu, Bonif&aacute;cio<br \/>\n    exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; maravilhoso!<\/p>\n<p>O Presidente confirmou:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; extraordin&aacute;rio!<\/p>\n<p>O Ministro do Interior alongou-se mais:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; de uma originalidade flagrante.<\/p>\n<p>O Ministro das Belas Artes que at&eacute; a&iacute; se mostrava reservado,<br \/>\n    n&atilde;o se conteve:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma obra prima!<\/p>\n<p>Os outros convidados n&atilde;o oficiais vieram chegando e, vendo o entusiasmo<br \/>\n    do grupo &quot;executivo&quot;, abundaram nas mesmas considera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A Viscondessa de Cinco Pontes veio cumprimentar-me e disse-me:<\/p>\n<p>&#8212; Pode o senhor ficar certo que pintou o quadro mais original do nosso<br \/>\n    s&eacute;culo.<\/p>\n<p>N&atilde;o ficaram a&iacute; os cumprimentos e elogios, que foram muitos,<br \/>\n    mas da maioria dos quais n&atilde;o me recordo mais.<\/p>\n<p>Naquele dia, o sucesso foi absoluto e, nos que se seguiram, n&atilde;o diminuiu<br \/>\n    muito. Os jornais, em geral, me fizeram elogios, sen&atilde;o rasgados, ao<br \/>\n    menos gabaram a minha concep&ccedil;&atilde;o ousada, fazendo restri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a minha t&eacute;cnica; O meu antigo contendor passou-me um deboche<br \/>\n    em regra, mas a sua opini&atilde;o n&atilde;o pesou, como n&atilde;o pesaram<br \/>\n    as dos pequenos jornais e revistas em que fui debochado a valer.<\/p>\n<p>Em resumo: o julgamento de Bonif&aacute;cio foi vitorioso e a minha extravagante<br \/>\n    borra teve as honras de obra-prima.<\/p>\n<p>Foram tais os elogios que eu mesmo me convenci de que era um grande pintor<br \/>\n    e tinha uma voca&ccedil;&atilde;o perfeitamente &quot;vinceana&quot; que at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o n&atilde;o tinha sabido aproveitar.<\/p>\n<p>Tratei de agradecer &agrave;s pessoa eminentes a honra que me tinham dado<br \/>\n    e comecei pelo Bonif&aacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, caro Bogoloff &#8212; disse-me ele quando me viu &#8212; voc&ecirc;<br \/>\n    tem todas as habilidades. O Presidente gostou muito de seu quadro, achou-o<br \/>\n    original, e falou mesmo em adquiri-lo para a Pinacoteca Nacional. Voc&ecirc;<br \/>\n    quanto quer por ele?<\/p>\n<p>Pensei um instante e respondi com mod&eacute;stia:<\/p>\n<p>&#8212; Quero dez contos.<\/p>\n<p>&#8212; Pe&ccedil;a vinte, homem.<\/p>\n<p>&#8212; Vai l&aacute;.<\/p>\n<p>E da&iacute; a dias tinha eu vendido por tal quantia a minha maravilhosa<br \/>\n    extravag&acirc;ncia ao Estado, para ensinamento e edifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos p&oacute;steros<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV &#8211; Fui um momento Sherlock Holmes<\/a><\/h4>\n<p>(A primeira lauda dos manuscritos deste cap&iacute;tulo n&atilde;o foi localizada)<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as a ele, vim a conhecer muita coisa dos bastidores da pol&iacute;tica<br \/>\n    e tive ocasi&atilde;o de incomod&aacute;-lo em pequenos obs&eacute;quios.<br \/>\n    Ap&oacute;s ter pintado a batalha da Salamina, cujo sucesso excedeu &agrave;<br \/>\n    minha expectativa, resolvi descansar e gastar com parcim&ocirc;nia o dinheiro<br \/>\n    que o quadro me rendera. Vivi retirado muitos meses e pouco apareci nos lugares<br \/>\n    p&uacute;blicos e quase nenhuma visita fiz.<\/p>\n<p>Aluguei nos arredores da cidade uma ch&aacute;cara e l&aacute; passei o dia<br \/>\n    a plantar couves.<\/p>\n<p>Certo dia, estando deveras aborrecido, tomei a resolu&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    vir at&eacute; a cidade.<\/p>\n<p>Desembarquei cedo e como tivesse fome, procurei um restaurante.<\/p>\n<p>Ao entrar, encontrei j&aacute; sentado &agrave; mesa o deputado Numa que<br \/>\n    me chamou para junto de si. Antes de mais nada, ele me perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o vais &agrave; manifesta&ccedil;&atilde;o de Sof&ocirc;nias?<\/p>\n<p>&#8212; Quando &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Amanh&atilde;;<\/p>\n<p>Disse-lhe que n&atilde;o; Numa, por&eacute;m, insistiu, expondo curiosas<br \/>\n    doutrinas com abund&acirc;ncia de fatos concretos, doutrinas que eu resumo<br \/>\n    aqui para edifica&ccedil;&atilde;o dos jovens que se destinam &agrave; carreira<br \/>\n    pol&iacute;tica. Mais ou menos, ele me disse, as belezas que se seguem.<\/p>\n<p>Essas presen&ccedil;as, essas aten&ccedil;&otilde;es, enfim, este ritual<br \/>\n    de salamaleques e falsas demonstra&ccedil;&otilde;es de amizade influ&iacute;a<br \/>\n    no progresso da vida. Como hav&iacute;amos de subir, ou, pelo menos, de manter<br \/>\n    a posi&ccedil;&atilde;o conquistada, se n&atilde;o fossemos sempre &agrave;s<br \/>\n    missas de s&eacute;timo dia dos parentes dos chefes, se n&atilde;o lhes mand&aacute;ssemos<br \/>\n    cart&otilde;es nos dias de anivers&aacute;rio, se n&atilde;o estiv&eacute;ssemos<br \/>\n    presentes aos embarques e desembarques dos figur&otilde;es?<\/p>\n<p>Um bota fora, &agrave;s vezes, decidia uma elei&ccedil;&atilde;o. Vejam s&oacute;<br \/>\n    o que aconteceu com o Batista. Estava nas boas gra&ccedil;as do Carneiro,<br \/>\n    mas, no dia do embarque deste para Pernambuco, deixou de ir. Carneiro notou<br \/>\n    e, quando o Bandeira quis inclu&iacute;-lo de novo na chapa, op&ocirc;s-se<br \/>\n    tenazmente.<\/p>\n<p>Os chefes n&atilde;o admitem independ&ecirc;ncia, nem mesmo nos embarques.<\/p>\n<p>Os pequenos presentes mant&eacute;m as amizades; mas, na pol&iacute;tica,<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o s&oacute; os presentes que mant&eacute;m as rela&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    &eacute; preciso que os poderosos sintam que gravitamos em torno deles, que<br \/>\n    nenhum ato &iacute;ntimo de sua exist&ecirc;ncia nos &eacute; estranho, que<br \/>\n    o natal&iacute;cio dos filhos, o anivers&aacute;rio de casamento ou de formatura,<br \/>\n    o falecimento da sogra se refletem no movimento e como que perturbam a &oacute;rbita<br \/>\n    da nossa vida.<\/p>\n<p>Como nesse ponto, era assim em tudo o mais &#8212; acrescentava Numa. Sempre<br \/>\n    tivera a vis&atilde;o n&iacute;tida da vida social, jamais a vira pelo lado<br \/>\n    &eacute;pico ou l&iacute;rico. Concebera a exist&ecirc;ncia ch&atilde;mente<br \/>\n    e, gra&ccedil;as a essa concep&ccedil;&atilde;o, estava seguro na vida, rico<br \/>\n    pela fortuna da mulher e deputado pelo Estado de Sernambi, onde dominava seu<br \/>\n    sogro, o Senador Neves Cogominho.<\/p>\n<p>Desde menino, vendo o seu orgulhoso pai sofrer de todos os seus superiores<br \/>\n    enfardelados em retumbantes t&iacute;tulos e esmaltados em gal&otilde;es,<br \/>\n    sentira bem que era preciso n&atilde;o perder de vista a submiss&atilde;o<br \/>\n    aos grandes do dia, adquirindo distin&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas, formaturas,<br \/>\n    cargos, t&iacute;tulos, de forma a ir se extremando bem etiquetado, doutor,<br \/>\n    s&oacute;cio de qualquer instituto, juiz ou coisa que o valha, da massa an&ocirc;nima.<\/p>\n<p>Era preciso ficar bem endossado, ceder sempre &agrave;s id&eacute;ias e aos<br \/>\n    preconceitos sociais. Esperar por uma distin&ccedil;&atilde;o puramente pessoal<br \/>\n    ou individual, era tolice. Se o Estado e a sociedade marcavam meios de notoriedade,<br \/>\n    de fian&ccedil;a de capacidade, para que trabalhar em obter outros mais dif&iacute;ceis,<br \/>\n    quando aqueles estavam &agrave; m&atilde;o e se obtinham com muita submiss&atilde;o<br \/>\n    e um pouco de tenacidade? Era assim a vida&#8230; Convenci-me de que ele tinha<br \/>\n    muita raz&atilde;o, tanto mais que, de experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria, sabia<br \/>\n    da verdade das suas asser&ccedil;&otilde;es. No dia seguinte, fui &agrave;<br \/>\n    casa de Sof&ocirc;nias e encontrei Numa, no v&atilde;o de uma janela, um tanto<br \/>\n    triste e apreensivo. Aproximei-me dele, cumprimentamo-nos, mas pouco conversamos.