{"id":108518,"date":"2017-02-13T10:04:57","date_gmt":"2017-02-13T12:04:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108518"},"modified":"2017-02-13T10:19:10","modified_gmt":"2017-02-13T12:19:10","slug":"a-tortura-da-carne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-tortura-da-carne","title":{"rendered":"A Tortura da Carne"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"555\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>Leon Tolstoi<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Eug&eacute;nio Irtenieff tinha raz&otilde;es para aspirar a uma carreira<br \/>\n    brilhante. Para tal nada lhe faltava, a sua educa&ccedil;&atilde;o fora muito<br \/>\n    cuidada; terminara com brilho os estudos na Faculdade de Direito de S. Petersburgo<br \/>\n    e, por interm&eacute;dio do pai, falecido havia pouco, conseguira as melhores<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es na alta sociedade. Basta dizer-se que entrara para<br \/>\n    o Minist&eacute;rio pela m&atilde;o do pr&oacute;prio Ministro. Possu&iacute;a<br \/>\n    tamb&eacute;m uma avultada fortuna, embora esta j&aacute; estivesse comprometida.<br \/>\n    O pai vivera no estrangeiro e em S. Petersburgo e dava a cada um dos seus<br \/>\n    filhos, Eug&eacute;nio e Andr&eacute;, uma pens&atilde;o anual de seis mil<br \/>\n    rublos, e ele e a mulher de nada se privavam, gastavam &agrave; larga. No<br \/>\n    ver&atilde;o, passava dois meses no campo, mas n&atilde;o administrava directamente<br \/>\n    as suas propriedades, confiando tal encargo a um encarregado que por sua vez,<br \/>\n    embora este fosse pessoa da sua inteira confian&ccedil;a, deixava andar tudo<br \/>\n    ao Deus dar&aacute;.<\/p>\n<p> Por morte do pai, quando os dois irm&atilde;os resolveram liquidar a heran&ccedil;a,<br \/>\n    apareceram tantas d&iacute;vidas que o advogado aconselhou-os a ficarem apenas<br \/>\n    com uma propriedade da av&oacute;, que fora avaliada em cem mil rublos, e<br \/>\n    desistirem do restante. Mas um vizinho da herdade, igualmente propriet&aacute;rio,<br \/>\n    que tivera neg&oacute;cios com o velho Irtenieff, veio a S. Petersburgo propositadamente<br \/>\n    para apresentar uma letra aceite por este &#8211; e fez-lhes saber que, apesar das<br \/>\n    grandes d&iacute;vidas, poderiam chegar a acordo com ele e ainda refariam<br \/>\n    grande parte da fortuna. Para tal, bastava que vendessem a madeira, alguns<br \/>\n    bocados de terreno bravio e conservassem o melhor, isto &eacute;, a propriedade<br \/>\n    de Semionovskoi&eacute;, uma verdadeira mina de oiro, com as suas quatro mil<br \/>\n    geiras de terra, duzentas das quais de belos pastos, e a refinaria. Afirmou<br \/>\n    ainda que, para tal se arranjar, era indispens&aacute;vel que uma pessoa en&eacute;rgica<br \/>\n    se entregasse de corpo e alma a essa tarefa instalando-se no campo para <\/p>\n<p>  administrar a herdade inteligente e economizante.<\/p>\n<p> O pai morrera na altura da quaresma e na primavera, Eug&eacute;nio, foi<br \/>\n    &agrave; propriedade; depois duma inspec&ccedil;&atilde;o minuciosa, resolveu<br \/>\n    pedir a sua demiss&atilde;o de oficial do ex&eacute;rcito e fixar l&aacute;<br \/>\n    resid&ecirc;ncia com a m&atilde;e, a fim de dar execu&ccedil;&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    sugest&otilde;es do vizinho. Mas antes disso, contratou o seguinte com o irm&atilde;o:<br \/>\n    pagar-lhe anualmente quatro mil rublos, ou entregar-lhe duma vez s&oacute;<br \/>\n    oitenta mil, com o que ficariam saldadas as suas contas.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio, logo que se instalou com a m&atilde;e na velha casa, atirou-se<br \/>\n    com coragem e prud&ecirc;ncia &agrave; revaloriza&ccedil;&atilde;o das terras.<br \/>\n    Pensa-se, em geral, que os velhos s&atilde;o conservadores impenitentes e<br \/>\n    que, pelo contr&aacute;rio, os novos tendem mais para as modifica&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Mas n&atilde;o &eacute; bem assim! &Agrave;s vezes, mais conservadores s&atilde;o<br \/>\n    os novos que desejam viver e n&atilde;o t&ecirc;m tempo de pensar na maneira<br \/>\n    como devem faz&ecirc;-lo, por isso se entregam &agrave; vida tal como ela<br \/>\n    &eacute;.<\/p>\n<p> Contudo n&atilde;o era este o caso de Eug&eacute;nio. Agora, que vivia no<br \/>\n    campo, o seu sonho, o seu ideal m&aacute;ximo, era restabelecer, n&atilde;o<br \/>\n    o modo de vida do pai, que fora um mau administrador, mas sim as medidas adoptadas<br \/>\n    pelo av&ocirc;. Em casa, no jardim, em toda a parte, procurava ressuscitar<br \/>\n    o m&eacute;todo de ent&atilde;o, para sentir em redor a alegria de todos,<br \/>\n    o bem-estar e a ordem. Em casa, no jardim, em toda a parte. Era preciso ir<br \/>\n    de encontro &agrave;s exig&ecirc;ncias dos credores e dos bancos e, para tal,<br \/>\n    procurava vender terras e adiar pagamentos&#8230; Depois, era for&ccedil;oso arranjar<br \/>\n    dinheiro para as culturas, por administra&ccedil;&atilde;o directa servindo-se<br \/>\n    dos pr&oacute;prios criados no amanho da imensa propriedade de Semionovskoi&eacute;,<br \/>\n    com as suas quatrocentas geiras de terreno de cultivo e a sua refinaria. Impunha-se<br \/>\n    que a casa e o parque n&atilde;o tivessem o aspecto de abandono e ru&iacute;na.<br \/>\n    A tarefa parecia exaustiva mas a Eug&eacute;nio n&atilde;o faltava for&ccedil;a<br \/>\n    de vontade. Tinha vinte e seis anos, era de estatura mediana, robusto e sangu&iacute;neo,<br \/>\n    tinha os m&uacute;sculos desenvolvidos pelo exerc&iacute;cio, as faces rosadas,<br \/>\n    os dentes fortes, os cabelos anelados apesar de pouco espessos. O seu &uacute;nico<br \/>\n    defeito era a miopia, agravada pelo uso dos &oacute;culos, que n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar.<\/p>\n<p> Era uma destas pessoas que, quanto mais as conhecemos, mais delas gostamos.<br \/>\n    A m&atilde;e sempre manifestara por ele uma exagerada prefer&ecirc;ncia e,<br \/>\n    depois da morte do marido, sentiu que aumentava a sua ternura pelo filho,<br \/>\n    como se nele encontrasse toda a sua vida. E n&atilde;o era s&oacute; a m&atilde;e<br \/>\n    que o amava. Tamb&eacute;m os companheiros do liceu e da universidade lhe<br \/>\n    dedicavam uma grande estima. O mesmo acontecia com os estranhos. Ningu&eacute;m<br \/>\n    tinha coragem de p&ocirc;r em d&uacute;vida uma afirma&ccedil;&atilde;o sua,<br \/>\n    ningu&eacute;m o supunha capaz de mentir, t&atilde;o sincera era a sua express&atilde;o,<br \/>\n    t&atilde;o francos eram os seus olhos.<\/p>\n<p> A sua figura em muito o ajudava nos neg&oacute;cios. Os credores tinham<br \/>\n    confian&ccedil;a nele e concediam-lhe, muitas vezes, aquilo que negavam a<br \/>\n    outros. Um campon&ecirc;s ou um staroste, capazes de cometer a maior vilania,<br \/>\n    n&atilde;o ousavam engan&aacute;-lo, porque lhes era agrad&aacute;vel entabular<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es com um homem t&atilde;o bondoso e, sobretudo, t&atilde;o<br \/>\n    franco, t&atilde;o leal.<\/p>\n<p> Era nos fins de Maio. Bem ou mal, Eug&eacute;nio conseguira resgatar as<br \/>\n    hipotecas das suas terras incultas, que foram vendidas a um negociante, que<br \/>\n    ainda por cima, lhe emprestou dinheiro para comprar o gado e as alfaias agr&iacute;colas<br \/>\n    de que necessitava. Havia j&aacute; trabalhadores nas depend&ecirc;ncias da<br \/>\n    quinta e comprara oitenta carros de adubo. No entanto, reconhecia que, apesar<br \/>\n    de toda a prud&ecirc;ncia e boa vontade, qualquer descuido poderia desmoronar-lhe<br \/>\n    o pouco s&oacute;lido castelo da vida.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>Entretanto deu-se um acontecimento que, embora de pouca import&acirc;ncia,<br \/>\n    muito contrariou Eug&eacute;nio. Ele, que at&eacute; a&iacute; levara uma<br \/>\n    vida de rapaz solteiro, tivera, como &eacute; natural, rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com mulheres de diferentes classes sociais. N&atilde;o era um devasso mas,<br \/>\n    segundo ele pr&oacute;prio afirmava, tamb&eacute;m n&atilde;o era um monge.<br \/>\n    Por isso gozara da vida tanto quanto lhe exigia a sa&uacute;de do corpo e<br \/>\n    a liberdade do esp&iacute;rito. Desde os dezasseis anos que tudo lhe correra<br \/>\n    bem e n&atilde;o se corrompeu nem contraiu qualquer doen&ccedil;a. Em S. Petersburgo<br \/>\n    fora amante de uma costureira; por&eacute;m, como esta adoecesse, procurou<br \/>\n    substitui-la, e a sua vida em nada se <\/p>\n<p>  modificara.<\/p>\n<p> Mas desde que, havia dois meses, se tinha instalado no campo, n&atilde;o<br \/>\n    voltara a ter rela&ccedil;&otilde;es com qualquer mulher. Uma contin&ecirc;ncia<br \/>\n    tal principiava a enerv&aacute;-lo. Precisaria de ir &agrave; cidade.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio Ivanovitch come&ccedil;ou a seguir com uns olhos concupiscentes<br \/>\n    as raparigas que encontrava. Sabia bem que n&atilde;o era bonito ligar-se<br \/>\n    a qualquer mulher do campo. Sabia, isto pelo que o informaram, que o pai e<br \/>\n    o av&ocirc; tiveram uma conduta que sempre se distinguira dos outros propriet&aacute;rios,<br \/>\n    nunca se metendo com as criadas de casa ou as jornaleiras. Por isso, resolveu<br \/>\n    seguir-lhes o exemplo. Mas, com o tempo, sentindo-se cada vez mais inquieto,<br \/>\n    pensou que seria poss&iacute;vel arranjar uma mulher, isto sem que ningu&eacute;m<br \/>\n    o soubesse&#8230; Quando falava com o staroste ou com os carpinteiros, encaminhava<br \/>\n    a conversa para o assunto, prolongando-a propositadamente. Entretanto, sempre<br \/>\n    que se lhe proporcionava o ensejo, olhava para as camponesas com mal contido<br \/>\n    interesse.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">III<\/a><\/h4>\n<p>Contudo, uma coisa &eacute; tomar uma decis&atilde;o e outra &eacute; efectiv&aacute;-la.<br \/>\n    Dirigir-se pessoalmente a uma mulher, n&atilde;o era poss&iacute;vel. E qual?<br \/>\n    E onde? Era precisa a interven&ccedil;&atilde;o no caso de uma terceira pessoa.<br \/>\n    Mas quem? Uma vez sucedeu-lhe ter de entrar em casa do guarda florestal, um<br \/>\n    antigo ca&ccedil;ador, ao servi&ccedil;o da casa, no tempo de seu pai. Eug&eacute;nio<br \/>\n    Irtenieff p&ocirc;s-se a conversar com ele. O guarda contou-lhe velhas hist&oacute;rias<br \/>\n    de orgias e ca&ccedil;adas e Eug&eacute;nio pensou, logo, que talvez fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel conseguir alguma coisa naquela cabana, em plena floresta.<br \/>\n    O que n&atilde;o sabia era como o velho Danilo receberia a proposta. &laquo;&Eacute;<br \/>\n    capaz de ficar indignado&raquo;, disse de si para si. &laquo;Mas tamb&eacute;m<br \/>\n    pode ser que n&atilde;o se importe&#8230;&raquo; Tais eram os pensamentos de Eug&eacute;nio<br \/>\n    enquanto o velho falava. A certa altura, este contou como uma vez conseguira<br \/>\n    uma <\/p>\n<p>  mulher para Prianitchnikoff. Vou tentar, decidiu-se por fim.<\/p>\n<p> &#8211; Seu pai, que Deus tenha em descanso a sua alma, n&atilde;o se metia nessas<br \/>\n    coisas&#8230;<\/p>\n<p> Para apalpar o terreno, Eug&eacute;nio perguntou: &#8211; E tu prestavas-te a<br \/>\n    esses pap&eacute;is? &#8211; Ora! Que mal tem isso? Ela gostava e F&eacute;dor Zakaritch<br \/>\n    tamb&eacute;m. E como ele me dava sempre um rublo, por que n&atilde;o havia<br \/>\n    de auxili&aacute;-lo? Afinal, um homem &eacute; um homem&#8230;<\/p>\n<p> Parece-me que posso falar, pensou Eug&eacute;nio. E come&ccedil;ou: &#8211; Pois,<br \/>\n    amigo Danilo, tu bem sabes que, e &#8211; sentiu-se corar at&eacute; &agrave;s orelhas<br \/>\n    -, afinal de contas, n&atilde;o sou nenhum frade, estou acostumado&#8230;<\/p>\n<p> Percebeu que as suas palavras eram est&uacute;pidas, mas verificou que Danilo<br \/>\n    esbo&ccedil;ava um sorriso de aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Por que o n&atilde;o disse h&aacute; mais tempo? Sim, tudo se pode arranjar.<br \/>\n    Diga qual delas prefere.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute;-me indiferente. O que &eacute; preciso &eacute; que tenha sa&uacute;de<br \/>\n    e n&atilde;o seja muito feia.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem &#8211; disse Danilo. &#8211; Tenho uma, muito bonita, que casou no<br \/>\n    outono, debaixo de olho.<\/p>\n<p> E segredou qualquer coisa a Eug&eacute;nio, que o deixou espantado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, n&atilde;o &#8211; disse ele. &#8211; N&atilde;o &eacute; propriamente isso o<br \/>\n    que eu pretendo. Pelo contr&aacute;rio: quero uma mulher sem compromissos,<br \/>\n    mas que seja saud&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem! Stepanida serve-lhe. O marido trabalha na cidade. &Eacute;<br \/>\n    como se fosse uma mulher solteira. Al&eacute;m disso, &eacute; uma bela rapariga,<br \/>\n    muito desenxovalhada. O senhor vai ficar satisfeit&iacute;ssimo. Amanh&atilde;<br \/>\n    j&aacute; lho direi. Venha c&aacute;, e ela&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Quando? &#8211; Amanh&atilde;, se quiser. Vou comprar tabaco e passarei por<br \/>\n    sua casa. Esteja ao meio-dia no bosque, perto da clareira. Ningu&eacute;m<br \/>\n    os ver&aacute; a essa hora, porque depois do almo&ccedil;o, todos dormem a<br \/>\n    sesta.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem.<\/p>\n<p> Uma como&ccedil;&atilde;o extraordin&aacute;ria se apoderou de Eug&eacute;nio<br \/>\n    ao voltar para casa. Que ir&aacute; acontecer? Como ser&aacute; essa camponesa?<br \/>\n    Feia? Nojenta? N&atilde;o, algumas at&eacute; s&atilde;o bem lindas, murmurou<br \/>\n    recordando-se das que j&aacute; lhe tinham atra&iacute;do a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> No dia seguinte, &agrave; hora combinada, foi &agrave; choupana do guarda.<br \/>\n    Danilo estava &agrave; porta e, com ar de importante, fez-lhe um sinal apontando<br \/>\n    na direc&ccedil;&atilde;o do bosque. O cora&ccedil;&atilde;o bateu-lhe com<br \/>\n    for&ccedil;a. Dirigiu-se para o s&iacute;tio indicado e n&atilde;o viu ningu&eacute;m.<br \/>\n    Inspeccionou as imedia&ccedil;&otilde;es e j&aacute; ia a retirar-se quando<br \/>\n    ouviu o s&uacute;bito estalar dum ramo seco. Voltou-se. A mulher estava atr&aacute;s<br \/>\n    duma &aacute;rvore, separada dele por uma vala apenas. Foi ao seu encontro.