{"id":108128,"date":"2017-02-09T17:34:59","date_gmt":"2017-02-09T19:34:59","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108128"},"modified":"2017-02-09T17:59:12","modified_gmt":"2017-02-09T19:59:12","slug":"os-fidalgos-da-casa-mourisca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/os-fidalgos-da-casa-mourisca","title":{"rendered":"Os Fidalgos da Casa Mourisca"},"content":{"rendered":"<br \/>\n<h2>J\u00falio Dinis<\/h2>\n<p>A tradi&ccedil;&atilde;o popular em Portugal, nos assuntos de hist&oacute;ria<br \/>\n    p&aacute;tria, n&atilde;o se remonta al&eacute;m do periodo da domina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &aacute;rabe nas Espanhas.<\/p>\n<p> Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de visigodos.<\/p>\n<p> &Eacute;, por&eacute;m, entre ele, no&ccedil;&atilde;o corrente que, em<br \/>\n    outros tempos, fora este pa&iacute;s habitado por mouros, e que s&oacute;<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a de cutiladas e de botes de lan&ccedil;a os expulsaram<br \/>\n    os Crist&atilde;os para as terras da Mourama.<\/p>\n<p> Os vultos her&oacute;icos de reis e cavaleiros nossos, que se assinalaram<br \/>\n    nas lutas dessa &eacute;poca, ainda n&atilde;o desapareceram das cr&oacute;nicas<br \/>\n    orais, onde vivem iluminados por a mesma po&eacute;tica luz das x&aacute;caras<br \/>\n    e dos romances nacionais ; e hoje ainda, nas dan&ccedil;as e jogos que se<br \/>\n    celebram nos lugares p&uacute;blicos das vilas e aldeias, por ocasi&atilde;o<br \/>\n    das principais solenidades do ano, apraz-se a mem&oacute;ria do povo de recordar<br \/>\n    os feitos daqueles tempos hist&oacute;ricos por meio de simulados combates<br \/>\n    de mouros e crist&atilde;os.<\/p>\n<p> Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de ser&atilde;o<br \/>\n    se re&uacute;ne a fam&iacute;lia r&uacute;stica, ou &agrave;s r&aacute;pidas<br \/>\n    horas de uma noite de Estio, na soleira da porta, ao audit&oacute;rio atento<br \/>\n    que segue com os olhos a Lua em silenciosa carreira por um c&eacute;u sem<br \/>\n    estrelas, avulta uma cria&ccedil;&atilde;o extremamente simp&aacute;tica,<br \/>\n    a das mouras encantadas, princesas formos&iacute;ssimas que ficaram desses<br \/>\n    remotos tempos na pen&iacute;nsula.<\/p>\n<p> em pa&ccedil;os invis&iacute;veis &agrave; espera de quem lhes venha quebrar<br \/>\n    o cativeiro, soltando a palavra m&aacute;gica.<\/p>\n<p> Fala-se em diversos pontos das nossas prov&iacute;ncias, com a seriedade<br \/>\n    que &eacute; pr&oacute;pria a uma arreigada cren&ccedil;a, de tesouros enterrados,<br \/>\n    que os Mouros por a&iacute; deixaram, na esperan&ccedil;a de voltarem um dia<br \/>\n    a resgat&aacute;-los, e j&aacute; n&atilde;o t&ecirc;m sido poucas as escava&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    empreendidas no &aacute;vido intuito de os descobrir.<\/p>\n<p>Esta mesma no&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica do povo &eacute; a que d&aacute;<br \/>\n    lugar &agrave; outro frequente facto. Quando, no centro de qualquer aldeia,<br \/>\n    se eleva um pal&aacute;cio, um solar de fam&iacute;lia, distinto dos edif&iacute;cios<br \/>\n    comuns por uma qualquer particularidade arquitect&oacute;nica mais saliente,<br \/>\n    ouvireis no s&iacute;tio design&aacute;-lo por nome de Casa Mourisca, e, se<br \/>\n    n&atilde;o se guarda a&iacute; mem&oacute;ria da sua funda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a cr&ocirc;nica lhe assinalar&aacute; infalivelmente, como data, a lend&aacute;ria<br \/>\n    e misteriosa &eacute;poca dos Mouros.<\/p>\n<p> Era o que sucedia com o solar dos senhores Negr&otilde;es de Vilar de Corvos,<br \/>\n    que, em tr&ecirc;s l&eacute;guas em redondo, eram por isso conhecidos celo<br \/>\n    nome de Fidalgos da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> N&atilde;o se persuada o leitor de que possu&iacute;a aquele solar fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pronunciadamente &aacute;rabe, que justificasse a denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular, ou que m&atilde;os agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces<br \/>\n    da casa nobre denominada assim. &Agrave;s pequenas torres quadradas, que se<br \/>\n    erguiam, coroadas de ameias, nos quatro do &acirc;ngulos edif&iacute;cio,<br \/>\n    ao desenho ogival das portas e janelas, &agrave;s estreitas seteiras abertas<br \/>\n    nos muros, e finalmente a certo ar de castelo feudal, que um dos antepassados<br \/>\n    desta fidalga fam&iacute;lia tentou dar aos pa&ccedil;os de sua resid&ecirc;ncia<br \/>\n    senhoril, devera ela a classifica&ccedil;&atilde;o de Mourisca, que persistira,<br \/>\n    apesar dos protestos da arte. Nenhum estilo arquitect&oacute;nico fora na<br \/>\n    constru&ccedil;&atilde;o escrupulosamente respeitado ; o gosto e capricho<br \/>\n    do propriet&aacute;rio presidiram mais que tudo &agrave; tra&ccedil;a e execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da obra ; n&atilde;o h&aacute;, pois, exig&ecirc;ncias art&iacute;sticas que<br \/>\n    me imponham a obriga&ccedil;&atilde;o de descrev&ecirc;-la mi&ugrave;damente.<\/p>\n<p> Diga-se, por&eacute;m, a verdade ; fossem quais fossem os defeitos de arquitectura,<br \/>\n    as incongru&ecirc;ncias e absurdos daquela f&aacute;brica grandiosa, quem,<br \/>\n    ao dobrar a &uacute;ltima curva da estrada irregular por onde se vinha &agrave;<br \/>\n    aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquele vulto<br \/>\n    escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casais disseminados<br \/>\n    por entre a verdura das colinas pr&oacute;ximas, mal podia reter uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de surpresa, e involuntariamente parava a contempl&aacute;- lo.<\/p>\n<p> Ou o Sol no poente lhe dourasse a fachada de granito, ou as ameias, que<br \/>\n    o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no c&eacute;u azul, alumiado<br \/>\n    pela claridade matinal, era sempre melanc&oacute;lico e triste c aspecto daquela<br \/>\n    resid&ecirc;ncia, sempre majestoso e severo.<\/p>\n<p> Reparando mais atentamente, outros motivos concorriam ainda para fortalecer<br \/>\n    esta primeira impress&atilde;o. O tempo n&atilde;o se limitara a colorir o<br \/>\n    velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocara- -lhe a cruz da<br \/>\n    capela, desconjuntara-lhe a cantaria em extensos lan&ccedil;os de muro, abrindo-lhe<br \/>\n    interst&iacute;cios de onde irrompia uma in&uacute;til vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    parasita; e esta perman&ecirc;ncia de estragos, traindo a inc&uacute;ria ou<br \/>\n    a insufici&ecirc;ncia de meios do propriet&aacute;rio actual, iniciava no<br \/>\n    esp&iacute;rito do observador uma s&eacute;rie de melanc&oacute;licas reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> E se o movesse a curiosidade a indagar na vizinhan&ccedil;a informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sobre a fam&iacute;lia que ali habitava, obt&ecirc;-las-ia pr&oacute;prias<br \/>\n    a corroborar- -lhe os seus primeiros e espont&acirc;neos ju&iacute;zos.<\/p>\n<p>Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tr&ecirc;s.<\/p>\n<p> D. Luis, o pai, velho sexagen&aacute;rio, grave, severo e taciturno; Jorge<br \/>\n    e Maur&iacute;cio, os seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes : o mais<br \/>\n    velho dos quais, Jorge, ainda n&atilde;o completara vinte e tr&ecirc;s anos.<\/p>\n<p> A hist&oacute;ria daquela casa era a hist&oacute;ria sabida dos ricos fidalgos<br \/>\n    da prov&iacute;ncia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e<br \/>\n    pouco, embara&ccedil;ar as propriedades com hipotecas e contratos ruinosos,<br \/>\n    desfalecer a cultura nos campos, empobrecer os celeiros, despovoar os currais,<br \/>\n    exaurir a seiva da terra, transformar longas v&aacute;rzeas em charnecas,<br \/>\n    e desmoronarem-se as paredes das resid&ecirc;ncias e das granjas, e os muros<br \/>\n    de circunscri&ccedil;&atilde;o das quintas.<\/p>\n<p> Filho segundo de uma das mais nobres fam&iacute;lias da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    D. Luis fora pelos pais destinado para a carreira diplom&aacute;tica, na qual<br \/>\n    entrou apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da corte.<\/p>\n<p> Nas primeiras capitais da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o fidalgo<br \/>\n    provinciano um grau de ilustra&ccedil;&atilde;o e de trato do mundo, um verniz<br \/>\n    social, que nunca adquiriria se, como tantos, de mo&ccedil;o se criasse para<br \/>\n    morgado.<\/p>\n<p> Quando, por morte do primog&ecirc;nito, veio a suceder nos v&iacute;nculos,<br \/>\n    D. Luis podia considerar-se, gra&ccedil;as &agrave; ocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus primeiros anos de mocidade, como o mais instru&iacute;do e civilizado<br \/>\n    propriet&aacute;rio da sua prov&iacute;ncia ; e como tal efectivamente foi<br \/>\n    sempre havido pelos outros, que o tratavam com uma defer&ecirc;ncia excepcional.<\/p>\n<p> Ainda depois da morte do irm&atilde;o, D. Luis, costumado ao viver da grande<br \/>\n    sociedade e &agrave; espl&ecirc;ndida eleg&acirc;ncia das cortes estrangeiras,<br \/>\n    n&atilde;o abandonou a carreira que encetara. Secret&aacute;rio da embaixada<br \/>\n    em Viena, casou ali com a filha de um fidalgo portugu&ecirc;s, que ent&atilde;o<br \/>\n    residia nessa corte, encarregado de neg&oacute;cios pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p> Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros sintomas da profunda revolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que devia alterar a face social do Pa&iacute;s, D. Luis mostrou- se logo hostil<br \/>\n    ao movimento nascente, e abandonando ent&atilde;o o seu lugar diplom&aacute;tico,<br \/>\n    voltou ao reino para representar um papel importante nas cenas pol&iacute;ticas<br \/>\n    dessa &eacute;poca.<\/p>\n<p> Al tiveram origem grande parte dos desgostos dom&eacute;sticos, que lhe<br \/>\n    amarguraram o resto da vida.<\/p>\n<p> Os parentes da sua esposa abra&ccedil;aram a causa liberal.<\/p>\n<p> D. Luis, com toda a intoler&acirc;ncia partid&aacute;ria, rompeu completamente<br \/>\n    as rela&ccedil;&otilde;es com eles, ferindo assim no &iacute;ntimo os afectos<br \/>\n    mais santos da pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre as fortes e irreconcili&aacute;veis paix&otilde;es dos que ela com igual<br \/>\n    afecto amava.<\/p>\n<p> O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luis. Impeliu-o &agrave; persegui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O irm&atilde;o mais novo da esposa, obedecendo ao entusiasmo de rapaz e<br \/>\n    &agrave; veem&ecirc;ncia de uma convic&ccedil;&atilde;o sincera, sustentara<br \/>\n    com a pena, e mais tarde com a espada, a causa da id&eacute;ia nova, que tanto<br \/>\n    namorava os &acirc;nimos generosos e juvenis.<\/p>\n<p>Sobre a bela e arrojada cabe&ccedil;a daquele adolescente pesaram as sombras<br \/>\n    das suspeitas e das vingan&ccedil;as pol&iacute;ticas ; e D. Luis, cego pela<br \/>\n    paix&atilde;o, n&atilde;o duvidou em fazer-se instrumento delas.<\/p>\n<p> Este era o irm&atilde;o querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas<br \/>\n    nem as s&uacute;plicas, nem as l&aacute;grimas dela puderam abrandar a for&ccedil;a<br \/>\n    daquele rancor.<\/p>\n<p> O imprudente mo&ccedil;o viu-se perseguido, preso, processado, e em quase<br \/>\n    iminente risco de expiar, como tantos, no supl&iacute;cio o crime de pensar<br \/>\n    livremente. Conseguindo, quase por milagre, escapar &agrave; f&uacute;ria<br \/>\n    dos seus perseguidores, emigrou para voltar mais tarde nessa memoranda expedi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que principiou em Portugal a her&oacute;ica il&iacute;ada da nossa emancipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica.