{"id":108526,"date":"2017-02-13T10:17:30","date_gmt":"2017-02-13T12:17:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108526"},"modified":"2017-02-13T10:17:30","modified_gmt":"2017-02-13T12:17:30","slug":"senhores-e-servos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/senhores-e-servos","title":{"rendered":"Senhores e Servos"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"399\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Corria a d&eacute;cada de -. Na manh&atilde; seguinte ao dia de Natal, Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch Brokhunov, negociante da segunda corpora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o podia se ausentar da par&oacute;quia, precisava estar na igreja<br \/>\n    &#8212; da qual era o tesoureiro eleito e ainda receber em casa os parentes<br \/>\n    e amigos&#8212; Mas, t&atilde;o depressa a &uacute;ltima das visitas se despediu,<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch come&ccedil;ou a se preparar para sair: necessitava<br \/>\n    entrar em entendimentos com um propriet&aacute;rio das redondezas para concluir<br \/>\n    a compra de uma floresta que, h&aacute; muito tempo, tinha em vista. O assunto<br \/>\n    requeria urg&ecirc;ncia, pois Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch temia ser prejudicado<br \/>\n    naquela &oacute;tima transa&ccedil;&atilde;o pelos negociantes da cidade vizinha.<br \/>\n    O jovem propriet&aacute;rio pedia dez mil rublos pela floresta, s&oacute;<br \/>\n    porque Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch lhe havia oferecido sete mil. Acontece<br \/>\n    que esses sete mil representavam, na verdade, apenas um ter&ccedil;o do total<br \/>\n    das terras.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch procurara, manhosamente, retardar a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na esperan&ccedil;a de um abatimento tio pre&ccedil;o, pois contava a seu<br \/>\n    favor a combina&ccedil;&atilde;o feita entre lis negociantes do distrito pela<br \/>\n    qual nenhum subiria o valor das florestas situadas perto da dos vizinhos,<br \/>\n    e aquela estava justamente na sua regi&atilde;o. Mas, tendo chegado ao seu<br \/>\n    conhecimento que compradores de matas da capital da prov&iacute;ncia projetavam<br \/>\n    comprar a floresta de Goriatchkino, decidiu apressar o remate do neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Com tal prop&oacute;sito, mal a festa terminara, abriu o cofre e retirou<br \/>\n    mil e setecentos rublos. Tirou O&#8221;n-a mil e trezentos da caixa da igreja,<br \/>\n    que ficava sob a sua guarda, para perfazer tr&ecirc;s mil rublos, cuidadosamente<br \/>\n    recontou o dinheiro, enfiou-o na carteira e se preparou para partir.<\/p>\n<p>Nikita, o &uacute;nico criado de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch que n&atilde;o<br \/>\n    estava b&ecirc;bado naquele dia, correu a atrelar o tren&oacute;. Nikita cumpria<br \/>\n    a promessa, que a si mesmo fizera, de nunca mais beber desde a ocasi&atilde;o,<br \/>\n    uns dois meses antes, em que havia vendido as botas e roupas novas para gastar<br \/>\n    o apurado no v&iacute;cio. E bem que ele fora tentado, naqueles dias de festa,<br \/>\n    pela vodca que ca&iacute;a no fundo dos copos com um ru&iacute;do que se assemelhava<br \/>\n    a um apelo.<\/p>\n<p>Nikita era campon&ecirc;s, tinha cinq&uuml;enta anos e nascera numa aldeia<br \/>\n    pr&oacute;xima. Passara a maior parte da vida trabalhando em casas e terras<br \/>\n    alheias, o que levara a dizerem dele &#8220;que n&atilde;o era um propriet&aacute;rio&#8221;.<br \/>\n    Desfrutava geral estima, tanto pela sua natural bondade e jovial temperamento,<br \/>\n    como pelo entusiasmo e energia que dedicava ao trabalho,<\/p>\n<p> mas infelizmente n&atilde;o parava muito no mesmo lugar porque duas vezes<br \/>\n    por ano, e &agrave;s vezes mais at&eacute;, deixava-se dominar inteiramente<br \/>\n    pelo &aacute;lcool. Nessas ocasi&otilde;es, n&atilde;o s&oacute; se despojava<br \/>\n    de tudo o que possu&iacute;sse para saciar o v&iacute;cio, como se tornava<br \/>\n    brig&atilde;o e desordeiro. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch mesmo j&aacute;<br \/>\n    fora obrigado a despedi-lo por mais de uma vez, chamando-o novamente por v&aacute;rios<br \/>\n    motivos: sua honestidade, sua bondade para com os animais, e principalmente<br \/>\n    &#8212; por que n&atilde;o dizer? &#8212; por suas humildes pretens&otilde;es<br \/>\n    relativas ao sal&aacute;rio. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch pagava a Nikita<br \/>\n    n&atilde;o oitenta rublos, ordenado normal de um trabalhador como ele, mas<br \/>\n    somente a metade, e assim mesmo em pequenas parcelas e muito mais vezes em<br \/>\n    mercadorias que o armaz&eacute;m de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch lhe vendia<br \/>\n    por pre&ccedil;os exorbitantes.<\/p>\n<p>Marfa, mulher de Nikita, que no seu tempo de mo&ccedil;a fora muito bonita,<br \/>\n    era criatura afeita ao trabalho, esperta e habilidosa, e vivia em companhia<br \/>\n    de um filho adolescente e duas filhas. N&atilde;o insistia com o marido para<br \/>\n    morar com a fam&iacute;lia porque, se fazia de Nikita o que bem queria quando<br \/>\n    ele estava s&oacute;brio, tinha-lhe um medo p&acirc;nico se o via embriagado.<br \/>\n    Certo dia, ele tomou uma bebedeira em casa e, provavelmente aproveitando a<br \/>\n    oportunidade para se vingar da submiss&atilde;o dom&eacute;stica, arrebentou<br \/>\n    o ba&uacute; da mulher, tirou todas as roupas e bugigangas que l&aacute; encontrou<br \/>\n    e, a machadadas, picou-as em mil peda&ccedil;os.<\/p>\n<p>Sem nunca protestar, Nikita entregava &agrave; mulher todo o dinheiro que<br \/>\n    ganhava. Foi exatamente o que aconteceu dois dias antes da festa. Maria foi<br \/>\n    ao armaz&eacute;m de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, comprou farinha, ch&aacute;,<br \/>\n    a&ccedil;&uacute;car, meia garrafa de vodca, tr&ecirc;s rublos no total, e<br \/>\n    ainda levou cinco rublos em moedas. E agradeceu a Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    como se ele tivesse lhe prestado um grande favor, quando, sem exagero, passara<br \/>\n    a perna nela em, pelo menos, uns vinte rublos.<\/p>\n<p>&#8212; N&oacute;s n&atilde;o temos nenhum contrato, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mesmo? dizia Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch a Nikita. &#8212; Sempre que<br \/>\n    precisar de alguma coisa, venha c&aacute; ao armaz&eacute;m. Depois acertaremos<br \/>\n    as contas. Em minha casa n&atilde;o &eacute; como nas outras. Voc&ecirc; nunca<br \/>\n    ouvira: &#8220;Agora, n&atilde;o. Vamos primeiro liquidar as contas atrasadas.<br \/>\n    Temos que descontar isso e aquilo&#8230;&#8221; N&atilde;o, Nikita.<\/p>\n<p>Quem trabalha para mim tem toda a minha prote&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Falava com a veem&ecirc;ncia de quem, sinceramente, se achava o benfeitor<br \/>\n    de Nikita. muitos eram os que dependiam do seu dinheiro, a come&ccedil;ar<br \/>\n    por Nikita, e a for&ccedil;a de persuas&atilde;o que empregava era tamanha<br \/>\n    que acabou por se convencer de que, realmente, n&atilde;o explorava os empregados,<br \/>\n    mas, muito pelo contr&aacute;rio, os cumulava de benef&iacute;cios.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; claro, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    por outra coisa que dou duro no trabalho. Como se trabalhasse para meu pr&oacute;prio<br \/>\n    pai. &Eacute; claro que sei.<\/p>\n<p> Intimamente Nikita estava certo de que era enganado, mas sabia ao mesmo<br \/>\n    tempo que n&atilde;o podia largar o emprego enquanto n&atilde;o arrumasse<br \/>\n    trabalho em outro lugar e assim se sujeitava a aceitar, sem discutir, o que<br \/>\n    lhe dava Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>Agora, recebida a ordem de preparar o tren&oacute;, Nikita, jovial e diligente<br \/>\n    como sempre, se dirigiu para a cocheira, com aquele passo firme e r&aacute;pido<br \/>\n    que lhe era peculiar, embora andasse com os p&eacute;s para dentro como os<br \/>\n    gansos. Tirou de um gancho as pesadas r&eacute;deas enfeitadas de borlas e,<br \/>\n    fazendo retinir os metais do freio, foi para a baia onde se encontrava o cavalo<br \/>\n    que o amo mandara atrelar.<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute;? est&aacute; muito aborrecido, meu velho? &#8212; disse<br \/>\n    em resposta ao relincho com que o Baio o recebeu. Era um animal de m&eacute;dio<br \/>\n    porte, bem-conformado, ancas arredondadas, e, naquela hora, estava sozinho<br \/>\n    na cocheira.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, companheiro! N&atilde;o tenha pressa. Primeiro tem de beber<br \/>\n    a sua ag&uuml;inha&#8230; como se falasse com&#8230; Falava com o cavalo exatamente<br \/>\n    uma pessoa. com a aba do capote limpou cuidadosamente o lombo luzidio do animal,<br \/>\n    um lombo roli&ccedil;o cortado ao meio por uma risca pelada, enfiou-lhe o<br \/>\n    cabresto na cabe&ccedil;a, ajeitando as orelhas e a crina, e levou-o ao bebedouro.<\/p>\n<p>Assim que deixou a cocheira atapetada de esterco, o Baio manifestou sua satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    saltando e fingindo querer pregar um par de coices em Nikita, que o acompanhava<br \/>\n    correndo at&eacute; o po&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; querendo brincar comigo, n&atilde;o &eacute;, seu patife!<br \/>\n    &#8212; disse alegremente Nikita, que sabia com que prud&ecirc;ncia o Baio<br \/>\n    atirava a pata traseira, procurando apenas ro&ccedil;ar a aba sebenta do capote,<br \/>\n    costume engra&ccedil;ado do cavalo, que muito o divertia.<\/p>\n<p>O cavalo bebeu a &aacute;gua gelada, relinchou fracamente sacudindo os bei&ccedil;os<br \/>\n    grossos e ainda molhados, dos quais; deixou cair algumas gotas transparentes<br \/>\n    dentro do tanque. Depois, ficou im&oacute;vel por um instante, como mergulhado<br \/>\n    em seus pensamentos, para de s&uacute;bito, bufar estrondosamente.<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o quer beber mais, n&atilde;o &eacute; preciso fazer<br \/>\n    tanto barulho, rapaz! Mas n&atilde;o me venha depois pedir mais&#8230; disse Nikita<br \/>\n    com a maior severidade, depois do que levou o Baio para o alpendre, puxando-o<br \/>\n    pelo cabresto, enquanto o animal alegremente enchia o p&aacute;tio com os<br \/>\n    seus barulhos.<\/p>\n<p>Todos os criados estavam ausentes. Havia no P&aacute;tio apenas um estranho:<br \/>\n    O marido da cozinheira, que viera para as festas.<\/p>\n<p>&#8212; Meu querido, a que tren&oacute; devo atrelar o Baio? Ao grande ou<br \/>\n    ao<\/p>\n<p> pequeno?<\/p>\n<p>&#8212; Vai perguntar ao amo. &#8212; pediu-lhe Nikita.<\/p>\n<p>O marido da cozinheira entrou na casa principal da herdade, de s&oacute;lida<br \/>\n    constru&ccedil;&atilde;o, e logo voltou trazendo a ordem de atrelar o cavalo<br \/>\n    ao tren&oacute; menor. Nikita acabou de arrear o animal e arrastou-o para<br \/>\n    o galp&atilde;o onde se guardavam os tren&oacute;s.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o vamos no menor, meu amigo &#8212; murmurou Nikita, metendo<br \/>\n    entre os varais o inteligente animal, que fingia o tempo todo querer morder<br \/>\n    as r&eacute;deas.<\/p>\n<p>Quando tudo estava pronto, s&oacute; faltando este pediu um pouco de palha<br \/>\n    e a manta de pano de saco ao marido da cozinheira que fosse buscar.<\/p>\n<p>&#8212; A coisa marcha bem! N&atilde;o precisa se arrepiar tanto &#8212;disse<br \/>\n    Nikita acomodando no tren&oacute; a palha de aveia rec&eacute;m-batida, que<br \/>\n    acabava de lhe ser trazida. &#8212; Agora &eacute; s&oacute; estender a manta&#8230;<br \/>\n    Assim, assim&#8230; Vamos ficar otimamente instalados &#8212; e ajeitou a serapilheira<br \/>\n    em cima da palha acamada no assento. &#8212; Pronto! Tudo a preceito, meu<br \/>\n    amigo. Muito obrigado! &#8212; agradeceu ao marido da cozinheira.<\/p>\n<p>&#8212; O trabalho a dois vai mais depressa.<\/p>\n<p>E Nikita subiu ao tren&oacute;, ap&oacute;s ter desembara&ccedil;ado as r&eacute;deas<br \/>\n    de couro que terminavam numa argola, e tocou o animal, que ansiava por trotar,<br \/>\n    para o port&atilde;o principal, atrav&eacute;s do p&aacute;tio coberto de<br \/>\n    esterco gelado.<\/p>\n<p>&#8212; Tio Nikita! Tiozinho! &#8212; gritou com voz esgani&ccedil;ada um<br \/>\n    garotinho de sete anos, enfiado numa peli&ccedil;a preta, gorro de pele e<br \/>\n    botinhas novas de couro branco, que sa&iacute;ra da casa correndo. &#8212;<br \/>\n    Quer me levar? &#8212; e abotoava apressadamente a peli&ccedil;a curta.<\/p>\n<p>&#8212; Corra, meu anjinho &#8212; respondeu-lhe Nikita.<\/p>\n<p>Estacou o cavalo e ajudou o filho do patr&atilde;o a subir no tren&oacute;.<br \/>\n    O rostinho p&aacute;lido e magro do menino se iluminou de alegria. Eram mais<br \/>\n    de duas horas e fazia muito frio, pelo menos uns dez graus abaixo de zero.<br \/>\n    Metade do c&eacute;u estava coberta por uma nuvem baixa e escura. No p&aacute;tio,<br \/>\n    o ar estava calmo, mas l&aacute; fora o vento soprava, &aacute;spero, varrendo<br \/>\n    a neve amontoada no telhado do galp&atilde;o vizinho e formando redemoinhos<br \/>\n    junto &agrave; casa de banhos.<\/p>\n<p>Assim que Nikita transp&ocirc;s o port&atilde;o e parou o tren&oacute; diante<br \/>\n    da escada da entrada, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch saiu do vest&iacute;bulo,<br \/>\n    fazendo estalar, com as botas de couro forradas de feltro, o gelo que se acumulara<br \/>\n    nos degraus. Trazia um cigarro na boca e vinha muito agasalhado numa peli&ccedil;a<br \/>\n    de carneiro, ajustada por um cinto muito largo. Parou para<\/p>\n<p> saborear uma &uacute;ltima tragada e jogou a ponta do cigarro, esmagando-a<br \/>\n    com o p&eacute;. Com a fuma&ccedil;a saindo ainda atrav&eacute;s do bigode,<br \/>\n    examinou o cavalo com o rabo do olho enquanto levantava a gola da peli&ccedil;a<br \/>\n    para defender as faces vermelhas e escanhoadas do frio.<\/p>\n<p>&#8212; Vejam s&oacute; este p&acirc;ndego! Est&aacute; como quer &#8212;<br \/>\n    exclamou ao dar com o filho no tren&oacute;.<\/p>\n<p>A vodca bebida com os amigos excitara Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch e<br \/>\n    ele se sentia mais satisfeito que de costume e muito orgulhoso dos bens e<br \/>\n    do seu poderio. A presen&ccedil;a do filho, a quem na intimidade chamava sempre<br \/>\n    de &#8220;meu herdeiro&#8221;, provocou-lhe naquele momento um imenso prazer,<br \/>\n    e contemplava-o com os olhos meio fechados e com um sorriso que mostrava os<br \/>\n    dentes grandes.<\/p>\n<p>Uma mulher gr&aacute;vida, magra e l&iacute;vida , com a cabe&ccedil;a e<br \/>\n    os ombros embrulhados num xale de l&atilde; que n&atilde;o deixava ver sen&atilde;o<br \/>\n    os olhos, apareceu na porta. Era a esposa de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    Timidamente avan&ccedil;ou e aconselhou num fio de voz:<\/p>\n<p>&#8212; Achava melhor que voc&ecirc; fosse com Nikita.<\/p>\n<p>A recomenda&ccedil;&atilde;o evidentemente aborreceu Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    que deu uma cusparada para o lado, franziu o rosto e n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>&#8212; Vai levar dinheiro consigo?&#8212; prosseguiu a mulher no mesmo tom<br \/>\n    choroso. &#8212; &Eacute; bom se precaver. Olhe que o tempo tende a ficar<br \/>\n    pior.<\/p>\n<p>&#8212; Para que guia? Pensa, por acaso, que eu n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    o caminho? &#8212; retrucou ele, separando bem as s&iacute;labas, que era<br \/>\n    o seu jeito caracter&iacute;stico de falar com vendedores ou compradores.<\/p>\n<p>&#8212; Pelo amor de Deus, leve Nikita. &Eacute; um favor que me faz &#8212;<br \/>\n    insistiu ela, puxando o xale mais para os ombros.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; &eacute; pior do que sarna! Como posso lev&aacute;-la<br \/>\n    comigo?<\/p>\n<p>&#8212; Que est&aacute; dizendo, vass&iacute;lii Andr&eacute;itch? Eu estou<br \/>\n    as suas ordens &#8212; declarou Nikita, radiante. &#8212; S&oacute; &eacute;<br \/>\n    Preciso que algu&eacute;m cuide dos cavalos na minha aus&ecirc;ncia&#8230; acrescentou,<br \/>\n    virando-se para a patroa.<\/p>\n<p>&#8212; Fique descansado, meu amigo. Vou mandar Semion cuidar deles &#8212;<br \/>\n    respondeu ela.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, vou ou n&atilde;o vou, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch?<\/p>\n<p>&#8212; Fa&ccedil;a-se o gosto da patroa! Mas vai vestir qualquer coisa mais<br \/>\n    quente se quer mesmo vir comigo &#8212; disse vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    sorrindo e mostrando, com uma especial olhadela, a sebenta peli&ccedil;a de<br \/>\n    Nikita, de abas muito gastas, com um rasg&atilde;o nas costas e toda descosida<br \/>\n    debaixo dos bra&ccedil;os, provas evidentes da sua antiguidade e dos maus-tratos<br \/>\n    que<\/p>\n<p> sofrera.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute;, meu santo! D&ecirc; uma m&atilde;ozinha aqui! &Eacute;<br \/>\n    s&oacute; segurar o cavalo! &#8212; gritou Nikita para os lados do p&aacute;tio,<br \/>\n    onde estava o marido da cozinheira.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe que eu seguro! &#8212; exclamou o menino com sua voz esgani&ccedil;ada.<br \/>\n    E, tirando dos bolsos as m&atilde;ozinhas vermelhas de frio, pegou as r&eacute;deas<br \/>\n    geladas.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe l&aacute;! N&atilde;o leve muito tempo a se embonecar, ouviu?<br \/>\n    &#8212; tro&ccedil;ou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Vou num p&eacute;, volto no outro, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    meu paizinho! &#8212; garantiu Nikita correndo para a isb&aacute; reservada<br \/>\n    aos criados.<\/p>\n<p>&#8212; Arimuchka, minha adorada, me d&ecirc; depressa o meu cafet&atilde;<br \/>\n    que est&aacute; secando ao lado do fog&atilde;o. Vou viajar com o patr&atilde;o<br \/>\n    &#8212; anunciou Nikita, embarafustando pela isb&aacute; adentro e pegando<br \/>\n    o cinto que estava pendurado num prego.