{"id":108523,"date":"2017-02-13T10:15:06","date_gmt":"2017-02-13T12:15:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108523"},"modified":"2017-02-13T10:18:24","modified_gmt":"2017-02-13T12:18:24","slug":"sonata-a-kreutzer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/sonata-a-kreutzer","title":{"rendered":"Sonata a Kreutzer"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"399\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Posf\u00e1cio<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Est&aacute;vamos no princ&iacute;pio da Primavera. Havia dois longos dias,<br \/>\n    e uma n&atilde;o menos longa noite que viaj&aacute;vamos de comboio.<\/p>\n<p>Em todas as esta&ccedil;&otilde;es, passageiros entravam ou sa&iacute;am<br \/>\n    do nosso compartimento. Por fim ficaram s&oacute; tr&ecirc;s viajantes: uma<br \/>\n    senhora de meia-idade, fei&ccedil;&otilde;es envelhecidas e feia, de cigarro<br \/>\n    na boca, gorro na cabe&ccedil;a, e um casac&atilde;o de corte masculino; um<br \/>\n    amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas e elegantes;<br \/>\n    e, afastado de todos, um homem baixo, de movimentos nervosos; n&atilde;o era<br \/>\n    velho e os cabelos embranquecidos antes de tempo, ainda se conservavam ondulados.<br \/>\n    Tinha uns olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco co&ccedil;ado,<br \/>\n    com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate; na cabe&ccedil;a, gorro<br \/>\n    alto da mesma pele. Sob o casaco, quando o desabotoava, via-se colete comprido<br \/>\n    e blusa russa bordada.<\/p>\n<p>Tinha ainda outra particularidade. De vez em quando, soltava sons estranhos<br \/>\n    que se assemelhavam a um solu&ccedil;o ou a um riso abafado.<\/p>\n<p>Durante toda a viagem n&atilde;o dirigiu a palavra a qualquer dos passageiros.<br \/>\n    Lia, fumava, ou olhava pela janela; bebia ch&aacute;, comia p&atilde;o com<br \/>\n    manteiga que tirava de um saco velho de couro.<\/p>\n<p>Se lhe dirigiam a palavra, as respostas eram breves e secas e o seu olhar<br \/>\n    ia perder-se na paisagem fugidia. Notei, contudo, que a solid&atilde;o lhe<br \/>\n    pesava. Tentei, por v&aacute;rias vezes, falar-lhe.<\/p>\n<p>Parecia adivinhar o meu pensamento, e quando os nossos olhares se encontravam<br \/>\n    &#8212; o que era frequente, pois ocup&aacute;vamos lugares fronteiros &#8212;<br \/>\n    desviava o olhar e enfronhava-se na leitura. Ao cair da noite o comboio parou<br \/>\n    numa esta&ccedil;&atilde;o importante. O senhor de cabelos brancos desceu<br \/>\n    para ir buscar &aacute;gua a ferver e fazer ch&aacute; novo.<\/p>\n<p>O homem das malas novas e elegantes &#8212; um advogado &#8212; desceu com<br \/>\n    a sua companheira para ir ao bufete tomar uma ch&aacute;vena de ch&aacute;.<\/p>\n<p>Novos passageiros subiram, um velho alto com a barba feita de fresco e a<br \/>\n    fronte sulcada de rugas, um negociante sem d&uacute;vida &#8212; envolto numa<br \/>\n    pelica de lontra, a cabe&ccedil;a coberta por um bon&eacute; de grande pala.<br \/>\n    Sentou-se no lugar em frente da companheira do advogado e entabulou imediatamente<br \/>\n    conversa com um rapaz novo, tipo de caixeiro-viajante, que entrara na mesma<br \/>\n    carruagem e na mesma esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Eu estava perto deles e com o comboio parado pude ouvir alguns<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>trechos da conversa&#8230; Falaram da viagem, do com&eacute;rcio, de uma pessoa<br \/>\n    que ambos conheciam e, por &uacute;ltimo, de Nijni-Novgorod.<\/p>\n<p>O caixeiro quis contar o casamento de um negociante conhecido de ambos, mas<br \/>\n    o velho interrompeu-o para descrever as p&acirc;ndegas em que outrora tomara<br \/>\n    parte em Kounavino. Evocava essas recorda&ccedil;&otilde;es com certo desvanecimento,<br \/>\n    persuadido de que essas hist&oacute;rias em nada prejudicavam nem o seu brio<br \/>\n    nem a sua dignidade. Orgulhoso dessas fa&ccedil;anhas contava, como um dia,<br \/>\n    em Kounavino, estando embriagado, se entregara a tal orgia, que s&oacute;<br \/>\n    ao ouvido podia ser contada. O caixeiro, ao ouvir a confid&ecirc;ncia, riu<br \/>\n    desabaladamente e, o velho, ria tamb&eacute;m, mostrando dois dentes amarelados.<\/p>\n<p>A conversa n&atilde;o tinha interesse para mim. Desci para desentorpecer<br \/>\n    as pernas enquanto n&atilde;o dava o sinal da partida.<\/p>\n<p>Na gare encontrei o advogado e a sua companheira, conversando animadamente.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se demore &#8212; disse ele &#8212;, o comboio vai partir.<br \/>\n    Efectivamente, mal eu atingira a cauda do comboio, deram o segundo sinal.<\/p>\n<p>Quando subi para a carruagem, o advogado e a sua cliente prosseguiam a conversa<br \/>\n    animad&iacute;ssimos. O velho negociante sentado em frente deles n&atilde;o<br \/>\n    dizia uma palavra, olhando-os com ar severo e desdenhoso. Quando eu passava,<br \/>\n    o advogado dizia, sorrindo:<\/p>\n<p>&#8212; Ela ent&atilde;o declarou ao marido que n&atilde;o podia, nem queria,<br \/>\n    continuar a viver com ele, tendo-se dado o caso&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o ouvi o resto. Passava o revisor e entravam mais passageiros. Restabelecido<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio, ouvi novamente a voz do advogado, e pareceu-me que a conversa<br \/>\n    se desviara, de um caso particular, para considera&ccedil;&otilde;es gerais.<\/p>\n<p> O advogado observava que, a quest&atilde;o do div&oacute;rcio interessava<br \/>\n    hoje toda a Europa e que na R&uacute;ssia, os casos eram cada vez mais frequentes.<br \/>\n    Sorriu ao notar que era o &uacute;nico a falar e, voltando-se para o comerciante,<br \/>\n    perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Era quest&atilde;o que n&atilde;o existia nos bons tempos de outrora,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade?<\/p>\n<p>O comboio p&ocirc;s-se em movimento. Sem responder, o velho descobriu-se,<br \/>\n    persignou-se, murmurou uma ora&ccedil;&atilde;o em voz baixa, enterrou o bon&eacute;<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s orelhas e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Existia&#8230; mas menos. Hoje n&atilde;o pode ser de outro modo. As<br \/>\n    pessoas instruem-se de mais.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>O advogado replicou. Mas o barulho do comboio, que aumentava de velocidade,<br \/>\n    impediu-me de perceber. Aproximei-me cheio de curiosidade para ouvir a resposta<br \/>\n    do velho. A conversa parecia interessar tamb&eacute;m o meu vizinho &#8212;<br \/>\n    o senhor de olhos brilhantes &#8212; que prestava toda a aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    embora n&atilde;o abandonasse o seu lugar.<\/p>\n<p>&#8212; Que culpa tem a instru&ccedil;&atilde;o? &#8212; perguntou a senhora,<br \/>\n    esbo&ccedil;ando um sorriso. &#8212; Era melhor o casamento quando os noivos<br \/>\n    mal se conheciam? &#8212; continuou ela, respondendo: &#8212; h&aacute;bito<br \/>\n    frequente entre as mulheres &#8212; n&atilde;o aos argumentos apresentados<br \/>\n    mas &agrave;queles que podiam ter sido.<\/p>\n<p>&#8212; Amavam-se? Poder-se-iam amar? N&atilde;o o sabiam. A mulher desposava<br \/>\n    o primeiro que aparecia e habilitava-se, assim, a uma vida de tormento. Isto<br \/>\n    era prefer&iacute;vel? &#8212; concluiu, dirigindo-se, mais ao advogado e<br \/>\n    a mim, do que ao velho com quem principiara a discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Nos nossos dias h&aacute; demasiada instru&ccedil;&atilde;o &#8212;<br \/>\n    repetiu o velho, respondendo &agrave; pergunta e olhando desdenhosamente.<\/p>\n<p>&#8212; Gostava de ouvi-lo explicar a liga&ccedil;&atilde;o entre a instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e as desaven&ccedil;as conjugais &#8212; disse o advogado, disfar&ccedil;ando<br \/>\n    um sorriso.<\/p>\n<p>O comerciante ia responder, mas a senhora interrompeu-o:<\/p>\n<p>&#8212; Esse tempo acabou.<\/p>\n<p>&#8212; Permita que este senhor exponha as suas ideias &#8212; disse o advogado.<\/p>\n<p>&#8212; Todas as tolices v&ecirc;m da instru&ccedil;&atilde;o &#8212; disse<br \/>\n    o velho em tom categ&oacute;rico.<\/p>\n<p>&#8212; Como podem entender-se pessoas que se n&atilde;o amam? &#8212; apressou-se<br \/>\n    a perguntar a senhora, olhando para o advogado, depois para mim e para o caixeiro<br \/>\n    que, de p&eacute;, encostado ao banco, seguia, sorridente, a discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; os animais se podem acasalar, segundo a vontade do dono;<br \/>\n    os homens t&ecirc;m as suas inclina&ccedil;&otilde;es, as suas simpatias &#8212;<br \/>\n    disse ela com a inten&ccedil;&atilde;o de ferir o negociante.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um erro, minha senhora &#8212; disse o velho. &#8212; O<br \/>\n    animal &eacute; um animal; ao homem foi dada uma lei.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como pode o homem viver sem amor? &#8212; replicou a senhora,<br \/>\n    convencida que emitia ideias originais.<\/p>\n<p>&#8212; Modernismos &#8212; teimou o velho. &#8212; Outrora n&atilde;o se<br \/>\n    pensava em tal.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Hoje, &agrave; mais leve quest&atilde;o, a mulher moderna declara ao homem<br \/>\n    que o deixa; e at&eacute; as camponesas atiram com as camisas e as pe&uacute;gas<br \/>\n    ao marido para se lan&ccedil;arem nos bra&ccedil;os de outro homem, por ter<br \/>\n    o cabelo mais frisado&#8230; De que servem palavras? O dever da mulher &eacute;<br \/>\n    respeitar o marido, o &uacute;nico sentimento que a mulher deve sentir &eacute;<br \/>\n    o temor.<\/p>\n<p>O caixeiro olhou para o advogado, para a senhora e para mim, reprimindo um<br \/>\n    sorriso, pronto a ridicularizar ou a aplaudir as palavras do comerciante,<br \/>\n    segundo a nossa atitude.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que temor? &#8212; perguntou a senhora.<\/p>\n<p>&#8212; Eu explico&#8230; &laquo;As mulheres estejam sujeitas a seus maridos&raquo;.<\/p>\n<p>&#8212; Meu caro senhor, esse tempo j&aacute; Ia vai&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tanto como parece, minha senhora. Eva, a primeira mulher,<br \/>\n    nasceu de uma costela do homem e assim permanecer&aacute; at&eacute; ao fim<br \/>\n    do mundo.<\/p>\n<p>Disse isto, sacudindo a cabe&ccedil;a, num gesto t&atilde;o triunfante e<br \/>\n    t&atilde;o severo que o caixeiro lhe concedeu os louros da vit&oacute;ria,<br \/>\n    fazendo ouvir uma sonora gargalhada.<\/p>\n<p>&#8212; Eis a maneira de os homens julgarem &#8212; disse a mulher, n&atilde;o<br \/>\n    querendo dar-se por vencida. &#8212; Querem a liberdade para si e a escravid&atilde;o<br \/>\n    para a mulher. Aos homens tudo &eacute; permitido, n&atilde;o &eacute; assim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O homem &eacute; outro caso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; essa a sua opini&atilde;o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ao homem tudo &eacute; permitido?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ningu&eacute;m diz tal. O mau comportamento do homem n&atilde;o atinge<br \/>\n    a fam&iacute;lia. A mulher &eacute; fr&aacute;gil como o vidro &#8212; continuou<br \/>\n    ele. O calor das suas palavras convenceu os que o ouviam; mas a senhora n&atilde;o<br \/>\n    se deu por vencida e continuou: &#8212; No entanto a mulher &eacute; pessoa<br \/>\n    humana, tem sentimentos como o homem. Que h&aacute;-de fazer, se n&atilde;o<br \/>\n    amar o marido?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o amar o marido?&#8230; &#8212; gritou o velho. &#8212; Aprender&aacute;<br \/>\n    a am&aacute;-lo. N&atilde;o receie&#8230;<\/p>\n<p>Esta conclus&atilde;o imprevista encantou o caixeiro que teve um murm&uacute;rio<br \/>\n    de aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Engana-se. Nunca aprender&aacute;. O amor n&atilde;o se imp&otilde;e.<\/p>\n<p>&#8212; E se a mulher enganar o marido? &#8212; perguntou o advogado.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; quest&atilde;o que se n&atilde;o pode p&ocirc;r &#8212;<br \/>\n    disse o velho. &#8212; Esteja-se atento.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&#8212; Mas se, apesar de tudo, o facto se der? S&atilde;o coisas que podem<br \/>\n    acontecer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Noutros meios isso pode acontecer; no nosso n&atilde;o &#8212; disse<br \/>\n    o velho. Todos se calaram. O caixeiro parecia agitado; aproximou-se mais e<br \/>\n    n&atilde;o querendo deixar de tomar parte na conversa disse com o seu eterno<br \/>\n    sorriso:<\/p>\n<p>&#8212; Um dos meus amigos foi v&iacute;tima de um esc&acirc;ndalo bem triste.<br \/>\n    A mulher, leviana, come&ccedil;ou a fazer das suas. O marido era instru&iacute;do<br \/>\n    e s&eacute;rio. O primeiro amante da mulher foi o caixeiro-viajante O marido<br \/>\n    tentou lev&aacute;-la ao bom caminho, admoestando-a brandamente. Ela n&atilde;o<br \/>\n    fez caso e desceu o m&aacute;ximo; come&ccedil;ou a roubar-lhe dinheiro. Ele<br \/>\n    bateu-lhe. A situa&ccedil;&atilde;o agravou-se. Entregou-se a um judeu e depois<br \/>\n    a outros&#8230; Que podia ele fazer? Expulsou-a de casa, de uma vez para sempre.<\/p>\n<p>Ela agora corre mundo e ele vive solteiro.<\/p>\n<p>&#8212; Era um imbecil &#8212; disse o velho. &#8212; Se ele tem sabido dom&aacute;-la<br \/>\n    desde o princ&iacute;pio ainda hoje a teria em casa. &Eacute; preciso ter<br \/>\n    sempre as r&eacute;deas altas, em casa, &agrave; mulher, na estrada ao cavalo.<\/p>\n<p>Neste momento entrou o revisor para controlar os bilhetes, antes da pr&oacute;xima<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o. O velho entregou o seu e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Pode crer, as mulheres devem ser refreadas a tempo, de contr&aacute;rio<br \/>\n    est&aacute; tudo perdido.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o impede que se divirta com as raparigas bonitas de<br \/>\n    Kounavino &#8212; disse o advogado, com um sorriso ir&oacute;nico.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor afasta-se da quest&atilde;o &#8212; replicou friamente o<br \/>\n    comerciante e manteve-se num sil&ecirc;ncio absoluto.<\/p>\n<p>Da&iacute; a pouco ouviu-se um apito agudo. O comboio parava. O velho ergueu-se,<br \/>\n    embrulhou-se na pelica, levou a m&atilde;o ao bon&eacute; e desceu.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>Apenas o velho saiu, travou-se animada conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Um homem do Velho Testamento &#8212; disse o caixeiro.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&#8212; Um verdadeiro Demostoroi &#8212; disse a senhora. &#8212; Que ideias<br \/>\n    atrasadas sobre o casamento!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Estamos ainda longe de ter sobre o casamento as ideias do resto da<br \/>\n    Europa &#8212; disse o advogado<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel fazer compreender a esta gente<br \/>\n    &#8212; interrompeu a senhora &#8212; que s&oacute; o amor consagra o casamento<br \/>\n    e, que, s&oacute; o casamento consagrado pelo amor &eacute; realmente leg&iacute;timo.<\/p>\n<p>O caixeiro sorria atento, desejando reter na mem&oacute;ria, quanto poss&iacute;vel,<br \/>\n    estas inteligentes opini&otilde;es, para as emitir em ocasi&atilde;o oportuna.<\/p>\n<p>No meio da tirada da senhora, atr&aacute;s de mim, ouviu-se um som semelhante<br \/>\n    a uma gargalhada ou a um solu&ccedil;o. Quando me voltei vi o meu vizinho,<br \/>\n    o senhor solit&aacute;rio de cabelos brancos e de olhar brilhante que, aparentemente<br \/>\n    interessado, se tinha aproximado, durante a discuss&atilde;o, sem que d&eacute;ssemos<br \/>\n    por isso.<\/p>\n<p>Estava de p&eacute;, apoiando as m&atilde;os no estofo do banco, visivelmente<br \/>\n    comovido, a face congestionada e estremecendo-lhe um dos m&uacute;sculos.<\/p>\n<p>&#8212; Que amor &eacute; esse que consagra o casamento? &#8212; perguntou.<\/p>\n<p>&#8212; Que amor?&#8230; &#8212; repetiu a senhora. &#8212; O amor conjugal que<br \/>\n    santifica o casamento. O verdadeiro amor. Se esse amor existe entre o homem<br \/>\n    e a mulher o casamento &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem. Mas o que entende por verdadeiro amor? &#8212; disse<br \/>\n    timidamente o senhor de olhar brilhante, com um sorriso contrafeito<\/p>\n<p>&#8212; Todo o mundo o sabe! &#8212; disse a senhora, declarada-mente desejosa<br \/>\n    de interromper a conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Pois eu desconhe&ccedil;o tal amor &#8212; disse o senhor &#8212;<br \/>\n    e gostava que me explicasse o que entende por verdadeiro amor.<\/p>\n<p>&#8212; Como?&#8230; &Eacute; uma coisa bem simples &#8212; disse a senhora.<br \/>\n    E reflectindo um instante acrescentou: &#8212; O amor &eacute; a predilec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exclusiva de um homem ou de uma mulher pelo indiv&iacute;duo de sexo diferente.<\/p>\n<p>&#8212; Por quanto tempo essa predilec&ccedil;&atilde;o? Por um m&ecirc;s?<br \/>\n    Por dois dias? Por meia hora? &#8212; perguntou o senhor de cabelos brancos,<br \/>\n    desatando a rir.<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer &#8212; interveio o advogado, designando a senhora &#8212;<br \/>\n    que o casamento deve ter origem numa afei&ccedil;&atilde;o, no amor, se voc&ecirc;<br \/>\n    quiser, e, que, se realmente o amor existe, e somente nesse caso, o casamento<br \/>\n    tem alguma coisa de sagrado. Compreendi o seu pensamento, minha senhora?<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>A senhora aprovou com a cabe&ccedil;a este esclarecimento.<\/p>\n<p>&#8212; Depois disto&#8230; &#8212; retomou o advogado, seguindo o curso do seu<br \/>\n    racioc&iacute;nio. Mas o primeiro senhor, que tinha agora os olhos brilhantes<br \/>\n    e se continha com manifesta dificuldade, sem deixar o advogado acabar, come&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8212; Eu falo precisamente dessa predilec&ccedil;&atilde;o de um homem<br \/>\n    por uma mulher ou de uma mulher por um homem entre todos ou todas. Mas pergunto<br \/>\n    simplesmente: Predilec&ccedil;&atilde;o por quanto tempo?<\/p>\n<p>&#8212; Por quanto tempo? Por muito&#8230; por toda a vida&#8230; &#8212; disse &agrave;<br \/>\n    senhora, sacudindo os ombros.<\/p>\n<p>&#8212; Nos romances, talvez. Na vida real, nunca. &Eacute; muito raro essa<br \/>\n    prefer&ecirc;ncia durar anos. Na maioria dos casos, dura meses, semanas, dias,<br \/>\n    ou mesmo horas.<\/p>\n<p>Ele sabia que estas opini&otilde;es, evidentemente, espantavam todos e sentia-se<br \/>\n    satisfeito.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; verdade &#8212; disseram todos. O<br \/>\n    pr&oacute;prio caixeiro-viajante teve um gesto de aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei&#8230; Os senhores falam do que deveria ser. Eu falo do que realmente<br \/>\n    &eacute;. Todo o homem sente o que os senhores chamam amor, por qualquer mulher<br \/>\n    bonita.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; horr&iacute;vel o que o senhor diz. O amor existe, e dura,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; meses, n&atilde;o s&oacute; anos, mas toda a vida.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. N&atilde;o &eacute; verdade. Mesmo admitindo que um homem<br \/>\n    prefira uma mulher toda a vida, essa mulher preferir&aacute; outro. Foi sempre<br \/>\n    assim e assim continuar&aacute; a ser.<\/p>\n<p>Pegou na cigarreira, tirou um cigarro e acendeu-o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a reciprocidade existe &#8212; disse o advogado.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. &Eacute; t&atilde;o imposs&iacute;vel como encontrarem-se<br \/>\n    num vag&atilde;o cheio de gr&atilde;os, dois gr&atilde;os previamente marcados.<br \/>\n    Amar um homem, ou amar uma mulher toda a vida &eacute; teimar que uma vela<br \/>\n    acesa pode arder eternamente &#8212; concluiu ele, aspirando avidamente o<br \/>\n    fumo do cigarro.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o senhor refere-se somente ao amor carnal. N&atilde;o admite<br \/>\n    o amor nascido da comunh&atilde;o de um mesmo ideal, de afinidades espirituais?<br \/>\n    &#8212; disse a senhora.<\/p>\n<p>&#8212; Afinidades espirituais?&#8230; Comunh&atilde;o de ideal? &#8212; repetiu<br \/>\n    ele,<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>emitindo o gemido que lhe era peculiar. &#8212; Ter o mesmo ideal n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; raz&atilde;o para ter o mesmo leito.<\/p>\n<p>&#8212; Os factores provam o contr&aacute;rio &#8212; disse o advogado. &#8212;<br \/>\n    O casamento existe, n&atilde;o s&oacute; entre n&oacute;s, mas na maioria<br \/>\n    dos povos, e, muitos casais vivem durante muito tempo unidos e felizes.<\/p>\n<p>O senhor de cabelos brancos riu novamente.<\/p>\n<p>&#8212; Perd&atilde;o. O senhor afirmou que o amor &eacute; a base do casamento.<br \/>\n    Eu emito a d&uacute;vida da exist&ecirc;ncia de outro amor, que n&atilde;o<br \/>\n    seja o amor sensual e o senhor d&aacute;-me como prova que o casamento existe.<br \/>\n    Mas esse casamento no nosso tempo n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o uma impostura.<\/p>\n<p>&#8212; Perd&atilde;o!&#8230; &#8212; disse o advogado. &#8212; Eu disse que<br \/>\n    houve e h&aacute; ainda casamentos.<\/p>\n<p>&#8212; De acordo. Mas porqu&ecirc;? Porque h&aacute; ainda pessoas que consideram<br \/>\n    o casamento como um acto sacramental, um la&ccedil;o perante Deus. Para aqueles<br \/>\n    que assim pensam, o casamento existe realmente. Mas s&oacute; para esses.<\/p>\n<p>&laquo;Entre n&oacute;s os homens casam sem considerar o casamento outra<br \/>\n    coisa que n&atilde;o sejam benef&iacute;cios materiais ou de ordem sexual;<br \/>\n    e a liga&ccedil;&atilde;o tende ent&atilde;o ou para a fraude ou para o constrangimento.<br \/>\n    Quando &eacute; fraude &eacute; f&aacute;cil de suportar&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Ent&atilde;o o marido e a mulher procuram fazer acreditar aos outros<br \/>\n    que vivem em monogamia quando, de facto, vivem na poligamia ou poliandria.<br \/>\n    &Eacute; repugnante. Mas quando isto acontece, e d&aacute;-se muitas vezes,<br \/>\n    tomam como obriga&ccedil;&atilde;o exterior viverem juntos toda a vida, quando<br \/>\n    desde o segundo m&ecirc;s se odeiam, nesse tremendo inferno que leva muitos<br \/>\n    ao suic&iacute;dio, &agrave; embriaguez, a fazer desaparecer, e envenenar<br \/>\n    o companheiro ou a companheira &#8212; isto disse o senhor de cabelos brancos<br \/>\n    apressadamente, sem dar tempo a que ningu&eacute;m abrisse a boca e entusiasmando-se<br \/>\n    cada vez mais.<\/p>\n<p>Todos se calaram. Ningu&eacute;m estava &agrave; vontade.<\/p>\n<p>&#8212; De facto h&aacute; momentos de crise na vida conjugal &#8212; disse<br \/>\n    o advogado para interromper uma conversa mais acalorada do que conveniente.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; reconheceu-me, pelo que vejo &#8212; disse o senhor de<br \/>\n    cabelos brancos com uma voz delicada e apaziguadora. &#8212; N&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    tenho esse prazer.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o deve ser grande o prazer. Eu sou Pozdnychev, que atravessou<br \/>\n    na sua vida conjugal um desses momentos de crise a que voc&ecirc; fez refer&ecirc;ncia;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>momento t&atilde;o cr&iacute;tico que matei a minha mulher &#8212; disse<br \/>\n    ele, fitando rapidamente cada um de n&oacute;s.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m encontrou palavras para responder; todos se calaram.<\/p>\n<p>&#8212; E o mesmo &#8212; disse ele, produzindo aquele som mistura de solu&ccedil;o<br \/>\n    e de gargalhada. &#8212; Perdoem-me, n&atilde;o quero incomod&aacute;-los!<\/p>\n<p>&#8212; De maneira nenhuma. Esteja a sua vontade!&#8230; &#8212; disse o advogado<br \/>\n    sem saber ao certo porque dizia aquele &laquo;&agrave; vontade&raquo;.<\/p>\n<p>Mas Pozdnychev virou-se bruscamente e foi de novo sentar-se no seu lugar.<br \/>\n    O senhor e a senhora come&ccedil;aram a cochichar. Eu estava sentado, ao lado<br \/>\n    de Pozdnychev e conservava-me calado, sem saber o que havia de dizer.<\/p>\n<p>Havia j&aacute; pouca luz. Fechei os olhos, fingindo que queria dormir. Cheg&aacute;mos<br \/>\n    assim &agrave; esta&ccedil;&atilde;o seguinte.<\/p>\n<p>Durante a paragem o senhor e a senhora passaram para uma outra carruagem;<br \/>\n    tinham previamente combinado a mudan&ccedil;a com o revisor. O caixeiro instalou-se<br \/>\n    comodamente e deixou-se dormir&#8230;<\/p>\n<p>Quanto a Pozdnychev, n&atilde;o parava de fumar e beber ch&aacute;, que havia<br \/>\n    preparado na esta&ccedil;&atilde;o anterior. Quando abri os olhos e olhei<br \/>\n    para ele, voltou-se subitamente para mim e com um ar ao mesmo tempo resoluto<br \/>\n    e exasperado perguntou-me:<\/p>\n<p>&#8212; Certamente lhe &eacute; muito desagrad&aacute;vel ficar sentado ao<br \/>\n    p&eacute; de mim, sabendo quem eu sou. Se voc&ecirc; quiser, vou-me embora.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se v&aacute; embora, pelo amor de Deus!<\/p>\n<p>&#8212; Quer ent&atilde;o tomar uma ch&aacute;vena de ch&aacute;? Est&aacute;<br \/>\n    muito forte. Serviu-me o ch&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Eles dizem&#8230; N&atilde;o fazem outra coisa sen&atilde;o mentir &#8212;<br \/>\n    disse ele.<\/p>\n<p>&#8212; De que &eacute; que est&aacute; a falar? &#8212; perguntei-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; Sempre da mesma coisa, desse amor de que eles falam e do que ele<br \/>\n    &eacute; na realidade. Tem sono?<\/p>\n<p>&#8212; Nenhum.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, se me d&aacute; licen&ccedil;a, vou contar-lhe como<br \/>\n    por esse amor eu fui arrastado ao crime.<\/p>\n<p>&#8212; Se lhe n&atilde;o custa contar-me a hist&oacute;ria&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O que custa &eacute; calar-me. Sirva-se de ch&aacute;. Est&aacute;<br \/>\n    talvez muito forte&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Estava realmente muito forte. Parecia tinta de escrever; no entanto, tomei<br \/>\n    um copo.<\/p>\n<p>Neste momento entrou de novo o revisor. O meu companheiro seguiu-o com um<br \/>\n    olhar sombrio e s&oacute; come&ccedil;ou a hist&oacute;ria quando o outro<br \/>\n    desapareceu.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Contar-lhe-ei a minha hist&oacute;ria, se, realmente, a voc&ecirc;<br \/>\n    lhe interessa. Repeti-lhe que a desejava ouvir.<\/p>\n<p>Calou-se por momentos. Passou a m&atilde;o pela cara e come&ccedil;ou:<\/p>\n<p>&#8212; Antes de me casar eu fazia a vida que fazem todos os rapazes do nosso<br \/>\n    meio. Era propriet&aacute;rio. Estudava na Universidade. Meu pai era da alta<br \/>\n    nobreza. Como todos os homens do nosso meio vivia amoralmente, convencido<br \/>\n    de que vivia como deve viver um homem do nosso meio. Pensava, de mim para<br \/>\n    mim, que era um rapaz encantador e de uma excelente moralidade. N&atilde;o<br \/>\n    era um sedutor, e n&atilde;o tinha h&aacute;bitos contra a natureza; nem tinha<br \/>\n    como fim &uacute;ltimo da minha exist&ecirc;ncia os prazeres da carne &#8212;<br \/>\n    o que acontecia com a maior parte dos rapazes da minha idade.<\/p>\n<p> Procedia com medida e dec&ecirc;ncia, sempre preocupado com a sa&uacute;de.<br \/>\n    Evitei rela&ccedil;&otilde;es que pudessem ter consequ&ecirc;ncias s&eacute;rias,<br \/>\n    filhos ou grandes afei&ccedil;&otilde;es. Talvez tivesse havido filhos e mesmo<br \/>\n    liga&ccedil;&otilde;es com raparigas desinteressadas e s&eacute;rias, nunca<br \/>\n    me interessou sab&ecirc;-lo; era como se nada tivesse acontecido. E n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; achava esse procedimento moral, mas at&eacute; me sentia orgulhoso<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>Parou e emitiu aquele som particular que fazia todas as vezes que lhe vinha<br \/>\n    uma ideia nova.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma das piores inf&acirc;mias &#8212; gritou ele. &#8212;<br \/>\n    O desregramento nunca &eacute; f&iacute;sico; nenhuma desordem f&iacute;sica<br \/>\n    &eacute; desregramento. O desregramento, o verdadeiro desregramento consiste,<br \/>\n    precisamente, no facto de nos libertarmos de todas as liga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    morais com a mulher com que houve com&eacute;rcio f&iacute;sico. At&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o considerava uma alta virtude essa liberta&ccedil;&atilde;o. Lembro-me<br \/>\n    do terror que senti no dia em que n&atilde;o paguei a uma mulher, verdadeiramente<br \/>\n    apaixonada por mim e que se me entregou. S&oacute; me<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>tranquilizei quando lhe pude enviar o dinheiro, porque s&oacute; assim me<br \/>\n    sentia moralmente desligado dela.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o abane a cabe&ccedil;a, como se voc&ecirc; fosse da minha<br \/>\n    opini&atilde;o &#8212; gritou ele, olhando para mim. &#8212; Conhe&ccedil;o<br \/>\n    a cantiga. V&oacute;s todos, e voc&ecirc; tamb&eacute;m, se n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    uma excep&ccedil;&atilde;o rara, v&ecirc;em as coisas como eu as via. Perdoe-me,<br \/>\n    mas o facto &eacute; horr&iacute;vel, horr&iacute;vel, horr&iacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que &eacute; horr&iacute;vel? &#8212; perguntei-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; Este abismo de del&iacute;rio em que vivemos com as mulheres. Eu<br \/>\n    n&atilde;o posso falar calmamente; n&atilde;o &eacute; pelo que se deu, como<br \/>\n    disse o outro, mas porque desde que se deu o caso, os meus olhos se abriram<br \/>\n    e eu vejo com uma luz diferente. Tudo est&aacute; ao contr&aacute;rio; tudo<br \/>\n    est&aacute; ao contr&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>Acendeu um cigarro e com os cotovelos apoiados nos joelhos continuou a falar.<\/p>\n<p>No escuro eu n&atilde;o podia ver-lhe a cara. Ouvia somente a sua voz agrad&aacute;vel<br \/>\n    e convincente misturada ao rodar do comboio.<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Foi s&oacute; depois do supl&iacute;cio que suportei e, s&oacute;<br \/>\n    gra&ccedil;as a ele &eacute; que compreendi onde estava a raiz do mal. Compreendi<br \/>\n    o que devia ser e, por conseguinte, vi todo o horror do que era. Dir-lhe-ei<br \/>\n    como come&ccedil;ou o que me havia de levar ao momento cr&iacute;tico da minha<br \/>\n    vida conjugal.<\/p>\n<p>&laquo;Eu tinha dezasseis anos e frequentava o liceu; meu irm&atilde;o mais<br \/>\n    velho j&aacute; era aluno do primeiro ano. Eu n&atilde;o era puro. Tinha sido<br \/>\n    pervertido p&ecirc;los meus colegas, como acontece a todos os rapazes da nossa<br \/>\n    sociedade.<\/p>\n<p>&laquo;Sofria, como sofrem noventa e nove por cento dos nossos rapazes. Andava<br \/>\n    aterrado; rezava, mas sucumbia. Tinha j&aacute; o pensamento corrompido mas<br \/>\n    ainda n&atilde;o transpusera o &uacute;ltimo passo.<\/p>\n<p>&laquo;Foi ent&atilde;o que um camarada de meu irm&atilde;o &#8212; bom rapaz<br \/>\n    &#8212;, por ser o pior dos biltres (foi ele que nos ensinou a beber e a jogar)<br \/>\n    nos persuadiu, depois de nos ter embebedado, a irmos a uma casa de toler&acirc;ncia.<br \/>\n    Meu irm&atilde;o conspurcou-se nessa mesma noite. Imitei-o, indiferente; nunca<br \/>\n    tinha ouvido dizer a ningu&eacute;m mais velho e respeit&aacute;vel serem<br \/>\n    infamantes actos, aqueles a que eu assistira. E ningu&eacute;m talvez ainda<br \/>\n    hoje seja capaz de o dizer.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;E verdade que h&aacute; os mandamentos. Mas voc&ecirc; sabe como os<br \/>\n    mandamentos s&oacute; servem para responder ao p&aacute;roco no dia dos exames<br \/>\n    e &eacute; assunto considerado, na ordem dos conhecimentos, inferior ao emprego<br \/>\n    do ut nas conjun&ccedil;&otilde;es condicionais. Nunca ouvi a nenhuma das<br \/>\n    pessoas que respeitava, dizer serem actos conden&aacute;veis, e, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    ouvi a pessoas que eu respeitava, dizer que n&atilde;o podia ser de outro<br \/>\n    modo.<\/p>\n<p>&laquo;Afirmaram-me que, depois, da inicia&ccedil;&atilde;o os meus sofrimentos<br \/>\n    se aplacariam. Ouvi defender muitas vezes essa teoria. Lia-a muitas vezes<br \/>\n    e, os meus colegas, com a sua experi&ecirc;ncia, asseguravam-mo.<\/p>\n<p>&laquo;Os mais velhos diziam que era conveniente para a sa&uacute;de; e consideravam-nos,<br \/>\n    at&eacute;, uma demonstra&ccedil;&atilde;o de virilidade.<\/p>\n<p>&laquo;De modo que estes actos tinham muitas atenuantes.<\/p>\n<p>&laquo;Perigos de cont&aacute;gio? De modo nenhum. O governo, cheio de solicitude,<br \/>\n    prev&ecirc; e vigia o bom funcionamento das casas de toler&acirc;ncia e protege<br \/>\n    a deprava&ccedil;&atilde;o da juventude. Os pr&oacute;prios m&eacute;dicos<br \/>\n    acham bem, e afirmam que o desregramento moral &eacute; proveitoso para a<br \/>\n    sa&uacute;de e, eles pr&oacute;prios, metodizam este desregramento legalizado.<\/p>\n<p>&laquo;H&aacute; m&atilde;es que, sol&iacute;citas, cuidam desta parte da<br \/>\n    sa&uacute;de dos filhos.<\/p>\n<p>&laquo;E a ci&ecirc;ncia mesmo manda-os para as casas de toler&acirc;ncia.&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; A ci&ecirc;ncia? &#8212; perguntei eu.<\/p>\n<p>&#8212; Quem s&atilde;o os m&eacute;dicos? Sacerdotes da ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&laquo;Quem perverte os jovens, afirmando que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    para a sa&uacute;de? Os m&eacute;dicos.<\/p>\n<p>&laquo;E logo a seguir curam as doen&ccedil;as consequentes das suas receitas.<br \/>\n    E tudo isto com uma espantosa seriedade.<\/p>\n<p>&#8212; Por que se n&atilde;o h&atilde;o-de tratar essas doen&ccedil;as?<\/p>\n<p>&#8212; Porque a cent&eacute;sima parte do esfor&ccedil;o para acabar com<br \/>\n    as doen&ccedil;as ven&eacute;reas devia ser empregada no combate ao desregramento<br \/>\n    moral e, s&oacute; ent&atilde;o, elas desapareceriam totalmente.