{"id":108530,"date":"2017-02-13T10:24:13","date_gmt":"2017-02-13T12:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108530"},"modified":"2017-02-13T10:24:13","modified_gmt":"2017-02-13T12:24:13","slug":"guerra-e-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/guerra-e-paz","title":{"rendered":"Guerra e Paz"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"399\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I <\/a><\/h4>\n<p>&#8211; Pois bem, meu pr&iacute;ncipe. G&eacute;nova e Luca mais n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    do que apan&aacute;gios, dom&iacute;nios, da fam&iacute;lia Bonaarte. N&atilde;o,<br \/>\n    previno-o de que, se me diz que n&atilde;o teremos guerra, se se permitir<br \/>\n    ainda atenuar todas as inf&acirc;mias, todas as atrocidades desse &#8211; Anticristo<br \/>\n    (palavra de honra, para mim, &eacute; o que ele &eacute;), desconhe&ccedil;o-o,<br \/>\n    deixo de consider&aacute;-lo meu amigo, meu fiel servidor, como costumo dizer.<br \/>\n    Vamos, vejamos, como est&aacute;, como est&aacute;? Bem veio que lhe meto<br \/>\n    medo. Sente-se e conte-me novidades.<\/p>\n<p> Foi com estas palavras que em Julho de 1805 a conhecida dama de honor, &iacute;ntima<br \/>\n    da imperatriz Maria Fiodorovna. Ana Pavlovna Scherer, acolheu o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, pessoa importante e de alta estirpe, o primeiro dos convidados a<br \/>\n    chegar &agrave; sua recep&ccedil;&atilde;o daquela noite. Havia algum tempo<br \/>\n    j&aacute; que Ana Pavlovna tossicava, estava com gripe, como ela dizia &#8211; gripe<br \/>\n    era ent&atilde;o um novo voc&aacute;bulo, que poucas pessoas ainda empregavam.<br \/>\n    Nessa mesma manh&atilde; tinha ela mandado entregar, por um lacaio de libr&eacute;<br \/>\n    encarnada, a toda a gente, indistintamente, um bilhetinho redigido nestes<br \/>\n    termos:<\/p>\n<p>Se n&atilde;o tem nada melhor a fazer. Senhor Conde &#8211; ou ent&atilde;o: meu<br \/>\n    pr&iacute;ncipe -, e se a perspectiva de passar a noite em casa de uma pobre<br \/>\n    doente n&atilde;o o assusta muito, sentir-me-ei encantada de o ver em minha<br \/>\n    casa entre as 7 e as 10 horas.<\/p>\n<p> Annette Scherer.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, que viol&ecirc;ncia! &#8211; retorquiu o pr&iacute;ncipe no seu uniforme<br \/>\n    de gala, o peito coberto de condecora&ccedil;&otilde;es, na face achatada<br \/>\n    um ar florescente, sem ligar a m&iacute;nima import&acirc;ncia a semelhante<br \/>\n    acolhimento.<\/p>\n<p> Exprimia-se nesse franc&ecirc;s precioso, que falavam e em que at&eacute;<br \/>\n    pensavam os nossos av&oacute;s, e a que adicionavam esse sotaque protector,<br \/>\n    essas entoa&ccedil;&otilde;es suaves t&atilde;o naturais a quem envelheceu<br \/>\n    na sociedade e com prest&iacute;gio na corte. Aproximou-se de Ana Pavlovna,<br \/>\n    beijou-lhe a m&atilde;o, exibindo a calva perfumada e reluzente, e sentou-se,<br \/>\n    tranquilamente, num div&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; Antes de mais nada, diga-me, como tem passado, querida amiga? Tranquilize<br \/>\n    este seu amigo &#8211; prosseguiu ele no mesmo tom e numa voz em que, sob a cortesia<br \/>\n    e a afabilidade, transpareciam a indiferen&ccedil;a e at&eacute; mesmo urna<br \/>\n    certa mofa.<\/p>\n<p> &#8211; Como &eacute; que uma pessoa h&aacute;-de passar bem de sa&uacute;de..,<br \/>\n    quando, moralmente, n&atilde;o pode deixar de sofrer? Quem &eacute; que no<br \/>\n    nosso tempo h&aacute;-de estar sereno, desde que seja pessoa de cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; redarguiu Ana Pavlovna.- Vai ficar toda a noite, n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    &#8211; E a festa na Embaixada de Inglaterra? &Eacute; hoje quarta-feira. N&atilde;o<br \/>\n    posso deixar de aparecer &#8211; disse o pr&iacute;ncipe.- Minha filha ficou de<br \/>\n    passar por aqui para me levar.<\/p>\n<p> &#8211; Julguei que a festa tinha sido adiada. Confesso-lhe que todas estas festas<br \/>\n    e todos estes jogos de artif&iacute;cio come&ccedil;am a tornar-se ins&iacute;pidos.<\/p>\n<p> &#8211; Se tivessem sabido que era esse o seu desejo, teriam adiado a festa &#8211;<br \/>\n    tornou o pr&iacute;ncipe, o qual, como um rel&oacute;gio certo, tinha por<br \/>\n    h&aacute;bito dizer, em determinadas circunst&acirc;ncias, frases que ele<br \/>\n    pr&oacute;prio n&atilde;o esperava que fossem acreditadas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me atormente. Afinal, que decidiram em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao telegrama de Novosiltzov? O senhor costuma saber tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Que lhe hei-de eu dizer? &#8211; volveu o pr&iacute;ncipe num tom frio e enfastiado.-<br \/>\n    Que decidiram? Decidiram que Bonaparte chegou a ponto de n&atilde;o poder<br \/>\n    recuar e eu acho que est&aacute; aqui, est&aacute; a acontecer-nos o mesmo.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili falava sempre com indol&ecirc;ncia, como um actor<br \/>\n    que recita um papel h&aacute; muito decorado. Ana Pavlovna, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    apesar dos seus quarenta anos, toda ela era vivacidade e expans&atilde;o.<\/p>\n<p> Ser entusiasta era a sua fun&ccedil;&atilde;o social, e at&eacute; mesmo<br \/>\n    quando n&atilde;o era essa a sua disposi&ccedil;&atilde;o natural procurava<br \/>\n    s&ecirc;-lo, para que as pessoas suas conhecidas se n&atilde;o sentissem desapontadas.<br \/>\n    O sorriso constrangido que lhe andava sempre no rosto, conquanto n&atilde;o<br \/>\n    dissesse muito bem com os seus tra&ccedil;os j&aacute; fatigados, denunciava,<br \/>\n    como acontece nas crian&ccedil;as mimadas, a exist&ecirc;ncia de um pecadilho,<br \/>\n    pecadilho de que ela n&atilde;o queria, nem podia, nem mesmo julgava &uacute;til<br \/>\n    corrigir-se.<\/p>\n<p> No decurso da conversa sobre pol&iacute;tica. Ana Pavlovna exaltou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! N&atilde;o me fale da &Aacute;ustria! Talvez eu seja uma parva, mas<br \/>\n    estou convencida de que a &Aacute;ustria n&atilde;o quis nem quer a guerra.<br \/>\n    Est&aacute; a atrai&ccedil;oar-nos. &Eacute; &agrave; R&uacute;ssia sozinha<br \/>\n    que compete salvar a Europa. O nosso benfeitor conhece a alta miss&atilde;o<br \/>\n    a que est&aacute; destinado e cumpri-la-&aacute;. &Eacute; a &uacute;nica<br \/>\n    coisa em que tenho confian&ccedil;a. O nosso sublime imperador tem um grande<br \/>\n    papel a desempenhar no mundo, e &eacute; t&atilde;o virtuoso e t&atilde;o<br \/>\n    nobre que Deus n&atilde;o o abandonar&aacute; e h&aacute;-de cumprir a sua<br \/>\n    miss&atilde;o: esmagar a hidra da Revolu&ccedil;&atilde;o, ainda mais terr&iacute;vel<br \/>\n    desde que encarnou nesse assassino e nesse salteador. &Eacute; a n&oacute;s,<br \/>\n    e s&oacute; a n&oacute;s, a quem compete resgatar o sangue do justo&#8230; E pergunto-lhe<br \/>\n    eu agora: com quem poderemos n&oacute;s contar? A Inglaterra, com o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    comercial, n&atilde;o compreende nem pode compreender toda a grandeza da alma<br \/>\n    do imperador Alexandre. Recusou-se a evacuar Malta. O que ela quer &eacute;<br \/>\n    ver, procurar na nossa conduta ideias reservadas. Que &eacute; que eles disseram<br \/>\n    a Novosiltzov?&#8230; Nada. N&atilde;o compreenderam, n&atilde;o podem compreender<br \/>\n    o desinteresse do nosso imperador, que nada quer para ele e tudo faz para<br \/>\n    bem da humanidade. E que prometeram eles? Nada. E at&eacute; aquilo que prometeram<br \/>\n    acabar&aacute; por n&atilde;o vir a realizar-se. A Pr&uacute;ssia j&aacute;<br \/>\n    declarou que Bonaparte era invenc&iacute;vel e que a Europa inteira nada podia<br \/>\n    contra ele&#8230; E eu por mim, n&atilde;o acredito numa s&oacute; palavra do<br \/>\n    que dizem Hardenberg ou Haugwitz. Essa famosa neutralidade prussiana n&atilde;o<br \/>\n    passa de uma armadilha. S&oacute; em Deus confio e no alto destino do nosso<br \/>\n    augusto imperador. Ele salvar&aacute; a Europa!&#8230;<\/p>\n<p> De s&uacute;bito calou-se, sorrindo ela mesma, antes de mais ningu&eacute;m,<br \/>\n    da veem&ecirc;ncia das suas pr&oacute;prias palavras.<\/p>\n<p> &#8211; Estou persuadido &#8211; disse o pr&iacute;ncipe com um sorriso- de que se a<br \/>\n    tivessem mandado a si, minha querida amiga, em lugar, do nosso muito querido<br \/>\n    Wintzengerode, a esta hora t&iacute;nhamos tomado de assalto a ades&atilde;o<br \/>\n    do rei da Pr&uacute;ssia. Quer dar-me uma x&iacute;cara de ch&aacute;? &#8211; Com<br \/>\n    certeza. A prop&oacute;sito &#8211; acrescentou ela num tom sereno -, tenho hoje<br \/>\n    duas pessoas muito interessantes: o visconde de Mortemart; est&aacute; aparentado<br \/>\n    com os Montmorency pelos Rohans, um dos mais ilustres nomes da Fran&ccedil;a.<br \/>\n    &Eacute; um dos nossos bons emigrados, aut&ecirc;ntico! E tamb&eacute;m o<br \/>\n    abade Morio. Conhece este esp&iacute;rito profundo? Foi recebido pelo imperador.<br \/>\n    Conhece-o? &#8211; Terei um grande prazer! Diga-me uma coisa &#8211; acrescentou, negligentemente,<br \/>\n    e como se s&oacute; naquele momento se tivesse lembrado disso, quando, realmente,<br \/>\n    esse era o objectivo principal da sua visita. &#8211; &Eacute; verdade que a imperatriz-m&atilde;e<br \/>\n    se interessa pela nomea&ccedil;&atilde;o do bar&atilde;o de Funke para o lugar<br \/>\n    de primeiro-secret&aacute;rio em Viena? Esse bar&atilde;o, ao que parece,<br \/>\n    &eacute; uma triste personagem.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili pretendia ver nomeado para esse posto um filho<br \/>\n    seu, e o bar&atilde;o era a pessoa indicada para tal cargo pelas pessoas que<br \/>\n    procuravam ganhar a influ&ecirc;ncia da imperatriz Maria Fiodorovna.<\/p>\n<p> &#8211; O Senhor Bar&atilde;o de Funke foi recomendado &agrave; imperatriz pela<br \/>\n    irm&atilde; &#8211; foi tudo quanto ela disse em resposta, secamente, e com um ar<br \/>\n    triste.<\/p>\n<p> Quando Ana Pavlovna pronunciou o nome da imperatriz pintou-se-lhe no rosto,<br \/>\n    subitamente, a dedica&ccedil;&atilde;o e o respeito mais profundos e sinceros,<br \/>\n    ao mesmo tempo que lhe desceu sobre a m&aacute;scara aquele ar de tristeza<br \/>\n    que nunca a abandonava sempre que, no decurso de uma conversa, se falava na<br \/>\n    sua augusta protectora. E acrescentou que Sua Majestade se tinha dignado testemunhar<br \/>\n    ao bar&atilde;o de Funke muita estima, enquanto o olhar novamente se lhe velava<br \/>\n    de tristeza.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe, como que indiferente, mantinha-se calado.<\/p>\n<p> Ana Pavlovna, com a sua finura especial de dama da corte e o seu tacto feminino,<br \/>\n    ao mesmo tempo- que dirigia um remoque ao pr&iacute;ncipe por ter ousado exprimir-se<br \/>\n    t&atilde;o livremente a respeito da conduta de uma pessoa recomendada &agrave;<br \/>\n    imperatriz, procurava de certo modo consol&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, a prop&oacute;sito da sua fam&iacute;lia &#8211; disse-lhe ela -, n&atilde;o<br \/>\n    sei se sabe que a sua filha, desde que frequenta a sociedade, faz as del&iacute;cias<br \/>\n    de toda a gente. Dizem que &eacute; linda como os deuses.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe curvou-se em sinal de estima e gratid&atilde;o. &#8211; Costumo<br \/>\n    dizer muitas vezes de mim para comigo &#8211; continuou Ana Pavlovna, depois de<br \/>\n    um momento de sil&ecirc;ncio, aproximando-se do pr&iacute;ncipe com um sorriso<br \/>\n    gracioso, como se quisesse significar que estavam terminadas as conversas<br \/>\n    sobre assuntos pol&iacute;ticos e mundanos e que as confid&ecirc;ncias &iacute;ntimas<br \/>\n    iam principiar -, muitas vezes digo a mim mesma que a felicidade neste mundo<br \/>\n    &eacute; coisa muito desigualmente repartida. Porque seria que o destino lhe<br \/>\n    deu a si, meu amigo, dois filhos t&atilde;o belos, &agrave; parte o Anatole,<br \/>\n    o seu benjamim, que n&atilde;o me agrada por a&iacute; al&eacute;m &#8211; tinha<br \/>\n    lan&ccedil;ado esta observa&ccedil;&atilde;o num tom que n&atilde;o admitia<br \/>\n    r&eacute;plica, franzindo as sobrancelhas&#8230; -, t&atilde;o encantadores? Sim,<br \/>\n    quando o senhor, na verdade, &eacute; a pessoa que menos import&acirc;ncia<br \/>\n    liga aos filhos; n&atilde;o os merece.<\/p>\n<p> E teve um sorriso vitorioso.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer? Lavater diria que eu n&atilde;o tenho a bossa da paternidade<br \/>\n    &#8211; respondeu o pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> &#8211; Deixemo-nos de brincadeiras. Quero falar-lhe a s&eacute;rio. Sabe? Estou<br \/>\n    descontente com o seu, filho mais novo. Aqui entre n&oacute;s &#8211; e um ar de<br \/>\n    tristeza lhe perpassou pelo rosto -, falaram dele perante Sua Majestade, e<br \/>\n    lamentam-no, a si&#8230;<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe n&atilde;o respondeu, mas ela, lan&ccedil;ando-lhe um<br \/>\n    olhar significativo, aguardava, sem dizer palavra, que ele dissesse qualquer<br \/>\n    coisa. O pr&iacute;ncipe Vassili franziu as sobrancelhas.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer que eu fa&ccedil;a? &#8211; acabou por dizer.- Bem sabe que fiz tudo<br \/>\n    o que um pai pode fazer pela educa&ccedil;&atilde;o dos seus filhos, e o que<br \/>\n    &eacute; certo &eacute; que ambos n&atilde;o passam de dois imbecis. O Hip&oacute;lito,<br \/>\n    pelo menos, &eacute; um imbecil sossegado, enquanto o Anatole &eacute; um<br \/>\n    imbecil turbulento. &Eacute; a &uacute;nica diferen&ccedil;a entre os dois<br \/>\n    &#8211; acrescentou com um sorriso mais constrangido e acentuado que de costume,<br \/>\n    enquanto as rugas que se lhe formavam em tomo da boca denunciavam mais claramente<br \/>\n    do que nunca a amargura e a irrita&ccedil;&atilde;o que inopinadamente o invadiam.<\/p>\n<p> &#8211; Para que &eacute; que as pessoas como o senhor h&atilde;o-de ter filhos?<br \/>\n    Se n&atilde;o fosse pai, nada teria a censurar-lhe &#8211; disse Ana Pavlovna, erguendo<br \/>\n    os olhos cismadores.<\/p>\n<p> &#8211; Sou o seu fiel escravo, e s&oacute; a si o posso confiar. Os meus filhos<br \/>\n    s&atilde;o os impecilhos da minha exist&ecirc;ncia. S&atilde;o a minha cruz,<br \/>\n    compreendo-o perfeitamente. Que quer?&#8230;<\/p>\n<p> Calou-se, mostrando com um gesto que se submetia ao cruel destino. Ana Pavlovna<br \/>\n    assumiu uma atitude cismadora.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca se lembrou, meu caro pr&iacute;ncipe, de casar o seu filho pr&oacute;digo,<br \/>\n    o Anatole? Dizem que as solteironas t&ecirc;m a mania do casalhento. N&atilde;o<br \/>\n    creio que eu j&aacute; esteja em idade de ter fraquezas semelhantes, mas o<br \/>\n    que &eacute; certo &eacute; que conhe&ccedil;o uma criaturinha que &eacute;<br \/>\n    muito infeliz com o pai, uma nossa parente, uma princesa Bolkonskaia.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili n&atilde;o respondeu, embora, com o seu golpe<br \/>\n    de vista e a sua finura de homem de sociedade, desse a entender, num simples<br \/>\n    movimento de cabe&ccedil;a, que n&atilde;o esqueceria o facto.<\/p>\n<p> &#8211; Pois a verdade &eacute; que o Anatole me custa por ano &agrave; volta<br \/>\n    de quarenta mil rublos &#8211; disse ele, sem que, evidentemente, lhe fosse poss&iacute;vel<br \/>\n    refrear o curso dos pensamentos. Esteve alguns instantes calado. &#8211; Que ser&aacute;<br \/>\n    feito dele, dentro de uns cinco anos, se as coisas continuarem da mesma maneira?<br \/>\n    Aqui tem a vantagem de se ser pai. &Eacute; rica, essa sua princesa? &#8211; O pai<br \/>\n    &eacute; riqu&iacute;ssimo e avaro. Vive no campo. Deve ter ouvido falar nele.<br \/>\n    &Eacute; um tal pr&iacute;ncipe Bolkonski, que se reformou ainda em vida do<br \/>\n    falecido imperador e a quem chamavam o &laquo;rei da Pr&uacute;ssia&raquo;.<br \/>\n    &Eacute; um homem bastante inteligente, mas com as suas manias. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; nada c&oacute;modo. A pobre pequena &eacute; infeliz como tudo. Tem<br \/>\n    um irm&atilde;o que casou h&aacute; pouco com Lisa Meinen, um ajudante-de-campo<br \/>\n    de Kutuzov. Deve aparecer hoje por a&iacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Ou&ccedil;a, querida Annette &#8211; disse o pr&iacute;ncipe, pegando, subitamente,<br \/>\n    na m&atilde;o da sua interlocutora e puxando-a a si. &#8211; Arranje-me isso e eu<br \/>\n    serei o seu muito fiel escravo para sempre: o seu &laquo;escrafo&raquo;, como<br \/>\n    o meu estaroste costuma escrever nos seus relat&oacute;rios: com um f. Se<br \/>\n    &eacute; de excelente fam&iacute;lia e rica, n&atilde;o &eacute; preciso mais<br \/>\n    nada.<\/p>\n<p> E com os seus gestos f&aacute;ceis, familiares e graciosos que tanto o distinguiam,<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe inclinou-se, apertou a m&atilde;o da dama de honor, beijou-a,<br \/>\n    e de novo se enterrou na sua macia poltrona, desviando a vista.<\/p>\n<p> &#8211; Espere &#8211; disse Ana Pavlovna, pensativa. &#8211; Ainda hoje mesmo falarei &agrave;<br \/>\n    Lisa, a mulher do jovem Bolkonski. E talvez as coisas se arranjem. Na sua<br \/>\n    fam&iacute;lia come&ccedil;arei a aprender para solteirona.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h4>\n<p>O sal&atilde;o de Ana Pavlovna foi-se enchendo a pouco e pouco. Toda a aristocracia<br \/>\n    de Petersburgo tinha aparecido, gente de idades e caracteres muito diversos,<br \/>\n    mas toda do mesmo mundo. Chegou tamb&eacute;m a filha de Vassili, a bela Helena,<br \/>\n    que vinha buscar o pai para a festa da Embaixada de Inglaterra. Exibia o seu<br \/>\n    monograma imperial e trazia um vestido de noite. E tamb&eacute;m apareceu<br \/>\n    a jovem e pequenina princesa Bolkonskaia, conhecida por a mulher mais sedutora<br \/>\n    de Petersburgo, que casara no &uacute;ltimo Inverno e ainda n&atilde;o aparecera<br \/>\n    na sociedade por causa do seu estado de gravidez, mas que costumava frequentar<br \/>\n    as reuni&otilde;es &iacute;ntimas. Por fim tamb&eacute;m surgiu o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Hip&oacute;lito, o filho do pr&iacute;ncipe Vassili, na companhia de Mortemart,<br \/>\n    a quem apresentou, e em seguida o abade Morio e muitos outros.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda a n&atilde;o viram, n&atilde;o a conhecem? N&atilde;o conhecem minha<br \/>\n    tia? &#8211; dizia Ana Pavlovna para os seus convidados, e com a maior gravidade<br \/>\n    ia-os conduzindo um por um, &agrave; medida que chegavam, &#8211; at&eacute; junto<br \/>\n    de uma min&uacute;scula senhora de idade, enfeitada de grandes fitas, que<br \/>\n    estava na sala cont&iacute;gua. Depois, pronunciando o nome de cada um deles,<br \/>\n    passeava, lentamente, os olhos entre os seus convidados e minha tia, e da&iacute;<br \/>\n    a pouco desaparecia.<\/p>\n<p> Todos eram obrigados a cumprir aquele ritual, saudando esta tia desconhecida<br \/>\n    e in&uacute;til, que a ningu&eacute;m interessava. Ana Pavlovna, muito s&eacute;ria<br \/>\n    e solene, assistia &agrave; cerim&oacute;nia dos cumprimentos, dando a sua<br \/>\n    aprova&ccedil;&atilde;o, sem abrir a boca. Minha tia falava a toda a gente,<br \/>\n    invariavelmente, nos mesmos termos, do estado da sa&uacute;de de cada um,<br \/>\n    do estado da sua pr&oacute;pria sa&uacute;de e do estado da sa&uacute;de de<br \/>\n    Sua Majestade, o qual, gra&ccedil;as a Deus, passava agora melhor. E todos,<br \/>\n    sem mostrar, por decoro, que se davam pressa, se iam despedindo da idosa senhora<br \/>\n    com a sensa&ccedil;&atilde;o de al&iacute;vio que se tem depois de se cumprir<br \/>\n    uma enfadonha obriga&ccedil;&atilde;o e, claro est&aacute;, para a n&atilde;o<br \/>\n    tornarem a ver em toda a roda da noite.<\/p>\n<p> A jovem princesa Bolkonskaia tinha trazido consigo o seu bordado num pequenino<br \/>\n    saco de veludo lavrado a ouro. O seu bonito l&agrave;biozinho superior, ligeiramente<br \/>\n    sombreado por uma breve penugem, era um pouco curto, mas nem por isso parecia<br \/>\n    menos gracioso entreaberto nem era menos delicioso no momo que fazia ao apoiar-se<br \/>\n    no l&aacute;bio inferior. Como em geral acontece com todas as pessoas realmente<br \/>\n    sedutoras, estas suas pequeninas imperfei&ccedil;&otilde;es, o l&aacute;bio<br \/>\n    curto de mais e a boca entreaberta, tinham nela um atractivo especial, uma<br \/>\n    beleza pr&oacute;pria. Era uma alegria para todos a presen&ccedil;a desta<br \/>\n    futura m&atilde;e t&atilde;o bonita, cheia de sa&uacute;de e de vida, suportando<br \/>\n    perfeitamente os inc&oacute;modos do seu estado. Os velhos e os jovens entediados<br \/>\n    e cheios de enfado imaginavam-se como ela s&oacute; por terem passado alguns<br \/>\n    momentos na sua intimidade. Todos os que conversavam alguns instantes com<br \/>\n    a princesinha podiam ver como o seu luminoso sorriso cintilava ap&oacute;s<br \/>\n    cada uma das suas palavras e como os seus dentes sempre &agrave; mostra eram<br \/>\n    de uma brancura esplendorosa, quanto bastava para que todos se sentissem naquele<br \/>\n    momento de uma particular afabilidade. E era assim a ilus&atilde;o que ela<br \/>\n    criava em toda a gente.<\/p>\n<p> A princesinha, no seu andar ondulante, caminhando em passinhos r&aacute;pidos,<br \/>\n    deu a volta &agrave; sala, o saco de trabalho na m&atilde;o, e depois de imprimir<br \/>\n    um jeito gracioso &agrave; toilette veio sentar-se num div&atilde;, junto<br \/>\n    do samovar de prata, como se tudo que ela fizesse fosse uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de divertimento n&atilde;o s&oacute; para ela pr&oacute;pria, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    para aqueles que a cercavam.<\/p>\n<p> &#8211; Trouxe comigo o meu trabalho! &#8211; exclamou ela, abrindo o saquinho bordado<br \/>\n    a ouro e como se se dirigisse, a toda a gente ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Cuidado. Annette, n&atilde;o me fa&ccedil;a uma partida &#8211; prosseguiu ela,<br \/>\n    desta vez para a dona da casa. &#8211; Mandou-me dizer que era apenas uma pequena<br \/>\n    reuni&atilde;o; olhe como eu venho vestida.<\/p>\n<p> Dizendo o que estendeu os bra&ccedil;os para melhor deixar ver o seu elegante<br \/>\n    vestido cinzento, guarnecido de rendas, com uma larga fita a servir de cinto,<br \/>\n    um pouco abaixo do seio.<\/p>\n<p> &#8211; Esteja descansada. Lisa, ser&aacute; sempre a mais bela &#8211; replicou Ana<br \/>\n    Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe, o meu marido vai abandonar-me &#8211; prosseguiu ela no mesmo tom, dirigindo-se<br \/>\n    a um general.- Vai procurar a morte. Diga-me: para que serve esta maldita<br \/>\n    guerra? &#8211; disse ao pr&iacute;ncipe Vassili, e, sem esperar qualquer resposta,<br \/>\n    voltou-se para a filha deste, a bela Helena.<\/p>\n<p> &#8211; Que pessoa deliciosa, aquela princesinha! &#8211; murmurou o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, em voz baixa, para Ana Pav1ovna.<\/p>\n<p> Pouco depois da princesinha, entrou na sala um jovem corpulento e maci&ccedil;o,<br \/>\n    de cabelo rapado, lunetas, cal&ccedil;as claras, &agrave; moda da &eacute;poca,<br \/>\n    um alto jabot e fraque pardacento. Este mo&ccedil;o era filho natural de uma<br \/>\n    c&eacute;lebre personagem do tempo de Catarina, o conde Besukov, naquela altura<br \/>\n    moribundo em Moscovo. Ainda n&atilde;o tinha qualquer ocupa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    acabava de chegar do estrangeiro, onde fora educado, e era a primeira vez<br \/>\n    que aparecia na sociedade. Ana Pav1ovna acolheu-o com a sauda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que costumava usar para com as pessoas de mais baixa classe. No entanto, apesar<br \/>\n    deste seu acolhimento de inferior qualidade, ao v&eacute;-1o entrar deixou<br \/>\n    transparecer no rosto medo e inquieta&ccedil;&atilde;o, como quando nos vemos<br \/>\n    perante qualquer coisa de desmedido e fora do seu lugar. Pedro era, realmente,<br \/>\n    um pouco maior que as outras pessoas, mas o receio que se pintara no rosto<br \/>\n    de Ana Pavlovna podia ser antes motivado por esse olhar ao mesmo tempo t&iacute;mido<br \/>\n    e penetrante, observador e franco, que o distinguia de todos os demais convidados.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; muito am&aacute;vel da sua parte. Senhor Pedro, ter vindo visitar<br \/>\n    uma pobre doente &#8211; disse-lhe Ana Pavlovna, trocando um olhar de p&acirc;nico<br \/>\n    com a tia, a quem o ia conduzindo.<\/p>\n<p> Pedro resmungou uma frase incompreens&iacute;vel enquanto com os olhos continuava<br \/>\n    &agrave; procura de qualquer coisa. Teve um sorriso jovial ao cumprimentar<br \/>\n    a princesinha, como se ela fosse um conhecimento &iacute;ntimo, e aproximou-se<br \/>\n    da tia. O medo de Ana Pavlovna n&atilde;o era destitu&iacute;do de fundamento,<br \/>\n    pois a verdade &eacute; que Pedro afastou-se dessa senhora sem esperar que<br \/>\n    a tia conclu&iacute;sse as suas considera&ccedil;&otilde;es acerca da sa&uacute;de<br \/>\n    de Sua Majestade. Ana Pavlovna, horrorizada, deteve-o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o conhece o abade Morio? &Eacute; uma pessoa muito interessante&#8230;<br \/>\n    &#8211; disse-lhe ela.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, ouvi falar do seu plano de paz perp&eacute;tua, que &eacute; aliciante.<br \/>\n    Mas ser&aacute; poss&iacute;vel?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Acha que sim?&#8230; &#8211; observou Ana Pavlovna, para dizer alguma coisa, pronta<br \/>\n    a voltar ao cumprimento dos seus deveres de dona de casa.<\/p>\n<p> Pedro, por&eacute;m, cometeu uma segunda indelicadeza: primeiro afastara-se<br \/>\n    da sua interlocutora antes de ela ter acabado de falar; agora retinha esta,<br \/>\n    dirigindo-lhe a palavra, quando ela precisava de o deixar. De cabe&ccedil;a<br \/>\n    baixa e afastando as suas grandes pernas, p&ocirc;s-se a demonstrar a Ana<br \/>\n    Pavlovna a raz&atilde;o por que considerava quim&eacute;rico o plano do abade<br \/>\n    Morio.<\/p>\n<p> &#8211; Falaremos disso mais tarde &#8211; disse Ana Pavlovna, sorrindo.<\/p>\n<p> E, libertando-se daquele jovem sem h&aacute;bitos de sociedade, regressou<br \/>\n    &agrave;s suas ocupa&ccedil;&otilde;es de dona de casa, continuando a ouvir<br \/>\n    e a observar, pronta sempre a intervir onde a conversa esmorecesse. Tal qual<br \/>\n    como um contramestre de uma f&aacute;brica de fia&ccedil;&atilde;o que, depois<br \/>\n    de instalar cada um dos seus oper&aacute;rios diante do seu tear, se p&otilde;e<br \/>\n    a andar de um lado para o outro, observando se os fusos param ou se est&atilde;o<br \/>\n    a produzir qualquer ru&iacute;do anormal, rangente ou &aacute;spero de mais,<br \/>\n    e incansavelmente os ret&eacute;m ou lhes imprime o andamento necess&aacute;rio,<br \/>\n    assim Ana Pav1ovna ia e vinha pelo sal&atilde;o, se aproximava dos grupos<br \/>\n    que se calavam ou falavam de mais, e com uma palavra pronunciada a tempo obrigava<br \/>\n    a m&aacute;quina a comportar-se nos justos limites das conveni&ecirc;ncias<br \/>\n    mundanas. Mas todos estes m&uacute;ltiplos cuidados n&atilde;o a impediam<br \/>\n    de deixar perceber aos outros o receio especial que lhe causava o comportamento<br \/>\n    de Pedro. Ia-o seguindo atentamente com os olhos quando ele se aproximava<br \/>\n    para escutar o que se dizia ao p&eacute; de Mortemart e depois dirigia-se<br \/>\n    para o outro grupo onde pontificava o abade. Para Pedro, que tinha sido educado<br \/>\n    no estrangeiro, esta soir&eacute;e em casa de Ana Pavlovna era a primeira<br \/>\n    reuni&atilde;o mundana a que assistia na R&uacute;ssia. N&atilde;o ignorava<br \/>\n    que nestas salas estava reunida a fina flor da gente instru&iacute;da de Petersburgo<br \/>\n    e por isso abria muito os olhos, como uma crian&ccedil;a diante de uma loja<br \/>\n    de brinquedos. S&oacute; receava perder qualquer s&aacute;bia observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe fosse dado ouvir.<\/p>\n<p> Ao ver reunidas ali todas aquelas personagens de aspecto distinto e cheias<br \/>\n    de certezas, estava sempre &agrave; espera de qualquer coisa particularmente<br \/>\n    espiritual. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa tinha-lhe parecido<br \/>\n    interessante. Deteve-se, aguardando o momento de expor o seu ponto de vista,<br \/>\n    como costuma fazer a gente nova.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h4>\n<p>A soir&eacute;e de Ana Pavlovna atingia o auge. Os fusos esparsos pela sala<br \/>\n    roncavam sem atritos e constantemente. Se se abstra&iacute;sse de minha tia,<br \/>\n    junto da qual n&atilde;o estava sen&atilde;o uma senhora idosa, de rosto esqu&aacute;lido<br \/>\n    e como que consumido pelas l&aacute;grimas, algo deslocada no meio daquela<br \/>\n    brilhante sociedade, todos os demais convidados se haviam repartido em tr&ecirc;s<br \/>\n    grupos. Um deles, formado especialmente de homens, tinha por centro o abade;<br \/>\n    no outro, uma roda de gente nova, pontificava a princesa Bolkonskaia, toda<br \/>\n    rosada e de formas um tudo-nada amplas de mais, atendendo &agrave; sua juventude;<br \/>\n    o terceiro era dirigido por Mortemart e Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> O visconde era um jovem am&aacute;vel, de tra&ccedil;os finos e maneiras<br \/>\n    suaves, que a si mesmo, visivelmente, se considerava uma figura sensacional,<br \/>\n    embora, por mera boa educa&ccedil;&atilde;o, se oferecesse, modestamente,<br \/>\n    &agrave; curiosidade da sociedade em que se encontrava. Ana Pav1ovna, visivelmente<br \/>\n    tamb&eacute;m, dele tirava partido para regalo dos seus convidados. A semelhan&ccedil;a<br \/>\n    do chefe de mesa, que gosta de apresentar, como coisa superlativamente delicada,<br \/>\n    uma posta de carne em que ningu&eacute;m ousaria tocar numa cozinha s&oacute;rdida,<br \/>\n    assim, na sua reuni&atilde;o. Ana Pavlovna ia servindo aos seus convidados,<br \/>\n    primeiro o visconde, e em seguida o abade, como se se tratasse de iguarias<br \/>\n    superlativamente requintadas. No grupo de Mortemart tinha vindo &agrave; baila,<br \/>\n    imediatamente, o assass&iacute;nio do duque de Enghien. O visconde era de<br \/>\n    opini&atilde;o de que o duque fora v&iacute;tima da sua magnanimidade e que<br \/>\n    havia raz&otilde;es particulares para o ressentimento de Bonaparte.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, vejamos. Conte-nos isso, visconde &#8211; exclamou Ana Pavlovna, apercebendo-se<br \/>\n    com j&uacute;bilo de que esta simples frase: Conte-nos isso, visconde, tinha<br \/>\n    um sabor a Lu&iacute;s XV.<\/p>\n<p> O visconde inclinou-se em sinal de obedi&ecirc;ncia e sorriu com toda a<br \/>\n    cortesia. Ana Pavlovna fez que o grupo o rodeasse e convidou toda a gente<br \/>\n    a ouvir a sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8211; O visconde conheceu monsenhor pessoalmente &#8211; segredou ela ao ouvido de<br \/>\n    um dos convidados. &#8211; O visconde &eacute; um narrador perfeito &#8211; garantia a<br \/>\n    outro.- V&ecirc;-se logo nele o homem de sociedade &#8211; dizia a um terceiro.<br \/>\n    E o jovem foi apresentado &agrave; sociedade sob o seu &acirc;ngulo mais distinto<br \/>\n    e favor&aacute;vel, como um rosbife, num prato bem quente, todo guarnecido<br \/>\n    de salsa.<\/p>\n<p> O visconde preparou-se para dar princ&iacute;pio &agrave; sua narrativa<br \/>\n    e sorriu com finura.<\/p>\n<p> &#8211; Venha c&aacute;, querida Helena &#8211; disse Ana Pavlovna &agrave; bela princesa,<br \/>\n    que estava a dist&acirc;ncia, no centro do outro grupo.<\/p>\n<p> A princesa Helena sorriu: levantou-se, conservando nos l&aacute;bios esse<br \/>\n    sorriso imut&aacute;vel de mulher impecavelmente bela com que entrara no sal&atilde;o.<br \/>\n    No ligeiro ro&ccedil;agar do seu vestido de baile todo branco, guarnecido<br \/>\n    de hera e musgo, no esplendor das suas brancas esp&aacute;duas, no brilho<br \/>\n    da sua cabeleira e no cintilar dos seus brilhantes, avan&ccedil;ou por entre<br \/>\n    uma ala de cavalheiros, e, empertigada, sem fitar ningu&eacute;m em especial,<br \/>\n    embora sorrindo a todos, como se assim fosse dando a cada um o direito de<br \/>\n    admirar a beleza da sua cintura, dos seus ombros cheios, do seu decote muito<br \/>\n    pronunciado, conforme a moda da &eacute;poca, levando ap&oacute;s si, na sua<br \/>\n    esteira, todo o esplendor da reuni&atilde;o, aproximou-se de Ana Pavlovna.<br \/>\n    Helena era t&atilde;o bela que n&atilde;o tra&iacute;a a mais pequena sombra<br \/>\n    de coquetterie; pelo contr&aacute;rio, parecia ter vergonha da sua incontest&aacute;vel,<br \/>\n    da sua por de mais poderosa e por de mais triunfante beleza. Dir-se-ia ser<br \/>\n    seu desejo, sem o conseguir, amortecer-lhe o pr&oacute;prio esplendor.<\/p>\n<p> &#8211; Que bela mulher! &#8211; eis a frase que vinha aos l&aacute;bios de toda a gente<br \/>\n    quando ela passava. Como ao peso de uma estranha impress&atilde;o, o visconde<br \/>\n    curvou-se um pouco e baixou os olhos no Momento em que ela se instalava diante<br \/>\n    dele e o iluminava, a ele tamb&eacute;m, com o seu imut&aacute;vel sorriso.<\/p>\n<p> &#8211; Minha senhora, diante de um tal audit&oacute;rio, receio n&atilde;o ser<br \/>\n    capaz &#8211; disse ele, inclinando-se e sorrindo.<\/p>\n<p> A princesa apoiou num gu&eacute;ridon um dos seus bra&ccedil;os nus, bem<br \/>\n    modelados, sem pensar que seria &uacute;til responder. Esperava, sorridente.<br \/>\n    Enquanto durou a hist&oacute;ria manteve-se com o busto erecto, contemplando,<br \/>\n    uma vez por outra, o seu lindo bra&ccedil;o, cuja foi-ma perfeita se esmagava<br \/>\n    contra a mesa, ou o pr&oacute;prio colo, mais encantador ainda, sobre o qual<br \/>\n    ajeitava a gargantilha de diamantes; v&aacute;rias vezes procurou acertar<br \/>\n    as pregas do vestido, e, quando a narrativa produzia algum efeito, trocava<br \/>\n    um olhar com Ana Pavlovna, copiando, imediatamente, a express&atilde;o da<br \/>\n    dama de honor, para depois imobilizar, de novo, a m&aacute;scara no seu resplandecente<br \/>\n    sorriso. Como Helena, a princesinha tinha tamb&eacute;m abandonado a sua mesa<br \/>\n    de ch&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Espere, vou buscar o meu bordado &#8211; disse ela. &#8211; Ent&atilde;o, em que est&aacute;<br \/>\n    a pensar? &#8211; acrescentou, dirigindo-se ao pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito.<br \/>\n    &#8211; Traga-me o meu saquinho.<\/p>\n<p> A princesa, que sorria, e dirigia a palavra a todos, produziu um certo burburinho<br \/>\n    ao sentar-se, alegremente, enquanto ajeitava as pregas do vestido.<\/p>\n<p> &#8211; Agora, sim! &#8211; exclamou, e, pedindo que se principiasse, p&ocirc;s-se ela<br \/>\n    pr&oacute;pria a trabalhar.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito, que veio trazer-lhe o saquinho, acompanhou-a<br \/>\n    na sua mudan&ccedil;a de lugar, e, aproximando dela um fauteil, sentou-se<br \/>\n    a seu lado.<\/p>\n<p> O encantador Hip&oacute;lito impressionava pela sua extraordin&aacute;ria<br \/>\n    parecen&ccedil;a com a irm&atilde;, tanto mais que, apesar dessa semelhan&ccedil;a,<br \/>\n    era muit&iacute;ssimo feio. Os seus tra&ccedil;os pareciam-se, de facto, com<br \/>\n    os da irm&atilde;, mas nesta tudo resplandecia iluminado pelo seu eterno sorriso,<br \/>\n    jovem, satisfeito, pleno de vida, e 1)ela rara perfei&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    sua beleza cl&aacute;ssica; no irm&atilde;o, pelo contr&aacute;rio, o rosto<br \/>\n    era como que entenebrecido pela falta de intelig&ecirc;ncia e por uma constante<br \/>\n    express&atilde;o a um tempo suficiente e azeda. Quanto &agrave; figura, era<br \/>\n    de corpo magro e enfesado. Tinha os olhos, o nariz, a boca continuamente contra&iacute;dos<br \/>\n    numa careta indefinida e desagrad&aacute;vel; os bra&ccedil;os e as pernas<br \/>\n    tomavam-lhe sempre posi&ccedil;&otilde;es pouco naturais.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se trata de uma hist&oacute;ria de fantasmas? &#8211; murmurou ele,<br \/>\n    ao sentar-se ao lado da princesa, enquanto assestava o lorgnon, como se n&atilde;o<br \/>\n    pudesse dispensar esse acess&oacute;rio para abordar uma conversa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, meu caro! &#8211; exclamou o narrador, surpreendido, encolhendo<br \/>\n    os ombros.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; que detesto as hist&oacute;rias de fantasmas &#8211; tornou ele, num<br \/>\n    tom de que se depreendia que ele falava e s&oacute; depois de falar compreendia<br \/>\n    o que queria dizer.<\/p>\n<p> Tamanha era a seguran&ccedil;a que punha nas suas palavras que ningu&eacute;m<br \/>\n    poderia dizer se essas palavras eram muito sensatas ou muito est&uacute;pidas.<br \/>\n    Vestia um fraque verde-carregado, uns cal&ccedil;&otilde;es cor-de-rosa-p&aacute;lidos,<br \/>\n    meias de seda e escarpins.<\/p>\n<p> O visconde contava com muito agrado a hist&oacute;ria, ent&atilde;o muito<br \/>\n    divulgada, segundo a qual o duque de Enghien tinha ido secretamente a Paris<br \/>\n    encontrar-se com Mademoiselle Georges e a&iacute; se lhe deparara Bonaparte,<br \/>\n    que, por essa altura, tamb&eacute;m era &iacute;ntimo da famosa actriz. Na<br \/>\n    presen&ccedil;a do duque. Napole&atilde;o tinha tido, de s&uacute;bito, um<br \/>\n    pequeno desmaio, coisa que lhe acontecia frequentes vezes, e ficara &agrave;<br \/>\n    merc&ecirc; do duque, circunst&acirc;ncia de que este n&atilde;o quisera tirar<br \/>\n    partido. Bonaparte, mais tarde, vingara-se desta magnanimidade do duque mandando<br \/>\n    matar o advers&aacute;rio.<\/p>\n<p> A hist&oacute;ria era muito bonita e cheia de interesse, sobretudo naquele<br \/>\n    ponto em que os dois rivais se reconheciam de repente, e as senhoras pareceram<br \/>\n    muito emocionadas com isso.<\/p>\n<p> &#8211; Encantador &#8211; exclamou Ana Pavlovna, lan&ccedil;ando um olhar interrogativo<br \/>\n    &agrave; princesinha.<\/p>\n<p> &#8211; Encantador &#8211; murmurou a princesinha, espetando a agulha no bordado, como<br \/>\n    para mostrar que o interesse e o encanto da hist&oacute;ria a impediam de<br \/>\n    trabalhar.<\/p>\n<p> O visconde mostrou apreciar esta homenagem muda, e, sorrindo, grato, prosseguiu<br \/>\n    na sua narrativa; mas nesse momento Ana Pavlovna, que ainda n&atilde;o tinha<br \/>\n    deixado de observar o jovem que tanto a assustava, ao ver que ele punha calor<br \/>\n    demasiado na sua conversa com o abade, falando muito alto, deu-se pressa em<br \/>\n    comparecer no local amea&ccedil;ado. Efectivamente. Pedro tinha-se embrenhado<br \/>\n    com o abade numa conversa sobre o equil&iacute;brio pol&iacute;tico, e este,<br \/>\n    visivelmente interessado pelo ing&eacute;nuo entusiasmo do jovem, pusera-se<br \/>\n    a desenvolver perante ele as suas teorias favoritas. Ambos ouviam e respondiam<br \/>\n    com grande vivacidade e muito espontaneamente, e isso n&atilde;o agradava<br \/>\n    a Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; A solu&ccedil;&atilde;o &eacute; o equil&iacute;brio europeu e o direito<br \/>\n    dos povos &#8211; dizia o abade. &#8211; &Eacute; de toda a conveni&ecirc;ncia para um<br \/>\n    Estado poderoso como a R&uacute;ssia, reputado b&aacute;rbaro, colocar-se<br \/>\n    generosamente &agrave; frente de uma liga que tenha por objectivo o equil&iacute;brio<br \/>\n    da Europa, e &eacute; assim que a R&uacute;ssia salvar&aacute; o mundo! &#8211;<br \/>\n    E como &eacute; que se obter&aacute; esse equil&iacute;brio? &#8211; principiou<br \/>\n    Pedro.<\/p>\n<p> Mas neste momento Ana Pavlovna aproximou-se, e, fitando este com severidade,<br \/>\n    perguntou ao italiano como &eacute; que ele achava o clima do pa&iacute;s.<\/p>\n<p> O rosto do abade mudou repentinamente, tomando aquela express&atilde;o mortificada<br \/>\n    e doce que era a sua express&atilde;o habitual quando falava com senhoras.<\/p>\n<p> &#8211; T&atilde;o encantado ando com a gentileza de esp&iacute;rito e a distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da gente da sociedade, sobretudo do elemento feminino, em cujo meio tive a<br \/>\n    felicidade de ser recebido, que ainda n&atilde;o tive tempo de pensar no clima<br \/>\n    &#8211; respondeu ele.<\/p>\n<p> Sem abandonar o abade nem Pedro. Ana Pavlovna, para melhor os observar,<br \/>\n    arrastou-os consigo para o grupo em que estava.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h4>\n<p>Nessa altura um novo convidado penetrou no sal&atilde;o. Era o jovem pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute; Bolkonski, o marido da princesinha, um belo mo&ccedil;o, de pequena<br \/>\n    estatura e tra&ccedil;os acentuados e secos. Tudo nele, desde o olhar lasso<br \/>\n    e enfadado ao andar tranquilo e circunspecto, oferecia o mais violento contraste<br \/>\n    com a sua mulherzinha, a inquieta&ccedil;&atilde;o em pessoa. Conhecia t&atilde;o<br \/>\n    bem por dentro e por fora a gente da sociedade, que tanto o enfadava, que<br \/>\n    bastava v&ecirc;-la e ouvir-lhe o ru&iacute;do das vozes para a sentir insuport&aacute;vel.<br \/>\n    E entre todas as pessoas que mais o exasperavam contava-se, precisamente,<br \/>\n    a sua linda mulherzinha. Com um ricto que lhe alterou os tra&ccedil;os regulares,<br \/>\n    afastou-se dela assim que a viu. Depois, beijando a m&atilde;o de Ana Pavlovna<br \/>\n    e piscando os olhos, perpassou a vista pela assist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Alistou-se para ir para a guerra, meu pr&iacute;ncipe? &#8211; disse Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; O general Kutuzov &#8211; volveu Bolkonski, acentuando a &uacute;ltima s&iacute;laba<br \/>\n    zov, como os Franceses &#8211; teve a condescend&ecirc;ncia de me chamar para ajudante-de-campo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E Lisa, sua mulher? &#8211; Ir&aacute; para o campo.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o tem escr&uacute;pulos de nos privar da presen&ccedil;a da<br \/>\n    sua encantadora mulher? &#8211; Andr&eacute; &#8211; exclamou esta &uacute;ltima, dirigindo-se<br \/>\n    ao marido com a mesma coquetterie com que se dirigia aos estranhos -, que<br \/>\n    hist&oacute;ria &eacute; essa de Mademoiselle Georges e Bonaparte que o visconde<br \/>\n    acaba de nos contar? O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; franziu as sobrancelhas<br \/>\n    e desviou a cara. Pedro, que desde o momento em que Andr&eacute; entrara no<br \/>\n    sal&atilde;o n&atilde;o mais tinha deixado de o seguir com o seu olhar alegre<br \/>\n    e amistoso, aproximou-se dele e pegou-lhe no bra&ccedil;o. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute;, sem se voltar, teve uma visagem de descontentamento para com<br \/>\n    aquele que lhe pegava no bra&ccedil;o, mas, ao deparar-se-lhe o rosto sorridente<br \/>\n    de Pedro, um sorriso inesperado, am&aacute;vel e bom se lhe pintou tamb&eacute;m<br \/>\n    na figura.<\/p>\n<p> &#8211; Que vejo?! Tamb&eacute;m tu na alta-roda?! &#8211; exclamou.<\/p>\n<p> &#8211; Tinha a certeza de que o havia de encontrar aqui &#8211; retorquiu Pedro.- Queria<br \/>\n    pedir-lhe que me desse de cear &#8211; acrescentou em voz baixa, para n&atilde;o<br \/>\n    perturbar o visconde, que continuava a sua hist&oacute;ria &#8211; &Eacute; poss&iacute;vel?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, &eacute; imposs&iacute;vel &#8211; respondeu Andr&eacute;, rindo e<br \/>\n    fazendo compreender a Pedro, pela maneira como lhe apertou a m&atilde;o, que<br \/>\n    isso era coisa que nem se perguntava.<\/p>\n<p> Quis dizer mais, mas nessa altura o pr&iacute;ncipe Vassili e a filha levantaram-se,<br \/>\n    e os jovens abriram alas para os deixar passar.<\/p>\n<p> &#8211; Desculpe, meu caro visconde &#8211; disse em franc&ecirc;s o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, segurando-o amistosamente pela manga, para que ele se n&atilde;o<br \/>\n    levantasse. &#8211; Esta estopada da festa em casa do embaixador priva-me do prazer<br \/>\n    de o ouvir e obriga-me a interromp&ecirc;-lo. Lamento muito ter de abandonar<br \/>\n    a sua maravilhosa recep&ccedil;&atilde;o &#8211; disse ele, dirigindo-se a Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> Sua filha, a princesa Helena, soerguendo ligeiramente a cauda do vestido,<br \/>\n    passou entre uma ala de cadeiras e o sorriso ainda lhe iluminou mais o belo<br \/>\n    rosto. Pedro contemplou esta beldade, ao v&ecirc;-la passar diante de si,<br \/>\n    com olhos onde havia admira&ccedil;&atilde;o e quase receio.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; muito bela &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; &#8211; repetiu Pedro.<\/p>\n<p> Ao passar, o pr&iacute;ncipe Vassili pegou no bra&ccedil;o de Pedro, e voltando-se<br \/>\n    para Ana Pavlovna: &#8211; Domestique-me este urso &#8211; disse. &#8211; H&aacute; um m&ecirc;s<br \/>\n    que o tenho em minha casa e &eacute; a primeira vez que o vejo na sociedade.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; nada melhor para os rapazes que o conv&iacute;vio das<br \/>\n    mulheres inteligentes.<\/p>\n<p> Ana Pavlovna teve um sorriso e prometeu tomar conta de Pedro, o qual, como<br \/>\n    ela muito bem sabia, era aparentado com o pr&iacute;ncipe Vassili pelo lado<br \/>\n    paterno. A senhora idosa que estava a fazer companhia a minha tia levantou-se,<br \/>\n    apressadamente, e correu para falar com o pr&iacute;ncipe Vassili, que j&aacute;<br \/>\n    estava no vest&iacute;bulo. Perdera por completo o falso ar de interesse mundano<br \/>\n    que aparentara at&eacute; ent&atilde;o. O seu bondoso rosto macerado pelas<br \/>\n    l&aacute;grimas s&oacute; reflectia receio e inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Que me diz, pr&iacute;ncipe, do meu B&oacute;ris?! &#8211; exclamou ela, correndo<br \/>\n    atr&aacute;s dele. Pronunciava o nome B&oacute;ris acentuando particularmente<br \/>\n    o o. &#8211; J&aacute; n&atilde;o posso estar mais tempo em Petersburgo. Diga-me,<br \/>\n    que hei-de eu comunicar ao meu desventurado filho? Conquanto o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili estivesse a ouvi-la com desprazer e quase que impolidamente, dando<br \/>\n    a perceber, mesmo, uma certa impaci&ecirc;ncia, a senhora que o perseguia<br \/>\n    sorria-lhe com uma amabilidade enternecedora e, para o n&atilde;o deixar afastar-se<br \/>\n    dela, pegava-lhe, inclusivamente, num bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o lhe custava nada dizer uma palavrinha ao imperador, estou convencida<br \/>\n    de que ele seria logo transferido para a Guarda &#8211; prosseguiu ela.<\/p>\n<p> &#8211; Esteja certa de que farei tudo o que puder, princesa &#8211; respondeu o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili -, mas n&atilde;o me &eacute; f&aacute;cil dirigir-me assim ao imperador.<br \/>\n    Achava melhor que pedisse antes a Rumiantsov por interm&eacute;dio do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Galit&acirc;ne. Era bem melhor.<\/p>\n<p> A senhora idosa era a princesa Drubetzkaia, um dos mais ilustres nomes da<br \/>\n    aristocracia russa, mas, pobre, h&aacute; muito que n&atilde;o frequentava<br \/>\n    a sociedade e tinha perdido as suas antigas rela&ccedil;&otilde;es. Viera<br \/>\n    &agrave;quela reuni&atilde;o para tentar obter a transfer&ecirc;ncia do seu<br \/>\n    filho &uacute;nico para a Guarda. N&atilde;o se apresentara na recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Ana Pavlovna sen&atilde;o para falar ao pr&iacute;ncipe Vassili e n&atilde;o<br \/>\n    fora por outra raz&atilde;o que escutara a hist&oacute;ria do visconde. Mas<br \/>\n    as palavras do pr&iacute;ncipe Vassili tinham-na desolado; no belo rosto pintou-se-lhe,<br \/>\n    por instantes, uma esp&eacute;cie de irrita&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o<br \/>\n    por muito tempo. Logo se p&ocirc;s a sorrir, e apertando muito o bra&ccedil;o<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe: &#8211; Ou&ccedil;a, pr&iacute;ncipe &#8211; disse -, nunca<br \/>\n    lhe pedi coisa alguma, nunca mais lhe tornarei a pedir seja o que for, nunca<br \/>\n    lhe falei na amizade de meu pai por si. Mas agora pe&ccedil;o-lhe em nome<br \/>\n    de Deus que fa&ccedil;a isso por meu filho e ficar-lhe-ei reconhecida at&eacute;<br \/>\n    ao fim da vida &#8211; acrescentou, precipitadamente.- N&atilde;o se zangue e prometa-me<br \/>\n    interessar-se. J&aacute; pedi a Galitzine, e ele n&atilde;o me quis atender.<br \/>\n    Seja bom menino como antigamente &#8211; e procurava sorrir, embora as l&aacute;grimas<br \/>\n    lhe boiassem nos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Pai, vamos chegar tarde! &#8211; exclamou a princesa Helena, que esperava &agrave;<br \/>\n    porta, inclinando a bela cabe&ccedil;a sobre o ombro de est&aacute;tua antiga.<\/p>\n<p> A influ&ecirc;ncia de que se desfruta na sociedade &eacute; um capital que<br \/>\n    conv&eacute;m salvaguardar para que se n&atilde;o dissipe. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili sabia-o muit&iacute;ssimo bem, e, por isso, persuadido de que, se<br \/>\n    se pusesse a interceder por toda a gente, nada mais poderia pedir para si<br \/>\n    pr&oacute;prio, raramente lan&ccedil;ava m&atilde;o do cr&eacute;dito de que<br \/>\n    dispunha. No caso da princesa Drubetzkaia, no entanto, sobretudo depois do<br \/>\n    seu &uacute;ltimo apelo, viera-lhe ao esp&iacute;rito uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    remorso. Tinha ela evocado qualquer coisa de muito verdadeiro. Os primeiros<br \/>\n    passos na carreira devia-os ele, efectivamente, ao pai da princesa. