{"id":108288,"date":"2017-02-10T11:34:41","date_gmt":"2017-02-10T13:34:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108288"},"modified":"2017-02-10T11:34:41","modified_gmt":"2017-02-10T13:34:41","slug":"inspiracoes-do-claustro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/inspiracoes-do-claustro","title":{"rendered":"Inspira\u00e7\u00f5es do Claustro"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"675\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"172\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">PORQUE CANTO?<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">O REMORSO DA INNOCENTE<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">PEDIDO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">MEDITA\u00c7\u00c3O<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">O APOSTOLO ENTRE AS GENTES<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">O JESUITA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">A FLOR MURCHA DO ALTAR<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">O INCENSO DO ALTAR<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">O MISANTROPO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">A ORPHAN NA COSTURA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">MEU FILHO NO CLAUSTRO<\/a><br \/>\n\t\t    <a href=\"#12\" class=\"links\">MILTON<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#13\" class=\"links\">POBRE E SUBERBO<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"166\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">OS CLAUSTROS<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">SOROR-ANGELA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">A FREIRA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">A DEVOTA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">FREI BASTOS<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">O RENEGADO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">O MONGE<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">O APOSTATA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">O CONVERSO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">ELLA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">SAUDA\u00c7\u00c3O<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">DEIXAS-ME<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"171\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t  <a href=\"#26\" class=\"links\">A&#8217; PROFISS\u00c3O<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">CANTO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">SAUDADE<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">AOS TUMULOS<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">A MORTE NO CLAUSTRO<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#31\" class=\"links\">CANTO FUNEBRE<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#32\" class=\"links\">POEMA FUNEBRE<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#33\" class=\"links\">NENIA<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#34\" class=\"links\">OS DOUS CADAVERES<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#35\" class=\"links\">Al !<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#36\" class=\"links\">MAIS UM TUMULO<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Junqueira Freire<\/h2>\n<p>A natureza d&#8217;esta publica&ccedil;&atilde;o exige de si algumas palavras de<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o. Este prologo &eacute; filho da necessidade tamsomente.<\/p>\n<p> Longe de mim a vaidade dos discursos ociosos.<\/p>\n<p> As poesias presentes agradar&atilde;o a bem poucos: agradar&atilde;o apenas<br \/>\n    a algumas almas fortes, que n&atilde;o poderam ainda ser eivadas nem do cancro<br \/>\n    do septicismo, nem da mania do mysticismo: agradar&atilde;o apenas a alguns<br \/>\n    homens completamente livres, que n&atilde;o subjeitaram-se ainda, si n&atilde;o<br \/>\n    &aacute;s luzes da raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora, estes homens sam bem raros na sociedade actual, porque a hyperbole<br \/>\n    dos systemas e das cren&ccedil;as traz em si n&atilde;o sei que talisman,<br \/>\n    qu&eacute; arrasta todos os esp&iacute;ritos, por bem formados que sejam.<br \/>\n    O eclectismo nas opini&otilde;es, que n&atilde;o sam essencialmente philosophicas,<br \/>\n    repugna ainda aos animos, e &eacute; chrismado de absurdo.<\/p>\n<p> Eu tenho, por tanto, a maioria dos homens por meus inimigos.<\/p>\n<p> Pela m&atilde;o invisivel da Providencia fui arrojado ha tr&ecirc;s annos<br \/>\n    para o cora&ccedil;&atilde;o do claustro. Por essa inclassificavel ac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de que hoje me espanto, tive as ben&ccedil;&atilde;os de uns e os escarneos<br \/>\n    de outros. Eram ainda os homens mysticos e os scepticos que louvavam-me ou<br \/>\n    vituperavam-me. Pela m&atilde;o invis&iacute;vel da Providencia fui arrojado<br \/>\n    outra vez para o torvelinho da sociedade. Por isso tive a maldi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quasi todos.<\/p>\n<p> Eram ainda os mysticos, que n&atilde;o pejavam-se de cantar a palinodia<br \/>\n    dos louvores, que me haviam magnificamente dispensado,&#8212; eram os scepticos,<br \/>\n    que compunham d&#8217;este accontecimento um marcialico epigramma.<\/p>\n<p> Hoje, entre tanto, venho offerecer ao publico o complemento de meus pensamentos<br \/>\n    durante meu triennio claustral.<\/p>\n<p> Serei recebido pelos mesmos homens: &#8212; por tanto, muito mal.<\/p>\n<p>N&atilde;o importa.<\/p>\n<p> Nos paizes eminentemente illustrados n&atilde;o aguarda-se mais pelo juizo<br \/>\n    da posteridade. Vivendo-se, goza-se j&aacute; do nome, que antigamente depozitava-se<br \/>\n    nas ares mysteriosas do porvir.<\/p>\n<p> No Brazil, porem, n&atilde;o &eacute; ainda assim. Eu tenho &#8212; gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus,&#8212; o consolo de poder esperar pelo futuro em minha patria! N&#8217;este<br \/>\n    sonho sedativo da consciencia,&#8212; seja uma illus&atilde;o embora,&#8212;<br \/>\n    adormecerei tranquillo.<\/p>\n<p> Entre tanto,&#8212; fervam os pensamentos da paix&atilde;o. Os escriptos<br \/>\n    poeticos, que apresento, n&atilde;o foram formados em del&iacute;rio.<\/p>\n<p> Enthusiasma da raiva! que tenho eu com tigo ? A hora da inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; um mysterio de luz que passa inappercebivel. Com tudo, eu tenho consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de que, por mais ethereo que seja aquelle momento, cantei tamsomente o que<br \/>\n    o imperativo da raz&atilde;o inspirava-me como justo. N&atilde;o exclui, na<br \/>\n    verdade, o sentimento n&#8217;estas composi&ccedil;&otilde;es a que presidia a solid&atilde;o,<br \/>\n    porque ningu&eacute;m o pode,&#8212; mas tamb&eacute;m n&atilde;o sou cabalmente<br \/>\n    um poeta. Ha em mim alguma cousa de menos para completar o anjo das harmonias<br \/>\n    terrestre.<\/p>\n<p> Ha, por ventura, a reflex&atilde;o gelada de Montaigne, que apaga os impetos,<br \/>\n    que matta &aacute;s vezes a mesma sublimidade. Klopstok, eu n&atilde;o posso<br \/>\n    accompanhar teus v&ocirc;os! Pelo lado da arte, meus versos, segundo me parece,<br \/>\n    aspiram a cazar-se com a proza medida dos antigos.<\/p>\n<p> Sabe-se que os latinos modulavam os periodos do discurso.<\/p>\n<p> Sabe-se que os italianos, em seu seculo classico, imitaram miudamente aquelles,<br \/>\n    de quem tinham herdado a litteratura. Sabe-se que os primeiros escriptores<br \/>\n    portuguezes cadenciavam egualmente suas construc&ccedil;&otilde;es. Sabe-se<br \/>\n    que, attingindo a musica prozaica a uma perfei&ccedil;&atilde;o absurda, desterrou-se<br \/>\n    completamente do discurso todo o artificio.<\/p>\n<p> A versifica&ccedil;&atilde;o triumphou sobre as ruinas da proza. Bocage<br \/>\n    deixa de ser poeta, para ser musico. A proza tinha expirado.<\/p>\n<p> Come&ccedil;a-se entam a procurar um acc&ocirc;rdo. O modulo dos latinos,<br \/>\n    estudado e seguido pelos italianos, quasi aperfei-coado pelos portuguezes,<br \/>\n    tinha algum tanto de justo e de bello. A proza recobrou os seus direitos.<\/p>\n<p> Tudo isto traz com sigo algumas perguntas necessarias: Athe onde ir&aacute;<br \/>\n    a melodia da proza ? Ser&aacute; a proza um dia tam acabada de melodia, de<br \/>\n    rythmo, de harmonia mesma, que venha a ser in&uacute;til a musica da f&oacute;rma<br \/>\n    poetica ? Chegar&aacute; um dia a litteratura a um tal grau, que distinga<br \/>\n    a proza e a poesia tamsomente pelo nuance dos pensamentos ? Nascer&aacute;<br \/>\n    um dia d&#8217;estas duas express&otilde;es mais ou menos bellas uma f&oacute;rma<br \/>\n    intermediaria, que expose tanto da singeleza da proza, quanto do artificio<br \/>\n    da versifica&ccedil;&atilde;o ? Ser&aacute; o futuro o mesmo que o passado,&#8212;<br \/>\n    e a proza, em um circulo constantemente vicioso, voltar&aacute; para a poesia,<br \/>\n    e a poesia de novo para a proza ? O Telemaco de Fenelon, os Martyres de Chateaubriand,<br \/>\n    os Dramas modernos, os Romances mesmos de agora, que sam por ventura arrem&ecirc;dos<br \/>\n    de epopeas, n&atilde;o se levantam, como brados magestosos, contra esta ultima<br \/>\n    hypothese? Teremos de viver continuamente no gyro desesperador que descreveu<br \/>\n    o Ecclesiastes ? O que foi ser&aacute; o mesmo que ha de ser em toda a sua<br \/>\n    amplitude,&#8212; ou aquelle axioma sagrado admitte restric&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ? Meu Deus! o vosso Christo, descendo de vosso eterno e fecundo seio, n&atilde;o<br \/>\n    trouxe &aacute; humanidade alguma idea nova, algum facto que inda n&atilde;o<br \/>\n    tivesse sido? Presentemente,&#8212; cuido eu,&#8212; nem uma resposta p&oacute;de<br \/>\n    dar-se a estas quest&otilde;es, si n&atilde;o uma duvida. Pois bem: &#8212;<br \/>\n    meus versos representam esta hesita&ccedil;&atilde;o, segundo penso.<\/p>\n<p> Procuram,, a pezar meu, a naturalidade da proza, e rec&ecirc;am desprezar<br \/>\n    completamente a cad&ecirc;ncia bocagiana.<\/p>\n<p> Alem d&#8217;isto, a quem canta pela raz&atilde;o, e pouco talvez pelo sentimento,<br \/>\n    esta f&oacute;rma singela, quasi n&atilde;o trabalhada, por ventura mais severa,<br \/>\n    &eacute; que melhor lhe p&oacute;de convir.<\/p>\n<p> O aspecto social, que parecem ter estas composi&ccedil;&otilde;es, obrigam-<br \/>\n    me ainda a n&atilde;o finalisar de subito este prologo.<\/p>\n<p> O que cantas ? &#8212; perguntar-me-&atilde;o.<\/p>\n<p> O que podia eu cantar, incerrado nas muralhas solit&aacute;rias de um claustro,<br \/>\n    ouvindo a cada hora os toques continuados de um sino que chama &aacute; ora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vendo uma turma de homens com vestidos talares negros, que levavam-me &acirc;<br \/>\n    recorda&ccedil;&atilde;o dos costumes dos tempos antigos, passeando sempre<br \/>\n    s&ocirc;bre um ch&atilde;o povoado de sepulchros, conversando com o silencio<br \/>\n    do dia e a solid&atilde;o da noute? Cantei o monge e a morte. .<\/p>\n<p> Cantei o monge, porque elle soffre,&#8212; so&iacute;fre muito.<\/p>\n<p> Cantei o monge, por que o mundo o despreza. Cantei o monge, porque elle<br \/>\n    &eacute; hoje uma cousa inutil e ociosa, em consequencia de suas institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    anachronicas. Cantei o monge, por que elle n&atilde;o tem culpa de ser mau,<br \/>\n    nem p&ocirc;de por si s&oacute; ser bom. Cantei o monge, por que elle poderia<br \/>\n    ser uma personagem quasi necess&aacute;ria, dandose- lhe as leis communs da<br \/>\n    humanidade.<\/p>\n<p> Cantei o monge, por que elle &eacute; infeliz. Cantei o monge, por que elle<br \/>\n    &eacute; escravo, n&atilde;o da cruz, mas do arbitrio est&uacute;pido de outro<br \/>\n    homem. Cantei o monge, por que n&atilde;o ha ningu&eacute;m, que se occupe<br \/>\n    de cantal-o.<\/p>\n<p> E por isso que cantei o monge, cantei tamb&eacute;m a morte. &Eacute; ella<br \/>\n    o epilogo mais bello de sua vida: &eacute; seu &uacute;nico triumpho.<\/p>\n<p> Na verdade, ao homem sincero amante de sua patria, doe-lhe dentro da alma<br \/>\n    ver tanta gente estaccionada, sem nada fazer, podendo produzir tanto bem.<br \/>\n    N&atilde;o ! a charidade que o Christo insinou, n&atilde;o &eacute; egoista<br \/>\n    : &#8212; imagem real do pelicano, que arranca o cora&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    dal-o aos filhos ! Muitos, a quem tomam o cuidado de chamar &#8212; impios,<br \/>\n    &#8212; censuram o monge no monge. Eu deploro-o somente, por que elle n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; criminoso. A institui&ccedil;&atilde;o, a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que, depois de lhe tirar o trabalho, hoj&#8217;em dia j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    precizo, de rotear montanhas, n&atilde;o lhe forneceu outro qualquer em ordem<br \/>\n    &aacute;s necessidades da epocha, mas antes convidou-o : a uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de &oacute;cio, no qual elle n&atilde;o p&oacute;de ser mais, que | mau e<br \/>\n    desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Eu fallo com o cora&ccedil;&atilde;o entre as m&atilde;os acerca de todas<br \/>\n    essas cqusas,&#8212; de todos esses padecimentos.<\/p>\n<p> Quorum pars magna fui.<\/p>\n<p> Como esse Eneas, desenhado pela imagina&ccedil;&atilde;o de Virgilio, sahindo<br \/>\n    do boqueir&atilde;o das chammas, que ainda lavram, posso, &#8212; gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus! &#8212; fallar de Troya, sem correr seus riscos.<\/p>\n<p>Oh monges,&#8212; feitos assim como estais, constitu&iacute;dos d&#8217;este modo,&#8212;<br \/>\n    que sois mais que estas arvores infructiferas, de que falla o evangelho, que<br \/>\n    n&atilde;o servem, si n&atilde;o para o fogo? . Si o homem Deus passasse por<br \/>\n    v&oacute;s, como passou pela figueira esteril, n&atilde;o vos destruiria pela<br \/>\n    raiz, como o raio fulminante da maldi&ccedil;&atilde;o eterna ? S&ecirc;de<br \/>\n    jesu&iacute;tas, como sois, s&ecirc;de-o: mas s&ecirc;de-o tambem, como os<br \/>\n    Anchiettas, os Nobregas, os Vieiras. Por que n&atilde;o? Olhae : &#8212; ahi<br \/>\n    estam nossos sert&otilde;es, nossas florestas seculares, sombreando immenso<br \/>\n    gentio, acubertando um culto infame, defendendo barbaros costumes, balou&ccedil;ando<br \/>\n    de terror e de esperan&ccedil;a. Ide, apostolos do Unigenito do Eterno, atirae-vos<br \/>\n    a essas mattas, pregae o evangelho, civilizae! N&atilde;o &eacute; esta a<br \/>\n    vossa miss&atilde;o? A civilisa&ccedil;&atilde;o do mundo ainda carece de<br \/>\n    v&oacute;s. Os Thom&eacute;s ainda sam necessarios.<\/p>\n<p> Ide, athletas da charidade, marchae para a conquista do pensamento christ&atilde;o.<br \/>\n    Que vos falta ? Vosso mestre vos inviava &aacute;s na&ccedil;&otilde;es &#8212;<br \/>\n    munidos tamsomente da palavra.<\/p>\n<p> Os Nobregas n&atilde;o tinham mais do que v&oacute;s,&#8212; e n&oacute;s,&#8212;<br \/>\n    n&atilde;o nos invergonhemos,&#8212; fomos civilisados por elles.<\/p>\n<p> Eis-aqui porque a memoria dos filhos de Loyola me &eacute; cara, eis-aqui<br \/>\n    por que eu os canto tamb&eacute;m a elles, pelo que fizeram,&#8212; como vos<br \/>\n    canto a v&oacute;s, pelo que podieis fazer.<\/p>\n<p> Commetteram erros, elles: mas n&atilde;o &eacute; um dos axiomas da historia<br \/>\n    &#8212; que os que imprehendem grandes cousas, cqmmettam egualmente grandes<br \/>\n    erros ? .<\/p>\n<p> Por essas convic&ccedil;&otilde;es,&#8212;n&atilde;o escure&ccedil;o,&#8212;achar-me-&atilde;o<br \/>\n    sem duvida em contradic&ccedil;&atilde;o nos meus cantares.<\/p>\n<p> Meditae, porem, examinae o fundo, e l&aacute; incontrareis a unidade, o<br \/>\n    foco, o centro, o principio da luz, embora o prisma represente raios de diversas<br \/>\n    cores.<\/p>\n<p> O seculo passado para mim &eacute; sempre um s&eacute;culo magnanimo de<br \/>\n    crimes: mas nem um seculo escoou-se debalde no percorrer dos tempos : o seculo<br \/>\n    passado &eacute; tamb&eacute;m um s&eacute;culo intelligente e progressista.<br \/>\n    Remontando-me algumas vezes ao seio d&#8217;elle, eu, com a alma fundida na educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seculo dezenove, arripio-me de horror, e canto a charidade christan, que<br \/>\n    l&aacute; incontro menoscabada. Procuro entam revestir-me com os adem&atilde;es<br \/>\n    dos homens catholicos daquella epocha, esque&ccedil;o-me exteriormente de<br \/>\n    mim, detesto- lhe a moda absurda de impiedade, e maldigo aquelle circulo de<br \/>\n    ferro, em que circumscreveu-se aquelle periodo de torpeza. Os meus &#8212;<br \/>\n    Claustros&#8212; e algumas composi&ccedil;&otilde;es mais assumiram esta cor.<br \/>\n    Quando, porem, limito-me ao meio-seculo, em que tenho apparecido, e deparo<br \/>\n    com tudo o que me cerca, digo: &#8212; Respeitemos nossos pais.&#8212; Si<br \/>\n    elles olharam para a charidade christan, para a f&eacute; evangelica, como<br \/>\n    para estatuas de irriz&atilde;o,&#8212; collocaram todavia em um altar a liberdade.<br \/>\n    A liberdade tambem &eacute; filha do Christo. O meu poemeto &#8212; O monge<br \/>\n    &#8212; representa principalmente este estado.<\/p>\n<p> Eis-ahi, pois, a defini&ccedil;&atilde;o de meu trabalho. Julgae-o por essa<br \/>\n    maneira,&#8212; e s&ecirc;de rigorosos, sim,&#8212; porem justos.<\/p>\n<p> A despeito de toda esta minha confiss&atilde;o, eu sinto, como por instincto,<br \/>\n    que muitos, lendo este livro segundo seus proprios gostos, e n&atilde;o segundo<br \/>\n    o espirito que por todo elle domina, dir&atilde;o que &eacute; uma collec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ora&ccedil;&otilde;es e blasphemias.<\/p>\n<p> N&atilde;o! eu n&atilde;o direi isto. Lembrarei somente que esta &eacute;<br \/>\n    a obra de um joven educado no seio de uma corpora&ccedil;&atilde;o religiosa.<br \/>\n    &Eacute; esta toda a minha apologia.<\/p>\n<p> N&atilde;o posso concluir este prologo sem cumprir com o dever sagrado do<br \/>\n    agradecimento para com o Rvm. Sr. conego Jos&eacute; Joaquim da Fonseca Lima,<br \/>\n    e padre mestre Domingos Jos&eacute; de Britto, pelas lisongeiras express&otilde;es<br \/>\n    de anima&ccedil;&atilde;o e benevolencia, que me dirigiram por vezes nas columnas<br \/>\n    do Noticiador Catholico. O illustrado publicista Sr. Jos&eacute; Pedro Xavier<br \/>\n    Pinheiro &eacute; tambem para com migo credor de muita estima e gratid&atilde;o,<br \/>\n    pelo modo distincto e acoro&ccedil;oador, com que tractou-me em sua Revista<br \/>\n    no peri&oacute;dico Justi&ccedil;a. O Sr.<\/p>\n<p> Dr. Ricardo Gumbleton Dunt penhorou-me egualmente com as palavras de alento,<br \/>\n    que dispensou largamente com migo, na Aurora Paulistana. Julgo preencher um<br \/>\n    compromisso bem difficil, estampando n&#8217;esta pagina a abundancia de minha gratid&atilde;o,<br \/>\n    muito mais ainda quando os liames da amizade n&atilde;o me estreitam a nem<br \/>\n    um d&#8217;elles.<\/p>\n<h2>JOS&Eacute; JOAQUIM JUNQUEIRA FREIRE<\/h2>\n<p>Era joven, e bem joven, o Bahiano Junqueira Freire! Nascido no dia 31 de<br \/>\n    Dezembro de 1832, entrou para o convento dos Benedictinos na edade de 19 annos,<br \/>\n    e nelle passou o tempo precioso da juventude. Conseguiu porem secularisar-<br \/>\n    se em 1854, trocando ent&atilde;o a solid&atilde;o pela sociedade, e deixando<br \/>\n    a cellula do monge para se atirar na existencia contrariada do mundo.<\/p>\n<p> A parca cruel arrebatou-lhe a vida immediatamente; ceifou- a assim em flor,<br \/>\n    sem nenhuma piedade e no momento em que, ao desabrochar, j&aacute; espargia<br \/>\n    tanto aroma, e promettia &aacute; terra da p&aacute;tria um genio admir&aacute;vel!<br \/>\n    Desappareceu do claustro; n&atilde;o era porem o mundo destinado para elle;<br \/>\n    desappareceu logo do mundo; deixou todavia para mem&oacute;ria um livro, pouco<br \/>\n    volumoso, mas rico de inspira&ccedil;&otilde;es elevadas, de pequeno numero<br \/>\n    de paginas, e resplandecente de poesia, e poesia verdadeira! S&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    raros os poetas! N&atilde;o faltam versificadores, principalmente nas l&iacute;nguas<br \/>\n    do meio-dia da Europa, cujas palavras se prestam excellentemente &aacute;<br \/>\n    rima, e &eacute; a phrase j&aacute; por si harmoniosa e cadente; os poetas<br \/>\n    que todavia nascem inspirados, e que a natureza enriquece com imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espantosa; os poetas verdadeiros, raros s&atilde;o, porque a Providencia tem<br \/>\n    predilectos, e n&atilde;o podem ser estes numerosos.<\/p>\n<p> Era Junqueira Freire poeta! O pequeno livro das INSPIRA&Ccedil;&Otilde;ES<br \/>\n    DO CLAUSTRO o demonstra; ardia-lhe no c&eacute;rebro a chamma divina; ainda<br \/>\n    quente deve estar o seu corpo, si bem que j&aacute; sepultado na terra, e<br \/>\n    j&aacute; d&#8217;elle fall&aacute;mos como de uma cousa que foi, de uma nuvem que<br \/>\n    passou, e de um som que se sumiu no espa&ccedil;o. <\/p>\n<p>Parece que teve um presentimento de morte precoce: sabido do claustro, publicou<br \/>\n    o bebo livro das inspira&ccedil;&otilde;es, e logo que o entregou ao mundo,<br \/>\n    como para deixar-lhe a dor e a saudade, feixou os olhos, e desceu &aacute;<br \/>\n    sepultura! N&atilde;o &eacute; novo este acontecimento na historia litteraria:<br \/>\n    Chatterton morreu antes de 18 annos de edade, Gilbert chegou apenas aos 29.<\/p>\n<p> Como Chatterton e Gilbert, sentia o poeta Junqueira Freire intensa necessidade<br \/>\n    de olhar para o c&eacute;o e para a eternidade; no meio de suas dores do claustro,<br \/>\n    como aquelles seus irm&atilde;os, no meio das angustias da fome, appellava<br \/>\n    o vate para Deos, e no seio immenso do Creador do mundo encontrava abrigo<br \/>\n    e consola&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p> Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E vaga, e vaga, aligera e<br \/>\n    perdida Pelas soid&otilde;es do Armamento ethereo, Bem como o seraphim, que<br \/>\n    esguarda os mundos, Livre os celestes paramos percorre? Porque penetra, &aacute;s<br \/>\n    vezes arrojada, Nos mysterios reconditos do eterno, E toda entorna-se a seus<br \/>\n    p&eacute;s,&#8212;bem como O alabastro de nardo aos p&eacute;s do Christo?<br \/>\n    Porque se abra&ccedil;a em incorporeo amplexo Co&#8217;os ang&eacute;licos seres<br \/>\n    de alem-astros, E, como as chaves das eternas portas, Abre os thesouros do<br \/>\n    poder do Alt&iacute;ssimo, E nelles bebe inexhauriveis gozos?<\/p>\n<p> Extasia-se assim Junqueira Freire, o poeta que a Bahia e o Brazil acabam<br \/>\n    de perder, quando &aacute; mente lhe fulgurava a imagem solemne da immensidade;<br \/>\n    sonhava, delirava, adivinhava, como sonham, deliram e adivinham os grandes<br \/>\n    genios que nascem feitos e n&atilde;o se formam no mundo.<\/p>\n<p> Poeta, que vida fora a tua ? tu o dizes quando pintas as dores do claustro.<br \/>\n    Ali se quebrou a tua juventude como o a&ccedil;o ao ro&ccedil;ar da pedra;<br \/>\n    perderam-se os teus gemidos pelos longos corredores e sombrias cellas: ajoelhado<br \/>\n    ao p&eacute; do altar, e em cima de sepulturas, &eacute; que te vinha o allivio,<br \/>\n    a esperan&ccedil;a, e a voz.do anjo, que te chamava para outro mundo, que<br \/>\n    devia ser o teu, pois que &eacute; o mundo que te merecia.<\/p>\n<p>longos corredores e sombrias cellas: ajoelhado ao p&eacute; do altar, e em<br \/>\n    cima de sepulturas, &eacute; que te vinha o allivio, a esperan&ccedil;a, e<br \/>\n    a voz.do anjo, que te chamava para outro mundo, que devia ser o teu, pois<br \/>\n    que &eacute; o mundo que te merecia.<\/p>\n<p>Gosto de meditar, de noite, &aacute;s vezes, Como um infante, Espasmado no<br \/>\n    olhar, fitando o corpo Que tem diante1.<\/p>\n<p>Entre tantos canticos e pela maxima parte canticos de dor, que lhe arranca<br \/>\n    a solid&atilde;o, parece que n&atilde;o ha escolha ; cont&ecirc;m quasi todos<br \/>\n    bellezas que denunciam um genio poetico da primeira plana: imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sentimento, ideas, paix&otilde;es, inspira&ccedil;&atilde;o sublime, tudo<br \/>\n    se allia perfeitamente com a selec&ccedil;&atilde;o da palavra, o apropriado<br \/>\n    da phrase, a maviosidade do verso e a justeza da rima.<\/p>\n<p> Junqueira Freire, si pela imagina&ccedil;&atilde;o pertencia &aacute; eschola<br \/>\n    de Sousa Caldas, Francisco Manuel, Almeida Garrett e Diniz, pela f&oacute;rma,<br \/>\n    vestes exteriores, e metri&iacute;ica&ccedil;&atilde;o, recebeu de certo li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Gonzaga, Cam&otilde;es, Gar&ccedil;&atilde;o, Bocage e Jos&eacute; Basilio<br \/>\n    da Gama.<\/p>\n<p> Como &eacute; lindo e melanc&oacute;lico o c&acirc;ntico intitulado &#8212;<br \/>\n    Um pedido&sup2; ! Com este cantico rivalisam em do&ccedil;ura e tristeza o<br \/>\n    da profiss&atilde;o de frei Jo&atilde;o das Merc&ecirc;s Ramos, a can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    intitulada&#8212; Ella,&#8212;os versos aos jesu&iacute;tas, cheios d&#8217;uma<br \/>\n    c&ocirc;r local brazileira, que muilo agradam, e as el&egrave;gias &#8212;<br \/>\n    Flor murcha do altar, Freira, e Devota; derrama-se a poesia por todas as strophes,<br \/>\n    versos, phrases, e palavras; sente-se com a sua leitura, e sente-se profundamente,<br \/>\n    a perda d&#8217;um genio que come&ccedil;ava os seus v&ocirc;os, que j&aacute; se<br \/>\n    podem chamar &#8212; v&ocirc;os de &aacute;guia! Ah! si a dura morte se n&atilde;o<br \/>\n    apressasse a riscal-o do numero dos viventes; si este joven de 22 annos tivesse<br \/>\n    tempo de amadurar o seu ingenho, moderar e regularisar a sua inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    colher no estudo mais profundeza de pensamentos, que grande poeta que f&ocirc;ra,<br \/>\n    e quanta gloria derramaria sobre o seu paiz natal! O c&acirc;ntico &aacute;<br \/>\n    profiss&atilde;o de frei Jo&atilde;o das Merc&ecirc;s denota o sentimento,<br \/>\n    magoa e d&ocirc;r, que j&aacute; haviam come&ccedil;ado a apoderar- se do<br \/>\n    seu espirito, e desbotar-lhe as c&ocirc;res mais suaves; o isolamento do claustro<br \/>\n    n&atilde;o poder&aacute; vencer as paix&otilde;es do joven, e quebrar-lhes<br \/>\n    os brios naturaes; affigurava-se-lhe o claustro um inferno medonho, aonde<br \/>\n    lhe haviam enterrado a exist&ecirc;ncia para lh&#8217;a amargurar e emmurchecer;<br \/>\n    no meio das suas angustias exhalava suspiros desesperados como os Claustros,<br \/>\n    Ap&oacute;stata, Converso, e Misantropo; &aacute;s vezes felizmente o salvava<br \/>\n    o sopro divino, arrebatando-lhe o espirito e v&ocirc;os para as ideas melancholicas,<br \/>\n    religiosas e moraes, que brilham e resplandecem primorosamente na Medita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Incenso do altar, Irm&atilde;s de caridade, e Pobre soberbo.<\/p>\n<p> Quereis ouvir como se perdia aquelle espirito poetico, quando balan&ccedil;ando<br \/>\n    entre a desespera&ccedil;&atilde;o do isolamento e as cren&ccedil;as religiosas,<br \/>\n    entre as saudades da vida humana e a pris&atilde;o da cellula, fazia soar<br \/>\n    a lyra com arrebatamentos dolorosos? L&ecirc;de o C&acirc;ntico &aacute; profiss&atilde;o<br \/>\n    de frei Jo&atilde;o das Merc&ecirc;s&sup1;.<\/p>\n<p> Versos expressivos tem tambem o cantico da Medita&ccedil;&atilde;o; ha um<br \/>\n    doer constante, e penar contemplativo, que se observa nesta existencia juvenil<br \/>\n    e ardente, que fere e rasga o peito, e chama as lagrimas aos olhos.<\/p>\n<p>Oh! morra o cora&ccedil;&atilde;o &#8212; germen fecundo De mil tormentos;<br \/>\n    Desfalle&ccedil;am-lhe as fibras &#8212; espedacem-se Os filamentos.<\/p>\n<p> Isenta de paix&otilde;es &#8212; de amor, ou odio, Surja a raz&atilde;o;<br \/>\n    N&atilde;o obede&ccedil;a escrava aos sentimentos Do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Torne-se o cora&ccedil;&atilde;o lampada extincta, Cinza no lar; E deixe<br \/>\n    que a raz&atilde;o veleje livre Em largo mar.<\/p>\n<p> Creia n&#8217;um Deus &#8212; e dos dul&ccedil;ores goze De almo ascetismo; N&atilde;o<br \/>\n    mais lhe r&ocirc;a as visceras o cancro Do scepticismo.<\/p>\n<p> A divida infernal, batendo as azas, Perdendo as cores, Precepite-se s&uacute;bito<br \/>\n    nas chammas Exteriores.<\/p>\n<p> E Deus, que vivifica o alvar pinheiro, E a tenra planta ; Que os soberbos<br \/>\n    calcina, e que os humildes Do p&oacute; levanta; De minha vil baixeza, como<br \/>\n    os homens, Ah ! &#8212; n&atilde;o se peja; Que elle m&atilde;o cheia de mil<br \/>\n    dons em todos Largo despeja.<\/p>\n<p> Mas si t&eacute;&#8217;qui parece deslembrado, Triste de mim! Si n&atilde;o manda<br \/>\n    a guardar minh&#8217;alma dubia Um cherubim! Si nunca se lembrar que um ente existe<br \/>\n    N&#8217;essa amargura! Melhor n&atilde;o f&ocirc;ra me gelasse o sangue A morte<br \/>\n    dura ?<\/p>\n<p>Bastam estes extractos para conhecer-se o genio poetico que se escondia sob<br \/>\n    as vestes do monge; servem elles para deplorar-se o passamento prematuro de<br \/>\n    uma existencia t&atilde;o cheia de futuro, de um engenho t&atilde;o ricamente<br \/>\n    mimoseado pela Providencia divina. Como era joven n&atilde;o podia escapar<br \/>\n    &aacute; sorte humana e aos defeitos da mocidade; ha nos seus canticos alguma<br \/>\n    exaggera&ccedil;&atilde;o de sentimentos, alguma extravagancia de ideias:<br \/>\n    &eacute; defeito da edade. &Eacute; tambem influxo da eschola de Lord Byron,<br \/>\n    cuja leitura se tem espalhado por todo o mundo, e produz nos cerebros juvenis<br \/>\n    tendencias desordenadas, que s&oacute; a edade, e a raz&atilde;o amadurecida<br \/>\n    sabem evitar.<\/p>\n<p> O talento e o genio poetico nascem espontaneamente, recebem porem da educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    do tempo, do estudo, e do mundo, o aperfei&ccedil;oamento necessario que lhe<br \/>\n    troca as vestes brilhantes e seductoras do fogo ardente pelos v&ocirc;os acertados<br \/>\n    e sublimes do enthusiasmo reflectido.<\/p>\n<p> Tem can&ccedil;&otilde;es que revelam qualidades de Juvenal: a cantata a<br \/>\n    Frei Bastos, que parece que ajuntava os dotes da poesia e oratoria a vicios<br \/>\n    immundos que lhe estragavam o corpo e desseccavam-lhe o espirito, &eacute;<br \/>\n    interessantissima, alem de pittoresca: denuncia a for&ccedil;a do poeta, e<br \/>\n    a eleva&ccedil;&atilde;o do espirito que o animava1.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi infelizmente Junqueira Freire o unico poeta dos nossos dias<br \/>\n    e da nossa terra que a morte ceifou na juventude, roubando &aacute; litteratura<br \/>\n    brazileira escriptos, que promettia gloriosos o genio das florestas americanas.<br \/>\n    Dutra e Mello, Alvares de Azevedo, Francisco Bernardino, Pinheiro Guimar&atilde;es,<br \/>\n    e Casimiro d&#8217;Abreu j&aacute; tambem desceram ao sepulchro, legando poesias<br \/>\n    inacabadas, que provam todavia que sobre este solo n&atilde;o espargiu s&oacute;mente<br \/>\n    o Creador da natureza favores divinos para o bem estar, crescimento, e riqueza<br \/>\n    do povo, que o habita. Pretendeu tambem, em sua infinita bondade, que o espirito<br \/>\n    se elevasse, e a imagina&ccedil;&atilde;o dos homens subisse &aacute; comprehens&atilde;o<br \/>\n    dos seus mysterios, podendo satisfazer as precis&otilde;es moraes da sociedade,<br \/>\n    que si necessita de marchar physicamente, n&atilde;o consegue fortalecer-se,<br \/>\n    e medrar sem o alimento para a alma, e a instruc&ccedil;&atilde;o para o pensamento<br \/>\n    immaterial, que dirige o homem.<\/p>\n<p> Durante os tempos coloniaes enriqueceu-se a litteratura portugueza com os<br \/>\n    productos dos genios, que creou a sua conquista dos Tropicos. Era de raz&atilde;o,<br \/>\n    porque formavamos todos o mesmo paiz, e um s&oacute; reino. Basilio da Gama,<br \/>\n    Sousa Caldas, Dur&atilde;o, Alexandre de Gusm&atilde;o, Antonio Jos&eacute;,<br \/>\n    Rocha Pitta, os dous Alvarengas, Gregorio de Mattos, Benevides, os bispos<br \/>\n    de Coimbra e Elvas, Moraes, Bartholomeu Gusm&atilde;o, Cl&aacute;udio Manuel,<br \/>\n    Mello Franco, S&atilde;o Carlos, Antonio de S&aacute;, Vidal de Negreiros,<br \/>\n    Camaras, Concei&ccedil;&atilde;o Velloso, e tantos engenhos mais, nascidos<br \/>\n    no Brazil, enriqueceram as paginas da historia portugueza nas artes, sciencias,<br \/>\n    letras, e politica; nos campos sanguinolentos da guerra, e nas agradaveis<br \/>\n    planicies da paz. Ergue-se com a sua emancipa&ccedil;&atilde;o politica uma<br \/>\n    na&ccedil;&atilde;o nova, &aacute; qual D. Pedro I e Jos&eacute; Bonifacio<br \/>\n    ensinam os primeiros passos, e illustra o visconde de Cayr&uacute; com a sua<br \/>\n    instruc&ccedil;&atilde;o variada.<\/p>\n<p> Brilham j&aacute; a tribuna sagrada e parlamentar com uma gloria propria.<br \/>\n    Uma historia nacional se ergue &aacute; parte, e caminha o paiz para os seus<br \/>\n    destinos particulares. Animam associa&ccedil;&otilde;es litterarias o desenvolvimento<br \/>\n    espiritual.<\/p>\n<p> S&atilde;o Leopoldo practica o ramo historico, acompanhado por J. F. Lisboa,<br \/>\n    eVarnhagem, Januario, e Pedro Branca ent&ocirc;am canticos agradaveis. Abre<br \/>\n    Magalh&atilde;es espa&ccedil;os novos para a poesia. Seguem-no Gon&ccedil;alves<br \/>\n    Dias, Porto-Megre, Firmino, Norberto, Macedo, e tantos jovens talentos que<br \/>\n    fulguram no horizonte da patria. Reune e publica o Instituto materiaes os<br \/>\n    mais importantes para a historia e geographia.<\/p>\n<p> J&aacute; mesmo no theatro apparecem engenhos origiginaes, que tra&ccedil;am<br \/>\n    scenas copiadas do povo com quem vivem.<\/p>\n<p> Brilham ainda hoje mais as letras, na verdade, no seio da antiga metropoli;<br \/>\n    n&atilde;o est&atilde;o porem n&#8217;ella mais adiantadas as sciencias practicas<br \/>\n    e abstractas: e os progressos materiaes no Brazil tomaram sem duvida a dianteira;<br \/>\n    a liberdade politica ganhou mais profundas raizes; e a amor &aacute;s institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tornou-se mais universal, e seguro.<\/p>\n<p>Corra o tempo. Desappare&ccedil;am todas as rivalidades, filhas de prejuizos<br \/>\n    antigos e hoje sem a menor base. A lingua &eacute; a mesma; e ajudando-se<br \/>\n    ambas as litteraturas, honrar-se-ha cada uma das duas na&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o que &eacute; seu pr&oacute;prio, e luctar&atilde;o, sem o mesquinho<br \/>\n    espirito da inveja e despeito, no vasto e brilhante theatro da intelligencia<br \/>\n    humana, elogiando-se e estimando-se mutuamente.<\/p>\n<p> Assim o practicam os Estados-Unidos da America do Norte, e n&atilde;o deram<br \/>\n    elles &aacute; Inglaterra, durante os tempos coloniaes, vultos not&aacute;veis,<br \/>\n    que honrassem a m&atilde;e patria, como o fez o Brazil para com Portugal.<br \/>\n    A independ&ecirc;ncia das col&ocirc;nias britannicas forneceu-lhes pccasi&atilde;o<br \/>\n    ent&atilde;o de tornar conhecidos Franklin e Washington. &Aacute; nacionalidade<br \/>\n    que criaram, devem o impulso e movimento que recebem os espiritos actualmente.