{"id":108520,"date":"2017-02-13T10:06:27","date_gmt":"2017-02-13T12:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108520"},"modified":"2017-02-13T10:18:51","modified_gmt":"2017-02-13T12:18:51","slug":"tres-mortes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tres-mortes","title":{"rendered":"Tr\u00eas Mortes"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"399\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Era outono. Pela estrada real duas carruagens seguiam a trote r&aacute;pido.<br \/>\n    Na da frente viajavam duas mulheres. Uma, a senhora, magra e p&aacute;lida.<br \/>\n    A outra, a criada, gorda e de um corado lustroso. Seus cabelos curtos e ressecados<br \/>\n    brotavam por baixo do chap&eacute;u desbotado, e a m&atilde;o avermelhada,<br \/>\n    coberta por uma luva pu&iacute;da, ajeitava-os com gestos bruscos. <\/p>\n<p>O busto volumoso, envolto num len&ccedil;o r&uacute;stico, transpirava sa&uacute;de;<br \/>\n    os olhos negros e vivazes ora espiavam pela janela os campos fugidios, ora<br \/>\n    observavam timidamente a senhora, ora lan&ccedil;avam olhares inquietos para<br \/>\n    os cantos da carruagem. <\/p>\n<p>A criada tinha bem ao nariz o chap&eacute;u da senhora pendurado no bagageiro,<br \/>\n    um c&atilde;ozinho deitado nos joelhos, os p&eacute;s acima dos bauzinhos<br \/>\n    dispostos no ch&atilde;o, tamborilando sobre eles, em sons quase abafados<br \/>\n    pelo ru&iacute;do dos solavancos das molas e do tilintar dos vidros.<\/p>\n<p>De m&atilde;os cruzadas sobre os joelhos e de olhos fechados, a senhora balou&ccedil;ava<br \/>\n    levemente nas almofadas que lhe serviam de apoio e, com um leve franzir de<br \/>\n    cenho, dava tossidelas fundas. Tinha na cabe&ccedil;a uma touquinha branca<br \/>\n    de dormir e um lencinho azul celeste envolto no pesco&ccedil;o p&aacute;lido<br \/>\n    e delicado. Uma risca brotava abaixo da touquinha &eacute; repartia os cabelos<br \/>\n    ru&ccedil;os, excessivamente lisos e empastados; havia qualquer coisa de seco<br \/>\n    e morti&ccedil;o na brancura do couro daquela vasta risca. A pele murcha,<br \/>\n    um tanto amarelada, mal conseguia modelar suas fei&ccedil;&otilde;es belas<br \/>\n    e esguias, que ganhavam um tom vermelho nas ma&ccedil;&atilde;s do rosto.<br \/>\n    Os l&aacute;bios secos mexiam-se intranq&uuml;ilos, as ralas pestanas n&atilde;o<br \/>\n    se encrespavam, e o sobretudo de viagem formava rugas entre os seios encovados.<br \/>\n    Mesmo de olhos fechados, o rosto da senhora expressava cansa&ccedil;o, irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e um sofrimento que lhe era familiar.<\/p>\n<p>Recostado em seu banco, o criado cochilava na bol&eacute;ia; o postilh&atilde;o<br \/>\n    gritava animado e fustigava a possante quadriga suada; vez por outra espreitava<br \/>\n    o outro cocheiro, que gritava de tr&aacute;s, da cale&ccedil;a. As marcas<br \/>\n    paralelas e largas das rodas se estendiam n&iacute;tidas e iguais pelo calc&aacute;rio<br \/>\n    lamacento da estrada. O c&eacute;u estava cinzento e frio; a bruma &uacute;mida<br \/>\n    espalhava-se pelos campos e pela estrada.A carruagem estava abafada e recendia<br \/>\n    poeira e &aacute;gua-de-col&ocirc;nia. A doente inclinou a cabe&ccedil;a para<br \/>\n    tr&aacute;s e abriu devagar os olhos, grandes, brilhantes, de uma bela tonalidade<br \/>\n    escura.<\/p>\n<p>&quot;Outra vez!&quot; &mdash; disse ela, repelindo nervosamente com a m&atilde;o<br \/>\n    bonita e magra a ponta da saia da criada, que lhe ro&ccedil;ava de leve a<br \/>\n    perna, e torceu a boca de dor. Matriocha recolheu a saia com ambas as m&atilde;os,<br \/>\n    soergueu as pernas robustas e sentou-se mais afastada. Um corado vivo cobriu-lhe<br \/>\n    o rosto vi&ccedil;oso. Os belos olhos escuros da doente fitavam ansiosos os<br \/>\n    movimentos da criada. A senhora apoiou as m&atilde;os no banco e quis tamb&eacute;m<br \/>\n    soerguer-se para se sentar mais alto, mas faltaram-lhe for&ccedil;as. A boca<br \/>\n    se contorceu e todo o rosto ficou desfigurado por uma express&atilde;o de<br \/>\n    ironia impotente e mal&eacute;vola. &quot;Pelo menos voc&ecirc; devia me ajudar&#8230;<br \/>\n    Ah, n&atilde;o &eacute; preciso! Eu mesma fa&ccedil;o, s&oacute; que n&atilde;o<br \/>\n    ponha atr&aacute;s de mim essas suas sacolas, fa&ccedil;a o favor!&#8230; &Eacute;<br \/>\n    melhor mesmo que n&atilde;o me toque, j&aacute; que n&atilde;o leva jeito.&quot;<br \/>\n    A senhora fechou os olhos e mais uma vez ergueu as p&aacute;lpebras, observando<br \/>\n    a criada. Matriocha mordia o l&aacute;bio inferior avermelhado, olhando para<br \/>\n    ela. O peito da doente exalou um suspiro fundo que, antes de terminar, transformou-se<br \/>\n    em tosse. Ela se virou, encolheu-se e agarrou-se ao peito com ambas as m&atilde;os.