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, pela forma como ela agia, verificava estar em presen&ccedil;a de uma<br \/>\n    dessas mulheres, ou, antes, de uma dessas m&atilde;es, que, quando se lhes<br \/>\n    mete qualquer coisa na cabe&ccedil;a, s&oacute; desistem desde que conseguem<br \/>\n    o que desejam, ou ent&atilde;o, no caso de uma negativa, s&atilde;o muito<br \/>\n    capazes de teimar, dia ap&oacute;s dia e a toda a hora, chegando inclusivamente<br \/>\n    a recorrer a cenas p&uacute;blicas. Foi esta &uacute;ltima considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o demoveu.<\/p>\n<p> &#8211; Querida Ana Mikailovna &#8211; disse ele, no seu tom familiar habitual e ao<br \/>\n    mesmo tempo desprendido -, &eacute;-me quase imposs&iacute;vel fazer o que<br \/>\n    me pede; mas, para lhe demonstrar quanto a estimo e como respeito a mem&oacute;ria<br \/>\n    do seu falecido pai, prometo-lhe que farei tudo quanto estiver na minha m&atilde;o.<br \/>\n    Dou-lhe a minha palavra de que o seu filho ser&aacute; transferido para a<br \/>\n    Guarda. Est&aacute; contente? &#8211; Meu querido amigo, meu benfeitor! N&atilde;o<br \/>\n    esperava outra coisa de si; eu bem sabia que era bom.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe fez men&ccedil;&atilde;o de partir.<\/p>\n<p> &#8211; Espere, mais duas palavras. Uma vez na Guarda&#8230; -hesitou.- Como est&aacute;<br \/>\n    em boas rela&ccedil;&otilde;es com Mikail Ilarionovitch Kutuzov, pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    que lhe fale de B&oacute;ris para ajudante-de-campo; ficarei assim mais tranquila<br \/>\n    e nada mais lhe pedirei&#8230;<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili teve um sorriso.<\/p>\n<p> &#8211; Nada lhe prometo. Mal imagina os pedidos que chovem sobre Kutuzov desde<br \/>\n    que foi nomeado general-chefe. Ele pr&oacute;prio me disse que todas as senhoras<br \/>\n    de Moscovo tinham armado um complot para lhe oferecer os filhos como ajudantes-de-campo.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, prometa-me. N&atilde;o o deixarei partir, meu querido amigo, meu<br \/>\n    benfeitor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pai &#8211; voltou a bela Helena, no mesmo tom -, vamos chegar tarde.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, at&eacute; &agrave; vista, adeus. Est&aacute; a ver? &#8211; Ent&atilde;o<br \/>\n    fala amanh&atilde; ao imperador? &#8211; Sem falta, mas no que diz respeito a Krituzov<br \/>\n    n&atilde;o prometo nada.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, prometa, prometa. Basile &#8211; exclamou Ana Mikailovna, perseguindo-o<br \/>\n    com um sorriso de mulher coquette, outrora natural nela, certamente, mas que<br \/>\n    ent&atilde;o estava longe de se harmonizar com a sua m&aacute;scara decr&eacute;pita.<\/p>\n<p> Evidentemente que tinha esquecido a idade e, pela for&ccedil;a do h&aacute;bito,<br \/>\n    pusera em campo todos os seus expedientes femininos. No entanto, mal o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili saiu, logo ela retomou o aspecto frio e constrangido que aparentava<br \/>\n    anteriormente. Voltou ao grupo em que o visconde continuava a contar as suas<br \/>\n    hist&oacute;rias e fingiu que escutava, aguardando a oportunidade de se eclipsar,<br \/>\n    pois o assunto que a levara ali estava resolvido.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h4>\n<p>&#8211; Mas que me diz dessa &uacute;ltima com&eacute;dia da sagra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Mil&atilde;o? &#8211; observou Ana Pavlovna.- E a nova com&eacute;dia dos povos<br \/>\n    de G&eacute;nova e Luca, que iam apresentar as suas homenagens ao senhor Bonaparte<br \/>\n    sentado no trono e recebendo as homenagens das na&ccedil;&otilde;es! Ador&aacute;veis!<br \/>\n    N&atilde;o, mas &eacute; de endoidecer! Dir-se-ia que o mundo inteiro perdeu<br \/>\n    a cabe&ccedil;a! O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; p&ocirc;s-se a sorrir olhando<br \/>\n    nos olhos Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; Deus quem ma d&aacute;, ai de quem lhe tocar &#8211; disse ele. Foram<br \/>\n    estas as palavras que Bonaparte proferiu na coroa&ccedil;&atilde;o. Dizem<br \/>\n    que estava muito belo quando pronunciou estas palavras &#8211; acrescentou, e repetiu<br \/>\n    a frase em italiano &#8211; Dio me l&#8217;ha data e guai a chi la tocca.<\/p>\n<p> &#8211; Espero, enfim &#8211; prosseguiu Ana Pavlovna &#8211; que esta seja a gota que far&aacute;<br \/>\n    transbordar o vaso. Os soberanos j&aacute; n&atilde;o podem mais com este<br \/>\n    homem, que a todos amea&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Os soberanos? N&atilde;o falo da R&uacute;ssia &#8211; observou o visconde com<br \/>\n    o seu ar cort&ecirc;s e desencantado, &#8211; Os soberanos, minha senhora! Que fizeram<br \/>\n    eles por Lu&iacute;s XVI, pela rainha, por Madame Elisabeth? Nada &#8211; continuou<br \/>\n    com anima&ccedil;&atilde;o. &#8211; E pode crer, est&atilde;o a receber o castigo<br \/>\n    pela trai&ccedil;&atilde;o &agrave; causa dos Bourbons. Os soberanos? Mandam<br \/>\n    embaixadores cumprimentar o usurpador.<\/p>\n<p> E, suspirando, retirou-se com uma express&atilde;o desdenhosa. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Hip&oacute;lito, depois de ter estado a fitar longamente o visconde com o<br \/>\n    seu lorgnon, ao ouvir estas palavras, desviou-se subitamente, voltando-se<br \/>\n    para a princesinha, e, pedindo-lhe urna das suas agulhas, p&ocirc;s-se a indicar-lhe,<br \/>\n    desenhando-as em cima da mesa, as armas dos Cond&eacute;s! E explicava-lhas<br \/>\n    com uma tal seriedade que dir-se-ia que ela lhe pedira um tal servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bast&atilde;o de goles, denteado de goles de blau, &eacute; a casa de<br \/>\n    Cond&eacute; &#8211; murmurou ele.<\/p>\n<p> A princesa ouvia-o, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8211; Se Bonaparte ficar ainda um ano no trono da Fran&ccedil;a &#8211; prosseguiu<br \/>\n    o visconde com ar de quem n&atilde;o ouve o que os outros dizem e est&aacute;<br \/>\n    apenas a seguir o fio das suas ideias a respeito de um assunto que conhece<br \/>\n    melhor do que ningu&eacute;m -, n&atilde;o sei onde iremos parar. Com tantas<br \/>\n    intrigas, tantas viol&ecirc;ncias, tantos ex&iacute;lios, tantos supl&iacute;cios,<br \/>\n    n&atilde;o tarda que a sociedade francesa, a alta sociedade, claro est&aacute;,<br \/>\n    se veja completamente aniquilada e para sempre, e ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Teve um movimento de ombros ao afastar os bra&ccedil;os. Pedro quis dar<br \/>\n    a sua opini&atilde;o, pois a conversa interessava-o, mas Ana Pavlovna que<br \/>\n    o vigiava de perto, interrompeu-o.<\/p>\n<p> &#8211; O imperador Alexandre &#8211; disse ela com aquele tom s&eacute;rio com que<br \/>\n    se referia sempre &agrave; fam&iacute;lia imperial- declarou que deixaria<br \/>\n    os pr&oacute;prios franceses escolherem a sua forma de governo. E estou convencida<br \/>\n    de que n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida de que toda a na&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma vez liberta do jugo do usurpador, se lan&ccedil;ar&aacute; nos bra&ccedil;os<br \/>\n    do seu soberano leg&iacute;timo &#8211; acrescentou ela, para se mostrar am&aacute;vel<br \/>\n    para com um emigrado e um realista.<\/p>\n<p> &#8211; Duvido &#8211; observou o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;.- O Senhor Visconde tem<br \/>\n    toda a raz&atilde;o ao pensar que as coisas j&aacute; foram longe de mais.<br \/>\n    Creio que ser&aacute; muito dif&iacute;cil voltar ao passado.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo que eu tenho ouvido dizer &#8211; interveio Pedro, corando -, quase toda<br \/>\n    a nobreza est&aacute; j&aacute; do lado de Bonaparte.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; o que dizem os bonapartistas &#8211; observou o visconde sem olhar<br \/>\n    para Pedro. &#8211; &Eacute; muito dif&iacute;cil, actualmente, conhecer a opini&atilde;o<br \/>\n    p&uacute;blica em Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Bonaparte disse-o &#8211; objectou o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, sorrindo.<br \/>\n    Via-se muito bem que o visconde lhe n&atilde;o agradava e que, sem olhar para<br \/>\n    ele, era ele que visava como seu advers&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; &laquo;Mostrei-lhes o caminho da gl&oacute;ria&raquo; &#8211; acrescentou ele,<br \/>\n    depois de uma ligeira pose, citando as pr&oacute;prias palavras de Napole&atilde;o:<br \/>\n    &laquo;eles n&atilde;o o quiseram; abri-lhes as minhas antec&acirc;maras,<br \/>\n    entraram por ali dentro aos montes&raquo;.., n&atilde;o sei at&eacute; que<br \/>\n    ponto teve o direito de o dizer.<\/p>\n<p> &#8211; Nenhum &#8211; replicou o visconde.- Depois do assassinato do duque, at&eacute;<br \/>\n    os seus mais fi&eacute;is partid&aacute;rios deixaram de ver nele um her&oacute;i.<br \/>\n    Se essa peste chegou a ser um her&oacute;i para certa gente &#8211; acrescentou,<br \/>\n    dirigindo-se a Ana Pavlovna -, depois do assassinato do duque h&aacute; mais<br \/>\n    um m&aacute;rtir no C&eacute;u, um her&oacute;i de menos na Terra.<\/p>\n<p> Mal tiveram tempo. Ana Pavlovna e os outros, de aprovar estas palavras com<br \/>\n    um sorriso, e j&aacute; Pedro se tinha lan&ccedil;ado, uma vez mais, no meio<br \/>\n    da conversa. Ana Pavlovna, conquanto pressentisse que ele ia dizer coisas<br \/>\n    fora de prop&oacute;sito, n&atilde;o foi capaz de o deter.<\/p>\n<p> &#8211; A execu&ccedil;&atilde;o do duque de Enghien &#8211; disse o Senhor Pedro- foi<br \/>\n    uma necessidade p&uacute;blica; e para mim o facto de Napole&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    ter receio de assumir a responsabilidade de um tal acto s&oacute; atesta precisamente<br \/>\n    a sua grandeza de alma.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Meu Deus! &#8211; murmurou Ana Pavlovna, aterrorizada.<\/p>\n<p> &#8211; Como. Senhor Pedro, acha que o assassinato &eacute; grandeza de alma?<br \/>\n    &#8211; disse a princesinha, sorrindo e debru&ccedil;ando-se sobre o seu bordado,<br \/>\n    &#8211; Ah! Oh! &#8211; exclamaram v&aacute;rias pessoas.<\/p>\n<p> &#8211; Capital! &#8211; disse em ingl&ecirc;s o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito, dando<br \/>\n    palmadas na coxa.<\/p>\n<p> O visconde contentou-se em encolher os ombros. Pedro olhou triunfantemente<br \/>\n    os seus interlocutores atrav&eacute;s das suas lunetas.<\/p>\n<p> &#8211; Eu falo assim &#8211; prosseguiu ele, pondo de lado todos os rodeios de linguagem-<br \/>\n    porque os Bourbons fugiram da Revolu&ccedil;&atilde;o abandonando o povo &agrave;<br \/>\n    anarquia; s&oacute; Napole&atilde;o soube compreender a Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e domin&aacute;-la. E a&iacute; est&aacute; porque, em nome do bem-estar de<br \/>\n    todos, ele n&atilde;o podia deter-se perante a vida de um homem.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quereria sentar-se aqui a esta mesa? &#8211; interrogou Ana Pavlovna.<br \/>\n    Mas Pedro, sem lhe responder, continuou: &#8211; Sim &#8211; disse ele, cada vez mais<br \/>\n    animado &#8211; Napole&atilde;o &eacute; grande porque soube elevar-se acima da<br \/>\n    Revolu&ccedil;&atilde;o, porque sufocou os abusos a que ela tinha levado,<br \/>\n    aproveitando o que nela havia de bom, isto &eacute;, a igualdade dos cidad&atilde;os<br \/>\n    e a liberdade do pensamento e da imprensa. E n&atilde;o foi por outro motivo<br \/>\n    que subiu ao Poder.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente &#8211; interrompeu o visconde -, se, tornando conta do Poder, ele<br \/>\n    o n&atilde;o tem aproveitado para cometer um crime, e confiasse o trono ao<br \/>\n    seu rei leg&iacute;timo, era justo chamar-lhe um grande homem.<\/p>\n<p> &#8211; Napole&atilde;o nunca podia ter agido dessa maneira. O povo confiara-lhe<br \/>\n    o Poder exactamente para que ele o livrasse dos Bourbons, e por isso mesmo<br \/>\n    &eacute; que o povo viu nele o estofo de um grande homem. A Revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi uma grande coisa &#8211; continuou o Senhor Pedro, demonstrando, com esta audaciosa<br \/>\n    e provocante afirma&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o s&oacute; a sua muita juventude,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m o seu desejo de dizer tudo de uma vez.<\/p>\n<p> &#8211; A Revolu&ccedil;&atilde;o e o regic&iacute;dio, grandes coisas?&#8230; Depois<br \/>\n    disso&#8230; Mas n&atilde;o seria melhor sentar-se aqui a esta mesa? &#8211; repetia<br \/>\n    Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; O Contrato Social &#8211; disse o visconde com um sorriso condescendente.<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o falo do regic&iacute;dio, falo de ideias.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, sim, as ideias de pilhagem, de assass&iacute;nio, de regic&iacute;dio<br \/>\n    &#8211; interrompeu ainda uma voz ir&oacute;nica.<\/p>\n<p> &#8211; Claro Que se praticaram excessos, mas n&atilde;o era isso que tinha import&acirc;ncia;<br \/>\n    o que importava eram os direitos do homem, a aboli&ccedil;&atilde;o dos privil&eacute;gios,<br \/>\n    a igualdade dos cidad&atilde;os. E estas ideias manteve-as Napole&atilde;o<br \/>\n    integralmente, &#8211; A liberdade e a igualdade &#8211; exclamou, desdenhosamente, o<br \/>\n    visconde, que parecia querer, finalmente, mostrar a s&eacute;rio &agrave;quele<br \/>\n    mancebo a tolice dos seus argumentos -, tudo isso s&atilde;o frases sonoras<br \/>\n    de h&aacute; muito sem sentido. Quem &eacute; que n&atilde;o gosta da liberdade<br \/>\n    e da igualdade? J&aacute; o Salvador pregava a liberdade e a igualdade. Foram<br \/>\n    os homens mais felizes depois da Revolu&ccedil;&atilde;o? Pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    n&oacute;s &eacute; que quer&iacute;amos a liberdade, e Napole&atilde;o foi<br \/>\n    quem acabou com ela.<\/p>\n<p> O Pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, sorrindo, ora fitava Pedro, ora o visconde,<br \/>\n    ora a dona da casa. No primeiro momento, quando Pedro pronunciou as primeiras<br \/>\n    palavras. Ana Pavlovna ficou como fulminada, n&atilde;o obstante todos os<br \/>\n    seus h&aacute;bitos de sociedade. Mas, ao verificar que, apesar dos sacr&iacute;legos<br \/>\n    argumentos de Pedro, o visconde n&atilde;o perdia as estribeiras, quando se<br \/>\n    convenceu de que n&atilde;o era poss&iacute;vel sufocar tais palavras, ganhou<br \/>\n    &acirc;nimo e, unindo as suas for&ccedil;as &agrave;s do visconde, caiu sobre<br \/>\n    o orador.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu caro Senhor Pedro &#8211; exclamou -, como &eacute; que o senhor<br \/>\n    explica que esse grande homem mandasse executar o duque, um simples cidad&atilde;o<br \/>\n    afinal, sem julgamento pr&eacute;vio e sem que ele fosse culpado? &#8211; E eu &#8211;<br \/>\n    acrescentou o visconde- atrever-me-ei a perguntar como &eacute; que o senhor<br \/>\n    explica o 18 de Brum&aacute;rio. N&atilde;o acha que foi um logro? &Eacute;<br \/>\n    um logro que n&atilde;o parece pr&oacute;prio da maneira de proceder de um<br \/>\n    grande homem.<\/p>\n<p> &#8211; E os deportados de &Aacute;frica chacinados &agrave; ordem dele? &Eacute;<br \/>\n    horr&iacute;vel! &#8211; exclamou a princesinha, fazendo um gesto de p&acirc;nico.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um plebeu, diga o senhor o que disser &#8211; corroborou o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Hip&oacute;lito.<\/p>\n<p> O Senhor Pedro n&atilde;o sabia a quem prestar aten&ccedil;&atilde;o; fitava-os<br \/>\n    a todos, sorrindo. O seu sorriso n&atilde;o era como o das demais pessoas,<br \/>\n    &agrave; mistura com qualquer coisa de s&eacute;rio. Ele, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    quando se lembrava de sorrir, perdia, de repente, toda a seriedade, e a m&aacute;scara,<br \/>\n    sempre um pouco enfadonha, transfigurava-se-lhe: ficava com o seu qu&ecirc;<br \/>\n    de infantil, de pobre diabo, um pouco est&uacute;pido at&eacute;, com o ar<br \/>\n    de quem quer pedir perd&atilde;o.<\/p>\n<p> O visconde, que o via pela primeira vez, compreendeu imediatamente que aquele<br \/>\n    jacobino n&atilde;o era t&atilde;o terr&iacute;vel nos actos como nas palavras.<br \/>\n    Todos se calaram.<\/p>\n<p> &#8211; Como querem que Pedro responda a toda a gente ao mesmo tempo? &#8211; interrogou<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;. &#8211; Al&eacute;m disso, nos actos de um homem<br \/>\n    de Estado &eacute; preciso saber distinguir os que ele pratica como simples<br \/>\n    particular dos que ele pratica como chefe do ex&eacute;rcito ou como imperador.<br \/>\n    Parece-me da mais elementar justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Claro, claro &#8211; interveio Pedro, satisfeito com a ajuda que recebia.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o o reconhecer &#8211; continuou o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute;. &#8211; Napole&atilde;o, o homem, &eacute; grande na ponte de Arcole,<br \/>\n    no hospital de Jafa, quando aperta a m&atilde;o aos pest&iacute;feros, mas..,<br \/>\n    mas h&aacute; outros actos seus dif&iacute;ceis de justificar.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, que manifestamente pretendera atenuar o<br \/>\n    embara&ccedil;o que tinham provocado as palavras de Pedro, ergueu-se para<br \/>\n    se retirar, e fez sinal &agrave; mulher.<\/p>\n<p> De s&uacute;bito, o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito, levantando-se, pediu<br \/>\n    a todos, com um gesto, que se conservassem sentados e principiou a dizer:<br \/>\n    &#8211; Contaram-me hoje uma anedota moscovita encantadora; t&ecirc;m de a ouvir.<br \/>\n    Queira perdoar-me, visconde, tenho de a contar em russo. De outra maneira,<br \/>\n    perde o sal.<\/p>\n<p> E o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito p&ocirc;s-se a falar russo como o falam<br \/>\n    os franceses chegados &agrave; R&uacute;ssia h&aacute; menos de um ano. Todos<br \/>\n    prestaram aten&ccedil;&atilde;o, t&atilde;o viva e instantemente o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    reclamara que lhe fizessem esse favor.<\/p>\n<p> &#8211; Em Moscovo h&aacute; uma senhora. E &eacute; muito avara. E precisava<br \/>\n    de arranjar dois lacaios para a sua carruagem. E de grande estatura. Era assim<br \/>\n    que ela gostava. E tinha uma criada de quarto tamb&eacute;m de grande estatura.<br \/>\n    E ent&atilde;o disse&#8230;<\/p>\n<p> Neste ponto, o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito teve um momento de reflex&atilde;o,<br \/>\n    mostrando certa dificuldade em combinar as frases.<\/p>\n<p> &#8211; E ent&atilde;o disse.., sim, disse: &laquo;Menina (para a criada de quarto)<br \/>\n    enfia a libr&eacute; e vem da&iacute; comigo fazer visitas.&raquo; Nesta altura<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito deu uma gargalhada, rindo antes de mais<br \/>\n    ningu&eacute;m, o que criou um pouco de embara&ccedil;o ao narrador. Entretanto,<br \/>\n    v&aacute;rias pessoas, entre as quais a senhora idosa e Ana Pavlovna, sorriram.<\/p>\n<p> &#8211; L&aacute; foram. De repente levantou-se um grande vendaval. A rapariga<br \/>\n    ficou sem o chap&eacute;u e a cabeleira desprendeu-se-lhe&#8230; Aqui n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de aguentar-se mais e um grande acesso de riso o tomou, ao mesmo tempo<br \/>\n    que dizia: &#8211; E toda a gente soube&#8230;<\/p>\n<p> E assim terminou a anedota, ainda que ningu&eacute;m pudesse compreender<br \/>\n    porque a tinha ele contado e a que prop&oacute;sito lhe parecera indispens&aacute;vel<br \/>\n    narr&aacute;-la em russo. Ana Pavlovna e os demais convivas apreciaram a cortesia<br \/>\n    mundana do pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito, que assim tinha posto ponto final<br \/>\n    ao penoso e pouco cort&ecirc;s desprop&oacute;sito do Senhor Pedro. A conversa<br \/>\n    dispersou-se em seguida por mi&uacute;dos e insignificantes dizeres a prop&oacute;sito<br \/>\n    de bailes em perspectiva ou j&aacute; passados, em alus&otilde;es a espect&aacute;culos<br \/>\n    ou ent&atilde;o em refer&ecirc;ncias a circunst&acirc;ncias ou a locais onde<br \/>\n    as pessoas poderiam vir a encontrar-se.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h4>\n<p>Depois de felicitarem Ana Pavlovna pela sua encantadora reuni&atilde;o, os<br \/>\n    convidados principiaram a retirar-se.<\/p>\n<p> Pedro era um desajeitado. Gordo, estatura acima de mediana, largo de ombros,<br \/>\n    com enormes m&atilde;os vermelhuscas, se n&atilde;o sabia estar numa sala,<br \/>\n    como se costuma dizer, muito menos sabia sair dela, quer dizer, muito menos<br \/>\n    sabia pronunciar, antes de partir, as palavras atenciosas da praxe. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, era distra&iacute;do. Quando se levantou, em vez de pegar no chap&eacute;u<br \/>\n    que lhe pertencia, pegou num tric&oacute;rnio empenachado de general e assim<br \/>\n    esteve, com ele na m&atilde;o, sacudindo o penacho, at&eacute; que o propriet&aacute;rio<br \/>\n    veio pedir-lhe que lho restitu&iacute;sse. &Eacute; certo que estas suas distrac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e o seu desconhecimento de usos e costumes da sociedade eram largamente compensados<br \/>\n    por um ar ing&eacute;nuo, simples e modesto. Ana Pavlovna virou-se para onde<br \/>\n    ele estava, e cheia de indulg&ecirc;ncia crist&atilde; perdoou-lhe a intempestiva<br \/>\n    sa&iacute;da, dizendo-lhe, enquanto meneava a cabe&ccedil;a: &#8211; Espero tornar<br \/>\n    a v&ecirc;-lo, mas tamb&eacute;m desejo que mude de ideias, meu caro Senhor<br \/>\n    Pedro.<\/p>\n<p> Pedro nada teve para responder a estas palavras, contentando-se em inclinar-se<br \/>\n    e em mostrar mais uma vez o seu sorriso, um sorriso em que se lia: &laquo;As<br \/>\n    minhas ideias s&atilde;o as minhas ideias, mas, no entanto, reparem como eu<br \/>\n    sou bom rapaz,&raquo; Ora era isso exactamente o que Ana Pavlovna e todos<br \/>\n    os demais estavam a dizer com os seus bot&otilde;es.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; saiu para o vest&iacute;bulo, e ao mesmo<br \/>\n    tempo que voltava as costas ao lacaio que lhe vestia o sobretudo ouvia, distraidamente,<br \/>\n    a fr&iacute;vola tagarelice da mulher com o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito,<br \/>\n    que tamb&eacute;m se preparava para abalar. O pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito,<br \/>\n    ao lado da linda princesinha gr&aacute;vida, fixava-a obstinadamente com o<br \/>\n    lorgnon.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute;-se embora. Annette, est&aacute; a apanhar frio &#8211; disse ela,<br \/>\n    despedindo-se de Ana Pavlovna. &#8211; Est&aacute; decidido &#8211; acrescentou em voz<br \/>\n    baixa.<\/p>\n<p> Ana Pavlovna j&aacute; tivera tempo de dizer duas palavras a Lisa sobre<br \/>\n    o projecto de casamento entre Anatole e a cunhada da princesinha.<\/p>\n<p> &#8211; Conto consigo, querida amiga &#8211; respondeu Ana Pavlovna igualmente em voz<br \/>\n    baixa -, escreva-lhe e diga-me depois como encarar&aacute; o pai o caso. At&eacute;<br \/>\n    &agrave; vista &#8211; e saiu do vest&iacute;bulo.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito aproximou-se da princesinha e, debru&ccedil;ando-se<br \/>\n    muito para ela, murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Dois lacaios, o da<br \/>\n    princesa e o do pr&iacute;ncipe, aguardando que os amos acabassem de falar,<br \/>\n    ali estavam, um com um xale, o outro com um sobretudo, e ouviam-nos falar<br \/>\n    franc&ecirc;s, l&iacute;ngua que desconheciam, mas dando-se ares de quem compreende<br \/>\n    e o n&atilde;o quer dar a perceber.<\/p>\n<p> A princesa, como de costume, sorria enquanto falava e escutava sorrindo,<br \/>\n    &#8211; Estou radiante por n&atilde;o ter ido &agrave; Embaixada &#8211; dizia o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Hip&oacute;lito. &#8211; Que estopada&#8230; Encantadora noite, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade? Um encanto.<\/p>\n<p> &#8211; Dizem que o baile vai ser uma beleza &#8211; retorquiu a princesa, desenhando-se-lhe<br \/>\n    um trejeito no l&aacute;bio sombreado pela ligeira penugem. &#8211; V&atilde;o l&aacute;<br \/>\n    aparecer todas as nossas beldades mundanas.<\/p>\n<p> &#8211; Nem todas, visto que a princesa l&aacute; n&atilde;o estar&aacute;; nem<br \/>\n    todas &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito com jovialidade, e, pegando<br \/>\n    no xale, que tirou das m&atilde;os do lacaio, a quem deu mesmo um encontr&atilde;o,<br \/>\n    lan&ccedil;ou-o sobre os ombros da princesa.<\/p>\n<p> Por falta de jeito ou de prop&oacute;sito, quem o poderia dizer?, quedou-se<br \/>\n    muito tempo sem baixar as m&atilde;os, embora o xale j&aacute; estivesse no<br \/>\n    seu lugar. Dir-se-ia enla&ccedil;ar a jovem princesa.<\/p>\n<p> Evitando-o graciosamente, e sem deixar de sorrir, a princesa voltou-se e<br \/>\n    olhou para o marido. O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, de olhos fechados, parecia<br \/>\n    fatigado e sonolento.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; pronta? &#8211; perguntou ele &agrave; mulher, envolvendo-a num<br \/>\n    olhar.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito enfiou apressadamente o sobretudo, que<br \/>\n    lhe descia at&eacute; aos tac&otilde;es, &agrave; &uacute;ltima moda, e, trope&ccedil;ando<br \/>\n    nas pregas do casac&atilde;o, deu-se pressa em seguir a princesa, escadaria<br \/>\n    abaixo, que subia para a carruagem, auxiliada pelo lacaio.<\/p>\n<p> &#8211; Princesa, at&eacute; &agrave; vista! &#8211; gritou ele, trope&ccedil;ando nas<br \/>\n    palavras como tinha trope&ccedil;ado nas dobras do sobretudo.<\/p>\n<p> A princesa, soerguendo o vestido, entrou na obscuridade da carruagem; o<br \/>\n    marido afivelava o sabre; o pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito, com o pretexto<br \/>\n    de ser &uacute;til, incomodava toda a gente.<\/p>\n<p> &#8211; Com licen&ccedil;a &#8211; disse em russo o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, num<br \/>\n    tom seco e pouco am&aacute;vel, dirigindo-se a Hip&oacute;lito, que lhe vedava<br \/>\n    a passagem.<\/p>\n<p> &#8211; Pedro, espero-te em casa &#8211; articulou a mesma voz com um ar af&aacute;vel<br \/>\n    e carinhoso.<\/p>\n<p> O postilh&atilde;o p&ocirc;s a equipagem em andamento, que arrancou com<br \/>\n    fragor. O pr&iacute;ncipe Hip&oacute;lito ficara na escadaria, rindo ainda,<br \/>\n    aos sac&otilde;es, enquanto esperava pelo visconde, a quem prometera reconduzir<br \/>\n    a casa.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, meu caro, a sua princesinha &eacute; um encanto, um encanto<br \/>\n    &#8211; dizia o visconde, ao sentar-se ao lado de Hip&oacute;lito.- Mas o que se<br \/>\n    chama um encanto. &#8211; E atirando um beijo com a ponta dos dedos: &#8211; E francesa<br \/>\n    at&eacute; &agrave; medula.<\/p>\n<p> Hip&oacute;lito riu estrepitosamente.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe que &eacute; terr&iacute;vel com o seu arzinho inocente &#8211; prosseguiu<br \/>\n    o visconde. &#8211; Lamento o pobre marido, esse oficialzito, que se d&aacute; ares<br \/>\n    de pr&iacute;ncipe reinante.<\/p>\n<p> Hip&oacute;lito continuava a rir a bom rir, e, mesmo rindo, foi dizendo:<br \/>\n    &#8211; E dizia o senhor que as damas russas n&atilde;o chegavam aos calcanhares<br \/>\n    das francesas. &Eacute; preciso &eacute; saber tratar com elas.<\/p>\n<p> Pedro, que chegara primeiro, como &iacute;ntimo da casa que era, entrou<br \/>\n    no gabinete do pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, e mal se sentou no div&atilde;<br \/>\n    tirou da estante o primeiro livro que lhe veio &agrave; m&atilde;o &#8211; calhou<br \/>\n    ser os Coment&aacute;rios, de C&eacute;sar -, pondo-se a ler, ao acaso, apoiado<br \/>\n    sobre os cotovelos.<\/p>\n<p> &#8211; Fizeste-la bonita em casa de Mademoiselle Scherer! &Eacute; certo e sabido<br \/>\n    que a pobre senhora vai cair doente &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;,<br \/>\n    ao entrar no gabinete, enquanto esfregava as m&atilde;os brancas.<\/p>\n<p> Pedro voltou-se com todo o peso do seu corpo, e de tal maneira que o div&atilde;<br \/>\n    rangeu debaixo dele. O seu rosto animado fixou-se no do seu companheiro e<br \/>\n    com um sorriso aberto fez-lhe um gesto amistoso.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente, o abade &eacute; uma pessoa muito interessante, mas n&atilde;o<br \/>\n    compreende as coisas como elas s&atilde;o&#8230; Na minha opini&atilde;o, a paz<br \/>\n    perp&eacute;tua &eacute; poss&iacute;vel, mas, como direi?&#8230;, n&atilde;o<br \/>\n    por meio do equil&iacute;brio pol&iacute;tico&#8230;<\/p>\n<p> Andr&eacute;, visivelmente, n&atilde;o apreciava estas discuss&otilde;es<br \/>\n    abstractas.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, n&atilde;o, meu caro, n&atilde;o podemos dizer em toda a parte o que<br \/>\n    pensamos. Ora conta-me l&aacute;, j&aacute; te resolveste, finalmente, a fazer<br \/>\n    qualquer coisa? Que queres tu ser, cavaleiro da Guarda ou diplomata? &#8211; perguntou<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, depois de alguns instantes de sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Pedro voltou a sentar-se no div&atilde;, encolhendo as pernas debaixo de<br \/>\n    si.<\/p>\n<p> &#8211; Veja l&aacute;, n&atilde;o sei, realmente. Nem uma nem outra dessas situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    se me d&aacute; com o feitio.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto, precisas de tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o. Teu pai est&aacute;<br \/>\n    &agrave; espera que te decidas.<\/p>\n<p> Pedro fora enviado para o estrangeiro, aos dez anos, na companhia de um<br \/>\n    padre, seu preceptor. E por l&atilde; ficara at&eacute; aos vinte. Quando<br \/>\n    voltou para Moscovo, o pai despediu o padre e disse ao jovem: &laquo;Agora<br \/>\n    vai at&eacute; Petersburgo, observa e escolhe. Estou de acordo desde j&aacute;<br \/>\n    com o que tu decidires. Aqui tens uma carta para o pr&iacute;ncipe Vassili<br \/>\n    e dinheiro. Vai-me dando not&iacute;cias, e conta comigo.&raquo; Havia j&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;s meses que Pedro procurava decidir-se por uma carreira e n&atilde;o<br \/>\n    chegava a conclus&atilde;o alguma. Era a tal escolha que o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute; aludia. Pedro passou a m&atilde;o pela testa.<\/p>\n<p> &#8211; Estou convencido de que o homem &eacute; ma&ccedil;&atilde;o &#8211; murmurou,<br \/>\n    pensando no abade que encontrara na recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Basta de frioleiras &#8211; voltou Andr&eacute;, interrompendo-o.- Falemos de<br \/>\n    coisas s&eacute;rias. Est&aacute;s decidido pela Guarda montada?&#8230; &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    mas vou dizer-lhe urna coisa que me veio a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Estamos actualmente em guerra com Napole&atilde;o. Se se tratasse, de uma<br \/>\n    guerra de liberta&ccedil;&atilde;o, ent&atilde;o, sim, compreendia, seria<br \/>\n    mesmo o primeiro a alistar-me. Mas ajudar a 1nglaterra e a &Aacute;ustria<br \/>\n    contra o maior homem que h&aacute; no mundo.., n&atilde;o est&aacute; certo.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; contentou-se, em encolher os ombros perante<br \/>\n    as infantis considera&ccedil;&otilde;es de Pedro. O seu ar queria dizer que<br \/>\n    nada tinha a replicar a uma tal patetice; e, com efeito, seria dif&iacute;cil<br \/>\n    responder de outra maneira a uma tal ingenuidade.<\/p>\n<p> &#8211; Se as pessoas fossem para a guerra s&oacute; por convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o haveria guerra &#8211; disse ele.<\/p>\n<p> &#8211; E era isso que convinha &#8211; respondeu Pedro.<\/p>\n<p> O Pr&iacute;ncipe Andr&eacute; sorriu.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; muito poss&iacute;vel, mas a&iacute; est&aacute; uma coisa que<br \/>\n    nunca acontecer&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; E ent&atilde;o por que diabo &eacute; que o Andr&eacute; vai para a guerra?<br \/>\n    perguntou Pedro, &#8211; Porqu&ecirc;? N&atilde;o sei. &Eacute; assim. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, eu vou&#8230; &#8211; Calou-se.- Eu vou porque esta vida que levo aqui, esta<br \/>\n    vida n&atilde;o me- conv&eacute;m.<\/p>\n<h4> <a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h4>\n<p>Na sala cont&iacute;gua ouviu-se o ruge-ruge de um vestido. Andr&eacute;<br \/>\n    teve um sobressalto, como se recuperasse os sentidos, e a sua m&aacute;scara<br \/>\n    tomou a express&atilde;o com que se exibira nos sal&otilde;es de Ana Pavlovna.<br \/>\n    Pedro tirou os p&eacute;s de cima do div&atilde;. A princesa entrou. Tinha<br \/>\n    outro vestido, um vestido &iacute;ntimo, mas nem por isso menos fresco e elegante.<br \/>\n    O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; levantou-se e ofereceu-lhe, cortesmente, uma<br \/>\n    cadeira, &#8211; Uma coisa eu nunca deixo de perguntar a mim mesma &#8211; disse ela,<br \/>\n    como sempre, em franc&ecirc;s, sentando-se com prontid&atilde;o &#8211; porque &eacute;<br \/>\n    que a Annette se n&atilde;o teria casado? Que tolos voc&ecirc;s foram, senhores,<br \/>\n    n&atilde;o casando com ela! Desculpem, mas voc&ecirc;s n&atilde;o percebem<br \/>\n    nado de saias. Muito gosta de discutir. Senhor Pedro&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Precisamente, n&atilde;o fa&ccedil;o outra coisa sen&atilde;o discutir<br \/>\n    com o seu marido. N&atilde;o compreendo porque &eacute; que ele quer ir para<br \/>\n    a guerra &#8211; disse Pedro, dirigindo-se &agrave; princesa sem o mais pequeno<br \/>\n    acanhamento, coisa, ali&aacute;s, perfeitamente natural, tratando-se de um<br \/>\n    rapaz e de uma senhora jovem.<\/p>\n<p> A princesa estremeceu. Evidentemente que as palavras de Pedro a tinham atingido<br \/>\n    no ponto sens&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o que eu lhe estou sempre a dizer! &#8211; redarguiu ela. N&atilde;o<br \/>\n    compreendo, decididamente n&atilde;o compreendo como &eacute; que os homens<br \/>\n    n&atilde;o podem passar sem a guerra! E que n&oacute;s, mulheres, n&atilde;o<br \/>\n    possamos fazer nada, n&atilde;o tenhamos voz nesse cap&iacute;tulo! Ora, ou&ccedil;a,<br \/>\n    fa&ccedil;a de conta que &eacute; um juiz. Passo a vida a dizer-lhe a mesma<br \/>\n    coisa. O Andr&eacute; &eacute; ajudante-de-campo do tio, tem aqui uma brilhante<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o. Toda a gente o conhece, toda a gente o aprecia. No<br \/>\n    outro dia, em casa dos Apraxine, ouvi uma senhora perguntar: &laquo;Este &eacute;<br \/>\n    que &eacute; o famoso pr&iacute;ncipe Andr&eacute;? Palavra!&raquo; &#8211; Ele<br \/>\n    p&ocirc;s-se a rir. &#8211; &Eacute; assim que o recebem em toda a parte. Tinha<br \/>\n    toda a facilidade em vir a ser ajudante-de-campo do imperador. Sabe que o<br \/>\n    imperador lhe dirigiu graciosamente a palavra? A Annette e eu estamos convencidas<br \/>\n    de que era t&atilde;o f&aacute;cil! Que acha? Pedro olhou para o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute;, e, vendo que a conversa n&atilde;o agradava ao amigo, nada respondeu.<\/p>\n<p> &#8211; Quando parte? &#8211; interrogou ele.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! N&atilde;o me fale dessa partida, n&atilde;o me fale. N&atilde;o quero<br \/>\n    ouvir falar nisso! &#8211; exclamou a princesa nesse mesmo tom de coquetterie satisfeita<br \/>\n    de si que ela mostrara quando, no sal&atilde;o de Ana Pavlovna, conversava<br \/>\n    com Hip&oacute;lito, mas que naquele ambiente de intimidade familiar em que<br \/>\n    Pedro era recebido n&atilde;o ca&iacute;a nada bem. &#8211; Actualmente, quando<br \/>\n    me lembro de que temos de interromper todas as nossas queridas rela&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    E, al&eacute;m disso, n&atilde;o sei, sabes. Andr&eacute;? &#8211; Teve para o marido<br \/>\n    um ligeiro piscar de olhos. &#8211; Tenho medo, tenho medo! &#8211; acrescentou muito<br \/>\n    baixo, estremecendo.<\/p>\n<p> O marido olhou para ela com o ar surpreendido que teria se estivesse mais<br \/>\n    algu&eacute;m presente que n&atilde;o fosse Pedro e ele pr&oacute;prio. Andr&eacute;.<br \/>\n    Depois, com uma fria polidez, disse: &#8211; Que receias. Lisa? N&atilde;o compreendo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ora aqui est&aacute; o ego&iacute;smo dos homens! N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    um que se salve: s&atilde;o todos, todos ego&iacute;stas, para satisfazerem<br \/>\n    os seus caprichos! S&oacute; Deus sabe porque &eacute; que ele me vai deixar<br \/>\n    enclausurada no campo.<\/p>\n<p> &#8211; Com meu pai e minha irm&atilde;, n&atilde;o te esque&ccedil;as &#8211; articulou,<br \/>\n    tranquilamente, o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Nem por isso estarei menos s&oacute;, sem as minhas amigas&#8230; E ainda<br \/>\n    ele quer que eu n&atilde;o tenha medo.<\/p>\n<p> Tinha adoptado um tom de amuo e fazia um trejeito que lhe dava um ar j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o alegre, mas quase animal, um ar de um pequenino esquilo. Calou-se,<br \/>\n    pensando n&atilde;o ser conveniente falar diante de Pedro do seu estado, no<br \/>\n    fundo a causa de tudo.<\/p>\n<p> &#8211; Continuo a n&atilde;o compreender de que &eacute; que tens medo &#8211; disse,<br \/>\n    lentamente, o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, sem deixar de a fitar.<\/p>\n<p> A princesa corou e fez um gesto impetuoso.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Andr&eacute;, eu acho &eacute; que mudou tanto, tanto&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O teu m&eacute;dico aconselhou-te a que te deitasses cedo &#8211; disse o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute;. &#8211; Era melhor que te retirasses.<\/p>\n<p> A princesa nada disse, mas, de s&uacute;bito, o seu l&aacute;bio, sombreado<br \/>\n    por uma penugem ligeira, p&ocirc;s-se a tremer; Andr&eacute; levantou-se,<br \/>\n    encolhendo os ombros, e come&ccedil;ou a andar de um lado para o outro.<\/p>\n<p> Pedro, com um ar espantado e ing&eacute;nuo, olhava por detr&aacute;s das<br \/>\n    lunetas ora um ora outro, e agitava-se, como se ele tamb&eacute;m quisesse<br \/>\n    levantar-se, mas continuava indeciso.<\/p>\n<p> &#8211; Quero l&aacute; saber que esteja aqui o Senhor Pedro &#8211; disse, abruptamente,<br \/>\n    a princesinha, e pelo seu delicado rosto perpassou, de s&uacute;bito, um ricto<br \/>\n    como de quem vai chorar.- H&aacute; muito tempo que eu te queria dizer. Andr&eacute;.<br \/>\n    Porque &eacute; que mudaste tanto para comigo? Que te fiz eu? Vais para a<br \/>\n    guerra e n&atilde;o tens pena de mim. Porqu&ecirc;? &#8211; Lisa! &#8211; foi tudo quanto<br \/>\n    disse Andr&eacute;.<\/p>\n<p> Mas nesta palavra havia ao mesmo tempo uma s&uacute;plica e uma amea&ccedil;a,<br \/>\n    e sobretudo qualquer coisa em que se lia que ela havia de arrepender-se de<br \/>\n    ter proferido aquelas palavras. Precipitadamente, ela continuou: &#8211; Tratas-me<br \/>\n    como uma doente ou como uma crian&ccedil;a. Eu bem vejo. Achas que eras assim<br \/>\n    h&aacute; seis meses? &#8211; Lisa, pe&ccedil;o-te que te cales &#8211; disse Andr&eacute;<br \/>\n    numa voz cortante.<\/p>\n<p> Pedro, cada vez mais perturbado com aquela troca de palavras, levantou-se<br \/>\n    e aproximou-se da princesa. Dir-se-ia n&atilde;o poder suportar a vista das<br \/>\n    l&aacute;grimas e ele pr&oacute;prio estava quase a chorar.<\/p>\n<p> &#8211; Sossegue, princesa. &Eacute; o que lhe parece; porque eu pr&oacute;prio<br \/>\n    tive a mesma impress&atilde;o.., porque&#8230; &eacute; que&#8230; Ah!, desculpe-me,<br \/>\n    sinto que estou aqui a mais&#8230; Ah!, sossegue&#8230; Adeus&#8230;<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; segurou-o por um bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Um momento. Pedro. A princesa &eacute; t&atilde;o boa que n&atilde;o querer&aacute;<br \/>\n    privar-me do prazer de passar a noite contigo.<\/p>\n<p> &#8211; V&ecirc;, v&ecirc;, n&atilde;o pensas sen&atilde;o nele! &#8211; exclamou a<br \/>\n    princesa, sem poder reter as l&aacute;grimas, onde havia revolta.<\/p>\n<p> &#8211; Lisa &#8211; disse o pr&iacute;ncipe secamente, erguendo o tom da voz a uma<br \/>\n    altura tal que significava ter perdido por completo a paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Subitamente, o arzinho de esquilo furioso que se pintara no rosto da princesa<br \/>\n    converteu-se num medo impressionante, digno de piedade. Lan&ccedil;ou, furtivamente,<br \/>\n    com os seus belos olhos um r&aacute;pido olhar ao marido e teve essa express&atilde;o<br \/>\n    t&iacute;mida e submissa de um c&atilde;o batido que foge com a cauda entre<br \/>\n    as pernas.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus, meu Deus! &#8211; murmurou, pegando na cauda do vestido, e, aproximando-se<br \/>\n    do marido, beijou-o na testa.<\/p>\n<p> &#8211; Boa noite. Lisa &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; erguendo-se e beijando-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o com cortesia, como se fosse uma estranha.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"> Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h4>\n<p>Os dois amigos ficaram silenciosos. Nem um nem outro ousavam falar. Pedro<br \/>\n    tinha os olhos pousados no pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, que passava a fina<br \/>\n    m&atilde;o pela testa.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos cear &#8211; disse ele, suspirando. Levantou-se e dirigiu-se para a porta.<\/p>\n<p> Entraram na sala de jantar, elegant&iacute;ssima, rec&eacute;m-arranjada<br \/>\n    e ricamente posta. Tudo, desde os guardanapos &agrave;s pratas, &agrave; baixela<br \/>\n    e aos cristais, tinha esse aspecto novo caracter&iacute;stico das casas dos<br \/>\n    rec&eacute;m-casados. No meio do repasto o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; apertou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, e, como algu&eacute;m muito preocupado<br \/>\n    que finalmente resolve abrir-se, principiou a dizer, com um nervosismo que<br \/>\n    Pedro lhe n&atilde;o conhecia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, te cases nunca, nunca, meu amigo; &eacute; o conselho que<br \/>\n    te dou. N&atilde;o te cases antes de estares convencido de que fizeste tudo<br \/>\n    de que eras capaz, antes de teres deixado de amar a mulher que escolheste,<br \/>\n    antes de a teres visto bem; sem isso, enganar-te-&aacute;s cruelmente e sem<br \/>\n    remiss&atilde;o. Casa-te quando fores velho e j&aacute; n&atilde;o prestares<br \/>\n    para coisa alguma&#8230; Se o n&atilde;o fizeres, perder-se-&aacute; tudo quanto<br \/>\n    houver em ti de bom e de grande. Tudo ir&aacute; por &aacute;gua abaixo. Sim,<br \/>\n    sim, sim! N&atilde;o me olhes com essa cara de espanto. Se est&aacute;s convencido<br \/>\n    de que ser&aacute;s capaz de fazer alguma coisa no futuro, verificar&aacute;s<br \/>\n    que tudo acabou para ti, que tudo te est&aacute; vedado, salvo o sal&atilde;o<br \/>\n    onde vir&aacute;s a encontrar-te ao n&iacute;vel de qualquer lacaio ou de<br \/>\n    qualquer imbecil&#8230; E aqui tens! Teve um gesto en&eacute;rgico.<\/p>\n<p> Pedro tirou as lunetas, ficando com outra cara, ainda mais bondosa, e fitou<br \/>\n    o amigo com espanto.<\/p>\n<p> &#8211; A minha mulher &#8211; continuou o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;- &eacute; uma<br \/>\n    excelente senhora. &Eacute; uma dessas raras pessoas que n&atilde;o fazem<br \/>\n    perigar a nossa honra. Mas. Deus meu, o que daria eu para me n&atilde;o ter<br \/>\n    casado! &Eacute;s tu a primeira e a &uacute;nica pessoa a quem o digo, porque<br \/>\n    sou teu amigo.<\/p>\n<p> Enquanto falava, o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; cada vez se parecia menos<br \/>\n    com esse Bolkonski enterrado numa cadeira em casa de Ana Pavlovna deixando<br \/>\n    passar por entre dentes, de olhos piscos, frases francesas. Todos os m&uacute;sculos<br \/>\n    da sua seca m&aacute;scara estavam agitados por movimentos nervosos; os seus<br \/>\n    olhos, em que o fogo da vida, at&eacute; ent&atilde;o, parecia extinto, brilhavam<br \/>\n    agora com um fulgor luminoso e claro. Dir-se-ia que quanto menos vida nele<br \/>\n    havia habitualmente mais en&eacute;rgico parecia nestes instantes de uma excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase anormal.<\/p>\n<p> &#8211; Tu n&atilde;o compreendes porque eu falo assim. No entanto est&aacute;s<br \/>\n    diante da hist&oacute;ria de toda uma exist&ecirc;ncia. Tu dizes Bonaparte<br \/>\n    e a sua carreira &#8211; continuou ele, embora Pedro nada tivesse dito acerca de<br \/>\n    Bonaparte. &#8211; Dizes: Bonaparte. Mas Bonaparte, quando trabalhava, quando caminhava,<br \/>\n    passo a passo, para o seu fim era livre, n&atilde;o tinha mais nada em vista<br \/>\n    sen&atilde;o esse objectivo, e atingiu-o. Por&eacute;m, se tu te ligares a<br \/>\n    uma mulher, como um for&ccedil;ado com uma braga aos p&eacute;s, perder&aacute;s<br \/>\n    toda a liberdade. E tudo quanto em ti possa haver de esperan&ccedil;a e de<br \/>\n    energia tornar-se-&aacute; um peso morto, que te oprimir&aacute; de desgosto.<br \/>\n    Os sal&otilde;es, a m&aacute;-l&iacute;ngua, os bailes, a vaidade, as futilidades,<br \/>\n    eis da&iacute; por diante o c&iacute;rculo vicioso de que &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    uma pessoa evadir-se. Vou partir para a guerra, para a maior das guerras,<br \/>\n    e n&atilde;o sei nada, e n&atilde;o presto para nada. Sou muito am&aacute;vel<br \/>\n    e muito c&aacute;ustico e as pessoas ouvem-me quando eu falo em casa de Ana<br \/>\n    Pavlovna. E a&iacute; tens essa est&uacute;pida sociedade mundana sem a qual<br \/>\n    n&atilde;o podem passar nem a minha mulher nem essas mulheres&#8230; Se tu ao<br \/>\n    menos pudesses fazer uma ideia do que s&atilde;o todas as mulheres distintas<br \/>\n    e todas as mulheres em geral. Meu pai tem raz&atilde;o. O ego&iacute;smo,<br \/>\n    a vaidade, a tolice, a nulidade em tudo, a&iacute; tens a mulher quando se<br \/>\n    mostra tal qual &eacute;. Quando a gente a v&ecirc; na sociedade, julga que<br \/>\n    vale alguma coisa, e n&atilde;o vale nada, nada, nada! &Eacute; o que te digo:<br \/>\n    n&atilde;o te cases, meu caro, n&atilde;o te cases &#8211; concluiu.<\/p>\n<p> &#8211; Que vontade de rir que isto me d&aacute; &#8211; disse Pedro. &#8211; Pois &eacute;<br \/>\n    o Andr&eacute;, o Andr&eacute;, precisamente, que se considera a si pr&oacute;prio<br \/>\n    um incapaz, que considera falhada a sua vida? O Andr&eacute; que tem o futuro<br \/>\n    diante de si, todo um futuro? O Andr&eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &laquo;De que n&atilde;o ser&aacute; capaz?&raquo;, pensou, mas o tom da<br \/>\n    sua voz denunciava claramente a alta estima em que ele tinha o amigo e o que<br \/>\n    esperava dele para mais tarde.<\/p>\n<p> &laquo;Como pode ele falar assim!&raquo;, dizia Pedro de si para consigo.<\/p>\n<p> E efectivamente Pedro via no pr&iacute;ncipe Andr&eacute; como que um modelo<br \/>\n    de todas as perfei&ccedil;&otilde;es, precisamente porque ele era dotado no<br \/>\n    mais alto grau das qualidades que ele pr&oacute;prio n&atilde;o tinha, essas<br \/>\n    qualidades que mais do que quaisquer outras exigem for&ccedil;a de vontade.<br \/>\n    Sempre lhe causara admira&ccedil;&atilde;o a serenidade que o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute; sabia manter nas rela&ccedil;&otilde;es com as pessoas mais diversas<br \/>\n    e a sua mem&oacute;ria extraordin&aacute;ria, as suas vastas leituras &#8211; tinha<br \/>\n    lido tudo, sabia tudo, compreendia tudo &#8211; e sobretudo a sua capacidade de<br \/>\n    trabalho e de assimila&ccedil;&atilde;o. E, se &eacute; verdade que frequentes<br \/>\n    vezes o impressionava, a ele. Pedro, a pouca tend&ecirc;ncia que o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute; manifestava pela reflex&atilde;o e pela filosofia, coisas para<br \/>\n    que Pedro sentia mais inclina&ccedil;&atilde;o, estava longe de pensar que<br \/>\n    isso constitu&iacute;sse um defeito; pensava at&eacute; que representava uma<br \/>\n    for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Nas melhores rela&ccedil;&otilde;es, nas mais amistosas e mais simples rela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a adula&ccedil;&atilde;o ou os louvores s&atilde;o coisas indispens&aacute;veis,<br \/>\n    tal qual como o azeite &eacute; indispens&aacute;vel nas rodas dos carros.<\/p>\n<p> &#8211; Sou um homem liquidado &#8211; murmurou o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;. Para<br \/>\n    que havemos n&oacute;s de perder tempo a falar de mim? Falemos antes de ti<br \/>\n    &#8211; acrescentou depois de um curto sil&ecirc;ncio e sor- rindo, como se regressasse,<br \/>\n    finalmente, a um assunto mais consolador.<\/p>\n<p> Nessa altura um sorriso apareceu nos l&aacute;bios de Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; E para que havemos n&oacute;s de falar de mim? &#8211; disse abandonando-se<br \/>\n    a uma despreocupada alegria.