{"id":108390,"date":"2017-02-10T15:26:36","date_gmt":"2017-02-10T17:26:36","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108390"},"modified":"2022-03-28T11:38:38","modified_gmt":"2022-03-28T13:38:38","slug":"manifesto-ecologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/ciencias-da-natureza\/biologia\/meio-ambiente\/manifesto-ecologico","title":{"rendered":"Manifesto Ecol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p>Como documento fundamental orientado pelos princ\u00edpios da\u00a0<strong>Carta da Terra<\/strong>, o\u00a0<strong>Manifesto Ecol\u00f3gico<\/strong>\u00a0estabeleceu as metas para apoiar os processos de educa\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento sustent\u00e1vel com base em um ambiente est\u00e1vel e uma natureza saud\u00e1vel alcan\u00e7ada por meio de mudan\u00e7as em massa na compreens\u00e3o das pessoas sobre o mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>O arcabou\u00e7o ideol\u00f3gico do\u00a0<strong>Manifesto Ecol\u00f3gico<\/strong>\u00a0afirma que a humanidade chegou a uma fase em que n\u00e3o precisa mais de mais desenvolvimento, resultando em conforto para poucos, mas cuidado com aqueles que mais precisam.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Manifesto Ecol\u00f3gico<\/strong>\u00a0listou a\u00a0<strong>Carta da Terra<\/strong>\u00a0em uma lista de organiza\u00e7\u00f5es que trabalham em prol da humanidade e promove as ideias da organiza\u00e7\u00e3o. Por sua declara\u00e7\u00e3o, o Manifesto pode ser considerado como um documento integrante dos princ\u00edpios da Carta da Terra e uma ferramenta \u00fatil para sua implementa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Manifesto Ecol\u00f3gico &#8211; O que \u00e9<\/strong><\/p>\n<p>O poder que esta sociedade tem para destruir atingiu uma escala sem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade \u2013 e este poder est\u00e1 a ser usado, quase sistematicamente, para causar uma destrui\u00e7\u00e3o insensata em todo o mundo da vida natural e nas suas bases materiais.<\/p>\n<p>Em quase todas as regi\u00f5es, o ar est\u00e1 a ser viciado, as \u00e1guas polu\u00eddas, o solo est\u00e1 a ser levado pela \u00e1gua, a terra foi drenada e a vida natural destru\u00edda.<\/p>\n<p>As \u00e1reas costeiras e mesmo as profundezas do mar n\u00e3o s\u00e3o imunes ao alastramento da polui\u00e7\u00e3o. Com maior signific\u00e2ncia no fim de contas, os ciclos biol\u00f3gicos b\u00e1sicos, tais como o ciclo do carbono e do nitrog\u00eanio, dos quais todas as coisas vivas (incluindo os humanos) dependem para a manuten\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o da vida, est\u00e3o a ser alterados at\u00e9 um ponto irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>A introdu\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria dos desperd\u00edcios radioativos, pesticidas de longa atividade, res\u00edduos de chumbo e milhares de produtos qu\u00edmicos t\u00f3xicos ou potencialmente t\u00f3xicos na comida, \u00e1gua e ar; a expans\u00e3o das cidades em vastas cinturas urbanas com concentra\u00e7\u00f5es densas de popula\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis em tamanho a na\u00e7\u00f5es inteiras; o aumento de ru\u00eddo ambiente; as press\u00f5es criadas pela congest\u00e3o, pela aglomera\u00e7\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o das massas; as imensas acumula\u00e7\u00f5es de lixo, refugo, dejetos e desperd\u00edcios industriais; o congestionamento do tr\u00e2nsito nas auto-estradas e nas ruas citadinas; a destrui\u00e7\u00e3o pr\u00f3diga de preciosos metais em bruto; a cicatriza\u00e7\u00e3o da terra feita pelos especuladores da propriedade, os bar\u00f5es das ind\u00fastrias mineira e da madeira, os burocratas da constru\u00e7\u00e3o de auto-estradas.<\/p>\n<p>Todos eles fizeram tais estragos numa simples gera\u00e7\u00e3o, que excede os que foram feitos em milhares de anos pela habita\u00e7\u00e3o humana no seu planeta. Se tivermos em mente este ritmo de destrui\u00e7\u00e3o, \u00e9 aterrador refletir acerca do que acontecer\u00e1 no futuro, \u00e0 gera\u00e7\u00e3o vindoura.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia da crise ecol\u00f3gica do nosso tempo \u00e9 que esta sociedade \u2013 mais do que qualquer outra no passado \u2013 est\u00e1 a desfazer literalmente o trabalho da evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica.<\/p>\n<p>\u00c9 um axioma dizer que a humanidade faz parte do edif\u00edcio da vida. \u00c9 talvez mais importante, nesta fase tardia, sublinhar que a humanidade depende perigosamente da complexidade e variedade da vida, e que o bem-estar e a sobreviv\u00eancia humanas assentam sobre uma longa evolu\u00e7\u00e3o de organismos em formas crescentemente complexas e interdependentes. O desenvolvimento da vida num tecido complexo, a cria\u00e7\u00e3o dos animais e plantas primordiais em formas altamente variadas, tem sido a condi\u00e7\u00e3so pr\u00e9via para a evolu\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria humanidade e para uma rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica entre a humanidade e a natureza.<\/p>\n<p><strong>Tecnologia e Popula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma vez que a gera\u00e7\u00e3o passada tem testemunhado a expolia\u00e7\u00e3o do planeta, que ultrapassa todos os estragos feitos pelas gera\u00e7\u00f5es primitivas, pouco mais do que uma gera\u00e7\u00e3o poder\u00e1 restar antes que a destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente se torne irrevers\u00edvel. Por esta raz\u00e3o, devemos debru\u00e7ar-nos sobre as origens da crise ecol\u00f3gica com honestidade implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>O tempo corre precipitadamente e as d\u00e9cadas que restam do s\u00e9culo XX podem bem ser a \u00faltima oportunidade que teremos para restaurar o equil\u00edbrio entre a humanidade e a natureza.<\/p>\n<p><strong>Assentar\u00e3o as origens da crise ecol\u00f3gica no desenvolvimento da tecnologia?<\/strong><\/p>\n<p>A tecnologia tem-se tornado um alvo f\u00e1cil para aqueles que querem evitar encarar as condi\u00e7\u00f5es sociais profundamente marcadas por m\u00e1quinas e processos t\u00e9cnicos perigosos.<\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o conveniente esquecer que a tecnologia tem servido n\u00e3o s\u00f3 para subverter o meio ambiente como tamb\u00e9m para o melhorar. A Revolu\u00e7\u00e3o Neol\u00edtica, a qual produziu o per\u00edodo mais harmonioso entre a natureza e a humanidade p\u00f3s-paleol\u00edtica, foi acima de tudo uma revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Foi este per\u00edodo que trouxe \u00e0 humanidade as artes da agricultura, tecelagem, cer\u00e2mica, da domestica\u00e7\u00e3o dos animais, a descoberta da roda e muitos outros melhoramentos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que existem t\u00e9cnicas e atitudes tecnol\u00f3gicas que s\u00e3o inteiramente destruidoras do equil\u00edbrio entre a humanidade e a natureza. \u00c9 responsabilidade nossa separar a promessa da tecnologia \u2013 o potencial criativo \u2013 da capacidade da tecnologia para destruir. Na verdade, n\u00e3o existe tal palavra como \u201ctecnologia\u201d que presida a todas as condi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es sociais. Existem sim, diferentes tecnologias e atitudes para com a tecnologia, algumas das quais s\u00e3o indispens\u00e1veis para restaurar o equil\u00edbrio, e outras que t\u00eam contribuido profundamente para a sua destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do que a humanidade necessita n\u00e3o \u00e9 rejeitar em grande escala as tecnologias avan\u00e7adas, mas sim peneira-las, necessita realmente de um maior desenvolvimento da tecnologia a par com os princ\u00edpios ecol\u00f3gicos, o que contribuir\u00e1 para uma nova harmoniza\u00e7\u00e3o da sociedade e do mundo natural.<\/p>\n<p><strong>Ser\u00e1 o crescimento da popula\u00e7\u00e3o, a origem da crise ecol\u00f3gica?<\/strong><\/p>\n<p>Esta tese \u00e9 a mais inquietante, e de muitas maneiras a mais sinistra, a ser formulada pelos movimentos ecol\u00f3gicos ativos nos E.U.A. Neste sentido, um efeito chamado \u201ccrescimento populacional\u201d baralhado na base de estat\u00edsticas e proje\u00e7\u00f5es superficiais, transforma-se numa causa.<\/p>\n<p>\u00c9 dada assim supremacia a um problema de propor\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias no momento presente, obscurecendo as raz\u00f5es fundamentais da crise ecol\u00f3gica. De fato, se as atuais condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais prevalecerem, a humanidade ir\u00e1 com o tempo superpovoar o planeta, e pelo puro peso dos n\u00fameros transformar-se-\u00e1 num flagelo no seu pr\u00f3prio habitat global. H\u00e1 qualquer coisa de obsceno, contudo, acerca do fato de que a um efeito \u201ccrescimento populacional\u201d, \u00e9 concedida supremacia na crise ecol\u00f3gica por uma na\u00e7\u00e3o que tem pouco mais do que 7% da popula\u00e7\u00e3o mundial mas que consome prodigamente mais de 50% dos recursos mundiais, e que est\u00e1 atualmente ocupada no despovoamento de um povo do Oriente, que tem vivido \u00e0 s\u00e9culos em equil\u00edbrio apurado com o seu meio ambiente.<\/p>\n<p>Devemos fazer uma pausa para examinar o problema populacional t\u00e3o amplamente observado pelas ra\u00e7as brancas da Am\u00e9rica do Norte e da Europa \u2013 ra\u00e7as que t\u00eam explorado arbitrariamente os povos da \u00c1sia, \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e do Pac\u00edfico Sul. Os explorados t\u00eam explorado delicadamente os seus exploradores que, do que eles necessitam n\u00e3o s\u00e3o dispositivos anticoncepcionais, nem \u201clibertadores\u201d armados, nem do Prof. R. Ehrlich para resolverem os seus problemas populacionais; precisam antes, de uma devolu\u00e7\u00e3o justa dos imensos recursos que foram roubados das suas terras, pela Am\u00e9rica do Norte e pela Europa.<\/p>\n<p>Equilibrar estas contas \u00e9 mais premente no momento, do que equilibrar as taxas de nascimentos e mortes. Os povos da \u00c1sia, \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e do Pac\u00edfico Sul podem justamente apontar que os seus \u201cconselheiros\u201d Americanos t\u00eam mostrado ao mundo como expoliar um continente virgem em menos de um s\u00e9culo e t\u00eam acrescentado ao vocabul\u00e1rio da humanidade palavras como \u201cesgotamento precoce\u201d.<\/p>\n<p><strong>Isto \u00e9 claro<\/strong>: quando grandes reservas de m\u00e3o-de-obra foram necess\u00e1rias durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial dos princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX para equipar as f\u00e1bricas e diminuir os sal\u00e1rios, o crescimento populacional foi saudado entusiasticamente pela nova burguesia industrial. E o crescimento populacional ocorreu apesar do fato que, devido ao pesado hor\u00e1rio de trabalho e \u00e0s cidades altamente superpovoadas, a tuberculose, c\u00f3lera e outras doen\u00e7as eram epidemicas na Europa e nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Se as taxas de nascimento excederam as da morte nessa altura, n\u00e3o foi porque os progressos feitos ao n\u00edvel de cuidados m\u00e9dicos e sanit\u00e1rios tenham produzido qualquer decl\u00ednio dram\u00e1tico na mortalidade humana; antes, o excesso de nascimentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mortes pode ser explicado pela destrui\u00e7\u00e3o das formas da fam\u00edlia pr\u00e9-industrial, institui\u00e7\u00f5es de vila, ajuda m\u00fatua e padr\u00f5es de vida est\u00e1veis e tradicionais, \u00e0s m\u00e3os da \u201cempresa\u201d capitalista. O decl\u00ednio da moral social introduzido pelos horrores do sistema fabril, o aviltamento das popula\u00e7\u00f5es agr\u00e1rias tradicionais transformadas em prolet\u00e1rios e moradores urbanos, brutalmente explorados, produziu uma atitude concomitantemente respons\u00e1vel para com a fam\u00edlia e a procria\u00e7\u00e3o. A sexualidade tornou-se um ref\u00fagio de uma vida de trabalho duro, bem como o consumo do gin barato; o novo proletariado gerou crian\u00e7as (muitas das quais nunca sobreviveram at\u00e9 a idade adulta), t\u00e3o inconscientemente como foi levado ao alcoolismo. \u00c9 muito semelhante o caso ocorrido quando as vilas Africanas, Asi\u00e1ticas e Latino-Americanas foram sacrificadas ao santo altar do imperialismo.<\/p>\n<p>Hoje a burguesia \u201cv\u00ea\u201d as coisas de uma forma diferente. Os anos dourados da \u201clivre empresa\u201d e do \u201ctrabalho livre\u201d declinam perante uma era de monop\u00f3lio, cart\u00e9is, economias controladas pelo estado, formas institucionalizadas de mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria (sindicatos), e de m\u00e1quinas autom\u00e1ticas ou cibern\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Largas reservas de m\u00e3o-de-obra desempregada n\u00e3o s\u00e3o j\u00e1 necess\u00e1rias para ir ao encontro das necessidades de expans\u00e3o do capital, e os sal\u00e1rios s\u00e3o em grande parte mais negociados do que deixados \u00e0 livre atua\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho. Anteriormente necess\u00e1rias, as reservas de m\u00e3o-de-obra in\u00fatil acabaram por tornar-se numa amea\u00e7a \u00e0 estabilidade de uma economia burguesa manipulada. A l\u00f3gica desta nova \u201cperspectiva\u201d encontrou a sua mais aterradora express\u00e3o no fascismo alem\u00e3o. Para os nazis, a Europa estava j\u00e1 \u201csuperpovoada\u201d nos anos trinta e o \u201cproblema populacional\u201d foi \u201cresolvido\u201d nas c\u00e2maras de g\u00e1s de Auschwitz.<\/p>\n<p>A mesma l\u00f3gica est\u00e1 impl\u00edcita em muitos dos argumentos neo-Malthusianos que se mascaram hoje como ecologia. Que n\u00e3o haja d\u00favida quanto a esta conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais tarde ou mais cedo a prolifera\u00e7\u00e3o descuidada de seres humanos ter\u00e1 de ser detida, mas, ou o controle populacional ter\u00e1 de ser feito por meio de \u201ccontroles sociais\u201d (m\u00e9todos autorit\u00e1rios ou racistas e, no fim, ser um genoc\u00eddio sistem\u00e1tico), ou por uma sociedade libert\u00e1ria, ecologicamente orientada (uma sociedade que desenvolva um novo equil\u00edbrio com a natureza fora da venera\u00e7\u00e3o pela vida).<\/p>\n<p>A sociedade moderna encontra-se perante estas alternativas mutuamente restritas e deve fazer uma escolha sem dissimula\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica \u00e9 fundamentalmente a\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Ou vamos diretamente \u00e0s origens sociais da atual crise ecol\u00f3gica, ou seremos logrados por uma era de totalitarismo.<\/p>\n<p><strong>Ecologia e Sociedade<\/strong><\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de que a humanidade deve dominar e explorar a natureza, prov\u00e9m da domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Na verdade, esta concep\u00e7\u00e3o vem de tempos remotos em que o homem come\u00e7ou a dominar e explorar as mulheres dentro da fam\u00edlia patriarcal. Desde essa altura os seres humanos foram olhados, cada vez mais, como meros recursos, como objetos em vez de sujeitos. As hierarquias, classes, sistemas de propriedade e institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que emergiram com o dom\u00ednio social foram transferidas conceitualmente para a rela\u00e7\u00e3o entre a humanidade e a natureza. Esta, tamb\u00e9m foi cada vez mais olhada como mero recurso, um objeto, uma mat\u00e9ria bruta a ser explorada t\u00e3o implacavelmente como escravos num latif\u00fandio. Esta \u201cvis\u00e3o do mundo\u201d impregnou n\u00e3o s\u00f3 a cultura oficial da sociedade hier\u00e1rquica; tornou-se na maneira como os escravos, servos, trabalhadores da ind\u00fastria e as mulheres de todas as classes sociais se come\u00e7aram a considerar a eles mesmos. Contida na \u201c\u00e9tica do trabalho\u201d, na moralidade baseada na recusa e na ren\u00fancia, num modo de comportamento baseado na sublima\u00e7\u00e3o dos desejos er\u00f3ticos e noutros aspectos mundanos (sejam eles Europeus ou Asi\u00e1ticos), os escravos, servos, trabalhadores e metade das mulheres da humanidade foram ensinadas a vigiarem-se a si pr\u00f3prios, a talharem as suas pr\u00f3prias cadeias, a fechar as portas das suas pris\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Se a \u201cvis\u00e3o do mundo\u201d da sociedade hier\u00e1rquica come\u00e7a hoje a declinar \u00e9 especialmente porque a enorme produtividade da moderna tecnologia abriu uma nova vis\u00e3o:\u00a0<\/strong>a possibilidade de abund\u00e2ncia material, um fim \u00e1 escassez de uma era de tempos livres (o chamado \u201clazer\u201d) com um m\u00ednimo de trabalho duro. A nossa sociedade est\u00e1 a ser impregnada por uma tens\u00e3o entre \u201co que \u00e9\u201d e \u201co que poderia ser\u201d, uma tens\u00e3o exacerbada pela explora\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o irracional e desumana da terra e dos seus habitantes.