{"id":108223,"date":"2017-02-10T09:49:53","date_gmt":"2017-02-10T11:49:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108223"},"modified":"2017-02-10T09:49:53","modified_gmt":"2017-02-10T11:49:53","slug":"da-terra-a-lua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua","title":{"rendered":"Da Terra \u00e0 Lua"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"550\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <strong>Primeira Parte<\/strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <strong>Segunda Parte<\/strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#31\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>J&uacute;lio Verne<\/h2>\n<p><strong>Parte 1<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\">Cap&iacute;tulo I &#8211; O Clube do Canh&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p>Durante a Guerra de Secess&atilde;o dos Estados Unidos, um novo clube muito<br \/>\n    influente fundou-se na Cidade de Baltimore, no Estado de Maryland. Sabe-se<br \/>\n    com que energia o instinto militar se desenvolveu entre esse povo de armadores,<br \/>\n    de comerciantes e de industriais. Simples negociantes deixaram os seus balc&otilde;es<br \/>\n    para se improvisarem capit&atilde;es, coron &eacute;is, generais, sem terem<br \/>\n    passado pelas aulas de academias militares; em breve igualam na ?arte de guerra?<br \/>\n    os seus colegas do Velho Continente, e como eles conseguiram brilhantes vit&oacute;rias<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a de prodigalizarem balas, milh &otilde;es e homens.<\/p>\n<p> Contudo, no que os americanos ultrapassaram singularmente os europeus foi<br \/>\n    na ci&ecirc;ncia da bal&iacute;stica. N&atilde;o que as suas armas atingissem<br \/>\n    mais alto grau de perfei&ccedil;&atilde;o, mas porque ofereceram dimens&otilde;es<br \/>\n    inusitadas, tendo, por conseq &uuml;&ecirc;ncia, alcances desconhecidos at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o. No que respeita a tiros rascantes ou de rajada, os ingleses,<br \/>\n    os franceses e os prussianos nada mais tinham a aprender; mas os seus canh&otilde;es,<br \/>\n    os seus obuses, os seus morteiros n&atilde;o passavam de pistolas de bolso<br \/>\n    comparados com os formid&aacute;- veis engenhos b&eacute;licos da artilharia<br \/>\n    americana.<\/p>\n<p> Isto n&atilde;o deve espantar ningu&eacute;m: os ianques, esses primeiros<br \/>\n    mec&acirc;nicos do Mundo, s&atilde;o engenheiros, como os italianos s&atilde;o<br \/>\n    m&uacute;sicos e os alem&atilde;es metaf&iacute;sicos &#8211; de nascen &ccedil;a.<br \/>\n    Nada mais natural que v&ecirc;-los levar para a ci&ecirc;ncia da bal&iacute;stica<br \/>\n    a sua audaciosa engenhosidade. Da&iacute; esses canh&otilde;es gigantescos,<br \/>\n    muito menos &uacute;teis do que m&aacute;quinas de costura, mas t&atilde;o<br \/>\n    espantosos como elas e ainda mais admirados.<\/p>\n<p> Portanto, durante essa terr&iacute;vel luta entre nortistas e sulistas,<br \/>\n    os artilheiros estiveram em primeiro lugar; os jornais dos Estados Unidos<br \/>\n    celebravam as suas inven&ccedil;&otilde;es com entusiasmo, e n&atilde;o havia<br \/>\n    comerciante nem ing&ecirc;nuo basbaque que n&atilde;o quebrasse a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    de dia e de noite, e calculando trajet&oacute;rias absurdas.<\/p>\n<p> Ora, quando um americano tem uma id&eacute;ia, procura logo outro americano<br \/>\n    que a partilhe com ele.<\/p>\n<p> Se chegam a ser tr&ecirc;s, elegem um presidente e um secret&aacute;- rio.<br \/>\n    Se forem quatro, nomeiam um arquivista e a sociedade funciona. No caso de<br \/>\n    serem cinco, convocam uma assembl &eacute;ia geral e o clube fica constitu&iacute;do.<br \/>\n    Foi assim que sucedeu em Baltimore. 0 primeiro a inventar um novo canh &atilde;o<br \/>\n    associou-se ao primeiro que o fundiu e ao primeiro que o forjou. Foi esse<br \/>\n    o in&iacute;cio do Clube do Canh&atilde;o. Um m&ecirc;s ap&oacute;s a sua<br \/>\n    forma&ccedil;&atilde;o, contava mil oitocentos e trinta e tr&ecirc;s membros<br \/>\n    efetivos e trinta mil quinhentos e setenta e cinco s&oacute;cios correspondentes.<\/p>\n<p> Uma condi&ccedil;&atilde;o sine qua non era imposta a todos aqueles que<br \/>\n    quisessem entrar na associa&ccedil;&atilde;o: ter imaginado ou pelo menos<br \/>\n    aperfei&ccedil;oado uma arma, qualquer arma de fogo.<\/p>\n<p> No entanto, para falar a verdade os inventores de rev&oacute;lver de quinze<br \/>\n    tiros, de carabinas de repeti&ccedil;&atilde;o ou de sabres e pistolas n&atilde;o<br \/>\n    gozavam de grande considera&ccedil;&atilde;o aos artilheiros &eacute; que<br \/>\n    era reconhecida primazia em todas as circunst &acirc;ncias.<\/p>\n<p> Fundado o Clube do Canh&atilde;o, calcula-se facilmente o que produziu neste<br \/>\n    g&ecirc;nero o g&ecirc;nio inventivo dos americanos.<\/p>\n<p> Os engenhos de guerra tomaram propor&ccedil;&otilde;es colossais, e os proj&eacute;teis<br \/>\n    foram, para al&eacute;m dos limites permitidos, cortar em dois os transeuntes<br \/>\n    inofensivos. Todas essas inven- &ccedil;&otilde;es deixaram muito para tr&aacute;s<br \/>\n    os t&iacute;midos instrumentos da artilharia europ&eacute;ia.<\/p>\n<p> Era uma reuni&atilde;o de ?anjos exterminadores?, que no entanto continuavam<br \/>\n    a ser considerados as melhores pessoas do mundo.<\/p>\n<p> Deve acrescentar-se que esses ianques, dotados de uma coragem sem limites,<br \/>\n    n&atilde;o se limitaram &agrave;s f&oacute;rmulas e se dedicaram de corpo<br \/>\n    e alma &agrave; arte da guerra. Havia entre eles oficiais de todas as patentes,<br \/>\n    de tenentes a generais; militares de todas as idades: os que iniciavam a sua<br \/>\n    carreira e os que nela envelheciam. Muitos deles ficaram para sempre no campo<br \/>\n    de batalha e os seus nomes passaram a figurar no livro de honra do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o. Daqueles que voltaram, a maior parte ostentava honrosos sinais<br \/>\n    da sua indiscut&iacute;vel intrepidez: muletas, pernas de pau, bra&ccedil;os<br \/>\n    artificiais, m&atilde;os artificiais, maxilares de borracha, cr&acirc;nios<br \/>\n    de prata, narizes de platina, nada faltava &agrave; cole&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e Pitcaim chegou mesmo a calcular igualmente que no Clube do Canh &atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o chegava a haver um bra&ccedil;o para quatro pessoas, e apenas duas<br \/>\n    pernas para seis.<\/p>\n<p> Todavia, esses valentes artilheiros n&atilde;o se importavam com tais ninharias,<br \/>\n    e sentiam-se com todo o, direito de se ufanarem quando o boletim de uma batalha<br \/>\n    mostrava um n&uacute;- mero de v&iacute;timas que decuplicava a quantidade<br \/>\n    dos proj&eacute;teis gastos.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, num dia, num triste e lament&aacute;vel dia, a paz foi assinada<br \/>\n    p&ecirc;los sobreviventes da guerra, as detona&ccedil;&otilde;es cessaram<br \/>\n    pouco a pouco, os morteiros calaram-se, as pe&ccedil;as de artilharia foram<br \/>\n    amorda&ccedil;adas por muito tempo e os canh &otilde;es, de cabe&ccedil;a<br \/>\n    baixa, voltaram para os arsenais, as bala empilharam-se nos pai&oacute;is,<br \/>\n    as recorda&ccedil;&otilde;es sangrentas apagaram- se, os algodoeiros cresceram<br \/>\n    magnificamente nos campos largamente adubados, as roupas de luto acaba ram<br \/>\n    por desaparecer com as dores e as saudades, e o Clube do Canh&atilde;o estagnou<br \/>\n    em profunda inatividade.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; desolador &#8211; disse uma noite o bravo Tom Hunter, enquanto as pernas<br \/>\n    de pau se carbonizavam no fogo da lareira da sala de fumo. &#8211; Nada a fazer!<br \/>\n    Nada a esperar! Que exist&ecirc;ncia fastidiosa! Aonde vai o tempo em que<br \/>\n    o canh&atilde;o nos acordava todas as manh&atilde;s com as suas alegres detona<br \/>\n    &ccedil;&otilde;es? &#8211; Esse tempo j&aacute; n&atilde;o existe &#8211; respondeu o<br \/>\n    fogoso Bilsby, procurando estirar os bra&ccedil;os que lhe faltavam. &#8211; Ent&atilde;o<br \/>\n    sim, era um prazer! Inventavam uma pe&ccedil;a de artilharia, e logo que a<br \/>\n    fundiam corriam a experiment&aacute;-la nas fileiras do inimigo; depois, voltavam<br \/>\n    ao acampamento com um encorajamento de Sherman ou um aperto de m&atilde;o<br \/>\n    de Mac- Clellan! Mas hoje, os generais voltaram para as suas ocupa &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    civis, e, em vez de proj&eacute;teis, ?expedem inofensivos fardos de algod&atilde;o!<br \/>\n    Por Santa B&aacute;rbara. 0 futuro da artilharia est&aacute; perdido na Am&eacute;rica.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, Bilsby &#8211; exclamou o Coronel Blomsberry &#8211; que cru&eacute;is decep&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    Um dia deixa a gente os h&aacute;bitos tranq&uuml;ilos, exercita-se no manejo<br \/>\n    das armas, troca-se Baltimore pelos campos de batalha, porta-se como um her&oacute;i,<br \/>\n    e, dois anos, tr&ecirc;s anos mais tarde, &eacute; preciso desprezar o fruto<br \/>\n    de tantas fadigas, adormecer numa deplor&aacute;vel inatividade e enfiar as<br \/>\n    m&atilde;os nos bolsos.<\/p>\n<p> Dissesse o que dissesse, o valente coronel seria impedido de dar um tal<br \/>\n    sinal da sua inatividade, e, no entanto, n&atilde;o eram os bolsos que lhe<br \/>\n    faltavam.<\/p>\n<p> &#8211; E nenhuma guerra em perspectiva &#8211; disse ent&atilde;o o famoso J. T. Maston,<br \/>\n    co&ccedil;ando com a sua m&atilde;o de ferro o seu cr&acirc;nio de guta-percha.<br \/>\n    &#8211; Nem uma nuvem no horizonte, e isso quando h&aacute; tanto a fazer na ci&ecirc;ncia<br \/>\n    da artilharia! Eu terminei esta manh&atilde; o desenho, com plano, perfil<br \/>\n    e eleva- &ccedil;&atilde;o, de um morteiro destinado a alterar as leis da<br \/>\n    guerra! &#8211; Verdade? &#8211; replicou Tom Hunter, pensando involuntariamente na &uacute;ltima<br \/>\n    experi&ecirc;ncia do honrado J. T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade &#8211; respondeu Maston. &#8211; Mas de que servir&atilde;o tantos<br \/>\n    estudos levados a bom termo, tantas dificuldades vencidas? N&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    trabalhar &agrave; toa? Os povos do Novo Mundo parecem estar decididos a viver<br \/>\n    em paz, e o nosso belicoso Tribune chega ao ponto de anunciar cat&aacute;strofes<br \/>\n    iminentes devido ao escandaloso crescimento da popula- &ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto, Maston &#8211; retorquiu o Coronel Blomsberry -, continuam a bater-se<br \/>\n    na Europa para manter o princ&iacute;pio das nacionalidades! &#8211; E ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; E ent&atilde;o! Talvez pud&eacute;ssemos tentar qualquer coisa l&aacute;,<br \/>\n    se aceitassem os nossos servi&ccedil;os&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tem pensado nisso? &#8211; escandalizou-se Bilsby. &#8211; Fazer bal &iacute;stica<br \/>\n    em proveito dos estrangeiros! &#8211; Vale mais isso do que n&atilde;o fazer nada<br \/>\n    &#8211; respondeu o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; disse J. T. Maston -, seria melhor, mas n&atilde;o<br \/>\n    devemos pensar sequer nesse expediente.<\/p>\n<p> &#8211; E por qu&ecirc;? &#8211; perguntou o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Porque no Velho Mundo t&ecirc;m id&eacute;ias que contrariam todos os<br \/>\n    nossos h&aacute;bitos americanos. Essa gente acha que n&atilde;o se pode ser<br \/>\n    general-chefe sem ter servido como tenente, o que equivaleria a dizer que<br \/>\n    n&atilde;o se pode ser bom artilheiro a n&atilde;o ser que se tenha fundido<br \/>\n    o canh&atilde;o! Ora, isso &eacute; simplesmente&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Absurdo! &#8211; replicou Tom Hunter, rasgando os bra&ccedil;os do seu cadeir&atilde;o<br \/>\n    com o seu fac&atilde;o. &#8211; E, visto que as coisas est&atilde;o neste p&eacute;,<br \/>\n    s&oacute; nos resta plantar tabaco ou destilar &oacute;leo de baleia.<\/p>\n<p> &#8211; Como! &#8211; exclamou J. T. Maston, com voz retumbante. &#8211; N&atilde;o passaremos<br \/>\n    os &uacute;ltimos anos da nossa exist&ecirc;ncia aperfei &ccedil;oando armas<br \/>\n    de fogo? N&atilde;o se apresentar&aacute; nova ocasi &atilde;o de experimentar<br \/>\n    o alcance dos nossos proj&eacute;teis? A atmosfera n&atilde;o se iluminar&aacute;<br \/>\n    mais com o clar&atilde;o dos nossos canh&otilde;es? N&atilde;o surgir&aacute;<br \/>\n    uma dificuldade internacional que nos permita declarar guerra a qualquer pot&ecirc;ncia<br \/>\n    transatl&acirc;ntica? Os franceses n&atilde;o afundar&atilde;o um s&oacute;<br \/>\n    dos nossos barcos, e os ingleses n&atilde;o enforcar&atilde;o, desprezando<br \/>\n    os direitos humanos, tr&ecirc;s ou quatro dos nossos compatriotas? &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    Maston &#8211; respondeu o Coronel Blomsberry -; n&atilde;o teremos essa felicidade!<br \/>\n    N&atilde;o. Nenhum desses incidentes se produzir&aacute; e, mesmo que se produzisse,<br \/>\n    n&atilde;o tirar&iacute;amos proveito algum dele. &#8211; A suscetibilidade americana<br \/>\n    vai desaparecendo de dia para dia e n&oacute;s vamos nos tornando efeminados.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, n&oacute;s humilhamo-nos! &#8211; replicou Bilsby.<\/p>\n<p> &#8211; E humilham-nos! &#8211; retrucou Tom Hunter.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo isso &eacute; verdade &#8211; replicou J. T. Maston com veem&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; no ar mil raz&otilde;es para nos batermos e no entanto n&atilde;o<br \/>\n    nos batemos. Economizam-se bra&ccedil;os e pernas, e isso em proveito de pessoas<br \/>\n    que n&atilde;o sabem que fazer deles! E sem precisarmos de ir procurar t&atilde;o<br \/>\n    longe um motivo de guerra&#8230; a Am&eacute;rica do Norte n&atilde;o pertenceu<br \/>\n    outrora aos ingleses? &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Tom Hunter, queimando<br \/>\n    raivosamente a extremidade da sua muleta.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; replicou J. T. Maston. &#8211; Por que &eacute; que a Inglaterra<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute;-de pertencer por sua vez aos americanos? &#8211; isso seria<br \/>\n    justo &#8211; retrucou o Coronel Blomsberry.- Entretanto &#8211; continuou J. T. Maston,<br \/>\n    para concluir -, se n&atilde;o me d&atilde;o ocasi&atilde;o para experimentar<br \/>\n    o meu novo morteiro num campo de batalha, demito-me de membro do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o, e corro a enterrar-me nas savanas do ArKansas! &#8211; E n&oacute;s<br \/>\n    segui-lo-emos &#8211; responderam em un&iacute;ssono os interlocutores do audacioso<br \/>\n    J. T. Maston.<\/p>\n<p> Estavam as coisas nesse p&eacute;, e os esp&iacute;ritos exaltando-se cada<br \/>\n    vez mais, o que amea&ccedil;ava o clube de pr&oacute;xima dissolu &ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando um inesperado acontecimento impediu t&atilde;o lament&aacute;vel cat&aacute;strofe.<\/p>\n<p> Logo no dia seguinte, cada membro do clube recebia uma circular escrita<br \/>\n    nestes termos: ?Baltimore, 3 de outubro.<\/p>\n<p> 0 Presidente do Clube do Canh&atilde;o tem a honra de comunicar aos caros<br \/>\n    colegas de que na sess&atilde;o de 5 do corrente lhes far&aacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da natureza a interess&aacute;-los vivamente: Conseq&uuml;entemente, pede-lhes<br \/>\n    que, pondo de parte qualquer outro negocio, n&atilde;o deixem de comparecer<br \/>\n    &agrave; reuni&atilde;o para que s&atilde;o convidados pela presente.<\/p>\n<p> Muito cordialmente.<\/p>\n<p> Impey Barbicane Presidente do Clube do Canh&atilde;o.?<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">Cap&iacute;tulo II &#8211; Comunica&ccedil;&atilde;o do Presidente<br \/>\n    Barbicane<\/a><\/h4>\n<p>No dia 5 de outubro, &agrave;s oito horas da noite, encontrava-se reunida<br \/>\n    uma compacta multid&atilde;o nos sal&otilde;es do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Entretanto, o grande sal&atilde;o oferecia aos olhares um curioso espet&aacute;culo.<br \/>\n    Estava maravilhosamente apropriado para o que se destinava. Altas colunas<br \/>\n    compostas por canh&otilde;es sobrepostos e apoiados em enormes morteiros sustinham<br \/>\n    os finos lavores da ab&oacute;bada. Pan&oacute;plias de bacamartes, de arcabuzes,<br \/>\n    de carabinas, de todas as esp&eacute;cies de armas de fogo antigas e modernas<br \/>\n    se entrela&ccedil;avam pitorescamente nas paredes. A luz do g&aacute;s emergia<br \/>\n    de centenas de rev&oacute;lveres agrupados em forma de lustres, enquanto gir&acirc;ndolas<br \/>\n    de pistolas e candelabros feitos de espingardas reunidas em feixes completavam<br \/>\n    a espl&ecirc;ndida ilumina&ccedil;&atilde;o. Os modelos de canh&otilde;es,<br \/>\n    as amostras de bronze, os alvos criva dos de tiros, as chapas quebradas pelo<br \/>\n    choque das balas do Clube do Canh&atilde;o, cole&ccedil;&otilde;es completas<br \/>\n    de soquetes e lanadas, os ros&aacute;rios de bombas, os colares de proj&eacute;teis,<br \/>\n    as grinaldas de obuses &#8211; em uma palavra, todos os utens&iacute;lios do artilheiro<br \/>\n    surpreendiam pela sua espantosa e admir&aacute;vel disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e faziam pensar que o seu verdadeiro fim era mais decorativo que mort&iacute;fero.<\/p>\n<p> No lugar de honra, resguardado por uma espl&ecirc;ndida vitrina, um peda&ccedil;o<br \/>\n    de culatra, quebrado e torcido, sob os efeitos da P&oacute;lvora, destro&ccedil;o<br \/>\n    precioso do canh&atilde;o de J. T. Maston.<\/p>\n<p> No fundo da sala, o presidente, assistido por quatro secret &aacute;rios,<br \/>\n    ocupava uma espa&ccedil;osa plataforma. 0 seu lugar, erguido sobre um reparo<br \/>\n    esculpido, assemelhava-se, no seu todo, &agrave;s robustas formas de um morteiro<br \/>\n    de trinta e duas polegadas; estava assestado sob um &acirc;ngulo de noventa<br \/>\n    graus e suspensos em munh&otilde;es, de tal modo que o presidente podia imprimir-lhe,<br \/>\n    como &agrave;s cadeiras de balan&ccedil;o, um movimento bastante agrad&aacute;vel<br \/>\n    nas ocasi&otilde;es de grande calor. Sobre a secret&aacute;ria, grande placa<br \/>\n    met&aacute;lica, apoiada em seis obuses, via-se um tinteiro de requintado<br \/>\n    gosto, admiravelmente cinzelado, e uma campainha de detona- &ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que soava, nas ocasi&otilde;es em que era tocada, como um rev&oacute;lver.<br \/>\n    Durante as mais veementes discuss&otilde;es, essa campainha de novo g&ecirc;nero<br \/>\n    mal chegava no entanto para cobrir a voz daquela legi&atilde;o de artilheiros<br \/>\n    entusiasmados.<\/p>\n<p> Impey Barbicane era um homem de quarenta anos, calmo, frio, austero, com<br \/>\n    um esp&iacute;rito eminentemente s&eacute;rio e concentrado; exato como um<br \/>\n    cron&ocirc;metro, de um temperamento a toda prova e de um car&aacute;ter inquebrant&aacute;vel;<br \/>\n    pouco cavalheiresco, aventureiro, mas levando o seu esp&iacute;rito pr&aacute;tico<br \/>\n    at&eacute; para os empreendimentos mais temer&aacute;rios; era por excel&ecirc;ncia<br \/>\n    o homem da Nova Inglaterra, o nortista colonizador, o descendente desses Cabe&ccedil;as-redondas<br \/>\n    t&atilde;o funestos aos Stuarts, e implac&aacute;vel inimigo dos gentlemen<br \/>\n    do Sul, esses antigos cowboys da m&atilde;e-p&aacute;tria. Era de estatura<br \/>\n    mediana, tendo, como rara exce&ccedil;&atilde;o no Clube do Canh&atilde;o,<br \/>\n    todos os seus membros intactos. Em resumo: um ianque feito de uma &uacute;nica<br \/>\n    pe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Quando soaram as oito horas no rel&oacute;gio da grande sala, Barbicane,<br \/>\n    como se fosse movido por uma mola, ergueuse subitamente; fez-se um sil&ecirc;ncio<br \/>\n    geral e o orador, num tom um pouco enf&aacute;tico, tomou a palavra nestes<br \/>\n    termos: &#8211; Bravos colegas, de h&aacute; muito tempo que uma paz infecunda veio<br \/>\n    mergulhar os membros do Clube do Canh&atilde;o numa lament&aacute;vel inatividade.<br \/>\n    Ap&oacute;s um per&iacute;odo de alguns anos, t&atilde;o cheio de incidentes,<br \/>\n    foi necess&aacute;rio abandonar os nossos trabalhos e deter-nos na senda do<br \/>\n    progresso. N&atilde;o receio proclamar em voz alta que uma guerra que voltasse<br \/>\n    a colocar as armas nas nossas m&atilde;os seria bem-vinda&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sim, a guerra! &#8211; exclamou o impetuoso J. T. Maston.<\/p>\n<p> Ou&ccedil;am! Ou&ccedil;am! &#8211; gritaram de todos os lados.<\/p>\n<p> Mas a guerra &#8211; continuou Barbicane -, a guerra &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    nas circunst&acirc;ncias atuais, e, apesar do que possa esperar o meu honrado<br \/>\n    colega, passar-se-&atilde;o muitos anos antes que os nossos canh&otilde;es<br \/>\n    voltem a troar nos campos de batalha.<\/p>\n<p> Devemos, portanto, tomar uma decis&atilde;o e procurar em outro campo de<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o alimento para a atividade que nos devora! A assembl&eacute;ia<br \/>\n    sentiu que o seu presidente ia abordar o Ponto delicado. Redobrou, portanto,<br \/>\n    de aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Desde h&aacute; alguns meses, meus bravos colegas &#8211; continuou Barbicane<br \/>\n    &#8211; que pergunto a mim mesmo se, embora continuando a manter-nos dentro da nossa<br \/>\n    especialidade, n&atilde;o poder&iacute;amos empreender alguma grande experi&ecirc;ncia<br \/>\n    digna do s&eacute;culo XIX, se os progressos da bal&iacute;stica n&atilde;o<br \/>\n    nos permitiriam lev&aacute;-la a bom termo. Procurei, trabalhei, calculei,<br \/>\n    e dos meus estudos resultou a convic&ccedil;&atilde;o de que ?poderemos ter<br \/>\n    &ecirc;xito numa empresa que pareceria impratic&aacute;vel para qualquer outro<br \/>\n    pa&iacute;s. Este projeto, longamente elaborado, vai ser o objeto da minha<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o; &eacute; digno de v&oacute;s, digno do passado<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o, e n&atilde;o poder&aacute; deixar de fazer sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no Mundo.<\/p>\n<p> &#8211; Muita sensa&ccedil;&atilde;o? &#8211; perguntou um artilheiro apaixonado.<\/p>\n<p> &#8211; Muita sensa&ccedil;&atilde;o no verdadeiro sentido do termo! &#8211; respondeu<br \/>\n    Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o interrompam! &#8211; repetiram muitas vozes.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o-lhes, portanto, caros colegas, para me darem toda a vossa<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Um fr&ecirc;mito correu pela assist&ecirc;ncia. Barbicane, depois de ter<br \/>\n    num gesto r&aacute;pido assegurado a posi&ccedil;&atilde;o de seu chap&eacute;u<br \/>\n    na cabe&ccedil;a, continuou o seu discurso com voz calma.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; um s&oacute; de v&oacute;s, caros colegas, que n&atilde;o<br \/>\n    tenha visto a Lua, ou pelo menos n&atilde;o tenha ouvido falar nela. N&atilde;o<br \/>\n    se admirem de eu vir aqui falar do astro da noite. A n&oacute;s est&aacute;<br \/>\n    talvez reservado sermos os colombos desse mundo desconhecido.<\/p>\n<p> Compreendam-me, apoiem todo o vosso poder, e eu conduzi-los-ei &agrave;<br \/>\n    sua conquista, e o vosso nome juntar-se-&aacute; ao dos trinta e seis Estados<br \/>\n    que formam este grande pa&iacute;s! &#8211; Viva a Lua! &#8211; exclamou o Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    numa s&oacute; voz.<\/p>\n<p> &#8211; A Lua tem sido muito estudada &#8211; prosseguiu Barbicane _; a sua massa, a<br \/>\n    sua densidade, o seu peso, o seu volume, a sua constitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os seus movimentos, a sua dist&acirc;ncia, o seu papel no sistema solar est&atilde;o<br \/>\n    perfeitamente determinados; fizeram-se mapas selenogr&aacute;ficos com uma<br \/>\n    perfei&ccedil;&atilde;o que iguala, se &eacute; que n&atilde;o ultrapassa,<br \/>\n    a dos mapas terrestres; a fotografia deu do nosso sat&eacute;lite provas de<br \/>\n    uma incompar&aacute;vel beleza. Resumindo, sabe-se da Lua tudo que as ci&ecirc;ncias<br \/>\n    matem&aacute;ticas, a astronomia, a geologia e a &oacute;tica podem ensinar<br \/>\n    a seu respeito; mas at&eacute; agora nunca foi estabelecida uma liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    direta com ela.<\/p>\n<p> Esta &uacute;ltima frase excitou tal interesse e surpresa que chegou a produzir<br \/>\n    grande agita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Permitam-me &#8211; continuou ele &#8211; lembrar-lhes como certos esp&iacute;ritos<br \/>\n    ardentes, embarcados em viagens imagin&aacute;rias, pretenderam ter penetrado<br \/>\n    os segredos do nosso sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> No s&eacute;culo XVII, um certo David Fabricius gabou-se de ter visto com<br \/>\n    os seus pr&oacute;prios olhos os habitantes da Lua. Em 1649, um franc&ecirc;s,<br \/>\n    Jean Baudoin, publicou a Viagem Feita ao Mundo da Lua pelo Aventureiro Espanhol<br \/>\n    Dominguez Gonzalez. Na mesma &eacute;poca, Cyrano de Bergerac deu &agrave;<br \/>\n    luz da publicidade aquela c&eacute;lebre expedi&ccedil;&atilde;o que tanto<br \/>\n    &ecirc;xito teve na Fran&ccedil;a. Mais tarde, outro franc&ecirc;s (porque<br \/>\n    esses indiv&iacute;- duos ocupam-se muito da Lua), chamado Fontenelle, escreveu<br \/>\n    a Pluralidade dos Mundos, uma obra-prima do seu tempo; mas o avan&ccedil;o<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia esmaga as obras-primas1 Por volta de 1835, um folheto traduzido<br \/>\n    do New York American contou que Sir John Herschell, enviado ao cabo da Boa<br \/>\n    Esperan&ccedil;a, para ali fazer estudos astron&ocirc;micos, tinha conseguido,<br \/>\n    por meio de um- telesc&oacute;pio aperfei&ccedil;oado por uma ilumina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interna, trazer a Lua para uma dist &acirc;ncia de oitenta jardas. Teria ent&atilde;o<br \/>\n    visto distintamente as cavernas em que viviam os hipop&oacute;tamos, as verdes<br \/>\n    montanhas orladas de rendas de ouro, carneiros com chifres de marfim, cabritos<br \/>\n    brancos, habitantes com asas membranosas como as dos morcegos. Esta brochura,<br \/>\n    obra de um americano chamado Locke, conheceu grande popularidade.<\/p>\n<p> Mas em breve se reconheceu tratar-se de uma mistifica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica,<br \/>\n    e os franceses foram os primeiros a rir-se dela.<\/p>\n<p> &#8211; Rir de um americano! &#8211; exclamou J. T. Maston. &#8211; Mas isso &eacute; um caso<br \/>\n    de guerra!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tranq&uuml;ilize-se, meu digno amigo. Os franceses, antes de rirem, tinham<br \/>\n    sido perfeitamente iludidos pelo nosso compatriota.<\/p>\n<p> Para terminar este r&aacute;pido relato hist&oacute;rico, acrescentarei<br \/>\n    que um certo Hans Pfael, de Roterd&atilde;, subindo num bal&atilde;o cheio<br \/>\n    de um g&aacute;s obtido do azoto, e trinta e sete vezes mais leve do que o<br \/>\n    hidrog&ecirc;nio, atingiu a Lua ap&oacute;s dezenove dias de travessia. Essa<br \/>\n    viagem, como as tentativas precedentes, era simplesmente imagin&aacute;ria,<br \/>\n    mas tratase de obra de um escritor popular na Am&eacute;rica, de um g&ecirc;nio<br \/>\n    singular e contemplativo. Refiro-me a Edgar Poe.<\/p>\n<p> &#8211; Viva Edgar Poe! &#8211; gritou a assembl&eacute;ia, eletrizada pelas palavras<br \/>\n    do presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Acabei &#8211; continuou Barbicane &#8211; com essas tentativas a.<\/p>\n<p> que chamarei puramente liter&aacute;rias, e perfeitamente insuficientes<br \/>\n    para estabelecer rela&ccedil;&otilde;es com o astro da noite.<\/p>\n<p> Assim, h&aacute; alguns anos um ge&oacute;metra alem&atilde;o prop&ocirc;s<br \/>\n    enviar uma comiss&atilde;o de s&aacute;bios para as estepes da Sib&eacute;ria.<br \/>\n    Ali, em vastas plan&iacute;cies, deviam fazer desenhar imensas figuras geom&eacute;tricas,<br \/>\n    por meio de refletores luminosos, entre outras a do quadrado da hipotenusa.<br \/>\n    ?Qualquer ser inteligente ?, dizia este ge&oacute;metra, ?deve compreender<br \/>\n    o destino cient &iacute;fico dessa figura. Portanto, os selenitas, se &eacute;<br \/>\n    que existem, responder&atilde;o com uma figura semelhante, e, uma ?vez estabelecida<br \/>\n    a comunica&ccedil;&atilde;o, ser&aacute; f&aacute;cil criar um alfabeto que<br \/>\n    permitir&aacute; trocar mensagens com os habitantes da Lua.? Assim falava<br \/>\n    o ge&oacute;metra alem&atilde;o, mas o seu projeto n&atilde;o foi posto em<br \/>\n    execu&ccedil;&atilde;o e at&eacute; agora nenhuma liga&ccedil;&atilde;o direta<br \/>\n    foi estabelecida entre a Terra e o seu sat&eacute;lite. Mas est&aacute; reservado<br \/>\n    ao g&ecirc;nio Pr&aacute;tico dos americanos a concretiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da rela&ccedil;&atilde;o com o Mundo sideral. 0 meio de conseguir &eacute;<br \/>\n    sim?, f&aacute;cil, certo, infal&iacute;vel, e vai ser o objeto da minha proposta.<\/p>\n<p> Um barulho ensurdecedor, uma tempestade de aclama&ccedil;&otilde;es acolheu<br \/>\n    estas palavras.<\/p>\n<p> Quando a agita&ccedil;&atilde;o se acalmou, Barbicane recome&ccedil;ou em<br \/>\n    tom mais grave o seu interrompido discurso: &#8211; Sabeis bem &#8211; disse &#8211; que progressos<br \/>\n    a bal&iacute;stica tem feito desde h&aacute; alguns anos e a que grau de perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    teriam chegado as armas de fogo se a guerra tivesse continuado.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m n&atilde;o ignorais que, de modo geral, a for&ccedil;a de<br \/>\n    resist &ecirc;ncia ? dos canh&otilde;es e o poder expansivo da p&oacute;lvora<br \/>\n    s&atilde;o ilimitados. Pois bem, partindo deste princ&iacute;pio, perguntei<br \/>\n    a mim mesmo se, por meio de um instrumento adequado, em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de resist&ecirc;ncia determinadas, n&atilde;o seria poss &iacute;vel enviar<br \/>\n    uma bala para a Lua.<\/p>\n<p> A estas palavras, uma exclama&ccedil;&atilde;o de estupefa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    saiu de mil peitos ofegantes; depois fez-se um momento de sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    semelhante a essa calma profunda que precede o ru&iacute;do do trov&atilde;o.<br \/>\n    E, realmente, a tempestade rebentou mas uma tempestade de aplausos, de gritos,<br \/>\n    de clamores, que fez tremer a sala. 0 presidente queria falar, mas n&atilde;o<br \/>\n    podia. S&oacute; passados dez minutos &eacute; que ele conseguiu fazer-se<br \/>\n    ouvir.<\/p>\n<p> &#8211; Deixem-me concluir &#8211; continuou com voz fria. &#8211; Examinei a quest&atilde;o<br \/>\n    sob todos os aspectos, abordei resolutamente o problema, e dos meus c&aacute;lculos,<br \/>\n    indiscut&iacute;veis, resulta que qualquer proj&eacute;til dotado de uma velocidade<br \/>\n    inicial de doze mil jardas por segundo, e dirigido para a Lua, chegar&aacute;<br \/>\n    necessariamente at&eacute; l&aacute;. Tenho, portanto, a honra de vos propor,<br \/>\n    meus valentes colegas, tentarem esta pequena experi &ecirc;ncia! &Eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;vel descrever o efeito produzido pelas &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    do honrado presidente: Era uma desordem, um sussurro de vozes indescrit&iacute;vel.<br \/>\n    As bocas gritavam, &agrave; m&atilde;os batiam, os p&eacute;s faziam estremecer<br \/>\n    o pavimento. Todas as armas daquele museu de artilharia, disparadas ao mesmo<br \/>\n    tempo, n&atilde;o teriam agitado mais violentamente as ondas sonoras. Isso<br \/>\n    n&atilde;o pode surpreender.<\/p>\n<p> H&aacute; artilheiros quase t&atilde;o ruidosos quanto os seus canh &otilde;es.<\/p>\n<p> Barbicane permanecia calmo no meio desses clamores entusiastas; talvez quisesse<br \/>\n    dirigir ainda algumas palavras aos seus colegas, pois os seus gestos reclamavam<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, e a sua campainha. fulminante detonou t&atilde;o in&uacute;til<br \/>\n    quanto violentamente. Nem sequer o ouviam. Pouco depois foi arrancado da sua<br \/>\n    cadeira e levado em triunfo.<\/p>\n<p> Passou das m&atilde;os dos seus fi&eacute;is camaradas para os bra&ccedil;os<br \/>\n    de unia multid&atilde;o n&atilde;o menos exaltada.<\/p>\n<p> 0 passeio triunfal do presidente prolongou-se pela noite.<\/p>\n<p> Foi uma verdadeira marcha iluminada por archotes.<\/p>\n<p> Precisamente, como, se tivesse compreendido que se tratava dela, a Lua brilhava<br \/>\n    nesse momento com uma serena magnific&ecirc;ncia, eclipsando com a sua intensa<br \/>\n    radia&ccedil;&atilde;o as luzes terrestres. Os ianques voltavam os olhos para<br \/>\n    o seu disco cintilante; uns saudavam-na com a m&atilde;o, outros com nomes<br \/>\n    mais meigos; enquanto uns a mediam com o olhar, havia outros que a amea&ccedil;avam.<\/p>\n<p> Somente por volta das duas horas, a emo&ccedil;&atilde;o acalmou-se.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane conseguiu voltar para a sua casa, mo&iacute;do, cansado.<br \/>\n    Um h&eacute;rcules n&atilde;o teria resistido a semelhante entusiasmo. A multid&atilde;o<br \/>\n    abandonou pouco a pouco as pra&ccedil;as e as ruas.<\/p>\n<p> No dia seguinte, mil e quinhentos jornais di&aacute;rios, ,seman&aacute;-<br \/>\n    rios, mensais ou bimensais, apoderaram-se da quest&atilde;o, examinaram-na<br \/>\n    sob os seus diferentes pontos de vista, f&iacute;sicos, meteorol&oacute;gicos,<br \/>\n    econ&ocirc;micos ou morais, pela .perspectiva da preponder&acirc;ncia pol&iacute;tica<br \/>\n    ou da civiliza&ccedil;&atilde;o. Perguntavam se a Lua seria um mundo morto,<br \/>\n    se n&atilde;o estaria ainda em via de transforma&ccedil;&atilde;o. Se assemelharia<br \/>\n    &agrave; Terra no tempo em que ainda n&atilde;o tinha atmosfera. Que espet&aacute;culo<br \/>\n    apresentaria a parte invis&iacute;vel do nosso sat&eacute;lite? Se bem que<br \/>\n    se tratasse ainda apenas de enviar uma bala ao astro da noite, todos viam<br \/>\n    nela um ponto de partida para uma s&eacute;rie de novas experi&ecirc;ncias;<br \/>\n    todos esperavam que um dia a Am&eacute;rica penetrasse os &uacute;ltimos segredos<br \/>\n    desse disco misterioso e alguns mesmo pareciam temer que a sua conquista alterasse<br \/>\n    sensivelmente o equil&iacute;brio europeu.<\/p>\n<p> Discutido o projeto, nenhum jornal p&oacute;s em d&uacute;vida a possibilidade<br \/>\n    da sua realiza&ccedil;&atilde;o; as revistas, os panfletos, os boletins e<br \/>\n    os magazines publicados pelas sociedades cient&iacute;ficas, liter&aacute;rias<br \/>\n    ou religiosas, faziam ressaltar as suas vantagens, e a Sociedade de Hist&oacute;ria<br \/>\n    Natural de Boston, a Sociedade Americana das Ci&ecirc;ncias e das Artes de<br \/>\n    Alabany, a Sociedade Geogr&aacute;fica e Estat&iacute;stica de Nova Iorque,<br \/>\n    a Sociedade Filos&oacute;fica Americana de Filad&eacute;lfia, o Instituto<br \/>\n    Smithsoniano de Washington, enviaram em cartas as suas felicita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ao Clube do Canh&atilde;o, com ofertas imediatas de coadjuva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de dinheiro.<\/p>\n<p> A verdade, pode dizer-se, &eacute; que nunca nenhuma proposta reuniu tal<br \/>\n    n&uacute;mero de ades&otilde;es; hesita&ccedil;&otilde;es, d&uacute;vidas,<br \/>\n    inquieta &ccedil;&otilde;es n&atilde;o ocorreram a ningu&eacute;m. Quanto<br \/>\n    &agrave;s brincadeiras, &agrave;s caricaturas, &agrave;s can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que teriam acolhido na Europa, e especialmente na Fran&ccedil;a, a id&eacute;ia<br \/>\n    de enviar um proj&eacute;til &agrave; Lua, teriam servido muito mal os seus<br \/>\n    autores; nem todos os rev&oacute;lveres do mundo seriam capazes de garantir<br \/>\n    a sua seguran&ccedil;a contra a indigna&ccedil;&atilde;o geral. H&aacute;<br \/>\n    coisas de que as pessoas n&atilde;o riem no Novo Mundo. Impey Barbicane tornou-<br \/>\n    se, a partir desse d ia, um dos maiores cidad&atilde;os dos Estados Unidos,<br \/>\n    qualquer coisa como o Washington da Ci- &ecirc;ncia.<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">Capitulo III &#8211; O romance da Lua<\/a><\/h4>\n<p>Um observador dotado de uma vista infinitamente penetrante, e colocado nesse<br \/>\n    centro desconhecido em redor do qual gravita o mundo, teria visto mir&iacute;ades<br \/>\n    de &aacute;tomos encherem o espa&ccedil;o na &eacute;poca ca&oacute;tica do<br \/>\n    Universo. Mas, pouco a pouco, com os s&eacute;culos, produziu-se uma mudan&ccedil;a;<br \/>\n    manifestou-se uma lei de atra&ccedil;&atilde;o e a ela obedeceram os &aacute;tomos<br \/>\n    outrora errantes; esses &aacute;tomos combinaram-se quimicamente segundo as<br \/>\n    suas afinidades, tornaram-se mol&eacute;culas e formaram esses agregados nebulosos<br \/>\n    de que est&atilde;o semeadas as profundezas do c&eacute;u.<\/p>\n<p> Animaram-se ent&atilde;o esses agregados de um movimento de rota&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em torno do seu ponto central. Esse centro, formado de mol&eacute;culas vagas,<br \/>\n    come&ccedil;ou a girar sobre si m esmo e foi condensando-se progressivamente;<br \/>\n    de resto, seguindo as leis imut&aacute;veis da mec&acirc;nica, &agrave; medida<br \/>\n    que o seu volume diminu&iacute;a pela condensa&ccedil;&atilde;o, o seu movimento<br \/>\n    de rota&ccedil;&atilde;o acelerava-se e, persistindo esses dois efeitos, resultou<br \/>\n    da&iacute; o aparecimento de uma estrela principal, novo centro do agregado<br \/>\n    nebuloso.<\/p>\n<p> Se o observador olhasse atentamente teria ent&atilde;o visto as outras mol&eacute;culas<br \/>\n    do agregado comportarem-se como a estrela central, condensando-se a seu modo<br \/>\n    por um movimento de rota&ccedil;&atilde;o progressivamente acelerado, gravitando<br \/>\n    em torno da central sob a forma de in&uacute;meras estrelas.<\/p>\n<p> Assim se formaram as nebulosas, que os astr&ocirc;nomos contam hoje em n&uacute;mero<br \/>\n    de cinco mil.<\/p>\n<p> Entre essas cinco mil nebulosas existe uma a que os homens chamaram Via<br \/>\n    L&aacute;ctea, que comporta dezoito milh&otilde;es de estrelas, das quais<br \/>\n    cada uma se tornou o centro de um sistema solar.<\/p>\n<p> Se o observador tivesse ent&atilde;o examinado especialmente entre esses<br \/>\n    dezoito milh&otilde;es de estrelas uma das modestas e menos brilhantes, uma<br \/>\n    estrela de quarta ordem a que chamamos orgulhosamente ?Sol?, todos os fen&ocirc;menos<br \/>\n    aos quais &eacute; devida a forma&ccedil;&atilde;o do Universo desenrolar<br \/>\n    perante os seus olhos.<\/p>\n<p> Efetivamente, teria visto esse sol, ainda no seu estado gasoso e composto<br \/>\n    de mol&eacute;culas m&oacute;veis, girando sobre o seu eixo para concluir<br \/>\n    o seu trabalho de concentra&ccedil;&atilde;o. Esse movimento, fiel &agrave;s<br \/>\n    leis da mec&acirc;nica, havia de acelerar-se com a diminui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de volume, e haveria de chegar um momento em que a for&ccedil;a centr&iacute;fuga<br \/>\n    venceria a for&ccedil;a centr&iacute;peta, que atrai as mol&eacute;culas exatamente<br \/>\n    para o centro.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o ter-se-ia passado outro fen&ocirc;meno diante dos olhos do<br \/>\n    observador: as mol&eacute;culas- situadas no plano do equador, soltando-se<br \/>\n    como a pedra de uma funda cuja corda se quebra subitamente, teriam formado,<br \/>\n    em redor do Sol, v&aacute;- rios an&eacute;is conc&ecirc;ntricos semelhantes<br \/>\n    aos de Saturno. Por sua vez, esses an&eacute;is de mat&eacute;ria c&oacute;smica,<br \/>\n    animados por um movimento de rota&ccedil;&atilde;o em redor da massa central,<br \/>\n    teriam quebrado e decomposto em nebulosidades secund &aacute;rias, isto &eacute;,<br \/>\n    em planetas. Se o observador tivesse ent&atilde;o concentrado toda a sua aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre esses planetas, t&ecirc;- los-ia visto comportarem-se exatamente como<br \/>\n    o Sol e provocar o nascimento de um ou v&aacute;rios an&eacute;is c&oacute;smicos,<br \/>\n    origem desses astros de ordem inferior a que d&atilde;o o nome de sat&eacute;lites.<\/p>\n<p> Assim, indo do &aacute;tomo &agrave; mol&eacute;cula, da mol&eacute;cula<br \/>\n    ao agregado nebuloso, do agregado nebuloso &agrave; nebulosa, da nebulo20<br \/>\n    sa &agrave; estrela principal, da estrela principal ao Sol, do Sol ao planeta,<br \/>\n    e do. planeta ao sat&eacute;lite, temos toda a s&eacute;rie das transforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sofridas- pelos corpos celestes desde os primeiros dias do Universo.<\/p>\n<p> 0 Sol parece perdido nas imensidades do mundo estelar e no entanto est&aacute;<br \/>\n    ligado, segundo as atuais teorias da ci&ecirc;ncia, &agrave; nebulosa chamada<br \/>\n    Via L&aacute;ctea. Centro de um mundo, por mais pequeno que pare&ccedil;a<br \/>\n    no meio das regi&otilde;es et&eacute;reas, &eacute; no entanto enorme, pois<br \/>\n    o seu volume &eacute; um milh&atilde;o e quatrocentas mil vezes o volume da<br \/>\n    Terra. Em torno dele gravitam oito planetas que nos primeiros tempos da cria-<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o lhe sa&iacute;ram das pr&oacute;prias entranhas. S&atilde;o<br \/>\n    estes planetas, partindo-se do mais pr&oacute;ximo para o mais remoto, Merc&uacute;-<br \/>\n    rio, V&ecirc;nus, Terra, Marte, J&uacute;piter, Saturno, Urano e Netuno.<\/p>\n<p> Al&eacute;m destes circulam, regularmente, entre Marte e J&uacute;piter,<br \/>\n    outros corpos, de volume menos consider&aacute;vel, talvez restos errantes<br \/>\n    de algum astro quebrado em milhares de peda &ccedil;os. Destes, o telesc&oacute;pio<br \/>\n    j&aacute; descobriu noventa e sete.<\/p>\n<p> Alguns dos corpos que o Sol mant&eacute;m nas respectivas &oacute;rbitas<br \/>\n    el&iacute;pticas, por for&ccedil;a da grande lei da gravita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tamb&eacute;m t&ecirc;m seus sat&eacute;lites. Urano tem oito, Saturno, oito,<br \/>\n    J&uacute;piter, quatro, Netuno, talvez tr&ecirc;s, a Terra, um apenas, que<br \/>\n    &eacute; dos menos importantes do mundo solar, a Lua, que o engenho audaz<br \/>\n    dos americanos pretendia conquistar.<\/p>\n<p> 0 astro das noites, j&aacute; pela proximidade relativa a que est&aacute;,<br \/>\n    j&aacute; por virtude do espet&aacute;culo sempre renovado das diversas fases<br \/>\n    que apresenta, partilhou sempre com o Sol a aten&ccedil;&atilde;o dos habitantes<br \/>\n    da Terra. A diferen&ccedil;a &eacute; que olhar para o Sol cansa e os esplendores<br \/>\n    da luz solar for&ccedil;am a abaixar os olhos. A loura Felye &eacute; mais<br \/>\n    humana e, mais cheia de modesta gra&ccedil;a, deixa-se ver com complac&ecirc;ncia.<br \/>\n    &Eacute; suave para a vista, pouco ambiciosa e no entanto permitese por vezes<br \/>\n    eclipsar o irm&atilde;o, o radioso Apolo, sem nunca ser eclipsada por ele.<br \/>\n    Os maometanos compreenderam o reconhecimento que deviam a essa fiel amiga<br \/>\n    da Terra e por isso regularam os seus meses sobre a sua rota&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os primeiros povos votaram um culto especial a essa casta deusa. Os eg&iacute;pcios<br \/>\n    chamavam-lhe &Iacute;sis; os fen&iacute;cios Astart&eacute;ia; os gregos adoraram-na<br \/>\n    com o nome de Febe, filha de Latona e J&uacute;piter, e explicavam os seus<br \/>\n    eclipses pelas visitas misteriosas de Diana ao belo Endimi&atilde;o. A crer<br \/>\n    na lenda mitol&oacute;gica, o le&atilde;o de Nem&eacute;ia percorreu as campinas<br \/>\n    da Lua antes do seu aparecimento na Terra, e o poeta Agenianax, citado por<br \/>\n    Plutarco, celebrou nos seus versos os seus olhos meigos, o seu nariz encantador<br \/>\n    e a sua boca am&aacute;vel, que figuram as partes luminosas da admir&aacute;vel<br \/>\n    Selene.<\/p>\n<p> Contudo, se os antigos compreenderam bem o car&aacute;ter, o temperamento,<br \/>\n    numa palavra, as qualidades morais da Lua do ponto de vista mitol&oacute;gico,<br \/>\n    os mais s&aacute;bios dentre eles permaneceram muito ignorantes em selenografia.<\/p>\n<p> Entretanto, v&aacute;rios astr&ocirc;nomos das &eacute;pocas long&iacute;nquas<br \/>\n    descobriram certas particularidades confirmadas hoje pela ci- &ecirc;ncia.<br \/>\n    Se os arc&aacute;dios pretenderam ter habitado a Terra numa &eacute;poca em<br \/>\n    que a Lua ainda n&atilde;o existia, se Tatius a considerou como um fragmento<br \/>\n    destacado do disco solar, se Clearco, disc&iacute;pulo de Arist&oacute;teles,<br \/>\n    fez dela um espelho polido sobre o qual se refletiam as imagens do oceano,<br \/>\n    se outros, enfim, viram apenas nela um amontoado de vapores exalados pela<br \/>\n    Terra, ou um globo semi gelado, que girava sobre si mesmo, alguns s&aacute;bios,<br \/>\n    por meio de sagazes observa &ccedil;&otilde;es, &agrave; falta de instrumentos<br \/>\n    de &oacute;tica, suspeitaram pelo menos da exist&ecirc;ncia da maior parte<br \/>\n    das leis que regem o astro noturno.<\/p>\n<p> Assim Tales de Mileto, quatrocentos e sessenta anos antes de Cristo, emitiu<br \/>\n    a opini&atilde;o de que a Lua era iluminada pelo Sol. Aristarco de Samos deu<br \/>\n    a verdadeira explica&ccedil;&atilde;o das suas fases. Cle&ocirc;menes ensinou<br \/>\n    que a Lua brilhava com uma luz refletida. 0 caldeu Bar&oacute;sio descobriu<br \/>\n    que a dura&ccedil;&atilde;o d&oacute; seu movimento de rota&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era igual &agrave; da sua revolu&ccedil;&atilde;o, e explicou assim o fato<br \/>\n    de a Lua apresentar sempre a mesma face. Por fim, Hiparco, dois s&eacute;culos<br \/>\n    antes da era crist&atilde;, reconheceu algumas desigualdades nos movimentos<br \/>\n    aparentes do sat&eacute;lite da Terra.<\/p>\n<p> Estas diferentes observa&ccedil;&otilde;es confirmaram-se mais tarde e serviram<br \/>\n    aos modernos astr&ocirc;nomos. Ptolomeu, no s&eacute;culo II, o &aacute;rabe<br \/>\n    Abul-Wefa, no s&eacute;culo X, completaram as observa &ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    Hiparco acerca das desigualdades apresentadas pela Lua na linha ondulada da<br \/>\n    sua &oacute;rbita sob a a&ccedil;&atilde;o do Sol.<\/p>\n<p> Depois Cop&eacute;rnico, no s&eacute;culo XV, e Ticho Brahe, no s&eacute;culo<br \/>\n    XVI, explicaram completamente o sistema do mundo e o papel desempenhado pela<br \/>\n    Lua no conjunto dos corpos celestes.<\/p>\n<p> Nessa &eacute;poca, os seus movimentos estavam mais ou menos determinados;<br \/>\n    mas pouco se sabia da sua constitui&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica. Foi ent&atilde;o<br \/>\n    que Galileu explicou os fen&ocirc;menos luminosos produzidos em certas fases<br \/>\n    pela exist&ecirc;ncia de montanhas, &agrave;s quais atribu&iacute;a uma altura<br \/>\n    m&eacute;dia de quatro mil e quinhentas toesas.<\/p>\n<p> Depois dele, Hev&eacute;lio, um astr&ocirc;nomo de Dantzig, avaliou as mais<br \/>\n    elevadas dessas montanhas em duas mil e seiscentas toesas; mas o seu confrade<br \/>\n    Riccioli elevou-as para sete mil. Herschell, nos fins do s&eacute;culo XVIII,<br \/>\n    armado de um poderoso telesc&oacute;pio, reduziu singularmente as medidas<br \/>\n    precedentes.<\/p>\n<p> Atribuiu mil e novecentas toesas &agrave;s montanhas mais altas, e reduziu<br \/>\n    a m&eacute;dia das diferentes alturas para apenas quatrocentas toesas. Mas<br \/>\n    tamb&eacute;m Herschell se enganava, e foram necess&aacute;rias as observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Shroeter, Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Partorf, Lohrman, Gruithuysen,<br \/>\n    e sobretudo os pacientes estudos de Beer e de Moedler, para resolver definitivamente<br \/>\n    a quest&atilde;o. Gra- &ccedil;as a esses s&aacute;bios, a altitude das montanhas<br \/>\n    da Lua &eacute; perfeitamente conhecida hoje em dia. Beer e Moedier mediram<br \/>\n    mil novecentas e cinco altitudes, das quais seis est&atilde;o acima das duas<br \/>\n    mil e seiscentas toesas, e vinte e duas acima das duas mil e quatrocentas.<br \/>\n    0 seu mais alto cume domina de uma altura de tr&ecirc;s mil e oitocentas e<br \/>\n    uma toesas a superf&iacute;cie do disco lunar.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo, ia-se completando o conhecimento da Lua; esse astro mostrava-se<br \/>\n    crivado de crateras e cada nova observa&ccedil;&atilde;o confirmava mais a<br \/>\n    sua natureza essencialmente vulc&acirc;nica. Da falta de refra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos raios dos planetas ocultos por ela, concluiu-se que a atmosfera devia<br \/>\n    faltar-lhe quase totalmente., Essa aus&ecirc;ncia de ar levava &agrave; conclus&atilde;o<br \/>\n    de haver igualmente aus&ecirc;ncia de &aacute;gua. Tomavase, portanto, evidente<br \/>\n    que para viver na Lua os seus habitantes deviam ter um organismo especial,<br \/>\n    diferindo essencialmente dos habitantes da Terra.<\/p>\n<p> Enfim, gra&ccedil;as aos novos m&eacute;todos, instrumentos mais aperfei<br \/>\n    &ccedil;oados perscrutaram a Lua sem descanso, n&atilde;o deixando por explorar<br \/>\n    nenhum ponto da sua superf&iacute;cie, e no entanto o seu di&acirc;metro mede<br \/>\n    duas mil cento e cinq&uuml;enta milhas, a sua superf&iacute;cie &eacute; a<br \/>\n    d&eacute;cima terceira parte da superf &iacute;cie do Globo e o seu volume<br \/>\n    a quadrag&eacute;sima nona parte do volume do esfer&oacute;ide terrestre;<br \/>\n    mas nenhum dos segredos podia escapar ao olhar dos astr&ocirc;nomos, e esses<br \/>\n    h&aacute;- beis s&aacute;bios levaram ainda mais longe as suas prodigiosas<br \/>\n    observa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Assim, notaram que, durante a lua cheia, o disco surgia em certas partes<br \/>\n    raiado por linhas brancas e durante as outras fases raiado por linhas negras.<br \/>\n    Estudando com maior precis &atilde;o, conseguiram determinar com exatid&atilde;o<br \/>\n    a natureza dessas linhas. Eram sulcos compridos e estreitos, cavados entre<br \/>\n    mar. s paralelas, levando geralmente aos contornos das crateras; tinham um<br \/>\n    comprimento compreendido entre dez e cem milhas e uma largura de oitocentas<br \/>\n    toesas. Os astr&ocirc;nomos chamaram-lhes ranhuras, mas n&atilde;o passaram<br \/>\n    disso. Quanto &agrave; quest&atilde;o de se saber se essas ranhuras eram ou<br \/>\n    n&atilde;o leitos secos de rios, n&atilde;o puderam resolv&ecirc;-la de maneira<br \/>\n    completa. Os americanos j&aacute; concebiam tamb &eacute;m a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de determinar com exatid&atilde;o aquele fato geol&oacute;gico.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; intensidade da luz lunar, nada mais havia a aprender a esse<br \/>\n    respeito; sabia-se que ela era trezentas mil ve24 zes mais fraca que a do<br \/>\n    Sol e que o seu calor n&atilde;o tem a&ccedil;&atilde;o apreci&aacute;vel<br \/>\n    sobre os term&ocirc;metros; quanto ao fen&ocirc;meno conhecido pelo nome de<br \/>\n    luz cendrada, explicasse naturalmente pelo efeito dos raios do Sol refletidos<br \/>\n    na Terra e que depois da reflex&atilde;o se dirigem para a Lua. Parece, por<br \/>\n    este fen&ocirc;meno, completar-se o disco lunar, quando este se apresenta<br \/>\n    sob a forma de um crescente na sua primeira e &uacute;ltima fase. Era este<br \/>\n    o estado dos conhecimentos adquiridos a respeito do sat&eacute;lite da Terra,<br \/>\n    e que o Clube do Canh&atilde;o se Propunha completar em todos os campos: cosmogr&aacute;fico,<br \/>\n    geol&oacute;gico, pol&iacute;tico e moral.<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">Cap&iacute;tulo IV &#8211; Barbicane toma as primeiras Provid&ecirc;ncias<\/a><\/h4>\n<p>Entretanto, Barbicane n&atilde;o perdia um s&oacute; instante. 0 seu primeiro<br \/>\n    cuidado foi reunir os colegas nos escrit&oacute;rios do Clube do Canh&atilde;o.<br \/>\n    Ali, ap&oacute;s v&aacute;rias discuss&otilde;es, concordaram em consultar<br \/>\n    os astr&ocirc;nomos sobre a parte astron&ocirc;mica do empreendimento; uma<br \/>\n    vez discutidas as respostas destes, examinaram ent&atilde;o os meios mec&acirc;nicos,<br \/>\n    nada sendo negligenciado para assegurar o &ecirc;xito dessa grande experi-<br \/>\n    &ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Uma nota muito precisa, contendo perguntas espec&iacute;ficas, foi redigida<br \/>\n    e dirigida ao Observat&oacute;rio de Cambridge, em Massachussetts. Essa cidade,<br \/>\n    onde foi fundada a primeira universidade dos Estados Unidos, &eacute; justamente<br \/>\n    c&eacute;lebre pelo seu observat&oacute;rio astron&ocirc;mico. Ali se encontram<br \/>\n    reunidos cientistas do mais alto m&eacute;rito; tamb&eacute;m funciona o potente<br \/>\n    telesc&oacute;pio que permitiu a Bond detectar a nebulosa de Andr&ocirc;meda<br \/>\n    e a Clarke descobrir o sat&eacute;lite de S&iacute;rio. Este estabelecimento,<br \/>\n    a todos os t&iacute;tulos c&eacute;lebre, justificava a confian&ccedil;a do<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim, dois dias depois, a sua resposta, t&atilde;o impacientemente esperada,<br \/>\n    chegava &agrave;s m&atilde;os do Presidente Barbicane.<\/p>\n<p> Estava assim redigida: ?Cambridge, 7 de outubro.<\/p>\n<p> Do diretor do Observat&oacute;rio de Cambridge ao presidente do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Logo que recebemos a vossa estimada carta de 6 do corrente, dirigida ao<br \/>\n    Observat&oacute;rio de Cambridge, em nome dos membros do Clube do Canh&atilde;o,<br \/>\n    de Baltimore, o nosso gabinete reuniu-se imediatamente e julgou oportuno responder.<\/p>\n<p> Em resumo: 1 &#8211; 0 canh&atilde;o dever&aacute; ser instalado numa regi&atilde;o<br \/>\n    situada entre o equador e o grau 28? de latitude norte ou sul.<\/p>\n<p> 2 &#8211; Dever&aacute; ser apontado para o z&ecirc;nite do lugar.<\/p>\n<p> 3 &#8211; 0 proj&eacute;til dever&aacute; ser animado de uma velocidade inicial<br \/>\n    de doze mil j ardas por segundo.<\/p>\n<p> 4 &#8211; Dever&aacute; ser lan&ccedil;ado no dia 1? de dezembro do pr&oacute;ximo<br \/>\n    ano, &agrave;s dez horas e quarenta e seis minutos e quarenta segundos.<\/p>\n<p> 5 &#8211; 0 proj&eacute;til chegar&aacute; &agrave; Lua quatro dias ap&oacute;s<br \/>\n    a sua partida, precisamente &agrave; meia-noite do dia 4 de dezembro., no<br \/>\n    momento em que o astro passa pelo z&ecirc;nite.<\/p>\n<p> Os membros do Clube do Canh&atilde;o devem, portanto, come &ccedil;ar sem<br \/>\n    demora os trabalhos necess&aacute;rios para tal empreendimento, de tal ordem<br \/>\n    a estarem prontos a operar no momento determinado, pois, se deixarem passar<br \/>\n    essa data de 4 de dezembro, n&atilde;o voltar&atilde;o a encontrar ,a Lua<br \/>\n    nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o ao perigeu e ao<br \/>\n    z&ecirc;nite sen&atilde;o dezoito anos e onze dias depois.<\/p>\n<p> 0 gabinete do Observat&oacute;rio de Cambridge p&otilde;e-se inteira mente<br \/>\n    &agrave; vossa disposi&ccedil;&atilde;o para as quest&otilde;es de astronomia<br \/>\n    te&oacute;rica, e pela presente junta as suas felicita&ccedil;&otilde;es &agrave;s<br \/>\n    da Am&eacute;rica inteira.<\/p>\n<p> Pelo gabinete, J. M. Belfast Diretor do Observat&oacute;rio de Cambridge.<\/p>\n<p> 0 Observat&oacute;rio de Cambridge tinha, na sua memor&aacute;vel carta,<br \/>\n    estudado a quest&atilde;o do ponto de vista astron&ocirc;mico; tratava-se<br \/>\n    no momento de resolver mecanicamente. Seria ent&atilde;o que as dificuldades<br \/>\n    pr&aacute;ticas pareceriam intranspon&iacute;veis em qualquer outro pa&iacute;s<br \/>\n    que n&atilde;o fosse a Am&eacute;rica. Ali n&atilde;o passaram de brincadeira.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane nomeara, sem perda de tempo, uma comiss&atilde;o<br \/>\n    de execu&ccedil;&atilde;o dentro do Clube do Canh&atilde;o. Essa comiss&atilde;o<br \/>\n    devia, em tr&ecirc;s sess&otilde;es, elucidar as tr&ecirc;s grandes quest&otilde;es<br \/>\n    do canh&atilde;o, do proj&eacute;til e da p&oacute;lvora; essa comiss &atilde;o<br \/>\n    era formada por quatro membros, todos muito s&aacute;bios nessas mat&eacute;rias:<br \/>\n    Barbicane, com direito a voto de desempate no caso de as opini&otilde;es diferirem;<br \/>\n    o General Morgan, o Major Elphiston e, por fim, o inevit&aacute;vel J. T.<br \/>\n    Maston, ao qual foram confiadas as fun&ccedil;&otilde;es de secret&aacute;rio-relator.<\/p>\n<p> No dia 8 de outubro reuniu-se a comiss&atilde;o em casa do Presidente Barbicane.<br \/>\n    Como era importante que o est&ocirc;- mago n&atilde;o perturbasse com os seus<br \/>\n    imp&eacute;rios. Os apelos t&atilde;o s&eacute;ria discuss&atilde;o, os quatro<br \/>\n    membros do Clube do Canh &atilde;o tomaram lugar a uma mesa coberta de sandu&iacute;ches<br \/>\n    e de grandes bules de ch&aacute;. Em seguida, J. T Maston atarraxou a caneta<br \/>\n    ao gancho de ferro que lhe servia de m&atilde;o e a sess&atilde;o come&ccedil;ou.<\/p>\n<p> Barbicane tomou a palavra: &#8211; Meus caros colegas &#8211; disse -, temos de resolver<br \/>\n    um dos mais importantes problemas da bal&iacute;stica, essa ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    por excel&ecirc;ncia, que trata dos movimentos dos proj&eacute;teis, isto<br \/>\n    &eacute;, dos corpos lan&ccedil;ados no espa&ccedil;o por determinada for&ccedil;a<br \/>\n    de impuls&atilde;o, sendo depois abandonados a si pr&oacute;prios.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! A bal&iacute;stica! A bal&iacute;stica! &#8211; exclamou J. T. Maston, com<br \/>\n    voz comovida.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez possa parecer mais l&oacute;gico &#8211; continuou Barbicane &#8211; consagrar<br \/>\n    esta primeira sess&atilde;o &agrave; discuss&atilde;o de engenho&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Com toda raz&atilde;o &#8211; respondeu o General Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto &#8211; replicou Barbicane -, ap&oacute;s maduras reflex &otilde;es,<br \/>\n    pareceu-me que a quest&atilde;o do proj&eacute;til devia antecipar- se &agrave;<br \/>\n    do canh&atilde;o e que as dimens&otilde;es deste se subordinariam &agrave;s<br \/>\n    daquele.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o a palavra &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> Foi-lhe concedida a palavra com a defer&ecirc;ncia que o seu prestigioso<br \/>\n    passado exigia.<\/p>\n<p> &#8211; Meus caros amigos &#8211; disse, num tom inspirado o nosso presidente tem raz&atilde;o<br \/>\n    em dar a quest&atilde;o do proj&eacute;til primazia sobre todas as outras!<br \/>\n    Essa bala que vamos enviar para a Lua &eacute; a nossa mensageira, a nossa<br \/>\n    embaixadora, e pe&ccedil;o-lhes licen&ccedil;a para a considerar de um ponto<br \/>\n    de vista puramente moral.<\/p>\n<p> Aquela nova maneira de encarar um proj&eacute;til despertou singularmente<br \/>\n    a curiosidade dos outros membros da comiss &atilde;o, e por isso eles prestaram<br \/>\n    a mais viva aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s palavras de J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Meus caros colegas &#8211; continuou este &uacute;ltimo serei breve; deixarei<br \/>\n    de lado a bala f&iacute;sica, a bala que mata, para ver apenas a bala matem&aacute;tica,<br \/>\n    a bala moral. A bala &eacute; para mim a mais deslumbrante manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do poderio humano; &eacute; nela que se resume esse poder por inteiro; foi<br \/>\n    criando-a que o homem se aproximou mais do Criador! &#8211; Muito bem! &#8211; apoiou<br \/>\n    o Major Elphiston.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente &#8211; exclamou o orador -, se Deus fez as estrelas e os planetas,<br \/>\n    o homem fez a bala, esse criterium das velocidades terrestres, essa miniatura<br \/>\n    dos astros errando no espa&ccedil;o, e que s&atilde;o afinal, para falar a<br \/>\n    verdade, apenas proj&eacute;teis! A Deus coube criar a velocidade da eletricidade,<br \/>\n    a velocidade da luz, a velocidade das estrelas, dos cometas, dos sat&eacute;lites,<br \/>\n    a velocidade do som, a velocidade do vento.<\/p>\n<p> Mas a n&oacute;s, os homens, pertence a velocidade da bala, cem vezes superior<br \/>\n    &agrave; das locomotivas e dos mais r&aacute;pidos cavalos.<\/p>\n<p> J. T. Maston sentia-se transportado pela emo&ccedil;&atilde;o; a sua voz<br \/>\n    tomava acentos l&iacute;ricos cantando esse hino &agrave; bala.<\/p>\n<p> &#8211; Querem n&uacute;meros? &#8211; continuou. &#8211; Eis alguns e bem eloq&uuml;entes!<br \/>\n    Tratemos simplesmente da modesta bala de vinte e quatro libras: se tem uma<br \/>\n    velocidade oitocentas mil vezes menor do que a da eletricidade, seiscentas<br \/>\n    e quarenta vezes menor do que a da luz, setenta e seis vezes menor do que<br \/>\n    a da Terra no seu movimento de transla&ccedil;&atilde;o em redor do Sol, mas<br \/>\n    que, no entanto, ao sair do canh&atilde;o, ultrapassa a velocidade do som,<br \/>\n    percorre duzentas toesas por segundo, duas mil toesas em dez segundos, quatorze<br \/>\n    milhas por minuto, oitocentas e quarenta milhas por hora, vinte mil e cem<br \/>\n    milhas por dia, isto &eacute;, 7.568.640 milhas por ano, ou seja, a velocidade<br \/>\n    dos pontos do equador no movimento de rota&ccedil;&atilde;o do Globo. Levaria,<br \/>\n    portanto, onze dias a chegar &agrave; Lua, doze anos para atingir o Sol, trezentos<br \/>\n    e sessenta anos para atingir Netuno, nos limites do sistema solar. Eis o que<br \/>\n    faria essa modesta bala, obra das nossas m&atilde;os! Que suceder&aacute;<br \/>\n    ent&atilde;o quando, tornando essa velocidade vinte vezes maior, n&oacute;s<br \/>\n    a lan&ccedil;armos com a rapidez de sete milhas por segundo. Ah, Bala espl&ecirc;ndida!<br \/>\n    Soberbo proj&eacute;til! Exulto ao pensar que ser&aacute;s recebida l&aacute;<br \/>\n    em cima com todas as honras devida &aacute; um embaixador terrestre! Vivas<br \/>\n    acolheram este retumbante discurso, e J. T. Maston, muito comovido, sentou-se<br \/>\n    no meio das felicita&ccedil;&otilde;es dos seus colegas.<\/p>\n<p> &#8211; E agora &#8211; disse Barbicane -, que concedemos uma larga parte da nossa sess&atilde;o<br \/>\n    &agrave; poesia, ataquemos a quest&atilde;o diretamente.<\/p>\n<p> Estamos prontos &#8211; responderam os membros da comiss &atilde;o mastigando<br \/>\n    ao mesmo tempo cada um deles meia d&uacute;zia de sandu&iacute;ches.<\/p>\n<p> &#8211; Sabem qual &eacute; o problema a resolver &#8211; continuou o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Trata-se de imprimir a um proj&eacute;til uma velocidade de doze mil jardas<br \/>\n    por segundo. Tenho raz&otilde;es para pensar que conseguiremos faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    Mas observemos por agora as velocidades obtidas at&eacute; hoje; o General<br \/>\n    Morgan poder&aacute; esclarecer-nos a esse respeito.<\/p>\n<p> &#8211; Muito facilmente &#8211; respondeu o general &#8211; pois fui durante a guerra membro<br \/>\n    da comiss&atilde;o de experi&ecirc;ncias. Dir-lhes-ei, portanto, que os canh&otilde;es<br \/>\n    de cem de Dahlgreen, que tinham um alcance de duas mil e quinhentas toesas,<br \/>\n    imprimiram ao seu proj&eacute;til uma velocidade inicial de quinhentas j ardas<br \/>\n    por ? segundo.<\/p>\n<p> &#8211; Bem. E o columbiad de Rodman? &#8211; perguntou o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; 0 columbiad Rodman, experimentado no Forte de Hamilton, perto de Nova<br \/>\n    Iorque, lan&ccedil;ava uma bala, que pesava meia tonelada, a uma dist&acirc;ncia<br \/>\n    de seis milhas, com uma velocidade de oitocentas jardas por segundo, resultado<br \/>\n    que Armstrong e Palliser nunca obtiveram na Inglaterra.<\/p>\n<p> &#8211; Oh!, os ingleses1 &#8211; exclamou J. T. Maston, apontando para o horizonte<br \/>\n    o seu tem&iacute;vel gancho.<\/p>\n<p> &#8211; Portanto &#8211; disse Barbicane -, essas oitocentas jardas foram a velocidade<br \/>\n    m&aacute;xima atingida at&eacute; hoje.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; respondeu Morgan.<\/p>\n<p> Diria no entanto &#8211; replicou J. T. Maston &#8211; que se o meu morteiro n&atilde;o<br \/>\n    tivesse explodido.<\/p>\n<p> &#8211; Mas explodiu &#8211; disse Barbicane com um gesto benevolente.<\/p>\n<p> &#8211; Tomemos, portanto, como ponto de partida a velocidade de oitocentas jardas.<br \/>\n    Ser&aacute; preciso torn&aacute;-la vinte vezes mais r&aacute;pida. Vamos<br \/>\n    reservar para outra sess&atilde;o a discuss &atilde;o dos meios necess&aacute;rios<br \/>\n    para conseguir essa velocidade.<\/p>\n<p> Agora, chamarei a vossa aten&ccedil;&atilde;o, caros colegas, sobre as dimens&otilde;es<br \/>\n    que conv&eacute;m dar ao proj&eacute;til. Bem v&ecirc;em que n&atilde;o se<br \/>\n    trata, no caso presente, de proj&eacute;teis pesando no m&aacute;ximo meia<br \/>\n    tonelada! Por que n&atilde;o? &#8211; perguntou o major.<\/p>\n<p> &#8211; Porque esse proj&eacute;til &#8211; replicou vivamente J. T. Maston &#8211; deve ser<br \/>\n    bastante grande para atrair as aten&ccedil;&otilde;es dos habitantes da Lua,<br \/>\n    se eles de fato existirem.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; respondeu Barbicane -, e por outra raz&atilde;o ainda mais forte.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer dizer com isso, Barbicane? &#8211; perguntou o major.<\/p>\n<p> &#8211; Digo que n&atilde;o basta enviarmos um proj&eacute;til e n&atilde;o nos<br \/>\n    ocuparmos mais dele; &eacute; preciso que o sigamos durante o seu percurso<br \/>\n    at&eacute; o momento em que ele atingir o seu objetivo.<\/p>\n<p> &#8211; 0 qu&ecirc;! &#8211; exclamaram a um tempo o general e o major, um pouco surpreendidos<br \/>\n    com a proposta.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Barbicane, muito seguro de si -; do contr&aacute;rio<br \/>\n    a nossa experi&ecirc;ncia n&atilde;o obter&aacute; qualquer resultado.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ent&atilde;o &#8211; replicou o major &#8211; vai dar a esse proj&eacute;til dimens&otilde;es<br \/>\n    enormes? &#8211; N&atilde;o! queiram ouvir-me: sabem que os instrumentos de &oacute;tica<br \/>\n    adquiriram uma grande perfei&ccedil;&atilde;o; com certos telesc &oacute;pios<br \/>\n    j&aacute; se conseguiu obter aumentos de seis mil vezes, e trazer a Lua para<br \/>\n    cerca de quarenta milhas. Ora, a essa dist&acirc;ncia, objetos com sessenta<br \/>\n    p&eacute;s de lado s&atilde;o perfeitamente vis&iacute;veis. Sen&atilde;o<br \/>\n    se levou mais para diante o poder de penetra&ccedil;&atilde;o dos telesc&oacute;pios,<br \/>\n    &eacute; porque esse poder se exerce em detrimento da sua nitidez, e a Lua,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; mais do que um espelho refletor, n&atilde;o emite<br \/>\n    uma luz suficientemente intensa para que se possa admitiram simplifica- &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que v&atilde;o al&eacute;m desse limite.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! Que faremos agora? &#8211; perguntou o general. &#8211; Daremos ao nosso<br \/>\n    proj&eacute;til um di&acirc;metro de sessenta p&eacute;s? N&atilde;o! Encarregar-se-&aacute;<br \/>\n    ent&atilde;o de tornar a Lua mais luminosa? &#8211; Perfeitamente! &#8211; Esta &eacute;<br \/>\n    forte! &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Sim; &eacute; muito, mas muito simples &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente, se conseguir diminuir a espessura da atmosfera atravessada<br \/>\n    pela luz da Lua, poderei tornar essa luz mais intensa.<\/p>\n<p> &#8211; Evidentemente.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem. Para obter esse resultado, bastar-me-&aacute; instalar um telesc&oacute;pio<br \/>\n    em qualquer montanha elevada. E &eacute; o que faremos.<\/p>\n<p> &#8211; Rendo-me, rendo-me &#8211; disse o major. &#8211; Voc&ecirc; tem um tal modo de simplificar<br \/>\n    as coisas!&#8230; E que amplifica&ccedil;&atilde;o espera obter assim? . &#8211; Uma<br \/>\n    amplifica&ccedil;&atilde;o de quarenta e oito mil vezes, que trar&aacute;<br \/>\n    a Lua para apenas cinco milhas, pelo que, para se tornarem vis&iacute;veis,<br \/>\n    os objetos apenas ter&atilde;o necessidade de ter nove p&eacute;s de di&acirc;metro.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeito! &#8211; exclamou J. T. Maston. &#8211; 0 nosso proj&eacute;til ter&aacute;,<br \/>\n    portanto, nove p&eacute;s de di&acirc;metro? &#8211; Precisamente.<\/p>\n<p> &#8211; Permita-me no entanto que lhe diga &#8211; continuou o Maior Elphiston &#8211; que<br \/>\n    ele ter&aacute; ainda um peso tal que&#8230;<\/p>\n<p> Olhe, major &#8211; respondeu Barbicane. &#8211; Antes de discutir o peso do proj&eacute;til,<br \/>\n    deixe-me dizer-lhe que os nos 505 pais fizeram maravilhas nesse g&ecirc;nero.<br \/>\n    Longe de mim a id&eacute;ia de que a bal&iacute;stica n&atilde;o fez progressos,<br \/>\n    mas &eacute; bom sabermos que, desde a Idade M&eacute;dia, se obt&ecirc;m<br \/>\n    resultados surpreendentes, ousarei mesmo dizer mais surpreendentes do que<br \/>\n    os nossos.<\/p>\n<p> Esta agora! &#8211; replicou Morgan.<\/p>\n<p> Justifique as suas palavras &#8211; disse vivamente J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais f&aacute;cil &#8211; retorquiu Barbicane. &#8211; Tenho exemplos que apoiam<br \/>\n    a minha afirma&ccedil;&atilde;o. No cerco de Constantinopla, por Maom&eacute;<br \/>\n    II, em 1453, lan&ccedil;aram balas de pedra que pesavam mil e novecentas libras,<br \/>\n    pelo que deviam ter um bom tamanho.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! 0h1 &#8211; exclamou o major. &#8211; Mil e novecentas libras j&aacute; &eacute;<br \/>\n    um n&uacute;mero apreci&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Em Malta, no tempo dos cavaleiros, um certo canh&atilde;o do Forte Saint-Elme<br \/>\n    arremessava proj&eacute;teis que pesavam duas mil e quinhentas libras.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; E por fim, segundo um historiador franc&ecirc;s, no reinado de Lu&iacute;s<br \/>\n    XI, havia um morteiro que lan&ccedil;ava bombas de quinhentas libras apenas;<br \/>\n    mas essas bombas, partindo da Bastilha, um lugar onde os loucos encerravam<br \/>\n    os ajuizados, iam cair em Charenton, um lugar onde os ajuizados encerravam<br \/>\n    os loucos I &#8211; Muito bem! &#8211; disse J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Desde ent&atilde;o que vimos n&oacute;s, afinal? Os canh&otilde;es de<br \/>\n    Armstrong lan&ccedil;arem balas de quinhentas libras e os columbiads Rodman<br \/>\n    proj&eacute;teis de meia tonelada! Parece, portanto, que se os proj&eacute;teis<br \/>\n    ganharam em alcance perderam em peso. Ora, se n&oacute;s pusermos todos os<br \/>\n    nossos esfor &ccedil;os, desse lado, devemos conseguir, com os progressos<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia, decuplicar o peso das balas de Maom&eacute; II e dos cavaleiros<br \/>\n    de Malta.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; evidente &#8211; respondeu o major. &#8211; Mas que metal tenciona ent&atilde;o<br \/>\n    utilizar para o fabrico do proj&eacute;til? &#8211; Ferro fundido, muito simplesmente<br \/>\n    &#8211; disse o General Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Ferro fundido! &#8211; exclamou J. T. Maston, com profundo desd&eacute;m. &#8211;<br \/>\n    Trata-se de uma coisa muito vulgar para uma bala destinada a ir &agrave; Lua.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o exageremos, meu estimado amigo &#8211; respondeu Morgan -; o ferro<br \/>\n    fundido chegar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; exclamou ent&atilde;o o Major Elphiston. &#8211; Visto que o peso<br \/>\n    &eacute; proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido, medindo nove<br \/>\n    p&eacute;s de di&acirc;metro, ter&aacute; ainda um peso espantoso! &#8211; Sim,<br \/>\n    se for maci&ccedil;a; n&atilde;o se for oca &#8211; disse Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Oca! Ser&aacute; ent&atilde;o um obus? &#8211; Onde se poder&atilde;o meter<br \/>\n    cartas e amostras das produ- &ccedil;&otilde;es terrestres? &#8211; Sim, um obus<br \/>\n    &#8211; replicou Barbicane. &#8211; &Eacute; necess&aacute;rio que o seja; uma bala maci&ccedil;a<br \/>\n    de cento e oito polegadas pesaria mais de duzentas mil libras, peso evidentemente<br \/>\n    demasia do consider&aacute;vel; no entanto, como &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    assegurar uma certa estabilidade ao proj&eacute;til, proponho que lhe demos<br \/>\n    um peso de cinco mil libras.<\/p>\n<p> &#8211; Qual ser&aacute; ent&atilde;o a espessura das paredes do proj&eacute;til?<br \/>\n    &#8211; perguntou o major.<\/p>\n<p> &#8211; Se adotarmos as propor&ccedil;&otilde;es regulamentares &#8211; continuou Morgan<br \/>\n    -, um di&acirc;metro de cento e oito polegadas exigiria paredes de pelo menos<br \/>\n    dois p&eacute;s de espessura.<\/p>\n<p> &#8211; Seria demasiado &#8211; respondeu Barbicane -; repare bem que n&atilde;o se<br \/>\n    trata de uma bala destinada a perfurar chapas met&aacute;licas; bastar-lhe-&aacute;<br \/>\n    ter paredes suficientemente fortes para resistir &agrave; press&atilde;o dos<br \/>\n    gases da p&oacute;lvora. Qual &eacute; portanto o problema? Que espessura<br \/>\n    deve ter um obus de ferro fundido para pesar apenas vinte mil libras? 0 nosso<br \/>\n    h&aacute;bil calculador, o valente Maston, vai nos informar daqui a pouco.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais f&aacute;cil &#8211; replicou o estimado secret&aacute;rio da comiss<br \/>\n    &atilde;o.<\/p>\n<p> Ao dizer isto, tra&ccedil;ou algumas f&oacute;rmulas alg&eacute;bricas no<br \/>\n    papel; viram surgir sob a sua pena nem elevados &agrave; segunda pot &ecirc;ncia.<br \/>\n    Teve mesmo o ar de extrair, sem lhe p&ocirc;r a m&atilde;o, uma certa raiz<br \/>\n    c&uacute;bica, e disse por fim: &#8211; As paredes dever&atilde;o ter apenas duas<br \/>\n    polegadas de espessura.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute; suficiente? &#8211; perguntou o major, com ar de d&uacute;vida.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu o Presidente Barbicane. &#8211; Evidentemente que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o que devemos fazer! &#8211; inquiriu Elphiston, com um ar bastante<br \/>\n    embara&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8211; Utilizar outro metal diferente do ferro fundido.<\/p>\n<p> &#8211; Cobre? &#8211; perguntou Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o; isso &eacute; ainda pesado demais. Tenho outra coisa melhor<br \/>\n    a propor-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; 0 qu&ecirc;? &#8211; inquiriu o major.<\/p>\n<p> &#8211; Alum&iacute;nio &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Alum&iacute;nio?! &#8211; exclamaram os tr&ecirc;s colegas do presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida, meus amigos. Sabeis que um ilustre qu&iacute;mico franc&ecirc;s,<br \/>\n    Henri Sainte-Claire Deville, conseguiu, em 1854, obter alum&iacute;nio em<br \/>\n    massa compacta. Ora, esse precioso metal tem a brancura da prata, a inalterabilidade<br \/>\n    do ouro a tenacidade do ferro, a fusibilidade do cobre e a leveza do vidro;<br \/>\n    trabalha-se facilmente e est&aacute; muito disseminado na natureza, visto<br \/>\n    que forma a base da maior parte das rochas.