<\/p>\n<p>A cozinheira, que estava preparando o samovar, de pois de ter tirado uma<br \/>\n    soneca ap&oacute;s o jantar, recebeu alegremente Nikita e, contaminada pela<br \/>\n    pressa dele, apanhou, r&aacute;pida, o surrad&iacute;ssimo cafet&atilde; que<br \/>\n    pusera a secar e p&ocirc;s-se a desamass&aacute;-lo e a sacudi-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Agora, vai ficar &agrave; vontade com seu marido! &#8212; disse Nikita<br \/>\n    para ela.<\/p>\n<p> Quando se encontrava a s&oacute;s com quem quer que fosse, sempre achava<br \/>\n    uma coisa agrad&aacute;vel para dizer. Tal era o bom Nikita.<\/p>\n<p>E, tendo posto o cinto muito estreito e torcido na cintura, por cima da peli&ccedil;a,<br \/>\n    apertou-o valentemente como se quisesse que a barriga ficasse ainda mais Murcha<br \/>\n    do que naturalmente era.<\/p>\n<p>&#8212; Assim &eacute; que vai bem! &#8212; disse, n&atilde;o &agrave; cozinheira,<br \/>\n    mas ao cinto, cujas pontas enfiou para dentro. &#8212; N&atilde;o desamarrar&aacute;<br \/>\n    nunca!<\/p>\n<p>Levantou e abaixou os ombros para ter a certeza de que seus bra&ccedil;os<br \/>\n    estavam com os movimentos livres, envergou o cafet&atilde;, esticando as costas<br \/>\n    tamb&eacute;m para verificar a liberdade de a&ccedil;&atilde;o, e pegou nas<br \/>\n    malfeitas luvas de l&atilde; que estavam na prateleira.<\/p>\n<p>&#8212; Pronto! Estou em forma!<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; devia mudar as botas, Nikita Step&aacute;nitch &#8212;<br \/>\n    sugeriu a cozinheira. &#8212; As que voc&ecirc; cal&ccedil;a est&atilde;o<br \/>\n    muito estragadas.<\/p>\n<p>Nikita parou como se se lembrasse de alguma coisa:<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz&atilde;o&#8230; N&atilde;o seria nada mau&#8230; Mas vou com estas<br \/>\n    mesmo.<\/p>\n<p> Afinal, n&atilde;o iremos muito longe. &#8212; E saiu em disparada.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o ir&aacute; sentir frio, meu amigo Nikita? &#8212; perguntou<br \/>\n    a patroa, quando ele chegou perto do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que n&atilde;o. Isto aqui esquenta muito! &#8212; respondeu,<br \/>\n    levantando a palha para cobrir os p&eacute;s, e metendo por baixo dela o chicote,<br \/>\n    do qual o Baio, como bom cavalo que era, n&atilde;o precisava.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch j&aacute; estava acomodado no tren&oacute;.<br \/>\n    Suas largas costas, agasalhadas com duas peli&ccedil;as, tomavam todo o curvo<br \/>\n    encosto do assento traseiro. Nikita saltou para o tren&oacute; em movimento<br \/>\n    e se ajeitou o melhor que p&ocirc;de na parte dianteira, com uma perna para<br \/>\n    fora.<\/p>\n<p>Com os patins rangendo levemente, o tren&oacute; foi levado pelo robusto<br \/>\n    cavalo e, em breve, alcan&ccedil;ou a estrada coberta por uma camada de neve<br \/>\n    endurecida.<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo voc&ecirc; est&aacute; fazendo a&iacute;? D&ecirc;-me o<br \/>\n    chicote, Nikita! &#8212; exclamou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, visivelmente<br \/>\n    admirando o seu herdeiro, que encontrara meios de se agarrar na parte de tr&aacute;s<br \/>\n    do tren&oacute;. &#8212; Saia j&aacute; da&iacute;, menino! Volte para casa<br \/>\n    logo! Quer enlouquecer sua m&atilde;e?<\/p>\n<p>O garoto pulou para o ch&atilde;o. O Baio deu um espirro e acelerou a marcha,<br \/>\n    passando da andadura ao trote.<\/p>\n<p>Kresti, a aldeia onde morava Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, n&atilde;o<br \/>\n    tinha mais que seis casas. Quando o tren&oacute; passou pela &uacute;ltima,<br \/>\n    que era a do ferreiro, repararam que o vento era mais impetuoso do que a princ&iacute;pio<br \/>\n    julgaram.<\/p>\n<p> A estrada quase desaparecia sob a neve.<\/p>\n<p>As marcas dos patins eram apagadas pelo vento e n&atilde;o se podia distinguir<br \/>\n    a estrada, se n&atilde;o por ficar mais alta do que a plan&iacute;cie que<br \/>\n    cortava, N&atilde;o se divisava a linha do horizonte &#8212; turbilh&otilde;es<br \/>\n    de neve redemoinhavam pelos campos ocultando tudo. At&eacute; a floresta de<br \/>\n    Teli&aacute;tino, que em geral se via t&atilde;o bem, mal se deixava antever,<br \/>\n    por um instante, como uma mancha escura atrav&eacute;s da alva cortina de<br \/>\n    neve. Soprando da esquerda, o vento obstinadamente jogava para a direita a<br \/>\n    crina do Baio e a sua farta cauda, que terminava num grosso n&oacute;. A grande<br \/>\n    gola do cafet&atilde; de Nikita colava-se-lhe ao nariz e a uma das faces.<\/p>\n<p>&#8212; A neve est&aacute; danada e impede-o de mostrar o seu valor &#8212;<br \/>\n    observou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, orgulhoso do cavalo que tinha.<br \/>\n    &#8212; Fui uma vez com ele a Pachutino e fique sabendo que em meia hora me<br \/>\n    p&ocirc;s l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; O que est&aacute; dizendo? &#8212; perguntou Nikita, que n&atilde;o<br \/>\n    ouvira direito por causa da gola.<\/p>\n<p>&#8212; Estou dizendo que o cavalo me levou a Pachutino em meia hora &#8212;<br \/>\n    berrou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m nega que &eacute; um &oacute;timo cavalo &#8212;<br \/>\n    opinou Nikita.<\/p>\n<p>Durante um momento n&atilde;o trocaram palavras. Mas Vass&iacute;lii estava<br \/>\n    com vontade de falar e perguntou em voz bem alta:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; ainda pretende comprar um cavalo na primavera?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenho outro rem&eacute;dio &#8212; respondeu Nikita abaixando<br \/>\n    a gola do cafet&atilde; e se inclinando para o amo. &#8212; Meu rapaz j&aacute;<br \/>\n    est&aacute; quase um homem e &eacute; preciso que comece a trabalhar no campo.<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; assim, por que n&atilde;o compra o meu pangar&eacute;?<br \/>\n    Eu o venderei barato! &#8212; gritou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, animado<br \/>\n    com o prov&aacute;vel comprador e j&aacute; pronto, como sempre que entabulava<br \/>\n    neg&oacute;cios de animais, a lesar o mais que fosse poss&iacute;vel, pois,<br \/>\n    sendo o seu neg&oacute;cio favorito, sentia que nele as suas faculdades intelectuais<br \/>\n    mais se avivavam.<\/p>\n<p>&#8212; Talvez fosse melhor o senhor me dar quinze rublos para eu comprar<br \/>\n    um na feira de cavalos &#8212; defendeu-se Nikita, sabendo claramente que<br \/>\n    Vass&iacute;lii queria lhe impingir o pangar&eacute;, que valia na melhor<br \/>\n    das hip&oacute;teses uns sete rublos, mas que o amo avaliaria em vinte e cinco,<br \/>\n    a fim de n&atilde;o lhe pagar, depois do ajuste, nem um m&iacute;sero copeque<br \/>\n    durante uns seis meses.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um cavalo de primeira. Voc&ecirc; far&aacute; um neg&oacute;cio<br \/>\n    da China! Eu digo de consci&ecirc;ncia limpa! Brekhunov nunca prejudicou ningu&eacute;m.<br \/>\n    N&atilde;o sou como os outros, palavra de honra! Eu at&eacute; prefiro perder<br \/>\n    dinheiro a prejudicar algu&eacute;m! gritou com aquele seu jeito de lidar<br \/>\n    com compradores e vendedores. &#8212; Eu reafirmo: &eacute; um cavalo de primeira!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, &eacute; verdade &#8212; suspirou Nikita, e, vendo que o amo<br \/>\n    se calava, soltou a gola, que o vento logo empurrou contra a face e a orelha.<\/p>\n<p>Em sil&ecirc;ncio viajaram mais meia hora. Nikita sentia o g&eacute;lido<br \/>\n    vento entrar pelas mangas do agasalho. Encolhido, respirava com a boca colada<br \/>\n    &agrave;;ola que a tapava, mas n&atilde;o sentia frio no corpo.<\/p>\n<p>&#8212; O que &eacute; que voc&ecirc; acha? Vamos direto ou passamos em Karamichevo?<br \/>\n    &#8212; perguntou o amo.<\/p>\n<p>A estrada que levava a Karamichevo era melhor e mais movimentada por&eacute;m<br \/>\n    mais longa. A outra, embora mais curta, era muito m&aacute; e os marcos ou<br \/>\n    eram raros ou se achavam cobertos pela neve.<\/p>\n<p>Nikita refletiu um pouco. Depois, resolveu:<\/p>\n<p>&#8212; Por Karamichevo &eacute; mais longe, mas a estrada &eacute; mais<br \/>\n    segura.<\/p>\n<p>&#8212; Concordo, mas se seguirmos em frente s&oacute; precisamos atravessar<br \/>\n    a ravina e n&atilde;o h&aacute; perigo de errar, pois a floresta fica logo<\/p>\n<p> depois &#8212;disse Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, desejoso de tomar<br \/>\n    o caminho mais curto.<\/p>\n<p>&#8212; Como o senhor quiser &#8212; respondeu Nikita, tornando a suspender<br \/>\n    a gola.<\/p>\n<p>E foi o que fez Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. Percorridos uns quinhentos<br \/>\n    metros, tomou &agrave; esquerda, num ponto onde um galho de carvalho, com<br \/>\n    as suas &uacute;ltimas folhas secas, se agitava ao vento.<\/p>\n<p>A partir dali, o vento Passou a vir de frente, e n&atilde;o tardou a nevar.<br \/>\n    Vass&iacute;lii ia guiando o tren&oacute;; enchia as bochechas de ar e soprava<br \/>\n    os bigodes. Nikita cochilava.<\/p>\n<p>Mais de dez minutos se escoaram em sil&ecirc;ncio. De repente, Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch rompeu-o com poucas palavras. Nikita abriu os olhos: &#8212;<br \/>\n    Que &eacute; que h&aacute;?<\/p>\n<p>O amo n&atilde;o respondeu. Preocupado, curvava-se, olhava para a frente<br \/>\n    e para tr&aacute;s. o cavalo ia a passo, o p&ecirc;lo, molhado de suor, empastava-se<br \/>\n    no pesco&ccedil;o e nas Pernas.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que h&aacute;? Que &eacute; que h&aacute;? &#8212; repetiu<br \/>\n    Nikita.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que h&aacute;? Que &eacute; que h&aacute;? &#8212; arremedou<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, visivelmente agastado. &#8212; H&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o vejo mais os marcos e certamente estamos perdidos!<\/p>\n<p>&#8212; Vamos com calma. Vou dar uma olhada na estrada &#8212; e Nikita saltou<br \/>\n    do tren&oacute;, tirou o chicote de sob a palha e caminhou para a esquerda<br \/>\n    do lado em que estivera sentado.<\/p>\n<p>A neve n&atilde;o estava muito espessa, de maneira que p&ocirc;de avan&ccedil;ar<br \/>\n    sem dificuldade. Mesmo assim, em certos pontos, enterrou as pernas at&eacute;<br \/>\n    os joelhos e n&atilde;o demorou a ficar com as botas cheias de neve. Nikita<br \/>\n    sondava o solo com os p&eacute;s e com o cabo do chicote, por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    conseguiu encontrar a estrada.<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute;? &#8212; interrogou-o Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    quando Nikita voltou para junto do tren&oacute;. o lado.<\/p>\n<p>&#8212; Do lado de c&aacute; n&atilde;o encontrei. Vamos ver do outro.<\/p>\n<p>&#8212; Repare naquela mancha escura l&atilde; na frente. &Eacute; bom ver<br \/>\n    o que &eacute; &#8212; disse o amo em tom de ordem.<\/p>\n<p>Nikita caminhou na dire&ccedil;&atilde;o indicada e chegou perto da mancha<br \/>\n    escura. Tratava-se de um campo que fora lavrado no outono e cuja terra, espalhada<br \/>\n    pelo vento, escurecia a neve numa grande extens&atilde;o. Ap&oacute;s ter<\/p>\n<p> procurado a estrada pelo lado direito, Nikita sacudiu-se para fazer cair<br \/>\n    a neve que o salpicava, deu umas patadas para tirar das botas a neve que a<br \/>\n    elas se apegara, e subiu no tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; A estrada fica &agrave; direita &#8212; decidiu ele. N&oacute;s receb&iacute;amos<br \/>\n    o vento pela esquerda e agora ele est&aacute; vindo de frente. Temos, portanto,<br \/>\n    de virar para a direita.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o discutiu, e tocou para a direita.<br \/>\n    Mas nem um sinal da estrada. Continuaram avan&ccedil;ando, o vento n&atilde;o<br \/>\n    diminu&iacute;ra, nem a neve parara de tombar.<\/p>\n<p>&#8212; Estou achando que nos perdemos, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    &#8212; disse, de repente, Nikita, como se estivesse muito satisfeito com<br \/>\n    o caso. E imediatamente ajuntou, apontando para umas manchas escuras que emergiam<br \/>\n    da neve: &#8212; Que tro&ccedil;o &eacute; aquele?<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch estacou o Baio, que j&aacute; estava completamente<br \/>\n    molhado de suor e cujos flancos palpitavam ao ritmo da ofegante respira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que acha?<\/p>\n<p>&#8212; Acho que estamos nos campos de Zakharov, sem tirar, nem p&ocirc;r.<\/p>\n<p> &Eacute; no que d&aacute; a gente abandonar a estrada!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; mentira sua!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o estou mentindo, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<br \/>\n    E a pura verdade.<\/p>\n<p> o barulho do tren&oacute; estava dizendo. Acaba mos de atravessar um campo<br \/>\n    de batatas. Quer prova melhor do que aquele monte de folhas e aquelas hastes<br \/>\n    que saem da neve? Sim, estamos na fazenda de Zakharov.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me faltava mais nada! &#8212; berrou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<br \/>\n    &#8212; E que iremos fazer?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, ora, meu senhor, vamos seguir direitinho em frente e acabaremos<br \/>\n    por chegar a algum lugar. Pode ser &agrave; sede da fazenda ou &agrave; casa<br \/>\n    do capataz.<\/p>\n<p>Mais uma vez Vass&iacute;lii obedeceu. Avan&ccedil;aram durante bastante<br \/>\n    tempo, ora atravessando plan&iacute;cies sem vegeta&ccedil;&atilde;o, e onde<br \/>\n    os patins do tren&oacute; rangiam sobre torr&otilde;es de terra congelada,<br \/>\n    ora cortando os campos de cereais semeados, uns no outono, outros na primavera,<br \/>\n    e cujas hastes secas emergiam da neve e se agitavam ao sopro do vento, ora<br \/>\n    afundando na neve espessa que, na sua alvura uniforme, tudo tornava sem feitio.<\/p>\n<p>A neve ca&iacute;a do alto, e por vezes o vento a levantava do ch&atilde;o<br \/>\n    em turbilh&otilde;es. O Baio mostrava-se extremamente fatigado, o p&ecirc;lo,<br \/>\n    ensopado de suor, encrespava-se de gelo, e j&aacute; s&oacute; caminhava a<br \/>\n    passo. S&uacute;bito, pisou<\/p>\n<p> em falso e caiu numa vala ou barranco. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    tentou ret&ecirc;-lo, mas Nikita gritou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o puxe o freio! D&ecirc; mais r&eacute;dea! Upa! Upa! Meu<br \/>\n    queridinho! &#8212; e, saltando do tren&oacute;, enterrou-se, por sua vez,<br \/>\n    na neve.<\/p>\n<p>O animal reanimou-se e, num arranco, conseguiu se firmar num lugar endurecido<br \/>\n    pelo gelo. Tinham, naturalmente, ca&iacute;do num fosso.<\/p>\n<p>&#8212; Onde estamos agora? &#8212; perguntou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Logo o saberemos &#8212; teve como resposta. &#8212; Vamos tocando<br \/>\n    para diante e teremos que chegar a algum lugar.<\/p>\n<p>&#8212; Aquilo l&aacute; n&atilde;o ser&aacute; a floresta de Goriatchkino?<br \/>\n    &#8212; indagou. o amo, apontando para uma massa escura que a nevasca deixava<br \/>\n    entrever.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos para l&aacute; e veremos se &eacute; a floresta ou n&atilde;o<br \/>\n    respondeu Nikita.<\/p>\n<p> Notara ele que o vento trazia daquele lado folhas secas de pereira e deduzira<br \/>\n    que n&atilde;o podia ser uma floresta e sim um lugar habitado, mas n&atilde;o<br \/>\n    quis afirmar nada.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o haviam andado mais que trinta metros, quando distinguiram silhuetas<br \/>\n    negras de &aacute;rvores e ouviram uma esp&eacute;cie de queixume. Nikita<br \/>\n    acertara. N&atilde;o era uma floresta, mas um renque de pereiras, as quais<br \/>\n    tinham umas &uacute;ltimas folhas secas, Era claro que haviam sido plantadas<br \/>\n    ao longo de uma vala e perto de uma fazenda.<\/p>\n<p>Tendo chegado at&eacute; elas, que batidas pelo vento soltavam aquele gemido,<br \/>\n    o cavalo empinou de repente, subiu um barranco e tomou para a esquerda. Tinham<br \/>\n    encontrado a estrada.<\/p>\n<p>&#8212; C&aacute; est&aacute; ela &#8212; disse Nikita. &#8212; Mas n&atilde;o<br \/>\n    sabemos onde.<\/p>\n<p>Sem vacilar, o Baio foi pela estrada coberta de neve e n&atilde;o tinham<br \/>\n    percorrido mais que cinq&uuml;enta metros quando depararam com um celeiro,<br \/>\n    cujo telhado desaparecia sob densa capa de neve. Contornaram-no e se viram<br \/>\n    de novo fustigados de frente pelo vento e diante de um vasto monte de neve.<\/p>\n<p>Era dif&iacute;cil ver a ruazinha estreita que se abria entre duas casas.<br \/>\n    O vento &eacute; que formara aquele monte de neve bem no meio da estrada e<br \/>\n    era preciso venc&ecirc;-lo. Conseguiram transpor o obst&aacute;culo e enveredaram<br \/>\n    pela<\/p>\n<p> ruela, Perto de uma das &uacute;ltimas casas, pe&ccedil;as de roupas congeladas<br \/>\n    pendiam de uma corda e eram agitadas furiosamente pelo vento &#8212; uma camisa<br \/>\n    branca, outra vermelha, ceroulas, meias grossas e uma saia. A camisa branca,<br \/>\n    ent&atilde;o, parecia fren&eacute;tica, acenando com os bra&ccedil;os vazios.<\/p>\n<p>&#8212; Que grande pregui&ccedil;osa! Nem para um dia de festas passou a<br \/>\n    sua roupa! &#8212; condenou Nikita, mas logo acrescentou: &#8212; Mas quem<br \/>\n    sabe? Talvez a mulherzinha esteja doente.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>A entrada da aldeia ainda ventava e a estrada estava tomada pela neve, mas,<br \/>\n    &agrave; medida que avan&ccedil;avam, sentiam a temperatura mais suave e certo<br \/>\n    calor e alegria. Um c&atilde;o latiu num quintal e uma mulher, que corria<br \/>\n    Com o casaco puxado sobre a cabe&ccedil;a, parou &agrave; porta da isb&aacute;,<br \/>\n    para ver os desconhecidos. Do centro da aldeia vinha um coro de mo&ccedil;as.<\/p>\n<p>Viram que a neve era menos abundante ali e que o frio e o vento n&atilde;o<br \/>\n    se mostravam t&atilde;o fortes.<\/p>\n<p>&#8212; Estamos em Grichkino! &#8212; exclamou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Estamos sim &#8212; concordou Nikita.<\/p>\n<p>De fato, estavam em Grichkino. Depois de terem se desviado para a esquerda,<br \/>\n    cerca de dez quil&ocirc;metros, constatavam que ainda assim haviam se aproximado<br \/>\n    do t&eacute;rmino da viagem, pois Grichkino n&atilde;o distava de Goriatchkino<br \/>\n    mais de cinco quil&ocirc;metros.