{"id":108534,"date":"2017-02-13T10:29:27","date_gmt":"2017-02-13T12:29:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108534"},"modified":"2017-02-13T10:29:45","modified_gmt":"2017-02-13T12:29:45","slug":"anna-karenina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/anna-karenina","title":{"rendered":"Anna Karenina"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"531\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#31\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#32\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#33\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#34\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">CAP&Iacute;TULO I<\/a><\/h4>\n<p>Todas as fam&iacute;lias felizes se parecem, as infelizes n&atilde;o.<\/p>\n<p>Havia grande confus&atilde;o em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber<br \/>\n    das rela&ccedil;&otilde;es do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe<br \/>\n    que n&atilde;o podiam continuar a viver juntos. Durava j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;s dias a situa&ccedil;&atilde;o, para tormento n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    do casal mas tamb&eacute;m dos demais membros da fam&iacute;lia e da criadagem.<br \/>\n    Todos em casa se apercebiam de que j&aacute; n&atilde;o havia raz&atilde;o<br \/>\n    alguma para manter aquele conv&iacute;vio, e que as pessoas que por acaso<br \/>\n    se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa<br \/>\n    n&atilde;o sa&iacute;a dos seus aposentos, havia tr&ecirc;s dias que o marido<br \/>\n    n&atilde;o parava em casa; as crian&ccedil;as corriam de um lado para o outro,<br \/>\n    como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e<br \/>\n    escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra coloca&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    na v&eacute;spera, o cozinheiro abandonara a casa &agrave; hora do jantar;<br \/>\n    o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.<\/p>\n<p>No terceiro dia ap&oacute;s a alterca&ccedil;&atilde;o, o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Stepane Arkadievitch Oblonski &#8212; Stiva, como lhe chamavam os &iacute;ntimos<br \/>\n    &#8212; acordou &agrave; hora do costume, ou seja, &agrave;s oito da manh&atilde;,<br \/>\n    n&atilde;o no quarto conjugal, mas no escrit&oacute;rio, deitado no div&atilde;<br \/>\n    de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do div&atilde;,<br \/>\n    como se quisesse adormecer de novo, e abra&ccedil;ou se ao travesseiro, apertando<br \/>\n    o contra a face. De repente, por&eacute;m, sentou se e abriu os olhos<\/p>\n<p>&laquo;Como? Como era?&raquo;, pensou, lembrando se do sonho que tivera &laquo;Como<br \/>\n    era aquilo? Ah, j&aacute; sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, n&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o era em Darmstadt; era na Am&eacute;rica. Sim, no sonho Darmstadt<br \/>\n    ficava na Am&eacute;rica. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal<br \/>\n    e as mesas cantavam Il Mio Tessoro! Talvez n&atilde;o fosse Il Mio Tesoro,<br \/>\n    mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.&raquo;<\/p>\n<p>Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou<br \/>\n    se a cismar. &laquo;Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito<br \/>\n    mais coisas magn&iacute;ficas, mas n&atilde;o podia descrev&ecirc;-las nem<br \/>\n    por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava.&raquo; AoTodas<br \/>\n    as fam&iacute;lias felizes se parecem, as infelizes n&atilde;o.<\/p>\n<p>Havia grande confus&atilde;o em casa dos Oblonski. A esposa acabava de saber<br \/>\n    das rela&ccedil;&otilde;es do marido com a preceptora francesa, e comunicara-lhe<br \/>\n    que n&atilde;o podiam continuar a viver juntos. Durava j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;s dias a situa&ccedil;&atilde;o, para tormento n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    do casal mas tamb&eacute;m dos demais membros da fam&iacute;lia e da criadagem.<br \/>\n    Todos em casa se apercebiam de que j&aacute; n&atilde;o havia raz&atilde;o<br \/>\n    alguma para manter aquele conv&iacute;vio, e que as pessoas que por acaso<br \/>\n    se encontrassem numa estalagem teriam talvez mais afinidades entre si. A esposa<br \/>\n    n&atilde;o sa&iacute;a dos seus aposentos, havia tr&ecirc;s dias que o marido<br \/>\n    n&atilde;o parava em casa; as crian&ccedil;as corriam de um lado para o outro,<br \/>\n    como que perdidas; a preceptora inglesa indispusera se com a governanta e<br \/>\n    escrevera a uma amiga pedindo que lhe arranjasse outra coloca&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    na v&eacute;spera, o cozinheiro abandonara a casa &agrave; hora do jantar;<br \/>\n    o cocheiro e a copeira tinham pedido que lhes fizessem as contas.<\/p>\n<p>No terceiro dia ap&oacute;s a alterca&ccedil;&atilde;o, o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Stepane Arkadievitch Oblonski &#8212; Stiva, como lhe chamavam os &iacute;ntimos<br \/>\n    &#8212; acordou &agrave; hora do costume, ou seja, &agrave;s oito da manh&atilde;,<br \/>\n    n&atilde;o no quarto conjugal, mas no escrit&oacute;rio, deitado no div&atilde;<br \/>\n    de couro. Revolveu o corpo, gordo e bem tratado, sobre as molas do div&atilde;,<br \/>\n    como se quisesse adormecer de novo, e abra&ccedil;ou se ao travesseiro, apertando<br \/>\n    o contra a face. De repente, por&eacute;m, sentou se e abriu os olhos<\/p>\n<p>&laquo;Como? Como era?&raquo;, pensou, lembrando se do sonho que tivera &laquo;Como<br \/>\n    era aquilo? Ah, j&aacute; sei! Alabine dava um jantar em Darmstadt, n&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o era em Darmstadt; era na Am&eacute;rica. Sim, no sonho Darmstadt<br \/>\n    ficava na Am&eacute;rica. Alabine oferecia um jantar servido em mesas de cristal<br \/>\n    e as mesas cantavam Il Mio Tessoro! Talvez n&atilde;o fosse Il Mio Tesoro,<br \/>\n    mas qualquer coisa melhor, e havia umas garrafinhas, que afinal eram mulheres.&raquo;<\/p>\n<p>Os olhos de Stepane Arkadievitch brilharam alegremente, e, sorrindo, ficou<br \/>\n    se a cismar. &laquo;Sim, era muito bonito, estava muito bem. E havia muito<br \/>\n    mais coisas magn&iacute;ficas, mas n&atilde;o podia descrev&ecirc;-las nem<br \/>\n    por palavras nem por pensamentos, nem mesmo desperto como estava.&raquo; Ao<\/p>\n<p> perceber um raio de luz que penetrava por um dos lados da cortina, retirou<br \/>\n    alegremente os p&eacute;s do div&atilde;, procurando com eles, no ch&atilde;o,<br \/>\n    as chinelas de couro dourado que a mulher lhe oferecera no ano anterior (presente<br \/>\n    de anivers&aacute;rio) e, costume seu de h&aacute; nove anos, sem se levantar<br \/>\n    estendeu o bra&ccedil;o para o roup&atilde;o, geralmente dependurado &agrave;<br \/>\n    cabeceira da cama. Ent&atilde;o lembrou-se subitamente do motivo por que n&atilde;o<br \/>\n    dormira no quarto conjugal; o sorriso desapareceu-lhe do rosto, e franziu<br \/>\n    as sobrancelhas.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, ai, ai! &#8212; queixou-se, ao lembrar-se do que sucedera. De<br \/>\n    novo se lhe representavam na mem&oacute;ria todos os pormenores da alterca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a mulher, a posi&ccedil;&atilde;o insol&uacute;vel em que se encontrava<br \/>\n    e as culpas que tinha, e isto era o que mais o atormentava.<\/p>\n<p> &laquo;N&atilde;o! N&atilde;o me perdoar&aacute;, n&atilde;o pode perdoar-me.<br \/>\n    E o pior &eacute; que sou o causador de tudo, embora n&atilde;o seja culpado.<br \/>\n    Essa a trag&eacute;dia&raquo;, pensava.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, ai, ai! &#8212;repetia, desesperado, ao recordar os momentos<br \/>\n    mais dolorosos da discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>O momento mais desagrad&aacute;vel fora aquele em que, ao regressar do teatro,<br \/>\n    alegre e satisfeito, com uma bonita p&ecirc;ra para a mulher, n&atilde;o a<br \/>\n    encontrou nem no sal&atilde;o nem no escrit&oacute;rio, coisa que o surpreendeu,<br \/>\n    mas no quarto de dormir, na m&atilde;o o maldito bilhete que tudo lhe revelara.<\/p>\n<p> Dolly, a mulher sempre diligente, cheia de preocupa&ccedil;&otilde;es e<br \/>\n    t&atilde;o limitada, segundo pensava Oblonski, sentara-se com o bilhete na<br \/>\n    m&atilde;o e olhava-o num misto de c&oacute;lera, horror e desalento.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isto? Que &eacute; isto? &#8212; perguntou-lhe, mostrando<br \/>\n    o bilhete.<\/p>\n<p>Ao lembrar o ocorrido, o que mais lhe do&iacute;a, como sempre acontece,<br \/>\n    n&atilde;o era tanto pelo facto em si, mas o modo como respondera &agrave;<br \/>\n    mulher.<\/p>\n<p>Naquele momento sucedeu-lhe o que sucede a qualquer pessoa obrigada a confessar<br \/>\n    algo vergonhoso. N&atilde;o soube encontrar express&atilde;o adequada &agrave;<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o. Em vez de ofender-se, negar, justificar-se, pedir<br \/>\n    perd&atilde;o ou mesmo mostrar indiferen&ccedil;a &#8212; qualquer coisa teria<br \/>\n    sido melhor &#8212;, apareceu-lhe de s&uacute;bito, na fisionomia, involuntariamente<br \/>\n    (&laquo;Reflexos cerebrais&raquo; pensou Stepane Arkadievitch, que era dado<br \/>\n    &agrave; fisiologia), o sorriso habitual, bondoso e est&uacute;pido. N&atilde;o<br \/>\n    podia perdoar-se sorriso t&atilde;o absurdo. Diante desse sorriso, Dolly estremeceu,<br \/>\n    como se sentisse uma dor f&iacute;sica, e, com o seu arrebatamento peculiar,<br \/>\n    rompeu numa torrente de palavras duras, acabando por sair, correndo, do quarto<br \/>\n    em que estava. Desde ent&atilde;o n&atilde;o mais quisera ver o marido.<\/p>\n<p>&laquo;Aquele est&uacute;pido sorriso &eacute; que teve a culpa de tudo.<br \/>\n    Mas que fazer? Que fazer?&raquo;, perguntava-se Stepane Arkadievitch, sem<br \/>\n    encontrar resposta.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">CAP&Iacute;TULO II<\/a><\/h4>\n<p>Oblonski era sincero consigo mesmo: n&atilde;o se sentia arrependido e n&atilde;o<br \/>\n    tinha remorso disso. Aquele homem bem parecido, de trinta e quatro anos, de<br \/>\n    temperamento amoroso, n&atilde;o podia, realmente, arrepender-se de n&atilde;o<br \/>\n    estar enamorado da mulher, um ano apenas mais nova do que ele, e m&atilde;e<br \/>\n    de sete filhos, dos quais cinco vivos e s&atilde;os. A &uacute;nica coisa<br \/>\n    que lamentava era n&atilde;o ter sabido esconder melhor os seus sentimentos.<br \/>\n    Mas compreendia a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o e deplorava o que acontecera,<br \/>\n    tanto por Dolly e pelos filhos como por ele pr&oacute;prio. Talvez tivesse<br \/>\n    conseguido ocultar melhor as suas faltas, se pudesse adivinhar que causariam<br \/>\n    tamanho efeito sobre Dolly. Nunca pensara claramente no problema, embora imaginasse,<br \/>\n    um tanto vagamente, j&aacute; h&aacute; algum tempo, que a mulher desconfiava<br \/>\n    da sua infidelidade, sem no entanto atribuir grande import&acirc;ncia ao facto.<br \/>\n    Era, inclusive, de opini&atilde;o que a esposa, esgotada, envelhecida, sem<br \/>\n    beleza nem atributos, conquanto simples e boa m&atilde;e de fam&iacute;lia,<br \/>\n    devia ser condescendente por esp&iacute;rito de justi&ccedil;a. Ora, acontecera<br \/>\n    exactamente o contr&aacute;rio.<\/p>\n<p> &laquo;Oh, &eacute; terr&iacute;vel, terr&iacute;vel!&raquo;, exclamou Stepane<br \/>\n    Arkadievitch, sem descobrir uma solu&ccedil;&atilde;o para o caso. &laquo;E<br \/>\n    que bem viv&iacute;amos at&eacute; a&iacute;! Dolly sentia-se feliz e contente<br \/>\n    com os filhos, eu n&atilde;o a incomodava em coisa alguma, deixava-a inteiramente<br \/>\n    &agrave; vontade com as crian&ccedil;as e a casa. Evidentemente, n&atilde;o<br \/>\n    estava certo que &laquo;ela&raquo; fosse a preceptora dos nossos filhos. N&atilde;o<br \/>\n    estava certo! &Eacute; grosseiro e vulgar fazer a corte &agrave; preceptora<br \/>\n    que nos educa os filhos. Mas, que mulher!&raquo; E recordou vivamente os astutos<br \/>\n    olhos pretos e o sorriso de Mademoiselle Roland.<\/p>\n<p> &laquo;Enquanto esteve em nossa casa, no entanto, n&atilde;o houve nada,<br \/>\n    nada. E o pior &eacute; que ela j&aacute;&#8230; Parece que tudo aconteceu de<br \/>\n    prop&oacute;sito! Ai!&raquo;<\/p>\n<p>Resposta, s&oacute; aquela, que a vida costuma dar a todas as quest&otilde;es<br \/>\n    complexas e insol&uacute;veis: viver o dia a dia, isto &eacute;, divertir-se.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o podia faz&ecirc;-lo atrav&eacute;s do sonho, pelo menos<br \/>\n    enquanto a noite n&atilde;o voltasse; j&aacute; n&atilde;o podia tornar a<br \/>\n    ouvir a m&uacute;sica que as mulheres garrafinhas cantavam.<\/p>\n<p> S&oacute; lhe restava distrair-se com o sonho da pr&oacute;pria vida.<\/p>\n<p>&laquo;Veremos isso mais tarde&raquo;, disse consigo mesmo Stepane Arkadievitch;<br \/>\n    e, levantando-se, enfiou o roup&atilde;o cinzento forrado de seda azul e deu<br \/>\n    um n&oacute; no cinto de bolas. Depois, respirando a plenos pulm&otilde;es,<br \/>\n    encheu-os de ar, aproximando-se da janela com o habitual andar resoluto<\/p>\n<p> das suas pernas tortas, que com tanta ligeireza lhe transportavam a vigorosa<br \/>\n    figura, afastou a cortina e tocou a campainha. A chamada acudiu imediatamente<br \/>\n    o velho escudeiro Matvei, que lhe trazia a roupa, os sapatos e um telegrama.<br \/>\n    Atr&aacute;s dele vinha o barbeiro com os respectivos apetrechos.<\/p>\n<p> &#8212; Trouxeram os processos do tribunal? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    pegando no telegrama e sentando-se diante do espelho.<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o em cima da mesa &#8212; respondeu Matvei, mirando o<br \/>\n    amo com uma express&atilde;o entre interrogativa e sol&iacute;cita, e da&iacute;<br \/>\n    a pouco acrescentou, com um sorriso malicioso: &#8212; Vieram umas pessoas<br \/>\n    da parte do cocheiro.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch n&atilde;o respondeu, limitando-se a encarar Matvei<br \/>\n    atrav&eacute;s do espelho; pelo olhar que trocaram percebia-se que se entendiam.<\/p>\n<p> O olhar de Stepane Arkadievitch parecia perguntar: &laquo;Para que me falas<br \/>\n    nisso? Porventura n&atilde;o sabes?&raquo; Matvei enfiou as m&atilde;os nos<br \/>\n    bolsos da jaqueta e avan&ccedil;ou um p&eacute;, fitando o amo em sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    com um impercept&iacute;vel sorriso bondoso.<\/p>\n<p> &#8212; Disse-lhes que voltassem no domingo e at&eacute; l&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    incomodassem o senhor nem se preocupassem sem necessidade &#8212; articulou<br \/>\n    o criado, que, ao que parecia, preparara a frase.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch percebeu que Matvei quisera brincar e tamb&eacute;m<br \/>\n    que lhe prestassem aten&ccedil;&atilde;o. Rasgando o telegrama, leu-o, corrigindo<br \/>\n    com sagacidade os diversos erros de palavras, e o seu rosto iluminou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Matvei, amanh&atilde; chega a minha irm&atilde; Ana Arkadievna &#8212;<br \/>\n    disse ele, detendo, por momentos, a gorda m&atilde;o reluzente do barbeiro<br \/>\n    que lhe abria uma risca rosada nas longas su&iacute;&ccedil;as frisadas.<\/p>\n<p> &#8212; Gra&ccedil;as a Deus &#8212; exclamou Matvei, dando a entender,<br \/>\n    com esta resposta, que compreendia t&atilde;o bem como o patr&atilde;o o significado<br \/>\n    daquela not&iacute;cia, isto &eacute;, que Ana Arkadievna, a irm&atilde; querida<br \/>\n    de Stepane Arkadievitch, podia cooperar na reconcilia&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    casal. &#8212; Vem s&oacute; ou com o marido? &#8212; perguntou.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch, que n&atilde;o podia falar porque o barbeiro lhe escanhoava<br \/>\n    o l&aacute;bio superior, ergueu um dedo. Matvei olhou para o espelho e moveu<br \/>\n    afirmativamente a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Sozinha. Preparam-se-lhe os aposentos do andar de cima?<\/p>\n<p>&#8212; Comunica a Daria Alexandrovna e prepara os aposentos que ela mandar.<\/p>\n<p> &#8212; A Daria Alexandrovna? &#8212; repetiu Matvei, como que hesitante.<\/p>\n<p>&#8212; Sim. E pega no telegrama. Mostra-lho.<\/p>\n<p>&laquo;Quer experimentar!&raquo;, pensou Matvei, compreendendo. E limitou-se<br \/>\n    a dizer: &#8212; Muito bem.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch, lavado e penteado, come&ccedil;ou a vestir-se quando<br \/>\n    Matvei penetrou de novo no gabinete, em passo vagaroso, as botas rangendo<br \/>\n    um pouco, e o telegrama na m&atilde;o. O barbeiro entretanto sa&iacute;ra.<\/p>\n<p>&#8212; Daria Alexandrovna manda-lhe dizer que se vai embora. Que o patr&atilde;o<br \/>\n    fa&ccedil;a o que quiser, isto &eacute;, o que quisermos &#8212; disse, rindo-se<br \/>\n    apenas com os olhos. E, enfiando as m&atilde;os nos bolsos, inclinou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para um lado, de olhos fitos no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch conservou-se calado durante um momento. Depois aflorou-lhe<br \/>\n    ao belo rosto um sorriso bondoso e um tanto compassivo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, Matvei? &#8212; disse, movendo a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se preocupe, meu senhor; tudo se &laquo;arrumar&aacute;&raquo;<br \/>\n    &#8212; respondeu o criado.<\/p>\n<p>&#8212; Se &laquo;arrumar&aacute;&raquo;?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Achas? Quem est&aacute; a&iacute;? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    ao ouvir o frufru de um vestido atr&aacute;s da porta.<\/p>\n<p> &#8212; Sou eu &#8212; retrucou uma voz feminina, fina e agrad&aacute;vel.<br \/>\n    E o rosto marcado de bexigas de Matriona Filimonovna, a aia, assomou &agrave;<br \/>\n    entrada.<\/p>\n<p> &#8212; Que h&aacute;, Matriona? &#8212; inquiriu Oblonski, aproximando-se<br \/>\n    da porta.<\/p>\n<p> Apesar de Stepane Arkadievitch ser considerado culpado perante a mulher<br \/>\n    e ter consci&ecirc;ncia disso, quase todos em casa, inclusive a aia, a melhor<br \/>\n    amiga da Daria Alexandrovna, estavam do lado dele.<\/p>\n<p> &#8212; Que h&aacute;? &#8212; repetiu com uma express&atilde;o triste.<\/p>\n<p>&#8212; V&aacute; pedir perd&atilde;o &agrave; senhora outra vez. Talvez<br \/>\n    ela lhe perdoe. Sofre muito; faz d&oacute;. Al&eacute;m disso, tudo anda transtornado<br \/>\n    nesta casa. &Eacute; preciso ter pena das crian&ccedil;as. Que havemos de<br \/>\n    fazer? Quem corre por gosto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me receber&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Seja como for, tente. Deus &eacute; misericordioso. Reze, meu senhor,<br \/>\n    pe&ccedil;a a Deus.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bem, vai-te embora &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    corando repentinamente. &#8212; Deixa ver a minha roupa &#8212; acrescentou,<br \/>\n    dirigindo-se a Matvei, enquanto despia o roup&atilde;o, decidido.<\/p>\n<p> Matvei j&aacute; tinha na m&atilde;o a camisa, aberta em forma de coleira,<br \/>\n    e soprava-lhe ciscos invis&iacute;veis. Com manifesto prazer enfiou-a no bem<br \/>\n    cuidado corpo do patr&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">CAP&Iacute;TULO III<\/a><\/h4>\n<p>J&aacute; vestido, Stepane Arkadievitch perfumou-se, ajeitou os punhos da<br \/>\n    camisa e, num gesto habitual, guardou nos bolsos os cigarros, a carteira,<br \/>\n    os f&oacute;sforos e o rel&oacute;gio de corrente dupla com berloques. Sacudiu<br \/>\n    o len&ccedil;o e, sentindo-se limpo, perfumado, s&atilde;o, fisicamente contente,<br \/>\n    apesar de tudo, dirigiu-se, balan&ccedil;ando-se ligeiramente, ora num p&eacute;<br \/>\n    ora no outro, para a sala de jantar, onde j&aacute; o aguardavam o caf&eacute;,<br \/>\n    as cartas e o expediente do tribunal.<\/p>\n<p> Leu a correspond&ecirc;ncia. Uma das cartas era muito desagrad&aacute;vel,<br \/>\n    escrevia-a o comerciante que se propunha comprar um bosque das propriedades<br \/>\n    de Dolly. Enquanto n&atilde;o se reconciliassem, imposs&iacute;vel falar em<br \/>\n    tal assunto. Nada mais desagrad&aacute;vel do que misturar interesses materiais<br \/>\n    no grave problema da reconcilia&ccedil;&atilde;o. Repugnava-lhe a ideia de<br \/>\n    que aquilo o compelisse a procurar um meio de fazer as pazes com a mulher.<\/p>\n<p> Quando terminou a leitura das cartas, Stepane Arkadievitch pegou nos processos,<br \/>\n    folheou-os rapidamente, garatujou algumas notas com um l&aacute;pis enorme<br \/>\n    e, pousando tudo de lado, come&ccedil;ou a tomar o caf&eacute;, ao mesmo tempo<br \/>\n    que abria o jornal da manh&atilde;, ainda h&uacute;mido de tinta.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch era leitor de um jornal liberal, n&atilde;o extremista,<br \/>\n    antes da tend&ecirc;ncia pol&iacute;tica a que pertencia a maioria. Embora,<br \/>\n    na realidade, n&atilde;o lhe interessasse nem a ci&ecirc;ncia, nem a arte,<br \/>\n    nem a pol&iacute;tica, defendia firmemente as mesmas opini&otilde;es da maioria<br \/>\n    e do jornal, s&oacute; mudando de ideias quando todos o faziam, ou melhor,<br \/>\n    n&atilde;o mudava de ideias; estas &eacute; que se transformavam imperceptivelmente,<br \/>\n    por si mesmas.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch n&atilde;o escolhia as suas tend&ecirc;ncias nem os<br \/>\n    seus pontos de vista; estes &eacute; que vinham at&eacute; ele, tal como acontecia<br \/>\n    no que respeitava ao feitio do chap&eacute;u e ao corte das roupas: usava<br \/>\n    o que estava na moda. Em virtude de pertencer a determinado c&iacute;rculo<br \/>\n    social e de necessitar de alguma actividade mental &#8212; coisa que geralmente<br \/>\n    se desenvolve na idade madura &#8212; era-lhe t&atilde;o imprescind&iacute;vel<br \/>\n    possuir pontos de vista pr&oacute;prios como usar chap&eacute;u.<\/p>\n<p>A raz&atilde;o que o levava a preferir a tend&ecirc;ncia liberal &agrave;<br \/>\n    conservadora, &agrave; qual pertenciam tamb&eacute;m muitas pessoas do seu<br \/>\n    n&iacute;vel social, n&atilde;o era o facto de aquela tend&ecirc;ncia lhe<br \/>\n    parecer a mais sensata, mas apenas por ser a que mais se ajustava &agrave;<br \/>\n    sua maneira de viver. O partido liberal era de opini&atilde;o de que na R&uacute;ssia<br \/>\n    nada ia bem e, com efeito, Stepane Arkadievitch tinha muitas d&uacute;vidas<br \/>\n    e positivamente o dinheiro n&atilde;o lhe chegava para nada. Segundo ainda<br \/>\n    o mesmo partido, o casamento era uma institui&ccedil;&atilde;o caduca, cumprindo<br \/>\n    reform&aacute;-lo. Realmente, a vida familiar poucos prazeres proporcionava<br \/>\n    a Stepane Arkadievitch, obrigando-o a mentir e dissimular, o que contrariava<br \/>\n    a sua natureza. Por outro lado, o partido sustentava, ou melhor, dava a entender<br \/>\n    que a religi&atilde;o era um freio para a parte inculta do povo e Oblonski,<br \/>\n    que n&atilde;o podia assistir a qualquer cerim&ocirc;nia religiosa, por mais<br \/>\n    breve que fosse, sem se queixar dos p&eacute;s, n&atilde;o conseguia entender<br \/>\n    o porqu&ecirc; de todas essas palavras terr&iacute;veis e enf&aacute;ticas<br \/>\n    acerca do outro mundo, quando neste se podia viver t&atilde;o bem. Ao mesmo<br \/>\n    tempo, como gostava de gracejar, &agrave;s vezes desconcertava as pessoas<br \/>\n    pac&iacute;ficas com o argumento de que, se algu&eacute;m se vangloriava da<br \/>\n    sua ra&ccedil;a, n&atilde;o havia raz&atilde;o para se agarrar a Rurik e renegar<br \/>\n    o macaco, o primeiro ancestral. Eis, pois, como a tend&ecirc;ncia liberal<br \/>\n    se transformara num h&aacute;bito de Stepane Arkadievitch, que apreciava o<br \/>\n    seu jornal como apreciava o cigarro depois de comer, gra&ccedil;as &agrave;<br \/>\n    ligeira neblina que lhe provocava na mente, leu o artigo de fundo, em que<br \/>\n    se dizia ser completamente in&uacute;til, no nosso tempo, vociferar que o<br \/>\n    radicalismo amea&ccedil;ava devorar os elementos conservadores e que o Governo<br \/>\n    tinha obriga&ccedil;&atilde;o de tomar medidas que esmagassem a hidra revolucion&aacute;ria;<br \/>\n    mas, pelo contr&aacute;rio, &laquo;segundo a nossa opini&atilde;o&raquo;,<br \/>\n    dizia, &laquo;o perigo n&atilde;o reside na pretensa hidra revolucion&aacute;ria,<br \/>\n    mas na firmeza da tradi&ccedil;&atilde;o e no progresso reprimido&raquo;,<br \/>\n    etc. Tamb&eacute;m leu outro artigo sobre economia, em que eram citados Bentham<br \/>\n    e Stuart Mill e se lan&ccedil;avam cr&iacute;ticas ao Minist&eacute;rio. Gra&ccedil;as<br \/>\n    &agrave; sua peculiar agilidade mental, compreendeu o significado de todas<br \/>\n    as alus&otilde;es: de onde vinham e contra quem, ou qual o motivo que as determinava,<br \/>\n    o que, como sempre, lhe proporcionava certo prazer. Mas naquele momento esse<br \/>\n    prazer era estragado pela lembran&ccedil;a dos conselhos de Matriona Filimonovna<br \/>\n    e pelo que estava acontecendo em sua casa. Depois leu outras not&iacute;cias:<br \/>\n    pelo que se dizia, o conde Beist passara por Wiesbaden; j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    havia cabelos brancos; estava &agrave; venda uma carruagem ligeira e uma pessoa<br \/>\n    jovem oferecia os seus servi&ccedil;os. Nada disto, por&eacute;m, lhe proporcionou<br \/>\n    a satisfa&ccedil;&atilde;o calma e ir&ocirc;nica de outrora.<\/p>\n<p>Quando acabou de ler o jornal e bebeu a segunda x&iacute;cara de caf&eacute;,<br \/>\n    acompanhada de um bolo de manteiga, Oblonski levantou-se, sacudiu as migalhas<br \/>\n    que lhe tinham ca&iacute;do no coiete e, estofando o peito, sorriu jovialmente,<br \/>\n    n&atilde;o porque sentisse qualquer coisa de particularmente agrad&aacute;vel,<br \/>\n    mas apenas porque comera bem. Aquele alegre sorriso, contudo, recordou-lhe<br \/>\n    imediatamente o que se passara e Stepane Arkadievitch absorveu-se em reflex&otilde;es.<\/p>\n<p>Atr&aacute;s da porta ouviram-se duas vozes infantis (Stepane Arkadievitch<br \/>\n    reconheceu a voz de Gricha, o filho mais novo, e a de Titiana, a filha mais<br \/>\n    velha). Arrastavam qualquer coisa pelo ch&atilde;o que tinham deixado cair.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; te disse que n&atilde;o se podem p&ocirc;r os passageiros<br \/>\n    no tecto. Anda, vai tir&aacute;-los! &#8212; gritava a menina em ingl&ecirc;s.<\/p>\n<p> &laquo;Que desordem&raquo;, pensou Stepane Arkadievitch. &laquo;As crian&ccedil;as<br \/>\n    correndo sozinhas pela casa.&raquo; Aproximou-se da porta e chamou-as. Abandonando<br \/>\n    a caixa com que brincavam de carruagem, as crian&ccedil;as penetraram na sala<br \/>\n    de jantar.<\/p>\n<p> Tatiana, a predilecta de Oblonski, entrou decidida, abra&ccedil;ou-se ao<br \/>\n    pai e, rindo, dependurou-se-lhe ao pesco&ccedil;o, deliciada, como sempre,<br \/>\n    com o perfume das suas su&iacute;&ccedil;as, t&atilde;o seu conhecido. Finalmente,<br \/>\n    deu-lhe um beijo no rosto, afogueado por causa da inclina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e, radiante de ternura, desprendeu as m&atilde;os, disposta a sair, correndo;<br \/>\n    Stepane Arkadievitch deteve-a, por&eacute;m: &#8212; A m&atilde;ezinha, como<br \/>\n    est&aacute;? &#8212; perguntou, acariciando o pesco&ccedil;o macio da filha.<br \/>\n    &#8212;Ol&aacute;! &#8212; acrescentou, sorrindo, para o pequeno que por sua<br \/>\n    vez lhe dava bom-dia.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch reconhecia que gostava menos do filho, e embora sempre<br \/>\n    procurasse mostrar-se justo, o garoto dava por isso, n&atilde;o correspondendo<br \/>\n    ao frio sorriso do pai.<\/p>\n<p> &#8212; A m&atilde;ezinha? J&aacute; se levantou &#8212; respondeu a menina.<br \/>\n    Stepane Arkadievitch suspirou. &laquo;Isto quer dizer que passou a noite acordada&raquo;,<br \/>\n    pensou.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bem disposta?<\/p>\n<p>A menina sabia que os pais se tinham zangado, que a m&atilde;e n&atilde;o<br \/>\n    podia estar bem disposta e que Stepane Arkadievitch fingia ao fazer-lhe aquela<br \/>\n    pergunta t&atilde;o despreocupadamente, pois devia saber a verdade. E corou<br \/>\n    por ele. Oblonski compreendeu-o imediatamente, enrubescendo por sua vez.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei. Mandou-nos para casa da av&ograve;zinha com Miss<br \/>\n    Hull, em vez de irmos estudar.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, ent&atilde;o vai, vai, minha Tantchurotchka. Ah, espera um<br \/>\n    instante! &#8212; acrescentou Stepane Arkadievitch, retendo a filha e acariciando-lhe<br \/>\n    a m&atilde;ozinha delicada.<\/p>\n<p>Procurando em cima da prateleira do fog&atilde;o uma caixinha de bombons,<br \/>\n    que ali deixara na v&eacute;spera, deu dois &agrave; menina, escolhendo os<br \/>\n    de que ela mais gostava: um de chocolate e outro de creme.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; para o Gricha? &#8212; perguntou ela, mostrando o de chocolate.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sim &#8212; assentiu Stepane Arkadievitch. De novo acariciou<br \/>\n    um dos ombros da filha e, beijando-a no pesco&ccedil;o e na raiz dos cabelos,<br \/>\n    deixou-a partir.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; est&aacute; a&iacute; a carruagem &#8212; disse Matvei,<br \/>\n    acrescentando: &#8212; H&aacute; uma visita para o patr&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; a&iacute; h&aacute; muito tempo?<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; uma meia hora.<\/p>\n<p>&#8212; Quantas vezes te disse que me deves anunciar imediatamente as visitas?<br \/>\n    &#8212; Ao menos, precisa de tomar sossegadamente o seu caf&eacute; &#8212;<br \/>\n    replicou Matvei naquele tom entre amistoso e brusco, com o qual ningu&eacute;m<br \/>\n    conseguia zangar-se.<\/p>\n<p>A visita, a esposa do segundo-tenente Kalinine, vinha solicitar algo imposs&iacute;vel<br \/>\n    e absurdo, mas Stepane Arkadievitch, como era seu costume, pediu-lhe que se<br \/>\n    sentasse, ouviu-a atentamente, sem a interromper, e, pormenorizadamente, explicou-lhe<br \/>\n    a quem se devia dirigir. Inclusive, escreveu um bilhete, r&aacute;pido e desembara&ccedil;ado,<br \/>\n    na sua bela letra n&iacute;tida, grande e espa&ccedil;ada, a uma pessoa que<br \/>\n    a podia auxiliar. Quando se despediu da esposa do tenente, Oblonski pegou<br \/>\n    no chap&eacute;u e deteve-se, procurando verificar se esquecia alguma coisa.<br \/>\n    Esquecia, apenas, o que queria esquecer: a mulher.<\/p>\n<p> &laquo;Ah, sim!&raquo;, baixou a cabe&ccedil;a, e uma express&atilde;o triste<br \/>\n    lhe inundou a simp&aacute;tica fisionomia. &laquo;Vou ou n&atilde;o vou?&raquo;,<br \/>\n    perguntou a si mesmo. Uma voz, no &iacute;ntimo, dizia-lhe que n&atilde;o,<br \/>\n    que esse passo era falso, que e reconcilia&ccedil;&atilde;o era imposs&iacute;vel:<br \/>\n    como tornar-se ela de novo atraente, capaz de despertar amor e converter-se<br \/>\n    ele num velho, incapaz de amar? S&oacute; falsidade e mentira resultaria dali,<br \/>\n    e a falsidade e a mentira repugnavam &agrave; sua natureza.<\/p>\n<p>&laquo;No entanto, alguma vez ter&aacute; de ser a primeira; isto n&atilde;o<br \/>\n    pode continuar assim&raquo;, disse com os seus bot&otilde;es, procurando reanimar-se.<br \/>\n    Aprumou-se, tirou um cigarro, acendeu-o e, depois de soltar algumas baforadas,<br \/>\n    atirou-o para o cinzeiro de n&aacute;car. Em seguida, atravessando o sal&atilde;o<br \/>\n    a passos largos, abriu a porta do quarto de dormir.<\/p>\n<h4> <a name=\"4\">CAP&Iacute;TULO IV<\/a><\/h4>\n<p>Daria Alexandrovna, de roup&atilde;o e as tran&ccedil;as, outrora abundantes<br \/>\n    e sedosas, apanhadas na nuca, o rosto magro e abatido, que fazia ressaltar<br \/>\n    ainda mais os seus enormes olhos assustados, cercada de uma s&eacute;rie de<br \/>\n    objectos, espalhados pelo quarto, encontrava-se diante de uma c&ocirc;moda<br \/>\n    de cujas gavetas abertas ia retirando qualquer coisa. Ao ouvir os passos do<br \/>\n    marido, deteve-se e olhou para a porta, num grande esfor&ccedil;o para demonstrar<br \/>\n    um ar de desprezo e severidade. Era evidente que receava tanto o marido como<br \/>\n    aquela entrevista. Naquele momento dispunha-se a fazer o que j&aacute; tentara<br \/>\n    dez vezes em tr&ecirc;s dias: juntar as suas coisas e as das crian&ccedil;as<br \/>\n    e levar tudo para casa da m&atilde;e, sem nada dizer ao marido. Desta vez,<br \/>\n    ainda, como das anteriores, ia dizendo, intimamente, que a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o podia continuar como estava, que devia fazer alguma coisa, que<br \/>\n    tinha de castigar e humilhar o marido, vingar-se dele, retribuindo-lhe, em<br \/>\n    parte que fosse, o sofrimento que ele lhe causava. Embora continuasse a dizer<br \/>\n    que abandonaria Oblonski, sentia-se ser-lhe isso imposs&iacute;vel, pois n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar de consider&aacute;-lo seu marido e a verdade &eacute; que ainda<br \/>\n    gostava dele. E depois, se em sua pr&oacute;pria casa mal tinha tempo de cuidar<br \/>\n    dos cinco filhos, pior seria na casa de sua m&atilde;e. Com efeito, naqueles<br \/>\n    tr&ecirc;s dias, o benjamim adoecera por causa do caldo estragado, e os outros<br \/>\n    mal haviam ceado na v&eacute;spera. Dolly estava certa de que n&atilde;o podia<br \/>\n    partir; no entanto, enganando-se a si mesma, pusera-se a juntar as suas coisas.<\/p>\n<p> Ao ver o marido, meteu as m&atilde;os numa das gavetas da c&ocirc;moda,<br \/>\n    como se procurasse qualquer coisa, e s&oacute; se voltou quando ele j&aacute;<br \/>\n    se encontrava a seu lado. No seu rosto, por&eacute;m, que queria aparentar<br \/>\n    desprezo e severidade, apenas havia perturba&ccedil;&atilde;o e sofrimento.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly! &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch, em voz baixa e tranq&uuml;ila.<br \/>\n    Encolheu-se, afundando a cabe&ccedil;a entre os ombros, afectando uma atitude<br \/>\n    submissa e dolorosa; no entanto, irradiava sa&uacute;de e boa disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Num relance, Dolly percorreu dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a aquele<br \/>\n    corpo cheio de vigor, de vitalidade. &laquo;Sente-se feliz e satisfeito. E<br \/>\n    eu?&raquo;, pensou.<\/p>\n<p> &laquo;Como detesto esta odiosa bonomia que todos estimam e louvam.&raquo;<br \/>\n    Contraiu os l&aacute;bios, e um m&uacute;sculo da face direita do seu p&aacute;lido<br \/>\n    rosto nervoso tremeu ligeiramente.<\/p>\n<p>&#8212; Que pretende? &#8212; perguntou, numa voz alterada e grave, que nem<br \/>\n    ela pr&oacute;pria reconheceu.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly! &#8212; repetiu ele, em voz tr&ecirc;mula.&#8212; A Ana chega<br \/>\n    hoje.<\/p>\n<p>&#8212; Que tenho eu com isso? N&atilde;o posso receb&ecirc;-la! &#8212;<br \/>\n    exclamou ela.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Dolly, &eacute; preciso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute;-se embora, v&aacute;-se, v&aacute;-se embora! &#8212;<br \/>\n    gritou Daria Alexandrovna, como se os gritos que soltava fossem provocados<br \/>\n    por uma dor f&iacute;sica.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch conseguira estar tranq&uuml;ilo enquanto pensara na<br \/>\n    mulher com a esperan&ccedil;a de que tudo se &laquo;arrumaria&raquo;, express&atilde;o<br \/>\n    de Matvei, e at&eacute; pudera ler tranq&uuml;ilamente o jornal e tomar o<br \/>\n    caf&eacute;. Mas agora, ao ver a fisionomia de Dolly, atormentada pelo sofrimento,<br \/>\n    ao ouvir-lhe o tom desesperado, resignado, sentiu que lhe faltavam as for&ccedil;as,<br \/>\n    que um n&oacute; lhe apertava a garganta, e os olhos encheram-se-lhe de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus, que fui eu fazer! Dolly! Pelo amor de Deus!&#8230; Se&#8230; &Eacute;<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o p&ocirc;de prosseguir, afogado pelos solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>Daria Alexandrovna fechou bruscamente as gavetas da c&ocirc;moda e fitou<br \/>\n    o marido.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly, que te posso dizer?&#8230; S&oacute; uma coisa: perdoa-me&#8230;<br \/>\n    Porventura nove anos de vida em comum n&atilde;o chegam para resgatar uns<br \/>\n    momentos, uns momentos&#8230;? Daria Alexandrovna, de olhos baixos, ouvia o que<br \/>\n    ele dizia, como que suplicando-lhe que a convencesse de qualquer maneira.<\/p>\n<p> &#8212; &#8230;uns momentos de arrebatamento&#8230; &#8212; pronunciou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    disposto a sair.<\/p>\n<p>Mas, ao ouvir semelhante palavra, os l&aacute;bios de Dolly voltaram a crispar-se,<br \/>\n    e de novo lhe tremeu o m&uacute;sculo da face direita, como que contra&iacute;do<br \/>\n    por uma dor f&iacute;sica.<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute;-se embora, v&aacute;-se embora daqui! &#8212; gritou num<br \/>\n    tom de voz ainda mais lancinante. &#8212; E n&atilde;o me fale de seus arrebatamentos<br \/>\n    nem das suas canalhices. &#8212; Quis sair, mas cambaleou e teve de apoiar-se<br \/>\n    ao espaldar de uma cadeira. O rosto de Stepane Arkadievitch dilatou-se, intumesceram-se<br \/>\n    os l&aacute;bios, os olhos encheram-se de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly! &#8212; disse, solu&ccedil;ando. &#8212; Pelo amor de Deus,<br \/>\n    pensa nas crian&ccedil;as; elas n&atilde;o t&ecirc;m culpa. Sou culpado, castiga-me,<br \/>\n    diz-me como redimir a minha culpa. Que posso fazer? Estou disposto a tudo.<br \/>\n    Sou culpado; n&atilde;o h&aacute; palavras que exprimam at&eacute; que ponto<br \/>\n    sou culpado! Mas Dolly, perdoa-me! Daria Alexandrovna sentou-se. Stepane Arkadievitch<br \/>\n    ouvia-lhe a respira&ccedil;&atilde;o forte e pesada, e era indescrit&iacute;vel<br \/>\n    a compaix&atilde;o que ela lhe inspirava. Por v&aacute;rias vezes quis falar,<br \/>\n    mas n&atilde;o p&ocirc;de. Stepane Arkadievitch esperava.<\/p>\n<p> &#8212; Lembras-te dos meninos apenas quando te divertes com eles.<\/p>\n<p> Eu, ao contr&aacute;rio, sei agora que est&atilde;o perdidos &#8212; disse<br \/>\n    ela. Pelo visto, era uma das frases que estivera repetindo durante aqueles<br \/>\n    tr&ecirc;s dias.<\/p>\n<p> Daria Alexandrovna dissera &laquo;tu&raquo;, e Oblonski olhava-a agradecido,<br \/>\n    aproximando-se dela, para lhe pegar na m&atilde;o; ela, por&eacute;m, afastou-se<br \/>\n    com repulsa.<\/p>\n<p> &#8212; Penso nas crian&ccedil;as e faria tudo para salv&aacute;-las; mas<br \/>\n    n&atilde;o sei como, se levando-as comigo ou deixando-as junto de um pai depravado<br \/>\n    sim, junto de um pai depravado&#8230; Diga-me: acha poss&iacute;vel continuarmos<br \/>\n    a viver juntos depois&#8230; do que aconteceu? Acha poss&iacute;vel? Diga-me:<br \/>\n    acha que pode ser? &#8212; repetia, erguendo a voz. &#8212; Depois de o meu<br \/>\n    marido, o pai dos meus filhos, ter tido uma aventura amorosa com a preceptora<br \/>\n    das crian&ccedil;as&#8230;? &#8212; Mas, que fazer agora? Que fazer? &#8212;exclamou<br \/>\n    Stepane Arkadievitch, com voz lastimosa, sem saber o que dizia, e baixando<br \/>\n    cada vez mais a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor &eacute; repugnante, repulsivo! &#8212; gritou ela, cada<br \/>\n    vez mais irritada. &#8212; As l&aacute;grimas que chora s&atilde;o de crocodilo.<br \/>\n    Jamais gostou de mim, n&atilde;o tem cora&ccedil;&atilde;o nem sentimento!<br \/>\n    &Eacute; um infame, um homem repugnante, um estranho, isso mesmo: um homem<br \/>\n    completamente estranho para mim.<\/p>\n<p>Daria Alexandrovna pronunciou com express&atilde;o de dor e de &oacute;dio<br \/>\n    a palavra &laquo;estranho&raquo;, que lhe parecia horr&iacute;vel.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch olhou para a mulher, assustado e surpreendido com a<br \/>\n    revolta que se reflectia no seu rosto. N&atilde;o compreendia que a compaix&atilde;o<br \/>\n    que lhe manifestava provocasse repulsa. Dolly via nele compaix&atilde;o, mas<br \/>\n    n&atilde;o amor. &laquo;Odeia-me. N&atilde;o me perdoar&aacute;&raquo;, pensou<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; horr&iacute;vel, horr&iacute;vel! &#8212; exclamou.<\/p>\n<p>Naquele momento, no quarto cont&iacute;guo ouviu-se gritar uma das crian&ccedil;as,<br \/>\n    que naturalmente ca&iacute;ra. Daria Alexandrovna apurou o ouvido e instantaneamente<br \/>\n    suavizou-se a sua fisionomia. Permaneceu alguns segundos como que procurando<br \/>\n    lembrar-se onde estava e o que devia fazer. Depois, levantou-se rapidamente<br \/>\n    e aproximou-se da porta.<\/p>\n<p> &laquo;Mas se ela gosta assim de meu filho, do meu filho, como pode odiar-me?&raquo;,<br \/>\n    pensou Oblonski, ao observar a mudan&ccedil;a de express&atilde;o que se operara<br \/>\n    no rosto da mulher.<\/p>\n<p>&#8212; Dolly, s&oacute; uma palavra &#8212; disse, seguindo-a.<\/p>\n<p>&#8212; Se me seguir, chamarei os criados e os meninos. Quero que todos fiquem<br \/>\n    sabendo que o senhor &eacute; um canalha! Ir-me-ei embora hoje; o senhor,<br \/>\n    se quiser, pode continuar a viver aqui com a sua amante!<\/p>\n<p> Daria Alexandrovna saiu, batendo a porta com viol&ecirc;ncia. Stepane Arkadievitch<br \/>\n    suspirou e, enxugando o rosto, aproximou-se da porta em passos lentos. &laquo;Matvei<br \/>\n    diz que tudo se h&aacute;-de arrumar, mas como? N&atilde;o vejo jeito. Oh,<br \/>\n    oh, que horror! E que maneira t&atilde;o reles de gritar!&raquo;, dizia consigo<br \/>\n    mesmo, recordando-se das palavras &laquo;canalha&raquo; e &laquo;amante&raquo;.<br \/>\n    Se calhar at&eacute; as criadas ouviram. Foi tremendamente vulgar.&raquo;<br \/>\n    Permaneceu im&oacute;vel alguns instantes, enxugou os olhos, suspirou e, aprumando-se,<br \/>\n    saiu do quarto.<\/p>\n<p>Era sexta-feira. O relojoeiro alem&atilde;o dava corda ao rel&oacute;gio<br \/>\n    da sala de jantar. Stepane Arkadievitch recordou, sorrindo, a sua pilh&eacute;ria<br \/>\n    a prop&oacute;sito daquele relojoeiro calvo, t&atilde;o pontual; costumava<br \/>\n    dizer que &laquo;lhe tinham dado corda para toda a vida, a fim de que ele,<br \/>\n    por sua vez, a desse aos rel&oacute;gios&raquo;. Oblonski apreciava muito<br \/>\n    os ditinhos chistosos. &laquo;Talvez se arrume! Essa palavra agrada-me: arrumar-se.<br \/>\n    Hei-de empreg&aacute;-la&raquo;, pensou.<\/p>\n<p>&#8212; Matvei! &#8212; exclamou ele &#8212; Prepara os aposentos para Ana<br \/>\n    Arkadievna na saleta Mana que te ajude.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem, meu senhor.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch enfiou a pelica e saiu para o alpendre.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o janta em casa? &#8212; perguntou-lhe Matvei, enquanto<br \/>\n    o acompanhava.<\/p>\n<p>&#8212; Isso depende. Toma l&aacute; para as despesas, Achas que chega? &#8212;<br \/>\n    interrogou Oblonski, entregando-lhe dez rublos, que tirara da carteira.<\/p>\n<p>&#8212; Chegue ou n&atilde;o chegue, terei de me remediar &#8212; replicou<br \/>\n    Matvei, fechando a portinhola da carruagem e voltando ao alpendre.<\/p>\n<p>Entretanto Daria Alexandrovna, que consolara a crian&ccedil;a e compreendera,<br \/>\n    pelo ru&iacute;do da carruagem, que o marido sa&iacute;ra, voltou ao quarto<br \/>\n    de dormir. Era o &uacute;nico ref&uacute;gio das preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dom&eacute;sticas que a assaltavam, mal chegava &agrave; porta No momento<br \/>\n    em que foi ao quarto dos pequenos, logo a inglesa e Matriona Filimonovna a<br \/>\n    assediaram com um sem n&uacute;mero de perguntas urgentes, a que s&oacute;<br \/>\n    ela podia responder &laquo;Que deviam vestir os meninos para irem passear?<br \/>\n    Deveriam beber leite? Seria preciso arranjar outro cozinheiro?&raquo; &#8212;<br \/>\n    Por amor de Deus, deixem-me, deixem-me! &#8212; exclamou Daria Alexandrovna,<br \/>\n    e voltando para o quarto, sentou-se no mesmo lugar onde permanecera durante<br \/>\n    o di&aacute;logo com o marido.<\/p>\n<p>Contorcendo as m&atilde;os esqu&aacute;lidas, de cujos dedos ossudos se desprendiam<br \/>\n    os an&eacute;is, lembrou-se das palavras que tinham trocado.<\/p>\n<p> &laquo;Foi-se. Mas como ter&aacute; ele acabado com ela? Ser&aacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que<\/p>\n<p> continuem a encontrar-se? Porque n&atilde;o lhe perguntei? N&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    podemos reconciliar nos? Ainda que continu&aacute;ssemos juntos sob o mesmo<br \/>\n    tecto, permanecer&iacute;amos estranhos um ao outro? Somos para sempre estranhos?&raquo;,<br \/>\n    repetiu, repisando de maneira especial essa palavra que lhe ressoava horrorosa<br \/>\n    &laquo;E tu que tanto lhe quis &#8216;Como eu lhe queria&#8217;. E por ventura<br \/>\n    n&atilde;o continuo a querer &#8216;N&atilde;o lhe quererei agora mais do<br \/>\n    que antes&#8217;.<\/p>\n<p> E o mais terr&iacute;vel &eacute; que&raquo;<\/p>\n<p>Matriona Filimonovna interrompeu o curso dos seus pensamentos<\/p>\n<p>&#8212; Quer a senhora que eu mande vir o meu irm&atilde;o! Ao menos preparar&aacute;<br \/>\n    o jantar e os meninos n&atilde;o ficar&atilde;o sem comer at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    seis horas, como ontem.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bem, vou dar as minhas ordens. Foram comprar leite fresco?<br \/>\n    E Daria Alexandrovna mergulhou nas preocupa&ccedil;&otilde;es quotidianas,<br \/>\n    afogando nelas, momentaneamente, os seus desgostos.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">CAP&Iacute;TULO V<\/a><\/h4>\n<p>Gra&ccedil;as aos seus dons naturais, Stepane Arkadievitch fizera bons estudos,<br \/>\n    mas, como era pregui&ccedil;oso e travesso, sa&iacute;ra do col&eacute;gio<br \/>\n    entre os &uacute;ltimos da sua classe. No entanto, apesar da vida dissipada<br \/>\n    que levara, da baixa classifica&ccedil;&atilde;o que obtivera e de ser ainda<br \/>\n    muito jovem, ocupava o lugar, bem remunerado, de presidente de um tribunal<br \/>\n    de Moscovo. Conseguira esse emprego gra&ccedil;as ao marido de Ana, sua irm&atilde;,<br \/>\n    Alexei Alexandrovitch Karenine, que desempenhava um dos mais altos cargos<br \/>\n    do Minist&eacute;rio a que se subordinava o tribunal de que era funcion&aacute;rio.<br \/>\n    Mas se Karenine n&atilde;o lhe houvesse conseguido o cargo. Stiva Oblonski<br \/>\n    t&ecirc;-lo-ia obtido, a esse ou a outro qualquer, com os seus mil rublos<br \/>\n    de remunera&ccedil;&atilde;o &#8212; quantia de que precisava, dada a m&aacute;<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o dos seus bens pessoais e apesar da fortuna da mulher<br \/>\n    &#8212; gra&ccedil;as a uma centena de protectores de que dispunha irm&atilde;os<br \/>\n    ou irm&atilde;s, tias ou segundos n&oacute;s.