<\/p>\n<p> Irving, Cooper, Story, Longfellow, Webster, Prescott, Banckroft, Wheaton<br \/>\n    e Maury, s&atilde;o vivas demonstra&ccedil;&otilde;es de que a terra americana<br \/>\n    produz tamb&eacute;m talentos que honram a lingua ingleza, e em todos os ramos<br \/>\n    dos conhecimentos humanos. Distingue-se porem a litteratura propriamente da<br \/>\n    America; forma j&aacute; uma esp&eacute;cie de nacionalidade; guarda como<br \/>\n    que uma autonomia. Ha no colorido, na express&atilde;o, e no pr&oacute;prio<br \/>\n    desenho a especialidade do compatriota de Washington; differem as sociedades<br \/>\n    em pontos sens&iacute;veis, como pode a litteratura deixar de acompanhal-as,<br \/>\n    quando n&atilde;o &eacute; ella mais do que a imagem intellectual das sociedades?<br \/>\n    Possue a Gr&atilde;-Bretanha os seus clans e montanhezes, as suas luctas civis,<br \/>\n    e torneios do cavalheirismo, para que um Walter Scott os pinte, e poetise<br \/>\n    um Shakspeare, historiadores nacionaes mais profundos do que Hume e Robertson.<\/p>\n<p> Apresenta a America do Norte os seus indios bravios, com os pittorescos<br \/>\n    costumes, e h&aacute;bitos originaes, guerreando constantemente os invasores<br \/>\n    europeus, que vinham roubarlhes a terra, a ca&ccedil;a, os lagos e os rios,<br \/>\n    aonde viviam e viveram os seus av&oacute;s: &eacute; esta a primeira differen&ccedil;a,<br \/>\n    hist&oacute;rica inteiramente. Nasce a segunda do estado actual do governo,<br \/>\n    institui&ccedil;&otilde;es, leis, usos e tend&ecirc;ncias: que separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    immensa entre os dois povos! Apparece ainda uma terceira, e notavelmente grave.<br \/>\n    O americano de hoje n&atilde;o &eacute; mais o descendente do inglez, &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o inglez como &eacute; este normando; procede o povo inglez de hoje<br \/>\n    de uma &uacute;nica ra&ccedil;a, saxonica, normanda, ou da primitiva, que<br \/>\n    encontraram os romanos, quando, no seu tempo de dominio universal, se apoderaram<br \/>\n    das ilhas d&#8217;alem da Mancha ? De certo, n&atilde;o. Formou-se uma na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    original da agglomera&ccedil;&atilde;o de todos os povos, que para alli se<br \/>\n    dirigiram, e que, inimigos ao principio, se foram, depois das successivas<br \/>\n    conquistas, approximando e aluando, reunindo elementos heterogeneos, e fundindo<br \/>\n    as ra&ccedil;as. &Eacute; assim hoje o povo americano. A origem foi, em geral,<br \/>\n    britannica; mas a torrente de colonisa&ccedil;&atilde;o, e as tendencias da<br \/>\n    democracia, a tem metamorphoseado j&aacute;, de modo a nem reconhecer-se talvez<br \/>\n    mais a tintura primitiva.<\/p>\n<p> Am&aacute;lgama de Allem&atilde;o, Inglez, Francez. Hespanhol, Italiano,<br \/>\n    e at&eacute; de gente do Norte, tornou-se uma ra&ccedil;a nova e distincta,<br \/>\n    cujos tra&ccedil;os se manifestam &aacute; primeira vista, apesar da homogeneidade<br \/>\n    da lingua. N&atilde;o pode portanto escapar a sua litteratura &aacute;s diverg&ecirc;ncias<br \/>\n    sens&iacute;veis e graves, que separam a sua sociedade da sociedade da antiga<br \/>\n    metr&oacute;pole.<\/p>\n<p> Si bem que entre o povo do Brazil e o de Portugal n&atilde;o appare&ccedil;a<br \/>\n    uma t&atilde;o grande differen&ccedil;a, porque nem as institui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e governo das duas na&ccedil;&otilde;es se distinguem em t&atilde;o larga<br \/>\n    escala, e nem tem o Brazil modificado a ra&ccedil;a conquistadora com a infus&atilde;o<br \/>\n    de sangue de outras ra&ccedil;as diversas, como succedeu no Norte da America;<br \/>\n    ha todavia no c&eacute;o, na terra, nos mares, nos rios, na atmosphera, na<br \/>\n    distancia, nas produc&ccedil;&otilde;es da natureza, emfim, uma separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o palpavel, que j&aacute;, durante os tempos coloniaes, distinguiramse<br \/>\n    alguns poetas nascidos no Brazil, pelas vestes, colorido, e tendencias de<br \/>\n    seus escriptos, dos vates da Lusitania, si bem que a maior parte, educando-se,<br \/>\n    e vivendo na Europa, adoptaram inteiramente os habitos portuguezes, e seguiram<br \/>\n    as inspira&ccedil;&otilde;es de Ferreira, Quita, e S&aacute; de Miranda.<\/p>\n<p> Souberam todavia tomar differente direc&ccedil;&atilde;o, Cl&aacute;udio<br \/>\n    Manuel, Basilio da Gama, e Dur&atilde;o, que se podem appellidar os chefes<br \/>\n    da litteratura brazileira, que hoje, com a emancipa&ccedil;&atilde;o politica,<br \/>\n    e a vida propria da sociedade, desenvolve a sua autonomia, e segue os v&ocirc;os<br \/>\n    da aguia, que paira sobre as alcantiladas cordilheiras, que se perdem no espa&ccedil;o,<br \/>\n    e espantam e embellezam os olhos dos viajantes.<\/p>\n<p> Erga-se pois a mocidade brasileira! Tenha f&eacute; nos seus destinos, e<br \/>\n    inspire-se com a patria admiravel, que lhe coube na partilha que fez da terra<br \/>\n    a Providencia divina! Desenvolva- se a sua litteratura no meio do seu clima<br \/>\n    esplendido e soberbo, e encontre ella no seu povo o apoio e protec&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a que tem indisputavel direito!<\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">PORQUE CANTO?<\/a><\/h4>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E v&aacute;ga e v&aacute;ga,<br \/>\n    aligera e perdida, Pelas soid&otilde;es do Armamento ethereo, Bem como o seraphim<br \/>\n    que esguarda os mundos, Livre os celestes p&aacute;ramos percorre? Porque<br \/>\n    penetra, &aacute;s vezes arrojada, Nos mysterios reconditos do Eterno, E toda<br \/>\n    intorna-se a seus p&eacute;s,&#8212; bem como O alabastro de nardo aos p&eacute;s<br \/>\n    do Christo ? Porque se abra&ccedil;a em incorporeo amplexo Co&#8217;os angelicos<br \/>\n    s&ecirc;res de alem-astros, E, como a chave das eternas portas, Abre os thesouros<br \/>\n    do poder dot Altissimo, E n&#8217;elles bebe inexhauriveis gosos?<\/p>\n<p>Porque Deus &#8212; substancia eterna &#8212; D&#8217;onde minh&#8217;alma baixou,<br \/>\n    Quer &aacute;s vezes que ella suba &Aacute;s delicias, que deixou, 1<\/p>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E por entre deliquios exaltados.<\/p>\n<p> Desce &aacute;s fataes, exteriores trevas, Aos in sondaveis boqueir&otilde;es<br \/>\n    do inferno, Bem como o anjo da soberba outr&#8217;ora Pela invisivel dextra fulminado?<br \/>\n    Porque prova um prazer terrivel, forte, Em ver a imagem d&#8217;esse horror tremendo,<br \/>\n    Em ver a face d&#8217;esse cahos torvado, Em ver o orgulho do peccado in&iacute;indo<br \/>\n    ? Porque no fundo da geenna ardente Sentir procura as emo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais barbaras, Gostar deseja sensa&ccedil;&otilde;es de fogo, Como procura<br \/>\n    a fatua mariposa Chammas de luz, que ha de, talvez, queimal-a ?<\/p>\n<p>Porque Deus tambem &aacute;s vezes Para os abysmos nos lan&ccedil;a, Para<br \/>\n    vermos seus castigos, Seus thesouros de vingan&ccedil;a !<\/p>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E sente em si um vacuo desmedido,<br \/>\n    Uma infinita inani&ccedil;&atilde;o ignota, Como talvez o espa&ccedil;o, o<br \/>\n    qual se estende, Se derrama e se perde a nossos olhos? Porque procura &#8212;<br \/>\n    sequiosa, arfando &#8212; Encher esse vazio indefinivel,<\/p>\n<p>Qual para labios torridos, queimados, Enche-se um calix de crystal suave<br \/>\n    ? Porque procura, um cora&ccedil;&atilde;o extranho, Qualquer embora,&#8212;<br \/>\n    mas que o seu n&atilde;o seja, Para n&#8217;elle fundir-se inteiro, inteiro, Como<br \/>\n    varios metaes de varias sortes Ao mesmo fogo identicos se ligam ?<\/p>\n<p>Porque Deus &#8212; saber eterno &#8212; Taes a n&oacute;s nos quiz formar:<br \/>\n    Quiz a hera unida ao tronco, Quiz a terra unida ao mar.<\/p>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E v&aacute;ga pelo mundo, e<br \/>\n    julga os homens, Qual severo juiz, e os escarnece, E compondo um sarcasmo<br \/>\n    &aacute;s phrases suas Co&#8217;o riso de Democrito os insulta ? Porque descr&ecirc;<br \/>\n    das affei&ccedil;&otilde;es, que mostram, Francos, singelos, como o rir do<br \/>\n    infante? Porque despresa um cora&ccedil;&atilde;o de amigo, Que o foi por<br \/>\n    tempos, na apparencia ao menos, E falsario, traidor, demonio o chama, Por<br \/>\n    um assomo de suspeita ou cholera ? Porque da crea&ccedil;&atilde;o blasphema<br \/>\n    &aacute;s vezes, E tem por maus os sentimentos de homem, E a natureza dos<br \/>\n    mortaes exprobra Ante o Senhor, que nol&#8217;a deu tam justa ?<\/p>\n<p>Porque Deus tambem &aacute;s vezes O bra&ccedil;o de n&oacute;s retira, Para<br \/>\n    v&ecirc;rmos os perigos, Em que noss&#8217;alma se atira !<\/p>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, E n&#8217;um inlevo mentiroso sonha,<br \/>\n    E d&aacute; no seio de um prazer sem termos, Esbarrando no amor, como na imagem<br \/>\n    Da ventura maior que o mundo offerta ? Porque se abra&ccedil;a n&#8217;este amor<br \/>\n    terrestre, E as emo&ccedil;&otilde;es mais physicas apura, E as quer, e as<br \/>\n    busca, e tresloucado as ama Co&#8217;a mesma devo&ccedil;&atilde;o, que aos c&eacute;os<br \/>\n    dedica ? Porque em tal modo o espirito embrutece, E vai sua alma estupida<br \/>\n    tornando, Que &aacute;s plantas da mulher, que d&#8217;elle zomba, Chega a prostrar-se,<br \/>\n    e jura-lhe perverso Paix&atilde;o eterna, al&eacute;m da campa; &#8212; e<br \/>\n    o corpo Dar ao martyrio por amor promette?<\/p>\n<p>Porque Deus deixa a materia Ter tambem sua victoria, Para que,&#8212; quando<br \/>\n    a alma ven&ccedil;a,&#8212; Brilhe maior sua gloria!<\/p>\n<p>Porque se me extasia a mente &aacute;s vezes, &#8212; E quanto fui beber<br \/>\n    no ceu, no inferno.<\/p>\n<p> No mundo, em tudo, que medito ou vejo, Por meus labios de vate se derrama<br \/>\n    Em torrentes de harmonica linguagem?<\/p>\n<p>Porque Deus poz em meu peito Um thesouro de harmonia : Deu-me a sina de seus<br \/>\n    anjos, Deu-me o dom da poesia.<\/p>\n<p> Cantarei o ceu, o inferno, O mundo,&#8212; o que me approuver Cantarei a<br \/>\n    Deus, o homem, Os amores da mulher : Cantarei, em quanto vivo, Porque Deus<br \/>\n    assim o quer ! <\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">O REMORSO DA INNOCENTE<\/a><\/h4>\n<h2>&Aacute; minha irman Maria Augusta<\/h2>\n<p> Alma de seraphim, prenda do Eterno, Ai! quem te despenhou do c&eacute;o<br \/>\n    &aacute; terra? <\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p>N&atilde;o sabe o nome dos crimes, &Aacute;s paix&otilde;es n&atilde;o dobra<br \/>\n    o dorso; Mas n&#8217;aquelle peito ingenuo Mora inquieto um remorso! Como reliquias<br \/>\n    sagradas.<\/p>\n<p> Conserva os primores seus; Mas doe-lhe n&atilde;o ser ainda Toda, toda &#8212;<br \/>\n    s&oacute; de Deus.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Eil-o, o remorso da virgem, O remorso da innocencia, Que, como a idea do<br \/>\n    Eterno, Ameiga na consciencia.<\/p>\n<p>Rezou, rezou fervorosa, Beijando seu relicario; Arfou,&#8212; qual luz matutina<br \/>\n    Tremendo no alampadario.<\/p>\n<p>E um sorriso descorado Descerrou-lhe labio e labio, Como o palor que desenha<br \/>\n    A fronte vasta do sabio.<\/p>\n<p>Beijou a lage da campa, &#8212; Da campa, que ha de ser d&#8217;ella, E vai scismar<br \/>\n    merencoria Na gelosia da cella.<\/p>\n<p>&#8212; Por simpleza arreceando Que algum phantasma n&atilde;o venha, A correr,<br \/>\n    aos ares dava Suas vestes de estamenha.<\/p>\n<p> Que as trevas do claustro e as tumbas Bafejam tremor sagrado; E as virgens<br \/>\n    sempre imaginam Erguer-se um morto a seu lado.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Scisma a virgem mansamente Em pensa mentos do c&eacute;o, Mais candida que<br \/>\n    as rolinhas, Mais candida qu e seu v&eacute;o.<\/p>\n<p> E scismava : &#8212; Ai! que eu n&atilde;o seja J&aacute; para Deus menos<br \/>\n    bella, Como a bonina que murcha Que eu arranco da capella ! &#8212;<\/p>\n<p>E scismava : &#8212; Ai! que eu n&atilde;o tenha Um crime, sem eu saber!<br \/>\n    Qual ser&aacute; ? &#8212; Hontem de noute Eu n&atilde;o pude adormecer! &#8212;<\/p>\n<p>E scismava : &#8212; Ai! que eu n&atilde;o seja Menos linda ao meu Senhor!<br \/>\n    J&aacute; hoje eu corri do claustro : Dos mortos tive temor&#8230;&#8212;<\/p>\n<p>E scismava: &#8212; Ai! que eu n&atilde;o seja R&eacute; de um crime que<br \/>\n    eu n&atilde;o sei, Bem como o insecto escondido Na rosa qu&#8217;hontem cortei!<br \/>\n    &#8212;<\/p>\n<p>Eil-a, a scisma da donzella, Da filha da solid&atilde;o; Eil-o, o remorso<br \/>\n    que esconde Nas dobras do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>O remorso do malvado &Eacute; desespero e loucura, E a reminiscencia d&#8217;elle<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o lhe tortura.<\/p>\n<p>Mas o remorso da virgem Lhe cala na consci&ecirc;ncia, Como a placidez do<br \/>\n    justo, Como a vis&atilde;o da innocencia.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">PEDIDO<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">N&atilde;o &eacute; verdade que possa-se bem<br \/>\n    escrever, quando se soffre.<br \/>\n    <b>CHATEAUBRIAND.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Bello joven, tu vagu&ecirc;as<br \/>\n    Por campinas de esmeralda.<br \/>\n    Adormentas sobre as flores<br \/>\n    O doce amor que te escalda.<\/p>\n<p align=\"left\">Ainda o c&eacute;o te apparece<br \/>\n    Vasta abobada de anil.<br \/>\n    A teus olhos n&atilde;o ha nuvem,<br \/>\n    Nem furac&atilde;o, nem fuzil.<\/p>\n<p align=\"left\">Inda levantas os olhos<br \/>\n    &Aacute; tua estrella feliz,<br \/>\n    L&ecirc;s cada noute em seus raios<br \/>\n    Mil esperan&ccedil;as gentis.<\/p>\n<p align=\"left\">Depois das viz&otilde;es ditosas<br \/>\n    De teu dourado dormir,<br \/>\n    Acordas falando amores<br \/>\n    Com prazenteiro sorrir.<\/p>\n<p align=\"left\">Ao ardor meridiano<br \/>\n    Ouvem-te ainda cantar.<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc;s a magoa estampada<br \/>\n    Na face crepuscular.<\/p>\n<p align=\"left\">Pela escada da ventura<br \/>\n    Sobes cad&#8217;hora um degrau,<br \/>\n    Tua exist&ecirc;ncia mimosa<br \/>\n    &Eacute; um cont&iacute;nuo sarau.<\/p>\n<p align=\"left\">Bello joven, &#8212; no teu peito<br \/>\n    N&atilde;o tocou a m&atilde;o da dor.<br \/>\n    Teu espirito innocente Pode<br \/>\n    bem pensar de amor.<\/p>\n<p align=\"left\">Bello joven,&#8212; s&oacute; tu podes<br \/>\n    Co&#8217;os sentimentos na m&atilde;o,<br \/>\n    Falar palavras ardentes,<br \/>\n    Labaredas de paix&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu que tenho lutado contra a vida,<br \/>\n    Bebido n&#8217;outro calice de dores,<br \/>\n    Joven ! &#8212; n&atilde;o posso meditar do&ccedil;uras,<br \/>\n    Cantar ternos amores.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu que nunca senti nos olhos d&#8217;alma<br \/>\n    O traspassar dos olhos da donzella,<br \/>\n    Joven ! &#8212; n&atilde;o posso te pintar ardores<br \/>\n    Que n&atilde;o senti por ella.<\/p>\n<p align=\"left\">E si eu quizera, disfar&ccedil;ando angustias,<br \/>\n    Cantar suave a tua bella Armia,<br \/>\n    Joven! &#8212; de todos eu teria em paga<br \/>\n    Um riso de ironia.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">MEDITA&Ccedil;&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Isto pensava, isto escrevo, isto tinha<br \/>\n    n&#8217;alma, isto vai no papel: que d&#8217;outro<br \/>\n    modo n&atilde;o sei escrever.<br \/>\n    <b>GARRETT.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">G&oacute;sto de meditar de noute, &aacute;s vezes,<br \/>\n    Como um infante,<br \/>\n    Espasmado no olhar, fitando o corpo,<br \/>\n    Que tem diante.<br \/>\n    G&oacute;sto de meditar de dia, &aacute;s vezes,<br \/>\n    Como o anci&atilde;o,<br \/>\n    A quem ideas se erguem do passado<br \/>\n    Em borbulh&atilde;o.<br \/>\n    O infante, o anci&atilde;o!&#8212;os dous extremos<br \/>\n    Da exist&ecirc;ncia;<br \/>\n    Um &aacute; vida, outro &aacute; morte, eguaes amostram<br \/>\n    Egual tendencia.<br \/>\n    Este &eacute; planta mimosa, delicada,<br \/>\n    Esperan&ccedil;osa:<br \/>\n    Aquell&#8217;outro hasteada e quasi murcha,<br \/>\n    Colhida rosa.<\/p>\n<p align=\"left\">Este promette e cheiro e vi&ccedil;o e ramas.<br \/>\n    Flores ao cento;<br \/>\n    Aquell&#8217;outro esgalhar espera as folhas<br \/>\n    A certo vento.<br \/>\n    E muitas vezes o sol cresta a plantinha,<br \/>\n    Denuda e mata:<br \/>\n    E vinga a planta antiga,&#8212; e quasi morta<br \/>\n    Revive intacta.<br \/>\n    O velho ent&atilde;o &eacute; como o infante estupido,<br \/>\n    Que nasce agora:<br \/>\n    Magina mil viz&otilde;es: sem causa ri-se,<br \/>\n    Sem causa chora.<br \/>\n    Si fui infante estupido e pasmado,<br \/>\n    Adulto louco:<br \/>\n    Si hei de ser velho, sem sentir, sem alma,<br \/>\n    D&#8217;aqui a pouco.<br \/>\n    Antes quizera ser infante,&#8212; quasi<br \/>\n    Sem sensa&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    N&atilde;o tora ao menos conscio de remorsos,<br \/>\n    Nem decep&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Fosse por toda a vida infante nescio,<br \/>\n    Sem consciencia:<br \/>\n    Morresse alfim apenas circumscripto<br \/>\n    Em minha essencia.<\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Porqu&ecirc; e para que rompeu meu corpo<br \/>\n    Do embry&atilde;o?<br \/>\n    Que melhor que n&atilde;o f&ocirc;ra me abafasse<br \/>\n    A compress&atilde;o?<br \/>\n    F&ocirc;ra melhor. E o olho vil do hypocrita<br \/>\n    N&atilde;o me veria :<br \/>\n    Franzindo-me o nariz atraz das costas,<br \/>\n    N&atilde;o se riria.<br \/>\n    Fora melhor. E a seiva de amargores<br \/>\n    N&atilde;o me coara,<br \/>\n    E a precoce da esta&ccedil;&atilde;o das dores inda<br \/>\n    N&atilde;o me cheg&aacute;ra.<br \/>\n    F&ocirc;ra melhor. E o estigma da tristeza<br \/>\n    N&atilde;o me sellara.<br \/>\n    Melancholica ronha os rins sensiveis<br \/>\n    N&atilde;o m&#8217;os gastara.<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o f&ocirc;ra um grosso livro<br \/>\n    De negras laudas.<br \/>\n    N&atilde;o me a&ccedil;outara a hydra dos remorsos<br \/>\n    Co&#8217;as ferreas caudas.<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o me f&ocirc;ra sem flores a existencia<br \/>\n    Cont&iacute;nuo hynverno.<br \/>\n    N&atilde;o me f&ocirc;ra este mundo um campo esteril,<br \/>\n    P&aacute;ramo eterno.<br \/>\n    Onde s&oacute; nascem, crescem e vicejam<br \/>\n    Males sem conto.<br \/>\n    D&#8217;onde se ceifa antecipado pranto,<br \/>\n    Enojo prompto.<br \/>\n    Porque e para que rompeu meu corpo<br \/>\n    Do embry&atilde;o ?<br \/>\n    Pela miseria, e para a morte interna<br \/>\n    Do cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    E o Deus, que tem por escabello nuvens<br \/>\n    De ouro e marfim,<br \/>\n    De offendido, parece deslembrado,<br \/>\n    &#8212; Triste ! &#8212; de mim!<br \/>\n    Deus! para que tiraste-me do imo<br \/>\n    Do embry&atilde;o?<br \/>\n    P&#8217;ra vida de minha alma,&#8212; ou para a morte<br \/>\n    Do cora&ccedil;&atilde;o ?<\/p>\n<p align=\"left\">Oh ! morra o cora&ccedil;&atilde;o,&#8212; germen fecundo<br \/>\n    De mil tormentos.<br \/>\n    Desfalle&ccedil;am-lhe as fibras,&#8212; espedacem-se<br \/>\n    Os filamentos.<br \/>\n    Exempta de paix&otilde;es,&#8212; de amor, ou odio,<br \/>\n    Surja a raz&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o obede&ccedil;a escrava aos sentimentos<br \/>\n    Do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Torne-se o cora&ccedil;&atilde;o lampada extincta,<br \/>\n    Cinza no lar.<br \/>\n    E deixe que a raz&atilde;o veleje livre<br \/>\n    Em largo mar.<br \/>\n    Creia n&#8217;um Deus,&#8212; e dos dul&ccedil;ores goze<br \/>\n    De almo ascetismo.<br \/>\n    N&atilde;o mais lhe r&ograve;a as v&iacute;sceras o cancro<br \/>\n    Do scepticismo.<br \/>\n    A duvida infernal, batendo as azas,<br \/>\n    Perdendo as cores,<br \/>\n    Precipite-se subito nas chammas<br \/>\n    Exteriores.<\/p>\n<p align=\"left\">Sepulte-se a descren&ccedil;a em negras trevas<br \/>\n    De negro inferno.<br \/>\n    Creia a raz&atilde;o convicta nas justi&ccedil;as<br \/>\n    Do Deus eterno.<\/p>\n<p align=\"left\"> Sim: o viburno pequenino, humilde<br \/>\n    No prado agreste,<br \/>\n    Vegeta ao p&eacute; da realeza emphatica<br \/>\n    De alto cypresto.<br \/>\n    E Deus, que vivifica o alvar pinheiro<br \/>\n    E a tenra planta:<br \/>\n    Que os soberbos calcina, e que os humildes<br \/>\n    Do p&oacute; levanta:<br \/>\n    De minha vil baixeza, como os homens,<br \/>\n    Ah! &#8212; n&atilde;o se peja;<br \/>\n    Que elle m&atilde;o cheia de mil dons em todos<br \/>\n    Largo despeja.<br \/>\n    Mas si t&eacute;&#8217;qui parece deslembrado,<br \/>\n    Triste! &#8212; de mim :<br \/>\n    Si n&atilde;o manda aguardar minh&#8217;alma dubia<br \/>\n    Um cherubim:<br \/>\n    Si nunca se lembrar que um ente existe<br \/>\n    N&#8217;essa amargura,<br \/>\n    Melhor n&atilde;o fora me gelasse o sangue<br \/>\n    A morte dura?<\/p>\n<p align=\"left\">Em sala, onde mil luzes por mil lampadas<br \/>\n    Reparte o gaz,<br \/>\n    D&#8217;ellas a mais pequena que se apague<br \/>\n    Que mal que faz ?<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p align=\"left\">Qual rapido relampago no espa&ccedil;o<br \/>\n    S&oacute;e discorrer,<br \/>\n    Tal, sem deixar pegadas de seu v&ocirc;o,<br \/>\n    Foge o prazer.<br \/>\n    Foge o prazer como a andorinha leve<br \/>\n    Os ares corta:<br \/>\n    Como o primeiro feto &#8212; esperan&ccedil;as suas &#8212;<br \/>\n    A esposa aborta.<br \/>\n    Foge o prazer, qual setta que dispara<br \/>\n    Indio sagaz:<br \/>\n    Qual no deserto a voz, que um echo apenas<br \/>\n    Nos valles faz.<br \/>\n    Alli&#8212;bem vejo &#8212; alli pomp&ecirc;a esplendida<br \/>\n    A scena aberta.<br \/>\n    E da plat&ecirc;a os vacuos atacados<br \/>\n    O povo aperta.<\/p>\n<p align=\"left\">Jubilosas men&ccedil;&otilde;es, palmas soantes<br \/>\n    Rompem, murmuram.<br \/>\n    Melliflua orchestra, tympanos sonoros<br \/>\n    A dor lhes curam.<br \/>\n    Os vates das paix&otilde;es enamorados,<br \/>\n    Como possessos,<br \/>\n    Trovam, philtrando em todos o requinte<br \/>\n    De seus accessos.<br \/>\n    Fugazes fadas no ademan phantastico<br \/>\n    Cysnes gorg&ecirc;am.<br \/>\n    Depois, prendendo-se a audi&ccedil;&atilde;o aos cantos,<br \/>\n    Todos prant&ecirc;am.<br \/>\n    Arrebatam-se as almas,&#8212; magnetizam-se<br \/>\n    Os sentimentos.<br \/>\n    Mudam de sua ac&ccedil;&atilde;o inda os mais frigidos<br \/>\n    Temperamentos.<br \/>\n    Lethargia fatal! &#8212; ao outro dia<br \/>\n    Calmos accordam.<br \/>\n    E, somnambulos quasi,&#8212; a&eacute;rias formas<br \/>\n    S&oacute; lhes recordam.<br \/>\n    A miseria da vida se lhes mostra<br \/>\n    Entam real.<br \/>\n    Catam novos prazeres: nem um d&#8217;elles<br \/>\n    De mais lhes val&#8217;.<\/p>\n<p align=\"left\">Qual rapido relampago no espa&ccedil;o<br \/>\n    S&oacute;e discorrer,<br \/>\n    Tal, sem deixar p&eacute;gadas de seu v&ocirc;o,<br \/>\n    Foge o prazer.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Hora da noute,&#8212; hora solemne e sacra<br \/>\n    &Aacute; reflex&atilde;o:<br \/>\n    Quando do mesmo somno o pobre e o rico<br \/>\n    Dormindo est&atilde;o.<br \/>\n    Gosto de v&oacute;s, sombras da noute qu&ecirc;da,<br \/>\n    Morte do dia,<br \/>\n    Que me amparais dos callidos esgares<br \/>\n    Da hypocrisia.<br \/>\n    Posso ent&atilde;o retrahir-me em minha essencia,<br \/>\n    Viver commigo.<br \/>\n    N&atilde;o me rod&ecirc;a do traidor a mascara<br \/>\n    Com c&ocirc;r de amigo.<br \/>\n    Profundo o olhar do hypocrita,&#8212;profundo<br \/>\n    Como o oceano.<br \/>\n    Na retina lhe luz das trevas cegas<br \/>\n    O anjo insano.<\/p>\n<p align=\"left\">Sorri tambem.&#8212;Esto sorriso eslridulo,<br \/>\n    Oh ente vil,<br \/>\n    Por dal-o mesmo assim fazes, empregas<br \/>\n    Esfor&ccedil;os mil!<br \/>\n    Sorri tambem: e seu sorriso &#8212; escarneo &#8212;<br \/>\n    Da natureza.<br \/>\n    Seu sorriso &#8212; um preludio concebido<br \/>\n    De malvadeza.<br \/>\n    Quanta vez vira&ccedil;&atilde;o tepida e fresca<br \/>\n    Serena os ares,<br \/>\n    E procella depois revolta horrenda<br \/>\n    Terras e mares!<br \/>\n    Quanta vez mil delicias l&aacute; desmancha<br \/>\n    Vaivem da sorte!<br \/>\n    Quanta vez o prazer da vida incauta<br \/>\n    Precede &aacute; morte!<br \/>\n    Assim sorri o hypocrita um sorriso<br \/>\n    De furia m&aacute;.<br \/>\n    Mentiras, manhas impias seu demonio<br \/>\n    Grato lhe d&aacute;.<br \/>\n    Hypocrita, que pizas o palacio<br \/>\n    E a palho&ccedil;a e a cella,<br \/>\n    Deixa de teus furores esquecida<br \/>\n    Uma parcella.<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o me toques na orla dos vestidos<br \/>\n    Co&#8217;a ferrea m&atilde;o:<br \/>\n    Deixa-me entrege na soid&atilde;o da noute<br \/>\n    &Aacute; reflex&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>17 de novembro de 1831.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">O APOSTOLO ENTRE AS GENTES<\/a><\/h4>\n<h2>A Antonio Gon&ccedil;alves Dias<\/h2>\n<p align=\"right\">&#8212; Foste ao principio<br \/>\n    Sacerdote e propheta:<br \/>\n    Eram nos ceos teus cantos uma prece,<br \/>\n    Na terra um vaticinio.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>GON&Ccedil;ALVES DIAS.<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Como o brado do anathema gravado<br \/>\n    S&ocirc;bre a fronte do reprobo, &#8212; nas terras<br \/>\n    Pejado de bald&otilde;es, invilecido<br \/>\n    Pelos filhos dos homens, que o repellem,<br \/>\n    Que n&atilde;o concebem a grandeza d&#8217;alma,<br \/>\n    Que n&atilde;o escutam o pulsar dos peitos,<br \/>\n    Que n&atilde;o attingem ao sublime e ao Sancto,<br \/>\n    &#8212; O ministro de Deus, &#8212; entregue ao mundo,<br \/>\n    A senda do viver percorre breve,<br \/>\n    Como o rocio, que no albor do dia<br \/>\n    Salpica as flores, e ao calor se estanca.<br \/>\n    E dorme o eterno somno em campa escura,<br \/>\n    Placido, &#8212; como o espirito do justo:<br \/>\n    E ainda no olvido d&#8217;essa mesma campa<\/p>\n<p align=\"left\">Penetra o riso mo&iacute;ador dos homens,<br \/>\n    E o molejo do callido philosopho,<br \/>\n    Presumido de si, &#8212; como a ignorancia,<br \/>\n    Que lhe preside aos erros e aos sophismas.<br \/>\n    &#8212; Nem se queixa: &#8212; que &eacute; findo o seu martyrio,<br \/>\n    Unica heran&ccedil;a, que ao nascer lhe coube!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">O var&atilde;o do Senhor, &#8212; Moys&eacute;s, o justo,<br \/>\n    Pulsou primeiro os nervos do psalterion.<br \/>\n    E o estro virgem resumbrou-lhe aos labios,<br \/>\n    Como a torrente, &#8212; impetuoso e sancto.<br \/>\n    Subiu aos c&eacute;os, nas azas dos archanjos,<br \/>\n    Um hymno a Deus, que lhe accendera a mente.<br \/>\n    E o typo entam de sua omnipotencia<br \/>\n    Ao ser finito transmittiu-se.&#8212; O povo<br \/>\n    Ouviu na terra a incognita linguagem,<br \/>\n    &#8212; A linguagem do Eterno. Ouviu-a extatico<br \/>\n    O mundo inteiro, no estupor do espanto,<br \/>\n    Como a explos&atilde;o volcanica primeira.<br \/>\n    Estreme que era o fogo do propheta,<br \/>\n    E a voz e os olhos e o accento e o cenho!<br \/>\n    Justi&ccedil;a do Senhor ! &#8212; Ap&oacute;s os tergos<br \/>\n    Sepultado o cavallo e o cavalleiro<br \/>\n    Nas aguas do mar-rubro : &#8212; o d&#8217;ante os olhos<br \/>\n    Esses vergeis da intacta Palestina,<\/p>\n<p align=\"left\">Promettendo delicias suavissimas,<br \/>\n    Como os olhos da noiva espregui&ccedil;ados<br \/>\n    Nas expansivas, rutilas pupillas<br \/>\n    Do paranympho, que lhe assiste &aacute;s bodas<br \/>\n    Ao mando do Senhor, e &aacute; noote e ao thoro<br \/>\n    Lhe prophetiza trefegos amores.<br \/>\n    Esses sublimes alcantis e c&ecirc;rros,<br \/>\n    D&#8217;onde desciam por quebradas tr&ecirc;mulas,<br \/>\n    Lambendo os troncos de copudos cedros,<br \/>\n    Beijando as hasteas de mimosas flores,<br \/>\n    Entre os convulsos silices de gemmas,<br \/>\n    De mel e leite os trepidos arroios.<br \/>\n    Oh Palestina, oh virgem dos mysterios!<br \/>\n    Quem assentado em teus alpestres pincaros,<br \/>\n    Sentindo o vendaval soprar-lhe a grenha,<br \/>\n    E o cedro secular rompendo as nuvens,<br \/>\n    Como um gigante,&#8212; e ao sop&eacute; dos montes<br \/>\n    O rio a murmurar, como a donzella<br \/>\n    Juncto do amante a desfazer-se em queixas,<br \/>\n    E ao longe a voz dos vagalh&otilde;es bramindo<br \/>\n    Horrenda mais que a confus&atilde;o do inferno,<br \/>\n    &#8212; Quem podera deixar de ser poeta<br \/>\n    Ao menos uma vez,&#8212; oh patria de anjos,<br \/>\n    Oh Palestina, oh virgem dos mysterios!<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Alli foi educado, entre as palmeiras<br \/>\n    E o cedro e o murmurar do regato e as penhas<br \/>\n    E o rugido dos mares e as procellas,<br \/>\n    &#8212; O genio enthusiastico do apostolo.<br \/>\n    Elle entre as tribus assomou severo<br \/>\n    &Aacute;s portas de Sion, co&#8217;a voz constante,<br \/>\n    Como o rugido do le&atilde;o das selvas.<br \/>\n    Vinha vestido de sinistro sacco,<br \/>\n    E predizia a vinda do Homem-sancto,<br \/>\n    Do m&aacute;ximo dos vates : &#8212; mas as tribus,<br \/>\n    As impias tribus, e os rabbis fanaticos<br \/>\n    Escarneceram do preg&atilde;o do apostolo,<br \/>\n    Escarneceram do poder do Eterno.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p align=\"left\">Elle descreu dos homens e da terra,<br \/>\n    E para al&ccedil;ar mais livre aos c&eacute;os os olhos,<br \/>\n    Subiu tambem aos corucheus altivos<br \/>\n    Das columnas do Egypto, que camp&ecirc;am<br \/>\n    Aqui, alli, a recontar &aacute;s eras<br \/>\n    Em seus gastos lavores hieroglyphicos<br \/>\n    A vaidade dos reis e a falsa cren&ccedil;a.<\/p>\n<p align=\"left\">Em derredor o viajor parava,<br \/>\n    Fixava n&#8217;elle os curiosos olhos,<br \/>\n    E tremia de ouvir-lhe a voz prophetica.<br \/>\n    E em torno &aacute; fronte lhe brilhava um disco<br \/>\n    De fogo mais que sancto,&#8212; como alquando<br \/>\n    Moys&eacute;s descendo do Sinai co&#8217;as taboas.<br \/>\n    Mas os homens alfim o escarneceram,<br \/>\n    Escarneceram do preg&atilde;o do apostolo,<br \/>\n    Escarneceram do poder do Eterno.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Elle escondeu-se na soid&atilde;o das lapas,<br \/>\n    Nas desertas montanhas de Cassino,<br \/>\n    Fugindo Roma,&#8212; a dona dos triumphos,<br \/>\n    Roma, &#8212; a senhora das na&ccedil;&otilde;es da terra,<br \/>\n    E os bailes d&#8217;ella e as civicas delicias<br \/>\n    E os aulicos sal&otilde;es, onde reinavam<br \/>\n    A mentira, a trai&ccedil;&atilde;o, o vicio, e o crime,<br \/>\n    Disfar&ccedil;ados nos rizos dos hypocritas,<br \/>\n    Nos adem&atilde;es dos cortez&atilde;os immundos.<br \/>\n    Elle escondeu-se.&#8212; E os homens o seguiram,<br \/>\n    E o viram co&#8217;a cabe&ccedil;a reclinada<br \/>\n    Em pedra rigida,&#8212; e deitado em thalamo<br \/>\n    De urtigas.&#8212; Mas alfim o escarneceram,<br \/>\n    Escarneceram do preg&atilde;o do apostolo,<br \/>\n    Escarneceram do poder do Eterno.<\/p>\n<p align=\"left\">Hoje, porem, elle n&atilde;o mais assoma<br \/>\n    Severo e forte &aacute;s portas da eidade,<br \/>\n    Como o bramido do le&atilde;o das selvas.<br \/>\n    N&atilde;o mais remonta aos corucheus altivos<br \/>\n    Das columnas do Egypto hieroglyphico,<br \/>\n    Co&#8217;o disco em torno do semblante acceso.<br \/>\n    N&atilde;o mais asyla-se ao deserto e &aacute;s lapas,<br \/>\n    N&atilde;o foge Roma,&#8212; a dona dos triumphos,<br \/>\n    Roma,&#8212; a senhora das na&ccedil;&otilde;es da terra.<br \/>\n    Mas os filhos dos homens o escarnecem,<br \/>\n    Inda escarnecem do preg&atilde;o do apostolo,<br \/>\n    Inda escarnecem do poder do Eterno.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p align=\"left\">Oh destinos do ceu ! &#8212; porque n&atilde;o somos<br \/>\n    Ainda agora os indios das florestas?<br \/>\n    Porque degenerado em nossas veias<br \/>\n    Gira tam raro o sangue do tamoyo ?<br \/>\n    Porque esse fogo irrequieto e vivido,<br \/>\n    Como o corisco a recortar o ether,<br \/>\n    &#8212; Porque esse fogo, que accendia os olhos,<\/p>\n<p align=\"left\">E o peito immenso do tupi guerreiro,<br \/>\n    Nos olhos e no peito de seus filhos<br \/>\n    Estanque e frio e gelido volveu-se ?<br \/>\n    Barbaros eram.&#8212; Mas em ranchos longos,<br \/>\n    Nos tejupc&aacute;s pendido das imbiras<br \/>\n    Desamparando o vibrador tacape,<br \/>\n    E meneando os collos inla&ccedil;ados<br \/>\n    Das correntes das perolas do rio,<br \/>\n    E assuberbando as pequeninas testas<br \/>\n    Co&#8217;o variegado kanitar nutante,<br \/>\n    E cingindo ao redor do esbelto corpo<br \/>\n    As multicores lindas arasoyas,<br \/>\n    Das araras &aacute; purpura roubadas,<br \/>\n    &#8212; Demandavam as ocas tenebrosas<br \/>\n    Dos severos e asc&eacute;ticos piagas.<br \/>\n    E os consultavam nas emprezas arduas,<br \/>\n    E decoravam seus orac&#8217;los sanctos,<br \/>\n    E decantavam seus poemas mysticos,<br \/>\n    Gomo o primeiro beijo da donzella<br \/>\n    Dado furtivo entre o amor e o pejo<br \/>\n    Nos labios caldos do donzel, que a vida<br \/>\n    Expandir-se-lhe sente em molles pulsos.<br \/>\n    &#8212; Oh ! que n&atilde;o somos os briosos tapes,<br \/>\n    Filhos da virgem da guerreira America!<\/p>\n<p align=\"left\"> Era o supremo Deus omnipotente<br \/>\n    Tup&aacute; &#8212; o s&aacute;bio auctor da linda lua,<br \/>\n    Do sol vermelho e das montanhas de ouro<br \/>\n    E dos busios marinhos, e dos cardos<\/p>\n<p align=\"left\">Que o viajor nos areaes saciam,<br \/>\n    E do azulado beija-flor das veigas<br \/>\n    Que trebelha brinc&atilde;o entre os arbustos,<br \/>\n    Como os desejos sofregos do amante.<\/p>\n<p align=\"left\">Que tinha? &#8212; Deus &eacute; Deus! &#8212; vozes n&atilde;o<br \/>\n    mudam<br \/>\n    O ser do Eterno &#8212; identico,&#8212; immutavel,<br \/>\n    Nos planetas do ceu &#8212; si mundos forem &#8212;<br \/>\n    Ou s&oacute; na terra, si ella &eacute; s&oacute; no immenso.<br \/>\n    Jehovah, que expedia o archanjo ethereo<br \/>\n    Em vante dos exercitos hebraicos<br \/>\n    Co&#8217;o facho acceso em fogo inextinguivel:<br \/>\n    Brahma, que transmittiu a luz celeste,<br \/>\n    E o puro espirito e a energia e a f&oacute;rma,<br \/>\n    De que &eacute; principio,&#8212; aos fabulosos indios :<br \/>\n    Theos, que deu aos gregos mythologicos<br \/>\n    Um vasto olympo arcado de myriadas<br \/>\n    De lindos deuses,&#8212; symbolos dos gostos :<br \/>\n    Tup&aacute;, que ingendra no infinito espa&ccedil;o<br \/>\n    O trov&atilde;o co&#8217;os bulc&otilde;es vertiginosos<br \/>\n    E os chuveiros de pedra e o raio e a morte:<br \/>\n    &#8212; Tudo &eacute; Deus, tudo &eacute; Deus! &#8212; o mais sam nomes.<\/p>\n<h2>Vlll<\/h2>\n<p align=\"left\">Nos adytos do mystico pagode<br \/>\n    O ministro de Brahma aspira incensos.