<\/p>\n<p>No meio da aldeia, encontraram um homem muito alto, que ia pelo meio da rua,<br \/>\n    conduzindo um cavalo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem vem l&aacute;? &#8212; gritou ele, parando. Mas, reconhecendo<br \/>\n    imediatamente Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, segurou um dos varais e, tateando,<br \/>\n    chegou-se e se sentou numa borda do tren&oacute;.<\/p>\n<p>Era Issai, campon&ecirc;s muito conhecido de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    e famoso em todo o distrito como ladr&atilde;o de cavalos. &#8212; Ent&atilde;o,<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, que &eacute; que veio fazer c&aacute; por<br \/>\n    estas paragens? &#8212; perguntou, e Nikita sentiu bem o h&aacute;lito impregnado<br \/>\n    de vodca.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos a Goriatchkino.<\/p>\n<p>&#8212; Ali, tem muita gra&ccedil;a! Como &eacute; que vieram parar aqui?<br \/>\n    Deviam ter tomado a estrada de Malakhovo.<\/p>\n<p>&#8212; Nem tudo d&aacute; certo na vida! Que se h&aacute; de fazer? respondeu<\/p>\n<p> Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, freando o Baio.<\/p>\n<p>&#8212; Bom cavalo &#8212; tornou Issai examinando o animal e, num gesto<br \/>\n    habitual, apertando o n&oacute; da cauda, que se afrouxara na caminhada. &#8212;<br \/>\n    E v&atilde;o passar a noite aqui?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, meu velho, Temos que prosseguir viagem.<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; preciso, n&atilde;o digo nada. Mas quem &eacute; o companheiro?<br \/>\n    Oh, nem mais nem menos que Nikita Step&aacute;nitch!<\/p>\n<p>&#8212; Ora, quem havia de ser? &#8212; respondeu Nikita. &#8212; E s&oacute;<br \/>\n    rogo a Deus que n&atilde;o nos percamos outra vez!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o veio como. D&ecirc;em meia-volta e sigam em frente. No<br \/>\n    fim da aldeia continuem sempre em frente. Quando chegarem &agrave; estrada,<br \/>\n    ent&atilde;o, dobrem para a direita.<\/p>\n<p>&#8212; Mas onde devemos dobrar certo? &#8212; indagou Nikita.<\/p>\n<p>&#8212; A certa altura encontrar&atilde;o umas moitas. Defronte delas est&aacute;<br \/>\n    o marco. &Eacute; um velho galho de carvalho. N&atilde;o h&aacute; como errar.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch instigou o Baio, fez a meia-volta e se foram<br \/>\n    em frente.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; poss&iacute;vel que tenham de pernoitar aqui! &#8212; gritou-lhes<br \/>\n    Issai.<\/p>\n<p>Mas Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o lhe deu resposta. Apressou<br \/>\n    mais o cavalo, achando f&aacute;cil vencer cinco quil&ocirc;metros, dois dos<br \/>\n    quais na floresta e os restantes numa estrada plana, tanto mais que o vento<br \/>\n    amainara e a neve cessara de cair. Seguiram em sentido inverso &agrave; rua<br \/>\n    que j&aacute; haviam percorrido, pintalgada de estrume fresco, e a camisa<br \/>\n    branca estava agora presa por uma manga s&oacute;, passaram pelas gemedoras<br \/>\n    pereiras e se encontraram, outra vez, em campo aberto. O vento voltara a soprar<br \/>\n    fortemente e a neve j&aacute; estava t&atilde;o alta que a estrada desaparecera,<br \/>\n    engolindo os marcos quase at&eacute; a ponta, o que tornava dif&iacute;cil<br \/>\n    distingui-los.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch apertava os olhos, inclinava a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    ora para a direita, ora para a esquerda, tentando divisar os marcos, mas afinal<br \/>\n    deixou que o Baio os levasse, mais confiante no instinto dele do que nos seus<br \/>\n    pr&oacute;prios olhos.<\/p>\n<p>E, realmente, o animal n&atilde;o se enganava, e avan&ccedil;ava, umas vezes<br \/>\n    mais pela direita, outras vezes mais pela esquerda, mas sempre obedecendo<br \/>\n    &agrave;s sinuosidades da estrada, experimentando se o solo estava firme sob<br \/>\n    as suas patas. E t&atilde;o bem se portava o Baio que, a despeito da impetuosidade<br \/>\n    do vento e da neve, que voltara a cair em abund&acirc;ncia, uma que outra<br \/>\n    vez conseguiram distinguir um marco &agrave; direita ou &agrave; esquerda.<\/p>\n<p> Decorridos uns dez minutos, perceberam em frente deles uma massa escura<br \/>\n    que se aproximava atrav&eacute;s da densa cortina de neve, que o vento impelia<br \/>\n    obliquamente. Eram viajantes que seguiam o mesmo caminho. Depressa o Baio<br \/>\n    os alcan&ccedil;ou, chegando a bater com a pata na parte traseira do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Eh! Eh! Cuidado! Mais para o lado! &#8212; gritavam os passageiros<br \/>\n    do outro tren&oacute;.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch emparelhou com o ve&iacute;culo e viu que<br \/>\n    conduzia tr&ecirc;s homens e uma mulher. Certamente voltavam para casa depois<br \/>\n    da festa na aldeia. Um dos camponeses fustigava com um galho seco a garupa<br \/>\n    do pequeno cavalo salpicado de neve. Os outros dois berravam qualquer coisa,<br \/>\n    acenando com os bra&ccedil;os, e a mulher ia muito encolhida dentro do agasalho<br \/>\n    coberto de neve, im&oacute;vel, no fundo do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; De onde s&atilde;o voc&ecirc;s? &#8212; perguntou Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; A&#8230; a&#8230; a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Estou perguntando: de onde voc&ecirc;s s&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; A&#8230; a&#8230; a&#8230; &#8212; berrava com todos os pulm&otilde;es um dos<br \/>\n    camponeses, sem que fosse poss&iacute;vel entender o que dizia.<\/p>\n<p>&#8212; Depressa! Eles querem passar na nossa frente! N&atilde;o deixemos<br \/>\n    &#8212; berrava o outro campon&ecirc;s com o m&aacute;ximo das suas for&ccedil;as<br \/>\n    e batendo furiosamente no pobre cavalinho.<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o voltando da festa, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Mais depressa, Siomka! Bata com for&ccedil;a! Toque para frente!<\/p>\n<p>Os tren&oacute;s se chocaram, estiveram quase parando, enganchados, mas se<br \/>\n    separaram, e o de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch passou &agrave; dianteira.<\/p>\n<p>O cavalinho, peludo, barrigudo, coberto de neve, empenhava suas derradeiras<br \/>\n    energias, ofegando penosamente.<\/p>\n<p>Em v&atilde;o se esfor&ccedil;ava para escapar &agrave;s pancadas que levava<br \/>\n    e corria o quanto podia, enterrando as pernas curtas na neve profunda e atirando-<br \/>\n    a para tr&aacute;s. Quando os tren&oacute;s se emparelharam, durante alguns<br \/>\n    segundos, Nikita sentira, na altura do ombro, o focinho do cavalinho, que<br \/>\n    tinha o bei&ccedil;o inferior entrado como o dos peixes, com as narinas dilatadas<br \/>\n    e as orelhas murchas de pavor. Mas, logo, ficara para tr&aacute;s.<\/p>\n<p>&#8212; Veja s&oacute; o que o vinho faz! &#8212; comentou Nikita. V&atilde;o<br \/>\n    rebentar o cavalinho, coitado! S&atilde;o uns verdadeiros selvagens!<\/p>\n<p>Ainda se ouviu, durante alguns momentos, o resfolegar do animal e a gritaria<br \/>\n    dos &eacute;brios. Mas foram diminuindo, diminuindo, at&eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    se ouvia mais que o assobiar do vento e o ranger dos patins.<\/p>\n<p> O encontro alegrara Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, aumentara a confian&ccedil;a<br \/>\n    em si mesmo e, j&aacute; sem se importar com os marcos da estrada, deixou<br \/>\n    tudo ao instinto do Baio, for&ccedil;ando-o a andar mais depressa.<\/p>\n<p>Nikita nada podia fazer. E, como de costume, sempre que se via relegado a<br \/>\n    um segundo plano, cochilava, procurando descansar um pouco. Repentinamente,<br \/>\n    o cavalo estacou e quase Nikita era jogado fora do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Estamos perdidos outra vez! &#8212; exclamou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga!<\/p>\n<p>&#8212; Digo. N&atilde;o vejo mais os marcos. Na certa n&oacute;s nos afastamos<br \/>\n    da estrada novamente,<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; preciso procur&aacute;-la outra vez &#8212;<br \/>\n    respondeu simplesmente Nikita.<\/p>\n<p>E se erguendo, como da vez anterior, p&ocirc;s-se a caminhar na neve com<br \/>\n    seu andar l&eacute;pido, os p&eacute;s virados para dentro. Vasculhou as redondezas<br \/>\n    atentamente, ora desaparecendo na bruma, ora reaparecendo de chofre para de<br \/>\n    novo sumir&#8230; Afinal, voltou ao tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Por aqui perto posso garantir que a estrada n&atilde;o passa. Talvez<br \/>\n    fique um pouco mais adiante &#8212; disse, subindo no ve&iacute;culo.<\/p>\n<p>Escurecia. A nevasca n&atilde;o crescera de intensidade, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o abrandara.<\/p>\n<p>&#8212; Se ao menos pud&eacute;ssemos ouvir aqueles camponeses &#8212; lamentou<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Eles n&atilde;o nos alcan&ccedil;aram mais. O cavalinho n&atilde;o<br \/>\n    ajudou. Mas talvez tenhamos nos afastado bastante da estrada. Ou quem sabe<br \/>\n    se eles tamb&eacute;m se extraviaram?<\/p>\n<p>&#8212; Que rumo tomaremos agora? &#8212; indagou o amo.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos deixar o Baio agir por sua conta. Tenho certeza que nos livrar&aacute;<br \/>\n    desta esparrela. Passe-me as r&eacute;deas.<\/p>\n<p>Com a maior satisfa&ccedil;&atilde;o, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch passou-as<br \/>\n    para as m&atilde;os de Nikita, pois come&ccedil;ava a sentir as suas muito<br \/>\n    frias, n&atilde;o obstante as grossas luvas de l&atilde;. Nikita contentou-se<br \/>\n    em segur&aacute;-las, permitindo que seu cavalo favorito as guiasse com a<br \/>\n    sua intelig&ecirc;ncia. E n&atilde;o demorou que o pobre animal, empinando<br \/>\n    uma orelha e depois a outra, desse umas voltas e depois arrancasse.<\/p>\n<p>&#8212; Esse bicho s&oacute; falta falar! &#8212; exclamou Nikita. Veja como<br \/>\n    &eacute; sabido. Vamos! Vamos! Muito bem!<\/p>\n<p> O vento, agora, vinha pelas costas e minorava a sensa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    frio.<\/p>\n<p>&#8212; Animal inteligente est&aacute; aqui! &#8212; exultava Nikita. O pequeno<br \/>\n    quirguiz &eacute; forte, mas est&uacute;pido como ele s&oacute;! O Baio n&atilde;o!<br \/>\n    &Eacute; outra coisa&#8230; Preste aten&ccedil;&atilde;o nas orelhas dele. N&atilde;o<br \/>\n    precisa de tel&eacute;grafo. Ouve tudo quanto se passa em volta num raio de<br \/>\n    um quil&ocirc;metro.<\/p>\n<p>Dito e feito. N&atilde;o havia passado meia hora e eis que divisaram, bem<br \/>\n    diante do nariz, qualquer coisa escura &#8212; uma floresta ou uma aldeia<br \/>\n    &#8212; e &agrave; direita os marcos da estrada.<\/p>\n<p>&#8212; Com a breca, estamos outra vez em Grichkino! bradou Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>Pura verdade. &Agrave; esquerda surgira o mesmo celeiro com o telhado coberto<br \/>\n    de neve e, mais al&eacute;m, a corda com as roupas dependuradas &#8212; as<br \/>\n    camisas e as ceroulas batidas desesperadamente pela ventania.<\/p>\n<p>Enveredaram pela conhecida ruazinha e novamente a atmosfera era suave, mais<br \/>\n    quente e mais alegre. Mais uma vez passaram na ruela pintalgada de estrume<br \/>\n    fresco, tornaram a ouvir as vozes, os cantos, os latidos dos c&atilde;es.<br \/>\n    A noite descia e nas isb&aacute;s iam acendendo as luzes.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch mandou parar o tren&oacute; diante da entrada.<br \/>\n    Encaminharam-se para uma janela iluminada de um casar&atilde;o de tijolos,<br \/>\n    e a claridade que vinha de l&aacute; fazia cintilar os flocos de neve ao cair.<br \/>\n    Nikita bateu no vidro com o cabo do chicote.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;? &#8212; perguntou algu&eacute;m l&aacute; dentro<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o os Brekhunov de Kresti, meu bom senhor. Fa&ccedil;a o<br \/>\n    favor de abrir a porta &#8212; respondeu Nikita.<\/p>\n<p>vi-se da janela e, no fim de dois minutos, Ou<\/p>\n<p>Afastaram o na porta da rua. ram o complicado barulho &#8211; Em seguida, houve<br \/>\n    o ranger do ferrolho de um cadeado, escorando a porta externa, que o vento<br \/>\n    teimava em fechar, e apareceu um velho campon&ecirc;s de avantajada estatura<br \/>\n    e barba grisalha, com uma camisa branca e unia curta peli&ccedil;a atirada<br \/>\n    rios Ofribros, acompanhado de um mo&ccedil;o de camisa vermelha e botas de<br \/>\n    couro.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; &eacute; mesmo Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch? &#8212;<br \/>\n    perguntou o velho.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, em carne e osso. imagine que nos perdemos!<\/p>\n<p>Andr&eacute;itch. &#8212; Pretend&iacute;amos ir a Goriatchkino e viemos<br \/>\n    parar aqui.<\/p>\n<p> &#8212; explicava Vass&iacute;lii. Tentamos outra vez e novamente voltamos<br \/>\n    sem querer!<\/p>\n<p> &#8212; Vejam s&oacute;! riu o velho, e, virando-se para o rapaz de camisa<br \/>\n    vermelha, ordenou: &#8212; Potruchka, abra o port&atilde;o dos carros.<\/p>\n<p>&#8212; Num instante &#8212; respondeu o mo&ccedil;o alegremente, e saiu<br \/>\n    em disparada. &#8212; meu amigo<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&oacute;s n&atilde;o vamos pernoitar aqui, declarou Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Mas onde v&atilde;o se meter? Est&aacute; muito escuro. &Eacute;<br \/>\n    melhor que fiquem!<\/p>\n<p>&#8212; Bem quisera eu. Mas temos que prosseguir viagem. &Eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    ficar, sabe? Neg&oacute;cios.<\/p>\n<p>&#8212; Ao menos entrem para se aquecer um pouco. Chegaram exatamente na<br \/>\n    hora do sarnovar.<\/p>\n<p>&#8212; Eu aceito sim &#8212;, respondeu Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<br \/>\n    &#8212; A noite n&atilde;o vai ficar mais escura do que est&aacute; e quando<br \/>\n    vier a lua, enxergaremos melhor o caminho. O que acha voc&ecirc;, Nikita,<br \/>\n    se entrarmos para esquentar os ossos?<\/p>\n<p>&#8212; Como n&atilde;o? &Eacute; coisa que n&atilde;o se recusa &#8212;<br \/>\n    replicou Nikita, que sentia todo o corpo enregelado.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch entrou. Petruchka abrira o port&atilde;o<br \/>\n    e Nikita conduziu o tren&oacute; para o p&aacute;tio, metendo o Baio no galp&atilde;o,<br \/>\n    cujo piso estava coberto de estrume. As galinhas e o galo, que ia se achavam<br \/>\n    empoleirados, n&atilde;o gostaram da invas&atilde;o e se puseram a cacarejar<br \/>\n    e a se remexer. Assustadas, as ovelhas corriam de um lado para o outro, batendo<br \/>\n    ruidosamente com os cascos no ch&atilde;o gelado. o cachorro recebeu Os intrusos<br \/>\n    com latidos de medo e de raiva.<\/p>\n<p>Nikita gastou palavras com todos os animais &#8212; Pediu desculpas &agrave;s<br \/>\n    galinhas, jurando n&atilde;o as incomodar, ralhou com as ovelhas por se amedrontarem<br \/>\n    sem motivo; e, enquanto amarrava o Baio, n&atilde;o parou de pedir ao cachorro<br \/>\n    que se mantivesse calmo.<\/p>\n<p>&#8212; Aqui estou como quero &#8212; disse, sacudindo a neve que se acumulara<br \/>\n    na roupa. E virando-se para o cachorro:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; sabe latir, hem! Mas chega, meu parvo! J&aacute; passou<br \/>\n    da conta. N&atilde;o somos ladr&otilde;es, n&atilde;o. Est&aacute; se cansando<br \/>\n    &agrave; toa.<\/p>\n<p>&#8212; Estes s&atilde;o Os tr&ecirc;s conselheiros da casa, conforme est&aacute;<br \/>\n    na hist&oacute;ria &#8212; disse o mo&ccedil;o, arrastando para dentro do<br \/>\n    galp&atilde;o o tren&oacute; que ficara de fora.<\/p>\n<p>&#8212; Que conselheiros? &#8212; quis saber Nikita.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que vem escrito no livro de Paulsen &#8212; explicou o<br \/>\n    outro com um sorriso. &#8212; o ladr&atilde;o chega, de mansinho, perto da<br \/>\n    casa e o c&atilde;o<\/p>\n<p> ladra; isso quer dizer: n&atilde;o fique a&iacute; como um bobo, preste<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o. O galo canta e &eacute; como quem diz: levante-se.<br \/>\n    O gato se lava; isso significa: teremos visita, prepare tudo para receb&ecirc;-la<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p>Petruchka sabia ler e escrever e conhecia quase de cor o livro de Paulsen,<br \/>\n    o &uacute;nico que possu&iacute;a. E quando abusava um pouco do copo, como<br \/>\n    acontecia naquele dia, gostava de citar certas frases dele, que lhe pareciam<br \/>\n    ajustadas &agrave;s circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu rapaz. &Eacute; isso mesmo &#8212; concordou Nikita.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que est&aacute; com muito frio, n&atilde;o est&aacute;, tiozinho?<br \/>\n    &#8212; tornou Petruchka.<\/p>\n<p>&#8212; Sim. Estou gelado.<\/p>\n<p>Atravessaram o p&aacute;tio e entraram em casa.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch parara numa das casas mais ricas da aldeia.<br \/>\n    Aquela fam&iacute;lia possu&iacute;a cinco jeiras de terra cultiva das e ainda<br \/>\n    arrendava algumas. Tinha seis cavalos na estrebaria, tr&ecirc;s vacas, duas<br \/>\n    novilhas e umas vinte ovelhas.<\/p>\n<p>Compunha-se de vinte e duas pessoas: quatro filhos casados, seis netos, dos<br \/>\n    quais Petruchka era o &uacute;nico casado, dois bisnetos, tr&ecirc;s &oacute;rf&atilde;os<br \/>\n    e quatro noras com os seus filhos.<\/p>\n<p>Era uma dessas raras fam&iacute;lias alde&atilde;s que n&atilde;o se desagregara<br \/>\n    e que, por tal raz&atilde;o, n&atilde;o efetuara a partilha de seus bens;<br \/>\n    por&eacute;m a disc&oacute;rdia j&aacute; surgira entre as mulheres, como<br \/>\n    &eacute; do costume, e ia surdamente se agravando, de sorte que seria inevit&aacute;vel<br \/>\n    uma pr&oacute;xima partilha. Dois dos filhos trabalhavam em Moscou como carregadores<br \/>\n    de &aacute;gua e um terceiro era soldado. Naquela ocasi&atilde;o viviam em<br \/>\n    casa: o velho, a mulher, o primog&ecirc;nito, que viera de Moscou para a festa<br \/>\n    da aldeia, o segundo filho, que administrava a propriedade, todas as mulheres<br \/>\n    e seus filhos e ainda um vizinho e compadre, que ali estava hospedado.