<\/p>\n<p> &Eacute; tr&ecirc;s vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido criado<br \/>\n    expressamente para nos fornecer o material para o nosso proj&eacute;til! &#8211;<br \/>\n    Viva o alum&iacute;nio! &#8211; Exclamou o secret&aacute;rio da comiss&atilde;o,<br \/>\n    sempre muito barulhento nos seus momentos de entusiasmo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, meu caro presidente &#8211; disse o major -, o pre&ccedil;o do alum&iacute;nio<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; extremamente elevado? &#8211; Era &#8211; respondeu Barbicane -, nos<br \/>\n    primeiros tempos da sua descoberta, uma libra de alum&iacute;nio custava duzentos<br \/>\n    e oitenta d&oacute;lares; depois baixou para vinte d&oacute;lares, e hoje,<br \/>\n    finalmente, vale nove d&oacute;lares.<\/p>\n<p> &#8211; Mas a nove d&oacute;lares por libra &#8211; replicou o major, que n&atilde;o<br \/>\n    cedia facilmente &#8211; &eacute; ainda um pre&ccedil;o enorme! Sem d&uacute;vida,<br \/>\n    meu caro maior, mas n&atilde;o &eacute; inacess&iacute;vel.<\/p>\n<p> Nesse caso quanto pesar&aacute; ent&atilde;o o proj&eacute;til? &#8211; perguntou<br \/>\n    Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Eis o que resulta dos meus c&aacute;lculos &#8211; respondeu Barbicane -; uma<br \/>\n    bala de cento e oito polegadas de di&acirc;metro e de doze polegadas de espessura<br \/>\n    pesaria, se fosse de ferro fundido, sessenta e sete mil quatrocentas e quarenta<br \/>\n    libras; em alum&iacute;nio, o seu peso ser&aacute;, reduzido a dezenove mil<br \/>\n    e duzentas e cinq&uuml;enta libras.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeito! Perfeito! &#8211; replicou o major. &#8211; Mas n&atilde;o v&ecirc; que<br \/>\n    a nove d&oacute;lares a libra esse proj&eacute;til custar&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Cento e setenta e tr&ecirc;s mil duzentos e cinq&uuml;enta d&oacute;lares,<br \/>\n    sei-o perfeitamente; mas n&atilde;o receiem nada, meus amigos, o dinheiro<br \/>\n    n&atilde;o faltar&aacute; ao nosso empreendimento, asseguro- lhes.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; de chover dinheiro nos nossos cofres &#8211; afirmou J. T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> Pois bem! que pensam do alum&iacute;nio? &#8211; perguntou o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Adotado! &#8211; responderam os tr&ecirc;s membros da comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Quanto &agrave; forma do proj&eacute;til &#8211; continuou Barbicane -, importa<br \/>\n    pouco, visto que, uma vez ultrapassada a atmosfera, ele se encontrar&aacute;<br \/>\n    no v&aacute;cuo; proponho, portanto, a bala redonda, que girar&aacute; sobre<br \/>\n    si mesma, se isso lhe agradar, comportando-se conforme ditar a sua real fantasia.<\/p>\n<p> Terminou assim a primeira sess&atilde;o da comiss&atilde;o; a quest&atilde;o<br \/>\n    do proj&eacute;til estava definitivamente resolvida, e J. T. Maston alegrou-se<br \/>\n    muito com a id&eacute;ia de enviar um proj&eacute;til de alum &iacute;nio<br \/>\n    aos selenitas, ?o que lhes daria uma excelente id&eacute;ia dos habitantes<br \/>\n    da Terra?.<\/p>\n<p> As resolu&ccedil;&otilde;es tomadas nessa sess&atilde;o produziram um grande<br \/>\n    efeito no exterior. Algumas pessoas mais t&iacute;midas assustavam- se um<br \/>\n    pouco com a id&eacute;ia de uma bala pesando vinte mil libras se r lan&ccedil;ada<br \/>\n    atrav&eacute;s do espa&ccedil;o. Perguntavam a si pr&oacute;prias que canh&atilde;o<br \/>\n    poderia transmitir uma velocidade inicial suficiente para tal massa. A ata<br \/>\n    da segunda sess&atilde;o da comiss&atilde;o devia responder a essas quest&otilde;es.<\/p>\n<p> No dia seguinte &agrave; noite, os quatro membros do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    instalavam-se perante novas montanhas de sandu &iacute;ches e &agrave; beira<br \/>\n    de um &#8211; verdadeiro oceano de ch&aacute;. A discuss&atilde;o retomou novamente<br \/>\n    o seu curso e dessa vez sem pre&acirc;mbulos.<\/p>\n<p> &#8211; Meus caros colegas disse Barbicane _, vamos ocuparnos do engenho a ser<br \/>\n    constru&iacute;do, do seu comprimento, da sua forma, da sua composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do seu peso. E prov&aacute;vel que cheguemos a dar-lhe dimens&otilde;es<br \/>\n    gigantescas; mas, por maiores que sejam as dificuldades, o nosso engenho industrial<br \/>\n    suplant&aacute;-las-&aacute; facilmente. Queiram, portanto, escutar- me e<br \/>\n    n&atilde;o poupem as obje&ccedil;&otilde;es que tiverem a fazerme.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o receio! &#8211; N&atilde;o esque&ccedil;amos &#8211; continuou Barbicane<br \/>\n    &#8211; a que ponto a nossa discuss&atilde;o de ontem nos conduziu; o problema apresenta-<br \/>\n    se agora sob esta forma: imprimir uma velocidade inicial de doze mil jardas<br \/>\n    por segundo a um obus de cento e oito polegadas de di&acirc;metro e com um<br \/>\n    peso de vinte mil libras.<\/p>\n<p> &Eacute; este o problema. &#8211; disse o Major Elphiston.<\/p>\n<p> Vou continuar &#8211; disse Barbicane. &#8211; Quando um proj&eacute;til &eacute; lan&ccedil;ado<br \/>\n    no espa&ccedil;o, que se passa? &Eacute; solicitado por tr&ecirc;s for- &ccedil;as<br \/>\n    independentes: a resist&ecirc;ncia do meio, a atra&ccedil;&atilde;o da Terra<br \/>\n    e a for&ccedil;a do impulso de que &eacute; animado.<\/p>\n<p> &#8211; Examinemos essas tr&ecirc;s for&ccedil;as. A resist&ecirc;ncia ao meio,<br \/>\n    isto &eacute;, a resist&ecirc;ncia do ar, ser&aacute; pouco importante. Realmente,<br \/>\n    a atmosfera da Terra tem apenas quarenta milhas.<\/p>\n<p> Ora, com uma rapidez de doze mil jardas, o proj&eacute;til atravess&aacute;-la-&aacute;<br \/>\n    em cinco segundos, e o tempo &eacute; bastante curto para que a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    do meio possa ser considerada como insignificante. Passemos, portanto, para<br \/>\n    a atra&ccedil;&atilde;o da Terra, isto &eacute;, para o peso do obus. Sabemos<br \/>\n    que esse peso diminuir&aacute; em raz&atilde;o inversa do quadrado das dist&acirc;ncias;<br \/>\n    realmente, eis o que a f&iacute;sica nos ensina: quando um corpo inerte cai<br \/>\n    na superf&iacute;cie da Terra, a sua queda &eacute; de quinze p&eacute;s no<br \/>\n    primeiro segundo, e se esse mesmo corpo fosse &#8211; transportado a duzentas e<br \/>\n    cinq&uuml;enta e sete mil cento e quarenta e duas milhas, ou, em outras palavras,<br \/>\n    &agrave; dist&acirc;ncia a que a Lua se encontra, a sua queda ficaria reduzida<br \/>\n    a uma meia linha, aproximadamente no primeiro segundo.<\/p>\n<p> &Eacute; quase a imobilidade. Trata-se, portanto, de vencer progressivamente<br \/>\n    essa a&ccedil;&atilde;o da gravidade. Como conseguiremos faz&ecirc;-lo? Pela<br \/>\n    for&ccedil;a do impulso.<\/p>\n<p> &#8211; E esta a dificuldade &#8211; disse o major.<\/p>\n<p> &Eacute;, realmente &#8211; replicou o presidente -; mas n&oacute;s triunfaremos,<br \/>\n    pois essa for&ccedil;a de impulso que nos &eacute; necess&aacute;ria resultar<br \/>\n    &aacute; do comprimento do engenho e da quantidade de p&oacute;lvora utilizada,<br \/>\n    sendo esta apenas limitada Pela resist&ecirc;ncia daquele. Portanto, ocupemo-nos<br \/>\n    hoje das dimens&otilde;es a dar ao canh&atilde;o. &Eacute; claro que podemos<br \/>\n    instal&aacute;-lo em condi &ccedil;&otilde;es de seguran&ccedil;a por assim<br \/>\n    dizer infinitas, visto que n&atilde;o h&aacute; necessidade de o manobrar.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo isto &eacute; claro &#8211; concordou o general.<\/p>\n<p> At&eacute; aqui &#8211; disse Barbicane -, os canh&otilde;es mais compridos, os<br \/>\n    enormes columbiad, n&atilde;o ultrapassaram os vinte e cinco p&eacute;s de<br \/>\n    comprimento; vamos, portanto, espantar muita gente pelas dimens&otilde;es<br \/>\n    que seremos for&ccedil;ados a adotar.<\/p>\n<p> . Sem d&uacute;vida! &#8211; exclamou J. T. Maston. &#8211; Por meu lado, pe&ccedil;o<br \/>\n    um canh&atilde;o de pelo menos meia milha de comprimento! &#8211; Meia milha &#8211; exclamaram<br \/>\n    o major e o general.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, meia milha, e ser&aacute; ainda curto demais.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, Maston &#8211; respondeu Morgan. &#8211; Exagerado.<\/p>\n<p> &#8211; Nada disto &#8211; respondeu o ardente secret&aacute;rio. &#8211; E n&atilde;o sei<br \/>\n    por que me chamam exagerado.<\/p>\n<p> &#8211; Porque vai longe demais! &#8211; Fique sabendo, senhor &#8211; respondeu J. T. Maston,<br \/>\n    tomando os seus grandes ares -; fique sabendo que um artilheiro &eacute; exatamente<br \/>\n    como uma bala: nunca vai longe demais! A discuss&atilde;o estava incidindo<br \/>\n    sobre as personalidades, mas o presidente interveio.<\/p>\n<p> &#8211; Tenham calma, meus amigos, e raciocinemos; &eacute; evidente que &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio um canh&atilde;o de grande alcance, visto que o comprimento<br \/>\n    da pe&ccedil;a aumentar&aacute; a expans&atilde;o dos gases acumulados sob<br \/>\n    o proj&eacute;til, mas &eacute; in&uacute;til ultrapassar certos limites.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeitamente &#8211; disse o major.<\/p>\n<p> Quais as regras estabelecidas em casos semelhantes? Vulgarmente, &oacute;<br \/>\n    comprimento de um canh&atilde;o &eacute; de vinte a vinte e cinco vezes o<br \/>\n    di&acirc;metro da bala, e pesa duzentas e trinta e cinco a duzentas e quarenta<br \/>\n    vezes o seu peso.<\/p>\n<p> Isto n&atilde;o &eacute; suficiente &#8211; declarou com impetuosidade J.T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Concordo, meu digno amigo, e, realmente, se nos cingirmos &agrave; propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    referida, para um proj&eacute;til de nove p&eacute;s de largura pesando vinte<br \/>\n    mil libras, o engenho teria apenas um comprimento de duzentos e vinte e cinco<br \/>\n    p&eacute;s e um peso de sete milh&otilde;es e duzentas mil libras.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; rid&iacute;culo! &#8211; afirmou J. T. Maston. &#8211; Mais valia usar uma<br \/>\n    pistola! &#8211; Tamb&eacute;m penso assim &#8211; retorquiu Barbicane -; &eacute; por<br \/>\n    isso que me proponho quadruplicar esse comprimento e construir um canh&atilde;o<br \/>\n    de novecentos p&eacute;s.0 general e o major fizeram algumas obje&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mas no entanto essa proposta, vivamente apoiada pelo secret&aacute;rio do<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o, foi definitivamente adotada.<\/p>\n<p> &#8211; Agora &#8211; disse Elphiston -, que espessura vamos dar &agrave;s paredes do<br \/>\n    canh&atilde;o? Uma espessura de seis p&eacute;s &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> N&atilde;o pensa por certo em erguer semelhante massa em cima de um reparo<br \/>\n    &#8211; disse o major.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; que devia ser soberbo! &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Mas impratic&aacute;vel &#8211; disse Barbicane. &#8211; N&atilde;o, eu penso em moldar<br \/>\n    esse engenho no pr&oacute;prio solo, com arcos de ferro forjado, rodeando-o<br \/>\n    de um espesso revestimento de pedra e cal, de modo a que adquira toda a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    do terreno que o circunde. Uma vez a pe&ccedil;a fundida, a alma ser&aacute;<br \/>\n    cuidadosamente polida e calibrada, de maneira a impedir o ?vento? do proj&eacute;til;<br \/>\n    desse modo, n&atilde;o haver&aacute; qualquer desperd&iacute;cio de gases,<br \/>\n    e toda a for&ccedil;a expansiva da p&oacute;lvora ser&aacute; utilizada, totalmente,<br \/>\n    no impulso.<\/p>\n<p> &#8211; Viva! Viva! &#8211; disse J.T. Maston. &#8211; Temos o nosso canh&atilde;o! Ainda<br \/>\n    n&atilde;o &#8211; disse Barbicane, acalmando o seu impaciente amigo.<\/p>\n<p> &#8211; E por qu&ecirc;? &#8211; Porque n&atilde;o discutimos a sua forma. Ser&aacute;<br \/>\n    um canh&atilde;o, um obus ou um morteiro? &#8211; Um canh&atilde;o! &#8211; replicou Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Um obus! &#8211; opinou o major.<\/p>\n<p> &#8211; Um morteiro! &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> Ia iniciar-se nova discuss&atilde;o, bastante viva, pois cada um defendia<br \/>\n    a sua arma favorita, quando o presidente os inter rompeu.<\/p>\n<p> &#8211; Meus amigos &#8211; disse -, vamos ficar todos de acordo; o nosso columbiad<br \/>\n    ter&aacute; qualquer coisa de todas essas bocas de fogo. Ser&aacute; um canh&atilde;o,<br \/>\n    visto que a c&acirc;mara da p&oacute;lvora ter&aacute; o. mesmo di&acirc;metro<br \/>\n    que a alma. J&aacute; que lan&ccedil;ar&aacute; obuses.<\/p>\n<p> E. finalmente, ser&aacute; um morteiro, porque ser&aacute; apontado por<br \/>\n    um &acirc;ngulo de noventa graus, e porque, sem recuo poss&iacute;- vel, inflexivelmente<br \/>\n    ligado ao solo, comunicar&aacute; ao proj&eacute;til toda a for&ccedil;a de<br \/>\n    impulso acumulada dentro de si.<\/p>\n<p> &#8211; Aprovado! Aprovado! &#8211; responderam todos os membros da comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Permitam-me uma simples reflex&atilde;o &#8211; disse Elphiston -: esse canh&atilde;o-obus-<br \/>\n    morteiro ser&aacute; realmente estriado ? &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu Barbicane<br \/>\n    -, n&atilde;o; precisamos de uma velocidade inicial enorme, e bem sabem que<br \/>\n    os proj&eacute;teis saem menos velozes dos canh&otilde;es estriados que dos<br \/>\n    canh &otilde;es com alma lisa.<\/p>\n<p> &Eacute; isso mesmo.<\/p>\n<p> Finalmente, temos o nosso canh&atilde;o! &#8211; exclamou L ir. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda n&atilde;o &eacute; tanto assim &#8211; retorquiu o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; E porqu&ecirc;? &#8211; Porque ainda n&atilde;o sabemos de que metal ser&aacute;<br \/>\n    feito.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos decidir isso sem demora.<\/p>\n<p> &#8211; Ia propor-lhes isso.<\/p>\n<p> Os quatro membros da comiss&atilde;o engoliram cada um deles uma d&uacute;zia<br \/>\n    de sandu&iacute;ches, seguida de uma x&iacute;cara de ch&aacute;, e a discuss&atilde;o<br \/>\n    recome&ccedil;ou.<\/p>\n<p> &#8211; Meus estimados colegas &#8211; disse Barbicane -, o nosso canh &atilde;o deve<br \/>\n    ter uma grande tenacidade, uma grande dureza a ser refrat&aacute;rio ao calor,<br \/>\n    insol&uacute;vel e inoxid&aacute;vel pela a&ccedil;&atilde;o corrosiva dos<br \/>\n    &aacute;cidos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida a esse respeito &#8211; respondeu o major.<br \/>\n    &#8211; E, como ser&aacute; preciso utilizar uma quantidade consider&aacute;vel<br \/>\n    de metal, n&atilde;o havemos de hesitar muito na escolha.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem &#8211; disse Morgan -: proponho para o fabrico do columbiad a melhor<br \/>\n    liga conhecida at&eacute; hoje, isto &eacute;, cem partes de cobre, doze de<br \/>\n    estanho e seis de lat&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Meus amigos. &#8211; respondeu o presidente -; confesso que essa composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deu excelentes resultados; mas, neste caso, custaria cara demais e seu emprego<br \/>\n    seria muito dif&iacute;- cil. Penso, portanto, que ser&aacute; preciso adotar<br \/>\n    um material adequado, mas que custe pouco, como o ferro fundido.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; esta a sua opini&atilde;o, major? Exatamente &#8211; respondeu<br \/>\n    Elphiston.<\/p>\n<p> Realmente &#8211; retorquiu Barbicane -, o ferro fundido custa dez vezes menos<br \/>\n    do que o bronze; &eacute; f&aacute;cil ? de manipular e molda-se bem em moldes<br \/>\n    de areia. &Eacute; de manipula&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida, representando<br \/>\n    assim economia de dinheiro e de tempo.<\/p>\n<p> De resto, &eacute; um material excelente, e eu lembro-me de que, durante<br \/>\n    a guerra, no cerco de Atlanta, algumas pe&ccedil;as de ferro fundido dispararam<br \/>\n    mil tiros cada uma, de vinte em vinte minutos, sem sofrerem qualquer altera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto, o ferro fundido &eacute; muito quebradi&ccedil;o &#8211; observou<br \/>\n    Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, mas tamb&eacute;m &eacute; muito resistente; de resto, o canh&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o explodir&aacute;. Por isto respondo eu.<\/p>\n<p> &#8211; Pode haver o azar de uma- explos&atilde;o, embora tudo tenha sido feito<br \/>\n    com a maior honestidade &#8211; replicou sentenciosamente J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Evidentemente &#8211; respondeu Barbicane. &#8211; Vou, portanto, pedir ao nosso digno<br \/>\n    secret&aacute;rio para calcular o peso de um canh&atilde;o de ferro fundido<br \/>\n    com o comprimento de novecentos p&eacute;s, com um di&acirc;metro de interior<br \/>\n    de nove p&eacute;s e com paredes de seis p&eacute;s de espessura.<\/p>\n<p> &#8211; Imediatamente &#8211; respondeu J. T. Maston.<\/p>\n<p> E como tinha feito na v&eacute;spera, alinhou as suas f&oacute;rmulas com<br \/>\n    uma maravilhosa facilidade, dizendo ao fim de um minuto: Esse canh&atilde;o<br \/>\n    pesar&aacute; sessenta e oito mil e quarenta toneladas.<\/p>\n<p> &#8211; E a dois cents a libra (dez c&ecirc;ntimos), custar&aacute; exatamente?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Dois milh&otilde;es quinhentos e dez mil e setecentos d&oacute;lares.<\/p>\n<p> J. T. Maston, o major e o general olharam Barbicane com um ar inquieto.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, senhores &#8211; disse o presidente -; repetir-lhes-ei o que ontem<br \/>\n    lhes disse: estejam tranq&uuml;ilos, que os milh &otilde;es n&atilde;o nos<br \/>\n    faltar&atilde;o! Com esta garantia do presidente, a comiss&atilde;o separou-se,<br \/>\n    depois de ter marcado nova sess&atilde;o para o dia seguinte.<\/p>\n<p> Restava ainda a quest&atilde;o da p&oacute;lvora para tratar. 0 p&uacute;blico<br \/>\n    esperava com ansiedade essa &uacute;ltima sess&atilde;o. Dado o volume do<br \/>\n    proj&eacute;til e o comprimento do canh&atilde;o, qual seria a quantidade<br \/>\n    de p&oacute;lvora necess&aacute;ria para produzir o impulso? Esse agente terr&iacute;vel,<br \/>\n    cujos efeitos o homem no entanto, dominou, ia ser chamado a desempenhar o<br \/>\n    seu papel em propor&ccedil;&otilde;es nunca usadas.<\/p>\n<p> Quando no dia seguinte deram in&iacute;cio &agrave; sess&atilde;o da comiss<br \/>\n    &atilde;o, Barbicane deu a palavra ao Major Elphiston, que fora diretor das<br \/>\n    f&aacute;bricas de p&oacute;lvora durante a guerra.<\/p>\n<p> &#8211; Meus caros camaradas &#8211; disse aquele distinto qu&iacute;mico -, vou come&ccedil;ar<br \/>\n    por citar n&uacute;meros irrecus&aacute;veis, que nos servir &atilde;o de<br \/>\n    base aos nossos c&aacute;lculos. A bala de vinte e quatro, de que nos falava<br \/>\n    anteontem o estimado J. T. Maston em termos t&atilde;o po&eacute;ticos, sai<br \/>\n    da boca de fogo impelida apenas por dezesseis libras de p&oacute;lvora.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; certo desse n&uacute;mero? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Absolutamente certo &#8211; respondeu o major. &#8211; 0 canh&atilde;o de Armstrong<br \/>\n    utiliza apenas setenta e cinco libras de p&oacute;lvora para um proj&eacute;til<br \/>\n    de oitocentas libras de peso, e o columbiad de Rodman s&oacute; gasta cento<br \/>\n    e sessenta libras de p&oacute;lvora para enviar a sua bala de meia tonelada<br \/>\n    a seis milhas de dist&acirc;ncia. Estes fatos n&atilde;o podem ser postos<br \/>\n    em d&uacute;vida, pois eu pr&oacute;prio os fui tirar das atas da comiss&atilde;o<br \/>\n    de artilharia.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeitamente &#8211; respondeu o general.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; replicou o major. &#8211; A ila&ccedil;&atilde;o a tirar destes<br \/>\n    n&uacute;meros &eacute; que a quantidade de p&oacute;lvora n&atilde;o aumenta<br \/>\n    na propor&ccedil;&atilde;o do peso da bala: realmente, s&atilde;o precisas<br \/>\n    dezesseis libras de p&oacute;lvora para uma bala de vinte e quatro; em outros<br \/>\n    termos, se, nos canh&otilde;es vulgares, se utiliza uma quantidade de p&oacute;lvora<br \/>\n    equivalente a dois ter&ccedil;os do peso do proj&eacute;til, a proporcionalidade<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; constante. Fa- &ccedil;am os c&aacute;lculos e ver&atilde;o<br \/>\n    que, para uma bala de meia tonelada, em vez de trezentas e trinta e tr&ecirc;s<br \/>\n    libras de p&oacute;lvora, essa quantidade foi reduzida para cento e sessenta<br \/>\n    libras apenas.<\/p>\n<p> &#8211; Aonde quer chegar? &#8211; perguntou o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Se quer levar a sua teoria ao extremo, meu caro major &#8211; disse J. T. Maston<br \/>\n    -, chegar&aacute; &agrave; conclus&atilde;o de que, quando a sua bala for<br \/>\n    suficientemente pesada, n&atilde;o precisar&aacute; de p&oacute;lvora alguma!<br \/>\n    &#8211; 0 meu amigo Maston &eacute; um brincalh&atilde;o at&eacute; com as coisas<br \/>\n    s&eacute;rias &#8211; replicou o major -, mas que se tranq&uuml;ilize; proporei<br \/>\n    at&eacute; quantidades de p&oacute;lvora que lisonjear&atilde;o o seu amorpr<br \/>\n    &oacute;prio de artilheiro. No entanto, quero observar que, durante a guerra,<br \/>\n    e para os canh&otilde;es maiores, o peso da p&oacute;lvora foi reduzido, ap&oacute;s<br \/>\n    v&aacute;rias experi&ecirc;ncias, a um d&eacute;cimo da bala.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais exato &#8211; disse Morgan. &#8211; Mas antes de decidir a quantidade de<br \/>\n    p&oacute;lvora necess&aacute;ria para dar o impulso, penso que &eacute; bom<br \/>\n    ter conhecimentos sobre a sua natureza.<\/p>\n<p> &#8211; Utilizaremos a p&oacute;lvora de gr&atilde;os grossos &#8211; respondeu o major<br \/>\n    -, porque a sua combust&atilde;o &eacute; mais r&aacute;pida do que a do p&oacute;lvora.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; replicou Morgan -; mas &eacute; altamente ?explosiva<br \/>\n    e ao fim de algum tempo acaba por alterar a alma das pe&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Bom! Aquilo que seria um inconveniente para um canh&atilde;o destinado<br \/>\n    a prestar longos servi&ccedil;os, n&atilde;o o &eacute; para o nosso columbiad.<br \/>\n    N&atilde;o corremos qualquer perigo de explos&atilde;o. 0 que &eacute; preciso<br \/>\n    &eacute; que a p&oacute;lvora se inflame instantaneamente, para que o seu<br \/>\n    efeito mec&acirc;nico seja completo.<\/p>\n<p> &#8211; Poder-se-ia &#8211; observou J. T. Maston &#8211; abrir v&aacute;rios buracos de maneira<br \/>\n    a chegar-lhe o fogo em diversos pontos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Elphiston -, mas isso tornaria a manobra<br \/>\n    mais dif&iacute;cil. Prefiro, portanto, a minha bombardeira, que evita essas<br \/>\n    dificuldades.<\/p>\n<p> &#8211; Que seja assim &#8211; respondeu o general.<\/p>\n<p> &#8211; Para carregar o columbiad &#8211; continuou o major Rodman utilizava uma p&oacute;lvora<br \/>\n    de gr&atilde;os grandes como castanhas, feita com carv&atilde;o de salgueiro,<br \/>\n    mal torrado em caldeiras de ferro fundido. Essa p&oacute;lvora era dura e<br \/>\n    brilhante, n&atilde;o deixava quaisquer sinais na m&atilde;o, continha em<br \/>\n    grande propor&ccedil;&atilde;o oxig&ecirc;nio e hidrog&ecirc;nio, ardia instantaneamente<br \/>\n    e, apesar de ser altamente explosiva, n&atilde;o deteriorava sensivelmente<br \/>\n    as bocas de fogo.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; disse J. T. Maston. &#8211; Acho que n&atilde;o devemos hesitar<br \/>\n    mais, pois a nossa escolha est&aacute; feita.<\/p>\n<p> &#8211; A n&atilde;o ser que prefira ouro pulverizado &#8211; replicou o maior, rindo,<br \/>\n    o que lhe valeu um gesto amea&ccedil;ador do seu suscet&iacute;- vel amigo.<\/p>\n<p> At&eacute; ent&atilde;o, Barbicane tinha-se mantido fora da discuss&atilde;o.<\/p>\n<p> Deixava os seus colegas falarem e escutava-os. Era evidente que tinha a<br \/>\n    sua id&eacute;ia. Contentou-se simplesmente em dizer: &#8211; Ent&atilde;o, meus<br \/>\n    caros amigos: que por&ccedil;&atilde;o de p&oacute;lvora prop &otilde;em?<br \/>\n    Os tr&ecirc;s membros do Clube do Canh&atilde;o entreolharam-se por instantes.<\/p>\n<p> &#8211; Duzentas mil libras &#8211; disse por fim Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Quinhentas mil &#8211; replicou o major.<\/p>\n<p> &#8211; Oitocentas mil! &#8211; exclamou J. T . Maston.<\/p>\n<p> Dessa vez, Elphiston n&atilde;o ousou acusar o seu colega de ser exagerado.<br \/>\n    Realmente, tratava-se de enviar at&eacute; a Lua um proj&eacute;til com o<br \/>\n    peso de vinte mil libras, dando-lhe uma velocidade inicial de doze mil jardas<br \/>\n    por segundo. Um momento de sil&ecirc;ncio seguiu-se &agrave; tripla proposta<br \/>\n    feita pelos membros do clube.<\/p>\n<p> . Esse sil&ecirc;ncio foi finalmente quebrado pelo presidente Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Meus estimados camaradas &#8211; disse com voz calma.<\/p>\n<p> Parto do princ&iacute;pio de que a resist&ecirc;ncia do nosso canh&atilde;o,<br \/>\n    constru&iacute;do nas condi&ccedil;&otilde;es requeridas, &eacute; ilimitada.<br \/>\n    Vou, portanto, surpreender o estim&aacute;vel L T. Maston dizendo-lhe que<br \/>\n    foi t&iacute;mido nos seus c&aacute;lculos, e proponho que duplique as suas<br \/>\n    oitocentas mil libras de p&oacute;lvora.<\/p>\n<p> &#8211; Um milh&atilde;o e seiscentas mil libras de p&oacute;lvora exclamou J.<\/p>\n<p> T. Maston saltando na cadeira.<\/p>\n<p> &#8211; Isto mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas nessa altura ser&aacute; preciso pensar no meu canh&atilde;o de meia<br \/>\n    milha de comprimento.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; evidente &#8211; disse o major.<\/p>\n<p> Um milh&atilde;o e seiscentas mil libras de p&oacute;lvora &#8211; continuou o<br \/>\n    secret&aacute;rio da comiss&atilde;o &#8211; ocupar&atilde;o um espa&ccedil;o de<br \/>\n    cerca de vinte e dois mil p&eacute;s c&uacute;bicos; ora, como 0 vosso canh&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; tem capacidade para cinq&uuml;enta e quatro mil p&eacute;s c&uacute;bicos,<br \/>\n    ficar&aacute; semi cheio, e a sua parte interior n&atilde;o ser&aacute; suficientemente<br \/>\n    longa para que a expans&atilde;o dos gases imprima ao proj&eacute;til um impulso<br \/>\n    suficiente.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia nada a dizer: J. T. Maston dizia a verdade. Ficaram &agrave;<br \/>\n    espera da resposta de Barbicane &#8211; No entanto &#8211; replicou o presidente -, continuo<br \/>\n    a achar necess&aacute;ria essa quantidade de p&oacute;lvora. Pensem bem: um<br \/>\n    milh&atilde;o e seiscentas mil libras de p&oacute;lvora provocar&atilde;o<br \/>\n    o aparecimento de seis milhares de milh&otilde;es de litros de g&aacute;s.<br \/>\n    Seis milhares de milh&otilde;es! Percebem bem? &#8211; Mas ent&atilde;o como devemos<br \/>\n    proceder? &#8211; inquiriu o general.<\/p>\n<p> &Eacute; muito simples; &eacute; preciso reduzir essa enorme quantidade<br \/>\n    de p&oacute;lvora, conservando-lhe essa pot&ecirc;ncia mec&acirc;nica.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, mas por que meio? &#8211; Vou dizer-lhe &#8211; respondeu simplesmente Barbicane.<\/p>\n<p> Os seus interlocutores devoravam-no com os olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais f&aacute;cil, realmente &#8211; respondeu por fim Barbicane -, do<br \/>\n    que reduzir essa quantidade de p&oacute;lvora a um volume quatro vezes menor.<br \/>\n    Todos conhecem essa curiosa mat&eacute;- ria que constitui os tecidos elementares<br \/>\n    dos vegetais, e que se chama celulose.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &#8211; exclamou o maior -, compreendo-o, meu caro Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Essa mat&eacute;ria &#8211; disse o presidente &#8211; obt&eacute;m-se no estado de<br \/>\n    pureza Perfeita em diversos corpos, e sobretudo do algod&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; mais do que a penugem das sementes do algodoeiro. Ora, o algod&atilde;o,<br \/>\n    combinado com o &aacute;cido az&oacute;tico a frio, transforma-se numa subst&acirc;ncia<br \/>\n    eminentemente insol&uacute;vel, eminentemente combust&iacute;vel, eminentemente<br \/>\n    explosiva. H&aacute; alguns anos, em 1832, um qu&iacute;mico franc&ecirc;s,<br \/>\n    Braconnot, descobriu essa subst&acirc;ncia, &agrave; qual chamou xiloidina.<br \/>\n    Em 1838, outro franc&ecirc;s, Pelouze, estudou as diversas propriedades dessa<br \/>\n    subst&acirc;ncia, e, por fim, em 1846, Schonbein, professor de qu&iacute;mica<br \/>\n    em Basil&eacute;ia, a prop &ocirc;s como p&oacute;lvora para a guerra. Essa<br \/>\n    p&oacute;lvora &eacute; o algod&atilde;o az&oacute;tico&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ou pir&oacute;xilo &#8211; respondeu Elphiston.<\/p>\n<p> &#8211; Ou o algod&atilde;o-p&oacute;lvora &#8211; replicou Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; ent&atilde;o nenhum nome americano a p&ocirc;r por<br \/>\n    baixo dessa descoberta? &#8211; exclamou J. T. Maston, impelido por um vivo sentimento<br \/>\n    de amor-pr&oacute;prio nacional.<\/p>\n<p> _ Infelizmente, n&atilde;o h&aacute; nenhum &#8211; respondeu o major.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto, para satisfazer Maston &#8211; continuou o presidente -, dir-lhe-ei<br \/>\n    que os trabalhos de um dos nossos concidad&atilde;os podem ser ligados ao<br \/>\n    estudo da celulose, pois o col&oacute;dio, que &eacute; um dos principais<br \/>\n    agentes da fotografia, &eacute; simplesmente pir&oacute;xilo dissolvido em<br \/>\n    &eacute;ter misturado com &aacute;lcool, e foi descoberto por Maynard, que<br \/>\n    nessa altura era estudante de Medicina em Boston.<\/p>\n<p> &#8211; Um viva por Maynard e pelo algod&atilde;o-p&oacute;lvora! &#8211; exclamou ent&atilde;o<br \/>\n    o barulhento secret&aacute;rio do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, voltando ao pir&oacute;xilo &#8211; disse Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Conhecem as suas propriedades, que o tornam t&atilde;o precioso para n&oacute;s;<br \/>\n    prepara-se com a maior das facilidades; mergulha-se o algod&atilde;o em &aacute;cido<br \/>\n    az&oacute;fico fumegante, durante quinze minutos, depois lava-se em muita<br \/>\n    &aacute;gua, secase e est&aacute; pronto.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais simples, realmente &#8211; anuiu Morgan.<\/p>\n<p> &#8211; Al&eacute;m disso, o pir&oacute;xilo &eacute; inalter&aacute;vel pela<br \/>\n    umidade, qualidade preciosa a nosso ver, pois ser&atilde;o necess&aacute;rios<br \/>\n    v&aacute;rios dias para carregar o canh&atilde;o; &eacute; inflam&aacute;vel<br \/>\n    a cento e setenta graus cent&iacute;grados, em vez de duzentos e quarenta,<br \/>\n    e a sua deflagra&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o r&aacute;pida que pode<br \/>\n    ser inflamado com p&oacute;lvora vulgar sem que esta tenha tempo de se incendiar.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeito! &#8211; exclamou o major.<\/p>\n<p> &#8211; No, entanto, &eacute; mais caro! &#8211; Que importa? &#8211; opinou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Finalmente, comunica aos proj&eacute;teis uma velocidade quatro vezes<br \/>\n    superior &agrave; da p&oacute;lvora. Acrescentarei mesmo que se lhe misturarmos<br \/>\n    oito d&eacute;cimos do seu peso de nitrato de pot&aacute;ssio, a sua pot&ecirc;ncia<br \/>\n    ser&aacute; ainda aumentada numa grande propor&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Isso ser&aacute; necess&aacute;rio? &#8211; perguntou o major.<\/p>\n<p> Creio que n&atilde;o &#8211; respondeu Barbicane. &#8211; Assim, em vez de um milh&atilde;o<br \/>\n    e seiscentas mil libras de p&oacute;lvora, precisaremos apenas de quatrocentas<br \/>\n    mil libras de algod&atilde;o-p&oacute;lvora, e, como se pode sem perigo comprimir<br \/>\n    quinhentas libras de algod&atilde;o em vinte e sete p&eacute;s c&uacute;bicos,<br \/>\n    essa mat&eacute;ria n&atilde;o ocupar&aacute; sen&atilde;o uma altura de vinte<br \/>\n    toesas no nosso columbiad.<\/p>\n<p> &#8211; Desse modo, a bala ter&aacute; de percorrer mais de setecentos p&eacute;s<br \/>\n    do cano de canh&atilde;o, sob o esfor&ccedil;o de seis milh&otilde;es de litros<br \/>\n    de g&aacute;s, antes de levantar v&ocirc;o para o astro da noite.<\/p>\n<p> Nessa altura, J. T. Maston n&atilde;o p&ocirc;de conter a sua emo&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    lan&ccedil;ou-se nos bra&ccedil;os do seu amigo com a viol&ecirc;ncia de um<br \/>\n    proj&eacute;til e t&ecirc;-lo-ia atirado abaixo se Barbicane n&atilde;o fosse<br \/>\n    constru&iacute;do &agrave; prova de bomba.<\/p>\n<p> Esse incidente encerrou a terceira sess&atilde;o da comiss&atilde;o.<\/p>\n<p> Barbicane e os seus audaciosos colegas, aos quais nada parecia imposs&iacute;vel,<br \/>\n    acabavam de resolver a quest&atilde;o t&atilde;o complexa do proj&eacute;til,<br \/>\n    do canh&atilde;o e da p&oacute;lvora. 0 plano deles estava preparado. Restava<br \/>\n    apenas execut&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Um simples pormenor, uma bagatela &#8211; dizia J. T. Maston.<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">Cap&iacute;tulo V &#8211; O Capit&atilde;o Nicoles<\/a><\/h4>\n<p>0 p&uacute;blico americano analisava com enorme interesse at&eacute; os mais<br \/>\n    insignificantes pormenores do empreendimento do Clube do Canh&atilde;o e seguia<br \/>\n    dia a dia as discuss&otilde;es da Comiss &atilde;o. Os mais simples preparativos<br \/>\n    desse grande empreendimento, as quest&otilde;es de n&uacute;meros que levantava,<br \/>\n    as dificuldades mec&acirc;nicas a resolver, em uma palavra, o ?seu acionamento?<br \/>\n    apaixonava a opini&atilde;o. p&uacute;blica ao mais alto grau.<\/p>\n<p> Mais de um ano iria decorrer entre o in&iacute;cio dos trabalhos e o seu<br \/>\n    final; mas esse lapso de tempo n&atilde;o devia ser vazio de emo&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    o lugar a escolher para a constru&ccedil;&atilde;o do canh &atilde;o e do<br \/>\n    proj&eacute;til, o fabrico dos moldes, a fundi&ccedil;&atilde;o do columbiad,<br \/>\n    o seu perigoso carregamento &#8211; tudo isso era mais do que o necess&aacute;rio<br \/>\n    para excitar a curiosidade p&uacute;blica.<\/p>\n<p> Uma vez lan&ccedil;ado, o proj&eacute;til escaparia aos olhares em poucos<br \/>\n    d&eacute;cimos de segundo; o que lhe sucederia depois, o modo como ele se<br \/>\n    comportaria no espa&ccedil;o, e por que forma atingiria a Lua, s&oacute; um<br \/>\n    pequeno n&uacute;mero de privilegiados poderia ver com os seus pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos. Assim, os preparativos da experi&ecirc;ncia e os pormenores da execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que constituiriam o verdadeiro interesse para o p&uacute;blico em<br \/>\n    geral.<\/p>\n<p> No entanto, o atrativo puramente cient&iacute;fico do empreendimento foi<br \/>\n    de s&uacute;bito superexcitado por um incidente.<\/p>\n<p> Sabe-se as numerosas legi&otilde;es de admiradores e de amigos que o projeto<br \/>\n    de Barbicane dera ao seu autor. No entanto, por mais honrosa, por mais extraordin&aacute;ria<br \/>\n    que fos48 se, essa maioria n&atilde;o era a unanimidade. Um s&oacute; homem,<br \/>\n    um s&oacute; em todos os Estados Unidos, protestou contra a tentativa do Clube<br \/>\n    do Canh&atilde;o; com viol&ecirc;ncia, e Barbicane, tal &eacute; a natureza<br \/>\n    humana, foi mais sens&iacute;vel a essa &uacute;nica voz discordante do que<br \/>\n    aos aplausos de todos os outros.<\/p>\n<p> No entanto, conhecia bem o motivo dessa antipatia, onde partia essa inimizade<br \/>\n    solit&aacute;ria, porque era pessoal e de data, antiga, e por fim em que rivalidades<br \/>\n    de amor pr&oacute;prio criaria ra&iacute;zes.<\/p>\n<p> Aquele inimigo perseverante, nunca o presidente do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    o tinha visto. Felizmente, pois o encontro desses dois homens teria certamente<br \/>\n    tido m&aacute;s conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Esse rival era um s&aacute;bio como Barbicane, uma natureza orgulhosa, audaciosa,<br \/>\n    convencida, violenta, um puro ianque.<\/p>\n<p> Chamavam-lhe o Capit&atilde;o Nicoles. Morava em Filad&eacute;lfia.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m ignora a curiosa luta que se estabeleceu, durante a Guerra<br \/>\n    de Secess&atilde;o, entre o proj&eacute;til e a coura&ccedil;a dos navios<br \/>\n    blindados; aquele destinava-se a perfurar esta; esta estava decidida a n&atilde;o<br \/>\n    se deixar perfurar. Da&iacute; adveio uma transforma&ccedil;&atilde;o radical<br \/>\n    nos diversos Estados e nos dois continentes.<\/p>\n<p> A bala e a coura&ccedil;a lutaram com um encarni&ccedil;amento sem precedentes,<br \/>\n    uma aumentando o seu volume, a outra adquirindo constantemente mais espessura.<\/p>\n<p> Os navios, armados de pe&ccedil;as de artilharia formid&aacute;veis, navegavam<br \/>\n    debaixo de fogo ao abrigo da sua invulner&aacute;vel carapa&ccedil;a. Os Merrimac,<br \/>\n    os Monitor, os Ram T&ecirc;nesse, os Weckausen lan&ccedil;avam proj&eacute;teis<br \/>\n    enormes, depois de se terem coura&ccedil;ado contra os proj&eacute;teis dos<br \/>\n    outros. Faziam aos outros aquilo que n&atilde;o queriam que lhes fizessem,<br \/>\n    principio imoral sobre o qual se baseia toda a arte da guerra.<\/p>\n<p> Ora, se Barbicane tinha sido um grande fundidor de proj&eacute;teis, Nicoles<br \/>\n    fora um grande forjador de chapas para coura&ccedil;as.<\/p>\n<p> Um fundia noite e dia em Baltimore e o outro forjava dia e noite em Filad&eacute;lfia.<br \/>\n    Cada um seguia uma corrente de id&eacute;ias radicalmente opostas.<\/p>\n<p> Logo que Barbicane inventava uma nova bala, Nicoles in ventava nova coura&ccedil;a.<br \/>\n    0 presidente do Clube do Canh&atilde;o passava a vida, abrindo buracos, o<br \/>\n    capit&atilde;o impedindo que eles se abrissem. Da&iacute; nasceu uma rivalidade<br \/>\n    que chegava a atingir as pessoas. Nicoles aparecia nos sonhos de Barbicane<br \/>\n    sob a forma de uma coura&ccedil;a impenetr&aacute;vel contra a qual ele se<br \/>\n    ia quebrar, e Barbicane aparecia nos sonhos de Nicoles como um proj&eacute;til<br \/>\n    que o trespassava de lado a lado.<\/p>\n<p> No entanto, se bem que seguissem duas linhas divergentes, esses s&aacute;bios<br \/>\n    acabariam? por se encontrar, apesar de todos os axiomas da geometria; mas<br \/>\n    seria naturalmente no terreno do duelo. Felizmente para esses cidad&atilde;os<br \/>\n    t&atilde;o &uacute;teis ao seu pa&iacute;s, uma distancia de cinq&uuml;enta<br \/>\n    a sessenta milhas separava-os um do outro, e os amigos de ambos encheram esse<br \/>\n    caminho de tais obst&aacute;culos que nunca se encontraram.<\/p>\n<p> Nesse momento, qual dos dois tinham levado a melhor &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    se sabia; os resultados obtidos tornavam dif&iacute;cil uma aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    justa. No fim das contas, no entanto, o mais plaus&iacute;vel era que a coura&ccedil;a<br \/>\n    deveria ceder &agrave; bala.<\/p>\n<p> No entanto, os homens competentes tinham d&uacute;vidas. Nas &uacute;ltimas<br \/>\n    experi&ecirc;ncias, os proj&eacute;teis cifindro-c&ocirc;n&iacute;cos de Barbicane<br \/>\n    foram quebrar-se como alfinetes nas placas de Nicoles; nesse dia, o fundador<br \/>\n    de Filad&eacute;lfia julgou-se vitorioso e passou a desprezar o seu rival;<br \/>\n    mas, quando mais tarde este substituiu as balas c&ocirc;nicas por simples<br \/>\n    obuses de seiscentas libras, o capit&atilde;o teve de modificar a sua atitude.<\/p>\n<p> Realmente, esses proj&eacute;teis, se bem que por uma velocidade med&iacute;ocre,<br \/>\n    partiram, perfuraram, fizeram voar em peda&ccedil;os as chapas do melhor metal.<\/p>\n<p> Ora, estavam as coisas nesse ponto, a vit&oacute;ria parecia dever ficar<br \/>\n    com a bala, quando a guerra acabou no pr&oacute;prio dia em que Nicoles terminava<br \/>\n    uma nova coura&ccedil;a de a&ccedil;o forjado! Era uma obra-prima no seu g&ecirc;nero;<br \/>\n    desafiava todos os proj&eacute;teis do mundo. 0 capit&atilde;o f&ecirc;-la<br \/>\n    transportar para o pol&iacute;gono de Washington, desafiando o presidente<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o a quebr&aacute;-la. Barbicane, como a paz tinha<br \/>\n    sido assinada, n&atilde;o quis tentar a experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Nicoles, furioso, ofereceu-se para expor a sua chapa ao choque<br \/>\n    das balas mais inveross&iacute;meis, maci&ccedil;as, ocas, esf&eacute;ricas<br \/>\n    ou c&ocirc;nicas. Recusa do presidente, que decididamente n&atilde;o queria<br \/>\n    comprometer o seu &uacute;ltimo &ecirc;xito.<\/p>\n<p> Nicoles, ainda mais estimulado por aquela obstina&ccedil;&atilde;o inqualific&aacute;vel,<br \/>\n    quis tentar Barbicane, dando-lhe de partida todas as oportunidades. Prop&ocirc;s,<br \/>\n    inclusive, p&ocirc;r a sua chapa a duzentas jardas do canh&atilde;o. Barbicane<br \/>\n    obstinou-se na sua recusa. A cem jardas? Nem sequer a setenta e cinco.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, a cinq&uuml;enta &#8211; clamou o capit&atilde;o pela voz dos<br \/>\n    jornais.<\/p>\n<p> &#8211; Colocarei a minha chapa a vinte e cinco jardas e ficarei por detr&aacute;s<br \/>\n    dela! Barbicane mandou responder que, mesmo que o Capit&atilde;o Nicoles se<br \/>\n    pusesse na frente da chapa; ele n&atilde;o dispararia.<\/p>\n<p> Nicoles, ao saber dessa r&eacute;plica, n&atilde;o se conteve; insinuou<br \/>\n    que a covardia era coisa indivis&iacute;vel, que um homem que se recusa a<br \/>\n    disparar um tiro de canh&atilde;o estava, por certo, muito perto de ter medo;<br \/>\n    que, em suma, esses artilheiros que se batem a seis milhas de dist&acirc;ncia<br \/>\n    substitu&iacute;am prudentemente a coragem individual pelas f&oacute;rmulas<br \/>\n    matem&aacute;ticas, e que, finalmente, h&aacute; tanta coragem em esperar<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente uma bala atr&aacute;s de uma coura&ccedil;a, como em arremess&aacute;-la<br \/>\n    segundo todas as regras da arte.<\/p>\n<p> A essas insinua&ccedil;&otilde;es, Barbicane nada respondeu; talvez nem<br \/>\n    sequer as conhecesse, pois nessa altura os c&aacute;lculos para o seu grande<br \/>\n    empreendimento absorviam-no inteiramente.<\/p>\n<p> Quando Barbicane fez a sua famosa comunica&ccedil;&atilde;o ao Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o, a c&oacute;lera do Capit&atilde;o Nicoles subiu ao paroxismo.<\/p>\n<p> Misturava-se nele uma inveja terr&iacute;vel e um supremo sentimento de<br \/>\n    impot&ecirc;ncia! Como iria inventar qualquer coisa melhor que esse columbiad<br \/>\n    de novecentos p&eacute;s! Que coura &ccedil;a poderia resistira um proj&eacute;til<br \/>\n    de vinte mil libras! Nicoles ficou primeiro aterrado, aniquilado, partido<br \/>\n    por aquele ?tiro de canh&atilde;o?, depois ergueu-se e resolveu esmagar a<br \/>\n    proposta com o peso dos seus argumentos.<\/p>\n<p> Atacou, portanto, muito violentamente os trabalhos do Clube do Canh&atilde;o;<br \/>\n    escreveu numerosas cartas, que os jornais n&atilde;o se recusaram a publicar.<br \/>\n    Tentou demolir cientificamente a obra de Barbicane. Uma vez abertas as hostilidades,<br \/>\n    chamou em sua ajuda argumentos de toda a ordem e, para falar a verdade, muitas<br \/>\n    vezes tendenciosos e de baixo quilate.<\/p>\n<p> Primeiro, Barbicane foi violentamente atacado nos algarismos indicados por<br \/>\n    ele. Nicoles procurou provar por A + B a falsidade das f&oacute;rmulas e acusou-o<br \/>\n    de ignorar os princ&iacute;pios fundamentais da bal&iacute;stica. Entre outros<br \/>\n    erros e segundo os seus c&aacute;lculos, dizia Nicoles, era absolutamente<br \/>\n    imposs&iacute;vel imprimir a qualquer corpo uma velocidade de doze mil jardas<br \/>\n    por segundo; sustentou, de &aacute;lgebra na m&atilde;o, que, mesmo com essa<br \/>\n    velocidade, um proj&eacute;til t&atilde;o pesado transporia os limites da<br \/>\n    atmosfera terrestre! N&atilde;o atingiria sequer as oito mil l&eacute;guas.<br \/>\n    Mais ainda. Dado, mas n&atilde;o concedido, que se pudesse conseguir tal velocidade,<br \/>\n    o obus &#8211; n&atilde;o resistiria &agrave; press&atilde;o dos gases desenvolvidos<br \/>\n    pela inflama&ccedil;&atilde;o de um milh&atilde;o e seiscentas mi! libras<br \/>\n    de p&oacute;lvora, e mesmo que resistisse a essa press&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    suportaria pelo menos uma tal temperatura. Certamente se fundiria &agrave;<br \/>\n    sa&iacute;da do columbiad e voltaria a cair como chuva de fogo sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dos imprudentes espectadores.<\/p>\n<p> Barbicane nem sequer pestanejava ao saber desses ataques e prosseguia a<br \/>\n    sua obra.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, Nicoles tratou a quest&atilde;o focalizando outros aspectos;<br \/>\n    sem falar da sua inutilidade sob todos os pontos de vista, considerava a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    como muito perigosa, quer para os cidad&atilde;os que viessem a autorizar<br \/>\n    com a sua presen &ccedil;a um espet&aacute;culo t&atilde;o conden&aacute;vel,<br \/>\n    quer para as cidades e vilas vizinhas desse deplor&aacute;vel canh&atilde;o;<br \/>\n    fez igualmente observar que se o proj&eacute;til n&atilde;o atingisse o seu<br \/>\n    objetivo &#8211; resultado absolutamente inalcan&ccedil;&aacute;vel &#8211; cairia fatalmente<br \/>\n    sobre a Terra, e a queda de tal massa, multiplicada pelo quadrado da sua velocidade,<br \/>\n    poria singularmente em risco qualquer ponto do Globo. Portanto, em tais circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    e sem atacar os direitos dos cidad&atilde;os livres, tratava-se de um caso<br \/>\n    em que se tornava necess&aacute;ria a interven&ccedil;&atilde;o do Governo,<br \/>\n    uma vez que n&atilde;o se devia p&ocirc;r em risco a seguran &ccedil;a de<br \/>\n    todos para satisfazer os caprichos de um s&oacute;.<\/p>\n<p> V&ecirc;-se a que exagero de opini&atilde;o chegou o Capit&atilde;o Nicoles.<\/p>\n<p> Mas era ele o &uacute;nico a sustentar esse ponto de vista. Assim, ningu&eacute;m<br \/>\n    prestou aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s suas agourentas profecias.<\/p>\n<p> Deixaram-no, portanto, gritar &agrave; vontade, visto que assim o desejava.<br \/>\n    Era o defensor de uma causa perdida antecipadamente; ouviam-no mas n&atilde;o<br \/>\n    o escutavam, e n&atilde;o conseguiu arrancar nenhum admirador ao presidente<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o. Este, de resto, nem sequer se deu ao cuidado de<br \/>\n    retorquir aos argumentos do seu rival.<\/p>\n<p> Nicoles, encurralado nas suas &uacute;ltimas trincheiras, e n&atilde;o podendo<br \/>\n    sequer p&ocirc;r em jogo a sua integridade f&iacute;sica em prol da sua causa,<br \/>\n    resolveu arriscar o seu dinheiro. Prop&ocirc;s, portanto, publicamente, no<br \/>\n    Enquirer de Richmond, uma s&eacute;rie de apostas concebidas nestes termos<br \/>\n    e segundo uma propor &ccedil;&atilde;o crescente.<\/p>\n<p> Apostou: <\/p>\n<p>1 &#8211; Que os fundos necess&aacute;rios &agrave; empresa Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o seriam atingidos &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    1.000 d&oacute;lares <\/p>\n<p>2 &#8211; Que a opera&ccedil;&atilde;o da fundi&ccedil;&atilde;o de um canh&atilde;o<br \/>\n    de novecentos p&eacute;s em impratic&aacute;vel e n&atilde;o teria&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.2.000<br \/>\n    d&oacute;lares <\/p>\n<p>3 &#8211; Que seria imposs&iacute;vel carregar o columbiad, e que o pir&oacute;xilo<br \/>\n    se incendiaria sob a press&atilde;o do proj&eacute;til &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..3.000<br \/>\n    d&oacute;lares <\/p>\n<p>4 &#8211; Que o columbiad explodiria ao primeiro tiro&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<br \/>\n    4.000 d&oacute;lares <\/p>\n<p>5 &#8211; Que o proj&eacute;til n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o alcan&ccedil;aria<br \/>\n    uma dist&acirc;ncia de seis milhas, mas que cairia na terra uns segundos ap&oacute;s<br \/>\n    ter sido lan&ccedil;ado&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;5.000<br \/>\n    d&oacute;lares <\/p>\n<p>Como se v&ecirc;, era uma quantia importante que arriscava Nicoles, apenas<br \/>\n    para sustentar a sua invenc&iacute;vel obstina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Apesar da import&acirc;ncia da aposta, recebeu, a 19 de outubro, uma carta<br \/>\n    lacrada, de um soberbo laconismo, concebida nestes termos: <\/p>\n<p>&quot;Baltimore, 18 de outubro. &#8211; Aceito &#8211; Barbicane.&quot;<\/p>\n<h4><a name=\"6\" id=\"6\">Cap&iacute;tulo VI A Fl&oacute;rida e Texas <\/a><\/h4>\n<p>Entretanto, restava ainda uma quest&atilde;o a decidir: era necess &aacute;rio<br \/>\n    escolher um local favor&aacute;vel para a experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Segundo a recomenda&ccedil;&atilde;o do Observat&oacute;rio de Cambridge,<br \/>\n    o tiro devia ser dirigido perpendicularmente ao plano do horizonte, isto &eacute;,<br \/>\n    em dire&ccedil;&atilde;o ao z&ecirc;nite; ora, a Lua s&oacute; sobe ao z&ecirc;nite<br \/>\n    nos locais situados entre os 00 e 280 de latitude, ou, em outros termos, como<br \/>\n    a declina&ccedil;&atilde;o lunar m&aacute;xima &eacute; apenas de 280, tratava-se,<br \/>\n    portanto, de determinar exatamente o ponto do Globo onde ser&aacute; fundido<br \/>\n    o imenso columbiad.<\/p>\n<p> A 20 de outubro, estando o Clube do Canh&atilde;o reunido em sess&atilde;o.<br \/>\n    magna, Barbicane levou um magn&iacute;fico mapa dos Estados Unidos, de Z.<br \/>\n    Belitropp.<\/p>\n<p> . Contudo, sem lhe dar tempo para o desenrolar, J. T. Maston pediu a palavra<br \/>\n    com a sua habitual veem&ecirc;ncia e iniciou o debate nestes termos: &#8211; Estimados<br \/>\n    colegas. A quest&atilde;o que aqui se vai tratar hoje te m um a verdade ira<br \/>\n    import&acirc;ncia nacional, e vai dar-nos ocasi&atilde;o para praticar um<br \/>\n    grande ato de patriotismo.<\/p>\n<p> Os membros do Clube do Canh&atilde;o olharam uns para os outros, sem saber<br \/>\n    onde o orador queria chegar.<\/p>\n<p> &#8211; Nenhum de v&oacute;s &#8211; prosseguiu o orador &#8211; tem a? id&eacute;ia de transigir<br \/>\n    com a gl&oacute;ria do seu pa&iacute;s, e, se existe um direito que os Estados<br \/>\n    Unidos possam reivindicar, &eacute; o de ter o formid&aacute;vel canh&atilde;o<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, nas circunst&acirc;ncias atuais&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Estimado Maston&#8230; &#8211; disse o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Permita-me desenvolver o meu pensamento &#8211; replicou o orador. &#8211; Nas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    atuais, somos obrigados a escolher um local muito pr&oacute;ximo do equador,<br \/>\n    para que a experi &ecirc;ncia se fa&ccedil;a em boas condi&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se me permite&#8230; &#8211; disse Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Pe&ccedil;o a livre discuss&atilde;o de id&eacute;ias &#8211; replicou o fervoroso<br \/>\n    J. T.<\/p>\n<p> Maston -, e mantenho que o territ&oacute;rio de onde dever&aacute; partir<br \/>\n    o glorioso proj&eacute;til deve pertencer aos Estados Unidos.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida! &#8211; responderam v&aacute;rios s&oacute;cios.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! Visto que as nossas fronteiras n&atilde;o s&atilde;o suficientemente<br \/>\n    extensas, uma vez que ao sul o oceano nos op&otilde;e uma barreira intranspon&iacute;vel;<br \/>\n    j&aacute; que &eacute; preciso procurar para al&eacute;m dos Estados Unidos,<br \/>\n    e buscar num pa&iacute;s lim&iacute;trofe esse vig&eacute;simo oitavo paralelo,<br \/>\n    trata-se de um estado de guerra leg&iacute;timo e proponho que se declare<br \/>\n    guerra ao M&eacute;xico! &#8211; N&atilde;o! Isto n&atilde;o! &#8211; gritaram de todos<br \/>\n    os lados.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o!? &#8211; replicou J. T. Maston. &#8211; Eis uma palavra que me admiro<br \/>\n    de ouvir neste recinto! Mas atendei!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nunca! Nunca! &#8211; gritou o fogoso orador. &#8211; Mais cedo ou mais tarde essa<br \/>\n    guerra h&aacute;-de fazer-se, e pe&ccedil;o que ela comece hoje mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Maston! &#8211; gritou Barbicane, fazendo soar ruidosamente a sua campainha.<br \/>\n    &#8211; retiro-lhe a palavra! Maston ainda quis replicar, mas alguns dos seus colegas<br \/>\n    conseguiram cont&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Concordo &#8211; disse Barbicane &#8211; que a experi&ecirc;ncia s&oacute; pode e<br \/>\n    deve ser tentada em territ&oacute;rio dos Estados Unidos; mas, se o meu impaciente<br \/>\n    amigo me tivesse deixado falar, se tivesse olhado para um mapa, saberia que<br \/>\n    &eacute; perfeitamente in&uacute;til declarar guerra aos nossos vizinhos,<br \/>\n    pois veria que certas fronteiras dos Estados Unidos se estendem para al&eacute;m<br \/>\n    do vig&eacute;simo oitavo paralelo. Vejam que temos &agrave; nossa disposi<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o toda a parte meridional do Texas e da Fl&oacute;rida.<\/p>\n<p> 0 incidente n&atilde;o teve conseq&uuml;&ecirc;ncias. No entanto, foi com<br \/>\n    pena que J. T. Maston se deixou convencer. Ficou, portanto, decidido que o<br \/>\n    columbiad seria fundido e moldado ou no solo do Texas ou no da Fl&oacute;rida.<br \/>\n    Mas essa decis&atilde;o iria suscitar uma rivalidade sem precedentes nas cidades<br \/>\n    desses dois Estados.<\/p>\n<p> 0 vig&eacute;simo oitavo paralelo, no seu encontro com a costa americana,<br \/>\n    atravessa a Pen&iacute;nsula da Fl&oacute;rida e divide-a em duas zonas mais<br \/>\n    ou menos iguais. Depois, lan&ccedil;ando-se no golfo do M&eacute;xico, passa<br \/>\n    pelo arco formado pelas costas do Alabama, do Mississipi e da Luisiana. Da&iacute;<br \/>\n    passa ao Texas, do qual corta uma sali&ecirc;ncia, prolonga-se atrav&eacute;s<br \/>\n    do M&eacute;xico, transp&otilde;e Sonora, salta por cima da velha Calif&oacute;rnia.<br \/>\n    e vai perder-se nos mares do Pac&iacute;fico. N&atilde;o havia, portanto,<br \/>\n    sen&atilde;o as regi&otilde;es da Fl&oacute;rida e do Texas, situadas ao sul<br \/>\n    desse paralelo, que estivessem nas condi&ccedil;&otilde;es de latitude recomendadas<br \/>\n    pelo Observat&oacute;rio de Cambridge.<\/p>\n<p> 1 A Fl&oacute;rida, na sua regi&atilde;o meridional, n&atilde;o tem cidades<br \/>\n    importantes.<\/p>\n<p> Est&aacute; apenas salpicada de fortes militares que asseguram a defesa<br \/>\n    contra os &Iacute;ndios errantes. Uma s&oacute; cidade, Tampa, podia reclamar<br \/>\n    em favor de sua situa&ccedil;&atilde;o na disputa e apresentar-se com algumas<br \/>\n    pretens&otilde;es a ser a escolhida.<\/p>\n<p> No Texas, pelo contr&aacute;rio, as cidades s&atilde;o mais numerosas e<br \/>\n    mais importantes. Corpus-Christi, no Condado de Nueces, e todas as cidades<br \/>\n    situadas ao longo do Rio Bravo, tais como Laredo, Comalites, San-Ignacio;<br \/>\n    no Web, tais como Roma, Rio Grande City; no Starr, tais como Edimburgo; no<br \/>\n    Hidalgo, Santa Rita e Panda; Brownsville no Cameran, formaram uma liga imponente<br \/>\n    contra as pretens&otilde;es da Fl&oacute;rida.<\/p>\n<p> Assim, mal foi conhecida a decis&atilde;o, os deputados do Texas e da Fl&oacute;rida<br \/>\n    chegaram a Baltimore pela via mais r&aacute;pida. A partir desse momento o<br \/>\n    Presidente Barbicane e os membros mais influentes do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    foram ,assediados dia e noite por formid&aacute;veis reclama&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Se sete cidades da Gr&eacute;cia disputaram entre si a honra de ter visto<br \/>\n    nascer Homero, aqui dois Estados inteiros amea&ccedil;avam baterse por causa<br \/>\n    de um canh&atilde;o.<\/p>\n<p> 0 presidente Barbicane n&atilde;o sabia o que fazer. As notas, os documentos,<br \/>\n    as cartas cheias de amea&ccedil;as choviam sobre a sua casa, Que partido deveria<br \/>\n    tomar? No que se referia &agrave;s condi&ccedil;&otilde;es do solo, &agrave;<br \/>\n    facilidade de comunica&ccedil;&otilde;es, da rapidez de transportes, os direitos<br \/>\n    dos dois Estados eram verdadeiramente iguais. Quanto &agrave;s personalidades<br \/>\n    pol&iacute;ticas, n&atilde;o tinham nada a ver com a quest&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora, essa hesita&ccedil;&atilde;o, esse embara&ccedil;o durava j&aacute;<br \/>\n    h&aacute; certo tempo, quando Barbicane resolveu sair dele de vez: reuniu<br \/>\n    os seus colegas e a solu&ccedil;&atilde;o que lhes prop&ocirc;s foi, como<br \/>\n    v&atilde;o ver, profundamente sensata.<\/p>\n<p> &#8211; Pensando bem disse ele -, o que se est&aacute; passando entre a Fl&oacute;rida<br \/>\n    e o Texas reproduzir-se-&aacute; entre as cidades do Estado favorecido. A<br \/>\n    rivalidade descer&aacute; do g&ecirc;nero &agrave; esp&eacute;- cie, do Estado<br \/>\n    &agrave; cidade e assim continuar&aacute;. Ora, o Texas possui doze cidades<br \/>\n    com as condi&ccedil;&otilde;es requeridas, que disputar &atilde;o entre si<br \/>\n    a honra do empreendimento e nos arranjar &atilde;o novos aborrecimentos, ao<br \/>\n    passo que na Fl&oacute;rida existe apenas uma cidade com as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    necess&aacute;rias. Vamos, pois, para a Fl&oacute;rida e para Tampa! Esta<br \/>\n    decis&atilde;o, tomada p&uacute;blica, aterrou os deputados do Texas. Apoderou-se<br \/>\n    deles um furor indescrit&iacute;vel e chegaram mesmo a dirigir provoca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    abomin&aacute;veis aos diversos membros do Clube do Canh&atilde;o. Os magistrados<br \/>\n    de Baltimore tinham apenas um partido a tomar e tomaramno.<\/p>\n<p> Mandaram preparar um trem especial, meteram nele os texanos, de boa ou m&aacute;<br \/>\n    vontade, e obrigaram-nos a deixar a cidade a uma velocidade de trinta milhas<br \/>\n    por hora.<\/p>\n<p> Contudo, apesar de terem sido levados a tal velocidade, ainda tiveram tempo<br \/>\n    de lan&ccedil;ar um &uacute;ltimo e amea&ccedil;ador sarcasmo aos seus advers&aacute;rios.<\/p>\n<p> Fazendo alus&atilde;o &agrave; pouca largura da Fl&oacute;rida, uma simples<br \/>\n    pen&iacute;nsula apertada entre dois mares, afirmaram que n&atilde;o resistiria<br \/>\n    ao abalo do tiro e que se despeda&ccedil;aria.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! Que se despedace! &#8211; responderam os da Fl&oacute;rida, com um<br \/>\n    laconismo digno dos tempos antigos.<\/p>\n<h4><a name=\"7\" id=\"7\">Cap&iacute;tulo VII &#8211; Colina das pedras<\/a><\/h4>\n<p>Resolvidas as dificuldades astron&ocirc;micas, mec&acirc;nicas e topogr &aacute;ficas,<br \/>\n    surgiu a quest&atilde;o do dinheiro. Tratava-se de arranjar uma soma enorme<br \/>\n    para a execu&ccedil;&atilde;o do projeto. Nenhum particular, nenhum Estado<br \/>\n    mesmo, poderia dispor dos milh&otilde;es necess&aacute;rios.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane tomou, portanto, o partido de fazer do caso um assunto<br \/>\n    de interesse universal e pedira todos os povos a sua colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    financeira. Era ao mesmo tempo o direito e o dever de toda a Terra intervir<br \/>\n    nos- assuntos do seu sat&eacute;lite. A subscri&ccedil;&atilde;o aberta com<br \/>\n    esse objetivo estendeu- se de Baltimore a todo o Mundo.<\/p>\n<p> A subscri&ccedil;&atilde;o viria a ter um &ecirc;xito para al&eacute;m de<br \/>\n    toda a expectativa, n&atilde;o obstante tratar-se de quantias dadas, n&atilde;o<br \/>\n    emprestadas. A opera&ccedil;&atilde;o em puramente desinteressada no sentido<br \/>\n    literal da palavra, e n&atilde;o oferecia possibilidade alguma de lucro.<\/p>\n<p> 0 efeito da comunica&ccedil;&atilde;o de Barbicane n&atilde;o se detivera<br \/>\n    nas fronteiras dos Estados Unidos: atravessam o Atl&acirc;ntico e o Pac&iacute;fico,<br \/>\n    invadindo simultaneamente a &Aacute;sia e a Europa, a &Aacute;frica e a Oceania.<br \/>\n    Os observat&oacute;rios dos Estados Unidos puseram-se imediatamente em liga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com os observat&oacute;- rios de outros pa&iacute;ses. Alguns, como os de<br \/>\n    Paris, de S&atilde;o Petersburgo, do Cabo, de Berlim, de Altona, de Estocolmo,<br \/>\n    de Vars&oacute;via, de Hamburgo, de Buda, de Bolonha, de Malta, de Lisboa,<br \/>\n    de Benares, de Madrasta, de Pequim &#8211; enviaram os seus cumprimentos ao Clube<br \/>\n    do Canh&atilde;o; outros mantiveram uma prudente expectativa.<\/p>\n<p> Quanto ao Observat&oacute;rio de Greenwich, apoiado pelos outros vinte e<br \/>\n    dois estabelecimentos astron&ocirc;micos da Gr&atilde;- Bretanha, foi perempt&oacute;rio:<br \/>\n    negou ousadamente a possibilidade de &ecirc;xito, e adotou as teorias do Capit&atilde;o<br \/>\n    Nicoles. Al&eacute;m disso, enquanto diversas sociedades cient&iacute;ficas<br \/>\n    prometiam enviar delegados a Tampa, o pessoal do Observat&oacute;rio de Greenwich,<br \/>\n    reunido em sess&atilde;o, passou bruscamente para:* a ordem do dia depois<br \/>\n    de conhecida e rejeitada a proposta de Barbicane. Era a bela e boa inveja<br \/>\n    inglesa e nada mais.<\/p>\n<p> Resumindo: o efeito foi excelente no mundo cient&iacute;fico, e da&iacute;<br \/>\n    passou para as multid&otilde;es, que, de uma maneira geral, se apaixonaram<br \/>\n    pela quest&atilde;o. Esse fato tinha grande import &acirc;ncia, visto que<br \/>\n    as massas iam ser chamadas a contribuir comum capital consider&aacute;vel.<\/p>\n<p> A 8 de outubro, j&aacute; o Presidente Barbicane havia lan&ccedil;ado um<br \/>\n    manifesto cheio de entusiasmo, no qual apelava para ?todos os homens de boa<br \/>\n    vontade da Terra?. Esse documento, traduzido em todas as l&iacute;nguas, teve<br \/>\n    grande &ecirc;xito.<\/p>\n<p> Foram abertas subscri&ccedil;&otilde;es nas principais cidades dos Estados<br \/>\n    Unidos para serem centralizadas no Banco de Baltimore, em Baltimore Street,<br \/>\n    n&uacute;mero 9. A subscri&ccedil;&atilde;o estendeu-se pelos diferentes pa&iacute;ses<br \/>\n    dos dois continentes.<\/p>\n<p> Tr&ecirc;s dias ap&oacute;s o manifesto do Presidente Barbicane, eram recebidos<br \/>\n    quatro milh&otilde;es de d&oacute;lares nas diferentes cidades dos Estados<br \/>\n    Unidos. Com tal quantia o Clube do Canh&atilde;o podia desde logo come&ccedil;ar<br \/>\n    o seu projeto.<\/p>\n<p> Contudo, alguns dias mais tarde, os Estados Unidos ficaram a saber que as<br \/>\n    subscri&ccedil;&otilde;es feitas no estrangeiro eram um verdadeiro &ecirc;xito:<br \/>\n    certos pa&iacute;ses distinguiam-se pela sua generosidade. Outros abriam a<br \/>\n    bolsa menos facilmente.<\/p>\n<p> Quest&atilde;o de temperamento.<\/p>\n<p> . Eram cinco milh&otilde;es quatrocentos e quarenta e seis mil seiscentos<br \/>\n    e setenta e cinco d&oacute;lares, que o p&uacute;blico havia despejado nos<br \/>\n    cofres do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Que ningu&eacute;m se surpreenda com a import&acirc;ncia de tal soma.<\/p>\n<p> Os trabalhos da fundi&ccedil;&atilde;o e brocagem, obra de pedra e cal,<br \/>\n    do transporte dos oper&aacute;rios, a sua instala&ccedil;&atilde;o numa regi&atilde;o<br \/>\n    quase desabitada, a constru&ccedil;&atilde;o de fomos e de edif&iacute;cios,<br \/>\n    aquisi&ccedil;&atilde;o das ferramentas para as f&aacute;bricas, a p&oacute;lvora,<br \/>\n    o proj&eacute;til, deviam, segundo os c&aacute;lculos, absorver quase inteiramente<br \/>\n    essa quantia?. Certos tiros de canh&atilde;o na Guerra da Secess&atilde;o<br \/>\n    custaram mil d&oacute;lares; o do Presidente Barbicane, &Uacute;nico na hist&oacute;ria<br \/>\n    da artilharia, podia bem custar cinco mil vezes mais.<\/p>\n<p> A 20 de outubro, foi assinado um contrato com a f&aacute;brica de Goldspring,<br \/>\n    perto de Nova Iorque, que, durante a guerra, tinha fornecido a Parrott os<br \/>\n    seus melhores canh&otilde;es.<\/p>\n<p> Ficou estipulado entre as partes contratantes que a f&aacute;brica de Goldspring<br \/>\n    se comprometia a transportar para Tampa, na Fl&oacute;rida Meridional, o material<br \/>\n    necess&aacute;rio para a fundi&ccedil;&atilde;o do columbiad. Essa opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deveria estar terminada, o mais tardar, no dia 15 de outubro pr&oacute;ximo,<br \/>\n    e o canh&atilde;o devia ser entregue em bom estado, sob pena de uma indeniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cem d&oacute;lares por dia at&eacute; o momento em que a Lua se apresentasse<br \/>\n    nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es, isto &eacute;, por quantos dias se podem<br \/>\n    contar em dezoito anos e onze dias. 0 contato com os oper&aacute;rios, o seu<br \/>\n    pagamento, os arranjos necess&aacute;rios competiam &agrave; companhia de<br \/>\n    Goldspring.<\/p>\n<p> Este contrato, feito em duplicata e de bona fide, foi assinado por 1. Barbicane,<br \/>\n    presidente do Clube do Canh&atilde;o e J.<\/p>\n<p> Murchison, como diretor da f&aacute;brica de Goldspring, tendo ambas as<br \/>\n    partes dado plena aprova&ccedil;&atilde;o &agrave;s cl&aacute;usulas estipuladas.<\/p>\n<p> Desde a escolha feita pelos s&oacute;cios do Clube do Canh&atilde;o em detrimento<br \/>\n    do Texas, toda a gente na Am&eacute;rica onde todos sabem ler, se achou no<br \/>\n    dever de estudar geografia da Fl&oacute;rida. Nunca os livreiros venderam<br \/>\n    tanto exemplares do Bartrams TravelinRorida, do Roman,, Natural History of<br \/>\n    Fast and West Rida, do Wifl&agrave;2m?,, Territory of Florida, do Ck1and on<br \/>\n    the Culture of the Sugar-Cane in East Florida. Foi preciso imprimir novas<br \/>\n    e novas edi&ccedil;&otilde;es. Era um furor.<\/p>\n<p> Barbicane tinha mais que fazer do que ler; queria ver com os seus Pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos e escolher a Posi&ccedil;&atilde;o do columbiad.<\/p>\n<p> Assim, sem perder um instante, p&ocirc;s &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Observat &oacute;rio de Cambridge os fundos para a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de u telesc&oacute;pio e tratou com a casa Breadwill &amp; Co., de Albany,<br \/>\n    a fabrica&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til de alum&iacute;nio, e depois<br \/>\n    deixou Baltimore, acompanhado por J . T. Maston, pelo Major Elphiston e pelo<br \/>\n    diretor da f&aacute;brica de Goldspring.<\/p>\n<p> No dia seguinte, os quatros companheiros chegaram a Nova Orle&atilde;es.<br \/>\n    AR embarcaram imediatamente no Tamb&eacute;m, aviso da Marinha, que o Governo<br \/>\n    pusera &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Aquecidas as fornalhas, em poucos momentos deixaram de ver a costa da Luisiana.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi longa a viagem. Dois dias, 400 milhas, tendo o navio chegado<br \/>\n    &agrave; vista da costa da Fl&oacute;rida. Ao aproximarse, Barbicane viu-se<br \/>\n    em presen&ccedil;a de uma terra baixa, plana, com apar&ecirc;ncia de muito<br \/>\n    pouco f&eacute;rtil. Depois de ter passado por unia s&eacute;rie de enseadas<br \/>\n    ricas em ostras e lagostas, o Tampko chegou finalmente &agrave; Ba&iacute;a<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p> Essa ba&iacute;a divide-se em duas barras alongadas, a de Tampa e a de Hiffisboro,<br \/>\n    cuja embocadura o navio. Pouco tempo depois, apareceu o Forte Broocke, com<br \/>\n    as suas baterias erguidas acima das ondas, e surgiu a Cidade de Tampa, negligentemente<br \/>\n    recostada no fundo do pequeno porto natural formado pela foz do Rio Hillisboro.<\/p>\n<p> Foi ali que o Tampouco ancorou, no dia 22 de outubro, &agrave;s sete horas<br \/>\n    da noite; os quatro passagens desembarcaram imediatamente.<\/p>\n<p> Barbicane sentiu o cora&ccedil;&atilde;o palpitar com viol&ecirc;ncia quando<br \/>\n    pisou o solo da Fl&oacute;rida; parecia tate&aacute;-lo com os p&eacute;s,<br \/>\n    como faz um arquiteto a uma casa cuja solidez pretenda experi mentar.<\/p>\n<p> J. T. Maston escavava a terra com a ponta do seu gancho.<\/p>\n<p> &#8211; Senhores &#8211; disse ent&atilde;o Barbicane -, n&atilde;o temos tempo a perder,<br \/>\n    e a partir de amanh&atilde; montaremos a cavalo a fim de efetuar um primeiro<br \/>\n    reconhecimento ao territ&oacute;rio.<\/p>\n<p> No momento em que Barbicane desembarcou, os tr&ecirc;s m&aacute; habitantes<br \/>\n    de Tampa tinham ido ao seu encontro, honra bem merecida pelo presidente do<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o que os favorecem com a sua escolha. Receberam-no no<br \/>\n    meio de aclama&ccedil;&otilde;es formid&aacute;veis; mas Barbicane fugiu &agrave;s<br \/>\n    ova&ccedil;&otilde;es e dirigiu-se para o seu quarto no Hotel Franklin, negandose<br \/>\n    a receber quem quer que fosse. 0 papel de homem c&eacute;lebre n&atilde;o<br \/>\n    se coadunava com ele.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 23 de outubro, pequenos cavalos de ra&ccedil;a espanhola,<br \/>\n    cheios de vigor e de fogo, relinchavam sob as suas janelas. Mas em vez de<br \/>\n    quatro cavalos, encontravam- se ali cinq&uuml;enta, com os seus cavaleiros.<br \/>\n    Barbicane desceu, acompanhado pelos companheiros, e ficou admirado por se<br \/>\n    encontrar no meio de semelhante cavalaria.<\/p>\n<p> Observou tamb&eacute;m que cada cavaleiro trazia uma carabina a tiracolo<br \/>\n    e estava tamb&eacute;m armado de pistolas.<\/p>\n<p> A raz&atilde;o de tal armamento foi-lhe dada por um jovem habitante da Fl&oacute;rida,<br \/>\n    que lhe disse: &#8211; Senhor, &eacute; por causa dos &iacute;ndios.<\/p>\n<p> &#8211; Que &iacute;ndios? &#8211; Os selvagens que percorrem achamos por isso prudente<br \/>\n    escoltar-vos.<\/p>\n<p> &#8211; Ora! &#8211; murmurou J. T. Maston, subindo para a sua montaria.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; mais seguro! &#8211; replicou o jovem natural da Fl&oacute;rida.<\/p>\n<p> &#8211; Agrade&ccedil;o-lhe, senhores &#8211; disse Barbicane -; e agora, a caminho!<br \/>\n    0 pequeno grupo partiu e desapareceu pouco depois numa nuvem de poeira. Eram<br \/>\n    cinco horas da manh&atilde;. 0 Sol resplandecia e o term&ocirc;metro marcava<br \/>\n    j&aacute; vinte e oito graus cent&iacute;grados; mas uma fresca brisa mar&iacute;tima<br \/>\n    amenizava essa temperatura excessiva.<\/p>\n<p> Barbicane, ao deixar Tampa, desceu para o sul e seguiu ao longo da costa,<br \/>\n    de modo a atingir o riacho. Esse riozinho corre para a Ba&iacute;a Hillisboro,<br \/>\n    vinte quil&ocirc;metro abaixo de Tampa.<\/p>\n<p> Barbicane e sua escolta correram ao longo da margem direita subindo para<br \/>\n    leste. Em breve, as ondas da ba&iacute;a desapareceram atr&aacute;s de um<br \/>\n    acidente do terreno e s&oacute; a campina se oferecia aos olhares dos cavaleiros.<\/p>\n<p> A Florida divide-se em duas partes: uma ao norte, mais populosa, menos abandonada,<br \/>\n    tem Taffahassee por capital, e Pensacola, um dos principais arsenais mar&iacute;timos<br \/>\n    dos Estados Unidos; a outra, comprimida entre o Atl&acirc;ntico e o golfo<br \/>\n    do M&eacute;xico, que a estreitam entre as suas &aacute;guas, &eacute; uma<br \/>\n    pen&iacute;nsula corro&iacute;da pela corrente do Gulf, rio, l&iacute;ngua<br \/>\n    de terra perdida no meio de um pequeno arquip&eacute;lago, constantemente<br \/>\n    dobrada pelos pequenos navios do canal das Baamas. &Eacute; a sentinela avan&ccedil;ada<br \/>\n    do as pradarias, e golfo das grandes tempestades. A superf&iacute;cie desse<br \/>\n    Estado &eacute; de trinta e oito milh&otilde;es, trinta e tr&ecirc;s mil duzentos<br \/>\n    e sessenta e sete acres, dentro dos quais era preciso escolher um local situado<br \/>\n    para aqu&eacute;m do vig&eacute;simo oitavo paralelo e em condi &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    convenientes para o empreendimento. Barbicane, &agrave; medida que calvagava,<br \/>\n    examinava atentamente a configura &ccedil;&atilde;o e a particular distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do solo.<\/p>\n<p> A Florida, descoberta por Juan Ponce de L&eacute;on, em 1512, no dia de<br \/>\n    Ramos, chamou-se primeiro P&aacute;scoa Fl&oacute;rida. Merecia bem pouco<br \/>\n    esse nome encantador, dado &agrave;s suas costas &aacute;ridas e queimadas.<br \/>\n    Mas, a poucos quil&ocirc;metros da margem, a natureza do terreno mudou pouco<br \/>\n    a pouco, e a regi&atilde;o mostrou-se digna do primitivo nome; o solo era<br \/>\n    entrecortado por uma rede de pequenos cursos de &aacute;gua, de rios, de charcos,<br \/>\n    de pequenos lagos; julgar-se-ia a Holanda ou a Guiana; mas o campo dentro<br \/>\n    em pouco erguia- se sensivelmente e em breve come&ccedil;ou a mostrar as suas<br \/>\n    plan&iacute;cies cultivadas, onde se davam todas as produ- &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    vegetais do Norte e do Sul; campos imensos, que o sol dos tr&oacute;picos<br \/>\n    e as &aacute;guas conservadas na argila do solo beneficiavam, e depois, finalmente,<br \/>\n    os seus prados cobertos de ananases, de inhames, de tabaco, de arroz, de algod<br \/>\n    &atilde;o e de cana-de-a&ccedil;&uacute;car, que se estendiam a perder de<br \/>\n    vista, exibindo as suas imensas riquezas com descuidada prodigalidade.<\/p>\n<p> Barbicane pareceu muito satisfeito com a progressiva eleva &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do terreno, e, quando J. T. Maston o interrogou a esse respeito, disse: &#8211;<br \/>\n    Meu digno amigo: temos um interesse primordial em fundir o nosso columbiad<br \/>\n    em terreno extremamente alto.<\/p>\n<p> &#8211; Para ficar mais perto da Lua? &#8211; indagou o secret&aacute;rio do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu Barbicane, sorrindo. &#8211; Que importam alguns metros<br \/>\n    a mais ou a menos? N&atilde;o, mas no meio de terrenos elevados processar-se-&atilde;o<br \/>\n    mais facilmente: n&atilde;o teremos de lutar contra as &aacute;guas, o que<br \/>\n    nos evitar&aacute; tubagens compridas e caras, e isso &eacute; um pormenor<br \/>\n    a considerar, quando se trata de abrir um po&ccedil;o de trezentos metros<br \/>\n    de profundidade.<\/p>\n<p> &#8211; Tem raz&atilde;o &#8211; disse ent&atilde;o o engenheiro Murchison.