<\/p>\n<p align=\"left\">O augure de Theos, assentado<br \/>\n    Na tripode tremente, auspicios canta.<br \/>\n    O piaga de Tup&aacute;, severo e casto,<br \/>\n    Nas &oacute;cas tece os versos dos oraculos.<br \/>\n    E o sacerdote do Senhor,&#8212; sosinho,&#8212;<br \/>\n    Cuberto de bald&otilde;es a par do reprobo,<br \/>\n    Ante o mundo ao martyrio o collo curva,<br \/>\n    E aos c&eacute;us cantando um hymno sacrosancto,<br \/>\n    Como as notas finaes do orgam do templo,<br \/>\n    Confessa a Deus; e &#8212; confessando &#8212; morre.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">O JESUITA (SECULO XVIII)<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Deus &eacute; que dirige estas cousas : elle<br \/>\n    permitte que existam imperadores e algozes<br \/>\n    para que haja sanctos e martyres:<br \/>\n    elle eleva os imperios para que haja lagrymas,<br \/>\n    castiga para regenerar.<br \/>\n    <b>LACORDAIRE<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Era longe &#8212; bem longe: e eu vim primeiro<br \/>\n    Scindindo as ondas d&#8217;esse mar profundo.<br \/>\n    E por amor da Cruz vaguei sosinho<br \/>\n    Nas invias mattas d&#8217;esse novo mundo.<\/p>\n<p align=\"left\">O tamoyo gentil hervava as settas,<br \/>\n    Quando pelos vergeis, tam&#8217;seus, me via:<br \/>\n    E co&#8217;os olhos phosphoricos ardendo<br \/>\n    A taquara fatal a mim tendia.<\/p>\n<p align=\"left\">E tendia a taquara,&#8212;mas ao ver-me<br \/>\n    Quam sem temor e quam inerme estava,<br \/>\n    Trocando em doce o sen olhar fogoso,<br \/>\n    O arco e a setta pelo ch&atilde;o rojava.<\/p>\n<p align=\"left\">De mim as tribus barbaras, indomitas,<br \/>\n    De mim o verbo do evangelho ouviram.<br \/>\n    E ergui a cruz nos pincaros dos montes,<br \/>\n    E ap&oacute;s o verbo os povos me seguiram!<\/p>\n<p align=\"left\">Eu disse &aacute;s tribus: &#8212; Todas v&oacute;s sois ricas,<br \/>\n    &#8212; Que o ouro e a prata o solo vosso esmalta.<br \/>\n    Sois ricas tribus,&#8212; mas n&atilde;o sois felizes,<br \/>\n    Porque uma cren&ccedil;a de um s&oacute; Deus vos falta.<\/p>\n<p align=\"left\">E eu dei &agrave;s tribus uma cren&ccedil;a doce,<br \/>\n    Qual uma chuva de mann&aacute; celeste:<br \/>\n    E as tribus foram desde entam felizes,<br \/>\n    Qual flor pomposa que os jardins reveste.<\/p>\n<p align=\"left\">E quando os reis da terra se esqueceram<br \/>\n    Das tribus dadas a seu sceptro forte,<br \/>\n    Eu levantei-me, e disse aos reis da terra,<br \/>\n    &#8212; O povo geme: transmudae-lhe a sorte.&#8212;<\/p>\n<p align=\"left\">Eternos templos eu ergui sosinho,<br \/>\n    Eternos como a dura&ccedil;&atilde;o da terra.<br \/>\n    E sosinho sagrei altares tantos<br \/>\n    Ao Deus que aos impios c&#8217;o trov&atilde;o atterra.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu dei &aacute;s tribus uma cren&ccedil;a doce,<br \/>\n    Eu levantei alcaceres eternos.<br \/>\n    Deram-me os homens prescrip&ccedil;&atilde;o e morte,<br \/>\n    Deram-me em premio as fezes dos infernos.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">A FLOR MURCHA DO ALTAR<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>A PEDIDO DE FR. FRANCISCO DA NATIVIDADE CARNEIRO DA CUNHA<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">&#8212; Quem n&atilde;o sabe ser Erasmo &eacute;<br \/>\n    que deve pensar em ser Bispo.<br \/>\n    <b>LA BRUYERE.<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Est&aacute; murcha : &#8212; assim nos foge<br \/>\n    A briza que corre agora.<br \/>\n    Est&aacute; murcha : &#8212; assim o fumo<br \/>\n    Cresce, cresce,&#8212; e se evapora.<br \/>\n    Est&aacute; murcha : &#8212; assim o dia<br \/>\n    Em raios affoga a aurora.<br \/>\n    Est&aacute; murcha: &#8212; assim a morte<br \/>\n    Do mundo as glorias desfaz:<br \/>\n    Assim um&#8217;hora de gosto<br \/>\n    Mil horas de dores traz :<br \/>\n    Assim o dia desmancha<br \/>\n    Os sonhos que a noute faz.<\/p>\n<p align=\"left\">Est&aacute; murcha&#8230;. Ainda agora<br \/>\n    &#8212; Eu a vi &#8212; n&atilde;o era assim.<br \/>\n    Era linda, era vi&ccedil;osa,<br \/>\n    Accesa como o rubim.<br \/>\n    Reinava, como a rainha,<br \/>\n    S&ocirc;bre as flores do jardim.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Foi a donzella mimosa,<br \/>\n    Foi passear entre as flores.<br \/>\n    Foi conversar co&#8217;as roseiras,<br \/>\n    Foi-lhes contar seus amores,<br \/>\n    Julgando que s&ocirc;bre as rosas<br \/>\n    N&atilde;o se reclinam traidores.<br \/>\n    Ella foi co&#8217;os p&eacute;s formosos<br \/>\n    Deixando mimoso rastro,<br \/>\n    Qual no ceu passou de noute,<br \/>\n    Correndo, fulgindo, um astro.<br \/>\n    E esta rosa foi cortada<br \/>\n    Com seus dedos de alabastro.<br \/>\n    A rosa ficou mais bella<br \/>\n    N&#8217;aquella virginea m&atilde;o.<br \/>\n    Encheu de perfume os ares,<\/p>\n<p align=\"left\">Talvez com mais expans&atilde;o.<br \/>\n    Mas a virgem teve &aacute; pena<br \/>\n    De p&ocirc;l-a em seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Entrou no templo a donzella<br \/>\n    Cuberta co&#8217;o veu de renda.<br \/>\n    &#8212; Teme que aos olhos dos homens<br \/>\n    Sua mod&eacute;stia se offenda:<br \/>\n    Como a cortina das aras,<br \/>\n    Que aos impios se n&atilde;o desvenda.<br \/>\n    Leva a mod&eacute;stia na fronte,<br \/>\n    Leva no peito a ora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Leva seu livro dourado,<br \/>\n    Leva pura devo&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    Leva a rosa,&#8212; a linda rosa<br \/>\n    Nos dedos da breve m&atilde;o.<br \/>\n    Rezou : &#8212; e depois ergueu-se,<br \/>\n    Dirigiu-se ao sanctuario,<br \/>\n    Modesta,&#8212; qual sua prece,<br \/>\n    Qual a luz do alampadario:<br \/>\n    E depoz a linda rosa<br \/>\n    Ao p&eacute; do sancto calv&aacute;rio.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Os anjos depois vieram,<br \/>\n    Respiraram s&ocirc;bre a flor.<br \/>\n    A flor cobrou mais belleza,<br \/>\n    Mais gala e mais explendor.<br \/>\n    Alli ao p&eacute; do calvario<br \/>\n    Deu mais expansivo odor.<br \/>\n    Alli parecia aos olhos Crescer,<br \/>\n    crescer&#8230; Mas agora?<br \/>\n    Agora murcha &#8212; tam murcha &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o tem a gala de outr&#8217;ora.<br \/>\n    &#8212; Assim o fumo do tecto<br \/>\n    Cresce, cresce,&#8212; e se evapora.<br \/>\n    Assim as horas do tempo<br \/>\n    Correndo, correndo vam.<br \/>\n    Assim passou inda ha pouco<br \/>\n    O matutino clar&atilde;o.<br \/>\n    Assim hontem foste infante,<br \/>\n    Assim hoje &eacute;s anci&atilde;o<br \/>\n    Murcha, murcha! &#8212; n&atilde;o expande<br \/>\n    Jamais seu odor intenso.<\/p>\n<p align=\"left\">Ha de seccar &#8212; feliz d&#8217;ella &#8212;<br \/>\n    Juncto &aacute; Cruz do Deus immenso.<br \/>\n    Ha de aspirar sobre as aras<br \/>\n    O cheiro do grato incenso.<br \/>\n    Feliz! &#8212; seu leito de morte,<br \/>\n    Sobre as aras, ella tem.<br \/>\n    A prece que vai ao ceu,<br \/>\n    S&ocirc;br&#8217;ella primeiro vem.<br \/>\n    A myrra que a Deus incensa,<br \/>\n    Incensa a ella tamb&eacute;m.<br \/>\n    <b>(1853).<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">O INCENSO DO ALTAR<\/a><\/h4>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Os sons do facil orgam :<br \/>\n    A voz dos corypheus<br \/>\n    As ora&ccedil;&otilde;es dos crentes:<br \/>\n    O susto dos atheus:<br \/>\n    Tudo apregoa e pr&oacute;va:<br \/>\n    &#8212; Aqui domina Deus!&#8212;<br \/>\n    Silencioso esteve,<br \/>\n    Ha pouco,&#8212; o sanctuario :<br \/>\n    Qual a mudez, que guarda<br \/>\n    Jazigo mortuario:<br \/>\n    Qual o terror do nauta<br \/>\n    Em mar tumultuario.<br \/>\n    As almas dos finados<br \/>\n    Erguiam-se do p&oacute;:<br \/>\n    Chocando-se torvadas,<br \/>\n    Cruzando as naves s&oacute;:<br \/>\n    Contando &aacute;s columnatas<br \/>\n    As ancias de seu d&oacute;.<\/p>\n<p align=\"left\">Fugiram j&aacute;,&#8212; fugiram<br \/>\n    Dos sacros penetraes:<br \/>\n    Qual foge de repente,<br \/>\n    Da mente dos mortaes,<br \/>\n    Do mal a triste idea<br \/>\n    Com a dos bens reaes.<br \/>\n    Purificou-se o ether:<br \/>\n    Espectros mais n&atilde;o ha.<br \/>\n    S&ocirc;br&#8217;elles c&aacute;e a campa,<br \/>\n    E um &ocirc;co baque d&aacute;.<br \/>\n    Sumiram-se no abysmo:<br \/>\n    Deus n&atilde;o n&#8217;os ouve j&aacute;.<br \/>\n    Agora int&ocirc;a o coro<br \/>\n    Hymnos de compunc&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Levanta a voz dos crentes<br \/>\n    Altivola ora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Atheu ! &#8212; medita: &eacute; tempo<br \/>\n    De ainda haver perd&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o te commovem alma<br \/>\n    Os cantos dos christ&atilde;os ?<\/p>\n<p align=\"left\">As notas, que produzem<br \/>\n    Do organista as m&atilde;os ?<br \/>\n    As notas, que percorrem<br \/>\n    Do templo pelos v&atilde;os ?<br \/>\n    Nem das nuvens de incenso<br \/>\n    O quente rescender?<br \/>\n    Que vam nas m&atilde;os das auras,<br \/>\n    No tecto esvaecer ? &#8212;<br \/>\n    Impio! tu n&atilde;o tens alma,<br \/>\n    Ou n&atilde;o n&#8217;a queres ter ?<br \/>\n    V&ecirc; como sobe o incenso,<br \/>\n    Quaes globos de um bulc&atilde;o.<br \/>\n    V&ecirc; como cresce a reza,<br \/>\n    Quaes lavas de um volc&atilde;o.<br \/>\n    V&ecirc; como incanta a orchestra,<br \/>\n    Qual voz de um furac&atilde;o.<br \/>\n    V&ecirc; tanto enthusiasmo<br \/>\n    Na face d&#8217;esses crentes.<br \/>\n    V&ecirc; tanta confian&ccedil;a<br \/>\n    Em almas t&atilde;o tementes.<br \/>\n    V&ecirc; tanta f&eacute; em Deus,<br \/>\n    &#8212; No Deus que n&atilde;o consentes!<br \/>\n    Si n&atilde;o te mente, oh impio,<br \/>\n    Esse systema teu:<\/p>\n<p align=\"left\">Si n&atilde;o &eacute; como o rizo<br \/>\n    De ambiguo phariseu:<br \/>\n    Como o fallar do hypocrita,<br \/>\n    Que tambem &eacute; atheu:<br \/>\n    Que inferno de torturas<br \/>\n    A mente n&atilde;o te c&ocirc;a!<br \/>\n    Ao doce som do orgam,<br \/>\n    Que pelos v&atilde;os reb&ocirc;a!<br \/>\n    Aos c&acirc;nticos sagrados,<br \/>\n    Que o povo e o coro int&ocirc;a !<br \/>\n    &Aacute;s preces do ministro,<br \/>\n    Que ao Christo, por ti, ora!<br \/>\n    &Aacute; face d&#8217;esse templo,<br \/>\n    Que os l&aacute;bios te descora!<br \/>\n    Qu&#8217;ao Deus,&#8212; que negas, impio,&#8212;<br \/>\n    E louva e reza e adora!<br \/>\n    Compunge-te &#8212; e conhece<br \/>\n    De Deus a justa m&atilde;o.<br \/>\n    Vem commungar do calix<br \/>\n    Dos gosos do christ&atilde;o;<br \/>\n    Que sentir&aacute;s arroubos,<br \/>\n    Que ter&aacute;s alma entam!<br \/>\n    V&ecirc; como sobe o incenso,<br \/>\n    Quaes globos de um bulc&atilde;o!<\/p>\n<p align=\"left\">E pelo tecto rompe,<br \/>\n    Quaes lavas de um vulc&atilde;o!<br \/>\n    E aos ceus leva a fragancia,<br \/>\n    &#8212; Veloz, qual um peg&atilde;o!<br \/>\n    V&ecirc; como sobe o incenso,<br \/>\n    Que aromatiza o altar:<br \/>\n    Suave,&#8212; qual a briza<br \/>\n    Entre o fervor do mar:<br \/>\n    Suave,&#8212;qual dos anjos<br \/>\n    O doce respirar.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Ai! &#8212; praza a Deus que breve,<br \/>\n    Tam breve como a flor,<br \/>\n    Ardendo o incenso,&#8212; ardendo,<br \/>\n    Qual virginal rubor,<br \/>\n    Transponha aos c&eacute;us a alma<br \/>\n    Do triste trovador!<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">O MISANTROPO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>AO MEU AMIGO<\/b><\/p>\n<h2>LUPERCIO GAHAGEM CHAMPLONl<\/h2>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Debalde procuro O<br \/>\n    campo, as florestas: Imagens<br \/>\n    funestas Me seguem t&eacute;<br \/>\n    l&aacute;. Nas lapas, nas<br \/>\n    rochas, Debaixo da terra,<br \/>\n    Um busto me atterra, Um<br \/>\n    homem est&aacute;.<br \/>\n    Co&#8217;os olhos brilhantes, Co&#8217;as faces<br \/>\n    formosas, Co&#8217;os l&aacute;bios de rosas,<br \/>\n    Surri-se p&#8217;ra mim. Debalde lhe<br \/>\n    amostro Medonho o semblante:<br \/>\n    Co&#8217;um gesto galante Responde que<br \/>\n    &#8212; sim.<\/p>\n<p align=\"left\">Na areia da fonte,<br \/>\n    Nas urnas do rio,<br \/>\n    Meu rosto sombrio<br \/>\n    Si incontra co&#8217;o seu.<br \/>\n    Ajuncta seus labios,<br \/>\n    Bebendo commigo, &#8212;<br \/>\n    Fatal inimigo<br \/>\n    Que o fado me deu.<br \/>\n    Correndo assombrado<br \/>\n    Do vulto gravoso,<br \/>\n    Veloz, pressuroso,<br \/>\n    Demando a soid&atilde;o.<br \/>\n    Mas, inda correndo,<br \/>\n    Si volto co&#8217;os olhos,<br \/>\n    Incontro os sobrolhos,<br \/>\n    Da eterna viz&atilde;o.<br \/>\n    E sempre a surrir-se.<br \/>\n    Qual mo&ccedil;a innocente,<br \/>\n    Co&#8217;um modo contente<br \/>\n    Dizendo-me adeus.<br \/>\n    Renego-te, oh anjo<br \/>\n    Fatal, sempiterno,<br \/>\n    Ou venhas do inferno,<br \/>\n    Ou venhas de Deus!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Nos raios da aurora,<br \/>\n    Nos trinos das aves,<br \/>\n    Nas brizas suaves,<br \/>\n    Na voz da manh&atilde;,<br \/>\n    Em p&eacute;, sobre os montes,<br \/>\n    Co&#8217;um brado que atterra,<br \/>\n    Maldigo essa terra<br \/>\n    Tam ampla, tam van.<br \/>\n    Os homens odeio,<br \/>\n    Com odio profundo,<br \/>\n    Com odio, que o mundo<br \/>\n    N&atilde;o p&ocirc;de intender.<br \/>\n    Entam, quanto quero,<br \/>\n    Derramo do peito<br \/>\n    O fel, que, desfeito,<br \/>\n    N&atilde;o posso conter.<br \/>\n    E clamo em discursos,<br \/>\n    Em odes atrozes, E os<br \/>\n    brutos ferozes<br \/>\n    Me temem de ouvir,<br \/>\n    Dos raios que attiro,<br \/>\n    Feridas as selvas,<\/p>\n<p align=\"left\">De folhas, de relvas<br \/>\n    S&egrave; fazem despir.<br \/>\n    Maldigo as estreitas,<br \/>\n    As nuvens, a aurora,<br \/>\n    A queixa sonora<br \/>\n    Das aves do ceu.<br \/>\n    Maldigo esse incanto<br \/>\n    Que abysmos incobre,<br \/>\n    &#8212; Mulher que se cobre<br \/>\n    Co&#8217;as dobras de um veu.<br \/>\n    Maldigo a sciencia<br \/>\n    Que os homens tortura,<br \/>\n    &#8212; Formosa loucura<br \/>\n    De face lou&ccedil;an;<br \/>\n    Procella da insania,<br \/>\n    Peg&atilde;o de sophismas,<br \/>\n    Montanha de prismas,<br \/>\n    Figura de Pan.<br \/>\n    Maldigo a virtude<br \/>\n    Inst&aacute;vel cad&#8217;hora,<br \/>\n    Democrito agora,<br \/>\n    Agora Cat&atilde;o:<br \/>\n    Phantasma versatil,<br \/>\n    Extranho, n&atilde;o visto,<br \/>\n    Que ri-se no Christo,<br \/>\n    Que chora em Jo&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Sedento da raiva<br \/>\n    Que nunca me finda,<br \/>\n    Mais v&aacute;lido ainda,<br \/>\n    Maldigo meus paes.<br \/>\n    Depois, elevando<br \/>\n    A vista ao superno,<br \/>\n    Maldigo do Eterno,<br \/>\n    Por ser dos mortaes.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">E sempre esse busto<br \/>\n    De homem que odeio,<br \/>\n    Me vem, sem receio,<br \/>\n    Constante, escutar.<br \/>\n    E a cada discurso,<br \/>\n    Que franco improvizo,<br \/>\n    Responde co&#8217;um rizo,<br \/>\n    E p&otilde;e-se a calar.<br \/>\n    No seio das rochas<br \/>\n    Debalde me amparo,<br \/>\n    Que sempre o deparo<br \/>\n    Co&#8217;um rizo dos seus.<\/p>\n<p align=\"left\">Castigo infinito,<br \/>\n    Tantalico, eterno.<br \/>\n    Que veiu do inferno<br \/>\n    Por ordem de Deus!<br \/>\n    Em cima da rocha<br \/>\n    Me assento ferino<br \/>\n    Com gesto assassino<br \/>\n    Buindo um punhal.<br \/>\n    Mas elle desata,<br \/>\n    Deixando-me em pasmo,<br \/>\n    Com rude sarcasmo,<br \/>\n    Risada brutal.<br \/>\n    E corro demente<br \/>\n    Por invias devezas,<br \/>\n    Co&#8217;as faces accezas,<br \/>\n    Co&#8217;o ferro na m&atilde;o.<br \/>\n    E o busto sinistro<br \/>\n    Recua voando,<br \/>\n    De frente me olhando<br \/>\n    Co&#8217;um rizo brinc&atilde;o,<br \/>\n    E sempre a surrir-se,<br \/>\n    Qual mo&ccedil;a innocente,<br \/>\n    Co&#8217;um modo contente<br \/>\n    Dizendo-me adeus!<\/p>\n<p align=\"left\">Castigo infinito,<br \/>\n    Tantalico, eterno,<br \/>\n    Que veio do inferno<br \/>\n    Por ordem de Deus!<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">A ORPHAN NA COSTURA<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Ella lhe ensinou a levantar suas<br \/>\n    m&atilde;os puras e innocentes para o ceu,<br \/>\n    a dirigir seus primeiros olhares a seu<br \/>\n    Creador.<br \/>\n    <b>FLECHIER.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Minha m&atilde;e era bonita,<br \/>\n    Era toda a minha dita,<br \/>\n    Era todo o meu amor.<br \/>\n    Seu cabello era tam louro,<br \/>\n    Que nem uma fita de ouro<br \/>\n    Tinha tamanho esplendor.<br \/>\n    Suas madeixas luzidas<br \/>\n    Lhe cahiam tam cumpridas,<br \/>\n    Que vinham-lhe os p&eacute;s beijar.<br \/>\n    Quando ouvia as minhas queixas,<br \/>\n    Em suas aureas madeixas<br \/>\n    Ella vinha me imbrulhar.<br \/>\n    Tambem quando toda fria<br \/>\n    A minha alma estremecia,<br \/>\n    Quando ausente estava o sol,<br \/>\n    Os seus cabellos cumpridos,<\/p>\n<p align=\"left\">Como fios aquecidos,<br \/>\n    Serviam-me de len&ccedil;ol.<br \/>\n    Minha m&atilde;e era bonita,<br \/>\n    Era toda a minha dita,<br \/>\n    Era todo o meu amor.<br \/>\n    Seus olhos eram suaves,<br \/>\n    Como o gorgeio das aves<br \/>\n    Sobre a cho&ccedil;a do pastor.<br \/>\n    Minha m&atilde;e era mui bella,<br \/>\n    &#8212;Eu me lembro tanto d&#8217;elia,<br \/>\n    De tudo quanto era seu!<br \/>\n    Tenho em meu peito guardadas<br \/>\n    Suas palavras sagradas<br \/>\n    Co&#8217;os rizos que ella me deu.<br \/>\n    Os meus passos vacillantes<br \/>\n    Foram por largos instantes,<br \/>\n    Insinados pelos seus.<br \/>\n    Os meus labios mudos, quedos<br \/>\n    Abertos pelos seus dedos,<br \/>\n    Pronunciaram-me: &#8212; Deus!<br \/>\n    Mais tarde &#8212; quando accordava<br \/>\n    Quando a aurora despontava,<br \/>\n    Erguia-me sua m&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Fallando pela voz d&#8217;ella,<br \/>\n    Eu repetia singela<br \/>\n    Uma formosa ora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Minha m&atilde;e era mui bella,<br \/>\n    &#8212; Eu me lembro tanto d&#8217;ella,<br \/>\n    De tudo quanto era seu!<br \/>\n    Minha m&atilde;e era bonita,<br \/>\n    Era toda a minha dita,<br \/>\n    Era tudo e tudo meu.<br \/>\n    Estes pontos que eu imprimo,<br \/>\n    Estas quadrinhas que eu rimo,<br \/>\n    Foi ella que me ensinou, As<br \/>\n    vozes que eu pronuncio.<br \/>\n    Os cantos que eu balbucio,<br \/>\n    Foi ella que m&#8217;os formou.<br \/>\n    Minha m&atilde;e ! &#8212; diz-me esta vida,<br \/>\n    Diz-me tambem esta lida,<br \/>\n    Esta retroz, esta lan :<br \/>\n    Minha m&atilde;e! &#8212; diz-me este canto,<br \/>\n    Minha m&atilde;e ! &#8212;diz-me este pranto,<br \/>\n    &#8212; Tudo me diz: &#8212; Minha m&atilde;e! &#8212;<br \/>\n    Minha m&atilde;e era mui bella,<br \/>\n    &#8212; Eu me lembro tanto d&#8217;ella.<\/p>\n<p align=\"left\">De tudo quanto era seu ! Minha m&atilde;e era<br \/>\n    bonita, Era toda a minha dita, Era tudo e<br \/>\n    tudo meu.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">MEU FILHO NO CLAUSTRO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>CAN&Ccedil;&Atilde;O MATERNA<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Eu n&atilde;o sou tua m&atilde;e que te pr&eacute;za?<br \/>\n    Tu n&atilde;o v&ecirc;s meus cuidados maternos ?<br \/>\n    E me escondes as dores que sentes?<br \/>\n    N&atilde;o sei eu teus desgostos internos ?<br \/>\n    Eu te disse, meu filho, eu te disse<br \/>\n    Que j&aacute;mais te apartasses de mim.<br \/>\n    Tu quizeste, meu filho, tu foste,<br \/>\n    Tu agora padeces assim.<br \/>\n    Tu deixaste meu seio materno,<br \/>\n    Tu deixaste teu pae tam doente!<br \/>\n    V&ecirc; teu pae, como, gasto de angustias,<br \/>\n    Chora e geme &#8212; perdido e demente.<br \/>\n    Tu deixaste os logares da infancia,<br \/>\n    Mais as flores do nosso jardim.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o brotam, n&atilde;o cheiram as flores,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o deitam perfumes assim.<\/p>\n<p align=\"left\">J&aacute; n&atilde;o deitam bot&otilde;es as roseiras,<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o deitam si quer uma flor.<br \/>\n    Elias sentem, percebem &#8212; coitadas &#8212;<br \/>\n    Que perderam tamb&eacute;m seu cultor.<br \/>\n    Eu beijei teu fantil jasmineiro,<br \/>\n    E pedi-lhe em teu nome um jasmim,<br \/>\n    Veiu a briza, moveu-lhe a folhagem;<br \/>\n    Percebi que negava-m&#8217;o assim.<br \/>\n    Tuas plantas bem sabem &#8212; coitadas &#8212;<br \/>\n    Que perderam seu lindo cultor.<br \/>\n    Elias sabem tambem que tu vives<br \/>\n    Sepultado no abysmo da dor.<br \/>\n    Teu presente, meu filho, &eacute; t&atilde;o triste!<br \/>\n    Que ser&aacute; teu futuro e teu fim?<br \/>\n    E quem p&oacute;de esperar mais horrores<br \/>\n    Quem come&ccedil;a com tantos assim!<br \/>\n    Tu quizeste ser monge, tu foste,<br \/>\n    Tu sahiste da casa paterna.<br \/>\n    Insultaste os maternos pedidos,<br \/>\n    Mais a queixa infantil e fraterna.<br \/>\n    Teus irm&atilde;os levantaram mil vozes<br \/>\n    Com seus l&aacute;bios de ardente rubim.<br \/>\n    E clamaram, &#8212; coitados &#8212; chorando,<br \/>\n    Que n&atilde;o ha, como o teu, genio assim!<\/p>\n<p align=\"left\">Tu cortaste os anneis dos cabellos,<br \/>\n    _ Teus cabellos, que eu tanto estimava.<br \/>\n    Eu por elles chorei&#8230; tu surriste,<br \/>\n    Tu mais fero que a fera mais brava!<br \/>\n    Eu por elles chorei: &#8212; que elles eram<br \/>\n    Lindos fios de preto setim.<br \/>\n    Para seus tua irman os queria,<br \/>\n    Que os n&atilde;o tinha tam bellos assim.<br \/>\n    As m&atilde;osinhas da irman que te chora<br \/>\n    Teus cabellos, brincando, alizavam.<br \/>\n    Quantas vezes meus l&aacute;bios sedentos<br \/>\n    Teus cabellos, meu filho, beijavam !<br \/>\n    Hoje &#8212; que &eacute; de teus lindos cabellos,<br \/>\n    Tam corridos, qual preto setim ?<br \/>\n    Hoje tens desnuada a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    &#8212; E que frio n&atilde;o sentes assim ?<br \/>\n    Mas eu tive coragem p&#8217;ra ver-te<br \/>\n    Adornado de crepe feral.<br \/>\n    E te vi revestido a cadaver,<br \/>\n    Como a face do genio do mal.<br \/>\n    Eu a Deus perguntei: &#8212; Pois ao mundo<br \/>\n    Para as dores somente &eacute; que eu vim?<br \/>\n    Para ver e sentir que meu filho<br \/>\n    D&aacute;-me tantos martyrios assim?<\/p>\n<p align=\"left\">Nos degraus dos altares ao longo<br \/>\n    Te prostraste co&#8217;a face no ch&atilde;o.<br \/>\n    E juraste ao Eterno ante os homens<br \/>\n    Que meu filho n&atilde;o eras mais n&atilde;o.<br \/>\n    Blasphemei nesse instante do Christo<br \/>\n    Nos assomos do meu phrenezim.<br \/>\n    &#8212; Os amores de pae n&atilde;o sam nada,<br \/>\n    Os extremos de m&atilde;e sam assim!<br \/>\n    Blasphemei d&#8217;esse Deus que arrancava<br \/>\n    De meus bra&ccedil;os meu filho querido:<br \/>\n    Que despia-lhe os trajos de seda,<br \/>\n    Para dar-lhe um funereo vestido.<br \/>\n    Blasphemei d&#8217;esse Deus que lhe impunha<br \/>\n    Ferreos votos, eternos, sem fim:<br \/>\n    Que seus filhos por victimas conta:<br \/>\n    Que quer tantos martyrios assim!<br \/>\n    &Eacute; mentira. Essa lei violenta<br \/>\n    N&atilde;o foi feita por Nosso Senhor.<br \/>\n    Nosso Deus n&atilde;o nos prende com ferros,<br \/>\n    Mas com la&ccedil;os de docil amor.<br \/>\n    N&atilde;o inveja da m&atilde;e os prazeres,<br \/>\n    Como rozas ornando o festim.<br \/>\n    N&atilde;o lhe d&aacute; innocentes filhinhos,<br \/>\n    Para em vida arrancar-lh&#8217;os assim.<\/p>\n<p align=\"left\">Blasphemei! &#8212; e no reino das chammas<br \/>\n    Dos demonios ouviu-me a cohorte:<br \/>\n    E rompeu n&#8217;uma horr&iacute;vel orchestra,<br \/>\n    Digna festa dos filhos da morte!<br \/>\n    A minh&#8217;alma riscou-a em seu livro<br \/>\n    De meu Deus o cruel cherubim.<br \/>\n    N&atilde;o faz mal: foi por ti que perdi-a.<br \/>\n    Oxal&aacute; que eu ganhasse-te assim!<br \/>\n    Mas tormentos opprimem teu peito<br \/>\n    Mais terriveis talvez que este inferno.<br \/>\n    Sim: tu soffres, &#8212; eu sei, &#8212; mais angustias<br \/>\n    Do que soffre meu peito materno.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o brinca o prazer em teus olhos<br \/>\n    Mais travessos, que vivo delphim,<br \/>\n    As tristezas, que aff&ecirc;am teu rosto,<br \/>\n    N&atilde;o ha d&#8217;ellas nos homens assim.<br \/>\n    N&atilde;o me escondas, meu filho, estas penas,<br \/>\n    De pezares communs n&atilde;o me prives.<br \/>\n    Eu bem sei que sem mim &#8212; entre extranhos &#8212;<br \/>\n    &Eacute; difficil a vida que vives.<br \/>\n    Vem, descerra, meu filho, estes labios,<br \/>\n    Onde vi transpirar-te o carmim.<br \/>\n    Foste ingrato, &eacute; verdade: mas sabe<br \/>\n    Que eu te estimo, meu filho, inda assim.<\/p>\n<p align=\"left\">Entre a febre teu pae se revolve<br \/>\n    Nesse leito que outr&#8217;ora foi teu.<br \/>\n    Grita, clama, tact&ecirc;a, procura S&oacute;<br \/>\n    por ti &#8212; primog&ecirc;nito seu.<br \/>\n    Foste ingrato! &#8212; deixaste teus lares,<br \/>\n    Teus irm&atilde;os, mais teu pae, mais a mim.<br \/>\n    Tu quizeste ser monge, &#8212; meu filho,<br \/>\n    Tu agora padeces assim!<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">MILTON<\/a><\/h4>\n<h5>Ao joven poeta Odorico Octavio Odilon<\/h5>\n<p align=\"right\">F&ocirc;ra devida ao genio outra homenagem:<br \/>\n    Mas a offrenda do pobre agrada ao sabio.<\/p>\n<p align=\"left\">L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Nos campos de Albion, tremente e cego,<br \/>\n    Inda tact&ecirc;a inspira&ccedil;&otilde;es e carmes.<br \/>\n    V&ecirc;de-o: &#8212; can&ccedil;ado l&aacute; se ar rima &aacute; esposa,<br \/>\n    Que num abra&ccedil;o lhe sustenta o corpo.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Co&#8217;a pupilla sem luz procura embalde<br \/>\n    Fitar o sol, onde um archanjo habita.<br \/>\n    Vate divino, &#8212; elle enxergara outr&#8217;ora<br \/>\n    Nos raios d&#8217;este sol descendo os anjos.<br \/>\n    N&#8217;um de seus raios elle ainda espera<br \/>\n    Que um anjo venha, e lhe esclare&ccedil;a a vista.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<\/p>\n<p align=\"left\">Em v&atilde;o a filha que escreveu-lhe os cantos<br \/>\n    Dirige os olhos do cantor do Empyreo.<br \/>\n    Em v&atilde;o a incerta e tremula retina<br \/>\n    Crava-se immovel no luzente raio.<br \/>\n    N&atilde;o mais o anjo, que elle vira outr&#8217;ora,<br \/>\n    Desliza l&aacute; do sol, baixando &aacute; terra.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    N&atilde;o mais o &Eacute;den, como d&#8217;antes, flore,<br \/>\n    N&atilde;o mais o cedro vai topar co&#8217;as nuvens.<br \/>\n    N&atilde;o mais o homem, pelos prados livre,<br \/>\n    Medita Deus, medita amor, &#8212; e dorme.<br \/>\n    N&atilde;o mais essa mulher perfeita e nua<br \/>\n    Sonha innocencias, e innocencias falla.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Milton, Milton n&atilde;o v&ecirc; o ceu que canta,<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc; a terra cujas cores pinta.<br \/>\n    A esposa, a esposa &eacute;-lhe invis&iacute;vel mesma;<br \/>\n    S&oacute; pelo espinho reconhece a rosa.<br \/>\n    Chora entre os cantos, rouxinol celeste:<br \/>\n    S&oacute; pelos prantos reconhece os olhos.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Mesmo entre prantos mavioso canta<br \/>\n    O ceu e a terra e o lobr&ecirc;go do inferno.<\/p>\n<p align=\"left\">Abrem-lhe Homero as alvas m&atilde;os da esposa.<br \/>\n    Vai-lhe a filhinha transcrevendo os carmes.<br \/>\n    Em meio do labor correm-lhe as lagrymas,<br \/>\n    Que a esposa e a filha inxugam-lhe com osculos<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Dorme depois,&#8212; e no dormir re-sonha<br \/>\n    Co&#8217;os lindos anjos, que pensou de dia.<br \/>\n    Antes do sol accorda,&#8212; e vai co&#8217;a esposa<br \/>\n    Ao som de cantos despertar a aurora.<br \/>\n    E sempre espera que n&#8217;um raio acazo<br \/>\n    Des&ccedil;a algum anjo e lhe illumine a vista.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero.<br \/>\n    Cromwel no solio venerou tal homem.<br \/>\n    Depois um despota acatou-lhe o orgulho.<br \/>\n    Pobre inda &eacute; livre,&#8212; como cego e velho<br \/>\n    Inda tact&ecirc;a inspira&ccedil;&otilde;es e carmes.<br \/>\n    Limpa-lhe a filha as lagrymas com osculos.<br \/>\n    Sust&eacute;m-lhe o corpo co&#8217;um abra&ccedil;o a esposa.<br \/>\n    L&aacute; vai Milton, l&aacute; vai. Fatuos inglezes,<br \/>\n    Dobrae a curva ante o moderno Homero<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">POBRE E SUBERBO<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">&#8212; A pobreza orgulhosa explica<br \/>\n    o cynismo do muita gente.<br \/>\n    <b>MARQUEZ DE MARIC&Aacute;.<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\"> Alli n&#8217;aquelle alvergue derrocado<br \/>\n    Pela sanha do norte<br \/>\n    Um velho existe,&#8212; que libara um dia<br \/>\n    Os osculos da sorte.<br \/>\n    &Aacute;s portas lhe bateram os prazeres<br \/>\n    Dourados de ventura.<br \/>\n    Surriram-lhe os amores incantados<br \/>\n    Surrizo de do&ccedil;ura.<br \/>\n    Infindo pellot&atilde;o de amigos nobres<br \/>\n    Subia-lhe as escadas.<br \/>\n    Co&#8217;esgares de paix&atilde;o lhe olhavam ternas<br \/>\n    As damas affectadas.<br \/>\n    Tocou-lhe um dia na intonada fronte<br \/>\n    O dedo da desgra&ccedil;a.<br \/>\n    E, qual fumo disperso pelos ares,<br \/>\n    Seu fastigio esvoa&ccedil;a.<\/p>\n<p align=\"left\">Desappareceu,&#8212; qual vento, a chusma innumera<br \/>\n    De tanto e tanto amigo.<br \/>\n    E os filhinhos ao peito, a esposa ao lado,<br \/>\n    &#8212; Chorava sem abrigo.<br \/>\n    Dominando a montanha, &#8212; hontem vi&ccedil;ava<br \/>\n    Pinheiro alevantado.<br \/>\n    Rugiu de madrugada o sul teimoso:<br \/>\n    Eil-o no ch&atilde;o prostrado !<br \/>\n    Talvez da providencia a m&atilde;o piedosa<br \/>\n    Mostrou-lhe esta choupana.<br \/>\n    Pelo aceno de Deus talvez a al&ccedil;aram<br \/>\n    O c&ocirc;lmo e a agreste canna.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\"> Vegeta o velho alli. Si dorme,&#8212; accorda-o<br \/>\n    Dos filhos o lamento.<br \/>\n    Si accorda,&#8212; escuta a esposa repassada<br \/>\n    De dor, fome e tormento.<br \/>\n    Muito cedo a cabe&ccedil;a incaneceu-lhe<br \/>\n    Miseria e dissabor.<br \/>\n    N&atilde;o sabe trabalhar : &#8212; estava feito<br \/>\n    &Aacute; paz, ao somno e amor.<\/p>\n<p align=\"left\">Problema incr&iacute;vel lhe parece ao menos<br \/>\n    Tam veloz decadencia.<br \/>\n    E n&atilde;o sabe suster o azar da sorte<br \/>\n    Com constancia e prudencia.<br \/>\n    E n&atilde;o sabe buscar,&#8212; de tonto e fatuo,<br \/>\n    Em Deus consola&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E n&atilde;o sabe incensar os p&eacute;s do Eterno<br \/>\n    Co&#8217;os fumos da ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Hontem de tarde ergueu-se.&#8212; A esposa e os filhos<br \/>\n    Em torno se ajuntaram;<br \/>\n    E, como ecch&ocirc;a um fr&ecirc;mito de espectros,<br \/>\n    &#8212; Fome, fome! &#8212; gritaram.<br \/>\n    E pegou do bord&atilde;o: &#8212; qual temulento,<br \/>\n    Foi caminho d&#8217;ald&ecirc;a.<br \/>\n    Pedinchando,&#8212; era um grande que imperava<br \/>\n    Com voz ingente e ch&ecirc;a.<br \/>\n    O passageiro olhou-lhe os vis andrajos<br \/>\n    E o sobrecenho horr&iacute;vel.<br \/>\n    Meneou-lhe a cabe&ccedil;a,&#8212; e escarneceu-lhe<br \/>\n    A nobreza rizivel.<\/p>\n<p align=\"left\">Avezado a mandar &#8212; um potentado<br \/>\n    N&atilde;o deve pedir nunca;<br \/>\n    Embora os rins sens&iacute;veis lhe comprima<br \/>\n    A m&atilde;o da fome adunca.<br \/>\n    Chamam-lhe a isso n&#8217;esse mundo os homens<br \/>\n    &#8212; Const&acirc;ncia e pundonor.&#8212;<br \/>\n    E, .dos nomes co&#8217;a cor, cuidam que apagam<br \/>\n    Da suberbia a c&ocirc;r.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p align=\"left\">O velhinho voltou : &#8212; injusto e t&ecirc;sto<br \/>\n    Maldiz o ceu e a terra.<br \/>\n    E torrentes de affrontas e blasphemias<br \/>\n    Do peito desincerra.<br \/>\n    Assim como um tyranno, que aguardava<br \/>\n    Da turba a subjei&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    Mal-soffrido se assanha, quando escuta<br \/>\n    Ao seu dictame um &laquo;n&atilde;o.&raquo;<br \/>\n    E grave entrou no alvergue: &#8212; os olhos torvos,<br \/>\n    A catadura m&aacute;.<br \/>\n    H&iacute; vai fallar,&#8212; e a voz, que a raiva ingasga,<br \/>\n    Rouco mugido d&aacute;.<\/p>\n<p align=\"left\">Nos olhos lhe adivinham os filhinhos<br \/>\n    O bem, ou mal, que traz.<br \/>\n    Physionomistas por precizo instincto<br \/>\n    A natureza os faz.<br \/>\n    E a m&atilde;e co&#8217;os filhos um funereo pranto<br \/>\n    Entam do peito arrancam.<br \/>\n    S&oacute; n&atilde;o chorava o velho, &#8212; que co&#8217;a raiva<br \/>\n    As lagrimas se estancam.<br \/>\n    Pranto e pranto de morte alevantaram<br \/>\n    Os filhos,&#8212; recordando<br \/>\n    Que sustento mal-s&atilde;o, &#8212; herva dos campos<br \/>\n    Ainda ir&atilde;o catando.<\/p>\n<p align=\"left\">Ai! &#8212; que entrasse do pobre na guarida<br \/>\n    Benfeitor generoso,<br \/>\n    Que na tripe&ccedil;a lhe deixasse adrede<br \/>\n    Mont&atilde;o de ouro abundoso!<br \/>\n    Vel-o-ias &#8212; o velho, remo&ccedil;ado,<br \/>\n    Desamparar a cho&ccedil;a;<br \/>\n    Na ventura olvidar essa tristeza,<br \/>\n    Que o cora&ccedil;&atilde;o lhe ro&ccedil;a.<\/p>\n<p align=\"left\">Tal em lindo jardim roseira debil,<br \/>\n    Que o hynverno desnudara,<br \/>\n    Na primavera j&aacute; pimpolha ovante,<br \/>\n    Como si n&atilde;o murchara.<br \/>\n    Por&eacute;m talvez ao benfeitor nas costas<br \/>\n    Imbebera um punhal:<br \/>\n    Ou em dourada ta&ccedil;a propinara-lhe<br \/>\n    Um toxico fatal.<br \/>\n    Sobre suberbo,&#8212; ingrato ! Eil-a do velho<br \/>\n    Inteira a apologia.<br \/>\n    Ham de sel-o tamb&eacute;m os innocentes<br \/>\n    Filhinhos que elle cria.<br \/>\n    Os le&otilde;esinhos dos le&otilde;es aprendem<br \/>\n    Sanha e sede de sangue:<br \/>\n    Vam gostando de ver os paes sedentos<br \/>\n    Tragar a pr&ecirc;a exangue.<br \/>\n    E &#8212; rarissimo caso,&#8212; que entre os trances<br \/>\n    E os soffrimentos seus,<br \/>\n    Uma s&oacute; vez os l&aacute;bios do velhinho<br \/>\n    N&atilde;o invocaram Deus!<br \/>\n    O nome do que s&oacute;,&#8212; de seu espirito<br \/>\n    Deu alma aos ceus e &aacute; terra.<br \/>\n    Quem sabe si no peito o velho, timido,<br \/>\n    &#8212; Como um thesouro, o incerra?