<\/p>\n<p> Metade da popula&ccedil;&atilde;o de Moscovo e de Sampetersburgo era constitu&iacute;da<br \/>\n    por parentes ou amigos de Stepane Arkadievitch. Nascera entre pessoas que<br \/>\n    eram ou passaram a ser os poderosos deste mundo. Uma ter&ccedil;a parte dos<br \/>\n    velhos funcion&aacute;rios fora das rela&ccedil;&otilde;es do pai e tinha-o<br \/>\n    conhecido de cal&ccedil;&otilde;es, a outra ter&ccedil;a parte tratava o por<br \/>\n    tu e os restantes, sob a forma de empregos p&uacute;blicos, arrendamentos,<br \/>\n    concess&otilde;es e coisas do mesmo estilo, seus amigos, n&atilde;o podiam<br \/>\n    deixar de mostrar interesse por ele. Eis, pois, como n&atilde;o fora dif&iacute;cil<br \/>\n    a Oblonski obter um bom lugar. A &uacute;nica coisa de que precisou foi de<br \/>\n    n&atilde;o contrariar ningu&eacute;m, n&atilde;o ter inveja,<\/p>\n<p> n&atilde;o discutir nem ofender-se, atitudes de que a sua bondade mata sempre<br \/>\n    o afastara. Ter-lhe-ia parecido simplesmente rid&iacute;culo dizerem-lhe que<br \/>\n    n&atilde;o lograria um lugar com a remunera&ccedil;&atilde;o que lhe era indispens&aacute;vel,<br \/>\n    sobretudo por nada exigir de excepcional. De facto, apenas queria o que os<br \/>\n    seus amigos da mesma idade haviam conseguido, persuadido como estava de ser<br \/>\n    t&atilde;o capaz quanto qualquer deles.<\/p>\n<p> Todos gostavam de Stepane Arkadievitch, n&atilde;o s&oacute; pelo seu feitio<br \/>\n    alegre e bondoso e pela sua indiscut&iacute;vel probidade, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    devido &agrave; sua arrogante e bela presen&ccedil;a, dos seus olhos brilhantes,<br \/>\n    das suas negras sobrancelhas, dos seus cabelos e do seu rosto branco e rubonz&aacute;vel,<br \/>\n    coisas que produziam impress&atilde;o agrad&aacute;vel naqueles que o conheciam.<br \/>\n    &laquo;Ol&aacute;, Stiva! Oblonski! Ei-lo!&raquo;, costumavam exclamar, ao<br \/>\n    saud&aacute;-lo, quase sempre sorrindo alegremente Ainda mesmo quando, depois<br \/>\n    de com ele conversarem, n&atilde;o sentiam nisso uma satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    especial, no dia seguinte, ao voltarem a encontr&aacute;-lo, acolhiam no sempre<br \/>\n    com igual regozijo.<\/p>\n<p> Depois de haver desempenhado durante tr&ecirc;s anos o cargo de presidente<br \/>\n    de um dos tribunais de Moscovo, Stepane Arkadievitch alcan&ccedil;ara n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; a amizade mas tamb&eacute;m a considera&ccedil;&atilde;o dos colegas,<br \/>\n    dos subordinados, dos chefes e de todos os que com ele privavam. As principais<br \/>\n    qualidades de Stepane Arkadievitch, as que lhe haviam granjeado esse respeito,<br \/>\n    consistiam, em primeiro lugar, numa extrema condescend&ecirc;ncia para com<br \/>\n    todas as pessoas, condescend&ecirc;ncia essa alicer&ccedil;ada na consci&ecirc;ncia<br \/>\n    dos seus pr&oacute;prios defeitos, em segundo lugar, no seu esp&iacute;rito<br \/>\n    liberal, n&atilde;o propriamente do liberalismo que ele extra&iacute;ra dos<br \/>\n    jornais, mas do que tinha no sangue e gra&ccedil;as ao qual tratava todos<br \/>\n    no mesmo p&eacute; de igualdade sem atender a posi&ccedil;&otilde;es ou a<br \/>\n    hierarquias, e em terceiro lugar &#8212; a sua qualidade mais importante,<br \/>\n    &#8212; na perfeita indiferen&ccedil;a que mostrava pelo cargo ocupado, o<br \/>\n    que fazia com que nunca se entusiasmasse e por isso mesmo sem que nunca praticasse<br \/>\n    erros.<\/p>\n<p> Ao chegar &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o, Stepane Arkadievitch, seguido<br \/>\n    a respeit&aacute;vel dist&acirc;ncia pelo cont&iacute;nuo que lhe levava a<br \/>\n    pasta, penetrou no seu gabinete para vestir o uniforme, e logo em seguida<br \/>\n    dirigiu se &agrave; sala de sess&otilde;es. Todos os funcion&aacute;rios se<br \/>\n    levantaram, saudando o alegre e respeitosamente. Como de costume, Stepane<br \/>\n    Arkadievitch apertou a m&atilde;o de cada um e encaminhou se, pressuroso,<br \/>\n    para o seu lugar. Conversou e pilherou um pouco, justamente o tempo que a<br \/>\n    cortesia mandava, e p&ocirc;s se a trabalhar. Ningu&eacute;m sabia melhor<br \/>\n    do que Stepane Arkadievitch encontrar os limites da liberdade, a simplicidade<br \/>\n    e a afabilidade necess&aacute;rios para que o trabalho se tornasse agrad&aacute;vel.<br \/>\n    O secret&aacute;rio aproximou se de Oblonski com o expediente, jovial e respeitoso,<br \/>\n    como todos na sua presen&ccedil;a, mantendo esse tom familiar que o pr&oacute;prio<br \/>\n    Oblonski introduzira nas suas fun&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Finalmente conseguimos as informa&ccedil;&otilde;es da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    provincial de Panz. Aqui est&atilde;o. Se me permite.<\/p>\n<p> &#8212; Chegaram por fim! &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch, pegando<br \/>\n    num dos pap&eacute;is &#8212;Bem, meus senhores. E a sess&atilde;o principiou.<\/p>\n<p> &laquo;Se eles soubessem que n&atilde;o h&aacute; meia hora ainda o presidente<br \/>\n    do tribunal se sentia culpado como um garoto&raquo;, pensou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    enquanto escutava a exposi&ccedil;&atilde;o, de cabe&ccedil;a inclinada e<br \/>\n    grave express&atilde;o no rosto. Os olhos sorriam lhe, o ouvido atento. Teriam<br \/>\n    de trabalhar sem interrup&ccedil;&atilde;o at&eacute; &agrave;s duas horas,<br \/>\n    altura em que haveria um intervalo para comer.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o eram duas horas quando, de repente, se abriram as portas<br \/>\n    de vidro da sala de audi&ecirc;ncia e algu&eacute;m entrou. Os membros do<br \/>\n    tribunal, sentados debaixo do retrato do czar e os que se sentavam por detr&aacute;s<br \/>\n    do s&iacute;mbolo da Justi&ccedil;a, voltaram se para a porta, contentes com<br \/>\n    a distrac&ccedil;&atilde;o, mas o oficial de justi&ccedil;a, &agrave; entrada,<br \/>\n    imediatamente obrigou a sair quem entrara, fechando a porta atr&aacute;s de<br \/>\n    si.<\/p>\n<p>Quando acabaram de ler o expediente, Stepane Arkadievitch p&ocirc;s-se de<br \/>\n    p&eacute;, endireitou se e, rendendo tributo ao liberalismo da &eacute;poca,<br \/>\n    acendeu um cigarro mesmo na sala do tribunal, encaminhando se depois para<br \/>\n    o seu gabinete. Os seus dois colegas, o velho funcion&aacute;rio Nikitine<br \/>\n    e o jovem Grimevitch, sa&iacute;ram com ele.<\/p>\n<p> &#8212; Teremos tempo de acabar depois do almo&ccedil;o &#8212; disse Stepane<br \/>\n    Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; Com certeza! &#8212; corroborou Nikitine.<\/p>\n<p>&#8212; Esse Fomine deve ser um aut&ecirc;ntico maroto &#8212; observou Grimevitch,<br \/>\n    referindo se a um dos implicados na causa que examinavam.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch franziu o sobrolho ao ouvir as palavras de Grimevitch,<br \/>\n    dando a entender que n&atilde;o convinha emitir ju&iacute;zos antecipados,<br \/>\n    e nada lhe respondeu &#8212; Quem entrou na sala? &#8212; inquiriu do oficial<br \/>\n    de justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Um senhor que perguntava por V Ex&ordf; e que se introduziu na sala<br \/>\n    sem licen&ccedil;a, apanhando me desprevenido. Disse lhe que quando sa&iacute;ssem<br \/>\n    os membros do tribunal.<\/p>\n<p> &#8212; Onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>&#8212; Naturalmente foi para a antec&acirc;mara, primeiro andou &agrave;s<br \/>\n    voltas por a&iacute;. &Eacute; aquele &#8212; acrescentou, apontando para<br \/>\n    um homem corpulento, espada&uacute;do, barba encaracolada, na cabe&ccedil;a<br \/>\n    um gorro de pele de carneiro, que naquele momento subia apressadamente os<br \/>\n    gastos degraus da escada de pedra. Um empregado magricela, que descia com<br \/>\n    uma pasta na m&atilde;o, deteve se, olhou, como que censurando, as pernas<br \/>\n    do homem que subia as escadas e dirigiu a Oblonski um olhar interrogativo.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch encontrava se no alto da escadaria e o seu bondoso rosto<br \/>\n    resplandecente, emergindo da gola bordada do uniforme, ao reconhecer o rec&eacute;m<br \/>\n    chegado, iluminou se mais ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o eras tu! Finalmente, Levine! &#8212; exclamou com um<br \/>\n    sorriso amistoso e trocista, olhando Levine, que se aproximava &#8212; Como<br \/>\n    te dignaste vir buscar me a este &laquo;covil&raquo;? Chegaste h&aacute; muito?<br \/>\n    &#8212; perguntou.<\/p>\n<p> E n&atilde;o contente com o aperto de m&atilde;o do amigo, beijou-o.<\/p>\n<p>&#8212; Acabo de chegar, estava morto por te ver &#8212; respondeu Levine,<br \/>\n    numa express&atilde;o t&iacute;mida, ao mesmo tempo que olhava &agrave; sua<br \/>\n    volta, inquieto e medroso.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, vamos para o meu gabinete &#8212; disse Oblonski, que conhecia<br \/>\n    o amor pr&oacute;prio e a timidez irrit&aacute;vel do amigo.<\/p>\n<p> E, pegando-lhe pela m&atilde;o, arrastou o consigo, como se o levasse pelo<br \/>\n    meio de grandes perigos.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch tratava por &laquo;tu&raquo; quase todos os conhecidos:<br \/>\n    anci&atilde;os de sessenta anos, rapazes de vinte, comerciantes, actores,<br \/>\n    ministros, ajudantes de campo do imperador, de maneira que muitas das pessoas<br \/>\n    a quem tuteava pertenciam a extremos opostos da escala social e muitos se<br \/>\n    surpreendiam ao descobrir, atrav&eacute;s de Oblonski, um tra&ccedil;o comum<br \/>\n    entre si Tratava por tu todos os que bebiam champanhe, e bebia champanhe com<br \/>\n    todos E quando, na presen&ccedil;a dos subordinados, se encontrava com alguns<br \/>\n    dos tus que envergonhavam, como costumava chamai a muitos deles, por brincadeira,<br \/>\n    conseguia tamb&eacute;m atenuar, com a sua habilidade inata, qualquer impress&atilde;o<br \/>\n    desagrad&aacute;vel que porventura isto lhes pudesse causar. Levine n&atilde;o<br \/>\n    pertencia ao n&uacute;mero dos tus que envergonhavam, mas, com a sua acuidade,<br \/>\n    Oblonski percebeu que o amigo pensava que talvez ele, Oblonski, n&atilde;o<br \/>\n    desejasse mostrar a intimidade que existia entre eles na presen&ccedil;a dos<br \/>\n    seus subordinados, raz&atilde;o por que se dera pressa em lev&aacute;-lo para<br \/>\n    o seu gabinete.<\/p>\n<p> Levine tinha quase a mesma idade que Oblonski, e n&atilde;o s&oacute; por<br \/>\n    ter bebido champanhe com ele o tratava por tu. Fora seu companheiro e amigo<br \/>\n    de adolesc&ecirc;ncia. Apesar da diferen&ccedil;a de caracteres e de gostos,<br \/>\n    estimavam-se como amigos que conviveram desde a mocidade. Mas, como geralmente<br \/>\n    acontece entre pessoas que se dedicam a actividades diferentes, embora cada<br \/>\n    um deles apreciasse e aprovasse a profiss&atilde;o do outro, a verdade &eacute;<br \/>\n    que, no fundo da alma, a desprezavam. Afigurava-se, a cada um deles, que a<br \/>\n    sua pr&oacute;pria vida era a verdadeira, enquanto a do outro n&atilde;o passava<br \/>\n    de fic&ccedil;&atilde;o. Oblonski n&atilde;o podia reprimir um certo sorriso<br \/>\n    de tro&ccedil;a quando via Levine. In&uacute;meras vezes o vira chegar assim<br \/>\n    a<\/p>\n<p> Moscovo, vindo da aldeia, onde se dedicava a qualquer coisa que Stepane<br \/>\n    Arkadievitch nunca soubera bem o que fosse e, para ser exacto, nem lhe interessava.<br \/>\n    Levine chegava a Moscovo sempre numa grande excita&ccedil;&atilde;o, inquieto,<br \/>\n    um tanto inibido e irritado com a sua pr&oacute;pria timidez, e a maior parte<br \/>\n    das vezes com um conceito novo e imprevisto sobre ai coisas. Stepane Arkadievitch<br \/>\n    tro&ccedil;ava disso, mas ao mesmo tempo gostava. Assim mesmo, Levine, no<br \/>\n    seu &iacute;ntimo, desprezava o g&ecirc;nero de vida citadina que o amigo<br \/>\n    levava e at&eacute; mesmo o cargo que ele desempenhava, na sua opini&atilde;o<br \/>\n    absurdo, rindo-se de tudo isso. A &uacute;nica diferen&ccedil;a &ecirc; que<br \/>\n    Oblonski, ao fazer o que os outros faziam, gracejava com seguran&ccedil;a<br \/>\n    e benevol&ecirc;ncia, ao passo que Levine o fazia pouco seguro e &agrave;s<br \/>\n    vezes at&eacute; irritado.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; muito que est&aacute;vamos &agrave; tua espera &#8212;<br \/>\n    disse Stepane Arkadievitch, ao penetrar no gabinete e largando o bra&ccedil;o<br \/>\n    do amigo, como que dando-lhe a entender que o perigo passara. &#8212; Estou<br \/>\n    muito contente em ver-te. Ent&atilde;o como vai isso? Quando chegaste? &#8212;<br \/>\n    prosseguiu.<\/p>\n<p> Levine calava-se, olhando as caras desconhecidas dos companheiros de Oblonski<br \/>\n    e sobretudo a m&atilde;o do elegante Grimevitch, de longos dedos brancos e<br \/>\n    compridas unhas, p&aacute;lidas e recurvas, bem como os enormes brilhantes<br \/>\n    das abotoaduras da sua camisa. Dir-se-ia que aquelas m&atilde;os o absorviam<br \/>\n    por completo, impedindo-o de pensar. Oblonski, observando isso, sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Permitam que os apresente &#8212; disse. &#8212; Os meus amigos<br \/>\n    Filirx Ivanovitch Nikitine, Mikail Stanislavitch. &#8212; E dirigindo-se a<br \/>\n    Levine, acrescentou: &#8212; Constantino Dimitrievitch Levine, membro do zemstvo,<br \/>\n    homem original, ginasta, capaz de levantar cinco puds com uma s&oacute; m&atilde;o,<br \/>\n    fazendeiro, ca&ccedil;ador, meu amigo e irm&atilde;o de S&eacute;rgio Ivanovitch<br \/>\n    Kosnichev.<\/p>\n<p> &#8212; Muito prazer &#8212; articulou o anci&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Temos a honra de conhecer seu irm&atilde;o S&eacute;rgio Ivanovitch<br \/>\n    &#8212; disse Grimevitch, estendendo-lhe a delicada m&atilde;o de grandes<br \/>\n    unhas.<\/p>\n<p>&#8212; Escuta. Vamos almo&ccedil;ar no Guarine. Ali conversaremos. Estou<br \/>\n    livre at&eacute; &agrave;s tr&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Ainda tenho de ir a outro lugar &#8212; replicou Levine,<br \/>\n    depois de pensar um pouco.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, ent&atilde;o podemos jantar juntos.<\/p>\n<p>&#8212; Jantar? Mas n&atilde;o se trata de nada importante. Quero apenas<br \/>\n    dizer-te duas palavras. Falaremos mais tarde &agrave; vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Pois diz-me agora essas duas palavras e conversaremos depois de<br \/>\n    jantar.<\/p>\n<p> &#8212; Trata-se do seguinte&#8230; n&atilde;o &eacute;, ali&aacute;s, nada<br \/>\n    de particular &#8212; disse Levine; e de s&uacute;bito reflectiu-se no seu<br \/>\n    rosto uma viva irrita&ccedil;&atilde;o, provocada pelo esfor&ccedil;o que<br \/>\n    fazia para vencer a timidez. &#8212; Que fazem os Tcherbatski? Continuam como<br \/>\n    dantes? &#8212; inquiriu.<\/p>\n<p>Oblonski que soubera, tempos atr&aacute;s, que Levine estava enamorado da<br \/>\n    sua cunhada, Kitty, sorriu imperceptivelmente e os olhos brilharam-lhe alegres.<\/p>\n<p>&#8212; Disseste-me duas palavras, mas eu n&atilde;o posso responder-te com<br \/>\n    outras duas, porque&#8230; Desculpa-me por um momento&#8230;<\/p>\n<p>Entrava nesse momento o secret&aacute;rio, com uns pap&eacute;is; com a familiaridade<br \/>\n    respeitosa e com a discreta consci&ecirc;ncia que todos os secret&aacute;rios<br \/>\n    t&ecirc;m da superioridade sobre os chefes no conhecimento dos assuntos que<br \/>\n    lhes dizem respeito, aproximou-se de Oblonski para lhe explicar uma dificuldade<br \/>\n    como se fizesse uma pergunta. Stepane Arkadievitch, sem o ouvir at&eacute;<br \/>\n    ao fim, pousou uma das m&atilde;os no bra&ccedil;o do secret&aacute;rio, num<br \/>\n    gesto carinhoso.<\/p>\n<p>&#8212; Seja como for, como eu lhe disse &#8212; articulou, suavizando a<br \/>\n    advert&ecirc;ncia com um sorriso. E ap&oacute;s uma breve explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acerca de como interpretar o caso, repeliu de si os pap&eacute;is, acrescentando:<br \/>\n    &#8212; Fa&ccedil;a assim, por favor, Zacarias Nikitine.<\/p>\n<p> O secret&aacute;rio afastou-se, confuso. Levine, que durante aquela consulta,<br \/>\n    se refizera completamente da perturba&ccedil;&atilde;o que o possu&iacute;ra,<br \/>\n    apoiava-se com ambas as m&atilde;os &agrave;s costas de uma cadeira e ouvia<br \/>\n    com uma aten&ccedil;&atilde;o zombeteira.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o compreendo, n&atilde;o, n&atilde;o compreendo! &#8212;<br \/>\n    exclamou.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que tu n&atilde;o compreendes? &#8212; perguntou-lhe<br \/>\n    Oblonski, sorrindo tamb&eacute;m e puxando por um cigarro. Esperava de Levine<br \/>\n    uma sa&iacute;da extravagante.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o compreendo o que voc&ecirc;s fazem &#8212; replicou ele,<br \/>\n    encolhendo os ombros. &#8212; Como podes tomar estas coisas a s&eacute;rio?<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Porque&#8230; porque aqui n&atilde;o h&aacute; que fazer.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que tu pensas; estamos cheios de trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; De papelada. Sim, realmente, sempre tiveste jeito para isso.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, achas que para outras coisas n&atilde;o sirvo?<\/p>\n<p>&#8212; Talvez. De qualquer modo, por&eacute;m, admiro a tua import&acirc;ncia<br \/>\n    e sinto-me orgulhoso de ter um amigo de tal categoria. Mas n&atilde;o respondeste<br \/>\n    &agrave; minha pergunta &#8212; acrescentou Levine, fitando-o nos olhos, num<br \/>\n    esfor&ccedil;o desesperado.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, bom. Espera um pouco mais e ver&aacute;s como tu tamb&eacute;m<br \/>\n    h&aacute;s-de l&aacute; chegar. Apesar dos teus tr&ecirc;s mil hectares de<br \/>\n    terra na prov&iacute;ncia de Karazinski, desses m&uacute;sculos, dessa lou&ccedil;ania<br \/>\n    de menina de onze anos, tamb&eacute;m acabar&aacute;s por l&aacute; chegar,<br \/>\n    como n&oacute;s. Quanto ao que perguntavas, n&atilde;o h&aacute; novidade,<br \/>\n    mas &eacute; pena que tenhas estado tanto tempo sem aparecer.<\/p>\n<p> &#8212; Por qu&ecirc;? &#8212; interrompeu Levine, assustado.<\/p>\n<p>&#8212; Por nada. Depois falaremos. E afinal, para que vieste?<\/p>\n<p>&#8212; Disso tamb&eacute;m falaremos depois &#8212; respondeu Levine, de<br \/>\n    novo corado at&eacute; &agrave;s orelhas.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, j&aacute; percebi. Escuta: gostaria de te convidar para ires<br \/>\n    a nossa casa, mas minha mulher n&atilde;o est&aacute; bem. Se queres ver os<br \/>\n    Tcherbatski, acho que devem ir hoje, das quatro &agrave;s cinco, ao Jardim<br \/>\n    Zool&oacute;gico. Kitty vai patinar. Passa por l&aacute;. Irei buscar-te para<br \/>\n    irmos jantar em qualquer parte.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente. At&eacute; logo, ent&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas escuta. Bem te conhe&ccedil;o, &eacute;s muito capaz de te esqueceres<br \/>\n    ou de te ires embora para a aldeia &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    rindo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, irei sem falta.<\/p>\n<p>E s&oacute; depois de sair do gabinete, Levine se apercebeu de que n&atilde;o<br \/>\n    se despedira dos amigos de Oblonski.<\/p>\n<p> &#8212; Parece ser muito en&eacute;rgico &#8212; opinou Grimevitch, depois<br \/>\n    de Levine ter sa&iacute;do.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu velho. Nasceu com boa estrela! &#8212; observou Stepane<br \/>\n    Arkadievitch, abanando a cabe&ccedil;a. &#8212; Tr&ecirc;s mil hectares em<br \/>\n    Karazinski, uma vida inteira diante dele e aquele vigor! Tem mais sorte do<br \/>\n    que n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor de que se queixa, Stepane Arkadievitch?<\/p>\n<p>&#8212; Tudo vai mal &#8212; disse este, com um profundo suspiro.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">CAP&Iacute;TULO VI<\/a><\/h4>\n<p>Quando Oblonski perguntou a Levine que tinha ele vindo fazer a Moscovo, este<br \/>\n    enrubesceu, coisa que o indisp&ocirc;s consigo mesmo, pois n&atilde;o pudera<br \/>\n    responder-lhe, &laquo;para me declarar &agrave; tua cunhada&raquo;, apesar<br \/>\n    de ter vindo exclusivamente para este fim. Os Levines e os Tcherbatski, antigas<br \/>\n    fam&iacute;lias nobres de Moscovo, sempre haviam mantido &iacute;ntimas e<br \/>\n    cordiais rela&ccedil;&otilde;es. Essa amizade ainda mais se consolidara durante<br \/>\n    o tempo de estudante de Levine, que se preparara para dar entrada na Universidade<\/p>\n<p> e nela fora admitido ao mesmo tempo que o jovem pr&iacute;ncipe Tcherbatski,<br \/>\n    irm&atilde;o de Dolly e de Kitty. Naquela &eacute;poca, Levine costumava visitar<br \/>\n    muito ami&uacute;de os Tcherbatski e afei&ccedil;oara-se &agrave; casa. Por<br \/>\n    estranho que pare&ccedil;a, Constantino Levine apegara-se precisamente &agrave;<br \/>\n    casa, &agrave; fam&iacute;lia e em especial ao elemento feminino dos Tcherbatski.<br \/>\n    N&atilde;o se lembrava da m&atilde;e e a &uacute;nica irm&atilde; que tinha<br \/>\n    era mais velha do que ele. Por isso mesmo fora em casa dos Tcherbatski que<br \/>\n    sentira pela primeira vez aquele ambiente de lar nobre, intelectual e distinto<br \/>\n    que n&atilde;o chegara a conhecer entre os seus por causa da prematura morte<br \/>\n    dos pais. Todos os membros daquela fam&iacute;lia, especialmente as mulheres,<br \/>\n    lhe apareciam como que envoltos num misterioso v&eacute;u po&eacute;tico,<br \/>\n    e n&atilde;o s&oacute; via neles defeito algum, como imaginava que por debaixo<br \/>\n    desse v&eacute;u existissem os sentimentos mais elevados e todas as perfei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    deste mundo. Levine n&atilde;o compreendia por que falavam aquelas senhoras<br \/>\n    hoje em franc&ecirc;s e amanh&atilde; em ingl&ecirc;s; por que, a horas determinadas,<br \/>\n    e por turnos, tocavam piano, cujos sons ele ouvia l&aacute; em cima no quarto<br \/>\n    do irm&atilde;o, onde se reuniam para estudar; para que serviam aqueles professores<br \/>\n    de literatura francesa, de desenho, de m&uacute;sica, de dan&ccedil;a; por<br \/>\n    que iam as tr&ecirc;s irm&atilde;s a horas certas de carruagem, acompanhadas<br \/>\n    por Mademoiselle Linon, &agrave; Avenida de Tverskoi, embrulhadas nas suas<br \/>\n    pelicas &#8212; a de Dolly, comprida; a de Nat&aacute;lia, tr&ecirc;s quartos,<br \/>\n    e a de Kitty, muito curta, de tal sorte que lhe deixava completamente descobertas<br \/>\n    as pernas com as suas meias vermelhas &#8212; e para que haviam de passear<br \/>\n    pela Avenida Tverskoi, ainda por cima acompanhadas de um lacaio com um distintivo<br \/>\n    dourado no chap&eacute;u. T&atilde;o-pouco compreendeu muitas outras coisas<br \/>\n    que sucediam naquele mundo misterioso, embora soubesse que tudo ali era magn&iacute;fico<br \/>\n    e fosse precisamente essa atmosfera de mist&eacute;rio que o cativava.<\/p>\n<p> Durante os tempos de estudante estivera a ponto de apaixonar-se pela irm&atilde;<br \/>\n    mais velha, Dolly, mas da&iacute; a tempo casavam-na com Oblonski. Depois<br \/>\n    come&ccedil;ou a sentir-se atra&iacute;do pela segunda, como se precisasse<br \/>\n    de estar sempre enamorado de uma das irm&atilde;s, sem poder dizer de qual<br \/>\n    delas gostava na verdade. Tamb&eacute;m Nat&aacute;lia se casou, na ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que foi apresentada &agrave; sociedade, com o diplomata Lvov. Kitty ainda<br \/>\n    era muito crian&ccedil;a quando Levine saiu da Universidade. O jovem Tcherbatski,<br \/>\n    que ingressara na marinha de guerra, morrera no mar B&aacute;ltico, e as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dele com a fam&iacute;lia, por esse facto, tornaram-se menos freq&uuml;entes,<br \/>\n    apesar da sua amizade com Oblonski. Por&eacute;m, quando no princ&iacute;pio<br \/>\n    do Inverno daquele ano chegou a Moscovo, depois de um ano de isolamento na<br \/>\n    aldeia, compreendeu de qual das irm&atilde;s estava predestinado a gostar<br \/>\n    deveras. Aparentemente, nada mais simples do que pedir a m&atilde;o da princesa<br \/>\n    Tcherbatskaia, uma vez que Levine era homem de boa fam&iacute;lia, mais rico<br \/>\n    do que pobre, e com trinta e dois anos de idade Era de crer que vissem logo<br \/>\n    nele um bom partido Mas Levine estava apaixonado e por isso Kitty lhe parecia<br \/>\n    uma criatura t&atilde;o perfeita em todos os sentidos, t&atilde;o para al&eacute;m<br \/>\n    das coisas terrenas, quando ele, pelo contr&aacute;rio, era um ser t&atilde;o<br \/>\n    baixo e mundano, que n&atilde;o podia pensar sequer que ela e os outros o<br \/>\n    considerassem digno de aspirar &agrave; sua m&atilde;o.<\/p>\n<p>Havia dois meses que estava em Moscovo, como num sonho, encontrando se quase<br \/>\n    todos os dias com Kitty nas reuni&otilde;es mundanas a que assistia para v&ecirc;-la,<br \/>\n    quando decidiu, repentinamente, que n&atilde;o teria &ecirc;xito, e voltou<br \/>\n    para a aldeia.<\/p>\n<p>Julgava essa aspira&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel, certo de que, aos<br \/>\n    olhos dos pais de Kitty, n&atilde;o era nem um bom partido nem a pessoa indicada<br \/>\n    para t&atilde;o maravilhosa criatura Demais, convenceu se de que ela n&atilde;o<br \/>\n    podia am&aacute;-lo Aos olhos dos pais de Kitty, Levine n&atilde;o tinha nem<br \/>\n    profiss&atilde;o determinada nem posi&ccedil;&atilde;o social Enquanto os<br \/>\n    seus camaradas de estudo j&aacute; eram, um coronel e ajudante de campo, outro<br \/>\n    catedr&aacute;tico, director de um banco e de uma companhia de caminhos de<br \/>\n    ferro um terceiro, e o &uacute;ltimo presidente de um tribunal, isto &eacute;,<br \/>\n    o pr&oacute;prio Oblonski, ele, pelo contr&aacute;rio (sabia perfeitamente<br \/>\n    o efeito que isso produzia nas outras pessoas), era simplesmente propriet&aacute;rio<br \/>\n    rural, dedicava se &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de gado, &agrave; ca&ccedil;a<br \/>\n    &agrave;s perdizes e &agrave; constru&ccedil;&atilde;o Quer dizer era um homem<br \/>\n    sem aptid&otilde;es, que n&atilde;o chegara a ser coisa alguma, e que na opini&atilde;o<br \/>\n    geral, fazia apenas o que fazem os que n&atilde;o servem para mais nada.<\/p>\n<p>A misteriosa e encantadora Kitty n&atilde;o podia gostar de um homem t&atilde;o<br \/>\n    feio como ele, que Levine assim se considerava, e sobretudo de um homem t&atilde;o<br \/>\n    simples, que n&atilde;o sobressa&iacute;a em coisa alguma Por outro lado,<br \/>\n    as suas anteriores rela&ccedil;&otilde;es com ela &#8212; as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de um homem com uma garota &#8212;, gra&ccedil;as &agrave; amizade que mantivera<br \/>\n    com o irm&atilde;o, apareciam lhe como mais um obst&aacute;culo a esse amor<br \/>\n    Imaginava que se podia querer como amigo a um homem bom, como se considerada,<br \/>\n    embora feio, mas que seria preciso ser belo e sobretudo excepcional para despertar<br \/>\n    amor igual ao que ele sentia por Kitty.<\/p>\n<p> Ouvira dizer que as mulheres muitas vezes se enamoravam de homens vulgares,<br \/>\n    mas n&atilde;o acreditava nisso, pois julgava os demais por si, e ele s&oacute;<br \/>\n    se sentia capaz de amar uma mulher bonita, misteriosa e original.<\/p>\n<p>No entanto, ap&oacute;s dois meses sozinho na aldeia, convencera se de que<br \/>\n    o sentimento que dele se apossara nada tinha a ver com os amores que conhecera<br \/>\n    na adolesc&ecirc;ncia, uma vez que lhe era imposs&iacute;vel sossegar e viver<br \/>\n    na ignor&acirc;ncia de Kitty vir a ser ou n&atilde;o sua mulher Tamb&eacute;m<br \/>\n    se persuadira de que a fam&iacute;lia nenhuma raz&atilde;o tinha para o repelir<br \/>\n    Partiu, pois, para Moscovo, no intuito de fazer o seu pedido e de se casar,<br \/>\n    na hip&oacute;tese de um bom acolhimento Caso contr&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    podia imaginar quais as conseq&uuml;&ecirc;ncias de uma resposta negativa.<\/p>\n<h4> <a name=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII<\/a><\/h4>\n<p>Levine chegou a Moscovo no comboio da manh&atilde; e hospedou se em casa<br \/>\n    do irm&atilde;o mais velho, Kosnichev Assim que mudou de roupa, entrou no<br \/>\n    gabinete do irm&atilde;o disposto a expor lhe os motivos da sua viagem e a<br \/>\n    pedir lhe conselho Kosnichev, por&eacute;m, n&atilde;o estava s&oacute; Recebia,<br \/>\n    na ocasi&atilde;o, um professor de filosofia que viera de Karkov na inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de esclarecer uma quest&atilde;o grave que entre ele surgira acerca de um<br \/>\n    muito importante problema de filosofia O professor sustentava uma luta encarni&ccedil;ada<br \/>\n    com os materialistas e S&eacute;rgio Kosnichev, que a acompanhava interessado,<br \/>\n    escrevera lhe expondo os pr&oacute;prios pontos de vista depois de ler o seu<br \/>\n    &uacute;ltimo artigo increpava-o por fazer demasiadas concess&otilde;es ao<br \/>\n    maternalismo. O professor apresentara se imediatamente em Moscovo para discutir<br \/>\n    o assunto. Tratava se de uma quest&atilde;o actual. Existe um limite entre<br \/>\n    os fen&ocirc;menos ps&iacute;quicos e os fen&ocirc;menos fisiol&oacute;gicos?<br \/>\n    Se existe, onde est&aacute;?<\/p>\n<p>S&eacute;rgio Ivanovitch acolheu o irm&atilde;o com o sorriso afectuoso e<br \/>\n    frio com que costumava acolher a todos, e, depois de o apresentar ao professor,<br \/>\n    prosseguiu com este a conversa interrompida.<\/p>\n<p> O professor, um homenzinho de &oacute;culos, de testa estreita, calara se<br \/>\n    por momentos para cumprimentar Levine, continuando em seguida o seu discurso<br \/>\n    sem lhe prestar a m&iacute;nima aten&ccedil;&atilde;o Levine sentou se, &agrave;<br \/>\n    espera de que o professor se fosse, mas n&atilde;o tardou a interessar se<br \/>\n    tamb&eacute;m pela discuss&atilde;o.<\/p>\n<p> J&aacute; havia encontrado nas revistas artigos em que se falava do assunto<br \/>\n    em discuss&atilde;o, interessado que estava em ampliar os seus conhecimentos<br \/>\n    das ci&ecirc;ncias sociais Estudara ci&ecirc;ncias naturais, mas nunca estabelecera<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o entre as conclus&otilde;es da ci&ecirc;ncia sobre as<br \/>\n    origens do homem, os reflexos, a biologia, a sociedade e as quest&otilde;es<br \/>\n    que ultimamente o preocupavam cada vez mais, isto &eacute;, o sentido da vida<br \/>\n    e o significado da morte.<\/p>\n<p> Ao ouvir a discuss&atilde;o de S&eacute;rgio Ivanovitch com o professor,<br \/>\n    reparou que eles relacionavam os problemas cient&iacute;ficos com os que diziam<br \/>\n    respeito &agrave; alma V&aacute;rias vezes abordaram tais quest&otilde;es,<br \/>\n    mas, ao chegarem ao ponto mais importante, na opini&atilde;o de Levine, desviavam<br \/>\n    se imediatamente e voltavam a aprofundar, no dom&iacute;nio das subtis subdivis&otilde;es,<br \/>\n    as cr&iacute;ticas, as cita&ccedil;&otilde;es, as alus&otilde;es, as refer&ecirc;ncias<br \/>\n    &agrave;s opini&otilde;es autorizadas, ficando ele sem perceber coisa alguma.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso concordar com Keiss &#8212; dizia S&eacute;rgio<br \/>\n    Ivanovitch com a sua peculiar clareza, o seu rigor de express&atilde;o e elegante<br \/>\n    dic&ccedil;&atilde;o &#8212; em que o conceito que tenho do mundo exterior<br \/>\n    deriva das sensa&ccedil;&otilde;es A ideia<\/p>\n<p> fundamental do ser n&atilde;o a recebo atrav&eacute;s das sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pois n&atilde;o existe &oacute;rg&atilde;o nenhum especial para a sua transmiss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas Wurts, Knauts e Pripasov responder-lhe ao que a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    que o senhor tem do ser deriva do conjunto de todas as sensa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Wurts afirma mesmo que sem a sensa&ccedil;&atilde;o, a consci&ecirc;ncia do<br \/>\n    ser n&atilde;o existe.<\/p>\n<p> &#8212; Eu afirmo o contr&aacute;rio &#8212; principiou S&eacute;rgio Ivanovitch.<\/p>\n<p>Neste momento, por&eacute;m, Levine, pensando que eles se iam afastar do<br \/>\n    ponto capital uma vez mais, resolveu formular ao professor a seguinte pergunta:<br \/>\n    &#8212; Por conseguinte, quando os meus sentidos se aniquilam e o meu corpo<br \/>\n    morre, n&atilde;o h&aacute; mais exist&ecirc;ncia poss&iacute;vel? O professor,<br \/>\n    despeitado e como que chocado por aquela interrup&ccedil;&atilde;o, fitou<br \/>\n    o estranho interrogador, que mais parecia um r&uacute;stico do que um fil&oacute;sofo,<br \/>\n    desviando em seguida os olhos para S&eacute;rgio Ivanovitch, como a perguntar-lhe:<br \/>\n    &laquo;Valer&aacute; esta pergunta uma resposta?&raquo; S&eacute;rgio Ivanovitch,<br \/>\n    no entanto, que estava longe de falar com a intransig&ecirc;ncia e a persuas&atilde;o<br \/>\n    com que falava o professor, e cujas ideias eram suficientemente desenvolvidas<br \/>\n    para poder responder a esta pergunta e compreender o ponto de vista simplista<br \/>\n    e natural com que ela fora feita, sorriu, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o podemos responder a essa pergunta&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o temos dados &#8212; afirmou o professor, e prosseguiu<br \/>\n    com os seus argumentos. &#8212; N&atilde;o. Observo que, se, como afirma Pripasov,<br \/>\n    as sensa&ccedil;&otilde;es se fundam nas impress&otilde;es, devemos distinguir,<br \/>\n    de maneira rigorosa, estes dois conceitos.<\/p>\n<p> Levine deixou de estar &agrave; escuta, e esperou que o professor se retirasse.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">CAP&Iacute;TULO VIII<\/a><\/h4>\n<p>Quando o professor saiu, S&eacute;rgio Ivanovitch dirigiu-se ao irm&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Gostei muito de ter ver. Vais demorar-te? Que tal a herdade? Levine<br \/>\n    sabia que ao irm&atilde;o n&atilde;o interessavam as terras e que por mera<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia se informava da herdade, por isso limitou-se a falar-lhe<br \/>\n    na venda do trigo e no dinheiro.<\/p>\n<p>Teria querido falar-lhe na inten&ccedil;&atilde;o que tinha de contrair<\/p>\n<p> casamento e pedir-lhe conselho, decidido como estava a casar-se, mas quando<br \/>\n    viu S&eacute;rgio Ivanovitch e ouviu a sua conversa com o professor, quando<br \/>\n    atentou no tom involuntariamente protector com que ele se lhe dirigia a prop&oacute;sito<br \/>\n    da administra&ccedil;&atilde;o da propriedade (n&atilde;o tinham feito partilhas<br \/>\n    das terras herdadas da m&atilde;e e Levine era quem as administrava), percebeu<br \/>\n    que n&atilde;o podia falar com o irm&atilde;o acerca dos seus projectos, pois<br \/>\n    ele n&atilde;o os tomaria em considera&ccedil;&atilde;o como desejaria Levine.<\/p>\n<p> &#8212; E que tal o vosso zemstvo? &#8212; perguntou S&eacute;rgio Ivanovitch,<br \/>\n    que mostrava grande interesse por esse organismo, atribuindo-lhe muita import&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Se queres que te diga, n&atilde;o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como?&#8230; Pois n&atilde;o eras membro da administra&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o sou; pedi a demiss&atilde;o, j&aacute;<br \/>\n    deixei de assistir &agrave;s reuni&otilde;es &#8212; replicou Levine.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; pena! &#8212; lamentou S&eacute;rgio Ivanovitch, de sobrecenho<br \/>\n    carregado. Para se justificar, Levine contou-lhe o que costumava suceder nas<br \/>\n    reuni&otilde;es de seu distrito.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; sempre a mesma coisa! &#8212; interrompeu S&eacute;rgio<br \/>\n    Ivanovitch. &#8212; Somos sempre assim, n&oacute;s, russos! Talvez seja um<br \/>\n    bom tra&ccedil;o do nosso temperamento sermos capazes de reconhecer os nossos<br \/>\n    defeitos. Mas exageramos, consolando-nos com a ironia que sempre temos na<br \/>\n    ponta da l&iacute;ngua. Apenas te direi que se concedessem direitos como os<br \/>\n    que concedem as nossas institui&ccedil;&otilde;es do zemstvo a qualquer outro<br \/>\n    povo europeu, por exemplo, aos Alem&atilde;es ou aos Ingleses, acabariam por<br \/>\n    obter a liberdade por meio deles. N&oacute;s, pelo contr&aacute;rio, apenas<br \/>\n    sabemos zombar dessas coisas.<\/p>\n<p> &#8212; Que havemos de fazer? &#8212; disse Levine, como que a desculpar-<br \/>\n    se. &#8212; Foi a minha &uacute;ltima prova. Dediquei-me a ela com toda a<br \/>\n    minha alma, mas n&atilde;o posso, n&atilde;o sou capaz.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; que n&atilde;o sejas capaz, encaras mal o assunto<br \/>\n    &#8212; replicou S&eacute;rgio Ivanovitch.<\/p>\n<p>&#8212; Talvez &#8212; respondeu Levine, desanimado.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes que o nosso irm&atilde;o Nicolau est&aacute; aqui outra vez?<\/p>\n<p>Nicolau, o irm&atilde;o mais velho de Constantino Levine e g&ecirc;meo de<br \/>\n    S&eacute;rgio Ivanovitch, era um homem perdido. Dissipara grande parte da<br \/>\n    fortuna, tinha rela&ccedil;&otilde;es com pessoas extravagantes e de m&aacute;<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o falava com os irm&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; Que dizes? &#8212; exclamou Levine, horrorizado. &#8212; Como soubeste?<\/p>\n<p> &#8212; Prokofi viu-o na rua.<\/p>\n<p>&#8212; Aqui em Moscovo? Onde mora? Sabes?<\/p>\n<p>Levine levantou-se, como que disposto a sair imediatamente.<\/p>\n<p>&#8212; Lamento ter-te dito &#8212; replicou S&eacute;rgio Ivanovitch, abanando<br \/>\n    a cabe&ccedil;a perante a agita&ccedil;&atilde;o do irm&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Mandei averiguar onde vive e remeti-lhe a letra de Trubine, que eu paguei.<br \/>\n    Eis o que ele me respondeu.<\/p>\n<p> &#8212; S&eacute;rgio Ivanovitch estendeu ao irm&atilde;o um papel que estava<br \/>\n    em cima da mesa, debaixo de um pesa-pap&eacute;is. Levine leu o bilhete, escrito<br \/>\n    com uma letra esquisita, que lhe era familiar:<\/p>\n<p>Peco-lhes encarecidamente que me deixem em paz. &Eacute; a &uacute;nica coisa<br \/>\n    que exijo dos meus am&aacute;veis irm&atilde;os.<\/p>\n<p> <strong>NICOLAU LEVINE<\/strong><\/p>\n<p>Depois de ler o bilhete, Levine permaneceu diante do irm&atilde;o com o papel<br \/>\n    entre os dedos, sem levantar a cabe&ccedil;a. Na sua alma debatia-se o desejo<br \/>\n    de esquecer o irm&atilde;o infeliz e a consci&ecirc;ncia de que tal atitude<br \/>\n    n&atilde;o era correcta &#8212; Pelo visto, pretende ofender me &#8212; prosseguiu<br \/>\n    S&eacute;rgio Ivanovitch &#8212;, mas n&atilde;o o consegue Desejaria ajud&aacute;-lo<br \/>\n    com toda a minha alma, sei, por&eacute;m, que &eacute; imposs&iacute;vel &#8212;<br \/>\n    Sim, sim &#8212; replicou Levine &#8212;Compreendo-te e aprecio o teu procedimento<br \/>\n    para com ele Mas eu irei procur&aacute;-lo &#8212; Pois vai, se queres, embora<br \/>\n    n&atilde;o te aconselhe a faz&ecirc;-lo N&atilde;o receio pelo que me diz<br \/>\n    respeito, n&atilde;o poder&aacute; indispor se comigo Mas n&atilde;o o aconselho<br \/>\n    por ti Enfim, faz o que entenderes &#8212; Talvez seja imposs&iacute;vel ajud&aacute;-lo,<br \/>\n    mas sinto, principalmente neste momento (claro que se trata de outra coisa)<br \/>\n    que n&atilde;o possa ficar de bra&ccedil;os cruzados &#8212; A verdade &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o o compreendo &#8212; disse S&eacute;rgio Ivanovitch &#8212;<br \/>\n    A &uacute;nica coisa que compreendo &eacute; essa li&ccedil;&atilde;o de humildade<br \/>\n    Principiei a considerar de outra maneira, com mais indulg&ecirc;ncia, aquilo<br \/>\n    a que se costuma chamar inf&acirc;mia, desde que o nosso irm&atilde;o Nicolau<br \/>\n    tomou este caminho Bem sabes o que ele fez<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; horr&iacute;vel! &Eacute; horr&iacute;vel! &#8212; repetiu<br \/>\n    Levine.<\/p>\n<p>Quando o criado de S&eacute;rgio Ivanovitch lhe deu o endere&ccedil;o de<br \/>\n    Nicolau, Levine estava disposto a procur&aacute;-lo imediatamente, mas, depois<br \/>\n    de reflectir alguns instantes, decidiu adiar para a noite essa visita Antes<\/p>\n<p> de mais nada, para tranq&uuml;ilidade de esp&iacute;rito, queria resolver<br \/>\n    o assunto que o trouxera a Moscovo De casa de Kosnichev dirigiu-se &agrave;<br \/>\n    reparti&ccedil;&atilde;o de Stepane Arkadievitch e depois de se informar acerca<br \/>\n    dos Tchebatski, encaminhou se para o local onde aquele lhe dissera que podia<br \/>\n    encontrar Kitty.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">CAP&Iacute;TULO IX<\/a><\/h4>\n<p>&Agrave;s quatro da tarde, Levine, com o cora&ccedil;&atilde;o a latejar,<br \/>\n    apeou se de um carro de pra&ccedil;a &agrave; porta do Jardim Zool&oacute;gico<br \/>\n    e dirigiu-se por uma das &aacute;leas que levavam &agrave; pista de patinagem,<br \/>\n    certo de ali encontrar Kitty, pois vira a carruagem dos Tcherbatski &agrave;<br \/>\n    entrada do parque.<\/p>\n<p> Era um dia claro e frio Junto &agrave; porta havia filas de carruagens e<br \/>\n    de tren&oacute;s, de cocheiros e de pol&iacute;cias O p&uacute;blico, bem<br \/>\n    vestido, com seus chap&eacute;us que resplandeciam ao sol brilhante, agitava-se<br \/>\n    junto aos port&otilde;es e pelas alamedas limpas de neve, no meio das casinhas<br \/>\n    de estilo russo com os seus adornos esculpidos As velhas e frondosas b&eacute;tulas<br \/>\n    do jardim, cujos ramos pendiam sob a neve, pareciam engalanadas de vestes<br \/>\n    novas e solenes<\/p>\n<p>Levine caminhava pela &aacute;lea de patinagem dizendo de si para consigo.<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o devo emocionar-me, preciso de estar sereno. Que &eacute;<br \/>\n    isso? Cala-te, tonto!&raquo;, acrescentava, dirigindo-se ao seu pr&oacute;prio<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o E quanto mais se esfor&ccedil;ava por tranq&uuml;ilizar-se,<br \/>\n    tanto mais emocionado se sentia Algu&eacute;m o cumprimentou, mas Levine nem<br \/>\n    sequer o reconheceu. Aproximou se dos relevos do gelo, de onde os tren&oacute;s<br \/>\n    se precipitavam, para voltarem a subir tirados por correntes, num grande ru&iacute;do<br \/>\n    de ferros. No meio de todo aquele tumulto ouviam-se vozes alegres Andou mais<br \/>\n    uns passos, at&eacute; encontrar a pista, e imediatamente no meio dos patinadores<br \/>\n    reconheceu Kitty.<\/p>\n<p> A alegria e o temor que de repente lhe inundaram o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revelaram-lhe imediatamente a presen&ccedil;a dela. De facto, Kitty, no extremo<br \/>\n    oposto da pista de patinagem, falava com uma senhora.<\/p>\n<p> Nada a distinguia das pessoas que a rodeavam, quer na atitude, quer no traje<br \/>\n    Levine, no entanto, logo a reconheceu no meio da multid&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    distintamente como reconheceria uma rosa num ramo de urtigas. Parecia tudo<br \/>\n    iluminar, dir-se-ia um sorriso que tudo fizesse refulgir &agrave; sua volta.<br \/>\n    &laquo;Ousarei, realmente, descer at&eacute; &agrave; pista e aproximar me<br \/>\n    dela?&raquo;, pensou Levine. O lugar onde estava Kitty parecia-lhe um santu&aacute;rio<br \/>\n    inacess&iacute;vel e por momentos sentiu tanto medo que pensou em fugir. Teve<\/p>\n<p> de fazer um grande esfor&ccedil;o para se convencer de que Kitty, rodeada<br \/>\n    como estava por toda a esp&eacute;cie de gente, n&atilde;o podia achar estranho<br \/>\n    que tamb&eacute;m ele ali aparecesse. Desceu at&eacute; &agrave; pista, evitando<br \/>\n    olh&aacute;-la de frente, como se ela fosse o Sol, mas, sol que era, tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o precisava de olhar para v&ecirc;-la.<\/p>\n<p> Era o dia e a hora em que todas as pessoas do mesmo n&iacute;vel social<br \/>\n    se encontravam semanalmente ali na patinagem. Havia excelentes patinadores,<br \/>\n    que exibiam as suas habilidades, e aprendizes que ensaiavam, atr&aacute;s<br \/>\n    dos pequenos tren&oacute;s, os seus primeiros passos t&iacute;midos e vacilantes.<br \/>\n    Jovens e velhos, todos se entregavam, por quest&atilde;o de higiene, ao mesmo<br \/>\n    exerc&iacute;cio. Afigurava-se a Levine que todos eles eram seres eleitos<br \/>\n    dos deuses, s&oacute; pelo facto de se encontrarem junto dela Perseguiam na,<br \/>\n    ultrapassavam na, interpelavam-na numa completa indiferen&ccedil;a, divertindo<br \/>\n    se independentemente dela e como se a &uacute;nica coisa que lhes importasse<br \/>\n    fosse a excelente pista e o tempo &oacute;ptimo. Nicolau Tcherbatski, o primo<br \/>\n    de Kitty, de casaco curto, cal&ccedil;a justa, e de patins, descansava num<br \/>\n    banco Ao ver Levine, gritou-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;, primeiro patinador da R&uacute;ssia! Quando chegaste?<br \/>\n    O gelo est&aacute; &oacute;ptimo. Cal&ccedil;a os patins.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o os trouxe &#8212; replicou Levine, surpreendido com semelhante<br \/>\n    aud&aacute;cia e desenvoltura diante de Kitty, sem a perder de vista um s&oacute;<br \/>\n    instante, embora n&atilde;o olhasse para ela Sentia que o sol se ia aproximando<br \/>\n    Kitty, que estava num dos extremos da pista, principiara a deslizar na sua<br \/>\n    direc&ccedil;&atilde;o, assustada, ao que parecia, colocando os p&egrave;zinhos,<br \/>\n    cal&ccedil;ados com botas altas, em posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o muito<br \/>\n    firme sobre a superf&iacute;cie do gelo. Um rapazinho, vestido &agrave; maneira<br \/>\n    russa, gesticulando muito e todo inclinado para diante, procurava ultrapass&aacute;-la<br \/>\n    Kitty patinava com pouca seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tirara as m&atilde;os do regalo pendente do pesco&ccedil;o, como se se preparasse<br \/>\n    para cair, e olhando para Levine, que acabava de descobrir, sorria assustada.