<\/p>\n<p> Guerreiro t&atilde;o fogoso, como o fora publicista, o pobre rapaz n&atilde;o<br \/>\n    assistiu, por&eacute;m, &agrave; vit&oacute;ria da sua causa. Ao raiar da<br \/>\n    aurora liberal, por que tanto anelava, caiu em uma das &uacute;ltimas e mais<br \/>\n    disputadas refregas daquela sanguinolenta luta, crivado de balas inimigas,<br \/>\n    sendo a sua &uacute;ltima voz um grito de entusiasmo pela grande id&eacute;ia,<br \/>\n    em cujo martirol&oacute;gio se ia inscrever o seu nome.<\/p>\n<p> A morte deste entusiasta levou o luto e a tristeza ao solar da D. Luis.<br \/>\n    O cora&ccedil;&atilde;o amor&aacute;vel e extremoso da infeliz senhora recebeu<br \/>\n    ent&atilde;o um golpe decisivo ; das consequ&ecirc;ncias daquela dor nunca<br \/>\n    mais podia ela convalescer. A sua vida foi depois t&ocirc;da para luto e para<br \/>\n    l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> F&ecirc;z-se a paz, e implantou-se no Pa&iacute;s a &aacute;rvore da liberdade<br \/>\n    ; D. Luis deixou ent&atilde;o a vida da corte e veio encerrar no canto da<br \/>\n    prov&iacute;ncia os seus despeitos, os seus &oacute;dios e os seus desalentos.<br \/>\n    Trouxe consigo um enxame de mis&aacute;ntropos, a quem o sol da liberdade<br \/>\n    igualmente incomodava, e que tinham resolvido pedir &agrave; natureza conforto<br \/>\n    contra os supostos delitos da humanidade.<\/p>\n<p> O solar do fidalgo transformou-se, pois, em asilo de muitos correligion&aacute;rios,<br \/>\n    como ele desgostosos e irreconcili&aacute;veis com a nova organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social.<\/p>\n<p> Instituiu-se ali uma pequena corte na aldeia, uma esp&eacute;cie ds assembl&eacute;ia<br \/>\n    ou convent&iacute;culo pol&iacute;tico, que n&atilde;o poucas vezes atraiu<br \/>\n    as vistas dos liberais desconfiados e as amea&ccedil;as dos mais insofridos.<br \/>\n    Havia ali homens de todas as condi&ccedil;&otilde;es, e alguns de ilustra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A hospitalidade do fidalgo era magn&iacute;fica. D. Luis mostrava ignorar<br \/>\n    ou n&atilde;o querer saber, qual o pre&ccedil;o por que ela lhe ficava. Indiferente<br \/>\n    a tudo, dir-se-ia s&ecirc;-lo tamb&eacute;m &agrave; ru&iacute;na da sua pr&oacute;pria<br \/>\n    casa, que apressava assim.<\/p>\n<p> A vit&oacute;ria da causa contr&aacute;ria; a morte, em curtos intervalos,<br \/>\n    de tr&ecirc;s filhos que parecia ca&iacute;rem v&iacute;timas de uma senten&ccedil;a<br \/>\n    fatal ; o receio pela vida dos outros; a tristeza e doen&ccedil;a progressivas<br \/>\n    da esposa, a quem aqueles &oacute;dios e lutas tinham despeda&ccedil;ado o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o ; &agrave;s vezes uma vaga consci&ecirc;ncia da sua<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria, e porventura ainda remorsos pelas<br \/>\n    viol&ecirc;ncias, a que os &oacute;dios pol&iacute;ticos o impeliram, que<br \/>\n    brantaram o car&aacute;cter, outr&oacute;ra varonil, daquele homem, que desde<br \/>\n    ent&atilde;o come&ccedil;ou a mostrar-se taciturne e descoro&ccedil;oado.<br \/>\n    A prova evidente de que alguns remorsos tamb&eacute;m lhe torturavam o esp&iacute;rito,<br \/>\n    fora a ins&oacute;lita generosidade com que recebeu e gasalhou permanentemente<br \/>\n    em sua casa um pobre soldado do ex&eacute;rcito liberal, meio mutilado pela<br \/>\n    guerra desses tempos, e que tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo,<br \/>\n    contra quem tanto se encarni&ccedil;ara o &oacute;dio do implac&aacute;vel<br \/>\n    realista.<\/p>\n<p> Viera o soldado entregar &agrave; esposa do fidalgo uma medalha, &uacute;ltima<br \/>\n    lembran&ccedil;a do irm&atilde;o que lha enviara, quando j&aacute; agonizante<br \/>\n    no campo do combate. Havia-a confiado ao camarada, para que a entregasse &agrave;quela,<br \/>\n    a quem tanto queria.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o s&oacute; permitiu que o soldado fizesse a entrega em<br \/>\n    m&atilde;o pr&ograve;pria da esposa, mas deixou-o com ela em larga confer&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o querendo que a sua presen&ccedil;a a reprimisse na &acirc;nsia<br \/>\n    natural de saber as menores particularidades da vida e da morte do infeliz<br \/>\n    de quem o emiss&aacute;rio fora companheiro insepar&aacute;vel. N&atilde;o<br \/>\n    se limitou a isso a toler&acirc;ncia do fidalgo. Viu, sem fazer a menor reflex&atilde;o,<br \/>\n    que o mensageiro se demorava alguns dias na Casa Mourisca, e n&atilde;o op&ocirc;s<br \/>\n    resist&ecirc;ncia alguma ao pedido, que a esposa mais tarde lhe fez, para<br \/>\n    que o deixasse ficar ali, no lugar do hortel&atilde;o que falecera.<\/p>\n<p> Este acto insignificante foi de n&atilde;o pequena influ&ecirc;ncia nos<br \/>\n    destinos daquela fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Os filhos de D. Luis, criados no meio dessa corte de prov&iacute;ncia, cresciam<br \/>\n    sob influ&ecirc;ncias que actuavam de uma maneira contradit&oacute;ria sobre<br \/>\n    os seus caracteres infantis.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhes faltavam mestres que os instru&iacute;ssem, que muitos eram<br \/>\n    os habilitados para isso nas salas do fidalgo, ref&uacute;gio de tantos ilustres<br \/>\n    descontentes. Gra&ccedil;as a estas especiais condi&ccedil;&otilde;es, puderam<br \/>\n    os dois rapazes receber uma educa&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil de conseguir<br \/>\n    em um canto t&atilde;o retirado da prov&iacute;ncia, como aquele era.<\/p>\n<p> Mas, ao lado da li&ccedil;&atilde;o dos mestres, que, juntamente com a ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    se esfor&ccedil;avam por imbuir-lhes os seus princ&iacute;pios pol&iacute;ticos,<br \/>\n    aos quais se atinham como a artigos de f&eacute;, havia uma outra li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais obscura, mas porventura mais eficaz. Era a li&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e<br \/>\n    e a do veterano.<\/p>\n<p> A esposa de D. Luis era uma senhora de esmerad&iacute;ssima educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de um profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pesar os excessos,<br \/>\n    a que o impeliam as suas opini&otilde;es pol&iacute;ticas. Educada no seio<br \/>\n    de uma fam&iacute;lia liberal, possu&iacute;a sentimentos favor&aacute;veis<br \/>\n    &agrave;s id&eacute;ias novas ; mas sabia guard&aacute;-los no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para n&atilde;o despertar conflitos na fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, no trato &iacute;ntimo entre m&atilde;e e filhos tra&iacute;a-se<br \/>\n    muita vez essa prudente discri&ccedil;&atilde;o, e as fidalgas crian&ccedil;as<br \/>\n    iam recebendo a doutrina, de que os outros lhes blasfemavam como de heresias,<br \/>\n    e, naturalmente, seduzidas pela origem de onde ela lhes vinha, abriam-lhe<br \/>\n    de melhor vontade o cora&ccedil;&atilde;o do que aos preceitos austeros e<br \/>\n    um pouco pedantescos dos mestres.<\/p>\n<p>Demais, ouviam tantas vezes a m&atilde;e falar-lhes do irm&atilde;o que perdera,<br \/>\n    dos seus sentimentos generosos, do seu nobre car&aacute;cter e da sua dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    her&oacute;ica a bem da causa liberal, que eles, e o mais velho sobretudo,<br \/>\n    costumaram-se a venerar a mem&oacute;ria do tio como a de um m&aacute;rtir,<br \/>\n    e a v&ecirc;-lo aureolado de um verdadeiro prest&iacute;gio legend&aacute;rio.<\/p>\n<p> Para isto, por&eacute;m, concorreu mais que outrem o hortel&atilde;o.<\/p>\n<p> O velho soldado era uma cr&oacute;nica viva das batalhas e fa&ccedil;anhas<br \/>\n    daqueles tempos hist&oacute;ricos e um panegirista ardente do seu pobre oficial,<br \/>\n    cujo &uacute;ltimo suspiro recolhera.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as sentiam-se instintivamente atra&iacute;das para a companhia<br \/>\n    do velho, em cujas narra&ccedil;&otilde;es pinturescas e vivamente coloridas<br \/>\n    achavam um encanto irresist&iacute;vel. Feria-lhes fundo a curiosidade, a<br \/>\n    maneira por que ele falava dos trabalhos da emigra&ccedil;&atilde;o, dos epis&oacute;dios<br \/>\n    do cerco do Porto, da fome, da peste e da guerra, tr&iacute;plice calamidade<br \/>\n    que conhecera de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu<br \/>\n    amo, e finalmente do imperador, por quem o mutilado veterano professava um<br \/>\n    entusiasmo quase supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa imaginosa dava<br \/>\n    um aspecto &eacute;pico e sobrenatural.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as n&atilde;o se fartavam de interrogar aquela testemunha<br \/>\n    presencial de tantos feitos her&oacute;icos, E assim eram neutralizadas as<br \/>\n    doutrinas dos pedagogos eruditos, encarregados da educa&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    filhos de D. Luis, e estes iam crescendo afei&ccedil;oados aos princ&iacute;pios<br \/>\n    liberais, que amavam de instinto, antes de os amarem de reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas dias de maior prova&ccedil;&atilde;o estavam reservados para esta fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no volunt&aacute;rio<br \/>\n    desterro, a que se condenou, obrigara-o a enormes e perigosos sacrif&iacute;cios.<\/p>\n<p> D. Luis nunca pr&ograve;priamente se ocupara da ger&ecirc;ncia dos seu3<br \/>\n    bens. Fiel aos h&aacute;bitos aristocr&aacute;ticos dos seus maiores, deixara<br \/>\n    desde muito a procuradores todos os cuidados de administra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e de quando em quando recebia deles a not&iacute;cia de que a sua casa se<br \/>\n    estava perdendo, sem que se lembrasse de perguntar a si pr&oacute;prio se<br \/>\n    n&atilde;o seria poss&iacute;vel opor um obst&aacute;culo &agrave;quala ru&iacute;na.<\/p>\n<p> O padre Janu&aacute;rio, ou frei Janu&aacute;rio dos Anjos, velho egresso,<br \/>\n    homem de letras gordas, que se estabelecera comodamente naquela acastelada<br \/>\n    resid&ecirc;ncia como em sua casa, era um desses procuradores.<\/p>\n<p> Fa&ccedil;a-se justi&ccedil;a ao padre, que n&atilde;o era de m&aacute;<br \/>\n    f&eacute;, nem em proveito pr&oacute;prio, que ele apressava, com m&atilde;o<br \/>\n    poderosa, a decad&ecirc;ncia de D. Luis.<\/p>\n<p> Mas, homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha<br \/>\n    capitais para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre sob<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada<br \/>\n    a propriedade e mais irremedi&aacute;vel o triste futuro dela. Sucedeu, pois,<br \/>\n    o que era de esperar. Dispersou-se a corte de D. Luis. Por muito que fizessem<br \/>\n    os administradores da casa para a manter no costumado esplendor, cedo principiaram<br \/>\n    a transparecer os sinais da declina&ccedil;&atilde;o. Foi o aviso para a debandada.<br \/>\n    Uns porque delicadamente compreenderam que a sua perman&ecirc;ncia concorreria<br \/>\n    para aumentar as dificuldades, com que o fidalgo j&aacute; lutava; outros,<br \/>\n    porque aspiravam melhores auras, longe dali, em solares menos estremecidos<br \/>\n    pelo vaiv&eacute;m da adversidade ; &eacute; certo que todos se foram retirando<br \/>\n    a um por um, e deixaram a fam&iacute;lia s&oacute;.<\/p>\n<p> Aumentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.<\/p>\n<p> Depois veio a doen&ccedil;a e a morte da esposa, daquela que lhe tinha sido<br \/>\n    t&atilde;o fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, at&eacute; escondia<br \/>\n    as l&aacute;grimas que ele lhe fazia verter; veio essa nova dor atribular-lhe<br \/>\n    ainda mais a exist&ecirc;ncia. E ainda n&atilde;o haviam acabado as prova&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ! No fundo do c&aacute;lice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.<\/p>\n<p> D. Luis tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja<br \/>\n    miss&atilde;o consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pai ! Se<br \/>\n    n&atilde;o havia de querer ! O cora&ccedil;&atilde;o &aacute;rido daquele<br \/>\n    velho e o tenro cora&ccedil;&atilde;o daquela crian&ccedil;a procuravam-se,<br \/>\n    como para um pelo outro se completarem.