<\/p>\n<p align=\"left\">Ou nado em ouro e per&#8217;las,&#8212; e educado<br \/>\n    Em luzido sal&atilde;o,<br \/>\n    Por ventura seus p&atilde;es n&atilde;o lhe insinaram<br \/>\n    Siquer uma ora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Ai! &#8212; que vida o velhinho ir&aacute; vivendo, &#8212;<br \/>\n    Que vida de miseria,<br \/>\n    T&eacute; que se lhe desprenda o lasso espirito<br \/>\n    Das p&ecirc;as da materia !<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p align=\"left\">Mancebos, que passais,&#8212; deixae o velho<br \/>\n    Viver na paz da morte:<br \/>\n    Que um dia elle j&aacute; foi,&#8212;como v&oacute;s-outros.<br \/>\n    Rico dos dons da sorte.<br \/>\n    Mancebos, que passais,&#8212;deixae o velho<br \/>\n    Chorar ao p&eacute; da porta.<br \/>\n    N&atilde;o n&#8217;o insulteis,&#8212; j&aacute; que a desgra&ccedil;a d&#8217;elle<br \/>\n    Tam pouco vos importa.<br \/>\n    S&ecirc;de, oh jovens brinc&otilde;es,&#8212; mais generosos,<br \/>\n    &#8212; E n&atilde;o n&#8217;o escarne&ccedil;ais.<br \/>\n    Mais antes venerae nas cans do velho<br \/>\n    As cans de vossos paes.<\/p>\n<p align=\"left\">Bem v&ecirc;del-o tranzido.&#8212; A magra fome<br \/>\n    As v&iacute;sceras lhe esfola.<br \/>\n    N&atilde;o lhe olheis a arrog&acirc;ncia,&#8212; oh bons mancebos,<br \/>\n    Mas dae,&#8212; dae-lhe uma esmolla.<br \/>\n    <b>1851.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">OS CLAUSTROS<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>(SECULO XVIII)<\/b><\/p>\n<h2>A Frei Arsenio da Natividade Moura<\/h2>\n<p align=\"right\">Tu, que sabes chorar a cren&ccedil;a exangue,<br \/>\n    &#8212; Crente ! &#8212; desamar&aacute;s os ais de um crente ?<\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\"> Dorme, dorme teu somno, oh van cidade,<br \/>\n    Dorme teu somno sensual e podre:<br \/>\n    Que as estrellas e a lua,&#8212; de offendidas,<br \/>\n    O inutil brilho em negro veu trocaram.<br \/>\n    Carranca enorme de chumbadas nuvens<br \/>\n    A c&ocirc;r dos c&eacute;us trocou na c&ocirc;r do abysmo.<br \/>\n    &Eacute; noite: e noite de pavor &eacute; ella,<br \/>\n    Sacra aos mysterios de esquecidos tumulos.<br \/>\n    Sosinho o bardo aqui,&#8212;co&#8217;a noite e as trevas!<br \/>\n    S&oacute; elle aqui: &#8212; que o mundo &eacute; morto agora<br \/>\n    Nos bra&ccedil;os do lethargo,&#8212; irm&atilde;o do nada.<br \/>\n    S&oacute; elle aqui co&#8217;as campas dos finados<br \/>\n    Na latid&atilde;o dos claustros solitarios.<\/p>\n<p align=\"left\">Que appontando co&#8217;o indice da morte<br \/>\n    Aos carcomidos d&iacute;sticos das lapidas,<br \/>\n    Surrindo-se, lhe solvem o problema,<br \/>\n    &#8212;Arduo problema,&#8212; do que monta o mundo<br \/>\n    E a vida e os homens e a vaidade d&#8217;elles.<br \/>\n    Que ahi n&atilde;o haja uma alma, qual a sua,<br \/>\n    Que ria-se da guerra e paz do mundo,<br \/>\n    &#8212; Ai! que differe a paz da guerra d&#8217;elle ? &#8212;<br \/>\n    E,&#8212; qual vigia no arraial do exercito,<br \/>\n    A noute vele entre o dormir das armas,<br \/>\n    E a s&oacute;s co&#8217;o trovador, co&#8217;os seus inl&ecirc;vos &#8212;<br \/>\n    Venha, arroubada, commungar dos saibos<br \/>\n    Do absinthio amaro,&#8212; que chamaram &#8212; vida ?<br \/>\n    N&atilde;o: sosinho &#8212; &eacute; melhor. Sosinho o cysne<br \/>\n    No vazio dos ceus mais livre adeja.<br \/>\n    Aqui n&atilde;o ha mister de alma bastarda,<br \/>\n    Impura,&#8212; como os vermes do sepulchro,&#8212;<br \/>\n    Que lhe immole a innocencia dos pensares,<br \/>\n    Quando na mente se fermentam inda<br \/>\n    Tumultuosos,&#8212; qual do ninho escasso<br \/>\n    O bando das alcyones garridas<br \/>\n    Desprega o v&ocirc;o pelo v&atilde;o dos ares.<br \/>\n    Aqui n&atilde;o ha mister de alma bastarda,<br \/>\n    Que as emo&ccedil;&otilde;es mais intimas lhe insulte,<br \/>\n    Antes que saltem as id&egrave;as f&oacute;ra<\/p>\n<p align=\"left\">Do cerebro, que apenas as continha,<br \/>\n    De pequenino,&#8212; e pelos labios francos<br \/>\n    Em simples f&ocirc;rma r&aacute;pidas ressumbrem:<br \/>\n    Tal ao sereno exposta,&#8212; inteira a noute,<br \/>\n    Amphora cheia do licor mais puro,<br \/>\n    L&aacute; por ante-manhan, fervendo ao frio,<br \/>\n    &#8212; Aventou com fragor,&#8212; e a lympha clara<br \/>\n    Se expandiu pelo ch&atilde;o, que a foi sorvendo.<br \/>\n    Essa abstrac&ccedil;&atilde;o de espirito chymerica,<br \/>\n    Esse supposto cora&ccedil;&atilde;o de amigo,<br \/>\n    Existe algures ? &#8212; Morar&aacute; no peito<br \/>\n    Da pombinha, que affaga entre os arrulhos<br \/>\n    A colleira do esposo,&#8212; e abandonada,<br \/>\n    Deixando-o no pombal beijando os filhos,<br \/>\n    Deita a correr traz os cazaes visinhos ?<br \/>\n    &#8212; Ou morar&aacute;, talvez, no adunco bico<br \/>\n    Do pelicano, que estrangula as v&iacute;sceras<br \/>\n    Para dar a beber seu sangue aos filhos,<br \/>\n    E sendo adultos, desconhece-os todos?<br \/>\n    &#8212; Este ser ideal, typo dos anjos &#8212;<br \/>\n    Quem concebeu-o, escarneceu dos homens.<br \/>\n    Ou foi um parto de trai&ccedil;&atilde;o dos incubos<br \/>\n    Para mais tratear a mente aos vivos,<br \/>\n    Desesperar,&#8212; ganhar a si mais almas.<br \/>\n    Mas si &eacute; certo que existe um tal phantasma,<br \/>\n    &#8212; Ou vive l&aacute; com Deos, al&eacute;m dos mundos,<br \/>\n    Ou foi tolhido ao bardo egual thesouro.&#8212;<\/p>\n<p align=\"left\">Antes sosinho ser. Si n&#8217;um despenho,<br \/>\n    De ignorante, cahir,&#8212; n&#8217;elle pere&ccedil;a<br \/>\n    De vez p&#8217;ra sempre. Assim lascado o seixo<br \/>\n    Das penedias da fragosa costa<br \/>\n    Com ruido sonoro ao mar descendo<br \/>\n    Do gravitar nas azas necessarias,<br \/>\n    As vagas perfurando,&#8212; achou no pego<br \/>\n    E paz e olvido e supultura eterna:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o no arranques de l&aacute;, bra&ccedil;o de ferro,<br \/>\n    Para dar-lhe depois em troco a morte,<br \/>\n    &#8212; E que morte?&#8212;o morrer do renegado!&#8212;<br \/>\n    No amargo travo da trai&ccedil;&atilde;o primeiro,<br \/>\n    Depois no eculeo d&aacute; calumnia torpe,<br \/>\n    No vasquejar, alfim, do desespero.<br \/>\n    Tambem agora o ceu est&aacute; despido<br \/>\n    Dos astros seus.&#8212; Nuvens de cinza o toldam,<br \/>\n    E os amigos da noute o desamparam.<br \/>\n    Tamb&eacute;m agora os claustros estam mudos,<br \/>\n    E parecem dormir um somno eterno,<br \/>\n    Quaes solit&aacute;rios paramos infindos,<br \/>\n    Onde n&atilde;o ha ouvir humano accento.<br \/>\n    &Eacute; tudo morte : &#8212; e s&oacute; de quando em quando<br \/>\n    Quebra um tuf&atilde;o das naves a calada,<br \/>\n    E vem dizer que a natureza vive.<\/p>\n<p align=\"left\">Oh quanta e quanta vez n&#8217;estas deshoras<br \/>\n    N&atilde;o viram ellas levantar-se os monges,<br \/>\n    A transitar nos v&aacute;cuos corredores,<br \/>\n    &#8212; Como de meigas turturinas aves<br \/>\n    Compacto bando a revoar nos ares, &#8212;<br \/>\n    Recatados e timidos e graves,<br \/>\n    Murmurando baixinho um psalmo lindo.<br \/>\n    A cantar do Senhor as maravilhas!<br \/>\n    Quanta vez em silencio respeitoso<br \/>\n    N&atilde;o ouviram toada e grave e doce,<br \/>\n    &#8212; Grave como o pensar de anci&atilde;o edoso,<br \/>\n    Doce como o fallar de virgem pura, &#8212;<br \/>\n    De hymnos e psalmos e can&ccedil;&otilde;es propheticas,<br \/>\n    Perdendo os ecchos na expans&atilde;o dos ares,<br \/>\n    Subindo em fumos &aacute; mans&atilde;o do Eterno?<br \/>\n    Hoj&#8217;em dia &#8212; esqueleto do deserto, &#8212;<br \/>\n    Que mais ha hi? &#8212; o t&uacute;mulo do nada !<br \/>\n    Agora s&oacute; na negrid&atilde;o das rochas,<br \/>\n    Um talisman rizivel meneando, Algum<br \/>\n    alumno, que sobeja ainda,<br \/>\n    Do fanatismo do caduco Egypto,<br \/>\n    Evocando os espirites do inferno<br \/>\n    Nas extors&otilde;es do livido semblante,<br \/>\n    Murmurar&aacute; ensalmos de demonios.<br \/>\n    Quem se erguer&aacute; do marroquino leito,<\/p>\n<p align=\"left\">Abroquelado de ora&ccedil;&atilde;o piedosa,<br \/>\n    &#8212; Bem como invicto campe&atilde;o da patria<br \/>\n    Que a p&aacute;tria vinga ao imbra&ccedil;ar do escudo, &#8212;<br \/>\n    Para applicar um valioso antidoto<br \/>\n    &Aacute;s sinistras ten&ccedil;&otilde;es do anjo das trevas, E<br \/>\n    debellar-lhe os calculos de sangue?<br \/>\n    &#8212; Nem um si quer! &#8212; os claustros estam quedos,<br \/>\n    Como os sepulchros negros, que os pov&ocirc;am,<br \/>\n    Como as columnas alvas, que os sustentam,<br \/>\n    &#8212; E nem um estalar de orgam saudoso<br \/>\n    Na terra um hymno a Jehovah disfere.<br \/>\n    Elles, depois &#8212; os cenobitas pios &#8212;<br \/>\n    Tambem nas azas de ora&ccedil;&otilde;es devotas<br \/>\n    Baixavam &aacute; rudeza d&#8217;estas claustras,<br \/>\n    E um responso feral e diffundido,<br \/>\n    Qual expansivo rescender de rosas,<br \/>\n    Cahia sobre a campa dos finados,<br \/>\n    E do peccado lhes roubava a pena.<br \/>\n    Entam &#8212; &oacute;leo de unc&ccedil;&atilde;o &#8212; a reza sancta,<br \/>\n    Em labios puros, &#8212; quaes candentes brazas, &#8212;<br \/>\n    Fervendo, &#8212; deslizava internecida.<br \/>\n    Hoje, que resta ao fervor antigo?<br \/>\n    &#8212; Pallidas preces, a desleixo, e mornas,<br \/>\n    Bem como a voz do indifferente hypocrita,<br \/>\n    Calam na lage, e ficam sepultadas.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Modesto velho de mais longes eras,<br \/>\n    &#8212; Modesto como os olhos da donzella, &#8212;<br \/>\n    Assentado ao luar a s&oacute;s com migo<br \/>\n    Nos degraus do vestibulo da egreja,<br \/>\n    Fazendo prantos, me contou que houvera<br \/>\n    Arvorado acol&aacute; juncto do alpendre<br \/>\n    O dorido supplicio do Deus-Homem.<br \/>\n    Os monges co&#8217;os devotos,&#8212; co&#8217;as velhinhas,<br \/>\n    E as trementes velhinhas conduzindo<br \/>\n    Pela m&atilde;o os nettinhos innocentes,<br \/>\n    &#8212;Vinham beijar-lhe o p&eacute;, todos os dias,<br \/>\n    Recitar-lhe uma antiphona eloq&uuml;ente,<br \/>\n    A qual, a humanas ou&ccedil;as passageira,<br \/>\n    Vistosa aos anjos e formosa ao Eterno,<br \/>\n    L&aacute; no tope da cruz resplandecia,<br \/>\n    &#8212; Como cheiroso e lindo ramalhete<br \/>\n    De mil corymbos de distinctas flores<br \/>\n    Tecido pelas m&atilde;os alfeninadas<br \/>\n    Das meninas donosas da campina.<br \/>\n    Hoje &#8212; que &eacute; d&#8217;ella &#8212; a cruz ? &#8212; era um escandalo,<br \/>\n    Era, &#8212; inda mais, &#8212; um fanatismo estupido,<br \/>\n    Era vergonha aos s&aacute;bios d&#8217;este s&eacute;culo,<br \/>\n    &#8212; E foi calcada aos p&eacute;s, lan&ccedil;ada ao fogo!<\/p>\n<p align=\"left\">O velho viu ainda a cruz do alpendre,<br \/>\n    &#8212; Teve esse gozo : &#8212;inda abra&ccedil;ou-lhe as travas,<br \/>\n    E quando os maus e os impios, quaes possessos,<br \/>\n    Entre sanha e blasphemia a espeda&ccedil;avam,<br \/>\n    &#8212; Elle os olhou choroso e compassivo.<br \/>\n    E al&ccedil;ando aos montes os quebrados olhos<br \/>\n    Pediu a Deus inspira&ccedil;&atilde;o,&#8212; incerto<br \/>\n    No que faria entam. E ap&oacute;s um breve<br \/>\n    Fitar nos c&eacute;us e meditar comsigo,<br \/>\n    Perd&atilde;o balbuciou sobre os sacrilegos,<br \/>\n    E quedo foi dormir na cren&ccedil;a sua.<br \/>\n    Elle escutou tambem, uns dias antes,<br \/>\n    &#8212; Qual voz do Eterno insurdecendo as vagas,<br \/>\n    O psalmear dos monges alta noute,<br \/>\n    Que lhe accordou do somno, que dormia,<br \/>\n    &#8212; Desceu do leito e foi resar nas contas.<br \/>\n    Cuidoso alevantou-se ao romper d&#8217;alva,<br \/>\n    No solit&aacute;rio templo entrou,&#8212; benzendo-se,&#8212;<br \/>\n    Incostou-se ao fest&atilde;o de uma columna<br \/>\n    Co&#8217;os olhos no port&atilde;o da sacristia.<br \/>\n    Esperava que a m&atilde;o e a voz do preste,<br \/>\n    &#8212; Bem como unc&ccedil;&atilde;o divina derramada<br \/>\n    Na cabe&ccedil;a do rei pelo propheta,&#8212;<br \/>\n    Por entre o incenso da obla&ccedil;&atilde;o mais sancta<br \/>\n    Lhe aben&ccedil;oasse a incanecida fronte.<br \/>\n    Esperou, esperou. N&atilde;o mais os monges<br \/>\n    Ouviu descer a liza escadaria,<br \/>\n    Nem subir os degraus das aras sanctas.<br \/>\n    Qual vaporosa nuvem no horisonte<\/p>\n<p align=\"left\">Pela sanha dos nortes impellida,<br \/>\n    &#8212; Desappareceram n&#8217;um relance.&#8212; &Eacute; morto<br \/>\n    Nos claustros o pudor, no templo o canto.<br \/>\n    E o bom do velho sossobrado e timido,<br \/>\n    &#8212; Como si a vista e o sizo lhe torvasse<br \/>\n    O s&uacute;bito clar&atilde;o, de um raio ao perto,<br \/>\n    Tornou aos lares,&#8212; foi narral-o &aacute; esposa,<br \/>\n    E pelos olhos deslizando o pranto<br \/>\n    As faces lhe encheu,&#8212; como o oceano!<br \/>\n    E os monges &#8212; onde iriam ? &#8212; Os que unidos,<br \/>\n    Como nos c&eacute;us os anjos entre os anjos,<br \/>\n    Na paz das cellas, na soid&atilde;o dos claustros,<br \/>\n    N&atilde;o sabiam viver, si n&atilde;o comsigo,<br \/>\n    &#8212; &Oacute;dio dos povos em paizes barbaros,<br \/>\n    Escarneo das na&ccedil;&otilde;es,&#8212; hoje divagam<br \/>\n    A vastid&atilde;o do mundo &#8212; e seus errores.<br \/>\n    E v&oacute;s que do solar bemquisto d&#8217;elles<br \/>\n    Os expellistes,&#8212; lhes tolhendo a patria,<br \/>\n    E nella o resguardar a muda cren&ccedil;a,<br \/>\n    E o soc&ecirc;go da vida e os p&atilde;es e amigos,<br \/>\n    &#8212;Vencestes.&#8212; Triumphae, entes descridos!<br \/>\n    Esse monstro do inferno &#8212; esse homicida<br \/>\n    Ri-se co&#8217;o sangue da immolada victima.<br \/>\n    Vossa victoria &eacute; tal: &#8212; folgae com ella.<br \/>\n    Folgae em quanto &eacute; tempo,&#8212; em quanto a morte<br \/>\n    Os vermes seus n&atilde;o ceva &aacute; custa vossa:<br \/>\n    Em quanto os anjos de Lusbel treitentos<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o vos arrojam de uma vez p&#8217;ra sempre<br \/>\n    &Aacute;s cternaes, exteriores chammas;<br \/>\n    Onde n&atilde;o ha mais luz que o cahos das trevas,<br \/>\n    Onde n&atilde;o ha mais paz que o desesp&ecirc;ro,<br \/>\n    Onde n&atilde;o ha mais eouto que a geenna,<br \/>\n    Onde n&atilde;o ha mais redemp&ccedil;&atilde;o que o inferno!<br \/>\n    Feliz e vezes mil feliz aquelle,<br \/>\n    Que nos bra&ccedil;os de irm&atilde;os, nos osc&#8217;los d&#8217;elles<br \/>\n    Deu aqui seu arranco derradeiro !<br \/>\n    Que em mortuaria prociss&atilde;o solemne<br \/>\n    Desceu de l&aacute; da pequenina cella,<br \/>\n    E veiu aqui jazer entre os finados<br \/>\n    Sob a campa deserta ha tanto seculo!<br \/>\n    E, ao romper &#8212; d&#8217;alva uma ora&ccedil;&atilde;o formosa<br \/>\n    Cahia,&#8212; como o gottejar do orvalho,&#8212;<br \/>\n    Na lage,&#8212; e vinha lhe ameigar as penas.<br \/>\n    E os filhos dos altares, desherdados,<br \/>\n    Hoje deparar&atilde;o um s&oacute; no mundo,<br \/>\n    Que a secca pedra do sepulchro ignoto<br \/>\n    V&aacute; borrifar co&#8217;a lagrima da prece ?<br \/>\n    Meu Deus ! &#8212; n&atilde;o ha si quer uma alma pia! &#8212;<br \/>\n    Philosophos &#8212; christ&atilde;os, si o bem fizeram,<br \/>\n    N&atilde;o antolhavam recompensa d&#8217;elle.<\/p>\n<p align=\"left\">O premio e a c&#8217;roa e a gloria a seus martyrios<br \/>\n    Deus lh&#8217;os guarda nos ceus, entre os archanjos.<br \/>\n    J&aacute; l&aacute; passaram as virtudes d&#8217;elles,<br \/>\n    Como chuveiro de ouro em dia breve.<br \/>\n    Por&eacute;m as vastas columnatas gothicas<br \/>\n    D&#8217;esse edif&iacute;cio gigantesco e excelso<br \/>\n    Subejar&atilde;o para attestar &aacute;s eras,<br \/>\n    Com brado eterno,&#8212; os benef&iacute;cios d&#8217;elles.<br \/>\n    Nossos pios av&oacute;s chamando os nettos<br \/>\n    Ao adro do cazal,&#8212; e os reclinando<br \/>\n    Por sobre a grama, no luar de prata,<br \/>\n    E em torno as nettas dedilhando os bilros<br \/>\n    Nas almofadas,&#8212; ou gyrando o fuso,<br \/>\n    Entre longo ser&atilde;o,&#8212; lhes vam contando<br \/>\n    As lendas, que da bocca auctorisada<br \/>\n    Dos paes beberam: &#8212; recitando a historia<br \/>\n    D&#8217;esses heroicos martyres da cren&ccedil;a,<br \/>\n    Que os velhos guardam a-la-par da vida,<br \/>\n    &#8212; Como na mente casta a virgem ama<br \/>\n    O fagueiro sonhar do amor primeiro.<br \/>\n    &#8212; Assim dos justos a mem&oacute;ria vive<br \/>\n    No recordar das gera&ccedil;&otilde;es passadas,<br \/>\n    Como o nauta conserva o ensejo augusto<br \/>\n    Da salva&ccedil;&atilde;o nas vascas do naufragio.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Quando este sec&#8217;lo de egoismo e vicios,<br \/>\n    Entre o rugido e o horror do passamento<br \/>\n    Derradeiro, anciar,&#8212; bem como o dia<br \/>\n    Cede, morrendo, ao tremulo crepusculo,<br \/>\n    E o crepusculo &aacute; noute,&#8212; ent&atilde;o que heran&ccedil;a<br \/>\n    Que legar&aacute; nas vesperas da morte<br \/>\n    Aos filhos seus,&#8212; aos seculos por vir ?<br \/>\n    E qual ser&aacute; seu testamento ? Oh ! esse,<br \/>\n    &#8212; Obra de sangue e parto dos infernos,&#8212;<br \/>\n    Ha de sellal-o o anjo dos terrores!<br \/>\n    E s&oacute; tres nomes conter&aacute; : &#8212; tres nomes<br \/>\n    Que ham de no mundo reboar maldictos,<br \/>\n    Como o trov&atilde;o arrebentando os polos.<br \/>\n    Em ferreas lettras ham de ler-lhe os filhos:<br \/>\n    FATUIDADE E SACRILEGIO E SANGUE!<br \/>\n    Os nettos do futuro,&#8212;os nossos nettos<br \/>\n    Ham de amaldi&ccedil;oar com m&atilde;o de fogo<br \/>\n    Aos livres do presente,&#8212; e ao patrimonio<br \/>\n    De infamia, que os av&oacute;s lhes assign&acirc;mos.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p align=\"left\">Eu, entretanto,&#8212;o bardo, que n&atilde;o vivo,<br \/>\n    Mas duro apenas n&#8217;essa ferrea edade,<br \/>\n    A qual minha n&atilde;o &eacute;,&#8212; como do nauta<br \/>\n    N&atilde;o sam as vagas, que singrando trilha, &#8212;<br \/>\n    N&#8217;essa edade vilan,&#8212; pela qual passo,<br \/>\n    Como a fuma&ccedil;a que o galerno extingue,<br \/>\n    Eu me consolo.&#8212;Do cantor mesquinho,<br \/>\n    Q&#8217;aos homens n&atilde;o,&#8212; a Deus ergue seus hymnos,<br \/>\n    &#8212; Na bastecida turma dos poetas,<br \/>\n    Que os thronos, os saraus, o amor celebram,<br \/>\n    Qual o pranto se esquece entre delicias,<br \/>\n    &#8212; Assim d&#8217;elle tambem,&#8212; vate dos luctos,<br \/>\n    Ha de memoria se perder.&#8212; Ao menos<br \/>\n    Que ninguem saiba a invilecida patria,<br \/>\n    Que o abortou, para que visse &aacute;cinte<br \/>\n    Sua miseria e d&oacute; : &#8212; torr&atilde;o esteril,<br \/>\n    Onde immurchece o innocente e o justo,<br \/>\n    Como a roseira em tremedal plantada,<br \/>\n    E o mau e o impio a florescer nas hasteas,<br \/>\n    Como o cedro alteando o cimo &aacute;s nuvens.<br \/>\n    Que ninguem saiba o seculo maldicto,<br \/>\n    Que o viu &#8212; nas urzes, pullular da tunica,<br \/>\n    Que o viu &#8212; nas urzes, vegetar do tronco,<br \/>\n    Que o viu &#8212; nas urzes, definhar das ramas.<br \/>\n    Eil-o final thesouro de ventura,<br \/>\n    Que a par da salva&ccedil;&atilde;o &#8212; anci&atilde; o bardo,<br \/>\n    &#8212; Miserrimo! &#8212; que j&aacute; n&atilde;o mais amima<br \/>\n    Na terra um sonho de bonan&ccedil;a e gloria:<br \/>\n    A quem os l&aacute;bios rubros da esperan&ccedil;a<br \/>\n    N&atilde;o mais surriem seu surrir de gra&ccedil;as.<br \/>\n    N&atilde;o : &#8212; que lhe sobra uma esperan&ccedil;a : &#8212; o tumulo!<\/p>\n<p align=\"left\">&#8212; Similhante &aacute; bonina das campinas,<br \/>\n    Que, abrindo o calix, entre nova e murcha,<br \/>\n    Sauda a tarde e prophetiza a noute,<br \/>\n    E a morte sua ao avan&ccedil;ar do dia.<br \/>\n    Eil-a a flor derradeira de ventura,<br \/>\n    Que produz, moribunda, a debil arvore<br \/>\n    Dos inl&ecirc;vos do bardo,&#8212;melancholica,<br \/>\n    Como o silencio e a negrid&atilde;o dos claustros.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p align=\"left\">Ai &#8212; claustros, claustros! &#8212; si faltar podesseis<br \/>\n    Aos seculos por vir &#8212; que testimunho,<br \/>\n    Que n&atilde;o darieis, das virtudes altas<br \/>\n    D&#8217;esses heroes, que um dia vos al&ccedil;aram!<br \/>\n    Materiaes de pedernal,&#8212; sois mudos!<br \/>\n    N&atilde;o podeis levantar um brado ingente<br \/>\n    Para fazer ouvir ao mundo inteiro<br \/>\n    A defensa de vossos fundadores<br \/>\n    Calumniados, pobres e proscriptos!<br \/>\n    Sim: foram maus: &#8212; muito de mais amaram,<br \/>\n    Com puro amor,&#8212; religi&atilde;o e patria.<br \/>\n    Sim: foram maus: &#8212; obedeceram, livres,<br \/>\n    No mundo a Deus,&#8212; na patria a seu monarcha,<br \/>\n    Sem rojarem-se &aacute;s plantas inlodadas<br \/>\n    De usurpadores, nem vil&otilde;es tyrannos.<br \/>\n    Sim: foram maus: &#8212; comprehenderain, sabios,<br \/>\n    O espirito sublime do evangelho,<br \/>\n    &#8212; Da magestade d&#8217;essa cren&ccedil;a nova,<br \/>\n    A qual,&#8212; na voz e nas ac&ccedil;&otilde;es do Verbo &#8212;<br \/>\n    Co&#8217;a regenera&ccedil;&atilde;o,&#8212;nos deu profusa<br \/>\n    &#8212; Dons n&atilde;o gostados pelo velho mundo,&#8212;<br \/>\n    &#8212; A liberdade co&#8217;o saber gozal-a,<br \/>\n    E a charidade e o egualar os homens.<\/p>\n<h2>VIII<\/h2>\n<p align=\"left\">Oh perseguidos martyres da cren&ccedil;a<br \/>\n    De nossos paes ! &#8212; eu, pequenino bardo,<br \/>\n    Sentei-me ao p&eacute;s do tumulos dos vossos,<br \/>\n    Arredio dos vivos, e cortado<br \/>\n    Vos mando meu saudar por entre angustias!<\/p>\n<h2>IX<\/h2>\n<p align=\"left\">E v&oacute;s outros, oh sabios d&#8217;este seculo,<br \/>\n    Talvez agora,&#8212; entre o dormir torvado,&#8212;<br \/>\n    Sonhais na perdi&ccedil;&atilde;o dos servos crentes,<br \/>\n    Dos servos do Senhor, que restam inda.<br \/>\n    Adejando co&#8217;as asas estanhadas<br \/>\n    Por sobre o leito commodo e felpudo<br \/>\n    Os inviados de Lusbel vos pintam,<\/p>\n<p align=\"left\">&#8212; Como n&#8217;um quadro energico e fallante<br \/>\n    Da ceifadora guerra e seus horrores,&#8212;<br \/>\n    Varios desenhos de maldade varia<br \/>\n    Contra a mal firme f&eacute; da Cruz divina.<\/p>\n<h2>X<\/h2>\n<p align=\"left\">Sim : &#8212; quereis reformar, oh philantropos,<br \/>\n    A natureza e a indole dos homens,<br \/>\n    E o sentimento innato e a f&eacute; co&#8217;a cren&ccedil;a, &#8212;<br \/>\n    Que em vosso vago e tumido vascon&ccedil;o<br \/>\n    Nomeais &#8212; ignorancia e prejuizo.&#8212;<br \/>\n    Reformae, reformae : &#8212; mas os phenomenos<br \/>\n    Das m&atilde;os do Eterno pendero, quaes d&#8217;antes.<br \/>\n    No aceno d&#8217;Elle as leis da natureza<br \/>\n    Se librar&atilde;o,&#8212; como nos dedos dextros<br \/>\n    Do menestrel as notas do psalterion.<br \/>\n    E surdo a vosso mando presump&ccedil;oso<br \/>\n    O trov&atilde;o rugir&aacute; &#8212; tremendo os impios,<br \/>\n    O raio baixar&aacute; queimando o ether,<br \/>\n    Por sobre o ovante vertice do hypocrita,<br \/>\n    Ao prasme do que rege os ceus e a terra.<br \/>\n    E como Deus os quiz na mente excelsa,<br \/>\n    Taes os homens ser&atilde;o,&#8212; at&eacute; que um dia<br \/>\n    Na voz dos cherubins disser &#8212; n&atilde;o quero ! &#8212;<br \/>\n    Para levar ao cabo a vossa impreza,<br \/>\n    Tornal-a digna do pensar de um sabio,<\/p>\n<p align=\"left\">&Eacute; preciso sustar as leis constantes,<br \/>\n    Que o mundo em seu volver resguarda inteiras,<br \/>\n    Como o pobre christ&atilde;o na mente adora<br \/>\n    Do bemfeitor, que o arrancou do abysmo,<br \/>\n    A voz e o rizo e o apertar da dextra,<br \/>\n    Quando, modesto, lhe fugiu dos olhos<br \/>\n    &#8212; Anjo de luz entre o terror das trevas.<br \/>\n    Mau grado vosso,&#8212; a omnipotencia d&#8217;Elle<br \/>\n    Ser&aacute; provada na impotencia vossa,<br \/>\n    Como entre os dedos de affanoso artifice<br \/>\n    No crysol, que n&atilde;o mente, o ouro impuro.<br \/>\n    Mudae,&#8212; si podeis tan&iacute;o,&#8212; a natureza,<br \/>\n    Arrematae perfeita a obra vossa,<br \/>\n    Arrebalae das m&atilde;os de Deus o sceptro,<br \/>\n    &#8212; E cantareis victoria,&#8212; oh philantropos!<\/p>\n<h2>XI<\/h2>\n<p align=\"left\">Talvez eu tenha de sobrar ainda<br \/>\n    Para ver o remate iniquo e torpe<br \/>\n    Dos planos sestros que machina o impio.<br \/>\n    Vel-o-ei arrojar-se, blasphemando,<br \/>\n    Como as hostes na sanha da mattan&ccedil;a,<br \/>\n    &Aacute;s clausuras da paz do eremiterio,<br \/>\n    &#8212; Sello da contrie&ccedil;&atilde;o dos meus e minha :<br \/>\n    Entrar, fulo de raiva, o sacro templo,<br \/>\n    Qual suberbo invasor de alheios muros, &#8212;<\/p>\n<p align=\"left\">Combalir, derribar a cruz das aras,<br \/>\n    &#8212; Penhor, que herd&aacute;mos de mais longes eras,<br \/>\n    Da f&eacute; de nossos simplices maiores,<br \/>\n    &#8212; Testamento da cren&ccedil;a assignalado<br \/>\n    Co&#8217;o sangue d&#8217;elles, em cachoes jorrado,<br \/>\n    Como precipitosa catadupa,<br \/>\n    Crystaes golfando,&#8212; vastas chans alaga!<\/p>\n<h2>XII<\/h2>\n<p align=\"left\">Oh ! &#8212; si rolar por terra a cruz do claustro,<br \/>\n    Expire o bardo seu nos bra&ccedil;os d&#8217;ella!<br \/>\n    Mas ai de v&oacute;s,&#8212; var&otilde;es da nova edade,<br \/>\n    Mais sabios do que Deus, mais fortes que elle!<br \/>\n    Tramae, tramae co&#8217;a furia dos demonios,<br \/>\n    Tramae contra o Senhor e os crentes n&#8217;elle ;<br \/>\n    Balda loucura; &#8212; a cruz espesinhada<br \/>\n    Ha de erguer-se maior n&#8217;outro calvario!<br \/>\n    <b>1851. <\/b><\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">SOROR-ANGELA<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>(ERA DE 1823)<\/b> <\/p>\n<h2>Can&ccedil;&atilde;o dedicada &aacute;s virgens da Soledade<\/h2>\n<p align=\"right\">Com fervor os guerreiros victoriosos<br \/>\n    As de primor subido, ufanos colhem,<br \/>\n    Capellas immurxaveis, em que noutes<br \/>\n    Lidaste, e inteiro um dia, Angela egreja.<br \/>\n    <b>PARAGUASS&Uacute;. <\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Foi Deus &#8212; e n&atilde;o outrem &#8212; que os bra&ccedil;os<br \/>\n    dos nossos<br \/>\n    Regeu no conflicto,&#8212; regeu na victoria.<br \/>\n    Foi Deus &#8212; e n&atilde;o outrem ! bendicto o seu nome,<br \/>\n    Que aos nossos deu honra, deu fama, deu gloria!<br \/>\n    Capellas formemos das vestes das aves,<br \/>\n    Das pennas das lindas araras rubentes.<br \/>\n    Capellas formemos p&#8217;ra as frentes sublimes<br \/>\n    Dos nossos guerreiros, dos nossos valentes.<br \/>\n    E os nossos valentes por Deus,&#8212; pela patria<br \/>\n    Fa&ccedil;anhas obraram de eterna memoria.<br \/>\n    Foi Deus que inspirou-as: &#8212; bendicto o seu nome,<br \/>\n    Que aos nossos deu honra, deu fama deu gloria !<\/p>\n<p align=\"left\">Capellas formemos das folhas da patria,<br \/>\n    Das folhas virentes do quente caf&eacute;&#8230;<br \/>\n    &#8212; Que caixos tam rubros, que flores tam alvas,<br \/>\n    Que as virgens colheram-lhe agora de p&eacute;!<br \/>\n    Irmans, trabalhemos, concordes e sempre<br \/>\n    Durante esta vida ficticia,&#8212; illusoria.<br \/>\n    Deus ama, Deus manda, Deus benze o trabalho,<br \/>\n    Deus paga o trabalho co&#8217;os premios da gloria.<br \/>\n    Os jovens guerreiros entrando em triumpho<br \/>\n    As t&ecirc;stas adornem co&#8217;as nossas capellas.<br \/>\n    As nossas capellas sam verdes, bem verdes,<br \/>\n    Sam feitas por dedos de castas donzellas.<br \/>\n    Os jovens guerreiros que venham tingidos<br \/>\n    Das folhas da patria,&#8212; da patria vangloria.<br \/>\n    &#8212; Que venham ao templo do Deus infinito,<br \/>\n    Que deu-lhes triumphos e cantos de gloria.<br \/>\n    Ao templo, oh guerreiros! &#8212; ao templo do Eterno,<br \/>\n    Que aos povos oppressos liberta n&#8217;um dia!<br \/>\n    Joelhos em terra! &#8212; que vam nossas vozes<br \/>\n    Unir-se co&#8217;as vossas em doce harmonia!<br \/>\n    Louvores &Aacute;quelle que humilha os senhores,<br \/>\n    Que os servos humildes levanta da escoria:<br \/>\n    Que os sceptros arranca de altivos monarchas,<br \/>\n    Que ao povo escolhido deu honra, deu gloria!<\/p>\n<p align=\"left\">O Deus das batalhas nos dias antigos<br \/>\n    Viu servos seus filhos,&#8212; e servos de extranhos:<br \/>\n    Viu servos seus filhos,&#8212; olhou seu opprobrio,<br \/>\n    Olhou-os carpindo seus males tamanhos.<br \/>\n    E o Deus das batalhas fechou seus imigos<br \/>\n    Em urna insondavel, maritima, equorea!<br \/>\n    &#8212; Louvores, guerreiros ! ao Deus das batalhas,<br \/>\n    Que deu-vos triumphos e cantos de gloria!<br \/>\n    &#8212; Assim n&oacute;s diremos aos nossos guerreiros,<br \/>\n    Quando elles entrarem nos templos sagrados.<br \/>\n    Hosanna, oh donzellas! &#8212; o Christo remiu-nos:<br \/>\n    N&atilde;o mais nossos templos ser&atilde;o profanados!<br \/>\n    A face medonha dos barbaros crimes<br \/>\n    N&atilde;o mais ser&aacute; vista na br&aacute;zila historia.<br \/>\n    Os crimes fugiram co&#8217;os homens da guerra,<br \/>\n    Na patria ficou-nos o sceptro da gloria.<br \/>\n    Por arcos de folhas e flores da patria<br \/>\n    Os nossos guerreiros ter&atilde;o de passar.<br \/>\n    E n&oacute;s, das janellas mais altas do c&ocirc;ro,<br \/>\n    Mais flores havemos s&ocirc;br&#8217;elles jogar.<br \/>\n    N&atilde;o somos romanos: &#8212; tropheus n&atilde;o erguemos,<br \/>\n    Nem louros, nem pompas de futil vangloria :<br \/>\n    S&oacute; folhas da p&aacute;tria&#8212;caf&eacute;s e pitangas &#8212;<br \/>\n    Taes sam nossos arcos,&#8212; tal &eacute; nossa gloria !<\/p>\n<p align=\"left\">A patria saudemos ! &#8212; e o nome de patria<br \/>\n    Juntemos, guerreiros, ao nome de Deus.<br \/>\n    N&atilde;o sentem, n&atilde;o sabem, n&atilde;o dizem tal nome<br \/>\n    Os impios somente,&#8212; somente os atheus!<br \/>\n    Irmans, trabalhemos: &#8212; formemos capellas<br \/>\n    P&#8217;ra as testas dos filhos da nobre victoria.<br \/>\n    &#8212; Tambem seus triumphos, seus cantos sam nossos,<br \/>\n    Tambem nos pertence metade da gloria !<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">A FREIRA<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Crescei e mul&iacute;iplicae-vos.<br \/>\n    <b>Palavra de Deus<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Eu joven freira, bem triste ch&oacute;ro<br \/>\n    Aqui cozida co&#8217;a cruz de Deus.<br \/>\n    Aqui sosinha, ninguem n&atilde;o sabe<br \/>\n    Dos meus desejos, dos males meus.<br \/>\n    Qual no deserto se praz a r&ocirc;la,<br \/>\n    Cuidam que a freira seja feliz.<br \/>\n    E a pobre freira, dentro da cella,<br \/>\n    Ninguem n&atilde;o sabe que se maldiz.<br \/>\n    Em quanto a vida n&atilde;o se desdobra,<br \/>\n    E apenas rompe, roseo bot&atilde;o,<br \/>\n    A freira insonte prat&ecirc;a de astros,<br \/>\n    Pov&ocirc;a de anjos sua soid&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Uma palavra que ella profere<br \/>\n    &Eacute; sempre um ente que ella creou.<br \/>\n    Uma florzinha que colhe acaso<br \/>\n    &Eacute; uma amiga que ella incontrou.<br \/>\n    Conversa &aacute; noute co&#8217;a estrella v&eacute;sper,<br \/>\n    Ama o opaco de seu clar&atilde;o.<br \/>\n    E sente chammas que julga dores,<br \/>\n    E o peito aperta co&#8217;a nivea m&atilde;o.<br \/>\n    Ella n&atilde;o sabe que a estrella v&eacute;sper<br \/>\n    In&iacute;lue nas almas lascivo ardor:<br \/>\n    Que, n&atilde;o sem causa, no tempo antigo,<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper chamou-se &#8212; Amor.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper produz nas virgens<br \/>\n    Extranho incendio, volc&atilde;o fatal:<br \/>\n    Quer seja freira &#8212; do Christo filha,<br \/>\n    Quer seja antiga pagan vestal.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper&#8230; Fugi, meninas,<br \/>\n    Fugi dos raios do seu candor.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper influe vol&uacute;pia,<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper chama-se &#8212; Amor.<br \/>\n    E a casta freira, co&#8217;a m&atilde;o na face,<br \/>\n    Por longas horas demora alli.<br \/>\n    E os tredos raios da estrella v&eacute;sper<br \/>\n    Ella innocente recebe em si.<\/p>\n<p align=\"left\">E quando o sino locou matinas,<br \/>\n    Ella tremeu de seu fragor.<br \/>\n    E a pobre mo&ccedil;a &#8212; da vez primeira &#8212;<br \/>\n    Das rezas quasi sentia horror.<br \/>\n    E os olhos d&#8217;ella ficaram meigos,<br \/>\n    Como quem soffre doce pezar.<br \/>\n    N&atilde;o mais pulavam, delphins nas ondas,<br \/>\n    E mal podiam brando oscillar.<br \/>\n    E os l&aacute;bios d&#8217;ella &#8212; cravina ha pouco &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o mais vestiam carminea c&ocirc;r.<br \/>\n    E s&oacute; nas faces lhe assomam rosas,<br \/>\n    Mas n&atilde;o s&atilde;o rosas de almo pudor.<br \/>\n    Entam a freira em v&atilde;o se abra&ccedil;a,<br \/>\n    Em v&atilde;o se coze co&#8217;a cruz de Deus.<br \/>\n    Entam a freira procura em tudo<br \/>\n    A causa, o allivio dos males seus.<br \/>\n    Mas ella o sabe. N&atilde;o &eacute; o Christo<br \/>\n    De que ella espera algum s&iacute;gnal.<br \/>\n    O Christo deu-nos remido o mundo:<br \/>\n    E o bem que ha n&#8217;elle sup&eacute;ra o mal.<br \/>\n    O mundo, o mundo&#8230; eu freira afflicta,<br \/>\n    Eu vejo o mundo&#8230; como &eacute; gentil!<br \/>\n    Ah ! eu preciso d&#8217;essa palavra<br \/>\n    Que arrasta os homens aos mil e aos mil!<\/p>\n<p align=\"left\">Palavra immensa, divina e sancta,<br \/>\n    Que inspira aos homens tanto labor!<br \/>\n    Palavra f&eacute;rtil, fecunda e grande,<br \/>\n    Mysterio, influxo, talvez, de amor!<br \/>\n    Por&eacute;m as velhas, que me aconselham,<br \/>\n    E que se dizem cheias de Deus,<br \/>\n    Clamam &#8212; n&atilde;o cessam &#8212; clamam que o mundo<br \/>\n    &Eacute; todo feito de v&atilde;os atheus.<br \/>\n    Mas ah! quem sente chammas no peito<br \/>\n    Por uma bella palavra s&oacute; :<br \/>\n    Quem &aacute; porfia corre por ella,<br \/>\n    Rompendo globos de grosso p&oacute; :<br \/>\n    Quem verte prantos na m&atilde;o do pobre,<br \/>\n    Que a Deus e &aacute; sorte reproches d&aacute;:<br \/>\n    Quem trava o bra&ccedil;o d&#8217;outrem, que passa,<br \/>\n    Temendo o abysmo, que v&ecirc; mais l&aacute;:<br \/>\n    Quem toma ao seio mulher, que firme<br \/>\n    No seio d&#8217;elle deixa o pudor:<br \/>\n    Quem entre beijos lhe ensina aos labios<br \/>\n    Caudaes palavras de &aacute;ureo licor:<br \/>\n    Ah ! n&atilde;o, n&atilde;o p&oacute;de &#8212; como ellas dizem &#8212;<br \/>\n    Ser insensivel, ser v&atilde;o atheu.<br \/>\n    O atheu n&atilde;o sente, n&atilde;o verte prantos.<br \/>\n    O amor n&atilde;o entra no peito seu.<\/p>\n<p align=\"left\">O mundo, o mundo&#8230; eu freira afflicla,<br \/>\n    Eu vejo o mundo&#8230; como &eacute; gentil!<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o lhe inxergo aberto o abysmo.<br \/>\n    Tu mentes, mentes, alma senil!