<br \/>\n    Picou-se numa urtiga em que n&atilde;o tinha reparado e ca&iacute;ram-lhe<br \/>\n    os &oacute;culos quando saltou para o outro lado do talude. Ei-lo junto duma<br \/>\n    linda mulher, fresca, de saia branca, com uma bata vermelha, e um len&ccedil;o<br \/>\n    da mesma cor na cabe&ccedil;a, os p&eacute;s descal&ccedil;os, sorrindo timidamente&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; melhor o senhor passar por esse atalho &#8211; disse-lhe a rapariga.<\/p>\n<p> Aproximou-se dela e, depois de certificar-se que n&atilde;o era visto, abra&ccedil;ou-a.<br \/>\n    Dali a um quarto de hora separaram-se. Passou pela cabana de Danilo e, como<br \/>\n    este lhe perguntasse se estava satisfeito, atirou-lhe um rublo para as m&atilde;os,<br \/>\n    retomando em seguida o caminho interrompido.<\/p>\n<p> Ia contente. A princ&iacute;pio tivera vergonha, mas agora sentia-se calmo,<br \/>\n    tranquilo e corajoso.<\/p>\n<p> Quase n&atilde;o encarara a mulher. Lembrava-se de que n&atilde;o lhe parecera<br \/>\n    feia nem fizera cerim&oacute;nia.<\/p>\n<p> Quem ser&aacute; ela?, perguntou a si mesmo. Chamava-se Petchnikoff, mas<br \/>\n    existiam duas fam&iacute;lias com esse nome. Talvez seja a nora do velho Mikhail.<br \/>\n    &Eacute; com certeza. O filho trabalha em Moscovo. Hei-de perguntar isto a<br \/>\n    Danilo.<\/p>\n<p> Dessa altura em diante a vida de Eug&eacute;nio, passou a ter encantos at&eacute;<br \/>\n    ai desconhecidos.<\/p>\n<p> Sentia-se com mais coragem para tratar dos seus neg&oacute;cios. A tarefa<br \/>\n    assumida era bem dif&iacute;cil. &Agrave;s vezes parecia-lhe que as for&ccedil;as<br \/>\n    iam faltar-lhe, antes de levar tudo a bom termo, que se seria obrigado a vender<br \/>\n    as terras, e que seria em v&atilde;o todo o seu esfor&ccedil;o. E isso entristecia-o,<br \/>\n    pois mal pagava uma conta, outra aparecia em seu lugar.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, quase todos os dias surgiam d&iacute;vidas ignoradas<br \/>\n    contra&iacute;das pelo pai. Sabia que, nos &uacute;ltimos tempos, ele pedira<br \/>\n    dinheiro emprestado a toda a gente. Por ocasi&atilde;o das partilhas, Eug&eacute;nio<br \/>\n    convenceu-se de que ficava a ter conhecimento de todos esses empr&eacute;stimos<br \/>\n    mas, em certa altura, avisaram-no de que havia ainda um de doze mil rublos,<br \/>\n    de que era credora a vi&uacute;va Essipoff. N&atilde;o existia qualquer documento<br \/>\n    considerado legal mas um recibo, que segundo a opini&atilde;o do advogado<br \/>\n    oferecia d&uacute;vidas. Eug&eacute;nio, por&eacute;m, nem sequer podia conceber<br \/>\n    a ideia de se negar ao pagamento duma d&iacute;vida contra&iacute;da pelo<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> Quis apenas saber se efectivamente a d&iacute;vida existia.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde;, quem &eacute; essa Essipoff, essa Cal&eacute;ria Vladimirovna<br \/>\n    Essipoff? &#8211; perguntou &agrave; m&atilde;e, enquanto jantava.<\/p>\n<p> &#8211; Essipoff? Ah! foi pupila do teu av&ocirc;. Por que fazes essa pergunta?<br \/>\n    E, como Eug&eacute;nio lhe dissesse do que se tratava, a m&atilde;e acrescentou:<br \/>\n    &#8211; Essa mulher devia ter vergonha&#8230; Tanto dinheiro que o teu pai lhe deu&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas, n&atilde;o lhe deveria nada? &#8211; Quer dizer&#8230; D&iacute;vida n&atilde;o.<br \/>\n    Teu pai, cuja bondade era infinita&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas ele considerava ou n&atilde;o isso uma d&iacute;vida? &#8211; Que dizer-te?<br \/>\n    O que sei &eacute; que todas essas coisas te causam muitas dores de cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Eug&ecirc;nio percebia que Maria Pavlovna n&atilde;o tinha l&aacute; multo<br \/>\n    bem a consci&ecirc;ncia do que estava a dizer.<\/p>\n<p> &#8211; O que deduzo de tudo isso &eacute; que &eacute; preciso pagar &#8211; disse<br \/>\n    o filho. &#8211; Amanha irei a casa dessa senhora perguntar-lhe se &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    um adiamento.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho pena de ti, meu filho, por te teres metido nesses trabalhos, mas<br \/>\n    realmente ser&aacute; melhor l&aacute; ir. Pede-lhe para esperar algum tempo<br \/>\n    &#8211; aconselhou a m&atilde;e.<\/p>\n<p> Havia outra coisa que apoquentava Eug&eacute;nio, era o facto de sua m&atilde;e<br \/>\n    o n&atilde;o compreender.<\/p>\n<p> Habituada a gastar &agrave;s m&atilde;os cheias durante toda a sua vida,<br \/>\n    n&atilde;o podia compreender a situa&ccedil;&atilde;o do filho, que dispunha<br \/>\n    somente dum rendimento de dois mil rublos e que, para refazer a casa, se via<br \/>\n    na necessidade de diminuir todos os gastos, fazer cortes nos sal&aacute;rios<br \/>\n    do jardineiro, dos cocheiros e mesmo at&eacute; nas despesas com a alimenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como a maior parte das vi&uacute;vas, sua m&atilde;e sentia pela mem&oacute;ria<br \/>\n    do marido uma admira&ccedil;&atilde;o que ultrapassava toda a afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que por ele tivera em vida, e n&atilde;o admitia que nada do que por ele fora<br \/>\n    feito, se modificasse. Eug&eacute;nio, com grande dificuldade, conseguia o<br \/>\n    arranjo do jardim e da estufa e das cavalari&ccedil;as com dois jardineiros<br \/>\n    e dois coveiros. Mas Maria Pavlovna, s&oacute; porque n&atilde;o se queixava<br \/>\n    do pouco pessoal da cozinha, a cargo da antiga cozinheira, nem das &aacute;leas<br \/>\n    do jardim por n&atilde;o andarem rigorosamente amanhadas, nem de s&oacute;<br \/>\n    terem um criado de mesa em vez de muitos, pensava ingenuamente que fazia tudo<br \/>\n    quanto uma m&atilde;e extremosa deve fazer por um filho.<\/p>\n<p> Naquela nova d&iacute;vida, em que Eug&eacute;nio via um golpe que lhe podia<br \/>\n    arrasar a vida, Maria Pavlovna descobria apenas um ensejo para o filho mostrar<br \/>\n    a sua generosidade. Havia, ainda, uma circunst&acirc;ncia que em muito concorria<br \/>\n    para Maria Pavlovna se n&atilde;o inquietar com a situa&ccedil;&atilde;o material<br \/>\n    da casa: tinha a certeza de que Eug&eacute;nio havia de fazer um casamento<br \/>\n    brilhante. Conhecia at&eacute; uma dezena de fam&iacute;lias que se julgariam<br \/>\n    felizes concedendo-lhe a m&atilde;o de suas filhas.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Eug&eacute;nio pensava tamb&eacute;m no casamento, mas n&atilde;o da mesma<br \/>\n    forma de sua m&atilde;e. A ideia de casar-se para pagar as dividas repugnava-lhe.<br \/>\n    Queria faz&ecirc;-lo mas por amor. Olhava as raparigas que encontrava, examinava-as<br \/>\n    minuciosamente, comparava-as, mas n&atilde;o se <\/p>\n<p>  decidia.<\/p>\n<p> Entretanto, as suas rela&ccedil;&otilde;es com Stepanida continuavam e nada<br \/>\n    indicava que pensasse acabar com elas. Depois do primeiro encontro, Eug&eacute;nio<br \/>\n    julgou que n&atilde;o a procuraria mais.<\/p>\n<p> Todavia, passado algum tempo voltou a sentir-se inquieto, e na sua inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    evocava aqueles mesmos olhos negros e brilhantes, aquela mesma voz grave,<br \/>\n    aquele mesmo aroma de mulher fresca e s&aacute;dia, aquele mesmo peito vigoroso<br \/>\n    que tufava a blusa. Tudo isto lhe passava pela mente associado &agrave; ideia<br \/>\n    dum bosque de nogueiras e pl&aacute;tanos, inundado de luz.<\/p>\n<p> Apesar de envergonhado, apelou outra vez para Danilo. E novamente a entrevista<br \/>\n    foi marcada para o meio-dia. Desta vez, Eug&eacute;nio examinou-a demoradamente<br \/>\n    a rapariga e tudo nela lhe pareceu atraente. Procurou conversar, falou-lhe<br \/>\n    do marido. Era, com efeito, o filho de Mikhail e trabalhava em Moscovo como<br \/>\n    cocheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Bem&#8230; e que &eacute; que faz ele para o enganares? &#8211; Ah! &#8211; exclamou ela<br \/>\n    rindo. &#8211; Penso que ele, l&aacute; onde est&aacute;, tamb&eacute;m se n&atilde;o<br \/>\n    priva de nada.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, porque n&atilde;o hei-de eu fazer outro tanto? Via-se que<br \/>\n    se esfor&ccedil;ava por mostrar arrog&acirc;ncia e isto pareceu a Eug&eacute;nio<br \/>\n    encantador. Apesar disso n&atilde;o lhe marcou nova entrevista. Quando ela<br \/>\n    prop&ocirc;s que voltassem a encontrar-se sem a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Danilo, com quem n&atilde;o parecia simpatizar, Eug&eacute;nio recusou-se.<br \/>\n    Esperava que fosse aquela a &uacute;ltima vez. Apesar disso Stepanida agradava-lhe;<br \/>\n    de resto, entendia que uma liga&ccedil;&atilde;o destas lhe era necess&aacute;ria<br \/>\n    e que da&iacute; n&atilde;o lhe viria nenhum mal.<\/p>\n<p> No entanto, no &iacute;ntimo, um juiz mais severo repreendia-o, e por isso<br \/>\n    Eug&eacute;nio contava que fosse aquele o &uacute;ltimo encontro. Por&eacute;m<br \/>\n    passou-se o ver&atilde;o e durante esse tempo encontraram-se uma dezena de<br \/>\n    vezes mas sempre com a interfer&ecirc;ncia de Danilo. Certa ocasi&atilde;o,<br \/>\n    ela n&atilde;o apareceu, porque o marido chegara. Depois, ele regressou a<br \/>\n    Moscovo e as entrevistas recome&ccedil;aram, a princ&iacute;pio com a cumplicidade<br \/>\n    de Danilo, mas, por fim, Eug&eacute;nio marcava o dia e ela vinha acompanhada<br \/>\n    duma outra mulher.<\/p>\n<p> Um dia, precisamente &agrave; hora em que se devia realizar o encontro,<br \/>\n    Maria Pavlovna recebeu a visita duma rapariga com quem muito desejava casar<br \/>\n    o filho, o que tornou imposs&iacute;vel a sa&iacute;da de Eug&eacute;nio.<br \/>\n    Logo que p&ocirc;de escapar-se, fingiu ir &agrave; granja e, por uma vereda,<br \/>\n    correu para o bosque, para o lugar da entrevista. Ela n&atilde;o estava, e<br \/>\n    tudo quanto havia no s&iacute;tio fora destru&iacute;do: nogueiras, cerejeiras<br \/>\n    e at&eacute; os pl&aacute;tanos pequenos. Stepanida, como Eug&eacute;nio a<br \/>\n    fizesse esperar, enervou-se e devastou tudo o que encontrou pela frente.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio ainda ali se demorou uns momentos, mas em seguida correu<br \/>\n    &agrave; choupana de Danilo e pediu-lhe que a convencesse a voltar no dia<br \/>\n    seguinte.<\/p>\n<p> Assim se passou todo o ver&atilde;o. Estes encontros deram-se sempre no<br \/>\n    bosque, &agrave; excep&ccedil;&atilde;o duma vez, j&aacute; perto do outono,<br \/>\n    em que se encontraram na granja. A Eug&eacute;nio nem lhe passava pela cabe&ccedil;a<br \/>\n    que aquelas rela&ccedil;&otilde;es viessem a ter, para si, qualquer complica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    futura. Quanto ao caso de Stepanida, nem pensava nisso: dava-lhe dinheiro<br \/>\n    e tudo ficaria arrumado. N&atilde;o sabia nem podia imaginar que toda a aldeia<br \/>\n    estava ao corrente das suas liga&ccedil;&otilde;es, que todos invejavam Stepanida,<br \/>\n    lhe extorquiam dinheiro, a encorajavam, e que, sob a influ&ecirc;ncia e os<br \/>\n    conselhos dos parentes, desaparecia completamente, para a rapariga, a no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu irregular comportamento. Parecia-lhe at&eacute; que, pelo facto de<br \/>\n    os outros a invejarem, ela s&oacute; procedia bem.<\/p>\n<p> Muitas vezes Eug&eacute;nio punha-se a discorrer: Admitamos que n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; certo&#8230; e, embora ningu&eacute;m diga nada, toda a gente deve<br \/>\n    saber&#8230; A mulher que a acompanha com certeza d&aacute; &agrave; l&iacute;ngua&#8230;<br \/>\n    Parece-me que ando por mau caminho, mas como deve ser por pouco tempo.<\/p>\n<p> O que mais aborrecia Eug&eacute;nio era saber que ela tinha marido. A princ&iacute;pio,<br \/>\n    at&eacute; sem saber porqu&ecirc;, imaginava-o feio e, se assim fosse, estava<br \/>\n    justificado em parte o procedimento da mulher. Mas quando uma vez o viu, ficou<br \/>\n    espantado; era um rapaz elegante, em nada inferior a ele, tinha at&eacute;<br \/>\n    mesmo melhor apresenta&ccedil;&atilde;o. No primeiro encontro que tiveram<br \/>\n    depois disso, ele p&ocirc;-la ao facto da impress&atilde;o com que ficou a<br \/>\n    respeito do marido.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; melhor em toda a aldeia! &#8211; exclamou ela com orgulho.<\/p>\n<p> Isto mais espantou Eug&eacute;nio. Uma vez, em casa de Danilo, no decorrer<br \/>\n    de uma conversa, este disse-lhe: &#8211; Mikhail perguntou-me h&aacute; dias se<br \/>\n    era verdade o senhor andar a namorar-lhe a mulher.<\/p>\n<p> Respondi-lhe que de nada sabia.<\/p>\n<p> &#8211; Ora! &#8211; disse ele &#8211; afinal de contas, antes com um fidalgo, do que com<br \/>\n    um campon&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; E que mais disse ele? &#8211; Nada, nada mais do que isto: &#8211; Vou saber a verdade<br \/>\n    e depois lhe farei ver.<\/p>\n<p> &#8211; Se ele voltar da cidade deix&aacute;-la-ei.<\/p>\n<p> Mas o marido l&aacute; ia ficando e as suas rela&ccedil;&otilde;es mantinham-se<br \/>\n    inalter&aacute;veis. Chegado o momento pr&oacute;prio, acabarei com isto duma<br \/>\n    vez para sempre, pensava. A quest&atilde;o parecia-lhe de f&aacute;cil solu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tanto mais que nessa &eacute;poca andava muito ocupado com os seus trabalhos,<br \/>\n    a constru&ccedil;&atilde;o duma nova casa, a colheita, o pagamento de d&iacute;vidas<br \/>\n    e a venda de uma parte das terras. Essas coisas absorviam-no inteiramente.<br \/>\n    E tudo isso era a vida, a verdadeira vida, enquanto as suas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com Stepanida, que vendo bem n&atilde;o tomava muito a s&eacute;rio, n&atilde;o<br \/>\n    tinham o m&iacute;nimo interesse. &Eacute; certo que, quando lhe vinha o desejo<br \/>\n    de a ver, em nada mais pensava. Isto, por&eacute;m, n&atilde;o durava muito:<br \/>\n    depois duma entrevista, a esquecia de novo durante semanas e, &agrave;s vezes,<br \/>\n    at&eacute; mais.<\/p>\n<p> Entretanto, come&ccedil;ou a frequentar a cidade onde vivia a fam&iacute;lia<br \/>\n    Annensky e onde conheceu uma menina que acabava de sair do col&eacute;gio.<br \/>\n    Com grande tristeza de Maria Pavlovna, Eug&eacute;nio enamorou-se de Lisa<br \/>\n    e pediu-a em casamento. Assim terminaram as suas rela&ccedil;&otilde;es com<br \/>\n    Stepanida.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">V<\/a><\/h4>\n<p>Que teria levado Eug&eacute;nio a escolher para sua noiva Lisa Annensky?<br \/>\n    N&atilde;o se encontra uma <\/p>\n<p>  explica&ccedil;&atilde;o, pois ningu&eacute;m sabe o motivo porque um homem<br \/>\n  escolhe esta ou aquela mulher.