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso, tanto quanto poss&iacute;vel, evitar os cursos de &aacute;gua<br \/>\n    durante a perfura&ccedil;&atilde;o; mas se encontrarmos nascentes n&atilde;o<br \/>\n    tem import&acirc;ncia; esgot&aacute;-las-emos com as nossas m&aacute;quinas,<br \/>\n    ou desvi&aacute;-las-emos. N&atilde;o se trata aqui de um po&ccedil;o artesiano,<br \/>\n    estreito e escuro, onde a sonda, o cubo, a verruma, em uma palavra, todas<br \/>\n    as ferramentas do perfurador trabalham &agrave;s cegas. N&atilde;o?, n&oacute;s<br \/>\n    trabalhamos sob o c&eacute;u aberto, &agrave; luz do dia, com a p&aacute;<br \/>\n    e a picareta na m&atilde;o, e com o aux&iacute;lio de algumas minas o nosso<br \/>\n    trabalho ser&aacute; feito rapidamente.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto &#8211; replicou Barbicane -, se, pela eleva&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    solo ou pela sua natureza, n&oacute;s pudermos evitar a luta com as &aacute;guas<br \/>\n    subterr&acirc;neas, o trabalho ser&aacute; mais r&aacute;pido e mais perfeito;<br \/>\n    procuraremos, portanto, abrir o nosso fosso num terreno situado algumas centenas<br \/>\n    de metros acima do n&iacute;- vel do mar.<\/p>\n<p> &#8211; Tem raz&atilde;o, senhor Barbicane. &#8211; E, se n&atilde;o me engano, em breve<br \/>\n    encontraremos um local adequado.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, como gostaria de estar j&aacute; ouvindo o primeiro golpe de picareta!<br \/>\n    &#8211; disse o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; E eu o &uacute;ltimo! &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; L&aacute; chegaremos, senhores &#8211; respondeu o engenheiro -, e, podem crer,<br \/>\n    a companhia de Goldspring n&atilde;o ter&aacute; de lhes pagar a indeniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por mora.<\/p>\n<p> &#8211; Por Santa B&aacute;rbara!, tem raz&atilde;o &#8211; replicou J. T. Maston &#8211;<br \/>\n    cem d&oacute;lares por dia at&eacute; que a Lua se apresente nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    isto &eacute;, durante dezoito anos e onze dias.<\/p>\n<p> Sabe que seriam seiscentos e cinq&uuml;enta e oito mil e cem d&oacute;lares?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o senhor, n&atilde;o sabemos &#8211; respondeu o engenheiro -, nem teremos<br \/>\n    necessidade de o saber.<\/p>\n<p> Por volta das dez horas da manh&atilde;, o pequeno de estacamento tinha<br \/>\n    percorrido uma boa d&uacute;zia de milhas, aos campos f&eacute;rteis sucedera-se<br \/>\n    a regi&atilde;o das florestas. Ali cresciam as &aacute;rvores mais variadas<br \/>\n    corri uma profus&atilde;o tropical.<\/p>\n<p> Essas florestas quase impenetr&aacute;veis eram formadas por limoeiros,<br \/>\n    laranjeiras, rom&atilde;zeiras, figueiras, oliveiras, damasqueiros, bananeiras<br \/>\n    e grandes cepas de vinha, cujos frutos e flores rivalizavam em cor e perfume.<br \/>\n    A sombra perfumada dessas &aacute;rvores magn&iacute;ficas esvoa&ccedil;ava<br \/>\n    todo um mundo de p&aacute;ssaros de cores brilhantes, no meio dos quais se<br \/>\n    distinguiam principalmente os air&otilde;es, cujo ninho devia ser um cofre<br \/>\n    para ser digno dessas preciosidades emplumadas.<\/p>\n<p> J. T. Maston e o major n&atilde;o podiam encontrar-se na presen &ccedil;a<br \/>\n    dessa natureza opulenta sem admirar t&atilde;o espl&ecirc;ndidas belezas.<br \/>\n    Mas o Presidente Barbicane, pouco sens&iacute;vel a essas maravilhas, tinha<br \/>\n    pressa de continuar; aquela regi&atilde;o t&atilde;o f&eacute;rtil desagradava-lhe<br \/>\n    pela sua pr&oacute;pria fertilidade. Sem ser hidr&oacute;scopo, sentia a &aacute;gua<br \/>\n    debaixo dos seus p&eacute;s e procurava, em v&atilde;o, sinais de uma incontest&aacute;vel<br \/>\n    aridez.<\/p>\n<p> No entanto, iam avan&ccedil;ando; foi preciso passar a vau v&aacute;rios<br \/>\n    rios, e n&atilde;o sem perigo, pois estavam infestados de crocodilos de quinze<br \/>\n    a dezoito p&eacute;s de comprimento. J. T. Maston amea&ccedil;ou-os ousadamente<br \/>\n    com o seu tem&iacute;vel gancho, mas s&oacute; conseguiu amea&ccedil;ar os<br \/>\n    pelicanos, as narcejas e outras aves selvagens, habitantes daquelas margens,<br \/>\n    enquanto grandes flamingos vermelhos o olhavam com ar est&uacute;pido.<\/p>\n<p> Finalmente, esses h&oacute;spedes das zonas &uacute;midas desapareceram<br \/>\n    por sua vez; &aacute;rvores menos espessas agrupavamse em bosques pouco densos;<br \/>\n    alguns grupos isolados destacavam- se no meio de plan&iacute;cies infinitas,<br \/>\n    onde perpassavam bandos de gamos assustados.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; que enfim! &#8211; gritou Barbicane, erguendo-se nos estribos.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui est&aacute; a regi&atilde;o dos pinheiros! &#8211; E dos selvagens! &#8211; acrescentou<br \/>\n    o major.<\/p>\n<p> Com efeito, surgiram no horizonte alguns &iacute;ndios; agitavamse, corriam<br \/>\n    de um lado para o outro nos seus cavalos.<\/p>\n<p> r&aacute;pidos, brandindo longas lan&ccedil;as ou disparando as suas espingardas<br \/>\n    de detona&ccedil;&atilde;o surda; de resto, limitaram-se a essas demonstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    hostis, sem inquietarem Barbicane e os seus companheiros., Estes encontravam-se<br \/>\n    ent&atilde;o no meio de uma plan&iacute;cie rochosa, vasto espa&ccedil;o descoberto<br \/>\n    de uma extens&atilde;o de v&aacute;rios acres, que o sol inundava com os seus<br \/>\n    raios escaldantes.<\/p>\n<p> Era formado por uma grande eleva&ccedil;&atilde;o do terreno, que parecia<br \/>\n    oferecer aos membros do Clube do Canh&atilde;o todas as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    requeridas para a instala&ccedil;&atilde;o do columbiad.<\/p>\n<p> &#8211; Alto! &#8211; exclamou Barbicane, parando. &#8211; Este lugar tem algum nome? &#8211; Chama-se<br \/>\n    Colina das Pedras &#8211; esclareceu um dos da Fl&oacute;rida.<\/p>\n<p> Barbicane, sem dizer palavra, desmontou, pegou nos seus instrumentos e come&ccedil;ou<br \/>\n    a calcular a posi&ccedil;&atilde;o com uma precis&atilde;o extrema; o pequeno<br \/>\n    grupo, reunido em volta dele, observava-o num sil&ecirc;ncio profundo.<\/p>\n<p> Nesse momento, o Sol passava no meridiano. Barbicane, passados alguns momentos,<br \/>\n    enumerou rapidamente o resultado das suas observa&ccedil;&otilde;es: &#8211; Este<br \/>\n    local fica situado a trezentas toesas acima do n&iacute;vel do mar, a 270<br \/>\n    7&#8242; de latitude e 50 7&#8242; de longitude oeste; pela natureza &aacute;rida e rochosa,<br \/>\n    parece-me oferecer todas as condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis &agrave;<br \/>\n    experi&ecirc;ncia; ser&aacute;, portanto, nesta plan&iacute;cie que se erguer&atilde;o<br \/>\n    os nossos armaz&eacute;ns, as nossas oficinas, os nossos fornos, os dormit&oacute;rios<br \/>\n    dos nossos oper &aacute;rios, e ser&aacute; daqui, daqui mesmo &#8211; repetiu batendo<br \/>\n    com o p&eacute; no ch&atilde;o no cimo da Colina das Pedras -, que o nosso<br \/>\n    proj&eacute;til partir&aacute; para os espa&ccedil;os do mundo solar!<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII &#8211; Fundi&ccedil;&atilde;o da pe&ccedil;a<\/a><\/h4>\n<p>Essa mesma noite, Barbicane e os seus companheiros voltavam a Tampa e o engenheiro<br \/>\n    Murchison reembarcava no Tampico com destino a Nova Orle&atilde;es, com o<br \/>\n    intuito de recrutar um ex&eacute;rcito de oper&aacute;rios e conseguir a maior<br \/>\n    parte do material. Os membros do Clube do Canh&atilde;o permaneceram em Tampa,<br \/>\n    a fim de organizar os primeiros trabalhos com o aux&iacute;lio do pessoal<br \/>\n    da regi&atilde;o.<\/p>\n<p> Oito dias ap&oacute;s a sua partida, o Tampico voltava &agrave; Ba&iacute;a<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo com uma frota de barcos a vapor. Murchison reunira<br \/>\n    mil e quinhentos trabalhadores. Nos maus dias da escravatura, teria perdido<br \/>\n    o seu tempo e o seu trabalho.<\/p>\n<p> Mas desde que a Am&eacute;rica, a terra da liberdade, s&oacute; contava<br \/>\n    homens livres no seu seio, estes acorriam onde quer que lhes fosse oferecida<br \/>\n    uma boa retribui&ccedil;&atilde;o pelo seu trabalho.<\/p>\n<p> Ora, o dinheiro n&atilde;o faltava ao Clube do Canh&atilde;o; aos seus homens,<br \/>\n    al&eacute;m de um sal&aacute;rio alto, gratifica&ccedil;&otilde;es consider&aacute;-<br \/>\n    veis e proporcionais. 0 oper&aacute;rio que 1 tivesse embarcado para a Fl&oacute;rida<br \/>\n    podia contar, depois de acabado o trabalho, com um* capital depositado em<br \/>\n    seu nome no banco de Baltimore. A Murchison apenas se p&ocirc;s, portanto,<br \/>\n    o emba ra&ccedil;o da escolha, e p&ocirc;de mostrar-se exigente relativamente<br \/>\n    &agrave; intelig&ecirc;ncia e habilidade dos seus oper&aacute;rios. Podemos<br \/>\n    acreditar que ele contratou para a sua legi&atilde;o de trabalhadores a elite<br \/>\n    dos mec&acirc;nicos, dos motoristas, &#8211; fundidores, caldeireiros, mineiros,<br \/>\n    oleiros e ajudantes de todos os g&ecirc;- neros, negros ou brancos, sem distin&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Muitos deles levavam as fam&iacute;lias consigo. Era uma verdadeira emigra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A 31 de outubro, &agrave;s dez horas da manh&atilde;, toda essa gente desembarcava<br \/>\n    no cais de Tampa; compreende-se o movimento e a atividade que reinavam nessa<br \/>\n    pequena cidade que duplicava a sua popula&ccedil;&atilde;o de um dia para<br \/>\n    o outro.<\/p>\n<p> Realmente, Tampa deveria ganhar muito com aquela iniciativa do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o, n&atilde;o pelo n&uacute;mero dos seus oper &aacute;rios, que<br \/>\n    se dirigiam imediatamente para a Colina das Pedras, mas gra&ccedil;as &agrave;<br \/>\n    aflu&ecirc;ncia de curiosos, que convergiram pouco a pouco, de todos os pontos<br \/>\n    do Globo, para a pen&iacute;nsula da Florida. Durante os primeiros dias, ocuparamse<br \/>\n    em descarregar os utens&iacute;lios e ferramentas trazidos nos barcos, assim<br \/>\n    como uni grande n&uacute;mero de casas pr&eacute;- fabricadas. Ao mesmo tempo,<br \/>\n    Barbicane colocava os primeiros trilhos de uma estrada de ferro de quinze<br \/>\n    milhas, destinada a ligar a Colina das Pedras a Tampa.<\/p>\n<p> Sabe-se em que condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o constru&iacute;das as<br \/>\n    estradas de ferro na Am&eacute;rica; caprichosa nas suas voltas, ousadas nas<br \/>\n    suas encostas, desprezando as obras de arte e a prud&ecirc;ncia, subindo colinas,<br \/>\n    atravessando os vales, a estrada de ferro corre como um cego e sem se preocupar<br \/>\n    com a s linhas retas; n&atilde;o foi dispendioso nem perturbador. No entanto,,<br \/>\n    descarrilava e saltava com toda a liberdade. A estrada de ferro de Tampa &agrave;<br \/>\n    Colina das Pedras foi uma simples bagatela, e n&atilde;o precisou nem de muito<br \/>\n    tempo nem de muito dinheiro para que fosse constru&iacute;da.<\/p>\n<p> Barbicane era, de resto, a alma de toda essa gente que acorrera &agrave;<br \/>\n    sua chamada; animava-a, insuflava-lhe a sua coragem, o seu entusiasmo, a sua<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o. Encontravase em toda a parte, sempre acompanhado<br \/>\n    de J. T. Maston, zumbindo como uma mosca &agrave; sua volta. 0 seu esp&iacute;rito<br \/>\n    pr&aacute;tico engenhava mil inven&ccedil;&otilde;es. Com ele n&atilde;o havia<br \/>\n    obst &aacute;culo, dificuldade, embara&ccedil;o algum. Ele era mineiro, pedreiro,<br \/>\n    mec&acirc;nico e artilheiro, com respostas para todas as perguntas e solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para todos os problemas.<\/p>\n<p> Correspondia-se ativamente com o Clube do Canh&atilde;o e com a f&aacute;brica<br \/>\n    de Goldspring, e dia e noite, com as caldeiras e o vapor mantido em press&atilde;o,<br \/>\n    o Tampico esperava as suas ordens na ba&iacute;a de Hillisboro.<\/p>\n<p> No dia 1? de novembro, Barbicane deixou Tampa com um destacamento de trabalhadores<br \/>\n    e logo no dia seguinte uma cidade de casas pr&eacute;-fabricadas se ergueu<br \/>\n    em redor da Colina das Pedras. Essas casas foram rodeadas por uma pali- &ccedil;ada,<br \/>\n    e pelo seu movimento e ardor em breve parecia uma das grandes cidades dos<br \/>\n    Estados Unidos. A vida foi no entanto regulada com toda a disciplina e os<br \/>\n    trabalhos iniciaram- se numa ordem perfeita.<\/p>\n<p> Sondagens cuidadosamente praticadas tinham permitido reconhecer a natureza<br \/>\n    do terreno, e este p&ocirc;de come&ccedil;ar a ser cavado logo no dia 4 de<br \/>\n    novembro. Nesse dia, Barbicane reuniu os chefes de oficina e disse-lhes ent&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; Meus amigos, todos sabem por que os reuni nesta parte selvagem da Fl&oacute;rida.<br \/>\n    Trata-se de fundir u m canh&atilde;o com nove p&eacute;s de di&acirc;metro<br \/>\n    interno, seis p&eacute;s de espessura nas suas paredes e dezenove p&eacute;s<br \/>\n    e meio no seu revestimento de pedra; &eacute;, portanto, necess&aacute;rio<br \/>\n    escavar um po&ccedil;o com o di&acirc;metro de sessenta p&eacute;s, e uma<br \/>\n    profundidade de novecentos p&eacute;s. Esta obra, consider&aacute;vel, deve<br \/>\n    estar terminada em oito meses; ora, voc&ecirc;s t&ecirc;m dois milh&otilde;es<br \/>\n    quinhentos e quarenta e tr&ecirc;s mil e quatrocentos p&eacute;s c&uacute;bicos<br \/>\n    de terra para extrair em duzentos e cinq&uuml;enta e cinco dias, ou seja,<br \/>\n    em n&uacute;meros redondos, dez mil p&eacute;s c&uacute;bicos por dia. Aquilo<br \/>\n    que n&atilde;o oferecia qualquer dificuldade para mil oper&aacute;rios trabalhando<br \/>\n    &agrave; vontade sem embara&ccedil;os ser&aacute; mais dif&iacute;cil num<br \/>\n    espa&ccedil;o relativamente restrito. No entanto, visto que este trabalho<br \/>\n    deve ser feito, far-se-&aacute;, e conto tanto com a sua coragem como com<br \/>\n    a sua habilidade.<\/p>\n<p> &Agrave;s oito horas da manh&atilde; foi dada a primeira enxadada no solo<br \/>\n    da Colina das Pedras, e desde esse momento a valente ferramenta n&atilde;o<br \/>\n    ficou inativa um &uacute;nico instante na m&atilde;o dos mineiros. Os oper&aacute;rios<br \/>\n    revezavam-se em turno de seis horas.<\/p>\n<p> Decorrido o primeiro m&ecirc;s, tinha o po&ccedil;o atingido a profundidade<br \/>\n    prevista para essa altura, ou seja, cento e doze p&eacute;s.<\/p>\n<p> Em dezembro foi duplicada essa profundidade e em janeiro triplicada. Durante<br \/>\n    o m&ecirc;s de fevereiro, os trabalhadores tiveram de lutar contra um len&ccedil;ol<br \/>\n    de &aacute;gua que surgiu atrav &eacute;s da crosta terrestre. Foi necess&aacute;rio<br \/>\n    utilizar bombas poderosas e aparelhos de ar comprimido para esgotar a &aacute;gua<br \/>\n    e poder betumar os orif&iacute;cios das nascentes, como se faz a um rombo<br \/>\n    a bordo de um navio. Finalmente, dominaram essas malfadadas correntes. No<br \/>\n    entanto, devido &agrave; pouca consist&ecirc;ncia do terreno, a roda cedeu<br \/>\n    parcialmente e houve um pequeno desabamento. Imagine-se qual seria o espantoso<br \/>\n    impulso daquele disco de pedra e cal com a altura de setenta e cinco toesas!<br \/>\n    Esse acidente custou a vida a v&aacute;rios oper&aacute;rios.<\/p>\n<p> Foram necess&aacute;rias tr&ecirc;s semanas para escorar o revestimento<br \/>\n    de pedra e para voltar a colocar a pedra nas suas primitivas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de solidez. Mas, gra&ccedil;as &agrave; habilidade do engenheiro e &agrave;<br \/>\n    pot&ecirc;ncia das m&aacute;quinas utilizadas, voltou ao prumo a edifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    momentaneamente comprometida, e os trabalhos de perfura&ccedil;&atilde;o deram<br \/>\n    prosseguimento.<\/p>\n<p> Nenhum novo incidente deteve da&iacute; em diante a marcha das opera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e a 10 de junho, vinte dias antes de expirarem os prazos fixados por Barbicane,<br \/>\n    o po&ccedil;o, inteiramente revestido de pedra, atingiria a profundidade de<br \/>\n    novecentos p&eacute;s. No fundo, o trabalho dos pedreiros repousava sobre<br \/>\n    um cubo maci&ccedil;o medindo trinta p&eacute;s de espessura, ao passo que<br \/>\n    no seu limite superior aflorava 0 solo.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane e os membros do Clube do Canh&atilde;o felicitaram<br \/>\n    calorosamente o engenheiro Murchison; o seu trabalho cicl&oacute;pico fora<br \/>\n    realizado em extraordin&aacute;rias condi- &ccedil;&otilde;es de rapidez.<\/p>\n<p> Durante esses oito meses, Barbicane n&atilde;o saiu nem por um instante<br \/>\n    da Colina das Pedras; enquanto seguia de perto as opera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de perfura&ccedil;&atilde;o, inquietava-se incessantemente com o bem-estar<br \/>\n    e a sa&uacute;de dos trabalhadores e teve a sorte de conseguir evitar epidemias<br \/>\n    comuns &agrave;s grandes aglomera&ccedil;&otilde;es de homens, t&atilde;o<br \/>\n    desastrosas nessas regi&otilde;es do Globo, expostas a todas as influ&ecirc;ncias<br \/>\n    clim&aacute;ticas.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que muitos oper&aacute;rios pagaram com a vida as imprud&ecirc;ncias<br \/>\n    inerentes a esses perigosos trabalhos; mas essas deplor&aacute;veis desgra&ccedil;as<br \/>\n    s&atilde;o imposs&iacute;veis de evitar, e s&atilde;o pormenores com que os<br \/>\n    americanos se preocupam muito pouco. Preocupam-se mais com a humanidade e<br \/>\n    geral do que com o indiv&iacute;duo em particular. No entanto, Barbicane professava<br \/>\n    os princ&iacute;pios contr&aacute;rios e aplicava os em todas as ocasi&otilde;es.<br \/>\n    Assim, gra&ccedil;as aos seus cuidados, &agrave; sua intelig&ecirc;ncia, &agrave;<br \/>\n    sua &uacute;til interven&ccedil;&atilde;o nos casos dif&iacute;ceis, &agrave;<br \/>\n    sua prodigiosa sagacidade, a m&eacute;dia das cat&aacute;strofes n&atilde;o<br \/>\n    ultrapassou a dos pa&iacute;ses do Velho Continente citados pelo seu luxo<br \/>\n    de precau&ccedil;&otilde;es, entre outros a Frali&ccedil;a, onde, se d&aacute;<br \/>\n    uma m&eacute;dia de um acidente por cada duzentos mil francos de trabalho.<\/p>\n<p> Durante os oito meses que foram utilizados na opera&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    perfura&ccedil;&atilde;o, os trabalhos preparat&oacute;rios da fundi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham sido conduzidos simultaneamente e com extrema rapidez; um estrangeiro<br \/>\n    que chegasse na Colina das Pedras ficaria muito surpreendido com o espet&aacute;culo<br \/>\n    que se oferecia aos seus olhos.<\/p>\n<p> A seiscentas jardas do po&ccedil;o, e dispostos circularmente em redor desse<br \/>\n    ponto central, erguiam-se mil e duzentos fornos de reverbera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com a largura de seis p&eacute;s cada um e separados uns dos outros por uni<br \/>\n    intervalo de meia toesa.<\/p>\n<p> A linha desenvolvida por esses mil e duzentos fornos atingia um comprimento<br \/>\n    de duas milhas. Eram todos constru&iacute;dos pelo mesmo modelo, com a sua<br \/>\n    alta chamin&eacute; quadrangular, e produziam o efeito mais singular. J. T.<br \/>\n    Maston achava soberba essa disposi&ccedil;&atilde;o arquitetural. Lembrava-lhe<br \/>\n    os monumentos de Washington. Para ele n&atilde;o existia nada mais belo, mesmo<br \/>\n    na Gr&eacute;cia, ?onde, de resto, dizia ele, ?nunca estive?.<\/p>\n<p> Lembram-se certamente de que na terceira sess&atilde;o a comiss &atilde;o<br \/>\n    se decidiu a utilizar o ferro fundido para columbiad, especialmente ferro<br \/>\n    fundido gris. Esse metal &eacute;, com efeito, mais tenaz, mais d&uacute;ctil,<br \/>\n    mais macio, apropriado para todas as opera&ccedil;&otilde;es de moldagem,<br \/>\n    e tratado com o carv&atilde;o mineral &eacute; de uma qualidade superior para<br \/>\n    as pe&ccedil;as de grande resist&ecirc;ncia, como canh&otilde;es, cilindros<br \/>\n    de m&aacute;quinas a vapor, prensas hidr&aacute;ulicas, etc.<\/p>\n<p> Contudo, a fundi&ccedil;&atilde;o, se sofre apenas uma fus&atilde;o, raramente<br \/>\n    fica suficientemente homog&ecirc;nea, e &eacute; por meio de uma segunda fus&atilde;o<br \/>\n    que ?se depura e refina o ferro fundido, desembara &ccedil;ando-o dos seus<br \/>\n    &uacute;ltimos dep&oacute;sitos terrosos.<\/p>\n<p> Assim, antes de ser enviado para Tampa, o min&eacute;rio de ferro, tratado<br \/>\n    nos altos-fornos de Goldspring e posto em contato com carv&atilde;o e sil&iacute;cio<br \/>\n    aquecido a uma alta temperatura, tinha sido carbonado e transformado em ferro<br \/>\n    fundido.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s essa primeira opera&ccedil;&atilde;o, o metal foi transportado<br \/>\n    para a Colina das Pedras. Mas tratava-se de cento e trinta e seis milh&otilde;es<br \/>\n    de libras de ferro fundido, quantidade muito dif&iacute;cil de enviar pela<br \/>\n    estrada de ferro. Os pre&ccedil;os do transporte duplicariam o pre&ccedil;o<br \/>\n    do material. Pareceu prefer&iacute;vel fretar navios em Nova Iorque e carreg&aacute;-los<br \/>\n    com o ferro fundido em barras; foram necess&aacute;rias nada menos de sessenta<br \/>\n    e oito embarca&ccedil;&otilde;es de mil toneladas, unia verdadeira frota,<br \/>\n    que, a 3 de maio, saiu do porto de Nova Iorque e tomou a via do oceano ao<br \/>\n    longo das costas americanas.<\/p>\n<p> ?Depois entrou no canal das Baamas, dobrou a ponta da Fl&oacute;rida e a<br \/>\n    10 do mesmo m&ecirc;s, subindo a ba&iacute;a do Esp&iacute;rito Santo, foi<br \/>\n    ancorar no porto de Tampa- Ali, os navios foram descarregados para os vag&otilde;es<br \/>\n    da estrada de ferro da Colina das Pedras, e, em meados de ja neiro, toda aquela<br \/>\n    enorme quantidade de metal se encontrava no seu destino.<\/p>\n<p> Compreende-se facilmente que n&atilde;o eram demais mil e duzentos fornos<br \/>\n    para liquefazer ao mesmo tempo sessenta mil toneladas de ferro. Cada um &#8211;<br \/>\n    desses fornos podia conter perto de cento e quatorze mil libras de metal;<br \/>\n    tinham sido constru&iacute;dos segundo o modelo daqueles que serviram para<br \/>\n    a fundi&ccedil;&atilde;o do canh&atilde;o de Rodman; eram de forma trapezoidal,<br \/>\n    e muito baixos.<\/p>\n<p> A fornalha e a chamin&eacute; encontravam-se nas duas extremidades do forno,<br \/>\n    de tal modo que este era aquecido em toda a sua extens&atilde;o. Esses fornos,<br \/>\n    constru&iacute;dos com tijolos refrat&aacute;rios, compunham-se unicamente<br \/>\n    de uma grelha, para queimar a hulha e de um crisol sobre o qual se colocavam<br \/>\n    as barras de ferro para serem fundidas; esse crisol, inclinado por uni &acirc;ngulo<br \/>\n    de vinte e cinco graus, permitia que o metal se escoasse para as caldeiras<br \/>\n    de recep&ccedil;&atilde;o, de onde mil e duzentas caldeiras convergentes o<br \/>\n    conduziam para o po&ccedil;o central.<\/p>\n<p> No dia seguinte &agrave;quele em que os trabalhos de pedreiro e de perfura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terminaram, Barbicane mandou proceder &agrave; confec&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    molde interno; tratava-se de erguer no centro do po&ccedil;o, e na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu eixo, um cilindro com a altura de novecentos p&eacute;s e a largura<br \/>\n    de nove, que enchesse exatamente o espa&ccedil;o reservado para a alma do<br \/>\n    columbiad. Esse cilindro foi feito de uma mistura de terra argilosa e de areia<br \/>\n    com feno e palha. 0 intervalo que ficava entre o molde interno e o revestimento<br \/>\n    de alvenaria devia ser preenchido pelo metal fundido, que assim formaria uma<br \/>\n    parede de seis p&eacute;s de espessura em tomo do molde.<\/p>\n<p> Esse cilindro, para se manter em equil&iacute;brio, teve de ser consolidado<br \/>\n    com armaduras de ferro e amparado de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o com escoras<br \/>\n    chumbadas, que contornavam o revestimento de pedra; ap&oacute;s a fundi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    essas escoras deviam ficar perdidas no grosso da massa de metal, o que, ali&aacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o oferecia inconveniente algum.<\/p>\n<p> Essa opera&ccedil;&atilde;o terminou a 8 de julho, e a moldagem foi marcada<br \/>\n    para o dia seguinte.<\/p>\n<p> &#8211; A festa da fundi&ccedil;&atilde;o vai ser uma bela cerim&ocirc;nia &#8211; disse<br \/>\n    J. T.<\/p>\n<p> Maston ao seu amigo Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Barbicane -; mas n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    uma festa p&uacute;blica.<\/p>\n<p> &#8211; Como! N&atilde;o quer abrir as portas do recinto a quem aparecer? &#8211; Nem<br \/>\n    pensar nisso, Maston; a fundi&ccedil;&atilde;o do columbiad &eacute; uma opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delicada, para n&atilde;o dizer perigosa, e prefiro que se efetue a portas<br \/>\n    fechadas. &Agrave; partida do proj&eacute;til fazemos festa, se quiserem,<br \/>\n    mas antes disso n&atilde;o.<\/p>\n<p> 0 presidente tinha raz&atilde;o; a opera&ccedil;&atilde;o podia oferecer<br \/>\n    perigos inesperados, aos quais uma grande aflu&ecirc;ncia de espectadores<br \/>\n    tornaria dif&iacute;cil remediar. Era preciso conservar a liberdade de movimentos.<br \/>\n    N&atilde;o foi, portanto, admitido ningu &eacute;m no recinto, com exce&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma delega&ccedil;&atilde;o dos membros do Clube do Canh&atilde;o, que<br \/>\n    fez a viagem at&eacute; Tampa.<\/p>\n<p> Viu-se ent&atilde;o o elegante Bilsby, Tom Hunter, o Coronel Blomsberry,<br \/>\n    o Major Elphiston, o General Morgan e tutti quanti para quem a fundi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do columbiad se tornava um assunto pessoal. J. T. Maston tinha-se feito seu<br \/>\n    cicerone e n&atilde;o lhes omitiu pormenor algum: conduziu-os por toda a parte,<br \/>\n    levou-os aos armaz&eacute;ns, &agrave;s oficinas, para o meio das m&aacute;quinas<br \/>\n    e for&ccedil;ou os a visitar os mil e duzentos fornos uns ap&oacute;s outros.<br \/>\n    Na &uacute;ltima visita, os homens mostraram-se um tanto cansados.<\/p>\n<p> A fundi&ccedil;&atilde;o devia ter lugar ao meio-dia em ponto; na v&eacute;spera,<br \/>\n    cada forno fora carregado com cento e quatorze libras de metal em barras,<br \/>\n    dispostas em pilhas cruzadas, a fim de o ar quente poder circular livremente<br \/>\n    entre elas.<\/p>\n<p> Desde essa manh&atilde;, as mil e duzentas chamin&eacute;s vomitavam para<br \/>\n    a atmosfera as suas torrentes de chamas, e o solo era atingido por surdas<br \/>\n    trepida&ccedil;&otilde;es. As libras de metal a fundir eram tantas quantas<br \/>\n    as libras de hulha a serem queimadas. Eram, portanto, sessenta e oito mil<br \/>\n    toneladas de carv&atilde;o, que projetava diante do disco do Sol uma espessa<br \/>\n    cortina de fuma&ccedil;a negra.<\/p>\n<p> 0 calor tornou-se em breve insuport&aacute;vel no recinto dos fornos, cujos<br \/>\n    roncos se assemelhavam ao ribombar do trov &atilde;o; poderosos ventiladores<br \/>\n    saturavam continuamente de oxig&ecirc;nio todos aqueles focos incandescentes.<\/p>\n<p> A opera&ccedil;&atilde;o, para ter &ecirc;xito, precisava de ser rapidamente<br \/>\n    conduzida. Ao sinal dado por um tiro de canh&atilde;o, cada forno devia dar<br \/>\n    passagem &agrave; fus&atilde;o e vasar-se rapidamente.<\/p>\n<p> Tomadas essas disposi&ccedil;&otilde;es, chefes e oper&aacute;rios tiveram<br \/>\n    o momento determinado com uma impaci&ecirc;ncia misturada com uma certa emo&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o havia mais ningu&eacute;m no recinto, e cada contramestre<br \/>\n    fundidor encontrava-se no seu posto junto das aberturas por onde devia sair<br \/>\n    o metal em fus&atilde;o.<\/p>\n<p> Barbicane e os seus colegas, instalados numa eleva&ccedil;&atilde;o pr&oacute;-<br \/>\n    xima, assistiam &agrave; opera&ccedil;&atilde;o. Diante deles encontrava-se<br \/>\n    uma pe&ccedil;a de artilharia, pronta a fazer fogo a um sinal do engenheiro.<\/p>\n<p> Alguns minutos antes do meio-dia, as primeiras gotinhas de metal come&ccedil;aram<br \/>\n    a aparecer, as caldeiras para onde elas corriam encheram-se pouco a pouco,<br \/>\n    e, quando a liquefa&ccedil;&atilde;o do metal ficou completa, deixaram-nos<br \/>\n    assentar durante alguns instantes, a fim de facilitar a separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de subst&acirc;ncias estranhas.<\/p>\n<p> Soou o meio-dia. Um tiro de canh&atilde;o troou subitamente lan&ccedil;ando<br \/>\n    o seu clar&atilde;o para os ares. Mil e duzentas aberturas por onde passava<br \/>\n    a lava abriram-se ao mesmo tempo, mil e duzentas serpentes de fogo alastraram-se<br \/>\n    para o po&ccedil;o central, desenrolando-se em an&eacute;is incandescentes.<br \/>\n    Ali, precipitaram- se, com um ru&iacute;do assustador, para uma profundidade<br \/>\n    de novecentos p&eacute;s. Era um espet&aacute;culo magn&iacute;fico e comovente.<br \/>\n    0 solo tremia, enquanto aquele oceano de ferro em fus&atilde;o, lan&ccedil;ando<br \/>\n    para o c&eacute;u turbilh&otilde;es de fumo, volatilizava ao mesmo tempo a<br \/>\n    umidade do molde e a expulsava pelas aberturas do revestimento de pedra sob<br \/>\n    a forma de vapores impenetr&aacute;veis. Essas nuvens artificiais desenrolavam<br \/>\n    as suas espessas espirais e ergueram-se para o z&ecirc;nite at&eacute; a uma<br \/>\n    altura de quinhentas toesas. Algum ind&iacute;- gena que vagueasse para al&eacute;m<br \/>\n    dos limites do horizonte julgaria tratar-se da forma&ccedil;&atilde;o de uma<br \/>\n    nova cratera nas entranhas da Fl&oacute;rida, e no entanto n&atilde;o se tratava<br \/>\n    de erup- &ccedil;&atilde;o, nem de tromba, nem de tempestade, nem de luta<br \/>\n    de elementos, nem de nenhum desses terr&iacute;veis fen&ocirc;menos que a<br \/>\n    natureza &eacute; capaz de produzir! N&atilde;o! S&oacute; o homem criara<br \/>\n    aqueles vapores avermelhados, aquelas chamas gigantescas dignas de um vulc&atilde;o,<br \/>\n    aquelas ruidosas trepida- &ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s sacudidelas<br \/>\n    de um tremor de terra, aqueles rugidos rivais dos furac&otilde;es e das tempestades,<br \/>\n    e era a sua m&atilde;o que precipitava, num abismo cavado por ela, toda uma<br \/>\n    catarata de metal em fus&atilde;o.<\/p>\n<p> Teria a opera&ccedil;&atilde;o da fundi&ccedil;&atilde;o tido &ecirc;xito?<br \/>\n    A resposta n&atilde;o sala de simples conjetura. No entanto, tudo levava a<br \/>\n    crer no &ecirc;xito, visto que o molde absorvera toda a massa do metal fundido<br \/>\n    nos fornos. Fosse como fosse, devia ser imposs &iacute;vel, durante muito<br \/>\n    tempo, verific&aacute;-lo diretamente.<\/p>\n<p> Realmente, quando o Major Rodman fundiu o seu canh&atilde;o de cento e sessenta<br \/>\n    mil libras, foram necess&aacute;rios quinze dias para se dar o arrefecimento.<br \/>\n    Quanto tempo levaria ent&atilde;o o monstruoso columbiad, coroado pelos seus<br \/>\n    vapores de fumo e defendido pelo seu calor intenso, a aparecer aos olhos dos<br \/>\n    seus admiradores? Era dif&iacute;cil de calcular.<\/p>\n<p> A impaci&ecirc;ncia dos membros do Clube do, Canh&atilde;o foi posta a uma<br \/>\n    dura prova durante esse lapso de tempo. Mas nada se podia fazer. J. T. Maston<br \/>\n    quase ia ficando assado devido &agrave; sua dedica&ccedil;&atilde;o. Quinze<br \/>\n    dias ap&oacute;s a fundi&ccedil;&atilde;o, ainda se erguia para o c&eacute;u<br \/>\n    uma imensa coluna de fumo, e o solo queimava os p&eacute;s num raio de duzentos<br \/>\n    passos em redor do cume da colina.<\/p>\n<p> Os dias foram passando e as semanas somaram-se umas &agrave;s outras. N&atilde;o<br \/>\n    havia qualquer meio de arrefecer o imenso cilindro. Era preciso paci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e os membros do Clube do.<\/p>\n<p> Canh&atilde;o n&atilde;o tinham outro rem&eacute;dio sen&atilde;o esperar.<\/p>\n<p> &#8211; Estamos a 10 de agosto &#8211; disse uma manh&atilde; J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Apenas quatro meses nos separam do dia 1? de dezembro! Retirar o molde<br \/>\n    interior, calibrar a alma da pe&ccedil;a, carregar o columbiad! Falta fazer<br \/>\n    tudo isto! N&atilde;o estaremos prontos! Nem sequer podemos nos aproximar<br \/>\n    do canh&atilde;o! Nunca mais arrefecer&aacute;! Isto seria uma cruel mistifica&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Tentaram acalmar o impaciente secret&aacute;rio, mas debalde..<\/p>\n<p> S&oacute; Barbicane n&atilde;o dizia nada, mas o seu sil&ecirc;ncio escondia<br \/>\n    uma surda irrita&ccedil;&atilde;o. Ver-se detido por um obst&aacute;culo que<br \/>\n    s&oacute; o tempo poderia remediar &#8211; o tempo, um inimigo tem&iacute;- vel<br \/>\n    nas circunst&acirc;ncias &#8211; e estar &agrave; merc&ecirc; do inimigo era duro<br \/>\n    para homens habituados &agrave; guerra.<\/p>\n<p> No entanto, as observa&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias permitiram observar<br \/>\n    uma certa mudan&ccedil;a no estado do solo. Por volta de 15 de agosto, os<br \/>\n    vapores projetados tinham diminu&iacute;do consideravelmente de intensidade<br \/>\n    e de espessura. Alguns dias depois, j&aacute; o terreno exalava apenas um<br \/>\n    ligeiro vapor, &uacute;ltimo alento do monstro fechado no seu caix&atilde;o<br \/>\n    de pedra. Pouco a pouco, os estremecimentos do solo acalmaram-se e o c&iacute;rculo<br \/>\n    de calor diminuiu; os espectadores mais impacientes foram-se aproximando;<br \/>\n    num dia ganharam duas toesas; no dia seguinte quatro, e no dia 22 de agosto,<br \/>\n    Barbicane, os seus colegas e o engenheiro puderam finalmente pisar a parte<br \/>\n    de metal solidificado que cobria o cimo da Colina das Pedras, local por certo<br \/>\n    muito acolhedor, porque n&atilde;o era permitido ter ali os p&eacute;s frios.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; que enfim! &#8211; declarou o presidente do Clube do Canh &atilde;o<br \/>\n    com um imenso suspiro de satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Nesse mesmo dia recome&ccedil;aram os trabalhos. Procedeuse imediatamente<br \/>\n    &agrave; extra&ccedil;&atilde;o do molde interior, a fim de libertar a parte<br \/>\n    interna da pe&ccedil;a; a picareta, o alvi&atilde;o, as ferramentas de broca<br \/>\n    funcionaram sem descanso; o barro argiloso e a areia tinham adquirido uma<br \/>\n    resist&ecirc;ncia extrema sob a a&ccedil;&atilde;o do calor; mas, com a ajuda<br \/>\n    das m&aacute;quinas, conseguiram manobrar a mistura ainda escaldante pelo<br \/>\n    contato com as paredes de ferro fundido. Desembarque do proj&eacute;til em<br \/>\n    Stones Hill materiais extra&iacute;dos foram rapidamente levados em carros<br \/>\n    movidos a vapor, e todos trabalharam t&atilde;o bem, o ardor foi tal, a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Barbicane foi t&atilde;o premente e os argumentos 1 foram apresentados<br \/>\n    com tal for&ccedil;a sob a forma de d&oacute;lares que, a 3 de setembro, todos<br \/>\n    os vest&iacute;gios do molde tinham desaparecido.<\/p>\n<p> Come&ccedil;ou imediatamente a opera&ccedil;&atilde;o de calibragem; as<br \/>\n    m&aacute;quinas foram instaladas sem demora e as poderosas brocas de polir<br \/>\n    come&ccedil;aram a alisar as rugosidades do ferro fundido. Algumas semanas<br \/>\n    mais tarde, a superf&iacute;cie interna do imenso tubo tinha totalmente assegurada<br \/>\n    a sua forma cil&iacute;ndrica e a alma da pe&ccedil;a adquirido um polimento<br \/>\n    perfeito.<\/p>\n<p> Finalmente, a 22 de setembro, menos de um ano ap&oacute;s a comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Barbicane, o enorme engenho, rigorosamente calibrado e de uma verticalidade<br \/>\n    absoluta, verificada por meio de instrumentos delicados, estava pronto a funcionar.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o s&oacute; era preciso esperar pela Lua, mas tinham a certeza<br \/>\n    de que ela n&atilde;o faltaria ao encontro.<\/p>\n<p> A alegria de J. T. Maston n&atilde;o conheceu limites, e esteve prestes<br \/>\n    a uma queda horrorosa, quando tentava perscrutar o fundo do enorme tubo de<br \/>\n    novecentos p&eacute;s. Sem o bra&ccedil;o direito de Blomsberry, que o digno<br \/>\n    coronel tinha felizmente conservado, o secret&aacute;rio do Clube do Canh&atilde;o,<br \/>\n    como um novo Er&oacute;strato, teria encontrado a morte nas Profundezas do<br \/>\n    columbiad.<\/p>\n<p> 0 canh&atilde;o estava, portanto, terminado; n&atilde;o restavam d&uacute;-<br \/>\n    vidas poss&iacute;veis sobre a sua perfeita constru&ccedil;&atilde;o; assim,<br \/>\n    a 6 de outubro, o Capit&atilde;o? Nicoles pagou a aposta ao Presidente Barbicane<br \/>\n    e este inscreveu nos seus livros, na coluna das receitas, uma quantia de dois<br \/>\n    mil d&oacute;lares.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">Cap&iacute;tulo IX &#8211; Michel Ardan<\/a><\/h4>\n<p>Os grandes trabalhos empreendidos pelo Clube do Canh&atilde;o estavam, por<br \/>\n    assim dizer, terminados, e entretanto iriam decorrer ainda dois meses antes<br \/>\n    de chegar o dia em que o proj&eacute;til seria lan&ccedil;ado para a Lua.<br \/>\n    Dois meses que deviam parecer longos como anos para a impaci&ecirc;ncia universal!<br \/>\n    At&eacute; ent&atilde;o as m&iacute;nimas perip&eacute;cias da opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinham sido diariamente reproduzidas. pelos jornais, que eram? devorados com<br \/>\n    um olhar &aacute;vido e apaixonado; mas era de temer que da&iacute; em diante<br \/>\n    esse ?dividendo de not&iacute;cias e interesses ? distribu&iacute;do pelo<br \/>\n    p&uacute;blico fosse diminuindo, e todos se assustavam por ver desaparecer<br \/>\n    a sua parte de emo- &ccedil;&otilde;es quotidianas.<\/p>\n<p> No entanto, isso n&atilde;o sucedeu; o incidente mais inesperado, mais extraordin&aacute;rio,<br \/>\n    mais incr&iacute;vel, veio de novo fanatizar os esp&iacute;ritos e lan&ccedil;ar<br \/>\n    o Mundo. numa excita&ccedil;&atilde;o pungente.<\/p>\n<p> No dia 30 de setembro, &agrave;s tr&ecirc;s horas e quarenta e sete minutos<br \/>\n    da noite, um telegrama, transmitido pelo cabo submarino entre Valentia (Irlanda),<br \/>\n    a Terra Nova e a costa americana, chegou endere&ccedil;ado ao Presidente Barbicane.<\/p>\n<p> 0 digno presidente abriu o envelope, leu o telegrama e, apesar de todo o<br \/>\n    seu autodom&iacute;nio, os seus l&aacute;bios empalideceram e os olhos perturbaram-se<br \/>\n    com a leitura das palavras desse telegrama.<\/p>\n<p> Eis o texto desse despacho, que agora figura nos arquivos do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> ?Fran&ccedil;a, Paris 30 de setembro, quatro horas da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Barbicane, Tampa, Fl&oacute;rida &#8211; Estados Unidos Substitua obus por proj&eacute;til<br \/>\n    cilindro c&ocirc;nico. Partirei dentro. Chegarei vapor Atlanta.<\/p>\n<p> Michel Ardan.? Se aquela not&iacute;cia fulminante, em vez de voar sobre<br \/>\n    os fios el&eacute;tricos, tivesse chegado simplesmente pelo correio, num envelope<br \/>\n    fechado, se os empregados franceses, irlandeses, da Terra Nova, americanos,<br \/>\n    n&atilde;o tivessem necessariamente conhecimento do telegrama, Barbicane n&atilde;o<br \/>\n    teria hesitado um s&oacute; momento. Ter-se-ia calado por medida de prud&ecirc;ncia<br \/>\n    e para n&atilde;o desconsiderar a sua obra. Aquele telegrama podia esconder<br \/>\n    uma mistifica&ccedil;&atilde;o, sobretudo vindo da parte de um franc&ecirc;s.<br \/>\n    Era preciso que um homem fosse muito audacioso para conceber sequer a id&eacute;ia<br \/>\n    de uma tal viagem. E, se esse homem existia, n&atilde;o seria um louco que<br \/>\n    urgia encerrar numa cela e n&atilde;o numa bala? Todavia, o telegrama era<br \/>\n    conhecido, pois os aparelhos de transmiss&atilde;o s&atilde;o pouco discretos<br \/>\n    por natureza e a proposta de Michel Ardan corria j&aacute; pelos diversos<br \/>\n    Estados da Uni&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim, Barbicane n&atilde;o tinha qualquer motivo para se calar.<\/p>\n<p> Reuniu, portanto, os seus colegas presentes em Tampa e, sem deixar ver o<br \/>\n    seu pensamento, sem discutir o cr&eacute;dito que o telegrama pudesse merecer,<br \/>\n    limitou-se a ler friamente o lac&ocirc;nico texto.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel! &Eacute; inveross&iacute;mil! Pura<br \/>\n    brincadeira! Tro&ccedil;aram de n&oacute;s! Rid&iacute;culo! Absurdo! &#8211; Toda<br \/>\n    a s&eacute;rie de express&otilde;es que servem para exprimir a d&uacute;vida,<br \/>\n    a incredulidade, a tolice, a loucura prosseguiu durante v&aacute;rios minutos,<br \/>\n    gestos que habitualmente acompanham essas express&otilde;es. Cada um sorria,<br \/>\n    ria, encolhia os ombros ou ria, &agrave;s gargalhadas, conforme a sua disposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; J. T. Maston teve estas palavras soberbas: &#8211; &Eacute; uma id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; respondeu-lhe o major -, mas, se algumas vezes nos &eacute; permitido<br \/>\n    ter id&eacute;ias como esta, &eacute; com a condi&ccedil;&atilde;o de nem<br \/>\n    sequer pensar em as p&ocirc;r em execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E por que n&atilde;o? &#8211; replicou vivamente o secret&aacute;rio do Clube<br \/>\n    do Canh&atilde;o, pronto para discutir. Mas n&atilde;o quiseram excit&aacute;-<br \/>\n    lo mais.<\/p>\n<p> No entanto, o nome de Michel Ardan circulava j&aacute; na cidade de Tampa.<br \/>\n    Os estrangeiros e os do local olhavam-se e dizi am gra&ccedil;as, n&atilde;o<br \/>\n    a respeito desse europeu &#8211; um mito, um indiv&iacute;duo quim&eacute;rico -,<br \/>\n    mas a respeito de J. T. Maston, que acreditava na exist&ecirc;ncia dessa personagem<br \/>\n    lend&aacute;ria.<\/p>\n<p> Quando Barbicane prop&ocirc;s o envio de um proj&eacute;til &agrave; Lua<br \/>\n    todos acharam natural, pratic&aacute;vel, um puro assunto de bal&iacute;stica!<br \/>\n    Mas que um ser racional se oferecesse para embarcar nesse proj&eacute;til<br \/>\n    a fim de tentar essa viagem inveross&iacute;mil, era uma proposta fantasista,<br \/>\n    uma brincadeira, uma farsa, e, para utilizar uma palavra de que os franceses<br \/>\n    t&ecirc;m a tradu- &ccedil;&atilde;o exata na sua linguagem familiar, um humbug<br \/>\n    (mistifica- &ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p> As tro&ccedil;as duraram at&eacute; a noite e pode dizer-se que toda a Am&eacute;rica<br \/>\n    do Norte foi tomada de riso, o que n&atilde;o &eacute; nada habitual num pa&iacute;s<br \/>\n    em que as empresas imposs&iacute;veis encontram facilmente adeptos, partid&aacute;rios.<\/p>\n<p> No entanto, a proposta de Michel Ardan, como to as id&eacute;ias novas,<br \/>\n    n&atilde;o deixava de perturbar certos esp&iacute;ritos. Isto alterava o curso<br \/>\n    das emo&ccedil;&otilde;es habituais. ?N&atilde;o t&iacute;nhamos pensado nisto!?<br \/>\n    Esse incidente tornou-se em breve uma obsess &atilde;o pela sua pr&oacute;pria<br \/>\n    estranheza. Pensavam nele. Quantas coisas negadas na v&eacute;spera que o<br \/>\n    dia seguinte tornou realidade! Por que raz&atilde;o n&atilde;o se faria um<br \/>\n    dia essa viagem? Em todo caso, por&eacute;m, o homem que assim queria arriscar-se<br \/>\n    devia ser louco, e decididamente, visto que o seu projeto n&atilde;o podia<br \/>\n    ser levado a s&eacute;rio; teria sido melhor calar-se, em vez de perturbar<br \/>\n    toda a gente com as suas fantasias rid&iacute;culas.<\/p>\n<p> . Por&eacute;m, antes de mais nada, existiria realmente essa personagem?<br \/>\n    Grande pergunta! Aquele nome, ?Michel Ardan?, n&atilde;o era desconhecido<br \/>\n    na Am&eacute;rica! Pertencia a um europeu muito citado pelos seus empreendimentos<br \/>\n    audaciosos. Depois, o telegrama lan&ccedil;ado atrav&eacute;s das profundezas<br \/>\n    do Atl&acirc;ntico, essa designa&ccedil;&atilde;o do navio em que viajava,<br \/>\n    a data da chegada pr&oacute;xima &#8211; todas essas circunst&acirc;ncias davam<br \/>\n    &agrave; proposta um certo car&aacute;ter de verossimilhan&ccedil;a. Era preciso<br \/>\n    esclarecer o caso. Em breve, os indiv&iacute;duos isolados reuniram- se em<br \/>\n    grupos; os grupos foram-se condensando sob a influ&ecirc;ncia da curiosidade,<br \/>\n    como &aacute;tomos em virtude da atra&ccedil;&atilde;o molecular, e, finalmente,<br \/>\n    resultou dai uma multid&atilde;o compacta que se dirigiu para a resid&ecirc;ncia<br \/>\n    do Presidente Barbicane.<\/p>\n<p> Este, desde a chegada do telegrama n&atilde;o se tinha pronunciado; havia<br \/>\n    permitido que se divulgasse a opini&atilde;o de J. T.<\/p>\n<p> Maston, sem manifestar aprova&ccedil;&atilde;o nem censura; mantinha- se<br \/>\n    calado e propunha-se esperar pelos acontecimentos; mas n&atilde;o contava<br \/>\n    com a impaci&ecirc;ncia p&uacute;blica, e foi com um olhar satisfeito que<br \/>\n    viu a popula&ccedil;&atilde;o de Tampa amontoar- se sob as suas janelas. Em<br \/>\n    breve, os murm&uacute;rios e as vocifera&ccedil;&otilde;es o obrigaram a aparecer.<\/p>\n<p> Vemos que ele tinha todos os privil&eacute;gios e, por conseq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    todos os aborrecimentos da celebridade.<\/p>\n<p> Apareceu ent&atilde;o &agrave; janela. Fez-se sil&ecirc;ncio, e um cidad&atilde;o,<br \/>\n    tomando a palavra, fez-lhe claramente a pergunta seguinte: &#8211; A personagem<br \/>\n    chamada Michel Ardan vem ou n&atilde;o a caminho da Am&eacute;rica? _ Senhores<br \/>\n    &#8211; respondeu Barbicane -, sei tanto quanto v&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; preciso sab&ecirc;-lo! &#8211; exclamaram vozes impacientes.<\/p>\n<p> &#8211; 0 tempo n&atilde;o tem o direito de manter um pa&iacute;s inteiro suspenso<br \/>\n    &#8211; replicou o orador. &#8211; Modificou os planos do proj&eacute;til como pede o<br \/>\n    telegrama? &#8211; Ainda n&atilde;o, senhores; mas t&ecirc;m raz&atilde;o, temos<br \/>\n    de saber com o que contamos. 0 tel&eacute;grafo, que causou toda esta emo&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    poder&aacute; dar-nos as informa&ccedil;&otilde;es que nos faltam.<\/p>\n<p> &#8211; Ao tel&eacute;grafo! Ao tel&eacute;grafo! &#8211; gritou a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Barbicane desceu e, precedendo a imensa multid&atilde;o, dirigiuse para<br \/>\n    os escrit&oacute;rios da administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Alguns minutos mais tarde, era enviado um telegrama para o escrit&oacute;rio<br \/>\n    dos armadores de navios de Liverpool. Pedia resposta &agrave;s seguintes perguntas:<br \/>\n    ?Que esp&eacute;cie de navio &eacute; o Atlanta? ?Quando deixou a Euro pa??<br \/>\n    ?Traz a bordo um franc&ecirc;s chamado Michel Ardan ? Duas horas depois Barbicane<br \/>\n    recebia informa&ccedil;&otilde;es de uma precis&atilde;o que n&atilde;o dava<br \/>\n    lugar &agrave; menor d&uacute;vida.<\/p>\n<p> ?0 navio Atlanta, de Liverpool, partiu a 2 de outubro, para Tampa e leva<br \/>\n    a bordo um franc&ecirc;s inscrito no livro dos passageiros com o nome de Michel<br \/>\n    Ardan.? Ao ter a confirma&ccedil;&atilde;o do primeiro telegrama, os olhos<br \/>\n    do presidente brilharam com uma chama s&uacute;bita, os seus punhos fecharam-se<br \/>\n    violentamente e ouviram-no murmurar: &#8211; &Eacute; ent&atilde;o verdade! &Eacute;,<br \/>\n    portanto, poss&iacute;vel! Esse franc&ecirc;s existe! E dentro de quinze dias<br \/>\n    estar&aacute; aqui! Mas &eacute; um louco! Um c&eacute;rebro inflamado!&#8230;<br \/>\n    Nunca consentirei&#8230;<\/p>\n<p> No entanto, nessa mesma noite escrevia para a casa Breadwill &amp; C?, pedindo-lhe<br \/>\n    que suspendesse at&eacute; nova ordem a fundi&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> No dia 20 de outubro, &agrave;s nove horas da manh&atilde;, os far&oacute;is<br \/>\n    do Canal das Baamas assinalavam uma espessa fuma&ccedil;a no horizonte. Duas<br \/>\n    horas mais tarde, um grande barco a vapor trocava com eles sinais de reconhecimento.<br \/>\n    Imediatamente, o nome do Atlanta foi enviado para Tampa. As quatro horas,<br \/>\n    o navio ingl&ecirc;s dava entrada na Ba&iacute;a do Esp&iacute;rito Santo.<br \/>\n    &Agrave;s cinco passava na Enseada de Hillisboro a todo o vapor. &Agrave;s<br \/>\n    seis, ancorava no porto de Tampa.<\/p>\n<p> A &acirc;ncora ainda n&atilde;o tinha alcan&ccedil;a do o fundo de areia<br \/>\n    e j&aacute; quinhentas embarca&ccedil;&otilde;es rodeavam o Atlanta, e o navio<br \/>\n    era tomado de assalto. Barbicane foi o primeiro a saltar na amurada do navio<br \/>\n    e, com uma voz cuja emo&ccedil;&atilde;o ele queria em v&atilde;o esconder,<br \/>\n    exclamava: &#8211; Michel Ardan Presente! &#8211; respondeu um indiv&iacute;duo que se<br \/>\n    encontrava no castelo da popa.<\/p>\n<p> Barbicane, de bra&ccedil;os cruzados, de olhar interrogador, olhava silenciosamente<br \/>\n    o passageiro do Atlanta.<\/p>\n<p> Os disc&iacute;pulos de Lavater ou de Gratiolet teriam decifrado sem dificuldade<br \/>\n    no cr&acirc;nio e na fisionomia dessa personagem sinais indiscut&iacute;veis<br \/>\n    de combatividade, isto &eacute;, coragem no perigo e tend&ecirc;ncia para<br \/>\n    deitar abaixo obst&aacute;culos; sinais de benevol&ecirc;ncia e atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo maravilhoso, instinto que leva certas pessoas a se apaixonarem pelas<br \/>\n    coisas sobrehumanas; mas, em compensa&ccedil;&atilde;o, as tend&ecirc;ncias<br \/>\n    de possessividade, dessa necessidade instintiva de possuir e de adquirir,<br \/>\n    faltavam-lhe por completo.<\/p>\n<p> Para concluirmos o tipo f&iacute;sico do passageiro do Atlanta, conv&ecirc;m<br \/>\n    assinalar que as suas roupas eram largas, confort &aacute;veis, com as cal&ccedil;as<br \/>\n    e o casaco feitos com muito tecido, de tal modo que Michel Ardan se denominava<br \/>\n    a si mesmo ?o mata-pano?, a gravata larga, o colarinho da camisa aberto, de<br \/>\n    onde sa&iacute;a um pesco&ccedil;o robusto. Usava normalmente os punhos da<br \/>\n    camisa desabotoados, pondo a descoberto unias m&atilde;os febris. Sentia-se<br \/>\n    que, mesmo no mais forte inverno e dos perigos, aquele homem nunca teria frio<br \/>\n    nem sequer nos olhos.<\/p>\n<p> De resto, no tombadilho do barco, no meio da multid&atilde;o, ele ia e vinha,<br \/>\n    n&atilde;o estando nunca quieto -?navegando sobre as amarras?, como dizem<br \/>\n    os marinheiros -, gesticulando, tratando toda a gente por tu e roendo as unhas<br \/>\n    com uma avidez nervosa: era um desses originais que o Criador inventa num<br \/>\n    momento de fantasia quebrando logo a seguir o molde.<\/p>\n<p> Realmente, a personalidade moral de Michel Ardan oferecia um largo campo<br \/>\n    &agrave;s observa&ccedil;&otilde;es do analista. Esse homem espantoso vivia<br \/>\n    numa eterna disposi&ccedil;&atilde;o para a hip&eacute;rbole e n&atilde;o<br \/>\n    tinha ainda ultrapassado a idade dos superlativos: os objetos surgiam na retina<br \/>\n    dos seus olhos com dimens&otilde;es desmedidas; da&iacute; uma gigantesca<br \/>\n    associa&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias; via tudo em grande, exceto as dificuldades<br \/>\n    e os homens.<\/p>\n<p> Era de resto uma natureza luxuriante, um artista por instinto, uma natureza<br \/>\n    espiritual que n&atilde;o fazia fogo cerrado de ditos chistosos mas que sabia<br \/>\n    esgrimir, como um h&aacute;bil atirador, em qualquer conversa.<\/p>\n<p> Nas discuss&otilde;es preocupava-se pouco com a l&oacute;gica, era rebelde<br \/>\n    aos silogismos, que nunca teria inventado, e tinha argumentos pr&oacute;prios.<br \/>\n    Verdadeiro quebra-vidros, lan&ccedil;ava em pleno peito argumentos ad hominem<br \/>\n    de efeito seguro, e gostava de defender a todo o custo as causas desesperadas.<\/p>\n<p> Entre outras manias, tinha a de se declarar ?um ignorante sublime? como<br \/>\n    Shakespeare, e fazia profiss&atilde;o de menosprezar os s&aacute;bios: ?S&atilde;o<br \/>\n    pessoas?, dizia, ?que apenas marcam os pontos quando n&oacute;s &eacute; que<br \/>\n    jogamos a partida.? Era, em resumo, um bo&ecirc;mio do pa&iacute;s dos montes<br \/>\n    e das maravilhas, aventuroso, mas n&atilde;o aventureiro, um Faetonte conduzindo<br \/>\n    o carro do Sol, um &Iacute;caro com asas sobressalentes.<\/p>\n<p> De resto, era homem que arriscava a s&eacute;rio a pr&oacute;pria pessoa<br \/>\n    e lan&ccedil;ava-se de cabe&ccedil;a nos mais loucos empreendimentos.<\/p>\n<p> Queimava os seus navios com mais pressa que Ag&aacute;tocles, e, pronto<br \/>\n    a arriscar apele a todo o momento, acabava sempre por cair de p&eacute;, como<br \/>\n    esses bonecos jo&atilde;oteimoso com que as crian&ccedil;as se divertem.<\/p>\n<p> Todavia, esse homem empreendedor tinha os defeitos pr&oacute;- prios das<br \/>\n    suas qualidades! Quem n&atilde;o arrisca n&atilde;o petisca, costuma dizer-se.<br \/>\n    Mas Ardan arriscava muitas vezes sem nada conseguir. Era um perdul&aacute;rio,<br \/>\n    um tonel das Danaides.<\/p>\n<p> Homem perfeitamente desinteressado, de resto, tinha t&atilde;o bom cora&ccedil;&atilde;o-<br \/>\n    quanto cabe&ccedil;a. Prest&aacute;vel, cavalheiresco, seria incapaz de assinar<br \/>\n    a senten&ccedil;a de morte do seu mais cruel inimigo, e vender-se-ia a si<br \/>\n    mesmo como escravo para resgatar um negro.<\/p>\n<p> Na Fran&ccedil;a, na Europa, toda a gente conhecia essa brilhante e barulhenta<br \/>\n    personagem. N&atilde;o fazia incessantemente falar dele as cem vozes da Fama<br \/>\n    ao seu servi&ccedil;o? N&atilde;o vivia numa casa de vidro tomando o universo<br \/>\n    inteiro por confidente dos seus mais &iacute;ntimos segredos? Mas possu&iacute;a<br \/>\n    tamb&eacute;m uma admir&aacute;vel cole&ccedil;&atilde;o de inimigos, entre<br \/>\n    aqueles que ele tinha mais ou menos ferido, atirado abaixo sem piedade, acotovelando-<br \/>\n    os para abrir passa em por entre a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> No entanto, geralmente gostavam dele e tratavam-no como crian&ccedil;a mimada.<br \/>\n    Era, segundo a express&atilde;o popular, um homem ?para pegar ou largar?,<br \/>\n    e o caso &eacute; que lhe pegavam.<\/p>\n<p> Todos se interessavam pelas suas enormes ousadias.<\/p>\n<p> A contempla&ccedil;&atilde;o a que se entregava o presidente do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o em presen&ccedil;a daquele rival que o vinha relegar para segundo<br \/>\n    plano foi rapidamente interrompida pelos vivas e hurras da multid&atilde;o.<br \/>\n    Esses gritos tornaram-se mesmo t&atilde;o fren&eacute;ticos e o entusiasmo<br \/>\n    tomou formas t&atilde;o pessoais que Michel Ardan, depois de ter apertado<br \/>\n    centenas de m&atilde;os, nas quais quase ia deixando os seus dez dedos, teve<br \/>\n    de se ir refugiar na sua cabina.<\/p>\n<p> Barbicane segui-o sem ter pronunciado uma s&oacute; palavra.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; Barbicane? &#8211; perguntou-lhe Michel Ardan, quando ficaram a s&oacute;s,<br \/>\n    no tom em que teria falado a um amigo de h&aacute; vinte anos.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; respondeu o presidente do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bem! Bom dia, Barbicane. Como vai isso? Muito bem? Ent&atilde;o tanto<br \/>\n    melhor! Tanto melhor! Ent&atilde;o &#8211; disse Barbicane entrando logo no assunto<br \/>\n    -, est&aacute; decidido a partir? &#8211; Absolutamente decidido.<\/p>\n<p> Nada o deter&aacute;? Nada. Modificou o seu proj&eacute;til como eu pedia<br \/>\n    em meu telegrama? &#8211; Esperava a sua chegada. Mas &#8211; perguntou Barbicane, insistindo<br \/>\n    de novo &#8211; refletiu bem?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Se refleti? Mas tenho algum tempo a perder? Vejo ocasi &atilde;o de ir<br \/>\n    dar um passeio &agrave; Lua aproveito-a, mais nada.<\/p>\n<p> Parece-me que o caso n&atilde;o merece muitas reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> Barbicane devorava com o olhar aquele homem que falava do seu projeto de<br \/>\n    viagem com uma leviandade, uma despreocupa &ccedil;&atilde;o t&atilde;o completa<br \/>\n    e uma t&atilde;o perfeita aus&ecirc;ncia de inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, pelo menos &#8211; disse-lhe -, tem um plano, meios de execu&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; Excelentes, meu caro Barbicane, Mas permita-me que lhe fa&ccedil;a uma observa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    gosto de contar a minha hist&oacute;ria de uma s&oacute; vez a toda a gente<br \/>\n    e que n&atilde;o se fale mais nisso.<\/p>\n<p> Isso evitar&aacute; as repeti&ccedil;&otilde;es. Portanto, salvo melhor<br \/>\n    opini&atilde;o, convoque os seus amigos, os seus colegas, toda a cidade, toda<br \/>\n    a Fl&oacute;rida, toda a Am&eacute;rica, se quiser, e amanh&atilde; estarei<br \/>\n    pronto a expor os meus meios e a responder a todas as obje&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sejam elas quais forem. Isto lhe conv&eacute;m? &#8211; Conv&eacute;m &#8211; respondeu<br \/>\n    Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, o presidente saiu da cabina e comunicou &agrave; multid<br \/>\n    &atilde;o a proposta de Michel Ardan. As suas palavras foram acolhidas com<br \/>\n    exclama&ccedil;&otilde;es de alegria. Isso evitava qualquer dificuldade. No<br \/>\n    dia seguinte, todos poderiam contemplar &agrave; sua vontade o her&oacute;i<br \/>\n    europeu. No entanto, alguns espectadores mais obstinados n&atilde;o quiserem<br \/>\n    deixar a ponte do Atlanta. Passaram a noite a bordo. Entre outros. J. T.<\/p>\n<p> Maston, que tinha atarraxado o gancho na amurada do conv&eacute;s e seria<br \/>\n    preciso um cabrestante para o tirar de l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um her&oacute;i! &#8211; exclamava em todos os tons -, e n&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o passamos de umas mulherzinhas aos p&eacute;s desse europeu! Quanto<br \/>\n    a Barbicane, depois de ter convidado os visitantes a retirarem-se, voltou<br \/>\n    para a cabina do passageiro, e s&oacute; saiu de l&aacute; &agrave; meia-noite.<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">Cap&iacute;tulo X &#8211; A Assembl&eacute;ia<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte, o astro do dia levantou-se muito tarde para a impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    p&uacute;blica. Acharam-no pregui&ccedil;oso, para um Sol que devia iluminar<br \/>\n    semelhante festa. Barbicane, temendo as perguntas, indiscretas para Michel<br \/>\n    Ardan, teria desejado reduzir os seus ouvintes a um pequeno n&uacute;mero<br \/>\n    de adeptos, aos seus colegas, por exemplo. Mas era o mesmo que tentar p&ocirc;r<br \/>\n    um dique no Ni&aacute;gara. Teve, portanto, de renunciar ao seu projeto e<br \/>\n    deixar o seu novo amigo correr os riscos de uma confer&ecirc;ncia p&uacute;blica.<br \/>\n    A nova sala da Bolsa de Tampai apesar das suas dimens&otilde;es colossais,<br \/>\n    foi considerada insuficiente para a cerim&ocirc;nia, pois a reuni&atilde;o<br \/>\n    projetada tomava as propor&ccedil;&otilde;es de um verdadeiro meeting.<\/p>\n<p> 0 local escolhido foi ent&atilde;o uma vasta plan&iacute;cie situada fora<br \/>\n    da cidade; em poucas horas conseguiram abrig&aacute;-la. contra os raios do<br \/>\n    Sol; os navios do porto &#8211; com as suas velas, os seus mastros, os seus aprestos,<br \/>\n    forneceram o material necess&aacute;rio para a constru&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    uma gigantesca barraca.<\/p>\n<p> Em breve, um imenso toldo se estendia sobre a plan&iacute;cie calcinada<br \/>\n    defendendo-a dos ardores do Sol. Ali, trezentas mil pessoas encontraram lugar<br \/>\n    e enfrentaram durante horas uma temperatura sufocante, esperando a chegada<br \/>\n    do franc&ecirc;s. Dessa multid&atilde;o de espectadores a ter&ccedil;a parte<br \/>\n    podia ver e ouvir; um segundo ter&ccedil;o via mal e n&atilde;o ouvia; quanto<br \/>\n    ao terceiro, n&atilde;o via nem ouvia nada.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi no entanto esse ter&ccedil;o o mais avaro em prodigalizar<br \/>\n    os seus aplausos.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s horas, Michel Ardan fez a sua apari&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ?acompanhado pelos principais membros do Clube do Canh&atilde;o. Dava o bra&ccedil;o<br \/>\n    direito ao Presidente Barbicane e o esquerdo a J. T.<\/p>\n<p> Maston, mais radioso que o Sol em pleno meio-dia, e quase t&atilde;o rutilante.<br \/>\n    Ardan subiu a uni estrado, do alto do qual o seu olhar abarcava uma imensa<br \/>\n    extens&atilde;o de chap&eacute;us pretos.<\/p>\n<p> N&atilde;o parecia nada embara&ccedil;ado nem fazia poses. Estava ali como<br \/>\n    em casa, alegre, familiar, ? am&aacute;vel. &Agrave;s aclama- &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que o acolheram respondeu com uma sauda&ccedil;&atilde;o graciosa; depois,<br \/>\n    com a m&atilde;o, pediu sil&ecirc;ncio. Tomou ent&atilde;o a palavra em ingl&ecirc;s<br \/>\n    e exprimiu-se, muito corretamente, nestes termos: &#8211; Senhores, apesar de estar<br \/>\n    muito calor, vou roubar lhes uns momentos para lhes dar umas explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre uns projetos que parecem lhes ter interessado. N&atilde;o sou nem orador<br \/>\n    nem s&aacute;bio e n&atilde;o contava ter de falar em p&uacute;blico, mas<br \/>\n    o meu amigo Barbicane disse &#8211; me que isto lhes daria prazer e eu prontifiquei-me<br \/>\n    a faze-lo. Escutem-me, por tanto, com seiscentos mil ouvidos e desculpe In<br \/>\n    os erros do autor.<\/p>\n<p> Este come&ccedil;o nada cerimonioso agradou muito aos assistentes, que manifestaram<br \/>\n    o seu agrado com um murm&uacute;rio de satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Senhores &#8211; continuou Michel Ardan -, lembrem-se de que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    proibido qualquer sinal de aprova&ccedil;&atilde;o ou de desaprova &ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Dito isto, vou come&ccedil;ar. N&atilde;o esque&ccedil;am que est&atilde;o<br \/>\n    tratando com um ignorante e que a sua ignor&acirc;ncia vai t&atilde;o longe<br \/>\n    que chega a ignorar at&eacute; mesmo as dificuldades. Parece- lhe, portanto,<br \/>\n    que era uma coisa f&aacute;cil, simples, natural, arranjar passagem num proj&eacute;til<br \/>\n    e partir para a Lua.<\/p>\n<p> Essa viagem devia fazer-se mais cedo ou mais tarde, e quanto ao modo de<br \/>\n    locomo&ccedil;&atilde;o adotado, segue simplesmente a lei do progresso. 0<br \/>\n    homem come&ccedil;ou por viajar a quatro patas, depois, um belo dia, sobre<br \/>\n    os dois p&eacute;s, depois de carro&ccedil;a, em seguida de carruagem, depois<br \/>\n    navios de carga, estradas de ferro; pois bem! 0 proj&eacute;til &eacute; o<br \/>\n    meio de transporte do futuro, e a bem dizer os planetas n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    mais que proj&eacute;teis, simples balas de canh&atilde;o lan&ccedil;adas<br \/>\n    pela m&atilde;o do Criador. Mas voltemos ao nosso veiculo. Alguns dos senhores<br \/>\n    julgaram que a velocidade que lhe s&eacute;ria imprimida &eacute; excessiva;<br \/>\n    mas n&atilde;o se verifica isso; todos os astros o superam em rapidez, e a<br \/>\n    pr&oacute;pria Terra, no seu movimento de transla&ccedil;&atilde;o em redor<br \/>\n    do Sol, leva-nos tr&ecirc;s vezes mais depressa. Eis alguns exemplos. Pe&ccedil;o-vos<br \/>\n    apenas licen&ccedil;a para me exprimir contando em l&eacute;guas, pois n&atilde;o<br \/>\n    estou muito familiarizado com as medidas americanas e receio atrapalhar-me<br \/>\n    nos meus c&aacute;lculos.<\/p>\n<p> 0 pedido pareceu simples e n&atilde;o representava qualquer dificuldade.<\/p>\n<p> 0 orador retomou o seu discurso: &#8211; Eis, senhores, a velocidade dos diferentes<br \/>\n    planetas. Sou obrigado a confessar que, apesar da minha ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    conhe &ccedil;o exatamente esse pequeno pormenor astron&ocirc;mico; mas, antes<br \/>\n    de se terem passado dois minutos, ficar&atilde;o sabendo tanto quanto eu.<br \/>\n    Com efeito, Netuno percorre cinco mil l&eacute;guas por hora; Urano, oito<br \/>\n    mil, oitocentas e cinq&uuml;enta e oito; J&uacute;piter, onze mil seiscentas<br \/>\n    e setenta e cinco; Marte, vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil<br \/>\n    quinhentas; V&ecirc;nus, trinta e duas mil cento e noventa; Merc&uacute;-<br \/>\n    rio, cinq&uuml;enta e duas mil quinhentas e vinte; certos cometas, um milh&atilde;o<br \/>\n    e quatrocentas mil l&eacute;guas! Quanto a n&oacute;s, verdadeiros vagabundos,<br \/>\n    pessoas pouco apressadas, a nossa velocidade n&atilde;o ultrapassar&aacute;<br \/>\n    as nove mil e novecentas l&eacute;guas, e ir&aacute; sempre decrescendo! Pergunto-lhes<br \/>\n    se h&aacute; raz&atilde;o para se extasiarem com isso, e se n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    evidente que essa velocidade ser&aacute; em breve ultrapassada por outras<br \/>\n    ainda maiores, de que a luz e a eletricidade ser&atilde;o provavelmente os<br \/>\n    agentes &#8211; mec&acirc;nicos? Ningu&eacute;m pareceu p&ocirc;r em d&uacute;vida<br \/>\n    esta afirma&ccedil;&atilde;o de Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Meus caros ouvintes &#8211; continuou ele -, a crer em certos esp&iacute;ritos<br \/>\n    limitados (&eacute; o qualificativo que lhes conv&eacute;m), a humanidade<br \/>\n    ser&aacute; encerrada num c&iacute;rculo que n&atilde;o saber&aacute; transpor,<br \/>\n    e condenada a vegetar neste Globo sem nunca poder lan&ccedil;ar-se para os<br \/>\n    espa&ccedil;os planet&aacute;rios. N&atilde;o &eacute; nada disso! N&oacute;s<br \/>\n    iremos &agrave; Lua, aos planetas, &agrave;s estrelas, como hoje se vai de<br \/>\n    Liverpool a Nova Iorque, facilmente, com rapidez e seguran&ccedil;a, e em<br \/>\n    breve o oceano atmosf&eacute;rico ser&aacute; atravessado, assim como os oceanos<br \/>\n    da Lua. A dist &acirc;ncia &eacute; apenas uma palavra relativa e acabar&aacute;<br \/>\n    por ser reduzida a zero.<\/p>\n<p> A multid&atilde;o, apesar de predisposta a favor do her&oacute;i franc&ecirc;s,<br \/>\n    ficou um pouco perplexa ao ouvir t&atilde;o audaciosa teoria.<\/p>\n<p> Michel Ardan pareceu compreender isso.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o parecem convencidos, meus estimados anfitri&otilde;es &#8211; continuou<br \/>\n    com um sorriso am&aacute;vel. &#8211; Pois bem. Raciocinemos um pouco. Sabem quanto<br \/>\n    tempo seria necess&aacute;rio a um trem expresso para atingir a Lua? Trezentos<br \/>\n    dias. N&atilde;o mais. Um trajeto de oitenta e seis mil quatrocentas e dez<br \/>\n    l&eacute;guas, o que &eacute; isto? Nem sequer nove vezes a volta &agrave;<br \/>\n    Terra; n&atilde;o existem marinheiros nem viajantes um pouco desembara&ccedil;ados<br \/>\n    que n&atilde;o tenham percorrido mais do que isso durante a sua exist&ecirc;ncia?<br \/>\n    Pensei que s&oacute; levarei oitenta e sete horas no caminho! Julgam que a<br \/>\n    Lua fica muito afastada da Terra e que &eacute; preciso pensar duas vezes<br \/>\n    antes de tentar a aventura. Mas que diriam ent&atilde;o se tratasse de ir<br \/>\n    a Netuno, que gravita a mil cento e quarenta e sete milh&otilde;es de l&eacute;guas.<br \/>\n    Eis uma viagem que poucas pessoas poderiam fazer, mesmo que custasse apenas<br \/>\n    cinco soldos por quil&ocirc;metro! 0 pr&oacute;- prio Bar&atilde;o de Rothschild,<br \/>\n    com os seus milhares de milh&otilde;es, n&atilde;o teria com que pagar o seu<br \/>\n    lugar, e por falta de quarenta e sete milh&otilde;es ficaria pelo caminho!<br \/>\n    Esta maneira de argumentar pareceu agradar muito &agrave; multid &atilde;o;<br \/>\n    de resto, Michel Ardan, consciente do que fazia, lan- &ccedil;ava-se na sua<br \/>\n    aventura com um impulso soberbo. Sabiase avidamente escutado e sentiu uma<br \/>\n    admir&aacute;vel seguran- &ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, meus amigos, essa dist&acirc;ncia de Netuno ao Sol n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; ainda nada se comparar &agrave; das estrelas; com efeito, para avaliar<br \/>\n    o afastamento desses astros, &eacute; preciso entrar nessa numera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deslumbrante em que o mais pequeno n&uacute;mero &eacute; de nove algarismos,<br \/>\n    e tomar por unidade os milhares de milh&otilde;es. Pe&ccedil;o-lhes perd&atilde;o<br \/>\n    por estar sendo t&atilde;o prolixo sobre esta quest&atilde;o, mas ela &eacute;<br \/>\n    de um interesse palpitante.<\/p>\n<p> Ou&ccedil;am e julguem! Alfa de Centauro est&aacute; a oito mil milhares<br \/>\n    de milh&otilde;es de l&eacute;guas, Vega a cinq&uuml;enta mil milhares de<br \/>\n    milh&otilde;es, S&iacute;rio a cinq&uuml;enta mil milhares de milh&otilde;es,<br \/>\n    Arturo a cinq&uuml;enta e dois mil milhares de milh&otilde;es, a Estrela Polar<br \/>\n    fica a cento e dezessete mil hares de milh&otilde;es, Cabra a cento e setenta<br \/>\n    mil milhares de milh&otilde;es, as outras estrelas a milhares de milh&otilde;es<br \/>\n    e milhares de bilh&otilde;es de l&eacute;guas! E ainda h&aacute; quem fale<br \/>\n    da dist&acirc;ncia que medeia os planetas do Sol. E afirmariam que essa dist&acirc;ncia<br \/>\n    existe! Erro Falsidade.<\/p>\n<p> Aberra&ccedil;&atilde;o dos sentidos! Querem saber o que eu penso deste<br \/>\n    mundo que come&ccedil;a no astro radioso e acaba em Netuno? Querem conhecer<br \/>\n    a minha teoria? &Eacute; muito sim ples! Para mim, o mundo solar &eacute;<br \/>\n    um corpo s&oacute;lido, homog&ecirc;neo; os planetas que o comp&otilde;em<br \/>\n    comprimem-se, tocam-se, aderem e o espa&ccedil;o existente entre eles &eacute;<br \/>\n    como o espa&ccedil;o que separa as mol&eacute;culas do metal mais compacto:<br \/>\n    prata, ferro, ouro ou platina. Tenho, portanto, o direito de afirmar e repito<br \/>\n    com uma convic&ccedil;&atilde;o que os convencer&aacute; a todos: a dist&acirc;ncia<br \/>\n    &eacute; uma palavra v&atilde;, a dist&acirc;ncia nem sequer existe! Bem dito!<br \/>\n    Bravo! Viva! &#8211; exclamou a multid&atilde;o em uma s&oacute; voz, eletrizada<br \/>\n    pelos gestos, pela express&atilde;o do orador, pela ousadia das suas concep&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o exclamou J. T. Maston, mais en&eacute;rgico do que os outros<br \/>\n    -, a dist&acirc;ncia n&atilde;o existe! E, levado pela viol&ecirc;ncia dos<br \/>\n    seus movimentos, pelo impulso do seu corpo, que teve dificuldade em dominar,<br \/>\n    quase caiu do estrado abaixo, mas conseguiu recuperar o equil&iacute;- brio,<br \/>\n    evitando uma queda que lhe teria provado brutalmente que a dist&acirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o era uma palavra v&atilde;. Depois o discurso do empolgante orador<br \/>\n    continuou: &#8211; Meus amigos, penso que esta quest&atilde;o se encontra agora<br \/>\n    resolvida. N&atilde;o os convenci a todos, pois fui t&iacute;mido nas minhas<br \/>\n    demonstra&ccedil;&otilde;es, fraco nos meus argumentos, mas a culpa &eacute;<br \/>\n    da insufici&ecirc;ncia dos meus estudos te&oacute;ricos. Seja como for, repito,<br \/>\n    a dist&acirc;ncia da Terra ao seu sat&eacute;lite &eacute; realmente pouco<br \/>\n    importante e indigna de preocupar um esp&iacute;rito s&eacute;rio. Creio que<br \/>\n    n&atilde;o me estou antecipando muito dizendo que em breve ser&atilde;o estabelecidos<br \/>\n    comboios de proj&eacute;teis, nos quais se far&aacute; comodamente a viagem<br \/>\n    da Terra &agrave; Lua.<\/p>\n<p> N&atilde;o haver&aacute; nem choques, nem sacudidelas, nem descarrilamentos<br \/>\n    a recear, e o fim da viagem ser&aacute; atingido rapidamente, sem fadigas,<br \/>\n    em linha reta, ?a v&ocirc;o de abelha ?, para utilizar a linguagem dos seus<br \/>\n    ca&ccedil;adores. Antes de vinte anos, metade dos habitantes da Terra ter&aacute;<br \/>\n    visitado a Lua! &#8211; Viva! Viva Michel Ardan! &#8211; gritaram os circunstantes, mesmo<br \/>\n    os menos convencidos.<\/p>\n<p> &#8211; Viva Barbicane! &#8211; respondeu modestamente o orador.<\/p>\n<p> Este ato de reconhecimento para o promotor do empreendimento foi acolhido<br \/>\n    por aplausos un&acirc;nimes.<\/p>\n<p> Agora, meus amigos &#8211; disse Michel, Ardan -, se tem algumas perguntas a fazer-me,<br \/>\n    ireis embara&ccedil;ar certamente um pobre homem como eu mas tentarei responder-lhes.<\/p>\n<p> At&eacute; aquele momento o presidente do Clube do Canh&atilde;o tinha raz&atilde;o<br \/>\n    para estar satisfeito com a dire&ccedil;&atilde;o que tomava a discuss&atilde;o.<br \/>\n    Versando sobre essas teorias especulativas, Michel Ardan, arrastado pela sua<br \/>\n    viva imagina&ccedil;&atilde;o, mostrava- se muito brilhante. Era preciso,<br \/>\n    portanto, impedi-lo de se desviar para as quest&otilde;es pr&aacute;ticas,<br \/>\n    das quais se teria sa&iacute;do menos bem, sem d&uacute;vida nenhuma. Barbicane<br \/>\n    apressou- se a tomar a palavra, e perguntou ao seu novo amigo se pensava que<br \/>\n    a Lua ou os outros planetas fossem habitados.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um grande problema o que tu me p&otilde;es, meu digno presidente<br \/>\n    &#8211; respondeu o orador, sorrindo -; no entanto, se n&atilde;o me engano, homens<br \/>\n    de grande intelig&ecirc;ncia como Plutarco, Swedenborg, Bemardin de Saint-Pierre<br \/>\n    e muitos outros pronunciaram-se pela afirmativa. Situando-me do ponto de vista<br \/>\n    da filosofia natural, serei levado a pensar como eles; direi que nada de in&uacute;til<br \/>\n    existe neste mundo, e, respondendo &agrave; tua pergunta com outra pergunta,<br \/>\n    amigo Barbicane, direi: s&atilde;o os mundos habit&aacute;veis? Se o s&atilde;o<br \/>\n    &eacute; porque s&atilde;o habitados, porque o foram ou porque ainda o h&atilde;o<br \/>\n    de ser.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem! &#8211; as primeiras filas dos espectadores, cuja opini&atilde;o<br \/>\n    tinha for&ccedil;a de lei para as &uacute;ltimas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se pode responder com mais l&oacute;gica e justeza &#8211; disse<br \/>\n    o presidente do Clube do Canh&atilde;o. &#8211; A quest&atilde;o &eacute;, portanto,<br \/>\n    esta: os mundos s&atilde;o habit&aacute;veis? Creio nisto, pela minha parte.<\/p>\n<p> &#8211; E eu . tenho a certeza &#8211; respondeu Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto &#8211; replicou um dos assistentes -, h&aacute; argumentos contra<br \/>\n    a habitabilidade dos mundos. Seria preciso evi dentemente que os princ&iacute;pios<br \/>\n    da vida fossem modificados.<\/p>\n<p> Assim, para apenas falar de planetas, deve-se ficar queimado e gelado em<br \/>\n    outros, conforme eles forem mais ou menos afastados do Sol.