- Que sou eu, no fim de contas? Sou um bastardo!<br \/>\n    &#8211; E, subitamente, corou at&eacute; &agrave;s orelhas. Via-se bem que fizera<br \/>\n    um grande esfor&ccedil;o para pronunciar estas palavras.- Sem nome, sem fortuna&#8230;<br \/>\n    E, de resto, para falar francamente&#8230; &#8211; Quereria ter dito tanto melhor, mas<br \/>\n    n&atilde;o concluiu a frase. &#8211; Enquanto espero, sou livre, estou satisfeito<br \/>\n    com a minha sorte. Mas o certo &eacute; que n&atilde;o sei o que hei-de fazer.<br \/>\n    Seriamente, queria pedir-lhe que me aconselhasse.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; olhou-o com bondade, mas, apesar disso, no<br \/>\n    seu olhar am&aacute;vel e amistoso sentia-se-lhe a superioridade.<\/p>\n<p> &#8211; Gosto de ti, sobretudo porque &eacute;s tu, entre toda a gente das nossas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es, o &uacute;nico ser vivo. Dizes que est&aacute;s satisfeito.<br \/>\n    Escolhe o que quiseres, &eacute; indiferente. Em toda a parte ser&aacute;s<br \/>\n    feliz. S&oacute; te pe&ccedil;o uma coisa: deixa de conviver com esses Kuraguine,<br \/>\n    deixa a vida que levas. Isso n&atilde;o te conv&eacute;m: toda essa devassid&atilde;o,<br \/>\n    esse conv&iacute;vio com h&uacute;ssares, tudo que&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que quer, meu caro? &#8211; disse Pedro encolhendo os ombros. &#8211; As mulheres,<br \/>\n    meu caro, as mulheres! &#8211; N&atilde;o compreendo &#8211; retorquiu Andr&eacute;. &#8211;<br \/>\n    As verdadeiras senhoras, sim, essas s&atilde;o outra coisa, mas as mulheres<br \/>\n    de Kuraguine, as mulheres e o vinho, confesso-te que n&atilde;o compreendo!<br \/>\n    Pedro vivia em casa do pr&iacute;ncipe Vassili Kuraguine e acompanhava nas<br \/>\n    suas orgias o filho deste. Anatole, esse mesmo Anatole que queriam casar,<br \/>\n    para o corrigir, com a irm&atilde; do pr&iacute;ncipe Andr&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Quer saber? &#8211; disse Pedro, como se acabasse de ter uma feliz ideia. &#8211;<br \/>\n    Seriamente, h&aacute; muito tempo que penso nisto. Com a vida que levo, nem<br \/>\n    posso decidir-me por coisa alguma, nem reflectir seja sobre o que for. S&oacute;<br \/>\n    dores de cabe&ccedil;a e o nosso dinheiro perdido. O Anatole convidou-me para<br \/>\n    esta noite, mas n&atilde;o vou.<\/p>\n<p> &#8211; D&aacute;s-me a tua palavra de honra? &#8211; Palavra de honra! <\/p>\n<h4><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h4>\n<p>Eram quase duas horas da madrugada quando Pedro saiu de casa do amigo. Era<br \/>\n    uma noite de Junho, uma noite t&iacute;pica de Petersburgo, sem obscuridade.<br \/>\n    Meteu-se numa carruagem de aluguer, decidido a voltar para casa. Mas &agrave;<br \/>\n    medida que se aproximava, ia sentindo que lhe n&atilde;o era poss&iacute;vel<br \/>\n    dormir numa noite daquelas, que mais parecia um crep&uacute;sculo ou uma aurora.<br \/>\n    A vista perdia-se ao longe pelas ruas desertas. No caminho. Pedro lembrou-se<br \/>\n    de que em casa de Anatole Kuraguine deviam estar reunidos os convivas habituais,<br \/>\n    os jogadores, que depois do jogo se entregavam, normalmente, ao prazer da<br \/>\n    bebida, um dos seus divertimentos favoritos.<\/p>\n<p> &laquo;Se eu fosse a casa de Kuraguine?&raquo;, disse ele para consigo mesmo.<\/p>\n<p> De s&uacute;bito, por&eacute;m, lembrou-se de que tinha dado a palavra de<br \/>\n    honra a Andr&eacute;. Mas, de repente tamb&eacute;m, coisa natural nas pessoas<br \/>\n    que &eacute; de uso considerar-se sem car&aacute;cter, sentiu um t&atilde;o<br \/>\n    intenso desejo de voltar uma vez ainda a gozar aquela louca vida, que ele<br \/>\n    t&atilde;o bem conhecia, que se decidiu. E ent&atilde;o veio-lhe &agrave;<br \/>\n    mente que o compromisso tomado n&atilde;o valia nada, visto que antes de o<br \/>\n    ter assumido para com o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; tinha prometido ao Anatole<br \/>\n    que iria a casa dele; e depois, em conclus&atilde;o, dizia de si para consigo:<br \/>\n    &laquo;Todas estas palavras de honra s&atilde;o coisas convencionais, sem<br \/>\n    qualquer fundamento s&eacute;rio, sobretudo quando uma pessoa pensa que amanh&atilde;<br \/>\n    pode estar morta ou em circunst&acirc;ncias tais que as palavras de honra<br \/>\n    e desonra n&atilde;o tenham o mais pequeno significado.&raquo; Pedro costumava<br \/>\n    fazer muitas vezes racioc&iacute;nios deste gosto, que tornavam nulos todos<br \/>\n    os seus projectos e todas as suas resolu&ccedil;&otilde;es. E dirigiu-se para<br \/>\n    casa de Kuraguine.<\/p>\n<p> Quando chegou &agrave; escadaria da vasta mole formada pelas casernas da<br \/>\n    Guarda montada, onde Anatole vivia, subiu os degraus iluminados e deparou-se-lhe<br \/>\n    a porta aberta. N&atilde;o havia ningu&eacute;m no vest&iacute;bulo; por um<br \/>\n    lado e pelo outro s&oacute; se viam garrafas vazias, sobretudos, galochas;<br \/>\n    cheirava a vinho. Ouviam-se ru&iacute;dos de vozes e gritos distantes.<\/p>\n<p> O jogo e a ceia tinham acabado, mas os convivas ainda se n&atilde;o haviam<br \/>\n    dispersado. Pedro despiu o sobretudo e entrou na primeira depend&ecirc;ncia,<br \/>\n    em que se viam ainda os restos do festim e onde um lacaio, julgando-se s&oacute;,<br \/>\n    bebia, &agrave;s escondidas, os restos de vinho dos copos. Da sala cont&iacute;gua<br \/>\n    sa&iacute;a um alarido: risos, gritos de pessoas conhecidas e grunhidos de<br \/>\n    ursos. Oito rapazes comprimiam-se, muito excitados, junto da janela aberta.<br \/>\n    Tr&ecirc;s outros entretinham-se com um ursinho novo, que um deles puxava<br \/>\n    por uma corrente para atemorizar os companheiros.<\/p>\n<p> &#8211; Eu aposto por Stevens cem rublos! &#8211; gritou uma voz.<\/p>\n<p> &#8211; Que ideia essa de apostar por ele! &#8211; exclamou um terceiro.- Kuraguine,<br \/>\n    s&ecirc; tu o &aacute;rbitro.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem, ent&atilde;o deixem o Michka (Nome familiar do urso na<br \/>\n    R&uacute;ssia. (N, dos T.); vamos l&aacute; fazer a aposta.<\/p>\n<p> &#8211; De um s&oacute; trago, ou ent&atilde;o perde! &#8211; gritou uma quarta voz.<\/p>\n<p> &#8211; Iakov, traz uma garrafa. Iakov! &#8211; clamou o dono da casa, um rapag&atilde;o<br \/>\n    magn&iacute;fico, que estava no meio de todos os outros, envergando apenas<br \/>\n    uma ligeira blusa toda aberta no peito &#8211; Um momento, meus amigos! Eh! At&eacute;<br \/>\n    que enfim. Petrucha, meu caro! &#8211; exclamou dirigindo-se a Pedro.<\/p>\n<p> Uma outra voz, a de um homem de pequena estatura, de olhos azuis-claros,<br \/>\n    que contrastava pelos seus modos cordatos no meio de todas aquelas vozes avinhadas,<br \/>\n    gritou da janela: &#8211; Vamos, serve de &aacute;rbitro na aposta! &#8211; Era Dolokov,<br \/>\n    um oficial do regimento Seminovski, famoso jogador e n&atilde;o menos famoso<br \/>\n    espadachim, que compartilhava dos aposentos de Anatole.<\/p>\n<p> Pedro sorria, lan&ccedil;ando um olhar alegre a toda a companhia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; maneira de ningu&eacute;m se entender. De que se<br \/>\n    trata? &#8211; Esperem, ele n&atilde;o est&aacute; b&ecirc;bado. Venha de l&aacute;<br \/>\n    uma garrafa &#8211; disse Anatole, e, pegando num copo de cima da mesa, deu dois<br \/>\n    passos para Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; Antes de mais nada, bebe, Pedro p&ocirc;s-se a beber copo sobre copo,<br \/>\n    olhando de soslaio para toda aquela gente embriagada que se tinha juntado<br \/>\n    ao p&eacute; da janela e escutava o que se dizia. Anatole deitava-lhe vinho<br \/>\n    no copo e contava que Dolokov apostara com o ingl&ecirc;s Stevens, oficial<br \/>\n    de marinha ali presente, que ele. Dolokov, seria capaz de beber uma garrafa<br \/>\n    de rum sentado na janela do segundo andar com as pernas dependuradas para<br \/>\n    a parte de fora.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, despeja-me l&aacute; essa garrafa! &#8211; exclamou Anatole, apresentando<br \/>\n    a Pedro o &uacute;ltimo copo.- Enquanto o n&atilde;o beberes, n&atilde;o te<br \/>\n    largo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, j&aacute; basta &#8211; tornou Pedro recusando, ao mesmo tempo que<br \/>\n    se aproximava da janela.<\/p>\n<p> Dolokov segurava o ingl&ecirc;s por uma m&atilde;o e explicava claramente,<br \/>\n    com precis&atilde;o, as condi&ccedil;&otilde;es da aposta, dirigindo-se de<br \/>\n    prefer&ecirc;ncia a Anatole e a Pedro.<\/p>\n<p> Dolokov era de estatura me&atilde;, frisado, com olhos azuis-claros. Tinha<br \/>\n    aproximadamente vinte e cinco anos. N&atilde;o usava bigode, como os outros<br \/>\n    oficiais de infantaria daquela &eacute;poca, e tinha a boca, o tra&ccedil;o<br \/>\n    mais caracter&iacute;stico da sua figura, completamente descoberta. Era uma<br \/>\n    boca com um desenho extraordinariamente fino. O l&aacute;bio superior descia<br \/>\n    sobre o forte l&aacute;bio inferior formando dois &acirc;ngulos agudos, em<br \/>\n    cujos cantos se via sempre esbo&ccedil;ado uma esp&eacute;cie de duplo sorriso,<br \/>\n    um sorriso de cada lado. No seu conjunto, sobretudo com os seus olhos decididos,<br \/>\n    impudentes e inteligentes, dava uma impress&atilde;o que obrigava as pessoas<br \/>\n    a fit&aacute;-lo. Dolokov n&atilde;o era rico nem tinha qualquer parente.<br \/>\n    E, conquanto Anatole gastasse dezenas de milhares de rublos. Dolokov compartilhava<br \/>\n    das suas instala&ccedil;&otilde;es e sabia arranjar as coisas de tal maneira<br \/>\n    que o pr&oacute;prio Anatole e todos os seus conhecidos o estimavam mais que<br \/>\n    ao pr&oacute;prio dono da casa. Sabia todos os jogos e ganhava quase sempre.<br \/>\n    Por mais que bebesse, tinha sempre a cabe&ccedil;a no seu lugar. Kuraguine<br \/>\n    e Dolokov eram naquela &eacute;poca, tanto um como o outro, verdadeiras celebridades<br \/>\n    no mundo das cabe&ccedil;as loucas e dos bo&eacute;mios de Petersburgo.<\/p>\n<p> Trouxeram a garrafa de rum. Dois lacaios, azafamados e visivelmente estupefactos,<br \/>\n    desnorteados no meio dos gritos e das ordens que lhes davam, procuravam demolir<br \/>\n    o caixilho que impedia que uma pessoa se sentasse sobre o parapeito exterior<br \/>\n    da janela.<\/p>\n<p> Anatole aproximou-se com ares vitoriosos. Tinha necessidade de quebrar fosse<br \/>\n    o que fosse. Afastou os lacaios e p&ocirc;s-se a puxar pelo caixilho, o qual<br \/>\n    n&atilde;o cedeu. Quebrou um vidro.<\/p>\n<p> &#8211; Experimenta tu, valent&atilde;o &#8211; exclamou dirigindo-se a Pedro. Pedro<br \/>\n    agarrou-se &agrave; couceira, puxou e arrancou com fragor o enquadramento<br \/>\n    de castanho.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo fora, sen&atilde;o depois s&atilde;o capazes de dizer que eu me agarrei<br \/>\n    a alguma coisa &#8211; intimou Dolokov.<\/p>\n<p> &#8211; O ingl&ecirc;s perdeu a cabe&ccedil;a&#8230; Eh! N&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    &#8211; inquiriu Anatole.<\/p>\n<p> &#8211; Com certeza &#8211; disse Pedro olhando para Dolokov, que, com a garrafa na<br \/>\n    m&atilde;o, se aproximava da janela, atrav&eacute;s da qual se via o c&eacute;u<br \/>\n    claro e a aurora, que se confundia com o crep&uacute;sculo.<\/p>\n<p> Dolokov, sempre com a garrafa na m&atilde;o, saltou para cima da janela.<\/p>\n<p> &#8211; Ou&ccedil;am! &#8211; gritou de p&eacute; sobre o parapeito, voltado para a<br \/>\n    assist&ecirc;ncia. Todos se calaram.<\/p>\n<p> &#8211; Aposto &#8211; falava em franc&ecirc;s para que o ingl&ecirc;s o compreendesse,<br \/>\n    embora este n&atilde;o fosse um portento nessa l&iacute;ngua -, aposto cinquenta<br \/>\n    imperiais; quer apostar cem? &#8211; acrescentou, para o ingl&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, cinquenta &#8211; retorquiu este.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, aposto cinquenta imperiais em como sou capaz de beber a garrafa de<br \/>\n    rum at&eacute; &agrave; &uacute;ltima gota, de um s&oacute; trago, sentado<br \/>\n    na janela, neste s&iacute;tio &#8211; debru&ccedil;ou-se e apontou para o parapeito<br \/>\n    inclinado no sentido da rua- e sem me segurar a coisa alguma&#8230; Est&aacute;,<br \/>\n    apostado? &#8211; Perfeitamente &#8211; volveu o ingl&ecirc;s.<\/p>\n<p> Anatole voltou-se para este, e, segurando-o por um bot&atilde;o da farda,<br \/>\n    olhou-o de cima, pois o outro era de pequena estatura, e p&ocirc;s-se a repetir-lhe<br \/>\n    em ingl&ecirc;s as condi&ccedil;&otilde;es da aposta.<\/p>\n<p> &#8211; Aten&ccedil;&atilde;o! &#8211; gritou Dolokov, batendo com a garrafa na janela,<br \/>\n    para que o ouvissem- Um momento. Kuraguine. Ou&ccedil;am. Se houver algu&eacute;m<br \/>\n    capaz de fazer o mesmo, dou-lhe cem imperiais. Est&atilde;o a compreender?<br \/>\n    O ingl&ecirc;s disse &laquo;sim&raquo; com a cabe&ccedil;a, sem com isso querer<br \/>\n    dizer que tinha inten&ccedil;&atilde;o de aceitar a nova aposta. Anatole n&atilde;o<br \/>\n    o largava, e, embora ele tivesse dado a entender que compreendera, traduzia-lhe<br \/>\n    para ingl&ecirc;s as palavras de Dolokov. Um rapazola escanzinado, um h&uacute;ssar<br \/>\n    da Guarda, que toda a noite estivera a perder ao jogo, trepou &agrave; janela,<br \/>\n    debru&ccedil;ou-se e olhou l&aacute; para baixo.<\/p>\n<p> &#8211; Ui! Ui! Ui! exclamou, apontando as pedras da cal&ccedil;ada.<\/p>\n<p> &#8211; Fora da&iacute;! &#8211; gritou Dolokov, obrigando a descer da janela o oficial,<br \/>\n    que, embara&ccedil;ado nas esporas, trope&ccedil;ou.<\/p>\n<p> Depois de ter colocado a garrafa no parapeito da janela, para assim a ter<br \/>\n    &agrave; m&atilde;o. Dolokov, com prud&ecirc;ncia e serenidade i&ccedil;ou-se<br \/>\n    para o rebordo do janel&atilde;o. Depois de ter passado as pernas por cima,<br \/>\n    do alizar e de haver avan&ccedil;ado, com o aux&iacute;lio das m&atilde;os,<br \/>\n    at&eacute; ao extremo do parapeito, escolheu o lugar, sentou-se, deixou pender<br \/>\n    as pernas, deslocou-se para a direita e para a esquerda e pegou na garrafa.<br \/>\n    Anatole trouxe duas velas e pousou-as sobre o parapeito, embora j&aacute;<br \/>\n    fizesse dia claro. O dorso de Dolokov, de camisa branca, a cabe&ccedil;a anelada,<br \/>\n    recebia luz dos dois lados. Toda a gente se tinha juntado em volta da janela.<br \/>\n    O ingl&ecirc;s estava na primeira fila. Pedro sorria sem dizer nada. Um dos<br \/>\n    presentes, mais velho do que os outros, furioso e apavorado, arremeteu, de<br \/>\n    s&uacute;bito, para a janela e quis agarrar Dolokov pela camisa.<\/p>\n<p> &#8211; Meus senhores, isto &eacute; uma loucura; o rapaz vai matar-se! &#8211; exclamou<br \/>\n    esta criatura, mais razo&aacute;vel que as restantes. Anatole deteve-o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o lhe toques; se o assustas, ele mata-se. Hem!&#8230; E nesse caso?&#8230;<br \/>\n    Hem! Dolokov voltou-se, comp&ocirc;s-se e colocou-se em posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o aux&iacute;lio das m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Se mais algu&eacute;m mete o bedelho na minha vida &#8211; disse, deixando cair<br \/>\n    as palavras dos l&aacute;bios finos e cerrados -, obrigo-o a descer imediatamente<br \/>\n    por aqui. Est&aacute; combinado?&#8230;<\/p>\n<p> Ao dizer &laquo;Est&aacute; combinado?&raquo;, voltou-se ainda, soltou as<br \/>\n    m&atilde;os, pegou na garrafa e levou-a &agrave; boca, atirando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para tr&aacute;s e erguendo no ar a m&atilde;o livre para estabelecer o equil&iacute;brio.<br \/>\n    Um lacaio que se tinha posto a apanhar os peda&ccedil;os de vidro da janela<br \/>\n    deteve-se, sempre debru&ccedil;ado para o ch&atilde;o, sem perder de vista<br \/>\n    a janela e as costas de Dolokov. Anatole conservava-se direito, de olhos arregalados.<br \/>\n    O ingl&ecirc;s, mordendo os l&aacute;bios, desviava os olhos. Aquele que tentara<br \/>\n    intervir tinha-se afastado para um canto e estira&ccedil;ara-se num div&atilde;<br \/>\n    com a cara para a parede. Pedro tapou a cara e um ligeiro sorriso parecia<br \/>\n    errar-lhe na m&aacute;scara, onde se estampavam agora susto e terror. Todos<br \/>\n    se calavam. Pedro tirou a m&atilde;o dos olhos. Dolokov mantinha-se na mesma<br \/>\n    posi&ccedil;&atilde;o, mas com a cabe&ccedil;a de tal modo ca&iacute;da para<br \/>\n    tr&aacute;s que os cabelos anelados, pela retaguarda, afloravam-lhe o colarinho,<br \/>\n    e a m&atilde;o com que segurava a garrafa cada vez se erguia mais, animada<br \/>\n    por um certo tremor, e como se fizesse esfor&ccedil;o. A garrafa, que se esvaziava<br \/>\n    a olhos vistos, elevava-se ao mesmo tempo no ar, obrigando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    a descair para tr&aacute;s. &laquo;Que tempo que isto leva!&raquo;, murmurou<br \/>\n    Pedro consigo mesmo. Afigurava-se-lhe haver decorrido mais de meia hora. Subitamente<br \/>\n    Dolokov teve um movimento de espinha para a retaguarda e a m&atilde;o foi-lhe<br \/>\n    sacudida por um tremor nervoso, quanto bastou para fazer avan&ccedil;ar o<br \/>\n    corpo sentado no parapeito resvaladi&ccedil;o. Todo ele se deslocou, e as<br \/>\n    m&atilde;os e a cabe&ccedil;a, com o esfor&ccedil;o, estremeceram-lhe ainda<br \/>\n    mais. Uma das m&atilde;os ergueu-se para se agarrar ao alizar da janela, mas<br \/>\n    logo descaiu. Pedro voltou a fechar os olhos e prometeu n&atilde;o tornar<br \/>\n    a abri-los. Subitamente percebeu que tinha havido um movimento na assist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Abriu os olhos: Dolokov estava de p&eacute; sobre o parapeito, o rosto p&aacute;lido<br \/>\n    e alegre.<\/p>\n<p> &#8211; Vazia! Atirou com a garrafa ao ingl&ecirc;s, que a agarrou no ar. Deu<br \/>\n    um pulo da janela. Todo ele cheirava a rum.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem! Que valent&atilde;o! Bela aposta, cos diabos! &#8211; dizia-se por<br \/>\n    todos os lados.<\/p>\n<p> O ingl&ecirc;s tinha puxado da bolsa e contava o dinheiro. Dolokov franzia<br \/>\n    as sobrancelhas sem dizer palavra. Pedro precipitou-se para a janela.<\/p>\n<p> &#8211; Meus senhores. Quem &eacute; que quer apostar comigo? Estou pronto a fazer<br \/>\n    o mesmo! &#8211; gritou ele, de chofre.- De resto, dispenso as apostas. Venha de<br \/>\n    l&aacute; uma garrafa. Exactamente!&#8230; Uma garrafa.<\/p>\n<p> &#8211; Isso mesmo! Isso mesmo! &#8211; exclamou Dolokov, rindo.<\/p>\n<p> &#8211; Que mosca &eacute; que te mordeu? Est&aacute;s maluco? Quem &eacute; que<br \/>\n    vai consentir nisso? At&eacute; a subir uma escada tens vertigens &#8211; dizia-se<br \/>\n    por aqui e por ali.<\/p>\n<p> &#8211; V&atilde;o ver como eu a bebo. Deixem-me ver uma garrafa! gritava Pedro,<br \/>\n    batendo no tampo duma mesa, com uma teimosia de b&ecirc;bado. E trepou para<br \/>\n    cima da janela.<\/p>\n<p> Agarraram-no por um bra&ccedil;o; mas ele era t&atilde;o forte que sacudia<br \/>\n    de si os que tentavam aproximar-se dele.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; in&uacute;til, n&atilde;o desiste &#8211; disse Anatole.- Esperem a&iacute;,<br \/>\n    que eu ensino-o. Ouve l&aacute;, eu aposto contigo, mas fica para amanh&atilde;.<br \/>\n    Agora vamos todos para casa da&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem &#8211; exclamou Pedro. &#8211; Vamos embora!&#8230; Mas o Michka tamb&eacute;m<br \/>\n    vai connosco. &#8211; Apoderou- se do urso, e agarrando nele com ambas as m&atilde;os<br \/>\n    para o obrigar a levantar-se, p&ocirc;s-se a rodopiar com o bicho pelo meio<br \/>\n    da sala.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h4>\n<p>O pr&iacute;ncipe Vassili cumpriu a promessa que tinha feito &agrave; princesa<br \/>\n    Drubetskaia na reuni&atilde;o em casa de Ana Pavlovna relativamente a seu<br \/>\n    &uacute;nico filho. B&oacute;ris. Falaram nele ao imperador, e a t&iacute;tulo<br \/>\n    excepcional foi promovido a alferes do regimento Seminovski. Mas n&atilde;o<br \/>\n    foi nomeado ajudante-de-campo, nem adido ao quartel-general de Kutuzov, apesar<br \/>\n    dos pedidos e das intrigas de Ana Mikailovna. Pouco tempo depois da reuni&atilde;o<br \/>\n    em casa da dama de honor. Ana Mikailovna voltou para Moscovo e foi instalar-se<br \/>\n    em casa dos Rostov, seus ricos parentes, onde sempre se hospedava. Era ali<br \/>\n    que tinha sido educado desde crian&ccedil;a e onde ainda vivia o seu B&oacute;ris<br \/>\n    adorado, s&oacute; agora admitido no ex&eacute;rcito e que acabava de ser<br \/>\n    promovido a alferes da Guarda. O regimento tinha sa&iacute;do de Petersburgo<br \/>\n    a 10 de Agosto, e o rapaz, que ficara em Moscovo por causa do equipamento,<br \/>\n    devia ir ao encontro dele em Radzivilov.<\/p>\n<p> Em casa dos Rostov celebrava-se o anivers&aacute;rio das duas Natalias,<br \/>\n    a m&atilde;e e a filha mais nova. Desde manh&atilde; que era um chegar e partir<br \/>\n    de carruagens sem fim com visitas para o pal&aacute;cio da condessa Rostov,<br \/>\n    na Povarskaia, pal&aacute;cio que toda a gente conhecia em Moscovo.<\/p>\n<p> A condessa, acompanhada pela filha mais velha, uma linda mulher, estava<br \/>\n    no sal&atilde;o, rodeada das suas visitas, que n&atilde;o cessavam de chegar.<\/p>\n<p> Era a condessa Rostov urna senhora de rosto magro, tipo oriental, dos seus<br \/>\n    quarenta e cinco anos, visivelmente esgotada por doze partos sucessivos. A<br \/>\n    lentid&atilde;o do seu passo e a morosidade da sua fala, consequ&ecirc;ncias<br \/>\n    do quebranto das suas for&ccedil;as, davam-lhe um ar de dignidade que inspirava<br \/>\n    respeito. A princesa Ana Mikailovna Drubetskaia tamb&eacute;m se encontrava<br \/>\n    presente, &iacute;ntima da casa que era, ajudando-a a receber as visitas e<br \/>\n    a manter a conversa&ccedil;&atilde;o. A gente nova estava nas depend&ecirc;ncias<br \/>\n    das traseiras, desinteressada das visitas. O conde l&aacute; se encarregava,<br \/>\n    de as acolher e de as conduzir, convidando toda a gente para jantar.<\/p>\n<p> &#8211; Estou-lhe muito reconhecido, muito, meu caro ou minha cara &#8211; dizia a toda<br \/>\n    a, gente, sem excep&ccedil;&atilde;o, minha cara ou meu caro, sem p&ocirc;r<br \/>\n    nisso qualquer distin&ccedil;&atilde;o, quer as pessoas fossem de uma classe<br \/>\n    inferior ou superior -, estou-lhe muito reconhecido em meu nome e em nome<br \/>\n    das festejadas. N&atilde;o deixe de vir jantar connosco: ficaria melindrado,<br \/>\n    meu caro. Pe&ccedil;o-lhe, cordialmente, em nome da fam&iacute;lia, minha<br \/>\n    cara.<\/p>\n<p> Estas mesmas palavras, com uma express&atilde;o sempre igual no rosto cheio<br \/>\n    e sorridente, bem escanhoado, e um aperto de m&atilde;o en&eacute;rgico, sempre<br \/>\n    o mesmo, e breves e frequentes flex&otilde;es, repetia-as ele a todos, sem<br \/>\n    excep&ccedil;&atilde;o e sem alterar uma v&iacute;rgula. Depois de acompanhar<br \/>\n    aquele que partia, ei-lo que voltava para junto daquele ou daquela que ficava<br \/>\n    no sal&atilde;o. Puxava de uma cadeira, e com os modos de um homem &agrave;<br \/>\n    vontade em sociedade, estendia as pernas desprendidamente, e, de m&atilde;os<br \/>\n    assentes nos joelhos, meneava a cabe&ccedil;a com um ar entendido, fazendo<br \/>\n    conjecturas sobre o estado do tempo, dando conselhos higi&eacute;nicos, ora<br \/>\n    em russo, ora em franc&ecirc;s, num franc&ecirc;s bastante mau, mas pronunciado<br \/>\n    com seguran&ccedil;a, e depois, como uma pessoa que se sente fatigada mas<br \/>\n    quer cumprir a sua obriga&ccedil;&atilde;o at&eacute; ao fim, acompanhava<br \/>\n    as pessoas, assentando as farripas brancas sobre a calva e tornando a repetir<br \/>\n    o eterno convite. Uma que outra vez, no regresso do vest&iacute;bulo, atravessava<br \/>\n    o jardim de Inverno e a sala de espera, dirigindo-se a uma grande depend&ecirc;ncia<br \/>\n    pavimentada de m&aacute;rmore, onde se preparava uma mesa de oitenta talheres:<br \/>\n    lan&ccedil;ava urna olhadela aos criados, afadigados a acarretar pratas e<br \/>\n    porcelanas, a arranjar a mesa e a estender as toalhas adamascadas, e mandava<br \/>\n    chamar Dimitri Vassilievich, um jovem fidalgo, uma esp&eacute;cie de seu fact&oacute;tum,<br \/>\n    a quem dizia: &#8211; Aten&ccedil;&atilde;o. Mitenka, &eacute; preciso que tudo<br \/>\n    esteja em ordem. &oacute;ptimo! &oacute;ptimo! &#8211; Depois acrescentava, inspeccionando,<br \/>\n    satisfeito, a imensa mesa el&aacute;stica. &#8211; O mais importante &eacute; uma<br \/>\n    mesa bem posta. Bom, bom&#8230; &#8211; E voltava, contente, ao sal&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Maria Lvovna Karaguine e sua filha! &#8211; anunciou em voz de baixo o imenso<br \/>\n    escudeiro &agrave;s ordens da condessa penetrando no sal&atilde;o. A condessa,<br \/>\n    pensativa, tomou uma pitada de rap&eacute; da sua caixa dourada com o retrato<br \/>\n    do marido, &#8211; Ah! Que ma&ccedil;ada estas visitas! &#8211; exclamou ela. &#8211; &Eacute;<br \/>\n    a &uacute;ltima que eu recebo. Que pessoa t&atilde;o amaneirada! Manda entrar<br \/>\n    &#8211; ordenou para o lacaio numa voz &aacute;spera que queria dizer: &laquo;Bom,<br \/>\n    acabemos com isto!&raquo; Uma senhora, alta, de grande corpul&ecirc;ncia,<br \/>\n    ar altivo, acompanhada de sua filha, uma menina de n&eacute;dias bochechas,<br \/>\n    toda sorridente, entrou na sala no meio de um ruge-ruge de vestidos.<\/p>\n<p> &#8211; Querida condessa, h&aacute; tanto tempo.., tem estado de cama, pobre crian&ccedil;a..,<br \/>\n    no baile dos Rasumovski.., e a condessa Apraksine.., fiquei t&atilde;o contente!&#8230;<br \/>\n    &#8211; exclamavam vozes femininas muito animadas, interrompendo-se umas &agrave;s<br \/>\n    outras mutuamente e confundindo-se com o sussurrar dos tecidos e o arrastar<br \/>\n    das cadeiras. Entabulou-se uma conversa t&atilde;o pouco importante que permitia,<br \/>\n    assim que havia uma pausa, que as pessoas se levantassem e dissessem, rio<br \/>\n    meio do burburinho da partida: &laquo;Estou encantada; a sa&uacute;de da m&atilde;e..,<br \/>\n    e a condessa Apraksine&raquo;, e, em seguida, no meio de um novo ruge-ruge,<br \/>\n    passassem para o vest&iacute;bulo, pusessem os seus agasalhos e partissem.<br \/>\n    A conversa travou-se sobre a grande novidade do dia, a doen&ccedil;a do velho<br \/>\n    e riqu&iacute;ssimo conde Bezukov, um dos mais belos homens do tempo de Catarina,<br \/>\n    e o comportamento do filho ileg&iacute;timo do mesmo. Pedro, que se tinha<br \/>\n    portado pessimamente ria recep&ccedil;&atilde;o em casa de Ana Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; Muito lamento o pobre conde &#8211; disse a visita que acabava de chegar -;<br \/>\n    esta t&atilde;o mal e, ainda por cima, com o desgosto daquele filho, acaba<br \/>\n    por morrer! &#8211; Que aconteceu? &#8211; inquiriu a condessa, fingindo ignorar o assunto<br \/>\n    a que aludia a interlocutora, embora j&aacute; tivesse ouvido contar a hist&oacute;ria<br \/>\n    pelo menos umas quinze vezes, &#8211; S&atilde;o aquilo as educa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    modernas! Aquele tempo no estrangeiro fez com que o rapaz se tornasse insubmisso,<br \/>\n    e agora, em Petersburgo, segundo dizem, tais horrores fez que tiveram de recorrer<br \/>\n    &agrave; policia.<\/p>\n<p> &#8211; Que me diz! &#8211; murmurou a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o as m&aacute;s companhias &#8211; interveio a princesa Ana Mikailovna.<br \/>\n    &#8211; O filho do pr&iacute;ncipe. Vassili, ele e um tal Dolokov fizeram trinta<br \/>\n    por urna linha. Dois deles sofreram-lhe as consequ&ecirc;ncias: Dolokov foi<br \/>\n    obrigado a descer de posto e o filho do conde Bezukov, esse, mandaram-no para<br \/>\n    Moscovo. Quanto a Anatole Kuraguine, valeu-lhe o pai, que conseguiu abafar<br \/>\n    o esc&acirc;ndalo. Mas tamb&eacute;m foi afastado de Petersburgo.<\/p>\n<p> &#8211; Que fizeram eles, afinal? &#8211; perguntou a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o uns aut&ecirc;nticos bandidos. Principalmente esse Dolokov<br \/>\n    &#8211; disse a visita. &#8211; &Eacute; o filho de Maria Ivanovna Dolokov, uma senhora<br \/>\n    da maior respeitabilidade. Pois n&atilde;o sabem? Imaginem que arranjaram<br \/>\n    um urso e levaram-no com eles de carruagem para casa de urnas actrizes. A<br \/>\n    pol&iacute;cia foi atr&aacute;s deles, e eles n&atilde;o estiveram com meias<br \/>\n    medidas: apanham um guarda, amarram-no, costas com costas, com o urso, e atiram<br \/>\n    com os dois para o Moika (Canal do rio Neva que divide o centro da cidade<br \/>\n    do bairro de Kazari. (N, dos T.). O urso p&ocirc;s-se a nadar com o pol&iacute;cia<br \/>\n    &agrave;s costas.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute; queria ver a cara do pol&iacute;cia, minha amiga! &#8211; exclamou<br \/>\n    o conde, rindo a bom rir.<\/p>\n<p> &#8211; Parece imposs&iacute;vel! Que horror! Como &eacute; que o conde pode achar<br \/>\n    gra&ccedil;a a uma coisa destas? Mas as pr&oacute;prias senhoras n&atilde;o<br \/>\n    podiam suster o riso.<\/p>\n<p> &#8211; Foi dif&iacute;cil salv&aacute;-lo, &agrave;quele desgra&ccedil;ado &#8211;<br \/>\n    continuou a visita. &#8211; E dizer que, &eacute; o filho do conde Cirilo Vladimirovitch<br \/>\n    Bezukov quem e dedica a divertimentos t&atilde;o intelectuais! E h&aacute;<br \/>\n    quem o ache bem educado e espiritual. Ora aqui t&ecirc;m o resultado dessas<br \/>\n    educa&ccedil;&otilde;es no estrangeiro! Tenho a certeza de que ningu&eacute;m<br \/>\n    aqui o vai receber, apesar de toda a sua fortuna. Quiseram-mo apresentar.<br \/>\n    Mas eu disse redondamente que n&atilde;o: tenho filhas.<\/p>\n<p> &#8211; Porque diz que, esse homem &eacute; assim t&atilde;o rico? &#8211; perguntou<br \/>\n    a condessa, debru&ccedil;ando-se para ela, de maneira a que as raparigas a<br \/>\n    n&atilde;o ouvissem, e estas logo fingiram nada entender. &#8211; Dizem que s&oacute;<br \/>\n    tem filhos naturais. Com certeza.., o Pedro tamb&eacute;m &eacute; filho natural.<\/p>\n<p> A visita teve um gesto evasivo.<\/p>\n<p> &#8211; Dizem que tem um caterva de ileg&iacute;timos.<\/p>\n<p> A princesa Ana Mikailovna interveio, desejosa, &eacute; claro, de mostrar<br \/>\n    que tinha rela&ccedil;&otilde;es e que conhecia em pormenor todas as intrigas<br \/>\n    mundanas.<\/p>\n<p> &#8211; A verdade &eacute; esta &#8211; disse ela, com um ar entendido e quase em voz<br \/>\n    baixa. &#8211; A reputa&ccedil;&atilde;o do conde Cirilo Vladimirovitch toda a gente<br \/>\n    a conhece&#8230; Nem sequer sabe o nome dos filhos que tem, mas este Pedro era<br \/>\n    o seu preferido.<\/p>\n<p> &#8211; Que belo homem esse velho &#8211; murmurou a condessa &#8211; ainda o ano passado!<br \/>\n    Nunca vi um homem mais belo! &#8211; Agora est&aacute; muito mudado &#8211; observou Ana<br \/>\n    Mikailovna.- O que eu queria dizer &eacute; que o pr&iacute;ncipe Vassili,<br \/>\n    parente dele pelo lado materno, &eacute; que devia ser o seu herdeiro directo,<br \/>\n    mas ele gosta muito do Pedro; mandou-o educar e at&eacute; escreveu a recomend&aacute;-lo<br \/>\n    ao imperador&#8230; Por isso ningu&eacute;m sabe para quem ir&aacute; a sua imensa<br \/>\n    fortuna, se para o Pedro se para o pr&iacute;ncipe Vassili. Quarenta mil almas<br \/>\n    e milh&otilde;es, milh&otilde;es! Sei isto de fonte limpa, pois foi o pr&oacute;prio<br \/>\n    pr&iacute;ncipe Vassili quem mo contou. De resto. Cirilo Vladimirovitch tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; meu primo afastado pelo lado materno. E &eacute; padrinho do B&oacute;ris<br \/>\n    &#8211; insinuou ela, como se n&atilde;o ligasse a mais pequena import&acirc;ncia<br \/>\n    ao facto.<\/p>\n<p> &#8211; O pr&iacute;ncipe Vassili est&aacute; desde ontem em Moscovo. Dizem que<br \/>\n    anda em inspec&ccedil;&atilde;o &#8211; murmurou a visita.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, mas, aqui entre n&oacute;s &#8211; disse a condessa -, isso &eacute; um<br \/>\n    pretexto. O que ele veio fazer foi visitar o conde Cirilo Vladimirovitch logo<br \/>\n    que o soube muito mal.<\/p>\n<p> &#8211; Seja como for, minha amiga, &eacute; uma rica hist&oacute;ria &#8211; disse,<br \/>\n    de chofre, o conde, e, ao verificar que a interlocutora o n&atilde;o ouvia,<br \/>\n    voltou-se para as raparigas- Estou a ver a cara do pol&iacute;cia! E, mimando<br \/>\n    os gestos desesperados do pobre diabo, p&ocirc;s-se de novo a rir, com grandes<br \/>\n    gargalhadas sonoras e profundas, que lhe faziam estremecer todo o rechonchudo<br \/>\n    corpo, um corpo de quem come bem e bebe melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, est&aacute; combinado, janta connosco &#8211; disse ele.<\/p>\n<h4> <a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h4>\n<p>Houve um momento de sil&ecirc;ncio. A condessa olhava para a sua visita com<br \/>\n    um sorriso am&aacute;vel, sem esconder, ali&aacute;s, que lhe n&atilde;o seria<br \/>\n    desagrad&aacute;vel v&ecirc;-la erguer-se para se ir embora. A filha j&aacute;<br \/>\n    se preparava para se despedir, depois de lan&ccedil;ar um olhar interrogativo<br \/>\n    &agrave; m&atilde;e, quando, de s&uacute;bito, se ouviram na sala cont&iacute;gua<br \/>\n    passos precipitados de homens e senhoras, ao mesmo tempo que urna cadeira<br \/>\n    era arrastada e ca&iacute;a, impelida por algu&eacute;m que passava. Ent&atilde;o<br \/>\n    entrou na sala uma menina dos seus treze anos, que trazia fosse o que fosse<br \/>\n    na saia de musselina, e que parava no meio do sal&atilde;o. Era evidente que<br \/>\n    fora por engano e sem premedita&ccedil;&atilde;o que viera at&eacute; ali.<br \/>\n    Simultaneamente, &agrave; porta, apareceram um estudante, de gola cor de framboesa,<br \/>\n    um oficial da Guarda, uma rapariguinha dos seus quinze anos e um rapazinho,<br \/>\n    gordo e rubicundo, com um casaquito curto, O conde precipitou-se para a pequenita<br \/>\n    e impediu-lhe a entrada abrindo os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, a&iacute; vem ela! &#8211; gritou ele, rindo &#8211; A hero&iacute;na da festa.<br \/>\n    Minha querida fadazinha! &#8211; Minha querida, h&aacute; horas para tudo &#8211; disse<br \/>\n    a condessa, fingindo-se severa- Estragas a pequena Elie &#8211; acrescentou dirigindo-se<br \/>\n    ao marido, &#8211; Bom dia, minha querida, felicito-a &#8211; disse a senhora Karaguine.<br \/>\n    &#8211; Que crian&ccedil;a encantadora! &#8211; prosseguiu ela para a m&atilde;e.<\/p>\n<p> Era uma rapariguinha de olhos negros, a boca muito grande, n&atilde;o bonita,<br \/>\n    mas cheia de vida, com os ombros infantis descobertos, palpitando no corpete,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; rapidez com que caminhara, os carac&oacute;is negros<br \/>\n    repuxados para tr&aacute;s, os bra&ccedil;os pequeninos nus, as perninhas<br \/>\n    a sair de uma cal&ccedil;as de rendas, e nos p&eacute;s sapatos abertos. Estava<br \/>\n    naquela idade graciosa em que uma rapariga j&aacute; n&atilde;o &eacute; crian&ccedil;a<br \/>\n    e em que a crian&ccedil;a ainda n&atilde;o &eacute; rapariga. Depois de ter<br \/>\n    conseguido escapar-se dos bra&ccedil;os do pai, correu para a m&atilde;e e,<br \/>\n    sem prestar a mais pequena aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas severas reprimendas,<br \/>\n    escondeu a cara buli&ccedil;osa nas rendas da mantilha materna e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a rir. Enquanto ria ia falando, com palavras sincopadas, para a boneca que<br \/>\n    levava metida na saia.<\/p>\n<p> &#8211; V&ecirc;s?&#8230; Mimi&#8230; V&ecirc;s? E Natacha mais n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    dizer &#8211; tudo a fazia rir. &#8211; Deixou-se pender contra a m&atilde;e e rompeu<br \/>\n    a rir com tanta vontade e t&atilde;o alto que ningu&eacute;m, inclusivamente<br \/>\n    a visita de maneiras afectadas, p&ocirc;de resistir ao riso. Todos riram tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Vai-te embora, vai-te embora com esse horror! &#8211; exclamou a m&atilde;e,<br \/>\n    repelindo-a com uma c&oacute;lera fingida.- &Eacute; a minha filha mais nova<br \/>\n    &#8211; disse ela &agrave; visita.<\/p>\n<p> Natacha deixou ver a cara por momentos, no meio do fichu de rendas da m&atilde;e,<br \/>\n    olhou aquela de alto a baixo, rindo at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas,<br \/>\n    e voltou a esconder-se.<\/p>\n<p> A visita, obrigada a admirar esta cena de fam&iacute;lia, pensou ser necess&aacute;rio<br \/>\n    dizer qualquer coisa.<\/p>\n<p> &#8211; Dize-me c&aacute;, minha linda &#8211; perguntou a Natacha -, que parentesco<br \/>\n    tens tu com esta Mimi? &Eacute; tua filha, naturalmente. Este tom de condescend&ecirc;ncia<br \/>\n    para se p&ocirc;r ao seu n&iacute;vel de crian&ccedil;a n&atilde;o agradou<br \/>\n    a Natacha, que nada disse e fitou a senhora com um ar s&eacute;rio.<\/p>\n<p> Entretanto, todo o grupo jovial: B&oacute;ris, o oficial, filho da princesa<br \/>\n    Ana Mikailovna, o estudante Nicolau, filho mais velho do conde. S&oacute;nia,<br \/>\n    sua sobrinhita de quinze anos, e o pequeno Petrucha, seu filho mais novo,<br \/>\n    procurava manter, adentro dos limites das conveni&ecirc;ncias, a anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a alegria que fulguravam nos seus rostos. Via-se perfeitamente que l&aacute;<br \/>\n    para tr&aacute;s, nos aposentos das traseiras, donde eles tinham surgido t&atilde;o<br \/>\n    repentinamente, se falava de coisas bem mais agrad&aacute;veis que intrigas<br \/>\n    mundanas, ou o estado do tempo, ou a condessa Apraksine. Entreolhavam-se todos,<br \/>\n    rompendo a rir.<\/p>\n<p> Os dois rapazolas, o estudante e o oficial, amigos de inf&acirc;ncia, eram<br \/>\n    da mesma idade, ambos bonitos mo&ccedil;os, mas sem se parecerem um com o<br \/>\n    outro. B&oacute;ris era um rapag&atilde;o louro, de tra&ccedil;os finos e<br \/>\n    regulares, de uma beleza serena; Nicolau, um rapazinho frisado, com uma express&atilde;o<br \/>\n    aberta. No seu l&aacute;bio superior apontava j&aacute; um ligeiro bu&ccedil;o<br \/>\n    e o todo da sua m&aacute;scara exprimia impetuosidade e entusiasmo. Nicolau<br \/>\n    ficou todo corado assim que entrou no sal&atilde;o. Via-se que procurava dizer<br \/>\n    qualquer coisa, mas n&atilde;o conseguia. B&oacute;ris, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    mostrou-se logo &agrave; vontade e come&ccedil;ou a contar, tranquilamente<br \/>\n    e com um ar satisfeito, que tinha conhecido a Mimi muito nova, com o nariz<br \/>\n    ainda intacto, que nos &uacute;ltimos cinco anos, se bem se lembrava, a pobre<br \/>\n    tinha envelhecido terrivelmente, e que tinha agora a cabe&ccedil;a rachada<br \/>\n    de alto a baixo. Ao mesmo tempo que falava ia olhando para Natacha. Esta voltara<br \/>\n    a cara e olhava para o irm&atilde;ozito, que ria perdidamente, com os olhos<br \/>\n    cheios de l&aacute;grimas; de s&uacute;bito, sem poder mais, despediu correndo.<br \/>\n    B&oacute;ris ficou muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Naturalmente tamb&eacute;m se quer ir embora. Mam&atilde;? Precisa do<br \/>\n    carro? &#8211; disse ele para, a m&atilde;e, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8211; Pois sim, manda atrelar &#8211; respondeu a m&atilde;e sorrindo igualmente.<\/p>\n<p> B&oacute;ris, sem nada dizer, dirigiu-se para a porta e seguiu atr&aacute;s<br \/>\n    de Natacha. O rapazinho gordo correu ap&oacute;s eles, pouco contente por<br \/>\n    ter sido perturbado nos seus entretenimentos.<\/p>\n<h4> <a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII<\/a><\/h4>\n<p>A excep&ccedil;&atilde;o da filha primog&eacute;nita da condessa, a qual,<br \/>\n    quatro anos mais velha que a segunda, j&aacute; podia dar-se ares de pessoa<br \/>\n    crescida, e das filhas da senhora que viera de visita, juventude era coisa<br \/>\n    que n&atilde;o havia no sal&atilde;o, se exclu&iacute;ssemos, al&eacute;m<br \/>\n    delas. Nicolau e a sobrinha S&oacute;nia. Esta era uma morenita magra, uma<br \/>\n    miniaturazinha, com uns olhos doces, sombreados por longas pestanas, e uma<br \/>\n    farta tran&ccedil;a negra que lhe dava duas voltas &agrave; cabe&ccedil;a,<br \/>\n    a tez oliv&aacute;cea acentuava-se-lhe mais ainda nos bra&ccedil;os e no colo<br \/>\n    nus, magros, mas graciosos. A ligeireza dos seus passos, a languidez e a flexibilidade<br \/>\n    dos seus bra&ccedil;os, os seus modos um pouco ardilosos e reservados davam-lhe<br \/>\n    ares de um lindo felino ainda n&atilde;o domesticado, mas prometendo vir a<br \/>\n    ser um bichano encantador. Evidentemente que ela sabia ser conveniente tomar<br \/>\n    parte, com o seu sorriso, na conversa geral, mas, sem dar por isso, por debaixo<br \/>\n    das longas pestanas, os olhos fugiam-lhe para o seu primo, que ia partir para<br \/>\n    a, tropa. No seu olhar havia uma adora&ccedil;&atilde;o t&atilde;o apaixonada<br \/>\n    que ningu&eacute;m se iludiria com aquele sorriso. Toda a gente via que se<br \/>\n    o bichano ali estava t&atilde;o sossegado era apenas para, mal sa&iacute;sse<br \/>\n    do sal&atilde;o, logo p&ocirc;r-se a correr e a saltar com o primo, tal como<br \/>\n    B&oacute;ris e Natacha.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, minha cara &#8211; dizia o velho conde para a visita, apontando Nicolau.<br \/>\n    &#8211; Como o seu amigo B&oacute;ris saiu, oficial, ele, por amizade para com o<br \/>\n    primo, n&atilde;o lhe quer ficar atr&aacute;s. E l&aacute; vai deixar a Universidade<br \/>\n    e a mim, seu velho pai; vai alistar-se, minha cara. E j&aacute; lhe t&iacute;nhamos<br \/>\n    arranjado um lugar no servi&ccedil;o dos arquivos. Ao que leva a amizade!<br \/>\n    &#8211; E dizem que a guerra j&aacute; foi declarada &#8211; observou a visita.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; muito tempo que isso se diz &#8211; volveu o conde- Sim, diz-se e<br \/>\n    volta a dizer-se, e tudo fica na mesma. Minha cara, o que &eacute; que a amizade<br \/>\n    n&atilde;o faz? &#8211; repetia ele. &#8211; Vai para os h&uacute;ssares. A visita, como<br \/>\n    n&atilde;o sabia que dizer, meneava a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&atilde;o, n&atilde;o se trata de amizade &#8211; interrompeu Nicolau,<br \/>\n    entusiasmando- se, como quem repele uma cal&uacute;nia que lhe fosse odiosa.-<br \/>\n    N&atilde;o se trata de amizade, mas apenas de que tenho a voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de soldado.<\/p>\n<p> Envolveu num olhar a prima e a filha da visita; ambas lhe dirigiram um sorriso<br \/>\n    de aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Temos hoje a jantar o coronel Schubert, do regimento de h&uacute;ssares<br \/>\n    de Pavologradski. Est&aacute; aqui de licen&ccedil;a, e &eacute; ele quem<br \/>\n    o leva consigo. Que havemos n&oacute;s de fazer? &#8211; disse o conde, encolhendo<br \/>\n    os ombros e falando, em tom prazenteiro, de um assunto que visivelmente lhe<br \/>\n    causava um grande desgosto.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; lhe disse, pai &#8211; replicou o filho -, que se me n&atilde;o quer<br \/>\n    deixar ir eu n&atilde;o partirei. Mas tenho a certeza de que n&atilde;o sirvo<br \/>\n    para mais nada sen&atilde;o para soldado; n&atilde;o nasci, para ser nem diplomata<br \/>\n    nem funcion&aacute;rio; n&atilde;o sei esconder os meus sentimentos &#8211; acrescentou<br \/>\n    sem deixar de fitar as raparigas com a bonita desenvoltura pr&oacute;pria<br \/>\n    da sua idade.<\/p>\n<p> A gatinha, que o comia com os olhos, parecia pronta a brincar e a mostrar<br \/>\n    a sua natureza felina.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, bem! &#8211; disse o velho conde- Est&aacute; sempre pronto a exaltar-se.<br \/>\n    Bonaparte deu volta &agrave; cabe&ccedil;a de toda esta gente. L&aacute; porque<br \/>\n    ele passou de simples tenente a imperador&#8230; Seja o que Deus quiser &#8211; rematou,<br \/>\n    sem reparar no sorriso escarninho da visita.<\/p>\n<p> As pessoas crescidas puseram-se a falar de Bonaparte. J&uacute;lia, o filha<br \/>\n    da princesa Karaguine, voltou-se para o jovem Rostov: &#8211; Que pena que n&atilde;o<br \/>\n    tenha estado na quinta-feira passada em casa dos Arkarov. N&atilde;o calcula<br \/>\n    a falta que me fez! &#8211; disse-lhe ela, sorrindo com afabilidade.<\/p>\n<p> O rapaz, lisonjeado, veio sentar-se junto dela. E sorrindo com a coquetterie<br \/>\n    pr&oacute;pria da sua idade, entabulou uma conversa &iacute;ntima, sem reparar<br \/>\n    que as suas amabilidades eram como um gl&aacute;dio de ci&uacute;me a trespassar<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o de S&oacute;nia, a qual, disfar&ccedil;ando a sua<br \/>\n    confus&atilde;o, fingia estar alegre. No meio da sua conversa com J&uacute;lia,<br \/>\n    deteve os olhos em S&oacute;nia. Esta lan&ccedil;ou-lhe um olhar cheio de<br \/>\n    amargura, retendo a custo as l&aacute;grimas, embora ainda lhe flutuasse um<br \/>\n    sorriso nos l&aacute;bios, e levantando-se saiu. Toda a anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Nicolau se desvaneceu. Aproveitou a primeira oportunidade para interromper<br \/>\n    o seu di&aacute;logo, e, inquieto, l&aacute; foi &agrave; procura de S&oacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, como toda esta juventude traz o cora&ccedil;&atilde;o na boca! &#8211; exclamou<br \/>\n    Ana Mikailovna apontando para Nicolau, que sala da sala.- Primos, maus vizinhos!<br \/>\n    &#8211; acrescentou.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade! &#8211; disse a condessa, assim que desapareceu o raio de<br \/>\n    sol que a mocidade trouxera consigo ao sal&atilde;o. E, respondendo a uma<br \/>\n    pergunta que ningu&eacute;m lhe tinha feito, mas que a preocupava:- Que contrariedades,<br \/>\n    que contrariedades as nossas para agora podermos gozar de uma certa alegria!<br \/>\n    E o certo &eacute; que ainda hoje sentimos muito mais terror que prazer. Estamos<br \/>\n    sempre com medo, sempre com medo! E &eacute; precisamente nesta idade que<br \/>\n    as raparigas e os rapazes correm maior perigo.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo depende da educa&ccedil;&atilde;o que se recebe &#8211; disse a visita.<br \/>\n    &#8211; Sim, tem raz&atilde;o &#8211; continuou a condessa. &#8211; At&eacute; agora tenho sido<br \/>\n    sempre a amiga &iacute;ntima dos meus filhos e eles t&ecirc;m sempre confiado<br \/>\n    em mim. &#8211; E, ao falar assim, ca&iacute;a no erro de muitos pais, persuadidos<br \/>\n    de que os filhos n&atilde;o t&ecirc;m segredos para eles. &#8211; Sei que serei<br \/>\n    sempre a primeira confidente dos meus filhos, e que Nikolenka, com a seu feitio<br \/>\n    ardente, se um dia fizer uma asneira &#8211; os rapazes est&atilde;o sempre sujeitos<br \/>\n    a isso -, nunca se comportar&aacute; como esses senhores de Petersburgo.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, s&atilde;o muito bons pequenos &#8211; afirmou o conde, qu6 resolvia sempre<br \/>\n    os problemas embara&ccedil;osos dizendo que tudo estava bem. &#8211; Imagine! Quis<br \/>\n    assentar pra&ccedil;a nos h&uacute;ssares! Que lhe havemos de fazer, minha<br \/>\n    cara! &#8211; Que linda rapariga &eacute; a sua filha mais nova! &#8211; disse a visita.<br \/>\n    &#8211; Que azougada! &#8211; &Eacute;, &eacute; &#8211; replicou o conde. &#8211; Parece-se comigo!<br \/>\n    E que linda voz! N&atilde;o &eacute; por ser minha filha! A verdade diga-se.<br \/>\n    Vai ser urna verdadeira cantora, uma Salomoni. Anda a tomar li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com um italiano.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ser&aacute; cedo de mais? N&atilde;o &eacute; bom para a voz,<br \/>\n    segundo ou&ccedil;o dizer, aprender canto nesta idade.<\/p>\n<p> &#8211; Cedo de mais? &#8211; volveu o conde. &#8211; Ent&atilde;o as nossas m&atilde;es n&atilde;o<br \/>\n    se casaram dos doze para os treze anos? &#8211; E j&aacute; est&aacute; enamorada<br \/>\n    do B&oacute;ris! Veja isto! &#8211; disse a condessa, sorrindo, disfar&ccedil;adamente,<br \/>\n    e lan&ccedil;ando um olhar &agrave; m&atilde;e do rapaz. Depois, como que<br \/>\n    respondendo a um pensamento que n&atilde;o deixava de a preocupar, continuou:<br \/>\n    &#8211; Imagine que eu a educava com severidade, que a proibia&#8230; S&oacute; Deus<br \/>\n    sabe o que ela seria capaz de fazer &agrave;s escondidas. (A condessa queria<br \/>\n    dizer que se beijariam.) Mas, assim, conhe&ccedil;o-lhe todos os pensamentos.<br \/>\n    &Eacute; ela pr&oacute;pria quem me vem contar todas as noites. &Eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que eu a estrague: mas estou convencida de que &eacute; esta a melhor maneira.<br \/>\n    J&aacute; a mais velha a eduquei com mais severidade.<\/p>\n<p> &#8211; Pois &eacute;, a mim educaram-me de maneira muito diferente &#8211; disse, sorrindo,<br \/>\n    a filha mais velha, a linda condessa Vera.<\/p>\n<p> O sorriso n&atilde;o tornava Vera mais bonita, como em geral acontece, pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, dava-lhe uma express&atilde;o pouco natural e desagrad&aacute;vel<br \/>\n    at&eacute;. Vera, a filha mais velha dos Rostov, era bonita, n&atilde;o era<br \/>\n    tola, tinha sido muito bem instru&iacute;da, tinha uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    excelente e urna bela voz; o que ela acabava de dizer era muito justo e a<br \/>\n    prop&oacute;sito, mas, coisa estranha, toda a gente, a principiar pela visita<br \/>\n    e pela pr&oacute;pria condessa, a fitou como que surpreendida que ela tivesse<br \/>\n    falado daquela maneira, e todos sentiram um certo embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Em geral somos sempre mais rigorosos com os filhos mais velhos; pensamos<br \/>\n    sempre fazer deles pessoas excepcionais &#8211; disse a Visita.