<\/p>\n<p> Contudo nessa escolha havia uma s&eacute;rie de pr&oacute;s e contras a<br \/>\n    considerar. Em primeiro lugar, Lisa n&atilde;o era o rico partido que a m&atilde;e<br \/>\n    sonhara para ele, nem embora fosse bonita, era uma dessas belezas que fascinam<br \/>\n    qualquer rapaz. Mas aconteceu conhece-la precisamente na ocasi&atilde;o em<br \/>\n    que principiava a amadurecer para o casamento. Lisa Annensky, de come&ccedil;o<br \/>\n    agradara-lhe e nada mais. Por&eacute;m, ao resolver fazer dela sua mulher,<br \/>\n    experimentou um mais vivo sentimento e percebeu que estava apaixonado. Lisa<br \/>\n    era alta, delgada e esbelta. Tinha a pele do rosto fina e branca com um leve<br \/>\n    e permanente rubor; os cabelos loiros, sedosos, longos e encaracolados; os<br \/>\n    olhos eram azuis, suaves e confiantes. Quanto &agrave;s suas qualidades morais,<br \/>\n    nada delas conhecia. N&atilde;o via mais que os seus olhos, que pareciam-lhe<br \/>\n    dizer tudo quanto ele precisava saber.<\/p>\n<p> Desde os quinze anos, ainda colegial, que Lisa se enamorava de quase todos<br \/>\n    os rapazes que conhecia. S&oacute; se sentia feliz quando tinha algum namoro.<br \/>\n    Depois de sair do col&eacute;gio, continuou a gostar de todos os jovens que<br \/>\n    via e, muito naturalmente, apaixonou-se por Eug&eacute;nio logo que o conheceu.<br \/>\n    Era esse temperamento amoroso que lhe dava aos olhos aquela express&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o doce que seduziu Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> Naquele mesmo inverno andava ela enamorada por dois rapazes, a um tempo,<br \/>\n    e corava, e ficava perturbada se acontecia algum deles entrar onde ela j&aacute;<br \/>\n    estivesse, ou at&eacute; quando deles se falava. Mas, desde que a m&atilde;e<br \/>\n    lhe dera a entender que Irtenieff parecia ter ideias de casar, o seu amor<br \/>\n    por ele cresceu a tal ponto que, de s&uacute;bito, se esqueceu dos outros<br \/>\n    dois. E quando Eug&eacute;nio come&ccedil;ou a frequentar a casa, quando nos<br \/>\n    bailes dan&ccedil;ava mais com ela do que com as outras, quando procurava<br \/>\n    unicamente saber se ela correspondia ao seu amor, ent&atilde;o Lisa apaixonou-se<br \/>\n    por ele dum modo quase doentio. Via-o em sonhos e acreditava v&ecirc;-lo na<br \/>\n    realidade. Nenhum outro homem existia para ela.<\/p>\n<p> Depois do pedido de casamento, quando se beijaram e ficaram noivos, um s&oacute;<br \/>\n    pensamento, um s&oacute; desejo se sobrepunha a todos os pensamentos, a todos<br \/>\n    os desejos, o de ficar com ele, o de ser amada. Orgulhava-se dele, enternecia-se<br \/>\n    pensando nele e a ternura que ele lhe demonstrava fazia-a enlouquecer. Do<br \/>\n    mesmo modo Eug&eacute;nio, quanto mais a conhecia, mais a adorava. Jamais<br \/>\n    esperara encontrar semelhante amor na vida.<\/p>\n<p> Antes da primavera, Eug&eacute;nio regressou a Semionovskoi&eacute;, a fim<br \/>\n    de ver a propriedade, dar ordens e preparar a casa onde devia instalar-se<br \/>\n    ap&oacute;s o casamento. Maria Pavlovna estava descontente com a escolha do<br \/>\n    filho, n&atilde;o s&oacute; por n&atilde;o fazer o casamento brilhante a que<br \/>\n    tinha direito, como por n&atilde;o lhe agradar a m&atilde;e da sua futura<br \/>\n    nora. Se era boa ou m&aacute;, ignorava-o; ali&aacute;s n&atilde;o se preocupava<br \/>\n    muito com isso. Verificara que n&atilde;o era uma mulher alta, uma inglesa<br \/>\n    como dizia, e isto bastava para a impressionar desagradavelmente. Mas era<br \/>\n    preciso resignar-se a am&aacute;-la, para n&atilde;o desgostar Eug&eacute;nio,<br \/>\n    e Maria Pavlovna estava sinceramente disposta a tal sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio encontrou a m&atilde;e radiante de felicidade e alegria;<br \/>\n    arranjara tudo em casa e preparava-se para partir, logo que o filho trouxesse<br \/>\n    a sua jovem esposa. Ele, por&eacute;m, pediulhe que se deixasse estar, e essa<br \/>\n    quest&atilde;o ficou ainda para ser resolvida.<\/p>\n<p> &Agrave; noite, depois do ch&aacute;, como de costume, Maria Pavlovna, com<br \/>\n    um baralho de cartas p&ocirc;sse a fazer uma paci&ecirc;ncia. Eug&eacute;nio,<br \/>\n    sentado a seu lado, ajudava-a. No fim, Maria Pavlovna fitou o filho e, um<br \/>\n    pouco hesitante, disse-lhe: &#8211; Ouve, Eug&eacute;nio, quero dizer-te uma coisa.<br \/>\n    Apesar de eu nada saber a esse respeito, penso que &eacute; preciso acabar<br \/>\n    inteiramente com todas as tuas aventuras, para que nem tu nem tua futura mulher<br \/>\n    possam mais tarde ter aborrecimentos. Compreendes onde quero chegar? Deste<br \/>\n    modo, Eug&eacute;nio compreendeu logo que Maria Pavlovna se referia &agrave;s<br \/>\n    suas rela&ccedil;&otilde;es com Stepanida, acabadas desde o outono, e lhes<br \/>\n    dava uma import&acirc;ncia exagerada. Corou ao ver a bondosa Maria Pavlovna<br \/>\n    imiscuir-se num assunto que n&atilde;o poderia compreender.<\/p>\n<p> Garantiu-lhe que nada havia a recear, pois sempre se conduzira de modo a<br \/>\n    que nenhum obst&aacute;culo viesse entravar o casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem, meu filho, n&atilde;o te zangues &#8211; disse-lhe a m&atilde;e,<br \/>\n    um tanto confundida.<\/p>\n<p> Mas Eug&eacute;nio notou que ela n&atilde;o dissera tudo o que pretendia.<br \/>\n    Com efeito, dali a pouco a m&atilde;e p&ocirc;s-se a contar-lhe que durante<br \/>\n    a sua aus&ecirc;ncia lhe pediram que fosse madrinha duma crian&ccedil;a nascida<br \/>\n    em casa dos Petchnikoff. Eug&eacute;nio corou de novo. Maria Pavlovna continuou<br \/>\n    a conversar e, embora sem inten&ccedil;&otilde;es reservadas, a certa altura<br \/>\n    disse que naquele ano somente tinham nascido meninos, o que provavelmente,<br \/>\n    era sinal de guerra. Em casa dos Vassine e em casa dos Petchnikoff os primog&eacute;nitos<br \/>\n    eram rapazes. Maria Pavlovna queria contar isto sem parecer que o fazia premeditadamente,<br \/>\n    mas ficou arrependida de ter abordado o assunto ao notar o rubor do filho,<br \/>\n    os seus movimentos nervosos, o modo precipitado de acender o cigarro. Calou-se<br \/>\n    ent&atilde;o. Ele n&atilde;o sabia como reatar a conversa, mas ambos se compreenderam<br \/>\n    mutuamente.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, &eacute; preciso que haja justi&ccedil;a, para que n&atilde;o existam<br \/>\n    favoritos como na casa de teu tio.<\/p>\n<p> &#8211; Mam&atilde; &#8211; respondeu Eug&eacute;nio a seguir &#8211; eu sei porque fala assim.<br \/>\n    Afian&ccedil;o-lhe, por&eacute;m, que a minha futura vida dom&eacute;stica<br \/>\n    ser&aacute; para mim uma coisa sagrada. Tudo quanto a esse respeito se passou<br \/>\n    comigo, enquanto fui solteiro, est&aacute; acabado e bem acabado, tanto mais<br \/>\n    que nunca tive liga&ccedil;&otilde;es duradouras e ningu&eacute;m tem portanto<br \/>\n    alguns direitos sobre mim.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem! Sinto-me muito feliz por me poderes falar assim &#8211; concluiu<br \/>\n    a m&atilde;e &#8211; isso, n&atilde;o vem sen&atilde;o confirmar os teus nobres<br \/>\n    sentimentos.<\/p>\n<p> No dia seguinte pela manh&atilde;, Eug&eacute;nio dirigiu-se &agrave; cidade.<br \/>\n    Pensava na noiva&#8230; e tinha esquecido Stepanida. Mas, dir-se-ia que propositadamente<br \/>\n    para relembrar-lha, ao aproximar-se da Igreja, encontrou um grupo de pessoas:<br \/>\n    era o velho Mateus, algumas crian&ccedil;as, raparigas, duas mulheres, uma<br \/>\n    delas j&aacute; idosa, a outra, elegante, que lhe pareceu conhecer, de len&ccedil;o<br \/>\n    vermelho-escarlate. Ao encarar com ele, a velha saudou-o &agrave; moda antiga,<br \/>\n    parando; a outra, que levava o rec&eacute;m-nascido, inclinou apenas a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e cravou nele os seus dois olhos alegres, risonhos e muito conhecidos. &laquo;Sim,<br \/>\n    &eacute; Stepanida, mas, como tudo acabou, n&atilde;o vale a pena olhar mais<br \/>\n    para ela. A crian&ccedil;a? Talvez seja seu pai. N&atilde;o! Mas que pensamento<br \/>\n    t&atilde;o est&uacute;pido! O pai &eacute; certamente o marido&raquo;.<\/p>\n<p> Estava perfeitamente convencido de que, para ele, n&atilde;o houvera em<br \/>\n    toda aquela aventura mais do que uma necessidade fisiol&oacute;gica e que<br \/>\n    como tinha dado dinheiro a Stepanida o caso estava arrumado, que entre ele<br \/>\n    e Stepanida n&atilde;o existia agora qualquer liga&ccedil;&atilde;o. E, ao<br \/>\n    pensar assim, Eug&eacute;nio n&atilde;o procurava sufocar a voz da consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    tanto mais que, ap&oacute;s a conversa que tivera com a m&atilde;e sobre o<br \/>\n    assunto, nunca mais pensou nela nem a encontrara.<\/p>\n<p> Depois da P&aacute;scoa celebrou-se o casamento e Eug&eacute;nio trouxe<br \/>\n    a noiva para o campo. A casa estava preparada para condignamente receber os<br \/>\n    rec&eacute;m-casados. Maria Pavlovna quis retirar-se. Contudo, Eug&eacute;nio<br \/>\n    e principalmente Lisa, pediram-lhe que ficasse. Ela acedeu, mas passou a ocupar<br \/>\n    uma outra parte da casa.<\/p>\n<p> E, assim, come&ccedil;ava para Eug&eacute;nio uma vida nova.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">VI<\/a><\/h4>\n<p>Durante o primeiro ano de casado, Eug&eacute;nio teve de vencer in&uacute;meras<br \/>\n    dificuldades econ&oacute;micas. Primeiro, viu-se obrigado a vender uma parte<br \/>\n    da propriedade a fim de satisfazer alguns compromissos mais urgentes; e depois<br \/>\n    outros surgiram e ele ficou quase sem dinheiro. A propriedade ia dando bom<br \/>\n    rendimento, mas era preciso mandar uma parte ao irm&atilde;o e isso impedia-o<br \/>\n    de continuar com a labora&ccedil;&atilde;o da refinaria. O &uacute;nico meio<br \/>\n    de sair de tal embara&ccedil;o era lan&ccedil;ar m&atilde;o dos bens de sua<br \/>\n    esposa. Lisa, compreendendo a situa&ccedil;&atilde;o do marido, exigiu que<br \/>\n    ele fizesse uso do seu dote; Eug&eacute;nio concordou, desde que metade da<br \/>\n    herdade ficasse registada em seu nome. Assim se fez, n&atilde;o por vontade<br \/>\n    da mulher, mas para <\/p>\n<p>  que fosse dada uma satisfa&ccedil;&atilde;o a sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> Depois, sete meses ap&oacute;s o casamento, Lisa sofreu um desastre. Sa&iacute;ra<br \/>\n    de carro ao encontro do marido que regressava da cidade. O cavalo, apesar<br \/>\n    de ser manso, espantou-se. Lisa, cheia de medo, atirou-se do carro abaixo.<br \/>\n    A queda n&atilde;o foi grande mas, como estava gr&aacute;vida, abortou.<\/p>\n<p> A perda do filho t&atilde;o desejado, a doen&ccedil;a da mulher e as dificuldades<br \/>\n    financeiras, tudo acrescido da presen&ccedil;a da sogra, que acorreu a tratar<br \/>\n    da filha, contribu&iacute;ram para que esse primeiro ano de casado fosse extremamente<br \/>\n    dif&iacute;cil para Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> Contudo essas dificuldades n&atilde;o o fizeram desanimar, pois verificava<br \/>\n    que o sistema do av&ocirc;, por ele adoptado, ia dando resultado. Ent&atilde;o,<br \/>\n    felizmente, j&aacute; n&atilde;o existia o perigo de se ver obrigado a vender<br \/>\n    toda a propriedade para pagar as d&iacute;vidas. A parte principal, agora<br \/>\n    em nome da mulher, estava salva e com uma excelente colheita de beterraba,<br \/>\n    vendida a bom pre&ccedil;o, estaria assegurada a situa&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    ano seguinte.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso encontrara na mulher aquilo que nunca esperara. Com efeito,<br \/>\n    Lisa ultrapassara toda a sua expectativa. N&atilde;o se tratava da sua ternura,<br \/>\n    do seu entusiasmo amoroso. Mais do que tudo isso, Lisa convencera-se, logo<br \/>\n    a seguir ao casamento, de que, de todos os homens existentes no universo,<br \/>\n    o melhor era Eug&eacute;nio Irtenieff. O melhor e o mais inteligente, o mais<br \/>\n    puro e o mais nobre.<\/p>\n<p> Por conseguinte, o dever de todos era fazerem o poss&iacute;vel para lhe<br \/>\n    serem agrad&aacute;veis; como, todavia, n&atilde;o podia obrigar os estranhos<br \/>\n    a cumprir tal dever, a ela se impunha a necessidade de dirigir nesse sentido<br \/>\n    todas as suas for&ccedil;as. Assim foi. Aplicou toda a sua boa vontade em<br \/>\n    lhe adivinhar os gostos e os desejos, procurando satisfaz&ecirc;-los por mais<br \/>\n    dificuldades que para tal encontrasse. Gra&ccedil;as ao seu amor pelo marido,<br \/>\n    sabia ler-lhe na alma. Compreendia, talvez, melhor do que ele o seu esp&iacute;rito<br \/>\n    e tratava de agir em conformidade com os sentimentos que ele traduzia, procurando<br \/>\n    ado&ccedil;ar-lhe desagrad&aacute;veis impress&otilde;es. Quase lhe adivinhava<br \/>\n    os pr&oacute;prios pensamentos. As coisas at&eacute; ent&atilde;o mais estranhas<br \/>\n    para ele, como os trabalhos agr&iacute;colas, a refinaria, a aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das pessoas, tornavam-se para ela, de repente, acess&iacute;veis e transformara-se<br \/>\n    numa companheira &uacute;til, insubstitu&iacute;vel. Amava a m&atilde;e, mas,<br \/>\n    percebendo que a sua intromiss&atilde;o na vida do casal era desagrad&aacute;vel<br \/>\n    a Eug&eacute;nio, tomou logo o partido do marido, e t&atilde;o resolutamente<br \/>\n    que ele se viu na necessidade de lhe recomendar modera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Possu&iacute;a ainda, em grande dose, o bom gosto, o tacto administrativo<br \/>\n    e era d&oacute;cil. A tudo imprimia um cunho de eleg&acirc;ncia, e de ordem.<br \/>\n    Lisa compreendera qual era o ideal do marido e esfor&ccedil;ava-se por atingi-lo.<\/p>\n<p> S&oacute; um desgosto escurecia a sua felicidade conjugal: n&atilde;o tinham<br \/>\n    filhos. No inverno, por&eacute;m, foram a S. Petersburgo consultar um especialista,<br \/>\n    que lhes afirmou ter Lisa muito boa sa&uacute;de e ser poss&iacute;vel verem,<br \/>\n    dentro em pouco, os seus desejos realizados.<\/p>\n<p> Com efeito, no fim do ano, Lisa estava gr&aacute;vida novamente.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">VII<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o h&aacute; bela sem sen&atilde;o e Lisa era ciumenta o que a fazia<br \/>\n    sofrer muito. Pensava que Eug&eacute;nio n&atilde;o devia apenas viver s&oacute;<br \/>\n    para ela, como tamb&eacute;m n&atilde;o admitia que outra mulher pudesse am&aacute;-lo.