<br \/>\n    Sim : velhas sanctas, velhas ufanas,<br \/>\n    Que vos dizeis cheias de Deus,<br \/>\n    N&atilde;o ! &#8212; este mundo que Deus remiu<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; composto de v&atilde;os atheus.<br \/>\n    O mundo, o mundo&#8230; eu freira afflicta,<br \/>\n    Eu vejo o mundo&#8230; como &eacute; gentil!<br \/>\n    Mas eu fechada na esteril cella<br \/>\n    Existo preza n&#8217;um ocio vil!<br \/>\n    Aos mornos raios da estrella v&eacute;sper<br \/>\n    Minha innocencia toda perdi.<br \/>\n    Inteiras noutes de acerba scisma<br \/>\n    Eu, nescia amante, passei alli.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper tem certos raios<br \/>\n    Que trai&ccedil;oeiros voltam p&#8217;ra l&aacute;.<br \/>\n    Fugi, meninas, da estrella v&eacute;sper,<br \/>\n    Temei dos gostos que ella vos d&aacute;.<br \/>\n    Ha certos raios da estrella v&eacute;sper<br \/>\n    Que sam vampyros de argentea c&ocirc;r :<br \/>\n    De nossos labios &#8212; com vitreos beijos &#8212;<br \/>\n    Extrahem, sugam todo o rubor.<\/p>\n<p align=\"left\">Aos mornos raios da estrella v&eacute;sper<br \/>\n    Minha innocencia toda perdi.<br \/>\n    Mas a innocencia, que sai da infancia,<br \/>\n    Ai! n&atilde;o se perde somente alli!<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper, amphora solta,<br \/>\n    Boia de prata em mar de annil,<br \/>\n    Clama incan&ccedil;avel &#8212; Amae, donzellas,&#8212;<br \/>\n    E as fibras lavra flamma subtil.<br \/>\n    Entam l&aacute; dentro da afflicta virgem<br \/>\n    Salta um desejo, ferve um pesar.<br \/>\n    Tenta um allivio, acha uma angustia,<br \/>\n    Lympha em brazido, volc&atilde;o no mar.<br \/>\n    Mas a innocencia que a mo&ccedil;a immola<br \/>\n    No altar sagrado de um peito egual,<br \/>\n    Malta o desejo, f&oacute;rma o remanso,<br \/>\n    Offerta um gozo sempre real.<br \/>\n    Quando a virginea c&ocirc;r se esvaece,<br \/>\n    Murcho o carmineo, roseo bot&atilde;o,<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper que fez o estrago,<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper n&atilde;o basta n&atilde;o.<br \/>\n    O mundo, o mundo&#8230; eu freira afflicta,<br \/>\n    Eu vejo o mundo&#8230; como &eacute; gentil!<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o lhe enxergo aberto o abysmo,<br \/>\n    N&atilde;o lhe deparo volc&otilde;es aos mil.<\/p>\n<p align=\"left\">O mundo, o mundo&#8230; s&oacute; n&#8217;elle eu posso<br \/>\n    Achar a parte a quem faltei.<br \/>\n    Eu devo, eu devo pagar ao homem<br \/>\n    Esse peda&ccedil;o que lhe arranquei.<br \/>\n    Seu cora&ccedil;&atilde;o &#8212; nobre fragmento &#8212;<br \/>\n    Sente um vazio, que ha de doer.<br \/>\n    Mesmo sua alma geme incompleta.<br \/>\n    Quasi roubei-lhe todo o seu ser.<br \/>\n    O paranympho &#8212; anjo o mais bello,&#8212;<br \/>\n    Anjo das nupcias, feito por Deus,<br \/>\n    Por Deus guiado, conduz as virgens<br \/>\n    Para os peda&ccedil;os que sam mais seus.<br \/>\n    Leva-me oh anjo,&#8212; que &eacute; tempo: &#8212; eu quero<br \/>\n    Achar a parte &acirc; quem faltei.<br \/>\n    Eu devo, eu elevo pagar ao homem<br \/>\n    Esse peda&ccedil;o que lhe arranquei.<br \/>\n    Ao mundo, ao mundo&#8230; Leva-me, oh anjo.<br \/>\n    Abre estas azas : vou sobre ti.<br \/>\n    Interno impulso me diz, meu anjo,<br \/>\n    Que n&atilde;o v&aacute;s longe,&#8212; que basta alli.<br \/>\n    Minha sanguinea c&ocirc;r se esvaece,<br \/>\n    Perdi as rosas de almo pudor.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper &#8212; com vitreos beijos &#8212;<br \/>\n    Sugou-me aos labios todo o rubor.<\/p>\n<p align=\"left\">Leva-me, oh anjo. Tenho no peito<br \/>\n    Que me trasborda &#8212; vasta por&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A estrella v&eacute;sper que fez-me o estrago,<br \/>\n    Nem cruz, nem claustros, n&atilde;o bastam n&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">A DEVOTA<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">A summa perfei&ccedil;&atilde;o consiste em<br \/>\n    vagar o espirito para Deus.<br \/>\n    <b>S. THOMAZ.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Que rezas, que rezas,&#8212; tremendo co&#8217;os labios,<br \/>\n    Co&#8217;a ba&ccedil;a pupilla nas corneas immota ?<br \/>\n    Battendo nos peitos co&#8217;as m&atilde;os descarnadas,<br \/>\n    Co&#8217;as m&atilde;os no rosario,&#8212; velhinha devota ?<br \/>\n    Coitada da velha,&#8212; que ou sinta pezares,<br \/>\n    Ou sinta dul&ccedil;ores, n&atilde;o sabe chorar!<br \/>\n    Que o sorvo da vida, de aceticos travos,<br \/>\n    O pranto nos olhos lh&#8217;o poude estancar!<br \/>\n    Agora s&oacute; reza nas contas bemdictas,<br \/>\n    S&oacute; reza contricta,&#8212; que pode mais al ?<br \/>\n    Que o tempo, que as rugas, que os annos que foram,<br \/>\n    Continuo lhe faliam da lousa final.<br \/>\n    Que a vida, que vivem os homens na terra,<br \/>\n    &Eacute; sonho, que a infancia sonhou, a scismar.<br \/>\n    Feliz quem mais soube dormir este somno,<br \/>\n    Quem soube este sonho mais longo sonhar!<\/p>\n<p align=\"left\">Ai &#8212; quem me poder&aacute; sondar os arcanos<br \/>\n    Do peito da velha ! &#8212; Que rica seara,<br \/>\n    Que messe tam vasta de tanta verdade,<br \/>\n    Que o joven n&atilde;o sega, n&atilde;o rega, n&atilde;o ara!<br \/>\n    Qual v&ocirc;o do tempo nas asas das eras,<br \/>\n    Tal &eacute; da sciencia do velho o cond&atilde;o:<br \/>\n    Que quantos mais dias de vida lhe excorrem,<br \/>\n    Mais largas verdades crescendo lhe vam.<br \/>\n    Velhinha,&#8212; &eacute; tam noute! &#8212;no ch&atilde;o do cruzeiro<br \/>\n    Que rezas,&#8212; sustendo dos nortes o a&ccedil;oute ?<br \/>\n    Oh &#8212; n&atilde;o te arrec&ecirc;as das ruas desertas,<br \/>\n    Oh &#8212; n&atilde;o te amedrentam as larvas da noute ?<br \/>\n    N&atilde;o sentes, devota,&#8212; press&otilde;es nem arfagens,<br \/>\n    Quaes vagas dos mares,&#8212; no peito torpente ?<br \/>\n    O mau sobrecenho da morta velhice<br \/>\n    Torrou-te os sentidos d&#8217;esta alma fervente?<br \/>\n    Oh &#8212; sim: &#8212; como a estrada que os sec&#8217;los trilharam,<br \/>\n    Est&aacute; callejado teu bom cora&ccedil;&atilde;o :<br \/>\n    E das penedias na silice alpestre<br \/>\n    Tornou-se-te a tua senil sensa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Que bra&ccedil;o tam forte de ferro abysmou-te<br \/>\n    Das penas no fogo,&#8212; dos males no fundo?<br \/>\n    Quem n&#8217;esta tristura,&#8212; volc&atilde;o que devora,&#8212;<br \/>\n    Quem n&#8217;esta tristura lan&ccedil;ou-te ? &#8212; este mundo!<\/p>\n<p align=\"left\">Por isso ao cruzeiro levantas os olhos,<br \/>\n    Co&#8217;a ba&ccedil;a pupilla nas corneas immota :<br \/>\n    Por isso acarinhas um s&oacute; pensamento,<br \/>\n    &#8212; A imagem do Eterno,&#8212; velhinha devota!<br \/>\n    A imagem do Eterno,&#8212; qual canno brazido,<br \/>\n    Qual tocha das aras,&#8212; te brilha no aspeito.<br \/>\n    A imagem do Eterno, &#8212; que o mundo repelle,<br \/>\n    Adoras, &#8212; qual mimo de amores, no peito.<br \/>\n    E o ch&atilde;o do cruzeiro co&#8217;os nortes, que zunem,<br \/>\n    Soprando os cabellos da velha tremente:<br \/>\n    E a noute co&#8217;as larvas medonhas,&#8212; tam feias,<br \/>\n    E o ether cerrado de nevoa somente:<br \/>\n    E as aves nocturnas co&#8217;os cantos de agouro,<br \/>\n    Nos v&atilde;os do cruzeiro,&#8212; nos seus corucheus:<br \/>\n    Lhe faliam de um Ente, &#8212; que os homens esquecem,<br \/>\n    Lhe faliam na terra de um Deus que ha nos ceus!<br \/>\n    Oh &#8212; beija fervente mil vezes, velhinha,<br \/>\n    Sim,&#8212; beija os emblemas de teu relicario.<br \/>\n    Recita,&#8212; tremendo, recita essas rezas,<br \/>\n    Correndo nos dedos o grosso rosario.<br \/>\n    E v&oacute;s &#8212; oh donzellas gabadas de lindas,<br \/>\n    Que tanto vos rides da velha &#8212; coitada ?<br \/>\n    Deixae-a que suas camaldulas gyre,<br \/>\n    No frio ladrilho da cruz assentada.<\/p>\n<p align=\"left\">&Eacute; calvo o cruzeiro,&#8212; tam alto, tam alvo,<br \/>\n    Qual de caramelos lucente alcantil:<br \/>\n    &Eacute; como um espectro: fugi oh donzellas,<br \/>\n    Do espectro, que topa co&#8217;o arco de annil!<br \/>\n    E todo este quadro de horrenda poesia,<br \/>\n    De assombros,&#8212; n&atilde;o trava de seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Sua alma n&atilde;o teme phantasticos trasgos,<br \/>\n    Sustida nas asas de linda ora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; seu gozo todo: &#8212; prostrar-se nas lages,<br \/>\n    Nas lages marmoreas d&#8217;aquelle calvario:<br \/>\n    Liberta das vistas viperias do mundo<br \/>\n    Rezar mais devota no bento rozario.<br \/>\n    Um dia,&#8212; era joven, mimosa dos homens,&#8212;<br \/>\n    Os homens lhe deram um throno real.<br \/>\n    Mas hoje,&#8212; velhinha,&#8212; co&#8217;os p&eacute;s do cruzeiro<br \/>\n    Se abra&ccedil;a contricta,&#8212; que pode mais al ?<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">FREI BASTOS<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Anjo de luz, porque te despenhaste<br \/>\n    no inferno? &#8212; A historia escrevia o teu<br \/>\n    nome na pagina das b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os: tu mesmo<br \/>\n    o riscaste, e o foste escrever na pagina<br \/>\n    das maldi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    <b>ALEXANDRE HERCULANO.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Parque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo pego da lascivia impura?<br \/>\n    Porque teus louros triumphaes nod&ocirc;as<br \/>\n    Co&#8217;as roxas fezes do azedado vinho ?<br \/>\n    Porque continuo tua gloria assopras<br \/>\n    Nos leves bafos do charuto ardendo ?<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura ?<br \/>\n    Desces do altar &aacute; crapula homicida,<br \/>\n    Sobes da crapula aos fulmineos pulpitos,<br \/>\n    Alli teu brado lizonj&ecirc;a os vicios,<br \/>\n    Aqui atr&ocirc;a, apavorando os crimes.<br \/>\n    E os labios rubros dos femineos beijos<br \/>\n    Desparam raios que as paix&otilde;es atterram.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura ?<\/p>\n<p align=\"left\">No alcouce infame que assassina o genio<br \/>\n    As horas passas que a sciencia chora.<br \/>\n    No fofo leito que os instantes mancham<br \/>\n    Os ceus insultas co&#8217;o burel que extendes.<br \/>\n    Nos torpes versos que o prazer te inspira<br \/>\n    O inferno evocas,&#8212; e os demonios brincam.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura?<br \/>\n    Para as can&ccedil;&otilde;es que celebraram Milton<br \/>\n    Deu-te o Senhor po&eacute;tica ardentia.<br \/>\n    Para esses dons que Bossuet vestiram<br \/>\n    Deu-te o Senhor o fulmen da eloquencia.<br \/>\n    Duas coroas te intran&ccedil;ava a gloria:<br \/>\n    Duas cor&ocirc;as desmanchou teu genio.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura?<br \/>\n    L&aacute; sobre os astros Bossuet te amava,<br \/>\n    Ao escutar-te os estasis primeiros.<br \/>\n    Tirava o resplendor da argentea fronte,<br \/>\n    D&#8217;onde a Turenne a convic&ccedil;&atilde;o partira.<br \/>\n    Ia c&#8217;roar a testa egual &aacute; d&#8217;elle,<br \/>\n    Que o novo mundo produzia quasi.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura ?<\/p>\n<p align=\"left\">0 cego de Albion tambem te olhava<br \/>\n    Co&#8217;os novos olhos que no ceu lhe deram.<br \/>\n    Elle esperava &#8212; e os seraphins com elle &#8212;<br \/>\n    Um Paraizo inc&oacute;gnito, mais bello.<br \/>\n    Depois, te achando sepultado em lama,<br \/>\n    A Lamartine reservou seus louros.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura?<br \/>\n    Ah ! Bossuet sobre as estrellas p&aacute;ra.<br \/>\n    Quanto &eacute; difficil a subida aos montes!<br \/>\n    Voltaire abriu um boqueir&atilde;o na terra.<br \/>\n    Oh! como &eacute; facil o pendor do abysmo!<br \/>\n    Mas tu subiste a Bossuet a um tempo,<br \/>\n    E ao mesmo tempo t&eacute; Voltaire descias.<br \/>\n    Porque te affogas, Bossuet brazileo,<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura ?<br \/>\n    Salve, poeta, que teus vicios cantas,<br \/>\n    Que a noute e a plebe e a cr&aacute;pula desejam!<br \/>\n    Salve, orador, que os pulpitos respeitam,<br \/>\n    Que anathemas ir&ocirc;nicos desferes !<br \/>\n    Mescla atrevida de sublime e baixo, Bossuet<br \/>\n    com Voltaire, tres vezes salve !<br \/>\n    Salve por mim,&#8212; oh malfadado genio,<br \/>\n    Onde as cidades nem os claustros cabem!<br \/>\n    Tu, poeta, orador,&#8212; porque te affogas<br \/>\n    No immundo p&eacute;go da lascivia impura ?<\/p>\n<h4><a name=\"19\" id=\"19\">O RENEGADO<\/a><\/h4>\n<h2>Can&ccedil;&atilde;o do judeu<\/h2>\n<h3>I<\/h3>\n<p align=\"left\">Vae, impio bastardo,<br \/>\n    Vae, monstro sem cren&ccedil;a!<br \/>\n    &Eacute; vasta, &eacute; immensa<br \/>\n    A estrada que v&ecirc;s.<br \/>\n    Pendida se inclina<br \/>\n    Por lubrica esteira,<br \/>\n    Suave ladeira<br \/>\n    P&#8217;ra as chammas, talvez.<br \/>\n    Teu pae te renega<br \/>\n    Na voz do propheta<br \/>\n    Co&#8217;a bocca repleta<br \/>\n    De atroz maldi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Cuberto de cinza,<br \/>\n    Co&#8217;o sacco vestido,<br \/>\n    Com pranto dorido<br \/>\n    Se prostra no ch&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">A m&atilde;e, que te amava<br \/>\n    Com tanta ardentia,<br \/>\n    Maldiz de teu dia<br \/>\n    Co&#8217;os carmes de Job.<br \/>\n    Hebr&eacute;a formosa,<br \/>\n    De rosto ingra&ccedil;ado,<br \/>\n    Por ti, malfadado,<br \/>\n    Se cobre de d&oacute;.<br \/>\n    Com penna de ferro<br \/>\n    Teu nome riscado<br \/>\n    Do livro segrado,<br \/>\n    Da lei de Moys&eacute;s!<br \/>\n    Teu nome famoso,<br \/>\n    Das tribus querido,<br \/>\n    Agora exprimido<br \/>\n    Debaixo dos p&eacute;s!<br \/>\n    Oh tu, desgra&ccedil;ado,<br \/>\n    Mesquinho perjuro,<br \/>\n    Que abra&ccedil;as impuro<br \/>\n    Uns erros fataes!<br \/>\n    Que insino a teus filhos,<br \/>\n    Que exemplo que legas!<br \/>\n    Na lei que renegas,<br \/>\n    Renegas teus paes!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Talvez mais que os nossos,<br \/>\n    Ir&aacute;s vagabundo<br \/>\n    De rastros no mundo<br \/>\n    Sem termo, sem fim!<br \/>\n    Nas selvas, nas c&ocirc;rtes<br \/>\n    Os homens com gosto<br \/>\n    Ler&atilde;o em teu rosto<br \/>\n    Signal de Caim.<br \/>\n    Na jura que quebras,<br \/>\n    No crime que attentas,<br \/>\n    Excitas, augmentas<br \/>\n    Dos nossos a dor.<br \/>\n    Pizando nas t&aacute;buas,<br \/>\n    Que foram-te intregues,<br \/>\n    Affrontas, persegues<br \/>\n    Ao mesmo Senhor.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Outr&#8217;ora no Egypto<br \/>\n    Nascemos escravos,Valentes e bravos,<br \/>\n    Sofrendo sem d&oacute;.<br \/>\n    Contentes nos tractos,<br \/>\n    Vivendo na penuria,<br \/>\n    Cuspimos na furia<br \/>\n    Do mau Phara&oacute;.<br \/>\n    Depois nos erguemos<br \/>\n    No meio da pra&ccedil;a,<br \/>\n    Em rude amea&ccedil;a<br \/>\n    Battendo co&#8217;os p&eacute;s.<br \/>\n    E o rei por dez vezes<br \/>\n    Tremeu contemplando<br \/>\n    Um Deus pelejando<br \/>\n    Na m&atilde;o de Moys&eacute;s.<br \/>\n    Depois nossos crimes,<br \/>\n    Qual chuva de settas,<br \/>\n    Mau grado aos prophetas,<br \/>\n    Encheram o ar.<br \/>\n    Castigo do Eterno,<br \/>\n    Sentimos na frente<br \/>\n    O alfange furente<br \/>\n    De Salmanazar.<br \/>\n    E o campo tres vezes<br \/>\n    Vestiu-se de ossadas,<br \/>\n    Ao longo espalhadas<br \/>\n    Por Nabuzardan.<\/p>\n<p align=\"left\">E, farto de crimes,<br \/>\n    Tornou-se demonio<br \/>\n    O rei babylonio,<br \/>\n    Progenie de Can.<br \/>\n    Soffrendo, esperamos,<br \/>\n    Dos tempos no gyro,<br \/>\n    O nome de Cyro,<br \/>\n    Surrizo de Deus.<br \/>\n    Previsto, anciado<br \/>\n    Na voz do vidente,<br \/>\n    Chegou de repente,<br \/>\n    Livrando os hebreus.<br \/>\n    Ao jugo dos gregos<br \/>\n    Curvando-nos quasi,<br \/>\n    Beij&aacute;mos a baze<br \/>\n    Do idolo Ammon.<br \/>\n    Depois ador&aacute;mos<br \/>\n    Go&#8217;um medo mais feio<br \/>\n    O monstro que veiu<br \/>\n    De l&aacute; de Ascalon.<br \/>\n    N&atilde;o basta, n&atilde;o faria<br \/>\n    Ao ceu irritado<br \/>\n    O sangue espalhado<br \/>\n    Dos bons Macchabeus.<br \/>\n    N&atilde;o basta que Tito,<br \/>\n    Que Roma viessem,<\/p>\n<p align=\"left\">Que at&eacute; desfizessem<br \/>\n    O templo de Deus.<br \/>\n    Errantes, dispersos,<br \/>\n    &#8212; Castigo que pasma ! &#8212;<br \/>\n    And&acirc;mos phantasma<br \/>\n    Por toda a na&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ha mais de mil annos<br \/>\n    Soffremos calados<br \/>\n    Por crimes passados<br \/>\n    De abomina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E v&acirc;mos correndo,<br \/>\n    Correndo na terra<br \/>\n    De incontro co&#8217;a guerra<br \/>\n    Terrivel, cruel.<br \/>\n    E vamos correndo,<br \/>\n    N&oacute;s povo escolhido,<br \/>\n    N&oacute;s povo querido<br \/>\n    Do Deus de Israel.<br \/>\n    Ah ! foram mui grandes<br \/>\n    Os erros passados,<br \/>\n    Os altos peccados<br \/>\n    Do povo immortal!<br \/>\n    A voz dos prophetas<br \/>\n    Perpetua se cala:<br \/>\n    N&atilde;o clama, n&atilde;o falla<br \/>\n    Nem mesmo de mal.<\/p>\n<p align=\"left\">Do vate dos threnos,<br \/>\n    Do filho de Helcia<br \/>\n    A crua elegia<br \/>\n    Faria-nos bem.<br \/>\n    Choraramos junctos<br \/>\n    Com sancta saudade<br \/>\n    A vidua cidade<br \/>\n    De Jerusal&eacute;m.<br \/>\n    Mas sempre nas eras<br \/>\n    Paternas que lemos,<br \/>\n    Luct&aacute;mos, vencemos<br \/>\n    As persegui&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Talvez que bem c&ecirc;do<br \/>\n    Tenhamos completas<br \/>\n    Dos nossos prophetas<br \/>\n    As aureas viz&otilde;es.<br \/>\n    E agora no mundo,<br \/>\n    De ha tanto previsto,<br \/>\n    Assome esse Christo,<br \/>\n    Messias real.<br \/>\n    E ajuncte n&#8217;um ponto<br \/>\n    Com phrases de brazas<br \/>\n    Debaixo das azas<br \/>\n    O povo immortal.<br \/>\n    E venha c&#8217;um sceptro<br \/>\n    Mais bello, mais novo<\/p>\n<p align=\"left\">Tirar o seu povo<br \/>\n    Do abysmo de d&oacute;.<br \/>\n    E cumpra-se &aacute; lettra<br \/>\n    O carme jucundo,<br \/>\n    Que, j&aacute; moribundo,<br \/>\n    Nos disse Jacob.<br \/>\n    E agora meu filho,<br \/>\n    Nas t&aacute;buas cuspindo,<br \/>\n    Nos deixa, surrindo,<br \/>\n    &#8212; Meu filho! que dor!<br \/>\n    E vae tresloucado<br \/>\n    Seguindo, adorando<br \/>\n    Um idolo infando,<br \/>\n    Um Christo impostor.<br \/>\n    Escuta, meu filho,<br \/>\n    O brado materno,<br \/>\n    E ao rosto paterno,<br \/>\n    Vem, tira-lhe o d&oacute;.<br \/>\n    Si o Christo que abra&ccedil;as<br \/>\n    N&atilde;o f&ocirc;ra loucura,<br \/>\n    Seria impostura<br \/>\n    A voz de Jacob.<\/p>\n<p align=\"left\">O Christo que abra&ccedil;as,<br \/>\n    Os erros que arrogas,<br \/>\n    Por mil synagogas<br \/>\n    Damnados estam.<br \/>\n    Ha mais de mil annos<br \/>\n    Que sam reprovados<br \/>\n    Por sabios sagrados<br \/>\n    Da cren&ccedil;a de Abram.<br \/>\n    T&ecirc;em sido julgados<br \/>\n    Por sanctos doctores,<br \/>\n    Profundos leitores<br \/>\n    Da lei de Moys&eacute;s.<br \/>\n    E os nossos rabbinos,<br \/>\n    Co&#8217;a raiva do velho,<br \/>\n    O falso evangelho<br \/>\n    Pizaram aos p&eacute;s.<br \/>\n    Escuta, meu filho,<br \/>\n    O brado materno,<br \/>\n    E ao rosto paterno,<br \/>\n    Vem, tira-lhe o d&oacute;.<br \/>\n    O Christo dos nossos<br \/>\n    N&atilde;o vem perseguir-nos,<br \/>\n    Vem antes unir-nos<br \/>\n    N&#8217;um povo, n&#8217;um s&oacute;.<br \/>\n    Ah! volta, meu filho,<br \/>\n    &Aacute; m&atilde;e que te chora,<\/p>\n<p align=\"left\">Ao pae que te adora,<br \/>\n    Que geme por ti.<br \/>\n    Ah ! entra de novo<br \/>\n    No nosso conjuncto,<br \/>\n    E canta compuncto<br \/>\n    Os ais de David.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Mas ah! renegado,<br \/>\n    Bastardo, descrente,<br \/>\n    Mais impio que a mente<br \/>\n    Do impio Caim!<br \/>\n    Riscou-se, apagou-se<br \/>\n    Teu nome execrado<br \/>\n    Em pleno, sagrado,<br \/>\n    Geral Synhedrim.<br \/>\n    Ah! reprobo infame,<br \/>\n    Nem mesmo compuncto,<br \/>\n    No nosso conjuncto<br \/>\n    N&atilde;o podes entrar!<br \/>\n    Ja leio em teu rosto<br \/>\n    O estigma candente,<br \/>\n    Que te ha de na frente<br \/>\n    Perpetuo ficar.<\/p>\n<p align=\"left\">Nem patria conservas,<br \/>\n    Nem nome paterno,<br \/>\n    E o povo do Eterno<br \/>\n    Teu povo n&atilde;o &eacute;.<br \/>\n    Vae, impio! &#8212; e que, ao ires,<br \/>\n    Era meio &aacute; viagem,<br \/>\n    Te ingula a voragem<br \/>\n    Que abriu-se a Cor&eacute;.<\/p>\n<h4><a name=\"20\" id=\"20\">O MONGE<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>(S&Eacute;CULO XIX)<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">I<br \/>\n    De embate aos sinos, pelos v&atilde;os da torre,<br \/>\n    Nocturnas aves correm. Surdo d&ocirc;bro<br \/>\n    Era quasi seu choque incerto e vago<br \/>\n    Nos &ocirc;cos bronzes. A soid&atilde;o profunda<br \/>\n    Augmentava o pavor, crescendo a noute.<br \/>\n    Alli a mente, em extasis prendida,<br \/>\n    Prolongava estes sons, pensando n&#8217;elles.<br \/>\n    Ninguem vivia: a profundez do somno<br \/>\n    Tinha co&#8217;os mortos irmanado os vivos.<br \/>\n    Eu te sa&uacute;do, vira&ccedil;&atilde;o da noute,<br \/>\n    Frescor suave e triste ! As tuas pennas<br \/>\n    Sam duras settas de gelado ferro,<br \/>\n    Que, os cabellos ri&ccedil;ando, entra por elles,<br \/>\n    E nullifica o cerebro, passando,<br \/>\n    E vai ao cora&ccedil;&atilde;o que pensa angustias.<br \/>\n    Facil n&atilde;o toca a neve aqui no peito.<br \/>\n    N&atilde;o toca ? &#8212; Sim: mas n&atilde;o inrija as fibras,<br \/>\n    Mas n&atilde;o extingue o sentimento nunca.<\/p>\n<p align=\"left\">Vem recolher-se aqui, fugindo ao gelo,<br \/>\n    Inteiro, inteiro o espirito,&#8212; de fraco.<br \/>\n    Eu te sa&uacute;do, vira&ccedil;&atilde;o da noute!<br \/>\n    Que som me trazes de pesados passos,<br \/>\n    Quebrando esta soid&atilde;o! N&#8217;estas deshoras<br \/>\n    Podem viver somente o louco e o vate.<br \/>\n    N&atilde;o! nem um d&#8217;elles. Vira&ccedil;&atilde;o da noute,<br \/>\n    Transporta-me seu nome. O louco e o vate<br \/>\n    N&atilde;o amam s&oacute;s as trevas e o silencio.<br \/>\n    Tamb&eacute;m o desgra&ccedil;ado estima a noute.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Bella aragem da noute ! uns labios de anjos<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; que te respiram ? Teus anhelos<br \/>\n    N&atilde;o sam de um g&ecirc;nio bom que Deus nos manda ?<br \/>\n    O teu sereno arfar alembra aos homens<br \/>\n    Quasi um gozo do ceu. L&aacute; n&#8217;outras eras<br \/>\n    Algum sentiu-te assim, desfez-se, em lagrimas,<br \/>\n    Pensou poeta e pl&aacute;cido em teu seio,<br \/>\n    Sobre teu dorso esperdi&ccedil;ou seus males,<br \/>\n    Consolou-se talvez,&#8212; e crente e altivo<br \/>\n    Chamou-te quasi um Deus.&#8212; Mentiu-te ao todo ?<br \/>\n    D&#8217;onde o consolo que nas asas libras<br \/>\n    Tacito e sancto assim, descer-nos pode,<br \/>\n    Si n&atilde;o de Ia do ceu ? Dentro em minh&#8217;alma<\/p>\n<p align=\"left\">Eu sinto, eu sinto o impulso de adorar-te.<br \/>\n    S&ecirc; minha musa, oh vira&ccedil;&atilde;o da noute!<br \/>\n    Leva-me, pois, extasiado e livre<br \/>\n    Aos lares do infeliz. Si alguem se queixa,<br \/>\n    Quero co&#8217;os d&#8217;elle compartir meus males.<\/p>\n<p align=\"left\">Vejo uma cruz: entrela&ccedil;ado n&#8217;ella<br \/>\n    Ferreo cilicio com sanguineas manchas.<br \/>\n    O livro do christ&atilde;o na tosca meza<br \/>\n    Os queixumes de Job mostrava aos olhos.<br \/>\n    Esplendidas de pranto as pr&oacute;prias lettras<br \/>\n    Estavam inda,&#8212; e a pagina molhada<br \/>\n    Das torrentes de dor de algu&eacute;m que leu-a<br \/>\n    Quasi por si impreca&ccedil;&otilde;es fallava,<br \/>\n    Quasi bramia, ao ver-se. A luz, tremendo,<br \/>\n    De espa&ccedil;o a espa&ccedil;o a crepitar, gemia,<br \/>\n    Gomo intendendo a voz que enchia outr&#8217;ora<br \/>\n    De maldi&ccedil;&otilde;es, de lagrimas, de preces<br \/>\n    Os campos de Hus.<br \/>\n    Oh plaga que geraste<br \/>\n    Uma alma pura de poeta e de anjo,<br \/>\n    Salve por mim! Tu pelo Eterno foste<br \/>\n    Aben&ccedil;oada um dia, antes que livre<\/p>\n<p align=\"left\">A m&atilde;o de Satanaz te ardesse a terra.<br \/>\n    Segunda vez aben&ccedil;oou-te o Eterno,<br \/>\n    E deste a gramma e o cyparizo e as flores.<br \/>\n    Por mim, solo immortal, trez vezes salve!<br \/>\n    Talvez pensava assim, cruzando a cella,<br \/>\n    Extasiado um monge. Eu vi seu rosto,<br \/>\n    E li seu cora&ccedil;&atilde;o, seu pensamento.<br \/>\n    Eram-lhe as faces maceradas, lividas<br \/>\n    Co&#8217;os livores da dor. For&ccedil;ados sulcos<br \/>\n    Cavou-lhe fundo o percorrer do pranto.<br \/>\n    N&atilde;o foi o tempo que incolheu seus vizos.<br \/>\n    De enorme vastid&atilde;o &#8212; dos gregos copia &#8212;<br \/>\n    Parecia-lhe o cerebro um gravame,<br \/>\n    Que apenas sustentava. Os cilios grossos<br \/>\n    Dos olhos o fuzil lhe escureciam,<br \/>\n    Mais do que a nuvem que n&atilde;o cobre o raio<br \/>\n    E passeava em rapidas p&eacute;gadas,<br \/>\n    Fallando &aacute;s vezes, e parando a instantes.<br \/>\n    Christo &#8212; exclamou &#8212; tu padeceste um dia<br \/>\n    Quanto, milh&otilde;es de seculos vivendo,<br \/>\n    N&atilde;o podia sofrer somente um homem:<br \/>\n    Por&eacute;m remiste a humanidade inteira.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu, parte d&#8217;ella, sou remido,&#8212; e soffro<br \/>\n    Debaixo de teu nome. O meu martyrio,<br \/>\n    F&eacute;rreo phantasma que pezado marcha<br \/>\n    Co&#8217;o vagar do que vai degraus da forca<br \/>\n    Que m&atilde;os de infames l&aacute; no ceu prenderam,<br \/>\n    &Eacute; v&atilde;o, &eacute; v&atilde;o. O sangue, que destillo<br \/>\n    Gotta por gotta das rasgadas veias,<br \/>\n    Cai in&uacute;til no ch&atilde;o. Regada d&#8217;elle<br \/>\n    A linda hervinha, horripilando, expira.<br \/>\n    Eu mesmo, eu vejo arripiar-se a terra,<br \/>\n    Si uma golphada d&#8217;este sangue a insoppa.<br \/>\n    Tudo reprova o sacrif&iacute;cio est&eacute;ril!<br \/>\n    Deus! teu filho deixou teu seio eterno<br \/>\n    Para salvar a humanidade,&#8212;e eu soffro<br \/>\n    Debaixo de teu nome in&uacute;teis penas!<br \/>\n    Despotas d&#8217;alma, d&eacute;spotas do peito<br \/>\n    Subjeitaram &aacute; dor, &aacute; raiva, ao crime<br \/>\n    Os simplices do Christo. A natureza,<br \/>\n    Norma por Deus nos cora&ccedil;&otilde;es plantada<br \/>\n    &Aacute;quem e alem da vida, em rudos tractos,<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o morreu,&#8212; mas transformou-se ao<br \/>\n    todo.<br \/>\n    Nas pra&ccedil;as de Si&atilde;o, mont&otilde;es de povo<br \/>\n    De vario modo-entre clamor seguiam<br \/>\n    O heroe da redemp&ccedil;&atilde;o. Fallando aos homens<br \/>\n    Co&#8217;esse estylo aos Demosthenes ignoto<br \/>\n    Pronunciou uma palavra,&#8212; e as selvas,<\/p>\n<p align=\"left\">As solid&otilde;es, os leoninos antros<br \/>\n    Pareceram gemer co&#8217;o pezo de homens.<br \/>\n    As cidades christans, co&#8217;a m&atilde;o na face,<br \/>\n    Com redomas de sangue em torno aos olhos,<br \/>\n    O flebil grito de Raquel sem filhos<br \/>\n    Levantaram de novo. Orphans mesquinhas<br \/>\n    Aos altos da montanha em &acirc;ncias sobem.<br \/>\n    Clamam de l&aacute; pelo cantor dos thr&eacute;nos.<br \/>\n    Can&ccedil;am em breve,&#8212; e descan&ccedil;ar procuram<br \/>\n    S&ocirc;bre o tronco do cedro. O espectro negro&#8230;<br \/>\n    Seu nome &#8212; ASSOLA&Ccedil;&Atilde;O&#8212;&#8230; co&#8217;a immensa mole<br \/>\n    Surgiu de um boqueir&atilde;o que abriu o inferno.<br \/>\n    Seu collo reclinou l&aacute; no oriente,<br \/>\n    E co&#8217;a ponta de um p&eacute; bateu no occaso,<br \/>\n    Onde inclinado o sol tremeu tr&ecirc;s horas.<br \/>\n    E as cidades christans, co&#8217;a m&atilde;o na face,<br \/>\n    Com redomas de sangue em t&ocirc;rno aos olhos,<br \/>\n    Espavoridas, por seus filhos clamam,<br \/>\n    &#8212; Clamam, fugindo e lamentando em balde.<br \/>\n    Voltae, voltae das solid&otilde;es, das selvas,<br \/>\n    Piedosos christ&atilde;os. Algu&eacute;m mentiu-vos,<br \/>\n    Algu&eacute;m vos disse o que n&atilde;o disse o Christo.<br \/>\n    Deus n&atilde;o &eacute; mysanthropo: estima a todos,<br \/>\n    Como outr&#8217;ora os formou nos campos de &Aacute;sia.<br \/>\n    Por seus dedos mirificos formado<br \/>\n    Foi a fam&iacute;lia o molde do universo.<br \/>\n    Conselho aos anjos &#8212; n&atilde;o liame eterno &#8212;<br \/>\n    Foi do Christo a palavra. Impios devotos,<\/p>\n<p align=\"left\">Peiores que os atheus, mancharam tudo.<br \/>\n    T&eacute; com seu Deus hypocritas sophismam.<br \/>\n    Deus n&atilde;o &eacute; misantbropo: estima os homens,<br \/>\n    Como outr&#8217;ora os formou nos campos de &Aacute;sia.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sophism&aacute;mos, n&atilde;o. Essa palavra<br \/>\n    L&ecirc;de-a no livro eterno: intacta existe.<br \/>\n    Ningu&eacute;m, ningu&eacute;m poude augmentar-lhe um apice.<br \/>\n    Sam immutaveis sempre as lettras d&#8217;elle.<br \/>\n    L&ecirc;de outra vez, e meditae mais serio,<br \/>\n    E depois conclui.&#8212;<br \/>\n    Sim! que eu conclua<br \/>\n    O opprobrio a v&oacute;s ou a blasphemia ao Christo!<br \/>\n    Oh! que infames que sois! Co&#8217;a face em rizos<br \/>\n    Podeis guardar tam atro fel no peito!<br \/>\n    Quereis a conclus&atilde;o ? &#8212; tomae-a, hypocritas,<br \/>\n    Tomae-a em mim.<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc;des nos meus olhos<br \/>\n    Fervendo a insania? e exasperado o monge<br \/>\n    T&eacute; ao meio da fronte al&ccedil;ava os cilios.&#8212;<br \/>\n    N&atilde;o vedes manchas de livor de ferro<br \/>\n    No concavo das faces, onde outr&#8217;ora<br \/>\n    Pintou-me a natureza ardentes rozas ?<br \/>\n    N&atilde;o ouvis minha voz? profunda e rouca,<br \/>\n    &#8212; Como incontrando espeda&ccedil;ados &oacute;rg&atilde;os,<br \/>\n    No peito forma-se e l&aacute; mesmo expira.<br \/>\n    Quereis saber a causa? ouvi-me, hypocritas.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Em bagas de suor banhado o rosto<br \/>\n    Estava o monge. Os increspados cilios<br \/>\n    Ora emendavam-se ao topete acima,<br \/>\n    Ora desciam occultando os olhos,<br \/>\n    Como dous fachos moveis, suspendidos<br \/>\n    Na vastid&atilde;o da pallidez da fronte<br \/>\n    Por uma occulta linha. As m&atilde;os, o corpo<br \/>\n    Tremiam&#8230; que abysmei-me!<br \/>\n    Estanque e mudo<br \/>\n    Algum tempo ficou. Depois olhando<br \/>\n    Em derredor de si, qual ante o povo<br \/>\n    L&aacute; na tribuna o orador prepara,<br \/>\n    Para romper, os adem&atilde;es co&#8217;a idea,<br \/>\n    Abriu de novo os resequidos labios<br \/>\n    Co&#8217;um gesto que punhal cortou-me as fibras.<br \/>\n    Antes de abrir-se-me a paix&atilde;o no peito,<br \/>\n    Quando em bot&atilde;o as affec&ccedil;&otilde;es me estavam,<br \/>\n    Fui arrojado aos c&aacute;rceres eternos.<br \/>\n    Inda incerta a raz&atilde;o, timida e n&eacute;scia,<br \/>\n    Balbuciava apenas. Tenra infante<br \/>\n    Pronunciava, arremedando os homens,<br \/>\n    Qualquer primeira voz que ouvia acaso:<\/p>\n<p align=\"left\">Perdido viajor, no campo &aacute; noute<br \/>\n    Ao longe divisando a luz que a terra<br \/>\n    De seus h&aacute;litos p&uacute;tridos accende,<br \/>\n    L&aacute; vai, l&aacute; corre em ancias ap&oacute;s ella,<br \/>\n    E chega, e topa co&#8217;a illus&atilde;o, co&#8217;o nada.<br \/>\n    Phantasia infantil era-me tudo.<br \/>\n    Julgava o pyrilampo estrella em terra,<br \/>\n    Anjos do mar a rutila ardentia,<br \/>\n    Palacio de ouro o sol, estofo as nuvens,<br \/>\n    M&aacute;gica fada a virgem que eu amava,<br \/>\n    Que eu temia depois, fugindo d&quot;ella<br \/>\n    Co&#8217;o peito acceso de paix&otilde;es ignotas,<br \/>\n    Que parecia-me agu&ccedil;adas dores,<br \/>\n    Tanto que eu cria na justi&ccedil;a humana,<br \/>\n    Tanto que eu respeitava a Deus e aos velhos!<br \/>\n    E um velho&#8230; um velho&#8230;&#8212; atroador remorso,<br \/>\n    Si &eacute;s um supplicio, vinga-me d&#8217;aquelle,&#8212;<br \/>\n    Um velho me fallou. Qual no deserto,<br \/>\n    Querendo Satanaz tentar ao Christo,<br \/>\n    Subindo ao alto, lhe amostrava o mundo,<br \/>\n    Tal sequioso me agarrara o velho<br \/>\n    Para apontar-me ao ceu. Depois tremendo<br \/>\n    &#8212; Impio! nem o porvir falta ao remorso,&#8212;<br \/>\n    Mostrou-me o templo n&atilde;o &#8212; mostrou-me horrendo<br \/>\n    Um edif&iacute;cio negro, erguido e vasto,<br \/>\n    Manchando o azul do ceu.<br \/>\n    Que v&ecirc;s, infante?<br \/>\n    Elle m&#8217;o perguntou.<\/p>\n<p align=\"left\">Que vejo ? &#8212; aquella<br \/>\n    Pasta de lama escurecendo os ares.<br \/>\n    Amas o ceu ?<br \/>\n    E porque n&atilde;o, bom velho<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; tam bello o ceu ? O annil que o pinta<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; melhor de perto ? A estrella d&#8217;alva,<br \/>\n    Que vem correndo assim antes da aurora,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;, talvez, um parsaro de prata,<br \/>\n    Que eu poderei prender, chegando a elle?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; um ber&ccedil;o tam bonito a lua,<br \/>\n    Que sempre, e sem que pare, imbala a infantes ?<br \/>\n    N&atilde;o posso um dia, de manhan, sosinho,<br \/>\n    Sem accordar ningu&eacute;m, chegar-lhe &aacute; beira,<br \/>\n    Algumas gottas aparar de orvalho,<br \/>\n    Lavar-lhe aquellas nodoas,&#8212; e mais bella<br \/>\n    Tornal-a depois disto ? &#8212; Ah, velho, escuta :<br \/>\n    Eu quero o ceu: mas dizem que p&#8217;ra tel-o<br \/>\n    &Eacute; preciso morrer ?<br \/>\n    Pobre innocente,<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; preciso, n&atilde;o. Querel-o basta.<br \/>\n    Querer somente e entrar. N&atilde;o v&ecirc;s, infante?<br \/>\n    Vai-se p&#8217;ra l&aacute; por terra : &#8212; a porta .d&#8217;elle<br \/>\n    Eil-a vis&iacute;vel acol&aacute; bem franca.<br \/>\n    Tam feia, velho? &#8212; a porta d&#8217;elle &#8212; aquella<br \/>\n    Pasta de lama escurecendo os ares?<\/p>\n<p align=\"left\">Por f&oacute;ra, infante&#8230;<br \/>\n    E, velho, &eacute; s&oacute; por f&oacute;ra?<br \/>\n    Mas ah! por f&oacute;ra eu vejo o ceu tam lindo!<br \/>\n    E toda a tarde me chamava o velho,<br \/>\n    E me apontava ao ceu,&#8212; qual no deserto,<br \/>\n    Querendo Satanaz tentar ao Christo,<br \/>\n    Subindo ao alto lhe amostrava o mundo.<br \/>\n    E acostumou-me: &#8212; e eu ja chamava aquella<br \/>\n    Pasta de lama escurecendo os ares<br \/>\n    Co&#8217;o nome, oh! sim, de ceu. Infante ainda<br \/>\n    Blasphemei, blasphemei co&#8217;os l&aacute;bios do impio.