<\/p>\n<p>Sobre a mesa pendia uni lampi&atilde;o que aclarava cruamente a lou&ccedil;a<br \/>\n    do ch&aacute; e uma garrafa de vodca, pratos de salgados e bolos e estendia<br \/>\n    a luz &agrave;s paredes de tijolos e o canto devoto, onde estavam os &iacute;cones.<\/p>\n<p>Trazendo no corpo s&oacute; a peli&ccedil;a negra, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    ocupava na mesa o lugar de honra. Mordendo o bigode, ainda com tra&ccedil;os<br \/>\n    de neve, repassava os olhos saltados e frios de gavi&atilde;o pelas paredes<br \/>\n    e pelas<\/p>\n<p> pessoas. Al&eacute;m dele, encontravam-se na mesa o velho de barbas grisalhas,<br \/>\n    e que era completamente calvo, com uma camisa de linho branco tecido em casa,<br \/>\n    o primog&ecirc;nito vindo de Moscou, homem de robusta complei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vestindo uma camisa de algod&atilde;o fino, o filho que dirigia a propriedade,<br \/>\n    tamb&eacute;m espada&uacute;do, e o vizinho, um campon&ecirc;s magro e ruivo.<\/p>\n<p>Comidos e bebidos, os homens se dispuseram a saborear o ch&aacute;. O samovar<br \/>\n    fervia ruidosamente. junto ao fog&atilde;o, dormiam crian&ccedil;as, e, num<br \/>\n    banco encostado &agrave; parede, uma mulher embalava um ber&ccedil;o com o<br \/>\n    p&eacute;. A dona da casa, com o rosto todo cortado pelas rugas da velhice<br \/>\n    e que lhe marcavam at&eacute; mesmo os l&aacute;bios, atendia polidamente<br \/>\n    o visitante. E, no momento em que Nikita entrou na sala, estava ela enchendo<br \/>\n    um grande copo de vodca, que ofereceu a Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch com<br \/>\n    as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o recuse, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, Beba &agrave;<br \/>\n    nossa sa&uacute;de.<\/p>\n<p>Ao ver o l&iacute;quido claro e sentindo-lhe o cheiro, Nikita, que morria<br \/>\n    de frio e cansa&ccedil;o, ficou profundamente perturbado. Seu rosto contraiu-se.<br \/>\n    Sacudiu o gorro e o cafet&atilde; e, como se n&atilde;o houvesse ningu&eacute;m<br \/>\n    na sala, virou-se para o lado dos &iacute;cones, persignando-se tr&ecirc;s<br \/>\n    vezes. S&oacute;, ent&atilde;o, deu aten&ccedil;&atilde;o aos que estavam<br \/>\n    na mesa. Cumprimentou primeiramente o velho, depois os convivas e, por &uacute;ltimo,<br \/>\n    as mulheres que se achavam junto ao fog&atilde;o. E, ap&oacute;s desejar um<br \/>\n    geral<\/p>\n<p>&#8220;Boas Festas&#8221;, p&ocirc;s-se a tirar o cafet&atilde; sem olhar<br \/>\n    para a mesa.<\/p>\n<p>&#8212; Deve estar roxo de frio, tiozinho! &#8212; comentou o primog&ecirc;nito,<br \/>\n    vendo que as sobrancelhas e as barbas de Nikita estavam salpicadas de neve.<\/p>\n<p>Despido o cafet&atilde;, Nikita sacudiu-o mais uma vez, pendurou-o num prego<br \/>\n    perto do fog&atilde;o e se encaminhou para a mesa. Foi um momento dif&iacute;cil<br \/>\n    para ele: por um triz n&atilde;o pega o copo para emborcar de uma talagada<br \/>\n    o l&iacute;quido claro e cheiroso. Mas deitou um olhar a Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    lembrou-se da promessa que fizera, das botas novas que vendera para beber,<br \/>\n    do filho a quem prometera comprar um cavalo logo que chegasse a primavera<br \/>\n    e, com um longo suspiro, resignou-se a ficar com a goela seca.<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado. N&atilde;o bebo &#8212; disse, franzindo as sobrancelhas.<\/p>\n<p> E foi se sentar num banco perto da janela.<\/p>\n<p>&#8212; Mas por qu&ecirc;? &#8212; interrogou o primog&ecirc;nito.<\/p>\n<p>&#8212; Porque n&atilde;o bebo, nada mais &#8212; respondeu sem levantar<br \/>\n    os olhos. E come&ccedil;ou a cofiar as barbas e os ralos bigodes, livrando-os<br \/>\n    dos pedacinhos de gelo que se haviam acumulado neles.<\/p>\n<p> &#8212; A bebida n&atilde;o faz bem a ele &#8212; esclareceu Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch, mordendo um bolo e pegando no copo para mais uma golada<br \/>\n    de vodca.<\/p>\n<p>&#8212; Se &eacute; assim, tomar&aacute; ch&aacute; &#8212; disse a boa dona<br \/>\n    da casa.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; deve estar gelado, criatura. &#8212; E virou-se para as<br \/>\n    mulheres: &#8212; Como &eacute;? Que esperam para nos passar o samovar?<\/p>\n<p>&#8212; O ch&aacute; j&aacute; est&aacute; pronto &#8212; respondeu uma das<br \/>\n    noras, que, limpando com um pano o samovar fumegante, levantou-o a custo e<br \/>\n    colocou-o pesadamente em cima da mesa.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch come&ccedil;ou a relatar como haviam se<br \/>\n    perdido e dado, por duas vezes, com os costados ali. Pormenorizou tudo quanto<br \/>\n    acontecera na procura do rumo certo e enfatizou o encontro com o tren&oacute;<br \/>\n    carregado de camponeses b&ecirc;bados. O velho se impressionou muito com o<br \/>\n    extravio, explicou onde e por que acontecera, esclareceu quem eram os indiv&iacute;duos<br \/>\n    embriagados e para que lugar deviam ter ido.<\/p>\n<p>&#8212; Para se ir a Moltchanovka &eacute; muito simples. Nem uma crian&ccedil;a<br \/>\n    se engana no caminho. Basta virar quando se chega ao primeiro bosque.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o certo &eacute; que se enganaram &#8212; ponderou o vizinho.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o ser&aacute; melhor dormir aqui? Resolvam. Num instantinho<br \/>\n    arrumaremos camas &#8212; disse a velha.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, ser&aacute; muito melhor. Amanh&atilde;, bem cedinho, continuariam<br \/>\n    a viagem &#8212; apoiou o velho.<\/p>\n<p>&#8212; Imposs&iacute;vel, meu caro. Tenho neg&oacute;cios Urgentes retrucou<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. &#8212; Aquilo que a gente pode perder numa<br \/>\n    hora, &agrave;s vezes nem em um ano pode recuperar acrescentou, ao se lembrar<br \/>\n    da floresta e dos negociantes que n&atilde;o trepidariam em lhe dar uma rasteira.<br \/>\n    E, voltando-se para Nikita: &#8212; Havemos de chegar l&aacute;, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; mesmo?<\/p>\n<p>Nikita n&atilde;o respondeu logo, fingindo estar entretido com as barbas<br \/>\n    e os bigodes, mas, por fim, murmurou em tom aborrecido:<\/p>\n<p>&#8212; Desde que n&atilde;o nos percamos outra vez&#8230;<\/p>\n<p>Estava chateado porque sentia uma grande vontade de beber vodca. O ch&aacute;<br \/>\n    poderia atenu&aacute;-la, mas ainda n&atilde;o lhe haviam oferecido.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; preciso somente ficar atento &agrave; curva. Depois n&atilde;o<br \/>\n    haver&aacute; como errar. A floresta fica logo adiante.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor &eacute; quem sabe, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. Por<br \/>\n    mim, estou pronto &#8212; disse Nikita, recebendo o copo de ch&aacute;, que<br \/>\n    finalmente lhe estendiam.<\/p>\n<p>&#8212; Pois est&aacute; feito. Bebamos o ch&aacute; e depois vamos em frente!<\/p>\n<p> Nikita nada disse. Contentou-se em balan&ccedil;ar a cabe&ccedil;a, derramar<br \/>\n    o ch&aacute; num pires e esfregar as rudes m&atilde;os endurecidas no vapor<br \/>\n    que se desprendia, para aquec&ecirc;-las. Depois, levando &agrave; boca um<br \/>\n    torr&atilde;ozinho de a&ccedil;&uacute;car, saudou o velho e a velha dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; &Agrave; sua sa&uacute;de! &#8212; e ingeriu duma vez o ch&aacute;<br \/>\n    quase fervendo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o seria mau que algu&eacute;m nos levasse at&eacute; a curva<br \/>\n    &#8212; sugeriu Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o? Petruchka atrelar&aacute; um tren&oacute; e os<br \/>\n    guiar&aacute; at&eacute; l&aacute; &#8212; disse o primog&ecirc;nito.<\/p>\n<p>&#8212; E um grande favor que me presta, amigo. Nem sei como agradec&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tem nada que agradecer, meu amigo. Fazemos isso de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; disse a velha.<\/p>\n<p>O primog&ecirc;nito ordenou:<\/p>\n<p>&#8212; Petruchi&ccedil;a, atrele a &eacute;gua.<\/p>\n<p>&#8212; E para j&aacute;! &#8212; respondeu Petruchka sorrindo, e, tendo<br \/>\n    apanhado o gorro que estava pendurado num prego, correu para executar o mandado.<\/p>\n<p>Enquanto Petruchka preparava o tren&oacute;, a conversa, interrompida pela<br \/>\n    chegada de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, foi reencetada. O velho se queixava<br \/>\n    ao vizinho de que seu terceiro filho n&atilde;o lhe mandara nada de festas<br \/>\n    e presenteara a mulher apenas com um len&ccedil;o franc&ecirc;s. E concluiu:<\/p>\n<p>&#8212; Os mo&ccedil;os n&atilde;o respeitam mais nada.<\/p>\n<p>&#8212; Tem inteira raz&atilde;o! N&atilde;o se pode mais com eles. T&ecirc;m<br \/>\n    a cabe&ccedil;a cheia de coisas! Veja o Diemotchikin. Quebrou o bra&ccedil;o<br \/>\n    do pai! &Eacute; uma prova da falta de respeito que t&ecirc;m pelos mais velhos.<\/p>\n<p>Nikita ouvia tudo atentamente, observando a fisionomia dos que falavam. Teria<br \/>\n    prazer em participar da conversa, por&eacute;m, por demais ocupado com o seu<br \/>\n    ch&aacute;, restringia-se a assentir com a cabe&ccedil;a. Esvaziava um copo<br \/>\n    atr&aacute;s de outro e ia se sentindo melhor &agrave; medida que se aquecia.<\/p>\n<p> A conversa&ccedil;&atilde;o voltava ao tema principal. Era evidente que<br \/>\n    n&atilde;o falavam do caso em geral, mas precisamente do que acontecia na<br \/>\n    fam&iacute;lia. O segundo filho, calado e carrancudo, sentado junto do pai,<br \/>\n    andava a exigir que se promovesse logo a divis&atilde;o dos bens. Era uma<br \/>\n    quest&atilde;o que aborrecia todos da fam&iacute;lia, mas n&atilde;o achavam<br \/>\n    conveniente discutir assunto t&atilde;o particular na presen&ccedil;a de estranhos,<br \/>\n    Contudo, o velho n&atilde;o conseguiu mais se conter e, entre l&aacute;grimas,<br \/>\n    declarou que, enquanto vivesse, n&atilde;o faria partilha nenhuma, pois, gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, desfrutavam<\/p>\n<p> grande fartura e, se fossem dividir o que tinham, acabariam pedindo esmolas<br \/>\n    pelas portas alheias.<\/p>\n<p>&#8212; Foi exatamente o que aconteceu com os Matv&eacute;iev &#8212; lembrou<br \/>\n    o vizinho. &#8212; Quando unidos, nada lhes faltava. Depois da partilha s&atilde;o<br \/>\n    uns mendigos.<\/p>\n<p>Este n&atilde;o respondeu e fez-se um constrangedor sil&ecirc;ncio, quebrado<br \/>\n    por Petruchka, que, tendo atrelado a &eacute;gua, voltara e ficara escutando<br \/>\n    a conversa com um sorriso nos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>&#8212; No livro de Paulsen h&aacute; uma f&aacute;bula sobre um caso parecido.<br \/>\n    Um pai desafiou os filhos a quebrarem um feixe de vimes. Nenhum deles conseguiu.<br \/>\n    Ent&atilde;o o pai, separando as hastes, foi partindo uma a uma e num instantinho<br \/>\n    o feixe estava quebrado. &#8212; Com um sorriso maior, arrematou: &#8212;<br \/>\n    E um caso parecido! &#8212; E, logo, virou-se para os visitantes: Est&aacute;<br \/>\n    tudo pronto para a partida.<\/p>\n<p>&#8212; Como, est&aacute; tudo pronto? &oacute;timo! Ent&atilde;o &eacute;<br \/>\n    marchar!<\/p>\n<p>&#8212; exclamou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. &#8212; E quer um bom<br \/>\n    conselho, vovozinho? N&atilde;o fa&ccedil;a partilha nenhuma. Foi voc&ecirc;<br \/>\n    quem juntou tudo o que tem, n&atilde;o foi? Pois, ent&atilde;o, &eacute; o<br \/>\n    &uacute;nico dono de tudo. Procure o juiz de paz e ele dir&aacute; o que deve<br \/>\n    ser feito.<\/p>\n<p>&#8212; Meu filho cria tantas complica&ccedil;&otilde;es, tantas &#8212;<br \/>\n    falou o velho com voz chorosa &#8212; que a gente n&atilde;o sabe o que h&aacute;<br \/>\n    de fazer. Parece que &eacute; movido pelo diabo!<\/p>\n<p>Tendo terminado o quinto copo de ch&aacute;, Nikita n&atilde;o o emborcou<br \/>\n    sobre o pires; colocou-o bem &agrave; vista na esperan&ccedil;a de que o enchessem<br \/>\n    de novo. Mas o samovar j&aacute; estava vazio e a dona da casa n&atilde;o<br \/>\n    lhe ofereceu mais nada, e, al&eacute;m disso, o amo j&aacute; come&ccedil;ava<br \/>\n    a se aprontar. N&atilde;o havia outro rem&eacute;dio se n&atilde;o se conformar<br \/>\n    e Nikita levantou-se, recolocou no a&ccedil;ucareiro o torr&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car<br \/>\n    que roera de todos os lados, enxugou com a aba do cafet&atilde; o suor que<br \/>\n    escorria do rosto e vestiu a peli&ccedil;a. Pronto, suspirou profundamente,<br \/>\n    agradeceu aos donos da casa pela hospitalidade, cumprimentou todos e saiu<br \/>\n    da sala iluminada e aquecida para o vest&iacute;bulo sombrio, frio e coberto<br \/>\n    de neve, onde o vento uivando penetrava pelas frestas da porta e das paredes.<br \/>\n    E desceu para o p&aacute;tio escuro como breu.<\/p>\n<p>Petruchka, enfiado numa peli&ccedil;a, estava de p&eacute; ao lado da &eacute;gua,<br \/>\n    no meio do p&aacute;tio, e recebeu-o, sorrindo, com uns versos do livro de<br \/>\n    Paulsen:<\/p>\n<p>&#8220;A tempestade escurece o c&eacute;u<\/p>\n<p>Levantando turbilh&otilde;es de neve,<\/p>\n<p> E ora uiva como uma fera,<\/p>\n<p>ora chora como uma crian&ccedil;a&#8221;.<\/p>\n<p>Nikita aprovava, balan&ccedil;ando a cabe&ccedil;a, enquanto desamarrava<br \/>\n    as r&eacute;deas. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch com uma o velho veio acompanhar<br \/>\n    no vest&iacute;bulo para que os lanterna na m&atilde;o. Quis pous&aacute;-la<br \/>\n    viajantes pudessem enxergar melhor, por&eacute;m, a ventania apagou-a logo,<br \/>\n    Era patente que a nevasca estava mais forte do que antes. sou vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8220;Que tempo desgra&ccedil;ado!&#8221;, pensou.<\/p>\n<p>Talvez fosse mais prudente pernoitarem ali. Mas os neg&oacute;cios? N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o era poss&iacute;vel! Demais, tudo j&aacute; estava pronto para<br \/>\n    a partida, a &eacute;gua atrelada&#8230; Haviam de se safar daquela. &#8220;Deus<br \/>\n    &eacute; grande&#8221;<\/p>\n<p>O velho tamb&eacute;m achava perigosa a viagem com aquele tempo. Melhor fariam<br \/>\n    se ficassem. Conselhos tinha dado, sem que lhe dessem ouvidos, achou in&uacute;til<br \/>\n    insistir mais e pensou: &#8220;Talvez a velhice esteja me pondo medroso. N&atilde;o<br \/>\n    vai acontecer nada de mau. E, se eles se v&atilde;o, poderemos dormir mais<br \/>\n    cedo, sem amola&ccedil;&otilde;es&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Quanto a Petruchka, a id&eacute;ia do perigo n&atilde;o lhe passava pela<br \/>\n    cabe&ccedil;a: conhecia o caminho como a palma das m&atilde;os!<\/p>\n<p>E, al&eacute;m disso, os versos que recitara incutiam-lhe mais coragem, pois<br \/>\n    descreviam exatamente o que ele estava vendo com os seus pr&oacute;prios olhos.<\/p>\n<p>E Nikita, conquanto n&atilde;o tivesse a m&iacute;nima vontade de partir,<br \/>\n    desde muito estava habituado a n&atilde;o ter vontade e a obedecer &agrave;<br \/>\n    dos outros. Assim, nada impediu que prosseguissem viagem.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p>As apalpadelas na escurid&atilde;o, pois a lua ainda n&atilde;o aparecera,<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch acomodou-se no tren&oacute; e tomou as r&eacute;deas.<\/p>\n<p>&#8212; V&aacute; na frente &#8212; pediu a Petruchka.<\/p>\n<p>O mo&ccedil;o, ajoelhando-se no tren&oacute;, que era baixo, largo e sem<br \/>\n    assento, tocou a &eacute;gua. O Baio, que se pusera a relinchar com a presen&ccedil;a<br \/>\n    da &eacute;gua, lan&ccedil;ou-se em seu encal&ccedil;o. E os dois tren&oacute;s<br \/>\n    se foram pela rua afora.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch e Nikita iam pelo mesmo caminho que os<\/p>\n<p> trouxera. Tornaram a passar pela casa onde as roupas na corda, inteiramente<br \/>\n    congeladas, rangiam batidas pelo vento sem que mais pudessem ser vistas na<br \/>\n    escurid&atilde;o; tornaram a passar diante do celeiro, que quase desaparecera<br \/>\n    sob a neve, e pelas pereiras, que, vergando sob as rajadas do vento, gemiam<br \/>\n    mais que nunca, e, finalmente, entraram, mais uma vez, num verdadeiro mar<br \/>\n    de neve, cujas enfurecidas ondas os assaltavam por todos os lados.<\/p>\n<p>A ventania era t&atilde;o poderosa que, quando os pegava de lado, fazia o<br \/>\n    tren&oacute; se inclinar e empurrar o cavalo para o lado contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>Petruchka, na dianteira, estimulava a bela &eacute;gua com berros estridentes<br \/>\n    e o Baio tudo fazia para alcan&ccedil;&aacute;-la.<\/p>\n<p>Assim j&aacute; haviam andado uns dez minutos, quando Petruchka voltou-se<br \/>\n    e gritou-lhes algumas palavras, que nem Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch nem<br \/>\n    Nikita conseguiram compreender por causa do vento. Mas perceberam que tinham<br \/>\n    chegado &agrave; falada curva. Realmente, Petruchka voltava pela direita e<br \/>\n    sentiram que o vento, at&eacute; ali os fustigando de lado, vinha bater- lhes<br \/>\n    em cheio na cara.<\/p>\n<p>Apesar da densa neve, entreviram, &agrave; direita, uma mancha negra &#8212;<br \/>\n    era o mencionado bosque.<\/p>\n<p>&#8212; Que Deus os leve!<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado, Petruchka!<\/p>\n<p>&#8212; &#8220;A tempestade escurece o c&eacute;u!&#8221; &#8212; declamou<br \/>\n    Petruchka pela &uacute;ltima vez.<\/p>\n<p>&#8212; Este camarada tem mania de dizer versos! &#8212; comentou Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch, e bateu de leve com as r&eacute;deas nas ancas do Baio.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um bom rapaz. Um verdadeiro campon&ecirc;s &#8212; disse<br \/>\n    Nikita.<\/p>\n<p>E avan&ccedil;aram rapidamente.<\/p>\n<p>Enroscado na peli&ccedil;a, a cabe&ccedil;a t&atilde;o enterrada nos ombros<br \/>\n    que a barba lhe espetava o pesco&ccedil;o, Nikita guardava absoluto sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    a fim de n&atilde;o perder nem um pouco do bom calor que armazenara com tanto<br \/>\n    ch&aacute; bebido. Divisava na sua frente as duas linhas retas dos varais<br \/>\n    e constantemente se enganava, cuidando que fossem sulcos da estrada.