<\/p>\n<p> &#8211; Lamento muito &#8211; respondeu Michel Ardan &#8211; n&atilde;o reconhecer pessoalmente<br \/>\n    o meu honrado interlocutor, mas tentarei responder-lhe. A obje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tem o seu valor, mas creio que podemos combat&ecirc;-la com algum &ecirc;xito,<br \/>\n    assim como todas as que se referem &agrave; habitabilidade dos mundos. Se<br \/>\n    fosse f&iacute;sico, diria que, se h&aacute; menos calor em movimento nos<br \/>\n    planetas vizinhos do Sol, e, pelo contr&aacute;rio, mais nos planetas afastados,<br \/>\n    esse simples fen&ocirc;meno basta para equilibrar o calor e tornar a temperatura<br \/>\n    desses mundos suport &aacute;vel para seres organizados como n&oacute;s. Se<br \/>\n    eu fosse naturalista, dir-lhe-ia, como &#8211; muitos s&aacute;bios ilustres, que<br \/>\n    a natureza nos fornece na Terra exemplos de animais que vivem em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    bem diferentes de habitabilidade; que os peixes respiram num meio mortal para<br \/>\n    os outros animais; que os anf&iacute;bios t&ecirc;m uma dupla exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    bastante dif&iacute;cil de explicar; que certos habitantes dos mares se mant<br \/>\n    &ecirc;m nas camadas de uma grande profundidade, suportando a&iacute;, sem<br \/>\n    serem esmagados, press&otilde;es de cinq&uuml;enta ou sessenta atmosferas;<br \/>\n    que diversos insetos aqu&aacute;ticos, insens &iacute;veis &agrave; temperatura,<br \/>\n    se encontram simultaneamente nas fontes, de &aacute;gua a ferver e nas plan&iacute;cies<br \/>\n    geladas dos oceano polares; e, por fim, que precisamos de reconhecer na natureza<br \/>\n    uma diversidade nos meios de a&ccedil;&atilde;o muitas vezes incompreens&iacute;vel,<br \/>\n    mas n&atilde;o menos real, e que vai at&eacute; o Todo-Poderoso. Se fosse<br \/>\n    qu&iacute;mico dir-lhe-ia que os aer&oacute;litos, esses corpos evidentemente<br \/>\n    formados fora do mundo terrestre, revelaram quando analisados tra&ccedil;os<br \/>\n    indiscut &iacute;veis de carbono; que essa subst&acirc;ncia apenas deve a<br \/>\n    sua origem a seres organizados, e que, segundo as experi- &ecirc;ncias de<br \/>\n    Reichenbach, ela deve ter sido necessariamente ?animalizada?. Por fim, se<br \/>\n    fosse te&oacute;logo, dir-lhe-ia que a Reden&ccedil;&atilde;o divina parece,<br \/>\n    segundo S&atilde;o Paulo, ter sido apli cada n&atilde;o apenas &agrave; Terra<br \/>\n    mas a todos os mundos celestes.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o sou te&oacute;logo, nem qu&iacute;mico, nem naturalista,<br \/>\n    nem f&iacute;sico. Assim, na minha perfeita ignor&acirc;ncia das grandes leis<br \/>\n    que regem o Universo, limito-me a responder: n&atilde;o sei se os mundos s&atilde;o<br \/>\n    habitados, e porque n&atilde;o sei &eacute; que vou l&aacute; ver! Teria o<br \/>\n    advers&aacute;rio das teorias de Michel Ardan argumentos para apresentar?<br \/>\n    &Eacute; imposs&iacute;vel diz&ecirc;-lo, pois os gritos da multid&atilde;o<br \/>\n    impediram qualquer voz de se fazer ouvir. Quando o sil&ecirc;ncio se restabeleceu<br \/>\n    nos grupos mais afastados, o orador, triunfante, contentou-se em acrescentar<br \/>\n    as observa &ccedil;&otilde;es seguintes: &#8211; Pensei bem, meus estim&aacute;veis<br \/>\n    ianques, que uma quest&atilde;o t&atilde;o importante mal &eacute; aflorada<br \/>\n    por mim; n&atilde;o venho aqui fazer curso algum nem defender tese sobre assunto<br \/>\n    t&atilde;o vasto. Existe toda uma s&eacute;rie de argumentos a favor da habitabilidade<br \/>\n    dos mundos. Deixo-os de lado. Permitamme apenas que insista num ponto; &agrave;s<br \/>\n    pessoas que garantem que os planetas n&atilde;o s&atilde;o habitados &eacute;<br \/>\n    preciso responder: podem ter raz&atilde;o, se for demonstrado que a Terra<br \/>\n    &eacute; o melhor dos mundos, mas isto n&atilde;o &eacute; verdade, apesar<br \/>\n    do que possa ter dito Voltaire. Tem apenas um sat&eacute;lite, enquanto J&uacute;piter,<br \/>\n    Urano, Saturno e Netuno t&ecirc;m v&aacute;rios ao seu servi&ccedil;o, vantagem<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; nada para desdenhar. Mas o que sobretudo torna o nosso<br \/>\n    Globo pouco confort&aacute;vel &eacute; a inclina&ccedil;&atilde;o do seu<br \/>\n    eixo sobre a sua &oacute;rbita. Da&iacute; a desigualdade dos dias e das noites;<br \/>\n    da&iacute; a aborrecida diversidade das esta&ccedil;&otilde;es. No nosso infeliz<br \/>\n    esfer&oacute;ide, faz ,sempre ou calor demais ou frio excessivo; gela-se no<br \/>\n    inverno e arde-se no ver&atilde;o; &eacute; o planeta das constipa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    das corizas, dos fluxos do peito, ao passo que &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    de J&uacute;piter, por exemplo, em que o eixo est&aacute; muito pouco inclinado,<br \/>\n    os habitantes poderiam gozar de temperaturas invari&aacute;veis; h&aacute;<br \/>\n    a zona das primaveras, a zona dos ver&otilde;es, a zona dos outonos e a zona<br \/>\n    dos invernos perp&eacute;tuos; cada habitante pode escolher o clima que mais<br \/>\n    lhe agrade e ficar durante toda a vida ao abrigo das varia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da temperatura. Concordar&atilde;o certamente que J&uacute;piter &eacute;<br \/>\n    superior ao nosso planeta pelo menos nisto, sem falar j&aacute; das revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    anuais, que duram doze anos cada uma! Al&eacute;m disso, &eacute; evidente<br \/>\n    que, sob esses ausp&iacute;cios e nessas maravilhosas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de exist&ecirc;ncia, os habitantes desse mundo afortunado s&atilde;o seres<br \/>\n    superiores, que os s&aacute;bios s&atilde;o mais s&aacute;bios, os artistas<br \/>\n    mais artistas, os maus menos maus e os bons melhores. Que falta ao nosso esfer&oacute;ide<br \/>\n    para atingir tamanha perfei&ccedil;&atilde;o? Pouca coisa! Um eixo de rota&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    menos inclinado sobre a sua &oacute;rbita.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! &#8211; exclamou uma voz impetuosa unamos os nossos esfor&ccedil;os,<br \/>\n    inventemos m&aacute;quinas e endireitemos o eixo da Terra! Uma tempestade<br \/>\n    de aplausos saudou esta proposta, cujo autor era, como n&atilde;o podia deixar<br \/>\n    de ser, J. T. Maston. Era prov&aacute;vel que o fogoso secret&aacute;rio se<br \/>\n    deixasse arrastar pelos seus instintos de engenheiro ao fazer aquela ousada<br \/>\n    proposta. No entanto, &eacute; preciso diz&ecirc;-lo &#8211; porque &eacute; a verdade<br \/>\n    -: muitos o apoiaram com os seus gritos, e, sem d&uacute;vida, se tivessem<br \/>\n    tido o ponto de, apoio reclamado por Arquimedes, os americanos teriam constru&iacute;do<br \/>\n    uma alavanca capaz de erguer o mundo e endireitar o seu eixo. Mas o ponto<br \/>\n    de apoio era o que faltava a esses temer&aacute;rios mec&acirc;- nicos.<\/p>\n<p> Entretanto, essa id&eacute;ia, ?eminentemente pr&aacute;tica?, conheceu<br \/>\n    enorme &ecirc;xito.<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">Capitulo XI &#8211; Ataque e r&eacute;plica<\/a><\/h4>\n<p>Esse incidente parecia p&ocirc;r termo &agrave; discuss&atilde;o. Era a palavra<br \/>\n    final e parecia n&atilde;o se poder encontrar melhor. No entanto, quando a<br \/>\n    agita&ccedil;&atilde;o se acalmou, ouviram-se estas palavras pronunciadas<br \/>\n    com voz forte e severa: &#8211; Agora que o orador deu mais do que deveria dar &agrave;<br \/>\n    sua fantasia, querer&aacute; voltar ao seu assunto, expondo menos teorias,<br \/>\n    e discutir a parte pr&aacute;tica da sua expedi&ccedil;&atilde;o? Todos os<br \/>\n    olhares se dirigiram para a personagem que assim falava. Era um homem magro,<br \/>\n    seco, de rosto en&eacute;rgico e com uma barba cortada &agrave; americana,<br \/>\n    que se adensava debaixo do queixo. No meio da agita&ccedil;&atilde;o que de<br \/>\n    vez em quando se produzia na multid&atilde;o, ele tinha pouco a pouco conseguido<br \/>\n    chegar &agrave; primeira fila dos espectadores. Ali, de bra&ccedil;os cruzados,<br \/>\n    de olhar brilhante e ousado, fixava imperturbavelmente o her&oacute;i da assembl&eacute;ia.<br \/>\n    Depois de ter formulado o seu pedido, calou-se e n&atilde;o pareceu ficar<br \/>\n    nada perturbado pelos milhares de olhos fixos nele, nem pelo murm&uacute;rio<br \/>\n    desaprovador provocado pelas suas palavras. A resposta fazia-se esperar e<br \/>\n    ele voltou a fazer a pergunta, com o mesmo tom preciso, e depois acrescentou:<br \/>\n    &#8211; Estamos aqui para nos ocuparmos da Lua e n&atilde;o da &#8211; Tem raz&atilde;o,<br \/>\n    senhor &#8211; respondeu Michel Ardan -;a discuss &atilde;o afastou-se um tanto<br \/>\n    do assunto principal. Voltemos &agrave; Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; replicou o desconhecido -, pretende que o nosso sat&eacute;lite<br \/>\n    seja habitado. Pois bem. Se existem habitantes na Lua devem viver sem respirar,<br \/>\n    pois (e previno-o no seu interesse) n&atilde;o h&aacute; uma &uacute;nica<br \/>\n    mol&eacute;cula de ar na superf&iacute;cie da Lua.<\/p>\n<p> Ao ouvir esta afirma&ccedil;&atilde;o, Ardan endireitou a sua juba fulva;<br \/>\n    compreendeu que a luta ia travar-se com aquele homem no mais vivo da quest&atilde;o.<br \/>\n    Olhou-o fixamente por sua vez e disse: Ali, sim? N&atilde;o h&aacute; ar na<br \/>\n    Lua! E quem afirmou isto? &#8211; Os s&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; respondeu Michel -, fora de brincadeira que tenho o maior respeito<br \/>\n    pelos que sabem, mas um profundo desd&eacute;m pelos que n&atilde;o sabem.<\/p>\n<p> &#8211; Conhece alguns que perten&ccedil;am a essa &uacute;ltima categoria? &#8211;<br \/>\n    Claro! Na Fran&ccedil;a existem alguns que afirmam que matematicamente ? o<br \/>\n    p&aacute;ssaro n&atilde;o pode voar, e outros cujas teorias demonstram que<br \/>\n    o peixe n&atilde;o foi feito para viver na &aacute;gua.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se trata desses, senhor, e eu poderia citar em apoio da minha<br \/>\n    afirma&ccedil;&atilde;o nomes que o senhor n&atilde;o recusaria.<\/p>\n<p> &#8211; Nesse caso, senhor, iria embara&ccedil;ar um pobre ignorante que, de resto,<br \/>\n    n&atilde;o deseja mais do que instruir-se.<\/p>\n<p> &#8211; Por que aborda ent&atilde;o quest&otilde;es cient&iacute;ficas se n&atilde;o<br \/>\n    as estudou? &#8211; perguntou o desconhecido, com bastante rudeza.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; replicou Michel Ardan. &#8211; Pela mesma raz&atilde;o que<br \/>\n    aquele que n&atilde;o desconfia do perigo &eacute; sempre arrojado! &Eacute;<br \/>\n    verdade que nada sei mas &eacute; precisamente a minha fraqueza que faz a<br \/>\n    minha for&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; A sua fraqueza chega &agrave; loucura &#8211; respondeu o desconhecido com manifesto<br \/>\n    mau humor.<\/p>\n<p> &#8211; Tanto melhor &#8211; replicou o franc&ecirc;s -, se a minha loucura me levar<br \/>\n    &agrave; Lua! Barbicane e os seus colegas devoravam com o olhar aquele intruso<br \/>\n    que t&atilde;o ousadamente se opunha ao empreendimento.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m o conhecia, e o presidente, pouco tranq&uuml;ilo pelas conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    daquela discuss&atilde;o, olhava o seu novo amigo com certa apreens&atilde;o.<br \/>\n    A multid&atilde;o estava atenta e seriamente inquieta, pois essa luta tinha<br \/>\n    como resultado chamar a aten&ccedil;&atilde;o sobre os perigos ou mesmo sobre<br \/>\n    as verdadeiras impossibilidades da expedi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; continuou o advers&aacute;rio de Michel Ardan -, s&atilde;o numerosas<br \/>\n    e indiscut&iacute;veis as raz&otilde;es que provam a aus&ecirc;ncia de qualquer<br \/>\n    atmosfera na Lua. Direi mesmo, a priori, que se essa atmosfera jamais existiu<br \/>\n    deve ter sido subtra- &iacute;da pela Terra. Mas prefiro opor-lhe fatos irrecus&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8211; Oponha, senhor &#8211; respondeu Michel Ardan, com uma delicadeza perfeita.<br \/>\n    &#8211; Oponha tudo quanto lhe agradar! &#8211; Sabe &#8211; disse o desconhecido &#8211; que, quando<br \/>\n    os raios luminosos atravessam um meio como o ar s&atilde;o desviados da linha<br \/>\n    reta, ou, em outros termos, sofrem uma refra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pois bem! Quando as estrelas s&atilde;o ocultas pela Lua, nunca os seus<br \/>\n    raios, rasando as margens do disco lunar, sentiram o menor desvio ou deram<br \/>\n    o mais ligeiro ind&iacute;cio de refra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Dai a conclus&atilde;o evidente de que a Lua n&atilde;o &eacute; envolvida<br \/>\n    numa atmosfera.<\/p>\n<p> Todos olharam para o franc&ecirc;s, pois, uma vez admitida a observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    as conseq&uuml;&ecirc;ncias seriam perfeitamente rigorosas.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente &#8211; respondeu Michel Ardan -, eis o seu melhor argumento, para<br \/>\n    n&atilde;o dizer o &uacute;nico, e um s&aacute;bio sentir-se-ia talvez embara&ccedil;ado<br \/>\n    em lhe responder; eu dir-lhe-ei apenas que esse argumento n&atilde;o tem valor<br \/>\n    absoluto, pois sup&otilde;e o di&acirc;metro angular da Lua perfeitamente<br \/>\n    determinado, o que n&atilde;o &eacute; assim. Mas passemos &agrave; frente,<br \/>\n    e diga-me, meu caro senhor, se admite a exist&ecirc;ncia de vulc&otilde;es<br \/>\n    na superf&iacute;cie da Lua? &#8211; De vulc&otilde;es extintos, sim; ativos, n&atilde;o,<br \/>\n    &#8211; No entanto, deixe-me acreditar, sem os limites da l&oacute;gica, que esses<br \/>\n    vulc&otilde;es estiveram em atividade durante um certo per&iacute;odo! Isto<br \/>\n    &eacute; certo; mas, como eles podiam fornecer por si pr&oacute;- prios o<br \/>\n    oxig&ecirc;nio necess&aacute;rio para a combust&atilde;o, a sua erup- &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o prova de modo nenhum a exist&ecirc;ncia de uma atmosfera lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Adiante ent&atilde;o &#8211; respondeu Michel Ardan -, e deixemos de lado esse<br \/>\n    g&ecirc;nero de argumentos para passarmos &agrave;s observa &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diretas. Mas previno-o de que vou citar nomes para a frente.<\/p>\n<p> &#8211; Cite.<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Em 1715, os astr&ocirc;nomos Louville e Halley, observando o eclipse<br \/>\n    do dia 3 de maio, notaram certas cintila&ccedil;&otilde;es de uma natureza<br \/>\n    estranha. Esses jatos de luz, r&aacute;pidos e freq&uuml;entes, foram atribu&iacute;dos<br \/>\n    por eles a tempestades que se desencadeavam na atmosfera da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Em 1715 &#8211; replicou o desconhecido -, os astr&ocirc;nomos Louville e Halley<br \/>\n    tomaram por fen&ocirc;menos lunares fen&ocirc;menos puramente terrestres,<br \/>\n    tais como b&oacute;lides ou outros, que se produziam na nossa atmosfera. Eis<br \/>\n    o que responderam os s&aacute;bios ao enunciado desses fatos, e eis o que<br \/>\n    eu respondo com eles. ? &#8211; Adiante &#8211; respondeu Ardan, sem se mostrar perturbado<br \/>\n    com a resposta. &#8211; Herschell, em 1787, n&atilde;o observou um grande n&uacute;mero<br \/>\n    de pontos luminosos na superf&iacute;cie da Lua? &#8211; Sem d&uacute;vida; mas<br \/>\n    pr&oacute;prio Herschell n&atilde;o origem desses pontos luminosos &#8211; concluiu<br \/>\n    da&iacute; que houvesse necessariamente uma atmosfera lunar &#8211; disse Michel<br \/>\n    Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Bem respondido que &eacute; muito forte o seu advers&aacute;rio -; vejo<br \/>\n    em, selenografia. &#8211; muito forte, senhor, e acrescento h&aacute;beis observadores,<br \/>\n    aqueles que mais arduamente estudaram o astro noturno, Os senhores Beer e<br \/>\n    Moedler, est&atilde;o de acordo comigo sobre a absoluta falta de ar na sua<br \/>\n    superf &iacute;cie.<\/p>\n<p> Deu-se um movimento na assist&ecirc;ncia, que pareceu convencer- se com<br \/>\n    os argumentos daquela singular personagem eu ainda Michel Ardan com a &#8211; Adiante<br \/>\n    &#8211; responde um fato import&acirc;ncia maior calma -, e cheguemos agora. Um<br \/>\n    h&aacute;bil astr&ocirc;nomo franc&ecirc;s, o senhor Laussedat, observando<br \/>\n    o eclipse de 18 de julho de 1860, verificou que as extremidades do crescente<br \/>\n    solar estavam arredondadas e truncadas. Ora, esse fen&ocirc;meno s&oacute;<br \/>\n    pode ter sido produzido por um desvio dos raios do Sol atrav&eacute;s da atmosfera<br \/>\n    da Lua, e n&atilde;o existe outra explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isso &eacute; verdade? &#8211; perguntou vivamente o desconhecido.<\/p>\n<p> &#8211; Absolutamente verdade.<\/p>\n<p> Um movimento inverso levou de novo a multid&atilde;o para o seu her&oacute;i<br \/>\n    favorito, cujo advers&aacute;rio ficou silencioso. Ardan voltou a falar, e,<br \/>\n    sem se envaidecer com a sua &uacute;ltima van tagem, disse simplesmente: &#8211;<br \/>\n    Meu caro senhor, que n&atilde;o nos podemos pronunciar de, um modo absoluto<br \/>\n    contra a exist&ecirc;ncia de atmosfera na superf&iacute;cie da Lua; essa atmosfera.<br \/>\n    &eacute; provavelmente pouco densa, bastante sutil, mas atualmente a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    admite geralmente que ele existe.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o nas montanhas &#8211; replicou o desconhecido, que n&atilde;o queria<br \/>\n    perder a partida.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, mas no fundo dos vales, e n&atilde;o ultrapassando em altura<br \/>\n    algumas centenas de p&eacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Em todo o caso, far&aacute; bem em tomar precau&ccedil;&otilde;es, pois<br \/>\n    esse ar ser&aacute; terrivelmente rarefeito.<\/p>\n<p> &#8211; Meu caro senhor, haver&aacute; sempre ar suficiente para um homem s&oacute;;<br \/>\n    de resto, uma vez chegado l&aacute; em cima, tentarei economiz&aacute;-lo<br \/>\n    o mais poss&iacute;vel e s&oacute; respirarei nas grandes ocasi&otilde;es!<br \/>\n    Uma formid&aacute;vel gargalhada. chegou aos ouvidos do misterioso interlocutor,<br \/>\n    que estendeu o olhar pela multid&atilde;o, enfrentando- a com orgulho.<\/p>\n<p> &#8211; Portanto &#8211; continuou Michel Ardan, com um ar descontra&iacute;do -, j&aacute;<br \/>\n    que estamos de acordo sobre a probabilidade da exist &ecirc;ncia de uma certa<br \/>\n    atmosfera, vemo-nos for&ccedil;ados a admitir a presen&ccedil;a de uma certa<br \/>\n    quantidade de &aacute;gua. &Eacute; uma conseq&uuml;&ecirc;ncia que muito<br \/>\n    me alegra. De resto, meu am&aacute;vel contraditor, permita-me que lhe fa&ccedil;a<br \/>\n    ainda uma observa- &ccedil;&atilde;o. N&oacute;s s&oacute; conhecemos um dos<br \/>\n    lados da Lua, e se ela tem pouco ar no lado que n&oacute;s vemos pode ser<br \/>\n    que tenha muito do outro lado.<\/p>\n<p> &#8211; E por que raz&atilde;o? &#8211; Porque a Lua, sob a a&ccedil;&atilde;o da atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terrestre, tomou a forma de um ovo, que n&oacute;s vemos da extremidade mais<br \/>\n    pequena. Da&iacute; essa conseq&uuml;&ecirc;ncia, devida aos c&aacute;lculos<br \/>\n    de Hansen, de que o seu centro de gravidade se encontra situado no outro hemisf&eacute;rio.<br \/>\n    Da&iacute; a conclus&atilde;o de que todas as massas de ar e de &aacute;gua<br \/>\n    devem ter sido arrastadas para a outra face do nosso sat&eacute;lite nos primeiros<br \/>\n    dias da sua cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Pura fantasia! &#8211; exclamou o desconhecido.<\/p>\n<p> N&atilde;o ! Pura teoria, que se apoia nas leis da mec&acirc;nica e que<br \/>\n    me parece dif&iacute;cil refutar. Apelo, portanto, para esta assembl &eacute;ia<br \/>\n    e ponho a quest&atilde;o de saber se a vida, tal como existe na Terra, &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel &agrave; superf&iacute;cie da Lua! Trezentos mil ouvintes<br \/>\n    aplaudiram ao mesmo tempo a sua proposta. 0 advers&aacute;rio de Michel queria<br \/>\n    continuar falando mas j&aacute; n&atilde;o conseguia fazer-se ouvir. Os gritos<br \/>\n    e as amea- &ccedil;as ca&iacute;am sobre ele como uma saraivada.<\/p>\n<p> &#8211; Basta! Basta! &#8211; diziam uns.<\/p>\n<p> &#8211; Expulsem este intruso! &#8211; repetiam outros.<\/p>\n<p> &#8211; Fora! Fora! &#8211; exclamava a multid&atilde;o, irritada. No entanto, ele,<br \/>\n    firme, agarrado ao estrado, n&atilde;o se mexia e deixava passar a tempestade,<br \/>\n    que teria tomado propor&ccedil;&otilde;es formid &aacute;veis se Michel Ardan<br \/>\n    n&atilde;o a tivesse apaziguado com um gesto. Era demasiadamente cavalheiro<br \/>\n    para abandonar o seu advers&aacute;rio em tais extremos.<\/p>\n<p> &#8211; Deseja acrescentar mais algumas palavras? &#8211; perguntoulhe, no tom mais<br \/>\n    gracioso.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; respondeu o desconhecido, com irrita&ccedil;&atilde;o. &#8211; Oha, dizendo<br \/>\n    melhor, n&atilde;o; uma s&oacute;: para perseverar na empresa &eacute; preciso<br \/>\n    que seja&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Imprudente! Como pode tratar-me assim, a mim, que pedi ao meu amigo Barbicane,<br \/>\n    para que o proj&eacute;til fosse cilindro-c&ocirc;nico, a fim de n&atilde;o<br \/>\n    andar &agrave;s voltas na viagem, &agrave; maneira dos esquilos? &#8211; Mas infeliz-<br \/>\n    a formid&aacute;vel repercuss&atilde;o do tiro vai faz&ecirc;-lo em peda&ccedil;os<br \/>\n    logo &agrave; partida! &#8211; Meu caro contraditor: acaba de mencionar a verdadeira<br \/>\n    e &uacute;nica dificuldade; no entanto, acredito demais no g&ecirc;nio industrial<br \/>\n    dos americanos para pensar que eles n&atilde;o a possam resolver! &#8211; E o calor<br \/>\n    desenvolvido pela velocidade do proj&eacute;til ao atravessar as camadas da<br \/>\n    atmosfera? &#8211; As paredes do proj&eacute;til s&atilde;o espessas e eu atravessarei<br \/>\n    rapidamente a atmosfera.<\/p>\n<p> &#8211; Mas os v&iacute;veres? E a &aacute;gua? min- Calculei que Poderia levar<br \/>\n    v&iacute;veres para um ano e a ha travessia durar&aacute; apenas quatro-dias1<br \/>\n    &#8211; E ar para respirar durante o caminho? &#8211; Fabric&aacute;-lo-ei por meio de<br \/>\n    processos qu&iacute;micos.<\/p>\n<p> &#8211; E a queda na Lua, se alguma vez l&aacute; chegar? &#8211; Ser&aacute; seis vezes<br \/>\n    menos r&aacute;pida do que uma queda na Terra, visto que a gravidade &eacute;<br \/>\n    seis vezes menor na superf&iacute;cie da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Mas mesmo assim ser&aacute; suficiente para o espatifar como se fosse<br \/>\n    de vidro! &#8211; E quem me impedir&aacute; de retardar a minha queda por meio de<br \/>\n    foguetes convenientemente dispostos e inflamados na ocasi&atilde;o oportuna?<br \/>\n    &#8211; Mas, enfim, suponho que todas as dificuldades sejam resolvidas, todos os<br \/>\n    obst&aacute;culos aplainados reunindo todas as probabilidades em seu favor,<br \/>\n    admitindo que chegue &agrave; Lua s&atilde;o e salvo, corno volta? &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    voltarei! Ao ouvir aquela resposta, que pela sua simplicidade, raiava o sublime,<br \/>\n    a multid&atilde;o ficou muda. Mas o seu sil&ecirc;ncio foi mais eloq&uuml;ente<br \/>\n    do que teriam sido os seus gritos de entusiasmo.<\/p>\n<p> 0 desconhecido aproveitou para protestar uma &uacute;ltima vez.<\/p>\n<p> &#8211; Morrer&aacute; infalivelmente &#8211; exclamou -, e a sua morte, que ter&aacute;<br \/>\n    sido a morte de um insensato, nem sequer servir&aacute; de coisa alguma para<br \/>\n    a ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Continue, meu generoso desconhecido: verdadeiramente os seus progn&oacute;sticos<br \/>\n    s&atilde;o , realmente, muito agrad&aacute;- veis.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Isto &eacute; demais! &#8211; exclamou o advers&aacute;rio de Michel Ardan<br \/>\n    -, e n&atilde;o sei por que raz&atilde;o continuo uma rosto estava radiante.<br \/>\n    Por vezes, o estrado parecia balan&ccedil;ar como um navio sobre as ondas.<br \/>\n    Mas os dois her&oacute;is da assembl &eacute;ia tinham p&eacute;s de marinheiro;<br \/>\n    n&atilde;o vacilaram e o seu bar co chegou sem avarias ao porto de Tampa.<br \/>\n    Michel Ardan conseguiu fugir aos &uacute;ltimos abra&ccedil;os dos seus vigorosos<br \/>\n    admiradores; escapou-se para o Hotel Franklin. Entretanto uma cena curta tinha<br \/>\n    lugar entre a personagem misteriosa e o presidente do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Venha &#8211; disse num tom seco.<\/p>\n<p> 0 seu antagonista seguiu-o at&eacute; o cais, e em breve os dois se encontravam<br \/>\n    sozinhos.<\/p>\n<p> &#8211; Que m &eacute; o senhor? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> 0 Capit&atilde;o Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; o suspeitava. At&eacute; agora, o acaso nunca o tinha posto<br \/>\n    no meu caminho&#8230;<\/p>\n<p> Vim propositadamente para isto! &#8211; Insultou-me! &#8211; Publicamente.<\/p>\n<p> &#8211; E h&aacute; de justificar esse insulto.<\/p>\n<p> Agora mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Desejo que tudo se passe estritamente entre n&oacute;s.<\/p>\n<p> Existe um bosque situado a tr&ecirc;s milhas de Tampa: o bosque Skernaw.<br \/>\n    Conhece-o? &#8211; Conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Agrada-lhe penetrar l&aacute; bem cedo, &agrave;s cinco horas da manh<br \/>\n    &atilde;, por um dos lados? &#8211; Sim, se &agrave; mesma hora o senhor l&aacute;<br \/>\n    penetrar pelo outro.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o esquecer&aacute; a sua espingarda? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Assim como o senhor n&atilde;o esquecer&aacute; a sua &#8211; respondeu Nicoles.<\/p>\n<p> Depois destas palavras friamente pronunciadas, o Presidente do Clube do<br \/>\n    Canh&atilde;o e o capit&atilde;o separaram-se.<\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">Cap&iacute;tulo XII &#8211; Michel Ardan resolve pend&ecirc;ncia<br \/>\n    de honra<\/a><\/h4>\n<p>Enquanto as conven&ccedil;&otilde;es desse duelo eram discutidas en tre o<br \/>\n    . presidente e o capit&atilde;o, que se adivinhava terr&iacute;vel e selvagem,<br \/>\n    no qual cada um dos advers&aacute;rios se entregaria a uma verdadeira ca&ccedil;a<br \/>\n    ao homem, Michel Ardan descansava das fadigas do triunfo. Descansar n&atilde;o<br \/>\n    era a express&atilde;o justa, pois as camas americanas podem rivalizar em<br \/>\n    dureza com as mesas de m&aacute;rmore ou de granito.<\/p>\n<p> Ardan dormia portanto bastante mal, voltando-se e tornando a voltar-se entre<br \/>\n    as toalhas que lhe serviam de len- &ccedil;&oacute;is, e pensava em instalar<br \/>\n    uma cama mais confort&aacute;vel que aquela no seu proj&eacute;til, quando<br \/>\n    um ru&iacute;do violento o arrancou aos seus sonhos. Pancadas desordenadas<br \/>\n    abalavam a porta. Pareciam ser desferidas por um instrumento de ferro. Gritos<br \/>\n    formid&aacute;veis misturavam-se com aquelas pancadas na porta, demasiadamente<br \/>\n    matinais.<\/p>\n<p> &#8211; Abre! &#8211; gritavam? &#8211; Pelo amor de Deus, abre depressa! Ardan n&atilde;o<br \/>\n    tinha qualquer raz&atilde;o para aquiescer a um pedido feito de maneira t&atilde;o<br \/>\n    ruidosa. No entanto, levantou-se e abriu a porta no momento em que esta ia<br \/>\n    ceder aos esfor- &ccedil;os do obstinado visitante. 0 secret&aacute;rio do<br \/>\n    Clube do Canh &atilde;o entrou de repente no quarto. Uma bomba n&atilde;o<br \/>\n    teria entrado com menos cerim&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &#8211; Ontem &agrave; noite &#8211; exclamou abruptamente -, o nosso presidente foi<br \/>\n    publicamente insultado durante a assembl&eacute;ia.<\/p>\n<p> Provocou o seu advers&aacute;rio, que &eacute;, nem mais, nem menos, o Capit&atilde;o<br \/>\n    Nicoles. Batem-se esta manh&atilde; no bosque de Skersnaw! Soube tudo pela<br \/>\n    boca do pr&oacute;prio Barbicane! Se ele for morto, os nossos projetos ficam<br \/>\n    aniquilados! &Eacute; preciso impedir tal duelo. Ora, um &uacute;nico homem<br \/>\n    no mundo pode ter suficiente dom&iacute;nio sobre Barbicane para o deter,<br \/>\n    e esse homem &eacute; Michel Ardan.<\/p>\n<p> Enquanto J. T. Maston assim falava, Michel Ardan, renunciando a interromp&ecirc;-lo,<br \/>\n    tinha vestido as suas largas cal&ccedil;as, e menos de dois minutos depois,<br \/>\n    os dois amigos corriam pelas ruas de Tampa.<\/p>\n<p> Foi durante essa r&aacute;pida correria que Maston p&ocirc;s Ardan ao corrente<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o. ?Disse-lhe quais eram as verdadeiras causas da<br \/>\n    inimizade de Barbicane e de Nicoles &#8211; porque essa inimizade era de velha data<br \/>\n    -, quais os motivos que at&eacute; ent&atilde;o, gra&ccedil;as a amigos comuns,<br \/>\n    tinham impedido o presidente e o capit&atilde;o de se encontrarem frente a<br \/>\n    frente; acrescentou que se tratava unicamente de uma rivalidade entre coura&ccedil;as<br \/>\n    e proj&eacute;tis e que finalmente a cena da assembl &eacute;ia fora apenas<br \/>\n    uma ocasi&atilde;o durante muito tempo procurada por Nicoles para satisfazer<br \/>\n    antigos rancores.<\/p>\n<p> Nada mais terr&iacute;vel do que esses duelos particulares &agrave; americana,<br \/>\n    durante os quais os dois advers&aacute;rios se procuram atrav&eacute;s das<br \/>\n    matas, se espreitam no canto dos bosques como animais selvagens. Em momentos<br \/>\n    assim &eacute; que os advers&aacute;rios devem 1 invejar as qualidades maravilhosas<br \/>\n    t&atilde;o naturais nos &iacute;ndios das plan&iacute;cies, a sua r&aacute;pida<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia e engenhosa ast&uacute;cia, o seu instinto para encontrar<br \/>\n    rastos e sinais do inimigo. Um erro, uma hesita&ccedil;&atilde;o, um passo<br \/>\n    em falso podem conduzir &agrave; morte. Nesses encontros, os ianques fazem-se<br \/>\n    muitas vezes acompanhar pelos seus c&atilde;es, e, simultaneamente nos pap&eacute;is<br \/>\n    de ca&ccedil;adores e ca&ccedil;a, perseguem-se durante horas.<\/p>\n<p> &#8211; Que diabo de pessoas s&atilde;o voc&ecirc;s? &#8211; exclamou Michel Ardan,<br \/>\n    quando o seu companheiro lhe descreveu com muita energia toda essa encena&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; N&oacute;s somos assim &#8211; respondeu modestamente J. T.<\/p>\n<p> Maston. &#8211; Mas apressemo-nos.<\/p>\n<p> Michel Ardan e Maston correram atrav&eacute;s da plan&iacute;cie, ainda<br \/>\n    &uacute;mida do orvalho, atravessaram planta&ccedil;&otilde;es de arroz e<br \/>\n    pequenos rios, meteram por atalhos, mas mesmo assim n&atilde;o conseguiram<br \/>\n    atingir antes das cinco horas e meia o bosque de Skersnaw. Barbicane devia<br \/>\n    ter transposto a sua orla h&aacute; cerca de meia hora.<\/p>\n<p> Viram um velho lenhador ocupado em fazer feixes com ramos de &aacute;rvores<br \/>\n    abatidos pelo seu machado.<\/p>\n<p> &#8211; Viu entrar no bosque um homem armado com uma .espingarda, Barbicane&#8230;<br \/>\n    o meu melhor amigo? 0 digno secret&aacute;rio do Clube do Canh&atilde;o pensava,<br \/>\n    ingenua mente, que o seu presidente devia ser conhecido por todos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas o lenhador n&atilde;o parecia compreend&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Um ca&ccedil;ador &#8211; disse ent&atilde;o Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Um ca&ccedil;ador? Sim &#8211; respondeu o lenhador.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; muito tempo? &#8211; H&aacute; pouco mais ou menos uma hora.<\/p>\n<p> &#8211; Tarde, demais! &#8211; exclamou Maston.<\/p>\n<p> &#8211; E ouviu tiros de espingarda? &#8211; perguntou Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nem um s&oacute;? . Nem um. Esse ca&ccedil;ador parece n&atilde;o estar<br \/>\n    fazendo boa ca&ccedil;ada.<\/p>\n<p> &#8211; Que fazer? &#8211; disse Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Podemos entrar no bosque e correremos o risco de apanhar uma bala que<br \/>\n    n&atilde;o nos &eacute; destinada.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! ?- exclamou Maston com uma express&atilde;o que n&atilde;o enganava<br \/>\n    -, prefiro dez balas na minha cabe&ccedil;a do que uma s&oacute; na cabe&ccedil;a<br \/>\n    de Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o para a frente &#8211; disse Ardan, apertando a m&atilde;o do seu<br \/>\n    companheiro.<\/p>\n<p> Alguns segundos mais tarde, os dois amigos desapareciam no mato. Era um<br \/>\n    emaranhado de &aacute;rvores muito espessas, feito de ciprestes gigantes,<br \/>\n    sic&ocirc;moros, oliveiras, tamarindos, tulipeiros, carvalhos e de magn&oacute;lias.<br \/>\n    Essas diversas &aacute;rvores emaranhavam os seus ramos numa mistura inextric&aacute;vel,<br \/>\n    sem permitir que a vista se estendesse ao longe. Michel Ardan e Maston caminhavam<br \/>\n    um perto do outro, passando silenciosamente atrav&eacute;s das ervas altas,<br \/>\n    abrindo caminho atrav&eacute;s das trepadeiras vigorosas, interrogando com<br \/>\n    o olhar os arbustos ou os ramos perdidos na sombria espessura da folhagem<br \/>\n    e esperando a cada passo a tem&iacute;vel detona- &ccedil;&atilde;o das espingardas.<br \/>\n    Quanto aos rastos que Barbicane devia ter deixado da sua passagem atrav&eacute;s<br \/>\n    do bosque, eralhes imposs&iacute;vel reconhece-los, e eles caminhavam como<br \/>\n    cegos pelos caminhos mal desbravados, nos quais um &iacute;n dio teria detectado<br \/>\n    sem hesita&ccedil;&atilde;o a pista do seu advers&aacute;- rio.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s uma hora de v&atilde;s pesquisas, os dois companheiros detiveram-se.<br \/>\n    A sua inquieta&ccedil;&atilde;o redobrava a cada segundo.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo j&aacute; deve ter acabado &#8211; disse Maston, desencorajado..<\/p>\n<p> &#8211; Um homem como Barbicane n&atilde;o podia ter usado ast&uacute;cia contra<br \/>\n    o seu inimigo, nem preparado qualquer armadilha, nem feito qualquer manobra.<br \/>\n    &Eacute; demasiado franco. Demasiado corajoso. Foi para a frente, direto ao<br \/>\n    perigo, e chegou sem d&uacute;vida bastante distante do lenhador para que<br \/>\n    o vento tenha levado at&eacute; ele a detona&ccedil;&atilde;o de uma arma.<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&oacute;s. N&oacute;s. &#8211; disse Michel Ardan. &#8211; Desde a nossa entrada<br \/>\n    no bosque, ter&iacute;amos ouvido&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; E se chegamos tarde demais! &#8211; exclamou J. T. Maston, com uma express&atilde;o<br \/>\n    de desespero.<\/p>\n<p> Michel Ardan n&atilde;o achou nada para responder; Maston e ele continuaram<br \/>\n    o caminho interrompido. De tempos a tempos, soltavam grandes gritos; chamavam<br \/>\n    quer Barbicane quer Nicoles; mas nem um nem outro dos dois advers&aacute;rios<br \/>\n    respondeu &agrave; sua chamada. Alegres bandos de pardais, despertos pelo<br \/>\n    ru&iacute;do, desapareciam por entre as ramadas, e alguns gamos assustados<br \/>\n    fugiam precipitadamente pelo meio do mato.<\/p>\n<p> A procura prolongou-se ainda durante uma hora mais. A maior parte do bosque<br \/>\n    j&aacute; tinha, sido explorada. Nada denunciava a presen&ccedil;a dos contendores.<br \/>\n    Era de porem d&uacute;vida a afirma&ccedil;&atilde;o do lenhador, e Ardan<br \/>\n    ia renunciar a prosseguir durante mais tempo um reconhecimento in&uacute;til<br \/>\n    quando, de repente, Maston o deteve.<\/p>\n<p> &#8211; Sil&ecirc;ncio! &#8211; disse ele.. &#8211; Algu&eacute;m est&aacute; ali.<\/p>\n<p> &#8211; Algu&eacute;m? &#8211; inquiriu Michel Ardan.<\/p>\n<p> Sim, um homem! Parece im&oacute;vel. Mas n&atilde;o tem a espingarda nas<br \/>\n    m&atilde;os. Que faz ele? &#8211; Mas voc&ecirc; o reconhece? &#8211; perguntou Michel<br \/>\n    Ardan, cuja vista n&atilde;o o ajudava nessas ocasi&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, sim &#8211; respondeu Maston. &#8211; Est&aacute; voltando.<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; 0 Capit&atilde;o Nicoles! Nicoles! &#8211; exclamou Michel Ardan, que sentiu<br \/>\n    um violento aperto no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nicoles desarmado! N&atilde;o tem ent&atilde;o nada a recear do seu advers&aacute;rio?<br \/>\n    &#8211; Vamos ter com ele &#8211; disse Michel Ardan -: assim, saberemos o que aconteceu.<\/p>\n<p> Ele e o seu companheiro ainda n&atilde;o tinham dado cinq&uuml;enta passos<br \/>\n    quando pararam para examinar mais detidamente o capit&atilde;o. Imaginavam<br \/>\n    ir encontrar um homem sedento de sangue e todo entregue aos seus pensamentos<br \/>\n    de vingan- &ccedil;a! Ao v&ecirc;-lo, ficaram totalmente, espantados.<\/p>\n<p> Uma faixa de malha apertada estendia-se entre dois tulipeiros, e, no meio<br \/>\n    dessa rede, um passarinho, com as asas apanhadas nas malhas, debatia-se soltando<br \/>\n    pios lastimosos.<\/p>\n<p> 0 ca&ccedil;ador de p&aacute;ssaros que ali colocara aquela rede inextric&aacute;vel<br \/>\n    n&atilde;o era um ser humano, mas, sim, uma aranha venenosa comum na regi&atilde;o,<br \/>\n    do tamanho de um ovo de pomba e munida de patas enormes. 0 horroroso animal,<br \/>\n    no movimento de se precipitar sobre a sua v&iacute;tima, tivera de retroceder<br \/>\n    e procurar asilo nos ramos altos? dos tulipeiros, pois um inimigo tem&iacute;vel<br \/>\n    viera amea&ccedil;&aacute;-lo por sua vez.<\/p>\n<p> Realmente, o Capit&atilde;o Nicoles, com a espingarda por terra, esquecendo<br \/>\n    os perigos da sua situa&ccedil;&atilde;o, ocupava-se em libertar o mais delicadamente<br \/>\n    poss&iacute;vel a v&iacute;tima apanhada entre as malhas da teia da monstruosa<br \/>\n    aranha. Quando terminou, deu a liberdade ao passarinho, que bateu alegremente<br \/>\n    as asas e desapareceu, Nicoles, enternecido, viu-o fugir atrav&eacute;s dos<br \/>\n    ramos, e de s&uacute;bito ouviu estas palavras pronunciadas com voz comovida:<br \/>\n    &#8211; 0 senhor &eacute; um homem corajoso.<\/p>\n<p> Voltou-se. Michel Ardan encontrava-se em frente dele, re petindo em todos<br \/>\n    os tons: E um homem gentil.<\/p>\n<p> &#8211; Michel Ardan! &#8211; exclamou o capit&atilde;o. &#8211; Que vem &#8211; fazer aqui, senhor?<br \/>\n    &#8211; Apertar-lhe a m&atilde;o, Nicoles, e impedi-lo de matar Barbicane ou de<br \/>\n    ser morto por ele.<\/p>\n<p> &#8211; Barbicane &#8211; exclamou o capit&atilde;o -, que eu procuro h&aacute; duas<br \/>\n    horas sem o encontrar &#8211; Onde se esconde ele?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nicoles! &#8211; ? disse Michel Ardan. &#8211; Isto n&atilde;o &eacute; delicado.<br \/>\n    &Eacute; preciso respeitar sempre o advers&aacute;rio; esteja tranq&uuml;ilo:<br \/>\n    se Barbicane estiver vivo, n&oacute;s o encontraremos. Por outro lado, e &eacute;<br \/>\n    Michel Ardan quem lho diz, j&aacute; n&atilde;o haver&aacute; qualquer duelo<br \/>\n    entre-os dois.<\/p>\n<p> &#8211; Entre o Presidente Barbicane e eu &#8211; respondeu gravemente Nicoles &#8211; existe<br \/>\n    uma tal rivalidade que s&oacute; a morte de um de n&oacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Vamos! Vamos! &#8211; replicou Michel Ardan homens como voc&ecirc;s dois podem<br \/>\n    ter-se detestado, mas t&ecirc;m de passar a estimar-se. N&atilde;o se bater&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bater-me-ei, senhor.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Capit&atilde;o &#8211; disse ent&atilde;o J. T. Maston, muito comovido. &#8211; Eu,<br \/>\n    sou amigo do presidente, sou como se fosse ele pr&oacute;prio; se quer absolutamente<br \/>\n    matar algu&eacute;m, dispare sobre mim, que ser&aacute; exatamente o mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Senhor &#8211; disse Nicoles apertando convulsivamente a coronha da espingarda<br \/>\n    -, essas brincadeiras&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; 0 amigo Maston n&atilde;o graceja e eu compreendo a sua id&eacute;ia de<br \/>\n    se deixar matar em vez do homem de que &eacute; amigo! Mas nem ele nem Barbicane<br \/>\n    cair&atilde;o sob as balas do Capit&atilde;o Nicoles, pois tenho uma proposta<br \/>\n    a fazer aos dois rivais, uma proposta t&atilde;o sedutora que eles se apressar&atilde;o<br \/>\n    a aceitar.<\/p>\n<p> &#8211; E qual &eacute;? &#8211; perguntou Nicoles? com vis&iacute;vel incredulidade.<\/p>\n<p> &#8211; Um pouco de paci&ecirc;ncia &#8211; replicou Ardan -: s&oacute; posso comunic&aacute;-lo<br \/>\n    na presen&ccedil;a de Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos ent&atilde;o procur&aacute;-lo &#8211; exclamou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> Imediatamente, os tr&ecirc;s homens se puseram a caminho; o capit&atilde;o,<br \/>\n    depois de ter descarregado a sua espingarda, p&ocirc;- la ao ombro e avan&ccedil;ou<br \/>\n    com passos irregulares, sem nada dizer.<\/p>\n<p> Durante ainda mais meia hora as pesquisas foram in&uacute;teis.<\/p>\n<p> Maston tinha tristes pressentimentos. Observava severamente Nicoles, pensando<br \/>\n    se o capit&atilde;o n&atilde;o teria satisfeito os seus desejos de vingan&ccedil;a<br \/>\n    e se o pobre Barbicane n&atilde;o se encontraria, ensang&uuml;entado, j&aacute;<br \/>\n    sem vida, no fundo de algum talude. Michel Ardan parecia ter os mesmos pensamentos,<br \/>\n    e ambos interrogavam j&aacute; com o olhar o Capit&atilde;o Nicoles quando,<br \/>\n    de s&uacute;bito, Maston se deteve.<\/p>\n<p> 0 busto im&oacute;vel de um homem deitado debaixo de uma gigantesca &aacute;rvore<br \/>\n    surgia a vinte passos, semi-escondido pelas folhagens.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; ele! &#8211; disse Maston.<\/p>\n<p> Barbicane n&atilde;o se mexia. Ardan mergulhou o seu olhar no do capit&atilde;o,<br \/>\n    mas este n&atilde;o se mexeu. Ardan deu ent&atilde;o alguns passos, gritando:<br \/>\n    &#8211; Barbicane! Barbicane! N&atilde;o obteve resposta. Ardan precipitou-se para<br \/>\n    o amigo; mas, no momento em que ia agarrar-lhe o bra&ccedil;o, detevese, soltando<br \/>\n    um grito de surpresa.<\/p>\n<p> Barbicane, de l&aacute;pis na m&atilde;o, tra&ccedil;ava f&oacute;rmulas<br \/>\n    e figuras geom &eacute;tricas num papel, enquanto a sua espingarda, descarregada,<br \/>\n    jazia por terra.<\/p>\n<p> Absorvido no seu trabalho, o s&aacute;bio, esquecendo por sua vez o duelo<br \/>\n    e a vingan&ccedil;a, nada ouvira nem ouvia.<\/p>\n<p> Mas, quando Michel Ardan pousou a m&atilde;o sobre a dele, levantou- se<br \/>\n    e olhou-o com ar espantado.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! &#8211; exclamou finalmente. &#8211; Descobri, meu amigo, descobri! &#8211; Os meios!<br \/>\n    &#8211; Masque meios? &#8211; Meios de anular o efeito da repercuss&atilde;o na partida<br \/>\n    do proj&eacute;til! &#8211; Realmente? &#8211; perguntou Michel Ardan, olhando o capit&atilde;o<br \/>\n    pelo canto do olho.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! &Aacute;gua pura que servir&aacute; de mola&#8230; Ah, Maston &#8211; exclamou<br \/>\n    Barbicane -, tamb&eacute;m aqui.<\/p>\n<p> &#8211; Ele mesmo &#8211; respondeu Michel Ardan -, e permita-me que te apresente ao<br \/>\n    mesmo tempo o digno Capit&atilde;o Nicoles! &#8211; Nicoles! &#8211; exclamou Barbicane,<br \/>\n    manifestando sua surpresa.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, capit&atilde;o &#8211; disse &#8211; tinha esquecido&#8230; estou pronto&#8230;<\/p>\n<p> Michel Ardan interveio sem deixar aos dois inimigos tempo de se interpelarem.<\/p>\n<p> &#8211; Por Deus! &#8211; disse -, ainda bem que dois valentes homens como os senhores<br \/>\n    n&atilde;o se encontraram mais cedo. Ter&iacute;amos agora a chorar um ou<br \/>\n    outro. Mas gra&ccedil;as a Deus, que se meteu no caso, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    temos nada a recear. Quando se esquece o &oacute;dio para se mergulhar nos<br \/>\n    problemas de mec &acirc;nica ou para pregar partidas &agrave;s aranhas, &eacute;<br \/>\n    porque esse &oacute;dio n&atilde;o &eacute; perigoso para ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> E Michel Ardan contou ao presidente a hist&oacute;ria do capit&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Pergunto agora &#8211; disse, concluindo &#8211; se dois seres bons como os senhores<br \/>\n    foram feitos para dilacerarem mutuamente a cabe&ccedil;a a tiros de espingarda?<br \/>\n    Havia nessa situa&ccedil;&atilde;o, um pouco rid&iacute;cula, alguma coisa<br \/>\n    de t&atilde;o inesperado que Barbicane e Nicoles n&atilde;o sabiam bem que<br \/>\n    atitude manter em rela&ccedil;&atilde;o um ao outro. Michel Ardan sentiu &#8211;<br \/>\n    o bem e decidiu apressar a reconcilia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Meus bravos amigos &#8211; disse, deixando aparecer nos l&aacute;bios o seu<br \/>\n    melhor sorriso -, entre os dois nunca houve sen &atilde;o um mal-entendido.<br \/>\n    Nada mais. Pois bem! Para provar que est&aacute; tudo acabado entre voc&ecirc;s,<br \/>\n    e visto que s&atilde;o pessoas prontas e arriscar a pele, aceitem francamente<br \/>\n    a proposta que lhes vou fazer.<\/p>\n<p> &#8211; Fale &#8211; disse Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; 0 amigo Barbicane julga que o seu proj&eacute;til ir&aacute; direitinho<br \/>\n    &agrave; Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, certamente &#8211; replicou o presidente.<\/p>\n<p> &#8211; E o amigo Nicoles tem a certeza de que ele voltar&aacute; a cair na Terra.<\/p>\n<p> &#8211; Estou certo disto &#8211; exclamou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bom! replicou Michel Ardan. &#8211; N&atilde;o tenho a pretens&atilde;o de os<br \/>\n    p&ocirc;r de acordo; mas digo-lhes muito francamente: venham comigo, e ficar&atilde;o<br \/>\n    sabendo se ficamos pelo caminho.<\/p>\n<p> &#8211; Hem? &#8211; exclamou J. T. Maston, estupefato.<\/p>\n<p> Ao ouvirem aquela inesperada proposta, os dois rivais tinham olhado um para<br \/>\n    o outro. Observavam-se com aten- &ccedil;&atilde;o. Barbicane esperava a resposta<br \/>\n    do capit&atilde;o. Nicoles as palavras do presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? &#8211; disse Michel Ardan no seu tom mais conciliador.<\/p>\n<p> Visto que n&atilde;o h&aacute; repercuss&atilde;o a temer&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Aceito! &#8211; exclamou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Viva! Bravo! Hip! Hip! Hip! Hurra! &#8211; exclamou Michel Ardan, estendendo<br \/>\n    a m&atilde;o aos dois advers&aacute;rios. &#8211; E agora, que o assunto est&aacute;<br \/>\n    solucionado, meus amigos, permitam-me que os trate &agrave; francesa. Vamos<br \/>\n    almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Nesse mesmo dia, toda a Am&eacute;rica soube o que havia passado entre o<br \/>\n    Capit&atilde;o Nicoles e o Presidente Barbicane, assim como o seu singular<br \/>\n    desenlace. 0 papel desempenhado nesse encontro pelo cavalheiresco europeu,<br \/>\n    a sua inesperada proposta, que fazia desaparecer as dificuldades, a aceita<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o simult&acirc;nea dos dois rivais, essa conquista do continente<br \/>\n    lunar para a qual a Fran&ccedil;a e os Estados Unidos iam marchar de comum<br \/>\n    acordo, tudo se reunia para aumentar mais ainda a popularidade de Michel<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII &#8211; O vag&atilde;o-proj&eacute;til<\/a><\/h4>\n<p>Depois de terminado o c&eacute;lebre columbiad, o interesse do p&uacute;blico<br \/>\n    incidiu imediatamente sobre o proj&eacute;til, esse novo ve&iacute;culo destinado<br \/>\n    a transportar atrav&eacute;s do espa&ccedil;o os tr&ecirc;s ousados aventureiros.<br \/>\n    Ningu&eacute;m se tinha esquecido de que, no seu telegrama de 30 de setembro,<br \/>\n    Michel Ardan pedia uma modifica&ccedil;&atilde;o nos planos feitos pelos membros<br \/>\n    da Comiss &atilde;o.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane pensava ent&atilde;o com raz&atilde;o que a forma<br \/>\n    do proj&eacute;til importava pouco, pois, ap&oacute;s ter atravessado a atmosfera<br \/>\n    em poucos segundos, o seu percurso devia efetuar-se no v&aacute;cuo total.<br \/>\n    A Comiss&atilde;o adotara, portanto, a forma redonda, a fim de que o proj&eacute;til<br \/>\n    pudesse girar sobre si mesmo e comportar-se segundo a sua fantasia.<\/p>\n<p> Mas, desde o momento em que era transformado em ve&iacute;culo, o caso era<br \/>\n    diferente. Michel Ardan n&atilde;o queria viajar &agrave; maneira dos esquilos;<br \/>\n    queria subir de cabe&ccedil;a para cima e p&eacute;s para baixo, com tanta<br \/>\n    dignidade como na barquinha de uni bal&atilde;o, mais depressa sem d&uacute;vida,<br \/>\n    mas sem se entregar a uma s&eacute;rie de cambalhotas pouco convenientes.<\/p>\n<p> Novos planos foram, portanto, enviados &agrave; casa Breadwill &amp; C?,<br \/>\n    de Albany, com a recomenda&ccedil;&atilde;o de serem executados sem demora.<br \/>\n    0 proj&eacute;til, assim modificado, foi fundido a 2 de novembro e enviado<br \/>\n    imediatamente &agrave; Colina das Pedras pela estrada de ferro do leste. A<br \/>\n    chegou sem acidentes ao seu local de destino. Michel Ardan, Barbicane e Nicoles<br \/>\n    esperavam com a mais viva impaci&ecirc;ncia aquele ?vag&atilde;oproj &eacute;til?<br \/>\n    no qual deviam tomar lugar para voarem &agrave; descoberta de uni novo mundo.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso concordar que se tratava de unia magn&iacute;fica pe&ccedil;a<br \/>\n    de metal, de um produto metal&uacute;rgico que fazia a honra ao g&ecirc;nio<br \/>\n    industrial dos americanos. Acabava-se de obter pela primeira vez o alum&iacute;nio<br \/>\n    numa quantidade t&atilde;o consider&aacute;vel, o que podia ser justamente<br \/>\n    considerado como uni resultado prodigioso. Esse precioso proj&eacute;til cintilava<br \/>\n    sob os raios do Sol. Ao v&ecirc;-lo com as suas formas imponentes e encimado<br \/>\n    pelo seu chap&eacute;u c&ocirc;nico, tomar-se-ia de boa vontade por unia dessas<br \/>\n    torres em forma de pimenteiros, que os arquitetos da Idade M&eacute;dia suspendiam<br \/>\n    nos cantos dos cas telos fortificados.<\/p>\n<p> &#8211; Fico &agrave; espera -. dizia Michel Ardan -.de ver de l&aacute; sair<br \/>\n    um homem de armas, usando um arcabuz e armadura de a&ccedil;o.<\/p>\n<p> Estaremos l&aacute; dentro como feudais, e com um pouco de artilharia far&iacute;amos<br \/>\n    frente a todos os ex&eacute;rcitos selenitas, se &eacute; que os h&aacute;<br \/>\n    na Lua! &#8211; Ent&atilde;o, o ve&iacute;culo agrada-te? &#8211; perguntou Barbicane<br \/>\n    ao seu amigo.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, Sim!, sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Michel Ardan, que o observava<br \/>\n    como artista. &#8211; Lamento apenas que as suas formas n&atilde;o sejam mais esguias,<br \/>\n    o seu cone mais gracioso; devia ser terminado com uni tufo de enfeites em<br \/>\n    metal lavrado, com unia quimera, por exemplo, uma carranca ou uma salamandra<br \/>\n    saindo do fogo com as fauces escancaradas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Para qu&ecirc;? &#8211; disse Barbicane, cujo esp&iacute;rito, positivo, era<br \/>\n    pouco sens&iacute;vel &agrave;s belezas da arte.<\/p>\n<p> &#8211; Para qu&ecirc;, amigo Barbicane! Visto que me perguntas, creio que nunca<br \/>\n    o compreender&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Mas diz, meu caro companheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem; conforme a minha opini&atilde;o, &eacute; preciso por sempre<br \/>\n    uni pouco de arte naquilo que se faz. &Eacute; melhor. Conheces unia pe&ccedil;a<br \/>\n    indiana que se chama 0 Carro da Crian&ccedil;a? &#8211; Nem sequer de nome &#8211; respondeu<br \/>\n    Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Isto n&atilde;o me espanta &#8211; replicou Michel Ardan. &#8211; Fica sabendo que,<br \/>\n    nessa pe&ccedil;a, h&aacute; um ladr&atilde;o que, no momento de furar a parede<br \/>\n    de unia casa, pergunta a si mesmo se far&aacute; ao seu buraco a forma de<br \/>\n    unia lira, de uma flor, de um p&aacute;ssaro ou de uma &acirc;nfora. Dize-me,<br \/>\n    ent&atilde;o, amigo Barbicane, se tu fosses membro do j&uacute;ri condenarias<br \/>\n    esse ladr&atilde;o? &#8211; Sem hesitar &#8211; respondeu o presidente do Clube do Canh<br \/>\n    &atilde;o -, e com a agravante do arrombamento.<\/p>\n<p> &#8211; E eu absolv&ecirc;-lo-ia, amigo Barbicane! Por isto, nunca poder &aacute;s<br \/>\n    compreender-me! &#8211; Nem sequer tentarei, meu valente artista.<\/p>\n<p> &#8211; Mas pelo menos &#8211; replicou Michel Ardan -, visto que o exterior do nosso<br \/>\n    proj&eacute;til deixa muito a desejar, permitamme que o decore &agrave; minha<br \/>\n    vontade, e com todo o luxo conveniente aos embaixadores da Terra! &#8211; A esse<br \/>\n    respeito, meu bom Michel &#8211; respondeu Barbicane &#8211; , podes agir segundo a tua<br \/>\n    fantasia, pois te deixaremos proceder &agrave; vontade.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, antes do agrad&aacute;vel, o presidente do Clube do Canh &atilde;o<br \/>\n    tinha pensado no &uacute;til, e os meios inventados por ele para diminuir<br \/>\n    os efeitos de repercuss&atilde;o foram aplicados com perfeita intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Barbicane havia pensado, n&atilde;o sem raz&atilde;o, que nenhuma mola seria<br \/>\n    suficientemente poderosa para amortecer o choque, e, durante o seu famoso<br \/>\n    passeio no bosque de Skersnaw, acabara por resolver essa grande dificuldade<br \/>\n    de unia forma engenhosa. Era &agrave; &aacute;gua que ele ia pedir que lhe<br \/>\n    prestasse esse not&aacute;vel servi&ccedil;o. Vamos ver como.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til devia ser cheio at&eacute; a altura de tr&ecirc;s p&eacute;s<br \/>\n    com unia camada de &aacute;gua destinada a suportar uni disco de madeira perfeitamente<br \/>\n    estanque, que ficaria encostado &agrave;s paredes internas do proj&eacute;til.<br \/>\n    Era sobre essa verdadeira jangada que os viajantes tomariam lugar. Quanto<br \/>\n    &agrave; massa l&iacute;quida, era dividida por compartimentos horizontais,<br \/>\n    que o choque da partida devia quebrar sucessivamente. Ent&atilde;o, cada len&ccedil;ol<br \/>\n    de &aacute;gua, do mais baixo ao mais alto, saindo por tubos que iam ter &agrave;<br \/>\n    parte superior do proj&eacute;til, serviria assim de mola, e o disco, munido<br \/>\n    de tamp&otilde;es extremamente poderosos, apenas podia bater na parte inferior<br \/>\n    depois do sucessivo esmagamento dos diversos tabiques. Sem d&uacute;vida,<br \/>\n    os viajantes sentiriam ainda unia violenta sacudidela ap&oacute;s a massa<br \/>\n    l&iacute;quida ter sa&iacute;do completamente, mas o primeiro choque devia<br \/>\n    ser quase inteiramente anulado por aquele amortecedor de grande pot&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que tr&ecirc;s p&eacute;s de &aacute;gua numa superf&iacute;cie<br \/>\n    de cinq&uuml;enta e quatro p&eacute;s quadrados deviam pesar perto de onze<br \/>\n    mil e quinhentas libras; mas a expans&atilde;o dos gases acumulados no columbiad<br \/>\n    bastaria, segundo a opini&atilde;o de Barbicane, para vencer esse acr&eacute;scimo<br \/>\n    de peso; de resto, o choque devia expulsar toda a &aacute;gua em menos de<br \/>\n    uni segundo, e o proj&eacute;til voltaria a ter rapidamente o seu peso normal.<\/p>\n<p> Eis o que tinha imaginado o presidente do Clube do Canh &atilde;o, e de<br \/>\n    que modo ele pensava ter resolvido a grave quest&atilde;o da repercuss&atilde;o.<br \/>\n    Esse trabalho, inteligentemente compreendido pelos engenheiros da Casa Breadwill,<br \/>\n    foi maravilhosamente executado; unia vez produzido o efeito e a &aacute;gua<br \/>\n    expelida para fora, os viajantes poderiam desembara &ccedil;ar-se facilmente<br \/>\n    dos tabiques quebrados e desmontar o disco m&oacute;vel onde se apoiariam<br \/>\n    no momento da partida.<\/p>\n<p> Quanto &agrave;s paredes superiores do proj&eacute;til, eram revestidas<br \/>\n    de uni espesso acolchoado de couro, aplicado sobre espirais do melhor a&ccedil;o,<br \/>\n    que tinham a leveza das molas de rel&oacute;- gio. Os tubos de escape, dissimulados<br \/>\n    sob esse acolchoado, n&atilde;o deixavam sequer desconfiar da sua exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Assim, tinham sido tomadas todas as precau&ccedil;&otilde;es poss&iacute;-<br \/>\n    veis e imagin&aacute;rias para amortecer o primeiro choque, e para se deixarem<br \/>\n    esmagar, como dizia Michel Ardan, era preciso que fossem de muito m&aacute;<br \/>\n    ra&ccedil;a?.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til media exteriormente nove p&eacute;s de largura por doze<br \/>\n    de altura. Para n&atilde;o ultrapassar o peso previsto, tinham diminu &iacute;do<br \/>\n    ligeiramente a espessura das suas paredes externas e refor&ccedil;ado a parte<br \/>\n    inferior, que devia suportar toda a viol&ecirc;ncia dos gases desenvolvidos<br \/>\n    pela deflagra&ccedil;&atilde;o do pir&oacute;xilo. Sucede assim nas bombas<br \/>\n    e obuses cilindro-c&ocirc;nicos, cujo fundo &eacute; sempre mais espesso.<\/p>\n<p> Penetrava-se nessa torre de metal por unia estreita abertura feita nas paredes<br \/>\n    do cone. Fechava hermeticamente por meio de unia chapa de alum&iacute;nio,<br \/>\n    preso no interior por meio de fortes parafusos de press&atilde;o. Os viajantes<br \/>\n    poderiam sair &agrave; vontade da sua pris&atilde;o m&oacute;vel, logo que<br \/>\n    atingissem o astro da noite.<\/p>\n<p> Contudo, n&atilde;o era preciso apenas ir: for&ccedil;oso era tamb&eacute;m<br \/>\n    ver. Nada mais f&aacute;cil. Realmente, sob o acolchoado encontravam- se quatro<br \/>\n    vigias de vidro de lente, de grande espessura, duas abertas na parede circular<br \/>\n    do proj&eacute;til, unia terceira na parte inferior e a &uacute;ltima no seu<br \/>\n    chap&eacute;u c&ocirc;nico.<\/p>\n<p> Os viajantes teriam, portanto, oportunidade de observar, durante o seu percurso,<br \/>\n    a Terra que acabavam de abandonar, a Lua de onde se aproximavam e os espa&ccedil;os<br \/>\n    constelados do c&eacute;u. No entanto, essas vigias estavam protegidas contra<br \/>\n    os choques da partida por placas solidamente presas, f&aacute;ceis de ser<br \/>\n    retiradas desatarraxando os parafusos interiores. Desse modo, o ar contido<br \/>\n    no proj&eacute;til n&atilde;o podia escapar, e as observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tornavam-se poss&iacute;veis.<\/p>\n<p> Todos esses mecanismos, admiravelmente estabelecidos, funcionavam com a<br \/>\n    maior facilidade, e os engenheiros n&atilde;o se tinham mostrado menos inteligentes<br \/>\n    no arranjo do vag &atilde;o-proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Recipientes solidamente presos eram destinados a conter a &aacute;gua e<br \/>\n    os v&iacute;veres necess&aacute;rios aos tr&ecirc;s viajantes; estes podiam<br \/>\n    at&eacute; ter fogo e luz com o g&aacute;s armazenado num recipiente especial,<br \/>\n    sob unia press&atilde;o de v&aacute;rias atmosferas.<\/p>\n<p> Bastava virar unia chave e durante seis dias esse g&aacute;s devia iluminar<br \/>\n    e aquecer esse confort&aacute;vel ve&iacute;culo. Como se v&ecirc;, nada daquilo<br \/>\n    que era essencial &agrave; vida e mesmo ao bemestar faltava. Al&eacute;m disso,<br \/>\n    gra&ccedil;as aos instintos de Michel Ardan, o agrad&aacute;vel viera juntar-se<br \/>\n    ao &uacute;til sob a forma de objetos de arte; teria feito do proj&eacute;til<br \/>\n    unia verdadeira galeria de arte se o espa&ccedil;o n&atilde;o lhe faltasse.<br \/>\n    De resto, enganarse- iam se julgassem que tr&ecirc;s pessoas ficassem apertadas<br \/>\n    nessa torre de metal. Tinha unia superf&iacute;cie de cinq&uuml;enta e quatro<br \/>\n    p&eacute;s quadrados, mais ou menos, por dez p&eacute;s de altura, o que permitia<br \/>\n    unia certa liberdade de movimentos.<\/p>\n<p> N&atilde;o estariam mais &agrave; vontade no mais confort&aacute;vel dos<br \/>\n    vag &otilde;es de estrada de ferro dos Estados Unidos.<\/p>\n<p> Estamos resolvida a quest&atilde;o dos v&iacute;veres e da ilumina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    restava a do ar. Era evidente que o ar encerrado dentro do proj&eacute;til<br \/>\n    n&atilde;o seria suficiente para a respira&ccedil;&atilde;o dos viajantes<br \/>\n    durante quatro dias; cada homem consome, em cerca de uma hora, todo o oxig&ecirc;nio<br \/>\n    contido em cem litros de ar.<\/p>\n<p> Barbicane, os seus companheiros e os dois c&atilde;es que tencionavam levar<br \/>\n    deviam consumir, em vinte e quatro horas, dois mil e quatrocentos litros de<br \/>\n    oxig&ecirc;nio, ou, em peso, aproximadamente sete libras. Era, portanto, necess&aacute;rio<br \/>\n    renovar o ar do proj&eacute;til. Como? Por um processo muito simples, o dos<br \/>\n    senhores Reiset e Regnault, indicado por Michel Ardan durante a discuss&atilde;o<br \/>\n    da assembl&eacute;ia.<\/p>\n<p> Sabe-se que o ar se comp&otilde;e principalmente de vinte e unia partes<br \/>\n    de oxig&ecirc;nio e de setenta e nove partes de azoto.<\/p>\n<p> Ora, que se passa ao ato da respira&ccedil;&atilde;o? Um fen&ocirc;meno<br \/>\n    muito simples. 0 homem absorve o oxig&ecirc;nio do ar, eminentemente apropriado<br \/>\n    para manter a vida, e repele o azoto intato. 0 ar expirado perdeu perto de<br \/>\n    cinco por cento do seu oxig&ecirc;nio e cont&eacute;m um volume aproximadamente<br \/>\n    igual de &aacute;cido carb&ocirc;nico, produto definitivo da combust&atilde;o<br \/>\n    dos elementos do sangue pelo oxig&ecirc;nio inspirado. Sucede ent &atilde;o<br \/>\n    que num meio fechado, e ap&oacute;s um certo tempo, o ar &eacute; substitu&iacute;do<br \/>\n    pelo &aacute;cido, g&aacute;s essencialmente venenoso.<\/p>\n<p> A quest&atilde;o reduz-se ent&atilde;o ao seguinte: ficando o azoto intato,<br \/>\n    *era preciso refazer primeiro o oxig&ecirc;nio absorvido, e depois destruir<br \/>\n    o &aacute;cido carb&ocirc;nico expirado. Nada mais f&aacute;cil por meio de<br \/>\n    clorato de pot&aacute;ssio e de potassa c&aacute;ustica.<\/p>\n<p> 0 clorato de pot&aacute;ssio &eacute; uni sal que se apresenta sob a forma<br \/>\n    de palhetas brancas; quando &eacute; levado a uma temperatura superior a quatrocentos<br \/>\n    graus, transforma-se em cloreto d&ecirc; pot&aacute;ssio, e o oxig&ecirc;nio<br \/>\n    que cont&eacute;m liberta-se inteiramente. Ora, dezoito libras de clorato<br \/>\n    de pot&aacute;ssio d&atilde;o sete libras de oxig&ecirc;nio, isto &eacute;,<br \/>\n    a quantidade necess&aacute;ria aos viajantes durante vinte e quatro horas.<br \/>\n    Eis como eles iam rarefazer o oxig&ecirc;nio.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; potassa c&aacute;ustica, &eacute; uma mat&eacute;ria muito<br \/>\n    &aacute;vida de &aacute;cido carb&ocirc;nico, misturado com o ar, e basta<br \/>\n    agit&aacute;-lo para que se apodere dele e forme bicarbonato de pot&aacute;ssio.<br \/>\n    Eis o que eles teriam de fazer para absorver o &aacute;cido carb&ocirc;nico.<\/p>\n<p> Combinando esses dois meios, tinham a certeza de dar ao ar viciado todas<br \/>\n    as suas propriedades vivificantes. Era o que dois qu&iacute;micos, os senhores<br \/>\n    Reiset e Regnault, tinham experimentado com &ecirc;xito. Mas, &eacute; preciso<br \/>\n    diz&ecirc;-lo, a experi- &ecirc;ncia tinha-se realizado at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    em animais. Qualquer que fosse a sua precis&atilde;o cient&iacute;fica, ignorava-se<br \/>\n    totalmente como os homens a suportariam.<\/p>\n<p> Foi essa a observa&ccedil;&atilde;o feita na sess&atilde;o onde se tratou<br \/>\n    dessa grave quest&atilde;o. Michel Ardan n&atilde;o queria p&ocirc;r em d&uacute;vida<br \/>\n    a possibilidade de viver no meio desse ar fict&iacute;cio, e ofereceuse para<br \/>\n    experimentar antes da partida. Mas a honra de tentar essa prova foi energicamente<br \/>\n    reclamada por J. T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Visto que n&atilde;o parto &#8211; disse o bravo artilheiro posso pelo menos<br \/>\n    morar no proj&eacute;til durante oito dias.<\/p>\n<p> N&atilde;o teria sido am&aacute;vel recusar-lhe esse pedido. Quantidades<br \/>\n    suficientes de clorato de pot&aacute;ssio e de potassa c&aacute;ustica foram<br \/>\n    postas &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o, bem como v&iacute;veres para<br \/>\n    oito dias; depois, tendo apertado as m&atilde;os dos seus amigos, no dia 12<br \/>\n    de novembro, &agrave;s seis horas da tarde, Maston deslizou para o proj&eacute;til,<br \/>\n    tendo expressamente recomendado que n&atilde;o lhe abrissem a pris&atilde;o<br \/>\n    antes do dia 20. A tampa foi ent&atilde;o fechada.<\/p>\n<p> No dia 20 de novembro, &agrave;s seis horas em ponto, a tampa foi aberta.<br \/>\n    Os amigos de J. T. Maston n&atilde;o deixavam de estar uni pouco inquietos.<br \/>\n    Mas logo se tranq&uuml;ilizaram ao ouvirem unia voz alegre que soltava uni<br \/>\n    formid&aacute;vel hurra.<\/p>\n<p> Em breve, o secret&aacute;rio do Clube do Canh&atilde;o aparecia no alto<br \/>\n    do cone numa atitude triunfante. Tinha engordado!<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV &#8211; O telesc&oacute;pio e os &uacute;ltimos<br \/>\n    preparativos<\/a><\/h4>\n<p>A 20 de outubro do ano precedente, depois de fechada a subscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o presidente do Clube do ? Canh&atilde;o tinha creditado ao Observat&oacute;rio<br \/>\n    de Cambridge as quantias necess&aacute;rias para a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um instrumento de &oacute;tica.<\/p>\n<p> Antes do mais, foi preciso optar entre os telesc&oacute;pios e as lunetas.<br \/>\n    As lunetas apresentam vantagens sobre os telesc &oacute;pios. Com igualdade<br \/>\n    de objetivas, permitem obter aumentos mais consider&aacute;veis, porque os<br \/>\n    raios luminosos que atravessam as lentes perdem menos pela absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que pela reflex&atilde;o sobre o espelho met&aacute;lico dos telesc&oacute;pios.<br \/>\n    Mas a espessura que se pode dar a uma lente &eacute; limitada, pois, sendo<br \/>\n    demasiado espessa, n&atilde;o deixa passar os raios luminosos.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, a constru&ccedil;&atilde;o dessas grandes lentes &eacute;<br \/>\n    excessivamente dif&iacute;cil e precisa de um tempo consider&aacute;vel, que<br \/>\n    se mede em anos.<\/p>\n<p> Portanto, se bem que as imagens fossem mais bem iluminadas nas lunetas,<br \/>\n    vantagem inapreci&aacute;vel quando se trata de observar a Lua, cuja luz &eacute;<br \/>\n    simplesmente refletida, decidiram- se pela utiliza&ccedil;&atilde;o de uni<br \/>\n    telesc&oacute;pio, que &eacute; de execu- &ccedil;&atilde;o mais r&aacute;pida<br \/>\n    e permite obter unia amplia&ccedil;&atilde;o maior. No entanto, como os raios<br \/>\n    luminosos perdem unia grande parte da sua intensidade ao atravessar a atmosfera,<br \/>\n    o Clube do Canh&atilde;o resolveu instalar o instrumento numa das mais altas<br \/>\n    montanhas dos Estados Unidos, o que diminuiria a espessura das camadas a&eacute;reas.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; quest&atilde;o do local, foi prontamente resolvida. Tratava-<br \/>\n    se de escolher unia montanha alta, e as montanhas altas n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    numerosas nos Estados Unidos.<\/p>\n<p> Contudo, visto que o Clube do Canh&atilde;o queria que o telesc &oacute;pio,<br \/>\n    assim como o columbiad, ficassem instalados nos Estados Unidos, contentavam-se<br \/>\n    com as Montanhas Rochosas, e todo o material necess&aacute;rio foi dirigido<br \/>\n    para o cimo de Long?s Peak, no territ&oacute;rio do Missuri.<\/p>\n<p> Todavia, o telesc&oacute;pio das Montanhas Rochosas, antes de servir ao<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o, prestou imensos servi&ccedil;os &agrave; astronomia.<br \/>\n    Gra&ccedil;as ao seu poder de penetra&ccedil;&atilde;o, as pro fundidades<br \/>\n    do c&eacute;u foram sondadas at&eacute; os &uacute;ltimos limites, o di&acirc;metro<br \/>\n    aparente das estrelas p&ocirc;de ser rigorosamente medido, e o senhor Clarke,<br \/>\n    do Observat&oacute;rio de Cambridge, decomp&ocirc;s a nebulosa com forma de<br \/>\n    caranguejo de Taurus, que o refletor de Lorde Rosse nunca pudera decompor.<\/p>\n<p> Estava-se a 22 de novembro. A partida suprema devia ter lugar dez dias mais<br \/>\n    tarde. Restava apenas levar a bom termo unia &uacute;nica opera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Opera&ccedil;&atilde;o delicada, perigosa, exigindo precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    infinitas e contra o bom sucesso da qual o Capit&atilde;o Nicoles fizera a<br \/>\n    sua terceira aposta. Tratava- se de carregar o columbiad e introduzir-lhe<br \/>\n    as quatrocentas mil libras de algod&atilde;o-p&oacute;lvora. Nicoles pensara,<br \/>\n    e talvez com certa raz&atilde;o, que a manipula&ccedil;&atilde;o de tal quantidade<br \/>\n    de pir&oacute;xilo poderia provocar graves cat&aacute;strofes, e que essa<br \/>\n    massa eminentemente explosiva se inflamaria por si mesma sob a press&atilde;o<br \/>\n    do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Havia, realmente, graves perigos, ainda acrescidos pela despreocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a leviandade dos americanos, que n&atilde;o se preocupavam em nada, durante<br \/>\n    a Guerra da Secess&atilde;o, em ir carregar os seus canh&otilde;es de charuto<br \/>\n    na boca. Mas Barbicane tinha tomado a peito ter &ecirc;xito e n&atilde;o naufragar<br \/>\n    &agrave; vista do porto; escolheu, portanto, os seus melhores oper &aacute;rios<br \/>\n    e f&ecirc;-los trabalhar sob a sua vigil&acirc;ncia. N&atilde;o os deixando<br \/>\n    um s&oacute; momento com o olhar, e &agrave; for&ccedil;a de prud&ecirc;ncia<br \/>\n    e de precau&ccedil;&otilde;es, soube p&ocirc;r do seu lado todas as possibilidades<br \/>\n    de &ecirc;xito.<\/p>\n<p> Antes de tudo, n&atilde;o levou todo o carregamento para a Colina das Pedras.<br \/>\n    Fe-lo transportar pouco a pouco em caixotes hermeticamente fechados. A muni&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinha sido dividida em embalagens de quinhentas libras o que perfazia oitocentos<br \/>\n    grandes cartuchos cuidadosamente confeccionados pelos mais h&aacute;beis oper&aacute;rios<br \/>\n    de Pensacola. Cada caixote podia conter dez cartuchos e chegava uni ap&oacute;s<br \/>\n    outro pela estrada de ferro de Tampa; desse modo, n&atilde;o havia nunca mais<br \/>\n    de cinco mil libras de pir&oacute;xilo ao mesmo tempo dentro do recinto. Logo<br \/>\n    que cada caixote chegava era des carregado por oper&aacute;rios que caminhavam<br \/>\n    de p&eacute;s descal- &ccedil;os, e cada cartucho transportado para o orif&iacute;cio<br \/>\n    do columbiad, para o qual descia por meio de guindastes acionados manualmente.<br \/>\n    Todas as m&aacute;quinas a vapor tinham sido afastadas, e os mais pequenos<br \/>\n    fogos apagados numa zona de duas milhas de raio. Era j&aacute; muito ter de<br \/>\n    proteger essa enorme quantidade de algod&atilde;o-p&oacute;lvora dos ardores<br \/>\n    do sol, mesmo em novembro. Desse modo, trabalhavam de prefer&ecirc;ncia durante<br \/>\n    a noite, com unia luz produzida no v&aacute;cuo, e que, por meio dos aparelhos<br \/>\n    de Ruhnlkorff, criava uni dia artificial at&eacute; ao fundo do columbiad.<br \/>\n    Ali, os cartuchos eram arrumados com unia perfeita regularidade e ligados<br \/>\n    entre si por meio de uni fio met&aacute;lico destinado a levar simultaneamente<br \/>\n    a fa&iacute;sca el&eacute;trica para o centro de cada uni deles. Realmente,<br \/>\n    por meio da pilha &eacute; que o fogo devia ser comunicado a essa massa de<br \/>\n    algod&atilde;o-p&oacute;lvora. Todos esses fios, rodeados de material isolante,<br \/>\n    iam reunir-se em uni s&oacute; estreito. orif&iacute;cio aberto na altura<br \/>\n    onde devia ser mantido o proj&eacute;til. Nesse ponto, atravessaram a espessa<br \/>\n    parede de ferro fundido, subindo at&eacute; ao solo por uni dos respiradouros<br \/>\n    do revestimento de pedra conservado para esse fim. Unia vez chegado ao cimo<br \/>\n    da Colina das Pedras, o fio, preso a postes por unia dist&acirc;ncia de duas<br \/>\n    milhas, ia ter a unia &#8211; poderosa pilha de Bunzen munida de uni aparelho interruptor.<br \/>\n    Bastava, portanto, carregar com o dedo no bot&atilde;o do aparelho para que<br \/>\n    a corrente fosse instantaneamente restabelecida e pegasse fogo as quatrocentas<br \/>\n    mil libras de algod&atilde;o-p&oacute;lvora. Desnecess&aacute;rio &eacute;<br \/>\n    dizer que a pilha s&oacute; devia entrar em atividade no &uacute;ltimo momento.<\/p>\n<p> A 28 de novembro, os oitocentos cartuchos estavam colocados no fundo do<br \/>\n    columbiad. Essa parte da opera&ccedil;&atilde;o correu sem problemas; todavia,<br \/>\n    quantas perturba&ccedil;&otilde;es, quantas inquietudes e apreens&otilde;es<br \/>\n    tinham assaltado o Presidente Barbicane! Em v&atilde;o proibira o acesso &agrave;<br \/>\n    Colina das Pedras; todos os dias os curiosos escalavam as pali&ccedil;adas,<br \/>\n    e alguns, levando a imprud&ecirc;ncia at&eacute; a loucura, iam fumar no meio<br \/>\n    das embalagens de algod&atilde;o p&oacute;lvora. Barbicane enfurecia-se diariamente.,<br \/>\n    J. T. Maston secundava-o o melhor poss&iacute;vel, ca&ccedil;ando os intrusos<br \/>\n    com grande vigor e apanhando as pontas de cigarros ainda acesas que os ianques<br \/>\n    atiravam para aqui e para ali. Rude tarefa, pois mais de trezentas mil pessoas<br \/>\n    se comprimiam em redor das pali&ccedil;adas.<\/p>\n<p> Michel Ardan tinha-se oferecido para escoltar os caixotes at&eacute; a boca<br \/>\n    do columbiad; mas, tendo sido surpreendido com um enorme charuto na boca,<br \/>\n    enquanto afastava os imprudentes aos quais ele dava aquele funesto exemplo,<br \/>\n    o presidente do Clube do Canh&atilde;o viu bem que n&atilde;o podia contar<br \/>\n    com aquele intr&eacute;pido fumador, e foi obrigado a vigi&aacute;-lo especialmente.<\/p>\n<p> Finalmente, como h&aacute; um Deus para os artilheiros, nada explodiu e<br \/>\n    o carregamento foi levado sem incidentes. A terceira aposta do Capit&atilde;o<br \/>\n    Nicoles estava, portanto, muito periclitante. Faltava introduzir o proj&eacute;til<br \/>\n    no columbiad e coloc&aacute;-lo sobre a espessa camada de algod&atilde;o p&oacute;lvora.<\/p>\n<p> Todavia, antes de proceder a essa opera&ccedil;&atilde;o, os objetos necess&aacute;rios<br \/>\n    aos tr&ecirc;s, ali&aacute;s muito numerosos, foram colocados com ordem no<br \/>\n    vag&atilde;o-proj&eacute;til, e, se tivessem deixado, Michel, Ardan teria<br \/>\n    ocupado todo o espa&ccedil;o reservado aos viajantes. N&atilde;o se pode imaginar<br \/>\n    o que esse am&aacute;vel franc&ecirc;s queria levar para a Lua. Uma verdadeira<br \/>\n    carga de inutilidades. Mas Barbicane interveio e ele teve de se restringir<br \/>\n    ao estritamente necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> V&aacute;rios term&ocirc;metros, bar&ocirc;metros e lunetas foram guardados<br \/>\n    na caixa dos instrumentos.<\/p>\n<p> Os viajantes tinham curiosidade em examinar a Lua durante o trajeto, e,<br \/>\n    para facilitar o reconhecimento desse mundo novo, levavam um excelente mapa<br \/>\n    de Beer e Moedier, o Mapa Selenogr&aacute;fico, publicado em quatro folhas<br \/>\n    que passa por verdadeiro, por ser uma obra-prima de observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de paci&ecirc;ncia. Reproduzia com escrupulosa exatid&atilde;o os m&iacute;nimos<br \/>\n    pormenores dessa parte do astro voltada para a Terra: montanhas, vales, c&iacute;rculos,<br \/>\n    crateras, eleva&ccedil;&otilde;es, fen das &#8211; viam-se ali nas suas dimens&otilde;es<br \/>\n    exatas, a sua orienta &ccedil;&atilde;o fiel, a sua denomina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    desde os montes Doerfel e Leibniz, cujos altos cumes se erguem na parte oriental<br \/>\n    do disco, at&eacute; o Mar do Frio, que se estende pelas regi&otilde;es circumpolares<br \/>\n    do Norte.