<br \/>\n    Ao findar a volta, com um impulso do p&egrave;zinho flex&iacute;vel, deslizou<br \/>\n    at&eacute; junto de Tcherbatski, e, agarrando-se a ele, sorrindo, cumprimentou<br \/>\n    Levine com um aceno de cabe&ccedil;a. Ainda era mais encantadora do que ele<br \/>\n    imaginara. Quando pensava em Kitty, Levine podia contempl&aacute;-la, de repente,<br \/>\n    toda inteira, e sobretudo &agrave;quela sua encantadora cabecinha loura, t&atilde;o<br \/>\n    graciosamente pousada nos jovens e esbeltos ombros, com aquele seu ar de menina,<br \/>\n    cheia de candura e bondade. O contraste entre a gra&ccedil;a juvenil do rosto<br \/>\n    e a beleza feminina do busto davam lhe um encanto todo especial, que Levine<br \/>\n    muito apreciava. Mas o que sempre o assombrava nela eram os olhos, t&iacute;midos,<br \/>\n    serenos e sinceros, e aquele sorriso que o transportava a um mundo de magia,<br \/>\n    em que se sentia enternecido e dulcificado como s&oacute; raras vezes se lembrava<\/p>\n<p> de se ter sentido na primeira inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; esta aqui h&aacute; muito tempo? &#8212; perguntou Kitty,<br \/>\n    estendendo-lhe a m&atilde;o &#8212; Obrigada &#8212; acrescentou, quando Levine<br \/>\n    apanhou o lencinho que lhe ca&iacute;ra do rega&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc;? N&atilde;o, h&aacute; pouco. Cheguei ontem, quer dizer<br \/>\n    hoje &#8212; respondeu ele, que n&atilde;o percebera logo a pergunta, em virtude<br \/>\n    da emo&ccedil;&atilde;o que o assaltava &#8212; Pensava em ir a sua casa &#8212;<br \/>\n    prosseguiu, mas, ao lembrar se do motivo por que procurara Kitty, perturbou<br \/>\n    se, enrubescendo &#8212; N&atilde;o sabia que patinava Patina admiravelmente.<\/p>\n<p>Kitty fixou Levine com aten&ccedil;&atilde;o, como se desejasse compreender<br \/>\n    o motivo do seu embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; O seu elogio &eacute; estimulante. &Eacute; tradicional, aqui, a<br \/>\n    sua fama de ser o melhor patinador &#8212; observou ela, enquanto com a m&atilde;ozinha<br \/>\n    enluvada de preto sacudia as agulhas de gelo do regalo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, houve tempo em que patinar me apaixonava. Queria chegar &agrave;<br \/>\n    perfei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Parece que se apaixonava por tudo &#8212; observou Kitty, sorrindo<br \/>\n    &#8212; Gostaria muito de v&ecirc;-lo patinar. Calce os patins e vamos patinar<br \/>\n    juntos.<\/p>\n<p>&laquo;Patinar juntos! Seria poss&iacute;vel?&raquo;, pensava Levine com<br \/>\n    olhos cravados em Kitty.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; j&aacute; &#8212; e foi cal&ccedil;ar os patins<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; muito tempo que n&atilde;o aparecia por aqui &#8212; observou<br \/>\n    o em pregado da pista de patinagem, enquanto lhe segurava o p&eacute; para<br \/>\n    firmar o patim &#8212; Ningu&eacute;m patina como o senhor. Est&aacute; bem<br \/>\n    assim? &#8212; perguntou lhe, apertando a correia.<\/p>\n<p> &#8212; Esta bem, esta bem, depressa, por favor &#8212; respondeu lhe Levine,<br \/>\n    reprimindo a custo o sorriso de felicidade que, a pesar seu, lhe transparecia<br \/>\n    no semblante &#8212; &laquo;Isto &eacute; vida? Isto &eacute; a felicidade?&raquo;,<br \/>\n    pensava &laquo;Disse pintos, vamos patinar juntos. Digo lhe agora? Mas agora,<br \/>\n    justamente porque me sinto feliz, &eacute; que receio dizer lho, feliz como<br \/>\n    estou, cheio de esperan&ccedil;a. Mas &eacute; preciso. &Eacute; preciso!<br \/>\n    Abaixo a timidez!&raquo;<\/p>\n<p>Levine p&ocirc;s se de p&eacute;, despiu o capote e, tomando impulso por<br \/>\n    cima do gelo crespo, logo ali junto ao pavilh&atilde;o surgiu na superf&iacute;cie<br \/>\n    lisa da pista, deslizando sem esfor&ccedil;o, como se acelerar, retardar ou<br \/>\n    dirigir a carreira, tudo dependesse da sua vontade. Aproximou se de Kitty<br \/>\n    com timidez, mas o sorriso desta tranq&uuml;ilizou o de novo.<\/p>\n<p>Kitty deu lhe a m&atilde;o e deslizaram juntos, acelerando a marcha. Quanto<br \/>\n    mais depressa iam mais ele lhe apertava a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Consigo aprenderia a patinar mais depressa, n&atilde;o sei por qu&ecirc;,<\/p>\n<p> mas sinto me segura na sua companhia &#8212; disse lhe ela.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tamb&eacute;m me sinto seguro quando se ap&oacute;ia em mim &#8212;<br \/>\n    replicou Levine, corando, assustado com a pr&oacute;pria ousadia. E, efectivamente,<br \/>\n    mal pronunciou estas palavras, de repente, como se o Sol se escondesse atr&aacute;s<br \/>\n    das nuvens, o rosto de Kitty anuviou se e uma ruga se lhe desenhou na testa<br \/>\n    Levine sabia que esta altera&ccedil;&atilde;o no rosto de Kitty correspondia<br \/>\n    a uma concentra&ccedil;&atilde;o do pensamento.<\/p>\n<p>&#8212; Que tem? Est&aacute; claro que n&atilde;o tenho o direito de fazer<br \/>\n    lhe esta pergunta &#8212; disse ele, precipitadamente.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;? N&atilde;o, n&atilde;o tenho nada. &#8212; respondeu<br \/>\n    Kitty, com uma express&atilde;o fria, acrescentando &#8212; J&aacute; viu<br \/>\n    Mademoiselle Linon? &#8212; N&atilde;o, ainda n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Pois v&aacute; lhe falar, aprecia o muito.<\/p>\n<p>&laquo;Que &eacute; isto? Ofend&ecirc;-la ia? Meu Deus, ajuda me!&raquo;,<br \/>\n    suspirou Levine, e dirigiu se, veloz, para o banco onde estava a velha francesa,<br \/>\n    toda carac&oacute;is grisalhos, que o acolheu como a um velho amigo, mostrando<br \/>\n    lhe, ao sorrir, a dentadura posti&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Estamos crescendo &#8212; observou ela, enquanto mostrava Kitty com<br \/>\n    os olhos &#8212; e envelhecendo Tiny bear j&aacute; &eacute; maior &#8212;<br \/>\n    continuou ela, rindo, recordando lhe que costumava chamar, &agrave;s tr&ecirc;s<br \/>\n    irm&atilde;s, os tr&ecirc;s ursinhos, os ursinhos de um conto ingl&ecirc;s<br \/>\n    &#8212; Lembra se de que costumava cham&aacute;-las assim? Levine nem de longe<br \/>\n    se recordava do gracejo, mas a velha preceptora havia dez anos que lhe achava<br \/>\n    muita gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, v&aacute;, v&aacute; patinar, n&atilde;o fique aqui N&atilde;o<br \/>\n    acha que a nossa Kitty j&aacute; patina muito bem?<\/p>\n<p>Quando Levine voltou, correndo, para junto de Kitty, no rosto dela j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o havia severidade, e os seus olhos olhavam sinceros e suaves como<br \/>\n    antes. Todavia, Levine julgou notar lhe na afabilidade um tom especial de<br \/>\n    serenidade premeditada. E sentiu se triste. Depois de conversar com ele acerca<br \/>\n    da velha preceptora e das suas excentricidades, Kitty interrogou o sobre a<br \/>\n    sua vida.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; poss&iacute;vel que n&atilde;o se aborre&ccedil;a durante<br \/>\n    o Inverno na aldeia?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o me aborre&ccedil;o, estou sempre muito ocupado<br \/>\n    &#8212; respondeu Levine, sentindo que ia acontecer o mesmo que no princ&iacute;pio<br \/>\n    do Inverno, pois ela, usando aquele seu tom tranq&uuml;ilo, obrigava-o a manter-se<br \/>\n    no mesmo diapas&atilde;o, do qual Levine n&atilde;o seria capaz de livrar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Pensa ficar muito tempo em Moscovo? &#8212; perguntou Kitty.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda n&atilde;o sei &#8212; disse Levine, sem prestar aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao que dizia. Pensava que se se tornasse a deixar dominar por aquele seu modo<br \/>\n    sereno, amistoso, voltaria para, a aldeia sem nada decidir, e resolveu rebelar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Como n&atilde;o sabe?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o sei. Depende de si &#8212; disse, logo assustado<br \/>\n    com as palavras que pronunciara.<\/p>\n<p> Kitty ou n&atilde;o ouviu ou n&atilde;o quis ouvir essas palavras. Fosse<br \/>\n    como fosse, pareceu trope&ccedil;ar, bateu duas vezes com o p&egrave;zinho<br \/>\n    no ch&atilde;o e afastou-se, r&aacute;pida. Ao chegar junto de Mademoiselle<br \/>\n    Linon disse-lhe qualquer coisa e dirigiu-se ao pavilh&atilde;o onde as senhoras<br \/>\n    cal&ccedil;avam e descal&ccedil;avam os patins.<\/p>\n<p> &laquo;Meu Deus, que lhe fiz eu? Meu Deus, ajuda-me, ilumina-me!&raquo;,<br \/>\n    dizia consigo mesmo Levine, como que rezando; e como se, ao mesmo tempo, sentisse<br \/>\n    necessidade de um exerc&iacute;cio violento, p&ocirc;s-se a deslizar sobre<br \/>\n    os patins, descrevendo c&iacute;rculos atr&aacute;s de c&iacute;rculos.<\/p>\n<p>Entretanto um dos jovens, o melhor patinador de entre os novos, saiu do caf&eacute;,<br \/>\n    de cigarro na boca e os patins cal&ccedil;ados. Ganhando impulso, desceu ruidosamente<br \/>\n    a escada, saltando degrau a degrau, prosseguindo, depois, sobre o gelo, sem<br \/>\n    mudar sequer a posi&ccedil;&atilde;o livre das m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, um novo truque! &#8212; exclamou Levine, e imediatamente galgou<br \/>\n    os degraus, disposto a fazer o mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; Cuidado, veja l&aacute; se se magoa. &Eacute; preciso pr&aacute;tica<br \/>\n    &#8212; gritou-lhe Nicolau Tcherbatski.<\/p>\n<p>Levine trepou at&eacute; ao patamar, afastou-se para ganhar o maior impulso<br \/>\n    poss&iacute;vel e deixou-se deslizar, mantendo o equil&iacute;brio com a ajuda<br \/>\n    das m&atilde;os. No &uacute;ltimo degrau trope&ccedil;ou, mas, ro&ccedil;ando<br \/>\n    apenas de leve a superf&iacute;cie do gelo, fez um movimento r&aacute;pido,<br \/>\n    ergueu-se e, soltando uma gargalhada, precipitou-se na pista.<\/p>\n<p> &laquo;Que rapaz agrad&aacute;vel&raquo;, pensou Kitty, que naquele momento<br \/>\n    sa&iacute;a do pavilh&atilde;o com Mademoiselle Linon, seguindo Levine com<br \/>\n    os olhos e sorrindo, doce e carinhosamente, como se se tratasse de um irm&atilde;o<br \/>\n    querido. &laquo;Teria eu procedido realmente mal? Dizem que isto &eacute;<br \/>\n    coqueter&iacute;e! Sei que n&atilde;o &eacute; dele que eu gosto, mas nem<br \/>\n    por isso deixo de me sentir bem na sua companhia. &Eacute; t&atilde;o simp&aacute;tico&#8230;<br \/>\n    Mas por que me teria ele dito aquilo?&#8230;&raquo;, pensava ela.<\/p>\n<p>Ao ver que Kitty se retirava, e que a m&atilde;e a aguardava na escada, Levine,<br \/>\n    muito afogueado por causa do exerc&iacute;cio violento que fizera, deteve-se,<br \/>\n    pensativo. E desembara&ccedil;ando-se dos patins foi no encal&ccedil;o das<br \/>\n    senhoras at&eacute; ao port&atilde;o do parque.<\/p>\n<p> &#8212; Muito prazer em v&ecirc;-lo. Recebemos todas as quintas-feiras,<br \/>\n    como sempre &#8212; disse a princesa.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje, por conseguinte?<\/p>\n<p>&#8212; Dar-nos-&aacute; muito prazer a sua presen&ccedil;a &#8212; replicou<br \/>\n    a princesa secamente.<\/p>\n<p>Esta frieza n&atilde;o agradou a Kitty, que, sem poder reprimir o desejo<br \/>\n    de suaviz&aacute;-la, se voltou para tr&aacute;s e num sorriso disse: &#8212;<br \/>\n    At&eacute; logo.<\/p>\n<p>Naquele momento, Stepane Arkadievitch, de chap&eacute;u &agrave; banda, rosto<br \/>\n    e olhos resplandecentes, entrava no parque com um ar alegre e triunfante.<br \/>\n    Ao aproximar-se, por&eacute;m, da sogra, respondeu, com uma express&atilde;o<br \/>\n    triste e contrita, &agrave; pergunta que esta lhe fazia sobre a sa&uacute;de<br \/>\n    de Dolly. Depois de ter falado com ela em voz baixa e desanimado, travou Levine<br \/>\n    pelo bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, vamo-nos embora? &#8212; exclamou. &#8212; Tenho pensado<br \/>\n    em ti todo este tempo, e estou muito contente, muito, que tenhas vindo &#8212;<br \/>\n    acrescentou, olhando-o nos olhos com uma express&atilde;o significativa.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, vamo-nos, vamo-nos &#8212; tornou-lhe Levine, sentindo-se feliz,<br \/>\n    no ouvido o cristal da voz que lhe dissera &laquo;at&eacute; logo&raquo; e<br \/>\n    nos olhos o sorriso que a acompanhara.<\/p>\n<p> &#8212; Aonde vamos? Ao Hotel de Inglaterra ou ao Ermitage?<\/p>\n<p>&#8212; Para mim d&aacute; no mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o vamos ao de Inglaterra &#8212; disse Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    escolhendo esse restaurante, porque, como era maior ali a sua d&iacute;vida<br \/>\n    do que no Ermitage, lhe parecia pouco decente evit&aacute;-lo. &#8212; Tens<br \/>\n    carro &agrave; tua espera? &Oacute;ptimo. Mandei o meu embora.<\/p>\n<p> Durante o trajecto os dois amigos conservaram-se calados. Levine pensava<br \/>\n    no que poderia significar aquela mudan&ccedil;a de express&atilde;o no rosto<br \/>\n    de Kitty, ora cheio de esperan&ccedil;a, ora desesperado e convencido de que<br \/>\n    eram insensatas as suas ilus&otilde;es. No entanto, sentia-se outro, em nada<br \/>\n    se parecia com o homem que fora antes do sorriso de Kitty e do seu &laquo;at&eacute;<br \/>\n    logo&raquo;.<\/p>\n<p> jantar.<\/p>\n<p> Por sua vez, Stepane Arkadievitch ia preparando a ementa do<\/p>\n<p> &#8212; Gostas de robalo? &#8212; perguntou a Levine ao chegarem.<\/p>\n<p>&#8212; Que dizes? &#8212; inquiriu por sua vez Levine. &#8212; De robalo?<br \/>\n    Gosto muit&iacute;ssimo.<\/p>\n<h4> <a name=\"10\">CAP&Iacute;TULO X<\/a><\/h4>\n<p>Quando entraram no restaurante, Levine n&atilde;o p&ocirc;de deixar de observar<br \/>\n    em Oblonski uma express&atilde;o especial, como que uma alegria contida, que<br \/>\n    se notava tanto no rosto como em todo o seu ser. Stepane Arkadievitch tirou<br \/>\n    o sobretudo e de chap&eacute;u &agrave; banda penetrou na sala de jantar,<br \/>\n    dando ordens aos sol&iacute;citos criados que o rodeavam todos de fraque e<br \/>\n    guardanapo debaixo do bra&ccedil;o. Cumprimentando para a direita e para.<br \/>\n    a esquerda os amigos que o acolhiam cheios de simpatia, como de costume, Oblonski<br \/>\n    aproximou-se do balc&atilde;o, onde bebeu um copo de vodka enquanto petiscava<br \/>\n    uns mariscos. Disse qualquer coisa &agrave; empregada francesa &#8212; toda<br \/>\n    pintada e enfeitada de fitas e rendas &#8212; que a fez rir a bom rir. Pelo<br \/>\n    seu lado, Levine n&atilde;o quis beber vodka, precisamente porque o incomodava<br \/>\n    aquela francesa, para ele uma mistura de cabelos posti&ccedil;os, de poudre<br \/>\n    de riz e vinaigre de toilette. Como se se tivesse aproximado de um lugar pestilento,<br \/>\n    afastou-se dali precipitadamente. A sua alma transbordava de Kitty e diante<br \/>\n    de si s&oacute; via os olhos dela irradiando ventura.<\/p>\n<p>&#8212; Por aqui, se faz favor, Excel&ecirc;ncia &#8212; disse um criado<br \/>\n    velho cujos enormes quadris n&atilde;o lhe deixavam ajustar as abas do fraque.<br \/>\n    &#8212; Fa&ccedil;a favor, Excel&ecirc;ncia &#8212; continuou, dirigindo-se<br \/>\n    tamb&eacute;m a Levine, em sinal de respeito por Oblonski.<\/p>\n<p>Estendeu rapidamente uma toalha limpa numa mesinha redonda, j&aacute; entoalhada,<br \/>\n    sobre a qual havia um candeeiro de bronze. E depois de aproximar da mesa as<br \/>\n    cadeiras forradas de veludo, quedou-se, o guardanapo numa das m&atilde;os,<br \/>\n    a lista na outra, aguardando as ordens de Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; Se Sua Excel&ecirc;ncia prefere um gabinete reservado, ter&aacute;<br \/>\n    um livre dentro de instantes. O pr&iacute;ncipe Galitzine est&aacute; ali<br \/>\n    com uma senhora, mas j&aacute; vai sair. Temos ostras frescas.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ostras!<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch ficou pensativo.<\/p>\n<p>&#8212; Que achas? E se alter&aacute;ssemos o plano, Levine? &#8212; disse,<br \/>\n    apontando com o dedo a ementa. No seu rosto havia uma grande indecis&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; S&atilde;o boas as ostras? Hem? &#8212; S&atilde;o de Flensburgo.<br \/>\n    Hoje, de Ostende, n&atilde;o h&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Tanto faz que sejam de Flensburgo. Mas, est&atilde;o frescas?<\/p>\n<p>&#8212; Recebemo-las ontem.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o principiamos pelas ostras e alteremos todo o plano.<br \/>\n    Hem?<\/p>\n<p> &#8212; Para mim &eacute; a mesma coisa. Do que eu gosto &eacute; dos stchi<br \/>\n    e da kacha; mas aqui n&atilde;o h&aacute; disso.<\/p>\n<p>&#8212; Deseja Vossa Excel&ecirc;ncia kacha &agrave; la russe? &#8212; perguntou<br \/>\n    o criado, inclinando-se para Levine, como uma aia se debru&ccedil;a para uma<br \/>\n    crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, realmente o que tu pedires estar&aacute; bem. Patinei<br \/>\n    muito e tenho fome. E n&atilde;o penses &#8212; acrescentou, ao ver que Oblonski<br \/>\n    parecia descontente &#8212; que n&atilde;o vou apreciar a tua escolha. Comerei<br \/>\n    com muito prazer.<\/p>\n<p> &#8212; Era o que faltava! Podes dizer o que quiseres, mas comer &eacute;<br \/>\n    um dos prazeres maiores da vida &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch. &#8212;<br \/>\n    Bom, pois vais trazer-nos ostras, duas&#8230; Ser&atilde;o poucas: tr&ecirc;s<br \/>\n    d&uacute;zias. Sopa de verdura&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Printani&egrave;re &#8212; adiantou-se o criado. Mas, ao que parecia,<br \/>\n    Stepane Arkadievitch n&atilde;o desejava dar-lhe o prazer de dar nomes franceses<br \/>\n    aos pratos.<\/p>\n<p>&#8212; De legumes, sabes? A seguir robalo com um molho e depois&#8230; rosbife,<br \/>\n    bem passado, hem! E por fim frango e conservas.<\/p>\n<p>O criado, ao lembrar-se que Stepane Arkadievitch tinha a mania de dar aos<br \/>\n    pratos nomes russos, n&atilde;o ousou interromp&ecirc;-lo mais. Uma vez escolhido<br \/>\n    o jantar, por&eacute;m, deu-se ao prazer de repetir, malicioso, toda a ementa<br \/>\n    &agrave; francesa: &laquo;Soupe printani&egrave;re, turbot sauce Beumarchais,<br \/>\n    poulard &agrave; l&#8217;estragon, mac&eacute;doine de fruits.&raquo; E acto<br \/>\n    cont&iacute;nuo, como que movido por uma mola, retirou a ementa e apresentou<br \/>\n    a lista dos vinhos a Stepane Arkadievicth.<\/p>\n<p>&#8212; Que vamos beber?<\/p>\n<p>&#8212; O que quiseres, mas n&atilde;o muito. Champanhe &#8212; disse Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Qu&ecirc;? Para come&ccedil;ar? &Eacute;, talvez tenhas raz&atilde;o.<br \/>\n    Gostas do r&oacute;tulo branco?<\/p>\n<p>&#8212; Cachet Blanc &#8212; corrigiu o criado.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, traz desse para as ostras. Depois veremos.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem. E que vinho de mesa deseja, Excel&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>&#8212; Traz-nos Nuits. N&atilde;o, antes o cl&aacute;ssico Chabits.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem. E posso servir-lhe o seu queijo, Excel&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, parmes&atilde;o. Ou preferes outro?<\/p>\n<p>&#8212; Tanto faz &#8212; respondeu Levine, sem poder conter o riso.<\/p>\n<p>O criado afastou-se correndo, com as abas do fraque apertadas atr&aacute;s,<br \/>\n    e da&iacute; a cinco minutos voltava, voando, com uma bandeja de ostras abertas<br \/>\n    nas suas conchas de n&aacute;car, e uma garrafa entre os dedos.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch desdobrou o guardanapo engomado, meteu uma das pontas<br \/>\n    no colete, apoiou os bra&ccedil;os e p&ocirc;s-se a comer as ostras.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o est&atilde;o nada mal &#8212; disse, enquanto ia arrancando,<br \/>\n    com uma faquinha de prata, das suas conchas nacaradas as ostras vivas, que<br \/>\n    devorava umas atr&aacute;s das outras. &#8212; N&atilde;o est&atilde;o nada<br \/>\n    mal &#8212; repetia, mirando, os olhos brilhantes, ora Levine, ora o criado.<\/p>\n<p> Levine tamb&eacute;m comeu ostras, embora preferisse p&atilde;o branco com<br \/>\n    queijo. Estava pasmado com Oblonski. O pr&oacute;prio criado, que desarrolhara<br \/>\n    a garrafa e deitara o espumoso vinho nas ta&ccedil;as de cristal, olhava para<br \/>\n    Oblonski com um sorriso de satisfa&ccedil;&atilde;o enquanto ajeitava o la&ccedil;o<br \/>\n    da gravata branca.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o gostas muito de ostras ou est&aacute;s preocupado? &#8212;<br \/>\n    perguntou Stepane Arkadievitch, virando a ta&ccedil;a.<\/p>\n<p>Oblonski desejava que Levine estivesse alegre. E efectivamente estava, mas<br \/>\n    sentia-se inibido. No seu estado de esp&iacute;rito incomodava-o aquele restaurante<br \/>\n    com os seus gabinetes reservados, em que se comia com mulheres, e aquela barafunda,<br \/>\n    bem como os bronzes, os espelhos, as luzes e os criados. Temia conturbar os<br \/>\n    belos sentimentos que tinha na alma.<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Sim, estou preocupado e al&eacute;m disso tudo isto me inibe<br \/>\n    &#8212; respondeu. &#8212; N&atilde;o podes calcular como este ambiente me<br \/>\n    parece estranho, a mim, um alde&atilde;o. &Eacute; um pouco como as unhas<br \/>\n    daquele senhor que eu vi na tua reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, reparei nisso, que as unhas do pobre Grimevitch te interessaram<br \/>\n    muito &#8212; disse Oblonski, rindo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, que queres? Procura compreender me, pondo te no meu lugar,<br \/>\n    adopta o ponto de vista de um homem que vive na aldeia. Ali procuramos ter<br \/>\n    as m&atilde;os para trabalhar com comodidade, por isso cortamos as unhas rentes,<br \/>\n    e &agrave;s vezes at&eacute; arrega&ccedil;amos as mangas. Aqui, pelo contrario,<br \/>\n    as pessoas deixam crescer as unhas o mais que podem e, &agrave; guisa de abotoaduras,<br \/>\n    usam uma esp&eacute;cie de pires para nada poderem fazer com as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch sorriu jovialmente.<\/p>\n<p>&#8212; Isso quer dizer apenas que n&atilde;o precisam de trabalhar com as<br \/>\n    m&atilde;os a cabe&ccedil;a lhes basta.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez. Mas, de qualquer forma, acho esquisito, da mesma maneira<br \/>\n    que n&atilde;o posso deixar de estranhar estarmos aqui, tu e eu, a comer ostras<br \/>\n    para despertar o apetite, ficando &agrave; mesa tempo infinito, quando na<br \/>\n    aldeia tratamos de comer o mais rapidamente poss&iacute;vel para voltarmos<br \/>\n    &agrave;s nossas ocupa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Claro. Mas &eacute; nisso mesmo que consiste a civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fazer com que tudo se transforme em prazer &#8212; replicou Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, se &eacute; esse o objectivo da civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prefiro ser selvagem.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; o &eacute;s, meu caro Todos os Levines o s&atilde;o.<\/p>\n<p>Levine suspirou. Lembrou se de seu irm&atilde;o Nicolau e, sentindo-se envergonhado<br \/>\n    e pesaroso, franziu as sobrancelhas. Mas Oblonski p&ocirc;s-se a falar-lhe<br \/>\n    de uma coisa que logo o distraiu.<\/p>\n<p>&#8212; Vais esta noite a casa dos Tcherbatski? &#8212; perguntou lhe com<br \/>\n    significativa express&atilde;o, enquanto afastava de si as rugosas conchas<br \/>\n    vazias, aproximando o queijo.<\/p>\n<p>&#8212; Irei sem falta. Embora tenha a impress&atilde;o de que a princesa<br \/>\n    me convidou de m&aacute; vontade &#8212; replicou Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Que id&eacute;ia! Tolices! S&atilde;o as maneiras dela. Eh, amigo,<br \/>\n    venha de l&aacute; a sopa! S&atilde;o os seus modos de grande dama. &#8212;<br \/>\n    disse Stepane Arkadievitch &#8212; Eu tamb&eacute;m irei. Mas antes tenho<br \/>\n    de ir ao ensaio do coro da condessa Bonina. Ent&atilde;o, como &eacute; que<br \/>\n    tu n&atilde;o h&aacute;s de ser um selvagem? Explica me, se fazes favor, por<br \/>\n    exemplo, o porqu&ecirc; do teu desaparecimento s&uacute;bito de Moscovo. Os<br \/>\n    Tcherbatski passavam a vida a perguntar por ti, como se eu soubesse. S&oacute;<br \/>\n    sei uma coisa que fazes sempre o contr&aacute;rio de toda a gente.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, tens raz&atilde;o, sou um selvagem &#8212; confirmou Levine,<br \/>\n    lenta mente e com emo&ccedil;&atilde;o &#8212; Mas n&atilde;o por me ter ido<br \/>\n    embora daqui e sim por ter voltado. Aqui estou outra vez.<\/p>\n<p>&#8212; Que feliz te sentes! &#8212; interrompeu o Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    fitando-o nos olhos.<\/p>\n<p> &#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; &laquo;Os cavalos fogosos conhecem-se pela marca e as pessoas apaixonadas<br \/>\n    pelos olhos&raquo; &#8212; declarou Stepane Arkadievitch. &#8212; O futuro<br \/>\n    pertence te &#8212; E tu j&aacute; s&oacute; tens o passado?<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; nada mais me resta sen&atilde;o digamos, o presente, e<br \/>\n    um presente onde nem tudo &eacute; cor-de-rosa.<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute; contigo?<\/p>\n<p>&#8212; As coisas n&atilde;o v&atilde;o bem. Mas n&atilde;o te quero falar<br \/>\n    de mim, tanto mais que n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel entrar em todos<br \/>\n    os pormenores &#8212; disse Stepane Arkadievitch &#8212; Bom, para que vieste<br \/>\n    a Moscovo? Olha, tu, muda estes pratos &#8212; gritou para o criado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o calculas? &#8212; replicou Levine, sem deixar de fitar<br \/>\n    Oblonski<\/p>\n<p> com os seus olhos profundos e luminosos.<\/p>\n<p>&#8212; Calculo, mas n&atilde;o me compete ser o primeiro a falar do assunto.<br \/>\n    Por isto podes imaginar se adivinho ou n&atilde;o &#8212; disse Oblonski,<br \/>\n    olhando para Levine enquanto sorria subtilmente.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, ent&atilde;o que achas? &#8212; perguntou Levine em voz<br \/>\n    tr&ecirc;mula e percebendo que lhe estremeciam os m&uacute;sculos da face<br \/>\n    &#8212; Que achas? Stepane Arkadievitch levou aos l&aacute;bios, lentamente,<br \/>\n    um copo de Chablis, enquanto continuava a olhar para Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Por mim, n&atilde;o desejaria outra coisa. Era o melhor que poderia<br \/>\n    suceder! &#8212; replicou.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o est&aacute;s enganado? Sabes do que estamos a falar?<br \/>\n    Achas que &eacute; poss&iacute;vel? &#8212; insistiu Levine, cravando os olhos<br \/>\n    no interlocutor.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que sim. Por que n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Realmente, achas isso poss&iacute;vel? Diz me tudo o que pensas?<br \/>\n    E se me espera uma recusa? Estou quase convencido que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Por qu&ecirc;? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch, sorrindo<br \/>\n    ante a inquieta&ccedil;&atilde;o de Levine.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; o que me parece &agrave;s vezes, e seria horr&iacute;vel<br \/>\n    para mim e para ela.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, em todo o caso, para ela n&atilde;o seria nada horr&iacute;vel.<br \/>\n    Qualquer jovem fica sempre lisonjeada quando a pedem em casamento.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas ela n&atilde;o &eacute; como as outras.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch sorriu. Compreendia perfeitamente o estado de esp&iacute;rito<br \/>\n    de Levine, sabia que para ele as mulheres do mundo se dividiam em duas classes<br \/>\n    a primeira inclu&iacute;a todas, excepto Kitty, e essas tinham todas as fraquezas<br \/>\n    humanas, sendo absolutamente vulgares, na segunda s&oacute; cabia ela, que<br \/>\n    n&atilde;o tinha fraqueza alguma e pairava muito acima de tudo o que era humano.<\/p>\n<p> &#8212; Espera, serve te de molho &#8212; disse, detendo a m&atilde;o de<br \/>\n    Levine, que repelia a molheira.<\/p>\n<p>Levine obedeceu, mas n&atilde;o deixou Stepane Arkadievitch comer em paz.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, espera, espera &#8212; disse ele. &#8212;&Eacute; preciso<br \/>\n    que compreendas que isto para mim &eacute; quest&atilde;o de vida ou de morte.<br \/>\n    Nunca falei com ningu&eacute;m a este respeito nem posso falar a ningu&eacute;m<br \/>\n    excepto contigo. Como v&ecirc;s, somos diferentes em tudo temos gostos e pontos<br \/>\n    de vista diversos, mas sei que &eacute;s meu amigo e que me compreendes, e<br \/>\n    por isso te<\/p>\n<p> aprecio muit&iacute;ssimo. Mas, por amor de Deus, diz-me toda a verdade..<\/p>\n<p>&#8212; Digo-te o que penso &#8212; respondeu Stepane Arkadievitch, sorrindo<br \/>\n    &#8212; e ainda te direi mais minha mulher &eacute; uma pessoa extraordin&aacute;ria<br \/>\n    &#8212; Oblonski suspirou ao lembrar se do estado das suas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com Dolly, e ap&oacute;s um breve sil&ecirc;ncio continuou &#8212; Tem o dom<br \/>\n    de prever os acontecimentos. Conhece as pessoas como se lhes lesse na alma.<br \/>\n    Mas isto n&atilde;o &eacute; tudo. Sabe o que vai acontecer, sobretudo tratando-se<br \/>\n    de casamentos. Por exemplo, predisse que a Chakovskoi casaria com o Brenteln.<br \/>\n    Ningu&eacute;m acreditava nisso, mas a verdade &eacute; que assim foi. E est&aacute;<br \/>\n    do teu lado.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o s&oacute; gosta de ti, como diz que Kitty h&aacute; de<br \/>\n    ser, seja de que maneira for, tua mulher.<\/p>\n<p> Ao ouvir estas palavras, o rosto de Levine iluminou se num sorriso que se<br \/>\n    aproximava das lagrimas de ternura.<\/p>\n<p>&#8212; Foi isso que ela disse? &#8212; exclamou &#8212; Sempre achei a tua<br \/>\n    mulher encantadora Bom, basta, n&atilde;o falemos mais no caso &#8212; acrescentou,<br \/>\n    levantando se.<\/p>\n<p> &#8212; De acordo, mas senta te.<\/p>\n<p>Levine n&atilde;o podia continuar sentado. Percorreu, duas ou tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes, num passo firme, o recanto onde se encontravam, piscando os olhos para<br \/>\n    disfar&ccedil;ar as lagrimas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; preciso que compreendas &#8212; continuou ele, voltando<br \/>\n    a sentar se &#8212;, n&atilde;o se trata de um amor vulgar J&aacute; estive<br \/>\n    enamorado v&aacute;rias vezes, mas n&atilde;o era a mesma coisa O que me domina<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; um sentimento meu, mas uma for&ccedil;a exterior Sa&iacute;<br \/>\n    de Moscovo porque decidira que isso n&atilde;o podia ser, pela mesma raz&atilde;o<br \/>\n    de que a felicidade perfeita n&atilde;o existe na terra Mas lutei comigo mesmo<br \/>\n    e acabei por reconhecer que n&atilde;o podia viver sem ela &Eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o &#8212; Mas por que fugiste?<\/p>\n<p>&#8212; Oh, espera! Oh! Se soubesses quantas ideias tenho dentro da cabe&ccedil;a,<br \/>\n    as coisas que te queria perguntar? Escuta me. Nem podes calcular o bem que<br \/>\n    me fizeste com as tuas palavras. Sou t&atilde;o feliz que at&eacute; me fiz<br \/>\n    uma pessoa m&aacute;. Esque&ccedil;o me de tudo. Soube hoje que meu irm&atilde;o<br \/>\n    Nicolau est&aacute; aqui em Moscovo. E at&eacute; dele me esqueci Afigura<br \/>\n    se me que at&eacute; ele pr&oacute;prio &eacute; feliz Isto parece loucura.<br \/>\n    Mas h&aacute; uma coisa horr&iacute;vel. Tu, que &eacute;s casado conheces<br \/>\n    esse sentimento. O que &eacute; terr&iacute;vel &eacute; que nos, homens maduros,<br \/>\n    j&aacute; com passado n&atilde;o de amor, mas cheio de pecados, ousemos aproximar<br \/>\n    nos sem pejo de um ser puro e inocente. Isto &eacute; t&atilde;o repulsivo<br \/>\n    que n&atilde;o posso deixar de me sentir indigno.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, tu n&atilde;o deves ter grandes crimes na consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; E no entanto &#8212; replicou Levine &#8212;, quando analiso a minha<br \/>\n    vida, estreme&ccedil;o, amaldi&ccedil;&ocirc;o-me e lamento me cheio de amargura.<br \/>\n    Sim.<\/p>\n<p>&#8212; Que havemos de fazer? O mundo &eacute; assim &#8212; disse Stepane<br \/>\n    Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; vejo um lenitivo, essa ora&ccedil;&atilde;o de que eu tanto<br \/>\n    gostava &laquo;Perdoa me, Senhor, n&atilde;o pelos meus mentos, mas pela grandeza<br \/>\n    da Tua miseric&oacute;rdia&raquo; S&oacute; assim &eacute; que me pode perdoar.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">CAP&Iacute;TULO XI<\/a><\/h4>\n<p>Levine esvaziou o copo, e ambos ficaram calados.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho ainda mais alguma coisa a dizer te. Conheces o Vronski? &#8212;<br \/>\n    inquiriu Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o conhe&ccedil;o. Por que perguntas?<\/p>\n<p>&#8212; Traz outra garrafa &#8212; disse Stepane Arkadievitch, dirigindo<br \/>\n    se ao criado, que enchia os copos e se punha a girar em torno da mesa nos<br \/>\n    momentos mais inoportunos &#8212; Digo te, porque &eacute; um dos teus rivais.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; Vronski? &#8212; perguntou Levine, e no seu rosto,<br \/>\n    onde havia um entusiasmo pueril, surgiu, de repente, raiva e contrariedade.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um dos filhos do conde Kiril Ivanovitch Vronski e um dos<br \/>\n    mais belos exemplares da juventude dourada de Sampetersburgo. Conheci o em<br \/>\n    Tver, quando ali estive a servir. Costumava ir l&aacute; para o recrutamento.<br \/>\n    &Eacute; imensamente rico, bela figura e com boas rela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    &Eacute; ajudante de campo e al&eacute;m disso rapaz muito simp&aacute;tico<br \/>\n    e bom mo&ccedil;o. Quando lidei com ele aqui pude verificar que tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; culto e muito inteligente &eacute; um homem que h&aacute; de ir longe.<\/p>\n<p> Levine franziu as sobrancelhas, conservando se calado.<\/p>\n<p>&#8212; Esteve aqui pouco tempo depois de te teres ido embora. Segundo me<br \/>\n    parece, est&aacute; enamorad&iacute;ssimo de Kitty, e deves compreender que<br \/>\n    a m&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8212; Perdoa me, mas n&atilde;o entendo nada &#8212; replicou Levine, taciturno.<\/p>\n<p> E imediatamente se lembrou do irm&atilde;o Nicolau e se persuadiu de que<br \/>\n    era uma indignidade t&ecirc;-lo esquecido.<\/p>\n<p>&#8212; Espera, espera &#8212; disse Stepane Arkadievitch, sorrindo e pegando<br \/>\n    -lhe na m&atilde;o &#8212; Disse te o que sabia. E repito te que na medida<br \/>\n    em que &eacute; poss&iacute;vel fazerem se previs&otilde;es num assunto t&atilde;o<br \/>\n    delicado e subtil<\/p>\n<p> como este, sou de opini&atilde;o de que todas as vantagens s&atilde;o tuas.<br \/>\n    Levine recostou se no espaldar da cadeira Estava p&aacute;lido.<\/p>\n<p> &#8212; Mas aconselho-te a que decidas as coisas o mais depressa que puderes<br \/>\n    &#8212; prosseguiu Oblonski, enchendo o copo de Levine.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, obrigado, n&atilde;o posso beber mais &#8212; disse<br \/>\n    este, repelindo o copo.&#8212; Acabaria b&ecirc;bedo&#8230; Bom, e tu, como vais?<br \/>\n    &#8212; continuou, tentando, ao que parecia, desviar a conversa.<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; mais uma palavra: em todo o caso, repito, aconselho-te<br \/>\n    a que decidas o caso quanto antes. Mas acho melhor n&atilde;o falares hoje.<br \/>\n    Vai amanh&atilde; pela manh&atilde; pedir a m&atilde;o dela, segundo todas<br \/>\n    as praxes e que Deus te aben&ccedil;oe&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o vens ca&ccedil;ar nas minhas terras? Aparece na<br \/>\n    Primavera &#8212; disse Levine.<\/p>\n<p>Estava arrependid&iacute;ssimo agora de ter tratado aquele assunto com Stepane<br \/>\n    Arkadievitch. Aquele seu sentimento t&atilde;o &iacute;ntimo fora maculado<br \/>\n    ao falarem desse oficial de Sampetersburgo, seu rival, e pelas conjecturas<br \/>\n    e conselhos de Oblonski.<\/p>\n<p>Este sorriu, compreendendo o que se estava passando na alma de Levine: <\/p>\n<p> &#8212; Mais tarde ou mais cedo, apare&ccedil;o por l&aacute; &#8212; disse<br \/>\n    ele. &#8212; Sim, homem, as mulheres s&atilde;o a mola que tudo move neste<br \/>\n    mundo. Tamb&eacute;m a mim as coisas n&atilde;o correm bem. E tudo por culpa<br \/>\n    das mulheres. Fala-me com sinceridade, d&aacute;-me um conselho &#8212; continuou,<br \/>\n    enquanto puxava de um cigarro e mantinha o copo suspenso na outra m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; De que se trata?<\/p>\n<p>&#8212; Do seguinte. Suponhamos que estavas casado, que gostavas da tua mulher,<br \/>\n    mas outra te seduzia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Perdoa-me, n&atilde;o percebo absolutamente nada. Era como se eu,<br \/>\n    ao sair daqui satisfeito com o jantar, passasse por uma confeitaria e roubasse<br \/>\n    um doce.<\/p>\n<p>Os olhos de Stepane Arkadievitch resplandeceram mais do que habitualmente.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o? &Agrave;s vezes um doce cheira t&atilde;o bem<br \/>\n    que a gente n&atilde;o pode conter-se.<\/p>\n<p> Himmlisch ist&#8217;s, wenn ich bezwungen<\/p>\n<p>Meine irdische Begier;<\/p>\n<p>Aber doch wenn&#8217;s nicht gelungen,<\/p>\n<p> Hatt&#8217; ich auch recht h&uuml;bsch Plaisir!<\/p>\n<p>Ao dizer isto, Stepane Arkadievitch sorria, subtilmente. Levine tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de reprimir o sorriso.<\/p>\n<p>&#8212; Basta de gracejos &#8212; prosseguiu Oblonski. &#8212; Pensa numa<br \/>\n    mulher agrad&aacute;vel, t&iacute;mida, afectuosa, s&oacute; e pobre que tudo<br \/>\n    sacrificou por ti. Agora, que a coisa est&aacute; consumada, poderei porventura<br \/>\n    abandon&aacute;-la? Suponhamos que nos separ&aacute;ssemos para n&atilde;o<br \/>\n    destruir a vida familiar. Mas como n&atilde;o compadecer-me dela, n&atilde;o<br \/>\n    ajud&aacute;-la, n&atilde;o suavizar-lhe a sorte?<\/p>\n<p>&#8212; Perdoa-me, j&aacute; sabes que para mim as mulheres se dividem em<br \/>\n    duas classes.. Quer dizer, n&atilde;o. Mais exacto seria dizer que h&aacute;<br \/>\n    mulheres e&#8230; Nunca vi uma mulher deca&iacute;da com atractivo, nem verei,<br \/>\n    e as mulheres como aquela pintalgada do balc&atilde;o, a francesa, com as<br \/>\n    suas risadas, s&atilde;o para num pior do que a peste. Todas as mulheres deca&iacute;das<br \/>\n    s&atilde;o iguais &#8212; E a do Evangelho?<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Cala-te! Cristo nunca teria pronunciado aquelas palavras se pudesse<br \/>\n    calcular o mau uso que viriam a fazer delas. S&atilde;o as &uacute;nicas palavras<br \/>\n    do Evangelho que todos sabem de cor. Al&eacute;m disso n&atilde;o estou a<br \/>\n    dizer o que penso, estou a dizer o que sinto. Repugnam-me as mulheres deca&iacute;das.<br \/>\n    A ti metem-te medo as aranhas, e a mim essas mis&eacute;rias. Naturalmente<br \/>\n    nunca estudaste a vida das aranhas nem lhes conheces os costume: o mesmo acontece<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;-te f&aacute;cil falares assim. Fazes-me lembrar aquela<br \/>\n    personagem de Dickens que com a m&atilde;o esquerda atirava por cima do ombro<br \/>\n    direito todos os assuntos dif&iacute;ceis de resolver. A verdade, por&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; que negar um facto n&atilde;o &eacute; dar uma resposta. Dize-me:<br \/>\n    que fazer? Que fazer? A tua mulher envelhece e tu est&aacute;s cheio de vida.<br \/>\n    Num abrir e fechar de olhos d&aacute;s-te conta de que n&atilde;o podes continuar<br \/>\n    a amar a tua mulher por maior respeito que sintas por ela. E &eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    que aparece o amor. Est&aacute;s perdido! Est&aacute;s perdido! &#8212; concluiu<br \/>\n    Stepane Arkadievitch, pateticamente.<\/p>\n<p> Levine sorriu com ironia.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s perdido &#8212; prosseguiu Oblonski &#8212;, mas que<br \/>\n    fazer?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o roubes doces.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch soltou uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; moralista! Mas lembra-te disto: h&aacute; duas mulheres<br \/>\n    &#8212; uma apenas se ap&oacute;ia no seu direito, que &eacute; esse amor<br \/>\n    que tu n&atilde;o lhe podes dar; ao contr&aacute;rio, a outra tudo sacrifica<br \/>\n    sem te exigir nada. Que deves fazer?<\/p>\n<p> Digno do c&eacute;u se sentia quando os meus terrenos apetites dominava.<br \/>\n    Mas quando n&atilde;o o conseguia, um inef&aacute;vel prazer de mim se apoderava<\/p>\n<p> Como deves proceder? &Eacute; um drama terr&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Se queres que te d&ecirc; a minha opini&atilde;o sincera sobre esse<br \/>\n    caso, dir-te-ei que n&atilde;o creio que se trate de um drama, e aqui tens<br \/>\n    porqu&ecirc;. Creio que o amor&#8230; essas duas classes de amor que, como te<br \/>\n    deves lembrar, Plat&atilde;o define no seu Banquete, constituem a pedra de<br \/>\n    toque dos homens. Uns s&oacute; compreendem um destes amores; os demais, o<br \/>\n    outro. E os que s&oacute; compreendem o amor n&atilde;o plat&ocirc;nico, esses<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m o direito de falar de dramas. Com um amor dessa classe<br \/>\n    n&atilde;o pode existir nenhum drama. &laquo;Agrade&ccedil;o-lhe muito o prazer<br \/>\n    que me proporcionou, e adeus.&raquo; Nisso consiste todo o drama. E no que<br \/>\n    diz respeito ao amor plat&ocirc;nico, tamb&eacute;m esse n&atilde;o pode produzir<br \/>\n    dramas, porque nele tudo &eacute; puro e di&aacute;fano, porque Naquele momento<br \/>\n    Levine lembrou se dos seus pecados e da luta interior que tinha mantido. Inesperadamente<br \/>\n    acrescentou: &#8212; Afinal de contas, talvez tenhas raz&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    muito poss&iacute;vel. Mas n&atilde;o sei, verdadeiramente n&atilde;o sei.<\/p>\n<p>&#8212; V&ecirc;s, &eacute;s um homem &iacute;ntegro. &#8212; volveu Stepane<br \/>\n    Arkadievitch &#8212; Esse &eacute; o teu defeito e a tua virtude. Tens um<br \/>\n    car&aacute;cter &iacute;ntegro e queres que toda a vida se componha de manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &iacute;ntegras. Mas a verdade &eacute; que isso n&atilde;o acontece. Por<br \/>\n    isso desprezas a actividade social do Estado, pois queres que todo o esfor&ccedil;o<br \/>\n    estivesse sempre directamente relaccionado com um fim, o que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade. Tamb&eacute;m gostarias que a actividade do homem tivesse um objectivo<br \/>\n    que o amor e a vida conjugal fossem uma e a mesma coisa. Mas as coisas n&atilde;o<br \/>\n    se passam assim. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida<br \/>\n    se comp&otilde;e de luzes e de sombras.<\/p>\n<p> Levine suspirou e nada respondeu. Pensava nos seus problemas e n&atilde;o<br \/>\n    prestava aten&ccedil;&atilde;o a Oblonski. E de s&uacute;bito ambos sentiram<br \/>\n    que, conquanto fossem amigos, conquanto tivessem comido e bebido juntos, o<br \/>\n    que os devia ter unido ainda mais, cada um deles s&oacute; pensava em si,<br \/>\n    sem no fundo preocupar se com o que dizia respeito ao outro. N&atilde;o era<br \/>\n    a primeira vez que Oblonski experimentava, depois de comer, essa separa&#038;ccedccedil;&atilde;o<br \/>\n    extrema em vez de uma aproxima&ccedil;&atilde;o, e sabia o que devia fazer<br \/>\n    em tais circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>&#8212; A conta? &#8212; gritou, e passou &agrave; sala cont&iacute;gua,<br \/>\n    onde se deparou com um ajudante de campo das suas rela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Puseram se ent&atilde;o a conversar a respeito de uma actriz e seu amante.<br \/>\n    E logo se sentiu aliviado e descansado da conversa que tivera com Levine,<br \/>\n    que tinha a faculdade de o arrastar sempre para uma tens&atilde;o mental e<br \/>\n    espiritual excessiva.<\/p>\n<p>Quando o criado apareceu com uma conta de vinte e seis rublos e uns tantos<br \/>\n    copeques, al&eacute;m de um acr&eacute;scimo pela vodka, Levine, que noutra<br \/>\n    oportunidade se teria horrorizado, bom alde&atilde;o que era, por ter<\/p>\n<p> gasto catorze rublos, n&atilde;o fez caso disso, e depois de pagar dirigiu<br \/>\n    se a casa para mudar de roupa, decidido a ir &agrave; recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Tcherbatski, onde o seu futuro se decidiria.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">CAP&Iacute;TULO XII<\/a><\/h4>\n<p>A princesa Kitty Tcherbatski tinha dezoito anos. Era o primeiro Inverno em<br \/>\n    que fazia vida de sociedade, e nela obtinha maior &ecirc;xito que as duas<br \/>\n    irm&atilde;s mais velhas e at&eacute; mesmo mais do que esperava a pr&oacute;pria<br \/>\n    m&atilde;e. N&atilde;o s&oacute; os rapazes que freq&uuml;entavam os bailes<br \/>\n    de Moscovo estavam todos enamorados de Kitty, como naquele mesmo Inverno j&aacute;<br \/>\n    recebera duas propostas s&eacute;rias de casamento a de Levine, e, imediatamente<br \/>\n    ap&oacute;s a sua partida, a do conde Vronski.<\/p>\n<p>O aparecimento de Levine no princ&iacute;pio do Inverno, as suas freq&uuml;entes<br \/>\n    visitas e o seu evidente amor por Kitty deram motivo a primeira conversa s&eacute;ria<br \/>\n    entre os pais sobre o futuro da filha e at&eacute; haviam provocado algumas<br \/>\n    discuss&otilde;es. O pr&iacute;ncipe defendia Levine e dizia que n&atilde;o<br \/>\n    podia desejar nada melhor para Kitty. A princesa, pelo contrario, com o caracter&iacute;stico<br \/>\n    costume que as mulheres t&ecirc;m de desviar as quest&otilde;es, opinava que<br \/>\n    Kitty era muito jovem, que Levine n&atilde;o demonstrara inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    s&eacute;rias, que a pequena n&atilde;o se sentia inclinada para ele e outros<br \/>\n    argumentos deste g&ecirc;nero. Mas n&atilde;o dizia o mais importante isto<br \/>\n    &eacute;, que esperava um partido mais vantajoso para a filha, que n&atilde;o<br \/>\n    simpatizava com Levine e ainda por cima que n&atilde;o o entendia. Quando<br \/>\n    Levine partiu de Moscovo repentinamente, a princesa ficou content&iacute;ssima<br \/>\n    e disse ao ma rido com express&atilde;o de triunfo &laquo;Como v&ecirc;s,<br \/>\n    eu tinha raz&atilde;o&raquo; E quando apareceu Vronski, ainda mais alegre<br \/>\n    ficou, firmando se na opini&atilde;o de que Kitty faria n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    um bom casamento, mas um casamento espl&ecirc;ndido.