<\/p>\n<p>&laquo;Mas o problema n&atilde;o consiste s&oacute; nisto.<\/p>\n<p>&laquo;O problema reside no facto que me aconteceu a mim, como acontece em<br \/>\n    nove de dez rapazes, n&atilde;o somente do nosso meio, mas mesmo entre os<br \/>\n    camponeses, o de se sucumbir ao encanto natural de uma qualquer mulher.<\/p>\n<p>&laquo;Sucumbi porque o meio que me rodeava &#8212; ao que de facto &eacute;<br \/>\n    uma<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>queda &#8212; consideravam uns uma fun&ccedil;&atilde;o leg&iacute;tima,<br \/>\n    necess&aacute;ria &agrave; sa&uacute;de, outros uma distrac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a mais natural para um rapaz, a mais perdo&aacute;vel, mesmo a mais inocente.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o compreendi ent&atilde;o que era uma queda; e comecei a<br \/>\n    entregar-me ao que era meio prazer, meio necessidade. Entreguei-me a este<br \/>\n    desregramento como comecei a beber e a fumar.<\/p>\n<p>&laquo;Houve entretanto na primeira queda qualquer coisa de particular e<br \/>\n    de tocante. Lembro-me que depois de se ter consumado o acto me senti profundamente<br \/>\n    triste. Arrasaram-se-me os olhos de l&aacute;grimas, ao pensar na profana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da minha inoc&ecirc;ncia, na eterna profana&ccedil;&atilde;o das minhas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    normais com a mulher. N&atilde;o era o mesmo homem. Degradara-me. Considerava-me<br \/>\n    como o fumador de &oacute;pio ou como um b&ecirc;bedo. O fumador de &oacute;pio<br \/>\n    e o b&ecirc;bedo n&atilde;o s&atilde;o criaturas normais; e o mesmo acontece<br \/>\n    ao homem que tem liga&ccedil;&otilde;es com v&aacute;rias mulheres.<\/p>\n<p>&laquo;Este homem poder&aacute; lutar contra as suas paix&otilde;es, ser&aacute;<br \/>\n    em v&atilde;o. Nunca mais poder&aacute; ter rela&ccedil;&otilde;es fraternais,<br \/>\n    puras, com qualquer rapariga.<\/p>\n<p>&laquo;At&eacute; pela maneira de olhar se conhece o homem devasso.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Quando evoco as torpezas que at&eacute; ent&atilde;o cometi, sinto-me<br \/>\n    horrorizado! E pasmo da tro&ccedil;a que faziam de mim, dos meus escr&uacute;pulos,<br \/>\n    os meus companheiros.<\/p>\n<p>&laquo;Que juventude!&#8230; Oficiais, estudantes universit&aacute;rios, elegantes<br \/>\n    parisienses!&#8230; Quando penso no ar digno &#8212; com trinta anos de devassid&atilde;o<br \/>\n    e a consci&ecirc;ncia carregada de milhentos crimes contra as mulheres &#8212;<br \/>\n    que tomamos ao entrar numa sala de baile, muito correctos, bem barbeados e<br \/>\n    perfumados, as camisas alvas de neve (emblema da pureza), de casaca ou de<br \/>\n    uniforme! Que rid&iacute;culo!<\/p>\n<p>&laquo;Meditemos um instante no que &eacute;, e no que devia ser.<\/p>\n<p>&laquo;Quando um desses desgra&ccedil;ados carregados de v&iacute;cios se<br \/>\n    aproxima das nossas filhas ou de alguma das nossas irm&atilde;s, n&oacute;s<br \/>\n    &#8212; que sabemos a vida que levam &#8212; dev&iacute;amo-nos aproximar<br \/>\n    e dizer-lhes ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8212; &laquo;Meu caro amigo, conhe&ccedil;o-te, sei como passas as noites<br \/>\n    e com<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>quem. O teu lugar n&atilde;o &eacute; aqui. Aqui s&oacute; h&aacute; raparigas<br \/>\n    puras. Sai!&raquo;<\/p>\n<p>&laquo;Eis o que devia ser. Eis o que &eacute;. Quando um senhor desta categoria<br \/>\n    faz a sua apari&ccedil;&atilde;o numa sala e dan&ccedil;a, apertando nos bra&ccedil;os<br \/>\n    uma irm&atilde; ou uma filha, rejubilamos, se ele &eacute; rico e est&aacute;<br \/>\n    bem aparentado.<\/p>\n<p>&laquo;Conhe&ccedil;o algumas raparigas da primeira sociedade que os pais<br \/>\n    casaram com verdadeiros estropiados f&iacute;sicos e morais&#8230; Que coisa abomin&aacute;vel!<\/p>\n<p>&laquo;Tempo vir&aacute; em que todas estas abomina&ccedil;&otilde;es sejam<br \/>\n    desmascaradas.&raquo;<\/p>\n<p>E de novo fez ouvir o som que lhe era peculiar quando lhe ocorriam pensamentos<br \/>\n    torpes. Voltou a tomar ch&aacute;. O ch&aacute; estava horrivelmente forte<br \/>\n    e n&atilde;o havia &aacute;gua. Sentia-me agitad&iacute;ssimo. Certamente<br \/>\n    o ch&aacute; produzia os mesmos efeitos sobre o nosso homem. A sua agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ia num crescendo terr&iacute;vel. Mudava a cada instante de atitude; t&atilde;o<br \/>\n    depressa tirava o bon&eacute;, como o enterrava at&eacute; &agrave;s orelhas;<br \/>\n    a sua fisionomia alterava-se estranhamente na penumbra que nos envolvia. A<br \/>\n    voz tornava-se cada vez mais cantante e expressiva.<\/p>\n<p>&#8212; Assim vivi at&eacute; aos trinta anos, sem contudo perder a ideia<br \/>\n    de me casar com uma rapariga pura e realizar uma vida conjugal perfeitamente<br \/>\n    s&atilde; e nobre. Nessa ideia comecei a deitar as minhas vistas para rapariga<br \/>\n    que me conviesse. E embora continuasse a minha vida desregrada, atrevia-me<br \/>\n    a procurar raparigas dignas de mim. Houve muitas raparigas que eu pus de lado<br \/>\n    por n&atilde;o as achar perfeitamente puras para presidirem aos destinos do<br \/>\n    meu lar.<\/p>\n<p>&laquo;Por fim encontrei a filha de um propriet&aacute;rio da prov&iacute;ncia<br \/>\n    de Penza que outrora fora muito rico e estava arruinado.<\/p>\n<p>&laquo;Fomos dar um passeio de barco. Era uma noite de luar. Sentei-me a<br \/>\n    seu lado onde podia admirar a beleza dos seus cabelos caprichosamente ondulados,<br \/>\n    e as formas harmoniosas modeladas pelo jersey. Naquele momento decidi escolh&ecirc;-la<br \/>\n    para companheira do meu lar.<\/p>\n<p>&laquo;Pareceu-me naquela noite que ela compreendia tudo o que eu sentia<br \/>\n    e pensava. Os meus pensamentos eram nesse momento os mais elevados e puros.<br \/>\n    Contudo, nada de extraordin&aacute;rio se passara; somente o seu jersey lhe<br \/>\n    moldava particularmente as formas e os cabelos emolduravam-lhe graciosamente<br \/>\n    o rosto, tornando-a encantadora. Desde esse momento desejei uma aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais &iacute;ntima.<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; estranha a ilus&atilde;o de que a beleza &eacute; o &uacute;nico<br \/>\n    bem total!<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Se uma mulher bonita diz coisas est&uacute;pidas, escutamo-la e, longe<br \/>\n    de a acharmos est&uacute;pida, consideramo-la um esp&iacute;rito brilhante.<br \/>\n    Ela n&atilde;o faz nem diz sen&atilde;o disparates, mas n&oacute;s achamo-la<br \/>\n    encantadora. E, quando n&atilde;o diz nem faz sen&atilde;o parvo&iacute;ces,<br \/>\n    desde que seja bonita, persuadimo-nos de que ela &eacute; estupendamente inteligente<br \/>\n    e de uma estranha moralidade.<\/p>\n<p>&laquo;Voltei para casa convencido de que encontrara a perfei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Profundamente emocionado, decidi que seria esta, a minha mulher.<\/p>\n<p>&laquo;No dia seguinte pedia-a em casamento.<\/p>\n<p>&laquo;Que confus&atilde;o!&#8230; Em milhares de homens que se casam, no nosso<br \/>\n    meio e infelizmente entre o povo, encontrar-se-&aacute;, talvez, um que seja<br \/>\n    puro, que n&atilde;o tenha sido um outro D. Juan, antes do casamento.<\/p>\n<p>&laquo;H&aacute; hoje rapazes, segundo creio, e pelo que ou&ccedil;o dizer<br \/>\n    e eu pr&oacute;prio tenho observado, para quem o casamento n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    uma brincadeira, mas grande obra. Deus os ajude!&#8230; No meu tempo, haveria<br \/>\n    um em dez mil. Todos o sabem, mas fingem ignor&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&laquo;Nos romances descrevem-se com todos os pormenores os sentimentos dos<br \/>\n    her&oacute;is, as suas fa&ccedil;anhas, os seus devotamentos &agrave;s grandes<br \/>\n    causas, mas nunca se faz refer&ecirc;ncia &agrave;s ac&ccedil;&otilde;es infamantes<br \/>\n    cometidas por eles.<\/p>\n<p>&laquo;Ao pintarem o amor dos her&oacute;is por suas damas, nem de longe<br \/>\n    se referem &agrave;s humildes criaturas que serviram de divertimento a essas<br \/>\n    extraordin&aacute;rias personagens.<\/p>\n<p>&laquo;Os romances que abordam esses assuntos s&atilde;o interditos &agrave;s<br \/>\n    raparigas a quem mais interessava dar a conhecer.<\/p>\n<p>&laquo;Procura esconder-se das raparigas o cancro social que ocupa metade<br \/>\n    da vida dos rapazes; depois habituamo-nos de tal modo a uma vida de dissimula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que chegamos, como os Ingleses, a convencermo-nos de que somos todos gente<br \/>\n    muito de bem e vivemos num mundo moral.<\/p>\n<p>&laquo;As raparigas acreditam em tudo isto. A minha desgra&ccedil;ada mulher,<br \/>\n    como de resto a maior parte das raparigas, acreditava na pureza do sentimento.<\/p>\n<p>&laquo;Quando ainda era noivo mostrei-lhe o di&aacute;rio onde ela podia<br \/>\n    descobrir uma parte da minha vida e, sobretudo, ter conhecimento da minha<br \/>\n    &uacute;ltima liga&ccedil;&atilde;o, e de que entendi dever falar-lhe para<br \/>\n    que o n&atilde;o viesse a saber por outros. Lembro-me do seu horror, do seu<br \/>\n    desespero ao compreender do que se tratava. Tenho a certeza de que, nesse<br \/>\n    momento, ela teve a inten&ccedil;&atilde;o de cortar comigo. Por que o n&atilde;o<br \/>\n    teria feito?&#8230;&raquo;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Repetiu o solu&ccedil;o estrangulado. Calou-se. Bebeu mais um gole de ch&aacute;.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Talvez n&atilde;o&#8230; Talvez fosse melhor assim. Recebi o castigo<br \/>\n    merecido. Mas n&atilde;o &eacute; disso que se trata.<\/p>\n<p>&laquo;Afirmo que na maioria dos casos, as raparigas s&atilde;o vilmente<br \/>\n    enganadas. As m&atilde;es nada ignoram. Fingem acreditar na pureza das inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos homens, mas procedem como quem n&atilde;o tem ilus&otilde;es. Conhecem<br \/>\n    o anzol com que h&atilde;o-de engodar os rapazes. Os homens, esses, n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;em, porque n&atilde;o querem ver. As mulheres sabem perfeitamente<br \/>\n    que o amor, mesmo o mais elevado, o mais, po&eacute;tico &#8212; como n&oacute;s<br \/>\n    dizemos &#8212; depende mais dos dotes f&iacute;sicos do que dos m&eacute;ritos.<br \/>\n    Perturba mais uma cabe&ccedil;a bem penteada, um vestido de bom corte, modelando<br \/>\n    bem as formas do que uma frase reveladora de excelsas qualidades morais.<\/p>\n<p>&laquo;Pergunte a uma mulher experimentada qual &eacute; prefer&iacute;vel,<br \/>\n    passar por mentirosa ou aparecer mal arranjada ao homem que pretende cativar.<br \/>\n    Ela preferir&aacute; a primeira alternativa.<\/p>\n<p>&laquo;Sabem perfeitamente que mentimos quando falamos de sentimentos puros.<br \/>\n    Sabem que s&oacute; fisicamente as pretendemos. E perdoamos mais facilmente<br \/>\n    uma vilania do que o rid&iacute;culo de um vestido de mau gosto.<\/p>\n<p>&laquo;As mulheres experimentadas procedem conscientes; as rapariguinhas<br \/>\n    inocentes fazem-no inconscientemente.<\/p>\n<p>&laquo;As mulheres casadas sabem que, por mais atraente que seja a conversa<br \/>\n    de uma mulher, o que interessa ao homem, quando se aproxima, &eacute; tudo<br \/>\n    o que lhe desperte os sentidos. E por isso, procuram, principalmente, o que<br \/>\n    possa torn&aacute;-las mais provocadoras. N&atilde;o sei quando estes costumes<br \/>\n    entraram na sociedade, mas parece-me que toda esta sociedade &eacute; uma<br \/>\n    imensa casa de toler&acirc;ncia. Que diz voc&ecirc;?&#8230; Permita que lho demonstre.<br \/>\n    Diz que as senhoras da nossa sociedade t&ecirc;m interesses diferentes das<br \/>\n    mulheres toleradas, eu afirmo o contr&aacute;rio e provo-o.<\/p>\n<p>&laquo;Se as pessoas diferem p&ecirc;los seus fins, pelo conte&uacute;do<br \/>\n    interno da sua vida, essa diversidade reflectir-se-&aacute; inevitavelmente<br \/>\n    no exterior, e esse exterior ser&aacute; diferente.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Comparemos agora essas desgra&ccedil;adas infelizes de todo o mundo<br \/>\n    com algumas outras mulheres: as roupas interiores, os gestos, o modo de andar,<br \/>\n    os bra&ccedil;os nus, as esp&aacute;duas desnudadas, a nudez do peito, o jeito<br \/>\n    de bambolear o corpo, a paix&atilde;o das j&oacute;ias e dos objectos brilhantes,<br \/>\n    os divertimentos, as dan&ccedil;as, a m&uacute;sica e as can&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tudo &eacute; igual. Umas e outras procuram seduzir. S&oacute; h&aacute; uma<br \/>\n    diferen&ccedil;a, umas s&atilde;o as senhoras bem, outras, as banidas da sociedade.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Assim ca&iacute; na ratoeira dos jersey, dos penteados e enfeites<br \/>\n    posti&ccedil;os. Era, ali&aacute;s, f&aacute;cil de conseguir, porque fui<br \/>\n    educado nas condi&ccedil;&otilde;es em que se criam e formam os jovens amorosos,<br \/>\n    como pepinos em viveiros.<\/p>\n<p>&laquo;Com efeito, a alimenta&ccedil;&atilde;o excitante e abundante, sem<br \/>\n    nenhum exerc&iacute;cio, s&atilde;o estimulantes sistem&aacute;ticos do desejo<br \/>\n    f&iacute;sico. Embora isto lhe cause admira&ccedil;&atilde;o &eacute; assim<br \/>\n    mesmo. Eu pr&oacute;prio, at&eacute; h&aacute; pouco, n&atilde;o via nada<br \/>\n    disto, mas agora vejo. O que me tortura &eacute; que ningu&eacute;m nota estas<br \/>\n    anormalidades. E a maior parte diz baboseiras, como h&aacute; pouco aquela<br \/>\n    senhora.<\/p>\n<p>&laquo;Na Primavera, quando os camponeses trabalhavam perto da minha casa<br \/>\n    num aterro do caminho-de-ferro, assisti &agrave; refei&ccedil;&atilde;o habitual<br \/>\n    de um campon&ecirc;s, que &eacute; constitu&iacute;da por p&atilde;o, kuass<br \/>\n    e alhos; o campon&ecirc;s &eacute; vivo, s&atilde;o e realiza o seu trabalho<br \/>\n    do campo, com facilidade.<\/p>\n<p>&laquo;Quando vem para o trabalho no caminho-de-ferro distribuem-lhe todos<br \/>\n    os dias gruau e uma libra de carne; aumentam-lhe a ra&ccedil;&atilde;o e tornam-lha<br \/>\n    mais forte; e ele con-some-a, trabalhando dezasseis horas por dia, puxando<br \/>\n    uma carrinha. &Eacute; o que &eacute; preciso.<\/p>\n<p>&laquo;N&oacute;s, que absorvemos, cada um, duas libras de carne de veado<br \/>\n    ou javali e todas as esp&eacute;cies de petiscos picantes e bebidas alco&oacute;licas;<br \/>\n    onde desgastamos esses alimentos? Em excessos sexuais. Se abrimos a v&aacute;lvula<br \/>\n    de seguran&ccedil;a, tudo vai bem, mas se a fechamos, como eu a fechei v&aacute;rias<br \/>\n    vezes, produz-se a tal excita&ccedil;&atilde;o doentia, que, sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da m&uacute;sica e dos romances, acaba por apresentar todos os sintomas do<br \/>\n    amor.<\/p>\n<p>&laquo;Apaixonei-me como toda a gente. Conheci as deliciosas emo&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    os po&eacute;ticos enternecimentos, os enlevos que lembram &ecirc;xtases.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;E, afinal, esta paix&atilde;o era obra da m&atilde;e e da modista,<br \/>\n    das refei&ccedil;&otilde;es suculentas e da falta de exerc&iacute;cio f&iacute;sico.<\/p>\n<p>&laquo;Se n&atilde;o fossem os passeios de barco, os vestidos que modelam<br \/>\n    as formas e real&ccedil;am a eleg&acirc;ncia, nunca me teria apaixonado! Nunca<br \/>\n    teria ca&iacute;do no la&ccedil;o!&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Desta vez o plano teve &ecirc;xito. O passeio de barco, um vestido<br \/>\n    elegante e o meu estado de esp&iacute;rito deram resultado. Vinte vezes o<br \/>\n    plano falhara. N&atilde;o estou a brincar. Desta vez a ratoeira fora bem armada.<\/p>\n<p>&laquo;Hoje prepara-se um casamento como quem prepara uma esparrela.<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; natural que, quando a rapariga chega &agrave; idade de casar,<br \/>\n    seja preciso cas&aacute;-la, e &eacute; f&aacute;cil, quando n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um monstro e h&aacute; homens que se encontram na mesma situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Assim se procedia outrora; quando chegava esse momento, os pais casavam<br \/>\n    as filhas. &Eacute; isto o que se passava e se continua a passar em toda a<br \/>\n    humanidade; &eacute; o que se passa entre os chineses, os hindus, os maometanos<br \/>\n    e entre o nosso povo em todo o g&eacute;nero humano, numa propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de noventa e nove por cento.<\/p>\n<p>&laquo;Mas a cent&eacute;sima parte, os devassos, n&atilde;o consider&aacute;mos<br \/>\n    bem e que era necess&aacute;rio encontrar alguma coisa de novo. E qual foi<br \/>\n    essa coisa nova?&#8230; &#8212; Nas salas, nos sal&otilde;es, nos passeios p&uacute;blicos<br \/>\n    as raparigas sentam-se e os homens passeiam de diante para tr&aacute;s e de<br \/>\n    tr&aacute;s para diante, fazendo a sua escolha.<\/p>\n<p>&laquo;As raparigas esperam e pensam sem ousar dizer: &#8212; A mim, meu<br \/>\n    querido!&#8230; N&atilde;o repares nas outras&#8230; Repara em mim&#8230; Repara como<br \/>\n    s&atilde;o belas as minhas esp&aacute;duas e bem lan&ccedil;ado o meu colo&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Os homens continuam a passar, tornam a passar, despem-nas com os olhos<br \/>\n    e sentem-se satisfeitos e v&atilde;o passando e dizendo, &agrave;s vezes:<br \/>\n    &#8212; A mim n&atilde;o me apanham voc&ecirc;s.<\/p>\n<p>&laquo;Sentimo-nos vaidosos por a feira se fazer por nossa causa, mas, sem<br \/>\n    darmos conta, l&aacute; vamos cair na ratoeira que habilidosamente nos foi<br \/>\n    preparada.&raquo;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&#8212; Mas como proceder de outro modo?&#8230; Dever&aacute; ser a mulher a<br \/>\n    pedir o homem em casamento?<\/p>\n<p>&#8212; Verdadeiramente, n&atilde;o sei o que lhes hei-de responder. Mas,<br \/>\n    se se fala em direitos da mulher, que haja realmente igualdade. Achavam o<br \/>\n    pedido de casamento humilhante, mas o que se passa &eacute; muito pior. A<br \/>\n    mulher correria os mesmos riscos que o homem. Assim, ou &eacute; escrava no<br \/>\n    mercado, ou isco no anzol.<\/p>\n<p>&laquo;Experimente dizer &agrave;s m&atilde;es, ou &agrave;s filhas que est&atilde;o<br \/>\n    preparando a rede onde h&aacute;-de cair o noivo&#8230; Meu Deus! Que grave ofensa!&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Contudo n&atilde;o procedem de outro modo. &Eacute; horr&iacute;vel<br \/>\n    saber as raparigas absorvidas sempre por este pensamento. E, se ao menos,<br \/>\n    as coisas se passassem de uma forma clara e s&eacute;ria!&#8230; Mas h&aacute;<br \/>\n    qualquer coisa de bruxaria&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Diz a m&atilde;e: Que interessante &eacute; o estudo da origem das<br \/>\n    esp&eacute;cies&#8230; &#8212; Lisa &eacute; uma apaixonada da pintura!&#8230; Voc&ecirc;<br \/>\n    vai &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o? &Eacute; muito interessante e instrutiva&#8230;<br \/>\n    &#8212; A minha Lisa adora a m&uacute;sica&#8230; Voc&ecirc; costuma ir aos concertos&#8230;.<br \/>\n    T&ecirc;m estado estupendos!&#8230; Voc&ecirc; n&atilde;o calcula!&#8230; Voc&ecirc;s<br \/>\n    deviam entender-se&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;E &eacute; sempre o mesmo pansamento: casa com a minha Lisa&#8230;&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Que abjec&ccedil;&atilde;o! Que mentira! &#8212; concluiu ele. E<br \/>\n    como tinha acabado de tomar o &uacute;ltimo gole de ch&aacute; come&ccedil;ou<br \/>\n    a arrumar as ch&aacute;venas e tudo de que se servira.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; acredite &#8212; continuou ele, metendo o ch&aacute; e<br \/>\n    o a&ccedil;&uacute;car no saco de couro. &#8212; O dom&iacute;nio da mulher<br \/>\n    que n&oacute;s sentimos, vem afinal somente de um interesse f&iacute;sico.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que dom&iacute;nio? &#8212; perguntei eu. &#8212; Todos os direitos<br \/>\n    e privil&eacute;gios est&atilde;o na posse do homem.<\/p>\n<p>&#8212; Justamente &#8212; interrompeu ele. &#8212; &Eacute; um facto curioso.<br \/>\n    Por um lado &eacute; perfeitamente justo dizermos que a mulher est&aacute;<br \/>\n    numa situa&ccedil;&atilde;o humilhante, por outro que ela &eacute; dominadora.<\/p>\n<p>&laquo;As mulheres t&ecirc;m a mesma situa&ccedil;&atilde;o que os judeus,<br \/>\n    que se vingam da opress&atilde;o em que vivem pelo poder do dinheiro.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;&#8212; Voc&ecirc;s querem que n&atilde;o passemos de comerciantes?<br \/>\n    Pois bem.<\/p>\n<p> Como comerciantes n&oacute;s vos dominaremos &#8212; dizem os judeus.<\/p>\n<p>&laquo;&#8212; Voc&ecirc;s s&oacute; nos consideram como objecto de sensualidade?<br \/>\n    Pois bem, ser&aacute; pela sensualidade que vos dominaremos.<\/p>\n<p>&laquo;A aus&ecirc;ncia de direitos na mulher n&atilde;o est&aacute; no facto<br \/>\n    de ela n&atilde;o poder votar ou de n&atilde;o ser juiz (ocuparmo-nos dos<br \/>\n    nossos interesses n&atilde;o &eacute; um direito); est&aacute; no facto de<br \/>\n    ela poder ter o direito de escolher e n&atilde;o ser escolhida. Voc&ecirc;<br \/>\n    diz que n&atilde;o &eacute; conveniente. Mas ent&atilde;o que o homem seja<br \/>\n    privado dessas regalias. Por agora a mulher est&aacute; privada desse direito<br \/>\n    e, como compensa&ccedil;&atilde;o, ela actua sobre a sensualidade do homem,<br \/>\n    submete-o p&ecirc;los sentidos de tal forma que, na realidade, quem escolhe<br \/>\n    &eacute; a mulher. Quando a mulher possui a arte de seduzir, abusa dela e<br \/>\n    adquire um terr&iacute;vel ascendente.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como me prova esse poder tem&iacute;vel da mulher? Como se manifesta?<br \/>\n    &#8212; perguntei-lhe eu.<\/p>\n<p>&#8212; Manifesta-se em tudo e por toda a parte. Visite os grandes armaz&eacute;ns<br \/>\n    de qualquer cidade, n&atilde;o importa qual. Ver&aacute; objectos avaliados<br \/>\n    em milh&otilde;es, trabalho gigantesco, quase incalcul&aacute;vel, s&oacute;<br \/>\n    para a mulher.<\/p>\n<p>&laquo;Quantos vendem artigos para homens? Dez em cem.<\/p>\n<p>&laquo;Todo o luxo da exist&ecirc;ncia &eacute; exigido e mantido pela mulher.<br \/>\n    A maior parte das f&aacute;bricas produz, na sua grande maioria, ornamentos<br \/>\n    f&uacute;teis&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Milh&otilde;es de homens, gera&ccedil;&otilde;es de escravos, morrem<br \/>\n    no decorrer desses trabalhos for&ccedil;ados unicamente pelo capricho das<br \/>\n    mulheres. Elas s&atilde;o como imperatrizes, e t&ecirc;m na escravatura de<br \/>\n    um trabalho extenuante, nove d&eacute;cimos da humanidade. E tudo isto porque<br \/>\n    as mulheres vivem em situa&ccedil;&atilde;o humilhante; porque lhe recusamos<br \/>\n    direitos iguais aos homens. Vingam-se, actuando sobre os nossos sentidos.<br \/>\n    E todo o problema gira &agrave; volta deste tema.<\/p>\n<p>&laquo;Desde que um homem se aproxima de uma mulher, deixa-se influenciar<br \/>\n    p&ecirc;los seus sortil&eacute;gios e torna-se louco.<\/p>\n<p>&laquo;Outrora sentia-me sempre mal quando via uma mulher metida no seu vestido<br \/>\n    de baile. Agora isso inspira-me terror. Vejo, nitidamente, qualquer coisa<br \/>\n    de perigoso, qualquer coisa de ilegal e tenho vontade de chamar a pol&iacute;cia,<br \/>\n    de exigir que a levem como um objecto terr&iacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Voc&ecirc; ri-se &#8212; exclamou ele, olhando para mim. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; coisa para rir. Estou convencido de que vir&aacute; depressa o tempo,<br \/>\n    mais depressa do que n&oacute;s supomos e em que todos compreender&atilde;o<br \/>\n    e se espantar&atilde;o que tenha podido existir uma sociedade em que se tolerem<br \/>\n    actos t&atilde;o contr&aacute;rios &agrave;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>tranquilidade p&uacute;blica e &agrave; felicidade das fam&iacute;lias, como<br \/>\n    &eacute; a maneira de expor o corpo das mulheres, t&atilde;o provocantemente.<\/p>\n<p>&laquo;Por toda a parte surgem mulheres hediondamente vestidas, nas pra&ccedil;as,<br \/>\n    nos passeios p&uacute;blicos, nos caminhos, nos bailes, nos concertos e at&eacute;<br \/>\n    nas pr&oacute;prias fam&iacute;lias. Verdadeiras emboscadas aos nossos sentidos.<\/p>\n<p>&laquo;Por que se pro&iacute;bem os jogos de azar e se consente que, publicamente,<br \/>\n    apare&ccedil;am mulheres seminuas, o que &eacute; mil vezes mais imoral?<\/p>\n<p>&laquo;Estranho crit&eacute;rio!&#8230;&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; E assim fui apanhado. E assim fiquei enamorado. N&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    considerava a minha noiva a mulher mais perfeita, mas eu pr&oacute;prio me<br \/>\n    considerei, durante o noivado, o mais perfeito dos homens.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m t&atilde;o mau que n&atilde;o<br \/>\n    encontre outro pior. E este pensamento &eacute; um manancial de prazer e de<br \/>\n    orgulho. Era este o meu caso.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o casava por dinheiro, como sucedia &agrave; maior parte<br \/>\n    dos meus amigos. Eu era rico, ela era pobre. E outra coisa me envaidecia.<br \/>\n    Os outros casavam, mas com a inten&ccedil;&atilde;o de continuarem a viver<br \/>\n    na poligamia, como antes do casamento. Eu estava absolutamente resolvido a<br \/>\n    manter-me em monogamia, depois de casado. Era um miser&aacute;vel mas julgava-me<br \/>\n    um anjo.<\/p>\n<p>&laquo;O per&iacute;odo de noivado durou pouco. N&atilde;o posso lembrar<br \/>\n    esta &eacute;poca sem corar de vergonha.<\/p>\n<p>&laquo;Que ignom&iacute;nia!<\/p>\n<p>&laquo;Se o amor &eacute; espiritual, s&oacute; por palavras deve exprimir-se.<br \/>\n    Mas n&atilde;o &eacute;. Quando est&aacute;vamos juntos era-nos dif&iacute;cil<br \/>\n    sustentar uma conversa. O assunto esgotara-se. Nada t&iacute;nhamos para dizer.<br \/>\n    Tudo, sobre a nossa vida futura, estava dito. Se f&ocirc;ssemos animais sab&iacute;amos,<br \/>\n    de antem&atilde;o, que n&atilde;o era assunto de conversa. Connosco o caso<br \/>\n    era diferente. &Eacute;ramos obrigados a falar e n&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    nada para dizer. O assunto que nos interessava n&atilde;o se resolvia com<br \/>\n    palavras. E havia ainda o terr&iacute;vel costume de oferecer bombons, comer<br \/>\n    gulodices e tratar dos abjectos preparativos para o novo lar: escolha da casa,<br \/>\n    do quarto de cama, do leito nupcial e de todas as pequenas coisas da futura<br \/>\n    vida dom&eacute;stica.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Se nos cas&aacute;ssemos, segundo os preceitos de Demostoroi, como<br \/>\n    queria o velho senhor do comboio, os edredons e o enxoval do leito eram pormenores<br \/>\n    que faziam parte do sacramento. Mas para n&oacute;s, em que dez pessoas que<br \/>\n    contraem casamento s&oacute; uma cr&ecirc; no sacramento, ou pelo menos pensa<br \/>\n    que &eacute; um dever; quando em cem homens h&aacute; apenas um, que n&atilde;o<br \/>\n    tenha faltado &agrave; castidade e que n&atilde;o esteja na disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de atrai&ccedil;oar a mulher leg&iacute;tima; para n&oacute;s em que a maior<br \/>\n    parte considera o ir &agrave; igreja uma mera formalidade para ter a posse<br \/>\n    de uma mulher, em particular, que significa&ccedil;&atilde;o podem ter os<br \/>\n    preparativos pr&eacute;-nupciais?<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; uma esp&eacute;cie de mercado. Vende-se uma filha a um devasso<br \/>\n    mas a venda faz-se sob as mais puras e po&eacute;ticas apar&ecirc;ncias.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">XI<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Casei-me como qualquer pessoa e come&ccedil;ou a t&atilde;o desejada<br \/>\n    lua-de-mel. Como &eacute; reles esta express&atilde;o! &#8212; disse entredentes.<br \/>\n    &#8212; Um dia em Paris fui assistir a todos os espect&aacute;culos e entrei,<br \/>\n    tamb&eacute;m, levado por um excitante an&uacute;ncio, a ver uma mulher com<br \/>\n    barbas e um c&atilde;o aqu&aacute;tico; a mulher era um homem com um vestido<br \/>\n    decotado e o c&atilde;o estava metido na pele de uma foca e nadava numa banheira,<br \/>\n    cheia de &aacute;gua; &agrave; primeira vista isto nada tem de comum com a<br \/>\n    lua-de-mel e nada tem de interessante. Quando sa&iacute;, por&eacute;m, o<br \/>\n    homem que fazia a arenga acompanhou-me amavelmente e dirigindo-se ao p&uacute;blico,<br \/>\n    mesmo &agrave; entrada disse, apontando para mim:<\/p>\n<p>&laquo;&#8212; Perguntem a este senhor se n&atilde;o vale a pena ver t&atilde;o<br \/>\n    estupendo espect&aacute;culo! Entrai! Entrai! &Eacute; um escudo por pessoa!&raquo;<\/p>\n<p>&laquo; N&atilde;o ousei desmenti-lo, claro, e o charlat&atilde;o tinha a<br \/>\n    certeza disso. &Eacute; isto o que provavelmente acontece aos que experimentaram<br \/>\n    a abomina&ccedil;&atilde;o da lua-de-mel e n&atilde;o t&ecirc;m coragem para<br \/>\n    desfazer as ilus&otilde;es dos outros e as suas pr&oacute;prias ilus&otilde;es.<\/p>\n<p>&laquo;Mas eu n&atilde;o desenganei ningu&eacute;m. Hoje, no entanto, n&atilde;o<br \/>\n    vejo raz&atilde;o para que n&atilde;o os desengane. Julgo mesmo que &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio dizer toda a verdade sobre o assunto. A lua-de-mel, como<br \/>\n    se pratica, &eacute; uma coisa terr&iacute;vel, abjecta, insuport&aacute;vel<br \/>\n    de t&eacute;dio e cansa&ccedil;o. &Eacute;, mais ou memos, o que acontece<br \/>\n    quando se principia a fumar; vontade de vomitar, n&aacute;useas, e vai-se<br \/>\n    engolindo a saliva para fingir que se tem um grande prazer. O cigarro, como<br \/>\n    o<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>casamento, s&oacute; provoca prazer depois do h&aacute;bito, quer dizer,<br \/>\n    depois da adapta&ccedil;&atilde;o dos casados.<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; necess&aacute;rio que os esposos saibam regular o v&iacute;cio<br \/>\n    para que desses actos lhe venham compensa&ccedil;&otilde;es.&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Regular o v&iacute;cio?&#8230; &#8212; perguntei eu. &#8212; Que v&iacute;cio?<br \/>\n    Voc&ecirc; esquece-se de que &eacute; uma das manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais naturais da esp&eacute;cie humana.<\/p>\n<p>&#8212; Natural? &#8212; exclamou ele. &#8212; Natural? N&atilde;o, pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio. Cheguei &agrave; conclus&atilde;o de que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um acto natural. N&atilde;o &eacute;, de nenhum modo, natural. Tive uma irm&atilde;<br \/>\n    que se casou muito nova com um homem dez vezes mais velho do que ela, um devasso.<br \/>\n    Lembro-me do nosso espanto quando na noite do casamento fugiu de casa e, toda<br \/>\n    a tremer, nos disse que por nada no mundo&#8230; por nada do mundo&#8230; nos podia<br \/>\n    dizer o que ele pretendia dela.<\/p>\n<p>&laquo;Voc&ecirc; diz que &eacute; uma coisa natural!&#8230; Natural &eacute;<br \/>\n    comer. Comer &eacute; uma coisa agrad&aacute;vel, f&aacute;cil e alegre; n&atilde;o<br \/>\n    inspira vergonha nem mesmo no princ&iacute;pio. Mas isto &eacute; uma coisa<br \/>\n    abjecta, vergonhosa e dolorosa. N&atilde;o. N&atilde;o &eacute; uma coisa<br \/>\n    natural. E uma rapariga pura, estou convencido, odiar&aacute; sempre esse<br \/>\n    acto.&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, diga-me&#8230; Como se reproduziria o g&eacute;nero humano?<\/p>\n<p>&#8212; Sim. &Eacute; verdade. Conquanto que o g&eacute;nero humano n&atilde;o<br \/>\n    acabe! &#8212; disse ele com uma cruel ironia e como se esperasse esta r&eacute;plica<br \/>\n    habitual e de m&aacute;-f&eacute;.<\/p>\n<p>&laquo;Pregar que se devem evitar os filhos para que os lordes ingleses possam<br \/>\n    comer mais &agrave; vontade&#8230; &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Pregar que se abstenham de ter filhos para que a vida seja mais f&aacute;cil<br \/>\n    e se possa goz&aacute;-la melhor&#8230; &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Mas insinuar que se devem evitar os filhos a bem da moral&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Meu Deus, que calamidade! Mas ir&aacute; o g&eacute;nero humano desaparecer<br \/>\n    porque uma d&uacute;zia ou vinte homens desejam n&atilde;o viver como porcos?<\/p>\n<p>&laquo;D&aacute;-me licen&ccedil;a?&#8230; A luz incomoda-me, posso apagada?&raquo;,<br \/>\n    perguntou ele, apontando para a l&acirc;mpada.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;-me indiferente&#8230;<\/p>\n<p>Precipitadamente, como tudo o que fazia, subiu ao banco e apagou a l&acirc;mpada.<\/p>\n<p>&#8212; De qualquer maneira &#8212; disse eu. &#8212; Se dessa teoria se<br \/>\n    fizesse uma lei, o g&eacute;nero humano desapareceria. Ele n&atilde;o respondeu<br \/>\n    imediatamente.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; quer saber como se perpetuaria o g&eacute;nero humano?<br \/>\n    &#8212; disse ele, instalando-se de novo na minha frente, e abriu as pernas,<br \/>\n    apoiando os cotovelos sobre os joelhos. &#8212; Para qu&ecirc; perpetuar o<br \/>\n    g&eacute;nero humano? Para qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Para qu&ecirc;?&#8230; Sem isso deixar&iacute;amos de existir.<\/p>\n<p>&#8212; E para qu&ecirc; existir?<\/p>\n<p>&#8212; Para qu&ecirc;?! Para vivermos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas viver para qu&ecirc;? Se n&atilde;o se tem um fim na vida, se<br \/>\n    a vida nos foi dada por si mesma n&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para vivermos.<br \/>\n    Se isto &eacute; assim os Schopenhauer, ou os Hartman e todos os budistas<br \/>\n    t&ecirc;m raz&atilde;o. Se h&aacute; um fim, desde que &eacute; atingido,<br \/>\n    a vida deve cessar. &Eacute; esta a conclus&atilde;o a que chegamos&raquo;,<br \/>\n    disse ele com manifesta emo&ccedil;&atilde;o (dava muita import&acirc;ncia<br \/>\n    ao seu pensamento).