<\/p>\n<p>O palacete do Senador Sof&ocirc;nias, inteiramente aberto e iluminado, fulgia<br \/>\n    ao fundo de um longo jardim na encosta negra de um morrote. Perdidos na massa<br \/>\n    escura dos canteiros, gl&oacute;bulos el&eacute;tricos brilhavam amortecidos,<br \/>\n    abafados.<\/p>\n<p>Era dia do anivers&aacute;rio do poderoso Senador Sof&ocirc;nias, um dos<br \/>\n    prestigiosos chefes da pol&iacute;tica geral do Brasil.<\/p>\n<p>Auxiliado pelos seus amigos, organizava aquela retumbante festa, para atenuar<br \/>\n    um pouco os furiosos ataques que vinha sofrendo na imprensa.<\/p>\n<p>Esper&aacute;vamos a manifesta&ccedil;&atilde;o e, como n&oacute;s, muitas<br \/>\n    outras pessoas de import&acirc;ncia e hierarquia. Erravam pelas salas dos<br \/>\n    palacetes de Sof&ocirc;nias os nomes mais em evid&ecirc;ncia da pol&iacute;tica<br \/>\n    nacional. L&aacute; estava o F. J. Brochado, um curioso tipo de pol&iacute;tico,<br \/>\n    como quase todos os de sua ra&ccedil;a, secos d?alma, mas como pouco deles<br \/>\n    agitado, a fazer pra&ccedil;a de honesto, a intrigar, tendo sems, conforme<br \/>\n    fosse o momento, a ocasi&atilde;o, a vaga, sem atender a saber ou ao que fosse.<\/p>\n<p>Havia tamb&eacute;m o Carlos Porto, um singular orador, desanimado, mas preso<br \/>\n    &agrave; pol&iacute;tica, possuindo, entre muitas extravag&acirc;ncias, a<br \/>\n    de ser um escritor canhestro, a modelar moldagens de fragmentos de antigas<br \/>\n    est&aacute;tuas, numa teima de doido declarado.<\/p>\n<p>Alem destes, tamb&eacute;m se encontravam o General J&uacute;lio C&eacute;sar<br \/>\n    Tupinamb&aacute;, um crente do nosso misticismo militar, convencido de que<br \/>\n    a sua qualidade de general dava-lhe capacidades superiores de governo e administra&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    o Sarmento Heltz, uma mistura de judeu e alem&atilde;o, fino e frio; o gordo<br \/>\n    Pieterzoon, o Castelo, o Galv&atilde;o e outros. A todos ele eu conhecia,<br \/>\n    mas vi um circunstante cujo nome n&atilde;o sabia. Era um rapaz amulatado,<br \/>\n    pesco&ccedil;o enterrado no corpo, um queixo a lembrar peixe, mas com uma<br \/>\n    marcha saltitante de tico-tico &agrave; cata de migalhas.<\/p>\n<p>E ele saltitava de grupo em grupo, dizendo aqui uma coisa, ali outra, como<br \/>\n    se quisesse agradar a todos e a todos contentar. Perguntei a Numa quem era,<br \/>\n    mas ele tamb&eacute;m n&atilde;o sabia.<\/p>\n<p>Quando o Bastos, l&iacute;der de sua bancada, apareceu, Numa apressou-se<br \/>\n    em indagar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o Quit&eacute;rio Almada.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o conheces? &Eacute; um rapaz de muito talento. Escreve<br \/>\n    artigos maravilhosos.<\/p>\n<p>&#8212; Esses talentos&#8230;<\/p>\n<p>Numa n&atilde;o gostava dos talentos, n&atilde;o invejava; n&atilde;o gostava<br \/>\n    mesmo, achava-os prejudiciais &agrave; vida, fracos para obter a m&iacute;nima<br \/>\n    coisa, orgulhosos e exigentes e, como que a perturbar a exist&ecirc;ncia dos<br \/>\n    felizes, com a aten&ccedil;&atilde;o que se devia a eles.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o gosta dos talentos? &#8212; perguntou-lhe o Bastos.<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o muito pretensiosos, n&atilde;o se submetem a ningu&eacute;m<br \/>\n    e n&atilde;o amam ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Quem ama algu&eacute;m?&#8230; Aquele que est&aacute;s a ver, o Quit&eacute;rio,<br \/>\n    esteve sempre disposto a submeter-se. Muda de senhores, mas se submete&#8230;<\/p>\n<p>Numa n&atilde;o insistiu com o colega de bancada. Ele o sabia mordaz na familiaridade,<br \/>\n    com pequenas ironias, num cinismo de que ningu&eacute;m o tirava. Afastou-se.<\/p>\n<p>Fora um ato de perversidade a elei&ccedil;&atilde;o de Bastos pelo Neves<br \/>\n    Cogominho. Obscuro e pobre, sem nenhum t&iacute;tulo valioso aos olhos da<br \/>\n    pol&iacute;tica, certo dia publicara um pequeno folheto sobre a hist&oacute;ria<br \/>\n    que chamara a aten&ccedil;&atilde;o dele. Neves Cogominho, para mostrar que<br \/>\n    a sua oligarquia sabia abrir caminho aos jovens talentos, fizera-o deputado<br \/>\n    estadual e mais tarde federal. Bastos julgou que o melhor meio de manter a<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o era apagar-se completamente, n&atilde;o dar na vista<br \/>\n    e assim o fez. Vingava-se fazendo tro&ccedil;as em fam&iacute;lia, arquitetando<br \/>\n    ditos e frases.<\/p>\n<p>A manifesta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o chegava e aquela gente fria ansiava<br \/>\n    pela sua chegada e a sua dissolu&ccedil;&atilde;o, para que ficassem &agrave;<br \/>\n    vontade, longe da presen&ccedil;a daqueles vagabundos que deviam comp&ocirc;-la.<\/p>\n<p>A pol&iacute;tica, por esse tempo, mais do que nunca, constitu&iacute;a num<br \/>\n    jogo de interesses estritamente pecuni&aacute;rios, representados pelos proventos<br \/>\n    dos cargos e o que se arranja com aux&iacute;lio deles. Mais atroz e feroz<br \/>\n    esse jogo aparecia &agrave; vista da temporariedade dos cargos e da falta<br \/>\n    de uma base fixa e forte em que os detentores atuais se apoiassem ou pela<br \/>\n    bajula&ccedil;&atilde;o, ou pelo talento, ou pelo sangue, como aconteceria<br \/>\n    se estiv&eacute;ssemos sob um Imp&eacute;rio ou numa monarquia qualquer.<\/p>\n<p>A simula&ccedil;&atilde;o eleitoral nos Estados n&atilde;o bastava, pois<br \/>\n    havia ainda o reconhecimento nas C&acirc;maras, onde uma maioria audaz e desavergonhada<br \/>\n    podia tudo fazer e desfazer com o monte de atas falsas que chegavam.<\/p>\n<p>De forma que todo o trabalho dos feudat&aacute;rios estaduais estava em ter<br \/>\n    sempre ao seu lado essa maioria, para que os descontentes de todos os matizes<br \/>\n    n&atilde;o se servissem deles para alcan&ccedil;arem os postos de governo.<\/p>\n<p>A grande habilidade dos chefes estava em manobrar essa maioria no Senado,<br \/>\n    tendo para isso um grande imp&eacute;rio na C&acirc;mara.<\/p>\n<p>Se houvesse algum chefe estadual recalcitrante. a entrada do seu representante<br \/>\n    no Senado seria cortada; e, como todos queriam essa entrada, faziam os seus<br \/>\n    homens na C&acirc;mara obedecer aos ditames dos chefes coligados.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias Ant&ocirc;nio Macedo da Costa era o diretor da pol&iacute;tica<br \/>\n    nacional.<\/p>\n<p>Obtivera esse poder com os meios mais insignificantes, com intrujices de<br \/>\n    comadre, com abra&ccedil;os e salamaleques e tamb&eacute;m com certo ascendente<br \/>\n    de for&ccedil;as que n&atilde;o se lhe podia negar. Ele metia um pouco de<br \/>\n    medo; medo de quem est&aacute; em presen&ccedil;a de um valent&atilde;o, mas<br \/>\n    medo.<\/p>\n<p>Nada, al&eacute;m disso, o fazia not&aacute;vel, nem o saber, nem o talento,<br \/>\n    nem a ilustra&ccedil;&atilde;o. Nada! Embora bacharel, n&atilde;o tinha a&iacute;<br \/>\n    pelos seus cinq&uuml;enta e poucos anos a menor reminisc&ecirc;ncia das coisas<br \/>\n    do seu curso e dos seus preparat&oacute;rios. Certo dia, em face do mar calmo,<br \/>\n    querendo fazer frase, disse com &ecirc;nfase: &quot;O mar est&aacute; no seu<br \/>\n    &quot;status quo&quot;; em outra vez, num discurso, dissera: &quot;N&atilde;o<br \/>\n    posso admirar esses &quot;bonzos&quot; de uma nova trindade v&eacute;dica&quot;.