<\/p>\n<p>Divisava ainda a garupa bamboleante do Baio, com a cauda em n&oacute; e que<br \/>\n    o vento impelia sempre para o mesmo lado, e, mais adiante, a cabe&ccedil;a<br \/>\n    do animal e o seu pesco&ccedil;o com a crina eri&ccedil;ada. De quando em<br \/>\n    quando, procurava os marcos, ora de um lado, ora de outro, para se certificar<br \/>\n    de que continuavam na estrada e que, portanto, bastava confiar no cavalo para<br \/>\n    nada temer.<\/p>\n<p> Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch guiava de modo a permitir que o cavalo<br \/>\n    se mantivesse por si mesmo na dire&ccedil;&atilde;o certa. Mas o Baio, apesar<br \/>\n    de haver descansado, parecia trotar de m&aacute; vontade, e v&aacute;rias<br \/>\n    vezes se desviou do meio da estrada, obrigando o condutor a usar as r&eacute;deas<br \/>\n    para endireit&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8220;L&aacute; est&aacute; um marco &agrave; direita&#8230;&#8221; outro mais<br \/>\n    outro ia contando Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. &#8220;A floresta fica<br \/>\n    mais adiante&#8230;&#8221;, raciocinava, tentando ver o que era a massa negra<br \/>\n    que se elevava na sua frente. Mas o que pensava ser a floresta n&atilde;o<br \/>\n    era mais do que um bosquezinho. Passaram por ele e percorreram mais uns trinta<br \/>\n    metros sem verem mais nenhum marco nem a almejada floresta. &#8220;Ela s&oacute;<br \/>\n    pode estar ali dizia de si para si Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch. E, animado<br \/>\n    pela vodca e pelo ch&aacute;, n&atilde;o cessava de instigar o animal, que,<br \/>\n    d&oacute;cil e corajoso, ora a trote, ora mais devagar, ia sempre na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe imprimiam, n&atilde;o ignorando estar em rumo errado.<\/p>\n<p> cavalo.<\/p>\n<p>Transcorreram mais dez minutos e a floresta n&atilde;o aparecia.<\/p>\n<p>&#8212; Outra vez nos perdemos &#8212; disse Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    detendo o<\/p>\n<p> Sem falar nada, Nikita desceu do tren&oacute;, segurando o cafet&atilde;,<br \/>\n    que o vento ora colava ao corpo, ora abria todo, e come&ccedil;ou a andar<br \/>\n    na neve para um lado e para o outro.<\/p>\n<p>Por tr&ecirc;s vezes sumiu da vista do amo. Por fim, voltou e pediu as r&eacute;deas.<\/p>\n<p> &#8212; Temos de tomar pela direita &#8212; decidiu firme e severamente,<br \/>\n    fazendo o cavalo se virar.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem, tomemos a direita &#8212; concordou o amo transferindo<br \/>\n    sem relut&acirc;ncia as r&eacute;deas e logo escondendo as m&atilde;os geladas<br \/>\n    dentro das mangas.<\/p>\n<p>Nikita n&atilde;o lhe deu resposta, mas gritou para o Baio:<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute;, meu querido! Mais um arrancozinho!<\/p>\n<p>O cavalo, por&eacute;m, n&atilde;o atendia ao apelo e ia passo a passo, por<br \/>\n    mais que Nikita sacudisse as r&eacute;deas. Em certos pontos, enterrava-se<br \/>\n    at&eacute; os joelhos e o tren&oacute; s&oacute; avan&ccedil;ava aos arrancos.<br \/>\n    Nikita tomou o chicote, que pusera na frente do tren&oacute;, e aplicou umas<br \/>\n    lambadas no lombo do Baio. O brioso animal, n&atilde;o habituado a castigos,<br \/>\n    fez um tremendo esfor&ccedil;o e come&ccedil;ou a trotar. Logo, por&eacute;m,<br \/>\n    diminuiu o andamento e voltou a ir a passo. Assim prosseguiram por uns cinco<br \/>\n    minutos. Estava t&atilde;o escuro e o vento levantava tais nuvens de neve,<br \/>\n    que em certos momentos n&atilde;o viam nada dentro do tren&oacute; e, em outros,<br \/>\n    parecia que ele parara e que era a plan&iacute;cie que se deslocava para tr&aacute;s.<br \/>\n    S&uacute;bito, o cavalo estacou bruscamente<\/p>\n<p> como se pressentisse um perigo.<\/p>\n<p>Nikita largou as r&eacute;deas, desceu e adiantou-se para averiguar o motivo<br \/>\n    da parada; nem ultrapassara a cabe&ccedil;a do cavalo, quando escorregou&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Pare! Pare! Pare!&#8221;, dizia a si mesmo, fazendo o poss&iacute;vel<br \/>\n    para parar. Mas n&atilde;o conseguia firmar os p&eacute;s e s&oacute; parou<br \/>\n    quando eles se prenderam na grossa camada de neve que o vento acumulara no<br \/>\n    fundo da ravina. A espessa neve que cobria os bordos da ravina, abalada pela<br \/>\n    queda de Nikita, desprendeu-se e caiu sobre ele, quase o sepultando.<\/p>\n<p>Desvencilhou-se, come&ccedil;ou a se sacudir todo e berrou:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o a coisa era esta, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Nikita! &oacute; Nikita! &#8212; gritava l&atilde; de cima o amo.<\/p>\n<p>Mas Nikita n&atilde;o respondia. Continuava se sacudindo e procurando o chicote,<br \/>\n    que lhe escapara da m&atilde;o quando rolara a ribanceira. Custou, mas encontrou-o<br \/>\n    e tratou de subir pelo mesmo lugar por onde despencara, Foram em v&atilde;o<br \/>\n    as tentativas &#8212; n&atilde;o conseguia encontrar um ponto de apoio.<\/p>\n<p>N&atilde;o perdeu a cabe&ccedil;a, e procurou, andando no fundo da ravina,<br \/>\n    um lugar prop&iacute;cio &agrave; escalada. Pouco al&eacute;m donde ca&iacute;ra,<br \/>\n    encontrou-o e, com imensa dificuldade, quase engatinhando, atingiu o alto<br \/>\n    da ravina. Cautelosamente pela beira, caminhou para o lado onde supunha estar<br \/>\n    o tren&oacute;. N&atilde;o o encontrou. Mas como estivesse andando contra<br \/>\n    o vento, antes de v&ecirc;-lo, ouviu os gritos de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    e os relinchos do Baio.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; vou l&aacute;! j&aacute; vou l&aacute;! Por que esse berreiro<br \/>\n    todo, meu Baio? &#8212; bradou ele.<\/p>\n<p>E s&oacute; quando chegou pertinho do tren&oacute; &eacute; que viu o cavalo<br \/>\n    e, ao lado dele, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, que lhe pareceu enorme.<\/p>\n<p>&#8212; Onde se meteu? Raios o partam! Precisamos voltar sem demora. Vamos<br \/>\n    ver se ao menos conseguiremos chegar a Grichkino &#8212; e Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch estava col&eacute;rico.<\/p>\n<p>&#8212; Chegar a Grichkino? Outra coisa n&atilde;o queria eu! Mas de que<br \/>\n    maneira? Ali na frente h&aacute; uma ravina que n&atilde;o tem tamanho. Se<br \/>\n    cairmos nela, de l&aacute; n&atilde;o sairemos. Rolei at&eacute; o fundo e<br \/>\n    sei bem o quanto me custou safar-me.<\/p>\n<p>&#8212; Mas aqui &eacute; que n&atilde;o iremos ficar! Temos que tocar para<br \/>\n    diante &#8212; e Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch falava em tom categ&oacute;rico.<\/p>\n<p>Nikita nada retrucou. Sentou-se no tren&oacute;, de costas para o vento,<br \/>\n    tirou as botas e sacudiu a neve que as enchia.<\/p>\n<p> Em seguida apanhou um punhado de palha e com todo o cuidado tapou, pelo<br \/>\n    lado de fora, um buraco que havia no p&eacute; esquerdo.<\/p>\n<p>O amo emudeceu como se dependesse em tudo, agora, da esperteza de Nikita,<br \/>\n    que, ap&oacute;s se cal&ccedil;ar de novo, subiu no tren&oacute;, enfiou as<br \/>\n    luvas, pegou nas r&eacute;deas e, manobrando o cavalo, fez que ele avan&ccedil;asse<br \/>\n    lentamente pela beira da ravina. O Baio, por&eacute;m, n&atilde;o havia dado<br \/>\n    nem cem passos, quando, de s&uacute;bito, empacou outra vez. Havia ali outra<br \/>\n    ravina.<\/p>\n<p>Nikita desceu e foi procurar outra passagem. Demorou bastante tempo, mas,<br \/>\n    afinal, reapareceu no lado oposto &agrave;quele donde tinha partido.<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute;, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, ainda est&aacute;<br \/>\n    vivo? &#8212; perguntou aos berros.<\/p>\n<p> &#8212; Estou aqui! &#8212; respondeu o amo. &#8212; H&aacute; alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o consigo encontrar o caminho. Est&aacute; escuro como o<br \/>\n    diabo! H&aacute; ravinas a cada passo. Precisamos andar no sentido do vento.<\/p>\n<p>Avan&ccedil;aram mais um pouco. Novamente Nikita apeou, arrastou-se pela<br \/>\n    neve, farejando uma escapat&oacute;ria. Ia, vinha, por fim, sem f&ocirc;lego,<br \/>\n    parou junto ao tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Que h&aacute; agora? &#8212; perguntou Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; que n&atilde;o me ag&uuml;ento mais. E o Baio tamb&eacute;m<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o vai l&aacute; das pernas.<\/p>\n<p> &#8212; Que vamos fazer, ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Espere um pouco.<\/p>\n<p>Nikita mais uma vez se embarafustou na n&eacute;voa, mas desta feita n&atilde;o<br \/>\n    se demorou. Colocou-se na frente do cavalo e comandou:<\/p>\n<p>&#8212; Siga-me!<\/p>\n<p>O amo n&atilde;o dava mais ordens, obedecendo sem restri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a tudo quanto o empregado decidia.<\/p>\n<p>&#8212; Siga-me! &#8212; gritou novamente Nikita.<\/p>\n<p>Deu um passo para a direita, segurou o Baio firmemente pelo freio e, r&aacute;pido,<br \/>\n    puxou-o para o monte de neve que cobria as bordas da ravina.<\/p>\n<p> A princ&iacute;pio, o animal relutou, mas acabou cedendo ao pulso de Nikita<br \/>\n    e, de um salto, tentou vencer o obst&aacute;culo. N&atilde;o conseguiu, e<br \/>\n    enterrou-se na neve at&eacute; o pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; Des&ccedil;a da&iacute;! &#8212; gritou Nikita para o amo, que continuava<br \/>\n    muito bem instalado no tren&oacute;.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch desceu sem tugir nem mugir. Nikita atracou-se<br \/>\n    a um varal e empurrou o tren&oacute;, que ficou um pouco sobre a anca do<\/p>\n<p> animal.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; duro, irm&atilde;ozinho &#8212; e afagava o cavalo &#8212;<br \/>\n    mas que posso fazer? Vamos! Mais uma forcinha! Muito bem! Outra!<\/p>\n<p>O Baio deu duas arrancadas, mas n&atilde;o conseguiu subir. Recuou, ficou<br \/>\n    im&oacute;vel como se estivesse refletindo.<\/p>\n<p> &#8212; Como &eacute;, meu anjo, n&atilde;o podemos ficar assim &#8212;<br \/>\n    disse Nikita ao cavalo. &#8212; Vamos! Mais uma vezinha.<\/p>\n<p>Novamente se atracou a um varal, enquanto Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    empurrava o outro. O Baio sacudiu a cabe&ccedil;a, tomou impulso e arremeteu.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute;timo! &oacute;timo! N&atilde;o tenha medo! Voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\n    vai morrer n&atilde;o! &#8212; berrava Nikita.<\/p>\n<p>Um segundo arranco, um terceiro, e o valente cavalo transp&ocirc;s o monte<br \/>\n    de neve. Parou, ofegante, e sacudiu-se todo.<\/p>\n<p>Nikita queria continuar andando, mas Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch arquejava<br \/>\n    de tal forma sob as duas peli&ccedil;as que, com as pernas tr&ocirc;pegas,<br \/>\n    caiu pesadamente dentro do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe-me tomar f&ocirc;lego &#8212; pedia, desatando o n&oacute;<br \/>\n    do len&ccedil;o, que, na aldeia, amarrara em tomo da gola da peli&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; As coisas melhoram. Pode ficar a&iacute;, enquanto eu guio &#8212;<br \/>\n    respondeu o criado.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch acomodou-se no tren&oacute;. Nikita segurou<br \/>\n    o cavalo pelo freio, obrigou-o a descer uns dez passos, depois levou-o para<br \/>\n    um lugar mais alto e parou.<\/p>\n<p>N&atilde;o estavam no fundo da ravina, onde a neve, for&ccedil;ada pelo vento,<br \/>\n    poderia sepult&aacute;-los. O lugar escolhido era um declive, que ficava razoavelmente<br \/>\n    abrigado da ventania pelos rebordos da ravina. Em certos momentos o vento<br \/>\n    parecia abrandar, mas tais calmarias eram curtas e, depois delas, como se<br \/>\n    quisesse recuperar o tempo perdido, o vendaval recrudescia com uma viol&ecirc;ncia<br \/>\n    indescrit&iacute;vel, erguendo turbilh&otilde;es de neve com uma f&uacute;ria<br \/>\n    ainda mais feroz. Uma dessas rajadas caiu sobre eles precisamente quando Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch, tendo se recuperado um pouco, se aproximava de Nikita para<br \/>\n    lhe perguntar o que tencionava fazer.<\/p>\n<p> Agacharam-se, involuntariamente, e esperaram que a c&oacute;lera do vento<br \/>\n    se aplacasse. O Baio murchara as orelhas, contrariado, e sacudia a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Assim que o vento diminuiu, Nikita tirou as luvas, meteu-as no cinto, esquentou<br \/>\n    as m&atilde;os com o pr&oacute;prio bafo e come&ccedil;ou a desatrelar o cavalo.<\/p>\n<p>&#8212; Que vai fazer? &#8212; indagou, inquieto, o amo.<\/p>\n<p>&#8212; Simplesmente desatrel&aacute;-lo. Que posso eu fazer mais? Estou<\/p>\n<p> cansad&iacute;ssimo! &#8212; retrucou Nikita, como que se desculpando.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o vamos continuar?<\/p>\n<p>&#8212; Continuar para onde? Acabaremos matando o cavalo. Veja s&oacute;<br \/>\n    o estado do pobrezinho. Mal pode mexer com as pernas &#8212; ponderou Nikita,<br \/>\n    mostrando o Baio, que estava com a cabe&ccedil;a abaixada, submisso e pronto<br \/>\n    para tudo, respirando penosamente, os flancos ensopados de suor.<\/p>\n<p> &#8212; Temos que passar a noite aqui mesmo &#8212; prosseguiu, desafivelando<br \/>\n    as correias, como se dissesse que iam tomar quartos numa hospedaria.<\/p>\n<p>Terminou a sua obra. O amo perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Acha que n&atilde;o iremos morrer de frio?<\/p>\n<p>&#8212; Tudo &eacute; poss&iacute;vel. Mas que poderemos n&oacute;s fazer<br \/>\n    de melhor? &#8212; respondeu Nikita.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch sentia-se bastante aquecido debaixo das<br \/>\n    duas peli&ccedil;as e ainda mais depois do esfor&ccedil;o de ajudar a empurrar<br \/>\n    o cavalo e o tren&oacute; no monte de neve. Mas, quando viu que iria passar<br \/>\n    a noite ao relento, um arrepio de frio percorreu-lhe o corpo. Para se acalmar,<br \/>\n    sentou-se no tren&oacute; e sacou do bolso cigarros e f&oacute;sforos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Nikita desatrelava o Baio. Desapertara a barrigueira, o selim,<br \/>\n    as r&eacute;deas e os tirantes, e retirou a cabe&ccedil;ada, falando o tempo<br \/>\n    todo com o cavalo para encoraj&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, saia da&iacute;! &#8212; dizia ele, puxando-o para fora dos<br \/>\n    varais.<\/p>\n<p> &#8212; Vou amarrar voc&ecirc; bem amarradinho, vou tirar o freio e lhe<br \/>\n    dar um pouco de palha.<\/p>\n<p>Ia fazendo o que dizia e n&atilde;o cessava de falar.<\/p>\n<p>&#8212; Logo que voc&ecirc; tiver comido, vai se sentir outro.<\/p>\n<p>Mas era evidente que as palavras de Nikita n&atilde;o sossegavam o Baio,<br \/>\n    que escarvava a neve, procurava colar-se ao tren&oacute; com o traseiro para<br \/>\n    o vento e esfregava a cabe&ccedil;a na manga de Nikita. Com um imprevisto<br \/>\n    movimento, mordeu um bocado da palha mas dir-se-ia que o seu intuito era o<br \/>\n    de n&atilde;o contrariar Nikita com uma recusa; logo, por&eacute;m, devia<br \/>\n    ter chegado &agrave; conclus&atilde;o de que n&atilde;o era hora para se pensar<br \/>\n    em comida, pois largou a palha, que o vento, imediatamente, espalhou.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos, agora, botar um sinal aqui &#8212; disse Nikita.<\/p>\n<p> Colocou o tren&oacute; com a traseira enterrada na neve, e, de frente para<br \/>\n    o vento, ligou os dois varais com uma correia, levantou-os e apoiou-os firmemente<br \/>\n    contra a parte dianteira do ve&iacute;culo.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; uma maravilha! Se a neve nos soterrar, facilmente ver&atilde;o<br \/>\n    pelos varais e nos desenterrar&atilde;o &#8212; explicou ele, cal&ccedil;ando<br \/>\n    as luvas. &#8212; Era assim que os antigos faziam e eu n&atilde;o esqueci<br \/>\n    a li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch abrira a peli&ccedil;a e, protegendo-se<br \/>\n    do vento com as abas, procurava acender um cigarro. Riscou um f&oacute;sforo<br \/>\n    atr&aacute;s do outro, mas as m&atilde;os tremiam e n&atilde;o conseguia acend&ecirc;-lo.<br \/>\n    Por fim, p&ocirc;de riscar um, que iluminou por breve instante a gola da peli&ccedil;a,<br \/>\n    a m&atilde;o com o valioso anel no indicador e a palha de aveia, salpicada<br \/>\n    de neve, que aparecia sob a manta. &Aacute;vido, aspirou duas vezes o cigarro,<br \/>\n    tragou a fuma&ccedil;a e soprou-a por entre os bigodes. Ia dar outra tragada,<br \/>\n    quando o vento arrancou-lhe o cigarro da boca. Mas as poucas baforadas foram<br \/>\n    suficientes para levantar o &acirc;nimo de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch.<\/p>\n<p>&#8212; Ora bem! j&aacute; que n&atilde;o h&aacute; outro jeito, passemos<br \/>\n    a noite aqui mesmo &#8212; declarou decididamente. &#8212; Mas vou arranjar<br \/>\n    uma bandeira.<\/p>\n<p>Apanhou o len&ccedil;o, que minutos antes tirara e jogara no fundo do tren&oacute;,<br \/>\n    descal&ccedil;ou as luvas, trepou na parte dianteira do ve&iacute;culo, esticou-se<br \/>\n    na ponta dos p&eacute;s para alcan&ccedil;ar a correia que prendia os varais<br \/>\n    e nela atou com firmeza o len&ccedil;o. Incontinenti, o vento agitou-o com<br \/>\n    viol&ecirc;ncia, fazendo-o estalar, ora colocando-o contra os varais, ora<br \/>\n    enfunando-o como a vela de um barco.<\/p>\n<p>&#8212; Ficou formid&aacute;vel! &#8212; exclamou ele mesmo, entusiasmado<br \/>\n    com a sua fa&ccedil;anha e acomodando-se no tren&oacute;. Se fic&aacute;ssemos<br \/>\n    bem juntinhos, resistir&iacute;amos melhor ao frio ajuntou. &#8212; Mas n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; espa&ccedil;o para dois.<\/p>\n<p>&#8212; Eu me defenderei &#8212; respondeu Nikita. &#8212; Mas &eacute; preciso<br \/>\n    n&atilde;o esquecer do cavalo, coitadinho, que est&aacute; alagado de suor.<br \/>\n    Com licen&ccedil;a &#8212; continuou, aproximando-se do tren&oacute; e tirando<br \/>\n    a manta sobre a qual Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch se sentava.<\/p>\n<p>Dobrou-a e, tendo tirado o selim, cobriu o Baio com ela.<\/p>\n<p>&#8212; Vai ficar quentinho que &eacute; um regalo, seu bobinho! &#8212;<br \/>\n    disse para o cavalo, enquanto recolocava o selim por cima da manta. Acabada<br \/>\n    a obra, dirigiu-se para o tren&oacute;: &#8212; N&atilde;o vai precisar deste<br \/>\n    saco velho, vai? Tamb&eacute;m quero um pouco de palha.