<\/p>\n<p>&laquo;Se o fim da vida &eacute; o bem, o amor, como voc&ecirc; o entende;<br \/>\n    se o fim da humanidade &eacute; o que dizem as profecias, que todos os homens<br \/>\n    se unir&atilde;o pelo amor, e que h&atilde;o-de forjar-se foices com os ferros<br \/>\n    das lan&ccedil;as; o que se op&otilde;e &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desse fim? As paix&otilde;es.<\/p>\n<p>&laquo;E de todas as paix&otilde;es, a mais forte, a mais p&eacute;rfida,<br \/>\n    a mais obstinada &eacute; a paix&atilde;o da carne. Por consequ&ecirc;ncia,<br \/>\n    se suprimirem as paix&otilde;es, e principalmente a maior de todas, realizar-se-&aacute;<br \/>\n    a profecia; os homens unir-se-&atilde;o, o fim da humanidade ser&aacute; atingido<br \/>\n    e, portanto, n&atilde;o haver&aacute; raz&atilde;o para existirmos. Mas enquanto<br \/>\n    dura a humanidade ela tem de realizar o seu ideal que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de maneira nenhuma o ideal dos coelhos nem dos porcos que &eacute; o de se<br \/>\n    reproduzirem o mais depressa poss&iacute;vel, nem o dos macacos ou dos parisienses<br \/>\n    que &eacute; tirarem o m&aacute;ximo rendimento dos prazeres sexuais. Mas<br \/>\n    sim o ideal do bem que se atinge pela contin&ecirc;ncia e pela pureza. &Eacute;<br \/>\n    para a&iacute; que tendem os homens e sempre tender&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Veja o que daqui resulta. Resulta que o amor carnal &eacute; uma v&aacute;lvula<br \/>\n    de seguran&ccedil;a. Se a gera&ccedil;&atilde;o dos homens actualmente viva<br \/>\n    n&atilde;o atinge esse fim &eacute; unicamente porque tem paix&otilde;es e<br \/>\n    a mais forte de todas, a paix&atilde;o dos sentidos. Vir&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    uma gera&ccedil;&atilde;o que talvez cumpra a lei, mas se essa n&atilde;o<br \/>\n    atingir o fim para que foi criada outra vir&aacute; at&eacute; que se realize<br \/>\n    a profecia, a uni&atilde;o de todos os homens. O amor sensual &eacute; o sinal<br \/>\n    do desprezo pela lei. Enquanto esse amor existir ir-se-&atilde;o formando<br \/>\n    gera&ccedil;&otilde;es umas ap&oacute;s outras at&eacute; que a lei se cumpra.<\/p>\n<p>&laquo;A esp&eacute;cie mais elevada dos animais, a esp&eacute;cie humana,<br \/>\n    devia, para se manter na luta contra os outros animais, assemelhar-se em tudo<br \/>\n    a um<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>enxame de abelhas; n&atilde;o se multiplicar at&eacute; ao infinito. Devia,<br \/>\n    como as abelhas, criar assexuados, isto &eacute;, caminhar para a contin&ecirc;ncia<br \/>\n    e n&atilde;o para o sensualismo para o qual est&aacute; organizada a vida<br \/>\n    moderna.&raquo;<\/p>\n<p>Calou-se por momentos.<\/p>\n<p>&#8212; O g&eacute;nero humano deve desaparecer? De qualquer maneira que<br \/>\n    encaremos o problema n&atilde;o se pode duvidar. &Eacute; certo como a morte.<br \/>\n    Segundo a doutrina da Igreja o mundo ter&aacute; um fim; segundo os ensinamentos<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia esse fim &eacute; indubit&aacute;vel. Que admira pois que<br \/>\n    o ensino da moral nos conduza &agrave; mesma conclus&atilde;o?<\/p>\n<p>Esteve calado durante muito tempo, depois bebeu mais um gole de ch&aacute;,<br \/>\n    acabou o cigarro, tirou outros do saco e meteu-os na sua velha cigarreira.<\/p>\n<p>&#8212; Compreendo o seu pensamento, os Shakers sustentam uma tese, mais<br \/>\n    ou menos parecida.<\/p>\n<p>&#8212; Sim. Eles t&ecirc;m raz&atilde;o. A paix&atilde;o sexual, qualquer<br \/>\n    que seja o cen&aacute;rio que a envolva &eacute; um mal horr&iacute;vel que<br \/>\n    &eacute; preciso combater e n&atilde;o encorajar como se procede entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>&laquo;Quando o Evangelho diz que um homem que olha para uma mulher com cobi&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; cometeu com ela adult&eacute;rio no seu cora&ccedil;&atilde;o &#8212;<br \/>\n    tem em vista n&atilde;o s&oacute; as mulheres dos outros mas expressamente,<br \/>\n    e sobretudo, a sua pr&oacute;pria mulher.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">XII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Na nossa sociedade &eacute; exactamente o contr&aacute;rio; se um<br \/>\n    homem pensa quando &eacute; solteiro que deve ser continente, ao casar entende<br \/>\n    que tem de deixar de o ser.<\/p>\n<p>&laquo;As viagens depois da cerim&oacute;nia nupcial, o isolamento em que<br \/>\n    se colocam os rec&eacute;m-casados, com a autoriza&ccedil;&atilde;o dos pais,<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o outra coisa que a permiss&atilde;o de se entregarem<br \/>\n    ao prazer.<\/p>\n<p>&laquo;Apesar de todos os meus esfor&ccedil;os eu n&atilde;o consegui organizar<br \/>\n    a minha lua-de-mel.<\/p>\n<p>&laquo;Esta &eacute;poca da minha vida foi horrorosamente aborrecida e ignominiosa.<br \/>\n    E muito depressa se tornou intoler&aacute;vel. Come&ccedil;ou cedo. No terceiro<br \/>\n    ou quarto dia pareceu-me que a minha mulher estava triste e,<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>pensando que ela precisava de carinhos, perguntei-lhe o que tinha e tentei<br \/>\n    beij&aacute;-la; repeliu-me e desatou a chorar. Porqu&ecirc;?&#8230; ela n&atilde;o<br \/>\n    o sabia dizer. Estava triste e mal disposta. Sem d&uacute;vida os nervos gastos<br \/>\n    deixaram-na compreender a verdade sobre a inf&acirc;mia das nossas rela&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Mas ela n&atilde;o o sabia explicar. Como eu continuasse a interrog&aacute;-la,<br \/>\n    confessou-me que sentia muito a falta da m&atilde;e. Tive a impress&atilde;o<br \/>\n    de que n&atilde;o era verdade. Sem lhe falar na m&atilde;e, comecei a cham&aacute;-la<br \/>\n    &agrave; raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Eu compreendera que ela atravessava um momento dif&iacute;cil e a<br \/>\n    raz&atilde;o que me dera era um pretexto.<\/p>\n<p>&laquo;Ofendeu-se por lhe n&atilde;o ter falado na m&atilde;e e por n&atilde;o<br \/>\n    a ter acreditado. Confessou-me que percebia, claramente, que eu j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o a amava. Censurei-a por ser caprichosa. Ent&atilde;o a sua fisionomia<br \/>\n    alterou-se completamente. Em vez de tristeza exprimia irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e, em frases mordazes, censurou o meu ego&iacute;smo e a minha crueldade.<br \/>\n    Fitei-a. N&atilde;o parecia a mesma. A express&atilde;o era de hostilidade,<br \/>\n    quase &oacute;dio. Lembro-me que senti pavor ao fazer esta descoberta.<\/p>\n<p> &#8212; Como pode isto ser &#8212; pensei eu. &#8212; O amor &eacute; a<br \/>\n    uni&atilde;o das almas.<\/p>\n<p>&laquo;Tentei acalm&aacute;-la, mas embati num muro t&atilde;o intranspon&iacute;vel<br \/>\n    de hostilidade e frio amargor que, antes de ter tempo de me vencer, tomou-me<br \/>\n    uma funda irrita&ccedil;&atilde;o e vomit&aacute;mos um sobre o outro uma<br \/>\n    avalanche de palavras desagrad&aacute;veis.<\/p>\n<p>&laquo;A impress&atilde;o do primeiro desentendimento foi atroz. Chamo a<br \/>\n    isto desentendimento, mas n&atilde;o foi desentendimento foi a revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do abismo que, na realidade, nos separava. Era a consequ&ecirc;ncia do amortecimento<br \/>\n    das nossas rela&ccedil;&otilde;es mais &iacute;ntimas. Eu n&atilde;o compreendi<br \/>\n    logo, porque esta hostilidade nos primeiros tempos desvanecia-se com um novo<br \/>\n    sobressalto dos nossos sentidos.<\/p>\n<p>&laquo;Julguei a princ&iacute;pio que estas cenas n&atilde;o recome&ccedil;ariam.<br \/>\n    Por&eacute;m, passada a lua-de-mel houve um novo per&iacute;odo de saciedade.<br \/>\n    Deix&aacute;mos de precisar um do outro e deu-se uma nova discuss&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Esta segunda disputa feriu-me mais do que a primeira, porque surgiu<br \/>\n    sob um pretexto inveros&iacute;mil; por causa de uma economia de dinheiro<br \/>\n    que eu era incapaz de fazer para mim e muito menos para a minha mulher.<\/p>\n<p>&laquo;Lembro-me dela ter conseguido virar completamente o sentido de uma<br \/>\n    express&atilde;o que eu empregara e servir-se dela como argumento para provar<br \/>\n    que eu a queria subjugar pela for&ccedil;a do meu dinheiro&#8230; Foi insuport&aacute;vel,<br \/>\n    est&uacute;pida, reles, indigna dela e de mim.<\/p>\n<p>&laquo;Irritei-me. Reprovei-lhe a sua falta de delicadeza. Ela censurou-me<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>asperamente e tudo recome&ccedil;ou. Nas palavras pronunciadas e na express&atilde;o<br \/>\n    da sua fisionomia e no seu olhar percebi, de novo, essa mesma hostilidade<br \/>\n    dos primeiros dias que tanto me ferira.<\/p>\n<p>&laquo;Discuti muitas vezes com meu irm&atilde;o, com os meus amigos, com<br \/>\n    meu pai, mas, nunca entre n&oacute;s se manifestou o ressentimento pessoal<br \/>\n    e venenoso que notei na minha mulher. Mais uma vez ainda este &oacute;dio<br \/>\n    rec&iacute;proco se atenuou com um novo sobressalto dos sentidos e eu cheguei<br \/>\n    a ter esperan&ccedil;a de que estas discuss&otilde;es eram repar&aacute;veis.<br \/>\n    Mas outros desentendimentos surgiram por tudo e por nada e eu compreendi que<br \/>\n    n&atilde;o era o acaso, e, era este, para sempre, o inferno que me esperava.<\/p>\n<p>&laquo;Al&eacute;m disso estava convencido de que s&oacute; a mim isto acontecia,<br \/>\n    ser eu o &uacute;nico a suportar esta dolorosa vida com a minha pr&oacute;pria<br \/>\n    mulher e em todos os outros lares as coisas se passavam de modo diferente.<\/p>\n<p>&laquo;Nessa &eacute;poca eu ignorava que &eacute; esta a sorte comum da<br \/>\n    maior parte das fam&iacute;lias, mas todos, como eu, se julgam casos &uacute;nicos<br \/>\n    e guardam para si esta desgra&ccedil;ada vergonha. Esta situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    come&ccedil;ou nos primeiros dias e continuou sempre e, cada vez, com maior<br \/>\n    intensidade.<\/p>\n<p>&laquo;No fundo da minha alma eu compreendi depois das primeiras semanas<br \/>\n    ter ca&iacute;do na ratoeira: nada do que se passava era o que eu esperava<br \/>\n    e o casamento n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o dava felicidade mas era qualquer<br \/>\n    coisa de amargurante. Como toda a gente eu recusava-me a confess&aacute;-lo<br \/>\n    (eu n&atilde;o o confessaria ainda hoje, se n&atilde;o se tivesse dado o tr&aacute;gico<br \/>\n    desenlace) e guardei dos outros, e at&eacute; de mim, esta verdade.<\/p>\n<p>&laquo;Admiro-me agora de n&atilde;o ter visto, de princ&iacute;pio, a minha<br \/>\n    verdadeira situa&ccedil;&atilde;o. E eu podia t&ecirc;-la visto desde essa<br \/>\n    &eacute;poca, porque as nossas discuss&otilde;es come&ccedil;avam por tais<br \/>\n    ninharias que quando acabavam era imposs&iacute;vel saber por que tinham principiado.<br \/>\n    Mas se os motivos das discuss&otilde;es eram inveros&iacute;meis muito mais<br \/>\n    inveros&iacute;meis eram os motivos da reconcilia&ccedil;&atilde;o. Algumas<br \/>\n    vezes eram s&oacute; palavras, explica&ccedil;&otilde;es e mesmo l&aacute;grimas<br \/>\n    de parte a parte, mas algumas vezes&#8230; repugna-me lembr&aacute;-lo. As insinua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais cru&eacute;is transformavam-se, de s&uacute;bito, sem uma palavra, em<br \/>\n    sorrisos, beijos e profundos enternecimentos.<\/p>\n<p>&laquo;Que abomina&ccedil;&atilde;o!&#8230; Por que n&atilde;o compreendi ent&atilde;o<br \/>\n    toda a abjec&ccedil;&atilde;o do nosso procedimento?&raquo;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">XIII<\/a><\/h4>\n<p>Entraram dois novos viajantes e instalaram-se num lugar afastado. Ele calou-se,<br \/>\n    enquanto eles se instalaram, mas logo que cessou o burburinho continuou, dando<br \/>\n    a impress&atilde;o de que n&atilde;o perdera o fio do pensamento:<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; O que &eacute; imundo &eacute; que, em teoria, se considere o<br \/>\n    amor como uma coisa ideal, nobre, quando afinal a pr&aacute;tica do amor &eacute;<br \/>\n    qualquer coisa de s&oacute;rdido que nos avilta e nos p&otilde;e a par dos<br \/>\n    porcos, coisa abomin&aacute;vel e vergonhosa de se falar em frente de quem<br \/>\n    quer que seja! Mas os homens querem tornar admir&aacute;vel e superior o que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o s&oacute;rdido e reles.<\/p>\n<p>&laquo;Quais foram os primeiros sinais do meu amor?&#8230; Entregar-me a uma<br \/>\n    exuber&acirc;ncia animal. E n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o tinha vergonha<br \/>\n    mas blasonava desta minha possibilidade de transportes f&iacute;sicos, sem<br \/>\n    pensar na vida espiritual nem mesmo na vida f&iacute;sica.<\/p>\n<p>&laquo;Muitas vezes procurei a raz&atilde;o da nossa profunda animosidade<br \/>\n    um contra o outro, e contudo era bem compreens&iacute;vel e claro: esta animosidade<br \/>\n    n&atilde;o era outra coisa do que o protesto da natureza humana contra a animalidade<br \/>\n    que a abafava. Confrangia-me a nossa avers&atilde;o; mas n&atilde;o podia<br \/>\n    ser de outro modo. Esta avers&atilde;o n&atilde;o era outra coisa do que o<br \/>\n    &oacute;dio rec&iacute;proco dos c&uacute;mplices de um crime&#8230; por instiga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e por participa&ccedil;&atilde;o. Era um verdadeiro crime.<\/p>\n<p>&laquo;Minha mulher concebeu desde o primeiro m&ecirc;s e, apesar disso,<br \/>\n    a nossa vida em comum continuou, como verdadeiros animais.<\/p>\n<p>&laquo;Julga que me estou a afastar do assunto? De maneira nenhuma. Continuo<br \/>\n    a contar-lhe como matei a minha mulher.<\/p>\n<p>&laquo;No tribunal perguntaram-me com que havia morto minha mulher. Cambada<br \/>\n    de imbecis!&#8230; Estavam convencidos de que a havia morto no dia cinco de Outubro,<br \/>\n    com uma faca. N&atilde;o foi nesse dia que a matei; foi muito antes. Como<br \/>\n    eles matam continuamente&#8230;&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, n&atilde;o percebo&#8230; Como matam?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eis o que &eacute; espantoso; ningu&eacute;m quer saber o que &eacute;<br \/>\n    evidente e claro, o que devem saber e difundir os m&eacute;dicos e &eacute;<br \/>\n    horrorosamente simples.<\/p>\n<p>&laquo;O homem e a mulher foram criados como os animais de tal modo que,<br \/>\n    depois do amor carnal come&ccedil;a a gesta&ccedil;&atilde;o, depois o aleitamento,<br \/>\n    estados em que o amor carnal &eacute; nocivo &agrave; crian&ccedil;a e &agrave;<br \/>\n    mulher.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio uma grande ci&ecirc;ncia para<br \/>\n    se concluir que, como afinal concluem os animais, no per&iacute;odo de gesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e aleitamento deve haver contin&ecirc;ncia. Mas n&atilde;o. A ci&ecirc;ncia<br \/>\n    j&aacute; chegou a descobrir n&atilde;o sei que leuc&oacute;citos que correm<br \/>\n    no sangue e outras in&eacute;pcias que n&atilde;o servem para nada mas n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de ou n&atilde;o quis descobrir isto. Pelo menos nunca ouvi dizer<br \/>\n    que tenha sido abordado tal assunto. De modo que para a mulher s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    duas sa&iacute;das: a primeira fazer de si pr&oacute;pria um monstro, destruir<br \/>\n    ou tentar destruir em si, segundo as necessidades, a faculdade de ser mulher,<br \/>\n    isto &eacute;, m&atilde;e, a fim de que o homem possa, tranquilamente e de<br \/>\n    uma maneira constante, satisfazer-se; a segunda modalidade, que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; um expediente mas a viola&ccedil;&atilde;o directa, simples e grosseira<br \/>\n    das leis da natureza e se pratica em todas as fam&iacute;lias consideradas<br \/>\n    honestas. A mulher, violentando a sua pr&oacute;pria natureza deve ser ao<br \/>\n    mesmo tempo gr&aacute;vida, ama e amante e deve ser rebaixada at&eacute; onde<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o os animais.<\/p>\n<p>&laquo;Esgotam-se-lhe as for&ccedil;as. E da&iacute; prov&ecirc;m os muitos<br \/>\n    casos de histeria; de doen&ccedil;as de nervos e no povo&#8230; as possessas.<br \/>\n    Note voc&ecirc; que os casos das possessas n&atilde;o se encontram entre raparigas<br \/>\n    puras, mas somente entre as mulheres casadas e entre as casadas as que coabitam<br \/>\n    com os maridos.<\/p>\n<p>&laquo;E assim entre n&oacute;s e &eacute; assim na Europa. Os hospitais<br \/>\n    est&atilde;o cheios de mulheres hist&eacute;ricas porque infringiram as leis<br \/>\n    da natureza.<\/p>\n<p>&laquo;As possessas e as doentes de Charcot s&atilde;o verdadeiras doentes,<br \/>\n    e o mundo est&aacute; cheio de estropiadas.<\/p>\n<p>&laquo;Se pens&aacute;ssemos na grande obra que se realiza na mulher quando<br \/>\n    ela traz dentro de si um filho, ou quando o amamenta!&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;O que ela traz em si &eacute; a nossa continua&ccedil;&atilde;o, quem<br \/>\n    nos substituir&aacute;&#8230; e esta obra sagrada &eacute; comprometida&#8230; Porqu&ecirc;?<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; acabrunhante meditar nisto. Fala-se muito nos direitos da<br \/>\n    mulher e, afinal, &eacute; como se os antrop&oacute;fagos engordassem os prisioneiros<br \/>\n    para os comer, afirmando contudo que muito os interessa os direitos e liberdade<br \/>\n    desses mesmos prisioneiros.&raquo;<\/p>\n<p>Tudo isto era novo para mim e interessou-me:<\/p>\n<p>&#8212; Mas nesse caso um homem s&oacute; pode amar a mulher uma vez, de<br \/>\n    dois em dois anos, e o homem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E o homem n&atilde;o pode sujeitar-se a tanto&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Os ilustres sacerdotes da ci&ecirc;ncia assim o fazem crer a todo<br \/>\n    o mundo. Gostaria de poder obrigar estes magos da ci&ecirc;ncia a substituir<br \/>\n    as mulheres<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>nestas obriga&ccedil;&otilde;es que, segundo eles, s&atilde;o indispens&aacute;veis<br \/>\n    aos homens.<\/p>\n<p>&laquo;Conven&ccedil;a um homem de que &eacute; indispens&aacute;vel &agrave;<br \/>\n    vida a vodca, o tabaco, o &oacute;pio e tudo isto se tornar&aacute; indispens&aacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Deus porque n&atilde;o consultou esses adivinhos da ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o compreendeu o que era necess&aacute;rio e falhou. H&aacute; portanto<br \/>\n    qualquer coisa que n&atilde;o est&aacute; certa.<\/p>\n<p>&laquo;Se para o homem (os magos assim o determinam) &eacute; uma necessidade<br \/>\n    satisfazer a sua concupisc&ecirc;ncia e se a procria&ccedil;&atilde;o e o<br \/>\n    aleitamento s&atilde;o um obst&aacute;culo &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessa necessidade, que fazer ent&atilde;o? Dirigirem-se aos magos e tudo se<br \/>\n    arranja. Eles t&ecirc;m a solu&ccedil;&atilde;o para todos os problemas.<\/p>\n<p>&laquo;Quando ser&atilde;o destronados estes adivinhos e as suas imposturices?&#8230;<\/p>\n<p> &Eacute; tempo!<\/p>\n<p>&laquo;Veja ao que chegamos; uns enlouquecem, outros suicidam-se, e tudo<br \/>\n    tem a mesma causa.<\/p>\n<p>&laquo;Mas como proceder de outro modo?<\/p>\n<p>&laquo;Os animais parecem compreender que a descend&ecirc;ncia assegura a<br \/>\n    continuidade da esp&eacute;cie e observam a esse prop&oacute;sito a lei que<br \/>\n    a regula. S&oacute; um animal a ignora e faz por ignorar. De quem se trata?<br \/>\n    Do rei da natureza. Do homem!<\/p>\n<p>&laquo;Note que os animais se acasalam quando pressentem que podem ter descend&ecirc;ncia,<br \/>\n    e que ao imundo rei da natureza todo o tempo lhe serve, conquanto tire disso<br \/>\n    proveito. E ainda mais, esta ocupa&ccedil;&atilde;o de macaco &eacute; exaltada<br \/>\n    como a p&eacute;rola da cria&ccedil;&atilde;o, o amor. Em nome deste amor,<br \/>\n    ou melhor, desta abomina&ccedil;&atilde;o, assegura a perda de quem? De metade<br \/>\n    do g&eacute;nero humano! De todas as mulheres que deveriam ser suas colaboradoras<br \/>\n    na evolu&ccedil;&atilde;o da humanidade para o bem e para a verdade, mas em<br \/>\n    nome do prazer se fazem, n&atilde;o auxiliares, mas inimigas.<\/p>\n<p>&laquo;Observe o que refreia o movimento de avan&ccedil;o da humanidade:<br \/>\n    as mulheres. E porqu&ecirc;? Unicamente por isto. Sim. Sim&raquo;, repetiu<br \/>\n    ele v&aacute;rias vezes e p&ocirc;s-se muito agitado. Procurou os cigarros,<br \/>\n    acendeu um com o desejo evidente de se acalmar.<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">XIV<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Vivi assim, como um porco &#8212; continuou ele no mesmo tom que<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p> dantes.<\/p>\n<p> &laquo;E o pior era que levando esta vida infame, considerava-me &#8212;<br \/>\n    porque n&atilde;o seduzia outras mulheres e levava uma exist&ecirc;ncia conjugal<br \/>\n    honesta &#8212; um homem irrepreens&iacute;vel. N&atilde;o me sentia culpado<br \/>\n    e atribu&iacute;a as quest&otilde;es que surgiam, entre n&oacute;s, ao mau<br \/>\n    car&aacute;cter da minha mulher.<\/p>\n<p>&laquo;Mas n&atilde;o era ela a culpada. Ela era como a maior parte.<\/p>\n<p>&laquo;Tinha sido educada como s&atilde;o quase todas as mulheres da nossa<br \/>\n    sociedade. H&aacute; quem se queixe da forma como a mulher &eacute; educada.<br \/>\n    H&aacute; quem deseje dar-lhe outra orienta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; fogo<br \/>\n    de vista.<\/p>\n<p>&laquo;A mulher recebe e receber&aacute; a educa&ccedil;&atilde;o dentro<br \/>\n    do esp&iacute;rito em que a considerem. A educa&ccedil;&atilde;o da mulher<br \/>\n    corresponder&aacute; sempre &agrave; maneira como o homem a julgue.<\/p>\n<p>&laquo;Sabemos todos o que o homem pensa da mulher.<\/p>\n<p>&laquo;Tanto na poesia, como na pintura ou na escultura, s&oacute; se considera<br \/>\n    a mulher como instrumento de prazer; come&ccedil;ando pela poesia amorosa,<br \/>\n    pelas V&eacute;nus e as Phrineas nuas todas elas e isto &eacute; assim em<br \/>\n    Trouba, em Gratchevka e nos bailes da corte. Quando se fala de voluptuosidade<br \/>\n    e de prazer pensa-se na mulher.<\/p>\n<p>&laquo;No princ&iacute;pio, os cavaleiros divinizavam a mulher (divinizavam-na<br \/>\n    mas, mesmo assim consideravam-na um instrumento de prazer).<\/p>\n<p>&laquo;Hoje pretende dizer-se que se respeita a mulher. E assim uns cedem-lhe<br \/>\n    os seus lugares e apanham-lhe o len&ccedil;o; outros reconhecem-lhe o direito<br \/>\n    de exercer todas as fun&ccedil;&otilde;es e de tomarem parte na administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Fazem tudo isto, mas a opini&atilde;o &eacute; sempre a mesma: o corpo<br \/>\n    da mulher &eacute; um instrumento de prazer. E a mulher sabe-o. Esta atitude<br \/>\n    n&atilde;o difere muito da escravatura. A escravatura &eacute; a explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por uns do trabalho for&ccedil;ado de um grande n&uacute;mero. Para que n&atilde;o<br \/>\n    haja escravatura &eacute; necess&aacute;rio que os homens n&atilde;o queiram<br \/>\n    usufruir o trabalho for&ccedil;ado de outros e considerem isto como pecado<br \/>\n    ou uma desonra. Enquanto isto se n&atilde;o der suprime-se a forma exterior<br \/>\n    da escravatura, tomam-se disposi&ccedil;&otilde;es para impedir os mercados<br \/>\n    de escravas e fica-se persuadido de que a escravatura foi abolida. N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;em, n&atilde;o querem ver que a escravatura continua a existir porque<br \/>\n    se continua a amar da mesma maneira, e se julga bom e justo aproveitar o trabalho<br \/>\n    for&ccedil;ado dos outros. E porque se julga bom este procedimento haver&aacute;<br \/>\n    sempre mais fortes e mais manhosos para passarem do pensamento aos actos.<br \/>\n    O mesmo se d&aacute; com a emancipa&ccedil;&atilde;o das mulheres. A<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>escravatura da mulher consiste s&oacute; no facto de os homens a considerarem<br \/>\n    como instrumento de prazer. Modernamente emancipam-na, concedem-lhe todos<br \/>\n    os direitos do homem, mas como &eacute; imprescind&iacute;vel para a satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das suas necessidades fisiol&oacute;gicas educam-na neste sentido desde a<br \/>\n    inf&acirc;ncia. Assim ela &eacute; uma escrava, humilhada, pervertida, e o<br \/>\n    homem um corrompido senhor de escravos.<\/p>\n<p>&laquo;Emancipam a mulher nas universidades e nos parlamentos mas, de facto,<br \/>\n    s&oacute; a consideram escrava dos sentidos. Ensinai-a como entre n&oacute;s<br \/>\n    a consider&aacute;-la da mesma maneira e a mulher ser&aacute; sempre uma criatura<br \/>\n    inferior.<\/p>\n<p> E com a ajuda dos m&eacute;dicos ela impedir&aacute; a concep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e cruelmente diremos que n&atilde;o passa de uma prostituta, descer&aacute;<br \/>\n    ao mais baixo n&iacute;vel, descer&aacute; abaixo dos animais e ser&aacute;<br \/>\n    um objecto ou em muitos casos, uma doente moral, uma hist&eacute;rica, uma<br \/>\n    infeliz, o que elas s&atilde;o na realidade sem possibilidades de se desenvolverem<br \/>\n    espiritualmente.<\/p>\n<p>&laquo;Os liceus e as universidades n&atilde;o t&ecirc;m possibilidades de<br \/>\n    modificar este estado de coisas. S&oacute; a mudan&ccedil;a radical da opini&atilde;o<br \/>\n    que os homens t&ecirc;m das mulheres e as mulheres n&atilde;o t&ecirc;m dos<br \/>\n    homens pode modificar um tal estado de coisas. Isto acabar&aacute; quando<br \/>\n    a mulher se convencer de que o estado mais perfeito &eacute; o da virgindade.<\/p>\n<p>&laquo;Enquanto o ideal de toda a rapariga, qualquer que seja a sua forma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    for o de atrair o maior n&uacute;mero de homens para poder fazer a sua escolha,<br \/>\n    nada mudar&aacute;.<\/p>\n<p>&laquo;Ou seja instru&iacute;da nas matem&aacute;ticas ou saiba executar<br \/>\n    maravilhosamente trechos de harpa nada mudar&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;A mulher s&oacute; &eacute; absolutamente feliz se obt&eacute;m o<br \/>\n    que pode desejar, isto &eacute;, conseguir embruxar um homem. Ser&aacute;<br \/>\n    sempre assim&#8230; Isto passa-se na nossa sociedade, na vida das raparigas solteiras,<br \/>\n    e depois, na vida de casadas, o fim &eacute; sempre o mesmo: dominar o homem.<\/p>\n<p>&laquo;A &uacute;nica coisa que p&otilde;e termo a esta situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; o nascimento dos filhos.<\/p>\n<p> E quando a mulher n&atilde;o &eacute; um monstro, a sua cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute; ent&atilde;o que interv&ecirc;m mais uma vez os sacerdotes<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&laquo;Minha mulher, que quis, por todos os modos amamentar o primeiro filho<br \/>\n    e alimentou todos os outros cinco teve durante a primeira gravidez umas pequenas<br \/>\n    crises.<\/p>\n<p>&laquo;Os m&eacute;dicos cinicamente obrigavam-na a despir-se, apalpavam-na<br \/>\n    em todos os sentidos (e eu tive que lhes pagar por esse trabalho) e por fim<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>estes caros doutores decretaram que ela n&atilde;o devia criar o beb&eacute;<br \/>\n    e assim ficou privada durante os primeiros tempos do &uacute;nico meio de<br \/>\n    se subtrair &agrave; coqueteria.<\/p>\n<p>&laquo;O nosso primeiro filho foi criado por ama e dizendo por forma mais<br \/>\n    rude: &#8220;Aproveit&aacute;mos a mis&eacute;ria, a indig&ecirc;ncia, e a<br \/>\n    ignor&acirc;ncia de uma pobre mulher tir&aacute;mo-la ao filho e sob este<br \/>\n    pretexto enfeit&aacute;mos-lhe a cabe&ccedil;a com uma coifa de fitas.&#8221;<br \/>\n    Mas n&atilde;o &eacute; disso que se trata.<\/p>\n<p>&laquo;O problema &eacute; que desde que ela se libertou da gravidez e da<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o a coqueteria feminina que estava entorpecida despertou<br \/>\n    com uma for&ccedil;a particular. E ao mesmo tempo sobrevieram-me, paralelamente<br \/>\n    e com a mesma for&ccedil;a, os tormentos do ci&uacute;me.<\/p>\n<p>&laquo;Dilaceraram-me sem tr&eacute;guas durante todo o tempo que vivi com<br \/>\n    minha mulher da mesma maneira que dilaceram todos os casais que vivem com<br \/>\n    as suas mulheres como eu vivia, isto &eacute;, de uma maneira perfeitamente<br \/>\n    imoral.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">XV<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Durante todo o tempo que vivi com a minha mulher nunca deixei de<br \/>\n    experimentar os tormentos do ci&uacute;me. E houve mesmo per&iacute;odos em<br \/>\n    que sofri com profunda acuidade. Um desses per&iacute;odos foi depois do nascimento<br \/>\n    do primeiro filho quando os m&eacute;dicos proibiram que minha mulher o amamentasse.<\/p>\n<p>&laquo;Sofri horrorosamente, primeiro porque minha mulher sentia uma inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;pria de todos os que sem raz&atilde;o perturbam a marcha regular<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia; segundo porque vendo-a enjeitar a sua responsabilidade<br \/>\n    de m&atilde;e conclui, inconscientemente, que lhe seria f&aacute;cil fugir<br \/>\n    &agrave;s suas responsabilidades de mulher casada, tanto mais que ela estava<br \/>\n    de perfeita sa&uacute;de. Apesar da interdi&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos<br \/>\n    ela criou ao peito todos os outros filhos.&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Decididamente voc&ecirc; n&atilde;o gosta dos m&eacute;dicos &#8212;<br \/>\n    disse-lhe eu. Notara que sempre que falava dos m&eacute;dicos dava uma entoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    particularmente odiosa &agrave;s palavras.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; quest&atilde;o de gostar ou n&atilde;o gostar;<br \/>\n    arruinaram-me a vida como arruinaram e continuam a arruinar a vida de milhares,<br \/>\n    de centenas de milhar<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>de pessoas. Compreendo que eles desejem ganhar dinheiro, como os advogados<br \/>\n    e outros profissionais.<\/p>\n<p>&laquo;Conceder-lhes-ia metade dos meus rendimentos e todas as pessoas, se<br \/>\n    compreendessem bem o que eles fazem, lhes cederiam, de bom grado, metade dos<br \/>\n    seus rendimentos, s&oacute; para que eles se n&atilde;o metessem na nossa<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o juntei todas as minhas informa&ccedil;&otilde;es, mas conhe&ccedil;o<br \/>\n    dezenas de casos e h&aacute; muitos mais em que, umas vezes mataram o filho<br \/>\n    no ventre da m&atilde;e, outras vezes mataram a m&atilde;e sobre o pretexto<br \/>\n    de n&atilde;o sei que opera&ccedil;&atilde;o. &Eacute; imposs&iacute;vel de<br \/>\n    enumerar os crimes que cometeram. Mas todos estes crimes n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    nada comparados com a corrup&ccedil;&atilde;o moral e com o materialismo que<br \/>\n    eles t&ecirc;m introduzido no mundo, por interm&eacute;dio das mulheres. Eu<br \/>\n    n&atilde;o falo das prescri&ccedil;&otilde;es que eles exigem (a respeito<br \/>\n    por exemplo dos cont&aacute;gios) e fazem a desuni&atilde;o entre os homens;<br \/>\n    segundo eles dev&iacute;amos andar sempre com uma seringa de fenol na boca.<br \/>\n    Mas isto n&atilde;o &eacute; nada. O principal veneno &eacute; a corrup&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seres, principalmente das mulheres. Hoje &eacute; quase imposs&iacute;vel<br \/>\n    dizer: &#8220;Vives mal, procura viver melhor.&#8221; N&atilde;o se pode dizer<br \/>\n    isto nem a si pr&oacute;prio nem a ningu&eacute;m. Se se vive mal a causa<br \/>\n    est&aacute; no mau funcionamento dos nervos ou outra qualquer coisa do mesmo<br \/>\n    g&eacute;nero. Ent&atilde;o vamos a correr ao m&eacute;dico e prescrevem-nos<br \/>\n    trinta e cinco copeques de medicamentos e devoramo-los. Voc&ecirc; piora,<br \/>\n    corre a outros m&eacute;dicos, s&atilde;o precisas novas drogas, outros m&eacute;dicos!<br \/>\n    Uma fantochada! Mas a quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; essa.<\/p>\n<p>&laquo;A minha mulher amamentou perfeitamente os filhos e s&oacute; a gravidez<br \/>\n    e a amamenta&ccedil;&atilde;o me salvaram da tortura dos ci&uacute;mes e sem<br \/>\n    os filhos, o que aconteceu, ter-se-ia dado mais cedo&#8230; Os filhos salvaram-na<br \/>\n    e salvaram-me. Em oito anos deu &agrave; luz cinco filhos. E foi ela quem<br \/>\n    os amamentou.&raquo;<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&atilde;o agora os seus filhos? &#8212; perguntei.<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&atilde;o os meus filhos?&#8212; repetiu ele com um ar desvairado.<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe, talvez lhe custe responder-me.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. &Eacute;-me indiferente. Os irm&atilde;os de minha mulher<br \/>\n    tomaram conta deles. N&atilde;o m&oacute;s entregaram. Deixei-lhes os meus<br \/>\n    bens, mas eles n&atilde;o m&oacute;s entregaram. Sabe, eu sou uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de louco. Venho agora de casa deles.<\/p>\n<p> Vi-os. Mas n&atilde;o m&oacute;s entregar&atilde;o. Porque eu os educaria<br \/>\n    de modo diferente, para que n&atilde;o fossem como os pais. Ora &eacute; preciso<br \/>\n    que eles sejam como os pais. Que fazer? Compreendo que eles m&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    entreguem e que n&atilde;o tenham confian&ccedil;a em mim. Nem sei mesmo se<br \/>\n    teria for&ccedil;a para os educar. Penso que n&atilde;o. Eu sou uma ru&iacute;na,<br \/>\n    um estropiado. N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o uma coisa para mim.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Eu sei. Sim. &Eacute; verdade. Eu sei o que os outros n&atilde;o saber&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o cedo. Sim, os meus filhos est&atilde;o vivos. E crescem como selvagens,<br \/>\n    como todos em volta deles. Vi-os umas tr&ecirc;s vezes ao todo. N&atilde;o<br \/>\n    posso fazer nada por eles. Nada. Por agora vou para minha casa no Sul. Eu<br \/>\n    tenho uma casita e um jardim pequeno.