<\/p>\n<p> Para a princesa n&atilde;o podia haver compara&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel<br \/>\n    entre Levine e Vronski. N&atilde;o gostava das estranhas e violentas opini&otilde;es<br \/>\n    de Levine, nem do seu acanhamento na sociedade, em parte motivado, assim o<br \/>\n    pensava, pelo orgulho, nem t&atilde;o pouco dessa vida selvagem da aldeia,<br \/>\n    s&oacute; entre animais e camponeses. E o que ainda mais lhe desagradava era<br \/>\n    o facto de Levine, enamorado da filha, ter lhe freq&uuml;entado a casa durante<br \/>\n    m&ecirc;s e meio sem se explicar francamente sobre as suas inten&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Desconheceria ele os costumes at&eacute; esse ponto? Ou recearia, talvez,<br \/>\n    conceder-lhes uma excessiva honra? E, de repente, aquela partida sem quaisquer<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es &laquo;Ainda bem&raquo;, pensou a princesa, &laquo;que<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o pouco atraente que nem sequer virou a cabe&ccedil;a da<br \/>\n    pequena!&raquo; Vronski, pelo contr&aacute;rio, satisfazia todas as suas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    era muito rico, inteligente, famoso e aguardava o uma brilhante carreira tanto<br \/>\n    no ex&eacute;rcito como na Corte. N&atilde;o podia desejar nada melhor.<\/p>\n<p> Nos bailes, Vronski galanteava abertamente Kitty dan&ccedil;ava com ela<br \/>\n    e freq&uuml;entava lhe a casa de tal maneira que ningu&eacute;m podia ter<br \/>\n    d&uacute;vidas quanto &agrave; seriedade das suas inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    E no entanto a pobre m&atilde;e de Kitty passara todo o Inverno muito inquieta<br \/>\n    e preocupada.<\/p>\n<p>A princesa casara se trinta anos atr&aacute;s e fora uma tia quem lhe preparara<br \/>\n    o casamento. O noivo sobre quem se haviam antecipadamente tomado todas as<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es, chegara, conhecera a noiva e dera se a conhecer.<br \/>\n    A casamenteira observou a boa impress&atilde;o que cada um causara ao outro<br \/>\n    e disso inteirou ambas as partes. A impress&atilde;o fora boa. Depois, e numa<br \/>\n    data prevista, procedeu se ao pedido, que foi aceito. Tudo fora muito f&aacute;cil<br \/>\n    e simples. Foram muitos os receios que teve, muitos os pensamentos, muito<br \/>\n    o dinheiro que gastou e muitos os desgostos com o marido ao casar Daria e<br \/>\n    Natalia as duas filhas mais velhas. Agora, ao apresentar a sociedade a mais<br \/>\n    nova voltaram os mesmos receios, voltaram as m&ecirc;s mas duvidas e as discuss&otilde;es<br \/>\n    com o marido eram ainda maiores. Como todos os pais, o velho pr&iacute;ncipe<br \/>\n    era muito escrupuloso a respeito da honra e da pureza das suas filhas. Era<br \/>\n    exageradamente cioso delas, especialmente de Kitty a predilecta, e a cada<br \/>\n    momento armava cenas com a mulher, alegando que ela comprometia a pequena.<br \/>\n    A princesa j&aacute; estava acostumada com isso no que tocava as duas outras<br \/>\n    filhas, mas agora se apercebia de que a susceptibilidade do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    tinha fundamento nos &uacute;ltimos tempos muita coisa mudara nas recep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais e os seus deveres de m&atilde;e eram agora mais dif&iacute;ceis. Verificava<br \/>\n    que as raparigas da idade de Kitty formavam grupos, assistiam a n&atilde;o<br \/>\n    sei que cursos, tratavam os homens com desenvoltura, sa&iacute;am sozinhas,<br \/>\n    muitas delas n&atilde;o faziam rever&ecirc;ncias ao cumprimentarem e, coisa<br \/>\n    bem pior, estavam convencidas de que a escolha de marido incumbia a elas e<br \/>\n    n&atilde;o aos pais &laquo;Hoje em dia j&aacute; n&atilde;o se casam as filhas<br \/>\n    como dantes&raquo;, diziam e pensavam todas essas jovens e mesmo as pessoas<br \/>\n    de idade. A princesa, contudo, n&atilde;o conseguia perceber como se casavam<br \/>\n    hoje em dia as raparigas. O costume franc&ecirc;s, de acordo com o qual eram<br \/>\n    os pais quem decidia do futuro dos filhos n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    era admitido, mas criticado. O ingl&ecirc;s, segundo o qual as mulheres deviam<br \/>\n    ser completamente livres, tamb&eacute;m seria repelido, imposs&iacute;vel<br \/>\n    que era na sociedade russa. Considerava se rid&iacute;culo o costume russo<br \/>\n    de arranjar os casamentos por interm&eacute;dio de casamenteiras e todos se<br \/>\n    riam disso, inclusive a pr&oacute;pria princesa. Mas ningu&eacute;m sabia<br \/>\n    como levar a cabo os casamentos. Todas as pessoas com quem a princesa falava<br \/>\n    a este respeito lhe respondiam da mesma maneira &laquo;Nos nossos dias j&aacute;<br \/>\n    &eacute; tempo de acabar com esses antigos costumes. Quem se casa s&atilde;o<br \/>\n    os filhos, n&atilde;o os pais, &eacute; preciso deixarmos que sejam eles que<br \/>\n    se entendam uns com os outros&raquo; Era muito f&aacute;cil falar assim para<br \/>\n    quem n&atilde;o tinha filhas, mas a princesa compreendia que Kitty podia apaixonar<br \/>\n    se, no seu trato com os homens, por algu&eacute;m que n&atilde;o tivesse inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de casar com ela ou que n&atilde;o lhe conviesse. E por mais que lhe dissessem<br \/>\n    que nos tempos que tornam &agrave;s jovens se devia dar a oportunidade de<br \/>\n    preparar o seu pr&oacute;prio futuro, n&atilde;o podia conformar se, como<br \/>\n    t&atilde;o pouco se conformaria que houvesse uma &eacute;poca em que o melhor<br \/>\n    brinquedo para as crian&ccedil;as de cinco anos fossem pistolas carregadas<br \/>\n    Eis que a princesa andava mais preocupada com Kitty do que outrora com qualquer<br \/>\n    das suas duas filhas mais velhas.<\/p>\n<p> Agora receava que Vronski se limitasse apenas a fazer a corte &agrave; filha<br \/>\n    Sabia que Kitty j&aacute; estava enamorada dele, mas consolava-a a ideia de<br \/>\n    que Vronski era homem s&eacute;rio. Tamb&eacute;m sabia qu&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    era transformar a cabe&ccedil;a de uma rapariga na sociedade livre dos tempos<br \/>\n    modernos e a pouca import&acirc;ncia que os homens atribu&iacute;am a semelhantes<br \/>\n    faltas. Na semana anterior Kitty contara &agrave; m&atilde;e a conversa que<br \/>\n    tivera com Vronski durante uma mazurca. Essa conversa tranq&uuml;ilizada em<br \/>\n    parte a princesa, mas n&atilde;o lograra seren&aacute;-la por completo Vronski<br \/>\n    contara a Kitty que tanto ele como o irm&atilde;o estavam t&atilde;o habituados<br \/>\n    a obedecer &agrave; m&atilde;e que nunca tomavam qualquer resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    importante sem lhe pedir conselho &laquo;E agora aguardo com uma grande felicidade<br \/>\n    a chegada de minha m&atilde;e a Sampetersburgo&raquo;, conclu&iacute;ra.<\/p>\n<p> Kitty contara isto &agrave; m&atilde;e sem lhe atribuir import&acirc;ncia,<br \/>\n    mas a m&atilde;e interpretou essas palavras de outra maneira Sabia que Vronski<br \/>\n    esperava a m&atilde;e de um momento para o outro e que ma regozijar se com<br \/>\n    a escolha do filho No entanto, parecia lhe estranho que, para n&atilde;o ofender<br \/>\n    a m&atilde;e, Vronski n&atilde;o se decidisse a declarar se. T&atilde;o grande,<br \/>\n    por&eacute;m, era o seu desejo de que esse casamento viesse a realizar se,<br \/>\n    e sobretudo tamanho o seu desejo de recuperar a serenidade depois de todas<br \/>\n    aquelas apoquenta&ccedil;&otilde;es, que confiava que Vronski o viesse a fazer.<br \/>\n    Conquanto a afligisse muito a infelicidade da filha mais velha, disposta a<br \/>\n    separar se do marido, o certo &eacute; que a preocupa&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    o futuro de Kitty a absorvia por completo. A chegada de Levine veio trazer<br \/>\n    lhe mais uma preocupa&ccedil;&atilde;o a princesa receava que a filha, que<br \/>\n    tempos antes mostrara simpatizar com ele, repelisse Vronski, por um excesso<br \/>\n    de escr&uacute;pulos e que, de maneira geral, o aparecimento desse pretendente<br \/>\n    atrapalhasse ou protelasse o assunto, t&atilde;o pr&oacute;ximo de um desfecho.<\/p>\n<p> &#8212; Chegou h&aacute; muito? &#8212; perguntou a princesa quando entraram<br \/>\n    em casa.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje mesmo, m&atilde;ezinha.<\/p>\n<p>&#8212; Quero dizer te uma coisa &#8212; principiou a princesa, e Kitty<\/p>\n<p> adivinhou, pela sua express&atilde;o s&eacute;ria e animada, o que lhe ia<br \/>\n    dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Por amor de Deus, m&atilde;e, por amor de Deus, n&atilde;o me fale<br \/>\n    nisso &#8212; replicou Kitty, num arrebatamento, voltando se rapidamente para<br \/>\n    a m&atilde;e &#8212;J&aacute; sei, sei tudo muito bem.<\/p>\n<p> Os desejos de Kitty eram os mesmos da m&atilde;e, mas ofendiam na os motivos<br \/>\n    que inspiravam os desejos desta.<\/p>\n<p> &#8212; Apenas te quero dizer que se deste esperan&ccedil;as a algu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Querida m&atilde;e, por amor de Deus!, n&atilde;o me diga nada. &Eacute;<br \/>\n    terr&iacute;vel falar destas coisas.<\/p>\n<p> &#8212; Esta bem, n&atilde;o falarei, mas ouve o que te digo &#8212; teimou<br \/>\n    a princesa, vendo lagrimas nos olhos da filha &#8212; promete me n&atilde;o<br \/>\n    teres segredos para mim Assim far&aacute;s, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, nunca, m&atilde;ezinha, n&atilde;o &#8212; replicou Kitty, corando<br \/>\n    e olhando a m&atilde;e nos olhos &#8212; Mas agora nada tenho que lhe dizer.<br \/>\n    Eu eu. Ainda que quisesse dizer lhe alguma coisa n&atilde;o sabia que, nem<br \/>\n    como. N&atilde;o sei.<\/p>\n<p>&laquo;Com estes olhos n&atilde;o pode mentir&raquo;, pensou a princesa,<br \/>\n    sorrindo, ao ver a emo&ccedil;&atilde;o e a felicidade da filha Sorria ao<br \/>\n    pensar qu&atilde;o grandes e importantes se lhe afiguravam, a pobrezinha da<br \/>\n    Kitty, as emo&ccedil;&otilde;es do seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">CAP&Iacute;TULO XIII<\/a><\/h4>\n<p>Depois do jantar e at&eacute; ao princ&iacute;pio da noite, Kitty conheceu<br \/>\n    as mesmas impress&otilde;es que costuma experimentar um jovem soldado nas<br \/>\n    v&eacute;speras de uma batalha&#8230; O cora&ccedil;&atilde;o pulsava-lhe com<br \/>\n    viol&ecirc;ncia e n&atilde;o era capaz de concentrar o pensamento. Sentia<br \/>\n    que aquela noite, em que &laquo;eles&raquo; se encontrariam pela primeira<br \/>\n    vez, iria decidir do seu destino. Estava a v&ecirc;-los constantemente, ora<br \/>\n    os dois juntos, ora cada um de per si. Quando recordava o passado, era com<br \/>\n    prazer e ternura que evocava a sua intimidade com Levine. As recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de inf&acirc;ncia, bem como a, amizade de Levine com o falecido irm&atilde;o,<br \/>\n    nimbavam de um encanto especial e po&eacute;tico as suas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ele. O amor que Levine lhe tinha, amor de que ela estava certa, inundava-a,<br \/>\n    enchendo-a de contentamento. Era-lhe agrad&aacute;vel lembrar-se de Levine.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, ao pensar em Vronski uma esp&eacute;cie de mal-estar<br \/>\n    a assaltava, n&atilde;o obstante ser homem sossegado e extremamente mundano.<br \/>\n    Parecia que notava certa falsidade, n&atilde;o nele &#8212; era muito simples<br \/>\n    e simp&aacute;tico &#8212; mas nela pr&oacute;pria, enquanto que com Levine<br \/>\n    se sentia completamente sincera e tranq&uuml;ila. Todavia, se pensava no seu<br \/>\n    futuro com Vronski, o futuro aparecia-lhe brilhante e feliz, enquanto com<br \/>\n    Levine lhe surgia nebuloso.<\/p>\n<p>Quando foi vestir-se e se mirou ao espelho, notou com alegria que estava<br \/>\n    num dos seus melhores dias, e que se encontrava no dom&iacute;nio pleno de<br \/>\n    todas as suas for&ccedil;as, coisa de que tanto precisava naquele momento.<br \/>\n    Nem a gra&ccedil;a nem o sangue-frio lhe iriam faltar dentro de pouco. &Agrave;s<br \/>\n    sete e meia, quando desceu ao sal&atilde;o, o criado veio anunciar: &#8212;<br \/>\n    Constantino Dimitrievitch Levine.<\/p>\n<p>A princesa ainda estava nos seus aposentos e o pr&iacute;ncipe tamb&eacute;m<br \/>\n    ainda n&atilde;o descera. &laquo;Meu Deus!&raquo;, suspirou Kitty, e todo<br \/>\n    o sangue lhe afluiu ao cora&ccedil;&atilde;o. Ficou horrorizada ao ver-se<br \/>\n    t&atilde;o p&aacute;lida diante do espelho.<\/p>\n<p> Agora compreendia claramente que Levine viera mais cedo s&oacute; para se<br \/>\n    encontrar a s&oacute;s com ela. E tudo lhe apareceu sob um aspecto distinto<br \/>\n    e novo. Naquele momento s&oacute; percebeu que se tratava de saber com quem<br \/>\n    iria ser feliz e a quem amava, como se via na conting&ecirc;ncia de ofender<br \/>\n    um homem que lhe era querido. Ofend&ecirc;-lo de maneira cruel&#8230; E por qu&ecirc;?<br \/>\n    Porque era simp&aacute;tico, porque lhe queria, porque estava enamorado dela.<br \/>\n    Mas n&atilde;o havia nada a fazer, era preciso, tinha de ser assim.<\/p>\n<p> &laquo;Meu Deus!&raquo;, pensou. &laquo;Ser&aacute; poss&iacute;vel que<br \/>\n    tenha de lhe dizer eu mesma? Dizer-lhe que n&atilde;o gosto dele? Mas isso<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade. Que lhe direi ent&atilde;o? Que gosto de outro?<br \/>\n    N&atilde;o: &eacute; imposs&iacute;vel. Vou-me embora, vou-me embora.&raquo;<br \/>\n    E j&aacute; se aproximava da porta quando ouviu os passos de Levine.<\/p>\n<p> &laquo;N&atilde;o; n&atilde;o seria leal. De que tenho medo? N&atilde;o<br \/>\n    fiz mal algum. Aconte&ccedil;a o que acontecer, dir-lhe-ei a verdade. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, diante dele n&atilde;o me sinto embara&ccedil;ada. Ele a&iacute; est&aacute;&raquo;,<br \/>\n    pensou, ao v&ecirc;-lo aparecer, t&iacute;mido na sua for&ccedil;a, fixando<br \/>\n    nela um olhar ardente. Kitty fitou-o francamente face a face, e estendeu-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Acho que cheguei cedo de mais &#8212;disse Levine, relanceando os<br \/>\n    olhos ao sal&atilde;o vazio.<\/p>\n<p> Ao certificar-se de que as suas esperan&ccedil;as se realizavam, que nada<br \/>\n    o impediria de fazer a sua declara&ccedil;&atilde;o o seu rosto entristeceu-se.<\/p>\n<p>&#8212; De maneira nenhuma &#8212; replicou Kitty, sentando-se junto &agrave;<br \/>\n    mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Era precisamente isso que eu queria, encontr&aacute;-la s&oacute;<br \/>\n    &#8212; principiou Levine, sem se sentar e sem fitar Kitty, para n&atilde;o<br \/>\n    perder a coragem.<\/p>\n<p> &#8212; Minha m&atilde;e j&aacute; vem a&iacute;. Ontem ficou muito cansada.<br \/>\n    Ontem&#8230;<\/p>\n<p>Kitty falava sem saber o que os seus l&aacute;bios diziam e sem afastar de<br \/>\n    Levine os olhos suplicantes e acariciadores. Levine fitou-a. Kitty corou e<br \/>\n    calou-se.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; lhe disse que n&atilde;o sei se irei ficar muito tempo<br \/>\n    aqui&#8230; que isso dependia de si&#8230;<\/p>\n<p> Kitty baixava cada vez mais a cabe&ccedil;a, sem saber que resposta dar<br \/>\n    ao que Levine lhe ia dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Que isso dependia de si &#8212;repetiu ele. &#8212; Queria dizer-lhe&#8230;<br \/>\n    Vim para que&#8230; que&#8230; seja minha mulher! &#8212; concluiu, sem saber bem<br \/>\n    o que dizia, mas dando conta de que o mais terr&iacute;vel e o mais grave<br \/>\n    estava dito. Ent&atilde;o fixou nela os olhos.<\/p>\n<p> Kitty continuava de cabe&ccedil;a baixa; respirava com dificuldade. Uma<br \/>\n    alegria imensa lhe enchia o cora&ccedil;&atilde;o. Nunca pensara que a confiss&atilde;o<br \/>\n    daquele homem lhe causasse uma impress&atilde;o t&atilde;o viva. Mas da&iacute;<br \/>\n    a pouco lembrou-se de Vronski. Ergueu para Levine os olhos luminosos e sinceros<br \/>\n    e ao ver a ang&uacute;stia que se lhe pintava no rosto, replicou apressadamente:<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o pode ser&#8230; perdoe-me.<\/p>\n<p>Havia pouco, que pr&oacute;xima dele se sentia e que importante na sua vida!<br \/>\n    E agora, que longe e alheia se lhe tornara! &#8212; N&atilde;o podia ser de<br \/>\n    outra maneira &#8212; disse Levine sem a fitar. Com uma rever&ecirc;ncia,<br \/>\n    ia retirar-se.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">CAP&Iacute;TULO XIV<\/a><\/h4>\n<p>Mas naquele momento entrava a princesa. No seu rosto transpareceu o horror<br \/>\n    que lhe causava v&ecirc;-los ali sozinhos e com aquelas transtornadas express&otilde;es.<br \/>\n    Levine inclinou-se diante dela sem dizer palavra. Kitty, calada, n&atilde;o<br \/>\n    ousava erguer os olhos. &laquo;Gra&ccedil;as a Deus, disse-lhe que n&atilde;o&raquo;,<br \/>\n    pensou a m&atilde;e, e no seu rosto transpareceu o sorriso habitual, o sorriso<br \/>\n    com que acolhia todas as visitas de quinta-feira. Depois de se sentar, principiou<br \/>\n    a fazer perguntas a Levine acerca da sua vida na aldeia. Levine sentou-se<br \/>\n    tamb&eacute;m, aguardando a chegada dos convidados, para poder retirar-se<br \/>\n    discretamente.<\/p>\n<p>Da&iacute; a cinco minutos chegava a condessa Nordston, amiga de Kitty, que<br \/>\n    se casara no &uacute;ltimo Inverno.<\/p>\n<p> Era uma mulher delgada, amarelada, de brilhantes olhos negros,<\/p>\n<p> nervosa e enfermi&ccedil;a. Gostava muito de Kitty e o carinho que sentia<br \/>\n    por ela, como acontece quase sempre da parte das casadas para com as solteiras,<br \/>\n    manifestava se no desejo de casar a amiga de acordo com o seu pr&oacute;prio<br \/>\n    ideal de felicidade queria v&ecirc;-la casada com Vronski. N&atilde;o simpatizava<br \/>\n    com Levine, a quem vira freq&uuml;entemente no &uacute;ltimo Inverno em casa<br \/>\n    dos Tcherbatski. Quando perto dele, o que mais a divertia era ridiculariz&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Gosto muito de o ver olhar-me do alto da sua superioridade, quando<br \/>\n    interrompe, convencido de que sou uma est&uacute;pida, os seus belos discursos<br \/>\n    intelectuais ou quando condescende em dirigir-me a palavra. Condescende! &Eacute;<br \/>\n    esse mesmo o termo. Adoro que me deteste! &#8212; costumava dizer a condessa<br \/>\n    quando falava dele.<\/p>\n<p> Tinha raz&atilde;o. De facto, Levine n&atilde;o a tolerava. Desprezava nela<br \/>\n    precisamente aquilo de que ela mais se orgulhava e tinha como suas maiores<br \/>\n    virtudes o nervosismo o desd&eacute;m requintado, a indiferen&ccedil;a por<br \/>\n    tudo que considerava material e grosseiro.<\/p>\n<p> Havia-se estabelecido, pois, entre eles um g&ecirc;nero de rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    muito comum em sociedade estimando-se aparentemente, no fundo a tal ponto<br \/>\n    se desprezavam que n&atilde;o podiam sequer tomar se a s&eacute;rio um ao<br \/>\n    outro nem ofender-se reciprocamente.<\/p>\n<p>Lembrando-se de que Levine, no princ&iacute;pio do Inverno, comparara Moscovo<br \/>\n    a Babil&ocirc;nia, a condessa imediatamente abordou o assunto?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Constantino Dimitrievitch? Ent&atilde;o voltou &agrave; nossa<br \/>\n    pervertida Babil&ocirc;nia! &#8212; exclamou, estendendo-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    min&uacute;scula e amarelada &#8212; Foi a Babil&ocirc;nia que se regenerou<br \/>\n    ou foi voc&ecirc; que se perverteu? &#8212; acrescentou com um sorriso ir&ocirc;nico,<br \/>\n    enquanto relanceava um olhar a Kitty.<\/p>\n<p> &#8212; Muito me lisonjeia, condessa, que se recorde das minhas palavras<br \/>\n    &#8212; replicou Levine, que entretanto se refizera do choque, adoptando o<br \/>\n    tom ir&ocirc;nico e hostil com que habitualmente se dirigia &agrave; condessa<br \/>\n    Nordston &#8212;V&ecirc;-se que muito a impressionaram.<\/p>\n<p> &#8212; Evidentemente? Registo-as todas Que tal, Kitty? Patinaste hoje?<\/p>\n<p>E continuou tagarelando com Kitty.<\/p>\n<p>Ainda que lhe custasse partir naquele momento, Levine achou isso prefer&iacute;vel<br \/>\n    a ter de ficar toda a noite a ver Kitty, que de quando em quando olhava para<br \/>\n    ele, evitando encontrar-lhe os olhos. Quis levantar-se, mas a princesa, ao<br \/>\n    ver que ele n&atilde;o falava, perguntou-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Conta ficar muito tempo em Moscovo? Creio que pertence ao zemstvo.<br \/>\n    N&atilde;o deve poder demorar-se dias.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o fa&ccedil;o parte do zemstvo, princesa<br \/>\n    Estarei aqui alguns<\/p>\n<p> &laquo;Tem qualquer coisa hoje&raquo;, pensou a condessa, fitando-lhe o<br \/>\n    rosto concentrado e grave &laquo;N&atilde;o est&aacute; disposto a grandes<br \/>\n    discursos Mas eu o provocarei Gosto de p&ocirc;-lo em rid&iacute;culo diante<br \/>\n    de Kitty, e consegui-lo-ei&raquo; &#8212; Constantino Dimitrievitch, fa&ccedil;a<br \/>\n    o favor de me explicar, o senhor que entende disso, por que &eacute; que os<br \/>\n    camponeses da nossa aldeia de Kaluga gastaram em bebida tudo quanto tinham<br \/>\n    e agora n&atilde;o nos pagam Que quer isto dizer? Est&aacute; sempre a defend&ecirc;-los.<\/p>\n<p>Naquele momento entrava uma senhora no sal&atilde;o, e Levine levantou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoe me, condessa, mas nada entendo disso e n&atilde;o me &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel responder-lhe &#8212; replicou, e dirigiu os olhos para o<br \/>\n    oficial que acompanhava a senhora rec&eacute;m-chegada.<\/p>\n<p> &laquo;Deve ser Vronski&raquo;, pensou, e para certificar-se olhou para<br \/>\n    Kitty. Esta j&aacute; tivera tempo de olhar para Vronski e agora fitava Levine.<br \/>\n    E por aquele olhar, vendo que os olhos dela resplandeciam involuntariamente,<br \/>\n    Levine compreendeu, com a mesma certeza como se ela pr&oacute;pria lho tivesse<br \/>\n    dito, que Kitty amava aquele homem. Mas que esp&eacute;cie de homem seria<br \/>\n    ele? H&aacute; pessoas que ao defrontarem-se com um rival afortunado, seja<br \/>\n    qual for o terreno em que se encontrem, s&atilde;o incapazes de lhe descobrirem<br \/>\n    qualquer qualidade, outras h&aacute; que, pelo contr&aacute;rio, tratam de<br \/>\n    ver no rival as qualidades que lhe serviram para vencer, e tudo fazem para<br \/>\n    s&oacute; lhes descobrir os m&eacute;ritos, apesar do sofrimento que isso<br \/>\n    lhes causa Levine pertencia a esta classe de pessoas. Mas n&atilde;o lhe foi<br \/>\n    dif&iacute;cil apreender as qualidades e os atractivos de Vronski Imediatamente<br \/>\n    lhe saltaram &agrave; vista. Vronski era um homem moreno, n&atilde;o muito<br \/>\n    alto, de forte complei&ccedil;&atilde;o, belo, e de fisionomia extremamente<br \/>\n    serena e grave. Tudo na sua figura, desde os negros cabelos curtos e o rosto<br \/>\n    rec&eacute;m-barbeado at&eacute; ao folgado uniforme novo, era simples e ao<br \/>\n    mesmo tempo vistoso. Depois de deixar passar a senhora que entrara ao mesmo<br \/>\n    tempo que ele, Vronski aproximou-se primeiro da princesa e depois de Kitty.<\/p>\n<p> Ao acercar-se da jovem, os seus belos olhos brilharam de um modo especial<br \/>\n    e com um impercept&iacute;vel sorriso feliz e discreto de triunfador (assim<br \/>\n    se afigurou a Levine) Inclinando-se, respeitoso e circunspecto, diante dela,<br \/>\n    estendeu-lhe a m&atilde;o, larga mas n&atilde;o muito grande.<\/p>\n<p> Depois de ter cumprimentado todos, sentou-se, sem olhar para Levine, que<br \/>\n    n&atilde;o o perdia de vista.<\/p>\n<p>&#8212; Permita que lhe apresente &#8212; disse a princesa apontando para<\/p>\n<p> Levine &#8212; Constantino Dimitrievitch Levine. &Oacute; conde Alexei Kinlovitch<br \/>\n    Vronski.<\/p>\n<p>Vronski ergueu-se e fitando amistoso Levine apertou-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Creio que no Inverno passado, em certa ocasi&atilde;o, devemos ter<br \/>\n    jantado juntos; mas o senhor partiu repentinamente para a aldeia &#8212; disse<br \/>\n    Vronski, com um sorriso franco e simp&aacute;tico.<\/p>\n<p> &#8212; Constantino Dimitrievitch despreza e odeia a cidade e os citadinos&#8212;<br \/>\n    interveio a condessa Nordston.<\/p>\n<p>&#8212; Pelo que vejo, as minhas palavras produziram-lhe grande impress&atilde;o,<br \/>\n    visto que as recorda t&atilde;o bem &#8212; observou Levine, mas, ao reparar<br \/>\n    que j&aacute; dissera aquela mesma frase, corou.<\/p>\n<p>Sorrindo, Vronski olhou para Levine e para a condessa.<\/p>\n<p>&#8212; Vive sempre na aldeia? &#8212; perguntou Vronski. &#8212; Quer-me<br \/>\n    parecer que no Inverno &eacute; aborrecido.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, quando temos qualquer coisa em que nos ocuparmos; tamb&eacute;m<br \/>\n    nunca o homem se aborrece na sua pr&oacute;pria companhia &#8212; respondeu<br \/>\n    Levine bruscamente.<\/p>\n<p> &#8212; Gosto da aldeia &#8212; disse Vronski, fingindo n&atilde;o ter dado<br \/>\n    pelo tom de Levine.<\/p>\n<p> &#8212; Espero, conde, que n&atilde;o concordaria em passar o ano todo na<br \/>\n    aldeia &#8212; comentou a condessa Nordston.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei; nunca vivi muito tempo no campo. Mas senti qualquer<br \/>\n    coisa de extraordin&aacute;rio. Nunca tive tantas saudades da aldeia, da aldeia<br \/>\n    russa, com os seus lapti e os seus mujiques como no Inverno que passei em<br \/>\n    Nice com minha m&atilde;e &#8212; replicou Vronski, acrescentando: &#8212;<br \/>\n    Nice &eacute; muito aborrecida. E N&aacute;poles tamb&eacute;m. De Sorrento,<br \/>\n    gosto, mas para pouco tempo. Precisamente ali &eacute; que n&oacute;s nos<br \/>\n    lembramos mais vivamente da R&uacute;ssia, e sobretudo das suas aldeias&#8230;<br \/>\n    &Eacute; como se&#8230;<\/p>\n<p>Falava dirigindo-se tanto a Kitty como a Levine e o seu olhar afectuoso e<br \/>\n    sereno fixava-se alternadamente num e noutro. Parecia dizer a primeira coisa<br \/>\n    que lhe vinha &agrave; cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ao notar que a condessa Nordston queria falar, calou-se e ficou a ouvi-la<br \/>\n    atentamente.<\/p>\n<p> A conversa n&atilde;o afrouxava um s&oacute; momento. A princesa n&atilde;o<br \/>\n    precisava de lan&ccedil;ar m&atilde;o das pe&ccedil;as de artilharia que reservava<br \/>\n    para o caso em que a conversa esmorecesse: o ensino das letras e das ci&ecirc;ncias<br \/>\n    e o servi&ccedil;o militar obrigat&oacute;rio. Tamb&eacute;m a condessa n&atilde;o<br \/>\n    teve oportunidade de tro&ccedil;ar de Levine.<\/p>\n<p> Este muito desejaria intervir na conversa geral, mas n&atilde;o conseguia<\/p>\n<p> faz&ecirc;-lo; estava sempre a pensar: &laquo;&Eacute; agora que me vou<br \/>\n    embora&raquo;, mas n&atilde;o se ia e continuava ali, como se esperasse alguma<br \/>\n    coisa.<\/p>\n<p>A conversa versou depois sobre o tema das mesas que batem e dos esp&iacute;ritos;<br \/>\n    a condessa Nordston, que acreditava em espiritismo, p&ocirc;s-se a narrar<br \/>\n    um facto sobrenatural a que assistira.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, condessa, por amor de Deus, leve-me a ver uma coisa dessas. Nunca<br \/>\n    vi nada de sobrenatural, apesar de fazer tudo para isso &#8212; disse Vronski,<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bem, no s&aacute;bado pr&oacute;ximo. E voc&ecirc;,<br \/>\n    Constantino Dimitrievitch, acredita nestas coisas? &#8212; perguntou ela a<br \/>\n    Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Por que pergunta? J&aacute; sabe o que lhe vou responder.<\/p>\n<p>&#8212; Queria saber a sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Na minha opini&atilde;o essas mesas que se mexem apenas demonstram<br \/>\n    que a nossa pretensa sociedade culta est&aacute; t&atilde;o pouco desenvolvida<br \/>\n    como os nossos alde&otilde;es &#8212; replicou Levine. &#8212; Enquanto eles<br \/>\n    acreditam em mau-olhado, em feiti&ccedil;arias e em apari&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&oacute;s, de nossa parte&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o acredita?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o posso acreditar, condessa.<\/p>\n<p>&#8212; Mas eu estou a dizer-lhe que vi com os meus pr&oacute;prios olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m as camponesas ser&atilde;o capazes de dizer que viram<br \/>\n    fantasmas.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, na sua opini&atilde;o, eu n&atilde;o falo a verdade<br \/>\n    &#8212;e a condessa p&ocirc;-se a rir, mas o seu riso n&atilde;o reflectia<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; isso, Macha, o Constantino Dimitrievitch quer<br \/>\n    apenas dizer que n&atilde;o pode acreditar em espiritismo &#8212; explicou<br \/>\n    Kitty, corando por Levine.<\/p>\n<p> Este compreendeu e ia responder, ainda mais irritado, quando Vronski, com<br \/>\n    o seu sorriso franco e alegre, interveio na conversa, impedindo que ela tomasse<br \/>\n    um rumo desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o admite de modo algum essa possibilidade? &#8212; inquiriu.&#8212;<br \/>\n    Por qu&ecirc;? Admitimos a exist&ecirc;ncia da electricidade, que n&atilde;o<br \/>\n    conhecemos. Por que n&atilde;o poder&aacute; haver uma for&ccedil;a nova,<br \/>\n    ainda que desconhecida para n&oacute;s, que&#8230;?<\/p>\n<p>&#8212; Quando se descobriu a electricidade &#8212; interrompeu bruscamente<br \/>\n    Levine &#8212; apenas se comprovou o fen&ocirc;meno, mas n&atilde;o a sua<br \/>\n    causa; ignorava-se de onde provinha e o que a produzia, e s&eacute;culos decorreram<br \/>\n    antes que se lhe desse uma aplica&ccedil;&atilde;o. Pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    os<\/p>\n<p> esp&iacute;ritas come&ccedil;aram por receber comunica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    por meio de mesas de p&eacute; de galo, de apari&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;ritos,<br \/>\n    e depois atribu&iacute;ram isso a uma for&ccedil;a desconhecida.<\/p>\n<p> Vronski, como sempre, ouviu atentamente Levine, interessado, ao que parecia,<br \/>\n    nas suas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; Sim: agora, por&eacute;m, os esp&iacute;ritas dizem: n&atilde;o<br \/>\n    sabemos de que for&ccedil;a se trata, mas a verdade &eacute; que essa for&ccedil;a<br \/>\n    existe e que actua sob estas e estas condi&ccedil;&otilde;es. Aos s&aacute;bios<br \/>\n    compete descobrir em que consiste. N&atilde;o vejo por que n&atilde;o possa<br \/>\n    existir uma for&ccedil;a nova, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Porque na electricidade &#8212; interrompeu de novo Levine &#8212;<br \/>\n    sempre que o senhor esfregue um bocado de resina com um peda&ccedil;o de l&atilde;<br \/>\n    se produzir&aacute; certa reac&ccedil;&atilde;o, enquanto no espiritismo isso<br \/>\n    n&atilde;o sucede com a mesma regularidade. Eis por que n&atilde;o pode ser<br \/>\n    um fen&ocirc;meno natural.<\/p>\n<p>Ao perceber que a conversa tomava um tom demasiado s&eacute;rio para o ambiente<br \/>\n    do sal&atilde;o, Vronski n&atilde;o respondeu e, procurando mudar de tema,<br \/>\n    sorriu, voltando-se para os outros.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos ent&atilde;o fazer uma experi&ecirc;ncia, condessa &#8212;<br \/>\n    principiou por dizer. Levine, por&eacute;m, teimou em completar o seu argumento.<\/p>\n<p> &#8212; Na minha opini&atilde;o, &eacute; um erro os esp&iacute;ritas tentarem<br \/>\n    explicar os seus prod&iacute;gios como uma for&ccedil;a desconhecida &#8212;<br \/>\n    continuou. &#8212; Falam de uma for&ccedil;a espiritual e querem submet&ecirc;-la<br \/>\n    a experi&ecirc;ncias materiais. &#8212; Todos estavam mortos por que Levine<br \/>\n    se calasse, e ele percebia-os.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu acho que o senhor seria um m&eacute;dium de primeira ordem.<br \/>\n    &Agrave;s vezes parece ficar em &ecirc;xtase &#8212; observou a condessa Nordston.<\/p>\n<p> Levine abriu a boca, quis dizer qualquer coisa, corou e n&atilde;o falou<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, condessa, vamos demonstrar agora mesmo essa hist&oacute;ria<br \/>\n    das mesas de p&eacute; de galo &#8212; disse Vronski. &#8212; D&aacute; licen&ccedil;a,<br \/>\n    princesa?<\/p>\n<p>Vronski p&ocirc;s-se de p&eacute;, procurando com os olhos uma mesa de p&eacute;<br \/>\n    de galo. Kitty sentia-se tanto mais penalizada quanto sabia ser ela a causa<br \/>\n    daquela m&aacute;goa. &laquo;Se me puder perdoar, perdoe-me&raquo;, dizia<br \/>\n    o olhar de Kitty. &laquo;Sou t&atilde;o feliz!&raquo; &laquo;Odeio-os a todos,<br \/>\n    tanto a voc&ecirc; como a mim mesmo&raquo;, ripostou o olhar de Levine, que<br \/>\n    nesta altura pegara no chap&eacute;u. Mas n&atilde;o era ainda dessa vez que<br \/>\n    poderia partir. No momento em que todos se iam instalar em torno da mesa de<br \/>\n    p&eacute; de galo e Levine se dispunha a sair, entrava o velho pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    que, assim que cumprimentou as outras pessoas, se dirigiu a Levine.<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc;? &#8212; exclamou alegremente. &#8212; Est&aacute; aqui?<br \/>\n    Mas n&atilde;o sabia.<\/p>\n<p> Muito prazer em v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>O velho pr&iacute;ncipe dirigia-se a Levine tratando-o ora por tu ora por<br \/>\n    senhor. Abra&ccedil;ou-o e p&ocirc;s-se a falar com ele sem reparar em Vronski,<br \/>\n    que se pusera de p&eacute; e aguardava que o pr&iacute;ncipe lhe dirigisse<br \/>\n    a palavra. Kitty compreendia que, depois do que acabava de acontecer, as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pai para com Levine deviam ser dolorosas para este. E corou ao notar a<br \/>\n    frieza com que o pai respondera ao cumprimento de Vronski e a surpresa com<br \/>\n    que este olhou para o pr&iacute;ncipe, sem perceber por que podia ele estar<br \/>\n    mal disposto a seu respeito.<\/p>\n<p> &#8212; Pr&iacute;ncipe, consinta que Constantino Dimitrievitch se junte<br \/>\n    a n&oacute;s &#8212; disse a condessa Nordston. &#8212; Queremos fazer uma<br \/>\n    experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; De que se trata? De fazer girar mesas de p&eacute; de galo? Perdoem-me,<br \/>\n    minhas senhoras e meus senhores, mas acho muito mais divertido que brinquem<br \/>\n    antes &agrave;s prendas &#8212; replicou o pr&iacute;ncipe, fitando Vronski<br \/>\n    e adivinhando que fora dele a ideia. &#8212; Brincar &agrave;s prendas tem<br \/>\n    algum sentido. Surpreendido, Vronski fitou o velho pr&iacute;ncipe com os<br \/>\n    seus olhos graves e depois de um ligeiro sorriso p&ocirc;s-se a falar com<br \/>\n    a condessa Nordston acerca de um baile que se realizava na semana seguinte.<\/p>\n<p> &#8212; Espero que n&atilde;o falte &#8212; disse Vronski, dirigindo-se<br \/>\n    a Kitty.<\/p>\n<p>No momento em que o velho pr&iacute;ncipe se separara dele, Levine sa&iacute;ra<br \/>\n    sem ningu&eacute;m dar por isso, e a &uacute;ltima impress&atilde;o que reteve<br \/>\n    daquela noite foi a impress&atilde;o feliz e sorridente do rosto de Kitty<br \/>\n    respondendo &agrave; pergunta de Vronski sobre a baile.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">CAP&Iacute;TULO XV<\/a><\/h4>\n<p>Ao findar o ser&atilde;o, Kitty contou &agrave; m&atilde;e a conversa com<br \/>\n    Levine. Apesar da pena que lhe inspirava, estava contente que ele lhe tivesse<br \/>\n    feito uma declara&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o tinha d&uacute;vidas de que<br \/>\n    procedera como devia. Mas, uma vez deitada, demorou muito a adormecer. Uma<br \/>\n    impress&atilde;o a perseguia sem cessar: o rosto de Levine, de sobrancelhas<br \/>\n    franzidas e olhos profundamente tristes e bondosos, olhando-os, ora a ela,<br \/>\n    ora a Vronski, enquanto ouvia o pr&iacute;ncipe. Tanta pena teve dele que<br \/>\n    lhe vieram as l&aacute;grimas aos olhos. Logo, por&eacute;m, pensou no homem<br \/>\n    a quem preferira.<\/p>\n<p> Lembrou vivamente o seu rosto s&eacute;rio e varonil; aquela nobre serenidade<br \/>\n    e benevol&ecirc;ncia para com todos; evocou o amor que lhe dedicava aquele<br \/>\n    a quem queria, e sentindo de novo a alegria na alma, com um sorriso feliz,<br \/>\n    deixou-se cair sobre o travesseiro. &laquo;Que pena, que pena, mas que hei-de<br \/>\n    fazer? A culpa n&atilde;o &eacute; minha&raquo;, dizia a si mesma, embora<br \/>\n    uma voz interior<\/p>\n<p> lhe segredasse o contr&aacute;rio. N&atilde;o sabia se estava arrependida<br \/>\n    de ter conquistado Levine ou se de o haver repelido. E o certo &eacute; que<br \/>\n    a felicidade que sentia era empanada pelas d&uacute;vidas. &laquo;Meu Deus,<br \/>\n    perdoa-me! Meu Deus, perdoa-me!&raquo;, foi repetindo intimamente, at&eacute;<br \/>\n    que adormeceu.<\/p>\n<p>Entretanto, l&aacute; em baixo, no pequeno gabinete do pr&iacute;ncipe, desenrolava-se<br \/>\n    uma dessas cenas que freq&uuml;entemente se repetiam entre os pais, por causa<br \/>\n    daquela filha t&atilde;o querida.<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute;? Ainda perguntas? &#8212; exclamou o pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    gesticulando, ao mesmo tempo que ajeitava o roup&atilde;o de pet&iacute;t-gris.<br \/>\n    &#8212; Ainda perguntas? Pois escuta. N&atilde;o tens nem amor-pr&oacute;prio<br \/>\n    nem dignidade. Comprometes, perdes a tua filha com essa mania baixa e est&uacute;pida<br \/>\n    de impingi-la &agrave;s pessoas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, pelo amor de Deus! Que fiz eu? &#8212; replicou a princesa,<br \/>\n    a ponto de chorar.<\/p>\n<p> Depois da conversa com a filha, a princesa, feliz e contente, viera, como<br \/>\n    de costume, dar a boa-noite ao marido, e embora n&atilde;o tencionasse falar-lhe<br \/>\n    na declara&ccedil;&atilde;o de Levine nem na negativa de Kitty, disse-lhe<br \/>\n    que, segundo julgava, o assunto Vronski se poderia considerar resolvido, que<br \/>\n    se decidiria logo que a m&atilde;e dele chegasse. Ao ouvir estas palavras,<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe descontrolou-se, proferindo frases inconvenientes.<\/p>\n<p>&#8212; Que fizeste? Em primeiro lugar, procuras atrair um noivo, e toda<br \/>\n    a gente em Moscovo ir&aacute; falar nisso, ali&aacute;s com inteira raz&atilde;o.<br \/>\n    Se queres dar festas, convida toda a gente e n&atilde;o apenas determinados<br \/>\n    pretendentes. Convida todos esses peralvilhos (assim chamava o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    aos jovens de Moscovo), arranja um pianista e que dancem. N&atilde;o fa&ccedil;as<br \/>\n    como hoje, que trouxeste para casa os pretendentes, e toca a tratar do casamento!<br \/>\n    Mete-me nojo tudo isto, conseguiste encher a cabe&ccedil;a da pequena de ideias<br \/>\n    tolas. Levine &eacute; um homem mil vezes melhor. Esse peralvilho de Sampetersburgo<br \/>\n    &eacute; dos que se fabricam em s&eacute;rie. S&atilde;o todos iguais e nenhum<br \/>\n    presta para nada. Mesmo que fosse pr&iacute;ncipe de sangue, a minha filha<br \/>\n    n&atilde;o precisa disso para nada.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que fiz eu?<\/p>\n<p>&#8212; Que fizeste? &#8212; vociferou o pr&iacute;ncipe, furioso.<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; sei que, se te der ouvidos, nunca casaremos a nossa filha.<br \/>\n    Nesse caso &eacute; melhor irmos para o campo.<\/p>\n<p> &#8212; Realmente, acho melhor.<\/p>\n<p>&#8212; Escuta. Porventura provoquei algu&eacute;m? O que h&aacute; &eacute;<br \/>\n    o seguinte: esse rapaz, muito bom, enamorou-se de Kitty, e ela, pelo que sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Isso &eacute; o que pensas! E se Kitty se apaixona de verdade e ele<\/p>\n<p> pensa tanto em casar como eu&#8230;! Oh! Que os meus olhos n&atilde;o vejam<br \/>\n    uma coisa dessas&#8230;! &laquo;Oh, o espiritismo! Oh! Nice! Oh! O baile!&raquo;<br \/>\n    &#8212; E o pr&iacute;ncipe, imitando a mulher, fazia uma rever&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; medida que ia pronunciando cada palavra. &#8212; E se viermos a fazer<br \/>\n    a desgra&ccedil;a de Katienka, se ela toma isto a s&eacute;rio? &#8212; Mas<br \/>\n    por que sup&otilde;es uma coisa dessas?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o suponho, tenho a certeza. Para isso n&oacute;s, os pais,<br \/>\n    temos uma acuidade que voc&ecirc;s, as mulheres, n&atilde;o t&ecirc;m. Vejo,<br \/>\n    por um lado, um homem com inten&ccedil;&otilde;es s&eacute;rias: Levine, e,<br \/>\n    pelo outro, esse pelintra que s&oacute; pensa em divertir-se&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; vens tu com as tuas manias&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Lembrar-te-&aacute;s do que estou a dizer quando for tarde de mais,<br \/>\n    como aconteceu com a Dacha.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, bom, n&atilde;o falemos mais nisto &#8212; interrompeu-o a<br \/>\n    princesa, lembrando-se da infelicidade de Dolly.<\/p>\n<p> &#8212; De acordo, adeus!<\/p>\n<p>Depois de terem trocado o beijo e o sinal-da-cruz do costume, os dois esposos<br \/>\n    separaram-se, ambos persuadidos de que cada um ficaria com a sua opini&atilde;o.<br \/>\n    No entanto, a princesa, ainda h&aacute; momentos firmemente convencida de<br \/>\n    que naquela noite se decidira do futuro de Kitty, sentia agora essa convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um tanto abalada pelas palavras do marido. E uma vez recolhida, o futuro surgia-lhe<br \/>\n    bem pouco seguro e, tal como Kitty, repetiu v&aacute;rias vezes, mentalmente:<br \/>\n    &laquo;Senhor, tem piedade de mim! Senhor, tem piedade de mim!&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"16\">CAP&Iacute;TULO XVI<\/a><\/h4>\n<p>Vronski n&atilde;o sabia o que era vida de fam&iacute;lia. Quando nova, a<br \/>\n    m&atilde;e, senhora da sociedade e mulher muito atraente, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    em vida do marido, mas principalmente depois de vi&uacute;va, tivera muitas<br \/>\n    aventuras, que eram do conhecimento de todos. Vronski, educado no Corpo de<br \/>\n    Pajens, mal conhecera o pai. Sa&iacute;ra da escola muito novo e n&atilde;o<br \/>\n    tardou a levar a mesma vida de todos os ricos oficiais petersburgueses. Embora<br \/>\n    freq&uuml;entasse, de quando em quando, a alta sociedade de Sampetersburgo,<br \/>\n    o certo &eacute; que os seus problemas sentimentais estavam fora desse meio.<\/p>\n<p>Em Moscovo experimentara pela primeira vez, rompendo com a vida ostentosa<br \/>\n    que levava, o encanto de conviver com uma jovem da sociedade, delicada na<br \/>\n    sua candura, e que n&atilde;o tardara a enamorar-se dele.<\/p>\n<p> Nunca lhe passara pela cabe&ccedil;a que pudesse haver qualquer mal nas<br \/>\n    suas rela&ccedil;&otilde;es com Kitty. Freq&uuml;entava-lhe a casa, e nos<br \/>\n    bailes dan&ccedil;ava de prefer&ecirc;ncia com ela. Falava com Kitty das coisas<br \/>\n    de que em geral se fala na sociedade: uma s&eacute;rie de tolices a que dava,<br \/>\n    instintivamente, um sentido especial que s&oacute; ele podia entender. Embora<br \/>\n    nada lhe tivesse dito que n&atilde;o pudesse ser repetido diante de todos,<br \/>\n    percebia que Kitty dia a dia dependia mais dele e quanto mais o reconhecia<br \/>\n    mais agrad&aacute;vel isso se lhe tornava. O sentimento que ela lhe inspirava<br \/>\n    ia-se tornando cada vez mais delicado. Ignorava que a maneira como a tratava<br \/>\n    tinha um nome espec&iacute;fico: tentativa de sedu&ccedil;&atilde;o sem inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    matrimoniais, m&aacute; ac&ccedil;&atilde;o corrente entre jovens arrogantes<br \/>\n    como ele. Dir-se-ia que era a primeira vez que descobria semelhante prazer,<br \/>\n    e tirava dele o melhor partido poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Grande seria a sua surpresa se tivesse podido ouvir naquela noite a conversa<br \/>\n    travada entre os pais de Kitty, se lhe fosse dado situar-se no ponto de vista<br \/>\n    da fam&iacute;lia e inteirar-se de que a jovem seria desgra&ccedil;ada se<br \/>\n    n&atilde;o casasse com ele. Como poderia ele considerar repreens&iacute;vel<br \/>\n    uma coisa que t&atilde;o grande prazer lhe proporcionava e que t&atilde;o<br \/>\n    agrad&aacute;vel era, sobretudo para ela, Kitty? E ainda por cima ter de casar<br \/>\n    com ela!<\/p>\n<p>Nunca encarara a perspectiva do casamento. N&atilde;o s&oacute; n&atilde;o<br \/>\n    apreciava a vida familiar, como via qualquer coisa estranha, hostil, e sobretudo<br \/>\n    rid&iacute;cula na fam&iacute;lia, principalmente no marido, de acordo como<br \/>\n    o ponto de vista do grupo de solteiros que freq&uuml;entava. Mas o certo &eacute;<br \/>\n    que Vronski, embora n&atilde;o pudesse suspeitar da conversa havida entre<br \/>\n    os pais de Kitty, ao sair naquela noite de casa dela teve a impress&atilde;o<br \/>\n    de que o la&ccedil;o espiritual que os unia se apertava mais, e a tal ponto<br \/>\n    que seria necess&aacute;rio tomar uma decis&atilde;o. Mas que decis&atilde;o?<br \/>\n    E de que esp&eacute;cie? &laquo;Precisamente o agrad&aacute;vel &eacute; que<br \/>\n    nenhum de n&oacute;s tenha dito nada e que, no entanto, nos compreendamos<br \/>\n    um ao outro s&oacute; com essa muda linguagem dos olhares; hoje disse-me mais<br \/>\n    claramente do que nunca que me ama. E f&ecirc;-lo de um modo t&atilde;o agrad&aacute;vel,<br \/>\n    t&atilde;o simples e sobretudo t&atilde;o confiado! At&eacute; me deu a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que sou uma pessoa melhor, mais pura. Dou-me conta de que tenho cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e que h&aacute; em mim muitas coisas boas&raquo;, pensava Vronski ao regressar<br \/>\n    de casa dos Tcherbatski. E, como sempre que deixava essa casa, experimentava<br \/>\n    uma agrad&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de pureza e de juventude, por<br \/>\n    um lado em virtude de n&atilde;o ter fumado durante toda a noite e pelo outro<br \/>\n    gra&ccedil;as ao sentimento desconhecido, novo para ele, que lhe inspirava<br \/>\n    o enternecimento diante de Kitty e o amor que ela lhe tinha.<\/p>\n<p> &laquo;Bom, que import&acirc;ncia tem isso? Nenhuma. &Eacute; agrad&aacute;vel<br \/>\n    para mim e para ela tamb&eacute;m.&raquo; Vronski p&ocirc;s-se a pensar onde<br \/>\n    acabar aquela noite. Mentalmente reviu os lugares aonde poderia ir. &laquo;Ao<br \/>\n    clube? Fazer<\/p>\n<p> uma partida de b&eacute;sigue e tomar champanhe com Ignative? N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o vou. Ao Ch&acirc;teau des Fleurs, com as suas can&ccedil;onetistas<br \/>\n    e os seus canc&atilde;s&#8230; e tamb&eacute;m com Oblonski? N&atilde;o, estou<br \/>\n    cansado de todas essas coisas. E &eacute; precisamente por isso que tanto<br \/>\n    aprecio os Tcherbatski. Em casa deles sinto-me melhor pessoa. Vou para casa.&raquo;<br \/>\n    Dirigiu-se directamente para o seu quarto do Dusseau, pediu a ceia e assim<br \/>\n    que se despiu e que deitou a cabe&ccedil;a no travesseiro adormeceu pesadamente.