<\/p>\n<p>O maior obst\u00e1culo que dificulta a solu\u00e7\u00e3o desta tens\u00e3o \u00e9 a extens\u00e3o at\u00e9 \u00e0 qual a sociedade hier\u00e1rquica ainda modela os novos pontos de vista e as nossas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil refugirmo-nos nas cr\u00edticas \u00e0 tecnologia e ao crescimento populacional; tratar com um sistema social arcaico, destrutivo sobre as suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es e dentro da sua pr\u00f3pria estrutura.<\/p>\n<p>Quase desde o ber\u00e7o temos sido socializados pela fam\u00edlia, institui\u00e7\u00f5es religiosas, escolas e pelo pr\u00f3prio trabalho, aceitando a hierarquia, ren\u00fancia e sistemas pol\u00edticos, como premissas sobre as quais todo o pensamento deve apoiar-se. Sem esclarecer essas premissas, todas as discuss\u00f5es, sobre o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico permanecer\u00e3o meros paliativos e ser\u00e3o contraproducentes.<\/p>\n<p>Em virtude da sua excepcional bagagem cultural, a sociedade moderna \u2013 sociedade burguesa orientada para os lucros \u2013 tende a exacerbar o conflito entre a humanidade e a natureza, de uma forma mais cr\u00edtica do que as sociedades pr\u00e9-industriais do passado. Na sociedade burguesa, os humanos n\u00e3o s\u00f3 se transformam em objetos mas tamb\u00e9m em mercadorias; em objetos claramente destinados a serem vendidos no mercado. A competi\u00e7\u00e3o entre os seres humanos, como mercadorias, torna-se um fim em si, em conjunto com a produ\u00e7\u00e3o de artigos totalmente in\u00fateis.<\/p>\n<p>A qualidade transformou-se em quantidade, a cultura individual em cultura de massas, a comunica\u00e7\u00e3o pessoal em comunica\u00e7\u00e3o de massas.<\/p>\n<p><strong>O meio ambiente natural tornou-se numa f\u00e1brica gigantesca e a cidade num imenso mercado:<\/strong>\u00a0tudo, desde uma floresta Redwood at\u00e9 ao corpo de uma mulher tem \u201cum pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo equacionado em d\u00f3lares, seja uma catedral consagrada ou a honra individual. A tecnologia deixa de ser uma extens\u00e3o da tecnologia. A m\u00e1quina n\u00e3o amplia o poder do trabalhador; \u00e9 o trabalhador que amplia o poder da m\u00e1quina e na verdade ele mesmo se torna numa simples parte da m\u00e1quina.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 assim t\u00e3o surpreendente que esta sociedade exploradora, degradante e quantificada oponha a humanidade a si pr\u00f3pria e \u00e0 natureza, numa escala mais assombrosa do que qualquer outra no passado?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, necessitamos mudar, mas mudar t\u00e3o fundamentalmente e em t\u00e3o grande escala que mesmo os conceitos de revolu\u00e7\u00e3o e liberdade devem ser ampliados para al\u00e9m de todos os primitivos horizontes.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 j\u00e1 suficiente falar das novas t\u00e9cnicas para a conserva\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o do ambiente natural; devemos tratar a terra comunalmente, como uma coletividade humana, sem aquelas peias da propriedade privada, que t\u00eam distorcido a vis\u00e3o da vida e da natureza da humanidade, desde a rutura da sociedade tribal. Devemos eliminar n\u00e3o s\u00f3 a hierarquia burguesa mas a hierarquia como tal; n\u00e3o s\u00f3 a fam\u00edlia patriarcal, mas tamb\u00e9m todas as formas de dom\u00ednio familiar e sexual; n\u00e3o s\u00f3 a classe burguesa e o sistema de propriedade, mas sim todas as classes sociais e a propriedade. A Humanidade deve tomar posse de si pr\u00f3pria, individual e coletivamente, para que todos os seres humanos obtenham o controle de suas vidas di\u00e1rias. As nossas cidades devem ser descentralizadas em comunidades ou ecocomunidades talhadas, fina e habilidosamente, para o aproveitamento da capacidade dos ecossistemas nos quais elas est\u00e3o localizadas. As nossas tecnologias devem ser readaptadas e formuladas em ecotecnologias, fina e inteligentemente adaptadas para usarem as fontes de energia local e os materiais, com um m\u00ednimo ou sem polui\u00e7\u00e3o do ambiente. Necessitamos recuperar um novo sentimento das nossas necessidades \u2013 necessidades que fomentem uma vida saud\u00e1vel e que exprimam as nossas inclina\u00e7\u00f5es individuais, n\u00e3o as \u201cnecessidades\u201d ditadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos que restaurar a escala humana no nosso ambiente e nas nossas rela\u00e7\u00f5es pessoais, substituto medianeiro das rela\u00e7\u00f5es pessoais diretas na gest\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>Finalmente, todas as formas de dom\u00ednio \u2013 social ou pessoal \u2013 devem ser banidas das nossas concep\u00e7\u00f5es, de n\u00f3s pr\u00f3prios, dos nossos semelhantes e da natureza.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o dos humanos deve ser substitu\u00edda pela administra\u00e7\u00e3o das coisas. A revolu\u00e7\u00e3o que pretendemos deve envolver n\u00e3o s\u00f3 as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia, o estilo de vida, os desejos er\u00f3ticos e a nossa interpreta\u00e7\u00e3o do significado da vida.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o aqui, \u00e9 o esp\u00edrito antiquado e os sistemas de dom\u00ednio e repress\u00e3o que n\u00e3o s\u00f3 opuseram o homem ao homem, mas a humanidade \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>O conflito entre estas \u00e9 uma extens\u00e3o do conflito entre o ser humano. A n\u00e3o ser que o movimento ecol\u00f3gico envolva o problema do dom\u00ednio em todos os seus aspectos, ele n\u00e3o contribuir\u00e1 em nada para a elimina\u00e7\u00e3o da origem das causas da crise ecol\u00f3gica do nosso tempo. Se o movimento ecol\u00f3gico se det\u00e9m em simples reformas de controle da polui\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o, sem tratar radicalmente da necessidade de amplia\u00e7\u00e3o de um conceito de revolu\u00e7\u00e3o, ele servir\u00e1 meramente como uma v\u00e1lvula de seguran\u00e7a do sistema existente da explora\u00e7\u00e3o humana e natural.<\/p>\n<p><strong>Manifesto Ecol\u00f3gico &#8211; Objetivos<\/strong><\/p>\n<p>Sobre certos aspectos o movimento ecol\u00f3gico de hoje est\u00e1 a mover uma a\u00e7\u00e3o tardia, contra a destrui\u00e7\u00e3o desenfreada do ambiente. Noutros aspectos os seus elementos mais conscientes est\u00e3o envolvidos num movimento criativo, pronto a revolucionar totalmente as rela\u00e7\u00f5es sociais dos indiv\u00edduos para com os outros e da humanidade para com a natureza.<\/p>\n<p><strong>Embora elas se interpenetrem intimamente, os dois esfor\u00e7os devem distinguir-se um do outro. Ecology Action East (A\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Leste) apoia qualquer esfor\u00e7o para a conserva\u00e7\u00e3o do ambiente:<\/strong>\u00a0preservar a \u00e1gua e o ar puros; limitar o uso dos pesticidas e adubos qu\u00edmicos nos alimentos; reduzir o tr\u00e2nsito de ve\u00edculos nas ruas e auto-estradas; tornar as cidades mais saud\u00e1veis fisicamente; impedir que os desperd\u00edcios radioativos penetram no ambiente; proteger e aumentar as \u00e1reas desertas e os territ\u00f3rios para a vida selvagem; e defender as esp\u00e9cies animais da depreda\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Mas a Ecology Action East n\u00e3o se ilude a si pr\u00f3pria pensando que estas a\u00e7\u00f5es tardias constituem uma solu\u00e7\u00e3o para o conflito fundamental que existe entre a atual ordem social e o mundo natural.<\/p>\n<p>Nem t\u00e3o pouco que estas a\u00e7\u00f5es tardias possam deter o \u00edmpeto esmagador de destrui\u00e7\u00e3o existente nesta sociedade.<\/p>\n<p>Esta ordem social joga conosco. Ela concede reformas a longo prazo, aos poucos e dolorosamente inadequadas, a fim de desviar os nossos esfor\u00e7os e aten\u00e7\u00e3o de atos destruidores ainda mais vastos. Em certo sentido, \u00e9-nos oferecido um peda\u00e7o de terreno da floresta Redwood em troca das Cascades. Visto numa maior perspectiva, esta tentativa para reduzir a ecologia a uma rela\u00e7\u00e3o de permuta n\u00e3o salva nada; \u00e9 um modus operandi barato de negociar a maior parte do planeta por umas quantas ilhas desertas, por parques de bolso num mundo devastado de bet\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A Ecology Action East (A\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica Leste) tem dois objetivos principais:<\/strong>\u00a0um \u00e9 incrementar no movimento revolucion\u00e1rio, o conhecimento de que a consequ\u00eancia mais urgente e destrutiva da nossa sociedade exploradora e alienante \u00e9 a crise ambiente, e que a verdadeira sociedade revolucion\u00e1ria deve ser constru\u00edda de acordo com preceitos ecol\u00f3gicos; o outro objetivo \u00e9 provocar na mente de milh\u00f5es de Americanos que est\u00e3o preocupados com a destrui\u00e7\u00e3o do nosso ambiente, uma tomada de consci\u00eancia de que os princ\u00edpios da ecologia, levados at\u00e9 ao final l\u00f3gico, exigem mudan\u00e7as radicais na nossa sociedade e no nosso modo de olhar o mundo.<\/p>\n<p>A Ecology Action East fundamenta-se na revolu\u00e7\u00e3o do estilo de vida que, no m\u00e1ximo, pretende uma consci\u00eancia aumentada de experi\u00eancia e de liberdade humanas. N\u00f3s pretendemos a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres, das ciran\u00e7as, dos homossexuais, dos povos negros e colonizados, dos trabalhadores de todas as profiss\u00f5es, como parte da crescente luta social contra as tradi\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam t\u00e3o destruidoramente modelado a atitude da humanidade para com o mundo natural.<\/p>\n<p>N\u00f3s apoiamos comunidades libert\u00e1rias e lutas pela liberdade aonde quer que surjam; apoiamos tamb\u00e9m qualquer esfor\u00e7o para promover o auto-desenvolvimento espont\u00e2neo dos jovens; opomo-nos a qualquer esfor\u00e7o para reprimir a sexualidade humana e negar \u00e0 humanidade a experi\u00eancia do er\u00f3tico em todas as suas formas.<\/p>\n<p><strong>Unimos todos os esfor\u00e7os para fomentar um artif\u00edcio feliz, na vida e no trabalho:<\/strong>\u00a0a promo\u00e7\u00e3o dos of\u00edcios e da qualidade de produ\u00e7\u00e3o; o planejamento de novas ecocomunidades e ecotecnologias; o direito \u00e0 experi\u00eancia, numa base di\u00e1ria da beleza do mundo natural, o parzer aberto, espont\u00e2neo e sensual que os humanos podem oferecer uns aos outros, o respeito crescente pelo mundo da vida.<\/p>\n<p>Em resumo, n\u00f3s temos esperan\u00e7as numa revolu\u00e7\u00e3o que produza comunidades politicamente independentes cujas fronteiras e popula\u00e7\u00f5es sejam definidas por uma nova consci\u00eancia ecol\u00f3gica; comunidades cujos habitantes determinar\u00e3o por si mesmos, dentro da estrutura desta nova consci\u00eancia, a natureza e o n\u00edvel das suas tecnologias, as formas tomadas pelas suas estruturas sociais, vis\u00f5es do mundo, estilos de vida, artes expressivas e todos os outros aspectos das suas vidas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mas n\u00f3s n\u00e3o nos iludimos a n\u00f3s mesmos de que este mundo orientado para a vida possa ser desenvolvido, inteiramente ou mesmo parcialmente conseguido, atrav\u00e9s de uma sociedade orientada para a morte.<\/p>\n<p>A sociedade Americana como hoje est\u00e1 constitu\u00edda, est\u00e1 penetrada de racismo e ergue-se no topo do mundo inteiro n\u00e3o s\u00f3 como consumidora de sua riqueza e recursos, mas como um obst\u00e1culo a todas as tentativas de auto-determina\u00e7\u00e3o no interior e no estrangeiro. Os seus objetivos inerentes s\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o pela produ\u00e7\u00e3o, a manuten\u00e7\u00e3o da hierarquia e do trabalho \u00e1rduo \u00e0 escala mundial, manipula\u00e7\u00e3o das massas e controle por meio de institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas centralizadas.<\/p>\n<p>Este tipo de sociedade contrap\u00f5e-se inalteravelmente a um mundo orientado para a vida. Se o movimento ecol\u00f3gico n\u00e3o tira estas conclus\u00f5es dos seus esfor\u00e7os para conservar o ambiente natural, ent\u00e3o a conserva\u00e7\u00e3o torna-se um mero obscurantismo. Se o movimento ecol\u00f3gico n\u00e3o dirige os seus esfor\u00e7os principais para uma revolu\u00e7\u00e3o em todos os aspectos da vida \u2013 social bem como natural \u2013 ent\u00e3o o movimento tornar-se-\u00e1 gradualmente numa v\u00e1lvula de seguran\u00e7a para a ordem estabelecida. A nossa esperan\u00e7a est\u00e1 em que os grupos como n\u00f3s, brotar\u00e3o atrav\u00e9s do pa\u00eds, organizados como n\u00f3s pr\u00f3prios numa base humanista e libert\u00e1ria, empenhada na a\u00e7\u00e3o conjunta e com um esp\u00edrito de coopera\u00e7\u00e3o baseado no apoio m\u00fatuo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 tamb\u00e9m esperan\u00e7a nossa que eles tentem fomentar uma nova atitude ecol\u00f3gica, n\u00e3o s\u00f3 para com a natureza mas tamb\u00e9m para com os humanos:<\/strong>\u00a0uma concep\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas variegadas dentro e entre grupos, dentro da sociedade e entre os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>N\u00f3s esperamos que os grupos ecol\u00f3gicos evitar\u00e3o todos os apelos aos \u201cchefes de governo\u201d e \u00e0s institui\u00e7\u00f5es estatais nacionais e internacionais, os verdadeiros corpos criminosos e pol\u00edticos que t\u00eam contribu\u00eddo materialmente para a crise ecol\u00f3gica do nosso tempo. Cremos que os apelos devem ser feitos ao povo e \u00e0 sua capacidade para a a\u00e7\u00e3o direta, que lhe possa permitir tomar o controle das suas pr\u00f3prias vidas e destinos. Porque s\u00f3 desta maneira pode emergir a sociedade sem hierarquia e dom\u00ednio, a sociedade na qual cada indiv\u00edduo \u00e9 o dono ou a dona da sua pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>As grandes cis\u00f5es que dividiram os humanos dos humanos, a humanidade da natureza, o indiv\u00edduo da sociedade, a cidade do campo, a atividade mental da f\u00edsica, a raz\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o e gera\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o devem ser agora ultrapassadas.<\/p>\n<p>O cumprimento da luta antiquada pela sobreviv\u00eancia e seguran\u00e7a material num mundo de escassez foi uma vez olhado como a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a liberdade e para uma vida inteiramente humana. Para viver n\u00f3s tivemos que sobreviver.<\/p>\n<p><strong>Como Brecht disse:<\/strong>\u00a0\u201cPrimeiro a alimenta\u00e7\u00e3o e depois a moralidade\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou agora a modificar-se. A crise ecol\u00f3gica do nosso tempo, crescentemente, inverteu esta m\u00e1xima tradicional. Hoje, se n\u00f3s temos que sobreviver, devemos come\u00e7ar por viver.<\/p>\n<p>As nossas solu\u00e7\u00f5es devem ser proporcionais ao n\u00edvel do problema, ou ent\u00e3o a natureza vingar-se-\u00e1, terrivelmente, da humanidade.<\/p>\n<p><strong>O MOVIMENTO ECOL\u00d3GICO NO BRASIL (1974-1986):\u00a0<\/strong>DO AMBIENTALISMO \u00c0 ECOPOL\u00cdTICA<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-160926 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Manife1-300x108.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"108\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Manife1-300x108.jpg 300w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Manife1.jpg 655w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><strong>Manifesto Ecol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p><strong>Crise ecol\u00f3gica e ecologismo:\u00a0<\/strong>uma introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A humanidade faz parte da natureza e depende dela para sua sobreviv\u00eancia, mas a civiliza\u00e7\u00e3o d\u00e1 a ela o poder de mexer com a natureza em escala sempre crescente, para bem ou para mal.<\/p>\n<p><strong>Entre os efeitos negativos desta interven\u00e7\u00e3o humana encontram-se:<\/strong>destrui\u00e7\u00e3o do solo atrav\u00e9s de seu uso abusivo, provocando eros\u00e3o, inunda\u00e7\u00f5es e altera\u00e7\u00f5es do clima; amea\u00e7a \u00e0 vida biol\u00f3gica nos oceanos, lagos e rios, devido \u00e0 polui\u00e7\u00e3o de suas \u00e1guas; envenenamento da atmosfera com vapores prejudiciais; cria\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de armas com poderes absolutos de destrui\u00e7\u00e3o de qualquer forma de vida; concentra\u00e7\u00e3o de atividades industriais e comerciais em \u00e1reas superlotadas, at\u00e9 o. ponto em que as deseconomias externas do congestionamento, da polui\u00e7\u00e3o e da aliena\u00e7\u00e3o da moderna vida industrial e urbana anulam os ganhos em qualidade de vida obtidos atrav\u00e9s do aumento do consumo material.<\/p>\n<p>O comportamento humano j\u00e1 gerou m\u00faltiplas, e, \u00e0s vezes, profundas crises ecol\u00f3gicas ao longo da Hist\u00f3ria (Toynbee,1982). Como produto destas, algumas civiliza\u00e7\u00f5es desapareceram.