<\/p>\n<p> O velho fidalgo concentrado e quase r&iacute;spido para com os outros filhos,<br \/>\n    se alguma vez teve nos l&aacute;bios sorrisos desanuviados e sinceros, foi<br \/>\n    na presen&ccedil;a da sua Beatriz. Aquele desgra&ccedil;ado cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vazio de afectos, queimado de &oacute;dios e de paix&otilde;es esterilizadoras,<br \/>\n    sentia um grato refrig&egrave;rio em deixar-se penetrar do suave influxo das<br \/>\n    caricias da crian&ccedil;a, que beijava as faces rugosas do pai e lhe brincava<br \/>\n    com os cabelos prateados ; e muitas vezes, nesses momentos, l&aacute;grimas<br \/>\n    de desafogo dissipavam a cerra&ccedil;&atilde;o que ia na alma daquele homem,<br \/>\n    que com tanta for&ccedil;a sabia odiar.<\/p>\n<p> E n&atilde;o era somente o pai que experimentava essa influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Jorge, que de pequeno fora pensativo e s&eacute;rio, sentia-se tomar por<br \/>\n    a bondade e ternura de Beatriz. Crian&ccedil;a ainda, tinha ela, quando a<br \/>\n    s&oacute;s com o irm&atilde;o, um olhar penetrante e um gesto grave como o<br \/>\n    dele, um esp&iacute;rito para comunicar &agrave; vontade com o seu. Ela parecia<br \/>\n    compreender o alcance do auxilio que poderia receber um dia daquele rapaz<br \/>\n    sisudo, que a fitava, e ele sentia-se engrandecer aos pr&oacute;prios olhos,<br \/>\n    lembrando-se de que seria sua miss&atilde;o na vida proteger aquele anjo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, g&ecirc;nio mais impetuoso e impaciente, dobrava tamb&eacute;m<br \/>\n    a vontade a um aceno da fr&aacute;gil e delicada criatura, em quem um estouvamento<br \/>\n    seu desafiava l&aacute;grimas. E estas l&aacute;grimas eram a &uacute;nica<br \/>\n    repress&atilde;o que o continha nos desvarios.<\/p>\n<p> Pois at&eacute; nesta filha feriu o Senhor o pobre anci&atilde;o.<\/p>\n<p> Crian&ccedil;a mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos<br \/>\n    l&aacute;bios, e prostrou-a ex&aacute;nime no t&uacute;mulo.<\/p>\n<p> F&ecirc;z-se ent&atilde;o deveras escuro no esp&iacute;rito do pai.<\/p>\n<p> Quando aquela pequena fada dom&eacute;stica desapareceu como uma vis&atilde;o<br \/>\n    vaporosa em contos de magia, foi como se todos ficassem em trevas. A vida<br \/>\n    era t&atilde;o outra ! O ente que absorvia os instantes daqueles tr&ecirc;s<br \/>\n    homens, a quem todos tr&ecirc;s tributavam os seus mais puros afectos e os<br \/>\n    seus pensamentos mais constantes, desaparecera, e eles olhavam- se assustados,<br \/>\n    meio loucos, como se de s&uacute;bito se lhes tivesse apagado a luz que os<br \/>\n    alumiava ; sentiam a indecis&atilde;o do homem, a quem no meio da estrada<br \/>\n    fulmina inesperada cegueira.<\/p>\n<p> Passada a viol&ecirc;ncia da primeira dor em todos ficou a saudade, negra<br \/>\n    e concentrada em D. Luis, melanc&oacute;lica em Jorge, expansiva e veemente<br \/>\n    em Maur&iacute;cio ; e para todos o nome de Beatriz, a recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus gestos, das suas palavras, era um talism&atilde;, cuja efic&aacute;cia<br \/>\n    nunca se desmentia. A alma daquele anjo assistia ainda &agrave; fam&iacute;lia,<br \/>\n    que o chorava, e &agrave; sua misteriosa direc&ccedil;&atilde;o obedeciam<br \/>\n    todos sem o perceberem.<\/p>\n<p> Morta aos dezesseis anos, Beatriz vivia ainda nos lugares que habitara.<\/p>\n<p> H&aacute; entes assim, cuja influ&ecirc;ncia p&oacute;stuma lhes d&aacute;<br \/>\n    uma quase imortalidade, &agrave; maneira da luz sideral, que continua a cintilar<br \/>\n    para n&oacute;s, depois de aniquilado o foco que a emitia.<\/p>\n<p> O padre Janu&aacute;rio tornou-se desde ent&atilde;o a criatura indispens&aacute;vel,<br \/>\n    e a companhia exclusiva de D. Luis, que via nele o &uacute;nico representante<br \/>\n    da sua antiga corte.<\/p>\n<p> Ac&eacute;rrimo partid&aacute;rio do regimen absoluto, apesar de lhe n&atilde;o<br \/>\n    ser poss&iacute;vel enfeixar dois argumentos s&eacute;rios em defesa dele,<br \/>\n    o padre Janu&aacute;rio passava a vida aproveitando os mais rid&iacute;culos<br \/>\n    ensejos para premissas dos seus corol&aacute;rios antiliberais, artif&iacute;cio<br \/>\n    com que lisonjeava as paix&otilde;es do seu ilustre amo e patrono, e mantinha<br \/>\n    nele o fogo sagrado.<\/p>\n<p> O padre achava-se bem naquela vida mon&oacute;tona, que exercia sobre si<br \/>\n    os mais not&aacute;veis efeitos anal&eacute;pticos. Podia dizer-se que ele<br \/>\n    dividia ali o tempo entre duas ocupa&ccedil;&otilde;es exclusivas : comer<br \/>\n    e esperar com impaci&ecirc;ncia as horas da comida.<\/p>\n<p> uma &uacute;nica circunst&acirc;ncia assombrava os dias do padre. Era a<br \/>\n    presen&ccedil;a na Casa Mourisca do hortel&atilde;o, em quem fal&aacute;mos,<br \/>\n    e que mantinha com ele uma aberta hostilidade. Frei Janu&aacute;rio exasperava-se<br \/>\n    sempre que o ouvia falar no imperador e no cerco e nos volunt&aacute;rios<br \/>\n    da rainha, e na Carta, com o entusiasmo e a &ecirc;nfase de um soldado daqueles<br \/>\n    tempos. Por vezes rompiam ambos em cenas violentas ; por vezes o capel&atilde;o<br \/>\n    ia aconselhar ao fidalgo a demiss&atilde;o daquele homem, que amea&ccedil;ava<br \/>\n    afectar de liberalismo a fam&iacute;lia inteira.<\/p>\n<p> D. Luis, por&eacute;m, apesar de nunca falar com o hortel&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    atendia nestas reclama&ccedil;&otilde;es o padre. Conservando no seu servi&ccedil;o<br \/>\n    o veterano, satisfazia a um pedido da esposa, e n&atilde;o teria coragem para<br \/>\n    fazer o contr&aacute;rio. Assim perpetuavam-se os conflitos entre os dois,<br \/>\n    porque nem o procurador suportava as rudes franquezas do soldado, nem este<br \/>\n    os remoques encapotados do procurador.<\/p>\n<p> Tal era a situa&ccedil;&atilde;o da fam&iacute;lia da Casa Mourisca na &eacute;poca<br \/>\n    em que vai procur&aacute;-la a nossa narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> J&aacute; se v&ecirc; qu&atilde;o mal assegurado andava o futuro dos dois<br \/>\n    jovens filhos de D. Luis. A educa&ccedil;&atilde;o que eles haviam recebido<br \/>\n    n&atilde;o tendera a fim algum pr&aacute;tico.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o podia sofrer a id&eacute;ia de dar a seus filhos uma<br \/>\n    profiss&atilde;o.<\/p>\n<p> A nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada<br \/>\n    peias &uacute;ltimas evolu&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Os descendentes<br \/>\n    dos ultramon&aacute;rquicos Negr&otilde;es de Vilar de Corvos n&atilde;o eram<br \/>\n    para se assalariarem em defesa dos principios e das institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que abalaram os velhos tronos, firmados no direito divino. Nobre era tamb&eacute;m<br \/>\n    a carreira eclesi&aacute;stica, que muitos dos seus antepassados haviam trilhado,<br \/>\n    apoiados no b&aacute;culo episcopal ; mas se D. Luis estava persuadido de<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o havia religi&atilde;o neste territ&oacute;rio de<br \/>\n    antigos crentes? e se frei Janu&aacute;rio teimava, ensinado pelo malogro<br \/>\n    de longas pretens&otilde;es &agrave;s honras de umas meias vermelhas, que<br \/>\n    s&oacute; se adiantava nas falanges do clero quem fosse pedreiro-livre ! Assim,<br \/>\n    pois, os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo cavalgando<br \/>\n    e ca&ccedil;ando nas imedia&ccedil;&otilde;es, e fruindo em santo &oacute;cio<br \/>\n    uma vida, cujos espinhos todos procuravam ocultar-lhes. Caminhavam por estradas<br \/>\n    de rosas para um fundo precip&iacute;cio, de onde lhes desviavam as vistas.<\/p>\n<p> Deve, por&eacute;m, dizer-se que n&atilde;o caminhavam ambos igualmente<br \/>\n    desprevenidos ; porque de crian&ccedil;as era diverso o car&aacute;cter dos<br \/>\n    dois, e de dia para dia mais a diferen&ccedil;a se pronunciava.<\/p>\n<p> Jorge, na inf&acirc;ncia como na juventude, fora sempre grave e reflecrido.<\/p>\n<p> Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel s&eacute;rio.<\/p>\n<p> Era o pai, o mestre, o comandante, o m&eacute;dico, o padre, tudo aquilo<br \/>\n    que o obrigasse a um porte sisudo e a uma gravidade de homem.<\/p>\n<p> Adolescente, nunca as raparigas do lugar lhe ouviram uma frase atrevida<br \/>\n    ; era sempre uma sauda&ccedil;&atilde;o afectuosa, casta e quase paternal<br \/>\n    a que lhes dirigia, ainda quando as encontrasse a s&oacute;s nas veredas mais<br \/>\n    solit&aacute;rias das devesas ou pinheirais. Elas habituaram-se &agrave;quela<br \/>\n    juvenil seriedade, saudavam-no como a um velho, falavam dele com acatamento,<br \/>\n    certas de encontrarem naquele silencioso rapaz um protector na ocasi&atilde;o<br \/>\n    precisa, mas nunca um namorado. E contudo a figura esbelta de Jorge, a varonil<br \/>\n    e inteligente express&atilde;o daquele rosto bem desenhado e um certo fulgor<br \/>\n    no olhar, que denunciava energia de car&aacute;cter, obrigavam a desviar-se<br \/>\n    para o ver mais de um olhar feminino, quando ele passava com um livro debaixo<br \/>\n    do bra&ccedil;o ou a cavalo pelos caminhos do campo.<\/p>\n<p> As pessoas da &iacute;ndole de Jorge imp&otilde;em uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    estranho temor &agrave;s mulheres, que se afastam delas como de um ser misterioso,<br \/>\n    de onde lhes podem vir perigos desconhecidos.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, pelo contr&aacute;rio, mal podia dizer de que idade encetara<br \/>\n    0 seu primeiro amor. com os brinquedos pueris misturara j&aacute; uns arremedos<br \/>\n    de galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ci&uacute;mes.<\/p>\n<p> Desde ent&atilde;o nunca lhe andou o cora&ccedil;&atilde;o devoluto, ainda<br \/>\n    que tamb&eacute;m nunca t&atilde;o tomado e absorvido por amores, que o fizesse<br \/>\n    passar por qualquer beleza feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.<\/p>\n<p>Era popular&iacute;ssimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam,<br \/>\n    e ele a todas designava por os nomes. A todas n&atilde;o, que para as feias<br \/>\n    tinha uma mem&oacute;ria ingrata.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida<br \/>\n    a livraria da casa. A educa&ccedil;&atilde;o esmerada da m&atilde;e e bom<br \/>\n    gosto liter&aacute;rio tinham enriquecido a biblioteca dos melhores modelos<br \/>\n    da literatura nacional e da estrangeira. A&iacute; encontraram os dois rapazes<br \/>\n    farto alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tamb&eacute;m furtivamente<br \/>\n    os poucos livros, esp&oacute;lio do tio falecido, os quais o hortel&atilde;o<br \/>\n    guardara como rel&iacute;quia, furtando-os ao auto-de-f&eacute; a que os condenaria<br \/>\n    inevitavelmente a indigna&ccedil;&atilde;o do fidalgo e do padre. Nesses livros<br \/>\n    aprendeu Jorge a pensar, a compreender o alcance de certas id&eacute;ias e<br \/>\n    de certas institui&ccedil;&otilde;es, e a fazer justi&ccedil;a devida a muitos<br \/>\n    preconceitos, que lhe haviam imposto como dogmas.<\/p>\n<p> A um esp&iacute;rito destes, educado em observar e reflectir, n&atilde;o<br \/>\n    podiam passar por muito tempo despercebidos os numerosos sintomas de decad&ecirc;ncia<br \/>\n    que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes, vinha- -lhe ao esp&iacute;rito<br \/>\n    uma secreta apreens&atilde;o pelo seu prec&aacute;rio futuro.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, imagina&ccedil;&atilde;o mais forte, natureza mais ardente,<br \/>\n    car&aacute;cter mais frivolo e vol&uacute;vel, vivia a sua vida de jovem fidalgo<br \/>\n    de prov&iacute;ncia, deixava-se ir na corrente dos seus amores f&aacute;ceis,<br \/>\n    dos seus prazeres e das suas dissipa&ccedil;&otilde;es, alucinado por os sonhos<br \/>\n    e quimeras de uma f&eacute;rtil fantasia, e n&atilde;o profundava os olhos<br \/>\n    at&eacute; ao seio obscuro das realidades.