<\/p>\n<h4><a name=\"17\">CAP&Iacute;TULO XVII<\/a><\/h4>\n<p>&Agrave;s da manh&atilde; do dia seguinte Vronski foi &agrave; esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    esperar a, m&atilde;e, que vinha de Sampetersburgo, e a primeira pessoa com<br \/>\n    quem se encontrou na escada foi Oblonski, que aguardava a irm&atilde;, que<br \/>\n    devia chegar no mesmo comboio.<\/p>\n<p> &#8212; Seja bem aparecida Sua Alteza! A quem espera? &#8212; gritou-lhe<br \/>\n    Oblonski<\/p>\n<p>&#8212; Minha m&atilde;e &#8212; respondeu Vronski, sorrindo, como todas<br \/>\n    as pessoas que se encontravam com Stepane Arkadievitch. E depois de lhe apertar<br \/>\n    a m&atilde;o, subiram juntos para a gare. &#8212; Chega hoje de Sampetersburgo.<\/p>\n<p> &#8212; Esperei-te ontem &agrave; noite at&eacute; &agrave;s . Aonde foste<br \/>\n    depois de sa&iacute;res de casa dos Tcherbatski? &#8212; Para casa. Passei<br \/>\n    um ser&atilde;o t&atilde;o agrad&aacute;vel em casa deles que n&atilde;o me<br \/>\n    apeteceu ir a lugar algum &#8212; replicou Vronski.<\/p>\n<p> &#8212; Conhe&ccedil;o os cavalos fogosos pela marca e os jovens apaixonados<br \/>\n    pelos olhos &#8212; declarou Stepane Arkadievitch, repetindo o que dissera<br \/>\n    a Levine. Vronski sorriu, como a dar a entender que o n&atilde;o negava, mas<br \/>\n    mudou logo de conversa.<\/p>\n<p> &#8212; E a quem esperas tu? &#8212; perguntou.<\/p>\n<p>&#8212; Eu? A uma mulher muito bela &#8212; disse Oblonski.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute;!<\/p>\n<p>&#8212; Honni soit qui mal y pense! Espero minha irm&atilde; Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! A Karenina! &#8212;observou Vronski.<\/p>\n<p>&#8212; Tu conheces-la?<\/p>\n<p> Maldito seja quem mal pensar. Lema do escudo da Ordem da Jarreteira e das<br \/>\n    armas da Gr&atilde;-Bretanha.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que sim, ou n&atilde;o&#8230; realmente n&atilde;o me recordo<br \/>\n    &#8212; replicou Vronski distra&iacute;do, a quem o nome de Karenina evocava<br \/>\n    qualquer coisa de aborrecido e afectado.<\/p>\n<p> &#8212; Mas com certeza conheces meu cunhado, o c&eacute;lebre Alexei Alexandrovitch.<br \/>\n    Toda a gente o conhece.<\/p>\n<p>&#8212; Conhe&ccedil;o-o de vista e de ouvir falar&#8230; Sei que &eacute; homem<br \/>\n    inteligente, s&aacute;bio e um tanto sobrenatural&#8230; Mas, sabes, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; precisamente o meu g&ecirc;nero&#8230; Not in my Une &#8212; disse Vronski.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, &eacute; um homem not&aacute;vel; um tanto conservador, mas<br \/>\n    boa pessoa, boa pessoa &#8212; observou Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto melhor para ele &#8212; tornou Vronski, sorrindo. &#8212;<br \/>\n    Ah, est&aacute;s aqui! &#8212; exclamou, dirigindo-se ao velho e espada&uacute;do<br \/>\n    criado da m&atilde;e. &#8212; Segue-me.<\/p>\n<p> Como todas as pessoas, Vronski tamb&eacute;m estava encantado com Oblonski,<br \/>\n    mas de h&aacute; tempo que sentia no seu conv&iacute;vio um prazer muito especial:<br \/>\n    n&atilde;o seria ainda aproximar-se de Kitty? &#8212; Ent&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    combinado &#8212; disse, alegremente, travando-o pelo bra&ccedil;o. &#8212;<br \/>\n    Domingo oferecemos um jantar &agrave; diva? &#8212; Sem falta. Eu tratarei<br \/>\n    da subscri&ccedil;&atilde;o. A prop&oacute;sito, conheceste ontem o meu amigo<br \/>\n    Levine? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p> &#8212; Claro! Mas foi-se embora muito cedo.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um bom rapaz, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212; continuou<br \/>\n    Oblonski.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei porque todos os moscovitas, &agrave; excep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que est&aacute; a falar comigo, como &eacute; natural, t&ecirc;m certa<br \/>\n    rudeza no trato &#8212; observou, brincando. &#8212; Espinham-se &agrave;<br \/>\n    menor coisa e enfadam-se, como se nos quisessem dar uma li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, &eacute;&#8230; &#8212; exclamou rindo, alegremente,<br \/>\n    Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; O comboio demorar&aacute; muito? &#8212; perguntou Vronski ao criado.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; saiu da &uacute;ltima esta&ccedil;&atilde;o &#8212; replicou<br \/>\n    este.<\/p>\n<p>O movimento crescente na gare, as idas e vindas dos carregadores, o aparecimento<br \/>\n    dos pol&iacute;cias, a chegada das pessoas que vinham esperar os viajantes,<br \/>\n    tudo era ind&iacute;cio da aproxima&ccedil;&atilde;o do comboio. Fazia frio,<br \/>\n    e atrav&eacute;s da bruma viam-se oper&aacute;rios de pelicas curtas e botas<br \/>\n    de feltro que atravessavam as linhas. Ao longe ouviu-se o silvo de uma locomotiva<br \/>\n    e da&iacute; a pouco distinguiu-se o ru&iacute;do de uma massa pesada em movimento.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o! N&atilde;o! N&atilde;o apreciaste devidamente o meu<br \/>\n    amigo Levine &#8212;<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; o meu tipo.<\/p>\n<p> disse Stepane Arkadievitch, que muito desejava contar a Vronski as inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Levine a respeito de Kitty. &#8212; &Eacute; um rapaz muito nervoso, que<br \/>\n    &agrave;s vezes costuma ser desagrad&aacute;vel, mas outras &eacute; capaz<br \/>\n    de ser muito simp&aacute;tico. E um cora&ccedil;&atilde;o de ouro, uma natureza<br \/>\n    recta e honrada. Mas ontem tinha motivos especiais &#8212; prosseguiu, com<br \/>\n    um sorriso significativo, esquecendo por completo a sincera compaix&atilde;o<br \/>\n    que Levine lhe inspirara na v&eacute;spera e experimentando naquele momento<br \/>\n    o mesmo sentimento em rela&ccedil;&atilde;o a Vronski. &#8212; Sim, tinha<br \/>\n    motivos para se sentir ou muito feliz ou muito desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Vronski deteve-se, perguntando sem rodeios:<\/p>\n<p>&#8212; Que queres dizer? Porventura se teria declarado ontem &agrave; tua<br \/>\n    belle-soeur?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Talvez &#8212; replicou Stepane Arkadievitch. &#8212; Creio que sim.<br \/>\n    Se partiu cedo e estava mal disposto, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida&#8230;<br \/>\n    H&aacute; tempo j&aacute; que anda apaixonado; tenho muita pena dele.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, sim?&#8230; Seja como for, acho que Kitty pode aspirar a um melhor<br \/>\n    partido &#8212; observou Vronski, e, dilatando o peito, seguiu em frente.<br \/>\n    &#8212; Ali&aacute;s, n&atilde;o o conhe&ccedil;o&#8230; Deve ser, efectivamente,<br \/>\n    uma situa&ccedil;&atilde;o penosa. &Eacute; por isso que a maioria dos homens<br \/>\n    prefere tratar com certas mulheres. Nessa altura, quando uma pessoa n&atilde;o<br \/>\n    tem &ecirc;xito, &eacute; s&oacute; por falta de dinheiro. Nos outros casos,<br \/>\n    os m&eacute;ritos pessoais &eacute; que est&atilde;o em jogo.<\/p>\n<p> Olha, l&aacute; vem o comboio.<\/p>\n<p>Com efeito, a dist&acirc;ncia, silvava a locomotiva. Transcorridos alguns<br \/>\n    minutos, a plataforma estremeceu e a locomotiva entrou na gare, lan&ccedil;ando<br \/>\n    nuvens de fumo, que a atmosfera gelada fazia descer para a terra, passando,<br \/>\n    ruidosamente, diante das pessoas que se aglomeravam na gare, &agrave;s quais<br \/>\n    o maquinista, todo agasalhado e coberto de gelo, acenava com a m&atilde;o,<br \/>\n    enquanto a biela da roda central se movia lentamente. Subitamente a plataforma<br \/>\n    foi ainda mais violentamente sacudida. Atr&aacute;s do tender, refreando a<br \/>\n    marcha pouco a pouco, surgiu o furg&atilde;o, onde um c&atilde;o uivava, e,<br \/>\n    por fim, apareceram os vag&otilde;es dos passageiros, que antes de parar foram<br \/>\n    sacudidos por um movimento brusco.<\/p>\n<p>O condutor fez soar o apito ainda com a composi&ccedil;&atilde;o em movimento,<br \/>\n    e saltou. Depois principiaram a desembarcar, um por um, os passageiros impacientes:<br \/>\n    um oficial da Guarda, muito hirto, que olhava &agrave; sua volta com uma express&atilde;o<br \/>\n    severa; um jovem comerciante, &aacute;gil e sorridente, que carregava uma<br \/>\n    pasta; e, por fim, um campon&ecirc;s com uma sacola ao ombro.<\/p>\n<p> Vronski, que se conservava ao lado de Oblonski, ia observando os vag&otilde;es<br \/>\n    e os passageiros que desciam, esquecido da m&atilde;e. O que acabava de saber<br \/>\n    de Kitty emocionara-o; causava-lhe satisfa&ccedil;&atilde;o. Sem dar por isso,<br \/>\n    dilatara o t&oacute;rax enquanto os olhos lhe faiscavam. Sentia-se vitorioso.<\/p>\n<p>&#8212; A condessa Vronski vem naquela carruagem &#8212; disse o condutor,<br \/>\n    aproximando-se dele.<\/p>\n<p>Estas palavras despertaram Vronski, obrigando-o a lembrar-se da m&atilde;e<br \/>\n    e da entrevista que da&iacute; a pouco iria ter com ela. No fundo da sua alma<br \/>\n    n&atilde;o respeitava a m&atilde;e e, conquanto n&atilde;o desse por isso,<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o a estimava verdadeiramente.<\/p>\n<p> De acordo com a mentalidade do meio em que vivia e a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que recebera, n&atilde;o podia imaginar outras rela&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    ela al&eacute;m das do respeito e da extrema obedi&ecirc;ncia, rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que se tornavam tanto mais aparentes quanto menos a estimava e respeitava<br \/>\n    no seu &iacute;ntimo.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">CAP&Iacute;TULO XVIII<\/a><\/h4>\n<p>Vronski seguiu o condutor e subiu ao estribo do vag&atilde;o, detendo-se<br \/>\n    &agrave; entrada do compartimento para dar passagem a uma senhora que sa&iacute;a.<\/p>\n<p>Com a sua velha experi&ecirc;ncia de homem de sociedade, bastou-lhe um olhar<br \/>\n    para compreender, pelo aspecto da desconhecida, que pertencia &agrave; alta-roda.<br \/>\n    Curvou-se e ia entrar no vag&atilde;o quando sentiu necessidade de voltar<br \/>\n    a olh&aacute;-la, n&atilde;o atra&iacute;do pela sua beleza, nem pela sua<br \/>\n    eleg&acirc;ncia, nem pela singela gra&ccedil;a que se desprendia de toda a<br \/>\n    sua pessoa, mas apenas porque a express&atilde;o do seu rosto encantador,<br \/>\n    quando passara junto dele, se mostrara especialmente suave e delicada. No<br \/>\n    momento em que se voltou, tamb&eacute;m ela olhara para tr&aacute;s. Os seus<br \/>\n    brilhantes olhos cinzentos, que pareciam escuros gra&ccedil;as &agrave;s espessas<br \/>\n    pestanas, detiveram-se nele, amistosos e atentos, como se o reconhecessem,<br \/>\n    e imediatamente se desviaram para a esta&ccedil;&atilde;o, como que procurando<br \/>\n    algu&eacute;m. Naquele r&aacute;pido olhar, Vronski teve tempo de lhe observar<br \/>\n    a express&atilde;o de uma vivacidade contida, os olhos reluzentes e o sorriso<br \/>\n    quase impercept&iacute;vel dos l&aacute;bios rubros. Parecia que algo excessivo<br \/>\n    lhe inundava o ser e, a pesar seu, transbordava ora do olhar luminoso, ora<br \/>\n    do sorriso. N&atilde;o obstante ter velado intencionalmente a luz dos olhos,<br \/>\n    ela transparecia atrav&eacute;s do leve sorriso.<\/p>\n<p> Vronski penetrou no compartimento. A m&atilde;e, uma velhinha mirrada, de<br \/>\n    olhos negros e carac&oacute;is na testa, apertou os olhos ao examinar o filho<br \/>\n    e um leve sorriso lhe aflorou aos l&aacute;bios delgados. Levantou-se, passou<br \/>\n    uma maleta &agrave; criada grave, estendeu a m&atilde;o magra ao filho, que<br \/>\n    a beijou, beijando-o ela, por sua vez.<\/p>\n<p> &#8212; Recebeste o telegrama? Est&aacute;s bem? Gra&ccedil;as a Deus!<\/p>\n<p>&#8212; Fez boa viagem? &#8212; perguntou Vronski, sentando-se a seu lado.<br \/>\n    Involuntariamente ia ouvindo uma voz feminina que ressoava do outro lado da<br \/>\n    portinhola. Sabia que era a voz da senhora com quem se cruzara &agrave; entrada<br \/>\n    do comboio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o estou de acordo consigo &#8212; dizia essa voz.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o ponto de vista petersburgu&ecirc;s, &eacute; o ponto de<br \/>\n    vista feminino &#8212; respondia ela.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o! Consinta que lhe beije a m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus, Ivan Petrovitch. Fa&ccedil;a o favor de ver se o meu irm&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; a&iacute; e diga-lhe que venha ter comigo &#8212; disse a mesma<br \/>\n    senhora, junto &agrave; portinhola, voltando ao compartimento.<\/p>\n<p> &#8212; Encontrou o seu irm&atilde;o? &#8212; inquiriu a Vronskaia, dirigindo-se<br \/>\n    a ela. Naquele momento, Vronski compreendeu que devia tratar-se da Karenina.<\/p>\n<p> &#8212; Seu irm&atilde;o est&aacute; a&iacute; &#8212; disse-lhe ele, levantando-se.<br \/>\n    &#8212; Perdoe-me, n&atilde;o a tinha reconhecido; ali&aacute;s, t&atilde;o<br \/>\n    r&aacute;pido foi o nosso encontro que &eacute; natural que n&atilde;o se<br \/>\n    lembre de mim.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, sim! T&ecirc;-lo-ia reconhecido, porque durante a viagem sua<br \/>\n    m&atilde;e e eu fal&aacute;mos muito a seu respeito &#8212; replicou Karenina,<br \/>\n    deixando, por fim, que o riso se lhe espalhasse no rosto. &#8212; Mas meu<br \/>\n    irm&atilde;o &eacute; que n&atilde;o aparece.<\/p>\n<p> &#8212; Vai cham&aacute;-lo, Aliocha &#8212; disse a idosa condessa. Vronski<br \/>\n    desceu &agrave; plataforma e gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Oblonski, estamos aqui!<\/p>\n<p>Ana Karenina, por&eacute;m, n&atilde;o esperou pelo irm&atilde;o; ao v&ecirc;-lo,<br \/>\n    saiu da carruagem com seu passo decidido e ligeiro. Quando chegou junto dele,<br \/>\n    num gesto que surpreendeu Vronski pela gra&ccedil;a e firmeza, abra&ccedil;ou<br \/>\n    Stepane Arkadievitch com o bra&ccedil;o esquerdo, puxando-o a si e beijando-o<br \/>\n    efusivamente. Vronski, sem a perder de vista, olhava-a, sorrindo sem saber<br \/>\n    porqu&ecirc;. Ao lembrar-se de que sua m&atilde;e o esperava, voltou para<br \/>\n    a composi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; uma pessoa muito agrad&aacute;vel? &#8212; perguntou<br \/>\n    a condessa.<\/p>\n<p> &#8212; O marido veio instal&aacute;-la a meu lado e isso deu-me muito prazer.<br \/>\n    Convers&aacute;mos toda a viagem. Bom, e de ti dizem que&#8230; vous filez le<br \/>\n    parfait amour. Tant mieux, mon cher, tant mieux.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei a que te referes, maman &#8212; replicou Vronski friamente.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, maman, vamos?<\/p>\n<p>Ana Karenina voltou ao vag&atilde;o para se despedir da condessa.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, condessa, encontrou o seu filho e eu encontrei meu irm&atilde;o<br \/>\n    &#8212; disse alegremente. &#8212; Esgotei todo o meu repert&oacute;rio, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o teria mais nada para lhe contar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o creio. Era capaz de dar a volta ao Mundo na sua companhia<br \/>\n    sem me aborrecer &#8212; replicou a condessa, pegando-lhe na m&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    &Eacute; uma pessoa simp&aacute;tica com quem &eacute; agrad&aacute;vel conversarmos<br \/>\n    e at&eacute; estarmos calados. N&atilde;o pense tanto no seu filho, peco-lhe:<br \/>\n    &eacute; bom separar-se dele de vez em quando entregas-te ao amor plat&ocirc;nico.<br \/>\n    Tanto melhor, querido, tanto melhor Ana Karenina permanecia im&oacute;vel,<br \/>\n    muito direita, os olhos risonhos.<\/p>\n<p>&#8212; Ana Arkadievna tem um filho de oito anos, de quem nunca se separou,<br \/>\n    e est&aacute; saudos&iacute;ssima por ter sido obrigada a deix&aacute;-lo<br \/>\n    em Sampetersburgo &#8212; explicou a condessa a Vronski.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, pass&aacute;mos a viagem toda a conversar: eu, de meu filho;<br \/>\n    e a condessa, do seu &#8212; disse Ana Karenina, e de novo um sorriso lhe<br \/>\n    iluminou o rosto, e esse sorriso destinava-se a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Isso deve t&ecirc;-la ma&ccedil;ado muito &#8212; disse Vronski,<br \/>\n    que devolvia a Ana Karenina a coquetterie que ela lhe lan&ccedil;ara, como<br \/>\n    quem devolve uma bola. Mas, pelo visto, Ana n&atilde;o queria continuar a<br \/>\n    conversa nesse tom e dirigiu-se, desta vez; &agrave; idosa senhora: &#8212;<br \/>\n    Estou-lhe muito agradecida. O dia de ontem passou sem que eu desse por isso.<br \/>\n    At&eacute; &agrave; vista, condessa.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, minha senhora &#8212; replicou a m&atilde;e de Vronski. &#8212;<br \/>\n    Permita que lhe beije o lindo rosto e que lhe diga, velha que sou, que me<br \/>\n    conquistou inteiramente.<\/p>\n<p> Apesar do que havia de convencional nesta frase, Ana Karenina pareceu acreditar<br \/>\n    nela e sentir-se comovida. Corou, inclinou-se ligeiramente e aproximou o rosto<br \/>\n    dos l&aacute;bios da velha condessa; depois soergueu-se e com o mesmo sorriso<br \/>\n    inquieto estendeu a m&atilde;o a Vronski. Este apertou aquela pequenina m&atilde;o,<br \/>\n    muito feliz, como se fosse uma coisa extraordin&aacute;ria poder corresponder<br \/>\n    &agrave;quela press&atilde;o firme e en&eacute;rgica. Ana Karenina saiu em<br \/>\n    passos r&aacute;pidos, numa ligeireza surpreendente, dadas as suas formas<br \/>\n    pronunciadas.<\/p>\n<p>&#8212; Encantadora! &#8212; exclamou a condessa.<\/p>\n<p>O filho era da mesma opini&atilde;o. Seguiu-a com os olhos at&eacute; lhe<br \/>\n    perder de vista a graciosa figura, e s&oacute; ent&atilde;o o sorriso lhe<br \/>\n    desapareceu dos l&aacute;bios. Atrav&eacute;s da portinhola viu-a aproximar-se<br \/>\n    do irm&atilde;o, p&ocirc;r-lhe a m&atilde;o<\/p>\n<p> no ombro e principiar a falar animadamente, sem d&uacute;vida de qualquer<br \/>\n    coisa sem a menor rela&ccedil;&atilde;o com Vronski, o que se lhe afigurou<br \/>\n    desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, maman, est&aacute;s mesmo bem? &#8212; voltou a perguntar,<br \/>\n    dirigindo-se &agrave; m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem, maravilhosamente. Alexandre esteve muito simp&aacute;tico.<br \/>\n    E Maria est&aacute; uma beleza. &Eacute; uma mulher muito interessante.<\/p>\n<p> E principiou a falar do que mais a interessava: o baptizado do neto &#8212;<br \/>\n    fora a Sampetersburgo para assistir a esse baptizado &#8212; e a especial<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o que o soberano dispensava ao seu filho mais velho.<\/p>\n<p> &#8212; Ali est&aacute; o Lavrenti, se queres podemos descer &#8212; disse<br \/>\n    Vronski, olhando pela janela.<\/p>\n<p> O velho mordomo, que acompanhara a condessa na viagem, entrou no compartimento<br \/>\n    para dizer que tudo estava em ordem. A condessa levantou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Vamo-nos, agora h&aacute; pouca gente &#8212; disse Vronski.<\/p>\n<p>A criada grave pegou na maleta e no c&atilde;ozinho, o mordomo e o carregador<br \/>\n    apanharam o resto da bagagem. Vronski deu o bra&ccedil;o &agrave; m&atilde;e,<br \/>\n    mas quando desciam do comboio viram umas pessoas assustadas que passavam a<br \/>\n    correr. Atr&aacute;s delas seguia o chefe da esta&ccedil;&atilde;o com o seu<br \/>\n    gorro de cor espaventosa. Devia ter acontecido alguma coisa imprevista. Os<br \/>\n    passageiros do comboio retomavam, correndo.<\/p>\n<p>&#8212; Que foi?&#8230; Que aconteceu?&#8230; Onde&#8230;? Atirou-se?&#8230; Morreu?&#8230; &#8212;<br \/>\n    ouvia-se entre os que passavam.<\/p>\n<p>Stepane Arkadievitch, de bra&ccedil;o dado com a irm&atilde;, voltava tamb&eacute;m.<br \/>\n    No rosto deles havia uma express&atilde;o assustada. Para evitarem a multid&atilde;o,<br \/>\n    pararam, muito aflitos, junto da portinhola do vag&atilde;o.<\/p>\n<p> As duas senhoras subiram para a carruagem, enquanto Vronski Estepane Arkadievitch<br \/>\n    iam inteirar-se dos pormenores do desastre.<\/p>\n<p>O agulheiro, ou porque estivesse b&ecirc;bedo, ou porque n&atilde;o ouvisse<br \/>\n    o comboio, de t&atilde;o enroupado que estava por causa do frio, fora apanhado<br \/>\n    pela composi&ccedil;&atilde;o que recuava.<\/p>\n<p> Antes do regresso de Vronski e de Stepane Arkadievitch j&aacute; as senhoras<br \/>\n    estavam ao corrente de tudo atrav&eacute;s do mordomo.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch vira o cad&aacute;ver mutilado. Oblonski estava visivelmente<br \/>\n    emocionado. Fazia caretas e por pouco n&atilde;o chorava.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, que horror! Se o tivesses visto, Ana! Que coisa horr&iacute;vel!<br \/>\n    &#8212; dizia ele. sereno.<\/p>\n<p> Vronski estava calado, mas havia gravidade no seu rosto, ali&aacute;s<\/p>\n<p> &#8212; Ah, se o tivesse visto, condessa &#8212; exclamou Stepane Arkadievitch.&#038;#821#8212;<br \/>\n    Est&aacute; a&iacute; a mulher dele&#8230; Que horror&#8230; Atirou-se para cima do<br \/>\n    cad&aacute;ver. Dizem que ele era o &uacute;nico a ganhar para uma numerosa<br \/>\n    fam&iacute;lia. Que desgra&ccedil;a! &#8212; N&atilde;o poder&iacute;amos<br \/>\n    fazer alguma coisa por ela? &#8212; murmurou Ana Karenina, emocionada.<\/p>\n<p>Vronski relanceou-lhe uma olhar e acto cont&iacute;nuo saiu do vag&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Volto j&aacute;, maman &#8212; disse ele da portinhola.<\/p>\n<p>Quando regressou, passados alguns minutos, Oblonski falava com a condessa<br \/>\n    de uma nova cantora, enquanto esta olhava impaciente para a portinhola, ansiosa<br \/>\n    pelo filho.<\/p>\n<p>&#8212; Podemos partir &#8212; disse Vronski, entrando de novo no compartimento.<\/p>\n<p> Desceram juntos. Vronski e a m&atilde;e seguiam adiante. Ana e o irm&atilde;o<br \/>\n    atr&aacute;s deles. &Agrave; sa&iacute;da, o chefe da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    veio ao encontro de Vronski.<\/p>\n<p> &#8212; O senhor entregou duzentos rublos ao meu ajudante. Fa&ccedil;a o<br \/>\n    favor de dizer a quem se destinam? &#8212; &Agrave; vi&uacute;va &#8212; disse<br \/>\n    Vronski, encolhendo os ombros. &#8212; N&atilde;o sei por que faz essa pergunta!<br \/>\n    &#8212; Deste-lhe dinheiro? &#8212;gritou Oblonski, e apertando o bra&ccedil;o<br \/>\n    da irm&atilde;, acrescentou: &#8212; Muito bem, muito bem! Que rapaz encantador,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade? Meus parab&eacute;ns, condessa!<\/p>\n<p>Oblonski e a irm&atilde; detiveram-se &agrave; procura da criada. Quando<br \/>\n    chegaram &agrave; porta da esta&ccedil;&atilde;o j&aacute; a carruagem dos<br \/>\n    Vronski partira. As pessoas que entravam ainda faziam coment&aacute;rios sobre<br \/>\n    o sucedido.<\/p>\n<p> &#8212; Uma morte horr&iacute;vel &#8212; comentava um cavalheiro que passava<br \/>\n    junto deles. &#8212; Dizem que ficou dividido em dois.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo contr&aacute;rio, a mim parece-me que foi a melhor deste mundo,<br \/>\n    repentinamente &#8212; dizia outro.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o percebo por que n&atilde;o se tomam medidas de precau&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    &#8212; observou um terceiro.<\/p>\n<p>Ana Karenina subiu para a carruagem e Oblonski viu, assombrado, que lhe tremiam<br \/>\n    os l&aacute;bios e que mal podia conter as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens, Ana? &#8212; perguntou-lhe, quando o ve&iacute;culo se<br \/>\n    p&ocirc;s em marcha.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; mau press&aacute;gio &#8212; respondeu ela.<\/p>\n<p>&#8212; Tolices! Chegaste, &eacute; o principal. Pus todas as minhas esperan&ccedil;as<br \/>\n    na tua viagem.<\/p>\n<p>&#8212; Conheces Vronski h&aacute; muito tempo? &#8212; perguntou Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, acho que acabar&aacute; por casar com a Kitty, sabes?<\/p>\n<p>&#8212; Realmente?&#8230;&#8212;comentou Ana em voz baixa. &#8212; Bem, agora<br \/>\n    falemos de ti. Recebi as tuas cartas e aqui me tens.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, todas as minhas esperan&ccedil;as est&atilde;o em ti &#8212;<br \/>\n    acrescentou Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p>&#8212; Conta-me tudo.<\/p>\n<p>E Stepane Arkadievitch p&ocirc;s-se a relatar o que acontecera. Ao chegar<br \/>\n    a casa, Oblonski ajudou a irm&atilde; a descer, suspirou, apertou-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    e dirigiu-se ao tribunal.<\/p>\n<h4><a name=\"19\">CAP&Iacute;TULO XIX<\/a><\/h4>\n<p>Quando Ana entrou na salinha, Dolly dava li&ccedil;&atilde;o de franc&ecirc;s<br \/>\n    a um rapazinho, gorducho e louro como o pai. Enquanto ia lendo a li&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o pequeno tentava arrancar o bot&atilde;o do casaco j&aacute; meio desprendido.<br \/>\n    Por v&aacute;rias vezes a m&atilde;e o repreendera por isso, mas a m&atilde;ozinha<br \/>\n    gorda da crian&ccedil;a voltava a agarrar o bot&atilde;o. Ent&atilde;o Dolly<br \/>\n    arrancou-o e guardou-o no bolso.<\/p>\n<p> &#8212; Fica sossegado com as m&atilde;os, Gricha &#8212; disse-lhe ela.<\/p>\n<p>E continuou o trabalho em que estava absorvida. Era uma colcha que principiara<br \/>\n    havia muito e em que apenas trabalhava nos momentos dif&iacute;ceis. Trabalhava<br \/>\n    nervosamente, encolhendo e distendendo os dedos, contando e recontando as<br \/>\n    malhas. Embora tivesse dito na v&eacute;spera ao marido que pouco lhe importava<br \/>\n    a chegada da irm&atilde; dele, o certo &eacute; que preparara tudo pira a<br \/>\n    receber e esperava a com impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Por mais abatida e preocupada que estivesse com a sua dor, Dolly n&atilde;o<br \/>\n    podia esquecer se de que Ana, sua cunhada, era uma grande dama e esposa de<br \/>\n    uma das personalidades mais importantes de Sampetersburgo. N&atilde;o ousaria,<br \/>\n    portanto, receb&ecirc;-la mal &laquo;Al&eacute;m disso&raquo;, dissera ela<br \/>\n    de si para consigo, &laquo;Ana n&atilde;o tem culpa de coisa alguma. Sempre<br \/>\n    tenho ouvido falar bem dela, e no que me diz respeito sempre me deu provas<br \/>\n    de amizade e de carinho&raquo; Era certo que, segundo se recordava, a casa<br \/>\n    dos Karenine em Petersburgo n&atilde;o lhe produzira muito boa impress&atilde;o<br \/>\n    havia qualquer coisa<\/p>\n<p> de falso na maneira de viver daquela fam&iacute;lia &laquo;Por que n&atilde;o<br \/>\n    haveria ela de a receber? Desde que se n&atilde;o lembre de me vir consolar!&raquo;,<br \/>\n    pensava Dolly &laquo;Conhe&ccedil;o muito bem essas exorta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    essas admoesta&ccedil;&otilde;es, esses apelos &agrave; clem&ecirc;ncia crist&atilde;<br \/>\n    J&aacute; ruminei tudo isso quanto basta para saber o que vale.&raquo;<\/p>\n<p>Todos aqueles dias estivera sozinha com os filhos. N&atilde;o queria falar<br \/>\n    &agrave; ningu&eacute;m na sua infelicidade, embora se sentisse incapaz de<br \/>\n    abordar qualquer outro assunto. Compreendia que com Ana se veria obrigada<br \/>\n    a romper o sil&ecirc;ncio e ora lhe sorria a perspectiva dessa confid&ecirc;ncia<br \/>\n    ora, pelo contrario, a necessidade de revelar &agrave; irm&atilde; do marido<br \/>\n    a humilha&ccedil;&atilde;o por que passava, e o ter de lhe ouvir as banais<br \/>\n    consola&ccedil;&otilde;es, afiguravam -se lhe coisas intoler&aacute;veis.<\/p>\n<p>Olhando a cada passo o rel&oacute;gio, ia contando os minutos, &agrave; espera<br \/>\n    de v&ecirc;-la aparecer de um momento para o outro, mas, como tantas vezes<br \/>\n    acontece em casos semelhantes, t&atilde;o abstracta estava que n&atilde;o<br \/>\n    ouvira a campainha. Quando passos ligeiros e o frufru de um vestido junto<br \/>\n    &agrave; porta a fizeram levantar a cabe&ccedil;a no seu rosto atormentado<br \/>\n    n&atilde;o se reflectiu alegria, mas surpresa Ergueu se para abra&ccedil;ar<br \/>\n    a cunhada.<\/p>\n<p>&#8212; Como, pois j&aacute; chegaste? &#8212; perguntou, beijando-a.<\/p>\n<p>&#8212; Dolly? Que contente estou em tornar a ver te?<\/p>\n<p>&#8212; E eu tamb&eacute;m &#8212; respondeu Dolly, sorrindo ligeiramente<br \/>\n    e pr&oacute; curando averiguar, atrav&eacute;s da express&atilde;o da cunhada<br \/>\n    se ela estava ou n&atilde;o inteirada do sucedido.<\/p>\n<p> &laquo;Deve saber tudo&raquo;, pensou, ao reparar na express&atilde;o compadecida<br \/>\n    de Ana. E, procurando protelar quanto pudesse o momento da explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    continuou.<\/p>\n<p> &#8212; Vem da&iacute; Quero levar te ao teu quarto.<\/p>\n<p>&#8212; Este &eacute; o Gricha? Meu Deus, que crescido est&aacute;! N&atilde;o,<br \/>\n    permite que fique aqui &#8212; replicou Ana, e beijando a crian&ccedil;a sem<br \/>\n    afastar os olhos da cunhada, corou.<\/p>\n<p> Tirou o xale e o chap&eacute;u que se prendeu nos cabelos negros frisados,<br \/>\n    e que conseguiu desprender sacudindo a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s radiante de felicidade e de sa&uacute;de? &#8212; disse<br \/>\n    Dolly quase com inveja &#8212; Eu Sim &#8212; aquiesceu Ana &#8212; Meu Deus,<br \/>\n    T&acirc;nia? &#8212; &Eacute;s da idade do meu Seriocha &#8212; acrescentou,<br \/>\n    dirigindo se &agrave; menina que entrava na sala correndo. Pegou lhe nas m&atilde;os<br \/>\n    e beijou-a &#8212; Que crian&ccedil;a encantadora! Quero v&ecirc;-los todos.<\/p>\n<p> Lembrava se n&atilde;o s&oacute; do nome e da idade de todas as crian&ccedil;as,<br \/>\n    mas at&eacute; do feitio de cada uma e das doen&ccedil;as que tinham tido<br \/>\n    Dolly sentiu se<\/p>\n<p> tocada por tanta solicitude.<\/p>\n<p>&#8212; Pois, sim vamos velas &#8212; disse ela &#8212; V&aacute;cia est&aacute;<br \/>\n    a dormir, &eacute; uma pena.<\/p>\n<p> Depois de ver as crian&ccedil;as, sentaram se as duas no sal&atilde;o diante<br \/>\n    de duas x&iacute;caras de caf&eacute; Ana estendeu a m&atilde;o para a bandeja,<br \/>\n    mas logo a repeliu.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly, Stepane falou me de tudo &#8212; disse ela Dolly olhou a<br \/>\n    friamente. Esperava ouvir frases de fingida compaix&atilde;o, mas Ana nada<br \/>\n    disse que se parecesse com isso.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly, querida &#8212; principiou &#8212; N&atilde;o quero defend&ecirc;-lo<br \/>\n    nem consolar te, &eacute; imposs&iacute;vel. Deixa que te diga, apenas, que<br \/>\n    te lamento do fundo do cora&ccedil;&atilde;o? Por detr&aacute;s das espessas<br \/>\n    pestanas reluziam as l&aacute;grimas Sentia se mais pr&oacute;xima da cunhada,<br \/>\n    e tomou a m&atilde;o dela na sua m&atilde;o pequena e en&eacute;rgica Dolly<br \/>\n    n&atilde;o a retirou, mas a sua express&atilde;o continuava a ser fria.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; in&uacute;til tentares consolar me. Depois do que aconteceu,<br \/>\n    tudo est&aacute; irremediavelmente perdido.<\/p>\n<p> Mas assim que pronunciou estas palavras, a express&atilde;o do seu rosto<br \/>\n    suavizou se subitamente Ana levou aos l&aacute;bios a m&atilde;o delgada e<br \/>\n    seca da cunhada e beijou a.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, enfim, Dolly, que pretendes fazer? Esta situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    falsa n&atilde;o pode prolongar se N&atilde;o seria melhor pensarmos numa<br \/>\n    solu&ccedil;&atilde;o qualquer? &#8212; Tudo acabou &#8212; disse Dolly &#8212;<br \/>\n    E o mais terr&iacute;vel, como v&ecirc;s, &eacute; que n&atilde;o posso deix&aacute;-lo,<br \/>\n    estou amarrada pelas crian&ccedil;as Mas n&atilde;o posso continuar a viver<br \/>\n    com ele, v&ecirc;-lo &eacute; uma tortura para mim.<\/p>\n<p> &#8212; Dolly, minha querida, o Stepane contou me tudo, mas eu gostaria<br \/>\n    que tu mo contasses por tua vez.<\/p>\n<p>Dolly olhou para ela com uma express&atilde;o interrogativa. O carinho e<br \/>\n    a compaix&atilde;o eram sinceros no rosto de Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem, mas terei de te contar tudo desde o princ&iacute;pio<br \/>\n    &#8212; disse, de s&uacute;bito &#8212; Sabes como me casei. Com a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a maman me deu, n&atilde;o era apenas inocente, era est&uacute;pida. Ignorava<br \/>\n    tudo. Dizem que os maridos costumam abrir se com as mulheres sobre a sua vida<br \/>\n    passada, mas Stiva &#8212; corrigiu &#8212; Stepane Arkadievitch n&atilde;o<br \/>\n    me contou nada. Talvez n&atilde;o acredites, at&eacute; agora estava convencida<br \/>\n    de que tinha sido a &uacute;nica mulher na sua vida. E assim vivi oito anos.<br \/>\n    Compreendes n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o me passava pela cabe&ccedil;a<br \/>\n    que me fosse infiel, como at&eacute; julgava isso imposs&iacute;vel, e, com<br \/>\n    estas ideias na cabe&ccedil;a, podes imaginar o que foi para mim saber de<br \/>\n    um momento para o outro de todo esse horror, dessa<\/p>\n<p> vilania&#8230; Compreende-me. Estar inteiramente confiante na felicidade e de<br \/>\n    repente&#8230; &#8212; continuou Dolly, reprimindo os solu&ccedil;os &#8212; receber<br \/>\n    uma carta&#8230; uma carta dele dirigida &agrave; amante, &agrave; preceptora<br \/>\n    dos seus filhos. N&atilde;o! &Eacute; uma coisa horr&iacute;vel! &#8212; Dolly<br \/>\n    puxou apressadamente o len&ccedil;o, escondeu o rosto com ele e depois de<br \/>\n    um sil&ecirc;ncio continuou: &#8212; Ainda posso admitir um momento de desvairamento,<br \/>\n    mas enamorar-se premeditadamente, enganar-me com mal&iacute;cia&#8230; e com quem?&#8230;<br \/>\n    E continuar a ser meu marido enquanto mantinha rela&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    ela!&#8230; Isto &eacute; horr&iacute;vel! N&atilde;o podes fazer ideia.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s enganada, fa&ccedil;o, fa&ccedil;o ideia, querida Dolly<br \/>\n    &#8212; exclamou Ana, apertando-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda se ao menos se desse conta do horror da minha situa&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    &#8212; prosseguiu Dolly. &#8212; Mas n&atilde;o, continua feliz e satisfeito.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, n&atilde;o! &#8212; interrompeu-a Ana, pressurosa. &#8212; Faz<br \/>\n    pena olhar para ele: est&aacute; cheio de remorsos, arrependid&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> &#8212; Achas que &eacute; capaz de sentir remorsos? &#8212; interrompeu<br \/>\n    Dolly, por sua vez, observando atentamente a express&atilde;o da cunhada.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;. Eu conhe&ccedil;o-o. N&atilde;o pude olhar para ele sem<br \/>\n    compaix&atilde;o. Ambas o conhecemos. &Eacute; bom, mas altivo, e agora sente-se<br \/>\n    t&atilde;o humilhado&#8230; O que mais me impressiona &#8212; naquele momento<br \/>\n    Ana adivinhou o que mais poderia calar no esp&iacute;rito de Dolly &#8212;<br \/>\n    &eacute; que o atormentam duas coisas: o que ele sofre por causa das crian&ccedil;as<br \/>\n    e quanto sofre por te ter ferido, a ti, a quem ele ama, sim, sim, a quem ele<br \/>\n    ama acima de tudo neste mundo &#8212; insistiu ela, com receio de que Dolly<br \/>\n    a desmentisse. &#8212; &laquo;N&atilde;o, n&atilde;o, ela nunca me perdoar&aacute;&raquo;,<br \/>\n    est&aacute; sempre a dizer.<\/p>\n<p> Dolly desviara os olhos da cunhada; meditava.<\/p>\n<p>&#8212; Sim &#8212; disse ela, finalmente &#8212;, compreendo que a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele seja horr&iacute;vel. O culpado deve sofrer mais do que o inocente, quando<br \/>\n    se reconhece a causa de todo o mal. Mas como hei-de eu perdoar-lhe e voltar<br \/>\n    a ser mulher dele depois das suas rela&ccedil;&otilde;es com &laquo;ela&raquo;?<br \/>\n    A vida em comum ser&aacute; para mim agora um supl&iacute;cio, precisamente<br \/>\n    porque n&atilde;o posso esquecer o amor que lhe tinha antes disto&#8230;<\/p>\n<p> Os solu&ccedil;os abafaram-lhe as palavras. Mas, como de caso pensado, logo<br \/>\n    que se comovia, voltava de novo a falar do que a irritava.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, a verdade &eacute; que ela &eacute; nova e bonita. N&atilde;o<br \/>\n    compreendes, Ana, que a minha juventude e a minha beleza me foram arrebatadas?&#8230;<br \/>\n    E por quem? Por ele e pelos seus filhos. Tudo sacrifiquei por eles, e agora<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o presto para nada, &eacute; natural que ele prefira<br \/>\n    uma jovem, embora vulgar. Naturalmente divertiram-se &agrave; minha custa,<br \/>\n    ou pior ainda, esqueceram-se por completo de que eu existia. &#8212; Uma express&atilde;o<br \/>\n    de &oacute;dio<\/p>\n<p> perpassou nos olhos de Dolly. &#8212; E que poder&aacute; ele vir dizer-me<br \/>\n    agora, depois disto?&#8230; Como hei-de eu acreditar nele? Nunca. N&atilde;o,<br \/>\n    agora tudo acabou, tudo, tudo o que constitu&iacute;a a consola&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a recompensa dos trabalhos, dos sofrimentos&#8230; Ser&aacute;s capaz de acreditar?<br \/>\n    Estava dando a li&ccedil;&atilde;o ao Gricha, o que antigamente para mim era<br \/>\n    uma alegria, e com que tormento o fa&ccedil;o agora! Para que me esfor&ccedil;o<br \/>\n    eu? Para que trabalho? &Eacute; horr&iacute;vel que tudo se haja modificado<br \/>\n    na minha alma: em vez de amor e de ternura, ia n&atilde;o tenho dentro de<br \/>\n    mim sen&atilde;o &oacute;dio, sim, &eacute; &oacute;dio que eu sinto. Era<br \/>\n    capaz de mat&aacute;-lo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Dolly, querida, compreendo perfeitamente, mas n&atilde;o te atormentes.<br \/>\n    Sentes-te t&atilde;o ofendida e est&aacute;s t&atilde;o excitada que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;s capaz de ver as coisas como elas realmente s&atilde;o.<\/p>\n<p>Dolly serenou, e ambas ficaram caladas.<\/p>\n<p>&#8212; Que hei-de fazer, Ana? Pensa e ajuda-me. J&aacute; examinei tudo<br \/>\n    e n&atilde;o me ocorre nada.<\/p>\n<p> Para Ana afigurava-se-lhe dif&iacute;cil encontrar uma solu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas cada palavra, cada olhar da cunhada achavam eco no seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Uma coisa te posso dizer: sou irm&atilde; dele e conhe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    o car&aacute;cter e a capacidade que tem de tudo esquecer &#8212; levou a<br \/>\n    m&atilde;o &agrave; cabe&ccedil;a &#8212;, essa capacidade de se deixar seduzir<br \/>\n    completamente, mas, ao mesmo tempo, de cair em si e de se arrepender. Agora<br \/>\n    n&atilde;o compreende, n&atilde;o concebe que tenha sido capaz de proceder<br \/>\n    dessa maneira.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, n&atilde;o!&#8212;interrompeu-a Dolly.&#8212;Compreende-o, sempre<br \/>\n    o compreendeu perfeitamente. Ali&aacute;s, pareces esquecer-te de mim, pois,<br \/>\n    ainda que assim fosse da parte dele, nem por isso eu sofreria menos.<\/p>\n<p> &#8212; Ouve. Confesso-te que quando ele me falou eu n&atilde;o compreendi<br \/>\n    todo o horror da situa&ccedil;&atilde;o. S&oacute; via que ele me fazia pena,<br \/>\n    e &agrave; desordem do vosso lar. Foi dele que tive pena, mas agora, ao falar<br \/>\n    contigo, como mulher que sou, vejo as coisas de outra maneira: vejo o teu<br \/>\n    sofrimento e n&atilde;o sei dizer-te quanto te lastimo. Mas Dolly, minha querida,<br \/>\n    embora compreenda plenamente as tuas dores, uma coisa ignoro: at&eacute; que<br \/>\n    ponto, no fundo do teu cora&ccedil;&atilde;o, ainda lhe queres. S&oacute;<br \/>\n    tu poder&aacute;s saber se esse amor ainda chega para lhe poderes perdoar.<br \/>\n    Se ainda lhe queres o suficiente, perdoa-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8212; ia dizer Dolly, mas Ana interrompeu-a, dando-lhe<br \/>\n    outro beijo na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Conhe&ccedil;o o mundo melhor do que tu &#8212; disse ela. &#8212;<br \/>\n    Sei como os homens do tipo do Stiva encaram estas coisas. Dizes que eles teriam<br \/>\n    falado de ti. Nada disso. Os homens assim cometem infidelidades, &eacute;<br \/>\n    certo, mas o lar e a mulher s&atilde;o sagrados para eles. Desprezam as outras<\/p>\n<p> mulheres, que n&atilde;o representam de maneira alguma um perigo para a<br \/>\n    fam&iacute;lia. Eu n&atilde;o posso compreender, mas &eacute; assim mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas ele beijou-a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Dolly, escuta, minha querida. Vi o Stiva quando estava enamorado<br \/>\n    de ti. Lembro-me da &eacute;poca em que vinha a minha casa, e chorava ao falar<br \/>\n    de ti, t&atilde;o elevada e poeticamente te considerava, e sei que quanto<br \/>\n    mais tem vivido contigo tanto mais te respeita. Costum&aacute;vamos rir-nos<br \/>\n    dele, porque estava sempre a dizer: &laquo;A Dolly &eacute; uma mulher excepcional.&raquo;<br \/>\n    Sempre foste e sempre continuar&aacute;s a ser para ele uma divindade; ora,<br \/>\n    no capricho que ele teve agora o cora&ccedil;&atilde;o nunca entrou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se volta a fazer o mesmo?<\/p>\n<p>&#8212; Isso parece-me imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; E tu, no meu lugar, perdoarias?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, n&atilde;o me &eacute; poss&iacute;vel julgar&#8230;<br \/>\n    &#8212; e, depois de pensar um momento, depois de sopesar mentalmente a situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    acrescentou: &#8212; Sim, seria capaz de o fazer! N&atilde;o voltaria a ser<br \/>\n    a mesma, mas perdoar-lhe-ia&#8230; e perdoar-lhe-ia como se nada se tivesse passado,<br \/>\n    absolutamente nada.<\/p>\n<p> &#8212; Claro, pois de outro modo n&atilde;o seria perdoar &#8212; interrompeu-a<br \/>\n    Dolly, com vivacidade, como se dissesse qualquer coisa em que j&aacute; pensara<br \/>\n    mais de uma vez. &#8212; Sim, quando se perdoa, tem de perdoar-se de maneira<br \/>\n    completa, absoluta&#8230; Anda, vamos, quero acompanhar-te ao teu quarto &#8212;<br \/>\n    acrescentou, pondo-se de p&eacute; e logo em seguida abra&ccedil;ando-a.<\/p>\n<p> &#8212; Minha querida, que bem fizeste em teres vindo. Sinto-me aliviada,<br \/>\n    muito aliviada.<\/p>\n<h4><a name=\"20\">CAP&Iacute;TULO XX<\/a><\/h4>\n<p>Ana n&atilde;o saiu de casa naquele dia, quer dizer, de casa dos Oblonski,<br \/>\n    e n&atilde;o recebeu ningu&eacute;m, nenhuma das pessoas que, prevenidas da<br \/>\n    sua chegada, a vieram visitar. Passou toda a manh&atilde; com Dolly e com<br \/>\n    as crian&ccedil;as. Entretanto mandara recado ao irm&atilde;o, pedindo-lhe<br \/>\n    que viesse sem falta a casa. &laquo;Vem&raquo;, dizia-lhe ela; &laquo;a miseric&oacute;rdia<br \/>\n    de Deus &eacute; infinita!&raquo; Oblonski jantou, pois, em casa; mantiveram<br \/>\n    uma conversa geral e a mulher tratou-o por tu, coisa que n&atilde;o fazia<br \/>\n    desde o que acontecera. As rela&ccedil;&otilde;es entre os dois permaneciam<br \/>\n    tensas, mas j&aacute; n&atilde;o se falava em separa&ccedil;&atilde;o e Stepane<br \/>\n    Arkadievitch vislumbrava a possibilidade de chegarem a um acordo e reconciliarem-se.<\/p>\n<p> Logo que acabaram de jantar, apareceu Kitty. Mal conhecia Ana Karenina e<br \/>\n    n&atilde;o sabia como a iria receber essa grande dama petersburguesa, que<br \/>\n    todos elogiavam tanto. Mas n&atilde;o tardou a tranq&uuml;ilizar-se, pois<br \/>\n    sentiu que a sua beleza e a sua juventude agradavam a Ana, de quem, de resto,<br \/>\n    ela pr&oacute;pria desde logo se encantou, como acontece &agrave;s vezes &agrave;s<br \/>\n    jovens que ficam como que fascinadas pelas mulheres casadas mais velhas do<br \/>\n    que elas. Ana n&atilde;o parecia uma senhora da sociedade nem a m&atilde;e<br \/>\n    de um filho de oito anos, mas uma garota de vinte anos, a julgar pela flexibilidade<br \/>\n    dos seus gestos, a frescura e a vivacidade da express&atilde;o, que ora lhe<br \/>\n    transparecia nos l&aacute;bios ora nos olhos, agora s&eacute;ria e logo triste,<br \/>\n    coisa que muito surpreendeu Kitty. Foi precisamente esta particularidade que<br \/>\n    a seduziu: para al&eacute;m da simplicidade e da franqueza de Ana, adivinhava<br \/>\n    todo um mundo de poesia, misterioso, complexo, que se lhe afigurava inacess&iacute;vel.<br \/>\n    Depois do jantar, quando Dolly se retirou para os seus aposentos, Ana levantou-se<br \/>\n    e aproximou-se do irm&atilde;o, que acendia um cigarro.<\/p>\n<p>&#8212; Stiva &#8212; disse-lhe ela, persignando-se, ao mesmo tempo que lhe<br \/>\n    indicava com os olhos a porta da sala &#8212;, vai e que Deus te ajude! Oblonski<br \/>\n    compreendera e jogando fora o cigarro desapareceu, enquanto Ana voltava para<br \/>\n    junto das crian&ccedil;as. Em virtude da afei&ccedil;&atilde;o que viam a<br \/>\n    m&atilde;e testemunhar-lhe ou apenas porque ela os conquistara de uma s&oacute;<br \/>\n    vez, os dois mais velhos, e depois os mais novos, imitando-os, j&aacute; antes<br \/>\n    do jantar se tinham agarrado &agrave;s saias daquela nova tia e n&atilde;o<br \/>\n    queriam por nada deste mundo abandon&aacute;-la. Entre eles estabelecera-se<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de jogo que consistia em se sentarem o mais perto poss&iacute;vel<br \/>\n    dela, em tocar-lhe, em pegar-lhe na min&uacute;scula m&atilde;o, dar-lhe beijos<br \/>\n    e brincar com o anel que ela trazia, ou pelo menos em se ro&ccedil;arem na<br \/>\n    sua saia.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, vamos outra vez para os nossos lugares, como est&aacute;vamos<br \/>\n    h&aacute; pouco &#8212; disse Ana Arkadievna, instalando-se no seu cantinho.<\/p>\n<p> Gricha voltou a passar a cabe&ccedil;a por debaixo do bra&ccedil;o de Ana,<br \/>\n    aninhando-se no vestido de seda, orgulhoso e radiante de felicidade.<\/p>\n<p>&#8212; Quando &eacute; o pr&oacute;ximo baile? &#8212; perguntou Ana a Kitty.<\/p>\n<p>&#8212; Na semana que vem. Vai ser magn&iacute;fico. Um desses bailes em<br \/>\n    que as pessoas est&atilde;o sempre alegres.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; realmente bailes em que estejamos sempre alegres? &#8212;<br \/>\n    perguntou Ana com uma ligeira ironia.<\/p>\n<p>&#8212; Embora pare&ccedil;a estranho, a verdade &eacute; que h&aacute;.<br \/>\n    Em casa dos Bobrietchev estamos sempre alegres e em casa dos Nikitine tamb&eacute;m.<br \/>\n    Em compensa&ccedil;&atilde;o, na dos Mechkov estamos sempre aborrecidos. Nunca<br \/>\n    reparou nisso?