<\/p>\n<p>O comportamento predat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 novo na hist\u00f3ria humana, n\u00e3o se restringe nem ao fim do s\u00e9culo XX e nem aos \u00faltimos dois s\u00e9culos de industrialismo, o que sim \u00e9 novo \u00e9 a escala dos instrumentos de preda\u00e7\u00e3o, cujo s\u00edmbolo m\u00e1ximo s\u00e3o as armas nucleares. A partir de Hiroshima e, mais precisamente, a partir da segunda metade da d\u00e9cada de. 50 a humanidade atingiu a capacidade de auto-exterm\u00ednio. (Para uma excelente discuss\u00e3o sobre a capacidade de auto-exterm\u00ednio ver Koestler, 1981; Pringle &amp; Spigelman, 1981; Schell, 1985.)<\/p>\n<p><strong>Quatro cat\u00e1strofes amea\u00e7am concretamente a humanidade neste fim de s\u00e9culo:<\/strong>\u00a0a guerra nuclear; o lixo at\u00f4mico acumulado e acidentes em usinas nucleares; o efeito estufa e o enfraquecimento da camada de oz\u00f4nio na atmosfera. Sobre o primeiro n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer mais nada al\u00e9m da exist\u00eancia de armas acumuladas que permitiriam destruir 120 vezes a vida na Terra e o surgimento da doutrina da possibilidade de ganhar uma guerra nuclear na d\u00e9cada de 80; iniciativa do Reaganismo (Galtung, 1985) com o desenvolvimento de armas de primeiro golpe (m\u00edsseis Pershing na Europa) e de defesa absoluta (Programa de \u201cGuerra nas Estrelas\u201d (Thompson, 1985)). Sobre as usinas nucleares, o acidente de Chernobyl mostrou-nos apenas um p\u00e1lido exemplo do que poderia ser um acidente nuclear maior (Patterson, 1980). O efeito estufa \u00e9 menos conhecido pela opini\u00e3o p\u00fablica, apesar de ter sido objeto de importantes estudos cient\u00edficos. Como conseq\u00fc\u00eancia do aumento do di\u00f3xido de carbono na atmosfera (produto fundamental da queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis e mesmo biomassa), h\u00e1 um ac\u00famulo progressivo de energia e uma tend\u00eancia ao aumento da temperatura m\u00e9dia da Terra.<\/p>\n<p>Cientistas v\u00eam monitorando esta acumula\u00e7\u00e3o deste in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 e seus c\u00e1lculos indicam uma crise dram\u00e1tica daqui a quatro d\u00e9cadas. O oz\u00f4nio \u00e9 um elemento inst\u00e1vel, respons\u00e1vel pela filtragem da radia\u00e7\u00e3o ultravioleta, que est\u00e1 sendo destru\u00eddo pela contamina\u00e7\u00e3o da atmosfera por aeros\u00f3is e outras causas n\u00e3o muito conhecidas.<\/p>\n<p><strong>Nos \u00faltimos 5 anos a situa\u00e7\u00e3o adquiriu um car\u00e1ter dram\u00e1tico na Ant\u00e1rtida:<\/strong>\u00a0uma janela cada vez maior indica um brutal enfraquecimento de 40% na camada de oz\u00f4nio da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A d\u00e9cada de 70 marca o despertar da consci\u00eancia ecol\u00f3gica no mundo:<\/strong>\u00a0Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Meio Ambiente em Estocolmo (1972) ; relat\u00f3rio Meadows (1972) sobre os limites do crescimento e relat\u00f3rios subseq\u00fcentes (Tinbergen, 1978; Laszlo, 1977; Bariloche); surgimento do paradigma te\u00f3rico da ecologia pol\u00edtica; prolifera\u00e7\u00e3o de movimentos sociais ecologistas no mundo norocidental (Eckholm, 1982; Meadows, 1972; Mesarovich &amp; Pestel, 1984; Borgstrom, 1971; Goldsmilh et atii, 1972; Hoffmann\u00a0<em>et alii<\/em>, 1982; Falk, 1982).<\/p>\n<p>Pela primeira vez os problemas de degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente provocados pelo crescimento econ\u00f4mico s\u00e3o percebidos como um problema global que supera amplamente diversas quest\u00f5es pontuais que eram arroladas nas d\u00e9cadas de 50 e 60 pelas ag\u00eancias estatais de meio ambiente dos pa\u00edses do 1\u00ba Mundo.<\/p>\n<p>Foi no clima de crise do marxismo, na d\u00e9cada de 70, que os movimentos ecol\u00f3gicos se desenvolveram. (Sobre a rela\u00e7\u00e3o entre crise do marxismo e emerg\u00eancia do movimento ecol\u00f3gico ver Gorz, 1978; Barho, 1984; Gabeira &amp; Bendit, 1985b.).<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas fatores principais est\u00e3o na base da crise do marxismo, tanto enquanto modelo explicativo do funcionamento da sociedade, como enquanto referencial normativo para sua transforma\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0o car\u00e1ter totalit\u00e1rio do socialismo real, a complexidade s\u00f3cio-pol\u00edtica do capitalismo contempor\u00e2neo e a crise ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>O car\u00e1ter totalit\u00e1rio da sociedade sovi\u00e9tica e do resto do bloco socialista foi ficando cada vez mais claro para a esquerda ocidental anticapitalista (que tinha-se negado a \u201cver\u201d a realidade durante pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas) atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de acontecimentos exemplares:<\/strong>\u00a0invas\u00e3o sovi\u00e9tica \u00e0 Tchecoslov\u00e1quia em 1968; revoltas oper\u00e1rias na Pol\u00f4nia em 1970 e 1976; forma\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humanos na URSS; din\u00e2mica genocida do Khmer Vermelho em Cambodja logo ap\u00f3s a tomada de Phnom Penh em 1975; forte repercuss\u00e3o dos livros de A. Soljenitsyn O arquip\u00e9lago Gulag e R. Barho \u201cA alternativa\u201d (Soljenitsyn, 1975; Barho, 1978). A partir de meados da d\u00e9cada de 70 vai processando-se um enfraquecimento paulatino do movimento oper\u00e1rio e sindical no mundo (o Brasil \u00e9 uma das poucas exce\u00e7\u00f5es) como produto de profundas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas na rela\u00e7\u00e3o capital-trabalho, o que torna cada vez mais insustent\u00e1vel o argumento marxista que coloca a classe oper\u00e1ria como agente principal da mudan\u00e7a hist\u00f3rica em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo (Gorz, 1981).<\/p>\n<p><strong>Finalmente, a crise ecol\u00f3gica questiona no seu cerne o marxismo:\u00a0<\/strong>a teoria do valor-trabalho sup\u00f5e a infinitude dos recursos naturais e a natureza como um objeto passivo desprovido de valor (Tamames, 1979).<\/p>\n<p>O Marx da maturidade associava a sociedade ideal a um desenvolvimento ilimitado das for\u00e7as produtivas materiais, o socialismo continua e aprofunda o capitalismo neste sentido.<\/p>\n<p>Os movimentos ecol\u00f3gicos s\u00e3o parcialmente herdeiros da cultura socialista e particularmente da cr\u00edtica marxista da \u00e9tica utilitarista (Ramos, 1981).<\/p>\n<p>O ecologismo critica o utilitarismo n\u00e3o apenas nas rela\u00e7\u00f5es no interior da sociedade (como o faz o marxismo), mas tamb\u00e9m, e fundamentalmente, nas rela\u00e7\u00f5es sociedade-natureza.<\/p>\n<p><strong>Os movimentos ecol\u00f3gicos e pacifistas constituem-se num ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria da mobiliza\u00e7\u00e3o social e da a\u00e7\u00e3o coletiva:<\/strong>trata-se de movimentos portadores de valores e interesses universais que ultrapassam as fronteiras de classe, sexo, ra\u00e7a e idade. (Sobre o car\u00e1ter universal dos movimentos ecol\u00f3gicos e pacifistas veja-se Offe, 1983; Galtung, 1984; Mische, 1985; Bobbio, 1982; Diner, 1983, p. 86-107).<\/p>\n<p><strong>Os movimentos ecol\u00f3gicos e pacifistas s\u00e3o extremamente complexos desde o ponto de vista sociol\u00f3gico:<\/strong>\u00a0sua base social atravessa definidamente as fronteiras de classe (participam profissionais de alta qualifica\u00e7\u00e3o, estudantes, camponeses, colarinhos brancos, funcion\u00e1rios p\u00fablicos, oper\u00e1rios, pequenos empres\u00e1rios, executivos); sexo (participam homens e mulheres); ra\u00e7a (geralmente h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o de minorias \u00e9tnicas); idade (desde jovens estudantes e crian\u00e7as do prim\u00e1rio at\u00e9 aposentados) (Capra &amp; Spretnak, 1984).<\/p>\n<p>O movimento ecopacifista tem o potencial de incorpora\u00e7\u00e3o da grande maioria da humanidade (a paz e o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico est\u00e3o diretamente associados \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie); exceto somente os agentes sociais que ocupam as posi\u00e7\u00f5es dominantes do complexo militar-industrial-cient\u00edfico da maioria dos pa\u00edses, que s\u00e3o intrinsecamente portadores da l\u00f3gica predat\u00f3rio-exterminista do mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Outros movimentos sociais (movimento oper\u00e1rio e campon\u00eas) t\u00eam sua din\u00e2mica de a\u00e7\u00e3o coletiva vinculada fundamentalmente a uma posi\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na estrutura produtiva da sociedade, ou no local de moradia (associa\u00e7\u00f5es de moradores), ou em outras caracter\u00edsticas marcantes desde o ponto de vista cultural e biol\u00f3gico (feminismo, estudantes, minorias \u00e9tnicas).<\/p>\n<p>Qualquer deles tem uma base social real e potencial de desenvolvimento que \u00e9 sociologicamente delimitada segundo unia situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica na estrutura social. Apesar do car\u00e1ter universalizante que, em muitas situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, adquire seu discurso, trata-se de movimentos com limites definidos quanto a potencial de incorpora\u00e7\u00e3o, ainda que estes limites podem ser muito amplos em alguns casos (o movimento oper\u00e1rio na fase de industrializa\u00e7\u00e3o extensiva, o feminismo hoje, a metade da humanidade).<\/p>\n<p>Diante do quadro de exacerbada degrada\u00e7\u00e3o social e ambiental em escala planet\u00e1ria, o movimento ecol\u00f3gico prop\u00f5e um novo sistema de valores sustentado no equil\u00edbrio ecol\u00f3gico, na justi\u00e7a social, na n\u00e3o-viol\u00eancia ativa e na solidariedade diacr\u00f4nica com as gera\u00e7\u00f5es futuras (Capra &amp; Spretnak, 1984; Porritt, 1984; Journes, 1979).<\/p>\n<p>O meio ambiente surge para o movimento ecol\u00f3gico como uma dimens\u00e3o fundamental do desenvolvimento, atrav\u00e9s da id\u00e9ia-for\u00e7a de ecodesenvolvimento (Boulding, 1978; Sachs, 1982).<\/p>\n<p>A grande maioria dos ecologistas (exceto uma minoria rom\u00e2ntica) \u00e9 favor\u00e1vel a um desenvolvimento ecologicamente equilibrado que inclui a utiliza\u00e7\u00e3o prudente da maioria das tecnologias contempor\u00e2neas, rejeitando somente aquelas intrinsecamente predat\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>Neste sentido, as propostas mais difundidas entre os ecologistas \u2013 e que se referem ao desenvolvimento de tecnologias apropriadas que reflitam a interdepend\u00eancia da humanidade com a Terra \u2013 s\u00e3o, entre outras, as seguintes:<\/strong>\u00a0produ\u00e7\u00e3o de energia flex\u00edvel que trabalha com os ciclos do sol, da \u00e1gua e do vento; agricultura de regenera\u00e7\u00e3o que reabastece o solo e incorpora meios naturais de controle das pragas; fim da devasta\u00e7\u00e3o das fontes de recursos naturais (renov\u00e1veis e n\u00e3o-renov\u00e1veis); parada do envenenamento da biosfera pelo descarregamento de lixo t\u00f3xico; dr\u00e1stico controle da polui\u00e7\u00e3o do ar efetuada pelas ind\u00fastrias e meios de transporte e redu\u00e7\u00e3o dos \u201cn\u00edveis aceit\u00e1veis\u201d de exposi\u00e7\u00e3o radioativa.<\/p>\n<p>Os problemas de degrada\u00e7\u00e3o ambiental enfrentados pelos ecologistas dos 1\u00ba e 3\u00ba Mundos s\u00e3o de similar natureza, mas os problemas de degrada\u00e7\u00e3o social s\u00e3o profundamente diferentes; no 1\u00ba Mundo a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o tem resolvida a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades materiais b\u00e1sicas (alimenta\u00e7\u00e3o, moradia, saneamento b\u00e1sico, vestimenta, transporte), no 3\u00ba Mundo a maioria da popula\u00e7\u00e3o vive em condi\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis. Por isto, os problemas de degrada\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-ambiental s\u00e3o muito mais graves no 3\u00ba Mundo do que no 1\u00ba (Oliver, 1983).<\/p>\n<p>Os pobres das cidades n\u00e3o contam com \u00e1gua pot\u00e1vel nem saneamento b\u00e1sico e sua subnutri\u00e7\u00e3o os exp\u00f5e em escala ampliada e um meio ambiente superpolu\u00eddo.<\/p>\n<p>Os sistemas de prote\u00e7\u00e3o no meio ambiente de trabalho dos oper\u00e1rios industriais s\u00e3o muito prec\u00e1rios se comparados com seus similares do Norte.<\/p>\n<p><strong>Os pobres do campo s\u00e3o sempre as v\u00edtimas, e muitas vezes os agentes, de perturba\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas:\u00a0<\/strong>cultivam as encostas que deveriam ser deixadas cobertas de \u00e1rvores, usam agrot\u00f3xicos em escala indiscriminada expondo suas pr\u00f3prias vidas, al\u00e9m do conjunto do ciclo biol\u00f3gico. O Estado, a burguesia local e as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais s\u00e3o t\u00e3o predat\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente como o s\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o do 2\u00ba Mundo aproxima-se \u00e0 do 1\u00ba, com a importante diferen\u00e7a de que n\u00e3o tem acesso a grande parte do consumo suntu\u00e1rio de massas do 1\u00ba Mundo, e por esta raz\u00e3o tem um comportamento mais ecol\u00f3gico (ainda que o fasc\u00ednio com o Ocidente leve a ter a pretens\u00e3o de uma eleva\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da capacidade de consumo) (Morin, 1985; Novik, 1982).<\/p>\n<p>O car\u00e1ter autorit\u00e1rio-totalit\u00e1rio do sistema pol\u00edtico bloqueia a emerg\u00eancia de movimentos ecol\u00f3gicos aut\u00f4nomos no 2\u00ba Mundo.<\/p>\n<p>A expectativa do movimento ecol\u00f3gico para o 1\u00ba Mundo \u00e9 que um processo de educa\u00e7\u00e3o ambiental generalizada (que implicar\u00e1 uma for te reestrutura\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o do poder na sociedade) tornaria poss\u00edvel e prov\u00e1vel a incorpora\u00e7\u00e3o, por parte da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, de valores p\u00f3s-materialistas com o conseq\u00fcente autocontrole na satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades materiais. Para o 2\u00ba Mundo a expectativa \u00e9 similar, ainda que se suponha que este processo seja mais lento devido aos limites do regime pol\u00edtico, j\u00e1 que tamb\u00e9m a\u00ed deveria acontecer uma forte redistribui\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>A expectativa dos ecologistas para o 3\u00ba Mundo \u00e9 um processo de desenvolvimento ecologicamente auto-sustentado e socialmente justo que elevaria consideravelmente o n\u00edvel de consumo material das grandes massas populares, ao mesmo tempo que se estagnaria e racionalizaria o consumo das classes m\u00e9dias (e, obviamente, reduzir-se-ia o consumo das classes altas).<\/p>\n<p>Este padr\u00e3o de desenvolvimento exige uma reestrutura\u00e7\u00e3o do poder mais dr\u00e1stica que nos 1\u00ba e 2\u00ba Mundos.<\/p>\n<p><strong>No 3\u00ba Mundo a difus\u00e3o da consci\u00eancia ecol\u00f3gica deveria implicar tamb\u00e9m uma introdu\u00e7\u00e3o generalizada de valores p\u00f3s-materialistas na popula\u00e7\u00e3o, ainda que com caracter\u00edsticas diferenciadas<\/strong>: alterando os h\u00e1bitos efetivos de sobre consumo dos setores altos e m\u00e9dios; mudando os componentes predat\u00f3rios das expectativas de consumo dos pobres (gerados pelo efeito de demonstra\u00e7\u00e3o) e reduzindo seu crescimento demogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>O movimento ecol\u00f3gico enfrenta no Sul maiores desafios que no Norte, devido \u00e0 explosiva combina\u00e7\u00e3o dos problemas de degrada\u00e7\u00e3o ambiental e injusti\u00e7a social. Existe uma complexa tens\u00e3o entre a justi\u00e7a social (que pode implicar, valorizar a distribui\u00e7\u00e3o sobre a ecologia) e o ecologismo (que pode implicar valorizar a ecologia sobre a distribui\u00e7\u00e3o). Os movimentos ecol\u00f3gicos do 3\u00ba Mundo t\u00eam sua base social reduzida aos setores m\u00e9dios e enfrentam dificuldades, apesar de alguns esfor\u00e7os desenvolvidos, em penetrar os setores populares. Os setores populares do Sul (movimento sindical, movimentos populares urbanos e rurais) mant\u00eam-se distantes do discurso ecologista, apesar de que alguns dos objetivos mais importantes destes movimentos s\u00e3o profundamente ecologistas (luta por condi\u00e7\u00f5es de trabalho; saneamento b\u00e1sico, melhoria dos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica, propriedade da terra para quem a trabalha).