<\/p>\n<p>Como estas, contavam-se dele muitas anedotas e ele ia, entretanto, dominando,<br \/>\n    ora com ast&uacute;cia, ora com golpes de for&ccedil;a, aquelas fracas vontades<br \/>\n    e aquelas duvidosas intelig&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>A sua hist&oacute;ria era curta e sugestiva. Mal se formara, internara-se<br \/>\n    nos sert&otilde;es de Mato Grosso e vivera a bater-se contra a natureza, criando<br \/>\n    gado aos milhares de cabe&ccedil;as, sem se dar ao inc&ocirc;modo de leituras<br \/>\n    e estudos, de sociabilidade e delicadezas. Aprendera a dominar pela for&ccedil;a,<br \/>\n    a se fazer temido se n&atilde;o queria ser roubado e esmagado, a dominar os<br \/>\n    homens e os irracionais, cujas fronteiras ele n&atilde;o estabelecia nitidamente.<\/p>\n<p>Os pe&otilde;es recalcitrantes, os bandos de salteadores de currais, os rivais<br \/>\n    na pol&iacute;tica, ele sabia que s&oacute; se dominavam com o punhal, com<br \/>\n    a garrucha, com o bacamarte, assim como os potros e os novilhos a la&ccedil;o,<br \/>\n    a brid&atilde;o, enfim &agrave; for&ccedil;a, e pondo-lhes a morte nos olhos.<\/p>\n<p>Perdera todo o verniz civilizado e tinha da pol&iacute;tica uma concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de est&acirc;ncia, onde o gado deve ser dominado, marcado a ferro quente e<br \/>\n    sempre disposto a ser reunido para a venda aos invernadores.<\/p>\n<p>Uma revolu&ccedil;&atilde;o trouxera-o &agrave; tona. Armara &agrave; sua<br \/>\n    custa um tro&ccedil;o de duzentos bandidos, gente sem f&eacute; nem lei, acostumados<br \/>\n    a essas empreitadas, e &agrave; frente deles e de outros que se lhes agregaram,<br \/>\n    bateu, fuzilou os advers&aacute;rios, talando-lhes as propriedades com uma<br \/>\n    ferocidade de v&acirc;ndalo.<\/p>\n<p>Ele fez a guerra &agrave; t&aacute;rtara, em arremetidas impetuosas e distribuindo<br \/>\n    tudo o que saqueava entre seus homens. Ganhou prest&iacute;gio e o governo<br \/>\n    teve-lhe respeito.<\/p>\n<p>Acabada a revolu&ccedil;&atilde;o, circundava-lhe o nome uma aur&eacute;ola<br \/>\n    de bravura e inumanidade que o levou &agrave;s culmin&acirc;ncias; e, sentindo<br \/>\n    bem donde lhe vinha o prest&iacute;gio, nunca mais deixou que seu halo esmaecesse.<br \/>\n    Ia &agrave;s matan&ccedil;as em Santa Cruz, fez tiro aos pombos em casa, n&atilde;o<br \/>\n    faltava &agrave;s touradas e, certo dia, numa festa campestre, &agrave; vista<br \/>\n    das damas em faniquitos e dos homens aterrados ajudou a carnear uma r&ecirc;s,<br \/>\n    que era destinada ao churrasco, &agrave; moda dos Estados criadores.<\/p>\n<p>Esse aspecto feroz e guerreiro, que tinha tomado para o seu papel, dava-lhe<br \/>\n    mais ascend&ecirc;ncia sobre as consci&ecirc;ncias fracas e vacilantes do<br \/>\n    que os discursos mais altamente liter&aacute;rios e mais conceituosos que<br \/>\n    ele pudesse pronunciar.<\/p>\n<p>Oh! diziam eles. O Sof&ocirc;nias! Aquilo &eacute; que &eacute; um homem.<br \/>\n    Acerta numa moeda de vint&eacute;m a cem metros! E de revolver.<\/p>\n<p>Numa tinha por ele o respeito do &quot;sheik&quot; pelo sult&atilde;o; uma<br \/>\n    mescla de terror f&iacute;sico e assombro religioso. Nada avan&ccedil;ava<br \/>\n    na sua presen&ccedil;a que n&atilde;o soubesse ser de sua opini&atilde;o;<br \/>\n    nada dizia na sua aus&ecirc;ncia que n&atilde;o fosse um quente elogio ao<br \/>\n    bei.<\/p>\n<p>&#8212; O Sof&ocirc;nias &eacute; um chefe! Ele sabe manobrar e comandar!<br \/>\n    Depois, &eacute; de uma lealdade&#8230;<\/p>\n<p>Como Numa, afora alguns recalcitrantes, que se apoiavam na for&ccedil;a transit&oacute;ria<br \/>\n    do Presidente, todos eram assim no temor &agrave;quele emir, aquele k&atilde;<br \/>\n    legislativo.<\/p>\n<p>Vimo-lo passar com o seu passo demorado, numa lentid&atilde;o vagarosa de<br \/>\n    monarca em seu pal&aacute;cio, mas a sua solenidade tinha alguma coisa de<br \/>\n    manequim, era dura, era procurada, como se n&atilde;o estivesse habituado<br \/>\n    a ela.<\/p>\n<p>O cigarro de palha vinha-lhe meio apagado no canto dos l&aacute;bios e ele<br \/>\n    olhava sem express&atilde;o a tudo aquilo, com aquele seu olhar sem brilho<br \/>\n    que parecia ser falso, emprestado.<\/p>\n<p>No seu porte, n&atilde;o havia coisa alguma de domina&ccedil;&atilde;o. Era<br \/>\n    vulgar de fisionomia, empastada, sem express&atilde;o, r&iacute;gida; mas<br \/>\n    apurara-se no vestu&aacute;rio, usando a roupa muito colada ao busto, que<br \/>\n    parecia modelado num espartilho.<\/p>\n<p>Aproximou-se acompanhado de Quit&eacute;rio, cuja gagueira dava &agrave;s<br \/>\n    suas palavras lisonjeiras a lentid&atilde;o das baforadas de incenso queimado<br \/>\n    ao tur&iacute;bulo.<\/p>\n<p>Numa chegou-se ao califa e cumprimentou-o longamente.<\/p>\n<p>&#8212; Menino, obrigado &#8212; disse com &ecirc;nfase Sof&ocirc;nias. &#8212;<br \/>\n    Essas coisas agradam muito. N&oacute;s, homens da na&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    vivemos &quot;encangados&quot; no respeito &agrave;s leis e aos princ&iacute;pios<br \/>\n    republicanos, s&oacute; temos esses momentos para nos vingar dos nossos inimigos<br \/>\n    &#8212; &quot;embolamo-nos&quot;!<\/p>\n<p>Falava sempre com met&aacute;foras e termos de criador e de matadouro.<\/p>\n<p>A sua mulher chegara e o grande senador perguntou com aquela voz em que os<br \/>\n    &quot;aa&quot; eram demorados e muito abertos:<\/p>\n<p>&#8212; Filha, n&atilde;o falta nada?<\/p>\n<p>&#8212; Nada, Sofo.<\/p>\n<p>&#8212; Quero que os amigos saiam satisfeitos. O &quot;potreiro&quot; deve<br \/>\n    ser bom para todos.<\/p>\n<p>Aos poucos, ele se viu cercado e todos tinham vontade de mais humilde se<br \/>\n    mostrarem. O gordo Pieterzoon era o &uacute;nico que falava com desembara&ccedil;o.<br \/>\n    O prest&iacute;gio de sua real intelig&ecirc;ncia sobre o chefe dava-lhe esse<br \/>\n    direito; mas os outros, o Brochado, o Sarmento Heltz e at&eacute; o general<br \/>\n    Tupinamb&aacute; s&oacute; tinham um desejo: rojarem-se aos p&eacute;s daquela<br \/>\n    esp&eacute;cie de monarca oriental sem califato nem kanato.<\/p>\n<p>Dentre todos, aquele que dava maiores demonstra&ccedil;&otilde;es de admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e respeito a Sof&ocirc;nias era Brochado, n&atilde;o s&oacute; porque era<br \/>\n    o mais falso, como queria apagar no esp&iacute;rito do grande chefe as picardias<br \/>\n    que lhe tinha feito.<\/p>\n<p>Tratavam dos &uacute;ltimos acontecimentos pol&iacute;ticos. O caso em quest&atilde;o<br \/>\n    era a forma&ccedil;&atilde;o de um novo Estado com territ&oacute;rios adjudicados<br \/>\n    por um recente tratado. O projeto era inofensivo, mas Sof&ocirc;nias queria<br \/>\n    aproveit&aacute;-lo para fazer uma demonstra&ccedil;&atilde;o e for&ccedil;a<br \/>\n    ao governo. O procedimento do Presidente n&atilde;o lhe agradava; Simpl&iacute;cio<br \/>\n    parecia n&atilde;o lhe querer obedecer e Sof&ocirc;nias temia que a sucess&atilde;o<br \/>\n    presidencial lhe fosse desfavor&aacute;vel. At&eacute; agora, n&atilde;o se<br \/>\n    havia declarado francamente, mas empenhava os seus esclarecedores: os jornais<br \/>\n    e aqueles dos seus deputados que simulavam independ&ecirc;ncia de pensamento.<br \/>\n    A imprensa do governo, conhecendo perfeitamente o jogo, n&atilde;o se animava<br \/>\n    a atac&aacute;-lo e a da oposi&ccedil;&atilde;o ajudava.<\/p>\n<p>Algu&eacute;m, no momento, referiu-se ao discurso terr&iacute;vel que, contra<br \/>\n    o formid&aacute;vel Sof&ocirc;nias, pronunciara o Albuquerque.<\/p>\n<p>Costale, deputado, adiantou mesureiro:<\/p>\n<p>&#8212; Frases! Frases! Ret&oacute;rica e mais nada!<\/p>\n<p>Esse Costale, Raimundo Costale, tinha a mania do americano, do &quot;yankee&quot;,<br \/>\n    e a de que estava destinado a promover o soerguimento da agricultura no Brasil.<br \/>\n    A mania de &quot;yankee&quot; viera-lhe do gosto de raspar o bigode, moda<br \/>\n    muito pouco americana, e de ter passado uns meses nos Estados Unidos; e a<br \/>\n    de salvador da agricultura n&atilde;o se sabia bem donde vinha. &Eacute; verdade<br \/>\n    que tinha uma fazenda, como toda gente, mas fazenda de recreio que n&atilde;o<br \/>\n    lhe dava l&aacute; grandes lucros, nem mesmo os comuns.