<br \/>\n    Quando a tosse passou, tornou a fechar os olhos e permaneceu sentada sem se<br \/>\n    mexer. A carruagem e a cale&ccedil;a chegaram &agrave; aldeia. Matriocha tirou<br \/>\n    a m&atilde;o roli&ccedil;a do len&ccedil;o e se benzeu.<\/p>\n<p>&mdash; O que &eacute; isso? &mdash; perguntou a senhora.<\/p>\n<p>&mdash; A esta&ccedil;&atilde;o de posta, senhora.<\/p>\n<p>&mdash; E por que voc&ecirc; est&aacute; se benzendo?<\/p>\n<p>&mdash; Tem uma igreja, senhora.<\/p>\n<p>A doente voltou-se para a janela e come&ccedil;ou a se benzer lentamente,<br \/>\n    com os olhos bem gra&uacute;dos fitos numa grande igreja de madeira que a<br \/>\n    carruagem contornava.<\/p>\n<p>Os dois ve&iacute;culos pararam em frente &agrave; esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O marido da doente e o m&eacute;dico desceram da cale&ccedil;a e se aproximaram<br \/>\n    da carruagem.<\/p>\n<p>&mdash; Como a senhora se sente? &mdash; perguntou o m&eacute;dico, tomando-lhe<br \/>\n    o pulso.<\/p>\n<p>&mdash; E ent&atilde;o, como est&aacute;, minha cara, n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    cansada? &mdash; perguntou o marido em franc&ecirc;s. &mdash; N&atilde;o quer<br \/>\n    descer?<\/p>\n<p>Matriocha juntou as trouxas e encolheu-se num canto para n&atilde;o atrapalhar<br \/>\n    a conversa.<\/p>\n<p>&mdash; Mais ou menos&#8230; na mesma &mdash; respondeu a doente. &mdash; N&atilde;o<br \/>\n    vou descer.<\/p>\n<p>O marido foi para a esta&ccedil;&atilde;o, depois de ficar um pouco com a<br \/>\n    mulher. Matriocha desceu do carro e correu pela lama para a entrada do edif&iacute;cio,<br \/>\n    nas pontas dos p&eacute;s.<\/p>\n<p>&mdash; Se eu estou mal, isto n&atilde;o &eacute; raz&atilde;o para o senhor<br \/>\n    n&atilde;o tomar o seu caf&eacute; &mdash; disse a senhora, com um leve sorriso,<br \/>\n    ao m&eacute;dico postado &agrave; janela.<\/p>\n<p>&mdash; Nenhum deles se importa comigo &mdash; disse consigo mesma, mal o<br \/>\n    m&eacute;dico se afastou devagarzinho e subiu correndo a escada da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &mdash; Eles est&atilde;o bem, o resto n&atilde;o tem import&acirc;ncia. Oh,<br \/>\n    meu Deus!<\/p>\n<p>&mdash; E ent&atilde;o, Edvard Iv&aacute;novitch? &mdash; disse o marido<br \/>\n    ao encontrar o m&eacute;dico, esfregando as m&atilde;os com um sorriso jovial.<br \/>\n    Ordenei que trouxessem alguma provis&atilde;o, o que o senhor acha?<\/p>\n<p>&mdash; Pode ser.<\/p>\n<p>&mdash; E ela, como est&aacute;? &mdash; perguntou suspiroso o marido, baixando<br \/>\n    a voz e levantando as sobrancelhas.<\/p>\n<p>&mdash; Eu disse: ela n&atilde;o vai conseguir chegar, e n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    at&eacute; a It&aacute;lia: queira Deus que chegue a Moscou. Ainda mais com<br \/>\n    esse tempo.<\/p>\n<p>&mdash; E o que &eacute; que n&oacute;s vamos fazer? Ah, meu Deus! Meu Deus!<br \/>\n    &mdash; o marido tapou os olhos com as m&atilde;os.<\/p>\n<p>&mdash;Traga aqui &mdash; acrescentou ele para o homem que carregava as provis&otilde;es.<\/p>\n<p>&mdash; Ela deveria ter ficado &mdash; respondeu o m&eacute;dico, dando de<br \/>\n    ombros.<\/p>\n<p>&mdash; Agora me diga, o que &eacute; que eu podia fazer? &mdash; objetou<br \/>\n    o marido. &mdash; Ora, eu fiz de tudo para det&ecirc;-la, falei dos recursos,<br \/>\n    das crian&ccedil;as que n&oacute;s ter&iacute;amos de deixar, e dos meus neg&oacute;cios;<br \/>\n    ela n&atilde;o quer dar ouvidos a nada. Fica fazendo planos de vida no estrangeiro<br \/>\n    como se estivesse com sa&uacute;de. E fosse eu falar do seu estado&#8230; seria<br \/>\n    o mesmo que mat&aacute;-la.<\/p>\n<p>&mdash; Mas ela j&aacute; est&aacute; morta, o senhor precisa saber disso,<br \/>\n    Vassili Dm&iacute;tritch. Uma pessoa n&atilde;o pode viver quando n&atilde;o<br \/>\n    tem pulm&otilde;es, e os pulm&otilde;es n&atilde;o tornam a crescer. &Eacute;<br \/>\n    triste, duro, mas o que se vai fazer? O meu e o seu problema &eacute; fazer<br \/>\n    com que o fim dela seja o mais tranq&uuml;ilo poss&iacute;vel. N&oacute;s<br \/>\n    precisamos &eacute; de um confessor.<\/p>\n<p>&mdash; Ai meu Deus! Mas o senhor entenda a minha situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na hora de lembrar a ela esta sua &uacute;ltima vontade. Aconte&ccedil;a o<br \/>\n    que acontecer, isso eu n&atilde;o vou dizer a ela. O senhor bem sabe como<br \/>\n    ela &eacute; bondosa&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; Mesmo assim tente convenc&ecirc;-la a ficar at&eacute; o final do<br \/>\n    inverno, &mdash; disse o m&eacute;dico, meneando a cabe&ccedil;a com ar expressivo<br \/>\n    &mdash; sen&atilde;o pode acontecer o pior na viagem&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; Aksiucha! Ei, Aksiucha! &mdash; grunhiu a filha do chefe da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    jogando um len&ccedil;o sobre a cabe&ccedil;a e pisando no alpendre enlameado<br \/>\n    nos fundos da casa. &mdash; Vamos espiar a senhora de Chirkin, dizem que est&aacute;<br \/>\n    doente do peito e que est&atilde;o levando para o estrangeiro. Eu nunca vi<br \/>\n    como &eacute; uma t&iacute;sica.