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o. N&atilde;o &eacute; t&atilde;o cedo que os outros saber&atilde;o<br \/>\n    o que eu sei. Dentro em breve saber-se-&aacute; que no Sol e nas estrelas<br \/>\n    h&aacute; muito ferro e outros metais&#8230; saber-se-&aacute; em breve&#8230; Mas<br \/>\n    o que mascara a nossa vilania&#8230; &eacute; dif&iacute;cil, muito dif&iacute;cil&#8230;<br \/>\n    horrivelmente dif&iacute;cil de saber.<\/p>\n<p>&laquo;Voc&ecirc; ao menos ouve-me e eu estou-lhe muito reconhecido.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">XVI<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; falou-me dos filhos. A prop&oacute;sito dos filhos tem-se<br \/>\n    espalhado lament&aacute;veis mentiras. Os filhos s&atilde;o uma b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do c&eacute;u. Os filhos s&atilde;o a alegria da casa.<\/p>\n<p>&laquo;Outrora tudo isto era verdade, mas agora n&atilde;o existe nada de<br \/>\n    semelhante. Os filhos s&atilde;o um tormento e, nada mais. A maior parte das<br \/>\n    m&atilde;es sentem-no e dizem-no francamente. Pergunte &agrave; maior parte<br \/>\n    das senhoras da nossa sociedade, &agrave; classe das pessoas abastadas e elas<br \/>\n    responder-lhe-&atilde;o de que o medo de que os filhos adoe&ccedil;am ou morram<br \/>\n    faz com que elas os evitem. N&atilde;o os querem ter; e se os t&ecirc;m n&atilde;o<br \/>\n    os querem amamentar para n&atilde;o se prenderem e n&atilde;o sofrer. O prazer<br \/>\n    que lhes proporciona o filho pela gra&ccedil;a do pequenino corpo, das m&atilde;ozinhas,<br \/>\n    dos pezitos, n&atilde;o compensa o sofrimento que tem com o pensamento que<br \/>\n    o pequenino ser possa adoecer. E n&atilde;o falamos na doen&ccedil;a de facto&#8230;<br \/>\n    e da poss&iacute;vel morte. Pesando os pr&oacute;s e os contras verifica-se<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; vantajoso ter filhos e portanto n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    desej&aacute;veis. Elas dizem-no abertamente e orgulhosamente convencidas<br \/>\n    de que estes sentimentos prov&ecirc;m do amor, de um sentimento nobre de que<br \/>\n    se sentem ufanas. E n&atilde;o compreendem que com este racioc&iacute;nio<br \/>\n    negam o amor e n&atilde;o mostram sen&atilde;o ego&iacute;smo. Elas encontram<br \/>\n    mais sofrimento do que prazer na gra&ccedil;a do filho. N&atilde;o querem<br \/>\n    sacrificar-se por um ser amado, elas imolam a si pr&oacute;prias um ser que<br \/>\n    devia ser amado. N&atilde;o &eacute; amor &eacute; ego&iacute;smo.<\/p>\n<p>&laquo;Quando penso ainda agora na vida e no estado da minha mulher nos primeiros<br \/>\n    tempos quando t&iacute;nhamos tr&ecirc;s e depois quatro filhos e ela estava<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>completamente absorvida por eles apodera-se de mim um verdadeiro terror.<\/p>\n<p> N&atilde;o era vida era um perigo perp&eacute;tuo mal se aproximava a salva&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    surgia logo de seguida outro perigo, faz&iacute;amos esfor&ccedil;os desesperados&#8230;<br \/>\n    viv&iacute;amos em permanente alerta como num navio em perigo de naufr&aacute;gio.<\/p>\n<p>&laquo;Algumas vezes tive a impress&atilde;o de que se servia da doen&ccedil;a<br \/>\n    dos filhos para me vencer. Ela resolvia assim os problemas em seu proveito,<br \/>\n    e tudo o que fazia e dizia nessas ocasi&otilde;es era premeditado.<\/p>\n<p>&laquo;Os filhos eram uma constante tortura para ela e para mim. N&atilde;o<br \/>\n    podia estar sem se atormentar. A necessidade de alimentar os filhos, de os<br \/>\n    adormecer, de os defender, existia nela como na maior parte das mulheres.<\/p>\n<p>&laquo;Mas ela n&atilde;o era como os animais: tinha racioc&iacute;nio e<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;A galinha n&atilde;o receia o que pode acontecer aos pintos, porque<br \/>\n    ignora as doen&ccedil;as que os podem matar, desconhece os meios p&ecirc;los<br \/>\n    quais os homens est&atilde;o convencidos de que se preservam da doen&ccedil;a<br \/>\n    e da morte. Ela faz p&ecirc;los pintos o que &eacute; natural e agrad&aacute;vel<br \/>\n    fazer; os pintos s&atilde;o para a m&atilde;e um motivo de alegria. Se um<br \/>\n    pinto cai doente os seus cuidados est&atilde;o determinados: aquece-os, alimenta-os.<br \/>\n    Fazendo isto, ela sabe que faz tudo o que &eacute; necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> Se um pinto morre n&atilde;o lhe interessa saber qual a raz&atilde;o por<br \/>\n    que morreu, solta alguns cacarejes e continua depois a sua vida de galinha.<\/p>\n<p>&laquo;Mas para as nossas infelizes mulheres, e portanto para a minha, a<br \/>\n    coisa &eacute; muito diferente. Sem mesmo falar das doen&ccedil;as e da maneira<br \/>\n    de as tratar e de educar os filhos, ela procurava por todos os modos elementos<br \/>\n    que a auxiliassem em tudo o que lhes dizia respeito. Nas conversas, nas leituras,<br \/>\n    procurava regras de conduta que variam at&eacute; ao infinito e mudam a todo<br \/>\n    o momento.<\/p>\n<p>&laquo;Devem alimentar-se sob certas regras, vestirem-se, e beberem, dormirem,<br \/>\n    apanharem ar. N&oacute;s, mas muito principalmente ela, descobr&iacute;amos<br \/>\n    todos os dias novos preceitos. Como se fosse a primeira vez que nascessem<br \/>\n    beb&eacute;s. Fora dessas regras se as crian&ccedil;as n&atilde;o se alimentavam<br \/>\n    como devia ser, se n&atilde;o se lhes dava banho com os preceitos requeridos:<br \/>\n    e, por fim, se a crian&ccedil;a ficava doente era ela que tinha a culpa, porque<br \/>\n    n&atilde;o tinha feito o que era aconselh&aacute;vel. Isto em per&iacute;odos<br \/>\n    de perfeita sa&uacute;de. E j&aacute; era um supl&iacute;cio. Mas se algum<br \/>\n    dos filhos ca&iacute;a doente era o fim do mundo. Um verdadeiro inferno. Admitimos<br \/>\n    perfeitamente que se trate uma doen&ccedil;a. H&aacute; para isso uma ci&ecirc;ncia<br \/>\n    e homens que sabem, os m&eacute;dicos; nem todos, mas os melhores.<\/p>\n<p>&laquo;Uma crian&ccedil;a adoece, se conseguimos apanhar o m&eacute;dico,<br \/>\n    a crian&ccedil;a salva-se. Mas se n&atilde;o se encontra o m&eacute;dico ou<br \/>\n    se n&atilde;o se vive no lugar em que<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>o m&eacute;dico vive a crian&ccedil;a morre, com certeza.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o &eacute; uma caracter&iacute;stica s&oacute; da minha mulher<br \/>\n    &eacute; de todas as mulheres do seu meio e de todos os lados n&atilde;o se<br \/>\n    ouve dizer sen&atilde;o: &#8220;Catarina Semenova perdeu dois filhos porque<br \/>\n    n&atilde;o foi chamado a tempo, o doutor Zakharitch; Ivan Zakharitch salvou<br \/>\n    a filha mais velha de Ivanovna&#8230; Em casa dos Petrov acautelaram-se a tempo.<br \/>\n    A conselho do m&eacute;dico separaram todos os filhos, que doutro modo se<br \/>\n    n&atilde;o salvariam. Um outro beb&eacute; fraquinho a conselho do m&eacute;dico<br \/>\n    foi instalar-se no Sul e salvou-se&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Como n&atilde;o nos inquietarmos e n&atilde;o se perturbar toda a<br \/>\n    vida familiar quando a vida das crian&ccedil;as &#8212; &agrave;s quais se<br \/>\n    est&aacute; ligado de uma maneira animal &#8212; depende do que dir&aacute;<br \/>\n    Ivan Zakharitch? E o que dir&aacute; Ivan, ningu&eacute;m o sabe, como ele<br \/>\n    pr&oacute;prio n&atilde;o sabe. Perfeitamente s&oacute; sabe que n&atilde;o<br \/>\n    sabe nada e nada pode fazer; anda &agrave;s cegas. Mas &eacute; preciso que<br \/>\n    todos estejam convencidos de que ele sabe qualquer coisa. Se ela fosse um<br \/>\n    animal n&atilde;o se atormentaria, e se fosse, de facto, uma pessoa humana,<br \/>\n    teria f&eacute; em Deus, diria e pensaria como as camponesas crentes: &#8220;Deus<br \/>\n    mo deu, Deus mo tirou; estamos todas nas m&atilde;os de Deus.&#8221; Pensaria<br \/>\n    que a vida e morte de todos os seres como o das crian&ccedil;as escapam ao<br \/>\n    poder dos homens. Confiaria em Deus e n&atilde;o se atormentaria, julgando<br \/>\n    que estava na sua m&atilde;o poder conjurar a doen&ccedil;a e a morte dos<br \/>\n    filhos.<\/p>\n<p>&laquo;Mas n&atilde;o. Sentia por eles um amor animal, apaixonado. Eram-lhe<br \/>\n    confiados mas eram-lhe interditos os meios de os salvaguardar enquanto outras<br \/>\n    pessoas os possu&iacute;am &#8212; estranhos cujos servi&ccedil;os e conselhos<br \/>\n    s&oacute; pod&iacute;amos adquirir por muito alto pre&ccedil;o, e nem sempre.<\/p>\n<p>&laquo;A vida dos filhos foi para a minha mulher e, consequentemente, para<br \/>\n    mim tamb&eacute;m, uma tortura. Como n&atilde;o nos atormentarmos? Ela atormentava-se<br \/>\n    por tudo e por nada.<\/p>\n<p>&laquo;Mal sa&iacute;amos de uma cena de ci&uacute;mes ou de uma simples<br \/>\n    quest&atilde;o e pens&aacute;vamos poder viver, ler ou reflectir um pouco<br \/>\n    e empreend&iacute;amos qualquer trabalho, sabia-se de repente que, Vassia<br \/>\n    vomitava, que Macha perdia sangue, que Andr&eacute; tinha uma erup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e era o fim. N&atilde;o se podia fazer mais nada.<\/p>\n<p>&laquo;A que m&eacute;dico dev&iacute;amos recorrer? Como isolar as crian&ccedil;as?<br \/>\n    E ent&atilde;o come&ccedil;ava a cena dos clisteres, das temperaturas, das<br \/>\n    visitas m&eacute;dicas.<\/p>\n<p>&laquo;Mal acabava uma logo come&ccedil;ava outra. N&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    vida de fam&iacute;lia s&oacute;lida nem regular.<\/p>\n<p>&laquo;Era, como lhes digo, uma luta constante contra perigos reais e<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>imagin&aacute;rios.<\/p>\n<p>&laquo;E ali&aacute;s isto o que acontece assim, agora, na maior parte das<br \/>\n    fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>&laquo;Mas na minha tinha uma acuidade particular. A minha mulher era especialmente<br \/>\n    m&atilde;e e cr&eacute;dula. A exist&ecirc;ncia de filhos em vez de nos facilitar<br \/>\n    a vida envenenava-a. Os filhos eram para n&oacute;s motivo de cont&iacute;nuos<br \/>\n    dissabores. Desde o momento em que os filhos apareceram e depois cresceram<br \/>\n    a maior parte das vezes s&oacute; serviram, como pretexto, da nossa desuni&atilde;o.<br \/>\n    Eles foram n&atilde;o s&oacute; os elementos de desuni&atilde;o mas instrumento<br \/>\n    de combate; bat&iacute;amo-nos, de qualquer maneira, atrav&eacute;s dos filhos.<br \/>\n    Cada um de n&oacute;s tinha a sua prefer&ecirc;ncia, o seu instrumento de<br \/>\n    combate. E ainda n&atilde;o &eacute; tudo. Quando os filhos come&ccedil;aram<br \/>\n    a crescer e se foram desenhando os seus caracteres tornaram-se aliados que<br \/>\n    n&oacute;s atra&iacute;mos para o nosso campo. Sofriam horrorosamente, os<br \/>\n    pobres pequenos, mas na nossa guerra perp&eacute;tua n&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    tempo para pensar neles. A rapariga pertencia ao meu partido; o mais velho<br \/>\n    dos rapazes, que se parecia muito com a m&atilde;e e era o seu preferido,<br \/>\n    tornou-se-me muitas vezes odioso.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">XVII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; E assim &iacute;amos vivendo. As nossas rela&ccedil;&otilde;es foram-se<br \/>\n    tornando cada vez mais hostis. E cheg&aacute;mos &agrave; situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de serem os nossos dissentimentos que criaram a animosidade e n&atilde;o a<br \/>\n    animosidade que criava os dissentimentos. Eu estava sempre contra o que ela<br \/>\n    defendia, e o mesmo se dava com ela.<\/p>\n<p>&laquo;Ao quarto ano de casados desistimos de nos compreendermos, de tentar<br \/>\n    explicar-nos e nem sequer nos pod&iacute;amos ouvir.<\/p>\n<p>&laquo;Nas coisas mais simples mas, principalmente em tudo o que se tratasse<br \/>\n    dos filhos, mant&iacute;nhamo-nos em atitudes irredut&iacute;veis. Na maioria<br \/>\n    dos casos eu poderia ter cedido nas minhas opini&otilde;es; mas isso significava<br \/>\n    dar-lhe raz&atilde;o e era o que eu de maneira nenhuma queria. N&atilde;o<br \/>\n    pod&iacute;amos mais, nem ela nem eu. Cada um de n&oacute;s entendia ter sempre<br \/>\n    raz&atilde;o, e eu at&eacute; me considerava um santo.<\/p>\n<p>&laquo;Qualquer animal podia manter as conversas que n&oacute;s t&iacute;nhamos<br \/>\n    quando est&aacute;vamos s&oacute;s &#8212; estou disso completamente convencido.<\/p>\n<p>&laquo;Que horas s&atilde;o? Que temos hoje para o jantar? &#8230;. Onde iremos<br \/>\n    passar<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>a noite?&#8230; Que dizem os jornais?&#8230; &Eacute; preciso ir chamar o m&eacute;dico&#8230;<br \/>\n    A Macha tem a garganta inflamada&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Se os temas da conversa&ccedil;&atilde;o se afastassem um cabelo deste<br \/>\n    col&oacute;quio, a discuss&atilde;o atingia o auge. Tivemos discuss&otilde;es<br \/>\n    violent&iacute;ssimas por causa do caf&eacute;, da toalha da mesa, da carruagem,<br \/>\n    assuntos que, de resto, n&atilde;o tinham o mais pequeno interesse para n&oacute;s.<\/p>\n<p>&laquo;No fundo de mim borbulhava continuamente um &oacute;dio hediondo.<br \/>\n    Odiava-a por tudo, porque levava a colher &agrave; boca, porque sorvia o ch&aacute;,<br \/>\n    porque balan&ccedil;ava a ponta do p&eacute;, como se todos estes actos fossem<br \/>\n    indignos.<\/p>\n<p>&laquo;Nunca tinha dado conta de que os per&iacute;odos de &oacute;dio surgiam<br \/>\n    regularmente e paralelos aos per&iacute;odos a que chamamos amor. Um per&iacute;odo<br \/>\n    de amor, um per&iacute;odo de &oacute;dio; um per&iacute;odo de amor intenso,<br \/>\n    um per&iacute;odo longo de &oacute;dio, pequenas manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de amor, curto per&iacute;odo de &oacute;dio.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o compreend&iacute;amos que o amor e o &oacute;dio eram manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diferentes do mesmo sentimento animal. Seria horr&iacute;vel compreender a<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o em que nos encontr&aacute;vamos, mas, nem sequer a<br \/>\n    v&iacute;amos.<\/p>\n<p>&laquo;E ao mesmo tempo a salva&ccedil;&atilde;o e o castigo do homem.<\/p>\n<p>&laquo;Quando levamos uma vida irregular envolve-nos uma neblina que nos<br \/>\n    n&atilde;o deixa distinguir o car&aacute;cter desastroso do nosso procedimento.<br \/>\n    Era o que se dava connosco. Ela procurava atordoar-se na tens&atilde;o e frenesim<br \/>\n    das suas ocupa&ccedil;&otilde;es de m&atilde;e de fam&iacute;lia: o arranjo<br \/>\n    da casa, das suas toilettes e da dos filhos, dos estudos e da sa&uacute;de<br \/>\n    dos pequenos. Por meu lado tinha a agita&ccedil;&atilde;o do trabalho, da<br \/>\n    ca&ccedil;a e do jogo. Est&aacute;vamos sempre ocupados. Sent&iacute;amos<br \/>\n    que, quanto mais tempo estiv&eacute;ssemos ocupados, mais nos feriamos um<br \/>\n    ao outro.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Podes fingir &agrave; vontade; massacraste-me toda a noite<br \/>\n    e eu tenho de ir para uma sess&atilde;o&#8221;, pensava eu. Por seu turno<br \/>\n    ela n&atilde;o somente pensava mas dizia: &#8220;Tu todo repimpado; e eu n&atilde;o<br \/>\n    consegui pregar olho porque o filho levou a noite inteira a chorar.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Viv&iacute;amos envolvidos por perp&eacute;tuo nevoeiro, sem vermos<br \/>\n    a situa&ccedil;&atilde;o que cri&aacute;ramos. Se o que aconteceu n&atilde;o<br \/>\n    tivesse acontecido e se continu&aacute;ssemos a viver assim at&eacute; &agrave;<br \/>\n    velhice, ao morrer pensar&iacute;amos que t&iacute;nhamos levado uma vida<br \/>\n    muito boa, n&atilde;o particularmente boa, mas como a de toda a gente, e n&atilde;o<br \/>\n    ter&iacute;amos compreendido o abismo de infelicidade e odiosa mentira em<br \/>\n    que nos debat&iacute;amos.<\/p>\n<p>&laquo;&Eacute;ramos dois for&ccedil;ados presos &agrave; mesma grilheta,<br \/>\n    odiando-nos<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>mutuamente, e mutuamente nos envenenando a exist&ecirc;ncia e procurando<br \/>\n    ocultarmo-nos de n&oacute;s pr&oacute;prios. Eu desconhecia que a maior parte<br \/>\n    dos casais, noventa e nove por cento, vivem no inferno em que eu vivia e n&atilde;o<br \/>\n    podia ser de outro modo.<\/p>\n<p>&laquo;H&aacute; uma s&eacute;rie de pormenores nas vidas irregulares como<br \/>\n    na vida regular. Quando os pais tornam a vida intoler&aacute;vel &eacute;<br \/>\n    indispens&aacute;vel instalar-se a fam&iacute;lia na cidade, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    para a educa&ccedil;&atilde;o dos filhos como tamb&eacute;m para serem menos<br \/>\n    poss&iacute;veis as quest&otilde;es.&raquo;<\/p>\n<p>Aproxim&aacute;vamo-nos de uma esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Que horas tem? &#8212; perguntou ele. Vi as horas; eram j&aacute;<br \/>\n    duas da manh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; j&aacute; est&aacute; cansado?&#8212; perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. Voc&ecirc; &eacute; que deve estar extenuado.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sufoco. Se me d&aacute; licen&ccedil;a vou andar um bocado e beber<br \/>\n    um copo de &aacute;gua.<\/p>\n<p>Atravessou a carruagem cambaleando. Fiquei sozinho e fui recapitulando o<br \/>\n    que ele me dissera e de tal forma estava entregue aos meus pensamentos que<br \/>\n    o n&atilde;o vi entrar por uma outra portinhola.<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">XVIII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Deixo-me arrastar pelo sofrimento &#8212; come&ccedil;ou ele. &#8212;<br \/>\n    As minhas opini&otilde;es evolu&iacute;ram e h&aacute; muitas coisas que encaro,<br \/>\n    hoje, de forma diferente, mas eu tenho necessidade de desabafar.<\/p>\n<p>&laquo;Instal&aacute;mo-nos na cidade. A vida na cidade &eacute; mais suport&aacute;vel<br \/>\n    para as pessoas infelizes&#8230; Um homem pode viver cem anos na cidade, estar<br \/>\n    h&aacute; muito morto e putrefacto sem que ningu&eacute;m d&ecirc; por isso.<\/p>\n<p>&laquo;Nunca h&aacute; tempo de fazer exame de consci&ecirc;ncia. Estamos<br \/>\n    sempre ocupados com neg&oacute;cios, com as rela&ccedil;&otilde;es sociais,<br \/>\n    com as artes, com a sa&uacute;de e com as doen&ccedil;as dos filhos e com<br \/>\n    a sua educa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; sempre necess&aacute;rio visitarmos<br \/>\n    a casa de um ou de outro. Nas cidades h&aacute; sempre tr&ecirc;s ou quatro<br \/>\n    grandes acontecimentos a que se n&atilde;o pode faltar.<\/p>\n<p>&laquo;Viv&iacute;amos melhor assim e sent&iacute;amos menos o sofrimento<br \/>\n    que nos<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>acarretava a coabita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Nos primeiros tempos da mudan&ccedil;a tivemos ocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    milagrosas, a nova instala&ccedil;&atilde;o e as frequentes desloca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da cidade para o campo e do campo para a cidade.<\/p>\n<p>&laquo;Passou assim um Inverno.<\/p>\n<p>&laquo;No segundo Inverno, por&eacute;m, deu-se um acontecimento insignificante<br \/>\n    na apar&ecirc;ncia, que passou quase despercebido e foi, afinal, a origem<br \/>\n    de toda a trag&eacute;dia.<\/p>\n<p>&laquo;Ela adoeceu. Os tratantes dos m&eacute;dicos aconselharam-na a n&atilde;o<br \/>\n    ter filhos e ensinaram-lhe o processo de n&atilde;o conceber. Esta determina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    causou-me horror. Tive de aceitar como boa uma decis&atilde;o que me repugnava,<br \/>\n    mas que tinha atacado com fraco ardor. Era a &uacute;ltima justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a nossa vida de porcos. Roubaram-nos os filhos; a nossa situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tornou-se mais abjecta.<\/p>\n<p>&laquo;Ao campon&ecirc;s s&atilde;o-lhe necess&aacute;rios os filhos, ainda<br \/>\n    que lhes custe a educ&aacute;-los e h&aacute; por isso uma justifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para as suas rela&ccedil;&otilde;es conjugais. Para n&oacute;s, por&eacute;m,<br \/>\n    que j&aacute; temos muitos filhos e n&atilde;o temos necessidade deles, os<br \/>\n    filhos s&oacute; representam aumento de despesas e s&atilde;o, afinal, uma<br \/>\n    carga pesada e n&atilde;o temos, por isso, maneira de justificar a nossa vida<br \/>\n    de porcos. E ent&atilde;o ou nos livramos dos filhos artificialmente ou os<br \/>\n    consideramos uma calamidade como a consequ&ecirc;ncia de uma imprud&ecirc;ncia,<br \/>\n    o que &eacute; ainda mais repugnante. Ca&iacute;mos t&atilde;o baixo que nem<br \/>\n    sequer sentimos necessidade de uma justifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A maior parte da sociedade, pretensiosamente, cultivada entrega-se a esta<br \/>\n    forma de prazer sem o menor remorso. N&atilde;o h&aacute; remorso porque n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; consci&ecirc;ncia do pecado.<\/p>\n<p>&laquo;Se nos podemos exprimir assim s&oacute; conta a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    da opini&atilde;o p&uacute;blica e a do C&oacute;digo Penal. E quase nem uma<br \/>\n    nem outra se perturbam. Quase n&atilde;o vale a pena importar-mo-nos com a<br \/>\n    opini&atilde;o p&uacute;blica. Todos fazem o mesmo: Maria Pavlovna como Ivan<br \/>\n    Zakharitch. N&atilde;o devemos por isso ter escr&uacute;pulos, nem temer o<br \/>\n    C&oacute;digo.<\/p>\n<p>&laquo;S&oacute; as raparigas de m&aacute; vida e as mulheres dos soldados<br \/>\n    deitam os filhos rec&eacute;m-nascidos nos po&ccedil;os e nos lagos; esses,<br \/>\n    est&aacute; bem, devem ser castigados, devem ser metidos na cadeia. Entre<br \/>\n    n&oacute;s tudo se faz a tempo e com limpeza.<\/p>\n<p>&laquo;Vivemos assim dois anos. O processo usado por aqueles velhacos deu<br \/>\n    excelentes resultados. Ela readquiriu a sua eleg&acirc;ncia antiga. Engordou<br \/>\n    um pouco. Era j&aacute; uma formosura de Outono. Ela percebia isso e tinha<br \/>\n    muito<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>cuidado consigo. Criou uma beleza provocante e inquietante.<\/p>\n<p>&laquo;Possu&iacute;a toda a pujan&ccedil;a de uma mulher de trinta anos.<br \/>\n    N&atilde;o concebia e alimentava-se bem. O seu aspecto era perturbador. Era<br \/>\n    uma &eacute;gua bem tratada que estivesse muito tempo presa e a quem tivessem<br \/>\n    soltado as r&eacute;deas, como de resto noventa e nove por cento das mulheres.<br \/>\n    Pressentia isso e tive medo.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"19\" id=\"19\">XIX<\/a><\/h4>\n<p>De repente levantou-se e foi sentar-se junto da janela.<\/p>\n<p>&#8212; Desculpe-me &#8212; disse ele e esteve tr&ecirc;s minutos com o olhar<br \/>\n    fixo. Suspirou profundamente e voltou, de novo, a sentar-se junto de mim.<\/p>\n<p>A sua fisionomia alterara-se de uma maneira estranha, os olhos tinham uma<br \/>\n    express&atilde;o implorante e os l&aacute;bios um sorriso contrafeito e incompreens&iacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Estou um pouco fatigado mas quero continuar. N&oacute;s temos ainda<br \/>\n    muito tempo, o dia ainda n&atilde;o vai nascer. Acendeu um novo cigarro.<\/p>\n<p>&#8212; Ela recomp&ocirc;s-se desde que deixou de ter o sofrimento do parto<br \/>\n    e as perturba&ccedil;&otilde;es da gravidez. Voltou a ter bom senso e apercebeu<br \/>\n    todo o mundo criado por Deus, com a alegria que tinha esquecido ou n&atilde;o<br \/>\n    soubera viver.<\/p>\n<p>&laquo;E preciso n&atilde;o deixar escapar esta ocasi&atilde;o. O tempo urge;<br \/>\n    n&atilde;o se pode voltar atr&aacute;s&#8230; Julgo que era isto que ela pensava<br \/>\n    ou melhor sentia. Ali&aacute;s, ela n&atilde;o podia nem sentir, nem pensar<br \/>\n    de outro modo; fora educada assim; n&atilde;o h&aacute; outro objecto digno<br \/>\n    de aten&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o o amor. Quando casou recebeu uma parte<br \/>\n    desse amor, mas nem era o amor como ela o idealizara nem o que lhe haviam<br \/>\n    prometido. Tinha experimentado dolorosas desilus&otilde;es, muitos sofrimentos<br \/>\n    e acima de tudo os filhos. Esse tormento tinha-a esgotado completamente.<\/p>\n<p>&laquo;Mas eis que os m&eacute;dicos complacentes lhe fazem compreender que<br \/>\n    ela podia passar sem filhos. Ficou content&iacute;ssima, p&ocirc;s o conselho<br \/>\n    &agrave; prova e come&ccedil;ou a viver para o amor que ela conhecia. Mas<br \/>\n    n&atilde;o era o amor com um marido diminu&iacute;do pelo ci&uacute;me, e<br \/>\n    por todas as esp&eacute;cies de furor. Come&ccedil;ou a pensar no outro amor,<br \/>\n    um amor puro completamente diferente do que at&eacute; a&iacute; sentira &#8212;<br \/>\n    era, pelo menos, o que eu pensava.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;P&ocirc;s-se a olhar em volta &agrave; espera que surgisse qualquer<br \/>\n    coisa. Notei todas estas modifica&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o pude deixar<br \/>\n    de me alarmar.<\/p>\n<p>&laquo;Falando indirectamente comigo, como fazia quase sempre &#8212; quer<br \/>\n    dizer, falando comigo por interm&eacute;dio dos outros &#8212;, defendia a<br \/>\n    ideia de que os cuidados das m&atilde;es eram um erro e que n&atilde;o valia<br \/>\n    a pena consagrarmo-nos aos filhos quando se &eacute; nova e se pode ainda<br \/>\n    gozar a vida, esquecida de que horas antes tinha defendido opini&otilde;es<br \/>\n    contr&aacute;rias.<\/p>\n<p>&laquo;Ocupava-se muito menos dos filhos e sem o frenesim dos primeiro tempos,<br \/>\n    cuidava muito mais de si, das suas toilettes, da sua cultura, do seu aperfei&ccedil;oamento<br \/>\n    exterior. Come&ccedil;ou a dedicar-se, com entusiasmo, ao piano que, h&aacute;<br \/>\n    muito, pusera de parte. E tudo come&ccedil;ou assim.<\/p>\n<p>&laquo;Voltou de novo para a janela, os olhos cansados mas, retomou, de novo,<br \/>\n    o fio da narrativa, fazendo um esfor&ccedil;o vis&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Foi ent&atilde;o que apareceu o homem&#8230;&raquo;<\/p>\n<p>Perdeu o sangue-frio e emitiu duas ou tr&ecirc;s vezes, pelo nariz, os sons<br \/>\n    que lhe eram peculiares. Compreendi perfeitamente que lhe era doloroso dizer<br \/>\n    o nome do homem, de o lembrar e de falar dele, mas dominou-se, e, como se<br \/>\n    tivesse conseguido vencer um obst&aacute;culo que o detinha, continuou resolutamente:<\/p>\n<p>&laquo;Era uma personagem med&iacute;ocre, um miser&aacute;vel, n&atilde;o<br \/>\n    porque tivesse alguma import&acirc;ncia para mim, mas porque era tal qual<br \/>\n    eu pensara dele, um miser&aacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;O facto de ele ser med&iacute;ocre era a prova da irresponsabilidade<br \/>\n    da minha mulher. Se n&atilde;o fosse este seria outro. Tinha que se dar. &#8212;<br \/>\n    Calou-se mais uma vez. Depois continuou. &#8212; Era um m&uacute;sico, um<br \/>\n    violinista n&atilde;o profissional. Era um meio profissional meio homem de<br \/>\n    sociedade.<\/p>\n<p>&laquo;O pai era propriet&aacute;rio e nosso vizinho. Arruinara-se. Tr&ecirc;s<br \/>\n    dos filhos estabeleceram-se; o mais novo, por&eacute;m, foi para casa de uma<br \/>\n    madrinha, em Paris. Entrou para o Conservat&oacute;rio porque era dotado para<br \/>\n    a m&uacute;sica; tirou o curso de violinista e deu alguns concertos.<\/p>\n<p>&laquo;Era um homem&#8230; &#8212; teve a tenta&ccedil;&atilde;o de dizer mal<br \/>\n    mas conteve-se e disse rapidamente: &#8212; Eu n&atilde;o sei como ele viveu<br \/>\n    em Paris; sei que nesse ano reapareceu na R&uacute;ssia e veio visitar-me.<\/p>\n<p>&laquo;Era um rapaz bonito mas banal&#8230; olhos rasgados em am&ecirc;ndoa e<br \/>\n    h&uacute;midos, l&aacute;bios onde se instalara um sorriso sempre igual, bigode<br \/>\n    frisado e penteado segundo a &uacute;ltima moda; de aspecto fraco, traseiro<br \/>\n    bastante<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>desenvolvido como nas mulheres e nos hotentotes que, segundo creio, tamb&eacute;m<br \/>\n    s&atilde;o m&uacute;sicos. Correcto e af&aacute;vel, muito digno, punha-se<br \/>\n    sempre &agrave; parte em qualquer discuss&atilde;o. Tinha um ar parisiense,<br \/>\n    usava botas abotoadas de lado, gravatas de cores garridas, tudo o que surpreende<br \/>\n    os estrangeiros em Paris e que, pela originalidade, atrai as mulheres. Apresentava-se<br \/>\n    sempre bem-disposto. Falava por met&aacute;foras e sem sequ&ecirc;ncia, como<br \/>\n    se soub&eacute;ssemos, de antem&atilde;o, o que ele queria dizer e pud&eacute;ssemos<br \/>\n    concluir por n&oacute;s.<\/p>\n<p>&laquo;Este homem e o seu violino foram os promotores da cat&aacute;strofe&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;No processo apresentaram a quest&atilde;o como se o m&oacute;bil do<br \/>\n    crime fosse o ci&uacute;me. Nada disso. N&atilde;o quero dizer que n&atilde;o<br \/>\n    fosse uma das causas. Mas n&atilde;o foi tudo. No julgamento decidiram que<br \/>\n    eu era um marido ultrajado que matara a minha mulher para defender a honra<br \/>\n    (&eacute; assim que eles se exprimem).<\/p>\n<p>&laquo;Fui absolvido por esta raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Durante as audi&ecirc;ncias, contudo, tentei explicar-lhes as verdadeiras<br \/>\n    raz&otilde;es do crime mas eles supuseram que eu queria reabilit&aacute;-la.<\/p>\n<p>&laquo;As suas rela&ccedil;&otilde;es com o m&uacute;sico n&atilde;o tiveram<br \/>\n    a maior import&acirc;ncia nem para mim, nem para ela. O que foi importante<br \/>\n    foi a minha torpeza. Tudo se deu porque entre n&oacute;s havia um incomensur&aacute;vel<br \/>\n    abismo, uma terr&iacute;vel tens&atilde;o provocada pelo &oacute;dio rec&iacute;proco<br \/>\n    que o mais insignificante pretexto faria explodir.<\/p>\n<p>&laquo;Nos &uacute;ltimos tempos as nossas discuss&otilde;es eram aterradoras<br \/>\n    por um lado, e tanto mais impressionantes porque eram seguidas de cenas de<br \/>\n    uma sensualidade animal e exasperante. Se n&atilde;o se tivesse dado a inf&acirc;mia<br \/>\n    com o m&uacute;sico dar-se-ia com outro. Insisto neste ponto para que todos<br \/>\n    os maridos que vivem como eu vivia ou se entreguem a uma vida de licenciosidade<br \/>\n    ou matem as mulheres.<\/p>\n<p>&laquo;Se h&aacute; algum que escape &eacute; uma excep&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Antes do crime eu estive v&aacute;rias vezes &agrave; beira do suic&iacute;dio<br \/>\n    e ela tentou envenenar-se.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"20\" id=\"20\">XX<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Assim lev&aacute;vamos a vida.<\/p>\n<p>&laquo;Pass&aacute;mos uns tempos tranquilos, pequenas tr&eacute;guas, que<br \/>\n    n&atilde;o<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>t&iacute;nhamos raz&atilde;o aparente para quebrar. De repente conversava-se<br \/>\n    a prop&oacute;sito de um c&atilde;o; eu afirmava que o c&atilde;o tinha recebido<br \/>\n    na exposi&ccedil;&atilde;o uma medalha de ouro; ela sustentava que n&atilde;o<br \/>\n    tinha sido medalha, mas men&ccedil;&atilde;o honrosa. Levantou-se a discuss&atilde;o.<br \/>\n    Pass&aacute;mos de uns assuntos para outros. Fizemo-nos censuras rec&iacute;procas:<\/p>\n<p>&laquo;Sim&#8230;. Sim&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Conhe&ccedil;o-te, &eacute; sempre a mesma coisa&#8230; Tu disseste&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o disse tal&#8230; Queres dizer que minto?&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Depois disto desencadearam-se cenas horrorosas em que tive a tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de me suicidar ou de a matar. Era iminente o perigo. Temia-o como o fogo,<br \/>\n    e queria-me dominar mas a c&oacute;lera invadia todo o meu ser. Era o mesmo<br \/>\n    o estado dela, sen&atilde;o pior; desvirtuava o sentido das frases. Cada uma<br \/>\n    das suas palavras escorria veneno; procurava ferir-me nos pontos mais dolorosos.<br \/>\n    E ia aumentando de intensidade as insinua&ccedil;&otilde;es e os insultos.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Cala-te!&#8221;, gritei-lhe eu, ou outra qualquer frase&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Ela saiu correndo do quarto para onde se encontravam os filhos.<\/p>\n<p>&laquo;Procurei det&ecirc;-la e agarrei-a por um bra&ccedil;o.<\/p>\n<p>&laquo;Fingiu que eu a magoara e gritou:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Meus filhos, o pai est&aacute; a bater-me!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Verdadeiramente espantado exclamei:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Tu mentes!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Os filhos acorrem aflitos. Ela sossega-os.<\/p>\n<p>&laquo;Eu disse-lhe:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o fa&ccedil;as com&eacute;dia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Para ti tudo &eacute; com&eacute;dia&#8230; &Eacute;s capaz de<br \/>\n    matar um homem e afirmares que est&aacute; a fazer de morto. Percebo-te muito<br \/>\n    bem. E &eacute; isso o que tu queres&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Oh, se tu estoirasses!&#8230;), gritei fora de mim.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Lembro-me de que estas palavras me aterrorizaram. Nunca me supus capaz<br \/>\n    de as pronunciar t&atilde;o grosseiras e t&atilde;o repugnantes. Admiro-me<br \/>\n    como me puderam escapar.<\/p>\n<p>&laquo;Depois de ter gritado esta frase abomin&aacute;vel meti-me no meu<br \/>\n    gabinete, sentei-me e pus-me a fumar. Senti-a passar pela antec&acirc;mara<br \/>\n    e preparar-se para sair. Perguntei-lhe para onde ia. N&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que a leve o diabo&#8230;&#8221;, disse para mim mesmo.<\/p>\n<p>&laquo;Voltei para o meu gabinete, estiracei-me e voltei a fumar&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;E ent&atilde;o no meu esp&iacute;rito formaram-se planos de vingan&ccedil;a,<br \/>\n    para me ver livre dela sem que ningu&eacute;m o percebesse. Passei em revista<br \/>\n    todo o passado, fumando cigarros uns ap&oacute;s outros.