<\/p>\n<p>De fato era rico, mas dos rendimentos das f&aacute;bricas de tecido que tinha<br \/>\n    e montara com o produto do caucionamento de t&iacute;tulos sem valor a um<br \/>\n    banco do Estado.<\/p>\n<p>Foi, portanto, com o desprezo mais &quot;yankee&quot; que pronunciou:<\/p>\n<p>&#8212; Frases! Frases! Ret&oacute;rica e mais nada!<\/p>\n<p>Pieterzoon, um grande e grosso homem, gigantesco e desarticulado, holand&ecirc;s<br \/>\n    de origem, objetou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; de ser assim, dizendo frases, que voc&ecirc;s<br \/>\n    h&atilde;o de desfazer a impress&atilde;o que ele fez na opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, a opini&atilde;o! &#8212; comentou Numa. &#8212; A opini&atilde;o<br \/>\n    somos n&oacute;s que sabemos por que o Sales &eacute; a favor&#8230;<\/p>\n<p>Ao que Brochado retrucou:<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o tenho grande conta da opini&atilde;o, quando sou governo.<br \/>\n    O povo se fabrica e quando n&atilde;o se fabrica, h&aacute; chanfalho, bala<br \/>\n    e pata de cavalo; mas, quando n&atilde;o se est&aacute; no poder, &eacute;<br \/>\n    preciso cativ&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias ouvia um e outro com olhar distra&iacute;do, aquele olhar<br \/>\n    torvo de agonizante, onde havia uma &uacute;nica e morti&ccedil;a luz. Por<br \/>\n    fim, tirou uma fuma&ccedil;a, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; assim tamb&eacute;m. Querem saber de uma coisa:<br \/>\n    eu tinha em casa uma vaca mansa que nem um cordeiro. Os meninos faziam dela<br \/>\n    o que queriam; montavam na r&ecirc;s, enfeitavam-lhe as pontas, punham-na<br \/>\n    na carro&ccedil;a. Um belo dia, tanto fizeram que ela se encheu de zanga e<br \/>\n    deu uma marrada num, quebrando-lhe o bra&ccedil;o. &Eacute; verdade que a<br \/>\n    matei &#8212; rematou com satisfa&ccedil;&atilde;o Sof&ocirc;nias.<\/p>\n<p>Como agora, gostava de afetar liberalismo, toler&acirc;ncia, quando o seu<br \/>\n    fundo era de d&eacute;spota, de tirano, de cacique; em presen&ccedil;a daquela<br \/>\n    gente toda, sentindo ao seu redor uma grande cidade mais ou menos civilizada,<br \/>\n    procurava esconder o seu natural; e, obedecendo a essa ordem de sentimentos,<br \/>\n    aconselhou que algu&eacute;m respondesse ao Sales e adiantou mesmo:<\/p>\n<p>&#8212; Era bom que um de voc&ecirc;s falasse&#8230; Por que voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    fala, Numa?<\/p>\n<p>Havia nesse convite um pequeno plano. Sof&ocirc;nias temia que o Neves Cogominho<br \/>\n    se bandeasse e dessa maneira descobriria logo os seus planos. Se Numa falasse,<br \/>\n    o homem e a sua gente estavam presos; se n&atilde;o, as baterias ficariam<br \/>\n    descobertas.<\/p>\n<p>Numa quis fazer ainda algumas obje&ccedil;&otilde;es, mas, no instante, entrou<br \/>\n    algu&eacute;m que propriamente n&atilde;o era da C&acirc;mara ou do Senado,<br \/>\n    era, por&eacute;m, da pol&iacute;tica, e de quem j&aacute; tratei, devendo-lhe<br \/>\n    at&eacute; a apresenta&ccedil;&atilde;o a Sof&ocirc;nias.<\/p>\n<p>Chamava-se Lucr&eacute;cio da Costa, mas com as suas fa&ccedil;anhas ganhara<br \/>\n    o nome de &quot;Barab-de-Bode&quot;. Carpinteiro de profiss&atilde;o, depois<br \/>\n    de alguns assassinatos, julgara mais rendoso fazer-se capanga pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>Era um belo mulato escuro, forte e alto, de cabelos corridos, peito alto<br \/>\n    e ombros largos. Tinha uma fama de terr&iacute;vel e era muito procurado pelas<br \/>\n    elei&ccedil;&otilde;es. Servia de guarda de corpo do Senador Sof&ocirc;nias<br \/>\n    e propagava a sua celebridade nas classes desafortunadas. Ao v&ecirc;-lo,<br \/>\n    o Senador perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute;, Lucr&eacute;cio?<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. podia dar uma palavra em particular?<\/p>\n<p>&#8212; Fale!<\/p>\n<p>O capanga hesitou um instante e falou afinal, com timidez:<\/p>\n<p>&#8212; Procurei &quot;seu&quot; Bento, mas&#8230;<\/p>\n<p>Esse Bento era uma esp&eacute;cie de mordomo do Senador, motivo pelo qual<br \/>\n    fora nomeado partidor do Distrito. Nos dias comuns, encarregava-se de fazer<br \/>\n    as encomendas dos g&ecirc;neros aliment&iacute;cios para Sof&ocirc;nias; nos<br \/>\n    extraordin&aacute;rios, organizava as manifesta&ccedil;&otilde;es, os vivas,<br \/>\n    as aclama&ccedil;&otilde;es, a tanto por cabe&ccedil;a, quando a pol&iacute;cia<br \/>\n    n&atilde;o queria encarregar-se da coisa.<\/p>\n<p>O Senador compreendeu o que Lucr&eacute;cio queria:<\/p>\n<p>&#8212; Dinheiro, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, Exa. Arranjamos mais dez &quot;partid&aacute;rios&quot;<br \/>\n    de V. Exa. que querem vir, e V. Exa. sabe que&#8230;<\/p>\n<p>O Senador falou com arrog&acirc;ncia:<\/p>\n<p>&#8212; Fale com a Lala.<\/p>\n<p>Correu &agrave; sala de jantar e eu o segui a observar. A esposa do Senador<br \/>\n    Sof&ocirc;nias, depois de dar o dinheiro a Lucr&eacute;cio, voltou a conversar<br \/>\n    com as amigas.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; mesmo uma ma&ccedil;ada &#8212; fez ela ao chegar &#8212;<br \/>\n    A pol&iacute;tica, que coisa! Sofo mal ganha para gastar&#8230; S&oacute; de &quot;champagne&quot;,<br \/>\n    quanto? e o &quot;chopp&quot;? e os doces? Todo o mundo quer ser pol&iacute;tico;<br \/>\n    &eacute; porque n&atilde;o sabe quanto custa?<\/p>\n<p>Madame Costale, esposa do Deputado Rodolfo Costale, aventou ent&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Tudo &eacute; assim, D. Lal&aacute;: visto de fora tudo &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil, mas c&aacute; do lado de dentro &eacute; que s&atilde;o elas&#8230;<br \/>\n    O Rodolfo, s&oacute; em &quot;facadas&quot;, gastou no ano passado cerca de<br \/>\n    tr&ecirc;s contos&#8230; Toda a gente pensa que os pol&iacute;ticos ganham mundos<br \/>\n    e fundos&#8230; &Eacute; um engano! Ganham, &eacute; verdade, mas gastam muito.<br \/>\n    E as subscri&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8212; O que mais me aborrece &#8212; disse Madame Celeste Galv&atilde;o,<br \/>\n    esposa do Deputado Galv&atilde;o, futuro presidente do Estado de xxs &#8212;<br \/>\n    &eacute; essa gente que temos de receber&#8230; Que caras! Nem fazem a barba!&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o sou nenhuma rainha, mas suportar sujeitos t&atilde;o mal vestidos&#8230;<br \/>\n    Qual! &Eacute; demais.<\/p>\n<p>A conversa demorou-se assim algum tempo e ia continuar quando se<\/p>\n<p>ouviram na rua os compassos da m&uacute;sica militar que puxava a manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e todas aquelas senhoras dirigiram-se para a sala principal. No corredor ainda,<br \/>\n    D. Lal&aacute; pode dizer a Madame Galv&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Amanh&atilde; &eacute; que s&atilde;o elas! Copos furtados, &quot;bibelots&quot;,<br \/>\n    o jardim estragado&#8230; Qual! esta pol&iacute;tica!<\/p>\n<p>E a banda repenicava um dobrado canalha a todos os pulm&otilde;es, as lanternas<br \/>\n    venezianas, nas pontas das varas, dan&ccedil;avam; e parecia tudo uma longa<br \/>\n    cobra fosforescente e musical que rastejava para o palacete. A multid&atilde;o<br \/>\n    vinha premida na estreita alameda principal do jardim<\/p>\n<p>&#8212;Viva o senador Sof&ocirc;nias! Viva!<\/p>\n<p>Por entre vivas foram entrando, e Sof&ocirc;nias, no fundo da sala, cercado<br \/>\n    dos amigos presentes, j&aacute; esperava a manifesta&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    sua majestade de manequim e a sua cabeleira untada de &oacute;leo, a reluzir.