{"id":108258,"date":"2017-02-10T11:03:38","date_gmt":"2017-02-10T13:03:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108258"},"modified":"2017-02-10T11:03:38","modified_gmt":"2017-02-10T13:03:38","slug":"a-volta-ao-mundo-em-80-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias","title":{"rendered":"A Volta ao Mundo em 80 Dias"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"550\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t    <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t\t<a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXV<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t  <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#31\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#32\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#33\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#34\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIV<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#35\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXV<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#36\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXVI<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#37\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXVII<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>J&uacute;lio Verne<\/h2>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">CAP&Iacute;TULO I<\/a><\/h4>\n<p>EM QUE PHILEAS FOGG E PASSEPARTOUT RECIPROCAMENTE SE ACEITAM, O PRIMEIRO<br \/>\n    NA QUALIDADE DE PATR&Atilde;O, O SEGUNDO NA DE CRIADO <\/p>\n<p>Em 1872, a casa de n&uacute;mero 7 da Saville Row, Burlington Gardens &mdash;<br \/>\n    casa em que Sheridan morrera em 1814 &mdash; era habitada por Phileas Fogg,<br \/>\n    esquire, um dos membros mais singulares e destacados do Reform Club de Londres,<br \/>\n    apesar de todo seu esfor&ccedil;o em evitar, segundo parecia, chamar a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre si.<br \/>\n    A um dos maiores oradores que honram a Inglaterra, sucedia pois este Phileas<br \/>\n    Fogg, personagem enigm&aacute;tico, de quem nada se sabia, salvo que era homem<br \/>\n    muito polido e um dos mais perfeitos gentlemen da alta sociedade inglesa.<br \/>\n    Diziam que era parecido com Byron &mdash; pela cabe&ccedil;a, pois que era<br \/>\n    irrepreens&iacute;vel quanto aos p&eacute;s &mdash; mas um Byron de bigode<br \/>\n    e su&iacute;&ccedil;as, um Byron impass&iacute;vel, que teria vivido mil anos<br \/>\n    sem envelhecer.<br \/>\n    Ingl&ecirc;s, seguramente, Phileas Fogg n&atilde;o era talvez londrino. Nunca<br \/>\n    o tinham visto nem na Bolsa, nem no Banco, nem em nenhum dos corredores da<br \/>\n    City. Nem as bacias e docas de Londres jamais tinham recebido um navio cujo<br \/>\n    armador fosse Phileas Fogg. Este gentleman n&atilde;o figurava em nenhuma<br \/>\n    ger&ecirc;ncia administrativa. Nunca seu nome ressoara em algum escrit&oacute;rio<br \/>\n    de advogados, nem no Temple, nem em Lincoln&rsquo;s Inn, nem em Gray&rsquo;s<br \/>\n    Inn. Jamais pleiteara &agrave; Corte do chanceler, nem ao Banco da Rainha,<br \/>\n    ao Tesouro (Exchequer), nem a qualquer Corte eclesi&aacute;stica. N&atilde;o<br \/>\n    era industrial, nem negociante, nem comerciante, nem agricultor. N&atilde;o<br \/>\n    fazia parte nem da Institui&ccedil;&atilde;o real da Gr&atilde;-Bretanha,<br \/>\n    nem da Institui&ccedil;&atilde;o de Londres, nem da Instituic&atilde;o dos<br \/>\n    Artes&atilde;os, nem da Institui&ccedil;&atilde;o Russell, nem da Institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria do Oeste, nem da Institui&ccedil;&atilde;o do Direito, nem<br \/>\n    desta Institui&ccedil;&atilde;o das Artes e das Ci&ecirc;ncias reunidas, que<br \/>\n    est&aacute; sob o patroc&iacute;nio direto de Sua Graciosa Majestade. N&atilde;o<br \/>\n    pertencia, resumindo, a nenhuma das numerosas sociedades que pululam na capital<br \/>\n    da Inglaterra, da Sociedade da Arm&ocirc;nica &agrave; Sociedade entomol&oacute;gica,<br \/>\n    fundada principalmente com a finalidade de promover a destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos insetos nocivos.<br \/>\n    Phileas Fogg era membro do Reform Club, e s&oacute;.<br \/>\n    A quem se admirasse de que um gentleman t&atilde;o misterioso figurasse entre<br \/>\n    os membros desta distinta associa&ccedil;&atilde;o, responder&iacute;amos<br \/>\n    que foi admitido gra&ccedil;as &agrave; recomenda&ccedil;&atilde;o dos Baring,<br \/>\n    junto aos quais tinha cr&eacute;dito aberto. Al&eacute;m disso, Phileas Fogg<br \/>\n    apresentava um certo ar de respeitabilidade por serem os seus cheques pagos<br \/>\n    &agrave; vista, debitados em sua conta corrente invariavelmente credora.<br \/>\n    Phileas Fogg seria rico? Incontestavelmente. Mas como fizera fortuna era o<br \/>\n    que os mais bem informados n&atilde;o poderiam dizer, e Mr. Fogg seria o &uacute;ltimo<br \/>\n    a quem conviria indagar. Em todo caso, n&atilde;o era nada pr&oacute;digo,<br \/>\n    mas sem ser &aacute;varo, porque onde quer que faltasse uma contribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para algo nobre, &uacute;til ou generoso, contribu&iacute;a silenciosa e mesmo<br \/>\n    anonimamente.<br \/>\n    Em suma, ningu&eacute;m menos comunicativo do que este gentleman. Falava o<br \/>\n    menos poss&iacute;vel, e parecia tanto mais misterioso quanto mais silencioso<br \/>\n    se mostrava. Embora vivesse &agrave;s claras, tudo o que fazia era t&atilde;o<br \/>\n    matematicamente sempre o mesmo, que a imagina&ccedil;&atilde;o, insatisfeita,<br \/>\n    procuraria ver al&eacute;m.<br \/>\n    Teria viajado? Era prov&aacute;vel, porque ningu&eacute;m conhecia melhor<br \/>\n    do que ele o mapa terrestre. N&atilde;o havia lugar, por afastado que fosse,<br \/>\n    de que n&atilde;o parecesse ter conhecimento especial. &Agrave;s vezes, mas<br \/>\n    em poucas palavras, breves e claras, corrigia os mil boatos que circulavam<br \/>\n    no club a prop&oacute;sito de viajantes perdidos ou extraviados; indicava<br \/>\n    as verdadeiras probabilidades, e suas palavras muitas vezes acharam-se como<br \/>\n    que inspiradas por uma esp&eacute;cie de dom prof&eacute;tico, uma vez que<br \/>\n    o que acontecia acabava sempre por as justificar. Era um homem que devia ter<br \/>\n    viajado por toda a parte &mdash; pelo menos em esp&iacute;rito.<br \/>\n    O que era certo, todavia, &eacute; que Phileas Fogg havia muitos anos que<br \/>\n    n&atilde;o saia de Londres. Os que tinham tido a honra de o conhecer um pouco<br \/>\n    mais que os outros, atestavam que &mdash; salvo o caminho direto que percorria<br \/>\n    diariamente para vir de sua casa ao club &mdash; ningu&eacute;m poderia pretender<br \/>\n    t&ecirc;-lo visto em outro lugar. O seu &uacute;nico passatempo era ler jornais<br \/>\n    e jogar whist. Neste jogo silencioso, t&atilde;o apropriado &agrave; sua &iacute;ndole,<br \/>\n    ganhava freq&uuml;entemente, mas os ganhos nunca eram por ele embolsados e<br \/>\n    respondiam por uma quantia consider&aacute;vel de seu or&ccedil;amento destinado<br \/>\n    &agrave; caridade. Al&eacute;m disso, &eacute; preciso que se note, Mr. Fogg<br \/>\n    jogava evidentemente por jogar, n&atilde;o para ganhar. O jogo era para ele<br \/>\n    um combate, luta contra uma dificuldade, mas luta sem movimento, sem deslocamento,<br \/>\n    sem fadiga, e isso conformava-se ao seu car&aacute;ter.<br \/>\n    De Phileas Fogg n&atilde;o se conheciam nem mulher nem filhos &mdash; o que<br \/>\n    pode acontecer &agrave;s pessoas as mais honestas &mdash; nem parentes nem<br \/>\n    amigos &mdash; o que &eacute; na verdade mais raro ainda. Phileas Fogg vivia<br \/>\n    s&oacute; na sua casa de Saville Row, onde pessoa alguma penetrava. Do seu<br \/>\n    interior ningu&eacute;m cuidava. Bastava-lhe um criado. Almo&ccedil;ando e<br \/>\n    jantando no club a horas cronometricamente determinadas, na mesma sala, &agrave;<br \/>\n    mesma mesa, sem banquetear os colegas, n&atilde;o convidando nenhum estranho,<br \/>\n    s&oacute; voltava &agrave; casa para se deitar, &agrave; meia noite em ponto,<br \/>\n    sem jamais usar os aposentos confort&aacute;veis que o Reform Club coloca<br \/>\n    &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o dos seus membros. Das vinte e quatro horas,<br \/>\n    passava dez em casa, fosse para dormir, fosse para cuidar da sua toilete.<br \/>\n    Quando passeava, era invariavelmente em passo igual, na sala de entrada parquetada,<br \/>\n    ou na galeria circular, por sobre a qual se arredonda um caramanch&atilde;o<br \/>\n    de vidros azuis, sustentado por vinte colunas j&ocirc;nicas de porfiro vermelho.<br \/>\n    Se almo&ccedil;ava ou jantava, eram as cozinhas, a despensa, a copa, a peixaria,<br \/>\n    a leiteria do club que forneciam &agrave; sua mesa suas suculentas reservas;<br \/>\n    eram os criados do club, personagens de aspecto solene, em trajes pretos,<br \/>\n    cal&ccedil;ando sapatos palmilhados de moletton, que o serviam em uma porcelana<br \/>\n    especial e sobre admir&aacute;vel toalha de mesa de linho de Saxe; eram os<br \/>\n    cristais do club, de caprichoso modelado, que continham o seu sherry, o seu<br \/>\n    porto ou seu claret misturado com canela, avenca e cinamomo; era finalmente<br \/>\n    o gelo do club &mdash; gelo vindo com imensas despesas dos lagos da Am&eacute;rica<br \/>\n    &mdash; que lhe conservavam as bebidas em um estado de frescor satisfat&oacute;rio.<br \/>\n    Se viver em tais condi&ccedil;&otilde;es &eacute; ser exc&ecirc;ntrico, &eacute;<br \/>\n    preciso convir que a excentricidade &eacute; coisa muito boa!<br \/>\n    A casa de Saville Row, sem ser suntuosa, se recomendava por um extremo conforto.<br \/>\n    Al&eacute;m disso, com os h&aacute;bitos regulares do locador, o servi&ccedil;o<br \/>\n    reduzia-se a pouca coisa. Entretanto, Phileas Fogg exigia do seu &uacute;nico<br \/>\n    criado uma pontualidade, uma regularidade extraordin&aacute;rias. Naquele<br \/>\n    mesmo dia, 2 de outubro, Phileas Fogg dera aviso pr&eacute;vio a James Forster<br \/>\n    &mdash; porque o mo&ccedil;o cometera a falta de lhe trazer para a barba &aacute;gua<br \/>\n    a oitenta e quatro graus Fahrenheit em vez de a oitenta e seis &mdash; e esperava<br \/>\n    seu sucessor, que deveria apresentar-se entre onze e onze e meia.<br \/>\n    Phileas Fogg, muito bem sentado em sua poltrona, os p&eacute;s juntos como<br \/>\n    os de um soldado em revista, as m&atilde;os apoiadas sobre os joelhos, o corpo<br \/>\n    aprumado, a cabe&ccedil;a levantada, observava o caminhar dos ponteiros de<br \/>\n    seu rel&oacute;gio de ch&atilde;o &mdash; complicad&iacute;ssimo aparelho<br \/>\n    que indicava as horas, os minutos, os segundos, os dias, as quinzenas e o<br \/>\n    ano. Quando soassem onze e meia, Mr. Fogg deveria, conforme seu h&aacute;bito<br \/>\n    quotidiano, deixar a casa e dirigir-se para o Reform Club.<br \/>\n    Neste momento bateram &agrave; porta da pequena sala onde Phileas Fogg se<br \/>\n    encontrava.<br \/>\n    James Forster, o criado despedido, apareceu.<br \/>\n    &mdash; O novo criado, disse ele.<br \/>\n    Um mo&ccedil;o de uns trinta anos de idade apresentou-se e comprimentou.<br \/>\n    &mdash; &Eacute; franc&ecirc;s e chama-se John? perguntou-lhe Phileas Fogg.<br \/>\n    &mdash; Jean, se n&atilde;o lhe desagradar, respondeu o rec&eacute;m-vindo,<br \/>\n    Jean Passepartout, sobrenome que me ficou, e que justificava a minha aptid&atilde;o<br \/>\n    natural para me safar de apuros. Considero-me um rapaz honesto, senhor, mas,<br \/>\n    para ser franco, j&aacute; exerci muitas profiss&otilde;es. Fui cantor ambulante,<br \/>\n    artista de circo, saltando como L&eacute;otard, dan&ccedil;ando na corda como<br \/>\n    Blondin; depois fiz-me professor de gin&aacute;stica, para tornar mais &uacute;teis<br \/>\n    os meus talentos, e, por fim, fui sargento de bombeiros em Paris. Tenho at&eacute;<br \/>\n    em meu curr&iacute;culo alguns inc&ecirc;ndios not&aacute;veis. Mas j&aacute;<br \/>\n    fazem cinco anos que deixei a Fran&ccedil;a e que, desejando gozar a vida<br \/>\n    de fam&iacute;lia, sou criado de quarto na Inglaterra. Ora, achando-me sem<br \/>\n    coloca&ccedil;&atilde;o e tendo sabido que Mr. Phileas Fogg era a pessoa mais<br \/>\n    exata e mais sedent&aacute;ria do Reino Unido, aqui me apresentei em sua casa<br \/>\n    na esperan&ccedil;a de viver tranq&uuml;ilo e at&eacute; esquecer este nome<br \/>\n    de Passepartout&#8230;.<br \/>\n    &mdash; Passepartout me conv&eacute;m, respondeu o gentleman. Voc&ecirc; me<br \/>\n    foi recomendado. Tenho boas refer&ecirc;ncias a seu respeito. Conhece quais<br \/>\n    s&atilde;o as minhas condi&ccedil;&otilde;es?.<br \/>\n    &mdash; Sim, senhor..<br \/>\n    &mdash; Bem. Que horas tem?.<br \/>\n    &mdash; Onze e vinte, respondeu Passepartout, tirando das profundezas do bolso<br \/>\n    do colete um enorme rel&oacute;gio de prata.<br \/>\n    &mdash; Est&aacute; atrasado, disse Mr. Fogg.<br \/>\n    &mdash; O senhor me desculpe, mas &eacute; imposs&iacute;vel.<br \/>\n    &mdash; Atrasado em quatro minutos. N&atilde;o importa. Basta constatar a<br \/>\n    diferen&ccedil;a. Portanto, a partir deste momento, onze e vinte e nove da<br \/>\n    manh&atilde;, desta quarta feira 2 de outubro de 1872, fica ao meu servi&ccedil;o.<br \/>\n    Dito isto, Phileas Fogg levantou-se, pegou seu chap&eacute;u com a m&atilde;o<br \/>\n    esquerda, colocou-o na cabe&ccedil;a com um movimento autom&aacute;tico e<br \/>\n    desapareceu sem acrescentar palavra.<br \/>\n    Passepartout ouviu a porta da rua se fechar uma primeira vez: era seu novo<br \/>\n    patr&atilde;o que sa&iacute;a; depois uma segunda vez: era seu predecessor,<br \/>\n    James Forster, que por sua vez partia.<br \/>\n    Passepartout ficou s&oacute; na casa de Saville Row.<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">CAP&Iacute;TULO II<\/a><\/h4>\n<p> EM QUE PASSEPARTOUT SE CONVENCE DE QUE FINALMENTE ENCONTROU O SEU IDEAL\n  <\/p>\n<p>&mdash; Palavra, disse consigo Passepartout, ainda um pouco estonteado a<br \/>\n    princ&iacute;pio, conheci no museu de Madame Tussaud criaturas t&atilde;o<br \/>\n    vivas quanto o meu novo patr&atilde;o!<br \/>\n    Conv&eacute;m dizer que as &ldquo;criaturas&rdquo; de Madame Tussaud s&atilde;o<br \/>\n    figuras de cera, muita visitadas em Londres, e &agrave;s quais, na verdade,<br \/>\n    apenas falta a palavra.<br \/>\n    Durante os poucos instantes em que acabava de entrever Phileas Fogg, Passepartont<br \/>\n    tinha r&aacute;pida, mas cuidadosamente, examinado seu futuro patr&atilde;o.<br \/>\n    Era um sujeito que parecia ter quarenta anos, de aspecto nobre e belo, estatura<br \/>\n    elevada, que n&atilde;o mostrava sequer um ligeiro excesso de peso, cabelos<br \/>\n    e su&iacute;&ccedil;as louros, testa lisa sem rugas nas t&ecirc;mporas, face<br \/>\n    mais p&aacute;lida que colorida, dentes magn&iacute;ficos. Parecia possuir<br \/>\n    no mais alto grau o que os fisionomistas chamam de &ldquo;o repouso na a&ccedil;&atilde;o&rdquo;,<br \/>\n    faculdade comum a todos os que fazem mais obras que barulho. Calmo, fleum&aacute;tico,<br \/>\n    olhar l&iacute;mpido, p&aacute;lpebra im&oacute;vel, era o tipo acabado desses<br \/>\n    ingleses de sangue frio que se encontram freq&uuml;entemente no Reino Unido,<br \/>\n    e cuja atitude um pouco acad&ecirc;mica Angelica Kauffmann maravilhosamente<br \/>\n    reproduziu nas suas telas. Visto nos diversos atos de sua exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    este gentleman dava a id&eacute;ia de um indiv&iacute;duo bem equilibrado<br \/>\n    em todas as suas partes, muito refletido, t&atilde;o perfeito como um cron&ocirc;metro<br \/>\n    de Leroy ou de Earnshaw. &Eacute; que, efetivamente, Phileas Fogg era a exatid&atilde;o<br \/>\n    personificada, o que se via claramente pela &ldquo;express&atilde;o dos seus<br \/>\n    p&eacute;s e de suas m&atilde;os&rdquo;, porque no homem, assim como nos animais,<br \/>\n    os pr&oacute;prios membros s&atilde;o em si &oacute;rg&atilde;os expressivos<br \/>\n    das paix&otilde;es.<br \/>\n    Phileas Fogg era desses indiv&iacute;duos, matematicamente exatos, que, jamais<br \/>\n    apressados e sempre prontos, s&atilde;o econ&ocirc;micos em seus passos e<br \/>\n    em seus movimentos. N&atilde;o dava uma passada a mais, indo sempre pelo caminho<br \/>\n    mais curto. N&atilde;o perdia tempo, sequer um instante, a olhar para o teto.<br \/>\n    N&atilde;o se permitia um gesto sup&eacute;rfluo. Ningu&eacute;m nunca o tinha<br \/>\n    visto comovido ou perturbado. Era o homem menos apressado do mundo, mas chegava<br \/>\n    sempre a tempo. Compreender-se-&aacute;, portanto, a raz&atilde;o por que<br \/>\n    vivia s&oacute;, e por assim dizer fora de toda rela&ccedil;&atilde;o social.<br \/>\n    Sabia que na vida &eacute; preciso ter em conta os atritos, e como os atritos<br \/>\n    atrasam, para os evitar, n&atilde;o entrava em contato com ningu&eacute;m.<br \/>\n    Quanto a Jean, vulgo Passepartout, um verdadeiro Parisiense de Paris, nos<br \/>\n    cinco anos que habitava a Inglaterra e ali exercia em Londres a profiss&atilde;o<br \/>\n    de criado de quarto, em v&atilde;o procurara um patr&atilde;o a quem pudesse<br \/>\n    se afei&ccedil;oar.<br \/>\n    Passepartout n&atilde;o era um desses Frontins ou Mascarilles que, empertigados,<br \/>\n    nariz ao vento, olhar firme, olho seco, n&atilde;o passam de impudentes velhacos.<br \/>\n    N&atilde;o. Passepartout era um rapaz excelente, fisionomia am&aacute;vel,<br \/>\n    l&aacute;bios um pouco salientes, sempre prontos para degustar ou para acariciar,<br \/>\n    um ser doce e servi&ccedil;al, com uma dessas cabe&ccedil;as redondas que<br \/>\n    a gente gosta de ver sobre os ombros de um amigo. Tinha os olhos azuis, a<br \/>\n    cor do rosto animada, a figura suficientemente gorda para que pudesse ver<br \/>\n    seus joelhos, peito amplo, talhe forte, uma musculatura vigorosa e possu&iacute;a<br \/>\n    uma for&ccedil;a herc&uacute;lea que os exerc&iacute;cios da sua mocidade<br \/>\n    tinham desenvolvido muito. Seus cabelos castanhos eram um pouco revoltos.<br \/>\n    Se os escultores da Antiguidade conheciam dezoito maneiras de compor a cabeleira<br \/>\n    de Minerva, Passepartout s&oacute; conhecia uma para arranjar a sua: tr&ecirc;s<br \/>\n    passadas de pente, e estava penteado.<br \/>\n    Dizer que o car&aacute;ter expansivo deste rapaz haver-se-ia de harmonizar<br \/>\n    com o de Phileas Fogg, &eacute; coisa que a prud&ecirc;ncia mais elementar<br \/>\n    n&atilde;o permite dizer. Seria Passepartout o criado funcionalmente exato<br \/>\n    que convinha a seu patr&atilde;o? S&oacute; o tempo diria. Depois de ter tido,<br \/>\n    como se sabe, uma mocidade bastante vagabunda, aspirava ao repouso. Tendo<br \/>\n    ouvido gabar o metodismo ingl&ecirc;s e a proverbial frieza dos gentlemen,<br \/>\n    veio procurar fortuna na Inglaterra. Mas, at&eacute; ent&atilde;o, a sorte<br \/>\n    lhe fora ingrata. N&atilde;o pudera se enraizar em parte alguma. Servira em<br \/>\n    dez casas. Em todas, os patr&otilde;es eram caprichosos, extravagantes, e<br \/>\n    gostavam, ou de correr aventuras, ou correr pa&iacute;ses &mdash; o que n&atilde;o<br \/>\n    poderia convir a Passepartout. Seu &uacute;ltimo patr&atilde;o, o jovem Lord<br \/>\n    Longsferry, membro do Parlamento, depois de passar suas noites nos &ldquo;oysters-rooms&rdquo;<br \/>\n    de Haymarket, voltava com muita freq&uuml;&ecirc;ncia para casa sobre os ombros<br \/>\n    dos policemen. Passepartout, que queria acima de tudo ter respeito por seu<br \/>\n    patr&atilde;o, arriscou algumas respeitosas observa&ccedil;&otilde;es, que<br \/>\n    foram mal recebidas, e rompeu. Neste meio tempo soube que Phileas Fogg, esquire,<br \/>\n    procurava um criado. Tirou informa&ccedil;&otilde;es a respeito deste gentleman.<br \/>\n    Um personagem cuja exist&ecirc;ncia era t&atilde;o regular, que n&atilde;o<br \/>\n    trasnoitava, que n&atilde;o viajava, que n&atilde;o se ausentava jamais, sequer<br \/>\n    um dia, certamente lhe conviria. Apresentou-se e foi admitido nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que sabemos.<br \/>\n    Passepartout &mdash; ao soarem onze e meia &mdash; achava-se pois s&oacute;<br \/>\n    na casa de Saville Row. Come&ccedil;ou logo a inspe&ccedil;&atilde;o. Percorreu-a<br \/>\n    do por&atilde;o ao s&oacute;t&atilde;o. Esta casa limpa, arranjada, severa,<br \/>\n    puritana, bem organizada para o servi&ccedil;o dom&eacute;stico, agradou-lhe.<br \/>\n    Produziu nele o efeito de uma bela casca de caracol, mas de uma casca iluminada<br \/>\n    e aquecida a g&aacute;s, porque ali o hidrog&ecirc;nio carburado bastava para<br \/>\n    todas as necessidades de luz e de calor. Passepartout encontrou sem dificuldade,<br \/>\n    no segundo pavimento, o quarto que lhe fora destinado. Ele lhe convinha. Campainhas<br \/>\n    el&eacute;tricas e tubos ac&uacute;sticos punham o quarto em comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com os apartamentos de baixo e do primeiro andar. Sobre a chamin&eacute; havia<br \/>\n    um rel&oacute;gio de p&ecirc;ndulo el&eacute;trico que estava acertado pelo<br \/>\n    do quarto de dormir de Phileas Fogg, e os dois aparelhos marcavam ao mesmo<br \/>\n    tempo, o mesmo segundo.<br \/>\n    &mdash; Conv&eacute;m-me, conv&eacute;m-me! disse consigo Passepartout.<br \/>\n    Reparou tamb&eacute;m, no seu quarto, em um cartaz colocado acima do rel&oacute;gio.<br \/>\n    Era o programa do servi&ccedil;o quotidiano. Compreendia &mdash; desde as<br \/>\n    oito da manh&atilde;, hora regulamentar a que Phileas Fogg se levantava, at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s onze e meia, hora em que sa&iacute;a para ir almo&ccedil;ar no Reform<br \/>\n    Club &mdash; todos os detalhes do servi&ccedil;o, o ch&aacute; e as torradas<br \/>\n    das oito e vinte e tr&ecirc;s, a &aacute;gua para a barba das nove e trinta<br \/>\n    e sete, o penteado das dez menos vinte, etc. Depois, das onze e meia da manh&atilde;<br \/>\n    at&eacute; &agrave; meia noite &mdash; hora em que metodicamente o gentleman<br \/>\n    se deitava &mdash; tudo estava anotado, previsto, regulamentado. Passepartout<br \/>\n    encontrou grande satisfa&ccedil;&atilde;o em meditar este programa e em gravar<br \/>\n    os seus diversos artigos no esp&iacute;rito.<br \/>\n    Quanto ao guarda-roupa do patr&atilde;o, estava ele bem fornecido e maravilhosamente<br \/>\n    disposto. Cada cal&ccedil;a, casaco ou colete tinha um n&uacute;mero de ordem<br \/>\n    reproduzido num registro de entradas e de sa&iacute;das, indicando a data<br \/>\n    em que, segundo a esta&ccedil;&atilde;o, estas vestimentas deveriam ser por<br \/>\n    seu turno usadas. Mesma regulamenta&ccedil;&atilde;o para os sapatos.<br \/>\n    Em uma palavra, nesta casa de Saville Row, que deveria ter sido o templo da<br \/>\n    desordem na &eacute;poca do ilustre mas dissipado Sheridan &mdash; havia uma<br \/>\n    mob&iacute;lia confort&aacute;vel, anunciando um belo descanso. Nada de biblioteca,<br \/>\n    nada de livros, que seriam sem utilidade para Mr. Fogg, posto que o Reform<br \/>\n    Club colocava &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o duas bibliotecas, uma<br \/>\n    consagrada &agrave;s letras, outra ao direito e &agrave; pol&iacute;tica.<br \/>\n    No quarto de dormir, um cofre-forte de tamanho m&eacute;dio, cuja constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o punha a salvo tanto de inc&ecirc;ndio quanto de roubo. Nada de armas na<br \/>\n    casa, nenhum utens&iacute;lio de ca&ccedil;a ou de guerra. Tudo ali denunciava<br \/>\n    os h&aacute;bitos mais pac&iacute;ficos.<br \/>\n    Ap&oacute;s ter examinado esta habita&ccedil;&atilde;o em detalhes, Passepartout<br \/>\n    esfregou as m&atilde;os, o semblante dilatou-se-lhe e repetiu alegremente:<br \/>\n    &mdash; Conv&eacute;m-me! &eacute; disso que gosto! Entender-nos-emos perfeitamente,<br \/>\n    Mr. Fogg e eu! Um homem caseiro e regular! Um verdadeiro rob&ocirc;! Ora,<br \/>\n    n&atilde;o me importa servir um rob&ocirc;!<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">CAP&Iacute;TULO III<\/a><\/h4>\n<p> TRAVA-SE UMA CONVERSA QUE PODER&Aacute; CUSTAR CARO A PHILEAS FOGG. <\/p>\n<p>Phileas Fogg havia sa&iacute;do de sua casa de Saville Row &agrave;s onze<br \/>\n    e meia, e, depois de ter posto quinhentas e setenta e cinco vezes seu p&eacute;<br \/>\n    direito diante do seu p&eacute; esquerdo e quinhentos e setenta e seis vezes<br \/>\n    o seu p&eacute; esquerdo diante do seu p&eacute; direito, chegou ao Reform<br \/>\n    Club, vasto edif&iacute;cio, constru&iacute;do em Pall Mall, que n&atilde;o<br \/>\n    custou menos de tr&ecirc;s milh&otilde;es para ser edificado.<br \/>\n    Phileas Fogg dirigiu-se logo para a sala de refei&ccedil;&otilde;es, cujas<br \/>\n    nove janelas se abriam sobre um belo jardim com &aacute;rvores j&aacute; douradas<br \/>\n    pelo outono. Ali, tomou lugar &agrave; mesa habitual onde o esperava o seu<br \/>\n    couvert. Seu almo&ccedil;o compunha-se de um hors-d&rsquo;oeuvre de peixe<br \/>\n    cozido temperado com um &ldquo;reading sauce&rdquo;, de um roast-beef escarlate<br \/>\n    guarnecido com cogumelos, de uma empada recheada com pedacinhos de ruibarbo<br \/>\n    e groselhas verdes, de um peda&ccedil;o de chester &mdash; tudo isto regado<br \/>\n    com algumas ta&ccedil;as de um ch&aacute; excelente, especialmente selecionado<br \/>\n    pelo encarregado do Reform Club.<br \/>\n    Ao meio dia e quarenta e sete minutos, o gentleman levantou-se e dirigiu-se<br \/>\n    para o grande sal&atilde;o, compartimento magn&iacute;fico, ornado com pinturas<br \/>\n    ricamente enquadradas. Ali um criado entregou-lhe o Times ainda por abrir,<br \/>\n    e que Phileas Fogg desdobrou com uma firmeza que denotava grande h&aacute;bito<br \/>\n    em t&atilde;o dif&iacute;cil opera&ccedil;&atilde;o. A leitura deste jornal<br \/>\n    ocupou Phileas Fogg at&eacute; &agrave;s tr&ecirc;s e quarenta e cinco, e<br \/>\n    a do Standard &mdash; que lhe sucedeu &mdash; prolongou-se at&eacute; perto<br \/>\n    da hora do jantar. Esta refei&ccedil;&atilde;o fez-se nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do almo&ccedil;o, com a adi&ccedil;&atilde;o de &ldquo;royal british sauce&rdquo;.<br \/>\n    &Agrave;s seis menos vinte, o gentleman reapareceu no grande sal&atilde;o<br \/>\n    e absorveu-se na leitura do Morning Chonicle.<br \/>\n    Meia hora mais tarde, alguns membros do Reform Club chegaram e achegaram-se<br \/>\n    &agrave; lareira, onde ardia um fogo de hulha. Eram os parceiros habituais<br \/>\n    de Mr. Phileas Fogg, como ele ac&eacute;rrimos jogadores de whist: o engenheiro<br \/>\n    Andrew Stuart, os banqueiros John Sullivan e Samuel Fallentin, o cervejeiro<br \/>\n    Thomas Flanagan, Gauthier Ralph, um dos administradores do Banco da Inglaterra<br \/>\n    &mdash; pessoas ricas e consideradas, mesmo neste club que contava entre seus<br \/>\n    membros as sumidades da ind&uacute;stria e da finan&ccedil;a.<br \/>\n    &mdash; Ora bem, Ralph, perguntou Thomas Flanagan, a quantas anda esse caso<br \/>\n    de roubo?<br \/>\n    &mdash; Nesta altura, respondeu Andrew Stuart, o Banco pode dizer adeus ao<br \/>\n    dinheiro.<br \/>\n    &mdash; Espero, pelo contr&aacute;rio, disse Gauthier Ralph, que pegaremos<br \/>\n    o autor do roubo. Inspetores de pol&iacute;cia, pessoas muito h&aacute;beis,<br \/>\n    foram enviados para a Am&eacute;rica e a Europa, para todos os portos de embarque<br \/>\n    e desembarque, e vai ser dif&iacute;cil para este senhor escapar-lhes.<br \/>\n    &mdash; Ent&atilde;o t&ecirc;m a descri&ccedil;&atilde;o do ladr&atilde;o?<br \/>\n    perguntou Andrew Stuart.<br \/>\n    &mdash; Em primeiro lugar, n&atilde;o &eacute; um ladr&atilde;o, respondeu<br \/>\n    seriamente Gauthier Ralph.<br \/>\n    &mdash; Como, n&atilde;o &eacute; um ladr&atilde;o, um ind&iacute;viduo que<br \/>\n    subtraiu cinq&uuml;enta e cinco mil libras em papel-moeda (1 milh&atilde;o<br \/>\n    375.000 francos)?<br \/>\n    &mdash; N&atilde;o, respondeu Gauthier Ralph.<br \/>\n    &mdash; &Eacute; ent&atilde;o um industrial? disse John Sullivan.<br \/>\n    &mdash; O Morning Chronicle assegura que &eacute; um gentleman.<br \/>\n    Quem deu esta resposta n&atilde;o foi outro sen&atilde;o Phileas Fogg, cuja<br \/>\n    cabe&ccedil;a emergiu por entre as ondas de papel acumulado &agrave; sua volta.<br \/>\n    Ao mesmo tempo, Phileas Fogg cumprimentou os seus colegas, que lhe retribu&iacute;ram<br \/>\n    o cumprimento.<br \/>\n    O fato do qual falavam, que os diversos jornais do Reino Unido discutiam com<br \/>\n    ardor, passara-se tr&ecirc;s dias antes, 29 de setembro. Um ma&ccedil;o de<br \/>\n    bank-notes, totalizando a enorme soma de cinq&uuml;enta e cinco mil libras,<br \/>\n    fora tirado da frente do guich&ecirc; do caixa principal do Banco da Inglaterra.<br \/>\n    A quem se admirasse de que um tal roubo pudesse realizar-se com tanta facilidade,<br \/>\n    o vice-diretor Gauthier Ralph limitar-se-ia a responder que naquele exato<br \/>\n    momento o caixa estava ocupado em fazer o lan&ccedil;amento de uma receita<br \/>\n    de tr&ecirc;s shillings e seis pence, e que n&atilde;o se pode estar de olho<br \/>\n    em tudo.<br \/>\n    Devemos, por&eacute;m, aqui observar &mdash; o que torna o fato mais explic&aacute;vel<br \/>\n    &mdash; que este admir&aacute;vel estabelecimento, o &ldquo;Bank of England&rdquo;,<br \/>\n    parece importar-se ao extremo com a dignidade do p&uacute;blico. Nada de grades,<br \/>\n    nada de porteiros, nada de guardas! O ouro, a prata, as bank-notes est&atilde;o<br \/>\n    expostas livremente e por assim dizer &agrave; merc&ecirc; do primeiro rec&eacute;m-chegado.<br \/>\n    N&atilde;o se poderia colocar em suspei&ccedil;&atilde;o a probidade de ningu&eacute;m.<br \/>\n    Um dos melhores observadores dos costumes ingleses at&eacute; conta o seguinte:<br \/>\n    Numa das salas do Banco, onde se encontrava um dia, teve a curiosidade de<br \/>\n    ver mais de perto um lingote de ouro, pesando de sete a oito libras, que estava<br \/>\n    exposto na mesa do caixa; pegou o lingote, examinou-o, passou-o para um seu<br \/>\n    vizinho, este passou-o para um outro, e o lingote, de m&atilde;o em m&atilde;o,<br \/>\n    foi at&eacute; ao fundo de um corredor escuro, e s&oacute; meia hora depois<br \/>\n    voltou ao seu lugar, sem que o caixa levantasse sequer a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Mas, em 29 de setembro, as coisas n&atilde;o se passaram assim. O ma&ccedil;o<br \/>\n    de bank-notes n&atilde;o voltou, e quando o magn&iacute;fico rel&oacute;gio,<br \/>\n    posto acima do &ldquo;drawing-office&rdquo;, anunciou &agrave;s cinco o fechamento<br \/>\n    dos escrit&oacute;rios, o Banco da Inglaterra n&atilde;o tinha sen&atilde;o<br \/>\n    que passar cinq&uuml;enta e cinco mil libras pela conta dos ganhos e perdas.<br \/>\n    Clara e devidamente reconhecido o roubo, agentes e &ldquo;detetives&rdquo;,<br \/>\n    escolhidos dentre os mais h&aacute;beis, foram enviados para os principais<br \/>\n    portos, para Liverpool, para Glasgow, Havre, Suez, Brindisi, Nova York, etc.,<br \/>\n    com a promessa, no caso de sucesso, de uma gratifica&ccedil;&atilde;o de duas<br \/>\n    mil libras (50.000 F) e cinco por cento da quantia que fosse recuperada. Esperando<br \/>\n    as informa&ccedil;&otilde;es que o inqu&eacute;rito imediatamente instaurado<br \/>\n    deveria fornecer, estes inspetores tinham por miss&atilde;o observar escrupulosamente<br \/>\n    todos os viajantes que chegassem ou partissem.<br \/>\n    Ora, precisamente, como dizia o Morning Chronicle, havia raz&otilde;es para<br \/>\n    se supor que o autor do roubo n&atilde;o fazia parte de nenhuma das associa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ladr&otilde;es da Inglaterra. Durante o dia 29 de setembro, um gentleman<br \/>\n    bem apessoado, de boas maneiras, ar distinto, havia sido notado, passeando<br \/>\n    pela sala dos pagamentos, teatro do roubo. O inqu&eacute;rito permitira reproduzir<br \/>\n    com bastante exatid&atilde;o a descri&ccedil;&atilde;o deste gentleman, que<br \/>\n    foi imediatamente enviada a todos os detetives do Reino Unido e do continente.<br \/>\n    Alguns cr&eacute;dulos &mdash; Gauthier Ralph entre eles &mdash; julgavam-se<br \/>\n    pois com base para esperar que o ladr&atilde;o n&atilde;o escaparia.<br \/>\n    Como se pode imaginar, este fato estava na ordem do dia em Londres e em toda<br \/>\n    a Inglaterra. Discutia-se, apaixonava-se a favor ou contra as probabilidades<br \/>\n    do &ecirc;xito da pol&iacute;cia metropolitana. N&atilde;o &eacute; de estranhar,<br \/>\n    pois, ouvir os membros do Reform Club tratarem da mesma quest&atilde;o, ainda<br \/>\n    mais que um dos vice-diretores do Banco achava-se entre eles.<br \/>\n    O digno Gauthier Ralph n&atilde;o queria duvidar do resultado das buscas,<br \/>\n    calculando que a gratifica&ccedil;&atilde;o oferecida deveria estimular e<br \/>\n    muito o zelo e a intelig&ecirc;ncia dos agentes. Mas o seu colega, Andrew<br \/>\n    Stuart, estava longe de compartilhar desta confian&ccedil;a. A discuss&atilde;o<br \/>\n    continuou, pois, entre os gentlemen, que se tinham sentado a uma mesa de whist,<br \/>\n    Stuart em frente de Flanagan; Fallentin diante de Phileas Fogg. Durante o<br \/>\n    jogo, os jogadores n&atilde;o falavam, mas entre as rodadas a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interrompida recome&ccedil;ava com mais anima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &mdash; Eu sustento, disse Andrew Stuart, que as probabilidades s&atilde;o<br \/>\n    a favor do ladr&atilde;o, que n&atilde;o pode deixar de ser um homem muito<br \/>\n    astuto!<br \/>\n    &mdash; Ora, vamos! respondeu Ralph, n&atilde;o h&aacute; mais um s&oacute;<br \/>\n    pa&iacute;s em que ele possa se refugiar.<br \/>\n    &mdash; Por exemplo!<br \/>\n    &mdash; Para onde quer que ele v&aacute;?<br \/>\n    &mdash; N&atilde;o sei, respondeu Andrew Stuart, mas, afinal, a terra &eacute;<br \/>\n    bastante vasta.<br \/>\n    &mdash; Era outrora&#8230; disse &agrave; meia voz Phileas Fogg. Depois: &mdash;<br \/>\n    &Eacute; sua vez de cortar, acrescentou apresentando as cartas a Thomas Flanagan.<br \/>\n    A discuss&atilde;o foi suspensa durante a rodada. Mas logo Andrew Stuart a<br \/>\n    retomou, dizendo:<br \/>\n    &mdash; Como, outrora! A terra diminuiu, por acaso?<br \/>\n    &mdash; Sem d&uacute;vida, respondeu Gauthier Ralph. Sou da opini&atilde;o<br \/>\n    de Mr. Fogg. A terra diminuiu, pois a percorremos agora dez vezes mais depressa<br \/>\n    do que h&aacute; cem anos. E &eacute; isto o que, no caso de que nos ocupamos,<br \/>\n    tornar&aacute; as buscas mais r&aacute;pidas.<br \/>\n    &mdash; E tornar&aacute; mais f&aacute;cil tamb&eacute;m a fuga do ladr&atilde;o!<br \/>\n    &mdash; &Eacute; sua vez de jogar, senhor Stuart! disse Phileas Fogg.<br \/>\n    Mas o incr&eacute;dulo Stuart n&atilde;o estava convencido, e, a partida conclu&iacute;da:<br \/>\n    &mdash; &Eacute; preciso confessar, senhor Ralph, retomou, que achou um modo<br \/>\n    engra&ccedil;ado de dizer que a terra diminuiu! Porque atualmente se faz sua<br \/>\n    volta em tr&ecirc;s meses&#8230;<br \/>\n    &mdash; Em oitenta dias apenas, disse Phileas Fogg.<br \/>\n    &mdash; Com efeito, senhores, acrescentou John Sullivan, oitenta dias, desde<br \/>\n    que a se&ccedil;&atilde;o entre Rothal e Alaabad foi aberta sobre o &ldquo;Great-Indian<br \/>\n    peninsular railway&rdquo;, e eis aqui o c&aacute;lculo feito pelo Morning<br \/>\n    Chronicle:<\/p>\n<p>De Londres a Suez pelo Monte Cenis e Brindisi, railways e paquetes&#8230;.7 dias<br \/>\n    De Suez a Bombaim, paquete&#8230;.13 &quot;<br \/>\n    De Bombaim a Calcut&aacute;, railway&#8230;.3 &quot;<br \/>\n    De Calcut&aacute; a Hong Kong (China), paquete&#8230;.13 &quot;<br \/>\n    De Hong Kong a Yokohama (Jap&atilde;o), paquete&#8230;.6 &quot;<br \/>\n    De Yokohama a S&atilde;o Francisco, paquete&#8230;.22 &quot;<br \/>\n    De S&atilde;o Francisco a Nova York, railroad&#8230;.7 &quot;<br \/>\n    De Nova York a Londres, paquete e railway&#8230;.9 &quot;<br \/>\n    Total&#8230;&#8230;80 dias<\/p>\n<p>&mdash; Sim, oitenta dias! exclamou Andrew Stuart, que por distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cortou um trunfo; mas sem incluir o mau tempo, os ventos contr&aacute;rios,<br \/>\n    os naufr&aacute;gios, os descarrilhamentos, etc.<br \/>\n    &mdash; Tudo inclu&iacute;do, respondeu Phileas Fogg continuando a jogar,<br \/>\n    porque, desta vez, a discuss&atilde;o n&atilde;o respeitava mais o whist.<br \/>\n    &mdash; Mesmo se os hindus ou os &iacute;ndios levantarem os rails! exclamou<br \/>\n    Andrew Stuart, se pararem os trens, se roubarem os carros, se escalpelarem<br \/>\n    os viajantes!<br \/>\n    &mdash; Tudo inclu&iacute;do, respondeu Phileas Fogg, que, pondo seu jogo<br \/>\n    na mesa, acrescentou:<br \/>\n    &mdash; Dois trunfos.<br \/>\n    Andrew Stuart, a quem tocava a vez de &ldquo;dar&rdquo;, embaralhou as cartas<br \/>\n    dizendo:<br \/>\n    &mdash; Teoricamente, tem raz&atilde;o, senhor Fogg, mas na pr&aacute;tica&#8230;<br \/>\n    &mdash; Na pr&aacute;tica tamb&eacute;m, senhor Stuart.<br \/>\n    &mdash; Bem que gostaria de ver.<br \/>\n    &mdash; Depende s&oacute; do senhor. Partamos juntos.<br \/>\n    &mdash; Deus me livre! exclamou Stuart, mas bem que apostaria quatro mil libras<br \/>\n    (100.000 F) que uma tal viagem, feita nestas condi&ccedil;&otilde;es, &eacute;<br \/>\n    impossivel.<br \/>\n    &mdash; Muito poss&iacute;vel, pelo contr&aacute;rio, respondeu Mr. Fogg.<br \/>\n    &mdash; Pois ent&atilde;o, fa&ccedil;a-a!<br \/>\n    &mdash; A volta ao mundo em oitenta dias?<br \/>\n    &mdash; Sim.<br \/>\n    &mdash; Adoraria.<br \/>\n    &mdash; Quando?<br \/>\n    &mdash; Em seguida.<br \/>\n    &mdash; &Eacute; loucura! exclamou Andrew Stuart, que come&ccedil;ava a se<br \/>\n    incomodar com a insist&ecirc;ncia do seu parceiro. Basta! vamos jogar.<br \/>\n    &mdash; Torne ent&atilde;o a dar, respondeu Phileas Fogg, porque foi mal dado.<br \/>\n    Andrew Stuart retomou as cartas com m&atilde;o febril; depois, s&uacute;bito,<br \/>\n    colocando-as sobre a mesa:<br \/>\n    &mdash; Bem, bem, sim, senhor Fogg, disse, sim, aposto quatro mil libras!&#8230;<br \/>\n    &mdash; Meu caro Stuart, disse Fallentin, acalme-se. Isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    &agrave; s&eacute;rio.<br \/>\n    &mdash; Quando digo aposto, respondeu Andrew Stuart, &eacute; sempre &agrave;<br \/>\n    s&eacute;rio.<br \/>\n    &mdash; Seja! disse Mr. Fogg. Depois, voltando-se para os seus colegas:<br \/>\n    &mdash; Tenho vinte mil libras (500.000 F) depositadas no Baring. Arriscava-as<br \/>\n    de bom grado&#8230;<br \/>\n    &mdash; Vinte mil libras! exclamou John Sullivan. Vinte mil libras que uma<br \/>\n    demora imprevista pode faz&ecirc;-lo perder!<br \/>\n    &mdash; O imprevisto n&atilde;o existe, respondeu simplesmente Phileas Fogg.<br \/>\n    &mdash; Mas, senhor Fogg, este lapso de oitenta dias n&atilde;o &eacute; calculado<br \/>\n    sen&atilde;o como um m&iacute;nimo de tempo!<br \/>\n    &mdash; Um m&iacute;nimo bem empregado &eacute; suficiente para tudo.<br \/>\n    &mdash; Mas para n&atilde;o o ultrapassar, &eacute; preciso saltar matematicamente<br \/>\n    dos railways para os paquetes, e dos paquetes para as estradas de ferro!<br \/>\n    &mdash; Saltarei matematicamente.<br \/>\n    &mdash; Est&aacute; brincando!<br \/>\n    &mdash; Um bom ingl&ecirc;s n&atilde;o brinca jamais, quando se trata de uma<br \/>\n    coisa t&atilde;o s&eacute;ria quanto uma aposta, respondeu Phileas Fogg. Eu<br \/>\n    aposto vinte mil libras contra quem quiser que farei a volta ao mundo em oitenta<br \/>\n    dias ou menos, ou seja mil novecentas e vinte horas ou cento e quinze mil<br \/>\n    e duzentos minutos. Aceitam?<br \/>\n    &mdash; Aceitamos, reponderam os senhores Stuart, Fallentin, Sullivan, Flanagan<br \/>\n    e Ralph, ap&oacute;s terem se consultado.<br \/>\n    &mdash; Bom, disse Mr. Fogg. O trem para Dover parte &agrave;s oito e quarenta<br \/>\n    e cinco. Tom&aacute;-lo-ei.<br \/>\n    &mdash; Esta noite mesmo? perguntou Stuart.<br \/>\n    &mdash; Esta noite mesmo, respondeu Phileas Fogg. Portanto, acrescentou ele<br \/>\n    consultando um calend&aacute;rio de bolso, j&aacute; que hoje &eacute; quarta<br \/>\n    feira 2 de outubro, deverei estar de volta a Londres, a este mesmo sal&atilde;o<br \/>\n    do Reform Club, no s&aacute;bado 21 de dezembro, &agrave;s oito e quarenta<br \/>\n    e cinco da noite, caso contr&aacute;rio as vinte mil libras depositadas atualmente<br \/>\n    no meu cr&eacute;dito com os Irm&atilde;os Baring lhes pertencer&atilde;o<br \/>\n    de fato e de direito, senhores. &mdash; Eis aqui um cheque de tal soma.<br \/>\n    Um contrato particular de aposta foi feito e assinado na hora pelos seis interessados.<br \/>\n    Phileas Fogg tinha permanecido frio. N&atilde;o tinha certamente apostado<br \/>\n    para ganhar, e s&oacute; arriscava as vinte mil libras &mdash; metade da sua<br \/>\n    fortuna &mdash; porque previa que poderia ter que despender a outra metade<br \/>\n    na realiza&ccedil;&atilde;o deste dif&iacute;cil, para n&atilde;o dizer inexecut&aacute;vel,<br \/>\n    projeto. Quanto aos seus advers&aacute;rios, eles, pareciam comovidos, n&atilde;o<br \/>\n    por causa da quantia em jogo, mas porque tinham certo escr&uacute;pulo de<br \/>\n    lutar em tais condi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Soaram sete horas. Ofereceram a Mr. Fogg suspender o whist, para que ele pudesse<br \/>\n    fazer os seus preparativos de partida.<br \/>\n    &mdash; Estou sempre preparado! respondeu o impass&iacute;vel gentleman dando<br \/>\n    as cartas:<br \/>\n    &mdash; O trunfo &eacute; de copas, disse ele. &Eacute; sua vez de jogar,<br \/>\n    senhor Stuart.<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">CAP&Iacute;TULO IV<\/a><\/h4>\n<p> EM QUE PHILEAS FOGG SURPREENDE PASSEPARTOUT, SEU CRIADO. <\/p>\n<p>&Agrave;s sete e vinte e cinco, Phileas Fogg, ap&oacute;s ter ganho uma vintena<br \/>\n    de guin&eacute;us no whist, despediu-se dos seus nobres colegas, e deixou<br \/>\n    o Reform Club. &Agrave;s sete e cinq&uuml;enta, abria a porta de sua casa<br \/>\n    e voltava ao lar.<br \/>\n    Passepartout, que tinha conscienciosamente estudado seu programa, ficou bastante<br \/>\n    surpreso vendo Mr. Fogg, culp&aacute;vel de inexatid&atilde;o, aparecer a<br \/>\n    esta hora ins&oacute;lita. Segundo o cartaz, o locat&aacute;rio de Saville<br \/>\n    Row n&atilde;o deveria recolher-se sen&atilde;o &agrave; meia noite em ponto.<br \/>\n    Phileas Fogg assim que chegou subiu ao seu quarto, depois chamou:<br \/>\n    &mdash; Passepartout.<br \/>\n    Passepartout n&atilde;o respondeu. Este chamamento n&atilde;o poderia ser<br \/>\n    dirigido a ele. N&atilde;o era ainda a hora.<br \/>\n    &mdash; Passepartout, repetiu Mr. Fogg sem elevar em nada a voz.<br \/>\n    Passepartout apareceu.<br \/>\n    &mdash; &Eacute; a segunda vez que chamo, disse Mr. Fogg.<br \/>\n    &mdash; Mas n&atilde;o &eacute; meia noite, respondeu Passepartout, com seu<br \/>\n    rel&oacute;gio na m&atilde;o.<br \/>\n    &mdash; Eu sei, retomou Phileas Fogg, e n&atilde;o o recrimino. Partimos em<br \/>\n    dez minutos para Dover e Calais.<br \/>\n    Uma esp&eacute;cie de careta esbo&ccedil;ou-se sobre a redonda face do franc&ecirc;s.<br \/>\n    Era evidente que tinha ouvido mal.<br \/>\n    &mdash; O senhor se desloca? perguntou ele.<br \/>\n    &mdash; Sim, respondeu Phileas Fogg. Vamos fazer a volta ao mundo.<br \/>\n    Passepartout, olhos arregalados, as p&aacute;lpebras e as sobrancelhas levantadas,<br \/>\n    os bra&ccedil;os ca&iacute;dos, o corpo encurvado, apresentava naquele momento<br \/>\n    todos os sintomas do espanto levado &agrave; estupefa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &mdash; A volta ao mundo! murmurou ele.<br \/>\n    &mdash; Em oitenta dias, respondeu Mr. Fogg. Por isso, n&atilde;o temos um<br \/>\n    instante a perder.<br \/>\n    &mdash; Mas as malas?&#8230; disse Passepartout, que balan&ccedil;ava inconscientemente<br \/>\n    sua cabe&ccedil;a para a direita e para a esquerda.<br \/>\n    &mdash; Nada de malas. Uma sacola de viagem s&oacute;. Dentro, duas camisas<br \/>\n    de l&atilde;, tr&ecirc;s pares de roupa de baixo. O mesmo para si. Faremos<br \/>\n    compras pelo caminho. Traga para baixo meu mackintosh e minha manta de viagem.<br \/>\n    V&aacute; com bons cal&ccedil;ados. Apesar de que andaremos pouco ou nada.<br \/>\n    V&aacute;.<br \/>\n    Passepartout teria desejado responder. N&atilde;o p&ocirc;de. Saiu do quarto<br \/>\n    de Mr. Fogg, subiu ao seu, tombou sobre uma cadeira, e empregando uma frase<br \/>\n    bem vulgar de seu pa&iacute;s:<br \/>\n    &mdash; Ah! bem que se diz, essa &eacute; demais, demais! E eu que queria<br \/>\n    descansar tranq&uuml;ilo!&#8230;<br \/>\n    E, maquinalmente, fez seus preparativos de partida. A volta ao mundo em oitenta<br \/>\n    dias! Estaria lidando com um doido? N&atilde;o&#8230; Seria uma piada? Iriam at&eacute;<br \/>\n    Dover, tudo bem. A Calais, que seja. Afinal, isto n&atilde;o poderia desgostar<br \/>\n    o bravo rapaz, que, h&aacute; cinco anos, n&atilde;o pisava o solo p&aacute;trio.<br \/>\n    Talvez fossem at&eacute; Paris, e, por certo, reveria com prazer a grande<br \/>\n    capital. Mas, certamente, um gentleman t&atilde;o zeloso em seus passos pararia<br \/>\n    por ali&#8230; Sim, sem d&uacute;vida, mas n&atilde;o era menos verdade que ele<br \/>\n    partia, deslocava-se, este gentleman, t&atilde;o caseiro at&eacute; ent&atilde;o!<br \/>\n    &Agrave;s oito horas, Passepartout tinha preparado a modesta sacola que continha<br \/>\n    seu guarda-roupa e o de seu patr&atilde;o; depois, com o esp&iacute;rito ainda<br \/>\n    perturbado, deixou seu quarto, fechou a porta cuidadosamonte, e encontrou<br \/>\n    Mr. Fogg.<br \/>\n    Mr. Fogg estava pronto. Levava sob o bra&ccedil;o o Bradshaw continental railway<br \/>\n    steam transit and general guide, que deveria fornecer-lhe todas as informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    necess&aacute;rias &agrave; viagem. Tomou a sacola das m&atilde;os de Passepartout,<br \/>\n    abriu-a, e deixou cair dentro um belo ma&ccedil;o dessas belas bank-notes<br \/>\n    que t&ecirc;m curso em todos os pa&iacute;ses.<br \/>\n    &mdash; N&atilde;o se esqueceu de nada? perguntou ele.<br \/>\n    &mdash; De nada, senhor.<br \/>\n    &mdash; O mackintosh e minha manta?<br \/>\n    &mdash; Est&atilde;o aqui.<br \/>\n    &mdash; Bem, pegue a sacola.<br \/>\n    Mr. Fogg entregou o sacola a Passepartout.<br \/>\n    &mdash; Cuidado com ela, acrescentou Mr. Fogg. Tem vinte mil libras a&iacute;<br \/>\n    dentro (500.000 F).<br \/>\n    A sacola ia quase caindo das m&atilde;os de Passepartout, como se as vinte<br \/>\n    mil libras fossem de ouro e pesassem demais.<br \/>\n    O patr&atilde;o e o criado desceram, e a porta da rua foi fechada com duas<br \/>\n    voltas de chave.<br \/>\n    No fim da Saville Row havia uma esta&ccedil;&atilde;o de carruagens. Phileas<br \/>\n    Fogg e seu criado subiram em um cab que se dirigiu rapidamente para a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Charing Cross, &agrave; qual vem ter um dos ramais do South Eastern Railway.<br \/>\n    &Agrave;s oito e vinte, o cab parava diante da esta&ccedil;&atilde;o. Passepartout<br \/>\n    desceu. Seu patr&atilde;o seguiu-o e pagou ao cocheiro.<br \/>\n    Neste momento, uma pobre mendicante, levando uma crian&ccedil;a pela m&atilde;o,<br \/>\n    p&eacute;s nus na lama, um chap&eacute;u na cabe&ccedil;a, velho e estragado,<br \/>\n    do qual pendia uma deplor&aacute;vel pluma, com um chale esfarrapado sobre<br \/>\n    os andrajos, aproximou-se de Mr. Fogg e pediu-lhe esmola.<br \/>\n    Mr. Fogg tirou de seu bolso os vinte guin&eacute;us que tinha ganho no whist,<br \/>\n    e, dando-os &agrave; mendiga:<br \/>\n    &mdash; Tome l&aacute;, boa mulher, estou contente por t&ecirc;-la encontrado!<br \/>\n    Depois foi em frente.<br \/>\n    Passepartout teve uma sensa&ccedil;&atilde;o de umidade em volta da menina<br \/>\n    do olho. O patr&atilde;o acabara de conquistar seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mr. Fogg e ele entraram em seguida no grande &aacute;trio da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    L&aacute;, Phileas Fogg deu a Passepartout ordem para comprar dois bilhetes<br \/>\n    de primeira classe para Paris. Ao voltar-se, deparou com os seus cinco colegas<br \/>\n    do Reform Club.<br \/>\n    &mdash; Senhores, parto, disse ele, e os diversos vistos carimbados num passaporte<br \/>\n    que levo para este fim permitir-lhes-&atilde;o, na volta, controlar meu roteiro.<br \/>\n    &mdash; Oh! senhor Fogg, respondeu polidamente Gauthier Ralph, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; preciso. Confiamos em sua honra de gentleman!<br \/>\n    &mdash; &Eacute; melhor assim, disse Mr. Fogg.<br \/>\n    &mdash; N&atilde;o se esque&ccedil;a de que deve voltar?&#8230; observou Andrew<br \/>\n    Stuart.<br \/>\n    &mdash; Em oitenta dias, respondeu Mr. Fogg, s&aacute;bado 21 de dezembro<br \/>\n    de 1872, &agrave;s oito e quarenta e cinco da noite. At&eacute; a volta, meus<br \/>\n    senhores.<br \/>\n    &Agrave;s oito e quarenta, Phileas Fogg e seu criado tomaram lugar no mesmo<br \/>\n    compartimento. &Agrave;s oito e quarenta e cinco, soou um apito e o trem p&ocirc;s-se<br \/>\n    a caminho.<br \/>\n    A noite estava negra. Ca&iacute;a uma chuva fininha. Phileas Fogg recostado<br \/>\n    no seu canto n&atilde;o dizia palavra. Passepartout, ainda estonteado, apertava<br \/>\n    maquinalmente contra si a sacola com as bank-notes.<br \/>\n    Mas o trem n&atilde;o ultrapassara Sydenham, quando Passepartout soltou um<br \/>\n    verdadeiro grito de desespero!<br \/>\n    &mdash; O que &eacute; que h&aacute;? perguntou Mr. Fogg.<br \/>\n    &mdash; &Eacute; que&#8230; que&#8230; na minha precipita&ccedil;&atilde;o&#8230; minha<br \/>\n    perturba&ccedil;&atilde;o&#8230; esqueci&#8230;<br \/>\n    &mdash; De qu&ecirc;?<br \/>\n    &mdash; De apagar o bico de g&aacute;s do meu quarto.<br \/>\n    &mdash; Tudo bem, meu rapaz, respondeu friamente Mr. Fogg, fica queimando<br \/>\n    g&aacute;s por sua conta.<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\"> CAP&Iacute;TULO V<\/a><\/h4>\n<p>EM QUE APARECE NA PRA&Ccedil;A DE LONDRES UM NOVO VALOR<\/p>\n<p>Phileas Fogg, deixando Londres, nem fazia id&eacute;ia, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    da grande repercuss&atilde;o que sua partida iria provocar. A not&iacute;cia<br \/>\n    da aposta espalhou-se a princ&iacute;pio no Reform Club, e produziu uma verdadeira<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o entre os membros do respeit&aacute;vel c&iacute;rculo.<br \/>\n    Depois, do club, esta como&ccedil;&atilde;o passou para os jornais, por interm&eacute;dio<br \/>\n    dos reporters, e dos jornais ao p&uacute;blico de Londres e de todo o Reino<br \/>\n    Unido.<br \/>\n    A &ldquo;quest&atilde;o da volta ao mundo&rdquo; foi comentada, discutida,<br \/>\n    dissecada, com tanta paix&atilde;o e ardor como se se tratasse de uma nova<br \/>\n    quest&atilde;o do Alabama. Uns tomaram o partido de Phileas Fogg, outros &mdash;<br \/>\n    e formaram logo uma maioria consider&aacute;vel &mdash; pronunciaram-se contra<br \/>\n    ele. Esta volta ao mundo a ser realizada, n&atilde;o em teoria e sobre o papel,<br \/>\n    neste m&iacute;nimo de tempo, com os meios de comunica&ccedil;&atilde;o atualmente<br \/>\n    em uso, n&atilde;o era apenas imposs&iacute;vel, era insensato!<br \/>\n    O Times, o Standard, o Evening Star, o Morning Chronicle, e vinte outros jornais<br \/>\n    de grande circula&ccedil;&atilde;o, declararam-se contra Mr. Fogg. S&oacute;,<br \/>\n    o Daily Telegraph o apoiou em certa medida. Phileas Fogg foi geralmente tratado<br \/>\n    como man&iacute;aco, louco, e seus colegas do Reform-Club censurados por terem<br \/>\n    aceito esta aposta, que denunciava um enfraquecimento nas faculdades mentais<br \/>\n    de seu autor.<br \/>\n    Artigos extremamente passionais, mas l&oacute;gicos, apareceram sobre a quest&atilde;o.<br \/>\n    &Eacute; conhecido o interesse que se d&aacute; na Inglaterra a tudo que tange<br \/>\n    a geografia. Assim n&atilde;o havia sequer um leitor, n&atilde;o importa de<br \/>\n    que classe, que n&atilde;o devorasse as colunas consagradas ao caso Phileas<br \/>\n    Fogg.<br \/>\n    Durante os primeiros dias, alguns esp&iacute;ritos audaciosos &mdash; as mulheres<br \/>\n    principalmente &mdash; estiveram a seu favor, ainda mais depois do Illustrated<br \/>\n    London News ter publicado o seu retrato copiado da fotografia que tinha nos<br \/>\n    arquivos do Reform Club. Certos gentlemen ousavam dizer: &ldquo;Ora! ora!<br \/>\n    afinal, por que n&atilde;o? T&ecirc;m-se visto coisas mais extraordin&aacute;rias!&rdquo;<br \/>\n    Eram principalmente os leitores do Daily Telegraph. Mas se percebeu logo que<br \/>\n    o pr&oacute;prio jornal come&ccedil;ava a fraquejar.<br \/>\n    Com efeito, um longo artigo apareceu em 7 de outubro no Boletim da Sociedade<br \/>\n    Real de Geografia. Ele examinou a quest&atilde;o sob todos os pontos de vista,<br \/>\n    e demonstrou claramente a loucura da empreitada. Segundo este artigo, tudo<br \/>\n    estava contra o viajante, obst&aacute;culos humanos, obst&aacute;culos naturais.<br \/>\n    Para ter &ecirc;xito neste projeto, seria preciso admitir uma concord&acirc;ncia<br \/>\n    miraculosa de horas de partida e de chegada, concord&acirc;ncia que n&atilde;o<br \/>\n    existiria, que n&atilde;o poderia existir. A rigor, e na Europa, trecho relativamente<br \/>\n    med&iacute;ocre do percurso total, pode-se contar com a chegada dos trens<br \/>\n    &agrave; hora certa; mas quando eles gastam tr&ecirc;s dias para atravessar<br \/>\n    a &Iacute;ndia, sete dias para atravessar os Estados Unidos, poder-se-ia confiar<br \/>\n    &agrave; sua exatid&atilde;o os elementos de tal problema? E os acidentes<br \/>\n    de m&aacute;quina, os descarrilhamentos, as colis&otilde;es, o mau tempo,<br \/>\n    a acumula&ccedil;&atilde;o de neve, tudo isto n&atilde;o estava contra Phileas<br \/>\n    Fogg? Nos paquetes, n&atilde;o se encontraria ele, durante o inverno, &agrave;<br \/>\n    merc&ecirc; dos p&eacute;s de vento ou dos nevoeiros? Seria por acaso t&atilde;o<br \/>\n    raro os navios mais velozes das linhas transoce&acirc;nicas sofrerem atrasos<br \/>\n    de dois ou tr&ecirc;s dias? Ora, bastaria um atraso, um s&oacute;, para que<br \/>\n    a cadeia de comunica&ccedil;&otilde;es fosse irreparavelmente truncada. Se<br \/>\n    Phileas Fogg perdesse, nem que fosse por poucas horas, a partida de um paquete,<br \/>\n    seria for&ccedil;ado a esperar o paquete seguinte, e assim sua viagem estaria<br \/>\n    comprometida irrevogavelmente.<br \/>\n    O artigo teve muita repercuss&atilde;o. Quase todos os jornais o reproduziram,<br \/>\n    e as a&ccedil;&otilde;es Phileas Fogg baixaram singularmente. <\/p>\n<p>Nos primeiros dias que se seguiram &agrave; partida do gentleman, importantes<br \/>\n    neg&oacute;cios se tinham ligado &agrave; sorte de sua empreitada. Sabe-se<br \/>\n    como &eacute; o mundo dos apostadores na Inglaterra, mundo mais inteligente,<br \/>\n    mais esclarecido que o dos jogadores. Apostar est&aacute; no temperamento<br \/>\n    ingl&ecirc;s. Assim, n&atilde;o s&oacute; os diversos membros do Reform Club<br \/>\n    fizeram apostas consider&aacute;veis a favor ou contra Phileas Fogg, mas o<br \/>\n    p&uacute;blico em geral entrou no movimento. Phileas Fogg foi inscrito, como<br \/>\n    um cavalo de corrida, numa esp&eacute;cie de studbook. Fizeram dele tamb&eacute;m<br \/>\n    uma a&ccedil;&atilde;o de bolsa, que foi imediatamente cotada na pra&ccedil;a<br \/>\n    de Londres. Procurava-se, oferecia-se Phileas Fogg&rdquo; a pre&ccedil;o fixo<br \/>\n    ou com &aacute;gio, e fizeram-se com ela neg&oacute;cios colossais. Mas cinco<br \/>\n    dias ap&oacute;s sua partida, ap&oacute;s o artigo do Boletim da Sociedade<br \/>\n    de Geografia, as ofertas come&ccedil;aram a afluir. Phileas Fogg baixou. Ofereceram-na<br \/>\n    em lotes. Comprada a princ&iacute;pio por cinco, depois por dez, n&atilde;o<br \/>\n    a compravam afinal sen&atilde;o por vinte, por cinq&uuml;enta, por cem! S&oacute;<br \/>\n    um partid&aacute;rio lhe restou. Foi o velho paral&iacute;tico, lord Albermale.<br \/>\n    O digno gentleman, pregado na sua poltrona, teria dado a fortuna para fazer<br \/>\n    a volta ao mundo, mesmo em dez anos! e apostou cinco mil libras (100.000 F)<br \/>\n    em Phileas Fogg. E quando, ao mesmo tempo em que lhe demonstravam a insensatez<br \/>\n    do projeto, lhe mostravam sua inutilidade, contentava-se em responder: Se<br \/>\n    a coisa &eacute; fact&iacute;vel, conv&eacute;m que seja um ingl&ecirc;s o<br \/>\n    primeiro a faz&ecirc;-la! Ora, as coisas estavam assim, os partid&aacute;rios<br \/>\n    de Phileas Fogg ficavam cada vez mais raros; todo mundo, e n&atilde;o sem<br \/>\n    raz&atilde;o, punha-se contra ele; j&aacute; n&atilde;o tomavam apostas sen&atilde;o<br \/>\n    a cento e cinq&uuml;enta, a duzentos contra um, quando, sete dias ap&oacute;s<br \/>\n    sua partida, um incidente, completamente inesperado, fez com que j&aacute;<br \/>\n    as n&atilde;o tomassem de modo algum.<\/p>\n<p> Com efeito, neste dia, por volta das nove da noite, o diretor da pol&iacute;cia<br \/>\n    metropolitana havia recebido um despacho telegr&aacute;fico que dizia: <\/p>\n<p>Suez para Londres rowan, comiss&aacute;rio de pol&iacute;cia, administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    central, scotland yard Sigo ladr&atilde;o de Banco, Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Enviem imediatamente mandado de pris&atilde;o para Bombaim (&Iacute;ndia<br \/>\n    inglesa).<\/p>\n<p> Fix, detetive.<\/p>\n<p>O efeito deste despacho foi imediato. O respeit&aacute;vel gentleman desapareceu<br \/>\n    para dar lugar ao ladr&atilde;o de bank-notes. Sua fotografia, arquivada no<br \/>\n    Reform Club com as de todos os seus colegas, foi examinada. Ela reproduzia<br \/>\n    tra&ccedil;o por tra&ccedil;o o homem cuja descri&ccedil;&atilde;o tinha sido<br \/>\n    fornecida pelo inqu&eacute;rito. Lembraram-se do que a exist&ecirc;ncia de<br \/>\n    Phileas Fogg tinha de misterioso, seu isolamento, sua partida s&uacute;bita,<br \/>\n    e pareceu evidente que este personagem, pretextando uma viagem de volta ao<br \/>\n    mundo e apoiando-a numa aposta insensata, tinha tido por fim &uacute;nico<br \/>\n    despistar os agentes da pol&iacute;cia inglesa.<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">CAP&Iacute;TULO VI<\/a><\/h4>\n<p><b>EM QUE O AGENTE FIX MOSTRA UMA IMPACI&Ecirc;NCIA BEM LEG&Iacute;TIMA<\/b><\/p>\n<p>Eis em que circunst&acirc;ncias tinha sido expedido o despacho a respeito<br \/>\n    do senhor Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Na quarta feira 9 de outubro, esperava-se pelas onze da manh&atilde;, em<br \/>\n    Suez, o paquete Mongolia, da companhia peninsular e oriental, steamer de ferro<br \/>\n    a h&eacute;lice e com spardeck, deslocando duas mil e oitocentas toneladas<br \/>\n    e possuindo uma for&ccedil;a nominal de quinhentos cavalos. O Mongolia fazia<br \/>\n    regularmente as viagens de Brindisi a Bombaim pelo canal de Suez. Era um dos<br \/>\n    barcos mais velozes da Companhia, e as velocidades regularmentares, ou seja<br \/>\n    dez milhas por hora de Brindisi a Suez, e nove milhas e cinq&uuml;enta e tr&ecirc;s<br \/>\n    cent&eacute;simos de Suez a Bombaim, ele sempre as tinha ultrapassado.<\/p>\n<p> Esperando a chegada do Mongolia, dois homens passeavam sobre o cais no meio<br \/>\n    da multid&atilde;o de ind&iacute;genas e estrangeiros que afluem a esta cidade,<br \/>\n    outrora uma aldeia, &agrave; qual a grande obra do senhor de Lesseps assegura<br \/>\n    um porvir consider&aacute;vel.<\/p>\n<p> Destes dois homens, um era o agente consular do Reino Unido, estabelecido<br \/>\n    em Suez, que a despeito dos defavor&aacute;veis progn&oacute;sticos do governo<br \/>\n    brit&acirc;nico e das sinistras predi&ccedil;&otilde;es do engenheiro Stephenson<br \/>\n    via diariamente navios ingleses atravessarem o canal, abreviando assim em<br \/>\n    metade o antigo caminho da Inglaterra &agrave;s &Iacute;ndias pelo cabo de<br \/>\n    Boa Esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> O outro era um homenzinho magro, de aspecto bastante inteligente, nervoso,<br \/>\n    que contra&iacute;a com uma persist&ecirc;ncia not&aacute;vel os m&uacute;sculos<br \/>\n    superciliares. Atrav&eacute;s de seus longos c&iacute;lios brilhava um olho<br \/>\n    muito vivo, mas cujo ardor sabia extinguir quando queria. Neste momento, dava<br \/>\n    alguns sinais de impaci&ecirc;ncia, indo, vindo, n&atilde;o conseguindo ficar<br \/>\n    parado.<\/p>\n<p> Este homem chamava-se Fix, e era um desses detetives&rdquo; ou agentes da<br \/>\n    pol&iacute;cia inglesa, que tinham sido enviados para os diversos portos,<br \/>\n    depois do roubo cometido ao banco da Inglaterra. Este tal de Fix deveria vigiar<br \/>\n    com o maior cuidado todos os viajantes que tomassem a rota de Suez, e se algum<br \/>\n    lhe parecesse suspeito, segui-lo &agrave; espera de um mandado de deten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Precisamente, h&aacute; dois dias, Fix havia recebido do comiss&aacute;rio<br \/>\n    da pol&iacute;cia metropolitana a descri&ccedil;&atilde;o do autor presumido<br \/>\n    do roubo. Era a do personagem distinto e bem trajado que tinha sido visto<br \/>\n    na sala de pagamentos do Banco.<\/p>\n<p> O detetive, muito estimulado evidentemente pela polpuda gratifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prometida em caso de sucesso, esperava por isso com uma impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    f&aacute;cil de se compreender a chegada do Mongolia.<\/p>\n<p> E o senhor diz, senhor c&ocirc;nsul, perguntou pela d&eacute;cima vez, que<br \/>\n    este barco n&atilde;o pode tardar? N&atilde;o, Mr. Fix, respondeu o c&ocirc;nsul.<br \/>\n    Ele foi avistado ontem ao largo de Port Said, e os cento e sessenta quil&ocirc;metros<br \/>\n    do canal n&atilde;o significam nada para ele. Repito que o Mongolia sempre<br \/>\n    ganhou a gratifica&ccedil;&atilde;o de vinte e cinco libras que o governo<br \/>\n    d&aacute; para cada avan&ccedil;o de vinte e quatro horas sobre o tempo regulamentar.<\/p>\n<p> Este paquete vem diretamente de Brindisi? perguntou Fix.<\/p>\n<p> De Brindisi mesmo, onde pegou o malote das &Iacute;ndias, de Brindisi que<br \/>\n    deixou s&aacute;bado &agrave;s cinco da tarde. Por isso tenha paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    ele n&atilde;o tarda a chegar. Mas n&atilde;o sei realmente como, com a descri&#038;ccediccedil;&atilde;o<br \/>\n    que recebeu, poder&aacute; reconhecer seu homem, se &eacute; que ele est&aacute;<br \/>\n    a bordo do Mongolia.<\/p>\n<p> Senhor c&ocirc;nsul, respondeu Fix, esse tipo de gente, a gente mais percebe<br \/>\n    do que reconhece. Faro &eacute; o que &eacute; preciso ter, e o faro &eacute;<br \/>\n    como um sentido especial para o qual concorrem o ouvido, a vista e o olfato.<br \/>\n    J&aacute; prendi em minha vida mais de um desses gentlemen, e contanto que<br \/>\n    o meu ladr&atilde;o esteja a bordo, asseguro-lhe que n&atilde;o me escapar&aacute;<br \/>\n    das m&atilde;os.<\/p>\n<p> Assim o desejo, senhor Fix, porque se trata de um roubo importante.<\/p>\n<p> Um roubo magn&iacute;fico, respondeu o agente entusiasmado. Cinq&uuml;enta<br \/>\n    e cinco mil libras! N&atilde;o temos com freq&uuml;&ecirc;ncia tal sorte grande!<br \/>\n    Os ladr&otilde;es tornam-se mesquinhos! A ra&ccedil;a dos Sheppard decai!<br \/>\n    Deixa-se prender atualmente por quaisquer shillings! Senhor Fix, respondeu<br \/>\n    o c&ocirc;nsul, fala de tal maneira que lhe desejo sinceramente sucesso; mas,<br \/>\n    repito, nas condi&ccedil;&otilde;es em que est&aacute;, creio que n&atilde;o<br \/>\n    seja dif&iacute;cil que ele escape. Bem sabe que, pela descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que recebeu, este ladr&atilde;o se parece totalmente com um homem honesto.<\/p>\n<p> Senhor c&ocirc;nsul, respondeu dogmaticamente o inspetor de pol&iacute;cia,<br \/>\n    os grandes ladr&otilde;es sempre se parecem com gente honesta. Compreende<br \/>\n    bem que os que t&ecirc;m cara de tratante s&oacute; t&ecirc;m um caminho a<br \/>\n    seguir, o de permanecerem probos, sem o que acabariam presos. As fisionomias<br \/>\n    honestas, s&atilde;o estas sobretudo as que se precisa desmascarar. Trabalho<br \/>\n    dif&iacute;cil, concordo, e que n&atilde;o &eacute; mais profiss&atilde;o,<br \/>\n    &eacute; arte.<\/p>\n<p> V&ecirc;-se que o supracitado Fix n&atilde;o carecia de uma certa dose de<br \/>\n    amor pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> Neste interim, o cais se animara pouco a pouco. Marinheiros de diversas<br \/>\n    nacionalidades, comerciantes, corretores, carregadores, fel&aacute;s aflu&iacute;am<br \/>\n    para a&iacute;. A chegada do paquete estava evidentemente pr&oacute;xima.<\/p>\n<p> O tempo estava bem bonito, mas o ar frio, pelo vento do leste. Alguns minaretes<br \/>\n    recortavam-se por sobre a cidade sob os p&aacute;lidos raios do sol. Para<br \/>\n    o sul, um molhe de dois mil metros de comprimento estendia-se como um bra&ccedil;o<br \/>\n    sobre o ancoradouro de Suez. &Agrave; superf&iacute;cie do mar Vermelho deslizavam<br \/>\n    diversos barcos de pesca ou de cabotagem, alguns dos quais conservaram em<br \/>\n    suas fei&ccedil;&otilde;es o elegante gabarito da galera antiga.<\/p>\n<p> Sempre circulando entre este populacho, Fix, por um h&aacute;bito da profiss&atilde;o,<br \/>\n    encarava os transeuntes com uma olhada r&aacute;pida.<\/p>\n<p> Eram ent&atilde;o duas e meia.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o chega nunca, este paquete! exclamou ao ouvir soar o rel&oacute;gio<br \/>\n    do porto.<\/p>\n<p> N&atilde;o pode estar longe, respondeu o c&ocirc;nsul.<\/p>\n<p> Por quanto tempo ele ficar&aacute; em Suez? perguntou Fix.<\/p>\n<p> Quatro horas. O tempo de embarcar seu carv&atilde;o. De Suez a Aden, na<br \/>\n    extremidade do mar Vermelho, s&atilde;o trezentas e dez milhas, e &eacute;<br \/>\n    preciso fazer provis&atilde;o de combust&iacute;vel.<\/p>\n<p> E de Suez esse barco vai diretamente a Bombaim? perguntou Fix.