<\/p>\n<p>&laquo;Pensei em fugir, esconder-me, partir para a Am&eacute;rica.<\/p>\n<p>&laquo;Depois, de novo me assaltaram os pensamentos de me libertar, ligando-me<br \/>\n    a outra mulher, uma mulher diferente. Mas para me livrar dela era necess&aacute;rio<br \/>\n    ou que ela morresse ou que nos divorci&aacute;ssemos e principiei a estudar<br \/>\n    os meios de chegar a um desses resultados.<\/p>\n<p>&laquo;Senti que desfalecia, o pensamento dilu&iacute;a-se mas continuava<br \/>\n    a fumar.<\/p>\n<p> &laquo;Entretanto a vida da casa continuava como sempre&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;A governanta veio perguntar-me:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Onde est&aacute; a senhora? Ela volta?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;O criado diz-me: &#8220;Posso servir o ch&aacute;?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Fui para a casa de jantar. Os filhos e, principalmente Lisa, a mais<br \/>\n    velha e que pressente o que se passa, fitou-me com um olhar, ao mesmo tempo<br \/>\n    interrogador e de censura. N&atilde;o trocamos uma palavra durante o ch&aacute;.<\/p>\n<p>&laquo;Passou-se a tarde&#8230; Passou-se a noite sem ela voltar.<\/p>\n<p>&laquo;Dois sentimentos cresciam a par, na minha alma: o rancor por me atormentar<br \/>\n    a mim e aos filhos e a ansiedade por que atentasse contra a exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    embora eu tivesse a certeza de que ela voltaria.<\/p>\n<p>&laquo;Pensei em ir procur&aacute;-la Mas aonde? A casa da irm&atilde;?&#8230;<br \/>\n    Seria est&uacute;pido ir atormentar mais fam&iacute;lia. Tanto pior para ela<br \/>\n    se nos quer atormentar; que sofra tamb&eacute;m. &Eacute; isso que ela pretende<br \/>\n    e s&oacute; isso&#8230; Para a pr&oacute;xima vez far&aacute; pior&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;E se n&atilde;o est&aacute; em casa da irm&atilde;?&#8230; Se tentou suicidar-se?&#8230;<br \/>\n    Se se suicida?&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Deram as onze horas&#8230; a meia-noite&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o consegui ir para o quarto; seria idiota tentar dormir.<\/p>\n<p>&laquo;Comecei a escrever cartas; tentei ler. N&atilde;o consegui fazer nada.<\/p>\n<p>&laquo;Por fim deixei-me estar sentado completamente s&oacute;,<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>atormentando-me. Cheguei &agrave; &uacute;ltima forma de desespero. Pus o<br \/>\n    ouvido &agrave; escuta na esperan&ccedil;a de a ouvir chegar. Tr&ecirc;s horas&#8230;<br \/>\n    Quatro horas&#8230; N&atilde;o regressou. De manh&atilde; deixei-me dormir. Quando<br \/>\n    acordei n&atilde;o tinha ainda regressado.<\/p>\n<p>&laquo;Em casa tudo, aparentemente, corria como antes mas todos estavam perplexos,<br \/>\n    e olhavam-me com ar interrogador e, ao mesmo tempo, cheio de censura.<\/p>\n<p>&laquo;Atribu&iacute;am-me toda a culpa.<\/p>\n<p>&laquo;Dentro de mim os mesmos dois sentimentos se digladiavam: o rancor<br \/>\n    e a inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;&Agrave;s onze horas da manh&atilde; chegou a irm&atilde; como medianeira.<br \/>\n    A hist&oacute;ria come&ccedil;ou como sempre:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ela est&aacute; num estado deplor&aacute;vel&#8230; Que &eacute;<br \/>\n    que tudo isto quer dizer?&#8230; N&atilde;o se passou nada?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Queixei-me do seu car&aacute;cter imposs&iacute;vel e confessei que<br \/>\n    lhe n&atilde;o tinha feito mal.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Isto n&atilde;o pode continuar assim&#8230;.&#8221;, disse-me a<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Isso &eacute; com ela; n&atilde;o &eacute; comigo. Eu n&atilde;o<br \/>\n    darei o primeiro passo. Se ela se quer divorciar, divorciar-nos-emos.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;A minha cunhada foi-se como tinha vindo.<\/p>\n<p>&laquo;Tinha-lhe falado duramente e afirmara-lhe que n&atilde;o daria um<br \/>\n    passo, mas quando depois da sua partida vi os filhos p&aacute;lidos, abatidos,<br \/>\n    resolvi dar o primeiro passo. Sentia nisso contentamento mas, n&atilde;o sabia<br \/>\n    ao certo, como havia de proceder.<\/p>\n<p>&laquo;Pus-me a andar de um lado para o outro e a fumar.<\/p>\n<p>&laquo;Ao almo&ccedil;o bebi vodca e vinho e comecei a pressentir o fim para<br \/>\n    que, inconscientemente, era levado.<\/p>\n<p>&laquo;&Agrave;s tr&ecirc;s horas da tarde ela voltou. Fui ao seu encontro;<br \/>\n    n&atilde;o me deu uma palavra. Julgando-a calma tentei explicar-me, que me<br \/>\n    excedera levado pelas suas censuras injustas.<\/p>\n<p>&laquo;Numa atitude agressiva disse-me que n&atilde;o vinha para ouvir explica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Vinha para levar os filhos e n&atilde;o podia nem queria viver comigo.<\/p>\n<p>&laquo;Quis convenc&ecirc;-la de que n&atilde;o era eu o culpado, e que fora<br \/>\n    ela quem me provocara. Olhou-me friamente e com ar solene disse-me:<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o digas mais; tu h&aacute;s-de arrepender-te. &#8220;<\/p>\n<p>&laquo;Repeti-lhe:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o posso suportar com&eacute;dias&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Come&ccedil;ou a gritar, meteu-se no quarto e fechou-se por dentro.<\/p>\n<p>&laquo;Bati. Ningu&eacute;m respondeu. Afastei-me desesperado.<\/p>\n<p>&laquo;Meia hora depois Lisa veio ter comigo debulhada em l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que h&aacute;?&#8230; Aconteceu alguma coisa?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o se ouve nada no quarto da mam&atilde;.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vamos l&aacute;.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Meti os ombros &agrave; porta. O fecho estava mal corrido e os dois<br \/>\n    batentes cederam.<\/p>\n<p>&laquo;Aproximei-me da cama. Estava sem sentidos meio despida e cal&ccedil;ada,<br \/>\n    numa posi&ccedil;&atilde;o inc&oacute;moda. Na mesa de to&uuml;ette um frasquinho<br \/>\n    de &oacute;pio vazio. Fizemo-la vir a si. L&aacute;grimas. A reconcilia&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Mas dentro da alma de cada um, a mesma animosidade, multiplicada pelo<br \/>\n    desespero da &uacute;ltima quest&atilde;o cujas raz&otilde;es imput&aacute;vamos<br \/>\n    um ao outro.<\/p>\n<p>&laquo;A vida retomou o seu ramerr&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Quest&otilde;es como estas surgiram uma vez por semana, por m&ecirc;s,<br \/>\n    todos os dias&#8230; E eram sempre as mesmas consequ&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>&laquo;De uma das vezes eu tinha j&aacute; o passaporte. A zanga durava j&aacute;<br \/>\n    h&aacute; dois dias. Mas houve de novo uma meia explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma meia reconcilia&ccedil;&atilde;o, e eu desisti da partida.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"21\" id=\"21\">XXI<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Eis como as coisas corriam, pouco tempo antes de aparecer esse homem.<\/p>\n<p>&laquo;Pouco tempo depois de ter chegado a Moscovo, Troukhatchevski veio<br \/>\n    visitar-me. Era de manh&atilde;. Recebi-o. Antigamente hav&iacute;amo-nos<br \/>\n    tratado por tu. Por v&aacute;rias vezes ele usou o &#8220;tu&#8221;, mas eu<br \/>\n    acentuei bem o emprego da<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>segunda pessoa do plural e ele desistiu da primitiva familiaridade.<\/p>\n<p>&laquo;Desagradou-me profundamente, logo &agrave; primeira vista, mas uma<br \/>\n    for&ccedil;a estranha, fatal, arrastava-me para ele, obrigava-me a n&atilde;o<br \/>\n    o afastar, pelo contr&aacute;rio, levava-me a atra&iacute;-lo. De facto era<br \/>\n    simples evitar as rela&ccedil;&otilde;es; bastava que o recebesse friamente<br \/>\n    durante alguns instantes e despedi-lo sem o apresentar a minha mulher. Mas<br \/>\n    n&atilde;o procedi assim e, propositadamente, levei a conversa para o assunto<br \/>\n    que lhe interessava, dizendo-lhe que soubera que ele abandonara o estudo do<br \/>\n    violino. Respondeu-me que, mais do que nunca, se dedicava &agrave; m&uacute;sica.<br \/>\n    Lembrou-se de que eu antigamente tamb&eacute;m tocava. Respondi-lhe que pusera<br \/>\n    de parte a m&uacute;sica, mas minha mulher tocava piano muito bem.<\/p>\n<p>&laquo;Coisa assombrosa!&#8230; A minha atitude perante ele desde o primeiro<br \/>\n    dia do nosso encontro foi o que pode dizer-se uma prepara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o que havia de acontecer. Havia em mim qualquer coisa de premeditado.<br \/>\n    Observava cada uma das suas palavras, das express&otilde;es que empregava<br \/>\n    e atribu&iacute;a-lhes muita import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&laquo;Apresentei-o a minha mulher. A conversa, como &eacute; natural, imediatamente<br \/>\n    deslizou para a m&uacute;sica e ele p&ocirc;s-se logo &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a acompanhar.<\/p>\n<p>&laquo;Ela apresentou-se, como nestes &uacute;ltimos tempos, muito elegante,<br \/>\n    atraente e de uma beleza inquietadora. Ele agradou-lhe desde o primeiro momento<br \/>\n    e ficou encantada por poder tocar em conjunto. Apreciava muito tocar e, de<br \/>\n    tempos a tempos, contratava um violinista do teatro para a acompanhar. A alegria<br \/>\n    reflectia-se-lhe no rosto. Mas quando reparou na minha reac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e compreendeu os meus sentimentos, mudou a sua atitude. Come&ccedil;ou assim,<br \/>\n    entre n&oacute;s, uma s&eacute;rie de disfarces.<\/p>\n<p>&laquo;Eu sorria amavelmente, mostrando-me encantado.<\/p>\n<p>&laquo;Ele olhava para a minha mulher, como sabem olhar os libertinos para<br \/>\n    as mulheres bonitas, mas simulava interesse s&oacute; pelo assunto da conversa,<br \/>\n    embora o assunto nada lhe interessasse.<\/p>\n<p>&laquo;Ela, coitada, esfor&ccedil;ava-se por parecer indiferente, mas a minha<br \/>\n    express&atilde;o falsamente am&aacute;vel e sorridente de homem ro&iacute;do<br \/>\n    de ci&uacute;mes e, que ela conhecia perfeitamente, exaltavam-na, coincidindo<br \/>\n    com o olhar &aacute;vido do outro.<\/p>\n<p>&laquo;O olhar dela tinha um novo esplendor e, sem d&uacute;vida, o meu ci&uacute;me<br \/>\n    tinha estabelecido entre ambos uma esp&eacute;cie de corrente el&eacute;ctrica<br \/>\n    que deixava transparecer no rosto de ambos express&otilde;es e sorrisos muito<br \/>\n    semelhantes.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Tudo era simulado entre eles.<\/p>\n<p>&laquo;Fal&aacute;mos de m&uacute;sica, de Paris, de um sem-n&uacute;mero<br \/>\n    de bagatelas.<\/p>\n<p>&laquo;Entretanto ele fez men&ccedil;&atilde;o de se retirar, com um sorriso<br \/>\n    nos l&aacute;bios, inclinando-se um pouco na nossa frente, olhando, ora para<br \/>\n    mim, ora para ela, &agrave; espera do que ir&iacute;amos fazer.<\/p>\n<p>Lembro-me perfeitamente desse momento, porque eu podia ter deixado de o convidar<br \/>\n    e nada teria acontecido.<\/p>\n<p>&laquo;Olhei para ele, olhei para a minha mulher e disse mentalmente: &#8220;N&atilde;o<br \/>\n    penses que tenho ci&uacute;mes de ti&#8230; Nem que te temo, acrescentei interiormente,<br \/>\n    dirigindo-me a ele e convidando-o a trazer o violino para acompanhar minha<br \/>\n    mulher, numa qualquer noite.<\/p>\n<p>&laquo;Ela olhou-me aterrorizada e quis libertar-se, afirmando que n&atilde;o<br \/>\n    tocava bem.<\/p>\n<p>&laquo;Esta recusa irritou-me e insisti no convite.<\/p>\n<p>&laquo;Recordo-me do sentimento bizarro que experimentei ao contemplar a<br \/>\n    nuca de Troukhatchevski e o pesco&ccedil;o sobre que ca&iacute;am os cabelos<br \/>\n    compridos, apartados no meio; caminhando aos saltinhos lembrava um p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p>&laquo;A presen&ccedil;a deste homem torturava-me.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Mas, afinal, s&oacute; depende de mim impedir que este homem<br \/>\n    volte&#8221;, pensava eu.<\/p>\n<p>&laquo;Mas, proceder assim &eacute; confessar que o temo.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o. Eu n&atilde;o o temo, seria demasiado humilhantes&#8221;.<br \/>\n    E insisti para que ele viesse nessa mesma noite, para o ouvirmos.<\/p>\n<p>&laquo;Aceitou o convite e saiu. &Agrave; noite chegou mas durante algum<br \/>\n    tempo eles n&atilde;o conseguiram acompanhar-se porque as partituras de que<br \/>\n    precisavam n&atilde;o estavam em nossa casa e minha mulher precisava de as<br \/>\n    estudar.<\/p>\n<p>&laquo;Eu gostava muito de m&uacute;sica e interessava-me conhecer a execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele. Fui eu que lhe preparei a estante e lhe voltei a p&aacute;gina. Executaram<br \/>\n    algumas roman&ccedil;as sem palavras e uma sonata de Mozart. Ele tocava admiravelmente.<br \/>\n    Tinha uma dedilha&ccedil;&atilde;o perfeita. Um gosto delicado e superior<br \/>\n    que n&atilde;o correspondia ao seu car&aacute;cter. Era muito mais artista<br \/>\n    que minha mulher. Aconselhou-a, elogiando cortesmente a sua execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;Minha mulher tomara uma atitude simples e natural, parecendo s&oacute;<br \/>\n    se interessar pela m&uacute;sica.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Quanto a mim, fingindo interessar-me pela m&uacute;sica, toda a noite<br \/>\n    e continuamente fui torturado pelo ci&uacute;me.<\/p>\n<p>&laquo;Desde que tinham cruzado o primeiro olhar, desdenhando a sua condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e as conversa&ccedil;&otilde;es sociais, despertado o animal que cada um traz<br \/>\n    dentro de si, eles interrogavam-se:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Eacute; poss&iacute;vel? Mas sem d&uacute;vida&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ele n&atilde;o supunha poder encontrar, numa moscovita, uma mulher<br \/>\n    t&atilde;o atraente e ficou deslumbrado. N&atilde;o duvidou um instante de<br \/>\n    que era correspondido. Tudo consistia em afastar o marido para os n&atilde;o<br \/>\n    importunar.<\/p>\n<p>&laquo;Se eu fosse um homem honesto n&atilde;o teria compreendido nada disto,<br \/>\n    mas como a maioria dos homens antes do casamento, eu considerava as mulheres<br \/>\n    como Troukhatchevski e podia ler-lhes na alma como num livro aberto.<\/p>\n<p>&laquo;Fazia-me sofrer a ideia de que minha mulher sentia por mim s&oacute;<br \/>\n    irrita&ccedil;&atilde;o, entrecortada, uma vez ou outra, de acessos de sensualidade.<\/p>\n<p>&laquo;Por esse homem elegante e de indubit&aacute;vel talento ela sentia-se<br \/>\n    agradavelmente atra&iacute;da.<\/p>\n<p>&laquo;A intimidade que criava a colabora&ccedil;&atilde;o musical, a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da pr&oacute;pria m&uacute;sica, muito particularmente o violino, que actua<br \/>\n    profundamente nas naturezas impression&aacute;veis fazia-me pressentir que<br \/>\n    esse homem a venceria, a dominaria e a dobraria &agrave; sua vontade, fazendo<br \/>\n    dela o que desejasse.<\/p>\n<p>&laquo;Eu j&aacute; n&atilde;o o podia ver e sofria horrivelmente. E entretanto<br \/>\n    uma for&ccedil;a, que se opunha &agrave; minha vontade, constrangia-me n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; a ser delicado mas a ser af&aacute;vel. N&atilde;o sei se procedia<br \/>\n    assim por causa de minha mulher &#8212; para provar que o n&atilde;o temia<br \/>\n    &#8212; ou para me enganar a mim pr&oacute;prio. Ignoro-o. O facto &eacute;<br \/>\n    que nunca fui simples nas rela&ccedil;&otilde;es com ele. Eu fugia ao desejo<br \/>\n    de o matar, lisonjeando-o.<\/p>\n<p>&laquo;&Agrave; ceia servi-lhe vinhos fin&iacute;ssimos, elogiei-lhe a execu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    falei-lhe sempre com um sorriso am&aacute;vel, convidando-o para jantar no<br \/>\n    domingo seguinte e para tocar, acompanhando minha mulher. Convidaria mesmo<br \/>\n    alguns amigos para terem o prazer de o ouvir. Assim terminou o primeiro ser&atilde;o.&raquo;<\/p>\n<p>Pozdnichev, extraordinariamente emocionado, mudou de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e soltou aquele gemido que lhe era particular.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; estranha a maneira como a personalidade desse homem agiu<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>sobre mim &#8212; disse ele, fazendo um esfor&ccedil;o para se acalmar.<\/p>\n<p>&laquo;Passado um dia ou dois, ao voltar de uma exposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    senti, ao entrar, como se uma pedra me ca&iacute;sse no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o percebi porqu&ecirc;. S&oacute; depois de ter entrado no meu gabinete<br \/>\n    me ocorreu que vira qualquer coisa que me lembrara Troukhatchevski. Voltei<br \/>\n    ao vest&iacute;bulo para confirmar a minha suspeita. N&atilde;o me tinha enganado.<br \/>\n    Pendurado no cabide estava o casac&atilde;o dele. Era imposs&iacute;vel ter-me<br \/>\n    passado despercebido porque eu fixava doentiamente tudo o que lhe dissesse<br \/>\n    respeito.<\/p>\n<p>&laquo;Em vez de atravessar a sala de entrada, dirigi-me ao quarto de estudo.<br \/>\n    Lisa, a minha filha mais velha, estava a ler e a ama, perto da mesa com o<br \/>\n    mais pequenino, fazia girar uma tampa.<\/p>\n<p>&laquo;Eu ouvia os harpejos e o ru&iacute;do das vozes atrav&eacute;s da<br \/>\n    porta fechada. Pus-me a escutar mas n&atilde;o distingui as palavras. Sem<br \/>\n    d&uacute;vida o piano era um pretexto para abafar as palavras e, talvez, os<br \/>\n    beijos.<\/p>\n<p>&laquo;Meu Deus! Neste momento cresceu em mim uma raiva surda. Quando me<br \/>\n    lembro do animal furioso que reapareceu, o horror abate-me.<\/p>\n<p>&laquo;Apertou-se-me o cora&ccedil;&atilde;o bruscamente, tive a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ele deixara de bater. Depois voltou a bater violentamente. O sentimento<br \/>\n    dominante nos momentos de c&oacute;lera era o enternecimento por mim pr&oacute;prio.<br \/>\n    Diante dos filhos!&#8230; Diante dos criados!&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Nesse instante eu devia meter medo, porque Lisa olhava para mim aterrorizada.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que devo fazer?&#8221;, perguntei a mim pr&oacute;prio. &#8220;Entrar?&#8230;<br \/>\n    &Eacute; imposs&iacute;vel&#8230; N&atilde;o sei o que faria&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    podia afastar-me.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;A criada das crian&ccedil;as olhava-me espantada, compreendendo a<br \/>\n    minha situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;E imposs&iacute;vel n&atilde;o entrar&#8230;&#8221;, disse eu,<br \/>\n    e abri a porta subitamente.<\/p>\n<p>&laquo;Ele estava sentado ao piano, tocando harpejos; os dedos muito brancos<br \/>\n    e altamente recurvados. Ela estava de p&eacute;, junto ao piano, e seguia<br \/>\n    a partitura. Ou me pressentiu ou me ouviu e olhou para mim. Teve medo mas<br \/>\n    dissimulou ou n&atilde;o teve realmente medo?&#8230; O que &eacute; certo &eacute;<br \/>\n    que se n&atilde;o mexeu e nem levemente pestanejou. Corou um pouco.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Como estou contente por teres vindo!&#8230; N&oacute;s est&aacute;vamos<br \/>\n    a escolher o que havemos de tocar no domingo&#8221; disse-me ela com uma express&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o usaria se estiv&eacute;ssemos s&oacute;s. Esta circunst&acirc;ncia<br \/>\n    e o facto de ela ter empregado o &#8220;n&oacute;s&#8221;, referindo-se a<br \/>\n    ele e a ela, perturbaram-me. Cumprimentei-o sem<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>pronunciar uma palavra. Correspondeu ao meu cumprimento com um sorriso que<br \/>\n    me pareceu francamente ir&oacute;nico e come&ccedil;ou a explicar-me que estavam<br \/>\n    indecisos sobre o que deveriam executar &#8212; uma obra cl&aacute;ssica e<br \/>\n    dif&iacute;cil como uma sonata de Beethoven para piano e violino ou trechos<br \/>\n    mais curtos e de menos responsabilidade. Aparentemente tudo era natural e<br \/>\n    simples e n&atilde;o havia raz&atilde;o para me escandalizar. Mas eu estava<br \/>\n    convencido que tudo era mentira e disfarce e tinham j&aacute; combinado a<br \/>\n    maneira de me enganar.<\/p>\n<p>&laquo;As conven&ccedil;&otilde;es sociais favorecem a maior e mais perigosa<br \/>\n    intimidade entre homens e mulheres e s&atilde;o torturantes para os homens<br \/>\n    ciumentos (na nossa sociedade todos os homens s&atilde;o ciumentos).<\/p>\n<p>&laquo;Expor-nos-&iacute;amos ao rid&iacute;culo se tent&aacute;ssemos impedir<br \/>\n    a intimidade nos bailes, a intimidade entre o m&eacute;dico e a doente, a<br \/>\n    intimidade criada pelo estudo em comum das artes, da pintura e, muito particularmente,<br \/>\n    da m&uacute;sica.<\/p>\n<p>&laquo;Entregam-se ao estudo da mais bela das artes duas almas e a mais profunda<br \/>\n    intimidade cresce; nada disto tem aparentemente nada de repreens&iacute;vel<br \/>\n    ou censur&aacute;vel; s&oacute; um marido est&uacute;pido e ciumento pode<br \/>\n    reconhecer nesta intimidade qualquer coisa de menos digno. Contudo sabe-se<br \/>\n    que a maioria dos casos de adult&eacute;rio, na nossa sociedade, tem a sua<br \/>\n    origem na intimidade art&iacute;stica e intelectual de homens e mulheres.<\/p>\n<p>&laquo;Trespassei-lhes a perturba&ccedil;&atilde;o que me acometera. Durante<br \/>\n    momentos n&atilde;o pude articular uma palavra.<\/p>\n<p>&laquo;Eu era como uma garrafa voltada para baixo que n&atilde;o deixa correr<br \/>\n    a &aacute;gua por estar muito cheia. Tinha a tenta&ccedil;&atilde;o de a insultar<br \/>\n    e de correr com ele mas, simultaneamente, compreendia que era necess&aacute;rio<br \/>\n    ser af&aacute;vel e cort&ecirc;s.<\/p>\n<p>&laquo;Assim procedi. Fingi aprovar tudo o que disseram e, sob a ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um sentimento bizarro, tratei-o com tanta mais afabilidade quanto mais<br \/>\n    as suas palavras e a sua presen&ccedil;a me torturavam. Afirmei-lhe que confiava<br \/>\n    no seu bom gosto e aconselhei minha mulher a proceder do mesmo modo. Depois<br \/>\n    das minhas palavras ficou s&oacute; o tempo necess&aacute;rio para tentar<br \/>\n    desvanecer a impress&atilde;o dolorosa da minha entrada s&uacute;bita na sala,<br \/>\n    do meu aspecto desorientado e do meu mutismo. Despediu-se asseverando que<br \/>\n    ficara escolhido j&aacute; o programa que tocariam no dia seguinte. Eu estava<br \/>\n    convencido, no entanto, que comparado ao que os preocupava a escolha do trecho<br \/>\n    que haviam de tocar lhes era totalmente indiferente.<\/p>\n<p>&laquo;Conduzi-o at&eacute; ao vest&iacute;bulo com uma delicadeza demasiadamente<br \/>\n    vincada (como n&atilde;o conduzir para fora de casa um homem que vinha<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>perturbar e comprometer a felicidade de uma fam&iacute;lia inteira?&#8230;)<\/p>\n<p>&laquo;Apertei-lhe a m&atilde;o efusivamente, a sua m&atilde;o branca e fl&aacute;cida.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"22\" id=\"22\">XXII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Durante todo o dia n&atilde;o dirigi a palavra a minha mulher. N&atilde;o<br \/>\n    podia.<\/p>\n<p> A sua presen&ccedil;a provocava-me um tal &oacute;dio que sentia medo de<br \/>\n    mim pr&oacute;prio.<\/p>\n<p>&laquo;Ao jantar, em frente dos filhos, perguntou-me quando me ia embora&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Eu tinha de tomar parte num congresso, na prov&iacute;ncia. Disse-lhe<br \/>\n    quando tencionava partir. Ela pretendeu saber se era necess&aacute;rio alguma<br \/>\n    coisa para a viagem. N&atilde;o respondi. Fiquei &agrave; mesa, sem pronunciar<br \/>\n    uma palavra. Retirei-me para o meu gabinete.<\/p>\n<p>&laquo;Nos &uacute;ltimos tempos ela nunca vinha aos meus aposentos, principalmente<br \/>\n    depois do jantar.<\/p>\n<p>&laquo;Estendi-me no div&atilde;. Tinha a alma cheia de rancor.<\/p>\n<p>&laquo;De repente senti aproximarem-se uns passos conhecidos. Um pensamento<br \/>\n    diab&oacute;lico me ocorreu. Tal como a mulher de Urias, ela queria esconder<br \/>\n    o pecado j&aacute; consumado e, por essa raz&atilde;o, vinha ter comigo a<br \/>\n    esta hora impr&oacute;pria.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ser&aacute; poss&iacute;vel que ela venha aqui?&#8221;, perguntei<br \/>\n    a mim mesmo, sentindo que os passos se aproximavam cada vez mais. Era verdade.<br \/>\n    Eu tinha raz&atilde;o. E na minha alma o &oacute;dio crescia de uma maneira<br \/>\n    indiz&iacute;vel. Os passos iam-se aproximando cada vez mais. Certamente ir&aacute;<br \/>\n    para o sal&atilde;o&#8230; N&atilde;o entrar&aacute;&#8230; Mas a porta rangeu e,<br \/>\n    no limiar, surgiu a silhueta alta e harmoniosa. Na sua fisionomia transparecia<br \/>\n    o desejo de agradar, que contudo pretendia esconder, mas de que eu conhecia,<br \/>\n    muito bem, o significado.<\/p>\n<p>&laquo;Parecia-me que sufocava t&atilde;o longo foi o momento em que retive<br \/>\n    a respira&ccedil;&atilde;o. Sem deixar de a fitar, abri a cigarreira e acendi<br \/>\n    um cigarro.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ent&atilde;o?&#8230; Venho passar um bocadinho contigo e acendes<br \/>\n    um cigarro?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Sentou-se no div&atilde; a meu lado e encostou-se a mim. Afastei-me<br \/>\n    para lhe n&atilde;o tocar.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Eu sinto perfeitamente que est&aacute;s aborrecido por causa<br \/>\n    do concerto de domingo&#8221;, disse ela.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;De modo nenhum&#8230;&#8221;, respondi-lhe.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Tu julgas que eu n&atilde;o percebo?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Muito bem. Felicito-te. Quanto a mim, n&atilde;o percebo mais<br \/>\n    nada a n&atilde;o ser que te comportas como uma mulher&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Se continuas a falar como um carroceiro vou-me embora.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vai. Fica sabendo que se tu n&atilde;o ligas import&acirc;ncia<br \/>\n    &agrave; dignidade da fam&iacute;lia, eu, n&atilde;o por ti (que o diabo te<br \/>\n    leve!), mas pela pr&oacute;pria fam&iacute;lia, pela sua honra, tenho de me<br \/>\n    importar.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Como?&#8230; Como?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vai-te embora pelo amor de Deus. Vai-te&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Eu n&atilde;o sei se ela compreendeu as minhas alus&otilde;es, ou<br \/>\n    realmente n&atilde;o compreendeu porque se ofendeu e ficou vexad&iacute;ssima.<br \/>\n    Levantou-se mas, em vez de sair, ficou de p&eacute;, no meio do quarto.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Decididamente, tu est&aacute;s a tornar-te imposs&iacute;vel&#8221;<br \/>\n    come&ccedil;ou ela, &#8220;tens um car&aacute;cter que s&oacute; os santos<br \/>\n    poderiam suportar&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;E, esfor&ccedil;ando-se por me ferir profundamente, referiu-se ao<br \/>\n    meu procedimento com a irm&atilde; (ela sabia que me atormentava, relembrando<br \/>\n    as palavras grosseiras que, num momento de exalta&ccedil;&atilde;o, eu proferira).<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Depois do que se passou nada me admira, vindo de ti&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Eacute; assim mesmo. Ofendes-me, humilhas-me, desonras-me<br \/>\n    e atiras com as culpas para cima de mim.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;E, subitamente, fui invadido por um sentimento de &oacute;dio t&atilde;o<br \/>\n    horr&iacute;vel que, pela primeira vez, experimentei a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de expressar fisicamente esse &oacute;dio.<\/p>\n<p>&laquo;Ergui-me bruscamente e aproximei-me. Mas, no momento preciso em que<br \/>\n    me levantei tive a consci&ecirc;ncia do que ia fazer e pensei se valeria a<br \/>\n    pena.<\/p>\n<p>&laquo;Mas reconsiderei e disse para mim: &#8220;Talvez seja salutar. Ela<br \/>\n    ter&aacute; medo&#8221;, e assim, foi crescendo em mim a c&oacute;lera.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Foge ou mato-te!&#8221;, gritei e, aproximando-me dela agarrei-a<br \/>\n    por um bra&ccedil;o.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Eu tinha propositadamente exagerado o tom de f&uacute;ria das minhas<br \/>\n    palavras<\/p>\n<p>&laquo;E devia ter uma apar&ecirc;ncia de endemoninhado, porque ela perdeu<br \/>\n    o sangue-frio, n&atilde;o teve for&ccedil;a para sair e limitou-se a dizer:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vassia, que tens tu, que te aconteceu?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Sai-me daqui!&#8221;, gritei com for&ccedil;a. &#8220;S&oacute;<br \/>\n    tu &eacute;s capaz de me p&ocirc;r neste estado. Eu n&atilde;o respondo por<br \/>\n    mim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Deixei-me vencer absolutamente pela raiva, senti-me como embriagado<br \/>\n    e tive vontade de fazer qualquer coisa de extraordin&aacute;rio que pudesse<br \/>\n    mostrar a extens&atilde;o do meu desespero.<\/p>\n<p>&laquo;Tinha o desejo terr&iacute;vel de lhe bater, de a matar, mas sabia<br \/>\n    que era imposs&iacute;vel e para dar vaz&atilde;o &agrave; minha c&oacute;lera<br \/>\n    agarrei num pesa-pap&eacute;is que estava sobre a mesa, atirei-o para o ch&atilde;o,<br \/>\n    na direc&ccedil;&atilde;o dela e gritei:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Sai-me da vista!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ela afastou-se. N&atilde;o saiu. Parou &agrave; entrada da porta.<\/p>\n<p>&laquo;Enquanto ela me podia ver, agarrei de cima da mesa em diferentes objectos,<br \/>\n    no tinteiro, nos casti&ccedil;ais e atirei-os ao ch&atilde;o, gritando:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vai-te, bruxa! Eu n&atilde;o respondo por mim&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ela saiu. No momento em que a deixei de ver acalmei-me.<\/p>\n<p>&laquo;Passada uma hora a criada dos pequenos veio prevenir-me de que minha<br \/>\n    mulher estava com uma crise de nervos. Fui v&ecirc;-la. Ora solu&ccedil;ava,<br \/>\n    ora se ria; n&atilde;o podia falar e tremia convulsivamente. N&atilde;o era<br \/>\n    com&eacute;dia; ela estava realmente doente.<\/p>\n<p>&laquo;De manh&atilde; acalmou-se; reconcili&aacute;mo-nos sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    do sentimento a que chamamos amor.<\/p>\n<p>&laquo;Quando lhe confessei que tinha ci&uacute;mes de Troukhatchevski ela<br \/>\n    n&atilde;o se perturbou, p&ocirc;s-se a rir com a maior naturalidade, de tal<br \/>\n    forma lhe parecia estranho que algu&eacute;m se pudesse apaixonar por um tal<br \/>\n    homem.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Acreditas poss&iacute;vel que uma mulher decente se possa apaixonar<br \/>\n    por um homem como Troukhatchevski? O &uacute;nico sentimento poss&iacute;vel<br \/>\n    &eacute; o prazer de o ouvir tocar.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Se tu quiseres, n&atilde;o o tornarei a ver e &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    impedi-lo de vir a nossa casa; basta que o previnas de que estou adoentada,<br \/>\n    e n&atilde;o posso tocar. S&oacute; &eacute; aborrecido no domingo por termos<br \/>\n    convidado muita gente e se poder pensar<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>que temos medo dele e que o consideramos perigoso. Sou realmente bastante<br \/>\n    orgulhosa para poder permitir que se pense tal coisa.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ela n&atilde;o mentia. Ela acreditava no que dizia. Queria convencer-se<br \/>\n    da verdade das suas palavras, e fazer nascer em si pr&oacute;pria o desprezo<br \/>\n    por ele e defender-se do perigo que, inconscientemente, temia. N&atilde;o<br \/>\n    o conseguiu. Tudo estava contra ela e, em particular, a m&uacute;sica maldita.<br \/>\n    Naquele dia tudo acabou em bem.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"23\" id=\"23\">XXIII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; &Eacute; escusado dizer que me sentia vaidoso; se n&atilde;o somos<br \/>\n    vaidosos na vida quotidiana, que &eacute; a nossa vida, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    raz&atilde;o de viver.<\/p>\n<p>&laquo;No domingo seguinte ocupei-me com muito prazer das preparativos para<br \/>\n    o jantar do nosso ser&atilde;o musical. Fiz eu pr&oacute;prio os convites<br \/>\n    e as compras.<\/p>\n<p>&laquo;Pelas seis horas come&ccedil;aram a chegar os convidados. Ele entrou<br \/>\n    um pouco mais tarde, de casaca, o peitilho da camisa abotoado com brilhantes<br \/>\n    de muito mau gosto. Tinha um grande &agrave;-vontade, correspondendo a todos<br \/>\n    com um ar afectuoso, sorridente e compreensivo dando a entender que o que<br \/>\n    faz&iacute;amos e diz&iacute;amos era justamente o que esperava.<\/p>\n<p>&laquo;Nessa noite notei com particular alegria tudo o que nele era defeituoso.<\/p>\n<p>&laquo;Essas observa&ccedil;&otilde;es contribu&iacute;ram para me sossegar<br \/>\n    e mostravam-me que minha mulher o considerava, com raz&atilde;o, de um n&iacute;vel<br \/>\n    t&atilde;o inferior que n&atilde;o podia &#8212; conforme me afirmava &#8212;<br \/>\n    baixar-se a ele. Eu n&atilde;o tinha, por isso, raz&atilde;o para ter ci&uacute;mes.<\/p>\n<p>&laquo;Al&eacute;m de que o &uacute;ltimo sofrimento arrasara-me e eu sentia<br \/>\n    a necessidade absoluta de repouso; precisava de acreditar na minha mulher;<br \/>\n    e acreditava.<\/p>\n<p>&laquo;Durante todo o jantar, na primeira parte do ser&atilde;o, antes de<br \/>\n    come&ccedil;ar o concerto, embora eu n&atilde;o tivesse ci&uacute;mes havia<br \/>\n    em mim qualquer coisa de afectado nas atitudes que tomava. Inconscientemente<br \/>\n    eu vigiava todos os actos deles.