<\/p>\n<p><strong>A vis\u00e3o da vida humana que o movimento ecol\u00f3gico traz significa um ponto de ruptura na hist\u00f3ria do pensamento e do senso comum do Ocidente:<\/strong>\u00a0constitu\u00ed-se um novo paradigma (Capra, 1986; Capra &amp; Spretnak, 1984). \u00c9 devido a este car\u00e1ter reestruturador cultural e pol\u00edtico t\u00e3o profundo do movimento ecol\u00f3gico que ele se transforma no eixo do surgimento de uma nova safra de partidos pol\u00edticos, os partidos verdes ou ecopacifistas (Busklin, 1985, p. 463-81; Muller-Rommel, 1985, p. 483-99; Frankeand, 1983;Mewes, 1983). S\u00e3o partidos de valores que n\u00e3o pretendem transformar-se em majorit\u00e1rios, enquanto partidos, e governar ou tomar revolucionariamente o poder (que foram os objetivos em que bifurcou-se o movimento socialista surgido no s\u00e9culo XIX), sen\u00e3o agir como transformadores da cultura pol\u00edtica introduzindo valores p\u00f3s materialistas. \u00c9 claramente o caso do primeiro partido verde, o Partido dos Valores da Nova Zel\u00e2ndia, fundado em 1969, que conseguiu num curto per\u00edodo afetar profundamente a cultura pol\u00edtica, ecologizando os dois partidos tradicionais (Trabalhista e Nacional) que alternaram-se historicamente no poder.<\/p>\n<p>\u00c9 a situa\u00e7\u00e3o presente no Partido Verde Alem\u00e3o que est\u00e1 influenciando profundamente a social-democracia, produzindo a emerg\u00eancia no seu seio da importante corrente ecossocialista.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso do Partido Verde Belga que, ap\u00f3s 5 anos de trabalho rigoroso e sistem\u00e1tico no Parlamento, conseguiu ser respeitado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o e muito considerado pelas ag\u00eancias estatais<\/p>\n<p>Junto com o desenvolvimento do movimento social ecologista surge no mundo ocidental, na \u00faltima d\u00e9cada, um conjunto de pensadores de diversas proced\u00eancias te\u00f3ricas (marxismo, teoria dos sistemas, liberalismo) e de variada forma\u00e7\u00e3o disciplinar que vem tematizando a crise mundial em termos de ecologia pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>A t\u00edtulo ilustrativo podemos mencionar os seguintes autores por \u00e1rea disciplinar de origem:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Filosofia:\u00a0<\/strong>Edgar Morin, Gregory Bateson, Cornelius Castoriadis, Fritjof Capra, Roger Garaudy, Ivan Illich, Henry Skolimowsky (Bateson, 1972; Garaudy,1981; Castoriadis &amp; Bendit, 1981; Skolimowski, 1981; Morin, 1981; Illich, 1976);<strong><br \/>\nBiologia:\u00a0<\/strong>Barry Commoner, Ren\u00e9 Dubos, Francisco Varela, Norman Moore (Commoner, 1980; Ward &amp; Dubos, 1972; Varela, 1980);<strong><br \/>\nEcologia:<\/strong>\u00a0Konrad Lorenz, Jean Dorst, Raquel Carlson, Edward Wilson, Paul Colinveaux, Frank Darling (Lorenz, 1986; Dorst, 1973; Carlson, 1980; Wilson, 1981; Colinveaux, 1981; Darling, 1975);<strong><br \/>\nGeografia:\u00a0<\/strong>Pierre George, Warren Johnson, Amilcar Herrera, YiFu Tuan (George, 1974; Johnson, 1981; Tuan, 1983; Herrera, 1982);<strong><br \/>\nSociologia:<\/strong>\u00a0Johan Galtung, Alberto Guerreiro Ramos, Andr\u00e9 Gorz, Jean Pierre Dupuy, Joseph Huber (al\u00e9m das obras j\u00e1 citadas de Johan Galtung, veja-se: Galtung, 1980; Dupuy, 1980; Huber, 1985);<strong><br \/>\nCi\u00eancia Pol\u00edtica:<\/strong>\u00a0William Ophuls, Richard Falk, Ronald Inglehart (Ophuls, 1977; Falk, 1971; Inglehart, 1977);<strong><br \/>\nAntropologia:<\/strong>\u00a0Richard Wikinson, George Oliver, George Balandier (Wikinson, 1974; Oliver, 1979; Balandier, 1985);<strong><br \/>\nHist\u00f3ria:\u00a0<\/strong>Arnold Toynbee, Lewis Mumford, Theodore Roszack; (Toynbee, 1979; Rosback, 1985);<strong><br \/>\nEconomia:<\/strong>\u00a0Robert Heilbroner, Kenneth Boulding, E. F. Schumacher, Aurelio Peccei, Herbert Woodward, Donela Meadows, Nicholas Georgescu-Roegen, Jean Tinbergen, Ignacy Sachs, Joy Forrester (Schumacher, 1977; Georgescu-Roegen, 1976; Heilbroner, 1972; Peccei, 1981; Woodward, 1977; Forrester, 1971);<strong><br \/>\nAgronomia :<\/strong>\u00a0Ren\u00e9 Dumont, Jos\u00e9 Lutzenberger (Dumont, 1973; Lutzenberger, 1980);<strong><br \/>\nDemografia:\u00a0<\/strong>Paul Ehrlich, Jean Fourasti\u00e9 (Fourasti\u00e9, 1970; Ehrlich, 1968);<strong><br \/>\nArquitetura:<\/strong>\u00a0Pierre Audibert, Alexander Mitscherlich, S. Baer (Mitscherlich, 1972; Audibert, 1979; Baer, 1976);<strong><br \/>\nAstronomia:<\/strong>\u00a0Carl Sagan, Eric Chaisson (Chaisson, 1984; Sagan, 1980);<strong><br \/>\nQu\u00edmica:<\/strong>\u00a0Ilya Prigogine, Isabelle Stengers (Prigogine &amp; Stengers, 1984);<strong><br \/>\nPsicologia:<\/strong>\u00a0Pierre Weil, Marilyn Ferguson (Ferguson, 1982; Weil, 1984);<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Educa\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Gerald Mische, R. Thomas Tanner (Mische, 1977; Tanner, 1978). Todos estes autores constatam que o mundo, como sistema complexo, apresenta limites intranspon\u00edveis, e que a insist\u00eancia na transposi\u00e7\u00e3o desses limites representa uma amea\u00e7a decisiva \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana. A ecologia pol\u00edtica faz do valor de sobreviv\u00eancia \u2013 respeito dos sistemas vivos e resist\u00eancia \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da vida \u2013 o fundamento necess\u00e1rio para a constru\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o de um sistema de valores s\u00f3cio-pol\u00edtico p\u00f3s-materialista.<\/p>\n<p>Para os pensadores da ecologia pol\u00edtica, o maior desafio \u00e0 pr\u00e1tica da democracia liberal vem sendo colocado pela situa\u00e7\u00e3o de \u201cescassez ecol\u00f3gica\u201d que vivemos, isto \u00e9, pelo reconhecimento de limites e coa\u00e7\u00f5es \u00e0 atividade humana na biosfera, entendida como um sistema de recursos finitos.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o de escassez ecol\u00f3gica requer a auto-imposi\u00e7\u00e3o de controles globais que garantam as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para o funcionamento equilibrado da biosfera.<\/p>\n<p>A democracia liberal estimula a superexplora\u00e7\u00e3o competitiva de recursos escassos, os estilos de vida hedonistas, a liberdade entendida como capacidade ilimitada de a\u00e7\u00e3o individual, os jogos de poder irrespons\u00e1veis, o imediatismo e descompromisso com as gera\u00e7\u00f5es futuras. A democracia contempor\u00e2nea, al\u00e9m de capitalista na sua base s\u00f3cio-econ\u00f4mica, \u00e9 predat\u00f3ria na sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza.<\/p>\n<p><strong>Para a ecologia pol\u00edtica um novo dilema b\u00e1sico agrega-se aos outros dois fundamentais que dominaram o s\u00e9culo XX (democracia-autoritarismo, capitalismo-socialismo)<\/strong>: sociedade predat\u00f3ria-sociedade ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo dilema ocupa uma posi\u00e7\u00e3o hierarquicamente superior, o valor democracia \u00e9 redefinido pelo valor ecologia, ou seja, a democracia precisa ser limitada pela necessidade de preserva\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es como extens\u00e3o e profundidade de participa\u00e7\u00e3o no processo decis\u00f3rio subordinam-se (mas n\u00e3o se reduzem) ao conte\u00fado normativo ecol\u00f3gico do sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Muitos dos pensadores da ecologia pol\u00edtica criticam os limites da democracia representativa desde uma \u00e9poca que os situa perto da democracia participativa (combina\u00e7\u00e3o de democracia representativa e democracia direta), por\u00e9m diferenciam-se dos pensadores da democracia radical, em virtude de que estes colocam no topo da escala normativa o valor participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, subalternizando ou desconsiderando o car\u00e1ter predat\u00f3rio ou ecol\u00f3gico desta participa\u00e7\u00e3o. O pensamento democr\u00e1tico radical foi decisivamente marcado pela contesta\u00e7\u00e3o antiautorit\u00e1ria da d\u00e9cada de 60, sendo o eixo liberdade opress\u00e3o a chave de decifra\u00e7\u00e3o desta subcultura, com tudo o que ela implicava de supostos otimistas e onipotentes sobre a vida humana.<\/p>\n<p>A ecologia pol\u00edtica \u00e9 produto de uma redefini\u00e7\u00e3o mais pessimista e modesta sobre a natureza humana e a gravidade da presente situa\u00e7\u00e3o, onde o eixo vida-morte substitui o de liberdade-opress\u00e3o, como chave de decifra\u00e7\u00e3o (Feber &amp; Heller, 1984).<\/p>\n<p>A tens\u00e3o entre democracia e ecologia reflete-se no movimento ecol\u00f3gico atrav\u00e9s da clivagem existente no seu interior entre os fundamentalistas e os realistas.<\/p>\n<p>Os primeiros s\u00e3o mais preocupados com a pureza do movimento, com a cria\u00e7\u00e3o de uma economia alternativa perif\u00e9rica e fortemente relutantes a qualquer aproxima\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as s\u00f3cio-pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Os realistas s\u00e3o mais preocupados com a extens\u00e3o do movimento verde, a formula\u00e7\u00e3o de um programa econ\u00f4mico de transi\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel capaz de ecologizar paulatinamente a sociedade desenvolvimentista e interessados numa aproxima\u00e7\u00e3o com setores social-democratas, socialistas e liberais que mostram-se sens\u00edveis ao programa ecologista. Os fundamentalistas, enfatizando a pureza do movimento, tendem a adotar uma vis\u00e3o manique\u00edsta e a bloquear o di\u00e1logo com a sociedade, configurando um potencial messi\u00e2nico-autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Acredito ser fundamental para a din\u00e2mica futura do movimento ecologista continuar-se a configura\u00e7\u00e3o atual em que s\u00e3o os realistas e n\u00e3o os fundamentalistas os que d\u00e3o a t\u00f4nica ao conjunto do movimento.<\/p>\n<p>Isto sem preju\u00edzo de reconhecer o papel positivo que os fundamentalistas cumprem no processo permanente de constru\u00e7\u00e3o da identidade ecologista, desde que contidos ao lugar de um ator secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os realistas enfrentam a tens\u00e3o existente entre ecologia e democracia hierarquizando valorativamente a primeira, mas valorizando tamb\u00e9m a segunda, o que se expressa na proposta de persuadir a sociedade, atrav\u00e9s de m\u00e9todos democr\u00e1ticos, sobre a necessidade da op\u00e7\u00e3o ecologista. Os fundamentalistas enfrentam a tens\u00e3o entre ecologia e democracia, desvalorizando a segunda a n\u00edvel macrossocial, o que os coloca num perigoso dilema com o isolamento de um lado e o potencial da vanguarda iluminada-autorit\u00e1ria do outro.<\/p>\n<p>Se existe um consenso sobre o problema da democracia entre os pensadores ecologistas, n\u00e3o existe consenso a respeito do dilema capitalismo-socialismo, exceto na sua subordina\u00e7\u00e3o ao dilema fundamental ecologia-preda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Existem tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas na ecologia pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a esse dilema:<\/strong>\u00a0ecologista, ecossocialista e ecocapitalista.<\/p>\n<p>Sintetizando as posi\u00e7\u00f5es existentes no movimento ecologista mundial e na teoria pol\u00edtica ecologista podemos diferenciar quatro posi\u00e7\u00f5es ecologistas fundamentalistas, ecologistas realistas, ecossocialistas e ecocapitalistas.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ecologista fundamentalista, de heran\u00e7a anarconiilista, \u00e9 de horizonte bastante pessimista; acredita na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade ecologista alternativa na periferia da sociedade materialista, desconsiderando as possibilidades de transforma\u00e7\u00e3o global da sociedade. (Uma excelente apresenta\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o fundamentalista encontra-se em Diener &amp; Supp, 1982).<\/p>\n<p>Acredita-se irrevers\u00edvel a l\u00f3gica predat\u00f3rio-exterminista do mundo contempor\u00e2neo, constituindo-se numa ruptura fundamental com a tradi\u00e7\u00e3o ocidental judeu-crist\u00e3 desde que o futuro \u00e9 invi\u00e1vel (n\u00e3o h\u00e1 Terra nem Para\u00edso), restando apenas esperar o fim vivendo de modo coerente com os princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Os ecologistas realistas apostam na possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, a partir da constru\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de um movimento ecologista r\u00edgido nos princ\u00edpios e flex\u00edvel na intera\u00e7\u00e3o com a sociedade. (Uma excelente vis\u00e3o do argumento ecologista realista encontra-se em Galtung, 1984; Ramos, 1981; Sachs, 1982; Schumacher, 1977; Barho, 1984.) O referencial normativo \u00e9 um sistema s\u00f3cio-econ\u00f4mico radicalmente diferente do capitalismo e do socialismo, baseado na pequena propriedade privada e na propriedade cooperativa (predominantemente m\u00e9dia, mas tamb\u00e9m grande) com autogest\u00e3o do sistema produtivo e \u00eanfase no Estado de n\u00edvel local (munic\u00edpio, regi\u00e3o) como alocador de recursos. Mas o caminho para chegar at\u00e9 aquele passa por uma longa transi\u00e7\u00e3o, ecologizando progressivamente os capitalismos e socialismos realmente existentes.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ecologista realista \u00e9 herdeira do socialismo ut\u00f3pico (Proudhon, Fourier, Owen), do socialismo democr\u00e1tico (Kautsky, Adel, Jaur\u00e9s, Blum, Gramsci, os esposos Webb, de Le\u00f3n), do liberalismo de desenvolvimento da pessoa (John Stuart Mill, Henry Thoreau, James Dewey, Bertrand Russell) e do gandhismo.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ecossocialista \u00e9 favor\u00e1vel a uma ruptura com a sociedade capitalista (e a socialista real, considerada uma variante estatizada da primeira), segundo o referencial normativo da estatiza\u00e7\u00e3o ampla do sistema produtivo gerido atrav\u00e9s de planejamento participativo centralizado. (Para uma apresenta\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o ecossocialista veja-se Dumont, 1984; Offe, 1984.)<\/p>\n<p>Esta postura considera invi\u00e1vel uma ecologiza\u00e7\u00e3o progressiva do capitalismo e do socialismo real tal como \u00e9 preconizada pelos ecologistas realistas. Um marxismo agiornado, bastante heterodoxo, continua sendo fundamental na vis\u00e3o de mundo ecossocialista. Ela \u00e9 herdeira do socialismo revolucion\u00e1rio-democr\u00e1tico (Marx, R. Luxemburgo, Lefort-Castoriadis da fase \u201cSocialismo ou Barb\u00e1rie\u201d).<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ecocapitalista argumenta a favor do mercado como alocador de recursos, sendo este disciplinado por um Estado que opera como guardi\u00e3o ecol\u00f3gico da sociedade, sendo compat\u00edvel com o predom\u00ednio da grande propriedade oligop\u00f3lica.<\/p>\n<p>O Estado de Bem-Estar Social dever\u00e1 transformar-se no Estado de Bem-Estar S\u00f3cio-Ecol\u00f3gico. A posi\u00e7\u00e3o ecocapitalista tem uma vis\u00e3o um tanto otimista do futuro (ao menos segundo os par\u00e2metros relativamente pessimistas do conjunto do ecologismo), sendo herdeira da social-democracia (Bernstein, Schumpeter, Brandt, Palme); do liberalismo social (Harold. Laski) e do conservadorismo social (Bismark, De Gasperi).<\/p>\n<p>No movimento social ecologista mundial a posi\u00e7\u00e3o ecologista realista \u00e9 definidamente predominante, sendo minorit\u00e1rias as outras tr\u00eas. Fora do movimento ecol\u00f3gico a situa\u00e7\u00e3o muda.<\/p>\n<p>Nos setores sens\u00edveis \u00e0 ecologia da opini\u00e3o p\u00fablica ocidental a posi\u00e7\u00e3o ecocapitalista \u00e9 predominante, sendo secund\u00e1ria a posi\u00e7\u00e3o ecologista-realista.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o ecossocialista predomina nos setores sens\u00edveis \u00e0 ecologia da subcultura socialista-comunista ocidental (por exemplo a forte corrente verde do Partido Comunista Italiano encabe\u00e7ada por P. Ingrao) e nos setores sens\u00edveis \u00e1 ecologia da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em algumas sociedades da Europa Oriental (Pol\u00f4nia, Alemanha, Hungria, Tchecoslov\u00e1quia). Finalmente a posi\u00e7\u00e3o ecologista fundamentalista, por defini\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe fora do movimento ecologista.<\/p>\n<p>Depois desta introdu\u00e7\u00e3o sobre o significado da crise ecol\u00f3gica e do ecologismo no mundo, entramos na an\u00e1lise da situa\u00e7\u00e3o brasileira que \u00e9 0 objetivo espec\u00edfico deste paper.<\/p>\n<p>Quatro d\u00e9cadas de crescimento econ\u00f4mico acelerado no Brasil trouxeram uma profunda degrada\u00e7\u00e3o ambiental, talvez a mais intensa e acelerada que aconteceu na hist\u00f3ria do industrialismo. (Dumont &amp; Mottin, 1982; Olivier, 1983; Vitale, 1983; Lutzenberger, 1985a e 1985b, p. 14-32; Ramos, 1980.)<\/p>\n<p>Quase paralelamente ao 1.\u00b0 Mundo, ainda que numa escala muito menor, desenvolveram-se no Brasil os movimentos ecol\u00f3gicos. Podemos situar seu in\u00edcio em 1974, ano em que se inicia a pol\u00edtica de \u201cdistens\u00e3o\u201d do presidente Geisel, com o conseq\u00fcente afrouxamento dos controles estatais sobre a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade civil. (Sobre o contexto geral do surgimento do movimento ecol\u00f3gico em rela\u00e7\u00e3o a outros movimentos sociais veja-se Mainwaring &amp; Viola, 1984.) O Brasil \u00e9 o pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina em que os movimentos ecol\u00f3gicos nascem mais cedo e adquirem uma relev\u00e2ncia maior at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que podemos diferenciar tr\u00eas per\u00edodos na hist\u00f3ria do movimento ecol\u00f3gico no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Uma primeira:<\/strong>\u00a0<strong>fase que chamamos de ambientalista, desde 1974 at\u00e9 1981, caracterizada pela exist\u00eancia de dois movimentos paralelos auto-identificados como apol\u00edticos<\/strong>: os movimentos de den\u00fancia da degrada\u00e7\u00e3o ambiental nas cidades e nas comunidades alternativas rurais.