<\/p>\n<p> &#8211; Para que havemos de esconder os nossos erros, minha cara! A minha querida<br \/>\n    condessa quis ser exemplar com a educa&ccedil;&atilde;o de Vera &#8211; observou<br \/>\n    o conde. &#8211; Mas que se perdeu com isso? O resultado n&atilde;o foi nada mau-<br \/>\n    acrescentou, piscando o olho amistosamente a Vera.<\/p>\n<p> As visitas ergueram-se, finalmente, para se despedirem, prometendo vir jantar.<\/p>\n<p> &#8211; Isto &eacute; que s&atilde;o maneiras! Parecia que nunca mais se iam embora!<br \/>\n    &#8211; exclamou a condessa, ao ver, finalmente, as visitas pelas costas.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII<\/a><\/h4>\n<p>Quando Natacha saiu do sal&atilde;o a correr n&atilde;o foi muito longe;<br \/>\n    ficou no jardim de Inverno. E ali permaneceu ouvindo o que se dizia no sal&atilde;o<br \/>\n    e aguardando que B&oacute;ris chegasse. Principiava a impacientar-se, e j&aacute;<br \/>\n    batia com os p&eacute;s no ch&atilde;o, quase a chorar por o n&atilde;o ver<br \/>\n    aparecer, quando se principiaram a ouvir os passos do rapaz, uns passos nem<br \/>\n    muito lentos nem muito precipitados, compassadamente. Natacha correu a esconder-se<br \/>\n    atr&aacute;s dos vasos das plantas.<\/p>\n<p> B&oacute;ris ficou parado no meio da depend&ecirc;ncia, olhou em tomo de<br \/>\n    si, sacudiu a manga do uniforme e aproximou-se de um espelho para mirar a<br \/>\n    sua linda figura. Muito quieta. Natacha espreitava l&aacute; do seu esconderijo,<br \/>\n    curiosa de ver o que ele faria. B&oacute;ris esteve alguns momentos diante<br \/>\n    do espelho, sorriu e dirigiu-se para a porta. Natacha quis cham&aacute;-lo,<br \/>\n    mas de si para consigo disse: &laquo;Ele que me procure.&raquo; Mal B&oacute;ris<br \/>\n    sa&iacute;ra, entrou S&oacute;nia, por outra porta, muito corada, e soltando<br \/>\n    palavras col&eacute;ricas por entre um fio de l&aacute;grimas. Natacha conseguiu<br \/>\n    reprimir o seu primeiro movimento, que a impelia a correr para ela, e ficou<br \/>\n    no seu esconderijo como se estivesse debaixo do chap&eacute;u que torna as<br \/>\n    pessoas invis&iacute;veis, observando o que se passava. Tirava disso um prazer<br \/>\n    muito especial. S&oacute;nia balbuciava fosse o que fosse de indistinto, sem<br \/>\n    desviar os olhos da porta do sal&atilde;o. A porta abriu-se e apareceu Nicolau.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute;nia, que tens tu? Ser&aacute; poss&iacute;vel?! &#8211; exclamou ele,<br \/>\n    correndo para ela.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; nada, n&atilde;o &eacute; nada, deixa-me.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas correram-lhe em fio.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, bem sei o que foi.<\/p>\n<p> &#8211; Se sabes, &eacute; o que importa. Vai ter com ela.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute;nia! Ouve-me. S&oacute; uma palavra. Como &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que estejamos os dois a atormentar-nos por causa de uma patetice? volveu Nicolau,<br \/>\n    pegando-lhe nas m&atilde;os.<\/p>\n<p> S&oacute;nia deixou-as ficar e enxugou as l&aacute;grimas. Natacha, sem<br \/>\n    um movimento, e retendo a respira&ccedil;&atilde;o, olhava-os do seu canto<br \/>\n    com os olhos brilhantes. &laquo;Que se ir&aacute; passar?&raquo;, pensava<br \/>\n    ela.<\/p>\n<p> &#8211; Quero l&aacute; saber das outras. S&oacute;nia. S&oacute; tu &eacute;s<br \/>\n    tudo para mim disse Nicolau. &#8211; Hei-de provar-to.<\/p>\n<p> &#8211; Por amor de Deus, n&atilde;o me digas essas coisas, &#8211; N&atilde;o volto<br \/>\n    mais, perdoa-me. S&oacute;nia! Puxou-a para si e beijou-a.<\/p>\n<p> &laquo;Sim, senhor, assim mesmo!&raquo;, exclamou para si mesma, e, quando<br \/>\n    S&oacute;nia e Nicolau partiram, seguiu-os &#8211; e chamou B&oacute;ris.<\/p>\n<p> &#8211; B&oacute;ris, venha c&aacute; &#8211; disse-lhe ela, com um arzinho de significativa<br \/>\n    ast&uacute;cia, &#8211; Preciso de lhe dizer uma coisa. Venha da&iacute;, venha<br \/>\n    da&iacute; &#8211; prosseguiu ela, conduzindo-o para o jardim de Inverno, para o<br \/>\n    s&iacute;tio onde estivera escondida atr&aacute;s dos vasos das plantas.<\/p>\n<p> B&oacute;ris seguiu-a sorridente.<\/p>\n<p> &#8211; De que se trata? &#8211; perguntou ele.<\/p>\n<p> Natacha perturbou-se, olhou em tomo de si, e vendo a boneca que ficara em<br \/>\n    cima de um dos vasos pegou nela.<\/p>\n<p> &#8211; D&ecirc; um beijo &agrave; minha boneca &#8211; ordenou.<\/p>\n<p> B&oacute;ris fitou-lhe o rosto animado com um enternecedor interesse, mas<br \/>\n    nada disse.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o quer? Ent&atilde;o venha da&iacute; &#8211; Desapareceu no meio da<br \/>\n    verdura, atirando fora a boneca. &#8211; Chegue-se mais, chegue-se mais &#8211; murmurou.<\/p>\n<p> Passou o bra&ccedil;o pelo canh&atilde;o da manga do oficial e no seu rosto<br \/>\n    purpurizado havia um ar ao mesmo tempo s&eacute;rio e medroso.<\/p>\n<p> &#8211; E a mim, quer-me beijar a mim? &#8211; balbuciou numa voz quase impercept&iacute;vel,<br \/>\n    olhando-o de vi&eacute;s, com um sorriso nos l&aacute;bios e as l&aacute;grimas<br \/>\n    quase a saltarem-lhe dos olhos, t&atilde;o grande era a emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> B&oacute;ris corou.<\/p>\n<p> &#8211; Que estranha que a menina &eacute;! &#8211; exclamou ele, debru&ccedil;ando-se<br \/>\n    para ela, mas sem se decidir, e como que &agrave; espera. Subitamente. Natacha<br \/>\n    saltou para cima de uma cadeira, ficando mais alta do que ele, envolveu-lhe<br \/>\n    o pesco&ccedil;o nos seus pequeninos bra&ccedil;os nus e, inclinando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para tr&aacute;s, beijou-o em plenos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> Em seguida esgueirou-se por entre os vasos do lado oposto e deteve-se, de<br \/>\n    cabe&ccedil;a baixa.<\/p>\n<p> &#8211; Natacha &#8211; disse B&oacute;ris. &#8211; Bem sabe que gosto de si, mas Gosta de<br \/>\n    mim? &#8211; perguntou ela, interrompendo -o.<\/p>\n<p> Sim, gosto de si, mas, por amor de Deus, n&atilde;o voltemos a fazer o que<br \/>\n    fizemos agora&#8230; Daqui a quatro anos&#8230; Ent&atilde;o virei pedir a sua m&atilde;o.<\/p>\n<p> Natacha ficou a pensar.<\/p>\n<p> &#8211; Treze, catorze, quinze, dezasseis&#8230; &#8211; disse, contando pelos seus pequeninos<br \/>\n    dedos.- Est&aacute; bem. Fica assim combinado? E no seu rosto cheio de anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    resplandeceu uma tranquila alegria.<\/p>\n<p> &#8211; Combinado! &#8211; repetiu B&oacute;ris.<\/p>\n<p> &#8211; Para sempre? &#8211; voltou a pequena.- At&eacute; &agrave; morte? E, dando-lhe<br \/>\n    o bra&ccedil;o, dirigiu-se com ele, toda ela felicidade, para a sala cont&iacute;gua.<\/p>\n<h4> <a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h4>\n<p>A condessa estava t&atilde;o cansada de atender as visitas que disse que<br \/>\n    n&atilde;o receberia mais ningu&eacute;m, e o guarda-port&atilde;o recebeu<br \/>\n    ordem de convidar para jantar todas as pessoas que viessem apresentar felicita&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Estava morta por se ver a s&oacute;s com a sua amiga de inf&acirc;ncia, a<br \/>\n    princesa Ana Mikailovna, que mal tinha visto desde que ela voltara de Petersburgo.<br \/>\n    Ana Mikailovna, com o seu bonito rosto como que intumescido de chorar, veio<br \/>\n    colocar-se muito junto da cadeira da condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Vou ser absolutamente sincera contigo &#8211; disse-lhe ela. Acabaram-se-nos<br \/>\n    as velhas amigas de outrora. E por isso que eu aprecio tanto a tua amizade.<\/p>\n<p> Ana Mikailovna, ao ver aproximar-se Vera, calou-se. A condessa apertou a<br \/>\n    m&atilde;o da amiga.<\/p>\n<p> &#8211; Vera &#8211; disse ela para a filha primog&eacute;nita, que evidentemente n&atilde;o<br \/>\n    era a preferida -, voc&ecirc;s n&atilde;o percebem nada? Ent&atilde;o ainda<br \/>\n    n&atilde;o compreendeste que est&aacute;s aqui a mais? Vai ter com as tuas<br \/>\n    irm&atilde;s, ou ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> A formosa Vera teve um sorriso um pouco desdenhoso, sem dar a perceber,<br \/>\n    de maneira alguma, que se sentia ofendida.<\/p>\n<p> &#8211; Se me tivesse dito mais cedo, m&atilde;e, j&aacute; me teria ido embora<br \/>\n    &#8211; disse ela, afastando-se.<\/p>\n<p> Mas, ao passar pela sala do div&atilde;, viu que as duas janelas estavam<br \/>\n    simetricamente ocupadas pelos dois pares. Parou a olhar e teve um sorriso<br \/>\n    de desd&eacute;m. S&oacute;nia estava sentada muito juntinha de Nicolau, que<br \/>\n    copiava uns versos para ela, os primeiros que tinha escrito na sua vida. B&oacute;ris<br \/>\n    e Natacha estavam na outra janela, e calaram-se quando a viram entrar. S&oacute;nia<br \/>\n    e Natacha olharam-na com um ar feliz, e ao mesmo tempo como se tivessem sido<br \/>\n    surpreendidas em flagrante.<\/p>\n<p> Estas garotas, que ent&atilde;o viviam a sua primeira hist&oacute;ria de<br \/>\n    amor, eram ao mesmo tempo divertidas e comovedoras para quem as contemplasse.<br \/>\n    Mas a verdade &eacute; que n&atilde;o foi grande a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Vera quando deu com elas.<\/p>\n<p> &#8211; Quantas vezes j&aacute; lhes pedi que se n&atilde;o apoderassem do que<br \/>\n    &eacute; meu? As meninas tamb&eacute;m t&ecirc;m um quarto, Tirou o tinteiro<br \/>\n    das m&atilde;os de Nicolau.<\/p>\n<p> &#8211; Espere, espere &#8211; exclamou ele, molhando a caneta. &#8211; N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    d&uacute;vida de que n&atilde;o sabem fazer nada com jeito &#8211; prosseguiu ela.-<br \/>\n    Foi uma vergonha aquela vossa entrada no sal&atilde;o.<\/p>\n<p> Apesar da justeza da observa&ccedil;&atilde;o, ou at&eacute;, precisamente,<br \/>\n    por isso mesmo, ningu&eacute;m abriu a boca, e os quatro limitaram-se a olhar<br \/>\n    uns para os outros. Vera continuou, com o tinteiro na m&atilde;o: &#8211; Sempre<br \/>\n    gostava de saber que segredinhos &eacute; que a Natacha e o B&oacute;ris t&ecirc;m<br \/>\n    para dizer um ao outro.., nessa idade, e voc&ecirc;s tamb&eacute;m. Que patetice!<br \/>\n    &#8211; E tu que tens com isso. Vera? &#8211; disse Natacha, com a voz mais pachorrenta<br \/>\n    deste mundo, para dizer alguma coisa.<\/p>\n<p> Era evidente estar, como nunca, nesse dia disposta a ser boa e afectuosa<br \/>\n    para toda a gente.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo isto &eacute; uma patetice &#8211; continuou Vera- Sinto vergonha por voc&ecirc;s.<br \/>\n    Que segredos s&atilde;o esses? &#8211; Toda a gente tem segredos. N&oacute;s tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o nos metemos ria tua vida e na do Berg &#8211; disse Natacha, que principiava<br \/>\n    a exaltar-se.<\/p>\n<p> &#8211; Acho muito bem que se n&atilde;o metam na minha vida nem na dele, tanto<br \/>\n    mais que nada t&ecirc;m a dizer de n&oacute;s. Deixa estar que hei-de contar<br \/>\n    &agrave; m&atilde;e como tu te portas com o B&oacute;ris.<\/p>\n<p> &#8211; Nat&aacute;lia Ilinitchna porta-se muito bem comigo &#8211; disse B&oacute;ris.<br \/>\n    &#8211; Nada tenho a censurar-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe-a l&aacute;. B&oacute;ris, est&aacute; a ser diplomata&#8230;<\/p>\n<p> A palavra &laquo;diplomata&raquo; estava ent&atilde;o em moda entre as crian&ccedil;as,<br \/>\n    com o significado particular&iacute;ssimo que elas lhe davam.<\/p>\n<p> &#8211; Que ma&ccedil;ada! &#8211; exclamou Natacha, com a voz tr&eacute;mula de irrita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Porque &eacute; que ela se est&aacute; sempre a meter comigo?&#8230; Tu n&atilde;o<br \/>\n    percebes nada &#8211; acrescentou, dirigindo-se a Vera- n&atilde;o admira: nunca<br \/>\n    gostaste de ningu&eacute;m. N&atilde;o tens cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    passas de uma Madame de Genlis (era uma alcunha, com todo o ar de muito ofensiva,<br \/>\n    inventada por Nicolau)&#8230; Aquilo de que mais gostas &eacute; de m&aacute;s-cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para com os outros. Deixa-nos em paz e vai l&aacute; fazer-te coquette com<br \/>\n    o Berg.<\/p>\n<p> &#8211; Mas eu nunca andei a correr atr&aacute;s de um rapaz diante de gente de<br \/>\n    fora&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Era isso que tu querias, n&atilde;o &eacute; verdade?, dizer-nos coisas<br \/>\n    desagrad&aacute;veis &#8211; disse Nicolau. &#8211; Conseguiste que todos fic&aacute;ssemos<br \/>\n    zangados. Vamos embora para a nursery.<\/p>\n<p> E todos eles, como um bando de p&aacute;ssaros assustados, bateram as asas<br \/>\n    e despediram.<\/p>\n<p> &#8211; A mim &eacute; que voc&ecirc;s disseram coisas desagrad&aacute;veis; eu,<br \/>\n    por mim, n&atilde;o disse coisas desagrad&aacute;veis a ningu&eacute;m &#8211; replicou<br \/>\n    Vera. &#8211; Madame de Genlis! Madame de Genklis! (Autor muito Iwo e traduzido<br \/>\n    na R&uacute;ssia de ent&atilde;o. (N, dos T.) &#8211; gritaram j&aacute; detr&aacute;s<br \/>\n    da porta as suas vozes alegres.<\/p>\n<p> A linda Vera, que acabara por irritar toda &agrave; gente, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a sorrir, e, completamente indiferente ao que lhe tinham dito, aproximou-se<br \/>\n    de um espelho e comp&ocirc;s a &eacute;charpe e o penteado. Ao ver a sua imagem<br \/>\n    no espelho, voltou. &agrave; serenidade e &agrave; frieza habituais.<\/p>\n<p> No sal&atilde;o falava-se ainda.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, minha querida &#8211; dizia a condessa -, tamb&eacute;m na minha vida riem<br \/>\n    tudo &eacute; cor-de-rosa. N&atilde;o v&ecirc;s que pelo caminho que levamos,<br \/>\n    a nossa fortuna n&atilde;o dura muito? E &eacute; tudo por causa do clube<br \/>\n    e da bondade dele. Julgas que descansamos quando vamos para o campo? L&aacute;<br \/>\n    temos os espect&aacute;culos, as ca&ccedil;adas, e s&oacute; Deus sabe que<br \/>\n    mais. Mas para que hei-de eu estar a falar de mim? E tu, como &eacute; que<br \/>\n    conseguiste tudo quanto querias? O que eu admiro, as vezes. Annette. &eacute;<br \/>\n    como tu podes, na tua idade, ir sozinha, por essas estradas, a Moscovo, a<br \/>\n    Petersburgo, procurar os ministros, a gente importante, e como tu sabes falar<br \/>\n    a todos! O que eu te, admiro! Conta, conta, como &eacute; que conseguiste?<br \/>\n    N&atilde;o percebo nada.<\/p>\n<p> &#8211; Ali, minha filha &#8211; replicou a princesa Ana Mikailovna. Deus queira que<br \/>\n    nunca venhas a saber o que &eacute; ficar vi&uacute;va, desamparada, com um<br \/>\n    filho nos bra&ccedil;os a quem se quer doidamente. A idade pouco importa para<br \/>\n    a gente aprender &#8211; prosseguiu com altivez- Aprendi &agrave; minha custa. Quando<br \/>\n    tenho de me dirigir a qualquer gra&uacute;do, mando-lhe uma, palavrinha: &laquo;A<br \/>\n    princesa fulana deseja avistar-se com Sicrano ou Beltrano,&raquo; E meto-me<br \/>\n    num carro de pra&ccedil;a e apresento-me uma, duas, tr&ecirc;s, quatro vezes,<br \/>\n    as precisas para conseguir o que pretendo. Pouco me importa o que eles possam<br \/>\n    pensar de mim.<\/p>\n<p> &#8211; Conta-me l&aacute;, a quem te dirigiste para pedir pelo B&oacute;ris?<br \/>\n    perguntou a condessa. &#8211; A&iacute; o tens j&aacute; oficial da Guarda, enquanto<br \/>\n    o meu Nicolau ainda n&atilde;o passou de junker. N&atilde;o tenho ningu&eacute;m<br \/>\n    a quem o recomendar. A quem te dirigiste? &#8211; Ao pr&iacute;ncipe Vassili. Foi<br \/>\n    muito am&aacute;vel. P&ocirc;s-se logo &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Falou ao imperador &#8211; disse a princesa Ana com um ar vitorioso, esquecendo<br \/>\n    por completo as humilha&ccedil;&otilde;es a que tivera de sujeitar-se para<br \/>\n    alcan&ccedil;ar os seus fins.<\/p>\n<p> &#8211; Que, tal est&aacute; o pr&iacute;ncipe Vassili? Envelheceu? &#8211; inquiriu<br \/>\n    a condessa. &#8211; Nunca mais o vi desde o tempo das nossas teatradas em casa dos<br \/>\n    Rumiantsov. Naturalmente j&aacute; n&atilde;o se lembra de mim. Fazia-me a<br \/>\n    corte &#8211; acrescentou, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; a mesma pessoa &#8211; replicou Ana Mikailovna &#8211; am&aacute;vel,<br \/>\n    atencioso. As grandezas n&atilde;o lhe fizeram perder a cabe&ccedil;a. &laquo;Lamento<br \/>\n    poder t&atilde;o pouco, querida princesa&raquo;, disse-me ele, &laquo;mas<br \/>\n    d&ecirc;-me as suas ordens.&raquo; &Eacute; o que te digo, &eacute; uma excelente<br \/>\n    pessoa e um bom parente. Tu bem sabes. Nat&aacute;lia, o que o meu filho representa<br \/>\n    para mim. Nem eu sei o que seria capaz de fazer pela sua felicidade. Mas estou<br \/>\n    em circunst&acirc;ncias t&atilde;o penosas &#8211; continuou ela, num tom acabrunhado,<br \/>\n    e baixando a voz -, t&atilde;o penosas, que me vejo actualmente numa situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terr&iacute;vel. Aquele infeliz processo em que eu me meti leva-me tudo quanto<br \/>\n    tenho, e n&atilde;o h&aacute; maneira de andar para diante. Imagina que estou,<br \/>\n    como se diz, sem vint&eacute;m, e n&atilde;o sei como hei-de arranjar dinheiro<br \/>\n    para pagar o equipamento do B&oacute;ris. &#8211; Puxou do len&ccedil;o e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a chorar. &#8211; Preciso de quinhentos rublos, e tudo quanto tenho de meu, neste<br \/>\n    momento, &eacute; uma nota de vinte rublos. Aqui tens a minha situa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    A minha &uacute;nica esperan&ccedil;a, agora, &eacute; o conde Cirilo Vladimirovitch<br \/>\n    Bezukov. Se ele n&atilde;o vier em aux&iacute;lio do afilhado &#8211; como sabes,<br \/>\n    &eacute; padrinho do B&oacute;ris &#8211; e n&atilde;o fizer alguma coisa por ele,<br \/>\n    tudo quanto eu consegui at&eacute; agora n&atilde;o serve para nada: n&atilde;o<br \/>\n    poderei pagar o equipamento do rapaz.<\/p>\n<p> A condessa, de l&aacute;grimas nos olhes, ficou calada e pensativa.<\/p>\n<p> &#8211; Muitas vezes digo de mim para comigo, e talvez n&atilde;o seja bonito:<br \/>\n    ali est&aacute; o conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, um homem que vive sozinho<br \/>\n    &#8211; e, tem urna fortuna imensa&#8230; Para que &eacute; que aquele homem vive? A<br \/>\n    vida para ele &eacute; um fardo, enquanto que o B&oacute;ris, coitado, agora<br \/>\n    &eacute; que principia a viver.<\/p>\n<p> &#8211; Naturalmente n&atilde;o deixa de se lembrar dele no testamento &#8211; disse<br \/>\n    a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe l&aacute;, querida amiga! Estes rica&ccedil;os, estes nababos,<br \/>\n    s&atilde;o t&atilde;o ego&iacute;stas! Em todo o caso estou disposto a ir<br \/>\n    visit&aacute;-lo com o B&oacute;ris e dizer-lhe francamente o que se passa.<br \/>\n    Pensem de mim o que quiserem, tanto se me d&aacute;. Nada tem import&acirc;ncia<br \/>\n    para urna m&atilde;e quando est&aacute; em risco o destino de filho. &#8211; Levantou-se<br \/>\n    para sair. &#8211; S&atilde;o duas horas, o vosso jantar &eacute; &agrave;s quatro.<br \/>\n    Tenho tempo.<\/p>\n<p> E como mulher activa, da capital, que era, para quem () tempo &eacute; dinheiro.<br \/>\n    Ana Mikailovna mandou chamar o filho e saiu com ele.<\/p>\n<p> &#8211; Adeus, minha querida &#8211; disse para a condessa, que a acompanhou at&eacute;<br \/>\n    &agrave; porta, &#8211; Deseja-me sorte &#8211; segredou-lhe, a ocultas do filho.<\/p>\n<p> &#8211; Vai visitar o conde Cirilo Vladimirovitch, minha cara?- inquiriu o conde,<br \/>\n    da sala de jantar, e aparecendo na antec&acirc;mara- Se ele estiver melhor,<br \/>\n    convide o Pedro em, meu nome. Ele j&aacute; c&aacute; esteve em casa, j&aacute;<br \/>\n    dan&ccedil;ou com as pequenas. Convide-o em meu nome, sem falta, minha cara.<br \/>\n    Vamos a ver como se porta hoje o Taraska. Est&aacute; farto de me dizer que<br \/>\n    o conde Orlov nunca deu um jantar como o que ele me est&aacute; a preparar.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">Cap&iacute;tulo XV<\/a><\/h4>\n<p>&#8211; Meu querido B&oacute;ris &#8211; disse a princesa Ana Mikailovna para o filho<br \/>\n    quando a carruagem da condessa Rostov, que os tinha conduzido, chegou &agrave;<br \/>\n    rua atapetada de palha e penetrou no grande p&aacute;tio do conde Cirilo Vladimirovitch<br \/>\n    Bezukov.- Meu querido B&oacute;ris &#8211; repetiu, enquanto retirava a m&atilde;o<br \/>\n    da velha romeira de peles e a pousava no bra&ccedil;o do filho, num gesto<br \/>\n    ao mesmo tempo t&iacute;mido e enternecido- s&ecirc; am&aacute;vel, mostra-te<br \/>\n    atencioso. O conde Cirilo Vladimirovitch sempre &eacute; teu padrinho e &eacute;<br \/>\n    dele que depende o nosso futuro. Lembra-te disso, meu querido, s&ecirc; am&aacute;vel,<br \/>\n    como tu sabes, quando queres&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se eu tivesse a certeza de que de tudo isto sairia alguma coisa al&eacute;m<br \/>\n    da humilha&ccedil;&atilde;o que nos espera&#8230; &#8211; replicou o filho com frieza.-<br \/>\n    Mas, visto que lhe prometi, cumprirei a minha palavra; &eacute; por si que<br \/>\n    o fa&ccedil;o.<\/p>\n<p> O criado, embora tivesse visto a quem pertencia a carruagem parada diante<br \/>\n    da escada, quis ver quem entrava, mas m&atilde;e e filho, sem se fazerem anunciar,<br \/>\n    penetraram, directamente, no vest&iacute;bulo guarnecido de espelhos, entre<br \/>\n    duas fileiras de est&aacute;tuas perfiladas nos seus nichos. O criado, observando<br \/>\n    com um olhar significativo a velha romeira de peles, perguntou quem procuravam<br \/>\n    &#8211; as princesas ou o conde? -, e, ao verificar ser o conde, disse que, como<br \/>\n    Sua Excel&ecirc;ncia estava pior. Sua Excel&ecirc;ncia n&atilde;o recebia<br \/>\n    ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos-nos embora &#8211; disse o filho em franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Meu amigo! &#8211; implorou a m&atilde;e, tocando-lhe de novo no bra&ccedil;o,<br \/>\n    como se quisesse tranquiliz&aacute;-lo e dar-lhe coragem.<\/p>\n<p> B&oacute;ris n&atilde;o disse nada, e sem despir o casac&atilde;o olhou<br \/>\n    para a m&atilde;e com um ar inquiridor.<\/p>\n<p> &#8211; Ouve &#8211; disse Ana Mikailovna para o criado, num tom insinuante -, eu bem<br \/>\n    sei que o conde Cirilo Vladimirovitch est&aacute; muito mal.., e &eacute;<br \/>\n    precisamente por isso que eu aqui estou&#8230; Somos parentes&#8230; N&atilde;o quero<br \/>\n    incomodar ningu&eacute;m, meu amigo&#8230; Apenas desejava falar com o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili Serguievitch; sei que ele est&aacute; aqui. Vai anunciar-nos, fazes<br \/>\n    favor.<\/p>\n<p> O criado, com toda a solenidade, voltou costas e puxou o cord&atilde;o da<br \/>\n    campainha que tocava no andar superior.<\/p>\n<p> &#8211; A princesa Drubetskaia para o pr&iacute;ncipe Vassili Serguievitch &#8211; gritou<br \/>\n    ele a um escudeiro, de cal&ccedil;&atilde;o, escarpins e sobrecasaca, que<br \/>\n    acorrera e se debru&ccedil;ava da balaustrada da escadaria.<\/p>\n<p> A princesa ajeitou as pregas do vestido de seda tingida, mirou-se no grande<br \/>\n    espelho de Veneza que pendia (Ia parede e p&ocirc;s-se a subir a escada, altivamente,<br \/>\n    ao longo da passadeira, com os seus sapatos cambados.<\/p>\n<p> &#8211; Meu caro, prometeu-me &#8211; voltou ela para o filho, pegando-lhe no bra&ccedil;o<br \/>\n    para encoraj&aacute;-lo. O filho, de olhos baixos, seguia-a sem dizer palavra.<\/p>\n<p> Penetraram num sal&atilde;o que conduzia aos aposentos reservados para o<br \/>\n    pr&iacute;ncipe Vassili.<\/p>\n<p> No momento em, que m&atilde;e e filho, tendo chegado ao centro da sala,<br \/>\n    se dispunham a perguntar a um velho criado que viera ao seu encontro qual<br \/>\n    o caminho a seguir, o batente de bronze de uma das portas girou e o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, de samarra de veludo, s&oacute; com uma condecora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como era pr&oacute;prio da intimidade, apareceu, acompanhando um sujeito moreno,<br \/>\n    de muito bom aspecto. Era o famoso Dr. Lorrain, de Petersburgo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ent&atilde;o positivo? &#8211; Meu pr&iacute;ncipe, errare humanum<br \/>\n    est, mas&#8230; &#8211; volveu o m&eacute;dico, gaguejando e pronunciando o latim &agrave;<br \/>\n    francesa.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem, est&aacute; bem&#8230;<\/p>\n<p> Ao ver Ana Mikailovna e o filho, o pr&iacute;ncipe Vassili despediu-se do<br \/>\n    m&eacute;dico e avan&ccedil;ou em direc&ccedil;&atilde;o a eles, calado, mas<br \/>\n    com uma express&atilde;o interrogadora. O filho deu-se conta de que, repentinamente,<br \/>\n    os olhos da m&atilde;e exprimiam uma profunda afli&ccedil;&atilde;o, e um<br \/>\n    ligeiro sorriso lhe aflorou aos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, em que penosas circunst&acirc;ncias nos hav&iacute;amos<br \/>\n    de tornar a ver, pr&iacute;ncipe&#8230; E como vai o nosso querido doente? inquiriu<br \/>\n    ela, sem parecer notar o olhar frio e ultrajante que ele lhe lan&ccedil;ara.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili olhou para ela e depois para B&oacute;ris, como<br \/>\n    quem interroga, sem saber o que h&aacute;-de fazer. B&oacute;ris inclinou-se<br \/>\n    polidamente. O pr&iacute;ncipe Vassili, sem corresponder ao seu cumprimento,<br \/>\n    voltou-se para Ana Mikailovna e respondeu-lhe com um aceno de cabe&ccedil;a<br \/>\n    e um momo de l&aacute;bios nada optimista para o doente.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute; poss&iacute;vel?! &#8211; exclamou Ana Mikailovna. &#8211; Oh, &eacute;<br \/>\n    terr&iacute;vel! &#8211; N&atilde;o pode uma pessoa pensar numa coisa dessas&#8230;<br \/>\n    &Eacute; o meu filho &#8211; acrescentou, apontando B&oacute;ris. &#8211; Quis vir agradecer-lhe<br \/>\n    pessoalmente.<\/p>\n<p> B&oacute;ris inclinou-se outra vez com toda a correc&ccedil;&atilde;o. &#8211;<br \/>\n    Acredite, pr&iacute;ncipe, um cora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e nunca mais<br \/>\n    esquecer&aacute; o que fez por n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Sinto-me feliz por lhe poder ter sido prest&aacute;vel, minha cara Ana<br \/>\n    Mikailovna &#8211; volveu-lhe o pr&iacute;ncipe Vassili, compondo o jabot e pondo<br \/>\n    no seu gesto e na sua voz, em Moscovo, e na presen&ccedil;a da sua protegida,<br \/>\n    n&atilde;o menos import&acirc;ncia que em Petersburgo, na soir&eacute;e de<br \/>\n    Ana Scherer, &#8211; Fa&ccedil;a por ser um bom oficial e por se mostrar digno &#8211;<br \/>\n    &#8211; acrescentou, dirigindo-se a B&oacute;ris. &#8211; &#8211; Tenho muito prazer &#8211; Est&aacute;<br \/>\n    de licen&ccedil;a? &#8211; interrogou, num tom totalmente indiferente.<\/p>\n<p> &#8211; Aguardo ordens. Excel&ecirc;ncia, para me apresentar no meu novo regimento<br \/>\n    &#8211; replicou B&oacute;ris, sem mostrar quer ressentimento perante os modos abruptos<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe, quer desejos de prosseguir na conversa, irias respondendo<br \/>\n    com uma t&atilde;o respeitosa compostura que o pr&iacute;ncipe olhou para<br \/>\n    ele atentamente.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; em casa de sua m&atilde;e? &#8211; Vivo em casa da condessa Rostov<br \/>\n    &#8211; tornou B&oacute;ris, sem se esquecer de acrescentar: &#8211; Excel&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Ilia Rostov, que casou com Nat&aacute;lia Chinchina &#8211; elucidou Ana Mikailovna.<\/p>\n<p> &#8211; Bem sei, bem sei &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Vassili, com a sua voz inexpressiva.<br \/>\n    &#8211; Nunca pude compreender como a Nat&aacute;lia se decidiu a casar com esse<br \/>\n    burgesso! Uma pessoa est&uacute;pida e rid&iacute;cula. E ainda por cima jogador,<br \/>\n    pelo que dizem.<\/p>\n<p> &#8211; Mas uma excelente pessoa, meu pr&iacute;ncipe &#8211; acrescentou Ana Mikailovna,<br \/>\n    com um certo sorriso, como se ela fosse tamb&eacute;m de opini&atilde;o que<br \/>\n    o conde Rostov era digno de um tal ju&iacute;zo, mas entendesse que as pessoas<br \/>\n    deviam mostrar indulg&ecirc;ncia para com um pobre velho. &#8211; Que dizem os m&eacute;dicos?<br \/>\n    &#8211; perguntou, depois de um breve sil&ecirc;ncio, e afivelando, de novo, uma<br \/>\n    express&atilde;o de grande pesar no rosto cavado pelas l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; pouca esperan&ccedil;a &#8211; volveu o pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> &#8211; E eu que tanto queria uma vez ainda agradecer a meu tio todas as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que ele tem tido para comigo e para com meu filho. &Eacute; o seu afilhado<br \/>\n    &#8211; acrescentou, como se esta informa&ccedil;&atilde;o devesse causar uma grande<br \/>\n    alegria ao pr&iacute;ncipe Vassili.<\/p>\n<p> Este franziu as sobrancelhas, sem dizer nada. Ana Mikailovna percebeu que<br \/>\n    ele receava ver nela uma rival na disputa da heran&ccedil;a do conde Bezukov,<br \/>\n    e procurou logo tranquiliz&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; apenas por muita estima e dedica&ccedil;&atilde;o por meu tio<br \/>\n    &#8211; disse deixando cair, negligentemente, e com convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esta &uacute;ltima palavra,- Conhe&ccedil;o-lhe muito bem o car&aacute;cter<br \/>\n    nobre e franco; mas ele n&atilde;o tem junto de si sen&atilde;o as princesas&#8230;<br \/>\n    T&atilde;o novas&#8230; Inclinou-se-lhe ao ouvido e acrescentou em voz baixa:<br \/>\n    &#8211; Ele j&aacute; se preparou para a jornada, pr&iacute;ncipe? Estas &uacute;ltimas<br \/>\n    horas s&atilde;o t&atilde;o preciosas! N&atilde;o h&aacute; momento mais grave,<br \/>\n    &eacute; indispens&aacute;vel prepar&aacute;-lo, visto estar t&atilde;o mal.<br \/>\n    N&oacute;s, mulheres, pr&iacute;ncipe &#8211; sorriu carinhosamente -, n&oacute;s<br \/>\n    sabemos melhor do que ningu&eacute;m falar destas coisas. &Eacute; indispens&aacute;vel<br \/>\n    que eu o veja. Por mais penoso que isso seja para mim.., mas estou habituada<br \/>\n    ao sofrimento.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe compreendia, e mais do que nunca, que, como na soir&eacute;e<br \/>\n    de Ana Scherer, n&atilde;o lhe ia ser f&aacute;cil desembara&ccedil;ar-se<br \/>\n    de Ana Mikailovna.<\/p>\n<p> . N&atilde;o acha que esta entrevista lhe seria muito penosa, querida Ana<br \/>\n    Mikailovna? &#8211; volveu ele.- &Eacute; melhor esperarmos para amanh&atilde;.<br \/>\n    Os m&eacute;dicos previram uma crise.<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&atilde;o se deve esperar em tais momentos, pr&iacute;ncipe. Lembre-se<br \/>\n    que se trata da salva&ccedil;&atilde;o da sua alma&#8230; Ah!, s&atilde;o terr&iacute;veis,<br \/>\n    os deveres de um crist&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Uma porta dos aposentos interiores abriu-se e uma das sobrinhas do conde<br \/>\n    entrou, uma rapariga de aspecto triste e frio, com o tronco completamente<br \/>\n    desproporcionado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s pernas.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili voltou-se para ela.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, como est&aacute; ele? &#8211; Sempre na mesma. N&atilde;o admira,<br \/>\n    com este barulho.., disse a princesa, olhando para Ana Mikailovna, como se<br \/>\n    ela fosse uma desconhecida.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, querida, n&atilde;o a conhecia! &#8211; exclamou Ana Mikailovna, com um<br \/>\n    sorriso feliz e avan&ccedil;ando, ligeira, para a sobrinha do conde. &#8211; Acabo<br \/>\n    de chegar e estou &agrave;s suas ordens para a ajudar e tratar de meu tio.<br \/>\n    Calculo o que deve ter sofrido &#8211; acrescentou com um ar compadecido.<\/p>\n<p> A princesa n&atilde;o disse nada, nem sequer sorriu, e voltou, logo a, desaparecer.<br \/>\n    Ana Mikailovna descal&ccedil;ou as luvas e instalou-se numa cadeira, em posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conquistada, fazendo sinal ao pr&iacute;ncipe Vassili para sentar-se o lado<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> &#8211; B&oacute;ris! &#8211; disse para o filho, sorrindo-lhe.- Eu vou ver o conde,<br \/>\n    meu tio: tu, entretanto, meu amigo, procura o Pedro, e n&atilde;o te esque&ccedil;as<br \/>\n    de lhe transmitir o convite dos Rostov. Querem-no l&aacute; para jantar. Naturalmente<br \/>\n    n&atilde;o vai, penso eu &#8211; acrescentou, para o pr&iacute;ncipe, &#8211; Porque n&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; observou este, que n&atilde;o parecia l&aacute; muito bem disposto.- Ficar-lhe-ei<br \/>\n    muito grato se me desembara&ccedil;ar deste jovem, &#8211; Est&aacute; aqui instalado.<br \/>\n    O conde ainda n&atilde;o pediu uma &uacute;nica vez para o ver.<\/p>\n<p> Encolheu os ombros. Um escudeiro acompanhou B&oacute;ris, fazendo-o descer<br \/>\n    a escada e conduzindo-o depois por outra aos aposentos de Pedro Kirilovitch,\n  <\/p>\n<h4> <a name=\"16\">Cap&iacute;tulo XVI<\/a><\/h4>\n<p>Pedro, que n&atilde;o conseguira decidir-se por uma carreira em Petersburgo,<br \/>\n    havia sido, de facto, recambiado para Moscovo por causa do seu mau comportamento.<br \/>\n    A hist&oacute;ria que se contava em casa dos Rostov era exacta. Pedro tinha<br \/>\n    tornado parte na cena da amarra&ccedil;&atilde;o do pol&iacute;cia ao lombo<br \/>\n    do urso. Regressara havia apenas breves dias e, como era seu costume, instalara-se<br \/>\n    em casa do pai. Embora calculasse que a hist&oacute;ria j&aacute; seria conhecida<br \/>\n    em Moscovo e que as senhoras da roda do pai, sempre mal dispostas para com<br \/>\n    ele, j&aacute; teriam aproveitado a ocasi&atilde;o para indispor o conde consigo,<br \/>\n    nem por isso deixara de se apresentar nos aposentos do pai assim que chegara.<br \/>\n    Ao entrar no sal&atilde;o, quartel-general das princesas, cumprimentou as<br \/>\n    senhoras que estavam a bordar enquanto uma delas lia um livro em voz alta.<br \/>\n    Eram tr&ecirc;s. A mais velha era uma rapariga severa e de aspecto cuidado,<br \/>\n    de tronco muito alto, a mesma que aparecera a Ana Mikailovna; essa era a leitora;<br \/>\n    as duas mais novas, frescas e bonitas, t&atilde;o parecidas que apenas se<br \/>\n    distinguiam pelo sinalzinho que uma delas tinha sobre o l&aacute;bio e que<br \/>\n    a tornava ainda mais bonita, bordavam ao bastidor. Pedro foi recebido como<br \/>\n    um morto que ressuscita ou como um pest&iacute;fero. A mais velha interrompeu<br \/>\n    a leitura e, sem dizer nada, fitou-o de olhos espavoridos; a segunda, a que<br \/>\n    n&atilde;o tinha sinal, reproduziu exactamente a express&atilde;o da irm&atilde;;<br \/>\n    a mais nova, de feitio jovial e trocista, mergulhou a cabe&ccedil;a no trabalho<br \/>\n    para esconder o riso que lhe iria provocar a divertida cena com que j&aacute;<br \/>\n    contava. Levantou o bastidor e inclinou-se para o bordado, como se estivesse<br \/>\n    absorta no seu trabalho, mal podendo suster o riso.<\/p>\n<p> &#8211; Bom dia, prima &#8211; disse Pedro. &#8211; J&aacute; n&atilde;o me conhece? &#8211; Conhe&ccedil;o-o<br \/>\n    de mais, conhe&ccedil;o-o de mais, sim, de mais. &#8211; Como est&aacute; o conde?<br \/>\n    Posso v&ecirc;-lo? &#8211; continuou, embara&ccedil;ado, como sempre, mas sem se<br \/>\n    perturbar.<\/p>\n<p> &#8211; O conde est&aacute; mal f&iacute;sica e moralmente, e, pelo que sei, o<br \/>\n    Pedro tem feito o poss&iacute;vel para lhe agravar os seus padecimentos morais.<\/p>\n<p> &#8211; Posso v&ecirc;-lo? &#8211; repetiu Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; Hum&#8230; Se o quer matar, sim; se o quer matar, ent&atilde;o, fa&ccedil;a<br \/>\n    favor. Olga, vai ver se o caldo do tio est&aacute; pronto; estamos quase na<br \/>\n    hora &#8211; acrescentou ela, mostrando com isso a Pedro que n&atilde;o faziam outra<br \/>\n    coisa sen&atilde;o aliviar os sofrimentos do pai, enquanto ele s&oacute; servia,<br \/>\n    evidentemente, para o desassossegar.<\/p>\n<p> Olga saiu. Pedro olhou as duas irm&atilde;s e disse, pedindo licen&ccedil;a<br \/>\n    para se retirar: &#8211; Ent&atilde;o vou-me embora. Quando eu puder v&ecirc;-lo,<br \/>\n    espero que me mandem chamar.<\/p>\n<p> Saiu e o riso meio abafado da mais nova ressoou-lhe nas costas.<\/p>\n<p> No dia seguinte, o pr&iacute;ncipe Vassili chegava e instalava-se em casa<br \/>\n    do conde. Mandou chamar Pedro e disse-lhe: &#8211; Meu caro, se se vai comportar<br \/>\n    aqui como em Petersburgo, acabar&aacute; mal, &eacute; tudo quanto tenho a<br \/>\n    dizer-lhe. O conde est&aacute; muit&iacute;ssimo doente: deve evitar v&ecirc;-lo<br \/>\n    por completo.<\/p>\n<p> A partir desse momento nunca mais ningu&eacute;m pensou em Pedro, que passava<br \/>\n    os dias nos seus aposentos, no andar de cima.<\/p>\n<p> Quando B&oacute;ris entrou no quarto. Pedro passeava de um lado para o outro,<br \/>\n    detendo-se, de vez em quando, num dos &acirc;ngulos da sala, gesticulando<br \/>\n    amea&ccedil;adoramente diante da parede, como se desafiasse qualquer inimigo<br \/>\n    invis&iacute;vel, e lan&ccedil;ando olhares severos por cima das lunetas.<br \/>\n    Depois, retomava a sua caminhada, pronunciava palavras incompreens&iacute;veis,<br \/>\n    encolhia os ombros, agitava os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> &#8211; A Inglaterra est&aacute; liquidada &#8211; articulava ele, franzindo as sobrancelhas,<br \/>\n    e apontando fosse o que fosse com o dedo.- O Senhor Pitt, como traidor da<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o e do direito dos povos, est&aacute; condenado a&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o p&ocirc;de concluir a senten&ccedil;a que condenava Pitt. Julgava-se<br \/>\n    Napole&atilde;o e na companhia do seu her&oacute;i atravessava j&aacute; o<br \/>\n    perigoso Pas de Calais, a caminho da conquista de Londres, quando viu entrar<br \/>\n    um jovem e garboso oficial. Calou-se. Tinha deixado de ver B&oacute;ris ia<br \/>\n    este nos seus catorze anos, e n&atilde;o se lembrava realmente dele. Apesar<br \/>\n    disso, travou-lhe do bra&ccedil;o, com os seus modos atenciosos e espont&acirc;neos,<br \/>\n    sorrindo-lhe amistosamente, &#8211; Lembra-se de mim? &#8211; perguntou B&oacute;ris,<br \/>\n    serenamente, e com um sorriso gracioso. &#8211; Vim com minha m&atilde;e visitar<br \/>\n    o conde, mas, segundo parece, ele n&atilde;o est&aacute; bem de sa&uacute;de.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, digamos, est&aacute; doente. Est&atilde;o sempre a incomod&aacute;-lo<br \/>\n    replicou Pedro, procurando lembrar-se donde conhecia aquele mancebo.<\/p>\n<p> B&oacute;ris via perfeitamente que Pedro o n&atilde;o reconhecia, mas n&atilde;o<br \/>\n    se achava na obriga&ccedil;&atilde;o de lhe dizer quem era. E fitou-o sem<br \/>\n    o menor embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; O conde Rostov pede-lhe que v&aacute; hoje jantar a casa dele &#8211; disse,<br \/>\n    ap&oacute;s uma pausa assaz longa e algo embara&ccedil;osa para Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, o conde Rostov! &#8211; exclamou Pedro muito contente.- Ent&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o Ilia, o filho do conde. E eu que o n&atilde;o tinha reconhecido no primeiro<br \/>\n    momento. Lembra-se quando &iacute;amos passear ao Monte dos Pardais (Passeio<br \/>\n    c&eacute;lebre em Moscovo. (N, dos T.) com Madame Jacquot&#8230; J&aacute; l&aacute;<br \/>\n    vai h&aacute; muito.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; enganado &#8211; disse B&oacute;ris, sem pressa, e com um sorriso<br \/>\n    protector e um pouco trocista. &#8211; Sou B&oacute;ris, o filho da princesa Ana<br \/>\n    Mikailovna Drubetskaia. Ilia &eacute; o Rostov pai. O filho chama-se Nicolau.<br \/>\n    E n&atilde;o conhe&ccedil;o qualquer Madame Jacquot.<\/p>\n<p> Pedro abanou a cabe&ccedil;a e gesticulou, como se quisesse enxotar moscas<br \/>\n    ou abelhas importunas.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, que estou eu a dizer? Confundo tudo. H&aacute; tantos parentes em<br \/>\n    Moscovo! J&aacute; sei, o B&oacute;ris.., perfeitamente. At&eacute; que enfim<br \/>\n    que estamos de acordo. Ora, diga-me, que pensa da expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Bolonha? N&atilde;o acha que os Ingleses ficar&atilde;o em maus len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    se Napole&atilde;o conseguir atravessar o canal? Na minha opini&atilde;o,<br \/>\n    a expedi&ccedil;&atilde;o &eacute; coisa vi&aacute;vel. Desde que Villeneuve<br \/>\n    n&atilde;o fa&ccedil;a alguma asneira.<\/p>\n<p> B&oacute;ris n&atilde;o sabia absolutamente nada acerca da expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Bolonha; n&atilde;o lia os jornais, e era a primeira vez que ouvia falar<br \/>\n    em Villeneuve.<\/p>\n<p> &#8211; N&oacute;s, aqui, em Moscovo, preocupamo-nos mais com jantares e mexericos<br \/>\n    do que com pol&iacute;tica &#8211; disse ele no seu tom sereno e escarninho. &#8211; Nada<br \/>\n    sei a esse respeito, nem tenho opini&atilde;o sobre o assunto. Moscovo &eacute;<br \/>\n    uma cidade que presta sobretudo aten&ccedil;&atilde;o aos esc&acirc;ndalos.<br \/>\n    Neste momento n&atilde;o se fala noutra coisa sen&atilde;o de si e do conde.<\/p>\n<p> Pedro sorria, e o seu sorriso bom parecia traduzir o receio de que o interlocutor<br \/>\n    se desca&iacute;sse com qualquer palavra de que pudesse vir a arrepender-se.<br \/>\n    Mas B&oacute;ris falava distintamente, com nitidez e secura, fitando-o nos<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Moscovo n&atilde;o tem mais que fazer sen&atilde;o coscuvilhar &#8211; continuou.<br \/>\n    &#8211; Toda a gente est&aacute; morta por saber a quem &eacute; que o conde vai<br \/>\n    deixar a sua imensa fortuna, embora muito bem possa acontecer que ele c&aacute;<br \/>\n    fique para nos enterrar a todos, e fa&ccedil;o votos para que assim seja,<br \/>\n    &#8211; Sim, tudo isto faz tristeza &#8211; murmurou Pedro.- Muita tristeza.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o deixara de temer que o oficial, estouvadamente, abordasse<br \/>\n    qualquer conversa embara&ccedil;osa para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Como deve calcular &#8211; continuou B&oacute;ris, corando ligeiramente, mas<br \/>\n    sem alterar o seu tom e o seu semblante reservados -, como deve calcular,<br \/>\n    o que toda a gente espera de um rica&ccedil;o &eacute; vir a receber dele<br \/>\n    qualquer coisa.<\/p>\n<p> &laquo;Ora a&iacute; est&aacute;&raquo;, disse Pedro com os seus bot&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; E era precisamente isso que eu lhe queria dizer, para evitar equ&iacute;vocos:<br \/>\n    que est&aacute; muito enganado se nos considera, a minha m&atilde;e e a mim,<br \/>\n    na categoria dessa gente. N&oacute;s somos bastante pobres, mas posso garantir-lhe,<br \/>\n    pelo menos no que me diz respeito, que &eacute; precisamente porque seu pai<br \/>\n    &eacute; rico que eu me n&atilde;o considero seu parente, e que tanto eu como<br \/>\n    minha m&atilde;e nunca lhe pediremos seja o que for, nem nada aceitaremos<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p> Levou seu tempo antes que Pedro compreendesse, mas assim que o conseguiu<br \/>\n    deu um pulo do div&atilde;, pegou em B&oacute;ris por debaixo do bra&ccedil;o,<br \/>\n    com a sua vivacidade de gestos e a sua habitual maneira desajeitada, e, corando<br \/>\n    ainda mais que o seu interlocutor, p&ocirc;s-se a dizer-lhe, num misto de<br \/>\n    pudor e embara&ccedil;o: &#8211; Que est&aacute; a dizer? Ser&aacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que&#8230; Quem &eacute; que seria capaz de pensar&#8230; Eu sei perfeitamente&#8230;<\/p>\n<p> Mas B&oacute;ris mais uma vez lhe cortou a palavra.<\/p>\n<p> &#8211; Estou satisfeito por ter-lhe dito tudo isto. Naturalmente n&atilde;o lhe<br \/>\n    foi muito agrad&aacute;vel de ouvir, desculpe-me &#8211; acrescentou, para tranquilizar<br \/>\n    Pedro, quando quem devia esperar ser tranquilizado era ele pr&oacute;prio.-<br \/>\n    Mas espero que o n&atilde;o tenha ofendido. Tenho por princ&iacute;pio usar<br \/>\n    de franqueza&#8230; Que resposta quer que eu d&ecirc;? Sempre vai ao jantar dos<br \/>\n    Rostov? B&oacute;ris, depois de assim se ter desembara&ccedil;ado de um penoso<br \/>\n    dever e de ter transferido para outrem a falsa situa&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    se encontrava, tomou-se muito am&aacute;vel, como era seu costume.<\/p>\n<p> &#8211; Ou&ccedil;a c&aacute; &#8211; disse Pedro, tranquilizado- Voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    uma pessoa extraordin&aacute;ria. O que acaba de me dizer &eacute; bonito,<br \/>\n    muito bonito. Claro que me n&atilde;o conhece. H&aacute; tantos anos que nos<br \/>\n    n&atilde;o vemos.., desde crian&ccedil;as&#8230; Talvez suponha que eu&#8230; Sim,<br \/>\n    compreendo-o perfeitamente. N&atilde;o teria feito uma coisa dessas, n&atilde;o<br \/>\n    teria tido coragem, mas acho muito bem. Gostei muito de o conhecer. &Eacute;<br \/>\n    curioso &#8211; acrescentou, ap&oacute;s uma breve pausa e sorrindo- o que foi capaz<br \/>\n    de pensar de mim! &#8211; P&ocirc;s-se a rir.- Mas que import&acirc;ncia tem isso?<br \/>\n    Havemos de ter ocasi&atilde;o de nos conhecermos melhor, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade? &#8211; Apertou-lhe a m&atilde;o.- Fique sabendo que eu ainda n&atilde;o<br \/>\n    pus os p&eacute;s no quarto do conde. N&atilde;o me mandou sequer chamar&#8230;<br \/>\n    Tenho pena dele&#8230; Mas que hei-de eu fazer? &#8211; Acha que Napole&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    capaz de levar a cabo a travessia? &#8211; perguntou B&oacute;ris, com um sorriso.<\/p>\n<p> Pedro disse de si para consigo que B&oacute;ris queria mudar de conversa,<br \/>\n    e, fazendo-lhe a vontade, p&ocirc;s-se a descrever-lhe, pormenorizadamente,<br \/>\n    as vantagens e as dificuldades da tentativa de Bolonha.<\/p>\n<p> Um criado veio procurar B&oacute;ris, mandado pela princesa, a qual ia partir.<br \/>\n    Pedro prometeu aparecer no jantar, e, para mais estreitar os seus la&ccedil;os<br \/>\n    com B&oacute;ris, apertou-lhe energicamente a m&atilde;o. Fitando-o amistosamente<br \/>\n    atrav&eacute;s dos cristais das suas lunetas&#8230; Depois de B&oacute;ris sair<br \/>\n    continuou por muito tempo a passear no quarto, j&aacute; n&atilde;o a rachar,<br \/>\n    de alto a baixo, inimigos invis&iacute;veis, mas sorrindo &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    daquele rapaz am&aacute;vel, ao mesmo tempo inteligente e resoluto.<\/p>\n<p> Como &eacute; vulgar com a gente muito mo&ccedil;a, e especialmente se vive<br \/>\n    isolada. Pedro sentia por aquele rapaz um enternecimento sem raz&atilde;o<br \/>\n    de ser, prometendo de si para consigo fazer dele um verdadeiro amigo.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili acompanhava a princesa. Esta levava o len&ccedil;o<br \/>\n    nos olhos e tinha o rosto coberto de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; horr&iacute;vel, &eacute; horr&iacute;vel! &#8211; exclamava ela.-<br \/>\n    Mas hei-de cumprir o meu dever custe o que custar. Hei-de vir tomar conta<br \/>\n    dele. N&atilde;o o podem deixar neste estado. Cada minuto que passa &eacute;<br \/>\n    tempo perdido. N&atilde;o sei porque est&atilde;o &agrave; espera as princesas.<br \/>\n    Que Deus me inspire a maneira de o preparar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Adeus, meu pr&iacute;ncipe, que Deus o ajude!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Adeus, minha amiga &#8211; replicou o pr&iacute;ncipe Vassili, ao deix&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, que situa&ccedil;&atilde;o terr&iacute;vel &#8211; disse a m&atilde;e para<br \/>\n    o filho, ao subirem para a carruagem.- Quase j&aacute; n&atilde;o conhece<br \/>\n    ningu&eacute;m. &#8211; N&atilde;o chego a compreender, m&atilde;e, quais s&atilde;o<br \/>\n    as rela&ccedil;&otilde;es dele com o Pedro &#8211; observou o filho.<\/p>\n<p> &#8211; O testamento nos h&aacute;-de dizer, meu amigo. E o nosso destino depende<br \/>\n    disso&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, o que &eacute; que a leva a pensar que ele nos deixa alguma coisa?<br \/>\n    &#8211; Ah, meu filho! Ele &eacute; t&atilde;o rico e n&oacute;s somos t&atilde;o<br \/>\n    pobres! &#8211; Isso n&atilde;o &eacute; uma raz&atilde;o, m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ai, meu Deus, meu Deus, o estado em que ele est&aacute;! &#8211; suspirava ela.<\/p>\n<h4> <a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h4>\n<p>Depois que Ana Mikailovna e o filho sa&iacute;ram para se dirigir a casa<br \/>\n    do conde Cirilo Vladimirovitch Bezukov, a condessa Rostov ficou por muito<br \/>\n    tempo sozinha, de len&ccedil;o nos olhos. Por fim, tocou a campainha.<\/p>\n<p> &#8211; Que andas tu a fazer? &#8211; disse ela, irritada, para a criada, que tinha<br \/>\n    tardado alguns minutos a aparecer. &#8211; N&atilde;o queres fazer as tuas obriga&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Nesse caso, posso arranjar-te outra casa.<\/p>\n<p> A condessa t&atilde;o perturbada ficara com as afli&ccedil;&otilde;es e<br \/>\n    a humilhante pobreza da amiga que estava de mau humor, e quando se irritava<br \/>\n    falava sempre assim &agrave; pobre rapariga.