<\/p>\n<p>Aksiucha correu para a soleira da porta e ambas precipitaram-se port&atilde;o<br \/>\n    afora de m&atilde;os dadas. Encurtando a marcha, passaram diante da carruagem<br \/>\n    e espiaram atrav&eacute;s da janela aberta.A doente voltou o rosto para elas<br \/>\n    mas, percebendo-lhes a curiosidade, franziu o cenho e virou-se para o outro<br \/>\n    lado.<\/p>\n<p>&mdash; Mm-&atilde;e-zinha! &mdash; disse a filha do chefe da posta, voltando<br \/>\n    rapidamente a cabe&ccedil;a. &mdash; Que encanto de beleza deve ter sido;<br \/>\n    agora vejam o que sobrou dela! D&aacute; at&eacute; medo. Viu, viu, Aksiucha?<\/p>\n<p>&mdash; Sim, como est&aacute; mal! &mdash; Aksiucha fez coro com a mo&ccedil;a.<br \/>\n    &mdash; Vamos dar mais uma olhada, a gente faz que est&aacute; indo para o<br \/>\n    po&ccedil;o.Voc&ecirc; percebeu? Ela deu as costas, mas eu vi. Que d&oacute;,<br \/>\n    Macha.<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute;, e que lama! &mdash; respondeu Macha, e as duas correram<br \/>\n    para o port&atilde;o.<\/p>\n<p>&mdash; Pelo visto, estou com uma apar&ecirc;ncia horr&iacute;vel &mdash;<br \/>\n    pensou a doente. &mdash; Eu s&oacute; preciso chegar mais r&aacute;pido, mais<br \/>\n    r&aacute;pido ao estrangeiro, l&aacute; eu me curo.<\/p>\n<p>&mdash; E ent&atilde;o, minha cara, como est&aacute;? &mdash; disse o marido,<br \/>\n    ao se aproximar da carruagem mastigando.<\/p>\n<p>&mdash; A mesma pergunta de sempre. E comendo! &mdash; pensou ela. &mdash;<br \/>\n    Mais ou menos&#8230; &mdash; falou entre dentes.<\/p>\n<p>&mdash; Sabe de uma coisa, minha cara, receio que, com esse tempo, voc&ecirc;<br \/>\n    piore no caminho; Edvard Ivanitch tamb&eacute;m acha. N&atilde;o seria o caso<br \/>\n    de voltar?<\/p>\n<p>Ela calava, emburrada.<\/p>\n<p>&mdash; Pode ser que o tempo melhore, que a estrada fique boa e que voc&ecirc;<br \/>\n    se recupere; e a&iacute; poder&iacute;amos ir juntos.<\/p>\n<p>&mdash; Desculpe, mas se por muito tempo n&atilde;o tivesse lhe dado ouvidos,<br \/>\n    eu estaria agora em Berlim e totalmente curada.<\/p>\n<p>&mdash; Mas o que eu podia fazer, meu anjo? Era imposs&iacute;vel, voc&ecirc;<br \/>\n    sabe. Mas agora, se ficasse por um m&ecirc;s, ao menos, iria se recuperar<br \/>\n    prontamente; eu terminaria meus neg&oacute;cios, levar&iacute;amos as crian&ccedil;as&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; As crian&ccedil;as est&atilde;o com sa&uacute;de, eu n&atilde;o.<\/p>\n<p>&mdash; Veja se entende, minha cara, com um tempo desses, se voc&ecirc; piorar<br \/>\n    na viagem&#8230; pelo menos voc&ecirc; estaria em casa.<\/p>\n<p>&mdash; Em casa, o qu&ecirc;? Pra morrer? &mdash; respondeu a doente irritada.<br \/>\n    Mas a palavra &quot;morrer&quot; pelo visto a assustou, e ela olhou para o<br \/>\n    marido com ar de s&uacute;plica e interroga&ccedil;&atilde;o. Ele baixou o<br \/>\n    olhar e calou. De repente, a doente fez um beicinho infantil, e l&aacute;grimas<br \/>\n    lhe saltaram dos olhos. O marido cobriu o rosto com o len&ccedil;o e afastou-se<br \/>\n    da carruagem.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o, eu vou&quot; &mdash; disse a doente, levantando os olhos<br \/>\n    para o c&eacute;u, juntando as m&atilde;os e murmurando palavras desconexas.<br \/>\n    &quot;Meu Deus! Por qu&ecirc;?&quot; &mdash; dizia ela, e as l&aacute;grimas<br \/>\n    corriam ainda mais intensas. Rezou por muito tempo com ardor, mas no peito,<br \/>\n    a mesma dor e opress&atilde;o, no c&eacute;u, nos campos e na estrada, o mesmo<br \/>\n    tom cinzento e sombrio, e a mesma bruma de outono, nem mais nem menos rarefeita,<br \/>\n    derramando-se do mesmo jeito sobre a lama da estrada, os telhados, a carruagem<br \/>\n    e os tulups dos cocheiros, que discutiam em voz alta, alegres, enquanto lubrificavam<br \/>\n    e preparavam a carruagem&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>A carruagem estava atrelada, mas o cocheiro fazia hora. Ele havia passado<br \/>\n    pela isb&aacute; dos cocheiros. A isb&aacute; estava quente, abafada, escura,<br \/>\n    com um ar pesado, um cheiro de lugar habitado, de p&atilde;o assado, repolho<br \/>\n    e pele de carneiro. Havia alguns cocheiros no c&ocirc;modo, uma cozinheira<br \/>\n    ocupava-se no forno e, em cima deste, um doente estava deitado, coberto por<br \/>\n    uma pele de carneiro.<\/p>\n<p>&mdash; Tio Khvi&eacute;dor! &Ocirc;, tio Khvi&eacute;dor! &mdash; disse<br \/>\n    o jovem cocheiro vestido de tulup, com um chicote no cinto, entrando no c&ocirc;modo<br \/>\n    e dirigindo-se ao doente.<\/p>\n<p>&mdash; O que &eacute; que tu vai querer com o Fi&eacute;dka, seu vadio?