{"id":108164,"date":"2017-02-10T08:26:55","date_gmt":"2017-02-10T10:26:55","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108164"},"modified":"2017-02-10T08:26:55","modified_gmt":"2017-02-10T10:26:55","slug":"a-carne-julio-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-carne-julio-ribeiro","title":{"rendered":"A Carne &#8211; J\u00falio Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"656\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><\/p>\n<p>\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><\/p>\n<p>\t\t  <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>J&uacute;lio Ribeiro<\/h2>\n<p><strong>Parte I<\/strong><\/p>\n<p>Je ne suis pas t&eacute;m&eacute;raire, je n&#8217;ai pas la pr&eacute;tention<br \/>\n    de suivre vos traces; ce n&#8217;est pas pr&eacute;tendre suivre vos traces que<br \/>\n    d&#8217;&eacute;crere une pauvre &eacute;tude tant soit peu natulaliste. On ne vous<br \/>\n    imite pas, on vous admire.<\/p>\n<p> &quot;Nous nous &eacute;chauffons, dit Ovide, quand le dieu que vit en nous<br \/>\n    s&#8217;agite&quot;: eh bien! Le tout petit dieu qui vit en moi s&#8217;est agit&eacute;,<br \/>\n    et j&#8217;ai &eacute;cret La Chair.<\/p>\n<p> Ce n&#8217;est pas l&#8217;Assommoir, ce n&#8217;est pas la Cur&eacute;e, ce n&#8217;est pas la<br \/>\n    Terre, mais, diantre! Une chandelle n&#8217;est pas le soleil, et pourtant une chandelle<br \/>\n    &eacute;claire.<\/p>\n<p> Quoi qu&#8217;il en soit, voici mon oeuvre.<\/p>\n<p> Agr&eacute;erez-vous la d&eacute;dicace que je vous en fais? Pourquoi pas!<br \/>\n    Les rois, quoique gorg&eacute;s de richesses, ne d&eacute;daignent pas toujours<br \/>\n    les ch&eacute;tifs cadeaux des pauvres paysans.<\/p>\n<p> Permettez que je vous fasse mon hommage complet, lige, de serviteur f&eacute;al<br \/>\n    en empruntant les paroles du po&egrave;te florentin:<br \/>\n    Tuduca, tu signore, tu maestro.<\/p>\n<p> St. Paul, le 25 janvier 1888<br \/>\n    Jules Ribeiro.<\/p>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h4>\n<p>O doutor Lopes Matoso n&atilde;o foi precisamente o que se pode chamar um<br \/>\n    homem feliz.<\/p>\n<p> Aos dezoito anos de sua vida, quando apenas tinha completado o seu curso<br \/>\n    de preparat&oacute;rios, perdeu pai e m&atilde;e com poucos meses de intervalo.<\/p>\n<p> Ficou-lhe como tutor um amigo da fam&iacute;lia, o coronel Barbosa, que<br \/>\n    o fez continuar com os estudos e formara-se em direito.<\/p>\n<p> No dia seguinte ao da formatura, o honesto tutor passou-lhe a ger&ecirc;ncia<br \/>\n    da avultada fortuna que<br \/>\n    lhe coubera, dizendo:<br \/>\n    &#8211; Est&aacute; rico, menino, est&aacute; formado, tem um bonito futuro diante<br \/>\n    de si. Agora &eacute; tratar de casar, de ter filhos, de galgar posi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Se eu tivesse filha voc&ecirc; j&aacute; tinha noiva; n&atilde;o tenho, procure-a<br \/>\n    voc&ecirc; mesmo.<\/p>\n<p> Lopes Matoso n&atilde;o gastou muito tempo em procurar: casou-se logo com<br \/>\n    uma prima de quem sempre gostara e junto &agrave; qual viveu felic&iacute;ssimo<br \/>\n    por espa&ccedil;o de dois anos.<\/p>\n<p> Ao come&ccedil;ar o terceiro, morreu a esposa, de parto, deixando-lhe uma<br \/>\n    filhinha.<\/p>\n<p> Lopes Matoso vergou &agrave; for&ccedil;a do golpe, mas, como homem forte<br \/>\n    que era, n&atilde;o se deixou abater de vez: reergueu-se e aceitou a nova<br \/>\n    ordem de coisas que lhe era imposta pela imparcialidade brutal da natureza.<\/p>\n<p> Arranjou de modo seguro seus neg&oacute;cios, mudou-se para uma ch&aacute;cara<br \/>\n    que possu&iacute;a peno da cidade, segregou-se dos amigos e passou a repartir<br \/>\n    o tempo entre o manusear de bons livros e o cuidar da filha.<\/p>\n<p> Esta, gra&ccedil;as &agrave;s qualidades da ama que lhe foi dada, cresceu<br \/>\n    sadia e robusta, tomando-se desde logo a vida, a nota alegre do eremit&eacute;rio<br \/>\n    que se constitu&iacute;ra Lopes Matoso.<\/p>\n<p> Visitas de amigos raras tinha ele, porque mesmo n&atilde;o as acoro&ccedil;oava:<br \/>\n    conviv&ecirc;ncia de fama n&atilde;o tinha nenhuma.<\/p>\n<p> Leitura escrita gram&aacute;tica aritm&eacute;tica, &aacute;lgebra, geometria,<br \/>\n    geografia, hist&oacute;ria, franc&ecirc;s, espanhol, nata&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    equita&ccedil;&atilde;o, gin&aacute;stica, m&uacute;sica , tudo isso Lopes<br \/>\n    Matoso exercitou a filha porque em tudo era perito: com ela leu os cl&aacute;ssicos<br \/>\n    portugueses, os autores estrangeiros de melhor nota, e tudo quanto havia de<br \/>\n    mais seleto na literatura do tempo.<\/p>\n<p> Aos quatorze anos Helena ou Lenita, como a chamavam, era uma rapariga desenvolvida,<br \/>\n    forte, de car&aacute;ter formado e instru&ccedil;&atilde;o acima do vulgar.<\/p>\n<p> Lopes Matoso entendeu que era chegado o tempo de tomar a mudar de vida,<br \/>\n    e voltou para a cidade.<\/p>\n<p> Lenita teve ent&atilde;o &oacute;timos professores de l&iacute;nguas e de<br \/>\n    ci&ecirc;ncias; estudou o italiano, o alem&atilde;o, o ingl&ecirc;s, o latim,<br \/>\n    o grego; fez cursos muito completos de matem&aacute;ticas, de ci&ecirc;ncias<br \/>\n    f&iacute;sicas, e n&atilde;o se conservou estranha &agrave;s mais complexas<br \/>\n    ci&ecirc;ncias sociol&oacute;gicas. Tudo lhe era f&aacute;cil, nenhum campo<br \/>\n    parecia fechado a seu vasto talento.<\/p>\n<p> Come&ccedil;ou a aparecer, a distinguir-se na sociedade.<\/p>\n<p> E n&atilde;o tinha nada de pretensiosa, bas bleu: modesta, retra&iacute;da<br \/>\n    mesmo, nos bailes, nas reuni&otilde;es em<br \/>\n    que n&atilde;o de raro se achava, ela sabia rodear-se de uma como aura de<br \/>\n    simpatia escondendo com arte infinita a sua imensa superioridade.<\/p>\n<p> Quando, por&eacute;m, algum bacharel formado de fresco, algum touriste rec&eacute;m-vindo<br \/>\n    de Paris ou de Nova Iorque queria campar de s&aacute;bio, queria fazer de<br \/>\n    or&aacute;culo em sua presen&ccedil;a, ent&atilde;o &eacute; que era v&ecirc;-la.<br \/>\n    Com uma candura adoravelmente simulada, com um sorriso de desdenhosa bondade,<br \/>\n    ela enla&ccedil;ava o pedante em uma rede de perguntas p&eacute;rfidas, ia-o<br \/>\n    pouco a pouco estreitando em um c&iacute;rculo de feno e, por fim, com o ar<br \/>\n    mais natural do mundo, obrigava-o a contradizer-se, reduzia-o ao mais vergonhoso<br \/>\n    sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Os pedidos de casamento sucediam-se: Lopes Matoso consultava a filha.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; i-los despedindo, meu pai, respondia ela. Escusa que me consulte.<br \/>\n    J&aacute; sabe, eu n&atilde;o me quero casar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas, filha, olha que mais cedo ou mais tarde &eacute; preciso que o fa&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8211; Algum dia talvez, por enquanto n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Sabes que mais? estou quase convencido de que errei e muito na tua educa&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    dei-te conhecimentos acima da bitola comum e o resultado &eacute; ver-te isolada<br \/>\n    nas alturas a que te levantei. O homem fez-se para a mulher, e a mulher para<br \/>\n    o homem. O casamento &eacute; uma necessidade, j&aacute; n&atilde;o digo social,<br \/>\n    mas fisiol&oacute;gica. N&atilde;o achas, de certo, homem algum digno de ti?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o &eacute; por isso, &eacute; porque ainda n&atilde;o sinto a tal<br \/>\n    necessidade do casamento. Se eu a sentisse, casar-me-ia<br \/>\n    &#8211; Mesmo com um homem med&iacute;ocre?<br \/>\n    &#8211; De prefer&ecirc;ncia com um homem med&iacute;ocre. Os grandes homens em<br \/>\n    geral n&atilde;o s&atilde;o bons maridos. Demais, se os tais senhores grandes<br \/>\n    homens escolhem quase sempre abaixo de si, por que eu, qu&ecirc;, na opini&atilde;o<br \/>\n    de papai, sou mulher superior, n&atilde;o faria como eles, escolhendo marido<br \/>\n    que me fosse inferior?<br \/>\n    &#8211; Sim, para teres uns filhos palermas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Os filhos puxariam por mim: a filosofia gen&eacute;sica ensina que a hereditariedade<br \/>\n    direta do g&ecirc;nio e do talento &eacute; mais comum da m&atilde;e para<br \/>\n    o filho.<\/p>\n<p> &#8211; E do pai para a filha, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; De certo, e por isso &eacute; que eu sou o que sou.<\/p>\n<p> &#8211; Lisonjeira!<br \/>\n    &#8211; Lisonjeiro &eacute; papai que quer &agrave; fina for&ccedil;a que eu seja<br \/>\n    mo&ccedil;a prod&iacute;gio, e tanto tem feito que at&eacute; eu j&aacute;<br \/>\n    come&ccedil;o acreditar. Voltando ao assunto, sobre casamento temos conversado,<br \/>\n    n&atilde;o falemos mais nisso.<\/p>\n<p> E n&atilde;o falaram. Lopes Matoso ia despedindo os pretendentes com grandes<br \/>\n    afeta&ccedil;&otilde;es de m&aacute;goa &#8211; que a menina n&atilde;o queria casar,<br \/>\n    que era uma original, que ele bem a aconselhava, mas que era trabalho baldado,<br \/>\n    mil coisas enfim que suavizassem a repulsa.<\/p>\n<p> Sempre no mesmo teor de vida chegou Lenita aos vinte e dois anos, quando<br \/>\n    um dia amanheceu Lopes Matoso a queixar-se de um mal-estar indescrit&iacute;vel,<br \/>\n    de uma opress&atilde;o fort&iacute;ssima no peito. Sobreveio um acesso de<br \/>\n    tosse, e ele morreu de repente sem haver tempo de chamar um m&eacute;dico,<br \/>\n    sem coisa nenhuma. Matara-o congest&atilde;o pulmonar.<\/p>\n<p> Lenita quase enlouqueceu de dor: o imprevisto do sucedido, v&aacute;cuo<br \/>\n    s&uacute;bito e terr&iacute;vel que se fez em torno dela, a superioridade<br \/>\n    e cultura do seu esp&iacute;rito que refugia a consola&ccedil;&otilde;es banais,<br \/>\n    tudo contribu&iacute;a para acentuar-lhe o sofrimento.<\/p>\n<p> Dias e dias passou a infeliz mo&ccedil;a sem sair do quarto, recusando-se<br \/>\n    a receber visitas, tomando inconscientemente, a inst&acirc;ncias dos f&acirc;mulos,<br \/>\n    algum ligeiro alimento.<\/p>\n<p> Por fim reagiu contra a dor p&aacute;lida, muito p&aacute;lida nas suas<br \/>\n    roupas de luto, ela apareceu aos amigos do pai, recebeu os p&ecirc;sames fastidiosos<br \/>\n    do estilo, procurou por todos os meios afazer-se &agrave; vida solit&aacute;ria<br \/>\n    que se lhe abria, vida trist&iacute;ssima, erma de afetos, povoada de lembran&ccedil;as<br \/>\n    dolorosas. Tratou de dar dire&ccedil;&atilde;o conveniente aos neg&oacute;cios<br \/>\n    da casa, e escreveu ao coronel Barbosa, avisando-o de que se retirava temporariamente<br \/>\n    para a fazenda dele.<\/p>\n<p> Os neg&oacute;cios da casa nenhuma dificuldade ofereciam: a fortuna de Lopes<br \/>\n    Matoso estava quase toda em ap&oacute;lices e a&ccedil;&otilde;es de estradas<br \/>\n    de ferro. Sendo Lenita, com era, filha &uacute;nica, n&atilde;o havia invent&aacute;rio,<br \/>\n    n&atilde;o havia delonga alguma judicial.<\/p>\n<p> A resposta do coronel Barbosa n&atilde;o se fez esperar &#8211; que fosse, que<br \/>\n    fosse quanto antes; que sua velha esposa entrevada folgara doidamente com<br \/>\n    a not&iacute;cia de ir ter junto de si uma mo&ccedil;a, uma companheira nova;<br \/>\n    que com eles s&oacute; morava um filho &uacute;nico, homem j&aacute; maduro,<br \/>\n    casado, mas desde muito separado da mulher, ca&ccedil;ador, esquisit&atilde;o,<br \/>\n    metido consigo e com os seus livros; enfim que se n&atilde;o demorasse com<br \/>\n    apronta&ccedil;&otilde;es, que atabulasse, e que marcasse o dia para ele a<br \/>\n    ir buscar.<\/p>\n<p> Uma semana depois estava Lenita instalada na fazenda do velho tutor de seu<br \/>\n    pai: tinha levado consigo o seu piano, alguns bronzes art&iacute;sticos, algum<br \/>\n    bibelots curiosos e muitos livros.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h4>\n<p>Pior do que na cidade, horr&iacute;vel foi a princ&iacute;pio o isolamento<br \/>\n    de Lenita na fazenda.<\/p>\n<p> A velha octogen&aacute;ria, al&eacute;m de entrevada, era muito surda. O<br \/>\n    coronel Barbosa, pouco mais mo&ccedil;o do que a mulher, sofria de reumatismo,<br \/>\n    e, &agrave;s vezes, passava dias e dias metido na cama. O filho, o divorciado,<br \/>\n    estava ca&ccedil;ando havia meses no Paranapanema.<\/p>\n<p> O trabalho da fazenda era dirigido por um administrador caboclo, homem af&aacute;vel,<br \/>\n    mas ignorant&iacute;ssimo sobre tudo o que n&atilde;o dizia com a lavoura.<\/p>\n<p> Lenita comia quase sempre s&oacute; na vast&iacute;ssima varanda; depois<br \/>\n    de almo&ccedil;ar ou de jantar ia conversar com o coronel, e fazia esfor&ccedil;os<br \/>\n    incr&iacute;veis para conseguir fazer-se ouvir da velha que, resignada e risonha,<br \/>\n    aumentava com a m&atilde;o tr&ecirc;mula a concha da orelha para apanhar as<br \/>\n    palavras.<\/p>\n<p> Tal entretenimento cansava a mo&ccedil;a, e ela recolhia-se logo aos seus<br \/>\n    c&ocirc;modos para ler, para procurar distrair-se.<\/p>\n<p> Tomava um livro, deixava; Tomava outro, deixava; era imposs&iacute;vel a<br \/>\n    leitura.<\/p>\n<p> Apertava-lhe, constringia-lhe o &acirc;nimo a lembran&ccedil;a do pai. E<br \/>\n    tudo lhe fazia lembrar &#8211; uma passagem marcada a unha em um livro, uma folha<br \/>\n    dobrada em outro.<\/p>\n<p> Sa&iacute;a, ia de novo conversar, tornava a voltar, tomava a sair, era<br \/>\n    um inferno.<\/p>\n<p> A mulher do administrador, carinhosa j&aacute; por &iacute;ndole, recebera<br \/>\n    do patr&atilde;o recomenda&ccedil;&otilde;es especiais a respeito de Lenita.<\/p>\n<p> A todo o momento eram copos de leite quente, copos de garapa, caf&eacute;,<br \/>\n    doces, frutas.<\/p>\n<p> Lenita ora recusava, ora aceitava uma ou outra coisa, indiferentemente,<br \/>\n    s&oacute; por comprazer &agrave; boa mulher.<\/p>\n<p> O coronel Barbosa dera a Lenita uma sala independente, um quarto amplo com<br \/>\n    duas janelas e uma alcova; pusera-lhe &agrave;s ordens, para seu servi&ccedil;o<br \/>\n    especial, uma mulatinha esperta, de alta trunfa e cor deslavada, e tamb&eacute;m<br \/>\n    um molecote acaboclado, risonho, de dentes muito brancos.<\/p>\n<p> Lenita, por vezes, passava horas e horas &agrave; janela, contemplando as<br \/>\n    pend&ecirc;ncias da fazenda.<\/p>\n<p> Estava esta a meia encosta de um outeiro a cuja balda corria um<br \/>\n    ribeir&atilde;o. Em frente estendia-se o grande pasto. A monotonia de verdura<br \/>\n    clara era quebrada aqui e ali pelo sombrio da folhagem basta de alguns paus-d&#8217;alho,<br \/>\n    deixados propositadamente para sombra, e pelo amarelo sujo das reboleiras<br \/>\n    de sap&eacute;. Ao fundo, de um lado, em corte brusco, a mata virgem, escura,<br \/>\n    acentuada, maci&ccedil;a quase, confundindo em um s&oacute; tom mil cores<br \/>\n    divers&iacute;ssimas; de outro em colinas suaves, o verde-claro alegre e uniforme<br \/>\n    dos canaviais agitados sempre pelo vento; mais al&eacute;m, os cafezais alinhados,<br \/>\n    regulares, cont&iacute;nuos, como um tapete crespo, verde-negro, estendido<br \/>\n    pelo dorso da morraria. Em um ou outro ponto, a terra roxa de pedra de ferro,<br \/>\n    desnudada, punha uma nota estr&iacute;dula de vermelho-escuro, de sangue coagulado.<\/p>\n<p> E sobre tudo isso, azul, di&aacute;fano, puro, cetinoso, recurvava-se o<br \/>\n    c&eacute;u em uma festa de luz branca, vivificante, mordente&#8230;<\/p>\n<p> Quando se embruscava o tempo a paisagem mudava: o c&eacute;u pardacento,<br \/>\n    carregado de nuvens pl&uacute;mbeas, como que se abaixava, como que queria<br \/>\n    afogar a terra. O revestimento verde perdia o brilho, empanava-se, amortecia<br \/>\n    em um desfalecimento &uacute;mido.<\/p>\n<p> Lenita deu em sair, em passear pelas cercanias, ora a p&eacute;, acompanhada<br \/>\n    pela mulata, ora a cavalo, seguida pelo rapazinho.<\/p>\n<p> Mas o exerc&iacute;cio, a pureza do ar, a liberdade do viver da ro&ccedil;a,<br \/>\n    nada lhe aproveitou.<\/p>\n<p> Uma languidez crescente, um esgotamento de for&ccedil;as, uma prostra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quase completa ia-se apoderando de todo o seu ser: n&atilde;o lia, o piano<br \/>\n    conservava-se mudo.<\/p>\n<p> Com a morte do pai, parecia ter-se-lhe transformado a natureza: j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era forte, j&aacute; n&atilde;o era viril como em outros tempos.<br \/>\n    Tinha medo de ficar s&oacute;, tinha terrores s&uacute;bitos.<\/p>\n<p> Ia para o quarto da entrevada, recostava-se em uma cadeira pregui&ccedil;osa<br \/>\n    e a&iacute; se deixava ficar quieta horas e horas, mal respondendo &agrave;s<br \/>\n    perguntas sol&iacute;citas do coronel.<\/p>\n<p> Quando voltava para os seus aposentos, tomada em caminho por um pavor inexplic&aacute;vel,<br \/>\n    agarrava-se tr&ecirc;mula &agrave; mulata.<\/p>\n<p> N&atilde;o podia comer, tinha um fastio desolador, cortado por desejos violentos<br \/>\n    de coisas salgadas, de coisas extravagantes.<\/p>\n<p> Sobrevieram-lhe saliva&ccedil;&otilde;es constantes, v&ocirc;mitos biliosos<br \/>\n    quase incoerc&iacute;veis.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde; n&atilde;o se p&ocirc;de levantar.<\/p>\n<p> Acudiram apressados o coronel e a mulher do administrador; abeiraram-se<br \/>\n    do leito, instando com a enferma para que tomasse um ch&aacute; de erva-cidreira,<br \/>\n    um rem&eacute;dio qualquer caseiro, enquanto n&atilde;o vinha o m&eacute;dico<br \/>\n    que se tinha mandado chamar a toda a pressa.<\/p>\n<p> Quando este chegou estava Lenita abatid&iacute;ssima: emaciada, l&iacute;vida,<br \/>\n    com os olhos afundados em uma aur&eacute;ola cor de bistre, comprimia o peito,<br \/>\n    estertorava sufocada. Uma como bola subia-lhe do est&ocirc;mago, chegava-lhe<br \/>\n    &agrave; garganta, estrangulava-a. No alto da cabe&ccedil;a, um pouco para<br \/>\n    a esquerda tinha uma dor circunscrita, fixa, lancinante, atroz: era como se<br \/>\n    um prego a&iacute; estivesse cravado.<\/p>\n<p> E seu sistema nervoso estava irritad&iacute;ssimo: o mais ligeiro ru&iacute;do,<br \/>\n    o jogo de luz produzido pelo abrir da porta arrancava-lhe gritos.<\/p>\n<p> O doutor Guimar&atilde;es, m&eacute;dico j&aacute; velho, de fisionomia<br \/>\n    inteligente e bondosa, aproximou-se da cama, examinou a enferma detidamente,<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio, sem tomar-lhe o pulso, sem incomod&aacute;-la na m&iacute;nima<br \/>\n    coisa, baixando-se muito, com as m&atilde;os cruzadas nas costas, para ouvir-lhe<br \/>\n    a respira&ccedil;&atilde;o, para escutar-lhe os gemidos, para atentar-lhe<br \/>\n    nas contra&ccedil;&otilde;es da face.<\/p>\n<p> &#8211; Quando come&ccedil;ou isto, coronel? perguntou.<\/p>\n<p> &#8211; Doente tem ela estado desde que aqui chegou, mas assim, ruim, &eacute;<br \/>\n    s&oacute; hoje.<\/p>\n<p> &#8211; Sufoco! acudam-me! gritou de repente Lenita e, revolvendo-se, escoucinhando,<br \/>\n    dilacerava a camisa com as m&atilde;os ambas, arranhava o peito. Um rubor<br \/>\n    s&uacute;bito, viv&iacute;ssimo, colorira-lhe o rosto, brilhavam-lhe os olhos<br \/>\n    de modo ins&oacute;lito.<\/p>\n<p> &#8211; Sei o que isto &eacute;, disse o m&eacute;dico; tenho pela frente um conhecido<br \/>\n    velho, n&atilde;o me d&aacute; cuidado, volto j&aacute;.<\/p>\n<p> E saiu.<\/p>\n<p> Poucos minutos depois reapareceu, trazendo uma seringuinha de Pravaz.<\/p>\n<p> &#8211; D&ecirc;-me o bra&ccedil;o, minha senhora, vou fazer-lhe uma inje&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e ver&aacute; como daqui a pouco nada mais h&aacute; de sentir.<\/p>\n<p> Lenita estendeu a custo o bra&ccedil;o nu, e o doutor, tomando-o, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a belisc&aacute;-lo morosamente, demoradamente, em um lugar s&oacute;, na<br \/>\n    altura do b&iacute;ceps; depois segurando a parte malaxada entre o dedo &iacute;ndice<br \/>\n    e o polegar da m&atilde;o esquerda, com a direita fez penetrar por baixo da<br \/>\n    pele a agulha do instrumento e, calcando no cabo do pist&atilde;o, injetou<br \/>\n    todo o conte&uacute;do do tubo de vidro.<\/p>\n<p> Lenita, apesar de seu estado de irritabilidade nervosa, nem pareceu sentir.<\/p>\n<p> O efeito foi pronto. Dentro de pouco tempo as faces descoraram, cessaram<br \/>\n    as crispa&ccedil;&otilde;es nervosas dos membros, cerraram-se os olhos, e<br \/>\n    um suspiro de al&iacute;vio entumeceu-lhe o peito.<\/p>\n<p> Adormeceu.<\/p>\n<p> &#8211; Deixemo-la assim, disse o m&eacute;dico, deixemo-la dormir, quando acordar<br \/>\n    estar&aacute; boa. Todavia vou receitar: n&atilde;o dispenso para estes casos<br \/>\n    o meu brumoreto de pot&aacute;ssio.<\/p>\n<p> E sa&iacute;ram nos bicos dos p&eacute;s. Junto de Lenita ficou a mulher<br \/>\n    do administrador.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h4>\n<p>Realizou-se o progn&oacute;stico do m&eacute;dico.<\/p>\n<p> Lenita, ap&oacute;s um comprido sono, acordou calma, com os nervos sossegados,<br \/>\n    com os m&uacute;sculos distendidos, soltos. Mas estava abatida, mole, queixava-se<br \/>\n    de peso na cabe&ccedil;a, de grande cansa&ccedil;o. Passou dois dias na cama,<br \/>\n    e s&oacute; ao terceiro p&ocirc;de levantar-se.<\/p>\n<p> O apetite foi voltando aos poucos, e suas refei&ccedil;&otilde;es foram<br \/>\n    sendo tomadas com prazer, a horas regulares.<\/p>\n<p> Podia-se dizer que entrara em convalescen&ccedil;a do cataclismo org&acirc;nico<br \/>\n    produzido pela morte do pai.<\/p>\n<p> E Lenita sentia-se outra, feminizava-se. N&atilde;o tinha mais gostos viris<br \/>\n    de outros tempos, perdera a sede de ci&ecirc;ncia: de entre os livros que<br \/>\n    trouxera procurava os mais sentimentais. Releu Paulo e Virg&iacute;nia, o<br \/>\n    livro quarto da Eneida, o s&eacute;timo do Tel&ecirc;maco. A fome picaresca<br \/>\n    de Lazarilho de Tortnes f&ecirc;-la chorar.<\/p>\n<p> Tinha uma vontade esquisita de dedicar-se a quem quer que fosse, de sofrer<br \/>\n    por um doente, por um inv&aacute;lido. Por vezes lembrou-lhe que, se casasse,<br \/>\n    teria filhos, criancinhas que dependessem de seus carinhos, de sua solicitude,<br \/>\n    de seu leite. E achava poss&iacute;vel o casamento.<\/p>\n<p> A imagem do pai ia-se esbatendo em uma penumbra de saudade que ainda era<br \/>\n    dolorosa, mas que j&aacute; tinha encanto.<\/p>\n<p> Passava horas e horas junto da entrevada, conversava com o coronel, por<br \/>\n    vezes ria.<\/p>\n<p> &#8211; Isto vai melhor, muito melhor, dizia o bom do homem. &Eacute; p&ocirc;r-se<br \/>\n    voc&ecirc; por a&iacute; alegre, <br \/>\n    filhinha. O mundo &eacute; assim mesmo: o que n&atilde;o tem rem&eacute;dio<br \/>\n    remediado est&aacute;.<\/p>\n<p> Uma tarde, achando-se s&oacute; em sua sala, Lenita sentiu-se tomada de<br \/>\n    uma languidez deliciosa, sentou-se na rede, fechou os olhos e entregou-se<br \/>\n    &agrave; modorra branda que produzia o balan&ccedil;o.<\/p>\n<p> Em frente, sobre um console, entre outros bronzes que trouxera, estava uma<br \/>\n    das redu&ccedil;&otilde;es c&eacute;lebres de Barbedienne, a da est&aacute;tua<br \/>\n    de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador Borghese.<\/p>\n<p> Um raio morti&ccedil;o de sol poente, entrando por uma frincha da janela,<br \/>\n    dava de chapa na est&aacute;tua, afogueava-a, como que fazia correr sangue<br \/>\n    e vida no bronze mate.<\/p>\n<p> Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho suave do metal ferido<br \/>\n    pela luz.<\/p>\n<p> Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com aten&ccedil;&atilde;o a est&aacute;tua:<br \/>\n    aqueles bra&ccedil;os, aquelas pernas, aqueles m&uacute;sculos ressaltantes,<br \/>\n    aqueles tend&otilde;es retesados, aquela virilidade, aquela robustez, impressionaram-na<br \/>\n    de modo estranho.<\/p>\n<p> Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse primor anat&ocirc;mico<br \/>\n    em todas as suas minud&ecirc;ncias cruas, em todos os nadas que constituem<br \/>\n    a perfei&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica, e nunca experimentara o que ent&atilde;o<br \/>\n    experimentava.<\/p>\n<p> A cerviz taurina, os b&iacute;ceps encaro&ccedil;ados, o t&oacute;rax largo,<br \/>\n    a p&eacute;lvis estreita, os pontos retra&iacute;dos das inser&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    musculares da est&aacute;tua, tudo parecia corresponder a um ideal pl&aacute;stico<br \/>\n    que lhe vivera sempre latente no intelecto, e que despertava naquele momento,<br \/>\n    revelando brutalmente a sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Lenita n&atilde;o se podia arredar, estava presa, estava fascinada.<\/p>\n<p> Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza. Atormentava-a um desejo<br \/>\n    de coisas desconhecidas, indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-lhe<br \/>\n    que havia de ter gozo infinito se toda a for&ccedil;a do gladiador se desencadeasse<br \/>\n    contra ela, pisando-a, machucando-a, triturando-a, fazendo-a em peda&ccedil;os.<\/p>\n<p> E tinha &iacute;mpetos de comer de beijos as formas masculinas estereotipadas<br \/>\n    no bronze. Queria abra&ccedil;ar-se, queria confundir-se com elas. De repente<br \/>\n    corou at&eacute; &agrave; raiz dos cabelos.<\/p>\n<p> Em um momento, por uma como intussuscep&ccedil;&atilde;o s&uacute;bita,<br \/>\n    aprendera mais sobre si pr&oacute;pria do que em todos os seus longos estudos<br \/>\n    de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher superior, apesar de sua poderosa<br \/>\n    mentalidade, com toda a sua ci&ecirc;ncia, n&atilde;o passava, na esp&eacute;cie,<br \/>\n    de uma simples f&ecirc;mea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade<br \/>\n    org&acirc;nica do macho.<\/p>\n<p> Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invenc&iacute;vel de si pr&oacute;pria.<\/p>\n<p> Robustecer o intelecto desde o desabrochar da raz&atilde;o, perscrutar com<br \/>\n    paci&ecirc;ncia, aturadamente, de dia, de noite, a todas as horas, quase todos<br \/>\n    departamentos do saber humano, habituar o c&eacute;rebro a demorar-se sem<br \/>\n    fadiga na an&aacute;lise sutil dos mais abstrusos problemas da matem&aacute;tica<br \/>\n    transcendental, e cair de repente, com os arcanjos de Milton, do alto do c&eacute;u<br \/>\n    no lodo da terra, sentir-se ferida pelo aguilh&atilde;o da carne, espolinhar-se<br \/>\n    nas concupisc&ecirc;ncias do cio, como uma negra bo&ccedil;al, como uma cabra,<br \/>\n    como um animal qualquer&#8230; era a suprema humilha&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Fez um esfor&ccedil;o enorme, arrancou-se do feiti&ccedil;o que a dementava,<br \/>\n    e, vacilante, encostando-se aos m&oacute;veis e &agrave;s paredes, recolheu&#8211;se<br \/>\n    ao seu quarto, fechou com dificuldade as janelas, atirou-se vesti sobre a<br \/>\n    cama.<\/p>\n<p> Jazeu im&oacute;vel largo espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Uma umidade morna, que se lhe ia estendendo por entre as coxas, f&ecirc;-la<br \/>\n    erguer-se de s&uacute;bito, em rea&ccedil;&atilde;o violenta contra a modorra<br \/>\n    que a prostrara.<\/p>\n<p> Com movimentos sacudidos, nervosos, atirou o xale, desabotoou r&aacute;pida<br \/>\n    o corpete, arrebentou os coses da saia preta e das an&aacute;guas, ficou em<br \/>\n    camisa.<\/p>\n<p> Uma larga mancha vermelha, r&uacute;tila, viva, maculava a alvura da cambraia.<\/p>\n<p> Era a onda catamenial, o fluxo sang&uuml;&iacute;neo da fecundidade que<br \/>\n    ressumava de seus flancos robustos como da uva esmagada jorra o mosto nubente.<\/p>\n<p> Mais de cem vezes j&aacute; a natureza se tinha assim nela manifestado,<br \/>\n    e nunca lhe causara o que ela ent&atilde;o estava sentindo.<\/p>\n<p> Quando aos quatorze anos, ap&oacute;s um dia de quebramento e cansa&ccedil;o,<br \/>\n    se mostrara o fen&ocirc;meno pela primeira vez ela ficara louca de terror,<br \/>\n    acreditara-se ferida de morte, e, com a impud&iacute;cia da inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n    correra em gritos para o pai, contara-lhe tudo.<\/p>\n<p> Lopes Matoso procurara sosseg&aacute;-la &#8211; que n&atilde;o era nada; que<br \/>\n    isso se dava com todas as mulheres; que evitasse molhadelas, sol, sereno,<br \/>\n    que dentro de tr&ecirc;s dias, ou de cinco ao mais tardar, havia de estar<br \/>\n    boa, que se n&atilde;o assustasse da repeti&ccedil;&atilde;o todos os meses.<\/p>\n<p>Com o tempo, os livros fisiologia acabaram de a edificar. em P&uuml;ss aprendera<br \/>\n    que a menstrua&ccedil;&atilde;o &eacute; uma muda epitelial do &uacute;tero,<br \/>\n    conjunta por simpatia com a ovula&ccedil;&atilde;o, e que o terr&iacute;vel<br \/>\n    e caluniado corrimento &eacute; apenas uma conseq&uuml;&ecirc;ncia natural<br \/>\n    dessa muda.<\/p>\n<p> Resignara-se, afizera-se a mais esta imposi&ccedil;&atilde;o do organismo,<br \/>\n    assim como j&aacute; estava afeita a outras. Somente, para estudo de si pr&oacute;pria,<br \/>\n    come&ccedil;ara de marcar, com estigmas de l&aacute;pis vermelho, em calendariozinhos<br \/>\n    de algibeira, as datas dos aparecimentos.<\/p>\n<p> Anoiteceu.<\/p>\n<p> A mulata a veio chamar para a ceia. Encontrou-a deitada, encolhida, aconchegando-se<br \/>\n    nas roupas.<\/p>\n<p> Perguntou-lhe se estava doente, ao saber que efetivamente o estava, saiu,<br \/>\n    avisou o senhor, trouxe as suas cobertas e travesseiros, arranjou uma cama<br \/>\n    no tapete, ao p&eacute; do leito, quedou-se sol&iacute;cita para o que fosse<br \/>\n    preciso.<\/p>\n<p> O coronel, cheio de cuidados, veio &agrave; porta do quarto interrogar Lenita.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o era nada, respondeu ela, que aquilo n&atilde;o passava de<br \/>\n    uma indisposi&ccedil;&atilde;o sem conseq&uuml;&ecirc;ncias, que havia de<br \/>\n    acordar boa no dia seguinte.<\/p>\n<p> &#8211; Menina, voc&ecirc; sabe que agora seu pai sou eu. Se precisar de alguma<br \/>\n    coisa, franquezinha, mande-me chamar a qualquer hora, n&atilde;o receie me<br \/>\n    incomodar. A pobre da velha l&aacute; est&aacute; aflita, amaldi&ccedil;oando<br \/>\n    o tolhimento que a faz n&atilde;o prestar para nada. N&atilde;o querer&aacute;<br \/>\n    voc&ecirc; um ch&aacute; de salva, um pouco de vinho quente?<br \/>\n    &#8211; Obrigada, n&atilde;o quero coisa nenhuma.<\/p>\n<p> &#8211; Bem, bem, j&aacute; a deixo em paz. At&eacute; amanh&atilde;. Procure<br \/>\n    dormir.<\/p>\n<p> E saiu.<\/p>\n<p> Lenita adormeceu. A princ&iacute;pio foi um dormitar interrompido, irrequieto,<br \/>\n    cortado de pequenos gritos. Depois apoderou-se dela um como langor, um &ecirc;xtase<br \/>\n    que n&atilde;o era bem vig&iacute;lia, e que n&atilde;o era bem sono. Sonhou<br \/>\n    ou antes viu que o gladiador avolumava-se na sua peanha, tomava estatura de<br \/>\n    homem, abaixava os bra&ccedil;os, endireitava-se, descia, caminhava para o<br \/>\n    seu leito, parava &agrave; beira, contemplando-a detidamente, amorosamente.<\/p>\n<p> E Lenita rolava com del&iacute;cias no efl&uacute;vio magn&eacute;tico do<br \/>\n    seu olhar, como na &aacute;gua deliciosa de um banho t&eacute;pido.<\/p>\n<p> Tremores s&uacute;bitos percorriam os membros da mo&ccedil;a; seus p&ecirc;los<br \/>\n    todos hispidavam-se em uma irrita&ccedil;&atilde;o mordente e lasciva, dolorosa<br \/>\n    e cheia de gozo.<\/p>\n<p> O gladiador estendeu o bra&ccedil;o esquerdo, apoiou-se na cama, sentou-se<br \/>\n    a meio, ergueu as cobertas, e sempre a fit&aacute;-la, risonho, fascinador,<br \/>\n    foi-se recostando suave at&eacute; que se deitou de todo, tocando-lhe o corpo<br \/>\n    com a nudez provocadora de suas formas viris.<\/p>\n<p> O contato n&atilde;o era o contato frio e duro de uma est&aacute;tua de<br \/>\n    bronze; era o contato quente e macio de um homem vivo.<\/p>\n<p> E a esse contato apoderou-se de Lenita um sentimento indefin&iacute;vel;<br \/>\n    era receio e desejo, temor e vol&uacute;pia a um tempo. Queria, mas tinha<br \/>\n    medo.<\/p>\n<p> Colaram-se-lhe nos l&aacute;bios os l&aacute;bios do gladiador, seus bra&ccedil;os<br \/>\n    fortes enla&ccedil;aram-na, seu amplo peito cobriu-lhe o seio delicado.<\/p>\n<p> Lenita ofegava em estreme&ccedil;&otilde;es de prazer, mas de prazer incompleto,<br \/>\n    falho, torturante. Abra&ccedil;ando o fantasma de sua alucina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ela revolvia-se como uma besta-fera no ardor do cio. A tonicidade nervosa<br \/>\n    o erotismo, o orgasmo, manifestava-se em tudo, no palpitar dos l&aacute;bios<br \/>\n    t&uacute;midos, nos bicos dos seios cupidamente retesados. Em uma convuls&atilde;o<br \/>\n    desmaiou.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h4>\n<p>Lenita voltava &agrave; sa&uacute;de a olhos vistos.<\/p>\n<p> Levantava-se cedo, tomava um copo de leite quente, dava um passeio pelo<br \/>\n    campo, almo&ccedil;ava com apetite, depois do almo&ccedil;o sentava-se ao<br \/>\n    piano, tocava com brio pe&ccedil;as marciais, alegres, movimentadas, de ritmo<br \/>\n    sacudido.<\/p>\n<p> Ia ao pomar, comia frutas, trepava em &aacute;rvores.<\/p>\n<p> Jantava, ceava, deitava-se logo depois da ceia, levava a noite de um sono.<\/p>\n<p> Tomara-se garrida: mirava-se muito ao espelho, cuidava com impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    do alinho do vestir, tomava os cabelos, que eram muito pretos, com flores<br \/>\n    de cor muito viva.<\/p>\n<p> Abusava de perfumes: a sua roupa branca recendia a vetiver, a s&acirc;ndalo,<br \/>\n    a ixora, a peau d&#8217;Espagne.<\/p>\n<p> Corria, saltava, fazia longas excurs&otilde;es a cavalo, quase sempre a<br \/>\n    galope, estimulando o animal com o chicotinho, com o chap&eacute;u, de faces<br \/>\n    rubras, brilhantes os olhos, cabelos soltos ao vento.<\/p>\n<p> Ca&ccedil;ava.<\/p>\n<p> Um dia calmoso, depois do almo&ccedil;o, tomou uma espingardinha Galand<br \/>\n    de que habitualmente usava, atravessou o pasto, enfiou por um carreadouro<br \/>\n    sombrio, atrav&eacute;s de um vasto trato de mata virgem.<\/p>\n<p> Seguiu distra&iacute;da, em cisma, avan&ccedil;ou muito, foi longe.<\/p>\n<p> De repente prendeu-lhe a aten&ccedil;&atilde;o um murmurejar de &aacute;guas,<br \/>\n    doce, mon&oacute;tono, &agrave; esquerda.<\/p>\n<p> Tinha sede, teve desejo de beber, tomou para l&aacute;, seguindo uma trilha<br \/>\n    estreita.<\/p>\n<p> Parou assombrada ante o cen&aacute;rio majestoso que a pouca dist&acirc;ncia<br \/>\n    se lhe adregou.<\/p>\n<p> No fundo de uma barroca muito vasta erguia-se um pared&atilde;o de pedra<br \/>\n    negra, musgoso, talhado a pique: por sobre ele atirava-se um jorro de &aacute;gua<br \/>\n    que ia formar no talvegue da barroca um lagozinho manso, profundo, cristalino.<\/p>\n<p> Escadeando por sobre o a&ccedil;ude natural que fechava a barroca pelo lado,<br \/>\n    baixo, derivava-se a &aacute;gua, sonorosa, fugitiva.<\/p>\n<p> No espelho calmo do lago refletia-se a vegeta&ccedil;&atilde;o luxuriante<br \/>\n    que o emoldurava.<\/p>\n<p> Perobas gigantescas de fronte escura e casca rugosa; jequitib&aacute;s seculares,<br \/>\n    esparramando no azul do c&eacute;u a expans&atilde;o verde de suas copadas<br \/>\n    alegres; figueiras brancas de ra&iacute;zes chatas, protra&iacute;das a estender<br \/>\n    ao longe, horizontalmente, os galhos desconformes como grandes membros humanos<br \/>\n    aleijados; canchins de folhas espinhentas, a destilar pelas fibras do c&oacute;rtex<br \/>\n    vermelho-escuro um leite c&aacute;ustico, venenoso; guarat&atilde;s esbeltos,<br \/>\n    lisos no tronco, muito elevados; tai&uacute;vas claras; paus-d&#8217;alho verdenegrosos,<br \/>\n    vi&ccedil;os&iacute;ssimos, f&eacute;tidos; guaiap&aacute;s perigosos abrolhados<br \/>\n    em ac&uacute;leos lancinantes e pe&ccedil;onhentos; mil lianas, mil trepadeiras,<br \/>\n    mil orqu&iacute;deas diversas, de flores roxas, amarelas, azuis, escarlates,<br \/>\n    brancas -, tudo isso se confundia em uma massa matizada, em uma orgia de verdura,<br \/>\n    em um deboche de cores que excedia, que fatigava a imagina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O sol, dardejando feixes luminosos por entre a folhagem, mosqueava o solo<br \/>\n    pardo de reflexos verdejantes.<\/p>\n<p> Insetos multicolores esvoa&ccedil;avam zumbindo, sussurrando. Um soroco&aacute;<br \/>\n    bronzeado soltava de uma caneleira seu sibilo intercadente.<\/p>\n<p> Uma exala&ccedil;&atilde;o capitosa subia da terra, casava-se estranhamente<br \/>\n    &agrave; ess&ecirc;ncia sutil que se desprendia das orqu&iacute;deas fragrantes:<br \/>\n    era um misto de perfume suav&iacute;ssimo de cheiro &aacute;spero de ra&iacute;zes<br \/>\n    de seiva, que relaxava os nervos, e adormecia o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Lenita hauriu a sorvos largos esse ambiente embriagador, deixou-se vencer<br \/>\n    dos amavios da floresta.<\/p>\n<p> Apoderou-se dela um desejo ardente, irresist&iacute;vel, de banhar-se nessa<br \/>\n    &aacute;gua fresca, de perturbar esse lago calmo.<\/p>\n<p> Circunvolveu os olhos, perscrutou toda a roda, a ver se algu&eacute;m a<br \/>\n    poderia estar espreitando.<\/p>\n<p> &#8211; Tolice! pensou, o coronel n&atilde;o sai, o administrador e os escravos<br \/>\n    est&atilde;o no servi&ccedil;o, no cafezal, n&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m<br \/>\n    de fora na fazenda. Demais, nem isto &eacute; caminho. Estou s&oacute;, absolutamente<br \/>\n    s&oacute;.<\/p>\n<p> Dep&ocirc;s a espingarda e junto dela o chap&eacute;u de palha, de abas<br \/>\n    largas, que a protegia nesses passeios, come&ccedil;ou a despir-se.<\/p>\n<p> Tirou o paletozinho, o corpete espartilhado, depois a saia preta, as an&aacute;guas.<\/p>\n<p> Em camisa, baixou a cabe&ccedil;a, levou as m&atilde;os &agrave; nuca para<br \/>\n    prender as tran&ccedil;as e, enquanto o fazia, remirava complacente, no cabe&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alvo, os seios erguidos, duros, cetinados, betados aqui e ali de uma veiazinha<br \/>\n    azul.<\/p>\n<p> E aspirava com del&iacute;cias, por entre os perfumes da mata, o odor de<br \/>\n    si pr&oacute;pria o cheiro bom de mulher mo&ccedil;a que se exalava do busto.<\/p>\n<p> Sentou-se, cruzou as pernas, desatou os cord&otilde;es dos borzeguins Clark,<br \/>\n    tirou as meias, afagou corrente, demoradamente, os pezinhos os breves em que<br \/>\n    se estampara tecido fino do fio de Esc&oacute;cia. Ergueu-se, saltou das an&aacute;guas,<br \/>\n    retorceu-se um pouco, deixou cair a camisa. A cambraia achatou-se em dobras<br \/>\n    moles, envolvendo-lhe os p&eacute;s.<\/p>\n<p> Era uma formosa mulher.<\/p>\n<p> Moreno-clara, alta, muito bem lan&ccedil;ada, tinha bra&ccedil;os e pernas<br \/>\n    roli&ccedil;as, musculosas, punhos e tornozelos finos, m&atilde;os e p&eacute;s<br \/>\n    aristocraticamente perfeitos, terminados por unhas r&oacute;seas, muito polidas.<br \/>\n    Por sob os seios rijos, protra&iacute;dos, afinava-se o corpo na cintura para<br \/>\n    alargar-se em uns quadris amplos, para arredondar-se de leve em um ventre<br \/>\n    firme, ensombrado inferiormente por velo escuro abundant&iacute;ssimo. Os<br \/>\n    cabelos pretos com reflex&otilde;es azulados ca&iacute;am em franjinhas curtas<br \/>\n    sobre a testa indo frisar-se lascivamente na nuca. O pesco&ccedil;o era proporcionado,<br \/>\n    forte, a cabe&ccedil;a pequena, os olhos negros vivos, o nariz direito, os<br \/>\n    l&aacute;bios rubros, os dentes alv&iacute;ssimos, na face esquerda tinha<br \/>\n    um sinalzinho de nascen&ccedil;a, uma pintinha muito escura, muito redonda.<\/p>\n<p> Lenita contemplava-se com amor-pr&oacute;prio satisfeito, embevecida, louca<br \/>\n    de sua carne. Olhou-se, olhou para o lago, olhou para a selva, como reunindo<br \/>\n    tudo para formar um quadro, uma s&iacute;ntese.<\/p>\n<p> Acocorou-se faceiramente, assentou a n&aacute;dega direita sobre o joelho<br \/>\n    esquerdo erguido, lembrando, reproduzindo a posi&ccedil;&atilde;o conhecida<br \/>\n    da est&aacute;tua de Salon, da Venus Accroupie.<\/p>\n<p> Esteve, esteve assim muito tempo: de repente deu um salto, atufou-se na<br \/>\n    &aacute;gua, surgiu, come&ccedil;ou a nadar.<\/p>\n<p> O lago era profundo, mas estreito. Lenita ia e vinha, de uma margem para<br \/>\n    a outra, do pared&atilde;o ao a&ccedil;ude, do a&ccedil;ude ao pared&atilde;o.<br \/>\n    Passava por sob o jorro e dava gritos de prazer e de susto ao choque duro<br \/>\n    da massa l&iacute;quida sobre o seu dorso acetinado.<\/p>\n<p> Virava de costas e deixava-se boiar, com as pernas estendidas, com o ventre<br \/>\n    para o c&eacute;u, com os bra&ccedil;os alargados, movendo as m&atilde;os<br \/>\n    abertas, vagarosamente, por baixo da &aacute;gua.<\/p>\n<p> Voltava-se e recome&ccedil;ava a nadar, r&aacute;pida como uma flecha.<\/p>\n<p> Um calafrio avisou-a de que era tempo de sair da &aacute;gua.<\/p>\n<p> Saiu com o corpo arrepiado, g&eacute;lido, a tiritar. Quedou-se ao sol,<br \/>\n    em uma aberta, esperando a rea&ccedil;&atilde;o do calor, soltando, torcendo,<br \/>\n    sacudindo os cabelos. De seu corpo desprendia-se um vaporzinho sutil, uma<br \/>\n    aura t&ecirc;nue, que a envolvia toda.<\/p>\n<p> O calor do sol e o seu pr&oacute;prio calor enxugaram-na de pronto. Vestiu-se,<br \/>\n    espalhou pelas costas os cabelos ainda molhados, p&ocirc;s o chap&eacute;u,<br \/>\n    tomou a espingarda, e partiu para casa, a correr, trauteando um trecho dos<br \/>\n    Sinos de Comeville.<\/p>\n<p> &#8211; Oh! meus pecados! Gritou o coronel ao v&ecirc;-la chegar, alegre, risonha,<br \/>\n    com os cabelos &uacute;midos. Pois o &eacute; esta louquinha que se foi banhar<br \/>\n    no po&ccedil;o do pared&atilde;o!<br \/>\n    Aquilo &eacute; &aacute;gua gelada&#8230; Com certeza pilhou um formid&aacute;vel<br \/>\n    resfriamento!<br \/>\n    &#8211; O que eu pilhei foi um formid&aacute;vel apetite: hoje ao jantar hei de<br \/>\n    comer por quatro.<\/p>\n<p> &#8211; &Oacute; moleque, anda, vai, traz conhaque l&aacute; de dentro, depressa.<\/p>\n<p> &#8211; O coronel vai beber conhaque?<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; vai beber conhaque.<\/p>\n<p> &#8211; Nunca provei tal coisa.<\/p>\n<p> &#8211; Pois agora h&aacute; de prov&aacute;-lo, &eacute; o &uacute;nico meio<br \/>\n    de fazermos as pazes.<\/p>\n<p> Veio o conhaque, um conhaque genu&iacute;no, velho, de 1848. Lenita bebeu<br \/>\n    um calicezinho, tossiu. Lagrimejaram-lhe os olhos, achou forte mas gostou;<br \/>\n    repetiu.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h4>\n<p>Chegara o dia de principiar a moagem.<\/p>\n<p> J&aacute; de v&eacute;spera tinham os negros andado em uma faina a varrer<br \/>\n    a casa no engenho, a lavar os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras<br \/>\n    e o alambique, com grandes gastos de lim&atilde;o e cinza.<\/p>\n<p> Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de<br \/>\n    emurchecimento que aumentava, que avan&ccedil;ava gradualmente no sentido<br \/>\n    da largura. Era o corte que come&ccedil;ara. As roupas brancas de algod&atilde;o,<br \/>\n    as saias azuis das pretas, as camisas de baeta vermelha dos pretos punham<br \/>\n    notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por lufadas<br \/>\n    de vento quente.<\/p>\n<p> No casar&atilde;o do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique<br \/>\n    de cobre vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas<br \/>\n    largas frestas. As fornalhas afundavam-se l&ocirc;bregas, escancarando as<br \/>\n    grandes bocas gulosas.<\/p>\n<p> A &aacute;gua, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da comporta<br \/>\n    sobre as l&iacute;nguas da roda,<br \/>\n    filetes cristalinos. As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    luziam negros de graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos<br \/>\n    amplos, absorvendo a luz no pardo fosco da madeira muito lavada.<\/p>\n<p> Ao longe, quase indistinto a princ&iacute;pio, mas progressivamente acentuado,<br \/>\n    fez-se ouvir um chiar agudo, cont&iacute;nuo, mon&oacute;tono, irritante.<br \/>\n    A crioulada reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene, tripudiando<br \/>\n    de j&uacute;bilo.<\/p>\n<p> Eram os primeiros carros de cana que chegavam.<\/p>\n<p> Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de grandes aspas, avan&ccedil;avam<br \/>\n    os ronceiros ve&iacute;culos estalando, gemendo, sob a carga enorme de grossas<br \/>\n    e compridas canas, riscadas de verde e roxo.<\/p>\n<p> Carreiros negros, altos, espada&uacute;dos, cingidos na altura dos fins<br \/>\n    por um tirador de couro cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com longas<br \/>\n    aguilhadas, com brados ostent&oacute;ricos:<br \/>\n    -Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!<br \/>\n    Os carros entraram no compartimento das moendas. Negros &aacute;geis saltaram<br \/>\n    para cima deles, a descarregar. Em um momento empilharam-se as canas, de p&eacute;,<br \/>\n    atadas em feixe com as pr&oacute;prias folhas.<\/p>\n<p> Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da calha, a &aacute;gua<br \/>\n    despenhou-se em queda violenta sobre as l&iacute;nguas da roda, esta come&ccedil;ou<br \/>\n    de mover-se, lenta a princ&iacute;pio, depois acelerada.<\/p>\n<p> Cortando os atilhos de um feixe a golpes r&aacute;pidos de fac&atilde;o,<br \/>\n    o negro moedor entregou as primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se<br \/>\n    um estalejar de fibras esmagadas, o baga&ccedil;o vomitado picou de branco<br \/>\n    o desv&atilde;o escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a correr<br \/>\n    pela bica em jorro fano, verdejante. Ap&oacute;s pequeno trajeto foi cair<br \/>\n    no cocho grande, marulhosa, gorgolante, com grande espumarada resistente.<\/p>\n<p> Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos cabos, tomaram<br \/>\n    lugar junto &agrave;s caldeiras.<\/p>\n<p> Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um &aacute;tomo. A fornalha<br \/>\n    esbraseou-se, escandesceu, irradiando um calor doce por toda a vasta quadra.<br \/>\n    As espumadeiras destras atiravam ao ar em louras espadanas o mela&ccedil;o<br \/>\n    fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, refervendo, aos gorgol&otilde;es.<\/p>\n<p> Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espa&ccedil;os por<br \/>\n    uma lufada t&eacute;pida de cheiro humano &aacute;spero, de catinga sufocante<br \/>\n    exalada dos negros em suor.<\/p>\n<p> O coronel gostava da lavoura de cana; vencendo o seu reumatismo, passava<br \/>\n    os dias da moagem sentado em um banco de cabri&uacute;va alto, largo, fixo<br \/>\n    entre duas janelas, a dist&acirc;ncia razo&aacute;vel das caldeiras. Dirigia<br \/>\n    o trabalho, tomando o ponto ao mela&ccedil;o em um tachinho de cobre muito<br \/>\n    limpo, muito areado, remexendo com uma p&aacute; o a&ccedil;&uacute;car na<br \/>\n    esfriadeira, quando este, transvazado os reminh&oacute;is por uma bica volante<br \/>\n    especial, a&iacute; parava, coalhando-se por cima em crosta amarela, quebradi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Lenita n&atilde;o sa&iacute;a do engenho; tudo queria ela saber, de tudo<br \/>\n    se informava.<\/p>\n<p> O coronel passava por verdadeiros interrogat&oacute;rios &#8211; quais os meses<br \/>\n    do plantio da cana; que tempo levava esta na terra at&eacute; ficar pronta<br \/>\n    para o corte; quando e quantas vezes devia ser carpida; como se cortava; que<br \/>\n    era baixar, que era levantar o pod&atilde;o; quais os sinais de maturidade;<br \/>\n    como se conhecia a cana passada; que era carimar; por que tinha menos vi&ccedil;o<br \/>\n    e mais do&ccedil;ura a cana de terra safada; como se plantavam as pontas.<\/p>\n<p> Entrava em detalhes de lavoura, tomava notas; sabia que um alqueire agr&aacute;rio<br \/>\n    paulista tem cem bra&ccedil;as cinq&uuml;enta; que a Quarta essa &aacute;rea,<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; lavoura de canas, chama-se quartel; que<br \/>\n    um quartel de terra pr&oacute;pria, em anos favor&aacute;veis, d&aacute; de<br \/>\n    quarenta a cinq&uuml;enta carros de canas; que um carro de canas boas produz<br \/>\n    cinco arrobas de a&ccedil;&uacute;car; que o a&ccedil;&uacute;car sem barro,<br \/>\n    mascavo, faz mais conta em com&eacute;rcio do que o a&ccedil;&uacute;car com<br \/>\n    barro, alvo; que o barro &eacute; suprido com vantagem pelo estrume bovino.<\/p>\n<p> Subia ao tendal, contava as f&ocirc;rmas, duas em cada pau; computava o<br \/>\n    produto em a&ccedil;&uacute;car das quatro tarefas de cada dia; calculava<br \/>\n    o que haviam de produzir, em aguardente, os res&iacute;duos, a espuma, o mel;<br \/>\n    avaliava a capacidade dos caix&otilde;es, dos estanques, dos vasos de tanoa<br \/>\n    de grande arquea&ccedil;&atilde;o; punha-se ao fato dos pre&ccedil;os; comparava<br \/>\n    os do ano corrente com os dos nove anos anteriores do dec&ecirc;nio; generalizava,<br \/>\n    induzia, chegava a conclus&otilde;es positivas sobre a renda do munic&iacute;pio<br \/>\n    em futuro pr&oacute;ximo, dada mesmo a elimina&ccedil;&atilde;o do fator servil.<\/p>\n<p> O coronel admirava-a. Um dia disse-lhe:<br \/>\n    &#8211; Com uma mulher como voc&ecirc; &eacute; que eu devia ter casado.<\/p>\n<p> Pobre eu n&atilde;o sou, mas estaria podre de rico se a tivesse tido para<br \/>\n    minha administradora desde os meus princ&iacute;pios. Inda se eu tivesse um<br \/>\n    filho ou um neto da sua idade para se casar com voc&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Por falar em filho, quando vem o seu que est&aacute; em Paranapanema?<br \/>\n    perguntou Lenita.<\/p>\n<p> &#8211; Eu sei l&aacute;? Aquilo &eacute; esquisit&atilde;o, sempre foi. Mete-se<br \/>\n    com os livros e fica meses sem sair do quarto. De repente vira-lhe a mareta,<br \/>\n    e l&aacute; se vai ele para o sert&atilde;o, p&otilde;e-se a ca&ccedil;ar<br \/>\n    e adeus! N&atilde;o se lembra mais de nada.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; casado, parece-me ter ouvido dizer.<\/p>\n<p> &#8211; Desgra&ccedil;adamente.<\/p>\n<p> &#8211; Onde est&aacute; a mulher?<br \/>\n    &#8211; Na terra dela, em Fran&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Com que, ent&atilde;o, &eacute; francesa?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;, ele casou-se por extravag&acirc;ncia em Paris; no fim de um ano<br \/>\n    nem ele podia suportar a mulher, nem ela a ele. Separaram-se.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o sabia que seu filho tinha estado na Europa.<\/p>\n<p> &#8211; Esteve, esteve l&aacute; dez anos; quando voltou at&eacute; j&aacute;<br \/>\n    falava mal o portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; Em que pa&iacute;ses esteve?<br \/>\n    &#8211; Um pouco em toda a parte: esteve na It&aacute;lia, na &Aacute;ustria, na<br \/>\n    Alemanha, em Fran&ccedil;a. Na Inglaterra foi que parou mais tempo: demorou-se<br \/>\n    l&aacute;, aprendendo com um tip&atilde;o que afirma que n&oacute;s somos<br \/>\n    macacos.