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o desculpa, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8211; Vai dizer ao senhor conde que venha c&aacute;.<\/p>\n<p> O conde, no seu passo claudicante, veio ao encontro da mulher, com o ar<br \/>\n    habitual de quem &eacute; surpreendido a fazer qualquer coisa mal feita.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, condessinha! Aquilo &eacute; que &eacute; um saut&eacute; de galinholas<br \/>\n    au Mad&egrave;re que n&oacute;s l&aacute; temos, minha querida! J&aacute;<br \/>\n    o provei. Fiz muito bem em dar mil rublos ao Taraska. Vale-os bem! Sentou-se<br \/>\n    ao lado da condessa, apoiando os cotovelos nos joelhos, os cabelos brancos<br \/>\n    em desordem.<\/p>\n<p> &#8211; Que deseja, condessa? &#8211; Olhe l&aacute;, querido&#8230; Que n&oacute;doa &eacute;<br \/>\n    essa? &#8211; disse ela, apontando-lhe o colete.- Naturalmente, foi o saut&eacute;<br \/>\n    &#8211; acrescentou, sorrindo.- &Eacute; que preciso de dinheiro.<\/p>\n<p> Tinha assumido uma express&atilde;o tristonha.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, condessinha!&#8230;<\/p>\n<p> O conde deu-se pressa em ir buscar a carteira.<\/p>\n<p> &#8211; Preciso de muito dinheiro, conde; de quinhentos rublos.<\/p>\n<p> E, puxando do seu lencinho de cambraia, p&ocirc;s-se a esfregar o colete<br \/>\n    do marido.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; j&aacute;, &eacute; j&aacute;. Eh l&aacute;! Quem &eacute; que<br \/>\n    est&aacute; a&iacute;? &#8211; gritou, no tom de um homem que sabe que basta chamar<br \/>\n    para logo acorrerem ao seu apelo. &#8211; Manda c&aacute; o Mitenka.<\/p>\n<p> Mitenka, o jovem de boa fam&iacute;lia a educar em casa do conde, e, que<br \/>\n    estava &agrave; testa de todos os seus neg&oacute;cios, entrou na sala calmamente.<\/p>\n<p> &#8211; Ouve c&aacute; &#8211; disse o conde para o jovem, que se aproximou em atitude<br \/>\n    respeitosa. &#8211; Traz-me&#8230; &#8211; Ficou um momento a pensar. &#8211; Sim, setecentos rublos.<br \/>\n    Mas, toma cuidado, n&atilde;o me tragas dessas notas rasgadas e sujas, como<br \/>\n    da outra vez. Quero notas novas, s&atilde;o para a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Sim. Mitenka, que sejam limpas &#8211; apoiou a condessa, com um profundo suspiro.<\/p>\n<p> &#8211; Quando precisa desse dinheiro. Excel&ecirc;ncia? &#8211; perguntou Mitenka.-<br \/>\n    &Eacute; bom que Sua Excel&ecirc;ncia saiba que&#8230; Mas n&atilde;o se aflija<br \/>\n    &#8211; acrescentou, notando que a respira&ccedil;&atilde;o do conde se tornava<br \/>\n    opressa, sinal de que principiava a encolerizar-se.- Tinha-me esquecido, precisamente&#8230;<br \/>\n    Quer j&aacute; essa import&acirc;ncia? &#8211; Quero, quero, tr&aacute;-la. &Eacute;<br \/>\n    para a dares &agrave; condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Isto &eacute; que &eacute; um tesouro, este Mitenka &#8211; prosseguiu ele,<br \/>\n    sorrindo, assim que o rapaz saiu.- N&atilde;o me venham dizer que &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel. Isso &eacute; que eu n&atilde;o posso tolerar. Tudo &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, o dinheiro, conde, o dinheiro, as afli&ccedil;&otilde;es que o dinheiro<br \/>\n    causa neste mundo! &#8211; exclamou a condessa. &#8211; E eu preciso muito deste dinheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Pois, sim, condessinha, toda a gente sabe que &eacute; uma perdul&aacute;ria<br \/>\n    &#8211; disse o conde; e, depois de beijar a m&atilde;o da mulher, retirou-se para<br \/>\n    o seu gabinete.<\/p>\n<p> Quando Ana Mikailovna voltou de casa de Bezukov, j&aacute; a condessa tinha<br \/>\n    em seu poder o dinheiro, todo em notas novas, em cima de uma mesa, debaixo<br \/>\n    do len&ccedil;o de assoar, e Ana Mikailovna viu perfeitamente que a amiga<br \/>\n    estava preocupada.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, minha amiga? &#8211; inquiriu a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, que situa&ccedil;&atilde;o horr&iacute;vel a dele! Est&aacute; irreconhec&iacute;vel.<br \/>\n    E t&atilde;o mal, t&atilde;o mal! Estive junto dele apenas uns momentos, e<br \/>\n    n&atilde;o lhe pude dizer uma &uacute;nica palavra&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Annette, por amor de Deus, n&atilde;o digas que n&atilde;o! &#8211; exclamou,<br \/>\n    de s&uacute;bito, a condessa corando muito, o que era estranho naquele rosto<br \/>\n    magro e grave, nada novo j&aacute;, e tirou o dinheiro que tinha debaixo do<br \/>\n    len&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ana Mikailovna compreendeu imediatamente de que se tratava e debru&ccedil;ou-se<br \/>\n    para beijar a amiga no momento prop&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui tens, da minha parte, para o uniforme do B&oacute;ris.<\/p>\n<p> Ana Mikailovna abra&ccedil;ou-se ent&atilde;o a ela a chorar. A condessa<br \/>\n    tamb&eacute;m chorou. Ambas choravam, porque ambas estavam de acordo e tamb&eacute;m<br \/>\n    porque eram pessoas de bom cora&ccedil;&atilde;o e excelentes amigas de inf&acirc;ncia<br \/>\n    e se viam obrigadas a preocupar-se com essa coisa desprez&iacute;vel que &eacute;<br \/>\n    o dinheiro e ainda tamb&eacute;m porque j&aacute; n&atilde;o eram novas&#8230;<br \/>\n    Mas as suas l&aacute;grimas n&atilde;o eram amargas&#8230;<\/p>\n<h4> <a name=\"18\">Cap&iacute;tulo XVIII<\/a><\/h4>\n<p>A condessa Rostov estava sentada no sal&atilde;o, no meio de suas filhas,<br \/>\n    j&aacute; entre um grande n&uacute;mero de convidados. O conde tinha levado<br \/>\n    consigo os homens para mostrar-lhes, no gabinete, a sua colec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cachimbos turcos. De vez em quando vinha c&aacute; fora perguntar se ela<br \/>\n    ainda n&atilde;o tinha chegado. Estava-se &agrave; espera de Maria Dmitrievna<br \/>\n    Akrosimova, conhecida na sociedade por o terr&iacute;vel drag&atilde;o, uma<br \/>\n    senhora a quem n&atilde;o distinguiam nem a fortuna nem os t&iacute;tulos,<br \/>\n    mas a inteireza e a franca simplicidade de maneiras. Maria Dmitrievna era<br \/>\n    conhecida da fam&iacute;lia imperial, e toda Moscovo e toda Petersburgo a<br \/>\n    conheciam igualmente, e as duas cidades, posto a admirassem, nas costas dela<br \/>\n    zombavam do seu ar rude, contando anedotas a seu respeito. Toda a gente, sem<br \/>\n    excep&ccedil;&atilde;o, a estimava e a temia um pouco.<\/p>\n<p> No gabinete, cheio de fumo, a conversa tinha por assunto guerra, que um<br \/>\n    manifesto acabava de anunciar, e o servi&ccedil;o de recrutamento. Ainda ningu&eacute;m<br \/>\n    tinha lido esse manifesto, mas toda a gente sabia da sua exist&ecirc;ncia.<br \/>\n    O conde estava sentado numa otomana, entre dois fumadores, que conversavam.<br \/>\n    Quanto a ele, n&atilde;o fumava nem falava. Voltando a cabe&ccedil;a ora para<br \/>\n    um lado ou para o outro, olhava para os interlocutores com viva satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e ouvia o que diziam aquelas duas criaturas que ele pusera em contacto.<\/p>\n<p> Um deles era civil, de rosto magro, escanhoado, bilioso e cheio de rugas.<br \/>\n    Pendia j&aacute; para a velhice, conquanto vestisse como um rapaz &agrave;<br \/>\n    moda. Sentava-se &agrave; turca na otomana, como se estivesse em sua pr&oacute;pria<br \/>\n    casa, e, com a boquilha de &acirc;mbar ao canto da boca, lan&ccedil;ava rolos<br \/>\n    de fumo, de tempos a tempos, piscando os olhos. Era um velho celibat&aacute;rio.<br \/>\n    Chinchine de nome, primo da condessa, um m&aacute;-l&iacute;ngua, como se<br \/>\n    dizia nos sal&otilde;es moscovitas. Conversando, parecia conceder uma alta<br \/>\n    distin&ccedil;&atilde;o ao seu interlocutor. Este era um oficial da Guarda,<br \/>\n    rosado e fresco, bem apertado, bem penteado e irrepreens&iacute;vel na sua<br \/>\n    farda. De cachimbo na bonita boca, soltava ligeiros rolos de fumo, por entre<br \/>\n    os l&aacute;bios rosados, que subiam no ar em pequenos c&iacute;rculos. Era<br \/>\n    o tenente Berg, do regimento Seminovski, actual camarada de B&oacute;ris,<br \/>\n    aquele a quem Natacha chamara, para irritar a irm&atilde;, o noivo da Vera.<br \/>\n    O conde tinha-se sentado entre os dois e ouvia-os atentamente. A ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que ele mais gostava, &agrave; parte o boston, que adorava, era precisamente<br \/>\n    o papel de auditor, sobretudo quando conseguira defrontar dois tagarelas.<\/p>\n<p> &#8211; He, como &eacute; isso, meu mui vener&aacute;vel Afonso Karlitch &#8211; dizia<br \/>\n    Chinchine, trocista, misturando as express&otilde;es o mais tipicamente russas<br \/>\n    com as frases francesas mais rebuscadas. &#8211; Conta tirar rendimentos do Estado,<br \/>\n    quer tirar lucros do seu esquadr&atilde;o? &#8211; N&atilde;o. Piotre Nikolaitch,<br \/>\n    apenas queria mostrar-lhe que a cavalaria oferece muito menos vantagens que<br \/>\n    a infantaria. Considere a minha posi&ccedil;&atilde;o. Piotre Nikolaitch&#8230;<\/p>\n<p> Berg falava sempre com precis&atilde;o, num tom calmo e cort&ecirc;s. Tudo<br \/>\n    quanto dizia lhe tocava a ele pr&oacute;prio de perto. &Egrave; era capaz<br \/>\n    de estar calado horas sem se enfadar com isso nem causar aos outros o m&iacute;nimo<br \/>\n    enfado. Mas desde que a conversa o tocasse pessoalmente, logo ele intervinha<br \/>\n    com exuber&acirc;ncia e vis&iacute;vel prazer.<\/p>\n<p> &#8211; Considere a minha posi&ccedil;&atilde;o. Piotre Nikolaitch. Se eu estivesse<br \/>\n    na cavalaria n&atilde;o teria mais de duzentos rublos de tr&ecirc;s em tr&ecirc;s<br \/>\n    meses, mesmo no posto de tenente, e actualmente tenho duzentos e trinta&#8230;<br \/>\n    &#8211; Um alegre e afectuoso sorriso acompanhava as suas palavras, e olhava para<br \/>\n    Chinchine e para o conde como se fosse a pr&oacute;pria evid&ecirc;ncia os<br \/>\n    seus pr&oacute;prios &ecirc;xitos, dele. Berg, serem como que a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suprema de toda a humanidade.<\/p>\n<p> &#8211; Al&eacute;m disso. Piotre Nikolaitch, passando para a Guarda &#8211; continuou<br \/>\n    ele -, estou mais em evid&ecirc;ncia e as vagas s&atilde;o em muito maior<br \/>\n    n&uacute;mero na infantaria. E, depois, pode calcular como eu me arranjo com<br \/>\n    os duzentos e trinta rublos. Pois fique sabendo que fa&ccedil;o economias<br \/>\n    e ainda mando dinheiro a meu pai &#8211; disse, entre duas fuma&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; A&iacute; &eacute; que est&aacute; a habilidade- O Alem&atilde;o malha<br \/>\n    o milho em cima do cabo de um machado, como diz o prov&eacute;rbio. (Prov&eacute;rbio<br \/>\n    russo intraduz&iacute;vel que se refere &agrave;, avareza. (N, dos T) &#8211; disse<br \/>\n    Chinchine, piscando o olho ao conde e mudando a posi&ccedil;&atilde;o do cachimbo.<\/p>\n<p> O conde soltou urna gargalhada. Alguns dos convidados, verificando que Chinchine<br \/>\n    era a alma da conversa, aproximaram-se para ouvir. Berg, que n&atilde;o dava<br \/>\n    nem pela zombaria nem pela frieza que acolhiam as suas considera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    continuava a historiar que, gra&ccedil;as &agrave; sua passagem pela Guarda,<br \/>\n    j&aacute; ganhara um n&uacute;mero sobre os seus camaradas de promo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    que, em tempo de guerra, um comandante de esquadr&atilde;o pode morrer e que<br \/>\n    ele, na sua qualidade de mais antigo, muito facilmente poderia vir a substitui-lo;<br \/>\n    que no seu regimento toda a gente o adorava, e que o pai estava muito contente<br \/>\n    com ele. Berg deliciava-se claramente com todas estas revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e parecia n&atilde;o passar-lhe sequer pela cabe&ccedil;a que os demais pudessem<br \/>\n    ter tamb&eacute;m os seus interesses. A verdade, por&eacute;m, &eacute; que<br \/>\n    tudo quanto ele dizia tinha um ar t&atilde;o decente e t&atilde;o gracioso,<br \/>\n    era tamanha a candura do seu ego&iacute;smo juvenil que os seus interlocutores<br \/>\n    se sentiam desarmados.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, bom, meu filho, garanto-lhe que tanto na infantaria como na cavalaria,<br \/>\n    seja onde for, o seu futuro est&aacute; garantido, isso prometo-lhe eu &#8211; disse<br \/>\n    Chinchine, batendo-lhe nas costas e erguendo-se da otomana, Berg sorriu com<br \/>\n    um ar feliz. O conde, e com ele os seus h&oacute;spedes, penetraram no sal&atilde;o.<\/p>\n<p> Estava-se naquele momento que antecede os jantares de cerim&oacute;nia em<br \/>\n    que os convidados, &agrave; espera da hora dos zakusski, n&atilde;o se embrenham<br \/>\n    em grandes conversas, sentindo-se obrigados a agitar-se e a n&atilde;o estarem<br \/>\n    calados, para assim darem a impress&atilde;o de n&atilde;o terem pressa de<br \/>\n    ir para a mesa. Os donos da casa lan&ccedil;avam, de vez em quando, o seu<br \/>\n    olhar para a porta, e entreolhavam-se depois. Por sua vez, os convidados procuravam<br \/>\n    discernir nesses olhares quem se aguardava e o que ainda se aguardava: seria<br \/>\n    alguma importante pessoa de fam&iacute;lia retardat&aacute;ria ou alguma iguaria<br \/>\n    que ainda n&atilde;o estivesse pronta? Pedro chegara um pouco antes de come&ccedil;ar<br \/>\n    o jantar e, desajeitado, foi sentar-se, no meio do sal&atilde;o, na primeira<br \/>\n    cadeira que se lhe deparou, embara&ccedil;ando o caminho a toda a gente. A<br \/>\n    condessa quis obrig&aacute;-lo a falar, mas ele lan&ccedil;ou um olhar ing&eacute;nuo<br \/>\n    em tomo de si por detr&aacute;s das lentes, como se procurasse algu&eacute;m,<br \/>\n    e n&atilde;o respondeu &agrave;s suas investidas sen&atilde;o por monoss&iacute;labos.<br \/>\n    Era incomodativo e s&oacute; ele n&atilde;o compreendia que o estava a ser.<br \/>\n    A maior parte dos convidados, que tinha sabido da sua hist&oacute;ria com<br \/>\n    o urso, observava, curiosamente, aquele rapag&atilde;o, corpulento e pac&iacute;fico,<br \/>\n    perguntando cada um a si mesmo como &eacute; que um simpl&oacute;rio daqueles,<br \/>\n    gordo e modesto, podia ter sido o autor da proeza em que um pol&iacute;cia<br \/>\n    se vira envolvido.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute; agora chegou? &#8211; inquiriu a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, minha senhora &#8211; respondeu ele, distraidamente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o viu ainda meu marido? &#8211; N&atilde;o, minha senhora. &#8211; P&ocirc;s-<br \/>\n    se a rir sem saber porqu&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Ouvi dizer que esteve h&aacute; pouco tempo em Paris? &Eacute; interessante,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;? &#8211; Muito interessante.<\/p>\n<p> A condessa trocou um olhar com Ana Mikailovna, que percebeu aquela pedir-lhe<br \/>\n    que tomasse conta do rapaz. Sentando-se junto dele, p&ocirc;s-se a falar-lhe<br \/>\n    do pai. Mas ele, como acontecera com a condessa, apenas lhe respondia por<br \/>\n    monoss&iacute;labos. Os convidados estavam muito ocupados. Ouviam-se fragmentos<br \/>\n    de frases: &laquo;Os Razumovski&#8230;&raquo;, &laquo;Foi encantador&#8230;&raquo;,<br \/>\n    &laquo;&Eacute; muita bondade da sua parte&#8230;&raquo;, &laquo;A condessa Apraksine&raquo;.<br \/>\n    A condessa levantou-se e entrou no grande sal&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Maria Dmitrievna? &#8211; ouviu-se perguntar.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;, &eacute; ela mesma &#8211; respondeu uma grossa voz de mulher, e nesse<br \/>\n    mesmo momento Maria Dmitrievna entrava na sala.<\/p>\n<p> Todas as raparigas, e at&eacute; as senhoras, &agrave; excep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das mais idosas, se levantaram. Maria Dmitrievna deteve-se no limiar da porta.<br \/>\n    Grande e maci&ccedil;a, a cabe&ccedil;a erguida, onde os carac&oacute;is brancos<br \/>\n    mostravam bem rondar ela a casa dos cinquenta, envolveu num olhar toda a assembleia,<br \/>\n    e, como se quisesse arrega&ccedil;&aacute;-las, arranjou, sem pressa, as largas<br \/>\n    mangas do seu vestido. Maria Dmitrievna exprimia-se sempre em russo.<\/p>\n<p> &#8211; As minhas felicita&ccedil;&otilde;es &agrave; festejada e aos seus filhos<br \/>\n    &#8211; disse na sua voz alta e grave, que dominava todos os demais ru&iacute;dos.<br \/>\n    E tu, velho pecador &#8211; acrescentou, dirigindo-se ao conde, que lhe beijava<br \/>\n    a m&atilde;o. &#8211; Hem! Aborreces-te em Moscovo? N&atilde;o se pode arranjar<br \/>\n    aqui uma boa ca&ccedil;ada? Nada a fazer, meu velho, enquanto estes pintainhos<br \/>\n    n&atilde;o crescerem&#8230; &#8211; E apontava para as filhas do conde. &#8211; Quer queiras<br \/>\n    quer n&atilde;o, tens de lhes arranjar casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, meti cossaco! (Chamava sempre a Natacha meu cossaco.) &#8211;<br \/>\n    Acariciou com a m&atilde;o Natacha, que se aproximou, para lha beijar com<br \/>\n    um ar desembara&ccedil;ado e alegre.- Bem sei que &eacute;s uma peste, mas<br \/>\n    eu gosto de ti.<\/p>\n<p> Retirou de uma enorme saca uns brincos de &acirc;mbar, em forma de p&ecirc;ra,<br \/>\n    e, dando-os a Natacha, radiante com o seu anivers&aacute;rio e rubra de satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    voltou-lhe instantaneamente as costas para dirigir-se a Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; Eh, eh!, meu caro amigo!, vem c&aacute; &#8211; disse ela numa voz que procurava<br \/>\n    tornar suave e delicada.- Vem c&aacute;, meu caro&#8230;<\/p>\n<p> E arrega&ccedil;ou ainda mais as mangas do vestido num ar terr&iacute;vel.<br \/>\n    Pedro aproximou-se, olhando-a com candura atrav&eacute;s das lentes das suas<br \/>\n    lunetas.<\/p>\n<p> &#8211; Aproxima-te, aproxima-te, meu caro! Mesmo a teu pai s&oacute; eu era capaz<br \/>\n    de lhe dizer- a verdade, quando ele estava disposto a ouvi-la, e Deus queira<br \/>\n    que tu, tu tamb&eacute;m a entendas, Calou-se. Todos se calaram igualmente;<br \/>\n    aguardavam o que ia acontecer, sentindo que aquilo n&atilde;o passava de pre&acirc;mbulo.<\/p>\n<p> &#8211; Um lindo menino, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida! Um lindo menino!&#8230;<br \/>\n    O pai no seu leito de agonia, e ele a fazer loucuras, a obrigar um pol&iacute;cia<br \/>\n    a andar a cavalo num urso. &Eacute; uma vergonha, meu filho, uma vergonha!<br \/>\n    Farias bem melhor se fosses para a guerra.<\/p>\n<p> Voltou-lhe as costas e deu a m&atilde;o ao conde, que mal podia suster o<br \/>\n    riso.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, suponho que s&atilde;o horas de irmos para a mesa &#8211; concluiu Maria<br \/>\n    Dmitrievna.<\/p>\n<p> O conde e Maria Dmitrievna abriram a marcha atr&aacute;s deles seguia a<br \/>\n    condessa, acompanhada do coronel de h&uacute;ssares, pessoa de acarinhar,<br \/>\n    porque era na sua companhia que Nicolau regressava ao seu regimento. Ana Mikailovna<br \/>\n    ia pelo bra&ccedil;o de Chinchine. Berg ofereceu o dele a Vera. J&uacute;lia<br \/>\n    Karaguine, toda sorridente, acompanhava Nicolau. Os outros pares vinham depois,<br \/>\n    estendendo-se pelo sal&atilde;o al&eacute;m, e atr&aacute;s de todos, um pouco<br \/>\n    &agrave; parte, as crian&ccedil;as, os preceptores e as governantas. Os lacaios<br \/>\n    deram-se pressa, houve um rumor de cadeiras e uma orquestra principiou a tocar<br \/>\n    no momento em que os convivas se sentavam.<\/p>\n<p> As notas da orquestra particular do conde misturavam-se ao tilintar das<br \/>\n    facas e dos garfos, ao ru&iacute;do das conversas, &agrave;s idas e vindas<br \/>\n    discretas dos criados. &Agrave; cabeceira da mesa sentava-se a condessa, dando<br \/>\n    a direita a Maria Dmitrievna, e a esquerda a Ana Mikailovna e &agrave;s demais<br \/>\n    senhoras. Na outra cabeceira estava o conde, que tinha &agrave; sua esquerda<br \/>\n    o coronel de h&uacute;ssares e &agrave; direita Chinchine e outros convidados<br \/>\n    masculinos. De um dos lados da grande mesa ficava a mocidade j&aacute; crescida:<br \/>\n    Ver&aacute;, ao lado de Berg. Pedro, com B&oacute;ris; do outro lado, as crian&ccedil;as,<br \/>\n    os preceptores, as governantas. O conde via a mulher, com a sua touca alta,<br \/>\n    de fitas azuis, atrav&eacute;s dos cristais das garrafas e das ta&ccedil;as<br \/>\n    cheias de fruta, e ia enchendo os copos dos vizinhos, sem esquecer o seu pr&oacute;prio.<br \/>\n    A condessa, igualmente oculta por detr&aacute;s dos ananases, sem descuidar<br \/>\n    dos seus deveres de dona de casa, trocava a sua piscadela de olhos com o marido,<br \/>\n    cujas calv&iacute;cie e, face rubicunda lhe pareciam particularmente vermelhas<br \/>\n    em contraste com o cabelo branco. No lado das senhoras havia uma vozearia<br \/>\n    bem ritmada; nos dos homens, as vozes iam-se tornando cada vez mais ruidosas,<br \/>\n    principalmente a do coronel de h&uacute;ssares, que, cada vez mais corado,<br \/>\n    tanto comia e t&atilde;o bem que o conde o exibia como exemplo aos demais<br \/>\n    convidados. Berg, com um enternecido sorriso, falava a Vera do amor, esse<br \/>\n    sentimento n&atilde;o deste mundo, mas do c&eacute;u. B&oacute;ris ia dizendo<br \/>\n    ao seu novo amigo Pedro o nome dos convivas, enquanto trocava olhares com<br \/>\n    Natacha, sentada diante dele. Pedro falava pouco, examinando todas estas caras<br \/>\n    novas, e comia abundantemente. Desde as duas qualidades de sopa, de que ele<br \/>\n    preferiu a de tartaruga, e dos kulebiaks (Esp&eacute;cie de tartaruga cozida.<br \/>\n    (N, dos T), at&eacute; &agrave;s galinholas, de todos os pratos e de todos<br \/>\n    os vinhos que o chefe de mesa, com a garrafa envolta num guardanapo, parecia<br \/>\n    extrair misteriosamente do ombro do seu vizinho de mesa, murmurando: &laquo;Madeira<br \/>\n    seco&raquo;, &laquo;H&uacute;ngaro&raquo; ou &laquo;Vinho do Reno&raquo;,<br \/>\n    de tudo se serviu. Pedro pegava no primeiro dos copos que lhe vinham &agrave;<br \/>\n    m&atilde;o, de entre os quatro ornados com o monograma do conde, em fila diante<br \/>\n    de cada talher, e despejava-o, gulosamente, aumentando, de momento a momento,<br \/>\n    de afectuosidade para com os seus vizinhos de mesa. Diante dele. Natacha olhava<br \/>\n    para B&oacute;ris como as garotas de treze anos costumam olhar para os rapazes<br \/>\n    que acabam de as beijar e de quem elas se julgam apaixonadas. Por vezes at&eacute;<br \/>\n    o pr&oacute;prio Pedro recebia dela um olhar desse g&eacute;nero, e esse olhar<br \/>\n    de rapariga risonha e animada dava-lhe a ele vontade de rir sem que soubesse<br \/>\n    porqu&ecirc;.<\/p>\n<p> Nicolau estava longe de S&oacute;nia, junto de J&uacute;lia Karaguine, e<br \/>\n    com ela se entretinha a conversar com o mesmo sorriso constrangido. S&oacute;nia<br \/>\n    sorria para todos, mas a verdade era estar visivelmente consumida de ci&uacute;me:<br \/>\n    ora empalidecia, ora corava, fazendo o poss&iacute;vel para conseguir perceber<br \/>\n    o que Nicolau e J&uacute;lia estavam dizendo. A preceptora lan&ccedil;ava<br \/>\n    em tomo de si olhares inquietos, pronta a cair a fundo sobre o primeiro que<br \/>\n    se lembrasse de se meter com as crian&ccedil;as. O preceptor alem&atilde;o<br \/>\n    procurava gravar na mem&oacute;ria toda a esp&eacute;cie de pratos, de sobremesas<br \/>\n    e de vinhos que iam sendo servidos para depois poder falar em tudo isso pormenorizadamente<br \/>\n    na carta que enviaria para a Alemanha. Sentia-se mortificado quando o chefe<br \/>\n    de mesa, com a, garrafa envolta no guardanapo, passava por ele sem o servir.<br \/>\n    Franzia as sobrancelhas, fingindo n&atilde;o querer vinho, mas a verdade &eacute;<br \/>\n    que se sentia ofendido por ningu&eacute;m compreender que o vinho lhe era<br \/>\n    necess&aacute;rio, n&atilde;o para o desalterar ou para lhe satisfazer a gula,<br \/>\n    mas apenas pelo desejo bem mais s&eacute;rio de se instruir.<\/p>\n<h4><a name=\"19\">Cap&iacute;tulo XIX<\/a><\/h4>\n<p>No sector dos homens a conversa ia-se animando cada vez mais. O coronel contava<br \/>\n    que o manifesto da declara&ccedil;&atilde;o de guerra j&aacute; era conhecido<br \/>\n    em Petersburgo e que um exemplar, que ele pr&oacute;prio vira, fora expedido<br \/>\n    pelo correio ao comandante-chefe.<\/p>\n<p> &#8211; E por que diabo &eacute; que n&oacute;s havemos de declarar guerra a Bonaparte?<br \/>\n    &#8211; disse Chinchine.- Ele j&aacute; abateu as fuma&ccedil;as &agrave; &Aacute;ustria.<br \/>\n    Receio que tenha chegado agora a nossa vez.<\/p>\n<p> O coronel era um alem&atilde;o s&oacute;lido, de grande estatura, aspecto<br \/>\n    sangu&iacute;neo, sem d&uacute;vida bom militar e bom patriota. As palavras<br \/>\n    de Chinchine magoaram-no.<\/p>\n<p> &#8211; Porqu&ecirc;, meu caro senhor? &#8211; tornou ele, com o seu sotaque estrangeiro<br \/>\n    &#8211; Porqu&ecirc;? A&iacute; est&aacute; o que o imperador sabe muit&iacute;ssimo<br \/>\n    bem. No seu manifesto, l&aacute; diz que n&atilde;o pode continuar indiferente<br \/>\n    aos perigos que amea&ccedil;am a R&uacute;ssia e que a seguran&ccedil;a do<br \/>\n    imp&eacute;rio, a sua dignidade e a santidade das alian&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p> Acentuou particularmente esta &uacute;ltima palavra, como se nela estivesse<br \/>\n    a chave do problema.<\/p>\n<p> E com a sua impec&aacute;vel mem&oacute;ria de personalidade oficial repetiu<br \/>\n    as palavras do princ&iacute;pio do manifesto: &laquo;E o desejo do imperador,<br \/>\n    o seu &uacute;nico e invari&aacute;vel objectivo &#8211; que &eacute; o restabelecimento<br \/>\n    da paz na Europa assente em bases s&oacute;lidas -, decidiram-no a dar ordens<br \/>\n    a uma parte do ex&eacute;rcito para atravessar a fronteira e a realizar esta<br \/>\n    nova alian&ccedil;a para dar cumprimento aos seus objectivos.&raquo; &#8211; E aqui<br \/>\n    tem porqu&ecirc;, meu caro senhor! &#8211; concluiu ele, levando o copo &agrave;<br \/>\n    boca cheio de compun&ccedil;&atilde;o, enquanto com os olhos pedia a aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do conde.<\/p>\n<p> &#8211; Conhece o prov&eacute;rbio: &laquo;Erema. Erema, melhor era que ficasses<br \/>\n    em casa a fiar a l&atilde;&raquo;? (Prov&eacute;rbio russo, que quer dizer<br \/>\n    que o melhor &eacute; n&atilde;o nos metermos na vida alheia, (N, dos T.)<br \/>\n    &#8211; disse Chinchine, franzindo as sobrancelhas e sorrindo. &#8211; Isso calha mesmo<br \/>\n    bem. Suvorov j&aacute; foi apanhado e batido em toda a linha. E onde est&atilde;o<br \/>\n    os nossos Suvorovs hoje em dia? D&ecirc;-me licen&ccedil;a que lhe pergunte.-<br \/>\n    Chinchine estava sempre a transitar do russo para o franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Temos de nos bater at&eacute; &agrave; &uacute;ltima gota de sangue &#8211;<br \/>\n    disse o coronel, deixando cair a m&atilde;o em cima da mesa &#8211; e morrer pelo<br \/>\n    nosso imperador. E assim deve ser. Mas nada de racioc&iacute;nios, raciocinar<br \/>\n    o menos poss&iacute;vel. &#8211; Engrossou a voz, especialmente ao pronunciar a<br \/>\n    palavra menos, e voltando-se de novo para o conde.- &Eacute; assim que n&oacute;s,<br \/>\n    velhos h&uacute;ssares, encaramos as coisas em &uacute;ltima inst&acirc;ncia.<br \/>\n    E o senhor, que pensa o senhor disto, jovem h&uacute;ssar? &#8211; prosseguiu, dirigindo-se<br \/>\n    a Nicolau, que, ao perceber que se falava da guerra, esquecera a interlocutora,<br \/>\n    todo ouvidos.<\/p>\n<p> &#8211; Penso exactamente da mesma maneira &#8211; replicou Nicolau, que se entusiasmou<br \/>\n    e se p&ocirc;s a mexer no prato e a deslocar os copos de forma t&atilde;o<br \/>\n    brusca e incoerente que dir-se-ia correr naquele momento um grande perigo&#8230;<br \/>\n    Estou convencido de que os Russos s&oacute; t&ecirc;m duas solu&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    vencer ou morrer &#8211; continuou com o sentimento, em que todos os outros comungavam,<br \/>\n    de que aquilo mesmo, que j&aacute; fora dito, ele o estava a exprimir por<br \/>\n    palavras demasiado enf&aacute;ticas e pomposas, e isso lhe causava uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; muito bonito o que acaba de dizer &#8211; observou J&uacute;lia, que<br \/>\n    estava sentada a seu lado.<\/p>\n<p> S&oacute;nia p&ocirc;s-se a tremer e corou at&eacute; &agrave;s orelhas.<br \/>\n    At&eacute; mesmo a nuca e os ombros se lhe ruborizaram ao ouvir Nicolau falar<br \/>\n    assim. Pedro prestara aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do coronel, e aprovava-as com a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Ora a&iacute; est&aacute; uma coisa acertada &#8211; observou.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, um aut&ecirc;ntico h&uacute;ssar, meu rapaz &#8211; exclamou<br \/>\n    ainda o coronel, batendo de novo na mesa.<\/p>\n<p> &#8211; Que barulho &eacute; esse que voc&ecirc;s para a&iacute; est&atilde;o<br \/>\n    a fazer? &#8211; perguntou, do outro lado da mesa, a voz grave de Maria Dmitrievna.<br \/>\n    &#8211; Que est&aacute;s tu a bater na mesa? &#8211; disse ela ao h&uacute;ssar. Contra<br \/>\n    quem &eacute; que est&aacute;s t&atilde;o exaltado? At&eacute; parece que<br \/>\n    tens diante de ti os Franceses.<\/p>\n<p> &#8211; O que eu estou a dizer &eacute; o que &eacute; &#8211; retrucou o coronel, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, um aut&ecirc;ntico h&uacute;ssar, meu rapaz! &#8211; exclamou<br \/>\n    ainda &#8211; Tenho um filho que vai para a guerra. Maria Dmitrievna; sim, vai para<br \/>\n    a guerra.<\/p>\n<p> &#8211; E eu, que tenho quatro filhos no ex&eacute;rcito, n&atilde;o estou a chorar<br \/>\n    por isso. Deus &eacute; grande. Podemos morrer tranquilamente na nossa cama<br \/>\n    e nada nos acontecer no campo de batalha &#8211; disse Maria Dmitrievna, elevando<br \/>\n    a sua grossa voz, que chegava, sem esfor&ccedil;o, de extremo a extremo da<br \/>\n    mesa.<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute; verdade.<\/p>\n<p> E a conversa l&aacute; continuou, a das senhoras a um lado, a dos homens<br \/>\n    a outro.<\/p>\n<p> &#8211; Aposto que n&atilde;o &eacute;s capaz de perguntar &#8211; disse a Natacha o<br \/>\n    irm&atilde;ozito. &#8211; Aposto! &#8211; Vais ver &#8211; respondeu Natacha.<\/p>\n<p> O rosto animou-se-lhe, repentinamente de uma aud&aacute;cia rebelde e resoluta.<br \/>\n    Levantou-se, fez um sinal com os olhos a Pedro, que estava diante dela, convidando-o<br \/>\n    a escutar, e dirigiu-se &agrave; m&atilde;e: &#8211; M&atilde;e! &#8211; lan&ccedil;ou<br \/>\n    ela, &agrave; toa, na sua clara voz infantil.<\/p>\n<p> &#8211; Que aconteceu? &#8211; perguntou a condessa assustada. Mas, ao ver no rosto<br \/>\n    da filha que se tratava de uma brincadeira, amea&ccedil;ou-a severamente com<br \/>\n    a m&atilde;o, enquanto lhe mostrava uma express&atilde;o descontente.<\/p>\n<p> As conversas interromperam-se.<\/p>\n<p> &#8211; M&atilde;e! Que doce vamos ter? &#8211; interrogou a vozita de Natacha, irreflectidamente<br \/>\n    e num tom ainda mais decidido.<\/p>\n<p> A condessa quis franzir as sobrancelhas, mas debalde. Maria Dmitrievna amea&ccedil;ou-a<br \/>\n    com o seu dedo grosso.<\/p>\n<p> &#8211; Eh, cossaco! &#8211; gritou-lhe.<\/p>\n<p> A maior parte dos convidados observava os pais de Natacha para ver como<br \/>\n    eles iam encarar aquela aventura.<\/p>\n<p> &#8211; Espera &#8211; disse a condessa.<\/p>\n<p> &#8211; M&atilde;e! Que doce vamos ter? &#8211; voltou Natacha, atrevidamente e no tom<br \/>\n    de uma crian&ccedil;a caprichosa, certa de antem&atilde;o de que a sua aud&aacute;cia<br \/>\n    n&atilde;o teria consequ&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> S&oacute;nia e o gordo Pedro riam perdidamente.<\/p>\n<p> &#8211; Como v&ecirc;s, perguntei &#8211; dizia ela, baixo, ao irm&atilde;ozito e a<br \/>\n    Pedro, a quem voltou a lan&ccedil;ar uma olhadela.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; gelado, mas tu n&atilde;o comes &#8211; disse Maria Dmitrievna.<\/p>\n<p> Natacha viu que nada tinha a recear e, de resto, a pr&oacute;pria Maria<br \/>\n    Dmitrievna n&atilde;o lhe metia medo algum.<\/p>\n<p> &#8211; Maria Dmitrievna! Gelado de qu&ecirc;? N&atilde;o gosto de gelados, de<br \/>\n    nata.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; de cenoura.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; verdade. De qu&ecirc;? Maria Dmitrievna, de qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; quase gritou. &#8211; Quero saber que gelado &eacute;! Maria Dmitrievna e a condessa<br \/>\n    romperam a rir e, &agrave; imita&ccedil;&atilde;o deles, todos os demais.<br \/>\n    Riam-se n&atilde;o da resposta de Maria Dmitrievna, mas da audaciosa obstina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da presen&ccedil;a de esp&iacute;rito daquela garota que sabia defront&aacute;-la<br \/>\n    e ousava faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Natacha apenas se submeteu quando lhe disseram que, o gelado era de anan&aacute;s.<br \/>\n    Antes do gelado foi servido o champanhe. A m&uacute;sica ressoou de novo,<br \/>\n    o conde trocou um beijo com a sua condessinha e os convidados ergueram-se<br \/>\n    para felicit&aacute;-la. Os copos tocaram-se, ao longo da mesa, com o do conde,<br \/>\n    com o das crian&ccedil;as e entre si. Os criados de novo principiaram a agitar-se,<br \/>\n    ouviu-se o rumor das cadeiras e na mesma ordem de entrada, apenas com as faces<br \/>\n    mais vermelhas, os convidados voltaram a dar entrada no sal&atilde;o e no<br \/>\n    gabinete do conde.<\/p>\n<h4> <a name=\"20\">Cap&iacute;tulo XX<\/a><\/h4>\n<p>Prepararam-se as mesas de jogo, organizaram-se os parceiros para o boston<br \/>\n    e toda a gente se espalhou pelos dois sal&otilde;es, a sala do div&atilde;<br \/>\n    e a biblioteca.<\/p>\n<p> O conde, com as suas cartas em leque, a custo se mantinha, resistindo &agrave;<br \/>\n    tenta&ccedil;&atilde;o de dormir, como de costume, depois do jantar, e sorria<br \/>\n    a toda a gente. A mocidade, arrastada pela condessa, reunia-se em volta do<br \/>\n    cravo e da harpa. J&uacute;lia foi a primeira, instada por todos, a tocar<br \/>\n    umas varia&ccedil;&otilde;es na harpa, e ela e as demais raparigas pediram<br \/>\n    a Natacha e a Nicolau, de quem todos gabavam o talento musical, que cantassem<br \/>\n    qualquer coisa. Natacha, a quem tratavam como uma pessoa crescida, sentia-se,<br \/>\n    claro est&aacute;, muito orgulhosa com isso, mas, ao mesmo tempo, tomava-a<br \/>\n    uma grande timidez.<\/p>\n<p> &#8211; Que havemos n&oacute;s de cantar? &#8211; perguntou.<\/p>\n<p> &#8211; A Fonte &#8211; replicou Nicolau.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, depressa, andem. B&oacute;ris, vem c&aacute;. Onde est&aacute;<br \/>\n    a S&oacute;nia? Natacha olhou &agrave; sua roda, e, ao ver que a amiga n&atilde;o<br \/>\n    estava presente, correu a busc&aacute;-la.<\/p>\n<p> Tendo-a procurado no seu pr&oacute;prio quarto e n&atilde;o a encontrando<br \/>\n    a&iacute;. Natacha foi ver se ela estaria no quarto das crian&ccedil;as e<br \/>\n    tamb&eacute;m ali a n&atilde;o encontrou. Pensou ent&atilde;o que devia estar<br \/>\n    no corredor, sentada na arca. A arca do corredor era o local onde se derramavam<br \/>\n    as dores de toda a jovem gera&ccedil;&atilde;o feminina da casa Rostov. E,<br \/>\n    efectivamente. S&oacute;nia l&aacute; estava, com o seu vestidinho cor-de-rosa<br \/>\n    vaporoso, que amarrotava entre os dedos, estendida na arca, o rosto escondido<br \/>\n    no sujo edred&atilde;o listado da ama, e a cara nas m&atilde;os, chorando,<br \/>\n    sacudida por grandes solu&ccedil;os que lhe faziam estremecer os ombrozinhos<br \/>\n    decotados. Natacha, que durante todo o dia tinha andado com uma express&atilde;o<br \/>\n    festiva, mudou, repentinamente, de parecer: os olhos tornaram-se-lhe fixos,<br \/>\n    um fr&eacute;mito lhe percorreu o colo, os cantos da boca desca&iacute;ram-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute;nia! Que tens tu?&#8230; Ah! Ah!, que te aconteceu?&#8230;<\/p>\n<p> E Natacha, fazendo um momo com a sua grande boca, que logo a tomou feia,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a solu&ccedil;ar, sem raz&atilde;o, apenas por ver que S&oacute;nia<br \/>\n    chorava. S&oacute;nia queria levantar a cabe&ccedil;a, queria responder-lhe,<br \/>\n    mas n&atilde;o p&ocirc;de e ainda escondeu mais profundamente o rosto. Envolvendo<br \/>\n    a amiga nos seus bra&ccedil;os, sentada sobre o edred&atilde;o azul. Natacha<br \/>\n    chorava, continuava a chorar. Por fim, tendo S&oacute;nia serenado um pouco,<br \/>\n    ergueu-se, p&ocirc;s-se a enxugar as l&aacute;grimas e abriu-se em confid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &#8211; O Nicolau vai partir dentro de oito dias.., foi chamado por um papel..,<br \/>\n    ele &eacute; que me disse&#8230; E mesmo assim eu n&atilde;o choraria&#8230; &#8211; Mostrou<br \/>\n    um bilhete que tinha apertado na m&atilde;o e em que estavam escritos versos<br \/>\n    de Nicolau. &#8211; N&atilde;o choraria; mas tu n&atilde;o podes imaginar, ningu&eacute;m<br \/>\n    pode imaginar.., o bom cora&ccedil;&atilde;o que ele tem.<\/p>\n<p> E de novo se p&ocirc;s a chorar pensando no bom cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Nicolau.<\/p>\n<p> &#8211; Tu, tu &eacute;s feliz &#8211; N&atilde;o tenho ci&uacute;mes&#8230; Gosto muito<br \/>\n    de ti, e B&oacute;ris tamb&eacute;m &#8211; continuou ela, ganhando coragem pouco<br \/>\n    a pouco. &#8211; Que gentil que ele &eacute;.., e para voc&ecirc;s n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    obst&aacute;culos. Mas o Nicolau &eacute; meu primo&#8230; &Eacute; preciso que<br \/>\n    o pr&oacute;prio metropolita.., e mesmo assim n&atilde;o pode ser. E depois,<br \/>\n    se disserem alguma coisa &agrave; m&atilde;e&#8230; &#8211; S&oacute;nia considerava<br \/>\n    a condessa sua m&atilde;e e como tal a tratava-.., ela vai dizer que eu prejudico<br \/>\n    a carreira do Nicolau, que n&atilde;o tenho cora&ccedil;&atilde;o, que sou<br \/>\n    uma ingrata, e, no entanto, t&atilde;o certo como Deus estar nos C&eacute;us&#8230;<br \/>\n    &#8211; Persignou-se. Eu gosto tanto dele, dele e de todos voc&ecirc;s tamb&eacute;m&#8230;<br \/>\n    S&oacute; a Vera&#8230; E porqu&ecirc;? Que lhe fiz eu? Estou-vos t&atilde;o reconhecida<br \/>\n    que daria de bom grado tudo, e a verdade &eacute; que n&atilde;o tenho nada<br \/>\n    para dar.<\/p>\n<p> S&oacute;nia n&atilde;o p&ocirc;de dizer mais, e de novo escondeu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    nas m&atilde;os e no edred&atilde;o. Natacha p&ocirc;s-se a consol&aacute;-la,<br \/>\n    mas via-se, pela sua atitude, que ela compreendia a gravidade do sofrimento<br \/>\n    da sua amiga.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute;nia! &#8211; exclamou ela, de repente, como se adivinhasse a verdadeira<br \/>\n    raz&atilde;o do sofrimento da prima &#8211; &Eacute; verdade? A Vera falou contigo<br \/>\n    depois do jantar? &Eacute; verdade? &#8211; Estes versos foi o Nicolau quem os escreveu;<br \/>\n    eu copiei outros. Ela encontrou-os em cima da, minha mesa e disse que havia<br \/>\n    de os mostrar &agrave; m&atilde;e, e disse tamb&eacute;m que eu era uma ingrata,<br \/>\n    que a m&atilde;e nunca o deixaria casar comigo e que ele havia de casar com<br \/>\n    a J&uacute;lia. N&atilde;o viste como ele esteve ao lado dela todo e dia&#8230;<br \/>\n    Natacha? Porque &eacute; que h&aacute;-de ser assim? E de novo chorou mais<br \/>\n    amargamente do que nunca. Natacha obrigou-a a levantar-se, abra&ccedil;ou-se<br \/>\n    a ela, e sorrindo por entre as l&aacute;grimas procurou consol&aacute;-la,<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o acredites. S&oacute;nia, minha, querida, n&atilde;o acredites<br \/>\n    no que ela diz. Lembras-te do que n&oacute;s diz&iacute;amos, o Nicolau e<br \/>\n    n&oacute;s as duas, na sala do div&atilde;? Lembras-te, depois do jantar?<br \/>\n    Como sabes, combin&aacute;mos como tudo se havia de passar. J&aacute; me n&atilde;o<br \/>\n    lembro dos pormenores, mas deves lembrar-te como tudo se arranjava, como tudo<br \/>\n    era f&aacute;cil. O irm&atilde;o do tio Chinchine, por exemplo, casou com<br \/>\n    a prima em primeiro grau, e n&oacute;s somos apenas segundos primos. E o B&oacute;ris<br \/>\n    dizia que era muito f&aacute;cil. Tu bem sabes que eu lhe contei tudo. E ele<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o inteligente e t&atilde;o gentil! Deixa-te disso. S&oacute;nia,<br \/>\n    n&atilde;o chores mais, minha queridinha, minha S&oacute;niazinha. &#8211; E p&ocirc;s-se<br \/>\n    a abra&ccedil;&aacute;-la muito risonha &#8211; A Vera &eacute; m&aacute;, n&atilde;o<br \/>\n    queiras saber dela. Tudo se h&aacute;-de arranjar, e ela n&atilde;o vai dizer<br \/>\n    nada &agrave; m&atilde;e. O Nicolau te h&aacute;-de dizer que n&atilde;o pensa<br \/>\n    na J&uacute;lia.<\/p>\n<p> E beijou-a na testa. S&oacute;nia parecia outra, a gatinha que ela era reanimou-se,<br \/>\n    os olhos faiscararn-lhe, dir-se-ia pronta a dar ao rabo, a saltar sobre as<br \/>\n    suas patinhas el&aacute;sticas, a correr atr&aacute;s do novelo de l&atilde;,<br \/>\n    coisas pr&oacute;prias da sua natureza.<\/p>\n<p> &#8211; Achas que sim? Realmente! Juras? &#8211; disse ela, recompondo com vivacidade<br \/>\n    o vestido e os cabelos.<\/p>\n<p> &#8211; Podes estar certa! &#8211; respondeu Natacha, ao mesmo tempo que lhe ajeitava<br \/>\n    na, tran&ccedil;a uma mecha de cabelos rebeldes. Ambas desataram a rir.<\/p>\n<p> &#8211; E agora vamos cantar A Fonte.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos.<\/p>\n<p> &#8211; Viste aquele rapaz gordo, o Pedro, que estava sentado diante de mim? Que<br \/>\n    patusco que ele &eacute;! &#8211; disse Natacha, de s&uacute;bito, detendo-se. &#8211;<br \/>\n    O que eu me diverti! E Natacha despediu, numa carreira, corredor al&eacute;m.<\/p>\n<p> A S&oacute;nia, depois de sacudir as penas do edred&atilde;o que lhe tinham<br \/>\n    ficado agarradas ao vestido e de esconder no colo magricela os versos do jovem<br \/>\n    Nicolau, reanimou-se-lhe a express&atilde;o, e l&aacute; foi correndo tamb&eacute;m<br \/>\n    ligeira e jovial, atr&aacute;s de Natacha, na direc&ccedil;&atilde;o da sala<br \/>\n    do div&atilde;. A pedido dos seus convidados, a gente nova cantou o quarteto<br \/>\n    de A Fonte, que foi recebido com muito entusiasmo. Depois Nicolau entoou uma<br \/>\n    roman&ccedil;a que aprendera havia pouco:<\/p>\n<p>Por uma linda noite, &agrave; luz do luar, Que ventura poder dizer-te a ti<br \/>\n    somente Que ainda h&aacute; algu&eacute;m c&aacute; neste mundo Que n&atilde;o<br \/>\n    pensa nem sonha sen&atilde;o contigo! Que os seus dedos t&atilde;o bonitos,<br \/>\n    Errantes por sobre as cordas da harpa de oiro, Em apaixonadas ondas de harmonia<br \/>\n    Te chame, te chame ainda! Ainda um dia, mais dois dias, e o Para&iacute;so<br \/>\n    abrir-se-&agrave;&#8230;<\/p>\n<p> Mas, ai de n&oacute;s, a tua amiga, j&aacute; l&aacute; n&atilde;o a encontrar&aacute;s&#8230;<\/p>\n<p>Ainda as &uacute;ltimas palavras da can&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tinham<br \/>\n    findado, j&aacute; a juventude se preparava para o baile e a orquestra lan&ccedil;ava<br \/>\n    as primeiras notas no meio do ru&iacute;do de p&eacute;s e de tossezinhas.<br \/>\n    Pedro estava no sal&atilde;o, onde Chinchine se lan&ccedil;ara numa discuss&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica com aquele rapaz chegado havia pouco do estrangeiro, discuss&atilde;o<br \/>\n    essa que enfadava imenso o pr&oacute;prio Pedro, e em que tomavam parte muitos<br \/>\n    outros convidados. Quando a m&uacute;sica principiou. Natacha entrou na sala<br \/>\n    e, dirigindo-se imediatamente a Pedro, disse-lhe, rindo e corando ao mesmo<br \/>\n    tempo: &#8211; A m&atilde;e disse-me que o convidasse para dan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho medo de fazer confus&atilde;o com os passos &#8211; murmurou Pedro -,<br \/>\n    mas se quiser ter a bondade de ser minha professora&#8230;<\/p>\n<p> E, inclinando-se profundamente, deu a larga m&atilde;o &agrave; esbelta<br \/>\n    rapariguinha.<\/p>\n<p> Enquanto os pares se organizavam e os m&uacute;sicos afinavam os seus instrumentos.<br \/>\n    Pedro conservou-se sentado ao lado da sua pequena dama. Natacha sentia-se<br \/>\n    inteiramente feliz: ia dan&ccedil;ar com uma pessoa importante, que voltava<br \/>\n    de o estrangeiro. E ela l&aacute; estava, exibindo-se diante de toda a gente,<br \/>\n    pronta a conversar, como se fosse uma pessoa crescida, e exactamente como<br \/>\n    ele. Tinha um leque que lhe havia emprestado urna amiga. E tornando a pose<br \/>\n    mais conforme ao c&oacute;digo mundano &#8211; e s&oacute; Deus sabe onde e quando<br \/>\n    ela tinha aprendido tudo aquilo -, abanava-se e sorria, com um ar rebelde,<br \/>\n    enquanto conversava com o companheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Que rapariga! Olhe para ela &#8211; disse a velha condessa, atravessando o grande<br \/>\n    sal&atilde;o e apontando para Natacha.<\/p>\n<p> Natacha corou e p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p> &#8211; Porqu&ecirc;, m&atilde;e? Porque &eacute; que se est&aacute; a rir? Que<br \/>\n    tem isso de extraordin&aacute;rio? No meio da terceira escocesa, ouviu-se<br \/>\n    um rumor de cadeiras no sal&atilde;o onde o conde e Maria Dmitrievna estavam<br \/>\n    a jogar, e a maior parte dos convidados importantes e das pessoas de idade,<br \/>\n    para estenderem as pernas, meteram na algibeira carteiras e bolsinhas de dinheiro<br \/>\n    e vieram postar-se &agrave; porta do grande sal&atilde;o. A frente estavam<br \/>\n    Maria Dmitrievna e o conde, ambos muito bem dispostos. O conde, mimando uma<br \/>\n    cortesia joco-s&eacute;ria, &agrave; imita&ccedil;&atilde;o do que &eacute;<br \/>\n    de uso nos bailes, ofereceu a m&atilde;o, recurvando o bra&ccedil;o, &agrave;,<br \/>\n    sua dama. Depois, soergueu o busto e o rosto iluminou-se-lhe com um sorriso<br \/>\n    agarotado e am&aacute;vel, e, assim que findaram as &uacute;ltimas marcas<br \/>\n    da escocesa, bateu as palmas e gritou para a orquestra, dirigindo-se ao primeiro<br \/>\n    violino: &#8211; Semione! Sabes tocar o Danilo Cooper? Era a dan&ccedil;a favorita<br \/>\n    do conde, que ele dan&ccedil;ara na juventude. Danilo Cooper era especialmente<br \/>\n    uma marca da inglesa.<\/p>\n<p> &#8211; Olhem para o pai! &#8211; gritou Natacha no meio da sala.<\/p>\n<p> Tinha-se esquecido por completo de que estava num baile como uma pessoa<br \/>\n    crescida. Dobrou-se em duas, a cabecinha coberta de carac&oacute;is junto<br \/>\n    aos joelhos, e rompeu a rir t&atilde;o cristalinamente que toda a casa ficou<br \/>\n    cheia do seu riso alegre.<\/p>\n<p> E com efeito toda a gente olhava, divertida, aquele velho jovial que ao<br \/>\n    lado da sua vener&aacute;vel dama, a quem ele dava pelo ombro, arqueava os<br \/>\n    bra&ccedil;os para marear o compasso, desca&iacute;a os ombros, encurvava<br \/>\n    as pernas, sapateava ligeiramente, e, com um sorriso cada vez mais franco<br \/>\n    no seu rosto cheio, mais n&atilde;o fazia que preparar os espectadores para<br \/>\n    o que ia passar-se. Assim que ressoaram os compassos alegres e excitantes<br \/>\n    do Danilo Cooper, muito parecidos com os do ultra-jovial trepak russo, todas<br \/>\n    as portas da sala se encheram de criados risonhos &#8211; os homens a um lado, as<br \/>\n    mulheres a outro- que acorriam para ver dan&ccedil;ar o amo.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! O nosso paizinho! Que &aacute;guia que ele &eacute;! &#8211; exclamou a<br \/>\n    ama, em voz alta, a uma das portas.<\/p>\n<p> O conde dan&ccedil;ava muito bem e sabia o que estava a fazer, mas a sua<br \/>\n    dama, essa, n&atilde;o percebia nada e recusava-se a dan&ccedil;ar correctamente.<br \/>\n    A sua corpulenta figura ali estava toda direita, os grandes bra&ccedil;os<br \/>\n    bamboleando, j&aacute; sem bolsinha, que confiara &agrave; condessa. Apenas<br \/>\n    o seu belo e severo rosto tomava parte na dan&ccedil;a. Todo o movimento que<br \/>\n    animava a redonda silhueta do conde se lhe concentrava a ela na fisionomia,<br \/>\n    cada vez mais risonha, e no narizinho arrebitado. Se o conde, cada vez mais<br \/>\n    excitado, era a surpresa de todos, gra&ccedil;as &agrave; ligeireza e &agrave;<br \/>\n    agilidade nas piruetas e nos rodopios a que se atreviam as suas pernas j&aacute;<br \/>\n    pouco firmes. Maria Dmitrievna, por menos que a isso se desse, merc&ecirc;<br \/>\n    dos movimentos dos ombros ou dos bra&ccedil;os no curso das suas reviravoltas<br \/>\n    ou no sapateado, n&atilde;o produzia menos efeito sobre os assistentes, que<br \/>\n    muito apreciavam naquela mulher o contraste entre a sua desenvoltura e a sua<br \/>\n    habitual severidade. A dan&ccedil;a cada vez estava mais animada. Os pares<br \/>\n    frente a frente n&atilde;o conseguiam chamar para eles as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ou nem sequer com isso se importavam. Toda a gente seguia com o olhar o conde<br \/>\n    e Maria Dmitrievna. Natacha puxava pela manga a toda a gente, embora ningu&eacute;m<br \/>\n    tirasse os olhos dos dois dan&ccedil;arinos, pedindo que olhassem para o pai.