<\/p>\n<p>Na frente dos manifestantes, vinha o tribuno Canto Ribeiro, celebridade dos<br \/>\n    &quot;meetings&quot; e manifesta&ccedil;&otilde;es. Era um tipo da cidade,<br \/>\n    teimoso orador do Largo de S&atilde;o Francisco, cuja orat&oacute;ria consistia<br \/>\n    em berrar a todos os pulm&otilde;es as mais gastas chapas do Orador Popular<br \/>\n    . E ele tinha uns pulm&otilde;es valentes e cada berro seu retumbava pela<br \/>\n    pra&ccedil;a toda e era ouvido em todos os cantos.<\/p>\n<p>Era tamb&eacute;m empreiteiro de manifesta&ccedil;&otilde;es, e, como todo<br \/>\n    o empreiteiro que se preza, tinha o seu pessoal. Al&eacute;m de um n&uacute;cleo<br \/>\n    forte de capangas, possu&iacute;a a seu servi&ccedil;o mo&ccedil;os limpos:<br \/>\n    estudantes, pequenos empregados, aspirantes a empregos &#8212; gente disposta<br \/>\n    ao viv&oacute;rio, iludida com promessas de empregos e promo&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Havia em Canto Ribeiro um pouco de especula&ccedil;&atilde;o e um pouco de<br \/>\n    sinceridade. Supondo-se orador, julgava-se com um alto destino pol&iacute;tico<br \/>\n    e n&atilde;o pejou de ser o orador de pra&ccedil;a p&uacute;blica, para chegar<br \/>\n    aonde queria. Os meios&#8230;<\/p>\n<p>A sua orat&oacute;ria era feita de berros, de mugidos e rugidos; e, al&eacute;m<br \/>\n    de qualquer apuro liter&aacute;rio, faltava tamb&eacute;m a ela uma voz musical,<br \/>\n    numerosa, com inflex&otilde;es. Ele s&oacute; sabia berrar e, quando se cansava,<br \/>\n    guinchava.<\/p>\n<p>A sala era vasta, mas n&atilde;o pode conter todos os manifestantes. Uma<br \/>\n    grande parte ficou pela escada e pelo jardim.<\/p>\n<p>Havia de toda a gente; pobres homens desempregados, que vinham ali ganhar<br \/>\n    uma esp&oacute;rtula; vagabundos not&aacute;veis, entusiastas sinceros, curiosos<br \/>\n    e agradecidos. Todas as cores. Os vestu&aacute;rios eram os mais engra&ccedil;ados<br \/>\n    e inesperados. Havia um preto com uma sobrecasaca cor de vinho, cal&ccedil;ado<br \/>\n    com uma bota preta e outra amarela; um rapaz louro, um polaco do Paran&aacute;,<br \/>\n    com umas cal&ccedil;as bicolor, uma perna preta e outra cinzenta; fraques<br \/>\n    antediluvianos, cal&ccedil;as bombachas, outras a trair a origem reuna, coletes<br \/>\n    sarapintados.<\/p>\n<p>Vendo essa gente miser&aacute;vel, esfaimada, degradada f&iacute;sica e moralmente,<br \/>\n    o que se sentia era um imenso nojo pela pol&iacute;tica, pelo sufr&aacute;gio<br \/>\n    universal, pelas C&acirc;maras, pelos Tribunais, pelos Ministros, pelo Presidente,<br \/>\n    enfim, pela poderosa ilus&atilde;o da P&aacute;tria, que criava, alimentava<br \/>\n    e se aproveitava de tamanha degrada&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>Toda essa gente comprimiu-se, arredaram-se os m&oacute;veis e Canto Ribeiro<br \/>\n    come&ccedil;ou a falar. Berrou vinte minutos, dizendo as mais s&oacute;rdidas<br \/>\n    banalidades sobre o povo, a Rep&uacute;blica, os m&eacute;ritos de Sof&ocirc;nias,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>Numa, que estava ao meu lado, ouvia-o atentamente e como que senti nele que<br \/>\n    havia uma ponta de inveja pela fac&uacute;ndia do orador.<\/p>\n<p>Era conhecido como &quot;silencioso&quot; e, tendo recebido aquela intima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do chefe para discursar, n&atilde;o era dif&iacute;cil adivinhar o seu estado<br \/>\n    d?alma.<\/p>\n<p>Havia no seu olhar muito espanto, muita admira&ccedil;&atilde;o pela torrente<br \/>\n    de banalidades que Canto Ribeiro berrava; e, de onde em onde, como se adivinhava<br \/>\n    que Numa dizia com os seus bot&otilde;es: Ah! Se eu fosse como ele!<\/p>\n<p>O tribuno deu por finda a arenga e Sof&ocirc;nias ia preparar-se para responder,<br \/>\n    quando uma mo&ccedil;a saiu do meio das outras e come&ccedil;ou a pronunciar<br \/>\n    um discurso.<\/p>\n<p>Fiquei admirado, n&atilde;o muito do seu discurso, mas da sua eleg&acirc;ncia,<br \/>\n    do seu langor, da tra&ccedil;&atilde;o fortemente sexual que ela possu&iacute;a.<br \/>\n    Ao meu lado, o genro de Neves Cogominho perguntou ao Bastos quem era:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; a filha do Henocanti, a Cl&oacute;dia. H&aacute; muito que<br \/>\n    &quot;cava&quot; uma cadeira para o pai. O Castrioto podia j&aacute; ter arranjado<br \/>\n    isso, mas est&aacute; &quot;cavando&quot; a filha primeiro&#8230;<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a falou ainda um pouco e, no olhar morti&ccedil;o de Sof&ocirc;nias,<br \/>\n    ao influxo do capitoso da dama, houve um brilho desusado. Acabou de falar<br \/>\n    e ofereceu-lhe um bouquet de flores.<\/p>\n<p>Sof&ocirc;nias respondeu a Canto Ribeiro, dizendo ser simplesmente como um<br \/>\n    &quot;muezzin&quot; da Catedral da Rep&uacute;blica, cuja voz estava sempre<br \/>\n    pronta a lembrar aos fi&eacute;is os seus deveres para com a Rep&uacute;blica;<br \/>\n    e &agrave; Cl&oacute;dia, que se enternecia por aquela homenagem da gentil<br \/>\n    patr&iacute;cia, cujas belezas ofuscava as famosas Lucr&eacute;cia Borgia<br \/>\n    e outras. Bastos n&atilde;o deixou de dizer baixinho ao colega:<\/p>\n<p>&#8212; Esta &eacute; demais.<\/p>\n<p>Por fim foi oferecido &quot;chopps&quot; aos circunstantes. Quase houve briga,<br \/>\n    quase houve bofetadas. As m&atilde;os passavam por cima das cabe&ccedil;as,<br \/>\n    por entre os corpos, e os copeiros tinham um imenso trabalho em servir toda<br \/>\n    aquela gente sequiosa. Canto Ribeiro vendo que a coisa podia degenerar em<br \/>\n    conflito, pois j&aacute; havia um bate boca em um canto, resolveu levar o<br \/>\n    seu pessoal. Gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, rapazes! Os bondes v&atilde;o partir!<\/p>\n<p>Foram-se a um tempo e na sala, encostado ao balc&atilde;o improvisado de<br \/>\n    &quot;buffet&quot;, ficou unicamente Barba-de-Bode. Encostou-se e disse com<br \/>\n    gloriosa satisfa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Sim, agora posso beber. N&atilde;o sou desses &quot;avan&ccedil;adores&quot;<br \/>\n    que s&oacute; v&ecirc;m &agrave;s festas para beber.<\/p>\n<p>Em seguida, voltou-se para o copeiro e fez familiarmente:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; amigo! D&aacute;-me a&iacute; uma coisa dessas!<\/p>\n<p>Sorveu o copo quase inteiramente de um trago, e foi cheio de loquacidade<br \/>\n    para os copeiros que disse:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;s sabem, eu c&aacute; sou de casa. N&atilde;o preciso de<br \/>\n    manifesta&ccedil;&atilde;o para entrar&#8230; O &quot;homem&quot; &eacute; meu<br \/>\n    s&oacute;&#8230; Todos esses tipos s&atilde;o engrossadores.<\/p>\n<p>Bebeu o resto que estava no copo, e pediu:<\/p>\n<p>&#8212; Mais um &quot;chopp&quot;.<\/p>\n<p>E continuou loquaz e jovial, jovialidade e loquacidade a que n&atilde;o era<br \/>\n    estranho o &aacute;lcool que j&aacute; engorgitara durante o dia todo. Continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Quando aquele velho caduco do Mendes (o antigo Presidente) lhe andou<br \/>\n    fazendo fosquinhas, quem &eacute; que vinha aqui? Um ou outro. Eu c&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o, sempre estive a seu lado. Mais um &quot;chopp&quot;.<\/p>\n<p>Os copeiros serviram e ele aduziu sentenciosamente:<\/p>\n<p>&#8212; Esses homens s&atilde;o muito adulados, quando est&atilde;o por cima;<br \/>\n    mas, logo que rosna qualquer coisa, tudo foge. &Eacute; isto. Vamos beber!<\/p>\n<p>Falando e bebendo, Lucr&eacute;cio sorveu mais uma d&uacute;zia de &quot;chopps&quot;<br \/>\n    e quando ia pelo d&eacute;cimo terceiro, passou pela sala o Sof&ocirc;nias.<br \/>\n    Barba-de-Bode correu ao encontro do Senador:<\/p>\n<p>&#8212; V. Exa. d&aacute; licen&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que voc&ecirc; quer, homem? J&aacute; bebeste como o<br \/>\n    diabo, hein?<\/p>\n<p>&#8212; Alguma coisa. Queria agora beber &agrave; sua sa&uacute;de.