<\/p>\n<p> Diretamente, sem parada.<\/p>\n<p> Ora bem, disse Fix, se o ladr&atilde;o tomou esta rota e este barco, deve<br \/>\n    entrar nos seus planos desembarcar em Suez, para alcan&ccedil;ar por uma outra<br \/>\n    via as possess&otilde;es holandesas ou francesas da &Aacute;sia. Deve saber<br \/>\n    muito bem que n&atilde;o estaria em seguran&ccedil;a na &Iacute;ndia, que<br \/>\n    &eacute; uma terra inglesa.<\/p>\n<p> A menos que seja um homem muito esperto, respondeu o c&ocirc;nsul. Bem sabe,<br \/>\n    um criminoso ingl&ecirc;s est&aacute; sempre melhor escondido em Londres do<br \/>\n    que no estrangeiro.<\/p>\n<p> Depois desta reflex&atilde;o, que deu muito o que refletir ao agente, o<br \/>\n    c&ocirc;nsul voltou ao seu escrit&oacute;rio, situado a pouca dist&acirc;ncia.<br \/>\n    O inspetor de pol&iacute;cia ficou s&oacute;, tomado por uma impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    nervosa, com o pressentimento bastante bizarro de que o seu ladr&atilde;o<br \/>\n    deveria achar-se a bordo do Mongolia e na verdade, se este velhaco tinha sa&iacute;do<br \/>\n    da Inglaterra com a inten&ccedil;&atilde;o de ganhar o Novo Mundo, a rota<br \/>\n    das &Iacute;ndias, menos vigiada ou mais dif&iacute;cil de vigiar que a do<br \/>\n    Atl&acirc;ntico, deveria ter merecido sua prefer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Fix n&atilde;o foi deixado muito tempo entregue &agrave;s suas reflex&otilde;es.<br \/>\n    Apitos agudos anunciaram a chegada do paquete. Toda a horda dos carregadores<br \/>\n    e dos fel&aacute;s se precipitou para o cais em um tumulto um pouco inquietante<br \/>\n    para os membros e as roupas dos passageiros. Uma dezena de bat&eacute;is deslocou-se<br \/>\n    do rio e dirigiu-se para frente do Mongolia.<\/p>\n<p> Bem depressa o casco gigantesco do Mongolia foi avistado, passando entre<br \/>\n    as margens do canal, e eram onze horas quando o steamer ancorou, ao mesmo<br \/>\n    tempo que o seu vapor sa&iacute;a com grande barulho pelos tubos de escapamento.<\/p>\n<p> Os passageiros eram muitos &agrave; bordo. Alguns ficaram sobre o spardeck<br \/>\n    a contemplar o panorama pitoresco da cidade; mas a maioria desembarcou nos<br \/>\n    bat&eacute;is que tinham vindo acostar-se ao Mongolia.<\/p>\n<p> Fix examinava escrupulosamente todos os que punham os p&eacute;s na terra.<\/p>\n<p> Neste momento, um deles aproximou-se dele, depois de ter vigorosamente repelido<br \/>\n    os fel&aacute;s que o assaltavam com suas ofertas de servi&ccedil;o, e perguntou-lhe<br \/>\n    muito polidamente se ele poderia indicar o escrit&oacute;rio do agente consular<br \/>\n    ingl&ecirc;s. Ao mesmo tempo este passageiro apresentava um passaporte ao<br \/>\n    qual desejava sem d&uacute;vida fazer apor o visto brit&acirc;nico.<\/p>\n<p> Fix, instintivamente, pegou o passaporte e, com um r&aacute;pido golpe de<br \/>\n    vista, examinou-o.<\/p>\n<p> Por pouco n&atilde;o fez um movimento involunt&aacute;rio. O papel tremeu-lhe<br \/>\n    na m&atilde;o. A descri&ccedil;&atilde;o no passaporte era id&ecirc;ntica<br \/>\n    &agrave; que recebera do comiss&aacute;rio da pol&iacute;cia metropolitana.<\/p>\n<p> Este passaporte n&atilde;o &eacute; o seu? disse ele ao passageiro.<\/p>\n<p> N&atilde;o, respondeu este, &eacute; o passaporte do meu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> E seu patr&atilde;o? Ficou no navio.<\/p>\n<p> Mas, retomou o agente, &eacute; preciso que ele se apresente pessoalmente<br \/>\n    no escrit&oacute;rio do consulado para comprovar sua identidade.<\/p>\n<p> O que! &eacute; necess&aacute;rio? Indispens&aacute;vel.<\/p>\n<p> E onde fica este escrit&oacute;rio? L&aacute;, no canto da pra&ccedil;a,<br \/>\n    respondeu o inspetor, apontando para uma casa a duzentos passos dali.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, vou procurar meu patr&atilde;o, que por certo n&atilde;o vai<br \/>\n    gostar nada deste inc&ocirc;modo.<\/p>\n<p> L&aacute; no alto, o passageiro cumprimentou Fix e voltou para bordo do<br \/>\n    vapor.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">CAP&Iacute;TULO VII<\/a><\/h4>\n<p> <b>QUE COMPROVA MAIS UMA VEZ A INUTILIDADE DOS PASSAPORTES EM MAT&Eacute;RIA<br \/>\n    POLICIAL<\/b><\/p>\n<p>O agente de pol&iacute;cia voltou a descer ao cais e dirigiu-se rapidamente<br \/>\n    para o escrit&oacute;rio do c&ocirc;nsul. No mesmo instante, e por seu pedido<br \/>\n    de urg&ecirc;ncia, foi levado a este funcion&aacute;rio.<\/p>\n<p> Senhor c&ocirc;nsul, disse ele sem outro pre&acirc;mbulo, tenho boas raz&otilde;es<br \/>\n    para acreditar que o nosso homem est&aacute; no Mongolia.<\/p>\n<p> E Fix contou o que se passara entre o criado e ele a prop&oacute;sito do<br \/>\n    passaporte.<\/p>\n<p> Bem, Mr. Fix, respondeu o c&ocirc;nsul, n&atilde;o me incomoda ver a cara<br \/>\n    deste pilantra. Mas talvez n&atilde;o se apresente em meu escrit&oacute;rio,<br \/>\n    se &eacute; quem sup&otilde;e ser. Um ladr&atilde;o n&atilde;o gosta de deixar<br \/>\n    vest&iacute;gios da sua passagem, e depois, a formalidade dos passaportes<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; mais obrigat&oacute;ria.<\/p>\n<p> Senhor c&ocirc;nsul, respondeu o agente, se for um homem esperto como &eacute;<br \/>\n    de se imaginar, vir&aacute;.<\/p>\n<p> Visar seu passaporte? Sim. Os passaportes s&oacute; servem para estorvar<br \/>\n    as pessoas de bem e para facilitar a fuga dos salafr&aacute;rios. Afirmo-lhe<br \/>\n    que o dele estar&aacute; em ordem, mas espero que o senhor n&atilde;o o visar&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> E por que n&atilde;o? Se o passaporte estiver em ordem, respondeu o c&ocirc;nsul,<br \/>\n    n&atilde;o tenho direito de recusar meu visto.<\/p>\n<p> Entretanto, senhor c&ocirc;nsul, &eacute; preciso que eu retenha aqui este<br \/>\n    homem at&eacute; receber de Londres um mandado de pris&atilde;o.<\/p>\n<p> Ah! isso, senhor Fix, &eacute; assunto seu, respondeu o c&ocirc;nsul, mas<br \/>\n    eu, eu n&atilde;o posso&#8230;<\/p>\n<p> O c&ocirc;nsul n&atilde;o concluiu a frase. Neste momento batiam &agrave;<br \/>\n    porta de seu gabinete, e o secret&aacute;rio introduziu dois estrangeiros,<br \/>\n    um dos quais era precisamente o criado que falara com o detetive.<\/p>\n<p> Eram, com efeito, o patr&atilde;o e o criado. O patr&atilde;o apresentou<br \/>\n    o seu passaporte, pedindo laconicamente ao c&ocirc;nsul que o visasse.<\/p>\n<p> Este pegou o passaporte e o leu atentamente, enquanto Fix, num canto do<br \/>\n    gabinete, observava ou melhor devorava o estrangeiro com os olhos.<\/p>\n<p> Quando o c&ocirc;nsul acabou sua leitura: &Eacute; Phileas Fogg, esquire?<br \/>\n    perguntou.<\/p>\n<p> Sim, senhor, respondeu o gentleman.<\/p>\n<p> E este homem &eacute; seu criado? Sim. Um franc&ecirc;s chamado Passepartout.<\/p>\n<p> Vem de Londres? Sim.<\/p>\n<p> E para onde vai? Para Bombaim.<\/p>\n<p> Bem, senhor. Sabe que esta formalidade do visto &eacute; in&uacute;til,<br \/>\n    e que j&aacute; n&atilde;o exigimos a apresenta&ccedil;&atilde;o do passaporte?<br \/>\n    Sei, senhor, respondeu Phileas Fogg, mas desejo comprovar com a seu visto<br \/>\n    minha passagem por Suez.<\/p>\n<p> Que seja, senhor.<\/p>\n<p> E o c&ocirc;nsul, tendo assinado e datado o passaporte, lhe ap&ocirc;s seu<br \/>\n    sinete. Mr. Fogg pagou os direitos de visto, e, depois de ter cumprimentado<br \/>\n    friamente, saiu, seguido por seu criado.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o? perguntou o inspetor.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, respondeu o c&ocirc;nsul, tem cara de um homem inteiramente<br \/>\n    honesto! &Eacute; poss&iacute;vel, respondeu Fix, mas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    disso que se trata. N&atilde;o acha, senhor c&ocirc;nsul, que este fleum&aacute;tico<br \/>\n    gentleman se parece fei&ccedil;&atilde;o por fei&ccedil;&atilde;o com o homem<br \/>\n    do qual recebi a descri&ccedil;&atilde;o? Concordo, mas bem sabe, todas as<br \/>\n    descri&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Manterei a mente aberta, respondeu Fix. O criado parece menos indecifr&aacute;vel<br \/>\n    que o patr&atilde;o. Demais, &eacute; um franc&ecirc;s, n&atilde;o deixar&aacute;<br \/>\n    de falar. At&eacute; mais, senhor c&ocirc;nsul.<\/p>\n<p> Dito isto, o agente saiu e se p&ocirc;s &agrave; procura de Passepartout.<\/p>\n<p> Enquanto isso, Mr. Fogg, saindo da casa consular, tinha se dirigido para<br \/>\n    o cais. L&aacute;, deu algumas ordens ao seu criado; depois embarcou num batel,<br \/>\n    voltou para bordo do Mongolia e entrou em seu camarote. Pegou ent&atilde;o<br \/>\n    a agenda, que tinha as seguintes anota&ccedil;&otilde;es: Sa&iacute;da de<br \/>\n    Londres, quarta feira 2 de outubro, 8 e 45 minutos da noite.<\/p>\n<p> Chegada a Paris, quinta feira 3 de outubro, 8 e 40 minutos da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Chegada a Turim pelo Monte Cenis, sexta feira 4 de outubro, 6 e 35 minutos<br \/>\n    da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Sa&iacute;da de Turin, sexta feira, 7 e 20 minutos da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Chegada a Brindisi, s&aacute;bado 5 de outubro, 4 da tarde.<\/p>\n<p> Embarque no Mongolia, s&aacute;bado, 5 da tarde.<\/p>\n<p> Chegada a Suez, quarta feira 9 de outubro, 11 da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Total das horas gastas at&eacute; aqui: 158 1\/2, em dias: 6 dias e 1\/2.&rdquo;<br \/>\n    Mr. Fogg anotou estas datas sobre um roteiro disposto em colunas, que indicava<br \/>\n    de 2 de outubro a 21 de dezembro o m&ecirc;s, a data, o dia, as chegadas previstas<br \/>\n    e as chegadas efetivas a cada ponto principal, Paris, Brindisi, Suez, Bombaim,<br \/>\n    Calcut&aacute;, Cingapura, Hong Kong, Yokohama, S&atilde;o Francisco, Nova<br \/>\n    York, Liverpool, Londres, e que lhe permitia calcular o ganho obtido ou a<br \/>\n    perda sofrida em cada trecho do percurso.<\/p>\n<p> Este met&oacute;dico roteiro manteria assim o registro de tudo, e Mr. Fogg<br \/>\n    ficaria sempre sabendo se estava avan&ccedil;ado ou atrasado.<\/p>\n<p> Anotou pois, naquele dia, quarta feira 2 de outubro, sua chegada a Suez<br \/>\n    que, estando de acordo com o previsto, n&atilde;o constitu&iacute;a para ele<br \/>\n    nem ganho nem perda.<\/p>\n<p> Em seguida, pediu que lhe servissem o almo&ccedil;o na cabina. Quanto a<br \/>\n    ver a cidade, nem sequer pensava nisso, sendo dessa ra&ccedil;a de ingleses<br \/>\n    que fazem visitar por seus criados os pa&iacute;ses que atravessam.<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">CAP&Iacute;TULO VIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT FALA TALVEZ UM POUCO MAIS DO QUE LHE CONVIRIA<\/b><\/p>\n<p>Fix havia em poucos instantes se reencontrado no cais com Passepartout, que<br \/>\n    flanava e observava, n&atilde;o se julgando obrigado, ele, a nada ver.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o, meu amigo, disse Fix abordando-o, o seu passaporte est&aacute;<br \/>\n    visado? Ah! &eacute; o senhor, respondeu o franc&ecirc;s. Muito obrigado.<br \/>\n    Estamos perfeitamente em ordem.<\/p>\n<p> E v&ecirc; o pa&iacute;s? Sim, mas vamos t&atilde;o depressa que parece<br \/>\n    que viajo em sonho. E a&iacute;, estamos mesmo em Suez? Em Suez.<\/p>\n<p> No Egito? No Egito, perfeitamente.<\/p>\n<p> Na &Aacute;frica? Na &Aacute;frica.<\/p>\n<p> Na Africa! repetiu Passepartout. N&atilde;o posso acreditar. Imagine, senhor,<br \/>\n    que imaginava n&atilde;o passar de Paris, e esta famosa capital, a revi exatamente<br \/>\n    das sete e vinte da manh&atilde; &agrave;s oito e quarenta, entre a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Norte e a esta&ccedil;&atilde;o de Lyon, atrav&eacute;s dos vidros de um<br \/>\n    fiacre e de uma chuva torrencial. Que pena! Teria adorado rever o P&eacute;re-Lachaise<br \/>\n    e o Cirque des Champs &Eacute;lys&eacute;es! Ent&atilde;o est&atilde;o muito<br \/>\n    apressados? perguntou o inspetor de pol&iacute;cia&#8230;<\/p>\n<p> Eu, n&atilde;o, mas meu patr&atilde;o. A prop&oacute;sito, preciso comprar<br \/>\n    roupa de baixo e camisas! Partimos sem malas, com uma sacola de viagem apenas.<\/p>\n<p> Vou lev&aacute;-lo a um bazar, onde encontrar&aacute; tudo o que precisar.<\/p>\n<p> Senhor, respondeu Passepartout, &eacute; de uma tal amabilidade!&#8230;<\/p>\n<p> E ambos se puseram a caminho. Passepartout conversava o tempo todo.<\/p>\n<p> Sobretudo, disse, preciso prestar aten&ccedil;&atilde;o para n&atilde;o<br \/>\n    perder o barco.<\/p>\n<p> Tem tempo, respondeu Fix, ainda n&atilde;o &eacute; meio dia.<\/p>\n<p> Passepartout puxou seu grande rel&oacute;gio.<\/p>\n<p> Meio dia, disse. Que nada! s&atilde;o nove e cinq&uuml;enta e dois! Seu<br \/>\n    rel&oacute;gio est&aacute; atrasado, respondeu Fix.<\/p>\n<p> Meu rel&oacute;gio! Um rel&oacute;gio de fam&iacute;lia, que veio do meu<br \/>\n    bisav&ocirc;! N&atilde;o varia cinco minutos por ano! &Eacute; um verdadeiro<br \/>\n    cron&ocirc;metro! J&aacute; sei o que &eacute;, respondeu Fix. Voc&ecirc;<br \/>\n    olhou a hora de Londres, que est&aacute; quase duas horas atrasada em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; de Suez. Tem de acertar seu rel&oacute;gio pela hora local de cada<br \/>\n    pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Eu! tocar no meu rel&oacute;gio! exclamou Passepartout, jamais! Ent&atilde;o<br \/>\n    ele n&atilde;o estar&aacute; mais de acordo com o sol.<\/p>\n<p> Tanto pior para o sol, senhor! Ele &eacute; que estar&aacute; errado! E<br \/>\n    o valente mo&ccedil;o tornou a meter o rel&oacute;gio na algibeira do colete<br \/>\n    com um gesto desafiador.<\/p>\n<p> Alguns instantes depois, Fix lhe dizia: Ent&atilde;o deixaram Londres precipitadamente?<br \/>\n    Creio que sim! Quarta feira passada, &agrave;s oito da noite, contra todos<br \/>\n    os seus h&aacute;bitos, Mr. Fogg voltou do seu club, e tr&ecirc;s quartos<br \/>\n    de hora depois t&iacute;nhamos partido.<\/p>\n<p> Mas para onde vai o seu patr&atilde;o? Sempre em frente! Ele faz a volta<br \/>\n    ao mundo! A volta ao mundo? exclamou Fix.<\/p>\n<p> Sim, em oitenta dias! Uma aposta, diz ele, mas c&aacute; entre n&oacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o acredito. Seria n&atilde;o ter senso comum. H&aacute; alguma coisa<br \/>\n    a mais.<\/p>\n<p> Ah! &eacute; um exc&ecirc;ntrico, este Mr. Fogg? Creio que sim.<\/p>\n<p> &Eacute; rico ent&atilde;o? Evidentemente, e carrega uma bela soma com ele,<br \/>\n    em bank-notes novinhas em folha! E n&atilde;o poupa dinheiro pelo caminho!<br \/>\n    Veja! Prometeu uma gratifica&ccedil;&atilde;o magn&iacute;fica ao maquinista<br \/>\n    do Mongolia, se chegarmos a Bombaim com um bom avan&ccedil;o! E conhece h&aacute;<br \/>\n    muito seu patr&atilde;o? Eu! respondeu Passepartout, eu entrei para o seu<br \/>\n    servi&ccedil;o no mesmo dia de nossa partida.<\/p>\n<p> &Eacute; f&aacute;cil imaginar o efeito que estas respostas deveriam produzir<br \/>\n    sobre o esp&iacute;rito j&aacute; superexcitado do inspetor de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> A partida precipitada de Londres, pouco tempo ap&oacute;s o roubo, a grande<br \/>\n    quantia que levava, a pressa em chegar a pa&iacute;ses long&iacute;nquos,<br \/>\n    o pretexto de uma aposta exc&ecirc;ntrica, tudo confirmava e deveria confirmar<br \/>\n    Fix nas suas id&eacute;ias. Fez o franc&ecirc;s falar ainda mais e obteve<br \/>\n    a certeza de que o mo&ccedil;o n&atilde;o conhecia absolutamente seu patr&atilde;o,<br \/>\n    que este vivia isolado em Londres, que o consideravam rico, sem que se soubesse<br \/>\n    a origem da sua fortuna, que era um homem impenetr&aacute;vel, etc.. Mas,<br \/>\n    ao mesmo tempo, Fix p&ocirc;de ter por certo que Phileas Fogg n&atilde;o desembarcaria<br \/>\n    em Suez, e que iria realmente para Bombaim.<\/p>\n<p> Bombaim &eacute; longe? perguntou Passepartout.<\/p>\n<p> Bem longe, respondeu o agente. Vai precisar passar ainda uns dez dias no<br \/>\n    mar.<\/p>\n<p> E onde fica Bombaim? Na &Iacute;ndia.<\/p>\n<p> Na &Aacute;sia? Naturalmente.<\/p>\n<p> Diabos! &Eacute; que eu ia lhe dizer&#8230; H&aacute; uma coisa que me encafifa&#8230;<br \/>\n    &eacute; meu bico! Que bico? O meu bico de g&aacute;s, que esqueci de apagar<br \/>\n    e que est&aacute; aceso por minha conta. Ora, calculei que me sa&iacute;a<br \/>\n    a dois shillings a cada vinte e quatro horas, exatamente sete pence a mais<br \/>\n    do que eu ganho, e bem deve compreender que por pouco que a viagem se prolongue&#8230;<\/p>\n<p> Teria Fix compreendido a hist&oacute;ria do g&aacute;s? &Eacute; pouco prov&aacute;vel.<br \/>\n    Ele j&aacute; n&atilde;o escutava e tomara uma decis&atilde;o. O Franc&ecirc;s<br \/>\n    e ele tinham chegado ao bazar. Fix deixou seu companheiro fazendo as compras,<br \/>\n    recomendou-lhe que n&atilde;o perdesse a partida do Mongolia, e voltou apressado<br \/>\n    para o escrit&oacute;rio do agente consular.<\/p>\n<p> Fix, agora que a sua convic&ccedil;&atilde;o estava formada, recuperara<br \/>\n    todo o seu sangue frio.<\/p>\n<p> Senhor, disse ao c&ocirc;nsul, j&aacute; n&atilde;o tenho nenhuma d&uacute;vida.<br \/>\n    Tenho o meu homem. Ele se faz passar por um exc&ecirc;ntrico que quer fazer<br \/>\n    a volta ao mundo em oitenta dias.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o &eacute; um espertalh&atilde;o, respondeu o c&ocirc;nsul, e<br \/>\n    conta voltar a Londres, depois de ter despistado todas as pol&iacute;cias<br \/>\n    de dois continentes! Isso &eacute; que haveremos de ver, respondeu Fix.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o se engana? perguntou-lhe mais uma vez o c&ocirc;nsul.<\/p>\n<p> N&atilde;o me engano.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, porque &eacute; que esse ladr&atilde;o teve interesse em fazer<br \/>\n    constatar por um visto sua passagem por Suez? Por qu&ecirc;?&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    sei n&atilde;o, senhor c&ocirc;nsul, respondeu o detetive, mas ou&ccedil;a-me.<\/p>\n<p> E, em poucas palavras, relatou os pontos principais da sua conversa com<br \/>\n    o criado do dito Fogg.<\/p>\n<p> Com efeito, disse o c&ocirc;nsul, todas as presunc&otilde;es s&atilde;o<br \/>\n    contra esse homem. E o que vai fazer? Expedir um despacho para Londres com<br \/>\n    o pedido insistente de que me mandem um mandado de pris&atilde;o para Bombaim,<br \/>\n    embarcar no Mongolia, vigiar o meu ladr&atilde;o at&eacute; &agrave;s Indias,<br \/>\n    e ali, naquela terra inglesa, chegar-me a ele polidamente, meu mandado de<br \/>\n    pris&atilde;o na m&atilde;o e a m&atilde;o sobre seu ombro&#8230;<\/p>\n<p> Estas palavras pronunciadas friamente, o agente despediu-se do c&ocirc;nsul<br \/>\n    e dirigiu-se &agrave; ag&ecirc;ncia telegr&aacute;fica. Dali enviou ao diretor<br \/>\n    da pol&iacute;cia metropolitana o despacho que j&aacute; conhecemos.<\/p>\n<p> Um quarto de hora depois, Fix, com a sua pequena bagagem na m&atilde;o,<br \/>\n    bem munida de dinheiro, ali&aacute;s, embarcava a bordo do Mongolia, e logo<br \/>\n    o r&aacute;pido paquete corria a todo o vapor sobre as &aacute;guas do mar<br \/>\n    Vermelho.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">CAP&Iacute;TULO IX<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE O MAR VERMELHO E O MAR DAS &Iacute;NDIAS SE MOSTRAM PROP&Iacute;CIOS<br \/>\n    AOS DES&Iacute;GNIOS DE PHILEAS FOGG<\/b><\/p>\n<p>A dist&acirc;ncia entre Suez e Aden &eacute; exatamente de trezentas e dez<br \/>\n    milhas, e o regulamento da companhia concede aos seus paquetes um prazo de<br \/>\n    cento e trinta e oito horas para a percorrer. O Mongolia, cujos fogos estavam<br \/>\n    ativamente ati&ccedil;ados, andava de modo a antecipar a chegada regulamentar.<\/p>\n<p> A maioria dos passageiros embarcados em Brindisi tinham quase todos a &Iacute;ndia<br \/>\n    por destino. Uns dirigiam-se a Bombaim, outros a Calcut&aacute;, mas via Bombaim,<br \/>\n    porque desde que uma linha f&eacute;rrea atravessa em toda a sua largura a<br \/>\n    pen&iacute;nsula indiana, n&atilde;o &eacute; mais necess&aacute;rio dobrar<br \/>\n    a ponta de Ceil&atilde;o.<\/p>\n<p> Entre estes passageiros do Mong&oacute;lia, contavam-se diversos funcion&aacute;rios<br \/>\n    civis e oficiais de todas as gradua&ccedil;&otilde;es. Destes, uns pertenciam<br \/>\n    ao ex&eacute;rcito brit&acirc;nico propriamente dito, outros comandavam as<br \/>\n    tropas ind&iacute;genas dos cipaios, todos bem pagos, mesmo atualmente quando<br \/>\n    o governo assumira os direitos e os encargos da antiga Companhia das &Iacute;ndias:<br \/>\n    sub-tenentes a 7.000 francos, brigadeiros a 60.000 e generais a 100.000. [O<br \/>\n    pagamento dos funcion&aacute;rios civis &eacute; ainda mais elevado. Os simples<br \/>\n    assistentes, no primeiro grau da hierarquia, recebem 12.000 francos; os ju&iacute;zes,<br \/>\n    60.000 F; os presidentes de corte, 250.000 F; os governadores, 300.000 F,<br \/>\n    e o governador geral, mais de 600.000 F. (Nota do Autor).] Vivia-se portanto<br \/>\n    bem &agrave; bordo do Mongolia, nesta sociedade de funcion&aacute;rios, aos<br \/>\n    quais se misturavam alguns jovens ingleses, que, com o seu milh&atilde;o no<br \/>\n    bolso, iam fundar ao longe estabelecimentos comerciais. O purser, o homem<br \/>\n    de confian&ccedil;a da Companhia, o igual do capit&atilde;o do navio, fazia<br \/>\n    as coisas suntuosamente. No caf&eacute; da manh&atilde;, no almo&ccedil;o<br \/>\n    das duas, no lanche das cinco e meia, e no jantar das oito, as mesas vergavam<br \/>\n    sob os pratos de carne fresca e das iguarias fornecidas pela despensa do paquete.<br \/>\n    As passageiras havia algumas mudavam de toilette duas vezes por dia. Tocava-se<br \/>\n    m&uacute;sica, dan&ccedil;ava-se at&eacute;, quando o mar o permitia.<\/p>\n<p> Mas o mar Vermelho &eacute; muito caprichoso e freq&uuml;entemente mau,<br \/>\n    como todos os golfos estreitos e compridos. Quando o vento soprava quer da<br \/>\n    costa da &Aacute;sia, quer da costa da &Aacute;frica, o Mongolia, longa fuselagem<br \/>\n    a h&eacute;lice, pego pelo vento nas laterais, balan&ccedil;ava de um modo<br \/>\n    apavorante. Ent&atilde;o as damas desapareciam; os pianos se calavam; cantos<br \/>\n    e dan&ccedil;as cessavam ao mesmo tempo. E contudo, apesar do vendaval, apesar<br \/>\n    da vaga, o paquete, impelido por sua m&aacute;quina poderosa, corria c&eacute;lere<br \/>\n    em dire&ccedil;&atilde;o ao estreito de Bab-el-Mandeb.<\/p>\n<p> Que fazia Phileas Fogg durante este tempo? Poderiam julgar que, sempre inquieto<br \/>\n    e ansioso, se preocupava com as mudan&ccedil;as de vento prejudiciais ao andamento<br \/>\n    do navio, com o embate desordenado das ondas que poderiam ocasionar um acidente<br \/>\n    &agrave; m&aacute;quina, enfim com todas as avarias poss&iacute;veis que,<br \/>\n    obrigando o Mongolia a atracar em algum porto, comprometessem sua viagem?<br \/>\n    Que nada, ou pelo menos, se este gentleman pensava em tais eventualidades,<br \/>\n    nem deixava transparecer. Era sempre o homem impass&iacute;vel, o membro imperturb&aacute;vel<br \/>\n    do Reform Club, a quem nenhum incidente ou acidente poderia surpreender. N&atilde;o<br \/>\n    parecia mais emocionado do que os cron&ocirc;metros do navio. Era raramente<br \/>\n    visto sobre o conv&eacute;s. N&atilde;o se importava a m&iacute;nima em observar<br \/>\n    este mar Vermelho, t&atilde;o fecundo em recorda&ccedil;&otilde;es, teatro<br \/>\n    das primeiras cenas hist&oacute;ricas da humanidade. N&atilde;o vinha reconhecer<br \/>\n    as curiosas cidades semeadas em suas bordas, e das quais a pitoresca silhueta<br \/>\n    se descortinava algumas vezes no horizonte. Nem sequer sonhava com os perigos<br \/>\n    deste golfo Ar&aacute;bico, do qual os antigos, Estrab&atilde;o, Arrien, Artemidoro,<br \/>\n    Edrisi, sempre falaram com assombro, e no qual os navegadores n&atilde;o se<br \/>\n    aventuravam jamais em outros tempos sem antes ter consagrado sua viagem por<br \/>\n    sacrif&iacute;cios propiciat&oacute;rios.<\/p>\n<p> O que fazia pois este exc&ecirc;ntrico, aprisionado no Mongolia? Em primeiro<br \/>\n    lugar, fazia suas quatro refei&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias, sem que nunca<br \/>\n    o balan&ccedil;o ou a arfagem pudessem desarranjar uma m&aacute;quina t&atilde;o<br \/>\n    maravilhosamente organizada. Depois jogava whist.<\/p>\n<p> Sim! ele tinha encontrado parceiros, t&atilde;o ardorosos quanto ele: um<br \/>\n    coletor de impostos que se dirigia ao seu posto em Goa, um ministro, o reverendo<br \/>\n    Decimus Smith, que regressava a Bombaim, e um general de brigada do ex&eacute;rcito<br \/>\n    ingl&ecirc;s, que retornava ao seu corpo em Benares. Estes tr&ecirc;s passageiros<br \/>\n    tinham pelo whist a mesma paix&atilde;o que Mr. Fogg, e jogavam por horas<br \/>\n    inteiras, n&atilde;o menos silenciosamente do que ele.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, o mal do mar n&atilde;o tinha nenhum efeito sobre<br \/>\n    ele. Ocupava uma cabina de frente e comia, ele tamb&eacute;m, conscienciosamente.<br \/>\n    &Eacute; preciso dizer que, decididamente, a viagem, feita em tais condi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    n&atilde;o lhe desagradava. Tirava partido dela. Bem nutrido, bem alojado,<br \/>\n    via pa&iacute;ses e ademais afirmava a si pr&oacute;prio que toda esta fantasia<br \/>\n    acabaria em Bombaim.<\/p>\n<p> No dia seguinte ao da partida de Suez, 10 de outubro, n&atilde;o foi sem<br \/>\n    certo prazer que reencontrou sobre a coberta o obsequioso personagem a quem<br \/>\n    tinha se dirigido ao desembarcar no Egito.<\/p>\n<p> N&atilde;o me engano, disse, abordando-o com seu mais am&aacute;vel sorriso,<br \/>\n    n&atilde;o foi o senhor, quem t&atilde;o generosamente me serviu de guia em<br \/>\n    Suez? Realmente, respondeu o detetive, reconhe&ccedil;o-o! &Eacute; o criado<br \/>\n    daquele ingl&ecirc;s extravagante&#8230;<\/p>\n<p> Precisamente, senhor&#8230;<\/p>\n<p> Fix.<\/p>\n<p> Senhor Fix, respondeu Passepartout. Encantado em rencontr&aacute;-lo &agrave;<br \/>\n    bordo. E para onde vai? Mas, como voc&ecirc;, para Bombaim.<\/p>\n<p> &Oacute;timo! J&aacute; fez esta viagem antes? Diversas vezes, respondeu<br \/>\n    Fix. Sou um agente da Companhia peninsular.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o conhece a &Iacute;ndia? Mas&#8230; sim&#8230; respondeu Fix, que n&atilde;o<br \/>\n    queria adiantar-se muito.<\/p>\n<p> E &eacute; curiosa, esta &Iacute;ndia? Muito curiosa! Mesquitas, minaretes,<br \/>\n    templos, faquires, pagodes, tigres, serpentes, bailarinas! Espero que tenha<br \/>\n    tempo para visitar o pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Espero que sim, senhor Fix. Bem compreende que n&atilde;o &eacute; permitido<br \/>\n    a um homem s&atilde;o de esp&iacute;rito passar a vida saltando de um paquete<br \/>\n    para uma estrada de ferro, e de uma estrada de ferro para um paquete, sob<br \/>\n    pretexto de fazer a volta ao mundo em oitenta dias! N&atilde;o. Toda esta<br \/>\n    gin&aacute;stica cessar&aacute; em Bombaim, nem duvide disso.<\/p>\n<p> E Mr. Fogg passa bem? perguntou Fix com o tom de voz mais natural do mundo.<\/p>\n<p> Muito bem, senhor Fix, muito bem. Eu tamb&eacute;m, a prop&oacute;sito.<br \/>\n    Como um ogro que tivesse jejuado. &Eacute; o ar do mar.<\/p>\n<p> E o seu patr&atilde;o, n&atilde;o o vejo nunca no conv&eacute;s.<\/p>\n<p> Jamais. Ele n&atilde;o &eacute; curioso.<\/p>\n<p> Sabe, senhor Passepartout, esta pretensa viagem em oitenta dias bem que<br \/>\n    poderia ocultar uma miss&atilde;o secreta&#8230; uma miss&atilde;o diplom&aacute;tica,<br \/>\n    por exemplo! Palavra, senhor Fix, n&atilde;o sei de nada, juro, e, na verdade,<br \/>\n    n&atilde;o daria meia coroa para saber.<\/p>\n<p> Desde este reencontro, Passepartout e Fix conversaram muitas vezes. O inspetor<br \/>\n    de pol&iacute;cia tinha interesse em ficar &iacute;ntimo do criado do senhor<br \/>\n    Fogg. Poderia lhe ser &uacute;til. Por isso oferecia-lhe com freq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    no bar-room do Mongolia, alguns copos de whisky ou de pale ale, que o bom<br \/>\n    mo&ccedil;o aceitava sem cerim&ocirc;nia e que at&eacute; retribu&iacute;a<br \/>\n    para n&atilde;o ficar para tr&aacute;s achava, pois, este Fix um gentleman<br \/>\n    muito simp&aacute;tico.<\/p>\n<p> Enquanto isso o paquete avan&ccedil;ava rapidamente. A 13, avistaram Moka,<br \/>\n    que apareceu com seu cintur&atilde;o de muralhas em ru&iacute;nas, por sobre<br \/>\n    as quais se destacavam algumas tamareiras verdejantes. Ao longe, nas montanhas,<br \/>\n    estendiam-se vastos campos de cafezais. Passepartout ficou entusiasmado ao<br \/>\n    contemplar esta cidade c&eacute;lebre, e at&eacute; achou que, com estes muros<br \/>\n    circulares e um forte desmantelado em formato de ansa, parecia uma enorme<br \/>\n    meia-ta&ccedil;a.<\/p>\n<p> Durante a noite seguinte, o Mongolia franqueou o estreito de Bab-el-Mandeb,<br \/>\n    cujo nome &aacute;rabe significa Porta das L&aacute;grimas, e no dia seguinte,<br \/>\n    14, fazia escala em Steamer Point, a noroeste da enseada de Aden. Era a&iacute;<br \/>\n    que ele deveria refazer suas provis&otilde;es de combust&iacute;vel.<\/p>\n<p> &Eacute; quest&atilde;o s&eacute;ria e importante a alimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fornalha dos paquetes a tais dist&acirc;ncias dos centros de produ&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; para a Companhia peninsular, &eacute; uma despesa anual que monta<br \/>\n    a oitocentas mil libras (20 milh&otilde;es de francos). Foi preciso, com efeito,<br \/>\n    estabelecer dep&oacute;sitos em diversos portos, e, nestes mares long&iacute;nq&uuml;os,<br \/>\n    o carv&atilde;o sai por oitenta francos a tonelada.<\/p>\n<p> O Mongolia tinha ainda seiscentas e cinq&uuml;enta milhas pela frente antes<br \/>\n    de chegar a Bombaim, e deveria demorar-se quatro horas em Steamer Point, para<br \/>\n    encher seus pai&oacute;is.<\/p>\n<p> Mas esta demora n&atilde;o poderia de modo algum prejudicar o programa de<br \/>\n    Phileas Fogg. Estava prevista. Al&eacute;m disso, o Mongolia em vez de chegar<br \/>\n    a Aden dia 15 de outubro somente pela manh&atilde;, entrou ali dia 14 &agrave;<br \/>\n    noite. Era um ganho de quinze horas.<\/p>\n<p> Mr. Fogg e o seu criado desceram &agrave; terra. O gentleman queria vistar<br \/>\n    seu passaporte. Fix seguiu-o sem ser notado. Preenchida a formalidade do visto,<br \/>\n    Phileas Fogg voltou ao navio para recome&ccedil;ar sua partida interrompida.<\/p>\n<p> Passepartout, esse, flanou, segundo seu costume, por entre essa popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Somanlis, Banianos, Parsis, Judeus, &Aacute;rabes, Europeus, que compunham<br \/>\n    os vinte e cinco mil habitantes de Aden. Admirou as fortifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que fazem desta cidade o Gibraltar do mar das &Iacute;ndias, e as magn&iacute;ficas<br \/>\n    cisternas nas quais ainda trabalhavam os engenheiros ingleses, dois mil anos<br \/>\n    depois dos engenheiros do rei Salom&atilde;o.<\/p>\n<p> Muito curioso, muito curioso! dizia consigo Passepartout voltando para bordo.<br \/>\n    Estou percebendo que n&atilde;o &eacute; in&uacute;til viajar, se quiserermos<br \/>\n    ver coisas novas.<\/p>\n<p> &Agrave;s seis horas da tarde, o Mongolia revolvia com as p&aacute;s de<br \/>\n    sua h&eacute;lice as &aacute;guas da enseada de Aden e pouco depois corria<br \/>\n    sobre o mar das &Iacute;ndias. Concedia-se-lhe sessenta e oito horas para<br \/>\n    fazer o trajeto entre Aden e Bombaim. Al&eacute;m disso, o mar indiano lhe<br \/>\n    foi favor&aacute;vel. O vento conservava-se no noroeste. As velas vieram em<br \/>\n    aux&iacute;lio do vapor.<\/p>\n<p> O navio, melhor apoiado, balan&ccedil;ou menos. As passageiras com toilettes<br \/>\n    frescas, reapareceram sobre o coberta. Os cantos e as dan&ccedil;as recome&ccedil;aram.<\/p>\n<p> A viagem realizou-se portanto nas melhores condi&ccedil;&otilde;es. Passepartout<br \/>\n    estava encantado com o am&aacute;vel companheiro que o acaso lhe tinha procurado<br \/>\n    na pessoa de Fix.<\/p>\n<p> No domingo 20 de outubro, por volta do meio dia, avistou-se a costa indiana.<br \/>\n    Duas horas depois, o piloto subia a bordo do Mongolia. No horizonte, um segundo<br \/>\n    plano de colinas perfilava-se harmoniosamente sobre o fundo do c&eacute;u.<br \/>\n    Logo os renques de palmeiras que ocultam a cidade destacaram-se vivamente.<br \/>\n    O paquete penetrou nesta enseada formada pelas ilhas Salcette, Colaba, Elephanta,<br \/>\n    Butcher, e &agrave;s quatro horas e meia acostava no cais de Bombaim.<\/p>\n<p> Phileas Fogg acabava ent&atilde;o a sua trig&eacute;sima terceira partida<br \/>\n    do dia, e seu parceiro e ele, gra&ccedil;as a uma manobra audaciosa, tendo<br \/>\n    feito as treze vazas, terminaram esta bela travessia com um grande slam admir&aacute;vel.<\/p>\n<p> Mongolia s&oacute; deveria chegar em 22 de outubro a Bombaim. Ora, chegava<br \/>\n    dia 20, um ganho de dois dias, que Phileas Fogg anotou metodicamente em seu<br \/>\n    roteiro na coluna dos lucros.<\/p>\n<h4> <a name=\"10\" id=\"10\">CAP&Iacute;TULO X<\/a><\/h4>\n<p><b>EM QUE PASSEPARTOUT SE D&Aacute; POR FELIZ EM SAFAR-SE S&Oacute; PERDENDO<br \/>\n    OS SAPATOS<\/b><\/p>\n<p>Ningu&eacute;m ignora que a &Iacute;ndia esse grande tri&acirc;ngulo cuja<br \/>\n    base est&aacute; ao norte e a ponta ao sul compreende uma superf&iacute;cie<br \/>\n    de um milh&atilde;o e quatrocentas mil milhas quadradas, sobre a qual se acha<br \/>\n    desigualmente distribu&iacute;da uma popula&ccedil;&atilde;o de cento e oitenta<br \/>\n    milh&otilde;es de habitantes. O governo brit&acirc;nico exerce uma domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    real sobre certa parte deste imenso pa&iacute;s. Mant&eacute;m um governador<br \/>\n    geral em Calcut&aacute;, governadores em Madras, em Bombaim, em Bengala, e<br \/>\n    um vice-governador em Agra.<\/p>\n<p> Mas a &Iacute;ndia inglesa propriamente dita s&oacute; conta com uma superf&iacute;cie<br \/>\n    de setecentas mil milhas quadradas e uma popula&ccedil;&atilde;o de cem a<br \/>\n    cento e dez milh&otilde;es de habitantes. Basta dizer que uma importante parte<br \/>\n    do territ&oacute;rio escapa ainda da autoridade da rainha; e, com efeito,<br \/>\n    junto a certos raj&aacute;s do interior, ferozes e terr&iacute;veis, a independ&ecirc;ncia<br \/>\n    hindu &eacute; ainda absoluta.<\/p>\n<p> Desde 1756 &eacute;poca em que foi fundado o primeiro estabelecimento ingl&ecirc;s<br \/>\n    no local hoje ocupado pela cidade de Madras at&eacute; o ano em que eclodiu<br \/>\n    a grande insurrei&ccedil;&atilde;o dos cipaios, a c&eacute;lebre Companhia<br \/>\n    das Indias foi toda-poderosa. Anexou pouco a pouco as diversas prov&iacute;ncias,<br \/>\n    compradas aos raj&aacute;s em troca de rendimentos que pagava mal, ou n&atilde;o<br \/>\n    pagava; nomeava o seu governador geral e todos os seus empregados civis ou<br \/>\n    militares; mas presentemente ela n&atilde;o existe mais, e as possess&otilde;es<br \/>\n    inglesas da &Iacute;ndia dependem diretamente da coroa.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m o aspecto, os costumes, as divis&otilde;es etnogr&aacute;ficas<br \/>\n    da pen&iacute;nsula tendem a se modificar a cada dia. Antigamente viajava-se<br \/>\n    ali por todos os antigos meios de transporte, a p&eacute;, a cavalo, de charrete,<br \/>\n    em palanquim, &agrave;s costas de homens, de carruagem, etc. Atualmente, barcos<br \/>\n    a vapor percorrem a grande velocidade o Indo, o Ganges, e uma estrada de ferro,<br \/>\n    que atravessa a &Iacute;ndia em toda a sua extens&atilde;o ramificando-se<br \/>\n    em seu trajeto, p&otilde;e Bombaim a tr&ecirc;s dias apenas de Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> O tra&ccedil;ado desta estrada de ferro n&atilde;o segue a linha reta atrav&eacute;s<br \/>\n    da &Iacute;ndia. A dist&acirc;ncia &agrave; v&ocirc;o de p&aacute;ssaro &eacute;<br \/>\n    de somente mil a mil e cem milhas, e trens, animados de velocidade apenas<br \/>\n    m&eacute;dia, n&atilde;o gastariam tr&ecirc;s dias para percorr&ecirc;-la;<br \/>\n    mas esta extens&atilde;o &eacute; aumentada num ter&ccedil;o pelo menos, com<br \/>\n    a corda que a via f&eacute;rrea descreve subindo at&eacute; Alaabad, no norte<br \/>\n    da pen&iacute;nsula.<\/p>\n<p> Eis, resumidamente, o tra&ccedil;ado do Great Indian peninsular railway&rdquo;.<br \/>\n    Partindo da ilha de Bombaim, atravessa Salcette, salta sobre o continente<br \/>\n    em frente de Tannah, franqueia a cadeia dos Gates Ocidentais, corta para nordeste<br \/>\n    at&eacute; Burhampour, serpenteia o territ&oacute;rio quase independente do<br \/>\n    Bundelkund, eleva-se at&eacute; Alaabad, desvia-se para leste, reencontra<br \/>\n    o Ganges em Benares, afasta-se ligeiramente dele, e, tornando a descer para<br \/>\n    o sudeste por Burdivan e pela cidade francesa de Chanderganor, estabelece<br \/>\n    seu ponto inicial em Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> Foi &agrave;s quatro e meia da tarde que os passageiros do Mangolia tinham<br \/>\n    desembarcado em Bombaim, e o trem de Calcut&aacute; partiria &agrave;s oito<br \/>\n    em ponto.<\/p>\n<p> Mr. Fogg despediu-se, portanto, dos seus parceiros, deixou o paquete, deu<br \/>\n    a seu criado a rela&ccedil;&atilde;o de algumas compras a fazer, recomendou-lhe<br \/>\n    expressamente que se achasse antes das oito na esta&ccedil;&atilde;o, e, com<br \/>\n    o seu passo regular que marcava os segundos como o p&ecirc;ndulo de um rel&oacute;gio<br \/>\n    astron&ocirc;mico, dirigiu-se para a reparti&ccedil;&atilde;o dos passaportes.<\/p>\n<p> Assim pois, das maravilhas de Bombaim, nem sonhava ver coisa alguma, nem<br \/>\n    o hotel da cidade, nem a magn&iacute;fica biblioteca, nem os fortes, nem as<br \/>\n    docas, nem o mercado de algod&atilde;o, nem os bazares, nem as mesquitas,<br \/>\n    nem as sinagogas, nem as igrejas arm&ecirc;nias, nem o espl&ecirc;ndido pagode<br \/>\n    de Malebar Hill, ornado com duas torres pol&iacute;gonas. N&atilde;o contemplaria<br \/>\n    nem as obras-primas de Elephanta, nem seus misteriosos hipogeus, ocultos a<br \/>\n    sueste da enseada, nem as grutas Kanherian da ilha Salcette, esses admir&aacute;veis<br \/>\n    restos da arquitetura budista! N&atilde;o! nada. Saindo da reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos passaportes Phileas Fogg dirigiu-se tranq&uuml;ilamente para a esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e a&iacute; fez-se servir o jantar. Entre outros manjares, o dono da casa<br \/>\n    entendeu que lhe deveria recomendar uma certa gibelotte de coelho do pa&iacute;s&rdquo;,<br \/>\n    de que disse maravilhas.<\/p>\n<p> Phileas Fogg aceitou a gibelotte e a degustou conscienciosamente; mas, a<br \/>\n    despeito de seu molho muito temperado, a achou detest&aacute;vel.<\/p>\n<p> Chamou o ma&icirc;tre do hotel.<\/p>\n<p> Senhor, disse olhando-o fixamente, &eacute; coelho, isso? Sim, mylord, respondeu<br \/>\n    descaradamente o velhaco, coelho das jungles.<\/p>\n<p> E este coelho n&atilde;o miou quando o mataram? Miar! Oh! mylord! um coelho!<br \/>\n    Juro-lhe&#8230;<\/p>\n<p> Senhor ma&icirc;tre, replicou friamente Mr. Fogg, n&atilde;o jure e lembre-se<br \/>\n    disso: outrora, na &Iacute;ndia, os gatos eram considerados animais sagrados.<br \/>\n    Eram bons tempos.<\/p>\n<p> Para os gatos, mylord? E talvez tamb&eacute;m para os viajantes! Ap&oacute;s<br \/>\n    esta observa&ccedil;&atilde;o Mr. Fogg continuou tranq&uuml;ilamente a jantar.<\/p>\n<p> Alguns instantes depois de Mr. Fogg, o agente Fix havia desembarcado tamb&eacute;m<br \/>\n    do Mongolia e correu &agrave; casa do diretor da pol&iacute;cia de Bombaim.<br \/>\n    Deu a conhecer a sua qualidade de detetive, a miss&atilde;o de que estava<br \/>\n    encarregado, sua situa&ccedil;&atilde;O a respeito do suposto autor do roubo.<br \/>\n    Tinham recebido de Londres um mandado de pris&atilde;o?&#8230; N&atilde;o tinham<br \/>\n    recebido nada. E, com efeito, o mandado, que partira depois de Fogg, n&atilde;o<br \/>\n    poderia ter chegado ainda.<\/p>\n<p> Fix ficou muito desanimado. Quis obter do diretor uma ordem de deten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra o senhor Fogg. O diretor recusou. O neg&oacute;cio dizia respeito &agrave;<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o metropolitana, e s&oacute; ela poderia legalmente<br \/>\n    expedir um mandado. Esta severidade de princ&iacute;pios, esta observ&acirc;ncia<br \/>\n    rigorosa da legalidade &eacute; perfeitamente explic&aacute;vel pelos costumes<br \/>\n    ingleses, que, em mat&eacute;ria de liberdade individual, n&atilde;o admitem<br \/>\n    nada arbitr&aacute;rio.<\/p>\n<p> Fix n&atilde;o insistiu e compreendeu que deveria resignar-se a esperar<br \/>\n    o mandado. Mas resolveu n&atilde;o perder de vista o seu impenetr&aacute;vel<br \/>\n    tratante, durante todo o tempo que este permanecesse em Bombaim. N&atilde;o<br \/>\n    duvidava de que Phileas Fogg a&iacute; n&atilde;o se demoraria e, como se<br \/>\n    sabe, era esta tamb&eacute;m a convic&ccedil;&atilde;o de Passepartout o que<br \/>\n    daria ao mandado de pris&atilde;o o tempo de chegar.<\/p>\n<p>Mas desde as &uacute;ltimas ordens que o patr&atilde;o lhe tinha dado ao<br \/>\n    desembarcar do Mongolia, Passepartout tinha compreendido que haveria de acontecer<br \/>\n    em Bombaim o mesmo que acontecera em Suez e Paris, que a viagem n&atilde;o<br \/>\n    terminaria aqui, que continuaria pelo menos at&eacute; Calcut&aacute; e talvez<br \/>\n    mais longe. E come&ccedil;ou a se perguntar se esta aposta de Mr. Fogg n&atilde;o<br \/>\n    seria absolutamente s&eacute;ria, e se a fatalidade n&atilde;o o iria conduzir,<br \/>\n    a ele que tanto desejava viver em repouso, a realizar a volta ao mundo em<br \/>\n    oitenta dias! Esperando, e ap&oacute;s ter feito a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de algumas camisas e roupas de baixo, p&ocirc;s-se a passear pelas ruas de<br \/>\n    Bombaim. Havia nelas grande afluxo popular, e, misturados a europeus de todas<br \/>\n    as nacionalidades, persas com bon&eacute;s ponteagudos, Bunhyas com turbantes<br \/>\n    redondos, Sindes com gorros quadrados, Arm&ecirc;nios com longas vestes, Parsis<br \/>\n    com mitra negra. Era precisamente uma festa celebrada por estes Parsis ou<br \/>\n    Guebros, descendentes diretos dos seguidores de Zoroastro, que s&atilde;o<br \/>\n    os mais industriosos, os mais civilizados, os mais inteligentes, os mais austeros<br \/>\n    dos hindus ra&ccedil;a a que pertencem atualmente os ricos negociantes ind&iacute;genas<br \/>\n    de Bombaim. Naquele dia, celebravam uma esp&eacute;cie do carnaval religioso,<br \/>\n    com prociss&otilde;es e divers&otilde;es, nas quais figuravam bailarinas vestidas<br \/>\n    com gazes rosas brocadas de ouro e prata, que, ao som das violas e ao barulho<br \/>\n    dos tant&atilde;s, dan&ccedil;avam maravilhosamente, e tamb&eacute;m com uma<br \/>\n    dec&ecirc;ncia perfeita, &eacute; bom dizer.<\/p>\n<p> Que Passepartout contemplava estas curiosas cerim&ocirc;nias, que seus olhos<br \/>\n    e suas orelhas se abriam desmesuradamente para ver e ouvir, que sua apar&ecirc;ncia,<br \/>\n    sua fisionomia era a do &ldquo;booby&rdquo; mais novinho que se possa imaginar,<br \/>\n    &eacute; sup&eacute;rfluo dizer.<\/p>\n<p> Infelizmente para ele e para seu patr&atilde;o, cuja viagem esteve a ponto<br \/>\n    de comprometer, sua curiosidade o levou mais longe do que seria conveniente.<\/p>\n<p> Com efeito, depois de ter entrevisto este carnaval parsi, Passepartout dirigia-se<br \/>\n    para a esta&ccedil;&atilde;o, quando, passando em frente do admir&aacute;vel<br \/>\n    pagode de Malebar Hill teve a fatal id&eacute;ia de visitar seu interior.<\/p>\n<p> Ele ignorava duas coisas: primeira, que a entrada de certos pagodes hindus<br \/>\n    &eacute; formalmente interdita aos crist&atilde;os e, segunda, que nem os<br \/>\n    pr&oacute;prios crentes podem entrar sem terem deixado seus cal&ccedil;ados<br \/>\n    na entrada. &Eacute; preciso destacar aqui que, por raz&otilde;es de boa pol&iacute;tica,<br \/>\n    o governo ingl&ecirc;s, respeitando e fazendo respeitar at&eacute; nos seus<br \/>\n    mais insignificantes detalhes a religi&atilde;o do pa&iacute;s, pune severamente<br \/>\n    quem quer que viole suas pr&aacute;ticas.<\/p>\n<p> Passepartout entrou, sem m&aacute;s intens&otilde;es, como um simples turista,<br \/>\n    admirava no interior os deslumbrantes ourop&eacute;is da ornamenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    bram&acirc;nica, quando subitamente foi derrubado nas sagradas lajes. Tr&ecirc;s<br \/>\n    sacerdotes, o olhar cheio de furor, precipitaram-se sobre ele, arrancaram-lhe<br \/>\n    os sapatos e as meias, e come&ccedil;aram a ench&ecirc;-lo de porradas, proferindo<br \/>\n    gritos selvagens.<\/p>\n<p> O franc&ecirc;s, vigoroso e &aacute;gil, ergueu-se rapidamente. Com um murro<br \/>\n    e um pontap&eacute; derrubou dois advers&aacute;rios, ali&aacute;s muito atrapalhados<br \/>\n    com os seus trajes compridos, e, fugindo do pagode com toda a velocidade de<br \/>\n    suas pernas, bem depressa distanciou-se do terceiro hindu, que tinha sa&iacute;do<br \/>\n    em sua persegui&ccedil;&atilde;o, a&ccedil;ulando a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito menos cinco, alguns minutos apenas antes da partida do trem,<br \/>\n    sem chap&eacute;u, p&eacute;s nus, tendo perdido na briga o pacote contendo<br \/>\n    as compras, Passepartout chegou &agrave; esta&ccedil;&atilde;o da estrada<br \/>\n    de ferro.<\/p>\n<p> Fix estava l&aacute;, sobre a plataforma de embarque. Tendo seguido o senhor<br \/>\n    Fogg at&eacute; a esta&ccedil;&atilde;o, tinha compreendido que este tratante<br \/>\n    ia deixar Bombaim. No mesmo instante tomou a decis&atilde;o de acompanh&aacute;-lo<br \/>\n    at&eacute; Calcut&aacute; e at&eacute; mais longe se preciso fosse. Passepartout<br \/>\n    n&atilde;o viu Fix, que se mantinha na sombra, mas Fix escutou o relato de<br \/>\n    suas aventuras, que Passepartout narrou em poucas palavras ao seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Espero que isto n&atilde;o lhe aconte&ccedil;a mais, respondeu simplesmente<br \/>\n    Phileas Fogg, tomando lugar num dos vag&otilde;es do trem.<\/p>\n<p> O pobre mo&ccedil;o, descal&ccedil;o e todo decomposto, seguiu seu patr&atilde;o<br \/>\n    sem dizer palavra.<\/p>\n<p> Fix ia subindo em um vag&atilde;o separado, quando um pensamento o fez parar<br \/>\n    e modificou subitamente seu projeto de partida.<\/p>\n<p> N&atilde;o, fico, disse-se ele. Um delito cometido em territ&oacute;rio<br \/>\n    indiano&#8230; tenho o meu homem.<\/p>\n<p> Neste momento a locomotiva lan&ccedil;ou um vigoroso apito, e o trem desapareceu<br \/>\n    na noite.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">CAP&Iacute;TULO XI<\/a><\/h4>\n<p><b>EM QUE PHILEAS FOGG COMPRA UMA MONTARIA POR UM PRE&Ccedil;O FABULOSO<\/b><\/p>\n<p>O trem tinha partido na hora regulamentar. Levava um certo n&uacute;mero<br \/>\n    de viajantes, alguns oficiais, funcion&aacute;rios civis e negociantes de<br \/>\n    &oacute;pio e de indigo, cujo com&eacute;rcio os chamava para o lado oriental<br \/>\n    da pen&iacute;nsula.<\/p>\n<p> Passepartout ocupava o mesmo compartimento de seu patr&atilde;o. Um terceiro<br \/>\n    viajante achava-se alojado no canto oposto.<\/p>\n<p> Era o general de brigada, Sir Francis Cromarty, um dos parceiros de Mr.<br \/>\n    Fogg durante a travessia de Suez a Bombaim, que retornava &agrave;s suas tropas<br \/>\n    aquarteladas perto de Benares.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty, grande, louro, com aproximadamente cinq&uuml;enta<br \/>\n    anos, que tinha se distinguido bastante durante a &uacute;ltima revolta dos<br \/>\n    cipaios, poderia merecer verdadeiramente a qualifica&ccedil;&atilde;o de nativo.<br \/>\n    Desde sua juventude, habitava na &Iacute;ndia e raras vezes aparecera no seu<br \/>\n    pa&iacute;s natal. Era um homem instru&iacute;do, que teria de bom grado dado<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es sobre os costumes, a hist&oacute;ria e a organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pa&iacute;s hindu, se Phileas Fogg fosse de as pedir. Mas este gentleman<br \/>\n    n&atilde;o perguntava nada. N&atilde;o viajava, descrevia um c&iacute;rcunfer&ecirc;ncia.<br \/>\n    Era um corpo s&oacute;lido, percorrendo uma &oacute;rbita &agrave; volta do<br \/>\n    globo terrestre, seguindo as leis da mec&acirc;nica racional. Neste momento,<br \/>\n    refazia em seu esp&iacute;rito o c&aacute;lculo das horas gastas desde sua<br \/>\n    partida de Londres, e teria at&eacute; esfregado as m&atilde;os, se estivesse<br \/>\n    na sua &iacute;ndole fazer um movimento in&uacute;til.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty n&atilde;o tinha deixado de perceber a originalidade<br \/>\n    do seu companheiro de viagem, apesar de n&atilde;o o ter estudado sen&atilde;o<br \/>\n    com cartas na m&atilde;o e entre dois r&oacute;bers. Estava por isso bem propenso<br \/>\n    a se perguntar se batia um cora&ccedil;&atilde;o humano sob aquele frio env&oacute;lucro,<br \/>\n    se Phileas Fogg tinha uma alma sens&iacute;vel &agrave;s belezas da natureza,<br \/>\n    &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es morais. Para ele, isso era discut&iacute;vel.<br \/>\n    Entre todas as pessoas extravagantes que o brigadeiro encontrara, nenhuma<br \/>\n    se comparava a este produto das ci&ecirc;ncias exatas.<\/p>\n<p> Phileas Fogg n&atilde;o ocultara de sir Francis Cromarty o seu projeto de<br \/>\n    viagem em volta ao mundo, nem em que condi&ccedil;&otilde;es o realizava.<br \/>\n    O general de brigada n&atilde;o viu nesta aposta sen&atilde;o uma excentricidade<br \/>\n    sem finalidade &uacute;til e &agrave; qual faltava necessariamente o transire<br \/>\n    benefaciendo que deve guiar todo homem razo&aacute;vel. Pelo passo em que<br \/>\n    caminhava o bizarro gentleman, passaria evidentemente pela vida sem &ldquo;nada<br \/>\n    fazer&rdquo;, nem por si, nem pelos outros.<\/p>\n<p> Uma hora ap&oacute;s ter deixado Bombaim, o trem, transpondo os viadutos,<br \/>\n    havia atravessado a ilha Salcette e corria sobre o continente. Na esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Callyan, deixou &agrave; direita o ramal que, por Kandallah e Pounah, desce<br \/>\n    para o sudeste da &Iacute;ndia, e chegou &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Pauwell. Neste ponto, embrenhou-se nas montanhas muito ramificadas dos Gates<br \/>\n    Ocidentais, cadeias formadas de basalto, cujos cumes mais elevados est&atilde;o<br \/>\n    cobertos por espessas florestas.<\/p>\n<p> De vez em quando sir Francis Cromarty e Phileas Fogg trocavam algumas palavras,<br \/>\n    e, neste momento, o general de brigada, reatando o fio da conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que muitas vezes se quebrava, disse: H&aacute; alguns anos, senhor Fogg, teria<br \/>\n    tido nestas paragens uma demora que de certo lhe teria comprometido o itiner&aacute;rio.<\/p>\n<p> Por que, sir Francis? Porque a estrada de ferro terminava no sop&eacute;<br \/>\n    destas montanhas, que era preciso atravessar de palanquim ou no dorso de p&ocirc;neis<br \/>\n    at&eacute; a esta&ccedil;&atilde;o de Kandallah, situada na vertente oposta.<\/p>\n<p> Essa demora n&atilde;o teria de forma alguma prejudicado a economia do meu<br \/>\n    programa, respondeu Mr. Fogg. N&atilde;o deixei de prever a eventualidade<br \/>\n    de certos obst&aacute;culos.<\/p>\n<p> Entretanto, Mr. Fogg, retomou o general de brigada, correu um risco enorme<br \/>\n    de ter uma grande dificuldade nos bra&ccedil;os com a aventura deste rapaz.<\/p>\n<p> Passepartout, os p&eacute;s embrulhados na sua manta de viagem, dormia profundamente<br \/>\n    e nem sequer sonhava que falavam dele.<\/p>\n<p> O governo ingl&ecirc;s &eacute; extremamente severo e com raz&atilde;o com<br \/>\n    este g&ecirc;nero de delito, retomou sir Francis Cromarty. Ele faz quest&atilde;o<br \/>\n    que se respeite os costumes religiosos dos hindus, e se o seu criado tivesse<br \/>\n    sido preso&#8230;<\/p>\n<p> Bem, se tivesse sido preso, Sir Francis, respondeu Mr. Fogg, teria sido<br \/>\n    condenado, teria cumprido sua pena, e depois teria voltado tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    para a Europa. N&atilde;o vejo em que este caso teria podido retardar seu<br \/>\n    patr&atilde;o! E neste ponto a conversa&ccedil;&atilde;o interrompeu-se novamente.<br \/>\n    Durante a noite o trem transp&ocirc;s os Gates, passou para Nassik, e no dia<br \/>\n    seguinte, 2l de outubro, lan&ccedil;ou-se atrav&eacute;s de uma regi&atilde;o<br \/>\n    relativamente plana, formada pelo territ&oacute;rio de Khandeish. A campina,<br \/>\n    bem cultivada, estava semeada de aldeias, sobre as quais o minarete do pagode<br \/>\n    substitu&iacute; o campan&aacute;rio da igreja europ&eacute;ia. Numerosos<br \/>\n    riachos, a maioria afluentes ou sub-afluentes do Godaveri, irrigavam esta<br \/>\n    regi&atilde;o f&eacute;rtil.<\/p>\n<p> Passepartout, acordado, contemplava, e n&atilde;o podia acreditar que atravessava<br \/>\n    o pa&iacute;s dos hindus num trem do &ldquo;Great peninsular railway&rdquo;.<br \/>\n    Parecia-lhe inveros&iacute;mil. E contudo nada mais real. A locomotiva, dirigida<br \/>\n    pelo bra&ccedil;o de um maquinista ingl&ecirc;s e aquecida com carv&atilde;o<br \/>\n    ingl&ecirc;s, lan&ccedil;ava sua fuma&ccedil;a sobre as planta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de algod&atilde;o, de caf&eacute;, de noz moscada, de cravo e de pimenta.<br \/>\n    O vapor se contorcia em espirais ao redor de grupos de palmeiras, por entre<br \/>\n    os quais apareciam pitorescos bungalows, alguns viharis, esp&eacute;cie de<br \/>\n    monast&eacute;rios abandonados, e templos maravilhosos que enriqueciam a inigual&aacute;vel<br \/>\n    ornamenta&ccedil;&atilde;o da arquitetura indiana. Depois, imensas extens&otilde;es<br \/>\n    de terra se estendiam a perder de vista, jungles onde n&atilde;o faltavam<br \/>\n    nem as serpentes, nem os tigres espantados pelos apitos do trem, e, finalmente,<br \/>\n    florestas, sulcadas pelo tra&ccedil;ado da via, ainda povoadas pelos elefantes<br \/>\n    que, com olho pensativo, viam passar o comboio com sua cabeleira de fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> Durante esta manh&atilde;, al&eacute;m da esta&ccedil;&atilde;o de Malligaum,<br \/>\n    os viajantes atravessaram esse territ&oacute;rio funesto, que foi tantas vezes<br \/>\n    ensang&uuml;entado pelos seguidores da deusa Kali. N&atilde;o muito longe<br \/>\n    elevava-se Ellora e seus pagodes admir&aacute;veis, n&atilde;o longe a c&eacute;lebre<br \/>\n    Aurungabad, a capital do feroz Aureng-Zeb, presentemente simples capital de<br \/>\n    uma das prov&iacute;ncias desmembradas do reino de Nizam. Era nesta prov&iacute;ncia<br \/>\n    que Feringhea, o chefe dos Thugs, o rei dos Estranguladores, exercia o seu<br \/>\n    dom&iacute;nio. Estes assassinos, unidos em uma associa&ccedil;&atilde;o misteriosa,<br \/>\n    estrangulavam, em honra da deusa da Morte, v&iacute;timas de todas as idades,<br \/>\n    sem nunca derramarem sangue, e houve tempo em que n&atilde;o se podia revolver<br \/>\n    nenhum ponto deste solo sem se encontrar um cad&aacute;ver. O governo ingl&ecirc;s<br \/>\n    j&aacute; conseguiu impedir tais mortes em uma propor&ccedil;&atilde;o razo&aacute;vel,<br \/>\n    mas a tem&iacute;vel associa&ccedil;&atilde;o ainda existe e continua a funcionar.<\/p>\n<p> Ao meio dia e meia, o trem parou na esta&ccedil;&atilde;o de Burhampour,<br \/>\n    e Passepartout p&ocirc;de procurar a peso de ouro um par de babuchas, ornamentadas<br \/>\n    com p&eacute;rolas falsas, que cal&ccedil;ou com um sentimento de evidente<br \/>\n    vaidade.<\/p>\n<p> Os viajantes almo&ccedil;aram rapidamente, e tornaram a partir para a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Assurghur, depois de terem por instantes costeado a margem do Tapti, pequeno<br \/>\n    rio que se vai lan&ccedil;ar no golfo de Cambay, perto de Surat.<\/p>\n<p> &Eacute; oportuno dar a conhecer que pensamentos ocupavam ent&atilde;o o<br \/>\n    esp&iacute;rito de Passepartout. At&eacute; sua chegada a Bombaim, tinha acreditado<br \/>\n    e pudera crer que ficariam por ali. Mas agora, desde que corria a todo o vapor<br \/>\n    atrav&eacute;s da &Iacute;ndia, uma reviravolta se dera em seu esp&iacute;rito.<br \/>\n    Sua natureza lhe retornava a galope. Reencontrava as id&eacute;ias fantasistas<br \/>\n    de sua juventude, levava a s&eacute;rio os projetos de seu patr&atilde;o,<br \/>\n    acreditava na realidade da aposta, conseq&uuml;entemente nesta volta ao mundo<br \/>\n    e neste maximum de tempo, que era preciso n&atilde;o ultrapassar. At&eacute;<br \/>\n    j&aacute; come&ccedil;ava a ficar inquieto com os atrasos poss&iacute;veis,<br \/>\n    com os acidentes que poderiam sobrevir no caminho. Sentia-se como que interessado<br \/>\n    nesta maluquice, e estremecia ao pensar de que tinha podido compromet&ecirc;-la<br \/>\n    na v&eacute;spera por sua imperdo&aacute;vel distra&ccedil;&atilde;o. Assim,<br \/>\n    muito menos fleum&aacute;tico do que Mr. Fogg, estava muito mais inquieto.<br \/>\n    Contava e recontava os dias decorridos, amaldi&ccedil;oava as paradas do trem,<br \/>\n    acusava-o de lentid&atilde;o, e censurava in petto Mr. Fogg por n&atilde;o<br \/>\n    ter prometido uma gratifica&ccedil;&atilde;o ao maquinista. N&atilde;o sabia,<br \/>\n    o bom mo&ccedil;o, que o que era poss&iacute;vel nos paquetes, n&atilde;o<br \/>\n    o era nas estradas de ferro, onde a velocidade est&aacute; regulamentada.<\/p>\n<p> Ao cair da tarde, embrenharam-se nos desfiladeiros das montanhas de Sutpour,<br \/>\n    que separam o territ&oacute;rio do Kandeish do de Bundelkund.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 22 de outubro, a uma pergunta de Sir Francis Cromarty,<br \/>\n    Passepartout, tendo consultado seu rel&oacute;gio, respondeu que eram tr&ecirc;s<br \/>\n    da manh&atilde;. E, com efeito, este famoso rel&oacute;gio, sempre regulado<br \/>\n    pelo meridiano de Greenwich, que ficava quase a setenta e sete graus a oeste,<br \/>\n    deveria estar atrasado, e efetivamente estava atrasado quatro horas.<\/p>\n<p> Sir Francis retificou portanto a hora dada por Passepartout, ao qual fez<br \/>\n    a mesma observa&ccedil;&atilde;o que este j&aacute; tinha recebido de Fix.<br \/>\n    Tentou faz&ecirc;-lo compreender que deveria acertar o rel&oacute;gio a cada<br \/>\n    novo meridiano, e que, como caminhavam constantemente para leste, isto &eacute;<br \/>\n    &agrave; frente do sol, os dias eram mais curtos na raz&atilde;o de tantas<br \/>\n    vezes quatro minutos quanto os graus percorridos. Foi in&uacute;til. Tenha<br \/>\n    o teimoso rapaz compreendido ou n&atilde;o a observa&ccedil;&atilde;o do general<br \/>\n    de brigada, obstinou-se em n&atilde;o adiantar seu rel&oacute;gio, que mantinha<br \/>\n    invariavelmente pela hora de Londres. Mania inocente, afinal, e que n&atilde;o<br \/>\n    poderia prejudicar ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito da manh&atilde;, e a quinze milhas adiante da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Rothal, o trem parou no meio de uma vasta clareira, cercada de alguns bungalows<br \/>\n    e de cabanas de oper&aacute;rios. O condutor do trem passou pela fileira dos<br \/>\n    vag&otilde;es dizendo: Os viajantes descem aqui.<\/p>\n<p> Phileas Fogg olhou para sir Francis Cromarly, que pareceu n&atilde;o compreender<br \/>\n    esta parada no meio de uma floresta de tamareiras e de cajueiros.<\/p>\n<p> Passepartout, n&atilde;o menos surpreso, saltou para a via e voltou quase<br \/>\n    que imediatamente exclamando: Senhor, n&atilde;o h&aacute; mais estrada de<br \/>\n    ferro! O que quer dizer? perguntou sir Francis Cromarty.<\/p>\n<p> Quero dizer que o trem n&atilde;o continua.<\/p>\n<p> O general de brigada desceu logo do vag&atilde;o. Phileas Fogg seguiu-o,<br \/>\n    sem se apressar. Os dois dirigiram-se ao condutor: Onde estamos? perguntou<br \/>\n    Sir Francis Cromarty.<\/p>\n<p> Na aldeia de Kholby, respondeu o condutor.<\/p>\n<p> Paramos aqui? Sem d&uacute;vida. A estrada de ferro n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    acabada&#8230;<\/p>\n<p> Como! n&atilde;o est&aacute; acabada? N&atilde;o! h&aacute; ainda um trecho<br \/>\n    de umas cinq&uuml;enta milhas a estabelecer entre este ponto e Alaabad, onde<br \/>\n    a via recome&ccedil;a.<\/p>\n<p> Mas os jornais anunciaram a abertura completa do railway! Que quer, meu<br \/>\n    oficial, os jornais se enganaram.<\/p>\n<p> E vendem bilhetes de Bombaim a Calcut&aacute;! replicou Sir Francis Cromarty,<br \/>\n    que come&ccedil;ava a se esquentar.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida, respondeu o condutor, mas os viajantes sabem muito bem<br \/>\n    que devem se fazer transportar de Kholby at&eacute; Alaabad.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty estava furioso. Passepartout teria de bom grado batido<br \/>\n    no condutor, que j&aacute; n&atilde;o podia conduzir. N&atilde;o ousava olhar<br \/>\n    para seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Sir Francis, disse simplesmente Mr. Fogg, n&oacute;s vamos, se tamb&eacute;m<br \/>\n    o quer, encontrar um meio de chegar a Alaabad.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, trata-se de um atraso absolutamente prejudicial aos seus interesses?<br \/>\n    N&atilde;o, Sir Francis, estava previsto.<\/p>\n<p> O que! sabia que o caminho&#8230;<\/p>\n<p> De modo algum, mas sabia que um obst&aacute;culo qualquer cedo ou tarde<br \/>\n    surgiria no meu caminho. Ora, nada est&aacute; comprometido. Tenho dois dias<br \/>\n    de avan&ccedil;o para sacrificar. H&aacute; um vapor que parte de Calcut&aacute;<br \/>\n    para Hong Kong dia 25, ao meio dia. Estamos ainda no dia 22, e chegaremos<br \/>\n    a tempo em Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia nada a dizer frente a uma resposta dada com t&atilde;o<br \/>\n    completa seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Era verdade que os trabalhos da estrada de ferro paravam naquele ponto.<br \/>\n    Os jornais s&atilde;o como certos rel&oacute;gios que t&ecirc;m a mania de<br \/>\n    adiantar, e haviam prematuramente anunciado a conclus&atilde;o da linha. A<br \/>\n    maioria dos viajantes conheciam esta interrup&ccedil;&atilde;o da via, e,<br \/>\n    ao descerem do trem, tinham se apoderado dos ve&iacute;culos de todo tipo<br \/>\n    que havia na aldeia, palkigharis de quatro rodas, carretas puxadas por zebus,<br \/>\n    esp&eacute;cie de bois com corcovas, carros de viagem semelhantes a pagodes<br \/>\n    ambulantes, palanquins, p&ocirc;neis, etc. Por isso Mr. Fogg e sir Francis<br \/>\n    Cromarty, depois de procurarem por toda a aldeia, voltaram sem nada ter achado.<\/p>\n<p> Irei a p&eacute;, disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Passepartout que ent&atilde;o se aproximou de seu patr&atilde;o, fez uma<br \/>\n    careta significativa, considerando suas magn&iacute;ficas mas insuficientes<br \/>\n    babuchas. Felizmente para ele, andara tamb&eacute;m &agrave; procura, e um<br \/>\n    pouco hesitante: Senhor, disse ele, creio que encontrei um meio de transporte.<\/p>\n<p> Qual? Um elefante! Um elefante que pertence a um &iacute;ndiano que mora<br \/>\n    a cem passos daqui.<\/p>\n<p> Vamos ver o elefante, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Cinco minutos mais tarde, Phileas Fogg, sir Francis Cromarty e Passepartout<br \/>\n    chegavam a uma cho&ccedil;a pr&oacute;xima de um cercado fechado com altas<br \/>\n    pali&ccedil;adas. Na cho&ccedil;a havia um indiano, e no cercado, um elefante.<br \/>\n    Ao pedirem, o indiano introduziu Mr. Fogg e seus dois companheiros no cercado.<\/p>\n<p> Ali, acharam-se na presen&ccedil;a de um animal, meio domesticado, que o<br \/>\n    seu propriet&aacute;rio criava, n&atilde;o para fazer dele uma besta de carga,<br \/>\n    mas uma besta de combate. Para este fim, tinha come&ccedil;ado a modificar<br \/>\n    o car&aacute;ter naturalmente manso do animal, de modo a conduzi-lo gradualmente<br \/>\n    a esse paroxismo de raiva chamado &ldquo;mutsh&rdquo; na l&iacute;ngua hindu,<br \/>\n    nutrindo-o durante tr&ecirc;s meses com a&ccedil;&uacute;car e manteiga. Este<br \/>\n    tratamento pode parecer inadequado para se obter tal resultado, mas n&atilde;o<br \/>\n    deixa de ser empregado com sucesso pelos criadores. Felizmente para Mr. Fogg,<br \/>\n    o elefante em quest&atilde;o fora submetido a semelhante regime h&aacute;<br \/>\n    pouco tempo, e o &ldquo;mutsh&rdquo; ainda n&atilde;o se tinha declarado.<\/p>\n<p> Kiouni era este o nome do animal podia, como todos os seus cong&ecirc;neres,<br \/>\n    sustentar durante muito tempo uma marcha r&aacute;pida, e, &agrave; falta<br \/>\n    de outra montadura, Phileas Fogg resolveu servir-se dele.<\/p>\n<p> Mas os elefantes s&atilde;o caros na &Iacute;ndia, onde come&ccedil;am a<br \/>\n    se tornar raros. Os machos, que s&atilde;o os &uacute;nicos que conv&ecirc;m<br \/>\n    &agrave;s lutas de circos, s&atilde;o extremamente procurados. Estes animais<br \/>\n    s&oacute; raramente se reproduzem em cativeiro; portanto s&oacute; podem ser<br \/>\n    obtido por meio da ca&ccedil;a. Por isso s&atilde;o objeto de cuidados extremos,<br \/>\n    e quando Mr. Fogg perguntou ao indiano se queria alugar seu elefante, o indiano<br \/>\n    recusou no ato.<\/p>\n<p> Fogg insistiu e ofereceu pela besta um pre&ccedil;o excessivo, dez libras<br \/>\n    (250 F) por hora. Recusa. Vinte libras? Nova recusa. Quarenta libras? Sempre<br \/>\n    recusa. Possepartout dava pulos a cada aumento de pre&ccedil;o. Mas o indiano<br \/>\n    n&atilde;o se deixava tentar.<\/p>\n<p> Era uma bela quantia, contudo. Supondo-se que o elefante gastasse quinze<br \/>\n    horas at&eacute; Alaabad, seriam seiscentas libras (15.000 F) que renderia<br \/>\n    ao propriet&aacute;rio.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, sem se animar de modo algum, prop&ocirc;s ent&atilde;o ao<br \/>\n    indiano comprar-lhe a besta, e ofereceu de cara mil libras (25.000 F).<\/p>\n<p> O indiano n&atilde;o queria vender! Talvez o velhaco farejasse algum neg&oacute;cio<br \/>\n    magn&iacute;fico.