<\/p>\n<p> &#8211; Darwin?<br \/>\n    &#8211; Exatamente.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o seu filho &eacute; homem muito instru&iacute;do?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;, fala umas poucas l&iacute;nguas, e conhece bastantes ci&ecirc;ncias.<br \/>\n    Sabe at&eacute; medicina.<\/p>\n<p> &#8211; Deve ser muito agrad&aacute;vel a sua companhia.<\/p>\n<p> &#8211; H&aacute; ocasi&otilde;es em que &eacute; de fato, h&aacute; outras em<br \/>\n    que nem o diabo o pode aturar. Est&aacute; ent&atilde;o com uma coisa que<br \/>\n    ele chama em ingl&ecirc;s&#8230; um nome arrevesado.<\/p>\n<p> &#8211; Blue devils?<br \/>\n    &#8211; H&aacute; de ser isso. Ent&atilde;o voc&ecirc; tamb&eacute;m pesca um pouco<br \/>\n    da l&iacute;ngua dos bifes?<br \/>\n    &#8211; Falo ingl&ecirc;s sofrivelmente.<\/p>\n<p> &#8211; Bem bom, quando Manduca vier e estiverem de veneta, temperar&atilde;o<br \/>\n    l&iacute;ngua para matar o tempo.<\/p>\n<p> &#8211; Estimarei muito ter ocasi&atilde;o de praticar.<\/p>\n<p> E Lenita da&iacute; em diante pensou sempre, mesmo a seu pesar, nesse homem<br \/>\n    exc&ecirc;ntrico que, tendo vivido por largo espa&ccedil;o entre os esplendores<br \/>\n    do mundo antigo, a ouvir os corifeus da ci&ecirc;ncia, a estudar de perto<br \/>\n    as mais subidas manifesta&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito humano; que,<br \/>\n    tendo desposado por amor, de certo, uma das primeiras mulheres do mundo, uma<br \/>\n    parisiense, se deixara vencer de t&eacute;dio a ponto de se vir encafuar em<br \/>\n    uma fazenda remota do oeste da prov&iacute;ncia de S&atilde;o Paulo, e que,<br \/>\n    como isso lhe n&atilde;o bastasse, l&aacute; ia para o sert&atilde;o desconhecido<br \/>\n    a ca&ccedil;ar animais ferozes, a conviver com bugres bravos.<\/p>\n<p> Sabia que era homem de quarenta e tantos anos, pouco mais mo&ccedil;o do<br \/>\n    que lhe morrera o pai.<\/p>\n<p> Figurava-o em uma virilidade robusta que, se j&aacute; n&atilde;o era mocidade,<br \/>\n    ainda n&atilde;o era velhice; emprestava-lhe uma pl&aacute;stica fort&iacute;ssima,<br \/>\n    atl&eacute;tica, a do torso do Belvedere; dava-lhe uns olhos negros, imperiosos,<br \/>\n    profundos, dominadores. Ansiava por que lhe chegasse a not&iacute;cia de que<br \/>\n    ele vinha vindo, de que j&aacute; tinha pedido os animais para transportar-se<br \/>\n    da esta&ccedil;&atilde;o &agrave; fazenda.<\/p>\n<p> E continuava na sua alegria progressiva: a saudade do pai j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era dolorosa, era apenas melanc&oacute;lica.<\/p>\n<p> Bebia garapa, mas preferia-a picada. Gostava muito de chupar canas: que<br \/>\n    era melhor do que garapa, dizia; que a cana descascada, torneada a canivete,<br \/>\n    triturada pelos dentes tinha um frescor, uma do&ccedil;ura especial, que o<br \/>\n    esmagamento pelas moendas lhe tirava.<\/p>\n<p> Detestava o furu-furu, mas em compensa&ccedil;&atilde;o adorava o ponto,<br \/>\n    o puxa-puxa. Quando o mela&ccedil;o come&ccedil;ava na esfriadeira a engrossar,<br \/>\n    a cobrir-se de espuma amarela, ela corria-lhe o &iacute;ndice da m&atilde;o<br \/>\n    direita pela superf&iacute;cie quente, tirava urna dedada grande, lambia-a<br \/>\n    com prazer dando estalinhos com a boca, fechando os olhos. Um dia um preto<br \/>\n    que tinha a seu cargo guiar a carro&ccedil;a de baga&ccedil;o para o bagaceiro,<br \/>\n    e que trazia ao p&eacute; esquerdo uma grande pega de ferro, falou-lhe:<br \/>\n    &#8211; Sinh&aacute;, olhe como est&aacute; esta perna; est&aacute; toda ferida.<br \/>\n    Ferro pesa muito, fale com sinh&ocirc; para tirar.<\/p>\n<p>E mostrava o tornozelo ulcerado pela pega, f&eacute;tido, envolto em trapos<br \/>\n    muito sujos.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que fez voc&ecirc; para estar sofrendo isto?<br \/>\n    &#8211; Pecado, sinh&aacute;; fugi.<\/p>\n<p> &#8211; Era maltratado, estava com medo de apanhar?<br \/>\n    &#8211; Nada, sinh&aacute;: negro &eacute; mesmo bicho ruim, &agrave;s vezes perde<br \/>\n    a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Se voc&ecirc; me promete n&atilde;o fugir mais, eu vou pedir ao coronel<br \/>\n    que mande tirar o ferro.<\/p>\n<p> &#8211; Promete, sinh&aacute;: negro promete, palavra de Deus! Deixa estar. S&atilde;o<br \/>\n    Benedito h&aacute; de dar a<br \/>\n    sinh&aacute; um marido bonito como sinh&aacute; mesmo.<\/p>\n<p> E deu uma grande risada alvar.<\/p>\n<p> Lenita gostou do bom desejo e do cumprimento e sorriu-se.<\/p>\n<p> De tarde falou ao coronel &#8211; que aquilo n&atilde;o tinha raz&atilde;o de<br \/>\n    ser, que era barbaridade, uma vergonha, uma coisa sem nome, que mandasse tirar<br \/>\n    o ferro.<\/p>\n<p> &#8211; Ai, filha! voc&ecirc; n&atilde;o entende deste riscado. Qual barbaridade,<br \/>\n    nem qual carapu&ccedil;a! Neste mundo n&atilde;o existe coisa alguma sem sua<br \/>\n    raz&atilde;o de ser. Estas filantropias, estas jeremiadas modernas de aboli&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de n&atilde;o sei que diabo de igualdade, s&atilde;o patranhas, s&atilde;o<br \/>\n    cantigas. &Eacute; chover no molhado &#8211; preto precisa de couro e ferro como<br \/>\n    precisa de angu e baeta. Havemos de ver no que h&aacute; de parar a lavoura<br \/>\n    quando esta gente n&atilde;o tiver no eito, a tirar-lhe c&oacute;cegas, uma<br \/>\n    boa guasca na ponta de um pau, manobrada por um feitor destorcido. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; porque eu seja maligno que digo e fa&ccedil;o estas coisas; eu at&eacute;<br \/>\n    tenho fama de bom. &Eacute; que sou lavrador, e sei o nome aos bois. Enfim,<br \/>\n    voc&ecirc; pede, eu vou mandar tirar o ferro. Mas s&atilde;o favas contadas<br \/>\n    &#8211; ferro tirado, preto no mato.<\/p>\n<p> A moagem continuava, o canavial se ia convertendo em palha&ccedil;a: &agrave;<br \/>\n    verdura clara viva, sucedia um pardo tosco, sujo, muito triste. O vento esfregava<br \/>\n    as folhas mortas, ressequidas, arrancando delas um som &aacute;spero de atrito,<br \/>\n    estalado, met&aacute;lico, irritad&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> O bagaceiro crescia, avultava: na brancura esverdinhada punham notas escuras<br \/>\n    os su&iacute;nos, bovinos e muares que a&iacute; passavam o dia, mastigando,<br \/>\n    mascando, esmoendo. De repente armava-se uma grande briga; ouviam-se grunhidos<br \/>\n    agudos, mugidos roucos, orneios feros. Uma dentada obl&iacute;qua, um guampa&ccedil;o,<br \/>\n    uma parelha de coices tinha dado ganho de causa ao mais forte.<\/p>\n<p> O odor suave do primeiro ferver da garapa no come&ccedil;o da moagem se<br \/>\n    acentuara em um cheiro forte, entontecedor, de a&ccedil;&uacute;car cozido,<br \/>\n    de sacarose fermentada que se fazia sentir a mais de um quarto de l&eacute;gua<br \/>\n    de dist&acirc;ncia.<\/p>\n<h4><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h4>\n<p>Terminara a moagem, ia adiantada a primavera.<\/p>\n<p> A flora tropical rejuvenescera na muda de todos os anos: os gomos, os brotos,<br \/>\n    a fronde nova rebentara pujante, aqui de um verde-claro deslavado, veludoso,<br \/>\n    muito tenro; ali lustrosa vidrenta, cor de ferrugem; al&eacute;m rubra. Depois<br \/>\n    tudo isso se expandira, se robustecera, se consolidara em uma verdura forte,<br \/>\n    sadia, vivaz.<\/p>\n<p> A natureza mudara de toilette e entrara no per&iacute;odo dos amores.<\/p>\n<p> Irrompia a floresc&ecirc;ncia com todo o seu luxo de formas, com toda a<br \/>\n    sua prodigalidade de matizes, com todo o seu esbanjamento de perfumes.<\/p>\n<p> Por sobre os cafezais escuros atirara ela, com suave monotonia, um len&ccedil;ol<br \/>\n    de corolas alv&iacute;ssima, deslumbrante.<\/p>\n<p> Na mata toda &aacute;rvore, todo arbusto, toda planta tomava-se de estranha<br \/>\n    energia.<\/p>\n<p> As flores, em uma abund&acirc;ncia imposs&iacute;vel, comprimiam-se nos<br \/>\n    galhos, empurravam-se, deformavam-se. No quebrantamento vol&uacute;pia amorosa<br \/>\n    pendiam, reviravam os c&aacute;lices, entornavam no ambiente ondas de p&oacute;len,<br \/>\n    de pulverul&ecirc;ncia fecundante.<\/p>\n<p> &Agrave; lasc&iacute;via da flora se vinha juntar o furor er&oacute;tico<br \/>\n    da fauna.<\/p>\n<p> Por toda a parte ouviam-se gorjeios e assobios, uivos e bramidos de amor.<br \/>\n    Era o trilar do inambu, o piar do macuco, o berrar do tucano, o grasnar gargalhado<br \/>\n    do jacu, o retinir da araponga, o chiar do serelepe, o rebramar do veado,<br \/>\n    o miar plangente, quase humano dos felinos.<\/p>\n<p> A essa tempestade de notas, a esse cataclismo de gemidos c&uacute;pidos,<br \/>\n    sobrelevava o regougo &aacute;spero do cachorro-do-mato, o guincho lancinante,<br \/>\n    fren&eacute;tico do car&aacute;car&aacute; perdido na amplid&atilde;o.<\/p>\n<p> A folhagem tremia agitada, esbarrada, machucada. Insetos brilhantes, verdes<br \/>\n    como esmeraldas, rubros como rubins, revoluteavam em sussurro, agarravam-se<br \/>\n    frementes. Os p&aacute;ssaros buscavam-se, beliscavam-se, em v&ocirc;os curtos,<br \/>\n    fortes, sacudidos, com as penas arrufadas. Os quadr&uacute;pedes retou&ccedil;avam<br \/>\n    perseguiam-se, aos corcovos, arrepiando o p&ecirc;lo. Serpentes silvavam meigas,<br \/>\n    enroscando-se em lux&uacute;ria aos pares.<\/p>\n<p> A terra casava suas emana&ccedil;&otilde;es quentes, &aacute;speras, el&eacute;tricas<br \/>\n    com o morma&ccedil;o l&uacute;brico da luz do sol coada pela folhagem.<\/p>\n<p> Em cada buraco escuro, em cada fenda de rocha, por sobre o solo, nas hastes<br \/>\n    das ervas, nos galhos das &aacute;rvores, na &aacute;gua, no ar, em toda a<br \/>\n    parte, focinhos, bicos, antenas, bra&ccedil;os, &eacute;litros desejavam-se,<br \/>\n    procuravam-se, encontravam-se, estreitavam-se, confundiam-se, no ardor da<br \/>\n    sexualidade, no espasmo da reprodu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O ar como que era cortado de rel&acirc;mpagos sensuais, sentiam-se passar<br \/>\n    lufadas de t&eacute;pida vol&uacute;pia. Sobressa&iacute;a a todos os perfumes,<br \/>\n    dominava forte um cheiro acre de semente, um odor de c&oacute;pula, excitante,<br \/>\n    provocador.<\/p>\n<p> Lenita estava pregui&ccedil;osa. Internava-se na mata e, quando achava uma<br \/>\n    barroca seca, uma sombra bem escura, reclinava-se aconchegando o corpo na<br \/>\n    alfombra espessa de folhas mortas, entregava-se &agrave; moleza er&oacute;tica<br \/>\n    que estilava das n&uacute;pcias pujantes da terra. Voltava &agrave; casa,<br \/>\n    estendia-se na rede, com uma perna estirada sobre outra, com um livro que<br \/>\n    n&atilde;o lia ca&iacute;do sobre o peito, com a cabe&ccedil;a muito pendida<br \/>\n    para tr&aacute;s, com os olhos meio cerrados, e assim quedava-se horas e horas<br \/>\n    em um lugar cheio de encantos.<\/p>\n<p> Pensava constantemente, continuamente, sem o querer, no ca&ccedil;ador exc&ecirc;ntrico<br \/>\n    do Paranapanema, via-o a todo o momento junto de si, robusto, atl&eacute;tico<br \/>\n    como o ideara, dialogava com ele.<\/p>\n<p> Ficara cruel: beliscava as criolinhas, picava com agulhas, feria com canivete<br \/>\n    os animais que lhe passavam ao alcance. Uma vez um cachorro reagiu e mordeu-a.<br \/>\n    Em outra ocasi&atilde;o pegou num can&aacute;rio que lhe entrara na sala,<br \/>\n    quebrou-lhe e arrancou-lhe as pernas, desarticulou-lhe uma asa, soltou-o,<br \/>\n    findo com prazer &iacute;ntimo ao v&ecirc;-lo esvoa&ccedil;ar miseravelmente,<br \/>\n    com uma asa s&oacute;, arrastando a outra, pousando os cotos sangrentos na<br \/>\n    terra pedregosa do terreiro.<\/p>\n<p> O escravo, a quem ela fizera tirar o ferro do p&eacute;, fugira de fato,<br \/>\n    como tinha previsto o coronel: um dia voltou preso, amarrado com uma corda<br \/>\n    pelos lagartos dos bra&ccedil;os, trazido por dois caboclos.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o havia rem&eacute;dio, disse o coronel, que dessa feita o<br \/>\n    negro tinha de tomar uma funda mestra por ter abusado do apadrinhamento de<br \/>\n    Lenita, que ia tomar a p&ocirc;r-lhe o ferro, e que n&atilde;o o tiraria mais<br \/>\n    nem &agrave; m&atilde;o de Deus Padre.<\/p>\n<p> Lenita, muito de adrede, n&atilde;o intercedeu. Sentia uma curiosidade mordente<br \/>\n    de ver a aplica&ccedil;&atilde;o do bacalhau, de conhecer de vista esse supl&iacute;cio<br \/>\n    legend&aacute;rio, aviltante, atrozmente rid&iacute;culo. Folgava imenso com<br \/>\n    a ocasi&atilde;o talvez &uacute;nica que se lhe apresentava, comprazia-se<br \/>\n    com vol&uacute;pia estranha, m&oacute;rbida na id&eacute;ia das contra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de dor, dos gritos lastimados do negro mis&eacute;rrimo que n&atilde;o , havia<br \/>\n    muito lhe despertara a compaix&atilde;o.<\/p>\n<p> Disfar&ccedil;adamente, habilmente, sem tocar de modo direto no assunto,<br \/>\n    conseguiu saber do coronel que o castigo havia de ter lugar na casa do tronco,<br \/>\n    no dia seguinte, ao amanhecer.<\/p>\n<p> Passou a noite em sobressalto, acordando a todas as horas, receosa de que<br \/>\n    o sono imperioso da madrugada lhe fizesse perder o ensejo de ver o espet&aacute;culo<br \/>\n    por que tanto anelava.<\/p>\n<p> Cedo, muito escuro ainda, levantou-se, saiu, atravessou o terreiro, e, sem<br \/>\n    que ningu&eacute;m a visse, entrou no pomar.<\/p>\n<p> Do lado de leste era este fechado pela fila das senzalas, cujas paredes<br \/>\n    de barro cru erguiam-se altas, inteiri&ccedil;as, muito gretadas.<\/p>\n<p> Havia uma casa mais vasta duas vezes do que qualquer outra: era a casa do<br \/>\n    tronco.<\/p>\n<p> A essa chegou-se Lenita, encostou-se e, tirando do seio uma tesourinha que<br \/>\n    trouxera, come&ccedil;ou a abrir um buraco na parede, &agrave; altura dos<br \/>\n    olhos, entre dois barrotes e duas ripas, em lugar favor&aacute;vel, donde<br \/>\n    j&aacute; se protra&iacute;a um torr&atilde;o muito pedrento, muito fendido,<br \/>\n    meio solto.<\/p>\n<p> A tesourinha era curta, mas refor&ccedil;ada, s&oacute;lida, de a&ccedil;o<br \/>\n    excelente, de Rodgers. A obra avan&ccedil;ava, Lenita trabalhava com ardor,<br \/>\n    mas tamb&eacute;m com muita paci&ecirc;ncia, com muito jeito. O a&ccedil;o<br \/>\n    mordia, esmo&iacute;a o barro fri&aacute;vel quase sem ru&iacute;do. Um rastilho<br \/>\n    de p&oacute; amarelado maculava o vestido preto da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> Deslocou-se o torr&atilde;o, e caiu para dentro, dando um som surdo ao tombar<br \/>\n    no ch&atilde;o fofo, de terra mal batida.<\/p>\n<p> Estava feito o buraco.<\/p>\n<p> Lenita retraiu-se, ficou im&oacute;vel, sustendo a respira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s instantes estendeu o pesco&ccedil;o, espiou. Nada p&ocirc;de<br \/>\n    ver: estava muito escuro dentro. Ouvia-se um ressonar alto, igual.<\/p>\n<p> Passou-se um longo trato de tempo.<\/p>\n<p> O brilho das estrelas empalideceu. Uma faixa de luz branca desenhou-se ao<br \/>\n    nascente, ruborizou-se, purpurejou inflamada com reflexos cor de ouro. O ar<br \/>\n    tornou-se mais fino, mais sutil e a passarada rompeu num hino &aacute;spero,<br \/>\n    desacorde, mas alegre, festivo, tit&acirc;nico, saudando o dia que despontava.<\/p>\n<p> Ouviu-se o sino da fazenda vibrar muito sonoro.<\/p>\n<p> Lenita tomou a espiar: a casa do tronco j&aacute; estava clara.<\/p>\n<p> A um canto espalmava-se um estrado de madeira engordurado, lustroso pelo<br \/>\n    rostir de corpos humanos sujos. As t&aacute;buas que o constitu&iacute;am<br \/>\n    embutiam-se em um s&oacute;lido pranch&atilde;o de cabri&uacute;va, cortado<br \/>\n    em dois no sentido do comprimento: as duas pe&ccedil;as por ele formadas justapunham-se,<br \/>\n    articulando-se de um lado por uma dobradi&ccedil;a forte, presas de outro<br \/>\n    por uma fechadura de ferrolho. Na parte superior da pe&ccedil;a fixa e na<br \/>\n    inferior da m&oacute;vel havia piques semicirculares, chanfrados, que, ao<br \/>\n    ajustarem-se essas pe&ccedil;as, coincidiam, perfazendo furos bem redondos,<br \/>\n    de um dec&iacute;metro mais ou menos de di&acirc;metro.<\/p>\n<p> Era o tronco.<\/p>\n<p> Sobre o estrado, de ventre para o ar, com as pernas passadas, pouco acima<br \/>\n    dos tornozelos, nos buracos dos pranch&otilde;es, envolto em uma velha coberta<br \/>\n    de l&atilde; parda, despeda&ccedil;ada, imunda, tinha atravessado a noite<br \/>\n    o escravo fugido.<\/p>\n<p> Dormira, ao bater do sino acordara.<\/p>\n<p> Segurando-se a um joelho com as m&atilde;os ambas, sentara-se por um pouco,<br \/>\n    espregui&ccedil;ara, volvera a deitar-se, com os membros doloridos, resignado.<\/p>\n<p> Abriu-se a porta, e entrou o administrador seguido por um dos caboclos que<br \/>\n    tinham trazido o preto.<\/p>\n<p> &#8211; Ol&aacute;, seu mestre! gritou o caboclo, olhe o que aqui lhe trago: chocolate,<br \/>\n    caf&eacute;, berimbau. E a correia na ponta do pau. Vai chuchar cinq&uuml;enta<br \/>\n    para largar da moda de tirar cip&oacute; por sua conta. N&atilde;o sabe que<br \/>\n    negro que foge d&aacute; preju&iacute;zo ao senhor? Olhe s&oacute; este pincel,<br \/>\n    est&aacute; tinindo, est&aacute; beliscando!<br \/>\n    E sacudia ferozmente o bacalhau.<\/p>\n<p> &Eacute; um instrumento sinistro, vil, repugnante, mas simples.<\/p>\n<p> Toma-se uma tira de couro cru, de tr&ecirc;s palmos ou pouco mais de comprimento,<br \/>\n    e de dois dedos de largura. Fende-se ao meio longitudinalmente, mas sem separar<br \/>\n    as duas talas nem em uma, nem outra extremidade. Amolenta-se bem em &aacute;gua,<br \/>\n    depois se torce e se estira em uma t&aacute;bua, por meio de pregos, e p&otilde;e-se<br \/>\n    a secar. Quando bem endurecido o couro, adapta-se um cabo a uma das extremidades,<br \/>\n    corta-se a outra, espontam-se as duas pemas a canivete, e est&aacute; pronto.<\/p>\n<p> O administrador abriu o tronco, o negro ergueu-se bafo, tr&ecirc;mulo, miser&aacute;vel.<\/p>\n<p> Sob a impress&atilde;o do medo como que se lhe dissolviam as fei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Caiu de joelhos, com as m&atilde;os postas, com os dedos nodosos enclavinhados.<\/p>\n<p> Era a &uacute;ltima express&atilde;o do rebaixamento humano, da covardia<br \/>\n    animal.<\/p>\n<p> Infundia d&oacute; e nojo.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo amor de Deus, seu Man&eacute; Bento, nunca mais eu fujo!<br \/>\n    E chorava desesperadamente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o fa&ccedil;a barulho, rapaz, respondeu o administrador. S&atilde;o<br \/>\n    ordens do senhor, h&atilde;o de ser cumpridas.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; chamar o sinh&ocirc;!<br \/>\n    &#8211; O senhor est&aacute; deitado, n&atilde;o vem, n&atilde;o pode vir c&aacute;.<br \/>\n    Deixe-se de hist&oacute;ria, arreie as cal&ccedil;as e deite-se.<\/p>\n<p> &#8211; Nossa Senhora me acuda!<br \/>\n    &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o chama por Nossa Senhora quando trata de fugir, gritou<br \/>\n    impaciente o caboclo. Vamos, vamos acabar com isto, ande.<\/p>\n<p> O infeliz volveu os olhos em torno de si, como procurando uma aberta para<br \/>\n    a fuga. Desenganado, decidiu-se.<\/p>\n<p> Com movimentos vagarosos, tremendo muito, desabotoou a cal&ccedil;a suja,<br \/>\n    deixou-a cair, desnudou as suas n&aacute;degas chupados de negro magro, j&aacute;<br \/>\n    cheias de costuras, cortadas de cicatrizes.<\/p>\n<p> Curvou as pernas, p&ocirc;s as m&atilde;os no ch&atilde;o, estendeu-se,<br \/>\n    deitou-se de bru&ccedil;os.<\/p>\n<p> O caboclo tomou posi&ccedil;&atilde;o &agrave; esquerda, mediu a dist&acirc;ncia,<br \/>\n    pendeu o corpo, recuou o p&eacute; esquerdo, ergueu e fez cair o bacalhau<br \/>\n    da direita para a esquerda, vigorosamente, rapidamente, mas sem esfor&ccedil;o,<br \/>\n    com ci&ecirc;ncia com arte, com eleg&acirc;ncia de profissional apaixonado<br \/>\n    pela profiss&atilde;o.<\/p>\n<p> As duas correias tesas, duras, sonoras, met&aacute;licas, quase silvavam,<br \/>\n    esfolando a epiderme com as pontas agu&ccedil;adas.<\/p>\n<p> Duas riscas branquicentas, esfareladas, desenharam-se na pele roxa da n&aacute;dega<br \/>\n    direita.<\/p>\n<p> O negro soltou um urro medonho.<\/p>\n<p> Compassado, medido, erguia-se o bacalhau, descia rechinante, lambia, cortava.<\/p>\n<p> O sangue ressumou a princ&iacute;pio em gotas, como rubins l&iacute;quidos,<br \/>\n    depois estilou cont&iacute;nuo, abundante, correndo em fios para o solo.<\/p>\n<p> O negro retorcia-se como uma serpente ferida, afundava as unhas na terra<br \/>\n    solta do ch&atilde;o, batia com a cabe&ccedil;a, bramia, ululava.<\/p>\n<p> &#8211; Uma! duas! tr&ecirc;s! cinco! dez ! quinze! vinte! vinte e cinco!<br \/>\n    Parou um momento o algoz, n&atilde;o para descansar, n&atilde;o estava cansado;<br \/>\n    mas para prolongar o gozo que sentia, como um bom gastr&ocirc;nomo que poupa<br \/>\n    um acepipe fino.<\/p>\n<p> Saltou por cima do negro, tomou nova posi&ccedil;&atilde;o, fez vibrar o<br \/>\n    instrumento em sentido contr&aacute;rio, continuou o castigo na outra n&aacute;dega.<\/p>\n<p> &#8211; Uma! duas! tr&ecirc;s! cinco! dez ! quinze! vinte! vinte e cinco!<br \/>\n    Os uivos do negro eram roucos, estrangulados: a sua carapinha estava suja<br \/>\n    de terra, empastada de suor.<\/p>\n<p> O caboclo largou o bacalhau sobre o estrado do tronco e disse:<br \/>\n    &#8211; Agora uma salmorazinha para isto n&atilde;o arruinar.<\/p>\n<p> E, tomando da m&atilde;o do administrador uma cuia que esse trouxera, derramou<br \/>\n    o conte&uacute;do sobre a derme dilacerada.<\/p>\n<p> O negro deu um corcovo; irrompeu-lhe da garganta um berro de dor, sufocado,<br \/>\n    atroz, que nada tinha de humano. Desmaiou.<\/p>\n<p> Lenita sentia um como espasmo de prazer, sacudido, vibrante; estava p&aacute;lida,<br \/>\n    seus olhos relampejavam, seus membros tremiam. Um sorriso cruel, gelado, arrega&ccedil;ava-lhe<br \/>\n    os l&aacute;bios, deixando ver os dentes muito brancos e as gengivas rosadas.<\/p>\n<p> O silvar do azorrague, as contra&ccedil;&otilde;es os gritos do padecente,<br \/>\n    os fiar de sangue que ela via correr embriagavam-na, dementavam-na, punham-na<br \/>\n    em frenesi: torcia as m&atilde;os, batia os p&eacute;s em ritmo nervoso.<\/p>\n<p> Queria, como as vestais romanas no ludo gladiat&oacute;rio, ter direito<br \/>\n    de vida e de morte; queria poder fazer prolongar aquele supl&iacute;cio at&eacute;<br \/>\n    &agrave; exaust&atilde;o da v&iacute;tima; queria dar o sinal, pollice verso,<br \/>\n    para que o executor consumasse a obra.<\/p>\n<p> E tremia, agitada por estranha sensa&ccedil;&atilde;o, por dolorosa vol&uacute;pia.<br \/>\n    Tinha na boca um saibo de sangue.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h4>\n<p>Havia quase uma semana que estava chovendo continuamente. As matas alegres,<br \/>\n    vi&ccedil;osas, muito lavadas reviam &aacute;gua pela fronde. O tapete espesso<br \/>\n    de folhas mortas, que cobria o solo nas matas, estava ensopado, desfeito,<br \/>\n    ia-se reduzindo a h&uacute;mus. A terra nua nos caminhos, limosa, esverdeada<br \/>\n    nos taludes e nas rampas, empapada, semil&iacute;quida no leito plano, cortada<br \/>\n    longitudinalmente pelas trilhas dos carros, batida, revolvida, amassada pelos<br \/>\n    p&eacute;s dos animais, ora alteava-se em almofadas de lama, ora cavava-se<br \/>\n    em po&ccedil;as de &aacute;gua barrenta, amarela em uns lugares, em outros<br \/>\n    cor de sangue. Corria o enxurro torrentoso, r&aacute;pido, enxadrezado nos<br \/>\n    declives; manso, espraiado em toalhas, banhando as ra&iacute;zes das gram&iacute;neas<br \/>\n    no chato, no descampado.<\/p>\n<p> Os campos eram brejos, os brejos lagos.<\/p>\n<p> No pomar as laranjeiras pendiam os grelos em um desfalecimento &uacute;mido;<br \/>\n    as ameixeiras, as mangueiras, os pessegueiros, os cajueiros vi&ccedil;avam<br \/>\n    muito lustrosos. O c&eacute;u pardo, como que descido, parecia muito perto<br \/>\n    da terra.<\/p>\n<p> O ribeir&atilde;o transbordando roncava em marulhos.<\/p>\n<p> Lenita sentada, encorujada na rede, com as pernas cruzadas, &agrave; chinesa,<br \/>\n    levava a maior parte do dia a ler, conchegando-se no xale, friorenta, aborrecida,<br \/>\n    esplen&eacute;tica.<\/p>\n<p> Rememorava por vezes as mudan&ccedil;as, as alternativas fisiops&iacute;quicas<br \/>\n    por que tinha passado na fazenda, onde n&atilde;o encontrara uma pessoa de<br \/>\n    sua idade, de seu sexo ou de sua ilustra&ccedil;&atilde;o a quem comunicar<br \/>\n    o que sentia, que a pudesse compreender, que a pudesse aconselhar, que a pudesse<br \/>\n    fortalecer nessa terr&iacute;vel batalha dos nervos.<\/p>\n<p> Analisava a crise hist&eacute;rica, o erotismo, o acesso de crueldade que<br \/>\n    tivera. Estudava o seu abatimento atual irritadi&ccedil;o, dissolvente, cortado<br \/>\n    de desejos inexplic&aacute;veis. Surpreendia-se amiudadas vezes a pensar sem<br \/>\n    o querer no filho do coronel, nesse homem j&aacute; maduro, casado, a quem<br \/>\n    nunca vira; sentia que lhe pulsava apressado o cora&ccedil;&atilde;o quando<br \/>\n    falavam nele na sua presen&ccedil;a. E conclu&iacute;a que aquilo era um estado<br \/>\n    patol&oacute;gico, que minava um mal sem cura.<\/p>\n<p> Depois mudava de pensar: n&atilde;o estava doente, seu estado n&atilde;o<br \/>\n    era patol&oacute;gico, era fisiol&oacute;gico. O que ela sentia era o aguilh&atilde;o<br \/>\n    gen&eacute;sico, era o mando imperioso da sexualidade, era a voz da carne<br \/>\n    a exigir dela o seu tributo de amor, a reclamar o seu contingente de fecundidade<br \/>\n    para a grande obra da perpetua&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie.<\/p>\n<p> E lembrava-lhe a ninfomania, a satir&iacute;ase, esses horrores com que<br \/>\n    a natureza se vinga de f&ecirc;meas e machos que lhe violam as leis, guardando<br \/>\n    uma castidade imposs&iacute;vel; lembrava-lhe o horror sagrado que aos povos<br \/>\n    da Gr&eacute;cia e Roma inspiravam esses castigos de V&ecirc;nus.<\/p>\n<p> Entrevia como em uma nuvem as ninfas gregas de Dictynne, as vestais romanas,<br \/>\n    as odaliscas molitas, as monjas crist&atilde;s p&aacute;lidas, convulsivas,<br \/>\n    com os l&aacute;bios em sangue, com os olhos em chamas, a contorcerem-se nos<br \/>\n    bosques, nos leitos solit&aacute;rios; a morderem-se loucas, bestiais, espica&ccedil;adas<br \/>\n    pelos ferr&otilde;es do desejo.<\/p>\n<p> Desfilavam-lhe por diante, l&uacute;bricas, vivas, palp&aacute;veis quase,<br \/>\n    Pasifae, Fedra; J&uacute;lia, Messalina, Teodora, Imp&eacute;ria; Lucr&eacute;cia<br \/>\n    Borgia, Catarina da R&uacute;ssia.<\/p>\n<p> Um dia entrou na sala o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Grande novidade! A&iacute; me vem o rapaz&#8230; rapaz &eacute; um modo de<br \/>\n    falar, o velho, o ca&ccedil;ador do Paranapanema.<\/p>\n<p> &#8211; Seu filho?<br \/>\n    &#8211; Sim. Tamb&eacute;m era tempo, eu j&aacute; estava com saudades.<\/p>\n<p> &#8211; Mas n&atilde;o preveniu, n&atilde;o pediu condu&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Pois eu n&atilde;o dizia? aquilo &eacute; assim mesmo, &eacute; espeloteado.<br \/>\n    N&atilde;o quer, n&atilde;o sabe esperar; n&atilde;o est&aacute; para demoras.<br \/>\n    Alugou animais no Rio Claro, e a&iacute; vem vindo.<\/p>\n<p> &#8211; Como soube?<br \/>\n    &#8211; Por um caboclo que partiu de l&aacute; ao amanhecer, e que agora passou<br \/>\n    por aqui.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o seu filho vem tomando esta chuvarada?<br \/>\n    &#8211; Isso para ele &eacute; um pau para um olho, est&aacute; acostumado.<\/p>\n<p> &#8211; A que horas acha que chega?<br \/>\n    &#8211; S&atilde;o seis l&eacute;guas de caminho. Ele de certo saiu depois do almo&ccedil;o,<br \/>\n    &agrave;s 10 horas. Como a estrada est&aacute; ruim, gastar&aacute; umas seis<br \/>\n    ou sete horas. As quatro, &agrave;s cinco horas ao mais tardar, rebenta por<br \/>\n    a&iacute;. O que eu quero saber &eacute; se voc&ecirc; quer jantar &agrave;s<br \/>\n    horas do costume ou se concorda em que o esperemos.<\/p>\n<p> &#8211; Havemos de esperar, boa d&uacute;vida!<br \/>\n    O coronel saiu.<\/p>\n<p> Lenita saltou lesta da rede, correu ao seu quarto, penteou-se com desvanecimento,<br \/>\n    ergueu os cabelos, prendeu-os no alto da cabe&ccedil;a; deixando a nuca bem<br \/>\n    a descoberto. Espartilhou-se, tomou um vestido de merin&oacute; afogado, muito<br \/>\n    singelo, mas muito elegante brincos, broche, braceletes de &ocirc;nix , cal&ccedil;ou<br \/>\n    sapatinhos Luiz XV, cuja entrada muito baixa deixava ver a meia de seda preta<br \/>\n    com ferradurinhas brancas em relevo. No peito, &agrave; esquerda, pregou duas<br \/>\n    rosas p&aacute;lidas, meio fechadas, muito cheirosas.<\/p>\n<p> &#8211; Bravo! que linda que est&aacute; a senhora D. Lenita! bradou o coronel,<br \/>\n    entusiasmado ao v&ecirc;-la. Pena &eacute; que esteja gastando cera com ruim<br \/>\n    defunto: o rapaz n&atilde;o &eacute; rapaz, e ainda, por mal de pecados, &eacute;<br \/>\n    beco sem sa&iacute;da.<\/p>\n<p> Lenita corou um pouco, riu-se.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, vamos l&aacute; para dentro: quero que a velha a veja nesse reto.<br \/>\n    Francamente, est&aacute; bonita a fazer virar a cabe&ccedil;a ao pr&oacute;prio<br \/>\n    Santo Ant&atilde;o ! Como lhe assenta a voc&ecirc; essa roupa preta afogadinha!<br \/>\n    Sim, senhora!<br \/>\n    Ia quase anoitecendo.<\/p>\n<p> A chuva ca&iacute;a forte, compassada, ininterrompida: em todas as depress&otilde;es<br \/>\n    de terreno estancava-se a &aacute;gua; por todos os declives corria ela em<br \/>\n    torrentes, em borbot&otilde;es, em jorros, em filetes.<\/p>\n<p> No alto do morro fronteiro, cortado pela estrada, assomaram dois cavaleiros<br \/>\n    e uma besta de canastrinhas.<\/p>\n<p> Vagarosos, escorregando a cada passo na ladeira lamacenta, lisa, come&ccedil;aram<br \/>\n    a descer procurando a fazenda.<\/p>\n<p> A &aacute;gua da chuva, pulverizada no ar, esbatia-lhes os contornos em<br \/>\n    urna como atmosfera cinzenta, riscada obliquamente pelo peneirar dos pingos<br \/>\n    grossos.<\/p>\n<p> O coronel viu-os por uma janela, atrav&eacute;s dos vidros embaciados.<\/p>\n<p> &#8211; L&aacute; vem Manduca, disse.<\/p>\n<p> Coitado! vem como um pinto !<br \/>\n    Lenita parou o movimento brando da cadeira de balan&ccedil;o, largou o Correio<br \/>\n    da Europa que<br \/>\n    estava lendo, deixou cair os bra&ccedil;os sobre as coxas, recostou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    no espaldar, quedou-se im&oacute;vel, muito p&aacute;lida, quase desfalecida.<br \/>\n    O sangue reflu&iacute;ra-lhe ao cora&ccedil;&atilde;o que batia descompassado.<\/p>\n<p> Chegaram os viajantes.<\/p>\n<p> Ouviu-se o tinir de freios sacudidos nervosamente pelas cavalgaduras, depois<br \/>\n    o chapinhar pesado de botas ensopadas, enlameadas, e o arrastar sonoro de<br \/>\n    esporas no pedrado do alpendre.<\/p>\n<p> O coronel, tr&ocirc;pego, correu ao encontro do filho.<\/p>\n<p> &#8211; Que raio de tempo! Disse este ao entrar na ante-sala, batendo duro os<br \/>\n    p&eacute;s na soleira da porta, e tirando a capa de borracha que foi pendurar<br \/>\n    a uma estaqueira. Adeus, meu pai, vosmec&ecirc; bom, eu vejo; minha m&atilde;e<br \/>\n    na mesma, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; Tudo na forma do costume.<\/p>\n<p> E voc&ecirc;? boas ca&ccedil;adas? boa sa&uacute;de?<br \/>\n    &#8211; Ca&ccedil;adas espl&ecirc;ndidas, hei de lhe contar. Sa&uacute;de de ferro,<br \/>\n    a n&atilde;o ser a maldita enxaqueca que me n&atilde;o larga, e que neste<br \/>\n    momento mesmo me est&aacute; atormentando de modo horroroso. Vou l&aacute;<br \/>\n    dentro ver minha m&atilde;e, e sigo para o meu quarto: deve estar pronto.<br \/>\n    Mande o Am&acirc;ncio levar-me uma chaleira de &aacute;gua a ferver, e uma<br \/>\n    pouca de farinha mostarda, para eu tomar um pedil&uacute;vio sinapizado.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; n&atilde;o jantou, e de certo almo&ccedil;ou mal : coma alguma<br \/>\n    coisa que h&aacute; de fazer-lhe bem.<\/p>\n<p> &#8211; Comer! mal de mim se comesse estando de enxaqueca.<\/p>\n<p> &#8211; Que ma&ccedil;ada! Eu e a Lenita que o est&aacute;vamos esperando para<br \/>\n    jantar&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Lenita! Quem &eacute; Lenita?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; a neta do meu velho amigo Cunha Matoso, filha do meu pupilo, o<br \/>\n    doutor Lopes Matoso, que morreu logo depois que voc&ecirc; foi para o Paranapanema.<br \/>\n    N&atilde;o recebeu a minha carta nesse sentido?<br \/>\n    &#8211; Recebi, lembra-me muito o Lopes Matoso. Com que ent&atilde;o a filha est&aacute;<br \/>\n    agora aqui?<br \/>\n    &#8211; Est&aacute;, coitada. N&atilde;o p&ocirc;de ficar na cidade, era-lhe muito<br \/>\n    dolorosa a falta do pai. Vem c&aacute;, Lenita, vem ver o meu filho. Chama-se<br \/>\n    Manuel Barbosa.<\/p>\n<p> Lenita veio da sala, adiantou-se para o rec&eacute;m-chegado, cumprimentou-o<br \/>\n    com uma inclina&ccedil;&atilde;o da cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ele tirou o seu chap&eacute;u alagado, retribuiu o cumprimento.<\/p>\n<p> &#8211; Um seu criado, minha distinta senhora. Desculpar-me-&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    apertar-lhe a m&atilde;o: estou imundo, estou que &eacute; s&oacute; barro<br \/>\n    da cabe&ccedil;a aos p&eacute;s.<\/p>\n<p> Manuel Barbosa era homem de boa altura, um tanto magro. A roupa molhada<br \/>\n    colava-se-lhe ao corpo, acentuando-se as formas angulosas. Cabelos desmesuradamente<br \/>\n    grandes, empastados, correndo &aacute;gua, cobriam-lhe a testa, escondiam-lhe<br \/>\n    as orelhas. As barbas grisalhas, crescidas, davam-lhe um aspecto inculto,<br \/>\n    quase feroz. Com a enxaqueca estava p&aacute;lido, muito p&aacute;lido, ba&ccedil;o,<br \/>\n    terroso. Piscava muito os olhos para furtar-se &agrave; a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da luz. Tinha as p&aacute;lpebras batidas, tr&ecirc;mulas, e muitos p&eacute;s<br \/>\n    de galinha encarquilhavam-lhe os cantos externos dos olhos.<\/p>\n<p> Lenita, desapontad&iacute;ssima, mirava-o com uma curiosidade dolorosa.<\/p>\n<p> &#8211; Minha senhora, continuou ele, sinto imenso que vossa excel&ecirc;ncia<br \/>\n    tenha esperado por mim para jantar, e que a minha negregada enxaqueca prive-me<br \/>\n    hoje do prazer de sua companhia. Queira conceder-me licen&ccedil;a.<\/p>\n<p> E varou para o interior, sacudidamente, brutalmente, fazendo soar as esporas,<br \/>\n    deixando no assoalho as marcas &uacute;midas das botas enlameadas. O coronel<br \/>\n    acompanhou-o.<\/p>\n<p> Lenita recolheu-se ao seu quarto, bateu as janelas, n&atilde;o quis jantar,<br \/>\n    n&atilde;o quis cear, respondeu quase com desabrimento ao coronel, que insistia<br \/>\n    com ela para que fosse &agrave; mesa comer uma asa de frango, uma talhadinha<br \/>\n    de presunto, algum doce ao menos.<\/p>\n<p> Sacou do peito com viol&ecirc;ncia as duas bonitas rosas, atirou-as ao ch&atilde;o,<br \/>\n    calcou-as aos p&eacute;s, esmurregou-as, despiu-se freneticamente, aos pinchos,<br \/>\n    arrancando os bot&otilde;es arrebentando os colchetes.<\/p>\n<p> Com um movimento de pernas r&aacute;pido, sacudido, fez voar longe os sapatinhos,<br \/>\n    atirou-se &agrave; cama encolheu-se como uma bola, mordeu os bra&ccedil;os,<br \/>\n    despediu num pranto convulso.<\/p>\n<p> Chorou, solu&ccedil;ou por muito tempo. Esse descarregamento nervoso aliviou-a;<br \/>\n    acalmou-se, sossegou.<\/p>\n<p> Entrou a refletir.<\/p>\n<p> Conceber um ideal, pensava ela, anima-lo como uma m&atilde;e amima o filho,<br \/>\n    ajeita-lo, vesti-lo cada dia com uma perfei&ccedil;&atilde;o nova, e, de repente,<br \/>\n    ver a realidade impor-se esmagadoramente prosaica, chatamente bruta, bestialmente<br \/>\n    chata!<br \/>\n    Idealizar um ca&ccedil;ador de Cooper, um Nemrod forte at&eacute; diante de<br \/>\n    Deus, um atleta musculado como um her&oacute;i da antig&uuml;idade, e ver<br \/>\n    sair pela frente um sujeito pulha, enlameado, velho, de melenas intonsas e<br \/>\n    barbas grisalhas, um almocreve, um arneiro que quase a tratara mal!<br \/>\n    E ainda por cima juraria que ele tresandava a cacha&ccedil;a: sentira-lhe<br \/>\n    a bifada quando ele falou.<\/p>\n<p> Mas, em suma, que lhe importava a ela esse homem, com quem nunca conversara,<br \/>\n    que nunca sequer tinha visto, cuja exist&ecirc;ncia at&eacute; pouco ignorava?<br \/>\n    Pois n&atilde;o havia ela em tempo desprezado a corte ass&iacute;dua de uma<br \/>\n    nuvem de pretendentes? <br \/>\n    E nesse momento mesmo, debaixo de certo ponto de vista, n&atilde;o estava<br \/>\n    at&eacute; melhor, relativamente a coisas do cora&ccedil;&atilde;o? Sem pai,<br \/>\n    sem m&atilde;e, sem irm&atilde;os, emancipada, absolutamente senhora de si,<br \/>\n    rica, formosa, inteligente, culta, bastava-lhe mostrar-se na cidade, ou melhor,<br \/>\n    em S&atilde;o Paulo, na corte, aparecer nas reuni&otilde;es, deixar-se admirar<br \/>\n    para tronejar, para ser soberana, para receber ova&ccedil;&otilde;es, para<br \/>\n    haurir, a saciedade, o incenso da lisonja. Por que teimar em permanecer na<br \/>\n    fazenda?<br \/>\n    &#8211; Se era a necessidade org&acirc;nica, gen&eacute;sica de um homem que a torturava,<br \/>\n    por que n&atilde;o escolher de entre mil um marido forte, nervoso, potente,<br \/>\n    capaz de satisfaz&ecirc;-la, capaz de sacia-la?<br \/>\n    E se um lhe n&atilde;o bastasse, por que n&atilde;o conculcar preconceitos<br \/>\n    rid&iacute;culos, por que n&atilde;o tomar dez, vinte, cem amantes, que lhe<br \/>\n    matassem o desejo, que lhe fatigassem o organismo?<br \/>\n    Que lhe importava a ela a sociedade e as suas est&uacute;pidas conven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de moral?<br \/>\n    Mas a cor amarelenta de Manuel Barbosa, seus olhos piscos, seus cabelos por<br \/>\n    cortar, sua barba repugnante, sua roupa molhada!<br \/>\n    E o fartum de pinga, a bifada?<br \/>\n    N&atilde;o lhe podia perdoar, odiava-o, tinha vontade de esbofete&aacute;-lo,<br \/>\n    de cuspir-lhe no rosto.<\/p>\n<p> Era um contra-senso; estar sempre a recair, a ocupar-se de uma criatura<br \/>\n    vulgar, comun&iacute;ssima, que lhe n&atilde;o merecia &oacute;dio, com a<br \/>\n    qual n&atilde;o valia a pena perder um pensamento.<\/p>\n<p> Voltaria para a cidade&#8230; n&atilde;o, iria S&atilde;o Paulo, fixar-se-ia<br \/>\n    a&iacute; de vez compraria um terreno grande em um bairro aristocr&aacute;tico,<br \/>\n    na Rua Alegre, em Santa Efig&ecirc;nia, no Ch&aacute;, construiria um palacete<br \/>\n    elegante, gracioso, rendilhado, &agrave; oriental, que sobressa&iacute;sse,<br \/>\n    que levasse de vencida esses barrac&otilde;es de tijolos, esses monstrengos<br \/>\n    imposs&iacute;veis que por a&iacute; avultam, chatos, extravagantes, &agrave;<br \/>\n    fazendeira, &agrave; cosmopolita, sem higiene, sem arquitetura, sem gosto.<br \/>\n    F&aacute;-lo-ia sob a dire&ccedil;&atilde;o de Ramos de Azevedo, tomaria para<br \/>\n    decoradores e ornamentistas Aur&eacute;lio de Figueiredo e Almeida J&uacute;nior.<br \/>\n    Trastej&aacute;-lo-ia de jacarand&aacute; preto, encerado, com esculpidos<br \/>\n    foscos. Faria comprar nas ventes de Paris, por agentes entendidos, secret&aacute;rias,<br \/>\n    mesinhas de leg&iacute;timo Boule. Teria couros lavrados de C&oacute;rdova,<br \/>\n    tapetes da P&eacute;rsia e dos Gobelins, fukusas do Jap&atilde;o. Sobre os<br \/>\n    consolos, sobre os dunquerques, em vitrinas; em arm&aacute;rios de pau ferro<br \/>\n    rendilhado, em &eacute;tageres, pelas paredes, por toda a parte semearia porcelanas<br \/>\n    profusamente, prodigamente &#8211; as da China com o seu branco leitoso, de creme,<br \/>\n    com as suas cores alegres suavissimamente v&iacute;vidas, as do Jap&atilde;o,<br \/>\n    rubro e ouro, magn&iacute;ficas, provocadoras, luxuosas, fascinantes; os gr&eacute;s<br \/>\n    de Satzuma, art&iacute;sticos, trabalhos &aacute;rabes pelo estilo, europeus<br \/>\n    quase pela corre&ccedil;&atilde;o do desenho. Procuraria vasos, pratos da<br \/>\n    pasta tenra de S&eacute;vres, ornamentados por Bouchet, por Armand, por Chavaux<br \/>\n    pai, pelos dois Sioux; contrapor-lhes-ia as porcelanas da f&aacute;brica real<br \/>\n    de Berlim e da imperial de Viena, azuis de rei aquelas, estas cor de sangue<br \/>\n    tirante a ferrugem; enriquecer-se-ia de figurinhas de Saxe, ideais, finamente<br \/>\n    acabadas, delicios&iacute;ssimas. Apascentaria os olhos na p&aacute;tina untuosa<br \/>\n    dos bronzes do Jap&atilde;o, nas formas t&atilde;o verdadeiras, t&atilde;o<br \/>\n    humanas da estatu&aacute;ria grega, matematicamente reduzida em bronze por<br \/>\n    Colas e Barbedienne. Possuiria m&aacute;rmores de Falconet, terracotas de<br \/>\n    Clodion, netsk&eacute;s, velh&iacute;ssimos, rendilhados, microsc&oacute;picos,<br \/>\n    prodigiosos. Mirar-se-ia em espelhos de Veneza, guardaria perfumes em frasquinhos<br \/>\n    facetados de cristal da Bo&ecirc;mia. Pejaria os escr&iacute;nios, as vide-poches<br \/>\n    de j&oacute;ias antigas, de cris&oacute;litas e brilhantes engastados em prata,<br \/>\n    de velhos relic&aacute;rios de ouro do Porto.<\/p>\n<p> Teria cavalos de pre&ccedil;o, iria &agrave; Ponte Grande, &agrave; Penha<br \/>\n    &agrave; Vila Mariana em um huit-ressorts parisiense sem rival, tirado por<br \/>\n    urcos pur-sang, enormes, calorosos, de cor escura, de p&ecirc;lo muito fino.<\/p>\n<p> Far-se-ia notar pelas toilettes elegant&iacute;ssimas, arriscadas, escandalosas<br \/>\n    mesmo.<\/p>\n<p> Viajaria pela Europa toda, passaria um ver&atilde;o em S&atilde;o Petersburgo,<br \/>\n    um inverno em Nizza subiria ao Jungfrau, jogaria em Monte Carlo.<\/p>\n<p> Havia de voltar, de oferecer banquetes; havia de chocar paladares, habituados<br \/>\n    ao picadinho e ao lombo de porco, dando-lhes arenques fumados, caviar, perdizes<br \/>\n    faisand&eacute;es, calhandras assadas com os intestinos, todos os mil inventos<br \/>\n    dos finos gastr&ocirc;nomos do velho mundo: seus convivas haviam de beber<br \/>\n    Johannisberg, Tokai, Constan&ccedil;a, L&aacute;crima Christi, Chat&ecirc;au<br \/>\n    Iquem, tudo quanto fosse vinho caro, tudo quanto fosse vinho esquisito.<\/p>\n<p> Teria amantes, por que n&atilde;o?<br \/>\n    Que lhe importavam a ela as murmura&ccedil;&otilde;es, os diz-que-diz-que<br \/>\n    da sociedade brasileira, hip&oacute;crita, maldizente. Era mo&ccedil;a, sensual,<br \/>\n    rica &#8211; gozava. Escandalizavam-se, pois que se escandalizassem.<\/p>\n<p> Depois, quando ficasse velha, quando se quisesse aburguesar, viver como<br \/>\n    toda a gente, casar-se-ia.<\/p>\n<p> Era t&atilde;o f&aacute;cil, tinha dinheiro, n&atilde;o lhe haviam de faltar<br \/>\n    titulares, homens formados que se submetessem ao jugo ux&oacute;rio que lhe<br \/>\n    aprouvesse a ela impor-lhes. Era pedir por boca, era s&oacute; escolher.<\/p>\n<h4><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h4>\n<p>Cessara a chuva, estava um tempo espl&ecirc;ndido. A luz branca do sol coava-se<br \/>\n    por um ar muito fino em um c&eacute;u muito azul, sem uma nuvem. A natureza<br \/>\n    expandia-se alegre como um enfermo que volta &agrave; vida, como um convalescente.<\/p>\n<p> Lenita levantou-se de boa sa&uacute;de, mas aborrecida, contrariada. A lembran&ccedil;a<br \/>\n    do Manuel Barbosa torturava-a. Ter de encontrar-se com ele a todas as horas,<br \/>\n    &agrave; mesa, na sala, v&ecirc;-lo passear pela casa, pelo terreiro, v&ecirc;-lo<br \/>\n    refestelar-se, bamboar-se nas cadeiras de balan&ccedil;o, com as melenas,<br \/>\n    com as barbas grisalhas&#8230; era horroroso.<\/p>\n<p> Quando a chamaram para almo&ccedil;ar foi cheia de displic&ecirc;ncia, contrariad&iacute;ssima.<br \/>\n    Atara os cabelos negligentemente, envolvera-se em um xale, ao desd&eacute;m,<br \/>\n    sem se espartilhar, sem se apertar sequer. Cal&ccedil;ara chinelos.<\/p>\n<p> Entrou na varanda com os olhos baixos, resolvida a n&atilde;o encarar o<br \/>\n    antip&aacute;tico comensal.<\/p>\n<p> A mesa estava o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Bom dia, Lenita, ent&atilde;o, como vai isso agora? muito desapontada<br \/>\n    com o rapaz, n&atilde;o? Pois olhe, ele ainda f&ecirc;-la melhor: partiu hoje<br \/>\n    de madrugada para a vila.<\/p>\n<p> Tinha um neg&oacute;cio urgente a tratar, pelo menos foi o que disse: chegou<br \/>\n    e saiu. A enxaqueca dele &eacute; assim, atormenta-o que &eacute; um desespero,<br \/>\n    mas com uma hora de sono passa sem deixar vest&iacute;gios.<\/p>\n<p> &#8211; Estimo muito que tenha sarado, respondeu Lenita secamente e pensou baixo:<br \/>\n    que durma um dia at&eacute; n&atilde;o acordar mais. Um animal daqueles o<br \/>\n    melhor que pode fazer &eacute; morrer, &eacute; rebentar. O mundo &eacute;<br \/>\n    da for&ccedil;a e tamb&eacute;m da beleza, porque em suma a beleza &eacute;<br \/>\n    uma for&ccedil;a. As barbas! as barbas! Que leve o diabo a ele, mais a elas.<\/p>\n<p> E ficou muito contente por n&atilde;o ter de ver, por n&atilde;o ter de<br \/>\n    aturar Manuel Barbosa, ao menos esse dia.<\/p>\n<p> Demais estava resolvida, n&atilde;o havia de ficar muito tempo na fazenda,<br \/>\n    partiria logo para a cidade e de l&aacute; para S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p> Almo&ccedil;ou com prazer, tocou piano, deu um grande passeio a p&eacute;,<br \/>\n    jantou, s&oacute; pensou em Manuel Barbosa duas ou tr&ecirc;s vezes, isso<br \/>\n    mesmo com menos indigna&ccedil;&atilde;o, sem ressentimento, indiferente quase,<br \/>\n    achando-se apenas rid&iacute;cula a si pr&oacute;pria por t&ecirc;-lo arvorado<br \/>\n    um her&oacute;i durante um longo acesso de extravag&acirc;ncia hist&eacute;rica.<br \/>\n    Era um pobre diabo, caipir&atilde;o, velhusco, achacoso. Ca&ccedil;ava por<br \/>\n    ca&ccedil;ar, sem intui&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, bestialmente, como<br \/>\n    qualquer caboclo. Bebia pinga. Verdade era que tinha estado na Europa, mas<br \/>\n    ter estado na Europa n&atilde;o muda a constitui&ccedil;&atilde;o a ningu&eacute;m.<br \/>\n    Ele era o que ela devia esperar que ele fosse, um tipo muito sem impon&ecirc;ncia,<br \/>\n    reles, abaixo at&eacute; da craveira comum.<\/p>\n<p> Ao anoitecer recolheu-se, come&ccedil;ou a arrumar os seus bronzes, os seus<br \/>\n    bibelots de marfim, de porcelana. Envolvia-os cuidadosamente, amorosamente<br \/>\n    em papel de seda, arranjava-os no fundo de um enorme ba&uacute; americano<br \/>\n    que trouxera, cal&ccedil;ava-os, protegia-os com jornais velhos fuxicados,<br \/>\n    com guardanapos, com len&ccedil;os, com pequenas roupas. Tinha cuidados meticulosos,<br \/>\n    maternais, de amadora apaixonada. Por vezes esquecia-se a remirar embevecida<br \/>\n    uma jarrinha de S&eacute;vres, uma estatueta primorosa: no auge do entusiasmo<br \/>\n    beijava-a.<\/p>\n<p> Alta noite, muito tarde, estando j&aacute; deitada ouviu um tropear de animais,<br \/>\n    passos de gente, tinidos de esporas.<\/p>\n<p> &#8211; A&iacute; chega o bruto, disse consigo, e continuou a pensar na sua ida<br \/>\n    pr&oacute;xima para a cidade, e de l&aacute; para S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p> O tempo estava firme: a uma noite limpa, estrelada, fria, sucedera um dia<br \/>\n    como o da v&eacute;spera, luminoso, assoalhado.<\/p>\n<p> Lenita levantou-se muito cedo, tomou um copo de leite, deu um passeio pelo<br \/>\n    pasto. De volta entrou no pomar a ver os figuinhos novos, os cachos tenros<br \/>\n    das vides.<\/p>\n<p> &#8211; De uma laranjeira-cravo, que se erguia folhuda desde o ch&atilde;o, vi&ccedil;osa,<br \/>\n    esparramada, esfuziou de s&uacute;bito um tico-tico.<\/p>\n<p> Tem ninho, pensou consigo Lenita, e come&ccedil;ou a procurar, abrindo,<br \/>\n    afastando os ramos.<\/p>\n<p> Deteve-se, aspirou o ar: sentia um cheiro bom de sabonete Legrand e de charuto<br \/>\n    havana.<\/p>\n<p> Deu volta &agrave; laranjeira e topou com Manuel Barbosa que se encaminhava<br \/>\n    para ela, risonho, palacianamente curvado, na m&atilde;o direita o chap&eacute;u,<br \/>\n    na esquerda um cravo rubro, perfumado, espl&ecirc;ndido.<\/p>\n<p> Perto o charuto, que ele deitara fora, desprendia uma espiral de fumo, azulada,<br \/>\n    t&ecirc;nue.<\/p>\n<p> Lenita parou confusa, at&ocirc;nita, sem saber o que pensasse.<\/p>\n<p> O homem que a&iacute; vinha n&atilde;o era o Barbosa da v&eacute;spera,<br \/>\n    era uma transfigura&ccedil;&atilde;o, era um gentleman em toda a extens&atilde;o<br \/>\n    da palavra.<\/p>\n<p> A testa alta, estreita, lisa, mostrava-se a descoberto, com uma zona muito<br \/>\n    alva &agrave; raiz do cabelo: esse, cortado, &agrave; meia cabeleira, recurvava-se<br \/>\n    a frente em uma elegante pastinha &agrave; Capoul, a que dava certo realce<br \/>\n    muitos fios cor de prata. O rosto era regular&iacute;ssimo, estava muito bem<br \/>\n    barbeado. &Agrave; palidez da v&eacute;spera sucedera uma cor sadia de pele<br \/>\n    clara, mordida, bronzeada pelo sol. A boca, de tipo sax&ocirc;nio puro, encimada<br \/>\n    por um bigode cuidadosamente aparado e seu tanto ou quanto grisalho, abria-se<br \/>\n    em um sorriso bondoso e franco, mostrando dentes fortes, regulares, muito<br \/>\n    limpos. Estatura esbelta, p&eacute;s delicados, m&atilde;os muito bem feitas,<br \/>\n    muito bem tratadas.<\/p>\n<p> Trazia um costume folgado de casimira dar&aacute;, gravata creme, camisa<br \/>\n    alv&iacute;ssima, de colarinho deitado, mostrando em toda a sua for&ccedil;a<br \/>\n    o pesco&ccedil;o robusto. Na lapela do veston tinha uma rosa de cheiro muito<br \/>\n    repolhuda.<\/p>\n<p> Chegou-se a Lenita polidamente, graciosamente.<\/p>\n<p> &#8211; Minha senhora, triste ju&iacute;zo h&aacute; de vossa excel&ecirc;ncia<br \/>\n    ter feito de mim anteontem. Quando estou com enxaqueca deixo de ser homem,<br \/>\n    torno-me urso, torno-me hipop&oacute;tamo. Quer fazer-me a honra de aceitar<br \/>\n    este cravo? Olhe, d&ecirc;-me licen&ccedil;a, eu sou um velho, podia ser seu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> E com uma familiaridade confiada prendeu a flor no cabelo da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> Depois, afastando-se dois passos, mirou-a, entortando a cabe&ccedil;a, com<br \/>\n    ares de entendedor, e disse:<br \/>\n    &#8211; Que bem que vai esse vermelho vivo nos seus cabelos pretos. Est&aacute;<br \/>\n    linda.<\/p>\n<p> O olhar que coava por entre as p&aacute;lpebras semicerradas de Barbosa<br \/>\n    era t&atilde;o doce, t&atilde;o paterna, a sua fala era t&atilde;o untuosa,<br \/>\n    que Lenita n&atilde;o se revoltou, n&atilde;o repeliu a ousadia. Sorriu-se<br \/>\n    e perguntou: &#8211; Est&aacute; agora perfeitamente bom, n&atilde;o tem cansa&ccedil;o<br \/>\n    da viagem, n&atilde;o tem ressaibos da mol&eacute;stia?