<\/p>\n<p>&laquo;O jantar foi, como todos os jantares, uma cerimoniosa ma&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&laquo;Como me lembro de todos os pormenores desse triste ser&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Ele chegou. Abriu o estojo, tirou para fora a cobertura bordada por<br \/>\n    uma admiradora e come&ccedil;ou imediatamente a afinar o violino. Minha mulher<br \/>\n    sentou-se ao piano com um ar .aparentemente indiferente e sob o qual pretendia<br \/>\n    esconder a sua timidez&#8230; timidez provocada pela destreza do violinista.<\/p>\n<p>&laquo;Depois dos &#8220;l&aacute;s&#8221; habituais da afina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    foram os pizzicatti do violino e por fim colocaram-se as partituras nas estantes.<br \/>\n    Recordo o olhar que trocaram; voltaram-se um instante para a assist&ecirc;ncia,<br \/>\n    disseram umas breves palavras e come&ccedil;aram o concerto.<\/p>\n<p>&laquo;Ela atacou o primeiro acorde. Ent&atilde;o a fisionomia de Troukhatchevski<br \/>\n    tomou uma express&atilde;o simp&aacute;tica, severa, s&eacute;ria, e atenta<br \/>\n    aos pr&oacute;prios sons do violino. Fez vibrar as cordas com os dedos finos<br \/>\n    e &aacute;geis e respondeu aos acordes do piano. Assim come&ccedil;ou tudo.&raquo;<\/p>\n<p>Pozdnichev parou de novo. Depois emitiu v&aacute;rias vezes os sons que lhe<br \/>\n    eram peculiares &#8212; gargalhada ou solu&ccedil;o abafado. Quis continuar.<br \/>\n    Fungou. E parou de novo.<\/p>\n<p>&#8212; Tocaram a Sonata a Kreutzer, de Beethoven.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Conhece o primeiro presto? Conhece-o?&#8230;&#8221;, gritou ele.<br \/>\n    &#8220;Que coisa horr&iacute;vel essa Sonata, sobretudo, esse andamento&#8230;<br \/>\n    A m&uacute;sica &eacute; qualquer coisa de horr&iacute;vel&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;O que &eacute; exactamente a m&uacute;sica?&#8230; Eu n&atilde;o o apreendo.<\/p>\n<p>&laquo;Qual &eacute; a sua ac&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&laquo;Dizem que a m&uacute;sica actua elevando a alma&#8230; Que falsidade!&#8230;<br \/>\n    Que estupidez!<\/p>\n<p>&laquo;A m&uacute;sica actua de uma maneira terr&iacute;vel, eu falo por<br \/>\n    mim.<\/p>\n<p>&laquo;A m&uacute;sica n&atilde;o eleva a alma. A m&uacute;sica tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o diminui a alma. A m&uacute;sica exaspera-a. Nem sei como me hei-de<br \/>\n    explicar&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;A m&uacute;sica obriga a esquecermo-nos da nossa verdadeira personalidade,<br \/>\n    transporta-nos a um estado que n&atilde;o &eacute; o nosso. Sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da m&uacute;sica temos a impress&atilde;o de que sentimos o que n&atilde;o<br \/>\n    sentimos; que compreendemos o que na realidade n&atilde;o compreendemos; que<br \/>\n    podemos o que n&atilde;o podemos. &Eacute; como o bocejo ou o riso. N&atilde;o<br \/>\n    temos sono mas bocejamos quando vimos algu&eacute;m bocejar. N&atilde;o temos<br \/>\n    vontade de rir, mas rimo-nos, ouvindo rir. A m&uacute;sica transporta-nos,<br \/>\n    de surpresa e imediatamente, ao estado de alma em que se encontrava o artista<br \/>\n    no momento da cria&ccedil;&atilde;o, confundimos a nossa alma com a dele e<br \/>\n    passamos de<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>um estado a outro sem saber por que o fazemos.<\/p>\n<p>&laquo;Beethoven quando escreveu a Sonata a Kreutzer sabia por que se encontrava<br \/>\n    naquele estado de cria&ccedil;&atilde;o, que o levava &agrave; pr&aacute;tica<br \/>\n    de determinados actos que tinham para ele um significado. Para n&oacute;s<br \/>\n    que somos levados pela m&uacute;sica n&atilde;o tem significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&laquo;A m&uacute;sica exaspera, n&atilde;o conclui.<\/p>\n<p>&laquo;Se tocam uma marcha militar e os soldados marcham ao seu ritmo, a<br \/>\n    m&uacute;sica atinge o seu fim. Se a m&uacute;sica &eacute; de dan&ccedil;a<br \/>\n    e dan&ccedil;amos, a m&uacute;sica atinge o seu fim. Se se toca a missa e<br \/>\n    comungamos a m&uacute;sica atinge o seu fim. De outro modo &eacute; uma sobreexcita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por isso &agrave;s vezes a m&uacute;sica exerce uma ac&ccedil;&atilde;o tremenda&#8230;<br \/>\n    A m&uacute;sica na China &eacute; neg&oacute;cio de Estado. E assim devia<br \/>\n    ser. N&atilde;o &eacute; de admitir que qualquer desconhecido possa, a seu<br \/>\n    bel-prazer, hipnotizar uma ou v&aacute;rias pessoas e as maneje. E que por<br \/>\n    vezes o hipnotizador seja o primeiro homem de maus costumes que se encontrou<br \/>\n    no caminho.<\/p>\n<p>&laquo;Tomemos para exemplo a Sonata a Kreutzer &#8212; primeiro andamento.<br \/>\n    Deve tocar-se este presto numa sala entre mulheres decotadas; aplaudi-la;<br \/>\n    comer gelados; contar a &uacute;ltima anedota da semana?<\/p>\n<p>&laquo;Esses trechos s&oacute; deviam ser tocados em momentos graves e quando<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio realizar ac&ccedil;&otilde;es que estejam em harmonia<br \/>\n    com o assunto da m&uacute;sica. De outro modo esse chamamento inoportuno a<br \/>\n    sentimentos que n&atilde;o t&ecirc;m ensejo de se manifestar n&atilde;o podem<br \/>\n    ter sen&atilde;o um resultado nefasto. Sobre mim, pelo menos, produziu um<br \/>\n    efeito desastroso. Sentimentos novos, possibilidades at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    desconhecidas revelaram-se em mim. Tudo era diferente da vida que at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o eu vivera. Eu n&atilde;o podia avaliar o elemento que descobrira<br \/>\n    mas a consci&ecirc;ncia deste novo estado dava-me alegria.<\/p>\n<p>&laquo;As fisionomias que eram sempre as mesmas, e, no n&uacute;mero das<br \/>\n    quais havia a de minha mulher e a de Troukhatchevski apareciam-me com um aspecto<br \/>\n    diferente.<\/p>\n<p>&laquo;Depois do presto executaram o andante que &eacute; belo mas sem originalidade,<br \/>\n    com variantes banais e um final fraco.<\/p>\n<p>&laquo;Em seguida, a pedido dos convidados executaram uma elegia de Ernst<br \/>\n    e v&aacute;rios pequenos trechos. Todas estas pe&ccedil;as eram muito boas,<br \/>\n    mas nenhuma produziu, em mim, nem um d&eacute;cimo da impress&atilde;o que<br \/>\n    me causou a primeira obra. Tudo o mais que senti estava subordinado &agrave;<br \/>\n    impress&atilde;o que me causara a Sonata.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Sentia-me leve, alegre toda a noite. Quanto a minha mulher, nunca<br \/>\n    a tinha visto como naquela noite. Os olhos brilhantes, um leve sorriso extasiado,<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de abandono total enquanto tocava e uma severa express&atilde;o<br \/>\n    quando terminou o concerto. Vi tudo isto mas n&atilde;o lhe liguei nenhuma<br \/>\n    import&acirc;ncia particular.<\/p>\n<p>&laquo;Ela experimentava as mesmas sensa&ccedil;&otilde;es que eu. Sentimentos<br \/>\n    novos e desconhecidos at&eacute; a&iacute; surgiam dentro de mim e dela.<\/p>\n<p>&laquo;O ser&atilde;o acabou muito bem. Cada um regressou aos seus aposentos.<\/p>\n<p>&laquo;Troukhatchevski ao saber que tinha de partir para um congresso na<br \/>\n    prov&iacute;ncia disse que esperava ter o prazer de renovar, quando regressasse,<br \/>\n    o ser&atilde;o que lhe hav&iacute;amos proporcionado t&atilde;o agradavelmente.<\/p>\n<p>&laquo;Conclu&iacute; das suas palavras que ele n&atilde;o voltaria a minha<br \/>\n    casa enquanto eu estivesse por fora. Esta resolu&ccedil;&atilde;o foi-me particularmente<br \/>\n    agrad&aacute;vel. N&atilde;o nos tornar&iacute;amos a ver, porquanto eu n&atilde;o<br \/>\n    regressaria antes da partida dele. Pela primeira vez eu lhe apertei a m&atilde;o<br \/>\n    com verdadeira alegria e lhe agradeci os momentos de agrad&aacute;vel conv&iacute;vio<br \/>\n    que tiv&eacute;ramos. Os cumprimentos de despedida a minha mulher foram convenientes<br \/>\n    e naturais. Tudo parecia perfeito.<\/p>\n<p>&laquo;Eu e minha mulher sent&iacute;amo-nos contentes pela forma como decorrera<br \/>\n    o ser&atilde;o.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"24\" id=\"24\">XXIV<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Parti no dia seguinte para o congresso. Despedi-me de minha mulher<br \/>\n    nas melhores disposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&laquo;Na capital do distrito eu tinha sempre muito trabalho; cheguei a passar<br \/>\n    dez horas sentado &agrave; secret&aacute;ria. Era uma vida &agrave; parte,<br \/>\n    um pequeno universo particular.<\/p>\n<p>&laquo;No dia seguinte ao da minha chegada trouxeram-me uma carta de minha<br \/>\n    mulher. Falava-me dos filhos, de um nosso tio, da criada, das despesas que<br \/>\n    fizera, e entre outras coisas, como de uma coisa banal, referia-se a uma visita<br \/>\n    de Troukhatchevski. Tinha ido levar-lhe umas partituras que lhe prometera.<br \/>\n    Tinha-se tamb&eacute;m oferecido para a acompanhar, mas ela recusara. Eu n&atilde;o<br \/>\n    me lembrava que ele lhe houvesse prometido tais partituras. Julgava<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>at&eacute; que ele se despedira definitivamente. Esta not&iacute;cia chocou-me<br \/>\n    desagradavelmente. Tinha, no entanto, que fazer e n&atilde;o tive tempo de<br \/>\n    pensar mais na carta. &Agrave; noite, por&eacute;m, quando reli a carta, reflecti<br \/>\n    no que me escrevera minha mulher e a carta ent&atilde;o pareceu-me afectada.<br \/>\n    Estranhei que Troukhatchevski tivesse ido visitar minha mulher na minha aus&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&laquo;A fera raivosa do ci&uacute;me p&ocirc;s-se a rugir dentro de mim.<br \/>\n    Mas tive medo dela e prendi-a.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que sentimento abjecto &eacute; o ci&uacute;me&#8221;, disse<br \/>\n    para comigo. &#8220;Nada mais natural do que o que ela me escreveu.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Deitei-me. Pensei s&oacute; nos assuntos que tinha para resolver no<br \/>\n    dia seguinte.<\/p>\n<p>&laquo;Quando vinha tomar parte nestes congressos o que mais me custava era<br \/>\n    ter que dormir num quarto que n&atilde;o era o meu. Desta vez, por&eacute;m,<br \/>\n    adormeci r&aacute;pida e profundamente.<\/p>\n<p>&laquo;Nunca lhe aconteceu por vezes ser acordado por uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de descarga el&eacute;ctrica que nos atravessa? Acordei debaixo dessa impress&atilde;o.<br \/>\n    Levantei-me com o pensamento em minha mulher, no amor que, apesar de tudo,<br \/>\n    sentia por ela, e em Troukhatchevski. Acabrunhava-me o pensamento de que entre<br \/>\n    ela e ele alguma coisa se consumara. O terror e o &oacute;dio apertavam-me<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o. Tentei acalmar-me.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que tolice!&#8221;, disse para comigo. &#8220;Isto n&atilde;o<br \/>\n    tem raz&atilde;o de ser! N&atilde;o h&aacute; nenhum fundamento! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel. Nada se passou! Como posso rebaixar-me e rebaix&aacute;-la,<br \/>\n    pensando tais horrores?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ele &eacute; um violinista a quem se paga, conhecido por ser<br \/>\n    um pobre homem.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Minha mulher &eacute; uma senhora respeit&aacute;vel, uma honrada<br \/>\n    m&atilde;e de fam&iacute;lia. Que absurdo!&#8221;, pensava eu.<\/p>\n<p>&laquo;Por outro lado eu considerava que casara com minha mulher por ter<br \/>\n    necessidade dela, e que a necessidade que eu sentia tamb&eacute;m outros a<br \/>\n    sentiam e, entre muitos, esse m&uacute;sico.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o era casado. Tinha uma espl&ecirc;ndida sa&uacute;de. Lembro-me<br \/>\n    perfeitamente do prazer com que ele trincava os ossos das costeletas e a avidez<br \/>\n    com que bebia o vinho que lhe deitavam nos copos. Homem bem alimentado, sem<br \/>\n    princ&iacute;pios, ou melhor, tendo como princ&iacute;pio gozar todos os prazeres<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p>&laquo;A m&uacute;sica, esse terr&iacute;vel excitante, a forma mais perfeita<br \/>\n    do desejo<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>deveria sem d&uacute;vida ser um elo entre eles. O que a pode conter a ela?<br \/>\n    Nada.<\/p>\n<p> Pelo contr&aacute;rio, tudo a atrai.<\/p>\n<p>&laquo;Minha mulher foi sempre para mim um enigma. Eu n&atilde;o a conhecia,<br \/>\n    sen&atilde;o no per&iacute;odo animal. Aos animais ningu&eacute;m os pode<br \/>\n    conter.<\/p>\n<p>&laquo;E assim me foram vindo &agrave; mem&oacute;ria pormenores esquecidos.<br \/>\n    A fisionomia dos dois quando acabaram de tocar um trecho apaixonante cujo<br \/>\n    autor n&atilde;o me recordo, e que &eacute; uma p&aacute;gina sensual, at&eacute;<br \/>\n    &agrave; impud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Como me atrevi a partir?&#8230;&#8221;, pensei, depois de ter notado<br \/>\n    estes pormenores. &#8220;Tudo se consumou entre eles, esta noite.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Lembrava-me do sorriso de felicidade, t&eacute;nue e amoroso que ela<br \/>\n    tinha enquanto passava o len&ccedil;o pelas faces rosadas, quando me aproximei<br \/>\n    do piano.<\/p>\n<p>&laquo;Eles, &eacute; certo, evitavam olhar-se. Somente durante a ceia, quando<br \/>\n    ele lhe servia a &aacute;gua, os olhos se encontraram e entre si trocaram<br \/>\n    um sorriso quase impercept&iacute;vel. Lembrava-me com horror desse olhar<br \/>\n    e desse sorriso que captara.<\/p>\n<p>&laquo;Dentro de mim uma voz dizia-me:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Tudo acabou.&#8221; Mas outra voz me segredava uma outra linguagem.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;O que te prende? E imposs&iacute;vel&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o pude mais estar &agrave;s escuras. Acendi um f&oacute;sforo.<br \/>\n    E senti verdadeiro horror nesse quarto pequeno. Fumei um cigarro. &Eacute;<br \/>\n    sempre assim quando o pensamento gira em volta de contradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    insol&uacute;veis. Fuma-se. Acendi cigarros uns ap&oacute;s outros. Envolvi-me<br \/>\n    num nevoeiro em que os pensamentos se suspendiam, sem nenhuma consist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Em toda a noite n&atilde;o dormi uma hora. &Agrave;s cinco horas da manh&atilde;<br \/>\n    compreendi que n&atilde;o podia por mais tempo manter-me nesta situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Resolvi partir. Levantei-me. Acordei o criado. Mandei-o chamar uma equipagem.<br \/>\n    Escrevi para o congresso, pedindo que me fizessem substituir por outro congressista.<br \/>\n    Fora chamado a Moscovo subitamente.<\/p>\n<p>&laquo;&Agrave;s oito horas subia para um tarantass e partia.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"25\" id=\"25\">XXV<\/a><\/h4>\n<p>O revisor entrou. E tendo notado que a luz se extinguia acabou por a apagar<br \/>\n    completamente sem a substituir. L&aacute; fora o dia come&ccedil;ava a aparecer.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Pozdnichev manteve-se calado enquanto o revisor ficou na carruagem, suspirando<br \/>\n    profundamente. S&oacute; tornou a falar quando o revisor saiu. No nosso compartimento,<br \/>\n    completamente &agrave;s escuras, s&oacute; se sentia o estremecimento dos<br \/>\n    vidros produzido p&ecirc;los solavancos do comboio e o ressonar regular do<br \/>\n    caixeiro-viajante. Na meia-luz do amanhecer eu n&atilde;o o via.<\/p>\n<p>Somente a sua voz cada vez mais emocionada, cada vez mais dorida, se ouvia<br \/>\n    acima de todos os outros sons.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tinha de percorrer trinta e cinco verstas de carruagem e oito<br \/>\n    horas de caminho-de-ferro. O percurso de carruagem foi agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Estava um dia de Outono frio. O sol era brilhante. Era a &eacute;poca<br \/>\n    em que as rodas dos carros v&atilde;o deixando sulcos p&ecirc;los caminhos<br \/>\n    &#8212; voc&ecirc; conhece certamente. A luz era espl&ecirc;ndida, o ar vivificante.<br \/>\n    Eu sentia-me perfeitamente livre dentro do tarantass.<\/p>\n<p>&laquo;Quando o dia nasceu e me pus a caminho sentia-me bem-disposto.<\/p>\n<p>&laquo;Olhando os campos, reparando nos cavalos, vendo as pessoas que se<br \/>\n    cruzavam no caminho, esquecia-me ao que ia. De tempos a tempos, tinha a impress&atilde;o<br \/>\n    de que era uma simples viagem de recreio e nenhum outro motivo me levava para<br \/>\n    casa.<\/p>\n<p>&laquo;Sentia alegria por me esquecer. Se porventura me vinha ao pensamento<br \/>\n    o que ia fazer dizia para mim:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o pensemos&#8230; Depois se ver&aacute;.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Durante o percurso, a meio do caminho, deu-se um desastre. O tarantass<br \/>\n    avariou-se e foi necess&aacute;rio repar&aacute;-lo. Este incidente teve muita<br \/>\n    import&acirc;ncia. Em vez de chegar a Moscovo &agrave;s cinco horas, como<br \/>\n    tinha previsto, cheguei &agrave; meia-noite; cheguei a minha casa &agrave;<br \/>\n    uma hora, porque perdi o expresso e tive de apanhar um omnibus. Procurar abrigo,<br \/>\n    assistir &agrave;s repara&ccedil;&otilde;es, pagar, tomar ch&aacute; na estalagem,<br \/>\n    dois dedos de cavaco ao estalajadeiro tudo contribuiu para me distrair. Ao<br \/>\n    fim do dia tudo estava pronto, e de novo, nos pusemos a caminho.<\/p>\n<p>&laquo;A viagem de noite ainda foi mais agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>&laquo;Ca&iacute;a neve e a lua iluminava a estrada lind&iacute;ssima. Os<br \/>\n    cavalos eram espl&ecirc;ndidos e o cocheiro um bom tagarela. Caminhava, saboreando<br \/>\n    estes momentos sem quase me lembrar do que me esperava, ou talvez, eu experimentasse<br \/>\n    esta alegria tanto mais intensa quanto sabia que dizia adeus para sempre ao<br \/>\n    que na vida &eacute; belo.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;A paz que neste momento gozava parou no mesmo momento em que parou<br \/>\n    a viagem de tarantass. Desde que me meti no comboio tudo se transformou. O<br \/>\n    percurso de comboio foi torturante. Nunca o poderei esquecer. N&atilde;o sei<br \/>\n    se era a trepida&ccedil;&atilde;o do comboio que me excitava, se a ideia de<br \/>\n    que me ia aproximando de casa. Desde que subi para o comboio n&atilde;o pude<br \/>\n    mais dominar a imagina&ccedil;&atilde;o. De uma maneira viv&iacute;ssima pintavam-se-me<br \/>\n    quadros, cada uns mais l&uacute;bricos um do que o outro e que me excitavam<br \/>\n    o ci&uacute;me. O assunto era sempre o mesmo, o que nessa noite se passava<br \/>\n    em minha casa e a maneira como ela me enganava. O ci&uacute;me, a raiva, a<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o e o sentimento de humilha&ccedil;&atilde;o ao representarem-se-me<br \/>\n    estas imagens disputavam-se, dilacerando-me o cora&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    abutres esfaimados. Eu n&atilde;o podia deixar de os ver; via-os sempre e<br \/>\n    quanto mais as imagens se detinham no meu pensamento mais eu acreditava na<br \/>\n    sua realidade. Um dem&oacute;nio comprazia-se em me torturar, trazendo-me<br \/>\n    &agrave; mem&oacute;ria as piores cenas de lux&uacute;ria.<\/p>\n<p>&laquo;Veio-me ent&atilde;o &agrave; lembran&ccedil;a a conversa que tivera<br \/>\n    com um irm&atilde;o de Troukhatchevski em que lhe perguntara se frequentava<br \/>\n    casas de m&aacute; nota; ele respondera que um homem n&atilde;o tem necessidade<br \/>\n    de ir a lugares anti-higi&eacute;nicos e s&oacute;rdidos, onde corre risco<br \/>\n    de apanhar doen&ccedil;as, quando &eacute; f&aacute;cil encontrar uma mulher<br \/>\n    honesta da qual nada h&aacute; a temer.<\/p>\n<p>&laquo;Eu agora pensava que o irm&atilde;o tinha encontrado essa mulher,<br \/>\n    a minha pr&oacute;pria mulher. N&atilde;o era muito nova, faltava-lhe um dente<br \/>\n    e estava um pouco alentada, mas &#8212; que fazer? &#8212; &eacute; preciso<br \/>\n    aproveitar as ocasi&otilde;es.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Sim&#8221;, pensava eu. &#8220;Ele condescende em a aproveitar<br \/>\n    para amante&#8230; n&atilde;o tem perigo para a sua sa&uacute;de.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o!&#8230; &Eacute; imposs&iacute;vel!&#8230; Como posso pensar<br \/>\n    tais coisas?&#8230;&#8221;, pensava eu horrorizado. &#8220;N&atilde;o tenho raz&otilde;es<br \/>\n    para pensar nada disto&#8230; Ela afirmou-me que se sentia humilhada por eu ter<br \/>\n    ci&uacute;mes dele.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Eram mentirosos os seus protestos&#8230; Ela mentia-me&#8230; E de novo me<br \/>\n    vinham ao pensamento os mais l&uacute;bricos quadros.<\/p>\n<p>&laquo;No meu compartimento iam mais dois passageiros, um homem e uma senhora,<br \/>\n    ambos pouco faladores. Desceram na primeira esta&ccedil;&atilde;o e eu fiquei<br \/>\n    s&oacute;.<\/p>\n<p>&laquo;Era uma fera enjaulada.<\/p>\n<p>&laquo;Levantava-me. Sentava-me. Debru&ccedil;ava-me da portinhola, batia<br \/>\n    os p&eacute;s como se os meus movimentos contribu&iacute;ssem para apressar<br \/>\n    a marcha do comboio.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Os vidros e os bancos do comboio estremeciam a todo o momento, exactamente<br \/>\n    como acontece a estes.&raquo;<\/p>\n<p>Pozdnichev levantou-se, deu duas ou tr&ecirc;s voltas febris e voltou a sentar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Toda a carruagem me metia pavor. Sentia-me gelar&#8230; Sentei-me. Tentei<br \/>\n    pensar noutra coisa. Por exemplo no dono da estalagem onde tinha tomado ch&aacute;.<br \/>\n    Mas surgiu-me na imagina&ccedil;&atilde;o o criado com a sua barba comprida<br \/>\n    e o neto, um garotinho da mesma idade que o meu Vassia. O meu Vassia!&#8230; Ele<br \/>\n    com certeza assiste &agrave; m&atilde;e ser beijada pelo m&uacute;sico.<\/p>\n<p>&laquo;Que se passar&aacute; na sua pobre alma? Ela n&atilde;o faz caso.<br \/>\n    Est&aacute; apaixonada.<\/p>\n<p> E de repente tudo em mim se reavivou.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o&#8230; N&atilde;o&#8230; Eu quero pensar na consulta no hospital.<br \/>\n    Ontem um doente queixou-se ao m&eacute;dico.. O m&eacute;dico tinha os mesmos<br \/>\n    bigodes que Troukhatchevski&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;E o pensamento voltava ao mesmo ponto. Com que impud&ecirc;ncia eles<br \/>\n    me enganam!<\/p>\n<p>&laquo;E tudo voltava de novo. O principal sofrimento era a ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    a d&uacute;vida, a duplicidade no facto de eu pr&oacute;prio n&atilde;o saber<br \/>\n    se a devia amar, se a devia odiar.<\/p>\n<p>&laquo;O meu sofrimento era t&atilde;o horr&iacute;vel que me veio a tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; lembro-me perfeitamente &#8212; de descer &agrave; linha, deitar-me<br \/>\n    sobre os rails sob o comboio e acabar definitivamente. Esta ideia dava-me<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o teria mais d&uacute;vidas nem hesita&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Reteve-me a piedade que sentia por mim pr&oacute;prio e que fez nascer imediatamente<br \/>\n    o &oacute;dio contra a minha pr&oacute;pria mulher. Por ele, eu sentia o sentimento<br \/>\n    bizarro, misto de &oacute;dio e da consci&ecirc;ncia da minha humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da sua vit&oacute;ria. Por ela eu sentia um &oacute;dio pavoroso.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Eu n&atilde;o quero suicidar-me. N&atilde;o quero deix&aacute;-la.<br \/>\n    E preciso que ela sofra, pelo menos um pouco, para que compreenda o que eu<br \/>\n    sofro.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Desci em todas as esta&ccedil;&otilde;es para mudar de ideias. Numa<br \/>\n    delas vi que serviam bebidas no bufete, fui imediatamente tomar uma vodca.<br \/>\n    Perto de mim um judeu bebia tamb&eacute;m. Meteu conversa e para n&atilde;o<br \/>\n    ficar sozinho no meu compartimento acompanhei-o &agrave; terceira classe,<br \/>\n    suja, cheia de fumo e juncada de inv&oacute;lucros de sementes de girassol.<br \/>\n    Sentei-me a seu lado. Ele conversou durante muito tempo. Contou-me in&uacute;meras<br \/>\n    anedotas. Escutava-o, mas sem compreender, porque ia seguindo o fio dos meus<br \/>\n    desgra&ccedil;ados<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>pensamentos. A certa altura ele percebeu e quis prender-me a aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nessa altura levantei-me e voltei para o meu compartimento.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Eacute; preciso que eu me concentre. Se o que eu penso &eacute;<br \/>\n    a verdade tenho raz&atilde;o para me torturar?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Sentei-me com a inten&ccedil;&atilde;o de pensar calmamente, mas depressa,<br \/>\n    em vez de pensamentos calmos tudo recome&ccedil;ou. As mesmas imagens me perseguiam,<br \/>\n    as mesmas representa&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>&laquo;Entretanto pensava:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Quantas vezes fui atormentado (lembrava-me ent&atilde;o das<br \/>\n    cenas de ci&uacute;mes que tantas vezes sentira e em tudo semelhantes a esta)<br \/>\n    e depois tudo terminava em bem.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ser&aacute; talvez, hoje, como outrora. Certamente vou encontr&aacute;-la<br \/>\n    a dormir sossegada; ela acordar&aacute; contente por me voltar a ver e as<br \/>\n    suas palavras, o seu olhar dar-me-&atilde;o a certeza de que nada se ter&aacute;<br \/>\n    passado e que tudo eram tolices forjadas pela minha imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doentia. Ah! Como seria maravilhoso que, tudo se passasse assim!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Mas n&atilde;o. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; assim &#8212; dizia-me uma voz, e tudo recome&ccedil;ava. O que<br \/>\n    era horr&iacute;vel &eacute; que eu considerava-me com direito incontest&aacute;vel<br \/>\n    sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu pr&oacute;prio corpo e ao<br \/>\n    mesmo tempo reconhecia que aquele corpo n&atilde;o me pertencia, que ela n&atilde;o<br \/>\n    podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava n&atilde;o<br \/>\n    era conforme ao meu. Se ela n&atilde;o tivesse tido nada com ele mas o desejasse,<br \/>\n    e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido<br \/>\n    alguma coisa ent&atilde;o eu o saberia e n&atilde;o mais haveria incertezas.<br \/>\n    Eu j&aacute; n&atilde;o sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"26\" id=\"26\">XXVI<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Antes da &uacute;ltima esta&ccedil;&atilde;o, quando o revisor veio<br \/>\n    controlar os bilhetes, juntei as bagagens e sa&iacute; para a plataforma.<br \/>\n    O sentimento do que se ia passar, aumentou a minha emo&ccedil;&atilde;o. Tinha<br \/>\n    frio de tal modo que batia os queixos e tremia-me o corpo. Sa&iacute; da gare<br \/>\n    maquinalmente juntamente com a multid&atilde;o. Tomei um fiacre, subi e parti.<br \/>\n    Durante o percurso ia olhando os raros passeantes daquela hora nocturna, os<br \/>\n    porteiros, as sombras projectadas p&ecirc;los rev&eacute;rberos e pela minha<br \/>\n    pr&oacute;pria carruagem, umas vezes pela frente,<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>outras vezes pela parte de tr&aacute;s. N&atilde;o pensava em nada. Depois<br \/>\n    de ter percorrido meia versta, tive frio nos p&eacute;s e lembrei-me de que<br \/>\n    tinha tirado as minhas pe&uacute;gas de l&atilde; e as tinha metido no saco.<br \/>\n    E agora onde estava o saco? E o meu cesto? Lembrei-me ent&atilde;o que na<br \/>\n    precipita&ccedil;&atilde;o me esquecera das bagagens. Pensei que n&atilde;o<br \/>\n    valia a pena voltar para tr&aacute;s e de que tinha em meu poder a guia.<\/p>\n<p>&laquo;Apesar de todos os meus esfor&ccedil;os, n&atilde;o posso lembrar-me<br \/>\n    do estado em que me encontrava ent&atilde;o. Em que pensava eu? Ignoro. Lembro-me<br \/>\n    somente que tinha o sentimento do que ia acontecer, qualquer coisa de tremendo<br \/>\n    e de muito importante para a minha exist&ecirc;ncia. Este acontecimento medonho<br \/>\n    deu-se porque eu pensava nele ou porque o pressentia?&#8230; N&atilde;o sei. Talvez<br \/>\n    tamb&eacute;m tudo o que se passou nos minutos que precederam o que aconteceu<br \/>\n    tomou na minha lembran&ccedil;a uma cor sombria.<\/p>\n<p>&laquo;Cheguei diante do p&aacute;tio da minha casa. Passava da meia-noite.<br \/>\n    V&aacute;rios fiacres estavam parados em frente &agrave; porta, esperando<br \/>\n    fregueses eventuais porque havia luz nas janelas (nas do sal&atilde;o e nas<br \/>\n    da sala de jantar do nosso apartamento).<\/p>\n<p>&laquo;Sem tentar perceber porque estariam iluminadas as janelas, galguei<br \/>\n    as escadas, bati &agrave; porta com o mesmo sentimento de que qualquer coisa<br \/>\n    de horr&iacute;vel ia acontecer. O nosso criado de quarto, Egor, homem honesto<br \/>\n    e dedicad&iacute;ssimo, abriu-me a porta. O primeiro objecto que me saltou<br \/>\n    &agrave; vista foi, logo na entrada, o casaco de Troukhatchevski, pendurado<br \/>\n    no cabide juntamente com outros.<\/p>\n<p>&laquo;Eu devia ter ficado surpreendido, mas n&atilde;o. Parece que contava<br \/>\n    com isso.<\/p>\n<p> &laquo;&#8220;Est&aacute; bem&#8221;, disse para mim.<\/p>\n<p>&laquo;Quando perguntei a Egor quem estava com a senhora ele respondeu-me<br \/>\n    que era Troukhatchevski. Perguntei-lhe se havia mais algu&eacute;m. Ele respondeu-me<br \/>\n    negativamente.<\/p>\n<p>&laquo;Lembro-me agora que a resposta dele tinha uma inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    particular. Como se ele desejasse ser-me agrad&aacute;vel e desvanecer em<br \/>\n    mim qualquer m&aacute; impress&atilde;o, a prop&oacute;sito de qualquer outra<br \/>\n    pessoa.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ningu&eacute;m mais! Ningu&eacute;m mais&#8221;, repetia eu.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;E os meninos?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Gra&ccedil;as a Deus est&atilde;o bem. Adormeceram h&aacute;<br \/>\n    j&aacute; muito tempo.&#8221; Eu n&atilde;o podia suster a respira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem fazer parar o tremor dos queixos.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;Afinal era o que eu pensava. Antigamente eu pensava numa desgra&ccedil;a<br \/>\n    mas na realidade tudo se passava bem. Agora n&atilde;o era como antigamente.<br \/>\n    Tudo o que eu imaginara, tudo o que eu pensara era a realidade. Desta vez<br \/>\n    era verdade.<\/p>\n<p>&laquo;Ia come&ccedil;ar a chorar mas, de repente, um dem&oacute;nio soprou-me<br \/>\n    ao ouvidos:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Chora, arma ao sentimento, eles ter&atilde;o tempo de se separarem<br \/>\n    tranquilamente. N&atilde;o ter&aacute;s provas e toda a vida viver&aacute;s<br \/>\n    na d&uacute;vida e te atormentar&aacute;s.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Imediatamente desapareceu o enternecimento por mim pr&oacute;prio<br \/>\n    e um estranho sentimento surgiu &#8212; talvez voc&ecirc; n&atilde;o acredite<br \/>\n    &#8212; um sentimento de alegria, ao pensar que as minhas torturas iam acabar<br \/>\n    e eu a podia castigar, livrar-me dela e podia finalmente satisfazer o meu<br \/>\n    desejo de vingan&ccedil;a. Tornei-me um animal enraivecido, um animal mau<br \/>\n    e manhoso.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o &eacute; preciso nada&#8221;, disse eu a Egor que<br \/>\n    me queria acompanhar ao sal&atilde;o. &#8220;Tu tens que ir fazer imediatamente<br \/>\n    isto. Mete-te num fiacre e vai levantar as minhas bagagens. Tens aqui a guia.<br \/>\n    Apressa-te.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ele meteu-se pelo corredor para ir buscar o casac&atilde;o. Temendo<br \/>\n    que os fosse prevenir, acompanhei-o at&eacute; ao quarto e s&oacute; o deixei<br \/>\n    quando ele j&aacute; estava pronto para sair.<\/p>\n<p>&laquo;No sal&atilde;o que ficava afastado dos quartos continuavam a ouvir-se<br \/>\n    vozes e o tilintar dos talheres e dos pratos. Estavam &agrave; mesa e n&atilde;o<br \/>\n    tinham ouvido a campainha da entrada.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Deus queira que eles n&atilde;o saiam&#8221;, dizia de mim<br \/>\n    para mim.<\/p>\n<p>&laquo;Egor p&ocirc;s o casac&atilde;o de gola de astrac&atilde; e partiu.<br \/>\n    Logo que saiu fechei a porta &agrave; chave e fui tomado de verdadeiro pavor<br \/>\n    quando percebi que estava completamente s&oacute; e que era preciso agir imediatamente.<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o sabia ainda como tudo iria acabar. Mas sabia que tudo terminaria<br \/>\n    porque n&atilde;o havia maneira de ela poder provar a sua inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    e eu tinha de a castigar e p&ocirc;r fim &agrave;s nossas rela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&laquo;Noutras ocasi&otilde;es eu dizia:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Talvez n&atilde;o seja verdade. Pode ser que eu me engane.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Neste momento tudo desaparecera. Decidira irrevogavelmente.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Agrave;s minhas escondidas, numa entrevista durante a noite!&#8230;&#8221;<br \/>\n    Era o esquecimento de tudo. Ou pior ainda. Este despudor, esta impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    do<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>crime eram propositadas para testemunhar a sua inoc&ecirc;ncia. Tudo era<br \/>\n    claro.<\/p>\n<p> N&atilde;o podia haver d&uacute;vidas.<\/p>\n<p>&laquo;Eu s&oacute; tinha medo que eles se escapassem, inventando uma qualquer<br \/>\n    artimanha, privando-me de uma prova retumbante e da possibilidade de os castigar.<br \/>\n    Para os surpreender mais depressa, dirigi-me em bicos de p&eacute;s para o<br \/>\n    sal&atilde;o onde se encontravam, n&atilde;o passando pela salinha, mas atravessando<br \/>\n    o corredor e o quarto dos pequenos.