<br \/>\n    Tu foste criminoso, oh velho indigno,<br \/>\n    De meus nefandos obrigados actos.<br \/>\n    &Eacute;s r&eacute;u, &eacute;s reu,&#8212; Atroador remorso,<br \/>\n    Si &eacute;s um supplicio, vinga-me d&#8217;aquelle.<br \/>\n    Tu, anjo atterrador, que o somno travas<br \/>\n    Do mau que apenas adormece, e accorda<br \/>\n    Anxio, torvado nas viz&otilde;es que inspiras,<br \/>\n    &Aacute; minha justa voz das trevas surge,<br \/>\n    Corre, vem com teu s&eacute;quito de f&uacute;rias,<br \/>\n    Tu, ministro das choleras do Eterno.<br \/>\n    Pov&ocirc;a o leito seu de horr&iacute;veis serpes,<br \/>\n    De viz&otilde;es, de tortor: &#8212; vinga-me d&#8217;elle.<\/p>\n<p align=\"left\">Basta-lhe s&oacute; na vida este castigo,<br \/>\n    O mais tenha-o depois no inferno mesmo.<br \/>\n    E vim depois,&#8212; e n&#8217;um furor sagrado,<br \/>\n    Louco religioso, entrei n&#8217;um templo.<br \/>\n    Com lagrymas de amor &#8212; devota insania! &#8212;<br \/>\n    Prostrei-me solu&ccedil;ando ao p&egrave; das aras,<br \/>\n    No jaspe dos degraus. Alli co&#8217;o choque<br \/>\n    Do corpo ardente em flammas de del&iacute;rio<br \/>\n    S&ocirc;bre o frio do ch&atilde;o, senti&#8230; Quem pode<br \/>\n    Verter esse mysterio em lingua de homem?<br \/>\n    N&atilde;o! alli, sem ac&ccedil;&atilde;o, cahido ao longo,<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o morri. Minh&#8217;alma tam somente<br \/>\n    Sem ideas parou: pensar n&atilde;o poude.<br \/>\n    Sumiu-se, a&eacute;reo p&ocirc;, a intelligencia.<br \/>\n    Ficou-me o cora&ccedil;&atilde;o fervendo em sangue,<br \/>\n    Volc&atilde;o represso,&#8212; e congelado o corpo<br \/>\n    Unido alli co&#8217;a pedra. Estatua em terra,<br \/>\n    Idolo g&ecirc;sseo que do altar cahira,<br \/>\n    N&atilde;o sei que mundo foi, n&atilde;o sei que abysmo<br \/>\n    Que confuso habitei. S&uacute;bito estrala<br \/>\n    Funereo canto que evocou-me &aacute; vida,<br \/>\n    Dizendo &#8212; morto &#8212; em destro&ccedil;adas vozes.<br \/>\n    Depois alguma dextra ergueu-me o corpo,<br \/>\n    E vi&#8230; N&atilde;o sei que vi&#8230; Cegou-me os olhos<br \/>\n    O vitreo grosso das sangu&iacute;neas lagrymas.<br \/>\n    Pulverea sombra de subtil mem&oacute;ria<br \/>\n    Faz-me pensar que li. Prece ou contracto<br \/>\n    N&atilde;o sei que foi. Um juramento eterno<\/p>\n<p align=\"left\">Fiz ao Senhor s&ocirc;bre os altares d&#8217;elle?<br \/>\n    N&atilde;o lembra-me, n&atilde;o sei. Somente o dizem<br \/>\n    Extranhos homens, de negror vestidos,<br \/>\n    &#8212; Homens? quem sabe si demonios eram?<br \/>\n    Seraphins infernaes, do inferno fallam,<br \/>\n    E seu irm&atilde;o, sat&acirc;nicos, me chamam!<br \/>\n    Co&#8217;a voz tremenda, amea&ccedil;ando as f&uacute;rias,<br \/>\n    Dizem que fiz um immortal protesto,<br \/>\n    Que ha de seguir-me ao ceu que ouviu-me as vozes,<br \/>\n    Que ha de seguir-me aos penetraes do abysmo.<br \/>\n    Clamam &#8212; infames! &#8212; que co&#8217;as pr&oacute;prias unhas<br \/>\n    Rasguei, abri o cora&ccedil;&atilde;o ao Christo,<br \/>\n    E com seu sangue borrifei meus labios,<br \/>\n    E com seu sangue sigillei meu pacto.<br \/>\n    Quando, esgotada essa viz&atilde;o terr&iacute;vel,<br \/>\n    Viz&atilde;o que a dor me realiza e a raiva,<br \/>\n    Olhei-me a mim, desconheci-me quasi.<br \/>\n    &Eacute; bem real, Pythagoras, teu sonho !<br \/>\n    O D&eacute;mon que inspirava-te era um anjo.<br \/>\n    Dos arcanos do ceu alguns tiveste.<br \/>\n    As almas dos mortaes transmigram, passam<br \/>\n    De corpo em corpo, ou d&#8217;uma essencia em outra.<br \/>\n    Corpo nem alma os mesmos me ficaram.<br \/>\n    Homem que fui n&atilde;o sou. Meu ser, meu todo<br \/>\n    Fugiu-me, esvaeceu-se, transformou-se,<br \/>\n    Vivo; mas acabei meu ser primeiro.<br \/>\n    Labil reminiscencia inda me antolha<br \/>\n    Fugazes sombras da passada vida.<\/p>\n<p align=\"left\">Para maior supplicio, aqui n&#8217;um quadro<br \/>\n    Esses dous tempos comparados vejo<br \/>\n    Ante mim sempre, que os refuso em balde.<br \/>\n    Eu te creio, Pythagoras, nos sonhos!<br \/>\n    As almas dos mortaes transmigram, passam<br \/>\n    De corpo em corpo, ou d&#8217;uma ess&ecirc;ncia em outra,<br \/>\n    Si eu n&atilde;o morri, sou transfuga da vida.<br \/>\n    Dista, dista de mim minh&#8217;alma antiga.<br \/>\n    A toga f&eacute;rrea que estreitou-me os artos,<br \/>\n    Como azinhavr&eacute; devorou-me as carnes<br \/>\n    Osso, esqueleto, pelas fibras prezo,<br \/>\n    Vou caminhando,&#8212; e caminhando rinjo.<br \/>\n    Folga, Loyola: &#8212; eu preenchi teu mando.<br \/>\n    At&eacute; te intrego o teu sup&eacute;rfluo &laquo;quasi.&raquo;<br \/>\n    Eu sou cad&aacute;ver, sou ! &#8212; Olha-me e julga.<br \/>\n    &Eacute; pouco ainda este soffrer tam duro<br \/>\n    Feito por v&oacute;s, hypocritas sagrados ?<br \/>\n    N&atilde;o basta aqui a conclus&atilde;o das dores ?<br \/>\n    Vossos tropheus, que em lagrymas se insoppam,<br \/>\n    Innegrecidos, humidos de sangue,<br \/>\n    Cruor gottejam dos rasgados peitos,<br \/>\n    Que lancinados dos seus topes pendem,<br \/>\n    &#8212;E a gloria vossa n&atilde;o se farta iniqua,<br \/>\n    E n&atilde;o vos pode encher victima tanta ?<br \/>\n    Polyphemos crueis, milformes hydras,<\/p>\n<p align=\"left\">Monstros peiores que os horr&iacute;veis monstros<br \/>\n    Que a m&atilde;o de Homero bosquejava o m&ecirc;do,<br \/>\n    Portentos de terror &#8212; quereis mais pasto?<br \/>\n    Pois sim! &#8212;Abri as leoninas garras,<br \/>\n    E destampae vosso infernal sarcasmo !<br \/>\n    De vosso instincto a furiosa insania<br \/>\n    Vou talvez sacial-a. Ouvi-me ainda.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p align=\"left\">Marm&oacute;reo c&aacute;rcere apertou-me os ossos<br \/>\n    Carcomidos, esqualidos, sem f&oacute;rma,<br \/>\n    &#8212; E o dom que extrema os animaes e os homens<br \/>\n    Aqui perdi-o. Oh tu, filho do Eterno,<br \/>\n    Ouve meu brado acrysolado e puro<br \/>\n    No lar do cora&ccedil;&atilde;o &#8212; que afflicto o amaste !<br \/>\n    Uma palavra te pulou dos l&aacute;bios,<br \/>\n    Gladio de fogo, omnipotente e sancta,<br \/>\n    &#8212; E n&#8217;ella v&ocirc;a a liberdade aos povos.<br \/>\n    Uma palavra tamb&eacute;m salta em chammas,<br \/>\n    Gladio de sulphur, pe&ccedil;onhenta e grande,<br \/>\n    D&#8217;esse rival que Tantalo te em&uacute;la,<br \/>\n    &#8212; E n&#8217;ella v&ocirc;a a escravid&atilde;o dos povos.<br \/>\n    Filho do Eterno que imposs&iacute;veis podes<br \/>\n    T&eacute; quando em burla deixar&aacute;s teu reino ?<br \/>\n    Cai debaixo do inferno o mesmo Empyreo!<\/p>\n<p align=\"left\">Deus ! em teu nome Satanaz impera !<br \/>\n    Aqui nos claustros os demonios moram,<br \/>\n    &#8212; E o monge verga ao desespero o collo,<br \/>\n    E julga m&atilde;o divina a m&atilde;o que o toca,<br \/>\n    E blasphema do Christo, e as aras cospe,<br \/>\n    E a cruz e a Biblia entre delirios piza.<br \/>\n    A cren&ccedil;a augusta que no peito aperta,<br \/>\n    Que no leite materno haurira infante,<br \/>\n    Que nos crystaes da dor sahir procura,<br \/>\n    Disse &#8212; Sois livres &#8212; indistincta aos homens,<br \/>\n    E diz ao monge &#8212; Escravo! &#8212; E o monge insano<br \/>\n    Piza mais uma vez a cruz e a Biblia.<br \/>\n    Tal o furor que a escravid&atilde;o excita!<br \/>\n    Tal sou, tal &egrave; o monge,&#8212; ente n&atilde;o-homem<br \/>\n    A quem privou-se a liberdade,&#8212; e n&#8217;ella<br \/>\n    Privada topa a consci&ecirc;ncia em nada.<br \/>\n    O crime e a raiva no seu peito habitam.<br \/>\n    Cobrem-lhe a face mascaras de lou&ccedil;a,<br \/>\n    Onde um surrizo angelico se imprime<br \/>\n    Nos templos e nas pra&ccedil;as. Em sua alma<br \/>\n    Continuo instiga&ccedil;&otilde;es malvadas fervem.<br \/>\n    Que sceleratos espantosos planos<br \/>\n    N&atilde;o t&ecirc;em nascido aqui! Frontaes annosos,<br \/>\n    Tectos sombrios, seculares muros,<br \/>\n    Respondei-me, fallae. Em vosso espa&ccedil;o<br \/>\n    Co&#8217;o dia emenda-se a mudez da noute?<\/p>\n<p align=\"left\">Oh! quanto prova este silencio eterno!<br \/>\n    Si eu fora ao mundo arremessado acaso,<br \/>\n    Em qualquer polo, no torr&atilde;o, no g&ecirc;lo,<br \/>\n    A estas horas meditara em crimes?<br \/>\n    Blasphemara de Deus perante a lua,<br \/>\n    Cujo orvalho. me queima ? O leito, o somno<br \/>\n    Ser-me-ia travado &acirc; meia-noute ?<br \/>\n    Mais afflictivo que o labor de escravo,<br \/>\n    Ocio infamante, eu te renego em balde!<br \/>\n    Geram-se os vicios em teu molle seio,<br \/>\n    E te beijando, e te cingindo o collo,<br \/>\n    Boceja, estira-se a lascivia,&#8212; e dorme.<br \/>\n    Trucida as almas solid&atilde;o for&ccedil;ada,<br \/>\n    Barbariza, asselvaja. As pandas azas<br \/>\n    Bate a virtude, e nas familias pousa.<br \/>\n    Tenra plantinha, nos desertos nasce<br \/>\n    Um certo amor que abandonado expira,<br \/>\n    Ou torrentes de t&oacute;xicos dimana.<br \/>\n    Aqui o cora&ccedil;&atilde;o se volve em raio,<br \/>\n    Os ossos em punhaes, a mente em furia.<br \/>\n    Aqui em fel a inspira&ccedil;&atilde;o se embebe.<br \/>\n    Aqui de opprobrio a candidez se mancha.<br \/>\n    Aqui converte-se a virtude em crime.<br \/>\n    Mas ah! l&aacute; chama &aacute;s ora&ccedil;&otilde;es o sino!<br \/>\n    Um sacrilegio mais ! Senhor ! perd&ocirc;a !<br \/>\n    Vou emendar impreca&ccedil;&otilde;es com psalmos.<br \/>\n    Vai em teu templo reboar meu brado,<br \/>\n    Que aos ceus n&atilde;o sobe, cavernoso e rouco.<\/p>\n<p align=\"left\">Minha voz, minha voz conspurca as aras,<br \/>\n    Ironica e gelada. Em atro cofre<br \/>\n    Ardem-me dentro renegados gritos.<br \/>\n    Cada palpite maldi&ccedil;&otilde;es me clama.<br \/>\n    Blasphemia pulsam-me as arterias todas.<br \/>\n    Senhor! eu n&atilde;o sou reu,&#8212; tu bem o sabes,<br \/>\n    De sacrilegio tal! Perdoa ao impio,<br \/>\n    &#8212; Ao impio feito por mais impios que elle.<br \/>\n    Agora ride, hypocritas sagrados !<br \/>\n    Eis-aqui vossa obra. Algozes, v&ecirc;de-a !<br \/>\n    &Eacute; cruel, como v&oacute;s; mirae-vos n&#8217;ella.<br \/>\n    N&atilde;o mais clameis que edificou-a o Christo.<br \/>\n    Contumelia infernal! &#8212; Senhor! teu filho<br \/>\n    Fora teu filho, si creasse os males?<br \/>\n    Na torre havia-se calado o sino,<br \/>\n    E o echo apenas resoava ao longo.<br \/>\n    Tambem o monge immudeceu com elle,<br \/>\n    Fechou a cella, e caminhou soturno<br \/>\n    Pelas naves af&oacute;ra. Um som compresso,<br \/>\n    Quasi carpido, na abafada cella,<br \/>\n    Ficou ainda a reflectir-lhe as vozes.<br \/>\n    E eu alli, imbevecido em &acirc;ncias,<\/p>\n<p align=\"left\">Fiquei chorando, &#8212;e lamentei-lhe a sorte.<br \/>\n    Aos montes do Senhor ergui meus olhos,<br \/>\n    E disse uma ora&ccedil;&atilde;o. Rezando ainda,<br \/>\n    Senti nas veias affluir-me a calma,<br \/>\n    &#8212; E cri que o monge a conseguiu commigo.<br \/>\n    Inda corria a vira&ccedil;&atilde;o da noute<br \/>\n    Com fresca madidez. Pedi-lhe as azas,<br \/>\n    E fui saudoso a meditar meus carmes.<\/p>\n<h4><a name=\"21\" id=\"21\">O APOSTATA<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>CAN&Ccedil;&Atilde;O DO CATHOLICO<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o sentes por s&ocirc;bre a face,<br \/>\n    Como um raio inopinado,<br \/>\n    Esse anathema sagrado,<br \/>\n    Essa ferrea excommunh&atilde;o ?<br \/>\n    N&atilde;o sentes a espada nua<br \/>\n    De Roma no teu semblante,<br \/>\n    De Roma,&#8212; eterno gigante,<br \/>\n    Sustendo infernos na m&atilde;o?<br \/>\n    Ah! triste, perjuro infame,<br \/>\n    Que esqueces esse legado,<br \/>\n    Sancta heran&ccedil;a do passado,<br \/>\n    Sancta cren&ccedil;a de Jesus !<br \/>\n    Que a negras voragens desces,<br \/>\n    E julgas que ao ceu te elevas!<br \/>\n    Que por turbilh&otilde;es de trevas<br \/>\n    Trocas um reino de luz !<\/p>\n<p align=\"left\">Ah ! triste, que te abysmaste<br \/>\n    N&#8217;um precipicio insondavel<br \/>\n    Com esse orgulho execravel<br \/>\n    Que Lusbel inspira aos seus!<br \/>\n    Que duas vezes perdeste<br \/>\n    Esse dominio sagrado,<br \/>\n    Paraizo resgatado<br \/>\n    Co&#8217;o sangue puro de Deus!<br \/>\n    Ah! triste, que espeda&ccedil;aste,<br \/>\n    Com sacrilegio altanado,<br \/>\n    O juramento prestado<br \/>\n    Juncto &aacute; fonte baptismal!<br \/>\n    Co&#8217;o perjurio que fizeste,<br \/>\n    Tu, infante estremecido,<br \/>\n    Cravaste um punhal buido<br \/>\n    No cora&ccedil;&atilde;o paternal!<br \/>\n    Ah! triste, que te desgarras,<br \/>\n    De queda em qu&eacute;da passando,<br \/>\n    Como do monte rolando<br \/>\n    Costuma a pedrinha vir.<br \/>\n    Ah ! onde, christ&atilde;o perjuro,<br \/>\n    Parar&aacute; teu baque infindo ?<br \/>\n    Ou ir&aacute;s sempre cahindo<br \/>\n    De um em outro nadir ?<\/p>\n<p align=\"left\">Ah! triste, que insano clamas,<br \/>\n    Com teus sophismas cruentos,<br \/>\n    Que de livres pensamentos<br \/>\n    Preciza o espirito teu!<br \/>\n    E com Luthero te abra&ccedil;as,<br \/>\n    Tu, apostata ignorante,<br \/>\n    Na convic&ccedil;&atilde;o protestante,<br \/>\n    Preludio certo do atheu!<br \/>\n    Vai, apostata, perjuro,<br \/>\n    Com esse raio gravado,<br \/>\n    Esse anathema sagrado,<br \/>\n    Essa ferrea excommunh&atilde;o!<br \/>\n    N&atilde;o sentes a espada nua<br \/>\n    De Roma no teu semblante,<br \/>\n    De Roma,&#8212; eterno gigante,<br \/>\n    Sustendo infernos na m&atilde;o ?<\/p>\n<h4><a name=\"22\" id=\"22\">O CONVERSO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>CAN&Ccedil;&Atilde;O DO LIBERTINO<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio.<br \/>\n    Quero arrojar-me a dedalos de trevas,<br \/>\n    A dedalos de luz. Precizam homens<br \/>\n    D&#8217;esses mysterios que a raz&atilde;o fascinam.<br \/>\n    Ainda que depois se cerre em noute,<br \/>\n    A face de um crepusculo me agrada.<br \/>\n    Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio.<br \/>\n    Salve, Religi&atilde;o, sublime idea,<br \/>\n    Que tanto incantas feiticeira as almas!<br \/>\n    Sobre teu inventor mil ben&ccedil;&atilde;os caiam!<br \/>\n    Propheta do Senhor! seja o teu nome<br \/>\n    Ainda al&eacute;m dos seculos bemdicto!<br \/>\n    D&eacute;ste n&#8217;uma illus&atilde;o um gozo aos homens.<br \/>\n    Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio.<\/p>\n<p align=\"left\">Em meu orgulho esmigalhei-te insano,<br \/>\n    Pizei-te aos p&eacute;s, incantadora cren&ccedil;a!<br \/>\n    Julguei achar na liberdade um muro.<br \/>\n    Achei poeira, mais que a tua, etherea.<br \/>\n    Tu, minha cren&ccedil;a, tu somente &eacute;s firme.<br \/>\n    Espancas um remorso aos p&eacute;s de um<br \/>\n    padre.<br \/>\n    Templo, abysmo de Deus, abre-me o<br \/>\n    seio.<br \/>\n    Mil sanctos teus, co&#8217;os cora&ccedil;&otilde;es de f&oacute;ra,<br \/>\n    Aos repulsos de Deus consolam mesmo.<br \/>\n    Sempre seguro estou co&#8217;a cren&ccedil;a minha.<br \/>\n    Tenho, em falta de Deus, quem chame<br \/>\n    ainda.<br \/>\n    Com aureos seraphins, gentis archanjos,<br \/>\n    Tu, minha cren&ccedil;a, os erros me rodeas.<br \/>\n    Templo, abysmo de Deus, abre-me o<br \/>\n    seio.<br \/>\n    Levado em turbilh&otilde;es de excelsos<br \/>\n    crimes,<br \/>\n    T&eacute;&#8217;gora estive em barathros de inferno.<br \/>\n    N&atilde;o me lembra o que vi: mas sei que<br \/>\n    errava<br \/>\n    Por lag&ocirc;as de asphalto, ares de enxofre.<br \/>\n    Tu, de l&aacute; me arrancaste, oh cren&ccedil;a<br \/>\n    minha. Mais bellos sam teus insondaveis<br \/>\n    erros! Templo, abysmo de Deus, abreme<br \/>\n    o seio.<br \/>\n    Sou christ&atilde;o outra vez : sou teu :<br \/>\n    venceste.<br \/>\n    Quero arrojar-me a dedalos de trevas,<br \/>\n    A dedalos de luz. Precizam homens<br \/>\n    D&#8217;esses mysterios que a raz&atilde;o fascinam.<\/p>\n<p align=\"left\">Ainda que depois se cerre em noute,<br \/>\n    A face de um crepusculo me agrada.<br \/>\n    Templo, abysmo de Deus, abre-me o seio.<\/p>\n<h4><a name=\"23\" id=\"23\">ELLA<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Eu lhe queria tanto, quanto os desgra&ccedil;ados<br \/>\n    querem aos que os estimam.<br \/>\n    <b>EUGENIO SUE.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Eu sei, oh virgem, que em teu peito innocuo<br \/>\n    Tenho palpites, l&aacute;. Sei que tua alma<br \/>\n    Ficou pensando co&#8217;as ideas altas,<br \/>\n    Que te inspirei profundo.<br \/>\n    Inda em teus olhos reconhe&ccedil;o ao longe<br \/>\n    Todo o meu pensamento. Alto gravada<br \/>\n    Em tua mente a minha mente existe.<br \/>\n    Pertences-me p&#8217;ra sempre.<br \/>\n    Rasguei-te, sim, do cora&ccedil;&atilde;o mais imo<br \/>\n    Um veu cerrado de innocencia fatua.<br \/>\n    Mas n&atilde;o te nodoei: quiz que ficasses<br \/>\n    Casta assim mesma,&#8212; e sabia.<br \/>\n    Tal na floresta a candida pombinha<br \/>\n    Penetra o ninho do amoroso pombo:<br \/>\n    E como d&#8217;antes, nos rosaes florentes,<br \/>\n    Vai arrulando ainda.<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o, n&atilde;o temo de ti. O amor que sentes<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; da terra n&atilde;o,&#8212;.nem segue o corpo.<br \/>\n    O amor que sentes, nem comtigo expira.<br \/>\n    &Eacute; mais que immorredouro.<br \/>\n    Has de amar-me na terra,&#8212; e alem dos astros,<br \/>\n    Eu te ensinei um sentimento eterno.<br \/>\n    Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos,<br \/>\n    Oh ! has de amar-me sempre!<br \/>\n    N&atilde;o te forcei, nem te prendi com ferros.<br \/>\n    Tua vontade &eacute;, como d&#8217;antes, livre.<br \/>\n    Mas volunt&aacute;ria nem coacta podes<br \/>\n    Amar a outro amante.<br \/>\n    Um vate, um vate colligou-te aos seios,<br \/>\n    Tu d&eacute;ste-lhe o perfume de teus labios.<br \/>\n    O n&oacute; do abra&ccedil;o te estreitou seu corpo.<br \/>\n    O mais foi um poema.<br \/>\n    Tu recebeste os halitos de um vate.<br \/>\n    Tu lhe bebeste a inspira&ccedil;&atilde;o aos tragos.<br \/>\n    O fogo que do ceu lhe desce em linguas,<br \/>\n    Mulher! tambem ardeu-te.<br \/>\n    Para os homens de Deus foste sagrada.<br \/>\n    Podeste ser-lhes dos mysterios conscia.<br \/>\n    &Eacute;s, oh vestal, a cumplice divina<br \/>\n    Dos celestes oraculos.<\/p>\n<p align=\"left\">Est&aacute;s agora iniciada eterno.<br \/>\n    Amaste-me: eu te quiz. Julguei-te digna<br \/>\n    De s&ecirc;res-me a Sybilla de meus cantos,<br \/>\n    O anjo de meus versos.<br \/>\n    Has de amar-me na terra,&#8212; e al&eacute;m dos astros.<br \/>\n    Eu te ensinei um sentimento eterno.<br \/>\n    Mau grado a mim, a ti, ao mundo, aos anjos,<br \/>\n    Oh! has de amar-me sempre!<br \/>\n    Eu sei que um negro, espantador phantasma<br \/>\n    Co&#8217;as asas bronzeas te apparece &aacute; noute,<br \/>\n    E te deixando a pallidez manchada,<br \/>\n    Te grita &#8212; Monge! &#8212; e passa.<br \/>\n    Eu sei que involto na pancada aeria<br \/>\n    Do meio-dia te revoa um sylpho,<br \/>\n    Que no concavo d&#8217;alma se te inrola,<br \/>\n    Tambem dizendo &#8212; Crime! &#8212;<br \/>\n    Listras de sangue, de manhan, te cortam<br \/>\n    O brando annil que n&aacute;da-te nos olhos.<br \/>\n    E assim mais bella, temerosa e pavida,<br \/>\n    Pensas em mim,&#8212;e choras.<br \/>\n    Em presen&ccedil;a da aurora, aos raios d&#8217;ella,<br \/>\n    L&aacute; do tremulo seio em que me escondes,<br \/>\n    Arrancas as can&ccedil;&otilde;es que me inspiraste<br \/>\n    Travado co&#8217;as delicias.<\/p>\n<p align=\"left\">Meus versos cantas para o sol que nasce,<br \/>\n    Para o gorgeio matinal dos passaros,<br \/>\n    E de minh&#8217;harpa as harmonias cazas<br \/>\n    Co&#8217;o cicio das arvores.<br \/>\n    Depois um rizo te assombr&ecirc;a a face,<br \/>\n    Limpa-te o sangue dos annileos olhos,<br \/>\n    E co&#8217;o nome de &#8212;Vate &#8212; assoletrado<br \/>\n    Desfazem-se-te as nodoas.<br \/>\n    Os alvos bra&ccedil;os &#8212; emulos do jaspe &#8212;<br \/>\n    C&aacute; para o sul onde eu habito extendes,<br \/>\n    E nas asas da aurora um beijo ardente<br \/>\n    Envias a meu carcere.<br \/>\n    Entam &#8212; que passe o tetrico fantasma,<br \/>\n    E grite embora &#8212; Monge! &#8212; e tr&ocirc;e o sino<br \/>\n    Q&uuml;e toca ao meio-dia, e n&#8217;elle involto<br \/>\n    Proclame o sylpho &#8212; Crime! &#8212;<br \/>\n    Que ceu te pode anuvear um rizo!<br \/>\n    Que espectro pode sustentar-te o canto!<br \/>\n    Que sylpho n&atilde;o desmancha-se nos ares<br \/>\n    Ao s&ocirc;pro de meus versos!<br \/>\n    Guarda no seio o talisman que dei-te.<br \/>\n    Deante das viz&otilde;es, meus carmes canta.<br \/>\n    Insulta os gritos de sinistra inveja,<br \/>\n    Que dizem &#8212; Monge, e Crime! &#8212;<\/p>\n<p align=\"left\">Mau grado aos mundos, ser&aacute;s minha agora.<br \/>\n    Eu te ensinei um sentimento eterno,<br \/>\n    Has de amar-me na terra,&#8212; e al&eacute;m dos astros.<br \/>\n    Oh! has de amar-me sempre !<\/p>\n<h4><a name=\"24\" id=\"24\">SAUDA&Ccedil;&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>AO NATALICIO DO MEU AMIGO OLYMPIO MAXIMO CHAVES<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">O mundo antigo est&aacute; &aacute;s<br \/>\n    garras com o moderno.<br \/>\n    <b>LACORDAIRE<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Quebrae a lousa impura que vos fecha,<br \/>\n    Phantasmas do passado.<br \/>\n    Surgi da cinza, oh s&eacute;culos de outr&#8217;ora,<br \/>\n    Ouvi, ouvi meu brado.<br \/>\n    Deixae na campa esse sudario immundo,<br \/>\n    Essa toga da morte.<br \/>\n    Tomae da vida, do prazer, das galas<br \/>\n    O sobranceiro porte.<br \/>\n    Vinde saudar a obra que sonhara<br \/>\n    Vosso espirito ardente.<br \/>\n    Vinde baixar a frente respeitosa<br \/>\n    Ao seculo presente.<\/p>\n<p align=\"left\">Co&#8217;os olhos longos ao porvir que vemos<br \/>\n    Nobre tortor soffrestes.<br \/>\n    E os louros immortaes que n&atilde;o cingistes,<br \/>\n    Olhae aqui,&#8212; sam estes.<br \/>\n    Novos Baptistas, na soid&atilde;o clamastes,<br \/>\n    Clamastes na cidade.<br \/>\n    E a vosso brado os cardines, rangindo,<br \/>\n    Soaram &#8212; Liberdade!<br \/>\n    Honrosa lucta, sublimado anhelo<br \/>\n    Foi toda a vossa vida.<br \/>\n    Mas n&atilde;o entrasles, ai! Moys&eacute;s modernos,<br \/>\n    Na terra promettida.<br \/>\n    Assistiu-vos cruel o desespero<br \/>\n    &Aacute; ultima extors&atilde;o.<br \/>\n    D&eacute;stes ainda o derradeiro espiro .<br \/>\n    Nas m&atilde;os da escravid&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o podestes pizar o bronzeo collo<br \/>\n    De despotas collossos.<br \/>\n    Mas armas de outra tempera forjastes<br \/>\n    Para os vindouros vossos.<br \/>\n    Esse phantasma atroz &#8212; vestido a crimes,<br \/>\n    Seu nome&#8230; Assola&ccedil;&atilde;o,&#8212;<br \/>\n    Gahiu depois de v&oacute;s,&#8212; e livre assoma<br \/>\n    Do Christo a redemp&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Resuscitae: vosso ideal sublime<br \/>\n    Venceu, triumpha agora.<br \/>\n    E o semblante dos despotas que restam<br \/>\n    Atterra-se, descora&#8230;<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Este seculo ditoso<br \/>\n    Resume os bens do passado.<br \/>\n    Bebe a seiva dos arbustos<br \/>\n    Que mil campinas t&#038;ecirecirc;m dado.<br \/>\n    Tem a sciencia dos tempos<br \/>\n    Juncta com outro ideal,<br \/>\n    Como um tope variado<br \/>\n    De um jardim universal.<br \/>\n    Tem um futuro mimoso<br \/>\n    Viz&atilde;o de felicidade.<br \/>\n    Tem dous verbos incarnados<br \/>\n    &#8212; O Progresso e a Liberdade.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">E foi, Olympio, um seculo tam grande<br \/>\n    Que te deu o Senhor.<br \/>\n    Deu-te com elle um cora&ccedil;&atilde;o altivo,<br \/>\n    Cheio de patrio amor.<br \/>\n    Deu-te a vida n&#8217;um seculo de vida,<br \/>\n    De luz e de verdade.<br \/>\n    Deu-te a miss&atilde;o de athleta denodado<br \/>\n    Da sancta Liberdade.<br \/>\n    Encheu-te o cora&ccedil;&atilde;o de amor da patria<br \/>\n    No mais subido excesso.<br \/>\n    Encheu-te o cora&ccedil;&atilde;o das sympathias<br \/>\n    Dos crentes do Progresso<br \/>\n    Assim teu peito inteiro apenas basta<br \/>\n    Para tam grande Nume.<br \/>\n    Alli n&atilde;o cabe mais. Tudo o que s&oacute;bra<br \/>\n    Extingue-se em seu lume.<br \/>\n    Mas si acazo em seus intimos refolhos<br \/>\n    Um vacuo ainda existe,<br \/>\n    Grava-lhe alli co&#8217;a patria o pobre nome<br \/>\n    Do trovador tam triste.<\/p>\n<p align=\"left\">O trovador tamb&eacute;m ama o progresso,<br \/>\n    Respeita o patrio amor.<br \/>\n    Si n&atilde;o queimasse-lhe esta chamma o peito,<br \/>\n    N&atilde;o f&ocirc;ra trovador.<\/p>\n<h4><a name=\"25\" id=\"25\">DEIXAS-ME<\/a><\/h4>\n<h5>AO MEU AMIGO E COLLEGA FRANKLIM AMERICO DE MENEZES DOREA <\/h5>\n<p align=\"right\"><b>Montserrate 29 de novembro de 1852.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Estas alpestres rochas, que se apartam,<br \/>\n    Deixam vazia a insaciavel vista:<br \/>\n    A dura ausencia do prazer de vel-as<br \/>\n    A mente me contrista;<br \/>\n    Este susurro das travessas vagas<br \/>\n    Causa saudades vividas e ternas:<br \/>\n    Por toda a vida &#8212; e al&eacute;m da morte &#8212; deixam<br \/>\n    Memorias quasi eternas.<br \/>\n    Estes soph&aacute;s de acolxoada relva<br \/>\n    Deixam no peito sensa&ccedil;&otilde;es de menos:<br \/>\n    Deixam a falta do prazer mais puro,<br \/>\n    Dos gostos mais amenos.<br \/>\n    Estas serenas brizas salitradas<br \/>\n    Frizando a face das ceruleas aguas,<br \/>\n    Adormecem um pouco a d&ocirc;r no peito,<br \/>\n    Esquecem negras maguas,<\/p>\n<p align=\"left\">Mas nada d&#8217;isso em meu ardente peito<br \/>\n    Tantos volc&otilde;es at&ecirc;a de saudade,<br \/>\n    Como esta aus&ecirc;ncia necess&aacute;ria e dura<br \/>\n    Da docil amizade.<br \/>\n    E tu, bardo feliz do sentimento,<br \/>\n    Gentil cantor das affec&ccedil;&otilde;es suaves,<br \/>\n    &#8212; Doce, bem como o gorgear sonoro<br \/>\n    Das innocentes aves:<br \/>\n    Tu, que sabes cantar tam sanctos hymnos,<br \/>\n    Como dos anjos as can&ccedil;&otilde;es supernas,<br \/>\n    Deixas-me n&#8217;alma fervidas saudades,<br \/>\n    Saudades sempiternas.<br \/>\n    Deixas-me em mar de anciedade infinda,<br \/>\n    Timido nauta &#8212; duvidoso, incerto:<br \/>\n    Deixas-me n&#8217;alma o vacuo da existencia,<br \/>\n    Deixas-me um v&atilde;o deserto,<\/p>\n<h4><a name=\"26\" id=\"26\">A&#8217; PROFISS&Atilde;O<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>De Frei Jo&atilde;o das Merc&ecirc;s Ramos<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">&#8212; Entretanto o ceu se levanta sereno<br \/>\n    e pomposo como para um dia de festa.<br \/>\n    <b>CARLOS LACRETELLE<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Eu tambem antevi dourados dias<br \/>\n    Fesse dia fatal:<br \/>\n    Eu tambem, como tu, sonhei contente<br \/>\n    Uma ventura egual.<br \/>\n    Eu tambem ideei a linda imagem<br \/>\n    Da placidez da vida :<br \/>\n    Eu tambem desejei o clastro esteril,<br \/>\n    Gomo feliz guarida.<br \/>\n    Eu tambem me prostrei ao p&eacute; das aras<br \/>\n    Com jubilo indizivel:<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m declarei com forte accento<br \/>\n    O juramento horrivel.<br \/>\n    Eu tambem affirmei que era bem facil<br \/>\n    Esse voto immortal:<br \/>\n    Eu tambem prometti cumprir as juras<br \/>\n    D&#8217;esse dia fatal.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas en n&atilde;o tive os dias de ventura<br \/>\n    Dos sonhos que sonhei:<br \/>\n    Mas eu n&atilde;o tive o placido soc&ecirc;go<br \/>\n    Que tanto procurei.<br \/>\n    Tive mais tarde a reac&ccedil;&atilde;o rebelde<br \/>\n    Do sentimento interno.<br \/>\n    Tive o tormento dos crueis remorsos<br \/>\n    Que me parece eterno.<br \/>\n    Tive as paix&otilde;es que a solid&atilde;o formava<br \/>\n    Crescendo-me no peito.<br \/>\n    Tive, em logar das rosas que esperava,<br \/>\n    Espinhos no meu leito.<br \/>\n    Tive a calumnia tetrica vestida<br \/>\n    Por m&atilde;os a Deus sagradas.<br \/>\n    Tive a calumnia &#8212; que mais livre abrange<br \/>\n    Oh Deus! vossas moradas!<br \/>\n    llludi-mo&#8217;-nos todos! &#8212; Concebemos<br \/>\n    Um paraizo eterno:<br \/>\n    E quando n&#8217;elle s&ocirc;ffregos toc&acirc;mos,<br \/>\n    Ach&acirc;mos um inferno!<br \/>\n    Virgem formosa entre viz&atilde;o phantastica<br \/>\n    Que tam real parece!<br \/>\n    Mas quando a m&atilde;o chega a tocal-a quasi,<br \/>\n    L&aacute; vai, l&aacute; se esvaece!<\/p>\n<p align=\"left\">Sonho da inf&acirc;ncia que nos traz aos labios<br \/>\n    Um rizo mais que doce:<br \/>\n    Mas uma voz, um som&#8230;&#8212; some-se o sonho,<br \/>\n    Como si nunca fosse.<br \/>\n    Tu filho da esperan&ccedil;a! &#8212; tu juraste<br \/>\n    O que tambem jur&aacute;mos.<br \/>\n    Tu accreditas, innocente ! &#8212; ainda<br \/>\n    O quanto accredit&aacute;mos!<br \/>\n    Oh! que n&atilde;o soffra as dores que nos ferem<br \/>\n    Teu joven cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Que o futuro que esperas n&atilde;o se torne<br \/>\n    Terrivel illus&atilde;o!<br \/>\n    Que sobre n&oacute;s &#8212; os filhos da desgra&ccedil;a &#8212;<br \/>\n    Levantes um tropheu:<br \/>\n    E que n&atilde;o aches, &#8212; como n&oacute;s ach&aacute;mos &#8212;<br \/>\n    Inferno em vez de ceu!<br \/>\n    24 de outubro de 1852.<\/p>\n<h4><a name=\"27\" id=\"27\">CANTO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>Offerecido aos Jovens alumnos do collegio de S. Vicente<br \/>\n    de Paulo, por occasi&atilde;o de festejarem o mesmo Saneto,<br \/>\n    a 23 de julho de 1852<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Louvae, meninos, ao Senhor.<br \/>\n    Psalmo<\/p>\n<p align=\"left\">Duas fileiras de brilhantes jovens<br \/>\n    Co&#8217;um doce rir nos labios,<br \/>\n    Abatendo co&#8217;os raios da eloquencia<br \/>\n    Os presumidos sabios:<br \/>\n    A voz modesta do christ&atilde;o convicto,<br \/>\n    Sem odio, sem vaidade,<br \/>\n    Despindo os erros do sopbisma ornado,<br \/>\n    Laureando a verdade:<br \/>\n    Os olhos limpo do divino athleta,<br \/>\n    Immovel, inspirado,<br \/>\n    Descortinando a negrid&atilde;o da infamia<br \/>\n    Do seculo passado:<br \/>\n    A turba dos philosophos, submersa<br \/>\n    Nas vagas mais impuras,<br \/>\n    Abysmando no inferno, onde bebeu-as,<br \/>\n    As sophicas loucuras:<\/p>\n<p align=\"left\">Parecendo tornado o mundo inteiro<br \/>\n    Um plano infindo, immenso :<br \/>\n    S&oacute; pelas duas alas dominado<br \/>\n    De exercito tam denso :<br \/>\n    De um resplendor de archanjos e de luzes<br \/>\n    N&#8217;um throno divinal<br \/>\n    A cruz sublime,&#8212;como o sol que expande<br \/>\n    A luz universal:<br \/>\n    Curvados todos ao sagrado aspecto<br \/>\n    Do symbolo christ&atilde;o :<br \/>\n    Todos, na f&eacute; do crente, murmurando<br \/>\n    Um hymno, uma ora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    Eis do futuro o prazenteiro quadro,<br \/>\n    O quadro consummado,<br \/>\n    Que pela m&atilde;o segura d&#8217;estes jovens<br \/>\n    Ter&aacute; de ser pintado!<br \/>\n    Eis o futuro innevoado e negro,<br \/>\n    Que j&aacute; tememos tanto,<br \/>\n    Convertido em hosanna de alegria,<br \/>\n    Em jubiloso canto!<br \/>\n    Si nossos p&atilde;es fizessem no passado,<br \/>\n    Quanto agora fazemos:<br \/>\n    Si em n&oacute;s, seus filhos, cressem,&#8212; como agora<br \/>\n    N&#8217;esses filhinhos cremos:<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o seria o presente uma palavra<br \/>\n    De lucto, magoa e d&oacute;:<br \/>\n    Nem o futuro um calculo provavel,<br \/>\n    Uma esperan&ccedil;a s&oacute;!<br \/>\n    N&atilde;o ! &#8212; este longo exercito de jovens<br \/>\n    Athletas da sciencia,<br \/>\n    Mau grado a muitos nos imprime n&#8217;alma<br \/>\n    O sello da evidencia.<br \/>\n    Os filhos do porvir, na mesma ta&ccedil;a,<br \/>\n    O mesmo leite bebem :<br \/>\n    A mesma nutri&ccedil;&atilde;o no mesmo prato<br \/>\n    Seus cora&ccedil;&otilde;es recebem.<br \/>\n    Este sustento egual, na flor dos annos,<br \/>\n    Na inf&acirc;ncia da sciencia,<br \/>\n    Ha de lhes dar &aacute;s innocentes almas<br \/>\n    Uma uniforme essencia.<br \/>\n    Ess&ecirc;ncia &#8212; como aquella que se f&oacute;rma<br \/>\n    L&aacute; no seio materno :<br \/>\n    Ess&ecirc;ncia,&#8212; que j&aacute; mais ha de mudar-se,<br \/>\n    Que ha de existir eterno !<br \/>\n    Assim a vida inteira d&#8217;estes jovens,<br \/>\n    Athletas da sciencia,<br \/>\n    Ser&aacute; d&#8217;estes principios, que recebem,<br \/>\n    A certa consequencia.<\/p>\n<p align=\"left\">As luzes da sciencia mais profunda<br \/>\n    Ser&atilde;o seu elemento:<br \/>\n    A cren&ccedil;a pura do evangelho sancto<br \/>\n    Ser&aacute; seu complemento.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute;, por tanto, uma esperan&ccedil;a apenas<br \/>\n    A viz&atilde;o do futuro:<br \/>\n    &Eacute; um verso prophetico e sagrado,<br \/>\n    Um calculo seguro!<br \/>\n    Eia, pois,&#8212; guerreiros<br \/>\n    Do saber brilhante, Eia,<br \/>\n    pois,&#8212; athletas<br \/>\n    Da cruz triumphanle,<br \/>\n    Levantae um brado,<br \/>\n    &#8212; O brado de &#8212; avante! &#8212;<br \/>\n    O brado de &#8212; avante &#8212;<br \/>\n    Retumbe nos ares:<br \/>\n    Transponha seguro<br \/>\n    As terras, os mares:<br \/>\n    Penetre nos bosques,<br \/>\n    Nos invios logares!<br \/>\n    O brado de &#8212; avante &#8212;<br \/>\n    Atterre os descrentes,<br \/>\n    &#8212; Os homens, que a vossos<br \/>\n    Desejos ardentes<br \/>\n    Apenas t&ecirc;em rizos,<br \/>\n    Escarneos mordentes.<\/p>\n<p align=\"left\">O brado de &#8212; avante &#8212;<br \/>\n    Revele aos paizes<br \/>\n    Os vossos trabalhos,<br \/>\n    Fadigas e crizes,<br \/>\n    Os vossos triumphos<br \/>\n    Sublimes, felizes!<br \/>\n    O brado de &#8212; avante, &#8212;<br \/>\n    Qual balsamo sancto,<br \/>\n    Qual doce palavra,<br \/>\n    Qual fervido canto,<br \/>\n    Aos crentes console,<br \/>\n    Inxugue seu pranto.<br \/>\n    O brado de &#8212; avante &#8212;<br \/>\n    Retumbe nos ares:<br \/>\n    Transponha seguro<br \/>\n    As terras, os mares :<br \/>\n    Penetre nos bosques,<br \/>\n    Nos invios logares!<br \/>\n    Avante, oh jovens! &#8212; que os exfor&ccedil;os vossos<br \/>\n    Deus os coroa. O heroe da charidade,<br \/>\n    Vicente, o sancto, o amante da sciencia,<br \/>\n    Philosopho tambem, que soube outr&#8217;ora<br \/>\n    Confundir a philosophos,&#8212;extende<br \/>\n    Seus olhos para v&oacute;s. Lindo futuro<br \/>\n    Impetrou para v&oacute;s do Omnipotente.<br \/>\n    Eu vejo-o mesmo sobre acceza nuvem<br \/>\n    Baixar aqui, e aben&ccedil;oar-vos todos!<\/p>\n<p align=\"left\">S&ecirc;de seguros do porvir, meus filhos,<br \/>\n    Que eu vol-o guardo c&aacute;.