<br \/>\n    &mdash; perguntou um dos cocheiros. &mdash; Olha s&oacute;, t&atilde;o te<br \/>\n    esperando na carruagem&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; Quero pedir as botas dele; as minhas se acabaram &mdash; respondeu<br \/>\n    o rapaz, jogando os cabelos para tr&aacute;s e ajeitando as luvas no cinto.<\/p>\n<p>&mdash; Que que &eacute;? &mdash; do forno ouviu-se uma voz fraca, e um rosto<br \/>\n    magro, de barba ruiva, espiou. A m&atilde;o larga, descarnada e branca, coberta<br \/>\n    de p&ecirc;los, enfiava uma samarra nos ombros cobertos por um camisol&atilde;o<br \/>\n    sujo. &mdash; Me d&aacute; alguma coisa pra beber, irm&atilde;o; o que que<br \/>\n    &eacute;?<\/p>\n<p>O rapaz lhe serviu uma caneca de &aacute;gua.<\/p>\n<p>&mdash; Sabe o que &eacute;, F&eacute;dia, &mdash; disse ele, indeciso &mdash;<br \/>\n    pelo visto tu n&atilde;o vai precisar das botas novas agora; d&aacute; pra<br \/>\n    mim, pelo visto tu n&atilde;o vai andar.<\/p>\n<p>O doente tombou a cabe&ccedil;a cansada sobre a caneca reluzente, molhou<br \/>\n    os bigodes ralos e ca&iacute;dos na &aacute;gua escura e bebeu sem for&ccedil;as.<br \/>\n    A barba emaranhada estava suja; os olhos fundos, embotados, levantaram-se<br \/>\n    com dificuldade para o rosto do rapaz. Depois de beber, ele afastou a &aacute;gua<br \/>\n    e quis levantar as m&atilde;os para enxugar os l&aacute;bios &uacute;midos,<br \/>\n    mas n&atilde;o conseguiu e enxugou-as na manga da samarra. Calado e respirando<br \/>\n    com dificuldade pelo nariz, olhava o rapaz direto nos olhos, reunindo for&ccedil;as.<\/p>\n<p>&mdash; Pode ser que tu j&aacute; tenha prometido a algu&eacute;m &mdash;<br \/>\n    disse o rapaz. &mdash; O problema &eacute; que l&aacute; fora est&aacute;<br \/>\n    &uacute;mido, e como eu tenho que ir pro trabalho, pensei com meus bot&otilde;es:<br \/>\n    eu pego e pe&ccedil;o as botas do Fi&eacute;dka; pelo jeito ele n&atilde;o<br \/>\n    vai precisar. Agora, se tu precisar, ent&atilde;o tu diz&#8230;<\/p>\n<p>No peito do doente alguma coisa come&ccedil;ou a vibrar e roncar; ele inclinou-se<br \/>\n    e uma intermin&aacute;vel tosse de garganta o sufocou.<\/p>\n<p>&mdash; Pra que vai precisar? &mdash; trovejou de repente por toda a isb&aacute;<br \/>\n    a voz da cozinheira zangada. &mdash; Faz uns dois meses que ele n&atilde;o<br \/>\n    sai do forno. T&aacute; vendo, t&aacute; se arrebentando, at&eacute; as entranhas<br \/>\n    dele doem, escuta s&oacute;. Como &eacute; que ele vai precisar das botas?<br \/>\n    Ningu&eacute;m vai enterr&aacute;-lo com botas novas. J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; sem tempo, Deus que me perdoe.T&aacute; vendo, t&aacute; se arrebentando.<br \/>\n    Ou ent&atilde;o que algu&eacute;m leve ele daqui pra outra isb&aacute; ou<br \/>\n    pra outro lugar! Diz que na cidade tem esse tipo de hospital; isso &eacute;<br \/>\n    coisa que se fa&ccedil;a, ocupar o canto todo&#8230; chega! N&atilde;o se tem<br \/>\n    espa&ccedil;o pra nada. E ainda por cima, ficam me cobrando limpeza.<br \/>\n    &mdash; Ei, Serioga v&aacute; para a carruagem, os senhores est&atilde;o esperando<br \/>\n    &mdash; gritou da porta o chefe da esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Serioga queria ir sem esperar resposta, mas o doente, tossindo, deu-lhe a<br \/>\n    entender com os olhos que queria dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&mdash; Pega as botas, Serioga &mdash; disse ele, contendo a tosse e descansando<br \/>\n    um pouco. &mdash; S&oacute; que tu me compra uma campa, porque eu t&ocirc;<br \/>\n    morrendo&#8230; &mdash; acrescentou roncando.<\/p>\n<p>&mdash; Obrigado, tio, ent&atilde;o eu levo; e a campa, t&aacute;, t&aacute;,<br \/>\n    eu compro!<\/p>\n<p>&mdash; Bem, meninos, voc&ecirc;s ouviram &mdash; ainda conseguiu dizer o<br \/>\n    doente, e tornou a se curvar sufocado.<br \/>\n    &mdash; T&aacute; bem, ouvimos &mdash; respondeu um dos cocheiros. &mdash;<br \/>\n    Vai, Serioga, vai pra carruagem, sen&atilde;o o chefe vem te chamar outra<br \/>\n    vez. A senhora de Chirkin t&aacute; l&aacute; doente.<\/p>\n<p>Serioga tirou depressa as imensas botas furadas e jogou-as debaixo de um<br \/>\n    banco. As botas novas do tio Fi&oacute;dor eram precisamente o seu n&uacute;mero,<br \/>\n    e ele foi para a carruagem, admirando-as.<\/p>\n<p>&mdash; &Ecirc;ta beleza de botas! Deixa eu engraxar &mdash; disse um cocheiro<br \/>\n    com graxa na m&atilde;o, enquanto Serioga subia na bol&eacute;ia e tomava<br \/>\n    as r&eacute;deas. &mdash; Deu de gra&ccedil;a?<\/p>\n<p>&mdash; Ah, invejoso! &mdash; respondeu Serioga, aprumando-se e juntando<br \/>\n    as pontas do casaco junto aos p&eacute;s. &mdash; Eia, vamos, belezas! &mdash;<br \/>\n    gritou para os cavalos, agitando o chicote; carruagem e cale&ccedil;a, com<br \/>\n    seus passageiros, malas e bagagens, sa&iacute;ram em disparada pela estrada<br \/>\n    molhada, sumindo na bruma cinzenta de outono.