<br \/>\n    Mas como, residiam no campo, n&atilde;o havia muita raz&atilde;o para acirrados<br \/>\n    ci&uacute;mes. Por <\/p>\n<p>  consequ&ecirc;ncia, a exist&ecirc;ncia decorria-lhes serena e calma.<\/p>\n<p> At&eacute; a sogra se tinha ido embora. S&oacute; Maria Pavlovna, de quem<br \/>\n    Lisa era extraordinariamente amiga, aparecia de vez em quando e com eles ficava<br \/>\n    semanas inteiras. O trabalho de Eug&eacute;nio ia-se tornando mais suave a<br \/>\n    sa&uacute;de de Lisa, apesar do seu estado, era excelente.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio levantava-se cedo e dava uma volta pela propriedade. Ao bater<br \/>\n    das dez horas ia tomar o caf&eacute; no terra&ccedil;o, onde o esperavam Maria<br \/>\n    Pavlovna, um tio que agora vivia com eles, e Lisa. Depois, n&atilde;o se viam<br \/>\n    at&eacute; ao jantar, ocupando cada qual o tempo a seu modo; em seguida davam<br \/>\n    um passeio, a p&eacute; ou de carro. &Agrave; noite, quando Eug&eacute;nio<br \/>\n    regressava da refinaria tomavam ch&aacute;; mais tarde, uma vez por outra,<br \/>\n    faziam qualquer leitura em voz alta; Lisa trabalhava ou tocava piano. Quando<br \/>\n    Eug&eacute;nio precisava de se ausentar, recebia todos os dias carta da mulher.<br \/>\n    Mas, &agrave;s vezes, ela acompanhava-o e sentia-se, com isso, particularmente<br \/>\n    alegre. No anivers&aacute;rio dum ou doutro reuniam alguns amigos, e era um<br \/>\n    gosto ver como Lisa sabia dispor as coisas de modo que estivessem satisfeitos.<br \/>\n    Eug&eacute;nio sentia que admiravam a sua jovem e encantadora mulher, o que<br \/>\n    fazia com que ele a amasse ainda mais.<\/p>\n<p> Tudo agora lhes corria bem. Ela suportava corajosamente a gravidez e ambos<br \/>\n    come&ccedil;avam a fazer projectos sobre a maneira de educar o filho. O modo<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o, os m&eacute;todos a seguir, tudo isso era resolvido<br \/>\n    por Eug&eacute;nio. Ela, afinal, n&atilde;o desejava sen&atilde;o uma coisa:<br \/>\n    proceder segundo a vontade do marido. Eug&eacute;nio come&ccedil;ou a ler<br \/>\n    muitos livros de medicina e prometia a si pr&oacute;prio que o menino havia<br \/>\n    de ser criado segundo os m&eacute;todos da ci&ecirc;ncia. Lisa concordava<br \/>\n    naturalmente com esses projectos, e, numa perfeita comunh&atilde;o de ideias,<br \/>\n    assim chegaram ao segundo ano do seu casamento, melhor, &agrave; sua segunda<br \/>\n    primavera de casados.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">VIII<\/a><\/h4>\n<p>Era a v&eacute;spera da Trindade. Lisa estava gr&aacute;vida de cinco meses<br \/>\n    e, embora tivesse os necess&aacute;rios cuidados, andava muito bem disposta.<br \/>\n    A m&atilde;e de Lisa e a m&atilde;e de Eug&eacute;nio, que nessa altura estava<br \/>\n    em casa dele, a pretexto de cuidar da nora, tinham frequentes disputas <\/p>\n<p>  que muito aborreciam o casal.<\/p>\n<p> Aconteceu que, por essa ocasi&atilde;o, Lisa resolvera mandar fazer uma<br \/>\n    grande limpeza a toda a casa, o que n&atilde;o acontecia desde a P&aacute;scoa;<br \/>\n    para ajudar os criados, chamou duas mulheres a dias para lavarem os soalhos,<br \/>\n    janelas e m&oacute;veis, bater os tapetes, pregar os reposteiros, etc.<\/p>\n<p> De manh&atilde; cedo, as mulheres chegaram com grandes baldes de &aacute;gua<br \/>\n    e puseram-se a trabalhar. Uma delas era Stepanida que, por interm&eacute;dio<br \/>\n    dum criado, conseguiu ser chamada: queria ver de perto a senhora da casa.<br \/>\n    Stepanida vivia como dantes, sem o marido; e, como outrora, tinha entendimentos<br \/>\n    com o velho Danilo, que a surpreendera uma vez a roubar lenha. Foi depois<br \/>\n    disso que Eug&eacute;nio a conheceu; e agora mantinha rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com um dos empregados do escrit&oacute;rio da refinaria.<\/p>\n<p> Afirmava que n&atilde;o pensara mais no senhor. Ele agora tem a sua esposa<br \/>\n    &#8211; dizia ela &#8211; mas gostava de ver a casa que todos dizem estar muito bem posta.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio, desde que a encontrara com o filho nos bra&ccedil;os, n&atilde;o<br \/>\n    a tornara a ver. Ela n&atilde;o trabalhava fora de casa, porque tinha de tomar<br \/>\n    conta da crian&ccedil;a, e muito raramente ia &agrave; aldeia.<\/p>\n<p> Naquela manh&atilde;, Eug&eacute;nio levantou-se &agrave;s cinco horas e<br \/>\n    saiu para o campo antes que chegassem as mulheres encarregadas da limpeza<br \/>\n    da casa; mas j&aacute; havia gente na cozinha, perto do fog&atilde;o, a aquecer<br \/>\n    &aacute;gua.<\/p>\n<p> Contente, e cheio de apetite, Eug&eacute;nio voltou para almo&ccedil;ar.<br \/>\n    Entregando o cavalo ao jardineiro, bateu com o pingalim na erva, ao mesmo<br \/>\n    tempo que repetia um dos seus estribilhos habituais. Ouvia-se o bater dos<br \/>\n    tapetes. Todos os m&oacute;veis estavam fora de casa, no p&aacute;tio. &laquo;Meu<br \/>\n    Deus, que limpeza anda Lisa a fazer. Eis o que &eacute; uma boa dona de casa!<br \/>\n    Sim, e que dona de casa!&raquo; dizia, ao lembrar-se de Lisa em roupas brancas,<br \/>\n    com aquele rosto radiante de felicidade que sempre apresentava quando o fitava.<br \/>\n    &laquo;Sim, &eacute; preciso mudar de botas, de contr&aacute;rio &#8211; e voltou<br \/>\n    a repetir a frase &#8211; &laquo;Sim, em Lisa cresce um novo Irtenieff&raquo;.<\/p>\n<p> E, sorrindo, empurrou a porta do quarto. Mas, no mesmo instante, a porta<br \/>\n    abriu-se, puxada de dentro, e ele deu de cara com uma mulher que sa&iacute;a<br \/>\n    do quarto, com um balde na m&atilde;o, a saia enrolada, os p&eacute;s descal&ccedil;os,<br \/>\n    as mangas arrega&ccedil;adas at&eacute; aos cotovelos. Afastou-se para a deixar<br \/>\n    passar. Ela afastou-se tamb&eacute;m, ajeitando com a m&atilde;o h&uacute;mida<br \/>\n    o len&ccedil;o que escorregara.<\/p>\n<p> &#8211; Fa&ccedil;a favor de passar &#8211; disse Eug&eacute;nio, mas de repente reconheceu-a.<\/p>\n<p> A rapariga sorriu-lhe com os olhos, fitou-o alegremente e, soltando a saia,<br \/>\n    retirou-se.<\/p>\n<p> Mas afinal que significa isto? N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel disse<br \/>\n    Eug&eacute;nio franzindo o sobrolho e afastando com a m&atilde;o, como se<br \/>\n    fosse uma mosca, certa ideia importuna. Estava aborrecido por t&ecirc;-la<br \/>\n    visto mas, ao mesmo tempo, n&atilde;o podia afastar os olhos do seu corpo<br \/>\n    ondulante, dos seus p&eacute;s descal&ccedil;os, dos seus bra&ccedil;os, dos<br \/>\n    seus ombros, das graciosas pregas da saia encarnada, erguida at&eacute; meia<br \/>\n    perna.<\/p>\n<p> &laquo;Mas por que ser&aacute; que eu estou a olhar para ela?&raquo; perguntou<br \/>\n    procurando desviar a vista.<\/p>\n<p> &laquo;Sim, tenho de mudar de cal&ccedil;ado&raquo;. Entrou no quarto e<br \/>\n    ainda n&atilde;o tinha dado cinco passos quando se voltou para a ver uma vez<br \/>\n    mais. Ela fazia qualquer coisa, a pequena dist&acirc;ncia e, no mesmo instante,<br \/>\n    tamb&eacute;m se voltou para Eug&eacute;nio. &laquo;Ah! que estou eu a fazer?<br \/>\n    Ela &eacute; capaz de pensar&#8230; Sim, com certeza j&aacute; pensou.&raquo;<br \/>\n    O quarto ainda estava molhado. Uma mulher idosa e magra dava come&ccedil;o<br \/>\n    &agrave; lavagem.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio avan&ccedil;ou na ponta dos p&eacute;s at&eacute; onde se<br \/>\n    encontravam as botas. Ia a retirar-se quando a mulher saiu tamb&eacute;m.<br \/>\n    Esta vai e Stepanida vem.<\/p>\n<p> &laquo;Meu Deus, que ir&aacute; passar-se? Que estou eu a fazer?&raquo;<br \/>\n    Pegou nas botas e foi cal&ccedil;ar-se para o vest&iacute;bulo. Escovou-se<br \/>\n    e apareceu no terra&ccedil;o onde j&aacute; estavam a m&atilde;e e a sogra.<br \/>\n    Lisa, evidentemente, esperava-o. Entrou por outra porta ao mesmo tempo que<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> Meu Deus, se ela, que me sup&otilde;e t&atilde;o puro e t&atilde;o inocente,<br \/>\n    soubesse!, pensou Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> Lisa, como sempre, foi ao encontro do marido, radiante de felicidade. Mas,<br \/>\n    nesse instante, ela pareceu-lhe singularmente p&aacute;lida, desfigurada,<br \/>\n    esquel&eacute;tica&#8230; Durante o caf&eacute;, as duas senhoras, trocaram insinua&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    cujos efeitos Lisa tentava iludir habilmente.<\/p>\n<p> &#8211; Estou morta por que terminem com a limpeza do teu quarto &#8211; disse ela ao<br \/>\n    marido. &#8211; Gosto de ver tudo bem arrumado&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Deixa l&aacute; isso. E tu dormiste depois de eu ter sa&iacute;do? &#8211; Dormi.<br \/>\n    Sinto-me muito bem, at&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Como pode uma mulher nesse estado sentir-se bem com este calor insuport&aacute;vel<br \/>\n    e num quarto com as janelas viradas para o sol, sem reposteiros nem cortinas?<br \/>\n    &#8211; disse B&aacute;rbara Alexievna, a m&atilde;e de Lisa. Em minha casa h&aacute;<br \/>\n    sempre cortinas.<\/p>\n<p> &#8211; Mas aqui &agrave;s dez horas da manh&atilde; j&aacute; temos sombra &#8211;<br \/>\n    retorquiu Maria Pavlovna.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; por isso que h&aacute; tantas febres&#8230; &#8211; A humidade&#8230; &#8211; tornou<br \/>\n    B&aacute;rbara Alexievna, sem reparar que estava em contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    consigo pr&oacute;pria &#8211; O meu m&eacute;dico disse sempre que n&atilde;o se<br \/>\n    pode diagnosticar a mol&eacute;stia sem conhecer o temperamento do doente.<br \/>\n    E ele sabe muito bem o que diz, &eacute; o melhor m&eacute;dico que h&aacute;<br \/>\n    por estas redondezas. Tamb&eacute;m, pagamos-lhe cem rublos, por cada visita.<br \/>\n    O meu defunto marido n&atilde;o gostava de chamar o m&eacute;dico para ele;<br \/>\n    mas, em se tratando de mim, n&atilde;o olhava a despesas.<\/p>\n<p> &#8211; Mas como pode um homem fugir a despesas, quando est&aacute; em jogo a<br \/>\n    vida da mulher e do filho? &#8211; disse Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> &#8211; Uma boa esposa obedece ao seu marido &#8211; acrescentou B&aacute;rbara Alexievna.<br \/>\n    &#8211; Simplesmente, Lisa est&aacute; ainda muito fraca depois da doen&ccedil;a<br \/>\n    que teve.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, mam&atilde;, eu sinto-me bem. &#8211; E mudando de assunto &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    lhe serviram creme cozido? &#8211; Eu n&atilde;o quero creme cozido. Contento-me<br \/>\n    com o creme fresco.<\/p>\n<p> &#8211; Eu bem disse a B&aacute;rbara Alexievna, mas ela n&atilde;o faz caso &#8211;<br \/>\n    disse Maria Pavlovna, como que a justificar-se.<\/p>\n<p> &#8211; E, realmente, n&atilde;o quero.<\/p>\n<p> Pretendendo terminar uma conversa que lhe era desagrad&aacute;vel, B&aacute;rbara<br \/>\n    Alexievna perguntou a Eug&eacute;nio: &#8211; Afinal, sempre lan&ccedil;aram &agrave;<br \/>\n    terra os fosfatos? Lisa, entretanto, corria a buscar o creme.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o v&aacute;s, que n&atilde;o me apetece &#8211; gritou a m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8211; Lisa! Lisa, mais devagar! &#8211; acudiu Maria Pavlovna. &#8211; Essas pressas podem<br \/>\n    dar mau resultado.<\/p>\n<p> &#8211; Nada nos faz mal, quando estamos tranquilos de esp&iacute;rito &#8211; sentenciou<br \/>\n    B&aacute;rbara Alexievna, parecendo aludir a qualquer coisa.<\/p>\n<p> Lisa, entretanto, corria a buscar o creme fresco.<\/p>\n<p> Cabisbaixo, Eug&eacute;nio bebia o caf&eacute; e ouvia em sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    J&aacute; estava habituado &agrave;quelas conversas que o irritavam particularmente.<br \/>\n    Queria reflectir sobre o que se passara consigo naquele dia, e n&atilde;o<br \/>\n    o conseguia. Depois do caf&eacute;, B&aacute;rbara Alexievna retirou-se de<br \/>\n    mau humor. A conversa entre os tr&ecirc;s tornou-se depois simples e agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Mas Lisa reparou que alguma coisa preocupava Eug&eacute;nio e perguntou-lhe<br \/>\n    se tinha tido algum aborrecimento.<\/p>\n<p> Como n&atilde;o estava preparado para essa pergunta atrapalhou-se um pouco<br \/>\n    ao responder negativamente. Lisa, no entanto, ficou desconfiada. Que alguma<br \/>\n    coisa o afligia, estava ela bem certa disso. Mas por que seria que ele n&atilde;o<br \/>\n    falava francamente.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">IX<\/a><\/h4>\n<p>No fim do almo&ccedil;o, separaram-se. Eug&eacute;nio foi, como de costume,<br \/>\n    para o escrit&oacute;rio. N&atilde;o lia nem escrevia; sentado, fumava cigarro<br \/>\n    atr&aacute;s de cigarro. O que o surpreendia e entristecia penosamente eram<br \/>\n    os pensamentos que, de repente, lhe vieram &agrave; cabe&ccedil;a, tanto mais<br \/>\n    que, desde que casara, se supunha liberto deles. Com efeito, a partir dessa<br \/>\n    data, n&atilde;o voltara a ter rela&ccedil;&otilde;es com Stepanida, nem com<br \/>\n    outra mulher que n&atilde;o fosse a sua. Intimamente regozijava-se com essa<br \/>\n    liberta&ccedil;&atilde;o, mas eis que, de s&uacute;bito, como por acaso, verificava<br \/>\n    n&atilde;o <\/p>\n<p>  estar de todo liberto, posto que tais sentimentos viviam dentro de si, incisivos<br \/>\n  e indom&aacute;veis. <\/p>\n<p> Precisava de escrever uma carta. Sentou-se &agrave; secret&aacute;ria para<br \/>\n    esse efeito. Escrita a carta, esquecido completamente dos pensamentos de h&aacute;<br \/>\n    pouco, dirigiu-se para a estrebaria. E, de novo, como de prop&oacute;sito<br \/>\n    ou por um infeliz acaso, quando ia a descer a escada, viu na sua frente a<br \/>\n    saia vermelha, o len&ccedil;o vermelho e, balan&ccedil;ando os bra&ccedil;os<br \/>\n    requebrando o corpo, ele passou &agrave; sua frente. N&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    passou &agrave; sua frente, mas deu tamb&eacute;m uma pequena corrida, como<br \/>\n    se estivesse a brincar com ele. Neste momento, vieram-lhe &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o meio dia brilhante, as urtigas, Danilo, a cabana e, &agrave; sombra dos<br \/>\n    pl&aacute;tanos, uma boca risonha que mordiscava folhas&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o, &eacute; imposs&iacute;vel deixar isso tudo, disse ele, e, esperando<br \/>\n    que as duas mulheres desaparecessem, tornou ao escrit&oacute;rio. Era meio<br \/>\n    dia em ponto e contava l&aacute; encontrar o feitor que, com efeito, acabava<br \/>\n    de acordar. Espregui&ccedil;ando-se e bocejando, olhava para o vaqueiro, que<br \/>\n    lhe dizia qualquer coisa.