<\/p>\n<p>&laquo;No primeiro quarto dormiam os rapazes. No segundo a criada mexeu-se<br \/>\n    e esteve quase a acordar. Nesse momento pensei o que imaginaria ela quando<br \/>\n    tivesse conhecimento do que tinha acontecido e senti uma pena t&atilde;o grande<br \/>\n    de mim mesmo que n&atilde;o pude suster as l&aacute;grimas. Para n&atilde;o<br \/>\n    ser sentido p&ecirc;los pequenos sa&iacute; a correr para fora do quarto em<br \/>\n    bicos de p&eacute;s para o corredor. Entrei no meu gabinete e desatei a chorar<br \/>\n    convulsivamente enterrado no div&atilde;.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que desgra&ccedil;a! Um homem honesto, filho de gente honrad&iacute;ssima,<br \/>\n    que toda a vida sonhou com a felicidade de um lar!&#8230; Cinco filhos e ela beija<br \/>\n    um m&uacute;sico porque ele tem os l&aacute;bios vermelhos. N&atilde;o. Ela<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; um ser humano. Ela &eacute; uma cadela, uma cadela vil&#8230;<br \/>\n    Junto do quarto dos filhos que ela fingia amar acima de tudo&#8230; Escrever o<br \/>\n    que ela me escreveu e envolv&ecirc;-lo de seguida nos seus bra&ccedil;os.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Talvez tivesse sido sempre assim&#8230; Talvez os nossos filhos<br \/>\n    sejam filhos dalgum dos meus criados.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Se eu tivesse chegado de manh&atilde; ela teria vindo ao meu<br \/>\n    encontro sorridente, formosa com as seus movimentos ondulantes e graciosos<br \/>\n    (eu revia a sua figura atraente e odiosa) e ent&atilde;o a besta raivosa do<br \/>\n    ci&uacute;me ficaria para sempre no meu cora&ccedil;&atilde;o a esfrangalh&aacute;-lo.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que v&atilde;o pensar o Egor e a criada? E a pobrezinha da<br \/>\n    Lisa? Ela parece compreender alguma coisa. Que imprud&ecirc;ncia! Que impostora!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Quis levantar-me mas foi em v&atilde;o. O cora&ccedil;&atilde;o batia-me<br \/>\n    com tal viol&ecirc;ncia que me n&atilde;o conseguia ter nas pernas. Sem d&uacute;vida<br \/>\n    eu vou morrer de um ataque. Ela mata-me. Era o que era preciso. Era muito<br \/>\n    c&oacute;modo. N&atilde;o. N&atilde;o ser&aacute; assim. Seria c&oacute;modo<br \/>\n    de mais. Eu n&atilde;o lhe darei essa satisfa&ccedil;&atilde;o. Muito bonito.<br \/>\n    Eu aqui sentado sem me poder mexer e eles, comendo, rindo e&#8230; Sim. Embora<br \/>\n    ela n&atilde;o esteja na juventude, ele julgou-a digna dele. Apesar de tudo<br \/>\n    ela ainda n&atilde;o est&aacute; m&aacute; e sobretudo n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    um perigo para a sua preciosa sa&uacute;de.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Por que a n&atilde;o estrangulei no outro dia?&#8221;, pensava<br \/>\n    eu recordando a cena em que lhe atirara todos os objectos que tinha sobre<br \/>\n    a secret&aacute;ria e a tinha<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>expulsado do meu gabinete. Lembrava-me perfeitamente do estado em que me<br \/>\n    encontrava ent&atilde;o; n&atilde;o somente eu recordava nitidamente tudo,<br \/>\n    mas sentia tamb&eacute;m a mesma necessidade de bater e de destruir que me<br \/>\n    assaltara naquele momento.<\/p>\n<p>&laquo;Recordo-me de que desejava agir e que todas as esp&eacute;cies de<br \/>\n    lucubra&ccedil;&otilde;es fora daquelas que eram necess&aacute;rias para agir<br \/>\n    me sa&iacute;am do c&eacute;rebro.<\/p>\n<p>&laquo;Entrei nas disposi&ccedil;&otilde;es de um animal feroz ou, antes,<br \/>\n    nas de um homem que est&aacute; sob a influ&ecirc;ncia de uma excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    f&iacute;sica no momento de um perigo. Age com precis&atilde;o, sem pressa,<br \/>\n    mas sem perder um minuto e tudo com um fim determinado.&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"27\" id=\"27\">XXVII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; A primeira coisa que fiz foi descal&ccedil;ar os sapatos. Em pe&uacute;gas<br \/>\n    fui at&eacute; &agrave; parede por cima do div&atilde; onde estavam penduradas<br \/>\n    as espingardas e os punhais. Tirei um punhal curvo marchetado, terrivelmente<br \/>\n    agudo que nunca tinha servido. Tirei-o da bainha que caiu para tr&aacute;s<br \/>\n    do div&atilde;. Lembro-me que pensei procur&aacute;-la mais tarde para que<br \/>\n    se n&atilde;o perdesse. Depois tirei o sobretudo que tivera vestido todo esse<br \/>\n    tempo e, caminhando com passos silenciosos sem as botas, dirigi-me para o<br \/>\n    sal&atilde;o. Depois de ter chegado at&eacute; &agrave; porta, sem nenhum<br \/>\n    ru&iacute;do abri-a bruscamente. Lembro-me das suas express&otilde;es. Lembro-me<br \/>\n    perfeitamente, pela alegria que senti perante o horror que elas exprimiam.<br \/>\n    Era precisamente o que eu pretendia. Eu n&atilde;o posso jamais esquecer o<br \/>\n    terror desvairado, pintado nas fei&ccedil;&otilde;es dos dois, durante o primeiro<br \/>\n    segundo&#8230; quando eles me viram.<\/p>\n<p>&laquo;Ele estava &#8212; parece-me &#8212; sentado &agrave; mesa; ao ver-me,<br \/>\n    ou melhor, ao sentir-me levantou-se repentinamente e ficou de p&eacute;, de<br \/>\n    costas para o arm&aacute;rio.<\/p>\n<p> O seu rosto traduzia verdadeiro terror. A cara da minha mulher tinha a mesma<br \/>\n    express&atilde;o. Se a sua fisionomia s&oacute; tivesse traduzido terror talvez<br \/>\n    o que aconteceu n&atilde;o tivesse acontecido. Mas ela exprimia &#8212; pelo<br \/>\n    menos foi essa a minha impress&atilde;o &agrave; primeira vista &#8212; despeito,<br \/>\n    desagrado por ter sido interrompida nos seus amores, na sua felicidade com<br \/>\n    ele. Parecia querer dizer que n&atilde;o a importunassem, que n&atilde;o precisava<br \/>\n    de nada, porque s&oacute; precisava, naquele momento, de ser feliz. Mas tudo<br \/>\n    isto se passou num relance. O terror da express&atilde;o de Troukhatchevski<br \/>\n    foi substitu&iacute;do por um ar<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>interrogador.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Devemos mentir ou n&atilde;o? Se devemos mentir tem que ser<br \/>\n    j&aacute;, sen&atilde;o outra coisa vai acontecer.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Mas o qu&ecirc;? Ele olhou para ela como a interrog&aacute;-la. Sobre<br \/>\n    a face de minha mulher desapareceram os sinais de desapontamento e t&eacute;dio<br \/>\n    para darem lugar &agrave; inquieta&ccedil;&atilde;o pelo que podia ir acontecer<br \/>\n    a Troukhatchevski.<\/p>\n<p>&laquo;Fiquei um instante no limiar da porta, com o punhal atr&aacute;s das<br \/>\n    costas. Neste preciso momento ele sorriu e come&ccedil;ou num ar absolutamente<br \/>\n    indiferente at&eacute; ao absurdo:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Faz&iacute;amos um pouco de m&uacute;sica&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Por sua vez ela disse:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Eu n&atilde;o te esperava!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Usou o mesmo tom que ele.<\/p>\n<p>&laquo;Nem um nem outro ousaram acabar a frase. A raiva que semanas antes<br \/>\n    me acometera apoderou-se de mim. Senti novamente o desejo de destruir tudo,<br \/>\n    uma necessidade de viol&ecirc;ncia, de exalta&ccedil;&atilde;o. Abandonava-me<br \/>\n    ao meu furor. Os dois deixaram a sua frase inacabada. Aquela coisa que ele,<br \/>\n    inconscientemente, temia e que quebrava tudo o que eles diziam come&ccedil;ou.<br \/>\n    Atirei-me a ela, escondendo sempre o punhal que trazia comigo para que ele<br \/>\n    n&atilde;o me impedisse de a ferir de lado, um pouco abaixo do seio. Desde<br \/>\n    o princ&iacute;pio que eu escolhera aquele lugar. No momento em que me atirei<br \/>\n    a ela ele viu o punhal (eu n&atilde;o pensei que ele fosse capaz de proceder<br \/>\n    assim). Agarrou-me pelo bra&ccedil;o e gritou:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Acalme-se! Que &eacute; que voc&ecirc; vai fazer? Socorro!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Desprendi o bra&ccedil;o brutalmente e sem dizer uma palavra atirei-me<br \/>\n    a ele. O seu olhar encontrou-se com o meu, tornou-se, como o meu, branco como<br \/>\n    a cal, os pr&oacute;prios l&aacute;bios embranqueceram. Os olhos adquiriram<br \/>\n    um brilho estranho e depois (eu n&atilde;o esperava este desenlace) ele esgueirou-se<br \/>\n    por debaixo do piano e desapareceu pela porta. Corri atr&aacute;s dele mas,<br \/>\n    de repente, senti um peso no meu bra&ccedil;o. Era ela. Atirei-me. Ela fez-se<br \/>\n    mais pesada, reteve-me. Este obst&aacute;culo imprevisto, este peso e o seu<br \/>\n    contacto odioso excitaram-me mais ainda. Eu sentia que estava completa-mente<br \/>\n    descontrolado, que devia ter um aspecto medonho e sentia-me alegre. Levantei<br \/>\n    o bra&ccedil;o esquerdo com todas as minhas for&ccedil;as e o cotovelo bateu-lhe<br \/>\n    em cheio na cara. Ela soltou um grito e largou-me o bra&ccedil;o. Tentei ainda<br \/>\n    ir atr&aacute;s dele mas pensei que seria rid&iacute;culo correr em meias<br \/>\n    atr&aacute;s do amante da<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>minha mulher; eu n&atilde;o queria ser rid&iacute;culo, queria ser terr&iacute;vel.<br \/>\n    Apesar do meu frenesim eu tinha a consci&ecirc;ncia da impress&atilde;o que<br \/>\n    causava aos outros e era essa impress&atilde;o que me guiava. Voltei-me para<br \/>\n    ela. Tinha ca&iacute;do sobre uma chaise-longue e fitava-me, protegendo com<br \/>\n    as m&atilde;os os olhos feridos. A sua express&atilde;o era de &oacute;dio<br \/>\n    e temor; o &oacute;dio do inimigo, o do rato quando se abre a ratoeira onde<br \/>\n    se deixou cair. Pelo menos era o que eu via, horror e medo de mim. Era o horror<br \/>\n    e o medo que lhe deviam ter feito nascer o amor por outro homem. Eu talvez<br \/>\n    tivesse conseguido dominar-me e n&atilde;o teria acontecido o que aconteceu<br \/>\n    se ela n&atilde;o tivesse falado. Mas ela come&ccedil;ou a falar e agarrou-me<br \/>\n    a m&atilde;o com que eu segurava o punhal.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Acalma-te! Que fazes tu?&#8230; O que aconteceu? N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    nada&#8230; nada&#8230; nada&#8230; Juro-te!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Eu talvez tivesse detido a minha f&uacute;ria, mas as &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras de que eu tirei a conclus&atilde;o ao contr&aacute;rio, isto &eacute;,<br \/>\n    que tudo estava consumado, exigiam uma resposta. E a resposta devia ser conforme<br \/>\n    ao estado em que me encontrava e que ia num crescendo e devia continuar a<br \/>\n    ampliar-se. A c&oacute;lera tamb&eacute;m tem os seus direitos.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;N&atilde;o mintas, prostituta!&#8221;, berrava eu, e com a<br \/>\n    m&atilde;o esquerda agarrei-lhe o bra&ccedil;o.<\/p>\n<p>&laquo;Mas ela conseguiu libertar-se. Ent&atilde;o sem largar o punhal, agarrei-a<br \/>\n    pela garganta com a m&atilde;o esquerda, deitei-a para tr&aacute;s e tentei<br \/>\n    estrangul&aacute;-la. Como o seu pesco&ccedil;o era duro! Ela agarrou-se com<br \/>\n    as duas m&atilde;os &agrave;s minhas, para tentar tir&aacute;-las da garganta&#8230;<br \/>\n    e ent&atilde;o como se eu n&atilde;o esperasse sen&atilde;o isto, feri-a duas<br \/>\n    vezes, com muita for&ccedil;a, com o punhal no lado esquerdo, abaixo das costelas.<\/p>\n<p>&laquo;Quando se afirma que nos n&atilde;o lembramos de nada, num acesso<br \/>\n    de furor, &eacute; uma tolice, e uma mentira. Eu lembro-me de tudo e nem um<br \/>\n    momento deixei de me lembrar. Quanto mais violenta era a minha c&oacute;lera<br \/>\n    mais intenso era o fogo da consci&ecirc;ncia, &agrave; luz da qual eu n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar de ver tudo o que fazia. Em todos os momentos sabia o que estava<br \/>\n    a fazer. N&atilde;o poderei dizer que eu sabia de antem&atilde;o o que ia<br \/>\n    fazer mas, no momento em que agia, mesmo um pouco antes, sabia bem o que fazia<br \/>\n    para que fosse poss&iacute;vel arrepender-me, e de qualquer maneira, me pudesse<br \/>\n    deter. Sabia que a feria sob as costelas e que o punhal entrava. Nesse momento,<br \/>\n    sabia que cometia qualquer coisa de muito horr&iacute;vel, que nunca tinha<br \/>\n    feito nada de semelhante e que seriam terr&iacute;veis as consequ&ecirc;ncias.<br \/>\n    Mas esta consci&ecirc;ncia desapareceu como um rel&acirc;mpago e imediatamente<br \/>\n    o acto se seguiu. Tamb&eacute;m tenho a consci&ecirc;ncia n&iacute;tida do<br \/>\n    acto. Senti (lembro-me perfeitamente) a<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>resist&ecirc;ncia do espartilho e depois enterrar-se o punhal em qualquer<br \/>\n    coisa mole. Ela agarrara a l&acirc;mina com as duas m&atilde;os e feriu-se<br \/>\n    mas n&atilde;o a p&ocirc;de segurar.<\/p>\n<p>&laquo;Muito tempo depois, na pris&atilde;o, quando uma revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral se operou em mim, eu meditei nesse minuto, reconstituindo o mais que<br \/>\n    podia. Lembro-me que num abrir e fechar de olhos durante o segundo que precedeu<br \/>\n    o meu acto, eu tive o sentimento terrificante de matar, de ter morto uma mulher,<br \/>\n    uma criatura sem defesa, a minha pr&oacute;pria mulher. Lembro-me do horror<br \/>\n    desse instante e conclu&iacute; que depois de ter enterrado o punhal eu o<br \/>\n    tirei (tenho disso uma vaga ideia) com o desejo de reparar o mal, de impedir<br \/>\n    o que j&aacute; estava feito. Estive um momento im&oacute;vel, esperando o<br \/>\n    que ia acontecer, se a poderiam salvar. Ela levantou-se bruscamente e gritou:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ama! Ele matou-me!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;A criada dos pequenos que tinha ouvido barulho estava no limiar da<br \/>\n    porta. Eu fiquei pregado ao ch&atilde;o, &agrave; espera, sem poder render-me<br \/>\n    &agrave; evid&ecirc;ncia. Neste momento mesmo, o sangue jorrou atrav&eacute;s<br \/>\n    do espartilho. S&oacute; ent&atilde;o compreendi que n&atilde;o poderiam reparar<br \/>\n    o que tinha feito e verifiquei que era in&uacute;til: era precisamente o que<br \/>\n    eu queria e desejara realizar completamente. Eu esperava que ela ca&iacute;sse.<br \/>\n    A criada correu para ela gritando:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Meu Deus!&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ent&atilde;o arremessei o punhal para longe e deixei o quarto.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Eacute; necess&aacute;rio que eu n&atilde;o me perturbe, &eacute;<br \/>\n    preciso que saiba o que fa&ccedil;o&#8221;, dizia eu, sem olhar, nem para<br \/>\n    a minha mulher nem para a criada.<\/p>\n<p>&laquo;A criada gritava e chamava a outra criada. Eu passei no corredor,<br \/>\n    mandei a criada para junto de minha mulher e fui para os meus aposentos.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Que fazer agora?&#8221;, perguntei a mim mesmo e compreendi<br \/>\n    o que tinha de fazer. Entrando no meu gabinete dirigi-me imediatamente para<br \/>\n    a parede onde estavam as armas. Tirei um rev&oacute;lver, examinei-o (estava<br \/>\n    carregado) e coloquei-o em cima da mesa. Em seguida procurei a bainha do punhal<br \/>\n    e sentei-me sobre o div&atilde;.<\/p>\n<p>&laquo;Fiquei durante muito tempo assim. Eu n&atilde;o pensava em nada; n&atilde;o<br \/>\n    me lembrava de nada. Pareceu-me ouvir que transportavam qualquer coisa. Chegou<br \/>\n    algu&eacute;m, depois chegou ainda outra pessoa. Em seguida senti e vi Egor<br \/>\n    trazer para o meu gabinete a bagagem que tinha ficado na gare, como se algu&eacute;m<br \/>\n    tivesse necessidade de alguma coisa.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ouviste dizer o que aconteceu? Diz ao porteiro que chame a<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>pol&iacute;cia.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Ele calou-se e pouco depois saiu. Levantei-me. Fechei a porta &agrave;<br \/>\n    chave e depois de ter ido buscar cigarros e f&oacute;sforos pus-me a fumar.<\/p>\n<p>&laquo;Ainda n&atilde;o tinha acabado de fumar um cigarro quando o sono me<br \/>\n    invadiu e me venceu. Dormi, provavelmente, perto de duas horas. Lembro-me<br \/>\n    que sonhei que &eacute;ramos bons amigos. T&iacute;nhamo-nos zangado mas t&iacute;nhamos<br \/>\n    feito as pazes; havia qualquer coisa que nos aborrecia mas &eacute;ramos bons<br \/>\n    amigos. Acordei ouvindo bater &agrave; porta.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;&Eacute; a pol&iacute;cia!&#8221;, pensei eu, acordando. &#8220;Parece-me<br \/>\n    que a matei. Ou talvez seja ela e n&atilde;o se tenha passado nada.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Tornaram a bater &agrave; porta. Eu n&atilde;o respondi, esfor&ccedil;ando-me<br \/>\n    por resolver a quest&atilde;o. Aconteceu ou n&atilde;o aconteceu? Sim, aconteceu.<br \/>\n    Lembrava-me da resist&ecirc;ncia do espartilho, o punhal que se enterrava<br \/>\n    e tive um estremecimento de horror, que me gelou. Sim, aconteceu. Agora &eacute;<br \/>\n    a minha vez. Mas, dizendo isto, eu tinha a certeza que n&atilde;o me mataria.<br \/>\n    Contudo levantei-me e peguei de novo no rev&oacute;lver. Facto estranho. Lembro-me<br \/>\n    de que antes disto tinha estado muitas vezes &agrave; beira de me suicidar.<br \/>\n    No dia anterior, no caminho-de-ferro, isso ter-me-ia parecido f&aacute;cil,<br \/>\n    precisamente porque supunha dar-lhe um desgosto. Neste momento eu n&atilde;o<br \/>\n    podia pensar assim.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Por que hei-de fazer isto?&#8221;, perguntava a mim pr&oacute;prio<br \/>\n    sem encontrar resposta.<\/p>\n<p>&laquo;Bateram de novo &agrave; porta. &#8220;&Eacute; preciso saber quem<br \/>\n    &eacute;. Eu tenho tempo.&#8221; Pus de nova o rev&oacute;lver sobre a mesa<br \/>\n    e cobri-o com um jornal. Fui &agrave; porta e abri-a. Era a irm&atilde; da<br \/>\n    minha mulher, uma vi&uacute;va, ao mesmo tempo boa e est&uacute;pida.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vassia! Que aconteceu?&#8221;, disse-me ela entre l&aacute;grimas<br \/>\n    sempre prontas a correr.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;O que &eacute; que tu queres?&#8221;, respondi bruscamente.<br \/>\n    Reconhecia que era perfeitamente in&uacute;til e injusto ser brutal com ela<br \/>\n    mas n&atilde;o podia falar de cutro modo.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vassia! Ela vai morrer. Disse-o Ivan F&eacute;dorovitch.&#8221;<br \/>\n    Era o m&eacute;dico, o seu m&eacute;dico, o seu conselheiro.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ele est&aacute; c&aacute;?&#8221;, perguntei eu. De novo me<br \/>\n    veio uma grande m&aacute; vontade contra ela. &#8220;E depois?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Vassia, vai v&ecirc;-la. Ah! &Eacute; horr&iacute;vel!&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Ir v&ecirc;-la?&#8221;, perguntei a mim pr&oacute;prio. Era<br \/>\n    necess&aacute;rio ir v&ecirc;-la. Com certeza era costume. Quando um marido,<br \/>\n    como eu, mata a mulher &eacute; necess&aacute;rio, com certeza, ir v&ecirc;-la.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Se &eacute; costume, irei v&ecirc;-la. H&aacute; sempre tempo&#8221;,<br \/>\n    pensei eu a prop&oacute;sito da minha inten&ccedil;&atilde;o de me suicidar<br \/>\n    e fui para os aposentos de minha mulher.<\/p>\n<p> &#8220;Certamente vai haver frases e gestos mas eu n&atilde;o me deixarei<br \/>\n    comover.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Espera um pouco&#8221;, disse eu para a minha cunhada. &laquo;&#8220;&Eacute;<br \/>\n    est&uacute;pido ir em pe&uacute;gas. Deixa-me, ao menos, cal&ccedil;ar as<br \/>\n    pantufas.&#8221;&raquo;<\/p>\n<h4><a name=\"28\" id=\"28\">XXVIII<\/a><\/h4>\n<p>&#8212; Coisa extraordin&aacute;ria! Quando sa&iacute; do meu gabinete e<br \/>\n    atravessei os compartimentos que me eram familiares tive ainda a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de que nada se tivesse passado. Mas o cheiro dos desinfectantes que s&atilde;o<br \/>\n    prescritos p&ecirc;los m&eacute;dicos, o fenol, o iodof&oacute;rmio, abateram-me.<br \/>\n    Sim. Era verdade. Quando passei no corredor, em frente do quarto dos filhos,<br \/>\n    vi Lisa. Fixou-me com os olhos apavorados. Tive mesmo a impress&atilde;o de<br \/>\n    que todos os filhos olhavam para mim. Cheguei &agrave; porta do quarto; a<br \/>\n    criada abriu-a e saiu.<\/p>\n<p>&laquo;A primeira coisa que me saltou aos olhos foi o vestido de minha mulher,<br \/>\n    um vestido de seda cinzento, em cima de uma cadeira, e todo manchado de sangue.<br \/>\n    Estava deitada na nossa cama no meu lugar (era o mais acess&iacute;vel), estendida,<br \/>\n    mas com os joelhos levantados. Tinha o corpete desabotoado e sobre a ferida<br \/>\n    tinham-lhe colocado qualquer coisa.<\/p>\n<p>&laquo;O quarto estava impregnado do cheiro do clorof&oacute;rmio. Mas o<br \/>\n    que me horrorizou, antes de mais nada, foi a cara inchada e coberta de n&oacute;doas<br \/>\n    negras num dos olhos e numa parte do nariz. Era o efeito da enorme pancada<br \/>\n    que eu lhe dera quando ela me agarrou.<\/p>\n<p>&laquo;Tinha perdido toda a sua beleza e tinha mesmo um ar repugnante. Parei<br \/>\n    &agrave; entrada.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Aproxima-te, vai at&eacute; junto dela&#8221;, disse-me a minha<br \/>\n    cunhada.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Querer&aacute; ela confessar-me toda a verdade? Devo perdoar-lhe?<br \/>\n    Sim. Ela vai morrer, eu devo perdoar&#8221;, pensei e esfor&ccedil;ando-me<br \/>\n    por ter um ar magn&acirc;nimo. Cheguei-me um pouco para mais perto dela. Ergueu<br \/>\n    para mim, com grande custo, os olhos fatigados (tinha um olho inchad&iacute;ssimo)<br \/>\n    e com<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>grande dificuldade e entrecortadamente articulou:<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Conseguiste o teu fim, mataste-me&#8230;&#8221; E na sua cara,<br \/>\n    apesar de todo o sofrimento f&iacute;sico e at&eacute; da aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da morte eu vi o antigo &oacute;dio frio e animal que me era familiar. &#8220;Mas&#8230;<br \/>\n    os filhos&#8230; eu n&atilde;o tos deixarei&#8230; Ser&aacute; ela (a sua irm&atilde;)<br \/>\n    que tomar&aacute; conta deles.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Mas do que era mais importante para mim, da sua falta, da sua trai&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ela entendia que n&atilde;o valia a pena falar.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Rev&ecirc; a tua obra&#8221;, disse ela olhando para a porta<br \/>\n    e desatando a solu&ccedil;ar. A minha cunhada estava &agrave; entrada da porta<br \/>\n    com todos os filhos. &#8220;Eis o que tu fizeste.&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Olhei para os filhos, depois para a sua cara coberta de equimoses,<br \/>\n    e pela primeira vez esqueci a minha personalidade, os meus direitos, o meu<br \/>\n    orgulho, vi nela um ser humano. Tudo o que me ofendia, todo o meu ci&uacute;me<br \/>\n    era nada perante a ac&ccedil;&atilde;o que tinha cometido. E tive a tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de encostar a cabe&ccedil;a &agrave; sua m&atilde;o e pedir-lhe que me perdoasse.<br \/>\n    Mas n&atilde;o tive coragem. Ela ficou calada, os olhos fechados, visivelmente<br \/>\n    j&aacute; fora de si. Depois a cara comple-tamente deformada contraiu-se e<br \/>\n    cobriu-se de rugas. Repeliu-me.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Porqu&ecirc; tudo isto? Porqu&ecirc;?&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Perdoa-me&#8221;, disse-lhe eu.<\/p>\n<p>&laquo;&#8220;Perdoar? Tudo isto &eacute; absurdo!&#8230; O que eu queria era<br \/>\n    viver&#8221;, gritou ela. Soergueu-se, os olhos tinham um brilho febril e<br \/>\n    fixaram-me: &#8220;Conseguiste os teus fins!&#8230; Odeio-te. Ai!&#8230; Ai!&#8230;&#8221;<br \/>\n    Subitamente, em del&iacute;rio, sob uma impress&atilde;o de terror. &#8220;Mata-me!<br \/>\n    Mata-me! Eu n&atilde;o tenho medo&#8230; Somente&#8230; pe&ccedil;o-te, mata-nos a<br \/>\n    todos, e a ele tamb&eacute;m. Ele foi-se embora&#8230; ele foi-se embora!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&laquo;Nunca mais deixou de delirar. J&aacute; n&atilde;o conhecia ningu&eacute;m.<br \/>\n    Morreu nesse mesmo dia, pelo meio-dia.<\/p>\n<p>&laquo;&Agrave;s oito horas tinham-me levado para o comissariado e da&iacute;<br \/>\n    para a pris&atilde;o. Depois de onze meses de pris&atilde;o em que esperei<br \/>\n    pela organiza&ccedil;&atilde;o do processo, reflecti durante esse tempo sobre<br \/>\n    a minha maneira de ser e proceder, sobre todo o meu passado e compreendi ent&atilde;o<br \/>\n    tudo. Logo dois dias depois comecei a compreender. E dois dias depois entrava<br \/>\n    na pris&atilde;o&#8230;&raquo;<\/p>\n<p>Ele quis acrescentar mais alguma coisa mas n&atilde;o p&ocirc;de reter por<br \/>\n    mais tempo os solu&ccedil;os. Parou a narra&ccedil;&atilde;o. Encheu-se de<br \/>\n    coragem e continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Eu nada tinha compreendido at&eacute; que a vi no caix&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Voltou a solu&ccedil;ar mas continuou precipitadamente: &#8212; Foi<br \/>\n    s&oacute; quando vi a sua cara de<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>morta, p&aacute;lida como cera, que compreendi tudo o que tinha feito. Compreendi<br \/>\n    que a tinha assassinado e que dependera de mim a sua vida, o que a animava,<br \/>\n    o seu calor, a sua felicidade; e, que por mim, ela se tornara inerte, fria,<br \/>\n    cor de cera; e eu n&atilde;o podia reparar o mal que fizera em nenhum tempo,<br \/>\n    em nenhum lugar, de nenhuma maneira. Quem n&atilde;o passou por isto n&atilde;o<br \/>\n    pode compreender. Que horror!&#8230; Que horror!&#8230; &#8212; gritou ele por diversas<br \/>\n    vezes. Depois, veio-lhe de novo a calma. Fic&aacute;mos silenciosos por muito<br \/>\n    tempo. Ele chorava desabaladamente, sem dizer uma palavra na minha frente,<br \/>\n    sacudido a todos os instantes, p&ecirc;los solavancos do comboio.<\/p>\n<p>&#8212; Perdoe-me!&#8230;<\/p>\n<p>Voltou-se. Estendeu-se ao comprido no banco e tapou-se com a manta de viagem.<br \/>\n    Na esta&ccedil;&atilde;o em que eu me devia apear (eram perto de oito horas<br \/>\n    da manh&atilde;) aproximei-me dele para me despedir. N&atilde;o sei se dormia<br \/>\n    se fazia que dormia. N&atilde;o tinha sequer um leve estremecimento. Toquei-lhe<br \/>\n    com a m&atilde;o e afastando a manta que o cobria vi que ele estava acordado.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus &#8212; disse-lhe estendendo-lhe a m&atilde;o. Estendeu-me<br \/>\n    a sua com um sorriso t&atilde;o lamentavelmente triste que tive vontade de<br \/>\n    chorar.<\/p>\n<p>&#8212; Perdoe-me &#8212; disse-me ele, repetindo as mesmas palavras que<br \/>\n    dissera quando conclu&iacute;ra a sua narrativa.<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<h4><a name=\"29\" id=\"29\">POSF&Aacute;CIO<\/a><\/h4>\n<p>Recebi e continuo a receber muitas cartas de desconhecidos, pedindo-me que<br \/>\n    explique em termos simples e claros o que penso acerca da narrativa que escrevi<br \/>\n    e intitulei Sonata a Kreutzer.<\/p>\n<p>Vou tentar exprimir brevemente, na medida do poss&iacute;vel, o conte&uacute;do<br \/>\n    do que eu quis dizer nesta narrativa e as conclus&otilde;es que segundo o<br \/>\n    meu parecer se podem daqui tirar.<\/p>\n<p>Primeiramente, quis dizer que na nossa sociedade se formou a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&oacute;lida, comum a todas as classes e aprovada por uma falsa ci&ecirc;ncia<br \/>\n    de que as rela&ccedil;&otilde;es sexuais s&atilde;o indispens&aacute;veis<br \/>\n    &agrave; sa&uacute;de; e que portanto, quando o casamento se n&atilde;o torna<br \/>\n    poss&iacute;vel, o com&eacute;rcio sexual, n&atilde;o obrigando o homem a<br \/>\n    outra preocupa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o seja a de uma determinada despesa,<br \/>\n    &eacute; uma actividade perfeitamente natural e por consequ&ecirc;ncia deve<br \/>\n    ser encorajada.<\/p>\n<p>Esta convic&ccedil;&atilde;o tornou-se t&atilde;o geral e t&atilde;o s&oacute;lida<br \/>\n    que os pais, a conselho dos m&eacute;dicos, asseguram a deprava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos filhos; os governos cujo &uacute;nico fim &eacute; o cuidado do bem-estar<br \/>\n    moral dos seus concidad&atilde;os fazem do desregramento f&iacute;sico uma<br \/>\n    institui&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, regularizam a exist&ecirc;ncia de<br \/>\n    uma classe de mulheres destinadas a morrer n&atilde;o s&oacute; f&iacute;sica<br \/>\n    como moralmente para satisfa&ccedil;&atilde;o das pretensas necessidades dos<br \/>\n    homens, de tal modo que os celibat&aacute;rios entregam-se ao deboche com<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia perfeitamente tranquila.<\/p>\n<p>Eu quis, portanto, provar que esta tese est&aacute; errada porque &eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel que para a sa&uacute;de de uns seja necess&aacute;rio fazer<br \/>\n    morrer os corpos e as almas dos outros, da mesma maneira que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel que para a sa&uacute;de de uns seja necess&aacute;rio beber<br \/>\n    o sangue dos outros.<\/p>\n<p>A conclus&atilde;o que tiramos &eacute; de que n&atilde;o se deve ceder a<br \/>\n    esta aberra&ccedil;&atilde;o e falsidade.<\/p>\n<p>Para n&atilde;o ceder &eacute; necess&aacute;rio primeiro n&atilde;o acreditar<br \/>\n    nas doutrinas imorais, quer elas sejam pseudoci&ecirc;ncias em que se arvoram<br \/>\n    e, segundo, compreender que a pr&aacute;tica das rela&ccedil;&otilde;es sexuais<br \/>\n    desta esp&eacute;cie nas quais os homens ou se libertam das consequ&ecirc;ncias<br \/>\n    poss&iacute;veis &#8212; os filhos &#8212;, ou ent&atilde;o fazem recair todo<br \/>\n    o peso sobre a mulher, ou obstam &agrave; possibilidade concepcional; as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    deste g&eacute;nero s&atilde;o na verdade uma transgress&atilde;o da mais<br \/>\n    simples exig&ecirc;ncia moral, uma inf&acirc;mia e os homens solteiros que<br \/>\n    n&atilde;o<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>querem ter uma vida infame n&atilde;o devem proceder desta maneira.<\/p>\n<p>Para se poderem abster &eacute; preciso al&eacute;m disso levar uma vida<br \/>\n    conforme &agrave; natureza; n&atilde;o beber, n&atilde;o se empanturrar de<br \/>\n    comida, n&atilde;o comer carne, n&atilde;o fugir ao trabalho (n&atilde;o gin&aacute;stica<br \/>\n    mas um trabalho extenuante, que n&atilde;o tenha nada de divertimento), afastar<br \/>\n    do pensamento a possibilidade de rela&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas com<br \/>\n    mulheres de outros, da mesma maneira que qualquer homem afasta a possibilidade<br \/>\n    de liga&ccedil;&otilde;es desse g&eacute;nero entre ele e a m&atilde;e, os<br \/>\n    irm&atilde;os, os pais e as mulheres dos amigos.<\/p>\n<p>A contin&ecirc;ncia &eacute; poss&iacute;vel e muito menos perigosa e prejudicial<br \/>\n    &agrave; sa&uacute;de que a incontin&ecirc;ncia. Todos os homens encontrar&atilde;o<br \/>\n    &agrave; sua volta centenas de provas.<\/p>\n<p>Este &eacute; o primeiro ponto.<\/p>\n<p>Segundo ponto: na nossa sociedade considera-se o com&eacute;rcio amoroso<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; como uma condi&ccedil;&atilde;o essencial &agrave; sa&uacute;de<br \/>\n    e um prazer mas uma felicidade po&eacute;tica e sublime; a infidelidade conjugal<br \/>\n    em todas as classes (sobretudo entre os camponeses &#8212; gra&ccedil;as ao<br \/>\n    servi&ccedil;o militar) &eacute; um fen&oacute;meno corrente.<\/p>\n<p>Eu considero isto mal. A conclus&atilde;o que daqui resulta &eacute; de que<br \/>\n    se n&atilde;o deve fazer isto.<\/p>\n<p>Para n&atilde;o fazer isto &eacute; necess&aacute;rio considerar o amor carnal<br \/>\n    de uma outra maneira. &Eacute; preciso que os homens e as mulheres sejam educados<br \/>\n    nas fam&iacute;lias e na opini&atilde;o p&uacute;blica de tal maneira que<br \/>\n    antes e depois do casamento eles considerem o desejo e o amor f&iacute;sico<br \/>\n    que est&atilde;o entre si ligados, n&atilde;o como um estado po&eacute;tico<br \/>\n    e superior, como se considera presentemente, mas como um estado animal degradante<br \/>\n    para o ser humano e que a viola&ccedil;&atilde;o da promessa de fidelidade,<br \/>\n    dada no momento do casamento, seja castigada pela opini&atilde;o p&uacute;blica<br \/>\n    pelo menos, da mesma maneira que o n&atilde;o pagamento de uma d&iacute;vida,<br \/>\n    ou fraude comercial, e n&atilde;o seja celebrada, como se faz agora, nos romances,<br \/>\n    na poesia, nas can&ccedil;&otilde;es, nas &oacute;peras, etc.<\/p>\n<p>Este &eacute; o segundo ponto.<\/p>\n<p>Terceiro ponto: na nossa sociedade, sempre, como consequ&ecirc;ncia do significado<br \/>\n    errado atribu&iacute;do ao amor carnal, a procria&ccedil;&atilde;o perdeu<br \/>\n    o seu verdadeiro significado: em vez de ser o fim e a qualifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das liga&ccedil;&otilde;es conjugais ela n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o<br \/>\n    um obst&aacute;culo ao prolongamento agrad&aacute;vel das rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    amorosas. Consequentemente, tanto fora como dentro do casamento, sob o conselho<br \/>\n    dos servidores da ci&ecirc;ncia m&eacute;dica, por um lado, o emprego de processos<br \/>\n    para privarem a mulher da possibilidade de conceber come&ccedil;ou a espalhar-se,<br \/>\n    por outro lado, uma pr&aacute;tica que n&atilde;o existia outrora nas fam&iacute;lias<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>patriarcais camponesas come&ccedil;a a entrar em uso: a continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das rela&ccedil;&otilde;es conjugais durante a gravidez e o aleitamento.