<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, querida. Para mim j&aacute; n&atilde;o existem desses<br \/>\n    bailes em que estamos sempre divertidas &#8212; disse Ana, e Kitty viu que<br \/>\n    lhe transparecia nos olhos esse mundo singular que nunca lhe fora revelado.<br \/>\n    &#8212; Para mim, h&aacute; bailes menos penosos e menos aborrecidos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como pode a senhora aborrecer-se num baile?<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o havia &laquo;eu&raquo; de me aborrecer num baile?<br \/>\n    &#8212; perguntou Ana.<\/p>\n<p>Kitty percebeu que Ana sabia a resposta que ela lhe iria dar.<\/p>\n<p>&#8212; Porque &eacute; a mais bela de todas.<\/p>\n<p>Ana corou, coisa que lhe acontecia freq&uuml;entemente, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Em primeiro lugar, n&atilde;o &eacute; verdade. E ainda que o fosse,<br \/>\n    de que me serviria?<\/p>\n<p>&#8212; Assistir&aacute; a esse baile? &#8212; perguntou Kitty.<\/p>\n<p>&#8212; Vejo que n&atilde;o terei outro rem&eacute;dio sen&atilde;o assistir.<br \/>\n    Toma, apanha-o &#8212; disse a T&acirc;nia, que procurava tirar-lhe o anel,<br \/>\n    que lhe deslizava com facilidade pelo dedo branco e afilado.<\/p>\n<p> &#8212; Gostaria muito que fosse. Seria t&atilde;o bom v&ecirc;-la no baile!<\/p>\n<p>&#8212; Se me vir obrigada a ir, ao menos consolar-me-&aacute; a ideia de<br \/>\n    que lhe darei com isso satisfa&ccedil;&atilde;o&#8230; Gricha, n&atilde;o me puxes<br \/>\n    pelo cabelo, que j&aacute; estou bastante despenteada &#8212; protestou, ajeitando<br \/>\n    um cacho de cabelos com que o pequeno se entretinha.<\/p>\n<p> &#8212; Estou a v&ecirc;-la no baile vestida de lil&aacute;s.<\/p>\n<p>&#8212; Por que h&aacute;-de ser de lil&aacute;s? &#8212; perguntou Ana,<br \/>\n    sorrindo. &#8212; Vamos, meninos, n&atilde;o est&atilde;o a ouvir Miss Hull<br \/>\n    cham&aacute;-los para o ch&aacute;? &#8212; acrescentou, repelindo as crian&ccedil;as,<br \/>\n    que se dirigiam &agrave; sala de jantar. &#8212; J&aacute; sei por que quer<br \/>\n    que eu v&aacute; ao baile. Espera muito dessa noite e deseja que todos tomem<br \/>\n    parte no seu triunfo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade. Como sabe?<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Feliz idade a sua! Conhe&ccedil;o-a, recordo muito bem essa neblina<br \/>\n    azul que faz lembrar a das montanhas su&iacute;&ccedil;as, essa bruma que<br \/>\n    tudo envolve, na &eacute;poca ditosa em que a inf&acirc;ncia est&aacute; prestes<br \/>\n    a acabar, quando esse grande c&iacute;rculo divertido e feliz se converte<br \/>\n    num caminho cada vez mais estreito, num desfiladeiro ao mesmo tempo alegre<br \/>\n    e angustioso, embora pare&ccedil;a di&aacute;fano &Eacute; encantador&#8230; Quem<br \/>\n    n&atilde;o passou por isso? Kitty sorria, calada. &laquo;Como teria ela vivido<br \/>\n    esse tempo? Gostaria tanto de saber!&raquo;, pensou, recordando a figura pouco<br \/>\n    po&eacute;tica de Alexei Alexandrovitch, o marido de Ana.<\/p>\n<p> &#8212; Sei alguma coisa a seu respeito. O Stiva contou-me. Felicito-a.<br \/>\n    Acho Vronski um rapaz muito agrad&aacute;vel, encontrei-o na esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; prosseguiu Ana.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Esteve na esta&ccedil;&atilde;o? &#8212; perguntou Kitty, corando.<br \/>\n    &#8212; E que lhe disse o Stiva? &#8212; Contou-me tudo. Da minha parte, teria<br \/>\n    muita satisfa&ccedil;&atilde;o&#8230; Fiz a viagem com a m&atilde;e de Vronski,<br \/>\n    que me falou dele todo o tempo; &eacute; o seu filho predilecto. Bem sei que<br \/>\n    as m&atilde;es s&atilde;o parciais, no entanto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E que lhe contou?<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Muitas coisas. E embora eu saiba que &eacute; o seu filho predilecto,<br \/>\n    v&ecirc;-se bem que &eacute; um cavalheiro. Contou-pie, por exemplo, que Vronski<br \/>\n    quis ceder todos os seus bens ao irm&atilde;o e que crian&ccedil;a ainda fez<br \/>\n    uma proeza extraordin&aacute;ria: salvou uma mulher de morrer afogada. Numa<br \/>\n    palavra: &eacute; um her&oacute;i &#8212; disse Ana, sorrindo.<\/p>\n<p> E lembrou-se dos duzentos rublos que Vronski dera ao empregado da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Disso, por&eacute;m, n&atilde;o falou a Kitty. Lembrava-se dessa circunst&acirc;ncia<br \/>\n    com um certo mal-estar, pois sentira nesse acto qualquer coisa que se relacionava<br \/>\n    com ela, algo que fora melhor n&atilde;o ter acontecido.<\/p>\n<p> &#8212; Pediu-me muito que a fosse visitar, e terei grande satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em tornar a ver essa velhinha. Irei a casa dela amanh&atilde;. Gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, Stiva est&aacute;-se demorando muito com Dolly no gabinete &#8212;<br \/>\n    acrescentou Ana, mudando de assunto e pondo-se de p&eacute;, contrariada por<br \/>\n    qualquer motivo, segundo pareceu a Kitty.<\/p>\n<p>&#8212; Eu primeiro! N&atilde;o, eu!&#8212;gritavam os pequenos, que tinham<br \/>\n    acabado de tomar o ch&aacute; e corriam ao encontro de Ana.<\/p>\n<p> &#8212; Todos ao mesmo tempo &#8212; exclamou ela. E rindo, correu para<br \/>\n    eles, abra&ccedil;ando o bando de crian&ccedil;as buli&ccedil;osas que chilreavam<br \/>\n    entusiasmadas.<\/p>\n<h4><a name=\"21\">CAP&Iacute;TULO XXI<\/a><\/h4>\n<p>Depois do ch&aacute; das crian&ccedil;as, foi servido o ch&aacute; dos adultos.<br \/>\n    Dolly saiu sozinha do quarto de dormir, pois Stepane Arkadievitch devia ter<br \/>\n    sa&iacute;do por outra porta &#8212; Tenho receio de que sintas frio no quarto<br \/>\n    l&aacute; de cima &#8212; observou Dolly, dirigindo-se &agrave; cunhada. &#8212;<br \/>\n    Vou-te instalar l&aacute; em baixo e assim ficaremos mais perto<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o te preocupes comigo &#8212; replicou Ana, fitando Dolly,<br \/>\n    procurando descobrir se a reconcilia&ccedil;&atilde;o era um facto.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui ter&aacute;s melhor luz.<\/p>\n<p>&#8212; Garanto-te que durmo como uma pedra seja onde for.<\/p>\n<p>&#8212; De que se trata? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch, que sa&iacute;ra<br \/>\n    do escrit&oacute;rio e se dirigia &agrave; mulher.<\/p>\n<p> Ana e Kitty compreenderam imediatamente pelo tom da voz dele que se tinham<br \/>\n    reconciliado.<\/p>\n<p> &#8212; Queria instalar Ana aqui em baixo, mas &eacute; preciso p&ocirc;r<br \/>\n    umas cortinas. Ningu&eacute;m ser&aacute; capaz de faz&ecirc;-lo, e terei<br \/>\n    eu mesma de p&ocirc;-las &#8212; replicou Dolly.<\/p>\n<p> &laquo;S&oacute; Deus sabe se se teriam reconciliado de todo&raquo;, pensou<br \/>\n    Ana, ao ouvir o tom frio e severo da voz da cunhada.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, n&atilde;o vale a pena complicar as coisas, Dolly! &#8212;<br \/>\n    volveu Stepane Arkadievitch. &#8212; Mas, se quiseres, eu me encarregarei<br \/>\n    de tudo.<\/p>\n<p> &laquo;Sim, devem ter-se reconciliado&raquo;, reconsiderou Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, j&aacute; sei. Mandar&aacute;s o Matvei fazer coisas imposs&iacute;veis.<br \/>\n    E depois ir-te-&aacute;s embora, deixando que ele fa&ccedil;a tudo ao contr&aacute;rio<br \/>\n    &#8212; replicou Dolly.<\/p>\n<p> E o costumeiro sorriso ir&ocirc;nico franziu-lhe as comissuras dos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>&laquo;Gra&ccedil;as a Deus, a reconcilia&ccedil;&atilde;o &eacute; completa,<br \/>\n    completa&raquo;, voltou Ana a pensar. E contente por ter concorrido para isso,<br \/>\n    aproximou-se de Dolly e beijou-a.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, ora! Por que nos tens em t&atilde;o pequena conta, a mim e ao<br \/>\n    Matvei? &#8212; perguntou Stepane Arkadievitch com um impercept&iacute;vel<br \/>\n    sorriso.<\/p>\n<p>Durante toda a tarde, Dolly conservou se ligeiramente ir&ocirc;nica para<br \/>\n    com o marido e este mostrou-se contente e alegre, mas n&atilde;o tanto que<br \/>\n    desse a entender que, uma vez perdoado, se esquecera por completo da sua culpa.<br \/>\n    &Agrave;s nove e meia o ser&atilde;o familiar, particularmente alegre e agrad&aacute;vel,<br \/>\n    &agrave; mesa do ch&aacute; dos Oblonski, foi interrompido por um acontecimento<br \/>\n    dos mais vulgares, o qual, no entanto, sem qualquer motivo, a todos pareceu<br \/>\n    surpreendente. Falavam de amigos comuns de Sampetersburgo quando, de s&uacute;bito,<br \/>\n    Ana se levantou.<\/p>\n<p> &#8212; Vou mostrar-lhes a fotografia do meu Seriocha &#8212; disse ela<br \/>\n    com um sorriso de orgulho maternal &#8212; Tenho-a comigo no meu &aacute;lbum.<\/p>\n<p> Por volta das dez horas da noite &eacute; que ela habitualmente costumava<br \/>\n    despedir se do filho. Muitas vezes, mesmo, antes de sair para um baile, era<br \/>\n    ela quem o deitava por suas pr&oacute;prias m&atilde;os. Eis por que,<\/p>\n<p> quando essa hora se aproximava, sempre se sentia triste quando estava longe<br \/>\n    dele. Fosse qual fosse o assunto de que se falasse, tinha sempre de pensar<br \/>\n    no garotinho de cabelinho encaracolado. Assim, um grande desejo a assaltou<br \/>\n    de falar nele e de lhe contemplar o retrato. E aproveitando o primeiro pretexto,<br \/>\n    saiu da sala no seu passo ligeiro e decidido. A escadinha que conduzia ao<br \/>\n    seu quarto dava para um patamar da escadaria principal muito aquecida. No<br \/>\n    momento em que Ana deixava o sal&atilde;o, retinia a campainha do vest&iacute;bulo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem ser&aacute;? &#8212; perguntou Dolly.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; cedo ainda para me virem buscar, mas, para uma visita, j&aacute;<br \/>\n    &eacute; tarde &#8212; observou Kitty.<\/p>\n<p> &#8212; Naturalmente s&atilde;o alguns documentos para mim &#8212; interveio<br \/>\n    Stepane Arkadievitch.<\/p>\n<p>Quando Ana atravessava o patamar da escadaria, subia o criado para anunciar<br \/>\n    a pessoa rec&eacute;m chegada, nessa altura sob a luz do candelabro, em baixo,<br \/>\n    no &aacute;trio Ana olhou para o fundo das escadas e logo reconheceu Vronski,<br \/>\n    ao mesmo tempo que um estranho sentimento de alegria e receio lhe agitava<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o Vronski, de capote, procurava qualquer coisa no bolso.<br \/>\n    No momento em que Ana atingia o centro do patamar, ergueu os olhos e ao v&ecirc;-la<br \/>\n    o seu rosto reflectiu confus&atilde;o e receio. Ana desapareceu, com um ligeiro<br \/>\n    aceno de cabe&ccedil;a, e da&iacute; a pouco ouvia se a sonora voz de Stepane<br \/>\n    Arkadievitch, que convidava Vronski a subir, e a deste, baixa, suave e serena,<br \/>\n    que recusava.<\/p>\n<p>Quando Ana voltou com o &aacute;lbum, Vronski j&aacute; n&atilde;o estava<br \/>\n    e Stepane Arkadievitch contava que o amigo, de passagem, quisera informar-se<br \/>\n    acerca de um jantar em organiza&ccedil;&atilde;o para homenagear uma celebridade<br \/>\n    que vinha de fora.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quis subir por nada deste mundo! Que original! &#8212;<br \/>\n    acrescentou.<\/p>\n<p>Kitty corara. Julgava s&oacute; ela compreender a raz&atilde;o por que Vronski<br \/>\n    ali aparecera, e porque se recusara a subir &laquo;Naturalmente foi a minha<br \/>\n    casa e, como eu n&atilde;o estivesse, pensou, talvez, encontrar-me aqui. Mas<br \/>\n    n&atilde;o quis entrar por ser tarde e pela presen&ccedil;a de Ana.&raquo;<br \/>\n    Todos se entreolharam sem dizer palavra e em seguida puseram-se a folhear<br \/>\n    o &aacute;lbum de Ana. N&atilde;o havia nada de particular nem de estranho<br \/>\n    no facto de algu&eacute;m visitar um amigo &agrave;s nove e meia de noite<br \/>\n    para colher um informe sobre um banquete que se estava a organizar e n&atilde;o<br \/>\n    ter querido subir, mas a verdade &eacute; que a todos surpreendeu. E a pessoa<br \/>\n    mais surpreendida fora Ana, que achara aquilo uma impertin&ecirc;ncia.<\/p>\n<h4> <a name=\"22\">CAP&Iacute;TULO XXII<\/a><\/h4>\n<p>O baile principiara havia pouco quando Kitty e a m&atilde;e apareceram na<br \/>\n    escadaria iluminada, cheia de flores, ao longo da qual se postavam os criados<br \/>\n    de libr&eacute; vermelha e cabeleira empoada. Do patamar decorado com arbustos<br \/>\n    onde, diante de um espelho, elas ajeitavam o penteado, ouvia se um zunzum,<br \/>\n    semelhante ao de uma colm&eacute;ia, e os sons melodiosos dos violinos da<br \/>\n    orquestra come&ccedil;ando a primeira valsa. Um senhor pequenino e idoso,<br \/>\n    que alisava os escassos fios de cabelos brancos diante de outro espelho, recendendo<br \/>\n    a perfume, afastou-se para as deixar subir os &uacute;ltimos degraus, ext&aacute;tico<br \/>\n    diante da beleza de Kitty, a quem n&atilde;o conhecia. Um desses jovens imberbes,<br \/>\n    de colete muito decotado, a quem o velho pr&iacute;ncipe Tcherbatski chamava<br \/>\n    &laquo;peralvilhos&raquo;, cumprimentou-as, de passagem, enquanto compunha<br \/>\n    a gravata branca. Mas logo voltou atr&aacute;s para pedir a Kitty que lhe<br \/>\n    concedesse a primeira quadrilha. Como j&aacute; estava comprometida com Vronski,<br \/>\n    concedeu-lhe a segunda dan&ccedil;a. Um militar, que abotoava as luvas junto<br \/>\n    &agrave; porta do sal&atilde;o, afastou-se para deixar passar Kitty e, retorcendo<br \/>\n    o bigode, pareceu fascinado diante daquela apari&ccedil;&atilde;o toda vestida<br \/>\n    de rosa.<\/p>\n<p> Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem<br \/>\n    custado muitos esfor&ccedil;os, o certo &eacute; que Kitty entrava agora no<br \/>\n    sal&atilde;o de baile t&atilde;o natural e simples, no seu complicado vestido<br \/>\n    de tule sobre um forro cor-de-rosa, como se todas aquelas rosinhas e rendas,<br \/>\n    todos aqueles enfeites n&atilde;o lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto<br \/>\n    de aten&ccedil;&atilde;o. Dir-se-ia ter nascido assim mesmo, j&aacute; com<br \/>\n    aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas<br \/>\n    folhas.<\/p>\n<p> Quando a princesa m&atilde;e, antes de entrar no sal&atilde;o de baile,<br \/>\n    quis arranjar o cinto da filha, que se engelhara, Kitty afastara-a, relutante,<br \/>\n    pois sentia que tudo lhe assentava bem e ca&iacute;a com gra&ccedil;a, que<br \/>\n    nada era preciso corrigir.<\/p>\n<p>Realmente, estava num dos seus dias felizes: o vestido n&atilde;o a comprimia,<br \/>\n    assentava-lhe perfeitamente, nenhum dos adornos se amarrotara ou descosera,<br \/>\n    os sapatos cor-de-rosa, de salto alto, n&atilde;o apertavam, antes pareciam<br \/>\n    acariciar-lhe os p&egrave;zinhos, os bandos posti&ccedil;os, que lhe enchuma&ccedil;avam<br \/>\n    os cabelos louros, n&atilde;o lhe pesavam na cabe&ccedil;a gr&aacute;cil,<br \/>\n    as luvas de canh&atilde;o alto, sem uma ruga, moldavam-lhe o antebra&ccedil;o,<br \/>\n    apertados os seus tr&ecirc;s bot&otilde;es, sem se esgar&ccedil;ar, e a fitinha<br \/>\n    de veludo, de que pendia o medalh&atilde;o, cingia-lhe o pesco&ccedil;o com<br \/>\n    uma gra&ccedil;a sem par. De facto, aquela fita era um encanto, e Kitty, que<br \/>\n    diante do espelho do quarto j&aacute; pudera verificar que lhe ficava muit&iacute;ssimo<br \/>\n    bem, sorriu-lhe de novo ao<\/p>\n<p> rev&ecirc;-la num dos espelhos da sala de baile Podia ter algum receio quanto<br \/>\n    ao resto da toilette, mas quanto &agrave;quele veludo, n&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    tinha nada a dizer. Os ombros e os bra&ccedil;os nus davam-lhe a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma frialdade marm&oacute;rea, sensa&ccedil;&atilde;o de que particularmente<br \/>\n    gostava. Os olhos brilhavam-lhe e a certeza de que tinha de estar um encanto<br \/>\n    confiava-lhe aos l&aacute;bios um sorriso involunt&aacute;rio.<\/p>\n<p> Um enxame de raparigas, massas de tule, de fitas, de rendas, de flores,<br \/>\n    aguardava os seus pares, mas Kitty, nem agora nem em outra qualquer noite<br \/>\n    precisava de se lhes juntar mal entrara na sala, logo fora convidada pelo<br \/>\n    melhor dos pares, o mestre-de-cerim&ocirc;nia e organizador de bailes, um<br \/>\n    homem casado, belo, elegante, o Sr. Egoruchka Korsunski.<\/p>\n<p> Acabava de deixar a condessa Banine, com quem abrira o baile, quando, relanceando<br \/>\n    um olhar aos seus dom&iacute;nios, isto &eacute;, a um grupo de pares que<br \/>\n    valsavam, descobriu Kitty que entrava no sal&atilde;o. Imediatamente se lhe<br \/>\n    dirigiu, nesse passo desenvolto, caracter&iacute;stico dos organizadores de<br \/>\n    bailes, e sem mesmo lhe pedir autoriza&ccedil;&atilde;o, passou-lhe o bra&ccedil;o<br \/>\n    pela cintura fina Kitty procurou com os olhos a quem entregar o leque a dona<br \/>\n    da casa pegou nele, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Fez muito bem em ter vindo cedo &#8212; disse ele, no momento em<br \/>\n    que a enla&ccedil;ava &#8212;N&atilde;o compreendo essa mama de chegar tarde.<\/p>\n<p> Kitty pousou a m&atilde;o esquerda no ombro de Korsunski e os seus p&egrave;zinhos,<br \/>\n    nos sapatos cor-de-rosa, deslizaram, ao compasso da m&uacute;sica, pelo soalho<br \/>\n    encerado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um descanso dan&ccedil;ar consigo &#8212; disse Korsunski<br \/>\n    mal deram os primeiros passos lentos da valsa &#8212; num encanto de ligeireza,<br \/>\n    de pr&eacute;- cisto &#8212; acrescentou.<\/p>\n<p> Costumava dizer o mesmo a todas as suas conhecidas. Mas Kitty sorriu ao<br \/>\n    ouvir o elogio e continuou a olhar para a sala por cima do ombro de Korsunski.<br \/>\n    N&atilde;o era nem uma principiante, que confunde o rosto de todos os assistentes<br \/>\n    na embriaguez das primeiras impress&otilde;es, nem t&atilde;o-pouco uma dessas<br \/>\n    jovens j&aacute; fartas de bailes a quem todos os rostos conhecidos apenas<br \/>\n    inspiram t&eacute;dio. Nem uma coisa nem outra. Por mais excitada que estivesse,<br \/>\n    nem por isso deixava de se dominar, mantendo &iacute;ntegra a sua faculdade<br \/>\n    de observa&ccedil;&atilde;o. Notou, por isso mesmo, que a nata da sociedade<br \/>\n    se agrupava no &acirc;ngulo esquerdo da sala. Ali estava a dona da casa e<br \/>\n    a mulher de Korsunski, a bela L&iacute;dia, escandalosamente decotada, Krivne,<br \/>\n    que privava sempre com a alta-roda, exibia a sua calv&iacute;cie. Os rapazes<br \/>\n    olhavam de longe aquele grupo sem se atreverem a aproximar-se. E foi ali tamb&eacute;m<br \/>\n    que ela descobriu Stiva e depois a deliciosa cabe&ccedil;a de Ana e o seu<br \/>\n    elegante corpo moldado num vestido de veludo negro &laquo;Ele&raquo; tamb&eacute;m<br \/>\n    l&aacute; estava Kitty n&atilde;o o tornara a ver<\/p>\n<p> desde a noite em que recusara a proposta de Levine. Os seus penetrantes<br \/>\n    olhos reconheceram no de longe, notou mesmo que ele a olhava.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dar mais uma volta? N&atilde;o est&aacute; cansada, pois n&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; perguntou Korsunski, ligeiramente sufocado.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, muito obrigada.<\/p>\n<p>&#8212; Aonde quer que a acompanhe?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; ali a Karenina, parece Leve me at&eacute; junto dela.<\/p>\n<p>&#8212; Com todo o gosto.<\/p>\n<p>E Korsunski, retardando o passo, mas valsando sempre, encaminhou-se para<br \/>\n    o grupo da esquerd&aacute;-la dizendo &laquo;Pardon, Mesdames; pardon, pardon,<br \/>\n    Mesdames&raquo;, e t&atilde;o bem a conduzia pelo meio daquela onda de rendas,<br \/>\n    de tules e de fitas, que nem uma s&oacute; pluma se lhe prendeu ao vestido.<br \/>\n    Ao chegar ao seu destino, fez o seu par dar uma brusca pirueta, e a cauda<br \/>\n    do vestido de Kitty, desdobrando-se como um leque, veio pousar nos joelhos<br \/>\n    de Krivine, enquanto as delgadas pernas da dan&ccedil;arina, nas suas meias<br \/>\n    transparentes, se descobriam e mostravam Korsunski fez uma rever&ecirc;ncia,<br \/>\n    empertigou-se ligeiro e ofereceu-lhe o bra&ccedil;o para conduzi-la at&eacute;<br \/>\n    junto de Ana Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda<br \/>\n    do vestido dos joelhos de Krivine e volveu os olhos em busca de Ana. Esta<br \/>\n    n&atilde;o estava vestida de lil&aacute;s, como tanto teria desejado Kitty.<br \/>\n    Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava lhe os ombros esculturais,<br \/>\n    que lembravam velho marfim, assim como o colo e os bra&ccedil;os roli&ccedil;os,<br \/>\n    de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam lhe o vestido. Nos cabelos negros,<br \/>\n    sem posti&ccedil;os, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando<br \/>\n    com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas<br \/>\n    Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns carac&oacute;is de cabelo<br \/>\n    frisado na nuca e nas fontes se lhe eri&ccedil;avam rebeldes. Em volta do<br \/>\n    pesco&ccedil;o bem torneado brilhava um fio de p&eacute;rolas.<\/p>\n<p>Kitty, fascinada, todos os dias, em imagina&ccedil;&atilde;o, via Ana vestida<br \/>\n    de lil&aacute;s. Mas s&oacute; agora, ao v&ecirc;-la de preto, percebia que<br \/>\n    n&atilde;o apreendera todo o seu encanto. Via-a sob um aspecto novo e inesperado.<br \/>\n    Agora compreendia que o lil&aacute;s n&atilde;o lhe ficasse bem. O seu grande<br \/>\n    encanto resultava precisamente desse relevo da sua personalidade. O que vestia<br \/>\n    passava despercebido Enquanto um vestido lil&aacute;s a teria exibido, este,<br \/>\n    ao contr&aacute;rio, n&atilde;o obstante as sumptuosas rendas, era apenas<br \/>\n    uma moldura discreta que lhe punha em evid&ecirc;ncia a inata eleg&acirc;ncia,<br \/>\n    o encanto, a perfeita naturalidade.<\/p>\n<p> Como sempre, l&aacute; estava, erecta, e quando Kitty se aproximou do grupo,<br \/>\n    ela, de cabe&ccedil;a ligeiramente inclinada, falava com o dono da casa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o serei eu quem atire a primeira pedra, embora<br \/>\n    o n&atilde;o<\/p>\n<p> compreenda &#8212; replicava Ana a um argumento daquele, e encolhendo os<br \/>\n    ombros, logo se dirigiu a Kitty com um meigo sorriso protector. Num r&aacute;pido<br \/>\n    olhar, muito feminino, apreciou a maneira como ela estava vestida, esbo&ccedil;ando,<br \/>\n    aprovador, um breve aceno de cabe&ccedil;a, que n&atilde;o escapou a Kitty.<\/p>\n<p> &#8212; Parece que entrou na sala a dan&ccedil;ar &#8212; disse-lhe ela.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma das minhas melhores colaboradoras &#8212; observou Korsunski,<br \/>\n    numa rever&ecirc;ncia a Ana Arkadievna, que ainda n&atilde;o cumprimentara.<br \/>\n    &#8212; A princesa contribuiu para tornar o baile encantador e alegre. Ana<br \/>\n    Arkadievna, uma valsa? &#8212; disse, numa mesura.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, conhecem-se? &#8212; observou o dono da casa.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute; que nos n&atilde;o conhece, &agrave; minha mulher e<br \/>\n    a mim? Somos o lobo branco. Esta valsa, Ana Arkadievna?<\/p>\n<p>&#8212; Nunca dan&ccedil;o, sempre que o posso evitar.<\/p>\n<p>&#8212; Hoje n&atilde;o pode &#8212; teimou Korsunski. Vronski aproximou-se<br \/>\n    naquele momento.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem, j&aacute; que hoje &eacute; imposs&iacute;vel, dancemos<br \/>\n    &#8212; acedeu Ana Arkadievna, fingindo n&atilde;o ver o cumprimento que Vronski<br \/>\n    lhe dirigia e colocando, apressadamente, a m&atilde;o no ombro de Korsunski.<\/p>\n<p>&laquo;Por que estar&aacute; ela enfadada com ele?&raquo;, pensou Kitty,<br \/>\n    notando que Ana n&atilde;o respondera, intencionalmente, ao cumprimento de<br \/>\n    Vronski. Este aproximou-se de Kitty, lembrou-lhe que lhe prometera a primeira<br \/>\n    quadrilha e que lamentava n&atilde;o ter tido o prazer de a ver antes. Kitty<br \/>\n    ouvia-o enquanto, embevecida, contemplava Ana, que dan&ccedil;ava. Julgara<br \/>\n    que Vronski a iria convidar para aquela valsa, mas ele n&atilde;o a convidou,<br \/>\n    e Kitty olhou-o surpreendida. Perturbado, Vronski deu-se pressa em convid&aacute;-la,<br \/>\n    mas quando passava o bra&ccedil;o pela cintura da jovem e dava o primeiro<br \/>\n    passo, a m&uacute;sica parou. Kitty fitou-lhe o rosto, que t&atilde;o pr&oacute;ximo<br \/>\n    estava do seu, e por muito tempo, anos e anos depois, sempre que lembrava<br \/>\n    o olhar cheio de amor que ent&atilde;o lhe dirigira e a que ele n&atilde;o<br \/>\n    correspondera, atormentava-se envergonhada, &#8212; Pardon, pardon! A valsa,<br \/>\n    valsa &#8212; gritou Korsunski do outro extremo do sal&atilde;o.<\/p>\n<p> E enla&ccedil;ando a primeira senhora que lhe passava perto, principiou<br \/>\n    a rodopiar.<\/p>\n<h4> <a name=\"23\">CAP&Iacute;TULO XXIII<\/a><\/h4>\n<p>Vronski e Kitty deram alguns passos de dan&ccedil;a. Depois Kitty foi para<br \/>\n    junto da m&atilde;e e mal teve tempo de trocar algumas palavras com a condessa<br \/>\n    Nordston, pois Vronski veio tir&aacute;-la para a primeira quadrilha Enquanto<br \/>\n    falaram nada disseram de especial, a conversa girou &agrave; volta do casal<br \/>\n    Korsunski, que Vronski descrevia de maneira assai c&ocirc;mica, como se fossem<br \/>\n    crian&ccedil;as de quarenta anos, e de um espect&aacute;culo de amadores em<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o. S&oacute; uma vez a conversa tocou Kitty vivamente,<br \/>\n    quando Vronski, lhe perguntou se Uvine estava no baile, acrescentando que<br \/>\n    minto gostara dele. Ali&aacute;s, Kitty pouco esperava da quadrilha, toda<br \/>\n    a sua esperan&ccedil;a estava na mazurca. Acreditava que, nessa ocasi&atilde;o,<br \/>\n    tudo se decidira. Nem sequer se sentiu preocupada com o facto de Vronski n&atilde;o<br \/>\n    a ter convidado para a mazurca enquanto dan&ccedil;avam a quadrilha. Tinha<br \/>\n    a certeza de que a convidaria, como nos bailes anteriores, e recusou cinco<br \/>\n    pares sob o pretexto de estar comprometida. Todo o baile, at&eacute; &agrave;<br \/>\n    ultima quadrilha, foi para Kitty um sonho encantador, cheio de cores, de sons<br \/>\n    e de movimentos harmoniosos. S&oacute; n&atilde;o dan&ccedil;ava quando se<br \/>\n    sentia muito cansada e pedia que a deixassem descansar. Mas, durante a &uacute;ltima<br \/>\n    quadrilha, que dan&ccedil;ara com um rapaz enfadonho, a quem n&atilde;o pudera<br \/>\n    furtar-se, encontrou-se frente a frente com Vronski e Ana. N&atilde;o voltara<br \/>\n    a ver Ana desde o princ&iacute;pio do baile e de novo ela se lhe apresentou<br \/>\n    sob um aspecto novo e inesperado. Viu em Ana aquela excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o &ecirc;xito d&aacute;, t&atilde;o sua conhecida. Dir-se-ia embriagada<br \/>\n    pela admira&ccedil;&atilde;o que despertava em volta de si. Kitty conhecia<br \/>\n    essa sensa&ccedil;&atilde;o com todos os seus sintomas, e era o que via em<br \/>\n    Ana: o brilho inflamado dos olhos e o sorriso feliz e animado que, mal-grado<br \/>\n    ela, lhe assomava aos l&aacute;bios, bem como a gra&ccedil;a, a seguran&ccedil;a<br \/>\n    e a ligeireza dos movimentos.<\/p>\n<p> &laquo;Quem ser&aacute;?&raquo;, perguntou a si pr&oacute;pria. &laquo;Todos<br \/>\n    ou um apenas?&raquo; E sem prestar aten&ccedil;&atilde;o ao rapaz com quem<br \/>\n    rodopiava, que fazia grandes esfor&ccedil;os para reatar a conversa interrompida,<br \/>\n    e obedecendo, automaticamente, aos gritos imperiosos de Korsunski, que a todos<br \/>\n    ordenava um grand rond, ora a cha&icirc;ne, Kitty observava-a enquanto o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se lhe primia. &laquo;N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; a admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral que a embriaga, mas a admira&ccedil;&atilde;o de um s&oacute;. Ser&aacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel que seja a dele?&raquo; De cada vez que Vronski lhe falava,<br \/>\n    os olhos de Ana brilhavam alegres, e um sorriso de felicidade lhe aflorava<br \/>\n    aos l&aacute;bios vermelhos. Dir-se-ia que fazia tudo para n&atilde;o deixar<br \/>\n    transparecer esses ind&iacute;cios de alegria, que se manifestavam apesar<br \/>\n    de tudo. &laquo;Mas que tem ela?&raquo;, pensou Kitty, olhando Vronski horrorizada.<br \/>\n    No rosto dele viu o que t&atilde;o claramente vira no de Ana. Onde estava<br \/>\n    a sua atitude, sempre firme e serena, e a sua express&atilde;o despreocupada<br \/>\n    e tranq&uuml;ila? Agora, de cada vez que se dirigia a Ana,<\/p>\n<p> inclinava ligeiramente a cabe&ccedil;a, como se desejasse cair-lhe aos p&eacute;s,<br \/>\n    e no seu olhar tudo era receio e submiss&atilde;o. &laquo;N&atilde;o quero<br \/>\n    ofend&ecirc;-la, quereria apenas salvar-me e n&atilde;o sei como&raquo;, parecia<br \/>\n    dizer o olhar dele. Kitty nunca vira aquela express&atilde;o no rosto de Vronski.<\/p>\n<p>Ana e Vronski falavam das suas rela&ccedil;&otilde;es, a conversa era trivial,<br \/>\n    mas Kitty persuadia-se de que cada palavra que pronunciavam decidia ao mesmo<br \/>\n    tempo da sorte deles e da sua pr&oacute;pria. E o mais estranho &eacute; que,<br \/>\n    embora na realidade comentassem o rid&iacute;culo de Ivan Ivanovitch a falar<br \/>\n    um p&eacute;ssimo franc&ecirc;s, e achassem que se poderia ter encontrado<br \/>\n    melhor partido para a Ieletskaia, de facto, as palavras que diziam tinham<br \/>\n    outro significado para eles, coisa de que se davam conta com tanta evid&ecirc;ncia<br \/>\n    como a pr&oacute;pria Kitty. O baile, as luzes, tudo se velou de n&eacute;voa<br \/>\n    na alma desta. A &uacute;nica coisa que a amparava era a sua r&iacute;gida<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o, que a for&ccedil;ava a fazer o que convinha, isto<br \/>\n    &eacute;, a dan&ccedil;ar, a responder &agrave;s perguntas que lhe faziam,<br \/>\n    a falar e at&eacute; a sorrir. Mas antes de come&ccedil;ar a mazurca, j&aacute;<br \/>\n    colocadas as cadeiras e um certo n&uacute;mero de pares a passar das salas<br \/>\n    pequenas para o sal&atilde;o, encheu-se de desespero e horror. Recusara cinco<br \/>\n    pares e ia ficar sem parceiro para a mazurca. N&atilde;o tinha j&aacute; esperan&ccedil;a<br \/>\n    de que a convidassem, pois, como era grande o &ecirc;xito que desfrutava em<br \/>\n    sociedade, ningu&eacute;m pensava que naquela altura ainda estivesse sem par.<br \/>\n    Ver-se-ia obrigada a dizer &agrave; m&atilde;e que se sentia indisposta e<br \/>\n    que tinha de voltar para casa, embora lhe faltasse &acirc;nimo para isso.<br \/>\n    Era grande o seu abatimento.<\/p>\n<p>Refugiando-se a um canto de uma das salinhas, deixou-se cair numa poltrona.<br \/>\n    A vaporosa cauda do vestido, envolvendo-a, parecia uma nuvem; uma das delicadas<br \/>\n    e finas m&atilde;os descaiu-lhe, ocultando-se entre as pregas do vestido;<br \/>\n    na outra tinha o leque, que de vez em quando agitava em r&aacute;pidos movimentos<br \/>\n    diante do rosto arrebatado. No entanto, apesar desse aspecto de mariposa que<br \/>\n    acaba de pousar na relva, pronta a bater de novo as asas irisadas, uma terr&iacute;vel<br \/>\n    ang&uacute;stia lhe oprimia o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Talvez me tenha enganado, talvez n&atilde;o seja nada disso.&raquo;<br \/>\n    E de novo recordou tudo o que vira.<\/p>\n<p>&#8212; Kitty, que tens tu? N&atilde;o percebo nada &#8212; disse, entretanto,<br \/>\n    a condessa Nordston, que se aproximara silenciosamente, os passos abafados<br \/>\n    pelo tapete.<\/p>\n<p>O l&aacute;bio inferior de Kitty tremeu e ela ergueu-se precipitadamente.<\/p>\n<p>&#8212; Kitty, n&atilde;o dan&ccedil;as a mazurca?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8212; respondeu ela, numa voz em que as l&aacute;grimas<br \/>\n    tremiam.<\/p>\n<p>&#8212; Convidou-a para dan&ccedil;ar a mazurca diante de mim &#8212; disse<br \/>\n    a condessa, certa de que Kitty saberia a quem ela aludia. &#8212; E ela<\/p>\n<p> perguntou-lhe: &laquo;Ent&atilde;o n&atilde;o a dan&ccedil;a com a princesa<br \/>\n    Tcherbatskaia?&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Tanto faz! &#8212; atalhou Kitty.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser ela pr&oacute;pria, podia compreender a<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o em que se encontrava: ningu&eacute;m se n&atilde;o<br \/>\n    ela sabia que recusara a proposta de um homem a quem talvez amasse, por acreditar<br \/>\n    noutro.<\/p>\n<p>A condessa Nordston foi em busca de Korsunski, com quem dan&ccedil;aria a<br \/>\n    mazurca, e pediu-lhe que convidasse Kitty.<\/p>\n<p> Kitty abriu a mazurca com Korsunski, felizmente sem necessidade de falar,<br \/>\n    uma vez que este ia de um lado ao outro dirigindo os pares. Vronski e Ana<br \/>\n    estavam sentados mesmo defronte dela. Via-os ora longe ora perto quando os<br \/>\n    pares se cruzavam, e quanto mais os observava mais se convencia da sua infelicidade.<br \/>\n    Adivinhava que ambos se sentiam completamente s&oacute;s no meio do sal&atilde;o.<br \/>\n    E o rosto de Vronski, sempre t&atilde;o resoluto e sereno, reflectia agora<br \/>\n    aquela express&atilde;o submissa e atemorizada que tanto a impressionara,<br \/>\n    fazendo-lhe lembrar a express&atilde;o de um c&atilde;o inteligente quando<br \/>\n    se sente culpado.<\/p>\n<p>Ana sorria e o seu sorriso comunicava-se a Vronski. Se porventura ficava<br \/>\n    pensativa, ele punha-se s&eacute;rio. Uma for&ccedil;a sobrenatural atra&iacute;a<br \/>\n    para Ana os olhos de Kitty. Estava encantadora com o seu vestido negro muito<br \/>\n    simples; os seus torneados bra&ccedil;os, cingidos por pulseiras, eram belos;<br \/>\n    belo era o seu colo alto, em que avultava o fio de p&eacute;rolas; encantadores<br \/>\n    os graciosos e ligeiros movimentos dos seus p&egrave;zinhos e das suas m&atilde;os;<br \/>\n    fascinante o seu rosto animado. No seu encanto, por&eacute;m, havia qualquer<br \/>\n    coisa de cruel e de terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Kitty olhava-a mais fascinada ainda do que at&eacute; ent&atilde;o e cada<br \/>\n    vez era maior o seu sofrimento. Sentia-se esmagada, e isso mesmo se lia no<br \/>\n    seu rosto. Quando Vronski a viu, ao encontrar-se com ela durante a mazurca,<br \/>\n    n&atilde;o a reconheceu logo, t&atilde;o mudada estava.<\/p>\n<p>&#8212; Que baile magn&iacute;fico! &#8212; disse, para dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; Pois &eacute; &#8212; respondeu Kitty.<\/p>\n<p>L&aacute; para o meio da mazurca, quando se ensaiava uma complicada figura<br \/>\n    inventada por Korsunski, Ana teve de colocar-se no centro do c&iacute;rculo<br \/>\n    e escolher dois cavalheiros e duas senhoras. Uma das senhoras que escolheu<br \/>\n    foi Kitty. Kitty aproximou-se, olhando-a, receosa. Ana, semicerrando os olhos,<br \/>\n    fitou-a sorrindo enquanto lhe apertava a m&atilde;o. Mas ao ver que Kitty<br \/>\n    lhe respondia com uma express&atilde;o de ang&uacute;stia e surpresa, voltou-se<br \/>\n    e p&ocirc;s-se a falar alegremente com outra senhora.<\/p>\n<p> &laquo;Sim, h&aacute; nela uma sedu&ccedil;&atilde;o estranha, diab&oacute;lica&raquo;,<br \/>\n    pensou Kitty consigo mesma.<\/p>\n<p>Ana n&atilde;o queria ficar para a ceia, mas o dono da casa insistiu.<\/p>\n<p>&#8212; Fique, Ana Arkadievna &#8212; disse Korsunski, puxando-a pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    nu &#8212; Tenho uma ideia para o cotillon. Un bijou!<\/p>\n<p>E procurava arrast&aacute;-la, encorajado pelo sorriso do anfitri&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o posso ficar &#8212; respondia Ana, sorrindo.<br \/>\n    No entanto, apesar daquele sorriso, tanto o dono da casa como Korsunski compreenderam,<br \/>\n    gra&ccedil;as ao seu tom decidido, que ela n&atilde;o ficaria.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; dancei hoje mais em Moscovo do que durante um ano inteiro<br \/>\n    em Sampetersburgo. Preciso de descansar antes da viagem &#8212; acrescentou,<br \/>\n    voltando-se para Vronski, que estava junto dela.<\/p>\n<p>&#8212; Sempre parte, realmente, amanh&atilde;? &#8212; perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, acho qu&ecirc; sim &#8212; volveu-lhe Ana, como que surpreendida<br \/>\n    com o atrevimento da pergunta.<\/p>\n<p> Mas o irresist&iacute;vel brilho dos seus olhos e o sorriso que lhe lan&ccedil;ou<br \/>\n    enquanto lhe dirigia a palavra abrasaram-no.<\/p>\n<p>Ana Arkadievna partiu sem ter querido cear.<\/p>\n<h4><a name=\"24\">CAP&Iacute;TULO XXIV<\/a><\/h4>\n<p>&laquo;Sim, em mim h&aacute; qualquer coisa de desagrad&aacute;vel, qualquer<br \/>\n    coisa que afugenta&raquo;, pensava Levine ao sair da resid&ecirc;ncia dos<br \/>\n    Tcherbatski, enquanto se dirigia a p&eacute; para casa do irm&atilde;o. &laquo;N&atilde;o<br \/>\n    sirvo para conviver com as pessoas. Dizem que &eacute; orgulho, mas a verdade<br \/>\n    &eacute; que nem sequer sou orgulhoso. Se o fosse, n&atilde;o estaria na situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que estou.&raquo; E diante de seus olhos aparecia o feliz, o bom, o inteligente<br \/>\n    Vronski, o qual, com certeza, nunca se vira numa situa&ccedil;&atilde;o assim.<br \/>\n    &laquo;Era natural&iacute;ssimo que ela o preferisse. N&atilde;o podia ser<br \/>\n    de outra maneira, e n&atilde;o devo queixar-me de nada nem de ningu&eacute;m.<br \/>\n    A culpa &eacute; minha. Com que direito pensei eu que ela estivesse disposta<br \/>\n    a unir a sua vida &agrave; minha? Quem sou eu? Que sou eu? Um homem in&uacute;til,<br \/>\n    de quem ningu&eacute;m precisa.&raquo; Lembrou-se do irm&atilde;o Nicolau<br \/>\n    e essa lembran&ccedil;a consolou-o. &laquo;Pois n&atilde;o tem ele raz&atilde;o<br \/>\n    quando diz que tudo neste mundo &eacute; mau e repugnante? N&atilde;o sei<br \/>\n    se fomos justos armando-nos em juizes do nosso outro irm&atilde;o. Naturalmente<br \/>\n    do ponto de vista de Prokofi, que o v&ecirc; de pelica rota e b&ecirc;bedo,<br \/>\n    &eacute; um homem desprez&iacute;vel; mas eu vejo-o de outra maneira. Conhe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    a alma e sei que nos parecemos um com o outro. E o certo &eacute; que em vez<br \/>\n    de o ter ido procurar fui jantar e depois apresentei-me ali.&raquo; Levine<br \/>\n    aproximou-se de um lampi&atilde;o, puxou da carteira, leu o<\/p>\n<p> endere&ccedil;o de Nicolau, chamou um carro de pra&ccedil;a e deu a direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao cocheiro. Durante o longo trajecto foi recordando os epis&oacute;dios que<br \/>\n    conhecia da vida do irm&atilde;o. Lembrou-se de que ele, durante os anos dos<br \/>\n    seus estudos universit&aacute;rios e mesmo at&eacute; um ano depois de conclu&iacute;do<br \/>\n    o curso, apesar da tro&ccedil;a dos amigos, vivera como um frade, cumprindo<br \/>\n    rigorosamente os preceitos da religi&atilde;o, assistindo &agrave; missa e<br \/>\n    praticando jejuns, evitando toda a sorte de prazeres e sobretudo mulheres.<br \/>\n    Depois, mudara de chofre, passando a acompanhar-se de gente da pior esp&eacute;cie<br \/>\n    e votando-se a uma vida dissoluta. Lembrou-se da hist&oacute;ria do garoto<br \/>\n    que trouxera da aldeia para educar e em quem batera tanto num momento de excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que fora chamado ao tribunal para responder pelos maus tratos que lhe infligira.<br \/>\n    E tamb&eacute;m daquele grego a quem dera em pagamento de uma d&iacute;vida<br \/>\n    de jogo uma letra de c&acirc;mbio (a letra que S&eacute;rgio Ivanovitch acabava<br \/>\n    de pagar), denunciando-o depois por crime de estroquerie. De outra vez passara<br \/>\n    uma noite no comissariado da pol&iacute;cia por desordem na via p&uacute;blica.<br \/>\n    E ainda intentara um processo contra o irm&atilde;o S&eacute;rgio, a quem<br \/>\n    acusava de n&atilde;o lhe ter entregue a parte que lhe cabia na heran&ccedil;a<br \/>\n    materna.<\/p>\n<p> A sua &uacute;ltima proeza fora quando viajara para a Pol&ocirc;nia, em<br \/>\n    busca de trabalho, e se vira em s&eacute;rios apuros, chamado ao tribunal,<br \/>\n    por haver maltratado um magistrado. Evidentemente que tudo isto era odioso<br \/>\n    mas menos odioso, no entanto, aos olhos de Levine do que aos daqueles que<br \/>\n    n&atilde;o conheciam nem a vida nem o cora&ccedil;&atilde;o de Nicolau.<\/p>\n<p> Levine recordou que na &eacute;poca em que Nicolau procurara na religi&atilde;o<br \/>\n    e nas suas pr&aacute;ticas mais austeras um freio, um dique a opor &agrave;<br \/>\n    sua natureza apaixonada, ningu&eacute;m o amparara, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    todos, e ele em primeiro lugar, o tinham ridicularizado, chamando-o de eremita<br \/>\n    e beato. Quando Nicolau mudou, e o dique se rompeu, todos, em vez de o ampararem,<br \/>\n    se afastaram dele, desgostosos e horrorizados.<\/p>\n<p> Levine dava conta de que no seu &iacute;ntimo, no mais fundo da sua alma,<br \/>\n    apesar da vida depravada que levava, ele, o irm&atilde;o, n&atilde;o era mais<br \/>\n    culpado do que os que o desprezavam. N&atilde;o tinha culpa de ter nascido<br \/>\n    com aquele car&aacute;cter indom&aacute;vel e aquela ilimitada intelig&ecirc;ncia.<br \/>\n    Sempre desejara ser bom. &laquo;Falar-lhe-ei com o cora&ccedil;&atilde;o nas<br \/>\n    m&atilde;os, obriga-lo-ei a fazer o mesmo e provar-lhe-ei que o estimo e portanto<br \/>\n    que o compreendo&raquo;, decidiu Levine, falando consigo mesmo, ao chegar<br \/>\n    ao hotel que o endere&ccedil;o indicava, cerca das onze horas.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; em cima, no e no &#8212; respondeu o porteiro, em resposta<br \/>\n    &agrave; pergunta de Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; em casa?<\/p>\n<p>&#8212; Creio que sim.<\/p>\n<p>A porta do n&ordm; estava entreaberta e do quarto desprendia-se um<\/p>\n<p> fumo espesso de tabaco ordin&aacute;rio. Levine ouviu, primeiro, uma voz<br \/>\n    desconhecida, e em seguida a conhecida tossezinha do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando entrou, numa esp&eacute;cie de vest&iacute;bulo, a voz desconhecida<br \/>\n    dizia: <\/p>\n<p> &#8212; Tudo depende da habilidade e da prud&ecirc;ncia com que se fazem<br \/>\n    as coisas&#8230;<\/p>\n<p>Levine olhou pela porta entreaberta e viu que quem falava era um rapaz de<br \/>\n    grande cabeleira que vestia uma podiovka. No div&atilde; estava sentada uma<br \/>\n    mulher nova, picada de bexigas, com um vestido de l&atilde;, sem mangas nem<br \/>\n    gola. N&atilde;o se via Nicolau. Constantino Levine sentiu oprimir-se-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o ao ver a esp&eacute;cie de gente com quem o irm&atilde;o<br \/>\n    privava. Ningu&eacute;m dera por ele e Levine ficou a ouvir o que dizia o<br \/>\n    rapaz de podiovka enquanto descal&ccedil;ava as galochas. Falava de um neg&oacute;cio<br \/>\n    em projecto.<\/p>\n<p> &#8212; Que o diabo as leve, &agrave;s classes privilegiadas! &#8212; disse<br \/>\n    Nicolau, tossindo. &#8212; Macha, pede a ceia e serve-nos vinho, se o h&aacute;;<br \/>\n    se n&atilde;o, manda-o vir.<\/p>\n<p> A mulher levantou-se do div&atilde;, passou para o outro lado do tabique<br \/>\n    e viu Constantino.<\/p>\n<p> &#8212; Nicolau Dimitrievitch, est&aacute; aqui um senhor &#8212; disse<br \/>\n    ela.<\/p>\n<p>&#8212; Quem procura? &#8212; exclamou a voz irritada de Nicolau Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Sou eu &#8212; respondeu Constantino, aproximando-se da luz.<\/p>\n<p>&#8212; Eu, quem? &#8212; exclamou Nicolau, ainda mais irritado.<\/p>\n<p>Levine ouviu-o levantar-se de chofre, agarrando-se a qualquer coisa, para<br \/>\n    da&iacute; a momentos ver diante dele a alta silhueta descarnada e um pouco<br \/>\n    corcovada do irm&atilde;o. Por mais familiar que lhe fosse a figura de Nicolau,<br \/>\n    o seu aspecto doentio e selvagem n&atilde;o deixou de o assustar.<\/p>\n<p>Ainda estava mais magro que da &uacute;ltima vez que o vira, tr&ecirc;s anos<br \/>\n    antes. Vestia uma sobrecasaca curta, e os seus bra&ccedil;os e os seus ossos<br \/>\n    salientes ainda pareciam maiores. Tinha os cabelos menos fartos, o bigode<br \/>\n    que lhe escondia os l&aacute;bios era ainda o mesmo e a mesma surpreendente<br \/>\n    ingenuidade se lia no olhar que fixava no rec&eacute;m-chegado.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! K&oacute;stia! &#8212; exclamou, ao reconhecer o irm&atilde;o,<br \/>\n    e nos olhos perpassou-lhe um lampejo de alegria.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo, por&eacute;m, virara-se para o amigo com aquele movimento<br \/>\n    convulsivo de cabe&ccedil;a e pesco&ccedil;o que Constantino t&atilde;o bem<br \/>\n    lhe conhecia, como se a gravata o enforcasse, e uma express&atilde;o diferente<br \/>\n    &#8212; selvagem, de sofrimento e crueldade &#8212; se reflectiu no seu rosto<br \/>\n    magro.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; lhe mandei dizer, e tamb&eacute;m ao S&eacute;rgio Ivanovitch,<br \/>\n    que n&atilde;o<\/p>\n<p> quero nada com voc&ecirc;s. Que desejas? Que deseja o senhor?<\/p>\n<p>N&atilde;o era aquele o homem que Constantino imaginara ir encontrar. Ao<br \/>\n    pensar nele esquecera o pior e o mais penoso do car&aacute;cter do irm&atilde;o,<br \/>\n    o que tornava t&atilde;o dif&iacute;cil o trato com ele. E agora, ao ver-lhe<br \/>\n    o rosto, e sobretudo aquele seu convulsivo movimento de cabe&ccedil;a, tudo<br \/>\n    lhe vinha &agrave; mem&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Nada quero de ti &#8212; respondeu, com uma certa timidez. &#8212;<br \/>\n    Vim apenas para te ver.<\/p>\n<p> A timidez de Constantino pareceu acalmar Nicolau. Contraiu os l&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, vens por desfastio? &#8212; disse ele. &#8212; Bom, entra, senta-te.<\/p>\n<p> Queres cear? Macha, traz tr&ecirc;s ra&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o, espera.<br \/>\n    Sabes quem &eacute;? &#8212; perguntou ao irm&atilde;o, apontando para o rapaz<br \/>\n    da podiovka. &#8212; O Senhor Kritski, um amigo meu ainda do tempo de Kiev,<br \/>\n    um homem not&aacute;vel. Como &eacute; natural, anda perseguido pela pol&iacute;cia,<br \/>\n    pois n&atilde;o &eacute; um canalha. &#8212; E, segundo seu velho costume,<br \/>\n    relanceou os olhos por todos os que o rodeavam. Ao ver que a mulher, ainda<br \/>\n    junto &agrave; porta, se dispunha a sair, gritou-lhe: &#8212; Disse-te que<br \/>\n    esperasses!<\/p>\n<p>E com aquela indecis&atilde;o e aquela falta de eloq&uuml;&ecirc;ncia que<br \/>\n    Constantino t&atilde;o bem lhe conhecia, p&ocirc;s-se a contar ao irm&atilde;o,<br \/>\n    depois de perpassar de novo a vista por todos, a hist&oacute;ria de Kritski:<br \/>\n    que fora expulso da Universidade por ter criado uma sociedade de aux&iacute;lio<br \/>\n    aos estudantes pobres e &agrave;s escolas dominicais, que se fizera professor<br \/>\n    de uma escola p&uacute;blica e tamb&eacute;m fora expulso dali, e que depois<br \/>\n    disso lhe haviam instaurado um processo.