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa isso para mais tarde. Agora&#8230;<\/p>\n<p>Lucr&eacute;cio deitou sobre o poderoso pol&iacute;tico um s&uacute;plice<br \/>\n    e este n&atilde;o achou mau dar aos seus pares uma demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tolerante bondade pelos humildes. Sof&ocirc;nias disse bonacheiramente:<\/p>\n<p>&#8212; Bem! V&aacute; l&aacute;!<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Senador Sof&ocirc;nias &#8212; come&ccedil;ou Lucr&eacute;cio.<br \/>\n    &#8212; Neste momento solene&#8230;<\/p>\n<p>E parou como se buscasse palavras, termos, imagens. Esteve um instante calado,<br \/>\n    com a boca fortemente fechada: houve um impercept&iacute;vel movimento nos<br \/>\n    m&uacute;sculos na sua garganta de quem engole alguma coisa. Por esse tempo,<br \/>\n    come&ccedil;aram a vir da sala convivas, damas e cavalheiros, curiosos de<br \/>\n    travarem conhecimento com a eloq&uuml;&ecirc;ncia de Lucr&eacute;cio.<\/p>\n<p>Ao ver tanta gente &agrave; sua roda, animou-se e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Senador&#8230;<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o pode acabar. Veio-lhe um forte v&ocirc;mito e, antes que pudesse<br \/>\n    correr &agrave; janela, despejou-o ali mesmo, borrifando o peitilho do famoso<br \/>\n    senador e a barra das saias daquelas grandes damas. Lan&ccedil;ou, lan&ccedil;ou<br \/>\n    tudo o que tinha no est&ocirc;mago.<\/p>\n<p>Eu estava na sala desde que Lucr&eacute;cio come&ccedil;ara a beber e de<br \/>\n    l&aacute; n&atilde;o arredei p&eacute;. O triste final do discurso do &quot;capanga&quot;<br \/>\n    causou em algumas pessoas indigna&ccedil;&atilde;o e noutras hilaridade. Entre<br \/>\n    aquelas, houve um que n&atilde;o disfar&ccedil;ou sua reprova&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Dizia ele:<\/p>\n<p>&#8212; T&aacute; bebo&#8230; Chama a&iacute; um poli&ccedil;a&#8230; Mete ele no<br \/>\n    xadrex.<\/p>\n<p>Olhei o homem que me pareceu um tipo acabado de matuto. Tinha um ar de tabajara<br \/>\n    e umas roupas amarrotadas no corpo. Perguntei a Numa quem era.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o Dr. Chaveco, chefe de Pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>Reparei ainda o homem. Que triste chefe de Pol&iacute;cia! Tinha um ar de<br \/>\n    v&iacute;tima de conto do vig&aacute;rio;<\/p>\n<p>Houve um grande esfor&ccedil;o por parte dos presentes para que ele n&atilde;o<br \/>\n    levasse preso Lucr&eacute;cio e foi preciso a interven&ccedil;&atilde;o pessoal<br \/>\n    de Sof&ocirc;nias para dissuadi-lo completamente. Convenceu-se, apanhou o<br \/>\n    chap&eacute;u, tomou sua bengala, sem cast&atilde;o nem ponteira, despediu-se:<\/p>\n<p>&#8212; T&aacute; b&atilde;o&#8230;. Int&eacute; manh&atilde;!<\/p>\n<p>Aquele ar bonach&atilde;o do homem, aquele seu aspecto paternal e simpl&oacute;rio,<br \/>\n    t&atilde;o em contraste com as suas terr&iacute;veis fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    longe de provocarem a mofa, que eu via estampada em todos os rostos, fizeram-me<br \/>\n    encarar com ternura o pa&iacute;s, em que estava, cuja capital tinha a sua<br \/>\n    seguran&ccedil;a entregue a m&atilde;o t&atilde;o d&eacute;beis e, a julgar<br \/>\n    pelo aspecto, t&atilde;o doces.<\/p>\n<p>Recordei-me, n&atilde;o sem calafrios, da famosa 3&ordf; Se&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Chancelaria Imperial da minha p&aacute;tria, aquela terr&iacute;vel pol&iacute;cia<br \/>\n    secreta, que seguia um a um os habitantes do Imp&eacute;rio com seus processos<br \/>\n    inquisitoriais; lembrei-me tamb&eacute;m das suas terr&iacute;veis pris&otilde;es,<br \/>\n    das minas da Sib&eacute;ria, dos cossacos&#8230;<\/p>\n<p>O Brasil surgiu-me, ent&atilde;o, como um pa&iacute;s maravilhoso, liberal<br \/>\n    por fraqueza, mas liberal; e eu perdoei um instante tudo o que presenciara<br \/>\n    nele de rid&iacute;culo e inferior;<\/p>\n<p>As minhas reflex&otilde;es foram interrompidas por uma nova entrada do chefe<br \/>\n    de Pol&iacute;cia. Na sala de visitas j&aacute; se dan&ccedil;ava, eu estava<br \/>\n    na sala de jantar, a um canto fumando e quase na minha frente, na outra extremidade,<br \/>\n    algumas senhoras cercavam a esposa de Sof&ocirc;nias. O Dr. Chaveco foi entrando,<br \/>\n    batendo com a bengala no assoalho, ao jeito de um pastor b&iacute;blico:<\/p>\n<p>&#8212; D. Lal&aacute; &#8212; disse ele &#8212; mi esqueceu uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;, Doutor?<\/p>\n<p>&#8212; A mode que n&atilde;o levei uns rebu&ccedil;ados pros meninos.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o, Doutor.<\/p>\n<p>&#8212; Tem art&eacute;a, si&aacute; Dona? O Zeca t&aacute; cum tosse.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, Doutor. Quer de hortel&atilde;?<\/p>\n<p>&#8212; Serve, Dona.<\/p>\n<p>A senhora come&ccedil;ou a preparar o pequeno embrulho e eu n&atilde;o sei<br \/>\n    por que quis travar rela&ccedil;&otilde;es com o Dr. Chaveco. Cheguei-me a<br \/>\n    ele e fui logo dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o Doutor, j&aacute; vai?<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; mo&ccedil;o; Drumo sempre c?os pintos. &Eacute; mais bom<br \/>\n    pra sa&uacute;de.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, no seu cargo, nem sempre pode&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Qu&aacute;, mo&ccedil;o! Tenho os auxili&aacute; que faz minha vez.<\/p>\n<p>A dona da casa voltou com o embrulho; Chaveco agradeceu, levantou-se, despediu-se<br \/>\n    e disse-me:<\/p>\n<p>&#8212; Qu&eacute; i c&ocirc; n&oacute;s, mo&ccedil;o? N&atilde;o paga nada.<br \/>\n    Intomove t&aacute; na porta.<\/p>\n<p>Embora as minhas finan&ccedil;as estivessem em bom p&eacute;, lobriguei logo<br \/>\n    naquela rela&ccedil;&atilde;o com o chefe de Pol&iacute;cia um meio de ganhar<br \/>\n    dinheiro mais tarde. Na rua, entre outros, o seu autom&oacute;vel esperava.<br \/>\n    Sem esperar que o ajudante abrisse a portinhola, Chaveco a foi abrindo e convidou-me:<\/p>\n<p>&#8212; Trepe mo&ccedil;o !<\/p>\n<p>Entrei no ve&iacute;culo e logo que o chefe de Pol&iacute;cia se p&ocirc;s<br \/>\n    ao meu lado, o motorista lhe perguntou para onde queria ir.<\/p>\n<p>&#8212; Pra onde vosmec&ecirc; qu&eacute; i, ?<\/p>\n<p>Disse-lhe e o autom&oacute;vel rodou pela rua deserta, cujas palmeiras, de<br \/>\n    um ou outro lado, dormiam sob o len&ccedil;ol de um belo luar.<\/p>\n<p>Estivemos um pouco calados e, ap&oacute;s, ele me perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute; seu nome, mo&ccedil;o?<\/p>\n<p>Disse-lhe eu ent&atilde;o o meu nome por inteiro.<\/p>\n<p>&#8212; U&eacute;! gentes! &#8212; fez ele um risinho simiesco &#8212; Que<br \/>\n    nome! &eacute; de santo?<\/p>\n<p>Expliquei-lhe ent&atilde;o que era russo e o meu nome era, portanto, russo.<br \/>\n    Ficou muito espantado e afirmou-se naquele seu falar especial, que eu falava<br \/>\n    muito bem o portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>Afogada no luar, a cidade oferecia um aspecto de paz serena e tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    satisfeita. Pelas ruas, n&atilde;o havia ningu&eacute;m e aquelas casas inteiramente<br \/>\n    fechadas, mudas, tranq&uuml;ilas, enchiam-nos de uma satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suave. Era como se esquec&ecirc;ssemos que, dentro elas, havia muita ang&uacute;stia,<br \/>\n    muita tormenta, muita paix&atilde;o e muito &oacute;dio. Verificando isso,<br \/>\n    t&iacute;nhamos vontade de que todos n&oacute;s, toda a humanidade, viesse<br \/>\n    a dormir assim, pelo s&eacute;culos em fora&#8230;<\/p>\n<p>O doutor Chaveco vinha calado ao meu lado, mas n&atilde;o dormia. Os seus<br \/>\n    olhos pequenos e castanhos brilhavam muito e como que sondavam a noite. De<br \/>\n    repente senti que estremecia. N&atilde;o me pude conter.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; doutor?<\/p>\n<p>&#8212; A mode que l&aacute; em cima anda uma coisa branca.