<\/p>\n<p> A sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nimiamente inquieta, raz&atilde;o por indol&ecirc;ncia inactiva, n&atilde;o<br \/>\n    via, nem queria ver, o espectro, que &agrave;s vezes aparecia aos olhos do<br \/>\n    irm&atilde;o.<\/p>\n<p> uma circunst&acirc;ncia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desse espectro, que, &agrave; semelhan&ccedil;a da sombra do rei da Dinamarca,<br \/>\n    em Hamlet, ia exercendo uma funda influ&ecirc;ncia no animo do adolescente.<\/p>\n<p> Esta circunst&acirc;ncia n&atilde;o era s&oacute; para ele manifesta. Ao<br \/>\n    viajante, que j&aacute; supusemos parado a contemplar o vulto denegrido da<br \/>\n    Casa Mourisca, n&atilde;o passaria ela tamb&eacute;m despercebida.<\/p>\n<p> Na raiz da colina fronteira &agrave;quela, onde o solar dos fidalgos erguia<br \/>\n    as suas torres ameadas, assentava o mais risonho e pr&oacute;spero casal dos<br \/>\n    arredores. Era uma completa casa r&uacute;stica, conhecida por aqueles s&iacute;tios<br \/>\n    pelo nome, que por excel&ecirc;ncia se lhe dera, de Herdade.<\/p>\n<p> O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.<\/p>\n<p> Ela graciosa e alvejante, ele severo e so nbrio ; de um lado todos os sinais<br \/>\n    de actualidade, de vida, de trabalho, da ind&uacute;stria que tudo aproveita,<br \/>\n    que n&atilde;o dorme, que n&atilde;o descansa; a economia, a previd&ecirc;ncia,<br \/>\n    o futuro ; do outro, o passado, a tradi&ccedil;&atilde;o est&eacute;ril, o<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, a inc&uacute;ria, o desperd&iacute;cio, a ru&iacute;na ; a<br \/>\n    cada pedra que o tempo derrubava do pal&aacute;cio, correspondia uma que se<br \/>\n    assentava na Herdade para alicerces de novas constru&ccedil;&otilde;es ; aqui<br \/>\n    desmoronava-se um pavilh&atilde;o, ali levantava-se um celeiro, uma azenha,<br \/>\n    um lagar ; aos velhos carvalhos &agrave;s heras vigorosas, aos aveludados<br \/>\n    musgos, aos liq&uacute;enes multicor&egrave;s, severas galas, com que se adornava<br \/>\n    a casa nobre, opunha a Herdade os pomares produtivos, as ondulantes searas,<br \/>\n    os prados verdes, as vinhas f&eacute;rteis, e, pr&oacute;ximo de casa, os<br \/>\n    canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam incessantes as abelhas das<br \/>\n    colm&eacute;ias vizinhas. Nas amplas cavalari&ccedil;as do pal&aacute;cio,<br \/>\n    onde outr&oacute;ra relinchavam d&uacute;zias de cavalos das mais apuradas<br \/>\n    ra&ccedil;as, ainda batiam com impaci&ecirc;ncia no lajedo dois velhos exemplares<br \/>\n    de bom sangue, cujo sacrif&iacute;cio a economia n&atilde;o exigira ainda<br \/>\n    ; nas mais modestas cavalari&ccedil;as do casal, duas &eacute;guas robustas,<br \/>\n    prontas para o servi&ccedil;o, e dom&aacute;veis por uma crian&ccedil;a preparavam-se<br \/>\n    em fartas manjedouras para freq&uuml;entes e longas excurs&otilde;es ; e ao<br \/>\n    entardecer abriam-se os currais a numerosas cabe&ccedil;as de gado, cujos<br \/>\n    mugidos chegavam at&eacute; ao alto da Casa Mourisca, onde o velho fidalgo<br \/>\n    muitas vezes os escutava, pensativo e melanc&oacute;lico.<\/p>\n<p> Este contraste que apontamos, era a circunst&acirc;ncia que evocava no esp&iacute;rito<br \/>\n    de Jorge o espectro que o entristecia.<\/p>\n<p> O dono da Herdade fora pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,<br \/>\n    passara depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendara uma fazenda<br \/>\n    maior ; chegando enfim a ser propriet&aacute;rio, tornara- se em pouco tempo<br \/>\n    possuidor de extensos bens, e era j&aacute; o chefe de uma fam&iacute;lia<br \/>\n    numerosa e talvez o primeiro agricultor daquele c&iacute;rculo.<\/p>\n<p> Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o pal&aacute;cio? Se de<br \/>\n    t&atilde;o pouco se chegara a tanto, como se podia cair de tanto em t&atilde;o<br \/>\n    pouco? Tais eram, em suma, as vagas reflex&otilde;es que se assenhoreavam<br \/>\n    do esp&iacute;rito de Jorge, quando das janelas do seu quarto, numa das torres<br \/>\n    do pal&aacute;cio, ou do alto de alguma emin&ecirc;ncia, observava a anima&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a vida da propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para<br \/>\n    o vulto silencioso e como adormecido do velho pa&ccedil;o dos seus maiores.<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>POR uma manh&atilde; de Setembro, l&iacute;mpida e serena, como &agrave;s<br \/>\n    vezes s&atilde;o na nossa terra as manh&atilde;s do Outono, Jorge saiu a p&eacute;,<br \/>\n    a passear pelos campos. Errou ao acaso por bou&ccedil;as e tapadas, seguiu<br \/>\n    a estreita vereda a custo cedida ao tr&acirc;nsito pela s&ocirc;frega cultura<br \/>\n    nas terras marginais do pequeno rio da aldeia. Depois subindo a uma emin&ecirc;ncia,<br \/>\n    parou a contemplar do alto o aspecto do feracissimo vale, que suavemente se<br \/>\n    lhe abatia aos p&eacute;s, e no fundo do qual se erguia, de entre veigas e<br \/>\n    pomares, a Herdade de que j&aacute; fal&aacute;mos.<\/p>\n<p> Jorge sentou-se sobre uma dessas enormes moles de granito, que se encontram<br \/>\n    com freq&uuml;&ecirc;ncia em certos lugares da prov&iacute;ncia, soltas pelos<br \/>\n    montes, como se fossem roladas para ali em remotas eras por m&atilde;os de<br \/>\n    fundib&uacute;lanos gigantes, empenhados em encarni&ccedil;ada luta.<\/p>\n<p> Os olhos dirigiram-se-lhe instintivamente para a Herdade onde se fixaram,<br \/>\n    como se com for&ccedil;a irresist&iacute;vel os atra&iacute;sse o espect&aacute;culo<br \/>\n    que via.<\/p>\n<p> Era a &eacute;poca da mais intensa vida nas granjas. Os cereais, cobrindo<br \/>\n    as eiras, lourejavam aos raios desanuviados do Sol ; carros, a vergarem sob<br \/>\n    o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do quinteiro,<br \/>\n    chiando estridorosamente ; apinhavam-se al&eacute;m em monte as canas e o<br \/>\n    folhedo de milho, restos de recentes descamisadas ; longas s&eacute;ries de<br \/>\n    medas elevavam-se mais longe, &agrave; maneira de tendas num arraial de campanha;<br \/>\n    juntas de bois, j&aacute; livres do jugo, repousavam das fadigas daqueles<br \/>\n    dias de az&aacute;fama, ruminando em sossego ; os mo&ccedil;os da lavoura<br \/>\n    iam e vinham, atarefados em diversos misteres ; e de tudo isto erguia-se um<br \/>\n    clamor de trabalho, que o sossego dos campos e a serenidade do dia deixavam<br \/>\n    chegar distinto at&eacute; ao alto da colina.<\/p>\n<p> O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia &agrave;quelas<br \/>\n    tarefas, e em volta dele moviam-se, saltavam e riam duas ou tr&ecirc;s robustas<br \/>\n    ciian&ccedil;as, com quem brincava um formid&aacute;vel rafeiro.<\/p>\n<p> E era esta a cena que Jorge contemplava, e que em t&atilde;o profundas medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    parecia absorv&ecirc;-lo. De repente distraiu-o o som dos passos de algu&eacute;m<br \/>\n    que se aproximava daquele mesmo lugar, em que t&atilde;o despercebidamente<br \/>\n    lhe ia correndo a manh&atilde;.<\/p>\n<p> Voltando-se, viu seu irm&atilde;o Maur&iacute;cio, que em traje rigoroso<br \/>\n    e competentes petrechos de ca&ccedil;a, e com a esmerada eleg&acirc;ncia e<br \/>\n    apuro, que lhe eram habituais, subia a colina, precedido de dois ou tr&ecirc;s<br \/>\n    c&atilde;es de boa ra&ccedil;a, que de longe descobriram Jorge e correram<br \/>\n    para ele, afagando-o, com latidos e cabriolas.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, assim avisado e conduzido pelos c&atilde;es, veio ter com<br \/>\n    o irm&atilde;o, exclamando jovialmente &agrave; dist&acirc;ncia de alguns<br \/>\n    passos: &#8212; Em flagrante delito de medita&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica,<br \/>\n    o Sr. Jorge ! Bravo ! J&aacute; n&atilde;o desespero de te ver um dia fazer<br \/>\n    versos.<\/p>\n<p> Jorge respondeu, encolhendo os ombros: &#8212; Quem se senta no alto de<br \/>\n    um monte, depois de subir toda a encosta dele sem parar, pode faz&ecirc;-lo<br \/>\n    simplesmente com o prosaico intento de tomar f&ocirc;lego. Se isto fosse sintoma<br \/>\n    de poesia, ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas j&aacute; isso de subir ao monte com as m&atilde;os<br \/>\n    vazias, como est&aacute;s, sem uma espingarda que revele um razo&aacute;vel<br \/>\n    fim no passeio, &eacute; um sintoma importante. Quem &eacute; que se d&aacute;<br \/>\n    ao inc&ocirc;modo de uma ascens&atilde;o dessas, quando o gozo da perspectiva<br \/>\n    que espera encontrar lhe n&atilde;o recompensa as fadigas? E quem tem dessas<br \/>\n    compensa&ccedil;&otilde;es sen&atilde;o os poetas, que s&atilde;o os &uacute;nicos<br \/>\n    que sabem ce qu&#8217;on entend sur la montagne ?<\/p>\n<p class=\"imagem\"><b>Avez-vous quelquefois, calme et silencieux, Mont&eacute;<br \/>\n    sur la montagne en pr&eacute;sence des cieux?<\/b><\/p>\n<p>E, a recitar os primeiros versos da poesia aludida, sentava-se so lado do<br \/>\n    irm&atilde;o, pousava a espingarda, e descobrindo a cabe&ccedil;a, sacudia<br \/>\n    aos ventos os tormosos e bastos cabelos castanhos, objecto de muitos cuidados<br \/>\n    seus.<\/p>\n<p> Os c&atilde;es andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras<br \/>\n    do monte.<\/p>\n<p> Interrompendo de s&uacute;bito a recita&ccedil;&atilde;o, Maur&iacute;cio<br \/>\n    prosseguiu : &#8212; Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias<br \/>\n    ! Que escr&uacute;pulos pode haver em declarar isto tudo admir&aacute;vel?<br \/>\n    Repara como &eacute; bem talhado aquele corte al&eacute;m, do monte ; parece<br \/>\n    feito de prop&oacute;sito para deixar ver no plano posterior aquela povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    distante, que n&atilde;o sei que nome tem. E ali o campan&aacute;rio com a<br \/>\n    sua alamoda? Quem teria a feliz inspira&ccedil;&atilde;o de o assentar t&atilde;o<br \/>\n    bem? Onde &eacute; que ele ficaria melhor? Parece que andou um gosto de artista<br \/>\n    a dirigir estas coisas.<\/p>\n<p> E acrescentou, suspirando: &#8212; Ai, na aldeia o cen&aacute;rio bem est&aacute;,<br \/>\n    pouco tem que se lhe diga; mas os actores e a com&eacute;dia que aqui se representa<br \/>\n    &eacute; que sao de uma insipidez ! Os instintos urbanos de Mauricio, cuja<br \/>\n    &iacute;ndole mal se acomodava &agrave; simplicidade campesina, e o fazia<br \/>\n    suspirar pela vida das capitais, arrancavam-lhe frequentemente destas exclama&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Jorge, que escutara o irm&atilde;o sob uma meia distrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sem desviar os olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo: &#8212; H&aacute;<br \/>\n    quase uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que n&atilde;o tinha notado<br \/>\n    uma s&oacute; dessas particularidades da paisagem que descreves.<\/p>\n<p> &#8212; Gostas mais da contempla&ccedil;&atilde;o em globo. At&eacute; isso<br \/>\n    &eacute; de poeta.<\/p>\n<p> Analisar minuciosamente as impress&otilde;es recebidas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o teu forte.<\/p>\n<p> &#8212; Enganas-te ainda; n&atilde;o era tamb&eacute;m o conjunto da paisagem<br \/>\n    que eu observava; mas um ponto limitado dela, muito limitado.<\/p>\n<p> &#8212; Qual era ent&atilde;o? &#8212; Olha ali para baixo ; a Herdade de<br \/>\n    Tom&eacute;, aquela az&aacute;fama, aquela gente t&ocirc;da a trabalhar, a<br \/>\n    vida que ali vai! &#8212; Ora adeus ! &#8212; exclamou Maur&iacute;cio &#8212;<br \/>\n    &eacute; justamente o que me n&atilde;o roubaria um momento de aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o te estou a dizer que para mim o que h&aacute; de insuport&aacute;vel<br \/>\n    no campo &eacute; a gente que o habita, a vida que nele se passa? Faz pena<br \/>\n    ver que esp&eacute;cie de contempladores tem a natureza para estas maravilhas.