<br \/>\n    Nos intervalos, o conde, enquanto tomava f&ocirc;lego, acenava aos m&uacute;sicos<br \/>\n    e pedia-lhes que acelerassem o ritmo. Quando mais r&aacute;pido era o compasso,<br \/>\n    mais depressa girava o conde em tomo do par, ora nos bicos dos p&eacute;s<br \/>\n    ora nos calcanhares, e por fim, no momento em que ia reconduzi-lo, esbo&ccedil;ou<br \/>\n    um &uacute;ltimo passo: levantou a perna cheia &agrave; retaguarda, inclinou,<br \/>\n    com um ar radiante, a cabe&ccedil;a perlada de suor, descrevendo, por fim,<br \/>\n    com a m&atilde;o direita um largo c&iacute;rculo no meio de uma tempestade<br \/>\n    de aplausos e de gargalhadas, especialmente de Natacha. Os dois dan&ccedil;arinos<br \/>\n    detiveram-se, anelantes, enxugando o suor com seus len&ccedil;os de cambraia.<\/p>\n<p> &#8211; Ora aqui tens como se dan&ccedil;ava no nosso tempo, minha querida! &#8211;<br \/>\n    exclamou o conde.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo! Danilo Cooper! &#8211; replicou Maria Dmitrievna, respirando estrepitosamente<br \/>\n    e arrega&ccedil;ando as mangas do vestido.<\/p>\n<h4> <a name=\"21\">Cap&iacute;tulo XXI<\/a><\/h4>\n<p>Quando em casa dos Rostov se dan&ccedil;ava a sexta inglesa ao som de uma<br \/>\n    orquestra, que j&aacute; desafinava, tal a fadiga dos m&uacute;sicos, e os<br \/>\n    criados e cozinheiros, igualmente extenuados, se azafamavam nos preparativos<br \/>\n    da ceia, era o conde Bezukov acometido do seu sexto ataque. Os m&eacute;dicos<br \/>\n    tinham declarado n&atilde;o haver esperan&ccedil;as de salva&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Confessaram o doente, j&aacute; em coma, ministraram-lhe a comunh&atilde;o,<br \/>\n    fizeram os preparativos para a extrema-un&ccedil;&atilde;o e a casa assumiu<br \/>\n    o aspecto habitual em tais circunst&acirc;ncias, com idas e vindas em todos<br \/>\n    os sentidos. C&aacute; fora, ao port&atilde;o, juntavam-se, escondendo-se<br \/>\n    &agrave; chegada das carruagens, os agentes das casas funer&aacute;rias, na<br \/>\n    esperan&ccedil;a de bom neg&oacute;cio. O governador militar da pra&ccedil;a<br \/>\n    de Moscovo, que a cada momento enviava os seus ajudantes-de-campo a saber<br \/>\n    novas do estado de sa&uacute;de do doente, veio pessoalmente, nessa noite,<br \/>\n    despedir-se daquela famosa personagem do tempo de Catarina: o conde Bezukov.<\/p>\n<p> A sumptuosa sala de visitas estava cheia. Toda a gente se levantou respeitosamente<br \/>\n    quando o governador militar, que se demorara quase meia hora &agrave; cabeceira<br \/>\n    do doente, saiu do quarto e atravessou a depend&ecirc;ncia, muito apressado,<br \/>\n    retribuindo, negligentemente, os cumprimentos, sempre seguido pelos olhos<br \/>\n    dos m&eacute;dicos, dos sacerdotes e da parentela do conde. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, que naqueles &uacute;ltimos dias tinha empalidecido e afilara, acompanhava<br \/>\n    o governador militar, segredando-lhe, por vezes, qualquer coisa.<\/p>\n<p> Quando voltou de o acompanhar, foi sentar-se sozinho no sal&atilde;o, de<br \/>\n    pernas cruzadas, cotovelos sobre os joelhos e cabe&ccedil;a nas m&atilde;os.<br \/>\n    Alguns instantes depois levantou-se, e a passo r&aacute;pido, contrariamente<br \/>\n    aos seus h&aacute;bitos, olhando em tomo de si como que assustado, seguiu<br \/>\n    ao longo do grande corredor que conduzia &agrave;s depend&ecirc;ncias da retaguarda,<br \/>\n    direito aos aposentos da mais velha das princesas.<\/p>\n<p> As pessoas que se encontravam numa sala quase &agrave;s escuras falavam<br \/>\n    entre si, de longe em longe, em voz muito baixa, calavam-se a cada momento,<br \/>\n    e dirigiam olhares interrogativos e de quem espera qualquer coisa para a porta<br \/>\n    que conduzia ao quarto do moribundo, a qual rangia ligeiramente sempre que<br \/>\n    algu&eacute;m entrava ou sa&iacute;a.<\/p>\n<p> &#8211; Todo o homem tem os seus dias contados, e ningu&eacute;m pode fugir da&iacute;<br \/>\n    &#8211; dizia um eclesi&aacute;stico velhinho &agrave; senhora que parecia n&atilde;o<br \/>\n    ter a tal respeito qualquer ideia precisa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ser&aacute; j&aacute; tarde de mais para a extrema-un&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; observou, acrescentando a estas palavras um t&iacute;tulo eclesi&aacute;stico,<br \/>\n    a senhora que parecia n&atilde;o ter a tal respeito qualquer ideia precisa.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um grande sacramento, minha senhora &#8211; replicou o sacerdote, passando<br \/>\n    a m&atilde;o pela cabe&ccedil;a calva, onde s&oacute; havia j&aacute; algumas,<br \/>\n    poucas, farripas de cabelos grisalhos cuidadosamente penteadas.<\/p>\n<p> &#8211; Quem &eacute;? &Eacute; o pr&oacute;prio governador militar? &#8211; perguntava-se<br \/>\n    a outro canto da sala. &#8211; Que novo que ele &eacute;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quem h&aacute;-de dizer que tem perto de setenta anos! Mas parece que<br \/>\n    o conde j&aacute; n&atilde;o conhece as pessoas. Dizem que lhe v&atilde;o<br \/>\n    dar a extrema-un&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Uma pessoa conheci eu a quem ministraram sete vezes a extrema-un&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    A segunda das jovens princesas, que acabava de sair do quarto do doente, os<br \/>\n    olhos cheios de l&aacute;grimas, foi sentar-se ao lado do Dr. Lorrain, que<br \/>\n    se colocara numa posi&ccedil;&atilde;o que lhe ficava bem, debaixo do retrato<br \/>\n    de Catarina, encostado a uma mesa.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bonito &#8211; dizia ele, referindo-se ao tempo -, muito bonito, princesa,<br \/>\n    e depois, em Moscovo, &eacute; como se estiv&eacute;ssemos no campo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; verdade? &#8211; respondeu a princesa, suspirando. Acha<br \/>\n    ent&atilde;o que se lhe pode dar de beber? Pareceu reflectir.<\/p>\n<p> &#8211; Tomou o rem&eacute;dio? &#8211; Tomou.<\/p>\n<p> O m&eacute;dico consultou o seu livro de notas.<\/p>\n<p> &#8211; Tome um copo de &aacute;gua fervida e deite-lhe dentro uma pitada &#8211; e<br \/>\n    com os dedos finos fingiu o gesto &#8211; de cremortartari.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se conhece nenhum caso &#8211; dizia um m&eacute;dico alem&atilde;o<br \/>\n    a um ajudante-de-campo &#8211; em que se fique vivo depois do terceiro ataque.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que boa sa&uacute;de ele tinha! &#8211; disse o oficial. &#8211; E quem ser&aacute;<br \/>\n    o herdeiro de todas estas riquezas? &#8211; acrescentou, em voz muito baixa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&atilde;o-de faltar pretendentes &#8211; retorquiu o alem&atilde;o<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p> Todos os olhares voltaram a fixar-se na porta. A porta rangeu, e a jovem<br \/>\n    princesa, que tinha preparado o rem&eacute;dio prescrito por Lorrain, foi<br \/>\n    lev&aacute;-lo ao doente. O m&eacute;dico alem&atilde;o aproximou-se do m&eacute;dico<br \/>\n    franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Acha que ele se vai aguentar at&eacute; amanh&atilde; de manh&atilde;?<br \/>\n    &#8211; perguntou em franc&ecirc;s, com um pronunciado sotaque.<\/p>\n<p> Lorrain, de l&aacute;bios apertados, fez com o dedo polegar um gesto negativo<br \/>\n    diante do nariz.<\/p>\n<p> &#8211; Esta noite, o mais tardar &#8211; murmurou ele, em voz baixa, sorrindo com prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    orgulhoso de t&atilde;o claramente ter diagnosticado o estado do doente. E<br \/>\n    afastou-se.<\/p>\n<p> Enquanto isto se passava, o pr&iacute;ncipe Vassili abria a porta do quarto<br \/>\n    da princesa.<\/p>\n<p> Era quase noite l&aacute; dentro; apenas as duas lamparinas em frente dos<br \/>\n    &iacute;cones o iluminavam. Cheirava bem a incenso e a flores. O mobili&aacute;rio<br \/>\n    do quarto era todo em miniatura: pequeninos arm&aacute;rios, pequeninas estantes<br \/>\n    e pequeninas mesas. Um biombo ocultava as cobertas brancas de uma cama alta<br \/>\n    de penas. Um c&atilde;ozinho p&ocirc;s-se a ladrar.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, &eacute; o senhor, meu primo? A princesa levantou-se, alisando os<br \/>\n    cabelos, que usava sempre, e at&eacute; naquele momento, excessivamente repuxados,<br \/>\n    como se formassem uma pe&ccedil;a &uacute;nica com o casco da cabe&ccedil;a<br \/>\n    e andassem envernizados.<\/p>\n<p> &#8211; Que foi? Que aconteceu? &#8211; perguntou ela. &#8211; Assustou-me. &#8211; N&atilde;o aconteceu<br \/>\n    nada. Sempre a mesma coisa. Vim apenas procurar-te para falarmos de neg&oacute;cios.<br \/>\n    Katicha &#8211; disse o pr&iacute;ncipe, sentando-se, com um ar lasso, na cadeira<br \/>\n    que ela acabava de deixar devoluta.- Que quente que aqui est&aacute;! Anda<br \/>\n    c&aacute;, senta-te. Temos de conversar.<\/p>\n<p> &#8211; Julguei que tinha acontecido alguma coisa &#8211; disse a princesa, e, com o<br \/>\n    seu ar fechado e severo, sentou-se diante do pr&iacute;ncipe, disposta a ouvi-lo.<br \/>\n    &#8211; Quis ver se dormia um bocado, meu primo, mas n&atilde;o foi poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, minha querida? &#8211; disse o pr&iacute;ncipe, pegando-lhe na<br \/>\n    m&atilde;o e puxando-a para si, como era seu costume.<\/p>\n<p> Era evidente que estas breves palavras significavam coisas que eles dois<br \/>\n    compreendiam perfeitamente sem as dizer.<\/p>\n<p> A princesa, do alto do seu busto seco e estreito, alto de mais para as suas<br \/>\n    curtas pernas, olhava fixamente o pr&iacute;ncipe sem qualquer aparente emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os olhos cinzentos &agrave; flor da pele. Sacudiu a cabe&ccedil;a e lan&ccedil;ou<br \/>\n    um olhar, acompanhado de um suspiro, &agrave;s imagens sagradas. O seu gesto<br \/>\n    tanto podia exprimir m&aacute;goa e esp&iacute;rito de sacrif&iacute;cio como<br \/>\n    fadiga e a necessidade de descanso.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili interpretou-o como um sinal de cansa&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; E sup&otilde;es tu &#8211; disse ele &#8211; que eu tamb&eacute;m n&atilde;o estou<br \/>\n    cansado? Estou esfalfado como um cavalo de posta. Apesar disso, &eacute; absolutamente<br \/>\n    necess&aacute;rio que eu tenha uma conversa contigo. Katicha, uma conversa<br \/>\n    muito importante.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili calou-se, e as suas duas faces, sucessivamente,<br \/>\n    foram tomadas de um movimento nervoso que lhe dava um aspecto desagrad&aacute;vel,<br \/>\n    aspecto esse que ele nunca tinha quando conversava em sociedade. Tamb&eacute;m<br \/>\n    os olhos n&atilde;o eram os seus olhos habituais: havia neles ora uma express&atilde;o<br \/>\n    escarninha e c&iacute;nica, ora uma express&atilde;o aterrorizada.<\/p>\n<p> A princesa segurava com os bra&ccedil;os secos e magros o c&atilde;ozito<br \/>\n    que tinha nos joelhos, enquanto fixava o pr&iacute;ncipe atentamente. Via-se<br \/>\n    que ela estava disposta a n&atilde;o ser a primeira a falar, ainda que tivesse<br \/>\n    de ficar calada at&eacute; ao dia seguinte.<\/p>\n<p> &#8211; Como v&ecirc;, cara princesa e minha prima. Katerina Semionovna &#8211; prosseguiu<br \/>\n    ele, n&atilde;o sem uma evidente luta interior, pensando no que ia dizer.<br \/>\n    &#8211; Em momentos como este &eacute; preciso pensar em tudo. &Eacute; preciso<br \/>\n    pensar no futuro, em si. Quero-vos a todas como se voc&ecirc;s fossem minhas<br \/>\n    filhas, bem sabes.<\/p>\n<p> A princesa continuava a fit&aacute;-lo, impass&iacute;vel e impenetr&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Numa palavra, eu tamb&eacute;m tenho de pensar ria minha fam&iacute;lia<br \/>\n    &#8211; continuou, repelindo, de mau humor, a mesinha e sem olhar para ela.- Como<br \/>\n    sabes. Katicha, voc&ecirc;s as tr&ecirc;s, as irm&atilde;s Mamontov, e minha<br \/>\n    mulher s&atilde;o as &uacute;nicas herdeiras directas do conde. Bem sei, bem<br \/>\n    sei que te &eacute; penoso pensar nestas coisas e falar nelas. A mim tamb&eacute;m<br \/>\n    me custa. Mas, minha amiga, estou quase com sessenta anos e tenho de estar<br \/>\n    preparado para tudo. Sabes que mandei chamar o Pedro, e que o pr&oacute;prio<br \/>\n    conde, apontando para o retrato dele, quis que lho trouxessem? O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili interrogava-a com os olhos, mas n&atilde;o conseguia perceber se ela<br \/>\n    estava a pensar no que ele acabava de dizer-lhe ou se apenas olhava para ele.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; s&oacute; uma coisa que eu estou sempre a pedir a Deus, meu<br \/>\n    primo &#8211; replicou ela &#8211; &eacute; que Deus o proteja e que fa&ccedil;a com que<br \/>\n    a sua bela alma deixe em paz este&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois claro &#8211; prosseguiu o pr&iacute;ncipe com impaci&ecirc;ncia, afagando<br \/>\n    a calv&iacute;cie e puxando a si, colericamente, a mesinha que come&ccedil;ara<br \/>\n    por repelir. &#8211; Mas o que &eacute; certo.., o que &eacute; certo, o facto &eacute;<br \/>\n    que, como tu sabes, o conde, no Inverno passado, redigiu um testamento pelo<br \/>\n    qual, em preju&iacute;zo dos seus herdeiros directos e de todos n&oacute;s,<br \/>\n    lega toda a sua fortuna ao Pedro.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, ele j&aacute; fez v&aacute;rios testamentos &#8211; disse serenamente a<br \/>\n    princesa &#8211; Mas o Pedro n&atilde;o pode herdar: &eacute; um filho ileg&iacute;timo.<\/p>\n<p> &#8211; Minha querida &#8211; disse bruscamente o pr&iacute;ncipe Vassili, puxando para<br \/>\n    si a mesinha e falando com anima&ccedil;&atilde;o e volubilidade.- E se houvesse<br \/>\n    uma peti&ccedil;&atilde;o ao imperador para a legitima&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    Pedro? &Eacute; evidente que em face dos servi&ccedil;os prestados, o apelo<br \/>\n    do conde seria atendido&#8230;<\/p>\n<p> A princesa teve um sorriso em que se deixava perceber que sabia muito mais<br \/>\n    sobre o assunto que o seu interlocutor.<\/p>\n<p> &#8211; Digo-te mais &#8211; continuou Vassili, pegando-lhe na m&atilde;o &#8211; O apelo<br \/>\n    est&aacute; feito, embora n&atilde;o tenha sido enviado, e o imperador teve<br \/>\n    conhecimento do facto. S&oacute; resta saber se esse apelo foi ou n&atilde;o<br \/>\n    anulado. Se o n&atilde;o foi, assim que tudo tenha acabado &#8211; e soltou um suspiro,<br \/>\n    para deixar perceber o que queria dizer com aquelas palavras- logo que os<br \/>\n    pap&eacute;is do conde sejam conhecidos, tanto o testamento como a carta ser&atilde;o<br \/>\n    transmitidos ao imperador, e o seu apelo ser&aacute; sem d&uacute;vida alguma<br \/>\n    satisfeito. Pedro, na sua qualidade de filho leg&iacute;timo, ser&aacute;<br \/>\n    o &uacute;nico herdeiro.<\/p>\n<p> &#8211; E a nossa parte? &#8211; disse a princesa, num tom ir&oacute;nico, como se tudo<br \/>\n    pudesse acontecer menos isso.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, minha pobre Katicha, &eacute; claro como a luz do dia. Nessa altura<br \/>\n    ser&aacute; ele o &uacute;nico herdeiro leg&iacute;timo de toda a fortuna<br \/>\n    e voc&ecirc;s nada receber&atilde;o. &Eacute; preciso que tu procures saber,<br \/>\n    minha querida, se o testamento e o apelo existem ou se foram destru&iacute;dos.<br \/>\n    E se por qualquer motivo foram esquecidos, &eacute; preciso que saibas onde<br \/>\n    est&atilde;o e descobri-los, pois&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Isso agora &eacute; novidade! &#8211; interrompeu a princesa com um sorriso<br \/>\n    sard&oacute;nico e sem que a sua express&atilde;o se alterasse.- Eu sou mulher;<br \/>\n    na sua opini&atilde;o, todas as mulheres s&atilde;o est&uacute;pidas; mas<br \/>\n    o que eu muito bem sei &eacute; que um filho ileg&iacute;timo n&atilde;o pode<br \/>\n    herdar&#8230; Um bastardo &#8211; acrescentou, pensando com esta palavra demonstrar<br \/>\n    definitivamente ao pr&iacute;ncipe que ele n&atilde;o tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; maneira de compreenderes. Katicha! Mas tu &eacute;s<br \/>\n    inteligente. Como &eacute; que tu n&atilde;o compreendes que se o conde pediu<br \/>\n    ao imperador que o autorizasse a reconhecer o filho como leg&iacute;timo.<br \/>\n    Pedro, nesse caso, deixa de ser o Pedro e passa a ser o conde Bezukov, e pelo<br \/>\n    testamento &eacute; ele quem tem direito a tudo? Se o testamento e a carta<br \/>\n    n&atilde;o foram destru&iacute;dos, nada mais te restar&aacute; al&eacute;m,<br \/>\n    da consola&ccedil;&atilde;o de teres sido virtuosa e tudo o que da&iacute;<br \/>\n    se entende. &Eacute; certo e sabido, &#8211; Sei perfeitamente que ele fez um testamento,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m sei que esse testamento n&atilde;o tem valor. Pelo que vejo,<br \/>\n    julga-me pateta, meu primo &#8211; disse a princesa com esse ar que tomam as mulheres<br \/>\n    quando sup&otilde;em ter dito qualquer coisa de espirituoso ou de ofensivo.<\/p>\n<p> &#8211; Minha querida princesa Katerina Semionovna &#8211; exclamou com impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Vassili -, eu n&atilde;o vim procurar-te para um duelo de<br \/>\n    palavras, mas na inten&ccedil;&atilde;o com que se visita uma parente, uma<br \/>\n    boa, excelente, uma verdadeira parente, a fim de lhe falar dos seus interesses.<br \/>\n    Repito-te pela d&eacute;cima vez que se a carta ao imperador e o testamento<br \/>\n    a favor de Pedro se encontram entre os pap&eacute;is do conde, nem tu nem<br \/>\n    as tuas irm&atilde;s, minha querida filha, herdar&atilde;o seja o que for.<br \/>\n    Se me n&atilde;o acreditas, acredita ao menos nas pessoas competentes. Acabo<br \/>\n    de falar com Dmitri Onufreitch &#8211; o advogado da fam&iacute;lia &#8211; e ele disse-me<br \/>\n    a mesma coisa.<\/p>\n<p> Houve, claramente, um mudan&ccedil;a r&aacute;pida na maneira de pensar<br \/>\n    da princesa. Se a express&atilde;o dos olhos se lhe n&atilde;o alterou, os<br \/>\n    seus finos l&aacute;bios empalideceram e quando come&ccedil;ou a falar a voz<br \/>\n    Passou-lhe por transi&ccedil;&otilde;es que nem ela pr&oacute;pria esperava.<\/p>\n<p> &#8211; Pois muito bem &#8211; disse. &#8211; Nunca pretendi nada, e nada, pretendo, Enxotou<br \/>\n    o c&atilde;o do rega&ccedil;o e ajeitou as pregas do vestido.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; assim que as pessoas reconhecem, &eacute; assim que testemunham<br \/>\n    a sua gratid&atilde;o &agrave;queles que tudo sacrificaram por elas! &#8211; exclamou.<br \/>\n    &#8211; Muito bem! Excelente! N&atilde;o preciso de nada, pr&iacute;ncipe! &#8211; Sim,<br \/>\n    mas tu n&atilde;o &eacute;s a &uacute;nica. E as tuas irm&atilde;s? &#8211; volveu<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> A princesa n&atilde;o o ouvia.<\/p>\n<p> &#8211; Sim h&aacute; muito tempo que eu sei isso, mas tinha-me esquecido que<br \/>\n    nesta casa, n&atilde;o podia esperar outra coisa sen&atilde;o baixeza, duplicidade,<br \/>\n    inveja, intriga, ingratid&atilde;o, a mais negra ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Sabes ou n&atilde;o sabes onde est&aacute; o testamento? &#8211; perguntou o<br \/>\n    pr&iacute;ncipe Vassili com o tremor das faces ainda mais acentuado.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, tenho sido uma parva, tenho tido confian&ccedil;a nas pessoas, gostei<br \/>\n    delas e sacrifiquei-me por elas. Mas s&oacute; triunfam os cobardes e os maus.<br \/>\n    Bem sei donde v&ecirc;m estas intrigas.<\/p>\n<p> A princesa fez um movimento para se erguer, mas o pr&iacute;ncipe reteve-a.<br \/>\n    Ela dava a impress&atilde;o de uma pessoa que perdeu subitamente todas as<br \/>\n    ilus&otilde;es sobre os outros seres. Lan&ccedil;ou um olhar mau ao interlocutor.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda, estamos a tempo, minha amiga. Lembra-te. Katicha, de que tudo isto<br \/>\n    foi feito de improviso, num momento de c&oacute;lera, ou ent&atilde;o doente,<br \/>\n    e que depois tudo esqueceu. O nosso dever, minha querida, &eacute; reparar<br \/>\n    esta falta, suavizar-lhe os &uacute;ltimos momentos, n&atilde;o permitindo<br \/>\n    que ele leve a cabo esta injusti&ccedil;a, de o n&atilde;o deixar morrer com<br \/>\n    a ideia de que tomou algu&eacute;m infeliz&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Algu&eacute;m que tudo sacrificou por ele &#8211; voltou a princesa, impaciente<br \/>\n    por se levantar: mas o pr&iacute;ncipe deteve-a. E isso &eacute; que ele nunca<br \/>\n    soube apreciar. N&atilde;o, meu primo &#8211; acrescentou, suspirando &#8211; isto leva-me,<br \/>\n    a pensar que neste triste mundo ningu&eacute;m pode esperar recompensa, que<br \/>\n    neste triste mundo n&atilde;o h&aacute; honra nem equidade. Neste mundo s&oacute;<br \/>\n    a maldade e a mentira triunfam.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, vejamos, sossega. Eu conhe&ccedil;o o teu excelente cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, eu tenho mau cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Eu conhe&ccedil;o o teu cora&ccedil;&atilde;o &#8211; repetiu ele -, aprecio<br \/>\n    a tua amizade e gostaria que tu tivesses a mesma opini&atilde;o a meu respeito.<br \/>\n    Sossega, e sejamos razo&aacute;veis enquanto &eacute; tempo: talvez vinte<br \/>\n    e quatro horas, uma hora talvez. Conta-me tudo quanto sabes do testamento<br \/>\n    e principalmente diz-me se sabes onde ele est&aacute;: tu deves saber. Pegaremos<br \/>\n    nele imediatamente e leva-lo-emos ao conde. Ele com certeza se esqueceu dele,<br \/>\n    e querer&aacute; destru&iacute;-lo. Tu sabes que o meu &uacute;nico desejo<br \/>\n    &eacute; cumprir religiosamente a sua vontade; n&atilde;o &eacute; para outra<br \/>\n    coisa que estou aqui. Eu n&atilde;o estou aqui sen&atilde;o para vos auxiliar,<br \/>\n    a v&oacute;s e a ele.<\/p>\n<p> &#8211; Agora j&aacute; sei tudo. J&aacute; sei donde partem as intrigas. Veio-o<br \/>\n    claramente &#8211; disse a princesa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; disso que se trata, minha querida.<\/p>\n<p> &#8211; A alma de tudo isto &eacute; a sua protegida, a sua querida princesa Drubetskaia.<br \/>\n    Ana Mikailovna, que eu nem para criada de quarto quereria, essa horr&iacute;vel,<br \/>\n    essa ign&oacute;bil mulher.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o percamos tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, n&atilde;o me diga nada! No Inverno passado introduziu-se aqui em<br \/>\n    casa e contou tantas coisas horr&iacute;veis ao conde, tantas vilanias a nosso<br \/>\n    respeito, e principalmente sobre a Sofia &#8211; n&atilde;o as posso repetir -,<br \/>\n    que ele ficou doente e durante quinze dias n&atilde;o nos quis ver. Foi nessa<br \/>\n    altura, tenho a certeza, que o tio redigiu esse sujo, esse infame papel. Mas<br \/>\n    eu supunha que n&atilde;o tinha import&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Ora a&iacute; est&aacute;. Porque &eacute; que me n&atilde;o falaste logo<br \/>\n    nisso? &#8211; Est&aacute; na pasta de couro que tem debaixo da almofada. Agora<br \/>\n    compreendo &#8211; disse ela, sem responder &agrave; pergunta do pr&iacute;ncipe.<br \/>\n    &#8211; E se eu tenho qualquer pecado na consci&ecirc;ncia, um grande pecado, &eacute;<br \/>\n    o &oacute;dio que essa miser&aacute;vel me inspira &#8211; gritou, e tomou-se quase<br \/>\n    irreconhec&iacute;vel, &#8211; Que apare&ccedil;a outra vez por a&iacute;! Ajustarei<br \/>\n    contas com ela. &Eacute; uma quest&atilde;o de tempo.<\/p>\n<h4><a name=\"22\">Cap&iacute;tulo XXII<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto decorriam todas estas conversas na sala de visitas e nos aposentos<br \/>\n    da princesa, uma carruagem com Pedro, enviada para o trazer, e Ana Mikailovna,<br \/>\n    que entendera por bem acompanh&aacute;-lo, penetrava rio p&aacute;tio da resid&ecirc;ncia<br \/>\n    do conde Bezukov. No momento em que o carro deslizava maciamente por cima<br \/>\n    da palha estendida debaixo das janelas. Ana Mikailovna, que procurava consolar<br \/>\n    o companheiro, verificou que ele adormecer,-, encolhido no seu canto e acordou-o.<br \/>\n    Pedro, tendo voltado a si, apeou-se atr&aacute;s de Ana Mikailovna, e s&oacute;<br \/>\n    ent&atilde;o se lembrou da entrevista que ia ter com o pai moribundo. Tinha<br \/>\n    notado que a, carruagem parara n&atilde;o junto da escadaria nobre, mas em<br \/>\n    frente da escada das traseiras. No momento em que punha os p&eacute;s no ch&atilde;o,<br \/>\n    dois homens com aspecto de comerciantes acolheram-se apressadamente &agrave;<br \/>\n    sombra da parede.<\/p>\n<p> Enquanto se deteve. Pedro p&ocirc;de ver na sombra, de cada lado da entrada,<br \/>\n    outros homens do mesmo g&eacute;nero. Mas nem Ana Mikailovna, o trintan&aacute;rio,<br \/>\n    ou o cocheiro, que n&atilde;o podiam ter deixado de dar por eles, lhes prestaram<br \/>\n    a mais pequena aten&ccedil;&atilde;o, &laquo;Naturalmente, tem de ser assim&raquo;,<br \/>\n    decidiu de si para consigo, e l&aacute; foi na peugada da sua condutora. Ana<br \/>\n    Mikailovna, em passinhos r&aacute;pidos, subia a estreita escada de pedra,<br \/>\n    fracamente iluminada, chamando Pedro, que ficava para tr&aacute;s: embora<br \/>\n    este n&atilde;o compreendesse porque lhe era absolutamente indispens&aacute;vel<br \/>\n    apresentar-se junto do conde, e muito menos ainda porque tinha de subir pela<br \/>\n    escada de servi&ccedil;o, a seguran&ccedil;a e a pressa de Ana Mikailovna<br \/>\n    persuadiram-no da urg&ecirc;ncia do que ia fazer.<\/p>\n<p> A certa altura ia sendo derrubado por um grupo de homens, carregados com<br \/>\n    uns baldes, cujas grossas botas ressoavam no ch&atilde;o. Mas eles encostaram-se<br \/>\n    &agrave; parede para dar passagem aos visitantes sem mostrar qualquer surpresa.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; este o caminho para os aposentos das princesas? &#8211; perguntou Ana<br \/>\n    Mikailovna a um deles.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; &#8211; replicou um dos lacaios, numa grossa voz atrevida, como se<br \/>\n    naquela altura tudo fosse permitido &#8211; a porta &agrave; esquerda, minha senhora.<\/p>\n<p> &laquo;Talvez que o conde n&atilde;o me tenha mandado chamar&raquo;, pensou<br \/>\n    Pedro na altura do patamar. &laquo;Era bem melhor eu ir para o meu quarto.&raquo;<br \/>\n    Ana Mikailovna deteve-se, para que Pedro a pudesse alcan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, meu amigo! &#8211; exclamou ela, pegando-lhe num bra&ccedil;o, como tinha<br \/>\n    feito ao filho nessa mesma manh&atilde;, &#8211; Pode crer que sofro tanto como<br \/>\n    o Pedro, mas precisa de ser homem.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente, era melhor eu n&atilde;o ir &#8211; disse Pedro, olhando para ela<br \/>\n    atrav&eacute;s das lentes das lunetas, com um ar afectuoso.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, meu amigo, esque&ccedil;a-se das injusti&ccedil;as que lhe fizeram,<br \/>\n    lembre-se que seu pai.., est&aacute; talvez na agonia. &#8211; Soltou um suspiro.-<br \/>\n    Gostei logo de si como se fosse meu filho. Confie em mim. Pedro. N&atilde;o<br \/>\n    me esquecerei dos seus interesses.<\/p>\n<p> Pedro n&atilde;o compreendia nada; o mais claro para ele era pensar que<br \/>\n    as coisas deviam ser assim, e seguiu docilmente Ana Mikailovna, que j&aacute;<br \/>\n    abria a porta.<\/p>\n<p> A porta dava para o vest&iacute;bulo dos aposentos das traseiras. O velho<br \/>\n    criado das princesas estava sentado a um canto a fazer meia. Pedro nunca entrara<br \/>\n    naquela parte da casa, ignorava mesmo a exist&ecirc;ncia de tais depend&ecirc;ncias.<br \/>\n    Ana Mikailovna perguntou pela sa&uacute;de das princesas a uma rapariga que<br \/>\n    trazia uma garrafa em cima de uma bandeja, e que se tinha juntado a elos,<br \/>\n    chamando-lhe &laquo;minha cara&raquo; e &laquo;minha boa rapariga&raquo;,<br \/>\n    e em seguida conduziu Pedro ao longo de um corredor lajeado. A primeira porta<br \/>\n    &agrave; esquerda que abria para esse corredor levava aos aposentos das princesas.<\/p>\n<p> De t&atilde;o apressada que ia &#8211; em circunst&acirc;ncias daquelas tudo se<br \/>\n    fazia apressadamente- a criada de quarto que levava a bandeja com a garrafa<br \/>\n    n&atilde;o fechou a porta, e tanto Pedro como Ana Mikailovna, ao passarem,<br \/>\n    olharam involuntariamente para o quarto onde a princesa mais velha e o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili conversavam muito animadamente. Ao v&ecirc;-los, este teve um movimento<br \/>\n    de impaci&ecirc;ncia e recuou; a princesa deu um pulo e fechou a porta com<br \/>\n    um gesto violento.<\/p>\n<p> Esta atitude condizia t&atilde;o pouco com a habitual serenidade da princesa,<br \/>\n    e o p&acirc;nico que se pintou no rosto do pr&iacute;ncipe Vassili era t&atilde;o<br \/>\n    imprevisto na sua grave compostura, que Pedro parou, lan&ccedil;ando, atrav&eacute;s<br \/>\n    das lentes das suas lunetas, um olhar inquiridor &agrave; sua condutora. Ana<br \/>\n    Mikailovna, sem trair qualquer surpresa, contentou-se em sorrir vagamente,<br \/>\n    suspirando, como se tudo aquilo para ela fosse coisa natural.<\/p>\n<p> &#8211; Mostre-se homem, meu amigo, eu zelarei pelos seus interesses &#8211; disse ela,<br \/>\n    ao mesmo tempo que apressava o passo ao longo do corredor.<\/p>\n<p> Pedro n&atilde;o percebia do que se tratava e muito menos compreendia o<br \/>\n    que queria dizer: zelar pelos seus interesses, mas de si para consigo pensava<br \/>\n    que assim mesmo devia ser. O corredor conduziu-os a uma depend&ecirc;ncia<br \/>\n    mal iluminada que dava para a sala de visitas do conde. Era um dos compartimentos<br \/>\n    frios e luxuosos que Pedro conhecia muit&iacute;ssimo bem, mas onde nunca<br \/>\n    entrava sen&atilde;o pela escada nobre. No centro desta sala via-se uma banheira<br \/>\n    vazia e havia &aacute;gua entornada no tapete. A&iacute; cruzaram com um criado<br \/>\n    e um sacrist&atilde;o com um tur&iacute;bulo, que caminhavam em bicos de p&eacute;s,<br \/>\n    os quais nem neles sequer repararam. Depois penetraram na sala de visitas,<br \/>\n    que Pedro conhecia muito bem, com as suas duas janelas &agrave; italiana e<br \/>\n    a sua porta para o jardim de Inverno, onde havia um grande busto de Catarina<br \/>\n    e, um retrato em corpo inteiro da mesma soberana. Eram as mesmas pessoas,<br \/>\n    por assim dizer nas mesmas atitudes, que ainda ali estavam conversando em<br \/>\n    voz baixa. Todos se calaram e fitaram Ana Mikailovna, que entrava, com o seu<br \/>\n    rosto p&aacute;lido e como sulcado de l&aacute;grimas, e aquele grande e corpulento<br \/>\n    rapaz, que, de cabe&ccedil;a baixa, a seguia com toda a docilidade.<\/p>\n<p> Podia ler-se nos tra&ccedil;os de Ana Mikailovna que ela tinha a certeza<br \/>\n    de que se aproximava o momento decisivo. Com a seguran&ccedil;a de uma petersburguesa<br \/>\n    a tudo habituada, entrou na sala, bem agarrada a Pedro, com um ar ainda mais<br \/>\n    ousado que o dessa manh&atilde;. Tinha a certeza de que se trouxesse consigo<br \/>\n    a pessoa a quem o moribundo queria ver, logo, seria recebida. Lan&ccedil;ou<br \/>\n    um r&aacute;pido olhar &agrave;s pessoas ali presentes, e, ao ver o confessor<br \/>\n    do conde, aproximou-se dele em passinhos mi&uacute;dos, sem propriamente se<br \/>\n    inclinar, mas tornando-se como que mais pequena, e dois eclesi&aacute;sticos<br \/>\n    presentes lan&ccedil;aram-lhe a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Gra&ccedil;as a Deus que cheg&aacute;mos a tempo &#8211; disse ela aos sacerdotes<br \/>\n    &#8211; todos n&oacute;s, que somos da fam&iacute;lia, est&aacute;vamos com tanto<br \/>\n    medo! Este rapaz &eacute; filho do conde &#8211; acrescentou em voz baixa. &#8211; Que<br \/>\n    instantes medonhos! Ao dizer estas palavras, aproximou-se do m&eacute;dico.<\/p>\n<p> &#8211; Caro doutor &#8211; principiou &#8211; este rapaz &eacute; o filho do conde.. Ainda<br \/>\n    h&aacute; esperan&ccedil;as? O m&eacute;dico, sem dizer palavra, ergueu os<br \/>\n    olhos e encolheu os ombros, num ar de d&uacute;vida. Ana Mikailovna copiou<br \/>\n    exactamente a sua m&iacute;mica, teve um suspiro quase que fechando os olhos<br \/>\n    e voltou-se para o lado onde estava Pedro. Parecia testemunhar-lhe, urna aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    particularmente respeitosa e uma ternura contristada.<\/p>\n<p> &#8211; Tende confian&ccedil;a na divina miseric&oacute;rdia! &#8211; exclamou ela indicando-lhe<br \/>\n    um div&atilde; onde pudesse esperar, enquanto ela se dirigia, sem fazer barulho,<br \/>\n    para a porta cm que estavam fitos todos os olhares. Depois de a abrir silenciosamente,<br \/>\n    desapareceu.<\/p>\n<p> Pedro, disposto a obedecer em tudo ao seu guia, encaminhou-se para o div&atilde;<br \/>\n    indicado. Assim que Ana Mikailovna desapareceu, afigurou-se-lhe que todos<br \/>\n    os olhares se dirigiam para ele com algo mais que curiosidade e simpatia.<br \/>\n    Viu que toda aquela gente cochichava entre si, apontando-o com os olhos, numa<br \/>\n    esp&eacute;cie de medo servil. Tiveram para com ele aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que anteriormente nunca haviam tido. A senhora, para ele desconhecida, que<br \/>\n    conversava com o sacerdote levantou-se e ofereceu-lhe o seu lugar. O ajudante-de-campo<br \/>\n    baixou-se para lhe apanhar a luva que tinha ca&iacute;do. Quando ele passou,<br \/>\n    os m&eacute;dicos calaram-se respeitosamente e abriram alas para o deixar<br \/>\n    passar. Pedro tinha pensado, primeiro, em sentar-se em qualquer parte, para<br \/>\n    n&atilde;o incomodar a senhora, pensara em apanhar a luva e evitar os m&eacute;dicos,<br \/>\n    que ali&aacute;s lhe n&atilde;o impediam a passagem; mas, de s&uacute;bito,<br \/>\n    compreendeu que naquela noite se tornara uma personagem com a obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cumprir uma esp&eacute;cie de rito terr&iacute;vel, aguardado por toda<br \/>\n    a gente, e por conseguinte devia aceitar as solicitudes de todos. Recebeu<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio a luva que lhe estendia o oficial, sentou-se no lugar da<br \/>\n    senhora desconhecida, apoiando as grandes m&atilde;os nos joelhos, simetricamente<br \/>\n    colocadas numa posi&ccedil;&atilde;o ing&eacute;nua de est&aacute;tua eg&iacute;pcia,<br \/>\n    e de si para consigo decidiu que tudo aquilo se devia justamente passar assim<br \/>\n    e que naquela noite, para n&atilde;o perder a cabe&ccedil;a e n&atilde;o fazer<br \/>\n    disparates, n&atilde;o deveria agir como era sua vontade, mas confiando-se<br \/>\n    em absoluto a vontade daqueles que o guiavam.<\/p>\n<p> Ainda se n&atilde;o tinham passado dois minutos, j&aacute; o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili, com o seu cafet&atilde; decorado com tr&ecirc;s estrelas, o ar majestoso,<br \/>\n    a cabe&ccedil;a erguida, entrava na sala. Dir-se-ia ter emagrecido desde essa<br \/>\n    manh&atilde;; os seus olhos pareceram crescer quando viu Pedro e percorreu<br \/>\n    a sala com o olhar. Aproximou-se dele, apertou-lhe a m&atilde;o, coisa que<br \/>\n    at&eacute; a&iacute; nunca fizera, e sacudiu-lha energicamente, como se quisesse<br \/>\n    experimentar-lhe a resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Coragem, coragem, meu amigo. Ele disse que o queria ver. Est&aacute; certo.<\/p>\n<p> E quis afastar-se.<\/p>\n<p> Mas Pedro julgou necess&aacute;rio perguntar-lhe: &#8211; Como est&aacute;&#8230;?<br \/>\n    Hesitou, sem saber como seria conveniente referir-se ao conde, o moribundo;<br \/>\n    teve vergonha de dizer: &laquo;meu pai&raquo;.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda h&aacute; meia hora teve um ataque. Coragem, meu amigo.<\/p>\n<p> Pedro estava num tal estado de semiconsci&ecirc;ncia que a palavra ataque<br \/>\n    lhe deu a ideia imediata de que algu&eacute;m o tinha atacado. Olhou perplexo<br \/>\n    para o pr&iacute;ncipe Vassili, e s&oacute; depois lhe ocorreu que aquela<br \/>\n    palavra podia significar uma doen&ccedil;a. O pr&iacute;ncipe Vassili, ao<br \/>\n    passar, disse umas palavras a Lorrain e encaminhou-se para a porta em bicos<br \/>\n    de p&eacute;s. N&atilde;o se pode dizer que fosse muito destro em caminhar<br \/>\n    dessa maneira; todo o seu corpo oscilava desajeitadamente. Atr&aacute;s dele<br \/>\n    passou a mais velha das princesas, depois os padres e os sacrist&atilde;es;<br \/>\n    seguiram-se alguns criados do conde. Atr&aacute;s da porta ouviu-se um burburinho<br \/>\n    e Ana Mikailovna, sempre muito p&aacute;lida, mas decidida no cumprimento<br \/>\n    do seu dever, apareceu, correndo, e tocando tio bra&ccedil;o de Pedro murmurou:<br \/>\n    &#8211; A bondade divina e inesgot&aacute;vel. Vai come&ccedil;ar a cerim&oacute;nia<br \/>\n    da extrema-un&ccedil;&atilde;o. Venha.<\/p>\n<p> Pedro penetrou no quarto, enterrando os p&eacute;s no tapete fofo, e verificou<br \/>\n    que o ajudante-de-campo, a senhora desconhecida e alguns criados tamb&eacute;m<br \/>\n    o seguiam, como se j&aacute; n&atilde;o fosse preciso pedir licen&ccedil;a<br \/>\n    para se entrar naquele aposento.<\/p>\n<h4> <a name=\"23\">Cap&iacute;tulo XXIII<\/a><\/h4>\n<p>Pedro conhecia muito bem aquela grande depend&ecirc;ncia cortada por uni,<br \/>\n    arco e algumas colunas e forrada de tapetes persas. A, parte que ficava por<br \/>\n    detr&aacute;s das colunas, de um lado tinha uma grande cama de mogno com cortinados<br \/>\n    de seda, e do outro um orat&oacute;rio com as suas imagens, o qual, todo iluminado,<br \/>\n    era como uma igreja preparada, para os of&iacute;cios da noite. Debaixo do<br \/>\n    enquadramento dos &iacute;cones iluminados estava uma grande cadeira de doente,<br \/>\n    com o espaldar coberto de almofadas brancas como neve, ainda n&atilde;o amarrotadas,<br \/>\n    e que acabavam de ser mudadas. Nessa cadeira perfilava-se a majestosa figura,<br \/>\n    do pai, o conde Bezukov, muito sua conhecida, coberto at&eacute; &agrave;<br \/>\n    cintura por uma manta verde-clara e os cabelos brancos, em que havia qualquer<br \/>\n    coisa de leonino, a coroar-lhe a testa ampla e as caracter&iacute;sticas linhas<br \/>\n    daquele rosto amarelento sulcado de pequenas rugas. Estava estendido mesmo<br \/>\n    por debaixo das imagens, com as grossas m&atilde;os espessas emergindo da<br \/>\n    coberta, e sobre ela pousadas. Na m&atilde;o direita, espalmada, entre o polegar<br \/>\n    e o indicador, erguia-se urna vela que um velho criado amparava debru&ccedil;ado<br \/>\n    sobre a cabeceira. Em tomo, os padres, de p&eacute;, revestidos com os seus<br \/>\n    magn&iacute;ficos paramentos, muito brilhantes, os longos cabelos soltos,<br \/>\n    e de velas acesas, oficiavam com uma, lentid&atilde;o solene. Um pouco mais<br \/>\n    atr&aacute;s viam-se as duas princesas mais novas, de len&ccedil;o nos olhos,<br \/>\n    e, diante delas. Katicha, a mais velha, com uma express&atilde;o m&aacute;<br \/>\n    e resoluta, os olhos fixos nos &iacute;cones, o que queria dizer que n&atilde;o<br \/>\n    poderia responder por si caso viesse a olhar para outro lado. Junto &agrave;<br \/>\n    porta. Ana Mikailovna, com o seu ar de resignada tristeza e implora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    bem como a senhora desconhecida.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili, do outro lado desta mesma porta, mais perto da<br \/>\n    cadeira, por detr&aacute;s de um cadeir&atilde;o de talha guarnecido de veludo,<br \/>\n    cujo espaldar voltara para si, apoiando nele a sua m&atilde;o esquerda, em<br \/>\n    que segurava uma vela, enquanto com a direita se benzia e erguia os olhos<br \/>\n    ao c&eacute;u, de cada vez que tocava na testa. Na sua m&aacute;scara havia<br \/>\n    uma devo&ccedil;&atilde;o tranquila e submiss&atilde;o &agrave; vontade divina,<br \/>\n    &laquo;Se Tu n&atilde;o compreendes estes sentimentos, tanto pior para Ti&raquo;,<br \/>\n    parecia dizer a sua express&atilde;o.<\/p>\n<p> Atr&aacute;s dele encontravam-se o ajudante-de-campo, os m&eacute;dicos<br \/>\n    e o pessoal masculino: como na igreja, havia separa&ccedil;&atilde;o de sexos.<br \/>\n    Toda a gente estava calada, persignando-se. Apenas se ouviam as ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    lit&uacute;rgicas, um canto baixo, profundo e cont&iacute;nuo, e nos momentos<br \/>\n    de sil&ecirc;ncio movimento de p&eacute;s e suspiros. Ana Mikailovna, com<br \/>\n    aquele ar significativo com que mostrava saber o que estava fazendo, atravessou<br \/>\n    o quarto para entregar uma vela a Pedro. Este acendeu-a, e, entretido com<br \/>\n    as observa&ccedil;&otilde;es que fazia sobre os assistentes, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a persignar-se com a mesma m&atilde;o com que segurava o c&iacute;rio.<\/p>\n<p> A jovem, princesa Sofia, a da pele rosada, ar trocista e um sinalzinho,<br \/>\n    olhava para ele. Depois sorriu, escondeu o rosto no len&ccedil;o, e assim<br \/>\n    esteve muito tempo; da&iacute; a pouco, voltando a olhar para ele, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a rir. Evidentemente que ela se n&atilde;o sentia capaz de o olhar sem rir,<br \/>\n    mas como, ao mesmo tempo, n&atilde;o podia deixar de o olhar, para n&atilde;o<br \/>\n    ter essa tenta&ccedil;&atilde;o foi postar-se, sem ru&iacute;do, atr&aacute;s<br \/>\n    de uma coluna. A meio da cerim&oacute;nia, as vozes dos sacerdotes calaram-se,<br \/>\n    repentinamente, e os padres puseram-se a dizer qualquer coisa ao ouvido uns<br \/>\n    dos outros; o velho criado que segurava a vela do conde ergueu-se e voltou-se<br \/>\n    para o lado das senhoras. Ana Mikailovna avan&ccedil;ou e, debru&ccedil;ando-se<br \/>\n    para o doente, tomou entre as suas m&atilde;os brancas e finas a m&atilde;o<br \/>\n    livre pousada sobre a coberta verde, e, virada de lado, p&ocirc;s-se a tomar-lhe<br \/>\n    o pulso com um ar recolhido. Deram de beber ao doente; foi uma agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em volta dele; depois cada um retomou o seu lugar e a cerim&oacute;nia prosseguiu.<br \/>\n    Durante esta pausa. Pedro notou que o pr&iacute;ncipe Vassili tinha sa&iacute;do<br \/>\n    de tr&aacute;s do cadeir&atilde;o e com o ar de quem sabe muito bem o que<br \/>\n    anda a fazer, e lhe &eacute; completamente indiferente a presen&ccedil;a dos<br \/>\n    outros, em vez de se aproximar do moribundo, passara ao lado dele, encaminhando-se<br \/>\n    para onde estava a mais velha das princesas, juntamente com quem se dirigira<br \/>\n    para o fundo do quarto, em que estava o leito alto com cortinados de seda.<\/p>\n<p> Tanto um como outro, depois, tinham desaparecido por uma porta no extremo<br \/>\n    do aposento, e s&oacute; no fim da cerim&oacute;nia haviam reaparecido, um<br \/>\n    por cada vez, retomando os seus lugares. Pedro n&atilde;o prestou mais aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a este pormenor que a qualquer outro, persuadido como estava de que tudo quanto<br \/>\n    se passasse naquela noite diante dos seus olhos assim tinha de ser e nunca<br \/>\n    de outra maneira.<\/p>\n<p> Os cantos lit&uacute;rgicos cessaram e ouviu-se ent&atilde;o a voz de um<br \/>\n    dos sacerdotes felicitando o doente por haver recebido o sacramento. O moribundo<br \/>\n    continuava estendido sem dar sinais de vida e sem fazer o mais pequeno movimento.<br \/>\n    Toda a gente se aproximou dele. Ressoaram passos, e ouviu-se o ciciar das<br \/>\n    vozes, entre as quais se distinguia a de Ana Mikailovna.<\/p>\n<p> Pedro ouviu-a dizer: &#8211; &Eacute; indispens&aacute;vel lev&aacute;-lo outra<br \/>\n    vez para a cama. Aqui &eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> O moribundo estava de tal modo rodeado pelos m&eacute;dicos, pelas princesas,<br \/>\n    pelos criados, que Pedro j&aacute; lhe n&atilde;o via a cabe&ccedil;a vermelho-amarelada<br \/>\n    com a coroa de cabelos brancos que n&atilde;o perdera de vista durante toda<br \/>\n    a cerim&oacute;nia, apesar da presen&ccedil;a de toda aquela gente. Pelo movimento<br \/>\n    prudente das pessoas que o cercavam percebeu que o estavam a soerguer para<br \/>\n    o transportar.<\/p>\n<p> &#8211; Firma-te no meu bra&ccedil;o, vais deix&aacute;-lo cair &#8211; dizia a voz<br \/>\n    abafada de um dos criados.- Mais baixo&#8230; Outro aqui&#8230; &#8211; murmuravam as vozes.<\/p>\n<p> O resfolgar das respira&ccedil;&otilde;es opressas e o andar arrastado pareciam<br \/>\n    mostrar que o peso que transportavam era superior &agrave;s for&ccedil;as<br \/>\n    dos que o conduziam.<\/p>\n<p> Toda aquela gente, de que fazia parte Ana Mikailovna, passou diante do jovem,<br \/>\n    que durante alguns segundos, atrav&eacute;s das nucas e das costas, p&ocirc;de<br \/>\n    ver os grossos e fortes peitorais nus e os ombros vigorosos do moribundo soerguidos<br \/>\n    pelas pessoas que lhe pegavam pelas axilas, e a cabe&ccedil;a branca, crespa,<br \/>\n    leonina. A cabe&ccedil;a, com a sua fronte extraordinariamente espa&ccedil;osa<br \/>\n    e a face musculada, a bela boca sensual, o olhar frio, ainda majestoso, n&atilde;o<br \/>\n    estavam desfigurados pela morte. Era a mesma pessoa que ele tinha conhecido<br \/>\n    tr&ecirc;s meses antes, quando o conde o mandara para Petersburgo. Mas esta<br \/>\n    cabe&ccedil;a balou&ccedil;ava, inerte, a cada passada dos que transportavam<br \/>\n    o moribundo e o seu olhar frio, insens&iacute;vel, n&atilde;o sabia onde fixar-se.<\/p>\n<p> Durante alguns minutos houve agita&ccedil;&atilde;o em volta da cama, depois<br \/>\n    as pessoas que tinham transportado o conde afastaram-se. Ana Mikailovna tocou<br \/>\n    no bra&ccedil;o de Pedro e disse-lhe: &#8211; Venha da&iacute;. &#8211; Pedro, sempre<br \/>\n    junto dela, aproximou-se da cama em que tinham estendido o doente, numa postura<br \/>\n    solene, de acordo com o sacramento que acabava de receber. Uma pilha de almofadas<br \/>\n    soerguia-lhe o busto. As m&atilde;os estavam dispostas simetricarnente sobre<br \/>\n    a coberta de seda verde, com as palmas para baixo. Quando Pedro se aproximou,<br \/>\n    o conde olhou-o fixamente, mas com um olhar de que ningu&eacute;m seria capaz<br \/>\n    de discernir o significado e a inten&ccedil;&atilde;o. Ou esse olhar n&atilde;o<br \/>\n    queria dizer absolutamente nada al&eacute;m de significar que enquanto os<br \/>\n    nossos olhos est&atilde;o abertos para algures t&ecirc;m de olhar, ou ent&atilde;o<br \/>\n    muito queriam dizer. Pedro ficou im&oacute;vel sem saber o que fazer, interrogando<br \/>\n    com o olhar a sua cicerone. Esta teve um r&aacute;pido movimento de olhos,<br \/>\n    indicando-lhe a m&atilde;o do moribundo, e com a boca mimou um beijo.<\/p>\n<p> Pedro, inclinando a cabe&ccedil;a com precau&ccedil;&atilde;o, para n&atilde;o<br \/>\n    se embara&ccedil;ar na coberta, seguiu o conselho dela e aplicou os l&aacute;bios<br \/>\n    sobre a m&atilde;o carnuda e de grandes ossos. Nem a m&atilde;o nem nenhum<br \/>\n    dos m&uacute;sculos do rosto do conde deram sinal de vida. Pedro continuou<br \/>\n    a olhar Ana Mikailovna interrogativamente, para lhe perguntar o que tinha<br \/>\n    a fazer. Esta indicou-lhe com a vista a cadeira ao lado da cama. Pedro a&iacute;<br \/>\n    se instalou, com toda a docilidade, continuando a perguntar-lhe, por acenos,<br \/>\n    se estava a proceder bem. Ana Mikailovna disse-lhe &laquo;sim&raquo; com um<br \/>\n    aceno de cabe&ccedil;a. Pedro retomou a sua pose ing&eacute;nua da est&aacute;tua<br \/>\n    eg&iacute;pcia, visivelmente incomodado por ver a sua desastrada pessoa ocupar<br \/>\n    t&atilde;o largo espa&ccedil;o, e recorrendo a todos os estratagemas de esp&iacute;rito<br \/>\n    para parecer o mais pequeno poss&iacute;vel. Olhou para o conde. Este tinha<br \/>\n    os olhos pousados no lugar onde se encontrava a figura de Pedro antes de se<br \/>\n    sentar. Ana Mikailovna, pela sua atitude, traduzia a import&acirc;ncia tocante<br \/>\n    que atribu&iacute;a a estes derradeiros momentos de despedida entre pai e<br \/>\n    filho. Isto prolongou-se por dois ou tr&ecirc;s minutos, que a Pedro se lhe<br \/>\n    afiguraram horas. Subitamente, um estremecimento perpassou pelas rugas da<br \/>\n    m&aacute;scara do conde. O estremecimento acentuou-se, a boca, de contomos<br \/>\n    regulares, deformou-se. S&oacute; ent&atilde;o Pedro compreendeu qu&atilde;o<br \/>\n    perto da morte estava seu pai. A boca toda contorcida soltou um estertor rouco<br \/>\n    e indistinto. Ana Mikailovna fixara o moribundo atentamente, na esperan&ccedil;a<br \/>\n    de adivinhar o que ele queria, e mostrava-lhe ora Pedro, ora a po&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ora lhe mencionava em voz baixa o nome do pr&iacute;ncipe Vassili, ora lhe<br \/>\n    indicava a coberta.<\/p>\n<p> O olhar e a fisionomia do moribundo traduziam impaci&ecirc;ncia. Fazia esfor&ccedil;os<br \/>\n    para fixar o criado constantemente &agrave; cabeceira da cama, &#8211; Quer que<br \/>\n    o virem para o outro lado &#8211; murmurou este, que se levantou para voltar para<br \/>\n    o lado da parede o pesado corpo doente.<\/p>\n<p> Pedro ergueu-se para ajudar o criado.<\/p>\n<p> Enquanto o mudavam de posi&ccedil;&atilde;o, um dos bra&ccedil;os do conde<br \/>\n    ficou inerte para tr&aacute;s, fazendo ele baldados esfor&ccedil;os para o<br \/>\n    trazer ao seu lugar. O conde ou viu o olhar aflito que Pedro teve para o bra&ccedil;o<br \/>\n    sem vida, ou outro qualquer pensamento perpassou nesse instante pela cabe&ccedil;a<br \/>\n    do moribundo: olhou para o seu pr&oacute;prio bra&ccedil;o, que, j&aacute;<br \/>\n    lhe n&atilde;o obedecia, depois para a express&atilde;o aflitiva de Pedro,<br \/>\n    em seguida de novo para o bra&ccedil;o e pelo seu rosto passou um d&eacute;bil<br \/>\n    e doloroso sorriso, que, destoava na sua m&aacute;scara, parecendo, por isso<br \/>\n    mesmo, escarnecer da sua pr&oacute;pria impot&ecirc;ncia. Ao deparar-se-lhe<br \/>\n    este sorriso. Pedro sentiu uma s&uacute;bita crispa&ccedil;&atilde;o no peito,<br \/>\n    um formigueiro nas narinas e as l&aacute;grimas vieram turvar-lhe a vista.