<\/p>\n<p>Olhei a casa indicada e nada vi, mas Chaveco afirmara que vira e at&eacute;<br \/>\n    se benzeu:<\/p>\n<p>&#8212; Credo! Padre, Filho, Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Acabamos a viagem conversando sobre coisas de pol&iacute;cia. De ind&uacute;stria,<br \/>\n    levei-o para esse terreno; mas a&iacute;, como em tudo mais, ele era de uma<br \/>\n    simplicidade evang&eacute;lica.<\/p>\n<p>&#8212; Qu&aacute; retrato, Doutor! Qu&aacute; , nada! Se argu&eacute;m viu,<br \/>\n    o criminoso pode s&ecirc; preso, mas se n&atilde;o viu &#8212; qu&aacute;<br \/>\n    &#8212; s&oacute; se outro vi&eacute; cont&aacute;.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia meio de demov&ecirc;-lo da&iacute;. Expus-lhe tudo o que<br \/>\n    sabia de m&eacute;todos de investiga&ccedil;&atilde;o; mas o homem n&atilde;o<br \/>\n    sa&iacute;a da sua convic&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Qu&aacute;! Se argu&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>Separamo-nos muito bons amigos e eu pude dormir as &uacute;ltimas horas da<br \/>\n    noite na minha pl&aacute;cida ch&aacute;cara dos sub&uacute;rbios.<\/p>\n<p>Eu morava numa emin&ecirc;ncia e a minha casa ficava sobre o &quot;plateau&quot;,<br \/>\n    olhando o poente. &Agrave; tarde. sob alguma das muitas mangueiras, que me<br \/>\n    protegiam a casa do calor, eu gostava de ver o sol deitar-se, sumir-se por<br \/>\n    entre as nuvens de p&uacute;rpura e ouro; de manh&atilde;, eu me erguia em<br \/>\n    boa hora, regava as minhas couves e lia alguns autores da minha reduzida biblioteca.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes, pelo correr do dia, eu passeava pelos arredores da minha<br \/>\n    propriedade e surpreendia a espa&ccedil;os aquela vida dos sub&uacute;rbios<br \/>\n    da capital, feita da estratifica&ccedil;&atilde;o de todas as vidas da cidade.<\/p>\n<p>A minha casa velha casa de estilo roceiro, feia a n&atilde;o mais poder,<br \/>\n    mas sem o casquilho antip&aacute;tico de suas vizinhas modernas e muito mais<br \/>\n    ampla e ensolarada que elas.<\/p>\n<p>Tinha uma velha preta, que me cozinhava os pratos nacionais, a que se afizera<br \/>\n    o meu paladar russo, sem viol&ecirc;ncia nem repugn&acirc;ncia. Eu comia com<br \/>\n    prazer o feij&atilde;o e a carne seca; at&eacute; ousei entrar pelo vatap&aacute;<br \/>\n    e pelo caruru.<\/p>\n<p>Al&eacute;m da cozinheira, tinha um portugu&ecirc;s, que me servia ao mesmo<br \/>\n    tempo de chacareiro e de jardineiro; e, em companhia desses dois servi&ccedil;ais,<br \/>\n    a minha vida nos sub&uacute;rbios corria mansa, sossegada e obscura.<\/p>\n<p>Tendo chegado muito tarde, na noite em que voltei da manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Sof&ocirc;nias, ergui-me do leito dia alto e, quando abri as janelas amplas<br \/>\n    e altas do meu quarto, o sol passou forte atrav&eacute;s delas, com uma f&uacute;ria<br \/>\n    de protesto e indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesse dia n&atilde;o reguei as minhas couves, mas, antes de almo&ccedil;ar,<br \/>\n    fui dar uma vista d?olhos na horta, cujo vi&ccedil;o o meu olhar demorou-se<br \/>\n    na concentra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Depois almocei, li os jornais e o dia enchi-o lendo e pensando em coisas<br \/>\n    graves e s&eacute;rias. N&atilde;o havia em mim nenhuma necessidade de movimento,<br \/>\n    mas n&atilde;o amanheci da mesmo forma na manh&atilde; seguinte. Despertei<br \/>\n    com os m&uacute;sculos a pedir exerc&iacute;cio e com os sentidos a pedir<br \/>\n    impress&otilde;es outras que n&atilde;o aquelas mesmas que recebia sempre<br \/>\n    no meu interior.<\/p>\n<p>Logo ap&oacute;s o almo&ccedil;o sa&iacute;, dirigi-me &agrave; esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    comprei o necess&aacute;rio bilhete e o trem correu em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; &quot;gare&quot; da Central.<\/p>\n<p>Li no trajeto os jornais; n&atilde;o tinham nada de interessante, como &eacute;<br \/>\n    de uso nos nossos jornais; mas se estendiam muito sobre um crime misterioso.<br \/>\n    Como esse crime me houvesse permitido realizar uma das minhas curiosas proezas,<br \/>\n    vou narr&aacute;-lo em poucas palavras.<\/p>\n<p>Em um dos morros da Sa&uacute;de, morava um velho portugu&ecirc;s que, em<br \/>\n    tempos fora agiota; segundo corria, vivia de emprestar pequenas quantias aos<br \/>\n    mar&iacute;timos, mediante juros exorbitantes.<\/p>\n<p>Uma manh&atilde;, custando muito a abrir a porta, a coisa causou desconfian&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; vizinhan&ccedil;a, que do fato deu conhecimento &agrave;s autoridades.<br \/>\n    Arrombada a porta, ele foi encontrado amorda&ccedil;ado e morto a punhaladas.<br \/>\n    As not&iacute;cias todas n&atilde;o concordavam na denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da arma; umas, chamavam &quot;adaga&quot;; outras, &quot;kandjar&quot;; e<br \/>\n    ainda em outras a arama era chamada de cimitarra.<\/p>\n<p>O instrumento do homic&iacute;dio foi encontrado junto ao cad&aacute;ver<br \/>\n    e outro vest&iacute;gio do assassinato n&atilde;o havia.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei por que associei a imagem simpl&oacute;ria do chefe da Pol&iacute;cia<br \/>\n    com t&atilde;o misterioso crime e desembarquei tendo as duas uma ao lado da<br \/>\n    outra, prestes a combinarem-se em alguma coisa nova.<\/p>\n<p>A minha ten&ccedil;&atilde;o era vagabundear pela cidade, percorr&ecirc;-la<br \/>\n    ao acaso, tomando um bonde aqui, saltando ali, satisfazendo a necessidade<br \/>\n    de movimento que havia nos meus m&uacute;sculos e de impress&otilde;es que<br \/>\n    me havia nos meus nervos.<\/p>\n<p>Era pouco mais de meio dia quando saltei e, antes de me por a vagar, quis<br \/>\n    tomar alguns &quot;chopps&quot;.<\/p>\n<p>Entrei numa casa que eu freq&uuml;entava muito ao tempo em que vivia constantemente<br \/>\n    na cidade. Ficava no centro comercial e era freq&uuml;entada por comerciantes<br \/>\n    e gente de neg&oacute;cios, sobretudo pelos estrangeiros.<\/p>\n<p>N&atilde;o tinha fartos conhecimentos no Rio e eu mesmo tinha evitado faze-los,<br \/>\n    para melhor dar aos meus planos. Uma amizade &eacute; sempre um c&uacute;mplice<br \/>\n    da nossa consci&ecirc;ncia e os c&uacute;mplices atrapalham.<\/p>\n<p>Mal tinha abancado &agrave; mesa forrada de couro, quando se me acercou um<br \/>\n    conhecido. Chamava-se Gustav Kordenjold, era irland&ecirc;s e falava russo.<br \/>\n    De profiss&atilde;o, sabia-o ser dispenseiro de uma galera norueguesa, a &quot;Selma&quot;,<br \/>\n    um lindo barco de tr&ecirc;s mastros de belo e airoso ar, que se ocupava de<br \/>\n    trazer de Ragoon para o Rio o arroz excelente da &Aacute;sia.<\/p>\n<p>Eram longas e afanosas viagens de quase meio ano, em que a &quot;Selma&quot;,<br \/>\n    com o seu velame alto e amplo, ora dormitava sobre as ondas, ora corria com<br \/>\n    o vento ao capricho dos temporais de dois grandes oceanos, sem contar as arriba&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    for&ccedil;adas a pontos obscuros de ilhas e continentes.<\/p>\n<p>Mesmo assim, tal era a barateza do motor, tal era a exig&uuml;idade de gastos<br \/>\n    com sal&aacute;rios da tripula&ccedil;&atilde;o, as viagens eram rendosas<br \/>\n    e a &quot;Selma&quot; deixava sempre para o seu armador em Transo&euml;, na<br \/>\n    hiperb&oacute;lica e glacial Noruega, grandes lucros que o trabalho das gentes<br \/>\n    dos pa&iacute;ses quentes lhe dava.<\/p>\n<p>Gustav Kordenjold falou-me prazenteiramente e eu o convidei a partilhar dos<br \/>\n    meus &quot;chopps&quot;. Sentou-se e falou-me em russo. Conversamos muito<br \/>\n    sobre v&aacute;rios assuntos e ele veio afinal falar-me a respeito de sua<br \/>\n    viagem.