<br \/>\n    &#8211; Oh! n&atilde;o. Viagens n&atilde;o me fatigam, e a minha enxaqueca, em passando,<br \/>\n    passou, n&atilde;o deixa vest&iacute;gios. Quer aceitar o meu bra&ccedil;o?<br \/>\n    &#8211; Vamos dar uma volta pelo pomar, fazer horas para o almo&ccedil;o?<br \/>\n    Lenita acedeu.<\/p>\n<p> Em um instante, como por a&ccedil;&atilde;o el&eacute;trica, seus sentimentos<br \/>\n    se tinham transformado: aos ardores pelo homem ideal da cisma hist&eacute;rica,<br \/>\n    &agrave; antipatia pelo homem real da antev&eacute;spera, entrevisto em circunst&acirc;ncias<br \/>\n    desfavor&aacute;veis todas, sucedera a&iacute; nesse lugar, repentinamente<br \/>\n    um afeto calmo e bom que a subjugava, que a prendia a Barbosa. Achava nele<br \/>\n    que era de bonomia superior, de familiaridade comunicativa que lhe lembrava<br \/>\n    Lopes Matoso.<\/p>\n<p> Passearam, conversaram muito. Falaram principalmente de bot&acirc;nica.<br \/>\n    Barbosa estabeleceu um confronto detalhado entre a flora do velho mundo e<br \/>\n    a do novo; entrou em aprecia&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas; desceu a minud&ecirc;ncias<br \/>\n    de sua pr&oacute;pria observa&ccedil;&atilde;o pessoal. &Agrave; alternativa<br \/>\n    matem&aacute;tica das esta&ccedil;&otilde;es do ano na Europa contrap&ocirc;s<br \/>\n    a magnific&ecirc;ncia mon&oacute;tona da primavera eterna brasileira. Fez<br \/>\n    notar que l&aacute; domina nas matas o exclusivismo de uma esp&eacute;cie,<br \/>\n    que h&aacute; bosques s&oacute; de carvalhos, s&oacute; de castanhos, s&oacute;<br \/>\n    de &aacute;lamos, ao passo que c&aacute; acotovelam-se, emaranham-se em pequeno<br \/>\n    espa&ccedil;o cem fam&iacute;lias, divers&iacute;ssimas a ponto de n&atilde;o<br \/>\n    se encontrarem, muitas vezes, dois indiv&iacute;duos da mesma variedade em<br \/>\n    um raio de mil metros.<\/p>\n<p> Abriu uma exce&ccedil;&atilde;o em Minas e no Paran&aacute; para a Araucaria<br \/>\n    brasiliensis, abriu exce&ccedil;&otilde;es para as palmeiras intertropicais,<br \/>\n    a que chamou legi&atilde;o. Lenita acompanhou-o com interesse sumo, revelando<br \/>\n    conhecimento aprofundado da mat&eacute;ria, fazendo-lhe perguntas de entendedora.<br \/>\n    Citou Garcia D&#8217;orta, Br&oacute;tero e Martius, criticou Correia de Melo e<br \/>\n    Caminho&aacute;, confessou-se, em rela&ccedil;&atilde;o a esp&eacute;cies,<br \/>\n    sect&aacute;ria, ardente de Darwin, cujas opini&otilde;es radicou a estima<br \/>\n    entre ambos; quando entraram para almo&ccedil;ar estavam amigos velhos.<\/p>\n<p> &#8211; Ol&aacute;? disse o coronel, da porta, ao v&ecirc;-los chegar de bra&ccedil;o<br \/>\n    dado. Muito bom dia ! Leve o diabo as tristezas. Com que amiguinhos, era o<br \/>\n    que eu esperava. Mas vamos, vamos para dentro, que j&aacute; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    sem tempo; o almo&ccedil;o arrefece de uma vez; h&aacute; meia hora que est&aacute;<br \/>\n    na mesa.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor, meu pai, a Exrna. senhora dona Helena &eacute; para mim uma<br \/>\n    surpresa, uma revela&ccedil;&atilde;o. Sabia-a muito bem educada, mas supunha-a<br \/>\n    bem educada, como o s&atilde;o em geral as mo&ccedil;as com especialidade<br \/>\n    as brasileiras &#8211; piano, canto, quatro dedos de franc&ecirc;s, dois de ingl&ecirc;s,<br \/>\n    dois de geografia e&#8230; pronto! Pois enganei-me: a Exma. senhora dona Helena<br \/>\n    disp&otilde;e de erudi&ccedil;&atilde;o assombrosa, mais ainda, tem ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    verdadeira, &eacute; um esp&iacute;rito superior, admiravelmente cultivado.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; por demais bondoso o : senhor Manuel Barbosa, volveu Lenita visivelmente<br \/>\n    satisfeita.<\/p>\n<p> &#8211; Olhem voc&ecirc;s uma coisa, acabem-me com essas excel&ecirc;ncias, com<br \/>\n    essas senhorias. &Eacute; Lenita para c&aacute;, Manduca para l&aacute; e&#8230;toca!<br \/>\n    Cerim&ocirc;nias s&oacute; para a igreja: a num me fazem elas mal aos nervos,<br \/>\n    at&eacute; agravam-me o reumatismo. Vamos almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Da&iacute; em diante Lenita e Barbosa n&atilde;o se deixaram: liam juntos,<br \/>\n    estudavam juntos, passeavam juntos, tocavam piano a quatro m&atilde;os.<\/p>\n<p> Na sala do coronel armaram um gabinete de f&iacute;sica eletrol&oacute;gica.<\/p>\n<p> A velha quadra de paredes corcovadas, carequentas, povoou-se estranhamente<br \/>\n    de instrumentos cient&iacute;ficos modern&iacute;ssimos, nos quais o brilho<br \/>\n    fulvo do lat&atilde;o envernizado se casava ao preto ba&ccedil;o das partes<br \/>\n    enegrecidas, &agrave; transpar&ecirc;ncia cristalina dos tubos de vidro multiformes,<br \/>\n    ao lustroso da madeira brumida dos suportes, &agrave; verdura fresca da seda<br \/>\n    das bobinas.<\/p>\n<p> Botelhas de Leyde, jarras enormes, agrupadas em baterias formid&aacute;veis,<br \/>\n    m&aacute;quinas de Ramsden e Holtez, pilhas compartimentos Kruikshank e de<br \/>\n    Wollanston, pilhas en&eacute;rgica de Grove, de Bunsen, de Daniell, de Leclanch&eacute;;<br \/>\n    pilhas elegant&iacute;ssimas de bicromato de potassa, acumuladores de Plant&eacute;,<br \/>\n    bobinas de Ruhrnkorf, tubos de Geissler, reguladores de Foucault e Duboscq,<br \/>\n    bugias de Jablochkff, l&acirc;mpadas de Edson, telefones, tel&eacute;grafos,<br \/>\n    tudo isso por a&iacute; protra&iacute;a as formas esquisitas, fosco, di&aacute;fano,<br \/>\n    reverberante a um tempo; absorvendo, refrangendo, refletindo a luz de mil<br \/>\n    modos diferentes.<\/p>\n<p> A eletricidade sussurrava, multiplicavam-se por toda parte fa&iacute;scas<br \/>\n    azuladas, ouviam-se estalidos secos, tintina&ccedil;&otilde;es sonoras de<br \/>\n    campainhas.<\/p>\n<p> O ar estava picado de um cheiro acre, irritante, de &aacute;cido az&oacute;tico<br \/>\n    e de ozone.<\/p>\n<p> Barbosa e Lenita, ocupados, embebidos em experi&ecirc;ncias, trocavam palavras<br \/>\n    r&aacute;pidas, quase &aacute;speras, como dois velhos colegas.<\/p>\n<p> Davam-se um ao outro ordens breves, imperiosas. De repente um deles batia<br \/>\n    o p&eacute;, contra&iacute;a o rosto, piscava duro, sacudia o bra&ccedil;o:<br \/>\n    era que tinha havido um descuido, punido logo por um choque. O coronel espiava<br \/>\n    da porta.<\/p>\n<p>&#8211; Que a sua sala estava convertida em senzala de feiti&ccedil;arias, afirmava<br \/>\n    ele, que de repente havia de vir um raio e espatifar aquelas burundangas todas.<\/p>\n<p> Aos convites instantes de Lenita e do filho para que chegasse a ver de perto<br \/>\n    os efeitos luminosos da eletricidade no v&aacute;cuo, as colora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    brilhantes produzidas nos tubos de Geissler, recusava-se &#8211; que l&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    entraria nem por um decreto; que para livrar-se por toda a sua santa vida<br \/>\n    do desejo de investigar eletricidades, bem lhe bastavam dois choques que apanhara<br \/>\n    uma feita, na esta&ccedil;&atilde;o telegr&aacute;fica.<\/p>\n<p> A observa&ccedil;&atilde;o de que a eletricidade lhe podia ser &uacute;til<br \/>\n    para a cura do reumatismo, contestava que se curasse quem quisesse com tal<br \/>\n    medicina, que ele n&atilde;o.<\/p>\n<p> Satisfeita a curiosidade cient&iacute;fica de Lenita quanto ao estudo experimental<br \/>\n    da eletrologia, que ela dantes s&oacute; aprendera teoricamente, passaram<br \/>\n    &agrave; qu&iacute;mica e &agrave; fisiologia. Depois foram &agrave; gl&oacute;tica,<br \/>\n    estudaram l&iacute;nguas, grego e latim com especialidade: traduziram os fragmentos<br \/>\n    de Epicuro, o De Natura Reram de Lucr&eacute;cio.<\/p>\n<p> Em estudos, em conversa&ccedil;&otilde;es que eram prolongamentos dos estudos,<br \/>\n    em passeios e excurs&otilde;es campestres, voava o tempo. Levantavam-se muito<br \/>\n    cedo, estendiam os ser&otilde;es at&eacute; muito tarde. Uma vez o moleque,<br \/>\n    que fora buscar o correio, trouxe para Barbosa um volume lacrado. Era a exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das teorias transformistas de Darwin e Haeckel por Viana de Lima. Lenita ficou<br \/>\n    doida de contente com a novidade escrita em franc&ecirc;s por um brasileiro.<br \/>\n    Come&ccedil;aram a leitura depois da ceia, prolongaram-na pela noite adiante,<br \/>\n    e embeveceram-se a tal ponto que o dia os surpreendeu.<\/p>\n<p> Ao empalidecer a luz das velas com os primeiros albores do dia, foi que<br \/>\n    deram acordo de si. Riam muito, recolheram-se desapontados aos seus aposentos,<br \/>\n    n&atilde;o dormiram. Compareceram ao almo&ccedil;o e depois dele continuaram<br \/>\n    com a leitura.<\/p>\n<p> &Agrave; noite, quando depois de despedir-se de Barbosa, entrava para o<br \/>\n    quarto, Lenita despia-se, concentrando o pensamento, refletindo sobre o seu<br \/>\n    estado de esp&iacute;rito, achava-se feliz, notava que tinha afetos brandos<br \/>\n    por tudo que a rodeava, que via a natureza por um prisma novo. Sentia, com<br \/>\n    uma ponta de remorso, que lhe ia esquecendo o pai. E parecia-lhe intermin&aacute;vel<br \/>\n    o que restava da noite, o que ainda faltava para tomar a ver Barbosa.<\/p>\n<p> Deitava-se, aconchegava-se, procurava adormentar o c&eacute;rebro, repelindo,<br \/>\n    baralhando as id&eacute;ias que se apresentavam. Adormecia.<\/p>\n<p> Cedo, muito cedo, ao amiudar dos galos, acordava: erguia-se de pronto, alegr&iacute;ssima;<br \/>\n    escovava os dentes cuidadosamente, mirava-os com desvanecimento ao espelho,<br \/>\n    chegando muito a luz &agrave; boca, arrega&ccedil;ando muito os bei&ccedil;os<br \/>\n    para ver as gengivas; refrescava a epiderme do busto com uma larga ablu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fria, umedecia, perfumava o cabelo com &aacute;gua de violetas, penteava-os<br \/>\n    com esmero, substitu&iacute;a a camisola de dormir por uma camisa fin&iacute;ssima<br \/>\n    de cambraia crivada; apertava-se, vestia-se com garridice; limava, espontava,<br \/>\n    alisava, coloria, brunia as unhas.<\/p>\n<p> E tudo isso pensando em Barbosa, antegostando a del&iacute;cia do momento<br \/>\n    de v&ecirc;-lo, de ouvir-lhe a voz em um bom dia afetuos&iacute;ssimo, jubiloso;<br \/>\n    de apertar-lhe a m&atilde;o, de sentir-lhe o contato quente.<\/p>\n<p> Barbosa j&aacute; n&atilde;o era mo&ccedil;o, pouco dormia, poucas horas<br \/>\n    de sono lhe bastavam.<\/p>\n<p> Deitava-se, procurava ler, mas debalde. A imagem de Lenita interpunha-se<br \/>\n    entre ele e o impresso. Via-a junto de si, absorvia-se em contempl&aacute;-la<br \/>\n    nessa semi-alucina&ccedil;&atilde;o, falava-lhe em voz alta, desesperava,<br \/>\n    depunha o livro ou o jornal, estendia-se, virava-se, revirava-se, adormecia,<br \/>\n    acordava, riscava f&oacute;sforo, olhava o rel&oacute;gio, via que era noite,<br \/>\n    tomava a adormecer, tomava a acordar, e assim continuava at&eacute; que amanhecia,<br \/>\n    at&eacute; que chegava a hora de levantar-se.<\/p>\n<p> &#8211; Que n&atilde;o sabia o que aquilo era, pensava. Admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por talento real em uma mo&ccedil;a, por faculdades inegavelmente superiores<br \/>\n    em uma mulher? Poss&iacute;vel. Mas em Paris trabalhara ele muito tempo com<br \/>\n    madame Brunet, a tradutora sapient&iacute;ssima de Huxley; com ela fizera<br \/>\n    centenares de disseca&ccedil;&otilde;es anat&ocirc;micas, com ela aprofundara<br \/>\n    estudos de embriogenia; respeitava-a, admirava-a; e nunca sentia junto dela<br \/>\n    o que sentia junto de Lenita. E todavia madame Brunet n&atilde;o era feia,<br \/>\n    bem ao contr&aacute;rio. N&atilde;o, aquilo n&atilde;o era simples admira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas que diabos, era aquilo ent&atilde;o? Amor verdadeiro, com objetivo definido,<br \/>\n    carnal tamb&eacute;m n&atilde;o era: ao p&eacute; de Lenita ainda n&atilde;o<br \/>\n    tivera desejo algum lascivo, ainda n&atilde;o sofrera o pungir do espinho<br \/>\n    da caule. Tivera em tempo uma paix&atilde;o que o levara &agrave; tolice suprema<br \/>\n    do casamento, mas isso passara; tinha-se at&eacute; divorciado da mulher com<br \/>\n    cujo g&ecirc;nio se n&atilde;o tinha podido harmonizar. Casto, era-o at&eacute;<br \/>\n    certo ponto: s&oacute; procurava rela&ccedil;&otilde;es gen&eacute;sicas,<br \/>\n    quando as exig&ecirc;ncias fisiol&oacute;gicas do seu organismo de macho se<br \/>\n    faziam sentir, imperiosas, amea&ccedil;ando-lhe a sa&uacute;de. E n&atilde;o<br \/>\n    ligava a isso mais import&acirc;ncia do que o exerc&iacute;cio de uma outra<br \/>\n    fun&ccedil;&atilde;o qualquer, do que satisfa&ccedil;&atilde;o de uma simples<br \/>\n    necessidade org&acirc;nica. Mas que era ent&atilde;o o que sentia por Lenita?<br \/>\n    Amizade no rigor do termo, como de homem para homem, e at&eacute; de mulher<br \/>\n    para mulher, n&atilde;o era: a amizade &eacute; imposs&iacute;vel entre pessoas<br \/>\n    de sexo diferente, a n&atilde;o ser que tenham perdido todo o car&aacute;ter<br \/>\n    de sexualidade. Amor ideal, rom&acirc;ntico, plat&ocirc;nico? Era de certo<br \/>\n    isso. Mas rid&iacute;culo, santo Deus? que oceano de rid&iacute;culo! Quebradeiras<br \/>\n    sentimentais na casa dos quarenta, quando a endura&ccedil;&atilde;o do c&eacute;rebro<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o permite fantasias, quando a luta pela vida j&aacute;<br \/>\n    tem morto as ilus&otilde;es?<br \/>\n    O caso era que n&atilde;o podia estar longe da mo&ccedil;a, que s&oacute;<br \/>\n    junto dela vivia, pensava, estudava, era homem. Estava preso, estava aniquilado.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h4>\n<p>Quebrara em Santos uma casa comiss&aacute;ria important&iacute;ssima.<\/p>\n<p> O coronel perdia na quebra cerca de trinta contos.<\/p>\n<p> &#8211; Que aquela pra&ccedil;a era uma cova de Caco, uma Cal&aacute;bria disse<br \/>\n    ele ao saber da not&iacute;cia, um dia de manh&atilde;: que comiam o fazendeiro<br \/>\n    por uma perna; que misturavam o caf&eacute; bom, mandado por ele, com o caf&eacute;<br \/>\n    de refugo, com o caf&eacute; escolha comprado ao desbarato; que essa honest&iacute;ssima<br \/>\n    manipula&ccedil;&atilde;o chamavam bater, fazer pilha, no que tinham carradas<br \/>\n    de raz&atilde;o porque era mesmo uma batida de dinheiro, uma verdadeira pilhagem<br \/>\n    de cobres, que davam contas de venda ao fazendeiro como e quando muito bem<br \/>\n    lhes parecia, e que diabo havia de se ver grego para verificar a exatid&atilde;o<br \/>\n    de tais contas; que &agrave; custa do fazendeiro comia o intermedi&aacute;rio,<br \/>\n    comia a estrada de ferro com as suas tarifas de chegar, comia o governo com<br \/>\n    os velhos e novos impostos, comia a corpora&ccedil;&atilde;o dos carroceiros,<br \/>\n    comia a tr&ecirc;s carrilhos o comiss&aacute;rio, comia o zang&atilde;o ou<br \/>\n    o corretor, comia o exportador, comiam todos. Que afinal, para coroar a obra,<br \/>\n    para evaporar o restinho de cobre que ficava, l&aacute; vinha a santa da quebra,<br \/>\n    a bela da fal&ecirc;ncia casual, j&aacute; se deixava ver, porque onde h&aacute;<br \/>\n    guarda-livros peritos ningu&eacute;m quebra fraudulentamente.<\/p>\n<p> Ficou decidido que Barbosa partiria no dia seguinte para Santos, a ver se<br \/>\n    conseguia salvar alguma coisa do naufr&aacute;gio. Logo depois do almo&ccedil;o<br \/>\n    conversou ele por largo espa&ccedil;o com o pai, discutiu, fez contas, ajustou<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es, disp&ocirc;s as bases da negocia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e, montado a cavalo, foi &agrave; fazenda do vizinho mais pr&oacute;ximo,<br \/>\n    major Silva com quem era necess&aacute;rio entender-se, porque tamb&eacute;m<br \/>\n    era interessado no neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> Ao dizer-lhe adeus Barbosa, Lenita sentiu-se fazer em torno dela um v&aacute;cuo<br \/>\n    imenso, certa muito embora de que a aus&ecirc;ncia era s&oacute; at&eacute;<br \/>\n    &agrave; tarde.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia de outra aus&ecirc;ncia, da aus&ecirc;ncia futura, da ida<br \/>\n    para Santos torturava-a.<\/p>\n<p> Como lenitivo &agrave; sua m&aacute;goa, quis ela pr&oacute;pria fazer a<br \/>\n    mala de Barbosa, pretextando que n&atilde;o ficaria bom o arranjo pelas m&atilde;os<br \/>\n    descuidosas de uma escrava.<\/p>\n<p> Seguiu a mucama encarregada da roupa branca, entrou pela primeira vez no<br \/>\n    quarto de Barbosa.<\/p>\n<p> Ao fundo uma cama estreita de solteiro, estendida, com len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    e fronhas muito alvas; junto da cabeceira um criado-mudo de tampo de m&aacute;rmore,<br \/>\n    e sobre ele um casti&ccedil;al de alfenide com um coto de vela de estearina,<br \/>\n    uma fosforeira de prata e um n&uacute;mero de Di&aacute;rio Mercantil; ao<br \/>\n    alcance da m&atilde;o uma mesa vasta, forrada de baeta verde com alguns livros,<br \/>\n    aprestos para escrever, dois rev&oacute;lveres, um punhal japon&ecirc;s e<br \/>\n    uma fotografia de Sarah Bernhardt; aos p&eacute;s da cama um mancebo para<br \/>\n    roupa, com muitos bra&ccedil;os. Pelas paredes, nos espa&ccedil;os deixados<br \/>\n    por um lavat&oacute;rio e uma enorme c&ocirc;moda, botelhas entran&ccedil;adas<br \/>\n    de vime, fac&otilde;es, armas finas, de ca&ccedil;a e de alvo, de carregar<br \/>\n    pela boca, de retrocarga, de repeti&ccedil;&atilde;o, mareadas por Pieper,<br \/>\n    por Habermann, por Greener, por Fruwirth. Um arm&aacute;rio, uma cadeira pregui&ccedil;osa<br \/>\n    e v&aacute;rias cadeiras simples completavam o trastejamento.<\/p>\n<p> Entrando, Lenita sentiu-se tomada de embara&ccedil;o inexplic&aacute;vel.<br \/>\n    Seu pudor revoltava-se, parecia-lhe que respirava indec&ecirc;ncia naquele<br \/>\n    aposento de homem.<\/p>\n<p> Correu-se de pejo, corou e com voz mal segura perguntou &agrave; mucama<br \/>\n    pela roupa branca de Barbosa.<\/p>\n<p> A mucama abriu uma c&ocirc;moda, tirou dela e empilhou sobre a cama camisas<br \/>\n    brancas engomadas, camisas de dormir de flanela macia, ceroulas de linho alv&iacute;ssimo,<br \/>\n    toalhas, len&ccedil;os brancos e de bretanl1a, len&ccedil;os de seda de cor,<br \/>\n    meias de fio de Esc&oacute;cia.<\/p>\n<p> Foi buscar e colocou junto da cama uma grande mala inglesa de bojo el&aacute;stico<br \/>\n    de fole; no couro preto, punha uma nota viva, um peda&ccedil;o de papel encardido<br \/>\n    com o letreiro &#8211; Tamar, cabin. Desafivelou as correias, abriu-a em duas.<\/p>\n<p> Lenita forrou um dos compartimentos com uma toalha de algod&atilde;o mineiro<br \/>\n    fin&iacute;ssimo, crivada, franjada em abrolhos, e, com esse cuidado meticuloso,<br \/>\n    com esse jeito peculiar &agrave;s mulheres mo&ccedil;as, come&ccedil;ou a<br \/>\n    arrumar pe&ccedil;a sobre pe&ccedil;a, perfumando cada uma com um borrifo<br \/>\n    de ess&ecirc;ncia Vit&oacute;ria vaporizada.<\/p>\n<p> Na candidez dos linhos destacava-se, em notas cruas, o vermelho-sangue,<br \/>\n    o azul-de-rei dos len&ccedil;os de seda, o ouro-fosco, o verde-garrafa, o<br \/>\n    preto-lustroso das meias de fio de Esc&oacute;cia.<\/p>\n<p> A mucama saiu, passou a outro quarto para trazer umas roupas de casimira<br \/>\n    que Barbosa lhe dissera querer levar.<\/p>\n<p> Lenita ficou s&oacute;. Foi a tirar a &uacute;ltima camisa de sobre a cama<br \/>\n    e notou que, no retesado da coberta, havia um afundamento apenas vis&iacute;vel<br \/>\n    sobre a travesseira rendada uma depress&atilde;o mais cava. Depois de feita<br \/>\n    a cama, Barbosa com certeza nela se estendera a descansar.<\/p>\n<p> Inconscientemente, automaticamente, atra&iacute;da, puxada pelos nervos,<br \/>\n    Lenita p&ocirc;s as m&atilde;os no colch&atilde;o fofo, curvou-se, aproximou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Da travesseira, misturando-se a um aroma suave de &aacute;gua de Lubin,<br \/>\n    desprendia-se um cheiro animal bom, de corpo humano, s&atilde;o, asseado.<\/p>\n<p> Lenita, haurindo essa emana&ccedil;&atilde;o sutil, sentiu quer que era<br \/>\n    el&eacute;trico abalar-lhe o organismo: era um anseio vago, uma sede de sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que a torturava. Quase em del&iacute;quio, deixou-se cair de bru&ccedil;os<br \/>\n    sobre a cama, afundou o rosto na travesseira, sorveu a haustos curtos, a&ccedil;odados,<br \/>\n    o odor viril, esfregou, rostiu os seios de encontro ao fust&atilde;o &aacute;spero<br \/>\n    da colcha branca.<\/p>\n<p> Sentia quase o mesmo que sentira na noite da alucina&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    o gladiador, um prazer mordente, delirante, atroz, com estranhas repercuss&otilde;es<br \/>\n    simp&aacute;ticas, mas incompleto, falho.<\/p>\n<p> Trincou nos dentes a cambraia da fronha, gemendo, ganindo em contra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    espasm&oacute;dicas.<\/p>\n<p> &#8211; Eah! gritou a mucama que entrava, sinhazinha est&aacute; com ataque! e,<br \/>\n    atirando sobre a cadeira a roupa que trouxera, correu para ela, ergueu-a nos<br \/>\n    bra&ccedil;os, sacudiu-a com for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Lenita acalmou-se sem demora: estava p&aacute;lida, tr&ecirc;mula, tinha<br \/>\n    os olhos muito brilhantes, a boca pegajosa, a fala travada.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; nada disse, foi uma vertigem, j&aacute; passou. V&aacute;<br \/>\n    buscar um copo d&#8217;&aacute;gua.<\/p>\n<p> &#8211; Sinhazinha, ponderou a mucama, o que lhe fez mal foi o cheiro forte do<br \/>\n    vidro que vassunc&ecirc; estava pondo na roupa: a mim tamb&eacute;m me tonteou.<br \/>\n    Cuidado.<\/p>\n<p> E saiu.<\/p>\n<p> &Agrave; tarde, Barbosa, quando voltou da fazenda do major Silva, estranhou<br \/>\n    a Lenita. Ela n&atilde;o o procurava, n&atilde;o lhe falava, mal respondia<br \/>\n    &agrave;s suas numerosas e reiteradas perguntas.<\/p>\n<p> Contra o costume recolheu-se cedo, antes da ceia, pretextando incomodo.<\/p>\n<p> Barbosa despediu-se do pai e da m&atilde;e: n&atilde;o os queria ir acordar<br \/>\n    de madrugada, e contava partir antes de amanhecer.<\/p>\n<p> Entrou para o quarto mas n&atilde;o p&ocirc;de dormir. A viagem que tinha<br \/>\n    de fazer contrariava-o imenso. N&atilde;o sabia como passar ausente de Lenita.<br \/>\n    As poucas horas que estivera na fazenda do major Silva tinham-lhe parecido<br \/>\n    eternidades.<\/p>\n<p> Viera a galope. E mais, para coroar a obra, os modos bruscos da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> Acabou de arrumar a mala.<\/p>\n<p> &#8211; Sim, senhor, disse, a Marciana arranjou isto muito bem. Est&aacute; admir&aacute;vel,<br \/>\n    at&eacute; com gosto,<br \/>\n    com arte. Mas, onde diabo foi ela buscar ess&ecirc;ncia Vit&oacute;ria? Cheira<br \/>\n    que &eacute; uma del&iacute;cia. Fez jus a cinco mil-r&eacute;is, h&aacute;<br \/>\n    de t&ecirc;-los.<\/p>\n<p> Tirou do arm&aacute;rio uma garrafa de conhaque, bebeu um c&aacute;lice,<br \/>\n    acendeu um charuto.<\/p>\n<p> Entrou a pensar.<\/p>\n<p> &#8211; Que teria Lenita? Teria adoecido assim de repente? Regras, aquilo de certo<br \/>\n    eram regras: lota mulier in utero bem disse Van Helmont. Mas n&atilde;o era<br \/>\n    que estava mesmo apaixonado pela rapariga? Tinha gra&ccedil;a!<br \/>\n    Puxou com for&ccedil;a uma fuma&ccedil;a, e continuou a pensar!<br \/>\n    &#8211; Era casado, era quase um velho. Onde iria parar aquilo?.. N&atilde;o levava<br \/>\n    a fatuidade ao ponto de crer que a rapariga estivesse apaixonada tamb&eacute;m<br \/>\n    pela sua respeit&aacute;vel pessoa&#8230; mas, em suma, por que n&atilde;o? Muitos<br \/>\n    velhos tinham inspirado paix&otilde;es. A mulher de Lesseps era uma mocinha<br \/>\n    nova, quase uma crian&ccedil;a, e casara por paix&atilde;o. E demais ele,<br \/>\n    Barbosa, n&atilde;o era velho, era homem maduro apenas. Dado que o que havia<br \/>\n    entre ele e Lenita n&atilde;o fosse, como n&atilde;o podia mesmo ser, uma<br \/>\n    mera afei&ccedil;&atilde;o de camaradagem, uma simples estima rec&iacute;proca,<br \/>\n    que havia ele de fazer? Casar com Lenita n&atilde;o podia, era casado. Tom&aacute;-la<br \/>\n    por amante? Certo que n&atilde;o. Preconceitos &iacute;ntimos n&atilde;o os<br \/>\n    tinha: para ele o casamento era uma institui&ccedil;&atilde;o ego&iacute;stica,<br \/>\n    hip&oacute;crita, profundamente imoral, soberanamente est&uacute;pida. Todavia<br \/>\n    era uma institui&ccedil;&atilde;o velha de milhares de anos, e nada mais perigoso<br \/>\n    do que arrostar, contrariar de chofre as velhas institui&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    elas h&atilde;o de cair, sim, mas com o tempo, a mesma lentid&atilde;o com<br \/>\n    que se formaram, e n&atilde;o de chofre, como u rel&acirc;mpago. A sociedade<br \/>\n    estigmatizava o amor livre, o amor fora do casamento; for&ccedil;a era aceitar<br \/>\n    o decreto antinatural da sociedade. Demais, seu pai tivera Lopes Matoso em<br \/>\n    conta de filho; tinha a Lenita em conta de neta: um esc&acirc;ndalo mago&aacute;-lo-ia<br \/>\n    profundamente, mat&aacute;-lo-ia talvez.<\/p>\n<p> Sentou-se junto &agrave; mesa, quebrou em um cinzeiro a cinza do charuto,<br \/>\n    apoiou o cotovelo do bra&ccedil;o esquerdo sobre o joelho correspondente,<br \/>\n    encostou a cabe&ccedil;a no rebordo interno da m&atilde;o, engolfou-se em<br \/>\n    cisma, tirando fuma&ccedil;a sobre fuma&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s largo espa&ccedil;o ergueu-se, atirou fora a ponta do charuto,<br \/>\n    entrou a passear nervoso de um para outro lado.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, exclamou de repente, &eacute; preciso que isto acabe, h&aacute;<br \/>\n    de acabar.<\/p>\n<p> Deitou-se.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s horas ergueu-se sem ter conciliado o sono, chamou o<br \/>\n    pajem, mandou-o encilhar os animais, lavou-se, vestiu-se, cal&ccedil;ou botas,<br \/>\n    cal&ccedil;ou luvas, envergou o guarda-p&oacute;, p&ocirc;s o chap&eacute;u,<br \/>\n    tomou &agrave;s pressas uma x&iacute;cara de caf&eacute;, que uma preta lhe<br \/>\n    trouxe, saiu, montou a cavalo e, acompanhado pelo pajem, seguiu jornada.<\/p>\n<p> Lenita tamb&eacute;m n&atilde;o dormira.<\/p>\n<p> O cheiro humano masculino que respirara na travesseira de Barbosa fora realmente<br \/>\n    um veneno para os seus nervos. Sentia-se de novo presa do mal-estar do histerismo<br \/>\n    antigo. Tinha anseios, tinha desejos, mas anseios, desejos acentuados, visando<br \/>\n    a objetiva certo. Ela ansiava por Barbosa. ela desejava Barbosa.<\/p>\n<p> A seus olhos avultara ele, tomara propor&ccedil;&otilde;es novas, realizara-lhe<br \/>\n    o ideal. Deixara-se subjugar, dominar pelo f&iacute;sico robusto e nervoso,<br \/>\n    pela pujante e culta mentalidade de Barbosa.<\/p>\n<p> A f&ecirc;mea altiva, orgulhosa, mas c&ocirc;nscia da sua superioridade,<br \/>\n    encontrava o macho digno de si: a senhora se fizera escrava.<\/p>\n<p> Ao ouvir o estrupido dos animais na partida, Lenita abriu a janela, ergueu<br \/>\n    a vidra&ccedil;a, acompanhou com o olhar os vultos dos dois cavaleiros que<br \/>\n    se iam perdendo nas brumas da madrugada.<\/p>\n<p> Notou que paravam, que se voltava o cavaleiro da frente, cujo guarda-p&oacute;<br \/>\n    muito claro punha uma nota muito branca no nevoeiro matutino.<\/p>\n<p> Seria por um dos mil pequenos incidentes de viagem que paravam? seria para<br \/>\n    contemplar Barbosa ainda mais uma vez, a casa em que ela ficara? seria uma<br \/>\n    despedida? <br \/>\n    Sem o querer, inconscientemente, Lenita apinhou os dedos, levou-os &agrave;<br \/>\n    boca, atirou um beijo ao espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> E desatinada, ardendo em pejo, muito embora certa de que ningu&eacute;m<br \/>\n    a vira, fechou a janela arrojou-se &agrave; cama desatou em pranto convulso.<\/p>\n<p> Despontou o sol, trazendo dia radiante, lind&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> Lenita ergueu-se, vestiu-se &agrave;s pressas, saiu a dar uma volta pelo<br \/>\n    pomar, deixando intactos o copo de leite e a x&iacute;cara de caf&eacute;<br \/>\n    que lhe levara a servente.<\/p>\n<p> O ar fino da manh&atilde; pur&iacute;ssima, saturado das emana&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    bals&acirc;micas das &aacute;rvores abafava-a, sufocava-a: parecia-lhe que<br \/>\n    respirava chumbo.<\/p>\n<p> A luz do sol, a dourar a verdura mole do campo, era crua e incompar&aacute;vel<br \/>\n    a seus olhos. Achava algo de hostil na vegeta&ccedil;&atilde;o, em tudo.<\/p>\n<p> Era-lhe odiosa a imobilidade dos cerros vizinhos, das montanhas que ao longe<br \/>\n    divisava. Um terremoto, um cataclismo que desmoronasse as serranias, alteando<br \/>\n    os vales, derramando os rios, convulsionando tudo, iria muito melhor ao seu<br \/>\n    estado de esp&iacute;rito do que essa calma da natureza, b&aacute;rbara, est&uacute;pida.<\/p>\n<p> Figurava-se-lhe estar dentro de um c&iacute;rculo de altas muralhas de a&ccedil;o<br \/>\n    brunido, cujo di&acirc;metro se fosse a cada instante estreitando. Tudo lhe<br \/>\n    falava de Barbosa, tudo lhe recordava.<\/p>\n<p> Aqui era a laranjeira-cravo junto da qual o vira, como em um avatar, como<br \/>\n    em uma transfigura&ccedil;&atilde;o, risonho, franco, comunicativo, sob o<br \/>\n    aspecto que em um momento a cativara.<\/p>\n<p> Ali era um grupo de ameixeiras, que servira de assunto a uma prele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de bot&acirc;nica industrial. Lembrava-lhe muito bem &#8211; ameixeira da &Iacute;ndia,<br \/>\n    ameixeira do Canad&aacute;, nomes impr&oacute;prios, origens falsas. A &aacute;rvore<br \/>\n    &eacute; aut&oacute;ctone da China e do Jap&atilde;o, onde vive em estado<br \/>\n    selvagem, &eacute; a eriobotria, Mespilus japonica. Est&aacute; destinada<br \/>\n    a um grande papel no futuro, quando este pa&iacute;s se tomar industrial.<br \/>\n    A gel&eacute;ia que produz n&atilde;o tem competidora, e a sua aguardente,<br \/>\n    coobada, levar&aacute; de vencida a famosa kirchwasser.<\/p>\n<p> Al&eacute;m era um renque de ananazeiros, a cujo respeito a exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    luminosa e f&aacute;cil de Barbosa lhe tirara muitas d&uacute;vidas. Como<br \/>\n    lhe vivia na mem&oacute;ria a descri&ccedil;&atilde;o que ele fizera &#8211; bromelia<br \/>\n    arianas, fam&iacute;lia das bromeli&aacute;ceas; folhas em corimbos, duras,<br \/>\n    quebradi&ccedil;as, alfanjadas, de perto de metro, &agrave;s vezes, guarnecidas<br \/>\n    de ac&uacute;leos; flor vermelha ou roxa, a emergir de um c&aacute;lice duro,<br \/>\n    cor de sangue, em pec&iacute;olos longos de vinte a trinta cent&iacute;metros;<br \/>\n    fruto lindo, pinhiforme, verde, branquicento, dourado, vermelho, constitu&iacute;do<br \/>\n    por uma s&eacute;rie de bagas em h&eacute;lice, soldadas, unificadas umas<br \/>\n    com as outras, em escamas orladas de pequenas folhas escarlates, coroado tudo<br \/>\n    por um penacho espinhento. Abacaxi, nan&acirc;, macambira, onore, uaca, achupala,<br \/>\n    nan&aacute;-iacua, chamava-se no continente sul-americano essa fruta ador&aacute;vel<br \/>\n    que, em 1514, Fernando, o Cat&oacute;lico, declarou, na Espanha a primeira<br \/>\n    fruta do mundo. Gonzalo Hernandez, Lery, Benzoni descreveram-na em suas obras;<br \/>\n    Crist&oacute;v&atilde;o Acosta deu-lhe o nome que hoje tem. Conta nada menos<br \/>\n    de oito variedades; penetrou na &Aacute;frica at&eacute; &agrave;s margens<br \/>\n    do Congo, na &Aacute;sia at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o da China: &eacute;<br \/>\n    soberbo em Pernambuco, mas onde atinge a perfei&ccedil;&atilde;o em forma,<br \/>\n    em aroma, em gosto, onde chega a ser divino &eacute; no Par&aacute;.<\/p>\n<p> Ainda al&eacute;m um mamoeiro&#8230;<\/p>\n<p> E Lenita sacudiu a cabe&ccedil;a, interrompendo desesperada o seu curso<br \/>\n    de id&eacute;ias; os ensinamentos de Barbosa, a sua erudi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o que ela reproduzia, mais lhe acendravam o desalento da saudade.<\/p>\n<p> N&atilde;o o podia crer ausente: ele l&aacute; estava, l&aacute; devia estar<br \/>\n    na sala do coronel, a arranjar um aparelho el&eacute;trico desmanchado: ou<br \/>\n    na varanda, a procurar em grossos l&eacute;xicos uma raiz grega ou s&acirc;nscrita.<br \/>\n    Sim, l&aacute; devia estar dentro, fazendo uma das coisas do costume. Quem<br \/>\n    sabe se precisava dela para o ajudar&#8230;<\/p>\n<p> E correu. Antes de chegar ao port&atilde;o parou. Tolices, Barbosa estava<br \/>\n    longe, partira, ela o vira partir.<\/p>\n<p> A essa hora j&aacute; tinha andado umas duas l&eacute;guas, seis mil bra&ccedil;as,<br \/>\n    treze mil e duzentos metros: cada minuto afastava-o dela cento e dez metros.<br \/>\n    No outro dia, &agrave;s seis horas e dez minutos, precisamente, da tarde,<br \/>\n    deveria estar, estaria em Santos, a quarenta e cinco l&eacute;guas, a trezentos<br \/>\n    quil&ocirc;metros, a trezentos mil metros!<br \/>\n    Recolheu-se abatida, mal almo&ccedil;ou jantou ainda pior.<\/p>\n<p> Ao entardecer, quando o sol, no descambar, derramava sobre a terra torrentes<br \/>\n    de luz amarela, suave, cor de ouro-velho, projetando ao longe, gigantescas,<br \/>\n    as sombras dos animais, das &aacute;rvores, das casas, dos cerros, Lenita<br \/>\n    com o peito opresso, a arfar em f&ocirc;legos curtos, foi sentar-se em um<br \/>\n    bosquezinho denso de amoreiras, sobre um alcantil, &agrave; beira do ribeir&atilde;o.<\/p>\n<p> Oculta pelo tramado da folhagem, ela abrangia um vasto trato de terreno<br \/>\n    no arco de c&iacute;rculo percorrido pelo raio visual. Na verdura veludosa<br \/>\n    do pasto, punham notas fortes grandes vacas muito pretas, malhadas de branco.<\/p>\n<p> Um touro andaluz, vermelho, mugia ao longe, escarvando a terra. Um rebanho<br \/>\n    de ovelhas fuscas de cabe&ccedil;as e pernas muito negras pascia irrequieto,<br \/>\n    &agrave;s cabriolas, tosando a grama aqui e ali.<\/p>\n<p> Quase a seus p&eacute;s, sob o alcantil das amoreiras, o riacho espraiava-se<br \/>\n    em uma corredeira rasa, sobre fundo de seixinhos alvos. Um cap&atilde;o de<br \/>\n    mato ralo come&ccedil;ava &agrave; beira da &aacute;gua, indo morrer a pequena<br \/>\n    dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Lenita contemplava o amplo cen&aacute;rio, abstrata, distra&iacute;da, imersa<br \/>\n    em cisma, olhando sem ver. Um mugido fero, ao perto, chamou-a &agrave; realidade.<\/p>\n<p> O touro tinha-se aproximado de uma vaca muito gorda, cuja cria, terneira<br \/>\n    alentada, pastava j&aacute; longe, deslembrada quase da teta.<\/p>\n<p> Chegara-se farejando ansioso, cheirava o focinho da vaca, cheirava-lhe o<br \/>\n    corpo todo: erguera cabe&ccedil;a aspirando ruidosamente o ar, mostrando,<br \/>\n    no arrega&ccedil;ar luxurioso da bei&ccedil;a, a gengiva superior desdentada;<br \/>\n    soltara um berro estrangulado.<\/p>\n<p> Fora o que Lenita ouvira.<\/p>\n<p> O touro lambeu a vulva da vaca com a l&iacute;ngua &aacute;spera, babosa,<br \/>\n    e depois, bufando, com os olhos sang&uuml;&iacute;neos esbugalhados, pujante,<br \/>\n    temeroso na f&uacute;ria do erotismo, levantou as patas dianteiras, deixou-se<br \/>\n    cair sobre a vaca, cobriu-a, pendendo a cabe&ccedil;a &agrave; esquerda, achatando<br \/>\n    o perigalho de encontro ao seu espinha&ccedil;o.<\/p>\n<p> A vaca abriu um pouco as pernas traseiras, corcovou-se, engelhou a pele<br \/>\n    das ilhargas para receber a fecunda&ccedil;&atilde;o. Consumou-se esta em<br \/>\n    uma estocada rubra, certeira, r&aacute;pida.<\/p>\n<p> Era a primeira vez que Lenita via, realizado por animais de grande talhe,<br \/>\n    o ato fisiol&oacute;gico por meio do qual a natureza viva se reproduz.<\/p>\n<p> Esp&iacute;rito culto, em vez de julg&aacute;-lo imoral e sujo, como se<br \/>\n    praz a sociedade hip&oacute;crita em represent&aacute;-lo, ela achou-o grandioso<br \/>\n    e nobre em sua ador&aacute;vel simplicidade.<\/p>\n<p> Um assobiar requebrado e terno que se fazia ouvir no riacho f&ecirc;-la<br \/>\n    voltar para esse lado. Olhou, viu a Rufina, uma crioula nova de seios pulados<br \/>\n    e duros, de dentes muito brancos.<\/p>\n<p> Chapinhava na &aacute;gua rasa da corredeira, de cabe&ccedil;a alta, risonha,<br \/>\n    erguendo as fraldas muito alto; descobrindo-se at&eacute; o p&uacute;bis,<br \/>\n    mostrando as coxas grossas, musculosas de um negro mate arroxado.<\/p>\n<p> A assobiar sempre, avan&ccedil;ou at&eacute; o come&ccedil;o da corredeira,<br \/>\n    onde o &aacute;lveo se afundava um tanto, sofraldou-se mais, prendeu a roupa<br \/>\n    &agrave; cinta, curvou-se, imergiu as n&aacute;degas na &aacute;gua murmurosa,<br \/>\n    e, &agrave;s m&atilde;os ambas, procedeu a uma ablu&ccedil;&atilde;o de asseio,<br \/>\n    t&ocirc;nica ao mesmo tempo e excitante.<\/p>\n<p> Depois, com &aacute;gua a escorrer em filetes lustrosos pela pele escura,<br \/>\n    ba&ccedil;a, internou-se no cap&atilde;o.<\/p>\n<p> Ouvia-se-lhe sempre o assobio requebrado.<\/p>\n<p> N&atilde;o levou muito e outro assobio respondeu-lhe.<\/p>\n<p> Por uma trilha do ancantil oposto um preto, mo&ccedil;o, vigoroso, desceu<br \/>\n    a correr, atravessou r&aacute;pido a corredeira, internou-se por sua vez no<br \/>\n    cap&atilde;o.<\/p>\n<p> Cessaram os assobios.<\/p>\n<p> Lenita ouviu um murmurar confuso de vozes intercortadas, viu agitarem-se<br \/>\n    uns ramos e, pelos interst&iacute;cios dos troncos, por entre o emaranhado<br \/>\n    dos galhos, lobrigou indistintamente uma como luta breve, seguida pelo tombar<br \/>\n    desamparado, pelo som ba&ccedil;o de dois corpos a bater a um tempo no solo<br \/>\n    arenoso do matagal.<\/p>\n<p> Lenita mais compreendeu do que viu. Era a reprodu&ccedil;&atilde;o do que<br \/>\n    se tinha passado, havia momentos, mas em escala mais elevada: &agrave; c&oacute;pula,<br \/>\n    instintiva, brutal, feroz, instant&acirc;nea dos ruminantes, seguia-se o coito<br \/>\n    humano meditado, lascivo, meigo, vagaroso.<\/p>\n<p> Abalada profundamente em seu organismo, com a irrita&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    nervos aumentada por essas cenas cruas da natureza, torturada pela carne,<br \/>\n    mordida de um desejo louco de sensa&ccedil;&otilde;es completas, que n&atilde;o<br \/>\n    conhecia, mas que adivinhava, Lenita recolheu-se titubeando, fraqu&iacute;ssima.<\/p>\n<p> O coronel tinha passado a noite mal, com um acesso de reumatismo; conservara-se<br \/>\n    todo o dia na cama.<\/p>\n<p> Lenita foi v&ecirc;-lo, demorou-se pouco, retirou-se para o seu quarto,<br \/>\n    fechou-se por dentro.<\/p>\n<p><strong>PARTE II<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"10\">Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h4>\n<p>J&aacute; tinha anoitecido.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia luar, mas a noite estava clara. Na transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    escura do c&eacute;u tropical as estrelas empastavam-se em um amontoamento<br \/>\n    inveross&iacute;mil, como punhados de farinha luminosa em tela muito negra.<\/p>\n<p> No terreiro, varado, em frente &agrave;s senzalas, uma fogueira crepitava<br \/>\n    alegre, espancando a escurid&atilde;o com seu brasido candente, com suas l&iacute;nguas<br \/>\n    de chamas multiformes, irrequietas.<\/p>\n<p> Os negros tinham acabado uma carpa nesse dia, e o coronel dera-lhes permiss&atilde;o<br \/>\n    para folgar, mandando ao mesmo tempo que o administrador lhes fizesse uma<br \/>\n    larga distribui&ccedil;&atilde;o de aguardente.<\/p>\n<p> Ao som de instrumentos grosseiros dan&ccedil;avam: eram esses instrumentos<br \/>\n    dois atabaques e v&aacute;rios adufes.<\/p>\n<p> Acocorados, segurando os atabaques entre as pemas, encarapitados, debru&ccedil;ados<br \/>\n    neles, dois africanos velhos, mas ainda robustos, faziam-nos ressoar, batendo-lhes<br \/>\n    nos couros, retesados, &agrave;s m&atilde;os ambas, com um ritmo, sacudido,<br \/>\n    nervoso, feroz, infrene.<\/p>\n<p> Negros e negras formavam um vasto c&iacute;rculo agitavam-se, permeavam,<br \/>\n    compassadamente, rufavam adufes aqui e ali. Um figurante, no meio, saltava,<br \/>\n    volteava, baixava-se, erguia-se, retorcia os bra&ccedil;os, contorcia o pesco&ccedil;o,<br \/>\n    rebolia os quadris, sapateava em um frenesi indescrit&iacute;vel, com uma<br \/>\n    tal prodigalidade de movimentos, com um tal desperd&iacute;cio de a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nervosa e muscular, que teria estafado um homem branco em menos de cinco minutos.<\/p>\n<p> E cantava:<br \/>\n    Serena pomba, serena;<br \/>\n    N&atilde;o cansa de seren&aacute;!<br \/>\n    O sereno desta pomba<br \/>\n    Lumeia que nem meta!<br \/>\n    Eh! Pomba! eh!<\/p>\n<p>E a turba repetia em coro:<\/p>\n<p>Eh! Pomba! eh!<\/p>\n<p>A voz do cantor, fresca modulada de um timbre sombrio, coberto, tinha uma<br \/>\n    do&ccedil;ura infinita, um encanto inexprim&iacute;vel.<\/p>\n<p> Fechando-se os olhos, n&atilde;o se podia crer que sons t&atilde;o puros<br \/>\n    sa&iacute;sse a garganta de um preto, sujo, desconforme, hediondo, repugnante.<\/p>\n<p> A resposta coral, melop&eacute;ia inarm&ocirc;nica, mas cadenciada em quebros<br \/>\n    de uma tristeza suav&iacute;ssima, repercutia pelas matas no sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da noite, com uma grandiosidade melanc&oacute;lica e estranha.<\/p>\n<p> A letra nada dizia; a toada, o canto era tudo.<\/p>\n<p> E os atabaques retumbavam, rufavam os adufes, desesperadamente.<\/p>\n<p> O dan&ccedil;arino, sempre a cantar, sempre naquela agita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    naquela coreomania estupenda, percorria a roda sem sustar-se para retomar<br \/>\n    alento, sem dar mostras de cansado. Em sua testa ba&ccedil;a n&atilde;o brilhava<br \/>\n    uma baga de suor.<\/p>\n<p> De repente, vendo um ti&ccedil;&atilde;o inflamado na m&atilde;o de um companheiro,<br \/>\n    asiu-o, entrou a descrever com ele no ar figuras caprichosas, c&iacute;rculos,<br \/>\n    elipses, oitos de algarismo. Bateu-o no ch&atilde;o, espalhou na roda milhares<br \/>\n    de fa&uacute;las&#8230; O entusiasmo ascendeu ao del&iacute;rio.<\/p>\n<p> O dan&ccedil;arino deitou fora o ti&ccedil;&atilde;o, arrojando-o longe<br \/>\n    com impulso vigoros&iacute;ssimo. Depois afrouxou, moderou um pouco os movimentos.<br \/>\n    Entreparou ante um dos da roda, bamboando-se, fazendo-lhe gaifonas, como que<br \/>\n    reptando-o para que sa&iacute;sse ao terreiro.<\/p>\n<p> O desafiado aceitou a provoca&ccedil;&atilde;o, saiu-lhe ao encontro, dan&ccedil;ando,<br \/>\n    saracoteando-se, tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Eh! Pomba! eh! &#8211; gemia o coro.<\/p>\n<p> Os figurantes, que eram ent&atilde;o os dois, come&ccedil;aram de girar<br \/>\n    em torno do outro, atacando-se perseguindo-se, fugindo, como duas borboletas<br \/>\n    amorosas. Recuaram, depois avan&ccedil;aram de frente, lento, medindo-se.<br \/>\n    Deixaram pender os bra&ccedil;os, afastaram as cabe&ccedil;as, protra&iacute;ram<br \/>\n    os ventres, curvando as pemas, fizeram estalar uma embigada art&iacute;stica,<br \/>\n    sonora, retumbante, que se ouviu longe.<\/p>\n<p> Eh! pomba! eh! &#8211; continuava a gemer o coro.<\/p>\n<p> O primeiro figurante embarafustou-se por entre os companheiros, rompeu a<br \/>\n    roda, sumiu-se, deixando s&oacute; o sucessor que continuou na faina com a<br \/>\n    mesma galhardia.<\/p>\n<p> Os que n&atilde;o dan&ccedil;avam, que n&atilde;o tomavam parte no samba,<br \/>\n    grupavam-se aos magotes, acotovelando-se; olhavam em sil&ecirc;ncio, enlevados,<br \/>\n    absortos.<\/p>\n<p> Do solo batido pelo tripudiar de tanta gente erguia-se uma nuvem de p&oacute;,<br \/>\n    avermelhada pelo clar&atilde;o da fogueira.<\/p>\n<p> A garrafa de aguardente andava de m&atilde;o em m&atilde;o: n&atilde;o havia<br \/>\n    copos; bebiam pelo gargalo.<\/p>\n<p> Ao cheiro de terra pisada, de cacha&ccedil;a, de sarro de pito, sobrelevava<br \/>\n    dominante um cheiro humano &aacute;spero, ali&aacute;ceo, um odor almiscarado<br \/>\n    forte, uma catinga africana, indefin&iacute;vel, que do&iacute;a ao olfato,<br \/>\n    que cortava os nervos, que entontecia o c&eacute;rebro, sufocante, insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Enquanto se dan&ccedil;ava no terreiro, Joaquim Cambinda, escravo octogen&aacute;rio,<br \/>\n    in&uacute;til para o trabalho, estava sozinho, sentado em um cepo, ao p&eacute;<br \/>\n    de um fogo de lenha de perova, no paiol velho abandonado, que a rogo seu lhe<br \/>\n    fora concedido para morada.<\/p>\n<p> Era horroroso esse preto: calvo, bei&ccedil;udo, maxilares enormes, com<br \/>\n    as escler&oacute;ticas amarelas, raiadas de laivos sang&uuml;&iacute;neos,<br \/>\n    a destacarem-se na pele muito preta. Curvado pela idade, tardo, tr&ocirc;pego,<br \/>\n    quando se erguia e, envolto na sua coberta de l&atilde; parda, dava alguns<br \/>\n    passos, similhava uma hiena fusca, vagarosa, covarde, feroz, repelente. Tinha<br \/>\n    as m&atilde;os secas, aduncas; os dedos dos p&eacute;s reviravam-se-lhe para<br \/>\n    dentro, desunhados, medonhos.<\/p>\n<p> O paiol velho formava uma vasta quadra de telha v&atilde; de ch&atilde;o<br \/>\n    de terra, esburacado. A um canto um chalo de paus roli&ccedil;os, com uma<br \/>\n    esteira, um travesseiro negro e lustroso, umas traparias imundas: era a cama<br \/>\n    do africano. Por baixo do chalo, no desv&atilde;o escuro, punha uma nota branca<br \/>\n    um urinol velho de lou&ccedil;a ordin&aacute;ria, desbei&ccedil;ado, com um<br \/>\n    arquip&eacute;lago de incrusta&ccedil;&otilde;es &uacute;ricas no fundo muito<br \/>\n    f&eacute;tido, nauseabundo. Junto do chalo, uma caixa de pinho, cuja fechadura<br \/>\n    nova, envernizada, destacava-se muito lustrosa na madeira carunchada, enegrecida<br \/>\n    pela fuma&ccedil;a. Em outro canto, fronteiro ao chalo, sobre uma mesa coxa,<br \/>\n    um orat&oacute;rio vetusto, de gonzos enferrujados, gastos, ro&iacute;do de<br \/>\n    ratos em v&aacute;rios lugares, muito ensebado. Pelas paredes, saquinhos de<br \/>\n    boca amarrada, sambur&aacute;s, porungas de pesco&ccedil;o, guampas boi cartolas<br \/>\n    antiqu&iacute;ssimas, sobrecasacas arcaicas, de tr&ecirc;s pontas na lapela,<br \/>\n    do tempo do rei. Por todo o ch&atilde;o, ab&oacute;boras, pepinos maduros,<br \/>\n    espiga de milho com casca, cabos de instrumentos de lavoura, cepos de madeira,<br \/>\n    cascas de ovos, talos de couve, montes de cisco.<\/p>\n<p> A porta estava apenas cerrada: abriu-se e entrou uma negra ainda mo&ccedil;a,<br \/>\n    magra, baixinha, de olhos fundos, olhar febril. Estava vestida de cores muito<br \/>\n    espantadas, saia amarela, casaco vermelho. Tomou a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Joaquim Cambinda, e foi sentar-se em sil&ecirc;ncio junto do fogo.<\/p>\n<p> Um a um, vieram outros pretos e pretas. Entravam, davam louvado ao velho,<br \/>\n    e, silenciosos, acomodavam-se sobre cepos, ao p&eacute; do fogo: ao todo dez.<\/p>\n<p> Quando completo esse n&uacute;mero, Joaquim Cambinda disse:<br \/>\n    &#8211; F&eacute;ssa p&oacute;ta1.<\/p>\n<p> A negra que primeiro chegara levantou-se, cumpriu a ordem, voltou a sentar-se<br \/>\n    em seu lugar.<\/p>\n<p> Reinou sil&ecirc;ncio por largo espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> Fora ouvia-se o coro retumbando na noite:<br \/>\n    Eh! Pomba! eh!<br \/>\n    Joaquim Cambinda acendera um cachimbo de longo canudo, e fumava tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    sem parecer dar f&eacute; dos circunstantes.<\/p>\n<p> Cerca de meia hora levou absorto, com os olhos cerrados meditando, cochilando,<br \/>\n    a puxar fuma&ccedil;as, morosamente, pregui&ccedil;osamente.<\/p>\n<p> Quando se consumiu o carrego do cachimbo, sacudiu as cinzas, bateu-o bem,<br \/>\n    cuidadosamente, soprou-lhe o canudo, encostou-o &agrave; parede. Ergueu-se<br \/>\n    e, lento, titubeante, monstruoso, caminhou para o orat&oacute;rio, chegou,<br \/>\n    abriu-lhe as folhas da porta de par em par, tirou para fora duas velas de<br \/>\n    cera que estavam dentro, em casti&ccedil;ais de lat&atilde;o, riscou f&oacute;sforos,<br \/>\n    acendeu-as, iluminou o interior do nicho, revestido de papel de prata, mareado.<\/p>\n<p> Dois eram os divos desse mesquinho e s&oacute;rdido laranjo: um S&atilde;o<br \/>\n    Miguel de gesso, cambuto, retaco, muito feio, muito pintado de excretos de<br \/>\n    moscas; e um manipan&ccedil;o, tecido inteirinho de cordas fin&iacute;ssimas<br \/>\n    de embira, hediondo, pavoroso, mas admir&aacute;vel pelos detalhes anat&ocirc;micos,<br \/>\n    estupendo como obra de paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Os negros ergueram-se todos, reverentes.<\/p>\n<p> -Zel&oacute;mo, disse Joaquim<br \/>\n    Cambinda, uss&ecirc; penso b&ecirc; nu qu&ecirc; uss&ecirc; vai faz&ecirc;,<br \/>\n    lap&aacute;ssi?<br \/>\n    &#8211; Penso, mganga.<\/p>\n<p> &#8211; Intonsi, uss&ecirc; qu&eacute; m&ecirc;mo si riss&aacute; ni riman&aacute;ri<br \/>\n    ri San Migu&eacute; riz&aacute;ma? &#8211; Qu&eacute;, mganga.2<br \/>\n    Que era muito bom, explicou Joaquim Cambinda na sua meia l&iacute;ngua, pertencer<br \/>\n    um preto &agrave; irmandade de S&atilde;o Miguel das Almas, mas que tamb&eacute;m<br \/>\n    era perigoso; que quem n&atilde;o tinha peito n&atilde;o tomava mandinga;<br \/>\n    que o branco queria, por for&ccedil;a, saber o segredo dos irm&atilde;os de<br \/>\n    S&atilde;o Miguel, e que para isso surrava o preto, mas que o preto que revelava<br \/>\n    o segredo de S&atilde;o Miguel morria sem saber de qu&ecirc;. Fez o ne&oacute;fito<br \/>\n    beijar os p&eacute;s de S&atilde;o Miguel, f&ecirc;-lo beijar os cornos do<br \/>\n    Satan&aacute;s a ele sotoposto, f&ecirc;-lo beijar as partes genitais do manipan&ccedil;o;<br \/>\n    ditou-lhe juramentos solenes, cominou-lhe penas terr&iacute;veis no caso de<br \/>\n    infra&ccedil;&atilde;o. Recebeu dele dinheiro, trinta mil-r&eacute;is, seis<br \/>\n    notas de cinco mil-r&eacute;is, que estavam no bolso da cal&ccedil;a, muito<br \/>\n    enleadas em um len&ccedil;o de chita muito sujo. Passou &agrave; parte doutrinaria,<br \/>\n    entrou a inici&aacute;-lo na arte terr&iacute;vel dos feiti&ccedil;os e dos<br \/>\n    contras, a dar-lhe meios de matar, de curar. Ensinou-lhe que a semente do<br \/>\n    mamoninho bravo (Datura stramonium), socada, macerada em aguardente, cega,<br \/>\n    enlouquece, mata dentro de poucas horas; que osso de defunto, cuja carne caiu<br \/>\n    de podre, raspado e posto em uma comida qualquer, produz amarel&atilde;o incur&aacute;vel;<br \/>\n    que o sapo verde do mato virgem, sufocado a fogo lento, dentro de uma panela<br \/>\n    nova coberta por testo novo, morre largando uma espumarada branca, com a qual,<br \/>\n    dilu&iacute;da em &aacute;gua, se produz uma hidropisia necessariamente mortal;<br \/>\n    que as folhas do jaborandi (Pilacarpus pinnatifolius), pisadas, reduzidas<br \/>\n    a massa, aplicadas aos sovacos, produzem suares e saliva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    curam muitas mol&eacute;stias; que a raiz de Guin&eacute; (Mappa graveolens<br \/>\n    ) e a nhandirova (Fieuillea cordifolia) s&atilde;o contras poderos&iacute;ssimos<br \/>\n    para todas as coisas feitas.