<\/p>\n<p> Era, portanto, um precioso documento para os viajantes, pois podiam estudar<br \/>\n    o territ&oacute;rio antes de l&aacute; chegar.<\/p>\n<p> Levavam tamb&eacute;m tr&ecirc;s espingardas e tr&ecirc;s carabinas de ca&ccedil;a<br \/>\n    com sistema de balas explosivas; al&eacute;m disso, p&oacute;lvora e chumbo<br \/>\n    em grande quantidade.<\/p>\n<p> _ N&atilde;o se sabe com quem teremos de tratar &#8211; dizia Michel Ardan. &#8211;<br \/>\n    Homens ou animais, poder&atilde;o n&atilde;o gostar de visitas! &Eacute; preciso,<br \/>\n    portanto, tomar precau&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Acrescentemos que &agrave;s armas de defesa pessoal se juntavam picaretas,<br \/>\n    alvi&otilde;es, serras manuais e outros instrumentos indispens&aacute;veis,<br \/>\n    sem falar do vestu&aacute;rio conveniente para todas as temperaturas, desde<br \/>\n    o frio das regi&otilde;es polares at&eacute; os calores da zona t&oacute;rrida.<\/p>\n<p> Michel Ardan gostaria de levar para a sua expedi&ccedil;&atilde;o um certo<br \/>\n    n&uacute;mero de animais, n&atilde;o um casal de cada esp&eacute;cie, pois<br \/>\n    n&atilde;o via necessidade de aclimatar na Lua serpentes, tigres, crocodilos<br \/>\n    e outros animais malignos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; dizia ele a Barbicane -, mas alguns animais de tra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    bois ou vacas, burros ou cavalos, ficariam bem na paisagem e seriam de grande<br \/>\n    utilidade para n&oacute;s.<\/p>\n<p> Concordo, meu caro Ardan &#8211; respondia Barbicane -, mas o nosso vag&atilde;o-proj&eacute;til<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a Arca de No&eacute;. N&atilde;o tem a capacidade nem<br \/>\n    se destina ao mesmo fim -. Assim, fiquemos nos limites do poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Finalmente, ap&oacute;s longas discuss&otilde;es, foi combinado que os viajantes<br \/>\n    se contentariam em levar uma excelente cadela de ca&ccedil;a, pertencente<br \/>\n    a Nicoles, e um vigoroso terra-nova, de for&ccedil;a prodigiosa. V&aacute;rias<br \/>\n    caixas dos cereais mais &uacute;teis foram postas no n&uacute;mero dos objetos<br \/>\n    indispens&aacute;veis. Se tivessem deixado Michel Ardan fazer o que? queria,<br \/>\n    ele teria levado tamb&eacute;m alguns sacos de sementes para l&aacute; os<br \/>\n    se mear. Em todo o caso, sempre levou uma d&uacute;zia de arbustos, que foram<br \/>\n    cuidadosamente envolvidos em palha e guardados a um canto do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Faltava, ainda, a importante quest&atilde;o dos v&iacute;veres, pois era<br \/>\n    preciso prever o caso de desembarcarem numa zona d a Lua completamente est&eacute;ril.<br \/>\n    Barbicane conseguiu levar v&iacute;- veres que chegariam para um ano. Mas,<br \/>\n    &eacute; preciso acrescentar para n&atilde;o espantar ningu&eacute;m, que<br \/>\n    esses v&iacute;veres consistiam em conservas de carne e de legumes reduzidos<br \/>\n    ao seu mais simples volume sob a a&ccedil;&atilde;o da prensa hidr&aacute;ulica,<br \/>\n    e que essas conservas tinham grande quantidade de elementos nutritivos; n&atilde;o<br \/>\n    eram refei&ccedil;&otilde;es muito variadas, mas em tal viagem n&atilde;o<br \/>\n    podiam mostrar-se muito exigentes. Havia, tamb&eacute;m, uma reserva de aguardente,<br \/>\n    que podia chegar a cinq&uuml;enta gal&otilde;es. A &aacute;gua chegaria apenas<br \/>\n    para dois meses.<\/p>\n<p> Realmente, depois das &uacute;ltimas observa&ccedil;&otilde;es dos astr&ocirc;nomos,<br \/>\n    ningu&eacute;m colocava em d&uacute;vida a presen&ccedil;a de uma certa quantidade<br \/>\n    de &aacute;gua na superf&iacute;cie da Lua. Quanto aos v&iacute;veres, era<br \/>\n    insensato pensar que os habitantes da Terra n&atilde;o encontrariam l&aacute;<br \/>\n    com que se alimentar. Michel Ardan n&atilde;o tinha d&uacute;vida nenhuma<br \/>\n    a esse respeito. Se as tivesse, n&atilde;o partiria.<\/p>\n<p> &#8211; Por outro lado &#8211; disse ele um dia aos seus amigos -, n&atilde;o estaremos<br \/>\n    completamente abandonados pelos nossos camaradas da Terra, e eles ter&atilde;o<br \/>\n    o cuidado de n&atilde;o nos esquecer.<\/p>\n<p> &#8211; Certamente que n&atilde;o &#8211; replicou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Como? &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Nada mais simples &#8211; respondeu Michel Ardan. 0 columbiad fica no mesmo<br \/>\n    lugar, n&atilde;o &eacute; verdade? Pois bem! Todas ?as vezes que a Lua se<br \/>\n    apresentar nas condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis de z&ecirc;nite,<br \/>\n    ou mesmo de perigeu, isto &eacute;, mais ou menos uma vez por ano, n&atilde;o<br \/>\n    poder&atilde;o enviar-nos um obus carregado de v&iacute;veres que n&oacute;s<br \/>\n    esperaremos a uma hora prefixada? &#8211; Viva! Viva! &#8211; exclamou J. T. Maston, como<br \/>\n    homem que tinha a sua id&eacute;ia -; bem dito. Certamente, meus bons ami<br \/>\n    gos, que n&oacute;s n&atilde;o os esqueceremos.<\/p>\n<p> &#8211; Conto com isto! Como v&ecirc;em, teremos regularmente not &iacute;cias<br \/>\n    do Globo, e, por nosso lado, seremos bem desajeitados se n&atilde;o conseguirmos<br \/>\n    arranjar meio de comunicar com os nossos bons amigos da Terra! , Destas palavras<br \/>\n    transpirava uma tal confian&ccedil;a que Michel Ardan, com o seu ar determinado,<br \/>\n    a sua soberba valentia, teria arrastado todos os membros do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    atr&aacute;s de si. 0 que ele dizia parecia simples, elementar, f&aacute;cil,<br \/>\n    de &ecirc;xito seguro, e seria preciso gostar verdadeiramente e de um modo<br \/>\n    mesquinho deste miser&aacute;vel globo terr&aacute;queo para n&atilde;o seguir<br \/>\n    os tr&ecirc;s viajantes na sua expedi- &ccedil;&atilde;o lunar.<\/p>\n<p> Quando os diversos objetos foram colocados no proj&eacute;til, a &aacute;gua<br \/>\n    destinada a servir de mola foi introduzida entre os tabiques e o g&aacute;s<br \/>\n    de ilumina&ccedil;&atilde;o no respectivo recipiente.<\/p>\n<p> Quanto ao clorato de pot&aacute;ssio e &agrave; potassa c&aacute;ustica,<br \/>\n    Barbicane, temendo poss&iacute;veis atrasos do trajeto, mandou carregar uma<br \/>\n    quantidade suficiente para renovar o oxig&ecirc;nio e absorver o &aacute;cido<br \/>\n    carb&ocirc;nico durante dois meses. Um aparelho extremamente engenhoso, de<br \/>\n    funcionamento autom &aacute;tico, encarregava-se de dar ao ar as suas qualidades<br \/>\n    vivificantes e de o purificar de forma completa. Logo estava pronto o proj&eacute;til,<br \/>\n    e s&oacute; faltava mete-lo no fundo do columbiad. Opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cheia de. dificuldades e de perigos.<\/p>\n<p> 0 enorme obus foi ent&atilde;o levado para o cimo da Colina das Pedras._<br \/>\n    Ali, poderosos guindastes levantaram-no e mantiveram- no suspenso por cima<br \/>\n    do po&ccedil;o de metal.<\/p>\n<p> Foi um momento palpitante. Se as correntes se quebrassem com aquele enorme<br \/>\n    peso, a queda de tal massa teria certamente provocado a inflama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do algod&atilde;o p&oacute;lvora..<\/p>\n<p> Felizmente, nada disso se passou e algumas horas mais tarde o vag&atilde;o-proj&eacute;til<br \/>\n    descia suavemente para a alma do canh&atilde;o, repousava sobre a camada de<br \/>\n    pir&oacute;xilo, um verdadeiro cobertor fulminante. A sua press&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    teve outro efeito sen&atilde;o o de calcar mais fortemente a carga do columbiad.<\/p>\n<p> &#8211; Perdi &#8211; disse o. Capit&atilde;o Nicoles, entregando ao Presidente Barbicane<br \/>\n    uma quantia aproximada de tr&ecirc;s mil d&oacute;lares.<\/p>\n<p> Barbicane n&atilde;o queria receber aquele dinheiro da parte de um companheiro<br \/>\n    de viagem, mas teve de ceder perante a obstina&ccedil;&atilde;o do capit&atilde;o,<br \/>\n    que queria cumprir todos os seus compromissos antes de deixar a Terra.<\/p>\n<p> &#8211; Agora &#8211; disse Michel Ardan -, s&oacute; me resta desejar-lhe uma coisa.<\/p>\n<p> &#8211; Que coisa? &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; que perca as outras duas apostas! Desse modo temos a certeza<br \/>\n    de n&atilde;o ficarmos pelo caminho.<\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">Cap&iacute;tulo XV &#8211; Fogo!<\/a><\/h4>\n<p>O dia primeiro de dezembro tinha chegado, dia decisivo, pois se a partida<br \/>\n    do proj&eacute;til n&atilde;o se efetuasse nessa mesma noite, &agrave;s dez<br \/>\n    horas, quarenta e seis minutos e quarenta segundos, passar-se-iam mais de<br \/>\n    dezoito anos para que a Lua se apresentasse nas mesmas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de z&ecirc;nite e de perigeu.<\/p>\n<p> 0 tempo estava magn&iacute;fico; apesar da aproxima&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    inverno, o Sol resplandecia e iluminava com os seus raios esta Terra que tr&ecirc;s<br \/>\n    dos seus habitantes iam deixar em troca de um novo mundo.<\/p>\n<p> Quantas pessoas dormiram mal na v&eacute;spera desse dia t&atilde;o impacientemente<br \/>\n    aguardado! Quantos peitos estavam oprimidos pelo pesado fardo da espera! Todos<br \/>\n    os cora&ccedil;&otilde;es palpitavam de inquieta&ccedil;&atilde;o, exceto<br \/>\n    o de Michel Ardan. Essa personagem impass&iacute;vel ia e vinha como habitualmente,<br \/>\n    mas nada denunciava nela qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o invulgar. 0 seu<br \/>\n    sono tinha sido tranq&uuml;ilo, como o sono de Turenne, antes da batalha,<br \/>\n    encostado ao reparo de um canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Desde a manh&atilde; que uma multid&atilde;o imensa cobria as plan&iacute;cies<br \/>\n    que se estendem a perder de vista em redor da Colina das Pedras. De quarto<br \/>\n    em quarto de hora, o trem de Tampa trazia novos curiosos; essa emigra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tomou rapidamente propor&ccedil;&otilde;es fant&aacute;sticas, e, segundo<br \/>\n    os relatos do Tampa-Tow Observer, durante esse dia memor&aacute;vel, cerca<br \/>\n    de cinco milh&otilde;es de espectadores pisaram o solo da Fl&oacute;rida.<\/p>\n<p> Desde h&aacute; um m&ecirc;s que grande parte dessa multid&atilde;o se encontrava<br \/>\n    acampada em redor do recinto, e lan&ccedil;ava os alicerces de uma cidade<br \/>\n    que depois se veio a chamar Ardan?s.<\/p>\n<p> Barracas, cabanas, tendas, casebres, espalhavam-se pelo campo, e essas habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ef&ecirc;meras abrigavam uma popula &ccedil;&atilde;o suficientemente numerosa<br \/>\n    para fazer inveja &agrave;s maiores cidades da Europa.<\/p>\n<p> Todos os povos da Terra ali tinham os seus representantes; todos os dialetos<br \/>\n    do Mundo se falavam ali ao mesmo tempo. Dir-se-ia a confus&atilde;o das l&iacute;nguas,<br \/>\n    como nos tempos b&iacute;blicos da Torre de Babel. Ali, as diversas classes<br \/>\n    da sociedade americana confundiam-se numa igualdade absoluta.<\/p>\n<p> Banqueiros, lavradores, marinheiros, mo&ccedil;os de recados, plantadores<br \/>\n    de algod&atilde;o, negociantes, barqueiros, magistrados, acotovelavam &#8211; se<br \/>\n    numa sem-cerim&ocirc;nia primitiva.<\/p>\n<p> Os crioulos da Lusit&acirc;nia confraternizavam com os agricultores de Indiana;<br \/>\n    os gentlemen de Kentucky e de Tennessee, as senhoras da Virg&iacute;nia, elegantes<br \/>\n    e altivas, conversavam com ca&ccedil;adores semi-selvagens dos lagos e com<br \/>\n    os negociantes de gado de Cincinnati. Usavam na cabe&ccedil;a chap&eacute;u<br \/>\n    de castor branco com abas largas, ou o cl&aacute;ssico Panam&aacute; e vestiam<br \/>\n    cal&ccedil;as de algod&atilde;o azul das f&aacute;bricas de Opelousas, cobriam<br \/>\n    o corpo com blusas elegantes de pano cru, cal- &ccedil;ando botinas de cores<br \/>\n    vivas, exibiam extravagantes len- &ccedil;os de fina cambraia, e faziam cintilar<br \/>\n    nos peitilhos das suas camisas, nas suas mangas, nas suas gravatas, nos seus<br \/>\n    dez dedos e at&eacute; mesmo nas orelhas, todo um sortimento de an&eacute;is,<br \/>\n    de alfinetes, de brincos, cujo alto pre&ccedil;o igualava o mau gosto. Mulheres,<br \/>\n    crian&ccedil;as, criados, em toaletes n&atilde;o menos opulentas, acompanhavam,<br \/>\n    seguiam, precediam, rodeavam, esses maridos, esses pais, esses patr&otilde;es,<br \/>\n    que se assemelhavam a chefes de tribo no meio das suas inumer &aacute;veis<br \/>\n    fam&iacute;lias.<\/p>\n<p> &Agrave; hora das refei&ccedil;&otilde;es toda essa gente precipitava-se<br \/>\n    sobre os alimentos peculiares dos Estados do Sul e devorava, com um apetite<br \/>\n    amea&ccedil;ador para o abastecimento da Fl&oacute;rida, esse alimentos que<br \/>\n    repugnariam a um est&ocirc;mago europeu, como r&atilde;s de fricass&ecirc;,<br \/>\n    macacos recheados, gamb&aacute; assado e op&ocirc;s ainda em sangue, grelhado.<\/p>\n<p> Mas, como compensa&ccedil;&atilde;o, que variedade de licores e de bebidas<br \/>\n    ajudava essa alimenta&ccedil;&atilde;o indigesta! Que gritos excitantes, que<br \/>\n    vocifera&ccedil;&otilde;es ressoavam nas tabernas repletas de copos, frascos<br \/>\n    e garrafas de formas inveross&iacute;meis! &#8211; Aqui h&aacute; o licor de mentol!<br \/>\n    &#8211; gritava um desses vendedores com voz tonitroante.<\/p>\n<p> &#8211; Sangria de vinho de Bord&eacute;us! &#8211; replicava outro num tom esgani&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8211; E gin-sling! &#8211; repetia este.<\/p>\n<p> E coquetel Brandy-smash! gritava aquele.<\/p>\n<p> &#8211; Quem quer provar o verdadeiro mint-julet &agrave; &uacute;ltima moda &#8211;<br \/>\n    exclamavam esses h&aacute;beis comerciantes, fazendo passar rapidamente, de<br \/>\n    uni copo para outro, como prestidigitadores, o a&ccedil;&uacute;car, o lim&atilde;o,<br \/>\n    a hortel&atilde;-pimenta, o gelo picado, a &aacute;gua, o conhaque e o anan&aacute;s<br \/>\n    fresco que comp&otilde;em essa bebida refrescante.<\/p>\n<p> Essas incita&ccedil;&otilde;es, habitualmente dirigidas &agrave;s gargantas<br \/>\n    secas e sedentas sob a a&ccedil;&atilde;o escaldante das especiarias, repetiam-<br \/>\n    se, cruzavam-se no ar e produziam um balindo ensurdecedor.<\/p>\n<p> Mas nesse primeiro de dezembro, esses gritos eram raros. Os vendedores teriam<br \/>\n    enrouquecido em v&atilde;o tentando provocar os fregueses. Ningu&eacute;m<br \/>\n    pensava nem em comer nem em beber, e &agrave;s quatro horas da tarde circulavam<br \/>\n    entre a multid&atilde;o muitos espectadores que nem sequer tinham comido o<br \/>\n    seu almo&ccedil;o habitual Sintoma mais significativo ainda: a violenta paix&atilde;o<br \/>\n    dos americanos pelo jogo tinha sido vencida pela emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quem reparasse nos pauzinhos do tempins deitados no ch&atilde;o, os dados<br \/>\n    do creps a dormir nos copos, a roleta im&oacute;- vel, o cribbage abandonado,<br \/>\n    as cartas do u&iacute;ste, do vinte-eum, do vermelho e do negro, do montinho<br \/>\n    e do faro, encerradas nos seus inv&oacute;lucros intatos, compreenderia que<br \/>\n    o acontecimento do dia absorvia tudo e n&atilde;o deixava lugar para qualquer<br \/>\n    outra distra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> At&eacute; &agrave; noite, uma agita&ccedil;&atilde;o surda, sem clamor,<br \/>\n    como a que precede as grandes cat&aacute;strofes, correu entre aquela multid<br \/>\n    &atilde;o ansiosa. Um indescrit&iacute;vel mal-estar reinava nos esp&iacute;ritos,<br \/>\n    um torpor penoso, um sentimento indefin&iacute;vel que apertava o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Todos desejavam ?que tudo acabasse depressa ?.<\/p>\n<p> No entanto, por volta das sete horas, aquele pesado sil&ecirc;ncio dissipou-se<br \/>\n    bruscamente. A Lua erguia-se no horizonte.<\/p>\n<p> V&aacute;rios milh&otilde;es de vivas saudaram o seu aparecimento: tinha<br \/>\n    sido pontual ao encontro. Os clamores subiram at&eacute; o c&eacute;u; os<br \/>\n    aplausos explodiram de todos os lados, enquanto a loura Febe brilhava tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    num c&eacute;u admir&aacute;vel e acariciava aquela multid&atilde;o embriagada<br \/>\n    pelos seus raios mais afetuosos.<\/p>\n<p> Nesse momento, apareceram os tr&ecirc;s intr&eacute;pidos viajantes.<\/p>\n<p> Ao v&ecirc;-los, a multid&atilde;o redobrou os seus gritos. Unanimemente,<br \/>\n    instantaneamente, o hino nacional dos Estados Unidos saiu de todos os peitos<br \/>\n    ofegantes, e o Yankee-Doodle, cantado em coro por cinco milh&otilde;es de<br \/>\n    vozes, ergueu-se como uma tempestade sonora at&eacute; os &uacute;ltimos limites<br \/>\n    da atmosfera.<\/p>\n<p> Depois, ap&oacute;s aquele irresist&iacute;vel impulso, o hino calou-se,<br \/>\n    as &uacute;ltimas harmonias dissiparam-se pouco a pouco e uni fr&ecirc;mito<br \/>\n    silencioso pairou acima da multid&atilde;o, profundamente impressionada. Entretanto,<br \/>\n    o franc&ecirc;s e os dois americanos tinham entrado no recinto reservado,<br \/>\n    em redor do qual se comprimia a multid&atilde;o imensa. Estavam acompanhados<br \/>\n    pelos membros do Clube do Canh&atilde;o e miss&otilde;es enviadas pelos observat&oacute;rios<br \/>\n    europeus. Barbicane, frio e calmo, dava tranq&uuml;ilamente as suas &uacute;ltimas<br \/>\n    ordens. Nicoles, de l&aacute;bios apertados, com as m&atilde;os cruzadas atr&aacute;s<br \/>\n    das costas, caminhava com passo firme e medido. Michel Ardan, sempre &agrave;<br \/>\n    vontade, vestido como uni perfeito viajante, com polainas de couro nos p&eacute;s,<br \/>\n    a sua bolsa de viagem a tiracolo, flutuando no seu vasto traje de veludo castanho,<br \/>\n    de charuto na boca, distribu&iacute;a de passagem calorosos apertos de m&atilde;o<br \/>\n    com unia prodigalidade principesca. Era impag&aacute;vel de verve, de alegria,<br \/>\n    rindo, gracejando, fazendo ao digno J. T. Maston molecagem de garoto, em unia<br \/>\n    palavra, mostrava-se franc &ecirc;s, e, pior ainda, parisiense at&eacute;<br \/>\n    o &uacute;ltimo segundo.<\/p>\n<p> Soaram as dez horas. Tinha chegado o momento de tomarem lugar no proj&eacute;til;<br \/>\n    a manobra necess&aacute;ria para a descida, o aparafusar da tampa, o recuo<br \/>\n    dos guindastes e dos andaimes debru&ccedil;ados &#8211; sobre a boca do columbiad<br \/>\n    levavam certo tempo.<\/p>\n<p> Barbicane tinha acertado o seu rel&oacute;gio com uni d&eacute;cimo de segundo<br \/>\n    de diferen&ccedil;a pelo do engenheiro Murchison, encarregado de lan&ccedil;ar<br \/>\n    fogo &agrave; p&oacute;lvora por meio da fa&iacute;sca el&eacute;trica; desta<br \/>\n    forma, os viajantes, encerrados no seu proj&eacute;til, poderiam seguir com<br \/>\n    o olhar o ponteiro que marcaria o momento preciso da sua partida.<\/p>\n<p> A hora das despedidas havia chegado. A cena foi comovente; apesar da sua<br \/>\n    alegria febril, Michel Ardan sentia-se comovido.<\/p>\n<p> J. T. Maston tinha encontrado sob as suas p&aacute;lpebras secas unia velha<br \/>\n    l&aacute;grima que reservara sem d&uacute;vida para aquela ocasi&atilde;o.<br \/>\n    Deixou-a cair sobre a testa do seu querido e bravo presidente.<\/p>\n<p> &#8211; Se eu tamb&eacute;m partisse? &#8211; perguntou. &#8211; Ainda tem tempo! &#8211; Imposs&iacute;vel,<br \/>\n    meu velho Maston &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> Alguns instantes mais tarde, os tr&ecirc;s companheiros de viagem estavam<br \/>\n    instalados no proj&eacute;til, cuja tampa tinham aparafusado interiormente,<br \/>\n    e a boca do columbiad, inteiramente liberta, abria-se livremente para o c&eacute;u.<\/p>\n<p> Nicoles, Barbicane e Michel Ardan encontravam-se definiti vamente encerrados<br \/>\n    no seu vag&atilde;o de metal.<\/p>\n<p> Quem poderia descrever a emo&ccedil;&atilde;o universal, chegada ent &atilde;o<br \/>\n    ao seu paroxismo? A Lua avan&ccedil;ava num firmamento de l&iacute;mpida pureza,<br \/>\n    apagando &agrave; sua passagem as luzes cintilantes das estrelas; percorria<br \/>\n    ent&atilde;o a constela&ccedil;&atilde;o de G&ecirc;meos e encontrava-se quase<br \/>\n    a meio caminho do horizonte e do z&ecirc;nite. Todos deviam, portanto, compreender<br \/>\n    facilmente que apontavam para a frente do alvo, como o ca&ccedil;ador aponta<br \/>\n    para diante da lebre que deseja atingir.<\/p>\n<p> Uni sil&ecirc;ncio assustador pairava sobre toda essa cena. N&atilde;o havia<br \/>\n    uni sopro de vento na terral Nem uni sopro nos peitos! Os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o ousavam bater. Todos os olhares, assustados, fixavam as bocas escancaradas<br \/>\n    do columbiad.<\/p>\n<p> Murchison seguia com o olhar o ponteiro do seu cron&ocirc;metro.<\/p>\n<p> Faltavam apenas quarenta segundos para o momento da partida, e cada segundo<br \/>\n    parecia durar um s&eacute;culo.<\/p>\n<p> Ao vig&eacute;simo, houve um fr&ecirc;mito geral e ocorreu &agrave; multid&atilde;o<br \/>\n    que os viajantes encerrados no proj&eacute;til contavam tamb&eacute;m esses<br \/>\n    terr&iacute;veis. segundos! Gritos isolados ouviram-se: &#8211; Trinta e cinco!<br \/>\n    Trinta e seis! Trinta e sete! Trinta e oito! Trinta e nove! Quarenta! Fogo!<br \/>\n    Imediatamente, Murchison, premindo o interruptor do aparelho, restabeleceu<br \/>\n    a liga&ccedil;&atilde;o e lan&ccedil;ou a fa&iacute;sca el&eacute;trica para<br \/>\n    o fundo do columbiad.<\/p>\n<p> Uma detona&ccedil;&atilde;o espantosa, inaudita, sobre-humana, de que nada<br \/>\n    poderia dar uma id&eacute;ia, nem o ribombar do trov&atilde;o, nem o estrondo<br \/>\n    das erup&ccedil;&otilde;es, produziu-se instantaneamente, Um imenso feixe<br \/>\n    luminoso saiu das entranhas do solo como de uma cratera. A terra tremeu, e<br \/>\n    algumas pessoas mal puderam ver por instantes o proj&eacute;til cortando vitoriosamente<br \/>\n    o ar por entre vapores chamejantes.<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">Cap&iacute;tulo XVI &#8211; Um novo astro<\/a><\/h4>\n<p>Um novo astro assa mesma noite, a palpitante not&iacute;cia t&atilde;o impacientemente<br \/>\n    esperada estourou como uma bomba nos Estados Unidos, e, da&iacute;, lan&ccedil;ada<br \/>\n    atrav&eacute;s do oceano, correu por todos os fios telegr&aacute;ficos do<br \/>\n    Globo. 0 proj&eacute;til fora visto, gra&ccedil;as ao gigantesco refletor<br \/>\n    de Long?s Peak.<\/p>\n<p> Eis a nota redigida pelo diretor do Observat&oacute;rio de Cambridge. Cont&eacute;m<br \/>\n    a conclus&atilde;o cient&iacute;fica dessa grande experi&ecirc;ncia do Clube<br \/>\n    do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> ?Long?s Peak, 12 de dezembro.<\/p>\n<p> Aos Exmos.. Srs. Membros do Gabinete do Observat&oacute;rio de Cambridge.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til lan&ccedil;ado pelo columbiad da Colina das Pedras foi<br \/>\n    visto pelos senhores Belfast e J. T. Maston, a 12 de dezembro, &agrave;s oito<br \/>\n    horas e quarenta e sete minutos da noite, tendo a Lua entrado no seu &uacute;ltimo<br \/>\n    quarto.<\/p>\n<p> Esse proj&eacute;til n&atilde;o atingiu o seu objetivo. Passou ao lado,<br \/>\n    mas suficientemente perto, no entanto, para ser retido pela atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lunar.<\/p>\n<p> Ali, o seu movimento retil&iacute;neo transformou-se num movimento circular<br \/>\n    de unia rapidez vertiginosa, e foi arrastado seguindo unia &oacute;rbita el&iacute;ptica<br \/>\n    em volta da Lua, da qual se tornou uni verdadeiro sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> Os elementos desse novo astro n&atilde;o puderam ainda? ser determinados.<br \/>\n    N&atilde;o se conhece nem a sua velocidade de transla&ccedil;&atilde;o, nem<br \/>\n    a de rota&ccedil;&atilde;o. A dist&acirc;ncia que o separa da superf&iacute;cie<br \/>\n    da Lua pode ser avaliada em, aproximadamente, quatro mil quinhentos e cinq&uuml;enta<br \/>\n    quil&ocirc;metros.<\/p>\n<p> Agora, podem dar-se duas hip&oacute;teses, que poder&atilde;o levar a unia<br \/>\n    modifica&ccedil;&atilde;o no estado das coisas: Ou a atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Lua acabar&aacute; por se impor e os viajantes atingir&atilde;o o objetivo<br \/>\n    da sua viagem; ou, mantido numa ordem imut&aacute;vel, o proj&eacute;til ficar&aacute;<br \/>\n    gravitando em redor do disco lunar at&eacute; ao fim dos s&eacute;culos.<\/p>\n<p> Ser&aacute; isso que as observa&ccedil;&otilde;es h&atilde;o de mostrar<br \/>\n    uni dia, mas at&eacute; aqui a tentativa do Clube do Canh&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    teve como resultado dotar com um novo astro o nosso sistema solar.<\/p>\n<p> J. M. Belfast.? Quantas quest&otilde;es levantava este inesperado desenlace.<br \/>\n    Que situa&ccedil;&atilde;o cheia de mist&eacute;rios o futuro reservaria &agrave;s<br \/>\n    investiga &ccedil;&otilde;es da ci&ecirc;ncia. Gra&ccedil;as &agrave; coragem<br \/>\n    e dedica&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s homens, aquele empreendimento, bastante<br \/>\n    f&uacute;til na apar &ecirc;ncia, de enviar uni proj&eacute;til &agrave; Lua,<br \/>\n    acabava de ter uni resultado imenso, cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias eram incalcul&aacute;veis.<br \/>\n    Os viajantes, prisioneiros num novo sat&eacute;lite, n&atilde;o tinham atingido<br \/>\n    o seu objetivo, mas faziam pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em<br \/>\n    torno do astro da noite, e, pela primeira vez, o olhar humano podia penetrar<br \/>\n    todos os seus mist&eacute;rios. Os nomes de Nicoles, de Barbicane e de Michel<br \/>\n    Ardan dever&atilde;o ficar para sempre c&eacute;lebres nos anais da astronomia,<br \/>\n    pois esses ousados exploradores, &aacute;vidos por alargar o c&iacute;rculo<br \/>\n    dos conhecimentos humanos, se lan&ccedil;aram audaciosamente atrav&eacute;s<br \/>\n    do espa&ccedil;o, e puseram em jogo as suas vidas na mais not&aacute;vel tentativa<br \/>\n    dos tempos modernos.<\/p>\n<p> Quando a nota de Long?s Peak foi conhecida, causou no mundo inteiro uma<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o de surpresa e de receio. Seria poss&iacute;vel ir em<br \/>\n    aux&iacute;lio dos ousados habitantes da Terra? N&atilde;o, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    pois eles encontravam-se fora da humanidade ao transporem os limites impostos<br \/>\n    por Deus &agrave;s criaturas terrestres. Poderiam ter ar durante dois meses.<br \/>\n    Tinham v&iacute;veres para uni ano. Mas depois?&#8230; Os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais insens &iacute;veis palpitavam com esta terr&iacute;vel quest&atilde;o.<\/p>\n<p> Apenas uni homem n&atilde;o queria admitir que a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fosse desesperada. S&oacute; uni tinha confian&ccedil;a, era o seu amigo dedicado,<br \/>\n    audacioso e resoluto como eles, o valente J. T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o os perdia de vista. A sua resid&ecirc;ncia foi desde ent&atilde;o<br \/>\n    o posto de Long?s Peak; o seu horizonte, o espelho do imenso refletor. Logo<br \/>\n    que a Lua surgia no horizonte, ele enquadrava-a no campo de vis&atilde;o do<br \/>\n    telesc&oacute;pio e n&atilde;o a perdia nem uni instante de vista, seguindo-a<br \/>\n    ininterruptamente na sua marcha atrav&eacute;s do espa&ccedil;o; observava<br \/>\n    com eterna paci&ecirc;ncia a passagem do proj&eacute;til sobre o seu disco<br \/>\n    de prata, e verdadeiramente o digno homem estava em perp&eacute;tua comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com os seus amigos, que n&atilde;o desesperava de voltar a ver um dia.<\/p>\n<p> Havemos de nos corresponder com eles &#8211; dizia ele a quem o queria ouvir -,<br \/>\n    logo que as circunst&acirc;ncias o permitam.<\/p>\n<p> Teremos not&iacute;cias deles e eles ter&atilde;o not&iacute;cias nossas!<br \/>\n    Eu conhe &ccedil;o-os, s&atilde;o homens engenhosos. Os tr&ecirc;s levaram<br \/>\n    para o espa&ccedil;o todos os recursos da arte, da ci&ecirc;ncia e da ind&uacute;stria.<\/p>\n<p> Com isso, faz-se o que se quer, e h&atilde;o de ver que eles se h&atilde;o<br \/>\n    de sair bem da situa&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p><strong>Segunda Parte A VOLTA DA LUA<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">Capitulo I &#8211; A primeira meia hora<\/a><\/h4>\n<p>Que se teria passado? Que efeito teria produzido aquele espantoso abalo?<br \/>\n    0 plano dos construtores do proj&eacute;til teria sido bem sucedido? E o choque<br \/>\n    fora porventura amortecido pelas molas, pelas quatro cunhas, pelas almofadas<br \/>\n    de &aacute;gua, pelos tabiques quebradi&ccedil;os? Ter-se-ia conseguido dominar<br \/>\n    o terr&iacute;vel impulso da velocidade inicial de doze mil jardas, que bastaria<br \/>\n    para atravessar Paris ou Nova Iorque num segundo? Evidentemente, est&aacute;<br \/>\n    era a quest&atilde;o que a si mesma fazia a multid&atilde;o que testemunhou<br \/>\n    aquela emocionante cena. Todos esqueciam o prop&oacute;sito da viagem para<br \/>\n    pensar apenas nos viajantes! E se algu&eacute;m dentre eles &#8211; J.<\/p>\n<p> T. Maston, por exemplo &#8211; tivesse podido espreitar o interior do proj&eacute;til,<br \/>\n    que teria visto? Naquela altura, nada. A escurid&atilde;o era profunda dentro<br \/>\n    do proj&eacute;til. Mas as paredes cilindro-c&ocirc;nicas haviam resistido<br \/>\n    maravilhosamente. Nem unia fenda, nem unia dobra, nem unia deforma&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    0 admir&aacute;vel proj&eacute;til n&atilde;o sofrera a m&iacute;nima altera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apesar da violenta deflagra&ccedil;&atilde;o da p&oacute;lvora, e muito menos<br \/>\n    se transformara numa chuva de alum&iacute;nio, como muita gente boa temia.<\/p>\n<p> No interior, a desordem era m&iacute;nima. Alguns dos objetos tinham sido<br \/>\n    violentamente atirados de encontro &agrave; c&uacute;pula, mas os mais importantes<br \/>\n    pareciam estar em boas condi- &ccedil;&otilde;es. Os respectivos suportes<br \/>\n    estavam intatos.<\/p>\n<p> Sobre o disco m&oacute;vel, que baixara at&eacute; o fundo do proj&eacute;til,<br \/>\n    depois de quebrados os tabiques e de escoada a agora, jaziam tr&ecirc;s corpos.<br \/>\n    Barbicane, Nicoles e Michel Ardan ainda respirariam? N&atilde;o se teria transformado<br \/>\n    o proj&eacute;til num ata&uacute;- de de metal que transportava tr&ecirc;s<br \/>\n    cad&aacute;veres pelo espa- &ccedil;o?&#8230; , Alguns minutos ap&oacute;s a partida,<br \/>\n    uni dos tr&ecirc;s corpos fez uni movimento. Depois, agitou os bra&ccedil;os,<br \/>\n    soergueu a cabe&ccedil;a e conseguiu p&ocirc;r-se de joelhos. Era Michel Ardan.<br \/>\n    Apalpouse, soltou uni sonoro ?hem? e disse: &#8211; Michel Ardan, inteiro. Vejamos<br \/>\n    os outros.<\/p>\n<p> 0 corajoso franc&ecirc;s quis levantar-se, mas n&atilde;o conseguiu p&ocirc;r-se<br \/>\n    de p&eacute;. A cabe&ccedil;a rodava e o sangue, violentamente injetado, &#8211;<br \/>\n    cegava-o. Sentia-se como um b&ecirc;bado.<\/p>\n<p> &#8211; Brr! &#8211; fez ele. &#8211; Isto produz-me o mesmo efeito de duas garrafas de Corton.<br \/>\n    S&oacute; que talvez seja menos agrad&aacute;vel de engolir! Em seguida, passando<br \/>\n    repetidas vezes a m&atilde;o pela testa e esfregando as t&ecirc;mporas, gritou<br \/>\n    com voz firme: &#8211; Nicoles! Barbicane.<\/p>\n<p> E esperou ansiosamente. Nenhuma resposta. Nem mesmo uni suspiro que indicasse<br \/>\n    que o cora&ccedil;&atilde;o dos companheiros continuava a bater. Voltou a<br \/>\n    cham&aacute;-los, mas o sil &ecirc;ncio persistiu.<\/p>\n<p> &#8211; Diabos! &#8211; resmungou. T&ecirc;m todo o ar de quem caiu de cabe&ccedil;a<br \/>\n    de uni quinto andar! Bah! &#8211; acrescentou com aquela imperturb&aacute;vel confian&ccedil;a<br \/>\n    que nada podia afetar -, se uni franc &ecirc;s conseguiu p&ocirc;r-se de joelhos,<br \/>\n    dois americanos n&atilde;o ter &atilde;o qualquer dificuldade em levantar-se.<br \/>\n    Mas, antes, o melhor &eacute; esclarecer a situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ardan sentia que pouco a pouco as for&ccedil;as lhe voltavam.<\/p>\n<p> Acalmava-se-lhe o sangue, que ia retomando a circula&ccedil;&atilde;o normal.<br \/>\n    Ap&oacute;s repetidos esfor&ccedil;os, conseguiu equilibrar-se, e levantar-se.<br \/>\n    Tirou da algibeira um f&oacute;sforo e riscou-o.<\/p>\n<p> Em seguida aproximou-o do bico de g&aacute;s que acendeu. 0 recipiente estava<br \/>\n    intato. 0 g&aacute;s n&atilde;o se escapara. Se tal tivesse acontecido, nem<br \/>\n    o odor caracter&iacute;stico passaria despercebido, nem Michel Ardan teria<br \/>\n    podido acender impunemente o f&oacute;sforo em um ambiente saturado de hidrog&ecirc;nio.<\/p>\n<p> 0 g&aacute;s, combinado com o ar, teria produzido uma mistura detonante,<br \/>\n    e a explos&atilde;o acabaria aquilo que o abalo inicial talvez houvesse come&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Assim que acendeu o bico de g&aacute;s, Ardan examinou os corpos dos companheiros,<br \/>\n    que estavam tombados uni sobre o outro, como massas inertes: Nicoles por cima,<br \/>\n    Barbicane por baixo.<\/p>\n<p> Ardan levantou o capit&atilde;o, encostou-o a uni sof&aacute; e aplicoulhe<br \/>\n    vigorosas fric&ccedil;&otilde;es. Esta massagem, inteligentemente feita, reanimou<br \/>\n    Nicoles, que abriu os olhos, recobrou instantaneamente o sangue-frio e agarrou<br \/>\n    na m&atilde;o de Ardan.<\/p>\n<p> Depois, olhando &agrave; sua volta, perguntou: &#8211; E Barbicane? &#8211; Calma, uni<br \/>\n    de cada vez &#8211; respondeu serenamente Michel Ardan. &#8211; Comecei por ti, Nicoles,<br \/>\n    porque estavas &agrave; m&atilde;o.<\/p>\n<p> Tratemos agora de Barbicane.<\/p>\n<p> Dito isto, Ardan e Nicoles levantaram o presidente do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    e deitaram-no no sof&aacute;. Barbicane parecia estar mais combalido do que<br \/>\n    os companheiros. Perdia sangue.<\/p>\n<p> Mas Nicoles tranq&uuml;ilizou-o quando verificou que a hemor ragia provinha<br \/>\n    de uni ligeiro ferimento no ombro. Unia simples esfoladela que tratou de comprimir<br \/>\n    cuidadosamente.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante, Barbicane levou algum tempo a recuperar os sentidos,<br \/>\n    o que assustou uni pouco os seus dois amigos, que se fatigavam a friccion&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Respira ainda &#8211; dizia Nicoles, aplicando o ouvido no peito do ferido.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; volvia Ardan -, respira como uni homem que ganhou o h&aacute;bito<br \/>\n    de o fazer todos os dias. Friccionemos, Nicoles, friccionemos! E os dois improvisados<br \/>\n    m&eacute;dicos tantas e t&atilde;o boas massagens lhe deram que Barbicane<br \/>\n    recobrou os sentidos. Abriu os olhos, levantou-se, apertou a m&atilde;o dos<br \/>\n    dois amigos e as suas primeiras palavras foram estas: Nicoles, vamos a caminho?<br \/>\n    Nicoles e Ardan entreolharam-se. Ainda n&atilde;o tinham tido tempo para pensar<br \/>\n    no proj&eacute;til. Muito naturalmente, haviam- se preocupado primeiro com<br \/>\n    eles pr&oacute;prios.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade&#8230; Ser&aacute; que vamos a caminho? &#8211; repetiu Michel<br \/>\n    Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Ou ser&aacute; que estamos tranq&uuml;ilamente pousados no solo da Fl&oacute;rida?<br \/>\n    &#8211; aventou por sua vez Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o estaremos no fundo do golfo do M&eacute;xico? &#8211; acrescentou<br \/>\n    Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Esta agora! &#8211; exclamou o Presidente Barbicane- A dupla hip&oacute;tese<br \/>\n    sugerida pelos companheiros teve como efeito imediato a recupera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    total de Barbicane.<\/p>\n<p> Como quer que fosse, naquele momento nada podia saber acerca da real situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do proj&eacute;til. A sua aparente imobilidade e a falta de comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o exterior n&atilde;o permitiam a resolu&ccedil;&atilde;o do problema.<br \/>\n    Era poss&iacute;vel que o proj&eacute;til seguisse j&aacute; a sua rota no<br \/>\n    espa&ccedil;o. Mas n&atilde;o era menos poss &iacute;vel que, ap&oacute;s<br \/>\n    unia curta ascens&atilde;o, tivesse ca&iacute;do por terra&#8230;<\/p>\n<p> ou mesmo no golfo do M&eacute;xico &#8211; probabilidade que a pouca largura.<br \/>\n    da pen&iacute;nsula da Fl&oacute;rida tornava vi&aacute;vel.<\/p>\n<p> 0 caso era grave, o problema interessante. Era necess&aacute;rio resolv&ecirc;-lo<br \/>\n    e depressa. Barbicane, excitado e triunfando pela energia moral da debilidade<br \/>\n    f&iacute;sica, levantou-se. P&ocirc;s-se &agrave; escuta. No exterior, sil&ecirc;ncio<br \/>\n    absoluto. Mas a espessura do acolchoamento das paredes era suficiente para<br \/>\n    absorver todos os ru&iacute;dos vindos da Terra. Entretanto, houve unia circunst&acirc;ncia<br \/>\n    que n&atilde;o escapou a Barbicane: a temperatura no interior do proj&eacute;til<br \/>\n    era particularmente elevada. Tirou de imediato uni term&ocirc;metro da caixa<br \/>\n    que o protegia e consultou- o. 0 instrumento assinalava quarenta e cinco graus<br \/>\n    cent &iacute;grados.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! &#8211; bradou entusiasmado. &#8211; Vamos a caminho! Este calor prov&eacute;m<br \/>\n    das paredes do proj&eacute;til. &Eacute; a conseq&uuml;&ecirc;ncia do atrito<br \/>\n    com as camadas atmosf&eacute;ricas. Em breve diminuir&aacute;, porqu&ecirc;<br \/>\n    j&aacute; devemos estar cruzando o v&aacute;cuo. N&atilde;o tarda que tenhamos<br \/>\n    de suportar um frio intenso.<\/p>\n<p> &#8211; Como? &#8211; N&atilde;o se conteve Michel. Ardan. ?&Eacute;s ent&atilde;o de<br \/>\n    opini&atilde;o que j&aacute; estamos fora dos limites da atmosfera terrestre?<br \/>\n    &#8211; Sem d&uacute;vida alguma, Michel. Ouve: s&atilde;o dez horas e cinq&uuml;enta<br \/>\n    e cinco, o que significa que partimos h&aacute; perto de oito minutos. Ora,<br \/>\n    a menos que a velocidade inicial tenha diminu&iacute;do com o atrito, seis<br \/>\n    segundos bastariam para que ultrapass&aacute;ssemos as dezesseis l&eacute;guas<br \/>\n    de atmosfera que circundam o nosso esfer&oacute;ide.<\/p>\n<p> &#8211; Perfeito &#8211; intrometeu-se Nicoles -; mas, em sua opini&atilde;o, em que<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o ter&aacute; atuado o atrito. na redu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da velocidade? &#8211; Julgo que na propor&ccedil;&atilde;o de uni ter&ccedil;o<br \/>\n    &#8211; esclareceu Barbicane.<\/p>\n<p> E prosseguiu: &#8211; &Eacute; unia redu&ccedil;&atilde;o consider&aacute;vel,<br \/>\n    mas, com base nos meus c&aacute;lculos, &eacute; certa. Logo, se partimos<br \/>\n    animados de uma velocidade inicial de doze mil jardas, &agrave; sa&iacute;da<br \/>\n    da atmosfera ela estaria reduzida a sete mil oitocentas e trinta e duas jardas&#8230;<br \/>\n    portanto, em qualquer dos casos, j&aacute; superamos as tais dezesseis l&eacute;guas.<\/p>\n<p> &#8211; E isto significa &#8211; concluiu Michel Ardan &#8211; que o amigo Nicoles perdeu<br \/>\n    mais duas apostas, como, ali&aacute;s, eu previra: quatro mil d&oacute;lares<br \/>\n    porque o columbiad n&atilde;o explodiu e cinco mil porque o proj&eacute;til<br \/>\n    subiu a unia altitude superior a seis milhas.<\/p>\n<p> V&aacute;, Nicoles, puxa o dinheiro da bolsa! &#8211; Nada de pressas &#8211; respondeu<br \/>\n    o capit&atilde;o. ~ Primeiro, asseguremo-nos da situa&ccedil;&atilde;o, depois<br \/>\n    faremos contas&#8230; &Eacute; muito prov&aacute;vel que as previs&otilde;es de<br \/>\n    Barbicane estejam certas e eu tenha perdido os nove mil d&oacute;lares; mas<br \/>\n    ocorreume unia outra hip&oacute;tese que pode tornar nula a aposta.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, pode-se saber? &#8211; perguntou muito interessado Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Suponham que, por qualquer motivo, a p&oacute;lvora n&atilde;o foi inflamada<br \/>\n    e que, portanto, ainda n&atilde;o partimos.<\/p>\n<p> Com a breca, capit&atilde;o! &#8211; exclamou Michel Ardan.<\/p>\n<p> Eis unia hip&oacute;tese digna da minha cabe&ccedil;a. N&atilde;o falas<br \/>\n    a s&eacute;rio! Acaso n&atilde;o sa&iacute;mos machucados do abalo provocado<br \/>\n    pelo disparo? N&atilde;o me vi obrigado a reanimar-te? E o ombro do presidente<br \/>\n    n&atilde;o sangra ainda? &#8211; De acordo, Michel; todavia, permite-me unia pergunta<br \/>\n    &#8211; insistiu Nicoles.<\/p>\n<p> &Agrave; vontade, capit&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; A detona&ccedil;&atilde;o foi com certeza formid&aacute;vel. Ouviste-a?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu Ardan, muito surpreendido. -.Para falar a verdade,<br \/>\n    n&atilde;o ouvi nenhuma detona&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E voc&ecirc;, Barbicane? Tamb&eacute;m n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; rematou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; De fato.,.. murmurou o presidente. &#8211; Por que n&atilde;o a ouvimos? Os<br \/>\n    tr&ecirc;s amigos entreolharam-se, perplexos. Encontravamse perante um fen&ocirc;meno<br \/>\n    inexplic&aacute;vel. E, no entanto, o proj&eacute;til partira, pelo que a<br \/>\n    detona&ccedil;&atilde;o teve de produzir-se.<\/p>\n<p> &#8211; Em primeiro lugar &eacute; preciso saber onde estamos &#8211; comandou Barbicane.<br \/>\n    &#8211; Des&ccedil;amos as portinholas! Essa opera&ccedil;&atilde;o, extremamente<br \/>\n    simples, depressa foi executada.<\/p>\n<p> As porcas que mantinham os parafusos nas chapas exteriores da vigia direita<br \/>\n    cederam &agrave; press&atilde;o de unia chave-inglesa. Tiraram-se os parafusos,<br \/>\n    tapando os orif&iacute;cios por eles deixados com obturadores guarnecidos<br \/>\n    com borracha. A chapa exterior descaiu, entrando na respectiva dobradi&ccedil;a,<br \/>\n    como unia portinhola, e logo apareceu o vidro penticular que fechava a vigia.<br \/>\n    Vigias id&ecirc;nticas estavam localizadas na espessura da parede oposta,<br \/>\n    na c&uacute;pula e no centro da placa que constitu&iacute;a o 66 ch&atilde;o?<br \/>\n    do proj&eacute;til. Esta disposi&ccedil;&atilde;o possibilitava que fossem<br \/>\n    feitas observa&ccedil;&otilde;es em quatro dire&ccedil;&otilde;es diferentes:<br \/>\n    do firmamento pelas vigias laterais, da Terra e da Lua pelas aberturas superior<br \/>\n    e inferior.<\/p>\n<p> Barbicane e os dois companheiros tinham-se precipitado para a vigia. Nem<br \/>\n    uni s&oacute; raio luminoso a penetrava. Unia profunda obscuridade envolvia<br \/>\n    o proj&eacute;til. Isto n&atilde;o impediu o Presidente Barbicane de bradar:<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, meus amigos, n&atilde;o ca&iacute;mos em terra! Nem estamos<br \/>\n    imersos no fundo do golfo do M&eacute;xico! Sim, elevamo-nos no espa&ccedil;o!<br \/>\n    Vejam estas estrelas que cintilam na noite e a impenetr&aacute;vel escurid&atilde;o<br \/>\n    que se adensa entre n&oacute;s e a Terra! ~ Viva! Viva! &#8211; exclamaram em un&iacute;ssono<br \/>\n    Michel Ardan e Nicoles.<\/p>\n<p> Realmente, aquela treva compacta provava que o proj&eacute;til deixara a<br \/>\n    Terra, porque o solo, ent&atilde;o vivamente iluminado pelo luar, teria sido<br \/>\n    avistado pelos viajantes se nele estivessem pousados. Por outro lado, aquela<br \/>\n    obscuridade demonstrava ainda que o proj&eacute;til passara a camada atmosf<br \/>\n    &eacute;rica,. porque a luz difusa espalhada no ar havia de provocar nas paredes<br \/>\n    met&aacute;licas uni reflexo, de que tamb&eacute;m n&atilde;o se vislumbravam<br \/>\n    sinais. Esse reflexo teria iluminado a vigia, e a verdade &eacute; que da<br \/>\n    vigia s&oacute; se via a noite circundante.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia mais lugar para d&uacute;vidas. Os viajantes tinham deixado<br \/>\n    a Terra.<\/p>\n<p> &#8211; Perdi &#8211; disse Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Dou-te os meus parab&eacute;ns! &#8211; acudiu logo Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui est&atilde;o os nove mil d&oacute;lares &#8211; anunciou o capit&atilde;o,<br \/>\n    tirando da algibeira uni ma&ccedil;o de notas.<\/p>\n<p> &#8211; Quer que lhe passe um recibo? &#8211; perguntou Barbicane, agarrando as notas.<\/p>\n<p> &#8211; Se isto n&atilde;o o incomoda&#8230; &#8211; declarou Nicoles. &#8211; Sempre &eacute;,<br \/>\n    como direi&#8230; mais regular&#8230;<\/p>\n<p> E o Presidente Barbicane, com toda a fleuma e seriedade, tal como se encontrasse<br \/>\n    no seu gabinete, arrancou a folha de papel branco do seu bloco de notas, redigiu<br \/>\n    a l&aacute;pis o recibo, datou-o, assinou-o, rubricou-o e o entregou ao capit<br \/>\n    &atilde;o, que o guardou na carteira.<\/p>\n<p> Michel Ardan, descobrindo-se, fez uma pequena v&ecirc;nia aos companheiros<br \/>\n    e n&atilde;o disse palavra. Tanta formalidade em tais circunst&acirc;ncias<br \/>\n    emudecera-o. Nunca tinha visto nada t&atilde;o ?americano?.<\/p>\n<p> Terminada a cerim&ocirc;nia, Barbicane e Nicoles haviam voltado para junto<br \/>\n    da vigia e contemplavam as constela&ccedil;&otilde;es. As estrelas eram pontos<br \/>\n    brilhantes sobre o fundo negro do c&eacute;u. Mas daquele ponto n&atilde;o<br \/>\n    se via o astro da noite, que, deslocando-se de leste para oeste, se elevava<br \/>\n    placidamente na dire&ccedil;&atilde;o do z&ecirc;nite. 0 fato provocou unia<br \/>\n    d&uacute;vida em Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; E a Lua? &#8211; perguntou ele. &#8211; Ser&aacute; que ela vai faltar ao nosso encontro?<br \/>\n    &#8211; Sossega, homem &#8211; quem lhe respondia era Barbicane. &#8211; 0 nosso sat&eacute;lite<br \/>\n    est&aacute; &agrave; nossa espera. N&oacute;s &eacute; que n&atilde;o podemos<br \/>\n    v&ecirc;-lo desta posi&ccedil;&atilde;o. Abramos a outra vigia lateral.<\/p>\n<p> No momento em que Barbicane ia se afastar para destacar a vigia oposta,<br \/>\n    a sua aten&ccedil;&atilde;o foi despertada pela apari&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita<br \/>\n    de uni objeto brilhante. Era uni disco enorme, cujas colossais dimens&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o podiam ser avaliadas. A face que estava voltada para a Terra apresentava-se<br \/>\n    profusamente iluminada. Dir-se-ia uma Lua mais pequena refletindo a luz da<br \/>\n    maior. Acercava-se com unia prodigiosa velocidade e parecia descrever em torno<br \/>\n    da Terra unia &oacute;rbita que interceptava a trajet&oacute;ria do proj&eacute;til.<br \/>\n    0 seu movimento de transla&ccedil;&atilde;o era acompanhado por uni movimento<br \/>\n    simult&acirc;- neo de rota&ccedil;&atilde;o. Comportava-se, portanto, como<br \/>\n    todos os corpos celestes isolados no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Eh! &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; Que &eacute; aquilo? Uni outro proj&eacute;til?<br \/>\n    Barbicane n&atilde;o respondeu. Aquela apari&ccedil;&atilde;o surpreendia-o<br \/>\n    e inquietava-o. Uni choque n&atilde;o era imposs&iacute;vel, e, a dar-se,<br \/>\n    teria resultados deplor&aacute;veis: ou provocaria uni desvio na trajet&oacute;ria<br \/>\n    do proj&eacute;til, ou retirar-lhe-ia a velocidade adquirida, precipitando-o<br \/>\n    em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Terra, ou, enfim, a for&ccedil;a atrativa<br \/>\n    do aster&oacute;ide afast&aacute;-lo-ia irresistivelmente.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane alcan&ccedil;ara rapidamente todas as conseq &uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    das tr&ecirc;s hip&oacute;teses, que de unia ou de outra maneira comprometiam<br \/>\n    fatalmente a experi&ecirc;ncia. Os companheiros, esses olhavam emudecidos<br \/>\n    o espa&ccedil;o. 0 objeto aumentava prodigiosamente de volume &agrave; medida<br \/>\n    que se aproximava. Todavia, merc&ecirc; de unia ilus&atilde;o de &oacute;tica,<br \/>\n    poderse- ia pensar que era o proj&eacute;til que lhe corria ao encontro.<\/p>\n<p> &#8211; Com mil diabos! &#8211; bradou Michel Ardan. &#8211; Os dois comboios v&atilde;o chocar!<br \/>\n    Os viajantes recuaram instintivamente. Sentiram um medo terr&iacute;vel, que,<br \/>\n    no entanto, se dissipou alguns segundos depois.<\/p>\n<p> 0 aster&oacute;ide passou a umas centenas de metros do proj&eacute;til e<br \/>\n    desapareceu, n&atilde;o tanto devido &agrave; velocidade de que ia animado,<br \/>\n    mas porque a face oposta &agrave; Lua se confundiu imediatamente com a profunda<br \/>\n    escurid&atilde;o do espa- &ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Boa viagem! &#8211; suspirou aliviado Michel Ardan. &#8211; E inacredit&aacute;vel!<br \/>\n    Ent&atilde;o o infinito n&atilde;o &eacute; bastante grande para permitir<br \/>\n    que uni pequeno proj&eacute;til passe sem perigo pelo espa&ccedil;o?&#8230; Essa<br \/>\n    agora! Mas, afinal, que globo luminoso era aquele? Eu sei&#8230; &#8211; disse Barbicane.<\/p>\n<p> Por Deus! Sabes tudo! &#8211; &Eacute; uni b&oacute;lide &#8211; prosseguiu Barbicane<br \/>\n    -, uni enorme b&oacute;lide que a for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o terrestre<br \/>\n    transformou em sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> _ Ali, sim! &#8211; admirou-se Michel Ardan. &#8211; Ent&atilde;o a Terra tem tamb&eacute;m<br \/>\n    duas luas como Marte? &#8211; Sim, meu amigo, embora geralmente se diga que tem<br \/>\n    apenas uma. Essa segunda Lua &eacute; t&atilde;o pequena e possui unia velocidade<br \/>\n    t&atilde;o grande que os habitantes da Terra n&atilde;o podem v&ecirc;-la.<br \/>\n    Todavia, tendo em conta determinadas perturba &ccedil;&otilde;es, uni astr&ocirc;nomo<br \/>\n    franc&ecirc;s logrou descobrir esse segundo sat&eacute;lite e estabelecer<br \/>\n    a seu respeito alguns dados.<\/p>\n<p> Com base nas suas observa&ccedil;&otilde;es, esse b&oacute;lide completa<br \/>\n    a sua revolu&ccedil;&atilde;o em tomo da Terra somente em tr&ecirc;s horas<br \/>\n    e vinte minutos, o que significa que est&aacute; animado de prodigiosa velocidade.<\/p>\n<p> &#8211; E todos os astr&ocirc;nomos admitem a exist&ecirc;ncia desse sat&eacute;-<br \/>\n    lite? &#8211; interrogou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu Barbicane mas se, como n&oacute;s, quase lhe tocassem,<br \/>\n    n&atilde;o teriam mais d&uacute;vidas. &Eacute; verdade&#8230; estou pensando<br \/>\n    que esse b&oacute;lide, que nos causaria graves problemas se chocasse com<br \/>\n    o proj&eacute;til, vai permitimos determinar com precis&atilde;o a nossa posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> De que maneira? &#8211; interessou-se Ardan. Pela dist&acirc;ncia em que o encontramos,<br \/>\n    est&aacute;vamos exatamente a oito mil cento e quarenta quil&ocirc;metros<br \/>\n    da superf&iacute;cie terrestre.<\/p>\n<p> &#8211; Mais de duas mil l&eacute;guas! &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; Isto quer dizer<br \/>\n    que batemos os comboios expressos daquele Globo que se chama Terra! &#8211; Assim<br \/>\n    creio &#8211; admitiu Nicoles, consultando o cron&ocirc;metro.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o onze horas, o que quer dizer que deixamos a continente americano<br \/>\n    h&aacute; apenas treze minuto.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute; treze minutos? surpreendeu-se Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; E verdade &#8211; confirmou Nicoles. &#8211; E, se a nossa velocidade inicial de doze<br \/>\n    mil jardas se mantivesse constante, atingir&iacute;- amos cerca de dez mil<br \/>\n    l&eacute;guas &agrave; hora! &#8211; As coisas est&atilde;o correndo muito bem,<br \/>\n    meus amigos &#8211; declarou o presidente -, mas h&aacute; uni problema que permanece<br \/>\n    insol&uacute;vel: por que n&atilde;o ouvimos a detona&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    columbiad? Como a tal pergunta ningu&eacute;m sabia responder, a conversa<br \/>\n    ficou por ali. Barbicane, embora entregue &agrave;s suas reflex &otilde;es,<br \/>\n    predisp&ocirc;s-se ent&atilde;o a destapar a segunda vigia late ral. A opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi bem sucedida, pelo que atrav&eacute;s dela a Lua iluminou o interior do<br \/>\n    proj&eacute;til com unia fulgurante luz.<\/p>\n<p> Nicoles, como homem econ&ocirc;mico que era, apagou o bico de g&aacute;s,<br \/>\n    de que j&aacute; n&atilde;o careciam, e cuja claridade prejudicava a observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos espa&ccedil;os interplanet&aacute;rios.<\/p>\n<p> 0 disco lunar refulgia nesse momento em toda a sua pureza.<\/p>\n<p> Os raios que emitia, libertos dos vapores que toldam a atmosfera terrestre,<br \/>\n    filtravam-se atrav&eacute;s da vigia e inundavam de reflexos prateados o interior<br \/>\n    do proj&eacute;til. 0 negro v&eacute;u do firmamento duplicava o esplendor<br \/>\n    da Lua, que, no v&aacute;cuo do &eacute;ter, impr&oacute;prio para a difus&atilde;o<br \/>\n    da luz, n&atilde;o ofuscava o das estrelas vizinhas. 0 c&eacute;u, visto desta<br \/>\n    maneira, oferecia um aspecto totalmente novo, de que os olhos humanos n&atilde;o<br \/>\n    podiam suspeitar.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil imaginar com que interesse os audazes<br \/>\n    companheiros contemplavam o astro da noite, supremo objetivo da sua viagem.<br \/>\n    0 sat&eacute;lite da Terra, no seu movimento de transla&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    avizinhava-se pouco a pouco do z&ecirc;nite, ponto matem&aacute;tico que devia<br \/>\n    atingir cerca de noventa e seis horas depois. As suas plan&iacute;cies e montanhas,<br \/>\n    todo o seu relevo, n&atilde;o se distinguiam com maior clareza do que quando<br \/>\n    observadas de qualquer ponto da Terra. Contudo, a sua luz, atrav&eacute;s<br \/>\n    do v&aacute;cuo, desenvolvia-se com unia intensidade incompar&aacute;vel.<br \/>\n    0 disco resplandecia como uni espelho de platina. Da Terra, que se perdia<br \/>\n    na dist&acirc;ncia sob os seus p&eacute;s, os viajantes j&aacute; quase n&atilde;o<br \/>\n    se lembravam.<\/p>\n<p> 0 Capit&atilde;o Nicoles foi o primeiro a recordar o Globo abandonado.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; concordou Michel Ardan ~, &eacute; bom que n&atilde;o sejamos ingratos<br \/>\n    para com ele. Unia vez que abandonamos a p&aacute;- tria, &eacute; justo que<br \/>\n    lhe dediquemos os nossos &uacute;ltimos olhares.<\/p>\n<p> Quero rever a Terra antes que desapare&ccedil;a completamente da minha vista!<br \/>\n    Para satisfazer os desejos do companheiro, Barbicane come &ccedil;ou a desembara&ccedil;ar<br \/>\n    a vigia do fundo do proj&eacute;til, precisamente aquela que possibilitava<br \/>\n    a observa&ccedil;&atilde;o direta da Terra. 0 disco, que a for&ccedil;a da<br \/>\n    proje&ccedil;&atilde;o levara at&eacute; o ?ch&atilde;o? do proj&eacute;til,<br \/>\n    deu algum trabalho para desmontar. Os seus fragmentos, colocados cuidadosamente<br \/>\n    &agrave;s paredes, podiam ter utilidade, numa emerg&ecirc;ncia. Apareceu,<br \/>\n    ent&atilde;o, um v&atilde;o circular, de cinq&uuml;enta cent&iacute;metros<br \/>\n    de di&acirc;metro, vazado na parte inferior do proj&eacute;til, fechado por<br \/>\n    meio de um vidro de quinze cent&iacute;metros de espessura e refor&ccedil;ado<br \/>\n    por uma armadura de cobre. Por baixo, tinha adaptada uma chapa de alum&iacute;nio<br \/>\n    segura por parafusos.<\/p>\n<p> Desatarraxadas as porcas e tirados os parafusos, a chapa deslizou, e a comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    visual com o exterior ficou estabelecida.<\/p>\n<p> Ardan ajoelhara-se junto ao vidro: estava escuro, como se fosse opaco.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o! &#8211; exclamou ele. &#8211; Onde est&aacute; a Terra? &#8211; A Terra est&aacute;<br \/>\n    ali &#8211; apontou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; 0 qu&ecirc;! &#8211; estranhou Ardan. &#8211; E aquele fiozinho estreito&#8230;<\/p>\n<p> aquele crescente prateado? &#8211; Aquele mesmo, Michel. Dentro de quatro dias,<br \/>\n    na lua cheia, exatamente no instante em que chegarmos ao nosso objetivo, entrar&aacute;<br \/>\n    a Terra na fase da terra nova. Nessa altura, ela aparecer-nos-&aacute; sob<br \/>\n    a forma de um crescente muito estreito, que n&atilde;o tardar&aacute; a desaparecer<br \/>\n    por alguns dias na sombra impenetr&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Aquilo&#8230; &eacute; a Terra? &#8211; repetia Michel Ardan, abrindo os olhos quanto<br \/>\n    podia para ver a fatiazinha do planeta natal.<\/p>\n<p> A explica&ccedil;&atilde;o do Presidente Barbicane era exata. A Terra achava-se<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao sat&eacute;lite na sua &uacute;ltima fase. Estava<br \/>\n    no minguante, pelo que dela s&oacute; se avistava uni estreito crescente desenhado<br \/>\n    a rigor no fundo negro do c&eacute;u. A luz, azulada por efeito da espessura<br \/>\n    da camada atmosf&eacute;rica, era menos intensa do que a do crescente lunar.<br \/>\n    0 crescente terrestre possu&iacute;a, entretanto, consider&aacute;veis dimens&otilde;es.<\/p>\n<p> Alguns pontos, vivamente iluminados, sobretudo na parte c&ocirc;ncava do<br \/>\n    arco, denunciavam a presen&ccedil;a de altas montanhas.<\/p>\n<p> Mas, de vez em quando, desapareciam sob espessas manchas, que nunca se v&ecirc;em<br \/>\n    na superf&iacute;cie do disco lunar.<\/p>\n<p> Eram os an&eacute;is de nuvens, concentricamente dispostos em torno do esfer&oacute;ide<br \/>\n    terrestre.<\/p>\n<p> Contudo, devido a uni fen&ocirc;meno natural, id&ecirc;ntico ao que se d&aacute;<br \/>\n    na Lua quando est&aacute; no primeiro e &uacute;ltimo oitante, podia divisar-se<br \/>\n    todo o contorno do globo terrestre. 0 disco deste aparecia bem vis&iacute;vel<br \/>\n    em virtude de uni efeito de luz cendrada, menos apreci&aacute;vel que a luz<br \/>\n    cendrada da Lua.<\/p>\n<p> E a raz&atilde;o desta menor intensidade &eacute; f&aacute;cil de compreender.<\/p>\n<p> Esse reflexo, quando se produz na Lua, &eacute; devido aos raios solares<br \/>\n    que a Terra reflete na dire&ccedil;&atilde;o do seu sat&eacute;lite; quando<br \/>\n    se produz na Terra, resulta do fen&ocirc;meno contr&aacute;rio, isto &eacute;,<br \/>\n    passa a ser a Lua a refletir os raios solares na dire&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    Terra. Ora, a luz terrestre &eacute;, aproximadamente, treze vezes mais intensa<br \/>\n    do que a lunar, fato que se explica pela diferen&ccedil;a de volumes dos dois<br \/>\n    corpos. Da&iacute; a raz&atilde;o por que, no fen&ocirc;meno da luz cendrada,<br \/>\n    a parte obscura do disco da Terra se destaca menos nitidamente do que a do<br \/>\n    disco da Lua, unia vez que a intensidade do fen&ocirc;meno &eacute; proporcional<br \/>\n    ao poder iluminante dos dois astros. Conv&eacute;m acrescentar ainda que o<br \/>\n    crescente terrestre parecia desenhar unia curva mais alongada que a do disco.<br \/>\n    Puro efeito de irradia&ccedil;&atilde;o, nada mais.<\/p>\n<p> Em suma, eis tudo o que eles viam desse esfer&oacute;ide perdido na obscuridade<br \/>\n    &#8211; astro menor do sistema solar, que, para os grandes planetas, se p&otilde;e<br \/>\n    e nasce tal e qual unia simples estrela da manh&atilde; ou da noite! Impercept&iacute;vel<br \/>\n    ponto do espa &ccedil;o, o Globo onde haviam deixado tudo o que mais amavam<br \/>\n    na vida era apenas um crescente fugitivo! Os tr&ecirc;s amigos olharam-no<br \/>\n    demoradamente sem falar, mas unidos no mesmo sentimento, enquanto o proj&eacute;til<br \/>\n    se afastava a unia velocidade uniformemente decrescente. Depois, unia irresist&iacute;vel<br \/>\n    sonol&ecirc;ncia venceu-os. Fadiga do corpo e da alma? Certamente, porque,<br \/>\n    ap&oacute;s a excita&ccedil;&atilde;o das &uacute;ltimas horas passadas na<br \/>\n    Terra, outra rea&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era de se esperar.<\/p>\n<p> &#8211; Bem j&aacute; que &eacute; preciso dormir, durmamos &#8211; disse Michel.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s amigos imergiram num profundo sono.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o dormiram nem uni quarto de hora. Barbicane levantou- se subitamente<br \/>\n    e, despertando os companheiros, gritou: &#8211; Achei! &#8211; Que &eacute; que tu achaste?<br \/>\n    &#8211; perguntou Michel Ardan, saltando do seu pequeno leito.<\/p>\n<p> &#8211; A raz&atilde;o por que n&atilde;o ouvimos a detona&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    columbiad! &#8211; E qual &eacute;? &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ouvimos a detona&ccedil;&atilde;o, porque o nosso proj&eacute;til<br \/>\n    se deslocava a unia velocidade superior &agrave; da propaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do som! E, pouco depois de se terem estendido nos catres, os<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">Cap&iacute;tulo II &#8211; A instala&ccedil;&atilde;o<\/a><\/h4>\n<p>Uma vez ouvida esta curiosa mas por certo exata explica- &ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os tr&ecirc;s amigos voltaram a mergulhar num profundo sono. Aquele proj&eacute;til,<br \/>\n    vagando no vazio absoluto, podia oferecer ao seus h&oacute;spedes uni repouso<br \/>\n    absoluto.<\/p>\n<p> Deste modo, o sono dos tr&ecirc;s viajantes teria podido prolongar- se indefinidamente<br \/>\n    se um imprevisto rumor n&atilde;o os tivesse despertado por volta das sete<br \/>\n    horas da manh&atilde; de 2 de dezembro, cerca de oito horas depois da partida.<\/p>\n<p> Aquele rumor era um latido muito caracter&iacute;stico.<\/p>\n<p> &#8211; Os c&atilde;es! S&atilde;o os c&atilde;es! &#8211; exclamou Michel Ardan, levantando-<br \/>\n    se de um pulo.<\/p>\n<p> &#8211; T&ecirc;m fome &#8211; concluiu Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Meu Deus! &#8211; prosseguiu Michel. &#8211; Esquecemo-nos deles! &#8211; Onde est&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; quis saber Barbicane.<\/p>\n<p> Procuraram e encontraram um dos animais enroscado debaixo do sof&aacute;.<br \/>\n    Amedrontado, atordoado pelo choque inicial, conversara-se no seu canto at&eacute;<br \/>\n    o momento em que sentiu o est&iacute;mulo da fome e, com ele, as for&ccedil;as<br \/>\n    para latir.<\/p>\n<p> Era a simp&aacute;tica Diana, que, ainda cheia de medo, ia ,saindo do seu<br \/>\n    esconderijo, n&atilde;o sem antes se fazer muito rogada.<\/p>\n<p> Michel Ardan tentava encoraj&aacute;-la com as suas mais doces palavras:<br \/>\n    &#8211; Vem, Diana, vem i minha pequenina! Tu, cujo destino ser&aacute; assinalado<br \/>\n    nos anais cineg&eacute;ticos! Tu, que os pag&atilde;os teriam dado por companheira<br \/>\n    ao deus An&uacute;bis, e os crist&atilde;os por amiga a S&atilde;o Roque!<br \/>\n    Tu, digna de seres moldada no bronze do rei dos Infernos, como esse cachorrinho<br \/>\n    que J&uacute;piter ofereceu &agrave; bela Europa em troca de uni beijo! Tu,<br \/>\n    cuja celebridade ofuscar&aacute; a dos her&oacute;is de Montargis e do Monte<br \/>\n    S&atilde;o Bernardo! Tu, que, elevando-te nos espa&ccedil;os interplanet&aacute;rios,<br \/>\n    ser&aacute;s por for&ccedil;a a Eva dos c&atilde;es selenitas! Tu justificar&aacute;s<br \/>\n    l&aacute; em cima esta frase de Toussene: ?No in&iacute;cio, Deus criou o<br \/>\n    homem e, vendo-o t&atilde;o d&eacute;bil, deu-lhe o c&atilde;o!? Vem Diana!<br \/>\n    Vem aqui! Diana, lisonjeada ou n&atilde;o, avan&ccedil;ava lentamente, emitindo<br \/>\n    gemidos comovedores.<\/p>\n<p> &#8211; Bem! &#8211; disse Barbicane. Encontramos a Eu, mas por onde andar&aacute; o<br \/>\n    Ad&atilde;o? Ad&atilde;o! &#8211; exclamou Michel Ad&atilde;o n&atilde;o pode estar<br \/>\n    longe! Est&aacute; por a&iacute;, em qualquer canto! Chamemo-lo! Sat&eacute;lite,<br \/>\n    aqui? Sat &eacute;lite.<\/p>\n<p> Mas Sat&eacute;lite n&atilde;o aparecia. Diana continuava a gemer. Entretanto,<br \/>\n    verificaram que n&atilde;o estava ferida e deram-lhe unia apetitosa mistura<br \/>\n    de p&atilde;o com pedacinhos de carne, que p&ocirc;s termo aos seus lamentos.<\/p>\n<p> Quanto a Sat&eacute;lite, parecia ter-se volatilizado. Foi necess&aacute;-<br \/>\n    rio procurar pacientemente para o descobrir num dos compartimentos superiores<br \/>\n    do proj&eacute;til, para onde uni inexplic&aacute;vel impulso o havia violentamente<br \/>\n    lan&ccedil;ado. 0 pobre animal, muito atordoado, estava num estado lastimoso.<\/p>\n<p> &#8211; Com mil diabos? &#8211; bradou Michel. &#8211; A nossa experi&ecirc;ncia de aclimata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; comprometida! Desceram o infeliz c&atilde;o com as maiores precau&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    A ca be&ccedil;a tinha batido na c&uacute;pula e tudo indicava que seria dif&iacute;cil<br \/>\n    recuper&aacute;-lo de tal pancada. Apesar disso, estenderam-no confortavelmente<br \/>\n    sobre uma almofada, e ali Sat&eacute;lite deixou escapar uni longo suspiro.<\/p>\n<p> Vamos curar-te &#8211; disse Michel. &#8211; Somos respons&aacute;veis pela tua exist&ecirc;ncia.<br \/>\n    Preferia perder uni bra&ccedil;o a perder unia pata do meu pobre Sat&eacute;lite!<br \/>\n    E, dizendo isto, deu uni pouco de &aacute;gua ao ferido, que a bebeu avidamente.<\/p>\n<p> Prestados estes cuidados, os viajantes puseram-se a ob5ervar a Terra e a<br \/>\n    Lua. A Terra era apenas uni disco cendrado, cujo crescente se esbatera uni<br \/>\n    tanto desde a v&eacute;spera, embora o seu volume permanecesse enorme em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao da Lua, que se aproximava cada vez mais da forma do circulo perfeito.<\/p>\n<p> &#8211; Por minha f&eacute;! &#8211; acabou de dizer Michel. Ardan estou mesmo aborrecido<br \/>\n    por n&atilde;o termos partido no momento da terra cheia, quero dizer, quando<br \/>\n    o nosso Globo se encontrava em oposi&ccedil;&atilde;o com o Sol.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; inquiriu Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Porque ter&iacute;amos visto sob a luz inteiramente nova os nossos continentes<br \/>\n    e mares, estes resplandecendo sob a proje&ccedil;&atilde;o dos raios solares,<br \/>\n    aqueles mais escuros, tal como se reproduzem em certos mapas-mundi. Como gostaria<br \/>\n    de ver os p&oacute;los terrestres, sobre os quais nenhum olhar humano pousou<br \/>\n    ainda! &#8211; Sem d&uacute;vida, tudo isso est&aacute; muito certo &#8211; atalhou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, se a Terra estivesse em terra cheia, a Lua estaria em lua nova, isto<br \/>\n    &eacute;, invis&iacute;vel no meio da irradia&ccedil;&atilde;o solar. E a<br \/>\n    n&oacute;s conv&eacute;m mais ver o ponto de chegada que o de partida.<\/p>\n<p> &#8211; Tem toda raz&atilde;o &#8211; concordou o Capit&atilde;o Nicoles. &#8211; De resto,<br \/>\n    quando atingirmos a Lua, teremos tempo, durante as longas noites lunares,<br \/>\n    de observar a nosso bel-prazer esse Globo onde formigam os nossos semelhantes!<br \/>\n    &#8211; Os nossos semelhantes! &#8211; surpreendeu-se Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Mas agora s&atilde;o t&atilde;o nossos semelhantes como os selenitas!<br \/>\n    N&oacute;s habitamos uni mundo novo, cuja a Popula&ccedil;&atilde;o somos<br \/>\n    n&oacute;s&#8230; 0 Proj&eacute;til! 0 meu semelhante, Barbicane, e Barbicane<br \/>\n    o semelhante de Nicoles. Al&eacute;m de n&oacute;s, fora de n&oacute;s, a<br \/>\n    humanidade acaba. Somos &uacute;nicos habitantes deste? microcosmo, at&eacute;<br \/>\n    o instante e que rios tornemos simples selenitas! Dentro de oitenta e oito<br \/>\n    horas aproximadamente Precisou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; 0 que significa?&#8230; perguntou Michel Ardan. Que s&atilde;o oito e meia<br \/>\n    &#8211; esclareceu Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem &#8211; respondeu Michel -, n&atilde;o conseguiu vislumbrar raz&otilde;es<br \/>\n    que nos possam impedir de almoce imediatamente.<\/p>\n<p> Na verdade, os habitantes do novo astro n&atilde;o podia sobreviver sem<br \/>\n    comer, e os seus est&ocirc;magos sentiam j&aacute; o efeitos da fome. Michel<br \/>\n    Ardan, como bom franc&ecirc;s que era, proclamou-se cozinheiro-chefe, importante<br \/>\n    fun&ccedil;&atilde;o para a qual n&atilde;o tinha, ali&aacute;s, concorrentes.<br \/>\n    0 g&aacute;s proporcionou Os Poucos graus de calor suficientes para os preparativos<br \/>\n    culin &aacute;rios e a arca de provis&otilde;es forneceu os g&ecirc;neros<br \/>\n    para a primeira refei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Procederam em seguida ao invent&aacute;rio dos instrumentos.<\/p>\n<p> Os term&ocirc;metros e os bar&ocirc;metros resistiram, salvo uni term&ocirc;metro<br \/>\n    de m&iacute;nima, cujo reservat&oacute;rio se partiu. Uni excelente aner&oacute;ide,<br \/>\n    retirado do estojo acolchoado que o protegia, foi pendurado numa das paredes.<br \/>\n    Naturalmente, as indica&ccedil;&otilde;es do aparelho diziam apenas respeito<br \/>\n    &agrave; press &atilde;o da atmosfera existente dentro do proj&eacute;til,<br \/>\n    cujo &iacute;ndice hidrom&eacute;trico tamb&eacute;m indicava. Naquele instante<br \/>\n    a agulha oscilava entre 760 e 765 mil&iacute;metros. Assinalava, Portanto,<br \/>\n    ?bom tempo?.<\/p>\n<p> Barbicane trouxera tamb&eacute;m v&aacute;rias b&uacute;ssolas, que foram<br \/>\n    encontradas intatas. Compreende-se que naquelas condi- &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    as suas agulhas estivessem ?loucas?, isto &eacute;, sem dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    constante. De fato, dada a dist&acirc;ncia a que o proj&eacute;til estava<br \/>\n    da Terra, o p&oacute;lo magn&eacute;tico n&atilde;o podia exercer sobre os<br \/>\n    instrumentos qualquer a&ccedil;&atilde;o *sens&iacute;vel. Contudo, aquelas<br \/>\n    b&uacute;ssolas, unia vez transportadas para a superf&iacute;cie lunar, talvez<br \/>\n    pudessem indicar quaisquer fen&ocirc;menos magn&eacute;ticos ali existentes.<br \/>\n    Em todo o caso, seria interessante saber-se se o sat&eacute;lite da Terra<br \/>\n    estava, como esta, submetido &agrave; influ- &ecirc;ncia magn&eacute;tica.<br \/>\n    Quanto aos utens&iacute;lios, picaretas, enxadas e outras ferramentas que<br \/>\n    Nicoles havia selecionado propositadamente, bem como as sacas de sementes<br \/>\n    variadas e as plantas que Michel Ardan se propunha transplantar em solo selenita,<br \/>\n    estavam em ordem.<\/p>\n<p> Barbicane verificou, tamb&eacute;m, que os foguetes e os outros fogos de<br \/>\n    artif&iacute;cio n&atilde;o haviam sofrido danos. Eram de fato pe&ccedil;as<br \/>\n    importantes, dotadas de potentes cargas, que estavam destinadas a atenuar<br \/>\n    a queda do proj&eacute;til quando este arrastado pela for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ca&iacute;sse na superf&iacute;cie da Lua.<\/p>\n<p> 0 mesmo espet&aacute;culo! Em toda a sua extens&atilde;o, a esfera celeste<br \/>\n    formigava de estrelas e de constela&ccedil;&otilde;es de unia maravilhosa<br \/>\n    pureza, que fariam perder a cabe&ccedil;a a uni astr&ocirc;nomo. De uni lado<br \/>\n    o Sol, qual boca de forno inflamado, disco deslumbrante sem aur&eacute;ola,<br \/>\n    destacava-se do fundo negro do c&eacute;u. Do outro lado, a Lua refletia a<br \/>\n    luz do Sol, aparentemente im&oacute;vel no meio do mundo estelar. Depois,<br \/>\n    unia mancha muito n&iacute;tida que parecia furar o firmamento e tinha ainda<br \/>\n    unia estreita orla prateada: era a Terra! Os observadores n&atilde;o conseguiam<br \/>\n    desviar os olhos daquele espet&aacute;culo in&eacute;dito, do qual nenhuma<br \/>\n    descri&ccedil;&atilde;o poder&aacute; dar unia p&aacute;lida id&eacute;ia.<\/p>\n<h4><a name=\"19\" id=\"19\">Cap&iacute;tulo III &#8211; Um erro de c&aacute;lculo<\/a><\/h4>\n<p>A noite escoou-se sem novidade. Para falar a verdade, a palavra -noite- n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; l&aacute; muito apropriada.<\/p>\n<p> E que a posi&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til n&atilde;o se alterara<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao Sol. Sob o ponto de vista astron&ocirc;mico, era<br \/>\n    dia na parte inferior do proj&eacute;til e? noite na parte superior., Sempre<br \/>\n    que se utilizar os termos ?noite? e ?dia?, eles exprimem, conseq &uuml;entemente,<br \/>\n    o lapso de tempo que transcorre entre o nascer e o por do Sol na Terra.<\/p>\n<p> 0 sono dos viajantes foi tanto mais sossegado quanto a ilus&atilde;o da<br \/>\n    imobilidade do proj&eacute;til parecia ser um fato irrecus&aacute;vel, isto<br \/>\n    apesar da extraordin&aacute;ria velocidade de que ia animado.<\/p>\n<p> Naquela manh&atilde; do dia 3 de dezembro, os viajantes despertaram com<br \/>\n    uni som alegre mas inesperado. 0 canto de uni galo ressoara no interior do<br \/>\n    proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Michel Ardan foi o primeiro a p&ocirc;r-se de p&eacute;. Trepou ao topo<br \/>\n    do proj&eacute;til e, fechando uma caixa entreaberta, disse entre dentes:<br \/>\n    _ V&ecirc; se te calas! Queres botar a perder os meus planos? Nicoles e Barbicane<br \/>\n    tinham tamb&eacute;m acordado.<\/p>\n<p> &#8211; Uni galo? &#8211; surpreendera-se Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, meus amigos! &#8211; apressou-se a responder Michel. &#8211; Fui eu que<br \/>\n    quis despert&aacute;-los com esta vocaliza&ccedil;&atilde;o de sabor campestre!<br \/>\n    Dito isto, soltou uni cocoroc&oacute; espl&ecirc;ndido, que teria feito honra<br \/>\n    ao mais orgulhoso dos galin&aacute;ceos.<\/p>\n<p> Os dois americanos n&atilde;o conseguiram conter o riso.<\/p>\n<p> &#8211; Grande talento&#8230; &#8211; comentou Nicoles, olhando o companheiro com uni ar<br \/>\n    de suspeita.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, sabem&#8230; &#8211; explicou Michel -, &eacute; uma brincadeira da minha terra.<br \/>\n    Muito gaulesa. Imita-se o galo na melhor sociedade! &#8211; E mudando de assunto:<br \/>\n    &#8211; Barbicane, sabes em que pensei toda a noite? &#8211; Como queres que saiba? &#8211;<br \/>\n    perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Nos nossos amigos de Cambridge. J&aacute; reparaste que sou uni perfeito<br \/>\n    ignorante no que respeita a matem&aacute;ticas. &Ecirc;- me, portanto, imposs&iacute;vel<br \/>\n    imaginar como puderam os s&aacute;bios do observat&oacute;rio calcular a velocidade<br \/>\n    inicial de que o proj&eacute;til deveria ser animado ao deixar o columbiad<br \/>\n    a fim de conseguir alcan&ccedil;ar a Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Queres dizer &#8211; replicou Barbicane -, para atingir o ponto neutro em que<br \/>\n    se equilibram as atra&ccedil;&otilde;es terrestres e lunar, porque a partir<br \/>\n    desse ponto, situado a cerca de nove d&eacute;cimos do percurso, h&aacute;-de<br \/>\n    o proj&eacute;til cair na Lua apenas pelo efeito do seu pr&oacute;prio peso.