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty chamou Mr. Fogg &agrave; parte e pediu-lhe que refletisse<br \/>\n    antes de prosseguir. Phileas Fogg respondeu ao seu companheiro que n&atilde;o<br \/>\n    tinha por costume agir sem reflex&atilde;o, que afinal de contas se tratava<br \/>\n    de uma aposta de vinte mil libras, que este elefante lhe era necess&aacute;rio,<br \/>\n    e que, mesmo que tivesse de pagar vinte vezes seu valor, teria este elefante.<\/p>\n<p> Mr. Fogg foi ter outra vez com o indiano, cujos olhos pequeninos, iluminados<br \/>\n    pela cobi&ccedil;a, deixavam perceber que para ele aquilo era apenas uma quest&atilde;o<br \/>\n    de pre&ccedil;o. Phileas Fogg ofereceu sucessivamente mil e duzentas libras,<br \/>\n    depois mil e quinhentas, depois mil e oitocentas, afinal duas mil libras (50.000<br \/>\n    F). Passepartout, t&atilde;o corado normalmente, estava p&aacute;lido de emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A duas mil libras, o indiano se rendeu.<\/p>\n<p> Pelas minhas babuchas, exclamou Passepartout, isto &eacute; que &eacute;<br \/>\n    dar um bom pre&ccedil;o &agrave; carne de elefante! Conclu&iacute;da a transa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    s&oacute; faltava arranjar um guia. Foi mais f&aacute;cil. Um jovem Parsi,<br \/>\n    de fisionomia inteligente, ofereceu seus servi&ccedil;os. Mr. Fogg aceitou<br \/>\n    e prometeu-lhe uma boa remunera&ccedil;&atilde;o, o que s&oacute; poderia<br \/>\n    aumentar sua intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> O elefante foi trazido e equipado sem demora. O Parsi conhecia seu of&iacute;cio<br \/>\n    de &ldquo;mahout&rdquo; ou cornaca. Cobriu-lhe o lombo com uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de tapete, e p&ocirc;s-lhe de cada lado dos flancos uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    cesto bem pouco confort&aacute;veis.<\/p>\n<p> Phileas Fogg pagou ao indianos com bank-notes que foram extra&iacute;das<br \/>\n    da famosa sacola. Parecia realmente que eram retiradas das entranhas de Passepartout.<br \/>\n    Depois, Mr. Fogg ofereceu a Sir Francis Cromarty transport&aacute;-lo at&eacute;<br \/>\n    a esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad. O general de brigada aceitou. Um viajante<br \/>\n    a mais n&atilde;o era coisa que fatigasse o gigantesco animal.<\/p>\n<p> V&iacute;veres foram comprados em Kholby. Sir Francis Cromarty tomou lugar<br \/>\n    num dos cestos, Phileas Fogg no outro. Passepartout se p&ocirc;s de c&oacute;coras<br \/>\n    no lombo, entre seu patr&atilde;o e o general de brigada. O Parsi empoleirou-se<br \/>\n    no pesco&ccedil;o do elefante e &agrave;s nove horas o animal, deixando a<br \/>\n    aldeia, embrenhou-se na espessa floresta de palmeiras.<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">CAP&Iacute;TULO XII<\/a><\/h4>\n<p><b>EM QUE PHILEAS FOGG E SEUS COMPANHEIROS SE AVENTURAM ATRAV&Eacute;S DAS<br \/>\n    FLORESTAS DA &Iacute;NDIA, E O QUE SE SEGUE<\/b><\/p>\n<p>O guia, para encurtar a dist&acirc;ncia a percorrer, deixou &agrave; sua<br \/>\n    direita o tra&ccedil;ado da via cujos trabalhos estavam em execu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Este tra&ccedil;ado, muito contrariado pelas caprichosas ramifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos montes V&iacute;ndias, n&atilde;o seguia o caminho mais curto, que Phileas<br \/>\n    Fogg tinha interesse em tomar. O Parsi, muito familiarizado com os caminhos<br \/>\n    e as sendas daquela regi&atilde;o, pretendia ganhar uma vintena de milhas<br \/>\n    cortando caminho pela floresta, e todos confiaram nele.<\/p>\n<p> Phileas Fogg e Sir Francis Cromarty, enfurnados at&eacute; o pesco&ccedil;o<br \/>\n    em seus respectivos cestos, eram fortemente sacudidos pelo trote pesado do<br \/>\n    elefante, ao qual seu mahout imprimia um andamento r&aacute;pido. Mas eles<br \/>\n    suportavam a situa&ccedil;&atilde;o com a mais brit&acirc;nicas das fleumas,<br \/>\n    conversando, por&eacute;m, pouco, e mal se vendo um ao outro.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, postado sobre o dorso da besta e diretamente submetido<br \/>\n    ao golpes e contragolpes, cuidava, conforme uma recomenda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de seu patr&atilde;o, de n&atilde;o colocar a l&iacute;ngua entre os dentes,<br \/>\n    sen&atilde;o ela seria cortada. O bom mo&ccedil;o, &agrave;s vezes arremessado<br \/>\n    para o pesco&ccedil;o do elefante, &agrave;s vezes para a garupa, fazia volteios,<br \/>\n    como um clown sobre um trampolim. Mas se divertia, rindo entre os seus saltos<br \/>\n    de carpa, e, de tempo em tempo, tirava da sacola um peda&ccedil;o de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    que o inteligente Kiouni pegava com a extremidade da tromba, sem interromper<br \/>\n    por um momento seu trote regular.<\/p>\n<p> Depois de duas horas de marcha, o guia parou o elefante e lhe deu uma hora<br \/>\n    de repouso. O animal devorou ramos e arbustos, depois de ter matado a sede<br \/>\n    num charco pr&oacute;ximo. Sir Francis Cromarty n&atilde;o se queixou desta<br \/>\n    parada. Estava quebrado. Mr. Fogg parecia sentir-se t&atilde;o bem disposto<br \/>\n    como se tivesse acabado de sair de seu leito.<\/p>\n<p> Mas ele &eacute; de ferro! disse o general de brigada contemplando-o com<br \/>\n    admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> De ferro forjado! respondeu Passepartout, entretido no preparo de um almo&ccedil;o<br \/>\n    sum&aacute;rio.<\/p>\n<p> Ao meio dia, o guia deu o sinal de partida. A regi&atilde;o tomou logo um<br \/>\n    aspecto muito selvagem. &Agrave;s grandes florestas sucederam-se moitas de<br \/>\n    tamarindos e de palmeiras an&atilde;s, depois vastas plan&iacute;cies &aacute;ridas,<br \/>\n    eri&ccedil;adas de arbustos magros e semeadas de grandes blocos de sienitos.<br \/>\n    Toda esta parte do alto Bundelkund, pouco freq&uuml;entada por viajantes,<br \/>\n    &eacute; habitada por uma popula&ccedil;&atilde;o fan&aacute;tica, endurecida<br \/>\n    nas pr&aacute;ticas mais terr&iacute;veis da religi&atilde;o hindu. A domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Ingleses n&atilde;o p&ocirc;de se estabelecer regularmente sobre um territ&oacute;rio<br \/>\n    submetido &agrave; influencia dos raj&aacute;s, que eram dif&iacute;ceis de<br \/>\n    alcan&ccedil;ar em seus inacess&iacute;veis ref&uacute;gios dos V&iacute;ndias.<\/p>\n<p> V&aacute;rias vezes, avistaram bandos de &iacute;ndianos ferozes, que faziam<br \/>\n    um gesto de c&oacute;lera ao verem passar o r&aacute;pido quadr&uacute;pede.<br \/>\n    Entretanto o Parsi os evitava tanto quanto poss&iacute;vel, considerando-os<br \/>\n    como gente ruim de se encontrar. Poucos animais foram vistos durante esta<br \/>\n    jornada, apenas alguns macacos, que fugiam com mil contors&otilde;es e caretas<br \/>\n    com as quais Passepartout se divertiu muito.<\/p>\n<p> Um pensamento entre muitos outros inquietava o mo&ccedil;o. O que Mr. Fogg<br \/>\n    faria com o elefante, quando chegasse &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad?<br \/>\n    Lev&aacute;-lo-ia? Imposs&iacute;vel! O pre&ccedil;o do transporte somado<br \/>\n    ao da aquisi&ccedil;&atilde;o fariam dele um animal ruinoso. Vend&ecirc;-lo-ia,<br \/>\n    restituir-lhe-ia a liberdade? Esta estim&aacute;vel besta bem merecia que<br \/>\n    tivessem alguns cuidados com ela. Se, por acaso, Mr. Fogg lho desse de presente,<br \/>\n    Passepartout ver-se-ia muito embara&ccedil;ado. Isso n&atilde;o deixava de<br \/>\n    preocup&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas da noite, a principal cadeia dos V&iacute;ndias havia<br \/>\n    sido vencida, e os viajantes pararam ao p&eacute; da vertente setentrional,<br \/>\n    em um bungalow em ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> A dist&acirc;ncia percorrida durante esta jornada tinha sido de umas vinte<br \/>\n    e cinco milhas, e ainda faltava outro tanto para atingir a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Alaabad.<\/p>\n<p> A noite estava fria. No interior do bungalow, o Parsi acendeu um fogo com<br \/>\n    galhos secos, cujo calor foi muito apreciado. A ceia se comp&ocirc;s das provis&otilde;es<br \/>\n    compradas em Kholby. Os viajantes comeram como pessoas fatigadas e mo&iacute;das.<br \/>\n    A conversa&ccedil;&atilde;o, que come&ccedil;ou por algumas frases entrecortadas,<br \/>\n    terminou bem depressa em roncos sonoros. O guia ficou vigiando perto de Kiouni,<br \/>\n    que adormeceu em p&eacute;, apoiado no tronco de uma grande &aacute;rvore.<\/p>\n<p> Nenhum incidente marcou esta noite. Alguns rugidos de leopardos e de panteras<br \/>\n    perturbaram &agrave;s vezes o sil&ecirc;ncio, misturados com os gritos agudos<br \/>\n    de macacos. Mas os carn&iacute;voros limitaram-se aos gritos, e n&atilde;o<br \/>\n    fizeram nenhuma demonstra&ccedil;&atilde;o hostil contra os h&oacute;spedes<br \/>\n    do bungalow. Sir Francis Cromarty dormiu pesadamente como bravo militar prostrado<br \/>\n    de fadiga. Passepartout, em um sono agitado, recome&ccedil;ou em sonhos as<br \/>\n    cabriolas da v&eacute;spera. Quanto a Mr. Fogg, repousou t&atilde;o tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    como se estivesse em sua tranq&uuml;ila casa de Saville Row.<\/p>\n<p> &Agrave;s seis da manh&atilde;, retomaram a caminhada. O guia esperava chegar<br \/>\n    &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad naquela mesma noite. Deste modo,<br \/>\n    Mr. Fogg s&oacute; perderia parte das quarenta e oito horas economizadas desde<br \/>\n    o come&ccedil;o da viagem.<\/p>\n<p> Desceram as &uacute;ltimas rampas dos V&iacute;ndias. Kiouni retomara o<br \/>\n    seu andamento r&aacute;pido. Por volta do meio dia, o guia contornou a aldeia<br \/>\n    de Kallenger, situada sobre o Cani, um dos sub-afluentes do Ganges. Evitava<br \/>\n    sempre os lugares habitados, sentindo-se em maior seguran&ccedil;a nestas<br \/>\n    campinas desertas, que marcam as primeiras depress&otilde;es da bacia do grande<br \/>\n    rio. A esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad ficava a menos de doze milhas a nordeste.<br \/>\n    Fizeram alto sob uma touceira de bananeiras, cujos frutos, t&atilde;o saud&aacute;veis<br \/>\n    quanto o p&atilde;o, &ldquo;t&atilde;o suculentos como o creme&rdquo;, dizem<br \/>\n    os viajantes, foram extremamente apreciados.<\/p>\n<p> &Agrave;s duas horas, o guia entrou sob a cobertura de uma espessa floresta,<br \/>\n    que deveria atravessar por algumas milhas. Preferia viajar assim ao abrigo<br \/>\n    dos bosques. Em todo caso, n&atilde;o houvera at&eacute; ent&atilde;o nenhum<br \/>\n    encontro desagrad&aacute;vel, e a viagem parecia dever se realizar sem acidente,<br \/>\n    quando o elefante, dando alguns sinais de inquieta&ccedil;&atilde;o, subitamente<br \/>\n    parou.<\/p>\n<p> Eram quatro horas ent&atilde;o.<\/p>\n<p> Que &eacute; que h&aacute;? perguntou Sir Francis Cromarty, que levantou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a acima de seu cesto.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei, meu oficial, respondeu o Parsi, tentando ouvir melhor um<br \/>\n    murm&uacute;rio confuso que passava sob a espessa ramagem.<\/p>\n<p> Alguns instantes depois, este murm&uacute;rio ficou mais aud&iacute;vel.<br \/>\n    Dir-se-ia um concerto, ainda muito distante, de vozes humanas e instrumentos<br \/>\n    de cobre.<\/p>\n<p> Passepartout era todo olhos, todo orelhas. Mr. Fogg aguardava pacientemente,<br \/>\n    sem pronunciar uma palavra.<\/p>\n<p> O Parsi saltou para o ch&atilde;o, amarrou o elefante numa &aacute;rvore<br \/>\n    e mergulhou em uma touceira espessa. Alguns momentos depois voltou, dizendo:<br \/>\n    Uma prociss&atilde;o de br&acirc;manes que se dirige para este lado. Se for<br \/>\n    poss&iacute;vel, evitemos ser vistos.<\/p>\n<p> O guia desamarrou o elefante e conduziu-o para um matagal fechado, recomendando<br \/>\n    aos viajantes que n&atilde;o se apeassem. Ele pr&oacute;prio se conservou<br \/>\n    pronto para trepar rapidamente na montaria, se a fuga se tornasse necess&aacute;ria.<br \/>\n    Mas pensava que a tropa dos fi&eacute;is passaria sem o perceber, pois que<br \/>\n    a espessura da folhagem o dissimulava inteiramente.<\/p>\n<p> O barulho discordante de vozes e de instrumentos se aproximava. Cantos mon&oacute;tonos<br \/>\n    se misturavam ao som dos tambores e dos c&iacute;mbalos. Logo a frente da<br \/>\n    prociss&atilde;o apareceu sob as &aacute;rvores, a uns cinq&uuml;enta passos<br \/>\n    da posi&ccedil;&atilde;o ocupada por Mr. Fogg e seus companheiros. Eles distinguiam<br \/>\n    facilmente atrav&eacute;s dos ramos o curioso pessoal desta cerim&ocirc;nia<br \/>\n    religiosa.<\/p>\n<p> Na primeira fila vinham sacerdotes com mitras na cabe&ccedil;a e vestidos<br \/>\n    com longas batas muito ornamentadas. Estavam cercados por homens, mulheres<br \/>\n    e crian&ccedil;as, que faziam ouvir uma esp&eacute;cie de reza f&uacute;nebre,<br \/>\n    interrompida a intervalos iguais por toques de tant&atilde;s e de c&iacute;mbalos.<br \/>\n    Atr&aacute;s deles, sobre um carro de grandes rodas, no qual os raios e os<br \/>\n    eixos pareciam serpentes entrela&ccedil;adas, apareceu uma figura horr&iacute;vel,<br \/>\n    puxada por duas parelhas de zebus ricamente cobertos com capas. Esta est&aacute;tua<br \/>\n    tinha quatro bra&ccedil;os; o corpo colorido de um vermelho escuro, os olhos<br \/>\n    arregalados, os cabelos revoltos, a l&iacute;ngua pendente, os l&aacute;bios<br \/>\n    tingidos com henna e b&eacute;tele. Em seu pesco&ccedil;o enrolava-se um colar<br \/>\n    de cabe&ccedil;as de mortos, e em seus flancos um cintur&atilde;o de m&atilde;os<br \/>\n    decepadas. Ela se mantinha em p&eacute; sobre um gigante ca&iacute;do ao qual<br \/>\n    faltava a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty reconheceu esta est&aacute;tua.<\/p>\n<p> A deusa Kali, murmurou, a deusa do amor e da morte.<\/p>\n<p> Da morte, admito, mas do amor, jamais! disse Passepartout. Mulher horrorosa!<br \/>\n    O Parsi fez sinal para que se calasse.<\/p>\n<p> Em volta da est&aacute;tua agitava-se, contorcia-se, convulsionava-se um<br \/>\n    grupo de velhos faquires, pintados com listras ocre, cobertos de incis&otilde;es<br \/>\n    cruciais que deixavam escapar seu sangue gota a gota, energ&uacute;menos est&uacute;pidos<br \/>\n    que, nas grandes cerim&ocirc;nias hindus, se precipitam ainda sob as rodas<br \/>\n    do carro de Jaggernaut.<\/p>\n<p> Atr&aacute;s deles, alguns br&acirc;manes, em toda suntuosidade de seu trajes<br \/>\n    orientais, arrastavam uma mulher que mal conseguia ficar em p&eacute;.<\/p>\n<p> Esta mulher era jovem, branca como uma Europ&eacute;ia. Sua cabe&ccedil;a,<br \/>\n    seu pesco&ccedil;o, seus ombros, suas orelhas, seus bra&ccedil;os, suas m&atilde;os,<br \/>\n    seus artelhos estavam sobrecarregados de j&oacute;ias, colares, braceletes,<br \/>\n    brincos e an&eacute;is. Uma t&uacute;nica com filetes de ouro, recoberta com<br \/>\n    um tecido muito fino, moldava os contornos de seu corpo.<\/p>\n<p> Atr&aacute;s desta mulher contraste violento para os olhos , guardas armados<br \/>\n    com sabres desembainhados, colocados em suas cinturas e longas pistolas com<br \/>\n    encrusta&ccedil;&otilde;es, transportavam um cad&aacute;ver sobre um palanquim.<\/p>\n<p> Era o cad&aacute;ver de um velho, revestido com seus opulentos trajes de<br \/>\n    raj&aacute;, trazendo, como em vida, o turbante bordado de p&eacute;rolas,<br \/>\n    a veste tecida de seda e ouro, o cinto de cachemira com diamantes, e suas<br \/>\n    magn&iacute;ficas armas de pr&iacute;ncipe indiano.<\/p>\n<p> Depois os m&uacute;sicos e uma retaguarda de fan&aacute;ticos, cujos gritos<br \/>\n    cobriam &agrave;s vezes o ensurdecedor barulho dos instrumentos, fechavam<br \/>\n    o cortejo.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty olhava toda esta pompa com um ar singularmente entristecido,<br \/>\n    e voltando-se para o guia: Um sati! disse.<\/p>\n<p> O Parsi fez um sinal afirmativo e p&ocirc;s um dedo sobre seus l&aacute;bios.<br \/>\n    A longa prociss&atilde;o desfilou lentamente sob as &aacute;rvores, e logo<br \/>\n    suas &uacute;ltimas filas desapareceram no seio da floresta.<\/p>\n<p> Pouco a pouco, os cantos se extinguiram. Havia ainda alguns lampejos de<br \/>\n    gritos ao longe, e afinal a todo este tumulto sucedeu um profundo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Mr. Fogg tinha ouvido a palavra, pronunciada por Sir Francis Cromarty, e<br \/>\n    assim que a prociss&atilde;o desapareceu: O que &eacute; um sati? perguntou.<\/p>\n<p> Um sati, senhor Fogg, respondeu o general de brigada, &eacute; um sacrif&iacute;cio<br \/>\n    humano, mas um sacrif&iacute;cio volunt&aacute;rio. Esta mulher que acabou<br \/>\n    de ver ser&aacute; queimada amanh&atilde; &agrave;s primeiras horas do dia.<\/p>\n<p> Ah! malditos! exclamou Passepartout, que n&atilde;o p&ocirc;de conter este<br \/>\n    grito de indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E o cad&aacute;ver? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> &Eacute; o do pr&iacute;ncipe, seu marido, respondeu o guia, um raj&aacute;<br \/>\n    independente do Bundelkund.<\/p>\n<p> Como! retomou Mr. Fogg, sem que sua voz tra&iacute;sse a menor emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    estes costumes b&aacute;rbaros subsistem na &Iacute;ndia e os ingleses n&atilde;o<br \/>\n    puderam destru&iacute;-los? Na maior parte da &Iacute;ndia, respondeu Sir<br \/>\n    Francis Cromarty, esses sacrif&iacute;cios j&aacute; n&atilde;o acontecem<br \/>\n    mais, mas n&atilde;o temos nenhuma influ&ecirc;ncia nas regi&otilde;es selvagens,<br \/>\n    e principalmente aqui no territ&oacute;rio do Bundelkund. Toda a vertente<br \/>\n    setentrional dos V&iacute;ndias &eacute; teatro de assassinatos e de pilhagens<br \/>\n    incessantes.<\/p>\n<p> Coitada! murmurou Passepartout, queimada viva! Sim, continou o general de<br \/>\n    brigada, queimada, e se n&atilde;o fosse, nem podem imaginar a que miser&aacute;vel<br \/>\n    condi&ccedil;&atilde;o se veria reduzida por seus pr&oacute;ximos. Cortavam-lhe<br \/>\n    os cabelos, sustentavam-na apenas com alguns punhados de arroz, repeliam-na,<br \/>\n    seria considerada como uma criatura imunda e morreria em algum canto como<br \/>\n    um c&atilde;o sarnento. &Eacute; tamb&eacute;m a perspectiva desta medonha<br \/>\n    exist&ecirc;ncia que leva muitas vezes essas infelizes ao supl&iacute;cio,<br \/>\n    muito mais que o amor ou o fanatismo religioso. &Agrave;s vezes, contudo,<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio &eacute; realmente volunt&aacute;rio, e &eacute; necess&aacute;ria<br \/>\n    a interven&ccedil;&atilde;o en&eacute;rgica do governo para o impedir. Assim,<br \/>\n    h&aacute; alguns anos, eu residia em Bombaim, quando uma jovem vi&uacute;va<br \/>\n    veio pedir ao governador autoriza&ccedil;&atilde;o para se queimar viva com<br \/>\n    o corpo do marido. Como podem imaginar, o governador recusou. Ent&atilde;o<br \/>\n    a vi&uacute;va deixou a cidade, refugiou-se junto a um raj&aacute; independente,<br \/>\n    e l&aacute; consumou seu sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Durante a narrativa do general de brigada, o guia sacudia a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    e, quando o relato acabou: O sacrif&iacute;cio que acontecer&aacute; amanh&atilde;<br \/>\n    ao nascer do dia n&atilde;o &eacute; volunt&aacute;rio, disse.<\/p>\n<p> Como sabe? &Eacute; uma hist&oacute;ria que todo mundo conhece no Bundelkund,<br \/>\n    respondeu o guia.<\/p>\n<p> Mas esta infortunada n&atilde;o parecia fazer nenhuma resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    observou Sir Francis Cromarty.<\/p>\n<p> &Eacute; porque a inebriaram com fuma&ccedil;a de c&acirc;nhamo e de &oacute;pio.<\/p>\n<p> Mas para onde a levam? Para o pagode de Pillaji, a duas milhas daqui. L&aacute;,<br \/>\n    passar&aacute; a noite esperando a hora do sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> E o sacrif&iacute;cio acontecer&aacute;?&#8230;<\/p>\n<p> Amanh&atilde;, ao raiar do sol.<\/p>\n<p> Depois desta resposta, o guia tirou o elefante da mata fechada e subiu para<br \/>\n    o pesco&ccedil;o do animal. Mas no momento em que ia incit&aacute;-lo com<br \/>\n    um assobio particular, Mr. Fogg o deteve, e, dirigindo-se a Sir Francis Cromarty:<br \/>\n    E se salv&aacute;ssemos esta mulher? disse.<\/p>\n<p> Salvar esta mulher, senhor Fogg!&#8230; exclamou o general de brigada.<\/p>\n<p> Tenho ainda doze horas de avan&ccedil;o. Posso consagr&aacute;-las a isso.<\/p>\n<p> Ora, ora! Mas &eacute; um homem de cora&ccedil;&atilde;o! disse Sir Francis<br \/>\n    Cromarty.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes, respondeu simplesmente Phileas Fogg. Quando tenho tempo.<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">CAP&Iacute;TULO XIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT PROVA MAIS UMA VEZ QUE A FORTUNA SORRI AOS AUDACIOSOS<\/b><\/p>\n<p>O plano era audacioso, eivado de dificuldados, impratic&aacute;vel talvez.<br \/>\n    Mr. Fogg iria arriscar sua vida, ou pelo menos sua liberdade, e assim a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de seus projetos, mas n&atilde;o hesitou. Encontrou, ademais, em Sir Francis<br \/>\n    Cromarty um auxiliar decidido.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, estava pronto, podiam dispor dele. A id&eacute;ia<br \/>\n    do patr&atilde;o o exaltava. Sentia um cora&ccedil;&atilde;o, uma alma sob<br \/>\n    aquela apar&ecirc;ncia g&eacute;lida. Come&ccedil;ava a amar Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Faltava o guia. Que lado tomaria? N&atilde;o estaria inclinado a favor dos<br \/>\n    hindus? Na aus&ecirc;ncia de sua colabora&ccedil;&atilde;o, era preciso pelo<br \/>\n    menos contar com a sua neutralidade.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty perguntou-lhe diretamente.<\/p>\n<p> Meu oficial, respondeu o guia, sou Parsi, e esta mulher &eacute; Parsi.<br \/>\n    Conte comigo.<\/p>\n<p> Muito bem, guia, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Entretanto, saibam bem, retomou o Parsi, n&atilde;o arriscamos apenas a<br \/>\n    vida, mas a supl&iacute;cios horr&iacute;veis, se formos pegos. Por isso,<br \/>\n    reflitam.<\/p>\n<p> Est&aacute; refletido, respondeu Mr. Fogg. Penso que devemos esperar a noite<br \/>\n    para agir? Penso o mesmo, respondeu o guia.<\/p>\n<p> Este bravo Indiano deu ent&atilde;o alguns detalhes sobre a v&iacute;tima.<br \/>\n    Era uma Indiana famosa por sua beleza, de ra&ccedil;a parsi, filha de ricos<br \/>\n    negociantes de Bombaim. Tinha recebido naquela cidade uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    absolutamente inglesa, e por suas maneiras, por sua instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    qualquer um a creria Europ&eacute;ia. Chamava-se Aouda.<\/p>\n<p> Orf&atilde;, foi casada contra a vontade com o velho raj&aacute; do Bundelkund.<br \/>\n    Tr&ecirc;s meses depois, ficou vi&uacute;va. Sabendo a sorte que a esperava,<br \/>\n    fugiu, foi logo apanhada, e os parentes do raj&aacute;, que tinham interesse<br \/>\n    em sua morte, destinaram-na a este supl&iacute;cio do qual parecia n&atilde;o<br \/>\n    poder escapar.<\/p>\n<p> Este relato s&oacute; refor&ccedil;ou Mr. Fogg e seus companheiros em sua<br \/>\n    generosa resolu&ccedil;&atilde;o. Foi decidido que o guia dirigiria o elefante<br \/>\n    para o pagode de Pillaji, do qual se aproximaria tanto quanto poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Cerca de meia hora depois, pararam sob um arvoredo, a quinhentos passos<br \/>\n    do pagode, que n&atilde;o podiam avistar; mas o alarido dos fan&aacute;ticos<br \/>\n    se fazia ouvir distintamente.<\/p>\n<p> Discutiram ent&atilde;o os meios de chegar perto da v&iacute;tima. O guia<br \/>\n    conhecia este pagode de Pillaji, no qual afirmou que a jovem estava aprisionada.<br \/>\n    Poderiam penetrar por uma das portas, quando todo o bando estivesse mergulhado<br \/>\n    no sono do entorpecimento, ou seria preciso fazer um buraco na muralha? Isso<br \/>\n    s&oacute; poderia ser decidido no local e na hora. Mas do que n&atilde;o havia<br \/>\n    nenhuma d&uacute;vida era que o resgate deveria ser realizado naquela mesma<br \/>\n    noite, e n&atilde;o quando, ao raiar do dia, a v&iacute;tima seria conduzida<br \/>\n    ao supl&iacute;cio. Nesse instante, nenhuma interven&ccedil;&atilde;o humana<br \/>\n    seria capaz de a salvar.<\/p>\n<p> Mr. Fogg e os seus companheiros esperaram a noite. Assim que escureceu,<br \/>\n    por volta das seis horas, resolveram fazer um reconhecimento em volta do pagode.<br \/>\n    Os &uacute;ltimos gritos dos faquires ent&atilde;o se extinguiam. Seguindo<br \/>\n    seu costume, estes Indianos deviam estar mergulhados no pesado entorpecimento<br \/>\n    do &ldquo;hang&rdquo; &oacute;pio l&iacute;quido, misturado com uma infus&atilde;o<br \/>\n    de c&acirc;nhamo e seria talvez poss&iacute;vel se esgueirar por entre eles<br \/>\n    at&eacute; o templo.<\/p>\n<p> O Parsi, guiando Mr. Fogg, Sir Francis Cromarty e Passepartout, avan&ccedil;ou<br \/>\n    sem barulho atrav&eacute;s da floresta. Depois de rastejarem dez minutos sob<br \/>\n    os ramos, chegaram &agrave; borda de um pequeno rio, e ali, &agrave; luz de<br \/>\n    tochas de ferro na ponta das quais ardiam resinas, distinguiram um monte de<br \/>\n    madeira empilhada. Era a pira, feita de precioso s&acirc;ndalo, e j&aacute;<br \/>\n    impregnado com um &oacute;leo perfumado. Em sua parte superior repousava o<br \/>\n    corpo embalsamado do raj&aacute;, que deveria ser queimado ao mesmo tempo<br \/>\n    que sua vi&uacute;va. A cem passos desta pira elevava-se o pagode, cujos minaretes<br \/>\n    atravessavam na sombra a copa das &aacute;rvores.<\/p>\n<p> Venham! disse o guia em voz baixa.<\/p>\n<p> E, com precau&ccedil;&atilde;o redobrada, seguido por seus companheiros,<br \/>\n    esgueirou-se silenciosamente pelo matagal.<\/p>\n<p> O sil&ecirc;ncio s&oacute; era interrompido pelo murm&uacute;rio do vento<br \/>\n    nos galhos.<\/p>\n<p> Logo o guia parou na extremidade de uma clareira. Algumas resinas iluminavam<br \/>\n    o lugar. O solo estava juncado de grupos que dormiam, prostrados pelo entorpecimento.<br \/>\n    Parecia um campo de batalha coberto de mortos. Homens, mulheres e crian&ccedil;as<br \/>\n    todos confundidos. Alguns entorpecidos ainda roncavam, aqui e ali.<\/p>\n<p> Ao fundo, entre as &aacute;rvores, divisava-se distintamente o templo de<br \/>\n    Pillaji. Mas, para grande desapontamento do guia, os guardas do raj&aacute;,<br \/>\n    iluminados por tochas fuliginosas, vigiavam as portas e passeavam de um lado<br \/>\n    para outro, o sabre desembainhado. Poderiam supor que no interior os sacerdotes<br \/>\n    tamb&eacute;m vigiassem.<\/p>\n<p> O Parsi n&atilde;o foi mais longe. Reconhecera a impossibilidade de for&ccedil;ar<br \/>\n    a entrada do templo, e fez recuar seus companheiros.<\/p>\n<p> Phileas Fogg e Sir Francis Cromarty tinham compreendido como ele que nada<br \/>\n    poderiam tentar por este lado.<\/p>\n<p> Pararam e se consultaram em voz baixa.<\/p>\n<p> Esperemos, disse o general de brigada; s&atilde;o s&oacute; oito horas ainda,<br \/>\n    e &eacute; poss&iacute;vel que estes guardas sucumbam tamb&eacute;m ao sono.<\/p>\n<p> &Eacute; poss&iacute;vel,com efeito, respondeu o Parsi.<\/p>\n<p> Phileas Fogg e os seus companheiros estenderam-se pois ao p&eacute; de uma<br \/>\n    &aacute;rvore e esperaram.<\/p>\n<p> O tempo lhes pareceu longo! O guia deixava-os &agrave;s vezes e ia observar<br \/>\n    a orla do bosque. Os guardas do raj&aacute; continuavam a velar &agrave; luz<br \/>\n    das tochas, e uma vaga luz filtrava atrav&eacute;s das janelas do pagode.<\/p>\n<p>Esperaram assim at&eacute; &agrave; meia noite. A situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o mudou. Mesma vigil&acirc;ncia do lado de fora. Era evidente que<br \/>\n    n&atilde;o se podia contar com o sono dos guardas. O entorpecimento do hang<br \/>\n    lhes tinha sido provavelmente poupado. Era preciso portanto agir de outro<br \/>\n    modo e penetrar por uma abertura feita nas muralhas do pagode. Restava a quest&atilde;o<br \/>\n    de saber se os sacerdotes vigiavam junto &agrave; sua v&iacute;tima com tanto<br \/>\n    zelo como os soldados &agrave; porta do templo.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s uma &uacute;ltima conversa, o guia disse que estava pronto para<br \/>\n    partir. Mr. Fogg, Sir Francis e Passepartout seguiram-no. Deram uma volta<br \/>\n    bem longa, para chegarem ao pagode pelos fundos.<\/p>\n<p> Por volta de meia noite e meia, chegaram ao p&eacute; dos muros sem terem<br \/>\n    encontrado ningu&eacute;m. Nenhuma vigil&acirc;ncia tinha sido estabelecida<br \/>\n    daquele lado, mas na verdade n&atilde;o havia nem portas nem janelas.<\/p>\n<p> A noite estava sombria. A lua, ent&atilde;o em seu &uacute;ltimo quadrante,<br \/>\n    deixava apenas o horizonte, encoberto por densas nuvens. A altura das &aacute;rvores<br \/>\n    aumentava ainda mais a escurid&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o bastava ter chegado ao p&eacute; das muralhas, era preciso<br \/>\n    ainda fazer uma abertura. Para esta opera&ccedil;&atilde;o Phileas Fogg e<br \/>\n    os seus companheiros tinham apenas seus canivetes. Felizmente, as paredes<br \/>\n    do templo eram feitas de uma mistura de tijolo e madeira que n&atilde;o deveria<br \/>\n    ser dif&iacute;cil furar. Tirado o primeiro tijolo, os outros vieram facilmente.<\/p>\n<p> Puseram m&atilde;os &agrave; obra, fazendo o menor ru&iacute;do poss&iacute;vel.<br \/>\n    O Parsi de um lado, Passepartout do outro, trabalhavam para arrancar os tijolos,<br \/>\n    de modo a obter uma abertura com dois p&eacute;s de largura.<\/p>\n<p> O trabalho avan&ccedil;ava, quando um grito se fez ouvir no interior do<br \/>\n    templo, e quase em seguida outros gritos responderam do lado de fora.<\/p>\n<p> Passepartout e o guia interromperam o trabalho. Teriam sido supreendidos?<br \/>\n    Seria um sinal de despertar? A prud&ecirc;ncia mais elementar recomendaria<br \/>\n    que se afastassem o que fizeram ao mesmo tempo que Phileas Fogg e sir Francis<br \/>\n    Cromarty. Esconderam-se novamente sob a cobertura do bosque, esperando que<br \/>\n    o alerta, supondo-se que fosse um, se dissipasse, e prontos, neste caso, a<br \/>\n    recome&ccedil;ar a opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas contratempo funesto guardas apareceram no fundo do pagode, e postaram-se<br \/>\n    ali impedindo qualquer aproxima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Seria dif&iacute;cil descrever o desapontamento destes quatro homens, detidos<br \/>\n    em sua obra. Agora, que n&atilde;o poderiam mais chegar at&eacute; a v&iacute;tima,<br \/>\n    como a salvariam? Sir Francis Cromarty mordia os punhos. Passepartout estava<br \/>\n    fora de si, e o guia tinha alguma dificuldade em cont&ecirc;-lo. O impass&iacute;vel<br \/>\n    Fogg aguardava sem manifestar seus sentimentos.<\/p>\n<p> S&oacute; nos resta partir? perguntou o general de brigada em voz baixa.<\/p>\n<p> S&oacute; nos resta partir, respondeu o guia.<\/p>\n<p> Esperem, disse Mr. Fogg. Basta que eu esteja amanh&atilde; em Alaabad antes<br \/>\n    do meio dia.<\/p>\n<p> Mas o que espera? respondeu Sir Francis Cromarty. Em algumas horas o dia<br \/>\n    vai aparecer, e&#8230;<\/p>\n<p> A oportunidade que nos escapa pode voltar a se apresentar no momento supremo.<\/p>\n<p> O general de brigada teria desejado poder ler nos olhos de Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Com o que contava este frio Ingl&ecirc;s? Quereria, no momento do supl&iacute;cio,<br \/>\n    lan&ccedil;ar-se em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; jovem e arranc&aacute;-la<br \/>\n    abertamente de seus algozes? Seria uma loucura, e como admitir que este homem<br \/>\n    fosse louco a tal ponto? Apesar de tudo, Sir Francis Cromarty consentiu em<br \/>\n    esperar at&eacute; o desenlace daquela terr&iacute;vel cena. Todavia, o guia<br \/>\n    n&atilde;o deixou os seus companheiros no lugar onde se tinham refugiado,<br \/>\n    levou-os para a parte anterior da clareira. Dali, ocultos por algumas &aacute;rvores,<br \/>\n    podiam observar os grupos adormecidos.<\/p>\n<p> Enquanto isso, Passepartout, empoleirado nos primeiros galhos de uma &aacute;rvore,<br \/>\n    ruminava uma id&eacute;ia que havia a princ&iacute;pio atravessado seu esp&iacute;rito<br \/>\n    como um rel&acirc;mpago, e que acabara por incrustar-se em seu c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Havia come&ccedil;ado por se dizer: Que loucura! e agora repetia: Porque<br \/>\n    n&atilde;o, apesar de tudo? &Eacute; uma probabilidade, talvez a &uacute;nica,<br \/>\n    e com uns brutos assim!&#8230;<\/p>\n<p> Em todo caso, Passepartout n&atilde;o elaborou este pensamento, mas n&atilde;o<br \/>\n    tardou a deslizar com a agilidade de uma serpente sobre os ramos baixos da<br \/>\n    &aacute;rvore cuja extremidades se curvava para o solo.<\/p>\n<p> As horas corriam, e logo algumas tonalidades menos sombrias anunciaram a<br \/>\n    aproxima&ccedil;&atilde;o do dia. Contudo, a escurid&atilde;o era ainda profunda.<\/p>\n<p> Chegara o momento. Houve como que uma resurrei&ccedil;&atilde;o daquela<br \/>\n    multid&atilde;o adormecida. Os grupos se animaram. Batidas de tant&atilde;s<br \/>\n    ressoaram. Cantos e gritos ecoaram novamente. Chegara a hora em que a desafortunada<br \/>\n    iria morrer.<\/p>\n<p> Com efeito, as portas de pagode se abriram. Uma luz mais viva escapou do<br \/>\n    interior. Mr. Fogg e Sir Francis Cromarty puderam divisar a v&iacute;tima,<br \/>\n    vivamente iluminada, que dois sacerdotes arrastavam para fora. Pareceu-lhes<br \/>\n    mesmo que, sacudindo o entorpecimento por um supremo instinto de conserva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a infeliz tentava escapar de seus verdugos. O cora&ccedil;&atilde;o de sir<br \/>\n    Francis Cromarty pulou, e em um movimento compulsivo, agarrando na m&atilde;o<br \/>\n    de Phileas Fogg, sentiu que aquela m&atilde;o tinha uma navalha aberta.<\/p>\n<p> Neste momento, a multid&atilde;o moveu-se. A jovem reca&iacute;ra no torpor<br \/>\n    provocado pelas fuma&ccedil;as do c&acirc;nhamo. Passou rodeada pelos faquires,<br \/>\n    que a escoltavam com suas vocifera&ccedil;&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p> Phileas Fogg e os seus companheiros, confundindo-se com as &uacute;ltimas<br \/>\n    fileiras da multid&atilde;o, seguiram-na.<\/p>\n<p> Dez minutos depois, chegaram &agrave; beira do rio e pararam a menos de<br \/>\n    cinq&uuml;enta passos da pira, sobre a qual estava estendido o corpo do raj&aacute;.<br \/>\n    Na semi obscuridade, viram a v&iacute;tima absolutamente inerte, estendida<br \/>\n    aos p&eacute;s do cad&aacute;ver de seu esposo.<\/p>\n<p> Depois uma tocha foi aproximada e a madeira, impregnada de &oacute;leo,<br \/>\n    logo se inflamou.<\/p>\n<p> Neste momento, Sir Francis Cromarty e o guia contiveram Phileas Fogg, que<br \/>\n    num momento de generosa loucura, se lan&ccedil;ava em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; fogueira&#8230;<\/p>\n<p> Mas Phileas Fogg j&aacute; os havia repelido, quando a cena subitamente<br \/>\n    mudou. Um grito de terror se elevou. Toda aquela multid&atilde;o se prostrou<br \/>\n    por terra, assombrada.<\/p>\n<p> O velho raj&aacute; n&atilde;o estava, ent&atilde;o, morto, porque o viram<br \/>\n    erguer-se de repente como um fantasma, levantar a jovem em seus bra&ccedil;os,<br \/>\n    descer da pira no meio de turbilh&otilde;es de fumo que lhe davam uma apar&ecirc;ncia<br \/>\n    espectral.<\/p>\n<p> Os faquires, os guardas, os sacerdotes, tomados por s&uacute;bito terror,<br \/>\n    estavam l&aacute;, face sobre a terra, sem se atreverem a levantar os olhos<br \/>\n    e contemplar um tal prod&iacute;gio! A v&iacute;tima inanimada passou carregada<br \/>\n    por bra&ccedil;os vigorosos que a levavam, e sem que parecesse lhes pesar.<br \/>\n    Mr. Fogg e Sir Francis Cromarty tinham ficado de p&eacute;. O Parsi curvara<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, e Passepartout, sem d&uacute;vida, n&atilde;o estaria menos<br \/>\n    estupefato!&#8230;<\/p>\n<p> O ressuscitado chegou perto do local onde estavam Mr. Fogg e Sir Francis<br \/>\n    Cromarty, e a&iacute;, com voz grave: Fujamos! disse.<\/p>\n<p> Era Passepartout em pessoa que deslizara at&eacute; a pira no meio da fuma&ccedil;a<br \/>\n    espessa! Era Passepartout que, aproveitando a escurid&atilde;o ainda profunda,<br \/>\n    tinha arrancado a jovem &agrave; morte! Era Passepartout que, desempenhando<br \/>\n    o seu papel com uma audaciosa felicidade, passara inc&oacute;lume no meio<br \/>\n    do assombro geral! Um instante depois, todos os quatro desapareciam na floresta,<br \/>\n    e o elefante os transportava num trote r&aacute;pido. Mas gritos, clamores<br \/>\n    e mesmo uma bala, que atravessou o chap&eacute;u de Phileas Fogg, fez-lhes<br \/>\n    saber que o logro tinha sido descoberto.<\/p>\n<p> Com efeito, sobre a pira em chamas distinguia-se agora o corpo do velho<br \/>\n    raj&aacute;. Os sacerdotes, sa&iacute;dos de seu terror, tinham compreendido<br \/>\n    que um rapto acabara de se consumar.<\/p>\n<p> Imediatamente tinham se precipitado na floresta. Os guardas os tinham seguido.<br \/>\n    Fizeram uma descarga, mas os raptores fugiam rapidamente, e, em pouco tempo,<br \/>\n    achavam-se fora do alcance das balas e das flechas.<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">CAP&Iacute;TULO XIV<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PHILEAS FOGG DESCE TODO O ADMIR&Aacute;VEL VALE DO GANGES SEM<br \/>\n    SEQUER PENSAR EM V&Ecirc;-LO<\/b><\/p>\n<p>O arrojado rapto havia vingado. Uma hora depois, Passepartout ria ainda de<br \/>\n    seu sucesso. Sir Francis Cromarty havia apertado as m&atilde;os do intr&eacute;pido<br \/>\n    mo&ccedil;o. O patr&atilde;o lhe havia dito: Bom o que, na boca deste gentleman,<br \/>\n    equivalia a uma alta aprova&ccedil;&atilde;o. Ao que Passepartout respondeu<br \/>\n    que toda a honra da empreitada pertencia a seu patr&atilde;o. Para ele, s&oacute;<br \/>\n    tinha tido uma id&eacute;ia maluca, e ria ao pensar que, durante alguns instantes,<br \/>\n    ele, Passepartout, antigo ginasta, ex-sargento de bombeiros, fora o vi&uacute;vo<br \/>\n    de uma mulher encantadora, um velho raj&aacute; embalsamado! Quanto &agrave;<br \/>\n    jovem indiana, nem tinha tido consci&ecirc;ncia do que se passara. Embrulhada<br \/>\n    nas mantas de viagem, repousava sobre um dos cestos.<\/p>\n<p> Enquanto isso o elefante, guiado com extrema seguran&ccedil;a pelo Parsi,<br \/>\n    corria rapidamente pela floresta ainda obscura. Uma hora ap&oacute;s ter deixado<br \/>\n    o pagode de Pillaji, lan&ccedil;ava-se atrav&eacute;s de uma imensa plan&iacute;cie.<br \/>\n    &Agrave;s sete horas, fizeram alto. A jovem continuava ainda em completa prostra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O guia deu-lhe alguns goles de &aacute;gua e de brandy; mas a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    entorpecedora que a atacara deveria se prolongar por algum tempo ainda.<\/p>\n<p> Sir Francis Cromarty, que conhecia os efeitos do entorpecimento produzido<br \/>\n    pela inala&ccedil;&atilde;o dos vapores do c&acirc;nhamo, n&atilde;o se inquietava.<\/p>\n<p> Mas se o restabelecimento da jovem indiana n&atilde;o oferecia d&uacute;vida<br \/>\n    ao esp&iacute;rito do general de brigada, este mostrava-se menos seguro quanto<br \/>\n    ao futuro. N&atilde;o hesitou em dizer a Phileas Fogg que se Mrs. Aouda ficasse<br \/>\n    na &Iacute;ndia, inevitavelmente recairia nas m&atilde;os dos seus verdugos.<br \/>\n    Estes energ&uacute;menos encontravam-se por toda a pen&iacute;nsula, e, com<br \/>\n    certeza, a despeito da pol&iacute;cia inglesa, saberiam reaver a sua v&iacute;tima,<br \/>\n    estivesse ela em Madras, em Bombaim, em Calcut&aacute;. E Sir Francis Cromarty<br \/>\n    citava, em apoio do que dizia, um fato da mesma natureza que se passara recentemente.<br \/>\n    Na sua opini&atilde;o, a jovem s&oacute; ficaria verdadeiramente em seguran&ccedil;a<br \/>\n    depois de ter deixado a &Iacute;ndia.<\/p>\n<p> Phileas Fogg respondeu que tomaria estas observa&ccedil;&otilde;es em conta<br \/>\n    e que o avisaria.<\/p>\n<p> Pelas dez horas, o guia anunciou a esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad. Ali<br \/>\n    continuava a via interrompida da estrada de ferro, cujos trens transp&otilde;em,<br \/>\n    em menos de um dia e uma noite, a dist&acirc;ncia que separa Alaabad de Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> Phileas Fogg deveria portanto chegar a tempo para pegar o paquete que s&oacute;<br \/>\n    partiria no dia seguinte, 25 de outubro, ao meio dia, para Hong Kong.<\/p>\n<p> A jovem foi depositada em um quarto de esta&ccedil;&atilde;o. Passepartout<br \/>\n    foi encarregado de ir comprar para ela diversos objetos de toilette, vestido,<br \/>\n    chale, peles, etc., o que achasse. Seu patr&atilde;o abria-lhe um cr&eacute;dito<br \/>\n    ilimitado.<\/p>\n<p> Passepartout partiu em seguida e percorreu as ruas da cidade. Alaabad, a<br \/>\n    cidade de Deus, &eacute; uma das mais veneradas da &Iacute;ndia, por ter sido<br \/>\n    edificada na conflu&ecirc;ncia de dois rios sagrados, o Ganges e o Jumna,<br \/>\n    cujas &aacute;guas atraem os peregrinos de toda a pen&iacute;nsula. Sabe-se<br \/>\n    ademais que, segundo as lendas do Ramayana, o Ganges tem a sua nascente no<br \/>\n    c&eacute;u, de onde, gra&ccedil;as a Brama, desce para a terra.<\/p>\n<p> Fazendo suas compras, Passepartout tamb&eacute;m viu a cidade, outrora defendida<br \/>\n    por um forte magn&iacute;fico que se tornou uma pris&atilde;o do Estado. Nem<br \/>\n    com&eacute;rcio, nem ind&uacute;stria nesta cidade, outrora industrial e comercial.<br \/>\n    Passepartout, que em v&atilde;o procurava uma loja de modas, como se estivesse<br \/>\n    na Regent Street a alguns passos da Farmer e Co., s&oacute; encontrou em um<br \/>\n    revendedor, velho judeu dificultoso, os objetos que precisava, um vestido<br \/>\n    de tecido escoc&ecirc;s, um grande casaco, e uma magn&iacute;fica pele de<br \/>\n    lontra pela qual n&atilde;o hesitou em pagar setenta e cinco libras (1.875<br \/>\n    F). Depois, todo triunfante, voltou para a esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda come&ccedil;ava a voltar a si. A influ&ecirc;ncia a que os sacerdotes<br \/>\n    de Pillaji a tinham submetido dissipava-se pouco a pouco, e seus lindos olhos<br \/>\n    recuperavam toda sua do&ccedil;ura indiana.<\/p>\n<p> Quando o rei-poeta, U&ccedil;af Uddaul, celebra os encantos da rainha de<br \/>\n    Alm&eacute;hnagara, exprime-se assim:<\/p>\n<p>Os seus cabelos reluzentes, regularmente divididos ao meio, emolduram-lhe<br \/>\n    os contornos harmoniosos de suas faces delicadas e alvas, cintilantes de lustre<br \/>\n    e de frescor. Suas sobrancelhas de &eacute;bano t&ecirc;m a forma e o poder<br \/>\n    do arco de Kama, deus do amor, e sob os longos c&iacute;lios sedosos, na pupila<br \/>\n    negra de seus grandes olhos l&iacute;mpidos, navegam como nos lagos sagrados<br \/>\n    do Himalaia, os reflexos mais puros da luz celeste. Finos, iguais e brancos,<br \/>\n    seus dentes resplandecem entre seus l&aacute;bios sorridentes, como gotas<br \/>\n    de orvalho no seio entreaberto de uma flor de rom&atilde;. Suas orelhas pequenas<br \/>\n    de curvas sim&eacute;etricas, suas m&atilde;os rosadas, seus pequenos p&eacute;s<br \/>\n    arqueados e tenros como os brotos do lotus, brilham com o luzir das mais belas<br \/>\n    p&eacute;rolas de Ceil&atilde;o, dos mais belos diamantes de Golconda. Sua<br \/>\n    cintura delgada e flex&iacute;vel, que basta uma m&atilde;o para abra&ccedil;ar,<br \/>\n    real&ccedil;a a elegante curva dos seus rins arredondados rins e a riqueza<br \/>\n    de seu busto onde a juventude em flor guarda seus mais perfeitos tesouros;<br \/>\n    e, sob as sedosas dobras de sua t&uacute;nica, parece ter sido modelada em<br \/>\n    pura prata pela m&atilde;o divina de Vicvacarma, o eterno estatu&aacute;rio.<\/p>\n<p>Mas, sem toda esta amplifica&ccedil;&atilde;o, basta dizer que Mrs. Aouda,<br \/>\n    a vi&uacute;va do raj&aacute; do Bundelkund, era uma mulher encantadora em<br \/>\n    toda acep&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia da palavra. Falava ingl&ecirc;s<br \/>\n    com grande pureza, e o guia n&atilde;o exagerara em nada ao afirmar que esta<br \/>\n    jovem Parsi havia sido transformada pela educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Enquanto isso o trem ia deixar a esta&ccedil;&atilde;o de Alaabad. O Parsi<br \/>\n    esperava. Mr. Fogg pagou-lhe o sal&aacute;rio conforme o combinado, nem um<br \/>\n    farthing a mais. Isto surpreendeu um pouco Passepartout, que sabia quanto<br \/>\n    seu patr&atilde;o devia &agrave; dedica&ccedil;&atilde;o do guia. O Parsi<br \/>\n    tinha, com efeito, arriscado voluntariamente sua vida no caso de Pillaji,<br \/>\n    e se, mais tarde, os &iacute;ndianos viessem a captur&aacute;-lo, dificilmente<br \/>\n    escaparia de sua vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Restava tamb&eacute;m a quest&atilde;o de Kiouni. Que fariam com um elefante<br \/>\n    comprado t&atilde;o caro? Mas Phileas Fogg j&aacute; tinha tomado uma decis&atilde;o.<\/p>\n<p> Parsi, disse ao guia, tu fostes servi&ccedil;al e dedicado. Paguei teu servi&ccedil;o,<br \/>\n    mas n&atilde;o tua dedica&ccedil;&atilde;o. Queres este elefante? &Eacute;<br \/>\n    teu.<\/p>\n<p> Os olhos do guia brilharam.<\/p>\n<p> &Eacute; uma fortuna que Vossa Honra me d&aacute;! exclamou.<\/p>\n<p> Aceita, guia, respondeu Mr. Fogg, e serei ainda teu devedor.<\/p>\n<p> Em boa hora! exclamou Passepartout. Aceita, amigo! Kiouni &eacute; um bravo<br \/>\n    e corajoso animal! E, indo at&eacute; a besta, presenteou-o com alguns peda&ccedil;os<br \/>\n    de a&ccedil;&uacute;car, dizendo: Toma, Kiouni, toma, toma! O elefante soltou<br \/>\n    alguns grunhidos de satisfa&ccedil;&atilde;o. Depois, tomando Passepartout<br \/>\n    pela cintura e enrolando-o com a tromba, levantou-o at&eacute; &agrave; altura<br \/>\n    da cabe&ccedil;a. Passepartout, nem um pingo assustado, fez uma boa car&iacute;cia<br \/>\n    no animal, que o recolocou no ch&atilde;o, e, ao aperto da tromba do honesto<br \/>\n    Kiouni, o honesto rapaz respondeu com um vigoroso aperto de m&atilde;o.<\/p>\n<p> Alguns instantes depois, Phileas Fogg, Sir Francis Cromarty e Passepartout,<br \/>\n    instalados em um confort&aacute;vel vag&atilde;o no qual Mrs. Aouda ocupava<br \/>\n    o melhor lugar, corriam a todo o vapor para Benares.<\/p>\n<p> Oitenta milhas, no m&aacute;ximo, separam esta cidade de Alaabad, e elas<br \/>\n    foram vencidas em duas horas.<\/p>\n<p> Durante o trajeto, a jovem voltou completamente a si; os vapores estupefacientes<br \/>\n    do hang se dissiparam.<\/p>\n<p> Qual foi sua surpresa ao achar-se na railway, naquele compartimento, com<br \/>\n    roupas europ&eacute;ias, entre viajantes completamente desconhecidos! Imediatamente,<br \/>\n    seus companheiros lhe prodigalizaram cuidados e a reanimaram com algumas gotas<br \/>\n    de licor; depois o general de brigada lhe narrou sua hist&oacute;ria. Insistiu<br \/>\n    na dedica&ccedil;&atilde;o de Phileas Fogg, que n&atilde;o tinha hesitado<br \/>\n    em arriscar a vida para a salvar, e no desenlace da aventura, devido &agrave;<br \/>\n    audaciosa imagina&ccedil;&atilde;o de Passepartout.<\/p>\n<p> Mr. Fogg deixou-o falar, sem pronunciar uma palavra. Passepartout, todo<br \/>\n    envergonhado, repetia que aquilo n&atilde;o foi nada! Mrs. Aouda agradeceu<br \/>\n    aos seus salvadores efusivamente, com suas l&aacute;grimas, mais que com suas<br \/>\n    palavras. Seus belos olhos, mais que seus l&aacute;bios, foram os int&eacute;rpretes<br \/>\n    de seu reconhecimento. Depois, recordando as cenas do sati, dirigindo seu<br \/>\n    olhar para aquela terra indiana onde tantos perigos ainda a esperavam, estremeceu<br \/>\n    de terror.<\/p>\n<p> Phileas Fogg compreendeu o que se passava no esp&iacute;rito de Mrs. Aouda,<br \/>\n    e, para tranq&uuml;iliz&aacute;-la, ofereceu-se, muito friamente ali&aacute;s,<br \/>\n    para conduzi-la a Hong Kong, onde poderia permanecer at&eacute; que o caso<br \/>\n    fosse esquecido.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda aceitou a oferta com reconhecimento. Precisamente, em Hong Kong,<br \/>\n    residia um de seus parentes, Parsi como ela, e um dos principais negociantes<br \/>\n    desta cidade, que &eacute; absolutamento inglesa, apesar do ocupar um ponto<br \/>\n    da costa chinesa.<\/p>\n<p> Ao meio dia e meia, o trem parou na esta&ccedil;&atilde;o de Benares. As<br \/>\n    lendas bram&acirc;nicas afirmam que esta cidade ocupa o local da antiga Casi,<br \/>\n    que estava outrora suspensa no espa&ccedil;o, entre o z&ecirc;nite e o nadir,<br \/>\n    como a tumba de Maom&eacute;. Mas, nesta &eacute;poca mais realista, Benares,<br \/>\n    a Atenas da &Iacute;ndia no dizer dos orientalistas, repousava muito prosaicamente<br \/>\n    no solo, e Passepartout p&ocirc;de por um instante entrever suas casas de<br \/>\n    tijolos, suas cho&ccedil;as de cana, que lhe davam um aspecto de absoluta<br \/>\n    desola&ccedil;&atilde;o, sem nenhuma cor local.<\/p>\n<p> Era ali que devia ficar Sir Francis Cromarty. As tropas a que se reunia<br \/>\n    acampavam a algumas milhas ao norte da cidade. O general de brigada deu adeus<br \/>\n    a Phileas Fogg, desejando-lhe o melhor &ecirc;xito poss&iacute;vel, e exprimindo<br \/>\n    o voto de que voltasse a fazer esta viagem de um modo menos original, mas<br \/>\n    mais proveitoso. Mr. Fogg apertou levemente os dedos do seu companheiro. Os<br \/>\n    comprimentos de Mrs. Aouda foram mais afetuosos. Jamais esqueceria o que devia<br \/>\n    a Sir Francis Cromarty. Quanto a Passepartout, foi honrado com um verdadeiro<br \/>\n    apert&atilde;o de m&atilde;o do general de brigada. Todo emocionado, perguntou-lhe<br \/>\n    onde e quando se poderia devotar a ele. Afinal separaram-se.<\/p>\n<p> A partir de Benares, a via f&eacute;rrea seguia em parte o vale do Ganges.<br \/>\n    Atrav&eacute;s dos vidros do vag&atilde;o, por um tempo muito claro, aparecia<br \/>\n    a paisagem variada do B&eacute;har, depois montanhas cobertas de vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os campos de cevada, de milho e de trigo, rios e tanques povoados por crocodilos<br \/>\n    esverdeados, aldeias bem conservadas, florestas ainda verdejantes. Alguns<br \/>\n    elefantes, zebus de grandes corcovas vinham banhar-se nas &aacute;guas do<br \/>\n    rio sagrado, e tamb&eacute;m, apesar da esta&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;ada<br \/>\n    e a temperatura j&aacute; fria, grupos de indianos de ambos os sexos, que<br \/>\n    cumpriam piedosamente suas santas ablu&ccedil;&otilde;es. Estes fi&eacute;is,<br \/>\n    inimigos encarni&ccedil;ados do budismo, s&atilde;o seguidores fervorosos<br \/>\n    da religi&atilde;o bram&acirc;nica, que se encarna em tr&ecirc;s pessoas:<br \/>\n    Vixn&uacute;, a divindade solar; Siva, a personifica&ccedil;&atilde;o divina<br \/>\n    das for&ccedil;as naturais; e Brama, o senhor supremo dos sacerdotes e dos<br \/>\n    legisladores. Mas, com que olhos deveriam Brama, Siva e Vixn&uacute; considerar<br \/>\n    esta &Iacute;ndia, agora britanizada quando algum barco a vapor passava, uivando<br \/>\n    e agitando as &aacute;guas consagradas do Ganges, espantando as gaivotas que<br \/>\n    voavam sobre sua superf&iacute;cie, as tartarugas que pululavam em suas bordas,<br \/>\n    e os devotos deitados ao longo das suas margens! Todo este panorama desfilava<br \/>\n    como um rel&acirc;mpago, e por vezes uma nuvem de vapor branco lhe ocultava<br \/>\n    os detalhes. Os viajantes mal puderam entrever o forte de Chunar, a vinte<br \/>\n    milhas o sudeste de Benares, antiga fortaleza dos raj&aacute;s do B&eacute;har,<br \/>\n    Ghazepour e suas importantes f&aacute;bricas de &aacute;gua de rosa, o t&uacute;mulo<br \/>\n    de Lord Cornwallis que se eleva sobre a margem esquerda do Ganges, a cidade<br \/>\n    fortificada de Buxar, Patna, grande cidade industrial e comercial, onde fica<br \/>\n    o principal mercado de &oacute;pio da &Iacute;ndia, Monghir, cidade mais que<br \/>\n    europ&eacute;ia, inglesa como Manchester ou Birmingham, famosa por suas fundi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ferro, suas serralherias e f&aacute;bricas de armas brancas, cujas altas<br \/>\n    chamin&eacute;s escureciam com uma fuma&ccedil;a negra o c&eacute;u de Brama<br \/>\n    um verdadeiro murro no pa&iacute;s do sonho! Depois veio a noite e, em meio<br \/>\n    do uivar dos tigres, dos ursos, dos lobos que fugiam diante da locomotiva,<br \/>\n    o trem passou a toda velocidade, e nada mais se p&ocirc;de ver das maravilhas<br \/>\n    de Bengala, nem Golgonda, nem Gour em ru&iacute;na, nem Mourshedabad, que<br \/>\n    foi em outros tempos capital, nem Burdwan, nem Hougly, nem Chandernagor, ponto<br \/>\n    franc&ecirc;s do territ&oacute;rio indiano sobre o qual Passepartout teria<br \/>\n    tido o orgulho de ver tremular a bandeira da sua p&aacute;tria! Finalmente,<br \/>\n    &agrave;s sete da manh&atilde;, chegaram a Calcut&aacute;. O paquete, de partida<br \/>\n    para Hong Kong, s&oacute; levantaria &acirc;ncora ao meio dia. Phileas Fogg<br \/>\n    tinha, pois, cinco horas pela frente.<\/p>\n<p> De acordo com seu roteiro, este gentleman deveria chegar &agrave; capital<br \/>\n    das &Iacute;ndias em 25 de outubro, vinte e tr&ecirc;s dias ap&oacute;s ter<br \/>\n    sa&iacute;do de Londres, e ali chegava no dia fixado. N&atilde;o havia, pois,<br \/>\n    nem atraso nem avan&ccedil;o. Infelizmente, os dois dias ganhos por ele entre<br \/>\n    Londres e Bombaim tinham sido perdidos, sabemos como, na travessia da pen&iacute;nsula<br \/>\n    indiana mas &eacute; de supor que Phileas Fogg n&atilde;o os lamentasse.<\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">CAP&Iacute;TULO XV<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE A SACOLA COM BANK-NOTES FICA ALIVIADA DE MAIS ALGUNS MILHARES<br \/>\n    DE LIBRAS <\/b><\/p>\n<p>O trem parara na esta&ccedil;&atilde;o. Passepartout foi o primeiro a descer<br \/>\n    do vag&atilde;o, e foi seguido por Mr. Fogg, que ajudou sua jovem companhia<br \/>\n    a colocar o p&eacute; na plataforma. Phileas Fogg contava dirigir-se diretamente<br \/>\n    ao paquete para Hong Kong, para instalar ali confortavelmente Mrs. Aouda,<br \/>\n    que n&atilde;o queria deixar, enquanto estivesse nesta terra t&atilde;o perigosa<br \/>\n    para ela.<\/p>\n<p> No momento em que Mr. Fogg ia a sair da esta&ccedil;&atilde;o um policeman<br \/>\n    aproximou-se e disse: Senhor Phileas Fogg? Sou eu.<\/p>\n<p> Este homem &eacute; seu criado? acrescentou o policeman apontando Passepartout.<\/p>\n<p> Sim.<\/p>\n<p> Queiram seguir-me.<\/p>\n<p> Mr. Fogg n&atilde;o fez nenhum movimento que pudesse revelar qualquer surpresa.<br \/>\n    Aquele agente era um representante da lei, e, para qualquer ingl&ecirc;s,<br \/>\n    a lei &eacute; sagrada. Passepartout, com os seus h&aacute;bitos franceses,<br \/>\n    queria discutir, mas o policeman tocou nele com seu bast&atilde;o, e Phileas<br \/>\n    Fogg lhe fez sinal para obedecer.<\/p>\n<p> Esta jovem dama pode acompanhar-nos? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Pode, respondeu o policeman.<\/p>\n<p> O policeman conduziu Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout at&eacute; um palki-ghari,<br \/>\n    esp&eacute;cie de ve&iacute;culo de quatro rodas e quatro lugares, atrelado<br \/>\n    a dois cavalos. Partiram. Ningu&eacute;m falou durante o trajeto, que durou<br \/>\n    uns vinte minutos.<\/p>\n<p> O ve&iacute;culo atravessou primeiro a cidade negra, com ruas estreitas,<br \/>\n    bordejada por cal&ccedil;adas em que formigava uma popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cosmopolita, imunda e andrajosa; depois passou pela cidade europ&eacute;ia,<br \/>\n    alegrada com casas de tijolo, ensombrada por coqueiros, eri&ccedil;ada de<br \/>\n    mastros, por entre os quais trotavam, apesar da hora matinal, cavaleiros elegantes<br \/>\n    e magn&iacute;ficas montarias.<\/p>\n<p> O palki-ghari parou na frente de uma habita&ccedil;&atilde;o de apar&ecirc;ncia<br \/>\n    simples, mas que n&atilde;o deveria se destinar a usos dom&eacute;sticos.<br \/>\n    O policeman fez descer seus prisioneiros podemos a rigor lhes dar este nome<br \/>\n    e os conduziu a uma depend&ecirc;ncia com janelas gradeadas, dizendo: &Eacute;<br \/>\n    &agrave;s oito horas e meia que comparecer&atilde;o perante o juiz Obadiah.<\/p>\n<p> Depois retirou-se e fechou a porta.<\/p>\n<p> Bem! estamos presos! exclamou Passepartout, deixando-se cair numa cadeira.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda, dirigindo-se logo a Mr. Fogg, disse-lhe com uma voz da qual<br \/>\n    procurava em v&atilde;o disfar&ccedil;ar a emo&ccedil;&atilde;o: Senhor, &eacute;<br \/>\n    preciso me abandonar! &Eacute; por minha causa que o perseguem! &Eacute; por<br \/>\n    me ter salvo! Phileas Fogg contentou-se em responder que isso n&atilde;o era<br \/>\n    poss&iacute;vel. Perseguido por esse assunto do sati! Inadmiss&iacute;vel!<br \/>\n    Como os queixosos se atreveriam a se apresentar? Havia engano. Mr. Fogg acrescentou<br \/>\n    que, fosse como fosse, n&atilde;o abandonaria a jovem, e a conduziria a Hong<br \/>\n    Kong.<\/p>\n<p> Mas o barco parte ao meio dia! observou Passepartout.<\/p>\n<p> Antes do meio dia estaremos no navio, respondeu simplesmente o impass&iacute;vel<br \/>\n    gentleman.<\/p>\n<p> Isto foi afirmado t&atilde;o assertivamente, que Passepartout n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de deixar de se dizer: Caramba! &eacute; mais que certo! antes do<br \/>\n    meio dia estaremos a bordo! Mas n&atilde;o estava t&atilde;o convencido assim.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito e meia, a porta da sala se abriu. O policeman reapareceu,<br \/>\n    e introduziu os presos na sala ao lado. Era uma sala de audi&ecirc;ncia, e<br \/>\n    um p&uacute;blico bastante numeroso, composto de Europeus e de nativos j&aacute;<br \/>\n    ocupava o pret&oacute;rio.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout sentaram-se em um banco defronte aos<br \/>\n    lugares reservados ao magistrado e ao escriv&atilde;o.<\/p>\n<p> Este magistrado, o juiz Obadiah, entrou quase imediatamente, seguido pelo<br \/>\n    escriv&atilde;o. Era um homem grande todo redondo. Pegou uma peruca pendurada<br \/>\n    numa chapeleira e se cobriu com ela r&aacute;pida e decidamente.<\/p>\n<p> A primeira causa, disse.<\/p>\n<p> Mas, levando a m&atilde;o &agrave; cabe&ccedil;a: Epa! esta n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a minha peruca! Com efeito, senhor Obadiah, &eacute; a minha, respondeu o<br \/>\n    escriv&atilde;o.<\/p>\n<p> Caro senhor Oysterpuf, como quer que o juiz possa proferir uma boa senten&ccedil;a<br \/>\n    com a peruca de um escriv&atilde;o? A troca das perucas foi feita. Durante<br \/>\n    estas preliminares, Passepartout fervia de impaci&ecirc;nca, porque o ponteiro<br \/>\n    lhe parecia andar terrivelmente r&aacute;pido sobre o mostrador do grande<br \/>\n    rel&oacute;gio do tribunal.<\/p>\n<p> A primeira causa, retomou ent&atilde;o o juiz Obadiah.<\/p>\n<p> Phileas Fogg? disse o escriv&atilde;o Oysterpuf.<\/p>\n<p> Estou aqui, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Passepartout? Presente! respondeu Passepartout.<\/p>\n<p> Bem! disse o juiz Obadiah. H&aacute; dois dias, acusados, que os procuramos<br \/>\n    em todos os trens de Bombaim.<\/p>\n<p> Mas de que nos acusam? gritou Passepartout, impaciente.<\/p>\n<p> Vai saber, respondeu o juiz.<\/p>\n<p> Senhor, disse ent&atilde;o Mr. Fogg, sou cidad&atilde;o ingl&ecirc;s, e<br \/>\n    tenho direito&#8230;<\/p>\n<p> Faltaram-lhe ao respeito? perguntou Mr. Obadiah.<\/p>\n<p> De modo algum.<\/p>\n<p> &Oacute;timo! fa&ccedil;am entrar os queixosos.<\/p>\n<p> &Agrave; ordem do juiz, abriu-se uma porta, e tr&ecirc;s sacerdotes hindus<br \/>\n    foram introduzidos por um oficial.<\/p>\n<p> &Eacute; isso! murmurou Passepartout, s&atilde;o aqueles velhacos que queriam<br \/>\n    queimar a nossa jovem dama! Os sacerdotes perfilaram-se diante do juiz, e<br \/>\n    o escriv&atilde;o leu em voz alta uma acusa&ccedil;&atilde;o de sacril&eacute;gio,<br \/>\n    formulada contra o senhor Phileas Fogg e o seu criado, acusados de ter violado<br \/>\n    um lugar consagrado &agrave; religi&atilde;o bram&acirc;nica.<\/p>\n<p> Ouviu? perguntou o juiz a Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Sim, senhor, respondeu Mr. Fogg consultando seu rel&oacute;gio, e confesso.<\/p>\n<p> Ah! confessa? Confesso e espero que estes tr&ecirc;s sacerdotes por sua<br \/>\n    vez tamb&eacute;m confessem o que queriam fazer no pagode de Pillaji.<\/p>\n<p> Os sacerdotes se entreolharam. Pareciam n&atilde;o compreender nada das<br \/>\n    palavras do acusado.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida! exclamou impetuosamente Passepartout, no pagode de Pillaji,<br \/>\n    diante do qual eles iam queimar sua v&iacute;tima! Nova estupefa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos sacerdotes, e profundo espanto do juiz Obadiah.<\/p>\n<p> Que v&iacute;tima? perguntou. Queimar quem? Em plena cidade de Bombaim?<br \/>\n    Bombaim? exclamou Passepartout.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida. N&atilde;o se trata do pagode de Pillaji, mas do pagode<br \/>\n    de Malebar Hill, em Bombaim.<\/p>\n<p> E como prova, eis os sapatos do profanador, acrescentou o escriv&atilde;o,<br \/>\n    pondo um par de cal&ccedil;ados sobre sua mesa.<\/p>\n<p> Meus sapatos! gritou Passepartout, que, extremamente surpreso, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de conter esta exclama&ccedil;&atilde;o involunt&aacute;ria.<\/p>\n<p> Adivinhem a confus&atilde;o que se operou no esp&iacute;rito do patr&atilde;o<br \/>\n    e do criado. O incidente do pagode de Bombaim, eles o tinham esquecido, e<br \/>\n    era exatamente este que os levava perante o magistrado de Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> Com efeito, o agente Fix tinha compreendido todo o partido que poderia tirar<br \/>\n    deste malfadado acontecimento. Atrasando sua partida em doze horas, arvorara-se<br \/>\n    em conselheiro dos sacerdotes de Malebar Hill; tinha prometido para eles indeniza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    consider&aacute;veis, sabendo bem que o governo ingl&ecirc;s se mostrava muito<br \/>\n    severo para este g&ecirc;nero de delito; depois, no trem seguinte, os tinha<br \/>\n    lan&ccedil;ado na pista do sacr&iacute;lego. Mas, devido ao tempo empregado<br \/>\n    no resgate da jovem vi&uacute;va, Fix e os hindus chegaram a Calcut&aacute;<br \/>\n    antes de Phileas Fogg e seu criado, que os magistrados, prevenidos por despacho,<br \/>\n    deveriam prender quando descessem do trem. Avaliem o desapontamento de Fix,<br \/>\n    quando soube que Phileas Fogg n&atilde;o havia chegado ainda &agrave; capital<br \/>\n    da &Iacute;ndia. Deveria ter acreditado que o seu ladr&atilde;o, parando em<br \/>\n    uma das esta&ccedil;&otilde;es do Peninsular Railway, tinha se refugiado nas<br \/>\n    prov&iacute;ncias setentrionais. Por vinte e quatro horas, em meio a mortais<br \/>\n    inquietudes, Fix o aguardou na esta&ccedil;&atilde;o. Qual n&atilde;o foi<br \/>\n    pois sua alegria quando, naquela manh&atilde;, o viu descer do vag&atilde;o,<br \/>\n    em companhia, &eacute; verdade, de uma jovem cuja presen&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    podia explicar. Imediatamente lan&ccedil;ou sobre ele um policeman, e eis<br \/>\n    como Mr. Fogg, Passepartout e a vi&uacute;va do raj&aacute; do Bundelkund<br \/>\n    foram conduzidos perante o juiz Obadiah.<\/p>\n<p> E se Passepartout tivesse estado menos preocupado com seu caso, teria percebido,<br \/>\n    em um canto do pret&oacute;rio, o detetive, que acompanhava o debate com um<br \/>\n    interesse f&aacute;cil de se compreender porque em Calcut&aacute;, como em<br \/>\n    Bombaim, como em Suez, o mandado de pris&atilde;o faltava-lhe ainda! Neste<br \/>\n    interim, o juiz Obadiah fizera constar em ata a confiss&atilde;o que deixara<br \/>\n    escapar Passepartout, o qual teria dado tudo o que possu&iacute;a para poder<br \/>\n    retirar suas palavras imprudentes.<\/p>\n<p> Confessam os fatos? disse o juiz.<\/p>\n<p> Confessados, respondeu friamente Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Tendo em vista, retomou o juiz, tendo em vista que a lei inglesa entende<br \/>\n    proteger igual e rigorosamente todas as religi&otilde;es das popula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da &Iacute;ndia, o delito tendo sido confessado pelo senhor Passepartout,<br \/>\n    convicto de ter violado com p&eacute; sacr&iacute;lego o pavimento do pagode<br \/>\n    de Malebar Hill, em Bombaim, no dia 20 de outubro, condeno o supramencionado<br \/>\n    Passepartout a quinze dias de pris&atilde;o e a uma multa de trezentas libras<br \/>\n    (7.500 F).<\/p>\n<p> Trezentas libras? gritou Passepartout, que s&oacute; estava verdadeiramente<br \/>\n    sensivel &agrave; multa.<\/p>\n<p> Sil&ecirc;ncio! exclamou o oficial com voz esgani&ccedil;ada.<\/p>\n<p> E, acrescentou o juiz Obadiah, visto que n&atilde;o est&aacute; materialmente<br \/>\n    provado que n&atilde;o houve coniv&ecirc;ncia entre criado e o patr&atilde;o,<br \/>\n    mas que em todo caso este deve ser considerado respons&aacute;vel pelos gestos<br \/>\n    de um servidor a seus cuidados, ret&eacute;m o citado Phileas Fogg e o condena<br \/>\n    a oito dias de pris&atilde;o e cento e cinq&uuml;enta libras de multa. Escriv&atilde;o,<br \/>\n    chame outro caso! Fix, do seu canto, experimentava uma indiz&iacute;vel satisfa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Phileas Fogg retido oito dias em Calcut&aacute;, era mais que suficiente para<br \/>\n    dar ao mandado tempo de chegar.<\/p>\n<p> Passepartout estava aturdido. Esta condena&ccedil;&atilde;o arruinava seu<br \/>\n    patr&atilde;o. Uma aposta de vinte mil libras perdida, e tudo porque ele,<br \/>\n    como um verdadeiro paspalho, tinha entrado naquele maldito pagode! Phileas<br \/>\n    Fogg, t&atilde;o senhor de si como se a condena&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    lhe dissesse respeito, nem mesmo franzira a sobrancelha. Mas no momento em<br \/>\n    que o escriv&atilde;o ia chamar outro caso, levantou-se e disse: Ofere&ccedil;o<br \/>\n    fian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &Eacute; seu direito, respondeu o juiz.