<\/p>\n<p>O cocheiro doente permaneceu sobre o forno da isb&aacute; abafada e, sem<br \/>\n    conseguir escarrar, virou-se a muito custo para o outro lado e ficou quieto.<\/p>\n<p>At&eacute; o cair da tarde, gente chegava, comia, sa&iacute;a da isb&aacute;;<br \/>\n    e n&atilde;o se ouvia sinal do doente. Ao anoitecer, a cozinheira subiu no<br \/>\n    forno e puxou a samarra por cima das pernas dele.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o fica zangada comigo, Nast&aacute;cia, &mdash; disse o<br \/>\n    doente &mdash; logo vou deixar este teu canto.<\/p>\n<p>&mdash; T&aacute; bem, t&aacute; bem, deixa pra l&aacute; &mdash; murmurou<br \/>\n    Nast&aacute;cia. &mdash; Onde &eacute; que d&oacute;i, tio? Me diz.<\/p>\n<p>&mdash; Uma dor insuport&aacute;vel por dentro. S&oacute; Deus sabe.<\/p>\n<p>&mdash; Na certa a garganta tamb&eacute;m d&oacute;i, tu tosse tanto!<\/p>\n<p>&mdash; D&oacute;i tudo. Minha hora chegou, &eacute; isso. Oh, oh, oh! &mdash;<br \/>\n    gemeu o doente.<\/p>\n<p>&mdash; Cobre as pernas assim &mdash; disse Nast&aacute;cia, ajeitando a<br \/>\n    samarra sobre ele, ao descer do forno.<\/p>\n<p>&Agrave; noite, uma lamparina iluminava fracamente a isb&aacute;. Nast&aacute;cia<br \/>\n    e uns dez cocheiros roncavam alto pelo ch&atilde;o e pelos bancos. S&oacute;<br \/>\n    o doente gemia fraquinho, tossia e revirava-se no forno. Ao amanhecer, aquietou-se<br \/>\n    de vez.<\/p>\n<p>&mdash; Estranho o que eu vi esta noite em sonho &mdash; disse a cozinheira,<br \/>\n    espregui&ccedil;ando-se na penumbra da manh&atilde; seguinte. &mdash; Vejo<br \/>\n    como se o tio Khvi&eacute;dor tivesse descendo do forno e saindo pra rachar<br \/>\n    lenha. &quot;N&aacute;stia&quot;, diz ele, &quot;deixa eu te ajudar&quot;;<br \/>\n    e eu pra ele: &quot;Como &eacute; que tu vai rachar lenha?&quot;, mas ele<br \/>\n    agarra o machado e tome de rachar lenha com tanta vontade, e era s&oacute;<br \/>\n    lasca voando. E eu: &quot;Como &eacute; que pode, tu n&atilde;o tava doente?&quot;.<br \/>\n    &quot;Nada&quot;, diz ele, &quot;eu estou bem&quot;. E sacode o machado de<br \/>\n    um jeito que me d&aacute; medo; a&iacute; eu comecei a gritar e acordei. Ser&aacute;<br \/>\n    que ele j&aacute; n&atilde;o morreu?<\/p>\n<p>&mdash;Tio Khvi&eacute;dor! &Ocirc;, tio! Fi&oacute;dor n&atilde;o respondia.<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; mesmo, ser&aacute; que ele j&aacute; n&atilde;o morreu?<br \/>\n    Vamos ver &mdash; disse um dos cocheiros, que havia acordado.<\/p>\n<p>Um bra&ccedil;o magro, frio e c&eacute;reo, coberto de p&ecirc;los ruivos,<br \/>\n    pendia do forno.<\/p>\n<p>&mdash; Vamos falar com o chefe da esta&ccedil;&atilde;o, parece que t&aacute;<br \/>\n    morto &mdash; continuou o cocheiro.<\/p>\n<p>Fi&oacute;dor n&atilde;o tinha parentes. Viera de longe. No dia seguinte,<br \/>\n    foi enterrado no cemit&eacute;rio novo, atr&aacute;s do bosque, e Nast&aacute;cia<br \/>\n    passou v&aacute;rios dias contando a todo mundo o sonho que tivera e como<br \/>\n    tinha sido a primeira a perceber a morte do tio Fi&oacute;dor.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>Chegou a primavera. Nas ruas &uacute;midas da cidade rumorejavam regatos<br \/>\n    velozes entre o gelo sujo de esterco; as cores dos trajes e o som das vozes<br \/>\n    dos transeuntes distinguiam-se nitidamente. Nos jardins, atr&aacute;s das<br \/>\n    sebes, as &aacute;rvores inchavam de bot&otilde;es e mal se notava o balan&ccedil;ar<br \/>\n    dos ramos ao sopro da brisa fresca. <\/p>\n<p>Por todo lado gotinhas transparentes pingavam&#8230; Pardais desajeitados piavam<br \/>\n    e adejavam com suas asinhas. Nos lados ensolarados, nas sebes, nas casas e<br \/>\n    nas &aacute;rvores, tudo se movia e brilhava. Reinava a alegria e o vi&ccedil;o<br \/>\n    tanto no c&eacute;u e na terra como no cora&ccedil;&atilde;o dos homens.<\/p>\n<p>Em uma das ruas principais, palha fresca se estendia no ch&atilde;o diante<br \/>\n    de uma grande casa senhorial; na casa estava aquela mesma doente moribunda<br \/>\n    que tinha pressa em chegar ao exterior.<\/p>\n<p>&Agrave; porta fechada do quarto, o marido da doente e uma senhora idosa.<br \/>\n    Num div&atilde;, um sacerdote, vista baixa, segurando alguma coisa enrolada<br \/>\n    na estola de seus paramentos.A um canto, uma velha, m&atilde;e da doente,<br \/>\n    chorava com amargura numa poltrona Voltaire. A seu lado, uma criada segurava<br \/>\n    um len&ccedil;o, esperando que a velha o pedisse; outra lhe friccionava alguma<br \/>\n    coisa nas t&ecirc;mporas e soprava por baixo da toquinha a cabe&ccedil;a grisalha.