<br \/>\n    O Senhor inclinou a vista immensa:<br \/>\n    Compadeceu-se j&aacute;.&raquo;<br \/>\n    Foi elle, sim, que nos fallou: ouvimos<br \/>\n    O oraculo divino. Eia! o futuro<br \/>\n    Vosso n&atilde;o pode ser viz&atilde;o que foge!<\/p>\n<h4><a name=\"28\" id=\"28\">SAUDADE<\/a><\/h4>\n<p>Ao meu amigo Frei Bento da Trindade Cortez,<br \/>\n    actualmente no Mosteiro do Rio de Janeiro<\/p>\n<p align=\"right\">&#8230; porque lagrimas tambem sam amor.<br \/>\n    <b>DB. J. J. B. DE OLIVEIRA.<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Em minhas horas de nocturna insomnia,<br \/>\n    Co&#8217;os olhos fitos no porvir longiquo,<br \/>\n    Eu penso em mim,&#8212; e na segunda idea<br \/>\n    Incontro-me comtigo.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu te prant&ecirc;o no arrebol da aurora,<br \/>\n    Que em teu exilio meditando esperas.<br \/>\n    Ihvolto n&#8217;um crep&uacute;sculo te inxergo<br \/>\n    A deplorar teus fados.<\/p>\n<p align=\"left\">Nas nuvens tinctas de sanguineas listras<br \/>\n    Lagrimas verto que s&ocirc;br&#8217;ellas mando.<br \/>\n    Partem, &#8212; por&eacute;m do caminhar can&ccedil;adas<br \/>\n    Descahem no oceano.<\/p>\n<p align=\"left\">Desesperado entam, maldigo o espa&ccedil;o,<br \/>\n    Maldigo o ceu e a terra, o vacuo e o pleno.<br \/>\n    Em cada crea&ccedil;&atilde;o deparo um erro.<br \/>\n    Nem acho Deus tam sabio.<\/p>\n<p align=\"left\">E na minh&#8217;alma se desenha ao vivo<br \/>\n    Melhor, mais bello, mais ditoso um mundo.<br \/>\n    Tiro do nada,, sem aus&ecirc;ncia e males,<br \/>\n    Um orbe todo novo.<\/p>\n<p align=\"left\">O amor da patria que os tyrannos banem<br \/>\n    N&atilde;o choraria maldi&ccedil;&otilde;es e sangue.<br \/>\n    Nem tu nem eu seriamos cortados<br \/>\n    Por diviz&otilde;es de abysmos.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas quando ainda n&atilde;o acabo o sonho,<br \/>\n    Divizo armadas que vam mar em f&oacute;ra.<br \/>\n    Desperto, e caio nos aereos bra&ccedil;os<br \/>\n    Da chymera sublime.<\/p>\n<p align=\"left\">E mais amargo te lamento a sorte,<br \/>\n    Tu, martyr feito pelas m&atilde;os dos bonzos.<br \/>\n    Invoco o ceu que intornar&aacute; s&ocirc;br&#8217;elles<br \/>\n    Alabastros de anathema.<\/p>\n<p align=\"left\">Ligando a mim teu cora&ccedil;&atilde;o dorido,<br \/>\n    Que a teus amigos em penhor deixaste,<br \/>\n    Tact&ecirc;o n&#8217;elle as emo&ccedil;&otilde;es tam vivas,<br \/>\n    Que em teu dest&ecirc;rro soffres.<\/p>\n<p align=\"left\">Conhe&ccedil;o as afflic&ccedil;&otilde;es que te salt&ecirc;am,<br \/>\n    Nobre proscripto. O sol, a lua, os astros<br \/>\n    Cruzam teu ponto, e trazem-me sinceros<br \/>\n    Tuas ingenuas dores.<\/p>\n<p align=\"left\">Sim! para os claustros n&atilde;o nasceu tua alma.<br \/>\n    Teu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o te palpita &#8212; Monge.<br \/>\n    Nem tam baixo teus &Iacute;mpetos serp&ecirc;am,<br \/>\n    Que um carcere os contente.<\/p>\n<p align=\"left\">N&#8217;esse vasto pallor que te orna a fronte,<br \/>\n    &#8212; Signal dos homens de profundo genio,<br \/>\n    Eu leio a grande e destemida idea,<br \/>\n    Que n&atilde;o cabe nos claustros.<\/p>\n<p align=\"left\">Deserta, oh g&ecirc;nio, do covil immundo,<br \/>\n    Onde o le&atilde;o dos vicios se alaparda.<br \/>\n    Ah! esta cella, onde a indolencia dorme,<br \/>\n    N&atilde;o pode, n&atilde;o, ser tua.<\/p>\n<p align=\"left\">Coral guardado nas flumineas urnas,<br \/>\n    Quem ha de te arrancar do equoreo fundo ?<br \/>\n    N&atilde;o serias mais bello, em aureo ingaste,<br \/>\n    No collo de uma virgem ?<\/p>\n<p align=\"left\"><b>Bahia 5 de agosto de 1854.<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"29\" id=\"29\">AOS TUMULOS<\/a><\/h4>\n<p align=\"right\">Pobre, grosseiro, n&atilde;o numeroso,<br \/>\n    que importa isso? Para pregar as<br \/>\n    t&aacute;buas de um ata&uacute;de qualquer pequena<br \/>\n    for&ccedil;a basta.<br \/>\n    <b>ALEXANDRE HERCULANO<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<br \/>\n    Choremos s&ocirc;bre a lapida esquecida<br \/>\n    Dos homens que j&aacute; foram.<br \/>\n    O ceu acceita o pranto dos pequenos.<br \/>\n    N&atilde;o te acobardes, n&atilde;o. Vamos, minh&#8217;harpa,<br \/>\n    Dep&ocirc;r tambem na lousa dos finados,<br \/>\n    Como a viuva, um obolo mesquinho,<br \/>\n    Mesquinho s&oacute; na terra. Al&eacute;m das nuvens<br \/>\n    Um thesouro se torna aos p&egrave;s do Eterno.<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">Da grimpa do mosteiro atr&ocirc;a o bronze,<br \/>\n    E de funebres sons os ares pejam,<br \/>\n    Como a tremenda voz da eternidade,<br \/>\n    Que as nuvens baixa, e perde-se no immenso.<br \/>\n    Bem!&#8212;este som diz&#8212;morte!&#8212;e apraz aos tristes,<br \/>\n    Apraz a n&oacute;s, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o te assuste, por tanto, a voz amiga,<br \/>\n    Que ha de chorar por n&oacute;s, mau grado aos vivos,<br \/>\n    Quando n&atilde;o formos mais !<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">Pobre instrumento,&#8212; as tuas aureas cordas,<br \/>\n    Onde pulsavas o prazer e a vida,<br \/>\n    Estalaram por si! &#8212; Estas que sobram<br \/>\n    Sejam sagradas &aacute; tristeza e ao lucto.<br \/>\n    Maguas somente restam-te. Immudece,<br \/>\n    Ou canta, solu&ccedil;ando, as maguas mesmas.<br \/>\n    Est&aacute;s can&ccedil;ada de chorar tam joven ?<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o sam tua essencia &agrave;s grandes dores,<br \/>\n    Teu alimento as lagrymas ?<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o v&ecirc;s aqui este sepulchro aberto,<br \/>\n    Corno si a terra se estivesse rindo,<br \/>\n    Para abra&ccedil;ar seus filhos ?<br \/>\n    Vamo&#8217;-nos junctos debru&ccedil;ar s&ocirc;br&#8217;elle.<br \/>\n    Nossos primeiros paes, cheios de susto,<br \/>\n    Templos aos manes levantaram quasi.<br \/>\n    Tinham raz&atilde;o, talvez. Christ&atilde;os mais sabios<br \/>\n    Amemos com recato a tumba ao menos,<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, minh&#8217;harpa, a nossa vida inteira<br \/>\n    Deveramos passar, cantando em threnos<br \/>\n    Esse jazigo, onde se esconde a ossada<br \/>\n    Dos seculos que passam.<br \/>\n    Aqui tamb&eacute;m na podrid&atilde;o, nos vermes<br \/>\n    Ha de o futuro em esqueleto immenso<br \/>\n    Cahir, esvaecer-se.<br \/>\n    Aqui tambem inspira&ccedil;&otilde;es se bebem<br \/>\n    No halito dos mortos.<br \/>\n    Aqui se incontra inexgotavel messe<br \/>\n    De solidas ideas.<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa !<\/p>\n<p align=\"left\">Sim: fiquemos aqui.&#8212; Aquelle arbusto,<br \/>\n    Que das frestas da lapida desponta,<br \/>\n    Nasceu talvez do peito de um cadaver.<br \/>\n    A seiva humana em suas hasteas corre.<br \/>\n    Aquella flor inda transpira sanie.<br \/>\n    L&aacute; para o meio da soid&atilde;o nocturna<br \/>\n    Talvez falle do ceu, talvez do inferno.<\/p>\n<p align=\"left\">Sim: fiquemos aqui. D&#8217;aquellas folhas<br \/>\n    Talvez saia uma voz preciza ao mundo,<br \/>\n    Talvez algum recato aos vivos traga,<br \/>\n    Talvez de n&oacute;s care&ccedil;am.<br \/>\n    Sim: fiquemos aqui soturnos ambos.<br \/>\n    Esperando seu brado.<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande:<br \/>\n    &#8212; Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa!<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o te apavore o aspecto das tumbas.<br \/>\n    Esta bocca sarc&oacute;phaga que a terra<br \/>\n    Aqui a nossos p&eacute;s abriu medonha<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; para ingolir-nos.<br \/>\n    O nosso calix de abundantes dores<br \/>\n    N&atilde;o transbordou ainda.<br \/>\n    Tua miss&atilde;o, minh&#8217;harpa, &eacute; grande, &eacute; grande :<br \/>\n    Sagremo&#8217;-nos &aacute; morte.<br \/>\n    Aos tumulos, aos tumulos, minh&#8217;harpa !<\/p>\n<h4><a name=\"30\" id=\"30\">A MORTE NO CLAUSTRO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>Por occasi&atilde;o da morte do venerando anci&atilde;o,<br \/>\n    Frei Manuel da Piedade Borba.<\/b> <\/p>\n<p align=\"right\">Eu n&atilde;o sou um historiador das cousas humanas. <br \/>\n    <b>Bossuet<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Eu vi-o, eu vi-o,&#8212; e o cora&ccedil;&atilde;o tranzido<br \/>\n    Retalhou-se-me entam nas fibras intimas.<br \/>\n    Eu vi-o, eu vi-o,&#8212; escancarando a bocca,<br \/>\n    Roncava na garganta ingasgo horrendo.<br \/>\n    Eu vi-o, eu vi-o,&#8212; em contors&otilde;es, em &acirc;ncias,<br \/>\n    Estrebuxando os membros impotentes.<br \/>\n    N&atilde;o lhe era aspecto nas fei&ccedil;&otilde;es mudadas,<br \/>\n    E a voz apenas lhe restava rouca.<br \/>\n    Elle pedia &#8212; o velho agonizante &#8212;<br \/>\n    Pedia ainda do prelado a ben&ccedil;am.<br \/>\n    Tu s&oacute;, consolo certo dos afflictos,<br \/>\n    Tu s&oacute; religi&atilde;o, precizo culto,<br \/>\n    Tu lhe ministras varonil conf&ocirc;rto,<br \/>\n    E os paroxismos agros lhe minoras.<br \/>\n    Oh ! por que vem tam tarde, irremissivel,<\/p>\n<p align=\"left\">Esse momento necessario e certo,<br \/>\n    Em que teu brilho fascinante assoma,<br \/>\n    Fatal verdade atterradora,&#8212; eterna !<br \/>\n    Como fulmineo mete&ocirc;ro subito,<br \/>\n    &Agrave; fronte esmagas, quando leve a ro&ccedil;as!<\/p>\n<p align=\"left\">Tremer fazia os &iacute;ntimos dos ossos<br \/>\n    O grave som do compassado sino,<br \/>\n    Que do dioso incanecido velho<br \/>\n    A agonia fatal annunciava.<br \/>\n    Ungido foi co&#8217;o oleo sacrosancto:<br \/>\n    E em volta ao leito supplices murmuram<br \/>\n    Preces ardentes, ora&ccedil;&otilde;es piedosas,<br \/>\n    Que seus irm&atilde;os sinceros lhe repetem,<br \/>\n    &#8212; Pedindo a Deus e &aacute; Virgem mais que pura,<br \/>\n    Pedindo aos sanctos martyres celestes,<br \/>\n    Pedindo agora aos divinaes pontifices,<br \/>\n    Aos confessores do affrontado Christo,<br \/>\n    &Aacute;s puras virgens, e &aacute;s mulheres castas,<br \/>\n    &#8212; Guardem-n&#8217;o pios da perpetua morte.<\/p>\n<p align=\"left\">Eu vi-o, eu vi-o,&#8212; em convuls&atilde;o serena,<br \/>\n    &#8212; Quanto do justo o passamento &eacute; doce,&#8212;<br \/>\n    Desprender seu espirito can&ccedil;ado<br \/>\n    Da cad&ecirc;a que o liga &aacute; vil materia,<br \/>\n    E voar, e voar, com leves asas,<br \/>\n    Emana&ccedil;&atilde;o de Deus,&#8212; de Deus ao seio.<\/p>\n<p align=\"left\">A derradeira paz &#8212; fraternos osculos<br \/>\n    De seus irm&atilde;os j&aacute; recebia o triste:<br \/>\n    Oh! phantasma da vida! como passas<br \/>\n    Rapido tanto ! oh tempo mentiroso<br \/>\n    De existencia fallaz e momentanea!<br \/>\n    Homem ha hi tam v&atilde;o que inda confie<br \/>\n    N&#8217;esses teus ouropeis de podre gloria ?<br \/>\n    Ha hi quem seja de raz&atilde;o tam fatua,<br \/>\n    Que eterno julgue teu brilhar ephemero,<br \/>\n    Que a tuas breves decep&ccedil;&otilde;es se abrace ?<br \/>\n    Ha hi quem seja em seu olhar tam cego,<br \/>\n    Que pretenda esquivar-se &aacute; natureza?<br \/>\n    Loucos mortaes! &#8212;onde esconder-vos livres,<br \/>\n    Que n&atilde;o vejais o cherubim da morte,<br \/>\n    Galopando em aligero ginete,<br \/>\n    Co&#8217;a fouce em riste, &aacute;s fauces apontando ?<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Pelos claustros soturnos estrugia<br \/>\n    O grave e compassado andar dos monges.<br \/>\n    Eu te quizera ter prezente agora<br \/>\n    A ti, vaidoso atheu, nas horas mortas.<br \/>\n    Eu quizera notar com lynceos olhos<br \/>\n    De rasgo a rasgo os vizos de teu rosto.<br \/>\n    Eu quizera apanhar, uma por uma,<br \/>\n    As contors&otilde;es doridas,&#8212; as angustias,<br \/>\n    Que por tuas fei&ccedil;&otilde;es reverberassem.<br \/>\n    Tomara a consciencia acovardada<br \/>\n    Sondar-t&#8217;a sim,&#8212;por&eacute;m proval-a, nunca!<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o v&ecirc;s, n&atilde;o v&ecirc;s? &#8212; silenciosos,<br \/>\n    qu&ecirc;dos,<br \/>\n    Em dous extensos renques se dividem:<br \/>\n    Talvez disseras que estes homens eram<br \/>\n    Negras estatuas, que emblemassem morte!<\/p>\n<p align=\"left\">Sonora voz levanta-se d&#8217;entre elles,<br \/>\n    Convidando-se a virem contentissimos<br \/>\n    Prostrar-se aos p&eacute;s de Jehovah potente.<br \/>\n    &laquo;Vinde,&#8212; cantavam,&#8212; vinde, e ador&ecirc;mol-o.&raquo;<br \/>\n    Cahiram todos, debru&ccedil;ados, curvos,<br \/>\n    Ante a face de Deus &#8230;.. Tu, ente infame,<br \/>\n    Torpe illusor dos pr&oacute;prios sentimentos,<br \/>\n    N&atilde;o te curvas,&#8212; sustens de Deus a vista?<br \/>\n    Ah ! perd&ocirc;a-me o excesso, irm&atilde;o em Christo,<br \/>\n    Atheu n&atilde;o &eacute;s,&#8212; que n&atilde;o n&#8217;os ha no mundo !<br \/>\n    Tu te prostras tamb&eacute;m &#8212; tamb&eacute;m cahiste<br \/>\n    De joelhos em terra involuntario !<br \/>\n    Interna violencia e for&ccedil;a ignota<br \/>\n    Obrigou-te a ser homem por momento,<br \/>\n    Deixar de bruto a condi&ccedil;&atilde;o que ostentas!<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o achas n&atilde;o sei qu&ecirc; sonoro e mystico<br \/>\n    No recitar monotono dos psalmos ?<br \/>\n    N&atilde;o achas n&atilde;o sei qu&ecirc; triste e pathetico,<br \/>\n    &#8212; Um merencorio effluvio de dor terna,<\/p>\n<p align=\"left\">Do miseravel Job nas proprias pragas ?<br \/>\n    Segue esse n&atilde;o sei qu&ecirc; &#8212; por Deus soprado,<br \/>\n    Que em teu intimo foro apenas sentes,<br \/>\n    Mas que indizivel definir n&atilde;o sabes.<br \/>\n    Segue esse n&atilde;o sei qu&ecirc; da consciencia,<br \/>\n    Que &eacute; certo a voz ingenita do Eterno.<br \/>\n    Apprende aqui,&#8212; oh ente depravado,<br \/>\n    A ter f&eacute; no Senhor que te creara.<br \/>\n    Ser&aacute;s entam feliz,&#8212; si olhar quizeres,<br \/>\n    Alem da vida ephemera da terra,<br \/>\n    Outra vida nos ceus,&#8212; que n&atilde;o se acaba.<\/p>\n<p align=\"left\">Ouve-as agora &#8212; as derradeiras preces,<br \/>\n    O psalmo dos degraus, que ura rei propheta,<br \/>\n    Sonoro dedilhando o decachordo,<br \/>\n    Insuflado por Deus, cantara um dia.<br \/>\n    &laquo;Do imo de meu peito (eil-os que dizem)<br \/>\n    A ti, Senhor, clamei no mesmo abysmo;<br \/>\n    Os meus prantos, Senhor,&#8212; meus rogos ouve!&raquo;<\/p>\n<p align=\"left\">Pouco depois passasses por ventura<br \/>\n    Pelo extenso sal&atilde;o e mudas crastas.<br \/>\n    Em solemne calada distinguiras<br \/>\n    O pizar do pil&atilde;o pezado e ouco<br \/>\n    Por estoicos coveiros manejado.<br \/>\n    Depois o baque da sonora lapida,<br \/>\n    Que fecha &#8212; esmaga o putrido cadaver.<br \/>\n    Depois talvez uma ora&ccedil;&atilde;o ainda<\/p>\n<p align=\"left\">Dos labios do christ&atilde;o baixou s&ocirc;br&#8217;elle.<br \/>\n    Depois mais nada alli &#8212; f&oacute;ra o silencio.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">N&#8217;estes claustros, aqui, talvez,&#8212; quem sabe?<br \/>\n    Talvez n&#8217;este sepulchro immundo mesmo,<br \/>\n    Ap&oacute;s alguns minutos mais escassos<br \/>\n    D&#8217;esse meu vegetar insulso e morno,<br \/>\n    Me pilar&atilde;o &#8212; triturar&atilde;o meus ossos<br \/>\n    Deshumanos tumbeiros.&#8212; Eu comtigo,<br \/>\n    Podre cadaver, dormirei eterno,<br \/>\n    Feito meu corpo em terra e cinza e nada.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>1851<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"31\" id=\"31\">CANTO FUNEBRE<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\">Recitado na occasi&atilde;o de sepultar-se o cad&aacute;ver<br \/>\n    do meu amigo<br \/>\n    Luiz da Fran&ccedil;a Rebou&ccedil;as a 16 de Abril de 1853<\/p>\n<p align=\"right\">A alma foi feita para viajar no ceu.<br \/>\n    <b>YOUNG<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">&Uuml;h ! porque n&atilde;o ? &#8212; porque n&atilde;o posso<br \/>\n    agora<br \/>\n    Chorar-lhe a morte ? &#8212; Que poder tam forte<br \/>\n    Ha h&iacute; que pare a um cora&ccedil;&atilde;o de amigo<br \/>\n    No derramar as emo&ccedil;&otilde;es que o partem ?<br \/>\n    Que m&atilde;o ha hi tam ferrea que comprima<br \/>\n    Tam dentro em mim meus sentimentos de homem ?<br \/>\n    Quem manda &aacute; id&ecirc;a que n&atilde;o pense angustias,<br \/>\n    Quem manda ao peito que n&atilde;o soffra maguas,<br \/>\n    Quem manda &aacute; voz que n&atilde;o se expanda em queixas,<br \/>\n    Quem manda ao pranto que n&atilde;o corra em fios ?<br \/>\n    Oh ! porque n&atilde;o ? &#8212; porque este gosto extremo<br \/>\n    Em lhe chorar a morte ham de tolher-me?<br \/>\n    Oh! porque n&atilde;o! &#8212; Hei de chorar-lhe a morte,<br \/>\n    Bem como outr&#8217;ora lhe cantava a vida.<\/p>\n<p align=\"left\">Reminiscencia atroz ! que vario quadro<br \/>\n    Vens a meus olhos destampar agora!<\/p>\n<p align=\"left\">Como os anneis de uma cad&ecirc;a extensa,<br \/>\n    Prezos, cozidos, iocarnados, firmes,<br \/>\n    Os meus dias estam co&#8217;os dias d&#8217;elle.<br \/>\n    Um s&oacute; minuto d&#8217;essa vida instavel<br \/>\n    Que vivo ainda, n&atilde;o correu na terra<br \/>\n    Sem um minuto d&#8217;essa vida innocua<br \/>\n    Que elle viveu,&#8212; e que findou tam c&ecirc;do!<br \/>\n    Entre elle e mim era partida a vida :<br \/>\n    Meia vida perdi co&#8217;a morte d&#8217;el1e.<br \/>\n    Si adulto apenas, eu olhei ao mundo,<br \/>\n    E achei-o infame, e escarneci-lhe as pompas,<br \/>\n    E co&#8217;alma feita a um scepticismo innato<br \/>\n    Descri do amor que os homens divinizam,<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o descri da amizade! &#8212;Elle provou-m&#8217;a<br \/>\n    Elle foi meu amigo ! &#8212; oh nome augusto,<br \/>\n    Que sabe os homens remontar aos anjos!<br \/>\n    Quem sabe ser amigo em si resume<br \/>\n    As virtudes do ceu e os bens divinos.<br \/>\n    Elle foi meu amigo &#8212; &uacute;nico e &uacute;ltimo &#8212;<br \/>\n    Que tinha uma alma conformada &aacute; minha.<br \/>\n    Era-lhe braza o cora&ccedil;&atilde;o fervente :<br \/>\n    Assimilava a si minhas angustias,<br \/>\n    E, como o fogo, as consumia lento,<br \/>\n    E as minhas sensa&ccedil;&otilde;es purificava.<br \/>\n    Elle sabia compr&#8217;hender profundo<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o phosphorico do vate.<br \/>\n    Elle era vate!&#8212;Em floridos poemas,<br \/>\n    Em suaves can&ccedil;&otilde;es, em ternas lyras<br \/>\n    Correu seu estro merencorio ou lindo.<\/p>\n<p align=\"left\">Corria agora socegado e triste,<br \/>\n    Como um regato em aridos desertos:<br \/>\n    Corria agora mais trav&ecirc;sso e alegre,<br \/>\n    Como um barquinho velejando esbelto.<br \/>\n    Nos aureos fastos da poesia patria<br \/>\n    Ha de seu nome se inscrever eterno.<br \/>\n    Desse-lhe Deus mais dias de existencia,<br \/>\n    &#8212; F&ocirc;ra seu nome o sol para os mais astros!<\/p>\n<p align=\"left\">Reminiscencia atroz! que vario quadro<br \/>\n    Tu vieste pintar ante meus olhos?<br \/>\n    Que vale uma lembran&ccedil;a, uma saudade?<br \/>\n    Elle morreu !&#8230; a sua gloria &eacute; morta !<\/p>\n<p align=\"left\">Oh! que eu n&atilde;o possa lhe chorar a morte,<br \/>\n    Bem como outr&#8217;ora lhe cantava a vida!<\/p>\n<p align=\"left\">Ah! n&atilde;o devo chorar. Al&eacute;m dos mundos<br \/>\n    Eu vejo o ceu, vejo o infinito, o immenso:<br \/>\n    &Eacute; o throno sem fim do Deus Eterno:<br \/>\n    E a Deus l&aacute; em cima vam junctar-se os justos.<br \/>\n    &Eacute; l&aacute; que a vida parar&aacute; perpetua,<br \/>\n    &Eacute; l&aacute; que os tempos, sem correr, immoveis,<br \/>\n    N&atilde;o succedem-se mais,&#8212; sam sempre eternos.<br \/>\n    L&aacute; &#8212; elle, o justo, o virtuoso, o amigo<br \/>\n    A vida que de Deus tomou, nascendo,<br \/>\n    Foi a Deus intregal-a, e unir-se a elle.<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o chorarei: &#8212; que essa terrena vida<br \/>\n    &Eacute; um crisol que as .sensa&ccedil;&otilde;es apura,<br \/>\n    Para chegar a Deus mais casto o espirito.<br \/>\n    N&atilde;o chorarei: &#8212; que a occasi&atilde;o da morte<br \/>\n    &Eacute; o degrau mais alto para o Eterno.<br \/>\n    Antes devo pedir ao ceu que appresse<br \/>\n    Meu momento tambem.<br \/>\n    Quero ir bem c&ecirc;do<br \/>\n    A Deus e a elle unificar-me eterno.<\/p>\n<h4><a name=\"32\" id=\"32\">POEMA FUNEBRE<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\">Dedicado a meu irm&atilde;o Frei Henrique de Sancta Rosa Ribeiro,<br \/>\n    por occasi&atilde;o da morte de seu irm&atilde;o Raymundo Alvares Ribeiro,<br \/>\n    succedida a 23 de abril de 1853.<\/p>\n<p align=\"right\">Choraram Germanico at&eacute; os desconhecidos.<br \/>\n    <b>TACITO <\/b> <\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Choremos todos um amor de menos.<br \/>\n    Si uma flor, que murchou, sentimos tanto,<br \/>\n    &Eacute; que faltou-nos seu odor suave,<br \/>\n    Que nos dizia &#8212; amor &#8212; quando exhalava.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos.<br \/>\n    Si l&aacute; se esconde no oceano a lua,<br \/>\n    E si nos parte o cora&ccedil;&atilde;o saudoso,<br \/>\n    &Eacute; que sem luz os olhos nos ficaram,<br \/>\n    Sem esse amor que ella inspirar-nos sabe.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos.<br \/>\n    Si algum pharol n&atilde;o vemos na tormenta,<br \/>\n    E si nos fogem da esperan&ccedil;a os raios,<br \/>\n    &Eacute; que vis&acirc;mos o naufragio urgente,<br \/>\n    E a perda amarga da vis&atilde;o da patria,<br \/>\n    Que delicias de amor nos predizia.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos.<br \/>\n    Si a morte crua nos arranca o amigo,<br \/>\n    Si damos prantos &aacute; memoria d&#8217;elle,<br \/>\n    &Eacute; que de n&oacute;s p&#8217;ra sempre separou-se<br \/>\n    Um cora&ccedil;&atilde;o que concluia o nosso,<br \/>\n    E o gozado prazer n&atilde;o mais gozamos,<br \/>\n    E d&#8217;outro amor o nosso amor fallece.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos!<br \/>\n    Choremos todos o mancebo, o amigo,<br \/>\n    Que a nossos bra&ccedil;os nos arranca a morte.<br \/>\n    Choremos todos uma flor crestada,<br \/>\n    Que n&atilde;o d&aacute; mais odor: a linda lua,<br \/>\n    Que se escondeu nas ondas do oceano,<br \/>\n    Que mais n&atilde;o luz: esse pharol brilhante,<br \/>\n    Que se apagou nas vascas da tormenta,<br \/>\n    E a patria desviou-nos: esse amigo,<br \/>\n    Que d&#8217;outro amor o nosso amor enchia.<br \/>\n    Choremos todos sua perda infausta,<br \/>\n    Choremos todos o passado gozo,<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos!<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Era um dia formoso. &#8212; O sol brilhante<br \/>\n    Mais esplendidos raios diffundia,<br \/>\n    E mais ardentes jubilos mostrava.<br \/>\n    Como do infante as faces que inrubecem<br \/>\n    A mais e mais, quando a alegria augmenta.<br \/>\n    N&#8217;um vaporoso sonho de poeta<br \/>\n    Tres formosas viz&otilde;es eu vi &#8212; tam novas &#8212;<br \/>\n    Que mais ao ceu que &aacute; terra pertenciam.<br \/>\n    S&eacute;ria matrona erguia-se a primeira<br \/>\n    Com magestoso porte e honesto rizo.<br \/>\n    Gentil donzella erguia-se a segunda<br \/>\n    Co&#8217;o timido pudor nos olhos ternos,<br \/>\n    &#8212; Anjo ineffavel de modestia altiva!<br \/>\n    Estava ante ellas um lou&ccedil;&atilde;o mancebo<br \/>\n    Co&#8217;os vivos olhos alongados, fixos,<br \/>\n    Respirando prazer, amor e pejo,<br \/>\n    Como n&#8217;um templo a vista indefinida<br \/>\n    Do crente que no peito as rezas volve.<br \/>\n    Internecido em amoroso arroubo,<br \/>\n    Fita &aacute; donzella, que, em pudor e rizo,<br \/>\n    No ch&atilde;o a vista invergonhada crava.<br \/>\n    Era um anjo de luz entre dous anjos,<br \/>\n    Que d&#8217;elle a luz primeiro recebiam,<br \/>\n    E seus raios depois communicavam,<br \/>\n    Como a dextra do Eterno a gra&ccedil;a infunde.<br \/>\n    E onde era o centro fecundante e vivo,<br \/>\n    E onde era a ac&ccedil;&atilde;o do mobile primeiro,<br \/>\n    A humana vista distinguir n&atilde;o p&ocirc;de.<br \/>\n    E cada qual d&#8217;estas imagens vagas<br \/>\n    Era f&oacute;co de luz, fonte de brilhos:<br \/>\n    Bem como o sol &#8212; vivilicante fogo &#8212;<\/p>\n<p align=\"left\">Seus proprios raios, circulando, espalha<br \/>\n    Na vastid&atilde;o do espa&ccedil;o, &#8212; e a luz que o cerca,<br \/>\n    Vai reflectir pelos ethereos corpos,<br \/>\n    Pelos astros do ceu &#8212; e o firmamento<br \/>\n    Com extranho clar&atilde;o pomp&ecirc;a &aacute; noute.<br \/>\n    Eram assim minhas viz&otilde;es formosas,<br \/>\n    As tres imagens de meu vago sonho,<br \/>\n    Que mais ao ceu que &aacute; terra pertenciam!<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">O mancebo fallou. O norte intenso,<br \/>\n    Que ia cruzando infurecido os ares,<br \/>\n    Foi transformar-se em zephiro saudavel,<br \/>\n    Quando o mancebo desprendeu seus labios.<br \/>\n    O terreno vapor, que ao ether sobe,<br \/>\n    Do ch&atilde;o, dos mares, torrido ou aquoso,<br \/>\n    Que vai no espa&ccedil;o assimilar-se em nuvens,<br \/>\n    Que o ceu em crepe mortuario inluctam,<br \/>\n    Parou tamb&eacute;m a aspira&ccedil;&atilde;o que tinha,<br \/>\n    Quando o mancebo desprendeu seus labios.<br \/>\n    As lindas flores dos jardins da terra,<br \/>\n    Que pelo sol crestadas, estuavam,<br \/>\n    Tentando em si desnatural esfor&ccedil;o,<br \/>\n    A seiva toda do &acirc;mago chamaram<br \/>\n    Ao calix globuloso &#8212; e cheiro e balsamo.<\/p>\n<p align=\"left\">Mais novo e activo respiraram todas,<br \/>\n    Quando o mancebo desprendeu seus labios.<br \/>\n    O sol tambem mais orgulhoso e altivo,<br \/>\n    Subiu ao seu zenith &#8212; seu throno ethereo &#8212;<br \/>\n    Para mirar na direc&ccedil;&atilde;o dos raios,<br \/>\n    Na baixa terra a imagem da innocencia,<br \/>\n    A incarna&ccedil;&atilde;o do espirito dos anjos,<br \/>\n    Quando o mancebo desprendeu seus labios.<br \/>\n    &#8212; O vento forte e as nuvens se sumiram,<br \/>\n    N&atilde;o exhalaram mais o mar e a terra,<br \/>\n    Balsamo novo as flores respiraram,<br \/>\n    O sol subiu ao seu zenilh sublime;<br \/>\n    Parada, estanque, a natureza attende,<br \/>\n    E o mancebo lou&ccedil;&atilde;o desprende os labios.<br \/>\n    &#8212; Cr&ecirc;-me, oh donzella! a omnipotente dextra<br \/>\n    Formou meu cora&ccedil;&atilde;o p&#8217;ra ser contido<br \/>\n    Bem dentro do teu peito &#8212; qual se esconde<br \/>\n    Thesouro immenso em urna pequenina.<br \/>\n    Tua alma pura, candida, innocente,<br \/>\n    Como o gemer de solitaria r&ocirc;la,<br \/>\n    Tambem foi feita para unir-se &aacute; minha.<br \/>\n    Somos dous cora&ccedil;&otilde;es fundidos ambos<br \/>\n    N&#8217;um cora&ccedil;&atilde;o que um sentimento eguala:<br \/>\n    Duas felizes almas derramadas<br \/>\n    N&#8217;uma alma s&oacute; que um pensamento ajunta.<br \/>\n    Quando teus olhos &#8212; como ardentes fachos &#8212;<br \/>\n    Chammas de puro amor, em mim se fitam,<br \/>\n    N&atilde;o encontras tambem meus olhos quentes<\/p>\n<p align=\"left\">Fitos nos teus em fogo de ternura ?<br \/>\n    Quando, depois de instantes de silencio,<br \/>\n    Depois de um lindo e passageiro arroubo,<br \/>\n    A ponto os nossos labios se desprendem,<br \/>\n    N&atilde;o temos dicto tanja vez n&#8217;um brado<br \/>\n    As mesmas express&otilde;es, as mesmas phrases?<br \/>\n    N&atilde;o pensamos tambem na mesma idea ?<br \/>\n    Quando um incerto e vago sentimento<br \/>\n    De amor, de timidez, de zelo ou magua,<br \/>\n    Ambos os nossos cora&ccedil;&otilde;es comprime,<br \/>\n    N&atilde;o temos arrancado ao mesmo tempo<br \/>\n    Doridos ais ou tepidos suspiros ?<br \/>\n    Dous cora&ccedil;&otilde;es e duas almas somos,<br \/>\n    Que um sentimento e um pensamento ajuntam.<br \/>\n    Deus quer-nos juntos, porque assim formou-nos;<br \/>\n    Seremos junctos, venturosos, lindos,<br \/>\n    Como as aves do ceu no espa&ccedil;o livre.<br \/>\n    Deus quer-nos juntos &#8212; porque assim formou-nos,<br \/>\n    Quer-nos ditosos, venturosos, lindos!<br \/>\n    N&atilde;o carecemos de riqueza immensa,<br \/>\n    Para gozarmos nossa immensa dita.<br \/>\n    N&atilde;o carecemos de um solar vetusto,<br \/>\n    De um castello feudal, de um regio alca&ccedil;ar,<br \/>\n    Nem de um pal&aacute;cio de riqueza immensa,<br \/>\n    Que nos devam conter a immensa dita.<br \/>\n    N&atilde;o carecemos do poder do mundo,<br \/>\n    De um diadema excelso de rainha,<br \/>\n    De um sceptro forte de riqueza immensa,<\/p>\n<p align=\"left\">Que nos venham ornar a immensa dita.<br \/>\n    N&atilde;o carecemos de renome ou fama,<br \/>\n    D&#8217;esses prest&iacute;gios frivolos de gloria,<br \/>\n    D&#8217;essa vaidosa voz, geral, inutil,<br \/>\n    Que nos venha espalhar a immensa dita.<br \/>\n    Templo maior mais digno, mais sublime<br \/>\n    &Eacute; nosso cora&ccedil;&atilde;o: immenso alca&ccedil;ar,<br \/>\n    Onde p&ocirc;de habitar o amor somente!<br \/>\n    Cheg&aacute;mos n&#8217;elle : &#8212; que elle &eacute; amplo, extenso,<br \/>\n    Capaz, bastante a concluir n&#8217;um f&oacute;co<br \/>\n    Duas vidas irm&atilde;s, eguaes, fundidas.<br \/>\n    &Eacute; s&oacute; no cora&ccedil;&atilde;o que a dita existe,<br \/>\n    &Eacute; n&#8217;elle s&oacute; que ser feliz se p&oacute;de.<br \/>\n    S&oacute; do seu centro partem-se, despedem-se,<br \/>\n    Brilhantes raios de immorlal ventura.<br \/>\n    E si meu cora&ccedil;&atilde;o co&#8217;o teu se eguala,<br \/>\n    Si junctos somos pela m&atilde;o do Eterno,<br \/>\n    &Eacute; que a ventura em n&oacute;s tambem se dobra,<br \/>\n    E duas vezes mais felizes somos.<br \/>\n    Deus nos quer juntos &#8212; porque assim formou-nos,<br \/>\n    &#8212; Quer-nos ditosos, venturosos, lindos! &#8212;<br \/>\n    Assim fallava o fervido mancebo:<br \/>\n    Seu cora&ccedil;&atilde;o pulsava arrebatado,<br \/>\n    Forte, ancioso, inquieto, ardente,<br \/>\n    Como o oceano em vagalh&otilde;es revolto,<br \/>\n    &#8212; E parecia, entre os arfantes pulsos,<br \/>\n    Querer pular no cora&ccedil;&atilde;o da virgem.<\/p>\n<p align=\"left\">E as pupillas da virgem rutilavam<br \/>\n    Saltantes, doudas, como incertos fogos<br \/>\n    No mar &aacute; noute co&#8217;o ferver das ondas.<br \/>\n    E do prazer a lagrima correu-lhe<br \/>\n    Do lado esquerdo pela face quente,<br \/>\n    E foi por ella tremula cahindo,<br \/>\n    Como um regato de cristal ao longe,<br \/>\n    E muito tempo lhe pendeu da face,<br \/>\n    Qual pende em flocos do penhasco o gelo,<br \/>\n    &#8212; E a tez ardente resfriou-lhe um pouco,<br \/>\n    E pelas veias circulou-lhe o sangue,<br \/>\n    Que todo havia concorrido ao rosto.<br \/>\n    E a seu estado natural volvida<br \/>\n    Era a donzella uma viz&atilde;o celeste,<br \/>\n    Que v&ecirc;-se em sonho, e se dizer n&atilde;o p&oacute;de.<br \/>\n    E a matrona surriu. E os fracos olhos<br \/>\n    Lagrimas raras de prazer manaram,<br \/>\n    Bem como gottas de ligeira chuva.<br \/>\n    E levantando a vista ao ceu sereno,<br \/>\n    E erguendo a dextra sobre a filha e o joven,<br \/>\n    E os abra&ccedil;ando em apertado amplexo,<br \/>\n    &#8212; Sublime, excelsa, qual no templo assoma<br \/>\n    Do sacerdote o divinal semblante, &#8212;<br \/>\n    De Deus a ben&ccedil;am derramou por elles.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p align=\"left\">E um disco enorme de ventura e gloria<br \/>\n    Cobriu minha viz&atilde;o. E as tr&ecirc;s imagens<br \/>\n    Eram tres centros de brilhantes raios,<br \/>\n    De myster&iacute;os de luz. Entam meus olhos<br \/>\n    De tamanho clar&atilde;o feridos, cegos,<br \/>\n    N&atilde;o viram mais esta viz&atilde;o distincta.<br \/>\n    Perante a vista ainda restou por horas<br \/>\n    Um turbilh&atilde;o de luz no mesmo estado.<br \/>\n    Depois de grau em grau foi-se apagando,<br \/>\n    E se extinguiu. &#8212; Um vortice de trevas,<br \/>\n    Imolando no ar, veio involvel-a.<\/p>\n<h2>V<\/h2>\n<p align=\"left\">Entam a voz de uma verdade amarga<br \/>\n    A meus ouvidos resoou tremenda,<br \/>\n    Como o ribombo do trov&atilde;o rolante!<br \/>\n    Um grito extenso, querelloso, tr&eacute;mulo,<br \/>\n    Nos ares se partiu. &#8212; Como um rangido<br \/>\n    De ferro em ferro, o guincho desatou-se.<br \/>\n    Depois subindo lamentosa escala,<br \/>\n    Era de um doudo a gargalhada bruta,<br \/>\n    De vivo inc&ecirc;ndio o crepitar nas matas,<br \/>\n    O som de um raio no escachar o tronco.<\/p>\n<p align=\"left\">Por fim descendo em grada&ccedil;&atilde;o medonha,<br \/>\n    J&aacute; muito ao longe terminou-se o guincho<br \/>\n    Na querellosa voz que come&ccedil;&aacute;ra.<br \/>\n    Ave sinistra! &#8212; incredulos ou sabios<br \/>\n    Teus mortuarios canticos n&atilde;o temam!<br \/>\n    Eu n&atilde;o! que sei temer-te. &#8212; Instincto ou alma<br \/>\n    Existe em ti que prophetiza a morte.<br \/>\n    Talvez o Eterno te formou de modo,<br \/>\n    Que teu olfacto peregrino ou proprio,<br \/>\n    Do moribundo os h&aacute;litos perceba,<br \/>\n    Assim como formou-te a voz horrivel<br \/>\n    Para dizeres l&ocirc;bregos lamentos.<br \/>\n    Entam a voz de uma verdade amarga<br \/>\n    A meus ouvidos resoou tremenda<br \/>\n    Como o ribombo do trov&atilde;o rolante!<br \/>\n    Entam o lindo zephiro saudavel<br \/>\n    Transformou-se outra vez em norte intenso.<br \/>\n    O mar e a terra respirou vapores,<br \/>\n    Que subiram ao ar formando nuvens,<br \/>\n    Que o ceu em crepe funebre inluctaram.<br \/>\n    Entam as flores dos jardins da terra<br \/>\n    Esgotaram a seiva e a for&ccedil;a e a vida,<br \/>\n    E o cheiro activo e o balsamo perderam.<br \/>\n    E o sol formoso, que eu sonhava ha pouco,<br \/>\n    Contra o nosso hemispherio a face tinha.<br \/>\n    Entam a voz de uma verdade amarga<br \/>\n    A meus ouvidos resoou tremenda,<br \/>\n    Como o ribombo do trov&atilde;o rolante!<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p align=\"left\">Torvos os olhos, tr&ecirc;mulos os labios,<br \/>\n    Pallida a face em lagrimas banhada,<br \/>\n    Rugada a testa juvenil &#8212; t&atilde;o linda,<br \/>\n    Cahida pelo collo a espessa coma,<br \/>\n    Um lugubre ululado ao ar desata<br \/>\n    Uma triste mulher. Chamou-se esposa<br \/>\n    N&#8217;um instante s&oacute;mente, &#8212; e n&#8217;outro instante<br \/>\n    Da viuvez a sorte e as dores prova.<\/p>\n<h2>VII<\/h2>\n<p align=\"left\">&#8212; Elle, meu Deus! o esposo da minh&#8217;alma<br \/>\n    Aqui no cora&ccedil;&atilde;o viveu t&eacute;&#8217;gora,<br \/>\n    Como n&#8217;um templo. &#8212;Elle morreu p&#8217;ra sempre,<br \/>\n    &#8212; E resta o cora&ccedil;&atilde;o que elle habitava,<br \/>\n    Qual fica o templo a que se tira o Sancto.<br \/>\n    E resta o cora&ccedil;&atilde;o&#8230; que &eacute; este agora ?<br \/>\n    Ta&ccedil;a vazia do licor divino,<br \/>\n    Que outrora a encheu e a perfumou tam doce!<br \/>\n    Amplo jardim de arbustos decepado,<br \/>\n    Sem flores mais que imbellecel-o possam!<br \/>\n    Taes para mim os meus amores eram!