<br \/>\n    A indiferen&ccedil;a com que estes selvagens encaram tudo isto ! Repara, v&ecirc;<br \/>\n    aquele labrego passar l&aacute; em baixo na ponte ; olha l&aacute; se ele<br \/>\n    desvia a cabe&ccedil;a para algum dos lados, ou se p&aacute;ra um momento<br \/>\n    para gozar do belo espect&aacute;culo que dali se observa.<\/p>\n<p> Olha para aquilo ! Selvagem ! Pergunta ao Tom&eacute; ou a t&ocirc;da essa<br \/>\n    gente que l&aacute; anda em baixo a trabalhar quantas vezes admiraram as belezas<br \/>\n    de uma noite de luar, vista do alto do outeiro pequeno, ou se o p&ocirc;r<br \/>\n    do Sol lhes produz alguma sensa&ccedil;&atilde;o na alma, a n&atilde;o ser<br \/>\n    a lembran&ccedil;a que v&atilde;o sendo horas da ceia.<\/p>\n<p> Jorge sorria ao ouvir o irm&atilde;o, e tornou pl&agrave;cidamente: &#8212;<br \/>\n    Que homem este ! A poesia precisa ter quem a entenda e quem a fa&ccedil;a;<br \/>\n    e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a entendem.<br \/>\n    Esta pobre gente do campo &eacute; uma parte integrante dele; n&atilde;o o<br \/>\n    contemplam, completam-no. Que quer&iacute;as tu? Gostavas talvez mais que<br \/>\n    em vez dessa gente indiferente que trabalha, estivessem por a&iacute; os montes,<br \/>\n    os vales e as ribeiras povoadas de poetas contempladores como tu? Deves confessar<br \/>\n    que seria um campo bem rid&iacute;culo esse. Se eu at&eacute;, para que te<br \/>\n    diga a verdade, estou persuadido de que n&atilde;o encontraria encantos nos<br \/>\n    lugares muito visitados, que h&aacute; por as cinco partes do mundo, onde,<br \/>\n    a cada momento, apreciadores ingleses, franceses, russos e alem&atilde;es,<br \/>\n    passeiam soltando exclama&ccedil;&otilde;es poliglotas, e onde o nosso entusiasmo<br \/>\n    nos &eacute; prescrito a p&aacute;ginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que<br \/>\n    torna os lavradores po&eacute;ticos &eacute; a inconsci&ecirc;ncia com que<br \/>\n    eles o s&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vistos de longe. Pelo menos concorda nisto : vistos de longe e de<br \/>\n    muito longe.<\/p>\n<p> &#8212; Vistos de longe, sim, que d&uacute;vida? como tudo o mais. Ao perto<br \/>\n    tamb&eacute;m muitos desses prados s&atilde;o p&acirc;ntanos mal cheirosos,<br \/>\n    que infectam, e mexe-se uma miriade de insectos repugnantes nessa verdura<br \/>\n    que tanto admiras. Diz-me uma coisa, Maur&iacute;cio, parece-te que o nosso<br \/>\n    velho solar prejudica a beleza desta paisagem? &#8212; Se prejudica? Ora essa.<br \/>\n    Adorna-a. Olha que bem que ele sai daquele fundo que lhe fazem os castanheiros<br \/>\n    ! &#8212; Muito bem, e contudo, visto de perto, h&aacute; l&aacute; tristes<br \/>\n    e prosaicas realidades &#8212; observou Jorge, suspirando.<\/p>\n<p> Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irm&atilde;o<br \/>\n    o fitou, Jorge correspondeu dizendo: &#8212; Sim, Maur&iacute;cio, triste<br \/>\n    e prosaica realidade para quem o olhar de perto. H&aacute; nada mais triste<br \/>\n    do que aqueles campos invadidos pelas ortigas, que n&oacute;s l&aacute; temos,<br \/>\n    do que aqueles pomares mal tratados, e aqueles celeiros em ru&iacute;nas?<br \/>\n    Querer&aacute;s encontrar poesia na nossa pobreza, Maur&iacute;cio? &#8212;<br \/>\n    Pobreza?! &#8212; Pobreza, sim ; pois que nome lhe queres dar ? Olha, compara<br \/>\n    o aspecto dessa casa branca de um andar, que a&iacute; fica em baixo, com<br \/>\n    o do nosso pa&ccedil;o acastelado, a actividade daqueles homens com a so&ntilde;olencia<br \/>\n    cr&oacute;nica do nosso capel&atilde;o ; compara ainda, Maur&iacute;cio, compara<br \/>\n    a desafogada alegria de Tom&eacute; com a tristeza sem conforto do nosso pai.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio curvou a cabe&ccedil;a, e uma como sombra de tristeza pairou-<br \/>\n    lhe algum tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira<br \/>\n    vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o fascinados pelo fulgor de lisonjeiras ilus&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas, depois de breves instantes de sil&ecirc;ncio, respondeu ao irm&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Pois bem, ser&aacute; como dizes. Creio at&eacute; que seja essa a<br \/>\n    verdade.<\/p>\n<p> A riqueza est&aacute; ali, a pobreza do nosso lado; por&eacute;m a poesia&#8230;<br \/>\n    oh! essa deixamo-la ficar, que bem sabes que n&atilde;o &eacute; ela a habitual<br \/>\n    companheira da opul&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; Da opul&ecirc;ncia ociosa, ego&iacute;sta e in&uacute;til, decerto<br \/>\n    que n&atilde;o ; mas da opul&ecirc;ncia activa, ben&eacute;fica, que semeia,<br \/>\n    que transmite a vida em volta de si, da opul&ecirc;ncia que fomenta o trabalho,<br \/>\n    que cultiva os terrenos maninhos, que fertiliza a terra est&eacute;ril, que<br \/>\n    sustenta, que educa e civiliza o povo, oh ! dessa &eacute; a poesia companheira<br \/>\n    tamb&eacute;m. Se o castelo arruinado tem poesia bastante para fazer correr<br \/>\n    l&aacute;grimas de saudade, a granja, activa e pr&oacute;spera, tem-na de<br \/>\n    sobra para as provocar de entusiasmo e de f&eacute; no futuro.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ficou outra vez silencioso ; depois, como se pretendesse<br \/>\n    sacudir de si as id&eacute;ias negras evocadas peias palavras do irm&atilde;o,<br \/>\n    exclamou, erguendo-se e com afectado estouvamento : &#8212; Est&aacute;s enganado,<br \/>\n    Jorge, o que reina ali em baixo n&atilde;o &eacute; a poesia, &eacute;&#8230;<br \/>\n    &eacute;&#8230; &eacute; a economia. A poesia n&atilde;o assiste ao edif&iacute;cio<br \/>\n    que se levanta, mas ao que se arruina ; gosta mais dos musgos do que da cal<br \/>\n    ; do lado do passado &eacute; que a encontras, melanc&oacute;lica, que &eacute;<br \/>\n    o ar que lhe conv&eacute;m.<\/p>\n<p> E ela tem raz&atilde;o ; o futuro tem muita vida para precisar do prest&iacute;gio<br \/>\n    po&eacute;tico. A poesia dos utilit&aacute;rios ! com o que tu me vens ! N&atilde;o<br \/>\n    sei quem foi que h&aacute; tempos me disse ter lido uma not&iacute;cia curiosa<br \/>\n    a respeito da Inglaterra. Parece que o esp&iacute;rito industrial e econ&oacute;mico<br \/>\n    daquela gente vai por l&aacute; destruindo as florestas, as matas, as sebes<br \/>\n    vivas, o que emudecer&aacute; dentro em pouco os coros das aves ; os rebanhos,<br \/>\n    que dantes pastavam pelas campinas verdes, hoje j&aacute; prosaicamente se<br \/>\n    v&atilde;o engordando nos est&aacute;bulos! Que mais falta? A voz dos camponeses,<br \/>\n    as cantigas e as m&uacute;sicas rurais h&atilde;&oacute;-de calar-se ao ru&iacute;do<br \/>\n    do ranger das m&aacute;quinas e do silvo do vapor. Admir&aacute;vel! em vez<br \/>\n    do fumo alvo e t&eacute;nue das cho&ccedil;as ficar&aacute; o c&eacute;u coberto<br \/>\n    de fumo negro e espesso do carv&atilde;o de pedra. Que modelo de aldeia o<br \/>\n    que nos vem da Inglaterra ! Na verdade ! Que poesia ! &#8212; No que tu me<br \/>\n    vens falar ! Na Inglaterra agr&iacute;cola ! &#8212; acudiu Jorge. &#8212;<br \/>\n    Mas antes l&aacute; &eacute; que bem se compreende a poesia da vida rural,<br \/>\n    que at&eacute; a nobreza a n&atilde;o despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores<br \/>\n    das terras e os rendeiros fraternizam e auxiliam-se m&ugrave;tuamente, e que<br \/>\n    os trabalhos do ano sucedem-se entre festas e solenidades populares, lucrando<br \/>\n    todos, trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar<br \/>\n    que h&aacute; mais poesia nos dom&iacute;nios senhoris dos lordes de Inglaterra,<br \/>\n    que dirigem por si mesmos as suas vastas empresas agr&iacute;colas, do que<br \/>\n    nos pardieiros em ru&iacute;nas dos nossos morgados, em cujas velhas salas<br \/>\n    dormem os propriet&aacute;rios o sono da ignor&acirc;ncia, da inutilidade<br \/>\n    e da devassid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o o nego, mas&#8230; na nossa casa, naquela triste Casa Mourisca,<br \/>\n    h&aacute; um qu&ecirc; de poesia, de poesia eleg&iacute;aca, se assim quiseres.<br \/>\n    Essa de que falas ser&aacute; a poesia das ge&oacute;rgicas ; mas a da elegia<br \/>\n    deixa-ma ficar.<\/p>\n<p> &#8212; O pior, Maur&iacute;cio, &eacute; que um dia vir&aacute; talvez<br \/>\n    em que o tremendo prosaismo da complexa mis&eacute;ria dissipar&aacute; esse<br \/>\n    t&eacute;nue perfume que dizes.<\/p>\n<p> &#8212; Safa! Est&aacute;s hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa<br \/>\n    l&aacute; ; lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades h&aacute;<br \/>\n    um tesouro escondido desde o tempo dos Mouros, e que um dia algu&eacute;m<br \/>\n    de nossa fam&iacute;lia o achar&aacute;, ficando absolutamente rico. Que essa<br \/>\n    esperan&ccedil;a dissipe o humor negro que tens. Vamos, vem dai. Pega nesta<br \/>\n    espingarda e vai ca&ccedil;ar. &Eacute; bom para dissipar vis&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Nao estou hoje para ca&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o vais reatar aqui o fio das tuas cogita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ? &#8212; N&atilde;o, vou reat&aacute;-lo acol&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Vais &agrave; Herdade ? ! &#8212; Vou.<\/p>\n<p> &#8212; Fazer o qu&ecirc; ? &#8212; Ver de mais perto aquela poesia, ou<br \/>\n    aquela prosa, como quiseres.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes que o pai n&atilde;o gosta que lidemos muito de perto com<br \/>\n    o Tom&eacute;? &#8212; Sei. &Eacute; um preconceito. Ele n&atilde;o o saber&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; um preconceito ! Bom ! Est&aacute;s hoje muito fil&oacute;sofo.<br \/>\n    Adeus, Jorge ; espero ver-te ao jantar de melhor aspecto.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> E os dois irm&atilde;os separaram-se. Maur&iacute;cio, precedido pelos c&atilde;es,<br \/>\n    seguiu em direc&ccedil;&atilde;o dos montes, cantando. Jorge desceu a colina<br \/>\n    e caminhou para a Herdade.<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>TOM&Eacute; da P&oacute;voa era o tipo mais completo de fazendeiro que pode<br \/>\n    desejar-se.<\/p>\n<p> &laquo; Alma s&atilde; em corpo s&atilde;o &raquo; ; esta frase do poeta<br \/>\n    &eacute; a que descreve melhor o homem: no f&iacute;sico, a for&ccedil;a e<br \/>\n    a sa&uacute;de em pessoa; no moral, a honradez e a alegria.<\/p>\n<p> Enquanto houvesse algu&eacute;m que trabalhasse em casa, n&atilde;o descansava<br \/>\n    ele. Del&iacute;cias do sono da madrugada, atractivos das sestas, a tudo resistia<br \/>\n    com nunca desmentida coragem. Na abastan&ccedil;a conservava os costumes laboriosos<br \/>\n    de tempos mais &aacute;rduos. Tudo lhe corria pelas m&atilde;os, a tudo seperintendia.<br \/>\n    Antes de almo&ccedil;ar j&aacute; ele havia passado revista &agrave; Herdade<br \/>\n    t&ocirc;da.<\/p>\n<p> No decurso do dia montava a cavalo e l&aacute; ia inspeccionar uma ou outra<br \/>\n    propriedade mais distante, que n&atilde;o deixava entregue &agrave; discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos caseiros. uma ou duas vezes no m&ecirc;s estendia as suas excurs&otilde;es<br \/>\n    at&eacute; ao Porto, chamado por neg&oacute;cios relativos &agrave; lavoura.<\/p>\n<p> Franco, liso de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos contratos,<br \/>\n    n&atilde;o se lhe limitava o cr&eacute;dito &agrave; circunscri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua aldeia, estendia-se at&eacute; &agrave; cidade, onde o seu nome era<br \/>\n    melhor garantia em certas transac&ccedil;&otilde;es, do que o de muitos faustosos<br \/>\n    negociantes. Em fam&iacute;lia, perfeitamente patriarcal, estremecia a mulher<br \/>\n    e os filhos ; e a lem branca de que para eles trabalhava, iludia-lhe as fadigas<br \/>\n    e os desalentos.<\/p>\n<p> Quando Jorge se dirigiu &agrave; Herdade, presidia ainda Tom&eacute; aos<br \/>\n    diversos trabalhos, em que a sua gente andava ocupada naquela manh&atilde;.