<\/p>\n<p> &#8211; Vassili Nicolaievitch! &#8211; Queira dizer, senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Preciso de lhe falar.<\/p>\n<p> &#8211; Estou &agrave;s suas ordens! &#8211; Acabe o que estava a dizer.<\/p>\n<p> &#8211; Ver&aacute;s que n&atilde;o podes com ele&#8230; &#8211; disse Vassili Nicolaievitch,<br \/>\n    voltando-se para o vaqueiro.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; pesado, Vassili Nicolaievitch.<\/p>\n<p> &#8211; Que h&aacute;? &#8211; perguntou Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> &#8211; Foi uma vaca que pariu no campo.<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Vou dar ordens para arrearem Nicolau que leve um carro dos grandes.<\/p>\n<p> O vaqueiro saiu.<\/p>\n<p> &#8211; Veja l&aacute;, Vassili Nicolaievitch, o que me havia de acontecer&#8230;<br \/>\n    &#8211; come&ccedil;ou Eug&eacute;nio, corando e sentando-se. &#8211; Calcule que em solteiro<br \/>\n    tive uma liga&ccedil;&atilde;o&#8230; Talvez tenha ouvido falar nisso.<\/p>\n<p> Vassili Nicolaievitch sorriu e, mostrando-se compadecido, perguntou: &#8211; Trata-se<br \/>\n    da Stepanida? &#8211; Sim. Pe&ccedil;o-lhe, que n&atilde;o torne a contrat&aacute;-la<br \/>\n    para trabalhar c&aacute; em casa. Compreender&aacute; que isso &eacute; muito<br \/>\n    desagrad&aacute;vel para mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Foi o criado Ivan, quem possivelmente, deu essa ordem.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, ficamos entendidos. N&atilde;o acha que fa&ccedil;o bem?<br \/>\n    &#8211; disse Eug&eacute;nio para esconder a sua confus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Vou j&aacute; tratar disso.<\/p>\n<p> E Eug&eacute;nio tranquilizou-se pensando que, se passara um ano sem a encontrar,<br \/>\n    n&atilde;o seria dif&iacute;cil esquec&ecirc;-la definitivamente. De resto,<br \/>\n    Vassili Nicolaievitch falar&aacute; ao criado, este por sua vez falar&aacute;<br \/>\n    a Stepanida, e ela compreender&aacute; a raz&atilde;o por que n&atilde;o quero<br \/>\n    v&ecirc;-la aqui, dizia consigo Eug&eacute;nio, satisfeito por ter tido a<br \/>\n    coragem de se abrir com Vassili Nicolaievitch, embora isso lhe tivesse custado.<br \/>\n    &laquo;Sim, tudo, menos esta vergonha&raquo;. E estremecia, s&oacute; com<br \/>\n    a lembran&ccedil;a desse crime.<\/p>\n<p> O esfor&ccedil;o moral que fez, para ter aquele desabafo com Vassili Nicolaievitch<br \/>\n    e lhe dar aquela ordem, serenou Eug&eacute;nio. Parecia-lhe que tudo estava<br \/>\n    arrumado e at&eacute; Lisa notou que o marido voltava inteiramente calmo e<br \/>\n    mesmo mais alegre do que era costume. Se calhar estava aborrecido por causa<br \/>\n    das discuss&otilde;es entre minha m&atilde;e e a dele. Realmente, com a sua<br \/>\n    sensibilidade e o seu nobre car&aacute;cter, &eacute; sempre desagrad&aacute;vel<br \/>\n    ouvir alus&otilde;es, hostis e de t&atilde;o mau gosto, pensava Lisa.<\/p>\n<p> O tempo estava lindo. As mulheres, segundo uma velha tradi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    foram ao bosque apanhar flores, com as quais teceram coroas e, aproximando-se<br \/>\n    da escadaria da casa senhorial, puseram-se a dan&ccedil;ar e a cantar. Maria<br \/>\n    Pavlovna e B&aacute;rbara Alexievna, com os seus elegantes vestidos, sa&iacute;ram<br \/>\n    para o terra&ccedil;o e acercaram-se da roda para ver as camponesas. O tio,<br \/>\n    um b&ecirc;bedo muito devasso, que passava o ver&atilde;o com Eug&eacute;nio,<br \/>\n    seguia-as, envergando um trajo chin&ecirc;s.<\/p>\n<p> Como de costume, havia uma grande roda gritante de cores vivas, de mulheres<br \/>\n    novas e de raparigas, roda que era como o centro de toda aquela anima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Em volta dela, de todos os lados, como planetas que giram em torno do astro<br \/>\n    principal, raparigas de m&atilde;os dadas faziam rodar as saias; os rapazes<br \/>\n    riam com satisfa&ccedil;&atilde;o e por tudo e por nada, corriam e agarravam-se<br \/>\n    uns aos outros; os mais velhos, de poddiovka azul e preta, com bon&eacute;s<br \/>\n    e blusas encarnadas, quando passavam, faziam estalar entre os dedos sementes<br \/>\n    de girassol; os criados e os estranhos olhavam, de longe, a roda.<\/p>\n<p> As duas senhoras aproximaram-se mais; Lisa p&ocirc;s-se atr&aacute;s delas,<br \/>\n    vestida de azul, com uma fita da mesma cor no cabelo, mostrando os bra&ccedil;os<br \/>\n    bem torneados e brancos, e os cotovelos que sa&iacute;am das largas mangas.<br \/>\n    Eug&eacute;nio n&atilde;o desejava aparecer, mas seria rid&iacute;culo esconderse.<\/p>\n<p> Apareceu, pois, na escadaria, de cigarro na boca; saudou os rapazes e os<br \/>\n    camponeses e dirigiu-se a um deles. Nesse momento, as raparigas cantavam,<br \/>\n    batiam palmas e saltavam em animada roda.<\/p>\n<p> &#8211; A senhora chama-o &#8211; disse-lhe um criado aproximando-se dele. Lisa chamava-o<br \/>\n    para que ele visse uma das mulheres que melhor dan&ccedil;ava. Era Stepanida.<br \/>\n    Vestia saia amarela, corpete sem mangas e ostentava len&ccedil;o de seda.<br \/>\n    Estava en&eacute;rgica, corada e alegre. Era, n&atilde;o havia d&uacute;vida,<br \/>\n    certo que dan&ccedil;ava muito bem, mas Eug&eacute;nio nem sequer deu por<br \/>\n    isso.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, sim, &#8211; respondeu ele enquanto tirava e voltava a p&ocirc;r os &oacute;culos.<\/p>\n<p> Desta forma nunca mais me vejo livre dela!, pensou. E n&atilde;o a fitava<br \/>\n    porque receava o seu encontro; mas, assim mesmo, olhando de soslaio, achou-a<br \/>\n    extraordinariamente insinuante.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, lia-lhe nos olhos que ela tamb&eacute;m o via e se sabia<br \/>\n    admirada. Demorou-se apenas o bastante para n&atilde;o parecer grosseiro e,<br \/>\n    percebendo que B&aacute;rbara Alexievna o chamava, tratando-o com afectada<br \/>\n    hipocrisia por &laquo;querido&raquo;, voltou as costas e foi-se embora.<\/p>\n<p> Regressou a casa para n&atilde;o a ver, mas, quando subiu ao andar superior,<br \/>\n    sem saber como nem porqu&ecirc;, abeirou-se da janela e ali ficou a olhar<br \/>\n    para Stepanida, embevecido, enquanto as duas senhoras e Lisa se conservavam<br \/>\n    perto da escadaria. Depois, retirou-se para que o n&atilde;o vissem e voltou<br \/>\n    para o terra&ccedil;o. Acendeu um cigarro e desceu ao jardim ao encontro da<br \/>\n    camponesa. Mal tinha dado dois passos na alameda, quando, por entre as &aacute;rvores,<br \/>\n    descortinou o seu colete sem mangas sobre a blusa cor-de-rosa e o len&ccedil;o<br \/>\n    encarnado. Ia com outra mulher. Para onde? De repente apoderou-se dele um<br \/>\n    desejo irreprim&iacute;vel, ardente.<\/p>\n<p> Como se obedecesse a uma for&ccedil;a estranha, Eug&eacute;nio dirigiu-se-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Eug&eacute;nio Ivanovitch! Eug&eacute;nio Ivanovitch! Quero pedir-lhe<br \/>\n    um favor &#8211; disse, por detr&aacute;s dele, uma voz.<\/p>\n<p> Era o velho Samokhine, encarregado de abrir um po&ccedil;o. Parou, retrocedeu<br \/>\n    bruscamente e encaminhou-se para ele. Finda a conversa, voltou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e viu que as duas mulheres se dirigiam para o po&ccedil;o ou, pelo menos,<br \/>\n    tomavam esse caminho. Por&eacute;m, n&atilde;o se demoraram e voltaram novamente<br \/>\n    para a roda.<\/p>\n<h4><a name=\"10\">X<\/a><\/h4>\n<p>Despedindo-se de Samokhine, Eug&eacute;nio voltou a casa t&atilde;o deprimido<br \/>\n    como se tivesse cometido um crime. Primeiro, Stepanida convenceu-se de que<br \/>\n    ele desejava v&ecirc;-la; segundo, a outra, essa Ana Prokhorova, sabia de<br \/>\n    tudo, evidentemente. Sentiu-se abatido. Tinha a consci&ecirc;ncia de que perdera<br \/>\n    o dom&iacute;nio de si pr&oacute;prio, que era impelido por uma for&ccedil;a<br \/>\n    estranha, que desta vez tinha escapado, por milagre, mas que, mais cedo ou<br \/>\n    mais tarde, <\/p>\n<p>  sucumbiria. <\/p>\n<p> Sim, estava perdido! Atrai&ccedil;oar a sua jovem e terna esposa com uma<br \/>\n    camponesa! Ali&aacute;s toda a gente o sabia! Era a derrocada da sua vida<br \/>\n    conjugal, fora da qual ele n&atilde;o poderia viver.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o! &Eacute; preciso arrepiar caminho. Mas que devo<br \/>\n    fazer? Tudo o que me for poss&iacute;vel, para deixar de pensar nela.<\/p>\n<p> N&atilde;o pensar!&#8230; E era precisamente nela que continuava &agrave; pensar!<br \/>\n    Via-a diante de si, at&eacute; na sombra dos pl&aacute;tanos! Lembrou-se de<br \/>\n    que tinha lido algures a hist&oacute;ria dum velho que, para fugir &agrave;<br \/>\n    sedu&ccedil;&atilde;o duma mulher sobre a qual devia colocar a m&atilde;o<br \/>\n    direita, a fim de a curar, punha, no entanto, a esquerda por cima de uma fogueira.<br \/>\n    &laquo;Sim, estou disposto a queimar a m&atilde;o, mas n&atilde;o quero sucumbir&raquo;.<br \/>\n    Olhando &agrave; volta de si e vendo que se encontrava s&oacute; no quarto,<br \/>\n    acendeu um f&oacute;sforo e chegou-o aos dedos. Bem, agora pensa nela!, disse<br \/>\n    com ironia. Mas, sentindo queimar-se, retirou os dedos e atirou para o ch&atilde;o<br \/>\n    o f&oacute;sforo, acabando por se rir de si mesmo.<\/p>\n<p> &laquo;Que estupidez! N&atilde;o &eacute; preciso fazer isto. O que &eacute;<br \/>\n    preciso &eacute; tomar provid&ecirc;ncias para que n&atilde;o a torne a ver.<br \/>\n    Afastar-me ou afast&aacute;-la. Sim, &eacute; melhor afast&aacute;-la. Dar-lhe<br \/>\n    dinheiro para que se instale com o marido noutra parte. Isto come&ccedil;ar&aacute;<br \/>\n    a constar. Depois ser&aacute; o tema das conversas de toda a gente. Tudo,<br \/>\n    menos isso. Sim, tem de ser, dizia ele sem a perder de vista. Aonde &eacute;<br \/>\n    que ela vai? perguntou a si pr&oacute;prio. Pareceu-lhe que Stepanida o vira<br \/>\n    perto da janela e, depois de o envolver num olhar significativo ia, de bra&ccedil;o<br \/>\n    dado com a outra mulher, para os lados do jardim, requebrando-se.<\/p>\n<p> Mesmo sem dar por isso, Eug&eacute;nio dirigiu-se ao escrit&oacute;rio.<br \/>\n    Vassili Nicolaievitch, de blus&atilde;o novo, tomava ch&aacute; com a mulher<br \/>\n    e uma visita.<\/p>\n<p> &#8211; Diga-me, Vassili Nicolaievitch, pode dar-me aten&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    um momento? &#8211; Porque n&atilde;o? Aqui me tem.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, vamos antes l&aacute; para fora.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; para j&aacute;. Passa-me o chap&eacute;u, Tamia, e tapa o samovar<br \/>\n    &#8211; disse Vassili Nicolaievitch, acompanhando Eug&eacute;nio, de bom humor.<\/p>\n<p> A este, pareceu-lhe, que Vassili Nicolaievitch tinha bebido uma pinga a<br \/>\n    mais; mas talvez fosse melhor assim, talvez encarasse com mais simpatia o<br \/>\n    caso que lhe ia expor.<\/p>\n<p> &#8211; Ou&ccedil;a. Vassili Nicolaievitch, queria falar-lhe novamente acerca<br \/>\n    daquela mulher&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que h&aacute;? Eu j&aacute; dei ordem para que n&atilde;o voltem a cham&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; isso! Pensando melhor, n&atilde;o seria poss&iacute;vel<br \/>\n    mand&aacute;-la daqui para fora? A ela e toda a fam&iacute;lia? &Eacute; um<br \/>\n    conselho que desejo pedir-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Mand&aacute;-los, para onde? &#8211; perguntou Vassili Nicolaievitch, com estranheza<br \/>\n    e Eug&eacute;nio interpretou aquelas palavras com descontentamento e ironia.<\/p>\n<p> &#8211; Pensei que lhes podia dar dinheiro ou at&eacute; algum terreno em Kholtovskoi&eacute;,<br \/>\n    mas com a condi&ccedil;&atilde;o de ela n&atilde;o permanecer aqui mais tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas como se h&aacute;-de expulsar essa gente? Como poderemos n&oacute;s<br \/>\n    arranc&aacute;-los da sua terra? Que mal lhe causa a sua presen&ccedil;a?<br \/>\n    Em que &eacute; que os incomodam, senhor? &#8211; &Eacute; que, Vassili Nicolaievitch,<br \/>\n    voc&ecirc; deve compreender, se uma coisa destas chegasse aos ouvidos de minha<br \/>\n    mulher, seria terr&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Mas quem ter&aacute; o atrevimento de lho dizer? &#8211; Depois, seria para<br \/>\n    mim uma tortura constante viver, dia a dia, hora a hora, com receio de que<br \/>\n    ela viesse a saber&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se apoquente. &laquo;Quem se recorda de faltas passadas, n&atilde;o<br \/>\n    mostra muito tino, e quem n&atilde;o pecou diante de Deus n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    culpado perante o czar&raquo;.<\/p>\n<p> &#8211; Em todo o caso, acho que seria prefer&iacute;vel lev&aacute;-los para<br \/>\n    fora daqui. Voc&ecirc; n&atilde;o poderia tocar nisto ao marido? &#8211; Mas para<br \/>\n    qu&ecirc;? Para que &eacute; que o senhor anda com esses escr&uacute;pulos?<br \/>\n    S&atilde;o coisas que acontecem. E agora, quem se atreveria a censur&aacute;-lo?<br \/>\n    Ora! &#8211; Tenha paci&ecirc;ncia&#8230; fale com o homem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bem, j&aacute; que assim o quer, falarei, embora eu esteja convencido<br \/>\n    de que nada se arranjar&aacute;.<\/p>\n<p> Esta conversa fez serenar um pouco Eug&eacute;nio. Chegou at&eacute; a acreditar<br \/>\n    que, por causa do seu receio, exagerara o perigo em que estava. Afinal, voltara<br \/>\n    a ter qualquer entrevista com ela? N&atilde;o, muito simplesmente, ia dar<br \/>\n    uma volta pelo jardim quando, por acaso, ela surgira. No dia da Trindade,<br \/>\n    depois do jantar, Lisa, passando pelo jardim, quis saltar uma valeta para<br \/>\n    ver no prado um p&eacute; de trevo que o marido desejava mostrar-lhe, mas,<br \/>\n    ao faz&ecirc;-lo, deu um trambolh&atilde;o. Caiu suavemente, de lado, soltou<br \/>\n    um ai e Eug&eacute;nio viu-lhe na cara uma express&atilde;o de sofrimento.<br \/>\n    Quis levant&aacute;-la mas ela afastou-o com a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, Eug&eacute;nio, espera um bocadinho &#8211; disse com um sorriso<br \/>\n    for&ccedil;ado &#8211; parece que desloquei um p&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; V&ecirc;s? H&aacute; muito tempo que eu ando a dizer-te que, no estado<br \/>\n    em que est&aacute;s n&atilde;o deves andar aos saltos &#8211; censurou B&aacute;rbara<br \/>\n    Alexievna.