<\/p>\n<p> Fix sentiu um frio na espinha, mas recobrou a seguran&ccedil;a, quando ouviu<br \/>\n    o juiz, tendo em vista a qualidade de estrangeiros de Phileas Fogg e de seu<br \/>\n    criado, fixar a fian&ccedil;a para cada um deles na enorme quantia de mil<br \/>\n    libras (25.000 F).<\/p>\n<p> Custaria duas mil libras a Phileas Fogg, se n&atilde;o purgasse sua condena&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pago, disse o genteman.<\/p>\n<p> E da sacola que Passepartout trazia, retirou um ma&ccedil;o de bank-notes<br \/>\n    que depositou sobre a mesa do escriv&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta soma lhe ser&aacute; restitu&iacute;da quando sair da pris&atilde;o,<br \/>\n    disse o juiz. Enquanto esperam, est&atilde;o livres sob fian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Venha, disse Phileas Fogg a seu criado.<\/p>\n<p> Mas, ao menos, me devolvam os sapatos! exclamou Passepartout com um movimento<br \/>\n    de raiva.<\/p>\n<p> Foram-lhe restitu&iacute;dos os sapatos.<\/p>\n<p> E olha que custaram caro! murmurou ele. Mais de mil libras cada um! Sem<br \/>\n    contar que me machucam! Passepartout, absolutamente pesaroso, seguiu Mr. Fogg,<br \/>\n    que havia oferecido o bra&ccedil;o &agrave; jovem. Fix esperava ainda que<br \/>\n    seu ladr&atilde;o n&atilde;o resolvesse abandonar esta soma de duas mil libras<br \/>\n    e cumprisse os oito dias de pris&atilde;o. Lancou-se pois ao encal&ccedil;o<br \/>\n    de Fogg.<\/p>\n<p> Mr. Fogg tomou um ve&iacute;culo, para a qual Mrs. Aouda, Passepartout e<br \/>\n    ele logo subiram. Fix correu atr&aacute;s do ve&iacute;culo, que logo parou<br \/>\n    num dos cais da cidade.<\/p>\n<p> A meia milha ao largo, o Rangoon estava ancorado, sua bandeira de partida<br \/>\n    i&ccedil;ada no topo do mastro. Soavam as onze horas. Mr. Fogg estava adiantado<br \/>\n    uma hora. Fix o viu descer do ve&iacute;culo e embarcar numa canoa com Mrs.<br \/>\n    Aouda e o criado. O detetive bateu o p&eacute; no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Pilantra! exclamou, parte! Duas mil libras sacrificadas! Pr&oacute;digo<br \/>\n    como um ladr&atilde;o! Ah! segui-lo-ei at&eacute; o fim do mundo se preciso<br \/>\n    for; mas no passo que vai, todo o dinheiro do roubo ter&aacute; acabado! O<br \/>\n    inspetor de pol&iacute;cia tinha fundamento em sua reflex&atilde;o. Com efeito,<br \/>\n    desde que tinha sa&iacute;do de Londres, tanto em despesas de viagem quanto<br \/>\n    em gratifica&ccedil;&otilde;es, na compra do elefante, nas fian&ccedil;as<br \/>\n    e na multa, Phileas Fogg j&aacute; semeara pelo caminho mais de cinco mil<br \/>\n    libras (125.000 F), e o tanto por cento da soma encontrada, atribu&iacute;do<br \/>\n    aos detetives, ia sempre diminuindo.<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">CAP&Iacute;TULO XVI<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE FIX PARECE N&Atilde;O SABER NADA DO QUE LHE DIZEM <\/b><\/p>\n<p>O Rangoon, um dos paquetes que a Companhia peninsular e oriental emprega<br \/>\n    no servi&ccedil;o dos mares da China e do Jap&atilde;o, era um vapor de ferro,<br \/>\n    de h&eacute;lice, deslocando mil setecentas e setenta toneladas, e com for&ccedil;a<br \/>\n    nominal de quatrocentos cavalos. Igualava o Mongolia em velocidade, mas n&atilde;o<br \/>\n    em conforto. Assim, Mrs. Aouda n&atilde;o ficou t&atilde;o bem instalada quanto<br \/>\n    Phileas Fogg teria desejado. Afinal, tratava-se apenas de uma travessia de<br \/>\n    tr&ecirc;s mil e quinhentas milhas, ou seja de onze a doze dias, e a jovem<br \/>\n    n&atilde;o se mostrava uma passageira dif&iacute;cil.<\/p>\n<p> Durante os primeiros dias da travessia, Mrs. Aouda travou conhecimento mais<br \/>\n    amplo com Phileas Fogg. Em todas as oportunidades, lhe testemunhava sua mais<br \/>\n    profunda gratid&atilde;o. O fleum&aacute;tico gentleman a escutava, aparentemente<br \/>\n    ao menos, com a mais extrema frieza, sem que uma entoa&ccedil;&atilde;o, um<br \/>\n    gesto revelasse nele a mais leve emo&ccedil;&atilde;o. Velava para que n&atilde;o<br \/>\n    faltasse nada &agrave; jovem. A certas horas, vinha regularmente, se n&atilde;o<br \/>\n    para conversar, pelo menos para escut&aacute;-la. Cumpria para com ela os<br \/>\n    deveres da mais estrita polidez, mas com a gra&ccedil;a e a imprevis&atilde;o<br \/>\n    de um aut&ocirc;mato cujos movimentos tivessem sido combinados para esse fim.<br \/>\n    Mrs. Aouda n&atilde;o sabia o que pensar, mas Passepartout lhe havia explicado<br \/>\n    um pouco a exc&ecirc;ntrica personalidade do patr&atilde;o. Havia-lhe contado<br \/>\n    que compromisso arrastava o gentleman ao redor do mundo. Mrs. Aouda havia<br \/>\n    sorrido; mas afinal devia-lhe a vida, e o seu salvador nada podia perder pelo<br \/>\n    fato de ela o ver atrav&eacute;s do seu reconhecimento.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda confirmou a narrativa que o guia hindu havia feito de sua tocante<br \/>\n    hist&oacute;ria. Era, com efeito, dessa ra&ccedil;a que ocupa o primeiro lugar<br \/>\n    entre as ra&ccedil;as indianas. Muitos negociantes parsis tinham feito grandes<br \/>\n    fortunas nas &Iacute;ndias, no com&eacute;rcio de algod&atilde;o. Um deles,<br \/>\n    sir James Jejeebhoy, recebeu do governo ingl&ecirc;s t&iacute;tulo de nobreza,<br \/>\n    e Mrs. Aouda era parente deste rico personagem que habitava em Bombaim. Era<br \/>\n    mesmo um primo de Sir Jejeebhoy, o honrado Jejeeh, que ela contava encontrar<br \/>\n    em Hong Kong. Encontraria junto a ele ref&uacute;gio e assist&ecirc;ncia?<br \/>\n    N&atilde;o o podia afirmar. Ao que Mr. Fogg respondia que ela n&atilde;o tinha<br \/>\n    por que se inquietar, e que tudo se arranjari&aacute; matematicamente! Foi<br \/>\n    a palavra que usou.<\/p>\n<p> Compreenderia a jovem este horr&iacute;vel adv&eacute;rbio? N&atilde;o sabemos.<br \/>\n    Contudo, seus grandes olhos fixaram-se nos de Mr. Fogg, seus grandes olhos<br \/>\n    l&iacute;mpidos como os lagos sagrados da Himalaia! Mas o intrat&aacute;vel<br \/>\n    Fogg, mais fechado do que nunca, n&atilde;o parecia homem de se lan&ccedil;ar<br \/>\n    neste lago.<\/p>\n<p> A primeira parte da travessia do Rangoon foi coclu&iacute;da em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    excelentes. O tempo estava favor&aacute;vel. Toda a por&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    imensa ba&iacute;a que os marinheiros chamam de os bra&ccedil;os de Bengala<br \/>\n    mostrou-se favor&aacute;vel &agrave; marcha do paquete. O Rangoon logo avistou<br \/>\n    a Grande Andaman, a mais importante das ilhas da ba&iacute;a de Bengala, que<br \/>\n    sua pitoresca montanha de Saddle Peak, com a altura dois mil e quatrocentos<br \/>\n    p&eacute;s, assinala de bem longe aos navegantes.<\/p>\n<p> A costa foi seguida bem de perto. Os selvagens Papuas da ilha n&atilde;o<br \/>\n    se mostraram. S&atilde;o seres colocados no &uacute;ltimo degrau da escala<br \/>\n    humana, mas n&atilde;o antrop&oacute;fagos, como se diz.<\/p>\n<p> O desenvolvimento panor&acirc;mico destas ilhas era soberbo. Imensas florestas<br \/>\n    de palmeiras, de arecas, de bambus, de moscadeiras, de tocas, de sensitivas<br \/>\n    gigantescas, de brotos arborescentes, cobriam a regi&atilde;o em primeiro<br \/>\n    plano, e ao fundo prefilava-se a elegante silhueta das montanhas. Sobre a<br \/>\n    costa pululavam aos milhares essas preciosas salanganas, cujos ninhos comest&iacute;veis<br \/>\n    constituem um manjar muito procurado no Celeste Imp&eacute;rio. Mas todo este<br \/>\n    espet&aacute;culo variado, oferecido &agrave; vista pelo grupo das Andaman,<br \/>\n    passou depressa, e o Rangoon encaminhou-se rapidamente para o estreito de<br \/>\n    Malaca, que lhe devia dar acesso aos mares da China.<\/p>\n<p> Que fazia durante esta travessia o inspetor Fix, t&atilde;o desventuradamente<br \/>\n    arrastado numa viagem de circum-navega&ccedil;&atilde;o? Ao partir de Calcut&aacute;,<br \/>\n    ap&oacute;s ter deixado instru&ccedil;&otilde;es para que o mandado de pris&atilde;o,<br \/>\n    se afinal chegasse, lhe fosse enviado para Hong Kong, tinha conseguido embarcar<br \/>\n    a bordo do Rangoon sem ser visto por Passepartout, e esperava dissimular sua<br \/>\n    presen&ccedil;a at&eacute; a chegada do paquete. Com efeito, teria sido dif&iacute;cil<br \/>\n    explicar a raz&atilde;o por que se achava a bordo, sem despertar as suspeitas<br \/>\n    de Passepartont, que devia crer que ainda estava em Bombaim. Mas foi levado<br \/>\n    a renovar seu conhecimento com o honesto rapaz pela l&oacute;gica das circunst&acirc;ncias.<br \/>\n    Como? &Eacute; o que veremos.<\/p>\n<p> Todas as esperan&ccedil;as, todos os desejos do inspetor de pol&iacute;cia,<br \/>\n    estavam agora concentrados em um &uacute;nico ponto do mundo, Hong Kong, porque<br \/>\n    o paquete pararia muito pouco em Cingapura para que ele pudesse operar nesta<br \/>\n    cidade. Era pois em Hong Kong que a pris&atilde;o do ladr&atilde;o deveria<br \/>\n    se efetuar, ou o ladr&atilde;o lhe escaparia, por assim dizer, para sempre.<\/p>\n<p> Com efeito, Hong Kong era ainda uma terra inglesa, mas a &uacute;ltima que<br \/>\n    se encontrava no percurso. Para al&eacute;m, a China, o Jap&atilde;o, a Am&eacute;rica<br \/>\n    ofereciam um ref&uacute;gio um pouco mais seguro para o senhor Fogg. Em Hong<br \/>\n    Kong, se ali afinal encontrasse o mandado de pris&atilde;o que corria evidentemente<br \/>\n    atr&aacute;s dele, Fix prenderia Fogg, e o colocaria nas m&atilde;os da pol&iacute;cia<br \/>\n    local. Nenhuma dificuldade. Mas ap&oacute;s Hong Kong, n&atilde;o bastaria<br \/>\n    um simples mandado de pris&atilde;o. Seria preciso um ato de extradi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E adviriam demoras, lentid&otilde;es, obst&aacute;culos de toda natureza,<br \/>\n    de que o tratante se aproveitaria para escapar definitivamente. Se a opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    falhasse em Hong Kong, tornar-se-ia, se n&atilde;o imposs&iacute;vel, pelo<br \/>\n    menos bem dif&iacute;cil recome&ccedil;&aacute;-la com qualquer probabilidade<br \/>\n    de &ecirc;xito.<\/p>\n<p> Portanto, repetia Fix durante as longas horas que passava em sua cabina,<br \/>\n    portanto, ou o mandado de pris&atilde;o estar&aacute; em Hong Kong e prendo<br \/>\n    meu homem, ou n&atilde;o estar&aacute;, e desta vez ser&aacute; preciso a<br \/>\n    qualquer custo que atrase sua partida! Fracassei em Bombaim, fracassei em<br \/>\n    Calcut&aacute;! Se o mesmo acontecer em Hong Kong, adeus reputa&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Custe o que custar, preciso conseguir. Mas que meio empregar para atrasar,<br \/>\n    se for necess&aacute;rio, a partida desse maldito Fogg? Como &uacute;ltimo<br \/>\n    recurso, Fix estava bem decidido a confessar tudo a Passepartout, a dar-lhe<br \/>\n    a conhecer o patr&atilde;o a quem servia e de quem n&atilde;o era certamente<br \/>\n    c&uacute;mplice. Passepartout, esclarecido por esta revela&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    temendo ser comprometido, passaria sem d&uacute;vida para seu lado, de Fix.<br \/>\n    Mas afinal era um meio arriscado, que s&oacute; poderia ser usado como &uacute;ltimo<br \/>\n    recurso. Uma palavra de Passepartout ao seu patr&atilde;o seria suficiente<br \/>\n    para comprometer irremediavelmente tudo.<\/p>\n<p> O inspetor de pol&iacute;tica estava pois extremamente embara&ccedil;ado,<br \/>\n    quando a presen&ccedil;a de Mrs. Aouda a bordo do Rangoon, em companhia de<br \/>\n    Phileas Fogg, lhe abriu novas perspectivas.<\/p>\n<p> Quem era esta mulher? Que soma de circunst&acirc;ncias a fizera companheira<br \/>\n    de Fogg? Fora evidentemente entre Bombaim e Calcut&aacute; que o encontro<br \/>\n    se dera. Mas em que ponto da Pen&iacute;nsula? Seria o acaso que reunira Phileas<br \/>\n    Fogg e a jovem viajante? Ou esta viagem atrav&eacute;s da &Iacute;ndia teria<br \/>\n    sido feita pelo gentleman unicamente para encontrar aquela sedutora criatura?<br \/>\n    porque era sedutora! Fix a tinha visto muito bem na sala de audi&ecirc;ncia<br \/>\n    do tribunal de Calcut&aacute;.<\/p>\n<p> &Eacute; f&aacute;cil compreender a que ponto o agente deveria estar intrigado.<br \/>\n    Perguntava-se se nesta hist&oacute;ria toda n&atilde;o haveria algum rapto<br \/>\n    criminoso. Sim! devia ser isso. Esta id&eacute;ia arraigou-se no c&eacute;rebro<br \/>\n    de Fix, e reconheceu todas as vantagens que poderia tirar desta circunst&acirc;ncia.<br \/>\n    Fosse ou n&atilde;o casada a jovem, haveria rapto, e seria poss&iacute;vel,<br \/>\n    em Hong Kong, suscitar tais embara&ccedil;os ao raptor, tais que n&atilde;o<br \/>\n    pudesse safar-se deles com dinheiro.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o convinha esperar a chegada do Rangoon a Hong Kong. Este Fogg<br \/>\n    tinha o h&aacute;bito detest&aacute;vel de saltar de um barco para outro,<br \/>\n    e, antes que o plano come&ccedil;asse a ser executado, ele poderia j&aacute;<br \/>\n    estar longe.<\/p>\n<p> O importante era pois prevenir as autoridades inglesas e dar a descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do passageiro do Rangoon antes de seu desembaque. Ora, isso seria muito f&aacute;cil,<br \/>\n    j&aacute; que o paquete fazia escala em Cingapura, e Cingapura est&aacute;<br \/>\n    ligada &agrave; costa chinesa por um fio telegr&aacute;fico.<\/p>\n<p> Todavia, antes de agir, e para operar mais seguramente, Fix resolveu interrogar<br \/>\n    Passepartout. Sabia que n&atilde;o era muito dif&iacute;cil fazer o rapaz<br \/>\n    falar, e decidiu-se a romper o inc&oacute;gnito que guardara at&eacute; ent&atilde;o.<br \/>\n    Ora, n&atilde;o havia tempo a perder. Estavam em 31 de outubro, e no dia seguinte<br \/>\n    o Rangoon deveria aportar em Cingapura.<\/p>\n<p>Portanto, nesse dia, Fix, saindo do sua cabina, subiu ao conv&eacute;s, com<br \/>\n    a inten&ccedil;&atilde;o de abordar Passepartout primeiro, com mostras da<br \/>\n    mais extrema surpresa. Passepartout passeava tranq&uuml;ilamente pela proa,<br \/>\n    quando o inspetor precipitou-se em sua dire&ccedil;&atilde;o, exclamando:<br \/>\n    Voc&ecirc;, no Rangoon! Senhor Fix a bordo! respondeu Passepartout, absolutamente<br \/>\n    surpreso, ao reconhecer seu companheiro de travessia do Mongolia. Puxa! deixei-o<br \/>\n    em Bombaim, e venho reencontr&aacute;-lo a caminho de Hong Kong! Faz tamb&eacute;m<br \/>\n    a volta ao mundo? N&atilde;o, n&atilde;o, respondeu Fix, e espero ficar em<br \/>\n    Hong Kong, ao menos por alguns dias.<\/p>\n<p> Ah! disse Passepartout, que pareceu por um instante surpreso. Mas como n&atilde;o<br \/>\n    o tinha visto ainda no navio desde nossa partida de Calcut&aacute;? Palavra,<br \/>\n    uma doen&ccedil;a&#8230; um pouco de enj&ocirc;o&#8230; Fiquei deitado no minha cabina&#8230;<br \/>\n    O golfo de Bengala n&atilde;o me tratou t&atilde;o bem quanto o oceano &Iacute;ndico.<br \/>\n    E seu patr&atilde;o, Mr. Phileas Fogg? Em perfeita sa&uacute;de, e t&atilde;o<br \/>\n    pontual quanto seu roteiro! Nem um dia atrasado! Ah! senhor Fix, ainda n&atilde;o<br \/>\n    sabe, mas temos uma jovem dama conosco.<\/p>\n<p> Uma jovem dama? respondeu o agente, fingindo perfeitamente n&atilde;o compreender<br \/>\n    o que o seu interlocutor queria dizer.<\/p>\n<p> Mas Passepartout logo o p&ocirc;s ao par da hist&oacute;ria. Contou-lhe<br \/>\n    o incidente do pagode de Bombaim, a aquisi&ccedil;&atilde;o do elefante pela<br \/>\n    quantia de duas mil libras, o caso do sati, o rapto de Aouda, a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do tribunal de Calcut&aacute;, a liberdade sob fian&ccedil;a. Fix, que conhecia<br \/>\n    a &uacute;ltima parte destes incidentes, parecia ignorar todos, e Passepartout<br \/>\n    deixava-se arrastar pelo prazer de narrar suas aventuras a um ouvinte t&atilde;o<br \/>\n    atento.<\/p>\n<p> Mas, no fim das contas, perguntou Fix, seu patr&atilde;o tem a inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de levar essa jovem para a Europa? N&atilde;o, senhor Fix, n&atilde;o! Vamos<br \/>\n    simplesmente entreg&aacute;-la aos cuidados de um de seus parentes, rico negociante<br \/>\n    de Hong Kong.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; nada a fazer! disse consigo o detetive, dissimulando<br \/>\n    seu desapontamento. Um copo do gin, senhor Passepartout? Com prazer, senhor<br \/>\n    Fix. O m&iacute;nimo que podemos fazer &eacute; brindar nosso reencontro no<br \/>\n    Rangoon!<\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">CAP&Iacute;TULO XVII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE SE TRATA DE UMAS TANTAS COISAS DURANTE A TRAVESSIA DE CINGAPURA<br \/>\n    PARA HONG-KONG<\/b><\/p>\n<p>Desde esse dia, Passepartout e o detetive se encontraram freq&uuml;entemente,<br \/>\n    mas o agente mantinha-se em uma extrema reserva em rela&ccedil;&atilde;o ao<br \/>\n    companheiro, e nem tentou faz&ecirc;-lo falar. Uma ou duas vezes apenas, entrevira<br \/>\n    Mr. Fogg, que preferia ficar no grande sal&atilde;o do Rangoon, fazendo companhia<br \/>\n    a Mrs. Aouda, ou jogando whist, seguindo seu invari&aacute;vel costume.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, tinha-se posto a meditar muito seriamente no estranho<br \/>\n    acaso que havia colocado, mais uma vez, Fix no caminho de seu patr&atilde;o.<br \/>\n    E, com efeito, qualquer um teria se admirado por muito menos. Este gentleman,<br \/>\n    muito am&aacute;vel, muito sol&iacute;cito com certeza, que se encontra em<br \/>\n    Suez, que embarca no Mongolia, que desembarca em Bombaim, onde disse dever<br \/>\n    ficar, que se reencontra no Rangoon, fazendo viagem para Hong Kong, numa palavra,<br \/>\n    seguindo passo a passo o roteiro de Mr. Fogg, era coisa em que valia a pena<br \/>\n    refletir. Havia a&iacute; uma coincid&ecirc;ncia pelo menos bizarra. O que<br \/>\n    pretendia este Fix? Passepartout estava pronto a apostar as suas babuchas<br \/>\n    ele as havia preciosamente conservado que Fix deixaria Hong Kong ao mesmo<br \/>\n    tempo que eles, e provavelmente no mesmo paquete.<\/p>\n<p> Passepartout poderia ter refletido por um s&eacute;culo, que n&atilde;o<br \/>\n    teria jamais adivinhado de que miss&atilde;o o agente fora encarregado. Jamais<br \/>\n    seria capaz de imaginar que Phileas Fogg fosse espionado, como um ladr&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; volta do globo terrestre. Mas como est&aacute; na natureza humana<br \/>\n    arranjar explica&ccedil;&atilde;o para tudo, eis como Passepartout, subitamente<br \/>\n    iluminado, interpretou a presen&ccedil;a permanente de Fix, e, de fato, sua<br \/>\n    interpreta&ccedil;&atilde;o era bastante plaus&iacute;vel. Com efeito, segundo<br \/>\n    ele, Fix n&atilde;o era nem podia ser sen&atilde;o um agente lan&ccedil;ado<br \/>\n    no rasto de Mr. Fogg pelos seus colegas do Reform Club, para verificar se<br \/>\n    a viagem se fazia regularmente em volta ao mundo, segundo o roteiro combinado.<\/p>\n<p> &Eacute; evidente! &eacute; evidente! repetia para si o bom rapaz, todo<br \/>\n    vaidoso da sua perspic&aacute;cia. &Eacute; um espi&atilde;o que aqueles gentlemen<br \/>\n    colocaram em nosso encal&ccedil;o! Mas isso n&atilde;o &eacute; digno! Mr.<br \/>\n    Fogg, t&atilde;o probo, t&atilde;o respeit&aacute;vel! Fazerem-no espionar<br \/>\n    por um agente! Ah! senhores do Reform Club, isso lhes custar&aacute; caro!<br \/>\n    Passepartout, encantado com a sua descoberta, resolveu por&eacute;m nada dizer<br \/>\n    ao patr&atilde;o, receando que ele se ofendesse com a desconfian&ccedil;a<br \/>\n    dos seus advers&aacute;rios. Mas jurou zombar de Fix na primeira oportunidade,<br \/>\n    com palavras enrustidas e sem se comprometer.<\/p>\n<p> Na quarta feira, 30 de outubro, ap&oacute;s o meio dia, o Rangoon embocou<br \/>\n    no estreito de Malaca, que separa a quase ilha deste nome das terras de Sumatra.<br \/>\n    Ilhotas montanhosas muito escarpadas, muito pitorescas, roubavam dos passageiros<br \/>\n    a vista da grande ilha.<\/p>\n<p> No dia seguinte, &agrave;s quatro horas, o Rangoon, tendo ganho meio dia<br \/>\n    sobre sua travessia regulamentar, aportava em Cingapura, para a&iacute; renovar<br \/>\n    sua provis&atilde;o de carv&atilde;o.<\/p>\n<p> Phileas Fogg inscreveu este avan&ccedil;o na coluna dos ganhos, e, desta<br \/>\n    vez, saltou em terra, acompanhando Mrs. Aouda que havia manifestado o desejo<br \/>\n    de passear por algumas horas.<\/p>\n<p> Fix, para quem qualquer a&ccedil;&atilde;o de Fogg parecia suspeita, seguiu-o<br \/>\n    sem se deixar ver. Quanto a Passepartout, que ria in petto ao ver a manobra<br \/>\n    de Fix, foi fazer as compras de costume.<\/p>\n<p> A ilha de Cingapura n&atilde;o tem um aspecto nem grande, nem imponente.<br \/>\n    As montanhas, isto &eacute;, os perfis, lhe faltam. Todavia, &eacute; encantadora<br \/>\n    em sua magreza. &Eacute; um parque cortado por belas estradas. Uma bela condu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    atrelada a elegantes cavalos que tinham sido importados da Nova Holanda, transportou<br \/>\n    Mrs. Aouda e Phileas Fogg por entre massas de palmeiras com brilhante folhagem,<br \/>\n    e de &aacute;rvores de cravo cujos frutos s&atilde;o formados pelo bot&atilde;o<br \/>\n    mesmo da flor entreaberta. L&aacute;, os cap&otilde;es de pimenteiras substitu&iacute;am<br \/>\n    as sebes espinhosas das campinas europ&eacute;ias; os sagueiros, grandes palmeiras<br \/>\n    com a sua espl&ecirc;ndida ramagem, variavam o aspecto desta regi&atilde;o<br \/>\n    tropical; as moscadeiras de folhagem envernizada saturavam o ar com um perfume<br \/>\n    penetrante. Os macacos, bandos &aacute;geis e careteiros, n&atilde;o faltavam<br \/>\n    nos bosques, nem talvez os tigres nas jungles. A quem se admirar ao saber<br \/>\n    que nesta ilha, relativamente t&atilde;o pequena, estes terr&iacute;veis carn&iacute;voros<br \/>\n    ainda n&atilde;o tenham sido exterminados, responderemos que v&ecirc;m de<br \/>\n    Malaca, atravessando o estreito a nado.<\/p>\n<p> Depois de terem percorrido o campo por duas horas, Mrs. Aouda e seu companheiro<br \/>\n    que olhava quase sem ver voltaram &agrave; cidade, vasta aglomera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de casas toscas e baixas, rodeadas por formosos jardins onde crescem as mangas,<br \/>\n    os ananazes e todos os melhores frutos do mundo.<\/p>\n<p> &Agrave;s dez horas, voltaram para o paquete, depois de terem sido seguidos,<br \/>\n    sem suspeitarem, pelo inspetor que tamb&eacute;m fora obrigado a arcar com<br \/>\n    as despesas de um transporte.<\/p>\n<p> Passepartout esperava-os no conv&eacute;s do Rangoon. O bravo rapaz comprara<br \/>\n    algumas d&uacute;zias de mangas, de bom tamanho, castanho-escuro por fora,<br \/>\n    de um vermelho muito vivo por dentro, e cujo fruto branco, ao desfazer-se<br \/>\n    entre os l&aacute;bios, proporciona aos verdadeiros gourmets um prazer sem<br \/>\n    igual. Passepartout teve o prazer de as oferecer a Mrs. Aouda, que agradeceu<br \/>\n    graciosamente.<\/p>\n<p> &Agrave;s onze horas, o Rangoon, com a provis&atilde;o completa de carv&atilde;o,<br \/>\n    largava suas amarras, e, algumas horas depois, os passageiros perdiam de vista<br \/>\n    as altas montanhas de Malaca, cujas florestas abrigam os mais belos tigres<br \/>\n    da terra.<\/p>\n<p> Cerca de mil e trezentas milhas separam Cingapura da ilha de Hong Kong,<br \/>\n    pequeno territ&oacute;rio ingl&ecirc;s destacado da costa chinesa. Phileas<br \/>\n    Fogg tinha interesse em percorr&ecirc;-las no espa&ccedil;o de seis dias no<br \/>\n    mm&aacute;ximo, para tomar em Hong Kong o vapor que deveria partir a 6 de<br \/>\n    novembro para Yokohama, um dos principais portos do Jap&atilde;o.<\/p>\n<p> O Rangoon estava muito carregado. Muitos passageiros tinham embarcado em<br \/>\n    Cingapura, Hindus, Ceilandeses, Chineses, Malaios, Portugueses, que, na maioria,<br \/>\n    ocupavam a segunda classe.<\/p>\n<p> O tempo, t&atilde;o bom at&eacute; ent&atilde;o, mudou com o &uacute;ltimo<br \/>\n    quadrante da lua. Tiveram mar encapelado. O vento soprou algumas vezes rijo,<br \/>\n    mas felizmente do sudeste, o que favorecia o andamento do vapor. Quando se<br \/>\n    prestava a isso, o capit&atilde;o largava o pano. O Rangoon, armado em brique,<br \/>\n    navegou freq&uuml;entemente com suas duas velas e sua mezena, e sua rapidez<br \/>\n    aumentou sob a dupla a&ccedil;&atilde;o do vapor e do vento. Foi assim que<br \/>\n    costeou, com o mar &agrave;s vezes picado, as costas de Anam e da Cochinchina.<\/p>\n<p> Mas a falta era mais do Rangoon do que do mar, e era ao paquete que os passageiros,<br \/>\n    a maior parte dos quais passou mal, deveriam se queixar desta fadiga.<\/p>\n<p> Com efeito, os navios da Companhia peninsular, que fazem o servi&ccedil;o<br \/>\n    dos mares da China, t&ecirc;m um s&eacute;rio defeito de constru&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A propor&ccedil;&atilde;o entre a &aacute;gua que deslocam e a sua capacidade<br \/>\n    de carga foi mal calculada, e por isso pouca resist&ecirc;ncia oferecem ao<br \/>\n    mar. O seu volume, fechado, impenetr&aacute;vel &agrave; agua, &eacute; insuficiente.<br \/>\n    Afogam-se, para usar a express&atilde;o mar&iacute;tima, e, em conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    desta disposi&ccedil;&atilde;o, basta meterem alguma &aacute;gua para que<br \/>\n    se lhes modifique o andamento. Estes navios s&atilde;o muito inferiores se<br \/>\n    n&atilde;o no motor e no aparelho de evapora&ccedil;&atilde;o, pelo menos<br \/>\n    na constru&ccedil;&atilde;o &agrave;s Messageries francesas, tais como a Imperatrice<br \/>\n    e o Cambodge. Enquanto, segundo os c&aacute;lculos dos engenheiros, estes<br \/>\n    navios podem meter a bordo um peso de &aacute;gua igual ao seu pr&oacute;prio<br \/>\n    peso antes que sossobrem, os vapores da companhia peninsular, o Golconda,<br \/>\n    o Corea, e finalmente o Rangoon, n&atilde;o poderiam meter a sexta parte do<br \/>\n    seu peso sem irem a pique.<\/p>\n<p> Portanto, com mau tempo, conviria tomar grandes precau&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Era preciso muitas vezes meter a capa sobre o pequeno vapor. Era uma perda<br \/>\n    de tempo que de modo algum parecia afetar Phileas Fogg, mas com a qual Passepartout<br \/>\n    se mostrava extremamente irritado. Ele ent&atilde;o acusava o capit&atilde;o,<br \/>\n    o maquinista, a Companhia, e enviava ao diabo todos os que se metiam a transportar<br \/>\n    viajantes. Talvez tamb&eacute;m a lembran&ccedil;a do bico de g&aacute;s,<br \/>\n    que estava a arder por sua conta na casa de Saville Row concorresse muito<br \/>\n    para a sua impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Mas tem ent&atilde;o muita pressa de chegar a Hong Kong? perguntou-lhe um<br \/>\n    dia o detetive.<\/p>\n<p> Muita! respondeu Passepartout.<\/p>\n<p> Pensa que Mr. Fogg tamb&eacute;m tem pressa de tomar o paquete do Yokohama?<br \/>\n    Uma pressa incr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o j&aacute; acredita na tal viagem de volta ao mundo? Firmemente.<br \/>\n    E o senhor, senhor Fix? Eu? de modo algum! Far&ccedil;ante! respondeu Passepartout<br \/>\n    piscando-lhe o olho.<\/p>\n<p> Esta palavra deixou o agente cismado. O qualificativo o inquietou, sem que<br \/>\n    soubesse bem por qu&ecirc;. O franc&ecirc;s teria adivinhado? N&atilde;o sabia<br \/>\n    mais o que pensar. Mas sua qualidade de detetive, da qual s&oacute; ele tinha<br \/>\n    o segredo, como Passepartout poderia t&ecirc;-la reconhecido? E, contudo,<br \/>\n    falando-lhe assim, Passepartout tivera certamente segunda inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Aconteceu at&eacute; que o bravo rapaz foi mais longe, um outro dia, mas<br \/>\n    era mais forte do que ele. N&atilde;o podia travar a l&iacute;ngua.<\/p>\n<p> Vamos ver, senhor Fix, perguntou ele ao seu companheiro em tom malicioso,<br \/>\n    ser&aacute; que, uma vez chegados a Hong Kong, teremos a infelicidade de o<br \/>\n    deixar a&iacute;? Mas, respondeu Fix bastante embara&ccedil;ado, n&atilde;o<br \/>\n    sei!&#8230; Talvez que&#8230;<\/p>\n<p> Ah! disse Passepartout, se nos acompanhasse, seria uma felicidade para mim.<br \/>\n    Vejamos! um agente da Companhia peninsular n&atilde;o pode parar no caminho.<br \/>\n    S&oacute; ia at&eacute; Bombaim, e logo estar&aacute; na China! A Am&eacute;rica<br \/>\n    n&atilde;o fica longe, e da Am&eacute;rica &agrave; Europa &eacute; um passinho!<br \/>\n    Fix olhou atentamente seu interlocutor, que lhe mostrava a cara mais am&aacute;vel<br \/>\n    do mundo, e decidiu rir junto. Mas este, que estava inspirado, perguntou-lhe<br \/>\n    se aquele of&iacute;cio rendia muito.<\/p>\n<p> Sim e n&atilde;o, respondeu Fix sem pestanejar. H&aacute; neg&oacute;cios<br \/>\n    bons e maus. Deve saber que n&atilde;o viajo &agrave;s minhas custas! Oh!<br \/>\n    quanto a isso, tenho certeza! exclamou Passepartout rindo com mais vontade.<\/p>\n<p> Acabada a conversa, Fix entrou em sua cabina e se p&ocirc;s a refletir.<br \/>\n    Ele tinha evidentemente adivinhado. De um modo ou de outro, o franc&ecirc;s<br \/>\n    havia reconhecido sua qualidade de detetive. Mas teria prevenido o patr&atilde;o?<br \/>\n    Que papel desempenharia ele em tudo isto? Era c&uacute;mplice ou n&atilde;o?<br \/>\n    O neg&oacute;cio estaria descoberto e portanto perdido? O agente passou algumas<br \/>\n    horas bem dif&iacute;ceis, ora julgando tudo perdido, ora esperando que Fogg<br \/>\n    ignorasse a situa&ccedil;&atilde;o, sem saber o que decidir.<\/p>\n<p> Entretanto a calma restabeleceu-se em seu c&eacute;rebro, e ele resolveu<br \/>\n    agir francamente com Passepartout. Se n&atilde;o se encontrasse nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que queria para prender Fogg em Hong Kong, e se Fogg se preparava para definitivamente<br \/>\n    deixar desta vez o territ&oacute;rio ingl&ecirc;s, ele, Fix, diria tudo a<br \/>\n    Passepartout. Ou o criado era c&uacute;mplice de seu patr&atilde;o e este<br \/>\n    sabia de tudo, e neste caso o neg&oacute;cio j&aacute; estaria definitivamente<br \/>\n    perdido ou o criado n&atilde;o tinha nada a haver com o roubo, e ent&atilde;o<br \/>\n    o seu interesse seria abandonar o ladr&atilde;o.<\/p>\n<p> Tal era pois a situa&ccedil;&atilde;o respectiva destes dois homens, acima<br \/>\n    dos quais Phileas Fogg planava com sua majestosa indiferen&ccedil;a. Descrevia<br \/>\n    racionalmente a sua &oacute;rbita &agrave; volta do mundo, sem se preocupar<br \/>\n    com os aster&oacute;ides que gravitavam &agrave; sua volta.<\/p>\n<p> E contudo, nas suas proximidades havia seguindo a express&atilde;o dos astr&ocirc;nomos<br \/>\n    um astro perturbador que deveria produzir certas perturba&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o deste gentleman. Mas n&atilde;o! O charme de Mrs.<br \/>\n    Aouda n&atilde;o funcionava, para grande surpresa de Passepartout, e as perturba&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    se havia alguma, seriam mais dif&iacute;ceis de calcular do que as de Urano,<br \/>\n    que levaram &agrave; descoberta de Netuno.<\/p>\n<p> Sim! era um assombro di&aacute;rio para Passepartout, que lia tanto reconhecimento<br \/>\n    por seu patr&atilde;o nos olhos da jovem! Decididamente Phileas Fogg s&oacute;<br \/>\n    tinha o cora&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rio para se comportar heroicamente,<br \/>\n    mas amorosamente, n&atilde;o! Quanto &agrave;s preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que os acasos desta viagem poderiam fazer nascer nele, n&atilde;o se lhes<br \/>\n    viam vest&iacute;gios. Mas Passepartout, esse, vivia em sobressaltos cont&iacute;nuos.<br \/>\n    Um dia, apoiado &agrave; balaustrada do engine room olhava a possante m&aacute;quina,<br \/>\n    que em certos momentos tomava maior for&ccedil;a, quando uma arfagem mais<br \/>\n    violenta fazia com que a h&eacute;lice se movesse fora da &aacute;gua. O vapor<br \/>\n    sa&iacute;a ent&atilde;o pelas v&aacute;lvulas, o que provocava a c&oacute;lera<br \/>\n    do digno rapaz.<\/p>\n<p> N&atilde;o est&atilde;o bem carregadas estas v&aacute;lvulas! exclamava.<br \/>\n    N&atilde;o andamos! Esses ingleses! Ah! se fosse um navio americano, ir&iacute;amos<br \/>\n    pelos ares talvez, mas ir&iacute;amos com certeza mais depressa!<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">CAP&Iacute;TULO XVIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PHILEAS FOGG, PASSEPARTOUT, FIX, CADA QUAL PARA SEU LADO, V&Atilde;O<br \/>\n    TRATAR DOS SEUS NEG&Oacute;CIOS<\/b><\/p>\n<p>Durante os &uacute;ltimos dias da travessia, o tempo foi bastante mau. O<br \/>\n    vento ficou mais forte. Tendo virado para noroeste, contrariava o marcha do<br \/>\n    paquete. O Rangoon, muito inst&aacute;vel, balan&ccedil;ou consideravelmente,<br \/>\n    e os passageiros tiveram direito de queixar-se das grandes vagas que o vento<br \/>\n    levantava ao largo e que os fatigavam.<\/p>\n<p> Durante as jornadas de 3 e 4 de novembro, aconteceu uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    tempestade. A borrasca agitou o mar com veem&ecirc;ncia. O Rangoon teve de<br \/>\n    p&ocirc;r-se &agrave; capa durante metade do dia, conservando-se com dez voltas<br \/>\n    de h&eacute;lice apenas, para n&atilde;o apanhar a vaga de frente. Todas as<br \/>\n    velas tinham sido colhidas, e o vendaval assoviava pela cordoalha.<\/p>\n<p> A velocidade do vapor diminuiu, como bem se imagina, consideravelmente,<br \/>\n    e p&ocirc;de-se calcular que chegaria a Hong Kong com vinte horas de atraso<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo regulamentar, ou talvez mais, se a tempestade<br \/>\n    n&atilde;o cessasse.<\/p>\n<p> Phileas Fogg assistia ao espet&aacute;culo de um mar furioso, que parecia<br \/>\n    lutar diretamente contra ele, com sua habitual impassibilidade. Sua fronte<br \/>\n    n&atilde;o se lhe ensombrou por um instante sequer, e, contudo, uma demora<br \/>\n    de vinte horas poderia comprometer-lhe a viagem, fazendo-o perder o paquete<br \/>\n    para Yokohama. Mas este homem sem nervos n&atilde;o experimentava nem impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    nem aborrecimento. Parecia at&eacute; que a tempestade entrava no seu programa,<br \/>\n    que fora prevista. Mrs. Aouda, que conversou com o seu companheiro a respeito<br \/>\n    deste contratempo, achou-o t&atilde;o sossegado como em outras ocasi&otilde;es.<\/p>\n<p> Fix, este, n&atilde;o via as coisas do mesmo jeito. Pelo contr&aacute;rio.<br \/>\n    A tempestade o deixava contente. Sua satisfa&ccedil;&atilde;o chegaria mesmo<br \/>\n    a n&atilde;o conhecer limites, se o Rangoon fosse obrigado a fugir frente<br \/>\n    &agrave; tormenta. Todas estes atrasos lhe ca&iacute;am bem, porque obrigariam<br \/>\n    o senhor Fogg a ficar alguns dias em Hong Kong. Em suma, o c&eacute;u, com<br \/>\n    as suas rajadas e as suas borrascas, favorecia-lhe o jogo. Passava at&eacute;<br \/>\n    um pouco mal, mas que importava? N&atilde;o contava suas n&aacute;useas, e,<br \/>\n    quando o corpo se lhe estorcia com o enj&ocirc;o, seu esp&iacute;rito exultava<br \/>\n    com imensa satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, podem adivinhar em que estado de c&oacute;lera mal<br \/>\n    dissimulada passou este tempo de prova&ccedil;&atilde;o. At&eacute; ali tudo<br \/>\n    tinha ido t&atilde;o bem! A terra e a &aacute;gua pareciam estar dedicadas<br \/>\n    a seu patr&atilde;o. Paquetes e estradas de ferro obedeciam-lhe. O vento e<br \/>\n    o vapor uniam-se para favorecer sua viagem. A hora dos desenganos teria enfim<br \/>\n    soado? Passepartout, como se as vinte mil libras da aposta fossem sair de<br \/>\n    seu bolso, j&aacute; n&atilde;o vivia. Esta tempestade o exasperava, este<br \/>\n    vendaval o deixava furioso, e teria de boa vontade fustigado aquele mar desobediente!<br \/>\n    Pobre rapaz! Fix ocultou-lhe com todo o cuidado sua satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pessoal, e fez bem, porque se Passepartout tivesse adivinhado o contentamento<br \/>\n    secreto de Fix, Fix teria passado um mau quarto de hora.<\/p>\n<p> Passepartout, durante toda a dura&ccedil;&atilde;o da borrasca, permaneceu<br \/>\n    na coberta do Rangoon. N&atilde;o teria podido conservar-se embaixo; subia<br \/>\n    na mastrea&ccedil;&atilde;o; causava assombro &agrave; tripula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e ajudava em tudo com a ligeireza de um macaco. Cem vezes interrogava o capit&atilde;o,<br \/>\n    os oficiais, os marinheiros, que n&atilde;o podiam deixar de rir ao verem<br \/>\n    o rapaz t&atilde;o alterado. Passepartout queria porque queria saber quanto<br \/>\n    tempo duraria a tempestade. Mandavam-no para o bar&ocirc;metro, que n&atilde;o<br \/>\n    se resolvia a subir. Passepartout sacudia o bar&ocirc;metro, mas n&atilde;o<br \/>\n    acontecia nada, nem com as sacudidelas, nem com as inj&uacute;rias com que<br \/>\n    cobria o irrespons&aacute;vel instrumento.<\/p>\n<p> Afinal a tormenta se acalmou. O estado do mar se modificou na jornada de<br \/>\n    4 de novembro. O vento saltou dois quartos para o sul e tornou-se favor&aacute;vel.<\/p>\n<p> Passepartout serenou com o tempo. Puderam-se largar as velas de g&aacute;veas<br \/>\n    e as velas grandes, e o Rangoon retomou sua rota com maravilhosa rapidez.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era poss&iacute;vel recuperar todo o tempo perdido. N&atilde;o<br \/>\n    havia rem&eacute;dio sen&atilde;o resignar-se &agrave; sorte, e a terra s&oacute;<br \/>\n    foi avistada no dia 6, &agrave;s cinco da manh&atilde;. O roteiro de Phileas<br \/>\n    Fogg indicava para o dia 5 a chegada do vapor. Ora, chegava-se s&oacute; no<br \/>\n    dia 6. Era um atraso de vinte e quatro horas, e a partida para Yokohama estava<br \/>\n    necessariamente perdida.<\/p>\n<p> &Agrave;s seis horas, o piloto subiu a bordo do Rangoon e tomou o seu lugar<br \/>\n    na ponte de comando, para dirigir o navio atrav&eacute;s dos escolhos at&eacute;<br \/>\n    o porto de Hong Kong.<\/p>\n<p> Passepartout morria de vontade de interrogar este homem, de perguntar se<br \/>\n    o paquete para Yokohama tinha deixado Hong Kong. Mas n&atilde;o se atrevia,<br \/>\n    preferindo conservar at&eacute; o fim um pouco de esperan&ccedil;a. Tinha<br \/>\n    confiado suas inquieta&ccedil;&otilde;es a Fix, que manhoso procurava consol&aacute;-lo,<br \/>\n    dizendo-lhe que Mr. Fogg poderia tomar o pr&oacute;ximo paquete. Isso deixava<br \/>\n    Passepartout ainda mais fulo.<\/p>\n<p> Mas se Passepartout n&atilde;o se atrevia a interrogar o piloto, Mr. Fogg,<br \/>\n    depois de ter consultado o seu Bradshaw, perguntou-lhe com voz tranq&uuml;ila<br \/>\n    se sabia quando partia um vapor de Hong Kong para Yokohama.<\/p>\n<p> Amanh&atilde;, na mar&eacute; da manh&atilde;, respondeu o piloto.<\/p>\n<p> Ah! exclamou Mr. Fogg, sem demostrar nenhuma admira&ccedil;&#038;atildatilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout, que estava presente, sentiu desejos de abra&ccedil;ar o piloto,<br \/>\n    ao qual Fix desejaria torcer o pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> Qual &eacute; o nome desse vapor? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> O Carnatic, respondeu o piloto.<\/p>\n<p> N&atilde;o era ontem que deveria partir? Sim, senhor, mas teve de reparar<br \/>\n    uma das caldeiras, e sua partida foi adiada para amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Obrigado, respondeu Mr. Fogg, que no seu passo autom&aacute;tico voltou<br \/>\n    a descer para o sal&atilde;o do Rangoon.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, agarrou a m&atilde;o do piloto e apertou-a vigorosamente,<br \/>\n    dizendo: Piloto, o senhor, o senhor &eacute; &oacute;timo! O piloto nunca<br \/>\n    soube porque &eacute; que suas respostas lhe granjearam t&atilde;o amig&aacute;vel<br \/>\n    expans&atilde;o. A um apito da m&aacute;quina voltou a subir para a ponte<br \/>\n    e dirigiu o paquete pelo meio da esquadrilha de juncos, tankas, barcos pesqueiros,<br \/>\n    navios de toda a esp&eacute;cie, que embara&ccedil;avam a entrada para Hong<br \/>\n    Kong.<\/p>\n<p> &Agrave; uma hora o Rangoon estava no cais, e os passageiros desembarcaram.<\/p>\n<p> Nesta ocasi&atilde;o, convenhamos, o acaso favorecera Phileas Fogg de modo<br \/>\n    &uacute;nico. Sem a necessidade de reparar suas caldeiras, o Carnatic teria<br \/>\n    partido na data de 5 de novembro, e os viajantes para o Jap&atilde;o teriam<br \/>\n    sido obrigados a esperar oito dias pelo paquete seguinte. Mr. Fogg ficava,<br \/>\n    &eacute; verdade, com um atraso de vinte e quatro horas, mas este atraso n&atilde;o<br \/>\n    poderia ter conseq&uuml;&ecirc;ncias funestas para o resto da viagem.<\/p>\n<p> Com efeito, o paquete que faz de Yokohama a S&atilde;o Francisco a travessia<br \/>\n    do Pac&iacute;fico estava em correspond&ecirc;ncia direta com o paquete para<br \/>\n    Hong Kong, e n&atilde;o poderia partir sem que este tivesse chegado. Evidentemente<br \/>\n    haveria vinte e quatro horas de demora em Yokohama; mas durante os vinte de<br \/>\n    dois dias que dura a travessia do Pac&iacute;fico, seria f&aacute;cil recuper&aacute;-las.<br \/>\n    Phileas Fogg achava-se pois, com a diferen&ccedil;a de quase vinte quatro<br \/>\n    horas, nas condi&ccedil;&otilde;es de seu programa, trinta e cinco dias depois<br \/>\n    de ter partido de Londres.<\/p>\n<p> Como o Carnatic s&oacute; partia no dia seguinte &agrave;s cinco horas da<br \/>\n    manh&atilde;, Mr. Fogg tinha pela frente dezeseis horas para tratar dos seus<br \/>\n    neg&oacute;cios, isto &eacute;, dos que diziam respeito a Mrs. Aouda. Ao desembarcar<br \/>\n    do vapor, ofereceu o bra&ccedil;o &agrave; jovem e conduziu-a para um palanquim.<br \/>\n    Pediu aos carregadores que lhe indicassem um hotel, e eles sugeriram o Hotel<br \/>\n    do Club. O palanquim se p&ocirc;s a caminho, seguido por Passepartout, e vinte<br \/>\n    minutos depois chegava ao seu destino.<\/p>\n<p> Um apartamento foi reservado para a jovem, e Phileas Fogg cuidou para que<br \/>\n    n&atilde;o lhe faltasse nada. Depois disse a Mrs. Aouda que ia imediatamente<br \/>\n    &agrave; procura do parente aos cuidados do qual devia deix&aacute;-la entregue<br \/>\n    em Hong Kong. Ao mesmo tempo deu ordem a Passepartout para permanecer no hotel<br \/>\n    at&eacute; sua volta, para que a jovem n&atilde;o ficasse s&oacute;.<\/p>\n<p> O gentleman fez-se conduzir &agrave; Bolsa. Ali deveriam for&ccedil;osamente<br \/>\n    conhecer um personagem como o respeit&aacute;vel Jejeeh, que figurava entre<br \/>\n    os mais ricos comerciantes da cidade.<\/p>\n<p> O corretor a quem Mr. Fogg se dirigiu conhecia efetivamente o negociante<br \/>\n    parsi. Mas, h&aacute; dois anos, j&aacute; n&atilde;o residia na China. Depois<br \/>\n    de fazer fortuna, tinha se establecido na Europa na Holanda, supunha o que<br \/>\n    se explicava pelas muitas rela&ccedil;&otilde;es que tivera com este pa&iacute;s<br \/>\n    durante a sua exist&ecirc;ncia comercial.<\/p>\n<p> Phileas Fogg voltou para o Hotel do Club. Em seguida mandou pedir licen&ccedil;a<br \/>\n    a Mrs. Aouda para se apresentar a ela e, sem mais pre&acirc;mbulos, participou-lhe<br \/>\n    que o respeit&aacute;vel Jejeeh n&atilde;o residia mais em Hong Kong, e que<br \/>\n    habitava provavelmente na Holanda.<\/p>\n<p> A isto, Mrs. Aouda n&atilde;o respondeu de pronto. Passou a m&atilde;o pela<br \/>\n    fronte, e ficou alguns momentos a refletir. Depois, com sua voz doce: Que<br \/>\n    devo fazer, senhor Fogg? disse.<\/p>\n<p> &Eacute; muito simples, respondeu o gentleman. Voltar para a Europa.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o posso abusar&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o abusa, e sua presen&ccedil;a n&atilde;o perturba em nada meu<br \/>\n    programa&#8230; Passepartout? Senhor? respondeu Passepartout.<\/p>\n<p> V&aacute; ao Carnatic e reserve tr&ecirc;s cabinas.<\/p>\n<p> Passepartout, encantado em continuar a viagem em companhia da jovem, que<br \/>\n    era muito am&aacute;vel com ele, logo saiu do Hotel do Club.<\/p>\n<h4><a name=\"19\" id=\"19\">CAP&Iacute;TULO XIX<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT SE INTERESSA MUITO MESMO PELO PATR&Atilde;O E O QUE<br \/>\n    DA&Iacute; SE SEGUE<\/b><\/p>\n<p>Hong Kong &eacute; apenas uma ilha, cuja posse foi assegurada &agrave; Inglaterra<br \/>\n    pelo tratado de Nankin, depois da guerra de 1842. Em poucos anos, o g&ecirc;nio<br \/>\n    colonizador da Gr&atilde;-Bretanha ali havia fundado uma cidade importante<br \/>\n    e criado um porto, o porto Victoria. Este ilha est&aacute; situada na embocadura<br \/>\n    do rio de Cant&atilde;o, e apenas sessenta milhas a separam da cidade portuguesa<br \/>\n    de Macau, constru&iacute;da na outra margem. Hong Kong deveria necessariamente<br \/>\n    vencer Macau em uma luta comercial, e agora a maioria do tr&acirc;nsito chin&ecirc;s<br \/>\n    passa pela cidade inglesa. Docas, hospitais, wharfs, alf&acirc;ndegas, uma<br \/>\n    catedral g&oacute;tica, uma government house, ruas cobertas de macadame, tudo<br \/>\n    fazia supor que uma das cidades comerciais dos condados de Kent ou de Surrey,<br \/>\n    atravessando o esfer&oacute;ide terrestre, viera sair neste ponto da China,<br \/>\n    quase nos seus ant&iacute;podas.<\/p>\n<p> Passepartout, as m&atilde;os nos bolsos, dirigiu-se para o porto Victoria,<br \/>\n    contemplando os palanquins, os carrinhos de vela, ainda em uso no Celeste<br \/>\n    Imp&eacute;rio, e toda a multid&atilde;o de chineses, japoneses e de europeus<br \/>\n    que se comprimiam nas rua. Com pequenas diferen&ccedil;as, era ainda Bombaim,<br \/>\n    Calcut&aacute; ou Cingapura, que o digno mo&ccedil;o encontrava no seu trajeto.<br \/>\n    H&aacute; assim como que uma fieira de cidades inglesas ao redor do mundo.<\/p>\n<p> Passepartout chegou ao porto Victoria. Ali, na embocadura do rio de Cant&atilde;o,<br \/>\n    havia um formigueiro de navios de todas as na&ccedil;&otilde;es, ingleses,<br \/>\n    franceses, americanos, holandeses, navios de guerra e de com&eacute;rcio,<br \/>\n    embarca&ccedil;&otilde;es japonesas ou chinesas, juncos, sempas, tankas, e<br \/>\n    mesmo barcos de flores que pareciam canteiros sobre as &aacute;guas. Passeando,<br \/>\n    Passepartout notou um certo n&uacute;mero de nativos vestidos de amarelo,<br \/>\n    todos com idade muito avan&ccedil;ada. Tendo entrado num barbeiro chin&ecirc;s<br \/>\n    para se barbear a l&agrave; chinesa soube pelo Figaro do lugar, que falava<br \/>\n    um ingl&ecirc;s muito bom, que todos aqueles velhos tinham pelo menos oitenta<br \/>\n    anos, e que nessa idade tinham o privil&eacute;gio de usar a cor amarela,<br \/>\n    que &eacute; a cor imperial. Passepartout achou aquilo muito esquisito, sem<br \/>\n    bem saber por qu&ecirc;.<\/p>\n<p> Barba feita, dirigiu-se para o cais de embarque do Carnatic, e avistou Fix<br \/>\n    que passeava por ali, o que n&atilde;o o surprendeu. Mas o inspetor de pol&iacute;cia<br \/>\n    deixava transparecer no rosto as marcas de um profundo desapontamento.<\/p>\n<p> Bem! disse consigo Passepartout, as coisas v&atilde;o mal para os gentlemen<br \/>\n    do Reform Club.<\/p>\n<p> E dirigiu-se para Fix com seu sorriso jovial, sem querer notar o ar vexado<br \/>\n    de seu companheiro.<\/p>\n<p> Ora, o agente tinha boas raz&otilde;es para amaldi&ccedil;oar a infernal<br \/>\n    sorte que o perseguia. Nada de mandado! Era evidente que o mandado corria<br \/>\n    ap&oacute;s ele, e s&oacute; poderia alcan&ccedil;&aacute;-lo se Fix se demorasse<br \/>\n    alguns dias nesta cidade. Ora, Hong Kong sendo a &uacute;ltima terra inglesa<br \/>\n    do percurso, o senhor Fogg iria escapar-lhe definitivamente, se n&atilde;o<br \/>\n    conseguisse det&ecirc;-lo por ali.<\/p>\n<p> Muito bem, senhor Fix, est&aacute; resolvido a vir conosco para a Am&eacute;rica?<br \/>\n    perguntou Passepartout.<\/p>\n<p> Sim, respondeu Fix com os dentes cerrados.<\/p>\n<p> Vamos ent&atilde;o! exclamou Passepartout soltando uma estrondosa gargalhada!<br \/>\n    Bem sabia que n&atilde;o podia separar-se de n&oacute;s. Venha reservar seu<br \/>\n    lugar, venha! E os dois entraram no escrit&oacute;rio dos transportes mar&iacute;timos<br \/>\n    e reservaram cabinas para quatro pessoas. Mas o empregado avisou-os de que<br \/>\n    os reparos do Carnatic estavam conclu&iacute;dos, que o paquete partiria naquele<br \/>\n    mesmo dia &agrave;s oito horas, e n&atilde;o no dia seguinte, como tinha sido<br \/>\n    anunciado.<\/p>\n<p> Muito bem! exclamou Passepartout, isso agradar&aacute; meu patr&atilde;o.<br \/>\n    Vou avis&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Neste momento, Fix tomou uma decis&atilde;o extrema. Decidiu dizer tudo<br \/>\n    a Passepartout. Era talvez o &uacute;nico meio que tinha para reter Phileas<br \/>\n    Fogg mais alguns dias em Hong Kong.<\/p>\n<p> Ao sairem do escrit&oacute;rio, Fix convidou seu companheiro para beberem<br \/>\n    alguma coisa numa taverna. Passepartout tinha tempo. Aceitou o convite de<br \/>\n    Fix.<\/p>\n<p> Uma taverna se abria para o cais. Tinha um aspecto atraente. Entraram. Era<br \/>\n    uma vasta sala bem decorada, ao fundo da qual se estendia uma cama de campanha,<br \/>\n    guarnecida de almofadas. Sobre este leito estavam enfileirados um certo n&uacute;mero<br \/>\n    de pessoas dormindo.<\/p>\n<p> Uns trinta fregueses ocupavam na sala principal pequenas mesas de junco<br \/>\n    tran&ccedil;ado. Alguns esvaziavam copos de cerveja inglesa, ale ou porter,<br \/>\n    outros sorviam bebidas alco&oacute;licas, gin ou brandy. Al&eacute;m disto,<br \/>\n    a maioria fumava compridos cachimbos de barro vermelho, cheios de bolinhas<br \/>\n    de &oacute;pio misturado com ess&ecirc;ncia de rosa. De tempo em tempo, algum<br \/>\n    fumador inebriado deslizava para baixo da mesa, e os criados do estabelecimento,<br \/>\n    tomando-o pelos p&eacute;s e pela cabe&ccedil;a, colocavam-no sobre a cama<br \/>\n    de campanha perto de um confrade. Uns vinte estavam j&aacute; deitados lado<br \/>\n    a lado, no &uacute;ltimo grau de embrutecimento.<\/p>\n<p> Fix e Passepartout compreenderam que tinham entrado num antro fumacento<br \/>\n    freq&uuml;entado por esses miser&aacute;veis, abestalhados, emagrecidos, idiotas,<br \/>\n    aos quais a mercantil Inglaterra vende anualmente duzentos e sessenta milh&otilde;es<br \/>\n    de francos dessa droga funesta chamada &oacute;pio! Tristes milh&otilde;es,<br \/>\n    adquiridos com um dos mais funestos v&iacute;cios da natureza humana.<\/p>\n<p> O governo chin&ecirc;s bem que tentou remediar este abuso com leis severas,<br \/>\n    mas em v&atilde;o. Da classe rica, &agrave; qual o uso do &oacute;pio inicialmente<br \/>\n    era formalmente reservado, este uso desceu at&eacute; &agrave;s classes inferiores,<br \/>\n    e o turbilh&atilde;o n&atilde;o pode mais ser detido. Fuma-se &oacute;pio<br \/>\n    em todos os lugarem e sempre no Imp&eacute;rio do Meio. Homens e mulheres<br \/>\n    d&atilde;o-se a esta paix&atilde;o deplor&aacute;vel, e uma vez costumados<br \/>\n    &agrave; inala&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o podem passar sem ela, sem experimentarem<br \/>\n    horr&iacute;veis contra&ccedil;&otilde;es do est&ocirc;mago. Um grande fumador<br \/>\n    pode fumar oito cachimbos por dia, mas morre em cinco anos.<\/p>\n<p> Ora, era em um dos numerosos antros deste tipo, que pululam, mesmo em Hong<br \/>\n    Kong, que Fix e Passepartout tinham entrado com a inten&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    beber alguma coisa. Passepartout n&atilde;o tinha dinheiro, mas aceitou de<br \/>\n    bom grado a cortesia do seu companheiro, reservando-se o direito de retribu&iacute;-la<br \/>\n    em outra oportunidade.<\/p>\n<p> Pediram duas garrafas de porto, &agrave;s quais o franc&ecirc;s rendeu honras,<br \/>\n    enquanto Fix, mais reservado, observava o companheiro com extrema aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Conversaram sobre variedades, e sobretudo sobre a excelente id&eacute;ia que<br \/>\n    Fix tivera de ir no Carnatic. E a prop&oacute;sito do vapor, cuja partida<br \/>\n    fora antecipada em algumas horas, Passepartout, com as garrafas vazias, levantou-se,<br \/>\n    para ir avisar seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Fix o deteve.<\/p>\n<p> Um instante, disse.<\/p>\n<p> Que quer, senhor Fix? Tenho que lhe falar de coisas s&eacute;rias.<\/p>\n<p> De coisas s&eacute;rias! exclamou Passepartout acabando de beber algumas<br \/>\n    gotas de vinho que tinham ficado no fundo do seu copo. Bem, falamos nisso<br \/>\n    amanh&atilde;. N&atilde;o tenho tempo hoje.<\/p>\n<p> Fique, respondeu Fix. Trata-se de seu patr&atilde;o! Passepartout, &agrave;<br \/>\n    men&ccedil;&atilde;o do patr&atilde;o, olhou atentamente seu interlocutor.<\/p>\n<p> A express&atilde;o do rosto de Fix pareceu-lhe singular. Voltou a sentar.<\/p>\n<p> Que &eacute; que tem para me dizer? perguntou ele.<\/p>\n<p> Fix apoiou a m&atilde;o no bra&ccedil;o do companheiro, e, abaixando a voz:<br \/>\n    Adivinhou quem sou? perguntou.<\/p>\n<p> Claro! disse Passepartout sorrindo.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o vou confessar-lhe tudo&#8230;<\/p>\n<p> Agora que j&aacute; sei tudo, meu compadre! Ah! grande coisa! Em todo caso,<br \/>\n    continue. Mas, antes, deixe-me dizer que esses senhores meteram-se em despesas<br \/>\n    inutilmente! Inutilmente! disse Fix. Fala sem pensar! Bem se v&ecirc; que<br \/>\n    n&atilde;o sabe de que quantia se trata.<\/p>\n<p> Mas sei, sei sim, respondeu Passepartout. Vinte mil libras! Cinq&uuml;enta<br \/>\n    e cinco mil! replicou Fix, apertando a m&atilde;o do franc&ecirc;s.<\/p>\n<p> O que! exclamou Passepartout, Mr. Fogg teria ousado!&#8230; cinq&uuml;enta e<br \/>\n    cinco mil libras!&#8230; Pois bem! mais raz&atilde;o ainda para n&atilde;o perder<br \/>\n    um instante, acrescentou levantando-se novamente.<\/p>\n<p> Cinq&uuml;enta e cinco mil libras! retomou Fix, que for&ccedil;ou Passepartout<br \/>\n    a voltar a se assentar, depois de mandar vir um frasco de brandy, e se me<br \/>\n    sair bem, ganho uma gratifica&ccedil;&atilde;o de duas mil libras. Quer quinhentas<br \/>\n    (12.500 F) com a condi&ccedil;&atilde;o de me ajudar? Ajudar? exclamou Passepartout,<br \/>\n    cujos olhos estavam desmesuradamente abertos.<\/p>\n<p> Sim, me ajudar a reter o senhor Fogg por alguns dias em Hong Kong! Hein!<br \/>\n    fez Passepartout, o que est&aacute; dizendo? Como! n&atilde;o contentes em<br \/>\n    mandarem seguir meu patr&atilde;o, de suspeitarem da sua lealdade, esses senhores<br \/>\n    querem ainda levantar-lhe obst&aacute;culos! Envergonho-me por eles! Calma!<br \/>\n    o que quer dizer? perguntou Fix.<\/p>\n<p> Quero dizer que &eacute; pura indelicadeza. &Eacute; o mesmo que depenar<br \/>\n    Mr. Fogg, tirar dinheiro do seu bolso! Ei! &eacute; exatamente o que esperamos<br \/>\n    fazer! Mas &eacute; uma armadilha! exclamou Passepartout que ia se animando<br \/>\n    sob a influ&ecirc;ncia do brandy que Fix lhe servia, e que bebia sem perceber<br \/>\n    uma verdadeira armadilha! Cavalheiros! Colegas! Fix come&ccedil;ava a n&atilde;o<br \/>\n    entender nada.<\/p>\n<p> Colegas! gritou Passepartout, membros do Reform Club! Saiba, senhor Fix,<br \/>\n    que meu patr&atilde;o &eacute; um homem honesto, e que, quando faz uma aposta,<br \/>\n    &eacute; lealmente que pretende ganh&aacute;-la.<\/p>\n<p> Mas quem julga ent&atilde;o que eu seja? perguntou Fix, fixando o olhar<br \/>\n    em Passepartout.<\/p>\n<p> &Eacute; evidente! um agente dos membros do Reform Club, que tem a miss&atilde;o<br \/>\n    de controlar o roteiro de meu patr&atilde;o, o que &eacute; muit&iacute;ssimo<br \/>\n    humilhante! E mais, apesar de, j&aacute; h&aacute; algum tempo, ter adivinhado<br \/>\n    sua qualidade, cuidei de n&atilde;o a revelar a Mr. Fogg! Ele n&atilde;o sabe<br \/>\n    de nada?&#8230; perguntou Mr. Fix com vivacidade.<\/p>\n<p> Nada, respondeu Passepartout esvaziando mais uma vez seu copo.<\/p>\n<p> O inspetor de pol&iacute;cia passou a m&atilde;o pela testa. Hesitava antes<br \/>\n    de voltar a falar. O que deveria fazer? O erro de Passepartout parecia sincero,<br \/>\n    mas tornava o seu projeto mais dif&iacute;cil. Era evidente que o rapaz falava<br \/>\n    com absoluta boa f&eacute;, e que n&atilde;o era de modo algum c&uacute;mplice<br \/>\n    do seu patr&atilde;o o que Fix receara.<\/p>\n<p> Ora bem, pensou, j&aacute; que n&atilde;o &eacute; seu c&uacute;mplice,<br \/>\n    me ajudar&aacute;.<\/p>\n<p> O detetive tinha tomado pela segunda vez uma decis&atilde;o. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, n&atilde;o havia tempo a perder. A todo custo, era preciso reter Fogg<br \/>\n    em Hong Kong.<\/p>\n<p> Escute, disse Fix com voz grave, escute bem. N&atilde;o sou o que julga,<br \/>\n    isto &eacute; um agente dos membros do Reform Club&#8230;<\/p>\n<p> Bah! disse Passepartout, olhando para ele com ar alcoolizado.<\/p>\n<p> Sou um inspetor de pol&iacute;cia, encarregado de uma miss&atilde;o pela<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o metropolitana&#8230;<\/p>\n<p> O senhor&#8230; inspetor de pol&iacute;cia!&#8230;<\/p>\n<p> Sim, e provo, retomou Fix. Eis a minha nomea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E o agente, tirando um papel da carteira, mostrou a seu companheiro uma<br \/>\n    nomea&ccedil;&atilde;o assinada pelo comiss&aacute;rio da pol&iacute;cia central.<br \/>\n    Passsepartout, estupefato, olhava Fix sem poder articular uma palavra.<\/p>\n<p> A aposta de Phileas Fogg, tornou Fix, &eacute; apenas um pretexto com que<br \/>\n    enganou, a si e a seus colegas do Reform Club, porque tinha interesse em se<br \/>\n    assegurar de sua inconsciente cumplicidade.<\/p>\n<p> Mas por qu&ecirc;?&#8230; exclamou Passepartout.<\/p>\n<p> Ou&ccedil;a. Em 28 de setembro passado, um roubo de cinq&uuml;enta e cinco<br \/>\n    mil libras foi cometido no Banco da Inglaterra por um indiv&iacute;duo cuja<br \/>\n    descri&ccedil;&atilde;o se p&ocirc;de obter. Ora, eis esta descri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e &eacute;, tra&ccedil;o por tra&ccedil;o, a do senhor Fogg.<\/p>\n<p> Deixe-se disso! gritou Passepartout dando um murro na mesa com o seu punho<br \/>\n    robusto. Meu patr&atilde;o &eacute; o homem mais honesto do mundo! Como sabe?<br \/>\n    respondeu Fix. Nem sequer o conhece! Entrou para o seu servi&ccedil;o no dia<br \/>\n    de sua partida, e ele partiu precipitadamente sob um pretexto insensato, sem<br \/>\n    malas, levando uma grande soma em bank-notes! E ainda se atreve a sustentar<br \/>\n    que &eacute; um homem honesto! Sim! Sim! repetia maquinalmente o pobre mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Quer ent&atilde;o ser preso como seu c&uacute;mplice? Pasepartout agarrara<br \/>\n    a cabe&ccedil;a com as duas m&atilde;os. N&atilde;o era mais reconhec&iacute;vel.<br \/>\n    N&atilde;o ousava encarar o inspetor de pol&iacute;cia. Phileas Fogg um ladr&atilde;o,<br \/>\n    ele, o salvador de Aouda, o homem generoso e valente! E contudo que acusa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    levantavam contra ele! Passepartout procurava repelir as suspeitas que come&ccedil;avam<br \/>\n    a se insinuar em seu esp&iacute;rito! N&atilde;o queria acreditar na culpabilidade<br \/>\n    de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Afinal, que quer de mim? disse ao agente de pol&iacute;cia, contendo-se<br \/>\n    com supremo esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p> O seguinte, respondeu Fix. Segui o senhor Fogg at&eacute; aqui, mas ainda<br \/>\n    n&atilde;o recebi o mandado de pris&atilde;o, que pedi a Londres. &Eacute;<br \/>\n    preciso portanto que me ajude a reter em Hong Kong&#8230;<\/p>\n<p> Eu! que o&#8230;<\/p>\n<p> E reparto consigo a gratifica&ccedil;&atilde;o de duas mil libras prometida<br \/>\n    pelo Banco da Inglaterra! Jamais! respondeu Passepartout, que queria se levantar<br \/>\n    e voltou a tombar na cadeira, sentindo a raz&atilde;o e as for&ccedil;as lhe<br \/>\n    fugirem ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> Senhor Fix, disse balbuciando, mesmo que tudo o que me disse fosse verdade&#8230;<br \/>\n    mesmo que meu patr&atilde;o fosse o ladr&atilde;o que procura&#8230; o que nego&#8230;<br \/>\n    tenho estado&#8230; estou ao seu servi&ccedil;o&#8230; eu o vi bom e generoso&#8230; Tra&iacute;-lo&#8230;<br \/>\n    jamais&#8230; nem por todo o ouro do mundo&#8230; Sou de um vilarejo onde n&atilde;o<br \/>\n    se come esse p&atilde;o!..<\/p>\n<p> Recusa? Recuso.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;amos de conta que n&atilde;o disse nada, e bebamos.<\/p>\n<p> Sim, bebamos! Passepartout se sentia cada vez mais dominado pela embriaguez.<br \/>\n    Fix, compreendendo que era preciso, custasse o que custasse, separ&aacute;-lo<br \/>\n    do patr&atilde;o, quis completar a tarefa. Sobre a mesa havia alguns cachimbos<br \/>\n    cheios de &oacute;pio. Fix empurrou um sutilmente para a m&atilde;o de Passepartout,<br \/>\n    que o pegou, levou aos l&aacute;bios, acendeu, deu algumas baforadas e desabou,<br \/>\n    a cabe&ccedil;a aturdida sob a influ&ecirc;ncia do narc&oacute;tico.<\/p>\n<p> Afinal, disse Fix vendo Passepartout aniquilado, o senhor Fogg n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; avisado a tempo da partida do Carnatic, e se partir, ir&aacute;<br \/>\n    ao menos sem este maldito franc&ecirc;s! Depois saiu, ap&oacute;s ter pago<br \/>\n    a conta.<\/p>\n<h4><a name=\"20\" id=\"20\">CAP&Iacute;TULO XX<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE FIX ENTRA EM CONTATO DIRETO COM PHILEAS FOGG<\/b><\/p>\n<p>Durante esta cena que iria talvez comprometer t&atilde;o gravemente seu futuro,<br \/>\n    Mr. Fogg, acompanhando Mrs. Aouda, passeava pelas ruas da cidade inglesa.<br \/>\n    Desde que Mrs. Aouda tinha aceitado sua oferta de conduzi-la &agrave; Europa,<br \/>\n    ele come&ccedil;ara a providenciar todos os detalhes necess&aacute;rios para<br \/>\n    uma viagem t&atilde;o longa. Que um ingl&ecirc;s como ele fizesse a volta<br \/>\n    ao mundo com uma sacola de viagem na m&atilde;o, admite-se; mas uma mulher<br \/>\n    n&atilde;o a poderia empreender nestas condi&ccedil;&otilde;es. Da&iacute;<br \/>\n    a necessidade de comprar roupas e objetos para a viagem. Mr. Fogg se incumbiu<br \/>\n    desta tarefa com a calma que o caracterizava, e a todas as desculpas e obje&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da vi&uacute;va, confusa com tanta amabilidade: &Eacute; no interesse da minha<br \/>\n    viagem, est&aacute; no meu programa, respondia invariavelmente.<\/p>\n<p> Feitas as aquisi&ccedil;&otilde;es, Mr. Fogg e a jovem regressaram ao hotel<br \/>\n    e jantaram &agrave; mesa dos h&oacute;spedes, que estava suntuosamente servida.<br \/>\n    Depois, Mrs. Aouda, um pouco cansada, subiu para o seu apartamento, depois<br \/>\n    de ter apertado &agrave; inglesa a m&atilde;o do seu imperturb&aacute;vel<br \/>\n    salvador.<\/p>\n<p> O respeitavel gentleman, este, absorveu-se durante toda a tarde na leitura<br \/>\n    do Times e do Illustrated London News.<\/p>\n<p> Se fosse homem capaz de ficar espantado com algo, teria ficado ao n&atilde;o<br \/>\n    ver aparecer o seu criado &agrave; hora de deitar. Mas, sabendo que o paquete<br \/>\n    para Yokohama n&atilde;o deveria sair de Hong Kong antes do dia seguinte pela<br \/>\n    manh&atilde;, n&atilde;o se preocupou. No dia seguinte, Passepartout n&atilde;o<br \/>\n    se apresentou ao toque da sineta de Mr. Fogg.<\/p>\n<p> O que pensou o honrado gentleman ao saber que o seu criado n&atilde;o tinha<br \/>\n    voltado ao hotel, ningu&eacute;m poder&aacute; dizer. Mr. Fogg contentou-se<br \/>\n    com pegar sua sacola de viagem, pediu para avisarem Mrs. Aouda, e mandou buscar<br \/>\n    um palanquim.<\/p>\n<p> Eram oito horas, e o preamar, que o Carnatic deveria aproveitar para sair<br \/>\n    dos escolhos do porto, estava previsto para as nove e meia.<\/p>\n<p> Quando o palanquim chegou &agrave; porta do hotel, Mr. Fogg e Mrs. Aouda<br \/>\n    subiram para o confort&aacute;vel ve&iacute;culo, e as bagagens seguiram atr&aacute;s<br \/>\n    sobre uma carreta.<\/p>\n<p> Meia hora mais tarde, os viajantes desciam no cais de embarque, e a&iacute;<br \/>\n    Mr. Fogg soube que o Carnatic tinha partido na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, que esperava encontrar, ao mesmo tempo, o paquete e o criado,<br \/>\n    ficara sem um e sem outro. Mas nenhum sinal de desapontamento apareceu em<br \/>\n    seu semblante, e como Mrs. Aouda o olhava com inquietude, contentou-se em<br \/>\n    responder: &Eacute; um incidente, senhora, nada mais que um incidente.<\/p>\n<p> Neste momento, um personagem, que o observava com aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    aproximou-se. Era o inspetor Fix, que o cumprimentou e disse: N&atilde;o era<br \/>\n    o senhor, como eu, um dos passageiros do Rangoon, que chegou ontem? Sim, senhor,<br \/>\n    respondeu friamente Mr. Fogg, mas n&atilde;o tenho a honra&#8230;<\/p>\n<p> Desculpe-me, mas pensava encontrar aqui o seu criado.<\/p>\n<p> Sabe onde ele est&aacute;, senhor? perguntou ansiosamente a jovem.<\/p>\n<p> O que! respondeu Fix, fingindo surpresa, n&atilde;o est&aacute; aqui? N&atilde;o,<br \/>\n    respondeu Mrs. Aouda. Desde ontem que n&atilde;o aparece. Teria embarcado<br \/>\n    sem n&oacute;s no Carnatic? Sem os senhores, madame?&#8230; respondeu o agente.<br \/>\n    Mas, desculpe a minha pergunta, contavam partir neste paquete? Sim, senhor.<\/p>\n<p> Eu tamb&eacute;m, madame, e, como v&ecirc;, estou muito desapontado. O Carnatic,<br \/>\n    tendo terminado seus reparos, deixou Hong Kong doze horas antes sem avisar<br \/>\n    ningu&eacute;m, e agora vai ser preciso esperar oito dias pela pr&oacute;xima<br \/>\n    partida! Ao pronunciar as palavras oito dias, Fix sentia o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pular de alegria. Oito dias! Fogg retido oito dias em Hong Kong! Haveria tempo<br \/>\n    para receber o mandado de pris&atilde;o. Finalmente a sorte declarava-se a<br \/>\n    favor do representante da lei.<\/p>\n<p> Avaliem, ent&atilde;o, o golpe mortal que recebeu, quando ouviu Mr. Fogg<br \/>\n    dizer com a sua voz calma:<\/p>\n<p>Mas h&aacute; outros navios al&eacute;m do Carnatic, parece-me, no porto<br \/>\n    de Hong Kong! E Mr. Fogg, oferecendo seu bra&ccedil;o a Mrs. Aouda, dirigiu-se<br \/>\n    para as docas &agrave; procura de um navio que estivesse de partida.