<\/p>\n<p align=\"left\">Doce licor que o peito me imbebia,<br \/>\n    Flores que a fronte ornavam-me em<br \/>\n    grinalda,<br \/>\n    Sancto que tinha na minha alma um templo!<br \/>\n    Ah! meu amor se consummou tam cedo!&#8230; <\/p>\n<p align=\"left\">A minha vida se acabou co&#8217;a d&#8217;elle,<br \/>\n    Qual murcha a planta quando o p&eacute; lhe arrancam.<br \/>\n    &#8212; Tirae-me aqui, levae-me longe, amigas,<br \/>\n    Levae-me longe as vestes do noivado.<br \/>\n    Esta capella, que cingiu-me a testa,<br \/>\n    Que eu tenho aqui tam natural, tam nobre,<br \/>\n    Foi elle que m&#8217;a deu. Seus proprios dedos<br \/>\n    Foram que em mim esta capella ataram.<br \/>\n    Depois, de mim tres passos afastou-se<br \/>\n    Para mirar-me assim, &#8212; e achou-me bella<br \/>\n    Como sua alma, e me chamou &laquo;Divina,<br \/>\n    &laquo;Viz&atilde;o de Deus, ou seraphim, ou fada.<br \/>\n    &laquo;&Eacute;s bella, oh minha irm&atilde;, &#8212; entam me disse,<br \/>\n    &laquo;Como os anjos do ceu, &#8212; quando te adorna<br \/>\n    &laquo;A fronte esta capella. &#8212;Em nossas bodas<br \/>\n    &laquo;Ir&aacute;s ovante, presump&ccedil;osa, altiva,<br \/>\n    &laquo;De teu brilhante resplendor cercada.&raquo;<br \/>\n    Levae-me longe esta infeliz capella,<br \/>\n    Levae-me longe este presente, amigas,<br \/>\n    Levae-me longe as vestes do noivado.<br \/>\n    Tirae-me as joias que este collo infeitam,<br \/>\n    De que me ornei para agradar-lhe os olhos.<br \/>\n    N&atilde;o mais eu tenho o meu amor tam bello,<\/p>\n<p align=\"left\">P&#8217;ra quem me infeite de luzidas joias.<br \/>\n    Levae taes j&oacute;ias para longe amigas,<br \/>\n    Levae-me longe as vestes do noivado.<br \/>\n    De meus dedos, aqui, vinde arrancar-me<br \/>\n    Estes anneis de rutilos brilhantes,<br \/>\n    Estes ornatos de alegria e luxo.<br \/>\n    Mas este annel, que vedes mais pomposo,<br \/>\n    Mais fulgurante aqui &#8212; bem como um astro &#8212;<br \/>\n    Por compaix&atilde;o! n&atilde;o m&#8217;o tireis, amigas,<br \/>\n    Que foi de meu amor signal eterno,<br \/>\n    Impresso pela m&atilde;o do amante esposo.<br \/>\n    Os mais infeites me arrancae, amigas,<br \/>\n    Levae-me longe as vestes do noivado.<br \/>\n    Fatal doen&ccedil;a, que poder tiveste<br \/>\n    Que de meus bra&ccedil;os o levaste &aacute; morte!<br \/>\n    Tam joven inda o meu esposo! Agora,<br \/>\n    &#8212;Viver, agora, come&ccedil;ava apenas,<br \/>\n    Pois agora somente era que amava.<br \/>\n    Quando lhe urgira o passamento extremo,<br \/>\n    Luctando j&aacute; entre mortaes transidos,<br \/>\n    Essas tocantes phrases lhe escutamos:<br \/>\n    &laquo;Morrer tam cedo! &#8212; e o seraphim que eu tenho,<br \/>\n    &laquo;Esta esposa infeliz, que amo extremoso,<br \/>\n    &laquo;Unico anhelo &aacute; vida ao p&eacute; da morte,<br \/>\n    &laquo;Esta esposa infeliz tam cedo a deixo!&raquo;<br \/>\n    Fui eu, fui eu seu pensamento extremo!<br \/>\n    E n&#8217;essa convuls&atilde;o que ultima a vida,<\/p>\n<p align=\"left\">Quando a pallida bocca abriu for&ccedil;ado,<br \/>\n    Quando lan&ccedil;ou seu derradeiro expiro,<br \/>\n    Inda tentou articular meu nome,<br \/>\n    Que entre-partido lhe ficou nos labios,<br \/>\n    E o fim, e o resto &#8212; transportou-o &aacute; campa !<br \/>\n    Campa cruel, que p meu amor incerras,<br \/>\n    N&atilde;o lhe comprimas o mimoso corpo,<br \/>\n    Que eu j&aacute; cuidei para intregar-te agora.<br \/>\n    J&aacute; que n&atilde;o podes reverter-lhe a vida,<br \/>\n    D&aacute;-lhe um soc&ecirc;go placido na morte,<br \/>\n    Campa cruel, que o meu amor incerras!<br \/>\n    Elle n&atilde;o era para mim somente<br \/>\n    Amor inutil, isolado, ou fatuo.<br \/>\n    Co&#8217;o seu amor vivifico e fecundo<br \/>\n    Queria a todos, como a si queria.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos.<br \/>\n    Choremos todos: que partiu tam breve<br \/>\n    Da terra aos c&eacute;us um cora&ccedil;&atilde;o de amigo.<br \/>\n    Mas foi unir-se &aacute;quella Essencia eterna,<br \/>\n    D&#8217;onde seu puro espirito partira.<br \/>\n    Entre os anjos nos ceus elle revoa;<br \/>\n    Que um anjo elle era candido e formoso.<br \/>\n    Isto consola: &#8212; mas em quanto a vida<br \/>\n    Na terra me durar, &#8212; continuo e sempre<br \/>\n    Chorarei pelo amor que d&#8217;elle tive,<br \/>\n    E com meu pranto copioso e ardente<br \/>\n    A lamental-o insinarei a todos.<br \/>\n    Choremos todos um amor de menos.<\/p>\n<h4><a name=\"33\" id=\"33\">NENIA<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>A FILHA DE S. VICENTE DE PAULO, FALLECIDA NA CIDADE DE HAR1ANNA<\/b>\n  <\/p>\n<p align=\"right\">Si ella f&ocirc;ra mais afibrtunada, sua historia<br \/>\n    seria mais pomposa: mas suas obras seriam<br \/>\n    menos cheias, e com t&iacute;tulos suberbos teria<br \/>\n    talvez ap-parecido vazia diante de Deus. <br \/>\n    <b>Bossuet<\/b> <\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Olhae nos ares : l&aacute; sobem,<br \/>\n    Brilhando de accezas listras,<br \/>\n    Espheras aureas de nuvens<br \/>\n    Formosas, porem sinistras.<\/p>\n<p>Sinistras, sim: que na terra<br \/>\n    Tal espectaculo existe,<br \/>\n    Que &eacute; alegre para os anjos, Que<br \/>\n    para os homens &eacute; triste.<\/p>\n<p>&Eacute; assim aquelle aspecto<br \/>\n    De nuvens de ouro e saphira: Tam<br \/>\n    prazenteiro que &eacute; elle! N&atilde;o sei que<br \/>\n    pezar inspira.<\/p>\n<p>Olhae nos ares: l&aacute; sobem,<br \/>\n    Brilhando de accezas listras,<br \/>\n    Espheras &aacute;ureas de nuvens<br \/>\n    Formosas, porem sinistras.<\/p>\n<p>E lavas de ardentes hymnos<br \/>\n    Rebentam dos bojos seus :<br \/>\n    &#8212; Sam anjos lindos que int&ocirc;am<br \/>\n    Mysterios sanctos de Deus.<\/p>\n<p>Sam musicas de outra patria, -&#8212;<br \/>\n    Sam do ceu,&#8212; sam anjos, sim:<br \/>\n    A voz das virgens da terra<br \/>\n    N&atilde;o tem harmonia assim.<\/p>\n<p>Que belleza n&atilde;o reflectem<br \/>\n    Os ares, a terra, o mar!<br \/>\n    &#8212; Mas que silencio que guardam<br \/>\n    Tam proprio para chorar!<\/p>\n<p>Olhae nos ares: l&aacute; sobem,<br \/>\n    Brilhando de accezas listras,<br \/>\n    Espheras &aacute;ureas de nuvens<br \/>\n    Formosas, porem sinistras.<\/p>\n<p>Entes do ceu ! &#8212; quem inspira<br \/>\n    Vossa linguagem canora?<br \/>\n    Perdestes outr&#8217;ora um anjo,<br \/>\n    Que vindes buscar agora?<\/p>\n<p>Talvez que baixasse ao mundo<br \/>\n    Algum de vossos irm&atilde;os:<br \/>\n    Talvez que o ceu nos mandasse<br \/>\n    Algum de seus cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>E completasse entre os homens<br \/>\n    Sua divina miss&atilde;o:<br \/>\n    E suba, em nuvens douradas,<br \/>\n    De novo a sua mans&atilde;o.<\/p>\n<p>Olhae nos ares: l&aacute; sobem,<br \/>\n    Brilhando de accezas listras,<br \/>\n    Espheras &aacute;ureas de nuvens<br \/>\n    Formosas, porem sinistras.<\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<p>Quem &eacute;s, virgem christan ? &#8212; qual &eacute; teu nome ?<br \/>\n    Por p&aacute;tria tua &#8212; que na&ccedil;&atilde;o te cabe ?<br \/>\n    Porque sobem-te ao ceu espheras de ouro ?<br \/>\n    &#8212;D&#8217;entre os homens ninguem,&#8212; ninguem o sabe.<\/p>\n<p>Foste &#8212; qual chuva argentea que, passando,<br \/>\n    Fecunda&ccedil;&atilde;o pelos vergeis acorda:<br \/>\n    Mas &aacute; vista do sol ninguem na terra<br \/>\n    Das chrystallinas gottas se recorda.<\/p>\n<p>Assim, christan, passaste pela terra,<br \/>\n    Extranha ao mundo, e pl&aacute;cida, e quieta:<br \/>\n    Nem a lage que cobre o teu cadaver<br \/>\n    Molhou-a co&#8217;o seu pranto algum poeta.<\/p>\n<p>Nem cahiu-te no feretro uma lagrima,<br \/>\n    &#8212; Nem uma s&oacute; de sentimento grato:<br \/>\n    Lagrima a pre&ccedil;o de ambi&ccedil;&atilde;o comprada<br \/>\n    N&atilde;o n&#8217;a tiveste d&#8217;esse povo ingrato.<\/p>\n<p>N&atilde;o te adornaram a virginea frente.<br \/>\n    In&uacute;teis louros de Stael famosa.<br \/>\n    N&atilde;o manejaste as aulicas intrigas,<br \/>\n    Que celebraram Maintenon vaidosa.<\/p>\n<p>N&atilde;o te coube o poder da grande Aspasia<br \/>\n    Pelos altivos sophos decantada.<br \/>\n    De Catharina o formidavel sceptro<br \/>\n    N&atilde;o te pezou na dextra delicada.<\/p>\n<p>Foste &#8212; qual chuva argentea que, passando,<br \/>\n    Fecunda&ccedil;&atilde;o pelos vergeis acorda :<br \/>\n    Mas &aacute; vista do sol ninguem na terra<br \/>\n    Das chrystallinas gottas se recorda.<\/p>\n<p>Nem elegias ternas de saudade<br \/>\n    Sobre o tumulo teu disse um poeta.<br \/>\n    Do ministro de Deus a voz apenas<br \/>\n    Poude-se ouvir monotona e quieta.<\/p>\n<p>Mas Deus, que l&ecirc; nas visceras dos homens,<br \/>\n    Fez abaixar do ceu espheras de ouro.<br \/>\n    Tua alma pura, circumdada de anjos,<br \/>\n    Foi levada ao Senhor, como um thesouro.<\/p>\n<p>Os cantores seraphicos te int&ocirc;am<br \/>\n    Nenias, que nunca os homens escutaram:<br \/>\n    Saudosas nenias, inauditas, novas,<br \/>\n    Que os poetas da terra te negaram.<\/p>\n<p>Quem &eacute;s, virgem christan? &#8212; qual &eacute; teu nome?<br \/>\n    Por p&aacute;tria tua que na&ccedil;&atilde;o te cabe ?<br \/>\n    Porque sobem-te ao ceu espheras de ouro?<br \/>\n    &#8212; D&#8217;entre os homens ninguem, ninguem o sabe.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Parae, impios, parae,&#8212; em quanto eu firo<br \/>\n    As cordas do ala&uacute;de.<br \/>\n    Mudos ouvi-me o cantico da morte,<br \/>\n    A nenia da virtude.<\/p>\n<p>Virgem christan ! &#8212; um trovador mesquinho<br \/>\n    Na terra ainda existe,<br \/>\n    Que intorna sobre a campa, que te incerra,<br \/>\n    Uma palavra triste.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; um canto sobranceiro &#8212; como<br \/>\n    Aguia que os ceus devassa:<br \/>\n    &Eacute; a querula voz de homem affeito<br \/>\n    Aos hymnos da desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Virgem christ&aacute;n! &#8212; tu que inxugasle em vida.<br \/>\n    As lagrimas do pobre,<br \/>\n    Acceita agora as lagrimas do bardo<br \/>\n    Na lage que te cobre.<\/p>\n<p>Tu has de ouvir no ceu, onde subiste,<br \/>\n    Meu luctuoso canto.<br \/>\n    A linguagem das lagrimas &eacute; tua:<br \/>\n    Intender&aacute;s meu pranto.<\/p>\n<p>Abaixa os olhos: &#8212; s&ocirc;bre o teu sepulchro<br \/>\n    Curvado est&aacute; um homem :<br \/>\n    Lagrimas verte,&#8212; e d&#8217;essas que, cahindo,<br \/>\n    Seccando, se consomem.<\/p>\n<p>Sou eu,&#8212; sou eu,&#8212; co&#8217;a lyra nos joelhos,<br \/>\n    Co&#8217;a voz&#8217; tremente e preza:<br \/>\n    Co&#8217;os vagos dedos affinando incerto<br \/>\n    A corda da tristeza.<\/p>\n<p>D&aacute;-me, d&aacute;-me uma lagrima somente,<br \/>\n    Oh virgem,&#8212; que eu precizo:<br \/>\n    Uma lagrima, n&atilde;o! &#8212; l&aacute; n&atilde;o ha d&#8217;ellas&#8230;&#8230;<br \/>\n    D&aacute;-me, d&aacute;-me um surrizo.<\/p>\n<p>Par&aacute;e, impios, par&aacute;e,&#8212; em quanto eu firo<br \/>\n    As cordas do ala&uacute;de.<br \/>\n    Mudos ouvi-me o cantico da morte,<br \/>\n    A nenia da virtude.<\/p>\n<h2>IV<\/h2>\n<p>Oh virgem! &#8212; na campa que tem teu cadaver<br \/>\n    Estive inclinado,&#8212;joelhos no ch&atilde;o.<br \/>\n    Co&#8217;o triste ala&uacute;de coberto de crepe<br \/>\n    Tentei entoar-te funerea can&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Minh&#8217;alma em sublime delirio voava,<br \/>\n    Minh&#8217;alma voava, sahia de mim.<br \/>\n    Meu triste ala&uacute;de coberto de crepe<br \/>\n    Ficou n&#8217;uma estatua de duro marfim.<\/p>\n<p>Minh&#8217;alma voava suspensa no espa&ccedil;o,<br \/>\n    Minh&#8217;alma voava.&#8212; por onde &#8212; n&atilde;o sei.<br \/>\n    Aos lados e acima somente o infinito, Por<br \/>\n    baixo somente sepulchros achei.<\/p>\n<p>E tudo deserto,&#8212; silencio de tumbas,<br \/>\n    Vast&iacute;ssimo aspecto de immensa soid&atilde;o:<br \/>\n    E tudo espirava bellezas horriveis<br \/>\n    De um mundo que de homens n&atilde;o p&oacute;de ser, n&atilde;o.<\/p>\n<p>Entam repentina no vago do espa&ccedil;o<br \/>\n    N&atilde;o sei que harmonia que ouvi que rompeu;<br \/>\n    N&atilde;o sei si partia de vozes estranhas,<br \/>\n    N&atilde;o sei si partia do espirito meu.<\/p>\n<p>O cadaver que jaz n&#8217;esta campa<br \/>\n    Esse mundo o n&atilde;o teve intendido.<br \/>\n    Esse mundo n&atilde;o deu o seu pranto,<br \/>\n    &#8212; Esse pranto comprado e vendido.<br \/>\n    &Eacute; dos ceus o cadaver da virgem,<br \/>\n    Que esvoa&ccedil;a do mundo mentido.<\/p>\n<p>O cadaver que jaz n&#8217;esta campa<br \/>\n    Sentimentos dos anjos conteve.<br \/>\n    Salamandra que vive nas chammas,<br \/>\n    N&#8217;este mundo esta virgem esteve.<br \/>\n    N&#8217;este mundo os preceitos do Christo<br \/>\n    Em sua alma ella sempre os reteve.<\/p>\n<p>O cad&aacute;ver que jaz n&#8217;esta campa<br \/>\n    Esse mundo o tractou com desprezo:<br \/>\n    Que esse mundo escarnece as virtudes,<br \/>\n    Quando d&#8217;ellas se sente surprezo.<br \/>\n    L&aacute; nos antros escuros do peito<br \/>\n    Da verdade o louvor fica prezo.<\/p>\n<p>Perguntais sua patria qual era?<br \/>\n    &#8212; Perguntae-o aos dous polos da terra:<br \/>\n    &#8212; Flor eterna que em todo o universo<br \/>\n    As raizes profundas aferra :<br \/>\n    &#8212; Povo de homens christ&atilde;os que nos orbes<br \/>\n    Nunca um despota enorme os desterra.<\/p>\n<p>O seu nome quereis ? &#8212; Consultae-lhe<br \/>\n    Que palpites seus peitos tiveram.<br \/>\n    Sentireis, no cad&aacute;ver gelado,<br \/>\n    Que valentes, que s&ocirc;ffrcgos eram.<br \/>\n    &#8212; Caridade ! &#8212; seus peitos palpitam:<br \/>\n    &#8212; Caridade! &#8212; seus l&aacute;bios disseram.<\/p>\n<p>Foi seu astro esse nome divino,<br \/>\n    Esse nome que o Christo insinou.<br \/>\n    Para os c&aacute;rdines longes da terra<br \/>\n    Essa virgem christan se atirou.<br \/>\n    Co&#8217;esse nome do Christo nos labios,<br \/>\n    Mil ferozes na&ccedil;&otilde;es arrostou.<\/p>\n<p>Esses martyres loucos da guerra<br \/>\n    Exhumou do cruor da batalha.<br \/>\n    Foi pensar a familia do pobre<br \/>\n    Na modesta cazinha de palha.<br \/>\n    Foi as chagas limpar do mendigo<br \/>\n    Com fibrosa e macia toalha.<\/p>\n<p>Pelos trivios desertos da estrada,<br \/>\n    Pelos sordidos cantos das ruas,<br \/>\n    Recolheu os infantes expostos<br \/>\n    Pelas m&atilde;es deshumanas e cruas;<br \/>\n    Involveu em felpudas mantilhas<br \/>\n    Suas carnes geladas e nuas.<\/p>\n<p>Porem nunca prostrou-se nos thronos<br \/>\n    Nem rojou pelos p&eacute;s do monarcha.<br \/>\n    Caridade ! &#8212; este nome sagrado,<br \/>\n    Como as t&aacute;buas da lei dentro da arca,<br \/>\n    Caridade! &#8212; entre o marmore e o colmo<br \/>\n    Accep&ccedil;&otilde;es differentes n&atilde;o marca.<\/p>\n<p>Caridade! &#8212; evangelho em resumo &#8212;<br \/>\n    Entre os homens n&atilde;o faz distinc&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ama o pobre &#8212; que acima dos ricos<br \/>\n    D&#8217;esse amor t&egrave;m maior preciz&atilde;o.<br \/>\n    Vale menos um sceptro p&#8217;ra ella:<br \/>\n    Vale mais do mendigo o bord&atilde;o.<\/p>\n<p>Caridade ! &#8212; evangelho em resumo &#8212;<br \/>\n    Nem senhores nem servos conhece.<br \/>\n    &#8212; Como o servo estremece, morrendo,<br \/>\n    D&#8217;este modo o senhor estremece.<br \/>\n    E a nobreza comprada no ber&ccedil;o<br \/>\n    N&#8217;uma campa co&#8217;o pobre fenece.<\/p>\n<p>Assim foi esta virgem.&#8212; Mil vezes<br \/>\n    Os feridos colheu da batalha.<br \/>\n    Os mendigos tomou pelas ruas,<br \/>\n    Consolou na cazinha de palha.<br \/>\n    Involveu os infantes expostos<br \/>\n    Em &iacute;ibrosa e macia toalha.<\/p>\n<p>Porem hoje o seu corpo &eacute; cadaver.<br \/>\n    Tem sua alma a celeste mans&atilde;o.<br \/>\n    O Senhor a chamou por seus anjos,<br \/>\n    &#8212; Que completa viu sua miss&atilde;o.<br \/>\n    E partiu d&#8217;entre n&oacute;s&#8230; E da virgem,<br \/>\n    Ningu&eacute;m d&#8217;ella se lembra mais n&atilde;o.<\/p>\n<p>Nos semblantes de inf&ecirc;rmos, de pobres<br \/>\n    Da ventura j&aacute; brilha o retrato.<br \/>\n    O menino que a vida lhe deve,<br \/>\n    Esse mundo ao depois f&ecirc;l-o ingrato:<br \/>\n    Por que o homem no leito de estofo<br \/>\n    Julga inf&acirc;mia o que lembra o grabato.<\/p>\n<p>E partiu d&#8217;entre n&oacute;s&#8230; E n&atilde;o teve<br \/>\n    A can&ccedil;&atilde;o funeral do poeta,<br \/>\n    &#8212; Do inspirado de Deus para o mundo,<br \/>\n    Do escolhido &#8212; terrestre propheta.<br \/>\n    Do propheta divino somente<br \/>\n    Ella teve uma prece quieta.<\/p>\n<p>E partiu d&#8217;entre n&oacute;s&#8230; E seus anjos,<br \/>\n    &#8212; Seus irm&atilde;os &#8212; uma nenia intoaram.<br \/>\n    E no ar assombrado e tranquillo<br \/>\n    Harmonias do ceu resoaram.<br \/>\n    E de nuvens espheras douradas<br \/>\n    Para os altos de Deus a levaram.<\/p>\n<p>E perante esse aspecto de gloria<br \/>\n    Toda a terra quedou-se serena:<br \/>\n    Como o triste, ante os rizos alheios,<br \/>\n    Sente mais augmentar-se-lhe a pena :<br \/>\n    Como a ta&ccedil;a de nectar do rico<br \/>\n    As arterias do pobre invenena.<\/p>\n<p>Mas a terra reflecte bellezas,<br \/>\n    Essa terra, esse vacuo, esse mar!<br \/>\n    Por&eacute;m tudo &#8212; mudez e silencio,&#8212;<br \/>\n    &#8212; Atalaia que p&otilde;e-se a espiar:<br \/>\n    Porem tudo assombrado e tranquillo,<br \/>\n    Como quem preludia chorar.<\/p>\n<p>E partiu d&#8217;entre n&oacute;s&#8230; E seus anjos,<br \/>\n    &#8212; Seus irm&atilde;os &#8212; uma nenia intoaram.<br \/>\n    E de nuvens espheras douradas<br \/>\n    Para os altos de Deus a levaram.<br \/>\n    E essa terra, esse vacuo, esses mares<br \/>\n    Na mudez da tristeza ficaram.<\/p>\n<p>Tu, oh ceu, na escriptura dos anjos,<br \/>\n    Mais um anjo em teus choros registras.<br \/>\n    Tu mandaste-o buscar por teus anjos<br \/>\n    Sobre nuvens de fulgidas listras.<\/p>\n<p>Mas a terra ficou merencoria,<br \/>\n    Qual gigante co&#8217;as faces sinistras.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p>Tal foi repentina no vago do espa&ccedil;o<br \/>\n    Aquella harmonia que ouvi que rompeu.<br \/>\n    N&atilde;o sei si partia de vozes extranhas,<br \/>\n    N&atilde;o sei si partia do espirito meu.<\/p>\n<p><b>1 de fevereiro de 1854<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"34\" id=\"34\">OS DOUS CADAVERES<\/a><\/h4>\n<p>Aos manes do venerando anel&acirc;o &#8212; o Dr. Fr. Jos&eacute; de Sancta<br \/>\n    Escholastlca<br \/>\n    e Oliveira, fallecldo a 22 de mar&ccedil;o, e do meu joven<br \/>\n    amigo Fr. Henrique de Sancta Rosa Ribeiro, fallecldo<br \/>\n    a 22 do mesmo mez.<\/p>\n<p align=\"right\">Felizes,&#8212; n&atilde;o s&oacute; pela honradez da<br \/>\n    vida, como pela opportunidade da<br \/>\n    morte.<br \/>\n    <b>TACITO<\/b><\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">As lamentaveis ora&ccedil;&otilde;es que escuto<br \/>\n    Dizem que &eacute; tempo de choral-os inda.<br \/>\n    Precizam certas dores longa ausencia<br \/>\n    Para tornar-se fortes. Nem no tempo<br \/>\n    &Eacute; que se inxugam lagrimas de amigos.<br \/>\n    E as lament&aacute;veis ora&ccedil;&otilde;es que escuto<br \/>\n    Dizem que &eacute; tempo de choral-os inda.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Em dous dias somente &aacute; terra demos<br \/>\n    Dous cadaveres nossos. E essa terra<br \/>\n    Duas fauces abriu para ingolil-os,<br \/>\n    &#8212; Duas fauces terriveis. Parecia<br \/>\n    Por duas boccas horrorosa rir-se<br \/>\n    Com sardonico aspecto.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">Entre as preces de morte aqui trouxemos<br \/>\n    Primeiro um anci&atilde;o. Vivera um dia,<br \/>\n    Mas um dia completo. A sua aurora<br \/>\n    Fora risonha: o seu zenith mais bello:<br \/>\n    Mais bello o seu occaso.<br \/>\n    De sua historia as paginas douradas<br \/>\n    Todas n&#8217;um verbo apenas se resumem,<br \/>\n    &#8212; No verbo da virtude.<br \/>\n    E v&oacute;s, filhos do mundo,&#8212; e v&oacute;s, que tendes<br \/>\n    Menoscabado, ironizado os claustros,<br \/>\n    V&ecirc;de aquelle sepulchro. Alli na pedra<br \/>\n    Lereis vossa loucura, alfim vencida<br \/>\n    De pejo e confus&atilde;o,&#8212; indo esconder-se<br \/>\n    Por entre as nossas orgulhosas palmas<br \/>\n    De funebre victoria.<br \/>\n    E esse quadrado, povoado ao longo<br \/>\n    De cadaveres mil, attesta aos impios<br \/>\n    Que esta insania da cruz n&atilde;o cai ainda.<br \/>\n    Vinde estudar na lapida dos tumulos<br \/>\n    A sorte do porvir. Aqui se enastram<br \/>\n    Nas flores do martyrio immensos nomes<br \/>\n    Que figuram no ceu. Aqui lan&ccedil;&acirc;mos<br \/>\n    Ao mundo inteiro uma solemne prova<br \/>\n    Do que elle chama &#8212; as ambi&ccedil;&otilde;es do monge.<br \/>\n    Inclinae vossa fronte em nossas campas,<br \/>\n    Oh impios,&#8212; e apprendei! Aqui se escondem<br \/>\n    Do monge as ambi&ccedil;&otilde;es mortas com elle.<br \/>\n    Perguntae, perguntae &aacute;s mesmas campas<br \/>\n    &#8212; Quaes ellas foram ? &#8212; Uma prece humilde<br \/>\n    Depois de sua morte.<\/p>\n<p align=\"left\">Taes do monge anci&atilde;o, que inda chor&acirc;mos,<br \/>\n    As ambi&ccedil;&otilde;es na vida e al&eacute;m dos t&uacute;mulos.<\/p>\n<p align=\"left\">Foram cumpridas, ellas. Seu cadaver<br \/>\n    Entre as preces de morte aqui trouxemos.<\/p>\n<p align=\"left\">Tinha troado luctuoso o bronze<br \/>\n    Gravosos sons de morte.<br \/>\n    De dobres e ora&ccedil;&otilde;es os ares pejam.<br \/>\n    Da dor o espectro, o genio dos lamentos<br \/>\n    Nos tectos pousa, em lagrimas folgando.<\/p>\n<p align=\"left\">E o campanario immudeceu: nas auras<br \/>\n    De todo em todo o lugubre ruido,<br \/>\n    Voando, esperdi&ccedil;ou-se em tenues ecchos.<br \/>\n    Somente as ora&ccedil;&otilde;es crebras susurram<br \/>\n    Pela extens&atilde;o dos solitarios claustros.<br \/>\n    E tudo o mais era silencio e nada.<br \/>\n    Quando outra vez o acostumado bronze<br \/>\n    Mais outra morte clama :<\/p>\n<p align=\"left\">Era um joven que um passo apenas dera<br \/>\n    No caminho da vida. Uma p&eacute;gada<br \/>\n    Marcou somente nos degraus do mundo :<br \/>\n    Desceu,&#8212; e deu no tumulo a segunda.<br \/>\n    Um momento parar&aacute; ante os altares<br \/>\n    Cantando o Eterno em maviosos hymnos:<br \/>\n    Foi toda a vida sua esse momento:<br \/>\n    E remontou-se ao ceu, findado o canto.<br \/>\n    Quando de tarde internecida e meiga<br \/>\n    Falia entre as folhas dos rosaes a briza,<br \/>\n    Um som &#8212; quasi can&ccedil;&atilde;o &#8212; se expande ao longo,<br \/>\n    Melodioso, sim: por&eacute;m mais bello<br \/>\n    Era o seu hymno harmonioso e brando.<br \/>\n    Quando sobre a montanha a&eacute;rea orchestra<br \/>\n    De altivos rouxinoes em fortes trinos<br \/>\n    De musica atrevida os ares enchem,<br \/>\n    Para os ouvir o camponez deserta<br \/>\n    O innocente tugurio,&#8212; e as feras bravas<\/p>\n<p align=\"left\">E as torrentes caudaes e os nortes param:<br \/>\n    Mas nada d&#8217;isso a sua voz copia.<br \/>\n    Nem a harpa immortal tangida outr&#8217;ora<br \/>\n    Pelo joven David nos regios pa&ccedil;os,<br \/>\n    Do possesso Saul calmando as furias,<br \/>\n    Traduz o seu cantar. J&aacute; para a terra<br \/>\n    Era de mais ouvil-o.<br \/>\n    Tinha excedido ha muito o ser de humano,<br \/>\n    E j&aacute; tocava &aacute; perfei&ccedil;&atilde;o dos anjos.<br \/>\n    Talvez que precizasse o ethereo throno<br \/>\n    Mais de um cantor, qual elle.<br \/>\n    Ou d&#8217;entre os choros seus&#8212;Deus, por momentos,<br \/>\n    Tirara um anjo que viesse ao mundo<br \/>\n    Cantar can&ccedil;&otilde;es do ceu,&#8212; dizendo aos homens<br \/>\n    Como se adora a Deus na patria eterna.<\/p>\n<h2>VI<\/h2>\n<p align=\"left\">Cantor, cantor do ceu! tu n&atilde;o morreste,<br \/>\n    Nem mudaste de patria.<br \/>\n    N&atilde;o pode, n&atilde;o, ser teu nem um dos orbes.<br \/>\n    Si na terra passaste, oh sim,&#8212; viagem,<br \/>\n    Miss&atilde;o de Deus foi isso em nossa esphera.<br \/>\n    A patria tua &eacute; tam somente o Eterno!<br \/>\n    Tu gemias, eu sei, eu vi-te, eu mesmo,&#8212;<br \/>\n    Gemias, circumscripto em teu segredo,<br \/>\n    Com saudades de l&aacute;. Cuidando &aacute;s vezes<\/p>\n<p align=\"left\">A s&oacute;s comtigo e tua idea estares,<br \/>\n    Em quentes preces ao Senhor pedias<br \/>\n    Sua mensagem concluir comtigo.<br \/>\n    L&aacute; no Golgotha assim, na cruz suspenso,<br \/>\n    Entre dores ao Pae rogava o Christo<br \/>\n    Que lhe passasse o calix.<br \/>\n    Deus emfim te attendeu, cantor sagrado.<br \/>\n    Almas dignas de Deus &#8212; Deus sempre as ouve.<br \/>\n    N&atilde;o choremol-o, n&atilde;o. Um pranto esteril<br \/>\n    S&ocirc;bre os manes de um anjo &#8212; insulto f&ograve;ra.<br \/>\n    Gravemos s&oacute; em sua campa um nome,<br \/>\n    E o mais em nossos peitos.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>22 de abril de 1854<\/b><\/p>\n<h4><a name=\"35\" id=\"35\">Al !<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>Pelo fallecimento do venerando anel&atilde;o &#8212; Frei<br \/>\n    Marcellino do<br \/>\n    Cora&ccedil;&atilde;o de .Jesus, accontecido em junho de 1854 no mosteiro<br \/>\n    do Rio de Janeiro.<\/b> <\/p>\n<p align=\"right\">Sam velhos que batalharam,<br \/>\n    E que jamais renegaram<br \/>\n    A sua divisa e f&eacute;.<br \/>\n    <b>MUNIZ-BARRETO<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<br \/>\n    Para o baculo ainda um dia tinhas,<br \/>\n    Um dia para a mitra!<br \/>\n    N&atilde;o tinhas mais que performar no mundo ?<br \/>\n    Esgotaste da vida o v&aacute;rio calix,<br \/>\n    Onde, a par do prazer que &aacute; tona sobe,<br \/>\n    Assentam magoa e fezes ?<br \/>\n    Saciaste-te bem de dor, de gozos!<br \/>\n    Fartaste-te da vida ?<br \/>\n    Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<\/p>\n<p align=\"left\">Era cedo, talvez. Ainda as faces<br \/>\n    Alardiavam mocidade e vida.<br \/>\n    Na fronte ainda o &eacute;bano luzente<br \/>\n    Entremeava a prata.<br \/>\n    Rija, sonora, da tribuna eterna,<br \/>\n    A voz ainda estremecia as turbas,<br \/>\n    Apavorava os grandes.<br \/>\n    Podias espalhar mais bem no mundo,<br \/>\n    Si fosses mais um dia.<br \/>\n    Porque deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<\/p>\n<p align=\"left\">F&ocirc;ras um homem necessario agora.<br \/>\n    Precizavam de ti victimas tantas,<br \/>\n    Ai! tantos desgra&ccedil;ados!<br \/>\n    A m&atilde;o iniqua de sagrados odios<br \/>\n    Sobre o collo innocente al&ccedil;ou de novo<br \/>\n    A secure de Herodes.<br \/>\n    Co&#8217;a garganta infantil cozida ao c&ecirc;po,<br \/>\n    Do algoz romano pavidos ouviram :<br \/>\n    &#8212; Obediencia ou morte! &#8212;<br \/>\n    Obedeceram.&#8212; A tortura, o a&ccedil;oute,<br \/>\n    O ergastulo, o patibulo, as pantheras,<br \/>\n    Dos impios Neros foram.<br \/>\n    Hoje ha Neros christ&atilde;os mais brutos que elles.<br \/>\n    Sam de todas as epochas os typos<br \/>\n    De crime, de ferocia.<br \/>\n    N&atilde;o ha, porem, amphitheatro e f&eacute;ras.<br \/>\n    Conhecem mais o sofrimento, as dores,<br \/>\n    O que mais damna os homens.<br \/>\n    Dam-nos apenas c&aacute;rcere e dest&ecirc;rro!<\/p>\n<p align=\"left\">Ah! o desterro!&#8230; prolongada estatua<br \/>\n    De morte que do ceu se prende ao inferno,<br \/>\n    &#8212; De morte que n&atilde;o finda! Ai!<br \/>\n    para tantos mizeros agora<br \/>\n    Que necess&aacute;rio f&ocirc;ras!<br \/>\n    Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o viste as salas humidas do pranto<br \/>\n    Dos mizeros proscriptos.<br \/>\n    N&atilde;o viste o panno dos sagrados muros<br \/>\n    Transudando de lagrimas.<br \/>\n    N&atilde;o viste o corucheu do templo annoso<br \/>\n    &#8212; Testemunha da dor,&#8212; curvar-se a ella,<br \/>\n    Em respeito &aacute; desgra&ccedil;a.<br \/>\n    N&atilde;o viste &aacute; noute nos soturnos claustros,<br \/>\n    De par em par fendendo-se os sepulchros,<br \/>\n    Rangindo os ossos, levantar-se os mortos<br \/>\n    Brandindo maldi&ccedil;&otilde;es em f&eacute;rreos carmes<br \/>\n    Sobre os filhos sacrilegos.<br \/>\n    Mui agra fora a teus provectos annos<br \/>\n    Uma scena de sangue.<br \/>\n    Ah! tanto horror te causaria infernos!<br \/>\n    Foste feliz: &#8212; morreste.<br \/>\n    Quando os pequenos, tam do Christo amados,<br \/>\n    Fossem vistos de ti,&#8212; pallidos, tristes<br \/>\n    Co&#8217;as faces cavas do soffrer profundo,<br \/>\n    Castigados sem crime, em hostia &aacute; raiva<br \/>\n    De phariseus hypocritas&#8230;<\/p>\n<p align=\"left\">Uma lagrima tua, um gesto, um brado,<br \/>\n    De balsamo lhes f&ocirc;ra.<br \/>\n    Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<\/p>\n<p align=\"left\">Tambem foste proscripto. A dor do exilio<br \/>\n    N&atilde;o era-te ignota.<br \/>\n    Ah! quantas vezes desejaste em &acirc;ncias<br \/>\n    Voltar &aacute; p&aacute;tria cara!<br \/>\n    Na pedra tumular da avita gloria,<br \/>\n    Sobre o p&oacute; dos tropheus, pobre, aviltado,<br \/>\n    Seus maus destinos Portugal prant&ecirc;a,<br \/>\n    E pranteando dorme.<br \/>\n    Ossada de na&ccedil;&atilde;o co&#8217;os p&eacute;s em terra,<br \/>\n    Co&#8217;as m&atilde;os a custo sustentando o craneo,<br \/>\n    A cada s&ocirc;pro do su&atilde;o vacilla.<br \/>\n    Mas inda assim amavas-lhe os destro&ccedil;os !<br \/>\n    L&aacute; o teu ber&ccedil;o estava.<br \/>\n    Mas ah! os toques matinaes n&atilde;o soam<br \/>\n    Nas cupolas da Arrabida.<br \/>\n    Jazem seus claustros pavorosos &ecirc;rmos.<br \/>\n    Murmura ainda nas extensas naves<br \/>\n    O ruido do sangue.<br \/>\n    Nas v&aacute;cuas cellas estampado impera<br \/>\n    O crime de seus filhos.<br \/>\n    S&oacute; esta idea te rasgava as veias,<br \/>\n    Te amargurava o peito.<br \/>\n    Receaste, avistando-lhe as ruinas,<br \/>\n    Desfallecer chorando.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas esses prantos que o sublime excita<br \/>\n    Cont&ecirc;em suave gozo.<br \/>\n    Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella?<\/p>\n<p align=\"left\">Hoje de l&aacute; do ceu a vista inclina<br \/>\n    Para a dor dos pequenos.<br \/>\n    Uma prece de ti merecem, querem<br \/>\n    Tam innocentes almas.<br \/>\n    Roga por elles ao Senhor que os ama.<br \/>\n    Prostra-te ainda d&#8217;ante o solio eterno<br \/>\n    Orando pelos impios.<br \/>\n    Talvez o Christo lhes perdoe o crime,<br \/>\n    Dizendo ainda ao Pae, qual disse outr&#8217;ora :<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sabem o que fazem.<br \/>\n    Talvez subiste ao ceu por impios tantos.<br \/>\n    Seria l&aacute; preciza a prece tua,<br \/>\n    Para abrandar-se a cholera divina,<br \/>\n    Que j&aacute; baixava em laminas de fogo<br \/>\n    Nas m&atilde;os do archanjo que assolara o Egypto,<br \/>\n    Sobre a cabe&ccedil;a gr&aacute;vida de crimes<br \/>\n    Dos phariseus modernos.<br \/>\n    Por que, sin&atilde;o por isto, ao ceu subiste ?<br \/>\n    Por que deixaste o teu mosteiro, oh monge,<br \/>\n    Deixaste a tua cella ?<\/p>\n<h4><a name=\"36\" id=\"36\">MAIS UM TUMULO<\/a><\/h4>\n<p align=\"left\"><b>Pelo fallecimcnto do venerando anci&atilde;o&#8212;Frei Jos&eacute;<br \/>\n    de S. Bento<br \/>\n    Damasio, a 1O de septembro de 1854.<\/b> <\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p align=\"left\">Mais um tumulo aberto ! Amada lyra,<br \/>\n    Temp&eacute;ra as cordas de tristeza e lucto.<br \/>\n    Ah! n&atilde;o te esque&ccedil;a teu dever funereo !<br \/>\n    Nossa miss&atilde;o &eacute; esta.<br \/>\n    Internemos na pedra um ai, um carme,<br \/>\n    E alabastros de preces.<br \/>\n    Cantemos sempre os males que se findam<br \/>\n    No liminar da morte.<br \/>\n    Merece cantos uma dor que expira.<br \/>\n    Quem hoje desce &aacute; profundez do nada<br \/>\n    Foi infeliz,&#8212; foi monge.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p align=\"left\">Mas ah! que imagem me arrebata extranha<br \/>\n    A tetricos abysmos!<br \/>\n    Quem &eacute;s ? &#8212; archanjo ou fada ? &#8212; As longas vestes<br \/>\n    Vitreas, tam de crystal, os ares quebram<br \/>\n    E refrangentes choques!<br \/>\n    Que cor, que face transparente, annilea,<br \/>\n    Qual &iacute;ndigo de lou&ccedil;a!<br \/>\n    Que cor, que face, que plat&iacute;neos olhos,<br \/>\n    Qu&acirc;es pallidas estrellas !<br \/>\n    Onde me arroubas, ai! que cahos, que abysmos<br \/>\n    Que gelos glaciaes, que moveis plagas,<br \/>\n    Que campos fluctuantes!<br \/>\n    Quantas campas aqui quebram-se e correm !<br \/>\n    Quantos craneos,&#8212;que horror! &#8212; de s&aacute;nie sujos,<br \/>\n    Surgem medonhos d&#8217;ellas!<br \/>\n    Eis! de um lado levantam-se, frangendo,<br \/>\n    De negras togas adornados todos,<br \/>\n    Altivos esqueletos!<br \/>\n    Ah! esfoutros, porem, forcejam, luctam,<br \/>\n    Tremendos uivam, por querer debalde<br \/>\n    Transp&ocirc;r-se do sepulchro,<br \/>\n    Algum grilh&atilde;o, talvez, lhes prende as plantas<br \/>\n    L&aacute; na raiz da rocha,<br \/>\n    Anjo, dem&ocirc;nio, deusa, incanto, ou fada,<br \/>\n    Ah! dize-me o que vejo!<\/p>\n<p align=\"left\">Que cr&acirc;neo immundo em desesp&ecirc;ro apponlas,<br \/>\n    Demonio, deusa, archanjo!<br \/>\n    N&atilde;o reconhe&ccedil;o-o n&atilde;o. A patria minha<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; aqui. A regi&atilde;o dos mortos,<br \/>\n    Zona do ceu, do inferno, elysio, averno,<br \/>\n    Gurgite infindo, tenebroso ou claro,<br \/>\n    Pegos de luz ou turbilh&otilde;es de trevas,<br \/>\n    N&atilde;o me pertencem inda.<br \/>\n    Outra na&ccedil;&atilde;o, aqui, de ess&ecirc;ncia extranha,<br \/>\n    Este logar occupa.<\/p>\n<p align=\"left\">Deixa-me, pois, voltar demonio ou anjo.<br \/>\n    Transporta-me outra vez ao ser que tinha.<br \/>\n    N&atilde;o tenho ainda o meu dever completo.<br \/>\n    Minha miss&atilde;o me chama.<br \/>\n    Concede-me um instante, um verso, um canto,<br \/>\n    Uma improviza nenia.<br \/>\n    Quem hoje desce &aacute; profundez do nada<br \/>\n    Foi infeliz,&#8212; foi monge&#8230;<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p align=\"left\">&laquo;N&atilde;o cantar&aacute;s,&raquo; atterradora brada<br \/>\n    A meu ouvido a furia.<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o cantar&aacute;s&raquo; me repetiu, inchado,<br \/>\n    E rebentou, tinnindo.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: PORQUE CANTO? O REMORSO DA INNOCENTE PEDIDO MEDITA\u00c7\u00c3O O APOSTOLO ENTRE AS GENTES O JESUITA A FLOR MURCHA DO ALTAR O INCENSO DO ALTAR O MISANTROPO A ORPHAN NA COSTURA MEU FILHO NO CLAUSTRO MILTON POBRE E SUBERBO OS CLAUSTROS SOROR-ANGELA A FREIRA A DEVOTA FREI [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Inspira\u00e7\u00f5es do Claustro, Junqueira Freire Inspira\u00e7\u00f5es do Claustro<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Inspira\u00e7\u00f5es do Claustro, Junqueira Freire, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Poesia, Porque Canto?, 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