<\/p>\n<p>&mdash; V&aacute; com Cristo, minha amiga, &mdash; disse o marido &agrave;<br \/>\n    mulher idosa ao seu lado &mdash; ela confia tanto na senhora&#8230; a senhora<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o jeitosa com ela, procure convenc&ecirc;-la direitinho,<br \/>\n    minha querida; v&aacute;, v&aacute;. &mdash; Ele j&aacute; queria abrir a<br \/>\n    porta, mas a prima o deteve, passou o len&ccedil;o algumas vezes nos olhos<br \/>\n    e sacudiu a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&mdash; Agora n&atilde;o parece mais que chorei &mdash; disse ela, e abriu<br \/>\n    a porta, entrando no quarto.<\/p>\n<p>O marido estava agitad&iacute;ssimo e parecia completamente perdido. Ia caminhando<br \/>\n    em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; velha, mal deu alguns passos, voltou-se,<br \/>\n    andou pela sala e aproximou-se do sacerdote. Este olhou para ele, levantou<br \/>\n    os olhos para o c&eacute;u e suspirou. A barba cerrada, tingida de fios grisalhos,<br \/>\n    tamb&eacute;m se ergueu e baixou.<\/p>\n<p>&mdash; Meu Deus, meu Deus! &mdash; disse o marido.<\/p>\n<p>&mdash; O que &eacute; que se vai fazer? &mdash; retrucou suspiroso o padre,<br \/>\n    e mais uma vez sobrancelhas e barba se ergueram e baixaram.<\/p>\n<p>&mdash; E a m&atilde;e dela est&aacute; aqui! &mdash; disse o marido quase<br \/>\n    em desespero. &mdash; Ela n&atilde;o vai suportar isso tudo. Porque amar como<br \/>\n    ela a ama&#8230; n&atilde;o sei, n&atilde;o. Reverendo, se pelo menos o senhor<br \/>\n    tentasse tranq&uuml;iliz&aacute;-la e fazer com que ela sa&iacute;sse daqui&#8230;<\/p>\n<p>O sacerdote levantou-se e aproximou-se da velha.<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; isso, ningu&eacute;m pode avaliar um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de m&atilde;e, &mdash; disse ele &mdash; mas Deus &eacute; misericordioso.<\/p>\n<p>De repente o rosto da velha come&ccedil;ou a se contrair cada vez mais e<br \/>\n    um solu&ccedil;o hist&eacute;rico a sacudiu.<\/p>\n<p>&mdash; Deus &eacute; misericordioso &mdash; continuou o sacerdote, quando<br \/>\n    ela se acalmou um pouco. &mdash; Em minha par&oacute;quia havia um doente<br \/>\n    muito mais grave que M&aacute;ria Dm&iacute;trievna; e veja o que aconteceu,<br \/>\n    foi completamente curado com ervas por um homem simples, em pouco tempo. E<br \/>\n    al&eacute;m do mais, esse mesmo homem est&aacute; agora em Moscou. Eu disse<br \/>\n    a Vassili Dm&iacute;trievitch que dava para se tentar. Ao menos serviria de<br \/>\n    consolo para a doente. A Deus nada &eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o, ela n&atilde;o tem mais jeito, &mdash; pronunciou a velha<br \/>\n    &mdash; em vez de me levar, &eacute; a ela que Deus leva. &mdash; E os solu&ccedil;os<br \/>\n    hist&eacute;ricos tornaram-se t&atilde;o fortes que ela perdeu os sentidos.<\/p>\n<p>O marido da enferma cobriu o rosto com as m&atilde;os e correu para fora<br \/>\n    do quarto.<\/p>\n<p>No corredor, a primeira pessoa que encontrou foi um menino de seis anos,<br \/>\n    que tentava alcan&ccedil;ar a todo custo uma menina menor.<\/p>\n<p>&mdash; E as crian&ccedil;as, n&atilde;o permite que eu as leve para perto<br \/>\n    da m&atilde;e? &mdash; perguntou a bab&aacute;.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o, ela n&atilde;o quer v&ecirc;-las. Isto a deixaria transtornada.<br \/>\n    O menino parou um minutinho e examinou atento o rosto do pai; mas, num repente,<br \/>\n    deu um chute no ar e, com um grito de alegria, continuou a correr.<\/p>\n<p>&mdash; Faz de conta que ela &eacute; o cavalo murzelo, papai! &mdash; berrou<br \/>\n    o garoto, apontando para a irm&atilde;.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no outro quarto, a prima sentava-se ao lado da doente e conduzia<br \/>\n    habilmente a conversa, tentando prepar&aacute;-la para a id&eacute;ia da morte.<br \/>\n    Na outra janela, o m&eacute;dico mexia a tisana.<\/p>\n<p>Metida num roup&atilde;o branco, cercada de almofadas na cama, a doente olhava<br \/>\n    calada para a prima.<\/p>\n<p>&mdash; Ah, minha amiga, &mdash; disse, interrompendo-a inesperadamente &mdash;<br \/>\n    n&atilde;o precisa me preparar. N&atilde;o me trate como crian&ccedil;a. Eu<br \/>\n    sou crist&atilde;. Eu sei de tudo. Eu sei que minha vida est&aacute; por um<br \/>\n    fio; eu sei que se meu marido tivesse me escutado antes, eu estaria na It&aacute;lia<br \/>\n    agora e, quem sabe, podia at&eacute; ser verdade, eu estaria curada. Todos<br \/>\n    lhe diziam isso. Mas o que se h&aacute; de fazer? Pelo visto, foi assim que<br \/>\n    Deus quis. Todos n&oacute;s temos muitos pecados, eu sei disso; mas espero<br \/>\n    a gra&ccedil;a de Deus, que a tudo perdoa, a tudo perdoa. Eu me esfor&ccedil;o<br \/>\n    para entender, mas tenho muitos pecados, querida. Por outro lado, j&aacute;<br \/>\n    sofri bastante. Esforcei-me para suportar com paci&ecirc;ncia meu sofrimento&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; Chamo ent&atilde;o o padre, querida? Voc&ecirc; vai se sentir mais<br \/>\n    leve comungando &mdash; disse a prima.