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia ali bra&ccedil;os quietos, nem movimentos in&uacute;teis.<br \/>\n    Naquelas casas o trabalho n&atilde;o distingue sexo nem idade. Todos desde<br \/>\n    a inf&acirc;ncia se familiarizam com ele. D&aacute;-se o mesmo que se d&aacute;<br \/>\n    com o trato dos bois ; somente na cidade &eacute; que estes possantes e bondosos<br \/>\n    animais metem medo &agrave;s mulheres e &agrave;s crian&ccedil;as ; na aldeia<br \/>\n    umas e outras os afagam e dirigem.<\/p>\n<p> Assim, pois, trabalhava-se, falava-se, ria-se e cantava-se com alma nas<br \/>\n    eiras e quinteiros da Herdade.<\/p>\n<p> O Tom&eacute;, centro daquele movimento, lan&ccedil;ando os olhos a tudo,<br \/>\n    dirigindo a todos a palavra e a todos prestando o aux&iacute;lio do seu bra&ccedil;o<br \/>\n    robusto ; e da porta da casa, assistindo tamb&eacute;m &agrave;quela cena<br \/>\n    rural, a boa e santa mulher do fazendeiro, a s&oacute;cia fiel nos seus prazeres<br \/>\n    e penas, sustentando ao colo o &uacute;ltimo dos seus filhos, enquanto que<br \/>\n    os mais crescidos jogavam as escondidas por entre aquela gente azafamada.<\/p>\n<p> &#8212; Olha l&aacute; esse carro que n&atilde;o est&aacute; bem seguro,<br \/>\n    &oacute; Manuel. V&ecirc; l&aacute; se me arranjas ainda hoje por aqui alguma<br \/>\n    desgra&ccedil;a&#8230; &Oacute; meu maluco, n&atilde;o reparas que me vais semeando<br \/>\n    as espigas pelo ch&atilde;o? Salta, apanha- me tudo isso, que eu n&atilde;o<br \/>\n    quero nada desperdi&ccedil;ado&#8230; Est&aacute; quieto, Jo&atilde;o, vai para<br \/>\n    casa, agora n&atilde;o se brinca no quinteiro. Sai-me de ao p&eacute; dos<br \/>\n    bois, menino! Ai que tu&#8230; &Oacute; Luisa, olha se mandas dar uma pinga &agrave;queles<br \/>\n    homens&#8230; Que quer voc&ecirc;, tio? Cubra-se, ponha o seu chap&eacute;u. Ai,<br \/>\n    vem por causa do muro que caiu? Olhe, tenha paci&ecirc;ncia, volte c&aacute;<br \/>\n    amanh&atilde;. Hoje n&atilde;o posso olhar por isso&#8230; &Oacute; Chico Enjeitado,<br \/>\n    que diabo est&aacute;s tu fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vai-me<br \/>\n    recolher aquele milho que eu te disse; corre&#8230; O moleiro j&aacute; veio?<br \/>\n    Pois as azenhas j&aacute; moem, e o homem n&atilde;o tem desculpas que d&ecirc;<br \/>\n    pela demora&#8230; 0 Manuel, arreda esse carro mais para o meio, sen&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o pode entrar o outro, homem de Deus ! Disseram ao Luis que visse<br \/>\n    como estava o milho na baixa do rio? Que mo n&atilde;o v&aacute; cortar antes<br \/>\n    do tempo.<\/p>\n<p> Eu sempre quero l&aacute; ir primeiro ; ele n&atilde;o apodrece na terra.<br \/>\n    &Oacute; mulher, chama para l&aacute; esses pequenos, que podem aleijar-se<br \/>\n    por aqui. Vai, Jo&atilde;ozinho, vai para casa e leva o mano. Olha, qupres<br \/>\n    uma espiga assada? &Oacute; Chico, escolhe ai duas espigas para os pequenos.<br \/>\n    Que dem&ocirc;nio anda aquele c&atilde;o a fazer atr&aacute;s das galinhas?<br \/>\n    Aqui j&aacute;, atrevido! V&aacute;, v&aacute;, rapazes ! Voc&ecirc;s nesse<br \/>\n    andar n&atilde;o acabam hoje. D&aacute; c&aacute; um ancinho, que eu vou arredando<br \/>\n    esse folhedo.<\/p>\n<p> No meio deste fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    foi Tom&eacute; da P&oacute;voa interrompido pela voz da mulher, que exclamou<br \/>\n    : &#8212; Ai, &oacute; Tom&eacute;, olha quem ali est&aacute;! O fazendeiro<br \/>\n    voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do port&atilde;o do quinteiro viera,<br \/>\n    cumprindo o que tinha dito ao irm&atilde;o, con templar o mesmo espect&aacute;culo,<br \/>\n    que tanto o havia atra&iacute;do &atilde;o observ&aacute;-lo da colina.<\/p>\n<p> Era raro que os filhos de D. Luis visitassem a Herdade. O velho fidalgo<br \/>\n    ainda se n&atilde;o costumara &agrave; prosperidade do homem que fora seu<br \/>\n    criado. A granja era como que uma censura pungente &agrave; sua imprevidencia;<br \/>\n    era uma li&ccedil;&atilde;o muda que ele recebia a todos os momentos, que<br \/>\n    o humilhava no seu orgulho e pungia-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de remorsos.<\/p>\n<p> Tom&eacute; n&atilde;o se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava<br \/>\n    pela fam&iacute;lia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luis, certa<br \/>\n    defer&ecirc;ncia e respeito que se ressentiam ainda da passada posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do fazendeiro em casa do fidalgo.<\/p>\n<p> Este, por&eacute;m, procurara o primeiro pretexto para interromper as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com Tom&eacute;. uma quest&atilde;o de &aacute;guas, ocasionada por a abertura<br \/>\n    de uma mina em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luis, sempre<br \/>\n    indiferente a lit&iacute;gios dessa ordem, mostrou-se ent&atilde;o muito cioso<br \/>\n    de seus hipot&eacute;ticos direitos, e, n&atilde;o obstante a nenhuma animosidade<br \/>\n    que houve da parte do lavrador, desde essa &eacute;poca nunca maia conviveu<br \/>\n    com ele.<\/p>\n<p> Jorge e Maur&iacute;cio, que costumavam frequentar a casa do homem que os<br \/>\n    trouxera ao colo e que lhes queria deveras, receberam ordem para n&atilde;o<br \/>\n    voltarem l&aacute;.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa sentiu-se com este proceder, que n&atilde;o<br \/>\n    tinha merecido ; mas possu&iacute;a bastante finura para perceber a verdadeira<br \/>\n    causa da irrita&ccedil;&atilde;o do fidalgo ; por isso limitou-se a encolher<br \/>\n    os ombros, dizendo para a mulher: &#8212; Ent&atilde;o que queres tu que eu<br \/>\n    lhe fa&ccedil;a ? assim nasceu e assim h&aacute;-de morrer.<\/p>\n<p> Eis a raz&atilde;o por que a presen&ccedil;a de Jorge o surpreendeu; mas,<br \/>\n    sem dar sinais de estranheza, caminhou para ele com as m&atilde;os estendidas<br \/>\n    e o rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.<\/p>\n<p> &#8212; Entre, Sr. Jorge, entre. Isto por aqui est&aacute; tudo uma desordem,<br \/>\n    mas enfim &eacute; casa de lavrador, e em Setembro n&atilde;o h&aacute; mansira<br \/>\n    de a ter asseada. O Luisa, manda para aqui uma cadeira&#8230; ou deixa estar,<br \/>\n    &eacute; melhor entrar l&aacute; para dentro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Tom&eacute;, eu, prefiro ficar aqui. E n&atilde;o se<br \/>\n    incomode. Olhe, j&aacute; estou sentado.<\/p>\n<p> &#8212; Ora! num carro! Isso &eacute; que n&atilde;o. Nada, n&atilde;o tem<br \/>\n    jeito. Luisa, manda ent&atilde;o a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa,<br \/>\n    Sr. jorge? &#8212; Agradecido, Tom&eacute; ; n&atilde;o tenho sede. Apeteceu-me<br \/>\n    vir ver da perto esta lida, que por aqui vai, e que estive observando, perto<br \/>\n    da uma hora, ali de cima; por isso desci.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! Pois bem-vindo seja, que sempre me d&aacute; alegria<br \/>\n    ver aqueles meninos, que conheci t&atilde;o pequerruchos como estes.<\/p>\n<p> E apontava para as crian&ccedil;as que, agarradas &agrave;s Dernas do pai,<br \/>\n    olhavam com grandes olhos para Jorge. &#8212; S&atilde;o todos seus?&#8212;<br \/>\n    perguntou Jorge, afagando-as e sentando urna nos joelhos.<\/p>\n<p> &#8212; E aquele que a m&atilde;e traz ao colo e a pequena que est&aacute;<br \/>\n    na cidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, sim, a Berta. Deve estar uma senhora? &#8212; Est&aacute; crescidita,<br \/>\n    est&aacute;. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu vinho &eacute; puro<br \/>\n    e n&atilde;o faz mal de qualidade alguma. Aquilo &eacute; sumo de uva e nada<br \/>\n    mais.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado, obrigado ; mas n&atilde;o bebo agora. Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    que continue com o seu trabalho, sem se importar comigo. Para isso &eacute;<br \/>\n    que vim.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, isto est&aacute; a acabar. Vai no meio-dia &#8212; acrescentou,<br \/>\n    olhando para o Sol &#8212; daqui a nada vai esta gente jantar e&#8230; Para onde<br \/>\n    levas tu esse carro, &oacute; desalmado! Perdoe-me, Sr. Jorge, mas estes diabos&#8230;<\/p>\n<p> Eu atendo-o j&aacute;.<\/p>\n<p> E, sem poder conter-se, colocou-se ele pr&oacute;prio &agrave; frente dos<br \/>\n    bois, e encaminhou o carro na direc&ccedil;&atilde;o conveniente.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;s juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido<br \/>\n    lim&otilde;es este ano, que &eacute; uma coisa por maior, Sr. Jorge &#8212;<br \/>\n    disse ele, regressando ao seu posto com um enorme lim&atilde;o, que mostrava<br \/>\n    com orgulho.<\/p>\n<p> Luisa voltou com uma cadeira para oferecer a Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Como est&aacute; crescido e fero ! &#8212; dizia ela, olhando-o<br \/>\n    com curiosidade e complac&ecirc;ncia &#8212; e o mano como vai ? Vi-o h&aacute;<br \/>\n    dias passar a cavillo ali na ponte do Giestal. Pareceu-me bom.<\/p>\n<p> &#8212; E como est&aacute; seu pai, Sr. Jorge ? &#8212;perguntou Tom&eacute;<br \/>\n    gravemente.<\/p>\n<p> Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimenta dos criados<br \/>\n    da lavoura, a quem de quando em quando Tom&eacute; dava ordens e fazia recomenda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que entremeava na conversa, serri perder o fio desta.<\/p>\n<p> Luisa, com o filho ao colo, n&atilde;o abandonou tamb&eacute;m a cena, sen&atilde;o<br \/>\n    quando o sino da igreja paroquial bateu as tr&ecirc;s badaladas que recordam<br \/>\n    aos fi&eacute;is a ora&ccedil;&atilde;o do meio-dia. O trabalho na eira e<br \/>\n    no quinteiro suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer<br \/>\n    uma curta reza, ao fim da qual a mulher de Tom&eacute;, depois de dar aos<br \/>\n    presentes as boas-tardes, disse, seguindo o caminho de casa: &#8212; Venham<br \/>\n    jantar.<\/p>\n<p> Todos obedeceram imediatamente &agrave; agrad&aacute;vel ordem, e em pouco<br \/>\n    tempo ficou s&oacute; e silenciosa a cena, havia pouco t&atilde;o ruidosa<br \/>\n    e animada.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o horas do seu jantar, Tom&eacute; &#8212; disse Jorge,<br \/>\n    levantando-se para sair.<\/p>\n<p> &#8212; Depois desta gente acabar, &eacute; que eu principio. A Luisa n&atilde;o<br \/>\n    pode atender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu n&atilde;o lhe<br \/>\n    ofere&ccedil;o do meu jantar, porque n&atilde;o &eacute; feito para si ; mas<br \/>\n    se quiser dar uma volta por os campos enquanto eles jantam&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se lhe n&atilde;o causar inc&oacute;modo&#8230; &#8212; Nenhum ; at&eacute;<br \/>\n    preciso de ir ver o que eles hoje trabalharam no po&ccedil;o que mandei abrir<br \/>\n    l&aacute; em baixo.<\/p>\n<p> E, empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal.<\/p>\n<p> Tom&eacute; obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.<\/p>\n<p> E, de caminho, ia-lhe comentando tudo que viam: narrou como alporcara uns<br \/>\n    pessegueiros, o resultado que tirara do enxoframento das vinhas, a quantidade<br \/>\n    de fruta que o laranjal lhe produzira, quanto despendera na constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do lagar, as dificuldades que encontrou na abertura da nora, o que fizera<br \/>\n    pouco produtiva aquele ano a cultura do trigo, os cuidados que lhe mereceram<br \/>\n    os meloais, e mil outras coisas relativas ao amanho das suas terras, das quais<br \/>\n    nem um s&oacute; palmo se poderia encontrar, onde as plantas nocivas usurpassem<br \/>\n    os lugares das proveitosas.<\/p>\n<p> Jorge escutou-o com uma aten&ccedil;&atilde;o e interesse, que estavam causando<br \/>\n    grande estranheza a Tom&eacute;, pouco acostumado a ver as pessoas da categoria<br \/>\n    de Jorge, e da idade dele ainda menos, interrogarem-no com tanta curiosidade<br \/>\n    e ouvirem-no com tanta sisudez sobre objectos de lavoura.