<\/p>\n<p>E, tirando a serapilheira e a palha, que estavam debaixo de Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch, foi para tr&aacute;s do tren&oacute;, cavou um buraco na<br \/>\n    neve, forrou-o com a palha, puxou o gorro at&eacute; o nariz, embrulhou-se<br \/>\n    bem no cafet&atilde;, cobriu-se<\/p>\n<p> com a serapilheira e se sentou na palha, encostando-se no tren&oacute;,<br \/>\n    que o resguardava um pouco do vento e da neve.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch acompanhava aquela movimenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    desaprovadoramente abanando a cabe&ccedil;a. Ali&aacute;s, sentia um grande<br \/>\n    prazer em reprovar, sempre que poss&iacute;vel, a ignor&acirc;ncia e a burrice<br \/>\n    dos camponeses.<\/p>\n<p>E achou que estava na hora de, por seu turno, se instalar convenientemente<br \/>\n    para varar a noite.<\/p>\n<p>Juntou a palha que ainda restava no fundo do tren&oacute;, fez com ela uma<br \/>\n    esp&eacute;cie de almofada para se apoiar de lado, enfiou as m&atilde;os nas<br \/>\n    mangas e deitou-se com a cabe&ccedil;a encostada na parte traseira do tren&oacute;,<br \/>\n    evitando assim a incid&ecirc;ncia cortante do vento.<\/p>\n<p>Sono n&atilde;o tinha. Pensava. Pensava sempre na mesma coisa, naquilo que<br \/>\n    constitu&iacute;a o objetivo, o significado, a alegria e o orgulho de toda<br \/>\n    a sua vida &#8212; o dinheiro que ganhara e que ainda podia ganhar, o dinheiro<br \/>\n    dos seus conhecidos, e como tinham conseguido fazer fortuna, e as maneiras<br \/>\n    com que, tal como os outros, poderia acumular ainda mais dinheiro. A compra<br \/>\n    da floresta em Goriatchkino tinha para ele import&acirc;ncia capital. Esperava<br \/>\n    obter largos lucros com o neg&oacute;cio, possivelmente uma dezena de milhares<br \/>\n    de rublos. E come&ccedil;ou a avaliar, mentalmente, a floresta que inspecionara<br \/>\n    no outono e cujas &aacute;rvores contara numa ex-tens&atilde;o de dois hectares<br \/>\n    como base para calcular o total.<\/p>\n<p>&#8220;Os carvalhos servir&atilde;o para tren&oacute;s e para vigas. Cada<br \/>\n    hectare n&atilde;o dar&aacute; menos de uns trinta metros c&uacute;bicos de<br \/>\n    madeira. A floresta tem cinq&uuml;enta e seis hectares&#8230; De cada hectare<br \/>\n    tirarei brincando vinte e cinco rublos. Bem explorada, portanto, render&aacute;<br \/>\n    mais de doze mil rublos.&#8221; Mas n&atilde;o podia ter uma quantia exata,<br \/>\n    pois lhe faltava o &aacute;baco. &#8220;De qualquer maneira, n&atilde;o darei<br \/>\n    mesmo dez mil rublos por ela, mas sim oito mil e nem mais um n&iacute;quel.<br \/>\n    E ainda descontarei as clareiras. Vou subornar o agrimensor com cem ou cento<br \/>\n    e cinq&uuml;enta rublos e ele medir&aacute; uns cinco hectares de clareiras.<br \/>\n    Sim, o propriet&aacute;rio ficar&aacute; satisfeito com os oito mil rublos.<br \/>\n    Dou tr&ecirc;s mil de entrada na hora e ele n&atilde;o discutir&aacute; mais&#8221;<br \/>\n    &#8212; e apalpou a carteira. &#8220;Mas como nos fomos perder depois da curva?<br \/>\n    S&oacute; Deus sabe! Pelo que andamos j&aacute; dev&iacute;amos estar na floresta,<br \/>\n    bem perto da cabana do guarda-florestal. Mas n&atilde;o se ouve o latido dos<br \/>\n    c&atilde;es. Os bandidos n&atilde;o ladram exatamente quando precisamos deles!&#8221;<\/p>\n<p>Abaixou um pouco a gola da peli&ccedil;a e apurou o ouvido. Nada, fora o<br \/>\n    assobio do vento, os estalidos do len&ccedil;o amarrado nos varais e o barulhinho<br \/>\n    da neve caindo sobre o tren&oacute;. E tornou a se resguardar.<\/p>\n<p>&#8220;Se adivinh&aacute;ssemos o que nos estava reservado, ter&iacute;amos<\/p>\n<p> pernoitado na aldeia. Mas n&atilde;o h&aacute; de ser nada. Chegaremos a<br \/>\n    tempo. Perderemos somente um dia. E, com uma tempestade assim, ningu&eacute;m<br \/>\n    &eacute; doido de se arriscar.&#8221; E acudiu-lhe que, no dia , o a&ccedil;ougueiro<br \/>\n    tinha de prestar contas.<\/p>\n<p>&#8220;Ele gosta de vir pessoalmente fazer o pagamento, mas n&atilde;o me<br \/>\n    encontrar&aacute;. E minha mulher n&atilde;o sabe tratar de neg&oacute;cios.<br \/>\n    Na verdade, &eacute; uma parva! N&atilde;o sabe nada e nem sequer tem boas<br \/>\n    maneiras.&#8221; Recordou como se embrulhara toda na v&eacute;spera, quando<br \/>\n    o chefe do distrito os fora visitar. &#8220;&Eacute; uma mulher vulgar! N&atilde;o<br \/>\n    tem o menor traquejo! Que &eacute; que ela j&aacute; viu? Quando meus pais<br \/>\n    viviam, que era a nossa casa. Uma coisa &agrave; toa! Um barrac&atilde;o,<br \/>\n    um pouso&#8230; e era tudo o que um campon&ecirc;s rico possu&iacute;a naquele<br \/>\n    tempo. E agora? Quanto consegui em quinze anos! Tenho um armaz&eacute;m, duas<br \/>\n    tavernas, um moinho, um celeiro cheio de trigo, duas glebas arrendadas e uma<br \/>\n    casa com um galp&atilde;o coberto de chapas de zinco, em suma, uma bela propriedade!&#8221;<br \/>\n    &#8212; e Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch era todo orgulho ao monologar.<br \/>\n    &#8220;Est&aacute; tudo completamente diferente do tempo de meu pai! De quem<br \/>\n    &eacute; que se fala mais em toda a regi&atilde;o? De Brekhunov! E por que<br \/>\n    raz&atilde;o? Porque trabalho no duro! N&atilde;o sou como os outros, uns<br \/>\n    mandri&otilde;es que s&oacute; pensam em bobagens. N&atilde;o durmo de noite.<br \/>\n    Com bom ou mau tempo, estou na labuta. E &eacute; assim que os neg&oacute;cios<br \/>\n    prosperam. Os outros pensam que podem ganhar dinheiro na moleza&#8230; Est&atilde;o<br \/>\n    muito enganados! Quem quiser ter alguma coisa de seu tem de suar, tem de quebrar<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, tem de passar a noite em claro, como agora eu aqui em pleno<br \/>\n    campo. Quando a gente pensa muito, o sono foge. E incr&iacute;vel como h&aacute;<br \/>\n    pessoas que pensam que ganhar dinheiro &eacute; uma quest&atilde;o de sorte!<br \/>\n    Que sorte? Que trabalho! Os Mironov est&atilde;o riqu&iacute;ssimos. E me<br \/>\n    digam se foi acaso? Trabalhe que Deus o ajudar&aacute;! S&oacute; pe&ccedil;o<br \/>\n    a Deus que me d&ecirc; sa&uacute;de!&#8221;<\/p>\n<p>E somente o pensar que poderia ficar milion&aacute;rio como aquele Mironov<br \/>\n    perturbou de tal maneira Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch que ele sentiu necessidade<br \/>\n    de se abrir com algu&eacute;m&#8230; Mas n&atilde;o havia ningu&eacute;m com quem<br \/>\n    se desabafasse&#8230; Ah! Se tivesse ficado em Goriatchkino! Quanto assunto n&atilde;o<br \/>\n    teria para discutir com o propriet&aacute;rio! Mostraria quem era Brekhunov!<\/p>\n<p>&#8220;Que raio de vento! Vamos ficar t&atilde;o cercados de neve que amanh&atilde;<br \/>\n    n&atilde;o poderemos sair daqui&#8221;, pensou, prestando aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s rajadas de neve que a&ccedil;oitavam a parte da frente do tren&oacute;.<br \/>\n    Levantou a cabe&ccedil;a e rodou o olhar em volta. Na esbranqui&ccedil;ada<br \/>\n    penumbra s&oacute; se distinguia o vulto escuro do Baio, a cabe&ccedil;a erguida,<br \/>\n    o lombo coberto pela manta que o vento sacudia, e o grosso rabo com um n&oacute;.<br \/>\n    Em torno, por todos os lados, pela frente e por tr&aacute;s, a neve era uma<br \/>\n    convulsiva cortina leitosa, que em certos instantes parecia se esgar&ccedil;ar,<br \/>\n    mas que logo se tornava mais densa.<\/p>\n<p>&#8220;Fiz muito mal em atender a Nikita&#8221;, concluiu. &#8220;Devia t&ecirc;-lo<\/p>\n<p> obrigado a marchar para a frente. Haver&iacute;amos de chegar a um lugar<br \/>\n    qualquer! Pelo menos poder&iacute;amos ter voltado a Grichkino e dormido l&aacute;.<br \/>\n    Ficar&iacute;amos em casa de Tarass. Ao passo que agora temos de gramar a<br \/>\n    noite inteira aqui. Ah, como foi aquilo que eu lembrei de agrad&aacute;vel?<br \/>\n    Sim, j&aacute; sei! &Eacute; que Deus aben&ccedil;oa os que trabalham e n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute; nada aos pregui&ccedil;osos e aos idiotas&#8230; Ah, seria bom dar uma<br \/>\n    tragada!&#8221;<\/p>\n<p>Sentou-se, sacou a cigarreira do bolso e se deitou de bru&ccedil;os, no fundo<br \/>\n    do tren&oacute;, procurando defender, com a gola levantada, a chama do f&oacute;sforo.<br \/>\n    O vento, por&eacute;m, tal como fizera antes, apagava um palito atr&aacute;s<br \/>\n    do outro. Mas sempre conseguiu que um vingasse e se p&ocirc;s a fumar, e o<br \/>\n    simples fato de ter acendido o cigarro encheu-o de contentamento. Embora o<br \/>\n    vento consumisse o cigarro mais do que ele, ainda p&ocirc;de dar umas duas<br \/>\n    ou tr&ecirc;s chupadas, que muito o reanimaram. Deitou-se de novo, cobriu-se<br \/>\n    t&atilde;o cuidadosamente quanto da outra vez e logo come&ccedil;ou a rememorar<br \/>\n    o passado e a sonhar com as suas riquezas futuras. De repente, seus pensamentos<br \/>\n    se embrulharam e ele mergulhou num pesado sono.<\/p>\n<p>Mas, de s&uacute;bito, como se tivesse levado um choque, despertou. Fora<br \/>\n    o Baio que tentara tirar um bocado de palha sobre a qual estava deitado, ou<br \/>\n    fora um abalo interior?<\/p>\n<p>Fosse l&atilde; como fosse, o certo &eacute; que ele acordou e sentiu o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a palpitar com tal intensidade, que dava a n&iacute;tida impress&atilde;o<br \/>\n    de que o tren&oacute; tremia debaixo dele. Abriu os olhos, nada mudara &agrave;<br \/>\n    sua volta, mas pareceu-lhe que aclarara um pouco. &#8220;Sim, come&ccedil;a<br \/>\n    a clarear. O amanhecer n&atilde;o tarda&#8221;, conjeturou. Mas logo viu que<br \/>\n    a claridade era devida &agrave; lua que se mostrava no c&eacute;u. Soergueu-se<br \/>\n    e olhou para o Baio, que continuava de p&eacute;, a traseira voltada para<br \/>\n    o vento, tremendo. Coberta de neve, a manta tombara para um lado; a retranca<br \/>\n    escorregara e se via melhor a sua cabe&ccedil;a, polvilhada de neve e com<br \/>\n    a crina arrepiada. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch dobrou-se sobre a parte<br \/>\n    traseira do tren&oacute; para ver o que era feito de Nikita. O criado permanecia<br \/>\n    na mesma posi&ccedil;&atilde;o. Os p&eacute;s e a serapilheira com que se<br \/>\n    cobrira haviam desaparecido sob grossa camada de neve.<\/p>\n<p> &#8220;Queira Deus que n&atilde;o morra de frio! Suas roupas n&atilde;o<br \/>\n    agasalham nada! Se morrer v&atilde;o dizer que fui eu o culpado! Que gente<br \/>\n    burra! Como a instru&ccedil;&atilde;o faz falta!&#8221;, pensou Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch. Imaginou tirar a manta que cobria o cavalo e coloc&aacute;-la<br \/>\n    sobre Nikita, mas logo desistiu, pois iria sentir frio quando se levantasse<br \/>\n    e o cavalo poderia ficar gelado. &#8220;Ora bolas, por que fui traz&ecirc;-lo<br \/>\n    comigo? A culpa foi toda dela&#8221;, e se lembrou da mulher, a quem n&atilde;o<br \/>\n    tinha amor. E acomodou-se de novo no fundo do tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8220;Meu tio passou uma noite inteira assim e n&atilde;o sofreu nada&#8221;,<br \/>\n    acudiu-lhe de repente. E a seguir um outro caso veio &agrave; mente: &#8220;&Eacute;,<br \/>\n    mas<\/p>\n<p> Sevastiavos, coitado, n&atilde;o escapou. Quando removeram a neve que o<br \/>\n    soterrava, estava morto, duro como um peda&ccedil;o de carne congelada. Se<br \/>\n    eu tivesse ficado em Grichkino n&atilde;o estaria passando este aperto&#8221;.<\/p>\n<p>Embrulhou-se prudentemente na peli&ccedil;a de modo a n&atilde;o perder o<br \/>\n    calor que seu corpo ainda armazenava e, fechando os olhos, tentou readormecer.<br \/>\n    Mas, apesar de todos os esfor&ccedil;os, n&atilde;o conseguiu, sentia-se,<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, insone e agitado. Recome&ccedil;ou a relacionar as<br \/>\n    posses que tinha e o quanto lhe deviam, elogiou-se e rejubilou-se pela excelente<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o que desfrutava, mas, a todo momento, seus pensamentos<br \/>\n    eram cortados por um estranho terror e pelo arrependimento de n&atilde;o ter<br \/>\n    pernoitado em Grichkino, &#8220;Oh, outros galos cantariam se eu estivesse<br \/>\n    deitado numa boa cama agora, bem coberto, bem quentinho.&#8221;<\/p>\n<p>Virou-se e revirou-se vezes sem conta, nunca encontrando uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    satisfat&oacute;ria. Levantava-se, deitava-se de outra maneira, tornava a<br \/>\n    cobrir os p&eacute;s, ficava sossegado um minuto. Logo sentia que as botas<br \/>\n    estavam apertando ou que o vento penetrava por uma abertura qualquer de sua<br \/>\n    roupa.<\/p>\n<p>Voltava a pensar, muito aborrecido consigo mesmo, como poderia estar gozando<br \/>\n    o bom calor daquela sala em Grichkino. E levantava-se, virava-se, embrulhava-se<br \/>\n    melhor na roupa e tomava a se deitar.<\/p>\n<p>Em dada hora, acreditou ter ouvido o canto dos galos ao longe. Alegre, abaixou<br \/>\n    a gola da peli&ccedil;a e se p&ocirc;s a ouvir com a maior aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas, bastante decepcionado, n&atilde;o percebeu nada al&eacute;m do barulho<br \/>\n    que o len&ccedil;o fazia agitado pelo vento e o insistente bater da neve no<br \/>\n    tren&oacute;.<\/p>\n<p>Nikita n&atilde;o fizera o m&iacute;nimo movimento, desde que se ajeitara<br \/>\n    atr&aacute;s do tren&oacute;. Nem tomara conhecimento das duas ou tr&ecirc;s<br \/>\n    perguntas que o amo lhe endere&ccedil;ara. &#8220;Aquele nem se importa com<br \/>\n    o que est&aacute; acontecendo! Certamente est&aacute; ferrado no sono&#8221;,<br \/>\n    pensava Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, um tanto despeitado e dobrando-se<br \/>\n    sobre a parte de tr&aacute;s do tren&oacute;, a fim de observar Nikita coberto<br \/>\n    de neve.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch se levantou e se deitou pelo menos umas<br \/>\n    vinte vezes. Parecia-lhe que aquela noite n&atilde;o acabava mais.<\/p>\n<p>&#8220;Agora, sem d&uacute;vida, o dia vai raiar&#8221;, murmurou, levantando-se<br \/>\n    e passeando os olhos em redor. &#8220;Se eu soubesse que horas s&atilde;o!<br \/>\n    Mas se abrir a peli&ccedil;a vou sentir mais frio. Assim que perceber que<br \/>\n    est&aacute; amanhecendo, crio alma nova. Poder&iacute;amos atrelar logo o<br \/>\n    cavalo e zarpar.&#8221;<\/p>\n<p>No &iacute;ntimo, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o ignorava que<br \/>\n    o dia devia estar ainda bem longe, mas sentia se acentuar um medo indefin&iacute;vel<br \/>\n    e ansiava por, ao mesmo tempo, aplac&aacute;-lo e enganar-se a si pr&oacute;prio.<br \/>\n    Cauteloso, desabotoou a peli&ccedil;a e lentamente foi enfiando a m&atilde;o<br \/>\n    por debaixo da<\/p>\n<p> roupa, tateando, tateando at&eacute; chegar ao colete. A muito custo tirou<br \/>\n    o rel&oacute;gio de prata com flores esmaltadas na tampa e procurou ver as<br \/>\n    horas. Mas n&atilde;o distinguia o mostrador.<\/p>\n<p>Apoiou-se nos cotovelos e nos joelhos, como j&aacute; fizera antes para acender<br \/>\n    o cigarro, e, mais cauteloso ainda, abriu a caixa de f&oacute;sforos, escolheu<br \/>\n    pelo tato o palito que lhe pareceu mais grosso e riscou-o sem que ele falhasse.<br \/>\n    Chegou o rel&oacute;gio para a chama e consultou-o. N&atilde;o podia acreditar<br \/>\n    no que marcavam os ponteiros&#8230; Meia-noite e dez! A noite apenas principiava&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! esta noite n&atilde;o tem fim! &#8212; gemeu Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch, sentindo um arrepio de frio correr-lhe pela espinha. Tornou<br \/>\n    a se abotoar, cobriu-se meticulosamente, se ajeitou no canto do tren&oacute;,<br \/>\n    disposto a esperar com a m&aacute;xima paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&Agrave;s voltas tantas, apesar do ulular da ventania, ouviu nitidamente<br \/>\n    um rumor caracter&iacute;stico &#8212; o rumor de um ser vivo. O ru&iacute;do<br \/>\n    foi aumentando, conservou certa regularidade, depois baixou de intensidade.<br \/>\n    Era um lobo, n&atilde;o havia a menor d&uacute;vida. E devia estar bem perto,<br \/>\n    pois se ouvia claramente o barulho que fazia com as mand&iacute;bulas. Afastando<br \/>\n    a gola, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch p&ocirc;s-se &agrave; escuta. O Baio<br \/>\n    tamb&eacute;m ouvira e empinara as orelhas. A fera uivou e o cavalo sapateou<br \/>\n    e relinchou como advertindo a proximidade do perigo. Depois do incidente,<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o somente n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    dormir como teve de lutar incessantemente contra a inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o dominava. Procurava encaminhar os pensamentos para seus neg&oacute;cios,<br \/>\n    para a sua situa&ccedil;&atilde;o financeira e para os seus bens, mas o medo<br \/>\n    o empolgava num crescendo.<\/p>\n<p> O arrependimento de n&atilde;o ter pernoitado em Grichkino n&atilde;o o<br \/>\n    largava.<\/p>\n<p>&#8220;Que a floresta fique como est&aacute; e Deus fa&ccedil;a dela o que<br \/>\n    quiser! j&aacute; tenho tantos neg&oacute;cios bons que n&atilde;o preciso<br \/>\n    dela, gra&ccedil;as a Deus! Eu devia &eacute; ter pernoitado em Grichkino!&#8221;,<br \/>\n    repisava. &#8220;Dizem que a gente sente mais frio depois de beber. E eu bebi.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, sentindo o corpo tremer, n&atilde;o sabia na verdade se era de frio<br \/>\n    ou de medo. Quis se cobrir e se acomodar, como j&aacute; fizera v&aacute;rias<br \/>\n    vezes antes, mas foi imposs&iacute;vel. N&atilde;o era capaz de se manter<br \/>\n    quieto. Tinha &iacute;mpetos de se levantar, de fazer qualquer coisa para<br \/>\n    sufocar o p&acirc;nico, que progressivamente aumentava e contra o que se sentia<br \/>\n    impotente.<\/p>\n<p>Mais uma vez recorreu ao cigarro. Mas s&oacute; restavam tr&ecirc;s f&oacute;sforos,<br \/>\n    os piores da caixa, e nenhum acendeu.<\/p>\n<p>&#8212; Que o diabo te consuma, desgra&ccedil;ado! &#8212; praguejou alto<br \/>\n    sem saber contra quem. E, esmagando o cigarro, atirou-o longe. Quis tamb&eacute;m<br \/>\n    jogar fora a caixa de f&oacute;sforos, mas, pensando melhor, meteu-a no bolso.<\/p>\n<p> Tamanho pavor o possu&iacute;a, que n&atilde;o p&ocirc;de mais ficar onde<br \/>\n    estava. Saiu do tren&oacute; e, de costas para o vento, desamarrou o cinto<br \/>\n    e tornou a amarr&aacute;-lo mais apertadamente.