<\/p>\n<p><strong>Uma segunda<\/strong>: fase que chamamos de transi\u00e7\u00e3o, desde 1982 at\u00e9 1985, caracterizada pela conflu\u00eancia parcial e politiza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita progressiva dos dois movimentos acima assinalados, al\u00e9m de uma grande expans\u00e3o quantitativa e qualitativa de ambos. Uma terceira fase, que chamamos de op\u00e7\u00e3o ecopol\u00edtica, come\u00e7a em 1986, quando a grande maioria do movimento ecol\u00f3gico auto-identifica-se como pol\u00edtico e decide participar ativamente na arena parlamentar.<\/p>\n<p>Este paper \u00e9 um produto parcial de uma pesquisa iniciada em 1981 e retomada em 1985-86. Tenho trabalhado com material documental produzido pelo pr\u00f3prio movimento ecol\u00f3gico e informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica; realizado entrevistas em profundidade com membros do movimento ecol\u00f3gico de seis Estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paran\u00e1, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais); e realizado observa\u00e7\u00e3o participante sistem\u00e1tica no movimento ecol\u00f3gico de Santa Catarina e eventual nos outros cinco Estados.<\/p>\n<p>Sou consciente do car\u00e1ter pioneiro deste trabalho e das consequentes limita\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas que isto implica. A repercuss\u00e3o da problem\u00e1tica ecol\u00f3gica no meio acad\u00eamico das ci\u00eancias sociais na Am\u00e9rica Latina, e no Brasil em particular, tem sido at\u00e9 agora muito reduzida. O err\u00f4neo suposto de que \u201cecologia \u00e9 problema de pa\u00eds desenvolvido\u201d est\u00e1 por tr\u00e1s deste desinteresse.<\/p>\n<p>Esperamos que este paper contribua para dissolver alguns preconceitos que ainda bloqueiam a aproxima\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica da ecologia pol\u00edtica por parte de nossos cientistas sociais.<\/p>\n<p><strong>A crise ecol\u00f3gica no Brasil<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma vez mais se deve come\u00e7ar falando dos contrastes do Brasil:<\/strong>\u00a0a oitava economia do mundo capitalista, um dos pa\u00edses de mais injusta distribui\u00e7\u00e3o da renda no Mundo, \u00e9 tamb\u00e9m um dos pa\u00edses d\u00ea mais profunda degrada\u00e7\u00e3o ambiental entre os pa\u00edses de renda m\u00e9dia e alta (acima de 1.000 d\u00f3lares\u00a0<em>per capita<\/em>).<\/p>\n<p>Uma explora\u00e7\u00e3o selvagem das florestas e uma monocultura irracional est\u00e3o transformando em desertos importantes \u00e1reas do Sul, Sudeste,. Centro-Oeste e Norte colonial j\u00e1 deixou uma \u201cheran\u00e7a maldita\u201d no Nordeste.<\/p>\n<p>Os detritos da produ\u00e7\u00e3o industrial, os res\u00edduos de agrot\u00f3xicos usados na lavoura e os esgotos diretos nos rios t\u00eam comprometido perigosamente os recursos h\u00eddricos (Gon\u00e7alves, 1984; Lutzenberger, 1985a).<\/p>\n<p>A qualidade das \u00e1guas da rede p\u00fablica consumida em quase todo o Brasil \u00e9 p\u00e9ssima, segundo par\u00e2metros internacionais exigentes. Os gases emanados das ind\u00fastrias, com nenhum controle antipoluente at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 70 e com m\u00ednimo controle nos anos 80, t\u00eam transformado a atmosfera das cidades industriais brasileiras num multiplicador e gerador de doen\u00e7as respirat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Os carros produzidos no Brasil, salvo quando s\u00e3o destinados \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o disp\u00f5em de equipamentos antipoluentes, tornando altamente contaminadas as \u00e1reas centrais de cidades apenas terci\u00e1rias, para n\u00e3o falar das industriais. O controle sanit\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, ainda nos que destinam-se aos mercados mais sofisticados, \u00e9 quase inexistente, utilizando-se altas doses de conservantes qu\u00edmicos cujo uso est\u00e1 proibido ou restringido nos pa\u00edses do 1\u00ba Mundo.<\/p>\n<p>Isto para n\u00e3o falar da p\u00e9ssima qualidade nutricional e sanit\u00e1ria dos alimentos consumidos pela maioria pobre. A aus\u00eancia de esgotos para a maioria da popula\u00e7\u00e3o e o tratamento inadequado do lixo (tanto pela popula\u00e7\u00e3o que joga irresponsavelmente em qualquer lugar quanto pelas ag\u00eancias p\u00fablicas que raramente disp\u00f5em de sistemas de tratamento adequado) transformam as cidades em um \u201ccampo minado\u201d.<\/p>\n<p>A usina nuclear de Angra I foi constru\u00edda num lugar geologicamente inadequado; suas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a s\u00e3o certamente muito inferiores \u00e0s das usinas do 1\u00ba Mundo (ainda que possam ser superiores \u00e0s sovi\u00e9ticas); a estrutura de defesa civil para enfrentar acidentes e. quase inexistente. Por \u00faltimo, como coroa\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-ambiental, a produ\u00e7\u00e3o de armamentos absorve uma parte significativa do parque industrial e cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico do pa\u00eds, o que lhe permite ser o 5\u00ba exportador de armas do mundo (Arnt, 1985; Brigag\u00e3o, 1984).<\/p>\n<p><strong>O crescimento econ\u00f4mico acelerado tornou-se ponto de consenso das elites brasileiras desde que o presidente Juscelino Kubitscheck o erigiu em ideologia dominante atrav\u00e9s da palavra de ordem:<\/strong>\u00a0\u201cavan\u00e7ar 50 anos em 5\u201d. A ideologia do crescimento acelerado e predat\u00f3rio chegou ao paroxismo durante a presid\u00eancia de M\u00e9dici, quando o governo brasileiro fazia an\u00fancios nos jornais e revistas do 1\u00ba Mundo convidando as ind\u00fastrias poluidoras a transferirem-se para o Brasil, onde n\u00e3o teriam nenhum gasto em equipamento antipoluente, e a delega\u00e7\u00e3o brasileira na Confer\u00eancia Internacional do Meio Ambiente (Estocolmo, 1972) argumentava que as preocupa\u00e7\u00f5es com a defesa ambiental mascaravam interesses imperialistas que queriam bloquear o ascenso dos pa\u00edses em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Durante as duas d\u00e9cadas de regime autorit\u00e1rio-militar, governo e oposi\u00e7\u00e3o coincidiam na necessidade do crescimento econ\u00f4mico acelerado. As cr\u00edticas de oposi\u00e7\u00e3o focalizavam nos custos sociais do crescimento, no seu car\u00e1ter concentrador da renda, sem fazer quase refer\u00eancia a seu brutal custo ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>Os debates sobre o modelo econ\u00f4mico brasileiro circunscreveram.-se a tr\u00eas posi\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0a defesa do modelo de capitalismo selvagem vigente, a cr\u00edtica realizada desde a oposi\u00e7\u00e3o moderada agrupada no MDB-PMDB que apontava na dire\u00e7\u00e3o da instaura\u00e7\u00e3o de um modelo de capitalismo de bem-estar que atenuaria significativamente as desigualdades s\u00f3cio-econ\u00f4micas; e a cr\u00edtica socialista que apontava a substitui\u00e7\u00e3o do capitalismo pelo socialismo estatista como modo de resolver os problemas de mis\u00e9ria das grandes massas. Poucos pol\u00edticos ou economistas significativos da oposi\u00e7\u00e3o (Celso Furtado, Fernando Gabeira, o ex-deputado federal cassado Alberto Guerreiro Ramos) t\u00eam defendido um modelo de desenvolvimento que, al\u00e9m de resolver os problemas de desigualdade econ\u00f4mico-social, apontasse tamb\u00e9m o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico. Pelo menos at\u00e9 o fim do regime militar os movimentos ecol\u00f3gicos n\u00e3o tiveram nenhuma influ\u00eancia no debate pol\u00edtico global sobre o futuro da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Dos dez governos oposicionistas, eleitos em 1982, somente um deles, o do Paran\u00e1, comandado pelo peemedebista Jos\u00e9 Richa, deu uma import\u00e2ncia, efetiva ao meio ambiente no equacionamento da agenda de pol\u00edticas p\u00fablicas. Os nove restantes mudaram de ret\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores governos arenistas-pedessistas que depreciavam a quest\u00e3o ambiental, mas sem que isto significasse pol\u00edticas efetivas correspondentes.<\/p>\n<p>A Secretaria Especial de Meio Ambiente (SEMA) foi criada em 1974 pelo ent\u00e3o presidente Geisel, com o \u00fanico objetivo de cumprir exig\u00eancias de alguns organismos internacionais que exigiam a exist\u00eancia formal deste tipo de \u00f3rg\u00e3o, junto com relat\u00f3rios de impacto ambiental; para a aprova\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimos destinados a grandes obras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Durante todo o regime militar a SEMA foi uma ag\u00eancia marginal do Minist\u00e9rio do interior chefiado patrimonialisticamente por Paulo Nogueira Neto.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o marginal continuou ainda na Nova Rep\u00fablica apesar de ter sido criado com algum estardalha\u00e7o o Minist\u00e9rio de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente. O Dr. Nogueira Neto realizou a rara fa\u00e7anha de dirigir a SEMA por 12 anos (at\u00e9 julho de 1986), atravessando as presid\u00eancias de Geisel, Figueiredo e Sarney, tudo isto apesar de ser parcialmente combatido pelo movimento ecol\u00f3gico. As ag\u00eancias estaduais de meio ambiente criadas nos Estados do Sul-Sudeste, na segunda metade da d\u00e9cada de 70, com o objetivo de controlar os excessos maiores em termos de polui\u00e7\u00e3o ambiental, somente come\u00e7aram a agir efetivamente em termos de licenciamento ambiental no come\u00e7o da d\u00e9cada de 80, mesmo assim agindo com m\u00e3o branda sempre que a resist\u00eancia das ind\u00fastrias em realizar \u201cinvestimentos improdutivos\u201d as colocava diante da necessidade de punir as empresas. O caso de Cubat\u00e3o, detentora do t\u00edtulo de cidade mais polu\u00edda do mundo, na \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o da CETESB, que \u00e9 de longe a ag\u00eancia estatal de meio ambiente mais desenvolvida da Am\u00e9rica Latina, mostra quanto o poder p\u00fablico dobrou-se \u00e0 resist\u00eancia das empresas privadas e estatais (Branco, 1974).<\/p>\n<p>O sentido comum \u201cdesenvolvimentista estreito\u201d ou \u201cdesenvolvimentista predat\u00f3rio\u201d \u00e9 muito forte e difundido na sociedade brasileira e isto penetra tamb\u00e9m na intelectualidade cr\u00edtica.<\/p>\n<p>O fato de o Brasil ser um pa\u00eds continental com vastas \u00e1reas populacionalmente vazias criou um \u201csentido de impunidade desenvolvimentista\u201d, de custos toler\u00e1veis alt\u00edssimos para o crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica econ\u00f4mica da Nova Rep\u00fablica n\u00e3o tem significado at\u00e9 agora nenhuma mudan\u00e7a efetiva em rela\u00e7\u00e3o a este desenvolvimentismo predat\u00f3rio, apesar de o discurso do presidente Sarney (em 5 de junho de 1986), por ocasi\u00e3o do tombamento da Serra do Mar, ter um conte\u00fado gen\u00e9rico de defesa ambiental que se coloca nas ant\u00edpodas do discurso de M\u00e9dici em 1972.<\/p>\n<p>O discurso cotidiano da Nova Rep\u00fablica est\u00e1 totalmente concentrado no crescimento econ\u00f4mico e na necessidade de uma melhor distribui\u00e7\u00e3o da renda, este segundo aspecto era secund\u00e1rio no discurso do regime militar. A quest\u00e3o ambiental n\u00e3o est\u00e1 presente no discurso b\u00e1sico da Nova Rep\u00fablica e muito menos nas suas pol\u00edticas efetivas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m,\u00e9 importante diferenciar o fato de, secundariamente, em algumas oportunidades, o Ministro do Planejamento, Jo\u00e3o Sayad ter falado da necessidade de instaurar um modelo de desenvolvimento que leve em considera\u00e7\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Acreditamos que estes novos elementos(discurso que valoriza basicamente o desenvolvimento econ\u00f4mico com justi\u00e7a social e secundariamente considera a quest\u00e3o ambiental) indicam a exist\u00eancia de um campo de for\u00e7as significativamente alterado em rela\u00e7\u00e3o ao passado que permitir\u00e1 uma amplia\u00e7\u00e3o do escopo do debate pol\u00edtico sobre o futuro da sociedade brasileira no qual ter\u00e1 lugar e voz a posi\u00e7\u00e3o ecologista.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o o Brasil avan\u00e7a para um cen\u00e1rio em que as posi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas em debate n\u00e3o ser\u00e3o mais tr\u00eas, mas quatro. Em primeiro lugar, a posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica da Nova Rep\u00fablica, favor\u00e1vel a uma instaura\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio prazo de um capitalismo de bem-estar e realizando uma pol\u00edtica econ\u00f4mica que vai implicando uma democratiza\u00e7\u00e3o (ainda que limitada) na distribui\u00e7\u00e3o da renda. Em segundo lugar, a posi\u00e7\u00e3o conservadora favor\u00e1vel a bloquear ou retardar ao m\u00e1ximo a instaura\u00e7\u00e3o do capitalismo de bem-estar. Em terceiro lugar;a posi\u00e7\u00e3o socialista favor\u00e1vel a uma r\u00e1pida democratiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica atrav\u00e9s de um significativo avan\u00e7o na estatiza\u00e7\u00e3o do sistema produtivo e uma dr\u00e1stica limita\u00e7\u00e3o do mercado como alocador de recursos. Em quarto lugar, a posi\u00e7\u00e3o ecologista, favor\u00e1vel a um modelo de desenvolvimento que combine a democratiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica com a preserva\u00e7\u00e3o ambiental, com \u00eanfase na qualidade da vida e no consumo coletivo, antes que no crescimento apenas quantitativo e no consumo individual.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a da posi\u00e7\u00e3o ecologista no debate pol\u00edtico nacional poder\u00e1 ter um efeito ecologizante tanto sobre a posi\u00e7\u00e3o social-democrata quanto sobre a posi\u00e7\u00e3o socialista, aumentando deste modo as possibilidades de superar o consenso desenvolvimentista predat\u00f3rio que dominou nas \u00faltimas d\u00e9cadas na sociedade brasileira.<\/p>\n<p><strong>O movimento ecol\u00f3gico na fase ambientalista (1974-1981)<\/strong><\/p>\n<p>Em junho de 1971, um grupo de combativos pioneiros, encabe\u00e7ado pelo engenheiro agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Lutzenberger, funda em Porto Alegre a Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural (AGAPAN), a primeira associa\u00e7\u00e3o ecologista a surgir no Brasil e na Am\u00e9rica Latina. Existiram previamente algumas personalidades que lutavam quase sozinhas pela prote\u00e7\u00e3o da natureza, entre as quais destaca-se o naturalista Henrique Roessler, de S\u00e3o Leopoldo, que teve grande atua\u00e7\u00e3o em todo Rio Grande do Sul nas d\u00e9cadas de 50 e 60 (Roessler, 1986).<\/p>\n<p>Alguns destes ativistas naturalistas e pessoas adinheiradas de orienta\u00e7\u00e3o filantr\u00f3pica reuniram-se, em 1958, na Funda\u00e7\u00e3o Brasileira para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza, com sede no Rio de Janeiro. Esta Funda\u00e7\u00e3o (vinculada \u00e0 Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza fundada em Suiza, em 1947) faz parte da pr\u00e9-hist\u00f3ria do ecologismo brasileiro, j\u00e1 que seus objetivos e modo de atua\u00e7\u00e3o foram estritamente conservacionistas, na linha das sociedades protetoras de animais surgidas em v\u00e1rios pa\u00edses no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>Os pontos principais do programa fundacional da AGAPAN eram os seguintes:<\/strong>\u00a0defesa da fauna e da vegeta\u00e7\u00e3o; combate ao uso exagerado dos meios mec\u00e2nicos contra o solo e \u00e0 polui\u00e7\u00e3o causada pelas ind\u00fastrias e ve\u00edculos; combate ao uso indiscriminado de inseticidas, fungicidas e herbicidas; combate \u00e0 polui\u00e7\u00e3o dos cursos d\u2019\u00e1gua pelos res\u00edduos industriais e domiciliares n\u00e3o-tratados; combate \u00e0s destrui\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias de belezas paisag\u00edsticas; luta pila salva\u00e7\u00e3o da humanidade da destrui\u00e7\u00e3o, promovendo a ecologia como ci\u00eancia da sobreviv\u00eancia e difundindo uma nova moral ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o da AGAPAN viu-se muito dificultada durante a presid\u00eancia M\u00e9dici, quando o clima repressivo que dominava o pa\u00eds tornava quase her\u00f3ica qualquer organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma da sociedade civil que n\u00e3o agisse sob o guarda-chuva da Igreja cat\u00f3lica (Alves, 1985). A partir de 1974 as condi\u00e7\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o da AGAPAN melhoram sensivelmente e ela torna-se vis\u00edvel na sociedade ga\u00facha. Tamb\u00e9m no ano 74, como produto do in\u00edcio da liberaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, surgem algumas associa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas nas principais cidades do Sul-Sudeste, destacando-se o \u201cMovimento Arte e Pensamento Ecol\u00f3gico\u201d em S\u00e3o Paulo. Por tudo isto consideramos 1974 como o ano de come\u00e7o do movimento ecol\u00f3gico no Brasil.