<\/p>\n<p> E as perguntas do jovem fidalgo n&atilde;o eram vagas e ociosas, como essas<br \/>\n    que por condescend&ecirc;ncia se fazem, para lisonjear a vaidade natural de<br \/>\n    um propriet&aacute;rio. Havia nelas uma precis&atilde;o, uma minuciosidade<br \/>\n    ; acompanhavam-nas reflex&otilde;es t&atilde;o acertadas, d&uacute;vidas t&atilde;o<br \/>\n    racionais, que Tom&eacute; n&atilde;o podia iludir-se, e via bem que o descendente<br \/>\n    dos nobres Negr&otilde;es de Vilar de Corvos o interrogava com desejo de saber.<\/p>\n<p> Esta convic&ccedil;&atilde;o entusiasmava Tom&eacute;, que prosseguia com<br \/>\n    ardor as suas informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Jorge quis saber aproximadamente o custeio necess&aacute;rio para manter<br \/>\n    uma propriedade como aquela no ponto de cultura em que estava, e o capital<br \/>\n    exigido para a elevar a esse grau de floresc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Tom&eacute; era forte na especialidade dos or&ccedil;amentos ; por isso<br \/>\n    deu com a melhor vontade a Jorge as informa&ccedil;&otilde;es que este lhe<br \/>\n    pedia.<\/p>\n<p> Afinal Jorge, depois de um mais longo intervalo de sil&ecirc;ncio, que terminou<br \/>\n    por um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabe&ccedil;a, a fingir-se<br \/>\n    entretido no exame da roda hidr&aacute;ulica de uma nora : &#8212; E porque<br \/>\n    ser&aacute; que s&oacute; os campos que nos pertencem est&atilde;o cheios<br \/>\n    de ortigas e saramagos, Tom&eacute;? Tom&eacute; da P&oacute;voa voltou-se<br \/>\n    de repente para Jorge, e fitou nele um olhar penetrante. Porque o fazendeiro<br \/>\n    tinha &agrave;s vezes um certo olhar, que ia at&eacute; ao fundo do pensamento<br \/>\n    de uma pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; Quer que lhe diga porque &eacute;, Sr. Jorge ? &#8212; perguntou<br \/>\n    ele logo depois, com um tom de voz s&eacute;rio e quase triste.<\/p>\n<p> &#8212; Quero, sim.<\/p>\n<p> &#8212; &Euml; porque o dono deles &eacute; o Sr. D. Luis Negr&atilde;o<br \/>\n    de Vilar de Corvos, o fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos<br \/>\n    todos.<\/p>\n<p> Jorge olhou interrogadoramente para Tom&eacute;, que continuou : &#8212;<br \/>\n    &Eacute; pela mesma raz&atilde;o por que chove nas salas do morgado do Penedo<br \/>\n    e por que seus primos do Cruzeiro perderam o ano passado todo o Casal de Matoso.<br \/>\n    Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde que sa&iacute;<br \/>\n    aos vinte e dois anos de sua casa, Sr. Jorge, at&eacute; hoje, o menino n&atilde;o<br \/>\n    me perguntava depois porque os seus campos est&atilde;o cheios de serralha<br \/>\n    e de saramagos. Trabalhei muito, Sr. Jorge ; n&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    com &aacute;gua que se regam estas terras para as ter no ponto em que as v&ecirc;<br \/>\n    ; &eacute; com o suor do rosto de um homem. &Eacute; preciso que o dono vigie<br \/>\n    por elas, sem confiar em ningu&eacute;m, como um pai vigia pela educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos filhos. Ora a&iacute; est&aacute;. As b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os de um<br \/>\n    padre capel&atilde;o n&atilde;o d&atilde;o adubo &agrave;s terras &#8212;<br \/>\n    acrescentou Tom&eacute; com um sorriso epigram&aacute;tico a comentar a alus&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o escapara a Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como se explica isto, Tom&eacute; ? &#8212; continuou Jorge<br \/>\n    com a docilidade de um disc&iacute;pulo &#8212; os meus av&oacute;s nunca<br \/>\n    se ocuparam muito com a lavoura; passaram a vida quase t&ocirc;da na corte<br \/>\n    e nas embaixadas, e raras vezes visitaram as suas terras, onde s&oacute; vinham<br \/>\n    para ca&ccedil;ar e, contudo, a nossa casa era ent&atilde;o uma das mais ricas<br \/>\n    da prov&iacute;ncia, e hoje&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso l&aacute;&#8230; Olhe, Sr. Jorge, se eles se n&atilde;o ocuparam<br \/>\n    dos seus bens, e n&atilde;o sentiram o mal, &eacute; porque tinham ainda muito<br \/>\n    que perder.<\/p>\n<p> Quem hoje o est&aacute; pagando &eacute; seu pai, e amanh&atilde; ser&atilde;o<br \/>\n    os meninos. Isto &eacute; como uma pessoa robusta que leva vida extravagante.<br \/>\n    Enquanto &eacute; nova e tem muitas for&ccedil;as, n&atilde;o d&aacute; por<br \/>\n    as que perde, e julga que nada lhe faz mal ; mas chega l&aacute; a um certo<br \/>\n    ponto e de repente acha-se fraca, e ent&atilde;o &eacute; que considera o<br \/>\n    dano que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo? &#8212;<br \/>\n    Entendo, Tom&eacute;, entendo, e creio que &eacute; essa a verdade, Al&eacute;m<br \/>\n    de que &#8212; prosseguiu Jorge pensativo &#8212; naqueles tempos, as classes<br \/>\n    privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de inc&uacute;ria e<br \/>\n    de dissipa&ccedil;&atilde;o, porque os privil&eacute;gios velavam por elas<br \/>\n    e remediavam- lhes os desvarios ; adormeceram nessa confian&ccedil;a, e n&atilde;o<br \/>\n    sentiram que tinham mudado as condi&ccedil;&otilde;es sociais, e agora ao<br \/>\n    acordarem&#8230;<\/p>\n<p> Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu interlocutor,<br \/>\n    interrompeu-as s&ugrave;bitamente, e apontando para a Casa Mourisca, que dali<br \/>\n    se avistava, exclamou quase com desespero : &#8212; E n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    ainda poss&iacute;vel sustentar aquela casa na sua queda ? Tem&eacute; da<br \/>\n    P&oacute;voa sorriu com uma express&atilde;o de intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Entregue-a &agrave;s m&atilde;os de um lavrador, de um homem de<br \/>\n    trabalho, que possa dispor de alguns capitais para os primeiros tempos e ver&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Principiaria por deitar abaixo aquelas paredes velhas e aquelas<br \/>\n    &aacute;rvores &#8212; observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio<br \/>\n    arruinado solar e para os bosques seculares que o rodeavam.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez deitasse &#8212; disse Tom&eacute; &#8212; pode bem ser que<br \/>\n    o fizesse, porque l&aacute; amor a essas coisas nao t&ecirc;m eles, n&atilde;o.<br \/>\n    Mas n&atilde;o seria necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> Eu, que tamb&eacute;m lhes tenho afei&ccedil;&atilde;o, &agrave;quele arvoredo<br \/>\n    e &agrave;quelas paredes negras, porque ali passei um tempo&#8230; mau era ele<br \/>\n    decerto&#8230;<\/p>\n<p> Mas enfim&#8230; sempre tinha vinte anos&#8230; eu, que me n&atilde;o atreveria<br \/>\n    a deitar-lhe o machado&#8230; ainda me aventurava a p&ocirc;r aquilo no p&eacute;<br \/>\n    em que esteve.<\/p>\n<p> Jorge nao p&ocirc;de tirar &agrave;s suas palavras um ligeiro tom de amargura<br \/>\n    e quase de ironia, quando, depois desta resposta de Tom&eacute;, exclamou,<br \/>\n    voltando-se para a Casa Mourisca: &#8212; Espera, pois, casa de meus pais,<br \/>\n    que a nossa mis&eacute;ria nos expulse dos teus tectos e te abra as portas<br \/>\n    &agrave; fam&iacute;lia de um lavrador abastado, para veres reparados os teus<br \/>\n    muros e cultivados esses campos maninhos ; assim Deus d&ecirc; a esse homem<br \/>\n    um pouco de amor &agrave;s coisas velhas, para te n&atilde;o destruir na reforma.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, que percebeu a oculta express&atilde;o destas palavras, replicou<br \/>\n    com dignidade : &#8212; Porque n&atilde;o h&aacute;-de antes dizer, Sr. Jorge:<br \/>\n    Espera, casa de meus pais, que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe<br \/>\n    por seus pr&oacute;prios olhos para os teus achaques e os cure por suas m&atilde;os?<br \/>\n    &#8212; Os rem&eacute;dios s&atilde;o caros na botica, Tom&eacute;. Os pobres<br \/>\n    v&ecirc;em &agrave;s vezes morrer um doente, porque n&atilde;o podem comprar<br \/>\n    a droga que o salvaria.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Jorge &#8212; acudiu Tom&eacute; com um ar quase solene &#8212;<br \/>\n    resolva-se deveras a ser homem, deixe-se de viver como vivem e t&ecirc;m vivido<br \/>\n    os seus, queira do cora&ccedil;&atilde;o fazer-se econ&ocirc;mico, trabalhador<br \/>\n    e vigilante, livre-se da praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre<br \/>\n    dizer missas, mal ou bem, conforme puder, porque isso &eacute; la com Deus<br \/>\n    e ele, fa&ccedil;a tudo isto, e os capitais n&atilde;o lhe faltar&atilde;o.<br \/>\n    O homem que principiou a ganh&aacute;-los naquela casa ser&aacute; um dos<br \/>\n    que n&atilde;o por&aacute; d&uacute;vida em empreg&aacute;-los, at&eacute;<br \/>\n    onde chegarem, para a sustentar e n&atilde;o deixar cair ; e onde n&atilde;o<br \/>\n    chegarem os capitais, chegar&aacute; o cr&eacute;dito.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma esmola que me oferece, Tom&eacute; ? &#8212; perguntou<br \/>\n    Jorge, mas sem o menor sinal de irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Sr. Jorge, n&atilde;o &eacute;. Nem o menino ma aceitava,<br \/>\n    nem eu poderia faz&ecirc;-la, sem prejudicar meus filhos. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    uma esmola, &eacute; um empr&eacute;stimo, menos perigoso do que os arranjados<br \/>\n    pelo padre capel&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; vergonha um empr&eacute;stimo, quando se faz em condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de poder por ele aliviar-se um homem de dividas mais pesadas e de credores<br \/>\n    mal-intencionados, e resgatar e melhorar a propriedade. H&aacute; muito que<br \/>\n    a sua casa vive disso, mas a tais portas tem ido bater e t&atilde;o mau uso<br \/>\n    tem feito do pouco e caro que obtinha, que, em vez de se salvar, cada vez<br \/>\n    se perdia mais. N&atilde;o fica mal um empr&eacute;stimo, Sr. Jorge, quando<br \/>\n    se procura satisfazer com lealdade os compromissos que se ajustaram.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o n&atilde;o v&ecirc; que at&eacute; os governos pedem emprestado?<br \/>\n    &#8212; Mas quando, como no meu caso, n&atilde;o h&aacute; garantias a oferecer,<br \/>\n    o empr&eacute;stimo &eacute; bem parecido com a esmola, deve confessar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; garantias ? Ouem foi que lhe disse isso ? E<br \/>\n    a sua probidade?&#8230;<\/p>\n<p> Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha hist&oacute;ria, e ver&aacute;<br \/>\n    depois se tenho raz&atilde;o no que digo. E Tom&eacute; da P&oacute;voa, conduzindo<br \/>\n    Jorge para a sombra da ramada que toldava a nora, na roda da qual se sentaram<br \/>\n    ambos, principiou : &#8212; Quando sai da casa de seu pai, por esta vontade<br \/>\n    &agrave;s vezes bem doida, que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei<br \/>\n    algum dinheirito, que juntara, em arrendar um casebre e uma horta, na qual,<br \/>\n    lidando do romper do dia at&eacute; a noite, tirava, quando muito, o preciso<br \/>\n    para n&atilde;o morrer de fome. O menino sabe aquela nesga de campo, que eu<br \/>\n    tenho ao p&eacute; dos a&ccedil;udes e o palheiro que fica ao lado? &#8212;<br \/>\n    Bem sei.<\/p>\n<p> &#8212; Pois foi essa a minha primeira casa. A Luisa, com quem por esse<br \/>\n    tempo casei, trabalhava tanto como eu, e assim &iacute;amos vivendo, sabe<br \/>\n    Deus como, mas pagando pontualmente o nosso aluguer e sem ficar a dever nada<br \/>\n    na tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe<br \/>\n    fale na alma! O menino h&aacute;-de ter o avido falar dele : era o Sr. Meneses,<br \/>\n    pessoa de muito saber e que tinha sido da Rela&ccedil;&atilde;o do Porto.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda tenho uma id&eacute;ia de o ver.