<\/p>\n<p> Ensinou mais uma infinidade de supersti&ccedil;&otilde;es, medonhas umas,<br \/>\n    outras muito rid&iacute;culas: que a m&atilde;o ressequida de uma criancinha<br \/>\n    morta sem batismo &eacute; um talism&atilde; precioso para conciliar o amor;<br \/>\n    que uma lasca de pedra de ara, furtada a uma igreja, fecha o corpo, toma-o<br \/>\n    invulner&aacute;vel a tiros de arma de fogo, a ponta&ccedil;os de arma branca;<br \/>\n    que caf&eacute; coado com &aacute;gua de banho por fralda de camisa de mulher,<br \/>\n    ou por fundilho de ceroula de homem, sem lavar, capta a simpatia, amansa o<br \/>\n    g&ecirc;nio bravo; que corda de enforcado faz ganhar dinheiro ao jogo; que<br \/>\n    uma figa de raiz de arruda, arrancada em sexta-feira maior, &eacute; rem&eacute;dio<br \/>\n    soberano de quebranto, de mal de olhado; que, para inutilizar um mestre feiticeiro,<br \/>\n    para tirar-lhe o poder, &eacute; preciso surr&aacute;-lo com uma vara de fumo<br \/>\n    e quebrar-lhe na cabe&ccedil;a tr&ecirc;s ovos chocos.<\/p>\n<p> Passou a curar o ne&oacute;fito, fechar-lhe o corpo, a anestesi&aacute;-lo<br \/>\n    para n&atilde;o sentir castigos f&iacute;sicos: mandou que se despisse, que<br \/>\n    se pusesse de quatro p&eacute;s, como uma besta. Murmurando palavras inconexas,<br \/>\n    frases de engriman&ccedil;o, untou-o com uma pomada ran&ccedil;osa que tirou<br \/>\n    de uma latinha muito oxidada, borrifou-o com uma &aacute;gua de uma porunga<br \/>\n    que desprendeu da parede. Disse-lhe que era preciso repetir a opera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em mais seis sextas-feiras, para que o encanto ficasse completo, e o corpo<br \/>\n    insens&iacute;vel de uma vez.<\/p>\n<p> Para provar com fatos o seu poder, para demonstrar a efic&aacute;cia dos<br \/>\n    seus sortil&eacute;gios, chamou a preta magra, a primeira que viera. Acudiu<br \/>\n    ela, aproximando-se ligeira, muito contente.<\/p>\n<p> Passou-se uma cena estranha.<\/p>\n<p> Joaquim Cambinda tirou do orat&oacute;rio uma agulha de coser sacos, comprida,<br \/>\n    acerada e, tomando o bra&ccedil;o esquerdo da preta, atravessou-o de parte<br \/>\n    a parte, em v&aacute;rios lugares, por v&aacute;rias vezes, sem que ressumasse<br \/>\n    uma pinga de sangue: a paciente olhava curiosa para o bra&ccedil;o, sem dar<br \/>\n    a m&iacute;nima mostra de dor.<\/p>\n<p> Joaquim Cambinda largou a agulha, afastou-se um pouco, baixou-se, fitou-a<br \/>\n    de modo particular, por sob a p&aacute;lpebra, com a pupila brilhante, fixa<br \/>\n    como a de um r&eacute;ptil.<\/p>\n<p> A rapariga soltou um grande grito, e levou as m&atilde;os ambas ao peito.<\/p>\n<p> A bola! a bola! Sufoco! exclamou.<\/p>\n<p> E caiu desamparada, com os olhos esbugalhados, em alvo, com a boca torta,<br \/>\n    com os membros contorcidos por convuls&otilde;es tet&acirc;nicas.<\/p>\n<p> Estenderam-se-lhe, inteiri&ccedil;aram-se os bra&ccedil;os, os punhos viraram-se<br \/>\n    para fora; os dedos fecharam-se, penetrando quase as unhas nas palmas das<br \/>\n    m&atilde;os; a l&iacute;ngua estava negra e pendente, betada aqui e ali por<br \/>\n    fios de baba escumosa.<\/p>\n<p> E revolvia no solo, aos saltos, como uma cobra cortada aos peda&ccedil;os.<\/p>\n<p> De s&uacute;bito largou um berro entrecortado, gutural, rouco, que nada<br \/>\n    tinha de humano. Deu uma estreme&ccedil;&atilde;o, curvou-se para tr&aacute;s,<br \/>\n    assumiu a forma de um bodoque retesado, quedou-se im&oacute;vel, dura, firme,<br \/>\n    em uma posi&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel: por uma parte tinha o alto<br \/>\n    da cabe&ccedil;a apoiado ao solo, e, por outra, os dois p&eacute;s que assentavam<br \/>\n    em cheio, um pouco separados; ao todo tr&ecirc;s pontos de apoio.<\/p>\n<p> Os punhos continuavam cerrados, e os bra&ccedil;os tesos, ao longo do corpo.<br \/>\n    A rigidez era cadav&eacute;rica mais ainda, marm&oacute;rea, met&aacute;lica.<\/p>\n<p> Joaquim Cambinda sorria-se medonhamente.<\/p>\n<p> Com uma agilidade que desmentia o seu vagar, o seu tolhimento costumeiro,<br \/>\n    e de que ningu&eacute;m o teria julgado capaz, trepou de um salto sobre essa<br \/>\n    esquisita ponte humana.<\/p>\n<p> Com os olhos reluzentes; como o clar&atilde;o do fogo a refletires-lhe na<br \/>\n    calva negra, polida mostrando os dentes amarelos em esgares diab&oacute;licos,<br \/>\n    ele pulava, tripudiava sobre o est&ocirc;mago, sobre o ventre, sobre o p&uacute;bis<br \/>\n    da convulsionada.<\/p>\n<p> Ela n&atilde;o se abalava, n&atilde;o se mexia sob o impulso dos p&eacute;s,<br \/>\n    sob a a&ccedil;&atilde;o do peso do monstro: semelhava uma ponte de arco,<br \/>\n    feita de cantaria.<\/p>\n<p> Joaquim Cambinda desceu, foi a um canto buscar um cabo de picareta, e com<br \/>\n    ele entrou a bater-lhe duro no peito, no ventre.<\/p>\n<p> Os golpes sucediam-se, crebros, com um som ba&ccedil;o, abafado, como se<br \/>\n    fossem dados em um saco de trapos.<\/p>\n<p> De s&uacute;bito a v&iacute;tima desinteiri&ccedil;ou-se, recobrou moleza<br \/>\n    vital, recaiu no solo pesadamente, em atitude humana.<\/p>\n<p> Inundavam-lhe o rosto grossas camarinhas de suor.<\/p>\n<p> Os assistentes estavam aterrados.<\/p>\n<p> O t&eacute;trico hierofante desses horrendos mist&eacute;rios tinha apagado<br \/>\n    rapidamente as velas, tinha fechado o orat&oacute;rio, estava de novo silencioso,<br \/>\n    sentado em um cepo, ati&ccedil;ando o fogo.<\/p>\n<p> A rapariga dormia, dormia profundamente, respirando alto, em estertores.<\/p>\n<p> Fora, o samba continuava; ouvia-se tutucar dos atabaques, e o estrupido<br \/>\n    surdo dos p&eacute;s; sonoro, melanc&oacute;lico, plangente, repercutiu o<br \/>\n    estribilho:<br \/>\n    Eh! Pomba! eh!<\/p>\n<h4><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h4>\n<p>Havia muitos dias que Barbosa partira, e apenas tinha escrito uma carta ao<br \/>\n    coronel, sobre neg&oacute;cios, na qual lhe dava esperan&ccedil;as de salvar<br \/>\n    trinta por cento do material comprometido.<\/p>\n<p> A princ&iacute;pio Lenita mandava o moleque &agrave; vila todos os dias<br \/>\n    buscar o correio. Muito antes da hora de ele voltar, j&aacute; ela estava<br \/>\n    &agrave; porta a espi&aacute;-lo. Quando no alto do morro despontava o seu<br \/>\n    vulto, vestido de algod&atilde;o branco, sacudido pelo chouto de um burrinho<br \/>\n    ru&ccedil;o velho, a p&ocirc;r uma mancha de alvadia e movedi&ccedil;a no<br \/>\n    amarelo ba&ccedil;o do caminho, ela corria &agrave; porteira da cerca, a encontr&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Tomava com m&atilde;o febril o surr&atilde;ozinho de sola em que vinha a<br \/>\n    correspond&ecirc;ncia, abria-o, e, como s&oacute; ca&iacute;ssem jornais,<br \/>\n    perguntava nervosa, tr&ecirc;mula, afagando ainda um resto de infundada esperan&ccedil;a:<br \/>\n    &#8211; E as cartas, onde est&atilde;o as canas?<br \/>\n    &Eacute; indescrit&iacute;vel o seu desapontamento, a sua c&oacute;lera mesmo<br \/>\n    ao ouvir a resposta do moleque, voz lenta, doce, meio cantada, indiferente:<br \/>\n    &#8211; Carta n&atilde;o tem.<\/p>\n<p> Aborreceu-se, n&atilde;o o mandou mais &agrave; vila buscar o correio, e,<br \/>\n    quando ele, de si pr&oacute;prio, lhe ia entregar os jornais, dizia ela com<br \/>\n    mau modo: &#8211; Ponha l&aacute; em cima da mesa.<\/p>\n<p> Um dia, a destacar-se no emaranhamento de letra mi&uacute;da de um ma&ccedil;o<br \/>\n    de Jornal do Com&eacute;rcio, viu ela uma carta volumosa, empanturrada. O<br \/>\n    sangue refluiu-lhe todo ao cora&ccedil;&atilde;o quando reconheceu a letra<br \/>\n    de Barbosa no subscrito liso, do papel diplomata:<br \/>\n    Ilma. Exma. Sra.<\/p>\n<p> D. Helena Matoso.<\/p>\n<p> Vila de *** Prov&iacute;ncia de S. Paulo.<\/p>\n<p>Arrancou-a violentamente da m&atilde;o do moleque, deixando cair por terra<br \/>\n    os jornais, que n&atilde;o curou de erguer: acolheu-se ao seu quarto, apenando-a<br \/>\n    de encontro ao seio.<\/p>\n<p> Fechou a porta por dentro, &agrave; chave; semicerrou as janelas, deixando<br \/>\n    apenas interst&iacute;cio por onde entrasse a luz necess&aacute;ria. N&atilde;o<br \/>\n    queria ser vista, n&atilde;o queria que ningu&eacute;m a pudesse incomodar.<\/p>\n<p> A tremer, com as m&atilde;os tactas, despeda&ccedil;ou o envelope, impacientemente,<br \/>\n    brutalmente quase.<\/p>\n<p> A carta constava de muitas folhas de papel paquete, pelure d&#8217;oignon, cobertas<br \/>\n    de letra cursiva em todas as laudas, tudo numerado muito em ordem.<\/p>\n<p> Lenita leu:<\/p>\n<p>Santos, 22 de janeiro de 1887.<\/p>\n<p> Minha prezada companheira de estudos.<\/p>\n<p>Aqui estou, pela primeira vez em minha vida, no porto de mar de nossa prov&iacute;ncia,<br \/>\n    em Santos, terra c&aacute;lida, &uacute;mida, sufocante, preferida por Martim<br \/>\n    Afonso aos feiticeiros arredores da ba&iacute;a de Guanabara. Os reverendos<br \/>\n    Kidder e Fletcher, no livro que publicaram sobre o Brasil, deram-se a perros<br \/>\n    para descobrirem a raz&atilde;o da prefer&ecirc;ncia e&#8230; ficaram em jejum.<br \/>\n    O mesmo me acontece. Com efeito, por que teria Martim Afonso preferido isto<br \/>\n    ao Rio de Janeiro? Tudo levava a crer que era o contr&aacute;rio que se devia<br \/>\n    dar. Que rasgo de intui&ccedil;&atilde;o genial, que vista interna miraculosa<br \/>\n    teria revelado ao colonizador portugu&ecirc;s a superioridade imensa desta<br \/>\n    zona vicentina em que h&aacute; terra roxa, em que h&aacute; um clima sem<br \/>\n    rival para a lavoura, sobre a orla lim&iacute;trofe, de terra vermelha, &aacute;rida,<br \/>\n    sequiosa ? E o caso &eacute; que sem raz&atilde;o aparente, sem dados aceit&aacute;veis,<br \/>\n    houve a prefer&ecirc;ncia, e qu&ecirc; , essa prefer&ecirc;ncia criou a primeiro<br \/>\n    . prov&iacute;ncia do Brasil, e qui&ccedil;&aacute; o primeiro dos pequenos<br \/>\n    estados livres do mundo.<\/p>\n<p>Eu me vejo em apuros, mas &eacute; para dizer o que vem a ser esta nesga<br \/>\n    do litoral em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; climatologia; &eacute; para achar-lhe<br \/>\n    um termo de compara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Falam no Senegal: o Senegal &eacute; mais quente, valha a verdade, mas n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o abafado. L&aacute; respira-se fogo, mas respira-se. Aqui<br \/>\n    n&atilde;o se respira nem fogo, nem coisa nenhuma. O ar &eacute; pesado, oleoso;<br \/>\n    parece que lhe falta algum elemento, isso quando n&atilde;o h&aacute; o vento<br \/>\n    c&eacute;lebre que os<br \/>\n    noroeste: quando sopra, reina esse semoum africano, esse vendaval-pe&ccedil;onha,<br \/>\n    Santos &eacute; miniatura do inferno: Imagine-se um tuf&atilde;o dentro de<br \/>\n    um forno.<\/p>\n<p> Os dias s&atilde;o horr&iacute;veis: se h&aacute; chuva, o que &eacute;<br \/>\n    raro, o sol queima, esbraseia a terra, a ponto de se poderem fritar ovos sobre<br \/>\n    as pedras das cal&ccedil;adas. Mas ainda h&aacute; coisa mais horr&iacute;vel<br \/>\n    do que dias, s&atilde;o as noites. A atmosfera queda-se, morre. Olha-se para<br \/>\n    as fl&acirc;mulas dos navios, im&oacute;veis; para as fran&ccedil;as das &aacute;rvores,<br \/>\n    im&oacute;veis; para os leques das palmeiras im&oacute;veis. A gente a asfixiar<br \/>\n    no irrespir&aacute;vel e morto parece-se com os mamouths que se encontram<br \/>\n    inteiros nos gelos ela Sib&eacute;ria, ou com esses insetos mumificados, h&aacute;<br \/>\n    milhares de anos, na transpar&ecirc;ncia dourada do &acirc;mbar amarelo. &Eacute;<br \/>\n    uma situa&ccedil;&atilde;o aflita; desespera, tira a coragem, d&aacute; vontade<br \/>\n    de chorar, lembra os horrores da Treva de Byron.<\/p>\n<p> A vida aqui &eacute; uma nega&ccedil;&atilde;o da fisiologia, &eacute; um<br \/>\n    verdadeiro milagre: n&atilde;o h&aacute; hematose perfeita, as digest&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o laborios&iacute;ssimas, sua-se como no segundo grau da t&iacute;sica<br \/>\n    pulmonar, como na convalescen&ccedil;a de febres intermitentes. Eu, se fosse<br \/>\n    condenado a degredo em Santos, j&aacute; n&atilde;o digo por toda a vida,<br \/>\n    mas por um ano ou dois, suicidava-me.<\/p>\n<p> Mas, que peixes! que espl&ecirc;ndidos mariscos! As pescadas amarelas, uma<br \/>\n    del&iacute;cia! as garoupas divinas! Comi em Fran&ccedil;a ostra de Cancale,<br \/>\n    de Merennes, de Ostende; comi a ostra ros&aacute;cea do Mediterr&acirc;neo,<br \/>\n    a ostra lamelosa da C&oacute;rsega: nada disso se pode comparar &agrave; ostra<br \/>\n    de Santos. Tenra, delicada, saboros&iacute;ssima, ela apresenta essa colora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    verde, esbatida, t&atilde;o apreciada pelos finos gourmets: Moquim Tandon,<br \/>\n    Valenciennes, Bory de St. Vicent, Gaillon, Priestiey, Berthelot inventaram<br \/>\n    mil teorias cerebrinas para explica-la, e todavia ela &eacute; apenas um sintoma<br \/>\n    de mol&eacute;stia, &eacute; devida a um estado m&oacute;rbido, a uma anasarca<br \/>\n    de molusco.<\/p>\n<p> T&atilde;o detest&aacute;vel &eacute; a terra, o clima em Santos, quanto<br \/>\n    apreci&aacute;vel &eacute; o peixe, qu&atilde;o superior &eacute; o homem:<br \/>\n    maus fatores a darem produtos excelentes, verdade paradoxal, mas verdade irrecus&aacute;vel,<br \/>\n    absoluta.<\/p>\n<p> O povo santista &eacute; polido, af&aacute;vel, obsequioso, flanco: a riqueza<br \/>\n    que lhe proporciona o com&eacute;rcio de sua cidade f&aacute;-lo generoso,<br \/>\n    at&eacute; pr&oacute;digo. E tem nervo, tem brio: &eacute; o &uacute;nico<br \/>\n    povo que eu julgo capaz de uma revolu&ccedil;&atilde;o nesta pacata prov&iacute;ncia.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; muito em uma quest&atilde;o de abastecimento de &aacute;gua<br \/>\n    ele deu mostras de si&#8230;<\/p>\n<p> Gosto, gosto imenso, em Santos, tanto do peixe como do homem.<\/p>\n<p> Um pouco de estudo agora, para n&atilde;o perder-se o costume, para voltarmos<br \/>\n    a nossa marotte, &agrave; nossa telha.<\/p>\n<p> A costa do Brasil, como muito bem faz observar o conde de Lahure em sua<br \/>\n    obra sobre este pa&iacute;s, oferece desde a ilha do Maranh&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    Santa Catarina uma singularidade not&aacute;vel: &eacute; debruada em toda<br \/>\n    a sua extens&atilde;o por dois fundos altos, por dois arrecifes, que a bordam,<br \/>\n    que lhe constituem um como molhe natural, que a garantem da impetuosidade<br \/>\n    elas ondas, continuamente agitadas no Atl&acirc;ntico sul-americano.<\/p>\n<p> Um desses arrecifes, o que est&aacute; mais chegado &agrave; costa, &eacute;<br \/>\n    uma como cinta de rochas que envolve o litoral. Em lugares rasga-se at&eacute;<br \/>\n    o fundo do mar; em lugares ergue-se, mas n&atilde;o lhe chega &agrave; superf&iacute;cie,<br \/>\n    em lugares est&aacute; de n&iacute;vel como ela; em lugares alteia-se sobre<br \/>\n    ela at&eacute; grande eleva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> S&atilde;o os recorres dessa penedia que formam todas as embocaduras, todas<br \/>\n    as ba&iacute;as, todos os portos, todas as abras da costa brasileira.<\/p>\n<p> O segundo aparcelamento, como que uma barbac&atilde;, do primeiro, est&aacute;<br \/>\n    em dist&acirc;ncia de oito a quarenta quil&ocirc;metros da costa, em profundeza<br \/>\n    irregular, quase sempre fraca<br \/>\n    Os pontos descobertos constituem ilhas, algumas elevad&iacute;ssimas: as Queimadas,<br \/>\n    os Alcatrazes, o Monte de Trigo s&atilde;o sali&ecirc;ncias do contraforte<br \/>\n    externo; a ilha do Engu&aacute;-Gua&ccedil;u ou de Santos, a do Gua&iacute;be<br \/>\n    ou de Santo Amaro, a da Moela, a encantadora ilhota das Palmas, s&atilde;o<br \/>\n    os picos do arrecife interno.<\/p>\n<p> E que ser&atilde;o esses parc&eacute;is, essas duas cintas de rochas, sen&atilde;o<br \/>\n    o aparecimento, as primeiras prostra&ccedil;&otilde;es, ainda marinhas, da<br \/>\n    Serra do Mar, chamada aqui Serra do Cubat&atilde;o, Serra de Paranapiacaba.<br \/>\n    A cordilheira vem dos abismos do oceano, surde, emerge, levanta-se abrupta,<br \/>\n    fecha o horizonte com seus visos alterosos, que l&aacute; se enxergam ao fundo,<br \/>\n    cobertos de nuvens, a entestar com o c&eacute;u, como barba&ccedil;&atilde;s,<br \/>\n    como muralhas de um castelo tit&acirc;nico.<\/p>\n<p> Meditemos um pouco; reconstrua o racioc&iacute;nio o que o homem n&atilde;o<br \/>\n    pode ver no espa&ccedil;o breve de sua vida curta.<\/p>\n<p> O mar outrora banhava a raiz da serra, e os ventos do largo, encanados pelas<br \/>\n    bocainas, suscitavam maretas temerosas na plan&iacute;cie onde hoje corre,<br \/>\n    arfando, a locomotiva.<\/p>\n<p> As aluvi&otilde;es, os enxurros da cordilheira, grossos de terra, rolando<br \/>\n    seixos enormes, em luta com a for&ccedil;a das mar&eacute;s que se encrespavam<br \/>\n    em macar&eacute;us, foram depositando sedimentos, detritos, em torno dos c&uacute;cleos<br \/>\n    penhascosos do Gua&iacute;be e do Monserrate. No volver de milhares de s&eacute;culos<br \/>\n    o fundo alteou-se, emergiu as ondas, constituiu as vastas planuras do sop&eacute;<br \/>\n    da serrania. Vasas moles ao princ&iacute;pio, lamar&otilde;es, brejos marinhos,<br \/>\n    essas plan&iacute;cies foram-se cobrindo de mangues verdes, de siruvas e,<br \/>\n    depois, de outras vegeta&ccedil;&otilde;es mais alentadas: formaram terrenos<br \/>\n    s&oacute;lidos, cortados de muitos esteiros.<\/p>\n<p> A plan&iacute;cie santista, bem como toda a plan&iacute;cie da costa bras&iacute;lica,<br \/>\n    &eacute; uma conquista da cordilheira<br \/>\n    E essa conquista continua ainda, continuar&aacute; indefinidamente, de dia,<br \/>\n    de noite, a todas as horas, a todos os momentos; lenta, impercept&iacute;vel<br \/>\n    mas int&eacute;rmina, incessante; n&atilde;o h&aacute; tr&eacute;guas na luta<br \/>\n    entre a terra e o mar.<\/p>\n<p> As margens dos esteiros, chamados aqui rios, aproximam-se cada vez mais,<br \/>\n    o fundo sobre. Pelo canal da Bertioga passou, &agrave; larga, a frota de Martim<br \/>\n    Afonso, passava at&eacute; h&aacute; bem pouco tempo o vapor costeiro Itamb&eacute;:<br \/>\n    hoje o pequeno rebocador Porchat passa com dificuldade, vira com perigo, por<br \/>\n    vezes encalha.<\/p>\n<p> Em santos, junto da cidade, n&atilde;o existe mar no sentido rigoroso do<br \/>\n    termo: existe um estu&aacute;rio de &aacute;gua salobra, que tende a diminuir,<br \/>\n    que se vai fazendo raso todos os dias. E n&atilde;o h&aacute; obviar-lhe.<\/p>\n<p> O famoso e protelado cais, caso se constru&iacute;sse, seria um pano quente:<br \/>\n    melhoraria o porto por uns pares de anos, afinal ficaria inutilizado. O fundo<br \/>\n    vai ganhando, h&aacute; de ganhar de uma vez; o passado aponta o futuro. Debalde<br \/>\n    o oceano reflu&iacute;do, repulsado, concentra as for&ccedil;as sobre outro<br \/>\n    ponto e ataca S&atilde;o Vicente. Ganhou uma apar&ecirc;ncia de vit&oacute;ria,<br \/>\n    &eacute; verdade: sobre a antiga povoa&ccedil;&atilde;o de Martim Afonso,<br \/>\n    amea&ccedil;a a moderna: mas l&aacute; est&aacute; o inimigo, a montanha,<br \/>\n    para det&ecirc;-lo, para sust&aacute;-lo, para repeli-lo, com avalanches de<br \/>\n    pedras, com m&eacute;d&atilde;o de lodo.<\/p>\n<p> E h&aacute; exemplos disso, recentes na hist&oacute;ria geogr&aacute;fica<br \/>\n    do velho mundo: Luiz lX de Fran&ccedil;a embarcou-se em Aigues-Mortes, para<br \/>\n    as Cruzadas, duas vezes, uma em 1248; outra em 1269; Aigues-Mortes demora<br \/>\n    atualmente a seis quil&ocirc;metros do mar. A cidade de Adria sobre o canal<br \/>\n    Bianco, derivativo do P&oacute;, est&aacute; hoje a trinta quil&ocirc;metros<br \/>\n    do Adri&aacute;tico; pois era banhada por ele, foi ela at&eacute; que lhe<br \/>\n    deu o nome.<\/p>\n<p> Em tais condi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o admira o noroeste, n&atilde;o<br \/>\n    admira o calor de Santos.<\/p>\n<p> O vento largo, o vento de sudeste encana-se por entre as cordilheiras de<br \/>\n    Santo Amaro e do Monserrate, revoluteia pela plan&iacute;cie, vai &agrave;<br \/>\n    cordilheira e de l&aacute;, repelido, reboja, volta, mas n&atilde;o volta<br \/>\n    s&oacute;. Vem misturado, confundido com o vento quente do interior, com o<br \/>\n    vento aquecido nas terras roxas do oeste, aquecido no vasto plat&ecirc;au<br \/>\n    de Piratininga. &Eacute; o famoso, o temido, o execrado noroeste.<\/p>\n<p> Ora ajunte-se o calor qu&iacute;mico, o calor desenvolvido pela fermenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de incalcul&aacute;veis massas de detritos org&acirc;nicos, em uma plan&iacute;cie<br \/>\n    vast&iacute;ssima rodeada, quase fechada por montanhas; tome-se em considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que esse calor s&oacute; &eacute; absorvido em parte m&iacute;nima pelos pared&otilde;es<br \/>\n    da cordilheira, que &eacute; refletido, convergido por eles sobre Santos;<br \/>\n    atenda-se a que a vizinhan&ccedil;a do mar tende sempre a elevar a temperatura<br \/>\n    da atmosfera, e cessar&aacute; a admira&ccedil;&atilde;o de que seja isto<br \/>\n    aqui o quinto c&uacute;mulo t&eacute;rmico do globo, de que em assuntos da<br \/>\n    calidez s&oacute; preste obedi&ecirc;ncia a Abiss&iacute;nia, a Calcut&aacute;,<br \/>\n    a Jamaica e ao Senegal.<\/p>\n<p> &Eacute; curiosa Santos como cidade, tem cor sua, inteiramente sua. As casas<br \/>\n    s&atilde;o quase todas constru&iacute;das de alvenaria, com soleira e portas<br \/>\n    de granito lavrado.<\/p>\n<p> O ar, salitroso pelas emana&ccedil;&otilde;es marinhas, ataca, r&oacute;i,<br \/>\n    carcome a pedra. N&atilde;o h&aacute; ver a&iacute; superf&iacute;cies lisas.<br \/>\n    tudo &eacute; &aacute;spero, caraquento, semidecomposto.<\/p>\n<p> Sobre grande parte dos telhados viceja uma vegeta&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea,<br \/>\n    forte, vivaz, gloriosa.<\/p>\n<p> Vista do mar, do estu&aacute;rio, a cidade &eacute; negra: black town lhe<br \/>\n    chamam os ingleses.<\/p>\n<p> Os enormes vapores transatl&acirc;nticos alem&atilde;es, os esquisitos e<br \/>\n    bojudos carregadores austr&iacute;acos, as feias barcas inglesas e americanas<br \/>\n    de costado branco, os mil transportes de todas as na&ccedil;&otilde;es, entram<br \/>\n    pela ria, encostam-se &agrave; praia, varam quase em terra, afundam as quilhas<br \/>\n    no lado negro, constelado de cascas de ostras, de ossos, de cacos de lou&ccedil;a,<br \/>\n    de garrafas, de latas, de ferros velhos, dessas mil imund&iacute;cies que<br \/>\n    constituem como que os excrementos de uma povoa&ccedil;&atilde;o. Comunicam<br \/>\n    com a terra por pranch&otilde;es lisos, ou canelados a tabicas.<\/p>\n<p> Pelas ruas vai e vem, encontra-se, esbarra-se um enxame de gente de todas<br \/>\n    as classes e de<br \/>\n    todas as cores, conduzindo notas de consigna&ccedil;&atilde;o, contas comerciais,<br \/>\n    cheques banc&aacute;rios, ma&ccedil;os de c&eacute;dulas do tesouro, latinhas<br \/>\n    chatas com amostras de mercadorias. Enormes carro&ccedil;&otilde;es articulados,<br \/>\n    de quatro rodas, tirados por muares possantes, transportam da esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do caminho de<br \/>\n    ferro para os armaz&eacute;ns, e deles para as pontes, para o embarcadouro,<br \/>\n    os sacos de loura aniagem, empanturrados, regurgitando de caf&eacute;. Homens<br \/>\n    de for&ccedil;a bruta, portugueses em sua maioria, baldeiam-nos para bordo,<br \/>\n    sobre a cabe&ccedil;a, de um a um, ou mesmo dois, em passo acelerado, ao som,<br \/>\n    por vezes, de uma cantiga ritmada, mon&oacute;tona, excitativa de movimento<br \/>\n    como um toque de corneta.<\/p>\n<p> Nos armaz&eacute;ns, vastos cimentados, manobrando p&aacute;s polidas, gastas<br \/>\n    pelo uso, batem o caf&eacute;, fazem pilhas, cantando tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> E n&atilde;o deixam de ter cena eleg&acirc;ncia b&aacute;rbara, com um saco<br \/>\n    vazio, sobre a cabe&ccedil;a, &agrave; laia de capelhar, moda &aacute;rabe,<br \/>\n    talvez reminisc&ecirc;ncia inconsciente at&aacute;vica.<\/p>\n<p> Na praia, a poucos metros da &aacute;gua, um como mercado pantopolista:<br \/>\n    sobre mesas s&oacute;lidas, de m&aacute;rmore, estendem-se alinhadas, com<br \/>\n    reflexos de a&ccedil;o, de prata, de ouro, os peixes admir&aacute;veis do<br \/>\n    lagamar e do alto &#8211; as tainhas gordas, de focinho rombo; os paratis que s&atilde;o<br \/>\n    diminutivos delas;<br \/>\n    as corvinas corcovadas, pardas; os galos espalmados, magros; os pargos de<br \/>\n    dentes e de bei&ccedil;os redondos, carnudos; as pescadas do alto, fulvas,<br \/>\n    enormes; os linguados, vesgos, delicados; as solhas, linguados gigantescos,<br \/>\n    macias, chatas; as garoupas, de cor de ferrugem, de olhos esbugalhados, atarracadas,<br \/>\n    escondendo sob formas brutas, um mundo de del&iacute;cias gastron&ocirc;micas;<br \/>\n    as pescadinhas brancas, arg&ecirc;nteas, com um fio de ouro verde a sulcar-lhes<br \/>\n    os flancos os bugres lisos, visguentos, feios; os camar&otilde;es, brancos,<br \/>\n    arroxados, com longas barbas, em rodas, sobre tampas de vime; os caranguejos,<br \/>\n    pelados, morosos, batendo uns nos outros a coura&ccedil;a sonora; os siris<br \/>\n    azulados.<\/p>\n<p> Em torno a casa, sob os beirais do telhado, sob toldos de pano, ao ar aberto,<br \/>\n    pilhas de laranjas, de ananases, de melancias, de goiabas, de cocos, de cachos<br \/>\n    de bananas, mil esp&eacute;cies de frutas em uma abund&acirc;ncia fastidiosa,<br \/>\n    desanimadora, com um cheiro enjoativo de madureza passada; gr&atilde;os, legumes,<br \/>\n    hortali&ccedil;as, ra&iacute;zes, ervas de tempero, tomates, pimentas; quadr&uacute;pedes<br \/>\n    e aves, dom&eacute;sticas e selvagens, leit&otilde;es, quatis, perus, tucanos;<br \/>\n    conchas, caramujos, esteiras, cordas, quinquilharias, uma babel, um bric&agrave;-brac<br \/>\n    infernal.<\/p>\n<p> &Agrave;s tr&ecirc;s horas come&ccedil;a de cessar o movimento: a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    emigra para S&atilde;o Vicente e para a Barra. &Agrave; tarde a cidade est&aacute;<br \/>\n    silenciosa, deserta, morta. H&aacute; todos os dias uma transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crua, brusca, da agita&ccedil;&atilde;o para o marasmo, que d&aacute; tristeza.<\/p>\n<p> Eu subi ao Monserrate.<\/p>\n<p> &Eacute; uma emin&ecirc;ncia de cento e sessenta e cinco metros, quase a<br \/>\n    prumo, coroada por uma igrejinha branca, o que se pode imaginar de mais pitoresco,<br \/>\n    de mais singelamente grandioso, de mais encantador.<\/p>\n<p> Sobe-se por um caminho acidentado.<\/p>\n<p> O que se vai desenrolando aos olhos durante a ascens&atilde;o &eacute; simplesmente<br \/>\n    maravilhoso. A plan&iacute;cie estende-se ao longe, nivelada pela natureza,<br \/>\n    coberta de uma alcatifa de mangue; a cidade, em quarteir&otilde;es regulares,<br \/>\n    paralelogram&aacute;ticos, ocupa o sop&eacute; do morro, betada de ruas de<br \/>\n    cal&ccedil;amento pardo, manchado aqui e ali por maci&ccedil;o verde de &aacute;rvores,<br \/>\n    por uma palmeira esguia; ao fundo, de um e outro lado a serra do continente;<br \/>\n    fronteiras as colinas abruptadas de Santo Amaro. O ancoradouro, o pego do<br \/>\n    Canehu e outros largos do estu&aacute;rio semelham chapas de a&ccedil;o polido,<br \/>\n    com as quais p&otilde;em notas de v&aacute;rios tons os pont&otilde;es desgraciosos,<br \/>\n    os navios que est&atilde;o sobre ferro. As canoas, os escaleres resvalam como<br \/>\n    insetos ligeiros; uma outra vela pica de branco a escuridade met&aacute;lica<br \/>\n    da superf&iacute;cie da &aacute;gua, e o sol ilumina tudo com sua luz dourada<br \/>\n    muito suave.<\/p>\n<p> Os esteiros embebem-se pela verdura fofa dos mangais, um deles, muito sinuoso,<br \/>\n    afunda-se vis&iacute;vel por espa&ccedil;o longo, fraldeia a colina c&ocirc;nica<br \/>\n    chamada Monte Cabr&atilde;o, some-se, reaparece muito longe, refletindo a<br \/>\n    luz do sol, torna a sumir-se. &Eacute; o canal hist&oacute;rico da Bertioga.<\/p>\n<p> &Agrave; direita uma imensidade azul que parece vir do infinito, que dir-se-ia<br \/>\n    um desdobramento do horizonte, avan&ccedil;a arfando, em estos chega, beija<br \/>\n    a praia, morre em uma ourela de espuma alva, m&oacute;vel, murmurosa&#8230; Salve,<br \/>\n    oceano, alma pater, laborat&oacute;rio da vida terr&aacute;quea, povoador<br \/>\n    do planeta!<br \/>\n    Ah! Lenita.&#8217; imagine: o oceano &#8211; a for&ccedil;a, o ataque; a terra &#8211; a firmeza,<br \/>\n    a resist&ecirc;ncia; o ar &#8211; hematose, a vida; o sol &#8211; o calor, a luz, a fecunda&ccedil;&atilde;o,-<br \/>\n    tudo em porfia de prodigalidades, a construir, a ornar um cen&aacute;rio vasto<br \/>\n    de struggle for life, de luta pela exist&ecirc;ncia, no qual se debatem, se<br \/>\n    fogem, se perseguem, se matam, se devoram todos os seres da cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o zo&oacute;fito, o molusco, o entomazo&aacute;rio, o vertebrado!<br \/>\n    Aqui, nestas alturas, sob a imensidade do c&eacute;u, a dominar a imensidade<br \/>\n    das &aacute;guas &eacute; que sente-se grande, &eacute; que sente-se orgulhoso<br \/>\n    o antrop&oacute;ide falante que arranca a esponja do abismo, que paralisa<br \/>\n    a for&ccedil;a incalcul&aacute;vel do cet&aacute;ceo, que fulmina a andorinha<br \/>\n    perdida na amplid&atilde;o, que avassala o oceano, que escraviza o raio, que<br \/>\n    rasga os v&eacute;us do espa&ccedil;o, que desvenda os mist&eacute;rios do<br \/>\n    infinito!<br \/>\n    Oh! eu a queria, aqui, junto de mim; eu queria ler-lhe a fixidez concentrada<br \/>\n    do olhar, no descoramento de face a profundeza da impress&atilde;o que em<br \/>\n    esp&iacute;rito como o seu produz uma cena como esta!<br \/>\n    &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> Paulo minora canamus; agora terre &agrave; terre.<\/p>\n<p> Esta carta vai um pouco de arrepio com as leis da cronologia; eu inverti<br \/>\n    a sucess&atilde;o dos fatos, comecei pelo fim, falei de Santos, e calei a<br \/>\n    viagem.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;o amende honorable, vou reparar a falta.<\/p>\n<p> At&eacute; a capital nada havia para mim de novo: conhe&ccedil;o de h&aacute;<br \/>\n    muito todos os caminhos de ferro, todas as estradas de rodagem que a ligam<br \/>\n    ao interior da prov&iacute;ncia;<br \/>\n    estudei bem e at&eacute; com interesse porque dela sou acionista, a estrada<br \/>\n    de Ferro Leste, impropriamente chamada Estrada do Norte.<\/p>\n<p> Da capital a Santos foi que rolei em pleno desconhecido, foi que se me deparou<br \/>\n    assunto novo de estudo.<\/p>\n<p> Os campos famosos de Piratininga constituem um plat&ecirc;au que coleia<br \/>\n    suave, em outeiros mansos, emoldurado &agrave; direita pelos cabe&ccedil;os<br \/>\n    long&iacute;nquos da Serra do Cubat&atilde;o, &agrave; esquerda pelos visos<br \/>\n    azulados da Cantareira, pelos picos verdoengos do Jaragu&aacute;.<\/p>\n<p> De leste a oeste, um pouco ao norte da cidade, rola o Tiet&ecirc; profundo,<br \/>\n    negro, taciturno, formando um vale extens&iacute;ssimo, muito largo.<\/p>\n<p> A conforma&ccedil;&atilde;o atual desse vale, a turfa pantanosa que o constitui<br \/>\n    em grande parte, o alagamento anual que nele se opera, tudo atesta que ele<br \/>\n    foi em tempo um lago enorme, sinuoso, semeado de ilhas, um mar de &aacute;gua<br \/>\n    doce, que ia talvez at&eacute; Moji das Cruzes.<\/p>\n<p> A serra da Cantareira e a vertente norte da serra do Cubat&atilde;o deram<br \/>\n    batalha aluvial ao mediterr&acirc;neo doce, venceram-no, entupiram-no: o vale<br \/>\n    do Tiet&ecirc; &eacute; a conquista. As correntes de &aacute;guas perenes<br \/>\n    conglobaram-se, aunaram-se, cavaram leitos, formaram os rios que hoje retalham<br \/>\n    a plan&iacute;cie.<\/p>\n<p> Vi de relance o casar&atilde;o que se est&aacute; fazendo para comemorar<br \/>\n    independ&ecirc;ncia, ou melhor, para comemorar&#8230; por que n&atilde;o diz&ecirc;-lo<br \/>\n    ? para comemorar o desarranjo funcional que levou o Senhor D. Pedro de Bragan&ccedil;a<br \/>\n    e apear-se ali, &agrave;s quatro horas da tarde do dia 7 de setembro de 1822.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; ver nestas paragens aflora maravilhosa das nossas zonas<br \/>\n    do oeste, os perov&otilde;es, as<br \/>\n    batalhas enormes, os jequitib&aacute;s de cinco metros de di&acirc;metro:<br \/>\n    a vegeta&ccedil;&atilde;o arborescente &eacute; enfezada, baixa, quase an&atilde;.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; basta, cont&iacute;nua: forma reboleiras, restingas, cap&otilde;es,<br \/>\n    ilhas de verdura, no amarelado pardo do campestre intermin&aacute;vel.<\/p>\n<p> Esta regi&atilde;o &eacute; considerada est&eacute;ril, maninha: nada mais<br \/>\n    injusto. Verdade &eacute; que n&atilde;o vinga aqui o cafeeiro, que a cana<br \/>\n    &eacute; somenos a de Capivari e mesmo a de Santos, que o algodoeiro n&atilde;o<br \/>\n    se pode comparar com o de Sorocaba; mas, por Deus! nem s&oacute; caf&eacute;,<br \/>\n    a&ccedil;&uacute;car e algod&atilde;o &eacute; riqueza.<\/p>\n<p> A vinha medra de modo assombroso: com uma cultura inteligente, com uma poda<br \/>\n    antecipada, poderia ela produzir em princ&iacute;pios de dezembro, evitando<br \/>\n    as chuvas de janeiro que lhe &aacute;guam os bagos, que lhes deturpam os racimos.<br \/>\n    Em S&atilde;o Caetano, em terras outrora baldias, de que ningu&eacute;m fazia<br \/>\n    caso, h&aacute; vinhedos formos&iacute;ssimos plantados por italianos. A vista<br \/>\n    alegra-se com a simetria das parreiras, o cora&ccedil;&atilde;o rejubila com<br \/>\n    a id&eacute;ia de uma prosperidade imensa, geral, em futuro n&atilde;o remoto,<br \/>\n    por todos os &acirc;ngulos de nosso&#8230; de nossa prov&iacute;ncia eu ia escrevendo<br \/>\n    estado.<\/p>\n<p> As hortali&ccedil;as s&atilde;o enormes: um dia destes vi eu uma couve vinda<br \/>\n    de S&atilde;o Paulo que era um monstro de desenvolvimento: tinha folhas de<br \/>\n    cinq&uuml;enta cent&iacute;metros de di&acirc;metro menor; media-lhe o caule<br \/>\n    muito mais de dois metros.<\/p>\n<p> E por que n&atilde;o h&aacute; de se cuidar do trigo? os antigos cuidaram<br \/>\n    com sucesso: em S&atilde;o Paulo comeu-se muito p&atilde;o de trigo da terra.<br \/>\n    Ningu&eacute;m ignora o que a agricultura cient&iacute;fica tem feito das<br \/>\n    landes infecundas da Gasconha. Pois os campos de Piratininga n&atilde;o admitem<br \/>\n    confronto com as landes da Gasconha: s&atilde;o-lhes infinitamente sublimados.<\/p>\n<p> E a ind&uacute;stria pastoril? Que riqueza imensa a se oferecer espont&acirc;nea.<\/p>\n<p> De S&atilde;o Bernardo em diante a plan&iacute;cie muda de aspecto. Os cap&otilde;es,<br \/>\n    as restingas v&atilde;o-se convertendo em um matagal basto, cont&iacute;nuo,<br \/>\n    verde-negro. Aqui e ali, no dorso de uma colina, no cabe&ccedil;o de um outeiro,<br \/>\n    rubro, semelhante a uma escoria&ccedil;&atilde;o, serpeia o leito de um caminho.<br \/>\n    Na ch&atilde; que se vai gradualmente alteando destacam-se as gram&iacute;neas,<br \/>\n    moitas de plantas baixas, de folhas escuras, de flores roxas, muito grandes.<\/p>\n<p> De um e de outro lado do trem perpassam, fogem sombras compactas, fortes:<br \/>\n    s&atilde;o os primeiros topes da serra. Em v&aacute;rios lugares desnuda-se<br \/>\n    o granito lavado pelo enxurro, arrebatado pelas brocas do mineiro, esfacelado<br \/>\n    pela marreta do britador.<\/p>\n<p> Em todas as &aacute;rvores v&ecirc;em-se parasitas, de flores escarlates,<br \/>\n    de folhas lustrosas.<\/p>\n<p> A m&aacute;quina, arfando, em carreira vertiginosa, arrastando o tender,<br \/>\n    arrastando a longa cauda de carros, triunfante, rumorosa, sobe, galga, vence,<br \/>\n    domina, salva o declive &aacute;spero, rola em terreno plano. O ar torna-se<br \/>\n    mais fino, mais &uacute;mido, a luz mais viva, mais mordente.<\/p>\n<p> &Agrave; esquerda, r&aacute;pidas, como que levantadas, emergidas subitamente,<br \/>\n    alteiam-se montanhas, visos, picos, pared&otilde;es, agruras, despeda&ccedil;amentos<br \/>\n    de cordilheira.<\/p>\n<p> &Agrave; direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma emin&ecirc;ncia,<br \/>\n    casebres miser&aacute;veis; sobre o rechano uma igrejinha r&uacute;stica,<br \/>\n    desgraciosa, malfeita, com tr&ecirc;s janelas, com dois simulacros de torres,<br \/>\n    a picar de branco o azul do c&eacute;u e o escuro da mata.<\/p>\n<p> &Eacute; o alto da serra.<\/p>\n<p> Em frente, a alguns dec&acirc;metros, abre-se, rasga-se um v&atilde;o, uma<br \/>\n    clareira enorme, por onde<br \/>\n    se enxerga um horizonte remot&iacute;ssimo, um acinzentamento confuso de serras<br \/>\n    e c&eacute;u, que assombra, que amesquinha a imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Come&ccedil;am a&iacute; os planos inclinados por onde, sob a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das m&aacute;quinas fixas, sobe e desce a vida social da S&atilde;o Paulo<br \/>\n    moderna, os carros de passageiros e os vag&otilde;es de mercadorias.<\/p>\n<p> Ao ganhar-se o declive, ao come&ccedil;ar-se a descida, a cena torna-se<br \/>\n    grandiosa, imponente.<\/p>\n<p> De um lado, peno, ao alcance quase da m&atilde;o, alturas imensur&aacute;veis,<br \/>\n    talhadas a pique, cobertas de liquens, de musgos, tapando, furtando o c&eacute;u<br \/>\n    &agrave; vista; pelos grot&otilde;es desses fraguedos rolam cascatas sussurrantes,<br \/>\n    alvas, espumosas, j&aacute; esfuziando em filetes, j&aacute; encanando-se<br \/>\n    em jorros, j&aacute; espadanando em toalhas.<\/p>\n<p> Do outro lado, ao longe, a amplid&atilde;o, a serra, em toda a sua magnitude<br \/>\n    selv&aacute;tica.<\/p>\n<p> &Agrave;s montanhas que entestam com o c&eacute;u sotop&otilde;em-se montanhas<br \/>\n    que v&atilde;o tamb&eacute;m assentar sobre montanhas. Em pared&otilde;es<br \/>\n    aprumados umas, arredondadas em cabe&ccedil;os outras, em pir&acirc;mides<br \/>\n    regular&iacute;ssimas ainda outras, elas abatem, acabrunham o esp&iacute;rito<br \/>\n    com a enormidade de sua massa Dir-se-ia que foi aqui a escalada dos c&eacute;us<br \/>\n    pelos gigantes, que se feriu nestas paragens a pugna tremenda em que os filhos<br \/>\n    do c&eacute;u sufocaram a golpes terr&iacute;veis, de toda a some de armas,<br \/>\n    a tiros de raios, a arremesso de montanhas inteiras, a revolta tremenda dos<br \/>\n    filhos da terra.<\/p>\n<p> Pelo sop&eacute; dessas moles imanes, corre um vale profund&iacute;ssimo,<br \/>\n    a que v&atilde;o ter roladores medonhos, algares vertiginosos, precip&iacute;cios<br \/>\n    assassinos.<\/p>\n<p> Uma vegeta&ccedil;&atilde;o abeberada de umidade, cerrada, basta, emaranhada,<br \/>\n    inextric&aacute;vel, cobre, afoga o dorso da serrania. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    ver aqui os picos escalvados das cordilheiras do velho mundo: tudo est&aacute;<br \/>\n    coberto por um tapete anegrado, fosco: de longe parece relva, ao perto s&atilde;o<br \/>\n    &aacute;rvores desconformes.<\/p>\n<p> Nesse verdejar sombrio a canaleira de folhas avermelhadas p&otilde;e notas<br \/>\n    alegres, claras: o ip&ecirc; florescida pica-o de amarelo cru. As palmeiras,<br \/>\n    em uma abund&acirc;ncia monstruosa, incr&iacute;vel, obscena acentuam: na<br \/>\n    massa confusa o desenho saliente de suas copas estreladas.<\/p>\n<p> Ao longe, na crista cer&uacute;lea, indistinta, do mais elevado contra-forte,<br \/>\n    um floco longo de neblina branqueja muito vivo, como o v&eacute;u de uma uranide<br \/>\n    colossal, roto, esgar&ccedil;ado na doce viol&ecirc;ncia de um debate amoroso.<\/p>\n<p> Perto, atiro de pedra, &aacute;rvores esbeltas ostentam, no mesmo galho,<br \/>\n    flores brancas e flores roxas, de p&eacute;talas carnudas, cetinosas. A emba&uacute;va<br \/>\n    de folhagem escura e rebentos vermelhos ergue ousada o seu tronco esguio,<br \/>\n    branquicento.<\/p>\n<p> Os raios do sol acendem, na fronde das &aacute;rvores vizinhas, cintila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    multicores, atiram sobre as cascatas punhados de diamantes: ao longe absorvem-se,<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao findar-se o quarto plano inclinado, primeiro a contar do alto, antolha-se<br \/>\n    o viaduto da Grota Funda, a vit&oacute;ria do atrevimento sobre a enormidade,<br \/>\n    do ferro sobre o vazio, da c&eacute;lula cerebral sobre a natureza bruta.<\/p>\n<p> imagine, Lenita, um algar vasto; mais do que um algar vasto, uma barroca<br \/>\n    enorme; mais do que uma barroca enorme, um abismo pavoroso, atravessado de<br \/>\n    parte a parte por uma ponte, que parece a&eacute;rea, apoiada em colunas alt&iacute;ssimas,<br \/>\n    t&atilde;o esguias, t&atilde;o finas, que, vistas em dist&acirc;ncia, semelham<br \/>\n    arames.<\/p>\n<p> Ao contemplar-se do meio da ponte essa vacuidade assombrosa, os ouvidos<br \/>\n    zunem, a cabe&ccedil;a atordoa-se, a vertigem chega, vem a nostalgia do aniquilamento,<br \/>\n    o antegosto do nirvana, o del&iacute;rio das alturas e faz-se mister ao homem<br \/>\n    uma concentra&ccedil;&atilde;o suprema da vontade para fugir ao suic&iacute;dio<br \/>\n    inconsciente.<\/p>\n<p> &Agrave; medida que se desce a natureza muda; o ar toma-se espesso, pesado,<br \/>\n    quente, carrega-se<br \/>\n    de emana&ccedil;&otilde;es salitrados; come&ccedil;a de aparecer a vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do litoral, alastram-se pelas encostas vast&iacute;ssimos bananais.<\/p>\n<p> Uma prostra&ccedil;&atilde;o de rocha faz um cotovelo no plano inclinado<br \/>\n    da raiz da serra: ao dobrar-se esse cotovelo, d&aacute;-se uma mata&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cena em pe&ccedil;a m&aacute;gica. A paisagem abre-se, rasga-se de vez.<br \/>\n    Por entre contrafortes, por entre alturas de serrania, que se erguem de um<br \/>\n    e de outro lado, como bastidores tit&acirc;nicos, alonga-se a perder de vista<br \/>\n    uma plan&iacute;cie extensa, chata, lisa, nivelada, pardacenta. De dois outeiros<br \/>\n    &agrave; direita que, sim&eacute;tricos, redondos, suaves, emparelhados, lembram<br \/>\n    os seios de uma virgem, parte uma linha horizontal, muito escura, muito tersa;<br \/>\n    &eacute; o mar, &eacute; o oceano, cuja vista d&aacute; nome a serra &#8211; Paranapiacaba.<\/p>\n<p> Um como sulco estira-se pela plan&iacute;cie, comando aqui e ali superf&iacute;cies<br \/>\n    espelhantes de &aacute;gua sossegada: por esse sulco vai e vem enorme, aca&ccedil;apada,<br \/>\n    com um desconforme gliptodonte, uma coisa chata, que desliza r&aacute;pida,<br \/>\n    vomitando fumo: o sulco &eacute; a linha f&eacute;rrea; o gleptodonte, a locomotiva.<\/p>\n<p> Embaixo, no come&ccedil;o da plan&iacute;cie, divisa-se um amontoamento<br \/>\n    de vag&otilde;es que semelha um bando de hipop&oacute;tamos adormecidos ao<br \/>\n    sol.<\/p>\n<p> Quando o homem p&aacute;ra e contempla das alturas o escalejar da serrania,<br \/>\n    o vale cortado de algares, a plan&iacute;cie, o litoral, a linha do mar a<br \/>\n    confundir-se com o c&eacute;u; quando atenta nas for&ccedil;as enormes que<br \/>\n    entram em jogo no &acirc;mago e na crosta da terra, na &aacute;gua que a banha,<br \/>\n    no ar que a comprime, na luz que a ilumina, na vida que a r&oacute;i; quando<br \/>\n    por generaliza&ccedil;&atilde;o alarga o quadro e considera o planeta inteiro;<br \/>\n    quando dele passa para os planetas irm&atilde;os, para o sol, centro do sistema;<br \/>\n    quando conclui, por indu&ccedil;&atilde;o irrecus&aacute;vel, que esse sol,<br \/>\n    esse centro &eacute; por sua vez lua, sat&eacute;lite humilde de um astro<br \/>\n    monstruosamente imane, afogado na vastid&atilde;o, desconhecido, incognosc&iacute;vel<br \/>\n    para todo o sempre; quando pensa que ainda esse astro gravita em torno de<br \/>\n    um outro que gravita em torno de um outro; quando reflete em que tudo isso<br \/>\n    &eacute; uma cena min&uacute;scula do drama da vida universal, e que o teatro<br \/>\n    espantosamente incompreens&iacute;vel dessa evolu&ccedil;&atilde;o int&eacute;rmina<br \/>\n    &eacute; uma nesguinha insignificante da imensidade do espa&ccedil;o, o homem<br \/>\n    sente-se mesquinho, sente-se p&oacute;, sente-se &aacute;tomo, e vencido,<br \/>\n    esmagado pelo infinito, s&oacute; se compraz na id&eacute;ia do n&atilde;o<br \/>\n    ser, na id&eacute;ia do aniquilamento.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p> A estrada de ferro inglesa de Santos a Jundia&iacute; &eacute; um monumento<br \/>\n    grandioso da ind&uacute;stria moderna.<\/p>\n<p> De Santos a S&atilde;o Paulo percorre ela uma dist&acirc;ncia de 76 quil&ocirc;metros.<\/p>\n<p> Todas as obras de arte dos terrenos planos s&atilde;o admiravelmente acabadas,<br \/>\n    s&atilde;o perfeitas.<\/p>\n<p> At&eacute; &agrave; raiz da serra a dist&acirc;ncia &eacute; de 21 quil&ocirc;metros:<br \/>\n    h&aacute; tr&ecirc;s pontes, uma das quais notabil&iacute;ssima, sobre um<br \/>\n    bra&ccedil;o de mar chamado Casqueiro. Mede ela 152 metros, tem dez v&atilde;os<br \/>\n    iguais, assenta sobre peg&otilde;es robust&iacute;ssimos.<\/p>\n<p> Da raiz da serra at&eacute; o rechano do alto, contam-se oito quil&ocirc;metros.<br \/>\n    A altura &eacute; de 793 metros, o que d&aacute; um declive quase exato de<br \/>\n    dez por cento.<\/p>\n<p> Como se calcam esses desfiladeiros, essas agruras vertiginosas ?<br \/>\n    De modo simples.<\/p>\n<p> Divide-se a subida da serra em quatro planos uniformes de dois quil&ocirc;metros<br \/>\n    cada um. Para uma tra&ccedil;&atilde;o, empregou-se um sistema adotado em<br \/>\n    algumas minas de carv&atilde;o da Inglaterra. M&aacute;quinas fixas de grande<br \/>\n    for&ccedil;a recolhem e soltam um cabo fort&iacute;ssimo, feito de fios de<br \/>\n    a&ccedil;o retorcidos. Presos &agrave;s duas pontas desse cabo giram dois<br \/>\n    trens: um sobe, outro desce. A agulha de um od&ocirc;metro indica com exatid&atilde;o<br \/>\n    matem&aacute;tica o lugar do plano em que se acha o trem, indica o momento<br \/>\n    de encontro de ambos eles. Um brake de for&ccedil;a extraordin&aacute;ria<br \/>\n    permite suspender-se a marcha quase instantaneamente, e um aparelho el&eacute;trico<br \/>\n    p&otilde;e os trens em comunica&ccedil;&atilde;o imediata com as respectivas<br \/>\n    m&aacute;quinas fixas. O cabo, resfriado ao sair por um filete de &aacute;gua,<br \/>\n    corre sobre roldanas que se revolvem veniginosas, com um ru&iacute;do mon&oacute;tono,<br \/>\n    met&aacute;lico, por vezes fome, por vezes muito suave.<\/p>\n<p> O servi&ccedil;o &eacute; regular e t&atilde;o bem feito, que em grandes<br \/>\n    extens&otilde;es h&aacute; um &uacute;nico jogo de trilhos a servir tanto<br \/>\n    para a subida como para a descida. Funciona a linha h&aacute; mais de vinte<br \/>\n    e um anos e ainda n&atilde;o se deu um s&oacute; desastre. Pasmoso, n&atilde;o<br \/>\n    ?<br \/>\n    Em cada uma das quatro esta&ccedil;&otilde;es de m&aacute;quinas fixas h&aacute;<br \/>\n    cinco geradores de vapor, tr&ecirc;s dos quais sempre em atividade. As grandes<br \/>\n    rodas estriadas que engolem e soltam o cabo, as bielas de ferro polido que<br \/>\n    as movem, os mancais de bronze, os exc&ecirc;ntricos em que o ferro rola sobre<br \/>\n    bronze com atrito doce, tudo est&aacute; limpo, luzente, azeitado, funcionando<br \/>\n    como um organismo s&atilde;o. Chamin&eacute;s enormes, que se enxergam de<br \/>\n    longe, feitas de cantaria lavrada em r&uacute;stico, atiram aos ares balc&otilde;es<br \/>\n    de fumo, enovelados, densos.<\/p>\n<p> Os desbarrancamentos s&atilde;o remendados a alvenaria; todas as &aacute;guas<br \/>\n    perenes, todas as torrentes pluviais est&atilde;o dirigidas, encanadas, por<br \/>\n    calhas de pedra, de tijolos, de juntas tomadas, por bicames de madeira. H&aacute;<br \/>\n    encanamentos subterr&acirc;neos feitos em granitos, gradeados de ferro, que<br \/>\n    fazem lembrar os calabou&ccedil;os dos solares feudais.<\/p>\n<p> Na serra de Santos a obra do homem est&aacute; de harmonia com a terra em<br \/>\n    que assenta; a pujan&ccedil;a previdente da arte mostra-se digna da magnitude<br \/>\n    amea&ccedil;adora da natureza.<\/p>\n<p> O viaduto da Grota Funda &eacute; simplesmente uma maravilha. Mede em todo<br \/>\n    o comprimento 715 p&eacute;s ingleses, mais ou menos 215 metros. Tem 10 v&atilde;os<br \/>\n    de 66 p&eacute;s e um de 45 entre duas cabeceiras de cantaria; assenta sobre<br \/>\n    colunatas de ferro engradadas (treiilages) e sobre um peg&atilde;o do lado<br \/>\n    de cima. A mais elevada colunata, contando a base, tem 185 p&eacute;s, 56<br \/>\n    a 57 metros. A inclina&ccedil;&atilde;o &eacute; a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral, dez por cento ou pouqu&iacute;ssimo menos. Come&ccedil;ou-se esta obra<br \/>\n    assombrosa em 2 de julho de 1863; em mar&ccedil;o de 1865 assentaram-se-lhe<br \/>\n    as primeiras pe&ccedil;as de ferro; em 2 de novembro do mesmo ano atravessou-a<br \/>\n    o primeiro trem, 2 de novembro, dia de defuntos, os ingleses n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    supersticiosos.<\/p>\n<p> Uma empresa hors ligne, esta companhia de estrada de ferro. O resultado<br \/>\n    foi al&eacute;m da mais exagerada expectativa otimista. O governo geral garantiu<br \/>\n    cinco por cento sobre o capital empregado na constru&ccedil;&atilde;o, e o<br \/>\n    provincial dois. De h&aacute; muito, por&eacute;m, que a companhia prescindiu<br \/>\n    de garantia, e que distribui dividendos fabulosos.<\/p>\n<p> Ganham, ganham muito dinheiro, ganham riquezas de Creso os ingleses, e merecem-nas.<br \/>\n    O progresso assombroso de S&atilde;o Paulo, a iniciativa industrial do paulista<br \/>\n    moderno; a rede de vias<br \/>\n    f&eacute;rreas que leva a vida, o com&eacute;rcio, a civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Botucatu, a S&atilde;o Manuel, ao Ja&uacute;, ao Jaguera, tudo se deve &agrave;<br \/>\n    Saint Paul Rail Road, &agrave; Estrada de ferro de Santos a Jundia&iacute;<br \/>\n    <br \/>\n    Rule, Bribnnial Hurrah for the English! j&aacute; que o nosso governo n&atilde;o<br \/>\n    presta para nada.