<\/p>\n<p>A doente baixou a cabe&ccedil;a em sinal de consentimento.<\/p>\n<p>&mdash; Deus, perdoa essa pecadora! &mdash; sussurrou. A prima saiu e fez<br \/>\n    sinal para o padre.<\/p>\n<p>&mdash; &Eacute; um anjo! &mdash; disse ela ao marido, com l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos.<\/p>\n<p>O marido come&#038;cceccedil;ou a chorar; o sacerdote entrou na sala; a velha permanecia<br \/>\n    desacordada; no quarto principal reinava um sil&ecirc;ncio absoluto. Uns cinco<br \/>\n    minutos depois, o padre saiu do quarto da doente, tirou a estola e ajeitou<br \/>\n    os cabelos.<\/p>\n<p>&mdash; Gra&ccedil;as a Deus, est&aacute; mais calma agora &mdash; disse<br \/>\n    ele. &mdash; Quer v&ecirc;-los.<\/p>\n<p>A prima e o marido entraram. A doente fitava um &iacute;cone e chorava baixinho.<\/p>\n<p>&mdash; Eu a felicito, minha amiga &mdash; disse o marido.<\/p>\n<p>&mdash; Deus seja louvado! Como me sinto bem, agora; uma do&ccedil;ura inexplic&aacute;vel<br \/>\n    &mdash; disse a doente, e um leve sorriso brincou em seus l&aacute;bios finos.<br \/>\n    &mdash; Como Deus &eacute; misericordioso! N&atilde;o &eacute; verdade que<br \/>\n    ele &eacute; misericordioso e onipotente? &mdash; E mais uma vez olhou para<br \/>\n    o &iacute;cone com olhos marejados e &aacute;vida s&uacute;plica.<\/p>\n<p>De repente, pareceu lembrar-se de algo. Fez um sinal para que o marido se<br \/>\n    aproximasse.<\/p>\n<p>&mdash; Voc&ecirc; nunca faz o que eu pe&ccedil;o &mdash; disse ela com uma<br \/>\n    voz fraca e descontente.<\/p>\n<p>O marido esticava o pesco&ccedil;o e escutava-a submisso.<\/p>\n<p>&mdash; O que foi, minha querida?<\/p>\n<p>&mdash; Quantas vezes eu disse que esses m&eacute;dicos n&atilde;o sabem<br \/>\n    de nada; existem rem&eacute;dios caseiros que curam tudo&#8230; Escuta o que o<br \/>\n    padre disse&#8230; o homem simples&#8230; Mande busc&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&mdash; Pra qu&ecirc;, minha querida?<\/p>\n<p>&mdash; Meu Deus, ningu&eacute;m quer entender!&#8230; &mdash; E a doente franziu<br \/>\n    o cenho e fechou os olhos.<\/p>\n<p>O m&eacute;dico chegou-se a ela e tomou-lhe o pulso. Batia cada vez mais<br \/>\n    fraco. Ele lan&ccedil;ou um olhar para o marido. A senhora percebeu o gesto<br \/>\n    e olhou &agrave; volta assustada.A prima deu-lhe as costas e come&ccedil;ou<br \/>\n    a chorar.<\/p>\n<p>&mdash; N&atilde;o chore, n&atilde;o aflija a voc&ecirc; e a mim &mdash;<br \/>\n    disse a doente. &mdash; Assim voc&ecirc; tira este meu &uacute;ltimo sossego.<\/p>\n<p>&mdash; Voc&ecirc; &eacute; um anjo! &mdash; disse a prima, beijando-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o. &mdash; N&atilde;o, beije aqui, s&oacute; se beija a m&atilde;o<br \/>\n    dos mortos. Meu Deus, meu Deus!<\/p>\n<p>Na mesma noite, a doente era s&oacute; corpo, e este corpo jazia no caix&atilde;o,<br \/>\n    na sala do casar&atilde;o. No c&ocirc;modo espa&ccedil;oso, a portas fechadas,<br \/>\n    um sacrist&atilde;o lia salmos de Davi com voz fanhosa e ritmada. A luz viva<br \/>\n    das velas ca&iacute;a dos altos candelabros de prata sobre a fronte c&eacute;rea<br \/>\n    da morta, suas pesadas m&atilde;os de cera, sobre as pregas da coberta que<br \/>\n    delineavam espantosamente os joelhos e os dedos dos p&eacute;s. Sem entender<br \/>\n    o que dizia, o sacrist&atilde;o lia de maneira compassada e, no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da sala, as palavras ecoavam estranhas e morriam. De quando em quando, de<br \/>\n    algum quarto distante chegavam vozes infantis e o barulho do sapateado das<br \/>\n    crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>&quot;Se ocultas o rosto, eles se perturbam&quot; &mdash; anunciou o livro<br \/>\n    dos Salmos. &quot;Se lhes cortas a respira&ccedil;&atilde;o, morrem e voltam<br \/>\n    ao seu p&oacute;. Envias o teu Esp&iacute;rito, eles s&atilde;o criados e,<br \/>\n    assim, renovas a face da terra. A gl&oacute;ria do Senhor seja para sempre!&quot;<\/p>\n<p>O rosto da morta estava severo, calmo, majestoso. Nada se movia, nem na fronte<br \/>\n    limpa e fria, nem nos l&aacute;bios cerrados e enrijecidos. Ela era toda aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E ser&aacute; que ao menos agora ela compreendia essas grandes palavras?<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Um m&ecirc;s depois erigiu-se um jazigo de pedra sobre a sepultura da morta.<br \/>\n    Sobre a do cocheiro ainda n&atilde;o havia nenhuma campa, apenas uma relva<br \/>\n    verde-clara brotava do mont&iacute;culo de terra, &uacute;nico vest&iacute;gio<br \/>\n    de um homem que havia passado pela exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&mdash; Serioga, tu vai cometer um pecado se n&atilde;o comprar a campa para<br \/>\n    o Khvi&eacute;dor &mdash; disse a cozinheira da esta&ccedil;&atilde;o de posta.