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que seja assim &#8211; admitiu Michel -; mas, insisto, como puderam eles<br \/>\n    calcular a velocidade inicial? &#8211; Nada mais simples&#8230; &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Queres dizer que eras capaz de fazer esse c&aacute;lculo? &#8211; voltou a perguntar<br \/>\n    Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Com toda a certeza. Nicoles e eu te-lo-&iacute;amos estabelecido, se a<br \/>\n    nota do observat&oacute;rio n&atilde;o nos tivesse poupado esse trabalho.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, meu velho confessou Michel -; a mim era mais f&aacute;cil cortar-me<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, come&ccedil;ando pelos p&eacute;s, do que me obrigarem a<br \/>\n    resolver tal quebra-cabe&ccedil;as1 &#8211; Ora, porque n&atilde;o sabes &aacute;lgebra<br \/>\n    &#8211; replicou tranq&uuml;ilamente Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; E de me ensinar a maneira de calcular a velocidade inicial do nosso proj&eacute;til?<br \/>\n    &#8211; Sim, meu bom amigo. Considerando todos os dados do problema, dist&acirc;ncia<br \/>\n    do centro da Terra ao centro da Lua, raio da Terra, massa da Terra e massa<br \/>\n    da Lua, posso estabelecer exatamente, atrav&eacute;s de unia simples f&oacute;rmula,<br \/>\n    a velocidade que devia ter animado &agrave; partida 0 nosso proj&eacute;til.<\/p>\n<p> 0 capit&atilde;o, homem habituado a superar todas as dificuldades, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a fazer contas com uma rapidez espantosa.<\/p>\n<p> Divis&otilde;es e multiplica&ccedil;&otilde;es nasciam-lhe sob o l&aacute;pis.<br \/>\n    Os algarismos crivavam a p&aacute;gina branca. Barbicane seguia a opera &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com os olhos, enquanto Michel Ardan apertava a cabe&ccedil;a com as m&atilde;os<br \/>\n    para tentar minorar os efeitos de uma enxaqueca que come&ccedil;ava a perturb&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; perguntou Barbicane, depois de alguns minutos de sil&eacute;ticio.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, conclu&iacute;dos os c&aacute;lculos &#8211; respondeu Nicoles<br \/>\n    -i o zero, isto &eacute;, a velocidade do proj&eacute;til ao sair da atmosfera,<br \/>\n    para poder atingir o ponto de igual atra&ccedil;&atilde;o, devia ser de&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; De? &#8230; fez Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; De onze mil e cinq&uuml;enta e uni metros no primeiro segundo.<\/p>\n<p> &#8211; Hem! &#8211; exclamou Barbicane, dando uni pulo. -0 que diz? &#8211; Onze mil e cinq&uuml;enta<br \/>\n    e uni metros.<\/p>\n<p> &#8211; Maldi&ccedil;&atilde;o! &#8211; bradou o presidente, fazendo uni gesto de desespero.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que te deu? &#8211; perguntou muito surpreendido M Michel. Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; 0 que &eacute; que me deu! Deu-me que, se naquele momento a velocidade<br \/>\n    houvesse diminu&iacute;do de um ter&ccedil;o, isto significa que a velocidade<br \/>\n    inicial deveria ter sido de&#8230;de dezesseis mil quinhentos e setenta e seis<br \/>\n    metros &#8211; precisou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; E o Observat&oacute;rio de Cambridge garantiu que onze mil metros &agrave;<br \/>\n    partida seriam suficientes! Bonito servi&ccedil;o! E o nosso proj&eacute;til,<br \/>\n    que foi disparado apenas com essa velocidade! &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; perguntou<br \/>\n    Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o a velocidade n&atilde;o &eacute; suficiente! &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; suficiente?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, nem chegaremos ao ponto neutro! &#8211; Com a breca! &#8211; Nem sequer<br \/>\n    a meio do caminho! &#8211; Raio de proj&eacute;til! &#8211; vociferou Michel Ardan, saltando<br \/>\n    como se estivessem a ponto de chocar com o esfer&oacute;ide terrestre.<\/p>\n<p> &#8211; E voltaremos a cair na Terra!<\/p>\n<h4><a name=\"20\" id=\"20\">Cap&iacute;tulo IV &#8211; Os frios do espa&ccedil;o<\/a><\/h4>\n<p>A revela&ccedil;&atilde;o teve o efeito de uni raio. Quem poderia esperar<br \/>\n    uni semelhante erro de c&aacute;lculo? Barbicane recusava-se a admiti-lo.<br \/>\n    Nicoles; reviu os seus c&aacute;lculos. Estavam certos.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; f&oacute;rmula que haviam estabelecido, a sua exatid&atilde;o<br \/>\n    estava fora de d&uacute;vidas. Feita a verifica&ccedil;&atilde;o, o resultado<br \/>\n    manteve-se: era necess&aacute;ria unia velocidade inicial de dezesseis mil<br \/>\n    quinhentos e setenta e seis metros no primeiro segundo para atingir o ponto<br \/>\n    neutro.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s amigos olharam-se em sil&ecirc;ncio. Do almo&ccedil;o ningu<br \/>\n    &eacute;m mais se lembrou. Com os dentes cerrados, as sobrancelhas carregadas<br \/>\n    e os punhos convulsivamente contra &iacute;dos, Barbicane olhava atrav&eacute;s<br \/>\n    &#8211; da vigia. Nicoles cruzara &eacute;s bra&ccedil;os e reexaminava os c&aacute;lculos.<br \/>\n    Michel. Ardan murmurava: &#8211; Grandes s&aacute;bios, n&atilde;o haja d&uacute;vidas.<br \/>\n    Bonita confus&atilde;o em que nos meteram! Daria de bom grado vinte moedas<br \/>\n    de ouro para cair em cima do Observat&oacute;rio de Cambridge e esmag&aacute;-lo<br \/>\n    com todos esses falseadores; de algarismos! De s&uacute;bito, o capit&atilde;o<br \/>\n    fez unia reflex&atilde;o que ecoou no esp&iacute;rito de Barbicane.<\/p>\n<p> Agora reparo! &#8211; disse ele. &#8211; S&atilde;o sete horas da manh&atilde;. Partimos,<br \/>\n    portanto, h&aacute; trinta e duas horas. Mais de metade do nosso trajeto est&aacute;<br \/>\n    percorrido e, que eu saiba, n&atilde;o estamos caindo! Barbicane manteve-se<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio. Mas, ap&oacute;s ter lan&ccedil;ado unia r&aacute;pida<br \/>\n    olhadela na dire&ccedil;&atilde;o do capit&atilde;o, pegou num compasso que<br \/>\n    lhe servia para medir a dist&acirc;ncia. angular do Globo terrestre. Em seguida,<br \/>\n    atrav&eacute;s da vidra&ccedil;a inferior, procedeu a unia observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rigorosa, gra&ccedil;as &agrave; imobilidade aparente do proj&eacute;til.<br \/>\n    Levantou-se ent&atilde;o, limpando a testa molhada de suor, e anotou no papel<br \/>\n    alguns algarismos.<\/p>\n<p> Nicoles compreendeu que o presidente pretendia deduzir da medida do di&acirc;metro<br \/>\n    terrestre a dist&acirc;ncia do proj&eacute;til &aacute; Terra. Olhava-o ansiosamente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! &#8211; quase gritou Barbicane, alguns instantes depois. &#8211; N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o ca&iacute;mos! Estamos j&aacute; a mais de cinq&uuml;enta mil l&eacute;-<br \/>\n    guas da Terra! Transpusemos o ponto em que o proj&eacute;til pararia se a<br \/>\n    velocidade &agrave; partida fosse apenas de doze mil jardas! Continuamos a<br \/>\n    subir! &#8211; &Eacute; evidente &#8211; raciocinou em voz alta Nicoles &#8211; que a nossa<br \/>\n    velocidade inicial, sob impulso das quatrocentas mil libras de algod&atilde;o-p&oacute;lvora,<br \/>\n    ultrapassou as doze mil jardas pedidas.<\/p>\n<p> Isto explica que tiv&eacute;ssemos encontrado, passados apenas treze minutos,<br \/>\n    o segundo sat&eacute;lite, que gravita a mais de duas mil l&eacute;guas da<br \/>\n    Terra.<\/p>\n<p> &#8211; E tal explica&ccedil;&atilde;o &eacute; tanto mais prov&aacute;vel &#8211; acrescentou<br \/>\n    Barbicane quanto &eacute; certo que o proj&eacute;til ficou aliviado de parte<br \/>\n    substancial do seu peso quando expeliu a &aacute;gua contida entre tabiques.<\/p>\n<p> &#8211; Exato! disse Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Ah!, meu caro Nicoles &#8211; exclamou Barbicane estamos salvos! &#8211; Se &eacute;<br \/>\n    assim &#8211; rematou tranq&uuml;ilamente Michel Ardan -, acho melhor almo&ccedil;armos.<\/p>\n<p> Nicoles n&atilde;o se enganava. A velocidade inicial fora, felizmente, superior<br \/>\n    &agrave; indicada pelo Observat&oacute;rio de Cambridge, mas nem por isso<br \/>\n    deixara a prestigiosa institui&ccedil;&atilde;o de se enganar.<\/p>\n<p> Os viajantes, j&aacute; refeitos do falso alarma, sentaram-se &agrave; mesa<br \/>\n    e almo&ccedil;aram alegremente. Se comeram muito, falaram mais ainda. A confian&ccedil;a<br \/>\n    era agora maior do que antes do ?incidente alg&eacute;brico?.<\/p>\n<p> &#8211; E por que raz&atilde;o n&atilde;o havemos de vencer? &#8211; repetia Michel<br \/>\n    Ardan. &#8211; Por que n&atilde;o havemos de chegar? Vamos a caminho.<\/p>\n<p> Diante de n&oacute;s n&atilde;o h&aacute; obst&aacute;culos. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; pedras no nosso trajeto. A estrada est&aacute; livre, mais livre<br \/>\n    do que a do navio que se debate no mar, mais livre do que a do bal&atilde;o<br \/>\n    que luta com os ventos! Ora, se o navio chega ao porto de destino, se o bal&atilde;o<br \/>\n    sobe at&eacute; onde lhe apraz ? por que n&atilde;o h&aacute;-de o nosso proj&eacute;til<br \/>\n    atingir o alvo que visou? &#8211; Atingir&aacute; &#8211; assegurou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Nem que seja apenas para honrar o povo americano &#8211; acrescentou Michel<br \/>\n    Ardan -, o &uacute;nico povo que seria capaz de levar a bom termo tal empresa,<br \/>\n    o &uacute;nico que podia ver nascer no seu seio um Presidente Barbicane! Ah!<br \/>\n    S&oacute; uma coisa me inquieta: agora, que acabaram as nossas preocupa &ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em que nos havemos de ocupar? Vamos nos aborrecer terrivelmente! Barbicane<br \/>\n    e Nicoles acenaram que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Bem fiz eu em prevenir-me, meus amigos &#8211; prosseguiu Michel Ardan. &#8211; Basta<br \/>\n    que pe&ccedil;am. Tenho &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de voc&ecirc;s xadrez,<br \/>\n    damas, baralhos de cartas e domin&oacute;s! S&oacute; me falta um bilhar!<br \/>\n    &#8211; 0 qu&ecirc;? Trouxeste semelhantes ninharias? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Trouxe &#8211; respondeu Michel -, e n&atilde;o s&oacute; para nossa distra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m na louv&aacute;vel inten&ccedil;&atilde;o de introduzir<br \/>\n    esses nos botequins da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Meu amigo &#8211; disse Barbicane -, se a Lua &eacute; habitada, os seus habitantes<br \/>\n    apareceram alguns milhares de anos antes dos da Terra, porque ningu&eacute;m<br \/>\n    pode p&ocirc;r em d&uacute;vida, que esse astro seja mais velho que o nosso.<br \/>\n    Se, por conseguinte, os selenitas existem h&aacute; centenas de milhares de<br \/>\n    anos, se tem o c&eacute;rebro estruturado como o nosso, inventaram j&aacute;<br \/>\n    tudo o que n&oacute;s inventamos e at&eacute; aquilo que havemos de inventar<br \/>\n    no decurso dos s&eacute;culos vindouros.<\/p>\n<p> Em outras palavras, nada t&ecirc;m a aprender conosco, enquanto n&oacute;s<br \/>\n    teremos tudo a aprender com eles.<\/p>\n<p> &#8211; Que dizes? &#8211; perguntou Michel Ardan. &#8211; Pensas ent&atilde;o que tiveram<br \/>\n    artistas com F&iacute;dias, Miguel Angelo e Rafael? &#8211; Sim.<\/p>\n<p> &#8211; E poetas como Homero, Virgilio, Milton, Lamartine e Hugo? &#8211; Tenho certeza.<\/p>\n<p> E fil&oacute;sofos como Plat&atilde;o, Arist&oacute;teles, Descartes e Kant?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o duvido.<\/p>\n<p> &#8211; E s&aacute;bios como Arquimedes, Euclides, Pascal e Newton? &#8211; Jur&aacute;-lo-ia.<\/p>\n<p> &#8211; E c&ocirc;micos como Arnal e fot&oacute;grafos como&#8230; como Nadar? &#8211; Com<br \/>\n    certeza.? &#8211; Bem, amigo Barbicane, se eles s&atilde;o assim t&atilde;o evolu&iacute;dos,<br \/>\n    por que n&atilde;o tentaram comunicar-se com a Terra? Por que n&atilde;o lan&ccedil;aram<br \/>\n    uni proj&eacute;til lunar em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    terrestre? &#8211; E quem te disse que n&atilde;o o fizeram? &#8211; perguntou por sua<br \/>\n    vez Barbicane, muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Realmente &#8211; acrescentou Nicoles -, isso at&eacute; seria mais f&aacute;cil<br \/>\n    para eles do que para n&oacute;s, e por dois motivos: primeiro, porque a atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; seis vezes menos intensa na superf &iacute;cie da Lua do que na da<br \/>\n    Terra, o que possibilitaria imprimirlhe unia velocidade de oito mil l&eacute;guas<br \/>\n    em vez de oitenta mil, o que requereria unia for&ccedil;a propulsora dez vezes<br \/>\n    menor.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o &#8211; insistiu Michel -, eu repito: por que n&atilde;o o fizeram?<br \/>\n    &#8211; E eu &#8211; replicou Barbicane &#8211; volto a insistir: quem te disse que n&atilde;o<br \/>\n    o fizeram? &#8211; Quando? &#8211; H&aacute; milhares de anos, antes da apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do homem na Terra.<\/p>\n<p> &#8211; E o proj&eacute;til? Onde est&aacute; o proj&eacute;til? &#8211; Meu amigo &#8211;<br \/>\n    contemporizou Barbicane -, o mar cobre cinco sextos do nosso Globo. &#8211; Por<br \/>\n    isto, h&aacute; cinco boas razoes para supor que o proj&eacute;til lunar,<br \/>\n    se foi lan&ccedil;ado, esteja agora no fundo do Atl&acirc;ntico ou do Pac&iacute;fico.<br \/>\n    A menos que se tivesse enterrado em alguma fenda, na &eacute;poca em que a<br \/>\n    crosta terrestre n&atilde;o estava suficientemente solidificada.<\/p>\n<p> &#8211; Meu velho &#8211; retorquiu Michel -, tens sempre unia explica- &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para tudo. Inclino-me diante da tua sabedoria. Todavia, h&aacute; unia hip&oacute;tese<br \/>\n    que me &eacute; mais cara: a de que os selenitas, sendo mais velhos e s&aacute;bios<br \/>\n    que n&oacute;s, nem sequer tenham inventado a p&oacute;lvora.<\/p>\n<p> Nessa altura, Diana intrometeu-se na conversa, soltando uni sonoro latido.<br \/>\n    Reclamava a sua ra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &#8211; fez Michel Ardan. &#8211; Com a discuss&atilde;o at&eacute; nos esquecemos<br \/>\n    de Diana e de Sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> Unia abundante sopa foi rapidamente preparada e oferecida &agrave; cadela,<br \/>\n    que a devorou com grande apetite.<\/p>\n<p> &#8211; Olha, Barbicane &#8211; dizia Michel -, o que dever&iacute;amos ter feito era<br \/>\n    transformar o proj&eacute;til numa segunda Arca de No&eacute; e levar para<br \/>\n    a Lua uni casal de todos os animais dom&eacute;sticos.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida &#8211; respondeu Barbicane -, mas n&atilde;o ter&iacute;amos<br \/>\n    espa&ccedil;o. Ora, dava-se um jeito! &#8211; disse Michel. &#8211; Apert&aacute;vamos<br \/>\n    um pouco.<\/p>\n<p> &#8211; A verdade &eacute; que um boi, uma vaca, uma &eacute;gua e um cavalo ser-nos-&iacute;am,<br \/>\n    muito &uacute;teis no continente lunar &#8211; opinou Nicoles. &#8211; Mas este foguete<br \/>\n    n&atilde;o podia transformar-se numa estrebaria, nem num est&aacute;bulo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ao menos &#8211; disse Michel Ardan &#8211; poder&iacute;amos ter trazido uni<br \/>\n    burro, uni pequeno e simples burro, o corajoso e paciente animal que o velho<br \/>\n    Sileno gostava de montar! Como eu gosto dos pobres burros! S&atilde;o os animais<br \/>\n    menos favorecidos da cria&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o s&oacute; lhes batem<br \/>\n    enquanto vivos, como ainda depois de mortos.<\/p>\n<p> &#8211; Que queres dizer? &#8211; inquiriu Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Ora essa &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o lhes aproveitam<br \/>\n    a pele para fazer tambores? Barbicane e Nicoles n&atilde;o puderam deixar<br \/>\n    de rir perante t&atilde;o extravagante reflex&atilde;o. Mas- a uni grito do<br \/>\n    alegre companheiro calaram-se: Michel. estava curvado sobre o nicho de Sat&eacute;lite.<br \/>\n    Quando se levantou, disse: &#8211; Sat&eacute;lite j&aacute; n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    doente.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! &#8211; fez Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; prosseguiu Michel -, est&aacute; morto. &Eacute; uma pena<br \/>\n    &#8211; acrescentou com unia voz melanc&oacute;lica. &#8211; Temo, minha pobre Diana,<br \/>\n    que n&atilde;o possas perpetuar a tua esp&eacute;cie na Lua? Realmente ? o<br \/>\n    infortunado Sat&eacute;lite n&atilde;o conseguira sobreviver ao grave ferimento.<br \/>\n    Estava morto, bem morto. Michel Ardan, muito perturbado, olhava os amigos.<\/p>\n<p> &#8211; Agora temos uni problema &#8211; murmurou Barbicane. &#8211; N&atilde;o podemos manter<br \/>\n    aqui o seu cad&aacute;ver por mais quarenta e oito horas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, claro que n&atilde;o &#8211; apoiou Nicoles. &#8211; As nossas vigias<br \/>\n    est&atilde;o fixadas por dobradi&ccedil;as, podem abrir-se. Abriremos unia<br \/>\n    e lan&ccedil;aremos o corpo no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s ter refletido durante alguns instantes, o presidente disse:<br \/>\n    Sim, teremos: de ir para essa solu&ccedil;&atilde;o, mas ser&aacute; necess&aacute;-<br \/>\n    rio que observemos com rigor as precau&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Por qu&ecirc;? &#8211; perguntou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Por duas raz&otilde;es f&aacute;ceis de compreender &#8211; respondeu Barbicane.<br \/>\n    &#8211; A primeira relaciona-se com o ar existente dentro do proj&eacute;til, que<br \/>\n    n&atilde;o podemos desperdi&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas se n&oacute;s o podemos refazer!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute; em parte. Apenas refazemos o oxig&ecirc;nio, meu caro Michel.<br \/>\n    A prop&oacute;sito, temos de estar atentos ao aparelho, n&atilde;o v&aacute;<br \/>\n    ele fornecer oxig&ecirc;nio em quantidade excessiva, porque tal excesso nos<br \/>\n    traria perturba&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas muito graves. Se, por&eacute;m,<br \/>\n    refazemos o oxig&ecirc;nio, n&atilde;o produzimos o azoto, g&aacute;s que<br \/>\n    os pulm&otilde;es n&atilde;o absorvem e que deve permanecer intato. Ora o<br \/>\n    azoto escapar-se-ia rapidamente pela vigia aberta.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! Mas &eacute; s&oacute; o tempo de lan&ccedil;ar o pobre Sat&eacute;lite&#8230;<br \/>\n    disse Michel.<\/p>\n<p> &#8211; De acordo, mas temos que ser r&aacute;pidos.<\/p>\n<p> &#8211; E qual &eacute; a segunda raz&atilde;o? &#8211; perguntou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; A segunda raz&atilde;o diz respeito ao frio exterior. Porque &eacute;<br \/>\n    intens&iacute;ssimo, n&atilde;o o podemos deixar penetrar no proj&eacute;til,<br \/>\n    sob pena de nos gelarmos vivos.<\/p>\n<p> Todavia o Sol&#8230;<\/p>\n<p> 0 Sol aquece o nosso proj&eacute;til, que lhe absorve os raios, mas n&atilde;o<br \/>\n    o v&aacute;cuo em que flutuamos neste momento. Onde n&atilde;o h&aacute; ar,<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; calor, nem luz difusa, e do mesmo modo que h&aacute;<br \/>\n    noite, h&aacute; frio onde os raios do Sol n&atilde;o batem diretamente. A<br \/>\n    temperatura exterior &eacute; apenas a que prov &eacute;m da irradia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estelar, isto &eacute;, a mesma que banharia o Globo terrestre se um dia o<br \/>\n    Sol se extinguisse.<\/p>\n<p> &#8211; 0 que n&atilde;o &eacute; de temer&#8230; &#8211; considerou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Quem sabe? &#8211; contrap&ocirc;s Michel Ardan. &#8211; De resto, mesmo admitindo<br \/>\n    que o Sol n&atilde;o se extinga, n&atilde;o pode dar-se o caso de a Terra<br \/>\n    se afastar dele? &#8211; Pronto! &#8211; exclamou Barbicane. &#8211; A&iacute; est&aacute; Michel<br \/>\n    com as suas id&eacute;ias! &#8211; Oh! Acaso n&atilde;o se sabe que a Terra atravessou<br \/>\n    a cauda de uni cometa em 1861? Ora, suponhamos que uni cometa, com unia for&ccedil;a<br \/>\n    de atra&ccedil;&atilde;o superior &agrave; atra&ccedil;&atilde;o solar, se<br \/>\n    avizinha da Terra. A &oacute;rbita terrestre inclinaria na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do astro errante e a Terra, transformada em sat&eacute;lite, seria arrastada<br \/>\n    a unia dist&acirc;ncia tal que os raios do Sol deixariam de ter qualquer a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na sua superf&iacute;cie.<\/p>\n<p> &#8211; Isso pode acontecer, realmente &#8211; confirmou Barbicane -, mas as conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    de semelhante afastamento poderiam ser bem menos tem&iacute;veis do que tu<br \/>\n    sup&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; E por qu&ecirc;? &#8211; Porque o frio e o calor se equilibrariam ainda no li<br \/>\n    o Globo.<\/p>\n<p> Estimou-se que, se tivesse sido arrastada pelo cometa de 1861, a Terra n&atilde;o<br \/>\n    chegaria a receber, &acirc; m&aacute;xima dist&acirc;ncia do Sol, calor igual<br \/>\n    a dezesseis vezes o calor que na situa- &ccedil;&atilde;o atual a Lua lhe<br \/>\n    envia, calor esse que, concentrado no foco das lentes mais potentes, n&atilde;o<br \/>\n    produz qualquer efeito apreci&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; insistiu Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Calma &#8211; aconselhou Barbicane. E prosseguiu: &#8211; Estimouse tamb&eacute;m<br \/>\n    que no seu peri&eacute;lio, isto &eacute;, &agrave; dist&acirc;ncia mais pr&oacute;xima<br \/>\n    do Sol, a Terra teria suportado uni calor igual a vinte e oito mil vezes o<br \/>\n    do ver&atilde;o. Contudo, esse calor, capaz de vitrificar as mat&eacute;rias<br \/>\n    terrestres e de vaporizar as &aacute;guas, teria dado origem a uni anel de<br \/>\n    nuvens de tal maneira espesso que atenuaria a excessiva temperatura. Da&iacute;<br \/>\n    unia compensa&ccedil;&atilde;o entre os frios do af&eacute;lio e os calores<br \/>\n    do peri&eacute;lio e unia temperatura m&eacute;dia provavelmente suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Mas em quantos graus se estima a temperatura dos espa &ccedil;os interplanet&aacute;rios?<br \/>\n    &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Outrora &#8211; respondeu Barbicane -, acreditava que era unia temperatura excepcionalmente<br \/>\n    baixa. Calculando o seu decrescimento termom&eacute;trico, chegava-se a n&uacute;meros<br \/>\n    da ordem dos milh&otilde;es de graus abaixo de zero. Foi Fourier, compatriota<br \/>\n    de Michel e ilustre s&aacute;bio da Academia das Ci- &ecirc;ncias, quem reduziu<br \/>\n    esses n&uacute;meros a estimativas mais exatas. Segundo ele, a temperatura<br \/>\n    do espa&ccedil;o n&atilde;o vai al&eacute;m dos sessenta graus negativos.<\/p>\n<p> Ora! &#8211; disse Michel.<\/p>\n<p> &Eacute; mais ou menos a temperatura &#8211; prosseguiu Barbicane &#8211; que foi observada<br \/>\n    nas regi&otilde;es polares, na Ilha Melville e em Forte Refiance, que era<br \/>\n    de cerca de cinq&uuml;enta e seis graus cent&iacute;grados abaixo de zero.<\/p>\n<p> &#8211; Resta saber &#8211; observou Nicoles &#8211; se Fourier se enganou nas avalia&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Se bem me lembro, uni outro s&aacute;bio franc &ecirc;s, Pouillet, estima<br \/>\n    a temperatura do espa&ccedil;o em cento e sessenta graus abaixo de zero. E<br \/>\n    que n&oacute;s verificaremos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o por hora &#8211; advertiu Barbicane -, porque os raios solares, incidindo<br \/>\n    diretamente no nosso term&ocirc;metro, dar-nosiam, ao contr&aacute;rio, unia<br \/>\n    temperatura muito elevada. Mas, quando chegarmos &agrave; Lua, durante as<br \/>\n    noites de quinze dias que alternadamente ensombram cada uma das faces do astro,<br \/>\n    teremos tempo para levar a cabo essa experi&ecirc;ncia, porque o nosso sat&eacute;lite<br \/>\n    move-se no v&aacute;cuo.<\/p>\n<p> &#8211; Afinal, que entendes tu por v&aacute;cuo? &#8211; perguntou Michel. &#8211; E o v&aacute;cuo<br \/>\n    absoluto? &#8211; &Eacute; o v&aacute;cuo completamente privado de ar.<\/p>\n<p> &#8211; E nesse v&aacute;cuo o ar n&atilde;o &eacute; substitu&iacute;do por nada?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;. Pelo &eacute;ter &#8211; precisou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! E o que &eacute; o &eacute;ter? &#8211; 0 &eacute;ter, meu amigo, &eacute;<br \/>\n    unia aglomera&ccedil;&atilde;o de &aacute;tomos imponder&aacute;veis, que,<br \/>\n    relativamente &agrave;s suas dimens&otilde;es, segundo dizem as obras de f&iacute;sica<br \/>\n    molecular, est&atilde;o t&atilde;o afastados uns dos outros como o est&atilde;o<br \/>\n    os corpos celestes entre si no espa&ccedil;o. Essa dist&acirc;ncia, por&eacute;m,<br \/>\n    &eacute; inferior a um ter&ccedil;o de milion&eacute;simo de mil&iacute;metro.<br \/>\n    S&atilde;o esses &aacute;tomos que, atrav&eacute;s do movimento vibrat&oacute;rio<br \/>\n    de que est&atilde;o animados, produzem a luz e o calor, chegando a alcan&ccedil;ar<br \/>\n    quatrocentos e trinta trilh&otilde;es de vibra&ccedil;&otilde;es por segundo,<br \/>\n    numa amplitude que n&atilde;o excede quatro ou seis d&eacute;cimos mil&eacute;simos<br \/>\n    de mil&iacute;metro.<\/p>\n<p> &#8211; Bilh&otilde;es de bilh&otilde;es! &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; Enfim, algu<br \/>\n    &eacute;m j&aacute; mediu essas oscila&ccedil;&otilde;es? Tudo isso, amigo<br \/>\n    Barbicane, s&atilde;o n&uacute;meros de s&aacute;bios que enchem os ouvidos<br \/>\n    mas nada dizem ao esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; indispens&aacute;vel calcular&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. &Eacute; prefer&iacute;vel comparar. Uni trilh&atilde;o nada<br \/>\n    diz. Uni termo de compara&ccedil;&atilde;o, ao contr&aacute;rio, diz tudo.<br \/>\n    Exemplo: se me disseres que o volume de Urano &eacute; setenta e seis vezes<br \/>\n    superior ao da Terra, o de Saturno novecentas, o de J&uacute;piter mil e trezentas<br \/>\n    e o do Sol um milh&atilde;o e trezentas mil, fico absolutamente indiferente.<br \/>\n    Por isso, prefiro, e de longe, as antigas compara&ccedil;&otilde;es do Double<br \/>\n    Li&eacute;geois, que nos informam muito por baixo: o Sol &eacute; unia ab&oacute;bora<br \/>\n    com dois p&eacute;s de di&acirc;metro, J&uacute;piter unia laranja, Saturno<br \/>\n    unia pequena ma&ccedil;&atilde; avermelhada, Netuno uma tangerina, Urano unia<br \/>\n    enorme cereja, a Terra uni gr&atilde;o-de-bico, Venus uma ervilha, Marte uma<br \/>\n    grande cabe&ccedil;a de alfinete, Merc&uacute;rio um gr&atilde;o de mostarda,<br \/>\n    e Juno, Ceres, V&ecirc;sta e Palas simples gr&atilde;os de areia! Ao menos<br \/>\n    assim a gente sabe a que ater-se! Depois desta tirada de Michel Ardan contra<br \/>\n    os s&aacute;bios e os trilh&otilde;es que rabiscam sem pestanejar, trataram<br \/>\n    de desembara &ccedil;ar-se do corpo de Sat&eacute;lite. Nada mais havia a<br \/>\n    fazer do que lan&ccedil;&aacute;-lo no espa&ccedil;o, do mesmo modo que os<br \/>\n    marinheiros lan&ccedil;am os cad&aacute;veres ao mar.<\/p>\n<p> A 4 de dezembro, os cron&ocirc;metros marcavam 1 cinco horas da manh&atilde;,<br \/>\n    quando os viajantes acordaram. Iam decorridas cinq&uuml;enta e quatro horas<br \/>\n    de viagem. No que respeita a tempo, apenas haviam excedido em cinco horas<br \/>\n    e quarenta minutos a metade da dura&ccedil;&atilde;o prevista para a sua perman&ecirc;ncia<br \/>\n    no proj&eacute;til; mas, quando a trajeto, tinham j&aacute; cumprido perto<br \/>\n    de sete d&eacute;cimas partes do percurso total, particularidade esta que<br \/>\n    era conseq&uuml;&ecirc;ncia da regular diminui &ccedil;&atilde;o da velocidade.<\/p>\n<p> Assim que Michel desceu, aproximou-se da vigia lateral e, de s&uacute;bito,<br \/>\n    deixou escapar unia exclama&ccedil;&atilde;o de surpresa.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que foi agora? &#8211; inquiriu Barbicane.<\/p>\n<p> 0 presidente aproximara-se tamb&eacute;m da vigia. Avistou uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de saco espalmado, que flutuava no exterior e alguns metros do proj&eacute;til.<br \/>\n    0 objeto parecia im&oacute;vel e, no entanto, estava animado do mesmo movimento<br \/>\n    ascensional que impulsionava o proj&eacute;til.<\/p>\n<p> &#8211; Que raio de coisa &eacute; aquela? &#8211; repetia Michel Ardan, estupefato.<br \/>\n    &#8211; Ser&aacute; uni desses corp&uacute;sculos espaciais que o nosso proj&eacute;til<br \/>\n    ret&eacute;m no seu raio de atra&ccedil;&atilde;o e que nos vai acompanhar<br \/>\n    at&eacute; a Lua? 0 que me espanta &#8211; confessou Nicoles &#8211; &eacute; que o peso<br \/>\n    espec &iacute;fico daquele corpo, por certo inferior ao do proj&eacute;til,<br \/>\n    lhe permita manter-se t&atilde;o rigorosamente ao mesmo n&iacute;vel! &#8211; Nicoles<br \/>\n    &#8211; disse Barbicane, ap&oacute;s um momento de reflex&atilde;o -, n&atilde;o<br \/>\n    sei que objeto &eacute; aquele, mas sei perfeitamente a raz&atilde;o por que<br \/>\n    se mant&eacute;m ao lado do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> &#8211; E qual &eacute;? &#8211; N&atilde;o nos esque&ccedil;amos, meu caro capit&atilde;o,<br \/>\n    que flutuamos no v&aacute;cuo e que no v&aacute;cuo os corpos caem ou movem-se,<br \/>\n    o que &eacute; a mesma coisa, com unia velocidade igual, seja qual for o seu<br \/>\n    peso e a sua forma. &Eacute; o ar que, pela sua resist&ecirc;ncia, determina<br \/>\n    as diferen&ccedil;as de peso. Quando se obt&eacute;m pneumaticamente o v&aacute;cuo<br \/>\n    num tubo, os objetos l&aacute; existentes, quer se trate de gr&atilde;os de<br \/>\n    poeira ou de chumbo, caem todos com a mesma rapidez. Aqui, no espa&ccedil;o,<br \/>\n    &#8211; a mesma causa determina o mesmo efeito.<\/p>\n<p> &#8211; Cert&iacute;ssimo &#8211; disse Nicoles. &#8211; Tudo o que alijarmos acabar&aacute;<br \/>\n    por acompanhar o proj&eacute;til na sua viagem at&eacute; a Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! &#8211; gritou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Que tens, homem de Deus? &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Eu sei, eu advinho o que &eacute; aquele falso b&oacute;lide! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uni aster&oacute;ide o que nos acompanha! Nem sequer uni fragmen<br \/>\n    to de planeta! &#8211; Que &eacute; ent&atilde;o? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o nosso infeliz c&atilde;o! &Eacute; o companheiro de Diana!<br \/>\n    Na verdade, aquele objeto deformado, irreconhec&iacute;vel, reduzido a nada,<br \/>\n    era o corpo de Sat&eacute;lite, espalmado como uma gaita de fole vazia, que<br \/>\n    subia, subia sempre! Era o corpo de Sat&eacute;lite<\/p>\n<h4><a name=\"21\" id=\"21\">Cap&iacute;tulo V &#8211; Um momento de embriaguez<\/a><\/h4>\n<p>Eis como um fen&ocirc;meno curioso, mas l&oacute;gico, fora do comum, mas<br \/>\n    explic&aacute;vel, se produzia em singulares condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Todo o objeto alijado do proj&eacute;til tendia a seguir a mesma trajet&oacute;ria<br \/>\n    e a parar apenas quando ele parasse. Esta a mat &eacute;ria que uma noite<br \/>\n    inteira de conversa n&atilde;o pode esgotar.<\/p>\n<p> A emo&ccedil;&atilde;o dos tr&ecirc;s companheiros crescia, ali&aacute;s,<br \/>\n    &agrave; medida que se aproximava o fim da viagem. Esperavam o imprevisto,<br \/>\n    os fen&ocirc;menos mais fant&aacute;sticos. Na disposi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    esp&iacute;rito em que estavam, nada os teria espantado.<\/p>\n<p> Superexcitada, a imagina&ccedil;&atilde;o ia-lhes adiante do proj&eacute;til,<br \/>\n    cuja velocidade diminu&iacute;a acentuadamente, sem que disso se apercebessem.<br \/>\n    Mas a Lua aumentava de dimens&atilde;o a olhos vistos, a tal ponto que acreditavam<br \/>\n    bastar-lhes estender a m&atilde;o para nela tocar.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 5 de dezembro, logo &agrave;s cinco da manh&atilde;, todos<br \/>\n    estavam de p&eacute;. Este devia ser o &uacute;ltimo dia de viagem, se os<br \/>\n    c&aacute;lculos estivessem exatos. Nessa mesma noite, &agrave; meia-noite,<br \/>\n    dentro de dezoito horas e no preciso momento da lua cheia, alcan&ccedil;ariam<br \/>\n    o resplandecente disco.<\/p>\n<p> Avizinhava-se a hora em que se completaria aquela viagem &#8211; a mais extraordin&aacute;ria<br \/>\n    de todos os tempos. N&atilde;o admira, portanto, que desde manh&atilde;, atrav&eacute;s<br \/>\n    das vigias prateadas pelo luar, os tr&ecirc;s viajantes n&atilde;o cessassem<br \/>\n    de sau dar o astro da noite, a lua, com confiantes e alegres burras! A lua<br \/>\n    avan&ccedil;ava majestosamente no firmamento estrelado.<\/p>\n<p> Apenas alguns graus mais, e ela alcan&ccedil;aria o ponto exato do espa&ccedil;o<br \/>\n    onde se daria o seu encontro com o proj&eacute;til. De acordo com as suas<br \/>\n    pr&oacute;prias observa&ccedil;&otilde;es, Barbicane calculou que a abordariam<br \/>\n    pelo hemisf&eacute;rio norte l&aacute; onde se alongam as imensas plan&iacute;cies<br \/>\n    e rareiam as montanhas. Circunst &acirc;ncia favor&aacute;vel, se a atmosfera<br \/>\n    lunar, como se pensava, estivesse apenas concentrada nos locais mais baixos.<\/p>\n<p> &#8211; Por outro lado &#8211; considerou Michel Ardan -, uma plan&iacute;cie &eacute;<br \/>\n    mais adequada a um desembarque do que uma montanha.<\/p>\n<p> Um selenita que descesse na Europa no cimo do Monte Branco, ou na &Aacute;sia<br \/>\n    no pico do Himalaia, n&atilde;o teria propriamente chegado! &#8211; De mais a mais<br \/>\n    &#8211; acrescentou Nicoles -, num terreno plano o proj&eacute;til ficar&aacute;<br \/>\n    im&oacute;vel logo que o toque. Numa vertente, pelo contr&aacute;rio, rolaria<br \/>\n    como uma bola, e, como n&atilde;o somos esquilos, n&atilde;o sair&iacute;amos<br \/>\n    de l&aacute; s&atilde;os e salvos. Logo, tudo vai bem.<\/p>\n<p> Na verdade, o &ecirc;xito da audaciosa experi&ecirc;ncia parecia assegurado.<\/p>\n<p> Apesar disso, algo preocupava Barbicane. Por &eacute;m, como n&atilde;o<br \/>\n    queria inquietar os companheiros, nada disse.<\/p>\n<p> 0 fato &eacute; que a dire&ccedil;&atilde;o que o proj&eacute;til tomava,<br \/>\n    rumava para o hemisf&eacute;rio norte da Lua, provava que a sua trajet&oacute;ria<br \/>\n    fora ligeiramente modificada. 0 tiro, matematicamente calculado, deveria levar<br \/>\n    o proj&eacute;til mesmo at&eacute; o centro do disco lunar. Se n&atilde;o<br \/>\n    o alcan&ccedil;asse, era porque tinha havido um desvio. Que circunst&acirc;ncia<br \/>\n    o teria provocado? Barbicane n&atilde;o o sabia, assim como estava impedido<br \/>\n    de determinar a import &acirc;ncia do fato por lhe faltarem pontos de refer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Esperava, todavia, que n&atilde;o tivesse outro resultado sen&atilde;o o<br \/>\n    de lev&aacute;-lo na dire&ccedil;&atilde;o do bordo superior da Lua, regi&atilde;o<br \/>\n    muito mais prop&iacute;cia &agrave; alunissagem.<\/p>\n<p> Barbicane contentou-se, portanto, em observar freq&uuml;entemente a Lua<br \/>\n    para ver se a trajet&oacute;ria do proj&eacute;til se mantinha, e decidiu<br \/>\n    guardar para si a inquieta&ccedil;&atilde;o que sentia.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o tornar-se-ia dram&aacute;tica se o proj&eacute;til,<br \/>\n    falhando o alvo, se perdesse nos espa&ccedil;os interplanet&aacute;rios.<\/p>\n<p> Naquele momento, a Lua, em vez do aspecto achatado de um disco, deixava<br \/>\n    perceber a sua convexidade. Se o Sol a tivesse iluminado obliquamente com<br \/>\n    os seus raios, a sombra projetada teria feito sobressair as altas montanhas<br \/>\n    em n&iacute;tido relevo. 0 olhar teria podido mergulhar nos escancarados abismos<br \/>\n    das crateras e seguir as caprichosas fendas que zebram a imensidade das plan&iacute;cies.<br \/>\n    Mas todo o relevo estava ainda nivelado por um intenso esplendor. Distinguiam-<br \/>\n    se apenas as largas manchas que d&atilde;o &agrave; Lua a apar&ecirc;ncia<br \/>\n    de um rosto humano.<\/p>\n<p> &#8211; Rosto? Seja &#8211; dizia Michel Ardan. &#8211; Mas, e sinto-o muito pela am&aacute;vel<br \/>\n    irm&atilde; de Apolo, um rosto crivadinho de bexigas1 J&aacute; muito pr&oacute;ximos<br \/>\n    do destino, os viajantes olhavam fascinados aquele mundo novo. A imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    levava-os a passear por aquelas regi&otilde;es desconhecidas. Trepavam aos<br \/>\n    picos elevados, desciam &agrave;s profundezas? das enormes crateras.<\/p>\n<p> Aqui e ali, julgavam ver vastos mares mal contidos pela atmosfera rarefeita,<br \/>\n    e cursos de &aacute;gua que colhiam o tributo das montanhas. Debru&ccedil;ados<br \/>\n    no abismo, esperavam surpreender os rumores daquele astro, eternamente mudo<br \/>\n    nas solid&otilde;es do espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Essa &uacute;ltima parte da jornada deixou-lhes palpitantes recorda &ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Anotaram-lhes os mais &iacute;nfimos pormenores. Uma vaga inquieta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    penetrava-os &agrave; medida que se acercavam do fim da viagem. Tal inquietude<br \/>\n    teria redobrado se tivessem apercebido de quanto era med&iacute;ocre a velocidade<br \/>\n    at&eacute; o almejado alvo. &Eacute; que ent&atilde;o o proj&eacute;til j&aacute;<br \/>\n    quase n&atilde;o pesava. 0 seu peso decrescia sem cessar e devia desaparecer<br \/>\n    totalmente sobre a linha onde as atra&ccedil;&otilde;es lunar e terrestre<br \/>\n    se neutralizam, o que iria provoca surpreenden tes efeitos.<\/p>\n<p> A despeito das suas preocupa&ccedil;&otilde;es, Michel. Ardan n&atilde;o<br \/>\n    se esqueceu de preparar a refei&ccedil;&atilde;o matinal com a habitual pontualidade.<br \/>\n    Comeram com grande apetite. Nada mais excelente do que as carnes em conserva.<br \/>\n    Alguns copos de um bom vinho franc&ecirc;s coroaram a refei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A este prop&oacute;- sito, Michel Ardan fez notar que as vinhas lunares, aquecidas<br \/>\n    por aquele ardente sol, deviam produzir vinhos dos mais generosos &#8211; se &eacute;<br \/>\n    que l&aacute; existiam. Em todo o caso, o previdente franc&ecirc;s n&atilde;o<br \/>\n    se esquecera de incluir na sua bagagem algumas preciosas cepas do M&eacute;doe<br \/>\n    e da C&ocirc;te-D?Or, nas quais depositava grandes esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> 0 aparelho Reiset e Regnault funcionava com extrema precis &atilde;o. 0<br \/>\n    ar mantinha-se num estado de perfeita pureza.<\/p>\n<p> Nenhuma mol&eacute;cula de &aacute;cido carb&ocirc;nico resistia &agrave;<br \/>\n    potassa, e quanto ao oxig&ecirc;nio era certamente de primeira qualidade,<br \/>\n    dizia o Capit&atilde;o Nicoles. 0 reduzido vapor de &aacute;gua existente<br \/>\n    no proj&eacute;til misturava-se com o ar, atenuando-lhe a secura.<\/p>\n<p> Muitas das casas de Paris, Londres ou Nova Iorque, tal como muitas salas<br \/>\n    de teatro, n&atilde;o possu&iacute;am decerto condi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o<br \/>\n    higi&ecirc;nicas.<\/p>\n<p> Contudo, para funcionar cem por cento era necess&aacute;rio que o aparelho<br \/>\n    fosse mantido em perfeito estado, pelo que todas as manh&atilde;s Michel inspecionava<br \/>\n    os reguladores de sa&iacute;- da, experimentava as torneiras e regulava com<br \/>\n    o pir&ocirc;metro a intensidade do g&aacute;s. At&eacute; ali tudo tinha corrido<br \/>\n    bem, e os viajantes, imitando o respeit&aacute;vel J. T. Maston, come&ccedil;avam<br \/>\n    a ganhar carnes, de tal forma que ningu&eacute;m os reconheceriam se o seu<br \/>\n    encerramento durasse mais alguns meses.<\/p>\n<p> Em uma palavra, sucedia-lhes o que acontece aos frangos na capoeira: engordavam.<\/p>\n<p> Olhando atrav&eacute;s das vigias, Barbicane viu o cad&aacute;ver do c&atilde;o<br \/>\n    e os diversos objetos lan&ccedil;ados do proj&eacute;til, que o acompanhavam<br \/>\n    obstinadamente. Diana uivava lugubremente ao pressentir os restos de Sat&eacute;lite.<br \/>\n    Todos aqueles despojos pareciam t&atilde;o im&oacute;veis como se estivessem<br \/>\n    pousados em terreno s&oacute;lido.<\/p>\n<p> &#8211; Sabem, meus amigos &#8211; dizia Michel Ardan -, que se um de n&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    tivesse resistido ao abalo da partida, ter&iacute;amos sido for&ccedil;ados,<br \/>\n    com muita pena embora, a enterr&aacute;-lo, que digo eu, a ?eteriz&aacute;-lo?,<br \/>\n    uma vez que aqui o &eacute;ter substitui a terra! Imaginem que esse cad&aacute;ver<br \/>\n    acusador nos seguiria pelo espa &ccedil;o como um remorso! &#8211; Teria sido muito<br \/>\n    triste &#8211; disse Nicoles.<\/p>\n<p> Finalmente, os tr&ecirc;s companheiros de viagem, cujos pulm &otilde;es<br \/>\n    estavam afetados por incompreens&iacute;vel causa, mais do que &eacute;brios,<br \/>\n    queimados pelo ar que lhes incendiava o aparelho respirat&oacute;rio, ca&iacute;ram<br \/>\n    sem sentidos no pavimento do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Que se passava? De onde provinha a causa daquela estranha embriaguez, cujas<br \/>\n    conseq&uuml;&ecirc;ncias podiam ser desastrosas? De uma simples imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    de Michel, que, com rara felicidade, Nicoles p&ocirc;de remediar a tempo.<\/p>\n<p> Depois de um desmaio que durou alguns minutos, o capit &atilde;o foi o primeiro<br \/>\n    a recuperar os sentidos e as faculdades intelectuais.<\/p>\n<p> Apesar de ter almo&ccedil;ado apenas h&aacute; duas horas, sentia uma fome<br \/>\n    terr&iacute;vel que o atormentava como se n&atilde;o comesse h&aacute; v&aacute;rios<br \/>\n    dias. Tudo nele, est&ocirc;mago e c&eacute;rebro, estava superexcitado no<br \/>\n    mais alto grau.<\/p>\n<p> Levantou-se e naturalmente pediu a Michel uma refei&ccedil;&atilde;o suplementar.<br \/>\n    Michel, desmaiado ainda, n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> Nicoles quis ent&atilde;o preparar algumas ch&aacute;venas de ch&aacute;,<br \/>\n    destinadas a facilitar a ingest&atilde;o de uma d&uacute;zia de sandu&iacute;ches.<\/p>\n<p> Em primeiro lugar, tratou de arranjar lume, pelo que acendeu um f&oacute;sforo.<br \/>\n    Foi enorme a surpresa ao ver brilhar o enxofre com um clar&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    intenso que os olhos s&oacute; a custo podiam suportar. Do bico de g&aacute;s,<br \/>\n    que acendeu tamb&eacute;m, jorrou uma chama compar&aacute;vel aos jatos de<br \/>\n    luz el&eacute;trica.<\/p>\n<p> Uma revela&ccedil;&atilde;o acudiu de imediato ao esp&iacute;rito de Nicoles.<br \/>\n    A intensidade da luz, as perturba&ccedil;&otilde;es psicol&oacute;gicas que<br \/>\n    experimentara, a excita&ccedil;&atilde;o das faculdades morais e afetivas<br \/>\n    &#8211; tudo se explicava e compreendia.<\/p>\n<p> &#8211; 0 oxig&ecirc;nio! &#8211; exclamou ele.<\/p>\n<p> E, curvando-se para o aparelho de ar, notou que a torneira vertia jorros<br \/>\n    de g&aacute;s incolor, ins&iacute;pido e inodoro, eminentemente vital, mas<br \/>\n    que, no estado puro, ocasiona as mais graves perturba&ccedil;&otilde;es no<br \/>\n    organismo. Por desatino, Michel deixara completamente aberta a torneira do<br \/>\n    aparelho! Nicoles tratou de estancar o escoamento do oxig&ecirc;nio, de que<br \/>\n    a atmosfera estava saturada, e que teria causado a morte aos viajantes, n&atilde;o<br \/>\n    por asfixia, mas por combust&atilde;o.<\/p>\n<p> Uma hora depois, o ar, menos carregado, permitia aos pulm &otilde;es um<br \/>\n    funcionamento normal. Pouco a pouco, os tr&ecirc;s amigos restabeleciam &#8211;<br \/>\n    se da embriaguez, mas tiveram de curtir o oxig&ecirc;nio como o b&ecirc;bado<br \/>\n    curte o vinho.<\/p>\n<p> Quando soube qual era a parte de responsabilidade que lhe tocava no incidente,<br \/>\n    Michel nem por isso se mostrou muito preocupado. Afinal, aquela inesperada<br \/>\n    embriaguez quebrara a monotonia da viagem. Muitas tolices foram ditas sob<br \/>\n    o efeito dessa ebriedade, mas t&atilde;o depressa se disseram como se esqueceram.<\/p>\n<p> &#8211; Depois &#8211; acrescentou o alegre franc&ecirc;s -, n&atilde;o estou nada aborrecido<br \/>\n    por ter provado um pouco desse capitoso g&aacute;s.<\/p>\n<p> Sabem, meus amigos, que seria Curioso fundar um estabelecimento com salas<br \/>\n    de oxig&ecirc;nio, onde as pessoas de organismo d&eacute;bil pudessem viver<br \/>\n    uma vida mais ativa durante algumas horas? Imaginem reuni&otilde;es em que<br \/>\n    o ar estivesse saturado desse fluido her&oacute;ico, teatros cujas administra<br \/>\n    &ccedil;&otilde;es o fornecessem em alta dose no decurso dos espet&aacute;culos&#8230;<br \/>\n    Que paix&atilde;o, que fogo, que entusiasmo na alma dos atores e dos espectadores!<br \/>\n    E se, em vez de uma simples assembl&eacute;ia, se pudesse saturar um povo<br \/>\n    inteiro, que acr&eacute;scimo de produ&ccedil;&atilde;o e. de vida o g&aacute;s<br \/>\n    lhe proporcionaria! De uma na&ccedil;&atilde;o esgotada talvez se fizesse<br \/>\n    uma na- &ccedil;&atilde;o cheia de vitalidade, e mais de uma conhe&ccedil;o<br \/>\n    eu, na nossa velha Europa, que deveria ser submetida a um rigoroso regime<br \/>\n    de oxig&ecirc;nio, a bem da sua sa&uacute;de! &#8211; Michel falava com tal anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que quase se acreditava estar a torneira ainda demasiado aberta. Mas, apenas<br \/>\n    com uma frase, Barbicane esfriou-lhe o entusiasmo.<\/p>\n<p> &#8211; Tudo isso est&aacute; muito bem, amigo Michel &#8211; disse-lhe -, mas &eacute;s<br \/>\n    capaz de nos explicar de onde vieram estas galinhas que entraram na nossa<br \/>\n    representa&ccedil;&atilde;o? &#8211; As galinhas? &#8211; Sim.<\/p>\n<p> De fato, uma meia d&uacute;zia de galinhas e um soberbo galo passeavam de<br \/>\n    um lado para o outro, esvoa&ccedil;ando e cacarejando.<\/p>\n<p> &#8211; As desajeitadas! &#8211; exclamou Michel. &#8211; Foi o oxig&ecirc;nio que lhes deu<br \/>\n    volta &agrave; cabe&ccedil;a! &#8211; Mas, com a breca, que queres fazer destas<br \/>\n    galinhas? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Aclimat&aacute;-las &agrave; Lua, ora essa! &#8211; Ent&atilde;o por que as<br \/>\n    escondidas? &#8211; Por brincadeira, meu estimado presidente, uma simples brincadeira<br \/>\n    que afinal se malogrou ingloriamente! 0 meu plano era larg&aacute;-las na<br \/>\n    Lua sem vos dizer nada. Hem? Qual seria o vosso espanto ao ver estes vol&aacute;teis<br \/>\n    terrestres debicando nos campos lunares?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Ah, garoto, eterno garoto! &#8211; replicou Barbicane. &#8211; Nem precisas que o<br \/>\n    oxig&ecirc;nio te suba &agrave; cabe&ccedil;al Est&aacute;s sempre como n&oacute;s<br \/>\n    est&aacute;vamos sob a influ&ecirc;ncia desse g&aacute;s. &Eacute;s um louco!<br \/>\n    &#8211; Ah, sim! E quem te diz que n&atilde;o est&aacute;vamos ent&atilde;o no nosso<br \/>\n    perfeito ju&iacute;zo? &#8211; perguntou Michel Ardan.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s esta reflex&atilde;o filos&oacute;fica, os tr&ecirc;s amigos<br \/>\n    trataram de arrumar o proj&eacute;til. Galinhas e galos voltaram &agrave;s<br \/>\n    gaiolas.<\/p>\n<p> Contudo, enquanto procediam a essa opera&ccedil;&atilde;o, Barbicane e os<br \/>\n    dois companheiros tiveram a n&iacute;tida sensa&ccedil;&atilde;o de um novo<br \/>\n    fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p> A partir do momento em que deixaram a Terra, tanto o peso deles como o do<br \/>\n    proj&eacute;til e dos objetos que continha haviam sofrido uma progressiva<br \/>\n    redu&ccedil;&atilde;o. Se n&atilde;o podiam verificar tal perda em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao proj&eacute;til, chegaria o momento em que esse efeito se lhes tomaria<br \/>\n    sens&iacute;vel a eles pr&oacute;prios e aos utens&iacute;lios e instrumentos<br \/>\n    de que se serviam.<\/p>\n<p> Escusado ser&aacute; dizer que uma balan&ccedil;a normal n&atilde;o poderia<br \/>\n    acusar tal redu&ccedil;&atilde;o porque o peso destinado a pesar o objeto<br \/>\n    perderia precisamente o mesmo que o pr&oacute;prio objeto. Todavia, por meio<br \/>\n    de uma balan&ccedil;a de mola, por exemplo, cuja tens&atilde;o &eacute; independente<br \/>\n    da atra&ccedil;&atilde;o, conseguir-se-ia a exata avalia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessa perda.<\/p>\n<p> Sabe-se que a atra&ccedil;&atilde;o, ou, dito de outro modo, a gravidade,<br \/>\n    &eacute; proporcional &agrave;s massas e est&aacute; na raz&atilde;o inversa<br \/>\n    do quadrado das dist&acirc;ncias. Da&iacute; a seguinte conseq&uuml;&ecirc;ncia:<br \/>\n    se a Terra estivesse sozinha no espa&ccedil;o, se os outros corpos celestes<br \/>\n    desaparecessem subitamente, o proj&eacute;til, de acordo com a lei de Newton,<br \/>\n    haveria de pesar tanto menos quanto mais afastado estivesse da Terra, mas<br \/>\n    sem nunca perder por completo o peso, visto que a atra&ccedil;&atilde;o terrestre<br \/>\n    sempre havia de fazer-se sentir, fosse que tal fosse a dist &acirc;ncia.<\/p>\n<p> No caso presente, por&eacute;m, havia de chegar o momento em que o proj&eacute;til<br \/>\n    deixaria de estar sujeito &agrave;s leis da gravidade, pondo de parte os demais<br \/>\n    corpos celestes, cuja a&ccedil;&atilde;o se podia considerar como nula.<\/p>\n<p> Realmente, a trajet&oacute;ria do proj&eacute;til estava tra&ccedil;ada<br \/>\n    entre a Terra e a Lua. &Agrave; medida que se afastava da terra, a atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terrestre descrevia na raz&atilde;o inversa do quadrado das dist &acirc;ncias,<br \/>\n    mas simultaneamente a atra&ccedil;&atilde;o lunar .aumentava na mesma propor&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Assim, havia de chegar a um ponto em que, neutralizadas as duas atra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o proj&eacute;til deixaria de ter peso. Se a massa da Lua e a da Terra fossem<br \/>\n    iguais, esse ponto localizar-se-ia precisamente a meio da dist&acirc;ncia<br \/>\n    entre os dois astros. Por&eacute;m,, tendo em considera&ccedil;&atilde;o a<br \/>\n    diferen&ccedil;a de massas, f&aacute;cil se tornava calcular que o tal ponto<br \/>\n    se situava aos 47\/52 da viagem, ou seja, em n&uacute;meros mais claros, a<br \/>\n    setenta e oito mil cento e quatorze l&eacute;guas da Terra.<\/p>\n<p> Nesse ponto, qualquer corpo que n&atilde;o contivesse em si mesmo meios<br \/>\n    de desloca&ccedil;&atilde;o ou de velocidade ficaria eternamente im&oacute;vel,<br \/>\n    visto que a for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o dos dois astros se equivaleria<br \/>\n    e n&atilde;o haveria, conseq&uuml;entemente, preponder &acirc;ncia de nenhuma<br \/>\n    delas.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, se a for&ccedil;a de impuls&atilde;o tivesse sido calculada com rigor,<br \/>\n    o proj&eacute;til devia atingir esse ponto com uma velocidade nula e total<br \/>\n    aus&ecirc;ncia de gravidade, extens&iacute;vel aos objetos que transportava.<\/p>\n<p> &#8211; Que aconteceria ent&atilde;o? Tr&ecirc;s hip&oacute;teses e se apresentavam:<br \/>\n    Ou o proj&eacute;til, se porventura conservasse ainda uma certa velocidade<br \/>\n    que lhe permitisse transpor o ponto de igual atra&ccedil;&atilde;o, cairia<br \/>\n    na Lua em virtude da preponder&acirc;ncia da atra&ccedil;&atilde;o lunar em<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o &agrave; terrestre.<\/p>\n<p> Ou, por falta de velocidade para atingir esse ponto, voltaria a cair na<br \/>\n    Terra, gra&ccedil;as ao predom&iacute;nio da atra&ccedil;&atilde;o terrestre<br \/>\n    sobre a lunar.<\/p>\n<p> OU, finalmente, animado de uma velocidade suficiente para atingir o ponto<br \/>\n    neutro, mas insuficiente para ir al&eacute;m dele, ficaria eternamente suspenso<br \/>\n    nesse lugar, como o pretenso t&uacute;mulo de Maom&eacute;, entre o z&ecirc;nite<br \/>\n    e o nada.<\/p>\n<p> Tal era a situa&ccedil;&atilde;o, cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias Barbicane<br \/>\n    explicou de forma clara aos companheiros. A quest&atilde;o interessavalhes<br \/>\n    profundamente. Ent&atilde;o, como haviam de saber se o proj&eacute;til atingiria<br \/>\n    esse ponto neutro, situado a setenta e oito mil cento e quatorze l&eacute;guas<br \/>\n    da Terra? No preciso instante em que eles e os objetos que os rodeavam deixassem<br \/>\n    de estar sujeitos aos efeitos da gravidade.<\/p>\n<p> At&eacute; ali, os viajantes, embora verificando que tais efeitos decresciam<br \/>\n    progressivamente, ainda n&atilde;o tinham sentido a aus&ecirc;ncia total daquela<br \/>\n    for&ccedil;a. Mas naquele dia, por volta das onze horas da manh&atilde;, Nicoles,<br \/>\n    ao largar um copo na m&atilde;o, viu que o mesmo, em vez de cair, ficava suspenso<br \/>\n    no ar.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; Ora a&iacute; est&aacute; um passe de f&iacute;sica<br \/>\n    recreativa.<\/p>\n<p> E logo tratou de tirar dos apoios respectivos diversos objetos, como armas<br \/>\n    e garrafas, que, abandonados a si mesmos, se mantiveram suspensos como por<br \/>\n    milagre. At&eacute; Diana, uma &#8211; vez colocada no espa&ccedil;o recriou, mas<br \/>\n    sem qualquer ast&uacute;cia, a maravilhosa suspens&atilde;o inventada pelos<br \/>\n    Gaston e pelos Rober-Houdin. A cadela, ali&aacute;s, n&atilde;o parecia aperceber-se<br \/>\n    de que flutuava no ar.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s companheiros, eles pr&oacute;prios, transportados aos dom&iacute;nios<br \/>\n    do maravilhoso, experimentavam, entre surpreendidos e estupefatos, apesar<br \/>\n    dos racioc&iacute;nios cient&iacute;ficos, uma sensa&ccedil;&atilde;o de total<br \/>\n    leveza, que lhes era proporcionada pela aus&ecirc;ncia de peso. Se estendiam<br \/>\n    um bra&ccedil;o, nada o impedia de ficar estendido. A cabe&ccedil;a vacilavall&iacute;es<br \/>\n    sobre os ombros. Os p&eacute;s j&aacute; n&atilde;o se apoiavam no ch&atilde;o<br \/>\n    do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Estavam como &eacute;brios, com o sentido de equil&iacute;brio desequilibrado.<\/p>\n<p> 0 fant&aacute;stico criou homens sem imagem reflexa ou sem sombra. Mas no<br \/>\n    proj&eacute;til, a realidade, mediante a neutraliza&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as<br \/>\n    atrativas, criara homens sem pe&atilde;o e a quem nada pesava! De repente,<br \/>\n    Michel, tomando impulso, deixou o proj&eacute;til e ficou suspenso ?no ar,<br \/>\n    como o &#8211; monge da Cuisine des Anges, de Murillo.<\/p>\n<p> Poucos instantes depois, juntavam-se-lhe os dois amigos, e os tr&ecirc;s,<br \/>\n    no centro do proj&eacute;til, simbolizavam uma ascens &atilde;o maravilhosa.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; isto poss&iacute;vel? &Eacute; veross&iacute;mil? &Eacute; real?<br \/>\n    &#8211; perguntou Michel.<\/p>\n<p> N&atilde;o. E todavia &eacute;1 Ah, se Rafael nos visse assim, que Assun<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o n&atilde;o teria esbo&ccedil;ado na tela.<\/p>\n<p> &#8211; A assun&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode durar &#8211; disse Barbicane. &#8211; Logo<br \/>\n    que o proj&eacute;til passe o ponto neutro, ficaremos sujeitos &agrave; atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lunar.<\/p>\n<p> &#8211; E apoiaremos os p&eacute;s na c&uacute;pula do proj&eacute;til &#8211; concluiu<br \/>\n    Michel.<\/p>\n<p> &#8211; &#8211; N&atilde;o &#8211; emendou Barbicane -, porque o proj&eacute;til, cujo centro<br \/>\n    de gravidade &eacute; muito baixo, h&aacute; de voltar-se pouco a pouco.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, j&aacute; percebi. Vai ficar tudo de pernas para o ar.<\/p>\n<p> &#8211; Descansa, Michel &#8211; interveio Nicoles. &#8211; N&atilde;o h&aacute; que temer<br \/>\n    a m&iacute;nima desarruma&ccedil;&atilde;o. Nenhum objeto sair&aacute; do<br \/>\n    seu lugar, porquanto a evolu&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til far-se-&aacute;<br \/>\n    de um modo insens&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; De fato &#8211; explicou Barbicane -, quando o proj&eacute;til passar para al&#038;eacuteacute;m<br \/>\n    do ponto em que as atra&ccedil;&otilde;es se anulam, a sua base, porque &eacute;<br \/>\n    relativamente mais pesada, arrast&aacute;-lo-&aacute; para uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perpendicular &agrave; Lua. Mas para que este fen&ocirc;- meno ocorra &eacute;<br \/>\n    preciso que tenhamos passado a linha neutra.<\/p>\n<p> &#8211; Passar a linha neutra! &#8211; exclamou Michel. -,Fa&ccedil;amos como os marinheiros<br \/>\n    que passam o equador: festejemos condignamente o fato! Um ligeiro movimento<br \/>\n    lateral levou Michel at&eacute; a parede acolchoada.<\/p>\n<p> Ali, pegou numa garrafa e em copos, que foi colocar no espa&ccedil;o, diante<br \/>\n    dos companheiros. Em seguida, bebericando alegremente, saudaram a linha com<br \/>\n    um tr&iacute;plice hurra 0 equil&iacute;brio de atra&ccedil;&otilde;es durou<br \/>\n    apenas uma hora, ao fim da qual os viajantes come&ccedil;aram a se sentir<br \/>\n    atra&iacute;dos para o fundo do proj&eacute;til. Barbicane julgou mesmo ver<br \/>\n    que a ponta c&ocirc;nica do proj&eacute;til se afastava um pouco da posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    precedente, que o apontava para a Lua, ao mesmo tempo que a base, por um movimento<br \/>\n    inverso, dela se aproximava. A atra&ccedil;&atilde;o lunar predominava portanto<br \/>\n    sobre a terrestre. A descida em dire&ccedil;&atilde;o ao astro da noite come&ccedil;ava<br \/>\n    de uma forma ainda impercept&iacute;vel, j&aacute; que devia ser apenas, no<br \/>\n    primeiro segundo, de um mil&iacute;metro e um ter&ccedil;o, isto &eacute;,<br \/>\n    quinhentos e noventa mil&eacute;simos de finha. Mas, pouco apouco, a for&ccedil;a<br \/>\n    de atra&ccedil;&atilde;o acentuaria, a descida tornar-se-ia mais percept&iacute;vel<br \/>\n    e o proj&eacute;til, arrastado pelo peso da base, voltaria o cone superior<br \/>\n    para a Terra e desceria, com uma velocidade crescente, at&eacute; a superf&iacute;cie<br \/>\n    lunar. 0 objetivo seria, portanto, atingido. Nesse momento nada podia impedir<br \/>\n    o &ecirc;xito da empresa, e Nicoles e Michel Ardan partilharam da alegria<br \/>\n    de Barbicane.<\/p>\n<h4><a name=\"22\" id=\"22\">Cap&iacute;tulo VI &#8211; Conseq&uuml;&ecirc;ncias de um<br \/>\n    desvio<\/a><\/h4>\n<p>Barbicane j&aacute; n&atilde;o sentia qualquer inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se n&atilde;o sobre o &ecirc;xito da viagem, pelo menos a respeito da for&ccedil;a<br \/>\n    de impuls&atilde;o do proj&eacute;til, cuja velocidade virtual o levava a<br \/>\n    ultrapassar a linha neutra. Portanto, nem voltaria &agrave; Terra nem se imobilizaria<br \/>\n    no ponto de anula&ccedil;&atilde;o das atra&ccedil;&otilde;es. Das hip &oacute;teses<br \/>\n    aventadas, uma &uacute;nica ainda n&atilde;o se realizara: a chegada do proj&eacute;til<br \/>\n    ao alvo pela a&ccedil;&atilde;o da atra&ccedil;&atilde;o lunar.<\/p>\n<p> Na realidade, era uma queda de oito mil duzentas e noventa e seis l&eacute;guas<br \/>\n    sobre um astro onde a gravidade tem apenas a sexta parte do valor da terrestre.<br \/>\n    Apesar disso, a queda seria formid&aacute;vel, pelo que todas as precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    deviam ser tomadas sem demora.<\/p>\n<p> Havia a considerar duas esp&eacute;cies de precau&ccedil;&otilde;es: uma<br \/>\n    destinada a amortecer o choque no momento em que o proj&eacute;til ca&iacute;sse<br \/>\n    no solo lunar, outra tendente a retardar-lhe a queda, tornando-a, conseq&uuml;entemente,<br \/>\n    mais suave.<\/p>\n<p> Para amortecer o choque, pena era que Barbicane n&atilde;o dispusesse dos<br \/>\n    mesmos meios que t&atilde;o eficazmente haviam atenuado o abalo da partida,<br \/>\n    isto &eacute;, da &aacute;gua para servir de almofada e dos tabiques quebradi&ccedil;os.<br \/>\n    Estes ainda existiam, mas faltava a &aacute;gua, visto que nada aconselhava<br \/>\n    a utilizar para esse fim a reserva de que dispunham, reserva preciosa no caso<br \/>\n    de vir a faltar-lhes o elemento l&iacute;quido nos primeiros dias de perman&ecirc;ncia<br \/>\n    no solo lunar.<\/p>\n<p> A reserva era insuficiente para servir de almofada. A camada de &aacute;gua<br \/>\n    armazenada no proj&eacute;til &agrave; partida, sobre a qual assentava o disco<br \/>\n    estanque, ocupava nada menos de aos p&eacute;s de altura, tendo por base uma<br \/>\n    &aacute;rea de cinq&uuml;enta p&eacute;s quadrados. Era uni volume de seis<br \/>\n    metros c&uacute;bicos, que pe178 sava cinco mil setecentos e cinq&uuml;enta<br \/>\n    quilos. Ora, os recipientes da reserva n&atilde;o comportavam nem a quinta<br \/>\n    parte daquele volume. Obviamente, havia que renunciar ao emprego desse poderoso<br \/>\n    meio de amortecer o choque da chegada.<\/p>\n<p> Por uni feliz acaso, Barbicane n&atilde;o se contentara em empregar apenas<br \/>\n    &aacute;gua e munira o disco m&oacute;vel com fort&iacute;ssimas molas, destinadas<br \/>\n    a minorar o choque na base do proj&eacute;til, depois da destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos tabiques horizontais. Essas molas tamb&eacute;m n&atilde;o se haviam perdido,<br \/>\n    mas necessitavam de ser reajustadas, assim como o disco m&oacute;vel precisava<br \/>\n    de ser reposto na posi&ccedil;&atilde;o inicial. Tornava-se f&aacute;cil manipular<br \/>\n    e levantar todas essas pe&ccedil;as, dado que o seu peso era naquele momento<br \/>\n    diminuto.<\/p>\n<p> E assim se fez. As diferentes partes foram reajustadas sem qualquer dificuldade.<br \/>\n    Com alguns parafusos e porcas, a quest &atilde;o resolveu-se, j&aacute; que<br \/>\n    a respeito de ferramentas estavam os viajantes bem fornecidos. Em breve, o<br \/>\n    disco, totalmente recomposto, assentou sobre os seus suportes de a&ccedil;o,<br \/>\n    como unia mesa nos seus p&eacute;s. A recolocar&atilde;o apresentava, contudo,<br \/>\n    um inconveniente: a vidra&ccedil;a inferior ficava obstru&iacute;da, o que<br \/>\n    impossibilitaria os viajantes de observar a Lua por aquela abertura, quando<br \/>\n    come&ccedil;assem a cair na perpendicular do globo lunar. Mas assim tinha<br \/>\n    de ser. Mas ainda se poderia avistar vastas regi&otilde;es lunares pelas vigias<br \/>\n    laterais, como se v&ecirc; a Terra da barquinha de uni aer&oacute;stato.<\/p>\n<p> A montagem do disco exigiu unia hora de trabalho. Passava do meio-dia quando<br \/>\n    os preparativos foram dados por conclu&iacute;dos. Depois, Barbicane procedeu<br \/>\n    a novas observa- &ccedil;&otilde;es sobre a inclina&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til;<br \/>\n    mas, com grande pesar, verificou que ele n&atilde;o se voltara o suficiente<br \/>\n    para iniciar a queda, antes parecia seguir unia curva paralela ao disco lunar.<br \/>\n    0 astro da noite brilhava esplendidamente no espa&ccedil;o, enquanto do lado<br \/>\n    oposto o astro do dia o incendiava com os seus raios de fogo.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o era inquietante.<\/p>\n<p> Conseguiremos chegar? &#8211; perguntou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Procedamos como se estiv&eacute;ssemos para chegar &#8211; respondeu laconicamente<br \/>\n    Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Grandes medrosos me sa&iacute;ram! &#8211; censurou Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Chegaremos e mais depressa do que desejamos.<\/p>\n<p> Tal resposta fez com que Barbicane retomasse os trabalhos preparat&oacute;rios<br \/>\n    e se ocupasse de imediato com a inspe&ccedil;&atilde;o dos engenhos destinados<br \/>\n    a amortecer a queda.<\/p>\n<p> Conv&eacute;m aqui lembrar o meeting que teve lugar em Tampa, na Fl&oacute;rida,<br \/>\n    durante o qual o Capit&atilde;o Nicoles se apresentou como inimigo de Barbicane<br \/>\n    e como advers&aacute;rio de Michel Ardan. Ao Capit&atilde;o Nicoles, que sustentava<br \/>\n    que o proj&eacute;til se partiria como uni vidro, Michel respondera que lhe<br \/>\n    amorteceria a descida por meio de foguetes convenientemente dispostos.<\/p>\n<p> Realmente, possantes engenhos pirot&eacute;cnicos, montados na base de proj&eacute;til<br \/>\n    para funcionar no exterior, podiam produzir uni movimento de recuo e, com<br \/>\n    seq&uuml;entemente, diminuir numa certa propor&ccedil;&atilde;o a velocidade<br \/>\n    do proj&eacute;til. &Eacute; verdade que esses foguetes tinham de arder no<br \/>\n    v&aacute;cuo, mas o oxig&ecirc;nio n&atilde;o lhes, faltaria, porque a pr&oacute;pria<br \/>\n    combina&ccedil;&atilde;o pirot&eacute;cnica o forneceria, como acontece com<br \/>\n    os vulc&otilde;es lunares, cuja erup&ccedil;&atilde;o nunca deixou de dar-se<br \/>\n    por falta de atmosfera em torno da Lua.<\/p>\n<p> Barbicane munira-se, portanto, de v&aacute;rios engenhos pirot&eacute;cnicos,<br \/>\n    contidos em pequenos tubos de a&ccedil;o que dispunham de rosca, que se podiam<br \/>\n    atarraxar &agrave; base do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Interiormente, os tubos afloravam-lhe o fundo. Exteriormente destacavam-se-lhe<br \/>\n    em cerca de meio p&eacute;. Eram ao todo vinte. Unia abertura, especialmente<br \/>\n    contra o efeito e localizada no disco m&oacute;vel permitia acender a mecha<br \/>\n    de que uni estava provido. Devido &agrave; sua coloca&ccedil;&atilde;o todo<br \/>\n    o efeito se produzia para o lado de fora. As misturas que entrariam em fus&atilde;o<br \/>\n    foram previamente introduzidas sob press&atilde;o nos tubos. Bastava, portanto,<br \/>\n    retirar os obturadores met&aacute;licos engastados na base do proj&eacute;til<br \/>\n    e substitu&iacute;-los pelos tubos, que se ajustavam rigorosamente &agrave;s<br \/>\n    aberturas deixadas por aqueles.<\/p>\n<p> Essa opera&ccedil;&atilde;o foi conclu&iacute;da &agrave;s tr&ecirc;s horas.<br \/>\n    Tomadas tais precau&ccedil;&otilde;es, nada mais havia a fazer sen&atilde;o<br \/>\n    esperar. .<\/p>\n<p> Entretanto, o proj&eacute;til aproximava-se visivelmente da Lua.<\/p>\n<p> Era evidente que estava submetido &agrave; sua influ&ecirc;ncia numa certa<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o. Mas a velocidade pr&oacute;pria, impulsionava-o tamb&eacute;m<br \/>\n    numa dire&ccedil;&atilde;o obl&iacute;qua. A resultante destas duas for&ccedil;as<br \/>\n    era unia linha que muito provavelmente se transformaria numa tangente. Unia<br \/>\n    coisa, por&eacute;m, era clara: o proj&eacute;til n&atilde;o cairia normalmente<br \/>\n    para a superf&iacute;cie da Lua, porque, sendo assim, a parte inferior, em<br \/>\n    virtude do seu peso, deveria estar voltada para o astro.<\/p>\n<p> As inquieta&ccedil;&otilde;es de Barbicane redobravam, visto que o proj&eacute;til<br \/>\n    resistia &agrave;s influ&ecirc;ncias da gravita&ccedil;&atilde;o. 0 desconhecido<br \/>\n    dos espa&ccedil;os interestelares, abria-se diante dele. Ele, o homem de ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    julgara ter previsto todas as hip&oacute;teses poss&iacute;- veis: regresso<br \/>\n    &agrave; Terra, queda na Lua ou imobilidade sobre a linha neutral E eis que<br \/>\n    unia outra, carregada de todos os terrores do infinito, surgia inopinadamente.<br \/>\n    Para enfrent&aacute;- la sem des&acirc;nimo, era preciso ser-se uni s&aacute;bio<br \/>\n    resoluto como Barbicane, uni ente fleum&aacute;tico como Nicoles ou uni audacioso<br \/>\n    aventureiro como Michel Ardan.<\/p>\n<p> 0 assunto dominou da&iacute; em diante todas as conversas. Outros homens<br \/>\n    teriam considerado o problema do ponto de vista pr&aacute;tico. A si pr&oacute;prios<br \/>\n    teriam perguntado para onde os arrastaria o vag&atilde;o-proj&eacute;til.<br \/>\n    Eles, n&atilde;o. Limitaram-se a tentar descobrir a causa que provocara aquele<br \/>\n    efeito.<\/p>\n<p> &#8211; Quer dizer que descarrilhamos. Mas porqu&ecirc;? &#8211; Receio &#8211; aventou Nicoles<br \/>\n    &#8211; que o columbiad, apesar de todas as precau&ccedil;&otilde;es tomadas, n&atilde;o<br \/>\n    tenha sido apontado com a exatid&atilde;o necess&aacute;ria. Uni erro, por<br \/>\n    muito pequeno que fosse, bastava para nos p&ocirc;r fora da atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Teria sido ent&atilde;o uni erro de pontaria? &#8211; perguntou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o o creio &#8211; disse Barbicane. &#8211; A perpendicularidade<br \/>\n    do canh&atilde;o era rigorosa; a dire&ccedil;&atilde;o para o z&ecirc;nite<br \/>\n    do lugar incontest&aacute;vel. Ora, como a Lua passava pelo z&ecirc;nite,<br \/>\n    dev&iacute;amos atingi-la em cheio. H&aacute; outra raz&atilde;o, mas n&atilde;o<br \/>\n    atino com ela&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o chegaremos muito tarde? perguntou de chofre Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Muito tarde? &#8211; ecoou Barbicane.<\/p>\n<p> Sim &#8211; explicou Nicoles. &#8211; A nota do Observat&oacute;rio de Cambridge diz<br \/>\n    que o trajeto deve completar-se em noventa e sete horas, treze minutos e vinte<br \/>\n    segundos. 0 que quer dizer que, mais cedo, a Lua n&atilde;o estar&aacute;<br \/>\n    ainda no ponto indicado, e que, mais tarde, j&aacute; l&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se encontrar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; De acordo &#8211; replicou Barbicane. &#8211; Mas n&oacute;s partimos em 1? de dezembro,<br \/>\n    &agrave;s dez horas, quarenta e seis minutos e setenta e cinco segundos da<br \/>\n    noite, e devemos chegar &agrave; meia-noite do dia 5, no momento preciso em<br \/>\n    que a Lua estiver em plenil&uacute;nio. Pois bem, estamos a 5 de dezembro<br \/>\n    e s&atilde;o tr&ecirc;s e meia da tarde. Deveriam bastar, portanto, oito horas<br \/>\n    e meia para atingirmos o alvo. Ent&atilde;o por que &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    chegamos? &#8211; N&atilde;o ser&aacute; por excesso de velocidade? &#8211; lembrou Nicoles.<br \/>\n    &#8211; Porque sabemos agora que a velocidade inicial foi maior do que sup&uacute;nhamos.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! Cem vezes n&atilde;o! &#8211; bradou Barbicane. &#8211; Uni excesso de<br \/>\n    velocidade, se a dire&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til fosse boa, n&atilde;o<br \/>\n    nos impediria de atingir a Lua. N&atilde;o! Houve um desvio! Fomos desviados.<\/p>\n<p> &#8211; Por quem? Por qu&ecirc;? &#8211; interrogou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Nada posso dizer &#8211; confessou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Olha, Barbicane &#8211; disse ent&atilde;o Michel -, tens interesse em saber<br \/>\n    a minha opini&atilde;o sobre o desvio? &#8211; Fala, homem.<\/p>\n<p> &#8211; Eu nem meio d&oacute;lar dava para o saber! Desviamo-nos, &eacute; um<br \/>\n    fato. Para onde vamos, tanto faz como tanto fez! V&ecirc;-lo-emos na altura<br \/>\n    pr&oacute;pria. Que diabo! Uma vez que estamos sendo arrastados por esse espa&ccedil;o,<br \/>\n    acabaremos por ir parar a algum centro de atra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A indiferen&ccedil;a de Michel Ardan n&atilde;o podia contentar Barbicane.<\/p>\n<p> N&atilde;o que este se inquietasse com o futuro! 0 que o preocupava era<br \/>\n    o desvio do seu proj&eacute;til, cuja raz&atilde;o queria conhecer custasse<br \/>\n    o que custasse.<\/p>\n<p> Enquanto isto, o proj&eacute;til continuava a deslocar-se lateralmente em<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Lua, e com ele todo o cortejo de objetos alijados.<br \/>\n    Tomando pontos de refer&ecirc;ncia na Lua, que estava a menos de duas mil<br \/>\n    l&eacute;guas, Barbicane p&ocirc;de at&eacute; concluir que a velocidade se<br \/>\n    ia tornando uniforme. Nova prova de que n&atilde;o haveria queda. A for&ccedil;a<br \/>\n    de impuls&atilde;o sobrepunha- se ainda &agrave; atra&ccedil;&atilde;o lunar,<br \/>\n    mas a trajet&oacute;ria do proj&eacute;til aproximava-o decerto do disco lunar,<br \/>\n    pelo que podia esperar-se que, a menor dist&acirc;ncia, a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da gravidade predominasse e provocasse finalmente a queda.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s companheiros, por nada de melhor terem para fazer, prosseguiam<br \/>\n    com as observa&ccedil;&otilde;es. Continuavam, por &eacute;m, sem poder determinar<br \/>\n    a disposi&ccedil;&atilde;o topogr&aacute;fica do sat&eacute;lite. A proje&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos raios solares nivelava todos os relevos.<\/p>\n<p> Barbicane obstinava-se em encontrar unia solu&ccedil;&atilde;o para o insol&uacute;vel<br \/>\n    problema que se lhe deparava.<\/p>\n<p> As horas decorriam e a situa&ccedil;&atilde;o mantinha-se. 0 proj&eacute;til<br \/>\n    aproximava-se visivelmente da Lua, mas era tamb&eacute;m vis&iacute;- vel<br \/>\n    que n&atilde;o a atingiria. Quanto a saber-se at&eacute; que dist&acirc;ncia<br \/>\n    o proj&eacute;til se aproximaria da sua superf&iacute;cie pouco ou nada se<br \/>\n    podia avan&ccedil;ar, visto que essa dist&acirc;ncia seria a resultante das<br \/>\n    duas for&ccedil;as &#8211; a atrativa e a repulsiva &#8211; que atuavam sobre o m&oacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute; pe&ccedil;o unia coisa &#8211; repetia Michel. -: passar t&atilde;o<br \/>\n    perto da Lua quanto poss&iacute;vel para lhe desvendar os segredos! &#8211; Amaldi&ccedil;oada<br \/>\n    seja a causa que fez &#8211; desviar o nosso proj&eacute;til &#8211; desabafou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Amaldi&ccedil;oada seja &#8211; apoiou Barbicane, como se de repente se fizesse<br \/>\n    luz no seu esp&iacute;rito -; maldito seja o b&oacute;lide que se cruzou conosco!<br \/>\n    &#8211; Hem! &#8211; fez Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Que quer dizer? &#8211; perguntou Nicoles, surpreendido.<\/p>\n<p> &#8211; Quero dizer &#8211; respondeu convictamente Barbicane &#8211; que o nosso desvio se<br \/>\n    deve apenas a esse corpo errante.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ele nem sequer nos ro&ccedil;ou&#8230; &#8211; objetou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o importa. A sua massa, comparada com a do nosso proj&eacute;til,<br \/>\n    era enorme, e bastou essa atra&ccedil;&atilde;o para afetar a nossa dire&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> T&atilde;o pouco! &#8211; exclamou Nicoles.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade, Nicoles; mas por pouco que fosse &#8211; replicou Barbicane<br \/>\n    -, numa dist&acirc;ncia de oitenta e quatro mil l&eacute;guas, seria o bastante<br \/>\n    para nos fazer errar a Lua! A dire&ccedil;&atilde;o seguida pelo proj&eacute;til<br \/>\n    arrastava-o para o hemisf&eacute;- rio setentrional da Lua. Os viajantes estavam<br \/>\n    longe daquele ponto central onde deveriam cair, se a trajet&oacute;ria n&atilde;o<br \/>\n    tivesse sofrido uni irremedi&aacute;vel desvio.<\/p>\n<p> Passava meia hora da meia-noite. Barbicane estimou em mil e quatrocentos<br \/>\n    quil&ocirc;metros a dist&acirc;ncia que os separava da Lua &#8211; dist&acirc;ncia<br \/>\n    um pouco superior ao comprimento do raio lunar, e que devia diminuir &agrave;<br \/>\n    medida que avan&ccedil;assem em dire&ccedil;&atilde;o ao p&oacute;lo norte.