<\/p>\n<p> Vai longa esta cana: preciso &eacute; p&ocirc;r-lhe termo.<\/p>\n<p> Estirei-me, porque escrevendo-lhe afigura-se-me t&ecirc;-la ao meu lado,<br \/>\n    e eu desejei prolongar o mais poss&iacute;vel a figura&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Estou velho, e todo o velho &eacute; mais ou menos autorit&aacute;rio e<br \/>\n    pedante. Ora a Lenita p&ocirc;s-se no<br \/>\n    vezo de condescender com o pendor da idade, escutou-me, deu-me aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    puxou-me pela l&iacute;ngua&#8230; Ag&uuml;ente-se, pois, com a cacetea&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com a seca para falar classicamente; a culpa &eacute; sua.<\/p>\n<p> N&atilde;o sinto saudade da nossa conviv&ecirc;ncia, de nossas palestras<br \/>\n    a&iacute; no s&iacute;tio.- a express&atilde;o saudade tem poesia demais e<br \/>\n    realismo de menos. O que h&aacute; &eacute; necessidade, &eacute; fome, &eacute;<br \/>\n    sede da companhia de quem me compreenda, de quem me fa&ccedil;a pensar&#8230;<br \/>\n    da sua companhia.<\/p>\n<p> Imagine que eu levo todo o santo dia e parte da noite a falar s&oacute;<br \/>\n    em caf&eacute;, mas em caf&eacute; sob o ponto de vista comercial, em embarques,<br \/>\n    em saques, em descontos&#8230; E ai de mim, se o n&atilde;o fizer: aqui quem se<br \/>\n    afasta deste tema, quem n&atilde;o discute com&eacute;rcio de caf&eacute;,<br \/>\n    passa por idiota.<\/p>\n<p> Uma explica&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria, antes de terminar. Fui minucioso,<br \/>\n    talvez demais, em descrever a serra, os planos inclinados, as obras de arte<br \/>\n    da companhia inglesa. Como diabo, fiz eu tanta observa&ccedil;&atilde;o, onde<br \/>\n    fui apanhar tantos dados? Em uma descida r&aacute;pida, vertiginosa, em uma<br \/>\n    descida pelo trem ? N&atilde;o era poss&iacute;vel. Uma inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma comunica&ccedil;&atilde;o esp&iacute;rita? Nada disso. Confesso com mod&eacute;stia<br \/>\n    que s&atilde;o humanos os meios de informa&ccedil;&atilde;o de que disponho:<br \/>\n    a ci&ecirc;ncia infusa foi privil&eacute;gio dos ap&oacute;stolos, de Santo<br \/>\n    Tom&aacute;s, de Ventura de Raulica, e ainda hoje o &eacute; do abade Moigno<br \/>\n    e do imperador do Brasil. A mim me n&atilde;o armar&atilde;o processo esses<br \/>\n    santos personagens por empecer-1hes no direito. Nem mesmo me posso gabar de<br \/>\n    uma simples sugest&atilde;o mental, de um reles ensinamento hipn&oacute;tico.<br \/>\n    Pairo em regi&otilde;es menos elevadas, aprendo o que sei de modo mais grosseiro.<br \/>\n    Um dia destes, nada tendo aqui a fazer, fui ao alto da serra e de l&aacute;<br \/>\n    vim a p&eacute;, vendo, observando, estudando. A&iacute; est&aacute; como<br \/>\n    foi. Fico anelando pelo dia que julgo pr&oacute;ximo de ir dar-lhe um hands-shake<br \/>\n    forte, en&eacute;rgico, &agrave; inglesa.<\/p>\n<p>Manuel Barbosa&#8230;<\/p>\n<p>Lenita leu a carta com impaci&ecirc;ncia: os detalhes, os dados exatos, as<br \/>\n    aprecia&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas de Barbosa sobre Santos, sobre<br \/>\n    a serra irritavam-na: passou por aquilo tudo rapidamente, nervosamente, sem<br \/>\n    aprofundar, como quem percorre um cat&aacute;logo. Procurava o que houvesse<br \/>\n    de &iacute;ntimo sobre a sua pessoa, qualquer coisa que revelasse, que atrai&ccedil;oasse<br \/>\n    o estado afetivo do esp&iacute;rito de Barbosa.<\/p>\n<p> Demorou-se muito na leitura dos trechos finais: teve um prazer viv&iacute;ssimo,<br \/>\n    indiz&iacute;vel ao ler que Barbosa a supunha, a figurava ao lado de si, e<br \/>\n    que se prazia nessa figura&ccedil;&atilde;o. Repetiu as frases silabificando,<br \/>\n    quase deletreando, com o olho esquerdo fechado, com a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    concentrada. Gostou imenso da maneira brusca por que terminava a carta.<\/p>\n<p> O semidel&iacute;quio er&oacute;tico que tivera no quarto de Barbosa fora<br \/>\n    a confirma&ccedil;&atilde;o de uma suspeita: reconhecera que amava a esse<br \/>\n    homem, loucamente, perdidamente.<\/p>\n<p> Ante a brutalidade do fato, ao pungir gozoso e acerbo da revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da carne, revoltara-se com orgulho, esquivara-se em &uacute;ltimo assomo de<br \/>\n    resist&ecirc;ncia, evitara a Barbosa na v&eacute;spera da partida.<\/p>\n<p> A ins&ocirc;nia da noite, o v&aacute;cuo enorme que a aus&ecirc;ncia de<br \/>\n    Barbosa lhe produzira em volta, a necessidade fatal em que se reconhecera<br \/>\n    de t&ecirc;-lo junto de si para viver, desejo dele que a mordia, o ganho de<br \/>\n    causa que levava esse afeto novo sobre o amor profundo que votara ao pai,<br \/>\n    a Lopes Matoso; que tudo isso a convencera de que n&atilde;o podia recalcitrar,<br \/>\n    de que a resist&ecirc;ncia lhe era imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Com a resolu&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida dos esp&iacute;ritos decididos,<br \/>\n    aceitara o jugo, submetera-se &agrave; paix&atilde;o, confessara-se vencida.<\/p>\n<p> Era o mais dif&iacute;cil.<\/p>\n<p> Em curvar-se, de si pr&oacute;pria &eacute; que ela tinha vergonha, uma<br \/>\n    vez c&ocirc;nscia de estar curvada, pouco lhe fazia que o mundo inteiro a<br \/>\n    visse nessa posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Amando, mas sem estar de todo vencida, lutaria, defender-se-ia at&eacute;<br \/>\n    &agrave; morte contra o que desejava, isso em uma alcova, em um recinto vedado<br \/>\n    a todos os olhos; entregue, derrotada perante o seu foro &iacute;ntimo, avaliava<br \/>\n    em nada o esc&acirc;ndalo, desprezava a opini&atilde;o, era capaz de submeter-se<br \/>\n    ao vencedor em p&uacute;blico, no meio de uma pra&ccedil;a, como as prostitutas<br \/>\n    de Hyde-Park.<\/p>\n<p> Amava a Barbosa confessara-o a si pr&oacute;pria: era capaz de lho dizer<br \/>\n    a ele, era capaz de o proclamar &agrave; face do mundo.<\/p>\n<p> E indignava-se, achava-o t&iacute;mido, queria que ele a adivinhasse, que<br \/>\n    lhe retribu&iacute;sse o amor, que sentisse por ela o que ela sentia por ele,<br \/>\n    que se confessasse por sua vez subjugado, cativo.<\/p>\n<p> Amar ela, Lenita, a um homem, e n&atilde;o ver esse homem a seus p&eacute;s<br \/>\n    rendido, aniquilado, absorvido?! Imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Releu a carta, mas releu com aten&ccedil;&atilde;o, meditadamente estudando.<br \/>\n    As aprecia&ccedil;&otilde;es originais de Barbosa, o seu modo profundamente<br \/>\n    individual de ver as coisas, o entusiasmo comunicativo a que se entregava<br \/>\n    por vezes, tudo isso reproduzia-o, aviventava-o no escrito, ao ponto de que<br \/>\n    a Lenita parecia-lhe t&ecirc;-lo junto a si, ouvir-lhe a voz, sentir-lhe o<br \/>\n    h&aacute;lito.<\/p>\n<p> As teorias sobre a forma&ccedil;&atilde;o da plan&iacute;cie santista e<br \/>\n    sobre o enchimento do vale do Tiet&ecirc; fizeram-na pensar, recordar-se.<br \/>\n    Tinha estado uma vez em S&atilde;o Vicente, a banhos: conhecia Santos, conhecia<br \/>\n    a Serra. Os fatos que Barbosa consignava eram exatos, as explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que deles oferecia eram plaus&iacute;veis.<\/p>\n<p> Lenita admirava-lhe cada vez mais a flexibilidade do talento, que a tudo<br \/>\n    se abalan&ccedil;ava, que para tudo tinha criterium, que de tudo decidia com<br \/>\n    justeza.<\/p>\n<p> A admira&ccedil;&atilde;o pelas faculdades intelectuais elevad&iacute;ssimas<br \/>\n    de Barbosa envolvia-se mansamente, naturalmente, para uma admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelas suas formas, para um desejo de seu f&iacute;sico, que a dementava a<br \/>\n    ela, que a punha fora de si.<\/p>\n<p> Compreendia ent&atilde;o perfeitamente a hist&oacute;ria b&iacute;blica<br \/>\n    da mulher de Putifar. A vista segura que o escravo hebreu Jos&eacute; revelara<br \/>\n    ter das coisas, a sua alta capacidade administrativa, a sua intransig&ecirc;ncia,<br \/>\n    a sua energia, a sua mod&eacute;stia, prendera a aten&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    formosa eg&iacute;pcia; mirando-lhe as formas franzinas, esbeltas de efebo,<br \/>\n    deixara-se cativar e, ardente, banca, provocara-o, agarrara-o.<\/p>\n<p> E Lenita entusiasmava-se por essa mulher t&atilde;o estigmatizada em todos<br \/>\n    os tempos, e todavia t&atilde;o adoravelmente carnal, t&atilde;o humana, t&atilde;o<br \/>\n    verdadeira: compreendia-a, justificava-a, revia-se nela.<\/p>\n<h4><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII<\/a><\/h4>\n<p>O feitor preto viera dizer a Lenita que uma fruiteira na mata em frente estava<br \/>\n    ajuntando muito p&aacute;ssaro.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a mandou que abrisse uma picada desde o carreadouro at&eacute;<br \/>\n    &agrave; fruiteira, fez limpar a sua espingardinha Galand, carregou duzentos<br \/>\n    cartuchos e, no dia seguinte, de madrugada, seguida por sua mucama, foi p&ocirc;r-se<br \/>\n    &agrave; espera.<\/p>\n<p> N&atilde;o tinha ca&iacute;do muito orvalho, e grande era a cerra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O caminho coberto por uma camada veludosa de areia fina, amarelenta, embebia-se<br \/>\n    pela neblina espessa que afogava a terra. A selva formava um maci&ccedil;o<br \/>\n    negro, compacto. Uma ou outra &aacute;rvore isolada no pasto transparecia<br \/>\n    por entre o nevoeiro, como um espectro gigantesco.<\/p>\n<p> Sentia-se um frio seco, picante, sadio. De repente Lenita percebeu o que<br \/>\n    quer que era , retou&ccedil;ando na areia levemente &uacute;mida do carninho,<br \/>\n    a vinte metros de dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Sustou o passo, levou a arma &agrave; cara e, r&aacute;pida, quase sem pontada,<br \/>\n    desfechou.<\/p>\n<p> &#8211; Que foi que atirou, D, Lenita? perguntou a mulata.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; ver, que l&aacute; est&aacute; ainda bulindo, volveu a mo&ccedil;a,<br \/>\n    e fazendo gangorrear o cano da arma, meteu-lhe novo cartucho.<\/p>\n<p> Com efeito, um animal qualquer estrebuchava convulso, raspava a areia, atirava-a<br \/>\n    longe.<\/p>\n<p> A rapariga aproximou-se cheia de receio, retraindo o corpo, estendendo o<br \/>\n    pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; E candimba! gritou jubilosa, e, baixando-se, apanhou uma soberba lebre<br \/>\n    que, ferida na cabe&ccedil;a, ainda n&atilde;o acabara de morrer.<\/p>\n<p> Lenita tomou da rapariga a macia alim&aacute;ria, examinou-a com vol&uacute;pia<br \/>\n    orgulhosa de ca&ccedil;adora apaixonada e triunfante, afagou-lhe o p&ecirc;lo<br \/>\n    sedoso, passou-o de encontro ao rosto; depois meteu-a em uma bolsa de malhas,<br \/>\n    entregou-a com cuidado &agrave; mulata.<\/p>\n<p> Ia clareando o dia; rareava o v&eacute;u de neblina. O negror indeciso da<br \/>\n    mata transmutava-se em verdura. Distinguiam-se as moitas festivas das taquaras,<br \/>\n    os penachos luzidios dos palmitos, as copas opulentas das paineiras, revestidas<br \/>\n    literalmente de um tapete cor-de-rosa, pela inflora&ccedil;&atilde;o precoce.<\/p>\n<p> Perfumes agudos de orqu&iacute;deas fragrantes, refrescados pelas brisas<br \/>\n    matutinas, deliciavam o olfato, sem irritar e sem atormentar os nervos.<\/p>\n<p> Ouvia-se o gorjear dos p&aacute;ssaros, o zumbir dos insetos que, em hino<br \/>\n    festivo, saudavam o despontar do dia.<\/p>\n<p> Lenita e a mucama penetraram na mata: a&iacute; tudo era escuro, tudo era<br \/>\n    treva. O diminuto orvalho, ca&iacute;do durante a noite, se condensara nas<br \/>\n    folhas, e pingava, batendo docemente, surdamente, na camada de folhas secas<br \/>\n    que juncava o solo.<\/p>\n<p> Os pulm&otilde;es hauriam &agrave; larga o oxig&ecirc;nio puro, expirado<br \/>\n    da vegeta&ccedil;&atilde;o ambiente.<\/p>\n<p> As duas companheiras caminharam pelo largo carreadouro, at&eacute; que chegaram<br \/>\n    a uma peroveira alta, de junto a qual partia a picada, entranhando-se pelo<br \/>\n    mato, &agrave; esquerda. Por a&iacute; enveredaram, seguiram, at&eacute; que<br \/>\n    pararam junto de uma caneleira esguia, em frutifica&ccedil;&atilde;o tempor&atilde;.<\/p>\n<p> Dominava o sil&ecirc;ncio, quebrado apenas pelo gotejar manso e raro da<br \/>\n    orvalhada t&ecirc;nue.<\/p>\n<p> Lenita mandou que a mucama se afastasse um pouco, que se sentasse, que se<br \/>\n    escondesse junto de outra &aacute;rvore qualquer. Olhou para cima.<\/p>\n<p> A folhagem da caneleira recortava-se indecisa no c&eacute;u obscuro: de<br \/>\n    s&uacute;bito acentuou-se, amarelou em partes, como se a tivesse borrifado<br \/>\n    um jato de ouro l&iacute;quido; beijara-a o primeiro raio de sol do dia nascente.<\/p>\n<p> Por cima j&aacute; luz, vida; por baixo ainda escuridade, mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Uma sombra escura cortou veloz o espa&ccedil;o: era um jacugua&ccedil;u.<br \/>\n    Pousou, balan&ccedil;ando-se, em um dos galhos baixos. Ao assentar colheu<br \/>\n    vagaroso as asas que trazia pandas, librou-se ainda nelas, fechou o leque<br \/>\n    formos&iacute;ssimo da longa cauda, estendeu o pesco&ccedil;o, cauteloso &agrave;<br \/>\n    direita e &agrave; esquerda.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s momentos de observa&ccedil;&atilde;o, trepou pelo galho, marinhou<br \/>\n    aos pulos por entre a folhagem, sumiu-se, surgiu no pino da copa, mostrando,<br \/>\n    banhada de sol, a sua barbela rubra.<\/p>\n<p> Lenita, p&aacute;lida de emo&ccedil;&atilde;o, com o seio a arfar, com os<br \/>\n    nervos frouxos, sentindo dobrarem-se-lhes as pernas, olhava, contemplava ext&aacute;tica<br \/>\n    a ave elegant&iacute;ssima.<\/p>\n<p> Fazendo um esfor&ccedil;o de vontade, aperrou a arma, ergueu-a lentamente,<br \/>\n    molemente, p&ocirc;-la<br \/>\n    em mira.<\/p>\n<p> N&atilde;o desfechou, n&atilde;o teve &acirc;nimo: retirou-a da cara, e<br \/>\n    p&ocirc;s-se de novo a contemplar o alector.<\/p>\n<p> De repente seus olhos brilharam em um como rel&acirc;mpago negro, contra&iacute;ram-se-lhe<br \/>\n    as fei&ccedil;&otilde;es, seus dentes brancos morderam o l&aacute;bio rubro,<br \/>\n    e, fria, resoluta, ela encarou pela segunda vez a espingarda, fez pontaria,<br \/>\n    puxou o gatilho, o tiro partiu.<\/p>\n<p> O jacu, fulminado, revirou, despencou, veio bater no ch&atilde;o com um<br \/>\n    som ba&ccedil;o, abafado.<\/p>\n<p> Saltando como um felino, Lenita empolgou-o tr&ecirc;mula de felicidade e<br \/>\n    prazer; ergueu-o &agrave; altura do rosto, soprou-lhe as penas salmilhadas<br \/>\n    do peito, queria ver-lhe os ferimentos. Com vol&uacute;pia indiz&iacute;vel<br \/>\n    sentia umedecerem-se-lhe os dedos no sangue t&eacute;pido que escorria.<\/p>\n<p> A arma ainda estava descarregada, quando ouviu-se um v&ocirc;o forte, sacudido,<br \/>\n    estalado.<\/p>\n<p> Lenita levantou o olhar.<\/p>\n<p> No mesmo galho, de onde derrubara o jacu, uma pomba leg&iacute;tima fazia<br \/>\n    brilhar ao sol em reflexos furta-cores o seu colo gracioso.<\/p>\n<p> Lenita abriu ligeiro a espingarda, carregou-a, levou-a &agrave; cara, fez<br \/>\n    fogo, e a nova v&iacute;tima caiu ferida, pererecando em desespero, nas vascas<br \/>\n    da agonia.<\/p>\n<p> A mucama, com os olhos brilhantes, com as fei&ccedil;&otilde;es expandidas<br \/>\n    pelo entusiasmo, acudiu a meter na bolsa os p&aacute;ssaros mortos.<\/p>\n<p> &#8211; Uma pomba e um jacu, D. Lenita! exclamou cheia de j&uacute;bilo.<\/p>\n<p> &#8211; Sil&ecirc;ncio!<br \/>\n    No galho fatal um tucano acabava de pousar: virava e revirava, para um e para<br \/>\n    outro lado, o seu grande bico esponjoso. Era uma maravilha o efeito de suas<br \/>\n    penas dorsais a contrastarem negras com o alaranjado soberbo da gorja, com<br \/>\n    o vermelho-vivo do peito: ao v&ecirc;-lo ostentando ao sol ardente do tr&oacute;pico<br \/>\n    os esplendores dos seus matizes, dir-se-ia um ente fant&aacute;stico, uma<br \/>\n    flor animada, viva, que viera voando de uma regi&atilde;o desconhecida, que<br \/>\n    se fixara naquela &aacute;rvore.<\/p>\n<p> Um tiro certeiro de Lenit f&ecirc;-lo tombar, e depois a outro, mais outro<br \/>\n    e a ara&ccedil;aris, e a pav&ocirc;s, e a aves de bico redondo &#8211; uma carnificina,<br \/>\n    uma devasta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Eram quase dez horas: o sol ia em alto, derramando torrentes de luz, enlanguescendo,<br \/>\n    a beijos de fogo, as folhas largas do caet&ecirc;, as folhas cordiformes da<br \/>\n    periparoba. No c&eacute;u muito azul esgar&ccedil;avam-se nuvens muito brancas,<br \/>\n    e nesse festival de cores alegres punha uma nota negra um corvo solit&aacute;rio,<br \/>\n    perdido na amplid&atilde;o.<\/p>\n<p> Fazia calor.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o horas, j&aacute; passa at&eacute; de horas de almo&ccedil;ar,<br \/>\n    disse Lenita. Vamo-nos embora, amanh&atilde; voltaremos.<\/p>\n<p> &#8211; Que ca&ccedil;ad&atilde;o, D. Lenita. Dezenove p&aacute;ssaros grandes<br \/>\n    e uma lebre. N&atilde;o perdeu um tiro.<\/p>\n<p> &#8211; Eu nunca perco tiro, respondeu a mo&ccedil;a com fatuidade.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o &eacute; como eu, disse urna voz por tr&aacute;s de ambas,<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o perco tiro.<\/p>\n<p> Era Barbosa.<\/p>\n<p> A espingarda caiu das m&atilde;os de Lenita: com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    relaxado, incapaz de injetar sangue nas art&eacute;rias, descorada, quase<br \/>\n    sem ver, ela teve de encostar-se ao tronco liso da caneleira, para n&atilde;o<br \/>\n    tombar desamparada.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto, minha senhora; que &eacute; isto, Lenita? acudiu Barbosa,<br \/>\n    segurando-a sol&iacute;cito.<\/p>\n<p> &#8211; Tive um tal susto&#8230; murmurou a mo&ccedil;a mal recobrada.<\/p>\n<p> &#8211; Perdoe-me, fui imprudente. O desejo que tinha de v&ecirc;-la, o prazer<br \/>\n    de causar-lhe uma surpresa.., perdoe-me, sim?<br \/>\n    E tomou-lhe as m&atilde;os frias que apertou nas suas.<\/p>\n<p> &#8211; Perdoar-lhe ? Se eu lhe agrade&ccedil;o tanto o ter-me antecipado um pouco<br \/>\n    o gosto de v&ecirc;-lo. Como p&ocirc;de chegar a esta hora da tarde? <br \/>\n    &#8211; &Eacute; que vim a cavalo, para ganhar algumas horas. Caminhei a noite toda.<br \/>\n    Quando cheguei a Jundia&iacute;, ontem, j&aacute; n&atilde;o alcancei o trem.<br \/>\n    Tinha de estar l&aacute;, &agrave; espera, at&eacute; agora: n&atilde;o tive<br \/>\n    paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o escreveu, n&atilde;o deu parte de que vinha&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu n&atilde;o esperava terminar os neg&oacute;cios anteontem, como terminei.<br \/>\n    Os homens estavam teimosos, tinham-se encastelado na sua proposta. De repente,<br \/>\n    quando eu menos esperava, mudaram de acordo, cederam, aceitaram as minhas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es, e ficou tudo acabado.<\/p>\n<p> &#8211; Satisfatoriamente?<br \/>\n    &#8211; O mais satisfatoriamente que era poss&iacute;vel esperar.<\/p>\n<p> &#8211; Meus parab&eacute;ns sinceros.<\/p>\n<p> &#8211; Obrigado. Mas que mortandade, que S&atilde;o Bartolomeu! Arrasou a passarada.<br \/>\n    C&aacute;spite! Ara&ccedil;aris, tucanos, pombas, sabiacis, um jacu e um serelepe&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o, n&atilde;o &eacute; serelepe, um candimba, uma lebre, e grande!<br \/>\n    Sim senhora! &Eacute; uma Diana.<\/p>\n<p> E com ares de amador entusiasta examinava as pe&ccedil;as de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p> -Diga-me, perguntou-lhe a mo&ccedil;a, como se chamam estes p&aacute;ssaros<br \/>\n    verdes, de bico redondo?<br \/>\n    &#8211; Chamam-se sabiacis.<\/p>\n<p> &#8211; No Brasil os psitac&iacute;dios ser&atilde;o representados somente por<br \/>\n    ar&aacute;s e papagaios?<br \/>\n    &#8211; Em S&atilde;o Paulo, pelo menos, s&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Quantas esp&eacute;cies temos de papagaios ?<br \/>\n    &#8211; Ao certo, que eu saiba, seis: tuins, periquitos, cui&uacute;s, sabiacis,<br \/>\n    que s&atilde;o estes, baitacas e papagaios propriamente ditos.<\/p>\n<p> &#8211; E de ar&aacute;s?<br \/>\n    &#8211; Quatro: tirivas, araguaris, maracan&atilde;s e araras.<\/p>\n<p> &#8211; Ao todo, dez?<br \/>\n    &#8211; Que eu conhe&ccedil;o; no sert&atilde;o pode haver mais.<\/p>\n<p> &#8211; L&aacute; ia eu com a minha marotte cient&iacute;fica! Basta, basta de<br \/>\n    ornitologia. Deve ter chegado cansad&iacute;ssimo e morto de fome.<\/p>\n<p> &#8211; Cansado, n&atilde;o; com algum apetite, sim.<\/p>\n<p> &#8211; Pois vamos, vamos almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8211; Confesso que almo&ccedil;arei com prazer.<\/p>\n<p> E seguiram. Era imensa a alegria de Lenita, a gratid&atilde;o mesmo em que<br \/>\n    se achava para com Barbosa por t&ecirc;-la vindo surpreender na mata, por<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;-la esperado em casa. Sentia-se lisonjeada em seu orgulho<br \/>\n    de mulher. E mais, Barbosa esquecera ou fingira esquecer os justos, mas injustific&aacute;veis<br \/>\n    arrufos da v&eacute;spera da partida. Amava e adquirira a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que era correspondida.<\/p>\n<p> No percurso da picada que mundo, que infinidade de pequenos gozos! Aqui<br \/>\n    um tronco podre, deitado, a transpor; ali, um ramo espinhoso a evitar; uma<br \/>\n    ladeira &iacute;ngreme, escorregadia a subir. Barbosa, nessas dificuldades,<br \/>\n    ajudava-a, tomava-lhe a espingarda, dava-lhe a m&atilde;o. Ela deixava-o fazer,<br \/>\n    aceitava-lhe o auxilio, n&atilde;o porque se sentisse fraca, porque precisasse;<br \/>\n    mas para dar-lhe a ele o papel de forte, de protetor. Achava uma del&iacute;cia<br \/>\n    inef&aacute;vel em ser mulher para que Barbosa fosse homem. A voz m&aacute;scula,<br \/>\n    doce, de Barbosa acariciava-lhe o ouvido, acalentava-lhe o c&eacute;rebro,<br \/>\n    envolvia-a em uma como atmosfera de harmonia e amor.<\/p>\n<p> Insensivelmente, sem darem f&eacute; da dist&acirc;ncia chegaram &agrave;<br \/>\n    casa. Esperava-os na porta o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Com que ent&atilde;o n&atilde;o foi dif&iacute;cil encontrar a Lenita,<br \/>\n    gritou ele.<\/p>\n<p> E atentando na ca&ccedil;a: Deixa ver isso, rapariga! Ih! que razoural No<br \/>\n    mato n&atilde;o ficou p&aacute;ssaro! Esta menina! Olhe, voc&ecirc; devia<br \/>\n    ter nascido homem&#8230; e quem sabe se voc&ecirc; n&atilde;o &eacute; mesmo homem?<br \/>\n    Lenita corou at&eacute; &agrave;s orelhas.<\/p>\n<p> O coronel n&atilde;o se deu por achado da inconveni&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos, vamos almo&ccedil;ar, que Manduca deve estar a tinir: fez a loucura<br \/>\n    de caminhar a cavalo a noite toda. Vamos!<br \/>\n    O almo&ccedil;o correu bem, mas terminou desagradavelmente. Quando estavam<br \/>\n    tomando caf&eacute; com leite, termina&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria<br \/>\n    do almo&ccedil;o rural paulista, entrou na sala uma preta velha, assustada.<\/p>\n<p> -Acuda, sinh&ocirc;! disse, Maria. Bugra est&aacute; morrendo!<br \/>\n    &#8211; Onde est&aacute; ela? Que &eacute; que tem? perguntou surpreso o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; O que ela tem eu n&atilde;o sei. Est&aacute; a&iacute; na sala de fora,<br \/>\n    eu a mandei trazer para a&iacute;.<\/p>\n<p> O coronel levantou-se, saiu a ver, aflito, tr&ocirc;pego. Barbosa e Lenita<br \/>\n    seguiram-no.<\/p>\n<p> Na sala de entrada, sobre urna marquesa forrada de couro, encostando-se<br \/>\n    a um travesseiro de marroquim que fora encarnado, estava uma preta fula ainda<br \/>\n    mo&ccedil;a.<\/p>\n<p>  Estertorava com a face tumefata, com os tend&otilde;es do pesco&ccedil;o retesados;<br \/>\n  os olhos protra&iacute;am-se das &oacute;rbitas; as pupilas enormemente dilatadas<br \/>\n  tinham feito desaparecer os limbos do &iacute;ris. <\/p>\n<\/p>\n<p>Das comissuras dos l&aacute;bios contra&iacute;dos e deformados escorriam<br \/>\n    fios de baba, viscosos, resistentes, transl&uacute;cidos.<\/p>\n<p> O coronel abeirou-se da enferma, tomou-lhe o pulso.<\/p>\n<p> &#8211; Veja isto, Manduca, que pensa voc&ecirc;?<br \/>\n    Barbosa aproximou-se por sua vez, procurou sentir o calor da preta na pele<br \/>\n    do rosto, encostando-lhe o dorso da m&atilde;o, achou-a fria; tateou-lhe o<br \/>\n    pulso, encontrou-o d&eacute;bil, espa&ccedil;ad&iacute;ssimo; beliscou-a,<br \/>\n    ela n&atilde;o pareceu dar acordo disso.<\/p>\n<p> &#8211; Como principiou esta mol&eacute;stia? perguntou ele &agrave; preta que<br \/>\n    tinha ido dar parte.<\/p>\n<p> Eh! sinh&ocirc; mo&ccedil;o! Maria estava no paiol, debulhando milho, muito<br \/>\n    sossegada. De repente entrou a queixar de ansiedade, levantou, andou vira-virando,<br \/>\n    entrou a gritar, a falar as coisas &agrave; toa. Batia com a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    escumava, queria morder gente, parecia mesmo que estava louca. Depois perdeu<br \/>\n    o sentido, caiu, ficou assim como est&aacute;. Eu mandei trazer para aqui,<br \/>\n    fui chamar sinh&ocirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Sim ! Faz muito tempo?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, sinh&ocirc; mo&ccedil;o, foi agora mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Comeu ela ou bebeu alguma coisa?<br \/>\n    &#8211; Ela almo&ccedil;ou, h&aacute; de fazer duas horas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o bebeu nada?<br \/>\n    &#8211; Bebeu caf&eacute;, uma meia tigela.<\/p>\n<p> &#8211; Donde veio o caf&eacute;?<br \/>\n    &#8211; Veio da senzala de pai Joaquim.<\/p>\n<p> &#8211; Joaquim Cambinda?<br \/>\n    &#8211; Sim, sinh&ocirc; mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Barbosa foi ao seu quarto e, ap&oacute;s breve demora, voltou com um frasquinho<br \/>\n    a meio de um l&iacute;quido claro como &aacute;gua. Pediu uma colher; trouxeram-lha.<br \/>\n    Chamou e enferma, junto do ouvido:<br \/>\n    &#8211; Maria!<br \/>\n    A negra n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> &#8211; Maria! repetiu ele em voz mais alta.<\/p>\n<p> A preta tentou sair do estado soporoso em que se achava, procurou levantar<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, n&atilde;o conseguiu; deixou-a recair pesadamente no travesseiro,<br \/>\n    proferindo uns sons inconexos, semi-inarticulados. De sob as suas roupas exalava-se<br \/>\n    um cheiro f&eacute;tido de mat&eacute;rias fecais.<\/p>\n<p> Barbosa, vendo que nada poderia obter, que a vontade estava ali aniquilada,<br \/>\n    passou o frasquinho ao coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Vou abri-lhe a boca com a colher; vossa merc&ecirc; despejar&aacute; dentro<br \/>\n    o conte&uacute;do deste vidro.<\/p>\n<p> &#8211; Todo?<br \/>\n    &#8211; Todo; &eacute; uma dose forte de em&eacute;tico; conv&eacute;m faz&ecirc;-la<br \/>\n    vomitar. Introduziu com algum custo o cabo da colher entre as arcadas dent&aacute;rias<br \/>\n    da doente, e, fazendo dele uma alavanca, descerrou-lhe os queixos.<\/p>\n<p> &#8211; Agora, meu pai !<br \/>\n    O coronel vazou dentro da boca, entreaberta &agrave; for&ccedil;a, o l&iacute;quido<br \/>\n    do vidrinho.<\/p>\n<p> &#8211; Engula! gritou Barbosa.<\/p>\n<p> A negra fez um esfor&ccedil;o, deu um safan&atilde;o violento, a colher<br \/>\n    saltou longe, e o l&iacute;quido, revessado, caiu sobre a marquesa, correu<br \/>\n    para o soalho. A degluti&ccedil;&atilde;o era imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o ser&aacute; bom mandar chamar o doutor Guimar&atilde;es?<br \/>\n    &#8211; In&uacute;til, meu pai; nada h&aacute; a fazer neste caso.<\/p>\n<p> &#8211; Assim mesmo&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O doutor Guimar&atilde;es s&oacute; poderia estar aqui &agrave; noite,<br \/>\n    e dentro de uma hora a preta j&aacute; ter&aacute; morrido.<\/p>\n<p> &#8211; Manduca, olhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Sei o que isto &eacute;, meu pai; n&atilde;o h&aacute; mesmo nada a fazer.<\/p>\n<p> O coronel voltou triste para a sala de jantar; Lenita e Barbosa com ele.<\/p>\n<p> Sentaram-se junto de uma uma janela abatidos: a mol&eacute;stia da preta<br \/>\n    lan&ccedil;ara-os em um des&acirc;nimo profundo, em uma apreens&atilde;o de<br \/>\n    vagas amea&ccedil;a de perigos desconhecidos.<\/p>\n<p> Entreolhavam-se, n&atilde;o ousando arriscar um dito, uma palavra.<\/p>\n<p> E todavia essa reserva pesava-lhes, era-lhes incomport&aacute;vel o sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Quebrou-o Barbosa.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai, a Maria Bugra morre, e sabe vossa merc&ecirc; de que morre ela?<br \/>\n    &#8211; Tenho medo de o saber.<\/p>\n<p> &#8211; Vejo que me compreendeu.<\/p>\n<p> &#8211; Morre do que t&ecirc;m morrido v&aacute;rios escravos aqui na fazenda,<br \/>\n    morre envenenada.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; bem poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, &eacute; certo.<\/p>\n<p> &#8211; Lembra-se da morte do Carlos, da do Chico Carreiro, da do Ant&ocirc;nio<br \/>\n    Mulato, da Maria Baiana?<br \/>\n    &#8211; Perfeitamente!<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o apresentaram eles os mesmos sintomas que apresentou e est&aacute;<br \/>\n    apresentando agora a Maria Bugra?<br \/>\n    &#8211; Homem, com efeito! Apresentaram.<\/p>\n<p> &#8211; Excita&ccedil;&atilde;o violenta mas passageira, del&iacute;rio, depois<br \/>\n    paralisia quase completa, face t&uacute;mida, conjuntivas injetadas, olhos<br \/>\n    saltados, dilata&ccedil;&atilde;o de pupilas, degluti&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel,<br \/>\n    queda de pulso, esfriamento geral, incontin&ecirc;ncia de urina e de fezes?<br \/>\n    &#8211; Exato.<\/p>\n<p> &#8211; Pois tudo isso, estou convencido, &eacute; conseq&uuml;&ecirc;ncia da<br \/>\n    ingest&atilde;o de um veneno terr&iacute;vel, infelizmente muito comum entre<br \/>\n    n&oacute;s, a atropina.<\/p>\n<p> &#8211; Muito comum entre n&oacute;s, a atropina?!<br \/>\n    &#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Pois a atropina n&atilde;o se tira da beladona?<br \/>\n    &#8211; Tamb&eacute;m se tira da beladona.<\/p>\n<p> &#8211; E onde encontrar a beladona? No Brasil s&oacute; pode haver beladona em<br \/>\n    algum horto bot&acirc;nico.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai n&atilde;o conhece aquilo que ali est&aacute;? E Barbosa apontou<br \/>\n    para um vasto trato de terreno, coberto de plantas baixas, escuras, de folhas<br \/>\n    repicadas, de flores brancas, em forma de trombeta.<\/p>\n<p> &#8211; Conhe&ccedil;o, respondeu o coronel, &eacute; figueira do inferno, mamoninho<br \/>\n    bravo, um veneno terr&iacute;vel, dizem. Mas voc&ecirc; falou em atropina.<\/p>\n<p> &#8211; Cientificamente a figueira do inferno chama-se Dotura stramonium: extrai-se<br \/>\n    dela um alcal&oacute;ide venenos&iacute;ssimo, a que se chama doturina: Ladenburg,<br \/>\n    por&eacute;m, e Schmidt verificaram nestes &uacute;ltimos tempos que a daturina<br \/>\n    &eacute; pura e simplesmente a atropina, a mesma letal atropina que se obt&eacute;m<br \/>\n    da beladona.<\/p>\n<p> &#8211; E a sua convic&ccedil;&atilde;o &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que Maria Bugra morre envenenada por uma decoc&ccedil;&atilde;o fort&iacute;ssima<br \/>\n    de sementes de datura, e, conseq&uuml;entemente, por atropina.<\/p>\n<p> E tem suspeita de quem tenha sido o propinador do veneno?<br \/>\n    N&atilde;o tenho suspeita, tenho certeza.<\/p>\n<p> &#8211; Quem pensa que foi?<br \/>\n    &#8211; Joaquim Cambinda.<\/p>\n<p> A esta acusa&ccedil;&atilde;o precisa, formal, convicta, o coronel baixou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a. Pensava Barbosa tinha raz&atilde;o. Perdera a fazenda v&aacute;rios<br \/>\n    escravos mortos todos de uma mol&eacute;stia esquisita, que apresentava invariavelmente<br \/>\n    o mesmo cortejo de sintomas. E isso come&ccedil;ara depois de que viera Joaquim<br \/>\n    Cambinda. Esse preto, tinha-o ele recebido com outros em heran&ccedil;a de<br \/>\n    uma tia, j&aacute; velho, incapaz de trabalhar. Nunca exigira dele servi&ccedil;o;<br \/>\n    dera-lhe at&eacute; para morar, a pedido seu, um paiol largado, independente,<br \/>\n    no fundo do terreiro. Tempos havia, morrera na fazenda um feitor branco: a<br \/>\n    vi&uacute;va, lembrava-lhe bem, tinha feito um berreiro enorme, infernal,<br \/>\n    dissera que o marido sucumbira a coisa feita, acusara terminantemente a Joaquim<br \/>\n    Cambinda. N&atilde;o dera ele, coronel, import&acirc;ncia &agrave; acusa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e essa acusa&ccedil;&atilde;o ressurgia, feita agora por seu filho, homem<br \/>\n    inteligente, ilustrado, muito sisudo.<\/p>\n<p> &#8211; Em que se estriba voc&ecirc; para inculpar o negro velho? perguntou ap&oacute;s<br \/>\n    minutos de medita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Em muita coisa. Primeiro, os fatos, os envenenamentos indiscut&iacute;veis,<br \/>\n    e que s&oacute; come&ccedil;aram de dez anos a esta parte, depois que Joaquim<br \/>\n    Cambinda veio para a fazenda: eu c&aacute; n&atilde;o estava, mas por informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    acho-me ao corrente de tudo. Em segundo lugar a fama de mestre feiticeiro<br \/>\n    que tem ele em todo o munic&iacute;pio: varias pessoas de crit&eacute;rio<br \/>\n    t&ecirc;m-se interrogado a esse respeito. Depois, surpreendi-o eu mesmo, outro<br \/>\n    dia, a secar cabe&ccedil;as de cobra, ra&iacute;zes de cicuta e de guin&eacute;,<br \/>\n    sementes de datura. E mais&#8230; ele tinha seus agravos de Maria Bugra&#8230;E Barbosa<br \/>\n    acentuou estas palavras, olhando para Lenita.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; verdade, sei, at&eacute; j&aacute; tive de tomar provid&ecirc;ncias<br \/>\n    por causa disso. Mas s&atilde;o presun&ccedil;&otilde;es apenas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Que, reunidas, fazem convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Precisamos de tirar isto a limpo.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o meu modo de entender: n&atilde;o podemos deixar correr &agrave;<br \/>\n    revelia uma coisa de tanta gravidade.<\/p>\n<p> Realizaram-se as previs&otilde;es de Barbosa: o estado soporoso de Maria<br \/>\n    Bugra passou para coma, e o coma para morte.<\/p>\n<p> &Agrave; tarde, ao escurecer, depois da revista, o coronel mandou chamar<br \/>\n    Joaquim Cambinda.<\/p>\n<p> O medonho negro veio arrastando os p&eacute;s, escorando-se em um bord&atilde;o,<br \/>\n    a rojar pelo solo a<br \/>\n    imunda coberta parda, de que sempre usava.<\/p>\n<p> Chegou, entrou na ante-sala, largou o bord&atilde;o a um canto. O cad&aacute;ver<br \/>\n    de Maria Bugra a&iacute; estava, sobre a marquesa, no meio da quadra, inteiri&ccedil;ado,<br \/>\n    coberto por um len&ccedil;ol fino que lhe desenhava as formas duras, angulosas.<br \/>\n    Quatro velas de cera alumiavam-no lugubremente, casando os seus clar&otilde;es<br \/>\n    aos &uacute;ltimos clar&otilde;es do dia.<\/p>\n<p> Por entre o cheiro acre de vinagre ferrado e o cheiro enjoativo da alfazema<br \/>\n    queimada, percebia-se um cheiro f&eacute;tido, um fartum de carne podre, de<br \/>\n    decomposi&ccedil;&atilde;o cadav&eacute;rica.<\/p>\n<p> Joaquim Cambinda entrou, olhou com indiferen&ccedil;a para a defunta, dirigiu-se<br \/>\n    ao coronel que, junto com Barbosa, a&iacute; o esperava.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; s&atilde;os cristo, sinh&ocirc;. Sinh&ocirc; mandou chamar negro<br \/>\n    velho, negro velho est&aacute; aqui, disse na sua algaravia b&aacute;rbara,<br \/>\n    horripilante, imposs&iacute;vel de reproduzir.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe quem est&aacute; ali morta, Joaquim?<br \/>\n    &#8211; Sei, &eacute; Maria Bugra.<\/p>\n<p> &#8211; De que morreu, n&atilde;o sabe?<br \/>\n    &#8211; De suas mol&eacute;stias dela.<\/p>\n<p> &#8211; Que mol&eacute;stias?<br \/>\n    &#8211; Eu n&atilde;o sei, eu n&atilde;o sou doutor.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o sabe, n&atilde;o &eacute; doutor? N&atilde;o<br \/>\n    sabe Tamb&eacute;m de que morreu a Maria Baiana, o Ant&ocirc;nio, o Carlos,<br \/>\n    o Chico Carreiro?<br \/>\n    &#8211; Como quer sinh&ocirc; que eu saiba?<br \/>\n    &#8211; Se voc&ecirc; n&atilde;o confessar tudo o que tem feito, aqui, direitinho<br \/>\n    mando-o acabar a bacalhau, s&ocirc; feiticeiro do diabo!<br \/>\n    &#8211; Ah! Sinh&ocirc;! Feiticeiro, negro velho, que n&atilde;o tarda a ir dar<br \/>\n    contas a Deus do feij&atilde;o que ele comeu!<br \/>\n    &#8211; Deixe-se de hist&oacute;rias, de mamparras, vamos ! Com que matou voc&ecirc;<br \/>\n    a Maria Bugra? <br \/>\n    &#8211; N&atilde;o matei com coisa alguma, sinh&ocirc;. Como hei de eu confessar<br \/>\n    uma coisa que eu n&atilde;o fiz?<br \/>\n    &#8211; Se fez ou se n&atilde;o fez &eacute; o que vamos j&aacute; saber. Pedro,<br \/>\n    Jo&atilde;o, venham c&aacute;, agarrem-me este patife.<\/p>\n<p> &Agrave; porta a negrada acotovelava-se curiosa estendendo uns o pesco&ccedil;o<br \/>\n    por sobre os ombros dos outros.<\/p>\n<p> Os dois pretos chamados abriram caminho, empurrando os companheiros, entraram<br \/>\n    na ante-sala.<\/p>\n<p> &#8211; Segurem-me este tratante, conduzam-no &agrave; casa do tronco.<\/p>\n<p> Eu j&aacute; l&aacute; vou. Levem o bacalhau e uma salmoura forte.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; que sinh&ocirc; vai fazer comigo ? inquiriu r&aacute;pido<br \/>\n    Joaquim Cambinda.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; vai ver.<\/p>\n<p> &#8211; Sinh&ocirc;, Joaquim Cambinda nunca apanhou de bacalhau&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Vai apanhar agora; ser&aacute; ent&atilde;o a primeira vez.<\/p>\n<p> Operou-se uma revolu&ccedil;&atilde;o medonha em Joaquim Cambinda. Atirou<br \/>\n    ele para longe de si a coberta esfarrapada, endireitou o busto derreado, ergueu<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, cerrou os punhos e encarou o coronel. Cintilavam-lhe os olhos,<br \/>\n    os bei&ccedil;os arrega&ccedil;ados deixavam ver os dentes.<\/p>\n<p> &#8211; Ahl voc&ecirc; quer saber, eu digo: fui eu mesmo que matei Maria Bugra.<\/p>\n<p> &#8211; E por que a matou voc&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Porque ela comia o meu dinheiro, e me enganava com a crioulada nova.<\/p>\n<p> &#8211; E os outros, o Carlos, a Maria Baiana, o Chico Carreiro, Ant&ocirc;nio<br \/>\n    Mulato?<br \/>\n    &#8211; Fui eu mesmo que matei a todos.<\/p>\n<p> &#8211; E por qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Maria Baiana pelo mesmo motivo que me fez matar Maria Bugra. Os outros para<br \/>\n    fazer mal a sinh&ocirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Para me fazer mal? Por qu&ecirc;? Pois voc&ecirc; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o mesmo que forro? Exijo eu algum servi&ccedil;o de voc&ecirc;? N&atilde;o<br \/>\n    lhe dou moradia, roupa, comida? Por que me quer mal?<br \/>\n    &#8211; J&aacute; que principiei a falar, irei at&eacute; o fim. Sinh&ocirc; &eacute;<br \/>\n    bom para mim, &eacute; verdade, mas sinh&ocirc; &eacute; branco, e obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de preto &eacute; fazer mal a branco sempre que pode.<\/p>\n<p> &#8211; Matar-me cinco escravos !<br \/>\n    &#8211; Cinco ! S&oacute; crioulinhos mandei eu embora dezessete. Negro grande,<br \/>\n    nem se fala: Manuel Pedreiro, Tomaz, Sime&atilde;o, Liberato, Gerv&aacute;sio,<br \/>\n    Chico Carapina, Jos&eacute; Grande, Jos&eacute; Pequeno, Quit&eacute;ria,<br \/>\n    Jacinta, Margarida, de que &eacute; que morreram? Fui eu que matei todos.<\/p>\n<p> Ergueu-se grande sussurro de entre o grupo de negros. Ouviam-se gritos,<br \/>\n    impreca&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Agora tamb&eacute;m voc&ecirc; est&aacute; mentindo: Jos&eacute; Pequeno<br \/>\n    morreu picado de cobra.<\/p>\n<p> &#8211; Qual cobra! A cobra que o picou n&atilde;o tinha veneno. E ele morreu,<br \/>\n    mas da beberagem que eu lhe dei para curar.<\/p>\n<p> &#8211; Mas todos esses pobre diabos eram pretos como voc&ecirc;. para que os<br \/>\n    matou? <br \/>\n    &#8211; Para sinh&ocirc; ficar pobre: eu queria ver sinh&ocirc; se servir por suas<br \/>\n    m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8211; E a mim nunca pretendeu voc&ecirc; matar?<br \/>\n    &#8211; Matar, n&atilde;o : fazer penar s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o sempre me queria fazer alguma coisa?<br \/>\n    &#8211; Queria fazer! Eu fiz mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Fez? Que &eacute; que me fez voc&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Esse seu reumatismo, sinh&ocirc;, ent&atilde;o que &eacute;? Entrevamento<br \/>\n    de sinh&aacute; velha donde vem? E o negro deu uma gargalhada feroz.<\/p>\n<p> O coronel ficou aterrado.<\/p>\n<p> &#8211; Levem, levem daqui esta serpente ! gritou Barbosa. Metam-no no tronco,<br \/>\n    n&atilde;o quero mais<br \/>\n    v&ecirc;-lo. Vai para a vila amanh&atilde;. Os negros apoderaram-se de Joaquim<br \/>\n    Cambinda, que n&atilde;o ofereceu resist&ecirc;ncia, rodearam-no, levaram-no<br \/>\n    a empurr&otilde;es para o meio do terreiro!<br \/>\n    &#8211; Ent&atilde;o foi voc&ecirc; que matou meu pai ! dizia um.<\/p>\n<p> &#8211; Minha m&atilde;e ! bradava outro.<\/p>\n<p> &#8211; Meus tr&ecirc;s filhinhos t&atilde;o bonitos, que entraram a inchar de<br \/>\n    repente, na cabe&ccedil;a e na barriga, a amarelar e que morreram com as perninhas<br \/>\n    finas como pernas de r&atilde;! lamuriou uma negra e, tomando do ch&atilde;o<br \/>\n    um caco de telha, bateu com ele na cara do feiticeiro.<\/p>\n<p> Foi como que um sinal.<\/p>\n<p> Os negros todos achegaram-se a Joaquim Cambinda, uns davam-lhe punhadas,<br \/>\n    outros escarravam-lhe, outros atiravam-lhe areia nos olhos.<\/p>\n<p> &#8211; Peste do diabo ! Coisa ruim !<br \/>\n    &#8211; Feiticeiro do inferno!<br \/>\n    &#8211; Enforque-se j&aacute; este dem&ocirc;nio !<br \/>\n    &#8211; O melhor &eacute; queimar!<br \/>\n    &#8211; Que se queime! Que se queime!<br \/>\n    E numa confus&atilde;o horrorosa foram arrastando o desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Ao p&eacute; do paiol estava um mont&atilde;o de sap&eacute; seco, e junto<br \/>\n    dele uma mesa velha de carro, com uma roda s&oacute;, desconjuntada, meio<br \/>\n    podre.<\/p>\n<p> Em um momento amarraram o m&iacute;sero sobre essa mesa de carro, apesar<br \/>\n    da resist&ecirc;ncia louca que ele ent&atilde;o procurou fazer, a pontap&eacute;s,<br \/>\n    a coices, a dentadas.<\/p>\n<p> Trouxeram sap&eacute;, aos feixes, encheram com ele o v&atilde;o que ficava<br \/>\n    por baixo da mesa.<\/p>\n<p> &#8211; Querosene! gritou uma voz, tragam querosene!<br \/>\n    Um moleque correu ao engenho, e de l&aacute; voltou com uma lata quase cheia.<\/p>\n<p> Um preto tomou-lha, subiu &agrave; mesa do carro, come&ccedil;ou a despejar<br \/>\n    petr&oacute;leo sobre Joaquim Cambinda: o l&iacute;quido corria em fio farto,<br \/>\n    claro, transparente, com reflexos azulados, ressaltava do peito piloso do<br \/>\n    negro, da sua calva lustrosa, embebia-se-lhe nas roupas imundas, misturado,<br \/>\n    confundindo com o suor que manava em camarinhas. Os olhos do miser&aacute;vel<br \/>\n    revolviam-se sangrentos, seus dentes rangiam, ele bufava.<\/p>\n<p> &#8211; F&oacute;sforos! F&oacute;sforos! Quem tem f&oacute;sforos? perguntou<br \/>\n    o preto, depois que esvaziou a lata, e que fez desaparecer Joaquim Cambinda<br \/>\n    sob um mont&atilde;o de sap&eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Eu! acudiu a negra que dera princ&iacute;pio ao motim, e estende-lhe uma<br \/>\n    caixa de f&oacute;sforos.<\/p>\n<p> O preto saltou abaixo, tomou-a, abaixou-se, riscou um f&oacute;sforo, protegeu-lhe<br \/>\n    a chama com a m&atilde;o em forma de concha, encostou-o ao sap&eacute;, junto<br \/>\n    do ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Ergueu-se uma fumarada espessa, azul-claro por cima, cor de ferrugem por<br \/>\n    baixo; a chama cintilou em compridas l&iacute;nguas gulosas, lambeu, rodeou<br \/>\n    a mesa do carro, chegou ao sap&eacute; de cima e ao corpo do negro. As roupas<br \/>\n    deste, embebidas em petr&oacute;leo, fizeram uma como explos&atilde;o, inflamaram-se<br \/>\n    repentinamente. Ele soltou um mugido rouco, sufocado, retorceu-se fren&eacute;tico&#8230;<\/p>\n<p> Tudo desapareceu num turbilh&atilde;o crepitante de fogo e de fumo.<\/p>\n<p> As fa&uacute;las voavam longe, e o vento carregava a dist&acirc;ncias enormes<br \/>\n    as moinhas carbonizadas.<\/p>\n<p> Sentia-se um cheiro acre, nauseabundo de chamusco, de gorduras fritas, de<br \/>\n    carnes sapecadas.<\/p>\n<h4><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII<\/a><\/h4>\n<p>At&eacute; 1887 vivia-se em pleno feudalismo no interior da prov&iacute;ncia<br \/>\n    de S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p> A fazenda paulista em nada desmerecia do solar com jurisdi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Idade M&eacute;dia. O fazendeiro tinha nela c&aacute;rcere privado, gozava<br \/>\n    de al&ccedil;ada efetiva, era realmente senhor de bara&ccedil;o e cutelo.<br \/>\n    Para reger os s&uacute;ditos, guiava-se por um c&oacute;digo &uacute;nico<br \/>\n    &#8211; a sua vontade soberana. De fato estava fora do alcance da Justi&ccedil;a:<br \/>\n    a lei escrita n&atilde;o o atingia.<\/p>\n<p> Contava em tudo e por tudo com a aquiesc&ecirc;ncia nunca desmentida da<br \/>\n    autoridade, e, quando, exemplo raro, comparecia &agrave; barra de um tribunal<br \/>\n    por abuso enorme e escandalos&iacute;ssimo de poder, esperava-o infalivelmente<br \/>\n    a absolvi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O seu predom&iacute;nio era tal que &agrave;s vezes mandava assassinar pessoas<br \/>\n    livres na cidade, desrespeitava os deposit&aacute;rios de poderes constitucionais,<br \/>\n    esbofeteava-os em pleno exerc&iacute;cio de fun&ccedil;&otilde;es, e ainda&#8230;<br \/>\n    era absolvido.<\/p>\n<p> Para manter o fazendeiro na posse de privil&eacute;gios consuetudin&aacute;rios,<br \/>\n    estabeleciam-se praxes forenses, imorais e antijur&iacute;dicas. Em Campinas,<br \/>\n    por exemplo, todo o crime cometido por escravos, fossem quais fossem as circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    era sistematicamente desclassificado; a condena&ccedil;&atilde;o, quando se<br \/>\n    fazia, fazia-se no grau m&iacute;nimo; a pena era comutada em a&ccedil;oites,<br \/>\n    e o r&eacute;u entregue ao senhor, que exercia ent&atilde;o sobre ele sua<br \/>\n    vindita particular.<\/p>\n<p> O sucesso pavoroso, o linchamento atroz do feiticeiro pelos escravos da<br \/>\n    fazenda, n&atilde;o transpirou e, se transpirou, se alguma coisa chegou aos<br \/>\n    ouvidos das autoridades da vila, elas n&atilde;o se moveram.<\/p>\n<p> O coronel, homem bom, compassivo, horrorizara-se a princ&iacute;pio com<br \/>\n    o fato que n&atilde;o pudera impedir; afinal entendera que o que n&atilde;o<br \/>\n    tem rem&eacute;dio est&aacute; remediado, achara at&eacute; que o exemplo<br \/>\n    n&atilde;o havia de fazer mal. Barbosa, conquanto tivesse passado boa parte<br \/>\n    de sua vida na filantr&oacute;pica Albi&atilde;o, era filho de fazendeiro,<br \/>\n    como tal tinha sido criado: n&atilde;o estranhara, pois, o sucesso, gostara<br \/>\n    at&eacute; da solu&ccedil;&atilde;o que ele trouxera a um caso complicado<br \/>\n    e grav&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> A atmosfera de tristeza, de desalento, que um sucesso tr&aacute;gico gera<br \/>\n    sempre, foi-se pouco a pouco dissipando.<\/p>\n<p> O viver da fazenda entrou logo em seus eixos: dir-se-ia at&eacute; havia<br \/>\n    melhoramento, que se estava mais &agrave; vontade. Joaquim Cambinda inspirava<br \/>\n    medo, ningu&eacute;m se atrevia a proferir uma palavra contra ele, e, todavia,<br \/>\n    exceto um pequeno n&uacute;mero de adeptos de suas pr&aacute;ticas, todos<br \/>\n    o odiavam. A sua morte, como a de todo tirano, fora um motivo de j&uacute;bilo<br \/>\n    geral, alargara todos os pulm&otilde;es que bebiam ar ent&atilde;o a haustos<br \/>\n    largos. Desaparecera o perigo invis&iacute;vel e temeroso que a todo o instante<br \/>\n    a todos amea&ccedil;ava.<\/p>\n<p> A fruiteira continuava a ser muit&iacute;ssimo freq&uuml;entada por p&aacute;ssaros<br \/>\n    de esp&eacute;cies v&aacute;rias, por serelepes e at&eacute; por ouri&ccedil;os<br \/>\n    caixeiros.<\/p>\n<p> Lenita ia por diante com as suas razzias matinais. Acompanhava-a ent&atilde;o<br \/>\n    Barbosa, que lhe<br \/>\n    deixava todo o prazer das ca&ccedil;adas, reservando-se o trabalho. Era ele<br \/>\n    quem ia buscar as aves mortas, quem perseguia e apanhava as que caiam ainda<br \/>\n    vivas. Tendo achado um carreiro batido de ca&ccedil;a, a alguma dist&acirc;ncia<br \/>\n    da caneleira, escolheu um lugar que lhe pareceu apropriado, limpou-o em bom<br \/>\n    espa&ccedil;o, deitou milho, fez uma ceva. Ao terceiro dia notou com prazer<br \/>\n    indiz&iacute;vel que a ca&ccedil;a acudia, que o milho estava comido. Em pouco<br \/>\n    tempo teve de renov&aacute;-lo: tinha acabado. Entendeu que era tempo de construir<br \/>\n    um reparo. F&ecirc;-lo quadrangular, grande bastante para duas pessoas. Tapou-o<br \/>\n    em roda com palmas de guarirova, arranjou dentro um assento de varas, s&oacute;lido,<br \/>\n    relativamente c&ocirc;modo. Cravou no ch&atilde;o forquilhas para encostar<br \/>\n    as espingardas, disp&ocirc;s olheiros por onde pudesse espreitar a ca&ccedil;a.<br \/>\n    Antegostava a surpresa agradabil&iacute;ssima que ia causar a Lenita, o arrebatamento,<br \/>\n    o &ecirc;xtase em que ficaria ela, ao defrontar pela vez primeira com ca&ccedil;a<br \/>\n    de import&acirc;ncia com ca&ccedil;a de grande p&ecirc;lo.<\/p>\n<p> Deixou passar alguns dias para que a ca&ccedil;a se familiarizasse com a<br \/>\n    cho&ccedil;a, e, quando entendeu ser tempo azado, mandou acordar a Lenita<br \/>\n    bem de madrugada, muito antes da hora do costume. Sa&iacute;ram. Para atravessar<br \/>\n    o carreadouro e a picada, Barbosa teve de ir riscando f&oacute;sforos; estava<br \/>\n    escuro como breu. Ao chegarem junto da caneleira ainda tudo era trevas. A<br \/>\n    copa das &aacute;rvores formava uma pasta compacta, negra, indistinta do negror<br \/>\n    do c&eacute;u. Lenita tinha sono, bocejava. A mucama encolhia-se toda, aconchegando-se<br \/>\n    no xale.