<\/p>\n<p>O Brasil acordou subitamente para a preocupa\u00e7\u00e3o com os recursos naturais n\u00e3o-renov\u00e1veis com o choque do petr\u00f3leo em 1973.<\/p>\n<p>Esta preocupa\u00e7\u00e3o era a \u00fanica ponte existente entre o movimento ecol\u00f3gico e setores da tecnoburocracia estatal.<\/p>\n<p><strong>Por\u00e9m, as tr\u00eas alternativas desenhadas pela tecnoburocracia para a crise do petr\u00f3leo foram predat\u00f3ria:\u00a0<\/strong>op\u00e7\u00e3o nuclear em grande escala atrav\u00e9s do acordo com a Alemanha; energia de biomassa atrav\u00e9s de uma de suas formas ecologicamente mais perigosas, o \u00e1lcool da cana-de-a\u00e7\u00facar; acelera\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de grandes usinas hidroel\u00e9tricas, sem avaliar precisamente seu impacto ambiental e pouco considerando as usinas de m\u00e9dio e pequeno porte (mais apropriadas ecologicamente) (B\u00f4a Nova, 1985).<\/p>\n<p>Durante a fase ambientalista o movimento ecol\u00f3gico brasileiro esteve constitu\u00eddo por dois movimentos paralelos e independentes entre si os movimentos de den\u00fancia da degrada\u00e7\u00e3o ambiental nas cidades e as comunidades alternativas rurais.<\/p>\n<p>Ambos movimentos se autodefinem como apol\u00edticos, ainda que o conte\u00fado deste apoliticismo seja diferente. No caso das comunidades alternativas rurais trata-se de uma rejei\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o com a sociedade global, desde que esta intera\u00e7\u00e3o \u00e9 avaliada como contaminadora e degradadora do esfor\u00e7o alternativo.<\/p>\n<p><strong>Nos casos de movimentos de den\u00fancia da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, que agem no interior da sociedade e interagem com associa\u00e7\u00f5es da sociedade civil e ag\u00eancias estatais, a rejei\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica tem as seguintes denota\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0uma vis\u00e3o dos desequil\u00edbrios ecol\u00f3gicos que tende a ser dissociada dos problemas de organiza\u00e7\u00e3o do poder e da propriedade no interior da sociedade, um modo de prote\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es contra os efeitos divisionistas que uma eventual introdu\u00e7\u00e3o do debate pol\u00edtico partid\u00e1rio teria no interior delas, uma vis\u00e3o da atividade pol\u00edtica e do campo pol\u00edtico partid\u00e1rio como marcados pela impureza, desonestidade e corrup\u00e7\u00e3o, o que contrasta com o car\u00e1ter de pureza auto-atribu\u00eddo \u00e0 vis\u00e3o ecol\u00f3gica do mundo e \u00e0 milit\u00e2ncia ecologista.<\/p>\n<p>Geralmente as associa\u00e7\u00f5es de den\u00fancia da degrada\u00e7\u00e3o ambiental est\u00e3o compostas de um n\u00facleo ativo que oscila entre 10 e 20 pessoas e um vasto contingente passivo de filiados que vai de 50 a 200 pessoas e atinge, no caso das mais extensas, mais de 1000 pessoas. A maioria das associa\u00e7\u00f5es vivem uma primeira fase de sua exist\u00eancia sem estrutura\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, sendo somente depois de um ou dois anos de atividades como grupos que se organizam na forma de associa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica.<\/p>\n<p><strong>Outra caracter\u00edstica fundamental das associa\u00e7\u00f5es \u00e9 o peso marcante que tem na maioria delas uma ou duas pessoas que se destacam muito diferenciadamente do resto dos membros em v\u00e1rias dimens\u00f5es:<\/strong>\u00a0tempo e energia dedicados \u00e0 associa\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio p\u00fablico, autoridade nas decis\u00f5es do grupo, acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, acesso \u00e0s ag\u00eancias estatais.<\/p>\n<p>Nesta fase ambientalista as associa\u00e7\u00f5es est\u00e3o constitu\u00eddas quase exclusivamente por pessoas de forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, com uma renda acima da m\u00e9dia brasileira, a maioria delas profissionais e uma minoria de estudantes, com um forte predom\u00ednio de homens sobre mulheres. Geralmente existem um ou dois objetivos espec\u00edficos que s\u00e3o o eixo da atividade de cada associa\u00e7\u00e3o, apesar de serem elas permanentemente recept\u00e1culo de m\u00faltiplas queixas e reclama\u00e7\u00f5es provenientes de cidad\u00e3os isolados, grupos informais ou outras associa\u00e7\u00f5es (particularmente de moradores).<\/p>\n<p><strong>Os mais comuns alvos de luta das associa\u00e7\u00f5es, na fase ambientalista, s\u00e3o os seguintes:<\/strong>\u00a0uma ind\u00fastria j\u00e1 instalada que polui ostensivamente a atmosfera ou o sistema de \u00e1guas; um projeto de instala\u00e7\u00e3o industrial do qual suspeita-se ter\u00e1 um alto impacto ambiental; a preserva\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea verde que come\u00e7a a ser degradada por uma explora\u00e7\u00e3o particular semiclandestina ou por um uso p\u00fablico predat\u00f3rio; uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica j\u00e1 definida legalmente que est\u00e1 sendo degradada pela falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o das ag\u00eancias estatais (parques nacionais e estaduais, manguezais, dunas etc.); uma \u00e1rea urbana de valor hist\u00f3rico-arquitet\u00f4nico que amea\u00e7a ser devorada pela especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. As lutas ecologistas urbanas implicam um confronto com uma empresa particular ou com uma ag\u00eancia estatal.<\/p>\n<p>No caso do confronto com uma empresa, alguma ag\u00eancia estatal tender\u00e1 a ser rapidamente envolvida, seja como inimiga na medida em que \u00e9 considerada c\u00famplice passiva da degrada\u00e7\u00e3o ou como aliada, desde que se perceba nela uma disposi\u00e7\u00e3o para o confronto com a empresa. Geralmente, nesta fase ambientalista a efic\u00e1cia das lutas ecologistas \u00e9 muito baixa em termos de ganhos precisos, mas \u00e9 significativa se considerarmos a ecologiza\u00e7\u00e3o da mentalidade de contingentes qualitativamente importantes da popula\u00e7\u00e3o. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o \u00e9 detida e muito menos revertida, mas a percep\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o aumenta na sociedade.<\/p>\n<p>Como corresponde a qualquer processo de a\u00e7\u00e3o coletiva, \u00e9 no transcorrer destas lutas que vai constituindo-se a identidade coletiva do movimento ecol\u00f3gico. (Sobre a constru\u00e7\u00e3o de identidade coletiva veja-se: Alberoni, 1981; Touraine\u00a0<em>et alii<\/em>, 1982).<\/p>\n<p><strong>Este processo de forma\u00e7\u00e3o da identidade coletiva implicar\u00e1 uma crescente diferencia\u00e7\u00e3o perceptiva, atitudinal e comportamental em v\u00e1rios planos:<\/strong>\u00a0passa-se de uma percep\u00e7\u00e3o monoliticamente negativa do Estado para uma percep\u00e7\u00e3o de suas contradi\u00e7\u00f5es e nuances internas; passa-se de um formato de luta com predom\u00ednio exclusivo da a\u00e7\u00e3o de den\u00fancia para uma defini\u00e7\u00e3o mais precisa de fins e meios a utilizar para atingi-los; passa-se de uma vis\u00e3o grosseira do significado de ser ecologista para outra mais complexa; passa-se de um quase desprezo pela forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos militantes para uma valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho te\u00f3rico.<\/p>\n<p>Todo este processo de forma\u00e7\u00e3o da identidade coletiva ir\u00e1 ter um ponto de converg\u00eancia qualitativo na fase seguinte de transi\u00e7\u00e3o (1982-85) quando \u00e9 redefinida a rela\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As comunidades alternativas rurais s\u00e3o constitu\u00eddas desde meados da d\u00e9cada de 70 por jovens provenientes das regi\u00f5es metropolitanas (S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre) (Tavares, 1983; Sanchez, 1984; Aveline, 1984; Jo Neto, 1986 e o Jornal Comum-Unidade).<\/p>\n<p>O eixo da proposta \u00e9 um novo modo de vida, um novo cotidiano, longe dos efeitos predat\u00f3rios e ego\u00edstas gerados pelas cidades.<\/p>\n<p><strong>Participam dela dois tipos de jovens:<\/strong>\u00a0os que tiveram uma r\u00e1pida e traum\u00e1tica passagem pela esquerda na segunda metade dos anos 60 e os que n\u00e3o tiveram nenhum tipo de experi\u00eancia pol\u00edtica pr\u00e9via.<\/p>\n<p>Ambos os grupos t\u00eam uma forte rejei\u00e7\u00e3o da atividade pol\u00edtica, procurando estabelecer um corte dr\u00e1stico entre o movimento de comunidades alternativas e os movimentos juvenis anteriores.<\/p>\n<p>Trata-se duma subcultura de resist\u00eancia ao novo padr\u00e3o social dominante na juventude que valoriza a integra\u00e7\u00e3o ao milagre econ\u00f4mico e abandono dos sonhos de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>O movimento de comunidades alternativas rurais recebe influ\u00eancia do movimento da contracultura norte-americana:<\/strong>\u00a0revaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho manual, viver em contato permanente com a natureza, alimenta\u00e7\u00e3o ovo-lacto-vegetariana produzida na pr\u00f3pria comunidade sem uso de produtos qu\u00edmicos; pr\u00e1ticas de medita\u00e7\u00e3o, medicina alternativa baseada na homeopatia e naturismo, cr\u00edtica aos modos de vida excessivamente intelectualizados. (Sobre a contracultura norte-americana veja-se o cl\u00e1ssico Roszack, 1976).<\/p>\n<p><strong>A maioria das comunidades caracterizou-se pela sua instabilidade e fragilidade organizacional:<\/strong>\u00a0alta rotatividade de seus membros, dificuldades para estabelecer regras de conviv\u00eancia; dificuldades para tornar-se auto-suficientes. Em geral, a vida no campo e a realidade do trabalho agr\u00edcola eram muito mais duras que o imaginado pelos jovens quando decidiam abandonar as cidades e, por isto, boa parte deles voltaram para as cidades onde iriam convergir na forma\u00e7\u00e3o dos restaurantes e entrepostos naturistas.<\/p>\n<p>Mas os jovens que superaram o primeiro per\u00edodo adaptativo come\u00e7aram a trilhar um frut\u00edfero caminho de aprendizagem de uma nova rela\u00e7\u00e3o com a natureza que os levaram a posi\u00e7\u00f5es mais realistas e equilibradas comparadas com o fanatismo inicial.<\/p>\n<p>Deste modo constitu\u00edram novos territ\u00f3rios sociais est\u00e1veis desde os quais dialogavam com a cultura urbana atrav\u00e9s dos entrepostos e restaurantes naturistas.<\/p>\n<p>A partir de 1979 o debate cultural brasileiro ganha em amplid\u00e3o com a entrada de alguns esquerdistas voltados do ex\u00edlio como Fernando Gabeira que introduz valores p\u00f3s-materialistas na cultura de massas, em particular na juventude (Gabeira, 1985a). Esta oxigena\u00e7\u00e3o cultural criar\u00e1 um clima social muito mais favor\u00e1vel para as atividades do movimento ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Um setor significativo da popula\u00e7\u00e3o de n\u00edvel cultural m\u00e9dio e alto vai passando de uma situa\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o com respeito a quest\u00f5es de meio ambiente e a conseguinte percep\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico como minoria folcl\u00f3rica, para uma postura de certa aten\u00e7\u00e3o para a relev\u00e2ncia do problema e consequente respeito dos ecologistas. Em 1979 difunde-se pelo pa\u00eds um movimento de defesa da Amaz\u00f4nia que denuncia a voraz depreda\u00e7\u00e3o a que esta estava submetida desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 70. Este movimento encontra simpatia difusa na opini\u00e3o p\u00fablica e, apesar de n\u00e3o gerar nenhum ganho pontual no curto prazo, criou uma mentalidade mais inclinada \u00e0 defesa ambiental nas ag\u00eancias estatais amaz\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Em 1978, o Movimento Arte e Pensamento Ecol\u00f3gico come\u00e7a a publicar regularmente a revista Pensamento Ecol\u00f3gico que se transforma no primeiro \u00f3rg\u00e3o de debate sistem\u00e1tico dos ecologistas brasileiros.<\/p>\n<p>A revista \u00e9 publicada tr\u00eas vezes por ano e vai crescendo em quantidade de p\u00e1ginas e qualidade de artigos (traduzidos de revistas internacionais e produzidos no Brasil) at\u00e9 estabilizar-se em torno de 50 p\u00e1ginas a partir do n\u00famero 5.<\/p>\n<p>Em 1980 s\u00e3o publicados os livros de Jos\u00e9 Lutzenberger Fim do futuro<strong>\u00a0manifesto ecol\u00f3gico brasileiro<\/strong>\u00a0e Pesadelo at\u00f4mico; as primeiras reflex\u00f5es globais e sistem\u00e1ticas sobre a crise ecol\u00f3gica brasileira produzidas no interior do movimento ecol\u00f3gico (Lutzenberger, 1980; 1980b)<\/p>\n<p>O questionamento do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha foi desenvolvido \u2013 dentro do movimento ecol\u00f3gico \u2013 particularmente pela AGAPAN, elaborando a cr\u00edtica mais global e profunda, como forma de produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e como padr\u00e3o civilizat\u00f3rio, inspirando-se para isto no movimento contra as usinas nucleares do 1\u00ba Mundo (Touraine\u00a0<em>et alii<\/em>, 1980).<\/p>\n<p>O impacto da pr\u00e9dica da AGAPAN foi de tal ordem na opini\u00e3o p\u00fablica ga\u00facha que a Assembleia Legislativa aprovou uma emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o do Estado proibindo a constru\u00e7\u00e3o de usinas nucleares.<\/p>\n<p><strong>No caso da cr\u00edtica \u00e0 pol\u00edtica nuclear do governo brasileiro, o movimento ecol\u00f3gico contou com aliados-chaves na sociedade civil:<\/strong>\u00a0a Sociedade Brasileira de F\u00edsica e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (Girotti, 1984; Rosa, 1985).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a partir de 1979 come\u00e7ou a adquirir impacto nacional a experi\u00eancia de prefeituras alternativas realizada em Lages (SC) pela \u201cEquipe Dirceu Carneiro\u201d desde fevereiro de 1977 (Alves, 1980; Silva, 1985).<\/p>\n<p>Embora Carneiro e sua equipe n\u00e3o se auto-identificassem como parte do movimento ecol\u00f3gico, o seu discurso e suas propostas concretas eram orientados por valores p\u00f3s-materialistas.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Lages significou a primeira experi\u00eancia de \u201cecodesenvolvimento espont\u00e2neo\u201d no Brasil, introduzindo no debate nacional e no movimento ecol\u00f3gico, em particular, um referencial concreto de ecologismo de 3\u00ba Mundo, combinando valores de justi\u00e7a social, equil\u00edbrio ecol\u00f3gico e democracia de base.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de fen\u00f4menos como Gabeira, Lutzenberger, \u201cPensamento Ecol\u00f3gico\u201d, Lages cria um novo patamar de debate no movimento ecol\u00f3gico. A posi\u00e7\u00e3o ambientalista-conservacionista at\u00e9 esse momento, predominando claramente, come\u00e7a a ser criticada desde uma posi\u00e7\u00e3o que enfatiza os v\u00ednculos entre os desequil\u00edbrios na rela\u00e7\u00e3o sociedade-natureza e os desequil\u00edbrios no interior da sociedade.<\/p>\n<p><strong>O ecologismo em transi\u00e7\u00e3o (1982-1985)<\/strong><\/p>\n<p>O ano de 1982 \u00e9 crucial na transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica brasileira na medida em que o processo, at\u00e9 o momento restrito \u00e0 liberaliza\u00e7\u00e3o, adquire uma dimens\u00e3o de democratiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica com a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es competitivas para os governos estaduais. (Sobre a import\u00e2ncia de 1982 na transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica brasileira veja-se Lamounier, 1986; Viola &amp; Mainwaring, 1985.) E 1982 \u00e9 tamb\u00e9m o ano em que podemos datar o in\u00edcio da fase de transi\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico. De qualquer modo, \u00e0 diferen\u00e7a dos outros movimentos sociais (novo sindicalismo, associa\u00e7\u00f5es de moradores, comunidades eclesiais de base, feminismo) que envolveram-se intensamente na luta pol\u00edtico-eleitoral de 1982, o movimento ecol\u00f3gico interveio apenas tangencialmente. (Sobre o envolvimento dos movimentos sociais nas elei\u00e7\u00f5es de 1982 veja-se Jacobi, 1985.)<\/p>\n<p>Um setor minorit\u00e1rio do ecologismo decide participar diretamente na arena pol\u00edtica nas elei\u00e7\u00f5es de 1982 apoiando candidatos que levantam bandeiras ecol\u00f3gicas para deputado estadual.<\/p>\n<p>Este processo acontece nos Estados de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, os candidatos est\u00e3o no PT e PMDB.