<\/p>\n<p> &#8212; Estudou na Universidade de Kiev? &#8212; inquiriu Levine de Kritski,<br \/>\n    para interromper o sil&ecirc;ncio desagrad&aacute;vel que se formara no quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, em Kiev &#8212; murmurou este, franzindo as sobrancelhas, numa<br \/>\n    express&atilde;o de enfado.<\/p>\n<p> &#8212; E esta mulher, Maria Nikolaievna, &eacute; a companheira da minha<br \/>\n    vida &#8212; interrompeu Nicolau Levine, apontando Macha. &#8212; Tirei-a<br \/>\n    de uma casa&#8230; &#8212; ao dizer isto agitou convulsivamente o pesco&ccedil;o.<br \/>\n    &#8212; Mas quero-lhe e respeito-a e pe&ccedil;o a todos que queiram entender-se<br \/>\n    comigo que lhe queiram e a respeitem. &#8212; &Eacute; como se fosse minha<br \/>\n    mulher, tal qual como se o fosse. Bom, agora j&aacute; sabes com quem est&aacute;s<br \/>\n    a falar. Se achas que isso te rebaixa, a porta est&aacute; ali, vai-te com<br \/>\n    Deus.<\/p>\n<p> De novo percorreu os olhos pelos circunstantes, numa express&atilde;o interrogativa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei por que havia de me rebaixar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Macha, encomenda a ceia: que tragam tr&ecirc;s ra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    vodka e vinho. N&atilde;o, espera&#8230; N&atilde;o, est&aacute; bem&#8230; Raspa-te!<\/p>\n<h4><a name=\"25\">CAP&Iacute;TULO XXV<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; J&aacute; v&ecirc;s &#8212; continuou Nicolau Levine, fazendo uma<br \/>\n    careta e enrugando a testa, pois n&atilde;o sabia l&aacute; muito bem que<br \/>\n    dizer ou que fazer &#8212;, como v&ecirc;s&#8230;<\/p>\n<p> Apontou para um recanto do quarto onde estavam umas barras de ferro amarradas<br \/>\n    com cordas.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s a ver aquilo? &#8212; conseguiu dizer, finalmente.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; o come&ccedil;o de uma nova obra a que nos vamos consagrar.<br \/>\n    Trata-se de uma cooperativa oper&aacute;ria de produ&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Constantino quase n&atilde;o lhe prestava ouvidos. Observava-lhe o rosto<br \/>\n    de tuberculoso e cada vez era maior a compaix&atilde;o que lhe inspirava.<br \/>\n    N&atilde;o conseguia prestar aten&ccedil;&atilde;o ao que ele dizia. Compreendia<br \/>\n    que aquela cooperativa era para ele apenas uma t&aacute;bua de salva&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    a forma de n&atilde;o se desprezar a si pr&oacute;prio por completo. Deixava-o,<br \/>\n    pois, perorar.<\/p>\n<p>&#8212; Bem sabes que o capital oprime o trabalhador. Entre n&oacute;s, os<br \/>\n    oper&aacute;rios e os camponeses suportam todo o peso do trabalho, e as coisas<br \/>\n    est&atilde;o feitas de tal maneira que por mais que trabalhem n&atilde;o conseguem<br \/>\n    passar de bestas de carga. Todos os benef&iacute;cios, tudo o que permita<br \/>\n    ao trabalhador melhorar a sua condi&ccedil;&atilde;o, ter descanso e, por<br \/>\n    conseguinte, tempo para instruir-se, todos esses benef&iacute;cios os capitalistas<br \/>\n    lhes roubam.<\/p>\n<p> A sociedade est&aacute; organizada de tal maneira que quanto mais os oper&aacute;rios<br \/>\n    trabalharem tanto mais amealhar&atilde;o os comerciantes e os donos da terra,<br \/>\n    continuar&atilde;o aqueles a ser bestas de carga. &Eacute; preciso modificar<br \/>\n    esta ordem de coisas &#8212; concluiu, olhando interrogativamente para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Claro, &eacute; natural &#8212; corroborou Constantino, notando a<br \/>\n    cor que aparecera nas ma&ccedil;&atilde;s salientes do rosto de Nicolau.<\/p>\n<p> &#8212; Estamos a organizar uma cooperativa de serralheiros em que tudo<br \/>\n    ser&aacute; em comum: trabalho, lucros e at&eacute; as principais ferramentas.<\/p>\n<p> &#8212; Onde instalar&atilde;o a cooperativa? &#8212; perguntou Levine.<\/p>\n<p>&#8212; Na aldeia de Vozdrema, na prov&iacute;ncia de Kazan.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc; numa aldeia? Em geral nas aldeias n&atilde;o falta<br \/>\n    trabalho. Para que querer&atilde;o ali uma cooperativa de serralheiros?<\/p>\n<p> &#8212; Porque o campon&ecirc;s cont&iacute;nua escravo como antes e o que<br \/>\n    vos desagrada, tanto ao S&eacute;rgio como a ti, &eacute; que o v&atilde;o<br \/>\n    tirar dessa escravid&atilde;o&#8212; replicou Nicolau, irritado com a interrup&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Constantino suspirou enquanto examinava o quarto sujo e l&uacute;gubre.<br \/>\n    E aquele suspiro ainda pareceu irritar mais Nicolau.<\/p>\n<p> &#8212; Conhe&ccedil;o muit&iacute;ssimo bem os pontos de vista aristocr&aacute;ticos<br \/>\n    de S&eacute;rgio Ivanovitch e os teus. Sei que ele p&otilde;e em pr&aacute;tica<br \/>\n    todo o vigor da sua intelig&ecirc;ncia para justificar o mal existente.<\/p>\n<p> &#8212; Nada disso; mas para que &eacute; o S&eacute;rgio chamado aqui?<br \/>\n    &#8212; perguntou Levine, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Por que chamo aqui o S&eacute;rgio Ivanovitch? Pois vou j&aacute;<br \/>\n    dizer-te, vou j&aacute; dizer-te! &#8212; vociferou Nicolau exasperado, ao<br \/>\n    ouvir o nome do irm&atilde;o. &#8212; Mas, o que adianta discutir? Diz-me<br \/>\n    s&oacute; uma coisa&#8230; Que vieste fazer? A nossa empresa n&atilde;o te merece<br \/>\n    sen&atilde;o desprezo, n&atilde;o &eacute; verdade? Est&aacute; bem, mas ent&atilde;o<br \/>\n    vai-te com Deus! Vai-te! Vai-te! &#8212; gritou, levantando-se. &#8212; Vai-te!<br \/>\n    Vai-te! &#8212; N&atilde;o a desprezo, nem sequer a estou a discutir &#8212;<br \/>\n    disse Constantino, timidamente.<\/p>\n<p>Naquele momento entrava Maria Nikolaievna. Nicolau voltou-se para ela, irritado.<br \/>\n    Maria aproximou-se dele e disse-lhe qualquer coisa precipitadamente.<\/p>\n<p> &#8212; Estou doente, tudo me irrita &#8212; murmurou Nicolau Levine, serenando<br \/>\n    e respirando penosamente. &#8212; E vens tu falar-me do S&eacute;rgio Ivanovitch<br \/>\n    e do artigo dele. &Eacute; um absurdo, um embuste, a maneira de uma pessoa<br \/>\n    se enganar a si pr&oacute;pria. Que h&aacute;-de dizer da justi&ccedil;a um<br \/>\n    homem que n&atilde;o conhece a justi&ccedil;a? Leu o artigo dele? &#8212;<br \/>\n    perguntou a Kristki, enquanto voltava a sentar-se e se punha a juntar a um<br \/>\n    lado o monte de cigarros espalhados na mesa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &#8212; replicou Kritski, com uma express&atilde;o taciturna,<br \/>\n    como se n&atilde;o quisesse tomar parte na conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;? &#8212; perguntou Nicolau Levine, exasperado desta<br \/>\n    vez com Kritski.<\/p>\n<p>&#8212; Eu acho que n&atilde;o vale a pena perder tempo com essas coisas.<\/p>\n<p>&#8212; Perd&atilde;o, como sabe que &eacute; perder tempo? Esse artigo est&aacute;<br \/>\n    para al&eacute;m da compreens&atilde;o de muitos. Quanto a mim, &eacute; diferente.<br \/>\n    Eu conhe&ccedil;o o fundo das suas ideias, conhe&ccedil;o-lhe os pontos fracos.<\/p>\n<p>Todos se calaram. Kritski levantou-se vagarosamente e pegou no chap&eacute;u.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quer cear? Bom, ent&atilde;o passe muito bem. Volte amanh&atilde;<\/p>\n<p> com o serralheiro.<\/p>\n<p>Depois de Kritski sair, Nicolau Levine sorriu, piscando o olho.<\/p>\n<p>&#8212; Este tamb&eacute;m n&atilde;o vale grande coisa. Vejo que&#8230; Naquele<br \/>\n    momento Kritski chamou-o da porta.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; que h&aacute; &#8212; perguntou Nicolau, que saiu ao<br \/>\n    patamar da escada.<\/p>\n<p> Ao ficar sozinho com Maria Nikolaievna, Levine perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Vive h&aacute; muito tempo com meu irm&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Vai para dois anos. Piorou muito de sa&uacute;de. Bebe de mais.<\/p>\n<p>&#8212; Que me diz?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, bebe muita vodka, e isso faz-lhe muito mal.<\/p>\n<p>&#8212; Ser&aacute; poss&iacute;vel?<\/p>\n<p>&#8212; Bebe &#8212; respondeu Macha.<\/p>\n<p>E olhou receosa para a porta, onde nessa ocasi&atilde;o assomava Nicolau<br \/>\n    Levine.<\/p>\n<p>&#8212; De que falavam? &#8212; perguntou ele, franzindo o sobrolho, enquanto<br \/>\n    olhava ora para um ora para outro, com olhos assustados. &#8212; De qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; De nada &#8212; replicou Levine, um pouco confuso.<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o queres dizer, n&atilde;o digas. Mas n&atilde;o tens<br \/>\n    nada que falar com ela. Ela &eacute; uma prostituta e tu &eacute;s um cavalheiro<br \/>\n    &#8212; exclamou, com um movimento convulsivo do pesco&ccedil;o. &#8212; Estou<br \/>\n    vendo que percebeste tudo e que est&aacute;s a mostrar compaix&atilde;o para<br \/>\n    com os meus desvaira-mentos &#8212; acrescentou, alteando a voz.<\/p>\n<p> &#8212; Nicolau Dimitrievitch, Nicolau Dimitrievitch &#8212; murmurou Maria<br \/>\n    Nikolaievna, aproximando-se dele.<\/p>\n<p>&#8212; Bom, bom!&#8230; E a ceia? Ah! L&aacute; vem ela &#8212; acrescentou,<br \/>\n    ao ver o criado com a bandeja. &#8212; Aqui, aqui, ponha aqui &#8212; disse,<br \/>\n    irritado, e imediatamente encheu um copo de vodka, que bebeu de um trago,<br \/>\n    avidamente. &#8212; Queres beber? &#8212; perguntou, j&aacute; mais alegre,<br \/>\n    ao irm&atilde;o.&#8212; Bom, deixemos o S&eacute;rgio Ivanovitch. Seja como<br \/>\n    for, estou contente por te ver. Por mais que diga, voc&ecirc;s n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o uns estranhos para mim. Anda, bebe. Conta-me o que tens feito.<br \/>\n    Que vida levas? &#8212; continuou, enquanto mastigava com avidez um peda&ccedil;o<br \/>\n    de p&atilde;o e enchia outro copo de vodka.<\/p>\n<p> &#8212; Vivo s&oacute; na aldeia, como antigamente, e trato das terras &#8212;<br \/>\n    respondeu Constantino Levine, horrorizado com a maneira &aacute;vida como<br \/>\n    o irm&atilde;o comia e bebia e procurando fingir que n&atilde;o percebia.<\/p>\n<p> &#8212; Por que n&atilde;o te casas?<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o calhou &#8212; replicou Constantino, ruborizando-se.<\/p>\n<p>&#8212; Ora. No que me diz respeito, adeus, acabou-se! Dei cabo da vida.<br \/>\n    Digo e repito: se me t&ecirc;m dado a minha parte quando necessitava dela,<br \/>\n    toda a minha vida teria sido diferente.<\/p>\n<p>Constantino deu-se pressa em mudar de assunto.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes que empreguei o teu V&acirc;nia em Pokrovskoie como auxiliar<br \/>\n    de escrit&oacute;rio? &#8212; disse ele.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, conta-me o que vai l&aacute; por Pokrovskoie. A casa continua<br \/>\n    de p&eacute;, e as nossas b&eacute;tulas e o nosso quarto de estudo? E o Filipe,<br \/>\n    o jardineiro, ainda &eacute; vivo? Estou a ver o pavilh&atilde;o e o div&atilde;!&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o mudes nada na casa, casa-te depressa e que tudo fique como dantes.<br \/>\n    Ent&atilde;o irei visitar-te, se a tua mulher for uma rapariga &agrave;s direitas.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o h&aacute;s-de vir agora comigo? Entender-nos-&iacute;amos<br \/>\n    t&atilde;o bem os dois! &#8212; Iria, se tivesse a certeza de que n&atilde;o<br \/>\n    me ia encontrar com o S&eacute;rgio Ivanovitch.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o te encontrar&aacute;s com ele. Vivo completamente independente.<\/p>\n<p>&#8212; Por mais que digas, tens de escolher entre ele e eu &#8212; disse<br \/>\n    Nicolau, olhando o irm&atilde;o nos olhos com uma express&atilde;o onde havia<br \/>\n    timidez. Essa timidez comoveu Constantino.<\/p>\n<p> &#8212; Se queres que te fale com toda a franqueza, dir-te-ei que nessa<br \/>\n    vossa disputa n&atilde;o estou nem contigo nem com o S&eacute;rgio Ivanovitch.<br \/>\n    Nenhum de voc&ecirc;s tem raz&atilde;o. Tu n&atilde;o a tens, digamos, na<br \/>\n    forma e ele no fundo.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Compreendeste! Compreendeste! &#8212; exclamou Nicolau alegremente.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, se queres saber, aprecio mais a tua amizade, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;? Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>Constantino n&atilde;o podia dizer-lhe por que o considerava desgra&ccedil;ado<br \/>\n    e portanto mais necessitado de carinho. Mas Nicolau compreendeu-o e franzindo<br \/>\n    as sobrancelhas p&ocirc;s-se a beber vodka.<\/p>\n<p> &#8212; Basta, Nicolau Dimitrievitch! &#8212; disse Maria Nikolaievna, estendendo<br \/>\n    o bra&ccedil;o nu e torneado para a garrafa.<\/p>\n<p> &#8212; Larga! Deixa-me em paz! Queres apanhar? &#8212; gritou Nicolau.<br \/>\n    Maria Nikolaievna sorriu, entre doce e bondosa, comunicando o seu sorriso<br \/>\n    a Nicolau, e retirou a garrafa.<\/p>\n<p> &#8212; Julgas que n&atilde;o percebe nada? &#8212; perguntou ele. &#8212;<br \/>\n    Entende<\/p>\n<p> tudo melhor do que n&oacute;s. N&atilde;o &eacute; verdade que h&aacute;<br \/>\n    nela qualquer coisa de simp&aacute;tico, de agrad&aacute;vel? &#8212; A senhora<br \/>\n    n&atilde;o viveu j&aacute; em Moscovo? &#8212; perguntou Constantino, para<br \/>\n    dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o a trates por senhora, isso faz-lhe medo. Nunca ningu&eacute;m,<br \/>\n    &agrave; excep&ccedil;&atilde;o do juiz de paz, que a julgou quando quis sair<br \/>\n    daquela casa de corrup&ccedil;&atilde;o, a tratou at&eacute; agora por senhora.<br \/>\n    Meus Deus, quantas coisas absurdas neste mundo! S&atilde;o um esc&acirc;ndalo<br \/>\n    essas novas institui&ccedil;&otilde;es, esses juizes de paz, esses zemstvos.<\/p>\n<p>E principiou a contar os seus conflitos com as novas institui&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Constantino Levine escutava-o, e embora fosse da mesma opini&atilde;o e como<br \/>\n    tal se tivesse manifestado muitas vezes, agora, ao ouvi-lo dizer a mesma coisa,<br \/>\n    sentia uma impress&atilde;o desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; No outro mundo, havemos de compreender tudo isto &#8212; disse-lhe<br \/>\n    por zombaria.<\/p>\n<p>&#8212; No outro mundo? Oh, n&atilde;o gosto do outro mundo! &#8212; exclamou,<br \/>\n    pousando os olhos selvagens e assustados no rosto do irm&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    Tenho vontade de sair de toda a esta porcaria, dizer adeus &agrave;s nossas<br \/>\n    mis&eacute;rias e &agrave;s do pr&oacute;ximo, mas tenho medo da morte, tenho<br \/>\n    um medo horr&iacute;vel da morte. &#8212; Teve um arrepio. &#8212; Anda, bebe<br \/>\n    qualquer coisa. Queres champanhe? Ou ent&atilde;o vamos dar uma volta. Queres<br \/>\n    ir ver os z&iacute;ngaros? Agora gosto muito dos z&iacute;ngaros e das can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    russas.<\/p>\n<p> Entaramelava-se-lhe a l&iacute;ngua, passava de um assunto a outro; Constantino,<br \/>\n    ajudado por Macha, convenceu-o a que n&atilde;o sa&iacute;sse, e deitaram-no<br \/>\n    completamente embriagado.<\/p>\n<p> Macha prometeu a Levine que lhe escreveria em caso de necessidade e que<br \/>\n    faria o poss&iacute;vel por convenc&ecirc;-lo a ir morar com ele.<\/p>\n<h4><a name=\"26\">CAP&Iacute;TULO XXVI<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte pela manh&atilde;, Constantino Levine sa&iacute;a de Moscovo<br \/>\n    e chegava a casa ao fim da tarje. Durante o trajecto entabulou conversa com<br \/>\n    os companheiros, falou de pol&iacute;tica, de caminhos de ferro, e tal como<br \/>\n    em Moscovo n&atilde;o tardou a sentir-se submerso no caos das opini&otilde;es,<br \/>\n    descontente consigo pr&oacute;prio e envergonhado sem que soubesse muito bem<br \/>\n    porqu&ecirc;. Mas quando, &agrave; luz indecisa que se derramava das janelas<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o, viu In&aacute;cio, o cocheiro estr&aacute;bico,<br \/>\n    a gola do cafet&atilde; levantada, depois o tren&oacute; coberto de peles<br \/>\n    e os cavalos com os seus arreios bem<\/p>\n<p> tratados, e aquele lhe contou, enquanto ele se instalava, as novidades da<br \/>\n    aldeia &#8212; que chegara um comprador e que a Pava tivera o seu bom sucesso<br \/>\n    &#8212;, Levine sentiu que toda aquela confus&atilde;o de ideias se esclarecia<br \/>\n    e que a vergonha e o descontentamento se dissipavam. Entretanto, essa impress&atilde;o<br \/>\n    teve-a apenas ao ver In&aacute;cio e os cavalos, quando se embrulhou na tulup<br \/>\n    que o cocheiro tivera o cuidado de lhe trazer e se sentou bem abrigado no<br \/>\n    tren&oacute;, que se p&ocirc;s a andar, pensou nas ordens que teria de dar<br \/>\n    logo que chegasse a casa e, examinando um dos cavalos, o seu preferido para<br \/>\n    montar &#8212; um velho cavalo do Don, j&aacute; gasto, mas ainda veloz &#8212;<br \/>\n    p&ocirc;s-se a ver de maneira muito diferente o que lhe acontecera. Deixou<br \/>\n    de querer ser outro que n&atilde;o ele pr&oacute;prio e apenas desejou ser<br \/>\n    melhor do que fora at&eacute; ali. Em primeiro lugar, decidiu que da&iacute;<br \/>\n    por diante n&atilde;o poria as suas esperan&ccedil;as numa felicidade extraordin&aacute;ria,<br \/>\n    como a que esperara do casamento, e que, por conseguinte, n&atilde;o iria<br \/>\n    menosprezar tanto o momento presente; depois, que nunca mais se deixaria conduzir<br \/>\n    por uma baixa paix&atilde;o, como acontecera na v&eacute;spera de se decidir<br \/>\n    a declarar-se. E, lembrando-se do irm&atilde;o, resolveu nunca mais o esquecer<br \/>\n    nem o perder de vista, para assim poder ajud&aacute;-lo sempre que ele precisasse.<br \/>\n    Pressentia que isso iria acontecer dentro de pouco. Em seguida pensou na conversa<br \/>\n    que tivera com o irm&atilde;o sobre o comunismo e que t&atilde;o superficialmente<br \/>\n    encarara na oportunidade. Considerava absurda a reforma das condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    econ&ocirc;micas, mas sempre se dera conta da injusti&ccedil;a que representava<br \/>\n    o muito que tinha em compara&ccedil;&atilde;o com a mis&eacute;ria do povo.<br \/>\n    Para se sentir completamente justo, apesar de que sempre trabalhara muito,<br \/>\n    vivendo sem luxo algum, tomou a resolu&ccedil;&atilde;o de trabalhar cada<br \/>\n    vez mais e de levar uma vida ainda mais simples. Tudo lhe parecia t&atilde;o<br \/>\n    f&aacute;cil de realizar que pensar nisso foi a coisa mais agrad&aacute;vel<br \/>\n    que lhe ocorreu durante o trajecto. Quando chegou a casa, por volta das nove<br \/>\n    da noite, sentiu que uma vida nova, uma vida mais bela, come&ccedil;ava para<br \/>\n    ele. Uma r&eacute;stia de luz filtrava-se atrav&eacute;s das janelas de Ag&aacute;fia<br \/>\n    Mikailovna, a sua velha ama, agora governanta da casa. A velha ainda n&atilde;o<br \/>\n    dormia. Acordou Kuzma, que, estremunhado e descal&ccedil;o, veio at&eacute;<br \/>\n    ao alpendre. Tamb&eacute;m Laska, a cadela, apareceu, e por pouco n&atilde;o<br \/>\n    derrubava Kuzma, ladrando e esfregando-se nas pernas de Levine, sem ousar<br \/>\n    p&ocirc;r-lhe as patas dianteiras no peito.<\/p>\n<p>&#8212; Ora ainda bem que voltou t&atilde;o cedo, paizinho! &#8212; exclamou<br \/>\n    a velha.<\/p>\n<p> &#8212; Tinha saudades, Ag&aacute;fia Mikailovna. Estamos bem em casa dos<br \/>\n    outros, mas ainda melhor na nossa &#8212; respondeu Levine, entrando no escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p> &Agrave; luz de uma vela trazida &agrave; pressa e que iluminou lentamente<br \/>\n    a casa, Levine viu surgir, pouco a pouco, da obscuridade os objectos seus<\/p>\n<p> conhecidos: os chifres de veado, as estantes cheias de livros, o espelho,<br \/>\n    a estufa com o seu ventilador, sempre &agrave; espera de conserto, o div&atilde;<br \/>\n    do pai, a mesa grande com um livro aberto em cima, um cinzeiro partido e um<br \/>\n    caderno com anota&ccedil;&otilde;es suas. Quando viu tudo aquilo, pareceu-lhe<br \/>\n    mais dif&iacute;cil a mudan&ccedil;a de vida com que sonhara durante a viagem.<br \/>\n    Todos aqueles vest&iacute;gios do passado pareciam apoderar-se dele, dizendo:<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o, n&atilde;o nos abandonar&aacute;s, n&atilde;o h&aacute;s-de<br \/>\n    ser outro, continuar&aacute;s o que sempre foste: com as tuas d&uacute;vidas,<br \/>\n    o teu perp&eacute;tuo descontentamento contigo mesmo, as tuas baldadas tentativas<br \/>\n    de aperfei&ccedil;oamento, as tuas crises, a tua sempre renovada esperan&ccedil;a<br \/>\n    de uma felicidade que n&atilde;o consegues e que n&atilde;o foi feita para<br \/>\n    ti.&raquo; Era o que diziam as coisas que o rodeavam; mas outra voz falava<br \/>\n    do fundo da sua alma e essa dizia-lhe que n&atilde;o se submetesse ao passado,<br \/>\n    que cada um pode fazer de si pr&oacute;prio o que quiser. Obedecendo &agrave;quela<br \/>\n    voz, Levine aproximou-se de um recanto, onde tinha dois pesos de um pua cada<br \/>\n    um, e principiou a fazer com eles alguns exerc&iacute;cios na inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de se animar. Entretanto ouviram-se uns passos atr&aacute;s da porta e Levine<br \/>\n    largou precipitadamente os pesos. Era o administrador. Declarou que gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus tudo ia bem, a n&atilde;o ser o trigo-negro, que se queimara um pouco<br \/>\n    na nova secadora. A not&iacute;cia irritou Levine. A nova secadora fora constru&iacute;da<br \/>\n    e em parte inventada por ele. O administrador mostrara-se sempre hostil a<br \/>\n    essa m&aacute;quina e agora vinha anunciar-lhe aquele malogro com um triunfo<br \/>\n    dissimulado. Levine estava convencido de que aquilo acontecera por n&atilde;o<br \/>\n    se terem tomado as precau&ccedil;&otilde;es que ele mil vezes recomendara.<br \/>\n    Zangado, repreendeu o administrador. Mas logo lhe passou a m&aacute; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quando lhe anunciaram um acontecimento importante e agrad&aacute;vel: Pava,<br \/>\n    a melhor vaca, adquirida numa exposi&ccedil;&atilde;o, tivera o seu bom-sucesso.<\/p>\n<p> &#8212; Kuzma, d&aacute;-me o tulup. E voc&ecirc; &#8212; disse ele ao administrador<br \/>\n    &#8212; mande acender uma candeia: vou ver a Pava.<\/p>\n<p>O est&aacute;bulo das vacas seleccionadas ficava mesmo por detr&aacute;s<br \/>\n    da casa. Levine contornou o monte de neve acumulada sobre o maci&ccedil;o<br \/>\n    dos lilases, aproximou-se do est&aacute;bulo e abriu a porta, em parte gelada<br \/>\n    nos gonzos. L&aacute; de dentro saiu um quente cheiro de estrume; as vacas,<br \/>\n    surpreendidas pela luz da candeia, revolveram-se na sua cama de palha fresca.<br \/>\n    O amplo lombo preto e branco da vaca holandesa avultou na penumbra. Berkut,<br \/>\n    o touro, deitado, com um anilho nas narinas, fez men&ccedil;&atilde;o de se<br \/>\n    levantar, depois, mudando de ideia, limitou-se a mugir quando passaram junto<br \/>\n    dele. A magn&iacute;fica Pava, imensa como um hipop&oacute;tamo, deitada de<br \/>\n    costas, n&atilde;o permitia que os rec&eacute;m-chegados vissem a bezerrinha,<br \/>\n    que arfava.<\/p>\n<p> Levine aproximou-se dela, examinou-a e ergueu a bezerra, malhada de branco<br \/>\n    e vermelho, sobre as suas longas pernas vacilantes. A<\/p>\n<p> vaca mugiu, inquieta, mas assim que Levine aproximou dela a cria, sossegou,<br \/>\n    e, depois de beij&aacute;-la como se suspirasse, p&ocirc;s-se a lamb&ecirc;-la<br \/>\n    com a l&iacute;ngua, &aacute;spera. A bezerra procurava-lhe os &uacute;beres,<br \/>\n    metendo a cabe&ccedil;a nos flancos da m&atilde;e, enquanto meneava a cauda.<\/p>\n<p>&#8212; Alumia aqui, Fiador. Aproxima a candeia &#8212; disse Levine, examinando<br \/>\n    a cria. &#8212; Parece-se com a m&atilde;e, mas no p&ecirc;lo faz lembrar<br \/>\n    o pai! &Eacute; bonita! E que grande, que forte! N&atilde;o &eacute; bonita,<br \/>\n    Vacili Fiodorovitch? &#8212; exclamou, voltando-se para o administrador, reconciliado<br \/>\n    com ele, gra&ccedil;as &agrave; alegria que lhe causava a bezerrinha.<\/p>\n<p>&#8212; Pois como n&atilde;o havia ela de ser bonita, Constantino Dimitrievitch!<br \/>\n    A prop&oacute;sito, no dia seguinte ao da sua partida, apareceu a&iacute;<br \/>\n    o Semionov, o comerciante. Temos que regatear muito com ele. Bom, j&aacute;<br \/>\n    lhe disse o que se passou com a m&aacute;quina.<\/p>\n<p> Esta simples frase fez reentrar Levine de novo nos pormenores da herdade,<br \/>\n    que era grande e complicada. Do est&aacute;bulo dirigiu-se directamente ao<br \/>\n    escrit&oacute;rio, e depois de falar com o administrador e com o comerciante<br \/>\n    Semionov voltou para casa e subiu ao sal&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"27\">CAP&Iacute;TULO XXVII<\/a><\/h4>\n<p>A casa era grande e antiga, e ainda que Levine vivesse s&oacute;, ocupava-a<br \/>\n    inteiramente e aquecia-a de ponta a ponta. Sabia que aquela vida era absurda,<br \/>\n    contr&aacute;ria aos seus novos planos e, inclusive, que n&atilde;o estava<br \/>\n    certa, mas aquela casa representava todo um mundo para ele: o mundo onde tinham<br \/>\n    vivido e morrido os pais. Ali haviam levado uma exist&ecirc;ncia que se lhe<br \/>\n    afigurava ideal e era com isso mesmo que ele sonhava: voltar a viver com a<br \/>\n    mulher essa mesma vida ideal.<\/p>\n<p> Embora mal se lembrasse da m&atilde;e, Levine mantinha um verdadeiro culto<br \/>\n    da sua mem&oacute;ria e parecia-lhe imposs&iacute;vel desposar uma mulher<br \/>\n    que n&atilde;o fosse a encarna&ccedil;&atilde;o desse ideal adorado. N&atilde;o<br \/>\n    concebia o amor fora do casamento; mais, era na fam&iacute;lia que ele pensava<br \/>\n    em primeiro lugar e s&oacute; depois na mulher que lhe daria essa fam&iacute;lia.<br \/>\n    Ao contr&aacute;rio de todos os seus amigos, que apenas viam no casamento<br \/>\n    mais uma das manifesta&ccedil;&otilde;es da vida social, ele considerava-o<br \/>\n    o principal acto da exist&ecirc;ncia, aquele de que dependia toda a felicidade<br \/>\n    do homem. E agora via-se obrigado a renunciar a ele.<\/p>\n<p>Penetrou no sal&atilde;ozinho onde lhe costumavam servir o ch&aacute;, pegou<br \/>\n    num livro, sentou-se na sua poltrona, e, enquanto Ag&aacute;fia Mikailovna<br \/>\n    lhe trazia uma ch&aacute;vena de ch&aacute; e se retirava para o v&atilde;o<br \/>\n    da janela, declarando,<\/p>\n<p> como de costume: &laquo;Vou sentar-me, paizinho&raquo;, com grande surpresa<br \/>\n    sua, Levine reconheceu que n&atilde;o renunciara &agrave;s suas ilus&otilde;es<br \/>\n    e que n&atilde;o podia viver sem elas.<\/p>\n<p> &laquo;Com ela ou com outra, pouco importa&raquo;, disse consigo, &laquo;mas<br \/>\n    tem de ser.&raquo; Por mais que tentasse ler ou que se esfor&ccedil;asse por<br \/>\n    prestar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; tagarelice de Ag&aacute;fia Mikailovna,<br \/>\n    em imagina&ccedil;&atilde;o iam-lhe perpassando, desordenadamente, v&aacute;rias<br \/>\n    cenas da sua futura vida de fam&iacute;lia. E compreendeu que uma ideia fixa<br \/>\n    se instalara de vez nos recessos da sua alma. Ag&aacute;fia Mikailovna contava-lhe<br \/>\n    que, sucumbindo &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o, Prochor, a quem Levine confiara<br \/>\n    uma certa import&acirc;ncia para a compra de um cavalo, se pusera a beber<br \/>\n    e a espancar a mulher, que ficara meia morta. Enquanto a ouvia, Levine lia<br \/>\n    o livro e pouco a pouco reencontrava o fio das ideias que aquela obra outrora<br \/>\n    despertara nele. Era o tratado de Tyndall sobre o calor. Lembrava-se de ter<br \/>\n    censurado ao autor a sua sufici&ecirc;ncia, quando falava das pr&oacute;prias<br \/>\n    experi&ecirc;ncias com grande vangl&oacute;ria e inteiramente desprovido de<br \/>\n    pontos de vista filos&oacute;ficos. De s&uacute;bito, um alegre pensamento<br \/>\n    lhe ocorreu: &laquo;Dentro de dois anos terei duas holandesas, talvez a Pana<br \/>\n    ainda seja viva, e se juntarmos &agrave;s doze crias de Berkut essas tr&ecirc;s,<br \/>\n    ser&aacute; uma beleza!&raquo; Voltou &agrave; leitura: &laquo;Bom, admitamos<br \/>\n    que a electricidade e o calor s&atilde;o o mesmo e &uacute;nico fen&ocirc;meno;<br \/>\n    mas, na equa&ccedil;&atilde;o que serve para resolver o problema, poderemos<br \/>\n    n&oacute;s empregar as mesmas unidades? N&atilde;o. E ent&atilde;o? A rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    existente entre todas as for&ccedil;as da natureza nota-se por instinto&#8230;<br \/>\n    Que linda manada quando a filha de Pava se tiver transformado numa bela vaca<br \/>\n    vermelha e branca e lhe tenhamos juntado as tr&ecirc;s holandesas!&#8230; Magn&iacute;fico!<br \/>\n    Quando n&oacute;s sairmos com os convidados, minha mulher e eu, para ver as<br \/>\n    vacas&#8230; Minha mulher dir&aacute;: &laquo;K&oacute;stia e eu cri&aacute;mos<br \/>\n    este bezerro como se fosse uma crian&ccedil;a.&raquo; &laquo;Como pode interessar-se<br \/>\n    por estas coisas?&raquo;, perguntar&aacute; um dos convidados. &laquo;Tudo<br \/>\n    o que interessa a meu marido me interessa tamb&eacute;m.&raquo; &laquo;Mas<br \/>\n    quem ser&aacute; ela?&raquo; E lembrou-se do que acontecera em Moscovo.<\/p>\n<p> &laquo;Que havemos de fazer?&#8230; A culpa n&atilde;o &eacute; minha&#8230; Agora<br \/>\n    tudo caminhar&aacute; de maneira diferente. &Eacute; absurdo n&atilde;o aceitarmos<br \/>\n    a vida como ela &eacute;, deixarmo-nos dominar pelo passado. H&aacute; que<br \/>\n    lutar para viver melhor, muito melhor.&raquo; Levine levantou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    das p&aacute;ginas do livro e ficou a pensar, perdido nas suas reflex&otilde;es.<br \/>\n    Entretanto a velha Laska &#8212; que ainda n&atilde;o perdera a alegria que<br \/>\n    lhe causara a chegada do dono, que ia ladrar l&aacute; fora por tudo e por<br \/>\n    nada, voltou &agrave; sala meneando o rabo, impregnada do ar fresco da noite.<br \/>\n    Aproximou-se de Levine, meteu-lhe a cabe&ccedil;a debaixo da m&atilde;o e<br \/>\n    principiou a latir, queixosa, como que exigindo que ele a acariciasse.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; lhe falta falar &#8212; disse Ag&aacute;fia Mikailovna.<br \/>\n    &#8212; Sendo uma cadela&#8230; compreende que o dono voltou para casa e que est&aacute;<br \/>\n    triste.<\/p>\n<p> &#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Julga que eu n&atilde;o vejo? Vivo com os meus amos desde rapariga,<br \/>\n    j&aacute; tenho tempo de os conhecer. Criei-me com eles. Mas n&atilde;o se<br \/>\n    atormente, paizinho. Desde que haja sa&uacute;de e que a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    esteja tranq&uuml;ila.<\/p>\n<p> Surpreendido de v&ecirc;-la adivinhar-lhe os pensamentos, Levine olhou-a<br \/>\n    atentamente.<\/p>\n<p> &#8212; Quer mais um pouco de ch&aacute;?&#8212;perguntou a velha, e saiu<br \/>\n    levando a ch&aacute;vena.<\/p>\n<p>Laska continuava a meter a cabe&ccedil;a por debaixo da m&atilde;o de Levine.<br \/>\n    Este acariciou-a, e a cadela, enroscando-se-lhe aos p&eacute;s, apoiou o focinho<br \/>\n    na pata traseira, que estendera para a frente. E como que a demonstrar que<br \/>\n    tudo agora estava bem, entreabriu a boca, remexeu o focinho, ajeitou em volta<br \/>\n    dos l&aacute;bios pegajosos os velhos dentes e adormeceu numa paz beat&iacute;fica.<br \/>\n    Levine, que observara atentamente todos estes movimentos da cadela, disse<br \/>\n    consigo mesmo: &laquo;Fa&ccedil;amos o mesmo. N&atilde;o vale a pena atormentarmo-nos.<br \/>\n    Tudo se arranjar&aacute;.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"28\">CAP&Iacute;TULO XXVIII<\/a><\/h4>\n<p>Na manha seguinte ao baile, Ana Arkadievna telegrafou ao marido anunciando-lhe<br \/>\n    que partiria de Moscovo naquele mesmo dia.<\/p>\n<p> &#8212; Tenho de ir, tenho de ir &#8212; dizia, explicando &agrave; cunhada,<br \/>\n    num tom perempt&oacute;rio, como se lhe ocorresse de repente que tinha muitas<br \/>\n    coisas inadi&aacute;veis a fazer. &#8212; N&atilde;o. &Eacute; melhor que<br \/>\n    seja hoje mesmo.<\/p>\n<p> Stepane Arkadievitch n&atilde;o jantou em casa, mas prometeu estar de volta<br \/>\n    &agrave;s sete para acompanhar a irm&atilde;.<\/p>\n<p> Kitty tamb&eacute;m n&atilde;o apareceu, e mandou um bilhetinho desculpando-se.<br \/>\n    Dolly e Ana jantaram as duas sozinhas com a inglesa e as crian&ccedil;as.<br \/>\n    Entretanto, ou pela inconst&acirc;ncia pr&oacute;pria da idade ou adivinhando<br \/>\n    que Ana j&aacute; n&atilde;o era a mesma pessoa do dia em que a ela se tinham<br \/>\n    afei&ccedil;oado, e que pouca aten&ccedil;&atilde;o lhes prestava agora, as<br \/>\n    crian&ccedil;as perderam de s&uacute;bito toda a amizade pela tia, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o queriam brincar com ela nem tinham pena que se fosse embora. Toda<br \/>\n    a manh&atilde; Ana estivera ocupada com os preparativos da viagem: escreveu<br \/>\n    alguns bilhetes de despedida, fez as suas contas e arrumou as malas. Parecia<br \/>\n    a Dolly que Ana n&atilde;o estava tranq&uuml;ila ou que se encontrava num<br \/>\n    estado de preocupa&ccedil;&atilde;o que ela pr&oacute;pria conhecia, e que<br \/>\n    raras vezes se produz sem motivo e na maior parte dos casos esconde um verdadeiro<\/p>\n<p> descontentamento &iacute;ntimo. No fim do jantar, Ana foi vestir-se nos<br \/>\n    seus aposentos e Dolly seguiu atr&aacute;s dela.<\/p>\n<p> &#8212; Que estranha est&aacute;s hoje! &#8212; disse-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Achas? N&atilde;o estou estranha, mas triste. Acontece-me isto<br \/>\n    &agrave;s vezes. Tenho vontade de chorar. &Eacute; uma tolice, daqui a pouco<br \/>\n    estou boa &#8212; replicou Ana, rapidamente, escondendo o rosto afogueado<br \/>\n    com o saquinho onde guardava os len&ccedil;os e a touca de dormir. Tinha um<br \/>\n    brilho especial nos olhos, que a cada momento se enchiam de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tinha vontade de sair de Sampetersburgo, e agora, pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, n&atilde;o tenho vontade de me ir embora daqui.<\/p>\n<p> &#8212; Uma boa inspira&ccedil;&atilde;o te trouxe &#8212;disse Dolly, examinando-a<br \/>\n    atentamente.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o digas isso, Dolly. Nada fiz e nada podia fazer. Por vezes<br \/>\n    pergunto a mim mesma por que h&atilde;o-de as pessoas estar assim todas de<br \/>\n    acordo para me tecerem elogios. Que fiz eu e que podia fazer? No teu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que havia amor bastante para perdoares&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; Deus sabe o que teria acontecido se n&atilde;o tens aparecido!<br \/>\n    Que feliz tu &eacute;s, Ana! Na tua alma tudo &eacute; claro e puro.<\/p>\n<p> &#8212; Todos temos os nossos skeletons na alma, como dizem os Ingleses&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que skeletons tens tu? Em ti tudo &eacute; t&atilde;o claro!<\/p>\n<p>&#8212; Tenho-os&#8212;disse Ana, repentinamente, e um inesperado sorriso,<br \/>\n    malicioso e zombeteiro, lhe assomou aos l&aacute;bios atrav&eacute;s das l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo que vejo, o teu skeleton deve ser divertido e n&atilde;o triste<br \/>\n    &#8212; observou Dolly, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; &eacute; triste. Sabes por que me vou embora hoje em<br \/>\n    vez de ir amanh&atilde;? Estava atormentada com isto, mas quero confessar-te<br \/>\n    a verdade &#8212; volveu Ana, reclinando-se numa poltrona, em atitude decidida,<br \/>\n    enquanto cravava os olhos nos de Dolly.<\/p>\n<p>E com grande surpresa, Dolly viu que Ana rosara-se at&eacute; &agrave;s orelhas,<br \/>\n    at&eacute; &agrave; pr&oacute;pria raiz dos seus ondulados cabelos negros.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes por que &eacute; que Kitty n&atilde;o veio jantar hoje em<br \/>\n    tua casa? &#8212; prosseguiu Ana.&#8212;Tem ci&uacute;mes de mim. Estraguei-lhe<br \/>\n    a felicidade&#8230; Por minha causa o baile tornou-se para ela um tormento em<br \/>\n    vez de uma alegria, quando a verdade &eacute; que n&atilde;o tenho culpa ou<br \/>\n    tenho muito pouca culpa no que aconteceu &#8212; disse, arrastando em voz<br \/>\n    d&eacute;bil a express&atilde;o &laquo;muito pouca&raquo;.<\/p>\n<p> Esqueletos, mas figurativamente, &laquo;segredo&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! Disseste isso de maneira t&atilde;o parecida &agrave; maneira<br \/>\n    de falar do Stiva &#8212; observou Dolly, sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, n&atilde;o! Oh, n&atilde;o! N&atilde;o sou como o Stiva &#8212;<br \/>\n    exclamou, franzindo as sobrancelhas. &#8212; Conto-te isto porque n&atilde;o<br \/>\n    me permito duvidar de mim mesma um instante que seja.<\/p>\n<p> Mas no momento de pronunciar estas palavras, Ana deu conta de que n&atilde;o<br \/>\n    correspondiam &agrave; verdade: n&atilde;o s&oacute; duvidava de si mesma<br \/>\n    como pensar em Vronski a perturbava e apenas antecipara a partida com o &uacute;nico<br \/>\n    objectivo de o n&atilde;o tornar a ver.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, o Stiva contou-me que dan&ccedil;aste a mazurca com Vronski<br \/>\n    e que ele&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o podes calcular a gra&ccedil;a que as coisas tomaram.<br \/>\n    Propunha-me armar em casamenteira, e resultou o contr&aacute;rio. Talvez contra<br \/>\n    minha vontade&#8230;<\/p>\n<p> Corando, calou-se.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, os homens sentem isso imediatamente! &#8212; exclamou Dolly.<\/p>\n<p>&#8212; Ficaria muito pesarosa se ele tivesse tomado as coisas a s&eacute;rio<br \/>\n    &#8212; interrompeu-a Ana. &#8212; Mas tenho a certeza de que tudo esquecer&aacute;<br \/>\n    e que Kitty deixar&aacute; de me odiar.<\/p>\n<p>&#8212; Por outro lado, Ana, para te falar a verdade, n&atilde;o tinha grande<br \/>\n    desejo que Kitty casasse com ele. Acho melhor que este casamento se desfa&ccedil;a,<br \/>\n    uma vez que Vronski p&ocirc;de enamorar-se de ti t&atilde;o depressa.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, meu Deus, seria absurdo! &#8212; exclamou Ana, e de novo ficou<br \/>\n    toda corada, t&atilde;o grande a satisfa&ccedil;&atilde;o que a percorreu<br \/>\n    ao ouvir pronunciar em voz alta o pensamento que o preocupava. &#8212; E aqui<br \/>\n    me tens que me vou embora depois de ter feito da Kitty uma inimiga, a Kitty<br \/>\n    de quem tanto gostava. &Eacute; t&atilde;o simp&aacute;tica! Mas tu arranjar&aacute;s<br \/>\n    tudo, n&atilde;o &eacute; verdade, Dolly?<\/p>\n<p>Dolly a muito custo reteve um sorriso. Gostava de Ana, mas n&atilde;o lhe<br \/>\n    desagradava a ideia de que tamb&eacute;m ela tinha as suas fraquezas.<\/p>\n<p> &#8212; Uma inimiga? Isso n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>&#8212; Gostaria muito que todos me quisessem como eu lhe quero a ela. E<br \/>\n    agora ainda vos quero mais do que antigamente &#8212; disse Ana, com as l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos. &#8212; Ah, que tola eu estou hoje!<\/p>\n<p>Passou o lencinho pelos olhos e principiou a vestir-se.<\/p>\n<p>Precisamente na ocasi&atilde;o em que ia partir, chegava Stepane Arkadievitch,<br \/>\n    que vinha atrasado, cheirando a vinho e a tabaco e muito corado e alegre.<\/p>\n<p> A como&ccedil;&atilde;o de Ana apoderara-se de Dolly, e quando abra&ccedil;ou<br \/>\n    a cunhada pela &uacute;ltima vez, murmurou: &#8212; Lembra-te, Ana, de que<br \/>\n    nunca esquecerei o que fizeste por mim.<\/p>\n<p> E quero que saibas que sempre te quis e sempre te hei-de considerar a minha<br \/>\n    melhor amiga! &#8212; N&atilde;o compreendo por qu&ecirc; &#8212; replicou<br \/>\n    Ana, beijando-a e escondendo as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Compreendeste-me e ainda me compreendes. Adeus, minha querida!<\/p>\n<h4><a name=\"29\">CAP&Iacute;TULO XXIX<\/a><\/h4>\n<p>&laquo;Gra&ccedil;as a Deus, tudo acabou!&raquo;, foi o primeiro pensamento<br \/>\n    de Ana Arkadievna ao despedir-se pela &uacute;ltima vez do irm&atilde;o, que<br \/>\n    permaneceu na plataforma, impedindo a entrada do vag&atilde;o, at&eacute;<br \/>\n    a sineta tocar o terceiro sinal. Ana sentou-se no seu lugar, ao lado de Anuchka,<br \/>\n    examinando tudo &agrave; sua volta, na semipenumbra do compartimento. &laquo;Gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, amanh&atilde; verei o meu Seriocha e Alexei Alexandrovitch e retomarei<br \/>\n    a minha vida agrad&aacute;vel.&raquo; Sentindo a mesma preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a tomara todo o dia, mas com certo prazer, come&ccedil;ou a instalar-se<br \/>\n    para a viagem; abriu, com as suas m&atilde;os &aacute;geis, o saquinho vermelho,<br \/>\n    retirou dele uma almofada, que colocou em cima dos joelhos, e embrulhou as<br \/>\n    pernas na manta de viagem, sentando-se com toda a comodidade. Uma senhora<br \/>\n    doente disp&ocirc;s-se a deitar-se desde logo. Outras duas puseram-se a conversar<br \/>\n    com ela e uma dama gorda queixava-se do mau aquecimento enquanto embrulhava<br \/>\n    as pernas. Ana respondeu com algumas palavras a perguntas que elas lhes dirigiam,<br \/>\n    mas ao ver que a conversa era destitu&iacute;da de interesse, pediu a Anuchka<br \/>\n    a lanterninha, que prendeu no bra&ccedil;o do assento, e tirou da maleta um<br \/>\n    romance ingl&ecirc;s e uma esp&aacute;tula de cortar papel. De princ&iacute;pio<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de ler. O ir e vir das pessoas incomodava-a, e quando o<br \/>\n    comboio se p&ocirc;s em andamento foi-lhe imposs&iacute;vel n&atilde;o prestar<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o aos ru&iacute;dos dos vag&otilde;es. Mas da&iacute;<br \/>\n    a pouco distra&iacute;a-se com a nevasca que ca&iacute;a, a&ccedil;oitando<br \/>\n    a vidra&ccedil;a da portinhola esquerda, com o condutor que passava, muito<br \/>\n    agasalhado e coberto de neve, e os coment&aacute;rios a respeito da tempestade<br \/>\n    que se desencadeava. Mais adiante tudo se repetia, o trepidar da composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a neve na vidra&ccedil;a, as bruscas mudan&ccedil;as de temperatura, do calor<br \/>\n    para o frio e do frio para o calor, as mesmas caras na obscuridade e as mesmas<br \/>\n    vozes. Contudo conseguira principiar a ler e a compreender o<\/p>\n<p> que lia. Anuchka j&aacute; dormitava, segurando entre as m&atilde;os enluvadas<br \/>\n    &#8212; uma das luvas estava rota &#8212; o saquinho vermelho em cima dos<br \/>\n    joelhos. Ana Arkadievna lia e compreendia o que lia, mas o desejo que ela<br \/>\n    pr&oacute;pria tinha de viver era grande de mais para se interessar pela vida<br \/>\n    dos outros.<\/p>\n<p> Se a hero&iacute;na do romance tratava um doente, Ana tinha desejos de andar<br \/>\n    em passos leves pelo quarto do enfermo; se um membro do Parlamento pronunciava<br \/>\n    um discurso, ela pr&oacute;pria desejaria t&ecirc;-lo pronunciado, se lady<br \/>\n    Mary cavalgava atr&aacute;s da sua matilha, irritando a nora e a todos assombrando<br \/>\n    com a sua aud&aacute;cia, Ana ambicionava ser ela pr&oacute;pria a galopar.<br \/>\n    Mas nada tinha que fazer! E l&aacute; ia revolvendo nas m&atilde;os a esp&aacute;tula<br \/>\n    de cortar papel e prosseguindo na leitura.<\/p>\n<p>O her&oacute;i do romance estava j&aacute; a dois passos de conseguir o que<br \/>\n    constitui a felicidade inglesa: o t&iacute;tulo de bar&atilde;o e uma terra,<br \/>\n    onde ela teria gostado de o acompanhar, quando, de repente, se lhe afigurou<br \/>\n    que o dito her&oacute;i devia sentir vergonha e que essa vergonha a atingia<br \/>\n    tamb&eacute;m. Mas por qu&ecirc; vergonha? &laquo;De que me envergonho eu?&raquo;,<br \/>\n    perguntou a si mesma assombrada e sentida. Abandonou o livro e recostou-se<br \/>\n    no assento, apertando a esp&aacute;tula entre os dedos. Que fizera ela? As<br \/>\n    suas recorda&ccedil;&otilde;es de Moscovo perpassaram-lhe diante dos olhos:<br \/>\n    eram todas excelentes.<\/p>\n<p> Lembrou-se do baile, de Vronski, com o seu rosto transido de enamorado,<br \/>\n    a atitude que ela mantivera para com ele: nada disso a podia envergonhar.<br \/>\n    Mas ao mesmo tempo, precisamente neste ponto das suas recorda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a vergonha aumentou, como se uma voz interior lhe dissesse enquanto pensava<br \/>\n    em Vronski: &laquo;Foi-te agrad&aacute;vel, foi-te muito agrad&aacute;vel!&raquo;<br \/>\n    &laquo;Sim, e depois&raquo;, perguntou a si mesma, resoluta, agitando-se no<br \/>\n    assento. &laquo;Que tem isso? Terei medo de enfrentar esta recorda&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Que houve, afinal? Existe, poder&aacute; existir alguma rela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    al&eacute;m das simples rela&ccedil;&otilde;es mundanas, entre mim e aquele<br \/>\n    militarzinho?&raquo; Sorriu, desdenhosa, e voltou a pegar no livro; era-lhe,<br \/>\n    por&eacute;m, completamente imposs&iacute;vel compreender o que lia. Passou<br \/>\n    a esp&aacute;tula pela vidra&ccedil;a coberta de gelo, depois perpassou pelo<br \/>\n    rosto a superf&iacute;cie fria e lisa, e, cedendo a um s&uacute;bito acesso<br \/>\n    de alegria, desatou a rir quase ruidosamente. Notou que os nervos se punham<br \/>\n    cada vez mais tensos, que os olhos se lhe abriam desmesuradamente; as m&atilde;os<br \/>\n    e os p&eacute;s crispavam-se; qualquer coisa a sufocava. E naquela penumbra<br \/>\n    vacilante os sons e as imagens impunham- se-lhe com uma estranha intensidade.<br \/>\n    A cada momento perguntava a si mesma se o comboio avan&ccedil;ava, recuava<br \/>\n    ou permanecia no mesmo lugar. Era Anuchka realmente ou seria uma estranha<br \/>\n    aquela mulher ali sentada a seu lado? &laquo;Que est&aacute; suspenso daquele<br \/>\n    cabide? Uma pelica ou um animal? Sou eu realmente quem est&aacute; sentada<br \/>\n    nesta almofada? Serei eu ou outra mulher?&raquo; Receava abandonar-se a semelhante<br \/>\n    estado de inconsci&ecirc;ncia. Mas algo a arrastava para ele, embora se lhe<br \/>\n    pudesse ou n&atilde;o entregar consoante a sua vontade. Ergueu-se, sentindo-se<br \/>\n    ainda<\/p>\n<p> incapaz de resist&ecirc;ncia, jogou a manta, tirou a capa. Momentaneamente<br \/>\n    voltou a si, compreendendo que o homem magro com um grande capote a que faltava<br \/>\n    um bot&atilde;o era o encarregado do aquecimento que viera verificar o term&ocirc;metro<br \/>\n    e que o vento e a neve tinham entrado atr&aacute;s dele pela porta do compartimento.