<\/p>\n<p> &#8211; Parece que perdemos hoje a hora, que viemos cedo demais, disse Lenita.<\/p>\n<p> &#8211; Viemos a hora precisa, respondeu Barbosa.<\/p>\n<p> &#8211; Os p&aacute;ssaros n&atilde;o come&ccedil;ar&atilde;o a vir nem nesta<br \/>\n    uma hora.<\/p>\n<p> &#8211; Que venham quando quiserem: nos hoje n&atilde;o estamos c&aacute; por<br \/>\n    amor de p&aacute;ssaros.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o por amor de que estamos?<br \/>\n    -Vai ver. Marciana, voc&ecirc; fica aqui. Sente-se, n&atilde;o fa&ccedil;a<br \/>\n    a m&iacute;nima bulha. Agora D. Lenita venha comigo.<\/p>\n<p> &#8211; Onde vamos n&oacute;s?<br \/>\n    &#8211; Vai ver, tenha paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a, intrigada ao &uacute;ltimo ponto, deixou-se guiar silenciosa,<br \/>\n    d&oacute;cil. Barbosa ia adiante, mostrando o caminho: ora dava-lhe a m&atilde;o,<br \/>\n    ora afastava um ramo, para que lhe n&atilde;o batesse no rosto. Chegaram &agrave;<br \/>\n    ceva.<\/p>\n<p> &#8211; Entre, Lenita, disse Barbosa, colocando-se ao lado da porta do reparo,<br \/>\n    com modo t&atilde;o cort&ecirc;s; como se a estivera convidando para chegar<br \/>\n    ao buffet em um sal&atilde;o de cotillon cerimonioso, aristocr&aacute;tico.<\/p>\n<p> Lenita entrou confiadamente, resolutamente, naquele antro l&ocirc;brego,<br \/>\n    onde nada se podia divulgar.<\/p>\n<p> Barbosa entrou tamb&eacute;m, riscou um f&oacute;sforo, mostrou o banco<br \/>\n    a Lenita, f&ecirc;-la sentar, disp&ocirc;s-lhe a espingarda sobre a forquilha,<br \/>\n    assestou-lha sobre a ceva, sentou-se ao lado da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isto que vem a ser, afinal de contas?<br \/>\n    &#8211; &Eacute; uma ceva. Agora sil&ecirc;ncio, e esperemos.<\/p>\n<p> No recinto, fechado pelo tapume espesso de palmas ainda verdes, havia um<br \/>\n    conchego relativo. Lenita, com as m&atilde;os agasalhadas em luvas de l&atilde;,<br \/>\n    envolta e water-proof de casimira encorpada, sentindo o calor doce de Barbosa,<br \/>\n    achava-se bem. Hauria o ar puro, fresco, da mata, respirava as emana&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de guarirova, essas emana&ccedil;&otilde;es irritantes de palmeiras, que adormentam<br \/>\n    o c&eacute;rebro em uma lubricidade m&iacute;stica. Ouvia coar del&iacute;cias<br \/>\n    o pingar manso e mon&oacute;tono de orvalho na camada de folhas secas. E despercebidamente<br \/>\n    o tempo ia passando. Amanheceu. A luz penetrou na mata, deu tom aos troncos,<br \/>\n    coloriu a folhagem, alumiou o ch&atilde;o pardecento e varrido da ceva, no<br \/>\n    qual o amarelo do monte de milho punha uma nota muito clara.<\/p>\n<p> De repente Barbosa deu com o joelho em Lenita.<\/p>\n<p> Um anima pequeno, esguio, elegante, emergia do mato, e avan&ccedil;ava cauteloso,<br \/>\n    alongando o corpo fino. Chegou ao milho, retraiu-se, encolheu-se, fugiu aos<br \/>\n    corcovos, sumiu-se, reapareceu e, sempre arisco, sempre desconfiado, principiou<br \/>\n    a comer. Pouco a pouco perdeu o receio, ergueu as patas dianteiras, sentou-se<br \/>\n    sobre as traseiras, e, tomando uma espiga entre as m&atilde;ozinhas, come&ccedil;ou<br \/>\n    a ro&ecirc;-la com apetite, vorazmente.<\/p>\n<p> Lenita, com o cora&ccedil;&atilde;o a bater descompassado, descorada, quase<br \/>\n    sem consci&ecirc;ncia, como por instinto venat&oacute;rio, aperrou a arma,<br \/>\n    fez pontaria, desfechou.<\/p>\n<p> O tiro restrugiu pela mata, repercutiu com um baque seco nas quebradas distantes.<\/p>\n<p> A clareira encheu-se de fumo.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a e Barbosa sa&iacute;ram correndo a ver o resultado do tiro.<\/p>\n<p> Junto do milho, com o p&ecirc;lo arrufado, percorrido a espa&ccedil;os por<br \/>\n    uma crispa&ccedil;&atilde;o fraca, estava o animal, atravessado de banda a<br \/>\n    banda pela chumbada mort&iacute;fera.<\/p>\n<p> Era uma cutia.<\/p>\n<p> Ao v&ecirc;-la ferida, prostrada, a exalar o derradeiro d&eacute;bil alento,<br \/>\n    o prazer de Lenita foi t&atilde;o intenso, que dobraram-se-lhe as pemas, e<br \/>\n    ela caiu de joelhos, erguendo para Barbosa um olhar repassado de gratid&atilde;o.<\/p>\n<p> Levantou-se, largou a espingarda, tomou o animal, sopesou-o com ambas as<br \/>\n    m&atilde;os, a tremer, dementada pelo triunfo, em arrancos de risos nervosos.<\/p>\n<p> &#8211; Agora &eacute; irmos para a cho&ccedil;a, que n&atilde;o tarda a vir mais<br \/>\n    ca&ccedil;a, disse Barbosa e, raspando terra com os p&eacute;s, cobriu o sangue<br \/>\n    e o p&ecirc;lo que havia no ch&atilde;o; depois ergueu a espingarda de Lenita,<br \/>\n    apresentou-lha e pediu-lhe a cutia para levar.<\/p>\n<p> &#8211; Leve-me a espingarda, eu quero levar a cutia, respondeu a mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> Instalaram-se de novo na cho&ccedil;a. Lenita carregou a espingarda, sentou-se,<br \/>\n    p&ocirc;s a cofia diante de si, apoiou as pontas dos p&eacute;s no seu corpo<br \/>\n    macio, cravou na ceva olhares vigilantes, cobi&ccedil;osos, s&ocirc;fregos.<\/p>\n<p> N&atilde;o esperou muito. Ouviu-se um estalar de ramos quebrados, e, um<br \/>\n    logo ap&oacute;s outro, apresentaram-se dois vultos escuros, grandes, dois<br \/>\n    enormes porcos de eixo branco. Entraram no limpo da ceva confiados, lentos,<br \/>\n    mansos, caminharam direito ao milho, trombejando, fo&ccedil;ando, fazendo<br \/>\n    estalar os dentes. Pararam, puseram-se a comer tranq&uuml;ilamente, descuidosamente.<\/p>\n<p> Lenita engatilhou a espingarda, quis met&ecirc;-la em pontaria. Barbosa<br \/>\n    impediu-a com um gesto en&eacute;rgico.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o se mova, segredou-lhe rapidamente, ao ouvido. Estamos em perigo<br \/>\n    s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Em perigo?<br \/>\n    Os dois porcos continuavam a trincar, a esmoer o milho, sem suspeitar da vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    de gente.<\/p>\n<p> Passaram-se dez minutos, dez s&eacute;culos de ansiedade para Lenita.<\/p>\n<p> Barbosa lento, cauteloso, sem fazer o m&iacute;nimo rumor, como uma sombra,<br \/>\n    tirou a espingarda de Lenita, e p&ocirc;s em lugar a sua, uma arma excelente<br \/>\n    de Pieper, canos shoke-rifled, calibre 12.<\/p>\n<p> &#8211; Atire com esta disse em voz baixa que mal Lenita o p&ocirc;de ouvir, n&atilde;o<br \/>\n    tenha receio, n&atilde;o d&aacute; coice.<\/p>\n<p> Lenita armou os dois c&atilde;es, premendo os gatilhos para que n&atilde;o<br \/>\n    estalassem os gafanhotos nos dentes das nozes, levou a arma &agrave; cara<br \/>\n    e, quase sem apontar, disparou um tiro e outro imediatamente.<\/p>\n<p> Os estampidos das cargas fort&iacute;ssimas ribombaram pela mata de modo<br \/>\n    pavoroso: a fuma&ccedil;a enevoou a ceva, tapou tudo; sentia-se o cheiro forte,<br \/>\n    bom, de sulfureto de pot&aacute;ssio, de p&oacute;lvora queimada.<\/p>\n<p> Lenita impaciente, incapaz de conter-se, quis sair. Barbosa a reteve.<\/p>\n<p> &#8211; Cuidado! disse, esperemos que se dissipe a fuma&ccedil;a. O caso &eacute;<br \/>\n    s&eacute;rio. S&atilde;o queixadas.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o foi a queixadas que eu atirei?<br \/>\n    &#8211; Foi, e felizmente n&atilde;o h&aacute; bando, s&atilde;o s&oacute; dois.<\/p>\n<p> &#8211; Se houvesse bando?<br \/>\n    &#8211; Estar&iacute;amos perdidos.<\/p>\n<p> &#8211; S&atilde;o assim perigosos?<br \/>\n    &#8211; Em bando, no mato, piores do que on&ccedil;a. Por amor das d&uacute;vidas,<br \/>\n    d&ecirc;-me a espingarda, quero carreg&aacute;-la.<\/p>\n<p> Demoradamente foi-se dissipando o fumo. Barbosa e Lenita sa&iacute;ram.<br \/>\n    Junto do milho o ch&atilde;o estava escarvado, via-se muito sangue. De dentro<br \/>\n    do mato, de pequena dist&acirc;ncia, vinha um como grunhido, um ronco lastimado.<\/p>\n<p> Barbosa ordenou a Lenita que se deixasse ficar e, com a espingarda armada,<br \/>\n    pronto a dar fogo, entranhou-se no mato, do lado donde vinham os grunhidos.<br \/>\n    N&atilde;o teve que andar muito: a pouco espa&ccedil;o, perto um do outro,<br \/>\n    jaziam os dois porcos, alcan&ccedil;ados ambos pelos tiros certeiros de Lenita.<br \/>\n    Um estava morto, o outro estertorava enfraquecido nos arrancos da agonia.<\/p>\n<p> &#8211; Albo notanda dies lapillo!<br \/>\n    Venha Lenita, venha ver o que fez ! gritou Barbosa.<\/p>\n<p> Lenita, apressada, correu sem se importar com os ramos que lhe a&ccedil;oitavam,<br \/>\n    que lhe arranhavam o rosto, sem dar f&eacute; dos espinhos que lhe rasgavam<br \/>\n    a roupa. Chegou-se: ao dar com as suas v&iacute;timas, perdeu de todo a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    teve uma como vertigem, soltou um grande grito, atirou-se a Barbosa, abra&ccedil;ou-o<br \/>\n    freneticamente. Depois caiu em si, retraiu-se confusa, desapontad&iacute;ssima,<br \/>\n    correu a examinar os queixadas.<\/p>\n<p> Baixou-se junto do que estava morto, examinou-lhe detidamente, minuciosamente<br \/>\n    : os cascos agu&ccedil;ados, as cerdas duras, longas, as orelhas tesas, a<br \/>\n    tromba lisa, os olhos pequeninos, sang&uuml;&iacute;neos, os colmilhos obl&iacute;quos,<br \/>\n    o queixo branco. Tirou as luvas, premiu-lhe, esvurmou-lhe a gl&acirc;ndula<br \/>\n    tumefata das cadeiras, fez correr o l&iacute;quido l&aacute;cteo, catinguento.<\/p>\n<p> &#8211; Foi feliz, disse Barbosa, risonho. Fez uma proeza de que se n&atilde;o<br \/>\n    podem gabar muitos ca&ccedil;adores velhos.<\/p>\n<p> &#8211; E ao senhor o devo! Obrigada!<br \/>\n    Havia tanta do&ccedil;ura, tanto sentimento no modo por que Lenita disse essa<br \/>\n    frase, que Barbosa sentiu um calafrio percorrer-lhe o dorso. Foi-lhe preciso<br \/>\n    uma viol&ecirc;ncia enorme sobre si pr&oacute;prio, para conter-se, para impedir-se<br \/>\n    de atirar-se &agrave; mo&ccedil;a, de cobri-la de beijos.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, perguntou ele, voltarmos ao reparo, a esperar mais ca&ccedil;a?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, respondeu Lenita, queixadas com certeza n&atilde;o v&ecirc;m<br \/>\n    mais, e seria profanar o dia e a espingarda atirar a ca&ccedil;a inferior.<br \/>\n    Como havemos de levar estes monstros? <br \/>\n    Eu mando um preto busc&aacute;-los com um cargueiro.<\/p>\n<p> &#8211; A cutia ao menos eu quero levar.<\/p>\n<p> &#8211; Pois levaremos a cutia.<\/p>\n<p> &#8211; Aquele porco menor n&atilde;o quer morrer. Vamos n&oacute;s dar-lhe mais<br \/>\n    um tiro?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o vale a pena, ele morre logo. Est&aacute; muito mal ferido.<\/p>\n<p> &#8211; Mas s&atilde;o mesmo queixadas?<br \/>\n    &#8211; E dos maiores.<\/p>\n<p> &#8211; Boa carne?<br \/>\n    &#8211; Excelente, melhor ainda que a do tateto.<\/p>\n<p> &#8211; Em que se diferencia o queixada do tateto?<br \/>\n    &#8211; O queixada, Dycotylus torquatus, vive s&oacute; na mata virgem, &eacute;<br \/>\n    maior e muito mais feroz do que o tateto, Dycotylus labiatus, que &eacute;<br \/>\n    pequeno, medroso e que vive &agrave;s vezes na capoeira. A nota, por&eacute;m,<br \/>\n    caracter&iacute;stica que os distingue &eacute; ter o queixada o queixo branco,<br \/>\n    como est&aacute; vendo.<\/p>\n<p> &#8211; E &eacute; da&iacute; que lhe vem o nome?<br \/>\n    &#8211; Exatamente. Ent&atilde;o, vamos?<br \/>\n    &#8211; Com franqueza, estou sem &acirc;nimo de separar-me das minhas soberbas v&iacute;timas.<br \/>\n    Mas vamos.<\/p>\n<p> E foram.<\/p>\n<p>A ceva ficou deserta por muito tempo. De s&uacute;bito, pequenino, atrevido<br \/>\n    mesmo pela sua insignific&acirc;ncia, surdiu um rato, chegou-se sem cerim&ocirc;nias,<br \/>\n    entrou a roer o milho, o germe somente, o cora&ccedil;&atilde;o. Depois veio<br \/>\n    outro, e outro, um bando. O sol, coando um raio por entre a folhagem, ateava<br \/>\n    ao monte de milho solto e de espigas descascadas um inc&ecirc;ndio de reflexos<br \/>\n    cor de ouro.<\/p>\n<p> Rojando em ondula&ccedil;&otilde;es por entre as plantas rasteiras da mata,<br \/>\n    entreparando num lugar, escutando em outro, veio avan&ccedil;ando para a ceva<br \/>\n    uma cobra de grande talhe. Tinha o dorso fusco, sem brilho, maculado de losangos<br \/>\n    escuros, quase negros. A cabe&ccedil;a era chata, o focinho tronco, como que<br \/>\n    aparado, com duas fossazinhas tapadas, duas ventas falsas. De cada olho partia<br \/>\n    um tra&ccedil;o escuro que ia fenecer no pesco&ccedil;o. A cauda terminava<br \/>\n    em um como ros&aacute;rio curto, de contas c&oacute;meas, ocas, achatadas,<br \/>\n    que, ao rastejar do animal deixavam escapar um ru&iacute;do leve, quase impercept&iacute;vel,<br \/>\n    do pergaminho fuxicado.<\/p>\n<p> Chegou, viu os ratos, parou, foi-se torcendo em espiral, formou um rolo,<br \/>\n    donde emergia, atenta, vigilante, a pavorosa cabe&ccedil;a. O olhar negro<br \/>\n    luzente, g&eacute;lido, tinha uma fixidez fascinadora. A l&iacute;ngua l&uacute;rida,<br \/>\n    comprida, fina, b&iacute;fida, a&ccedil;oitava o ar em r&aacute;pidas lambidelas.<br \/>\n    Um dos roedores percebeu o r&eacute;ptil, fitou-o aterrado, encolheu-se, enovelou-se,<br \/>\n    arrepiou o p&ecirc;lo, come&ccedil;ou a chiar lastimosamente, miseravelmente.<br \/>\n    Os outros desapareceram.<\/p>\n<p> Continuava a fascina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O desgra&ccedil;ado rato tremia. Come&ccedil;ou de mover-se &agrave;s guinadas,<br \/>\n    dando saltos irregulares, at&aacute;xicos. N&atilde;o fugia, avan&ccedil;ava<br \/>\n    para a cobra. Chegou-se-lhe muito perto. O rolo hediondo distendeu-se r&aacute;pido,<br \/>\n    como uma mola de rel&oacute;gio, que se escapa do tambor, deu um bote. O animalzinho,<br \/>\n    ferido pelo dente fulm&iacute;neo, virou de costas. Dentro de um minuto estava<br \/>\n    morto.<\/p>\n<p> A cobra desenrolou-se ent&atilde;o de uma vez, estendeu-se ao comprido,<br \/>\n    abriu, escancarou uma boca enorme, come&ccedil;ou a deglutir a presa, desarticulando<br \/>\n    as mand&iacute;bulas para dar passagem ao corpo relativamente volumoso&#8230;<\/p>\n<p> Depois, saciada, farta, com o repasto a formar um bolo vis&iacute;vel exteriormente<br \/>\n    no abdome dilatado, foi deslizando, lenta, pregui&ccedil;osa, em busca de<br \/>\n    um abrigo, at&eacute; que chegou ao reparo, entrou, enrodilhou-se embaixo<br \/>\n    do banco de varas, e a&iacute; come&ccedil;ou o sono comatoso da digest&atilde;o<br \/>\n    equ&iacute;dnica.<\/p>\n<p> &#8211; Lenita passou o dia content&iacute;ssima, a lembrar-se a todo o momento<br \/>\n    da sua brilhante fa&ccedil;anha venat&oacute;ria. Fechava os olhos, via as<br \/>\n    cevas, os queixadas. Estava satisfeita consigo, estava orgulhosa.<\/p>\n<p> O jantar foi alegre.<\/p>\n<p> Louro, coberto de rodelas de lim&atilde;o, apetitoso, tentador, figurou<br \/>\n    nele o lombo de um dos queixadas. A pe&ccedil;a, nobre, a cabe&ccedil;a, la<br \/>\n    hure, desossada magistralmente por Barbosa, que, como o velho Dumas, era perito<br \/>\n    em culin&aacute;ria, campeou em um prato travessa, imponente, majest&aacute;tica,<br \/>\n    fragrante, cativadora.<\/p>\n<p> &#8211; Hoje morro de indigest&atilde;o, e &eacute; voc&ecirc; quem me mata, Lenita,<br \/>\n    dizia o coronel, repetindo peda&ccedil;o sobre peda&ccedil;o. H&aacute; que<br \/>\n    anos que me n&atilde;o encontro com porco-do-mato! Essa cabe&ccedil;a est&aacute;<br \/>\n    divina; como ela&#8230; s&oacute; o lombo!<br \/>\n    Logo depois do caf&eacute;, ela, Barbosa e a mucama seguiram para a ceva.<\/p>\n<p> Muito embora seja quente o dia na mata h&aacute; sempre frescor. A luz n&atilde;o<br \/>\n    era crua, mordente, como em uma campina rasa; esbate-se, quebra-se, d&aacute;<br \/>\n    aos contornos dos objetos um aveludado mole, uma languidez suav&iacute;ssima.<br \/>\n    Os sons se abrandam, tomam um como timbre murmuroso. Na<br \/>\n    mata domina a todas as horas o que quer que &eacute; de vago mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Lenita, nessa atmosfera bals&acirc;mica, sadia, achava-se feliz. Ao bem-estar<br \/>\n    gozoso, indefin&iacute;vel, que gera a boa digest&atilde;o de um repasto suculento,<br \/>\n    juntavam-se alegrias de mente, a consci&ecirc;ncia de que seu amor por Barbosa<br \/>\n    era correspondido, o triunfo espl&ecirc;ndido, inesperado, incr&iacute;vel<br \/>\n    sobre duas temerosas feras. Fora por trai&ccedil;&atilde;o que as matara a<br \/>\n    tiro, escondida&#8230;embora! Na luta terr&iacute;vel da vida toda a arma aproveita.<br \/>\n    A ast&uacute;cia &eacute; uma for&ccedil;a. A espingarda de bala explosiva<br \/>\n    &eacute; que equipara o homem ao rinoceronte: para mostrar coragem ir&aacute;<br \/>\n    o homem atacar o rinoceronte sem espingarda de bala explosiva? As alim&aacute;rias<br \/>\n    da selva n&atilde;o se deixam aproximar, fogem mal farejam a vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    do homem; o homem s&oacute; consegue t&ecirc;-las em alcance escondendo-se,<br \/>\n    dissimulando-se: pois, para ser leal, ir&aacute; o homem avis&aacute;-las<br \/>\n    a gritos de que se acha presente? A for&ccedil;a &eacute; uma contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fibra muscular, o pensamento &eacute; uma irrita&ccedil;&atilde;o da c&eacute;lula<br \/>\n    nervosa: por que n&atilde;o empregar uma contra a outra? Na batalha da exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    seja qual for a arma a empregar,<br \/>\n    o que impor &eacute; n&atilde;o ficar vencido: o vencedor tem sempre raz&atilde;o.<br \/>\n    Os queixadas tinham morrido. Lenita estava triunfante: o c&eacute;rebro vencera<br \/>\n    o m&uacute;sculo mais uma vez. O fato era esse, o mais n&atilde;o entrava<br \/>\n    em linha de conta.<\/p>\n<p> Barbosa quedou-se ao p&eacute; da caneleira, a estudar umas ep&iacute;fitas<br \/>\n    que descobrira sobre um tranco carcomido.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o n&atilde;o vem? perguntou-lhe Lenita.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; n&atilde;o. Leve consigo a Marciana, que pode ajud&aacute;-la<br \/>\n    no que for preciso. Perigo n&atilde;o existe mais : queixadas s&oacute; havia<br \/>\n    aqueles, desguaritados de uma vara que por aqui estanciou, h&aacute; meses.<br \/>\n    O administrador conhecia-os, j&aacute; os tinha visto quando andou a tirar<br \/>\n    madeiras.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o at&eacute; logo.<\/p>\n<p> &#8211; At&eacute; j&aacute;, eu n&atilde;o me demoro.<\/p>\n<p> Lenita seguiu com Marciana por um pouco; mandou que ela se quedasse ali,<br \/>\n    junto de uma &aacute;rvore, ao alcance da voz, &agrave;s ordens; chegou-se<br \/>\n    &agrave; ceva, espiando de longe, cautelosa. A ceva estava deserta.<\/p>\n<p> Entrou no reparo, sentou-se, disp&ocirc;s a espingarda, come&ccedil;ou a<br \/>\n    esperar.<\/p>\n<p> Um bando de urus vinham-se aproximando; por duas vezes ouviu ela perto o<br \/>\n    seu harpejo aflautado, sonoro, intercadente. Mostraram-se, invadiram a ceva.<br \/>\n    Eram doze. Uns deitaram-se, desidiosos, disp&eacute;pticos, arrufando as penas,<br \/>\n    espojando-se; outros entraram a comer gulosamente, sofregamente.<\/p>\n<p> Lenita fez um movimento para erguer-se, e pisou em uma coisa mole, que achatou<br \/>\n    sob a press&atilde;o do seu p&eacute;. Ao mesmo tempo quase, uma como chicotada<br \/>\n    surrou-lhe as pemas, e ela sentiu no peito do p&eacute; esquerdo um ligeiro<br \/>\n    prurido, um pequeno ardor.<\/p>\n<p> Fez-se um reboli&ccedil;o nas palmas do tapume, ao r&eacute;s-do-ch&atilde;o,<br \/>\n    e ouviu-se o chocalhar &aacute;spero, nervoso, irritante, como de uma vagem<br \/>\n    seca de fava, em vibra&ccedil;&atilde;o fren&eacute;tica.<\/p>\n<p> A um canto do reparo, armada pronta para novo bote, estava a cascavel. Os<br \/>\n    olhos pequeninos, fixos, luzentes como diamantes negros, pareciam despedir<br \/>\n    rel&acirc;mpagos gelados. O extremo da cauda, erguido verticalmente, tremia<br \/>\n    como o badalo de uma campainha el&eacute;trica, como um jato de vapor a escapar-se<br \/>\n    de um conduto estreito.<\/p>\n<p> Lenita sentia-se ferida, conheceu o perigo em que estava. De um salto saiu<br \/>\n    do reparo, atirou-se para o limpo da ceva.<\/p>\n<p> Os urus fizeram uma revoada temerosa, fugiram em todas as dire&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Com admir&aacute;vel presen&ccedil;a de esp&iacute;rito, Lenita sentou-se<br \/>\n    no ch&atilde;o, descobriu a perna, tirou o sapato e a meia.<\/p>\n<p> Na pele alv&iacute;ssima do peito do p&eacute; viam-se dois arranh&otilde;es<br \/>\n    paralelos, pequenos, de pouco mais de um cent&iacute;metro de comprimento.<\/p>\n<p> Lenita espremeu-os, limpou-os de uma como serosidade amarela que continham,<br \/>\n    tirou a fita que prendia a tran&ccedil;a, amarrou a perna, acima do tornozelo,<br \/>\n    apertou muito a atadura.<\/p>\n<p> Depois gritou pela rapariga, mandou que chamasse Barbosa a toda pressa.<\/p>\n<p> Barbosa n&atilde;o se demorou.<\/p>\n<p> Ao dar com Lenita, p&aacute;lida, sentada no ch&atilde;o da ceva, sem espingarda,<br \/>\n    com o p&eacute; descal&ccedil;o, ficou pasmado, n&atilde;o sabendo o que pensar.<\/p>\n<p> &#8211; Que tem, Lenita, que lhe aconteceu, perguntou acercando-se, ansiado.<\/p>\n<p> &#8211; Estou picada de cobra.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o me diga isso, n&atilde;o brinque assim.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Onde &eacute; que est&aacute; picada?<br \/>\n    &#8211; Aqui no p&eacute;, veja.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe que cobra foi?<br \/>\n    &#8211; Cascavel.<\/p>\n<p> Barbosa empalideceu; por um momento ficou como atordoado.<\/p>\n<p> Dominou-se, por&eacute;m, logo ajoelhou-se, tomou o p&eacute; de Lenita<br \/>\n    entre as m&atilde;os, examinou detidamente.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; de ser nada; disse.<\/p>\n<p> Nenhuma veia importante foi tocada. A precau&ccedil;&atilde;o que tomou<br \/>\n    de atar a perna com esta fita foi excelente. Agora, nada de acanhamento, entregue-se<br \/>\n    a mim deixe-me fazer o que entendo.<\/p>\n<p> Tirou do bolso um charuto, trincou-o nos dentes, mascou-o, encheu a boca<br \/>\n    de tabaco dissolvido em saliva, tomou de novo o p&eacute; de Lenita, com respeito,<br \/>\n    com adora&ccedil;&atilde;o quase, chegou-lhe a boca, entrou a sugar-lhe a<br \/>\n    ferida a sorvos vagarosos, cont&iacute;nuos, fortes.<\/p>\n<p> Cuspiu, renovou o tabaco, repetiu a opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; curioso, disse Lenita, eu nada sinto, nada absolutamente; &eacute;<br \/>\n    como se n&atilde;o tivesse sido picada.<\/p>\n<p> &#8211; Mas tem certeza mesmo de que foi cobra, de que foi cascavel?<br \/>\n    &#8211; Ora! Escute l&aacute;. Ouve?<br \/>\n    No reparo continuava a chocalhada sinistra.<\/p>\n<p> Barbosa tomou a espingarda, aperrou-a, aproximou-se do reparo, olhou pela<br \/>\n    porta, levou a arma &agrave; cara, fez fogo. Depois entrou e saiu logo com<br \/>\n    a cobra, morta, suspensa pela cauda. Tinha de seis a sete palmos, era muito<br \/>\n    grossa, um cr&oacute;talo medonho, um monstro.<\/p>\n<p> &#8211; Lenita, disse Barbosa, atirando o r&eacute;ptil ao ch&atilde;o, seria<br \/>\n    fazer-lhe inj&uacute;ria dissimular a gravidade do que aconteceu. Mas as provid&ecirc;ncias<br \/>\n    tomadas d&atilde;o-nos quase ganho de causa: voc&ecirc; com a atadura impediu<br \/>\n    em tempo a circula&ccedil;&atilde;o do sangue, e por conseguinte a absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do veneno; eu suguei a ferida, e retirei o que era ainda poss&iacute;vel retirar.<br \/>\n    Sente alguma coisa agora?<br \/>\n    Apenas um pouco de turva&ccedil;&atilde;o na vista.<\/p>\n<p> &#8211; Vamos para casa. Vou seguir um processo racional de curativo, e espero<br \/>\n    v&ecirc;-la logo risonha e alegre, outra vez, aqui na ceva. N&atilde;o tire,<br \/>\n    n&atilde;o deixe afrouxar o amarilho da perna.<\/p>\n<p> Foram. Lenita em caminho teve duas vertigens, quase caiu. Em algumas subidas<br \/>\n    &aacute;speras Barbosa carregava-a. Marciana acompanhara-os levando as espingardas.<br \/>\n    Chegaram. Lenita despiu-se, deitou-se. Tinha frio, sentia sonol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Barbosa foi ao seu quarto e de l&aacute; voltou com uma garrafa de rum:<br \/>\n    abriu-a, encheu um c&aacute;lice grande, f&ecirc;-lo beber a Lenita, inteirinho<br \/>\n    de uma vez.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, temos meio caminho andado. Agora toda a docilidade, sim?<br \/>\n    Lenita aquiesceu com um gesto triste.<\/p>\n<p> Barbosa assentou-se &agrave; beira da cama, levantou discretamente uma parte<br \/>\n    das cobertas, tomou o p&eacute; ferido de Lenita, desfez o atilho da perna.<br \/>\n    Um vinco em circulo afundava-se l&iacute;vido, um pouco acima do tornozelo.<br \/>\n    O p&eacute; estava inchado.<\/p>\n<p> Esfregou por algum tempo a pele, restabelecendo a circula&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    tomou depois a p&ocirc;r a ligadura.<\/p>\n<p> Lenita entrou a ficar ansiada, aflita.<\/p>\n<p> &#8211; D&oacute;i-me a cabe&ccedil;a, foge-me de todo a vista, confundem-me as<br \/>\n    id&eacute;ias.<\/p>\n<p> -Tome mais um c&aacute;lice de rum, &eacute; preciso.<\/p>\n<p> &#8211; Torno, mas escute, diga-me uma coisa com franqueza, eu vou morrer, n&atilde;o?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o morre. Eu respondo pela sua vida.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o morro! Diz isso para me animar. Eu bem sei o que &eacute; veneno<br \/>\n    of&iacute;dico.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m eu, e por isso afirmo que n&atilde;o morre.<\/p>\n<p> &#8211; Seja. Em todo o caso quero lhe dizer uma coisa, chegue-se aqui bem perto.<\/p>\n<p> Barbosa aproximou a cabe&ccedil;a do rosto da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; A minha convic&ccedil;&atilde;o &eacute; que morro e eu n&atilde;o quero<br \/>\n    morrer sem lhe contar um segredo.<\/p>\n<p> &#8211; Diga, Lenita, diga o que quiser, confie em mim, sou seu amigo.<\/p>\n<p> &#8211; Amo-o, Barbosa, amo-o muito&#8230;<\/p>\n<p> Barbosa teve um deslumbramento. Dominou-se, curvou-se, beijou Lenita na<br \/>\n    testa, castamente, paternalmente.<\/p>\n<p> &#8211; Pobre menina!&#8230; Mas n&atilde;o morre! Tome mais um c&aacute;lice de rum,<br \/>\n    sim?<br \/>\n    &#8211; Ora, o primeiro j&aacute; me atordoou.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; mesmo para isso, tome.<\/p>\n<p> Lenita ergueu-se, bebeu a custo, recaiu pesadamente sobre o travesseiro.<\/p>\n<p> &#8211; Tenho sono&#8230; quero dormir&#8230;<\/p>\n<p> E fechou os olhos.<\/p>\n<p> Barbosa velou-lhe &agrave; cabeceira quase a noite toda: de meia em meia<br \/>\n    hora desfazia-lhe o atilho da perna e, depois de ter restabelecido a circula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por um pouco, tomava a apert&aacute;-lo: a mo&ccedil;a n&atilde;o dava acordo.<br \/>\n    Inconscientemente, a dormir, murmurando palavras inconexas; ingeriu mais dois<br \/>\n    c&aacute;lices de rum que lhe fez beber Barbosa, meio &agrave; for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Pela madrugada despertou, chamou a mucama. Barbosa retirou-se discretamente,<br \/>\n    Lenita tornou logo a adormecer.<\/p>\n<p> Quando amanheceu Barbosa interrogou a mucama: <br \/>\n    &#8211; D. Lenita urinou?<br \/>\n    &#8211; Urinou, sim, senhor.<\/p>\n<p> &#8211; Deitou voc&ecirc; fora a urina?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, senhor, est&aacute; ali no vaso, dentro do criado-mudo.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; buscar.<\/p>\n<p> A rapariga trouxe o vaso: estava acima de meio de uma urina carregada, sanguinolenta.<\/p>\n<p> &#8211; D. Lenita suou?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o reparei, n&atilde;o senhor.<\/p>\n<p> &#8211; V&aacute; ver. Se tiver suado, troque-lhe a roupa, e traga-me aqui a camisa<br \/>\n    molhada.<\/p>\n<p> Dentro de dez minutos a rapariga voltou com o camisol&atilde;o de dormir,<br \/>\n    que tirara de Lenita, &uacute;mido, levemente tinto em alguns lugares, de<br \/>\n    um vermelho deslavado.<\/p>\n<p> Ao meio-dia a mo&ccedil;a acordou.<\/p>\n<p> Estava fresca, bem disposta, sentia-se com apetite.<\/p>\n<p> Barbosa mandou vir um caldo de frango, suculento, grosso, f&ecirc;-la tomar<br \/>\n    uma x&iacute;cara dele e beber um c&aacute;lice de vinho velho.<\/p>\n<p> O coronel, informado do que acontecera, estava aflit&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> &#8211; Vegetalina, por que n&atilde;o lhe deu vegetalina? &Eacute; um grande<br \/>\n    rem&eacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; Grande rem&eacute;dio &eacute; o &aacute;lcool, respondeu Barbosa. A vegetalina<br \/>\n    e outros quejandos espec&iacute;ficos devem o efeito, que se lhes atribui,<br \/>\n    ao &aacute;lcool em que s&atilde;o administrados.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe que a vegetalina tem arrancado muita gente da sepultura.<\/p>\n<p> &#8211; E como se d&aacute; a vegetalina, n&atilde;o me dir&aacute;?<br \/>\n    &#8211; Em cacha&ccedil;a forte, de vinte e quatro graus.<\/p>\n<p> &#8211; Ora a&iacute; est&aacute;. Lenita n&atilde;o tomou vegetalina, e eu a<br \/>\n    considero livre de perigo.<\/p>\n<p> &#8211; Tinha pouco veneno a cascavel, era pequena?<br \/>\n    &#8211; Era enorme.<\/p>\n<p> &#8211; E Lenita, acha voc&ecirc; que esteja livre de perigo?<br \/>\n    &#8211; Ela teve a boa inspira&ccedil;&atilde;o de atar a perna; chupei-lhe as feridas:<br \/>\n    pouco veneno foi absorvido.<\/p>\n<p> &#8211; Voc&ecirc; chupou? E p&ocirc;s fumo na boca? N&atilde;o tinha alguma f&iacute;stula<br \/>\n    na gengiva, alguma escoria&ccedil;&atilde;o na l&iacute;ngua?<br \/>\n    &#8211; Felizmente tenho a boca perfeitamente s&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; E que lhe deu voc&ecirc; a beber?<br \/>\n    &#8211; &Aacute;lcool excelente, rum de Jamaica.<\/p>\n<p> &#8211; S&oacute;?<br \/>\n    &#8211; S&oacute;<br \/>\n    &#8211; Hum! n&atilde;o sei&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; O meu tratamento foi todo racional: pus em pr&aacute;tica o que aprendi<br \/>\n    de Paul Bert, que o aprendeu de Claude Bernard. Vossa merc&ecirc; conhece<br \/>\n    bem o jogo da circula&ccedil;&atilde;o. O sangue hematoso nos pulm&otilde;es<br \/>\n    vai, pela veia pulmonar, armazenar-se nos compartimentos esquerdos do cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    da&iacute; sai pela aorta, corre pelo sistema arterial, vivifica todo o organismo,<br \/>\n    chega aos capilares, transfunde-se, toma carregado de res&iacute;duos pelas<br \/>\n    veias, entra na aur&iacute;cula direita do cora&ccedil;&atilde;o, recolhe<br \/>\n    os elementos reparadores trazidos pelas veias subcl&aacute;vias, passa para<br \/>\n    o ventr&iacute;culo respectivo, volta a depurar-se, a reoxigenar-se nos pulm&otilde;es,<br \/>\n    e assim por diante, sempre. Ora muito bem. No caso de uma infec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    qualquer de veneno, de uma mordedura de cobra por exemplo, h&aacute; tr&ecirc;s<br \/>\n    fases, tr&ecirc;s etapas indefect&iacute;veis: primeira, dissolve-se o veneno<br \/>\n    nos humores animais que se encontram na ferida; segunda, penetra o veneno<br \/>\n    nas veias e &eacute; levado ao cora&ccedil;&atilde;o; terceira, p&otilde;e-se<br \/>\n    o veneno em contato com os elementos org&acirc;nicos do corpo por meio da<br \/>\n    torrente arterial. Meu pai sabe que o que constitui venenosa uma subst&acirc;ncia<br \/>\n    qualquer n&atilde;o &eacute; a sua qualidade, mas sim a sua quantidade: um<br \/>\n    miligrama de estricnina n&atilde;o &eacute; venenoso para o homem porque,<br \/>\n    tomado de uma vez, n&atilde;o o mata: um litro de conhaque &eacute; venenoso<br \/>\n    para ele porque, tomado de uma vez, fulmina-o. Um veneno que se elimina antes<br \/>\n    de exercer a&ccedil;&atilde;o t&oacute;xica deixa de ser veneno. No caso de<br \/>\n    mordedura de cobra, para que o veneno produza efeito mort&iacute;fero, &eacute;<br \/>\n    preciso que a sua elimina&ccedil;&atilde;o seja desproporcional, &eacute;<br \/>\n    preciso que seja menor do que a absor&ccedil;&atilde;o: &eacute; indispens&aacute;vel<br \/>\n    que haja acumula&ccedil;&atilde;o no sangue. Pois bem: o veneno est&aacute;<br \/>\n    na ferida, mas n&atilde;o pode subir, que lho impede uma ligadura. Imposs&iacute;vel<br \/>\n    prolongar tal estado, traria a gangrena. For&ccedil;a &eacute; desfazer o<br \/>\n    atilho, deixar subir o sangue e com ele o veneno. Desfaz-se, deixa-se aos<br \/>\n    poucos, por&eacute;m, de modo que o veneno que entra com o sangue n&atilde;o<br \/>\n    seja suficiente para produzir a&ccedil;&atilde;o letal, de modo que seja eliminado<br \/>\n    antes que venha outra quantidade que, somada com ele, possa produzir essa<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o. Assim, pois, solta-se a ligadura, aperta-se de novo, toma-se<br \/>\n    a soltar, toma-se a apertar, at&eacute; que todo o veneno tenha percorrido<br \/>\n    o corpo e tenha sido eliminado sem efeito mort&iacute;fero. O &aacute;lcool<br \/>\n    excita os nervos, aviva a torrente circulat&oacute;ria; ajuda, portanto, facilita<br \/>\n    a elimina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; E h&aacute; exemplos de curas realizadas com esse processo?<br \/>\n    &#8211; In&uacute;meros. Claude Bernard salvava, quando queria, animais que ele<br \/>\n    pr&oacute;prio tinha ferido com flechas curarizadas. Na prov&iacute;ncia do<br \/>\n    Rio uma amigo meu foi picado por um surucucu enorme, e eu salvei-o seguindo<br \/>\n    este tratamento.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o a Lenita?&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; o meu segundo caso de cura: julgo-a t&atilde;o livre de perigo<br \/>\n    agora como estava ontem, antes de ser picada.<\/p>\n<p> &#8211; Posso v&ecirc;-la?<br \/>\n    &#8211; Por certo.<\/p>\n<p> Entraram no quarto. Lenita estava sentada na cama, com as pemas encruzadas<br \/>\n    &agrave; chinesa, por debaixo das cobertas. Alegre, radiante, tinha esse ar<br \/>\n    de triunfo que t&ecirc;m todos os doentes escapos de mol&eacute;stia grave.<br \/>\n    Um len&ccedil;o de cambraia alv&iacute;ssima, dobrado em tira, cingia-lhe<br \/>\n    a cabe&ccedil;a como um diadema, fazendo sobressair o brilho dos olhos, o<br \/>\n    negror dos cabelos, o doirado p&aacute;lido das faces. Uma camisa de dormir,<br \/>\n    afogada, de seda crua, mal dissimulava nas pregas largas e moles a linha dura<br \/>\n    dos seios.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, com que, pronta para outra! disse o coronel. Pois escapou<br \/>\n    de boa! &Eacute; no que d&atilde;o as ca&ccedil;adas. Podia estar morta a<br \/>\n    esta hora!<br \/>\n    &#8211; Mas estou viva.<\/p>\n<p> &#8211; E n&atilde;o ganhou medo ao mato?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, ganhei experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Serei vigilante, cautelosa para o futuro: n&atilde;o assentarei o p&eacute;<br \/>\n    em um lugar qualquer sem o ter examinado bem primeiro. E, realmente, mais<br \/>\n    foi o susto. Olhe eu tive um pouco de dor de cabe&ccedil;a, enfraquecimento<br \/>\n    geral, sonol&ecirc;ncia: sofrer, sofrer mesmo, n&atilde;o sofri.<\/p>\n<p> &#8211; Foi feliz, acertou com bom m&eacute;dico.<\/p>\n<p> Lenita volveu para Barbosa um olhar doce, repassado de gratid&atilde;o.<\/p>\n<h4><a name=\"14\">Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h4>\n<p>O veneno da cobra, parece, deixara viciado o sangue de Lenita.<\/p>\n<p> Sentia-se ela tomada de acessos s&uacute;bitos de fraqueza moral, exatamente<br \/>\n    como nos primeiros tempos de sua vinda para a fazenda.<\/p>\n<p> Deixara de ca&ccedil;ar, deixara de ler; extinguira-se-lhe a sede de ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Sentava-se a toda a hora na rede ou em uma cadeira de balan&ccedil;o e imergia<br \/>\n    em cisma. Comia pouco, quase nada.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes encostava-se &agrave; mesa, debru&ccedil;ava-se, pegava<br \/>\n    em um l&aacute;pis, em uma flor, em um objeto qualquer, e virava-o, revirava-o,<br \/>\n    batia com ele em ritmo estranho, durante tempo largo, com os olhos parados,<br \/>\n    sem express&atilde;o na face, como se estivesse a um milh&atilde;o de l&eacute;guas<br \/>\n    das coisas da terra.<\/p>\n<p> Barbosa, por sua parte, tomara-se reservado; a confiss&atilde;o de amor<br \/>\n    que Lenita lhe fizera acanhava-o a ele.<\/p>\n<p> Insensivelmente deixara-se prender em um la&ccedil;o de que n&atilde;o cogitara,<br \/>\n    que nem sequer suspeitara. Achava-se em posi&ccedil;&atilde;o escabrosa. Amava<br \/>\n    a Lenita doidamente, perdidamente; sabia que era dela amado; ouvira-lho a<br \/>\n    ela pr&oacute;pria. Que mais? Ou cortar de vez tudo, fazer as malas, embarcar-se<br \/>\n    para a Europa, ou tomar-se abertamente amante da rapariga. A flirtation sentimental,<br \/>\n    plat&ocirc;nica, naquele caso, era uma imbecilidade, um c&uacute;mulo de rid&iacute;culo.<\/p>\n<p> E Barbosa passava a maior parte do tempo em visitas e jogos pela vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    ele que dantes n&atilde;o jogava, que n&atilde;o visitava a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Andava pelo mato, de espingarda; mas a espingarda era um pretexto; ele n&atilde;o<br \/>\n    ca&ccedil;ava.<\/p>\n<p> Uma tarde, ao descambar do sol, sentou-se cansado &agrave; raiz de uma figueira<br \/>\n    branca, no centro da mata virgem, olhou para cima maquinalmente; viu um enorme<br \/>\n    quati-mund&eacute;, que o espiava da bifurca&ccedil;&atilde;o de um galho,<br \/>\n    fazendo-lhe gaifonas com o longo focinho pontiagudo. Como se n&atilde;o bastasse<br \/>\n    a tenta&ccedil;&atilde;o, ouviu-se um batido de asas forte, volumoso, e um<br \/>\n    macuco gigantesco veio empoleira na figueira, bem por cima do quati. Pousou,<br \/>\n    achatou-se em um galho, sacudiu-se, aconchegou-se, encolheu a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    soltou tr&ecirc;s pios altos, seguidos, compassados. Barbosa n&atilde;o prestou<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o nem ao quadr&uacute;pede, nem &agrave; ave. A sua espingarda<br \/>\n    continuou im&oacute;vel entre os joelhos.<\/p>\n<p> Por diante dos olhos, em uma como vis&atilde;o betitifica, esvoa&ccedil;ava-lhe<br \/>\n    a imagem de um p&eacute;, do p&eacute; de Lenita, branco, cetinoso, brev&iacute;ssimo,<br \/>\n    com unhas r&oacute;seas transparentes, e veias azuladas.<\/p>\n<p> E ele beijara esse p&eacute;, mais do que isso, ele sugara lentamente, por<br \/>\n    muito tempo, tendo na m&atilde;o o calcanhar ador&aacute;vel, redondo, rubro,<br \/>\n    onde a press&atilde;o de seus dedos deixava marcas muito brancas.<\/p>\n<p> Sentia o saibo da pele fina, veludosa, amea&ccedil;ada de morte, mas cheia<br \/>\n    de vida. Seus l&aacute;bios como que tinham mem&oacute;ria, recordavam-se.<\/p>\n<p> E o beijo paternalmente parvo que lhe dera na testa ao confessar-lhe ela<br \/>\n    o amor que lhe tinha. Ainda lhe hauria o perfume natural dos cabelos, o h&aacute;lito<br \/>\n    fresco, l&aacute;cteo, s&atilde;o, como o que vem da boca de um bezerro novo.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o aceitar esse amor que se impunha, que se dava, que se<br \/>\n    oferecia? N&atilde;o procurara ele a Lenita, viera ela a seu encontro, c&ocirc;nscia<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o, sabendo que ele era casado, que a n&atilde;o poderia<br \/>\n    nunca desposar legitimamente.<\/p>\n<p> E sem rebu&ccedil;os, com prud&ecirc;ncia cast&iacute;ssima, fizera uma<br \/>\n    confiss&atilde;o que as mulheres nunca querem ser as primeiras a fazer. Gracejo<br \/>\n    n&atilde;o tinha sido, a ocasi&atilde;o n&atilde;o era para gracejos.<\/p>\n<p> Que mal adviria ao mundo de que se enla&ccedil;assem, de que se possu&iacute;ssem,<br \/>\n    de que se gozassem um homem e uma mulher que se amavam?<br \/>\n    N&atilde;o se podia casar com Lenita? Que tinha isso? Que &eacute; o casamento<br \/>\n    atual sen&atilde;o uma institui&ccedil;&atilde;o sociol&oacute;gica, evolutiva<br \/>\n    como tudo o que diz respeito aos seres vivos, sofrivelmente imoral e muit&iacute;ssimo<br \/>\n    rid&iacute;cula? O casamento do futuro n&atilde;o h&aacute; de ser este contrato<br \/>\n    draconiano, est&uacute;pido, que assenta na promessa solene daquilo exatamente<br \/>\n    que se n&atilde;o pode fazer. O homem, por isso mesmo que ocupa o supremo<br \/>\n    degrau da escada biol&oacute;gica, &eacute; essencialmente vers&aacute;til,<br \/>\n    mud&aacute;vel. Hipotecar um futuro incerto, menos ainda, improv&aacute;vel,<br \/>\n    com ci&ecirc;ncia de que a hipoteca n&atilde;o tem valor, ser&aacute; tudo<br \/>\n    quanto quiserem, menos moral. Amor eterno s&oacute; em poesias piegas. Casamento<br \/>\n    sem div&oacute;rcio legal, regularizado, honroso, para ambas as partes, &eacute;<br \/>\n    caldeira de vapor sem v&aacute;lvulas de seguran&ccedil;a, arrebenta. Encasacas-se,<br \/>\n    paramenta-se um homem, atavia-se, orna-se de flores simb&oacute;licas uma<br \/>\n    mulher: e l&aacute; v&atilde;o ambos &agrave; igreja, em pompa solene, com<br \/>\n    grande comitiva: para qu&ecirc;? Para anunciar em p&uacute;blico, em presen&ccedil;a<br \/>\n    de quem quiser ver e ouvir, a repiques de sino e som de trompa, que ele quer<br \/>\n    copular com ela, que ela quer copular com ele, que n&atilde;o h&aacute; quem<br \/>\n    se oponha, que os parentes levam muito a bem&#8230; Bonito! E a multid&atilde;o<br \/>\n    de badauds, velhos e mo&ccedil;os, machos e f&ecirc;meas, de olhos encarquilhados<br \/>\n    e dentes &agrave; mostra em riso alvar, dando-se cotoveladas maldosas, segredando<br \/>\n    obscenidades! Seria rid&iacute;culo, se n&atilde;o fosse chato, sujo.<\/p>\n<p> O amor &eacute; filho da necessidade tir&acirc;nica, fatal, que tem todo<br \/>\n    o organismo de se reproduzir, de pagar a d&iacute;vida do antepassado segundo<br \/>\n    a f&oacute;rmula bram&aacute;tica. A palavra amor &eacute; um eufemismo para<br \/>\n    abrandar um pouco a verdade ferina da palavra cio. Fisiologicamente, verdadeiramente,<br \/>\n    amor e cio v&ecirc;m a ser uma coisa s&oacute;. O in&iacute;cio primordial<br \/>\n    do amor est&aacute;, como dizem os bi&oacute;logos, na afinidade eletiva de<br \/>\n    duas c&eacute;lulas diferentes, ou melhor, de duas c&eacute;lulas diferentemente<br \/>\n    eletrizadas. A complexidade assombrosa do organismo humano converte essa afinidade<br \/>\n    primitiva, que deveria ter sempre como resultado uma crian&ccedil;a, em uma<br \/>\n    batalha de nervos que, contrariada ou mal dirigida, produz a c&oacute;lera<br \/>\n    de Aquiles, os desmandos de Messalina, os &ecirc;xtases de Santa Teresa. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; recalcitrar contra o amor, for&ccedil;a &eacute; ceder. &Agrave;<br \/>\n    natureza n&atilde;o se resiste, e o amor &eacute; natureza. Os antigos tiveram<br \/>\n    uma intui&ccedil;&atilde;o clara da verdade quando simbolizaram em uma deusa<br \/>\n    formos&iacute;ssima implacavelmente vingativa, na V&ecirc;nus Afrodite, o<br \/>\n    la&ccedil;o que prende os seres, a alma que lhes d&aacute; vida.<\/p>\n<p> Lenita se lhe oferecia, pois bem, ele seria o amante de Lenita.<\/p>\n<p> E Barbosa ergueu-se robustecido, forte, como quem acaba de tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definitiva, caminhou apressadamente para casa.<\/p>\n<p> Quando chegou era quase noite, j&aacute; estava escuro.<\/p>\n<p> Entrou no seu quarto, largou a espingarda e a patrona, riscou f&oacute;sforos,<br \/>\n    acendeu uma vela, lavou as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Saiu.<\/p>\n<p> No corredor, ao chegar &agrave; ante-sala, deu com algu&eacute;m: era Lenita.<\/p>\n<p> &#8211; Oh ! exclamou ele.<\/p>\n<p> As m&atilde;os de ambos como que se procuravam no escuro: encontraram-se,<br \/>\n    entrela&ccedil;aram-se.<\/p>\n<p> Barbosa puxou Lenita para si, quis beij&aacute;-la na boca, n&atilde;o teve<br \/>\n    &acirc;nimo, beijou-a ainda na testa.<\/p>\n<p> Lenita abandonava-se, entregava-se, molemente, sem resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> No corredor tudo eram trevas: Barbosa n&atilde;o via a chama negra da vol&uacute;pia<br \/>\n    que torvelinhava nos olhos da mo&ccedil;a; n&atilde;o lhe via a palidez das<br \/>\n    faces, o rubor dos l&aacute;bios, a arfarem t&iacute;midos, mendigando beijos;<br \/>\n    n&atilde;o lhe via o quebramento langue de pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p> A resolu&ccedil;&atilde;o tomada fraqueou, cedeu: sentiu-se Barbosa sem<br \/>\n    coragem, sem desejos, sem virilidade mesmo. Batia-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a estos desordenados, como o de um seminarista que pela vez primeira se acha<br \/>\n    a s&oacute;s com uma mulher da vida.<\/p>\n<p> De repente, afastou Lenita de si com gesto brusco, fugiu desatinado.<\/p>\n<p> Ouviu-se um solu&ccedil;o triste, dorido, que vinha das trevas do corredor.<\/p>\n<p> A ceia dessa noite correu cheia de constrangimento: nem Barbosa olhava para<br \/>\n    Lenita, nem Lenita para Barbosa. Comiam, ou antes, fingiam comer em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8211; Esta menina precisa de tomar rem&eacute;dios, disse o coronel, reparando<br \/>\n    no abatimento, no apetite quase nulo de Lenita. Depois da tal hist&oacute;ria<br \/>\n    da cobra deixou de ser o que era. Se tivesse usado da vegetalina, o caso seria<br \/>\n    outro.<\/p>\n<p> Veio o ch&aacute;: quando acabaram de tom&aacute;-lo, Barbosa levantou-se,<br \/>\n    deu boa-noite ao pai, despediu-se de Lenita em voz sumida, soturna, cerimoni&aacute;tica;<br \/>\n    chamou-lhe minha senhora.<\/p>\n<p> Recolheu-se.<\/p>\n<p> Lenita ainda conversou por algum tempo com o coronel. Seguia, fingia seguir<br \/>\n    bem o assunto, fazendo observa&ccedil;&otilde;es, multiplicando perguntas,<br \/>\n    afetando muito interesse. De repente deixava escapar uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    forte, descabida, deslocada, que nada tinha com o que estava tratando. Ca&iacute;a<br \/>\n    em si! procurava homologar o que dissera, atrapalhava-se, confundia-se. Dava<br \/>\n    estreme&ccedil;&otilde;es s&uacute;bitos, como quem recebe inesperadamente<br \/>\n    uma alfinetada. Corava, empalidecia, tinha na voz um timbre esquisisto.<\/p>\n<p> &#8211; Menina, sabe voc&ecirc; de uma coisa, disse o coronel, v&aacute; se acomodar:<br \/>\n    voc&ecirc; n&atilde;o est&aacute; boa. Se eu n&atilde;o tivesse visto que<br \/>\n    voc&ecirc; quase nada comeu, diria que a ceia lhe tinha feito mal. Ande, v&aacute;<br \/>\n    se deitar, procure dormir.<\/p>\n<p> Lenita obtemperou sem replicar.<\/p>\n<p> Foi para o seu quarto.<\/p>\n<p> Um banho momo, em que se demorou, n&atilde;o serviu para acalmar-lhe os<br \/>\n    nervos, muito pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio. Arrepiava-se ao perpassar da esponja, ao sentir as suas<br \/>\n    pr&oacute;prias m&atilde;os; a &aacute;gua t&eacute;pida irritava-a como se<br \/>\n    fosse um contato humano estranho.<\/p>\n<p> Saiu, enxugou-se em uma toalha felpuda, grande, vestiu uma camisa branca<br \/>\n    de cambraia fin&iacute;ssima, deitou-se por sobre as cobertas, de costas,<br \/>\n    bem estendida, com as m&atilde;os entran&ccedil;adas por baixo da cabe&ccedil;a,<br \/>\n    com uma perna por cima da outra.<\/p>\n<p> A cambraia mole, semitransparente, desenhava-lhe as formas esculturais do<br \/>\n    busto, do ventre, das coxas, e toda essa alvura de pele e de tela sobressa&iacute;a,<br \/>\n    real&ccedil;ada pelo vermelho-escuro do damasco da colcha. O tempo passava.<\/p>\n<p> Do quarto de Lenita ouvia-se bater compassado, lento, o p&ecirc;ndulo do<br \/>\n    velho rel&oacute;gio franc&ecirc;s da ante-sala.<\/p>\n<p> Deu dez horas, deu onze, deu meia-noite. Cada pancada do badalo na campainha<br \/>\n    soava muito distinta, muito, vibrante.<\/p>\n<p> Lenita mudava de posi&ccedil;&atilde;o, revolvia-se na cama, n&atilde;o<br \/>\n    dormia n&atilde;o podia adormecer.<\/p>\n<p> Uma obsess&atilde;o mordente subia-lhe da periferia do corpo, comprimia-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, atordoava-lhe o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Sentia picadas na pele, tinha calafrios, zuniam-lhe os ouvidos.<\/p>\n<p> Sugando-lhe as feridas feitas pelos aguilh&otilde;es da cobra, Barbosa retirara<br \/>\n    um veneno, mas deixara outro. Lenita nunca mais cessara de sentir a suc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    morna, demorada, forte, dos l&aacute;bios de Barbosa em torno &agrave;s picadas,<br \/>\n    no peito do p&eacute;. A sensa&ccedil;&atilde;o estranha, deliciosa, incompat&iacute;vel<br \/>\n    que produzira essa suc&ccedil;&atilde;o perdurava, vivia; mais ainda, multiplicava-se,<br \/>\n    alastrava. Era um formigamento circular que lhe trepava pelas pemas, que lhe<br \/>\n    afagava o ventre, que lhe titilava os seios, que lhe comichava os l&aacute;bios.<\/p>\n<p> E ela queria Barbosa, desejava Barbosa, gania por Barbosa.<\/p>\n<p> Esperar at&eacute; amanhecer: uma! duas! tr&ecirc;s! quatro! cinco! seis<br \/>\n    horas! Ouvir o tic-tac do rel&oacute;gio, lento, medido, regular, igual, met&aacute;lico;<br \/>\n    mon&oacute;tono, impiedoso; ouvi-lo sessenta vezes por minuto, tr&ecirc;s<br \/>\n    mil e seiscentas vezes por hora, vinte e uma mil e seiscentas vezes nas seis<br \/>\n    horas que faltavam para amanhecer? Imposs&iacute;vel!<br \/>\n    Ergueu-se e, descal&ccedil;a, em camisa, inconsciente, louca, abriu a porta,<br \/>\n    atravessou a sala, abriu a outra porta, saiu na ante-sala, enfiou pelo corredor,<br \/>\n    parou junto &agrave; porta do quarto de Barbosa, a escutar.<\/p>\n<p> E nada ouvia.<\/p>\n<p> Dentro, fora, dominava um sil&ecirc;ncio profundo, quebrado apenas pelas<br \/>\n    pulsa&ccedil;&otilde;es violentas do seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Encostou o ouvido &agrave; fechadura, nada.<\/p>\n<p> O seu ombro fez uma ligeira press&atilde;o sobre a folha da porta, e esta<br \/>\n    cedeu, entreabriu-se, chiando ligeiramente.<\/p>\n<p> Uma lufada de ar quente, saturada de aroma de charuto havano, veio afagar-lhe<br \/>\n    o rosto, os seios, o busto quase desnudo no decote grande da camisa.<\/p>\n<p> Lenita perdeu completamente a cabe&ccedil;a, entrou: em bicos de p&eacute;s,<br \/>\n    sem fazer rumor, escorregando, deslizando, como um fantasma, abeirou-se da<br \/>\n    cama de Barbosa.<\/p>\n<p> Curvou-se, apoiou a m&atilde;o no respaldo da cabeceira, aproximou a sua<br \/>\n    cabe&ccedil;a do peito do homem adormecido, escutou-lhe a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    igual, hauriu-lhe o cheiro m&aacute;sculo do corpo, sentiu-lhe a tepidez da<br \/>\n    pele.<\/p>\n<p> Quedou-se por muito tempo nesse ambiente entorpecedor. De s&uacute;bito<br \/>\n    o bra&ccedil;o com que se<br \/>\n    encostava falseou; ela caiu pesadamente sobre o leito.