<br \/>\n    &mdash; Tu dizia assim: &eacute; inverno, &eacute; inverno. Mas agora, por<br \/>\n    que n&atilde;o mant&eacute;m a palavra? Foi na minha frente que tu prometeu.<br \/>\n    Ele j&aacute; veio pedir uma vez, e se tu n&atilde;o compra, ele volta e dessa<br \/>\n    vez &eacute; pra te estrangular.<\/p>\n<p>&mdash; Que nada! Por acaso eu estou recusando?! &mdash; respondeu Serioga.<br \/>\n    &mdash; Eu vou comprar a campa; j&aacute; disse que vou comprar; vou comprar<br \/>\n    por um rublo e meio. N&atilde;o me esqueci, mas &eacute; que precisa trazer.<br \/>\n    &Eacute; s&oacute; ir na cidade que eu compro.<\/p>\n<p>&mdash; Devia pelo menos colocar uma cruz l&aacute;, &eacute; isso que voc&ecirc;<br \/>\n    tinha que fazer, &mdash; retrucou um velho cocheiro &mdash; sen&atilde;o isso<br \/>\n    vai &eacute; acabar mal. As botas tu t&aacute; usando, n&eacute;?<\/p>\n<p>&mdash; E essa cruz, onde &eacute; que se vai arranjar? N&atilde;o d&aacute;<br \/>\n    pra fazer de lenha, n&eacute;?<\/p>\n<p>&mdash; Isso l&aacute; &eacute; coisa que se diga? Claro que de lenha n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute; pra fazer; tu pega o machado e vai mais cedo pro bosque, e ent&atilde;o<br \/>\n    tu faz. Tu pega e corta um freixo. Ou ent&atilde;o tu vai ter que dar vodca<br \/>\n    ao guarda florestal. Pra toda essa canalha n&atilde;o h&aacute; bebida que<br \/>\n    chegue. Faz pouco eu quebrei a trave da carruagem e cortei uma senhora tora<br \/>\n    e ningu&eacute;m deu um pio.<\/p>\n<p>De manh&atilde; bem cedo, mal come&ccedil;ou a clarear, Serioga pegou o machado<br \/>\n    e foi para o bosque. Por toda parte estendia-se um manto de orvalho frio e<br \/>\n    fosco que ca&iacute;a insistente e que o sol n&atilde;o iluminava. O nascente<br \/>\n    mal come&ccedil;ava a clarear, fazendo sua fr&aacute;gil luz refletir no firmamento<br \/>\n    encoberto por nuvens ralas. N&atilde;o se mexia um s&oacute; talo de capim<br \/>\n    e uma &uacute;nica folha nas copas. S&oacute; de quando em quando uns ru&iacute;dos<br \/>\n    de asas entre as &aacute;rvores compactas ou um leve farfalhar pelo ch&atilde;o<br \/>\n    quebravam o sil&ecirc;ncio da mata. De repente, um som estranho, desconhecido<br \/>\n    da natureza, espalhou-se e congelou na orla do bosque. E de novo ouviu-se<br \/>\n    o mesmo som que passou a se repetir de forma regular, embaixo, junto ao tronco<br \/>\n    de uma &aacute;rvore im&oacute;vel. A copa de uma &aacute;rvore estremeceu<br \/>\n    de forma incomum; suas folhas vi&ccedil;osas sussurraram algo; uma toutinegra<br \/>\n    pousada em um galho esvoa&ccedil;ou duas vezes, piando, e pousou em outra<br \/>\n    &aacute;rvore, remexendo a caudinha.<\/p>\n<p>Embaixo, o machado ressoava cada vez mais e mais surdo; as lascas brancas<br \/>\n    e molhadas de seiva voavam sobre o capim orvalhado, ouvindo-se um leve rangido<br \/>\n    ap&oacute;s os golpes. A &aacute;rvore estremeceu por inteiro, inclinou-se<br \/>\n    e aprumou-se rapidamente, vacilando assustada sobre sua raiz. Por um instante,<br \/>\n    tudo ficou em sil&ecirc;ncio; mas a &aacute;rvore tornou a se inclinar e ouviu-se<br \/>\n    mais uma vez o rangido de seu tronco; e ela despencou de copa na terra &uacute;mida,<br \/>\n    quebrando e soltando os ramos. Cessaram os sons do machado e dos passos. A<br \/>\n    toutinegra piou e voou para mais alto. O ramo em que ela ro&ccedil;ou suas<br \/>\n    asas balan&ccedil;ou por algum tempo e estacou, como os outros, com todas<br \/>\n    as suas folhas.<\/p>\n<p>As &aacute;rvores, ainda mais alegres, pavoneavam seus galhos im&oacute;veis<br \/>\n    no espa&ccedil;o aberto h&aacute; pouco.<\/p>\n<p>Os primeiros raios de sol infiltraram-se por entre as nuvens, brilharam l&aacute;<br \/>\n    no alto e correram a terra e o c&eacute;u. A neblina derramou-se em ondas<br \/>\n    pelos vales; o orvalho come&ccedil;ou a brincar na relva; nuvenzinhas brancas<br \/>\n    e transparentes dispersavam-se apressadas pelo firmamento azulado. Os p&aacute;ssaros<br \/>\n    revoavam sobre a mata espessa e, sem rumo, gorjeavam felizes; folhas vi&ccedil;osas<br \/>\n    sussurravam radiantes e tranq&uuml;ilas nas copas, e os ramos das &aacute;rvores<br \/>\n    vivas mexeram-se lentos, majestosos, sobre a &aacute;rvore tombada e morta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Leon Tolstoi I Era outono. Pela estrada real duas carruagens seguiam a trote r&aacute;pido. Na da frente viajavam duas mulheres. Uma, a senhora, magra e p&aacute;lida. A outra, a criada, gorda e de um corado lustroso. Seus cabelos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Tr\u00eas Mortes, Obra Tr\u00eas Mortes<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Tr\u00eas Mortes, Obra, Conto, Leon Tolstoi, Amor, Personagens, Senhora, Criada, Matriocha, Literatura, Tr\u00eas Mortes\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" 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