<br \/>\n    Depois, por&eacute;m, tudo se confundiu outra vez&#8230; O homem alto p&ocirc;s-se<br \/>\n    a raspar qualquer coisa na parede do carro; a senhora idosa estendeu as pernas,<br \/>\n    levantando uma nuvem de p&oacute; negro; ouviu um ranger, um martelar medonho,<br \/>\n    como se estivessem a torturar algu&eacute;m; uma luz vermelha cegou-a, depois<br \/>\n    a escurid&atilde;o tudo invadiu. Ana julgou que se despenhava de um precip&iacute;cio.<br \/>\n    As sensa&ccedil;&otilde;es que experimentava eram, ali&aacute;s, mais alegres<br \/>\n    que terr&iacute;veis. A voz de um homem todo enroupado e coberto de neve gritou-lhe<br \/>\n    qualquer coisa ao ouvido. Recuperou os sentidos, compreendeu que se aproximavam<br \/>\n    de uma esta&ccedil;&atilde;o. O homem era o condutor. Imediatamente pediu<br \/>\n    &agrave; criada que a acompanhava o xale e a capa, agasalhou-se e dirigiu-se<br \/>\n    para a porta.<\/p>\n<p> &#8212; A senhora quer sair? &#8212; perguntou Anuchka.<\/p>\n<p>&#8212; Quero, preciso de respirar; aqui sufoca-se.<\/p>\n<p>Ana tentou abrir a portinhola. O vento e a neve fizeram-lhe frente. Era divertido.<br \/>\n    Por fim, tendo conseguido abri-la, saiu. Dir-se-ia que o vento a esperava:<br \/>\n    ululava, querendo arrast&aacute;-la, mas Ana agarrou-se com uma das m&atilde;os<br \/>\n    ao var&atilde;o da portinhola e erguendo a saia com a outra p&ocirc;s os p&eacute;s<br \/>\n    na plataforma. Abrigada pela composi&ccedil;&atilde;o, respirou com verdadeira<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o o ar glacial daquela noite de tempestade. De p&eacute;,<br \/>\n    junto da portinhola, olhava a gare e as luzes da esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"30\">CAP&Iacute;TULO XXX<\/a><\/h4>\n<p>Desencadeara-se uma terr&iacute;vel tempestade de neve e o vento sibilava<br \/>\n    por entre as rodas do comboio e os postes pr&oacute;ximos da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    As carruagens, os postes, as pessoas, tudo ficava coberto de neve, que aumentava<br \/>\n    constantemente. Ap&oacute;s uma curta acalmia, a tempestade redobrou de intensidade<br \/>\n    e t&atilde;o violentamente que parecia nada poder resistir-lhe. Entretanto<br \/>\n    a porta da esta&ccedil;&atilde;o abria-se e fechava-se continuamente para<br \/>\n    dar passagem a pessoas que corriam de um lado para o outro ou ficavam a conversar<br \/>\n    alegremente na plataforma, cujas pranchas rangiam debaixo dos p&eacute;s.<br \/>\n    A sombra de um homem curvado pareceu sair de sob a terra junto do local onde<br \/>\n    Ana se encontrava; ouviu o retinir de um martelo num peda&ccedil;o de ferro<br \/>\n    e em seguida, do lado oposto, uma voz irritada, que sa&iacute;a das trevas,<br \/>\n    e vociferava: &laquo;Mande um<\/p>\n<p> telegrama!&raquo;, dizia, e outras vozes gritavam: &laquo;Por aqui, se faz<br \/>\n    favor! O n&ordm; !&raquo; Ana viu passar diante de si vultos cobertos de neve,<br \/>\n    atr&aacute;s dos quais dois senhores caminhavam fumando tranq&uuml;ilamente.<br \/>\n    Ana respirou outra vez a plenos pulm&otilde;es o ar frio, e, j&aacute; com<br \/>\n    a m&atilde;o na portinhola do compartimento, de novo se preparava para embarcar<br \/>\n    quando um homem de capote militar se aproximou, ocultando a luz do farol.<br \/>\n    Ana observou-o e reconheceu Vronski. Este levou a m&atilde;o ao barrete, inclinou-se<br \/>\n    e perguntou se lhe podia ser &uacute;til em alguma coisa. Ana olhou-o um momento<br \/>\n    sem responder. Embora ele estivesse de costas para a luz, julgou ver-lhe nos<br \/>\n    olhos e na fisionomia a express&atilde;o de respeitoso entusiasmo que tanto<br \/>\n    a impressionara na v&eacute;spera. Acabava de dizer para si mesma, depois<br \/>\n    de o repetir tantas e tantas vezes naqueles &uacute;ltimos dias, que Vronski,<br \/>\n    para ela, era um rapaz como outro qualquer que encontrava por todos os lados<br \/>\n    na sociedade, e em quem nunca se permitiria pensar, e eis que, de repente,<br \/>\n    ao v&ecirc;-lo, se apoderavam dela a alegria e o orgulho. N&atilde;o precisava<br \/>\n    de lhe perguntar por que estava ali. Estava ali, sabia-o com toda a certeza,<br \/>\n    como se ele lho tivesse dito, evidentemente para se encontrar com ela.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sabia que tinha de ir a Sampetersburgo! Que vai fazer<br \/>\n    l&aacute;? &#8212; perguntou Ana, deixando descair a m&atilde;o, que se firmara<br \/>\n    j&aacute; no var&atilde;o da portinhola.<\/p>\n<p> A anima&ccedil;&atilde;o e a alegria, uma anima&ccedil;&atilde;o e uma alegria<br \/>\n    indiz&iacute;veis, resplandeciam-lhe no rosto.<\/p>\n<p> &#8212; Que vou fazer l&aacute; &#8212; repetiu Vronski, fitando-a nos olhos.<br \/>\n    &#8212; Bem sabe que vou para estar junto de si. N&atilde;o posso fazer outra<br \/>\n    coisa.<\/p>\n<p> Naquele instante o vento, como se tivesse acabado de derrubar todos os obst&aacute;culos,<br \/>\n    arrancou a neve do tecto das carruagens, agitou no ar uma prancha met&aacute;lica<br \/>\n    que arrancara de qualquer parte, e, l&aacute; mais para diante, ressoou, triste<br \/>\n    e l&uacute;gubre, o estridente silvo da locomotiva. Todo o horror da tormenta<br \/>\n    se lhe afigurou ainda mais grandioso. Vronski dissera precisamente o que Ana<br \/>\n    no fundo da sua alma desejava que ele dissesse, embora a sua raz&atilde;o<br \/>\n    receasse ouvi-lo. E n&atilde;o respondeu. Ele viu que na express&atilde;o<br \/>\n    dela se traduzia um sentimento de luta.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoe-me, se o que acabo de dizer lhe desagrada &#8212; pronunciou<br \/>\n    humildemente.<\/p>\n<p>Falava com respeito e cortesia, mas com tanta firmeza e decis&atilde;o que<br \/>\n    Ana se viu impossibilitada de lhe responder logo.<\/p>\n<p> &#8212; Isso n&atilde;o est&aacute; certo, e peco-lhe, se &eacute; homem<br \/>\n    de bons sentimentos, que esque&ccedil;a o que disse; eu farei o mesmo &#8212;<br \/>\n    pronunciou, finalmente.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o esquecerei, nem poderei esquecer nunca uma s&oacute; palavra,<br \/>\n    um s&oacute; gesto seu.<\/p>\n<p>&#8212; Basta! Basta! &#8212; exclamou Ana, procurando debalde imprimir ao<br \/>\n    rosto uma express&atilde;o s&eacute;ria, ao rosto que ele fixava demoradamente.<\/p>\n<p>Erguendo-se at&eacute; &agrave; fria plataforma da carruagem, deteve-se ali<br \/>\n    por momentos. N&atilde;o se lembrava das palavras dele, mas sentia que aquela<br \/>\n    r&aacute;pida conversa os unira muito, o que a assustava e a fazia feliz ao<br \/>\n    mesmo tempo. Alguns segundos depois penetrava no compartimento e sentava-se.<br \/>\n    Cada vez se sentia mais nervosa: chegou a pensar que ia partir-se dentro dela<br \/>\n    uma corda demasiado tensa. N&atilde;o dormiu toda a noite. Mas naquela tens&atilde;o<br \/>\n    nervosa e nos sonhos que lhe enchiam a imagina&ccedil;&atilde;o nada havia<br \/>\n    de desagrad&aacute;vel ou de triste, muito pelo contr&aacute;rio, havia qualquer<br \/>\n    coisa de perturbador, de ardente, de excitante. Pela madrugada, adormeceu<br \/>\n    na poltrona e ao acordar j&aacute; era dia. O comboio aproximava-se de Sampetersburgo.<br \/>\n    Imediatamente se p&ocirc;s a pensar na casa, no marido, no filho, e as preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do dia absorveram-na.<\/p>\n<p> Mal desembarcou, o primeiro rosto que encontrou foi o do marido: &laquo;Meu<br \/>\n    Deus! Por que lhe ter&atilde;o crescido tanto as orelhas?&raquo; pensou ela,<br \/>\n    mirando-lhe a arrogante e fria figura e sobretudo as cartilagens das orelhas,<br \/>\n    que lhe chamavam agora a aten&ccedil;&atilde;o, nas quais, dir-se-ia, vinham<br \/>\n    pousar as abas do chap&eacute;u. Ao v&ecirc;-la, avan&ccedil;ou ao seu encontro,<br \/>\n    com o seu habitual sorriso ir&ocirc;nico, fitando-a com os seus grandes olhos<br \/>\n    fatigados. Uma sensa&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel oprimiu o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Ana ao encontrar o olhar cansado e tenaz do marido. Era como se esperasse<br \/>\n    ach&aacute;-lo diferente.<\/p>\n<p> O que mais a surpreendia era a sensa&ccedil;&atilde;o de descontentamento<br \/>\n    consigo pr&oacute;pria que a dominava ao ver-se junto dele. Afinal, no trato<br \/>\n    com ele experimentava uma sensa&ccedil;&atilde;o familiar, conhecida, uma<br \/>\n    esp&eacute;cie de hipocrisia; anteriormente n&atilde;o dava por isso, mas<br \/>\n    agora essa sensa&ccedil;&atilde;o tornava-se clara e dolorosa.<\/p>\n<p>&#8212; Como v&ecirc;s, o teu terno marido, terno como no primeiro ano de<br \/>\n    casado, estava morto por tornar a ver-te &#8212; proferiu ele, na sua voz<br \/>\n    aguda e lenta, naquele tom como de mofa, que habitualmente adoptava para com<br \/>\n    ela, como se quisesse ridicularizar essa mesma maneira de se exprimir.<\/p>\n<p> &#8212; E o Seriocha, est&aacute; bem? &#8212; perguntou ela.<\/p>\n<p>&#8212; Assim respondes &agrave; minha veem&ecirc;ncia!&#8230; Est&aacute; bem,<br \/>\n    est&aacute; bem.<\/p>\n<h4><a name=\"31\">CAP&Iacute;TULO XXXI<\/a><\/h4>\n<p>Vronski nem sequer tentara dormir aquela noite. Passara-a inteira sentado<br \/>\n    com os olhos muito abertos. O seu olhar, fixo a maior parte das<\/p>\n<p> vezes, atentava, de quando em quando, nas pessoas que entravam e sa&iacute;am,<br \/>\n    sem as distinguir das pr&oacute;prias coisas. Nunca a sua serenidade parecera<br \/>\n    t&atilde;o desconcertante, a sua altivez mais inabord&aacute;vel. Esta sua<br \/>\n    atitude desde logo lhe conquistou a inimizade do companheiro de viagem, um<br \/>\n    jovem funcion&aacute;rio judicial, nervoso, que tentara o imposs&iacute;vel<br \/>\n    para faz&ecirc;-lo compreender que fazia parte do n&uacute;mero dos vivos.<br \/>\n    Mas por mais que lhe pedisse lume, que lhe dirigisse a palavra, que o acotovelasse<br \/>\n    mesmo, Vronski n&atilde;o lhe prestara maior aten&ccedil;&atilde;o que &agrave;<br \/>\n    lanterna do comboio e o desgra&ccedil;ado, ofendido por tamanha fleuma, dificilmente<br \/>\n    se reprimia, pronto a explodir.<\/p>\n<p> Se Vronski dava mostras de uma t&atilde;o real indiferen&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    era por estar certo de haver tocado o cora&ccedil;&atilde;o de Ana. N&atilde;o,<br \/>\n    isso n&atilde;o ousava pensar; mas o veemente sentimento que sentia por ela<br \/>\n    enchia-o de felicidade e de orgulho. Que resultaria de tudo aquilo? N&atilde;o<br \/>\n    sabia nem queria pensar nisso. Mas sentia que todas as suas for&ccedil;as,<br \/>\n    relaxadas e dispersas at&eacute; ent&atilde;o, se enfeixavam e tendiam como<br \/>\n    que para um fim &uacute;nico e maravilhoso. V&ecirc;-la, ouvi-la, viver junto<br \/>\n    dela, a vida j&aacute; n&atilde;o tinha para ele outro sentido. Este pensamento<br \/>\n    a tal ponto o dominava que n&atilde;o p&ocirc;de evitar confessar-lho quando<br \/>\n    viu Ana na esta&ccedil;&atilde;o de Bologoia, onde descera para tomar um copo<br \/>\n    de soda. Estava contente por ter falado: Ana, agora, sabia que ele a amava,<br \/>\n    e n&atilde;o podia deixar de pensar nisso. Ao voltar para o seu compartimento,<br \/>\n    Vronski recapitulara, um por um, todos os pormenores dos encontros que tinha<br \/>\n    tido. Reviu todos os gestos, todas as palavras, todas as atitudes de Ana.<br \/>\n    E as imagens que se iam formando no seu esp&iacute;rito quase lhe paralisavam<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando desceu do comboio em Sampetersburgo sentiu-se fresco e repousado<br \/>\n    como depois de um banho frio, embora n&atilde;o tivesse pregado olho a noite<br \/>\n    inteira. Deteve-se junto do carro dela, para a ver passar.<\/p>\n<p> &laquo;Tornarei a ver-lhe mais uma vez o rosto, o andar&raquo;, dizia consigo,<br \/>\n    com um sorriso involunt&aacute;rio. &laquo;Talvez tenha para mim um olhar,<br \/>\n    um sorriso, uma palavra, um gesto.&raquo; Mas a quem viu primeiro foi ao marido,<br \/>\n    acompanhado, com grande defer&ecirc;ncia, pelo chefe da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &laquo;Ah! Sim, o marido!&raquo; E quando o viu aparecer na sua frente com<br \/>\n    aquela cabe&ccedil;a, os ombros e as pernas perdidas dentro das cal&ccedil;as,<br \/>\n    quando o viu, sobretudo, dar o bra&ccedil;o a Ana, como homem que conhece<br \/>\n    os direitos que lhe assistem, Vronski teve de convencer-se de que aquela personagem,<br \/>\n    cuja exist&ecirc;ncia at&eacute; ent&atilde;o se lhe afigurara problem&aacute;tica,<br \/>\n    existia, era de carne e osso, e que la&ccedil;os muito estreitos a uniam &agrave;<br \/>\n    mulher que ele, Vronski, amava.<\/p>\n<p>Naquele frio rosto petersburgu&ecirc;s, aquele ar severo e seguro de si,<br \/>\n    aquele chap&eacute;u de abas redondas, aquele dorso ligeiramente corcovado,<br \/>\n    de tudo isto Vronski teve de admitir a exist&ecirc;ncia, mas com a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um homem que, morto de sede, encontra uma nascente de &aacute;gua pura<\/p>\n<p> conspurcada pela presen&ccedil;a de um c&atilde;o, de um carneiro ou de<br \/>\n    um porco. O andar de Alexei Alexandrovitch, de pernas hirtas e quadris bamboleantes,<br \/>\n    foi o que mais o incomodou. A ningu&eacute;m reconhecia o direito, salvo a<br \/>\n    ele pr&oacute;prio, de amar Ana. Felizmente, esta era a mesma de sempre e<br \/>\n    ao v&ecirc;-lo sentiu-se reanimado. O criado de Vronski, um alem&atilde;o<br \/>\n    que viajara em &ordf; classe, veio receber as ordens do amo. Confiando-lhe<br \/>\n    as bagagens, Vronski avan&ccedil;ou resolutamente para ela. Assistiu, pois,<br \/>\n    ao encontro dos esposos e a sua perspic&aacute;cia de namorado permitiu-lhe<br \/>\n    apreender o ligeiro constrangimento com que Ana acolheu o marido. &laquo;N&atilde;o,<br \/>\n    ela n&atilde;o gosta dele, nem pode gostar&raquo;, decretou. Embora Ana estivesse<br \/>\n    de costas, Vronski notou com alegria que ela lhe adivinhara a presen&ccedil;a.<br \/>\n    Voltou-se um pouco, reconheceu-o e continuou a conversa que encetara com o<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p> &#8212; Passou bem a noite? &#8212; perguntou Vronski, inclinando-se diante<br \/>\n    do casal, dando assim oportunidade a Alexei Alexandrovitch de o reconhecer,<br \/>\n    caso isso lhe aprouvesse.<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigada, passei bem &#8212; respondeu ela.<\/p>\n<p>O seu rosto fatigado n&atilde;o aparentava a anima&ccedil;&atilde;o costumeira;<br \/>\n    no entanto, um lampejo lhe perpassou pelos olhos ao ver Vronski, e foi quanto<br \/>\n    bastou para ele se sentir feliz. Entretanto levantara os olhos para o marido,<br \/>\n    como para se certificar de que ele reconhecia o conde: Alexei Alexandrovitch<br \/>\n    olhava-o com um ar de poucos amigos, procurando lembrar-se de quem se tratava.<br \/>\n    A serenidade e a sufici&ecirc;ncia de Vronski chocaram-se com a fria seguran&ccedil;a<br \/>\n    de Alexei Alexandrovitch, como uma foice que bate numa pedra.<\/p>\n<p> &#8212; O conde Vronski &#8212; disse Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Creio que j&aacute; nos conhecemos &#8212; replicou com indiferen&ccedil;a<br \/>\n    Alexei Alexandrovitch, estendendo-lhe a m&atilde;o. &#8212; Fizeste a viagem<br \/>\n    de ida com a m&atilde;e e a de volta com o filho &#8212; acrescentou, sublinhando<br \/>\n    cada palavra. &#8212; Tem estado de licen&ccedil;a, naturalmente? &#8212;<br \/>\n    perguntou, e sem aguardar resposta dirigiu-se &agrave; mulher no seu habitual<br \/>\n    tom ir&ocirc;nico: &#8212; Qu&ecirc;? Ent&atilde;o houve muitas l&aacute;grimas<br \/>\n    &agrave; despedida em Moscovo? Pela maneira de se dirigir &agrave; mulher,<br \/>\n    Vronski percebeu que ele desejava estar s&oacute; com ela. Mas Vronski, voltando-se<br \/>\n    para Ana, disse-lhe ainda: &#8212; Espero ter a honra de lhe apresentar os<br \/>\n    meus cumprimentos. Alexei Alexandrovitch olhou Vronski com os seus olhos cansados.<\/p>\n<p> &#8212; Com muito gosto; recebemos &agrave;s segundas-feiras &#8212; replicou<br \/>\n    com frieza, e, sem mais se preocupar com ele, voltou-se para a mulher. &#8212;<br \/>\n    Muita sorte tive em poder dispor desta meia hora para te vir esperar, e ter<\/p>\n<p> podido mostrar-te todo o meu carinho &#8212; continuou ironicamente.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s a ressaltar o teu carinho para que eu o aprecie melhor<br \/>\n    &#8212; respondeu Ana no mesmo tom ir&ocirc;nico, ouvindo, involuntariamente,<br \/>\n    os passos de Vronski, que caminhava atr&aacute;s dela. &laquo;Mas que me importa?&raquo;,<br \/>\n    pensou. E imediatamente perguntou ao marido como Seriocha passara aqueles<br \/>\n    dias, na sua aus&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, magnificamente! Mariette diz que esteve muito bonzinho&#8230;<\/p>\n<p> E tenho de te dar um desgosto&#8230; N&atilde;o teve tantas saudades tuas como<br \/>\n    o teu marido. E outra vez merci por teres vindo um dia mais cedo. O nosso<br \/>\n    querido samovar vai ter com isso uma grande alegria (era o nome que ele dava<br \/>\n    &agrave; c&eacute;lebre condessa L&iacute;dia Ivanovna, que vivia sempre em<br \/>\n    estado de emo&ccedil;&atilde;o e de agita&ccedil;&atilde;o). Perguntou por<br \/>\n    ti. Se me atrevesse a dar-te um conselho, dir-te-ia que a visitasses hoje<br \/>\n    mesmo. Sabes que sofre por tudo e por nada. Agora, al&eacute;m de todas as<br \/>\n    suas preocupa&ccedil;&otilde;es, est&aacute; interessad&iacute;ssima na reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Oblonski.<\/p>\n<p> A condessa L&iacute;dia Ivanovna era amiga de Alexei Alexandrovitch e o<br \/>\n    eixo do grupo da alta sociedade de Sampetersburgo que Ana mais freq&uuml;entava<br \/>\n    por causa do marido.<\/p>\n<p> &#8212; Eu escrevi-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; Mas precisa de saber pormenores. Vai a casa dela, se n&atilde;o est&aacute;s<br \/>\n    cansada, querida. Kondrati leva-te no carro. Eu tenho de ir a uma reuni&atilde;o.<br \/>\n    Enfim, j&aacute; n&atilde;o jantarei s&oacute; &#8212; acrescentou com ironia<br \/>\n    desta vez. &#8212; N&atilde;o podes calcular como me habituei&#8230;<\/p>\n<p> E dito isto, apertou-lhe demoradamente a m&atilde;o, sorriu-lhe com o seu<br \/>\n    melhor sorriso e ajudou-a a subir para a carruagem.<\/p>\n<h4><a name=\"32\">CAP&Iacute;TULO XXXII<\/a><\/h4>\n<p>A primeira pessoa que descobriu Ana quando esta chegou a casa foi o filho;<br \/>\n    sem querer ouvir os brados da preceptora, correu escada abaixo ao seu encontro,<br \/>\n    gritando numa grande alegria: &laquo;M&atilde;ezinha! M&atilde;ezinha!&raquo;,<br \/>\n    e lan&ccedil;ou-se-lhe ao pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu bem lhe dizia que era a m&atilde;ezinha! &#8212; gritava ele<br \/>\n    &agrave; preceptora. &#8212; Tinha a certeza.<\/p>\n<p> Mas tamb&eacute;m o filho, tal como o pai, causou em Ana uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de desencanto. Imaginava-o melhor do que ele era realmente. Para o apreciar<br \/>\n    plenamente, viu-se obrigada a descer &agrave; realidade e v&ecirc;-lo tal<br \/>\n    como era, isto &eacute;, uma linda crian&ccedil;a de carac&oacute;is louros,<br \/>\n    belos olhos azuis e<\/p>\n<p> pernas bem feitas nas suas meias bem esticadas. Ent&atilde;o experimentou<br \/>\n    um prazer quase f&iacute;sico ao senti-lo junto de si, ao receber as suas<br \/>\n    car&iacute;cias e uma esp&eacute;cie de apaziguamento moral penetrou nela<br \/>\n    quando ele principiou a fazer as suas ing&ecirc;nuas perguntas e se p&ocirc;s<br \/>\n    a perscrutar-lhe os olhos t&atilde;o meigos, t&atilde;o confiantes, t&atilde;o<br \/>\n    c&acirc;ndidos. Desembrulhou os presentes que Dolly lhe mandava e contou-lhe<br \/>\n    que havia em Moscovo uma menina chamada T&acirc;nia, que j&aacute; sabia ler<br \/>\n    e at&eacute; ensinava os outros a ler.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o sou pior do que ela? &#8212; perguntou Seriocha.<\/p>\n<p>&#8212; Para mim, meu amor, n&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m melhor do<br \/>\n    que tu.<\/p>\n<p>&#8212; Eu bem sabia &#8212; disse Seriocha sorrindo.<\/p>\n<p>Ainda Ana n&atilde;o acabara de tomar o caf&eacute; quando lhe anunciaram<br \/>\n    a condessa L&iacute;dia Ivanovna. Era uma mulher alta e cheia, de tez amarelada<br \/>\n    e enfermi&ccedil;a e uns melanc&oacute;licos e bonitos olhos pretos. Ana,<br \/>\n    que a estimava, julgou aperceber-se pela primeira vez de que ela tamb&eacute;m<br \/>\n    tinha os seus defeitos.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, querida, levaste-lhes o ramo de oliveira? &#8212; perguntou<br \/>\n    a condessa, mal entrou na sala.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, tudo se consertou. Al&eacute;m disso as coisas<br \/>\n    n&atilde;o eram t&atilde;o feias como pareciam &#8212; replicou Ana. &#8212;<br \/>\n    Em geral uma belle-soeur &eacute; um pouco precipitada nas suas decis&otilde;es.<\/p>\n<p>Mas a condessa L&iacute;dia, sempre muito interessada pelo que n&atilde;o<br \/>\n    lhe dizia respeito, tinha por costume n&atilde;o prestar a menor aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao que se supunha interessar-lhe. Interrompeu Ana.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, h&aacute; muita maldade e muita desgra&ccedil;a neste mundo.<br \/>\n    Estou hoje t&atilde;o desanimada! &#8212; Por qu&ecirc;? &#8212; interrogou<br \/>\n    Ana, procurando conter o riso.<\/p>\n<p>&#8212; Come&ccedil;o a cansar-me de lutar em v&atilde;o pela verdade e &agrave;s<br \/>\n    vezes vejo-me completamente derrotada. A obra das nossas irm&atilde;zinhas<br \/>\n    (tratava-se de uma institui&ccedil;&atilde;o filantr&oacute;pica patri&oacute;tico-religiosa)<br \/>\n    segue por bom caminho, mas n&atilde;o se pode fazer nada com estes senhores<br \/>\n    &#8212; disse a condessa L&iacute;dia Ivanovna, ironicamente, como que submetendo-se<br \/>\n    ao destino.&#8212; Apoderaram-se da ideia para a desvirtuarem e agora julgam-na<br \/>\n    de uma forma vil e indigna. S&oacute; duas ou tr&ecirc;s pessoas, no n&uacute;mero<br \/>\n    das quais est&aacute; o seu marido, compreendem o significado desta obra;<br \/>\n    as demais n&atilde;o sabem sen&atilde;o desacredit&aacute;-la. Ontem recebi<br \/>\n    uma carta de Pravdine&#8230;<\/p>\n<p>Pravdine, c&eacute;lebre pan-eslavista, residia no estrangeiro. A condessa<br \/>\n    resumiu a Ana o conte&uacute;do da carta dele. Depois contou-lhe as in&uacute;meras<br \/>\n    ciladas e contratempos armados &agrave; obra da uni&atilde;o das igrejas e<br \/>\n    retirou-se a<\/p>\n<p> toda a pressa, pois ainda tinha de assistir, naquele dia, a duas reuni&otilde;es,<br \/>\n    uma das quais do comit&ecirc; eslavo.<\/p>\n<p> &laquo;Nada disto &eacute; novo&raquo;, dizia Ana com os seus bot&otilde;es,<br \/>\n    &laquo;mas por que n&atilde;o o percebi antes? Estaria ela hoje mais nervosa<br \/>\n    do que de costume? No fundo, tudo isto &eacute; c&ocirc;mico: esta mulher,<br \/>\n    que se diz crist&atilde; e que s&oacute; pensa na caridade, zanga-se e luta<br \/>\n    com outras pessoas que trabalham exactamente pelos mesmos fins que ela.&raquo;<\/p>\n<p>Depois da condessa, chegou uma amiga de Ana, esposa de um funcion&aacute;rio,<br \/>\n    que lhe contou as novidades da capital, e partiu &agrave;s tr&ecirc;s horas,<br \/>\n    prometendo vir jantar com ela. Alexei Alexandrovitch estava no Minist&eacute;rio.<br \/>\n    Quando ficou s&oacute;, Ana assistiu primeiro ao jantar do filho &#8212; a<br \/>\n    crian&ccedil;a comia &agrave; parte &#8212; e depois procurou p&ocirc;r em<br \/>\n    ordem as suas coisas e responder &agrave; correspond&ecirc;ncia em atraso.<\/p>\n<p>Da perturba&ccedil;&atilde;o, da vergonha inexplic&aacute;vel que a assaltara<br \/>\n    durante a viagem, j&aacute; n&atilde;o havia vest&iacute;gios. De novo no<br \/>\n    seu ambiente habitual, sentia-se outra vez segura e irrepreens&iacute;vel,<br \/>\n    e n&atilde;o conseguia perceber o estado de esp&iacute;rito por que passara<br \/>\n    na v&eacute;spera. &laquo;Que se passou afinal de t&atilde;o grave?&raquo;,<br \/>\n    interrogou-se a si mesma. &laquo;Nada. Vronski disse uma loucura e eu respondi-lhe<br \/>\n    como devia. N&atilde;o vale a pena falar no caso a Alexei, seria como que<br \/>\n    atribuir-lhe import&acirc;ncia.&raquo; E recordou-se de ter contado, uma vez,<br \/>\n    ao marido que um subordinado dele estivera a ponto de se lhe declarar e ele<br \/>\n    lhe respondera que toda a mulher que freq&uuml;enta a sociedade est&aacute;<br \/>\n    sujeita a coisas dessas, mas que confiava plenamente no seu tacto e nunca<br \/>\n    se permitiria humilh&aacute;-la e humilhar-se a si pr&oacute;prio deixando-se<br \/>\n    arrastar pelo ci&uacute;me. &laquo;O melhor, portanto, &eacute; calar-me&raquo;,<br \/>\n    concluiu ela. &laquo;E, ali&aacute;s, gra&ccedil;as a Deus, nada tenho a dizer-lhe.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"33\">CAP&Iacute;TULO XXXIII<\/a><\/h4>\n<p>Alexei Alexandrovitch voltou do Minist&eacute;rio &agrave;s horas, mas, como<br \/>\n    freq&uuml;entemente acontecia, n&atilde;o teve tempo de entrar nos aposentos<br \/>\n    da mulher. Meteu-se logo no escrit&oacute;rio para receber umas visitas que<br \/>\n    o aguardavam e assinar uns pap&eacute;is que o secret&aacute;rio lhe trouxera.<br \/>\n    &Agrave; hora do jantar chegou a velha prima de Alexei Alexandrovitch, um<br \/>\n    director do seu Minist&eacute;rio com a esposa e um rapazola que lhe fora<br \/>\n    recomendado (os Karenines tinham sempre dois ou tr&ecirc;s convidados para<br \/>\n    o jantar). Ana desceu ao sal&atilde;o para receb&ecirc;-los. &Agrave;s em<br \/>\n    ponto, ainda o rel&oacute;gio de bronze, estilo Pedro I, n&atilde;o deixara<br \/>\n    cair a &uacute;ltima badalada, entrava Alexei Alevandrovitch, de sobrecasaca<br \/>\n    e duas condecora&ccedil;&otilde;es ao peito, pois tinha<\/p>\n<p> de sair logo ap&oacute;s o jantar. Todos os minutos da sua exist&ecirc;ncia<br \/>\n    eram cogitados, e para poder cumprir o que diariamente lhe competia via-se<br \/>\n    obrigado a observar uma pontualidade estrita. &laquo;Sem precipita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sem descanso&raquo;, eis o seu lema. Ao entrar no sal&atilde;o, cumprimentou<br \/>\n    todos os presentes e sentou-se, apressadamente, sorrindo para a mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Finalmente, acabou a minha solid&atilde;o! Nem tu imaginas como<br \/>\n    &eacute; inc&ocirc;modo &#8212; sublinhou a palavra &laquo;inc&ocirc;modo&raquo;<br \/>\n    &#8212; comer sozinho.<\/p>\n<p>Durante o jantar falou com Ana acerca de Moscovo, e com um sorriso ir&ocirc;nico<br \/>\n    perguntou por Stepane Arkadievitch; mas conversou a maior parte do tempo sobre<br \/>\n    assuntos de ordem geral, tendo abordado quest&otilde;es do Minist&eacute;rio<br \/>\n    e da sociedade de Sampetersburgo. Findo o jantar, Alexei Karenine demorou-se<br \/>\n    meia hora com os seus convidados e depois de apertar de novo a m&atilde;o<br \/>\n    da mulher, sorrindo sempre, saiu para ir assistir a uma nova sess&atilde;o<br \/>\n    do conselho. Ana n&atilde;o foi a casa da princesa Betsy Tverskaia, nem ao<br \/>\n    teatro, onde tinha um camarote reservado. N&atilde;o foi principalmente por<br \/>\n    ainda n&atilde;o ter pronto o vestido com que contava. Ao ocupar-se das suas<br \/>\n    toilettes depois da partida dos convidados, irritou-se muito. Antes de partir<br \/>\n    para Moscovo mandara &agrave; modista tr&ecirc;s vestidos para transformar.<br \/>\n    Em geral, tinha a habilidade de gastar pouco, vestindo-se embora muito bem.<br \/>\n    Precisava de transformar aqueles vestidos de tal sorte que ficassem irreconhec&iacute;veis,<br \/>\n    e havia j&aacute; tr&ecirc;s dias que deviam estar prontos. No entanto, dois<br \/>\n    deles estavam por acabar, e o outro n&atilde;o lhe agradou. A modista apressou-se<br \/>\n    a explicar-lhe que o vestido ficava melhor como ela o fizera, e Ana enfurecera-se<br \/>\n    tanto com ela que at&eacute; sentia vergonha agora ao record&aacute;-lo. Para<br \/>\n    serenar, dirigiu-se ao quarto do filho e passou todo o ser&atilde;o com ele,<br \/>\n    deitou-o, arranjou-lhe a roupa com muitos cuidados e saiu depois de o aben&ccedil;oar<br \/>\n    com o sinal-da-cruz. E sentiu-se ent&atilde;o bastante satisfeita por n&atilde;o<br \/>\n    ter sa&iacute;do e por ter passado uma tarde t&atilde;o agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Estava serena e tranq&uuml;ila, e via claramente que tudo que lhe parecera<br \/>\n    significativo durante a viagem era um facto corriqueiro e trivial da vida<br \/>\n    mundana e que n&atilde;o havia raz&atilde;o para se envergonhar nem perante<br \/>\n    si mesma nem perante ningu&eacute;m. Sentou-se junto ao fog&atilde;o e ali<br \/>\n    ficou tranq&uuml;ilamente &agrave; espera do marido, entretida a ler o seu<br \/>\n    romance ingl&ecirc;s. &Agrave;s horas em ponto retiniu a campainha autorit&aacute;ria<br \/>\n    de Alexei Alexandrovitch e n&atilde;o tardou que ele entrasse na sala.<\/p>\n<p> &#8212; Finalmente, chegaste! &#8212; exclamou ela, estendendo-lhe a m&atilde;o,<br \/>\n    que ele beijou antes de se sentar junto da mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Vejo que a tua viagem obteve &ecirc;xito &#8212; disse Alexei.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, o mais completo &#8212; replicou Ana, e contou tudo desde o<br \/>\n    princ&iacute;pio: a viagem com Vronskaia, a chegada a Moscovo e o desastre<br \/>\n    na<\/p>\n<p> esta&ccedil;&atilde;o. Depois disse-lhe da compaix&atilde;o que sentira<br \/>\n    primeiro pelo irm&atilde;o e depois por Dolly.<\/p>\n<p> &#8212; Sou de opini&atilde;o que n&atilde;o se deve perdoar a um homem<br \/>\n    assim, embora se trate de teu irm&atilde;o &#8212; disse ele com express&atilde;o<br \/>\n    severa.<\/p>\n<p> Ana sorriu. Compreendeu que ele falava assim para provar que os la&ccedil;os<br \/>\n    de parentesco n&atilde;o o podiam impedir de emitir ju&iacute;zos sinceros.<br \/>\n    Confiou-lhe: esse tra&ccedil;o de car&aacute;cter e apreciava-o.<\/p>\n<p> &#8212; Estou muito satisfeito que tudo tenha acabado bem &#8212; continuou.<br \/>\n    &#8212; Bom, o que se diz por l&aacute; da nova lei que apresentei ao conselho?<br \/>\n    Ana n&atilde;o ouvira falar de semelhante lei em Moscovo e envergonhou-se<br \/>\n    por ter esquecido uma coisa que t&atilde;o importante era para ele.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui, pelo contr&aacute;rio, tem sido muit&iacute;ssimo comentada<br \/>\n    &#8212; disse Alexei Alexandrovitch com um sorriso de satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ana compreendeu que o marido lhe queria comunicar qualquer coisa agrad&aacute;vel<br \/>\n    a prop&oacute;sito da referida lei e tantas perguntas fez que conseguiu que<br \/>\n    ele se explicasse.<\/p>\n<p> &#8212; D&aacute;-me isso muita satisfa&ccedil;&atilde;o. Isso s&oacute;<br \/>\n    demonstra que, por fim, aqui come&ccedil;a a forma-se um ponto de vista firme<br \/>\n    e razo&aacute;vel acerca de semelhante assunto.<\/p>\n<p> Depois de ter tomado dois copos de ch&aacute; com nata, levantou-se disposto<br \/>\n    a voltar para o seu gabinete de trabalho.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sa&iacute;stes? Deves ter-te aborrecido &#8212; disse<br \/>\n    &agrave; mulher.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, n&atilde;o! &#8212; replicou Ana, erguendo-se tamb&eacute;m e<br \/>\n    seguindo com ele ao longo da sala. &#8212; Que est&aacute;s a ler agora? &#8212;<br \/>\n    La po&eacute;sie des Enfers, do duque de Lille. &Eacute; um livro muito interessante.<\/p>\n<p> Ana sorriu, como em geral as pessoas sorriem diante das fraquezas dos seres<br \/>\n    amados, e, enfiando o bra&ccedil;o no do marido, acompanhou-o at&eacute; ao<br \/>\n    escrit&oacute;rio. Conhecia o costume dele, que se lhe tornara imprescind&iacute;vel,<br \/>\n    de ler todas as noites. Sabia que apesar das obriga&ccedil;&otilde;es, que<br \/>\n    lhe roubavam quase todo o tempo, considerava como que um dever acompanhar<br \/>\n    todas as coisas interessantes que apareciam no mundo intelectual. De resto,<br \/>\n    ela n&atilde;o ignorava que, assaz competente em pol&iacute;tica, filosofia<br \/>\n    e religi&atilde;o, Alexei Alexandrovitch nada entendia nem das letras nem<br \/>\n    das artes, o que, no entanto, n&atilde;o o impedia de se interessar particularmente<br \/>\n    por obras do g&ecirc;nero. E se em pol&iacute;tica, em filosofia, em religi&atilde;o<br \/>\n    lhe acontecia ter d&uacute;vidas e procurar esclarec&ecirc;-las, nas quest&otilde;es<br \/>\n    de<\/p>\n<p> arte, de poesia, de m&uacute;sica, sobretudo nos assuntos de que nada entendia,<br \/>\n    estava sempre pronto a emitir opini&otilde;es definitivas e sem recurso. Gostava<br \/>\n    de discutir Shakespeare, Rafael ou Beethoven, de pronunciar-se sobre as novas<br \/>\n    escolas de m&uacute;sica e poesia, e de classific&aacute;-las numa ordem t&atilde;o<br \/>\n    l&oacute;gica quanto rigorosa.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, at&eacute; j&aacute; &#8212; disse Ana Karenina, junto &agrave;<br \/>\n    porta do escrit&oacute;rio. Junto &agrave; poltrona do marido j&aacute; estavam<br \/>\n    acesas as velas com o seu abat-jour e posta uma garrafa com &aacute;gua.<\/p>\n<p>&#8212; Vou escrever para Moscovo.<\/p>\n<p>Alexei Alexandrovitch apertou-lhe a m&atilde;o, tornando a beij&aacute;-la.<\/p>\n<p>&laquo;Seja como for, &eacute; um homem bom e justo, de bom cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e not&aacute;vel no seu meio&raquo;, dizia Ana para si mesma, ao regressar<br \/>\n    aos seus aposentos, como se o defendesse diante de algu&eacute;m que o acusava<br \/>\n    e dissesse ser imposs&iacute;vel am&aacute;-lo. &laquo;Mas por que raz&atilde;o<br \/>\n    lhe sobressaem tanto as orelhas? Teria cortado o cabelo?&raquo;<\/p>\n<p>&Agrave; meia-noite em ponto, Ana ainda escrevia a Dolly, sentada &agrave;<br \/>\n    sua pequenina secret&aacute;ria, quando ouviu aproximarem-se uns passos abafados<br \/>\n    e Alexei Alexandrovitch apareceu, com um livro na m&atilde;o, de pantufas<br \/>\n    cal&ccedil;adas, j&aacute; pronto na sua toilette da noite.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o horas de dormir &#8212; disse-lhe ele com um sorriso<br \/>\n    malicioso, antes de penetrar no quarto de dormir.<\/p>\n<p> &laquo;Que direito tinha de o olhar assim?&raquo;, pensou Ana, lembrando-se,<br \/>\n    de repente, do olhar que Vronski lan&ccedil;ara ao marido.<\/p>\n<p>Ana n&atilde;o tardou a entrar no quarto do marido, mas onde estava aquela<br \/>\n    chama que em Moscovo lhe animava o rosto, lhe cintilava nos olhos, lhe iluminava<br \/>\n    o sorriso? Extinta, ou, pelo menos, bem escondida.<\/p>\n<h4><a name=\"34\">CAP&Iacute;TULO XXXIV<\/a><\/h4>\n<p>Ao deixar Sampetersburgo, Vronski cedera ao seu melhor camarada, Petritski,<br \/>\n    o amplo andar que ocupava na Rua Morskaia.<\/p>\n<p> Petritski era um jovem tenente, de fam&iacute;lia modesta, sem bens e cheio<br \/>\n    de d&iacute;vidas. Todas as noites se embriagava e com freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    era preso por causa das suas aventuras divertidas e escandalosas. Mas, apesar<br \/>\n    de tudo, tanto os seus camaradas como os seus superiores o estimavam muito.<br \/>\n    Ao chegar a casa, pouco depois das horas, Vronski viu &agrave; porta uma carruagem<br \/>\n    que n&atilde;o lhe era desconhecida. Enquanto n&atilde;o lhe abriam a porta,<br \/>\n    ouviu risos de homens, a tagarelice de uma voz<\/p>\n<p> feminina e em seguida os gritos de Petritski:<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; uma dessas aves de rapina, n&atilde;o a deixem entrar!<\/p>\n<p>Vronski entrou na primeira sa&iacute;a, silenciosamente, sem se anunciar.<br \/>\n    Muito catita, no seu vestido de cetim lil&aacute;s e com a sua carinha rosada,<br \/>\n    a amiga de Petritski, a baronesa Chiltone, tal qual um can&aacute;rio enchia<br \/>\n    toda a casa com o seu sotaque parisiense. Sentada a uma mesa redonda, preparava<br \/>\n    caf&eacute;. Petritski, &agrave; paisana, e o capit&atilde;o de cavalaria<br \/>\n    Kamerovski, fardado (naturalmente chegava do servi&ccedil;o), estavam a seu<br \/>\n    lado.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;, Vronski! &#8212; exclamou Petritski, levantando-se e<br \/>\n    fazendo ru&iacute;do com a cadeira. &#8212; Aqui tem o dono da casa em pessoa!<br \/>\n    Baronesa, sirva-lhe caf&eacute; da cafeteira nova. N&atilde;o te esper&aacute;vamos!<br \/>\n    Que dizes a esta nova decora&ccedil;&atilde;o do teu escrit&oacute;rio? Espero<br \/>\n    que te agrade &#8212; exclamou ele, apontando para a baronesa.&#8212;J&aacute;<br \/>\n    se conhecem, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212; Pois n&atilde;o nos hav&iacute;amos<br \/>\n    de conhecer? &#8212; replicou Vronski, sorrindo e apertando a m&atilde;ozinha<br \/>\n    da baronesa. &#8212; Somos velhos amigos!<\/p>\n<p>&#8212; Acaba de chegar de viagem? &#8212; perguntou a baronesa. &#8212;<br \/>\n    Ent&atilde;o vou-me embora. Se incomodo, saio j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; em sua casa, baronesa &#8212; replicou Vronski. &#8212;<br \/>\n    Ol&aacute;, Kamerovitch &#8212; acrescentou, apertando-lhe friamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;s n&atilde;o sabem dizer coisas assim am&aacute;veis &#8212;<br \/>\n    censurou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro.<\/p>\n<p> &#8212; Por qu&ecirc;? Depois de jantar, tamb&eacute;m lhas saberei dizer.<br \/>\n    E melhores ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Depois de jantar j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m m&eacute;rito. Bom,<br \/>\n    vou preparar-lhe caf&eacute; enquanto se lava e arranja &#8212; disse a baronesa,<br \/>\n    e p&ocirc;s-se a arranjar a cafeteira nova. &#8212; Pierre, passa-me o caf&eacute;.<br \/>\n    Vou deitar mais &#8212; disse a Petritski. Chamava-lhe &laquo;Pierre&raquo;,<br \/>\n    abreviando-lhe o nome, sem esconder a sua intimidade com ele.<\/p>\n<p>&#8212; Vai estrag&aacute;-lo!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o! N&atilde;o o estrago&#8230; E a sua mulher? &#8212;<br \/>\n    perguntou a baronesa, interrompendo a conversa de Vronski com o companheiro.<br \/>\n    &#8212; Cas&aacute;mo-lo na sua aus&ecirc;ncia. Trouxe a sua mulher? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, baronesa. Nasci bo&ecirc;mio e espero morrer bo&ecirc;mio.<\/p>\n<p>&#8212; Tanto melhor! Tanto melhor! D&ecirc;-me a sua m&atilde;o. E sem o<br \/>\n    deixar partir, a baronesa come&ccedil;ou a expor-lhe, entre gracejos, os seus<br \/>\n    &uacute;ltimos planos de vida pedindo-lhe conselhos.<\/p>\n<p> &#8212; Ele continua a n&atilde;o querer consentir no div&oacute;rcio. Que<br \/>\n    hei-de eu fazer? (&laquo;Ele&raquo; era o marido.) Penso em dar in&iacute;cio<br \/>\n    &agrave; ac&ccedil;&atilde;o. Que acha?&#8230; Kamerovski, cuidado com o caf&eacute;,<br \/>\n    que est&aacute; quase a ferver. Bem v&ecirc; que<\/p>\n<p> estou a falar de neg&oacute;cios. Estou resolvida a instaurar o processo,<br \/>\n    porque preciso do que me pertence, n&atilde;o &eacute; verdade? Imagine, que<br \/>\n    atrevimento! Com o pretexto de que lhe sou infiel &#8212; sorriu, com desd&eacute;m&#8212;aquele<br \/>\n    cavalheiro apropria-se do que &eacute; meu.<\/p>\n<p>Vronski ouvia, divertido, a tagarelice daquela bonita mulher, dava-lhe raz&atilde;o,<br \/>\n    aconselhava-a, zombando, e n&atilde;o tardou a adoptar o tom que costumava<br \/>\n    empregar para com essa esp&eacute;cie de mulheres. As pessoas do seu meio<br \/>\n    dividiam a humanidade em duas categorias opostas: a primeira, de gente vulgar,<br \/>\n    est&uacute;pida e sobretudo rid&iacute;cula, sup&otilde;e que os maridos devem<br \/>\n    ser fi&eacute;is &agrave;s suas mulheres, as donzelas puras, as mulheres castas,<br \/>\n    os homens corajosos, firmes e moderados, e que devem educar os filhos, ganhar<br \/>\n    a vida, pagar as d&iacute;vidas e outras frioleiras do mesmo g&ecirc;nero.<br \/>\n    Esta era a gente antiquada e rid&iacute;cula. A segunda, pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    &#8212; * gente da &laquo;alta&raquo; &#8212;, &agrave; qual eles se vangloriam<br \/>\n    sempre de pertencer, preza a eleg&acirc;ncia, a generosidade, a aud&aacute;cia,<br \/>\n    o bom humor, entrega-se sem pudor a todas as paix&otilde;es e ri-se de tudo<br \/>\n    o mais.<\/p>\n<p> Ainda sob a impress&atilde;o dos costumes moscovitas &#8212; qu&atilde;o<br \/>\n    diferentes! &#8212;, Vronski sentiu-se, por momentos, aturdido ao reencontrar<br \/>\n    aquela gente alegre e agrad&aacute;vel, mas n&atilde;o tardou a adaptar-se<br \/>\n    &agrave; sua antiga exist&ecirc;ncia com a felicidade de quem cal&ccedil;a<br \/>\n    uma velha pantufa.<\/p>\n<p> O famoso caf&eacute; nunca mais estava pronto. Transbordou da cafeteira<br \/>\n    para o tapete, sujou o vestido da baronesa, salpicou todos, conseguindo o<br \/>\n    que era preciso: provocar o riso e soltar o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, agora, adeusinho. Se n&atilde;o me vou embora, nunca mais se<br \/>\n    lavar&aacute; nem arranjar&aacute;, e sobre a minha consci&ecirc;ncia vir&aacute;<br \/>\n    a pesar o maior delito que um homem elegante pode cometer &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    se lavar. Acha ent&atilde;o que lhe devo apontar o punhal ao peito?<\/p>\n<p>&#8212; Com certeza, e procure a maneira de a sua m&atilde;o lhe ficar bem<br \/>\n    perto dos l&aacute;bios. Acabar&aacute; por beij&aacute;-la e tudo ficar&aacute;<br \/>\n    resolvido &#8212; replicou Vronski.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, at&eacute; logo, no Teatro Franc&ecirc;s!<\/p>\n<p>Kamerovski levantou-se tamb&eacute;m, e Vronski, sem esperar que ele se retirasse,<br \/>\n    apertou-lhe a m&atilde;o e dirigiu-se ao quarto de banho. Enquanto ele procedia<br \/>\n    &agrave;s suas ablu&ccedil;&otilde;es, Petritski pintava-lhe, a grandes pinceladas,<br \/>\n    o quadro da sua situa&ccedil;&atilde;o. Nada de dinheiro; o pai declarava<br \/>\n    n&atilde;o lhe dar dinheiro e nunca mais lhe pagara nenhuma d&iacute;vida;<br \/>\n    um alfaiate estava disposto a recorrer &agrave; pol&iacute;cia e outro amea&ccedil;ava-o<br \/>\n    de fazer o mesmo; o comandante decidido, caso continuasse aquele esc&acirc;ndalo,<br \/>\n    a obrig&aacute;-lo a deixar o regimento; a baronesa, enfadonha como uma chuva<br \/>\n    mi&uacute;da, sobretudo por causa das ofertas de dinheiro que constantemente<br \/>\n    lhe fazia; em compensa&ccedil;&atilde;o, uma nova beldade no horizonte, de<br \/>\n    estilo oriental,<\/p>\n<p> &laquo;g&ecirc;nero escrava Rebeca, meu caro, e que tu precisas de conhecer&raquo;;<br \/>\n    uma quest&atilde;o com Berkochev, que estava disposto a enviar-lhe as suas<br \/>\n    testemunhas, mas que naturalmente nada faria. Entretanto tudo corria melhor<br \/>\n    e o mais alegremente poss&iacute;vel. E sem dar tempo a que Vronski meditasse<br \/>\n    no que lhe acabava de dizer, Petritski p&ocirc;s-se a contar-lhe todas as<br \/>\n    novidades que corriam. Ouvindo aquelas coisas que lhe eram t&atilde;o familiares,<br \/>\n    em sua casa, naquela casa onde vivia h&aacute; tr&ecirc;s anos, Vronski experimentava<br \/>\n    a agrad&aacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de ter regressado &agrave; despreocupada<br \/>\n    e habitual vida petersburguesa.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; imposs&iacute;vel! &Eacute; imposs&iacute;vel! &#8212;<br \/>\n    exclamava, abrindo a torneira do lavat&oacute;rio, que ao jorrar lhe borrifava<br \/>\n    o pesco&ccedil;o forte e vermelho. &#8212; &Eacute; imposs&iacute;vel! &#8212;<br \/>\n    repetia, recusando-se a acreditar que a Laura tivesse deixado o Fertingov<br \/>\n    para viver com o Mileiev. &#8212; Ele continua o mesmo est&uacute;pido que<br \/>\n    sempre foi e a mesma criatura cheia de sufici&ecirc;ncia? E a prop&oacute;sito,<br \/>\n    que me contas do Buzulukov?<\/p>\n<p>&#8212; Buzulukov? Ao Buzulukov aconteceu uma coisa estupenda! &#8212; exclamou<br \/>\n    Petritski. &#8212; Bem sabem que tem a paix&atilde;o da dan&ccedil;a e n&atilde;o<br \/>\n    falta a um s&oacute; baile da Corte. Pois bem, foi a um grande baile com o<br \/>\n    capacete novo. J&aacute; viste os capacetes novos? S&atilde;o bons, mais leves&#8230;<br \/>\n    L&aacute; estava ele, pois, de grande uniforme&#8230; Ouve, faz o favor de ouvir-me.<\/p>\n<p> &#8212; Estou a ouvir &#8212;replicou Vronski, que se enxugava com uma toalha<br \/>\n    de felpa.<\/p>\n<p> &#8212; Passa uma gr&atilde;-duquesa pelo bra&ccedil;o de um diplomata estrangeiro<br \/>\n    e por infelicidade a conversa reca&iacute;a sobre os novos capacetes.<\/p>\n<p> A gr&atilde;-duquesa estava morta por mostrar um ao embaixador. De s&uacute;bito,<br \/>\n    v&ecirc; o nosso amigo, ali, de p&eacute;, de capacete na m&atilde;o (dizendo<br \/>\n    o que, Petritski ia arremedando a atitude de Buzulukov). A gr&atilde;-duquesa<br \/>\n    pede-lhe que lhe mostre o capacete. Ele n&atilde;o se mexe. Que significa<br \/>\n    aquilo? Todos lhe fazem sinais, caretas, piscadelas de olhos. Mas ele n&atilde;o<br \/>\n    se mexe. Parece petrificado. Podes imaginar a cena? Ent&atilde;o um n&atilde;o<br \/>\n    sei quem&#8230; esquece-me sempre o nome dele&#8230; tenta tirar-lhe o capacete. Ele<br \/>\n    n&atilde;o deixa. O outro arranc&aacute;-lho da cabe&ccedil;a e apresenta-o<br \/>\n    &agrave; gr&atilde;-duquesa. &laquo;Aqui tem o novo modelo&raquo;, diz ela,<br \/>\n    examinando o capacete. Pois que julgas que sai de l&aacute; de dentro? Nunca<br \/>\n    te passar&aacute; pela cabe&ccedil;a&#8230; Uma p&ecirc;ra, e bombons, duas libras<br \/>\n    de bombons&#8230; Tinha-se abastecido bem, o figur&atilde;o! Vronski ria a bandeiras<br \/>\n    despregadas. E tempo depois, sempre que lhe acontecia, ao falar de coisas<br \/>\n    muito diferentes, lembrar-se da hist&oacute;ria do capacete desatava a rir,<br \/>\n    num riso franco e jovial que lhe punha &agrave; mostra os belos dentes fortes<br \/>\n    e regulares.<\/p>\n<p>Inteirado das &uacute;ltimas novidades, Vronski envergou o uniforme, com<br \/>\n    a ajuda do criado de quarto, e cuidou de ir apresentar-se no quartel.<\/p>\n<p> Tencionava passar depois por casa do irm&atilde;o, visitar Betsy e principiar<br \/>\n    uma s&eacute;rie de visitas pela sociedade onde lhe seria mais prov&aacute;vel<br \/>\n    encontrar-se com Ana Karenina. Como sempre fazia em Sampetersburgo, saiu de<br \/>\n    casa na inten&ccedil;&atilde;o de a ela n&atilde;o voltar sen&atilde;o noite<br \/>\n    adentro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII 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