<\/p>\n<p>Eu considero isso um mal. &Eacute; um mal o emprego dos processos anticoncepcionais;<br \/>\n    primeiro porque liberta as pessoas dos cuidados e dos sofrimentos que d&atilde;o<br \/>\n    os filhos e eram um resgate do amor carnal; segundo, porque &eacute; qualquer<br \/>\n    coisa muito pr&oacute;xima do acto que mais repugna &agrave; consci&ecirc;ncia<br \/>\n    humana, o assass&iacute;nio. A incontin&ecirc;ncia durante a gravidez e o<br \/>\n    aleitamento &eacute; reprov&aacute;vel porque atinge a mulher nas suas for&ccedil;as<br \/>\n    f&iacute;sicas e sobretudo morais.<\/p>\n<p>A conclus&atilde;o que daqui resulta &eacute; de que se n&atilde;o deve fazer<br \/>\n    isto. E para n&atilde;o o fazer &eacute; necess&aacute;rio compreender que<br \/>\n    a contin&ecirc;ncia, condi&ccedil;&atilde;o essencial da dignidade humana<br \/>\n    fora do casamento, &eacute; ainda mais necess&aacute;ria no matrim&oacute;nio.<\/p>\n<p>Este &eacute; o terceiro ponto.<\/p>\n<p>Quarto ponto: na nossa sociedade, em que os filhos s&atilde;o considerados,<br \/>\n    tanto como um obst&aacute;culo &agrave; felicidade, tanto como um perigo desastroso<br \/>\n    ou como uma felicidade quando se lhes determina o n&uacute;mero de antem&atilde;o,<br \/>\n    os filhos s&atilde;o criados n&atilde;o no sentido das tarefas da vida humana<br \/>\n    que os espera como seres inteligentes e am&aacute;veis mas somente no sentido<br \/>\n    dos prazeres que eles podem proporcionar aos pais.<\/p>\n<p>Por consequ&ecirc;ncia, os filhos dos homens s&atilde;o criados como animaizinhos<br \/>\n    e o principal cuidado dos pais n&atilde;o &eacute; prepar&aacute;-los para<br \/>\n    as actividades dignas dos homens mas (e nisto os pais s&atilde;o sustentados<br \/>\n    pela falsa ci&ecirc;ncia a que se chama medicina) de os fartar o mais poss&iacute;vel,<br \/>\n    de fazer deles homens de boa estatura, musculosos, brancos, gordos e bonitos<br \/>\n    (se n&atilde;o se faz o mesmo nas classes inferiores &eacute; unicamente porque<br \/>\n    a necessidade se op&otilde;e, mas o crit&eacute;rio &eacute; o mesmo). &Eacute;<br \/>\n    entre as crian&ccedil;as molengas como entre os animais superalimentados,<br \/>\n    manifesta-se cedo e anormalmente uma sensualidade invenc&iacute;vel que lhes<br \/>\n    causa tormentos horr&iacute;veis na adolesc&ecirc;ncia. Os enfeites, as leituras,<br \/>\n    os espect&aacute;culos, a m&uacute;sica, as dan&ccedil;as, as guloseimas,<br \/>\n    todo o cen&aacute;rio da vida, desde os bonecos das caixas de bombons at&eacute;<br \/>\n    aos romances, novelas e poemas, incitam e exaltam ainda mais a sensualidade;<br \/>\n    em consequ&ecirc;ncia disto surgem as mais tremendas deprava&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e as doen&ccedil;as sexuais tornam-se o elemento habitual no crescimento das<br \/>\n    crian&ccedil;as dos dois sexos e permanecem, muitas vezes, at&eacute; na idade<br \/>\n    adulta.<\/p>\n<p>Eu considero isto um mal. A conclus&atilde;o que se pode tirar &eacute; que<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio deixar de educar os filhos dos homens como os filhos<br \/>\n    dos animais e para educar os filhos dos homens devem fixar-se outras regras<br \/>\n    que n&atilde;o<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>sejam as de criar corpos bonitos e amimados.<\/p>\n<p>&Eacute; o quarto ponto.<\/p>\n<p>Quinto ponto: na nossa sociedade em que a paix&atilde;o entre um rapaz e<br \/>\n    uma rapariga, cuja base &eacute; o amor carnal, &eacute; considerada no plano<br \/>\n    de um resultado nobre e po&eacute;tico das aspira&ccedil;&otilde;es dos seres<br \/>\n    (toda a arte e a poesia da nossa sociedade s&atilde;o disso testemunhos) os<br \/>\n    jovens consagram-lhe grande parte da vida: os homens a procurar o objecto<br \/>\n    mais digno do seu amor e tomar posse dele ou sob a forma de uma liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou de um casamento; as mulheres e as raparigas a seduzir e a atrair os homens<br \/>\n    para uma liga&ccedil;&atilde;o ou para o casamento.<\/p>\n<p>Deste modo, as melhores for&ccedil;as dos indiv&iacute;duos s&atilde;o empregadas<br \/>\n    numa tarefa n&atilde;o somente improdutiva, mas aborrecida. Da&iacute; prov&eacute;m<br \/>\n    a maior parte do luxo insensato da nossa vida quotidiana, da&iacute; a ociosidade<br \/>\n    dos homens, o impudor das mulheres que n&atilde;o hesitam em expor, com a<br \/>\n    ajuda das modas provenientes de mulheres notoriamente depravadas, as partes<br \/>\n    do corpo mais provocantes para os sentidos.<\/p>\n<p>Ora eu considero isto um mal.<\/p>\n<p>E mal porque a procura da uni&atilde;o, no casamento ou fora do casamento,<br \/>\n    com o objecto amado, qualquer que seja a maneira como o poetizem &eacute;<br \/>\n    um fim indigno do homem, da mesma maneira que &eacute; indigno do homem andar<br \/>\n    &agrave; procura (embora seja para muitos o maior bem) de uma alimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    saborosa e abundante. A conclus&atilde;o que devemos tirar &eacute; de que<br \/>\n    o amor carnal nada tem de particularmente nobre e que a finalidade superior<br \/>\n    do homem, quer seja o servi&ccedil;o da humanidade, da p&aacute;tria, da ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    da arte (n&atilde;o falando no servi&ccedil;o de Deus) n&atilde;o se atinge<br \/>\n    atrav&eacute;s da uni&atilde;o com o objecto amado, no casamento ou fora dele.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, o amor, a uni&atilde;o com o objecto amado &#8212;<br \/>\n    &eacute; debalde que se procura demonstrar o contr&aacute;rio, seja em prosa,<br \/>\n    seja em verso &#8212; n&atilde;o facilita o alcance desse fim, antes o dificulta.<\/p>\n<p>&Eacute; este o quinto ponto.<\/p>\n<p>Resumindo era isto o que eu queria dizer e julgara mesmo t&ecirc;-lo dito<br \/>\n    na minha narrativa. Supunha que o mal que a minha tese denuncia faria reflectir<br \/>\n    no meio de remediar mal t&atilde;o profundo.<\/p>\n<p>&Eacute; imposs&iacute;vel rebater os argumentos que apresentei, primeiro<br \/>\n    porque est&atilde;o em acordo perfeito com o progresso da humanidade que tende<br \/>\n    para a castidade, com a consci&ecirc;ncia moral da sociedade, com a nossa<br \/>\n    consci&ecirc;ncia pessoal que condenou sempre a incontin&ecirc;ncia e apreciou<br \/>\n    a pureza; segundo porque os argumentos apresentados s&atilde;o a consequ&ecirc;ncia<br \/>\n    inevit&aacute;vel dos<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>ensinamentos do Evangelho que praticamos, ou pelo menos, reconhecemos, por<br \/>\n    vezes inconscientemente, como fundamento da nossa concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral. Ningu&eacute;m, certamente, contesta os argumentos que condenam o desregramento,<br \/>\n    antes e depois do casamento, nem os de que se n&atilde;o deve impedir a concep&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    nem que os filhos n&atilde;o devem ser motivo de divertimento, nem que se<br \/>\n    deve colocar acima de tudo a uni&atilde;o carnal; ningu&eacute;m negar&aacute;<br \/>\n    que a castidade &eacute; prefer&iacute;vel &agrave; libertinagem.<\/p>\n<p>Argumenta-se: se o celibato &eacute; um estado mais perfeito do que o casamento,<br \/>\n    evidentemente devemos praticar o que &eacute; melhor, mas nesse caso desaparecer&aacute;<br \/>\n    o g&eacute;nero humano. Ora, o ideal do g&eacute;nero humano n&atilde;o deve<br \/>\n    ser o seu aniquilamento.<\/p>\n<p>O aniquilamento do g&eacute;nero humano n&atilde;o &eacute; uma concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nova. &Eacute; um dogma para os crentes. &Eacute; uma dedu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inevit&aacute;vel das observa&ccedil;&otilde;es para os cientistas. H&aacute;<br \/>\n    nesta objec&ccedil;&atilde;o um grande mal-entendido (que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de hoje e est&aacute; muito espalhado).<\/p>\n<p>Se os homens atingem o ideal da perfeita castidade aniquilam-se, logo o ideal<br \/>\n    &eacute; falso. Os que afirmam isto misturam, consciente ou inconscientemente,<br \/>\n    duas coisas de natureza diferente, a lei (a prescri&ccedil;&atilde;o) e o<br \/>\n    ideal.<\/p>\n<p>A castidade n&atilde;o &eacute; uma lei, &eacute; ideal, ou melhor, uma das<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es do ideal. E o ideal s&oacute; &eacute; ideal quando<br \/>\n    a sua realiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, sen&atilde;o<br \/>\n    como ideia e pensamento. O ideal s&oacute; deve ser poss&iacute;vel de atingir<br \/>\n    no infinito e por consequ&ecirc;ncia a possibilidade de aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; infinita. Se o ideal se atinge e podemos representar a sua realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deixa de ser ideal. Tal &eacute; o ideal de Cristo.<\/p>\n<p>O advento do reino de Deus sobre a Terra, ideal j&aacute; anunciado p&ecirc;los<br \/>\n    profetas e em que os homens instru&iacute;dos por Deus transformariam o ferro<br \/>\n    das espadas em charruas, as lan&ccedil;as em foices, o le&atilde;o se deitaria<br \/>\n    ao lado do cordeiro e os homens estariam unidos pelo Amor.<\/p>\n<p>Todo o sentido da vida humana &eacute; um movimento que tende para este ideal;<br \/>\n    no seu conjunto e aspira&ccedil;&atilde;o para o ideal crist&atilde;o, e em<br \/>\n    particular a castidade como uma das condi&ccedil;&otilde;es deste ideal, n&atilde;o<br \/>\n    exclui a possibilidade da vida mas pelo contr&aacute;rio a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    deste ideal crist&atilde;o impede toda a possibilidade da vida.<\/p>\n<p>A hip&oacute;tese de que o g&eacute;nero humano acabaria se os homens tendessem<br \/>\n    para uma castidade perfeita assemelha-se &agrave; de que o g&eacute;nero humano<br \/>\n    poderia acabar se os homens em vez de lutarem pela exist&ecirc;ncia tendessem<br \/>\n    para<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>realizar perfeitamente a caridade amando o pr&oacute;ximo como a si pr&oacute;prio,<br \/>\n    amigos e inimigos, todos os seres vivos.<\/p>\n<p>Estas afirma&ccedil;&otilde;es derivam da incompreens&atilde;o da diferen&ccedil;a<br \/>\n    dos dois aspectos da conduta moral.<\/p>\n<p>Assim como se pode indicar de duas maneiras o caminho ao viajante que o procura,<br \/>\n    h&aacute; duas regras de conduta moral para o homem que procura a verdade.<br \/>\n    Uma consiste em mostrar ao homem objectos que tem de encontrar e ele orienta-se<br \/>\n    segundo esses objectos. A outra consiste em dar ao homem somente uma direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    indicada pela b&uacute;ssola que o homem traz consigo e em que &eacute; marcada<br \/>\n    a direc&ccedil;&atilde;o imut&aacute;vel e por consequ&ecirc;ncia ele poder&aacute;<br \/>\n    apreciar os seus pr&oacute;prios desvios.<\/p>\n<p>A primeira regra de conduta moral baseia-se em regras exteriores &#8212;<br \/>\n    determinam-se ao homem actos determinados que ele pode ou n&atilde;o realizar.<\/p>\n<p>&#8212; Respeita o s&aacute;bado &#8212; emprega a circuncis&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    bebas bebidas alco&oacute;licas, n&atilde;o mates seres vivos, d&aacute; o<br \/>\n    dinheiro aos pobres, n&atilde;o cometas adult&eacute;rio, faz as tuas ablu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    reza cinco vezes por dia, baptiza-te, comunga, etc. Eis os pontos das doutrinas<br \/>\n    exteriores das religi&otilde;es, bram&acirc;nica, budista, mu&ccedil;ulmana,<br \/>\n    hebraica, eclesi&aacute;stica, abusivamente chamada crist&atilde;.<\/p>\n<p>A outra regra mostra ao homem uma perfei&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel<br \/>\n    de atingir, &agrave; qual ele aspira no fundo de si pr&oacute;prio; indica-se<br \/>\n    ao homem um ideal e ele pode sempre medir a dist&acirc;ncia que o separa.<\/p>\n<p>&#8212; Ama a Deus com todo o cora&ccedil;&atilde;o, com toda a tua alma,<br \/>\n    com toda a tua raz&atilde;o, e ao teu pr&oacute;ximo como a ti mesmo. Sede<br \/>\n    perfeitos como vosso Pai Celeste.<\/p>\n<p>&Eacute; a doutrina de Cristo.<\/p>\n<p>Pode-se verificar a realiza&ccedil;&atilde;o das doutrinas exteriores da<br \/>\n    religi&atilde;o pela concord&acirc;ncia dos actos com os pontos destas doutrinas,<br \/>\n    esta concord&acirc;ncia &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Pode-se verificar a realiza&ccedil;&atilde;o da doutrina de Cristo pela consci&ecirc;ncia<br \/>\n    do grau de afastamento do ideal de perfei&ccedil;&atilde;o. (O grau de aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; vis&iacute;vel; n&atilde;o se apreende sen&atilde;o a<br \/>\n    dist&acirc;ncia que nos separa da perfei&ccedil;&atilde;o.)<\/p>\n<p>O homem, praticando a lei exterior, &eacute; um homem de p&eacute; &agrave;<br \/>\n    luz de uma lanterna aparafusada num poste. Se ele se mant&eacute;m na luz<br \/>\n    desta lanterna v&ecirc; claro, e n&atilde;o tem necessidade de ir mais longe.<br \/>\n    O homem que pratica a doutrina de Cristo assemelha-se a um homem que traz<br \/>\n    uma lanterna diante dele ao fim de uma vara mais ou menos comprida; a luz<br \/>\n    est&aacute; sempre diante<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>dele, incita-o continuamente a continuar o seu caminho e revela-lhe a todos<br \/>\n    os momentos um espa&ccedil;o novo que ela ilumina.<\/p>\n<p>O fariseu d&aacute; gra&ccedil;as a Deus porque cumpriu todos os seus deveres.<\/p>\n<p>O rapaz rico tamb&eacute;m cumpriu todos os deveres desde a inf&acirc;ncia<br \/>\n    e n&atilde;o v&ecirc; o que pode faltar-lhe. Eles n&atilde;o podem pensar<br \/>\n    de outra maneira e n&atilde;o h&aacute; mais nada a que possam aspirar. Pagam<br \/>\n    o d&iacute;zimo, observam o s&aacute;bado, respeitam os pais, n&atilde;o cometem<br \/>\n    adult&eacute;rio, nem roubo, nem assass&iacute;nio. Que mais &eacute; preciso?<\/p>\n<p>Mas para o que pratica a doutrina crist&atilde;, o acesso a cada grau da<br \/>\n    perfei&ccedil;&atilde;o faz nascer a necessidade de subir ao grau seguinte<br \/>\n    de onde se descobre um outro, ainda mais elevado. O que pratica a lei de Cristo<br \/>\n    est&aacute; perpetuamente na situa&ccedil;&atilde;o do publicano. Ele sente-se<br \/>\n    sempre imperfeito; n&atilde;o v&ecirc; o caminho percorrido, mas v&ecirc;<br \/>\n    sempre o caminho que ainda lhe &eacute; necess&aacute;rio percorrer.<\/p>\n<p>E aqui que se encontra a diferen&ccedil;a entre a doutrina de Cristo e todas<br \/>\n    as outras doutrinas religiosas; esta diferen&ccedil;a reside n&atilde;o nas<br \/>\n    exig&ecirc;ncias mas na maneira de dirigir os homens. Cristo n&atilde;o deu<br \/>\n    nenhuma regra de vida; ele nem mesmo instituiu o matrim&oacute;nio &#8212;<br \/>\n    mas as pessoas que n&atilde;o compreendem a singularidade da doutrina de Cristo,<br \/>\n    habituadas &agrave;s doutrinas exteriores e desejosas de se sentirem justas<br \/>\n    da mesma maneira que o fariseu se sente justo &#8212; contrariamente a todo<br \/>\n    o esp&iacute;rito da doutrina de Cristo &#8212;, tomaram os seus ensinamentos<br \/>\n    &agrave; letra e fizeram um conjunto de regras exteriores, chamado doutrina<br \/>\n    crist&atilde; da Igreja e que substitui a verdadeira doutrina de ideal de<br \/>\n    Cristo.<\/p>\n<p>Este ensino da Igreja que se baptiza crist&atilde; instituiu no lugar do<br \/>\n    ensino do ideal em tudo o que concerne &agrave;s regras exteriores contr&aacute;rias<br \/>\n    ao esp&iacute;rito da doutrina &#8212; isto no que diz respeito ao poder da<br \/>\n    justi&ccedil;a, do ex&eacute;rcito, da Igreja, do culto e tamb&eacute;m no<br \/>\n    que diz respeito ao casamento; se bem que Cristo nunca tenha institu&iacute;do<br \/>\n    o matrim&oacute;nio, mas, se se procuram as regras exteriores, tenha antes<br \/>\n    negado (deixa a tua mulher e segue-me), o ensino da Igreja que se baptiza<br \/>\n    crist&atilde;, instituiu o casamento como base da vida crist&atilde; &#8212;<br \/>\n    dizendo de outro modo, fixou as condi&ccedil;&otilde;es exteriores, gra&ccedil;as<br \/>\n    &agrave;s quais o amor carnal pode parecer ao crist&atilde;o perfeitamente<br \/>\n    inocente e leg&iacute;timo. Mas como na verdade a doutrina crist&atilde; n&atilde;o<br \/>\n    tem nenhuma base para a institui&ccedil;&atilde;o do casamento, resulta que<br \/>\n    as pessoas do mundo deixaram uma margem sem abordar &agrave; outra: eles n&atilde;o<br \/>\n    cr&ecirc;em no fundo nas disposi&ccedil;&otilde;es da Igreja que dizem respeito<br \/>\n    ao casamento, porque sentem que esta institui&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    tem fundamento na doutrina crist&atilde; e ao mesmo tempo perdem de vista<br \/>\n    o ideal de<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>Cristo, escondido pelo ensino da Igreja, a aspira&ccedil;&atilde;o para uma<br \/>\n    castidade absoluta, e ficam quanto ao casamento sem nenhuma direc&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Da&iacute; vem este fen&oacute;meno que a princ&iacute;pio pareceu estranho:<br \/>\n    entre os judeus, os maometanos, os lama&iacute;stas e outros que professam<br \/>\n    doutrinas religiosas de um n&iacute;vel muito mais baixo que o cristianismo,<br \/>\n    mas que t&ecirc;m regras exteriores do casamento precisas, o princ&iacute;pio<br \/>\n    filial e a fidelidade conjugal s&atilde;o incomparavelmente mais firmes que<br \/>\n    entre os nossos pretensos crist&atilde;os.<\/p>\n<p>Eles praticam uma concubinagem, uma poligamia regulamentada, fechada dentro<br \/>\n    de certos limites. Enquanto entre n&oacute;s, a desvergonha absoluta, a concubinagem,<br \/>\n    a poligamia e a poliandria, escapando a todas as regras, revestem o aspecto<br \/>\n    de uma monogamia imagin&aacute;ria.<\/p>\n<p>Unicamente porque, para uma certa classe o clero celebra, por dinheiro, uma<br \/>\n    determinada cerim&oacute;nia chamada matrim&oacute;nio crist&atilde;o. As<br \/>\n    pessoas do mundo ent&atilde;o, inocente ou hipocritamente, imaginam que vivem<br \/>\n    na monogamia.<\/p>\n<p>N&atilde;o houve nunca nem pode haver matrim&oacute;nio crist&atilde;o como<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; nem nunca poderia haver culto crist&atilde;o, nem professores<br \/>\n    ou padres crist&atilde;os, nem propriedade crist&atilde;, nem ex&eacute;rcito,<br \/>\n    nem justi&ccedil;a ou estados crist&atilde;os. Isto foi sempre compreendido<br \/>\n    p&ecirc;los verdadeiros crist&atilde;os dos primeiros s&eacute;culos e dos<br \/>\n    s&eacute;culos seguintes.<\/p>\n<p>O ideal crist&atilde;o &eacute; o amor de Deus e do pr&oacute;ximo, &eacute;<br \/>\n    a ren&uacute;ncia a si pr&oacute;prio para servir Deus e o pr&oacute;ximo;<br \/>\n    o amor carnal, o matrim&oacute;nio, n&atilde;o &eacute; servi&ccedil;o sen&atilde;o<br \/>\n    de si pr&oacute;prio e assim ele &eacute; em todos os casos um obst&aacute;culo<br \/>\n    ao servi&ccedil;o de Deus e os homens, por consequ&ecirc;ncia, sob o ponto<br \/>\n    de vista crist&atilde;o est&atilde;o em pecado. O facto de se contrair matrim&oacute;nio<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; prestar servi&ccedil;o a Deus nem mesmo no caso em que<br \/>\n    os contratantes t&ecirc;m como fim a propaga&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie.<br \/>\n    Em vez dessa gente contrair matrim&oacute;nio a fim de procriarem vidas infantis<br \/>\n    seria muito mais simples sustentar e salvar milhares de crian&ccedil;as que<br \/>\n    morrem &agrave; nossa volta &agrave; m&iacute;ngua de alimentos &#8212; j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o digo de alimento espiritual, mas material.<\/p>\n<p>Um crist&atilde;o n&atilde;o deveria contrair matrim&oacute;nio sem a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de pecado sen&atilde;o no caso em que ele visse e soubesse que a vida de todas<br \/>\n    as crian&ccedil;as que existem est&aacute; assegurada. Pode-se n&atilde;o<br \/>\n    aceitar a doutrina de Cristo, doutrina que impregna toda a nossa vida e sobre<br \/>\n    a qual assenta toda a moral; mas se se aceita n&atilde;o se pode negar que<br \/>\n    ela nos indica um ideal de perfeita castidade.<\/p>\n<p>Diz-se claramente no Evangelho e sem nenhuma possibilidade de outra interpreta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    primeiramente, que um homem casado n&atilde;o pode<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>repudiar a sua mulher para tomar outra mas deve viver com aquela &agrave;<br \/>\n    qual se uniu uma vez &#8212; segundo, que &eacute; pecado geral, e ent&atilde;o<br \/>\n    tanto para o homem casado como para o que o n&atilde;o &eacute;, considerar<br \/>\n    a mulher como um objecto de prazer; terceiro, que um homem n&atilde;o casado,<br \/>\n    melhor &eacute; n&atilde;o casar, quer dizer, deve guardar castidade.<\/p>\n<p>Para um grande n&uacute;mero estas ideias parecem estranhas e contradit&oacute;rias.<br \/>\n    Elas s&atilde;o realmente contradit&oacute;rias mas n&atilde;o entre si; elas<br \/>\n    contradizem toda a nossa vida, de tal modo que se levanta involuntariamente<br \/>\n    uma d&uacute;vida: quem tem raz&atilde;o? Estas ideias ou a vida de milh&otilde;es<br \/>\n    de seres, compreendendo a minha? Eu pr&oacute;prio tenho experimentado este<br \/>\n    sentimento no mais alto ponto quando cheguei &agrave;s convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a que cheguei e exponho nesta narrativa &#8212; nunca pensei que o desenvolvimento<br \/>\n    dos meus pensamentos me levasse at&eacute; aqui. Tive medo perante as minhas<br \/>\n    conclus&otilde;es e tentei n&atilde;o lhes juntar f&eacute;, mas era imposs&iacute;vel.<br \/>\n    Estas conclus&otilde;es contradizem toda a ordem da nossa vida, contradizem<br \/>\n    o que pensei e expus outrora, mas devo aceit&aacute;-las. N&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    sen&atilde;o considera&ccedil;&otilde;es gerais, s&atilde;o talvez justas,<br \/>\n    mas reportam-se &agrave; doutrina de Cristo e n&atilde;o obrigam sen&atilde;o<br \/>\n    aqueles que a professam; a vida &eacute; a vida e n&atilde;o se pode, depois<br \/>\n    de se ter mostrado o ideal inacess&iacute;vel de Cristo, abandonar os povos<br \/>\n    no seio de um dos problemas mais intensos, os mais gerais e os mais geradores<br \/>\n    de cat&aacute;strofes, s&oacute; com este ideal, sem nenhuma esp&eacute;cie<br \/>\n    de direc&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Um rapaz apaixonado ser&aacute;, a princ&iacute;pio, guiado por este ideal,<br \/>\n    mas n&atilde;o perseverar&aacute;; desligar-se-&aacute; dele, e sem conhecer,<br \/>\n    nem reconhecer outra regra, cair&aacute; no deboche.<\/p>\n<p>Assim se raciocina ordinariamente:<\/p>\n<p>&laquo;O ideal de Cristo &eacute; inacess&iacute;vel, portanto, n&atilde;o<br \/>\n    pode seguir-nos de guia na vida; pode-se falar dele e sonh&aacute;-lo mas<br \/>\n    n&atilde;o aplic&aacute;-lo &agrave; vida, portanto, &eacute; preciso abandon&aacute;-lo.<br \/>\n    O que nos &eacute; preciso n&atilde;o &eacute; um ideal, &eacute; uma regra,<br \/>\n    uma conduta correspondente &agrave;s nossas for&ccedil;as, ao n&iacute;vel<br \/>\n    m&eacute;dio das for&ccedil;as morais da nossa sociedade: o matrim&oacute;nio<br \/>\n    honesto da Igreja, ou mesmo o casamento n&atilde;o completamente honesto,<br \/>\n    no qual um dos contratantes, entre n&oacute;s o homem, se uniu j&aacute; a<br \/>\n    muitas mulheres, ou mesmo o casamento com possibilidade de div&oacute;rcio,<br \/>\n    ou mesmo o casamento civil, ou mesmo (se vamos por este caminho) o matrim&oacute;nio<br \/>\n    japon&ecirc;s a prazo&#8230; e porque n&atilde;o ent&atilde;o as casas de toler&acirc;ncia?<br \/>\n    Diz-se que vale mais do que a alicia&ccedil;&atilde;o na rua. &Eacute; justamente<br \/>\n    essa a desgra&ccedil;a: quando se pode baixar um ideal ao n&iacute;vel da<br \/>\n    sua pr&oacute;pria fraqueza, n&atilde;o se pode achar o limite onde devemos<br \/>\n    parar.&raquo;<\/p>\n<p>Este racioc&iacute;nio &eacute; falso desde o princ&iacute;pio; antes de<br \/>\n    mais nada &eacute; falso<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>dizer que um ideal de perfei&ccedil;&atilde;o absoluta n&atilde;o pode ser<br \/>\n    guia na vida e que devemos contemplando-o, ou renunciar a esse ideal, dizendo<br \/>\n    que nos n&atilde;o serve para nada porque n&atilde;o conseguimos atingi-lo,<br \/>\n    ou ent&atilde;o baix&aacute;-lo at&eacute; ao n&iacute;vel em que se mant&eacute;m<br \/>\n    a nossa fraqueza. Raciocinar assim &eacute; agir como um navegador que dissesse:<br \/>\n    Como n&atilde;o posso seguir a direc&ccedil;&atilde;o que me indica a b&uacute;ssola,<br \/>\n    vou deit&aacute;-la fora ou vou deixar de me guiar por ela, quer dizer abandonarei<br \/>\n    o meu ideal; ou melhor, ligarei a agulha da b&uacute;ssola ao lugar que corresponder&aacute;<br \/>\n    &agrave; marcha do navio, num movimento dado e assim baixarei o meu ideal<br \/>\n    ao n&iacute;vel da minha fraqueza.<\/p>\n<p>O ideal de perfei&ccedil;&atilde;o dado por Cristo, n&atilde;o &eacute; um<br \/>\n    sonho, nem assunto de discurso ret&oacute;rico, &eacute; guia necess&aacute;rio<br \/>\n    e acess&iacute;vel a todos da vida moral dos homens, da mesma maneira que<br \/>\n    a b&uacute;ssola &eacute; um guia necess&aacute;rio e acess&iacute;vel da<br \/>\n    navega&ccedil;&atilde;o; somente o que &eacute; necess&aacute;rio &eacute;<br \/>\n    acreditar tanto num como noutro.<\/p>\n<p>Em qualquer situa&ccedil;&atilde;o que se encontre um homem encontrar&aacute;<br \/>\n    sempre na doutrina crist&atilde; as directivas mais seguras quanto aos actos<br \/>\n    que lhe conv&eacute;m ou n&atilde;o realizar &#8212; mas &eacute; preciso<br \/>\n    acreditar completamente nesses ensinamentos, deixar de acreditar nos ensinamentos<br \/>\n    de outras doutrinas, da mesma maneira que o navegador deve acreditar na b&uacute;ssola,<br \/>\n    e cessar de examinar o que v&ecirc; ao lado dele. &Eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    sabermo-nos guiar com o aux&iacute;lio da doutrina crist&atilde; como com<br \/>\n    o aux&iacute;lio da b&uacute;ssola e para isto &eacute; preciso antes de mais<br \/>\n    nada compreender a sua situa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o temer de determinar<br \/>\n    com precis&atilde;o a dist&acirc;ncia que nos separa da direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ideal dada. Em qualquer n&iacute;vel que se encontre um homem, h&aacute; sempre<br \/>\n    para ele uma possibilidade de se aproximar deste ideal &#8212; e n&atilde;o<br \/>\n    pode haver para ele situa&ccedil;&atilde;o em que possa dizer que atingiu<br \/>\n    o ideal e n&atilde;o possa aspirar a aproximar-se cada vez mais. Tal &eacute;<br \/>\n    a tend&ecirc;ncia do homem para o ideal crist&atilde;o em geral e para a castidade<br \/>\n    em particular.<\/p>\n<p>Se considerarmos, no que diz respeito ao problema sexual, as mais diferentes<br \/>\n    situa&ccedil;&otilde;es (desde a inf&acirc;ncia at&eacute; ao casamento),<br \/>\n    nas quais n&atilde;o se observa a contin&ecirc;ncia, em cada passo, entre<br \/>\n    estas duas posi&ccedil;&otilde;es, a doutrina de Cristo e o ideal que nela<br \/>\n    se exp&otilde;e servir&aacute; sempre de guia claro e preciso para o que o<br \/>\n    homem deve ou n&atilde;o deve fazer em cada um desses passos.<\/p>\n<p>Como devem proceder um adolescente e uma rapariga pura? Evitar as tenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a fim de poder consagrar-se completamente ao servi&ccedil;o de Deus e dos<br \/>\n    homens, e tender para uma pureza cada vez maior em pensamento e desejo.<\/p>\n<p>Que devem fazer um adolescente e uma rapariga que sucumbiram &agrave;s<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>tenta&ccedil;&otilde;es, absorvidos pelo pensamento de um amor sem objecto,<br \/>\n    ou de um amor por um ser determinado, e tendo perdido, de facto uma parte<br \/>\n    da faculdade de servir a Deus e aos homens? A mesma coisa: n&atilde;o renovar<br \/>\n    a queda sabendo que &laquo;deixar ir&raquo;, longe de os libertar da tenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o faz mais do que refor&ccedil;&aacute;-la, e tender sempre da mesma<br \/>\n    maneira para uma pureza cada vez maior a fim de poder servir plenamente Deus<br \/>\n    e os homens.<\/p>\n<p>Que devem fazer os que se deixaram vencer nesta luta e que ca&iacute;ram?<br \/>\n    Considerar a sua queda n&atilde;o como uma alegria leg&iacute;tima, como se<br \/>\n    faz agora quando essa queda &eacute; absolvida pelo rito do casamento, nem<br \/>\n    como prazer acidental que se pode repetir como outros, nem como uma desgra&ccedil;a<br \/>\n    quando a queda se consumou com um ser que n&atilde;o &eacute; nosso igual<br \/>\n    e sem rito, mas considerar esta primeira queda como a &uacute;nica, como a<br \/>\n    conclus&atilde;o de um casamento indissol&uacute;vel. O facto de contrair<br \/>\n    casamento acarretando uma consequ&ecirc;ncia: a concep&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    filhos, determina para os esposos uma nova forma mais limitada do servi&ccedil;o<br \/>\n    de Deus e dos homens. Antes do casamento, o homem, directamente, sob as formas<br \/>\n    mais variadas, podia servir a Deus e aos homens; o facto de contrair casamento<br \/>\n    reduz o seu raio de ac&ccedil;&atilde;o e obriga-o a criar e a educar a sua<br \/>\n    descend&ecirc;ncia, composta de futuros servidores de Deus e dos homens.<\/p>\n<p>Que devem fazer um homem e uma mulher que vivam no casamento, e completam<br \/>\n    este servi&ccedil;o limitado de Deus e dos homens, atrav&eacute;s da educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da instru&ccedil;&atilde;o dos filhos que derivam da sua posi&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>A mesma coisa: aspirar em conjunto a libertar-se das tenta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a purificar-se, a abster-se de pecar, a substituir as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    conjugais, que se op&otilde;em ao servi&ccedil;o geral e particular de Deus<br \/>\n    e dos homens; substituir o amor carnal pelas rela&ccedil;&otilde;es puras<br \/>\n    de um homem e de uma irm&atilde;.<\/p>\n<p>&Eacute; por isso que &eacute; falso dizer que n&atilde;o podemos guiar-nos<br \/>\n    segundo o ideal de Cristo porque &eacute; demasiado elevado, demasiado perfeito<br \/>\n    e inacess&iacute;vel; se n&atilde;o nos podemos guiar segundo o ideal de Cristo,<br \/>\n    &eacute; unicamente porque mentimos a n&oacute;s pr&oacute;prios e nos procuramos<br \/>\n    enganar.<\/p>\n<p>Com efeito, quando dizemos que temos necessidade de regras mais pratic&aacute;veis<br \/>\n    que o ideal de Cristo e que de outro modo, porque n&atilde;o podemos atingir<br \/>\n    esse ideal, ca&iacute;mos no deboche, n&atilde;o dizemos que o ideal de Cristo<br \/>\n    &eacute; demasiado elevado para n&oacute;s mas somente que n&atilde;o acreditamos<br \/>\n    na nossa vontade de conformar os nossos actos com os seus ensinamentos.<\/p>\n<p>Dizendo que uma vez ca&iacute;dos, tornaremos a cair no deboche, dizemos<br \/>\n    somente que antecipadamente, t&iacute;nhamos j&aacute; decidido que a queda<br \/>\n    com uma inferior n&atilde;o &eacute; um pecado, mas um divertimento, um arrebatamento<br \/>\n    que n&atilde;o<\/p>\n<p>&nbsp; <\/p>\n<p>somos obrigados a reparar por aquilo a que chamamos casamento. Em contrapartida,<br \/>\n    se compreend&ecirc;ssemos que a queda &eacute; um pecado que deve ser resgatado<br \/>\n    e n&atilde;o pode s&ecirc;-lo sen&atilde;o pela indissolubilidade do casamento<br \/>\n    e por toda a actividade que ressalta da educa&ccedil;&atilde;o dos filhos<br \/>\n    nascidos desse casamento, da queda n&atilde;o poderia jamais resultar a reca&iacute;da<br \/>\n    no deboche. &Eacute; exactamente como se um cultivador recusasse o nome de<br \/>\n    sementeira &agrave;s sementeiras que n&atilde;o tivessem resultado e n&atilde;o<br \/>\n    chamasse verdadeiras sementeiras, depois de semear v&aacute;rias terras, sen&atilde;o<br \/>\n    &agrave;s que tivessem germinado.<\/p>\n<p>Visivelmente este homem malbarataria muitas terras e sementeiras e nunca<br \/>\n    aprenderia a semear.<\/p>\n<p>Fazei da castidade um ideal, considerai que toda a queda de quem quer que<br \/>\n    seja, com quem quer que seja, &eacute; um casamento &uacute;nico e indissol&uacute;vel<br \/>\n    para toda a vida e ser&aacute; evidente que a linha de conduta que nos deu<br \/>\n    Cristo &eacute; n&atilde;o s&oacute; suficiente mas a &uacute;nica poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>O homem &eacute; fraco, &eacute; preciso dar-lhe uma tarefa segundo as suas<br \/>\n    for&ccedil;as, diz o povo. Isto quer exactamente dizer: os meus bra&ccedil;os<br \/>\n    s&atilde;o fracos e n&atilde;o posso seguir a linha que deveria ser direita<br \/>\n    &#8212; isto &eacute;, a mais curta dist&acirc;ncia de um ponto a outro; contudo,<br \/>\n    para me consolar, desejando seguir essa linha directa, vou tomar como modelo<br \/>\n    uma linha curva ou quebrada. Quanto mais fraco &eacute; o bra&ccedil;o, maior<br \/>\n    &eacute; a necessidade de um modelo perfeito.<\/p>\n<p>Desde que uma vez se compreendeu a doutrina crist&atilde; do ideal, n&atilde;o<br \/>\n    se pode proceder como se a desconhec&ecirc;ssemos e substitu&iacute;-la por<br \/>\n    regras exteriores. A doutrina crist&atilde; do ideal foi revelada &agrave;<br \/>\n    humanidade precisamente porque pode dirigi-la na idade que ela agora atingiu.<br \/>\n    A humanidade ultrapassou o per&iacute;odo das regras religiosas exteriores<br \/>\n    mas ningu&eacute;m acredita nisso. A doutrina crist&atilde; do ideal &eacute;<br \/>\n    a &uacute;nica doutrina capaz de conduzir a humanidade. N&atilde;o se pode,<br \/>\n    n&atilde;o se deve substituir o ideal de Cristo por regras exteriores, &eacute;<br \/>\n    preciso, ao contr&aacute;rio, manter firmemente este ideal diante de si, em<br \/>\n    toda a sua pureza e sobretudo acreditar. A um homem que navegue perto da margem<br \/>\n    poder-se-ia dizer: orienta-te por esta imin&ecirc;ncia, por este cabo, por<br \/>\n    esta torre, etc. Mas chega o momento em que o navegador se afasta da margem,<br \/>\n    onde s&oacute; os astros s&atilde;o acess&iacute;veis e a b&uacute;ssola que<br \/>\n    lhe indica a direc&ccedil;&atilde;o devem e podem servir-lhe de guia.<\/p>\n<p>S&atilde;o-nos dados um e outro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII 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