<\/p>\n<p>A maioria dos ativistas ecologistas rejeitam qualquer envolvimento direto com candidatos em 1982, mas o fato de um setor minorit\u00e1rio decidir envolver-se \u00e9 suficiente para introduzir uma nova din\u00e2mica no interior do movimento.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas dos candidatos que levantaram bandeiras ecol\u00f3gicas como um componente fundamental de sua plataforma elegeram-se nas elei\u00e7\u00f5es de 1982:<\/strong>\u00a0Litz Vieira \u00e9 eleito deputado estadual pelo PT do Rio de Janeiro, Walter Lazzarini \u00e9 eleito deputado estadual pelo PMDB de S\u00e3o Paulo e Caio Lustoza \u00e9 eleito vereador pelo PMDB de Porto Alegre.<\/p>\n<p>Gast\u00e3o Gon\u00e7alves \u00e9 eleito suplente de deputado estadual pelo PMDB de S\u00e3o Paulo. O ex-prefeito de Lages, Dirceu Carneiro, elege-se deputado federal pelo PMDB de Santa Catarina, mas as quest\u00f5es ecol\u00f3gicas ocupam um lugar secund\u00e1rio na sua plataforma.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas parlamentares eleitos tiveram uma atua\u00e7\u00e3o consequente com sua plataforma eleitoral prestigiando as potencialidades da fun\u00e7\u00e3o parlamentar diante do movimento ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p>O segundo momento de envolvimento pol\u00edtico das associa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas acontecer\u00e1 em come\u00e7o de 1984 por ocasi\u00e3o da campanha pelas diretas. A diferen\u00e7a das elei\u00e7\u00f5es de 1982, a grande maioria dos ativistas ecologistas decide participar nas mobiliza\u00e7\u00f5es em favor de elei\u00e7\u00f5es diretas para presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Durante a campanha s\u00e3o reativadas discuss\u00f5es travadas em 1982 e um novo consenso vai construindo-se no movimento:<\/strong>\u00a0a defesa do meio ambiente est\u00e1 diretamente vinculada aos problemas da organiza\u00e7\u00e3o do poder e da propriedade na sociedade global.<\/p>\n<p>Como resultado dos debates realizados durante a campanha pelas diretas, os movimentos ecol\u00f3gicos de S\u00e3o Paulo e Rio Grande do Sul realizam durante o ano de 1984 v\u00e1rios encontros regionais nos quais s\u00e3o discutidas formas de coordenar os esfor\u00e7os das diversas entidades, particularmente quando lidam com as ag\u00eancias estatais.<\/p>\n<p>Esta pr\u00e1tica de realiza\u00e7\u00e3o de encontros estaduais continua naqueles Estados durante 1985, ano em que se realizam tamb\u00e9m em Santa Catarina, Paran\u00e1 e Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>As agendas destes encontros t\u00eam v\u00e1rios pontos em comum que mostram a politiza\u00e7\u00e3o do ecologismo:<\/strong>\u00a0identifica\u00e7\u00e3o dos principais pontos de degrada\u00e7\u00e3o ambiental no Estado, defini\u00e7\u00e3o de prioridades de luta a n\u00edvel estadual, discuss\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre movimento ecol\u00f3gico e partidos pol\u00edticos, alian\u00e7as com outros movimentos sociais, fortalecimento organizacional das associa\u00e7\u00f5es, discuss\u00e3o sobre a viabilidade e desejabilidade de forma\u00e7\u00e3o de um Partido Verde no Brasil, conte\u00fados e formas de participa\u00e7\u00e3o ecologista na Constituinte.<\/p>\n<p><strong>Durante a campanha eleitoral das prefeituras em 1985 os movimentos ecol\u00f3gicos conseguem estruturar espa\u00e7os de debate aut\u00f4nomo com os candidatos dos diversos partidos em tr\u00eas capitais:<\/strong>\u00a0Rio de Janeiro, Porto Alegre e Florian\u00f3polis. Em Curitiba, S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte os movimentos ecol\u00f3gicos n\u00e3o conseguem criar essa inst\u00e2ncia de debate p\u00fablico com os candidatos, mas interv\u00eam abertamente em apoio aos candidatos que mostram sensibilidade para a quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Desde meados de 1985 existe consenso no movimento ecol\u00f3gico dos seis Estados em que este tem uma estrutura\u00e7\u00e3o b\u00e1sica (RS, SC, PR, SP, RJ, MG) sobre a necessidade de intervir incisivamente no pr\u00f3ximo Congresso Constituinte.<\/p>\n<p><strong>Isto leva \u00e0 funda\u00e7\u00e3o, em fins de novembro no Rio de Janeiro, da Coordenadoria Interestadual Ecologista para a Constituinte (CIEC) com a participa\u00e7\u00e3o de representantes dos seis Estados referidos. As linhas gerais do novo consenso est\u00e3o definidas:<\/strong>\u00a0\u00e9 fundamental ecologizar o debate constituinte e o texto da futura Constitui\u00e7\u00e3o e isto deve ser feito atrav\u00e9s da elei\u00e7\u00e3o de constituintes surgidos do seio de movimento que constituiriam um bloco parlamentar ecologista; o apoio a candidatos externos ainda que simp\u00e1ticos e sens\u00edveis ao movimento \u00e9 uma alternativa limitada; \u00e9 preciso um debate interestadual com o objetivo de precisar quais ser\u00e3o as posi\u00e7\u00f5es ecologistas que ser\u00e3o enfatizadas durante a campanha eleitoral.<\/p>\n<p><strong>Em tr\u00eas anos que v\u00e3o de 1982 a 1985 tinham se processado mudan\u00e7as cruciais na orienta\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico:<\/strong>\u00a0a grande maioria de 82 n\u00e3o queria nenhum tipo de envolvimento nas elei\u00e7\u00f5es, a grande maioria de 85 \u00e9 favor\u00e1vel ao envolvimento, direto do movimento nas elei\u00e7\u00f5es apoiando candidatos emergidos do interior.<\/p>\n<p>Durante esta fase de transi\u00e7\u00e3o foi processando-se uma aproxima\u00e7\u00e3o entre as comunidades alternativas rurais e o ecologismo urbano. De um lado diminu\u00eda o fundamentalismo que bloqueava o di\u00e1logo com a vida urbana, do outra emergia o problema da cria\u00e7\u00e3o de uma economia alternativa nas cidades, e para isto devia recorrer-se \u00e0 experi\u00eancia dos que tinham resolvido esse problema no campo.<\/p>\n<p>Esta aproxima\u00e7\u00e3o resultou muito fecunda no Rio Grande do Sul, onde se consolida a cooperativa \u201cCoolmeia\u201d. A \u201cCoolmeia\u201d \u00e9 uma comunidade urbano-rural constitu\u00edda por um entreposto-restaurante em Porto Alegre e uma fazenda a 50 quil\u00f4metros. Alguns membros vivem no campo e outros na cidade, revezando-se.<\/p>\n<p>Est\u00e3o organizados segundo o princ\u00edpio do cooperativismo autogestion\u00e1rio e s\u00e3o muito ativos nas lutas do movimento ecol\u00f3gico ga\u00facho.<\/p>\n<p>A conflu\u00eancia entre o ecologismo urbano e rural foi muito importante durante 1984 quando foram debatidas e aprovadas as leis estaduais de agrot\u00f3xicos nos Estados do Sul-Sudeste.<\/p>\n<p>O movimento urbano p\u00f4de ampliar notavelmente o escopo do debate, incluindo exemplos precisos de agricultura ecol\u00f3gica, em virtude do subs\u00eddio pr\u00e1tico oferecido por 10 anos de experi\u00eancia das comunidades alternativas rurais (Pinheiro et aii\u00fc, 1985).<\/p>\n<p>Foram estas experi\u00eancias que influenciaram decisivamente na forma\u00e7\u00e3o de uma forte corrente ecologista no interior da Sociedade Brasileira de Engenheiros Agr\u00f4nomos. As comunidades rurais vinham realizando, desde 1978, Encontros Anuais de Comunidades Alternativas que ano a ano foram transformando-se num f\u00f3rum fundamental de interc\u00e2mbio de experi\u00eancias. Em 1985, pela primeira vez, o Encontro, realizado em Pindamonhangaba (SP), foi aberto aos ecologistas urbanos, resultando no, primeiro di\u00e1logo sistem\u00e1tico a n\u00edvel nacional de ecologistas, rurais e urbanos. Nesse Encontro, com a participa\u00e7\u00e3o de mais de 2.000 pessoas durante uma semana, os ecologistas urbanos conseguiram persuadir a parte dos rurais sobre a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o no pr\u00f3ximo Congresso Constituinte.<\/p>\n<p><strong>O ano de 1985 foi tamb\u00e9m um ano decisivo desde o ponto de vista da imprensa ecologista:<\/strong>\u00a0apareceram dois novos jornais de circula\u00e7\u00e3o nacional Outra e Vida e Cultura Alternativa.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o trimestral da Cooperativa \u201cCoovida\u201d do Rio de Janeiro, circulando no interior do movimento alternativo.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o montada em moldes comerciais, mas com um conselho editorial constitu\u00eddo por personalidades do movimento alternativo, que tem uma circula\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria para uma publica\u00e7\u00e3o ecologista (60.000 exemplares distribu\u00eddos em todo o pa\u00eds).<\/p>\n<p><strong>V\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es ocorreram no tecido social do movimento ecol\u00f3gico entre 1982 e 1985 que explicam a radical mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica:<\/strong>\u00a0proliferaram entidades nas cidades m\u00e9dias dos seis Estados do Sul-Sudeste; o n\u00famero de ativistas por entidades e o n\u00famero de simpatizantes cresceu consideravelmente; os ecologistas penetraram no interior de muitas associa\u00e7\u00f5es de moradores de classe m\u00e9dia; em algumas \u00e1reas e cidades industriais come\u00e7ou um di\u00e1logo e interinflu\u00eancia entre o movimento ecol\u00f3gico e o sindicalismo oper\u00e1rio; o movimento ecol\u00f3gico come\u00e7ou a penetrar estruturalmente no estudantado universit\u00e1rio; influ\u00eancia do movimento ecol\u00f3gico, no Sul, nos movimentos dos \u201csem-terra\u201d e contra as grandes barragens (Scherer-Warren &amp; Reis, 1985; Minc, 1985).<\/p>\n<p><strong>Mas, a transforma\u00e7\u00e3o fundamental foi na mudan\u00e7a do padr\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o do ecologismo:\u00a0<\/strong>o movimento de pura den\u00fancia foi sendo substitu\u00eddo pela formula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que levaram em considera\u00e7\u00e3o fundamentalmente a efic\u00e1cia pontual da luta. Deste modo, em 1985, \u00e9 poss\u00edvel visualizar vit\u00f3rias concretas das lutas do movimento ecol\u00f3gico em v\u00e1rias cidades, os processos decis\u00f3rios a n\u00edvel de pol\u00edticas p\u00fablicas (particularmente municipais mas tamb\u00e9m estaduais) s\u00e3o afetados pelas lutas ecologistas.<\/p>\n<p><strong>Toda esta mudan\u00e7a no tecido social do movimento ecol\u00f3gico acarretou uma mudan\u00e7a qualitativa na opini\u00e3o p\u00fablica:\u00a0<\/strong>a maioria da popula\u00e7\u00e3o medianamente informada passou a considerar com seriedade a crise ecol\u00f3gica e a atua\u00e7\u00e3o ecologista.<\/p>\n<p><strong>Isto reflete-se tamb\u00e9m nos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas:<\/strong>\u00a0em 1985 aumentou consideravelmente o espa\u00e7o dedicado a quest\u00f5es de meio ambiente na imprensa escrita e na televis\u00e3o (Lafo, 1986).<\/p>\n<p><strong>A classe m\u00e9dia \u201cculta\u201d incorporou alguns valores ecologistas na sua vis\u00e3o de mundo, ainda que de modo fragment\u00e1rio:\u00a0<\/strong>geralmente se considera desej\u00e1veis e compat\u00edveis um crescimento do consumo individual (esta classe m\u00e9dia tem um padr\u00e3o de consumo similar a seu equivalente do 1\u00ba Mundo) e a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Quando \u00e9 necess\u00e1rio realizar uma op\u00e7\u00e3o precisa entre consumo e meio ambiente, \u00e1 maioria opta pelo primeiro.<\/p>\n<p><strong>A op\u00e7\u00e3o ecopol\u00edtica em 1986<\/strong><\/p>\n<p>Desde janeiro de 1986 existe intensa movimenta\u00e7\u00e3o no ecologismo na perspectiva de interven\u00e7\u00e3o no processo Constituinte. Em fevereiro realizou-se em Curitiba o 2\u00ba Encontro do CIEC com representa\u00e7\u00e3o dos seis Estados do Sul-Sudeste. Neste Encontro estabeleceu-se os par\u00e2metros gerais da plataforma ecologista nacional para a Constituinte; ecodesenvolvimento, pacifismo, descentraliza\u00e7\u00e3o das fontes energ\u00e9ticas (contra as usinas nucleares e as grandes hidroel\u00e9tricas), qualidade de vida, fun\u00e7\u00e3o social e ecol\u00f3gica da propriedade, justi\u00e7a social, democracia participativa, reforma agr\u00e1ria ecol\u00f3gica, descentraliza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o do sistema de comunica\u00e7\u00e3o de massa, educa\u00e7\u00e3o ambiental generalizada. Tamb\u00e9m se estabeleceram crit\u00e9rios para a forma\u00e7\u00e3o das listas verdes estaduais.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o listas transpartid\u00e1rias compostas por candidatos membros do movimento ecol\u00f3gico que se comprometem, se eleitos, a defender a plataforma ecologista na Constituinte ou nas Assembl\u00e9ias Legislativas, e a dar uma parte de seus rendimentos para o desenvolvimento das associa\u00e7\u00f5es de base. Os 3\u00ba e 4\u00ba Encontros do CIEC (Itapecerica da Serra, SP, em abril e em Bras\u00edlia em junho) fracassam na tarefa a que se tinha proposto o 2\u00ba Encontro de realizar um debate te\u00f3rico em profundidade sobre os fundamentos da Ecologia Pol\u00edtica com o objetivo de elaborar uma plataforma extensa e precisa para a Constituinte.<\/p>\n<p><strong>Em janeiro \u00e9 fundado no Rio de Janeiro o Partido Verde animado por algumas figuras de longa presen\u00e7a no movimento ecol\u00f3gico brasileiro:<\/strong>\u00a0Fernando Gabeira, Litz Vieira, Carlos Minc.<\/p>\n<p>Os verdes cariocas lan\u00e7am a estrat\u00e9gia de estruturar uma coliga\u00e7\u00e3o com o PT e o PSB, de modo a conseguir legenda para seus candidatos j\u00e1 que o reconhecimento legal do partido seria imposs\u00edvel em prazo vi\u00e1vel para concorrer nas elei\u00e7\u00f5es de 1986. As negocia\u00e7\u00f5es com o PSB estagnam-se, mas as conversa\u00e7\u00f5es com o PT avan\u00e7am rapidamente at\u00e9 ser aprovada na conven\u00e7\u00e3o do PT em final de abril a coliga\u00e7\u00e3o, incluindo a candidatura de Gabeira a governador. Deste modo, o Estado do Rio de Janeiro constitu\u00ed-se conjunturalmente no eixo do movimento ecol\u00f3gico brasileiro, j\u00e1 que \u00e9 a \u00fanica candidatura a governador ecologista, com forte potencialidade de atrair uma significativa base eleitoral para a elei\u00e7\u00e3o de candidatos verdes a deputados federal e estadual, e com forte repercuss\u00e3o no n\u00edvel nacional por ser o Rio de Janeiro o centro da comunica\u00e7\u00e3o de massa.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o \u00e9 fundado o Partido Verde em Santa Catarina, com uma orienta\u00e7\u00e3o similar \u00e0 do Rio de Janeiro, mas animada por figuras de presen\u00e7a recente no movimento ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>Em Santa Catarina configura-se uma divis\u00e3o em dois blocos, com rela\u00e7\u00f5es dif\u00edceis entre si:<\/strong>\u00a0os fundadores do Partido Verde de um lado e os ecologistas do PT do outro, estes \u00faltimos apostando na ecologiza\u00e7\u00e3o do PT. Entre ambos, fazendo as vezes de mediadores, situa-se um setor que considera invi\u00e1vel a ecologiza\u00e7\u00e3o do PT, mas ao mesmo tempo considera prematura a funda\u00e7\u00e3o do PV, com a presente densidade e extens\u00e3o limitada do movimento ecol\u00f3gico. A diferen\u00e7a do Rio de Janeiro, os candidatos do Partido Verde em Santa Catarina saem nas legendas do PCB e PDT. Em julho filia-se ao Partido Verde em Santa Catarina o prefeito de Ibirama, Luiz Muller, que tinha se desfiliado do PMDB em abril. Muller \u00e9 o primeiro, e \u00fanico at\u00e9 agora, prefeito brasileiro a entrar no Partido Verde. Na conven\u00e7\u00e3o do PDT, em julho, \u00e9 escolhido candidato a senador o ecologista de Joinville, Gert Fischer, sendo a segunda candidatura ecologista a um cargo majorit\u00e1rio a surgir no Brasil.<\/p>\n<p>Nas conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias realizadas nos meses de junho e julho os ecologistas disputam vaga em v\u00e1rios partidos (Partido dos Trabalhadores, Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, Partido Democr\u00e1tico Trabalhista, Partido Comunista Brasileiro, Partido Socialista Brasileiro e Partido Humanista) nos seus Estados do Sul-Sudeste, sendo que a maioria deles consegue ser lan\u00e7ado candidato.<\/p>\n<p>Em maio, em Belo Horizonte, realiza-se o 1.\u00b0 Encontro Nacional de Entidades Ecologistas Aut\u00f4nomas, com a participa\u00e7\u00e3o de mais de uma centena de associa\u00e7\u00f5es, a grande maioria delas dos Estados do Sul-Sudeste, mas incluindo pela primeira vez no debate nacional de ecologistas urbanos algumas associa\u00e7\u00f5es do Nordeste, Norte e Centro-Oeste.<\/p>\n<p><strong>Os debates duram quatro dias, organizados em v\u00e1rias \u00e1reas tem\u00e1ticas:\u00a0<\/strong>ecodesenvolvimento, educa\u00e7\u00e3o ambiental, reforma agr\u00e1ria ecol\u00f3gica, comunica\u00e7\u00f5es alternativas e rela\u00e7\u00f5es internacionais e meio ambiente Reafirma-se uma vez mais o consenso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia de uma participa\u00e7\u00e3o incisiva na Constituinte, mas os debates tornam-se extremadamente dif\u00edceis e \u00e1speros quando se discute a problem\u00e1tica do Partido Verde.