<\/p>\n<p> Barbosa deu um estreme&ccedil;&atilde;o, acordou sobressaltado, sentou-se,<br \/>\n    estendeu as m&atilde;os, encontrou-a, asiu-a, perguntou assustado:<br \/>\n    &#8211; Quem &eacute;? Quem &eacute;?<br \/>\n    A c&uacute;tis morna, cetinosa da mo&ccedil;a, macieza da cambraia que a envolvia<br \/>\n    em parte, o perfume de penu d&#8217;Espagne que de seu corpo exalava, n&atilde;o<br \/>\n    lhe permitiam d&uacute;vidas; mas ele recusava a evid&ecirc;ncia dos sentidos,<br \/>\n    n&atilde;o podia crer. Achava absurda, monstruosa, imposs&iacute;vel a presen&ccedil;a<br \/>\n    de Lenita em seu quarto, &agrave;quela hora, naquela quase nudez.<\/p>\n<p> E, contudo, era real, ali estava: ele sentia-lhe a carne quente, dura, palpava-lhe<br \/>\n    a pele h&iacute;spida pelo desejo, escutava-lhe o estuar do sangue, e o pulsar<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Um tropel de id&eacute;ias desordenadas agitou-se-lhe, confundis-se-lhe<br \/>\n    no c&eacute;rebro excitado; o racioc&iacute;nio ausentou-se, venceu o desejo,<br \/>\n    triunfou a sugest&atilde;o da carne.<\/p>\n<p> Sentou-se r&aacute;pido &agrave; beira da cama sem largar a mo&ccedil;a,<br \/>\n    puxou-a para si, cingiu-a ao peito, segurou-lhe a cabe&ccedil;a com a m&atilde;o<br \/>\n    esquerda, e, nervoso, brutal, colocou-lhe a boca na boca, achatou os seus<br \/>\n    bigodes &aacute;speros de encontro aos l&aacute;bios macios dela, bebeu-lhe<br \/>\n    a respira&ccedil;&atilde;o. Lenita tomou-se de um sentimento inexplic&aacute;vel<br \/>\n    de terror, quis fugir, fez um esfor&ccedil;o violento para desenla&ccedil;ar-se,<br \/>\n    para soltar-se.<\/p>\n<p> Era o medo do macho, esse terr&iacute;vel medo fisiol&oacute;gico que, nos<br \/>\n    pr&oacute;dromos do primeiro coito, assalta a toda mulher, a toda f&ecirc;mea.<\/p>\n<p> Baldado intento!<br \/>\n    Retinham-na os bra&ccedil;os robustos de Barbosa: em suas faces, em seus olhos,<br \/>\n    em sua nuca os beijos dele multiplicavam-se: esses beijos ardentes, faminto<br \/>\n    queimavam-lhe a epiderme, punham-lhe lava candente no sangue, flagelavam-lhe<br \/>\n    os nervos, torturava-lhe a carne.<\/p>\n<p> Cada vez mais fora de si, mais atrevido, ele desceu &agrave; garganta, chegou<br \/>\n    aos seios t&uacute;midos, duros, arfantes. Osculou-os, beijou-os, a princ&iacute;pio<br \/>\n    respeitoso, amedrontado, como quem comete um sacril&eacute;gio; depois insolente,<br \/>\n    lascivo, bestial como um s&aacute;tiro. Crescendo em exalta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    chupou-os, mordiscou-lhes os bicos arreitados.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe-me ! Deixe-me ! Assim n&atilde;o quero ! implorava, resistia Lenita,<br \/>\n    com voz quebrada, ofegante, esfor&ccedil;ando-se por escapar, e presa, todavia,<br \/>\n    de uma necessidade invenc&iacute;vel de se dar, de se abandonar.<\/p>\n<p> De repente fraquejaram-lhe as pemas, os bra&ccedil;os desca&iacute;ram-lhe<br \/>\n    ao longo do corpo, a cabe&ccedil;a pendeu-lhe, e ela deixou de resistir, entregou-se<br \/>\n    frouxa, mole, passiva. Barbosa ergueu-a nos bra&ccedil;os possantes, p&ocirc;-la<br \/>\n    na cama, deitou junto dela, apertou-a, cobriu-lhe os seios macios com o peito<br \/>\n    vasto, colou-lhe os l&aacute;bios nos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> Ela deixava-o fazer, inconsciente, quase em del&iacute;quio, mal respondendo<br \/>\n    aos beijos frementes que a devoravam.<\/p>\n<p> E corria o tempo.<\/p>\n<p> Barbosa n&atilde;o podia prestar f&eacute; ao que se estava dando.<\/p>\n<p> Descrente de mulheres, divorciado da sua, gasto, misantropo, ele abandonara<br \/>\n    o mundo, retirara-se seus livros, com seus instrumentos cient&iacute;ficos,<br \/>\n    para um recanto selvagem, para uma fazenda do sert&atilde;o. Abandonara a<br \/>\n    sociedade, mudara de h&aacute;bitos, s&oacute; conservara, como rel&iacute;quias<br \/>\n    do passado, o asseio, o culto do corpo, o apuro despretensioso do vestir.<br \/>\n    Levava a vida a estudar, a meditar; ia chegando ao quietismo, &agrave; paz<br \/>\n    de esp&iacute;rito de que fala Plauto, e que s&oacute; se encontra no conv&iacute;vio<br \/>\n    sincero, sempre o mesmo, dos livros, no conv&iacute;vio dos ausentes e dos<br \/>\n    mortos. E eis que a fatalidade das coisas lhe atira no meio do caminho uma<br \/>\n    mulher virgem, mo&ccedil;a, bela, inteligente,<br \/>\n    ilustrada, nobre, rica. E essa mulher apaixona-se por ele, for&ccedil;a-o<br \/>\n    tamb&eacute;m a am&aacute;-la, cativa-o, aniquila-o. Faz mais : contra a expectativa,<br \/>\n    tomando realidade o improv&aacute;vel, o absurdo, vem ao seu quarto, interrompe-lhe<br \/>\n    o sono, entrega-se-lhe&#8230; Ele a tem entre os seus bra&ccedil;os, l&acirc;nguida,<br \/>\n    mole, ro&iacute;da de desejos; aperta-a, beija-a&#8230;<\/p>\n<p> E&#8230; nada mais pode fazer!<br \/>\n    N&atilde;o que o detenham preconceitos, receio de conseq&uuml;&ecirc;ncias,<br \/>\n    n&atilde;o tem preconceitos, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    receia conseq&uuml;&ecirc;ncias. O que o det&eacute;m &eacute; um esgotamento<br \/>\n    nervoso de momento, uma impossibilidade f&iacute;sica inesperada.<\/p>\n<p> Debalde procura na concentra&ccedil;&atilde;o da vontade o tom da fibra<br \/>\n    nervosa, o robustecimento do organismo&#8230;<\/p>\n<p> Sente o rid&iacute;culo da posi&ccedil;&atilde;o, desespera, tem as m&atilde;os<br \/>\n    frias, banha-se em suor, chega a chorar. Afastou-se de Lenita, dementado,<br \/>\n    louco, escalavrando o peito com as unhas.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o posso! N&atilde;o posso! exclamou, ululou desatinado.<\/p>\n<p> Deu-se uma invers&atilde;o de pap&eacute;is: em vista dessa frieza s&uacute;bita,<br \/>\n    desse esmorecimento de car&iacute;cias, cuja causa n&atilde;o podia compreender,<br \/>\n    nem sequer suspeitar; no furor do erotismo que a desnaturava, que a convertia<br \/>\n    em bacante impudica, em f&ecirc;mea corrida, Lenita agarrou-se a Barbosa,<br \/>\n    cingiu-o, enla&ccedil;ou-o com os bra&ccedil;os, com as pemas, como um polvo<br \/>\n    que aferra a preia; com a boca aberta, arquejante, &uacute;mida, procurou-lhe<br \/>\n    a boca; refinada instintivamente em sensualidade, mordeu-lhe os l&aacute;bios,<br \/>\n    beijou-lhe a superf&iacute;cie polida dos dentes, sugou-lhe a l&iacute;ngua&#8230;<\/p>\n<p> E o prazer que ela sentia revelava-o na respira&ccedil;&atilde;o a&ccedil;odada;<br \/>\n    no h&aacute;lito curto, quente; era um prazer intenso, fren&eacute;tico, mas&#8230;<br \/>\n    sempre incompleto, falho.<\/p>\n<p> Barbosa arquejante tinha &iacute;mpetos de levantar-se, de tomar uma pistola,<br \/>\n    de arrebentar o cr&acirc;nio.<\/p>\n<p> Pouco a pouco operou-se uma rea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Sentiu Barbosa que menos agitado lhe circulava o sangue, que um calor doce<br \/>\n    se lhe expandia pelos membros, que o desejo f&iacute;sico se despertava, dominante,<br \/>\n    imperativo.<\/p>\n<p> Recobrou-se de vez da passageira fraqueza, achou-se forte, potente, var&atilde;o.<\/p>\n<p> Com o &iacute;mpeto irresist&iacute;vel do macho em cio, mais ainda, do<br \/>\n    homem que se quer desforrar de uma debilidade humilhosa, retomou o papel de<br \/>\n    atacante, estreitou a mo&ccedil;a nos bra&ccedil;os, afundou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    na onda sedosa e perfumada de seus cabelos que se tinham soltado&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Lenita!<br \/>\n    &#8211; Barbosa!<br \/>\n    E um beijo vitorioso recalcou para a garganta o grito dorido da virgem que<br \/>\n    deixara de o ser&#8230;<\/p>\n<p> Depois foi um tempestuar infrene, temulento, de car&iacute;cias ferozes,<br \/>\n    em que os corpos se conchegavam, se fundiam, se unificavam; em que a carne<br \/>\n    entrava pela carne; em que fr&ecirc;mito respondia a fr&ecirc;mito, beijo<br \/>\n    a beijo, dentada a dentada.<\/p>\n<p> Desse marulhar org&acirc;nico escapavam-se pequenos gritos sufocados, ganidos<br \/>\n    de gozo, por entre os estos curtos das respira&ccedil;&otilde;es cansadas,<br \/>\n    ofegantes.<\/p>\n<p> Depois um longo suspiro seguido de um longo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Depois a renova&ccedil;&atilde;o, a recrudesc&ecirc;ncia da luta, ardente,<br \/>\n    fogosa, bestial, insaci&aacute;vel.<\/p>\n<p> Pela frincha da janela esbo&ccedil;ou-se um rastilho de luz t&ecirc;nue.<\/p>\n<p> Era o dia que vinha chegando.<\/p>\n<p> &#8211; Deixe-me ! Deixe-me, Barbosa! &Eacute; preciso ir, est&aacute; amanhecendo,<br \/>\n    est&aacute; clareando.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, n&atilde;o ! Ainda n&atilde;o ! Aquilo n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o dia, &eacute; o luar.<\/p>\n<p> &#8211; Vou ! Deixe-me, deixe-me.<\/p>\n<p> E, fazendo um esfor&ccedil;o violento, Lenita escapou-se do leito e dos<br \/>\n    bra&ccedil;os de Barbosa.<\/p>\n<p> No desv&atilde;o da porta entreaberta enquadrou-se, por um momento, a sua<br \/>\n    sombra indecisa. Desapareceu.<\/p>\n<p> Barbosa ergueu-se, vestiu-se rapidamente, saiu, fechou a porta, tirou, guardou<br \/>\n    no bolso a chave.<\/p>\n<p> Lenita do seu quarto ouviu-lhe, contou-lhe as passadas que ressoavam fortes.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a estava com febre; tinha a cabe&ccedil;a em fogo; sentia-se<br \/>\n    zonza, atordoada; via a todo momento discos luminosos, com um n&uacute;cleo<br \/>\n    que se alargava, cambiando de cores, passando do verde-escuro ao vermelho-cobre;<br \/>\n    ardia-lhe a garganta, a boca estava peganhenta. No quarto deserto de Barbosa<br \/>\n    o rastilho de luz, coado pela frincha da janela, ia bater sobre a cama desarranjada:<br \/>\n    na alvura dos len&ccedil;&oacute;is amarrotados punham notas muito vivas algumas<br \/>\n    manchas de sangue frescas, &uacute;midas, rubras.<\/p>\n<h4><a name=\"15\">Cap&iacute;tulo XV<\/a><\/h4>\n<p>Que lindo est&aacute; o dia, exclamou o coronel, chegando &agrave; porta<br \/>\n    que dizia para o terreiro. &#8211; Um tempo firme, sim senhor! Jacinto!<br \/>\n    &#8211; Sinh&ocirc; ! acudiu um preto velho.<\/p>\n<p> &#8211; Para onde foi a gente hoje?<br \/>\n    &#8211; Foi a cortar arroz, sim, sinh&ocirc;.<\/p>\n<p> &#8211; Onde est&aacute; Manduca?<br \/>\n    &#8211; Sinh&ocirc; mo&ccedil;o mandou ensilhar o rozilho, e foi para a banda da<br \/>\n    vila, sim sinh&ocirc;.<\/p>\n<p> O coronel respirou &agrave; larga o ar fresco, puro, da manh&atilde; resplendente.<br \/>\n    Dormira toda a noite, n&atilde;o tivera dores, estava bem disposto. Queria<br \/>\n    expandir-se, queria conversar.<\/p>\n<p> &#8211; Logo hoje que estou sequioso por uma prosa &eacute; que me foge o Manduca,<br \/>\n    &eacute; que se deixa ficar na cama a Lenita! Forte coisa ! Vou fazer uma<br \/>\n    extravag&acirc;ncia, vou dar uma volta pelo cafezal.<\/p>\n<p> E mandou arrear uma &eacute;gua velha, muito mansa, andadeira, uma rede,<br \/>\n    dizia ele. Saiu, foi visitar o cafezal, coisa que fazia raramente, uma ou<br \/>\n    outra vez por ano.<\/p>\n<p> Quando voltou era quase meio-dia. Perguntou por Barbosa, n&atilde;o tinha<br \/>\n    vindo; por Lenita, ainda estava deitada. Veio com fome. Mandou p&ocirc;r a<br \/>\n    mesa; enquanto esperava foi ao quarto de Lenita, bateu &agrave; porta.<\/p>\n<p> &#8211; Que &eacute; isto? perguntou. Temos macacoa?<br \/>\n    &#8211; Macacoa, n&atilde;o; sono, respondeu a mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda estava dormindo?<br \/>\n    &#8211; Acordei com o seu batido.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe, levante-se, venha-me fazer companhia. O Manduca n&atilde;o sei para<br \/>\n    onde foi. Eu ainda n&atilde;o almocei, e n&atilde;o quero almo&ccedil;ar sozinho.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; vou.<\/p>\n<p> &#8211; Pois fico esperando; venha logo, que estou com o est&ocirc;mago a dar<br \/>\n    horas.<\/p>\n<p> A cabo de meia hora Lenita apareceu. Estava p&aacute;lida, macilenta: tinha<br \/>\n    as p&aacute;lpebras vermelhas, os olhos batidos, grandes olheiras. Veio embrulhada<br \/>\n    em uma peli&ccedil;a.<\/p>\n<p> De quando em quando estremecia com um calafrio. Sentou-se &agrave; mesa<br \/>\n    meio de lado, alquebrada, l&acirc;nguida.<\/p>\n<p> -Melhor cara traga o dia de amanh&atilde;! Gritou o coronel ao v&ecirc;-la.<br \/>\n    Parece e passou a noite no cemit&eacute;rio. Que &eacute; que teve?<br \/>\n    &#8211; Uma ligeira indisposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Hum! J&aacute; eu estava vendo isso mesmo ontem &agrave; noite. Ai mo&ccedil;as,<br \/>\n    mo&ccedil;as ! Isso enquanto n&atilde;o casam&#8230; Que h&aacute; de querer um<br \/>\n    mingauzinho de car&aacute;?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, obrigada.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe estas ervas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Obrigada.<\/p>\n<p> &#8211; Um peda&ccedil;o de fiambre?<br \/>\n    &#8211; Fiambre&#8230; quero, mas pouco, sim?<br \/>\n    O coronel serviu-lhe uma naca larga, r&oacute;sea, marmoreada de veios de<br \/>\n    gordura branca.<\/p>\n<p> Lenita polvilhou-a de sal mo&iacute;do, comeu com apetite.<\/p>\n<p> &#8211; Est&aacute; gostando de salgados, hein? Eu quando digo&#8230; Mais uma naquinha,<br \/>\n    sim?<br \/>\n    Lenita aceitou, mandou buscar ginger-ale, bebeu um copo cheio.<\/p>\n<p> Conversou com o coronel por cerca de duas horas.<\/p>\n<p> Ao cair da tarde sentiu-se fraca, tomada de invenc&iacute;vel soneira.<\/p>\n<p> Recolheu-se, dormiu. Levantou-se ao escurecer. Quando ia saindo do quarto,<br \/>\n    deu com Barbosa que, de p&eacute; junto de um consolo, fingia examinar uma<br \/>\n    estatueta.<\/p>\n<p> &#8211; Boa tarde, Lenita, disse ele com voz tr&ecirc;mula, t&iacute;mido, desapontado.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a n&atilde;o respondeu: com um arranco nervoso tomou-lhe a cabe&ccedil;a<br \/>\n    entre as m&atilde;os, curvou-a, beijou-a sofregamente, esquisitamente, no<br \/>\n    alto, afundando, sumindo o rosto nos cabelos curtos, levemente crespos.<\/p>\n<p> &#8211; Lenita, segredou em voz sumida, t&ecirc;nue como sopro, &eacute; perigoso,<br \/>\n    podem v&ecirc;-la, encontr&aacute;-la. Eu virei &eacute; melhor.<\/p>\n<p> &#8211; Aqui dorme a rapariga.<\/p>\n<p> &#8211; F&aacute;cil &eacute; afast&aacute;-la sob qualquer pretexto. Deixe as<br \/>\n    portas cerradas.<\/p>\n<p> Foram para a sala de jantar.<\/p>\n<p> O coronel j&aacute; tinha feito acender o lampi&atilde;o; estava de p&eacute;,<br \/>\n    junto &agrave; mesa, lendo a correspond&ecirc;ncia que minutos antes tinha<br \/>\n    chegado da vila.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe, Lenita, disse, a&iacute; est&atilde;o os seus jornais, e tamb&eacute;m<br \/>\n    uma carta. Leia, leia logo a carta; &eacute; coisa que lhe interessa.<\/p>\n<p> &#8211; Sim! Como sabe?<br \/>\n    &#8211; A letra do sobrescrito &eacute; mesma desta que eu recebi. Leia.<\/p>\n<p> &#8211; Que ser&aacute;? interrogou-se a mo&ccedil;a, rasgando o envolt&oacute;rio<br \/>\n    com gesto fatigado, aborrida. Desdobrou a folha de papel, leu sem manifestar<br \/>\n    sentimento algum, com absoluta indiferen&ccedil;a. Depois passou-a aberta<br \/>\n    ao coronel.<\/p>\n<p> -Ora! Exclamou, arrastando a voz, com fastio.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? Perguntou o coronel.<\/p>\n<p> &#8211; Leia, est&aacute; a&iacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o &eacute; do Dr. Mendes Maia?<br \/>\n    &#8211; &Eacute;.<\/p>\n<p> &#8211; E que lhe diz voc&ecirc;?<br \/>\n    &#8211; Eu digo&#8230; digo&#8230; n&atilde;o digo coisa nenhuma.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute; se deixa ver que quer cala &#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Nem sempre consente. O Dr. Mendes Maia perdeu o seu tempo, a sua ret&oacute;rica,<br \/>\n    o seu papel, a sua tinta e o seu selo. Eu n&atilde;o me caso com ele.<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; um pedido de casamento? perguntou Barbosa, ansiado.<\/p>\n<p> &#8211; Em forma.<\/p>\n<p> &#8211; E quem &eacute; esse Dr. Mendes Maia?<br \/>\n    &#8211; Esse Dr. Mendes Maia &eacute; um bacharel em direito, nortista; fez seu<br \/>\n    quatri&ecirc;nio, e est&aacute; na corte, &agrave; espera de um juizado de<br \/>\n    direito aqui na prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> &#8211; E donde o conhece D. Lenita?<br \/>\n    &#8211; De Campinas. Estivemos juntos em um baile, no Club Semanal, h&aacute; de<br \/>\n    haver tr&ecirc;s anos. Dan&ccedil;ou comigo, fez-me a corte por duas horas,<br \/>\n    e agora pede-me em casamento.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai tamb&eacute;m o conhece?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe&ccedil;o: ele andou viajando por estas bandas com um primo que queria<br \/>\n    comprar s&iacute;tio de caf&eacute;. Veio-me recomendado de S&atilde;o Paulo,<br \/>\n    e at&eacute; pousou aqui, uma noite.<\/p>\n<p> &#8211; Que esp&eacute;cie de homem &eacute;?<br \/>\n    &#8211; E um bacharel em direito como a maioria dos bachar&eacute;is em direito.<br \/>\n    Parece-me boa pessoa. Homem, sou franco, para mim tem um defeito capital,<br \/>\n    &eacute; nortista. No mais, n&atilde;o h&aacute; que dizer. Lenita, que hei<br \/>\n    de eu responder ao homem?<br \/>\n    &#8211; Boa pergunta! Responda que eu n&atilde;o me quero casar que agrade&ccedil;o<br \/>\n    muito a honra da proposta, e coisas e tal, uma t&aacute;bua cort&ecirc;s.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o valer&aacute; a pena pensar um pouco antes de decidir a coisa<br \/>\n    assim de talho, sem rem&eacute;dio? <br \/>\n    &#8211; N&atilde;o h&aacute; que pensar, n&atilde;o quero.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe que o rapaz, segundo me diz o meu velho amigo Cruz Chaves, nesta<br \/>\n    outra carta que recebi, tem todos os requisitos para um bom corte de noivo:<br \/>\n    &eacute; inteligente, honesto, morigerado, trabalhador, econ&ocirc;mico, bom<br \/>\n    cat&oacute;lico, e muitas coisas mais. Fez o seu quatri&ecirc;nio como promotor<br \/>\n    e juiz municipal, est&aacute; &agrave; espera de um juizado de direito, como<br \/>\n    voc&ecirc; mesmo disse, e h&aacute; de obt&ecirc;-lo, porque d&aacute;-se<br \/>\n    com o Cotegipe e &eacute; muito protegido pelo Mac Dowel. E tem seus cobres.<\/p>\n<p> &#8211; O partido tenta, tenta, mas eu &eacute; que me n&atilde;o deixo prender.<\/p>\n<p> &#8211; Olhe que isto n&atilde;o vai a matar, n&atilde;o &eacute; sangria desatada,<br \/>\n    pense primeiro, responda depois.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o h&aacute; que pensar.<\/p>\n<p> &#8211; Esta mocidade! Para que tomar decis&otilde;es de afogadilho, quando h&aacute;<br \/>\n    tempo para refletir, para pesar todos os pr&oacute;s e iodos os contras?<br \/>\n    &#8211; A resposta agora, ou daqui a um ano h&aacute; de ser a mesma: n&atilde;o<br \/>\n    quero.<\/p>\n<p> &#8211; Menina, ningu&eacute;m deve dizer &quot;deste p&atilde;o n&atilde;o comerei&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; E nem t&atilde;o pouco &quot;desta &aacute;gua n&atilde;o beberei&quot;.<br \/>\n    Sabido, mas eu n&atilde;o quero mesmo.<\/p>\n<p> &#8211; Bom, bom; n&atilde;o quer, n&atilde;o quer! Amanh&atilde; l&aacute; segue<br \/>\n    a recusa: que se ag&uuml;ente o Dr. Mendes Maia.<\/p>\n<h4><a name=\"16\">Cap&iacute;tulo XVI<\/a><\/h4>\n<p>Lenita despedira a mucama, e ficara a dormir s&oacute; no seu quarto. O coronel<br \/>\n    estranhou, n&atilde;o levou a bem tal resolu&ccedil;&atilde;o. Que era perigoso,<br \/>\n    que podia ficar doente, ter um ataque alta noite, sem que ningu&eacute;m lhe<br \/>\n    acudisse.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o, respondeu Lenita, que estava perfeitamente boa, que n&atilde;o<br \/>\n    havia ataque a recear; e mais, que a rapariga ressonava forte, e que isso<br \/>\n    a impedia de dormir.<\/p>\n<p> Por volta das onze horas vinha Barbosa, mansamente, p&eacute; ante p&eacute;,<br \/>\n    entrava na sala, fechava a porta por dentro, a chave.<\/p>\n<p> As ferragens cuidadosamente azeitadas funcionavam veleiras, em atritos macios,<br \/>\n    suaves, sem o m&iacute;nimo rangido.<\/p>\n<p> A fechadura era das portuguesas antigas, de chapas furadas coincidentemente:<br \/>\n    para evitar que algu&eacute;m pudesse espiar pelo buraco o que se passava<br \/>\n    na sala, espionagem ali&aacute;s improv&aacute;vel, Barbosa pendurava na chave<br \/>\n    o seu chap&eacute;u.<\/p>\n<p> Em liberdade absoluta, perfeita, n&atilde;o se contentava com o prazer material<br \/>\n    de possuir Lenita. Queria o pecado mental inteligente, os mala mentis guadia<br \/>\n    de que fala Virg&iacute;lio; queria contemplar, comer com os olhos a pl&aacute;stica<br \/>\n    soberba do corpo da mo&ccedil;a, ora em todo o esplendor da incandescente<br \/>\n    nudez, ora real&ccedil;ado pelos atavios, pelas extravag&acirc;ncias da moda.<\/p>\n<p> Despia-a, punha-a na posi&ccedil;&atilde;o de V&ecirc;nus de Milo, arranjava-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os, como conjecturam os s&aacute;bios terem estado os da est&aacute;tua;<br \/>\n    enrolava-lhe um len&ccedil;ol de volta aos quadris, arrufava-lho, em pregas<br \/>\n    suaves, em panejamentos art&iacute;sticos.<\/p>\n<p> Depois arrancava-lhe esse &uacute;ltimo vestu&aacute;rio, mudava-lhe a atitude:<br \/>\n    erguia-lhe o busto, avan&ccedil;ava-lhe a arca do peito, fazia sobressair<br \/>\n    o relevo insolente dos seios erguidos e duros.<\/p>\n<p> Por meio de um refletor poderoso focava, dirigia a luz branca de uma l&acirc;mpada<br \/>\n    belga, fazia cair sobre a mo&ccedil;a uma toalha de reflexos suaves e vivos,<br \/>\n    cientificamente combinados.<\/p>\n<p> Afastava-se, aproximava-se, tomava a afastar; mirava, estudava, gozava &agrave;<br \/>\n    Lenita, como Pigmali&atilde;o &agrave; Galat&eacute;ia, como Michel&acirc;ngelo<br \/>\n    ao Mois&eacute;s.<\/p>\n<p> Chegava um momento em que se n&atilde;o podia conter: com um grito rouco,<br \/>\n    &aacute;spero, sufocado, de bode em cio, atirava-se, ela atirava-se tamb&eacute;m,<br \/>\n    e ambos ca&iacute;am sobre um sof&aacute;, sobre o assoalho, estreitando-se,<br \/>\n    mordendo-se, devorando-se.<\/p>\n<p> Por vezes fazia com que Lenita se frisasse, se espartilhasse, se enflorasse,<br \/>\n    se enluvasse, com todo o capricho, com toda impertin&ecirc;ncia de uma leoa<br \/>\n    da moda, que se prepara para um baile do high-life, para um sarau diplom&aacute;tico.<\/p>\n<p> Ele ajudava-a, servia-lhe de camareiro, orgulhoso, radiante.<\/p>\n<p> Todo aquele aparato do mundus mulieris, toda aquela expans&atilde;o de garridice<br \/>\n    era para ele, para ele s&oacute;, para mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> E sentia o que quer que era do prazer exclusivista, ego&iacute;stico, do<br \/>\n    rei Lu&iacute;s da Baviera, a assistir em um teatro vazio, como espectador<br \/>\n    solit&aacute;rio, &uacute;nico, a uma &oacute;pera de Wagner, majestosamente<br \/>\n    posta em cena, divinamente cantada por artistas de primor.<\/p>\n<p> Adorava a macieza t&eacute;pida, perfumosa, da pele nua de Lenita; mas,<br \/>\n    refinado em lubricidade, gostava de lhe premer as m&atilde;os quando cal&ccedil;adas<br \/>\n    de luvas de pelica ou de peau de Suede; gostava do contato quente dessas m&atilde;os,<br \/>\n    atrav&eacute;s das malhas das mitaines de retr&oacute;s, gostava de lhe sentir<br \/>\n    a viveza do corpo por entre as asperidades brandas das rendas , por entre<br \/>\n    as flores relevadas do tule.<\/p>\n<p> Em breve n&atilde;o lhe bastaram mais esses desbragamentos noturnos, de<br \/>\n    paredes a dentro, clandestinos: quis moldura mais larga para os seus quadros<br \/>\n    vivos, quis palco mais espa&ccedil;oso para suas encena&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    carnais, quis o amor ao ar livre, &agrave; luz do dia, em liberdade plena.<br \/>\n    A pretexto de ca&ccedil;ar, ia com Lenita todos os dias, afundava-se na mata.<\/p>\n<p> Enquanto na estrada, deixava-a seguir, ficava alguns passos atr&aacute;s,<br \/>\n    para ver-lhe o remoinho agitado dos calcanhares na f&iacute;mbria ro&ccedil;agante<br \/>\n    do vestido de fazenda mole.<\/p>\n<p> Esse movimento de saias estuoso, cont&iacute;nuo, que ia em ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    confundir-se com o bamboar das cadeiras, causava-lhe uma excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estranha, particular&iacute;ssima.<\/p>\n<p> Quando na mata se lhe deparava uma grota profunda, uma barroca sombria,<br \/>\n    uma clareira afestoada de creci&uacute;mas, de taquaras, parava.<\/p>\n<p> Junto de um velho tronco, ao p&eacute; do leque esmeraldino e ainda baixo<br \/>\n    de uma palmeira nascente, bem sob a a&ccedil;&atilde;o de um feixe de raios<br \/>\n    solares, colocava a mo&ccedil;a despida, fazendo com gosto de artista, com<br \/>\n    per&iacute;cia de devasso pr&aacute;tico, que lhe destacasse a alvura da pele<br \/>\n    banhada de luz, no fundo verde da mata afogado na sombra. Lenita prestava-se<br \/>\n    a tudo com docilidade de rainha complacente, de deusa satisfeita; deixava-se<br \/>\n    adorar, recebia contente o culto de latria dirigido a sua carne.<\/p>\n<p> Barbosa mirava-a, remirava-a, voltando-lhe em torno; os c&iacute;rculos<br \/>\n    conc&ecirc;ntricos que descrevia iam-se estreitando como os de um a&ccedil;or<br \/>\n    em volta da preia: chegava-se, ajoelhava-se; e, tr&ecirc;mulo, com a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a&ccedil;odada, beijava-lhe as unhas r&oacute;seas e a pele branca dos p&eacute;s,<br \/>\n    erguia o busto, alteava-se ousado, osculava-lhe as coxas roli&ccedil;as, pousava<br \/>\n    a cabe&ccedil;a de encontro ao ventre liso, aspirando, sorvendo, de olhos<br \/>\n    semicerrados, as emana&ccedil;&otilde;es s&atilde;s, provocantes, da carne<br \/>\n    feminina irritada.<\/p>\n<p> Uma vez no cora&ccedil;&atilde;o da mata acudiu-lhe &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    a Aurora de Michel&acirc;ngelo, que vira no t&uacute;mulo dos M&eacute;dicis.<br \/>\n    Uma anfractuosidade de terreno fora a id&eacute;ia acidentalmente associada,<br \/>\n    que lhe avivara a mem&oacute;ria.<\/p>\n<p> Perto estava uma &aacute;rvore velha coberta de musgo: colheu-o &agrave;s<br \/>\n    bra&ccedil;adas, fez um mont&atilde;o, alcatifou, alfombrou com ele a acidenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do terreno que lhe recordara o m&aacute;rmore florentino.<\/p>\n<p> Nervosamente, brutalmente, foi despindo a Lenita: n&atilde;o desabotoava,<br \/>\n    n&atilde;o desacolchetava; arrancava bot&otilde;es, arrebentava colchetes.<br \/>\n    Quando a viu nua, f&ecirc;-la reclinar-se sobre o musgo, dobrou-lhe a perna<br \/>\n    esquerda, apoiou-lhe o p&eacute; em uma sali&ecirc;ncia de pedra, dobrou-lhe<br \/>\n    tamb&eacute;m o bra&ccedil;o esquerdo, cuja m&atilde;o, em abandono, foi tocar<br \/>\n    o ombro de leve, com as pontas dos dedos; estendeu-lhe o bra&ccedil;o e a<br \/>\n    perna direita em linha suave e frouxa, a contrastar com a linha forte, angulosa,<br \/>\n    movimentada, do lado oposto.<\/p>\n<p> Desceu um pouco, deitou-se de bru&ccedil;os e, arrastando-se como um est&eacute;lio&#8230;<\/p>\n<p> Lenita desmaiou em um espasmo de gozo&#8230;<\/p>\n<p> Uma noite Barbosa n&atilde;o foi ao quarto de Lenita.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a passou em claro, ralada de cuidados. Pela madrugada ergueu-se<br \/>\n    e, sem se importar com a possibilidade de que algu&eacute;m a visse, de que<br \/>\n    algu&eacute;m a encontrasse, sem tomar precau&ccedil;&otilde;es, foi ao quarto<br \/>\n    de Barbosa, empurrou a porta, entrou.<\/p>\n<p> O pavio da vela, quase inteiramente gasta, afogava-se em um lago de estearina<br \/>\n    derretida, que se acumulara na a&ccedil;ucena do casti&ccedil;al: a chama<br \/>\n    vasquejava, bruxuleava, ora iluminando vivamente o quarto, ora desaparecendo,<br \/>\n    quase submergindo tudo em trevas.<\/p>\n<p> Barbosa estirado de costas, na cama, com as m&atilde;os a comprimir as t&ecirc;mporas,<br \/>\n    gemia. Lenita debru&ccedil;ou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Que tem? Que &eacute; isto? Perguntou-lhe.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o &eacute; nada, &eacute; a minha enxaqueca. Mas retire-se, olhe<br \/>\n    que a v&ecirc;em, vai amanhecer.<\/p>\n<p> &#8211; Retirar-me, eu? Deix&aacute;-lo assim sofrendo, s&oacute;? N&atilde;o<br \/>\n    me conhece.<\/p>\n<p> &#8211; Conhe&ccedil;o, conhe&ccedil;o muito bem. Eu n&atilde;o a repeliria, se<br \/>\n    me fosse precisa, se me fosse mesmo &uacute;til a sua presen&ccedil;a. Mas<br \/>\n    nada me pode fazer. Isto n&atilde;o &eacute; mol&eacute;stia, &eacute; inc&ocirc;modo;<br \/>\n    eu n&atilde;o estou enfermo, tenho dores.<\/p>\n<p> &#8211; Quero ficar, eu n&atilde;o posso v&ecirc;-lo padecer sem ao menos procurar<br \/>\n    alivi&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8211; Nada conseguiria sen&atilde;o me afligir e me agravar o sofrimento. Isto<br \/>\n    passa com o tempo, s&oacute; com o tempo. V&aacute;, pe&ccedil;o-lhe, v&aacute;.<\/p>\n<p> Lenita foi, muito contrariada.<\/p>\n<p> Eram horr&iacute;veis as enxaquecas de Barbosa.<\/p>\n<p> Come&ccedil;avam por uma dor surda de cabe&ccedil;a. Pouco a pouco acentuava-se<br \/>\n    urna displic&ecirc;ncia inexplic&aacute;vel em tudo e para tudo; as for&ccedil;as<br \/>\n    abatiam-se, prostravam-se; o rosto ficava p&aacute;lido, dilatava-se a pupila<br \/>\n    do olho direito.<\/p>\n<p> Penoso qualquer movimento, imposs&iacute;vel qualquer esfor&ccedil;o: Barbosa<br \/>\n    tinha de procurar o leito for&ccedil;osamente, fatalmente. Um suor g&eacute;lido<br \/>\n    umedecia-lhe, banhava-lhe a fronte. Do lado direito a art&eacute;ria temporal<br \/>\n    saltava tumefata, engurgitada: o globo do olho contra&iacute;a-se, minguava<br \/>\n    e, como se estivesse contundido, pisado, era sens&iacute;vel &agrave; m&iacute;nima<br \/>\n    press&atilde;o. No alto da cabe&ccedil;a havia um ponto doloso, a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como de um prego que a&iacute; estivesse fincado. Cada pulsa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cada jato de sangue nas art&eacute;rias era uma manelada que parecia fazer<br \/>\n    estalar o cr&acirc;nio e afundar mais o prego. O est&ocirc;mago enchia-se<br \/>\n    de bile. Uma fraqueza extrema, uma necessidade imperiosa de alimentos se fazia<br \/>\n    sentir; mas &agrave; simples id&eacute;ia da ingest&atilde;o de qualquer coisa,<br \/>\n    exacerbavam-se os sofrimentos todos. Na retina havia cintila&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    moscas luminosas, subjetivas; o menor ru&iacute;do, como avolumado por um<br \/>\n    microfone infernal, tomava-se em fracasso, em cataclismo de estrondo e dores<br \/>\n    no ouvido hiperestesiado. N&atilde;o havia concentrar a aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pensar. Se nesses momentos viessem dizer a Barbosa que um inc&ecirc;ndio devorava<br \/>\n    os seus livros preciosos, que seu pai e sua m&atilde;e pereciam nas chamas,<br \/>\n    ele nada poderia fazer, nem sequer tentar um esfor&ccedil;o: a vontade estava<br \/>\n    abolida.<\/p>\n<p> E durava, ia sempre at&eacute; &agrave; noite esse sofrer inenarr&aacute;vel,<br \/>\n    essa tortura de r&eacute;probo.<\/p>\n<p> Amanheceu.<\/p>\n<p> Logo que se abriam as portas, que come&ccedil;ou a vida da fazenda, voltou<br \/>\n    Lenita para o quarto de Barbosa, sentou-se-&Iacute;he &agrave; cabeceira,<br \/>\n    inquirindo sol&iacute;cita do que havia a fazer, do que era poss&iacute;vel<br \/>\n    aproveitar em casos tais.<\/p>\n<p> Que nada, que nada mesmo havia de tentar, repetiu Barbosa impaciente; que<br \/>\n    aquilo era um estado nervoso especial, hiperest&eacute;tico, s&oacute; passava<br \/>\n    com o tempo, que &agrave; noite havia de estar bom.<\/p>\n<p> Lenita com o tato indiz&iacute;vel, com o jeito especial&iacute;ssimo que<br \/>\n    t&ecirc;m as mulheres para enfermeiras, arranjou-lhe as almofadas e a travesseirinha<br \/>\n    em uma posi&ccedil;&atilde;o que lhe deu al&iacute;vio; foi ao arm&aacute;rio,<br \/>\n    procurou entre mil frascos, achou um quase cheio de xarope de cloral, trouxe,<br \/>\n    fez-lhe tomar quase &agrave; for&ccedil;a duas colheres de sopa, grandes,<br \/>\n    a transbordar.<\/p>\n<p> Depois apalpou-lhe os p&eacute;s, sentiu-os frios, mandou vir uma botija<br \/>\n    com &aacute;gua quente, envolveu-a em uma toalha, p&ocirc;s-lha sob eles,<br \/>\n    enrolou tudo em um cobertor, habilmente, quase sem incomod&aacute;-lo, como<br \/>\n    se n&atilde;o fizesse movimentos.<\/p>\n<p> Os gemidos de Barbosa foram esmorecendo em um como queixume fl&eacute;bil,<br \/>\n    indistinto; cessaram, ele adormeceu.<\/p>\n<p> Foi um sono longo, de duas horas pelo menos.<\/p>\n<p> A mo&ccedil;a n&atilde;o arredou p&eacute; um minuto: sentada &agrave; cabeceira,<br \/>\n    im&oacute;vel; em sil&ecirc;ncio contemplava-o a dormir.<\/p>\n<p> De repente ele acordou, sentou-se r&aacute;pido, fez sinal, ordenou-lhe<br \/>\n    com gesto impaciente, irritado que se retirasse.<\/p>\n<p> Lenita n&atilde;o obedeceu.<\/p>\n<p> Barbosa, p&aacute;lido, com as fei&ccedil;&otilde;es desfeitas, curvou-se,<br \/>\n    abriu desordenadamente, atabalhoadamente o criado-mudo, tirou o vaso, colocou-o<br \/>\n    junto de si sobre a cama. Ajoelhou-se.<\/p>\n<p> Abdome, est&ocirc;mago, diafragma, es&ocirc;fago, contra&iacute;ram-se em<br \/>\n    uma n&aacute;usea violenta: os zigom&aacute;ticos distenderam-lhe a pele descorada<br \/>\n    e macilenta do rosto, e um jato de bile amarela e espumosa golfou no fundo<br \/>\n    do vaso, tingindo-lhe as paredes com os salpicos peganhentos.<\/p>\n<p> Seguiu-se outro jato, e outro, e outro, vinha a bile, sem esfor&ccedil;o<br \/>\n    n&atilde;o mais amarela, n&atilde;o mais espumosa, por&eacute;m verde, l&iacute;quida,<br \/>\n    linda at&eacute; em sua pureza transparente.<\/p>\n<p> Lenita, com d&oacute; profundo debuxado nas fei&ccedil;&otilde;es, sustentava-lhe<br \/>\n    a testa m&aacute;dida.<\/p>\n<p> Extenuado, Barbosa deixou-se cair pesadamente nos travesseiros, gemeu por<br \/>\n    um pouco, tornou a adormecer.<\/p>\n<p> Lenita mandou retirar, lavar, trazer o vaso: depois retomou o seu posto<br \/>\n    junto do enfermo, velando-lhe com amor o sono sossegado.<\/p>\n<p> Quando a chamaram para almo&ccedil;ar, foi em bicos de p&eacute;s, sem fazer<br \/>\n    o m&iacute;nimo rumor.<\/p>\n<p> &Agrave; narra&ccedil;&atilde;o circunstanciada do inc&ocirc;modo do filho,<br \/>\n    fez observar o coronel que lhe n&atilde;o dava aquilo cuidado, que o rapaz<br \/>\n    era atreito a enxaquecas desde a meninice, que at&eacute; tinha melhorado<br \/>\n    com a idade, que os acessos iam ficando mais quarteados.<\/p>\n<p> Lenita voltou para o quarto.<\/p>\n<p> Ao virar do meio-dia, Barbosa acordou. Estava bom, completamente restabelecido,<br \/>\n    sentia fome, mando vir comida.<\/p>\n<h4><a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h4>\n<p>havia muito que tinha come&ccedil;ado a nova moagem: ia ela j&aacute; quase<br \/>\n    em meio, quando se deu<br \/>\n    um desastre. Um crioulinho deixou-se prender nos cilindros do engenho e teve<br \/>\n    um bra&ccedil;o esmagado.<\/p>\n<p> Ao ver a m&iacute;sera crian&ccedil;a segura, atra&iacute;da pelo revolver<br \/>\n    lento, implac&aacute;vel, do mecanismo bruto, o pai dela, o negro moedor,<br \/>\n    tomou uma alavanca de a&ccedil;o que achou &agrave; m&atilde;o, entalou entre<br \/>\n    os dentes dos rodetes.<\/p>\n<p> Ouviu-se um grande estalo met&aacute;lico, um tinir sonoro de ferros partidos,<br \/>\n    o engenho parou.<\/p>\n<p> Salvou-se a vida do negrinho, mas as moendas inutilizaram-se; rodetes, pesco&ccedil;os,<br \/>\n    mancais, tudo ficou arrebentado.<\/p>\n<p> Que fora uma caipora, que fora o diabo aquele desastre em meio da moagem,<br \/>\n    disse o coronel arreliado. L&aacute; pelo crioulinho, n&atilde;o: era ing&ecirc;nuo,<br \/>\n    era 28 de setembro, ficasse aleijado, pouco preju&iacute;zo havia. Que o azar<br \/>\n    era a interrup&ccedil;&atilde;o da moagem, quando ia tudo correndo t&atilde;o<br \/>\n    bem, em um tempo como se n&atilde;o havia de ter outro. Que remendos no engenho<br \/>\n    n&atilde;o queria, que de longa data andava. com id&eacute;ias de reformar<br \/>\n    tudo aquilo, e que ia reformar, embora levasse a casqueira a safra.<\/p>\n<p> E ficou assentado que, no outro dia, Barbosa havia de seguir para o Ipanema,<br \/>\n    a entender-se com o Dr. Mursa, sobre planos e dimens&otilde;es para a nova<br \/>\n    m&aacute;quina que urgia ficasse pronta dentro de poucos dias.<\/p>\n<p> Lenita, ao saber da viagem, teve um sobressalto, ficou p&aacute;lida, quase<br \/>\n    desmaiou: lembrava-lhe o muito que sofrera com a ida de Barbosa a Santos,<br \/>\n    quando ele n&atilde;o era ainda seu amante, quando ela nem sabia sequer ao<br \/>\n    certo que o amava.<\/p>\n<p> Como havia de ser ent&atilde;o, que as coisas se achavam em p&eacute; divers&iacute;ssimo?<br \/>\n    Uma tortura inenarr&aacute;vel, imposs&iacute;vel, o inferno.<\/p>\n<p> E n&atilde;o foi.<\/p>\n<p> Lenita ajudou a Barbosa nos seus aspectos de viagem, sem sentir por forma<br \/>\n    alguma o que sentira da vez passada. As expans&otilde;es l&uacute;bricas,<br \/>\n    desenfreadas, a que ele se entregou na despedida noturna, contrariaram-na,<br \/>\n    mortificaram-na, mesmo.<\/p>\n<p> Admirava-se da transi&ccedil;&atilde;o brusca, repentina que se lhe operara<br \/>\n    no esp&iacute;rito: sentia-se fria, indiferente, aborrecida quase; achava-o<br \/>\n    a ele grosseiro, vulgar, impertinente, rid&iacute;culo, chato.<\/p>\n<p> Na hora da partida apertou-lhe a m&atilde;o; viu-o montar a cavalo, dar<br \/>\n    de r&eacute;deas, seguir vagaroso em uma nuvem de p&oacute; que se levantava<br \/>\n    da estrada; distinguiu-lhe o gesto de adeus que lhe fez ele ao transpor o<br \/>\n    viso da colina, ao sumir-se-lhe da vista.<\/p>\n<p> E n&atilde;o se entristeceu ; em torno de si n&atilde;o sentiu v&aacute;cuo<br \/>\n    algum: achou-se at&eacute; mais &agrave; vontade por ficar s&oacute;, em companhia<br \/>\n    de si pr&oacute;pria, senhora de pensar, de agir em liberdade, sem sugest&atilde;o.<\/p>\n<p> Todavia era-lhe grata &agrave; vaidade a id&eacute;ia de que Barbosa ia<br \/>\n    cogitar ininterrompidamente nela, s&oacute; nela; de que levava a sua imagem<br \/>\n    estereotipada, viva, na mem&oacute;ria; de que todo o pensamento, todo o ato<br \/>\n    dele a ela se reportava, tinha-a por objetivo.<\/p>\n<p> E, analista sutil, n&atilde;o se enganava sobre os seus pr&oacute;prios<br \/>\n    sentimentos: no prazer que tinha com a sujei&ccedil;&atilde;o de Barbosa,<br \/>\n    descobria mais a satisfa&ccedil;&atilde;o do orgulho lisonjeado do que o contentamento<br \/>\n    do amor correspondido.<\/p>\n<p> Foi ao quarto de Barbosa, come&ccedil;ou a p&ocirc;r em ordem as coisas<br \/>\n    dispersas, os livros e jornais que atravancavam a mesa, o m&aacute;rmore do<br \/>\n    criado, as cadeiras.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m em casa, nem mesmo o coronel, estranhava mais esses cuidados:<br \/>\n    a amizade estreita a intimidade que reinava entre ela e Barbosa justificavam-na;<br \/>\n    todos achavam muito natural o papel de ec&ocirc;noma que ela a si chamara.<\/p>\n<p> Nas senzalas, por&eacute;m, o viver exc&ecirc;ntrico e liberdoso que ela<br \/>\n    levava com Barbosa j&aacute; come&ccedil;ava a servir de p&aacute;bulo &agrave;<br \/>\n    maledic&ecirc;ncia caracter&iacute;stica da ra&ccedil;a negra: os pretos e<br \/>\n    principalmente as pretas murmuravam, comentavam as ca&ccedil;adas improdutivas,<br \/>\n    sublinhavam ditos, aventavam torpitudes.<\/p>\n<p> Ao puxar uma gaveta da mesa de Barbosa, para recolher as miudezas que achara<br \/>\n    dispersas, Lenita deu com uma caixinha oblonga de tartaruga, incrustada de<br \/>\n    metal e madrep&eacute;rola.<\/p>\n<p> Abriu-se por abrir, sem curiosidade. Encontrou dentro quatro pap&eacute;is<br \/>\n    dobrados, uma medalha muito oxidada de Nossa Senhora da Aparecida, flores<br \/>\n    secas e v&aacute;rias bolinhas de l&atilde; branca, desfiada.<\/p>\n<p> Fez-lhe esp&eacute;cie aquilo: que diabo poderia ser? Barbosa n&atilde;o<br \/>\n    era religioso, a medalha n&atilde;o tinha explica&ccedil;&atilde;o como coisa<br \/>\n    dele. E as bolinhas de l&atilde;? Com certeza tinham ca&iacute;do de uma manta<br \/>\n    de malha, de uma sa&iacute;da de baile, em que se envolvera, em que se agasalhara<br \/>\n    uma mulher, para procur&aacute;-lo a ele na sua casa, no seu quarto, no seu<br \/>\n    leito. E as flores secas? E os pap&eacute;is? Ah! os pap&eacute;is&#8230; Os pap&eacute;is<br \/>\n    continham de certo a chave do enigma davam a solu&ccedil;&atilde;o de tudo<br \/>\n    aquilo.<\/p>\n<p> Desdobrou o primeiro, encontrou um anel de cabelos castanhos, quase pretos,<br \/>\n    cetinosos, muito finos.<\/p>\n<p> Desdobrou o segundo, era um bilhetinho em poucas linhas: a letra bonita,<br \/>\n    fina, redonda, de mulher. Dizia: <br \/>\n    Espero-o s&aacute;bado sem falta; se n&atilde;o vier zango-me. N&atilde;o<br \/>\n    o esque&ccedil;o um s&oacute; momento. Adeus.<\/p>\n<p> Lenita empalideceu, mordeu os bei&ccedil;os e, tr&ecirc;mula, com os olhos<br \/>\n    a despedir chispas, abriu o terceiro papel, uma folha grande, larga, de alma&ccedil;o<br \/>\n    Fiume. Estava escrita pela letra de Barbosa, um<br \/>\n    cursivo feio, muito leg&iacute;vel. Era evidentemente uma s&eacute;rie de<br \/>\n    impress&otilde;es lan&ccedil;adas no papel sur place, no momento mesmo em<br \/>\n    que se tinham produzido, inconexas, cortadas de retic&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Lenita leu:<br \/>\n    O trem ia partir.<\/p>\n<p> Ela estava na plataforma da Esta&ccedil;&atilde;o da Luz, com o marido,<br \/>\n    em bota-fora de n&atilde;o sei quem.<\/p>\n<p> Olhou-me, eu a olhei; ela baixou os olhos, uns grandes olhos verdes; corou.<br \/>\n    O bra&ccedil;o esquerdo estava passado no do marido enfastiadamente, aborrecidamente;<br \/>\n    o direito, em abandono, pendia-lhe ao longo do corpo, fome, musculoso, muito<br \/>\n    branco. A m&atilde;o estava sem luva, era pequenina, bem feita, anho no anelar<br \/>\n    uma marquesa de muito brilho. Levantou os olhos, encarou-me, tomou a baix&aacute;-los,<br \/>\n    avan&ccedil;ou o p&eacute; direito, um pezinho ador&aacute;vel, bateu com<br \/>\n    ele freneticamente, como se estivesse muito contrariada. O marido disse-lhe<br \/>\n    o que quer que foi alem&atilde;o, ela respondeu-lhe na mesma l&iacute;ngua.<br \/>\n    Sa&iacute;ram, eu segui-os. Tomaram o bonde que vinha de Santa Cec&iacute;lia&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\n    Olhos verdes&#8230;&#8230;&#8230;..amor&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;venusta&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p> Tornei a v&ecirc;-la.<\/p>\n<p> Era no Grande Hotel: ela estava jantando, &agrave; mesa do centro. Dava-me<br \/>\n    as costas. Recostava-se na cadeira, pendendo o corpo para a esquerda; a perna<br \/>\n    direita, passada por sobre a esquerda, agitava-se com um movimento sacudido,<br \/>\n    nervoso; o p&eacute; muito pequeno, estreitado em uma meia de seda carmezim,<br \/>\n    recurvando-se, descal&ccedil;ava em parte o sapatinho Clark, mostrava o calcanhar<br \/>\n    redondo, diminuto, delicioso. O p&eacute; esquerdo assentado firme no ch&atilde;o.<br \/>\n    O vestido rodeava, cobria pane da poltrona em fartos panejamentos, e por sob<br \/>\n    ele entrevia-se uma orla de saia muito branca. A aragem que entrava pelas<br \/>\n    janelas altas agitava-lhe os crespinhos dourados da nuca. Levantou-se, rodando<br \/>\n    para a esquerda, com o busto curvado, em um movimento gracioso, que p&ocirc;s<br \/>\n    em relevo a exuber&acirc;ncia dos seios a avultarem reprimidos no corpete<br \/>\n    retesado, em contraste provocador com a exig&uuml;ida da cintura.<\/p>\n<p> O quarto papel, amarelo, pu&iacute;do nas dobras, continha uma poesia escrita<br \/>\n    tamb&eacute;m por letra de Barbosa.<\/p>\n<p> Lenita leu:<br \/>\n    M.I.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei se &eacute;s feia ou bonita,<br \/>\n    Segundo as regras da arte;<br \/>\n    Sei, sim, que gosto de ver-te,<br \/>\n    Que gosto at&eacute; de estudar-te.<\/p>\n<p>Nas faces sedosas tuas<br \/>\n    N&atilde;o brilha o rubor das rosas,<br \/>\n    Retinge-as a palidez<br \/>\n    Das complei&ccedil;&otilde;es biliosas.<\/p>\n<p>Estranhas cintila&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    Mordentes, frias, geladas<br \/>\n    Tens nos olhos ba&ccedil;os, v&iacute;treos,<br \/>\n    Azuis, da cor das espadas.<\/p>\n<p>Teu l&aacute;bio, sempre agitado<br \/>\n    De leve tremor nervoso<br \/>\n    Parece ressumar sangue<br \/>\n    Com sede infrene de gozo.<\/p>\n<p>Contorce-te as m&atilde;os pequenas<br \/>\n    Espasmo fabricitante<br \/>\n    Tem n&atilde;o sei qu&ecirc; de felino<br \/>\n    Teu breve corpo ondulante&#8230;<\/p>\n<p>Queres ent&atilde;o que eu te diga<br \/>\n    Meu sentir quando te vejo ?<br \/>\n    Amor n&atilde;o te tenho n&atilde;o;<br \/>\n    Por&eacute;m morde-me o desejo.<\/p>\n<p>A mo&ccedil;a teve um deslumbramento: em seu esp&iacute;rito, subitamente<br \/>\n    iluminado, fez-se v&aacute;cuo enorme, desmoronou-se fragorosa a mole das<br \/>\n    ilus&otilde;es.<\/p>\n<p> Pensava &#8211; Barbosa era casado na Europa, ela o tinha conhecido como tal,<br \/>\n    n&atilde;o podia exigir-lhe conta dos afetos que ele voltara em tempo &agrave;<br \/>\n    esposa, das recorda&ccedil;&otilde;es que dela porventura conservasse.<\/p>\n<p> Mas ali n&atilde;o se tratava da esposa, tratava-se de tr&ecirc;s mulheres<br \/>\n    pelo menos &#8211; a dos cabelos que, escuros, tinham naturalmente por correlativo<br \/>\n    olhos pretos ou castanhos; a do fragmento em prosa, de olhos verdes; a da<br \/>\n    borracheira po&eacute;tica, de olhos azuis, cor de a&ccedil;o.<\/p>\n<p> E quem sabe se n&atilde;o seriam seis ou mesmo sete: o bilhete podia ser<br \/>\n    de uma outra; a medalha azinhavrada, de uma outra; as flores secas, de uma<br \/>\n    outra, as bolinhas de l&atilde; branca, de uma outra ainda.<\/p>\n<p> E que eram aquelas bolinhas de l&atilde; branca sen&atilde;o lembran&ccedil;as,<br \/>\n    trof&eacute;us amorosos, colhidos de certo em cama desfeita, sobre len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    ainda quentes, ap&oacute;s uma noite de del&iacute;rios er&oacute;ticos?<br \/>\n    Aquele homem era um devasso; um Dom Jo&atilde;o de pacotilha, e ela, Lenita,<br \/>\n    n&atilde;o passava de uma das suas muitas amantes.<\/p>\n<p> Quem lhe dizia a ela que uma d&aacute;diva sua, que uma &eacute;pave qualquer<br \/>\n    que lhe tivesse pertencido, n&atilde;o iria aumentar aquela ignominiosa cole&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Em que dera seu orgulho, o alto conceito que ela formava do seu sexo, que<br \/>\n    ela formava de si pr&oacute;pria!<br \/>\n    Amante de um devasso, barreg&atilde; de um homem velho, casado, que guardava<br \/>\n    trof&eacute;us das conquistas&#8230; Bonito! Espl&ecirc;ndido!<br \/>\n    Estava castigada e achava justo o castigo.<\/p>\n<p> Tinha ido pedir &agrave; ci&ecirc;ncia superioridade sobre as outras mulheres;<br \/>\n    e na &aacute;rvore da ci&ecirc;ncia encontrara um verme que a polu&iacute;ra.<\/p>\n<p> Quisera voar de surto, remontar-se &agrave;s nuvens, mas a carne a prendera<br \/>\n    &agrave; terra, e ela tombara, submetera-se; tombara como a negra bo&ccedil;al<br \/>\n    do cap&atilde;o, submetera-se como a vaca mansa da campina. Revoltada contra<br \/>\n    a metaf&iacute;sica social, pusera-se fora da lei da sociedade, e a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    castigava-a, dando-lhe testemunho de quanto ela descera abaixo do n&iacute;vel<br \/>\n    comum da mesma sociedade.<\/p>\n<p> &Eacute; loucura quebrar de chofre o que &eacute; produto de uma evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de milhares de s&eacute;culos. A sociedade tem raz&atilde;o: ela assenta sobre<br \/>\n    a fam&iacute;lia, e a fam&iacute;lia assenta sobre o casamento. Amor que n&atilde;o<br \/>\n    tenda a santificar-se pela constitui&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia, pelo<br \/>\n    casamento legal, aceito, reconhecido, honrado, n&atilde;o &eacute; amor, &eacute;<br \/>\n    bruteza animal, desregramento de sentidos. N&atilde;o, ela n&atilde;o amara<br \/>\n    a Barbosa, aquilo n&atilde;o tinha sido amor. Procurara-o, entregara-se a<br \/>\n    ele por um desarranjo org&acirc;nico, por um desequil&iacute;brio de fun&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    por uma nevrose. Como a Fedra da f&aacute;bula, como as b&iacute;blicas filhas<br \/>\n    de J&oacute;, como a hist&oacute;rica mulher de Cl&aacute;udio, ela ca&iacute;ra<br \/>\n    sob o l&aacute;tego da carne e, empurrada por um devasso ilustr&iacute;ssimo,<br \/>\n    resvalara ao fundo do pego, &agrave; &uacute;ltima estratifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vasa. N&atilde;o, ela n&atilde;o amara, ela n&atilde;o amava a Barbosa.<br \/>\n    O que por ele sentira fora uma atra&ccedil;&atilde;o paulatina, gradual, viciosa,<br \/>\n    m&oacute;rbida. A primeira impress&atilde;o que recebera, ao v&ecirc;-lo,<br \/>\n    n&atilde;o tinha sido boa; e as primeiras<br \/>\n    impress&otilde;es &eacute; que fazem f&eacute;, porque s&atilde;o as que se<br \/>\n    produzem instintivamente no esp&iacute;rito desprevenido. Nesse momento em<br \/>\n    que ficava conhecendo a Barbosa como Barbosa realmente era, &eacute; que ela<br \/>\n    podia avaliar o b&aacute;ratro em que se despenhara. Pomba inocente, procurara<br \/>\n    por seu p&eacute; o a&ccedil;or, metera-se-lhe nas garras, e ele a conspurcara,<br \/>\n    n&atilde;o somente lhe arrancando a virgindade, mas debochando-a em pr&aacute;ticas<br \/>\n    infames para despertarem os sentidos embotados&#8230;<\/p>\n<p> Meteu tudo &agrave;s pressas, desordenadamente, na caixinha, atirou a caixinha<br \/>\n    para a gaveta, empurrou com viol&ecirc;ncia a gaveta, saiu, foi para seu quarto,<br \/>\n    entrou, fechou-se por dentro, atirou-se na cama; desatou em pranto.<\/p>\n<p> De repente ergueu-se.<\/p>\n<p> Que era aquilo? perguntou-se a si pr&oacute;pria. Pois ela era mulher para<br \/>\n    chorar, para carpir-se, como qualquer criadinha de servir, violentada pelo<br \/>\n    filho da patroa? N&atilde;o ! Ca&iacute;ra, mas ca&iacute;ra vencida por si,<br \/>\n    s&oacute; por si, por seu organismo, por seus nervos. O homem n&atilde;o entrava<br \/>\n    em linha de conta, n&atilde;o passava de mero instrumento: fora Barbosa; poderia<br \/>\n    ter sido o administrador, poderia ter sido o velho coronel. Enquanto quisera,<br \/>\n    gozara; estava saciada&#8230;<\/p>\n<p> Uma id&eacute;ia terr&iacute;vel atravessou-lhe o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> De pouco tempo, de um m&ecirc;s a essa parte, sentia-se modificar de modo<br \/>\n    estranho, moralmente, fisicamente: tomara-se irritadi&ccedil;a, tinha impaci&ecirc;ncias<br \/>\n    febris. Uma nuga, um nada a punha fora de si. Mal se alimentava: &agrave;<br \/>\n    simples vista da mesa posta, vinham-lhe engulhos, chegava mesmo a vomitar.