<\/p>\n<p> Fix, assombrado, foi atr&aacute;s. Dir-se-ia que um fio o atava &agrave;quele<br \/>\n    homem.<\/p>\n<p> Contudo, a sorte parecia verdadeiramente ter abandonado aquele a quem at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o tanto servira. Phileas Fogg, durante tr&ecirc;s horas, percorreu<br \/>\n    o porto em todos os sentidos, decidido, se preciso fosse, a fretar uma embarca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o transportar a Yokohama; mas s&oacute; viu navios carregando ou descarregando,<br \/>\n    e que, portanto, n&atilde;o poderiam estar de partida. Fix sentiu renascer<br \/>\n    sua esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Entretanto Mr. Fogg n&atilde;o se desconcertava, e ia continuar a sua busca,<br \/>\n    mesmo que precisasse passar a Macau, quando foi abordado por um marinheiro<br \/>\n    na entrada do porto.<\/p>\n<p> Vossa Honra procura um barco? perguntou-lhe o marinheiro, tirando o chap&eacute;u.<\/p>\n<p> Tem um barco pronto para partir? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Sim, Vossa Honra, o barco de pilotagem n.&deg; 43, o melhor da frotilha.<\/p>\n<p> Navega r&aacute;pido? Entre oito e nove milhas, mais ou menos. Quer v&ecirc;-lo?<br \/>\n    Sim.<\/p>\n<p> Vossa Honra ficar&aacute; satisfeito. &Eacute; algum passeio no mar? N&atilde;o.<br \/>\n    De uma viagem.<\/p>\n<p> Uma viagem? Encarregar-se-ia de levar-me a Yokohama? O marinheiro, a estas<br \/>\n    palavras, deteve os movimentos do bra&ccedil;o, esbugalhou os olhos.<\/p>\n<p> Vossa Honra est&aacute; brincando? disse.<\/p>\n<p> N&atilde;o! Perdi a partida do Carnartic, e preciso estar dia 14, o mais<br \/>\n    tardar, em Yokohama, para tomar o paquete para S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> Lamento, respondeu o piloto, mas &eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Ofere&ccedil;o cem libras (2.500 F) por dia, e uma gratificac&atilde;o de<br \/>\n    duzentas libras se chegar a tempo.<\/p>\n<p> A s&eacute;rio? perguntou o piloto.<\/p>\n<p> Muito a s&eacute;rio, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> O piloto afastara-se um pouco para o lado. Olhava o mar, evidentemente hesitando<br \/>\n    entre o desejo de ganhar uma soma enorme e o medo de se aventurar t&atilde;o<br \/>\n    longe. Fix estava com p&acirc;nicos mortais.<\/p>\n<p> Neste interim, Mr. Fogg voltara-se para Mrs. Aouda.<\/p>\n<p> N&atilde;o tem medo, madame? perguntou.<\/p>\n<p> Consigo, n&atilde;o, senhor Fogg, respondeu a jovem.<\/p>\n<p> O piloto aproximara-se outra vez do gentleman, e girava o chap&eacute;u<br \/>\n    entre as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, piloto? disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Meu Senhor, respondeu o piloto, n&atilde;o posso arriscar<br \/>\n    nem meus homens, nem a mim, nem mesmo a si, em uma travessia t&atilde;o longa<br \/>\n    num barco de vinte toneladas apenas, e nesta &eacute;poca do ano. Al&eacute;m<br \/>\n    disso, n&atilde;o chegar&iacute;amos a tempo, porque h&aacute; mil seiscentas<br \/>\n    e cinq&uuml;enta milhas de Hong Kong a Yokohama.<\/p>\n<p> Mil e seiscentas apenas, disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> D&aacute; na mesma.<\/p>\n<p> Fix respirou fundo.<\/p>\n<p> Mas, acrescentou o piloto, haver&aacute; talvez meio de se arranjar de outro<br \/>\n    modo.<\/p>\n<p> Fix n&atilde;o respirava mais.<\/p>\n<p> Como? perguntou Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Indo a Nagasaki, a extremidade sul do Jap&atilde;o, mil e cem milhas, ou<br \/>\n    apenas a Shangai, oitocentas milhas de Hong Kong. Nesta &uacute;ltima travessia,<br \/>\n    n&atilde;o nos afastar&iacute;amos da costa chinesa, o que seria uma grande<br \/>\n    vantagem, ainda mais que a&iacute; as correntes levam para o norte.<\/p>\n<p> Piloto, respondeu Phileas Fogg, &eacute; em Yokohama que devo tomar o paquete,<br \/>\n    n&atilde;o em Shangai ou em Nagasaki.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o? respondeu o piloto. O paquete para S&atilde;o Francisco<br \/>\n    n&atilde;o parte de Yokohama. Faz escala em Yokohama e em Nagasaki, mas o<br \/>\n    seu porto de partida &eacute; Shangai! Est&aacute; certo do que diz? Certo.<\/p>\n<p> E quando o paquete deixa Shangai? Dia 11, &agrave;s sete da noite. Temos,<br \/>\n    pois, quatro dias pela frente. Quatro dias, s&atilde;o noventa e seis horas,<br \/>\n    e com uma m&eacute;dia de oito milhas por hora, se tivermos sorte, se o vento<br \/>\n    soprar de sudeste, se o mar estiver calmo, podemos fazer as oitocentas milhas<br \/>\n    que nos separam de Shangai.<\/p>\n<p> E pode partir&#8230;<\/p>\n<p> Em uma hora. O tempo de comprar os v&iacute;veres e aparelhar.<\/p>\n<p> Neg&oacute;cio fechado&#8230; &Eacute; dono do barco? Sim, John Bunsby, patr&atilde;o<br \/>\n    da Tankad&egrave;re.<\/p>\n<p> Quer um sinal? Se isso n&atilde;o ofender Vossa Honra.<\/p>\n<p> Aqui est&atilde;o duzentas libras por conta&#8230; Senhor, acrescentou Phileas<br \/>\n    Fogg voltando-se para o agente, se quiser aproveitar&#8230;<\/p>\n<p> Senhor, respondeu resolutamente Mr. Fix, ia lhe pedir esse favor.<\/p>\n<p> Bem. Em meia hora estaremos a bordo.<\/p>\n<p> Mas o pobre rapaz&#8230; disse Mrs. Aouda, a quem o desaparecimento de Passepartout<br \/>\n    preocupava extremamente.<\/p>\n<p> Vou fazer por ele tudo o posso fazer, respondeu Phileas Fogg.<\/p>\n<p> E, enquanto Fix, nervoso, febril, raivoso, se encaminhava para o barco-piloto,<br \/>\n    os dois se dirigiram para os escrit&oacute;rios da pol&iacute;cia de Hong<br \/>\n    Kong. Ali, Phileas Fogg deu a descri&ccedil;&atilde;o de Passepartout, e deixou<br \/>\n    uma quantia suficiente para repatri&aacute;-lo.<\/p>\n<p> A mesma formalidade foi cumprida junto ao agente consular franc&ecirc;s,<br \/>\n    e o palanquim, ap&oacute;s passar pelo hotel, onde as bagagens foram pegas,<br \/>\n    reconduziu os viajantes ao embarcadouro.<\/p>\n<p> Soavam tr&ecirc;s horas. O barco-piloto n.&deg; 43, com sua tripula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a bordo, seus v&iacute;veres embarcados, estava pronto para largar.<\/p>\n<p> A Tankad&egrave;re era uma pequena goleta atraente de vinte toneladas, bem<br \/>\n    pin&ccedil;ada na frente, bem solta em suas maneiras, muito alongada em suas<br \/>\n    linhas d&rsquo;&aacute;gua. Parecida um iate de corrida. Seus cobres brilhantes,<br \/>\n    sua ferragens galvanizadas, sua coberta branca como marfim, indicavam que<br \/>\n    o mestre John Bunsby sabia conserv&aacute;-la em bom estado. Seus dois mastros<br \/>\n    inclinavam-se um pouco para tr&aacute;s. Levava velas latinas, mezena, traquete,<br \/>\n    e, com vento pela popa, podia cortar o mar maravilhosamente. Devia navegar<br \/>\n    r&aacute;pido, e, de fato, j&aacute; ganhara diversos pr&ecirc;mios nos &ldquo;matches<br \/>\n    de barcos de pilotagem.<\/p>\n<p> A tripula&ccedil;&atilde;o da Tankad&egrave;re era composta pelo mestre<br \/>\n    John Bunsby e quatro homens. Eram desses marinheiros valorosos que, com qualquer<br \/>\n    tempo, se aventuram &agrave; busca dos navios, e conheciam muito bem estes<br \/>\n    mares. John Bunsby, homem de cerca de quarenta e cinco anos, vigoroso, bronzeado<br \/>\n    de sol, o olhar vivo, a express&atilde;o en&eacute;rgica, bem aprumado, bom<br \/>\n    no que fazia, teria inspirado confian&ccedil;a aos mais medrosos.<\/p>\n<p> Phileas Fogg e Mrs. Aouda passaram ao navio. Fix j&aacute; se achava ali.<br \/>\n    Pela escotilha de popa da goleta, descia-se para um quarto quadrado, cujas<br \/>\n    anteparas se desdobravam em forma de catres por cima de um div&atilde; circular.<br \/>\n    No meio, uma mesa iluminada por um lampi&atilde;o que oscilava. Era pequeno,<br \/>\n    mas limpo.<\/p>\n<p> Lamento n&atilde;o poder lhe oferecer coisa melhor, disse Mr. Fogg a Fix,<br \/>\n    que se inclinou sem responder.<\/p>\n<p> O inspetor de pol&iacute;cia sentiu uma esp&eacute;cie de humilha&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em aproveitar assim os obs&eacute;quios do senhor Fogg.<\/p>\n<p> Com certeza, pensava, &eacute; um tratante muito delicado, mas &eacute;<br \/>\n    um tratante.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s e dez, as velas foram i&ccedil;adas. O pavilh&atilde;o<br \/>\n    ingl&ecirc;s tremulava no casco da goleta. Os passageiros estavam sentados<br \/>\n    no conv&eacute;s. Mr. Fogg e Mrs. Aouda lan&ccedil;aram um &uacute;ltimo olhar<br \/>\n    para o cais, para ver se Passepartout aparecia.<\/p>\n<p> Fix n&atilde;o estava sem apreens&otilde;es, porque o acaso poderia conduzir<br \/>\n    &agrave;quele lugar o infeliz rapaz a quem tratara t&atilde;o indignamente,<br \/>\n    e ent&atilde;o dar-se-iam explica&ccedil;&otilde;es, das quais Fix n&atilde;o<br \/>\n    se sairia mu&iacute;to bem. Mas o franc&ecirc;s n&atilde;o apareceu, e, sem<br \/>\n    d&uacute;vida, o narc&oacute;tico embrutecedor ainda o tinha sob sua influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Afinal, o mestre John Bunsby fez-se ao largo, e a Tankad&egrave;re, tomando<br \/>\n    o vento em suas velas, lan&ccedil;ou-se balou&ccedil;ando sobre as ondas.<\/p>\n<h4><a name=\"21\" id=\"21\">CAP&Iacute;TULO XXI<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE O PATR&Atilde;O DA &ldquo;TANKAD&Egrave;RE CORRE S&Eacute;RIO<br \/>\n    RISCO DE PERDER UMA GRATIFICA&Ccedil;&Atilde;O DE DUZENTAS LIBRAS <\/b><\/p>\n<p>Era uma expedi&ccedil;&atilde;o aventurosa esta navega&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    oitocentas milhas, numa embarca&ccedil;&atilde;o de vinte toneladas, e principalmente<br \/>\n    naquela &eacute;poca do ano. S&atilde;o geralmente maus os mares da China,<br \/>\n    expostos a lufadas terr&iacute;veis durante os equin&oacute;cios, e estava-se<br \/>\n    ainda nos primeiros dias de novembro.<\/p>\n<p> Teria sido, por certo, mais vantajoso para o piloto conduzir seus passageiros<br \/>\n    at&eacute; Yokohama, pois era pago por dia. Mas teria sido imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    demais tentar tal travessia em tais condi&ccedil;&otilde;es, e j&aacute; era<br \/>\n    um ato audacioso, quando n&atilde;o temer&aacute;rio, ir at&eacute; Shangai.<br \/>\n    Mas John Bunsby tinha confian&ccedil;a em sua Tankad&egrave;re, que se elevava<br \/>\n    sobre as vagas como uma malva, e n&atilde;o estava errado.<\/p>\n<p> Durante as &uacute;ltimas horas desta jornada, a Tankad&egrave;re navegou<br \/>\n    por entre os escolhos caprichosos de Hong Kong, e sob todos os crit&eacute;rios,<br \/>\n    com vento pela frente ou por tr&aacute;s, comportou-se muito bem.<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho necessidade, piloto, disse Phileas Fogg quando a goleta<br \/>\n    entrava em alto mar, de lhe recomendar toda dilig&ecirc;ncia poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Vossa Honra, v&aacute; por mim, respondeu John Bunsby. Fizemos &agrave;s<br \/>\n    velas, estamos dando tudo o que o vento permite dar. Querer ir mais r&aacute;pido<br \/>\n    s&oacute; serviria para virar a embarca&ccedil;&atilde;o em preju&iacute;zo<br \/>\n    de sua marcha.<\/p>\n<p> &Eacute; o seu of&iacute;cio, e n&atilde;o o meu, piloto, e confio em si.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, o corpo ereto, pernas afastadas, firme como um marinheiro,<br \/>\n    contemplava, sem cambalear, o mar agitado. A jovem, sentada &agrave; popa,<br \/>\n    sentia-se comovida contemplando este oceano, j&aacute; com as sombras do crep&uacute;sculo,<br \/>\n    cuja f&uacute;ria arrostava em uma fr&aacute;gil embarca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por cima da sua cabe&ccedil;a desdobravam-se as velas brancas, que a levavam<br \/>\n    pelo espa&ccedil;o como grandes asas. A goleta, impelida pelo vento, parecia<br \/>\n    voar no ar.<\/p>\n<p> A noite veio. A lua entrava no seu primeiro quarto, a sua luz insuficiente<br \/>\n    deveria logo extinguir-se nas brumas do horizonte. Nuvens corriam do leste<br \/>\n    e j&aacute; invadiam uma parte do c&eacute;u.<\/p>\n<p> O piloto tinha disposto os fogos de posi&ccedil;&atilde;o precau&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    indispens&aacute;vel a ser tomada nestes mares muito freq&uuml;entados nas<br \/>\n    proximidades das costas. As colis&otilde;es de navios n&atilde;o eram raros<br \/>\n    por ali, e, com a velocidade com que ia animada, a goleta despeda&ccedil;ar-se-ia<br \/>\n    ao menor choque.<\/p>\n<p> Fix meditava na proa da embarca&ccedil;&atilde;o. Conservava-se afastado,<br \/>\n    sabendo que Fogg era pouco amigo de conversas. Demais, repugnava-lhe falar<br \/>\n    &agrave;quele homem, cujos favores aceitara. Meditava tamb&eacute;m sobre<br \/>\n    o futuro. Parecia-lhe certo que o senhor Fogg n&atilde;o pararia em Yokohama,<br \/>\n    que tomaria imediatamento o paquete para S&atilde;o Francisco, para alcan&ccedil;ar<br \/>\n    a Am&eacute;rica, cuja vasta extens&atilde;o lhe garantiria a impunidade com<br \/>\n    seguran&ccedil;a. O plano de Phileas Fogg parecia-lhe ser muito simples.<\/p>\n<p> Em vez de embarcar diretamente da Inglaterra para os Estados Unidos, como<br \/>\n    um velhaco vulgar, este Fogg havia feito uma grande volta e atravessado tr&ecirc;s<br \/>\n    quartas partes do globo, para alcan&ccedil;ar com mais seguran&ccedil;a o<br \/>\n    continente americano, onde comeria tranq&uuml;ilamente o milh&atilde;o do<br \/>\n    Banco, ap&oacute;s ter despistado a pol&iacute;cia. Mas uma vez na terra da<br \/>\n    Uni&atilde;o, que faria Fix? Abandonaria este homem? N&atilde;o, cem vezes<br \/>\n    n&atilde;o! e at&eacute; que tivesse obtido um ato de extradi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o o perderia de vista. Era seu dever e o cumpriria at&eacute; o fim.<br \/>\n    Em todo caso, algo de bom tinha acontecido. Passepartout j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    estava junto de seu patr&atilde;o, e sobretudo, depois das confid&ecirc;ncias<br \/>\n    de Fix, era importante que patr&atilde;o e criado n&atilde;o se revissem jamais.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, este, tamb&eacute;m n&atilde;o deixava de pensar no criado,<br \/>\n    t&atilde;o estranhamente desaparecido. Feitas todas as reflex&otilde;es, n&atilde;o<br \/>\n    lhe parecia imposs&iacute;vel que, em conseq&uuml;&ecirc;ncia de um mal entendido,<br \/>\n    o rapaz tivesse embarcado no Carnatic, no &uacute;ltimo momento. Era tamb&eacute;m<br \/>\n    a opini&atilde;o de Mrs. Aouda, que sentia profundamente a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    deste excelente servidor, a quem tanto devia. Poderia acontecer que o reencontrassem<br \/>\n    em Yokohama, e, se o Carnatic para ali o tivesse transportado, seria f&aacute;cil<br \/>\n    saber.<\/p>\n<p> Por volta das dez horas, a brisa veio refrescar. Talvez tivesse sido prudente<br \/>\n    arrefecer o passo, mas o piloto, ap&oacute;s ter cuidadosametne observado<br \/>\n    o c&eacute;u, deixou o velame no estado em que estava. Demais, a Tankad&egrave;re,<br \/>\n    levava admiravelmente o pano, tendo uma grande capacidade de colocar &aacute;gua<br \/>\n    fora, e tudo estava preparado para ser arranjado rapidamente, em caso de aguaceiro.<\/p>\n<p> &Agrave; meia noite, Phileas Fogg e Mrs. Aouda desceram para a cabina. Fix<br \/>\n    os precedera, e estendera-se sobre um dos catres. Quanto ao piloto e seus<br \/>\n    homens, ficaram a noite toda no conv&eacute;s.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 8 de novembro, ao nascer do sol, a goleta tinha feito mais<br \/>\n    de cem milhas. A barquilha, usada com freq&uuml;&ecirc;ncia, indicou que a<br \/>\n    m&eacute;dia de sua velocidade estava entre oito e nove milhas. A Tankad&egrave;re<br \/>\n    ia com todo o pano largo, e obtinha assim sua m&aacute;xima rapidez. Se o<br \/>\n    vento se mantivesse nestas condi&ccedil;&otilde;es, as probabilidades eram<br \/>\n    a seu favor.<\/p>\n<p> A Tankad&egrave;re, durante todo este dia, n&atilde;o se afastou muito da<br \/>\n    costa, cujas correntes lhe eram favor&aacute;veis. Tinha-a a cinco milhas<br \/>\n    ou mais a bombordo, e a costa, de perfil irregular, aparecia &agrave;s vezes<br \/>\n    no meio de alguns clar&otilde;es. O vento vinha da terra, o mar estava por<br \/>\n    isso mesmo menos forte: circunst&acirc;ncia feliz para a goleta, porque as<br \/>\n    embarca&ccedil;&otilde;es de pequena tonelagem padecem principalmente com<br \/>\n    a vaga, que lhes diminue a velocidade, que as &ldquo;matam para empregar a<br \/>\n    express&atilde;o mar&iacute;tima.<\/p>\n<p> Pelo meio dia, o vento amainou um pouco e rodou para sudeste. O piloto largou<br \/>\n    as flechas; por&eacute;m, ao fim de duas horas, foi preciso recolh&ecirc;-las,<br \/>\n    porque o vento refrescava de novo.<\/p>\n<p> Mr. Fogg e a jovem, muito felizmente refrat&aacute;rios ao mal do mar, comeram<br \/>\n    com apetite as conservas e a bolacha de bordo. Fix foi convidado a partilhar<br \/>\n    de sua refei&ccedil;&atilde;o e teve do aceitar, porque bem sabia que &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o necess&aacute;rio lastrear o est&ocirc;mago como os barcos, mas<br \/>\n    aquilo o vexava! Viajar &agrave; custa deste homem, nutrir-se com seus v&iacute;veres,<br \/>\n    achava pouco leal. Contudo, comeu pouco, &eacute; verdade mas comeu.<\/p>\n<p> Entretanto, terminada a refei&ccedil;&atilde;o, julgou dever chamar o senhor<br \/>\n    Fogg &agrave; parte, e disse-lhe: Senhor&#8230;<\/p>\n<p> Este &ldquo;senhor lhe queimava os l&aacute;bios, e se conteve para n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;r a m&atilde;o no colete deste &ldquo;senhor.<\/p>\n<p> Senhor, foi muito gentil em me oferecer passagem em seu navio; mas, ainda<br \/>\n    que os meus recursos n&atilde;o me permitam gastar t&atilde;o generosamente<br \/>\n    como o senhor, quero pagar a minha parte&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o falemos nisso, senhor, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Mas, se insisto&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o, senhor, repetiu Mr. Fogg em tom que n&atilde;o admitia r&eacute;plica.<br \/>\n    Isso entra nas despesas gerais! Fix inclinou-se, sufocava, e, indo deitar-se<br \/>\n    &agrave; proa da goleta, n&atilde;o disse mais nenhuma palavra durante a jornada.<\/p>\n<p> Seguiam velozmente. John Bunsby tinha boas esperan&ccedil;as. Diversas vezes<br \/>\n    disse a Mr. Fogg que chegariam no tempo desejado a Shangai. Mr. Fogg respondeu<br \/>\n    simplesmente que contava com isso. Demais, toda a tripula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da pequena goleta esfor&ccedil;ava-se em o conseguir. A gratifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estimulava aqueles bravos marinheiros. Por isso n&atilde;o se via uma escotilha<br \/>\n    que n&atilde;o estivesse conscienciosamente fechada! N&atilde;o havia vela<br \/>\n    que n&atilde;o estivesse vigorosametne i&ccedil;ada! N&atilde;o se dava a<br \/>\n    mais pequena guinada de que pudessem acusar o homem do leme. Em qualquer regata<br \/>\n    do Royal Yacht Club n&atilde;o se faria manobras com mais precis&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave; tarde, o piloto tinha apurado com a barquilha um percurso de duzentas<br \/>\n    milhas percorridas desde Hong Kong, e Phileas Fogg podia esperar que ao chegar<br \/>\n    a Yokohama n&atilde;o teria nenhum atraso a registrar no seu programa. Portanto,<br \/>\n    o primeiro contratempo s&eacute;rio que experimentara desde sua partida de<br \/>\n    Londres, n&atilde;o lhe causaria provavelmente nenhum preju&iacute;zo.<\/p>\n<p> Durante a noite, pelas primeiras horas da manh&atilde;, a Tankad&egrave;re<br \/>\n    entrava franqueando no estreito de Fo-Kien, que separa a grande ilha Formosa<br \/>\n    da costa chinesa, e atravessava o tr&oacute;pico de C&acirc;ncer. O mar &eacute;<br \/>\n    agitado ali, cheio de redemoinhos formados pelas contra correntes. A goleta<br \/>\n    fatigou-se bastante. As vagas curtas embara&ccedil;avam sua marcha. Tornou-se<br \/>\n    muito dif&iacute;cil manter-se em p&eacute; sobre o conv&eacute;s.<\/p>\n<p> Com o romper do dia, o vento refrescou mais. Havia no c&eacute;u ind&iacute;cios<br \/>\n    de borrasca. Demais, o bar&ocirc;metro anunciava uma mudan&ccedil;a pr&oacute;xima<br \/>\n    de atmosfera; sua marcha diurna estava irregular, e o merc&uacute;rio oscilava<br \/>\n    caprichosamente. Via-se tamb&eacute;m o mar levantar-se para o sudoeste em<br \/>\n    longas ondas &ldquo;que sentiam a tempestade. Na v&eacute;spera o sol tinha-se<br \/>\n    deitado em uma bruma avermelhada, no meio de cintila&ccedil;&otilde;es fosforescentes<br \/>\n    do oceano.<\/p>\n<p> O piloto examinou durante muito tempo este mau aspecto do c&eacute;u e murmurou<br \/>\n    entredentes coisas pouco intelig&iacute;veis. Em certo momento, achando-se<br \/>\n    perto de seu passageiro: Pode-se dizer tudo a Vossa Honra? disse em voz baixa.<\/p>\n<p> Tudo, respondeu Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Pois bem, vamos ter uma borrasca.<\/p>\n<p> Vir&aacute; do norte ou do sul? perguntou simplesmente Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Do sul. Veja. &Eacute; um tuf&atilde;o que se prepara.<\/p>\n<p> V&aacute; pelo tuf&atilde;o do sul, pois que nos levar&aacute; para o lado<br \/>\n    certo, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Se encara assim, replicou o piloto, n&atilde;o tenho mais nada a dizer.<\/p>\n<p> Os pressentimentos de John Bunsby n&atilde;o o enganaram. Numa &eacute;poca<br \/>\n    menos adiantada do ano o tuf&atilde;o, segundo a express&atilde;o de um c&eacute;lebre<br \/>\n    meteorologista, ter-se-ia desfeito como uma cascata luminosa de flamas el&eacute;tricas,<br \/>\n    mas no equin&oacute;cio do inverno era de recear que se desencadeasse com<br \/>\n    viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> O piloto tomou de antem&atilde;o as suas precau&ccedil;&otilde;es, Mandou<br \/>\n    fechar todas as velas da goleta e colocar as vergas na coberta. Arreou os<br \/>\n    mastar&eacute;us. Colocou o bote para dentro. Recolheu todas as velas auxiliares.<br \/>\n    As escotilhas foram fechadas com todo o cuidado. Desde esse momento nem uma<br \/>\n    gota de &aacute;gua podia penetrar no casco da embarca&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Apenas uma vela triangular, de grande porte, foi i&ccedil;ada &agrave; guisa<br \/>\n    de trinquete, de modo a manter a goleta com vento pela popa. E esperaram.<\/p>\n<p> John Bunsby tinha convidado os passageiros a descerem para a cabina; mas,<br \/>\n    num espa&ccedil;o estreito, quase privado de ar, e no meio dos balan&ccedil;os<br \/>\n    produzidos pelas vagas, este aprisionamento n&atilde;o teria sido nada agrad&aacute;vel.<br \/>\n    Nem Mr. Fogg, nem Mrs. Aouda, nem o pr&oacute;prio Fix, consentiram em sair<br \/>\n    da coberta.<\/p>\n<p> Pelas oito horas, a borrasca de chuva e vendaval desabou sobre a embarca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; com seu peda&ccedil;o de pano, a Tankad&egrave;re foi levantada<br \/>\n    como uma pena pelo vento do qual n&atilde;o se saberia dar uma id&eacute;ia<br \/>\n    exata, quando sopra em tempestade. Comparar sua velocidade &agrave; qu&aacute;drupla<br \/>\n    velocidade de uma locomotiva lan&ccedil;ada a todo o vapor, seria ficar aqu&eacute;m<br \/>\n    da verdade.<\/p>\n<p> Durante o dia todo, a embarca&ccedil;&atilde;o correu assim na para o norte,<br \/>\n    arrastada pelas vagas monstruosas, conservando felizmente uma velocidade igual<br \/>\n    &agrave; delas. Vinte vezes esteve a pique de ser submergida por uma das montanhas<br \/>\n    de &aacute;gua que se lan&ccedil;avam sobre sua popa; mas um movimento certeiro<br \/>\n    do leme, feito pelo piloto, evitava a cat&aacute;strofe. Algumas vezes os<br \/>\n    passageiros ficavam completamente envoltos pelas ondas que recebiam filosoficamente.<br \/>\n    Fix resmungava sem d&uacute;vida, mas a intr&eacute;pida Aouda, os olhos fixos<br \/>\n    no seu companheiro, cujo sangue frio n&atilde;o podia deixar de admirar, mostrava-se<br \/>\n    digna dele e arrostava a tormenta ao seu lado. Quanto a Phileas Fogg, parecia<br \/>\n    que aquele tuf&atilde;o fazia parte do seu programa.<\/p>\n<p> At&eacute; ent&atilde;o a Tankad&egrave;re fizera sempre rota para o norte;<br \/>\n    mas pela noite, como se receiava, o vento, rodando tr&ecirc;s quartos, soprou<br \/>\n    para noroeste. A goleta, oferecendo ent&atilde;o o flanco &agrave; vaga, foi<br \/>\n    assustadoramente sacudida de modo terr&iacute;vel. O mar embatia contra ela<br \/>\n    com uma viol&ecirc;ncia assustadora, quando n&atilde;o se sabe a solidez com<br \/>\n    que todas as pe&ccedil;as de uma embarca&ccedil;&atilde;o est&atilde;o ligadas<br \/>\n    entre si.<\/p>\n<p> Com a noite, a tempestade acentuou-se ainda. Vendo a escurid&atilde;o come&ccedil;ar,<br \/>\n    e com a escurid&atilde;o aumentar a tormenta, John Bunsby padeceu com vivas<br \/>\n    inquieta&ccedil;&otilde;es. Perguntou-se se n&atilde;o seria tempo de relaxar,<br \/>\n    e consultou a tripula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois de interrogar seus homens, John Bunsby aproximou-se de Mr. Fogg,<br \/>\n    e disse-lhe: Acredito, Vossa Honra, que seria melhor aproarmos em um dos portos<br \/>\n    da costa.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m acredito, respondeu Mr. Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Ah! exclamou o piloto, mas em qual? S&oacute; conhe&ccedil;o um, respondeu<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente Mr. Fogg.<\/p>\n<p> E &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> Shangai.<\/p>\n<p> Esta resposta, o piloto a princ&iacute;pio levou alguns minutos sem compreender<br \/>\n    o que significava, o quanto continha de obstina&ccedil;&atilde;o e de tenacidade.<br \/>\n    Depois exclamou: Ah, sim! Vossa Honra tem raz&atilde;o. Para Shangai! E a<br \/>\n    dire&ccedil;&atilde;o da Tankad&egrave;re foi imperturbavelmente conservada<br \/>\n    para o norte.<\/p>\n<p> Noite verdadeiramente terr&iacute;vel! Foi um milagre que a pequena goleta<br \/>\n    n&atilde;o sossobrasse. Duas vezes esteve a esse ponto, e tudo quase foi levado<br \/>\n    de bordo. Mrs. Aouda estava fadigada, mas n&atilde;o fez ouvir uma queixa.<br \/>\n    Mais de uma vez Mr. Fogg teve de correr para proteg&ecirc;-la da viol&ecirc;ncia<br \/>\n    das ondas.<\/p>\n<p> O dia reapareceu. A tempestade desencadeva-se ainda com um extremo furor.<br \/>\n    Contudo, o vento recaiu para o sudoeste. Era uma mudan&ccedil;a favor&aacute;vel,<br \/>\n    e a Tankad&egrave;re abriu novamente caminho sobre este mar agitado, cujas<br \/>\n    ondas se encontravam com as que o novo vento levantava. Da&iacute; um choque<br \/>\n    de contra-ondas, que teria esmagado uma embarca&ccedil;&atilde;o menos solidamence<br \/>\n    constru&iacute;da.<\/p>\n<p> De tempo em tempo avistava-se a costa atrav&eacute;s de aberturas nas brumas<br \/>\n    , mas nenhum navio &agrave; vista. A Tankad&egrave;re era &uacute;nica no<br \/>\n    mar.<\/p>\n<p> Ao meio dia, houve alguns sintomas de acalmia, que, com o baixar do sol<br \/>\n    no horizonte, se pronunciaram mais nitidamente.<\/p>\n<p> A pouca dura&ccedil;&atilde;o da tempestade devia-se &agrave; sua pr&oacute;pria<br \/>\n    viol&ecirc;ncia, Os passageiros, absolutamente prostrados, puderam comer e<br \/>\n    repousar um pouco.<\/p>\n<p> A noite foi relativamente sossegada. O piloto largou outra vez as velas.<br \/>\n    A velocidade da embarca&ccedil;&atilde;o foi consider&aacute;vel. No dia seguinte,<br \/>\n    ao nascer do dia, John Bunsby, feito o reconhecimento da costa, p&ocirc;de<br \/>\n    afirmar que n&atilde;o estavam a cem milhas de Shangai.<\/p>\n<p> Cem milhas, e s&oacute; restava aquele dia para as percorrer! Era naquela<br \/>\n    mesma tarde que Mr. Fogg deveria chegar a Shangai, se n&atilde;o quisesse<br \/>\n    perder a partida do paquete para Yokohama. Sem aquela tempestade, durante<br \/>\n    a qual perdeu muitas horas, estaria naquele momento a trinta milhas do porto.<\/p>\n<p> A brisa abonan&ccedil;ava sensivelmente, mas por fortuna o mar ca&iacute;a<br \/>\n    com ela. A goleta se cobriu de panos. Flechas, velas de estal, bujarrona,<br \/>\n    tudo entrara em a&ccedil;&atilde;o, e o mar escumava sob a roda da proa.<\/p>\n<p> Ao meio dia, a Tankad&egrave;re n&atilde;o estava a mais de quarenta e cinco<br \/>\n    milhas de Shangai. Restavam seis horas ainda para ganhar este porto antes<br \/>\n    da partida do paquete para Yokohama.<\/p>\n<p> Os receios foram muitos. Queriam chegar a todo custo. Todos menos Phileas<br \/>\n    Fogg por certo sentiam o cora&ccedil;&atilde;o bater de impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Era preciso que a pequena goleta se mantivesse numa m&eacute;dia de nove milhas<br \/>\n    por hora, e o vento continuava a amainar! Era uma brisa irregular, as lufadas<br \/>\n    caprichosas vindo da costa. Passavam, e o mar se acalmava tamb&eacute;m ap&oacute;s<br \/>\n    sua passagem.<\/p>\n<p> Contudo a embarca&ccedil;&atilde;o era t&atilde;o leve, suas velas altas,<br \/>\n    de um tecido fino, apanhavam t&atilde;o bem as lufadas irregulares, que, a<br \/>\n    corrente ajudando, &agrave;s seis horas, John Bunsbay n&atilde;o contava mais<br \/>\n    que dez milhas at&eacute; o rio de Shangai, porque a cidade est&aacute; situada<br \/>\n    a doze milhas pelo menos acima da embocadura.<\/p>\n<p> &Agrave;s sete horas, achavam-se ainda a tr&ecirc;s milhas de Shangai. Uma<br \/>\n    formid&aacute;vel praga escapou da boca do piloto&#8230; O pr&ecirc;mio de duzentas<br \/>\n    libras iria evidentemente lhe escapar. Olhou para Mr. Fogg. Mr. Fogg estava<br \/>\n    impass&iacute;vel, e contudo toda a sua fortuna era jogada neste momento&#8230;<\/p>\n<p> Neste momento tamb&eacute;m, uma longa fuselagem negra, coroada com um penacho<br \/>\n    de fuma&ccedil;a, apareceu ao n&iacute;vel da &aacute;gua. Era o paquete americano,<br \/>\n    que sa&iacute;a na hora regulamentar.<\/p>\n<p> Maldi&ccedil;&atilde;o! exclamou John Bunsby, que empurrou o leme com um<br \/>\n    bra&ccedil;o desesperado.<\/p>\n<p> Sinais! disse simplesmente Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Um pequeno canh&atilde;o de bronze se alojava na proa da Tankad&egrave;re.<br \/>\n    Servia para fazer sinais em tempos de nevoeiro.<\/p>\n<p> A pe&ccedil;a foi carregada at&eacute; &agrave; boca, mas no momento em<br \/>\n    que o piloto ia aplicar um carv&atilde;o ardente &agrave; pe&ccedil;a: A bandeira<br \/>\n    a meio pau, disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> A bandeira foi arreada a meio mastro. Era um sinal de perigo, e podiam esperar<br \/>\n    que o paquete americano, percebendo-o, modificasse por um instante sua rota<br \/>\n    para dirigir-se &agrave; embarca&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Fogo! disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> E a detona&ccedil;&atilde;o da pequena pe&ccedil;a de bronze eclodiu no<br \/>\n    ar.<\/p>\n<h4><a name=\"22\" id=\"22\">CAP&Iacute;TULO XXII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT RECONHECE QUE, MESMO NOS ANT&Iacute;PODAS, &Eacute;<br \/>\n    PRUDENTE TER ALGUM DINHEIRO NO BOLSO<\/b><\/p>\n<p>O Carnatic, tendo sa&iacute;do de Hong Kong, a 7 de novembro, &agrave;s seis<br \/>\n    e meia da tarde, dirigia-se a todo o vapor para as terras do Jap&atilde;o.<br \/>\n    Levava um carregamento completo de mercadorias e passageiros. Duas cabinas<br \/>\n    de popa estavam desocupados. Eram as que tinham sido reservadas por conta<br \/>\n    de Mr. Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte, pela manh&atilde;, o pessoal da proa p&ocirc;de<br \/>\n    ver, n&atilde;o sem alguma surpresa, um passageiro, o olho meio abestalhado,<br \/>\n    andar vacilante, cabeleira revolta, que sa&iacute;a da segunda classe e vinha,<br \/>\n    cambaleando, sentar-se numa b&oacute;ia.<\/p>\n<p> Este passageiro era Passepartout em pessoa. Eis o que tinha acontecido.<\/p>\n<p> Instantes depois de Fix ter sa&iacute;do do antro de &oacute;pio, dois rapazes<br \/>\n    tinham levantado Passepartout profundamente adormecido, e o tinham deitado<br \/>\n    sobre o leito reservado aos fumadores. Mas tr&ecirc;s horas mais tarde, Passepartout,<br \/>\n    perseguido at&eacute; nos seus pesadelos por uma id&eacute;ia fixa, acordou<br \/>\n    e lutou contra a a&ccedil;&atilde;o estupificante do narc&oacute;tico. O pensamento<br \/>\n    do dever n&atilde;o cumprido sacudia seu torpor. Deixou o leito, e, trope&ccedil;ando,<br \/>\n    apoiando-se &agrave;s paredes, tombando e levantando, mas sempre e irresistivelmente<br \/>\n    impelido por uma esp&eacute;cie de instinto, saiu da taverna, gritando como<br \/>\n    num sonho: o Carnatic! o Carnatic! O paquete estava ali lan&ccedil;ando fuma&ccedil;a,<br \/>\n    pronto para zarpar. Passepartout s&oacute; tinha alguns passos a dar. Lan&ccedil;ou-se<br \/>\n    para o conv&eacute;s voando, atravessou a abertura da amurada, e caiu inanimado<br \/>\n    para frente, no momento em que o Carnatic largava suas amarras.<\/p>\n<p> Alguns marinheiros, gente habituada a este tipo de cena, conduziram o pobre<br \/>\n    mo&ccedil;o para um camarote de segunda, e Passepartout s&oacute; acordou<br \/>\n    no dia seguinte de manh&atilde;, a cento e cinq&uuml;enta milhas das terras<br \/>\n    da China.<\/p>\n<p> Eis por qu&ecirc; naquela manh&atilde; Passepartout se achava sobre o conv&eacute;s<br \/>\n    do Carnatic e vinha aspirar a plenos pulm&otilde;es as frescas brisas marinhas.<br \/>\n    O ar puro o despertou. Come&ccedil;ou a juntar as id&eacute;ias e n&atilde;o<br \/>\n    conseguiu sen&atilde;o a duras penas. Mas, afinal, lembrou-se das cenas da<br \/>\n    v&eacute;spera, das confid&ecirc;ncias de Fix, da taverna, etc.<\/p>\n<p> &Eacute; evidente, disse, que fui abominavelmente embriagado. O que dir&aacute;<br \/>\n    Mr. Fogg? Em todo o caso, n&atilde;o perdi o barco, e &eacute; o principal!<br \/>\n    Depois, pensando em Fix: Daquele, espero que tenhamos ficado livres, e que<br \/>\n    n&atilde;o ter&aacute; ousado, depois do que me prop&ocirc;s, a nos seguir<br \/>\n    a bordo do Carnatic. Um inspetor de pol&iacute;cia, um detetive na pista de<br \/>\n    meu patr&atilde;o, acusado do roubo feito no Banco da Inglaterra! Ora vamos!<br \/>\n    Mr. Fogg &eacute; um ladr&atilde;o como eu sou um assassino! Deveria Passepartout<br \/>\n    contar estas coisas a seu patr&atilde;o? Conviria dizer-lhe o papel representado<br \/>\n    por Fix em todo esse neg&oacute;cio? N&atilde;o seria melhor esperar a sua<br \/>\n    chegada a Londres, para lhe dizer que um agente da pol&iacute;cia metropolitana<br \/>\n    o seguira &agrave; volta ao mundo, e rir com ele? Sim, sem d&uacute;vida.<br \/>\n    Em todo caso, quest&atilde;o a examinar. O mais urgente era reunir-se a Mr.<br \/>\n    Fogg e apresentar-lhe suas desculpas por esta inqualific&aacute;vel conduta.<\/p>\n<p> Passepartout levantou-se. O mar estava picado, e o barco balan&ccedil;ava<br \/>\n    forte. O digno rapaz, com as pernas ainda pouco s&oacute;lidas, ganhou mal<br \/>\n    e mal a popa do navio.<\/p>\n<p> Sobre o conv&eacute;s, n&atilde;o viu ningu&eacute;m que se parecesse com<br \/>\n    seu patr&atilde;o, nem com Mrs. Aouda.<\/p>\n<p> Bem, disse, Mrs. Aouda est&aacute; ainda deitada a esta hora. Quanto a Mr.<br \/>\n    Fogg, ter&aacute; encontrado algum jogador de whist, e, segundo o seu costume&#8230;<\/p>\n<p> Dizendo isto, Passepartout desceu ao sal&atilde;o. Mr. Fogg n&atilde;o estava<br \/>\n    ali. Passepartout s&oacute; tinha uma coisa a fazer: perguntar ao purser que<br \/>\n    cabina ocupava Mr. Fogg. O purser respondeu que n&atilde;o conhecia nenhum<br \/>\n    passageiro com este nome.<\/p>\n<p> Desculpa, disse Passepartout insistindo. &Eacute; um gentleman alto, frio,<br \/>\n    pouco comunicativo, acompanhado de uma jovem dama&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o temos nenhuma jovem dama a bordo, respondeu o purser. Demais,<br \/>\n    eis a lista dos passageiros. Pode consult&aacute;-la.<\/p>\n<p> Passepartout consultou a lista&#8230; O nome de seu patr&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    figurava nela.<\/p>\n<p> Teve uma esp&eacute;cie de vertigem. Depois uma id&eacute;ia atravessou-lhe<br \/>\n    o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Mas espere! Estou mesmo no Carnatic? perguntou.<\/p>\n<p> Sim, respondeu o purser.<\/p>\n<p> Em viagem para Yokohama? Perfeitamente.<\/p>\n<p> Passepartout receara por um instante ter-se enganado de navio! Mas, se estava<br \/>\n    no Carnatic, era certo que seu patr&atilde;o ali n&atilde;o estava.<\/p>\n<p> Passepartout deixou-se tombar numa poltrona. Era um golpe mortal. E, s&uacute;bito,<br \/>\n    a luz se fez. Lembrou-se que a hora de partida do Carnatic tinha sido antecipada,<br \/>\n    que deveria ter avisado seu patr&atilde;o, que n&atilde;o o fizera. Era pois<br \/>\n    sua falta se Mr. Fogg e Mrs. Aouda tivessem faltado &agrave; partida! Sua<br \/>\n    falta, sim, mas ainda mais daquele tratante que, para separ&aacute;-lo do<br \/>\n    patr&atilde;o, para reter este em Hong Kong, o embriagara! Porque compreendia<br \/>\n    afinal a manobra do inspetor de pol&iacute;cia. E agora, Mr. Fogg estava com<br \/>\n    certeza arruinado, sua aposta perdida, detido, encarcerado talvez!&#8230; Passepartout,<br \/>\n    a este pensamento, arrancou os cabelos. Ah! Se algum dia Fix ca&iacute;sse<br \/>\n    em suas m&atilde;os, que ajuste de contas! Por fim, ap&oacute;s o primeiro<br \/>\n    momento de depress&atilde;o, Passepartout recuperou o seu sangue frio e estudou<br \/>\n    a situa&ccedil;&atilde;o. Era pouco invej&aacute;vel. O franc&ecirc;s achava-se<br \/>\n    a caminho do Jap&atilde;o. Tinha a certeza de chegar l&aacute;, como, por&eacute;m,<br \/>\n    voltaria? Tinha os bolsos vazios. Nem um schilling, nem um penny! Entretanto,<br \/>\n    a sua passagem e o seu sustento a bordo estavam pagos adiantados. Tinha, pois,<br \/>\n    cinco ou seis dias ao seu dispor para tomar uma decis&atilde;o. Se comeu e<br \/>\n    bebeu durante esta travessia, nem &eacute; preciso dizer. Comeu por seu patr&atilde;o,<br \/>\n    por Mrs. Aouda e comeu por si mesmo. Comeu como se o Jap&atilde;o, onde iria<br \/>\n    aportar, fosse pa&iacute;s deserto, desprovido de qualquer subst&acirc;ncia<br \/>\n    comest&iacute;vel.<\/p>\n<p> Dia 13, na mar&eacute; da manh&atilde;, o Carnatic entrou no porto de Yokohama.<\/p>\n<p> Este porto &eacute; uma parada importante do Pac&iacute;fico, onde fazem<br \/>\n    escala todos os vapores empregados no servi&ccedil;o de correio e de viajantes<br \/>\n    entre a Am&eacute;rica do Norte, a China, o Jap&atilde;o e as ilhas da Mal&aacute;sia.<br \/>\n    Yokohama est&aacute; situada na ba&iacute;a de Yedo, a pouca dist&acirc;ncia<br \/>\n    desta imensa cidade, segunda capital do imp&eacute;rio japon&ecirc;s, outrora<br \/>\n    resid&ecirc;ncia do Tycoon, do tempo em que este imperador civil existia,<br \/>\n    e rival de Meako, a grande cidade em que habita o mikado, imperador eclesi&aacute;stico,<br \/>\n    descendente dos deuses.<\/p>\n<p> O Carnatic veio se alinhar no cais de Yokohama, perto dos molhes do porto<br \/>\n    e dos armaz&eacute;ns da alf&acirc;ndega, no meio de numerosos navios pertencentes<br \/>\n    a todas as na&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Passepartout desembarcou, sem nenhum entusiasmo, naquela terra t&atilde;o<br \/>\n    curiosa dos Filhos do Sol. N&atilde;o tinha nada melhor para fazer do que<br \/>\n    tomar o acaso por guia, e aventurar-se pelas ruas da cidade.<\/p>\n<p> Passepartout achou-se logo numa cidade absolutamente europ&eacute;ia, com<br \/>\n    casas de fachadas baixas, ornadas de varandas sob as quais se viam elegantes<br \/>\n    peristilos, e que cobria com suas ruas, suas pra&ccedil;as, suas docas, seus<br \/>\n    entrepostos, todo o espa&ccedil;o compreendido entre o promont&oacute;rio<br \/>\n    do Tratado e o rio. Ali, como em Hong Kong, como em Calcut&aacute;, formigava<br \/>\n    uma mistura de gente de todas as ra&ccedil;as, Americanos, Ingleses, Chineses,<br \/>\n    Holandeses, mercadores prontos a tudo vender e a tudo comprar, no meio dos<br \/>\n    quais o franc&ecirc;s se achava t&atilde;o estrangeiro como se tivesse sido<br \/>\n    lan&ccedil;ado na terra dos Hotentotes.<\/p>\n<p> Passepartout tinha, na verdade, um recurso: era recomendar-se junto aos<br \/>\n    agentes consulares franc&ecirc;s ou ingl&ecirc;s estabelecidos em Yokohama;<br \/>\n    mas lhe repugnava contar sua hist&oacute;ria, t&atilde;o intimamente ligada<br \/>\n    com a de seu patr&atilde;o, e antes de chegar a isso, queria primeiro esgotar<br \/>\n    todos os outros recursos.<\/p>\n<p> Por isso, depois de ter percorrido a parte europ&eacute;ia da cidade, sem<br \/>\n    que o acaso de nada lhe servisse, entrou na parte japonesa, decidido, se preciso,<br \/>\n    a avan&ccedil;ar at&eacute; Yedo.<\/p>\n<p> Esta por&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena de Yokohama &eacute; chamada Benten,<br \/>\n    do nome de uma deusa do mar, adorada nas ilhas vizinhas. L&aacute; se viam<br \/>\n    admir&aacute;veis alamedas de pinheiros e de cedros, portas sagradas de uma<br \/>\n    arquitetura estranha, pontes enfurnadas no meio de bambus e de cani&ccedil;os,<br \/>\n    templos abrigados sob a ramagem imensa e melanc&oacute;lica de cedros seculares,<br \/>\n    mosteiros de bonzos no fundo dos quais vegetavam os sacerdotes do budismo<br \/>\n    e os seguidores da religl&atilde;o de Confucio, ruas intermin&aacute;veis<br \/>\n    de onde se poderia colher uma safra de crian&ccedil;as de c&uacute;tis rosadas<br \/>\n    e faces vermelhas, pequenas criaturas que dir&iacute;amos recortadas de algum<br \/>\n    biombo nativo, e que brincavam no meio de cadelas de pernas curtas e gatos<br \/>\n    amarelados, sem cauda, muito indolentes e muito meigos.<\/p>\n<p> Nas ruas, um formigueiro, vais-e-vens incessantes: bonzos passando em prociss&atilde;o<br \/>\n    batendo em tamborins mon&oacute;tonos; yakouninos, oficiais da alf&acirc;ndega<br \/>\n    ou da pol&iacute;cia, com chap&eacute;us ponteagudos encrustados de laca e<br \/>\n    trazendo dois sabres &agrave; cinta; soldados vestidos com trajes de algod&atilde;o<br \/>\n    azul listrados de branco e armados com fuzis de percuss&atilde;o; homens de<br \/>\n    armas do mikado, ensacados nos seus gib&otilde;es de seda, com loriga e cota<br \/>\n    de malha, e muitos outros militares de todas as condi&ccedil;&otilde;es porque,<br \/>\n    no Jap&atilde;o, a profiss&atilde;o de soldado &eacute; t&atilde;o estimada<br \/>\n    como desprezada na China. Depois, frades mendicantes, peregrinos em longas<br \/>\n    t&uacute;nicas, simples civis, cabeleira lisa e de um negro de &eacute;bano,<br \/>\n    muito comprida, cabe&ccedil;a grande, tronco comprido, pernas delgadas, estatura<br \/>\n    pouco elevada, tez colorida desde as sombrias tonalidades do cobre at&eacute;<br \/>\n    o branco p&aacute;lido, mas nunca amarela como a dos Chineses, de que os japoneses<br \/>\n    diferem essencialmente. Finalmente, entre as viaturas, os palaquins, os cavalos,<br \/>\n    os carregadores, os carrinhos de vela, os &ldquo;norimons com paredes de laca,<br \/>\n    os fofos &ldquo;cangos, verdadeiras liteiras de bambu, via-se circular com<br \/>\n    pequenos passos de seus pequenos p&eacute;s, cal&ccedil;ados com sapatos de<br \/>\n    seda, sand&aacute;lias de palha ou de soc&oacute;s de madeira trabalhada,<br \/>\n    algumas mulheres pouco bonitas, os olhos contra&iacute;dos, o peito deprimido,<br \/>\n    os dentes enegrecidos ao gosto local, mas levando com eleg&acirc;ncia o traje<br \/>\n    nacional, o &ldquo;kirimon, esp&eacute;cie de roup&atilde;o cingido por uma<br \/>\n    faixa de seda formando na cintura, pelo lado de tr&aacute;s, um la&ccedil;o<br \/>\n    extravagante que as senhoras de hoje parecem ter emprestado das japonesas.<\/p>\n<p> Passepartout passeou durante algumas horas entre esta multid&atilde;o bizarra,<br \/>\n    contemplando tamb&eacute;m as curiosas e opulentas lojas, os bazares onde<br \/>\n    se acumula toda a produ&ccedil;&atilde;o da ourivesaria japonesa, os restaurantes<br \/>\n    ornados com bandeirolas e fl&acirc;mulas, nas quais lhe era proibido entrar,<br \/>\n    e as lojas de ch&aacute; onde se bebem chavenas cheias de &aacute;gua quente<br \/>\n    odor&iacute;fera, com o &ldquo;saki, licor tirado do arroz em fermenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e confort&aacute;veis casas de fumo onde se saboreia um tabaco muito fino,<br \/>\n    e n&atilde;o o &oacute;pio, cujo uso &eacute; quase desconhecido no Jap&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois, Passepartout achou-se nos campos, no meio de imensos arrozais. Ali,<br \/>\n    se espalhavam, com as flores que lan&ccedil;avam suas derradeiras cores e<br \/>\n    seus derradeiros perfumes, cam&eacute;lias deslumbrantes, n&atilde;o em arbustos,<br \/>\n    mas em &aacute;rvores, e, nos cercados de bambu, cerejeiras, pereiras, macieiras,<br \/>\n    que os ind&iacute;genas cultivam mais por suas flores que por seus frutos,<br \/>\n    e que espantalhos e ruidosos molinetes defendem do bico dos pardais, dos pombos,<br \/>\n    dos corvos e de outras aves vorazes. N&atilde;o havia cedro magestoso que<br \/>\n    n&atilde;o abrigasse alguma grande &aacute;guia, nem salgueiro sob cuja folhagem<br \/>\n    n&atilde;o se ocultasse alguma gar&ccedil;a real, melancolicamente empoleirada<br \/>\n    num p&eacute;; finalmente, por toda parte abundavam as gralhas, os patos mansos<br \/>\n    e selvagens, os gavi&otilde;es, e grande n&uacute;mero dessas cegonhas a que<br \/>\n    os japoneses chamam &ldquo;senhoritas e que para eles simbolizam a longevidade<br \/>\n    e a felicidade.<\/p>\n<p> Vagueando assim, Passapartout descobriu algumas violetas entre a relva.<\/p>\n<p> Bom! disse ele, eis minha ceia! Mas quando as cheirou n&atilde;o encontrou<br \/>\n    nenhum perfume.<\/p>\n<p> De modo algum! pensou ele.<\/p>\n<p> Claro, o rapaz tinha, por previs&atilde;o, almo&ccedil;ado t&atilde;o copiosamente<br \/>\n    quanto pudera antes de desembarcar; mas, depois de um dia de passeio, sentia<br \/>\n    o est&ocirc;mago muito vazio. Tinha notado que nos estoques dos a&ccedil;ougues<br \/>\n    ind&iacute;genas faltava carne de porco, de carneiro ou de cabra, e, como<br \/>\n    sabia que &eacute; um sacril&eacute;gio matar os bois, unicamente destinados<br \/>\n    &agrave;s utilidades agr&iacute;colas, conclu&iacute;ra que no Jap&atilde;o<br \/>\n    a carne &eacute; muito rara. N&atilde;o se enganara; mas &agrave; falta de<br \/>\n    carne no a&ccedil;ougue, o seu est&ocirc;mago dar-se-ia perfeitamente bem<br \/>\n    com algum peda&ccedil;o de javali ou de gamo, com alguma perdiz ou codorniz,<br \/>\n    com algum peda&ccedil;o de ave ou de peixe, com que os japoneses se sustentam<br \/>\n    quase que exclusivamente com o produto dos arrozais. Mas teve de se resignar<br \/>\n    &agrave; sorte, e guardar para o dia seguinte o cuidado de prover ao seu sustento.<\/p>\n<p> A noite chegou. Passepartout regressou &agrave; cidade ind&iacute;gena,<br \/>\n    e errou pelas ruas em meio a lanternas multicores, contemplando os grupos<br \/>\n    de acrobatas que executavam os seus prodigiosos exerc&iacute;cios, e v&aacute;rios<br \/>\n    astr&oacute;logos que, ao ar livre, reuniam a multid&atilde;o em volta de<br \/>\n    suas lunetas. Em seguida voltou para o ancoradouro, iluminado pelos fogos<br \/>\n    dos pescadores, que atra&iacute;am peixe &agrave; luz de resinas inflamadas.<\/p>\n<p> Afinal as ruas despovoaram-se. &Agrave; multid&atilde;o sucederam as rondas<br \/>\n    dos yakounines. Estes oficiais, com os seus trajes magn&iacute;ficos e com<br \/>\n    seu cortejo, pareciam embaixadores, e Passepartout repetia gracejando, cada<br \/>\n    vez que encontrava qualquer patrulha deslumbrante: Ah, sim! mais uma embaixada<br \/>\n    japonesa que parte para a Europa.<\/p>\n<h4><a name=\"23\" id=\"23\">CAP&Iacute;TULO XXIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE O NARIZ DE PASSEPARTOUT FICA MUITO MUITO LONGO<\/b><\/p>\n<p>No dia seguinte, Passepartout, estafado, esfomeado, resolveu que era preciso<br \/>\n    comer a todo custo, e quanto mais cedo melhor. Tinha, &eacute; verdade, o<br \/>\n    recurso de vender seu rel&oacute;gio, mas preferiria morrer de fome. Era uma<br \/>\n    oportunidade para este bravo rapaz usar a voz forte, melodiosa, com que a<br \/>\n    natureza o dotara.<\/p>\n<p> Sabia alguns refr&otilde;es da Fran&ccedil;a e da Inglaterra, e resolveu<br \/>\n    experiment&aacute;-los. Os japoneses deveriam certamente gostar de m&uacute;sica,<br \/>\n    pois que tudo se faz entre ao som dos c&iacute;mbalos, do tant&atilde; e dos<br \/>\n    tambores, e n&atilde;o deveriam por certo apreciar os talentos de um virtuose<br \/>\n    europeu.<\/p>\n<p> Mas talvez fosse um pouco cedo demais para organizar um concerto, e os dilettanti,<br \/>\n    inopinadamente despertos, n&atilde;o iriam talvez pagar o cantor em moeda<br \/>\n    com a ef&iacute;gie do mikado.<\/p>\n<p> Passepartout decidiu-se, pois, esperar algumas horas; mas, caminhando, pensou<br \/>\n    que parecia bem vestido demais para um artista ambulante, e veio-lhe a id&eacute;ia<br \/>\n    de trocar suas roupas por trajes usados, mais em harmonia com sua posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Esta troca, ainda, deveria deixar um saldo, que poderia imediatamente aplicar<br \/>\n    para saciar seu apetite.<\/p>\n<p> Tomada esta resolu&ccedil;&atilde;o, faltava execut&aacute;-la. Foi s&oacute;<br \/>\n    depois de longas buscas que Passepartout descobriu um brech&oacute; ind&iacute;gena,<br \/>\n    no qual exp&ocirc;s seu pedido. O traje europeu agradou ao comerciante e logo<br \/>\n    depois Passepartout sa&iacute;a envolto em uma velha roupa japonesa e com<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de turbante na cabe&ccedil;a, desbotado pela a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do tempo. Mas, em compensa&ccedil;&atilde;o, algumas moedas de prata tilintavam<br \/>\n    em seu bolso.<\/p>\n<p> Bem, pensou, vou imaginar que estamos no carnaval!<\/p>\n<p>O primeiro cuidado de Passepartout, assim japonificado, foi entrar numa &ldquo;tea-house,<br \/>\n    de apar&ecirc;ncia modesta, e a&iacute;, com uns restos de ave e um punhado<br \/>\n    de arroz, almo&ccedil;ou como um homem para quem o jantar seria ainda um problema<br \/>\n    a ser resolvido.<\/p>\n<p> Agora, disse para si, depois de comer copiosamente, &eacute; bom n&atilde;o<br \/>\n    perder a cabe&ccedil;a. N&atilde;o tenho mais o recurso de trocar estes andrajos<br \/>\n    por outro ainda mais japon&ecirc;s. &Eacute; preciso, portanto, encontrar<br \/>\n    um meio de deixar o mais r&aacute;pido poss&iacute;vel este pa&iacute;s do<br \/>\n    Sol, do qual s&oacute; guardarei uma lament&aacute;vel lembran&ccedil;a! Passepartout<br \/>\n    cogitou ent&atilde;o em visitar os paquetes de partida para a Am&eacute;rica.<br \/>\n    Contava oferecer-se como cozinheiro ou criado, n&atilde;o pedindo outra retribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    al&eacute;m da passagem e comida. Uma vez em S&atilde;o Francisco, veria o<br \/>\n    que fazer. O importante era atravessar estas quatro mil e setecentas milhas<br \/>\n    do Pac&iacute;fico que se estendem entre o Jap&atilde;o e o Novo Mundo.<\/p>\n<p> Passepartout, n&atilde;o sendo homem de deixar fenecer uma id&eacute;ia,<br \/>\n    dirigiu-se para o porto de Yokohama. Mas, &agrave; medida que se aproximava<br \/>\n    das docas, o projeto, que lhe havia parecido t&atilde;o simples no momento<br \/>\n    em que o concebera, parecia cada vez mais inexequ&iacute;vel. Porque &eacute;<br \/>\n    que teriam necessidade de um cozinheiro ou de um criado a bordo de um paquete<br \/>\n    americano, e que confian&ccedil;a inspiraria, vestido assim? Que recomenda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    poderia dar? Que refer&ecirc;ncias indicar? Enquanto assim pensava, seus olhos<br \/>\n    ca&iacute;ram sobre um imenso cartaz que uma esp&eacute;cie de clown desfilava<br \/>\n    pelas ruas de Yokohama. Este cartaz estava tamb&eacute;m escrito em ingl&ecirc;s:<\/p>\n<p>O cartaz dizia o seguinte, em ingl&ecirc;s:<\/p>\n<p><b>TRUPE JAPONESA ACROB&Aacute;TICA DO RESPEIT&Aacute;VEL WILLIAM BATULCAR<br \/>\n    _______<\/b><\/p>\n<p><b>&Uacute;LTIMAS REPRESENTA&Ccedil;&Otilde;ES Antes de partir para os Estados<br \/>\n    Unidos da Am&eacute;rica DOS NARI-LONGOS-NARI-LONGOS SOB A INVOCA&Ccedil;&Atilde;O<br \/>\n    DIRETA DO DEUS TINGOU<\/b><\/p>\n<p>Grande Atra&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>Os Estados Unidos da Am&eacute;rica! exclamou Passepartout, &eacute; justamente<br \/>\n    o que procuro!&#8230;<\/p>\n<p> Seguiu o homem-sandu&iacute;che, e voltou &agrave; cidade japonesa. Um quarto<br \/>\n    de hora mais tarde, parava diante de uma vasta barraca, coroada por fileiras<br \/>\n    de bandeirinhas, e cujas paredes externas representavam, sem perspectiva,<br \/>\n    mas em cores fortes, todo um grupo de malabaristas.<\/p>\n<p> Era o estabelecimento do respeit&aacute;vel Batulcar, esp&eacute;cie de<br \/>\n    Barnum americano, diretor de uma companhia de saltimbancos, malabaristas,<br \/>\n    clowns, acrobatas, equilibristas, ginastas, que, segundo o cartaz, fazia suas<br \/>\n    &uacute;ltimas apresenta&ccedil;&otilde;es antes de deixar o imp&eacute;rio<br \/>\n    do Sol para os Estados da Uni&atilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout entrou num peristilo que precedia a barraca, e chamou Mr. Batulcar.<br \/>\n    Apareceu Batulcar em pessoa.<\/p>\n<p> O que quer? disse a Passepartout, a quem tomou &agrave; princ&iacute;pio<br \/>\n    por um nativo.<\/p>\n<p> Precisa de um criado? perguntou Passepartout.<\/p>\n<p> Um criado, exclamou Batulcar cofiando a espessa barbicha grisalha sob o<br \/>\n    queixo, tenho dois, obedientes, fi&eacute;is, que nunca me deixaram, que me<br \/>\n    servem por nada, com a condi&ccedil;&atilde;o que os alimente&#8230; E eles aqui<br \/>\n    est&atilde;o, acrescentou mostrando seus dois bra&ccedil;os robustos, sulcados<br \/>\n    por veias grossas como cordas de contrabaixo.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o n&atilde;o posso ser-lhe &uacute;til em nada? Em nada.<\/p>\n<p> Diacho! teria sido muito conveniente para mim partir consigo.<\/p>\n<p> Ah, ent&atilde;o &eacute; isso! disse o respeit&aacute;vel Batulcar, voc&ecirc;<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o japon&ecirc;s quanto eu sou um macaco! Porque est&aacute;<br \/>\n    vestido assim? A gente se veste como pode! &Eacute; verdade. &Eacute; franc&ecirc;s?<br \/>\n    Sim, um parisiense de Paris.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o deve saber fazer caretas? Claro, respondeu Passepartout, vexado<br \/>\n    por ver sua nacionalidade provocar esta pergunta, n&oacute;s os franceses,<br \/>\n    sabemos fazer caretas, &eacute; verdade, mas n&atilde;o melhor do que os americanos!<br \/>\n    Exato. Pois bem, se n&atilde;o o contrato como criado, posso contrat&aacute;-lo<br \/>\n    como clown. Compreenda, meu bravo. Na Fran&ccedil;a exibem-se comediantes<br \/>\n    estrangeiros e no estrangeiro comediantes franceses! Ah! &Eacute; vigoroso,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute;? Principalmente quando saio da mesa.<\/p>\n<p> E sabe cantar? Sim, respondeu Passepartout, que em outros tempos participara<br \/>\n    de alguns concertos de rua.<\/p>\n<p> Mas sabe cantar de cabe&ccedil;a para baixo, com um pi&atilde;o girando<br \/>\n    na planta do p&eacute; esquerdo, e um sabre em equil&iacute;brio na planta<br \/>\n    do p&eacute; direito? Se sei! respondeu Passepartout, que se lembrava dos<br \/>\n    primeiros exerc&iacute;cios da sua tenra idade.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o est&aacute; bem! respondeu o respeit&aacute;vel Batulcar.<\/p>\n<p> A contrata&ccedil;&atilde;o foi conclu&iacute;da hic et nunc.<\/p>\n<p> Afinal, Passepartout achara uma posi&ccedil;&atilde;o. Estava contratado<br \/>\n    para fazer de tudo na c&eacute;lebre companhia japonesa. Era pouco lisongeiro,<br \/>\n    mas em menos de oito dias estaria a caminho de S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> A representa&ccedil;&atilde;o, anunciada em altos brados pelo ilustre Batulcar,<br \/>\n    deveria come&ccedil;ar &agrave;s tr&ecirc;s horas, e logo os ensurdecedores<br \/>\n    instrumentos de uma orquestra japonesa, tambores e tant&atilde;s, tocavam<br \/>\n    &agrave; porta. Comprendam que Passepartout n&atilde;o tinha podido estudar<br \/>\n    um papel, mas deveria emprestar o apoio de seus s&oacute;lidos ombros no grande<br \/>\n    exerc&iacute;cio da pir&acirc;mide humana executado pelos Nari-Longos do deus<br \/>\n    Tingou. Esta great-attraction do espet&aacute;culo deveria encerrar a s&eacute;rie<br \/>\n    dos exerc&iacute;cios.<\/p>\n<p> Antes das tr&ecirc;s horas, os espectadores tinham invadido a grande tenda.<br \/>\n    Europeus e ind&iacute;genas, Chineses e Japoneses, homens, mulheres e crian&ccedil;as,<br \/>\n    precipitavam-se sobre as estreitas bancadas nos camarotes que ficavam de frente<br \/>\n    para a cena. Os m&uacute;sicos tinham voltado para dentro, e a orquestra completa,<br \/>\n    gongos, tant&atilde;s, castanholas, flautas, tamborins e grandes bumbos, tocava<br \/>\n    com furor.<\/p>\n<p> Esta representa&ccedil;&atilde;o foi como s&atilde;o todas as exibi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de acrobatas. Mas &eacute; preciso confessar que os japoneses s&atilde;o os<br \/>\n    melhores equilibristas do mundo. Um, armado com sua ventarola e pequenos peda&ccedil;os<br \/>\n    de papel, executava o exerc&iacute;cio t&atilde;o gracioso das borboletas<br \/>\n    e das flores. Outro, com a fuma&ccedil;a odor&iacute;fera de seu cachimbo,<br \/>\n    tra&ccedil;ava rapidamente no ar uma s&eacute;rie de palavras azuladas, que<br \/>\n    formavam um comprimento dirigido &agrave; plat&eacute;ia. Este brincava com<br \/>\n    velas acesas, que sucessivamente apagava quando passavam na frente dos seus<br \/>\n    l&aacute;bios, e que tornava a acender uma na outra sem por um instante interromper<br \/>\n    o seu jogo de prestidigita&ccedil;&atilde;o. Aquele, produzia, com pi&otilde;es<br \/>\n    girat&oacute;rios, as mais inveross&iacute;meis combina&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    em suas m&atilde;os, estas m&aacute;quinas roncadoras pareciam adquirir vida<br \/>\n    pr&oacute;pria em seu giro intermin&aacute;vel; corriam sobre cabos de cachimbo,<br \/>\n    sobre fios de sabres, sobre arames, cabelos de verdade estendidos de um a<br \/>\n    outro lado do palco; giravam nas bordas de grandes copos de cristal, subiam<br \/>\n    degraus de bambu, dispersavam-se para todos os lados, produzindo efeitos harm&ocirc;nicos<br \/>\n    ex&oacute;ticos ao combinarem seus diversos tons. Os malabaristas as lan&ccedil;avam<br \/>\n    e elas giravam no ar; eles as lan&ccedil;avam como petecas, com raquetes de<br \/>\n    madeira, giravam sempre; eles as enfurnavam no bolso, e quando as retiravam,<br \/>\n    giravam ainda at&eacute; o momento em que uma mola distendida as fazia desabrochar<br \/>\n    em ramalhetes artificiais! In&uacute;til descrever aqui os prodigiosos exerc&iacute;cios<br \/>\n    dos acrobatas e dos ginastas da companhia. As piruetas na escada, na vara,<br \/>\n    na bola, nos barris, etc., foram executados com incr&iacute;vel precis&atilde;o.<br \/>\n    Mas a principal atra&ccedil;&atilde;o do espet&aacute;culo era a exibi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos Nari-Longos, assombrosos equilibristas que a Europa ainda n&atilde;o conhece.<\/p>\n<p> Os Nari-Longos formam uma corpora&ccedil;&atilde;o particular colocada sob<br \/>\n    a prote&ccedil;&atilde;o direta do deus Tingou. Vestidos como os arautos da<br \/>\n    Idade M&eacute;dia, traziam um espl&ecirc;ndido par de asas nas costas. Mas<br \/>\n    o que mais os distinguia, era o longo nariz com que suas faces estavam ornamentadas,<br \/>\n    e principalmente o uso que faziam deles. Estes narizes nada mais eram que<br \/>\n    bambus, com o comprimento de cinco, seis e dez p&eacute;s, uns direitos, outros<br \/>\n    recurvos, estes lisos, aqueles verruguentos. Ora, sobre estes ap&ecirc;ndices,<br \/>\n    fixados de modo s&oacute;lido, &eacute; que faziam todos os exerc&iacute;cios<br \/>\n    de equil&iacute;brio. Uma d&uacute;zia dos seguidores do deus Tingou deitaram-se<br \/>\n    de costas, e seus camaradas vieram cair sobre seus narizes, eretos como p&aacute;ra-raios,<br \/>\n    saltando, volteando deste para aquele, executando as voltas mais inacredit&aacute;veis.<\/p>\n<p> Para terminar, anunciara-se especialmente ao p&uacute;blico a pir&acirc;mide<br \/>\n    humana, em que uns cinq&uuml;enta Nari-Longos deveriam representar o Carro<br \/>\n    de Jaggernaut. Mas, em vez de formarem a pir&acirc;mide tomando os ombros<br \/>\n    como ponto de apoio, os artistas do respeit&aacute;vel Batulcar deveriam sobrepor-se<br \/>\n    uns aos outros pelo nariz. Ora, um dos que formavam a base do carro havia<br \/>\n    deixado a companhia, e como bastava ser vigoroso e reto, Passepartout havia<br \/>\n    sido escolhido para o substituir.<\/p>\n<p> Claro, o digno mo&ccedil;o se sentira todo pesaroso, quando triste recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sua mocidade tinha envergado seu traje da Idade M&eacute;dia, ornado com<br \/>\n    asas multicoloridas, e quando um nariz de seis p&eacute;s lhe tinha sido aplicado<br \/>\n    ao rosto! Mas, enfim, este nariz era o seu ganha-p&atilde;o, e resignou-se.<\/p>\n<p> Passepartout entrou em cena, e veio alinhar-se com seus colegas que deveriam<br \/>\n    figurar na base do Carro de Jaggernaut. Todos estenderam-se no ch&atilde;o<br \/>\n    com o nariz para o c&eacute;u. Uma segunda se&ccedil;&atilde;o de equilibristas<br \/>\n    veio pousar sobre estes longos ap&ecirc;ndices, uma terceira colocou-se por<br \/>\n    cima, depois uma quarta, e sobre estes narizes que s&oacute; se tocavam pelas<br \/>\n    pontas, um monumento humano se elevou bem depressa at&eacute; as frisas do<br \/>\n    teatro.<\/p>\n<p> Ora, os aplausos redrobravam, e os instrumentos da orquestr&aacute; explodiam<br \/>\n    como trovoadas, quando a pir&acirc;mide oscilou, o equil&iacute;brio se rompeu,<br \/>\n    faltou um dos narizes da base, e o monumento desmoronou como um castelo de<br \/>\n    cartas&#8230;<\/p>\n<p> A culpa foi de Passepartout, que, abandonando seu posto, saltando a rampa<br \/>\n    sem o aux&iacute;lio das asas, e trepando &agrave; galeria da direita, ca&iacute;a<br \/>\n    aos p&eacute;s de um espectador, gritando: Ah! meu patr&atilde;o! meu patr&atilde;o!<br \/>\n    Voc&ecirc;? Eu! Bem! neste caso, para o paquete, meu rapaz, para o paquete!&#8230;<\/p>\n<p> Mr. Fogg, Mrs. Aouda, que o acompanhava, Passepartout, tinham se precipitado<br \/>\n    pelos corredores para fora da tenda. Mas l&aacute; encontraram o digno Batulcar,<br \/>\n    furioso, que reclamava indeniza&ccedil;&atilde;o pelo fiasco. Phileas Fogg<br \/>\n    apagou seu furor atirando-lhe um punhado de bank-notes.<\/p>\n<p> E, &agrave;s seis horas e meia, no momento em que ele ia partir, Mr. Fogg<br \/>\n    e Mrs. Aouda puseram o p&eacute; no paquete americano, seguidos por Passepartout,<br \/>\n    as asas nas costas, e sobre a face o nariz de seis p&eacute;s que ainda n&atilde;o<br \/>\n    havia podido arrancar do rosto!<\/p>\n<h4><a name=\"24\" id=\"24\">CAP&Iacute;TULO XXIV<\/a><\/h4>\n<p> <b>DURANTE O QUAL SE REALIZOU A TRAVESSIA DO OCEANO PAC&Iacute;FICO<\/b>\n  <\/p>\n<p>O que aconteceu quando chegaram perto de Shangai, j&aacute; se sabe. Os sinais<br \/>\n    feitos pela Tankad&egrave;re tinham sido notados pelo paquete para Yokohama.<br \/>\n    O capit&atilde;o, vendo uma bandeira a meio pau, dirigira-se para a pequena<br \/>\n    goleta. Instantes depois Phileas Fogg, pagando as passagens pelo pre&ccedil;o<br \/>\n    combinado, punha no bolso do patr&atilde;o John Bunsby quinhentas e cinq&uuml;enta<br \/>\n    libras (13.750 F). Depois, o respeit&aacute;vel gentleman, Mrs. Aouda e Fix<br \/>\n    tinham subido a bordo do vapor, que logo se p&ocirc;s a caminho para Nagasaki<br \/>\n    e Yokohama.<\/p>\n<p> Tendo chegado naquela mesma manh&atilde;, 14 de novembro, Phileas Fogg,<br \/>\n    deixando Fix ir tratar de seus assuntos, tinho ido at&eacute; o Carnatic e<br \/>\n    l&aacute; soube, para grande felicidade de Mrs. Aouda e talvez a sua, mas<br \/>\n    que n&atilde;o deixou transparecer que o franc&ecirc;s Passepartout havia<br \/>\n    efetivamente chegado na v&eacute;spera em Yokohama.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, que devia partir naquela mesma noite para S&atilde;o Francisco,<br \/>\n    come&ccedil;ou imediatamente a procurar o criado. Dirigiu-se, mas em v&atilde;o,<br \/>\n    aos agentes consulares franc&ecirc;s e ingl&ecirc;s, e, depois de ter percorrido<br \/>\n    inutilmente as ruas de Yokohama, j&aacute; perdia a esperan&ccedil;a de encontrar<br \/>\n    Passepartout, quando o acaso, ou talvez uma esp&eacute;cie de premoni&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o fez entrar na tenda do respeit&aacute;vel Batulcar. N&atilde;o teria, por<br \/>\n    certo, reconhecido seu servidor sob a r&iacute;dicula roupa de arauto; mas<br \/>\n    Passepartout, em sua posi&ccedil;&atilde;o deitada, avistou o patr&atilde;o<br \/>\n    na galeria. N&atilde;o p&ocirc;de conter um movimento de seu nariz. Da&iacute;<br \/>\n    a quebra do equil&iacute;brio e tudo o que se seguiu.<\/p>\n<p> Eis o que Passepartout ouviu da pr&oacute;pria boca de Mrs. Aouda, que lhe<br \/>\n    contou ent&atilde;o como fora feita a travessia de Hong Kong para Yokohama,<br \/>\n    em companhia de um tal Mr. Fix, na goleta Tankad&egrave;re.<\/p>\n<p> Ao ouvir o nome de Fix, Passepartout nem pestanejou. Pensou que ainda n&atilde;o<br \/>\n    chegara o momento de dizer ao patr&atilde;o o que se passara entre o inspetor<br \/>\n    de pol&iacute;cia e ele. Assim, ao narrar suas aventuras, acusou-se e pediu<br \/>\n    desculpa somente por ter sido surpreendido pelo entorpecimento do &oacute;pio<br \/>\n    numa taverna de Hong Kong.<\/p>\n<p> Mr. Fogg escutou friamente este di&aacute;logo, sem responder; depois abriu<br \/>\n    ao criado um cr&eacute;dito suficiente para que este comprasse no navio trajes<br \/>\n    mais convenientes. E, com efeito, n&atilde;o passara ainda uma hora, e o honesto<br \/>\n    mo&ccedil;o, tendo tirado o nariz posti&ccedil;o e cortado as asas, n&atilde;o<br \/>\n    tinha mais nada em si que recordasse o seguidor do deus Tingou.