<\/p>\n<p>A maioria das entidades representadas no Encontro teme uma funda\u00e7\u00e3o apressada do Partido Verde que possa vir dispersar as energias dedicadas cotidianamente ao trabalho de base e possa atrair para o partido vastos contingentes de oportunistas que poluiriam no seu nascedouro a proposta. (Um argumento desenvolvido contra o Partido Verde encontra-se em Schinke, 1985.)<\/p>\n<p><strong>Em julho de 1986 a situa\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico brasileiro pode ser resumida do seguinte modo:<\/strong>\u00a0exist\u00eancia de uma inst\u00e2ncia sistem\u00e1tica de coordena\u00e7\u00e3o das atividades nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro; exist\u00eancia de inst\u00e2ncias eventuais de coordena\u00e7\u00e3o de atividades nos Estados do Paran\u00e1 e Minas Gerais; exist\u00eancia de um f\u00f3rum anual de debate entre as entidades urbanas, a n\u00edvel nacional; exist\u00eancia de um f\u00f3rum anual de debate entre as comunidades alternativas rurais, a n\u00edvel nacional; exist\u00eancia de uma inst\u00e2ncia ad hoc de troca de experi\u00eancias para os candidatos ecologistas para a Constituinte, a n\u00edvel nacional; forte consenso entre os ecologistas urbanos e parcial entre os rurais a respeito da necessidade de intervir maci\u00e7amente no processo Constituinte; car\u00e1ter transpartid\u00e1rio do movimento ecologista, havendo militantes participando predominantemente dos seguintes partidos: PV, PT, PMDB e PDT; processo de organiza\u00e7\u00e3o embrion\u00e1rio do PV no Rio de Janeiro e em Santa Catarina com probabilidade de estender-se aos outros Estados do Sul-Sudeste; forte divis\u00e3o no movimento ecol\u00f3gico; respeito da viabilidade e desejabilidade do PV no curto prazo; amea\u00e7a de fracionamento do movimento ecol\u00f3gico em fun\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica do PV.<\/p>\n<p><strong>Em 1986, o movimento ecol\u00f3gico brasileiro parece ter atingido um ponto de matura\u00e7\u00e3o sem retorno:<\/strong>\u00a0seu crescimento quantitativo, qualitativo e cumulativo, longe, portanto, do padr\u00e3o c\u00edclico que apresentam outros movimentos sociais. (Balan\u00e7os recentes em perspectivas diferentes sobre a din\u00e2mica dos movimentos sociais no Brasil encontram-se em Evers, 1984; Scherer-Warren, 1984; Mainwaring, 1986; Doimo\u00a0<em>et alii<\/em>, 1985; Jacobi, 1985; Boschi, 1986; Silva &amp; Ribeiro, 1984; Cardoso, 1983; Boschi &amp; Valladares, 1983; Durhan, 1984).<\/p>\n<p>A origem s\u00f3cio-cultural dos ativistas ecologistas continua sendo universit\u00e1ria, ainda que de modo menos exclusivo do que no passado e a participa\u00e7\u00e3o proporcional das mulheres cresceu muito. As estruturas do movimento s\u00e3o muito fluidas, poder\u00edamos dizer ca\u00f3ticas, desde uma \u00f3tica pol\u00edtica tradicional, ainda que relativamente pertinentes a teu principal objetivo, o de expandir a consci\u00eancia ecol\u00f3gica, ecologizar a sociedade.<\/p>\n<p><strong>Convivem em 1986 no Brasil as quatro posi\u00e7\u00f5es definidas em termos mundiais na primeira parte:<\/strong>\u00a0ecologistas fundamentalistas, ecologistas realistas, ecocapitalistas e ecossocialistas.<\/p>\n<p>Seguindo a tend\u00eancia mundial a posi\u00e7\u00e3o ecologista \u00e9 definidamente predominante no interior do movimento ecol\u00f3gico brasileiro em 1986, \u00e0 diferen\u00e7a de 1982 quando os fundamentalistas estavam equilibrados com os realistas ou em 1978 quando os fundamentalistas eram majorit\u00e1rios. Os ecologistas fundamentalistas e os ecossocialistas (estes somente come\u00e7aram a emergir em 1982) ocupam uma posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria no seio do movimento ecol\u00f3gico, ficando para os ecocapitalistas uma posi\u00e7\u00e3o marginal.<\/p>\n<p>Apesar desta posi\u00e7\u00e3o marginal no movimento social os ecocapitalistas ocupam lugares estrat\u00e9gicos nas ag\u00eancias estatais de meio ambiente. De outro lado, os setores de classe m\u00e9dia \u201cculta\u201d que se tornaram sens\u00edveis \u00e0 proposta ecologista nos \u00faltimos anos identificam-se vagamente com o ecocapitalismo. Este, marginal no movimento social aut\u00f4nomo, \u00e9 predominante na opini\u00e3o p\u00fablica e no aparelho estatal.<\/p>\n<p>A ecologiza\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia \u201cculta\u201d refletiu-se recentemente na significativa tematiza\u00e7\u00e3o da problem\u00e1tica do meio ambiente no anteprojeto da Constitui\u00e7\u00e3o, que foi elaborado pela Comiss\u00e3o presidida pelo Dr. Afonso Arinos. Aparentemente esta Comiss\u00e3o coloca-se na quest\u00e3o do meio ambiente numa posi\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada, se comparada com a mentalidade m\u00e9dia da sociedade brasileira. Disto pode concluir-se, provisoriamente, que a exist\u00eancia da Comiss\u00e3o de not\u00e1veis foi favor\u00e1vel a ecologiza\u00e7\u00e3o da sociedade, apesar da oposi\u00e7\u00e3o quase un\u00e2nime que esta encontrou no seio do movimento ecol\u00f3gico quando se formou em setembro de 1985 (o movimento ecol\u00f3gico era favor\u00e1vel \u00e0 Constituinte exclusiva, sem Comiss\u00e3o de not\u00e1veis). A posi\u00e7\u00e3o ecocapitalista teve forte peso na Comiss\u00e3o Constitucional, apesar de ela ser fraca no seio do movimento ecol\u00f3gico e no seio da burguesia brasileira.<\/p>\n<p>A burguesia brasileira, em termos gerais, tem rejeitado at\u00e9 hoje o discurso ecologista.<\/p>\n<p>Seu padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o e comportamento tem sido t\u00e3o selvagem em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente como o foi em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Na tecnoburocracia do setor produtivo estatal observa-se uma mudan\u00e7a de comportamento nos anos recentes em que os impactos ambientais come\u00e7am, desniveladamente, a ser levados em considera\u00e7\u00e3o pelo menos a n\u00edvel de preocupa\u00e7\u00e3o (ainda que isto n\u00e3o se traduza necessariamente na pr\u00e1tica).<\/p>\n<p>Em parte importante isto explica-se pelo fato de que a tecnoburocracia estatal faz parte da classe m\u00e9dia \u201cculta\u201d<\/p>\n<p>As multinacionais, muita das quais investiram no Brasil do \u201cmilagre\u201d, atra\u00eddas pelas economias externas em termos de meio ambiente, s\u00e3o as que melhor responderam (at\u00e9 hoje) ao processo de controle de efeitos poluentes iniciado pelas ag\u00eancias estaduais de meio ambiente do Sul-Sudeste no come\u00e7o da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>Na escala de intensidade da depreda\u00e7\u00e3o e conflito com a tecnoburocracia das ag\u00eancias estatais de meio ambiente, a burguesia local ocupa a primeira posi\u00e7\u00e3o, o setor produtivo estatal a segunda, e as multinacionais a terceira. Paradoxalmente, se pensamos no chamado de M\u00e9dici \u00e0s ind\u00fastrias poluidoras, as multinacionais s\u00e3o o setor mais sens\u00edvel \u00e0 a\u00e7\u00e3o da tecnoburocracia ecocapitalista das ag\u00eancias estatais de meio ambiente.<\/p>\n<p>Os ecossocialistas, apesar de secund\u00e1rios, t\u00eam crescido proporcionalmente mais que qualquer outro setor no seio do movimento ecol\u00f3gico, desde sua emerg\u00eancia, em 1982, at\u00e9 o presente.<\/p>\n<p>Uma parte importante do contingente ecossocialista est\u00e1 formada por militantes da nova esquerda que se envolveram na constru\u00e7\u00e3o do PT em 1980-82, e foram frustrando-se pelo perfil mais tradicional que o partido ganhou no per\u00edodo 1983-85. Os ecossocialistas concentram seus esfor\u00e7os (proporcionalmente mais que os ecologistas realistas) para que o movimento penetre nos setores oper\u00e1rios e populares. Os ecossocialistas brasileiros apostam no desenvolvimento duma classe oper\u00e1ria com consci\u00eancia socialista e ecol\u00f3gica, que seria o agente principal da mudan\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>A receptividade dos oper\u00e1rios aos ecossocialistas tem sido at\u00e9 hoje limitada e desigual:<\/strong>\u00a0a receptividade \u00e9 alta no que se refere \u00e0 melhoria do meio ambiente de trabalho, mas baixa no referente a quest\u00f5es mais gerais. A mentalidade m\u00e9dia do operariado brasileiro \u00e9 favor\u00e1vel a altas taxas de crescimento econ\u00f4mico (sem importar seu car\u00e1ter degradador do meio ambiente) e redistribui\u00e7\u00e3o da renda. Mas, em algumas cidades ou \u00e1reas industriais (Gravata\u00ed, Crici\u00fama, Cubat\u00e3o, Arauc\u00e1ria etc.), setores do sindicalismo manifestam sensibilidade global para os problemas ecol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Uma parte importante dos ecossocialistas s\u00e3o militantes ou simpatizantes do PT e apostam na sua transforma\u00e7\u00e3o num partido ecossocialista,. argumentando que todo o componente inovador de sua corrente socialista democr\u00e1tica dever\u00e1 reconhecer, a m\u00e9dio prazo, o car\u00e1ter crucial dos problemas ecol\u00f3gicos no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia entre os ecologistas fundamentalistas, os ecocapitalistas e os ecossocialistas no interior do movimento ecol\u00f3gico \u00e9 bastante conflitiva.<\/p>\n<p>Os ecologistas realistas desempenham um papel fundamental de mediadores e reguladores de conflitos entre os outros tr\u00eas setores.<\/p>\n<p>Os ecologistas fundamentalistas tendem a considerar os ecocapitalistas e ecossocialistas como um tanto estranhos ao movimento ecol\u00f3gico e potencialmente deturpadores da pureza do movimento.<\/p>\n<p>Os ecocapitalistas e ecossocialistas, por sua vez, tendem a desconsiderar os fundamentalistas pelo seu car\u00e1ter rom\u00e2ntico e politicamente ing\u00eanuo, embora reconhe\u00e7am a dedica\u00e7\u00e3o ao movimento por parte daqueles.<\/p>\n<p>Os ecossocialistas desconfiam das reais e potenciais vincula\u00e7\u00f5es com a burguesia por parte dos ecocapitalistas e tendem a criticar, em bloco, a tecnoburocracia ecocapitalista das ag\u00eancias estatais do meio ambiente.<\/p>\n<p>Os ecocapitalistas, por sua vez, desconfiam dos objetivos dos ecossocialistas e temem que estes fa\u00e7am \u201centrismo\u201d no movimento ecol\u00f3gico para transform\u00e1-lo num ap\u00eandice dos partidos de esquerda.<\/p>\n<p>Os ecocapitalistas tendem a ser defensores e justificadores da tecnoburocracia das ag\u00eancias estatais de meio ambiente a qual percebem como isolada e enfrentada ao resto da tecnoburocracia estatal (agente do desenvolvimento predat\u00f3rio).<\/p>\n<p>Os ecologistas realistas, predominantes no interior do movimento social, t\u00eam pouco peso na opini\u00e3o p\u00fablica sensibilizada, j\u00e1 que sua proposta n\u00e3o \u00e9 facilmente decodificada (em grande medida por dificuldades de explica\u00e7\u00e3o) tendendo a ser confundida com a ecologista fundamentalista e, conseq\u00fcentemente, descartada como rom\u00e2ntica e invi\u00e1vel. Deste modo, os ecocapitalistas constituem-se na ponte privilegiada entre o movimento ecol\u00f3gico e os importantes setores m\u00e9dios sensibilizados; os ecossocialistas fazem a ponte com os m\u00ednimos setores oper\u00e1rios sensibilizados; e os ecologistas realistas e ecossocialistas fazem a ponte com os m\u00ednimos setores populares urbanos e rurais sensibilizados.<\/p>\n<p>O campo de disputa mais importante que se estabelece no presente \u00e9 entre ecocapitalistas e ecologistas realistas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe m\u00e9dia \u201cculta\u201d, os segundos desafiando a posi\u00e7\u00e3o de ponte privilegiada detida pelos primeiros.<\/p>\n<p>O Partido Verde do Rio de Janeiro tem o perfil de uma coliga\u00e7\u00e3o entre ecologistas realistas e ecossocialistas, com predom\u00ednio dos primeiros e com inclus\u00e3o muito secund\u00e1ria de ecologistas fundamentalistas e ecocapitalistas. O PV de Santa Catarina tende a ter o perfil duma coliga\u00e7\u00e3o entre ecologistas realistas e ecocapitalistas, com predom\u00ednio dos primeiros e participa\u00e7\u00e3o marginal de ecologistas fundamentalistas e ecossocialistas (estes \u00faltimos agrupados at\u00e9 hoje no PT).<\/p>\n<p>A complexidade de rela\u00e7\u00f5es e alinhamentos no interior do movimento ecol\u00f3gico \u00e9 extraordin\u00e1ria, particularmente devido \u00e0 grande diversidade regional do Brasil, mesmo no Sul-Sudeste que \u00e9 o espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>A modo de conclus\u00e3o geral podemos dizer que seis fatores explicam globalmente a emerg\u00eancia e o desenvolvimento do movimento ecol\u00f3gico no Brasil:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>1\u00b0)\u00a0<\/strong>o car\u00e1ter fortemente internacionalizado do movimento ecol\u00f3gico mundial devido ao car\u00e1ter planet\u00e1rio da degrada\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-ambiental processada nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas;<strong><br \/>\n2\u00ba)<\/strong>\u00a0o fato de o Brasil ser um pa\u00eds ascendente do 3.\u00b0 Mundo, com forte internacionaliza\u00e7\u00e3o do seu sistema produtivo e de comunica\u00e7\u00f5es;<strong><br \/>\n3\u00ba)\u00a0<\/strong>a intensidade de degrada\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-ambiental produzida nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, contrapartida do extraordin\u00e1rio crescimento econ\u00f4mico e consequente ascenso no sistema mundial;<strong><br \/>\n4\u00ba)\u00a0<\/strong>o car\u00e1ter excessivamente predat\u00f3rio (mais que a m\u00e9dia mundial) da vis\u00e3o de mundo e das pol\u00edticas implementadas pelas elites do regime autorit\u00e1rio (1964-1985);<strong><br \/>\n5\u00ba)<\/strong>\u00a0a profunda crise em que mergulhou a esquerda brasileira depois da fracassada experi\u00eancia guerrilheira de 1968-1973, crise esta que, por sua vez, vincula-se com a crise geral do marxismo no interior da esquerda ocidental;<strong><br \/>\n6\u00ba)\u00a0<\/strong>o processo de transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, iniciado com a liberaliza\u00e7\u00e3o (a partir de 1974) e continuado com a democratiza\u00e7\u00e3o (a partir de 1982), criou um contexto s\u00f3cio-pol\u00edtico cada vez mais favor\u00e1vel para a organiza\u00e7\u00e3o de movimentos sociais e para o debate de novas ideias.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Tr\u00eas quest\u00f5es parecem fundamentais no futuro imediato do movimento ecol\u00f3gico:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>1\u00aa)<\/strong>\u00a0a consolida\u00e7\u00e3o de estruturas organizacionais de n\u00edvel estadual e nacional;<strong><br \/>\n2\u00aa)\u00a0<\/strong>uma penetra\u00e7\u00e3o mais ampla nas classes populares;<strong><br \/>\n3\u00aa)\u00a0<\/strong>colocar-se como um interlocutor leg\u00edtimo no grande debate sobre o presente e o futuro da sociedade brasileira. Aqui n\u00e3o podemos entrar em profundidade nesta discuss\u00e3o, deixando-a para posterior desenvolvimento. No entanto arriscamos algumas breves especula\u00e7\u00f5es.<\/p><\/blockquote>\n<p>A primeira quest\u00e3o nos permitiria ser otimista se olh\u00e1ssemos rapidamente para os avan\u00e7os dos dois \u00faltimos anos, mas tender\u00edamos a ser pessimistas se levarmos em considera\u00e7\u00e3o uma combina\u00e7\u00e3o explosivamente contr\u00e1ria ao desenvolvimento organizacional sediada na baixa capacidade associativa da sociedade brasileira e nos componentes anarquistas presentes no ecologismo brasileiro (igual ao resto do mundo). Sobre a segunda quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ser pessimista se olharmos para o discurso economicista convencional de quase todas as lideran\u00e7as populares expressivas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por\u00e9m poder\u00edamos ser um tanto otimistas se olh\u00e1ssemos mais detidamente para o potencial de articula\u00e7\u00e3o entre o p\u00f3s-materialismo do movimento ecol\u00f3gico e os componentes mais espiritualizados da Igreja progressista e das comunidades eclesiais de base em particular. (Veja-se, no geral, Krischke &amp; Mainwaring, 1986; e, em particular, enfatizando este potencial de conflu\u00eancia Sousa, 1986.)<\/p>\n<p>Sobre a terceira quest\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser bastante otimista se levarmos em considera\u00e7\u00e3o uma din\u00e2mica mundial em que as posi\u00e7\u00f5es ecologistas est\u00e3o se transformando em interlocutores leg\u00edtimos na maioria dos pa\u00edses do 1\u00ba e 2\u00b0 Mundo e que o movimento ecol\u00f3gico tem boa penetra\u00e7\u00e3o nos setores m\u00e9dios, formadores da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.intelecto.net\/www.anpocs.org.br(Eduardo J.Viola)\/earthcharter.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como documento fundamental orientado pelos princ\u00edpios da\u00a0Carta da Terra, o\u00a0Manifesto Ecol\u00f3gico\u00a0estabeleceu as metas para apoiar os processos de educa\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento sustent\u00e1vel com base em um ambiente est\u00e1vel e uma natureza saud\u00e1vel alcan\u00e7ada por meio de mudan\u00e7as em massa na compreens\u00e3o das pessoas sobre o mundo contempor\u00e2neo. 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