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; nada, mam&atilde;. Eu levanto-me j&aacute;.<\/p>\n<p> Levantou-se com a ajuda do marido, mas no mesmo instante empalideceu e o<br \/>\n    terror estampou-se-lhe no rosto.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, parece que n&atilde;o me sinto bem &#8211; segredou-lhe, para que a m&atilde;e<br \/>\n    n&atilde;o ouvisse.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, meu Deus, o que fizeram? Eu bem lhe dizia que n&atilde;o andasse tanto<br \/>\n    &#8211; gritava B&aacute;rbara Alexievna. &#8211; Esperem, que eu vou chamar algu&eacute;m.<br \/>\n    Ela n&atilde;o deve caminhar. &Eacute; preciso lev&aacute;la.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o tens medo, Lisa? Eu levo-te &#8211; disse Eug&eacute;nio, passando-lhe<br \/>\n    o bra&ccedil;o esquerdo &agrave; volta da cinta.<\/p>\n<p> &#8211; Segura-te no meu pesco&ccedil;o. Vamos, isso mesmo &#8211; e, inclinando-se,<br \/>\n    levantou-a com o bra&ccedil;o direito. Nunca mais Eug&eacute;nio esqueceu<br \/>\n    a express&atilde;o contristada e ao mesmo tempo feliz que se reflectia no<br \/>\n    rosto de Lisa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o achas que peso muito, meu amor? &#8211; perguntou-lhe ela sorrindo.<br \/>\n    &#8211; Olha a mam&atilde; a correr! &#8211; E, dobrando-se para ele, beijou-o.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio gritou a B&aacute;rbara Alexievna que n&atilde;o se afligisse<br \/>\n    porque ele podia bem com Lisa.<\/p>\n<p> Mas a sogra, parando, come&ccedil;ou a gritar ainda com mais for&ccedil;a:<br \/>\n    &#8211; Tu deixa-la cair, pela certa. Olha que a matas! N&atilde;o tens a consci&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Posso bem com ela, esteja descansada&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso, n&atilde;o quero ver a morte da minha filha &#8211; e correu<br \/>\n    para o fundo da alameda.<\/p>\n<p> &#8211; Isto n&atilde;o &eacute; nada, vais ver &#8211; afirmou Lisa a sorrir.<\/p>\n<p> &#8211; Oxal&aacute; que n&atilde;o suceda como da outra vez! Embora Lisa pesasse<br \/>\n    um pouco, Eug&eacute;nio, orgulhoso e alegre, transportou-a at&eacute; casa,<br \/>\n    n&atilde;o querendo entreg&aacute;-la &agrave; criada de quarto nem ao cozinheiro,<br \/>\n    que B&aacute;rbara Alexievna encontrara e mandara ao encontro deles. Levou<br \/>\n    Lisa at&eacute; ao quarto e deitou-a na cama estendendo-a ao comprido.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, vai-te embora &#8211; disse ela e, puxando-lhe a m&atilde;o, beijou-o.<br \/>\n    &#8211; N&oacute;s c&aacute; nos arranjaremos, eu e Annuchka.<\/p>\n<p> Maria Pavlovna viera tamb&eacute;m, a correr. Enquanto despiam Lisa e a<br \/>\n    metiam no leito, Eug&eacute;nio, sentado numa sala pr&oacute;xima, com um<br \/>\n    livro na m&atilde;o, esperava. B&aacute;rbara Alexievna passou diante dele<br \/>\n    com um ar t&atilde;o mal encarado e t&atilde;o carregado de censuras que deixou<br \/>\n    o genro aterrado.<\/p>\n<p> &#8211; Que aconteceu &#8211; inquiriu.<\/p>\n<p> &#8211; Para que o perguntas? Aconteceu o que possivelmente desejavas ao obrigares<br \/>\n    tua mulher a saltar a valeta.<\/p>\n<p> &#8211; B&aacute;rbara Alexievna! &#8211; exclamou ele indignado. &#8211; Eu n&atilde;o lhe<br \/>\n    admito tais insinua&ccedil;&otilde;es! Se me quer atormentar e envenenar a<br \/>\n    vida&#8230; ia continuar: &laquo;V&aacute;-se embora&raquo;, mas suspendeu a frase.<\/p>\n<p> A senhora n&atilde;o tem vergonha de me atribuir essas ideias? N&atilde;o<br \/>\n    percebo porqu&ecirc;? &#8211; Agora j&aacute; &eacute; tarde! &#8211; e retirou-se, sacudindo<br \/>\n    com viol&ecirc;ncia a coifa, ao transpor a porta. E saiu.<\/p>\n<p> A queda fora efectivamente desastrosa. O p&eacute; deslocara-se, mas o pior<br \/>\n    era que o abalo sofrido podia ocasionar um aborto. Toda a gente sabia que,<br \/>\n    naquela emerg&ecirc;ncia, nada havia a fazer. O mais recomend&aacute;vel era<br \/>\n    deix&aacute;-la repousar. Apesar disso, resolveram chamar o m&eacute;dico<br \/>\n    quanto antes.<\/p>\n<p> &laquo;Meu prezado Nicolau Semiwovitch &#8211; escreveu Eug&eacute;nio &#8211; voc&ecirc;<br \/>\n    tem sido sempre muito am&aacute;vel para connosco e, por isso, mais uma vez<br \/>\n    lhe pe&ccedil;o que venha acudir a minha mulher; ela&#8230; etc.&raquo;.<\/p>\n<p> Depois de escrever a carta, dirigiu-se &agrave; cavalari&ccedil;a, a fim<br \/>\n    de indicar qual o carro e os cavalos que deviam seguir para trazer o m&eacute;dico.<br \/>\n    Depois, voltou para casa. Eram aproximadamente dez horas da noite. Lisa, na<br \/>\n    cama, dizia que j&aacute; se sentia bem e que nada lhe do&iacute;a. B&aacute;rbara<br \/>\n    Alexievna, sentada &agrave; cabeceira, oculta por detr&aacute;s duma rima<br \/>\n    de pap&eacute;is de m&uacute;sica, trabalhava numa grande coberta vermelha<br \/>\n    e o seu rosto denunciava que, depois do que se passara, n&atilde;o voltaria<br \/>\n    a haver paz naquela casa.<\/p>\n<p> &#8211; Os outros podem fazer o que quiserem; eu c&aacute; entendo que j&aacute;<br \/>\n    cumpri o meu dever.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio compreendia bem os sentimentos que a animavam, mas fingia<br \/>\n    n&atilde;o dar por isso.<\/p>\n<p> Contou, com ar satisfeito e desembara&ccedil;ado, que j&aacute; tinha enviado<br \/>\n    a carruagem e que a &eacute;gua Kavuchka puxava muito bem, engatada &agrave;<br \/>\n    esquerda.<\/p>\n<p> &#8211; Quando se trata de pedir socorros urgentes &eacute; realmente ocasi&atilde;o<br \/>\n    prop&iacute;cia a experi&ecirc;ncias com cavalos? Oxal&aacute; que se n&atilde;o<br \/>\n    atire tamb&eacute;m com o doutor para algum barranco &#8211; disse B&aacute;rbara<br \/>\n    Alexievna, olhando fixamente detr&aacute;s dos &oacute;culos, para o trabalho,<br \/>\n    que chegara agora para junto da l&acirc;mpada e sobre o qual se inclinara.<\/p>\n<p> &#8211; De qualquer modo, era preciso mand&aacute;-lo buscar&#8230; Fiz o que me pareceu<br \/>\n    melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, lembro-me muito bem de que os seus cavalos quase me atiraram contra<br \/>\n    uma escada&#8230;<\/p>\n<p> Era uma inven&ccedil;&atilde;o sua, j&aacute; antiga; mas, desta vez, Eug&eacute;nio<br \/>\n    cometeu a imprud&ecirc;ncia de afirmar que as coisas n&atilde;o se tinham<br \/>\n    passado como ela pretendia mostrar.<\/p>\n<p> &#8211; Raz&atilde;o tenho eu para dizer&#8230; e quantas vezes j&aacute; o disse<br \/>\n    ao pr&iacute;ncipe, que muito me custa viver com gente injusta e falsa. Suporto<br \/>\n    tudo, mas isso n&atilde;o. Nunca! &#8211; Se a algu&eacute;m isto custa, &eacute;<br \/>\n    principalmente a mim &#8211; afirmou Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> &#8211; Bem se v&ecirc;! Claro! &#8211; Mas que &eacute; que se v&ecirc;? &#8211; Nada. Estou<br \/>\n    a contar as malhas.<\/p>\n<p> Nesse momento, Eug&eacute;nio encontrava-se perto do leito. Lisa fitava-o.<br \/>\n    Com uma das m&atilde;os, que tinha fora das roupas, ela pegou-lhe na dele<br \/>\n    e apertou-a. &laquo;Tem paci&ecirc;ncia, por mim, ela n&atilde;o impedir&aacute;<br \/>\n    que nos amemos&raquo;, dizia o seu olhar.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o farei nada &#8211; murmurou ele beijando-lhe a m&atilde;o h&uacute;mida<br \/>\n    e, depois, os belos olhos, que se fecharam languidamente.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute; como da outra vez? &#8211; perguntou ele. &#8211; Como te sentes? &#8211; &Eacute;<br \/>\n    horr&iacute;vel pensar nisso, mas julgo que o menino vive e viver&aacute;<br \/>\n    &#8211; respondeu ela, olhando para o ventre.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &eacute; terr&iacute;vel, &eacute; terr&iacute;vel mesmo s&oacute;<br \/>\n    pensar nisso.<\/p>\n<p> Apesar da insist&ecirc;ncia de Lisa para que se retirasse, Eug&eacute;nio<br \/>\n    ficou at&eacute; junto dela; dormitava, mas pronto a dispensar-lhe os seus<br \/>\n    cuidados. A tarde correu bem; se n&atilde;o esperassem pelo m&eacute;dico,<br \/>\n    talvez ela se levantasse. O m&eacute;dico chegou &agrave; hora da ceia. Disse<br \/>\n    que, embora tais acidentes pudessem ser perigosos, n&atilde;o havia ind&iacute;cios<br \/>\n    concretos e portanto s&oacute; poderiam formular-se hip&oacute;teses. Aconselhou<br \/>\n    a que ficasse de cama e tomasse determinados medicamentos, posto que fosse<br \/>\n    contr&aacute;rio a drogas. Al&eacute;m disso, dissertou largamente sobre a<br \/>\n    anatomia da mulher; B&aacute;rbara Alexievna escutava-o meneando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    com ar de import&acirc;ncia. Depois de receber os seus honor&aacute;rios,<br \/>\n    colocados na concha da m&atilde;o como &eacute; da praxe, o m&eacute;dico<br \/>\n    retirou-se e Lisa ficou de cama durante uma semana.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">XI<\/a><\/h4>\n<p>Eug&eacute;nio passava a maior parte do tempo junto da mulher. Tratava-a,<br \/>\n    conversava com ela, lia-lhe qualquer coisa e at&eacute; suportava, sem enfado,<br \/>\n    B&aacute;rbara Alexievna, chegando mesmo a gracejar com ela. Mas n&atilde;o<br \/>\n    podia estar sempre em casa. Lisa mandava-o embora, receando que a sua perman&ecirc;ncia<br \/>\n    ali o aborrecesse, e ainda porque a propriedade necessitava constantemente<br \/>\n    da sua presen&ccedil;a. N&atilde;o podia estar sempre em casa. E Eug&eacute;nio<br \/>\n    l&aacute; partiu, percorrendo os campos, o bosque, o jardim, o pomar; por<br \/>\n    toda a parte o perseguia a lembran&ccedil;a e a imagem de Stepanida; s&oacute;<br \/>\n    raramente conseguia esquec&ecirc;-la. Mas isso era o menos, porque talvez<br \/>\n    pudesse vencer esse sentimento: o pior &eacute; que dantes passava meses sem<br \/>\n    a ver e agora encontrava-a a cada passo. Stepanida compreendera, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    que ele desejava reatar as antigas rela&ccedil;&otilde;es e procurava atravessar-se-lhe<br \/>\n    no caminho. Mas, como <\/p>\n<p>  nada tinham combinado, n&atilde;o havia entrevistas. <\/p>\n<p> Fazia apenas o poss&iacute;vel para se encontrar com ele, como que por acaso.<\/p>\n<p> O melhor lugar para tal era o bosque, onde as mulheres iam buscar sacos<br \/>\n    de erva para as vacas. Eug&eacute;nio sabia disto e todos os dias passava<br \/>\n    por esses s&iacute;tios. E todos os dias resolvia n&atilde;o voltar l&aacute;.<br \/>\n    Mas n&atilde;o passava um dia sem l&aacute; ir. Quando ouvia vozes, parava,<br \/>\n    com o cora&ccedil;&atilde;o a palpitar. Escondia-se atr&aacute;s de uma moita,<br \/>\n    para ver se era Stepanida&#8230; Se fosse ela, ainda que estivesse s&oacute;,<br \/>\n    n&atilde;o iria ao seu encontro, pensava ele. &#8211; N&atilde;o, fugir-lhe-ia,<br \/>\n    mas tinha necessidade de a ver. Sim, tinha.<\/p>\n<p> Uma vez encontrou-a. Ia a entrar no bosque quando ela sa&iacute;a com outras<br \/>\n    mulheres, levando um grande saco de erva &agrave;s costas. Se tivesse vindo<br \/>\n    um instante mais cedo, talvez a tivesse encontrado no bosque; agora, por&eacute;m,<br \/>\n    diante das outras mulheres, n&atilde;o poderia ir ter com ela.<\/p>\n<p> Apesar disso, correndo o risco de chamar a aten&ccedil;&atilde;o das companheiras,<br \/>\n    Eug&eacute;nio conservouse atr&aacute;s dum massi&ccedil;o de aveleiras. Como<br \/>\n    era natural, ela n&atilde;o apareceu e ele ali ficou por muito tempo. Meu<br \/>\n    Deus! com que atractivos ele a revia na sua imagina&ccedil;&atilde;o! E n&atilde;o<br \/>\n    era uma vez, eram muitas, muitas vezes, cada vez mais viva e real&#8230; Nunca<br \/>\n    lhe parecera t&atilde;o sedutora e nunca a possuira t&atilde;o completamente.<\/p>\n<p> Sentia que j&aacute; n&atilde;o era bem senhor de si; aquilo enlouquecia-o.<br \/>\n    No entanto, n&atilde;o deixava de ser severo consigo pr&oacute;prio; compreendia<br \/>\n    a monstruosidade dos seus desejos e at&eacute; dos seus actos. Sabia que,<br \/>\n    se a encontrasse em qualquer parte, num lugar escuro, bastaria tocar-lhe para<br \/>\n    que a sua paix&atilde;o o empolgasse. Sabia que s&oacute; se continha por<br \/>\n    vergonha dos outros, dela e talvez de si. E sabia que procurava forma de ocultar<br \/>\n    essa vergonha e pensava num lugar escuro ou num contacto que viesse saciar-lhe<br \/>\n    a paix&atilde;o.<\/p>\n<p> Considerava-se, assim, um miser&aacute;vel, um criminoso, desprezava-se<br \/>\n    e abominava-se, indignado. E detestava-se por n&atilde;o ter cedido. Rogava<br \/>\n    a Deus diariamente que o fortalecesse, que o livrasse da perdi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Resolvia diariamente n&atilde;o dar mais um passo, nunca mais a fitar, esquec&ecirc;-la;<br \/>\n    imaginava diariamente todos os meios de se libertar dessa obsess&atilde;o<br \/>\n    e punha-os em pr&aacute;tica. Mas tudo era em v&atilde;o.<\/p>\n<p> Um dos meios consistia em ocupar o seu esp&iacute;rito com qualquer outra<br \/>\n    ideia: outro era o trabalho f&iacute;sico e o jejum; um terceiro, a reflex&atilde;o<br \/>\n    da vergonha que sobre ele cairia quando toda a gente, a mulher e a sogra viessem<br \/>\n    a saber. Fazia tudo isto e supunha dominar-se, mas, quando chegava ao meio-dia,<br \/>\n    a hora das antigas entrevistas, a hora em que costumava encontr&aacute;-la<br \/>\n    com o saco da erva, corria para o bosque s&oacute; para a ver.<\/p>\n<p> Assim passaram cinco penosos dias. S&oacute; a via de longe; nunca se aproximava<br \/>\n    dela.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">XII<\/a><\/h4>\n<p>Lisa melhorava pouco a pouco; j&aacute; dava pequenos passeios mas inquietava-se<br \/>\n    com a mudan&ccedil;a do marido, cuja causa ela n&atilde;o compreendia. B&aacute;rbara<br \/>\n    Alexievna retirou-se por algum tempo e em casa apenas ficaram o tio e Maria<br \/>\n    Pavlovna. Eug&eacute;nio encontrava-se nesse estado de ang&uacute;stia, quando<br \/>\n    chegaram as grandes chuvas que se prolongam por alguns dias, como sucede sempre<br \/>\n    depois das tempestades de Junho. As chuvas fizeram suspender todos os trabalhos:<br \/>\n    n&atilde;o se podia juntar o estrume por causa da humidade e da lama e os<br \/>\n    camponeses esperavam em casa; os pastores dificilmente conseguiam meter os<br \/>\n    rebanhos nos redis, as vacas e os carneiros invadiam os p&aacute;tios, e as<br \/>\n    mulheres descal&ccedil;as e de xale, patinhando na lama, procuravam os animais<br \/>\n    tresmalhados. Os caminhos estavam transformados em ribeiros, as folhas e a<br \/>\n    erva estavam ensopados, os riachos e as lagoas transbordavam. Eug&eacute;nio<br \/>\n    ficara em casa com a mulher, que come&ccedil;ara a sentir-se um pouco agoniada.