<br \/>\n    Aberrara-se-lhe o apetite, desejava coisas extravagantes. Uma tarde vira um<br \/>\n    cacho de caraguat&aacute; &agrave; beira de um valo : quisera por for&ccedil;a<br \/>\n    comer, comera, queimara a boca com o sumo c&aacute;ustico da fruta da bromeli&aacute;cea.<\/p>\n<p> Com pasmo grande, sem poder dar a raz&atilde;o por que, via que Barbosa<br \/>\n    j&aacute; lhe n&atilde;o inspirava admira&ccedil;&atilde;o. As tiradas, as<br \/>\n    disserta&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas, ali&aacute;s corretas, que<br \/>\n    lhe fazia enfastiavam-na: ela achava-o desajeitado, vulgar, pretensioso; ganhava-lhe<br \/>\n    avers&atilde;o; cria at&eacute; perceber-lhe no corpo e na roupa um cheiro<br \/>\n    esquisito, enjoativo, o que quer que era como catinga de rato. Repugnavam-lhe<br \/>\n    as car&iacute;cias dele, e, para chegar bem &agrave; verdade, elas incomodavam-na,<br \/>\n    de fato, topicamente.<\/p>\n<p> Acudiu-lhe o dizer de Rabelais &#8211; &quot;Les b&ecirc;tes sur-leurs ventr&eacute;es<br \/>\n    n&#8217;endurent jamais te mal&ecirc; masculant&quot;.<\/p>\n<p> Estaria gr&aacute;vida? <br \/>\n    Correu &agrave; c&ocirc;moda, puxou uma gaveta, tirou um calendariozinho de<br \/>\n    algibeira, percorreu os meses, virando as folhas com rapidez: estavam a 20<br \/>\n    de agosto, e o &uacute;ltimo dia marcado com uma cruzinha vermelha era o dia<br \/>\n    de S&atilde;o Pedro, 29 de junho. Mediava um espa&ccedil;o de cinq&uuml;enta<br \/>\n    e dois dias&#8230;<\/p>\n<p> Desabotoou o corpinho, desceu o cabe&ccedil;&atilde;o da camisa, fez sair<br \/>\n    o seio esquerdo, globuloso, duro: baixou a cabe&ccedil;a para v&ecirc;-lo,<br \/>\n    estendendo o bei&ccedil;o inferior. O aur&eacute;olo, outrora r&oacute;seo,<br \/>\n    impercept&iacute;vel, acentuava-se retrato, pardacento, constelado de papilas<br \/>\n    ouri&ccedil;adas. N&atilde;o havia duvidar, estava gr&aacute;vida.<\/p>\n<p> Sentiu ou julgou sentir que uma coisa qualquer se lhe agitava, se lhe enovelava<br \/>\n    dentro do &uacute;tero. No mesmo instante apoderou-se dela um afeto imenso,<br \/>\n    indiz&iacute;vel, por esse quer que fosse, que assim ensaiava os primeiros<br \/>\n    movimentos na ante-sala da vida. Era o desencadear de uma tempestade, de uma<br \/>\n    inunda&ccedil;&atilde;o nevr&oacute;tica, que a invadia, que a alagavam como<br \/>\n    as &aacute;guas de um a&ccedil;ude roto invadem e alagam a plan&iacute;cie.<br \/>\n    No amor enorme de que se via repassada, Lenita reconheceu o sentimento t&atilde;o<br \/>\n    ridiculamente guindado ao sublime pelo romantismo piegas, e todavia t&atilde;o<br \/>\n    ego&iacute;stico, t&atilde;o humano, t&atilde;o animal &#8211; a maternidade.<\/p>\n<p> &#8211; Que iria fazer? perguntou-se a si mesma, e, sem hesitar, respondeu-se<br \/>\n    &#8211; levar a bom termo a gesta&ccedil;&atilde;o, parir, criar, educar o filho,<br \/>\n    ver-se nele, ser m&atilde;e.<\/p>\n<p> Dois dias se passaram sem que Lenita sa&iacute;sse do quarto, sen&atilde;o<br \/>\n    para ir a uma ou outra refei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao almo&ccedil;o do terceiro dia, uma quinta-feira, disse ao coronel que<br \/>\n    no domingo tencionava seguir para a vila, de l&aacute; para a cidade, e da<br \/>\n    cidade para S&atilde;o Paulo; que seus tarecos estavam arranjados, suas malas<br \/>\n    feitas; que precisava do carro&ccedil;&atilde;o para conduzi-los, do trolley<br \/>\n    para conduzi-la a ela; que, saindo bem cedo, chegaria a tempo, teria ainda<br \/>\n    de esperar pelo trem, talvez uma hora.<\/p>\n<p> &#8211; Que nova loucura era aquela? perguntou o coronel. Que ia Lenita fazer<br \/>\n    a S&atilde;o Paulo, assim de repente, sem qu&ecirc; nem para qu&ecirc;?<br \/>\n    &Agrave; insist&ecirc;ncia de Lenita, que a nada se demoveu, fez ele sentir<br \/>\n    que ao menos era preciso esperar ela vir Barbosa do Ipanema para lev&aacute;-la;<br \/>\n    que, s&oacute;, ela n&atilde;o podia, n&atilde;o devia ir; que ele, coronel,<br \/>\n    amea&ccedil;ado e at&eacute; j&aacute; principiando a sofrer de um insulto<br \/>\n    de reumatismo, achava-se incapaz de uma vez para cumprir o dever de acompanh&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Que iria muito bem s&oacute; com o moleque at&eacute; &agrave; vila, volveu<br \/>\n    Lenita inabal&aacute;vel; que na estrada de ferro n&atilde;o se fazia mister<br \/>\n    companhia; que lhe era imposs&iacute;vel deixar de ir.<\/p>\n<p> As s&uacute;plicas da entrevada, as inst&acirc;ncias e amuos do coronel,<br \/>\n    de nada aproveitaram.<\/p>\n<p> O carro&ccedil;&atilde;o coma bagagem partiu no s&aacute;bado de tarde,<br \/>\n    e, no domingo cedo, Lenita de guarda-p&oacute; e chap&eacute;u de abas largas,<br \/>\n    abra&ccedil;ou, chorando a velha; abra&ccedil;ou o coronel que solu&ccedil;ava<br \/>\n    como uma crian&ccedil;a, subiu para o trolley, seguiu.0<br \/>\n    &#8211; Rapariga, gritou-lhe de longe o coronel, limpando os olhos, engasgado, voc&ecirc;<br \/>\n    tem m&aacute; cabe&ccedil;a, mas seu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; bom, e<br \/>\n    eu quero-lhe bem deveras. Em toda e qualquer emerg&ecirc;ncia lembre-se de<br \/>\n    que eu e seu av&ocirc; fomos como irm&atilde;os, de que eu tive sempre a seu<br \/>\n    pai na conta de filho. Para tudo, mas mesmo para tudo, aqui fica o velho.<\/p>\n<p> E acrescentou consigo:<br \/>\n    &#8211; Nalguma coisa haviam mesmo de dar as f&iacute;sicas e as bot&acirc;nicas<br \/>\n    e as ca&ccedil;adas: foi nisto. Antes nunca esta rapariga se lembrasse de<br \/>\n    ter vindo aqui para a fazenda, ou antes Manduca l&aacute; se tivesse deixado<br \/>\n    ficar pelo Paranapanema. Agora &eacute; pegar-lhe com um trapo quente.<\/p>\n<h4><a name=\"18\">Cap&iacute;tulo XVIII<\/a><\/h4>\n<p>Seis dias depois da partida de Lenita chegou Barbosa. De nada sabia ele:<br \/>\n    o coronel n&atilde;o lhe tinha escrito.<\/p>\n<p> Desde que transpusera a crista do morro, vinha alongando os olhares, &agrave;<br \/>\n    espera, a todo o momento, de divulgar o vulto da mo&ccedil;a uma janela no<br \/>\n    terreiro, em qualquer parte. Antegozava o prazer de v&ecirc;-la estremecer<br \/>\n    do j&uacute;bilo ao enxerg&aacute;-lo, de v&ecirc;-la correr-lhe ao encontro<br \/>\n    p&aacute;lida, tr&ecirc;mula, convulsionada pela emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Lembrava-se da noite, e tinha calafrios; afastava, expediu da mente a lembran&ccedil;a<br \/>\n    do gozo, para tamb&eacute;m esquecer que lhe era preciso esperar tantas horas.<\/p>\n<p> E &agrave;s janelas ningu&eacute;m assomava. No pardo sujo do terreiro esburgado,<br \/>\n    agitavam-se, passavam r&aacute;pidas de uma para outra parte manchas azuis<br \/>\n    e encarnadas: era um lote de crioulinhos a correr, a bancar, vestidos de camisolas<br \/>\n    do baeta. Mais nada.<\/p>\n<p> &#8211; Melhor, disse Barbosa consigo, vou surpreend&ecirc;-la na varanda, em<br \/>\n    prosa com o velho <br \/>\n    Desceu, chegou &agrave; porteira.<\/p>\n<p> A crioulada reuniu-se em um magote, e, al&ccedil;ando as m&atilde;os e tripudiando,<br \/>\n    come&ccedil;ou de gritar<br \/>\n    uma melop&eacute;ia cadente, afinada:<br \/>\n    &#8211; Ai vem nhonh&ocirc;! a&iacute; vem!<br \/>\n    &#8211; Cala o bico, canalha! Barbosa, cruzando nos l&aacute;bios &iacute;ndice<br \/>\n    da m&atilde;o direita.<\/p>\n<p> A crioulada afeita a obedecer, emudeceu.<\/p>\n<p> Ele apeou-se, descal&ccedil;ou as esporas, atravessou o terreiro, entrou<br \/>\n    em casa, foi andando nas pontas dos p&eacute;s at&eacute; &agrave; varanda.<\/p>\n<p> Estava deserta.<\/p>\n<p> Dirigiu-se ao quarto do pai. Encontrou o coronel deitado, a gemer com o<br \/>\n    reumatismo. N chaise-longhe do costume cabeceava a velha entrevada.<\/p>\n<p> &#8211; Como vai, meu pai? Como est&aacute;, minha m&atilde;e?<br \/>\n    E beijou a m&atilde;o de um e a testa de outra.<\/p>\n<p> &#8211; Na forma do louv&aacute;vel&#8230;respondeu o coronel, sofrendo sempre&#8230;<br \/>\n    ai!&#8230; Este maldito reumatismo n&atilde;o larga&#8230; Como foi voc&ecirc; de<br \/>\n    viagem?<br \/>\n    &#8211; Muito bem.<\/p>\n<p> &#8211; O engenho?<br \/>\n    &#8211; Vem a&iacute;, chega amanh&atilde; a esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Assim, pois, &eacute; preciso que sigam os carro&ccedil;&otilde;es a esper&aacute;-lo,<br \/>\n    hoje mesmo?<br \/>\n    &#8211; Basta que sigam amanh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8211; E veio coisa boa?<br \/>\n    &#8211; &Oacute;tima. Algumas pe&ccedil;as foram fundidas especialmente; fizeram-se<br \/>\n    os moldes sob meu risco.<\/p>\n<p> &#8211; Muito bem, e quanto custou?<br \/>\n    &#8211; Ficou barato; n&atilde;o anda em mais de tr&ecirc;s contos.<\/p>\n<p> &#8211; Ai !&#8230; Voc&ecirc; j&aacute; jantou?<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o, senhor.<\/p>\n<p> O coronel sentou-se com esfor&ccedil;o, tirou de sob o travesseiro uma chavinha,<br \/>\n    levou-a aos l&aacute;bios, arrancou um assobio estridente, prolongado.<\/p>\n<p> &#8211; Sinh&ocirc;, gritou de dentro uma escrava, que logo assomou &agrave; porta<br \/>\n    do quarto.<\/p>\n<p> &#8211; Nhonh&ocirc; est&aacute; aqui, e ainda n&atilde;o jantou.<\/p>\n<p> &#8211; Sim sinh&ocirc;, meu sinh&ocirc;.<\/p>\n<p> E, voltando-se r&aacute;pida, desapareceu.<\/p>\n<p> Barbosa n&atilde;o quis perguntar por Lenita. Ela estava de certo no quarto.<br \/>\n    Ele l&aacute; iria ter com ela. Pediu licen&ccedil;a ao pai para sair: que<br \/>\n    se n&atilde;o demoraria, disse: que voltaria logo, para conversarem.<\/p>\n<p> Chegou &agrave; sala de Lenita e sentiu um grande aperto do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao ver os consolos despidos, sem um bronze, sem uma estatueta, sem uma jarra<br \/>\n    de S&egrave;vres, sem um defumador de Satzuma.<\/p>\n<p> Foi &agrave; porta do quarto dormir, empurrou-a, estava fechada a chave;<br \/>\n    foi ao outro quarto, vazio. Empalideceu-se, encostou-se &agrave; ombreira<br \/>\n    da porta para n&atilde;o cair. Que era aquilo? perguntou-se. Para onde tinha<br \/>\n    ido a mo&ccedil;a?<br \/>\n    Voltou aos aposentos do pai.<\/p>\n<p> &#8211; Meu pai, onde est&aacute; D. Lenita?<br \/>\n    &#8211; Se realizou o que tinha na inten&ccedil;&atilde;o, est&aacute; em S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, em casa de um parente, do Fernandes Faria, ou qualquer hotel. Aquilo<br \/>\n    &eacute; uma doidinha.<\/p>\n<p> &#8211; Pois D. Lenita foi para S&atilde;o Paulo? ! exclamou Barbosa, como que<br \/>\n    recusando a evid&ecirc;ncia, como que fugindo &agrave; brutalidade do fato.<\/p>\n<p> &#8211; Se foi ! Voc&ecirc; a conhece pelo menos t&atilde;o bem como eu: e desencabritando,<br \/>\n    desencabrita mesmo: n&atilde;o h&aacute; pegar-lhe.<\/p>\n<p> Barbosa deixou-se cair em uma cadeira.<\/p>\n<p> N&atilde;o estava p&aacute;lido, n&atilde;o estava l&iacute;vido: estava<br \/>\n    uma e outra coisa: tinha manchas cor de chumbo no rosto cor de terra.<\/p>\n<p> Em suas fei&ccedil;&otilde;es havia alguma coisa da express&atilde;o que<br \/>\n    deve Ter uma m&aacute;scara de bronze, que, ca&iacute;da em uma fogueira,<br \/>\n    come&ccedil;a a entrar em fus&atilde;o.<\/p>\n<p> Conservou-se sentado por muito tempo, mal respondendo &agrave;s perguntas<br \/>\n    do pai.<\/p>\n<p> Chamaram-no para jantar; foi, sentou-se &agrave; mesa, cruzou os bra&ccedil;os<br \/>\n    sobre ela, afundou a cabe&ccedil;a no &acirc;ngulo formado pelo bra&ccedil;o<br \/>\n    esquerdo, deixou-se ficar, im&oacute;vel.<\/p>\n<p> Refletia.<\/p>\n<p> Lenita ali n&atilde;o estava, n&atilde;o estava na sala, n&atilde;o estava<br \/>\n    no quarto, n&atilde;o estava no terreiro, n&atilde;o estava no pomar, n&atilde;o<br \/>\n    estava na fazenda. Ele a n&atilde;o veria mais, n&atilde;o lhe ouviria mais<br \/>\n    a voz suave, n&atilde;o lhe beijaria mais os l&aacute;bios corados, n&atilde;o<br \/>\n    lhe beberia mais a frescura do h&aacute;lito&#8230; S&oacute;&#8230; s&oacute;&#8230;<br \/>\n    estava s&oacute; !<br \/>\n    Ela o provocara, ela se lhe oferecera, ela o procurara, ela se lhe entregara,<br \/>\n    ela se prestara a todos os seus caprichos, mansa, d&oacute;cil, submissa,<br \/>\n    para depois assim abandon&aacute;-lo, a s&oacute;s com as lembran&ccedil;as,<br \/>\n    entregue &agrave; tortura da saudade!<br \/>\n    N&atilde;o, n&atilde;o era poss&iacute;vel: Lenita ali estava, do outro lado<br \/>\n    da mesa; n&atilde;o se fora&#8230;<\/p>\n<p> Ergueu a cabe&ccedil;a, abriu os olhos esgazeados e s&oacute; viu diante<br \/>\n    de si a crioulinha servente, que abanava moscas, movendo pregui&ccedil;osa<br \/>\n    e mole, para a direita e para a esquerda, um ramo de alecrim bravo.<\/p>\n<p> Barbosa deixou cair de novo a cabe&ccedil;a, continuou no cismar doloroso,<br \/>\n    como quem se praz a revolver em uma ferida o ferro que a produziu.<\/p>\n<p> Louco que fora!<br \/>\n    Tinha tido dezenas de amantes, tinha sido, era ainda casado, conhecia a fundo<br \/>\n    a natureza, a organiza&ccedil;&atilde;o caprichosa, nevr&oacute;tica, inconstante,<br \/>\n    il&oacute;gica, falha, absurda, da f&ecirc;mea da esp&eacute;cie humana; conhecia<br \/>\n    a mulher, conhecia-lhe o &uacute;tero, conhecia-lhe a carne, conhecia-lhe<br \/>\n    o c&eacute;rebro fraco, escravizado pela carne, dominado pelo &uacute;tero;<br \/>\n    e, estolidamente , estupidamente, como um fedelho sem experi&ecirc;ncia, fora<br \/>\n    se deixar prender nos la&ccedil;os de uma paix&atilde;o por mulher!<br \/>\n    O tempo ia passando: o jantar arrefecera.<\/p>\n<p> Barbosa levantou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Nhonh&ocirc; n&atilde;o janta? perguntou triste a preta cozinheira que<br \/>\n    o observava da porta do corredor.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, Rita, estou sem vontade, estou doente.<\/p>\n<p> Saiu, chegou &agrave; porta do terreiro, circunspecionou os arredores.<\/p>\n<p> Parecia-lhe morta a natureza: a paisagem figurava-se-lhe um cad&aacute;ver,<br \/>\n    vasto, enorme.<\/p>\n<p> Do diafragma subia-lhe para o cora&ccedil;&atilde;o um aperto constante,<br \/>\n    ininterrompido, doloroso, que lhe tolhia o f&ocirc;lego, que o sufocava.<\/p>\n<p> Queria chorar; o pranto, julgava, far-lhe-ia bem, seria um desabafo: imposs&iacute;vel.<br \/>\n    Um ardor seco, febril, queimava-lhe os olhos.<\/p>\n<p> No im&oacute;vel do arvoredo secular, na calma impass&iacute;vel das encostas<br \/>\n    amareladas, havia, ele pelo menos sentia, o que quer que era de hostil: essa<br \/>\n    indiferen&ccedil;a majestosa irritava-o, era como um esc&aacute;rnio &agrave;<br \/>\n    ang&uacute;stia em que se estorcia seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> E tudo lhe fazia lembrar Lenita; na ante-sala, a cuja porta estava, a vira<br \/>\n    ele pela vez primeira por entre as torturas de uma enxaqueca; no pomar, de<br \/>\n    que avistava um &acirc;ngulo, com ela tivera a primeira entrevista; no pasto,<br \/>\n    que se lhe estendia entre os olhos, quantas vezes n&atilde;o tinham passeado<br \/>\n    juntos; a mata fronteira, as ca&ccedil;adas, os p&aacute;ssaros, a cutia,<br \/>\n    os porcos, a cascavel&#8230; ah! a cascavel! Por que n&atilde;o sucumbira Lenita<br \/>\n    ao veneno da cobra? Por que a fizera ele viver? ! Morta naquele tempo, ela<br \/>\n    seria apenas uma saudade doce, e n&atilde;o a lembran&ccedil;a voraz que o<br \/>\n    havia de matar.<\/p>\n<p> Anoiteceu.<\/p>\n<p> A escuridade, o sil&ecirc;ncio, reprodu&ccedil;&atilde;o cruel da escuridade<br \/>\n    e do sil&ecirc;ncio das noites de outrora, das noites de amor, que n&atilde;o<br \/>\n    mais voltariam acenderam-lhe, exacerbaram-lhe o pungir do sofrimento, o rolar<br \/>\n    da soledade.<\/p>\n<p> Lembrou-lhe o suic&iacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; Ainda n&atilde;o, disse: esperemos.<\/p>\n<p> Entrou para o seu quarto, deitou-se, fez uma inje&ccedil;&atilde;o de morfina,<br \/>\n    dormiu.<\/p>\n<p> No dia em que era esperado chegou o maquinismo.<\/p>\n<p> Barbosa desenvolveu uma atividade febril.<\/p>\n<p> Desengradou-o, armou-o, ele pr&oacute;prio. Multiplicou-se, dividiu-se:<br \/>\n    fez-se carpinteiro, pedreiro, serralheiro, maquinista.<\/p>\n<p> Queria esquecer de dia, hipnotizava-se com trabalho, de noite, com morfina.<\/p>\n<p> Pronto o engenho, a moagem continuou.<\/p>\n<p> Barbosa tomou-a a si, dirigiu o servi&ccedil;o. O a&ccedil;&uacute;car da<br \/>\n    fazenda criou fama.<\/p>\n<p> &#8211; Eta ! rapazinho destorcido! dizia o coronel, &eacute; pau para toda a<br \/>\n    obra! Quem havia de dizer que ele entende mais de fabrica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que eu que lido com cana desde que me conhe&ccedil;o por gente? Quem estuda<br \/>\n    sabe mesmo.<\/p>\n<p> Mas&#8230; eu n&atilde;o ando contente com ele: estes modos que ele agora tem<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o naturais, ele n&atilde;o os tinha. Aquela Lenita&#8230;<\/p>\n<p> Em um dos dias da primeira quinzena de outubro, o moleque trouxe da vila,<br \/>\n    na correspond&ecirc;ncia, duas cartas sobrescritas por uma letra redonda,<br \/>\n    fina, bonita letra, letra de mulher.<\/p>\n<p> Era de Lenita.<\/p>\n<p> Barbosa a conheceu imediatamente.<\/p>\n<p> Uma lhe era endere&ccedil;ada, outra ao coronel.<\/p>\n<p> Barbosa tomou a sua, abriu-a e, p&aacute;lido, muito p&aacute;lido, com<br \/>\n    um ligeiro tremor a agitar-lhe as m&atilde;os, come&ccedil;ou a leitura.<\/p>\n<p> Dizia:<\/p>\n<p>S&atilde;o Paulo, 5 de outubro de 1887.<\/p>\n<p> Ao Sr. Manuel Barbosa envio muito saudar.<\/p>\n<p> Mestre.<\/p>\n<p> Ao chegar &agrave; fazenda, surpreendeu-se de cerro com a minha partida<br \/>\n    um tanto brusca.<\/p>\n<p> Procurou-lhe explica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o achou: nem eu. Lembro-lhe<br \/>\n    o que diz Spinoza: &quot;A nossa ilus&atilde;o do livre-arb&iacute;trio vem<br \/>\n    de ignorarmos n&oacute;s os motivos que nos dirigem &quot;. No caso desta<br \/>\n    minha partida, eu poderia bem crer que tinha livre-arb&iacute;trio. Demais<br \/>\n    sou mulher, sou fantasque Quem vai discutir, explicar caprichos de mulher?<br \/>\n    Vale infinitamente mais non ragionar di lor, guardar, passar.<\/p>\n<p> Qual tem sido a minha vida desde que vim da fazenda? Nem eu mesma sei.<\/p>\n<p> Estudar, n&atilde;o tenho estudado; fui s&aacute;bia, fui preciosa tanto<br \/>\n    tempo, que achei de justi&ccedil;a dar-me o luxo de ser ignorante, de ser<br \/>\n    mulher um poucochinho.<\/p>\n<p> Mas, qual! ningu&eacute;m &eacute; s&aacute;bio impunemente. A ci&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; uma t&uacute;nica de Dejanira: uma vez vestida, gruda-se &agrave;<br \/>\n    pele, n&atilde;o sai mais. Quando se tenta arrancar, deixa peda&ccedil;os<br \/>\n    de forro, que &eacute; o pedantismo.<\/p>\n<p> E a prova &eacute; estar-lhe eu escrevendo, por n&atilde;o poder resistir<br \/>\n    ao prurido de comunicar as minhas impress&otilde;es, de conversar um bocadinho<br \/>\n    com quem me entenda.<\/p>\n<p> Que saudades n&atilde;o tenho eu &agrave;s vezes das nossas palestras, das<br \/>\n    nossas li&ccedil;&otilde;es, nas quais tanto se dissipava a treva da minha<br \/>\n    ignor&acirc;ncia &agrave; luz do seu profundo saber.<\/p>\n<p> O passado, passado: fomos como dois astros vagabundos que se encontraram<br \/>\n    em um recanto do espa&ccedil;o, que caminharam juntos, enquanto foram paralelas<br \/>\n    as suas &oacute;rbitas, e que ora est&atilde;o separados, seguindo cada qual<br \/>\n    o seu destino.<\/p>\n<p> Vamos ao que serve.<\/p>\n<p> S&atilde;o Paulo &eacute; hoje uma grande cidade, dou-lhe, sem receio de<br \/>\n    erro, sessenta mil habitantes.<\/p>\n<p> Dia a dia, para nome, para sul, para leste, para oeste, est&aacute; crescendo,<br \/>\n    est&aacute;-se alastrando, &eacute; o que mais &eacute;, est&aacute;-se aformoseando.<\/p>\n<p> Os horr&iacute;veis casebres dos fins do s&eacute;culo passado e dos princ&iacute;pios<br \/>\n    deste v&atilde;o sendo demolidos para dar lugar a habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    higi&ecirc;nicas, confort&aacute;veis, modernas. Os palacetes do per&iacute;odo<br \/>\n    de transi&ccedil;&atilde;o, &agrave; fazendeira, &agrave; cosmopolita, sem<br \/>\n    arte, sem gosto, chatos, pesados, mas solidamente constru&iacute;dos, constituem<br \/>\n    um defeito grave que n&atilde;o mais desaparecer&aacute;. Obras, por&eacute;m,<br \/>\n    h&aacute; feitas, nestes &uacute;ltimos cinco anos, pelo arquiteto Ramos de<br \/>\n    Azevedo, pelo italiano Pucci e por outros estrangeiros, que s&atilde;o realmente<br \/>\n    primores de arte. Gosto imenso da Tesouraria da Fazenda que est&aacute; construindo<br \/>\n    Ramos de Azevedo: &eacute; um edif&iacute;cio que honra S&atilde;o Paulo pela<br \/>\n    severidade e eleg&acirc;ncia do estilo, pela robustez que ostenta desde os<br \/>\n    profund&iacute;ssimos alicerces at&eacute; o levantado coruch&eacute;u. Aquela<br \/>\n    mole enorme forma um todo compacto, homog&ecirc;neo, sem o m&iacute;nimo defeito,<br \/>\n    sem uma trinca sequer de tassement. Quem viu o que ali estava.. cruzes!.&#8217;.&#8217;<br \/>\n    Para se avaliar o que era basta que se veja o anual Pal&aacute;cio do Governo,<br \/>\n    da mesma proced&ecirc;ncia. Os manes do Sr. Flor&ecirc;ncio de Abreu podem<br \/>\n    se limpar as m&atilde;os &agrave; parede dos Campos El&iacute;sios, se &eacute;<br \/>\n    que os Campos El&iacute;sios t&ecirc;m parede. Desmanchar a velha, a maci&ccedil;a,<br \/>\n    a hist&oacute;rica, a legend&aacute;ria constru&ccedil;&atilde;o dos Jesu&iacute;tas,<br \/>\n    para estender por ali fora aquele pardieiro medonho N&atilde;o sei por que<br \/>\n    n&atilde;o mandou botar abaixo tamb&eacute;m a capela&#8230; O Sr. de Parna&iacute;ba<br \/>\n    desvendou os mist&eacute;rios da cripta dos padres de Loyola, rasgando uma<br \/>\n    porta no andar da torre dessa capela. &Agrave; esquerda de quem entra, v&ecirc;em-se<br \/>\n    distintamente seis covas sepulcrais, seis catacumbas, superpostas, em duas<br \/>\n    ordens, de tr&ecirc;s cada uma, praticadas na grossura enorme da parede. Entraram<br \/>\n    j&aacute; cad&aacute;veres os que ali jazem, ou foram emparedados vivos, segundo<br \/>\n    a lei terr&iacute;vel do c&oacute;digo secreto da Companhia? Ao governo, ao<br \/>\n    bispo diocesano, incumbe, corre o dever de mandar abrir aqueles jazigos, onde<br \/>\n    talvez se encontrem documentos importantes para a hist&oacute;ria da prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> O Ch&aacute;, lembra-se bem, era mato quando eu estive com meu pai em S&atilde;o<br \/>\n    Paulo, pela primeira ver hoje &eacute; um bairro populoso, constitu&iacute;do<br \/>\n    por um vasto enxadrezamento de ruas direitas e largas, arejadas e mordidas<br \/>\n    de luz.<\/p>\n<p> H&aacute; na cidade v&aacute;rios cal&ccedil;amentos a paralelep&iacute;pedos.<br \/>\n    O antigo, famoso largo de S&atilde;o Francisco est&aacute; que &eacute; um<br \/>\n    brinco.<\/p>\n<p> A academia foi reformada.<\/p>\n<p> Talvez eu n&atilde;o tenha raz&atilde;o; mas o caso &eacute; que eu a preferia<br \/>\n    exteriormente como ela era outrora. Tinha pelo menos o m&eacute;rito de representar<br \/>\n    o gosto arquitet&ocirc;nico dos religiosos que dirigiram a coloniza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Brasil. Hoje n&atilde;o representa coisa nenhuma, tem uma apar&ecirc;ncia<br \/>\n    limpa, mas desgraciosa e at&eacute; caturra.<\/p>\n<p> No alastrar da cidade, bairros unem-se, v&atilde;o desaparecendo as solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de continuidade predial: a Luz j&aacute; pega com o Br&aacute;s pela rua de<br \/>\n    S&atilde;o Caetano.<\/p>\n<p> O com&eacute;rcio tem-se desenvolvido de modo assombroso, e a ind&uacute;stria<br \/>\n    segue-o de perto.<\/p>\n<p> H&aacute; em S&atilde;o Paulo f&aacute;bricas de m&oacute;veis, de chap&eacute;us,<br \/>\n    de chitas, de bordados, de luvas, que rivalizam com as do Rio, e que estabelecem<br \/>\n    concorr&ecirc;ncia s&eacute;ria aos produtos europeus.<\/p>\n<p> Nas ruas de S&atilde;o Bento e da imperatriz &eacute; enorme o acervo de<br \/>\n    lojas, e de armaz&eacute;ns, de casas banc&aacute;rias, de estabelecimentos<br \/>\n    de todo o g&ecirc;nero.<\/p>\n<p> As vitrines das casas de j&oacute;ias entram em compita de riqueza e gosto:<br \/>\n    aqui a relojoaria su&iacute;&ccedil;a, delicada, elegant&iacute;ssima, ostenta<br \/>\n    os seus primores, os seus inexced&iacute;veis &quot;Patek Philippe&quot;,<br \/>\n    a par dos artefatos s&oacute;lidos da relojoaria americana, dos &quot;Waltham&quot;<br \/>\n    feitos a m&aacute;quina, grossos, esparramados, angulosos, profusa e desgraciosissimamente<br \/>\n    ornamentados. Ali a prata do Porto, aereamente, maravilhosamente filigranada,<br \/>\n    casa sua alvura mate aos reflexos f&uacute;lvos da ourivesaria francesa, &agrave;s<br \/>\n    cintila&ccedil;&otilde;es m&aacute;gicas dos brilhantes pur&iacute;ssimos<br \/>\n    do Brasil, dos diamantes coloridos do Cabo, dos rubis, das safiras, dos top&aacute;zios,<br \/>\n    das ametistas, das opalas irisadas. A luz brinca nos lavores dos metais e<br \/>\n    nas facetas das pedrarias em um tal deboche de magnific&ecirc;ncia, que faz<br \/>\n    lembrar os contos de fadas, a caverna de Aladim.<\/p>\n<p> Entrei ontem em uma casa de modas, a Mascote.<\/p>\n<p> Atra&iacute;ram-me a aten&ccedil;&atilde;o bronzes de Barbedienne, expostos<br \/>\n    em uma vitrine interior.<\/p>\n<p> Alguns eram reprodu&ccedil;&otilde;es dos que eu possuo, o hoplitodromo<br \/>\n    conhecido por gladiador Borgh&eacute;se, a V&ecirc;nus de Milo, a V&ecirc;nus<br \/>\n    de Salona: outros eu ainda n&atilde;o conhecia, o menino da cesta, por Barrias;<br \/>\n    a bacante do cacho, por Clodion.<\/p>\n<p> Que bronze ador&aacute;vel este; que verdade nos panejamentos! Que morbidez<br \/>\n    suave de postura.! No rosto o metal parece ter o emaciamento, a transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    fosca da pele viva. Os olhos como se cerram em um &ecirc;xtase de vol&uacute;pia&#8230;<\/p>\n<p> Encomenda de J&uacute;lio Ribeiro, um gram&aacute;tico que se pode parecer<br \/>\n    com tudo menos um gram&aacute;tico: n&atilde;o usa simonte, nem len&ccedil;o<br \/>\n    de Alcoba&ccedil;a, nem pince-nez, nem sequer cartola. Gosta de porcelanas,<br \/>\n    de marfins, de bronzes art&iacute;sticos, de moedas antigas. Tem, ao que me<br \/>\n    dizem, uma qualidade ador&aacute;vel, um verdadeiro t&iacute;tulo de benemer&ecirc;ncia<br \/>\n    &#8211; nunca fala, nunca disserta sobre coisas de gram&aacute;tico.<\/p>\n<p> Veio receber-me um dos propriet&aacute;rios da loja, rapaz af&aacute;vel,<br \/>\n    parisiense nos modos, flor na botoeira do palet&oacute;, sorriso engatilhado.<\/p>\n<p> Fiz alguns pedidos: tomou nota deles, para mandar-nos a casa, o outro s&oacute;cio,<br \/>\n    irm&atilde;o creio,<br \/>\n    do primeiro; mo&ccedil;o grave, s&eacute;rio, de fisionomia leal, sempre ao<br \/>\n    bureau, sempre a escrever, tipo acabado do portugu&ecirc;s antigo, trabalhador,<br \/>\n    honesto, pontual, p&eacute; de boi.<\/p>\n<p> Em frente &#8211; a Casa Garraux, vasta Babel, livraria em nome, mas verdadeiramente<br \/>\n    bazar de luxo, onde se encontra tudo, desde o livro raro at&eacute; a pasta<br \/>\n    de a&ccedil;o feita, passando pelo Cliquot leg&iacute;timo e pelos cofres<br \/>\n    a prova de fogo.<\/p>\n<p> L&aacute; fui ver a exposi&ccedil;&atilde;o permanente.<\/p>\n<p> Mal tinha eu entrado, entrou tamb&eacute;m um grupo de homens, tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro, se bem me lembra.<\/p>\n<p>Era um sujeito corpulento, coroado, limpo, no descambar da idade viril, ou<br \/>\n    melhor, no verdor da velhice. O bigode farto, betado aqui e ali por um fio<br \/>\n    de prata, e as longas costeletas acentuavam-se com nitidez no rosto fresco,<br \/>\n    caprichosamente escanhoado. O cabelo dividia-se em pastinhas despretensiosas<br \/>\n    no alto da testa vasta, ligeiramente redonda. Colarinho de pontas quebradas,<br \/>\n    gravata branca de n&oacute;, colete fechado at&eacute; o n&oacute; da gravata,<br \/>\n    fraque, flor enorme na lapela, cal&ccedil;as de casimira preta com listinha<br \/>\n    de seda branca, chap&eacute;u preto, alto, mole, sapatos Clark, pince-nez.<\/p>\n<p> Belo homem, Ramalho Ortig&atilde;o, j&aacute; adivinhou.<\/p>\n<p> Um dos que o acompanhavam era um rapaz alto, cheio de corpo, alvo de cabelos<br \/>\n    castanho-claros, quase louros, ondeados, de bigode crespo, de l&aacute;bio<br \/>\n    inferior coroado, &uacute;mido; um causeur ador&aacute;vel, que o mestre disse-me<br \/>\n    ter encontrado uma vez em Campinas, e a quem eu fui apresentada um dia destes,<br \/>\n    em uma festa de anos, Gaspar da Silva. <\/p>\n<p>Ramalho entrou em conversas com um dos s&oacute;cios da Casa Garraux: eu,<br \/>\n    fingindo que examinava um livro, prestei-lhe toda aten&ccedil;&atilde;o. Apanhei,<br \/>\n    dissequei, analisei cada uma de sua palavras.<\/p>\n<p> Voz agrad&aacute;vel, bem timbrada; pron&uacute;ncia distinta, corret&iacute;ssima;<br \/>\n    sotaque alfacinha puro, estranho, muito estranho a ouvidos paulistas.<\/p>\n<p>Ramalho Ortig&atilde;o &eacute; incontestavelmente um homem de combate, um<br \/>\n    grande escritor. Eu, por&eacute;m, n&atilde;o gosto dele. Acho-o trabalhado,<br \/>\n    limado, castigado demais; acho qu&#8217;il pose toujours. N&atilde;o escreve como<br \/>\n    Garrett, vazando a alma no papel: calcula o efeito de cada palavra, de cada<br \/>\n    frase, como um jogador de xadrez calcula o alcance do movimento de cada pe&ccedil;a.<br \/>\n    Nos seus escritos h&aacute; notas, h&aacute; quantidades constantes, que reaparecem<br \/>\n    fatalmente. Encontra-se sempre uma admira&ccedil;&atilde;o exagerada por tudo<br \/>\n    quanto &eacute; vigor muscular, por tudo quanto &eacute; manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de for&ccedil;a humana f&iacute;sica. O estadulho, a bengala grossa s&atilde;o<br \/>\n    fato imprescind&iacute;veis das suas teorias de moraliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social. Afeta pelo asseio, pelo cuidado do corpo um culto que chega a se tomar<br \/>\n    impertinente. N&atilde;o perde ensejo de contar que se banhou, que se barbeou,<br \/>\n    que mudou a roupa branca. Tanto repete, tanto insiste, que at&eacute; parece<br \/>\n    ter um secreto receio de que o n&atilde;o acreditem. Escreve ele um livro<br \/>\n    novo: os seus leitores habituais j&aacute; lhe conhecem, j&aacute; lhe esperam<br \/>\n    as ficelles. H&aacute; de falar por for&ccedil;a nas malas, nos apeiros de<br \/>\n    toilette, nos desinfetantes, na abund&acirc;ncia de cuecas e pe&uacute;gas.<br \/>\n    Tem frases feitas, uma por exemplo &#8211; todos os seus estandartes, todas as suas<br \/>\n    bandeiras, todas as suas fl&acirc;mulas, todos os seus galhardetes, est&atilde;o<br \/>\n    sempre a palpitar gloriosamente, est&atilde;o sempre a bater em palpita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gloriosas.<\/p>\n<p> Os livros de Ramalho Ortig&atilde;o s&atilde;o excelentes, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    neg&aacute;-lo, quer pelo fundo, quer pela forma. Bom senso e corre&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de linguagem at&eacute; ali: ensinam a pensar, e ensinam Portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p> O que eu n&atilde;o creio &eacute; que eles sejam um espelho, uma c&acirc;mara<br \/>\n    escura para se estudar a individualidade do autor.<\/p>\n<p> Entendo que n&atilde;o se pode ficar conhecendo a Ramalho Ortig&atilde;o<br \/>\n    nem no Em Paris, nem nas Farpas, nem na sua parte de Mist&eacute;rio da Estrada<br \/>\n    de Cintra, nem nas Caldas e Praias, nem nas Impress&otilde;es de Viagem, nem<br \/>\n    na Holanda, nem no John Bull: melhor do que em isso, fotografa-se ele nos<br \/>\n    seus depoimentos sobre a quest&atilde;o Vieira de Castro.<\/p>\n<p> Seja como for, ontem foi para mim um grande dia: conheci um<br \/>\n    grande homem.<\/p>\n<p> Agora, n&oacute;s: o que mais de perto nos toca&#8230;<\/p>\n<p>Seguiam-se algumas linhas criptogr&aacute;ficas, em uma cifra que Barbosa<br \/>\n    e Lenita tinham combinado, desde os primeiros tempos de conviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Estou gr&aacute;vida de tr&ecirc;s meses mais ou menos.<\/p>\n<p> Preciso de um pai oficial para nosso filho: ora pater est is quem instae<br \/>\n    nuptiae demonstrant.<\/p>\n<p> Se tu fosses livre, faz&iacute;amos justas na igreja as nossas nuptias naturais,<br \/>\n    e tudo estava pronto. Mas tu &eacute;s casado, e a lei de div&oacute;rcio,<br \/>\n    aqui no Brasil n&atilde;o permite novo enlace: tive de procurar outro.<\/p>\n<p> &quot;Tive de procurar&quot; &eacute; um modo de dizer: o outro deparou-se-me,<br \/>\n    ofereceu-se-me; eu me limitei a aceit&aacute;-lo e ainda impus-lhe condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &Eacute; o Dr. Mendes Maia.<\/p>\n<p> Ao chegar aqui, escrevi-lhe para a corte; ele veio imediatamente, tivemos<br \/>\n    trina confer&ecirc;ncia larga, eu fui franca, contei-lhe tudo e&#8230; e&#8230; e<br \/>\n    n&oacute;s nos casamos amanh&atilde;, &agrave;s 5 horas da madrugada.. Pelo<br \/>\n    trem do Norte, que parte &agrave;s 6, seguimos para a corte, e da corte para<br \/>\n    a Europa no primeiro vapor.<\/p>\n<p> Sei que te h&aacute;s de lembrar sempre de mim, como eu sempre hei de lembrar<br \/>\n    de ti: calembour &agrave; parte, o que entre n&oacute;s passou n&atilde;o<br \/>\n    se ouvida<br \/>\n    N&atilde;o me guardes rancor. Fomos um para o outro o que pod&iacute;amos<br \/>\n    ter sido; nada mais, nada <br \/>\n    menos.<\/p>\n<p> A crian&ccedil;a, se for menino, chamar-se-&aacute; Manuel; se for menina,<br \/>\n    Manuela.<\/p>\n<p>A carta ainda continuava.<\/p>\n<p> Barbosa, l&iacute;vido, com as fei&ccedil;&otilde;es horrivelmente contra&iacute;das,<br \/>\n    rasgou-a em dois movimentos,<br \/>\n    atirou-a em um lama&ccedil;al, onde, com g&aacute;udio infinito, chafurdavam<br \/>\n    alguns porcos.<\/p>\n<p> &#8211; Rameira! Prostituta vil ! exclamou ele.<\/p>\n<p> &#8211; Sabe voc&ecirc; que mais? perguntou-lhe o coronel, que se aproximava.<br \/>\n    A Lenita casa-se! Escreveu-me, participando.<\/p>\n<p> &#8211; A mim tamb&eacute;m escreveu ela.<\/p>\n<p> &#8211; Sim? E ela a dizer que se n&atilde;o queria casar&#8230; Fiem-se l&aacute;<br \/>\n    em mulheres! Aquela partida repentina n&atilde;o teve outra causa.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o teve, n&atilde;o, volveu Barbosa.<\/p>\n<p> A tarde levou-a ele toda a pensar, a malucar s&oacute; consigo.<\/p>\n<p> &Agrave; noite n&atilde;o fez inje&ccedil;&atilde;o de morfina, passou em<br \/>\n    claro, nem sequer se deitou.<\/p>\n<p> No dia seguinte, cedo, saiu, deu uma volta pelo pomar, foi &agrave; mata,<br \/>\n    chegou &agrave; cova, demorou-se a contemplar os destro&ccedil;os do reparo,<br \/>\n    as do milho que tinham nascido e morrido estioladas pela sombra, sem produzir.<br \/>\n    Viu ainda por entre as folhas secas algumas v&eacute;rtebras, algumas espinhas<br \/>\n    da cascavel.<\/p>\n<p> Voltou, passou pela fruiteira, em cuja copa uma araponga serrava estridulosa.<\/p>\n<p> Viu no ch&atilde;o uma pena de jacu, desbotada pela umidade, suja de barro.<\/p>\n<p> Ergueu-se, contemplou-a muito tempo, deixou-a cair.<\/p>\n<p> Voltou para casa, n&atilde;o quis almo&ccedil;ar, pediu um banho.<\/p>\n<p> Despiu-se, entrou na banheira, deitou-se, revolveu-se com del&iacute;cia,<br \/>\n    na &aacute;gua t&eacute;pida, aromatizada com vinagre de Lubin.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s muito tempo saiu, enxugou-se com esmero, cal&ccedil;ou ceroulas<br \/>\n    de linho, passadas a ferro, cheirosas, frescas, muito macias.<\/p>\n<p> Chamou dois pretos, mandou esvaziar, retirar a banheira.<\/p>\n<p> Foi &agrave; mesa, tomou uma garrafa de vinho h&uacute;ngaro, doce, perfumoso,<br \/>\n    Rusti-Asz&uacute;; abriu-a, encheu um c&aacute;lice, examinou de encontro<br \/>\n    &agrave; luz a transpar&ecirc;ncia cor de top&aacute;zio queimado do precioso<br \/>\n    l&iacute;quido, cheirou-o, hauriu-lhe o bouquet, bebeu-o como fino entendedor,<br \/>\n    aos golinhos, dando estalos com a l&iacute;ngua.<\/p>\n<p> Puxou uma gaveta, e dela tirou uma caixinha oblonga de char&atilde;o: abriu-a.<br \/>\n    Havia dentro uma seringuinha de vidro, uma c&aacute;psula de porcelana, um<br \/>\n    escarificador de dez l&acirc;minas e um pequeno pote, esquisito, bojudo, de<br \/>\n    barro preto, arrolhado cuidadosamente com um batoque de madeira. Uma etiqueta<br \/>\n    em letras vermelhas sobre fundo amarelo denunciava-lhe o conte&uacute;do.<\/p>\n<p> Barbosa disp&ocirc;s tudo isso sobre o m&aacute;rmore do criado.<\/p>\n<p> Tomou o escarificador, f&ecirc;-lo funcionar. Nove das l&acirc;minas tinham<br \/>\n    sido quebradas de adrede: uma s&oacute; estava intacta, e essa cortava como<br \/>\n    uma navalha.<\/p>\n<p> Barbosa largou o escarificador, pegou no potinho, fez cair dele, na c&aacute;psula,<br \/>\n    uns gr&atilde;os irregulares, escuros, com quebraduras lustrosas.<\/p>\n<p> Era curare.<\/p>\n<p> De sobre a mesa tirou um moringue, deitou na c&aacute;psula cerca de duas<br \/>\n    colheres de &aacute;gua, e, com o bico da seringa, foi agitando, fazendo com<br \/>\n    que se dissolvesse o terr&iacute;vel veneno.<\/p>\n<p> Quando inspissou-se a solu&ccedil;&atilde;o, assumindo a cor carregada de<br \/>\n    caf&eacute; forte, Barbosa encheu com ela a seringa.<\/p>\n<p> Tomou de novo o escarificador, engatilhou-o, aplicou-o sobre a face interna<br \/>\n    do antebra&ccedil;o esquerdo, premiu o bot&atilde;o.<\/p>\n<p> Ouviu-se um estalo abafado.<\/p>\n<p> Barbosa retirou o escarificador.<\/p>\n<p> Um pequeno tra&ccedil;o, fino como um cabelo, desenhava-se-lhe negro na<br \/>\n    alvura da c&uacute;tis.<\/p>\n<p> Uma gotazinha de sangue ressumou, marejou, redonda, rubro, brilhante, como<br \/>\n    um rubim.<\/p>\n<p> Barbosa largou o escarificador e, a sorrir, sem empalidecer pegou, segurou<br \/>\n    a seringa entre o &iacute;ndice e o m&eacute;dio da m&atilde;o direita, introduziu-lhe<br \/>\n    o bico afilado na cesura, meteu o polegar no anel da haste, calcou firme,<br \/>\n    empurrou com for&ccedil;a o pist&atilde;o. O excesso do l&iacute;quido injetado<br \/>\n    espandanou, desenhando-lhe na brancura da pele um como aracnide sinistro.<\/p>\n<p> Barbosa lan&ccedil;ou no ourinol o resto do conte&uacute;do da c&aacute;psula,<br \/>\n    meteu-a com o potinho, com o escarificador, com a seringa na caixa de char&atilde;o,<br \/>\n    escreveu em um bilhete de visita &#8211; Cuidado, que<br \/>\n    isto &eacute; veneno &#8211; p&ocirc;s tamb&eacute;m o bilhete dentro, fechou a<br \/>\n    caixa, guardou-a na gaveta, foi ao lavat&oacute;rio, molhou uma toalha, limpou<br \/>\n    o bra&ccedil;o, voltou para a cama, deitou-se de costas, ao comprido.<\/p>\n<p> Passaram-se dois minutos.<\/p>\n<p> Barbosa nada sentia, absolutamente nada.<\/p>\n<p> Quis ver a cesura, tentou chegar o bra&ccedil;o &agrave; altura dos olhos.<br \/>\n    N&atilde;o p&ocirc;de. O membro paralisado recusava-se &agrave; ordem do c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Tentou o mesmo com o bra&ccedil;o direito, quis mover as pernas: igual impossibilidade.<\/p>\n<p> Tentou sacudir a cabe&ccedil;a, fechar e abrir os olhos: sacudiu a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    fechou e abriu os olhos.<\/p>\n<p> Passaram-se mais alguns minutos.<\/p>\n<p> Tentou de novo sacudir a cabe&ccedil;a, fechar e abrir os olhos. Imposs&iacute;vel.<br \/>\n    A paralisia era j&aacute; quase completa, quase total.<\/p>\n<p> E n&atilde;o sofria dor, constrangimento de esp&eacute;cie alguma.<\/p>\n<p> No terreiro abaixo, ao p&eacute; do engenho, os pretos estavam a malhar<br \/>\n    um resto de feg&atilde;o que ficara de julho. Cantavam. A toada distante chegava<br \/>\n    a Barbosa, amortecida, em quebros suaves, como os das vozes ang&eacute;licas<br \/>\n    de um harm&ocirc;nium. Do teto pendia uma jardineira de vidro com um epidendron<br \/>\n    fragans: Barbosa hauria com del&iacute;cias os efl&uacute;vios embriagantes<br \/>\n    das flores da orqu&iacute;dea.<\/p>\n<p> Na boca tinha ainda o ressa&iacute;bo suave, quente do vinho h&uacute;ngaro<br \/>\n    generoso.<\/p>\n<p> A um canto do forro, aranhas dom&eacute;sticas fabricavam as teias: Barbosa<br \/>\n    distinguia-lhes bem os movimentos h&aacute;beis das pernas longas, esguias,<br \/>\n    nodosas, verdadeiros dedos de t&iacute;sico.<\/p>\n<p> Veio uma mosca, e pousou-lhe na face: com uma hiperestesia que chegava a<br \/>\n    ser um padecimento, ele sentia o prurido das patas do inseto. Quis enrugar<br \/>\n    a pele do rosto para afugent&aacute;-lo, n&atilde;o p&ocirc;de.<\/p>\n<p> E a percep&ccedil;&atilde;o de tudo era clara, a intelig&ecirc;ncia perfeita.<\/p>\n<p> Lembravam-lhe, acudiam-lhe de tropel &agrave; mem&oacute;ria as metamorfoses<br \/>\n    mitol&oacute;gicas de homens, de mulheres em &aacute;rvores, em rochedos.<\/p>\n<p> O sonho extravagante da imagina&ccedil;&atilde;o doentia dos poetas helenos<br \/>\n    era traduzido em realidade palpitante, era excedido no dom&iacute;nio dos<br \/>\n    fatos pela a&ccedil;&atilde;o misteriosa do veneno americano.<\/p>\n<p> &#8211; Oh pensava Barbosa, n&atilde;o poder eu ditar a algu&eacute;m o que em<br \/>\n    mim se est&aacute; passando, descrever o gosto desta morte gradual, em que<br \/>\n    a vida esvai-se como um l&iacute;quido que se escoa. Que sou eu neste momento?<br \/>\n    Uma intelig&ecirc;ncia que sente e quer, presa em um inv&oacute;lucro morto,<br \/>\n    cativa em um bloco inerte&#8230; O esp&iacute;rito, o conjunto das fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do c&eacute;rebro, est&aacute; vivo, d&aacute; ordens; o corpo est&aacute;<br \/>\n    morto, n&atilde;o obedece. Tenho um p&eacute; na exist&ecirc;ncia e outro<br \/>\n    no n&atilde;o-ser. Alguns minutos mais, e tudo estar&aacute; acabado, sem<br \/>\n    sofrimento, sem dor&#8230; J&aacute; entrevejo o nirvana b&uacute;dico, o repouso<br \/>\n    do aniquilamento&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Manduca! Manduca!<br \/>\n    Era a voz do pai que o chamava.<\/p>\n<p> Barbosa ficou triste: queria responder e n&atilde;o podia.<\/p>\n<p> &#8211; Teresa!<br \/>\n    &#8211; Sinh&ocirc;!<br \/>\n    &#8211; Onde est&aacute; Manduca? Voc&ecirc; n&atilde;o o viu?<br \/>\n    &#8211; Vi, meu sinh&ocirc;. Ele est&aacute; a&iacute; no quarto dele. Estava se<br \/>\n    banhando. Ainda h&aacute; pouco Pedro e Jos&eacute; sa&iacute;ram com a banheira.<\/p>\n<p> &#8211; Que diabo, n&atilde;o responde&#8230; S&oacute; se est&aacute; dormindo.<\/p>\n<p> E o coronel dirigiu- se ao quarto, entrou.<\/p>\n<p> Ao dar com o filho nu da cintura para cima, estendido de costas na cama,<br \/>\n    p&aacute;lido, im&oacute;vel, olhos abertos, fixos, o coronel deu um salto.<\/p>\n<p> &#8211; Manduca! Que &eacute; isso Manduca?! <br \/>\n    E agarrando, abra&ccedil;ando o filho, sacudia-o nervosamente.<\/p>\n<p> O corpo de Barbosa, fl&aacute;cido, quente, cedia aos esfor&ccedil;os do<br \/>\n    pai, como um cad&aacute;ver antes da rigidez.<\/p>\n<p> E o c&eacute;rebro, ativo, l&uacute;cido, em exerc&iacute;cio pleno de fun&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    vivia, compreendia, sentia, tinha vontade, queria falar, queria responder<br \/>\n    ao pai; mas j&aacute; n&atilde;o tinha org&atilde;o, estava isolado do mundo.<\/p>\n<p> &#8211; Meu filho morreu! Meu filho morreu! bradou o coronel, e saiu desatinado,<br \/>\n    correndo com as m&atilde;os na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> A esses gritos deu-se um como milagre.<\/p>\n<p> A velha entrevada firmou as m&atilde;os nas guardas da chaise-longue, fez<br \/>\n    um esfor&ccedil;o supremo, ergueu-se, caiu de joelhos e come&ccedil;ou a engatinhar<br \/>\n    para o quarto do filho, movendo as juntas quase anquilosadas de um modo que<br \/>\n    seria rid&iacute;culo, se n&atilde;o fosse horroroso.<\/p>\n<p> Em camisa, em uma seminudez indecente, escorregando pelo assoalho, &agrave;s<br \/>\n    sacadas, aos solavancos, como um inseto mutilado, foi, chegou onde estava<br \/>\n    o filho, abeirou-se-lhe da cama, levantou-se; agarrou-se no colch&atilde;o,<br \/>\n    guindou-se com dificuldade dolorosa, abra&ccedil;ou o corpo por sua vez, colocou-lhe<br \/>\n    nos l&aacute;bios os seus l&aacute;bios de velha, moles, franzidos, frios.<\/p>\n<p> Aos beijos da m&atilde;e, beijos que n&atilde;o podia retribuir, Barbosa<br \/>\n    sentiu-se tomado de um sentimento estranho de uma ternura filial que nunca<br \/>\n    dantes conhecera.<\/p>\n<p> M&atilde;e! Pai!<br \/>\n    Por que se n&atilde;o devotara com todas as suas poderosas faculdades a minorar<br \/>\n    os sofrimentos daquele casal de velhos, a suavizar-lhes as mis&eacute;rias<br \/>\n    da senectude?!<br \/>\n    Descrente de amigos, descrente de amantes, descrente da esposa, ateu, farto<br \/>\n    do mundo, enjoado at&eacute; de si, fora pedir aos gelos da ci&ecirc;ncia<br \/>\n    exclusivista a morte, a extin&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos afetos.<\/p>\n<p> Tomara-se ego&iacute;sta, tomara-se cruel.<\/p>\n<p> E tinha ainda o que lhe prendesse ao mundo: tinha pai, tinha m&atilde;e,<br \/>\n    tinha a quem se devotar, tinha para quem viver!<br \/>\n    Que vingan&ccedil;a cruel a da natureza!<br \/>\n    Entregara-o de m&atilde;os atadas aos caprichos de uma mulher hist&eacute;rica<br \/>\n    que se lhe oferecera, que se lhe dera, como se teria oferecido, como se teria<br \/>\n    dado a qualquer outro, a um negro, a um escravo de ro&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\n    por amor ps&iacute;quico, mas para satisfazer a carne faminta&#8230;<\/p>\n<p> Repleta, farta, essa mulher o abandonara.<\/p>\n<p> Nas cinzas quase frias das suas cren&ccedil;as mortas ateara-se o lume do<br \/>\n    amor, o fogo da f&eacute; brilhara um momento, mas prestes se extinguira,<br \/>\n    e a escurid&atilde;o voltara mais t&eacute;trica.<\/p>\n<p> Lenita fora procurar e achara um homem vil que lhe vendia o nome para coberta<br \/>\n    do erro, que a aceitava por esposa, desonrada, gr&aacute;vida&#8230;<\/p>\n<p> Gr&aacute;vida&#8230; Ela estava gr&aacute;vida, ele ia ser pai&#8230;<\/p>\n<p> E ela fugia dele, levava-lhe o filho e ainda o ludibriava, descrevia-lhe<br \/>\n    em c&iacute;nica missiva as suas observa&ccedil;&otilde;es de viajante, as<br \/>\n    suas impress&otilde;es de artista! Fazia ainda mais, dava-lhe parte do seu<br \/>\n    enlace com o minotauro pr&eacute;vio e consciente, informava-o de que o seu<br \/>\n    filho, o filho dele, Barbosa, tinha de dar o nome augusto de pai a um homem<br \/>\n    sem brios, a um chatim refece de honra.<\/p>\n<p> E ele morria, por amor dessa mulher, morria porque ela lhe quebrantara o<br \/>\n    car&aacute;ter, morria porque ela o prendera nos liames da carne, morria porque<br \/>\n    sem ela a vida se lhe tomara imposs&iacute;vel&#8230; Covarde!<br \/>\n    O remorso personificado na figura lastimosa e quase hedionda de sua desgra&ccedil;ada<br \/>\n    m&atilde;e ali estava sobre ele, abra&ccedil;ando-o, devorando-o, bebendo-lhe<br \/>\n    os &uacute;ltimos alentos.<\/p>\n<p> Oh ! ele queria viver!<br \/>\n    E n&atilde;o era imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> Se houvesse quem entendesse de fisiologia, quem estabelecesse a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    artificial, at&eacute; que fosse completamente eliminado o veneno, arredar-se-ia<br \/>\n    a morte, a vida voltaria.<\/p>\n<p> Mudassem as circunst&acirc;ncias, outrem fosse o paciente, e Barbosa salvava-o.<\/p>\n<p> Mas por si, para si, nada podia fazer: enclausurado no corpo, como o lepid&oacute;ptero<br \/>\n    na cris&aacute;lida, estava impotente, estava aniquilado: nem sequer lhe era<br \/>\n    concedido o consolo triste de pedir, de implorar o perd&atilde;o da pobre<br \/>\n    m&atilde;e, da m&iacute;sera entrevada, a quem a ang&uacute;stia curara em<br \/>\n    um momento.<\/p>\n<p> A placidez da morte sem dor, da morte pela paralisia dos nervos motores,<br \/>\n    converteu-se em um supl&iacute;cio atroz, pavoroso, para cuja descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tem palavras a linguagem humana.<\/p>\n<p> Morto e vivo!<br \/>\n    Tudo morrera: s&oacute; vivia o c&eacute;rebro, s&oacute; vivia a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e vivia para a tortura&#8230;<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o ter despeda&ccedil;ado o cr&acirc;nio com uma bala?<br \/>\n    A paralisia invadiu os &uacute;ltimos redutos do organismo, o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    os pulm&otilde;es, s&iacute;stole e di&aacute;stole cessaram, a hematose deixou<br \/>\n    de se fazer. Um como v&eacute;u abafou, escureceu a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    de Barbosa, e ele caiu de vez no sono profundo de que ningu&eacute;m acorda.<\/p>\n<p><strong>FIM<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV Cap\u00edtulo XVI Cap\u00edtulo XVII Cap\u00edtulo XVIII J&uacute;lio Ribeiro Parte I Je ne suis pas t&eacute;m&eacute;raire, je [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-108164","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Carne - J\u00falio Ribeiro, Obra Liter\u00e1ria A Carne - J\u00falio Ribeiro<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Carne - J\u00falio Ribeiro, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Romance, Naturalista, Helena Matoso, Lenita, Lopes Matoso, Literatura, A Carne - J\u00falio Ribeiro\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Carne - J\u00falio Ribeiro, Obra Liter\u00e1ria A Carne - J\u00falio Ribeiro\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Carne - J\u00falio Ribeiro, Obra Liter\u00e1ria, Livro, Romance, Naturalista, Helena Matoso, Lenita, Lopes Matoso, Literatura, A Carne - J\u00falio Ribeiro\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-carne-julio-ribeiro\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-02-10T10:26:55+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Fabiane Breda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"296 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-carne-julio-ribeiro#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-carne-julio-ribeiro\"},\"author\":{\"name\":\"Fabiane Breda\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/af0ed2ca856d6fc049f351e023d3bdaa\"},\"headline\":\"A Carne &#8211; 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