<\/p>\n<p> O paquete que fazia a travessia de Yokohama a S&atilde;o Francisco pertencia<br \/>\n    &agrave; Companhia do Pacific Mail steam, e chamava-se General Grant. Era<br \/>\n    um grande vapor de rodas, deslocando duas mil e quinhentas toneladas, bem<br \/>\n    constru&iacute;do e dotado de grande velocidade. Um enorme balancim subia<br \/>\n    e descia sucessivamente sobre o conv&eacute;s; numa das suas extremidades<br \/>\n    articulava-se o cabo de um pist&atilde;o, e na outra o de uma biela que, transformando<br \/>\n    o movimento retil&iacute;neo em movimento circular, o aplicava diretamente<br \/>\n    no eixo das rodas do vapor. O General Grant estava dotado de tr&ecirc;s mastros<br \/>\n    de goleta, e possu&iacute;a uma grande superf&iacute;cie de pano, que ajudava<br \/>\n    poderosamente o vapor. Mantendo suas doze milhas por hora, o paquete n&atilde;o<br \/>\n    deveria levar mais de vinte e um dias para atravessar o Pac&iacute;fico. Phileas<br \/>\n    Fogg estava, pois, autorizado a crer que, chegando em 2 de dezembro a S&atilde;o<br \/>\n    Francisco, estaria dia 11 em Nova York e dia 20 em Londres antecipando assim<br \/>\n    em algumas horas a data fatal de 21 de dezembro.<\/p>\n<p> Os passageiros eram bem numerosos a bordo do vapor, ingleses, muitos americanos,<br \/>\n    uma verdadeira emigra&ccedil;&atilde;o de coolies para a Am&eacute;rica, e<br \/>\n    um certo n&uacute;mero de oficiais do ex&eacute;rcito das &Iacute;ndias, que<br \/>\n    aproveitavam sua licen&ccedil;a para fazerem a volta ao mundo.<\/p>\n<p> Durante esta travessia n&atilde;o se deu nenhum incidente n&aacute;utico.<br \/>\n    O paquete, sustentado sobre suas largas rodas, apoiado no seu forte velame,<br \/>\n    jogava pouco. O Oceano Pac&iacute;fico justificava bem seu nome. Mr. Fogg<br \/>\n    estava t&atilde;o calmo, t&atilde;o pouco comunicativo como de costume. Sua<br \/>\n    jovem companhia cada vez se sentia mais e mais ligada &agrave;quele homem<br \/>\n    por outros la&ccedil;os que n&atilde;o os do reconhecimento. Esta silenciosa<br \/>\n    natureza, t&atilde;o generosa em suma, a impressionava mais do que suspeitara,<br \/>\n    e, fora quase sem dar por isso que ela se deixou levar por sentimentos dos<br \/>\n    quais o enigm&aacute;tico Fogg n&atilde;o parecia sentir nenhuma influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, Mrs. Aouda interessava-se extraordinariamente pelos projetos<br \/>\n    do gentleman. Inquietava-se com os contratempos que poderiam comprometer o<br \/>\n    &ecirc;xito da viagem. Freq&uuml;entemente conversava com Passepartout, que<br \/>\n    n&atilde;o deixava de perceber o que se passava no cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Mrs. Aouda. O bravo mo&ccedil;o tinha, agora, a respeito de seu patr&atilde;o,<br \/>\n    uma f&eacute; cega; n&atilde;o se fartava de elogiar a honestidade, a generosidade,<br \/>\n    a dedica&ccedil;&atilde;o de Phileas Fogg; depois tranq&uuml;ilizava Mrs.<br \/>\n    Aouda sobre o sucesso da viagem, repetindo que o mais dif&iacute;cil j&aacute;<br \/>\n    passara, que haviam sa&iacute;do dos pa&iacute;ses fant&aacute;sticos da China<br \/>\n    e do Jap&atilde;o, que retornavam &agrave;s regi&otilde;es civilizadas, e<br \/>\n    que afinal um trem de S&atilde;o Francisco a Nova York e um transatl&acirc;ntico<br \/>\n    de Nova York a Londres bastariam, sem d&uacute;vida, para concluir esta imposs&iacute;vel<br \/>\n    volta ao mundo no prazo combinado.<\/p>\n<p> Nove dias depois de ter deixado Yokohama, Phileas Fogg tinha percorrido<br \/>\n    exatamente a metade do globo terrestre.<\/p>\n<p> Com efeito, o General Grant, em 23 de novembro passou para o octog&eacute;simo<br \/>\n    meridiano, aquele no qual se acham, no hemisf&eacute;rio austral, os ant&iacute;podas<br \/>\n    de Londres. Dos oitenta dias postos &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Mr. Fogg, &eacute; verdade, gastara cinq&uuml;enta e dois, e s&oacute; lhe<br \/>\n    restavam vinte e oito. Mas &eacute; preciso notar que se o gentleman se achava<br \/>\n    somente no meio da viagem pela diferen&ccedil;a dos meridianos, tinha na realidade<br \/>\n    conclu&iacute;do mais de dois ter&ccedil;os do percurso total. Que desvios<br \/>\n    for&ccedil;ados, com efeito, de Londres a Aden, de Aden a Bombaim, de Calcut&aacute;<br \/>\n    a Cingapura, de Cingapura a Yokohama! Seguindo circularmente o quinq&uuml;ag&eacute;simo<br \/>\n    paralelo, que &eacute; o de Londres, a dist&acirc;ncia teria sido s&oacute;<br \/>\n    de doze mil milhas aproximadamente, ao passo que Phileas Fogg se vira for&ccedil;ado,<br \/>\n    pelos caprichos dos meios de locomo&ccedil;&atilde;o, a percorrer vinte e<br \/>\n    seis mil milhas das quais fizera cerca de dezessete mil, at&eacute; esta data<br \/>\n    de dia 23 de novembro. Mas agora a rota seria reta, e Fix n&atilde;o estava<br \/>\n    mais por ali para aumentar os obst&aacute;culos! Aconteceu tamb&eacute;m que,<br \/>\n    em 23 de novembro, Passepartout experimentou uma grande alegria. Lembremos<br \/>\n    que o cabe&ccedil;a dura tinha se obstinado a manter a hora de Londres em<br \/>\n    seu famoso rel&oacute;gio de familia, considerando falsas todas as horas dos<br \/>\n    pa&iacute;ses que atravessara. Ora, naquele dia, apesar de n&atilde;o o ter<br \/>\n    nem adiantado nem atrasado, seu rel&oacute;gio estava de acordo com os cron&ocirc;metros<br \/>\n    do navio.<\/p>\n<p> Nem &eacute; preciso dizer que Passepartout exultava. Bem que teria gostado<br \/>\n    de saber o que Fix diria, se estivesse presente.<\/p>\n<p> Aquele velhaco que me contava um monte de lorotas sobre meridianos, sobre<br \/>\n    o sol e a lua! repetia Passepartout. Bah! esse pessoal! Se a gente os escutasse,<br \/>\n    que bela relojoaria fariam! Eu bem que tinha a certeza de que, mais dia menos<br \/>\n    dia, o sol se decidiria a se regular pelo meu rel&oacute;gio!&#8230;<\/p>\n<p> Passepartout ignorava isso: se o mostrador do seu rel&oacute;gio estivesse<br \/>\n    dividido em vinte e quatro horas como os rel&oacute;gios italianos, n&atilde;o<br \/>\n    teria tido motivo algum para se gabar, porque os ponteiros, quando fossem<br \/>\n    nove horas da manh&atilde; no navio, teriam indicado nove horas da noite,<br \/>\n    isto &eacute;, a vig&eacute;sima primeira hora desde a meia noite diferen&ccedil;a<br \/>\n    exatamente igual &agrave; que existe entre Londres e o cent&eacute;simo octog&eacute;simo<br \/>\n    meridiano.<\/p>\n<p> Mas se Fix tivesse sido capaz de explicar este efeito puramente f&iacute;sico,<br \/>\n    Passepartout, sem d&uacute;vida, teria sido incapaz, se n&atilde;o de o compreender,<br \/>\n    ao menos de o admitir. Em todo caso, se, por um milagre, o inspetor de pol&iacute;cia<br \/>\n    tivesse inopinadamente se mostrado a bordo neste momento, &eacute; prov&aacute;vel<br \/>\n    que Passepartout, justificadamente rancoroso, tivesse tratado com ele de um<br \/>\n    outro assunto e de uma maneira bem diferente.<\/p>\n<p> Mas, onde estava Fix neste momento?&#8230;<\/p>\n<p> Fix estava precisamente a bordo do General Grant.<\/p>\n<p> Com efeito, chegando a Yokohama, o agente, abandonando Mr. Fogg que esperava<br \/>\n    reencontrar durante o dia, tinha ido imediatamente ao consulado ingl&ecirc;s.<br \/>\n    L&aacute;, tinha encontrado finalmente o mandado, que, correndo atr&aacute;s<br \/>\n    dele desde Bombaim, estava datado de quarenta dias atr&aacute;s mandado que<br \/>\n    lhe fora expedido de Hong Kong naquele mesmo Carnatic, a bordo do qual se<br \/>\n    supunha que o agente estivesse! Imagine-se o desapontamento do detetive! O<br \/>\n    mandado tornara-se in&uacute;til! Mr. Fogg tinha sa&iacute;do das possess&otilde;es<br \/>\n    inglesas. Um ato de extradi&ccedil;&atilde;o era agora necess&aacute;rio para<br \/>\n    det&ecirc;-lo! Paci&ecirc;ncia! disse Fix para si, ap&oacute;s o primeiro<br \/>\n    momento de c&oacute;lera, se meu mandado n&atilde;o serve para mais nada aqui,<br \/>\n    servir&aacute; na Inglaterra. Este velhaco parece que vai voltar para sua<br \/>\n    p&aacute;tria, crendo ter despistado a pol&iacute;cia. Bem. Eu o seguirei<br \/>\n    at&eacute; l&aacute;. Quanto ao dinheiro, Deus guarde para que sobre algum!<br \/>\n    Mas em viagens, gratifica&ccedil;&otilde;es, processos, multas, elefante e<br \/>\n    despesas de toda a esp&eacute;cie, o meu homem j&aacute; deixou mais de mil<br \/>\n    libras pelo caminho. Em todo caso, o Banco &eacute; rico! Decis&atilde;o tomada,<br \/>\n    embarcou no General Grant. Estava no navio, quando Mr. Fogg e Mrs. Aouda chegaram.<br \/>\n    Com imensa surpresa, reconheceu Passepartout sob suas vestes de arauto. Escondeu-se<br \/>\n    imediatamente em sua cabina, para evitar uma explica&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    poderia comprometer tudo e, gra&ccedil;as ao n&uacute;mero de passageiros,<br \/>\n    contava n&atilde;o ser visto por seu inimigo, quando naquele mesmo dia deu<br \/>\n    de cara com ele na proa do navio.<\/p>\n<p> Passepartout saltou para sua garganta, sem mais, e, para contentamento de<br \/>\n    alguns americanos que imediatamente apostaram nele, presenteou o infeliz inspetor<br \/>\n    com uma sova daquelas, que demonstrou a superioridade do boxe franc&ecirc;s<br \/>\n    sobre o boxe ingl&ecirc;s.<\/p>\n<p> Quando Passepartout acabou, sentiu-se calmo e quase aliviado. Fix levantou-se,<br \/>\n    em p&eacute;ssimo estado, e olhando seu advers&aacute;rio, disse-lhe friamente:<br \/>\n    Acabou? Sim, por enquanto.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o vamos conversar.<\/p>\n<p> Que va&#8230;<\/p>\n<p> No interesse de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout, como que subjugado por este sangue frio, seguiu o inspetor<br \/>\n    de pol&iacute;cia, e ambos se sentaram &agrave; proa do vapor.<\/p>\n<p> Me deu uma surra, disse Mr. Fix. Tudo bem. Agora escute. At&eacute; aqui<br \/>\n    tenho sido advers&aacute;rio de Mr. Fogg, mas agora fa&ccedil;o seu jogo.<\/p>\n<p> At&eacute; que enfim! exclamou Passepartout, agora acredita que &eacute;<br \/>\n    um homem honesto? N&atilde;o, respondeu friamente Fix, acredito que &eacute;<br \/>\n    um velhaco&#8230; Calma! p&aacute;ra de bufar e me deixe falar. Enquanto Mr. Fogg<br \/>\n    se encontrava em possess&otilde;es inglesas, tive interesse em ret&ecirc;-lo,<br \/>\n    aguardando um mandado de pris&atilde;o. Fiz tudo para isso. Lancei contra<br \/>\n    ele os sacerdotes de Bombaim, embriaguei a si em Hong Kong, separei-o de seu<br \/>\n    patr&atilde;o, fiz com que perdesse o paquete para Yokohama&#8230;<\/p>\n<p> Passepartout escutava, os punhos fechados.<\/p>\n<p> Agora, retomou Fix, Mr. Fogg parece voltar para a Inglaterra? Que seja,<br \/>\n    segui-lo-ei. Mas, a partir de agora, me dedicarei a afastar os obst&aacute;culos<br \/>\n    de seu caminho com tanto ou mais empenho do que at&eacute; agora tive em aument&aacute;-los.<br \/>\n    Como pode ver, meu jogo mudou, e mudou porque &eacute; do meu interesse. E<br \/>\n    acrescento que seu interesse vai junto com o meu, porque &eacute; s&oacute;<br \/>\n    na Inglaterra que poder&aacute; saber se est&aacute; a servi&ccedil;o de um<br \/>\n    criminoso ou de um homem honesto! Passepartout tinha escutado atentamente<br \/>\n    Fix, e ficou convencido de que Fix falava mesmo com sinceridade.<\/p>\n<p> Amigos? perguntou Fix.<\/p>\n<p> Amigos, n&atilde;o, respondeu Passepartout. Aliados, sim, e espero para<br \/>\n    ver, porque, ao menor sinal de trai&ccedil;&atilde;o, tor&ccedil;o-lhe o pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> Combinado, disse tranq&uuml;ilamente o inspetor de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> Onze dias depois, dia 3 de dezembro, o General Grant entrou na ba&iacute;a<br \/>\n    de Golden Gate, e chegou a S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> Mr Fogg n&atilde;o tinha ainda nem ganho nem perdido um s&oacute; dia.<\/p>\n<h4><a name=\"25\" id=\"25\">CAP&Iacute;TULO XXV<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE SE D&Aacute; UMA OLHADA EM S&Atilde;O FRANCISCO, EM DIA DE MEETING<br \/>\n    <\/b><\/p>\n<p>Eram sete da manh&atilde; quando Mr. Phileas Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout<br \/>\n    puseram o p&eacute; no continente americano se &eacute; que se pode dar esse<br \/>\n    nome ao cais flutuante em que desembarcaram. Estes cais, subindo e descendo<br \/>\n    com a mar&eacute;, facilitam a carga e a descarga dos navios. Neles &eacute;<br \/>\n    que atracam os clippers de todas as dimens&otilde;es, os steamers de todas<br \/>\n    as nacionalidades, e esses steam-boats de muitos andares, que fazem o servi&ccedil;o<br \/>\n    do Sacramento e de seus afluentes. &Eacute; ai tamb&eacute;m que se amontoam<br \/>\n    os produtos de um com&eacute;rcio que se estende ao M&eacute;xico, Peru, Chile,<br \/>\n    Brasil, Europa, &Aacute;sia, a todas as ilhas do oceano Pac&iacute;fico.<\/p>\n<p> Passepartout, em sua alegria de tocar afinal a terra americana, tinha entendido<br \/>\n    dever fazer seu desembarque executando um salto mortal no melhor estilo. Mas<br \/>\n    quando caiu sobre o cais, cujo tabuado estava carunchado, n&atilde;o conseguiu<br \/>\n    fazer a volta. Todo desconsolado com a maneira pela qual tomara p&eacute;<br \/>\n    sobre o novo continente, o honesto mo&ccedil;o soltou um grito formid&aacute;vel,<br \/>\n    que fez voar um grande n&uacute;mero de cormor&otilde;es e pelicanos, h&oacute;spedes<br \/>\n    habituais dos cais m&oacute;veis.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, assim que desembarcou, informou-se da hora em que partia o primeiro<br \/>\n    trem para Nova York. Era &agrave;s seis da tarde. Mr. Fogg tinha pois um dia<br \/>\n    inteiro para gastar na capital californiana. Fez vir um ve&iacute;culo para<br \/>\n    Mrs. Aouda e para si. Passepartout subiu para a bol&eacute;ia, e o ve&iacute;culo,<br \/>\n    a tr&ecirc;s d&oacute;lares a corrida, dirigiu-se para o International Hotel.<\/p>\n<p> Do lugar elevado que ocupava, Passepartout observou com curiosidade a grande<br \/>\n    cidade americana; ruas largas, casas baixas bem alinhadas, igrejas e templos<br \/>\n    de um g&oacute;tico anglo-sax&atilde;o, docas imensas, armaz&eacute;ns como<br \/>\n    pal&aacute;cios, uns de madeira, outros de tijolo; nas ruas, caruagens numerosas,<br \/>\n    &ocirc;nibus, cars de tramways, e sobre as cal&ccedil;adas encobertas, n&atilde;o<br \/>\n    apenas Americanos e Europeus, mas tamb&eacute;m Chineses e Indianos enfim<br \/>\n    o necess&aacute;rio para compor uma popula&ccedil;&atilde;o de mais de duzentos<br \/>\n    mil habitantes.<\/p>\n<p> Passepartout ficou muito surpreso com o que viu. Ele estava ainda na cidade<br \/>\n    legend&aacute;ria de 1849, na cidade dos bandidos, dos incendi&aacute;rios<br \/>\n    e dos assassinos, vindos em busca das pepitas, imenso cafarnaum de todos os<br \/>\n    desclassificados, onde se jogava ouro em p&oacute;, um rev&oacute;lver numa<br \/>\n    m&atilde;o e um punhal na outra. Mas esse bom tempo j&aacute; tinha passado.<br \/>\n    S&atilde;o Francisco apresentava o aspecto de uma grande cidade comercial.<br \/>\n    A alta torre da Municipalidade, onde vigiavam os sentinelas, dominava um conjunto<br \/>\n    de ruas e de avenidas, que se cruzavam em &acirc;ngulos retos, entre as quais<br \/>\n    se abriam pra&ccedil;as verdejantes; depois uma cidade chinesa que parecia<br \/>\n    ter sido importada do Celeste Imp&eacute;rio em uma caixa de brinquedo. Nada<br \/>\n    de sombreros, nada de camisas vermelhas, nada de &iacute;ndios emplumados,<br \/>\n    mas chap&eacute;us de seda e roupas pretas, trajadas por um grande n&uacute;mero<br \/>\n    de gentlemen dotados de uma atividade devoradora. Certas ruas, entre outras<br \/>\n    Montgommery Street a Regent Street de Londres, o Boulevard des Italiens de<br \/>\n    Paris, a Broadway de Nova York eram ladeadas por lojas espl&ecirc;ndidas que<br \/>\n    ofereciam &agrave; sua clientela os produtos do mundo inteiro.<\/p>\n<p> Quando Passepartout chegou ao International Hotel, n&atilde;o lhe parecia<br \/>\n    ter sa&iacute;do de Londres.<\/p>\n<p> O r&eacute;s-do-ch&atilde;o do hotel era ocupado por um imenso bar&raquo;,<br \/>\n    esp&eacute;cie de caf&eacute;-restaurante gratuito, aberto a todos, que poderiam<br \/>\n    ali consumir carne seca, sopa de ostras, biscoitos e chester, sem terem que<br \/>\n    abrir a carteira. S&oacute; se paga pela bebida, ale, porto ou xerez, se sua<br \/>\n    fantasia o levar a beber algo. Passepartout achou isso muito americano.<\/p>\n<p> O restaurante do hotel era confort&aacute;vel. Mr. Fogg e Mrs. Aouda sentaram-se<br \/>\n    a uma mesa e foram abundantemente servidos em pratos liliputinianos por Negros<br \/>\n    do mais belo negro.<\/p>\n<p> Depois de almo&ccedil;ar, Phileas Fogg, acompanhado de Mrs. Aouda, deixou<br \/>\n    o hotel para ir ao consulado ingl&ecirc;s, visar seu passaporte. Na cal&ccedil;ada<br \/>\n    encontrou o criado, que lhe perguntou se, antes de pegar a estrada de ferro<br \/>\n    do Pac&iacute;fico, n&atilde;o seria mais prudente comprar algumas d&uacute;zias<br \/>\n    de rifles Enfield ou de rev&oacute;lveres Colt. Passepartout ouvira falar<br \/>\n    de Sioux e de Pawnies, que param os trens como simples ladr&otilde;es espanh&oacute;is.<br \/>\n    Mr. Fogg respondeu que era uma precau&ccedil;&atilde;o in&uacute;til, mas<br \/>\n    deu-lhe liberdade para agir como bem lhe aprouvesse. Depois dirigiu-se para<br \/>\n    o escrit&oacute;rio do agente consular.<\/p>\n<p> Phileas Fogg nem tinha dado duzentos passos quando, pelo maior dos acasos,<br \/>\n    encontrou Fix. O inspetor mostrou-se extremamente surpreso. Como! Mr. Fogg<br \/>\n    e ele tinham feito juntos a travessia do Pac&iacute;fico, e n&atilde;o tinham<br \/>\n    se encontrado no navio! Fosse como fosse, Fix n&atilde;o podia deixar de se<br \/>\n    sentir honrado em tornar a ver o gentleman a quem devia tanto, e, como os<br \/>\n    seus neg&oacute;cios o chamavam &agrave; Europa, ficaria encantado em prosseguir<br \/>\n    viagem em t&atilde;o agrad&aacute;vel companhia.<\/p>\n<p> Mr. Fogg respondeu que a honra seria sua, e Fix que insistia em n&atilde;o<br \/>\n    o perder de vista pediu permiss&atilde;o para acompanh&aacute;-los na visita<br \/>\n    a esta curiosa cidade de S&atilde;o Francisco. Foi-lhe concedida.<\/p>\n<p> Eis pois Mrs. Aouda, Mr. Fogg e Mr. Fix passeando despreocupadamente pelas<br \/>\n    ruas. Logo estavam na Montgommery Street, onde a aflu&ecirc;ncia popular era<br \/>\n    enorme. Nas cal&ccedil;adas, no meio da rua, sobre os trilhos dos tramways,<br \/>\n    apesar da passagem incessante dos coaches e dos &ocirc;nibus, no interior<br \/>\n    das lojas, nas janelas de todas as casas, e mesmo sobre os telhados, multid&atilde;o<br \/>\n    imensa. Homens-sandu&iacute;ches circulavam na multid&atilde;o. Bandeirinhas<br \/>\n    e bandeirolas flutuavam ao vento. Gritos eclodiam por toda parte.<\/p>\n<p> Hurrah para Kamerfield! Hurrah para Mandiboy! Era um meeting. Pelo menos<br \/>\n    foi o que pensou Fix, e o que disse a Mr. Fogg, acrescentando: Far&iacute;amos<br \/>\n    talvez melhor, senhor, em n&atilde;o entrar nesta confus&atilde;o. Da&iacute;<br \/>\n    s&oacute; se tira alguns socos.<\/p>\n<p> Com efeito, respondeu Phileas Fogg, e os socos, por serem pol&iacute;ticos,<br \/>\n    n&atilde;o deixam de ser socos! Fix achou que devia sorrir ao ouvir esta observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e, para verem sem se envolverem na bagun&ccedil;a, Mrs. Aouda, Phileas Fogg<br \/>\n    e ele postaram-se no topo de uma escada que dava para um terra&ccedil;o, situado<br \/>\n    no fim da Montgommery Street. Diante deles, do outro lado da rua, entre o<br \/>\n    wharf de um comerciante de carv&atilde;o e a loja de um negociante de petr&oacute;leo,<br \/>\n    localizava-se uma grande plataforma ao ar livre, para a qual a multid&atilde;o<br \/>\n    parecia convergir.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o, por qu&ecirc; era este meeting? Qual seria a ocasi&atilde;o<br \/>\n    que o motivava? Phileas Fogg o ignorava totalmente. Tratar-se-ia da nomea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um alto funcion&aacute;rio militar ou civil, de um governador de Estado<br \/>\n    ou de um membro do Congresso? Poderia imaginar que fosse, pela anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extraordin&aacute;ria que tomava conta da cidade Neste momento um movimento<br \/>\n    consider&aacute;vel se produziu na multid&atilde;o. Todas as m&atilde;os estavam<br \/>\n    levantadas. Algumas, solidamente fechadas, pareciam erguer-se e abaixar-se<br \/>\n    rapidamente em meio a gritos maneira en&eacute;rgica, sem d&uacute;vida, de<br \/>\n    formular um voto. Uma mar&eacute; agitava a massa que reflu&iacute;a. As bandeiras<br \/>\n    oscilavam, desapareciam por um instante, reapareciam em farrapos. As ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da multid&atilde;o propagavam-se at&eacute; a escada, enquanto que todas as<br \/>\n    cabe&ccedil;as amontoadas se agitavam &agrave; superf&iacute;cie como um mar<br \/>\n    subitamente tocado por uma borrasca. O n&uacute;mero de chap&eacute;us pretos<br \/>\n    diminu&iacute;a a olhos vistos, e a maior parte deles parecia ter perdido<br \/>\n    sua altura normal.<\/p>\n<p> &Eacute; evidentemente um meeting, disse Fix, e a quest&atilde;o que o provocou<br \/>\n    deve ser palpitante. N&atilde;o seria nada de admirar que fosse ainda a quest&atilde;o<br \/>\n    do Alabama, se bem que j&aacute; esteja resolvida.<\/p>\n<p> Talvez, respondeu simplesmente Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Em todo o caso, retomou Fix, dois campe&otilde;es se defrontam, o digno<br \/>\n    Kamerfield e o digno Mandiboy.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda, de bra&ccedil;os dados com Phileas Fogg, contemplava com surpresa<br \/>\n    esta cena tumultuosa, e Fix ia perguntar a um de seus vizinhos a raz&atilde;o<br \/>\n    de tamanha efervesc&ecirc;ncia popular, quando um movimento mais not&aacute;vel<br \/>\n    se pronunciou. Os hurrahs, as impreca&ccedil;&otilde;es, redobraram. Os mastros<br \/>\n    de bandeira transformaram-se em armas ofensivas. Mais m&atilde;os, punhos<br \/>\n    por todo lado. Do alto dos ve&iacute;culos parados, e dos &ocirc;nibus enfileirados<br \/>\n    em seu trajeto, trocavam-se petardos. Tudo servia de proj&eacute;til. Garrafas<br \/>\n    e cal&ccedil;ados descreviam no ar trajet&oacute;rias extensas, e pareceu<br \/>\n    mesmo que alguns rev&oacute;lveres misturaram &agrave;s vocifera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da multid&atilde;o suas detona&ccedil;&otilde;es nacionais.<\/p>\n<p> A turba aproximou-se da escada e refluiu dos primeiros degraus. Um dos partidos<br \/>\n    estava sendo evidentemente repelido, sem que os simples espectadores pudessem<br \/>\n    reconhecer se a vantagem ficava com Mandiboy ou com Kamerfield.<\/p>\n<p> Parece-me prudente nos retirarmos, disse Fix, que n&atilde;o desejava que<br \/>\n    o seu homem fosse maltratado ou se metesse em qualquer confus&atilde;o. Se<br \/>\n    a quest&atilde;o envolve a Inglaterra, e nos reconhecem, ficaremos envolvidos<br \/>\n    nesta bagun&ccedil;a.<\/p>\n<p> Um cidad&atilde;o ingl&ecirc;s&#8230; respondeu Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Mas o gentleman n&atilde;o p&ocirc;de terminar a frase. Por detr&aacute;s<br \/>\n    dele, do terra&ccedil;o que precedia a escada, partiram uivos espantosos.<br \/>\n    Bradavam: Hurrah! Hip! Hip! Mandiboy! Era uma leva de eleitores que chegava<br \/>\n    de refor&ccedil;o, atacando pelo flanco os partid&aacute;rios de Kamerfield.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Fix encontraram-se entre dois fogos. Era muito tarde<br \/>\n    para escapar. Esta torrente de homens, armados com bengalas chumbadas e com<br \/>\n    porretes, era irresist&iacute;vel. Phileas Fogg e Fix, na defesa da jovem,<br \/>\n    foram horrivelmente sacudidos. Mr. Fogg, n&atilde;o menos fleum&aacute;tico<br \/>\n    do que de costume, quis defender-se com as armas naturais que a natureza p&ocirc;s<br \/>\n    na extremidade dos bra&ccedil;os de todo ingl&ecirc;s, mas inutilmente. Um<br \/>\n    homenzarr&atilde;o de barba avermelhada, rosto afogueado, ombros largos, que<br \/>\n    parecia ser o chefe do bando, levantou seu formid&aacute;vel punho sobre Mr.<br \/>\n    Fogg, e teria gravemente maltratado o gentleman, se Fix, por dedica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o tivesse recebido o golpe em seu lugar. Um enorme galo se desenvolveu<br \/>\n    instantaneamente sob o chap&eacute;u de seda do detetive, transformado em<br \/>\n    simples bon&eacute;.<\/p>\n<p> Yankee! disse Mr. Fogg, lan&ccedil;ando ao seu advers&aacute;rio um olhar<br \/>\n    de profundo desprezo.<\/p>\n<p> Ingl&ecirc;s! respondeu o outro.<\/p>\n<p> N&oacute;s nos reencontraremos! Quando quiser. O seu nome? Phileas Fogg.<br \/>\n    O seu? Coronel Stamp W. Proctor.<\/p>\n<p> Depois, a mar&eacute; passou. Fix foi derrubado e se levantou, com a roupa<br \/>\n    despeda&ccedil;ada, mas sem ferimentos s&eacute;rios. Seu palet&oacute; de<br \/>\n    viagem tinha sido separado em duas partes desiguais, e as suas cal&ccedil;as<br \/>\n    pareciam-se com estes cal&ccedil;&otilde;es que certos Indianos quest&atilde;o<br \/>\n    de moda s&oacute; vestem depois de lhes terem tirado os fundilhos. Mas, em<br \/>\n    suma, Mrs. Aouda tinha sido poupada, e, s&oacute;, Fix tinha ganho seu murro.<\/p>\n<p> Obrigado, disse Mr. Fogg ao inspetor, logo que sa&iacute;ram da multid&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; de que, respondeu Fix, mas vamos&#8230;<\/p>\n<p> Aonde? A uma loja de roupas.<\/p>\n<p> Com efeito, esta visita era oportuna. As vestes de Phileas Fogg e de Fix<br \/>\n    estavam em frangalhos, como se estes dois gentlemen tivessem brigado por causa<br \/>\n    dos dignos Kamerlield e Mandiboy.<\/p>\n<p> Uma hora depois, estavam convenientemente vestidos e penteados. Em seguida<br \/>\n    voltaram ao Internacional Hotel.<\/p>\n<p> Passepartout esperava seu patr&atilde;o, armado com meia d&uacute;zia de<br \/>\n    rev&oacute;lveres de seis tiros e fogo central. Quando viu Fix em companhia<br \/>\n    de Mr. Fogg, fechou a cara. Mas Aouda, tendo-lhe narrado em poucas palavras<br \/>\n    o que se passara, sossegou-o. Evidentemente Mr. Fix n&atilde;o era mais um<br \/>\n    inimigo, era um aliado. Mantinha a sua palavra.<\/p>\n<p> Quando o jantar terminou, foi trazido um coach, que deveria conduzir os<br \/>\n    viajantes e seus pertences &agrave; esta&ccedil;&atilde;o. No momento de subir<br \/>\n    para o ve&iacute;culo, Mr. Fogg disse a Fix: Voltou a ver o coronel Proctor?<br \/>\n    N&atilde;o, respondeu Fix.<\/p>\n<p> Voltarei &agrave; Am&eacute;rica para o reencontrar, disse friamente Phileas<br \/>\n    Fogg. N&atilde;o seria conveniente que um cidad&atilde;o ingl&ecirc;s se deixasse<br \/>\n    tratar assim.<\/p>\n<p> O agente sorriu e n&atilde;o respondeu. Mas, como se v&ecirc;, Mr. Fogg<br \/>\n    era dessa ra&ccedil;a de ingleses que, se n&atilde;o toleram o duelo em seu<br \/>\n    pa&iacute;s, batem-se no estrangeiro, quando se trata de defender a honra.<\/p>\n<p> &Agrave;s seis menos um quarto, os viajantes chegaram &agrave; esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e encontraram o trem prestes a partir. No momento em que Mr. Fogg &iacute;a<br \/>\n    embarcar, avistou um empregado e chegando-se a ele: Meu amigo, disse-lhe,<br \/>\n    n&atilde;o houve hoje alguns tumultos em S&atilde;o Francisco? Era um meeting,<br \/>\n    senhor, respondeu o empregado.<\/p>\n<p> Contudo, parece-me que notei uma certa anima&ccedil;&atilde;o nas ruas.<\/p>\n<p> Tratava-se simplesmente de um meeting organizado para uma elei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Elei&ccedil;&atilde;o para um cargo important&iacute;ssimo, sem d&uacute;vida?<br \/>\n    perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> N&atilde;o, senhor, de um juiz de paz.<\/p>\n<p> Depois desta resposta, Phileas Fogg subiu para o vag&atilde;o, e o trem<br \/>\n    partiu a todo vapor.<\/p>\n<h4><a name=\"26\" id=\"26\">CAP&Iacute;TULO XXVI<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE SE PEGA O TREM EXPRESSO DA ESTRADA DE FERRO DO PAC&Iacute;FICO<br \/>\n    <\/b><\/p>\n<p>Ocean to ocean assim dizem os americanos e estas tr&ecirc;s palavras deviam<br \/>\n    ser a denomina&ccedil;&atilde;o geral do grand trunk que cruza os Estados<br \/>\n    Unidos da Am&eacute;rica em toda a sua extens&atilde;o. Mas, em realidade,<br \/>\n    o Pacific rail-road se divide em duas partes distintas: Central Pac&iacute;fic<br \/>\n    entre S&atilde;o Francisco e Ogden e Union Pac&iacute;fic entre Ogden e Omaha.<br \/>\n    L&aacute; se encontram cinco linhas distintas, que p&otilde;em Omaha em comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    freq&uuml;ente com Nova York.<\/p>\n<p> Nova York e S&atilde;o Francisco est&atilde;o portanto presentemente reunidas<br \/>\n    por uma faixa de metal ininterrupta que n&atilde;o mede menos de tr&ecirc;s<br \/>\n    mil setecenta e oitenta e seis milhas. Entre Omaha e o Pac&iacute;fico, a<br \/>\n    estrada de ferro percorre um territ&oacute;rio ainda freq&uuml;entado pelos<br \/>\n    &iacute;ndios e pelas feras vasta extens&atilde;o territorial que os M&oacute;rmons<br \/>\n    come&ccedil;aram a colonizar por volta de l845, depois que foram expulsos<br \/>\n    do Illinois.<\/p>\n<p> Ontrora, nas circunst&acirc;ncias as mais favor&aacute;veis, gastavam-se<br \/>\n    seis meses para ir de Nova York a S&atilde;o Francisco. Atualmente, apenas<br \/>\n    sete dias.<\/p>\n<p> Foi em 1862 que, apesar da oposi&ccedil;&atilde;o dos deputados do Sul,<br \/>\n    que queriam uma linha mais meridional, o tra&ccedil;ado da rail-road foi assentado<br \/>\n    entre os paralelos quarenta e um e quarenta e dois. O presidente Lincoln,<br \/>\n    de t&atilde;o saudosa mem&oacute;ria, fixou pessoalmente, no Estado de Nebraska,<br \/>\n    na cidade de Omaha, o ponto inicial do novo ramal. Os trabalhos foram logo<br \/>\n    iniciados e tocados com aquela atividade americana, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nem cheia de pap&eacute;is, nem burocr&aacute;tica. A rapidez da m&atilde;o-de-obra<br \/>\n    n&atilde;o deveria prejudicar de forma alguma a boa execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do caminho. Na pradaria, os trabalhos avan&ccedil;aram na propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma milha e meia por dia. Uma locomotiva, rolando sobre os rails da v&eacute;spera,<br \/>\n    levava os rails do dia seguinte, e se corria por eles assim que eram assentados.<\/p>\n<p> A Pacific Railroad lan&ccedil;a diversos ramais em seu percurso, nos Estados<br \/>\n    de Iowa, Kansas, Colorado e Oregon. Saindo de Omaha, costeia a margem esquerda<br \/>\n    do Platte River at&eacute; a jun&ccedil;&atilde;o com o ramal do norte, segue<br \/>\n    a ramifica&ccedil;&atilde;o do sul, cruza o territ&oacute;rio de Laramie e<br \/>\n    as montanhas Wahsatch, contorna o Great Salt Lake, chega a Salt Lake City,<br \/>\n    a capital dos M&oacute;rmons, penetra pelo vale da Tuilla, pelo deserto americano,<br \/>\n    as montanhas de Cedar e Humboldt, Humboldt River, Sierra Nevada, e torna a<br \/>\n    descer por Sacramento at&eacute; o Pac&iacute;fico, sem que este tra&ccedil;ado<br \/>\n    ultrapasse em nada cento e doze p&eacute;s por milha, mesmo na travessia das<br \/>\n    montanhas Rochosas.<\/p>\n<p> Tal era a longa art&eacute;ria que os trens percorriam em sete dias, e que<br \/>\n    iria permitir ao honrado Phileas Fogg ele ao menos o esperava pegar, dia 11,<br \/>\n    em Nova York, o paquete para Liverpool.<\/p>\n<p> O vag&atilde;o ocupado por Phileas Fogg era uma esp&eacute;cie de &ocirc;nibus<br \/>\n    comprido que repousava sobre dois trens formados por quatro rodas cada um,<br \/>\n    cuja mobilidade permitia atacar curvas de pequeno raio. No interior, nada<br \/>\n    de compartimentos: duas filas de assentos, dispostos de cada lado, perpendicularmente<br \/>\n    ao eixo, e entre os quais havia uma passagem que conduzia aos gabinetes de<br \/>\n    toilette e outros, com que cada vag&atilde;o era provido. Sobre toda a extens&atilde;o<br \/>\n    do trem, os ve&iacute;culos se comunicavam atrav&eacute;s de corredores, e<br \/>\n    os viajantes podiam circular de uma extremidade &agrave; outra do comboio,<br \/>\n    que colocava &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o vag&otilde;es-sal&otilde;es,<br \/>\n    vag&otilde;es-terra&ccedil;os, vag&otilde;es-restaurantes e vag&otilde;es-caf&eacute;s.<br \/>\n    S&oacute; faltavam vag&otilde;es-teatros. Mas algum dia haver&aacute;.<\/p>\n<p> Sobre os corredores circulavam incessantemente vendedores de livros e de<br \/>\n    jornais, anunciando sua mercadoria, e vendedores de bebidas, comest&iacute;veis,<br \/>\n    charutos, aos quais n&atilde;o faltavam compradores.<\/p>\n<p> Os viajantes tinham partido da esta&ccedil;&atilde;o de Oakland &agrave;s<br \/>\n    seis horas da tarde. J&aacute; era noite uma noite fria, sombria, com um c&eacute;u<br \/>\n    coberto de nuvens que amea&ccedil;avam desfazer-se em neve. O trem n&atilde;o<br \/>\n    andava com grande rapidez. Levando em conta as paradas, n&atilde;o percorria<br \/>\n    mais de vinte milhas por hora, velocidade que lhe deveria, contudo, permitir<br \/>\n    atravessar os Estados Unidos no tempo regulamentar.<\/p>\n<p> Conversava-se pouco no vag&atilde;o. Ali&aacute;s, o sono logo iria ganhar<br \/>\n    os viajantes. Passepartout se achava sentado atr&aacute;s do inspetor de pol&iacute;cia,<br \/>\n    mas n&atilde;o falava com ele. Desde os &uacute;ltimos acontecimentos, suas<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es tinham arrefecido muito. Nada de simpatia, nada de<br \/>\n    intimidade. Fix n&atilde;o tinha mudado nada em sua maneira de ser, mas Passepartout<br \/>\n    conservava-se, pelo contr&aacute;rio, numa extrema reserva, pronto para &agrave;<br \/>\n    menor suspeita estrangular seu antigo amigo.<\/p>\n<p> Uma hora depois da partida do trem, a neve caiu neve fina, que n&atilde;o<br \/>\n    poderia, felizmente, atrasar a marcha do comboio. S&oacute; se via atrav&eacute;s<br \/>\n    das janelas uma imensid&atilde;o branca, sobre a qual, desenrolando suas volutas,<br \/>\n    o vapor da locomotiva parecia sombrio.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas um steward entrou no vag&atilde;o e anunciou aos viajantes<br \/>\n    que a hora de dormir tinha chegado. Este vag&atilde;o era um sleeping-car,<br \/>\n    que, em poucos instantes, foi transformado em dormit&oacute;rio. Os encostos<br \/>\n    dos bancos se desdobraram, os colchonetes cuidadosamente embrulhados se desenrolaram<br \/>\n    por um sistema engenhoso, cabinas foram improvisadas em alguns instantes,<br \/>\n    e cada viajante teve logo &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o um leito confort&aacute;vel,<br \/>\n    que espessas cortinas protegiam de qualquer olhar indiscreto. Os len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    eram brancos, os travesseiros macios. Bastava deitar e dormir o que cada um<br \/>\n    fez como se estivesse na cabina confort&aacute;vel de um paquete enquanto<br \/>\n    o trem corria a todo vapor atrav&eacute;s do estado da Calif&oacute;rnia.<\/p>\n<p> Na regi&atilde;o entre S&atilde;o Francisco e Sacramento, o solo &eacute;<br \/>\n    pouco acidentado. Este trecho da estrada de ferro, sob o nome de Central Pacific<br \/>\n    Road, toma Sacramento por ponto de partida, e avan&ccedil;a para leste ao<br \/>\n    encontro do que parte de Omaha. De S&atilde;o Francisco &agrave; capital da<br \/>\n    Calif&oacute;rnia, a linha corria diretamente para nordeste, ladeando o American<br \/>\n    River, que desag&uuml;a na ba&iacute;a de San Pablo. As cento e vinte milhas<br \/>\n    compreendidas entre estas duas importantes cidades foram percorridas em seis<br \/>\n    horas, e pela meia noite, enquanto dormiam o primeiro sono, os viajantes passaram<br \/>\n    por Sacramento. Nada viram portanto desta cidade importante, sede da legislatura<br \/>\n    do Estado de Calif&oacute;rnia, nem os seus belos cais, nem suas ruas largas,<br \/>\n    nem seus hot&eacute;is espl&ecirc;ndidos, nem as pra&ccedil;as, nem os templos.<\/p>\n<p> Sa&iacute;ndo de Sacramento, o trem, depois de ter passado pelas esta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Junction, Roclin, Auburn, e Colfax, embrenhou-se no maci&ccedil;o da Sierra<br \/>\n    Nevada. Eram sete horas da manh&atilde; quando foi atravessada a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Cisco. Uma hora depois, o dormit&oacute;rio voltava a ser um vag&atilde;o<br \/>\n    comum e os viajantes podiam atrav&eacute;s das vidra&ccedil;as entrever os<br \/>\n    pontos pitorescos deste territ&oacute;rio montanhoso. O tra&ccedil;ado do<br \/>\n    trem obedecia aos caprichos da Sierra, aqui suspenso nos flancos da montanha,<br \/>\n    acol&aacute; suspenso sobre precip&iacute;cios, evitando os &acirc;ngulos<br \/>\n    bruscos por curvas audaciosas, lan&ccedil;ando-se por gargantas estreitas<br \/>\n    que pareciam n&atilde;o ter sa&iacute;da. A locomotiva, radiante como um orat&oacute;rio,<br \/>\n    com sua grande fornalha que lan&ccedil;ava fagulhas amareladas, seu sino prateado,<br \/>\n    seu ca&ccedil;a-vaca que se estendia como um espor&atilde;o, misturava os<br \/>\n    seus silvados e mugidos com o das torrentes e das cascatas, torneava sua fuma&ccedil;a<br \/>\n    na negra ramagem dos pinheiros.<\/p>\n<p> Poucos ou nenhum t&uacute;nel, nem pontes sobre o percurso. A rail-road<br \/>\n    contornava o flanco das montanhas, n&atilde;o procurando na linha reta o caminho<br \/>\n    mais curto de um ponto a outro, e n&atilde;o violentando a natureza.<\/p>\n<p>Por volta das nove horas, pelo vale de Carson, o trem penetrou no Estado<br \/>\n    do Nevada, seguindo sempre a dire&ccedil;&atilde;o nordeste. Ao meio dia,<br \/>\n    deixava Reno, onde os viajantes tiveram vinte minutos para almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> A partir deste ponto, a via f&eacute;rrea, costeando Humboldt River, elevou-se,<br \/>\n    por algumas milhas, para o norte, seguindo o seu curso. Depois infletiu para<br \/>\n    o leste, e n&atilde;o deveria mais deixar o curso d&aacute;gua antes de ter<br \/>\n    atingido os Humboldt Ranges, onde tem sua nascente, quase na extremidade oriental<br \/>\n    do Estado de Nevada.<\/p>\n<p> Depois de almo&ccedil;arem, Mr. Fogg, Mrs. Aouda e os seus companheiros<br \/>\n    retomaram seus lugares no vag&atilde;o. Phileas Fogg, a jovem, Fix e Passepartout,<br \/>\n    confortavelmente sentados, contemplaram a paisagem variada que passava diante<br \/>\n    dos seus olhos vastas pradarias, montanhas se perfilando no horizonte, creeks<br \/>\n    rolando suas &aacute;guas espumosas. Por vezes, uma grande manada de bis&otilde;es,<br \/>\n    amontoando-se ao longe, pareciam um dique m&oacute;vel. Estes in&uacute;meros<br \/>\n    ex&eacute;rcitos de ruminantes op&otilde;em com freq&uuml;&ecirc;ncia um obst&aacute;culo<br \/>\n    intranspon&iacute;vel &agrave; passagem dos trens. J&aacute; se viu milhares<br \/>\n    destes animais desfilarem por horas, em filas compactas, atravessando a via<br \/>\n    f&eacute;rrea. A locomotiva &eacute; ent&atilde;o for&ccedil;ada a parar e<br \/>\n    esperar que a via fique novamente livre.<\/p>\n<p> Foi exatamente o que aconteceu nesta ocasi&atilde;o. Pelas tr&ecirc;s horas<br \/>\n    da tarde, uma manada de dez a doze mil cabe&ccedil;as barrou a rail-road.<br \/>\n    A m&aacute;quina, depois de ter moderado sua velocidade, tentou meter seu<br \/>\n    espor&atilde;o no flanco da imensa coluna, mas teve de parar diante da impenetr&aacute;vel<br \/>\n    massa.<\/p>\n<p> Via-se estes ruminantes estes b&uacute;falos, como impropriamente os chamam<br \/>\n    os americanos caminhar com o seu passo tranq&uuml;ilo, soltando por vezes<br \/>\n    formid&aacute;veis mugidos. Tinham um porte superior ao dos touros da Europa,<br \/>\n    pernas e rabo curtos, garrote saltado que formava uma corcova muscular, cornos<br \/>\n    separados na base, cabe&ccedil;a, pesco&ccedil;o e lombo cobertos por crinas<br \/>\n    de p&ecirc;lo comprido. Nem se poderia pensar em deter uma migra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destas. Quando adotaram uma dire&ccedil;&atilde;o, nada &eacute; capaz nem<br \/>\n    de desviar nem de modificar sua marcha. &Eacute; uma torrente de carne viva<br \/>\n    que nenhum dique saberia represar.<\/p>\n<p> Os viajantes, dispersos pelos corredores, contemplavam este curioso espet&aacute;culo.<br \/>\n    Mas o que devia estar mais apressado, Phileas Fogg, ficara no seu lugar e<br \/>\n    esperava filosoficamente que aprouvesse aos b&uacute;falos lhe dar passagem.<br \/>\n    Passepartout estava furioso com a demora causada por esta aglomera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de animais. Teria desejado descarregar contra eles o seu arsenal de rev&oacute;lveres.<\/p>\n<p> Que pa&iacute;s! exclamou. Simples bois que param os trens, e que l&aacute;<br \/>\n    se v&atilde;o, procissionalmente, sem se preocuparem com o fato de embara&ccedil;arem<br \/>\n    a circula&ccedil;&atilde;o. Minha Nossa! Desejaria muito saber se Mr. Fogg<br \/>\n    previu este contratempo no seu programa! E o maquinista que n&atilde;o se<br \/>\n    atreve a lan&ccedil;ar sua m&aacute;quina atrav&eacute;s deste gado embara&ccedil;oso!<br \/>\n    O maquinista n&atilde;o havia tentado ultrapassar o obst&aacute;culo, e agira<br \/>\n    com prud&ecirc;ncia. Teria esmagado os primeiros b&uacute;falos atacados pelo<br \/>\n    espor&atilde;o da locomotiva; mas, por muito potente que fosse, a m&aacute;quina<br \/>\n    teria sido logo detida, dar-se-ia inevitavelmente um descarrilhamento, e o<br \/>\n    trem teria ficado em peda&ccedil;os.<\/p>\n<p> O melhor era mesmo esperar pacientemente, tentar em seguida recuperar o<br \/>\n    tempo perdido por uma acelera&ccedil;&atilde;o da marcha do trem. O desfile<br \/>\n    dos bis&otilde;es durou tr&ecirc;s longas horas, e a via s&oacute; ficou livre<br \/>\n    quando a noite j&aacute; ca&iacute;a. Neste momento, as &uacute;ltimas filas<br \/>\n    da manada atravessavam os rails, enquanto que as primeiras desapareciam no<br \/>\n    horizonte ao sul.<\/p>\n<p> Eram ent&atilde;o oito horas, quando o trem franqueou os desfiladeiros dos<br \/>\n    Humboldt Ranges, e nove e meia, quando penetrou no territ&oacute;rio de Utah,<br \/>\n    a regi&atilde;o do grande lago Salgado, o curioso territ&oacute;rio dos M&oacute;rmons.<\/p>\n<h4><a name=\"27\" id=\"27\">CAP&Iacute;TULO XXVII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT SEGUE, COM UMA VELOCIDADE DE VINTE MILHAS POR HORA,<br \/>\n    UM CURSO DE HIST&Oacute;RIA M&Oacute;RMON <\/b><\/p>\n<p>Durante a noite de 5 para 6 de dezembro, o trem correu a sudeste pelo espa&ccedil;o<br \/>\n    de quase cinq&uuml;enta milhas; depois elevou-se outro tanto para nordeste,<br \/>\n    aproximando-se do grande lago Salgado.<\/p>\n<p> Passepartout, pelas nove da manh&atilde;, veio tomar ar sobre os passadi&ccedil;os.<br \/>\n    O tempo estava frio, o c&eacute;u cinza, mas n&atilde;o nevava. O disco do<br \/>\n    sol, amplificado pelas brumas, parecia uma enorme moeda de ouro, e Passepartout<br \/>\n    entretinha-se calculando seu valor em libras esterlinas, quando foi distra&iacute;do<br \/>\n    deste &uacute;til trabalho pela apari&ccedil;&atilde;o de um personagem bastante<br \/>\n    estranho.<\/p>\n<p> Este personagem, que tinha tomado o trem na esta&ccedil;&atilde;o de Elko,<br \/>\n    era um homem de estatura elevada, muito moreno, bigodes pretos, meias pretas,<br \/>\n    chap&eacute;u de seda preta, colete preto, cal&ccedil;a preta, gravata branca,<br \/>\n    luvas de pele de c&atilde;o. Parecia um reverendo. Ia de uma extremidade do<br \/>\n    trem &agrave; outra, e na porta de cada vag&atilde;o colava com obreias um<br \/>\n    aviso escrito &agrave; m&atilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout aproximou-se e leu em um destes avisos que o honrado elder<br \/>\n    William Hitch, mission&aacute;rio m&oacute;rmon, aproveitando a sua presen&ccedil;a<br \/>\n    no trem n.&deg; 48, faria, das onze ao meio dia, no carro n.&deg; 117, uma<br \/>\n    confer&ecirc;ncia a respeito do mormonismo convidando para ouvi-lo todos os<br \/>\n    gentlemen desejosos de se instru&iacute;rem no tocante aos mist&eacute;rios<br \/>\n    da religi&atilde;o dos Santos dos &uacute;ltimos dias.<\/p>\n<p> Claro, irei, se disse Passepartout, que n&atilde;o sabia nada do mormonismo<br \/>\n    exceto seus usos pol&iacute;gamos, base da sociedade m&oacute;rmon.<\/p>\n<p> A not&iacute;cia espalhou-se rapidamente pelo trem, que levava uma centena<br \/>\n    de viajantes. Deste total, trinta ou mais, atra&iacute;dos pelo chamado da<br \/>\n    confer&ecirc;ncia, ocupavam &agrave;s onze horas os bancos do carro n&deg;<br \/>\n    117. Passepartout figurava na primeira fila dos fi&eacute;is. Nem seu patr&atilde;o<br \/>\n    nem Fix tinham achado que deviam sair de seus lugares.<\/p>\n<p> &Agrave; hora anunciada, o elder William Hitch levantou-se, e com uma voz<br \/>\n    bastante exaltada, como se j&aacute; tivesse sido refutado de antem&atilde;o,<br \/>\n    exclamou: Eu vos digo, eu, que Joe Smith &eacute; um m&aacute;rtir, que seu<br \/>\n    irm&atilde;o Hiram &eacute; um m&aacute;rtir, e que as persegui&ccedil;&ocirc;es<br \/>\n    do governo da Uni&atilde;o contra os profetas v&atilde;o fazer igualmente<br \/>\n    um m&aacute;rtir de Brigham Young! Quem ousar&aacute; sustentar o contr&aacute;rio?<br \/>\n    Ningu&eacute;m se atreveu a contradizer o mission&aacute;rio, cuja exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contrastava com sua fisionomia naturalmente calma. Mas, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    sua c&oacute;lera se explicava pelo fato de que o mormonismo estava atualmente<br \/>\n    submetido a duras provas. E, com efeito, o governo dos Estados Unidos acabava,<br \/>\n    n&atilde;o sem dificuldade, de dominar estes fan&aacute;ticos independentes.<br \/>\n    Tinha se assenhorado de Utah, e o tinha submetido &agrave;s leis da Uni&atilde;o,<br \/>\n    depois de ter aprisionado Brigham Young, acusado de rebeli&atilde;o e de poligamia.<br \/>\n    Desde esta &eacute;poca, os disc&iacute;pulos do profeta redobraram seus esfor&ccedil;os,<br \/>\n    e, aguardando os atos, resistiam pela palavra &agrave;s preten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do Congresso.<\/p>\n<p> Como se v&ecirc;, o elder William Hitch fazia proselitismo at&eacute; em<br \/>\n    estrada de ferro.<\/p>\n<p> E ent&atilde;o contou, inflamando seu discurso com eleva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da voz e a viol&ecirc;ncia de seus gestos, a hist&oacute;ria do Mormonismo<br \/>\n    desde os tempos b&iacute;blicos: como, em Israel, um profeta m&oacute;rmon<br \/>\n    da tribo de Joseph publicou os anais da nova religi&atilde;o, e os legou a<br \/>\n    seu filho Morom; como, muitos s&eacute;culos depois, uma tradu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste precioso livro, escrito em caracteres eg&iacute;pcios, foi feita por<br \/>\n    Joseph Smith junior, fazendeiro do Estado de Vermont, que se revelou como<br \/>\n    profeta m&iacute;stico em 1825; como, finalmente, um mensageiro celeste lhe<br \/>\n    apareceu numa floresta luminosa e lhe devolveu os anais do Senhor. Neste momento,<br \/>\n    alguns ouvintes, pouco interessados pela narrativa retrospectiva do mission&aacute;rio,<br \/>\n    deixaram o vag&atilde;o; mas William Hitch, continuando, contou como Smith<br \/>\n    junior, reunindo seu pai, seus dois irm&atilde;os e alguns disc&iacute;pulos,<br \/>\n    fundou a religi&atilde;o dos Santos dos &uacute;ltimos dias religi&atilde;o<br \/>\n    que, adotada n&atilde;o s&oacute; na Am&eacute;rica, mas na Inglaterra, na<br \/>\n    Escandin&aacute;via, na Alemanha, conta entre seus fi&eacute;is artes&atilde;os<br \/>\n    e tamb&eacute;m grande n&uacute;mero de pessoas que exercem profiss&otilde;es<br \/>\n    liberais; como uma col&ocirc;nia foi fundada no Ohio; como um templo foi edificado<br \/>\n    ao pre&ccedil;o de duzentos mil d&oacute;lares e uma cidade fundada em Kirkland;<br \/>\n    como Smith se tornou um audacioso banqueiro e recebeu de um simples expositor<br \/>\n    de m&uacute;mias um papiro contendo uma narrativa escrita pela m&atilde;o<br \/>\n    de Abraham e outros c&eacute;lebres Eg&iacute;pcios. Esta narrativa tornando-se<br \/>\n    um pouco longa, as filas dos ouvintes rarearam ainda mais, e o p&uacute;blico<br \/>\n    s&oacute; se compunha agora de umas vinte pessoas.<\/p>\n<p> Mas o elder, sem se inquietar com essa deser&ccedil;&atilde;o, contou com<br \/>\n    detalhes como foi que Joe Smith foi &agrave; bancarrota em 1837; como foi<br \/>\n    que os seus acionistas arruinados o untaram de alcatr&atilde;o e o rolaram<br \/>\n    sobre penas; como foi que o reencontramos, mais honor&aacute;vel e mais honrado<br \/>\n    do que nunca, alguns anos depois, em Independance, no Missouri, e chefe de<br \/>\n    uma comunidade florescente, que n&atilde;o contava menos de tr&ecirc;s mil<br \/>\n    disc&iacute;pulos, e que ent&atilde;o, perseguido pelo &oacute;dio dos gentios,<br \/>\n    teve de fugir para o Far West americano. Dez ouvintes ainda estavam l&aacute;,<br \/>\n    e entre eles o bom Passepartout, que escutava com a maior aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Foi assim que aprendeu como, depois de longas porsegui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    Smith reapareceu no Illinois e fundou em 1839, sobre as margens do Mississipi,<br \/>\n    Nauvoo-la-Belle, cuja popula&ccedil;&atilde;o se elevou a vinte e cinco mil<br \/>\n    almas; como Smith se tornou prefeito, juiz supremo e general em chefe desta<br \/>\n    comunidade; como, em 1843, lan&ccedil;ou sua candidatura &agrave; presid&ecirc;ncia<br \/>\n    dos Estados Unidos, e como finalmente, atra&iacute;do a uma cilada, em Carthago,<br \/>\n    foi lan&ccedil;ado na pris&atilde;o e assassinado por um bando de homens mascarados.<br \/>\n    Neste momento, Passepartout estava absolutamente s&oacute; no vag&atilde;o<br \/>\n    e o elder, olhando-o na face, fascinando-o com as suas palavras, lhe contou<br \/>\n    que, dois dias depois do assassinato de Smith, seu suceessor, o profeta inspirado,<br \/>\n    Brigham Young, abandonando Nauvoo, veio se estabelecer nas margens do lago<br \/>\n    Salgado, e que l&aacute;, sobre esse admir&aacute;vel territ&oacute;rio, em<br \/>\n    meio desta regi&atilde;o f&eacute;rtil, no caminho dos emigrantes que atravessavam<br \/>\n    Utah para se dirigirem &agrave; Calif&oacute;rnia, a nova col&ocirc;nia, gra&ccedil;as<br \/>\n    aos princ&iacute;pios pol&iacute;gamos do mormonismo, floresceu.<\/p>\n<p> E a&iacute; est&aacute;, acrescentou William Hitch, a&iacute; est&aacute;<br \/>\n    o por qu&ecirc; do ci&uacute;me do Congresso se exercer contra n&oacute;s!<br \/>\n    porque os soldados da Uni&atilde;o pisotearam o solo de Utah! porque nosso<br \/>\n    chefe, o profeta Brigham Young, foi preso com menosprezo de toda justi&ccedil;a!<br \/>\n    Cederemos &agrave; for&ccedil;a? Jamais! Expulsos do Vermont, expulsos do<br \/>\n    Illinois, expulsos do Ohio, expulsos do Missouri, expulsos do Utah, reencontraremos<br \/>\n    ainda algum territ&oacute;rio independente onde plantaremos nossa tenda&#8230;<br \/>\n    E v&oacute;s, meu fiel, acrescentou o elder, fitando no seu &uacute;nico ouvinte<br \/>\n    olhares col&eacute;ricos, plantareis a vossa &agrave; sombra da nossa bandeira?<br \/>\n    N&atilde;o, respondeu corajosamente Passepartout, que saiu, deixando o energ&uacute;meno<br \/>\n    a pregar no deserto.<\/p>\n<p> Durante a confer&ecirc;ncia, o trem tinha andado rapidamente, e, pelo meio<br \/>\n    dia e meia, tocava no ponto noroeste do grande lago Salgado. Da&iacute;, podia-se<br \/>\n    divisar, sobre um grande per&iacute;metro, o aspecto desse mar interior, que<br \/>\n    tamb&eacute;m tem o nome de mar Morto e no qual des&aacute;gua um Jord&atilde;o<br \/>\n    da Am&eacute;rica. Lago admir&aacute;vel, enquadrado por belas rochas selvagens,<br \/>\n    em grandes camadas, encrustadas de sal branco, soberbo len&ccedil;ol de &aacute;gua<br \/>\n    que cobria outrora um espa&ccedil;o mais consider&aacute;vel; mas com o tempo,<br \/>\n    suas margens, subindo pouco a pouco, reduziram sua superf&iacute;cie aumentando<br \/>\n    sua profundidade.<\/p>\n<p> O lago Salgado, do comprimento de quase setenta milhas, trinta e cinco milhas<br \/>\n    de largura, est&aacute; situado a tr&ecirc;s mil e oitocentos p&eacute;s acima<br \/>\n    do n&iacute;vel do mar. Bem diferente do lago Asphaltite, cuja depress&atilde;o<br \/>\n    acusa duzentos p&eacute;s abaixo, sua salgacidade &eacute; consider&aacute;vel,<br \/>\n    e suas &aacute;guas t&ecirc;m em dissolu&ccedil;&atilde;o o quarto de seu<br \/>\n    peso de mat&eacute;ria s&oacute;lida. Seu peso espec&iacute;fico &eacute;<br \/>\n    de 1.170, o da &aacute;gua distilada sendo 1.000. Por isso os peixes n&atilde;o<br \/>\n    podem a&iacute; viver. Os que o Jord&atilde;o, o Weber e outros creeks a&iacute;<br \/>\n    lan&ccedil;am morrem logo; mas n&atilde;o &eacute; verdade que a densidade<br \/>\n    das &aacute;guas seja tal que um homem n&atilde;o possa mergulhar nelas.<\/p>\n<p> Em redor do lago, o campo estava muito bem cultivado, porque os m&oacute;rmons<br \/>\n    s&atilde;o h&aacute;beis nos trabalhos da terra: ranchos e currais para os<br \/>\n    animais dom&eacute;sticos, campos de trigo, de milho, de sorgo, pradarias<br \/>\n    luxuriantes, por toda parte sebes de roseiras selvagens, buqu&ecirc;s de ac&aacute;cias<br \/>\n    e do euf&oacute;rbios, tal teria sido o aspecto desta regi&atilde;o seis meses<br \/>\n    mais tarde; mas neste momento o solo desaparecia sob uma fina camada de neve,<br \/>\n    que o polvilhava ligeiramente.<\/p>\n<p> &Agrave;s duas horas, os viajantes desceram na esta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Ogden. O trem n&atilde;o deveria partir de novo sen&atilde;o &agrave;s seis<br \/>\n    horas. Mr. Fogg, Mrs. Aouda e seus dois companheiros tinham pois tempo para<br \/>\n    visitar a Cidade dos Santos pelo pequeno ramal que sai da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Ogden. Duas horas bastariam para visitar esta cidade absolutamente americana<br \/>\n    e, como tal, edificada no padr&atilde;o de todas as cidades da Uni&atilde;o,<br \/>\n    vastos taboleiros de xadrez com longas linhas frias, com a tristeza l&uacute;gubre<br \/>\n    dos &acirc;ngulos rectos segundo a express&atilde;o de Victor Hugo. O fundador<br \/>\n    da Cidade dos Santos n&atilde;o podia escapar desta necessidade de simetria<br \/>\n    que caracteriza os anglo-sax&otilde;es. Neste pa&iacute;s t&atilde;o singular,<br \/>\n    onde os homens n&atilde;o est&atilde;o por certo &agrave; altura das institui&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tudo se faz ao quadrado, as cidades, as casas e as tolices.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s horas, os viajantes passeavam ainda pelas ruas da cidade,<br \/>\n    edificada entre a margem do Jord&atilde;o e as primeiras ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos montes Wahsatch. Notaram poucas ou nenhuma igreja, mas, como monumentos,<br \/>\n    a casa do profeta, o tribunal e o arsenal; depois, as casas de tijolos azulados<br \/>\n    com varandas e galerias, rodeadas de jardins bordados de ac&aacute;cias, palmeiras<br \/>\n    e alfarrobeiras. Uma muro de argilha e de calhaus, constru&iacute;do em 1853,<br \/>\n    cingia a cidade. Na rua principal, onde est&aacute; o mercado, elevavam-se<br \/>\n    alguns hot&eacute;is ornados com pavilh&otilde;es, e entre outros o Lake Salt<br \/>\n    House.<\/p>\n<p> Mr. Fogg e os seus companheiros n&atilde;o acharam a cidade muito povoada.<br \/>\n    As ruas estavam quase desertas menos a parte do Templo onde n&atilde;o chegaram<br \/>\n    sen&atilde;o depois de ter atravessado muitos bairros rodeados por pali&ccedil;adas.<br \/>\n    As mulheres eram muito numerosas, o que se explica pela singular composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    familiar m&oacute;rmon. N&atilde;o se deve contudo supor que todos os m&oacute;rmons<br \/>\n    sejam pol&iacute;gamos. H&aacute; liberdade de escolha, mas &eacute; bom notar<br \/>\n    que s&atilde;o as cidad&atilde;s de Utah que querem sobretudo ser esposadas,<br \/>\n    porque, de acordo com a religi&atilde;o local, o c&eacute;u m&oacute;rmon<br \/>\n    n&atilde;o admite o acesso &agrave;s suas beatitudes &agrave;s celibat&aacute;rias<br \/>\n    do sexo feminino. Estas pobres criaturas n&atilde;o parecem nem chateadas<br \/>\n    nem felizes. Algumas, as mais ricas decerto, trajavam uma jaqueta de seda<br \/>\n    preta aberta na cintura, sob um capuz ou de um chale muito modesto. As demais<br \/>\n    vestiam-se com chita.<\/p>\n<p> Passepartout, esse, na sua qualidade de solteiro convicto, n&atilde;o olhava<br \/>\n    sem certo terror para as m&oacute;rmons encarregadas de fazerem, em penca,<br \/>\n    a felicidade de um s&oacute; m&oacute;rmon. Em seu bom senso, lastimava os<br \/>\n    maridos. Parecia-lhe uma coisa terr&iacute;vel ter de guiar tantas mulheres<br \/>\n    atrav&eacute;s das vicissitudes da vida, conduzi-las assim em penca ao para&iacute;so<br \/>\n    m&oacute;rmon, com a perspectiva de tornar a encontr&aacute;-las na eternidade,<br \/>\n    em companhia do glorioso Smith, que deveria ser o ornamento deste lugar de<br \/>\n    del&iacute;cias. Decididamente, n&atilde;o sentia a voca&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e achava talvez nisto se iludisse que as cidad&atilde;s do Great Lake City<br \/>\n    deitavam sobre sua pessoa olhares um pouco inquietadores.<\/p>\n<p> Muito felizmente, sua perman&ecirc;ncia na Cidade dos Santos n&atilde;o<br \/>\n    deveria prolongar-se. &Agrave;s quatro horas menos alguns minutos, os viajantes<br \/>\n    estavam outra vez na esta&ccedil;&atilde;o e retomavam seus lugares nos vag&otilde;es.<\/p>\n<p> O apito do trem se fez ouvir; mas no momento em que as rodas motoras da<br \/>\n    locomotiva, patinando sobre os rails, come&ccedil;avam a imprimir ao trem<br \/>\n    alguma velocidade, estes gritos: Parem! parem! ressoaram.<\/p>\n<p> N&atilde;o se det&eacute;m um trem em movimento. O gentleman que proferia<br \/>\n    estes gritos era evidentemente algum m&oacute;rmon retardat&aacute;rio. Corria<br \/>\n    a ponto de ficar sem ar. Felizmente para ele, a esta&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    tinha nem portas nem barreiras. Lan&ccedil;ou-se ent&atilde;o sobre a via,<br \/>\n    saltou sobre o estribo do &uacute;ltimo vag&atilde;o, e caiu sem ar sobre<br \/>\n    um dos bancos do vag&atilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout, que tinha seguido com interesse os percal&ccedil;os desta<br \/>\n    gin&aacute;stica, veio contemplar o retardat&aacute;rio, pelo qual se interessou<br \/>\n    muito quando soube que este cidad&atilde;o de Utah s&oacute; tinha tentado<br \/>\n    a fuga depois de um acontecimento dom&eacute;stico.<\/p>\n<p> Quando o m&oacute;rmon tomou f&ocirc;lego, Passepartout animou-se a perguntar-lhe<br \/>\n    polidamente quantas mulheres tinha, para ele s&oacute; pois pela maneira que<br \/>\n    vinha de dar no p&eacute;, supunha que tinha umas vinte, pelo menos.<\/p>\n<p> Uma, senhor! respondeu o m&oacute;rmon levantando os bra&ccedil;os para<br \/>\n    o c&eacute;u, uma e j&aacute; era muito!<\/p>\n<h4><a name=\"28\" id=\"28\">CAP&Iacute;TULO XXVIII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT N&Atilde;O CONSEGUE QUE OU&Ccedil;AM A VOZ DA RAZ&Atilde;O<br \/>\n    <\/b><\/p>\n<p>O trem, saindo de Great Salt Lake e da esta&ccedil;&atilde;o de Ogden, subiu<br \/>\n    durante uma hora para o norte, at&eacute; Weber River, tendo percorrido quase<br \/>\n    novecentas milhas desde que partira de S&atilde;o Francisco. A partir deste<br \/>\n    ponto, retomou a dire&ccedil;&atilde;o do leste, atrav&eacute;s do maci&ccedil;o<br \/>\n    acidentado dos montes Wahsatch. &Eacute; nesta parte do territ&oacute;rio,<br \/>\n    compreendida entre as montanhas Rochosas propriamente ditas, que os engenheiros<br \/>\n    americanos lutaram com as maiores dificuldades. Por isso tamb&eacute;m que<br \/>\n    nesta por&ccedil;&atilde;o do trajeto a subven&ccedil;&atilde;o do governo<br \/>\n    subiu para quarenta e oito mil d&oacute;lares por milha, enquanto tinha sido<br \/>\n    de dezeseis mil d&oacute;lares na plan&iacute;cie; mas os engenheiros, como<br \/>\n    j&aacute; foi dito, n&atilde;o violentaram a natureza, usaram de ast&uacute;cia<br \/>\n    com ela, contornando as dificuldades, e para atingir a grande bacia, apenas<br \/>\n    um t&uacute;nel, com quatorze mil p&eacute;s de extens&atilde;o, foi furado<br \/>\n    em todo o percurso da rail-road.<\/p>\n<p> Era no lago Salgado mesmo que a estrada de ferro tinha atingido at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o sua maior cota de altitute. Desde este ponto, seu perfil descrevia<br \/>\n    uma curva muito alongada, abaixando-se para o vale do Bitter Creek, para subir<br \/>\n    at&eacute; ao ponto onde se dividem as &aacute;guas do Atl&acirc;ntico e do<br \/>\n    Pac&iacute;fico. Os rios eram numerosos nesta regi&atilde;o montanhosa. Foi<br \/>\n    necess&aacute;rio franquear sobre pequenas pontes o Muddy, o Green e outros.<br \/>\n    Passepartout ia ficando mais impaciente &agrave; medida em que se aproximava<br \/>\n    o fim da viagem. Mas Fix, por sua vez, teria desejado que j&aacute; tivessem<br \/>\n    sa&iacute;do desta dif&iacute;cil regi&atilde;o. Receava as demoras, acreditava<br \/>\n    em acidentes, e tinha mais pressa do que o pr&oacute;prio Phileas Fogg para<br \/>\n    p&ocirc;r os p&eacute;s em terra inglesa.<\/p>\n<p> &Agrave;s dez da noite, o trem parou na esta&ccedil;&atilde;o de Fort Bridger,<br \/>\n    que deixou quase imediatamente, e, vinte mil milhas mais adiante, entrou no<br \/>\n    estado de Wyoming o antigo Dakota seguindo todo o vale do Bitter Creek, onde<br \/>\n    se escoa uma parte das &aacute;guas que formam o sistema hidrogr&aacute;fico<br \/>\n    do Colorado.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 7 de dezembro, houve uma parada de quarto de hora na esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Green River. A neve tinha ca&iacute;do durante a noite em abund&acirc;ncia,<br \/>\n    mas, misturada com a chuva, e meio derretida, n&atilde;o podia estorvar a<br \/>\n    marcha do trem. Entretanto, este mau tempo n&atilde;o deixou de inquietar<br \/>\n    Passepartout, porque a acumula&ccedil;&atilde;o das neves, atolando as rodas<br \/>\n    dos vag&otilde;es, haveria certamente de comprometer a viagem.<\/p>\n<p> Na verdade, que id&eacute;ia, dizia-se, meu patr&atilde;o teve de viajar<br \/>\n    no inverno! N&atilde;o poderia ter esperado a ver&atilde;o para aumentar suas<br \/>\n    possibilidades de &ecirc;xito? Mas, neste momento em que o honesto rapaz s&oacute;<br \/>\n    se preocupava com o estado do c&eacute;u e com a queda da temperatura, Mrs.<br \/>\n    Aouda experimentava receios mais s&eacute;rios, que provinham de causa bem<br \/>\n    diversa.<\/p>\n<p> Com efeito, alguns viajantes tinham descido do vag&atilde;o, e passeavam<br \/>\n    pela plataforma da esta&ccedil;&atilde;o de Green River, esperando a partida<br \/>\n    do trem. Ora, pelo vidro, a jovem reconheceu entre eles o coronel Stamp W.<br \/>\n    Proctor, o americano que tinha se comportado t&atilde;o grosseiramente com<br \/>\n    Phileas Fogg durante o meeting de S&atilde;o Francisco. Mrs. Aouda, n&atilde;o<br \/>\n    querendo ser vista, recuou.<\/p>\n<p> Este fato impressionou extremamente a jovem. Ela tinha se afei&ccedil;oado<br \/>\n    ao homem que, friamente que fosse, lhe dava todos os dias provas da mais absoluta<br \/>\n    dedica&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o compreendia, sem d&uacute;vida, toda a<br \/>\n    profundidade do sentimento que lhe inspirava seu salvador, e a este sentimento<br \/>\n    ainda dava o nome de reconhecimento, mas, sem que soubesse, era mais que isso.<br \/>\n    Assim seu cora&ccedil;&atilde;o saltou, quando reconheceu o grosseiro personagem<br \/>\n    a quem Mr. Fogg queria cedo ou tarde pedir uma explica&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    sua conduta. Evidentemente, era apenas o acaso que tinha trazido a este trem<br \/>\n    o coronel Proctor, mas, fosse como fosse, ele estava ali, e era preciso impedir<br \/>\n    a todo o custo que Phileas Fogg avistasse seu advers&aacute;rio.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda, quando o trem se p&ocirc;s novamente em movimento, aproveitou<br \/>\n    um momento em que Mr. Fogg dormitava, para colocar Fix e Passepartout a par<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O tal do Proctor est&aacute; no trem! exclamou Fix. Pois bem, tenha certeza,<br \/>\n    madame, antes de se bater com o senhor&#8230; com Mr. Fogg, ter&aacute; de bater-se<br \/>\n    comigo! Parece-me que, em tudo isto, fui eu quem recebeu os mais graves insultos!<br \/>\n    E, al&eacute;m disso, acrescentou Passepartout, eu me encarrego dele, por<br \/>\n    mais coronel que seja.<\/p>\n<p> Senhor Fix, retomou Mrs. Aouda, Mr. Fogg n&atilde;o deixar&aacute; que ningu&eacute;m<br \/>\n    se vingue por ele. &Eacute; homem, como disse, de voltar &agrave; Am&eacute;rica<br \/>\n    para procurar seu ofensor. Se, portanto, v&ecirc; o coronel, n&atilde;o vamos<br \/>\n    poder impedir um duelo, que pode ter deplor&aacute;veis resultados. &Eacute;<br \/>\n    preciso portanto que ele n&atilde;o o veja.<\/p>\n<p> Tem raz&atilde;o, madame, respondeu Fix, um duelo poderia p&ocirc;r tudo<br \/>\n    a perder. Vencedor ou vencido, Mr. Fogg demorar-se-ia, e&#8230;<\/p>\n<p> E, acrescentou Passepartout, isso faria o jogo dos gentlemen do Reform Club.<br \/>\n    Em quatro dias estaremos em Nova York! Pois bem, se durante quatro dias meu<br \/>\n    patr&atilde;o n&atilde;o sair do seu vag&atilde;o, podemos esperar que o acaso<br \/>\n    n&atilde;o o ponha cara a cara com este maldito americano, que Deus confunda!<br \/>\n    Ora, saberemos impedir&#8230;<\/p>\n<p> A conversa foi suspensa. Mr. Fogg tinha acordado, e contemplava a campina<br \/>\n    pelo vidro rajado de neve. Mais tarde, e sem ser ouvido por seu patr&atilde;o<br \/>\n    nem por Mrs. Aouda, Passepartout disse ao inspetor de pol&iacute;cia: O senhor,<br \/>\n    realmente, se bateria por ele? Farei tudo para lev&aacute;-lo vivo para a<br \/>\n    Europa! respondeu simplesmente Fix, em um tom que denotava uma vontade implac&aacute;vel.