<br \/>\n    Lisa v&aacute;rias vezes interrogara o marido sobre a causa daquela mudan&ccedil;a<br \/>\n    de disposi&ccedil;&atilde;o, mas ele respondia-lhe com enfado dizendo que<br \/>\n    n&atilde;o tinha nada. Lisa desistira <\/p>\n<p>  por fim de o interrogar e ficara triste. <\/p>\n<p> Uma tarde, depois do almo&ccedil;o, estavam todos reunidos no sal&atilde;o<br \/>\n    e pela mil&eacute;sima vez o tio contava as suas aventuras mundanas. Lisa<br \/>\n    trabalhava num casaquinho de beb&eacute; e suspirava, queixando-se do mau<br \/>\n    tempo e de dores nos rins. O tio pediu vinho e aconselhou-a a que se deitasse.<br \/>\n    Eug&eacute;nio aborrecia-se muito em casa; tudo ali lhe era desagrad&aacute;vel.<br \/>\n    Fumava e lia, mas sem compreender o que lia. &laquo;Tenho que sair para ver<br \/>\n    o que se passa&raquo;, disse, e levantou-se para sair.<\/p>\n<p> &#8211; Leva o guarda-chuva.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, tenho o casaco de couro, e n&atilde;o vou ao bosque.<\/p>\n<p> Cal&ccedil;ou as botas, vestiu o casaco de couro e foi at&eacute; &agrave;<br \/>\n    refinaria. Mas ainda n&atilde;o tinha dado vinte passos quando encontrou Stepanida<br \/>\n    com a saia arrega&ccedil;ada at&eacute; ao joelho, mostrando a perna branca.<br \/>\n    Caminhava segurando, com as m&atilde;os o xale que lhe cobria a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e os ombros.<\/p>\n<p> &#8211; Que procuras? &#8211; perguntou sem saber com quem falava.<\/p>\n<p> Quando a reconheceu j&aacute; era tarde. Ela parou, sorriu, fitou-o demoradamente.<\/p>\n<p> &#8211; Procuro um bezerrinho. Onde vai o senhor com este tempo? &#8211; perguntou como<br \/>\n    se se vissem todos os dias.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos &agrave; cabana &#8211; disse Eug&eacute;nio sem mesmo dar pelas palavras<br \/>\n    que pronunciara.<\/p>\n<p> Ela fez, com os olhos, um sinal de assentimento e dirigiu-se para o jardim<br \/>\n    direita &agrave; cabana; ele seguiu o seu caminho com inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de contornar o massi&ccedil;o de lilazes e ir juntar-se-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor! &#8211; gritaram-lhe atr&aacute;s &#8211; a senhora pede-lhe que v&aacute;<br \/>\n    a casa depressa.<\/p>\n<p> Era o criado Miguel. Meu Deus! salvaste-me pela segunda vez!, pensou Eug&eacute;nio;<br \/>\n    e voltou logo para casa. Lisa queria lembrar-lhe que ele prometera uma po&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a certa doente e pedia-lhe que n&atilde;o se esqueceria de a arranjar.<\/p>\n<p> Decorreram quinze minutos enquanto preparava a po&ccedil;&atilde;o e, quando<br \/>\n    saiu, n&atilde;o se atreveu a ir directamente &agrave; cabana receando que<br \/>\n    algu&eacute;m o visse. Mal percebeu que o n&atilde;o viam, deu uma volta e<br \/>\n    dirigiu-se para a cabana. Sonhava v&ecirc;-la ali sorrindo alegremente, mas<br \/>\n    n&atilde;o a encontrou, e n&atilde;o havia ind&iacute;cio de l&aacute; ter<br \/>\n    estado. Pensou que n&atilde;o tivesse ido, que n&atilde;o compreendesse ou<br \/>\n    n&atilde;o ouvisse as suas palavras murmuradas entre dentes, ou que talvez<br \/>\n    n&atilde;o o quisesse. &laquo;E porque raz&atilde;o havia de lan&ccedil;ar-se-me<br \/>\n    ao pesco&ccedil;o?&raquo; interrogara. &laquo;Tem o marido. Eu &eacute; que<br \/>\n    sou um miser&aacute;vel; tenho uma linda mulher e ando atr&aacute;s de outra&raquo;.<\/p>\n<p> Sentado na cabana onde a &aacute;gua escorria a um canto, Eug&eacute;nio<br \/>\n    pensava. Que felicidade se ela tivesse vindo! Sozinhos ali, com aquela chuva!<br \/>\n    Possu&iacute;-la ao menos uma vez, quaisquer que fossem as consequ&ecirc;ncias!<br \/>\n    &laquo;Ah, sim &#8211; lembrou-se &#8211; se ela veio deve ter deixado rasto&raquo;.<\/p>\n<p> Olhou para o ch&atilde;o, para um carreirinho sem relva e notou as pegadas<br \/>\n    de um p&eacute; descal&ccedil;o.<\/p>\n<p> Sim, ela tinha vindo. J&aacute; n&atilde;o hesitaria. Onde quer que a visse,<br \/>\n    iria ter com ela. Iria a sua casa, de noite. Esteve muito tempo na cabana<br \/>\n    acabando por se afastar ansioso e cansado.<\/p>\n<p> Levou a po&ccedil;&atilde;o, regressou a casa e deitou-se &agrave; espera<br \/>\n    da hora do jantar.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">XIII<\/a><\/h4>\n<p>Antes disso, Lisa foi ter com ele, dissimulando tanto quanto p&ocirc;de a<br \/>\n    sua tristeza. Informou-o de que pretendiam lev&aacute;-la para Moscovo, antes<br \/>\n    do parto; mas que ela, receando que esse projecto desagradasse a Eug&eacute;nio,<br \/>\n    resolvera ficar e que, por nada sua alma, tinha Eug&eacute;nio tanta lama,<br \/>\n    tanta fraqueza &#8211; um amedrontava por temer n&atilde;o dar &agrave; luz uma<br \/>\n    crian&ccedil;a fisicamente bem constitu&iacute;da, e por isso enterneceu-o<br \/>\n    a facilidade com que ela se prestava a sacrificar tudo ao seu amor. Na sua<br \/>\n    casa achava que tudo era bom, alegre, puro e, no entanto, na coisa. &laquo;Mas<br \/>\n    &eacute; imposs&iacute;vel!&raquo; dizia ele passeando no quarto, um horror!<br \/>\n    Durante o ser&atilde;o pensou que, apesar da sua sincera repugn&acirc;ncia<br \/>\n    pela fraqueza que o subjugava e apesar da decidida inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lhe escapar, no dia seguinte aconteceria a mesma coisa. &laquo;N&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; imposs&iacute;vel&raquo; dizia ele passeando no quarto, dum lado<br \/>\n    para o outro. &laquo;Deve existir qualquer solu&ccedil;&atilde;o para esta<br \/>\n    mis&eacute;ria. Meu Deus, que devo eu fazer?&raquo; <\/p>\n<p>  Algu&eacute;m bateu &agrave; porta duma maneira especial. Percebeu que era o<br \/>\n  tio. <\/p>\n<p> &#8211; Entre! &#8211; disse secamente.<\/p>\n<p> O tio vinha como emiss&aacute;rio, mas espontaneamente, falar-lhe de Lisa.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho ultimamente observado em ti uma certa mudan&ccedil;a e compreendo<br \/>\n    que certamente isso h&aacute;-de afligir a tua mulher. &Eacute; certo que<br \/>\n    te ser&aacute; aborrecido teres de abandonar a empresa em que te meteste,<br \/>\n    mas h&aacute;s-de ter paci&ecirc;ncia. Eu penso que deverias sair daqui com<br \/>\n    ela.<\/p>\n<p> Ambos ficariam mais sossegados. N&atilde;o achava mal que fossem at&eacute;<br \/>\n    &agrave; Crimeia: o clima &eacute; espl&ecirc;ndido, h&aacute; l&aacute; um<br \/>\n    afamado parteiro e voc&ecirc;s chegariam justamente na &eacute;poca das chuvas.<\/p>\n<p> &#8211; Tio &#8211; disse emocionado Eug&eacute;nio &#8211; posso confiar-lhe um segredo,<br \/>\n    um segredo horr&iacute;vel, vergonhoso mesmo? &#8211; Ent&atilde;o desconfias de<br \/>\n    teu tio? &#8211; O tio pode auxiliar-me! E n&atilde;o apenas isso, mas salvar-me<br \/>\n    at&eacute; &#8211; disse Eug&eacute;nio. E a ideia de se abrir com o parente, que<br \/>\n    ali&aacute;s n&atilde;o estimava, o pensamento de se lhe apresentar sob o<br \/>\n    aspecto mais miser&aacute;vel agradava-lhe. Reconhecia-se fraco, culpado,<br \/>\n    e queria, portanto, castigar-se, punir-se de todos os seus pecados.<\/p>\n<p> &#8211; Podes falar, Eug&eacute;nio: bem sabes como sou teu amigo &#8211; segredou-lhe<br \/>\n    visivelmente lisonjeado por descobrir um segredo, um segredo escandaloso de<br \/>\n    que seria confidente, al&eacute;m de que poderia ser &uacute;til ao sobrinho.<\/p>\n<p> &#8211; Antes de mais nada, quero dizer-lhe que sou um canalha.<\/p>\n<p> &#8211; Que est&aacute;s para a&iacute; a dizer? &#8211; Que est&aacute;s para a&iacute;<br \/>\n    a dizer? &#8211; Como &eacute; que n&atilde;o hei-de considerar-me um criminoso,<br \/>\n    se eu, marido de Lisa, cuja pureza e cuja afei&ccedil;&atilde;o por mim s&atilde;o<br \/>\n    indiscut&iacute;veis, se eu quero engan&aacute;-la com uma camponesa? &#8211; Que<br \/>\n    dizes? Por enquanto, queres&#8230; Mas ainda n&atilde;o a atrai&ccedil;oaste?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; assim? &#8211; Para o caso, &eacute; a mesma coisa. Se a n&atilde;o<br \/>\n    atrai&ccedil;oei, n&atilde;o foi porque n&atilde;o fizesse esfor&ccedil;os<br \/>\n    nesse sentido. As circunst&acirc;ncias &eacute; que o proporcionaram.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, vamos l&aacute; a saber do que se trata.<\/p>\n<p> &#8211; Oi&ccedil;a: quando solteiro, ca&iacute; na asneira de manter rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com uma mulher c&aacute; da terra.<\/p>\n<p> Encontravamo-nos no bosque&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E que tal? Era bonita? &#8211; perguntou o tio.<\/p>\n<p> A essa pergunta, Eug&eacute;nio franziu as sobrancelhas, mas fingindo n&atilde;o<br \/>\n    ouvir, continuou nervosamente.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente, eu pensei que da&iacute; nenhum mal resultaria para mim; que,<br \/>\n    depois de a deixar, tudo estava terminado. E, assim, cortei rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ela antes do meu casamento, e durante, quase um ano n&atilde;o a vi, nem<br \/>\n    nela tornei a pensar. Mas, de s&uacute;bito, n&atilde;o sei como nem por qu&ecirc;,<br \/>\n    voltei a v&ecirc;-la e senti-me novamente preso dos seus encantos. Chego a<br \/>\n    revoltar-me contra mim pr&oacute;prio, compreendo todo o horror do meu procedimento,<br \/>\n    quero dizer, do acto que estou pronto a praticar na primeira ocasi&atilde;o,<br \/>\n    e, apesar de reconhecer tudo isso, continuo a procurar essa ocasi&atilde;o,<br \/>\n    e at&eacute; ao presente s&oacute; Deus me tem livrado de assim proceder.<br \/>\n    Ontem ia encontrar-me com ela quando Lisa me chamou.<\/p>\n<p> &#8211; Com aquela chuva? &#8211; Sim&#8230; Estou cansado, tio, e resolvi confessar-lhe<br \/>\n    tudo e pedir-lhe que me ajude. O tio pode ajudar-me.<\/p>\n<p> &#8211; Efectivamente, aqui reparam muito nessas coisas. Mais dia menos dia saber&atilde;o<br \/>\n    tudo, se o n&atilde;o, sabem j&aacute;. Compreendo que Lisa, fraca como &eacute;,<br \/>\n    precisa de ser poupada&#8230;<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio simulou mais uma vez n&atilde;o o ouvir, para chegar ao fim<br \/>\n    da sua narrativa.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o-lhe que me ajude. Hoje foi o acaso que me impediu de cair,<br \/>\n    mas agora tamb&eacute;m ela sabe&#8230; N&atilde;o me deixe s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; bem, disse o tio. Mas est&aacute;s assim t&atilde;o apaixonado?<br \/>\n    &#8211; Oh! N&atilde;o &eacute; bem isso. &Eacute; uma for&ccedil;a qualquer que<br \/>\n    me prende, me domina. N&atilde;o sei o que heide fazer. &Eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    que quando me sentir com mais coragem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Bem, a &uacute;nica ajuda que posso dar-te &eacute; esta: irmos todos<br \/>\n    para a Crimeia! Que te parece? &#8211; &Eacute; uma solu&ccedil;&atilde;o que me<br \/>\n    agrada &#8211; respondeu Eug&eacute;nio, &#8211; mas n&atilde;o vamos j&aacute;, por hora<br \/>\n    ficarei aqui com o tio a conversar um pouco.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">XIV<\/a><\/h4>\n<p>Ao confessar o seu segredo ao tio, em especial aquilo que tanto o apoquentava<br \/>\n    ap&oacute;s aquele <\/p>\n<p>  dia da chuva, Eug&eacute;nio sentiu-se mais aliviado. Marcou-se a partida para<br \/>\n  a semana seguinte. <\/p>\n<p> Da&iacute; a dias, Eug&eacute;nio foi &agrave; cidade levantar dinheiro<br \/>\n    para a viagem, deu as necess&aacute;rias ordens para que a lavoura n&atilde;o<br \/>\n    sofresse qualquer atraso e de novo se tornou alegre e optimista.<\/p>\n<p> Sentia-se renascer.<\/p>\n<p> Partiu com Lisa para a Crimeia sem ver uma s&oacute; vez Stepanida. Passaram<br \/>\n    dois meses deliciosos. Eug&eacute;nio, com as profundas impress&otilde;es<br \/>\n    experimentadas nos &uacute;ltimos tempos, esquecera-se completamente do passado.<br \/>\n    Na Crimeia fez rela&ccedil;&otilde;es e novos amigos se lhes juntaram. A vida<br \/>\n    ent&atilde;o tornara-se para Eug&eacute;nio uma festa. Davam-se tamb&eacute;m<br \/>\n    com um velho marechal, pertencente &agrave; nobreza provinciana, homem liberal<br \/>\n    e inteligente que muito distinguia Eug&eacute;nio.<\/p>\n<p> No fim do m&ecirc;s de Agosto, Lisa deu &agrave; luz uma linda e sadia menina,<br \/>\n    depois dum parto inesperado e f&aacute;cil. Em Setembro voltaram &agrave;<br \/>\n    sua casa de campo, trazendo consigo uma ama, porque Lisa n&atilde;o podia<br \/>\n    amamentar a crian&ccedil;a. Completamente liberto das antigas apoquenta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    Eug&eacute;nio voltava feliz e parecia outro homem. Em seguida &agrave;queles<br \/>\n    transes por que passam todos os maridos nesse momento dif&iacute;cil da vida<br \/>\n    das esposas, sentia que amava a sua cada vez com maior ardor. Aquilo que experimentava<br \/>\n    pela filhinha quando a segurava nos bra&ccedil;os era um sentimento in&eacute;dito,<br \/>\n    que fazia dele o mais feliz dos homens.<\/p>\n<p> Acrescia que um novo interesse se juntara, agora, &agrave;s suas ocupa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Com efeito, devido &agrave; sua intimidade com Dumchine, o velho marechal<br \/>\n    da nobreza, Eug&eacute;nio interessava-se pelo Zemstvo, entendendo que era<br \/>\n    da sua obriga&ccedil;&atilde;o tomar parte nos neg&oacute;cios p&uacute;blicos.<br \/>\n    Em Outubro devia ser convocada a assembleia para efeitos da sua elei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Depois de regressar da Crimeia teve de ir, uma vez, &agrave; cidade e outra<br \/>\n    a casa de Dumchine. N&atilde;o mais voltara a pensar nos tormentos que passara<br \/>\n    nem na luta que se vira obrigado a travar para n&atilde;o cair na tenta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era com dificuldade que relembrava, agora, essa crise, cuja causa atribu&iacute;a<br \/>\n    a uma esp&eacute;cie de loucura que se apoderara de si. Sentia-se livre, t&atilde;o<br \/>\n    livre que uma vez estando a s&oacute;s com o feitor, chegou a pedir, com toda<br \/>\n    a serenidade, informa&ccedil;&otilde;es sobre Stepanida.<\/p>\n<p> &#8211; Que faz Petchnikoff? Agora est&aacute; sempre em casa? &#8211; N&atilde;o. Continua<br \/>\n    permanentemente na cidade.