<br \/>\n    Na ocasi&atilde;o, o proj&eacute;til encontrava- se, n&atilde;o &agrave; altura<br \/>\n    do equador, mas na dire&ccedil;&atilde;o do d&eacute;cimo paralelo, e a partir<br \/>\n    dessa latitude, cuidadosamente assinalada no mapa at&eacute; o p&oacute;lo,<br \/>\n    Barbicane e os companheiros puderam observar a Lua em melhores condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Realmente, mediante o uso dos bin&oacute;culos, a dist&acirc;ncia de mil<br \/>\n    e quatrocentos quil&ocirc;metros reduziu-se a quatorze ou seja, tr&ecirc;s<br \/>\n    l&eacute;guas e meia. 0 telesc&oacute;pio das Montanhas Rochosas estava ainda<br \/>\n    em ?vantagem, mas a atmosfera terrestre afetava-lhe consideravelmente a pot&ecirc;ncia<br \/>\n    &oacute;tica. Eis a raz&atilde;o por que, postado no proj&eacute;til, Barbicane<br \/>\n    alcan&ccedil;ava com o seu bin&oacute;culo certos pormenores que n&atilde;o<br \/>\n    podiam ser observados da terra.<\/p>\n<p> &#8211; Meus amigos &#8211; disse ent&atilde;o o presidente com unia voz grave -, n&atilde;o<br \/>\n    sei para onde vamos, n&atilde;o sei se voltaremos a ver o globo terrestre.<br \/>\n    Apesar disso, procedamos como se uni dia estes trabalhos pudessem vir a ser<br \/>\n    &uacute;teis aos nossos semelhantes. Mantenhamos o esp&iacute;rito liberto<br \/>\n    de toda e qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o. Somos astr&ocirc;nomos. Este<br \/>\n    proj&eacute;til &eacute; uni posto espacial do Observat&oacute;rio de Cambridge.<br \/>\n    Fa&ccedil;amos o que temos a fazer: observemos! Dito isto, o trabalho foi<br \/>\n    iniciado com extrema precis&atilde;o, de tal maneira que conseguiram reproduzir<br \/>\n    fielmente os diversos aspectos da Lua &agrave;s dist&acirc;ncias vari&aacute;veis<br \/>\n    que o proj&eacute;til foi ocupando em rela&ccedil;&atilde;o ao astro.<\/p>\n<p> Cerca das duas da manh&atilde;, Barbicane encontrava-se &agrave; altura<br \/>\n    do vig&eacute;simo paralelo lunar, n&atilde;o longe da pequena montanha de<br \/>\n    mil quinhentos e cinq&uuml;enta e nove metros que tem o nome de P&iacute;tias.<br \/>\n    A dist&acirc;ncia do proj&eacute;til &agrave; Lua n&atilde;o excedia os mil<br \/>\n    e duzentos quil&ocirc;metros, que os bin&oacute;culos reduziam para tr&ecirc;s<br \/>\n    l&eacute;guas.<\/p>\n<p> As duas e meia da manh&atilde;, o proj&eacute;til encontrava-se em frente<br \/>\n    do trig&eacute;simo paralelo lunar, a unia dist&acirc;ncia de mil quil&ocirc;metros,<br \/>\n    reduzida a dez pelos instrumentos &oacute;ticos.<\/p>\n<p> Continuava a parecer imposs&iacute;vel que pudesse atingir qualquer ponto<br \/>\n    do disco. A velocidade de transla&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til, relativamente<br \/>\n    med&iacute;ocre, era inexplic&aacute;vel para o Presidente Barbicane. Aquela<br \/>\n    dist&acirc;ncia da Lua, essa velocidade deveria ser. consider&aacute;vel para<br \/>\n    manter o proj&eacute;til, apesar da for&ccedil;a de atra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Havia nesse fato uni fen&ocirc;meno cuja raz&atilde;o lhe escapava ainda.<br \/>\n    N&atilde;o tinha tempo para investigar-lhe as causas.<\/p>\n<p> 0 relevo lunar desfilava sob os olhos dos viajantes, que dele n&atilde;o<br \/>\n    queriam perder o m&iacute;nimo pormenor.<\/p>\n<p> Perto das quatro horas da manh&atilde;, na altura do q&uuml;inquag&eacute;simo<br \/>\n    paralelo, a dist&acirc;ncia do proj&eacute;til &agrave; Lua reduzia- se a<br \/>\n    seiscentos quil&ocirc;metros. &Agrave; esquerda, corria uma linha de montanhas<br \/>\n    caprichosamente recortada por unia luz intensa. &Agrave; direita, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    cavava-se um buraco negro, como uni imenso po&ccedil;o, insond&aacute;vel<br \/>\n    e escuro, furado no solo lunar.<\/p>\n<p> &Agrave;s seis horas, o p&oacute;lo lunar fez a sua apari&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    0 disco n&atilde;o era mais aos olhos dos viajantes do que uma metade violentamente<br \/>\n    iluminada. A outra desaparecera nas trevas.<\/p>\n<p> Subitamente, o proj&eacute;til transp&ocirc;s a linha de demarca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre a luz intensa e a sombra absoluta, e mergulhou instantaneamente numa<br \/>\n    noite profunda.<\/p>\n<p> Na altura em que se produzia t&atilde;o bruscamente aquele fen &ocirc;meno,<br \/>\n    o proj&eacute;til rasava o p&oacute;lo norte da Lua a menos de cinq&uuml;enta<br \/>\n    quil&ocirc;metros de dist&acirc;ncia. Tinham-lhe bastado portanto alguns segundos<br \/>\n    para mergulhar nas trevas eternas do espa&ccedil;o. A transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    operara-se de forma t&atilde;o r&aacute;pida, sem matizes, sem diminui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gradual da luz, sem atenua &ccedil;&atilde;o das ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    luminosas, que o astro parecia terse apagado sob a influ&ecirc;ncia de uni<br \/>\n    poderoso sopro.<\/p>\n<p> &#8211; A Lua fundiu-se, desapareceu! &#8211; exclamou Michel Ardan.<\/p>\n<p> Na verdade, n&atilde;o se enxergava qualquer reflexo ou sombra.<\/p>\n<p> Do disco, ainda h&aacute; pouco resplandecente, nada restava.<\/p>\n<p> A obscuridade era completa e tornava-se ainda mais profunda devido &agrave;<br \/>\n    cintila&ccedil;&atilde;o das estrelas. Era o ?negro? de que se impregnam as<br \/>\n    noites lunares, que 1 duram trezentas e cinq&uuml;enta e quatro horas e meia<br \/>\n    em cada ponto do disco &#8211; longa noite que resulta da igualdade existente entre<br \/>\n    os movimentos de transla&ccedil;&atilde;o e rota&ccedil;&atilde;o do sat&eacute;lite,<br \/>\n    uni sobre si pr&oacute;prio, outro &agrave; volta da Terra. 0 proj&eacute;til,<br \/>\n    imerso no cone de sombra do disco, estava fora do alcance dos raios solares<br \/>\n    como qualquer dos pontos da sua parte invis &iacute;vel.<\/p>\n<h4><a name=\"23\" id=\"23\">Cap&iacute;tulo VII &#8211; Par&aacute;bola ou Hip&eacute;rbole<\/a><\/h4>\n<p>iriam, passavam o tempo fazendo experi&ecirc;ncias, como se estivessem tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    instalados num confort&aacute;vel gabinete de trabalho.<\/p>\n<p> A isto poder-se-ia contrapor que homens de t&atilde;o rija t&ecirc;mpera,<br \/>\n    que n&atilde;o se atemorizavam por t&atilde;o pouco, ou que tinham mais que<br \/>\n    fazer do que se abandonar &agrave; inc&oacute;gnita da sua sorte, estavam<br \/>\n    acima de semelhantes preocupa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A verdade, por&eacute;m, &eacute; que n&atilde;o eram senhores do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> N&atilde;o podiam travar-lhe a marcha nem modificar-lhe a dire&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> 0 marinheiro muda a seu bel-prazer o rumo do navio; o aeronauta pode imprimir<br \/>\n    ao seu bal&atilde;o movimentos verticais.<\/p>\n<p> Eles, por&eacute;m, n&atilde;o podiam exercer qualquer a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre o seu ve&iacute;culo. Nenhuma manobra lhes era poss&iacute;vel. E da&iacute;<br \/>\n    aquela disposi&ccedil;&atilde;o de deixar andar, de ?deixar correr?, segundo<br \/>\n    a express&atilde;o mar&iacute;tima.<\/p>\n<p> Onde estavam naquele momento, &agrave;s oito da manh&atilde; do dia que<br \/>\n    na Terra era o sexto do m&ecirc;s de dezembro? Decerto nas vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    da Lua, de tal maneira perto que o astro lhes parecia com o aspecto de uni<br \/>\n    imenso quebra-luz negro desdobrado no firmamento. Quanto &agrave; dist&acirc;ncia<br \/>\n    que os separava, era imposs&iacute;vel avali&aacute;-la. 0 proj&eacute;til,<br \/>\n    mantido por for&ccedil;as inexplic&aacute;veis, rasara o p&oacute;lo norte<br \/>\n    do sat&eacute;lite a menos de cinq&uuml;enta quil&ocirc;metros. Mas, decorridas<br \/>\n    duas horas sobre o instante em que o proj&eacute;til entrevia no cone de sombra,<br \/>\n    teria aquela dist&acirc;ncia diminu&iacute;do ou aumentado? A falta de pontos<br \/>\n    de refer&ecirc;ncia para estimar a dire&ccedil;&atilde;o e a velocidade do<br \/>\n    proj&eacute;til era total. Talvez se afastasse rapidamente do disco, de forma<br \/>\n    a deixar em breve a sombra pura. Talvez se aproximasse sensivelmente, a ponto<br \/>\n    de chocar com qualquer pico elevado do hemisf&eacute;rio invis&iacute;vel,<br \/>\n    o que poria fim &agrave; viagem, mas sem d&uacute;vida com preju&iacute;zo<br \/>\n    dos viajantes.<\/p>\n<p> Levantou-se a este prop&oacute;sito uma discuss&atilde;o, em que Michel<br \/>\n    Ardan, sempre pr&oacute;digo em explica&ccedil;&otilde;es, emitiu a opini&atilde;o<br \/>\n    de que o proj&eacute;til, retido pela atra&ccedil;&atilde;o lunar, acabaria<br \/>\n    por cair no astro, como os aer&oacute;1itos caem na superf&iacute;cie do globo<br \/>\n    terrestre.<\/p>\n<p> &#8211; Em primeiro lugar, meu amigo &#8211; respondeu-lhe Barbicane -, nem todos os<br \/>\n    aer61itos caem na Terra, mas apenas uma pequena parte. Logo, se de fato passamos<br \/>\n    ao estado de aer&oacute;lito, isto n&atilde;o significa, necessariamente,<br \/>\n    que nos despenquemos na superf&iacute;cie da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto &#8211; insistiu Michel -, se nos aproxim&aacute;ssemos bastante&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Puro erro &#8211; atalhou Barbicane. &#8211; Pois n&atilde;o viste j&aacute; milhares<br \/>\n    de estrelas cadentes riscar o c&eacute;u, em certas &eacute;pocas? &#8211; Pois<br \/>\n    bem, essas estrelas, ou, melhor, esses corp&uacute;sculos, s&oacute; brilham<br \/>\n    porque aquecem quando deslizam nas camadas atmosf&eacute;ricas. Ora, se atravessam<br \/>\n    a atmosfera, passam a menos de dezesseis l&eacute;guas do Globo, onde, todavia,<br \/>\n    caem raramente. 0 mesmo pode acontecer ao nosso proj&eacute;til: passar perto,<br \/>\n    muito perto mesmo da Lua e, apesar disso, n&atilde;o cair l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Visto isso &#8211; declarou Michel. -, tenho muita curiosidade em saber como<br \/>\n    se comportar&aacute; no espa&ccedil;o o nosso ve&iacute;culo errante.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; duas hip&oacute;teses &#8211; esclareceu Barbicane, depois de alguns<br \/>\n    instantes de reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Quais s&atilde;o? &#8211; -0 proj&eacute;til pode descrever uma de duas curvas<br \/>\n    matem&aacute;- ticas, e seguir&aacute; uma ou outra, consoante a velocidade<br \/>\n    de que estiver animado, velocidade que neste momento n&atilde;o sei avaliar.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; interveio Nicoles -, descrever&aacute; uma par&aacute;bola ou uma<br \/>\n    hip&eacute;rbole.<\/p>\n<p> &#8211; Certo &#8211; confirmou Barbicane. &#8211; At&eacute; uma certa velocidade seguir&aacute;<br \/>\n    a par&aacute;bola, e a hip&eacute;rbole se a velocidade for mais acentuada.<\/p>\n<p> &#8211; Gosto desses palavr&otilde;es &#8211; exclamou Michel Ardan. &#8211; &Eacute; ouvi-los<br \/>\n    e compreend&ecirc;-los, est&aacute; bem1 Mas, por favor, o que &eacute; isso<br \/>\n    de par&aacute;bola? &#8211; Meu amigo &#8211; explicou Barbicane -; par&aacute;bola &eacute;<br \/>\n    uma curva de segunda ordem que resulta da se&ccedil;&atilde;o de um cone por<br \/>\n    um plano paralelo a um plano tangente ao cone.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! Ah! &#8211; fez Michel Ardan, com um ar satisfeito.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; isto mais ou menos &#8211; ajudou Nicoles &#8211; a trajet&oacute;ria que<br \/>\n    descreve uma bomba lan&ccedil;ada por um morteiro.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem. E a hip&eacute;rbole? &#8211; quis saber Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; A hip&eacute;rbole, Michel, &eacute; uma curva de segunda ordem produzida<br \/>\n    pela interse&ccedil;&atilde;o de uma superf&iacute;cie c&ocirc;nica e de um<br \/>\n    plano paralelo ao seu eixo. Tem dois ramos separados um do outro, que se prolongam<br \/>\n    indefinidamente nos dois sentidos.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; poss&iacute;vel i &#8211; exclamou Michel, Ardan, com a maior seriedade,<br \/>\n    como se acabassem de lhe dar uma not&iacute;cia grave. &#8211; Nicoles, presta muita<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o ao que vou dizer. Do que eu gosto na tua defini&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de hip&eacute;rbole (eu ia dizer ?hiperpatranha?) &eacute; que ainda &eacute;<br \/>\n    menos clara do que a palavra que quiseste definir! Nicoles e Barbicane pouco<br \/>\n    ligaram aos gracejos de Michel Ardan, j&aacute; que se haviam envolvido numa<br \/>\n    discuss&atilde;o cient&iacute;fica.<\/p>\n<p> Que curva seguiria o proj&eacute;til? Eis o que os apaixonava.<\/p>\n<p> Um teimava na hip&eacute;rbole, o outro insistia na par&aacute;bola. Fundamentavam<br \/>\n    as respectivas afirma&ccedil;&otilde;es em raz&otilde;es eri&ccedil;adas de<br \/>\n    x. A argumenta&ccedil;&atilde;o era feita numa linguagem que fazia pular Michel.<br \/>\n    A discuss&atilde;o decorria acesa, e nenhum dos advers&aacute;rios queria<br \/>\n    sacrificar ao outro a curva da sua predile&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como a disputa cient&iacute;fica se prolongava, Michel Ardan acabou por<br \/>\n    se impacientar.<\/p>\n<p> &#8211; Ora esta! &#8211; disse ele. Senhores de co-seno, acabam ou n&atilde;o de atirar<br \/>\n    &agrave; cabe&ccedil;a um do outro par&aacute;bolas e hip&eacute;rboles? Eu<br \/>\n    s&oacute; quero saber a &uacute;nica coisa que interessa no meio de tudo isto.<br \/>\n    J&aacute; se sabe que seguimos uma das suas curvas.<\/p>\n<p> Muito bem. Agora pergunto: para onde nos levar&atilde;o elas? &#8211; A parte<br \/>\n    nenhuma &#8211; respondeu Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Como? A parte nenhuma? &#8211; Mas &eacute; evidente &#8211; corroborou Barbicane.<br \/>\n    &#8211; S&atilde;o curvas que n&atilde;o se fecham, que se prolongam at&eacute;<br \/>\n    o infinito! &#8211; Ah, s&aacute;bios1 &#8211; exclamou Michel. &#8211; S&aacute;bios do meu<br \/>\n    cora &ccedil;&atilde;o!&#8230; Eh, olhem l&aacute;? Que nos importa a par&aacute;bola<br \/>\n    ou a hip&eacute;rbole, se ambas nos mandam para o espa&ccedil;o infinito!<br \/>\n    Barbicane e Nicoles n&atilde;o puderam, dessa vez, deixar de sorrir.<\/p>\n<p> Nunca uma quest&atilde;o mais ociosa fora tratada em momento menos oportuno.<br \/>\n    A sinistra verdade era que o proj&eacute;til, marchando hiperb&oacute;lica<br \/>\n    ou parabolicamente, nunca mais regressaria &agrave; Terra ou reencontraria<br \/>\n    a Lua.<\/p>\n<p> Que sucederia aos audaciosos viajantes num futuro muito pr&oacute;ximo?<br \/>\n    Se n&atilde;o morressem de fome, se n&atilde;o so&ccedil;obrassem pela sede,<br \/>\n    pereceriam dentro de dias &agrave; m&iacute;ngua de ar, quando o g&aacute;s<br \/>\n    se esgotasse. Isto se o frio n&atilde;o os enregelasse primeiro.<\/p>\n<p> 0 certo &eacute; que, por mais importante que fosse a economia de g&aacute;s,<br \/>\n    o excessivo abaixamento da temperatura ambiente os obrigaria ao consumo de<br \/>\n    uma certa quantidade. Em rigor, podiam passar sem luz, mas nunca sem calor.<br \/>\n    Por felicidade, o calor desenvolvido pelo aparelho Reiset e Regnault ajudava<br \/>\n    a elevar um pouco a temperatura do interior do proj&eacute;til, pelo que,<br \/>\n    sem grandes gastos, p&ocirc;de manter- se num grau suport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Como j&aacute; foi dito, as observa&ccedil;&otilde;es atrav&eacute;s das<br \/>\n    vigias tornaram- se dif&iacute;ceis. A umidade do interior do proj&eacute;til<br \/>\n    condensavase nos vidros e congelava de imediato. Era necess&aacute;rio combater<br \/>\n    aquela opacidade com sucessivas fric&ccedil;&otilde;es. Mesmo assim, foi poss&iacute;vel<br \/>\n    verificar alguns fen&ocirc;menos do mais alto interesse.<\/p>\n<p> Realmente, se aquele disco invis&iacute;vel tivesse atmosfera, n&atilde;o<br \/>\n    era natural que se vissem estrelas cadentes a sulc&aacute;-la com as suas<br \/>\n    trajet&oacute;rias? Se o pr&oacute;prio proj&eacute;til atravessasse as camadas<br \/>\n    fluidas, n&atilde;o era prov&aacute;vel que se surpreendesse algum ru&iacute;do<br \/>\n    repercutido pelo ecos lunares, tal como o ribombar de um trov&atilde;o, o<br \/>\n    estr&eacute;pito de uma avalancha, as detona&ccedil;&otilde;es de um vulc&atilde;o<br \/>\n    em atividade? E se alguma montanha vulc&acirc;nica as ornamentasse com um<br \/>\n    rubro penacho de rel&acirc;mpagos, n&atilde;o se avistariam as suas intensas<br \/>\n    fulgura&ccedil;&otilde;es? Tais fatos, se cuidadosamente observados, serviriam<br \/>\n    para elucidar de forma decisiva a obscura quest &atilde;o da constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lunar. Eis por que Barbicane e Nicoles, postados junto &agrave;s vigias, como<br \/>\n    se fossem astr&ocirc;nomos, observavam com escrupulosa paci&ecirc;ncia a noite<br \/>\n    circundante.<\/p>\n<p> At&eacute; ent&atilde;o, o disco permanecera mudo e escuro, sem responder<br \/>\n    &agrave;s m&uacute;ltiplas interroga&ccedil;&otilde;es que lhe punham aqueles<br \/>\n    ardentes esp&iacute;ritos.<\/p>\n<p> Tal sil&ecirc;ncio sugeriu a Michel esta reflex&atilde;o aparentemente justa:<br \/>\n    &#8211; Se alguma vez volt&aacute;ssemos a fazer esta viagem, seria bom que escolh&ecirc;ssemos<br \/>\n    a fase da lua nova.<\/p>\n<p> &#8211; Tens raz&atilde;o &#8211; disse Nicoles -: essa circunst&acirc;ncia seria mais<br \/>\n    favor&aacute;vel. &Eacute; certo que a Lua, mergulhada nos raios solares,<br \/>\n    n&atilde;o seria vis&iacute;vel durante a viagem; mas, em compensa- &ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ver-se-ia a Terra, que estaria ?cheia?. Al&eacute;m disso, se f&ocirc;ssemos<br \/>\n    arrastados &agrave; volta da Lua, como agora acontece, ter&iacute;amos pelo<br \/>\n    menos a vantagem de lhe ver o solo, agora invis&iacute;vel, magnificamente<br \/>\n    iluminado! &#8211; Isto &eacute; que &eacute; falar, Nicoles! &#8211; aplaudiu Michel<br \/>\n    Ardan. &#8211; Que pensas tu disto, Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Penso &#8211; respondeu o ponderado presidente &#8211; que, se alguma vez volt&aacute;ssemos<br \/>\n    a fazer esta viagem, partir&iacute;amos na mesma &eacute;poca e nas mesmas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es. Suponham que tiv&eacute;ssemos alcan&ccedil;ado o<br \/>\n    nosso objetivo; n&atilde;o seria melhor encontrar continentes cheios de luz<br \/>\n    do que regi&otilde;es mergulhadas numa noite escura? A nossa instala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o se faria em circunst&acirc;ncias mais favor&aacute;veis? Claro<br \/>\n    que sim. Quanto ao lado invis&iacute;vel, t&ecirc;-lo-&iacute;amos visitado<br \/>\n    durante as viagens de reconhecimento no globo lunar. Assim, a fase de lua<br \/>\n    cheia foi muito bem escolhida. A id&eacute;ia era chegar ao objetivo, mas,<br \/>\n    para l&aacute; chegar, era necess&aacute;rio que n&atilde;o houvesse desvios<br \/>\n    de rota.<\/p>\n<p> Quanto a isso, nada tenho a objetar &#8211; disse Michel Ardan. &#8211; A verdade &eacute;<br \/>\n    que perdemos uma bela oportunidade de ob servar a outra face da Lua. Quem<br \/>\n    sabe se os habitantes dos outros planetas n&atilde;o est&atilde;o mais adiantados<br \/>\n    do que os s&aacute;bios da Terra no que diz respeito aos seus sat&eacute;lites?<br \/>\n    A esta observa&ccedil;&atilde;o de Michel Ardan, poder-se-ia responder muito<br \/>\n    simplesmente do seguinte modo: sim, h&aacute; outros sat &eacute;lites, cujo<br \/>\n    estudo, por estarem mais pr6ximos, se torna mais f&aacute;cil. Os habitantes<br \/>\n    de Saturno, de J&uacute;piter e de Urano, se &eacute; que existem, puderam<br \/>\n    estabelecer com suas luas comunica &ccedil;&otilde;es mais f&aacute;ceis.<br \/>\n    Os quatro sat&eacute;lites de J&uacute;piter gravitam &agrave;s dist&acirc;ncias<br \/>\n    de cento e oito mil duzentas e sessenta l&eacute;guas, cento e setenta e duas<br \/>\n    mil e duzentas l&eacute;guas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas<br \/>\n    l&eacute;guas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta l&eacute;guas. Todavia,<br \/>\n    essas dist&acirc;ncias s&atilde;o contadas a partir do centro do planeta.<br \/>\n    Subtraindo- lhes o comprimento do respectivo raio, que &eacute; de dezesseis<br \/>\n    a dezoito mil l&eacute;guas, v&ecirc;-se que o primeiro sat&eacute;lite est&aacute;<br \/>\n    menos afastado d&aacute; superf&iacute;cie de J&uacute;piter do que a Lua<br \/>\n    est&aacute; da Terra. Das oito luas de Saturno, quatro est&atilde;o igualmente<br \/>\n    mais pr&oacute;ximas: Diana est&aacute; a oitenta e quatro mil e seiscentas<br \/>\n    l&eacute;guas; T&eacute;tis a sessenta e duas mil novecentas e sessenta e<br \/>\n    seis; a quarenta e oito mil cento e noventa e uma, e, finalmente, Mimas a<br \/>\n    uma dist&acirc;ncia m&eacute;- dia de trinta e quatro mil e quinhentas. Dos<br \/>\n    oito sat&eacute;lites de Urano, o primeiro, Ariel, est&aacute; apenas a cinq&uuml;enta<br \/>\n    e uma mil quinhentas e vinte l&eacute;guas do planeta.<\/p>\n<p> Isto significa que, na superf&iacute;cie desses tr&ecirc;s astros, uma experi<br \/>\n    &ecirc;ncia an&aacute;loga &agrave; do Presidente Barbicane teria apresentado<br \/>\n    menores dificuldades. Assim, se os respectivos habitantes tentaram a aventura,<br \/>\n    &eacute; poss&iacute;vel que tenham reconhecido a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela metade do disco que todos os sat&eacute;lites ocultam eternamente<br \/>\n    dos olhos dos habitantes dos outros astros principais. Mas, se nunca deixarem<br \/>\n    os seus planetas, n&atilde;o est&atilde;o mais avan&ccedil;ados que os astr&ocirc;nomos<br \/>\n    da Terra.<\/p>\n<p> . Entretanto, o proj&eacute;til descrevia nas trevas uma trajet&oacute;ria<br \/>\n    que a inexist&ecirc;ncia de pontos de refer&ecirc;ncia n&atilde;o permitia<br \/>\n    cal cular. Ter-se-ia modificado a sua dire&ccedil;&atilde;o, quer por influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da atra&ccedil;&atilde;o lunar, quer pela a&ccedil;&atilde;o de algum astro<br \/>\n    desconhecido? Barbicane n&atilde;o podia diz&ecirc;-lo. Mas a verdade &eacute;<br \/>\n    que se dera uma altera&ccedil;&atilde;o na posi&ccedil;&atilde;o relativa<br \/>\n    do ve&iacute;culo, altera &ccedil;&atilde;o de que Barbicane se apercebeu<br \/>\n    por volta das quatro horas da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Consistia a altera&ccedil;&atilde;o no seguinte: a base do proj&eacute;til<br \/>\n    voltara- se para a superf&iacute;cie lunar e mantinha-se na perpendicular<br \/>\n    que passava pelo eixo da Lua. A atra&ccedil;&atilde;o., ou seja, a gravidade,<br \/>\n    operara tal modifica&ccedil;&atilde;o. A parte mais pesada do proj&eacute;til<br \/>\n    inclinara-se para o disco, exatamente como se nele fosse cair.<\/p>\n<p> E cairia? Os viajantes iam finalmente atingir o t&atilde;o almejado alvo?<br \/>\n    N&atilde;o. Com a ajuda de um ponto de refer&ecirc;ncia, ali&aacute;s pouco<br \/>\n    explic&aacute;vel, Barbicane teve a certeza de que o proj&eacute;til n&atilde;o<br \/>\n    se aproximava da Lua: deslocava-se descrevendo uma curva conc&ecirc;ntrica<br \/>\n    ao astro.<\/p>\n<p> 0 ponto de refer&ecirc;ncia atr&aacute;s citado foi um clar&atilde;o luminoso<br \/>\n    que Nicoles assinalou de ;s&uacute;bito no limite do horizonte formado pelo<br \/>\n    disco negro. Aquele clar&atilde;o n&atilde;o podia ser confundido com uma<br \/>\n    estrela. Era uma incandesc&ecirc;ncia avermelhada, que, pouco a pouco, se<br \/>\n    avolumava &#8211; prova incontest&aacute;vel de que o proj&eacute;til se deslocava<br \/>\n    na sua dire&ccedil;&atilde;o, e de que n&atilde;o se dirigia normalmente para<br \/>\n    a superf&iacute;cie do astro.<\/p>\n<p> &#8211; Um vulc&atilde;o! E um vulc&atilde;o em atividade &#8211; gritou Nicoles. &#8211;<br \/>\n    Uma erup&ccedil;&atilde;o dos fogos interiores da Lua. Aquele mundo n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute;, portanto, extinto.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! &Eacute; uma erup&ccedil;&atilde;o &#8211; confirmou Barbicane, que estudava<br \/>\n    cuidadosamente o fen&ocirc;meno com o seu bin&oacute;culo de noite.<\/p>\n<p> &#8211; Que outra coisa poderia ser sen&atilde;o um vulc&atilde;o? &#8211; Mas ent&atilde;o<br \/>\n    &#8211; raciocinou Michel Ardan -, para alimentar aquela combust&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    preciso ar. Portanto, h&aacute; uma atmosfera envolvendo aquela parte da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; Talvez haja &#8211; admitiu Barbicane -, ou talvez n&atilde;o. 0 vulc&atilde;o<br \/>\n    pode, merc&ecirc; da decomposi&ccedil;&atilde;o de certas mat&eacute;rias,<br \/>\n    forne cer a si pr&oacute;prio o oxig&ecirc;nio e lan&ccedil;ar assim chamas<br \/>\n    no v&aacute;- cuo. ?Estou mesmo para crer que aquela deflagra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tem a intensidade e o brilho dos objetos cuja combust&atilde;o ocorre no meio<br \/>\n    de oxig&ecirc;nio puro. N&atilde;o nos apressemos, portanto, em afirmar a<br \/>\n    exist&ecirc;ncia de uma atmosfera lunar.<\/p>\n<p> A montanha vulc&acirc;nica devia estar situada perto do quadrag &eacute;simo<br \/>\n    quinto grau de latitude sul da parte invis&iacute;vel do astro.<\/p>\n<p> Mas, com grande decep&ccedil;&atilde;o de Barbicane, a curva que o proj&eacute;til<br \/>\n    descrevia levava-o para longe do ponto onde fora assinalada a erup&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pelo que n&atilde;o lhe foi poss&iacute;vel estud&aacute;- la convenientemente.<\/p>\n<p> Meia hora depois, o tal ponto luminoso desaparecia por detr&aacute;s do<br \/>\n    escuro horizonte. De qualquer forma, a simples verifica&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    fen&ocirc;meno era j&aacute; um fato not&aacute;vel para os estudos selenogr&aacute;ficos:<br \/>\n    provava que o calor n&atilde;o desaparecera ainda das entranhas daquele globo.<br \/>\n    Ora, se h&aacute; por l&aacute; calor, quem pode garantir que o reino vegetal<br \/>\n    e mesmo o reino animal n&atilde;o tenham resistido at&eacute; hoje &agrave;s<br \/>\n    influ&ecirc;ncias destrutivas? A exist&ecirc;ncia daquele vulc&atilde;o em<br \/>\n    atividade, se viesse a ser reconhecida sem reservas pelos s&aacute;bios da<br \/>\n    Terra, daria sem d&uacute;vida muitos argumentos favor&aacute;veis &agrave;<br \/>\n    controversa teoria da habitabilidade da Lua.<\/p>\n<p> Barbicane abandonara-se &agrave;s suas reflex&otilde;es, ao mudo devaneio<br \/>\n    onde se encastelavam os misteriosos segredos do mundo lunar. Tentava descobrir<br \/>\n    o fio comum a todos os fatos at&eacute; ent&atilde;o observados, quando um<br \/>\n    novo incidente o trouxe bruscamente &agrave; realidade.<\/p>\n<p> Era mais do que um fen&ocirc;meno c&oacute;smico: era um verdadeiro perigo,<br \/>\n    cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias podiam ser desastrosas.<\/p>\n<p> De repente, do meio do &eacute;ter, daquelas profundas trevas, uma enorme<br \/>\n    massa aparecera. Era como que uma lua, mas uma lua incandescente, com um brilho<br \/>\n    tanto mais insustent &aacute;vel quanto brusco era o contraste com a completa<br \/>\n    escurid&atilde;o do espa&ccedil;o. A massa, de forma circular, lan&ccedil;ava<br \/>\n    uma luz que enchia o proj&eacute;til. Os rostos de Barbicane, Nicoles e Michel<br \/>\n    Ardan, violentamente. banhados por aque les feixes esbranqui&ccedil;ados,<br \/>\n    ganhavam a apar&ecirc;ncia espectral, l&iacute;vida, ba&ccedil;a, que os f&iacute;sicos<br \/>\n    produzem com a luz artificial de &aacute;lcool impregnado de sal.<\/p>\n<p> &#8211; Com mil diabos! &#8211; exclamou Michel Ardan. Como n&oacute;s estamos horrendos!<br \/>\n    Que raio de lua &eacute; aquela? &#8211; &Eacute; um b&oacute;lide &#8211; esclareceu<br \/>\n    Barbicane. Um b&oacute;lide inflamado, no v&aacute;cuo? &#8211; Sim.<\/p>\n<p> 0 globo de fogo era de fato um b&oacute;lide. Barbicane n&atilde;o se enganava.<br \/>\n    Mas se os meteoros c&oacute;smicos observados da Terra apresentam, de uma<br \/>\n    maneira geral, uma luz um pouco inferior &agrave; da Lua, ali, no sombrio<br \/>\n    &eacute;ter, resplandecem.<\/p>\n<p> Esses corpos errantes trazem consigo o princ&iacute;pio da sua incandesc&ecirc;ncia.<br \/>\n    0 ar ambiente n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio &agrave; sua deflagra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E se, realmente, alguns desses b&oacute;lides atravessam as camadas a atmosf&eacute;ricas<br \/>\n    a duas ou tr&ecirc;s l&eacute;guas da Terra, outros h&aacute; que, ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    descrevem a sua trajet&oacute;ria a uma dist&acirc;ncia em que n&atilde;o<br \/>\n    existe atmosfera.<\/p>\n<p> Vem a prop&oacute;sito lembrar que, em 27 de outubro de 1844, um desses<br \/>\n    b&oacute;lides desapareceu &agrave; dist&acirc;ncia de cento e oitenta e duas<br \/>\n    l&eacute;guas. Alguns desses meteoros t&ecirc;m de tr&ecirc;s a quatro quil&ocirc;metros<br \/>\n    de di&acirc;metro e s&atilde;o animados de velocidades que podem ir at&eacute;<br \/>\n    setenta e cinco quil&ocirc;metros por segundo, na dire&ccedil;&atilde;o inversa<br \/>\n    do movimento da Terra.<\/p>\n<p> 0 globo cadente, subitamente aparecido da sombra a uma dist&acirc;ncia de<br \/>\n    pelo menos cem l&eacute;guas, devia ter de di&acirc;metro dois mil metros,<br \/>\n    segundo c&aacute;lculo de Barbicane. Avan&ccedil;ava com uma velocidade pr&oacute;xima<br \/>\n    de dois qui18metros por segundo, ou seja, trinta l&eacute;guas por minuto,<br \/>\n    e a sua trajet&oacute;ria cortava a rota do proj&eacute;til, pelo que devia<br \/>\n    atingi-lo dentro de alguns minutos. Conforme se aproximava, aumentava de volume<br \/>\n    em enorme propor&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> . Imagine-se, se puder, a situa&ccedil;&atilde;o dos viajantes. &Eacute;<br \/>\n    imposs&iacute;- vel descrev&ecirc;-la. Apesar da sua coragem, do seu sanguefrio,<br \/>\n    da sua indiferen&ccedil;a perante o perigo, estavam mudos, im&oacute;veis,<br \/>\n    com os membros contra&iacute;dos, tomados por um horr&iacute;vel pavor. 0<br \/>\n    proj&eacute;til, a que n&atilde;o podiam alterar a marcha..<\/p>\n<p> corria na dire&ccedil;&atilde;o daquela massa &iacute;gnea, mais intensa<br \/>\n    do que as goelas abertas de um forno de reverbera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Parecia que ia precipitar-se num abismo de fogo.<\/p>\n<p> Barbicane agarra as m&atilde;os dos companheiros, e os tr&ecirc;s olhavam,<br \/>\n    atrav&eacute;s das p&aacute;lpebras semicerradas, aquele aster&oacute;ide<br \/>\n    incandescente. Se neles n&atilde;o estivesse embotado ,o pensamento; se, no<br \/>\n    meio daquele pavor, ainda o c&eacute;rebro fosse capaz de raciocinar, considerar-se-iam<br \/>\n    por certo perdidos! Dois minutos depois da brusca apari&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    b&oacute;lide &#8211; dois s&eacute;culos de ang&uacute;stia! -, o proj&eacute;til<br \/>\n    parecia prestes a colidir.<\/p>\n<p> De repente, por&eacute;m, o globo de fogo explodiu como uma bomba, mas sem<br \/>\n    ru&iacute;do, como, ali&aacute;s, era natural, j&aacute; que o som n&atilde;o<br \/>\n    podia produzir-se no meio do v&aacute;cuo, por ser causado apenas pela agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das camadas de ar.<\/p>\n<p> Nicoles soltou um grito. Ele e os companheiros precipitaram- se para as<br \/>\n    vigias. Que espet&aacute;culo! Que pena poderia descrev&ecirc;-lo? Que paleta<br \/>\n    poderia reproduzir aquela riqueza de cores? A luz que saturava o &eacute;ter<br \/>\n    propagava-se com uma incompar &aacute;vel intensidade, porque os aster&oacute;ides;<br \/>\n    a dispersavam em todos os sentidos. Num dado momento, chegou a sert &atilde;o<br \/>\n    viva que Michel, arrastando Barbicane e Nicoles para junto da vigia em que<br \/>\n    se encontrava, exclamou: &#8211; Ei-la vis&iacute;vel, enfim! Eis a invis&iacute;vel<br \/>\n    Lua.<\/p>\n<p> E os tr&ecirc;s, atrav&eacute;s do efl&uacute;vio luminoso de alguns segundos,<br \/>\n    entreviram a misteriosa face oculta, que o olhar humano via pela primeira<br \/>\n    vez.<\/p>\n<p> Que distinguiram, &agrave;quela dist&acirc;ncia que n&atilde;o podiam avaliar?<br \/>\n    Algumas faixas alongadas sobre o disco, verdadeiras nuvens formadas num meio<br \/>\n    atmosf&eacute;rico muito restrito, do qual emergiam, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    todas as montanhas, mas tamb&eacute;m relevos de pouca import&acirc;ncia,<br \/>\n    c&iacute;rculos, crateras escancaradas, caprichosamente dispostas, an&aacute;logas<br \/>\n    &agrave;s da face vis &iacute;vel. Depois, imensos espa&ccedil;os, n&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; planos &aacute;ridos, mas verdadeiros mares, oceanos largamente<br \/>\n    espraiados, que refletiam no seu liquido espelho toda a deslumbrante magia<br \/>\n    dos fogos do espa&ccedil;o. Finalmente, na superf&iacute;cie dos continentes,<br \/>\n    vastas manchas escuras, id&ecirc;nticas &agrave;s produzidas por imensas florestas<br \/>\n    sob o r&aacute;pido clar&atilde;o de um rel&acirc;mpago&#8230;<\/p>\n<p> Seria isto um erro, uma miragem, uma ilus&atilde;o de &oacute;tica? Poderiam<br \/>\n    eles sancionar cientificamente uma observa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o superficial?<br \/>\n    Ousariam pronunciar-se sobre o problema da habitabilidade do sat&eacute;lite,<br \/>\n    fundados em t&atilde;o prec&aacute;rio exame da face invis&iacute;vel? Amorteceram,<br \/>\n    entretanto, as fulgura&ccedil;&otilde;es do espa&ccedil;o. Decresceu pouco<br \/>\n    a pouco o fugaz brilho. Os aster&oacute;ides foram- se dispersando, seguindo<br \/>\n    diferentes trajet&oacute;rias, e apagaram- se na dist&acirc;ncia. 0 &eacute;ter<br \/>\n    retomou a habitual tenebrosidade. As estrelas, eclipsadas por instantes, cintilaram<br \/>\n    no firmamento, e o disco, que fora apenas entrevisto, perdeu-se de novo na<br \/>\n    impenetr&aacute;vel noite.<\/p>\n<h4><a name=\"24\" id=\"24\">Cap&iacute;tulo VIII &#8211; O hemisf&eacute;rio meridional<\/a><\/h4>\n<p>O proj&eacute;til acabava de escapar a um terr&iacute;vel e imprevisto perigo.<br \/>\n    Quem poderia imaginar que viessem a encontrarse com esses b&oacute;lides?<br \/>\n    Esses corpos errantes podiam p&ocirc;r os viajantes em s&eacute;rios perigos.<br \/>\n    Eram, para eles, outros tantos perigos disseminados por aquele mar et&eacute;reo,<br \/>\n    aos quais, ao contr&aacute;rio dos navegadores, n&atilde;o podiam fugir. Mas<br \/>\n    acaso se queixavam aqueles aventureiros do espa&ccedil;o? N&atilde;o, visto<br \/>\n    que a natureza lhes proporcionara o espl&ecirc;ndido espet&aacute;culo da<br \/>\n    explos&atilde;o de um meteoro c&oacute;smico, e esse incompar&aacute;vel fogo<br \/>\n    de artif&iacute;cio, que nenhum saberia imitar, iluminara durante alguns segundos<br \/>\n    a face oculta da Lua.<\/p>\n<p> Atrav&eacute;s dessa r&aacute;pida vista, apareceram continentes, ma197<br \/>\n    res e florestas. Emprestaria, portanto, a atmosfera as suas mol&eacute;culas<br \/>\n    vivificantes &agrave;quela face desconhecida? Problema ainda sem solu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    eternamente posto &agrave; curiosidade humana! Eram ent&atilde;o tr&ecirc;s<br \/>\n    horas e meia da tarde. 0 proj&eacute;til prosseguia a sua &oacute;rbita em<br \/>\n    volta da Lua. Ter-lhe-ia o meteoro modificado a trajet&oacute;ria? Havia motivos<br \/>\n    para rece&aacute;-lo. Todavia, o proj&eacute;til devia descrever uma curva<br \/>\n    rigorosamente submetida &agrave;s leis da mec&acirc;nica racional. Barbicane<br \/>\n    continuava a pensar que essa curva era uma par&aacute;bola e n&atilde;o uma<br \/>\n    hip&eacute;rbole. No entanto, se esta hip&oacute;tese se confirmasse, o proj&eacute;til<br \/>\n    deveria sair muito rapidamente do cone de sombra projetado no espa&ccedil;o<br \/>\n    do lado oposto do Sol. Realmente, esse cone &eacute; muito estreito, t&atilde;o<br \/>\n    pequeno &eacute; o di&acirc;metro angular da Lua quando comparado com o do<br \/>\n    astro do dia.<\/p>\n<p> Ora, at&eacute; esse momento, o proj&eacute;til vagara na sombra profunda.<\/p>\n<p> Qualquer que fosse a sua velocidade &#8211; e n&atilde;o podia ser pequena -,<br \/>\n    o per&iacute;odo de oculta&ccedil;&atilde;o persistia. Este era um fato evidente,<br \/>\n    mas que talvez n&atilde;o devesse ocorrer no suposto caso da trajet&oacute;ria<br \/>\n    rigorosamente parab&oacute;lica. Mais um problema para atormentar o c&eacute;rebro<br \/>\n    de Barbicane, verdadeiramente aprisionado num c&iacute;rculo de inc&oacute;gnitas<br \/>\n    de que n&atilde;o conseguia desembara&ccedil;ar-se.<\/p>\n<p> Nenhum dos viajantes pensava em repousar. Todos aguardavam que algum fato<br \/>\n    inesperado viesse lan&ccedil;ar uma nova luz sobre os estudos uranogr&aacute;ficos.<br \/>\n    Cerca das cinco horas, Michel Ardan distribuiu, &agrave; maneira de jantar,<br \/>\n    alguns peda&ccedil;os de p&atilde;o e carne fria, que foram engolidos rapidamente<br \/>\n    pelos tr&ecirc;s amigos, sem que nenhum abandonasse, por um instante sequer,<br \/>\n    as vigias, cujos vidros se embaciavam incessantemente com a condensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos vapores.<\/p>\n<p> &Agrave;s cinco horas e quarenta e cinco minutos da tarde, Nicoles, de bin&oacute;culo<br \/>\n    assestado, assinalou nas proximidades do bordo meridional da Lua e na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seguida pelo proj&eacute;til alguns pontos brilhantes, que se destacavam da<br \/>\n    sombria cortina do c&eacute;u. Dir-se-ia uma sucess&atilde;o de pontos afilados,<br \/>\n    dispostos numa linha sinuosa. Estavam vivamente iluminados.<\/p>\n<p> Assim aparece o lineamento terminal da Lua. N&atilde;o havia engano. N&atilde;o<br \/>\n    se tratava j&aacute; de um simples meteoro: aquela aresta luminosa n&atilde;o<br \/>\n    apresentava nem a cor nem a mobilidade pr&oacute;prias desses corpos errantes.<br \/>\n    Muito menos, seria um vulc&atilde;o em atividade. Desse modo, Barbicane n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em exclamar: &#8211; 0 Sol! &#8211; Qu&ecirc;? 0 Sol? &#8211; perguntaram Nicoles e<br \/>\n    Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, meus amigos, &eacute; o pr&oacute;prio astro radiante que ilumina<br \/>\n    os cimos daquelas montanhas situadas no bordo meridional da Lua. &Eacute;<br \/>\n    evidente que nos acercamos do,010 sul! &#8211; Depois de termos passado pelo p&oacute;lo<br \/>\n    norte&#8230; &#8211; murmurou Michel. &#8211; Isto quer dizer que demos a volta ao nosso sat&eacute;-<br \/>\n    lite! &#8211; Sim, meu caro Michel.<\/p>\n<p> &#8211; E que j&aacute; n&atilde;o temos que recear as tais hip&eacute;rboles,<br \/>\n    par&aacute;bolas ou outras curvas abertas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Agora a curva &eacute; fechada.<\/p>\n<p> &#8211; Como se chama?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eclipse. Em vez de se perder nos espa&ccedil;os interplanet&aacute;rios,<br \/>\n    &eacute; prov&aacute;vel que o proj&eacute;til comece a descrever uma &oacute;rbita<br \/>\n    el&iacute;ptica em volta da Lua.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade! &#8211; E que se transforme em sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> &#8211; Lua da Lua! &#8211; exclamou Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Contudo, conv&eacute;m que saibas, meu bom amigo &#8211; avisou Barbicane -,<br \/>\n    que nem por isto ficamos em melhor situa&ccedil;&atilde;o! &#8211; Sim, mas de outra<br \/>\n    maneira, bem mais agrad&aacute;vel! &#8211; rematou o despreocupado franc&ecirc;s,<br \/>\n    com o mais agrad&aacute;vel dos sorrisos.<\/p>\n<p> 0 Presidente Barbicane tinha raz&atilde;o. Ao descrever uma &oacute;rbita<br \/>\n    el&iacute;ptica, o proj&eacute;til ia, sem d&uacute;vida, gravitar eternamente<br \/>\n    &agrave; volta da Lua, como um subsat&eacute;lite. Seria um novo astro do<br \/>\n    mundo solar, um microcosmo povoado por tr&ecirc;s habitantes, que, dentro<br \/>\n    em pouco, pereceriam por falta de ar.<\/p>\n<p> Barbicane n&atilde;o podia, portanto, contentar-se com tal situa- &ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    imposta ao, proj&eacute;til pela dupla influ&ecirc;ncia das for&ccedil;as<br \/>\n    centr&iacute;peta e centr&iacute;fuga. Ele e os companheiros iam rever a face<br \/>\n    iluminada do disco lunar. Talvez que a exist&ecirc;ncia se lhes prolongasse<br \/>\n    o bastante para poderem uma &uacute;ltima vez a terra cheia, soberbamente<br \/>\n    iluminada pelos raios de Sol! Talvez pudessem dizer um &uacute;ltimo adeus<br \/>\n    &agrave;quele Globo que n&atilde;o deviam voltar a avistar! Depois, o proj&eacute;til<br \/>\n    n&atilde;o seria mais do que uma massa extinta, morta, semelhante a esses<br \/>\n    inertes aster&oacute;ides que circulam no &eacute;ter. Uma &uacute;nica consola<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o lhes; restava: iam deixar enfim aquelas insond&aacute;-<br \/>\n    veis trevas e voltar &agrave; luz, &agrave;s zonas banhadas pela irradia-<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o solar! Entretanto, as montanhas que Barbicane reconhecera<br \/>\n    iamse destacando cada vez mais da massa escura. Eram os Montes Doerfel e Leibniz;<br \/>\n    que se elevam ao sul da regi&atilde;o circumpolar da Lua.<\/p>\n<h4><a name=\"25\" id=\"25\">Capitulo IX &#8211; Ticho<\/a><\/h4>\n<p>&Agrave;s seis horas da tarde, o proj&eacute;til passava pelo p&oacute;lo<br \/>\n    sul, a menos de sessenta quil&ocirc;metros, dist&acirc;ncia igual &agrave;<br \/>\n    de que se tinha aproximado do p&oacute;lo norte. A curva el&iacute;ptica desenhava-<br \/>\n    se, portanto, rigorosamente.<\/p>\n<p> Naquele momento, os viajantes reentraram no benfazejo efl&uacute;vio dos<br \/>\n    raios solares. Reviam as estrelas que se moviam com lentid&atilde;o de oriente<br \/>\n    para ocidente. Saudaram o astro radiante com um triplo hurra. Al&eacute;m<br \/>\n    da luz, o Sol enviava- lhe o calor, que aquecia as paredes de metal.<\/p>\n<p> &#8211; Ah! &#8211; disse Nicoles -, como fazem bem estes raios de calor! Com que impaci&ecirc;ncia,<br \/>\n    depois de tamanha noite, os selenitas devem esperar a reapari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do astro do dial &#8211; Sim &#8211; concordou Michel Ardan, saboreando, por assim dizer,<br \/>\n    aquele luminoso &eacute;ter -; a vida &eacute; luz e calor! Naquele instante,<br \/>\n    a base do proj&eacute;til tendia a afastar-se li geiramente da superf&iacute;cie<br \/>\n    lunar, de maneira a seguir uma &oacute;rbita el&iacute;ptica bastante alongada.<br \/>\n    Daquele ponto, se a Terra estivesse ?cheia?, Barbicane e os companheiros poderiam<br \/>\n    te-la visto. Mas, como estava mergulhada na irradia&ccedil;&atilde;o do Sol,<br \/>\n    mantinha-se absolutamente invis&iacute;vel. Um outro espet&aacute;culo atraiu-lhes<br \/>\n    o olhar, o que oferecia a regi&atilde;o austral da Lua, que os bin&oacute;culos<br \/>\n    aproximavam a um oitavo de l&eacute;gua. Os tr&ecirc;s. amigos n&atilde;o<br \/>\n    arredavam p&eacute; das vigias e examinavam os m&iacute;nimos pormenores daquele<br \/>\n    estranho continente.<\/p>\n<p> Os montes Doerfel e Leibniz formam dois grupos distintos, que se desenvolvem<br \/>\n    perto do p&oacute;lo sul. 0 primeiro grupo alonga-se desde o p&oacute;lo at&eacute;<br \/>\n    o octog&eacute;simo quarto paralelo, sobre a parte oriental do astro; o segundo,<br \/>\n    que se recorta no bordo oriental, vai do sexag&eacute;simo quinto grau ao<br \/>\n    p&oacute;lo.<\/p>\n<p> Sobre os caprichosos contornos das suas arestas, apareciam camadas extensas<br \/>\n    e deslumbrantes, tal como as assinalou o Padre Secchi. Com mais seguran&ccedil;a<br \/>\n    do que o ilustre astr&ocirc;nomo romano, Barbicane n&atilde;o teve dificuldade<br \/>\n    em reconhecer- lhes a natureza.<\/p>\n<p> &Eacute; neve! &#8211; exclamou ele. Neve? &#8211; repetiu Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, Nicoles; neve cuja superf&iacute;cie est&aacute; profundamente gelada.<br \/>\n    Vejam como reflete os raios luminosos. As lavas arrefecidas n&atilde;o dariam<br \/>\n    uma reflex&atilde;o t&atilde;o intensa. H&aacute;, portanto, &aacute;gua e<br \/>\n    ar na Lua. Menos do que se poderia desejar, mas o fato j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    pode ser contestado.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o podia s&ecirc;-lo! E, se algum dia Barbicane voltasse<br \/>\n    &agrave; Terra, as suas notas testemunhariam o fato, a todos os t&iacute;tulos<br \/>\n    not&aacute;vel no dom&iacute;nio das observa&ccedil;&otilde;es selenogr&aacute;ficas.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til prosseguia, indiferente, a sua rota, mas l&aacute; embaixo<br \/>\n    aquele caos n&atilde;o se modificava, Sucediam-se incessantemente c&iacute;rculos,<br \/>\n    crateras e montanhas esburacadas. Nem uma plan&iacute;cie, nem um mar. Era<br \/>\n    uma Su&iacute;&ccedil;a, uma Noruega intermin&aacute;veis. Finalmente, no<br \/>\n    centro daquela regi&atilde;o gretada, precisamente no ponto culminante, apareceu<br \/>\n    o deslumbrante Ticho, a mais espl&ecirc;ndida montanha do disco. lu nar, &agrave;<br \/>\n    qual a posteridade ligar&aacute; sempre o nome do ilustre astr&ocirc;nomo<br \/>\n    dinamarqu&ecirc;s.<\/p>\n<p> Ticho concentra em si uma tal luminosidade que os habitantes da Terra podem<br \/>\n    avist&aacute;-la sem a ajuda de embora esteja a uma dist&acirc;ncia de cem<br \/>\n    bin&oacute;culos, muito mil l&eacute;guas.<\/p>\n<p> Imagine-se, naquele momento, qual deveria ser a intensidade daquela luz<br \/>\n    para os olhos de observadores colocados a centro e cinq&uuml;enta l&eacute;guas<br \/>\n    apenas! Atrav&eacute;s daquele puro &eacute;ter, o seu fulgar era de tal forma<br \/>\n    insustent&aacute;vel que Barbicane e os seus amigos tiveram de escurecer as<br \/>\n    lentes dos bin&oacute;culos com o fumo do g&aacute;s, a fim de lhe poder suportar<br \/>\n    o brilho. Depois, at&ocirc;nitos, emitindo apenas algumas interjei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    admirativas, limitaram-se a olhar, a contemplar.<\/p>\n<p> Todos os sentimentos, todos os sentidos se lhes concentraram no olhar, tal<br \/>\n    como a vida, sob o dom&iacute;nio de uma emo&ccedil;&atilde;o violenta, se<br \/>\n    concentra por inteiro no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como Aristarco e Cop&eacute;rnico, Ticho pertence ao sistema de montanhas<br \/>\n    radiantes. Mas &eacute; de todas a mais completa e caracter&iacute;stica e,<br \/>\n    conseq&uuml;entemente, o melhor testemunho dessa extraordin&aacute;ria a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vulc&acirc;nica que originou a forma- &ccedil;&atilde;o da Lua.<\/p>\n<p> A dist&acirc;ncia que separava os viajantes dos cumes anulares de Ticho<br \/>\n    n&atilde;o era assim t&atilde;o consider&aacute;vel que n&atilde;o pudessem<br \/>\n    observar-lhe os principais pormenores. Mesmo sobre o aterro que constitui<br \/>\n    a circunvala&ccedil;&atilde;o de Ticho, as montanhas, agarradas aos flancos<br \/>\n    dos taludes interiores e exteriores, dispunham-se em gigantescos degraus.<br \/>\n    A oeste pareciam mais elevados uns trezentos a quatrocentos metros do que<br \/>\n    a leste. Nenhum sistema de castrameta&ccedil;&atilde;o terrestre era compar&aacute;vel<br \/>\n    &agrave;quela fortifica&ccedil;&atilde;o. Uma cidade que tivesse sido constru&iacute;da<br \/>\n    no fundo daquela cavidade circular seria absolutamente inacess&iacute;vel.<\/p>\n<p> Inacess&iacute;vel e maravilhosamente deitada sobre aquele solo rico em<br \/>\n    acidentes pitorescos! A natureza, realmente, n&atilde;o deixara plano e vazio<br \/>\n    o fundo da cratera, que possu&iacute;a a sua orografia especial, um sistema<br \/>\n    de montanhas que dela fa ziam um mundo &agrave; parte. Os viajantes distinguiram<br \/>\n    nitidamente cones, colinas centrais, not&aacute;veis movimentos de terreno,<br \/>\n    naturalmente dispostos para receber as obras primas da arquitetura selenita.<br \/>\n    Ali, desenhava-se um local prop &iacute;cio para a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um templo; aqui, o lugar pr&oacute;prio para um f&oacute;rum; al&eacute;m,<br \/>\n    o que poderia comparar-se aos alicerces de um pal&aacute;cio; mais al&eacute;m,<br \/>\n    o plano de uma cidadela.<\/p>\n<p> E tudo isto dominado por uma montanha central. Tratavase de um vasto circuito,<br \/>\n    onde a antiga Roma caberia dez vezes! &#8211; Ali! &#8211; exclamou Michel Ardan entusiasmado<br \/>\n    com o que via. &#8211; Que grandiosa cidade se construiria naquele anel de montanhas!<br \/>\n    Cidade tranq&uuml;ila, ref&uacute;gio pac&iacute;fico, longe de todas as mis&eacute;rias<br \/>\n    humanas. Como viveriam ali, calmos e isolados, todos os misantropos, todos<br \/>\n    os que odeiam a humanidade, todos aos que aborrecem a vida social! &#8211; Todos!<br \/>\n    N&atilde;o haveria espa&ccedil;o para eles! &#8211; comentou simplesmente Barbicane.<\/p>\n<h4><a name=\"26\" id=\"26\">Cap&iacute;tulo X &#8211; Quest&otilde;es graves<\/a><\/h4>\n<p>O proj&eacute;til transpusera, entretanto, a cintura de muralhas de Ticho.<br \/>\n    Barbicane e os dois amigos observaram ent&atilde;o com escrupulosa aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aqueles riscos brilhantes que a c&eacute;lebre montanha dispersa t&atilde;o<br \/>\n    curiosamente por todos os horizontes.<\/p>\n<p> A que se deveria aquela radiosa aur&eacute;ola? Que fen&ocirc;meno geol&oacute;gico<br \/>\n    originaria aquela ardente cabeleira? Esta quest&atilde;o preocupava com raz&atilde;o<br \/>\n    Barbicane.<\/p>\n<p> Na verdade, sob os seus olhos alongavam-se em todas as dire&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    feixes luminosos de bordos levantados e c&ocirc;ncavos no meio, uns de vinte,<br \/>\n    outros de cinq&uuml;enta quil&ocirc;metros de largura. Aqueles brilhantes<br \/>\n    rastros corriam, em certos lugares, at&eacute; trezentas l&eacute;guas de<br \/>\n    Ticho, e pareciam cobrir, sobretudo a leste, nordeste e norte, metade do hemisf&eacute;rio<br \/>\n    meridional. Um dos jatos de luz espraiava-se at&eacute; o c&iacute;rculo de<br \/>\n    Neandro, situado no quadrag&eacute;simo meridiano. Um outro ia sulcar, encurvando-se,<br \/>\n    o Mar do N&eacute;ctar e quebrar-se na cadeia dos Pireneus, depois de ter<br \/>\n    percorrido quatrocentas l&eacute;guas. Outros ainda, para as bandas do oeste,<br \/>\n    cobriam de uma luminosa rede os Mares das Nuvens e dos Humores.<\/p>\n<p> Qual seria a origem daqueles cintilantes raios que apareciam tanto nas plan&iacute;cies<br \/>\n    quanto nos relevos, qualquer que fosse a altura que atingissem? Partiam todos<br \/>\n    de um centro comum: a cratera de Ticho. Dela emanavam.<\/p>\n<p> Herschel atribui aquele fulgurante aspecto &agrave;s primitivas correntes<br \/>\n    de lava coaguladas pelo frio, opini&atilde;o que n&atilde;o foi aceita. Outros<br \/>\n    astr&ocirc;nomos viram nesses inexplic&aacute;veis raios uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de fragmentos de rocha, que se amontoam por norma em volta das geleiras, fiadas<br \/>\n    de blocos err&aacute;ticos, que tivessem sido projetados na &eacute;poca da<br \/>\n    forma &ccedil;&atilde;o de Ticho.<\/p>\n<p> &#8211; E por que n&atilde;o? &#8211; perguntou Nicoles a Barbicane, que citava as diversas<br \/>\n    opini&otilde;es, rejeitando-as todas.<\/p>\n<p> &#8211; Porque a regularidade das linhas luminosas e a viol&ecirc;ncia necess&aacute;ria<br \/>\n    para levar a tais dist&acirc;ncias as mat&eacute;rias vulc&acirc;nicas s&atilde;o<br \/>\n    inexplic&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8211; Na verdade! &#8211; intrometeu-se Michel Ardan. &#8211; Parece-me f&aacute;cil explicar<br \/>\n    a origem desses raios.<\/p>\n<p> &#8211; Achas que sim? &#8211; interpelou-o Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Acho &#8211; prosseguiu Michel. &#8211; Basta dizer que &eacute; uma gigantesca fratura<br \/>\n    em forma de estrela, id&ecirc;ntica &agrave; que produz a colis&atilde;o de<br \/>\n    urna bala ou de uma pedra numa vidra&ccedil;a! Ah, sim!?- retrucou Barbicane,<br \/>\n    sorrindo. &#8211; E que m&atilde;o seria capaz de atirar a pedra e provocar um tal<br \/>\n    choque? &#8211; A m&atilde;o n&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria &#8211; replicou Michel,<br \/>\n    que n&atilde;o desistia t&atilde;o facilmente. &#8211; Quanto &agrave; pedra, admitamos<br \/>\n    que seja um cometa.<\/p>\n<p> &#8211; Claro, os cometas! &#8211; exclamou Barbicane &#8211; Abusa-se deles! Meu caro Michel,<br \/>\n    a tua explica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; de toda m&aacute;, mas<br \/>\n    o teu cometa &eacute; que est&aacute; a mais. 0 choque que produziu aquela<br \/>\n    fratura pode ter vindo do interior do astro. Uma contra&ccedil;&atilde;o violenta<br \/>\n    da crosta lunar, provocada pelo resfriamento, bastaria, segundo penso, para<br \/>\n    justificar tal efeito.<\/p>\n<p> &#8211; Uma contra&ccedil;&atilde;o, qualquer coisa como uma c&oacute;lica lunar&#8230;<br \/>\n    &#8211; concordou Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; De resto &#8211; acrescentou Barbicane ?_, esta &eacute; tamb&eacute;m a opini&atilde;o<br \/>\n    do s&aacute;bio ingl&ecirc;s Nasmyth, e parece-me explicar cabalmente a irradia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessas montanhas.<\/p>\n<p> &#8211; 0 tal Nasmyth n&atilde;o &eacute; nenhum tolo &#8211; concedeu Michel Ardan.<\/p>\n<p> Os viajantes, a quem um tal espet&aacute;culo n&atilde;o podia cansar, admiraram<br \/>\n    por muito tempo ainda os esplendores de Ticho.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til, impregnado de efl&uacute;vios luminosos, no meio da dupla<br \/>\n    irradia&ccedil;&atilde;o do Sol e da Lua, devia assemelhar-se a um globo incandescente.<br \/>\n    Os tr&ecirc;s companheiros passaram subitamente de um frio penetrante a um<br \/>\n    calor intenso. A natureza preparava-os assim para se tornarem selenitas.<\/p>\n<p> Tornarem-se selenitas. Esta id&eacute;ia trouxe de novo &agrave; baila a<br \/>\n    quest&atilde;o da habitabilidade da Lua. Depois do que tinham visto, poderiam<br \/>\n    resolv&ecirc;-la? Poderiam estar a favor ou contra? Michel Ardan levou os<br \/>\n    dois amigos a emitir a esse respeito uma opini&atilde;o, perguntando-lhes<br \/>\n    se admitiam a exist &ecirc;ncia de animalidade e de humanidade no mundo lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Creio que podemos responder &#8211; disse Barbicane -; mas, quanto a mim, a<br \/>\n    pergunta deve ser formulada de outro modo. P&ocirc;-la-ei em outros termos,<br \/>\n    se n&atilde;o te importas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Fica &agrave; vontade &#8211; concordou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Ora bem &#8211; prosseguiu Barbicane -: o problema &eacute; duplo e exige uma<br \/>\n    dupla solu&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a Lua habit&aacute;vel? Foi a Lua habitada?<br \/>\n    &#8211; Muito bem &#8211; disse Nicoles. &#8211; Comecemos por indagar se &eacute; habit&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; Para falar a verdade, nada sei a esse respeito &#8211; adiantou Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; E eu respondo que n&atilde;o &#8211; afirmou Barbicane. &#8211; No estado atual, com<br \/>\n    aquele inv&oacute;lucro atmosf&eacute;rico, decerto muito reduzido, e a maioria<br \/>\n    dos mares secos, com insufici&ecirc;ncia de &aacute;gua e de vegeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com dias e noites de trezentas e cinq&uuml;enta e quatro horas, a Lua n&atilde;o<br \/>\n    me parece habit&aacute;vel, e n&atilde;o se me afigura prop&iacute;cia ao<br \/>\n    desenvolvimento do reino animal, nem capaz de ocorrer &agrave;s necessidades<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia, tal como n&oacute;s a compreendemos.<\/p>\n<p> &#8211; De acordo &#8211; interveio Nicoles. &#8211; Mas n&atilde;o ser&aacute; habitada por<br \/>\n    seres diferentes de n&oacute;s? &#8211; Ora a&iacute; est&aacute; uma pergunta &#8211;<br \/>\n    replicou Barbicane &#8211; cuja resposta &eacute; bem mais dif&iacute;cil. Apesar<br \/>\n    disso, tentarei d&aacute;-la. Antes, por&eacute;m, perguntarei a Nicoles o<br \/>\n    seguinte: &eacute; ou n&atilde;o o movimento o resultado l&oacute;gico da<br \/>\n    vida, qualquer que seja a sua organiza&ccedil;&atilde;o? &Eacute; evidente<br \/>\n    que sim &#8211; respondeu Nicoles.<\/p>\n<p> Pois bem, meu caro companheiro: nesse caso, responderlhe- ei que observamos<br \/>\n    os continentes lunares a uma dist &acirc;ncia de quinhentos metros, e que<br \/>\n    nada nos pareceu dotado de movimento na superf&iacute;cie da Lua. A presen&ccedil;a<br \/>\n    de uma qualquer humanidade ter-se-ia revelado atrav&eacute;s de apropria&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de constru&ccedil;&otilde;es diversas, ou mesmo de ru&iacute;- nas. Ora, que<br \/>\n    vimos n&oacute;s? Por todo o lado, e sempre, o trabalho geol&oacute;gico da<br \/>\n    natureza, nunca o trabalho do homem.<\/p>\n<p> Se existem portanto na Lua representantes do reino animal, s&oacute; podem<br \/>\n    estar escondidos nas insond&aacute;veis cavidades que o olhar n&atilde;o consegue<br \/>\n    atingir. E isto eu n&atilde;o admito, porque, mesmo assim, teriam deixado<br \/>\n    ind&iacute;cios da sua passagem por aquelas plan&iacute;cies, que uma camada<br \/>\n    atmosf &eacute;rica decerto cobre, por pouco elevada que seja. Ora, a verdade<br \/>\n    &eacute; que tais ind&iacute;cios n&atilde;o s&atilde;o vis&iacute;veis em<br \/>\n    parte alguma.<\/p>\n<p> Sobra, conseq&uuml;entemente, a hip&oacute;tese de uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    seres vivos &agrave; qual o movimento, que &eacute; a vida, seja estranho!<br \/>\n    &#8211; Em outras palavras: criaturas vivas que n&atilde;o vivem &#8211; sintetizou Michel<br \/>\n    Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Precisamente &#8211; concordou Barbicane. &#8211; 0 que para n&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    tem qualquer sentido.<\/p>\n<p> &#8211; Podemos ent&atilde;o formular a nossa opini&atilde;o &#8211; concluiu Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Sim &#8211; disse Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Pois ai vai &#8211; prosseguiu Michel Ardan -: a comiss&atilde;o cient&iacute;-<br \/>\n    fica reunida no proj&eacute;til do Clube do Canh&atilde;o, depois de ter fundamentado<br \/>\n    a sua argumenta&ccedil;&atilde;o em fatos perfeitamente confirmados, decidiu<br \/>\n    por unanimidade de votos, acerca da quest&atilde;o da atual habitabilidade<br \/>\n    da Lua, o seguinte: n&atilde;o, a Lua n&atilde;o &eacute; habit&aacute;vel.<\/p>\n<p> Esta decis&atilde;o foi consignada pelo Presidente Barbicane no seu bloco<br \/>\n    de notas, onde figura a ata da sess&atilde;o de 6 de dezembro.<\/p>\n<p> &#8211; Agora &#8211; sugeriu Nicoles &#8211; abordemos a segunda quest&atilde;o, que me parece<br \/>\n    indissoci&aacute;vel da primeira. Assim, perguntarei &agrave; digna comiss&atilde;o:<br \/>\n    se a Lua n&atilde;o &eacute; habit&aacute;vel, ser&aacute; que j&aacute; foi<br \/>\n    habitada? &#8211; Tem a palavra o cidad&atilde;o Barbicane &#8211; anunciou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Meus amigos &#8211; come&ccedil;ou Barbicane -, n&atilde;o precisei de fazer<br \/>\n    esta viagem para ter uma opini&atilde;o sobre a passada habitabilidade do<br \/>\n    nosso sat&eacute;lite. Acrescentarei que as nossas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais n&atilde;o fizeram do que confirm&aacute;-la.<\/p>\n<p> Creio, afirmo mesmo que a Lua foi habitada por uma esp&eacute;- cie humana<br \/>\n    organizada &agrave; semelhan&ccedil;a da nossa, que produziu animais anatomicamente<br \/>\n    an&aacute;logos aos terrestres, mas acrescento que o tempo dessas esp&eacute;cies<br \/>\n    humanas ou animais passou, e que est&atilde;o para sempre extintas! &#8211; Isso<br \/>\n    significa que a Lua &eacute; um mundo mais velho do que a Terra? &#8211; perguntou<br \/>\n    Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; declarou com convic&ccedil;&atilde;o Barbicane -; &eacute;<br \/>\n    um mundo que envelheceu mais depressa, e cuja forma&ccedil;&atilde;o e deforma<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o foram mais r&aacute;pidas. Relativamente, as for&ccedil;as<br \/>\n    organizadoras da mat&eacute;ria foram muito mais violentas no interior da<br \/>\n    Lua do que no do Globo terrestre. 0 atual aspec to daquele disco gretado,<br \/>\n    atormentado e rugoso, prova-o demasiado. A Lua e a Terra mais. n&atilde;o<br \/>\n    eram, na sua origem, do que massas gasosas. Esse gases passaram ao estado<br \/>\n    l&iacute;quido sob diversas influ&ecirc;ncias, e, mais tarde, formou-se a<br \/>\n    massa s&oacute;lida. Mas, quase com certeza, o nosso esfer&oacute;ide era<br \/>\n    ainda gasoso ou l&iacute;quido, quando a Lua, j&aacute; solidificada pelo<br \/>\n    arrefecimento, se tornou habit&aacute;vel.<\/p>\n<p> Depois, Nicoles, que pretendia concluir o que havia come- &ccedil;ado, p&ocirc;s<br \/>\n    de novo a seguinte quest&atilde;o sobre o problema que acabavam de abordar:<br \/>\n    &#8211; A Lua foi habitada? A resposta foi un&acirc;nime e afirmativa.<\/p>\n<p> Entretanto, durante aquela discuss&atilde;o, f&eacute;rtil em teorias um<br \/>\n    tanto arrojadas, embora fossem apenas o resumo de id&eacute;ias gerais adquiridas<br \/>\n    pela ci&ecirc;ncia neste dom&iacute;nio, o proj&eacute;til aproximara-se rapidamente<br \/>\n    do equador lunar, afastandose simult&acirc;nea e regularmente do disco.<\/p>\n<h4><a name=\"27\" id=\"27\">Cap&iacute;tulo XI &#8211; Luta contra o imposs&iacute;vel<\/a><\/h4>\n<p>Durante muito tempo, Barbicane e os companheiros olharam, mudos e pensativos,<br \/>\n    aquele mundo que apenas tinham visto de longe, como Mois&eacute;s a terra<br \/>\n    de Cana&atilde;, e de que se afastavam definitivamente. A posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do proj&eacute;til em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Lua modificara-se. A<br \/>\n    sua base estava nesse momento voltada para a Terra.<\/p>\n<p> Ao verificar tal altera&ccedil;&atilde;o, Barbicane n&atilde;o deixou de<br \/>\n    surpreender- se. Se o proj&eacute;til devia gravitar &agrave; volta do sat&eacute;lite,<br \/>\n    seguindo uma &oacute;rbita el&iacute;ptica, por que raz&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    lhe apresentava a parte mais pesada, como faz, a Lua em face da Terra? Havia<br \/>\n    algo de obscuro nisto.<\/p>\n<p> Pela simples observa&ccedil;&atilde;o da marcha do proj&eacute;til, podia<br \/>\n    verificar- se que ele seguia, ao afastar-se da Lua, uma curva id&ecirc;ntica<br \/>\n    &agrave; que havia quando da aproxima&ccedil;&atilde;o. Tra&ccedil;ava, portanto,<br \/>\n    uma elipse muito alongada, que se prolongava provavelmente at&eacute; o ponto<br \/>\n    de igual atra&ccedil;&atilde;o, onde se neutralizam as influ&ecirc;ncias da<br \/>\n    Terra e do seu sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> Tal foi a conclus&atilde;o que Barbicane tirou dos fatos observados, conclus&atilde;o<br \/>\n    que, ali&aacute;s, foi partilhada pelos seus dois amigos.<\/p>\n<p> &#8211; E logo choveram as perguntas.<\/p>\n<p> &#8211; E chegados a esse ponto morto, que nos acontecer&aacute;? &#8211; perguntou<br \/>\n    Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Isso &eacute; uma inc&oacute;gnita &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Mas podem antecipar-se algumas hip&oacute;teses, suponho&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Duas &#8211; precisou Barbicane -: ou a velocidade do proj&eacute;til &eacute;<br \/>\n    insuficiente, e nesse caso ficar&aacute; eternamente im&oacute;vel nessa linha<br \/>\n    de dupla atra&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Prefiro a outra, seja qual for &#8211; comentou Michel. Velocidade &eacute; suficiente<br \/>\n    &#8211; concluiu Barbicane -, e ent&atilde;o retomar&aacute; a rota el&iacute;cita,<br \/>\n    e gravitar&aacute; eternamente &agrave; volta do astro da noite.<\/p>\n<p> &#8211; Alternativa pouco consoladora &#8211; opinou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Passar ao estado de humildes servidores de uma Lua que estamos habituados<br \/>\n    a considerar como nossa serva. Eis o futuro que nos espera.<\/p>\n<p> Barbicane e Nicoles nada disseram.<\/p>\n<p> &#8211; Ali! calam-se? &#8211; continuou o impaciente Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Mas se n&atilde;o h&aacute; nada a dizer&#8230; &#8211; justificou-se Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o haver&aacute; nada a tentar? &#8211; Nada &#8211; respondeu Barbicane.<br \/>\n    &#8211; Ou pretendes lutar contra o imposs&iacute;vel? &#8211; E por que n&atilde;o? Um<br \/>\n    franc&ecirc;s e dois americanos h&atilde;o de recuar diante de semelhante<br \/>\n    palavra? &#8211; Mas que queres fazer ? &#8211; Dominar este movimento que nos arrasta!<br \/>\n    &#8211; Domin&aacute;-lo? &#8211; Sim &#8211; insistiu Michel, entusiasmando-se.<\/p>\n<p> &#8211; Trav&aacute;-lo, modific&aacute;-lo, us&aacute;-lo, enfim, de maneira<br \/>\n    a realizarmos os nossos projetos.<\/p>\n<p> &#8211; E como? &#8211; 0 problema &eacute; vosso! Os artilheiros que n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    senhores dos seus proj&eacute;teis n&atilde;o s&atilde;o artilheiros. Se &eacute;<br \/>\n    o proj&eacute;til que manda no artilheiro, o melhor &eacute; que o artilheiro<br \/>\n    se meta dentro do canh&atilde;o lugar do proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Belos s&aacute;bios, sim, senhor. Ei-los que n&atilde;o sabem o que h&aacute;<br \/>\n    de fazer depois de me terem induzido&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Induzido &#8211; exclamaram Barbicane e Nicoles. &#8211; Induzido! Que queres dizer?<br \/>\n    &#8211; Nada de recrimina&ccedil;&otilde;es! &#8211; avisou Michel. Eu n&atilde;o me queixo!<br \/>\n    0 passeio agrada mel. 0 proj&eacute;til conv&eacute;m-me! Mas, por favor,<br \/>\n    fa&ccedil;amos tudo o que for humanamente poss&iacute;vel para cairmos em<br \/>\n    qualquer lugar, j&aacute; que n&atilde;o o podemos fazer na Lua! &#8211; Mas n&oacute;s<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o queremos outra coisa, meu caro Michel &#8211; replicou<br \/>\n    Barbicane. &#8211; S&oacute; que n&atilde;o temos meios.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o podemos modificar o movimento do proj&eacute;til? &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nem diminuir-lhe a velocidade? &#8211; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Nem mesmo aliviando-o, como se alivia um navio com excesso de carga? &#8211;<br \/>\n    Que queres alijar? &#8211; perguntou por sua vez Nicoles. &#8211; N&atilde;o temos lastro<br \/>\n    a bordo. E, de resto, parece-me que, se alivi- &aacute;ssemos o proj&eacute;til,<br \/>\n    a velocidade aumentaria.<\/p>\n<p> Diminuiria &#8211; insistiu Michel.<\/p>\n<p> Aumentaria &#8211; teimou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Nem diminuiria nem aumentaria &#8211; asseverou Barbicane, pondo fim &agrave;<br \/>\n    disputa dos dois amigos -, porque flutuamos no v&aacute;cuo, onde o peso espec&iacute;fico<br \/>\n    n&atilde;o conta.<\/p>\n<p> Sendo assim &#8211; exclamou resolutamente Michel Ardan -, s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    uma coisa a fazer.<\/p>\n<p> &#8211; 0 qu&ecirc;? &#8211; quis saber Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Almo&ccedil;ar! &#8211; respondeu o imperturb&aacute;vel e audacioso franc &ecirc;s,<br \/>\n    que propunha sempre esta solu&ccedil;&atilde;o quando se apresentavam as mais<br \/>\n    dif&iacute;ceis conjunturas.<\/p>\n<p> De fato, se esta opera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o podia ter qualquer influ&ecirc;ncia<br \/>\n    sobre a dire&ccedil;&atilde;o do proj&eacute;til, podia ser tentada sem inconveniente,<br \/>\n    e at&eacute; com muito &ecirc;xito do ponto de vista do est&ocirc;- mago.<br \/>\n    Decididamente, aquele Michel tinha boas id&eacute;ias.<\/p>\n<p> Almo&ccedil;aram, portanto, &agrave;s duas horas da manh&atilde;, mas a<br \/>\n    hora pouco importava. Michel serviu a habitual refei&ccedil;&atilde;o, coroada<br \/>\n    com uma preciosa garrafa da sua reserva secreta. Se, depois disto, as id&eacute;ias<br \/>\n    n&atilde;o lhes brotassem do c&eacute;rebro, seria de p&ocirc;r em d&uacute;vida<br \/>\n    a qualidade do Chamberti.<\/p>\n<p> Terminada a refei&ccedil;&atilde;o, recome&ccedil;aram as observa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Em volta do proj&eacute;til mantinham-se, a uma dist&acirc;ncia invari-<br \/>\n    &aacute;vel, os objetos que haviam sido alijados. Era evidente que o proj&eacute;til,<br \/>\n    no seu movimento de transla&ccedil;&atilde;o &agrave; volta da Lua, &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    atravessara nenhuma atmosfera, porque o peso espec &iacute;fico daquele s<br \/>\n    diferentes objetos lhes teria alterado a marcha relativa.<\/p>\n<p> Do lado do esfer&oacute;ide terrestre nada havia a assinalar. A Terra, que<br \/>\n    fora ?nova? na v&eacute;spera &agrave; meia-noite, tinha apenas um dia. Seria<br \/>\n    necess&aacute;rio que decorressem mais dois dias, para que o seu crescente,<br \/>\n    desembara&ccedil;ado dos raios solares, viesse servir de rel&oacute;gio, aos<br \/>\n    selenitas, visto que, merc&ecirc; do movimento de rota&ccedil;&atilde;o ,<br \/>\n    cada um dos seus pontos passam de vinte e quatro em vinte e quatro horas pelo<br \/>\n    mesmo meridiano da Lua.<\/p>\n<p> Do lado da Lua o espet&aacute;culo era diferente. 0 astro brilhava em todo<br \/>\n    o seu esplendor, no meio de inumer&aacute;veis constela &ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sem que os seus, raios lhes diminu&iacute;ssem a pureza.<\/p>\n<p> No disco, as plan&iacute;cies retomavam j&aacute; aquele tom escuro que<br \/>\n    se v&ecirc; da Terra. 0 resto do nimbo continuava cintilante, e, no meio de<br \/>\n    toda aquela cintila&ccedil;&atilde;o, destacava-se ainda Ticho, como um sol.<\/p>\n<p> Barbicane n&atilde;o tinha maneira de avaliar a velocidade do proj&eacute;til,<br \/>\n    mas o racioc&iacute;nio demonstrava-lhe que essa velocidade devia decrescer<br \/>\n    uniformemente, de acordo com as leis da, mec&acirc;nica racional.<\/p>\n<p> Realmente, admitido foi que o proj&eacute;til ia descrever uma &oacute;rbita<br \/>\n    &agrave; volta da Lua, essa &oacute;rbita tinha de ser necessariamente el&iacute;ptica.<br \/>\n    A ci&ecirc;ncia assim o demonstra. Nenhum m&oacute;- vel que gravite em volta<br \/>\n    de um corpo atraente escapa a essa lei. Todas as &oacute;rbitas descritas<br \/>\n    no espa&ccedil;o s&atilde;o el&iacute;ticas, tanto as dos sat&eacute;lites<br \/>\n    em volta dos planetas, quanto as dos planetas em volta do Sol, como ainda<br \/>\n    a do Sol em volta do astro desconhecido que lhe serve de um dos focos.<\/p>\n<p> Por que raz&atilde;o o proj&eacute;til do Clube do Canh&atilde;o contrariava<br \/>\n    esta disposi&ccedil;&atilde;o natural? Ora, nas &oacute;rbitas el&iacute;pticas,<br \/>\n    o corpo atraente ocupa sempre um dos focos da elipse. H&aacute; portanto um<br \/>\n    momento em que o sat&eacute;lite est&aacute; mais pr&oacute;ximo, e outro<br \/>\n    em que se encontra mais afastado do astro em volta do qual gravita. Quando<br \/>\n    a Terra est&aacute; mais perto do Sol, diz-se que se encontra no peri&eacute;lio,<br \/>\n    e no af&eacute;lio no caso contr&aacute;rio. Com a Lua passa-se algo de id&ecirc;ntico:<br \/>\n    dizemos que est&aacute; no perigeu ou no apogeu consoante e encontre mais<br \/>\n    pr&oacute;xima ou mais distante da Terra. Se o proj&eacute;til se tornasse<br \/>\n    sat&eacute;lite da Lua e quis&eacute;ssemos usar express&otilde;es an&aacute;logas,<br \/>\n    com as quais se enriquecer &aacute; a linguagem dos astr&ocirc;nomos dever&iacute;amos<br \/>\n    dizer que atingiria o ?aposselenico? no ponto mais distante e o ?perissel&ecirc;nico?<br \/>\n    no mais pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p> Nesse &uacute;ltimo caso, o proj&eacute;til devia atingir o m&aacute;ximo<br \/>\n    de velocidade; no primeiro, o m&iacute;nimo. Ora, era evidente que ele &#8211; se<br \/>\n    dirigia para o ponto ?apossel&eacute;nico?, pelo que Barbicane tinha raz&atilde;o<br \/>\n    em pensar que a velocidade havia de decrescer at&eacute; esse ponto, para<br \/>\n    depois voltar a aumentar, pouco a pouco, &agrave; medida que se aproximasse<br \/>\n    de novo da Lua. A velocidade chegaria mesmo a ser absolutamente nula se aquele<br \/>\n    ponto coincidisse com o de igual atra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Estudava Barbicane as conseq&uuml;&ecirc;ncias dessas diferentes situa &ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para procurar tirar o melhor partido delas, quando foi subitamente interrompido<br \/>\n    por um grito de Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; Santo Deus! &#8211; exclamava ele. &#8211; Temos de confessar que somos mesmo est&uacute;pidos!<br \/>\n    N&atilde;o digo que n&atilde;o &#8211; disse Barbicane. &#8211; Mas por &#8211; Porque temos<br \/>\n    um meio bem simples de reduzir a velocidade que nos afasta da Lua, e n&atilde;o<br \/>\n    a usamos.<\/p>\n<p> &#8211; E que meio &eacute; esse? &#8211; A for&ccedil;a de recuo dos nossos foguetes.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade! &#8211; exclamou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o a utilizamos &#8211; volveu Barbicane -, mas vamos utiliz&aacute;-<br \/>\n    la.<\/p>\n<p> Quando? &#8211; inquiriu Michel.<\/p>\n<p> Quando chegar o momento. Reparem, meus amigos, que, na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que est&aacute; o proj&eacute;til, posi&ccedil;&atilde;o ainda obl&iacute;qua<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao disco lunar, os foguetes poderiam alterarlhe a<br \/>\n    dire&ccedil;&atilde;o e afast&aacute;-lo em vez de aproxim&aacute;-lo da Lua.<\/p>\n<p> Ora, eu creio que &eacute; a Lua que pretendem atingir. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade? De prefer&ecirc;ncia &#8211; respondeu Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o esperem. Por qualquer raz&atilde;o inexplic&aacute;vel, o<br \/>\n    proj&eacute;til tende a voltar a base para a Terra. &Eacute; prov&aacute;vel<br \/>\n    que, no ponto de igual atra&ccedil;&atilde;o, o seu chap&eacute;u c&ocirc;nico<br \/>\n    esteja rigorosamente apontado para a Lua. Nesse momento, &eacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    poss&iacute;vel que a velocidade seja nula. Esse ser&aacute; o instante de<br \/>\n    agir; e, com a ajuda dos nossos foguetes, talvez possamos provocar uma queda<br \/>\n    direta na superf&iacute;cie do disco lunar.<\/p>\n<p> Bravo! &#8211; entusiasmou-se Michel.<\/p>\n<p> &#8211; 0 que n&atilde;o fizemos nem poder&iacute;amos ter feito na nossa primeira<br \/>\n    passagem pelo ponto neutro, porque o proj&eacute;til estava ainda animado<br \/>\n    de uma velocidade muito elevada.