<\/p>\n<p> Passepartout sentiu um arrepio correr por todo o corpo, mas suas convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a respeito do patr&atilde;o n&atilde;o fraquejaram.<\/p>\n<p> E agora, haveria algum meio de reter Mr. Fogg no seu compartimento para<br \/>\n    prevenir qualquer encontro entre o coronel e ele? N&atilde;o deveria ser dif&iacute;cil,<br \/>\n    o gentleman sendo naturalmente pouco dado aos movimentos e pouco curioso.<br \/>\n    Em todo caso, o agente de pol&iacute;cia julgou ter descoberto esse meio,<br \/>\n    porque momentos depois dizia a Phileas Fogg: S&atilde;o longas e lentas horas,<br \/>\n    senhor, estas que se passa assim na estrada de ferro.<\/p>\n<p> Com efeito, respondeu o gentleman, mas elas passam.<\/p>\n<p> Nos paquetes, retomou o inspetor, n&atilde;o tinha o h&aacute;bito de jogar<br \/>\n    whist? Sim, respondeu Phileas Fogg, mas aqui seria dif&iacute;cil. N&atilde;o<br \/>\n    tenho nem cartas nem parceiros.<\/p>\n<p> Oh! as cartas, podemos compr&aacute;-las. Vende-se de tudo nos vag&otilde;es<br \/>\n    americanos. Quanto aos parceiros, se, por acaso, madame&#8230;<\/p>\n<p> Certamente, senhor, respondeu animadamente a jovem, sei jogar whist. Faz<br \/>\n    parte da educa&ccedil;&atilde;o inglesa.<\/p>\n<p> E eu, retomou Fix, tenho algumas preten&ccedil;&otilde;es de jogar bem esse<br \/>\n    jogo. Ora, n&oacute;s tr&ecirc;s e um morto&#8230;<\/p>\n<p> Como quiser, senhor, respondeu Phileas Fogg, encantado em retomar seu jogo<br \/>\n    favorito mesmo numa estrada de ferro.<\/p>\n<p> Passepartout foi despachado &agrave; procura do stewart e voltou pouco depois<br \/>\n    com dois baralhos completos, fichas, tentos, e um tabuleiro recoberto de pano.<br \/>\n    N&atilde;o faltava nada. O jogo come&ccedil;ou. Mrs. Aouda sabia suficientemente<br \/>\n    o whist, e at&eacute; recebeu alguns comprimentos do severo Phileas Fogg.<br \/>\n    Quanto ao inspetor, era simplesmente excelente jogador, e digno de sentar-se<br \/>\n    &agrave; frente do gentleman.<\/p>\n<p> Agora, disse consigo Passepartout, n&oacute;s o temos seguro. N&atilde;o<br \/>\n    se mexe mais! &Agrave;s onze da manh&atilde;, o trem tinha atingido o ponto<br \/>\n    onde se dividem as &aacute;guas dos dois oceanos. Era em Bridger Pass, a uma<br \/>\n    altura de sete mil quinhentos e oitenta e quatro p&eacute;s ingleses acima<br \/>\n    do n&iacute;vel do mar, um dos pontos mais altos do tra&ccedil;ado da estrada<br \/>\n    em sua passagem pelas montanhas Rochosas. Quase duzentas milhas mais adiante,<br \/>\n    os viajantes achar-se-iam finalmente sobre as extensas pradarias que se estendem<br \/>\n    at&eacute; o Atl&acirc;ntico, e que a natureza tornara t&atilde;o prop&iacute;cias<br \/>\n    para o estabelecimento de uma via f&eacute;rrea.<\/p>\n<p> Sobre a vertente da bacia atl&acirc;ntica se desenvolviam j&aacute; os primeiros<br \/>\n    rios, afluentes e sub-afluents do North Platte River. Todo o horizonte do<br \/>\n    norte e do leste estava coberto pela imensa cortina semi-circular que forma<br \/>\n    a por&ccedil;&atilde;o setentrional das Rocky Mountains, dominada pelo pico<br \/>\n    de Laramie. Entre esta curvatura e a estrada de ferro estendiam-se vastas<br \/>\n    plan&iacute;cies abundantemente regadas. &Agrave; direita da linha f&eacute;rrea<br \/>\n    sobrep&otilde;em-se as primeiras rampas do maci&ccedil;o montanhoso que se<br \/>\n    arredonda ao sul at&eacute; &agrave;s nascentes do rio Arkansas, um dos grandes<br \/>\n    tribut&aacute;rios do Missouri.<\/p>\n<p> Ao meio dia e meia, os viajantes entreviram por instantes o forte Halleck,<br \/>\n    que comanda esta regi&atilde;o. Ainda algumas horas e a travessia das Montanhas<br \/>\n    Rochosas estaria completa. Podia-se pois esperar que nenhum acidente sinalizaria<br \/>\n    a passagem do trem por esta dif&iacute;cil regi&atilde;o. A neve cessara de<br \/>\n    cair. O tempo tornara-se frio e seco. Grandes p&aacute;ssaros, assustados<br \/>\n    pela locomotiva, fugiam ao longe. Nenhuma fera, urso ou lobo, se mostrava<br \/>\n    na plan&iacute;cie. Era o deserto em sua imensa nudez.<\/p>\n<p> Depois de um almo&ccedil;o bastante confort&aacute;vel, servido no pr&oacute;prio<br \/>\n    vag&atilde;o, Mr. Fogg e os seus parceiros recome&ccedil;avam o intermin&aacute;vel<br \/>\n    whist, quando violentos apitos e fizeram ouvir. O trem parou.<\/p>\n<p> Passepartout colocou a cabe&ccedil;a para fora e n&atilde;o viu nada que<br \/>\n    motivasse a parada. N&atilde;o havia nenhuma esta&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    vista.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda e Fix por um instante recearam que Mr. Fogg pensasse em descer<br \/>\n    para a via. Mas o gentleman contentou- se em dizer ao criado: Veja o que &eacute;.<\/p>\n<p> Passepartout saltou para fora do vag&atilde;o. Uns quarenta passageiros<br \/>\n    tinham j&aacute; abandonado os seus lugares, entre eles o coronel Stamp W.<br \/>\n    Proctor.<\/p>\n<p> O trem tinha parado por causa de um sinal vermelho que impedia a passagem.<br \/>\n    O maquinista e o condutor, tendo descido, discutiam acaloradamenre com um<br \/>\n    guarda ferrovi&aacute;rio, que o chefe de esta&ccedil;&atilde;o de Medicine<br \/>\n    Bow, a pr&oacute;xima esta&ccedil;&atilde;o, tinha enviado ao encontro do<br \/>\n    trem. Viajantes tinham-se aproximado e participavam da discuss&atilde;o entre<br \/>\n    eles achava-se o mencionado coronel Proctor, com a sua voz alta e seus gestos<br \/>\n    imperiosos.<\/p>\n<p> Passepartout, tendo se unido ao grupo, ouviu o guarda-ferrovi&aacute;rio<br \/>\n    dizer: N&atilde;o! n&atilde;o h&aacute; meio de passar! A ponte de Medicine<br \/>\n    Bow est&aacute; alu&iacute;da e n&atilde;o suportaria o peso do trem.<\/p>\n<p> A ponte, de que falavam, era uma ponte p&ecirc;nsil lan&ccedil;ada sobre<br \/>\n    um desfiladeiro, a uma milha de dist&acirc;ncia do lugar onde o trem tinha<br \/>\n    parado. No dizer do guarda, amea&ccedil;ava ruir, muitos dos fios estavam<br \/>\n    rompidos, e era imposs&iacute;vel arriscar sua travessia. O guarda n&atilde;o<br \/>\n    exagerava de modo algum afirmando que n&atilde;o se poderia passar. E al&eacute;m<br \/>\n    disso, com os h&aacute;bitos negligentes dos americanos, pode-se dizer que,<br \/>\n    quando eles se p&otilde;em a ser prudentes, &eacute; loucura n&atilde;o o<br \/>\n    ser.<\/p>\n<p> Passepartout, n&atilde;o se atrevendo a ir avisar o seu patr&atilde;o, escutava,<br \/>\n    os dentes cerrados, im&oacute;vel como uma est&aacute;tua.<\/p>\n<p> Ora! bradava o coronel Proctor, n&atilde;o vamos, imagino, ficar aqui a<br \/>\n    deitar ra&iacute;zes na neve! Coronel, respondeu o condutor, telegrafamos<br \/>\n    para a esta&ccedil;&atilde;o de Omaha pedindo um trem, mas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    prov&aacute;vel que chegue a Medicine Bow antes de seis horas.<\/p>\n<p> Seis horas! exclamou Passepartout.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida, respondeu o condutor. Al&eacute;m do mais, esse tempo<br \/>\n    nos ser&aacute; necess&aacute;rio para chegar &agrave; esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a p&eacute;.<\/p>\n<p> A p&eacute;! exclamaram todos os viajantes.<\/p>\n<p> Mas a que dist&acirc;ncia fica essa esta&ccedil;&atilde;o? perguntou um<br \/>\n    deles ao condutor.<\/p>\n<p> A doze milhas, do outro lado do rio.<\/p>\n<p> Doze milhas na neve! exclamou Stamp W. Proctor.<\/p>\n<p> O coronel soltou um monte de pragas, queixando-se da companhia, queixando-se<br \/>\n    do condutor; e Passepartout, furioso, n&atilde;o estava longe de fazer-lhe<br \/>\n    coro. Havia a&iacute; um obst&aacute;culo material contra o qual nada podiam,<br \/>\n    desta vez, todas as bank-notes de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> E tem mais, o desapontamento era geral entre os viajantes, que, sem contar<br \/>\n    o atraso, se viam obrigados a andar quinze milhas atrav&eacute;s da plan&iacute;cie<br \/>\n    coberta de neve. Por isso levantou-se logo um borburinho, exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    vocifera&ccedil;&otilde;es, que teriam certamente atra&iacute;do a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Phileas Fogg, se o gentleman n&atilde;o estivesse t&atilde;o absorto em<br \/>\n    seu jogo.<\/p>\n<p> Entretanto, Passepartout achou que deveria preveni-lo, e, cabe&ccedil;a<br \/>\n    baixa, dirigia-se para o vag&atilde;o, quando o maquinista do trem um verdadeiro<br \/>\n    yankee chamado Forster elevando a voz, disse: Senhores, talvez haja um meio<br \/>\n    de passar.<\/p>\n<p> Sobre a ponte? respondeu um viajante.<\/p>\n<p> Sobre a ponte.<\/p>\n<p> Com nosso trem? perguntou o coronel.<\/p>\n<p> Com nosso trem.<\/p>\n<p> Passepartout tinha parado, e devorava as palavras do maquinista.<\/p>\n<p> Mas a ponte amea&ccedil;a ruir! retomou o condutor.<\/p>\n<p> N&atilde;o importa, respondeu Forster. Creio que lan&ccedil;ando o trem<br \/>\n    com sua m&aacute;xima velocidade, temos algumas chances de passar.<\/p>\n<p> Diabo! disse Passepartout.<\/p>\n<p> Mas um certo n&uacute;mero de viajantes tinha ficado imediatamente seduzido<br \/>\n    pela proposta. Ela agradava particularmente ao coronel Proctor. Este c&eacute;lebro<br \/>\n    esquentado achava a coisa muito fact&iacute;vel. Lembrou mesmo que engenheiros<br \/>\n    tinham tido a id&eacute;ia de passar os rios sem pontes com trens r&iacute;gidos<br \/>\n    lan&ccedil;ados a toda velocidade, etc. E, afinal, todos os interessados na<br \/>\n    quest&atilde;o se colocaram do lado do maquinista.<\/p>\n<p> Temos cinq&uuml;enta probabilidades de passar, dizia um.<\/p>\n<p> Sessenta, dizia outro.<\/p>\n<p> Oitenta!&#8230; noventa sobre cem! Passepartout estava aturdido, apesar de se<br \/>\n    sentir disposto a tentar tudo para fazer a passagem do Medicine Creek, mas<br \/>\n    a tentativa parecia-lhe um pouco demais americana.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, pensou, h&aacute; uma coisa bem mais simples, e esta<br \/>\n    gente nem sequer pensa nela!&#8230;<\/p>\n<p> Senhor, disse a um dos viajantes, o meio proposto pelo maquinista me parece<br \/>\n    um pouco arrojado, mas&#8230;<\/p>\n<p> Oitenta probabilidades! respondeu o viajante, que lhe virou as costas.<\/p>\n<p> Bem sei, respondeu Passepartout dirigindo-se a um outro gentleman, mas uma<br \/>\n    simples reflex&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Nada de reflex&atilde;o, &eacute; in&uacute;til! respondeu o americano encolhendo<br \/>\n    os ombros, o maquinista afirma que passar&aacute;! Sem d&uacute;vida, retomou<br \/>\n    Passepartout, passsar&aacute;, mas seria talvez mais prudente&#8230;<\/p>\n<p> O que! prudente! exclamou o coronel Proctor, a quem esta palavra, ouvida<br \/>\n    casualmente, fez dar um pulo. A toda a velocidade, &eacute; o que se diz!<br \/>\n    Compreende? A toda velocidade! Eu sei&#8230; eu compreendo&#8230; repetia Passepartout,<br \/>\n    a quem ningu&eacute;m deixava concluir sua frase, mas seria, n&atilde;o digo<br \/>\n    mais prudente, porque esta palavra desagrada, pelo menos mais natural&#8230;<\/p>\n<p> Qu&ecirc;? o qu&ecirc;? Que quer dizer com esse natural?&#8230; exclamaram de<br \/>\n    todos os lados.<\/p>\n<p> O pobre mo&ccedil;o j&aacute; n&atilde;o sabia quem poderia ouvi-lo.<\/p>\n<p> Tem medo? perguntou o coronel Proctor.<\/p>\n<p> Eu! medo! exclamou Passepartout. Bem, que seja. Vou mostrar a esta gente<br \/>\n    que um franc&ecirc;s pode ser t&atilde;o americano como eles! Para o trem!<br \/>\n    para o trem! exclamava o condutor.<\/p>\n<p> Sim! para o trem, repetia Passepartout, para o trem! E depressa! Mas n&atilde;o<br \/>\n    me impedem de pensar que seria mais natural passarmos primeiro &agrave; p&eacute;<br \/>\n    pela ponte, n&oacute;s os viajantes, depois que passasse o trem!&#8230;<\/p>\n<p> Mas ningu&eacute;m ouviu esta s&aacute;bia reflex&atilde;o, e ningu&eacute;m<br \/>\n    decerto teria querido reconhecer sua corre&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os viajantes estavam reintegrados em seus vag&otilde;es. Passepartout retomou<br \/>\n    o seu lugar, sem nada dizer do que se passara. Os jogadores estavam totalmente<br \/>\n    absortos no jogo.<\/p>\n<p> A locomotiva apitou vigorosamante. O maquinista, revertendo o vapor, recuou<br \/>\n    o trem quase uma milha manobrando como um saltador que quer tomar impulso.<\/p>\n<p> Depois, a um segundo apito, a marcha para a frente recome&ccedil;ou; acelerou-se;<br \/>\n    logo a velocidade se tornou amedrontadora; s&oacute; se ouvia um uivo saindo<br \/>\n    da locomotiva; os pist&otilde;es batiam vinte golpes por segundo; os eixos<br \/>\n    das rodas fumegavam nas caixas de graxa. Sentia-se, por assim dizer, que o<br \/>\n    trem inteiro, galopando com uma velocidade de cem milhas por hora, n&atilde;o<br \/>\n    pesava sobre os rails. A velocidade comia o peso.<\/p>\n<p> E passou! Foi como um rel&acirc;mpago. Nem se viu a ponte. O comboio saltou,<br \/>\n    pode-se dizer, de uma margem &agrave; outra, e o maquinista n&atilde;o conseguiu<br \/>\n    deter a m&aacute;quina levada pelo impulso sen&atilde;o cinco milhas al&eacute;m<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas mal o trem tinha passado, a ponte, definitivamente arruinada, desmoronava<br \/>\n    e ca&iacute;a com estrondo no desfiladeiro de Medicine Bow.<\/p>\n<h4><a name=\"29\" id=\"29\">CAP&Iacute;TULO XXIX<\/a><\/h4>\n<p> <b>ONDE SE FAR&Aacute; A NARRA&Ccedil;&Atilde;O DE DIVERSOS INCIDENTES,<br \/>\n    QUE S&Oacute; ACONTECEM NAS ESTRADAS DE FERRO DA UNI&Atilde;O <\/b><\/p>\n<p>Naquela mesma noite, o trem prosseguindo sua rota sem obst&aacute;culos,<br \/>\n    ultrapassava o Fort Saunders, transpunha o desfiladeiro do Cheyenne, e chegava<br \/>\n    ao de Evans. Neste lugar, a rail-road atingiu o ponto mais alto do dia, ou<br \/>\n    seja oito mil noventa e um p&eacute;s acima do n&iacute;vel do mar. Os viajantes<br \/>\n    s&oacute; tinham agora que descer at&eacute; o Atl&acirc;ntico sobre essas<br \/>\n    plan&iacute;cies sem limites, niveladas pela natureza.<\/p>\n<p> L&aacute; se encontrava sobre o grande trunk, o entroncamento de Denver<br \/>\n    City, a principal cidade do Colorado. Este territ&oacute;rio &eacute; rico<br \/>\n    em minas de ouro e prata, e mais de cinq&uuml;enta mil habitantes a&iacute;<br \/>\n    j&aacute; fixaram moradia.<\/p>\n<p> Neste momento, mil trezentas oitenta e duas milhas tinham sido feitas desde<br \/>\n    S&atilde;o Francisco, em tr&ecirc;s dias e tr&ecirc;s noites. Quatro dias<br \/>\n    e quatro noites, de acordo com todas as previs&otilde;es, deveriam bastar<br \/>\n    para o trem alcan&ccedil;ar Nova York. Phileas Fogg se mantinha pois dentro<br \/>\n    dos intervalos regulamentares.<\/p>\n<p> Durante a noite, deixaram &agrave; esquerda Camp Walbach. O Lodge Pole Creek<br \/>\n    corria paralelamente &agrave; via, seguindo a fronteira retil&iacute;nea comum<br \/>\n    aos Estados de Wyoming e do Colorado. &Agrave;s onze horas entraram no Nebraska,<br \/>\n    passaram perto de Sedgwick, e chegaram a Julesburg, situado na margem sul<br \/>\n    do Platte River.<\/p>\n<p> Foi neste ponto que se fez a inaugura&ccedil;&atilde;o da Union Pacific<br \/>\n    Road, em 23 de outubro de 1887, da qual o engenheiro respons&aacute;vel foi<br \/>\n    o general J. M. Dodge. Ali pararam as duas potentes locomotivas, rebocando<br \/>\n    os nove vag&otilde;es dos convidados, entre os quais figurava o vice-presidente,<br \/>\n    Mr. Thomas C. Durant; ali reboaram as aclama&ccedil;&otilde;es; ali os Sioux<br \/>\n    e os Pawnies deram o espet&aacute;culo de uma pequena guerra ind&iacute;gena;<br \/>\n    ali, os fogos de artif&iacute;cio arderam; ali, finalmente, se publicou, em<br \/>\n    uma gr&aacute;fica port&aacute;til, o primeiro n&uacute;mero do Railway Pioneer.<br \/>\n    Assim foi celebrada a inaugura&ccedil;&atilde;o desta grande estrada de ferro,<br \/>\n    instrumento de progresso e de civiliza&ccedil;&atilde;o, lan&ccedil;ado atrav&eacute;s<br \/>\n    do deserto, e destinado a ligar entre si vilas e cidades que n&atilde;o existiam<br \/>\n    ainda. O apito da locomotiva, mais potente que a lira de Amphion, iria logo<br \/>\n    faz&ecirc;-las brotar no solo americano.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas da manh&atilde;, o forte McPherson tinha sido deixado<br \/>\n    para tr&aacute;s. Trezentas e cinq&uuml;enta e sete milhas separam este ponto<br \/>\n    de Omaha. A via f&eacute;rrea seguia, sobre sua margem esquerda, as caprichosas<br \/>\n    sinuosidades do bra&ccedil;o sul do Platte River. &Agrave;s nove horas, chegaram<br \/>\n    &agrave; importante cidade de North Platte, edificada entre o dois bra&ccedil;os<br \/>\n    do grande curso de &aacute;gua, que se re&uacute;nem em torno dela para formar<br \/>\n    uma s&oacute; art&eacute;ria afluente importante cujas &aacute;guas se confundem<br \/>\n    com as do Missouri, um pouco acima de Omaha.<\/p>\n<p> O cent&eacute;simo primeiro meridiano estava franqueado.<\/p>\n<p> Mr. Fogg e seus parceiros tinham recome&ccedil;ado o jogo. Nenhum deles<br \/>\n    se queixava da demora da viagem nem mesmo o morto. Fix tinha come&ccedil;ado<br \/>\n    ganhando alguns guin&eacute;us, que estava em vias de perder, mas nem por<br \/>\n    isso se mostrava menos entusiasmado que Mr. Fogg. Durante esta manh&atilde;,<br \/>\n    a sorte favoreceu bastante este gentleman. Os trunfos e as cartas de maior<br \/>\n    valor choviam em suas m&atilde;os. Em certo momento, depois de ter combinado<br \/>\n    um lance audacioso, preparava-se para jogar espadas, quando atr&aacute;s do<br \/>\n    banco ouviu uma voz que dizia: Se fosse eu, jogava ouros&#8230;<\/p>\n<p> Mr. Fogg, Mrs. Aouda, Fix levantaram a cabe&ccedil;a. O coronel Proctor<br \/>\n    estava perto deles.<\/p>\n<p> Stamp W. Proctor e Phileas Fogg reconheceram-se no ato.<\/p>\n<p> Ah! por aqui, senhor ingl&ecirc;s, exclamou o coronel, &eacute; o senhor<br \/>\n    que queria jogar espadas! E jogo, respondeu friamento Phileas Fogg, deitando<br \/>\n    &agrave; mesa um dez deste naipe.<\/p>\n<p> Pois bem, eu quero que sejam ouros, replicou o coronel Proctor com voz irritada.<\/p>\n<p> E fez um gesto para levantar a carta jogada, acrescentando: N&atilde;o entende<br \/>\n    nada deste jogo.<\/p>\n<p> Talvez seja mais h&aacute;bil em outro, disse Phileas Fogg, que se levantou.<\/p>\n<p> S&oacute; depende de si, filho de John Bull! replicou o grosseiro personagem.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda tinha ficado p&aacute;lida. Todo seu sangue refluiu para o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tinha agarrado o bra&ccedil;o de Phileas Fogg, que a repeliu docemente. Passepartout<br \/>\n    estava prestes a se lan&ccedil;ar sobre o americano, que olhava seu advers&aacute;rio<br \/>\n    com o mais insultante dos olhares. Mas Fix tinha se levantado, e, indo ao<br \/>\n    coronel Proctor, lhe disse: Esquece-se de que &eacute; comigo a quest&atilde;o,<br \/>\n    senhor, comigo a quem o senhor, n&atilde;o s&oacute; injuriou, mas agrediu!<br \/>\n    Senhor Fix, disse Phileas Fogg, pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o, mas isto s&oacute;<br \/>\n    diz respeito a mim. Alegando que eu estava errado jogando espadas, o coronel<br \/>\n    me fez uma nova inj&uacute;ria, e h&aacute; de dar-me uma satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando e onde quiser, respondeu o americano, e com a arma que lhe agradar!<br \/>\n    Mrs. Aouda em v&atilde;o procurou reter Mr. Fogg. O inspetor tentou inutilmente<br \/>\n    retomar a querela para si. Passepartout queria atirar o coronel pela porta,<br \/>\n    mas um gesto do patr&atilde;o o conteve. Phileas Fogg deixou o vag&atilde;o,<br \/>\n    e o americano seguiu-o pelo passadi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Senhor, disse Mr. Fogg ao seu advers&aacute;rio, tenho muita pressa em voltar<br \/>\n    para a Europa, e qualquer atraso prejudicaria muito meus interesses.<\/p>\n<p> E da&iacute;? O que &eacute; que eu tenho com isso? respondeu o coronel<br \/>\n    Proctor.<\/p>\n<p> Senhor, retomou muito polidamente Mr. Fogg, depois do nosso encontro em<br \/>\n    S&atilde;o Francisco, eu tinha feito planos de vir reencontr&aacute;-lo na<br \/>\n    Am&eacute;rica, assim que tivesse conclu&iacute;do os neg&oacute;cios que<br \/>\n    me chamam ao velho continente.<\/p>\n<p> Verdade? Quer marcar o encontro para daqui a seis meses? Porque n&atilde;o<br \/>\n    daqui a seis anos? Disse seis meses, respondeu Mr. Fogg, e serei pontual.<\/p>\n<p> Desculpas! S&oacute; desculpas! exclamou Stamp W. Proctor. Agora ou nunca.<\/p>\n<p> Pois que seja, respondeu Mr. Fogg. Vai para Nova York? N&atilde;o.<\/p>\n<p> Chicago? N&atilde;o.<\/p>\n<p> Omaha? Pouco importa! Conhece Plum Creek? N&atilde;o, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> &Eacute; a pr&oacute;xima esta&ccedil;&atilde;o. O trem estar&aacute; l&aacute;<br \/>\n    em uma hora. Estacionar&aacute; por dez minutos. Em dez minutos, podemos trocar<br \/>\n    alguns tiros de rev&oacute;lver.<\/p>\n<p> Que seja, respondeu Mr. Fogg. Deter-me-ei em Plum Creek.<\/p>\n<p> E creio que vai ficar por l&aacute;! acrescentou o americano com uma insol&ecirc;ncia<br \/>\n    sem igual.<\/p>\n<p> Quem sabe, senhor? exclamou Mr. Fogg, e voltou ao seu vag&atilde;o, t&atilde;o<br \/>\n    frio como de costume.<\/p>\n<p> L&aacute;, o gentleman come&ccedil;ou por sossegar Mrs. Aouda, dizendo-lhe<br \/>\n    que os fanfarr&otilde;es n&atilde;o eram nunca para recear. Depois pediu a<br \/>\n    Fix que lhe servisse de testemunha no duelo que iria travar. Fix n&atilde;o<br \/>\n    podia recusar, e Phileas Fogg recome&ccedil;ou tranq&uuml;ilamente o jogo<br \/>\n    interrompido, jogando espadas com a maior calma.<\/p>\n<p> &Agrave;s onze horas, o apito da locomotiva anunciou a chegada &agrave;<br \/>\n    esta&ccedil;&atilde;o de Plum Creek. Mr. Fogg se levantou, e, seguido de Fix,<br \/>\n    colocou-se sobre o passadi&ccedil;o. Passepartout o acompanhava, levando um<br \/>\n    par de rev&oacute;lveres. Mrs. Aouda tinha ficado no vag&atilde;o, p&aacute;lida<br \/>\n    como uma morta.<\/p>\n<p> Neste momento, a porta do outro vag&atilde;o se abriu, e o coronel Proctor<br \/>\n    apareceu igualmente sobre o passadi&ccedil;o, seguido da sua testemunha, um<br \/>\n    yankee da sua t&ecirc;mpera. Mas no instante em que os dois advers&aacute;rios<br \/>\n    iam descer para a via, o condutor apareceu e gritou-lhes: N&atilde;o pode<br \/>\n    descer, senhores.<\/p>\n<p> E por qu&ecirc;? perguntou o coronel.<\/p>\n<p> Estamos com de vinte minutos de atraso, e o trem n&atilde;o p&aacute;ra.<\/p>\n<p> Mas eu tenho de me bater com este senhor.<\/p>\n<p> Lamento, respondeu o empregado; mas partimos imediatamente. O sino j&aacute;<br \/>\n    est&aacute; tocando! Efetivamente tocava, e o trem voltou a se p&ocirc;r a<br \/>\n    caminho.<\/p>\n<p> Estou realmente desolado, senhores, disse ent&atilde;o o condutor. Em qualquer<br \/>\n    outra circunst&acirc;ncia, eu poderia ter concedido. Mas, afinal, j&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o t&ecirc;m tempo de se baterem aqui, quem os impede de se baterem<br \/>\n    no caminho? Isso talvez n&atilde;o convenha a este senhor! disse o coronel<br \/>\n    Proctor com ar gozador.<\/p>\n<p> Conv&eacute;m-me perfeitamente, respondeu Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Pois &eacute;, decididamente, estamos na Am&eacute;rica! pensou Passepartout,<br \/>\n    e o condutor do trem &eacute; um gentleman de primeira! E dizendo isto seguiu<br \/>\n    seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p>Os dois advers&aacute;rios, suas testemunhas, precedidos pelo condutor, dirigiram-se,<br \/>\n    passando de um vag&atilde;o para outro, &agrave; traseira do trem. O &uacute;ltimo<br \/>\n    vag&atilde;o s&oacute; estava ocupado por uma dezena de viajantes. O condutor<br \/>\n    perguntou-lhes se poderiam deixar o lugar livre para os dois que tinham uma<br \/>\n    quest&atilde;o de honra a resolver.<\/p>\n<p> Como! Mas os viajantes estavam muito felizes em serem agrad&aacute;veis<br \/>\n    aos dois gentlemen e se retiraram sobre os passadi&ccedil;os.<\/p>\n<p> Este vag&atilde;o, de uns cinq&uuml;enta p&eacute;s de comprimento, prestava-se<br \/>\n    muito convenientemente &agrave; circunst&acirc;ncia. Os dois advers&aacute;rios<br \/>\n    podiam caminhar um para o outro entre os bancos e dispararem &agrave; vontade.<br \/>\n    Nunca houve duelo mais f&aacute;cil de regrar. Mr. Fugg e o coronel Proctor,<br \/>\n    munido cada um com dois rev&oacute;lver de seis tiros, entraram no vag&atilde;o.<br \/>\n    Suas testemunhas, que ficaram do lado de fora, os fecharam l&aacute; dentro.<br \/>\n    Ao primeiro apito da locomotiva deviam come&ccedil;ar o fogo&#8230; Depois, passados<br \/>\n    dez minutos, retirar-se-ia do vag&atilde;o o que tivesse sobrado dos dois<br \/>\n    gentlemen.<\/p>\n<p> Nada mais simples na verdade. Era mesmo t&atilde;o simples, que F&iacute;x<br \/>\n    e Passepartout sentiam o cora&ccedil;&atilde;o bater fortemente.<\/p>\n<p> Esperava-se, pois, o apito convencionado, quando subitamente gritos selvagens<br \/>\n    ressoaram. Detona&ccedil;&otilde;es os acompanharam, mas n&atilde;o vinham<br \/>\n    do vag&atilde;o destinado aos duelistas. Estas detona&ccedil;&otilde;es se<br \/>\n    prolongavam, ao contr&aacute;rio, at&eacute; a frente e pelas laterais do<br \/>\n    trem. Gritos de terror se faziam ouvir no interior do comboio.<\/p>\n<p> O coronel Proctor e Mr. Fogg, rev&oacute;lver em punho, sa&iacute;ram logo<br \/>\n    do vag&atilde;o e precipitaram-se para a frente, onde soavam mais estrondosamente<br \/>\n    as detona&ccedil;&otilde;es e os gritos.<\/p>\n<p> Tinham compreendido que o trem estava sendo atacado por um bando de Siouxs.<\/p>\n<p> Estes ferozes &iacute;ndios n&atilde;o estavam fazendo sua estr&eacute;ia,<br \/>\n    e mais de uma vez j&aacute; tinham detido comboios. Segundo seu costume, sem<br \/>\n    esperar a parada do trem, saltando sobre os estribos em n&uacute;mero de uma<br \/>\n    centena, tinham escalado os vag&otilde;es como faz um clown de um cavalo a<br \/>\n    galope.<\/p>\n<p> Os Sioux estavam munidos de rifles. Da&iacute; as detona&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a que os viajantes, quase todos armados, respondiam com tiros de rev&oacute;lver.<br \/>\n    Logo no come&ccedil;o, os &iacute;ndios tinham se precipitado para a m&aacute;quina.<br \/>\n    O maquinista e o fogueiro tinham sido quase prostrados a golpes de macete.<br \/>\n    Um chefe sioux, querendo parar o trem, mas n&atilde;o sabendo manejar a manivela<br \/>\n    do regulador, tinha aberto mais a entrada do vapor em lugar de fechar e a<br \/>\n    locomotiva, impelida, corria com uma velocidade assustadora.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo, os Sioux tinham invadido os vag&otilde;es, corriam como<br \/>\n    macacos em f&uacute;ria por cima da capota do trem, arrombavam as portinholas<br \/>\n    e lutavam corpo a corpo com os viajantes. Para fora do vag&atilde;o das bagagens,<br \/>\n    arrombado e saqueado, os fardos eram arremessados para a via. Gritos e disparos<br \/>\n    n&atilde;o cessavam.<\/p>\n<p> Entretanto os viajantes defendiam-se corajosamente. Alguns vag&otilde;es,<br \/>\n    barricados, enfrentavam um cerco, como verdadeiros fortes ambulantes, levados<br \/>\n    a cem milhas por hora.<\/p>\n<p> Desde o come&ccedil;o do ataque, Mrs. Aouda tinha se comportado corajosamente.<br \/>\n    Rev&oacute;lver em punho, defendia-se heroicamente, atirando atrav&eacute;s<br \/>\n    dos vidros quebrados, quando um selvagem passava por sua mira. Uns vinte Sioux,<br \/>\n    mortalmente feridos, tinham tombado na via, e as rodas dos vag&otilde;es esmagavam<br \/>\n    como vermes os que deslizavam sobre os rails do alto dos passadi&ccedil;os.<\/p>\n<p> Diversos viajantes, gravemente atingidos pelas balas ou pelas clavas, jaziam<br \/>\n    sobre os bancos.<\/p>\n<p> Entretanto era preciso parar. Esta luta j&aacute; durava dez minutos, e<br \/>\n    terminaria em favor dos Sioux certamente se o trem n&atilde;o parasse. Com<br \/>\n    efeito, a esta&ccedil;&atilde;o do forte Kearney n&atilde;o estava a duas<br \/>\n    milhas de dist&acirc;ncia. L&aacute; havia um posto americano; mas passado<br \/>\n    este posto, entre o forte Kearney e a esta&ccedil;&atilde;o seguinte, os Sioux<br \/>\n    seriam senhores do trem.<\/p>\n<p> O condutor lutava ao lado de Mr. Fogg, quando uma bala o derrubou. Ao cair,<br \/>\n    gritou: Estamos perdidos, se o trem n&atilde;o parar antes de cinco minutos!<br \/>\n    Vai parar! disse Mr. Phileas Fogg, que queria se lan&ccedil;ar para fora do<br \/>\n    vag&atilde;o.<\/p>\n<p> Fique, senhor! lhe gritou Passepartout. Deixe comigo! Phileas Fogg n&atilde;o<br \/>\n    teve tempo de deter o corajoso rapaz, que, abrindo a portinhola sem ser visto<br \/>\n    pelos &iacute;ndios, conseguiu deslizar para baixo do vag&atilde;o. E ent&atilde;o,<br \/>\n    enquanto a luta continuava, enquanto as balas se cruzavam sobre sua cabe&ccedil;a,<br \/>\n    reencontrando sua agilidade de clown, metendo-se sob os vag&otilde;es, agarrando-se<br \/>\n    &agrave;s correntes, valendo-se das alavancas dos freios de cabos da carroceria,<br \/>\n    pulando de um carro para o outro com uma facilidade maravilhosa, chegou &agrave;<br \/>\n    parte dianteira do trem. N&atilde;o tinha sido visto, n&atilde;o poderia ter<br \/>\n    sido visto.<\/p>\n<p> Ali, suspenso por uma m&atilde;o entre o vag&atilde;o de bagagem e o tender,<br \/>\n    com a outra desenganchou as correntes de seguran&ccedil;a; mas em virtude<br \/>\n    da tra&ccedil;&atilde;o desenvolvida, nunca poderia ter desaparafusado a barra<br \/>\n    de atrelagem, se um abalo da m&aacute;quina n&atilde;o tivesse feito saltar<br \/>\n    esta barra, e o trem, solto, foi ficando pouco a pouco para tr&aacute;s, enquanto<br \/>\n    a locomotiva fugia com velocidade crescente.<\/p>\n<p> Levado pela for&ccedil;a adquirida, o trem ainda rolou por alguns minutos,<br \/>\n    mas os freios foram acionados no interior dos vag&otilde;es, e o comboio finalmente<br \/>\n    parou, a menos de cem passos da esta&ccedil;&atilde;o de Kearney.<\/p>\n<p> Os soldados do forte, atra&iacute;dos pelos tiros, acudiram logo. Os Sioux<br \/>\n    n&atilde;o os esperavam, e, antes que o trem parasse completamente, todo o<br \/>\n    bando tinha se posto em fuga.<\/p>\n<p> Mas quando os viajantes se contaram na plataforma da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    perceberam que faltavam muitos &agrave; chamada, e entre eles o corajoso franc&ecirc;s,<br \/>\n    cuja dedica&ccedil;&atilde;o acabara de os salvar.<\/p>\n<h4><a name=\"30\" id=\"30\">CAP&Iacute;TULO XXX<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PHILEAS FOGG SIMPLESMENTE CUMPRE O SEU DEVER <\/b><\/p>\n<p>Tr&ecirc;s viajantes, inclusive Passepartout, haviam desaparecido. Teriam<br \/>\n    sido mortos na luta? Estariam prisioneiros dos selvagens? Ainda n&atilde;o<br \/>\n    se podia saber.<\/p>\n<p> Os feridos eram numerosos, mas nenhum tinha sido atingido mortalmente. Um<br \/>\n    dos em estado mais grave era o coronel Proctor, que tinha combatido bravamente,<br \/>\n    e que uma bala na verilha derrubara. Foi transportado para a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com os outros viajantes, cujo estado reclamava cuidados imediatos.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda estava salva. Phileas Fogg, que n&atilde;o se poupara, n&atilde;o<br \/>\n    tinha nem um arranh&atilde;o. Fix estava ferido num bra&ccedil;o, ferimento<br \/>\n    sem import&acirc;ncia. Mas Passepartout faltava, e as l&aacute;grimas corriam<br \/>\n    dos olhos da jovem.<\/p>\n<p> J&aacute; ent&atilde;o todos os viajantes tinham sa&iacute;do do trem. As<br \/>\n    rodas dos vag&otilde;es estavam manchadas de sangue. Dos cubos e dos raios<br \/>\n    pendiam informes postas de carne. Via-se a perder de vista na pradaria branca<br \/>\n    longos rastros avermelhados. Os &uacute;ltimos &iacute;ndios desapareciam<br \/>\n    ent&atilde;o ao sul, pelos lados do Republican River.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, bra&ccedil;os cruzados, permanecia im&oacute;vel. Tinha uma grave<br \/>\n    decis&atilde;o a tomar. Mrs. Aouda, pr&oacute;xima dele, o contemplava sem<br \/>\n    proferir uma palavra&#8230; Ele compreendeu este olhar. Se o seu servidor estava<br \/>\n    prisioneiro, n&atilde;o deveria tudo arriscar para arranc&aacute;-lo dos &iacute;ndios?<br \/>\n    Vou ach&aacute;-lo morto ou vivo, disse simplesmente para Mrs. Aouda.<\/p>\n<p> Ah! senhor&#8230; senhor Fogg! exclamou a jovem, agarrando as m&atilde;os do<br \/>\n    seu companheiro, que cobriu de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Vivo! acrescentou Mr. Fogg, se n&atilde;o perdermos um minuto! Com esta<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o Phileas Fogg sacrificava-se completamente. Acabara<br \/>\n    de pronunciar sua ru&iacute;na. Um dia apenas de atraso o faria perder o paquete<br \/>\n    de Nova York. Sua aposta estava irrevogavelmente perdida. Mas diante deste<br \/>\n    pensamento: &ldquo;&Eacute; o meu dever&rdquo;, n&atilde;o tinha hesitado.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o que comandava o forte Kearney estava ali. Seus soldados<br \/>\n    uns cem homens tinham se posto na defensiva para o caso dos Sioux terem dirigido<br \/>\n    um ataque direto contra a esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Senhor, disse Mr. Fogg ao capit&atilde;o, tr&ecirc;s viajantes desapareceram.<\/p>\n<p> Mortos? perguntou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> Mortos ou prisioneiros, respondeu Phileas Fogg. &Eacute; desta incerteza<br \/>\n    que precisamos sair. Sua inten&ccedil;&atilde;o &eacute; perseguir os Sioux?<br \/>\n    Dificilmente, senhor, disse o capit&atilde;o. Estes &iacute;ndios podem fugir<br \/>\n    para al&eacute;m do Arkansas! N&atilde;o poderia abandonar o forte que me<br \/>\n    foi confiado.<\/p>\n<p> Senhor, retomou Phileas Fogg, trata-se da vida de tr&ecirc;s homens.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida&#8230; mas posso arriscar a vida de cinq&uuml;enta para salvar<br \/>\n    tr&ecirc;s? N&atilde;o sei se pode, senhor, mas deve.<\/p>\n<p> Senhor, respondeu o capit&atilde;o, ningu&eacute;m aqui precisa me ensinar<br \/>\n    qual &eacute; o meu dever.<\/p>\n<p> Que seja, disse friamente Pbileas Fogg. Irei s&oacute;! S&oacute;, senhor!<br \/>\n    exclamou Fix, que tinha se aproximado, ir s&oacute; em persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos indios! Quer ent&atilde;o que eu deixe perecer esse infeliz, a quem todos<br \/>\n    os que est&atilde;o aqui vivos devem a vida? Irei.<\/p>\n<p> Pois bem, n&atilde;o, n&atilde;o ir&aacute; s&oacute;! exclamou o capit&atilde;o,<br \/>\n    comovido, apesar de tudo. N&atilde;o! Tem um cora&ccedil;&atilde;o valente!&#8230;<br \/>\n    Trinta volunt&aacute;rios! acrescentou ele, voltando-se para os soldados.<\/p>\n<p> Toda a companhia deu um passo &agrave; frente. O capit&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    teve que escolher entre seus bravos. Trinta soldados foram designados, e um<br \/>\n    velho sargento se p&ocirc;s &agrave; frente deles.<\/p>\n<p> Obrigado, capit&atilde;o! disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Permite-me acompanh&aacute;-lo? perguntou Fix ao gentleman.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;a o que achar melhor, senhor, respondeu Phileas Fogg. Mas se me<br \/>\n    quer me fazer um favor, fique junto de Mrs. Aouda. Caso me aconte&ccedil;a<br \/>\n    alguma desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> Uma palidez s&uacute;bita invadiu o rosto do inspetor de pol&iacute;cia.<br \/>\n    Separar-se do homem que tinha seguido passo a passo e com tanta persist&ecirc;ncia!<br \/>\n    Deix&aacute;-lo aventurar-se assim naquele deserto! Fix olhou atentamente<br \/>\n    o gentleman, e, fosse como fosse, apesar das suas desconfian&ccedil;as, apesar<br \/>\n    do combate que travava interiormente, baixou os olhos diante daquele olhar<br \/>\n    calmo e sincero.<\/p>\n<p> Ficarei, disse.<\/p>\n<p> Instantes depois, Mr. Fogg tinha apertado a m&atilde;o da jovem; depois,<br \/>\n    ap&oacute;s lhe ter entregue sua preciosa sacola de viagem, partiu com o sargento<br \/>\n    e sua pequena tropa.<\/p>\n<p> Mas antes de partir, tinha dito aos soldados: Meus amigos, h&aacute; mil<br \/>\n    libras para v&oacute;s se salvarmos os prisioneiros.<\/p>\n<p> Era meio dia e alguns minutos.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda tinha se retirado para um quarto da esta&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    a&iacute;, sozinha, ficou aguardando, pensando em Phileas Fogg, em sua generosidade<br \/>\n    simples e grandiosa, em sua tranq&uuml;ila coragem. Mr. Fogg tinha sacrificado<br \/>\n    sua fortuna, e agora punha sua vida em perigo, tudo sem hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por dever, sem frases. Phileas Fogg era um her&oacute;i aos seus olhos.<\/p>\n<p> O inspetor Fix, este, n&atilde;o pensava assim, e n&atilde;o podia conter<br \/>\n    sua agita&ccedil;&atilde;o. Passeava febrilmente pela plataforma da esta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por um momento subjugado, voltava a ser ele mesmo. Depois de Fogg partir,<br \/>\n    compreendia a tolice que tinha feito deixando-o partir. Como! o homem que<br \/>\n    tinha seguido ao redor do mundo, tinha consentido em separar-se dele! Sua<br \/>\n    &iacute;ndole voltava a conduzi-lo, se recriminava, se acusava, tratava a<br \/>\n    si mesmo como se fosse o comiss&aacute;rio da pol&iacute;cia metropolitana<br \/>\n    admoestando um agente apanhado em flagrante delito de ingenuidade.<\/p>\n<p> Fui inepto! pensava. O outro por certo lhe disse quem eu era! Partiu, n&atilde;o<br \/>\n    volta mais! Onde peg&aacute;-lo agora? Mas como pude me deixar fascinar assim,<br \/>\n    eu, Fix, que tenho no bolso o seu mandado de pris&atilde;o! Decididamente<br \/>\n    n&atilde;o passo de uma az&ecirc;mula! Assim raciocinava o inspetor de pol&iacute;cia,<br \/>\n    enquanto as horas se escoavam lentamente. N&atilde;o sabia o que fazer. &Agrave;s<br \/>\n    vezes tinha vontade de dizer tudo a Mrs. Aouda. Mas compreendia como seria<br \/>\n    recebido pela jovem. Que decis&atilde;o tomar? Estava tentado a sair pelas<br \/>\n    pradarias brancas, em persegui&ccedil;&atilde;o de Fogg! N&atilde;o lhe parecia<br \/>\n    imposs&iacute;vel reencontr&aacute;-lo. Os passos do destacamento estavam<br \/>\n    ainda impressos no neve!&#8230; Mas logo, sob uma nova camada, todas as pegadas<br \/>\n    desapareceriam.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o o des&acirc;nimo apossou-se de Fix. Experimentou como que um<br \/>\n    invenc&iacute;vel desejo de abandonar a partida. Ora, precisamente, esta oportunidade<br \/>\n    de deixar a esta&ccedil;&atilde;o de Kearney e de continuar a viagem, t&atilde;o<br \/>\n    fecunda em transtornos, lhe foi oferecida.<\/p>\n<p> Com efeito, perto das duas depois do meio dia, enquanto a neve ca&iacute;a<br \/>\n    em grandes flocos, ouviram-se longos apitos que vinham do leste. Uma enorme<br \/>\n    sombra, precedida por um clar&atilde;o amarelado, avan&ccedil;ava lentamente,<br \/>\n    consideravelmente aumentada pelas brumas, que lhe davam um aspecto fant&aacute;stico.<\/p>\n<p> Contudo n&atilde;o se esperava ainda nenhum trem vindo de leste. O socorro<br \/>\n    pedido pelo tel&eacute;grafo n&atilde;o poderia chegar t&atilde;o cedo, e<br \/>\n    o trem de Omaha para S&atilde;o Francisco s&oacute; deveria passar no dia<br \/>\n    seguinte. Logo se soube o que acontecia.<\/p>\n<p> Esta locomotiva que andava com pouco vapor, soltando grandes apitos, era<br \/>\n    aquela que, depois de ter sido desprendida do trem, tinha continuado sua rota<br \/>\n    com velocidade vertiginosa, levando o caldereiro e o maquinista inanimados.<br \/>\n    Tinha corrido sobre os rails por diversas milhas; depois, o fogo tinha amortecido,<br \/>\n    por falta de combust&iacute;vel; o vapor perdera a for&ccedil;a, e uma hora<br \/>\n    depois, diminuindo pouco a pouco sua marcha, a m&aacute;quina parara afinal<br \/>\n    vinte milhas depois da esta&ccedil;&atilde;o de Kearney.<\/p>\n<p> Nem o maquinista nem o fogueiro tinham sucumbido, e, depois de um desmaio<br \/>\n    bastante prolongado, tinham voltado a si.<\/p>\n<p> A m&aacute;quina estava ent&atilde;o parada. Quando se viu no deserto, a<br \/>\n    locomotiva s&oacute;, sem vag&otilde;es atr&aacute;s, o maquinista compreendeu<br \/>\n    o que tinha ocorrido. Como a locomotiva tinha se desprendido do trem, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de adivinhar, mas n&atilde;o tinha nenhuma d&uacute;vida de que o<br \/>\n    trem, tendo ficado para tr&aacute;s, estava em perigo.<\/p>\n<p> O maquinista nem hesitou sobre o que deveria fazer. Continuar na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Omaha era prudente; voltar para o trem, que os &iacute;ndios talvez ainda<br \/>\n    pilhassem, era perigoso&#8230; Que importa! P&aacute;s de carv&atilde;o e lenha<br \/>\n    foram lan&ccedil;adas no fogo da caldeira, o fogo se reanimou, a press&atilde;o<br \/>\n    aumentou de novo, e, pelas duas depois do meio dia, a m&aacute;quina voltava<br \/>\n    para tr&aacute;s em dire&ccedil;&atilde;o da esta&ccedil;&atilde;o de Kearney.<br \/>\n    Era ela que apitava na bruma.<\/p>\n<p> Foi uma grande satisfa&ccedil;&atilde;o para os viajantes, quando viram<br \/>\n    a locomotiva p&ocirc;r-se na frente do trem. Iam poder continuar a viagem<br \/>\n    t&atilde;o desgra&ccedil;adamente interronpida.<\/p>\n<p> &Agrave; chegada da m&aacute;quina, Mrs. Aouda tinha sa&iacute;do da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e dirigindo-se ao condutor: Vai partir? perguntou.<\/p>\n<p> Em instantes, madame.<\/p>\n<p> Mas os prisioneiros&#8230; nossos desafortunados companheiros&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o posso interromper o servi&ccedil;o, respondeu o condutor. J&aacute;<br \/>\n    temos tr&ecirc;s horas de atraso.<\/p>\n<p> E quando passar&aacute; o outro trem que vem de S&atilde;o Francisco? Amanh&atilde;<br \/>\n    &agrave; noite, madame.<\/p>\n<p> Amanh&atilde; &agrave; noite! mas ser&aacute; muito tarde. &Eacute; preciso<br \/>\n    esperar&#8230;<\/p>\n<p> &Eacute; imposs&iacute;vel, respondeu o condutor. Se quiser partir, suba.<\/p>\n<p> N&atilde;o partirei, respondeu a jovem. Fix tinha escutado esta conversa.<br \/>\n    Alguns instantes antes, quando todos os meios de locomo&ccedil;&atilde;o lhe<br \/>\n    faltavam, estava resolvido a deixar Kearney, e agora que o trem se achava<br \/>\n    ali, prestes a partir, que s&oacute; tinha de retomar o seu lugar no vag&atilde;o,<br \/>\n    uma for&ccedil;a irresist&iacute;vel o prendia no ch&atilde;o. A plataforma<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o lhe queimava os p&eacute;s, e ele n&atilde;o podia<br \/>\n    levant&aacute;-los. A luta recome&ccedil;ou dentro dele. A c&oacute;lera do<br \/>\n    insucesso o sufocava. Queria lutar at&eacute; o fim.<\/p>\n<p> Entrementes os viajantes e alguns feridos entre outros o coronel Proctor,<br \/>\n    cujo estado era grave tinham tomado lugar nos vag&otilde;es. Ouvia-se o ru&iacute;do<br \/>\n    da caldeira em ebuli&ccedil;&atilde;o, e o vapor escapava pelas v&aacute;lvulas.<br \/>\n    O maquinista apitou, o trem se p&ocirc;s em movimento, e desapareceu bem depressa,<br \/>\n    misturando sua fuma&ccedil;a aos turbilh&otilde;es de neve.<\/p>\n<p> O agente Fix tinha ficado.<\/p>\n<p> Algumas horas se escoaram. O tempo estava muito mau, o frio intenso. Fix,<br \/>\n    sentado sobre um banco na esta&ccedil;&atilde;o, permanecia im&oacute;vel.<br \/>\n    Podia-se supor que dormia. Mrs. Aouda, apesar da ventania, deixava a cada<br \/>\n    instante o quarto que tinha sido colocado &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Vinha &agrave; extremidade da plataforma, procurando ver atrav&eacute;s da<br \/>\n    tempestade de neve, querendo penetrar com o olhar esta bruma que reduzia o<br \/>\n    horizonte &agrave; sua volta, tentando escutar se algum barulho se fazia ouvir.<br \/>\n    Mas nada. Voltava a entrar, toda transida, para voltar momentos depois, e<br \/>\n    sempre inutilmente.<\/p>\n<p> Entardeceu. O pequeno destacamento n&atilde;o estava ainda de volta. Onde<br \/>\n    estaria neste momento? Teria alcan&ccedil;ado os &iacute;ndios? Teria havido<br \/>\n    luta, ou os soldados, perdidos no nevoeiro, erravam ao acaso? O capit&atilde;o<br \/>\n    do forte Kearney estava muito inquieto embora n&atilde;o quisesse deixar transparecer<br \/>\n    sua inquietude.<\/p>\n<p> Anoiteceu, a neve tombou menos abundantemente, mas a intensidade do frio<br \/>\n    aumentou. O olhar mais intr&eacute;pido n&atilde;o teria enfrentado sem receio<br \/>\n    esta obscura imensid&atilde;o. Um sil&ecirc;ncio absoluto reinava na pradaria.<br \/>\n    Nem o v&ocirc;o de um p&aacute;ssaro, nem a passagem de alguma fera perturbava<br \/>\n    a calma infinita.<\/p>\n<p> Durante toda a noite, Mrs. Aouda, o esp&iacute;rito cheio de pressentimentos<br \/>\n    sinistros, o cora&ccedil;&atilde;o repleto de ang&uacute;stias, vagueou pela<br \/>\n    orla da campina. Sua imagina&ccedil;&atilde;o a levava para longe e lhe mostrava<br \/>\n    mil perigos. O que sofreu durante estas longas horas n&atilde;o seria poss&iacute;vel<br \/>\n    exprimir.<\/p>\n<p> Fix estava sempre im&oacute;vel no mesmo lugar, mas, tamb&eacute;m ele,<br \/>\n    n&atilde;o dormia. Num dado momento, um homem tinha se aproximado dele, at&eacute;<br \/>\n    falou com ele, mas o agente o despachou, depois de ter respondido &agrave;s<br \/>\n    suas palavras com um sinal negativo.<\/p>\n<p> A noite passou. Ao alvorecer, o disco meio apagado do sol ergueu-se sobre<br \/>\n    um horizonte nublado. Entretanto o olhar podia alcan&ccedil;ar at&eacute;<br \/>\n    duas milhas de dist&acirc;ncia. Tinha sido para o sul que Phileas Fogg e o<br \/>\n    destacamento se haviam dirigido&#8230; O sul estava absolutamente deserto. Eram<br \/>\n    ent&atilde;o sete horas da manh&atilde;.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o, extremamente preocupado, n&atilde;o sabia o que fazer.<br \/>\n    Deveria enviar um segundo destacamento em socorro do primeiro? Deveria sacrificar<br \/>\n    novos homens com t&atilde;o poucas probabilidades de salvar os que j&aacute;<br \/>\n    tinham sido sacrificados antes? Mas sua hesita&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    durou, e com um gesto, chamando um dos seus ajudantes, deu-lhe ordem de fazer<br \/>\n    um reconhecimento ao sul quando se ouviram tiros. Seria um sinal? Os soldados<br \/>\n    precipitaram-se para fora do forte, e a meia milha de dist&acirc;ncia avistaram<br \/>\n    um destacamento que voltava em boa ordem.<\/p>\n<p> Mr. Fogg vinha &agrave; frente, junto dele Passepartout e os dois outros<br \/>\n    passageiros, resgatados das m&atilde;os dos Sioux.<\/p>\n<p> Tinha havido combate dez milhas ao sul de Kearney. Poucos instantes antes<br \/>\n    da chegada do destacamento, Passepartout e seus dois companheiros j&aacute;<br \/>\n    lutavam contra seus guardi&atilde;os, e o franc&ecirc;s tinha derrubado tr&ecirc;s<br \/>\n    com seus socos, quando seu patr&atilde;o e os soldados se precipitaram em<br \/>\n    seu socorro.<\/p>\n<p> Todos, salvadores e salvados, foram acolhidos com brados do alegria, e Phileas<br \/>\n    Fogg distribuiu aos soldados a gratifica&ccedil;&atilde;o que lhes tinha prometido,<br \/>\n    enquanto Passepartout repetia consigo, n&atilde;o sem alguma raz&atilde;o:<br \/>\n    Decididamente, estou saindo caro para meu patr&atilde;o! Fix, sem proferir<br \/>\n    uma palavra, contemplava Mr. Fogg, e seria dif&iacute;cil analisar as impress&otilde;es<br \/>\n    que se combatiam nele naquele momento. Quanto a Mrs. Aouda, tinha pego a m&atilde;o<br \/>\n    do gentleman, e a apertava nas suas, sem poder pronunciar uma palavra! Passepartout,<br \/>\n    desde que chegara, estivera procurando o trem na esta&ccedil;&atilde;o. Julgava<br \/>\n    que o iria encontrar, pronto para partir para Omaha, e esperava que se pudesse<br \/>\n    recuperar o tempo perdido.<\/p>\n<p> O trem! o trem! gritava.<\/p>\n<p> Partiu, respondeu Fix.<\/p>\n<p> E o trem seguinte, quando passa? perguntou Phileas Fogg.<\/p>\n<p> S&oacute; de tarde.<\/p>\n<p> Ah! respondeu simplesmente o impass&iacute;vel gentleman.<\/p>\n<h4><a name=\"31\" id=\"31\">CAP&Iacute;TULO XXXI<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE O INSPETOR FIX LEVA MUITO A S&Eacute;RIO OS INTERESSES DE PHILEAS<br \/>\n    FOGG <\/b><\/p>\n<p>Phileas Fogg estava com 24 horas de atraso. Passepartout, a causa involunt&aacute;ria<br \/>\n    deste atraso, estava desesperado. Tinha decididamente arruinado seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Neste momento, o inspetor aproximou-se de Mr. Fogg, e, olhando diretamente<br \/>\n    para ele: Realmente, senhor, perguntou ele, tem muita pressa? Realmente, respondeu<br \/>\n    Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Insisto, retomou Fix. Est&aacute; mesmo interessado em estar em Nova York<br \/>\n    dia 11, antes das onze horas da noite, hora da partida do paquete para Liverpool?<br \/>\n    Muit&iacute;ssimo interessado.<\/p>\n<p> E se sua viagem n&atilde;o tivesse sido interrompida por este ataque dos<br \/>\n    &iacute;ndios, teria chegado a Nova York dia 11, pela manh&atilde;? Sim, com<br \/>\n    onze horas de anteced&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o ao paquete.<\/p>\n<p> Bem. Nesse caso tem vinte horas de atraso. Entre vinte e doze, a diferen&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; de oito. S&atilde;o oito horas a recuperar. Quer tentar faz&ecirc;-lo?<br \/>\n    &Agrave; p&eacute;? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> N&atilde;o, em tren&oacute;, respondeu Fix, em tren&oacute; a velas. Um<br \/>\n    homem me prop&ocirc;s esse meio de transporte.<\/p>\n<p> Era o homem que falara com o inspetor de pol&iacute;cia durante a noite,<br \/>\n    e cujo oferecimento Fix tinha recusado.<\/p>\n<p> Phileas Fogg n&atilde;o respondeu; mas Fix tendo-lhe mostrado o homem em<br \/>\n    quest&atilde;o que passeava na frente da esta&ccedil;&atilde;o, o gentleman<br \/>\n    foi at&eacute; ele. Um instante depois, Phileas Fogg e este americano, que<br \/>\n    se chamava Mudge, entravam numa cabana constru&iacute;da abaixo do forte Kearney.<\/p>\n<p> L&aacute;, Mr. Fogg examinou um ve&iacute;culo muito singular, esp&eacute;cie<br \/>\n    de tabuleiro, colocado sobre duas longas vigas, um pouco arqueadas para cima<br \/>\n    na parte dianteira como os pontos de apoio de um tren&oacute;, e sobre o qual<br \/>\n    cinco ou seis pessoas poderiam se acomodar. A um ter&ccedil;o do tabuleiro,<br \/>\n    na frente, estava um mastro muito elevado, sobre a qual estava estendida um<br \/>\n    imensa brigantina. A este mastro, solidamente sustentado por cordames met&aacute;licos,<br \/>\n    ligava-se uma escora de ferro que servia para i&ccedil;ar uma bujarrona de<br \/>\n    grandes dimens&otilde;es. Atr&aacute;s, uma esp&eacute;cie de leme permitia<br \/>\n    dirigir o aparelho.<\/p>\n<p> Era, como se v&ecirc;, um tren&oacute; armado em corveta. Durante o inverno,<br \/>\n    sobre a pradaria gelada, quando os trens s&atilde;o detidos pela neve, estes<br \/>\n    ve&iacute;culos fazem travessias extremamente r&aacute;pidas de uma esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a outra. S&atilde;o, al&eacute;m disso, prodigiosamente dotados de velas mais<br \/>\n    do que seria conveniente num cutter de recreio, exposto a emborcar e com o<br \/>\n    vento por tr&aacute;s, deslizam sobre a superf&iacute;cie das pradarias com<br \/>\n    uma rapidez igual, se n&atilde;o superior, &agrave; dos expressos.<\/p>\n<p> Em alguns instantes, uma negocia&ccedil;&atilde;o foi conclu&iacute;da entre<br \/>\n    Mr. Fogg e o patr&atilde;o desta embarca&ccedil;&atilde;o de terra. O vento<br \/>\n    estava bom. Soprava rijo de oeste. A neve estava endurecida, e Mudge se comprometia<br \/>\n    a conduzir Mr. Fogg &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de Omaha em poucas horas.<br \/>\n    L&aacute;, os trens s&atilde;o freq&uuml;entes e as vias numerosas, para Chicago<br \/>\n    e Nova York. N&atilde;o era imposs&iacute;vel recuperar o tempo perdido. N&atilde;o<br \/>\n    havia por qu&ecirc; hesitar em tentar a aventura.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, n&atilde;o querendo exp&ocirc;r Mrs. Aouda &agrave;s torturas<br \/>\n    de uma travessia ao ar livre, por este frio que a velocidade tornaria mais<br \/>\n    insuport&aacute;vel ainda, prop&ocirc;s-lhe que ficasse sob os cuidados de<br \/>\n    Passepartout na esta&ccedil;&atilde;o de Kearney. O honesto mo&ccedil;o encarregar-se-ia<br \/>\n    de reconduzir a jovem &agrave; Europa por um caminho melhor e em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais aceit&aacute;veis.<\/p>\n<p> Mrs. Aouda recusou separar-se de Mr. Fogg, e Passepartout se sentiu muito<br \/>\n    feliz com esta determina&ccedil;&atilde;o. Com efeito, por nada neste mundo<br \/>\n    teria querido deixar seu patr&atilde;o, j&aacute; que Fix devia acompanh&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Quanto ao que pensava ent&atilde;o o inspetor de pol&iacute;cia seria dif&iacute;cil<br \/>\n    dizer. Sua convic&ccedil;&atilde;o teria sido abalada pelo regresso de Phileas<br \/>\n    Fogg, ou consideraria que era um velhaco de marca maior, que, depois de haver<br \/>\n    feito a volta ao mundo, se julgaria absolutamente seguro na Inglaterra? Talvez<br \/>\n    a opini&atilde;o de Fix a respeito de Mr. Fogg se tivesse efetivamente modificado.<br \/>\n    Mas nem por isso estava menos resolvido a cumprir o seu dever e, mais impaciente<br \/>\n    que todos, a apressar como pudesse o regresso &agrave; Inglaterra.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas, o tren&oacute; estava prestes a partir. Os viajantes<br \/>\n    ser&iacute;amos tentados a dizer os passageiros tomaram seus lugares e envolveram-se<br \/>\n    muito bem nas suas mantas de viagem. As duas imensas velas foram i&ccedil;adas,<br \/>\n    e, sob o impulso do vento, o ve&iacute;culo seguiu sobre a neve endurecida<br \/>\n    a uma velocidade de quarenta milhas por hora.<\/p>\n<p> A dist&acirc;ncia que separa o forte Kearney de Omaha &eacute;, em linha<br \/>\n    reta a v&ocirc;o de abelha, como dizem os americanos de duzentas milhas quanto<br \/>\n    muito. Se o vento se mantivesse, em cinco horas esta dist&acirc;ncia poderia<br \/>\n    ser coberta. Se nenhum incidente acontecesse, &agrave; uma da tarde o tren&oacute;<br \/>\n    deveria chegar a Omaha.<\/p>\n<p> Que travessia! Os viajantes, apertados uns contra os outros, n&atilde;o<br \/>\n    podiam conversar. O frio, aumentado pela velocidade, teria lhes cortado a<br \/>\n    palavra. O tren&oacute; deslizava t&atilde;o ligeiro pela superf&iacute;cie<br \/>\n    da pradaria quanto uma embarca&ccedil;&atilde;o pela superf&iacute;cie das<br \/>\n    &aacute;guas com o balan&ccedil;o de menos. Quando a brisa chegava varrendo<br \/>\n    o solo, parecia que o tren&oacute; ia ser levantado do solo por suas velas,<br \/>\n    vastas asas de imensa envergadura. Mudge conservava a ve&iacute;culo em linha<br \/>\n    reta, e com um movimento do leme, retificava os bordejos que o aparelho tendia<br \/>\n    a fazer. Ia-se com todo o pano. A vela triangular tinha sido desfraldada e<br \/>\n    n&atilde;o estava mais protegida pela brigantina. Um mastar&eacute;u da g&aacute;vea<br \/>\n    foi guindado, e uma flecha, estendida ao vento, uniu sua for&ccedil;a de impuls&atilde;o<br \/>\n    &agrave; das outras velas. N&atilde;o era poss&iacute;vel avali&aacute;-la,<br \/>\n    matematicamente, mas com certeza a velocidade do tren&oacute; n&atilde;o deveria<br \/>\n    ser menos de quarenta milhas por hora.<\/p>\n<p> Se nada se quebra, disse Mudge, chegaremos.<\/p>\n<p> E Mudge tinha interesse em chegar no prazo estipulado, porque Mr. Fogg,<br \/>\n    fiel ao seu sistema, o tinha estimulado com uma boa gratifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A pradaria, que o tren&oacute; cortava em linha reta, era plana como um<br \/>\n    mar. Dir-se-ia um imenso tanque gelado. A rail-road que atende esta parte<br \/>\n    do territ&oacute;rio subia, do sudeste para nordeste, por Great Island, Columbus,<br \/>\n    cidade importante do Nebraska, Schuyler, Fremont, depois Omaha. Seguia durante<br \/>\n    todo seu percurso a margem direita do Platte River. O tren&oacute;, abreviando<br \/>\n    esta extens&atilde;o, tomou a corda do arco descrito pela via f&eacute;rrea.<br \/>\n    Mudge n&atilde;o receava que o Platte River lhe embara&ccedil;asse o trajeto,<br \/>\n    no pequeno cotovelo que este rio faz adiante de Fremont, porque as suas &aacute;guas<br \/>\n    estavam geladas. O caminho achava-se, pois, completamente livre de obst&aacute;culos,<br \/>\n    e Phileas Fogg s&oacute; tinha duas coisas a temer: uma avaria no aparelho,<br \/>\n    uma mudan&ccedil;a ou uma calmaria do vento.<\/p>\n<p> Mas a brisa n&atilde;o abrandava. Pelo contr&aacute;rio. Soprava de vergar<br \/>\n    o mastro, que os tirantes de ferro ag&uuml;entavam solidamente. Estes fios<br \/>\n    de metal, semelhantes &agrave;s cordas de um instrumento, soavam como se algum<br \/>\n    arco os fizesse vibrar. O tren&oacute; voava em meio a uma harmonia plangente,<br \/>\n    de sonoridade muito particular.<\/p>\n<p> Estas cordas d&atilde;o a quinta e a oitava, disse Mr. Fogg.<\/p>\n<p> E estas foram as &uacute;nicas palavras que pronunciou durante a viagem.<br \/>\n    Mrs. Aouda, cuidadosamente envolvida nas peles e mantas de viagem, estava,<br \/>\n    quanto era poss&iacute;vel, abrigada do frio.<\/p>\n<p> Quanto a Passepartout, a face vermelha como o disco solar quando se deita<br \/>\n    nas brumas, aspirava o ar penetrante. Com a reserva de imperturb&aacute;vel<br \/>\n    confian&ccedil;a que possu&iacute;a, tinha voltado a ter esperan&ccedil;as.<br \/>\n    Em vez de chegarem de manh&atilde; em Nova York, chegariam &agrave; tarde,<br \/>\n    mas havia ainda algumas probabilidades que fosse antes da partida do paquete<br \/>\n    para Liverpool.<\/p>\n<p> Passepartout tinha at&eacute; mesmo tido ganas de apertar a m&atilde;o do<br \/>\n    seu aliado Fix. N&atilde;o se esquecia de que fora o inspetor que pessoalmente<br \/>\n    procurara o tren&oacute; de velas, e, portanto, o &uacute;nico meio que havia<br \/>\n    de chegar a Omaha em tempo &uacute;til. Mas, por um n&atilde;o se sabe qual<br \/>\n    pressentimento, manteve-se na sua reserva usual.<\/p>\n<p> Uma coisa por&eacute;m Passepartout nunca esqueceria, o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    que Mr. Fogg tinha feito, sem hesitar, para arranc&aacute;-lo das m&atilde;os<br \/>\n    dos Siouxs. Nisso, Mr. Fogg tinha arriscado sua fortuna e sua vida&#8230; N&atilde;o!<br \/>\n    seu servidor jamais esqueceria! Enquanto cada um dos viajantes se entregava<br \/>\n    a t&atilde;o diversas reflex&otilde;es, o tren&oacute; voava sobre o imenso<br \/>\n    tapete de neve. Se passou por alguns creeks, afluentes ou sub-afluentes do<br \/>\n    Little Blue River, ningu&eacute;m percebeu. Os campos e os cursos de &aacute;gua<br \/>\n    desapareciam sob uma brancura uniforme. A pradaria estava completamente deserta.<br \/>\n    Compreendida entre a Union Pacific road e o entroncamento que une Kearney<br \/>\n    a Saint Joseph, formava como que uma grande ilha desabitada. Nem uma vila,<br \/>\n    nem uma esta&ccedil;&atilde;o, nem mesmo um forte. De tempo em tempo, via-se<br \/>\n    passar como um rel&acirc;mpago alguma &aacute;rvore contorcida, cujo branco<br \/>\n    esqueleto se torneava sob a brisa. Por vezes, bandos de aves selvagens al&ccedil;avam<br \/>\n    v&ocirc;o. &Agrave;s vezes, ainda, alguns lobos das pradarias, em alcat&eacute;ias<br \/>\n    numerosas, magros, esfaimados, incitados por uma necessidade feroz, disputavam<br \/>\n    velocidade com o tren&oacute;. Ent&atilde;o, Passepartout, rev&oacute;lver<br \/>\n    na m&atilde;o, preparava-se para fazer fogo sobre os mais pr&oacute;ximos.<br \/>\n    Se algum acidente tivesse detido o tren&oacute;, os viajantes, atacados por<br \/>\n    estes ferozes carniceiros, teriam corrido os maiores riscos. Mas o tren&oacute;<br \/>\n    aguentava firme, pegava a dianteira, e logo logo todo o bando uivador ficava<br \/>\n    para tr&aacute;s.<\/p>\n<p> Ao meio dia, Mudge reconheceu por alguns ind&iacute;cios, que passava pelo<br \/>\n    leito gelado do Platte River. Nada disse, mas j&aacute; tinha a certeza de<br \/>\n    que, vinte milhas al&eacute;m, alcan&ccedil;aria a esta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Omaha.<\/p>\n<p> E, com efeito, n&atilde;o tinha passado uma hora, e este guia h&aacute;bil,<br \/>\n    largando o leme, se precipitou para as adri&ccedil;as e ferrou o pano, mas<br \/>\n    o tren&oacute;, levado pelo impulso do vento que recebera, correu ainda meia<br \/>\n    milha. Afinal parou, e Mudge, mostrando um ajuntamento de telhados branqueados<br \/>\n    pela neve, disse: Chegamos.<\/p>\n<p> Chegados! Chegados, com efeito, a esta esta&ccedil;&atilde;o que, por meio<br \/>\n    de numerosos trens, est&aacute; diariamente em comunicac&atilde;o com o leste<br \/>\n    dos Estados Unidos! Passepartout e Fix saltaram para terra e sacudiram seus<br \/>\n    membros entorpecidos. Ajudaram Mr. Fogg e a jovem a descer do tren&oacute;.<br \/>\n    Phileas Fogg acertou as contas generosamente com Mudge, ao qual Passepartout<br \/>\n    apertou a m&atilde;o, como a um amigo, e todos se precipitaram para a esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Omaha.<\/p>\n<p> &Eacute; nesta importante cidade de Nebraska que acaba a estrada de ferro<br \/>\n    do Pac&iacute;fico propriamente dita, que p&otilde;e a bacia do Mississipi<br \/>\n    em comunica&ccedil;&atilde;o com o grande oceano. Para se ir de Omaha a Chicago,<br \/>\n    a rail-road, sob o nome de &ldquo;Chicago and Rock Island Railroad&rdquo;,<br \/>\n    corre diretamente para leste servindo cinq&uuml;enta esta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Um trem direto estava prestes a partir. Phileas Fogg e os seus companheiros<br \/>\n    apenas tiveram tempo de se precipitar num vag&atilde;o. Nada viram de Omaha,<br \/>\n    mas Passepartout confessou a si mesmo que n&atilde;o tinha motivos para se<br \/>\n    lastimar, porque n&atilde;o era para ver que estavam ali.<\/p>\n<p> Com extrema rapidez, o trem passou pelo Estado de Iowa, por Council Bluffs,<br \/>\n    Des Moines, Iowa City. Durante a noite, atravessou o Mississipi em Davenport,<br \/>\n    e por Rock Island entrou no Illinois. No dia seguinte, 10, &agrave;s quatro<br \/>\n    horas da tarde chegou a Chicago, j&aacute; reconstru&iacute;da das suas ru&iacute;nas,<br \/>\n    e mais soberba que nunca sobre as margens do seu belo lago Michigan.<\/p>\n<p> Noventas milhas separam Chicago de Nova York. Trens n&atilde;o faltavam<br \/>\n    em Chigago. Mr. Fogg passou imediatamente de um para outro. A elegante locomotiva<br \/>\n    da &ldquo;Pittsburg, Fort Wayne e Chicago Railway&rdquo; partiu a toda velocidade,<br \/>\n    como se compreendesse que o honrado gentleman n&atilde;o tinha tempo a perder.<br \/>\n    Atravessou como um rel&acirc;mpago Indiana, Ohio, Pensilv&acirc;nia, New Jersey,<br \/>\n    passando por cidades de nomes antiguados, em algumas das quais havia ruas<br \/>\n    e tramways, mas ainda n&atilde;o casas. Finalmente o Hudson apareceu, e, em<br \/>\n    11 de dezembro, &agrave;s onze e quinze da noite, o trem parou na esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    na margem direita do rio, diante do &ldquo;pier&rdquo; dos vapores da linha<br \/>\n    Cunard, tamb&eacute;m chamada de &ldquo;Britsh and North American Royal Mail<br \/>\n    Steam Packet Co.&rdquo;.<\/p>\n<p> O China, com destino a Liverpool, tinha partido h&aacute; quarenta e cinco<br \/>\n    minutos!<\/p>\n<h4><a name=\"32\" id=\"32\">CAP&Iacute;TULO XXXII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PHILEAS FOGG TRAVA UMA LUTA DIRETA CONTRA A M&Aacute; SORTE <\/b><\/p>\n<p>Partindo, o China parecia ter levado com ele a &uacute;ltima esperan&ccedil;a<br \/>\n    de Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Com efeito, nenhum dos outros paquetes que fazem o servi&ccedil;o direto<br \/>\n    entre a Am&eacute;rica e a Europa, nem os transatl&acirc;nticos franceses,<br \/>\n    nem os navios da &ldquo;White Star Line&rdquo;, nem os vapores da Companhia<br \/>\n    Imman, nem os da linha Hamburguesa, nem outros, poderiam servir para os prop&oacute;sitos<br \/>\n    do gentleman.<\/p>\n<p> Com efeito, o Pereire, da Companhia transatl&acirc;ntica francesa cujos<br \/>\n    admir&aacute;veis barcos igualam em velocidade e excedem em comodidades todos<br \/>\n    os das outras linhas, sem exce&ccedil;&atilde;o s&oacute; partiria dali a<br \/>\n    dois dias, 14 de dezembro. Al&eacute;m disso, do mesmo modo que os paquetes<br \/>\n    da Companhia hamburguesa, n&atilde;o ia diretamente a Liverpool ou a Londres,<br \/>\n    mas ao Havre, e esta travessia suplementar do Havre a Southampton, atrasando<br \/>\n    Phileas Fogg, anularia seus &uacute;ltimos esfor&ccedil;os.<\/p>\n<p> Quanto aos paquetes Imman, um dos quais, o City of Paris, punha-se ao mar<br \/>\n    no dia seguinte, n&atilde;o se deveria nem pensar neles. Estes navios s&atilde;o<br \/>\n    particularmente destinados ao transporte de emigrantes, suas m&aacute;quinas<br \/>\n    s&atilde;o fracas, navegam tanto a vela como a vapor, e a sua velocidade &eacute;<br \/>\n    med&iacute;ocre. Gastam na travessia de Nova York para a Inglaterra mais tempo<br \/>\n    do que o que restava a Mr. Fogg para ganhar a aposta.<\/p>\n<p> De tudo isto o gentleman se deu perfeitamente conta consultando seu Bradshaw,<br \/>\n    que lhe fornecia, dia por dia, os movimentos da navega&ccedil;&atilde;o transoce&acirc;nica.<\/p>\n<p> Passepartout estava arrasado. Ter perdido o paquete por quarenta e cinco<br \/>\n    minutos, isso o matava. A culpa era sua, que, em vez de ajudar o patr&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o tinha parado de semear obst&aacute;culos em seu caminho! E quando<br \/>\n    revia em seu esp&iacute;rito todos os incidentes da viagem, quando sopesava<br \/>\n    as quantias despendidas em pura perda e s&oacute; no seu interesse, quando<br \/>\n    pensava que aquela enorme aposta, com o acr&eacute;scimo das despesas consider&aacute;veis<br \/>\n    desta viagem agora perdida, arruinava completamente Mr. Fogg, cobria-se de<br \/>\n    inj&uacute;rias.