<br \/>\n    Tinham colocado o moribundo voltado para a parede. Ouviu-se que suspirava.<\/p>\n<p> &#8211; Adormeceu &#8211; disse Ana Mikailovna, ao ver uma das princesas que vinha substitu&iacute;-la.-<br \/>\n    Vamo-nos.<\/p>\n<p> Pedro saiu.<\/p>\n<h4> <a name=\"24\">Cap&iacute;tulo XXIV<\/a><\/h4>\n<p>Na sala de visitas n&atilde;o estava j&aacute; mais ningu&eacute;m sen&atilde;o<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Vassili e a mais velha das princesas, conversando animadamente<br \/>\n    debaixo do retrato de Catarina. Assim que viram chegar Pedro e a sua companheira,<br \/>\n    calaram-se. A princesa dissimulou qualquer coisa, pelo menos foi isso que<br \/>\n    Pedro pareceu distinguir, e murmurou: &#8211; N&atilde;o posso ver esta mulher.<\/p>\n<p> &#8211; Katicha mandou servir o ch&aacute; na salinha &#8211; disse o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    a Ana Mikailovna. &#8211; V&aacute;, minha pobre Ana Mikailovna, tome qualquer coisa,<br \/>\n    caso contr&aacute;rio n&atilde;o aguentar&aacute;.<\/p>\n<p> Nada disse a Pedro, limitando-se a apertar-lhe o bra&ccedil;o com emo&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Pedro e Ana Mikailovna dirigiram-se para a salinha.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; nada melhor para levantar as for&ccedil;as que uma<br \/>\n    x&iacute;cara deste excelente ch&aacute; russo depois de uma noite em claro!<br \/>\n    &#8211; exclamou Lorrain com uma vivacidade refreada, enquanto bebia, em pequenos<br \/>\n    goles, por uma ch&aacute;vena da China, sem asa, de p&eacute;, na salinha<br \/>\n    redonda, diante de uma mesa onde estavam alguns pratos frios e um servi&ccedil;o<br \/>\n    de ch&aacute;. Em volta da mesa tinham-se juntado, para recuperar for&ccedil;as,<br \/>\n    todos quantos haviam passado a noite em casa do conde Bezukov. Pedro lembrava-se<br \/>\n    muit&iacute;ssimo bem daquela salinha circular com os seus espelhos e os seus<br \/>\n    gu&eacute;ridons. Aquando dos bailes que havia l&aacute; em casa, ele, que<br \/>\n    n&atilde;o sabia dan&ccedil;ar, gostava de vir sentar-se naquela pequenina<br \/>\n    saleta, donde ficava a ver as senhoras de vestido de noite e os ombros nus<br \/>\n    cobertos de p&eacute;rolas e diamantes, as quais, ao atravessar aquela depend&ecirc;ncia,<br \/>\n    se miravam vivamente nos espelhos iluminados em que as imagens se multiplicavam<br \/>\n    indefinidamente. Naquele momento a saleta estava apenas iluminada por duas<br \/>\n    velas, e na obscuridade, em cima de um gu&eacute;ridon, havia, pousados desordenadamente,<br \/>\n    pratos e ch&aacute;venas de ch&aacute;, enquanto pessoas da mais variada natureza,<br \/>\n    em trajes comuns, falando entre si em voz baixa, se sentavam, exprimindo,<br \/>\n    em todos os seus movimentos e em todas as suas palavras, a ideia de que n&atilde;o<br \/>\n    esqueciam um s&oacute; momento o que estava a passar-se naquela noite e o<br \/>\n    que devia passar-se ainda no quarto de dormir. Pedro nada comeu, embora muito<br \/>\n    lhe apetecesse faz&ecirc;-lo. Ia interrogar com os olhos a sua condutora,<br \/>\n    mas viu que ela tornava a entrar, na ponta dos p&eacute;s, na sala de visitas,<br \/>\n    em que ficara o pr&iacute;ncipe Vassili e a mais velha das princesas.<\/p>\n<p> Pedro pensou mais uma vez que assim tinha de ser, e, depois de hesitar alguns<br \/>\n    instantes, seguiu atr&aacute;s dela. Ana Mikailovna estava de p&eacute; junto<br \/>\n    da princesa e ambas falavam ao mesmo tempo, em voz baixa, com anima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, minha senhora, eu julgo saber o que se deve fazer e o que<br \/>\n    se n&atilde;o deve fazer &#8211; dizia a princesa, certamente na mesma agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que se encontrava no momento em que tinha fechado violentamente a porta<br \/>\n    do quarto, &#8211; Mas, minha querida princesa &#8211; volveu Ana Mikailovna, num tom<br \/>\n    modesto e insinuante, vedando &agrave; princesa o caminho para o quarto de<br \/>\n    dormir -, n&atilde;o seria penoso para o seu pobre tio, num momento destes,<br \/>\n    em que tanto necessita de repouso? Falar-lhe numa hora destas das coisas deste<br \/>\n    miser&aacute;vel mundo, quando a sua alma est&aacute; j&aacute; preparada&#8230;<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili estava sentado numa cadeira, as pernas cruzadas<br \/>\n    uma em cima da outra, numa das suas posi&ccedil;&otilde;es habituais. No seu<br \/>\n    rosto havia movimentos convulsivos, e as faces moles pareciam, na parte inferior,<br \/>\n    mais largas do que de costume; e fingia estar pouco atento &agrave; conversa<br \/>\n    das duas senhoras.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, minha boa Ana Mikailovna, deixe proceder Katicha. Bem sabe<br \/>\n    quanto o conde a estima.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sei o que h&aacute; aqui dentro &#8211; disse a princesa, dirigindo-se<br \/>\n    ao pr&iacute;ncipe Vassili, e apontando para a pasta de couro que tinha na<br \/>\n    m&atilde;o. &#8211; O que eu sei &eacute; que o verdadeiro testamento est&aacute;<br \/>\n    no escrit&oacute;rio dele e que s&oacute; se encontra aqui papelada esquecida&#8230;<\/p>\n<p> Quis passar, contornando Ana Mikailovna, mas esta fez um movimento r&aacute;pido<br \/>\n    e de novo se lhe atravessou no caminho.<\/p>\n<p> &#8211; Bem sei, minha boa, minha querida princesa &#8211; disse, apoderando-se da pasta,<br \/>\n    e segurando-a com tanta forca que se via n&atilde;o estar disposta a larg&aacute;-la<br \/>\n    de m&atilde;o t&atilde;o depressa- Minha querida princesa, pe&ccedil;o-lhe,<br \/>\n    suplico-lhe, poupe o doente. Imploro-lhe&#8230;<\/p>\n<p> A princesa n&atilde;o deu resposta. Apenas se ouvia o ru&iacute;do da luta<br \/>\n    que se travava para a conquista da pasta. Era evidente que se ela falasse<br \/>\n    n&atilde;o seria para dizer coisas am&aacute;veis a Ana Mikailovna. Mas esta<br \/>\n    resistia energicamente, embora a sua voz conservasse um tom suave e carinhoso.<\/p>\n<p> &#8211; Pedro, venha c&aacute;, meu amigo. Suponho que n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    a mais rio conselho de fam&iacute;lia. N&atilde;o &eacute; isto verdade, pr&iacute;ncipe?<br \/>\n    &#8211; Porque &eacute; que n&atilde;o diz alguma coisa, primo? &#8211; gritou, subitamente,<br \/>\n    a princesa, e t&atilde;o alto que em toda a sala se lhe ouviu a voz. &#8211; Fica<br \/>\n    calado quando uma pessoa estranha se atreve a intervir nos nossos assuntos<br \/>\n    e fazer uma cena no limiar do quarto de um moribundo? Intriguista! &#8211; exclamou<br \/>\n    ela com &oacute;dio, puxando pela pasta, com todas as suas for&ccedil;as.<\/p>\n<p> Para n&atilde;o ser obrigada a abandonar a presa, e sob a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    do pux&atilde;o. Ana Mikailovna viu-se for&ccedil;ada a dar alguns passos<br \/>\n    avante, e pegou-lhe no bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! &#8211; exclamou Vassili com espanto e num tom de censura &#8211; &Eacute; rid&iacute;culo<br \/>\n    &#8211; prosseguiu ele, erguendo-se- Vejamos, largue, fa&ccedil;a favor.<\/p>\n<p> A jovem princesa abriu as m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Largue &#8211; repetiu-lhe. &#8211; Eu encarrego-me de tudo. Vou j&aacute; falar com<br \/>\n    ele. Sim, eu&#8230; Deixe isso comigo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu pr&iacute;ncipe &#8211; disse Ana Mikailovna -, depois de um sacramento<br \/>\n    t&atilde;o solene, deixe-o descansar um momento. Pedro, v&aacute;, d&ecirc;<br \/>\n    a sua opini&atilde;o &#8211; prosseguiu ela, dirigindo-se ao jovem, o qual, tendo-se<br \/>\n    aproximado, observava, espantado, a figura da princesa conturbada pela c&oacute;lera<br \/>\n    e os movimentos nervosos do rosto do pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> &#8211; Lembre-se de que ser&aacute; respons&aacute;vel por tudo o que vier a<br \/>\n    acontecer &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Vassili com severidade. &#8211; O senhor n&atilde;o<br \/>\n    sabe o que faz.<\/p>\n<p> &#8211; Mulher infame! &#8211; gritou a princesa, lan&ccedil;ando-se sobre ela, repentinamente,<br \/>\n    e arrancando-lhe a pasta das m&atilde;os.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Vassili, baixando a cabe&ccedil;a, deixou cair os bra&ccedil;os<br \/>\n    para mostrar que nada podia fazer.<\/p>\n<p> Neste momento, a porta, aquela porta horr&iacute;vel em que os olhos de<br \/>\n    Pedro se haviam fixado durante tanto tempo e que antes se tinha aberto t&atilde;o<br \/>\n    suavemente, escancarou-se, de s&uacute;bito, com fragor e veio bater de encontro<br \/>\n    &agrave; parede, enquanto a segunda das princesas se lan&ccedil;ava na sala<br \/>\n    torcendo as m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&atilde;o aqui a fazer? &#8211; disse ela, num desespero &#8211; Ele vai-se<br \/>\n    embora e todos me deixam s&oacute;.<\/p>\n<p> A princesa mais idosa deixou cair a pasta. Ana Mikailovna baixou-se, l&eacute;pida,<br \/>\n    e, pegando no corpo de delito, desapareceu no quarto de dormir. A princesa<br \/>\n    e o pr&iacute;ncipe Vassili, recuperando a serenidade, foram-lhe no encal&ccedil;o.<br \/>\n    Da&iacute; a pouco, a mais velha das princesas voltou a aparecer na sala de<br \/>\n    visitas, o rosto p&aacute;lido e seco, mordendo o l&aacute;bio inferior. Ao<br \/>\n    ver Pedro, veio-lhe um ataque de c&oacute;lera, que deixou expandir livremente,<br \/>\n    &#8211; Agora pode estar satisfeito! -exclamou,- Ai tem o que esperava.<\/p>\n<p> E rompendo a solu&ccedil;ar, escondeu o rosto no len&ccedil;o, desaparecendo<br \/>\n    da sala. O pr&iacute;ncipe Vassili foi quem veio depois. Aproximou-se cambaleando<br \/>\n    do div&atilde; em que Pedro estava sentado e deixou-se cair com a cara entre<br \/>\n    as m&atilde;os. Pedro viu que ele estava p&aacute;lido e que o queixo lhe<br \/>\n    tremia convulsivamente, como se tivesse febre.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, meu amigo! &#8211; exclamou, pegando no bra&ccedil;o de Pedro, e a sua voz<br \/>\n    exprimia uma sinceridade e uma do&ccedil;ura que este nunca lhe tinha notado<br \/>\n    &#8211; Os pecados que n&oacute;s cometemos, tanto equ&iacute;voco, e tudo isso<br \/>\n    para qu&ecirc;? Estou quase com sessenta anos, meu amigo&#8230; E eu&#8230; A morte<br \/>\n    &eacute; o fim de tudo. Ah, que coisa terr&iacute;vel &eacute; a morte!&#8230;<br \/>\n    &#8211; E principiou a solu&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Ana Mikailovna foi a &uacute;ltima a sair do quarto. Aproximou-se de ^Pedro<br \/>\n    em passos lentos e sem fazer ru&iacute;do.<\/p>\n<p> &#8211; Pedro! &#8211; exclamou ela.<\/p>\n<p> Pedro interrogou-a com os olhos. A princesa beijou o rapaz na testa, cobrindo-o<br \/>\n    de l&aacute;grimas. Esteve calada alguns momentos. &#8211; &#8211; Acabou&#8230;<\/p>\n<p> Pedro olhou para ela atrav&eacute;s das suas lunetas.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, eu acompanho-o. Procure chorar. N&atilde;o h&aacute; nada como<br \/>\n    as l&aacute;grimas para aliviar.<\/p>\n<p> Levou-o para uma sala escura e Pedro sentiu-se contente por ningu&eacute;m<br \/>\n    poder ver-lhe a express&atilde;o. Ana Mikailovna afastou-se, e quando voltou<br \/>\n    a entrar na sala encontrou-o, de cabe&ccedil;a encostada ao bra&ccedil;o,<br \/>\n    dormindo profundamente.<\/p>\n<p> No dia seguinte disse-lhe: &#8211; Sim, meu caro, &eacute; uma grande perda para<br \/>\n    todos n&oacute;s. N&atilde;o falo de si. Mas Deus o ajudar&aacute;, &eacute;<br \/>\n    novo e ei-lo &agrave; frente de uma imensa fortuna, assim o espero. O testamento<br \/>\n    ainda n&atilde;o foi aberto. Conhe&ccedil;o-o muito bem para saber que isso<br \/>\n    n&atilde;o lhe dar&aacute; volta &agrave; cabe&ccedil;a, mas imp&otilde;e-lhe<br \/>\n    deveres, e &eacute; preciso ser homem.<\/p>\n<p> Pedro ficou calado.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez mais tarde lhe conte, meu caro, que se eu ali n&atilde;o estivesse,<br \/>\n    s&oacute; Deus sabe o que poderia ter acontecido. Ainda antes de ontem meu<br \/>\n    tio me prometia n&atilde;o se esquecer de B&oacute;ris. Mas n&atilde;o teve<br \/>\n    tempo. Espero, meu caro, que saiba cumprir os desejos de seu pai.<\/p>\n<p> Pedro n&atilde;o percebia nada, contentando-se em olhar para Ana Mikailovna<br \/>\n    sem dizer palavra e corando com um ar embara&ccedil;ado. Esta, depois da sua<br \/>\n    conversa com Pedro, voltou para casa dos Rostov e deitou-se. No dia seguinte<br \/>\n    pela manh&atilde; contou aos Rostov e aos seus demais conhecimentos os pormenores<br \/>\n    da morte do conde Bezukov. Segundo dizia, o conde tinha morrido como ela pr&oacute;pria<br \/>\n    desejaria morrer, e que o seu passamento fora n&atilde;o s&oacute; emocionante,<br \/>\n    mas at&eacute; mesmo edificante; a &uacute;ltima entrevista entre pai e filho,<br \/>\n    ent&atilde;o, tinha sido de tal modo comovente que ela n&atilde;o podia lembrar-se<br \/>\n    dessa cena sem ch5rar, e lhe era imposs&iacute;vel dizer qual dos dois se<br \/>\n    portara melhor naqueles terr&iacute;veis momentos: se o pai, que nos &uacute;ltimos<br \/>\n    instantes se tinha referido a todos os acontecimentos importantes, recordando-se<br \/>\n    de toda a gente e dizendo coisas t&atilde;o comovedoras ao filho; se Pedro,<br \/>\n    que metia d&oacute;, de tal modo estava comovido, n&atilde;o obstante ter<br \/>\n    feito tudo para esconder a sua dor, para que o moribundo se n&atilde;o impressionasse.<br \/>\n    &laquo;&Eacute; penoso, mas faz bem; eleva a alma ver homens como o velho<br \/>\n    conde e o seu digno filho.&raquo; Ana Mikailovna aludiu tamb&eacute;m &agrave;<br \/>\n    atitude da princesa e do pr&iacute;ncipe Vassili num tom de censura, mas pedindo<br \/>\n    muito segredo e falando ao ouvido das pessoas.<\/p>\n<h4> <a name=\"25\">Cap&iacute;tulo XXV<\/a><\/h4>\n<p>Em Lissia Gori, dom&iacute;nio do pr&iacute;ncipe Nicolau Andreivitch Bolkonski,<br \/>\n    aguardava-se, de dia para dia, a chegada do jovem pr&iacute;ncipe Andr&eacute;<br \/>\n    e de sua mulher. Mas esta expectativa n&atilde;o alterava a ordem admir&aacute;vel<br \/>\n    que pautava a exist&ecirc;ncia, no solar do velho pr&iacute;ncipe. O general-chefe<br \/>\n    pr&iacute;ncipe Nicolau Andreivitch, aquele a quem a gente da sociedade tinha<br \/>\n    apelidado do &laquo;rei da Pr&uacute;ssia&raquo;, desde que, no reinado de<br \/>\n    Paulo I, se recolhera &agrave;s suas terras, nunca mais deixara a sua Lissia<br \/>\n    Gor&iacute;, onde vivia com sua filha Maria e a dama de companhia desta. Mademoiselle<br \/>\n    Bourienne. E quando viera o novo reinado, embora lhe tivesse sido permitido<br \/>\n    regressar &agrave; capital, ali continuara a viver, sem nunca mais de l&aacute;<br \/>\n    sair, dizendo que se algu&eacute;m precisasse dele era natural que se dispusesse<br \/>\n    a percorrer as cento e cinquenta verstas que separavam Moscovo do seu dom&iacute;nio,<br \/>\n    pois, quanto a ele, a verdade &eacute; que n&atilde;o precisava de nada nem<br \/>\n    de ningu&eacute;m. Era sua opini&atilde;o n&atilde;o haver sen&atilde;o duas<br \/>\n    fontes do v&iacute;cio humano: a ociosidade e a supersti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e sen&atilde;o duas virtudes: a actividade e a intelig&ecirc;ncia. Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    se encarregava pessoalmente da educa&ccedil;&atilde;o da filha, e para desenvolver<br \/>\n    nela estas virtudes cardinais, a partir dos vinte anos dava-lhe li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &aacute;lgebra e de geometria, n&atilde;o permitindo que ela estivesse<br \/>\n    desocupada o mais breve instante da sua vida. Quanto a ele, passava todo o<br \/>\n    seu tempo, quer a escrever as suas mem&oacute;rias, quer a resolver problemas<br \/>\n    de alta matem&aacute;tica, quer a tornear caixas de rap&eacute; num tomo mec&acirc;nico,<br \/>\n    quer a trabalhar de jardineiro e a vigiar as constru&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    andava sempre a fazer no seu dom&iacute;nio. Partindo do princ&iacute;pio<br \/>\n    de que a ordem &eacute; a primeira condi&ccedil;&atilde;o de toda a actividade,<br \/>\n    na sua vida a ordem era levada ao extremo. As pessoas sentavam-se &agrave;<br \/>\n    mesa segundo ritmos inalter&aacute;veis e sempre iguais, e n&atilde;o somente<br \/>\n    sempre &agrave; mesma hora, mas, at&eacute; mesmo, no mesmo minuto. Para com<br \/>\n    as pessoas que o cercavam, quer fosse a filha, quer os criados, era r&iacute;gida<br \/>\n    e invariavelmente exigente.<\/p>\n<p> Esta a raz&atilde;o por que, n&atilde;o sendo propriamente violento, inspirava<br \/>\n    um terror e um respeito em que lhe n&atilde;o levavam a palma os homens mais<br \/>\n    brutais. Embora ele se encontrasse na inactividade e nenhuma influ&ecirc;ncia<br \/>\n    tivesse j&aacute; nos neg&oacute;cios p&uacute;blicos, n&atilde;o havia governador<br \/>\n    de prov&iacute;ncia onde dispusesse de propriedades que se n&atilde;o sentisse<br \/>\n    na obriga&ccedil;&atilde;o de se apresentar em sua casa, sujeitando-se, &agrave;<br \/>\n    semelhan&ccedil;a do arquitecto, do jardineiro ou da pr&oacute;pria princesa<br \/>\n    Maria a aguardar o momento em que o pr&iacute;ncipe comparecia na sua vasta<br \/>\n    sala de visitas. E o certo &eacute; que todos naquela sala sentiam o mesmo<br \/>\n    receio e o mesmo respeito quando se abriam as altas portas maci&ccedil;as<br \/>\n    do gabinete e surgia a pequena figura do pr&iacute;ncipe, com a sua cabeleira<br \/>\n    empoada, as suas m&atilde;ozinhas secas e as suas sobrancelhas brancas, proeminentes,<br \/>\n    as quais, por vezes, quando ele as franzia, lhe velavam o fulgor do olhar<br \/>\n    brilhante, inteligente e sempre jovem.<\/p>\n<p> No dia da chegada do casal, pela manh&atilde;, segundo o costume, a princesa<br \/>\n    Maria. &agrave; hora habitual, entrou na sala de visitas para apresentar os<br \/>\n    seus cumprimentos matinais, benzendo-se, medrosa, enquanto orava, em voz baixa.<br \/>\n    Todos os dias entrava naquela sala e nem uma s&oacute; vez deixava de rezar,<br \/>\n    pedindo a Deus que fizesse correr bem a entrevista que ia ter com o pai.<\/p>\n<p> O velho criado de cabeleira branca que estava na sala levantou-se sen) fazer<br \/>\n    ru&iacute;do e disse em voz baixa: &#8211; Fa&ccedil;a o favor de entrar.<\/p>\n<p> Atr&aacute;s da porta ouvia-se o mon&oacute;tono rolar do tomo. A princesa<br \/>\n    empurrou timidamente o batente e a porta abriu-se sem esfor&ccedil;o, deixando-a<br \/>\n    parada no limiar. O pr&iacute;ncipe, que trabalhava ao tomo, depois de ter<br \/>\n    voltado a cabe&ccedil;a para tr&aacute;s prosseguiu na sua tarefa.<\/p>\n<p> O enorme gabinete transbordava de objectos que, evidentemente, estavam a<br \/>\n    todo o momento a ser precisos. A grande mesa coberta de livros e plantas,<br \/>\n    as altas estantes da biblioteca, com as chaves nas respectivas fechaduras,<br \/>\n    a secret&aacute;ria alta para se escrever de p&eacute;, sobre a qual estava<br \/>\n    aberto um caderno, o tomo, com as ferramentas espalhadas e as aparas de madeira<br \/>\n    pelo ch&atilde;o, tudo denunciava uma actividade constante, variada e met&oacute;dica.<br \/>\n    Os movimentos das curtas pernas do pr&iacute;ncipe, que cal&ccedil;ava botas<br \/>\n    t&aacute;rtaxas pregueadas de prata, e a press&atilde;o en&eacute;rgica das<br \/>\n    suas m&atilde;os magras e nervosas proclamavam a for&ccedil;a tenaz e bem<br \/>\n    mantida de uma velhice vigorosa.<\/p>\n<p> Depois de ter feito girar ainda algumas vezes a roda do tomo, levantou o<br \/>\n    p&eacute; do pedal, limpou a goiva, guardando-a depois numa bolsa de couro<br \/>\n    pendente daquele e aproximando-se da mesa, chamou a princesa. Nunca aben&ccedil;oava<br \/>\n    os filhos, e estendendo &agrave; filha a cara eri&ccedil;ada de p&ecirc;los<br \/>\n    e ainda por barbear disse-lhe severamente, embora com um olhar meigo e cuidadoso:<br \/>\n    &#8211; Como vai isso?&#8230; Bom, ent&atilde;o senta-te! Pegou num caderno de exerc&iacute;cios<br \/>\n    de geometria, escrito com a sua pr&oacute;pria caligrafia, e puxou a cadeira<br \/>\n    com o p&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Para amanh&atilde;! &#8211; exclamou, procurando rapidamente a p&aacute;gina<br \/>\n    e marcando corri a unha robusta os per&iacute;odos que era preciso estudar.<\/p>\n<p> A princesa debru&ccedil;ou-se para o caderno.<\/p>\n<p> &#8211; Espera.., uma carta para ti &#8211; disse de repente o velho, tirando de um<br \/>\n    saco suspenso da mesa um sobrescrito com letra feminina e pousando-o em cima<br \/>\n    do tampo da mesa.<\/p>\n<p> Assim que a princesa viu a carta, toda ela se ruborizou. Pegou-lhe, pressurosa,<br \/>\n    fazendo urna grande v&eacute;nia.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; da tua &laquo;Helo&iacute;sa&raquo;? (Alus&atilde;o a J&uacute;lia<br \/>\n    da Nova Helo&iacute;sa. (N, dos T.) &#8211; perguntou o pr&iacute;ncipe, mostrando,<br \/>\n    num frio sorriso, os dentes amarelados, mas ainda s&oacute;lidos. &#8211; &Eacute;,<br \/>\n    &eacute; da J&uacute;lia &#8211; replicou a princesa, com um olhar t&iacute;mido<br \/>\n    e um sorriso receoso.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda vou deixar passar mais duas cartas, mas a terceira hei-de l&ecirc;-la<br \/>\n    &#8211; disse o pai severamente.- Tenho c&aacute; os meus receios de que voc&ecirc;s<br \/>\n    escrevam muita tolice. A terceira leio-a.<\/p>\n<p> &#8211; Pode ler esta, meu pai &#8211; respondeu a rapariga, corando ainda mais e apresentando-lhe<br \/>\n    a carta.<\/p>\n<p> &#8211; A terceira, eu disse a terceira &#8211; interrompeu o pr&iacute;ncipe, repelindo<br \/>\n    a carta; e apoiando o cotovelo &agrave; mesa, puxou para si o caderno de geometria.<\/p>\n<p> &#8211; Como v&ecirc;, menina &#8211; principiou o velho, debru&ccedil;ando-se muito<br \/>\n    para a filha por cima do caderno e apoiando-se corri uma das m&atilde;os nas<br \/>\n    costas da cadeira onde se sentava a princesa, que se sentiu envolta numa onda<br \/>\n    de cheiro a tabaco e desse aroma especial das pessoas idosas, muito do seu<br \/>\n    conhecimento. &#8211; Como v&ecirc;, menina, estes tri&acirc;ngulo s&atilde;o iguais:<br \/>\n    olhe, o &acirc;ngulo A-B-C&#8230;<\/p>\n<p> A jovem princesa fitava, assustada, os olhos brilhantes do pai muito perto<br \/>\n    da sua cara. As ma&ccedil;&atilde;s do rosto cobriram-se-lhe de manchas vermelhas.<br \/>\n    Via-se perfeitamente que n&atilde;o compreendia e que estava cheia de medo:<br \/>\n    isso era o bastante para n&atilde;o poder apreender as longas explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pai, por mais claras que fossem. Ou por culpa do professor ou da aluna,<br \/>\n    o certo &eacute; que todos os dias acontecia o mesmo. Os olhos da jovem turvavam-se,<br \/>\n    n&atilde;o via, n&atilde;o ouvia mais nada, para ela nada mais existia al&eacute;m<br \/>\n    daquele rosto seco e severo muito perto do seu, daquele h&aacute;lito e daquele<br \/>\n    aroma, e o seu &uacute;nico desejo seria fugir o mais depressa poss&iacute;vel<br \/>\n    do gabinete para, sozinha, resolver com tranquilidade o problema que o pai<br \/>\n    lhe propunha. O velho exaltava-se, afastava e aproximava com estr&eacute;pido<br \/>\n    a cadeira em que estava sentado, procurando n&atilde;o se deixar encolerizar,<br \/>\n    mas n&atilde;o raramente acabava a ferro e fogo, no meio de inj&uacute;rias<br \/>\n    e at&eacute;, por vezes, atirando fora o caderno.<\/p>\n<p> A princesa enganou-se na resposta que deu.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&uacute;pida que tu me sa&iacute;ste! &#8211; gritou-lhe o pai, empurrando<br \/>\n    o caderno e voltando-se bruscamente. De chofre, ergueu-se, deu alguns passos<br \/>\n    de um lado para o outro, pousou a m&atilde;o na cabe&ccedil;a da filha e tomou<br \/>\n    a sentar-se. Aproximando a cadeira, continuou a explicar.<\/p>\n<p> &#8211; Assim n&atilde;o fazemos nada, princesa, assim no fazemos nada &#8211; disse<br \/>\n    quando a filha fechava o caderno, depois da li&ccedil;&atilde;o, disposta<br \/>\n    a partir- Mas a verdade &eacute; que as matem&aacute;ticas s&atilde;o uma<br \/>\n    coisa importante, menina. E o que eu n&atilde;o quero &eacute; que tu fiques<br \/>\n    como todas as nossas est&uacute;pidas senhoras. Com tempo e paci&ecirc;ncia<br \/>\n    h&aacute;s-de acabar por gostar da matem&aacute;tica. &#8211; Bateu-lhe na cara-<br \/>\n    Hei-de tirar-te da cabe&ccedil;a toda a estupidez que l&aacute; tens dentro.<\/p>\n<p> Ela quis abalar mas ele deteve-a com um gesto, e tirou de cima da secret&aacute;ria<br \/>\n    um livro novo com as folhas ainda por abrir.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui tens um livro que te manda a tua &laquo;Helo&iacute;sa&raquo;, um<br \/>\n    tal A Chave do Mist&eacute;rio. &Eacute; um livro religioso. Eu n&atilde;o<br \/>\n    gosto de interferir nas cren&ccedil;as religiosas de ningu&eacute;m&#8230; Passei<br \/>\n    a vista pelo livro. Toma l&aacute;. E agora vai-te, vai-te embora.<\/p>\n<p> Bateu-lhe no ombro e foi ele pr&oacute;prio quem fechou a porta depois de<br \/>\n    ela sair.<\/p>\n<p> A princesa Maria voltou para o seu quarto, com aquele seu ar triste e receoso<br \/>\n    que raramente a abandonava e que ainda mais feios tornava os seus tra&ccedil;os<br \/>\n    doentios e pouco regulares; sentou-se &agrave; sua mesa de trabalho, coberta<br \/>\n    de retratos, miniaturas, cadernos e livros. O sentimento da ordem que a ela<br \/>\n    lhe faltava tinha-o o pai em excesso. Pousou o caderno de geometria e abriu<br \/>\n    a carta com impaci&ecirc;ncia. Era da sua mais &iacute;ntima amiga de inf&acirc;ncia:<br \/>\n    precisamente essa tal J&uacute;lia Karaguine, que estivera na festa em casa<br \/>\n    dos Rostov.<\/p>\n<p> J&uacute;lia escrevia, em franc&ecirc;s:<\/p>\n<p>Querida e excelente amiga: Que coisa terr&iacute;vel e pavorosa &eacute;<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia! Por mais que eu me diga a mim pr&oacute;pria que a metade<br \/>\n    da minha exist&ecirc;ncia e da minha felicidade est&aacute; contigo, que,<br \/>\n    apesar da dist&acirc;ncia que nos separa, os nossos cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    est&atilde;o unidos por la&ccedil;os indissol&uacute;veis, o meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revolta-se contra o destino e &eacute;-me imposs&iacute;vel, n&atilde;o obstante<br \/>\n    os prazeres e as distrac&ccedil;&otilde;es que me cercam, vencer uma certa<br \/>\n    tristeza oculta que sinto no fundo do cora&ccedil;&atilde;o, desde que nos<br \/>\n    separ&aacute;mos. Porque n&atilde;o estamos n&oacute;s juntas como no Ver&atilde;o<br \/>\n    passado no teu gabinete, sentadas no teu canap&eacute;, o canap&eacute; das<br \/>\n    confid&ecirc;ncias? Porque &eacute; que eu n&atilde;o posso, como h&aacute;<br \/>\n    tr&ecirc;s meses, colher novas for&ccedil;as morais no teu olhar, t&atilde;o<br \/>\n    meigo, t&atilde;o calmo e t&atilde;o penetrante, olhar de que eu tanto gostava<br \/>\n    e que julgo ainda ver diante de mim enquanto te vou escrevendo!<\/p>\n<p>Ao chegar a este ponto da carta, a princesa Maria soltou um suspiro e lan&ccedil;ou<br \/>\n    um olhar para o espelho que estava &agrave; sua direita. O cristal devolveu-lhe<br \/>\n    uma desajeitada e enfezada figura. Os seus olhos, sempre tristes, fixavam<br \/>\n    o espelho com uma express&atilde;o particularmente desencantada. &laquo;Tudo<br \/>\n    para me lisonjear&raquo;, pensou, e afastou os olhos do espelho, prosseguindo<br \/>\n    na leitura da carta. Realmente. J&uacute;lia n&atilde;o lisonjeava a amiga:<br \/>\n    esta tinha, com efeito, uns olhos grandes, t&atilde;o profundos e t&atilde;o<br \/>\n    luminosos que dir-se-ia irradiarem, de vez em quando, quentes raios de luz,<br \/>\n    olhos t&atilde;o belos que a cada momento, apesar da fealdade dos tra&ccedil;os<br \/>\n    do seu rosto, lhe emprestavam mais atractivos que se ela fosse, de facto,<br \/>\n    bonita. A princesa nunca seria, por&eacute;m, capaz de descobrir esta bela<br \/>\n    express&atilde;o do seu olhar, essa express&atilde;o que lhe vinha aos olhos<br \/>\n    quando ela menos sonhava. Acontecia consigo o que tantas vezes se d&aacute;<br \/>\n    com outras pessoas: sempre que olhava para o espelho, vinha-lhe &agrave; cara<br \/>\n    um ar afectado e pouco natural que a tornava feia.<\/p>\n<p> Continuou a ler:<\/p>\n<p>Em Moscovo n&atilde;o se fala noutra coisa sen&atilde;o em guerra. Um dos<br \/>\n    meus dois irm&atilde;os j&aacute; seguiu para o estrangeiro, o outro est&aacute;<br \/>\n    na Guarda, que vai partir para a fronteira. O nosso querido imperador saiu<br \/>\n    de Petersburgo e segundo consta est&aacute; disposto a expor a sua preciosa<br \/>\n    exist&ecirc;ncia aos perigos da guerra. Deus queira que o monstro corso que<br \/>\n    acabou com a tranquilidade na Europa venha a ser esmagado pelo anjo que o<br \/>\n    Todo- Poderoso, na Sua infinita miseric&oacute;rdia, nos deu por soberano.<br \/>\n    Sem falar nos meus irm&atilde;os, esta guerra privou-me de um dos conhecidos<br \/>\n    mais queridos do meu cora&ccedil;&atilde;o. Refiro-me ao jovem Nicolau Rostov,<br \/>\n    que no seu entusiasmo n&atilde;o p&ocirc;de resignar-se a manter-se inactivo<br \/>\n    e abandonou a Universidade para se alistar no ex&eacute;rcito. Pois bem, querida<br \/>\n    Maria, devo confessar-te que, apesar de muito novo, a sua partida para a guerra<br \/>\n    foi para mim motivo de grande desgosto. Este rapaz, de quem te falei no Ver&atilde;o<br \/>\n    passado, tem tanta nobreza e tanta juventude que &eacute; dif&iacute;cil encontrar-se<br \/>\n    algu&eacute;m como ele, no tempo em que vivemos, entre os nossos velhos de<br \/>\n    vinte anos. &Eacute; sobretudo t&atilde;o franco e t&atilde;o bom de cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    E t&atilde;o puro e t&atilde;o po&eacute;tico que as minhas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ele, embora fossem passageiras, as considero das mais doces alegrias do<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o, que tanto j&aacute; tem sofrido. Hei-de contar-te<br \/>\n    um dia as nossas despedidas e o que dissemos no momento em que nos separ&aacute;mos.<br \/>\n    Por agora tudo isto ainda est&aacute; muito fresco. Que feliz &eacute;s, querida<br \/>\n    amiga, visto n&atilde;o conheceres alegrias t&atilde;o grandes e dores t&atilde;o<br \/>\n    pungentes! &Eacute;s feliz, porque estas s&atilde;o geralmente mais fortes<br \/>\n    do que aquelas. Bem sei que o conde Nicolau &eacute; muito novo para poder<br \/>\n    vir a ser para mim mais que um amigo, mas esta afectuosa amizade, estas nossas<br \/>\n    reac&ccedil;&otilde;es, t&atilde;o po&eacute;ticas e t&atilde;o puras, o meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o estava a pedi-las. N&atilde;o falemos, por&eacute;m,<br \/>\n    mais nisso. A grande nova do momento, assunto de toda Moscovo, &eacute; a<br \/>\n    morte do conde Bezitkov e a hist&oacute;ria da sua heran&ccedil;a. Imagina<br \/>\n    que as tr&ecirc;s princesas n&atilde;o vieram, a receber quase nada, o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Vassili nada recebeu, e quem tudo herdou foi Monsieur Pierre, que, ainda,<br \/>\n    por cima, foi reconhecido filho leg&iacute;timo, herdando, portanto, tamb&eacute;m<br \/>\n    o t&iacute;tulo de conde Rezukov, e &eacute; hoje possuidor da maior fortuna<br \/>\n    de toda a R&uacute;ssia. Dizem que o pr&iacute;ncipe Vassili desempenhou um,<br \/>\n    feio papel em, toda, esta hist&oacute;ria da heran&ccedil;a do conde e que<br \/>\n    regressou a Petersburgo de orelha murcha.<\/p>\n<p> Devo confessar-te que muito pouco percebo destas hist&oacute;rias de legados<br \/>\n    e de testamentos; o que te sei dizer &eacute; que desde que o rapa;, por todos<br \/>\n    n&oacute;s conhecido por Monsieur Pierre se tomou conde de Bezukov e passou<br \/>\n    a dispor de uma das maiores fortunas da R&uacute;ssia muito me divirto a observar<br \/>\n    a mudan&ccedil;a no tom, e nas maneiras das m&atilde;es com v&aacute;rias<br \/>\n    filhas para casar e at&eacute; no tom e nas maneiras das pr&oacute;prias meninas<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o a este indiv&iacute;duo, o qual, aqui para n&oacute;s,<br \/>\n    sempre me pareceu um z&eacute;-ningu&eacute;m. Como, de h&aacute; dois anos<br \/>\n    a esta parte, toda esta gente se entret&eacute;m a arranjar-me noivos que<br \/>\n    na maior parte dos casos eu nem sequer conhe&ccedil;o, a cr&oacute;nica nupcial<br \/>\n    de Moscovo neste momento faz de mim condessa Bezukov. Mas deves compreender<br \/>\n    que nada fa&ccedil;o Para vir a gozar dessa honra. A prop&oacute;sito de casamentos.-<br \/>\n    queres saber? H&aacute; dias, a tia de toda a gente. Ana Mikailotna, contou-me,<br \/>\n    pedindo-me o maior segredo, que se preparava aqui um casamento para ti. Trata-se,<br \/>\n    nem mais nem menos, do filho do pr&iacute;ncipe Vassili, o Anatole, rapaz<br \/>\n    que o pai gostaria de arrumar, casando-o com uma menina rica e distinta. Foi<br \/>\n    em ti que recaiu a escolha dos pais. N&atilde;o sei como encarar&aacute;s<br \/>\n    tu a hist&oacute;ria, mas sinto-me na obriga&ccedil;&atilde;o de te avisar.<br \/>\n    Dizem que &eacute; bonito rapaz e muito m&aacute; pessoa; &eacute; tudo quanto<br \/>\n    pude apurar a seu respeitou.<\/p>\n<p> Mas basta de tagarelices. Estou no fim da minha segunda folha de papel,<br \/>\n    e minha &#8211; m&atilde;e mandou-me chamar para irmos jantar a casa dos Apraksine.<br \/>\n    L&ecirc; o livro m&iacute;stico que junto te envio, e que neste momento esta<br \/>\n    aqui a fazer furor. Embora neste livro haja coisas dif&iacute;ceis de compreender<br \/>\n    para o fraco entendimento humano, &eacute; um livro admir&aacute;vel, cuja<br \/>\n    leitura serena eleva a alma. Adeus. Os meus respeitos ao senhor teu pai e<br \/>\n    cumprimentos a Mademoiselle Bourienite. Um abra&ccedil;o amigo, J&uacute;lia.<\/p>\n<p>P. S. &#8211; Manda-me not&iacute;cias de teu irm&atilde;o e da sua encantadora<br \/>\n    mulher.<\/p>\n<p>A princesa reflectiu, sorriu pensativamente, e, iluminada pelos seus brilhantes<br \/>\n    olhos, toda a sua express&atilde;o se lhe transformou naquele instante. Levantou-se<br \/>\n    de chofre, aproximou-se da mesa no seu passo moroso. Pegou numa folha de papel<br \/>\n    e a m&atilde;o deslizou-lhe, r&aacute;pida. Eis a resposta &agrave; carta<br \/>\n    de J&uacute;lia:<\/p>\n<p>Querida e excelente amiga: A tua carta de 13 deu-me muita alegria. Ainda<br \/>\n    gostas ent&atilde;o de mim, minha po&eacute;tica J&uacute;lia? Quer dizer<br \/>\n    que a aus&ecirc;ncia de que tanto mal dizes n&atilde;o teve sobre ti a sua<br \/>\n    habitual influ&ecirc;ncia. Queixas-te da aus&ecirc;ncia! Que diria eu, se<br \/>\n    tivesse coragem para me lamentar, eu, que me vejo privada de todos aqueles<br \/>\n    que me s&atilde;o queridos! Se n&atilde;o fosse a religi&atilde;o, nosso consolo,<br \/>\n    que triste seria a nossa vida. Porque julgas ver em mim olhar severo quando<br \/>\n    me falas do teu afecto pelo rapaz? Neste cap&iacute;tulo s&oacute; para mim<br \/>\n    sou dura. Compreendo muito bem esses sentimentos nas outras pessoas e, se<br \/>\n    me n&atilde;o &eacute; permitido aprov&aacute;-los, por nunca ter passado<br \/>\n    por eles, a verdade &eacute; que os n&atilde;o condeno. Parece-me apenas que<br \/>\n    o amor crist&atilde;o, o amor do pr&oacute;ximo, o amor pelos nossos inimigos<br \/>\n    &eacute; mais merit&oacute;rio, mais suave e mais belo que os sentimentos<br \/>\n    inspirados pelos lindos olhos de um jovem a uma rapariga po&eacute;tica e<br \/>\n    amor&aacute;vel como tu.<\/p>\n<p> A not&iacute;cia da morte do conde Bezukov j&aacute; aqui tinha chegado<br \/>\n    antes da tua carta, e meu pai sentiu-a muito. Segundo ele, era o &uacute;ltimo<br \/>\n    representante do grande s&eacute;culo, e agora s&oacute; falto chegar a sua<br \/>\n    vez, embora esteja disposto &#8211; diz &#8211; a fazer quanto puder para que esse momento<br \/>\n    chegue o mais tarde poss&iacute;vel. Que Deus nos proteja contra tamanha desgra&ccedil;a!<br \/>\n    N&atilde;o sou da tua opini&atilde;o a respeito do Pedro, pessoa que eu conheci<br \/>\n    em crian&ccedil;a. Pareceu-me sempre ter um bom cora&ccedil;&atilde;o, e esta<br \/>\n    &eacute; a qualidade que eu mais prezo nas pessoas. Quanto &agrave; heran&ccedil;a<br \/>\n    e ao papel que nela desempenhou o pr&iacute;ncipe Vassili acho isso muito<br \/>\n    triste para os dois. Ah, querida amiga, as palavras do nosso Divino Salvador<br \/>\n    &#8211; &eacute; mais f&aacute;cil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do<br \/>\n    que um rico entrar no reino dos C&eacute;us &#8211; estas palavras s&atilde;o tremendamente<br \/>\n    verdadeiras; lastimo o primo Vassili e ainda lamento mais o Pedro. T&atilde;o<br \/>\n    novo e ia esmagado ao peso de tamanha fortuna, que grandes n&atilde;o ir&atilde;o<br \/>\n    ser para ele as tenta&ccedil;&otilde;es deste Se me perguntassem o que eu<br \/>\n    desejo mais nesta vida, diria que quereria ser mais pobre que o mais pobre<br \/>\n    dos indigentes. Muito e muito obrigada, querida amiga, pelo livro que me mandaste<br \/>\n    e que tanto &ecirc;xito tem tido a&iacute;. No entanto, visto dizeres-me que<br \/>\n    no meio de muitas coisas boas outras h&aacute; que o fraco entendimento humano<br \/>\n    n&atilde;o pode atingir, parece-me in&uacute;til perdermos tempo com uma leitura<br \/>\n    inintelig&iacute;vel, que por isso mesmo se tornar&aacute; infrut&iacute;fera.<br \/>\n    Nunca pude compreender a paix&atilde;o que t&ecirc;m certas pessoas em perturbar<br \/>\n    o esp&iacute;rito consagrando-se a leitura de livros m&iacute;sticos que apenas<br \/>\n    servem para levantar d&uacute;vidas nas suas almas, exaltando a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dando-lhes um temperamento exagerado, em tudo contrario &agrave; simplicidade<br \/>\n    crist&atilde;. &Eacute; bom lermos os Ap&oacute;stolos e o Evangelho. N&atilde;o<br \/>\n    procuremos compreender o que neles h&aacute; de misterioso, pois, como ousar&iacute;amos<br \/>\n    n&oacute;s, miser&aacute;veis pecadores que somos, iniciar-nos nos terr&iacute;veis<br \/>\n    segredos da Provid&ecirc;ncia enquanto estivermos ligados a este despojo carnal<br \/>\n    que levanta entre n&oacute;s e o Eterno um impenetr&aacute;vel v&eacute;u?<br \/>\n    Limitemo-nos, pois, a estudar os princ&iacute;pios sublimes que o nosso Divino<br \/>\n    Salvador nos confiou para nosso governo na Terra; procuremos conformar-nos<br \/>\n    com eles e segui-los; persuadamo-nos de que quanto mais asas dermos ao nosso<br \/>\n    fraco esp&iacute;rito humano mais isso agrada a Deus, que rejeita toda a sabedoria<br \/>\n    que d&#8217;Ele n&atilde;o vem; e que quanto menos procurarmos aprofundar<br \/>\n    aquilo que Ele houve por bem esconder do nosso entendimento, tanto mais depressa<br \/>\n    Ele no-lo revelar&aacute; gra&ccedil;as ao Seu divino esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Meu pai n&atilde;o me falou em qualquer pretendente; disse-me apenas que<br \/>\n    tinha recebido uma carta e que aguardava a visita do pr&iacute;ncipe Vassili.<br \/>\n    Quanto ao projecto de casamento em que falas, dir-te-ei, querida e excelente<br \/>\n    amiga, que o casamento, na minha opini&atilde;o, &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    divina a que n&oacute;s nos devemos suspeitar. Por mais penso que isso seja<br \/>\n    para mim, se Deus Todo-Poderoso algum dia vier a impor-me os deveres de esposa<br \/>\n    e de m&atilde;e, fica certa de que procurarei cumpri-los t&atilde;o fielmente<br \/>\n    quanto puder, sem me preocupar com o exame dos meus sentimentos em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave;quele que Ele me destinar para marido.<\/p>\n<p> Recebi uma carta de meu irm&atilde;o anunciando-me a sua chegada a Lissia<br \/>\n    Gori na companhia da mulher. Ser&aacute; breve a minha alegria, pois que ele<br \/>\n    seque daqui a tomar parte nesta guerra infeliz, para que n&oacute;s somos<br \/>\n    arrastados s&oacute; Deus sabe como e porqu&ecirc;. N&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    a&iacute;, turbilh&atilde;o dos neg&oacute;cios e centro do mundo, que se<br \/>\n    n&atilde;o fala sen&atilde;o em guerra, mas at&eacute; aqui, no meio dos trabalhos<br \/>\n    agr&iacute;colas e da paz da natureza, que &eacute; assim que o homem das<br \/>\n    cidades era geral v&ecirc; o campo, se fazem sentir os boatos de guerra. Meu<br \/>\n    pai s&oacute; fala em, marchas e contramarchas, coisas de que nada compreendo:<br \/>\n    e aqueles de ontem, no decurso do meu passeio habitual pelas ruas da aldeia,<br \/>\n    assisti a uma cena dilacerante&#8230; Passava um comboio de- recrutas, alistados<br \/>\n    nestas terras, que seguiam para os quart&eacute;is&#8230; Era de ver o estado<br \/>\n    das m&atilde;es, das mulheres e dos filhos daqueles que partiam, e de ouvir<br \/>\n    os solu&ccedil;os de uns e outros! Dir-se-&agrave; que a humanidade esqueceu<br \/>\n    as leis do seu Divino Salvador, que n&atilde;o fez outra coisa sen&atilde;o<br \/>\n    pregar o amor e o perd&atilde;o das ofensas, para n&atilde;o pensar sen&atilde;o<br \/>\n    na arte de nos matarmos uns aos outros.<\/p>\n<p> Adeus, querida e boa amiga, que o nosso Divino Salvador e a Sua Santa M&atilde;e<br \/>\n    vos tenham na Sua santa e poderosa guarda.<\/p>\n<p> Maria.<\/p>\n<p>&#8211; Ali, estava a expedir o seu correio, princesa; eu j&aacute; expedi o meu.<br \/>\n    Escrevi &agrave; minha pobre m&atilde;e &#8211; disse, sorrindo. Mademoiselle Bourienne,<br \/>\n    com a sua voz cheia e agrad&aacute;vel, em que qualquer coisa arranhava. Na<br \/>\n    atmosfera triste e sombria em que a princesa vivia a presen&ccedil;a de Mademoiselle<br \/>\n    Bourienne era uma nota de alegre frivolidade e de auto-satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Princesa, preciso de a prevenir &#8211; acrescentou ela, baixando a voz.- O<br \/>\n    pr&iacute;ncipe teve uma alterca&ccedil;&atilde;o.- E o seu defeito de pron&uacute;ncia<br \/>\n    acentuou-se especialmente ao pronunciar a palavra &laquo;alterca&ccedil;&atilde;o&raquo;.<br \/>\n    Dir-se-ia que se estava a ouvir a si mesma.- Uma alterca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com Michel Ivanoff. Est&aacute; muito mal disposto, muito zangado. Seja prudente,<br \/>\n    sim? &#8211; Ah!, querida amiga &#8211; replicou a princesa -, j&aacute; lhe pedi que<br \/>\n    nunca me falasse no estado de esp&iacute;rito de meu pai. N&atilde;o me atrevo<br \/>\n    a julg&aacute;-lo e n&atilde;o gosto que os outros o fa&ccedil;am.<\/p>\n<p> A princesa olhou para o rel&oacute;gio, e, ao ver que j&aacute; passavam<br \/>\n    cinco minutos da hora fixada para o seu cravo, precipitou-se no sal&atilde;o,<br \/>\n    diligent&iacute;ssima. Entre o meio-dia e as duas horas, de acordo com o hor&aacute;rio<br \/>\n    estabelecido, o pr&iacute;ncipe dormia a sesta e ela devia estudar cravo.<\/p>\n<h4>C<a name=\"26\">ap&iacute;tulo XXVI<\/a><\/h4>\n<p>O velho criado cabeceava, sentado na sala de espera, ouvindo o ressonar do<br \/>\n    pr&iacute;ncipe no seu imenso gabinete de trabalho. Do outro extremo da casa,<br \/>\n    atrav&eacute;s das portas fechadas, chegavam at&eacute; ali, pela vig&eacute;sima<br \/>\n    vez, os compassos dif&iacute;ceis da sonata de Dusseck.<\/p>\n<p> Nesse momento parava diante da escadaria principal uma carruagem e um pequeno<br \/>\n    carro. Da carruagem apeou-se o pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, que ajudou a<br \/>\n    sua mulherzinha a descer, deixando-a subir a escada diante de si. O velho<br \/>\n    Tikon, com a sua cabeleira posti&ccedil;a, espreitou pela porta da sala de<br \/>\n    espera e disse, em voz baixa, que o pr&iacute;ncipe estava a descansar, dando-se<br \/>\n    pressa em fechar a porta. T&iacute;kon sabia muit&iacute;ssimo bem que nada,<br \/>\n    absolutamente nada, nem mesmo a chegada do filho ou qualquer outro acontecimento<br \/>\n    imprevisto, deveria perturbar a rotina do seu amo. O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;,<br \/>\n    claro est&aacute;, sabia isso t&atilde;o bem como o pr&oacute;prio Tikon.<br \/>\n    Consultou o rel&oacute;gio, para verificar se os h&aacute;bitos do pai n&atilde;o<br \/>\n    tinham sido alterados desde que o n&atilde;o via, e, persuadido de que tudo<br \/>\n    estava na mesma, disse para a mulher: &#8211; Dentro de vinte minutos estar&aacute;<br \/>\n    de p&eacute;. Vamos ver a princesa Maria.<\/p>\n<p> A princesinha engordara um pouco, mas os seus olhos e o seu l&aacute;bio<br \/>\n    sorridente, que um ligeiro bu&ccedil;o sombreava, continuavam a ter o ar alegre<br \/>\n    e gentil sempre que falava.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; um pal&aacute;cio &#8211; disse para o marido, olhando em roda,<br \/>\n    no mesmo tom em que se felicita o organizador de um baile.- Vamos, depressa,<br \/>\n    depressa! Falando, ia sorrindo para toda a gente, para Tikon, para o marido,<br \/>\n    para o criado que a conduzia.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; a Maria que est&aacute; a estudar? N&atilde;o fa&ccedil;amos<br \/>\n    barulho, quero surpreend&ecirc;-la.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; seguiu-a com o seu ar cort&ecirc;s e triste.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute;s mais velho. Tikon &#8211; disse ele, de passagem, ao velho, que<br \/>\n    lhe beijava a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Antes de terem chegado &agrave; depend&ecirc;ncia onde se ouvia o cravo,<br \/>\n    viram sair de uma porta lateral uma bonita francesinha loura. Mademoiselle<br \/>\n    Bourienne parecia louca de contentamento.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, que alegria para a princesa! &#8211; disse ela. &#8211; Enfim, preciso de a prevenir.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o, por favor&#8230; &eacute; Mademoiselle Bourienne,<br \/>\n    j&aacute; a conhe&ccedil;o pela amizade que a minha cunhada lhe tem &#8211; disse<br \/>\n    a mulher de Andr&eacute;, beijando-a &#8211; Ela n&atilde;o nos espera! Aproximaram-se<br \/>\n    da porta da saleta, donde continuavam a sair sempre os mesmos compassos indefinidamente<br \/>\n    repetidos. Andr&eacute; parou, franzindo as sobrancelhas, como se sentisse<br \/>\n    uma penosa impress&atilde;o.<\/p>\n<p> A princesa sua mulher entrou, o motivo da sonata foi interrompido no meio;<br \/>\n    ouviu-se um grito, os passos pesados de Maria e beijos ressoaram. Quando Andr&eacute;<br \/>\n    entrou, por sua vez, viu as duas cunhadas, que pouco se tinham conhecido na<br \/>\n    altura do casamento, abra&ccedil;adas uma &agrave; outra, beijando-se mutuamente,<br \/>\n    sem escolher onde. Mademoiselle Bourienne ali estava, com a m&atilde;o no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, sorrindo cheia de beatitude, e t&atilde;o pronta a<br \/>\n    rir como a chorar. Andr&eacute; encolheu os ombros e franziu as sobrancelhas,<br \/>\n    como costumam fazer os amadores de m&uacute;sica quando um instrumento desafina.<br \/>\n    Por fim, as duas mulheres separaram-se, e, em seguida, para recuperarem o<br \/>\n    tempo perdido, recome&ccedil;aram a estreitar-se nos bra&ccedil;os uma da<br \/>\n    outra, a beijarem-se mutuamente, rompendo em solu&ccedil;os, com grande surpresa<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe, e abra&ccedil;ando-se de novo. Mademoiselle Bourienne<br \/>\n    p&ocirc;s-se tamb&eacute;m a solu&ccedil;ar. O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;<br \/>\n    deu sinal de uma certa impaci&ecirc;ncia; mas elas achavam t&atilde;o natural<br \/>\n    chorar assim que lhes n&atilde;o era poss&iacute;vel imaginarem o seu m&uacute;tuo<br \/>\n    encontro de outra maneira.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, minha querida!&#8230; Ah!. Maria!&#8230; &#8211; disseram, de repente, transitando<br \/>\n    das l&aacute;grimas para o riso. &#8211; Sonhei esta noite&#8230; &#8211; N&atilde;o nos esperava&#8230;<br \/>\n    Ah! Maria, emagreceu&#8230; E a minha amiga recuperou&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Conheci logo a senhora princesa &#8211; interveio Mademoiselle Bourienne.<\/p>\n<p> &#8211; E eu que n&atilde;o desconfiava de nada!&#8230; &#8211; exclamou a princesa Maria.<br \/>\n    &#8211; Ah!. Andr&eacute;, n&atilde;o o via.<\/p>\n<p> Andr&eacute; apertou a irm&atilde; contra si e disse-lhe que ela ainda n&atilde;o<br \/>\n    deixara de ser a mesma choramingas. Maria olhou para o irm&atilde;o, e no<br \/>\n    meio das suas l&aacute;grimas deteve nele o quente e suave olhar cheio de<br \/>\n    enternecimento dos seus grandes olhos luminosos, lind&iacute;ssimos naquele<br \/>\n    momento.<\/p>\n<p> A princesa Lisa falava sem descanso. O seu l&agrave;biozinho superior n&atilde;o<br \/>\n    fazia outra coisa sen&atilde;o agitar-se continuamente, de cima para baixo,<br \/>\n    sobre o l&aacute;bio inferior, e um perp&eacute;tuo sorriso lhe iluminava<br \/>\n    os dentes e os olhos. Historiava um incidente que lhe tinha acontecido na<br \/>\n    muda de Spass, o qual poderia ter sido perigoso para ela no estado em que<br \/>\n    estava, e imediatamente se p&ocirc;s a dizer que deixara todos os seus vestidos<br \/>\n    em Petersburgo e que n&atilde;o iria ter nada que vestir, que Andr&eacute;<br \/>\n    tinha mudado muito, que Kitti Odintsova casara com um velho, e que ela arranjara<br \/>\n    para Maria um noivo a s&eacute;rio, mas que disso haviam de conversar mais<br \/>\n    tarde. A princesa Marm, calada, n&atilde;o deixara de fitar o irm&atilde;o,<br \/>\n    e os seus lindos olhos estavam plenos de afectuosidade e tristeza. Via-se<br \/>\n    bera que os seus pensamentos tomavam um caminho muito diverso dos da sua cunhada.