<\/p>\n<p>&#8212; Levamos quase oito meses. Na altura se Singapura, apanhamos um temporal<br \/>\n    de oito dias e s&oacute; fomos arribar nas Filipinas. Quase n&atilde;o nos<br \/>\n    pod&iacute;amos ter em p&eacute;; os mastar&eacute;us vieram abaixo, o leme<br \/>\n    perdeu-se e, quando o tempo amainou, foi um imenso trabalho para colocar os<br \/>\n    sobressalentes. Estou aborrecido dessa vida&#8230; Se arranjasse uns quinze mil<br \/>\n    francos, voltava para a Noruega e ia estabelecer-me com uma serraria. Tu que<br \/>\n    tens tantos conhecimentos por aqui, podias bem arranjar-me um neg&oacute;cio<br \/>\n    em que ganhasse essa quantia&#8230; Estou deveras aborrecido! N&atilde;o posso<br \/>\n    mais!&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o sei por que veio &agrave; lembran&ccedil;a o crime que os jornais<br \/>\n    noticiavam e lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Podia arranjar-te o dinheiro, mas o meio &eacute; um pouco arriscado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o leste nos jornais o crime que houve, ontem &agrave; noite?<\/p>\n<p>Gustav teve um pequeno estremecimento, mas logo disse naturalmente:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o li; sabes perfeitamente que mal falo o portugu&ecirc;s.<br \/>\n    Mas que tem o crime com a minha necessidade de dinheiro?<\/p>\n<p>&#8212; Ouve: estou em boas rela&ccedil;&otilde;es com o chefe de Pol&iacute;cia<br \/>\n    daqui. Anda muito em moda as dedu&ccedil;&otilde;es com verniz cient&iacute;fico<br \/>\n    para a descoberta dos crimes. Vou a ele; arranjo umas de modo que te acusem,<br \/>\n    os esbirros te prendem; tu negas; mas as minhas dedu&ccedil;&otilde;es acusam-te,<br \/>\n    o chefe fica contente, d&aacute;-me alguns contos de r&eacute;is, eu t?os<br \/>\n    passo. Sais absolvido e vais para a Noruega. &Eacute; quest&atilde;o de alguns<br \/>\n    meses de repouso na Deten&ccedil;&atilde;o. Queres?<\/p>\n<p>Kordenjold esteve a pensar e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Aceito. Tanto mais que esta noite n&atilde;o sai de bordo.<\/p>\n<p>Contratamos bem a coisa e eu sa&iacute; em demanda do chefe de pol&iacute;cia<br \/>\n    na sua respectiva reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o me foi dif&iacute;cil falar ao Dr. Chaveco. S. Exa. n&atilde;o<br \/>\n    tinha chegado e eu fiquei na antec&acirc;mara do seu gabinete. Ao entrar,<br \/>\n    ele deu de ombros comigo e veio logo falar-me:<\/p>\n<p>&#8212; Oh! &quot;Seu&quot; bar&atilde;o!<\/p>\n<p>Julguei que ele confundisse com outro, mas n&atilde;o havia tal. Os brasileiros<br \/>\n    est&atilde;o sempre dispostos a ver no estrangeiro bem vestido um fidalgo;<br \/>\n    e nos pobres, um animal desprez&iacute;vel. Como que compreendeu o meu embara&ccedil;o<br \/>\n    e aduziu:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o t&aacute; alembrado que viajamo junto no intom&oacute;vel?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, Exa.; mas n&atilde;o sou bar&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; A mode que pensei. Que h&aacute; de novo?<\/p>\n<p>&#8212; Venho a respeito do crime.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! O assucedido na Sa&uacute;de?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, Exa.<\/p>\n<p>&#8212; Que pretende faz&ecirc;?<\/p>\n<p>Expliquei-lhe, entrando com ele no seu gabinete, as minhas id&eacute;ias.<br \/>\n    Seguiria a dilig&ecirc;ncia, tomaria nota dos mais &iacute;nfimos detalhes<br \/>\n    e aplicaria o m&eacute;todo do doutor Sherlock Holmes, de Londres.<\/p>\n<p>&#8212; Vanc&ecirc; cunheceu ele?<\/p>\n<p>&#8212; Muito.<\/p>\n<p>Por esse tempo, ele se havia sentado &agrave; sua ampla mesa e delegados<br \/>\n    e mais policiais cercavam-no de todos os lados.<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Seu&quot; dout&ocirc; Praxedes &#8212; disse a poderosa autoridade<br \/>\n    &#8212; t&aacute; aqui o dot&ocirc;&#8230; Como &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Bogoloff &#8212; disse eu.<\/p>\n<p>&#8212; T&aacute; aqui o dot&ocirc; Bogoloff que acunheceu o Cheloque em<br \/>\n    Londres. Ele vai acompanh&aacute; e v&ecirc; se descobre os assassino do assucedido<br \/>\n    na Sa&uacute;de.<\/p>\n<p>O dr. Praxedes olhou-me com certo desd&eacute;m, e quis objetar alguma coisa;<br \/>\n    mas o chefe confirmou a ordem e eu segui.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o tinham feito a primeira inspe&ccedil;&atilde;o, de forma<br \/>\n    que pude acompanh&aacute;-la. A minha l&aacute;bia desarmou a repugn&acirc;ncia<br \/>\n    dos policiais profissionais e l&aacute; cheguei na melhor camaradagem com<br \/>\n    eles.<\/p>\n<p>Tomando aquele ar, ao mesmo tempo de perdigueiro e de inspirado, de que fala<br \/>\n    Conan Doyle, ao tratar das pesquisas do seu her&oacute;i, andei apanhando<br \/>\n    pontas de cigarro; com o aux&iacute;lio de uma lente examinei o assoalho e,<br \/>\n    por fim, dei-me por satisfeito, depois de todos os trejeitos, que me vieram<br \/>\n    &agrave; cabe&ccedil;a. A arma de fato era esquisita; absolutamente, n&atilde;o<br \/>\n    a podia denomin&aacute;-la e, muito menos os policiais. Fui para casa e apresentei<br \/>\n    o meu relat&oacute;rio, em que: tendo em vista a quantidade de potassa contidas<br \/>\n    nas cinzas dos cigarros encontrados, denunciadoras de fumo filipino; a fibra<br \/>\n    do tecido, com que fora amorda&ccedil;ado o agiota, de natureza perfeitamente<br \/>\n    malaia; a arma, que era um &quot;kriss&quot; malaio; a propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre as pegadas encontradas e a altura do homem; e os fios dos cabelos que<br \/>\n    encontrara &#8212; o assassino devia estado em alguma das ilhas do arquip&eacute;lago<br \/>\n    malaio, ter um metro e oitenta de altura e ser europeu, pois n&atilde;o podia<br \/>\n    ser dessa ra&ccedil;a oce&acirc;nica, porquanto os cabelos louros denunciavam<br \/>\n    um origem europ&eacute;ia.<\/p>\n<p>O meu relat&oacute;rio foi acolhido com os maiores gabos pelos conselheiros<br \/>\n    do chefe e, indagando-se daqui e dali, soube-se da entrada da galera &quot;Selma&quot;<br \/>\n    e foi entre a sua tripula&ccedil;&atilde;o que se procurou o criminoso.<\/p>\n<p>Gustav foi o mais fortemente suspeitado, porquanto eu havia organizado os<br \/>\n    ind&iacute;cios de forma a reca&iacute;rem sobre ele todas as suspeitas.<\/p>\n<p>Ele se defendeu valentemente, dizendo que n&atilde;o viera &agrave; terra<br \/>\n    naquele dia; mas um ind&iacute;cio surgiu forte contra o finland&ecirc;s;<br \/>\n    a arma, o &quot;kriss&quot;, era dele, pois quase toda a tripula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o atestou.<\/p>\n<p>Restava um &aacute;libi, mas um marinheiro contou que ele viera disfar&ccedil;ado<br \/>\n    ente os estivadores e entre a meia noite e uma hora da madrugada voltara,<br \/>\n    regressando mais tarde &agrave; terra.<\/p>\n<p>Continuou sempre &agrave; negar, mas as presun&ccedil;&otilde;es eram muitas<br \/>\n    e ele foi pronunciado, sendo mais tarde absolvido.<\/p>\n<p>O chefe deu-me dez contos de gratifica&ccedil;&atilde;o e, logo que Gustav<br \/>\n    saiu a pris&atilde;o, eu lhe dei mais da metade dessa quantia.<\/p>\n<p>Confessou-me que havia sido ele e, por um instante, senti-me de fato Sherlock<br \/>\n    Holmes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Lima Barreto Cap&iacute;tulo I &#8211; Fiz-me, ent&atilde;o, diretor da Pecu&aacute;ria Nacional Sai de Odessa com as mais honestas e puras inten&ccedil;&otilde;es de trabalho. N&atilde;o era eu natural dessa cidade, mas desde muito ali vivia uma vida med&iacute;ocre de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Aventuras do Dr. Bogoloff , Lima Barreto Aventuras do Dr. Bogoloff<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Aventuras do Dr. Bogoloff , Lima Barreto, Obra Liter\u00e1ria, Humor, Anarquista, Personagens, Literatura, Aventuras do Dr. Bogoloff\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta 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