<\/p>\n<p> &#8211; E a mulher? &#8211; Oh! Essa! Deu em droga. Agora vive com Zinovci. &Eacute;<br \/>\n    uma perdida, uma desgra&ccedil;ada.<\/p>\n<p> &Eacute; melhor assim, pensou Eug&eacute;nio, coisa estranha. O caso agora<br \/>\n    &eacute;-me por completo indiferente. Devo estar muito mudado.<\/p>\n<p> E assim a vida para Eug&eacute;nio corria-lhe &agrave; medida dos seus desejos:<br \/>\n    a propriedade pertencialhe inteiramente; a refinaria funcionava com regularidade,<br \/>\n    a colheita da beterraba tinha sido espl&ecirc;ndida, a mulher dera &agrave;<br \/>\n    luz uma linda menina, com a maior felicidade, a sogra tinha-se ido embora;<br \/>\n    e fora eleito por unanimidade. A seguir &agrave; elei&ccedil;&atilde;o, Eug&eacute;nio<br \/>\n    regressou a casa e foi muito felicitado. Viu-se obrigado a agradecer, e ao<br \/>\n    jantar bebeu cinco ta&ccedil;as de champanhe. Tudo se lhe apresentava decididamente<br \/>\n    com um risonho aspecto. Tudo parecia estar resolvido.<\/p>\n<p> Enquanto se dirigia para casa, ia a magicar em v&aacute;rios projectos que<br \/>\n    tencionava realizar. O ver&atilde;o impunha-se o caminho era lindo e o sol<br \/>\n    brilhava radiante. Ao aproximar-se da quinta, Eug&eacute;nio pensava que,<br \/>\n    por causa da sua elei&ccedil;&atilde;o, iria ocupar agora entre o povo a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que sempre ambicionara, isto &eacute;, poderia dar trabalho a muita gente<br \/>\n    e dispor da influ&ecirc;ncia pol&iacute;tica de que passava a gozar. Fantasiava<br \/>\n    j&aacute; como da&iacute; a tr&ecirc;s anos sua esposa, as outras pessoas<br \/>\n    e os camponeses o julgariam. Por exemplo, aqueles que acol&aacute; v&ecirc;m,<br \/>\n    pensava ao avistar um homem e uma mulher que se dirigiam para ele, com um<br \/>\n    balde de &aacute;gua, e que se detiveram para lhe dar passagem. O campon&ecirc;s<br \/>\n    era o velho Petchnikoff e a mulher era Stepanida! Eug&eacute;nio olhou para<br \/>\n    ela, reconheceu-a e sentiu alegremente que ficara absolutamente calmo.<\/p>\n<p> Ela estava cada vez mais bela mas isso em nada o perturbou. Dirigiu-se a<br \/>\n    casa. Lisa esperava-o na escada.<\/p>\n<p> &#8211; Posso dar-te um abra&ccedil;o &#8211; perguntou o tio? &#8211; Sim, fui eleito.<\/p>\n<p> &#8211; Magn&iacute;fico! Agora &eacute; preciso beber! Na manh&atilde; seguinte<br \/>\n    Eug&eacute;nio percorreu toda a propriedade, o que j&aacute; h&aacute; algum<br \/>\n    tempo n&atilde;o fazia. Na eira estavam a funcionar as debulhadoras de trigo.<br \/>\n    Para inspeccionar o trabalho, Eug&eacute;nio passou entre as mulheres n&atilde;o<br \/>\n    reparando em nenhuma delas. Mas, apesar dos seus esfor&ccedil;os nesse sentido,<br \/>\n    por duas vezes notou os olhos pretos e o len&ccedil;o vermelho de Stepanida.<br \/>\n    Ela transportava palha. Duas vezes, tamb&eacute;m, ela o olhou de soslaio<br \/>\n    e de novo Eug&eacute;nio sentiu qualquer coisa que n&atilde;o sabia bem o<br \/>\n    que era. Mas no outro dia, quando voltou &agrave; eira, onde se deixou ficar<br \/>\n    duas horas, sem necessidade para tal, mas, apenas, para olhar a imagem daquela<br \/>\n    formosa mulher, Eug&eacute;nio percebeu que estava irremediavelmente perdido.<br \/>\n    Outra vez os antigos tormentos, outra vez todo aquele horror e j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    havia salva&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Acontecera aquilo que sempre receara. No dia seguinte, &agrave; tarde, sem<br \/>\n    saber como, apareceu junto da sebe do p&aacute;tio, em frente da granja onde<br \/>\n    certa vez, pelo Outono, tivera uma entrevista com Stepanida. Ia passeando<br \/>\n    mas, num dado momento, parou para acender um cigarro. Uma vizinha notou-o<br \/>\n    e, voltando para tr&aacute;s, ele ouviu dizer a algu&eacute;m: Vai, que ele<br \/>\n    est&aacute; &agrave; tua espera, h&aacute; mais de uma hora. Vai, n&atilde;o<br \/>\n    sejas tola! N&atilde;o podia voltar atr&aacute;s; um campon&ecirc;s vinha<br \/>\n    agora ao seu encontro, mas viu uma mulher que corria para ele do lado da granja.<br \/>\n    Era Stepanida.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">XV<\/a><\/h4>\n<p> E a antiga luta recome&ccedil;ou, mas com redobrado &iacute;mpeto. &Agrave;<br \/>\n    noite, Eug&eacute;nio imaginava coisas terr&iacute;veis. Pensava que o seu<br \/>\n    viver era mon&oacute;tono, cheio de t&eacute;dio, que a aut&ecirc;ntica vida<br \/>\n    estava l&aacute; fora, em contacto com aquela mulher robusta, forte, sempre<br \/>\n    alegre. O seu desejo era arranc&aacute;-la de casa, met&ecirc;-la numa carruagem<br \/>\n    ou sent&aacute;-la na garupa dum cavalo, e <\/p>\n<p>  desaparecer na estepe ou ir para a Am&eacute;rica. E muitas ideias iguais lhe<br \/>\n  assaltavam o c&eacute;rebro. <\/p>\n<p> Ao entrar no sal&atilde;o tudo lhe pareceu desconhecido, absolutamente estranho<br \/>\n    e sem significado Levantou-se tarde mas cheio de coragem, decidido a esquecer<br \/>\n    aquela mulher, disposto a n&atilde;o pensar mais nela. Quase sem dar por isso<br \/>\n    passou toda a manh&atilde; alheio ao trabalho, fazendo esfor&ccedil;os para<br \/>\n    fugir &agrave;s preocupa&ccedil;&otilde;es. Aquilo que at&eacute; ali lhe<br \/>\n    parecera de grande import&acirc;ncia passava de repente a n&atilde;o ter qualquer<br \/>\n    valor. Inconscientemente, procurava enfronhar-se no seu trabalho. Julgava<br \/>\n    ser-lhe indispens&aacute;vel ver-se livre dos cuidados, das preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para devidamente reflectir em tudo. Afastava os que estavam junto de si, ficava<br \/>\n    sozinho. Mas, logo que se sentia isolado, come&ccedil;ava a passear pelo jardim<br \/>\n    ou pelo bosque. Todos aqueles lugares tinham sido testemunhas de cenas que<br \/>\n    o empolgavam arrebatadamente. Passeava pelo jardim e pensava que era preciso<br \/>\n    resolver qualquer coisa, mas n&atilde;o descobria o qu&ecirc; e, doida e inconscientemente,<br \/>\n    esperava. Esperava que um milagre a fizesse saber quanto a desejava e aparecesse<br \/>\n    ali, ou noutro s&iacute;tio qualquer, onde ningu&eacute;m os visse, ou que,<br \/>\n    numa noite escura, ela o procurasse para que todo o seu corpo lhe pertencesse,<br \/>\n    s&oacute; a ele pertencesse.<\/p>\n<p> Ora aqui est&aacute; &#8211; dizia &#8211; aqui est&aacute;: para me sentir feliz arranjei<br \/>\n    uma mulher saud&aacute;vel mas est&aacute; demonstrado que se n&atilde;o pode<br \/>\n    brincar com as mulheres&#8230; Julgava t&ecirc;-la atra&iacute;do e foi ela, afinal,<br \/>\n    quem me prendeu nas malhas dos seus encantos, e agora n&atilde;o consigo libertar-me<br \/>\n    dela. Julguei-me senhor absoluto dos meus actos, mas isto n&atilde;o passava<br \/>\n    duma ilus&atilde;o.<\/p>\n<p> Enganei-me a mim pr&oacute;prio quando resolvi casar. Tudo o que eu sentia<br \/>\n    era estupidez, era mentira. Desde a altura em que a possu&iacute;, experimentei<br \/>\n    um sentimento novo&#8230; O verdadeiro sentimento do homem adulto. Sim, n&atilde;o<br \/>\n    posso passar sem ela. Mas o que estou a pensar n&atilde;o passa duma tolice!<br \/>\n    Isto n&atilde;o pode ser! exclamou subitamente&#8230; &#8211; O que &eacute; preciso<br \/>\n    &eacute; reflectir, ver claramente o que tenho a fazer.<\/p>\n<p> Deu uma volta pelos campos e continuou a pensar: Sim, para o meu caso s&oacute;<br \/>\n    h&aacute; dois caminhos a seguir: Aquele por onde enveredei desde que conheci<br \/>\n    Lisa, as minhas fun&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, a lavoura, a minha<br \/>\n    filha, o respeito pelos outros. A fim de prosseguir nesse caminho &eacute;<br \/>\n    indispens&aacute;vel que Stepanida seja afastada definitivamente. O outro<br \/>\n    caminho ser&aacute; arrebat&aacute;-la ao marido, dar-lhe dinheiro, fazer<br \/>\n    calar as bocas do mundo e viver com ela. Mas para isso &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que Lisa e a minha filha desapare&ccedil;am. N&atilde;o, porque&#8230; A crian&ccedil;a<br \/>\n    podia ficar&#8230; Mas o que &eacute; indispens&aacute;vel &eacute; que Lisa se<br \/>\n    v&aacute; embora e saiba de tudo. Que me amaldi&ccedil;oe, mas que desapare&ccedil;a.<br \/>\n    &Eacute; preciso que saiba que eu a troquei por uma camponesa, que sou um<br \/>\n    miser&aacute;vel, um homem sem vontade pr&oacute;pria. N&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    horr&iacute;vel! Isto n&atilde;o pode ser! Talvez se arranje tudo doutra maneira&#8230;<br \/>\n    Lisa pode ficar doente, morrer&#8230; Ah, se ela morresse tudo se remediaria,<br \/>\n    tudo correria &agrave;s maravilhas! E viver&iacute;amos felizes.<\/p>\n<p> Em todo o caso, n&atilde;o passo de um miser&aacute;vel. N&atilde;o, se<br \/>\n    uma delas tem de morrer, que morra antes a outra. Se Stepanida morresse, seria<br \/>\n    melhor. Agora compreendo como &eacute; poss&iacute;vel matar, como se pode<br \/>\n    envenenar, estrangular as amantes. Pegar num rev&oacute;lver, faz&ecirc;-la<br \/>\n    vir aqui e, em lugar de beijos dar-lhe um tiro no peito. Pronto, estava tudo<br \/>\n    acabado. &Eacute; horr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Foi contra minha vontade que ela se apoderou de mim. Mat&aacute;-la, a ela,<br \/>\n    ou matar minha mulher. Continuar nesta vida, &eacute;-me imposs&iacute;vel,<br \/>\n    totalmente imposs&iacute;vel! &Eacute; preciso reflectir e encarar tudo a<br \/>\n    sangue-frio. Mas deixar as coisas continuarem como at&eacute; aqui, daria<br \/>\n    mau resultado. Juraria ainda muitas vezes n&atilde;o tornar a v&ecirc;-la,<br \/>\n    renunciar a ela, mas n&atilde;o passaria das promessas vis, porque no dia<br \/>\n    seguinte esper&aacute;-la-ia. Ela sabe-lo-ia e l&aacute; estaria eu na mesma<br \/>\n    alternativa. Ou a minha mulher o saber&aacute;, pois n&atilde;o falta quem<br \/>\n    lho v&aacute; dizer, ou eu pr&oacute;prio lho direi, porque n&atilde;o posso<br \/>\n    continuar a viver desta forma. N&atilde;o posso. Tudo se saber&aacute;. Todos<br \/>\n    o sabem j&aacute;. Bem! Mas ser&aacute; poss&iacute;vel que se possa viver<br \/>\n    assim? N&atilde;o, n&atilde;o se pode. S&oacute; h&aacute; duas sa&iacute;das:<br \/>\n    mat&aacute;-la ou matar a minha mulher. Mas existe ainda uma terceira: &laquo;Matar-me&raquo;,<br \/>\n    murmurou sofrendo e seguidamente um arrepio lhe percorreu o corpo.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, mato-me! Assim, j&aacute; n&atilde;o ser&aacute; preciso que qualquer<br \/>\n    delas morra. &Eacute; o que devo fazer.<\/p>\n<p> Tremia violentamente, sentindo que era esse o &uacute;nico caminho poss&iacute;vel.<br \/>\n    Tenho em casa um rev&oacute;lver. Terei de acabar desta forma? Eis o que at&eacute;<br \/>\n    hoje ainda n&atilde;o tinha pensado&#8230; Mas agora&#8230;<\/p>\n<p> Entrou em casa, dirigiu-se ao seu quarto e abriu a gaveta onde se encontrava<br \/>\n    o rev&oacute;lver mas antes que tivesse tempo de o tirar, Lisa entrou.<\/p>\n<h4><a name=\"16\">XVI<\/a><\/h4>\n<p> Cobriu o rev&oacute;lver com um jornal, apressadamente.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o continuas na mesma? &#8211; perguntou Lisa sobressaltada, fitando-o.<\/p>\n<p> &#8211; Que queres dizer com isso? &#8211; Vejo no teu olhar a mesma express&atilde;o<br \/>\n    que tinhas outrora, quando nada querias dizer-me&#8230;<\/p>\n<p> Dize-me meu querido, o que te aflige&#8230; Tenho a certeza de que sofres. Desabafa<br \/>\n    comigo, isso aliviar-te-&aacute;. Qualquer que seja a causa dos teus sofrimentos,<br \/>\n    encontraremos um rem&eacute;dio para eles.<\/p>\n<p> &#8211; Acreditas nisso? &#8211; Fala, fala, n&atilde;o te deixarei sem que me digas<br \/>\n    o que tens.<\/p>\n<p> Eug&eacute;nio esbo&ccedil;ou um sorriso doloroso.<\/p>\n<p> &#8211; Falar? &Eacute; imposs&iacute;vel. Ali&aacute;s, nada tenho para te dizer.<\/p>\n<p> Podia ser, no entanto, que acabasse por lhe dizer tudo; mas nessa altura<br \/>\n    entrou a ama e perguntou-lhe se podia ir dar uma volta. Lisa saiu para cuidar<br \/>\n    da filha.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute;s-de dizer-me o que tens, eu venho j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, talvez&#8230;<\/p>\n<p> Ela nunca p&ocirc;de esquecer o sorriso magoado com que o marido disse estas<br \/>\n    palavras. Saiu.<\/p>\n<p> Apressadamente, como se fosse praticar um delito, Eug&eacute;nio pegou no<br \/>\n    rev&oacute;lver e examinouo.<\/p>\n<p> &laquo;Estar&aacute; carregado? Sim, e desde h&aacute; muito&#8230; J&aacute;<br \/>\n    foi at&eacute; disparado uma vez&#8230; Bem, aconte&ccedil;a o que acontecer&#8230;<\/p>\n<p> Encostou o rev&oacute;lver ao parietal direito, hesitou um momento mas,<br \/>\n    lembrando-se de Stepanida e da decis&atilde;o tomada de n&atilde;o a tornar<br \/>\n    a ver, da luta que nos &uacute;ltimos tempos travara consigo pr&oacute;prio,<br \/>\n    da tenta&ccedil;&atilde;o, da queda, tremeu horrorizado. &laquo;N&atilde;o,<br \/>\n    antes isto&raquo;. E deu ao gatilho&#8230;<\/p>\n<p> Quando Lisa acorreu ao quarto, mal tivera tempo de descer a varanda, viu-o<br \/>\n    deitado de bru&ccedil;os, no ch&atilde;o, e o sangue negro e espesso corria<br \/>\n    da ferida.<\/p>\n<p> Procedeu-se a investiga&ccedil;&otilde;es, mas ningu&eacute;m p&ocirc;de<br \/>\n    atinar com a causa do suic&iacute;dio. O tio nem por sombras podia admitir<br \/>\n    que o acontecimento tivesse qualquer rela&ccedil;&atilde;o com as confid&ecirc;ncias<br \/>\n    que dois meses antes Eug&eacute;nio lhe fizera.<\/p>\n<p> B&aacute;rbara Alexievna afirmava que sempre tinha previsto aquele desfecho.<br \/>\n    &laquo;Via-se logo, quando se punha a discutir&raquo;.<\/p>\n<p> Nem Lisa nem Maria Pavlovna compreendiam como aquilo sucedera, e nem t&atilde;o<br \/>\n    pouco se podiam conformar com a opini&atilde;o dos m&eacute;dicos, que classificaram<br \/>\n    Eug&eacute;nio de psic&oacute;pata, de semi-louco. N&atilde;o podiam admitir<br \/>\n    tal hip&oacute;tese, estavam convencidos de que ele era mais ajuizado do que<br \/>\n    a maioria dos homens.<\/p>\n<p> Se Eug&eacute;nio Irtenieff era um anormal, um doente, ter-se-ia de concluir<br \/>\n    que todos os homens o eram e, ainda mais, que doentes ser&atilde;o todos os<br \/>\n    que nos outros v&ecirc;em sintomas de loucura quando n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    um espelho em que possam ver o que lhes vai dentro da alma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Leon Tolstoi I Eug&eacute;nio Irtenieff tinha raz&otilde;es para aspirar a uma carreira brilhante. 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