<\/p>\n<p> &#8211; Bem pensado &#8211; disse Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Aguardemos pacientemente &#8211; prosseguiu Barbicane. &#8211; Coloquemos todos os<br \/>\n    trunfos do nosso lado. Depois de tanto ter desesperado, come&ccedil;o a acreditar<br \/>\n    que alcan&ccedil;aremos o nosso objetivo! Este otimismo provocou os sonoros<br \/>\n    vivas de Michel Ardan.<\/p>\n<p> E nenhum daqueles audazes loucos se recordava j&aacute; das perguntas a<br \/>\n    que tinham dado uma resposta negativa: ?N&atilde;o! A Lua n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    habitada! N&atilde;o! A Lua nem provavelmente &eacute; habit&aacute;vel!?<br \/>\n    E, n&atilde;o obstante, iam fazer tudo para l&aacute; chegar! Faltava resolver<br \/>\n    um &uacute;nico problema: em que momento preciso atingiria o proj&eacute;til<br \/>\n    o ponto de igual atra&ccedil;&atilde;o, onde os viajantes arriscariam tudo?<br \/>\n    Para calcular, com a diferen&ccedil;a de alguns segundos, esse momento, Barbicane<br \/>\n    mais n&atilde;o tinha do que recorrer &agrave;s suas notas de viagem e extrair<br \/>\n    delas as diferentes alturas tomadas nos paralelos lunares. Deste modo, o tempo<br \/>\n    gasto a percorrer a dist&acirc;ncia que separava o ponto neutro e o p&oacute;lo<br \/>\n    sul devia ser igual &agrave; dist&acirc;ncia existente entre o p&oacute;lo<br \/>\n    norte e o ponto neutro. As horas que representavam os tempos observados no<br \/>\n    percurso estavam cuidadosamente anotadas, pelo que o c&aacute;lculo se tornava<br \/>\n    f&aacute;cil.<\/p>\n<p> Barbicane concluiu que o ponto neutro seria atingido &agrave; uma hora da<br \/>\n    madrugada de 8 de dezembro. Eram naquele momento tr&ecirc;s horas da madrugada<br \/>\n    de 7 de dezembro. Desta forma, se nada lhe perturbasse a marcha, o proj&eacute;til<br \/>\n    atingiria o ponto desejado dentro de vinte e duas horas.<\/p>\n<p> Os foguetes, que tinham sido concebidos para amortecer a queda. do proj&eacute;til<br \/>\n    na Lua, iam ent&atilde;o ser utilizados pelos ousados viajantes para obterem<br \/>\n    um efeito absolutamente contr&aacute;rio. Como quer que fosse, estavam prontos,<br \/>\n    e nada mais havia a fazer do que esperar pelo momento de lhes lan&ccedil;ar<br \/>\n    fogo.<\/p>\n<p> &#8211; Como n&atilde;o h&aacute; nada que fazer &#8211; disse Nicoles fa&ccedil;o uma<br \/>\n    proposta.<\/p>\n<p> Que proposta? &#8211; perguntou Barbicane.<\/p>\n<p> &#8211; Proponho que durmamos.<\/p>\n<p> &#8211; A esta hora! &#8211; disse Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; quarenta horas que n&atilde;o fechamos os olhos &#8211; lembrou Nicoles.<br \/>\n    &#8211; Algumas horas de sono ajudar a restabelecer as for&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca! &#8211; replicou Michel.<\/p>\n<p> &#8211; Bem &#8211; rematou Nicoles fa&ccedil;am o que entenderem! Eu vou dormir! E,<br \/>\n    deitando-se no div&atilde;, Nicoles n&atilde;o tardou a roncar como uma bala<br \/>\n    de quarenta e oito.<\/p>\n<p> &#8211; Este Nicoles; &eacute; um homem de ju&iacute;zo &#8211; disse da&iacute; a pouco<br \/>\n    Barbicane. &#8211; Vou seguir-lhe o exemplo.<\/p>\n<p> Instantes depois, secundava com o seu baixo cont&iacute;nuo o roncar abaritonado<br \/>\n    do capit&atilde;o.<\/p>\n<p> -, Decididamente &#8211; ponderou Michel Ardan, quando se viu sozinho -, estes<br \/>\n    homens pr&aacute;ticos saem-se &agrave;s vezes com id&eacute;ias oportunas.<\/p>\n<p> E, estendendo as compridas pernas, apoiando a cabe&ccedil;a nos grandes<br \/>\n    bra&ccedil;os, Michel Ardan acabou tamb&eacute;m por adormecer.<\/p>\n<p> Todavia, aquele sono n&atilde;o podia se nem prolonga sossegado.<\/p>\n<p> No esp&iacute;rito dos tr&ecirc;s homens agitavam-se demasiadas preocupa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pelo que, algumas horas depois, cerca das sete horas da manh&atilde;, estavam<br \/>\n    todos de p&eacute;.- 0 proj&eacute;til continuava a afastar-se da Lua, inclinando<br \/>\n    cada vez mais a sua parte c&ocirc;nica para o astro. Fen&ocirc;meno inexplic&aacute;vel<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o, mas que servia inteiramente os projetos de Barbicane.<\/p>\n<p> Mais dezessete horas e o momento de agir chegaria.<\/p>\n<p> Aquele dia parecia intermin&aacute;vel. Por muito audazes que fossem, os<br \/>\n    viajantes estavam vivamente impressionados com a aproxima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele instante em que tudo se decidiria: ou cairiam na Lua, ou ficavam eternamente<br \/>\n    acorrentados a uma &oacute;rbita imut&aacute;vel. Contaram, uma a uma, as<br \/>\n    horas, que passavam com uma lentid&atilde;o exasperante. Barbicane e Nicoles<br \/>\n    embrenharam-se obstinadamente nos seus c&aacute;lculos.<\/p>\n<p> Michel passeou de um lado para o outro, no estreito espa&ccedil;o existente<br \/>\n    entre as paredes do proj&eacute;til, lan&ccedil;ando &aacute;vidos olhares<br \/>\n    ao impass&iacute;vel sat&eacute;lite.<\/p>\n<p> Por vezes, recorda&ccedil;&otilde;es da Terra atravessavam-lhes rapidamente<br \/>\n    o esp&iacute;rito. Reviam os amigos do Clube do Canh &atilde;o, sobretudo<br \/>\n    o que lhes era mais caro, J. T. Maston.<\/p>\n<p> Naquele momento, o digno secret&aacute;rio devia estar no seu posto das<br \/>\n    montanhas Rochosas. Se acaso avistava o proj&eacute;til no espelho do seu<br \/>\n    gigantesco telesc&oacute;pio, que pen saria? &Eacute; que depois de t&ecirc;-lo<br \/>\n    visto desaparecer por detr&aacute;s do p&oacute;lo sul da Lua, via-o reaparecer<br \/>\n    pelo p&oacute;lo norte! Era, portanto, o sat&eacute;lite de um sat&eacute;lite!<br \/>\n    Teria J. T. Maston anunciado ao Mundo aquela inesperada not&iacute;cia? Seria<br \/>\n    aquele o desenlace da grande empresa?&#8230;<\/p>\n<p> Entretanto, o dia passou-se sem incidentes. A meia-noite terrestre chegou.<br \/>\n    0 dia 8 de dezembro ia come&ccedil;ar. Mais uma hora e o ponto de igual atra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria alcan&ccedil;ado. Que velocidade animava ent&atilde;o o proj&eacute;til?<br \/>\n    Era imposs&iacute;vel avali&aacute;- la. Mas nenhum erro iria fazer gorar<br \/>\n    os c&aacute;lculos de Barbicane.<\/p>\n<p> &Agrave; uma hora da manh&atilde;, a velocidade devia ser e seria nula.<\/p>\n<p> Por outro lado, um outro fen&ocirc;meno havia de assinalar a passagem do<br \/>\n    proj&eacute;til pela linha neutra. Ali, as duas atra&ccedil;&otilde;es, a<br \/>\n    terrestre e a lunar, anular-se-iam. Os objetos ?deixariam de ter peso?. Esse<br \/>\n    fato singular, que no percurso da ida tanto surpreendera Barbicane e os companheiros,<br \/>\n    devia ocorrer de novo no regresso em id&ecirc;nticas condi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Seria nesse exato momento que deviam atuar.<\/p>\n<p> -0 chap&eacute;u c&ocirc;nico estava j&aacute; sensivelmente voltado para<br \/>\n    o disco lunar, pelo que o proj&eacute;til se apresentava na posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ideal para o integral aproveitamento da for&ccedil;a de recuo produzida pela<br \/>\n    impuls&atilde;o dos foguetes. Os viajantes tinham, portanto, a seu favor todas<br \/>\n    as probabilidades de &ecirc;xito. Se a velocidade do proj&eacute;til fosse<br \/>\n    completamente anulada no ponto morto, qualquer movimento na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Lua, por muito ligeiro que se revelasse, bastaria para provocar a queda<br \/>\n    na superf&iacute;cie lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Faltam cinco minutos para uma &#8211; revelou Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; tudo a postos &#8211; volveu Michel Ardan, aproximando uma mecha<br \/>\n    da chama de g&aacute;s.<\/p>\n<p> Espera &#8211; disse Barbicane, com o cron&ocirc;metro na m&atilde;o. Naquele<br \/>\n    momento, a gravidade j&aacute; n&atilde;o produzia qualquer efeito.<\/p>\n<p> Os viajantes sentiam-lhe bem a aus&ecirc;ncia. Estavam muito perto do ponto<br \/>\n    neutro, se &eacute; que n&atilde;o o ,tinham mesmo atingido I &#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Uma hora! &#8211; anunciou Barbicane.<\/p>\n<p> Michel Ardan aproximou a mecha inflamada de um rastilho que acionava instantaneamente<br \/>\n    os foguetes. N&oacute; interior do proj&eacute;til, n&atilde;o se. ouviu nenhuma<br \/>\n    detona&ccedil;&atilde;o. Mas, pelas vigias, Barbicane avistou um clar&atilde;o,<br \/>\n    que depressa se extinguiu.<\/p>\n<p> 0 proj&eacute;til experimentou um certo abalo, que foi sentido no interior.<\/p>\n<p> Os tr&ecirc;s amigos se olhavam, escutavam sem falar, respirando apenas.<br \/>\n    Era poss&iacute;vel ouvir-lhes o bater do cora&ccedil;&atilde;o no meio de<br \/>\n    t&atilde;o absoluto sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Ca&iacute;mos? &#8211; perguntou por fim Michel Ardan.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &#8211; respondeu Nicoles -, visto que a base do proj&eacute;til<br \/>\n    n&atilde;o se voltou para o disco lunar.<\/p>\n<p> Entretanto, Barbicane, que abandonara as vigias, voltou-se para os dois<br \/>\n    companheiros. Estava horrivelmente p&aacute;lido, tinha a fronte enrugada<br \/>\n    e os l&aacute;bios contra&iacute;dos.<\/p>\n<p> &#8211; Ca&iacute;mos, sim! &#8211; disse ele.<\/p>\n<p> Ah!?- exclamou Michel Ardan &#8211; Para a Lua? Para a Terra! &#8211; respondeu Barbicane.<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que uma tremenda queda come&ccedil;ara. A velocidade<br \/>\n    que o proj&eacute;til conservava levara-o para al&eacute;m do ponto morto.<br \/>\n    A explos&atilde;o dos foguetes n&atilde;o o sustivera. Essa velocidade, que<br \/>\n    na ida arrastara o proj&eacute;til para fora da linha neutra, arrastava-o<br \/>\n    ainda no regresso. A f&iacute;sica impunha que, na sua &oacute;rbita el&iacute;ptica,<br \/>\n    o proj&eacute;til voltasse a passar por todos os pontos por onde j&aacute;<br \/>\n    passara.<\/p>\n<p> Era uma queda terr&iacute;vel, de setenta e oito mil l&eacute;guas de altura,<br \/>\n    que nenhuma mola poderia amortecer. De acordo com as leis da bal&iacute;stica,<br \/>\n    o proj&eacute;til devia se chocar com a Terra a uma velocidade igual &agrave;<br \/>\n    que o animava ao sair do columbiad, ou seja, a uma velocidade de ?dezesseis<br \/>\n    mil metros no &uacute;ltimo segundo!? Estamos perdidos &#8211; disse friamente Nicoles.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem; se morrermos &#8211; redarg&uuml;iu Barbicane, com uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de entusiasmo religioso -, o resultado da nossa viagem ser&aacute; magnificamente<br \/>\n    alargado! &Eacute; o Seu pr&oacute;prio se gredo que Deus nos revelar&aacute;!<br \/>\n    Na outra vida, a alma n&atilde;o necessitar&aacute;, para saber, de m&aacute;quinas<br \/>\n    ou de instrumentos, porque se identificar&aacute; com a sabedoria eterna!<br \/>\n    &#8211; De fato &#8211; comentou Michel Ardan -, o Outro Mundo todo &eacute; bem capaz<br \/>\n    de nos fazer esquecer esse astro &iacute;nfimo que se chama Lua.<\/p>\n<p> Barbicane cruzou os bra&ccedil;os sobre o peito, com um movimento de sublime<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o e exclamou: &#8211; Que o C&eacute;u nos guarde!<\/p>\n<h4><a name=\"28\" id=\"28\">Cap&iacute;tulo XII &#8211; As sondagens da Susquebanna<\/a><\/h4>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o, tenente, como vai a sondagem? &#8211; Creio, senhor, que a opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; perto do fim &#8211; respondeu o Tenente Bronsfield. &#8211; Mas quem havia<br \/>\n    de dizer que encontrar&iacute;amos uma tal profundidade t&atilde;o perto de<br \/>\n    terra, a uma centena de l&eacute;guas apenas da costa americana9 &#8211; Realmente,<br \/>\n    Bronsfield, &eacute; uma enorme depress&atilde;o &#8211; concordou o Capit&atilde;o<br \/>\n    Blomsberry. &#8211; Neste local h&aacute; um vale submarino escavado pela Corrente<br \/>\n    de Humboldt, que segue as costas da Am&eacute;rica at&eacute; o Estreito de<br \/>\n    Magalh&atilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Estas grandes profundidades &#8211; prosseguiu o tenente &#8211; s&atilde;o bem pouco<br \/>\n    favor&aacute;veis &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o dos cabos telegr&aacute;ficos.<\/p>\n<p> 0 ideal &eacute; uma plan&iacute;cie lisa, como aquela em que assenta o<br \/>\n    cabo americano entre Valentia e a Terra Nova.<\/p>\n<p> &#8211; Sem d&uacute;vida, Bronsfield. Mas, com sua licen&ccedil;a, em que ponto<br \/>\n    estamos? &#8211; Senhor &#8211; respondeu o tenente -, neste momento, temos vinte e um<br \/>\n    mil e quinhentos p&eacute;s de linha fora, e a bala da sonda ainda n&atilde;o<br \/>\n    tocou no fundo, porque, nesse caso, a sonda subiria por si pr&oacute;pria.<\/p>\n<p> &#8211; Engenhoso aparelho, o do tal Brook &#8211; disse o Capit&atilde;o Blomsberry.<br \/>\n    &#8211; Com ele, obt&ecirc;m-se sondagens de grande exatid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Fundo! &#8211; gritou um dos timoneiros da proa, que vigiava a opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Qual &eacute; a profundidade? &#8211; perguntou o Capit&atilde;o Blomsberry.<\/p>\n<p> &#8211; Qual &eacute; a profundidade? &#8211; perguntou o capit&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Vinte e um mil setecentos e sessenta e dois p&eacute;s &#8211; respondeu o tenente,<br \/>\n    anotando o n&uacute;mero na sua agenda.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, Bronsfield &#8211; disse o capit&atilde;o -, vou registrar esse resultado<br \/>\n    no meu mapa. Agora, mande i&ccedil;ar a sonda para bordo. &Eacute; trabalho<br \/>\n    para v&aacute;rias horas. Entretanto, o maquinista que acenda as fornalhas,<br \/>\n    a fim de que estejamos prontos para partir logo que terminem. S&atilde;o dez<br \/>\n    horas da noite, tenente. Vou-me deitar.<\/p>\n<p> &#8211; Faz muito bem, senhor! &#8211; replicou cortesmente o Tenente Bronsfield.<\/p>\n<p> 0 capit&atilde;o da Susquehanna, um homem bom como poucos, e um humilde<br \/>\n    servidor dos seus oficiais, regressou ao camarote, tomou um gole de aguardente,<br \/>\n    o que mereceu do despenseiro intermin&aacute;veis mostras de satisfa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    deitou- se, n&atilde;o sem ter saudado o seu camareiro pelo modo como fazia<br \/>\n    a cama, e adormeceu profunda e pacificamente.<\/p>\n<p> Eram ent&atilde;o dez horas da noite. 0 d&eacute;cimo primeiro dia do m&ecirc;s<br \/>\n    de dezembro ia terminar numa magn&iacute;fica noite.<\/p>\n<p> A Susquehanna, corveta de quinhentos cavalos, da marinha dos Estados Unidos,<br \/>\n    procedia as sondagens no Pac&iacute;fico, aproximadamente a cem l&eacute;guas<br \/>\n    da costa americana, frente &agrave; alongada pen&iacute;nsula que se destaca<br \/>\n    da costa do Novo M&eacute;xico.<\/p>\n<p> 0 vento amainara pouco a pouco. N&atilde;o havia a menor perturba &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nas camadas atmosf&eacute;ricas. A fl&acirc;mula da corveta, im&oacute;vel,<br \/>\n    pendia inerte do mastar&eacute;u do joanete.<\/p>\n<p> 0 Capit&atilde;o Jonathan Blomsberry &#8211; primo direto do Coronel Blomsberry,<br \/>\n    um dos membros mais ardentes do Clube do Canh&atilde;o, que desposara uma<br \/>\n    Horschbidden, tia do capit&atilde;o e filha de um honrado comerciante do Kentucky<br \/>\n    -, o Capit &atilde;o Blomsberry, diz&iacute;amos, n&atilde;o poderia ter desejado<br \/>\n    melhor tempo para levar a bom termo as delicadas opera&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    sondagem. A sua corveta nem mesmo tinha sentido a enorme tempestade que, varrendo<br \/>\n    as nuvens amontoadas sobre as Montanhas Rochosas, havia de permitir que se<br \/>\n    observasse a marcha do famoso proj&eacute;til. Tudo corria de fei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e ele, com o fervor de um presbiteriano, n&atilde;o se cansava de agradecer<br \/>\n    ao C&eacute;u essa gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> A s&eacute;rie de sondagens levadas ao cabo pela Susquehanna tinha por fim<br \/>\n    reconhecer os fundos mais prop&iacute;cios ao estabelecimento de um cabo submarino,<br \/>\n    que devia ligar as ilhas Hava&iacute; &agrave; costa americana.<\/p>\n<p> Era um importante projeto, devido &agrave; iniciativa de uma poderosa companhia,<br \/>\n    cujo diretor, o inteligente Cyrus Field, planejara mesmo dotar todas as ilhas<br \/>\n    da Oce&acirc;nica com unia vasta rede el&eacute;trica, empresa grandiosa e<br \/>\n    digna do g&ecirc;- nio americano.<\/p>\n<p> &Agrave; corveta Susquehanna estavam justamente confiadas as primeiras opera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de sondagem. Durante a noite de 11 para 12 de, dezembro, a sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era exatamente a seguinte: 270 7&#8242; de latitude norte e 410 37&#8242; de longitude<br \/>\n    a oeste do meridiano de Washington.<\/p>\n<p> A Lua, na altura no &uacute;ltimo quarto, despontava no horizonte.<\/p>\n<p> Depois da retirada do Capit&atilde;o Blomsberry, o Tenente Bronsfield reuniu-se<br \/>\n    com outros oficiais no tombadilho. 0 aparecimento da Lua fez com que devotassem<br \/>\n    todos os seus pensamentos ao astro, que os olhos de um hemisf&eacute;- rio<br \/>\n    inteiro ent&atilde;o contemplavam. Os melhores bin&oacute;culos de marinha<br \/>\n    n&atilde;o poderiam descortinar o proj&eacute;til que errava em torno do globo<br \/>\n    lunar. Contudo todos estavam assestados na dire&ccedil;&atilde;o do disco<br \/>\n    cintilante, que milh&otilde;es de olhares miravam ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Partiram h&aacute; dez dias &#8211; disse em dado momento o Tenente Bronsfield.<br \/>\n    &#8211; Que lhes ter&aacute; acontecido? &#8211; Chegaram, meu tenente! &#8211; exclamou um<br \/>\n    jovem aspirante -, e fazem o que faz todo o viajante que chega a um novo pa&iacute;s:<br \/>\n    passeiam i &#8211; Estou certo disso, visto que &eacute; voc&ecirc; que me diz,<br \/>\n    meu jovem amigo &#8211; comentou, sorridente, o Tenente Bronsfield.<\/p>\n<p> &#8211; No entanto &#8211; continuou outro oficial -, n&atilde;o se pode p&ocirc;r em<br \/>\n    d&uacute;vida que chegaram. 0 proj&eacute;til deve ter atingido a Lua no momento<br \/>\n    em que estava cheia, no dia 5 &agrave; meia-noite: Estamos a 11 de dezembro,<br \/>\n    o que perfaz seis dias. Ora, seis vezes vinte e quatro horas, sem obscuridade,<br \/>\n    h&aacute; tempo de sobra para uma pessoa se instalar confortavelmente.<\/p>\n<p> Parece que estou vendo os nossos corajosos viajantes acampados no fundo<br \/>\n    de um vaie, na margem de um rio lunar, perto do proj&eacute;til semi enterrado<br \/>\n    nos fragmentos vulc &acirc;nicos: o Capit&atilde;o Nicoles come&ccedil;ando<br \/>\n    as suas opera&ccedil;&otilde;es de nivelamento, o Presidente Barbicane a passar<br \/>\n    a limpo as notas de viagem e Michel Ardan a perfumar as solid&otilde;es lunares<br \/>\n    com o aroma das suas cigarrilhas.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, deve ter sido assim; foi assim! &#8211; exclamou o jovem aspirante, entusiasmado<br \/>\n    com a bela descri&ccedil;&atilde;o do superior.<\/p>\n<p> &#8211; Quero acreditar nisso &#8211; declarou o Tenente Bronsfield, que n&atilde;o<br \/>\n    se entusiasmava t&atilde;o facilmente. &#8211; Infelizmente, nunca teremos not&iacute;cias<br \/>\n    diretas do mundo lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o, meu tenente &#8211; objetou o aspirante -; ent&atilde;o o Presidente<br \/>\n    Barbicane n&atilde;o pode escrever? Uma gargalhada geral acolheu esta pergunta.<\/p>\n<p> &#8211; N&#038;atiatilde;o me refiro a cartas &#8211; precisou vivamente o jovem.<\/p>\n<p> &#8211; A administra&ccedil;&atilde;o dos correios n&atilde;o &eacute; para aqui<br \/>\n    chamada.<\/p>\n<p> &#8211; E a administra&ccedil;&atilde;o das linhas telegr&aacute;ficas? &#8211; inquiriu<br \/>\n    ironicamente um dos oficiais.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m n&atilde;o &#8211; respondeu o aspirante, que n&atilde;o desarmava.<\/p>\n<p> &#8211; Mas &eacute; f&aacute;cil estabelecer comunica&ccedil;&otilde;es gr&aacute;ficas<br \/>\n    com a Terra.<\/p>\n<p> &#8211; Ah, sim! E como? &#8211; Atrav&eacute;s do telesc&oacute;pio de Long?s Peak.<br \/>\n    Bem sabe que ele pode aproximar a Lua a duas l&eacute;guas das Montanhas Rochosas,<br \/>\n    o que permite ver na superf&iacute;cie lunar objetos que tenham nove p&eacute;s<br \/>\n    de di&acirc;metro. Pois bem; bastava que os nossos engenhosos amigos constru&iacute;ssem<br \/>\n    um gigantesco alfabeto! Que escrevessem palavras de cem toesas de comprimento<br \/>\n    e frases de uma l&eacute;gua, para poderem enviarnos not&iacute;cias.<\/p>\n<p> 0 jovem aspirante foi ruidosamente aplaudido, j&aacute; que imagina &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o lhe faltava. 0 pr&oacute;prio Tenente Bronsfield acabou por concordar<br \/>\n    que a id&eacute;ia at&eacute; era realiz&aacute;vel, e acrescentou que, atrav&eacute;s<br \/>\n    da emiss&atilde;o de feixes de raios luminosos, por meio de espelhos parab&oacute;licos,<br \/>\n    se conseguiria tamb &eacute;m estabelecer comunica&ccedil;&otilde;es diretas.<br \/>\n    De fato, esses raios seriam t&atilde;o vis&iacute;veis em V&ecirc;nus e Marte<br \/>\n    como o &eacute; da Terra o planeta Netuno. Acabou por dizer que os pontos<br \/>\n    brilhantes j&aacute; observados nos planetas mais pr&oacute;ximos poderiam<br \/>\n    muito bem ser sinais feitos &agrave; Terra. Contudo, observou ainda que, se<br \/>\n    por aquele meio ? se pudessem conseguir, not&iacute;cias do mundo lunar, n&atilde;o<br \/>\n    era poss&iacute;vel enviar para l&aacute; not&iacute;cias do mundo terrestre,<br \/>\n    a menos que os selenitas tivessem &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o instrumentos<br \/>\n    apropriados &agrave;s observa&ccedil;&otilde;es a grande dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Evidentemente &#8211; volveu um dos oficiais. &#8211; Mas o que sobretudo nos deve<br \/>\n    interessar &eacute; o que aconteceu aos viajantes, o que fizeram e o que viram.<br \/>\n    Se a experi&ecirc;ncia for coroada de &ecirc;xito, do que n&atilde;o duvido,<br \/>\n    ser&aacute; repetida. 0 columbiad continua embutido no solo da F16rida. &Eacute;<br \/>\n    apenas uma quest&atilde;o de p&oacute;lvora e de proj&eacute;teis, e todas<br \/>\n    as vezes que a Lua passar pelo z&ecirc;nite poder-se-lhe-&aacute; enviar um<br \/>\n    ?carregamento ? de visitantes.<\/p>\n<p> &#8211; 0 evidente &#8211; disse o Tenente Bronsfield &#8211; &eacute; que J.T. Maston ir&aacute;<br \/>\n    juntar-se, um destes dias, aos seus amigos.<\/p>\n<p> &#8211; Se ele me quiser &#8211; garantiu o aspirante -, estou pronto para acompanh&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! volunt&aacute;rios n&atilde;o faltar&atilde;o &#8211; replicou Bronsfield.<\/p>\n<p> &#8211; Metade dos habitantes da Terra, se os deixarem, ter&atilde;o em breve<br \/>\n    emigrado para a Lua! Esta conversa entre os oficiais da Susquehanna prolongouse<br \/>\n    at&eacute; muito perto da uma hora da manh&atilde;. Seria dif&iacute;cil relatar<br \/>\n    os assombrosos sistemas, as espantosas teorias que foram emitidas por aqueles<br \/>\n    audaciosos esp&iacute;ritos. Depois da experi&ecirc;ncia que Barbicane intentara,<br \/>\n    nada parecia imposs&iacute;- vel aos americanos. J&aacute; projetavam expedir<br \/>\n    n&atilde;o uma comiss &atilde;o de s&aacute;bios, mas uma col&ocirc;nia inteira,<br \/>\n    e um ex&eacute;rcito completo, com infantaria, artilharia, para conquistar<br \/>\n    o mundo lunar.<\/p>\n<p> &Agrave; uma hora da manh&atilde;, a sonda ainda n&atilde;o estava completamente<br \/>\n    i&ccedil;ada. Faltavam dez mil p&eacute;s, o que requeria ainda um trabalho<br \/>\n    de v&aacute;rias horas. Tal como o comandante havia ordenado, as fornalhas<br \/>\n    haviam sido acessas, e a press&atilde;o subia. A Susquehanna poderia partir<br \/>\n    no mesmo instante.<\/p>\n<p> Naquele momento &#8211; era uma hora e dezessete minutos da manh&atilde; -, dispunha-se<br \/>\n    o Tenente Bronsf&iacute;eld a deixar o tombadilho e a se recolher ao seu camarote,<br \/>\n    quando um silvo long&iacute;nquo e perfeitamente inesperado lhe despertou<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ele e os camaradas come&ccedil;aram por atribuir aquele silvo a uma fuga<br \/>\n    de vapor. Mas, levantando a cabe&ccedil;a, aperceberam- se de que tal rumor<br \/>\n    se produzia nas camadas mais elevadas da atmosfera.<\/p>\n<p> N&atilde;o tiveram tempo para se interrogar. 0 silvo ganhara uma assustadora<br \/>\n    intensidade, e de s&uacute;bito apareceu-lhes, diante dos olhos deslumbrados,<br \/>\n    um enorme b&oacute;lide, inflamado pela velocidade da queda e pelo atrito<br \/>\n    nas camadas atmosf&eacute;ricas.<\/p>\n<p> A massa &iacute;gnea avolumou-se, caiu com barulho sobre o gurup&eacute;s<br \/>\n    da corveta, partindo-o rente pela roda da proa, e afundou-se nas ondas com<br \/>\n    um rumor de ensurdecer.<\/p>\n<p> Alguns p&eacute;s mais perto, e a Susquehanna so&ccedil;obraria com vidas<br \/>\n    e bens.<\/p>\n<p> Nesse instante, o Capit&atilde;o Blomsberry apareceu semi vestido, e, precipitando-se<br \/>\n    para o castelo da proa, para onde tinham corrido os oficiais, perguntou: &#8211;<br \/>\n    Com licen&ccedil;a, meus senhores; que aconteceu? E o aspirante, fazendo-se<br \/>\n    por assim dizer eco de todos, exclamou: 1 &#8211; Meu comandante, s&atilde;o eles<br \/>\n    que voltam!<\/p>\n<h4><a name=\"29\" id=\"29\">Cap&iacute;tulo XIII &#8211; J. T. Maston volta &agrave; cena<\/a><\/h4>\n<p>emo&ccedil;&atilde;o foi grande a bordo da Susquehanna. Oficiais e marinheiros<br \/>\n    esqueciam o terr&iacute;vel perigo que acabavam de correr, o quanto estiveram<br \/>\n    perto de ser esmagados e de ir a pique. S&oacute; se lembravam da cat&aacute;strofe<br \/>\n    que culminava aquela viagem. A mais audaciosa empresa de todos os tempos exigira,<br \/>\n    como tributo, a vida dos audazes aventureiros que a intentaram.<\/p>\n<p> ?S&atilde;o eles que voltam?, dissera o jovem aspirante, e todos o compreenderam.<br \/>\n    Ningu&eacute;m duvidava que o b&oacute;lide fosse o proj&eacute;til do Clube<br \/>\n    do Canh&atilde;o. Quanto &agrave; sorte dos viajantes, as opini&otilde;es<br \/>\n    dividiam-se.<\/p>\n<p> &#8211; Est&atilde;o mortos! &#8211; garantia um.<\/p>\n<p> &#8211; Est&atilde;o vivos &#8211; teimava outro. &#8211; As &aacute;guas s&atilde;o profundas<br \/>\n    e amorteceram-lhes a queda.<\/p>\n<p> &#8211; Mas faltou-lhes o ar &#8211; opinava ainda outro -, e morreram com certeza asfixiados!<br \/>\n    &#8211; Queimados! &#8211; exclamavam outros. &#8211; 0 proj&eacute;til, ao atravessar a atmosfera,<br \/>\n    nada mais era do que uma massa incandescente.<\/p>\n<p> &#8211; Que importa! &#8211; conclu&iacute;ram por unanimidade. &#8211; Vivos ou mortos, o<br \/>\n    importante &eacute; tir&aacute;-los de l&aacute;.<\/p>\n<p> Entretanto, o Capit&atilde;o Blomsberry reunira os oficiais e, com a concord&acirc;ncia<br \/>\n    de todos, conduzia o conselho. Tratava-se de tomar uma r&aacute;pida decis&atilde;o.<br \/>\n    0 mais urgente era pescar o proj&eacute;til. A opera&ccedil;&atilde;o era<br \/>\n    dif&iacute;cil, mas n&atilde;o imposs&iacute;vel. Faltavam, por&eacute;m,<br \/>\n    &agrave; corveta os engenhos necess&aacute;rios, que teriam de ser simultaneamente<br \/>\n    possantes e precisos. Resolveu- se, portanto, demandar o porto mais pr&oacute;ximo<br \/>\n    e avisar o Clube do Canh&atilde;o da queda do referido proj&eacute;til.<\/p>\n<p> Esta resolu&ccedil;&atilde;o foi tomada por unanimidade. A escolha do porto<br \/>\n    levantou alguma discuss&atilde;o. &Eacute; que a costa vizinha n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;a qualquer ancoradouro no vig&eacute;simo s&eacute;timo grau<br \/>\n    de latitude. Mais acima, para al&eacute;m da pen&iacute;nsula de Monterey,<br \/>\n    localizava-se a importante cidade que lhe. deu o nome.<\/p>\n<p> Mas, constru&iacute;da nos confins de um verdadeiro deserto, nem sequer<br \/>\n    estava ligada ao interior por uma rede telegr&aacute;fica, e s&oacute; a eletricidade<br \/>\n    podia difundir com a necess&aacute;ria rapidez aquela grave not&iacute;cia.<\/p>\n<p> Alguns graus mais al&eacute;m, abria-se a ba&iacute;a de S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> A partir da capital da regi&atilde;o do ouro, as comunica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com o centro da Uni&atilde;o eram f&aacute;ceis?. A todo o vapor, a Susquehanna<br \/>\n    chegaria ao porto de S&atilde;o Francisco em menos de dois dias. A corveta<br \/>\n    devia, portanto, zarpar sem demora.<\/p>\n<p> As caldeiras estavam sob press&atilde;o. Podia-se partir imediatamente.<\/p>\n<p> Havia ainda no fundo duas mil bra&ccedil;as de sonda. 0 Capit&atilde;o Blomsberry,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o quis perder um tempo precioso a i&ccedil;&aacute;-la<br \/>\n    e resolveu mandar cortar a linha.<\/p>\n<p> &#8211; Prender-lhe-emos a ponta a uma b&oacute;ia &#8211; sugeriu ele -, e esta sinalizar&aacute;<br \/>\n    o ponto exato onde caiu o proj&eacute;til.<\/p>\n<p> &#8211; De resto &#8211; acrescentou o Tenente Bronsfield sabemos qual &eacute;, rigorosamente,<br \/>\n    a nossa posi&ccedil;&atilde;o: vinte e sete graus e sete minutos de latitude<br \/>\n    norte por quarenta e um graus e trinta e sete minutos de longitude oeste.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, senhor Bronsfield &#8211; prosseguiu o capit&atilde;o pe&ccedil;o licen-<br \/>\n    &ccedil;a para lhe recomendar que mande cortar a linha. Uma resistente b&oacute;ia,<br \/>\n    refor&ccedil;ada com um par de chapas, foi lan&ccedil;ada ao mar. A ponta<br \/>\n    da linha foi-lhe solidamente fixada por cima.<\/p>\n<p> Aquela b&oacute;ia, sujeita apenas &agrave; oscila&ccedil;&atilde;o da vaga,<br \/>\n    n&atilde;o devia derivar muito.<\/p>\n<p> Foi nessa altura que o engenheiro mandou prevenir o capit &atilde;o que<br \/>\n    havia press&atilde;o e que, conseq&uuml;entemente, podiam partir. 0 capit&atilde;o<br \/>\n    enviou-lhe os seus agradecimentos por esta excelente comunica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Depois fixou a rota na dire&ccedil;&atilde;o nor-nordeste. A corveta manobrou<br \/>\n    e dirigiu-se a todo o vapor para a ba&iacute;a de S&atilde;o Francisco. Eram<br \/>\n    tr&ecirc;s horas da manh&atilde;.<\/p>\n<p> Um percurso de duzentas l&eacute;guas n&atilde;o era grande coisa para um<br \/>\n    navio r&aacute;pido como a Susquehanna. Bastariam trinta e seis horas para<br \/>\n    devorar aquela dist&acirc;ncia. Assim, treze horas e vinte e sete minutos<br \/>\n    da tarde do dia 14 de dezembro, entrava em S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> &Agrave; vista daquele navio da marinha nacional, que chegava a grande velocidade,<br \/>\n    com o gurup&eacute;s raso e o mastro do traquete escorado, atraiu singularmente<br \/>\n    a curiosidade p&uacute;- blica. Uma multid&atilde;o compacta amontoou-se de<br \/>\n    imediato no cais, para seguir de perto o desembarque.<\/p>\n<p> Depois de fundearem, o Capit&atilde;o Blomsberry e o Tenente Bronsf&iacute;eld<br \/>\n    desceram para um escaler de oito remos, que os p&ocirc;s rapidamente em terra.<\/p>\n<p> Saltaram para o cais.<\/p>\n<p> &#8211; 0 tel&eacute;grafo? &#8211; perguntaram, sem responder &agrave;s mil perguntas<br \/>\n    que lhes eram dirigidas.<\/p>\n<p> Foi o pr&oacute;prio capit&atilde;o do porto que os conduziu &acirc; esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    telegr&aacute;fica, no meio de uma imensa multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Blomsberry e Bronsfield entraram na esta&ccedil;&atilde;o, enquanto a multid&atilde;o<br \/>\n    se acotovelava &agrave; porta.<\/p>\n<p> Minutos mais tarde, um despacho em quadruplicado foi expedido: o primeiro<br \/>\n    para o secret&aacute;rio da Marinha, Washington; o segundo para o vice-presidente<br \/>\n    do Clube do Canh &atilde;o, Baltimore; o terceiro para o digno J. T. Maston,<br \/>\n    Long?s Peak, Montanhas Rochosas; e o quarto para o subdiretor do Observat&oacute;rio<br \/>\n    de Cambridge, Massachussets.<\/p>\n<p> Estava concebido nestes tempos: ?A 200 7&#8242; latitude norte por 410 37&#8242; longitude<br \/>\n    oeste, em 12 de dezembro, &agrave; uma hora e dezessete minutos, proj&eacute;til<br \/>\n    columbiad caiu Pac&iacute;fico.<\/p>\n<p> Enviem instru&ccedil;&otilde;es. Blomsberry, comandante Susquehanna.<\/p>\n<p> Cinco minutos depois, toda a cidade de S&atilde;o Francisco sabia o que<br \/>\n    se passara. Antes das seis da tarde, os restantes Estados da Uni&atilde;o<br \/>\n    tiveram conhecimento de cat&aacute;strofe.<\/p>\n<p> Depois da meia-noite, atrav&eacute;s do cabo telegr&aacute;fico, toda a<br \/>\n    Europa sabia o resultado da grande experi&ecirc;ncia americana.<\/p>\n<p> Renunciamos a descrever o efeito produzido em todo o Mundo por aquele inesperado<br \/>\n    desenlace.<\/p>\n<p> Logo que recebeu o despacho, o secret&aacute;rio da Marinha ordenou por<br \/>\n    tel&eacute;grafo ao Susquehanna para se manter na ba&iacute;a de S&atilde;o<br \/>\n    Francisco, com as caldeiras sob press&atilde;o. Dia e noite devia estar pronta<br \/>\n    a fazer-se ao mar.<\/p>\n<p> 0 Observat&oacute;rio de Cambridge reuniu-se em sess&atilde;o extraordin<br \/>\n    &aacute;ria, e, com a peculiar serenidade que distingue as corpora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de s&aacute;bios, discutiu paulatinamente a quest&atilde;o sob o ponto de<br \/>\n    vista cient&iacute;fico.<\/p>\n<p> No Clube do Canh&atilde;o houve explos&atilde;o. Os artilheiros estavam<br \/>\n    todos reunidos. 0 vice-presidente, o dign&iacute;ssimo Wilcome, lia precisamente<br \/>\n    aquele prematuro telegrama, no qual J. T. Maston e Belfast anunciavam que<br \/>\n    o proj&eacute;til acabava de ser avistado no gigantesco refletor de Long?s<br \/>\n    Peak.<\/p>\n<p> Esta comunica&ccedil;&atilde;o afirmava, ainda por cima, que o proj&eacute;til,<br \/>\n    retido pela atra&ccedil;&atilde;o da Lua, desempenhava o papel de subsat&eacute;lite<br \/>\n    do mundo solar.<\/p>\n<p> &#8211; Sabemos agora que o aconteceu na realidade.<\/p>\n<p> Entretanto, a chegada do despacho de Blomsberry, que t&atilde;o formalmente<br \/>\n    contradizia o telegrama de J. T. Maston, provocou a divis&atilde;o no seio<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o. Formaram- se dois partidos. De um lado, o das pessoas<br \/>\n    que admitiam a queda do proj&eacute;til e, conseq&uuml;entemente, o regresso<br \/>\n    dos viajantes. Do outro, o dos que, fazendo f&eacute; nas observa &ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Long?s Peak, opinavam que o comandante da Susquehanna errara. Para estes<br \/>\n    &uacute;ltimos, o suposto proj&eacute;til n&atilde;o passava de um b&oacute;lide,<br \/>\n    nada mais do que um b&oacute;lide, um globo cadente que, na sua queda, atingira<br \/>\n    e avariara a proa da corveta. N&atilde;o se sabia l&aacute; muito bem como<br \/>\n    rebater tal argumenta&ccedil;&atilde;o, porque a velocidade de que o corpo<br \/>\n    ia animado devia ter dificultado a sua observa&ccedil;&atilde;o. Da&iacute;<br \/>\n    que o comandante e os oficiais da Susquehanna pudessem terse enganado, de<br \/>\n    boa-f&eacute;, embora. Contudo, havia um argumento que militava a seu favor:<br \/>\n    &eacute; que se o proj&eacute;til tivesse ca&iacute;do em terra, o embate<br \/>\n    com o esfer&oacute;ide terrestre s&oacute; poderia ter ocorrido no vig&eacute;simo<br \/>\n    s&eacute;timo grau de latitude norte, e &#8211; tendo em conta o tempo decorrido<br \/>\n    e o movimento de rota&ccedil;&atilde;o da Terra &#8211; entre o quadrag&eacute;simo<br \/>\n    primeiro e o quadrag&eacute;simo segundo grau de latitude oeste.<\/p>\n<p> Como quer que fosse, o Clube do Canh&atilde;o decidiu por unanimidade que<br \/>\n    o irm&atilde;o de Blomsberry, Bilsby e o Major Elphiston se dirigissem sem<br \/>\n    demora para S&atilde;o Francisco, e, uma vez l&aacute; chegados, arranjassem<br \/>\n    os meios de retirar o proj&eacute;til das profundezas do oceano.<\/p>\n<p> Esses dedicados homens partiram de imediato, estrada de ferro, que em breve<br \/>\n    atravessaria toda a Am&eacute;rica Central, levou-os a Saint-Louis, onde os<br \/>\n    esperava um r&aacute;pido coachmail.<\/p>\n<p> Justamente no mesmo instante em que o secret&aacute;rio da Marinha, o vice-presidente<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o e o subdiretor do Observat&oacute;rio de Cambridge<br \/>\n    recebiam o despacho de S&atilde;o Francisco, experimentava o digno J. T. Maston<br \/>\n    a mais violenta emo&ccedil;&atilde;o de toda a sua vida &#8211; emo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que nem a explos&atilde;o do seu c&eacute;lebre morteiro lhe causara, e que<br \/>\n    por pouco lhe ia custando a vida.<\/p>\n<p> 0 leitor lembra-se, por certo, de que o secret&aacute;rio do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    partira alguns instantes depois do proj&eacute;til &#8211; e qua ? se t&atilde;o<br \/>\n    depressa como este &#8211; para a esta&ccedil;&atilde;o de Long?s Peak, nas Montanhas<br \/>\n    Rochosas. 0 s&aacute;bio J. Belfast, diretor do Observat&oacute;rio de Cambridge,<br \/>\n    acompanhava-o. Assim que chegaram, os dois amigos instalaram-se sumariamente<br \/>\n    e nunca mais deixaram o cimo do enorme telesc&oacute;pio.<\/p>\n<p> Sabe-se que o gigantesco instrumento fora concebido segundo o sistema de<br \/>\n    refletores a que os ingleses chamam front view. Esta disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fazia com que os objetos sofressem uma s&oacute; reflex&atilde;o, tornando-os,<br \/>\n    conseq&uuml;entemente, mais n&iacute;tidos. Deste fato resulta que J. T. Maston<br \/>\n    e Belfast, para procederem &agrave;s observa&ccedil;&otilde;es, tinham de<br \/>\n    se colocar na parte superior do instrumento e n&atilde;o na parte inferior.<br \/>\n    Subiam at&eacute; l&aacute; atrav&eacute;s de uma escada de caracol, obra-prima<br \/>\n    de leveza. Por baixo, abria-se-lhes um verdadeiro po&ccedil;o de metal, cujo<br \/>\n    fundo era um espelho met&aacute;lico, e que tinha duzentos e oitenta p&eacute;s<br \/>\n    de profundidade.<\/p>\n<p> Ora, era na estreita plataforma, que circundava o cimo do telesc&oacute;pio,<br \/>\n    que os dois s&aacute;bios passavam a vida a maldizer a luz do dia que lhes;<br \/>\n    escondia da vista, a Lua, e as nuvens que a velavam durante a noite.<\/p>\n<p> Imagine-se, portanto, qual foi a sua alegria, quando, decorridos alguns<br \/>\n    longos dias de espera, avistaram o ve&iacute;culo que transportava os amigos<br \/>\n    no espa&ccedil;o. Esta alegria deu lugar a uma profunda decep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando, fiando-se em observa &ccedil;&otilde;es incompletas, puseram a correr<br \/>\n    mundo a errada afirma&ccedil;&atilde;o de que o proj&eacute;til se tornara<br \/>\n    um sat&eacute;lite da Lua, gravitando numa &oacute;rbita imut&aacute;vel.<\/p>\n<p> Desde aquele instante, o proj&eacute;til desaparecera, desaparecimento tanto<br \/>\n    mais explic&aacute;vel quanto &eacute; certo que passava, naquela altura,<br \/>\n    por detr&aacute;s do disco vis&iacute;vel da Lua. Avalie-se ent&atilde;o a<br \/>\n    impaci&ecirc;ncia do impetuoso J. T. Maston e do n&atilde;o menos ardoroso<br \/>\n    companheiro, quando chegou o momento em que o proj&eacute;til devia reaparecer<br \/>\n    sobre o disco vis&iacute;vel! A cada minuto da noite procuraram avist&aacute;-lo<br \/>\n    de novo, mas debalde! Desta frustra&ccedil;&atilde;o resultaram discuss&otilde;es<br \/>\n    incessantes e violentas entre. eles. Belfast afirmava que o proj&eacute;til<br \/>\n    n&atilde;o estava vis&iacute;vel, enquanto J. T. Maston sustentava que ele<br \/>\n    ?se lhe metia pelos olhos dentro!? &#8211; &Eacute; o proj&eacute;til! &#8211; insistiu<br \/>\n    J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Que proj&eacute;til! _? negava Belfast. &#8211; &Eacute; uma avalancha que rola<br \/>\n    por alguma montanha lunar.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, v&ecirc;-lo-emos amanh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o! Nunca mais o veremos1 Desapareceu no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! &#8211; N&atilde;o! E naqueles momentos em que as inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    choviam como granizo, a bem conhecida irritabilidade do secret&aacute;rio<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o constitu&iacute;a um permanente perigo para o estim<br \/>\n    &aacute;vel Belfast.<\/p>\n<p> Aquela exist&ecirc;ncia a dois cedo se tornaria imposs&iacute;vel se um<br \/>\n    inesperado acontecimento n&atilde;o viesse cortar as constantes discuss&otilde;es.<\/p>\n<p> Na noite de 14 para 15 de dezembro, os dois irreconcili&aacute;- veis amigos<br \/>\n    estavam ocupados em observar o disco &#8211; lunar.<\/p>\n<p> Como era h&aacute;bito, J. T. Maston injuriava o s&aacute;bio Belfast, que,<br \/>\n    por seu lado, lhe respondia ao p&eacute; da letra. 0 secret&aacute;rio do<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o teimava, pela mil&eacute;sima vez, que tinha avistado<br \/>\n    o proj&eacute;til, acrescentando mesmo que conseguira divisar a cara de Michel<br \/>\n    Ardan atrav&eacute;s de uma das vigias.<\/p>\n<p> Em dado momento, o criado de Belfast apareceu na plataforma &#8211; eram dez horas<br \/>\n    da noite &#8211; e entregou-lhe o telegrama enviado pelo comandante da Susquehanna.<\/p>\n<p> Belfast rasgou o envelope, leu e soltou um grito.<\/p>\n<p> &#8211; Hem! &#8211; fez J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; 0 proj&eacute;til! &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; Caiu na Terra! Um novo grito, um<br \/>\n    verdadeiro urro desta vez, respondeulhe.<\/p>\n<p> Belfast voltou-se para J. T. Maston. 0 infeliz, imprudentemente debru&ccedil;ado<br \/>\n    no tubo de metal, desaparecera no imenso telesc&oacute;pio. Uma queda de duzentos<br \/>\n    e oitenta p&eacute;s! Belfast, fora de si, precipitou-se para a abertura do<br \/>\n    refletor.<\/p>\n<p> Respirou. J. T. Maston, pendurado pelo seu gancho de metal, estava suspenso<br \/>\n    num dos esteios que mantinham o afastamento do telesc&oacute;pio, de onde<br \/>\n    soltava formid&aacute;veis berros.<\/p>\n<p> Belfast clamou pelos ajudantes, que n&atilde;o tardaram a acorrer.<\/p>\n<p> Montaram talhas e i&ccedil;aram a custo o imprudente secret &aacute;rio<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> Um quarto de hora depois, os dois s&aacute;bios desciam a vertente das Montanhas<br \/>\n    Rochosas, e dois dias mais tarde chegavam, ao mesmo tempo que os seus amigos<br \/>\n    do Clube do Canh&atilde;o, a S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> Elphiston, o irm&atilde;o de Blomsberry e Bilsby precipitaram-se ao encontro<br \/>\n    deles, assim que chegaram.<\/p>\n<p> &#8211; Que vamos fazer? &#8211; perguntaram.<\/p>\n<p> &#8211; Tirar da &aacute;gua o proj&eacute;til &#8211; respondeu J. T. Maston -, e o<br \/>\n    mais depressa poss&iacute;vel!<\/p>\n<h4><a name=\"30\" id=\"30\">Cap&iacute;tulo XIV &#8211; O salvamento<\/a><\/h4>\n<p>O local onde o proj&eacute;til se afundara estava devidamente assinalado.<br \/>\n    Faltavam, por&eacute;m, os instrumentos para o agarrar e trazer &agrave; superf&iacute;cie.<br \/>\n    Era preciso conceb&ecirc;-los e depois fabric&aacute;-los. Os engenheiros<br \/>\n    americanos n&atilde;o podiam sentirse embara&ccedil;ados com t&atilde;o pouco.<br \/>\n    Estavam certos de i&ccedil;ar o proj&eacute;til, apesar do seu peso, ali&aacute;s<br \/>\n    aligeirado pela densidade do l&iacute;quido em que estava mergulhado, desde<br \/>\n    que as fateixas o fixassem e pudessem contar com a ajuda do vapor.<\/p>\n<p> N&atilde;o ?era, por&eacute;m, suficiente pescar o proj&eacute;til. Era<br \/>\n    preciso agir quanto antes para salvaguarda dos viajantes. A ningu &eacute;m<br \/>\n    passava pela cabe&ccedil;a que n&atilde;o estivessem ainda vivos.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! &#8211; repetia incessantemente J. T. Maston, cuja confian &ccedil;a era<br \/>\n    comunicativa -, os nossos amigos s&atilde;o homens h&aacute;beis, e n&atilde;o<br \/>\n    podem ter ca&iacute;do como tolos. Est&atilde;o vivos e bem vivos, mas &eacute;<br \/>\n    preciso que nos apressemos para os encontrar com vida. N&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    os v&iacute;veres nem &aacute;gua que me preocupam. Um nos de sobral Mas o<br \/>\n    ar, o ar. N&atilde;o tarda que o ar lhes falte. Vamos! Depressa! Depressa!<br \/>\n    E a verdade &eacute; que andavam todos numa roda-viva. Adaptou- se a Susquehanna<br \/>\n    ao seu novo fim. Prepararam-se as suas poderosas m&aacute;quinas de molde<br \/>\n    a acionar os cabos destinados a i&ccedil;ar o proj&eacute;til. Este, sendo<br \/>\n    de alum&iacute;nio, pesava apenas dezenove mil duzentas e cinq&uuml;enta libras,<br \/>\n    peso muito inferior ao do cabo que foi levantado em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    id&ecirc;nticas. A &uacute;nica dificuldade consistia, portanto, em agarrar<br \/>\n    um proj&eacute;til cilindro c&ocirc;nico, cujas paredes, lisas, toma vam a<br \/>\n    opera&ccedil;&atilde;o bastante complicada.<\/p>\n<p> Com este fim, o engenheiro Murchison, que acorrera a S&atilde;o Francisco,<br \/>\n    construiu enormes arp&eacute;us dotados de um sistema autom&aacute;tico, que,<br \/>\n    se lograssem agarrar o proj&eacute;til com as suas possantes tenazes, n&atilde;o<br \/>\n    mais o largariam. Preparou, tamb&eacute;m, escafandros, de tal forma imperme&aacute;veis<br \/>\n    e resistentes, que permitiam aos mergulhadores reconhecer o fundo do mar.<br \/>\n    Fez igualmente embarcar na Susquehanna aparelhos de ar comprimido, de uma<br \/>\n    concep&ccedil;&atilde;o muito engenhosa.<\/p>\n<p> Eram verdadeiras c&acirc;maras com muitas vigias, e que podiam descer a<br \/>\n    grandes profundidades, atrav&eacute;s da introdu&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua<br \/>\n    em certos compartimentos. Esses aparelhos existiam j&aacute; em S&atilde;o<br \/>\n    Francisco, onde serviram para a constru&ccedil;&atilde;o de um dique submarino,<br \/>\n    o que constitu&iacute;a, um feliz acaso, porque n&atilde;o teria havido tempo<br \/>\n    para constru&iacute;- los.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante, apesar da perfei&ccedil;&atilde;o desses aparelhos,<br \/>\n    apesar do engenho dos s&aacute;bios encarregados de os utilizar, o &ecirc;xito<br \/>\n    da opera&ccedil;&atilde;o ainda n&atilde;o era certo. Quantas incertezas persistiam<br \/>\n    ainda, e bem justificadas, uma vez que se tratava de trazer o proj&eacute;til<br \/>\n    de uma profundidade de vinte mil p&eacute;s1 Depois, mesmo que o conseguissem,<br \/>\n    como teriam os viajantes suportado aquele terr&iacute;vel choque, que nem<br \/>\n    talvez vinte mil p&eacute;s de &aacute;gua amorteceriam suficientemente? Importava,<br \/>\n    em suma, trabalhar e depressa. J. T. Maston pressionava os seus oper&aacute;rios<br \/>\n    dia e noite. Ele estava disposto quer a envergar o escafandro, quer a experimentar<br \/>\n    os aparelhos de ar, para ir verificar a situa&ccedil;&atilde;o dos seus corajosos<br \/>\n    amigos.<\/p>\n<p> Contudo, apesar de toda a dilig&ecirc;ncia empregada na constru &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos diferentes engenhos, e n&atilde;o obstante as consider &aacute;veis somas<br \/>\n    postas &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do Clube do Canh&atilde;o pelo Governo<br \/>\n    da Uni&atilde;o, passaram ainda cinco dias &#8211; cinco s&eacute;culos &#8211; antes<br \/>\n    que todos os preparativos estivessem terminados.<\/p>\n<p> Durante esse per&iacute;odo, a opini&atilde;o p&uacute;blica subira ao rubro.<br \/>\n    Atrav&eacute;s dos fios e dos cabos el&eacute;tricos, os telegramas cruzavam<br \/>\n    o Mundo em todas as dire&ccedil;&otilde;es. 0 salvamento de Barbicane, Nicoles<br \/>\n    e Michel Ardan era um assunto de interesse internacional. Todos os povos que<br \/>\n    haviam contribu&iacute;do para a subscri&ccedil;&atilde;o do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    atribu&iacute;- ram um especial significado &agrave; salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos viajantes.<\/p>\n<p> Finalmente, as amarras, as c&acirc;maras-de-ar e os arp&eacute;us autom<br \/>\n    &aacute;ticos foram embarcados na Susquehanna. J. T. Maston, o engenheiro<br \/>\n    Murchison e os delegados do Clube do Canh &atilde;o ocupavam j&aacute; os<br \/>\n    seus camarotes. Restava apenas partir.<\/p>\n<p> A 21 de dezembro, &agrave;s oito horas da noite, a corveta levantou ferro,<br \/>\n    com mar de fei&ccedil;&atilde;o. Corria uma brisa de nordeste e fazia frio.<br \/>\n    Toda a popula&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Francisco estava apinhada no<br \/>\n    cais, emocionada e silenciosa. Reservava as manifesta &ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    regozijo para o regresso.<\/p>\n<p> Deu-se ao vapor a m&aacute;xima press&atilde;o, e a h&eacute;lice da Susquehanna<br \/>\n    levou-a rapidamente para o largo.<\/p>\n<p> &Eacute; in&uacute;til relatar as conversas que houve a bordo entre oficiais,<br \/>\n    marinheiros e passageiros. Todos comungavam do mesmo pensamento. Todos aqueles<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es palpitavam sob a mesma emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Todavia, enquanto se corria em seu socorro, que faziam Barbicane e os companheiros?<br \/>\n    Que lhes teria acontecido? Estariam em condi&ccedil;&otilde;es de tentar alguma<br \/>\n    audaciosa manobra para conquistar a liberdade? Ningu&eacute;m podia diz&ecirc;-lo.<br \/>\n    A verdade &eacute; que todos os meios teriam falhado! Imersa a perto de duas<br \/>\n    l&eacute;guas de profundidade, aquela pris&atilde;o de metal desafiava todos<br \/>\n    os esfor&ccedil;os dos prisioneiros.<\/p>\n<p> A Susquehanna, depois de uma veloz travessia, devia chegar ao local do acidente<br \/>\n    &agrave;s oito horas da manh&atilde; do dia 23 de dezembro. Por&eacute;m,<br \/>\n    foi necess&aacute;rio esperar pelo meio-dia para se obter a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exata. A b&oacute;ia, na qual se fixara a linha da sonda, ainda n&atilde;o<br \/>\n    fora avistada.<\/p>\n<p> Ao meio-dia, o Capit&atilde;o Blomsbeny, ajudado pelos oficiais que controlavam<br \/>\n    a observa&ccedil;&atilde;o, calculou a sua posi&ccedil;&atilde;o na presen&ccedil;a<br \/>\n    dos delegados do Clube do Canh&atilde;o. Houve um momento de ansiedade. Verificou-se<br \/>\n    que a corveta estava a oeste e a escassos minutos do local exato onde o proj&eacute;til<br \/>\n    desaparecera nas ondas.<\/p>\n<p> Corrigiu-se, portanto, a rota do navio, de maneira a que alcan&ccedil;asse<br \/>\n    aquele ponto preciso.<\/p>\n<p> Ao meio-dia e quarenta e sete minutos, localizou-se a b&oacute;ia.<\/p>\n<p> Estava em perfeito estado, e, por certo, pouco derivara.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; que enfim! &#8211; exclamou J. T. Maston.<\/p>\n<p> &#8211; Podemos come&ccedil;ar? &#8211; perguntou o Capit&atilde;o Blomsberry.<\/p>\n<p> &#8211; Sem perder um- segundo &#8211; respondeu J. T. Maston.<\/p>\n<p> Trataram de tomar todas as precau&ccedil;&otilde;es para que a corveta se<br \/>\n    mantivesse em completa imobilidade.<\/p>\n<p> Antes de tentar i&ccedil;ar o proj&eacute;til, o engenheiro Murchison quis<br \/>\n    primeiro saber que posi&ccedil;&atilde;o ocupava sobre o fundo oce&acirc;nico.<\/p>\n<p> Os aparelhos submarinos, destinados a esta opera&ccedil;&atilde;o, receberam<br \/>\n    o seu aprovisionamento de ar?. 0 manejo desses engenhos tinha os seus perigos,<br \/>\n    porque, a vinte mil p&eacute;s de profundidade, e sob t&atilde;o consider&aacute;veis<br \/>\n    press &otilde;es, expunham-se a rupturas cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias seriam<br \/>\n    desastrosas.<\/p>\n<p> J. T. Maston, o irm&atilde;o de Blomsberry e o engenheiro Murchison tomaram<br \/>\n    lugar na c&acirc;mara-de-ar, sem se preocuparem com os eventuais perigos.<br \/>\n    0 comandante orientava da ponte a opera&ccedil;&atilde;o, pronto a parar ou<br \/>\n    a i&ccedil;ar as correntes ao menor sinal. A h&eacute;lice fora desengatada,<br \/>\n    e toda a for&ccedil;a das m&aacute;quinas estava aplicada ao cabrestante,<br \/>\n    pelo que seria f&aacute;cil trazer rapidamente para bordo todos os aparelhos.<\/p>\n<p> A descida come&ccedil;ou &agrave; uma hora e vinte e cinco minutos da tarde,<br \/>\n    e a c&acirc;mara, devido ao peso dos reservat&oacute;rios, cheios de &aacute;gua,<br \/>\n    desapareceu sob a superf&iacute;cie do oceano.<\/p>\n<p> A emo&ccedil;&atilde;o dos oficiais e dos marinheiros partilhava-se agora<br \/>\n    entre os prisioneiros do proj&eacute;til e os do aparelho submarino.<\/p>\n<p> Quanto a estes, esqueciam-se de si pr&oacute;prios. Colados aos vidros das<br \/>\n    vigias, observavam atentamente a massa l&iacute;quida que atravessavam.<\/p>\n<p> A descida foi r&aacute;pida. &Agrave;s duas horas e dezessete minutos, J.<\/p>\n<p> T. Maston e os companheiros atingiram o fundo do Pac&iacute;fico.<\/p>\n<p> Mas nada viram, a n&atilde;o ser um &aacute;rido deserto, que j&aacute;<br \/>\n    nem era animado pela fauna e flora marinhas. &Aacute; luz das l&acirc;mpadas,<br \/>\n    dotadas de possantes refletores, podiam ver as sombrias camadas de ? &aacute;gua<br \/>\n    num raio bastante extenso, mas o proj&eacute;til mantinha?se invis&iacute;vel.<\/p>\n<p> A impaci&ecirc;ncia dos audazes mergulhadores era indescrit&iacute;vel.<\/p>\n<p> Como o aparelho estava em comunica&ccedil;&atilde;o el&eacute;trica com<br \/>\n    a corveta, fizeram o sinal combinado, e a Susqt4eh.anna passeou a c&acirc;mara<br \/>\n    na distancia, de uma milha, suspensa a alguns metros acima do fundo.<\/p>\n<p> Deste modo, exploraram toda a plan&iacute;cie submarina, enganados a cada<br \/>\n    instante por ilus&otilde;es de &oacute;tica que lhes cortavam a respira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aqui, um rochedo, al&eacute;m, uma intumesc &ecirc;ncia do fundo, que se lhes<br \/>\n    afiguravam como sendo o proj&eacute;til t&atilde;o procurado. Depois, no momento<br \/>\n    seguinte, reconheciam o erro e desesperavam-se.<\/p>\n<p> &#8211; Mas onde est&atilde;o eles? Onde est&atilde;o? &#8211; exclamava J. T.<\/p>\n<p> Maston.<\/p>\n<p> E o pobre homem chamava em altos gritos por Nicoles, Barbicane e Michel<br \/>\n    Ardan, como se os seus infelizes amigos pudessem ouvi-lo ou responder-lhe<br \/>\n    atrav&eacute;s daquele impenetr &aacute;vel meio! A pesquisa continuou nessas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es, at&eacute; o momento em que o ar do aparelho, viciado,<br \/>\n    obrigou os mergulhadores a subir. Come&ccedil;aram a i&ccedil;&aacute;-lo<br \/>\n    por volta das seis horas da tarde, e s&oacute; &agrave; meia-noite a opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terminou.<\/p>\n<p> &#8211; Amanh&atilde; continuamos &#8211; disse J. T. Maston, quando pisou a coberta<br \/>\n    da corveta.<\/p>\n<p> Sim &#8211; respondeu o Capit&atilde;o Blomsberry. Mas em outro local.<\/p>\n<p> De acordo.<\/p>\n<p> J. T. Maston continuava a acreditar no &ecirc;xito das buscas, enquanto<br \/>\n    os companheiros, a quem j&aacute; ia esmorecendo o entusiasmo das primeiras<br \/>\n    horas, compreendiam a enorme dificuldade da empresa. 0 que parecia f&aacute;cil<br \/>\n    em S&atilde;o Francisco tornava-se ali, em pleno oceano, quase irrealiz&aacute;vel.<br \/>\n    As probabilidades de &ecirc;xito diminu&iacute;ram numa grande propor- &ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&oacute; o acaso podia ajud&aacute;-los a encontrar o proj&eacute;til.<\/p>\n<p> No dia seguinte, 24 de dezembro, n&atilde;o obstante as fadigas da v&eacute;spera,<br \/>\n    retomou-se a opera&ccedil;&atilde;o. A corveta deslocouse alguns minutos para<br \/>\n    oeste, e o aparelho, cheio de ar, levou os mesmos exploradores para as profundezas<br \/>\n    do oceano.<\/p>\n<p> 0 dia inteiro foi passado em infrut&iacute;feras buscas. 0 leito do mar<br \/>\n    estava deserto. 0 dia 25 nada trouxe de novo. 0 dia 26 tamb&eacute;m n&atilde;o.<\/p>\n<p> Era desesperador. Todos pensavam naqueles desventurados, encerrados no proj&eacute;til<br \/>\n    h&aacute; vinte e seis dias! Talvez que naquele momento sentissem j&aacute;<br \/>\n    os primeiros sintomas de asfixia, se &eacute; que tinham escapado &agrave;<br \/>\n    formid&aacute;vel queda. 0 ar esgotava-se, e, sem d&uacute;vida, com ele a<br \/>\n    coragem, o &acirc;nimo.<\/p>\n<p> &#8211; 0 ar &eacute; poss&iacute;vel &#8211; considerava teimosamente J. T. Maston<br \/>\n    &#8211; , mas o &acirc;nimo nunca.<\/p>\n<p> A 28, ap&oacute;s mais dois dias de buscas, perdera-se toda a esperan&ccedil;a.<br \/>\n    0 proj&eacute;til era um &aacute;tomo na imensidade do mar.<\/p>\n<p> Havia que renunciar a encontr&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Entretanto, J. T. Maston n&atilde;o, queria ouvir falar em ren&uacute;ncia,<br \/>\n    em partida. N&atilde;o queria abandonar o local sem, pelo menos, ter avistado<br \/>\n    o t&uacute;mulo dos seus amigos. Mas o comandante Blomsberry n&atilde;o podia<br \/>\n    ceder a essa obstina&ccedil;&atilde;o, pelo que, a despeito das reclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do digno secret&aacute;rio, deu ordem de aparelhar.<\/p>\n<p> As nove horas da manha do dia 29 de dezembro, a Susquehanna, virando a proa<br \/>\n    a nordeste, retomou a rota da bala de S&atilde;o Francisco.<\/p>\n<p> Eram dez horas da manh&atilde;. A corveta afastava-se em velocidade moderada,<br \/>\n    como que com pena, do lugar da cat &aacute;strofe, quando o marinheiro que<br \/>\n    estava sentado nas barras do joanete, e que observava o mar, gritou de s&uacute;bito:<br \/>\n    &#8211; B&oacute;ia a sotavento! Os oficiais olharam na dire&ccedil;&atilde;o indicada.<br \/>\n    Com os seus &oacute;culos, viram que o objeto assinalado tinha, de fato, o<br \/>\n    aspecto dessas b&oacute;ias que servem para balizar os canais das balas e<br \/>\n    dos rios. Mas, pormenor singular, tinha no v&eacute;rtice do seu cone, que<br \/>\n    emergia da &aacute;gua cinco a seis p&eacute;s, uma bandeira que flutuava<br \/>\n    ao vento. A b&oacute;ia- resplandecia ao sol, como se as suas paredes fossem<br \/>\n    feitas de chapas de prata.<\/p>\n<p> 0 Comandante Blomsberry, J. T. Maston e os delegados do Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    subiram &agrave; ponte e examinaram aquele objeto errante que vogava sobre<br \/>\n    as ondas.<\/p>\n<p> Olhavam todos com uma febril ansiedade, mas em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m ousava dar voz ao pensamento que atravessava o esp&iacute;rito<br \/>\n    de todos.<\/p>\n<p> A corveta aproximou-se a menos de duzentas e quarenta bra&ccedil;as do objeto.<\/p>\n<p> Um fr&ecirc;mito perpassou por toda a tripula&ccedil;&atilde;o. A bandeira<br \/>\n    da b&oacute;ia era a americana.<\/p>\n<p> Ouviu-se ent&atilde;o um verdadeiro rugido. Era o bravo J. T.<\/p>\n<p> Maston que acabava de cair como uma massa. Esquecendo, por um lado, que<br \/>\n    o seu bra&ccedil;o direito fora substitu&iacute;do por um gancho de ferro,<br \/>\n    e, por outro, que um simples barrete de guta-percha lhe protegia a &#8211; caixa<br \/>\n    craniana, acabava de vibrar na pr&oacute;pria cabe&ccedil;a uma formid&aacute;vel<br \/>\n    pancada.<\/p>\n<p> Precipitaram-se para ele. Levantaram-no. Fizeram com que recuperasse os<br \/>\n    sentidos. E quais foram as suas primeiras palavras? &#8211; Ali!, grandes brutos1<br \/>\n    Grand&iacute;ssimos idiotas. Refinad&iacute;ssimos ignorantes que n&oacute;s<br \/>\n    somos.<\/p>\n<p> &#8211; O que h&aacute;?&#8230; perguntava-se &agrave; sua volta.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, por favor, explique-se&#8230;<\/p>\n<p> 0 que h&aacute;, grandes imbecis &#8211; berrou o terr&iacute;vel secret&aacute;rio<br \/>\n    -, o proj&eacute;til pesa apenas dezenove mil duzentas e cinq&uuml;enta libras!<br \/>\n    &#8211; E ent&atilde;o? &#8211; E que s&oacute; desloca vinte e oito toneladas, ou seja,<br \/>\n    cinq&uuml;enta e seis mil libras, e que, conseq&uuml;entemente, flutua! Ali!,<br \/>\n    como o digno homem sublinhou o verbo flutuar. E era a verdade! Todos, todos<br \/>\n    aqueles s&aacute;bios se haviam esquecido dessa lei fundamental: merc&ecirc;<br \/>\n    do seu menor peso espec &iacute;fico, o proj&eacute;til, depois de ter sido<br \/>\n    levado pela queda at&eacute; &agrave;s maiores profundidades do oceano, devia<br \/>\n    naturalmente voltar &agrave; superf&iacute;cie! E agora flutuava tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    ao sabor das ondas&#8230;<\/p>\n<p> Lan&ccedil;aram-se as embarca&ccedil;&otilde;es ao mar. J. T. Maston e os<br \/>\n    seus amigos precipitaram-se nelas. A emo&ccedil;&atilde;o estava no auge.<br \/>\n    Os cora&ccedil;&otilde;es palpitavam, enquanto os escaleres avan- &ccedil;avam<br \/>\n    para o proj&eacute;til. Que conteria ele? Vivos ou mortos? Vivos, vivos, a<br \/>\n    menos que a morte tivesse levado Barbicane e os dois companheiros depois de<br \/>\n    terem arvorado a bandeira.<\/p>\n<p> 1 Pairava um profundo sil&ecirc;ncio sobre os escaleres. Todos os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    palpitavam. Os olhos n&atilde;o viam. Uma das vigias do, proj&eacute;til estava<br \/>\n    aberta. Alguns peda&ccedil;os de vidro, que restavam no caixilho, provavam<br \/>\n    que a vidra&ccedil;a fora quebrada.<\/p>\n<p> A vigia estava ent&atilde;o a cinco p&eacute;s do n&iacute;vel da &aacute;gua.<\/p>\n<p> Um dos escaleres acostou ao proj&eacute;til, o de J. T. Maston.<\/p>\n<p> Este precipitou-se para a vidra&ccedil;a quebrada&#8230;<\/p>\n<p> Naquele momento, ouviu-se uma voz alegre e clara, a voz de Michel Ardan,<br \/>\n    que exclamava em tom de vit&oacute;ria: &#8211; Tudo bem, Barbicane. Tudo bem! Barbicane,<br \/>\n    Michel Ardan e Nicoles jogavam domin&oacute;. <\/p>\n<h4><a name=\"31\" id=\"31\">Cap&iacute;tulo XV &#8211; Para terminar<\/a><\/h4>\n<p>n&atilde;o est&aacute; esquecida, decerto, a enorme simpatia que envolvera<br \/>\n    os tr&ecirc;s viajantes quando da sua partida. Se no come &ccedil;o da empresa<br \/>\n    causaram tal emo&ccedil;&atilde;o no Velho e no Novo Mundo, qual seria o entusiasmo<br \/>\n    que os esperava no regresso? Aqueles milh&otilde;es de espectadores que na<br \/>\n    altura invadiram a pen&iacute;nsula da F16rida n&atilde;o se precipitariam<br \/>\n    para rever os sublimes viajantes? Aquelas legi&otilde;es de estrangeiros,<br \/>\n    que acorreram de todos os pontos do Globo &agrave;s costas americanas, deixariam<br \/>\n    porventura o territ&oacute;rio da Uni&atilde;o sem voltarem a ver Barbicane,<br \/>\n    Nicoles e Michel Ardan? N&atilde;o, e a ardente paix&atilde;o do p&uacute;blico<br \/>\n    iria com certeza corresponder &agrave; grandeza da empresa. Criaturas humanas<br \/>\n    que tinham deixado o esfer&oacute;ide terrestre, qu&ecirc; regressavam depois<br \/>\n    dessa estranha viagem, pelos espa&ccedil;os celestes, n&atilde;o podiam deixar<br \/>\n    de ser recebidos como o ser&aacute;, um dia, o profeta Elias quando voltar<br \/>\n    a descer &agrave; Terra.<\/p>\n<p> V&ecirc;-los primeiro, ouvi-los depois, tal era o desejo de todos.<\/p>\n<p> E este desejo seria em breve realizado pela grande maioria dos habitantes<br \/>\n    da Uni&atilde;o.<\/p>\n<p> Barbicane, Michel Ardan, Nicoles e os delegados do Clube do Canh&atilde;o,<br \/>\n    que regressaram sem demora a Baltimore, foram ali acolhidos com um entusiasmo<br \/>\n    indescrit&iacute;vel. Os apontamentos de viagem do presidente Barbicane estavam<br \/>\n    prontos para ser entregues &agrave; publicidade.<\/p>\n<p> 0 New York Herald comprou o manuscrito por um pre&ccedil;o ainda desconhecido,<br \/>\n    mas cuja import&acirc;ncia foi com certeza muito elevada. De fato, durante<br \/>\n    a publica&ccedil;&atilde;o da Viagem &agrave; Lua, a tiragem daquele jornal<br \/>\n    ascendeu a cinco milh&otilde;es de exemplares. Tr&ecirc;s dias depois do regresso<br \/>\n    dos viajantes &agrave; Terra, os pormenores mais insignificantes da expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    eram conhecidos. Restava apenas ver os her&oacute;is da aventura sobre- humana.<\/p>\n<p> A explora&ccedil;&atilde;o de Barbicane e dos seus amigos &agrave; volta<br \/>\n    da Lua permitira p&ocirc;r &agrave; prova as diversas teorias admitidas no<br \/>\n    que respeita ao sat&eacute;lite terrestre. Aqueles s&aacute;bios tinham observado<br \/>\n    de visu, e em condi&ccedil;&otilde;es muito particulares. Sabia- se agora<br \/>\n    quais os sistemas que deviam ser rejeitados e quais os que deviam ser admitidos,<br \/>\n    no que respeita &agrave; forma &ccedil;&atilde;o, &agrave; origem e &agrave;<br \/>\n    habitabilidade daquele astro. 0 seu passado, o seu presente e o seu futuro<br \/>\n    tinham mesmo desvendado os seus &uacute;ltimos segredos. Que se podia objetar<br \/>\n    a observadores conscienciosos, sabendo-se que haviam feito, a menos de quarenta<br \/>\n    quil&ocirc;metros, um levantamento dessa curiosa Montanha de Ticho, a mais<br \/>\n    estranha do sistema orogr&aacute;fico lunar? Que responder &agrave;queles<br \/>\n    s&aacute;bios, cujos olhares mergulharam nos abismos do C&iacute;rculo de<br \/>\n    Plat&atilde;o? Como contradizer aqueles audaciosos aventureiros, que os acasos<br \/>\n    de uma experi&ecirc;ncia levaram acima dessa face invis &iacute;vel do disco,<br \/>\n    que at&eacute; ent&atilde;o nenhum olhar humano vira? Cabia-lhes agora o direito<br \/>\n    de impor os limites a essa ci&ecirc;ncia selenogr&aacute;fica que recompusera<br \/>\n    o mundo lunar, como Cuvier o esqueleto de um f&oacute;ssil, e de dizer: ?A<br \/>\n    Lua foi um mundo habit&aacute;vel e habitado antes da Terra! A Lua &eacute;<br \/>\n    um mundo inabit&aacute;vel e agora desabitado!? Para festejar o regresso do<br \/>\n    mais ilustre dos seus membros e dos seus dois companheiros, o Clube do Canh&atilde;o<br \/>\n    pensou em organizar um banquete, mas um banquete digno daqueles triunfadores,<br \/>\n    digno do povo americano, e em tais condi&ccedil;&otilde;es que todos os habitantes<br \/>\n    da Uni&atilde;o pudessem tomar parte nele.<\/p>\n<p> Todos os grandes terminais de estradas de ferro foram ligados entre si por<br \/>\n    meio de carris volantes. Depois, em todas as gares, embandeiradas com as mesmas<br \/>\n    bandeiras, decoradas com os mesmos ornatos, armaram-se mesas uniformemente<br \/>\n    guarnecidas. A determinadas horas, calculadas com- exatid&atilde;o e indicadas<br \/>\n    em rel&oacute;gios el&eacute;tricos que estavam certos at&eacute; o segundo,<br \/>\n    a popula&ccedil;&atilde;o foi convidada a tomar lugar &agrave;s mesas do banquete.<\/p>\n<p> Durante quatro dias, de 5 a 9 de janeiro, os trens pararam, como &eacute;<br \/>\n    normal acontecer aos domingos na Uni&atilde;o, e todas as vias ficaram livres.<\/p>\n<p> S&oacute; a uma locomotiva muito r&aacute;pida, que puxava, um vag&atilde;o<br \/>\n    de honra, foi permitido circular durante aqueles quatro dias nas linhas das<br \/>\n    estradas de ferro dos Estados Unidos.<\/p>\n<p> Na locomotiva, conduzida por um maquinista e o foguista, ia tamb&eacute;m,<br \/>\n    por especial defer&ecirc;ncia, o digno J. T. Maston, secret&aacute;rio do<br \/>\n    Clube do Canh&atilde;o.<\/p>\n<p> 0 vag&atilde;o fora reservado ao Presidente Barbicane, ao Capit &atilde;o<br \/>\n    Nicoles e a Michel Ardan.<\/p>\n<p> Ao silvo da m&aacute;quina, depois dos burras e de todas as onomatop&eacute;ias<br \/>\n    de admira&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua nativa, o trem deixou a gare de<br \/>\n    Baltimore, atingindo em breve uma velocidade de oitenta l&eacute;guas por<br \/>\n    hora. Mas o que. era esta velocidade comparada com, a que alcan&ccedil;aram<br \/>\n    os tr&ecirc;s her&oacute;is ao sair do columbiad? Desse modo, foram de uma<br \/>\n    cidade a outra encontrando as popula&ccedil;&otilde;es &agrave; mesa, que<br \/>\n    os saudavam com as mesmas aclama&ccedil;&otilde;es e os mesmos bravos. Percorreram<br \/>\n    o Leste da Uni&atilde;o, atravessando a Pensilv&acirc;nia, o Connecticut,<br \/>\n    o Massachussetts, o Vermont, o Maine e a Nova Brunswick; o Norte e o Oeste,<br \/>\n    passando por Nova Iorque, Ohio, Michigan e Wisconsin; desceram para o Sul<br \/>\n    pelo Ilin&oacute;is, Missuri, Arkansas, Texas e Luisiana; correram ao Sudeste<br \/>\n    pelo Alabama e a Fl&oacute;rida; voltaram a subir pela Ge&oacute;rgia e pelas<br \/>\n    Carolinas; visitaram o centro pelo Tennessee, Kentucky, Virg&iacute;nia e<br \/>\n    Indiana; e, finalmente, uma vez passada a esta&ccedil;&atilde;o de Washington,<br \/>\n    regressaram a Baltimore.<\/p>\n<p> Durante quatro dias, puderam os tr&ecirc;s amigos acreditar que os Estados<br \/>\n    Unidos estavam &agrave; mesa de um &uacute;nico e enorme banquete, para os<br \/>\n    saudar em un&iacute;ssono e com os mesmos hurras! A apoteose era digna daqueles<br \/>\n    her&oacute;is que a F&aacute;bula teria guindado &agrave;s fileiras dos semideuses.<\/p>\n<p> Contudo, conduzir&aacute; a algum resultado pr&aacute;tico essa experi-<br \/>\n    &ecirc;ncia sem precedentes nos anais das viagens? Estabelecer- se-&atilde;o<br \/>\n    alguma vez comunica&ccedil;&otilde;es diretas com a Lua? Criar-se-&aacute;<br \/>\n    um servi&ccedil;o de navega&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s do espa&ccedil;o,<br \/>\n    para servir a circula&ccedil;&atilde;o no mundo solar? Ir-se-&aacute; de um<br \/>\n    planeta a outro, de J&uacute;piter a Merc&uacute;rio, ou, mais tarde, de uma<br \/>\n    estrela a outra da Polar a S&iacute;rio? Descobrir-se-&aacute; um meio de<br \/>\n    locomo&ccedil;&atilde;o que permita visitar esses s&oacute;is que abundam<br \/>\n    no firmamento? A estas perguntas ningu&eacute;m poder&aacute; responder. Mas,<br \/>\n    conhecendo- se o audacioso engenho da ra&ccedil;a anglo sax&ocirc;nica, ningu<br \/>\n    &eacute;m por certo se espantar&aacute; que os americanos procurem tirar o<br \/>\n    melhor partido da experi&ecirc;ncia do Presidente Barbicane. .<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que, algum tempo depois do regresso dos viajantes, o<br \/>\n    p&uacute;blico acolheu muito favoravelmente os an&uacute;ncios de uma sociedade<br \/>\n    em comandita (limited), com um capital de cem milh&otilde;es de d&oacute;lares,<br \/>\n    dividido em cem mil a&ccedil;&otilde;es de mil d&oacute;lares cada. Denominava-se<br \/>\n    Sociedade Nacional de Comunica&ccedil;&otilde;es Interestelares e tinha Barbicane<br \/>\n    por presidente, o Capit&atilde;o Nicoles por vice-presidente, J. T.<\/p>\n<p> Maston por secret&aacute;rio da administra&ccedil;&atilde;o e Michel Ardan<br \/>\n    por diretor da circula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E, como o temperamento americano gosta, no que toca a neg&oacute;cios, de<br \/>\n    prever tudo, mesmo a fal&ecirc;ncia, foram antecipadamente designados para<br \/>\n    juiz-comiss&aacute;rio o dign&iacute;ssimo Harry Troloppe e Francis Dayton<br \/>\n    para s&iacute;ndico!<\/p>\n<p> <strong>FIM <\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Primeira Parte Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Segunda Parte Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108223","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-10T11:49:53+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"440 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"Da Terra \u00e0 Lua\",\"datePublished\":\"2017-02-10T11:49:53+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua\"},\"wordCount\":87952,\"commentCount\":0,\"articleSection\":[\"Obras Liter\u00e1rias\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"CommentAction\",\"name\":\"Comment\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua#respond\"]}]},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua\",\"name\":\"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\"},\"datePublished\":\"2017-02-10T11:49:53+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"description\":\"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua\"]}]},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/da-terra-a-lua#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"Linguagens e C\u00f3digos\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":3,\"name\":\"Literatura\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":4,\"name\":\"Obras Liter\u00e1rias\",\"item\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/categoria\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":5,\"name\":\"Da Terra \u00e0 Lua\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/\",\"name\":\"Portal S\u00e3o Francisco\",\"description\":\"Pesquisa Escolar Gratuita\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\",\"name\":\"Fabiane Breda\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua","description":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua","robots":{"index":"noindex","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua","og_description":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua","og_url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua","og_site_name":"Portal S\u00e3o Francisco","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/","article_published_time":"2017-02-10T11:49:53+00:00","author":"Fabiane Breda","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"Fabiane Breda","Est. tempo de leitura":"440 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua"},"author":{"name":"Fabiane Breda","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"headline":"Da Terra \u00e0 Lua","datePublished":"2017-02-10T11:49:53+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua"},"wordCount":87952,"commentCount":0,"articleSection":["Obras Liter\u00e1rias"],"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua","name":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne Da Terra \u00e0 Lua","isPartOf":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website"},"datePublished":"2017-02-10T11:49:53+00:00","author":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa"},"description":"Da Terra \u00e0 Lua, J\u00falio Verne, Livro, Clube do Canh\u00e3o, Michel Ardan, Presidente Barbicane, Literatura, Da Terra \u00e0 Lua","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua"]}]},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/da-terra-a-lua#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Linguagens e C\u00f3digos","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos"},{"@type":"ListItem","position":3,"name":"Literatura","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura"},{"@type":"ListItem","position":4,"name":"Obras Liter\u00e1rias","item":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/categoria\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias"},{"@type":"ListItem","position":5,"name":"Da Terra \u00e0 Lua"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#website","url":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/","name":"Portal S\u00e3o Francisco","description":"Pesquisa Escolar Gratuita","potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/#\/schema\/person\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa","name":"Fabiane Breda"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108223","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=108223"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/108223\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=108223"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=108223"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=108223"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}