<\/p>\n<p>&#8220;Que me adianta ficar aqui &agrave; espera da morte? Vou montar no<br \/>\n    Baio e tocar para a frente!&#8221;, acudiu-lhe de repente. &#8220;O Baio &eacute;<br \/>\n    esperto e h&aacute; de se safar. Quanto &agrave;quele ali (e pensava em Nikita),<br \/>\n    tanto faz morrer como viver. A vida, para um pobre-diabo como ele, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; nada divertida, n&atilde;o tem import&acirc;ncia. Comigo, o caso<br \/>\n    &eacute; diferente. Gra&ccedil;as a Deus tenho os meus guardados e&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Desamarrou o Baio, colocou o freio e tentou mont&aacute;-lo, por&eacute;m,<br \/>\n    as peli&ccedil;as e as botas estavam t&atilde;o pesadas que n&atilde;o conseguiu<br \/>\n    se al&ccedil;ar. Trepou, ent&atilde;o, no tren&oacute; para alcan&ccedil;ar<br \/>\n    o lombo do animal, mas o tren&oacute; balan&ccedil;ou com o seu peso e ele<br \/>\n    caiu. Foi mais bem-sucedido na terceira tentativa: puxou o cavalo para perto<br \/>\n    do tren&oacute;, fincou o p&eacute; prudentemente no rebordo do ve&iacute;culo<br \/>\n    e conseguiu se deitar de barriga no lombo do cavalo. Assim ficou alguns momentos,<br \/>\n    depois, com dois ou tr&ecirc;s impulsos, passou uma das pernas por cima do<br \/>\n    animal. Afinal, montou-o. Com as manobras de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    o tren&oacute; balan&ccedil;ou, despertando Nikita, que se levantou um pouco.<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch julgou que ele lhe dizia qualquer coisa e<br \/>\n    gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Seria eu uma besta quadrada se fosse atender a gente imbecil como<br \/>\n    voc&ecirc;! Que &eacute; que est&aacute; pensando? Acha que vou morrer assim<br \/>\n    a troco de coisa nenhuma? Est&aacute; muito enganado!<\/p>\n<p>Prendeu as abas da peli&ccedil;a com os joelhos, para que o vento n&atilde;o<br \/>\n    o estorvasse, e tocou o Baio na dire&ccedil;&atilde;o em que imaginava encontrar<br \/>\n    a floresta e a cabana do guarda-florestal.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>Nikita permanecera im&oacute;vel desde que, envolvido na serapilheira, se<br \/>\n    sentara atr&aacute;s do tren&oacute;. Como todos aqueles que vivem mais perto<br \/>\n    da natureza e j&aacute; experimentaram a mis&eacute;ria, tinha muita paci&ecirc;ncia<br \/>\n    e poderia esperar horas e dias inteiros sem irrita&ccedil;&atilde;o e sem<br \/>\n    nervoso. Bem que ouvira as interpela&ccedil;&otilde;es do amo, mas n&atilde;o<br \/>\n    respondera por n&atilde;o sentir nenhuma vontade de se mexer ou de falar.<br \/>\n    Conquanto ainda se conservasse aquecido devido ao ch&aacute; que tomara e<br \/>\n    ao exerc&iacute;cio que praticara ao for&ccedil;ar o Baio a transpor o monte<br \/>\n    de neve, n&atilde;o se iludia que tal calor pudesse durar muito e sabia que<br \/>\n    n&atilde;o teria for&ccedil;as para se reaquecer, movimentando-se, j&aacute;<br \/>\n    que se sentia t&atilde;o esgotado quanto um cavalo que<\/p>\n<p> p&aacute;ra depois de um violento esfor&ccedil;o e fica incapaz de prosseguir<br \/>\n    mesmo &agrave; custa de chibatadas e que o amo compreende ser preciso aliment&aacute;-lo<br \/>\n    para p&ocirc;-lo em condi&ccedil;&otilde;es de trabalhar.<\/p>\n<p>Gelado tinha o p&eacute; que cal&ccedil;ava a bota furada e o ded&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; estava insens&iacute;vel. Ali&aacute;s, o frio lhe ia invadindo,<br \/>\n    pouco a pouco, o corpo todo. Veio-lhe ao esp&iacute;rito a id&eacute;ia de<br \/>\n    que podia e que at&eacute; seria certo morrer naquela noite, mas n&atilde;o<br \/>\n    a achou desagrad&aacute;vel ou assustadora. N&atilde;o a achou desagrad&aacute;vel<br \/>\n    porque sua exist&ecirc;ncia nunca fora boa, pelo contr&aacute;rio, sempre<br \/>\n    fora uma cont&iacute;nua servid&atilde;o e dela j&aacute; principiava a ficar<br \/>\n    cansado, N&atilde;o tinha o menor medo porque, al&eacute;m dos senhores a<br \/>\n    quem servira na terra, e neles se inclu&iacute;a Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    sempre sentira que havia um outro maior, Aquele que o pusera no mundo, e sabia<br \/>\n    que, mesmo na morte, dependeria Dele, a quem n&atilde;o deveria temer de modo<br \/>\n    algum.<\/p>\n<p>&#8220;&Eacute; triste ter de abandonar tudo aquilo que nos cercou na vida<br \/>\n    e a que est&aacute;vamos acostumados! Mas que rem&eacute;dio? &Eacute; preciso<br \/>\n    que nos acostumemos tamb&eacute;m &agrave;s novidades.&#8221;<\/p>\n<p>E, de repente, se lembrou dos seus pecados. Acudiram-lhe &agrave; mente as<br \/>\n    suas carrasparias, os maus-tratos que infligira &agrave; mulher, as blasf&ecirc;mias<br \/>\n    incontidas, as poucas vezes que aparecia na igreja, o jejum que n&atilde;o<br \/>\n    observava e todos os pecados que o padre lhe imputava no confession&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8220;Sim, tenho pecados de sobra! Mas serei mesmo culpado ou foi Deus quem<br \/>\n    me fez assim? Pecados! De que maneira poderei evit&aacute;-los?&#8221;<\/p>\n<p>Assim ia pensando Nikita no que poderia lhe acontecer naquela noite. Mas<br \/>\n    logo deixou de faz&ecirc;-lo para se entregar &agrave;s recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que brotavam espontaneamente. Repassou a chegada de Marfa, as bebedeiras que<br \/>\n    tomara e a promessa que fizera, a partida da aldeia com o amo, na v&eacute;spera,<br \/>\n    a casa t&atilde;o quentinha de Tarass, e as conversas a respeito da partilha.<br \/>\n    Desfiou lembran&ccedil;as do filho e do Baio, que devia estar mais confortado<br \/>\n    sob a manta. Pensou tamb&eacute;m no patr&atilde;o, que, cada vez que se mexia,<br \/>\n    fazia o tren&oacute; se embalan&ccedil;ar. &#8220;O pobrezinho deve estar<br \/>\n    arrependid&iacute;ssimo de n&atilde;o ter pernoitado em Grichkino. Para ele,<br \/>\n    que &eacute; rico, a morte ser&aacute; cruel! Para os pobres &eacute; que<br \/>\n    ela n&atilde;o tem import&acirc;ncia!&#8221; Mas, paulatinamente, as recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    foram se embaralhando e ele adormeceu.<\/p>\n<p>Quando Vass&iacute;lii fez o tren&oacute; balan&ccedil;ar mais para poder<br \/>\n    saltar sobre o cavalo, Nikita acordou, sentindo que o apoio das costas lhe<br \/>\n    fugia, e, muito contra a vontade, procurou mudar de posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esticou com dificuldade as pernas, afastou camadas de neve que as recobriam<br \/>\n    e se p&ocirc;s de p&eacute;. No mesmo instante sentiu que um frio terr&iacute;vel<br \/>\n    lhe espetava o corpo.<\/p>\n<p> E, num relance, compreendeu o que se passava. Ent&atilde;o, chamara o amo<br \/>\n    apenas para lhe pedir a manta de que o Baio j&aacute; n&atilde;o iria precisar,<br \/>\n    mas que<\/p>\n<p> para ele, Nikita, teria grande serventia. Mas Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    se arrancara sem lhe dar resposta e logo sumira na espessa poeira de neve<br \/>\n    que escondia tudo.<\/p>\n<p>Vendo-se sozinho, Nikita pensou rapidamente no que devia fazer. Cansado,<br \/>\n    n&atilde;o se sentia em condi&ccedil;&otilde;es de procurar um abrigo. N&atilde;o<br \/>\n    podia mais se sentar no buraco onde estivera at&eacute; h&aacute; pouco, pois<br \/>\n    a neve j&aacute; o tapara. o tren&oacute; n&atilde;o o esquentava convenientemente,<br \/>\n    porque n&atilde;o tinha nada com que se cobrir, e o cafet&atilde; e a peli&ccedil;a<br \/>\n    quase n&atilde;o o abrigavam.<\/p>\n<p>Sofria tanto o frio que tinha a impress&atilde;o de que s&oacute; vestia<br \/>\n    uma camisa. Teve medo.<\/p>\n<p>&#8212; Meu pai do c&eacute;u! &#8212; exclamou em voz baixa, e imediatamente<br \/>\n    ficou tranq&uuml;ilo, certo de que n&atilde;o estava s&oacute;, de que Algu&eacute;m<br \/>\n    o ouvia e n&atilde;o o abandonaria.<\/p>\n<p>Soltou um fundo suspiro e, sem tirar a serapilheira com que resguardava a<br \/>\n    cabe&ccedil;a, subiu para o tren&oacute; e se acomodou no lugar onde o amo<br \/>\n    estivera.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o conseguia se reaquecer. Um forte tremor sacudia-lhe o corpo.<br \/>\n    Depois, o tremor foi diminuindo e, pouco a pouco, ele perdeu os sentidos.<br \/>\n    N&atilde;o poderia dizer se estava morrendo ou adormecendo, mas se sentia<br \/>\n    indiferentemente preparado para uma coisa ou para outra.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto isso, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, animando o cavalo com os<br \/>\n    joelhos e com a r&eacute;dea, tocava-o no rumo em que julgava, sem mesmo saber<br \/>\n    por qu&ecirc;, encontrar a floresta e a cabana do guarda-florestal. A neve<br \/>\n    tirava-lhe a vis&atilde;o e o vento dificultava-lhe o avan&ccedil;o; sem embargo,<br \/>\n    dobrado sobre o pesco&ccedil;o do Baio e preocupado em prender as abas da<br \/>\n    peli&ccedil;a entre as coxas e o selim gelado, que muito o incomodava, for&ccedil;ava<br \/>\n    a marcha do animal, que com grande sacrif&iacute;cio obedecia ao desejo do<br \/>\n    condutor.<\/p>\n<p>Durante uns cinco minutos assim andaram em linha reta, segundo acreditava<br \/>\n    Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, que nada via, salvo a cabe&ccedil;a do Baio<br \/>\n    e o vasto len&ccedil;ol branco que se estendia por todos os lados, nem nada<br \/>\n    escutava, fora o silvo do vento rente &agrave; gola da peli&ccedil;a.<\/p>\n<p>Repentinamente, divisou uma coisa escura na sua frente. O seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    palpitou de alegria e ele dirigiu a monta ria para aquele ponto,<\/p>\n<p> cuidando distinguir ali as paredes das casas da aldeia. A coisa escura,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o estava im&oacute;vel &#8212; mexia-se. N&atilde;o<br \/>\n    eram casas, mas altas artem&iacute;sias nascidas no fundo de uma vala e que<br \/>\n    se curvavam desesperadamente sob o impacto da ventania. E, sem saber por qu&ecirc;,<br \/>\n    ao deparar com aquelas plantas atormentadas pela tempestade impiedosa Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch estremeceu de horror e impulsionou a alim&aacute;ria para<br \/>\n    a frente, sem perceber que, quando chegara perto das artem&iacute;sias, mudara<br \/>\n    de rumo e, assim, avan&ccedil;ara em outro sentido, pensando ainda que ia<br \/>\n    direito &agrave; floresta e &agrave; cabana do guarda-florestal. O Baio tendia<br \/>\n    a seguir para a direita e por isso Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch obrigava-o<br \/>\n    a tornar para a esquerda.<\/p>\n<p>Novamente vislumbrou uma mancha escura &agrave; sua frente. Rejubilou-se,<br \/>\n    seguro de que desta vez avistara a aldeia.<\/p>\n<p>Mas eram as mesmas artem&iacute;sias castigadas pelo vendaval e que, sem<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o, o haviam atemorizado. N&atilde;o s&oacute; via as<br \/>\n    mesmas plantas secas como tamb&eacute;m as manchas recentes das patas de um<br \/>\n    cavalo, que o vento come&ccedil;ava a apagar.<\/p>\n<p>Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch conteve o Baio e se inclinou para observar<br \/>\n    com a m&aacute;xima aten&ccedil;&atilde;o. Sim, por ali passara um cavalo<br \/>\n    e s&oacute; podia ser o seu. N&atilde;o teve d&uacute;vidas de que andava<br \/>\n    em c&iacute;rculo e num espa&ccedil;o muito limitado.<\/p>\n<p> &#8220;Se eu continuar assim, n&atilde;o escapo da morte&#8221;, disse consigo<br \/>\n    mesmo. E, para vencer o terror, apressou o cavalo, esfor&ccedil;ando-se por<br \/>\n    ver atrav&eacute;s da intensa bruma branca. Parecia-lhe que no meio dela brilhavam<br \/>\n    pontos luminosos, que desapareciam logo que os fixava. Em certos momentos<br \/>\n    acreditou ouvir latidos de c&atilde;es e uivos de lobos, mas eram sons t&atilde;o<br \/>\n    dif&iacute;ceis e remotos, que n&atilde;o poderia garantir que eram reais<br \/>\n    ou apenas uma ilus&atilde;o sua. Parou e ficou atento, procurando captar o<br \/>\n    menor ru&iacute;do.<\/p>\n<p>Eis que um grito medonho e ensurdecedor como que arrebentava- lhe os ouvidos<br \/>\n    e ele se viu tomado por um convulsivo tremor. Abra&ccedil;ou-se desesperadamente<br \/>\n    ao pesco&ccedil;o do cavalo, mas tamb&eacute;m o pesco&ccedil;o tremia e o<br \/>\n    pavoroso grito se repetiu. E, durante alguns segundos, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de concatenar as id&eacute;ias e esclarecer o que sucedera.<br \/>\n    Ora, o que acontecera fora simplesmente que o Baio, para encorajar-se ou para<br \/>\n    pedir socorro, pusera-se a relinchar com quanta for&ccedil;a lhe restava.<\/p>\n<p>&#8212; Que a morte lhe tape a boca, desgra&ccedil;ado! &#8212; praguejou<br \/>\n    aos berros. &#8212; Que susto me pregou!<\/p>\n<p>Mas, mesmo ap&oacute;s ter compreendido a causa do medonho grito, n&atilde;o<br \/>\n    conseguiu dominar a ansiedade que ele lhe provocara. &#8220;Preciso refletir<br \/>\n    sensatamente. &Eacute; preciso me acalmar&#8221;, dizia interiormente. Mas<br \/>\n    n&atilde;o se controlava, e continuava a apressar o animal, sem perceber que<br \/>\n    tinha agora o vento pelas costas, e n&atilde;o pela frente como antes.<\/p>\n<p> Sentia muit&iacute;ssimo frio e o corpo todo dolorido, mormente no lugar<br \/>\n    onde ro&ccedil;ava a sela, as m&atilde;os e os p&eacute;s tremiam, a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estava opressa. Via que fatalmente morreria naquele deserto de neve, pois<br \/>\n    n&atilde;o encontrava uma sa&iacute;da. E o cavalo entrou por um mont&atilde;o<br \/>\n    de neve adentro, debateu-se e caiu de lado. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    agilmente pulou na neve e fez escorregar a sela quando se firmou para o pulo.<br \/>\n    Vendo-se livre, o cavalo se levantou, sacudiu-se, deu dois saltos e, relinchando,<br \/>\n    disparou arrastando pela neve a manta e a r&eacute;dea: Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    viu-se s&oacute; e semi-enterrado na neve. Quis perseguir o animal, mas a<br \/>\n    neve era t&atilde;o alta e os seus agasalhos pesavam tanto que n&atilde;o<br \/>\n    foi al&eacute;m de vinte tr&ocirc;pegos passos e, esgotado e sem ar, parou.<br \/>\n    &#8220;A floresta, as glebas, o armaz&eacute;m, a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com telhado de zinco, o galp&atilde;o, o herdeiro&#8230; Que ser&aacute; de tudo?<br \/>\n    Que estar&aacute; me acontecendo? N&atilde;o pode ser!&#8221;, foi o que lhe<br \/>\n    veio &agrave; mente, como vieram logo as artem&iacute;sias martirizadas pela<br \/>\n    tormenta, diante das quais passara duas vezes, e t&atilde;o grande pavor o<br \/>\n    invadiu que se negou a acreditar que tudo fora verdade. &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    estarei sonhando?&#8221;, perguntou-se, e, convencido de que sonhava mesmo,<br \/>\n    quis acordar. Mas a neve que batia em sua cara, cobria a sua roupa e gelava<br \/>\n    a sua m&atilde;o direita, cuja luva se perdera, era bem real. Como bem real<br \/>\n    era o branco deserto em que se encontrava agora, t&atilde;o s&oacute; como<br \/>\n    aquelas artem&iacute;sias, &agrave; espera de uma morte inevit&aacute;vel,<br \/>\n    r&aacute;pida e est&uacute;pida.<\/p>\n<p>&#8212; M&atilde;e do c&eacute;u! S&atilde;o Nicolau, meu padroeiro! &#8212;<br \/>\n    implorou gritando.<\/p>\n<p>E se lembrou do of&iacute;cio da v&eacute;spera na igreja, da imagem do santo<br \/>\n    de rosto enegrecido numa moldura dourada, das velas que vendia para os fi&eacute;is<br \/>\n    acenderem diante do &iacute;cone e que o sacrist&atilde;o lhe trazia depois,<br \/>\n    quase intactas, para ele esconder e tornar a vender. E come&ccedil;ou a rezar<br \/>\n    &agrave;quele mesmo milagroso S&atilde;o Nicolau, prometendo-lhe missas e<br \/>\n    velas para que o salvasse. Depressa, porem, compreendeu, sem a menor parcela<br \/>\n    de d&uacute;vida, que o &iacute;cone, as velas, o padre, as missas, tudo isso<br \/>\n    era muito importante e necess&aacute;rio l&atilde; na igreja, mas n&atilde;o<br \/>\n    ali, quando n&atilde;o lhe poderiam ser de nenhuma valia. Revelava-se a ele<br \/>\n    claramente que as missas e velas n&atilde;o tinham nenhuma rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a sua desesperadora situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8220;N&atilde;o posso me deixar abater. Tenho de seguir as pegadas do cavalo,<br \/>\n    antes que a neve as apague. S&oacute; assim eu poderei encontr&aacute;-lo.<br \/>\n    Mas devo agir com calma, para n&atilde;o perder o rumo. Do contr&aacute;rio<br \/>\n    ficarei logo cansado e, ent&atilde;o, serei um homem perdido&#8221;, pensou.<br \/>\n    Embora tivesse resolvido andar calmamente, desatou a correr como um alucinado,<br \/>\n    trope&ccedil;ando a cada momento. As marcas do Baio j&aacute; estavam pouco<br \/>\n    vis&iacute;veis, especialmente nos lugares onde a neve era menos profunda.<\/p>\n<p>&#8220;Vou morrer mesmo. Estou perdendo o rastro do cavalo e assim &eacute;<\/p>\n<p> imposs&iacute;vel encontr&aacute;-lo!&#8221;, disse de si para si. E, mal<br \/>\n    acabara de falar, levantando os olhos, viu uma mancha negra. Era o Baio e<br \/>\n    tamb&eacute;m o tren&oacute; e os varais com o len&ccedil;o amarrado. O Baio,<br \/>\n    com a retranca de lado, n&atilde;o estava no seu antigo lugar, mas perto dos<br \/>\n    varais, e sacudia a cabe&ccedil;a com a r&eacute;dea enrolada numa das pernas.<br \/>\n    E que Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch viera cair no mesmo monte de neve em<br \/>\n    que tinha antes afundado com Nikita. O Baio o trouxera at&eacute; uns cinq&uuml;enta<br \/>\n    passos do tren&oacute; e, ent&atilde;o, o abandonara.