<br \/>\n    Enquanto esta falava da &uacute;ltima festa a que assistira em Petersburgo,<br \/>\n    a princesa Maria voltou-se para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; ent&atilde;o resolvido a ir para a guerra. Andr&eacute;? &#8211;<br \/>\n    interrogou ela, no meio de um suspiro. Lisa estremeceu tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, e amanh&atilde; mesmo &#8211; replicou ele.<\/p>\n<p> &#8211; Abandonou-me aqui, e s&oacute; Deus sabe porqu&ecirc;, quando ele podia<br \/>\n    ser promovido&#8230;<\/p>\n<p> A princesa Maria n&atilde;o a deixou acabar e, seguindo o curso dos seus<br \/>\n    pensamentos, disse para a cunhada, indicando afectuosamente com os olhos o<br \/>\n    volume do seu ventre.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; realmente verdade? &#8211; perguntou.<\/p>\n<p> Lisa mudou de express&atilde;o. Teve um suspiro.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, &eacute; verdade &#8211; volveu ela.- Ah, &eacute; assustador&#8230;<\/p>\n<p> Os l&aacute;bios contra&iacute;ram-se-lhe. Aproximou a cara do rosto da<br \/>\n    cunhada e subitamente principiou a chorar.<\/p>\n<p> &#8211; Precisa de descansar &#8211; disse o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; franzindo<br \/>\n    as sobrancelhas. &#8211; N&atilde;o &eacute; verdade. Lisa? Leva-a contigo, que<br \/>\n    eu vou ver o pai. Como vai ele? Sempre na mesma? &#8211; Sim, est&aacute; sempre<br \/>\n    na mesma; n&atilde;o sei como tu o vais achar &#8211; respondeu Maria com jovialidade.<\/p>\n<p> &#8211; Sempre as mesmas horas e os passeios pelas avenidas? E o tomo? &#8211; perguntou<br \/>\n    Andr&eacute;, com um sorriso impercept&iacute;vel que queria dizer que, apesar<br \/>\n    de todo o seu amor e o seu respeito filiais, conhecia as fraquezas do pai.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, sempre as mesmas horas, e o tomo e, ainda por cima, as matem&aacute;ticas<br \/>\n    e as minhas li&ccedil;&otilde;es de geometria &#8211; replicou jovialmente a princesa<br \/>\n    Maria, como se estas li&ccedil;&otilde;es de geometria fossem uma das maiores<br \/>\n    alegrias da sua vida.<\/p>\n<p> Passados que foram os vinte minutos necess&aacute;rios para o descanso do<br \/>\n    velho. Tikon veio buscar o pr&iacute;ncipe para o conduzir junto do pai. O<br \/>\n    velho dispensara-se de cumprir o seu programa em honra do filho: mandara-o<br \/>\n    entrar para os seus aposentos enquanto se vestia para o jantar. Conservava<br \/>\n    os velhos costumes: o cafet&atilde; e o p&oacute;. E quando Andr&eacute; apareceu,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o com o aspecto e as maneiras entediadas que costumava<br \/>\n    aparentar nos sal&otilde;es, mas com o ar animado que mostrava em suas conversas<br \/>\n    com o Pedro, o velho estava no seu gabinete de toilette, enterrado numa poltrona<br \/>\n    de marroquim, de penteador, confiando a cabe&ccedil;a aos cuidados de Tikon.<\/p>\n<p> &#8211; Eh, o guerreiro! Ent&atilde;o queres-te bater com o Bonaparte? &#8211; exclamou,<br \/>\n    abanando a cabe&ccedil;a empoada tanto quanto lho consentia Tikon, que estava<br \/>\n    a entran&ccedil;ar-lhe o rabicho.<\/p>\n<p> &#8211; Trata de te portares &agrave; altura, ou ent&atilde;o n&atilde;o tarda<br \/>\n    muito que tamb&eacute;m n&oacute;s estejamos a fazer parte do n&uacute;mero<br \/>\n    dos seus s&uacute;bditos. Como vai isso? &#8211; acrescentou, oferecendo-lhe a face,<br \/>\n    O velho estava de &oacute;ptima disposi&ccedil;&atilde;o, depois do sono que<br \/>\n    costumava fazer antes de jantar. Tinha por h&aacute;bito dizer que a sesta<br \/>\n    depois de jantar era prata e antes de jantar ouro. Por debaixo das suas espessas<br \/>\n    sobrancelhas ia lan&ccedil;ando ao filho olhadelas matreiras. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute; aproximou-se e beijou o pai no s&iacute;tio designado. N&atilde;o<br \/>\n    respondeu ao tema favorito da conversa paterna, aos seus gracejos sobre os<br \/>\n    militares do tempo e especialmente sobre Bonaparte.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, viemos v&ecirc;-lo, meu pai; minha mulher, que est&aacute; no seu<br \/>\n    estado interessante, e eu &#8211; disse, observando, com o seu vivo olhar, nem por<br \/>\n    isso menos respeitoso, todos os movimentos da fisionomia paterna.- Como tem<br \/>\n    passado de sa&uacute;de? &#8211; S&oacute; est&atilde;o doentes, meu rapaz, os imbecis<br \/>\n    e os estroinas, e tu conheces-me. Estou sempre ocupado, da manh&atilde; &agrave;<br \/>\n    noite, e sou pessoa s&oacute;bria; por conseguinte, tenho sa&uacute;de.<\/p>\n<p> &#8211; Louvado seja Deus! &#8211; exclamou o filho, sorrindo. &#8211; Deus n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para aqui chamado. Ent&atilde;o conta-me c&aacute; &#8211; prosseguiu, voltando<br \/>\n    &agrave; sua cisma familiar &#8211; como &eacute; que os Alem&atilde;es vos ensinaram<br \/>\n    a combater o Bonaparte segundo a vossa nova ci&ecirc;ncia, a chamada estrat&eacute;gia?<br \/>\n    O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; sorriu.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe-me tomar f&ocirc;lego, meu pai &#8211; dizendo o que, n&atilde;o deixava<br \/>\n    de mostrar, pela sua express&atilde;o, que as manias do pai o n&atilde;o impediam<br \/>\n    de o adorar e de o venerar. &#8211; Nem sei ainda onde &eacute; que nos vai instalar.<\/p>\n<p> &#8211; Tolice, tolice &#8211; exclamou o anci&atilde;o, sacudindo o rabicho, para ver<br \/>\n    se estava a seu gosto, e dando o bra&ccedil;o ao filho. &#8211; Os aposentos da<br \/>\n    tua mulher est&atilde;o preparados. A Maria se encarregar&aacute; de a conduzir<br \/>\n    at&eacute; l&aacute;, e ela lhos mostrar&aacute;, e h&atilde;o-de ter .muito<br \/>\n    que dizer. Isso &eacute; l&aacute; com elas. Estou muito contente que ela<br \/>\n    tenha vindo. Senta-te, senta-te e conta-me. O ex&eacute;rcito de Mikelson,<br \/>\n    sim, bem sei, e o de Tolstoi tamb&eacute;m&#8230; Opera&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas..,<br \/>\n    e o ex&eacute;rcito do Sul, o que vai fazer? A Pr&uacute;ssia, a neutralidade,<br \/>\n    sim, bem sei. E a &Aacute;ustria? Enquanto falava, tinha-se levantado da poltrona<br \/>\n    e andava de um lado para o outro, seguido por Tikon, que lhe ia apresentando<br \/>\n    as diversas pe&ccedil;as de vestu&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; E a Su&eacute;cia? Como &eacute; que vamos atravessar a Pomer&acirc;nia?<br \/>\n    O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, perante a insist&ecirc;ncia do pai, primeiro<br \/>\n    contrariado, depois numa anima&ccedil;&atilde;o crescente, e deixando de falar<br \/>\n    russo, para falar franc&ecirc;s, como era seu costume, principiou a expor<br \/>\n    o plano da futura campanha. Aludiu &agrave; forma como um ex&eacute;rcito<br \/>\n    de oitenta mil homens deveria amea&ccedil;ar a Pr&uacute;ssia, para obrig&aacute;-la<br \/>\n    a abandonar a neutralidade e arrast&aacute;-la para a guerra, a maneira como<br \/>\n    uma parte deste ex&eacute;rcito viria juntar-se ao sueco, em Stralsund, como<br \/>\n    duzentos e vinte mil austr&iacute;acos, reunidos a cem mil russos, deviam<br \/>\n    agir em It&aacute;lia e sobre o Reno, como cinquenta mil russos e o mesmo<br \/>\n    n&uacute;mero de ingleses viriam a desembarcar em N&aacute;poles e como no<br \/>\n    seu total um ex&eacute;rcito de quinhentos mil homens deveria atacar os Franceses<br \/>\n    em diversas frentes. O pr&iacute;ncipe n&atilde;o mostrava o mais pequeno<br \/>\n    interesse por esta exposi&ccedil;&atilde;o e nem parecia mesmo ouvi-la, continuando<br \/>\n    a vestir-se enquanto andava de um lado para o outro. Por tr&ecirc;s vezes<br \/>\n    interrompeu o filho de maneira assaz inesperada. A primeira foi para gritar:<br \/>\n    &#8211; O branco!, o branco! Com isto queria dizer que Tikon n&atilde;o estava a<br \/>\n    dar-lhe o colete que ele queria. A segunda, deteve-se, para perguntar: &#8211; E<br \/>\n    &eacute; para breve o parto? &#8211; Depois abanou a cabe&ccedil;a reprovadoramente.-<br \/>\n    &Eacute; mau! Continua, continua.<\/p>\n<p> A terceira vez foi quando o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; chegava ao cabo<br \/>\n    da sua exposi&ccedil;&atilde;o. P&ocirc;s-se ent&atilde;o a cantarolar, numa<br \/>\n    voz de velho em falsete: Malbroug vai para a guerra. Sabe Deus quando voltar&aacute;.<\/p>\n<p> O filho contentou-se em sorrir.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso dizer que estou de acordo com este plano &#8211; disse ele<br \/>\n    &#8211; Limito-me a expor-lho tal como ele &eacute;. Napole&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\n    j&aacute; tem o seu, que &eacute; t&atilde;o bom como este.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, n&atilde;o me disseste nada de novo. &#8211; E, pensativamente, o velho<br \/>\n    pr&iacute;ncipe repetiu, resmungando entre dentes: &#8211; Sabe Deus quando voltar&aacute;.<br \/>\n    E agora para a mesa.<\/p>\n<h4> <a name=\"27\">Cap&iacute;tulo XXVII<\/a><\/h4>\n<p>A hora precisa, o pr&iacute;ncipe, empoado e barbeado, deu entrada na sala<br \/>\n    de jantar, onde o aguardavam a nora, a princesa Maria. Mademoiselle Bourienne<br \/>\n    e o arquitecto, que, por estranha fantasia, se sentava com o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    &agrave; mesa, embora esse homem, insignificante pessoa, que era, no ponto<br \/>\n    de vista social, n&atilde;o contasse com tanta defer&ecirc;ncia. O pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    que era muito respeitador da etiqueta e das diferen&ccedil;as de classe e<br \/>\n    s&oacute; muito raramente sentava &agrave; sua mesa os mais importantes funcion&aacute;rios<br \/>\n    da prov&iacute;ncia, quando menos se esperava, quisera mostrar, na pessoa<br \/>\n    do arquitecto. Mikail Ivanovitch, o qual tinha por h&aacute;bito assoar-se,<br \/>\n    disfar&ccedil;adamente, a um grande tabaqueiro, que os homens para ele eram<br \/>\n    todos iguais. V&aacute;rias vezes explicara &agrave; filha que Mikail Ivanovitch<br \/>\n    em nada era inferior a qualquer deles. &Agrave; mesa era muito vulgar o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    dirigir a palavra ao pouco falador Mikail Ivanovitch.<\/p>\n<p> Na sala de jantar, imensa como todas as depend&ecirc;ncias da casa, as pessoas<br \/>\n    de fam&iacute;lia e os criados aguardavam a chegada do pr&iacute;ncipe, de<br \/>\n    p&eacute;, atr&aacute;s de cada cadeira; o chefe, de guardanapo no bra&ccedil;o,<br \/>\n    vigiava a mesa, piscando o olho aos lacaios, enquanto ia e vinha, no seu passo<br \/>\n    tranquilo, entre o grande rel&oacute;gio e a porta por onde o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    devia entrar.<\/p>\n<p> Andr&eacute; contemplava um grande quadro de moldura dourada, novo para<br \/>\n    ele, com a &aacute;rvore geneal&oacute;gica dos pr&iacute;ncipes Bolkonski,<br \/>\n    sim&eacute;trico com outro quadro, do mesmo tamanho, que representava muito<br \/>\n    mal &#8211; obra, claro est&aacute;, de qualquer pintor criado no solar- um pr&iacute;ncipe<br \/>\n    soberano, com a coroa, provavelmente um descendente de Rurik e antepassado<br \/>\n    da fam&iacute;lia dos Bolkonski.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; observava esta &aacute;rvore geneal&oacute;gica,<br \/>\n    abanando a cabe&ccedil;a. A certa altura principiou a rir, como quando se<br \/>\n    olha para uma caricatura.<\/p>\n<p> &#8211; Ora aqui est&aacute; ele! &#8211; exclamou para a princesa Maria, que se aproximara.<\/p>\n<p> Maria encarou com o irm&atilde;o sem esconder estar surpreendida. N&atilde;o<br \/>\n    percebia porque ele estava a rir. Tudo quanto o pai fazia era para ela motivo<br \/>\n    de venera&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o admitia cr&iacute;ticas.<\/p>\n<p> &#8211; Cada um l&aacute; tem o seu calcanhar-de-aquiles &#8211; prosseguiu Andr&eacute;<br \/>\n    &#8211; Um homem t&atilde;o inteligente e prestar-se a uma coisa t&atilde;o rid&iacute;cula!<br \/>\n    A princesa n&atilde;o podia admitir a aud&aacute;cia destas observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e preparava-se para responder quando se ouviram os passos, que todos esperavam,<br \/>\n    vindos do gabinete de trabalho do pr&iacute;ncipe. O velho militar entrou<br \/>\n    na sala de jantar com o seu passo r&aacute;pido e vivo, como se quisesse opor-se,<br \/>\n    com aqueles seus modos animados, &agrave; ordem severa que reinava na casa.<br \/>\n    Na mesma altura o grande rel&oacute;gio deu duas horas, e outro, retinindo<br \/>\n    fracamente, respondeu-lhe, l&aacute; de dentro, do sal&atilde;o. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    deteve-se. Por sobre as suas espessas sobrancelhas proeminentes as suas pupilas<br \/>\n    severas, vivas e brilhantes, observaram todas as pessoas presentes, fixando-se<br \/>\n    na mulher do pr&iacute;ncipe Andr&eacute;. Esta sentiu nesse momento a impress&atilde;o<br \/>\n    que costumam sentir os cortes&atilde;os no acto da chegada do soberano, um<br \/>\n    sentimento misto de temor e de respeito, que o pr&iacute;ncipe inspirava a<br \/>\n    todos quantos dele se aproximavam. Depois passou a m&atilde;o pelos cabelos<br \/>\n    da jovem princesa e deu-lhe umas pancadinhas na nuca um pouco atabalhoadamente.<\/p>\n<p> &#8211; Estou muito contente, estou muito contente de a ver &#8211; disse, olhando-a<br \/>\n    fixamente uma vez mais, e, de chofre, voltou-se para sentar-se &agrave; mesa.<br \/>\n    &#8211; Tomem os seus lugares, tomem os seus lugares! Mikail Ivanovitch, sente-se.<\/p>\n<p> O velho pr&iacute;ncipe indicou &agrave; nora um lugar a seu lado. Um criado<br \/>\n    ajudou-a a sentar.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor, sim, senhor! &#8211; exclamou, ao ver as amplas formas da princesa.<br \/>\n    &#8211; Chama-se a isto n&atilde;o perder tempo! Hem, que marota! E rompeu num riso<br \/>\n    seco, frio e desagrad&aacute;vel, o riso que tinha sempre, um riso s&oacute;<br \/>\n    da boca, n&atilde;o dos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; preciso andar, andar o mais poss&iacute;vel, o mais poss&iacute;vel<br \/>\n    acrescentou.<\/p>\n<p> A princesinha n&atilde;o ouvia ou n&atilde;o queria ouvir o que ele dizia.<br \/>\n    Estava calada e parecia preocupada. S&oacute; quando o pr&iacute;ncipe lhe<br \/>\n    perguntou pelo pai, principiou a falar e a sorrir. 1nterrogou-a acerca das<br \/>\n    pessoas que ambos conheciam. Ent&atilde;o ela sentiu-se &agrave; vontade e<br \/>\n    p&ocirc;s-se a tagarelar, transmitindo-lhe os cumprimentos de alguns conhecidos,<br \/>\n    contando-lhe casos de m&aacute;-l&iacute;ngua da cidade.<\/p>\n<p> &#8211; A condessa Apraksine, coitada, perdeu o marido e est&aacute; farta de<br \/>\n    chorar &#8211; dizia ela, cada vez mais animada.<\/p>\n<p> A medida que se entusiasmava, o pr&iacute;ncipe ia-a olhando cada vez mais<br \/>\n    severamente, e, de s&uacute;bito, como se a tivesse estudado o suficiente<br \/>\n    e acabasse por fazer dela um ideia exacta, desviou para outro lado a sua aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dizendo a Mikail Ivanovitch: &#8211; Pois &eacute; verdade. Mikail Ivanovitch, as<br \/>\n    coisas n&atilde;o v&atilde;o correr bem para o nosso Bonaparte. Como me contou<br \/>\n    o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; &#8211; falava sempre de Andr&eacute; na terceira<br \/>\n    pessoa -, est&atilde;o a juntar-se for&ccedil;as contra ele. E n&oacute;s<br \/>\n    que sempre o consider&aacute;mos uma, nulidade.<\/p>\n<p> Mikail Ivanovitch, que desconhecia por completo o momento em que ambos tinham<br \/>\n    falado de Bonaparte, mas que percebia que se estavam a servir dele para abordar<br \/>\n    a conversa do costume, lan&ccedil;ou um olhar surpreso ao mo&ccedil;o pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    sem saber o que ia passar-se.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, &eacute; um grande estratego &#8211; disse o pr&iacute;ncipe ao filho,<br \/>\n    apontando-lhe o arquitecto.<\/p>\n<p>E a conversa de novo incidiu sobre a guerra, sobre Bonaparte, os generais<br \/>\n    e os estadistas do tempo. O facto &eacute; que o velho pr&iacute;ncipe estava<br \/>\n    realmente convencido n&atilde;o s&oacute; de que todos os grandes homens do<br \/>\n    momento eram crian&ccedil;olas, ignorando, inclusivamente, o b&ecirc;-&aacute;-b&aacute;<br \/>\n    da guerra e da pol&iacute;tica, mas tamb&eacute;m, que Bonaparte n&atilde;o<br \/>\n    passava de um insignificante franc&ecirc;s, que triunfara apenas por n&atilde;o<br \/>\n    haver para se lhe opor um. Potemkine ou um Suvorov. Estava mesmo convencido<br \/>\n    de que n&atilde;o haveria na Europa dificuldades pol&iacute;ticas nem realmente<br \/>\n    haveria guerra. Estava-se apenas a representar uma com&eacute;dia de fantoches,<br \/>\n    em que os homens da &eacute;poca fingiam desempenhar um papel muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; acolhia com grandes gargalhadas estas trocas,<br \/>\n    e, &eacute; claro, divertia-se a excitar o pai e a ouvi-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo o que &eacute; de outros tempos lhe parece excelente &#8211; disse ele<br \/>\n    -, mas n&atilde;o &eacute; verdade que o pr&oacute;prio Suvorov caiu na armadilha<br \/>\n    que lhe preparou Moreau e n&atilde;o foi capaz de se ver livre dela? &#8211; Quem<br \/>\n    te disse isso? Quem te disse isso? &#8211; interrogou o pr&iacute;ncipe. &#8211; Suvorov!<br \/>\n    &#8211; E afastou de diante de si o prato, que Tikon pressurosamente levantou. &#8211;<br \/>\n    Suvorov!&#8230; Pensa um pouco, pr&iacute;ncipe Andr&eacute;. Eram dois homens:<br \/>\n    Frederico e Suvorov&#8230; Moreau!&#8230; Mas este Moreau teria ficado prisioneiro<br \/>\n    se Suvorov tivesse as m&atilde;os livres, e as suas m&atilde;os estavam ligadas<br \/>\n    pelo Hofskriegswurstsehnappsrath. Nem o Diabo teria sido capaz de se ver livre<br \/>\n    dele. Ora, ainda os h&aacute;s-de ver, esses Hofskriegsivurstschnappsrath!<br \/>\n    Se Suvorov n&atilde;o p&ocirc;de levar a melhor, como &eacute; que Mikail<br \/>\n    Kutuzov o conseguir&aacute;? Sim, meu amigo &#8211; prosseguiu -, com os generais<br \/>\n    que temos nada podemos contra Bonaparte. O que n&oacute;s precis&aacute;vamos<br \/>\n    era de franceses &#8211; ladr&atilde;o para roubar outro ladr&atilde;o. L&aacute;<br \/>\n    mandaram o alem&atilde;o Pahiem a Nova Iorque, &agrave; Am&eacute;rica, para<br \/>\n    apanhar o franc&ecirc;s Moreau para o ex&eacute;rcito russo. Lindo servi&ccedil;o!&#8230;<br \/>\n    Eram, porventura, alem&atilde;es os Potemkines, os Suvorovs ou os Orlovs?<br \/>\n    N&atilde;o, meu rapaz, ou voc&ecirc;s, l&aacute; para os vossos lados, perderam<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, ou ent&atilde;o sou eu quem est&aacute; a ficar maluco. Deus<br \/>\n    vos acuda, mas c&aacute; estamos para ver. E dizem eles que Bonaparte &eacute;<br \/>\n    um grande general! Hum! Hum!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tenho a pretens&atilde;o de pensar que todas as medidas tomadas<br \/>\n    sejam de primeira ordem &#8211; replicou o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; -, mas n&atilde;o<br \/>\n    posso compreender que o pai tenha uma tal, opini&atilde;o acerca, de Bonaparte.<br \/>\n    Pode rir-se &agrave;, vontade. O que n&atilde;o lia duvida &eacute; que Bonaparte<br \/>\n    &eacute; um grande general! &#8211; Mikail Ivanovitch! &#8211; exclamou o velho pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    dirigindo-se ao arquitecto, o qual, todo absorvido a comer o assado, teria<br \/>\n    preferido que o esquecessem &#8211; Eu disse-lhe que Bonaparte era um grande estratego?<br \/>\n    Aqui est&aacute; um da, mesma opini&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Mas com certeza. Excel&ecirc;ncia &#8211; replicou o arquitecto. E o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    riu de novo com o seu frio riso.<\/p>\n<p> &#8211; Bonaparte nasceu num sino. Tem soldados. E principiou por se atirar aos<br \/>\n    Alem&atilde;es. Desde que o mundo &eacute; mundo que toda a gente venceu os<br \/>\n    Alem&atilde;es. E eles nunca venceram ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser quando<br \/>\n    se batem uns contra os outros. Foi combatendo contra eles que Napole&atilde;o<br \/>\n    se tomou glorioso.<\/p>\n<p> E o pr&iacute;ncipe p&ocirc;s-se a expor todos os erros que, segundo ele,<br \/>\n    tinham sido cometidos por Bonaparte em todas as suas campanhas, e at&eacute;,<br \/>\n    inclusivamente, nos neg&oacute;cios p&uacute;blicos O filho n&atilde;o o contrariava,<br \/>\n    mas era claro que, apesar de toda, aquela argumenta&ccedil;&atilde;o, ele,<br \/>\n    tal como o velho pai, nunca mudaria de opini&atilde;o. Andr&eacute; ouvia,<br \/>\n    procurando dominar-se, para n&atilde;o fazer qualquer objec&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    surpreendido, no entanto, que aquele velho, h&aacute; tantos anos para ali<br \/>\n    isolado no meio das suas terras, fosse capaz de julgar e de conhecer, em todos<br \/>\n    os seus pormenores e com tanta finura, a situa&ccedil;&atilde;o militar e<br \/>\n    pol&iacute;tica da Europa dos &uacute;ltimos anos.<\/p>\n<p> &#8211; Julgas que um velho como eu nada percebe dos problemas actuais? &#8211; concluiu<br \/>\n    ele, &#8211; Que queres tu ent&atilde;o que eu fa&ccedil;a? De noite n&atilde;o<br \/>\n    durmo. Vamos l&aacute; a saber onde &eacute; que esse teu grande general j&aacute;<br \/>\n    demonstrou que o era de facto? &#8211; Isso levaria tempo &#8211; replicou o filho.<\/p>\n<p> &#8211; Que tenhas muita sa&uacute;de mais o teu Bonaparte. Mademoiselle Sourienne,<br \/>\n    aqui tem mais um admirador do grosseiro do seu imperador! &#8211; exclamou ele num<br \/>\n    franc&ecirc;s excelente.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe que eu n&atilde;o sou bonapartista, meu pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe Deus quando voltar&aacute;&#8230; &#8211; cantarolou o pr&iacute;ncipe, na<br \/>\n    sua voz de falsete, e, foi a rir, num riso igualmente em falsete, que se levantou<br \/>\n    da mesa.<\/p>\n<p> A princesinha estivera calada durante toda a discuss&atilde;o e at&eacute;<br \/>\n    ao fim do jantar, olhando, alarmada, primeiro a princesa Maria e depois o<br \/>\n    sogro. Quando se levantaram da mesa, travou do bra&ccedil;o da cunhada e levou-a<br \/>\n    consigo para a sala cont&iacute;gua.<\/p>\n<p> &#8211; Como o seu pai &eacute; um homem inteligente! &#8211; observou ela. &#8211; &Eacute;<br \/>\n    por isso, talvez, que me mete medo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh, &eacute; t&atilde;o bom! &#8211; &#8211; replicou a cunhada.<\/p>\n<h4> <a name=\"28\">Cap&iacute;tulo XXVIII<\/a><\/h4>\n<p>O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; devia partir no dia seguinte &agrave; tarde.<br \/>\n    O velho pr&iacute;ncipe, sem alterar os seus h&aacute;bitos, retirou-se depois<br \/>\n    do jantar. A princesinha estava nos aposentos da cunhada. Andr&eacute; vestiu<br \/>\n    uma farda de viagem, sem dragonas, e p&ocirc;s-se a fazer as malas, com o<br \/>\n    auxilio do criado de quarto, no aposento que lhe fora reservado. Ap&oacute;s<br \/>\n    haver examinado ele pr&oacute;prio a carruagem em que ia partir e a instala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das bagagens, deu ordem para atrelarem. No quarto apenas conservava os objectos<br \/>\n    que levaria consigo: um pequeno cofre, um estojo de toilette de viagem, de<br \/>\n    prata, duas pistolas turcas e um sabre, presente do pai, que este lhe trouxera<br \/>\n    de Otchakov. Todos estes objectos estavam em perfeito estado: tudo como novo<br \/>\n    e limpo, cada coisa no seu estojo de pano cautelosamente afivelado.<\/p>\n<p> No momento em que um homem parte para uma viagem, ou se prepara para mudar<br \/>\n    de vida s&atilde;o muitos os pensamentos que o assaltam, desde que seja pessoa<br \/>\n    capaz de reflex&atilde;o. Todo o passado lhe ocorre e faz projectos sobre<br \/>\n    o futuro. Andr&eacute; parecia preocupado e comovido. Com as m&atilde;os atr&aacute;s<br \/>\n    das costas, ia e vinha, em passo r&aacute;pido, de um extremo ao outro do<br \/>\n    quarto, o olhar fixo e abanando a cabe&ccedil;a. Quer sentisse medo de partir<br \/>\n    para a guerra, quer sofresse por ter de deixar a mulher, e talvez as duas<br \/>\n    coisas o preocupassem, era natural que n&atilde;o quisesse que o vissem naquele<br \/>\n    estado, pois, ao ouvir passos no vest&iacute;bulo, mudou rapidamente de atitude,<br \/>\n    deteve-se diante da mesa, como para afivelar a cobertura da mala, e de novo<br \/>\n    no seu rosto transpareceu a express&atilde;o s&eacute;ria e impenetr&aacute;vel<br \/>\n    de sempre. Eram os pesados passos da princesa Maria.<\/p>\n<p> &#8211; Disseram-me que tinhas mandado atrelar &#8211; articulou ela, arquejante (via-se<br \/>\n    que viera a correr). &#8211; E eu que tanto queria conversar contigo a s&oacute;s.<br \/>\n    S&oacute; Deus sabe quanto tempo vamos estar separados! N&atilde;o est&aacute;s<br \/>\n    zangado por eu ter vindo? &Eacute;, que mudaste tanto. Andriucha &#8211; acrescentou,<br \/>\n    como para justificar a sua pergunta.<\/p>\n<p> A princesa Maria sorriu ao trat&aacute;-lo por Andr&iacute;ucha. Via-se<br \/>\n    que achava estranho aquele belo homem de aspecto severo ser o mesmo Andriucha,<br \/>\n    esse garoto magricela e travesso seu companheiro de inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; E a Lisa onde est&aacute;? &#8211; perguntou ele, que apenas lhe respondera<br \/>\n    com um sorriso.<\/p>\n<p> &#8211; Estava t&atilde;o cansada que adormeceu no meu quarto num div&atilde;.<br \/>\n    Ah! Andr&eacute;! Que tesouro que &eacute; a sua mulher! &#8211; exclamou sentando-se<br \/>\n    num canap&eacute;, diante do irm&atilde;o. &#8211; &Eacute; uma verdadeira crian&ccedil;a,<br \/>\n    t&atilde;o gentil, t&atilde;o alegre! Gosto tanto dela.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; irada disse, mas a irm&atilde; viu a express&atilde;o<br \/>\n    ir&oacute;nica e um pouco desdenhosa que lhe invadiu o rosto.<\/p>\n<p> &#8211; Temos de ser indulgentes para com as suas pequenas loucuras. Quem as n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m? Andr&eacute;, n&atilde;o te esque&ccedil;as de que foi criada e<br \/>\n    educada na sociedade. E a verdade &eacute; que a sua situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; longe de ser cor-de-rosa. Ternos de nos colocar na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos outros. Tudo compreender &eacute; tudo perdoar. Pensa na sorte que a espera,<br \/>\n    coitadinha. Depois da vida que tem feito, ficar para aqui, no campo, separada<br \/>\n    do marido, e sozinha, sobretudo no estado em que est&aacute;. &Eacute; penoso!<br \/>\n    Andr&eacute; sorria, olhando para a irm&atilde;, como costumamos sorrir ao<br \/>\n    ouvir algu&eacute;m em que julgamos ler como num livro aberto.<\/p>\n<p> &#8211; Mas tu tamb&eacute;m vives no campo e n&atilde;o achas que a vida aqui<br \/>\n    seja assim uma coisa t&atilde;o terr&iacute;vel! &#8211; observou ele.<\/p>\n<p> &#8211; Comigo &eacute; outra coisa. Para que havemos de falar de mim? N&atilde;o<br \/>\n    quero outra vida, e n&atilde;o posso desejar vida diferente, porque n&atilde;o<br \/>\n    conhe&ccedil;o sen&atilde;o esta. Mas pensa. Andr&eacute;, o que representa<br \/>\n    para uma senhora de sociedade enterrar-se numa aldeia, nos melhores anos da<br \/>\n    sua vida, e s&oacute;, pois o pai est&aacute; sempre ocupado, e eu.., tu bem<br \/>\n    sabes como eu sou pobre de recursos aos olhos de uma mulher habituada &agrave;<br \/>\n    melhor sociedade. S&oacute; Mademoiselle Bourienne&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso com a vossa Bourienne &#8211; replicou Andr&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o digas isso! &Eacute; uma rapariga gentil e boa, e ainda por<br \/>\n    cima t&atilde;o infeliz! J&aacute; n&atilde;o tem ningu&eacute;m no mundo,<br \/>\n    absolutamente ningu&eacute;m. Para dizer a verdade, n&atilde;o s&oacute; j&aacute;<br \/>\n    me n&atilde;o &eacute; precisa, como at&eacute; me incomoda. Tu bem sabes<br \/>\n    que fui sempre um pouco selvagem, e agora ainda mais. Aprecio estar s&oacute;&#8230;<br \/>\n    O meu pai gosta muito dela. Tanto ela como o Mikail Ivanovitch s&atilde;o<br \/>\n    as duas pessoas para quem ele tem sido sempre am&aacute;vel e bom. &Eacute;<br \/>\n    para eles um verdadeiro benfeitor. Como diz Sterne, &laquo;n&oacute;s gostamos<br \/>\n    das pessoas menos pelo bem que elas nos fizeram que pelo bem que lhe fizemos<br \/>\n    a elas&raquo;. O meu pai tomou conta desta, rapariga, &oacute;rf&atilde; sem<br \/>\n    casa. Tem muito bom cora&ccedil;&atilde;o. E o meu pai adora a maneira como<br \/>\n    ela l&ecirc;. &Eacute; ela quem lhe faz a leitura em voz alta, todas as tardes.<br \/>\n    L&ecirc; muito bem.<\/p>\n<p> &#8211; Confessa. Maria, tu deves passar o teu mau bocado, penso eu, por causa<br \/>\n    do feitio do pai &#8211; disse, de s&uacute;bito. Andr&eacute;.<\/p>\n<p> Maria principiou por mostrar-se surpreendida e depois sentiu-se assustada<br \/>\n    com a pergunta.<\/p>\n<p> &#8211; Eu? Eu? Passar um mau bocado &#8211; tartamudeou.<\/p>\n<p> &#8211; Ele foi sempre irasc&iacute;vel, mas agora ainda se tomou mais dif&iacute;cil,<br \/>\n    creio eu &#8211; e exprimia-se t&atilde;o &agrave; vontade sobre o car&aacute;cter<br \/>\n    do pai que s&oacute; podia ter um fim: irrit&aacute;-la ou experiment&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Tu &eacute;s muito bom. Andr&eacute;, mas tens um certo orgulho &#8211; observou<br \/>\n    a princesa, seguindo antes o curso dos seus pensamentos que propriamente o<br \/>\n    fio da conversa &#8211; e isso &eacute; um grande pecado. Achas que se pode permitir<br \/>\n    a um filho julgar o seu pai? E, mesmo que se admita uma coisa dessas, achas<br \/>\n    que um homem como o meu pai possa inspirar outros sentimentos que n&atilde;o<br \/>\n    sejam de venera&ccedil;&atilde;o? Sinto-me t&atilde;o satisfeita e feliz ao<br \/>\n    p&eacute; dele! S&oacute; queria uma coisa: que todos voc&ecirc;s fossem t&atilde;o<br \/>\n    felizes como eu.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; abanou a cabe&ccedil;a come, quem n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; muito convencido.<\/p>\n<p> &#8211; A &uacute;nica coisa que me &eacute; penosa, vou dizer-te a verdade. Andr&eacute;,<br \/>\n    &eacute; a opini&atilde;o de meu pai em assuntos religiosos. N&atilde;o compreendo<br \/>\n    que um homem t&atilde;o inteligente, n&atilde;o veja o que &eacute; claro<br \/>\n    como a luz do dia e se desoriente at&eacute; ao ponto a que chegou. S&oacute;<br \/>\n    isto me faz infeliz. Mas nos &uacute;ltimos tempos verifiquei que est&aacute;<br \/>\n    um pouco melhor. Ultimamente as suas tro&ccedil;as s&atilde;o menos acerbas<br \/>\n    e at&eacute; consentiu em receber um, frade e esteve muito tempo a conversar<br \/>\n    com ele.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, minha querida, receio que tu e o teu frade estejam a perder<br \/>\n    o vosso latim &#8211; observou Andr&eacute; em tom trocista, mas am&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, meu amigo. N&atilde;o fa&ccedil;o outra coisa sen&atilde;o pedir<br \/>\n    a Deus, e espero que Ele me ou&ccedil;a. Andr&eacute; &#8211; acrescentou ela, timidamente,<br \/>\n    depois de uma breve pausa -, tenho de te fazer um grande pedido.<\/p>\n<p> &#8211; De que &eacute; que se trata, minha amiga? &#8211; Promete-me, antes de mais<br \/>\n    nada, que me n&atilde;o recusar&aacute;s o que te vou pedir. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada que te custe a fazer e nem &eacute; coisa indigna de ti. Promete-me.<br \/>\n    Andriucha &#8211; suplicou ela, metendo a m&atilde;o na bolsinha de trabalho e apalpando<br \/>\n    fosse o que fosse sem tirar a m&atilde;o, como se tivesse entre os dedos precisamente<br \/>\n    o objecto em quest&atilde;o, objecto que ela n&atilde;o podia mostrar sen&atilde;o<br \/>\n    depois de ter obtido a promessa que pedira.<\/p>\n<p> Olhava para o irm&atilde;o timidamente e com olhos suplicantes.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda mesmo que isso me custasse muito?&#8230; &#8211; replicou o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    Andr&eacute;, que parecia desconfiar do que se tratava.<\/p>\n<p> &#8211; Podes pensar o que quiseres. Sim, eu bem sei, tu &eacute;s como o meu<br \/>\n    pai. Podes pensar o que quiseres, mas faz isso por mim. Pe&ccedil;o-te. O<br \/>\n    pai do meu pai, o nosso av&ocirc;, trouxe-a consigo em todas as campanhas&#8230;<br \/>\n    &#8211; E continuava sem tirar da bolsinha o objecto que tinha entre os dedos.-<br \/>\n    Ent&atilde;o, prometes? &#8211; Claro! De que se trata? &#8211; Andr&eacute;, que esta<br \/>\n    imagem te proteja. Promete-me que n&atilde;o a deixar&aacute;s mais. Prometes?<br \/>\n    &#8211; Se ela n&atilde;o pesar muito e me n&atilde;o derrancar o pesco&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    J&aacute; que isso te d&aacute; prazer&#8230; &#8211; disse ele, e, verificando, ao<br \/>\n    mesmo tempo, que a sua atitude causava uma penosa impress&atilde;o na irm&atilde;,<br \/>\n    mudou de tom. &#8211; Com muito prazer, podes crer, com muito prazer, minha amiga<br \/>\n    &#8211; acrescentou.<\/p>\n<p> &#8211; Mesmo contra tua vontade. Ele salvar-te-&aacute;, conceder-te-&aacute;<br \/>\n    a Sua gra&ccedil;a e chamar-te-&aacute; para Si, pois &eacute; verdade e consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; murmurou, numa voz tr&eacute;mula, erguendo nas duas m&atilde;os, diante<br \/>\n    do irm&atilde;o, num gesto solene, uma antiga imagem oval do Salvador, com<br \/>\n    o rosto negro, numa moldura de prata suspensa de uma cadeia de filigrana do<br \/>\n    mesmo metal.<\/p>\n<p> A princesa Maria benzeu-se, beijou a imagem e entregou-a ao irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Aceita-a. Andr&eacute;, aceita-a por mim&#8230;<\/p>\n<p> Os seus grandes olhos esplendiam de bondade e de do&ccedil;ura. Iluminavam-lhe<br \/>\n    o rosto magro e doentio, embelezando-o. O irm&atilde;o quis pegar na imagem,<br \/>\n    mas ela deteve-o. Andr&eacute; compreendeu, benzeu-se tamb&eacute;m e beijou-a.<br \/>\n    Havia nele uma express&atilde;o ao mesmo tempo enternecida &#8211; estava comovido<br \/>\n    &#8211; e trocista.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigada, meu amigo.<\/p>\n<p> Beijou-o na testa e voltou a sentar-se no div&atilde;. Ficaram calados.<\/p>\n<p> &#8211; Sim. Andr&eacute;, j&aacute; te disse, s&eacute; bom e generoso como sempre<br \/>\n    foste. N&atilde;o julgues Lisa com tanta severidade. Ela &eacute; gentil e<br \/>\n    boa e est&aacute; neste momento numa bem triste situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Creio nada te ter dito. Macha, que possa ser interpretado como uma censura<br \/>\n    a minha mulher ou mostrar-te que esteja descontente com ela. Porque &eacute;<br \/>\n    que me est&aacute;s sempre a dizer a mesma coisa? A princesa Maria corou,<br \/>\n    calando-se, como se se sentisse culpada.<\/p>\n<p> &#8211; Por mim, n&atilde;o te disse nada, mas outras pessoas, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    j&aacute; te falaram no caso. E isso &eacute;-me penoso.<\/p>\n<p> Manchas vermelhas cobriram a testa e as faces de Maria. Quis dizer qualquer<br \/>\n    coisa, mas n&atilde;o p&ocirc;de articular palavra. O irm&atilde;o adivinhara.<br \/>\n    A princesinha, depois do jantar, chorara e dissera que receava um parto dif&iacute;cil,<br \/>\n    que estava cheia de medo e lamentara-se da sua sorte, do sogro, do marido.<br \/>\n    Depois de chorar, adormecera. O pr&iacute;ncipe Andr&eacute; teve pena da<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; Podes ter a certeza. Macha, n&atilde;o a censurei, nunca a censurei por<br \/>\n    qualquer coisa e nunca censurei a minha mulher em coisa alguma. E eu pr&oacute;prio<br \/>\n    nada tenho a censurar-me no meu comportamento para com ela. E sempre assim<br \/>\n    ser&aacute;, seja qual for a situa&ccedil;&atilde;o em que venha a encontrar-me.<br \/>\n    Mas queres saber a verdade.., queres saber se eu sou feliz, se ela &eacute;<br \/>\n    feliz? Pois bem, n&atilde;o, n&atilde;o sou, n&atilde;o somos. Porqu&ecirc;?<br \/>\n    N&atilde;o sei&#8230;<\/p>\n<p> Ao dizer estas palavras, levantou-se, aproximou-se da irm&atilde; e, inclinando-se<br \/>\n    para ela, beijou-a na testa. Os seus belos olhos incendiaram-se, e neles brilhou<br \/>\n    um invulgar lampejo de lucidez e bondade. N&atilde;o era na irm&atilde; que<br \/>\n    o seu olhar se fixava, mas nas trevas, para al&eacute;m da porta aberta por<br \/>\n    detr&aacute;s dela.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos ter com ela. &Eacute; preciso dizer-lhe adeus. Ou, antes, vai tu<br \/>\n    sozinha, acorda-a, eu j&aacute; l&aacute; vou ter. Petruchka! &#8211; gritou ele,<br \/>\n    chamando o criado de quarto. &#8211; Anda c&aacute;, leva est&aacute;s coisas. P&otilde;e<br \/>\n    isto ao p&eacute; do assento, aquilo &agrave; direita.<\/p>\n<p> A princesa Maria levantou-se e encaminhou-se para a porta. A&iacute; deteve-se.<\/p>\n<p> &#8211; Andr&eacute;, se fosses crente, ter-te-ias dirigido a Deus a pedir-lhe<br \/>\n    que te desse o amor que tu n&atilde;o sentes, e a tua ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria ouvida.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, &eacute; poss&iacute;vel &#8211; volveu Andr&eacute;. &#8211; Vai. Macha, vou<br \/>\n    j&aacute; ter convosco.<\/p>\n<p> Quando se dirigia aos aposentos da irm&atilde;, na galeria, que estabelecia<br \/>\n    a comunica&ccedil;&atilde;o entre os dois corpos da casa, o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    encontrou Mademoiselle Bourienne, que lhe sorriu graciosamente. Era a terceira<br \/>\n    vez naquele dia que ele encontrava no seu caminho, e nos lugares mais solit&aacute;rios,<br \/>\n    o seu sorriso simples e entusiasta.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Julgava-o nos seus aposentos! &#8211; exclamou ela, corando um pouco e baixando<br \/>\n    os olhos.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe lan&ccedil;ou-lhe um olhar severo; tomara repentinamente<br \/>\n    uma express&atilde;o irritada. N&atilde;o lhe respondeu, e, sem a fixar nos<br \/>\n    olhos, dirigiu-lhe um olhar t&atilde;o desdenhoso que a francesa ficou toda<br \/>\n    corada, retirando-se sem dizer mais nada. Quando o pr&iacute;ncipe entrou<br \/>\n    nos aposentos da irm&atilde;, sua mulher j&aacute; estava acordada e atrav&eacute;s<br \/>\n    da porta aberta ouvia-se a sua vozita alegre, que desfiava com volubilidade<br \/>\n    o ros&aacute;rio das palavras. Dir-se-ia que procurava recuperar o tempo perdido<br \/>\n    depois de uma longa absten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, mas imagine a velha condessa Zuboff, com posti&ccedil;os no<br \/>\n    cabelo e a boca cheia de dentes posti&ccedil;os, como se quisesse desafiar<br \/>\n    os anos&#8230; Ah!, ah!, ah!. Maria! Era a quinta vez que Andr&eacute; ouvia a<br \/>\n    mulher diante de estranhos pronunciar esta mesma frase sobre a condessa Zuboff,<br \/>\n    acompanhada do mesmo riso. Entrou sem fazer ru&iacute;do. A mulher, redondinha<br \/>\n    e rosada, o trabalhinho na m&atilde;o, estava sentada numa poltrona e falava<br \/>\n    ininterruptamente, contando coisas de Petersburgo e repetindo, inclusivamente,<br \/>\n    verdadeiras frases feitas. Andr&eacute; aproximou-se dela, acariciou-lhe os<br \/>\n    cabelos e perguntou-lhe se se sentia refeita da viagem. Ela respondeu-lhe<br \/>\n    e continuou a tagarelar.<\/p>\n<p> Uma carruagem tirada por seis cavalos estava diante da escada. L&aacute;<br \/>\n    fora era noite, uma noite sombria de Outono. O cocheiro nem sequer podia ver<br \/>\n    os varais do carro. Na escada agitavam-se pessoas com lanternas na m&atilde;o.<br \/>\n    A imensa casa tinha todas as suas grandes janelas iluminadas. No vest&iacute;bulo<br \/>\n    juntavam-se, acotovelando-se, os criados servos, que todos queriam dizer adeus<br \/>\n    ao jovem pr&iacute;ncipe. Na grande sala estava reunida toda a gente da casa:<br \/>\n    Mikail Ivanovitch. Mademoiselle Bourienne, a princesa Maria e a jovem esposa<br \/>\n    de Andr&eacute;. Este &uacute;ltimo tinha sido chamado ao gabinete do pai,<br \/>\n    que queria despedir-se dele a s&oacute;s. Todos os estavam aguardando.<\/p>\n<p> Quando Andr&eacute; &#8211; penetrou no gabinete do pai, o velho pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    de &oacute;culos e roup&atilde;o branco, traio com que n&atilde;o recebia<br \/>\n    ningu&eacute;m, a n&atilde;o ser o filho, estava sentado a sua mesa e escrevia.<br \/>\n    Voltou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Vais-te embora? &#8211; interrogou ele, continuando a escrever. &#8211; Vim dizer-lhe<br \/>\n    adeus.<\/p>\n<p> &#8211; D&aacute; c&aacute; um beijo, aqui. &#8211; Indicava-lhe o local. &#8211; Obrigado,<br \/>\n    obrigado.<\/p>\n<p> &#8211; Porque &eacute; que me est&aacute; a agradecer? &#8211; Porque tu n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;s homem para fazer amanh&atilde; o que podes fazer hoje&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    te agarras &agrave;s saias das mulheres. A tropa antes de tudo. Obrigado!<br \/>\n    Obrigado! &#8211; Continuava a escrever e a pena ia-lhe salpicando o papel. &#8211; Se<br \/>\n    tens seja o que for para me dizeres, fala. Posso fazer as duas coisas ao mesmo<br \/>\n    tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Queria falar-lhe de minha mulher&#8230; Estou bastante apoquentado por ter<br \/>\n    de a deixar entregue a si, &#8211; Que est&aacute;s tu para a&iacute; a dizer? Vamos,<br \/>\n    de que precisas? &#8211; Quando chegar a hora do parto, pe&ccedil;o-lhe que mande<br \/>\n    vir de Moscovo um m&eacute;dico-parteiro&#8230; Para que ele esteja presente nesse<br \/>\n    momento.<\/p>\n<p> O velho pr&iacute;ncipe pousou a pena, e, como se n&atilde;o compreendesse,<br \/>\n    fitou no filho um olhar severo.<\/p>\n<p> &#8211; Bem sei que nada se pode fazer quando a natureza n&atilde;o obra por si<br \/>\n    mesma &#8211; disse Andr&eacute;, visivelmente perturbado. &#8211; Reconhe&ccedil;o que<br \/>\n    num milh&atilde;o de casos deste g&eacute;nero s&oacute; um, talvez, n&atilde;o<br \/>\n    corre bem, mas ela tem l&aacute; essa mania, e eu tamb&eacute;m. Temos de<br \/>\n    acreditar que a embruxaram. Teve sonhos e tem medo.<\/p>\n<p> &#8211; Hum! Hum!&#8230; &#8211; tartamudeou o velho, continuando a escrever. &#8211; Est&aacute;<br \/>\n    bem, farei o que me pedes.<\/p>\n<p> Firmou, com uma larga assinatura, a carta que escrevera e depois voltou-se<br \/>\n    bruscamente para o filho. P&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p> &#8211; Espetaste-te, hem?! &#8211; Que diz, meu pai? &#8211; A tua mulher &#8211; respondeu ele,<br \/>\n    conciso e sem subterf&uacute;gios.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o compreendo &#8211; replicou o filho.<\/p>\n<p> &#8211; E nada a fazer, meu velho. S&atilde;o todas a mesma coisa: n&atilde;o<br \/>\n    nos podemos descasar. N&atilde;o tenhas receio; n&atilde;o direi nada a ningu&eacute;m;<br \/>\n    mas tu sabes com o que podes contar.<\/p>\n<p> Agarrou o filho com a m&atilde;o ossuda e delgada, abanou-o, olhando-o,<br \/>\n    fixamente, com as suas pupilas vivas, como se o quisesse atravessar de lado<br \/>\n    a lado. Depois, de novo soltou uma gargalhada fria.<\/p>\n<p> O filho teve um suspiro, e com isso confessava que o pai tinha adivinhado,<br \/>\n    o velho continuou a dobrar e a lacrar a carta, manejando o lacre, o sinete<br \/>\n    e o papel com a sua agilidade habitual.<\/p>\n<p> &#8211; Nada a fazer! &Eacute; uma bela mulher! Farei tudo o que for preciso,<br \/>\n    est&aacute; descansado &#8211; disse ele, continuando a sua tarefa.<\/p>\n<p> Andr&eacute; calou-se. Estava ao mesmo tempo contente e descontente de que<br \/>\n    o pai o tivesse compreendido. O velho ergueu-se e entregou a carta ao filho.<\/p>\n<p> &#8211; Ouve &#8211; disse-lhe ele. &#8211; N&atilde;o te preocupes com a tua mulher. O que<br \/>\n    se puder fazer, far-se-&aacute;. E agora ouve. Aqui tens uma carta para Mikail<br \/>\n    Ilarionovitch. Pe&ccedil;o-lhe aqui que te mande para onde for necess&aacute;rio<br \/>\n    e n&atilde;o te conserve muito tempo no estado-maior: &eacute; um lugar detest&aacute;vel.<br \/>\n    Diz-lhe que me lembro sempre dele e da nossa velha amizade. Depois manda-me<br \/>\n    dizer como &eacute; que ele te recebeu. Agora anda c&aacute;.<\/p>\n<p> Falava com tanta volubilidade que n&atilde;o acabava, sequer, a maior parte<br \/>\n    das palavras, mas o filho estava muito habituado a, ouvi-lo. Conduziu-o at&eacute;<br \/>\n    junto de uma papeleira, abriu-a, puxou uma gaveta e tirou de l&aacute; um<br \/>\n    caderno verde coberto pelos caracteres da sua caligrafia alongada, cerrada<br \/>\n    e &aacute;gil.<\/p>\n<p> &#8211; Naturalmente, eu morrerei antes de ti. Quero que saibas que est&atilde;o<br \/>\n    aqui os meus apontamentos. &Eacute; necess&aacute;rio transmiti-los ao imperador<br \/>\n    depois da minha morte. Aqui est&aacute; um papel de cr&eacute;dito e uma carta:<br \/>\n    &eacute; um pr&eacute;mio para aquele que escrever a hist&oacute;ria das campanhas<br \/>\n    de Suvorov. Manda isto para a Academia. Aqui est&aacute; o meu di&aacute;rio.<br \/>\n    L&ecirc;-o depois de eu me ir embora, tens que aprender.<\/p>\n<p> Andr&eacute; n&atilde;o disse ao pai que ainda teria certamente muitos anos<br \/>\n    para viver. Compreendia que o momento n&atilde;o era para dizer coisas dessas.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo farei, meu pai &#8211; disse ele.<\/p>\n<p> &#8211; E agora adeus! &#8211; Deu-lhe a m&atilde;o a beijar, e apertou-o nos bra&ccedil;os.-<br \/>\n    Lembra-te de uma coisa, pr&iacute;ncipe Andr&eacute;: se fores morto, eu,<br \/>\n    velho, como sou, sentirei uma grande dor&#8230; &#8211; Calou-se bruscamente e continuou<br \/>\n    em seguida numa voz firme e sonora: &#8211; Mas se eu vier a saber que tu n&atilde;o<br \/>\n    te portas como filho, que &eacute;s, de Nicolau Bolkonski, isso para mim ser&aacute;..,<br \/>\n    uma vergonha! &#8211; rematou.<\/p>\n<p> &#8211; A&iacute; est&aacute; uma coisa que meu pai podia ter evitado dizer-me<br \/>\n    &#8211; observou o filho sorrindo.<\/p>\n<p> O velho ficou calado.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; ainda outra coisa que lhe queria pedir &#8211; prosseguiu Andr&eacute;.<br \/>\n    &#8211; Se eu for morto e se me nascer um filho, n&atilde;o o afaste de sua casa,<br \/>\n    e, como ontem lhe disse, deixe-o crescer a seu lado. Pe&ccedil;o-lhe, pai.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ser&aacute; necess&aacute;rio entreg&aacute;-lo a tua mulher?<br \/>\n    &#8211; disse o velho, soltando uma gargalhada.<\/p>\n<p> Estavam calados em frente um do outro. O pai olhava o filho bem nos olhos<br \/>\n    e o queixo tremia-lhe, num movimento nervoso.<\/p>\n<p> &#8211; A despedida acabou.., vai! &#8211; disse repentinamente &#8211; Vai &#8211; repetiu,<br \/>\n    numa voz forte e col&eacute;rica, abrindo a porta.<\/p>\n<p> &#8211; Que foi? O que aconteceu? &#8211; perguntaram as duas princesas, ao verem Andr&eacute;<br \/>\n    e a furtiva silhueta do velho, de roup&atilde;o branco, sem cabeleira, de<br \/>\n    &oacute;culos, com fulgura&ccedil;&otilde;es de voz irritada. Andr&eacute;<br \/>\n    limitou-se a suspirar, sem responder.<\/p>\n<p> &#8211; Bom &#8211; disse ele, dirigindo-se &agrave; mulher.<\/p>\n<p> P&ocirc;s nesta simples palavra um acento trocista, que parecia dizer: &laquo;Chegou<br \/>\n    agora o momento de tu fazeres as tuas choraminguices.&raquo; &#8211; J&aacute;.<br \/>\n    Andr&eacute;?! &#8211; exclamou a princesinha empalidecendo e olhando-o com terror.<\/p>\n<p> Andr&eacute; tomou-a nos bra&ccedil;os. A princesa soltou um grito e caiu-lhe<br \/>\n    desmaiada no ombro.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe Andr&eacute;, com todo o cuidado, afastou-a, examinou<br \/>\n    o estado da mulher e f&ecirc;-la assentar, docemente, numa poltrona.<\/p>\n<p> &#8211; Adeus. Maria &#8211; disse para a irm&atilde; em voz baixa; beijou-a, pegando-lhe<br \/>\n    nas m&atilde;os, e afastou-se em passos r&aacute;pidos.<\/p>\n<p> A jovem princesa continuava estendida na poltrona; Mademoiselle Bourienne<br \/>\n    aspergia-lhe a cara. A princesa Maria, enquanto amparava a cunhada, com os<br \/>\n    seus lindos olhos rasos de l&aacute;grimas n&atilde;o deixava de olhar a porta<br \/>\n    por onde o pr&iacute;ncipe Andr&eacute; desapareceu, tra&ccedil;ando sobre<br \/>\n    ele o sinal da cruz. Do gabinete vinham, como se fossem tiros de pistola,<br \/>\n    as explos&otilde;es furiosas, e muito repetidas, do velho, que se assoava<br \/>\n    estrepitosamente. Mal Andr&eacute; saiu, abriu-se a porta do gabinete e apareceu<br \/>\n    uma figura severa de roup&atilde;o branco.<\/p>\n<p> &#8211; Foi-se embora? Bom, est&aacute; bem! &#8211; disse o velho, lan&ccedil;ando<br \/>\n    um olhar irritado &agrave; princesinha, ainda estendida, desmaiada. Depois<br \/>\n    abanou a cabe&ccedil;a, furioso, e bateu com a porta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108530","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is 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