<\/p>\n<p> Mr. Fogg n&atilde;o lhe fez, contudo, nenhuma censura, e, ao deixar o embarcadouro<br \/>\n    dos paquetes trasatl&acirc;nticos, s&oacute; disse estas palavras: Amanh&atilde;<br \/>\n    veremos o que se pode fazer. Vamos.<\/p>\n<p> Mr. Fogg, Mrs. Aouda, Fix, Passepartout atravessaram o Hudson no Jersey<br \/>\n    City ferryboat, e subiram em um fiacre, que os conduziu ao hotel Saint Nicolas,<br \/>\n    na Broadway. Quartos foram postos &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o deles,<br \/>\n    e a noite passou, curta para Phileas Fogg, que dormiu um sono perfeito, mas<br \/>\n    bem longa para Mrs. Aouda e seus companheiros, aos quais a agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o permitiu repousar.<\/p>\n<p> O dia seguinte era 12 de dezembro. Do dia 12, &agrave;s sete da manh&atilde;,<br \/>\n    ao dia 21, &agrave;s oito e quarenta e cinco da noite, havia nove dias, treze<br \/>\n    horas e quarenta e cinco minutos. Se, pois, Phileas Fogg tivesse partido na<br \/>\n    v&eacute;spera pelo China, um dos melhores cruzadores da linha Cunard, teria<br \/>\n    chegado a Liverpool, depois a Londres, no prazo desejado.<\/p>\n<p> Mr. Fogg deixou o hotel, sozinho, depois de ter recomendado ao criado que<br \/>\n    o esperasse e avisasse Mrs. Aouda para que estivesse pronta a qualquer momento.<\/p>\n<p> Mr. Fogg dirigiu-se para as margens do Hudson, e entre os navios atracados<br \/>\n    ao cais, ou ancorados no rio, procurou atentamente os que estavam de partida.<br \/>\n    Muitas embarca&ccedil;&otilde;es tinham o sinal de partida e se preparavam<br \/>\n    para se fazer ao mar na mar&eacute; da manh&atilde;, porque neste imenso e<br \/>\n    admir&aacute;vel porto de Nova York, n&atilde;o h&aacute; dia em que cem navios<br \/>\n    n&atilde;o fa&ccedil;am rota para todos os pontos do globo; mas a maioria<br \/>\n    eram embarca&ccedil;&otilde;es a vela, e n&atilde;o podiam convir a Phileas<br \/>\n    Fogg.<\/p>\n<p> Este gentleman parecia dever falhar na sua &uacute;ltima tentativa, quando<br \/>\n    avistou ancorado diante da Bateria, a 200 metros ou mais, um navio de com&eacute;rcio<br \/>\n    a h&eacute;lice, de formas finas, e cuja chamin&eacute;, deixando sair grossas<br \/>\n    nuvens de fuma&ccedil;a, indicava que se preparava para partir.<\/p>\n<p> Phileas Fogg chamou um bote, embarcou nele, e, em poucas remadas, achou-se<br \/>\n    na escada do Henrietta, vapor de casco de ferro,com todos os altos de madeira.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o do Henrietta estava a bordo. Phileas Fogg subiu ao conv&eacute;s<br \/>\n    e pediu para chamarem o capit&atilde;o. Este apareceu logo.<\/p>\n<p> Era um homem de cinq&uuml;enta anos, uma esp&eacute;cie de lobo marinho,<br \/>\n    um resmung&atilde;o que n&atilde;o deveria ser trat&aacute;vel. Olhos grandes,<br \/>\n    raiados de cobre oxidado, cabelos vermelhos, pesco&ccedil;o encorpado n&atilde;o<br \/>\n    tinha o aspecto de um homem delicado.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Sou eu.<\/p>\n<p> Eu sou Phileas Fogg, de Londres.<\/p>\n<p> E eu, Andrew Speedy, da Cardiff.<\/p>\n<p> Vai partir? Em uma hora.<\/p>\n<p> Esta carregado para&#8230;<\/p>\n<p> Bordeaux.<\/p>\n<p> E sua carga? Pedras no por&atilde;o. Sem frete. Parto em lastro.<\/p>\n<p> Tem passageiros? Sem passageiros. Jamais passageiros. Mercadoria que estorva<br \/>\n    e que discute.<\/p>\n<p> Seu navio anda bem? Entre onze a doze n&oacute;s. O Henrietta &eacute; bem<br \/>\n    conhecido.<\/p>\n<p> Quer me transportar para Liverpool, a mim e tr&ecirc;s pessoas? Para Liverpool?<br \/>\n    Porque n&atilde;o para a China? Digo Liverpool.<\/p>\n<p> N&atilde;o! N&atilde;o? N&atilde;o. Estou de partida para Bordeaux, e vou<br \/>\n    para Bordeaux.<\/p>\n<p> N&atilde;o importa o pre&ccedil;o? N&atilde;o importa o pre&ccedil;o.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o tinha falado com um tom que n&atilde;o admitia r&eacute;plica.<\/p>\n<p> Mas os armadores do Henrietta&#8230; retomou Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Os armadores, sou eu, respondeu o capit&atilde;o. O navio me pertence.<\/p>\n<p> Eu freto! N&atilde;o.<\/p>\n<p> Eu compro.<\/p>\n<p> N&atilde;o.<\/p>\n<p> Phileas Fogg nem pestanejou. Entretanto a situa&ccedil;&atilde;o era grave.<br \/>\n    N&atilde;o estava sendo em Nova York como tinha sido em Hong Kong; nem com<br \/>\n    o capit&atilde;o do Henrietta como tinha sido com o patr&atilde;o da Tankad&egrave;re.<br \/>\n    At&eacute; ent&atilde;o o dinheiro do gentleman tinha dado conta dos obst&aacute;culos.<br \/>\n    Mas desta vez o dinheiro falhava.<\/p>\n<p> Entretanto, era preciso encontrar o meio de atravessar o Atl&acirc;ntico<br \/>\n    de navio a menos que fosse atravessado de bal&atilde;o o que seria muito arriscado,<br \/>\n    e, al&eacute;m disso, irrealiz&aacute;vel.<\/p>\n<p> Pareceu, contudo, que Phileas Fogg teve uma id&eacute;ia, porque disse ao<br \/>\n    capit&atilde;o: Pois bem, quer me levar at&eacute; Bordeaux? N&atilde;o, nem<br \/>\n    que me pagasse cem d&oacute;lares! Ofere&ccedil;o dois mil.<\/p>\n<p> Por pessoa? Por pessoa.<\/p>\n<p> E s&atilde;o quatro? Quatro.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o Speedy come&ccedil;ou a co&ccedil;ar a testa, como se quisesse<br \/>\n    arrancar-lhe a epiderme. Ganhar oito mil d&oacute;lares, sem alterar a viagem,<br \/>\n    a&iacute; estava uma coisa pela qual valia a pena p&ocirc;r de lado sua antipatia<br \/>\n    declarada por qualquer esp&eacute;cie de passageiro. Passageiros a dois mil<br \/>\n    d&oacute;lares, ademais, j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o passageiros, s&atilde;o<br \/>\n    mercadoria preciosa.<\/p>\n<p> Parto &agrave;s nove horas, disse simplesmente o capit&atilde;o Speedy,<br \/>\n    com o senhor e os seus, se estiverem aqui&#8230;<\/p>\n<p> &Agrave;s nove horas, estaremos no navio! respondeu n&atilde;o menos simplesmente<br \/>\n    Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Eram oito e meia. Desembarcar do Henrietta, subir para um ve&iacute;culo,<br \/>\n    dirigir-se ao hotel Saint-Nicolas, trazer Mrs. Aouda, Passepartout, e at&eacute;<br \/>\n    o insepar&aacute;vel Fix, a quem graciosamente ofereceu passagem, tudo isso<br \/>\n    foi feito pelo gentleman com a calma que n&atilde;o o abandonava em nenhuma<br \/>\n    circunst&acirc;ncia.<\/p>\n<p> No momento em que o Henrietta aparelhava, todos os quatro estavam a bordo.<\/p>\n<p> Quando Passepartout soube quanto custaria esta &uacute;ltima travessia,<br \/>\n    soltou um desses &ldquo;Oh!&rdquo; prolongados, que percorrem todas os intervalos<br \/>\n    da escala crom&aacute;tica descendente! Quanto ao inspetor Fix, disse consigo<br \/>\n    que decididamente o Banco da Inglaterra n&atilde;o sairia inc&oacute;lume<br \/>\n    deste neg&oacute;cio. Com efeito; chegando e admitindo que o senhor Fogg n&atilde;o<br \/>\n    lan&ccedil;asse mais alguns punhados ao mar, mais de sete mil libras (175.000<br \/>\n    F) faltariam na sacola de bank-notes.<\/p>\n<h4> <a name=\"33\" id=\"33\">CAP&Iacute;TULO XXXIII<\/a><\/h4>\n<p><b>EM QUE PHILEAS FOGG SE MOSTRA &Agrave; ALTURA DAS CIRCUNST&Acirc;NCIAS<br \/>\n    <\/b><\/p>\n<p>Uma hora depois, o vapor Henrietta ultrapassava o farol que sinaliza a entrada<br \/>\n    do Hudson, dobrava a ponta de Sandy Hook e dava ao mar. Durante a jornada,<br \/>\n    costeou Long Island, ao largo das luzes de Fire Island, e correu rapidamente<br \/>\n    para leste.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 13 de dezembro, ao meio dia, um homem subiu ao conv&eacute;s<br \/>\n    para determinar as coordenadas. Sup&otilde;em, por certo, que este homem era<br \/>\n    o capit&atilde;o Speedy! Nada disso. Era Phileas Fogg, esq.<\/p>\n<p> Quanto ao capit&atilde;o Speedy, estava fechado e bem fechado &agrave; chave<br \/>\n    no seu camarote, e soltava uivos que denotavam uma c&oacute;lera, bem perdo&aacute;vel,<br \/>\n    levada ao paroxismo.<\/p>\n<p> O que tinha acontecido era muito simples. Phileas Fogg queria ir a Liverpool,<br \/>\n    o capit&atilde;o n&atilde;o quis conduzi-lo para l&aacute;. Ent&atilde;o Phileas<br \/>\n    Fogg tinha aceitado comprar passagem para Bordeaux, e, nas trinta horas que<br \/>\n    esteve no navio, tinha manobrado t&atilde;o bem recorrendo &agrave;s suas<br \/>\n    bank-notes, que a tripula&ccedil;&atilde;o, marinheiros e fogueiros tripula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um pouco contrabandista, que estava em p&eacute;ssimos termos com o capit&atilde;o<br \/>\n    lhe pertencia. Eis por qu&ecirc; Phileas Fogg comandava em lugar do capit&atilde;o<br \/>\n    Speedy, por qu&ecirc; o capit&atilde;o estava trancado no camarote, e por<br \/>\n    qu&ecirc; enfim o Henrietta se dirigia para Liverpool. E bastava, era evidente,<br \/>\n    ver Mr. Fogg manobrar, para saber que Mr. Fogg tinha sido marujo.<\/p>\n<p> E agora, como acabaria a aventura, &eacute; o que mais tarde se saber&aacute;.<br \/>\n    Contudo, Mrs. Aouda n&atilde;o deixava de se sentir inquieta, apesar de nada<br \/>\n    dizer. Fix, esse, tinha ficado estupefato a princ&iacute;pio. Quanto a Passepartout,<br \/>\n    achava simplesmente ador&aacute;vel.<\/p>\n<p> Entre onze a doze n&oacute;s, tinha dito o capit&atilde;o Speedy, e com<br \/>\n    efeito o Henrietta se mantinha nesta m&eacute;dia de velocidade.<\/p>\n<p> Se, pois que ainda havia &ldquo;se&rdquo;! se, pois, o mar n&atilde;o ficasse<br \/>\n    muito ruim, se o vento n&atilde;o saltasse para leste, se n&atilde;o sucedesse<br \/>\n    nenhuma avaria ao barco, nenhum acidente &agrave; m&aacute;quina, o Henrietta,<br \/>\n    nos nove dias contados de 12 de dezembro a 21, poderia atravessar as tr&ecirc;s<br \/>\n    mil milhas que separam Nova York de Liverpool. &Eacute; verdade que uma vez<br \/>\n    l&aacute;, o neg&oacute;cio do Henrietta somando-se ao do Banco, poderia levar<br \/>\n    o gentleman um pouco mais longe de onde queria.<\/p>\n<p>Durante os primeiros dias, a navega&ccedil;&atilde;o se fez em excelentes<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es. O mar n&atilde;o estava muito duro; o vento parecia<br \/>\n    fixo a nordeste; largaram-se as velas, e, sob suas goletas, o Henrietta andou<br \/>\n    como um verdadeiro transatl&acirc;ntico.<\/p>\n<p> Passepartout estava encantado. A &uacute;ltima proeza de seu patr&atilde;o,<br \/>\n    da qual n&atilde;o queria ver as conseq&uuml;&ecirc;ncias, o entusiasmou.<br \/>\n    Jamais a tripula&ccedil;&atilde;o vira um rapaz mais alegre, mais &aacute;gil.<br \/>\n    Fazia mil gentilezas para os marinheiros e os assombrava por suas piruetas<br \/>\n    de malabarista. Com prodigalidade lhes dava os melhores nomes e as bebidas<br \/>\n    mais atraentes. Para ele, manobravam como gentlemen, e os fogueiros ati&ccedil;avam<br \/>\n    as fornalhas como uns her&oacute;is. Seu bom humor, muito comunicativo, contagiava<br \/>\n    todos. Esquecera o passado, os aborrecimentos, os perigos. S&oacute; pensava<br \/>\n    na meta da viagem, t&atilde;o pr&oacute;xima, e &agrave;s vezes ardia de impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    como se tivesse sido aquecido nas fornalhas do Henrietta. Muitas vezes tamb&eacute;m,<br \/>\n    o digno rapaz rodeava Fix; o olhava com olho que se diria comprido! mas n&atilde;o<br \/>\n    lhe falava, porque j&aacute; n&atilde;o existia nenhuma intimidade entre os<br \/>\n    dois antigos amigos.<\/p>\n<p> Demais, Fix, cumpre dizer, j&aacute; n&atilde;o compreendia nada! A conquista<br \/>\n    do Henrietta, a compra de sua tripula&ccedil;&atilde;o, aquele Fogg manobrando<br \/>\n    como um marinheiro consumado, todo este conjunto de coisas o aturdia. N&atilde;o<br \/>\n    sabia mais o que pensar! Mas, afinal, um gentleman que come&ccedil;ava roubando<br \/>\n    cinq&uuml;enta e cinco mil libras podia muito bem acabar por roubar uma embarca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E Fix foi naturalmente levado a crer que o Henrietta, dirigido por Fogg, n&atilde;o<br \/>\n    iria de jeito nenhum para Liverpool, mas para algum ponto do mundo onde o<br \/>\n    ladr&atilde;o, agora pirata, se poria tranq&uuml;ilamente em seguran&ccedil;a!<br \/>\n    Esta hip&oacute;tese, devemos confessar, n&atilde;o poderia ser mais plaus&iacute;vel,<br \/>\n    e o detetive come&ccedil;ava a arrepender-se muito seriamente de ter embarcado<br \/>\n    nessa.<\/p>\n<p> Quanto ao capit&atilde;o Speedy, continuava a uivar no camarote, e Passepartout,<br \/>\n    encarregado de lhe levar alimentos, n&atilde;o o fazia, apesar de ser muito<br \/>\n    vigoroso, sem as maiores precau&ccedil;&otilde;es. Mr. Fogg, esse, nem mesmo<br \/>\n    parecia duvidar que houvesse um capit&atilde;o a bordo.<\/p>\n<p> No dia 13, passaram pela extremidade da Terra Nova. S&atilde;o m&aacute;s<br \/>\n    paragens. Durante o inverno sobretudo, os nevoeiros s&atilde;o freq&uuml;entes,<br \/>\n    os furac&otilde;es tem&iacute;veis. Desde a v&eacute;spera, o bar&ocirc;metro,<br \/>\n    que baixara repentinamente, fazia pressentir uma mudan&ccedil;a pr&oacute;xima<br \/>\n    na atmosfera. Com efeito, durante a noite, a temperatura se modificou, o frio<br \/>\n    tornou-se mais intenso, e ao mesmo tempo o vento rodou para sudeste.<\/p>\n<p> Era um contratempo. Mr. Fogg, para n&atilde;o se afastar de sua rota, teve<br \/>\n    de ferrar as velas e for&ccedil;ar o vapor. Contudo, o andamento do navio<br \/>\n    foi diminuindo, tendo em conta o estado do mar, cujas imensas ondas quebravam<br \/>\n    contra a roda de proa. O navio come&ccedil;ou a arfar violentamente, em preju&iacute;zo<br \/>\n    da sua velocidade. O vento virava pouco a pouco furac&atilde;o, e j&aacute;<br \/>\n    se previa o momento em que o Henrietta n&atilde;o pudesse mais se manter sobre<br \/>\n    as ondas. Ora, se fosse preciso fugir diante do temporal, surgiria o desconhecido<br \/>\n    com todas as suas conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> O semblante de Passepartout carregou-se ao mesmo tempo que o c&eacute;u,<br \/>\n    e, por dois dias, o excelente mo&ccedil;o passou por transes mortais. Mas<br \/>\n    Phileas Fogg era um marinheiro ousado, que sabia resistir ao mar, e continuou<br \/>\n    o seu caminho sem sequer diminuir o vapor. O Henrietta, quando n&atilde;o<br \/>\n    podia levantar-se sobre a vaga, atravessava-a, o mar varria-lhe o conv&eacute;s,<br \/>\n    mas passava. Por vezes a h&eacute;lice emergia, agitando suas p&aacute;s no<br \/>\n    ar vertiginosamente, quando alguma montanha de &aacute;gua levantava sua popa<br \/>\n    para fora da superf&iacute;cie da &aacute;gua. Por&eacute;m, o navio ia sempre<br \/>\n    em frente.<\/p>\n<p> Contudo o vento n&atilde;o soprou t&atilde;o forte quanto poderiam ter esperado.<br \/>\n    N&atilde;o se tornou um deste tuf&otilde;es que passam a uma velocidade de<br \/>\n    noventa milhas por hora. Soprou suportavelmente, mas infelizmente soprou com<br \/>\n    obstina&ccedil;&atilde;o do sudeste e n&atilde;o permitiu que se largasse<br \/>\n    o pano. E contudo, como veremos, teria sido muito &uacute;til que tivesse<br \/>\n    vindo em aux&iacute;lio do vapor.<\/p>\n<p> Dia 16 de dezembro, era o septag&eacute;simo quinto desde a partida de Londres.<br \/>\n    Em resumo, o Henrietta n&atilde;o tinha ainda um atraso inquietante. Metade<br \/>\n    da travessia, mais ou menos, j&aacute; estava feita, e as piores paragens<br \/>\n    tinham sido vencidas. No ver&atilde;o, poderiam ter tido certeza de sucesso.<br \/>\n    No inverno, estavam &agrave; merc&eacute; do mau tempo. Passepartout n&atilde;o<br \/>\n    emitia sua opini&atilde;o. No fundo, tinha esperan&ccedil;as, e, se faltasse<br \/>\n    vento, punha f&eacute; no vapor.<\/p>\n<p> Ora, naquele dia, o maquinista tendo subido &agrave; coberta, encontrou<br \/>\n    Mr. Fogg e falou acaloradamente com ele.<\/p>\n<p> Sem saber bem porque por um pressentimento sem d&uacute;vida Passepartout<br \/>\n    experimentou uma vaga inquieta&ccedil;&atilde;o. Teria dado uma de suas orelhas<br \/>\n    para ouvir com a outra o que era dito. Contudo, p&ocirc;de apanhar algumas<br \/>\n    palavras, pronunciadas por seu patr&atilde;o: Tem certeza do que disse? perguntou<br \/>\n    Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Certeza absoluta, senhor, respondeu o maquinista. N&atilde;o se esque&ccedil;a<br \/>\n    de que, desde nossa partida, temos tido as fornalhas sempre acesas, e que<br \/>\n    se temos suficiente carv&atilde;o para ir a pouco vapor de Nova York a Bordeaux,<br \/>\n    n&atilde;o temos o bastante para ir a todo o vapor de Nova York a Liverpool.<\/p>\n<p> Pensarei nisso, respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Passepartout tinha compreendido. Ficou mortalmente inquieto.<\/p>\n<p> Ia faltar carv&atilde;o! Ah! se meu patr&atilde;o passa por esta, disse<br \/>\n    ele consigo, ficar&aacute; famoso! E tendo encontrado Fix, n&atilde;o conseguiu<br \/>\n    se conter de coloc&aacute;-lo a par da situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pois ent&atilde;o, lhe respondeu o agente com os dentes cerrados, julga<br \/>\n    mesmo que vamos para Liverpool! Claro que sim! Imbecil! respondeu o inspetor,<br \/>\n    que se afastou, encolhendo os ombros.<\/p>\n<p> Passepartout esteve a ponto de faz&ecirc;-lo engolir o qualificativo, cujo<br \/>\n    sentido verdadeiro n&atilde;o podia ali&aacute;s compreender; mas disse para<br \/>\n    si que o infortunado Fix deveria estar muito desapontado, muito humilhado<br \/>\n    em seu amor pr&oacute;prio, depois de ter t&atilde;o atabalhoadamdente seguido<br \/>\n    uma pista falsa em redor do mundo, e desculpou-o.<\/p>\n<p> E agora que decis&atilde;o iria tomar Phileas Fogg? Era dif&iacute;cii de<br \/>\n    imaginar! Entretanto pareceu que o fleum&aacute;tico gentleman tinha tomado<br \/>\n    uma, porque naquela mesma tarde mandou chamar o maquinista, e lhe disse: Atice<br \/>\n    o fogo e v&aacute; em frente at&eacute; acabar completamente o combust&iacute;vel.<\/p>\n<p> Instantes depois, a chamin&eacute; do Henrietta vomitava turbilh&otilde;es<br \/>\n    de fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> O navio continuou assim a andar a todo vapor; mas, como tinha sido avisado,<br \/>\n    dois dias mais tarde, dia 18, o maquinista fez saber que o carv&atilde;o acabaria<br \/>\n    naquele dia.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o deixem o fogo baixar, respondeu Mr. Fogg. Pelo contr&aacute;rio.<br \/>\n    Abram as v&aacute;lvulas.<\/p>\n<p> Naquele dia, por volta do meio dia, depois de ter tomado a altura do sol,<br \/>\n    e calculado a posi&ccedil;&atilde;o do navio, Phileas Fogg fez vir Passepartout,<br \/>\n    e deu-lhe a ordem de ir buscar o capit&atilde;o Speedy. Era como se tivessem<br \/>\n    mandado o bom mo&ccedil;o desacorrentar um tigre, e ele desceu ao tombadilho,<br \/>\n    se dizendo: Positivamente ficar&aacute; raivoso! Com efeito, alguns minutos<br \/>\n    mais tarde, em meio a gritos e pragas, uma bomba chegava ao tombadilho. Esta<br \/>\n    bomba, era o capit&atilde;o Speedy. E era evidente que ela iria explodir.<\/p>\n<p> Onde estamos? tais foram as primeiras palavras que pronunciou no meio das<br \/>\n    sufoca&ccedil;&otilde;es de c&oacute;lera, e se n&atilde;o ficasse apopl&eacute;tico,<br \/>\n    jamais ficaria.<\/p>\n<p> Onde estamos? repetiu, a face congestionada.<\/p>\n<p> A setecentas e setenta milhas de Liverpool (300 l&eacute;guas), respondeu<br \/>\n    Mr. Fogg com uma calma imperturb&aacute;vel.<\/p>\n<p> Pirata! exclamou Andrew Speedy.<\/p>\n<p> Mandei-o chamar, senhor&#8230;<\/p>\n<p> Cors&aacute;rio! &#8230;senhor, retomou Phileas Fogg, para pedir que me venda<br \/>\n    o seu navio.<\/p>\n<p> N&atilde;o! por todos os diabos, n&atilde;o! &Eacute; que vou ser obrigado<br \/>\n    a queim&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Queimar meu navio! Sim, pelo menos seus altos, porque estamos sem combust&iacute;vel.<\/p>\n<p> Queimar meu navio! gritou o capit&atilde;o Speedy, que j&aacute; nem podia<br \/>\n    mais sequer pronunciar as s&iacute;labas. Um navio que vale cinq&uuml;enta<br \/>\n    mil d&oacute;lares (250.000 F).<\/p>\n<p> Aqui tem sessenta mil (300.000 F)! respondeu Phileas Fogg, oferecendo ao<br \/>\n    capit&atilde;o um ma&ccedil;o de bank-notes.<\/p>\n<p> Isso teve um efeito m&aacute;gico sobre Andrew Speedy. N&atilde;o se &eacute;<br \/>\n    americano sem que a vis&atilde;o de sessenta mil d&oacute;lares lhe cause<br \/>\n    uma certa emo&ccedil;&atilde;o. O capit&atilde;o esqueceu em um instante sua<br \/>\n    c&oacute;lera, sua encarceramento, todos as queixas contra seu passageiro.<br \/>\n    O navio tinha vinte anos. Aquilo poderia vir a ser uma mina de ouro!&#8230; A<br \/>\n    bomba n&atilde;o poderia mais explodir. Mr. Fogg arrancara seu estopim.<\/p>\n<p> E o casco de ferro ficar&aacute; para mim, disse em um tom singularmente<br \/>\n    doce.<\/p>\n<p> O casco de ferro e a m&aacute;quina, senhor. Fechado? Fechado.<\/p>\n<p> E Andrew Speedy, pegando o ma&ccedil;o de bank-notes, contou e embolsou.<\/p>\n<p> Durante esta cena, Passepartout estava l&iacute;vido. Quanto a Fix, quase<br \/>\n    que teve um enfarto. Quase vinte mil libras gastas, e ainda por cima este<br \/>\n    Fogg abandonava ao vendedor o casco e a m&aacute;quina, isto &eacute;, quase<br \/>\n    o valor total do navio! &Eacute; bem verdade que a quantia roubada do Banco<br \/>\n    era de cinq&uuml;enta e cinco mil libras! Quando Andrew Speedy tinha embolsado<br \/>\n    o dinheiro: Senhor, disse Mr. Fogg, que tudo isso n&atilde;o lhe cause admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Saiba que perco vinte mil libras se n&atilde;o estiver em Londres dia 21 de<br \/>\n    dezembro, &agrave;s oito e quarenta e cinco da noite. Ora, perdi o paquete<br \/>\n    de Nova York, e como se recusava a me levar a Liverpool&#8230;<\/p>\n<p> E fiz bem, pelos cinq&uuml;enta mil diabos do inferno, exclamou Andrew Speedy,<br \/>\n    pois com isso ganhei pelo menos quarenta mil d&oacute;lares.<\/p>\n<p> Depois, mais pausadamente: Sabe uma coisa, acrescentou, capit&atilde;o?&#8230;<\/p>\n<p> Fogg.<\/p>\n<p> Capit&atilde;o Fogg, pois bem, h&aacute; um yankee no senhor.<\/p>\n<p> E depois de ter feito ao seu passageiro o que ele julgava um comprimento,<br \/>\n    ia embora, quando Phileas Fogg lhe disse: Agora este navio me pertence? Claro,<br \/>\n    da quilha at&eacute; &agrave; ponta dos mastros; tudo o que for madeira, claro.<\/p>\n<p> Bem. Fa&ccedil;a demolir as divis&otilde;es internas e aquecer a caldeira<br \/>\n    com os destro&ccedil;os.<\/p>\n<p> Imaginem o que foi preciso consumir de madeira seca para conservar o vapor<br \/>\n    com suficiente press&atilde;o. Naquele dia, o tombadilho, os camarotes de<br \/>\n    conv&eacute;s, as cabinas, os alojamentos, a falsa coberta, tudo foi abaixo.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 19 de dezembro, queimou-se a mastrea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as pe&ccedil;as de substitui&ccedil;&atilde;o, as antenas. Abateram-se os<br \/>\n    mastros, foram cortados a machadadas. Passepartout, rachando, cortando, serrando,<br \/>\n    fazia o trabalho de dez homens. Era um furor de demoli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 20, os pavezes, as obras mortas, e a maior parte da coberta<br \/>\n    foram devorados. O Henrietta n&atilde;o era mais que uma embarca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rasa como um pont&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas, nesse dia, foi avistada a costa da Irlanda e as luzes de Fastenet.<\/p>\n<p> Contudo, &agrave;s dez horas, o navio estava ainda na altura de Queenstown.<br \/>\n    Phileas Fogg n&atilde;o tinha mais de vinte e quatro horas para chegar a Londres!<br \/>\n    Ora, era o tempo necess&aacute;rio para o Henrietta chegar a Liverpool mesmo<br \/>\n    navegando a todo o vapor. E o vapor iria faltar afinal ao audacioso gentleman.<\/p>\n<p> Senhor, disse ent&atilde;o o capit&atilde;o Speedy, que tinha acabado se<br \/>\n    interessando por seus projetos, lamento de verdade. Tudo est&aacute; contra<br \/>\n    si! N&atilde;o estamos sen&atilde;o diante de Queenstown.<\/p>\n<p> Ah! exclamou Mr. Fogg, &eacute; Queenstown, esta cidade de que vemos as<br \/>\n    luzes &eacute; Queenstown? Sim.<\/p>\n<p> Podemos entrar no porto? N&atilde;o antes das tr&ecirc;s. S&oacute; com<br \/>\n    mar&eacute; cheia.<\/p>\n<p> Esperemos! respondeu tranq&uuml;ilamente Phileas Fogg, sem revelar em seu<br \/>\n    rosto que, por uma suprema inspira&ccedil;&atilde;o, iria tentar mais uma<br \/>\n    vez vencer a sorte adversa! Com efeito, Queenstown &eacute; um porto da costa<br \/>\n    da Irlanda na qual os transatl&acirc;nticos que v&ecirc;m dos Estados Unidos<br \/>\n    deixam na passagem as suas malas postais. As cartas s&atilde;o levadas a Dublin<br \/>\n    por expressos sempre prontos para partir. De Dublin chegam a Liverpool por<br \/>\n    vapores de grande velocidade precedendo em doze horas os barcos mais r&aacute;pidos<br \/>\n    das companhias mar&iacute;timas.<\/p>\n<p> Estas doze horas que assim ganhava o correio da Am&eacute;rica, Phileas<br \/>\n    Fogg pretendia tamb&eacute;m ganh&aacute;-las. Em lugar de chegar no Henrietta,<br \/>\n    no dia seguinte &agrave; tarde, em Liverpool, chegaria ao meio dia, e, por<br \/>\n    conseguinte, teria tempo para estar em Londres antes das oito horas e quarenta<br \/>\n    e cinco minutos da noite.<\/p>\n<p> Pela uma da madrugada, o Henrietta entrou com o mar alto no porto de Queenstown,<br \/>\n    e Phileas Fogg, depois de ter recebido um vigoroso aperto de m&atilde;o do<br \/>\n    capit&atilde;o Speedy, deixava-o no casco arrasado do seu navio, que ainda<br \/>\n    valia a metade do que tinha vendido! Os passageiros desembarcaram depressa.<br \/>\n    Fix, neste momento, teve um desejo feroz de deter o senhor Fogg. Mas n&atilde;o<br \/>\n    o fez! Por qu&ecirc;? Que combate se travava nele? Teria mudado de id&eacute;ias<br \/>\n    a respeito de Mr. Fogg? Compreendera afinal que se enganara? Tadavia, Fix<br \/>\n    n&atilde;o abandonou Mr. Fogg. Com ele, com Mrs. Aouda, com Passepartout,<br \/>\n    que j&aacute; nem gastava o tempo para respirar, subiu no trem de Queenstown<br \/>\n    &agrave; uma e meia da madrugada, chegou a Dublin com o dia nascendo, e embarcou<br \/>\n    logo num desses vapores verdadeiros fusos de a&ccedil;o, s&oacute; movidos<br \/>\n    por m&aacute;quinas que desdenhando elevar-se sobre as ondas, passam invariavelmente<br \/>\n    atrav&eacute;s delas.<\/p>\n<p> Ao meio dia menos vinte, em 21 de dezembro, Phileas Fogg desembarcou afinal<br \/>\n    no cais de Liverpool. N&atilde;o estava a mais de seis horas de Londres.<\/p>\n<p> Mas neste momento, Fix se aproximou, p&ocirc;s a m&atilde;o no seu ombro,<br \/>\n    e, exibindo seu mandado: &Eacute; o senhor Phileas Fogg? disse ele.<\/p>\n<p> Sim, senhor.<\/p>\n<p> Eu o prendo, em nome da Rainha!<\/p>\n<h4><a name=\"34\" id=\"34\">CAP&Iacute;TULO XXXIV<\/a><\/h4>\n<p> <b>QUE PROPORCIONA A PASSEPARTOUT A OPORTUNIDADE DE FAZER UM TROCADILHO<br \/>\n    INFAME, MAS TALVEZ IN&Eacute;DITO <\/b><\/p>\n<p>Phileas Fogg estava na pris&atilde;o. Tinham-no trancafiado no posto policial<br \/>\n    da Custom House, a alf&acirc;ndega de Liverpool, e a&iacute; deveria passar<br \/>\n    a noite esperando ser transferido para Londres.<\/p>\n<p> No momento da deten&ccedil;&atilde;o, Passepartout tinha tentado se precipitar<br \/>\n    sobre o detetive. Os policemen impediram. Mrs. Aouda, aterrada pela brutalidade<br \/>\n    do fato, nada sabendo, nada compreendia. Passepartout lhe explicou a situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mr. Fogg, este honesto e corajoso gentleman, ao qual ela devia a vida, estava<br \/>\n    preso como ladr&atilde;o. A jovem protestou contra tal alega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o se indignou, e as l&aacute;grimas correram de seus<br \/>\n    olhos, quando viu que nada podia fazer, nada tentar, para salvar seu salvador.<\/p>\n<p> Quanto a Fix, tinha prendido o gentleman porque seu dever lhe comandava<br \/>\n    prend&ecirc;-lo, fosse culpado ou n&atilde;o. A justi&ccedil;a decidiria.<\/p>\n<p> Mas ent&atilde;o um pensamento veio a Passepartout, o pensamento terr&iacute;vel<br \/>\n    de que ele era decididamente a causa do toda aquela desgra&ccedil;a! Com efeito,<br \/>\n    por qu&ecirc; tinha ocultado o que se passava de Mr. Fogg? Quando Fix tinha<br \/>\n    se revelado, revelado sua qualidade de inspetor de pol&iacute;cia e a miss&atilde;o<br \/>\n    de que tinha sido encarregado, por qu&ecirc; tinha decidido n&atilde;o avisar<br \/>\n    o patr&atilde;o? Este, prevenido, teria sem d&uacute;vida dado a Fix provas<br \/>\n    de sua inoc&ecirc;ncia; teria demostrado seu erro; em todo o caso, n&atilde;o<br \/>\n    teria levado &agrave;s suas custas e nas suas costas este mal agradecido agente,<br \/>\n    cujo primeiro cuidado tinha sido prend&ecirc;-lo, no momento em que punha<br \/>\n    o p&eacute; no solo do Reino Unido. Ao pensar em suas faltas, em suas imprud&ecirc;ncias,<br \/>\n    o pobre rapaz era tomado de irresist&iacute;veis remorsos. Chorava, dava pena<br \/>\n    v&ecirc;-lo. Queria dar com a cabe&ccedil;a na parede! Mrs.Apesar e ele tinham<br \/>\n    ficado, apesar do frio, no peristilo da alf&acirc;ndega. N&atilde;o queriam<br \/>\n    nem um nem a outra deixar o lugar. Desejavam rever ainda uma vez Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Quanto a este gentleman, estava bem e em regra arruinado, e justo no momento<br \/>\n    em que ia alcan&ccedil;ar seu objetivo. Esta deten&ccedil;&atilde;o o perdia<br \/>\n    irrevogavelmente. Tendo chegado ao meio dia menos vinte em Liverpool, dia<br \/>\n    21 de dezembro, tinha at&eacute; as oito horas e quarenta e cinco minutos<br \/>\n    para se apresentar no Reform Club, ou seja nove horas e quinze minutos e n&atilde;o<br \/>\n    precisaria mais de seis para chegar a Londres.<\/p>\n<p> Neste momento, quem tivesse penetrado no posto policial da alf&acirc;ndega,<br \/>\n    teria encontrado Mr. Fogg, im&oacute;vel, sentado num banco d&ecirc; madeira,<br \/>\n    sem c&oacute;lera, imperturb&aacute;vel. Resignado, n&atilde;o sabemos, mas<br \/>\n    este &uacute;ltimo golpe n&atilde;o o tinha podido emocionar, pelo menos aparentemente.<br \/>\n    Teria se formado nele uma dessas tempestades secretas, terr&iacute;veis porque<br \/>\n    s&atilde;o reprimidas, e que n&atilde;o eclodem sen&atilde;o no &uacute;ltimo<br \/>\n    momento com uma for&ccedil;a irresist&iacute;vel? N&atilde;o sabemos. Mas<br \/>\n    Phileas Fogg estava ali, calmo, aguardando&#8230; o qu&ecirc;? Conservaria alguma<br \/>\n    esperan&ccedil;a? Confiaria ainda no sucesso, quando a porta desta pris&atilde;o<br \/>\n    estava trancada sobre ele? Fosse como fosse, Mr. Fogg tinha cuidadosamente<br \/>\n    posto seu rel&oacute;gio sobre uma mesa e olhava os ponteiros avan&ccedil;arem.<br \/>\n    Nem uma palavra escapava de seus l&aacute;bios, mas seu olhar tinha uma fixidez<br \/>\n    &iacute;mpar.<\/p>\n<p> Em todo caso, a situa&ccedil;&atilde;o era terr&iacute;vel, e, para quem<br \/>\n    n&atilde;o pudesse ler naquela consci&ecirc;ncia, ela se resumia assim: Homem<br \/>\n    honesto, Phileas Fogg estava arruinado.<\/p>\n<p> Homem desonesto, estava preso.<\/p>\n<p> Teria ent&atilde;o o pensamento de se salvar? Pensava em procurar se este<br \/>\n    posto apresentaria uma sa&iacute;da pratic&aacute;vel? Pensava em fugir? Ser&iacute;amos<br \/>\n    tentados a acreditar que sim, porque, em certo momento, inspecionou o quarto.<br \/>\n    Mas a porta estava solidamente fechada e as janelas guarnecidas de barras<br \/>\n    de ferro. Voltou a se sentar, e tirou da carteira o roteiro da viagem. Na<br \/>\n    linha que trazia estas palavras: 21 do dezembro, s&aacute;bado, Liverpool,<br \/>\n    acrescentou: 80.&deg; dia, 11 h 40 da manh&atilde;, e esperou.<\/p>\n<p> Uma hora soou no rel&oacute;gio da Custom-house. Mr. Fogg constatou que<br \/>\n    o seu rel&oacute;gio estava dois minutos adiantado em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a ele.<\/p>\n<p> Duas horas! Admitindo que tomasse neste momento um expresso, poderia ainda<br \/>\n    chegar a Londres e ao Reform Club antes das oito e quarenta e cinco da noite.<br \/>\n    Sua testa enrugou-se ligeiramente&#8230;<\/p>\n<p> &Agrave;s duas e trinta e tr&ecirc;s, um barulho ressoou do lado de fora,<br \/>\n    um barulho tumultuoso de portas que se abriam. Ouviu-se a voz de Passepartout,<br \/>\n    ouviu-se a voz de Fix.<\/p>\n<p> O olhar de Phileas Fogg brilhou um instante.<\/p>\n<p> A porta do posto policial se abriu, e viu Mrs. Aouda, Passepartout, Fix,<br \/>\n    que se precipitaram para ele.<\/p>\n<p> Fix estava sem f&ocirc;lego, cabelos em desalinho&#8230; N&atilde;o podia falar!<br \/>\n    Senhor, balbuciou, senhor&#8230; perd&atilde;o&#8230; uma semelhan&ccedil;a deplor&aacute;vel&#8230;<br \/>\n    Ladr&atilde;o est&aacute; preso h&aacute; tr&ecirc;s dias&#8230; est&aacute;&#8230;<br \/>\n    livre!&#8230;<\/p>\n<p> Phileas Fogg estava livre! Foi at&eacute; o detetive. Olhou diretamente<br \/>\n    para seu rosto, e, fazendo o &uacute;nico movimento r&aacute;pido que jamais<br \/>\n    tinha feito em sua vida, recuou seus dois bra&ccedil;os para tr&aacute;s,<br \/>\n    depois, com a precis&atilde;o de um aut&ocirc;mato, bateu com seus dois punhos<br \/>\n    no infeliz inspetor.<\/p>\n<p> Bem dado! exclamou Passepartout, que, se permitindo um infame trocadilho,<br \/>\n    bem digno de um franc&ecirc;s, acrescentou: C&aacute;spite! eis o que se pode<br \/>\n    chamar de um soco ingl&ecirc;s bem aplicado! Fix, derrubado, n&atilde;o pronunciou<br \/>\n    palavra. Levara o que tinha merecido. Mas de imediato Mr. Fogg, Mrs. Aouda,<br \/>\n    Passepartout deixaram a alf&acirc;ndega. Lan&ccedil;aram-se em um ve&iacute;culo,<br \/>\n    e, em alguns minutos, chegaram &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de Liverpool.<\/p>\n<p> Phileas Fogg perguntou se havia um expresso prestes a partir para Londres&#8230;<\/p>\n<p> Eram duas e quarenta&#8230; O expresso tinha partido havia trinta e cinco minutos.<\/p>\n<p> Phileas Fogg solicitou ent&atilde;o um trem especial.<\/p>\n<p> Havia diversas locomotivas a vapor de grande velocidade; mas, atendendo<br \/>\n    &agrave;s exig&ecirc;ncias do servi&ccedil;o, o trem especial s&oacute; poderia<br \/>\n    deixar a esta&ccedil;&atilde;o &agrave;s tr&ecirc;s horas.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s horas, Phileas Fogg, depois de ter dito algumas palavras<br \/>\n    ao maquinista sobre uma certa gratifica&ccedil;&atilde;o, corria em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Londres, em companhia da jovem e do seu fiel servidor.<\/p>\n<p> Era preciso percorrer em cinco horas e meia a dist&acirc;ncia que separa<br \/>\n    Liverpool de Londres coisa muito f&aacute;cil quando a via est&aacute; livre<br \/>\n    em todo o percurso. Mas houve atrasos for&ccedil;ados, e, quando o gentleman<br \/>\n    chegou &agrave; esta&ccedil;&atilde;o, nove horas menos dez soavam em todos<br \/>\n    os rel&oacute;gios de Londres.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, depois de ter dado a volta ao mundo, chegava com um atraso<br \/>\n    de cinco minutos!&#8230;<\/p>\n<p> Tinha perdido.<\/p>\n<h4><a name=\"35\" id=\"35\">CAP&Iacute;TULO XXXV<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PASSEPARTOUT N&Atilde;O PEDE PARA SEU PATR&Atilde;O REPETIR DUAS<br \/>\n    VEZES UMA ORDEM DADA <\/b><\/p>\n<p>No dia seguinte, os moradores de Saville Row teriam ficado bem surpresos,<br \/>\n    se lhes tivessem dito que Mr. Fogg tinha voltado para casa. Portas e janelas,<br \/>\n    tudo estava fechado. Nenhuma mudan&ccedil;a se tinha produzido exteriormente.<\/p>\n<p> Com efeito, ap&oacute;s ter deixado a esta&ccedil;&atilde;o, Phileas Fogg<br \/>\n    tinha mandado Passepartout comprar algumas provis&otilde;es, e tinha voltado<br \/>\n    para casa.<\/p>\n<p> O gentleman tinha recebido com sua impassividade habitual o golpe que o<br \/>\n    ferira. Arruinado! e por culpa deste inspetor de pol&iacute;cia trapalh&atilde;o!<br \/>\n    Ap&oacute;s ter caminhado a passos seguros durante um longo percurso, ap&oacute;s<br \/>\n    ter ultrapassado mil obst&aacute;culos, arrostado mil perigos, tendo ainda<br \/>\n    tempo para fazer algum bem pelo caminho, morrer na praia por um fato brutal,<br \/>\n    que n&atilde;o poderia prever, e contra o qual estava desarmado: era terr&iacute;vel!<br \/>\n    Da soma consider&aacute;vel que tinha levado ao partir, s&oacute; lhe restava<br \/>\n    um saldo insignificante. Sua fortuna era s&oacute; as vinte mil libras depositadas<br \/>\n    no Baring Irm&atilde;os, e essas vinte mil libras, ele as devia aos seus colegas<br \/>\n    do Reform Club. Ap&oacute;s tantas despesas, ganhar a aposta n&atilde;o o<br \/>\n    teria enriquecido sem d&uacute;vida, e &eacute; prov&aacute;vel que n&atilde;o<br \/>\n    tivesse procurado se enriquecer sendo desses homens que apostam por honra<br \/>\n    mas a aposta perdida o arruinava totalmente. E mais, a decis&atilde;o do gentleman<br \/>\n    estava tomada. Sabia o que lhe restava fazer.<\/p>\n<p> Um quarto da casa de Saville Row tinha sido reservado para Mrs. Aouda. A<br \/>\n    jovem estava desesperada. Por certas palavras pronunciadas por Mr. Fogg, compreendera<br \/>\n    que este meditava algum plano funesto.<\/p>\n<p> Sabemos, com efeito, a que deplor&aacute;veis extremos s&atilde;o levados<br \/>\n    &agrave;s vezes esses ingleses monoman&iacute;acos sob a press&atilde;o de<br \/>\n    uma id&eacute;ia fixa. Tamb&eacute;m Passepartout, sem parecer, vigiava seu<br \/>\n    patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas, assim que chegou, o honesto rapaz tinha subido ao seu quarto e apagado<br \/>\n    o bico que brilhava h&aacute; oitenta dias. Tinha encontrado na caixa do correio<br \/>\n    uma conta da companhia do g&aacute;s, e pensou que era mais que tempo de parar<br \/>\n    com esta despesa pela qual era respons&aacute;vel.<\/p>\n<p> A noite passou. Mr. Fogg tinha deitado, mas teria dormido? Quanto a Mrs.<br \/>\n    Aouda, n&atilde;o p&ocirc;de ter um s&oacute; instante de repouso. Passapartout,<br \/>\n    este, tinha vigiado como um c&atilde;o &agrave; porta de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> No dia seguinte, Mr. Fogg o chamou e recomendou-lhe, em termos muito breves,<br \/>\n    que cuidasse do almo&ccedil;o de Mrs. Aouda. Para ele, ele se contentaria<br \/>\n    com uma x&iacute;cara de ch&aacute; e uma torrada. Mrs. Aouda que o desculpasse<br \/>\n    no almo&ccedil;o e no jantar, porque todo seu tempo estaria consagrado a colocar<br \/>\n    em ordem seus neg&oacute;cios. N&atilde;o desceria. &Agrave; noite somente,<br \/>\n    e pedia a Mrs. Aouda permiss&atilde;o para encontr&aacute;-la por alguns instantes.<\/p>\n<p> Passepartout, tendo recebido o programa do dia, tinha que se conformar com<br \/>\n    ele. Olhava seu patr&atilde;o sempre impass&iacute;vel, e n&atilde;o podia<br \/>\n    se decidir a deixar o quarto. Seu cora&ccedil;&atilde;o estava aflito, sua<br \/>\n    consci&ecirc;ncia torturada por remorsos, porque se acusava mais que nunca<br \/>\n    deste irrepar&aacute;vel desastre. Sim! se tivesse avisado Mr. Fogg, se lhe<br \/>\n    tivesse revelado os projeto do agente Fix, Mr. Fogg n&atilde;o teria certamente<br \/>\n    arrastado o agente at&eacute; Liverpool, e ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Passepartout n&atilde;o p&ocirc;de se conter.<\/p>\n<p> Meu patr&atilde;o! senhor Fogg! exclamou, amaldi&ccedil;oe-me. &Eacute;<br \/>\n    por minha culpa que&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o acuso ningu&eacute;m, respondeu Phileas Fogg no tom mais calmo.<br \/>\n    V&aacute;.<\/p>\n<p> Passepartout deixou o quarto e veio encontrar a jovem, &agrave; qual participou<br \/>\n    as inten&ccedil;&otilde;es de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> Madame, acrescentou, por mim nada posso, nada! N&atilde;o tenho nenhuma<br \/>\n    influ&ecirc;ncia sobre o esp&iacute;rito de meu patr&atilde;o. A senhora,<br \/>\n    talvez&#8230;<\/p>\n<p> Que influ&ecirc;ncia teria, respondeu Mrs. Aouda. Mr. Fogg n&atilde;o sente<br \/>\n    influ&ecirc;ncia alguma! Compreendeu alguma vez que o meu reconhecimento estava<br \/>\n    prestes a transbordar! Leu alguma vez em meu cora&ccedil;&atilde;o!&#8230; Meu<br \/>\n    amigo, &eacute; preciso n&atilde;o o deixar, um s&oacute; instante. Disse<br \/>\n    que ele manifestou a inten&ccedil;&atilde;o de falar comigo esta noite? Sim,<br \/>\n    madame. Trata-se sem d&uacute;vida de salvaguardar sua situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na Inglaterra.<\/p>\n<p> Esperemos, respondeu a jovem, que ficou toda pensativa.<\/p>\n<p> Assim, durante todo o domingo, a casa de Saville Row esteve como se tivesse<br \/>\n    estado desabitada, e, pela primeira vez desde que morava nessa casa, Phileas<br \/>\n    Fogg n&atilde;o foi ao seu club, quando onze e meia soaram na torre do Parlamento.<\/p>\n<p> E por qu&ecirc; este gentleman teria se apresentado ao Reform Club? Seus<br \/>\n    colegas j&aacute; n&atilde;o o esperavam mais. Pois que, na v&eacute;spera<br \/>\n    &agrave; noite, naquela data fatal do s&aacute;bado dia 21 de dezembro, &agrave;s<br \/>\n    oito horas e quarenta e cinco, Phileas Fogg n&atilde;o tendo aparecido no<br \/>\n    sal&atilde;o do Reform Club, sua aposta estava perdida. Nem era necess&aacute;rio<br \/>\n    que fosse ao seu banqueiro retirar a soma de vinte mil libras. Seus advers&aacute;rios<br \/>\n    tinham em m&atilde;os um cheque assinado por ele, e bastaria um simples lan&ccedil;amento<br \/>\n    feito no Baring para que as vinte mil libras lhes fossem creditadas.<\/p>\n<p> Mr. Fogg n&atilde;o tinha por qu&ecirc; sair, e n&atilde;o saiu. Ficou no<br \/>\n    seu quarto e p&ocirc;s em ordem seus neg&oacute;cios. Passepartout n&atilde;o<br \/>\n    cessou de subir e descer a escada da casa de Saville Row. As horas n&atilde;o<br \/>\n    andavam para este pobre rapaz. Escutava &agrave; porta do quarto do patr&atilde;o,<br \/>\n    e, fazendo isso, n&atilde;o julgava cometer a menor indiscri&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Olhava pelo buraco da fechadura, e imaginava ter esse direito! Passepartout<br \/>\n    temia a cada instante alguma cat&aacute;strofe. &Agrave;s vezes, pensava em<br \/>\n    Fix, mas uma reviravolta se tinha produzido em seu esp&iacute;rito. N&atilde;o<br \/>\n    queria mais mal ao agente de pol&iacute;cia. Fix tinha se enganado como todo<br \/>\n    mundo a respeito de Phileas Fogg, e, seguindo-o, prendendo-o, n&atilde;o tinha<br \/>\n    feito mais que o seu dever, enquanto que ele&#8230; Esta id&eacute;ia o oprimia,<br \/>\n    e ele se julgava o &uacute;ltimo dos miser&aacute;veis.<\/p>\n<p> Quando, por fim, Passepartout se achava infeliz demais para ficar sozinho,<br \/>\n    batia &agrave; porta de Mrs. Aouda, entrava no quarto, sentava-se a um canto<br \/>\n    sem dizer palavra, e contemplava a jovem sempre pensativa.<\/p>\n<p> Pelas sete e meia da noite, Mr. Fogg mandou perguntar a Mrs. Aouda se o<br \/>\n    podia receber, e alguns instantes depois, a jovem e ele estavam a s&oacute;s<br \/>\n    no quarto.<\/p>\n<p> Phileas Fogg pegou uma cadeira e sentou perto da lareira, de frente para<br \/>\n    Mrs. Aouda. Seu rosto n&atilde;o refletia nenhuma emo&ccedil;&atilde;o. O<br \/>\n    Fogg do regresso era exatamente o Fogg da partida. Mesma calma, mesma impassibilidade.<\/p>\n<p> Permaneceu sem falar por cinco minutos. Depois, erguendo os olhos para Mrs.<br \/>\n    Aouda: Madame, disse, me perdoa por t&ecirc;-la trazido para a Inglaterra?<br \/>\n    Eu, Mr. Fogg!&#8230; respondeu Mrs. Aouda, comprimindo os batimentos de seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por favor, me deixe concluir, retomou Mr. Fogg. Quando tive o pensamento<br \/>\n    de lev&aacute;-la para longe daquele pa&iacute;s, que se tornara t&atilde;o<br \/>\n    perigoso para si, era rico, e contava colocar uma parte da minha fortuna &agrave;<br \/>\n    sua disposi&ccedil;&atilde;o. Sua exist&ecirc;ncia teria sido feliz e livre.<br \/>\n    Agora, estou arruinado.<\/p>\n<p> Eu sei, senhor Fogg, respondeu a jovem, e eu perguntarei do meu lado: Me<br \/>\n    perdoa por t&ecirc;-lo seguido e quem sabe? ter talvez, o atrasando, contribu&iacute;do<br \/>\n    para a sua ru&iacute;na? Madame, n&atilde;o podia ficar na &Iacute;ndia, e<br \/>\n    sua salva&ccedil;&atilde;o s&oacute; estaria assegurada se se afastasse o<br \/>\n    suficiente para que aqueles fan&aacute;ticos n&atilde;o a pudessem recapturar.<\/p>\n<p> Assim, senhor Fogg, retomou Mrs. Aouda, n&atilde;o contente de me livrar<br \/>\n    de uma morte horr&iacute;vel, se sentiu obrigado a assegurar minha posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no estrangeiro? Sim, madame, respondeu Fogg, mas os acontecimentos se viraram<br \/>\n    contra mim. Entretanto, do pouco que me resta, pe&ccedil;o licen&ccedil;a<br \/>\n    para dispor a seu favor.<\/p>\n<p> Mas, senhor Fogg, o senhor, que ser&aacute; feito do senhor? perguntou Mrs.<br \/>\n    Aouda.<\/p>\n<p> Eu, madame, respondeu friamente o gentleman, eu n&atilde;o preciso de nada.<\/p>\n<p> Mas como, senhor, encara a sorte que o espera? Como conv&eacute;m encarar,<br \/>\n    respondeu Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Em todo caso, retomou Mrs. Aouda, a mis&eacute;ria n&atilde;o saberia alcan&ccedil;ar<br \/>\n    um homem como o senhor. Seus amigos&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho amigos, madame.<\/p>\n<p> Seus parentes&#8230;<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o tenho parentes.<\/p>\n<p> Eu o lamento ent&atilde;o, senhor Fogg, porque o isolamento &eacute; coisa<br \/>\n    triste. Imagine! nem um cora&ccedil;&atilde;o onde lan&ccedil;ar suas m&aacute;guas.<br \/>\n    Dizem contudo que a dois a pr&oacute;pria mis&eacute;ria &eacute; ainda suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Dizem, madame.<\/p>\n<p> Senhor Fogg, disse ent&atilde;o Mrs. Aouda, que se levantou e estendeu sua<br \/>\n    m&atilde;o para o gentleman, quer ao mesmo tempo uma parente e uma amiga?<br \/>\n    Me quer para sua mulher? Mr. Fogg, a esta palavra, tinha tamb&eacute;m se<br \/>\n    levantado. Tinha um brilho n&atilde;o usual nos olhos, um tremor nos l&aacute;bios.<br \/>\n    Mrs. Aouda o olhava. A sinceridade, a retid&atilde;o, a firmeza e a do&ccedil;ura<br \/>\n    deste belo olhar de uma nobre mulher que tudo ousa para salvar aquele a quem<br \/>\n    tudo deve, o espantaram a princ&iacute;pio, depois o comoveram. Fechou os<br \/>\n    olhos por um instante, como que para evitar que aquele olhar lhe penetrasse<br \/>\n    mais fundo&#8230; Quando os reabriu: Eu a amo! disse simplesmente. Sim, na verdade,<br \/>\n    por tudo o que h&aacute; de mais sagrado no mundo, eu a amo, e sou todo seu!<br \/>\n    Ah!&#8230; exclamou Mrs. Aouda, levando sua m&atilde;o ao cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Passepartout foi chamado. Veio imediatamente. Mr. Fogg tinha ainda em sua<br \/>\n    m&atilde;o a m&atilde;o de Mrs. Aouda. Passepartout compreendeu, e seu grande<br \/>\n    rosto radiou como o sol no z&ecirc;nite das regi&otilde;es tropicais.<\/p>\n<p> Mr. Fogg lhe perguntou se n&atilde;o seria muito tarde para ir avisar o<br \/>\n    reverendo Samuel Wilson, da par&oacute;quia de MaryleBone.<\/p>\n<p> Passepartout sorriu o seu melhor sorrir.<\/p>\n<p> Nunca muito tarde, disse.<\/p>\n<p> Eram s&oacute; oito e cinco.<\/p>\n<p> Ser&aacute; amanh&atilde;, segunda feira! disse.<\/p>\n<p> Amanh&atilde;, segunda feira? perguntou Mr. Fogg olhando a jovem.<\/p>\n<p> Amanh&atilde;, segunda feira! respondeu Mrs. Aouda. Passepartout saiu, correndo.<\/p>\n<h4><a name=\"36\" id=\"36\">CAP&Iacute;TULO XXXVI<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE PHILEAS FOGG VOLTA A SUBIR NO MERCADO <\/b><\/p>\n<p>&Eacute; tempo de dizer aqui que reviravolta de opini&atilde;o tinha acontecido<br \/>\n    no Reino Unido, quando se soube da pris&atilde;o do verdadeiro ladr&atilde;o<br \/>\n    do Banco um certo James Strand pris&atilde;o que tinha acontecido em 17 de<br \/>\n    dezembro, em Edimburg.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s dias antes, Phileas Fogg era um criminoso que a pol&iacute;cia<br \/>\n    perseguia de todo jeito, e agora era o mais honesto gentleman, que realizava<br \/>\n    matematicamente sua exc&ecirc;ntrica viagem ao redor do mundo.<\/p>\n<p> Que efeito, que repercuss&atilde;o nos jornais! Todos os apostadores a favor<br \/>\n    ou contra, que tinham j&aacute; esquecido este caso, resuscitaram como por<br \/>\n    magia. Todas as transa&ccedil;&otilde;es voltavam a ter valor. Todos os comprometimentos<br \/>\n    reviviam, e, &eacute; preciso dizer, as apostas recome&ccedil;avam com uma<br \/>\n    nova energia. O nome de Phileas Fogg foi novamente preferencial no mercado.<\/p>\n<p> Os cinco colegas do gentleman, no Reform Club, passaram estes tr&ecirc;s<br \/>\n    dias em uma certa inquieta&ccedil;&atilde;o. Phileas Fogg, que eles tinham<br \/>\n    esquecido, reaparecia a seus olhos! Onde estaria neste momento? Em 17 de dezembro<br \/>\n    dia em que James Strand foi preso havia setenta e sete dias que Phileas Fogg<br \/>\n    tinha partido, e nenhuma not&iacute;cia dele! Teria sucumbido? Teria renunciado<br \/>\n    &agrave; luta, ou continuaria seu caminho seguindo o roteiro combinado? E<br \/>\n    s&aacute;bado 21 de dezembro, &agrave;s oito e quarenta e cinco da noite,<br \/>\n    iria aparecer, como o deus da exatid&atilde;o, sobre a soleira do sal&atilde;o<br \/>\n    do Reform Club? Temos que renunciar a pintar a ansiedade em que, durante tr&ecirc;s<br \/>\n    dias, viveu todo este mundo da sociedade inglesa. Expediram-se despachos para<br \/>\n    a Am&eacute;rica, para a &Aacute;sia, para se ter not&iacute;cias de Phileas<br \/>\n    Fogg! Mandaram vigiar de manh&atilde; &agrave; noite a casa de Saville Row&#8230;<br \/>\n    Nada. A pr&oacute;pria pol&iacute;cia n&atilde;o sabia mais o que tinha acontecido<br \/>\n    ao detetive Fix, que se tinha t&atilde;o atabalhoadamente lan&ccedil;ado sobre<br \/>\n    uma falsa pista. O que n&atilde;o impediu que se fizessem novas apostas em<br \/>\n    maior escala. Phileas Fogg, como um cavalo de corrida, chegava &agrave; &uacute;ltima<br \/>\n    rodada. N&atilde;o o cotavam mais a cem, mas a vinte, a dez, a cinco, e o<br \/>\n    velho paral&iacute;tico, lord Albermale, esse, ao par.<\/p>\n<p> Assim, s&aacute;bado &agrave; noite, havia multid&atilde;o em Pall Mall<br \/>\n    e nas ruas visinhas. Era como que uma imensa aglomera&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    corretores, estabelecidos permanentemente nas proximidades do Reform Club.<br \/>\n    A circula&ccedil;&atilde;o estava impedida. Discutiam, disputavam, apregoavam<br \/>\n    os Phileas Fogg como t&iacute;tulos dos fundos ingleses. Os policemen tinham<br \/>\n    muita dificuldade em conter os populares, e &agrave; medida em que se aproximava<br \/>\n    a hora em que Phileas Fogg deveria chegar, a emo&ccedil;&atilde;o tomava propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inacredit&aacute;veis.<\/p>\n<p> Nesta noite, os cinco colegas do gentleman estavam reunidos desde as nove<br \/>\n    da manh&atilde; no grande sal&atilde;o do Reform Club. Os dois banqueiros,<br \/>\n    John Sullivan e Samuel Fallentin, o engenheiro Andrew Stuart, Gauthier Ralph,<br \/>\n    administrador do Banco da Inglaterra, o cervejeiro Thomas Flanagan, todos<br \/>\n    esperavam com ansiedade.<\/p>\n<p> No momento em que o rel&oacute;gio do grande sal&atilde;o marcou oito e<br \/>\n    vinte e cinco, Andrew Stuart, levantando-se, disse: Senhores, em vinte minutos<br \/>\n    o prazo combinado entre Mr. Phileas Fogg e n&oacute;s ter&aacute; expirado.<\/p>\n<p> A que horas chegou o &uacute;ltimo trem de Liverpool? perguntou Thomas Flanagan.<\/p>\n<p> &Agrave;s sete e vinte e tr&ecirc;s, respondeu Gauthier Ralph, e o trem<br \/>\n    seguinte s&oacute; chega &agrave; meia noite e dez.<\/p>\n<p> Ora, senhores, retomou Andrew Stuart, se Phileas Fogg tivesse chegado pelo<br \/>\n    trem das sete e vinte e tr&ecirc;s, j&aacute; estaria aqui. Podemos pois considerar<br \/>\n    a aposta como ganha.<\/p>\n<p> Esperemos, n&atilde;o nos pronunciemos, respondeu Samuel Fallentin. Sabe<br \/>\n    que o nosso colega &eacute; um exc&ecirc;ntrico de primeira. Sua exatid&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bem conhecida. N&atilde;o chega jamais nem muito tarde nem muito<br \/>\n    cedo, e se aparecesse aqui no &uacute;ltimo minuto, eu n&atilde;o ficaria<br \/>\n    nada surpreso.<\/p>\n<p> E eu, disse Andrew Stuart, que estava, como sempre, muito nervoso, eu veria<br \/>\n    e n&atilde;o acreditaria.<\/p>\n<p> Com efeito, retomou Thomas Flanagan, o projeto de Phileas Fogg era insensato.<br \/>\n    Qualquer que fosse sua exatid&atilde;o, n&atilde;o poderia impedir os atrasos<br \/>\n    inevit&aacute;veis de se produzirem, e um atraso de dois ou tr&ecirc;s dias<br \/>\n    somente bastariam para comprometer sua viagem.<\/p>\n<p> Devem notar, al&eacute;m disso, acrescentou John Sullivan, que n&atilde;o<br \/>\n    recebemos nenhuma not&iacute;cia de nosso colega, e entretanto os fios telegr&aacute;ficos<br \/>\n    n&atilde;o faltavam no seu percurso.<\/p>\n<p> Perdeu, senhores, retomou Andrew Stuart, cem vezes perdeu! Sabem, al&eacute;m<br \/>\n    disso, que o China o &uacute;nico paquete de Nova York que ele poderia ter<br \/>\n    pego para chegar a Liverpool em tempo h&aacute;bil chegou ontem. Ora, eis<br \/>\n    a lista dos passageiros, publicada pela Shipping Gazette, e o nome Phileas<br \/>\n    Fogg n&atilde;o figura nela. Admitindo as possibilidades as mais favor&aacute;veis,<br \/>\n    nosso colega est&aacute; apenas na Am&eacute;rica. Avalio em vinte dias, pelo<br \/>\n    menos, o atraso que sofrer&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; data<br \/>\n    combinada, e o velho lord Albermale sofrer&aacute;, ele tamb&eacute;m, por<br \/>\n    suas cinco mil libras! &Eacute; evidente, exclamou Gauthier Ralph, e amanh&atilde;<br \/>\n    s&oacute; teremos que apresentar no Baring Irm&atilde;os o cheque de Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Neste momento o rel&oacute;gio do sal&atilde;o soou oito e quarenta.<\/p>\n<p> Ainda cinco minutos, disse Andrew Stuart.<\/p>\n<p> Os cinco colegas se entreolharam. Podemos supor que os batimentos de seus<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es tivessem sofrido uma pequena acelera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque afinal, mesmo para excelentes jogadores, a partida era forte! Mas nada<br \/>\n    queriam deixar transparecer, porque, por proposta de Samuel Fallentin, sentaram-se<br \/>\n    a uma mesa de jogo.<\/p>\n<p> N&atilde;o daria minha parte de quatro mil libras na aposta, disse Andrew<br \/>\n    Stuart, sentando-se, nem mesmo se me oferecessem tr&ecirc;s mil novecentos<br \/>\n    e noventa e nove! O ponteiro marcava, neste momento, oito e quarenta e dois.<\/p>\n<p> Os jogadores tinham pego as cartas, mas, a cada instante, seus olhares se<br \/>\n    voltavam para o rel&oacute;gio. Podemos afirmar que, qualquer que fosse sua<br \/>\n    seguran&ccedil;a, jamais minutos lhes tinham parecido t&atilde;o longos! Oito<br \/>\n    e quarenta e tr&ecirc;s, disse Thomas Flanagan, cortando as cartas que lhe<br \/>\n    apresentava Gauthier Ralph.<\/p>\n<p> Depois um minuto de sil&ecirc;ncio se fez. O vasto sal&atilde;o do club<br \/>\n    estava tranq&uuml;ilo. Mas, l&aacute; fora, ouviu-se a barulheira da multid&atilde;o,<br \/>\n    em que dominavam &agrave;s vezes gritos agudos. O p&ecirc;ndulo do rel&oacute;gio<br \/>\n    marcava os segundos com uma regularidade matem&aacute;tica. Cada jogador poderia<br \/>\n    contar as divis&otilde;es sexagesimais que feriam seus ouvidos.<\/p>\n<p> Oito e quarenta e quatro! disse John Sullivan numa voz em que se percebia<br \/>\n    uma emo&ccedil;&atilde;o involunt&aacute;ria.<\/p>\n<p> N&atilde;o mais que um minuto, e a aposta estaria ganha. Andrew Stuart e<br \/>\n    seus colegas n&atilde;o jogavam mais. Tinham abandonado as cartas! Contavam<br \/>\n    os segundos! Ao quadrag&eacute;simo segundo, nada. Ao quinquag&eacute;simo,<br \/>\n    nada ainda! Ao quinquag&eacute;simo quinto segundo, ouviram uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de trovoada l&aacute; fora, aplausos, hurrahs, e at&eacute; impreca&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que se propagaram em maremoto cont&iacute;nuo.<\/p>\n<p> Os jogadores se levantaram.<\/p>\n<p> Ao quinquag&eacute;simo s&eacute;timo segundo, a porta do sal&atilde;o se<br \/>\n    abriu, e o p&ecirc;ndulo n&atilde;o tinha marcado o sexag&eacute;simo segundo,<br \/>\n    quando Phileas Fogg apareceu, seguido por uma multid&atilde;o em del&iacute;rio<br \/>\n    que tinha for&ccedil;ado a entrada do club, e com a sua voz calma: Aqui estou,<br \/>\n    senhores, disse.<\/p>\n<h4><a name=\"37\" id=\"37\">CAP&Iacute;TULO XXXVII<\/a><\/h4>\n<p> <b>EM QUE FICA PROVADO QUE PHILEAS FOGG NADA GANHOU FAZENDO A VOLTA AO MUNDO,<br \/>\n    A N&Atilde;O SER A FELICIDADE <\/b><\/p>\n<p>Sim! Phileas Fogg em pessoa.<\/p>\n<p> Devemos nos lembrar de que &agrave;s oito horas da noite vinte e cinco horas<br \/>\n    mais ou menos depois da chegada dos viajantes a Londres Passepartout tinha<br \/>\n    sido encarregado por seu patr&atilde;o de avisar o reverendo Samuel Wilson<br \/>\n    a respeito de certo casamento que deveria se realizar no dia seguinte mesmo.<\/p>\n<p> Passepartont tinha ent&atilde;o partido, encantado. Ele se dirigiu a passos<br \/>\n    r&aacute;pidos &agrave; resid&ecirc;ncia do reverendo Samuel Wilson, que ainda<br \/>\n    n&atilde;o tinha voltado. Naturalmente, Passepartout esperou, mas esperou<br \/>\n    uns vinte bons minutos pelo menos.<\/p>\n<p> Resumindo, eram oito horas e trinta e cinco quando saiu da casa do reverendo.<br \/>\n    Mas em que estado! Os cabelos em desordem, sem chap&eacute;u, correndo, correndo<br \/>\n    como nunca se viu ningu&eacute;m correr, derrubando os que passavam, se precipitando<br \/>\n    como um vendaval sobre as cal&ccedil;adas! Em tr&ecirc;s minutos, estava de<br \/>\n    volta &agrave; casa de Saville Row, e tombou, sem ar, no quarto de Mr. Fogg.<\/p>\n<p> N&atilde;o podia falar.<\/p>\n<p> Que aconteceu? perguntou Mr. Fogg.<\/p>\n<p> Meu patr&atilde;o&#8230; balbuciou Passepartout, casamento&#8230; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Imposs&iacute;vel? Imposs&iacute;vel&#8230; para amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Por qu&ecirc;? Porque amanh&atilde;&#8230; &eacute; domingo! Segunda, respondeu<br \/>\n    Mr. Fogg.<\/p>\n<p> N&atilde;o&#8230; hoje&#8230; s&aacute;bado.<\/p>\n<p> S&aacute;bado? Imposs&iacute;vel! &Eacute;, &eacute;, &eacute;, &eacute;!<br \/>\n    exclamou Passepartout. Enganou-se em um dia! Chegamos vinte e quatro horas<br \/>\n    antes&#8230; mas n&atilde;o restam mais que dez minutos!&#8230;<\/p>\n<p> Passepartout tinha agarrado seu patr&atilde;o pelo colete, e o arrastava<br \/>\n    com uma for&ccedil;a irresist&iacute;vel.<\/p>\n<p> Phileas Fogg, assim levado, sem ter tempo para refletir, deixou seu quarto,<br \/>\n    deixou sua casa, saltou para um cab, prometeu cem libras ao cocheiro, e ap&oacute;s<br \/>\n    ter esmagado dois c&atilde;es e colidido com cinco ve&iacute;culos, chegou<br \/>\n    ao Reform Club.<\/p>\n<p> O rel&oacute;gio marcava oito horas quarenta e cinco, quando apareceu no<br \/>\n    grande sal&atilde;o.<\/p>\n<p> Phileas Fogg tinha completado a volta ao mundo em oitenta dias!&#8230;<\/p>\n<p> Phileas Fogg tinha ganho sua aposta de vinte mil libras! E agora, como &eacute;<br \/>\n    que um homem t&atilde;o exato, t&atilde;o meticuloso, tinha podido cometer<br \/>\n    este erro de dia? Como se acreditava no s&aacute;bado &agrave; noite, 21 de<br \/>\n    dezembro, ao desembarcar em Londres, quando estava na sexta, 20 de dezembro,<br \/>\n    setenta e nove dias somente ap&oacute;s sua partida? Eis a raz&atilde;o deste<br \/>\n    erro. Bem simples.<\/p>\n<p> Phileas Fogg tinha, sem d&uacute;vida ganho um dia sobre seu itiner&aacute;rio<br \/>\n    e isto unicamente porque tinha feito a volta ao mundo indo para leste, e teria,<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, perdido este dia indo em sentido inverso, ou seja para<br \/>\n    oeste. <\/p>\n<p>Com efeito, andando para o leste, Phileas Fogg ia &agrave; frente do sol,<br \/>\n    e, por conseguinte os dias diminu&iacute;am para ele tantas vezes quatro minutos<br \/>\n    quanto os graus que percorria naquela dire&ccedil;&atilde;o. Ora, temos trezentos<br \/>\n    e sessenta graus na circunfer&ecirc;ncia terrestre, e estes trezentos e sessenta<br \/>\n    graus, multiplicados por quatro minutos, d&atilde;o precisamente vinte e quatro<br \/>\n    horas isto &eacute;, o dia inconscientemento ganho. Em outros termos, enquanto<br \/>\n    Phileas Fogg, andando para leste, viu o sol passar oitenta vezes pelo meridiano,<br \/>\n    seus colegas que tinham ficado em Londres s&oacute; o viram passar setenta<br \/>\n    e nove vezes. Eis porque, naquele dia, que era s&aacute;bado e n&atilde;o<br \/>\n    domingo, como supunha Mr. Fogg, eles o esperaram no sal&atilde;o do Reform<br \/>\n    Club.<\/p>\n<p> E &eacute; o que o famoso rel&oacute;gio de Passeportout que tinha sempre<br \/>\n    conservado a hora de Londres teria constatado se, ao mesmo tempo que os minutos<br \/>\n    e as horas, tivesse marcado os dias! Phileas Fogg tinha portanto ganho as<br \/>\n    vinte mil libras. Mas como tinha gasto pelo caminho cerca de dezenove mil,<br \/>\n    o resultado pecuni&aacute;rio era med&iacute;ocre. Todavia, e isso j&aacute;<br \/>\n    foi dito, o exc&ecirc;ntrico gentleman s&oacute; tinha, nesta aposta, procurado<br \/>\n    a luta, n&atilde;o a fortuna. E mesmo, as mil libras restantes, as dividiu<br \/>\n    entre o honesto Passepartout e o infeliz Fix, a quem era incapaz de querer<br \/>\n    mal. Apenas, e por respeito &agrave;s regras, descontou do seu servidor o<br \/>\n    pre&ccedil;o das mii e novecentas horas do g&aacute;s consumido por sua culpa.<\/p>\n<p> Naquela mesma noite, Mr. Fogg, t&atilde;o impass&iacute;vel, t&atilde;o<br \/>\n    fleum&aacute;tico, dizia a Mrs. Aouda: O casamento ainda lhe conv&eacute;m,<br \/>\n    madame? Mr. Fogg, respondeu Mrs. Aouda, &eacute; a mim que cabe fazer essa<br \/>\n    pergunta. Estava arruinado, agora est&aacute; rico&#8230;<\/p>\n<p> Me desculpe, madame, esta fortuna lhe pertence. Se n&atilde;o tivesse tido<br \/>\n    a id&eacute;ia do casamento, meu criado n&atilde;o teria ido &agrave; casa<br \/>\n    do reverendo Samuel Wilson, eu n&atilde;o teria sido avisado do meu erro,<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p> Querido senhor Fogg&#8230; disse a jovem.<\/p>\n<p> Querida Aouda&#8230; respondeu Phileas Fogg.<\/p>\n<p> Como &eacute; f&aacute;cil supor o casamento se realizou quarenta e oito<br \/>\n    horas mais tarde, e Passepartout, soberbo, resplandecente, deslumbrante, figurou<br \/>\n    como padrinho da jovem. N&atilde;o a tinha salvo, n&atilde;o lhe deviam aquela<br \/>\n    honra? Somente, no dia seguinte, ao alvorecer, Passepartout bateu com insist&ecirc;ncia<br \/>\n    na porta de seu patr&atilde;o.<\/p>\n<p> A porta se abriu, e o impass&iacute;vel gentleman apareceu.<\/p>\n<p> O que &eacute; que h&aacute;, Passepartout? Isso, senhor! &Eacute; que acabo<br \/>\n    de perceber agora h&aacute; pouco&#8230;<\/p>\n<p> O qu&ecirc;? Que poder&iacute;amos ter feito a viagem a volta ao mundo em<br \/>\n    setenta e oito dias apenas.<\/p>\n<p> Sem d&uacute;vida, respondeu Mr. Fogg, n&atilde;o atravessando a &Iacute;ndia.<br \/>\n    Mas se eu n&atilde;o tivesse atravessado a &Iacute;ndia, n&atilde;o teria<br \/>\n    salvo Mrs. Aouda, ela n&atilde;o seria minha mulher, e&#8230;<\/p>\n<p> E Mr. Fogg fechou tranq&uuml;ilamente a porta.<\/p>\n<p> Assim pois Phileas Fogg tinha ganho sua aposta. Tinha feito em oitenta dias<br \/>\n    a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para faz&ecirc;-la todos os meios<br \/>\n    de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, tren&oacute;s,<br \/>\n    elefante. O exc&ecirc;ntrico gentleman tinha desenvolvido nesta empresa suas<br \/>\n    maravilhosas qualidades de sangue frio e de exatid&atilde;o. Mas afinal? O<br \/>\n    que tinha ganho neste deslocamento? O que alcan&ccedil;ara com esta viagem?<br \/>\n    Nada, diriam? Nada, v&aacute; l&aacute;, a n&atilde;o ser uma sedutora mulher,<br \/>\n    que por mais inveros&iacute;mil que possa parecer o tornou o mais feliz dos<br \/>\n    homens! Na verdade, n&atilde;o far&iacute;amos, por menos que isso, a Volta<br \/>\n    ao Mundo?<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII Cap\u00edtulo XIX Cap\u00edtulo XX Cap\u00edtulo XXI Cap\u00edtulo XXII Cap\u00edtulo XXIII [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108258","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-10T13:03:38+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"391 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"A Volta ao Mundo em 80 Dias\",\"datePublished\":\"2017-02-10T13:03:38+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\"},\"wordCount\":78144,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\",\"name\":\"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-02-10T13:03:38+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"A Volta ao Mundo em 80 Dias\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias","description":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias","og_description":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-02-10T13:03:38+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"391 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"A Volta ao Mundo em 80 Dias","datePublished":"2017-02-10T13:03:38+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias"},"wordCount":78144,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias","name":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne A Volta ao Mundo em 80 Dias","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-02-10T13:03:38+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"A Volta ao Mundo em 80 Dias, J\u00falio Verne, Obra Liter\u00e1ria, Romance, Phileas Fogg, Passepartout, Fix, Literatura, A Volta ao Mundo em 80 Dias","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-volta-ao-mundo-em-80-dias#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"A Volta ao Mundo em 80 Dias"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=108258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108258\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=108258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=108258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=108258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}