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>Atingindo o tren&oacute;, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch agarrou-se a um<br \/>\n    dos lados dele e, de p&eacute;, ficou algum tempo recuperando o f&ocirc;lego<br \/>\n    e se acalmando. Nikita n&atilde;o estava mais no seu lugar, mas Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch percebeu no tren&oacute; uma coisa coberta calculou que fosse<br \/>\n    ele. o alucinante medo havia de neve e se extinguido. S&oacute; temia que<br \/>\n    voltasse aquele medo horroroso que o empolgara quando vagara a cavalo e que<br \/>\n    ultrapassara todos os limites ao se ver sozinho, ca&iacute;do no monte de<br \/>\n    neve. Era preciso, a todo custo, impedir que o pavor renascesse e agir, fazer<br \/>\n    qualquer coisa &uacute;til era um meio de afast&aacute;-lo. Em primeiro lugar,<br \/>\n    foi se colocar de costas para o vento e desabotoar a peli&ccedil;a. Em seguida,<br \/>\n    com a respira&ccedil;&atilde;o menos aflita, descal&ccedil;ou as botas e sacudiu<br \/>\n    a neve que nelas se introduzira &#8212; tirou tamb&eacute;m a luva esquerda,<br \/>\n    pois a da m&atilde;o direita havia se perdido na neve. Desapertou o cinto<br \/>\n    e apertou mais embaixo, como tinha o costume de fazer, quando sa&iacute;a<br \/>\n    do armaz&eacute;m para examinar as carro&ccedil;as de trigo que os camponeses<br \/>\n    vinham vender-lhe.<\/p>\n<p>Assim que se viu em melhores condi&ccedil;&otilde;es para agir, tratou de<br \/>\n    desembara&ccedil;ar a perna do cavalo. Amarrou o Baio na parte fronteira do<br \/>\n    tren&oacute;, onde ele estivera antes, e quis passar por tr&aacute;s dele<br \/>\n    para recolocar a retranca, o selim e a manta, porem, naquele momento, viu<br \/>\n    uma coisa se mexendo no tren&oacute;; era a cabe&ccedil;a de Nikita que emergia<br \/>\n    da espessa camada de neve que a cobrira. Com extremo esfor&ccedil;o, Nikita,<br \/>\n    completamente enregelado, ergueu-se, sentou-se e come&ccedil;ou a sacudir<br \/>\n    a m&atilde;o diante do nariz, como se estivesse espantando moscas, ao mesmo<br \/>\n    tempo que murmurava palavras inintelig&iacute;veis. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    adivinhou que ele o chamava e, deixando cair a manta que ia estender sobre<br \/>\n    o Baio, acercou- se do empregado:<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; que voc&ecirc; est&aacute; dizendo? Que &eacute; que<br \/>\n    est&aacute; sentindo?<\/p>\n<p>&#8212; Estou&#8230; mo&#8230; mo&#8230; morrendo &#8212; respondeu Nikita, com dificuldade<br \/>\n    e a voz entrecortada. &#8212; O que&#8230; me &#8230; deve&#8230; d&ecirc; ao&#8230; meu<\/p>\n<p> filho&#8230; ou &agrave; minha&#8230; mulher&#8230; &eacute; a mesma&#8230; coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; est&aacute; gelado?<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; sim&#8230; &eacute; a morte &#8230; Perdoe-me&#8230; em nome de &#8230; Cristo<br \/>\n    &#8212; e Nikita solu&ccedil;ava e continuava a agitar as m&atilde;os como<br \/>\n    se enxotasse moscas.<\/p>\n<p>Durante alguns segundos, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch ficou im&oacute;vel<br \/>\n    e calado. Depois, rapidamente, com aquele ar decidido com que despachava um<br \/>\n    fregu&ecirc;s, depois de um bom neg&oacute;cio, recuou um passo, arrega&ccedil;ou<br \/>\n    as mangas da peli&ccedil;a e come&ccedil;ou, com ambas as m&atilde;os, a tirar<br \/>\n    a neve que cobria Nikita e o tren&oacute;. Retirada a neve, Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch desabotoou a peli&ccedil;a, empurrou Nikita para o fundo<br \/>\n    do tren&oacute; e se deitou em cima dele, agasalhando-o com a peli&ccedil;a<br \/>\n    e com seu pr&oacute;prio corpo. Tendo enfiado as abas da peli&ccedil;a entre<br \/>\n    Nikita e os lados do ve&iacute;culo, e prendendo a barra com os joelhos, ficou<br \/>\n    de bru&ccedil;os sobre o criado, com a cabe&ccedil;a apoiada na parte dianteira<br \/>\n    do tren&oacute;. N&atilde;o prestava aten&ccedil;&atilde;o aos movimentos<br \/>\n    do cavalo, nem ao sibilar do vento. Empenhava-se inteiramente em ouvir a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Nikita, que permaneceu longo tempo im&oacute;vel e afinal suspirou e se<br \/>\n    mexeu ligeiramente.<\/p>\n<p>&#8212; Est&atilde;o bem! E voc&ecirc; a dizer que estava morrendo&#8230; Fique<br \/>\n    bem calmo e trate de se esquentar. N&oacute;s somos ossos duros de roer&#8230;<\/p>\n<p>Mas, com grande espanto seu, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de continuar a falar, pois os olhos se encheram de l&aacute;grimas<br \/>\n    e o l&aacute;bio inferior tremia. Parou de falar e fez um enorme esfor&ccedil;o<br \/>\n    para conter o n&oacute; que lhe apertava a garganta.<\/p>\n<p>&#8220;Passei por um grande susto e estou muito enfraquecido&#8221;, pensou.<br \/>\n    Por&eacute;m, a fraqueza que sentia n&atilde;o era desagrad&aacute;vel, at&eacute;,<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, fazia que experimentasse uma estranha alegria, antes<br \/>\n    jamais provada.<\/p>\n<p> &#8220;N&oacute;s somos ossos duros de roer dizia para si mesmo, abandonando-se<br \/>\n    a uma esp&eacute;cie de enternecimento solene e todo especial. E ficou assim<br \/>\n    deitado em sil&ecirc;ncio um largo tempo, enxugando os olhos na dobra da peli&ccedil;a<br \/>\n    e apertando com mais for&ccedil;a o joelho direito para prender a aba que<br \/>\n    o vento amea&ccedil;ava arrancar.<\/p>\n<p>Mas o desejo de fazer que algu&eacute;m participasse da sua alegria foi de<br \/>\n    tal sorte que n&atilde;o se conteve mais:<\/p>\n<p>&#8212; Nikita!<\/p>\n<p>&#8212; Vou indo bem. j&aacute; estou sentindo um pouco de calor &#8212;<br \/>\n    respondeu Nikita, embaixo do amo.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu irm&atilde;o, sim&#8230; eu tamb&eacute;m estive com a morte<br \/>\n    nas minhas costas. Voc&ecirc; quase morre de frio e eu tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>Mas o queixo recome&ccedil;ou a tremer e novamente os olhos se<\/p>\n<p> encheram de l&aacute;grimas. &#8220;N&atilde;o faz mal. Tudo o que sei,<br \/>\n    tenho que guardar comigo&#8221;, pensou. E ficou calado muito tempo.<\/p>\n<p>O calor que subia do corpo de Nikita, sob ele, e o que lhe proporcionava<br \/>\n    a peli&ccedil;a, posta sobre as costas, aqueciam bastante Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch; entretanto as m&atilde;os, que seguravam as abas da peli&ccedil;a,<br \/>\n    e os p&eacute;s, que o vento descobria a todo instante, come&ccedil;avam a<br \/>\n    ficar gelados. Sentia, principalmente, muito frio na m&atilde;o direita, que<br \/>\n    estava sem luva. Contudo, n&atilde;o pensava nem nas suas m&atilde;os, nem<br \/>\n    nos seus p&eacute;s.<\/p>\n<p>S&oacute; pensava em reaquecer o homem que estava deitado por baixo dele.<\/p>\n<p> Algumas vezes dava uma olhada r&aacute;pida no Baio e via que o lombo dele<br \/>\n    estava descoberto, pois o vento jogara ao solo a manta e a retranca. A si<br \/>\n    mesmo dizia que era urgente se levantar e cobrir o animal, mas n&atilde;o<br \/>\n    se decidia a deixar Nikita nem por um minuto, como ainda n&atilde;o queria<br \/>\n    quebrar a singular alegria que embalava a sua alma. j&aacute; n&atilde;o sentia<br \/>\n    o menor medo.<\/p>\n<p>&#8220;J&aacute; passou o perigo. Ele est&aacute; salvo!&#8221;, exclamou<br \/>\n    consigo mesmo, pensando na maneira pela qual recuperava Nikita com o mesmo<br \/>\n    entusiasmo com que, outrora, gabava as suas compras e vendas.<\/p>\n<p>Assim se escoaram tr&ecirc;s horas. Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o<br \/>\n    notava mais a marcha do tempo. No princ&iacute;pio revia mentalmente a borrasca,<br \/>\n    os varais empinados, o cavalo com os arreios. E pensava, tamb&eacute;m, em<br \/>\n    Nikita ali, embaixo dele.<\/p>\n<p>Logo vieram se juntar as recorda&ccedil;&otilde;es mais antigas: a festa<br \/>\n    da aldeia, a mulher, o oficial de pol&iacute;cia, a gaveta da arca onde guardava<br \/>\n    as velas e sob a qual viu, de repente, Nikita deita,do. Seguiram-se os camponeses<br \/>\n    comprando e vendendo, paredes brancas, casas cobertas de zinco, e sob as quais<br \/>\n    tornava a encontrar Nikita. Por fim, tudo se embaralhou.<\/p>\n<p>Uma imagem absorveu a outra e, da mesma forma que as cores do arco-&iacute;ris<br \/>\n    se misturam para dar o branco, tamb&eacute;m toda!s as suas impress&otilde;es,<br \/>\n    confundindo-se, desapareceram.<\/p>\n<p>E ele adormeceu.<\/p>\n<p>Muito tempo dormiu sem sonhar. Mas, pela madrugada, teve um sonho. Viu-se<br \/>\n    na igreja, de p&eacute;, junto &agrave; arca em que guardava as velas. A mulher<br \/>\n    de Tikhon comprava-lhe uma vela de cinco copeques para acend&ecirc;-la diante<br \/>\n    do &iacute;c(pc, cuja festa se comemorava. Ele quer pegar a vela para entreg&aacute;-la<br \/>\n    &agrave; compradora, mas as m&atilde;os, que enfiara nos bolsos- n&atilde;o<br \/>\n    lhe obedecem. Quer contornar a arca, mas os p&eacute;s n&atilde;o saem do<br \/>\n    lugar e os sapatos parecem estar colados no ch&atilde;o. Subitamente a arca<br \/>\n    deixa de ser<\/p>\n<p> arca para ser uma cama e ele se v&ecirc; deitado de borco na cama, mas em<br \/>\n    sua ca. Tenta se levantar, por&eacute;m, n&atilde;o consegue. Todavia, &eacute;<br \/>\n    preniente que se levante, porquanto o oficial de pol&iacute;cia, Ivan Matv&eacute;itch,<br \/>\n    vir&aacute; busc&aacute;-lo para irem juntos efetivar a compra da floresta.<br \/>\n    Ou ser&aacute; para ajud&aacute;-lo a recolocar a retranca o Baio? E Vass&iacute;lii<br \/>\n    Andr&eacute;itch pergunta &agrave; esposa:<\/p>\n<p>&#8220;Como &eacute;, Nikol&aacute;ievna, ele ainda n&atilde;o chegou?&#8221;<br \/>\n    &#8212; &#8220;N&atilde;o, ainda n&atilde;o veio&#8221;, responde ela. A&iacute;<br \/>\n    ouve algu&eacute;m se aproximando da escada. &Eacute; ele, certamente. Mas<br \/>\n    n&atilde;o era! Quem passou n&atilde;o parou. &#8220;Como &eacute;, Nikol&aacute;ievna,<br \/>\n    ent&atilde;o ele ainda n&atilde;o chegou mesmo?&#8221; &#8212; &#8220;N&atilde;o.&#8221;<br \/>\n    E assim ficou na cama, sem poder se levantar, sempre esperando, e a espera<br \/>\n    &eacute; um misto de temor e alegria. De repente, a alegria &eacute; que domina:<br \/>\n    est&aacute; chegando quem ele esperava. Mas n&atilde;o &eacute; Ivan Matv&eacute;itch,<br \/>\n    o oficial de pol&iacute;cia. Trata-se de outra pessoa e, no entanto, &eacute;<br \/>\n    exatamente quem ele desejava que chegasse. Ei-la que se aproxima e o chama.<br \/>\n    E aquela pessoa que o est&aacute; chamando &eacute; justamente aquela que<br \/>\n    lhe ordenara que deitasse sobre o corpo gelado de Nikita para reaquec&ecirc;-lo.<br \/>\n    &#8220;J&aacute; vou!&#8221;, grita com imensa alegria, e acorda com o pr&oacute;prio<br \/>\n    grito.<\/p>\n<p>Acorda, sim, mas inteiramente diferente do Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch<br \/>\n    que adormecera. Quer se levantar, mas se sente incapaz. Quer mexer as m&atilde;os<br \/>\n    e n&atilde;o pode, Quer mexer os p&eacute;s, tamb&eacute;m n&atilde;o pode.<br \/>\n    Quer mover a cabe&ccedil;a e &eacute; a mesma imobilidade. A coisa o espanta,<br \/>\n    mas n&atilde;o o entristece. Compreende que &eacute; a morte e n&atilde;o<br \/>\n    se sente desolado. Lembra-se de Nikita, que est&aacute; debaixo dele, aquecido<br \/>\n    e vivo! Parece-lhe que ele, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, &eacute; Nikita<br \/>\n    e que Nikita &eacute; ele, e que a sua pr&oacute;pria vida n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    mais com ele e sim com Nikita. Atentamente escuta e ouve o respirar e o leve<br \/>\n    ressonar de Nikita. &#8220;Nikita est&aacute; vivo, portanto eu tamb&eacute;m<br \/>\n    estou vivo&#8221;, exclama de si para si, triunfalmente.<\/p>\n<p>E lembra-se do seu dinheiro, do seu armaz&eacute;m, da sua casa, das vendas<br \/>\n    e compras e dos milh&otilde;es de Mironov. &Eacute; incompreens&iacute;vel<br \/>\n    como aquele homem que se chamava Vass&iacute;lii Brekhunov dava tanta import&acirc;ncia<br \/>\n    a tais bagatelas.<\/p>\n<p>&#8220;&Eacute; porque ele n&atilde;o sabia o que &eacute; verdadeiramente<br \/>\n    de valor&#8221;, dizia, pensando em Vass&iacute;lii Brekhunov. &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    sabia o que eu hoje sei. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel me enganar mais.<br \/>\n    Agora eu sei!&#8221; E ouve de novo o chamado daquela pessoa que j&aacute;<br \/>\n    o chamara uma vez. &#8220;j&aacute; vou! j&aacute; vou!&#8221;, responde,<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o transbordando de uma doce alegria.<\/p>\n<p>E, depois disso, Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch n&atilde;o viu, n&atilde;o<br \/>\n    ouviu, nem sentiu mais nada neste mundo.<\/p>\n<p>A tempestade n&atilde;o cessava. A neve em constantes imensos turbilh&otilde;es<br \/>\n    ia cobrindo o corpo de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch, o Baio gelado e tremente,<br \/>\n    o tren&oacute; j&aacute; meio sepultado. E no fundo do ve&iacute;culo, sob<br \/>\n    seu amo<\/p>\n<p> morto de frio, Nikita dormia, t&eacute;pido, sereno.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p>Ao amanhecer, Nikita despertou tomado Por uma estranha sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de frio. Sonhara que ia levando para o moinho uma carro&ccedil;a carregada<br \/>\n    de trigo e, n&atilde;o encontrando a ponte, ao atravessar o riacho, atolara-se<br \/>\n    na lama. Mete-se debaixo da carro&ccedil;a e se esfor&ccedil;a por levant&aacute;-la<br \/>\n    com o emprego das costas. Mas, coisa curiosa, a carro&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    se move!<\/p>\n<p>Parecia grudada &agrave;s suas costas e ele n&atilde;o podia suspend&ecirc;-la<br \/>\n    nem tampouco sair dali. Ela comprime-lhe os rins. Meu Deus! Como est&aacute;<br \/>\n    fria! &Eacute; preciso que saia dali de qualquer jeito! &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    ag&uuml;ento mais! Tire os sacos!&#8221;, diz a algu&eacute;m que, sup&otilde;e,<br \/>\n    est&aacute; assistindo &agrave; cena. Mas a carro&ccedil;a parece cada vez<br \/>\n    mais fria e esmagando-o. E eis que &eacute; atingido por duas pancadas &#8212;<br \/>\n    desperta de todo e se lembra de tudo. A carro&ccedil;a gelada &eacute; o amo<br \/>\n    morto, deitado em cima dele, e as pancadas que sentiu eram o Baio, que por<br \/>\n    duas vezes batera com o casco no tren&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Andr&eacute;itch! &#8212; chama, temeroso, com O pressentimento da<br \/>\n    verdade e arqueando as costas.<\/p>\n<p>O amo n&atilde;o responde. A barriga e as pernas dele est&atilde;o duras<br \/>\n    e pesadas como se fossem de chumbo.<\/p>\n<p>&#8220;Com certeza morreu! Que Deus o receba em Seu reino!&#8221;, pensa<br \/>\n    Nikita. Vira a cabe&ccedil;a, faz um buraco na neve com a m&atilde;o e abre<br \/>\n    os olhos. Est&aacute; bastante claro. O vento continua a balan&ccedil;ar os<br \/>\n    varais e a neve tomba sempre, n&atilde;o mais fustigando os lados do tren&oacute;,<br \/>\n    mas sepultando, silenciosamente, o ve&iacute;culo e o cavalo, que est&aacute;<br \/>\n    im&oacute;vel, a respira&ccedil;&atilde;o, parada. &#8220;Ele tamb&eacute;m<br \/>\n    deve ter morrido&#8221;, raciocina. E, na verdade, fora fazendo um &uacute;ltimo<br \/>\n    esfor&ccedil;o para se manter de p&eacute; que o Baio, inteiramente gelado,<br \/>\n    batera com as patas no tren&oacute; e acordara Nikita.<\/p>\n<p>&#8220;Senhor! Pai celeste! Tamb&eacute;m sou chamado &agrave; Sua presen&ccedil;a!<br \/>\n    Que seja feita a Sua divina vontade! Tenho medo mas que posso fazer? S&oacute;<br \/>\n    se morre uma vez. Tomara que n&atilde;o demore muito&#8221;, e Nikita recolhe<br \/>\n    as m&atilde;os, cerra os olhos dorme, certo de que chegara a sua vez.<\/p>\n<p>Foi s&oacute; no dia seguinte, &agrave; hora do jantar, que uns camponeses<br \/>\n    desenterraram Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch e Nikita, que estavam a cinq&uuml;enta<br \/>\n    metros da estrada e a meio quil&ocirc;metro da aldeia.<\/p>\n<p>A neve cobrira inteiramente o tren&oacute;, mas os varais como o<\/p>\n<p> drapejante len&ccedil;o ainda estavam &agrave; vista. Baio, com neve at&eacute;<br \/>\n    a barriga, a manta e a retranca desca&iacute;das para um lado mantinha-se<br \/>\n    de p&eacute;, todo branco, a cabe&ccedil;a pendida, as ventas entupidas de<br \/>\n    neve, assim como os olhos, que pareciam verter l&aacute;grimas geladas. Emagrecera<br \/>\n    tanto no decorrer daquela noite que n&atilde;o era mais do que pele e ossos.<\/p>\n<p>O corpo de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch estava t&atilde;o hirto quanto<br \/>\n    um peda&ccedil;o de carne congelada. Ao erguerem o cad&aacute;ver, ficou ele<br \/>\n    com as pernas abertas tal como se deitara sobre Nikita. os olhos de gavi&atilde;o,<br \/>\n    redondos e saltados, gelados estavam, e a neve entupira a boca, sob o bigode<br \/>\n    aparado.<\/p>\n<p>Quanto a Nikita, ainda vivia, n&atilde;o obstante tivesse corpo parcialmente<br \/>\n    gelada. Quando o acordaram, julgou que estivesse morto e que tudo o que acontecia<br \/>\n    &agrave; sua volta j&aacute; fosse no outro mundo. Ao ouvir a voz dos camponeses<br \/>\n    que livravam o tren&oacute; e suspendiam o corpo de Vass&iacute;lii Andr&eacute;itch,<br \/>\n    ficou muito admirado, no primeiro momento, por ver que havia gente no outro<br \/>\n    mundo e que discutia da mesma forma que neste; por&eacute;m, ao perceber que<br \/>\n    ainda se encontrava na Terra, sentiu-se mais aborrecido do que contente e<br \/>\n    mais ainda ao notar que tinha os dedos dos p&eacute;s enregelados.<\/p>\n<p>Dois meses passou ele no hospital. Amputaram-lhe tr&ecirc;s dedos; outros<br \/>\n    ficaram bons &#8212; e p&ocirc;de voltar a trabalhar.<\/p>\n<p>Vinte anos viveu ainda, primeiramente como criado de um herdade e mais tarde,<br \/>\n    ao chegar a velhice, como guarda-noturno. S&oacute; veio a morrer este ano<br \/>\n    rodeado dos seus, na sua pr&oacute;pria casa, tal como sempre ambicionara,<br \/>\n    sob a prote&ccedil;&atilde;o dos &iacute;cones e com uma vela entre as m&atilde;os.<br \/>\n    Antes de expirar, pediu perd&atilde;o &agrave; mulher, despediu-se do filho<br \/>\n    e dos netos e se foi absolutamente feliz porque livrara o filho e a nora de<br \/>\n    uma boca in&uacute;til e, principalmente, porque trocava, afinal, esta vida,<br \/>\n    da qual j&aacute; se sentia saturado, por outra que, &agrave; medida que os<br \/>\n    anos passavam, lhe parecia mais atraente e longa.<\/p>\n<p>Estar&aacute; melhor ou pior no mundo em que foi acordar depois da sua morte?<br \/>\n    Ter&aacute; se decepcionado ou encontrou l&aacute; precisamente aquilo que<br \/>\n    desejava?<\/p>\n<p>Um dia todos n&oacute;s o saberemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Leon Tolstoi I Corria a d&eacute;cada de -. 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