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o havia melhor senhorio ; nada exigente com os caseiros,<br \/>\n    e at&eacute; sempre pronto a ajud&aacute;-los. Um ano veio uma sequeira, que<br \/>\n    matou t&ocirc;da a novidade. Foi uma coisa de fazer d&oacute;. Nem gota de<br \/>\n    &aacute;gua, as fontes secas, as levadas enxutas, os moinhos parados, e os<br \/>\n    lavradores a agarrarem as m&atilde;os na cabe&ccedil;a e a pedirem a Deus<br \/>\n    miseric&oacute;rdia ! A coisa foi de maneira que, chegado o tempo de pagar<br \/>\n    a renda, poucos tinham com que a pagar.<\/p>\n<p> &#8212; Sucedeu-lhe o mesmo a si ? Est&aacute; visto.<\/p>\n<p> &#8212; A mim ? ! eu nada colhi nesse ano ; mas de maneira nenhuma queria<br \/>\n    faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei para<br \/>\n    fora uns cruzados novos que, a muito custo, pusera de lado para o caso de<br \/>\n    uma doen&ccedil;a: mas n&atilde;o era coisa que chegasse. Como h&aacute;-de<br \/>\n    ser, como n&atilde;o h&aacute;-de ser, eis que a minha Luisa, que sempre foi<br \/>\n    boa companheira, me diz : &laquo; N&atilde;o te aflijas, homem ; a&iacute;<br \/>\n    v&atilde;o as minhas arrecadas, pega &raquo;, e atirou-mas para cima dos cruzados.<br \/>\n    L&aacute; me custava o servir-me das arrecadas da rapariga, que era a &uacute;nica<br \/>\n    riqueza que ela tinha; mas n&atilde;o houve outro rem&eacute;dio. Pu-las em<br \/>\n    penhor, e com o dinheiro que me deram completei o aluguer, e no dia marcado<br \/>\n    apresentei- me em casa do doutor Meneses.<\/p>\n<p> &#8212; E ele? &#8212; Parece-me que ainda o estou a ver no seu quarto de<br \/>\n    estudo, com as pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos &oacute;culos:<br \/>\n    &laquo;Ent&atilde;o o que o traz por c&aacute;, Tom&eacute;?&raquo; &laquo;Eu,<br \/>\n    sr. doutor, venho para o que V. S.&ordf; sabe&raquo;. &laquo;Ah! sim, estamos<br \/>\n    no S. Miguel. O ano pelos modos foi mau&raquo;. &laquo;Ora se foi! mas enfim<br \/>\n    vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro vir&aacute; melhor&raquo;.<br \/>\n    E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o dinheiro, que me pus a contar<br \/>\n    e a encastelar.<\/p>\n<p> O homem estava calado a ver aquilo. Quando cheguei ao fim olhou para mim<br \/>\n    de uma certa maneira, e disse-me: &laquo;Ent&atilde;o est&aacute; a&iacute;<br \/>\n    tudo?&raquo; &laquo;Est&aacute;, sim, senhor, V. S.&ordf; n&atilde;o viu?&raquo;<br \/>\n    &laquo;E voc&ecirc; quer-me dar tanta coisa?&raquo; Desta vez fui eu que me<br \/>\n    pus a olhar para ele, admirado. &laquo;Ent&atilde;o n&atilde;o e este o pre&ccedil;o<br \/>\n    ajustado no arrendamento ? &raquo; &laquo;&Eacute; c&eacute;lebre, disse o<br \/>\n    sr. doutor, abanando a cabe&ccedil;a, &eacute; o primeiro rendeiro que me<br \/>\n    paga t&atilde;o pronto este ano e sem pedir que lhe perdoe alguma coisa, vista<br \/>\n    a escassez da esta&ccedil;&atilde;o. Onde foi voc&ecirc; buscar esse dinheiro,<br \/>\n    &oacute; Tom&eacute;? Voc&ecirc; &eacute; o mais pobre dos meus caseiros e<br \/>\n    eu l&aacute; vi o estado do seu campo&raquo;.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o tive rem&eacute;dio sen&atilde;o contar-lhe tudo. Ele n&atilde;o<br \/>\n    me deixou acabar.<\/p>\n<p> &laquo;Leve isso daqui, homem, e desempenhe as arrecadas da sua mulher.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu pr&oacute;ximo&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212;Bela alma! &#8212; exclamou Jorge, comovido pela narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Tom&eacute; continuou: &#8212; &laquo;Em todo o caso &#8212; disse-me dal<br \/>\n    a pouco o sr. doutor &#8212; voc&ecirc; fez hoje um grande neg&oacute;cio<br \/>\n    sem o saber. Voc&ecirc; &eacute; trabalhador, que isso lenho eu visto por<br \/>\n    a maneira por que me traz bem aproveitado o campito que lhe aluguei. Mas,<br \/>\n    para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o capital e hoje arranjou-o.&raquo;<br \/>\n    &#8212; Que queria ele dizer nisso? &#8212; Foi o que eu lhe perguntei. &laquo;Arranjou-o,<br \/>\n    sim, senhor &#8212; respondeu ele &#8212; porque arranjou cr&eacute;dito,<br \/>\n    que vale por um capital enorme.<\/p>\n<p> O que voc&ecirc; fez mostra-me o de que &eacute; capaz. Apare&ccedil;a amanh&atilde;<br \/>\n    por aqui, porque temos que tratar&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; E que lhe queria ele ? &#8212; perguntou Jorge, cada vez mais atento.<\/p>\n<p> &#8212; No dia seguinte fui procur&aacute;-lo, sem imaginar o que fosse<br \/>\n    que ele tinha para dizer-me. Mal me viu exclamou logo: &laquo;Ora venha c&aacute;,<br \/>\n    Tom&eacute;, sente-se aqui, porque temos um contrato a fazer&raquo;. E obrigando-<br \/>\n    -me a sentar ao lado dele, continuou: &laquo;Vossemec&ecirc; vai assinar-me<br \/>\n    um escrito de arrendamento da minha propriedade das Barrocas&raquo;. Ora fa&ccedil;a<br \/>\n    id&eacute;ia o menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta<br \/>\n    das Barrocas? aquilo &eacute; um condado, se pode dizer. Como havia eu de<br \/>\n    arrend&aacute;-la, Santo Deus ! Ele, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o lhe pare&ccedil;a isso uma coisa por a&iacute; al&eacute;m.<br \/>\n    N&oacute;s ajustamos a renda e voc&ecirc; vai tomar conta daquilo. A quinta<br \/>\n    est&aacute; bem-educada e nutrida e estou certo de que n&atilde;o o deixar&aacute;<br \/>\n    ficar mal no fim do ano&raquo;.<\/p>\n<p> &laquo;Mas, disse-lhe eu, V. S.&ordf; bem v&ecirc; que uma pe&ccedil;a daquelas<br \/>\n    precisa de bra&ccedil;os para ser bem trabalhada, de bra&ccedil;os e de certas<br \/>\n    despesas&raquo;.<\/p>\n<p> &laquo;Mas, homem, torna-me ele, quem lhe diz menos disso? Olhe l&aacute;<br \/>\n    que eu a deixe ao desamparo, para voc&ecirc; ma entregar no estado em que<br \/>\n    por a&iacute; em geral os caseiros as entregam aos senhorios ! Mas &eacute;<br \/>\n    bem feito, que eles tamb&eacute;m fazem uns arrendamentos tais, que os caseiros<br \/>\n    morreriam esfomeados, se n&atilde;o esfomeassem a terra&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas esse homem era um grande fil&oacute;sofo ! &#8212; observou<br \/>\n    Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; &laquo;V&aacute; voc&ecirc; para l&aacute; &#8212; continuou ele<br \/>\n    &#8212; trate-me bem daquilo, e os capitais precisos para instrumentos, gado,<br \/>\n    adubos, jornaleiros e algumas obras, eu lhos adiantarei. Voc&ecirc; &eacute;<br \/>\n    trabalhador, a terra &eacute; boa, ia apostar que ambos havemos de lucrar.&raquo;<br \/>\n    que disse ao ver-me c&aacute; dentro : Isto &eacute; meu ! E depois que sabia<br \/>\n    que era meu, parecia-me outra coisa tudo isto. Meu ! eu n&atilde;o me fartava<br \/>\n    de repetir esta palavra! Meu! Estas &aacute;rvores eram minhas, estas fontes<br \/>\n    eram minhas, at&eacute; estes p&aacute;ssaros, que por a&iacute; cantavam,<br \/>\n    eram meus, porque enfim vinham fazer ninho e cantar no que me pertencia. Vai<br \/>\n    rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu abracei estas &aacute;rvores, eu bati<br \/>\n    palmadas nestes muros, lavei-me nesses tanques todos, bebi &aacute;gua dessas<br \/>\n    fontes, deitei-me &agrave; sombra dessas &aacute;rvores, eu cantei, eu saltei,<br \/>\n    eu chorei, e afinal&#8230; quer que lhe diga? N&atilde;o tive m&atilde;o em mim<br \/>\n    que n&atilde;o ajoelhasse para beijar esta terra ! beijei, sim, beijei esta<br \/>\n    terra, que eu ganhara &agrave; custa de muito trabalho, de muito suor e de<br \/>\n    nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o, em me lembrar de que tudo isto me<br \/>\n    viera de eu ser honrado e amigo de cumprir a minha palavra. Eu n&atilde;o<br \/>\n    me recordo de ter um contentamento assim na minha vida, a n&atilde;o ser no<br \/>\n    dia em que estreitei nos bra&ccedil;os a Luisa, e em que tamb&eacute;m pela<br \/>\n    primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quase a mesma coisa ; este era o<br \/>\n    meu segundo casamento. Da&iacute; em diante foi que eu soube o que &eacute;<br \/>\n    ter amor &agrave; terra.<\/p>\n<p> Desde a sementeira &agrave; colheita era um cuidado incessante com o campo.<\/p>\n<p> Ver crescer as plantas para mim causava-me tanto prazer como ver o crescer<br \/>\n    dos filhos; cada novo rebento era como que um nascimento em casa. Media o<br \/>\n    quanto iam crescendo as &aacute;rvores que plantava, e trazia contados os<br \/>\n    frutos dos pomares. Aquilo nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem<br \/>\n    a minha vida. Deus ajudou-me, e da&iacute; por diante tudo me tem corrido<br \/>\n    bem. J&aacute; v&ecirc;, Sr. Jorge, que quem deve o que &eacute; a ter sido<br \/>\n    honesto, n&atilde;o pode recusar o seu pouco aux&iacute;lio a um rapaz de<br \/>\n    brios e de probidade como &eacute; o menino.<\/p>\n<p> Jorge estendeu a m&atilde;o a Tom&eacute;, dizendo-lhe, sensibilizado: &#8226;&#8212;Fez-me<br \/>\n    bem ouvi-lo, Tom&eacute;. A sua vida &eacute; um exemplo, &eacute; uma li&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e nela procurarei aprender. Eu tamb&eacute;m sinto os mesmos desejos de remir<br \/>\n    a minha &uacute;ltima d&iacute;vida, para depois chamar meu ao que me pertence.<br \/>\n    E nesse dia tamb&eacute;m abra&ccedil;aria com entusiasmo aquelas velhas &aacute;rvores<br \/>\n    e ajoelharia para beijar a terra que os meus antepassados me deixaram. Mas<br \/>\n    n&atilde;o sei se a empresa estar&aacute; ao alcance das minhas for&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;. Eu lhe digo. H&aacute; aqui s&oacute; uma dificuldade<br \/>\n    a vencer. Empregue t&ocirc;da a sua for&ccedil;a para esse fim, porque se<br \/>\n    trata do bem da sua casa, do seu futuro e da sua dignidade. &Eacute; preciso<br \/>\n    que c pai lhe d&ecirc; licen&ccedil;a para o menino administrar a casa e que<br \/>\n    o padre capel&atilde;o se contente com dizer missas, porque depois&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ainda quando vencesse essa dificuldade, que &eacute; grande, Tom&eacute;,<br \/>\n    porque meu pai ainda v&ecirc; em mim uma crian&ccedil;a, surgiria outra, De<br \/>\n    si nunca meu pai&#8230;<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa n&atilde;o o deixou concluir.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sei, mas o Sr. D. Luis n&atilde;o se mete por mi&uacute;do nos<br \/>\n    neg&oacute;cios da casa, desde que tem um procurador encarregado deles. Consiga<br \/>\n    que ele ponha em si a confian&ccedil;a que t&atilde;o mai emprega no padre,<br \/>\n    e eu lhe prometo que o mais se far&aacute;. Eu n&atilde;o exijo mais garantias<br \/>\n    para o meu dinheiro, do que um escrito seu, Sr. Jorge. Demais, como a sua<br \/>\n    experi&ecirc;ncia &eacute; pouca, eu, se mo permitir, gui&aacute;-lo-ei nos<br \/>\n    primeiros tempos. Como seu pai n&atilde;o gosta de que o menino venha por<br \/>\n    aqui, vir&aacute; sem que ele o saiba. Os ser&otilde;es de Inverno s&atilde;o<br \/>\n    longos, n&oacute;s conversaremos algumas noites.<\/p>\n<p> Jorge disse finalmente com resolu&ccedil;&atilde;o: &#8212; Aceito, Tom&eacute;.<br \/>\n    Falarei a meu pai. O dever de salvar a minha casa da ru&iacute;na me dar&aacute;<br \/>\n    coragem. Aceito, porque tenho f&eacute; em que me n&atilde;o ser&aacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    pagar-lhe mais tarde a d&iacute;vida que contrair.<\/p>\n<p> &#8212; E eu tenho f&eacute; em que h&aacute;-de ainda haver dias alegres<br \/>\n    e de festa naquela triste casa. N&atilde;o &eacute; verdade que se diz que<br \/>\n    h&aacute; l&aacute; um tesouro escondido? Pois cave na terra, que o h&aacute;-de<br \/>\n    encontrar.<\/p>\n<p> A voz de Luisa, ao longe, anunciou neste momento ao marido que o jantar<br \/>\n    esperava por ele.<\/p>\n<p> Jorge saiu dali com o cora&ccedil;&atilde;o palpitante de esperan&ccedil;as<br \/>\n    e de como&ccedil;&atilde;o, que lhe estava j&aacute; causando a id&eacute;ia<br \/>\n    da entrevista que precisava de ter com o pai.<\/p>\n<p> Tom&eacute; jantou com o apetite de quem tinha feito uma boa ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e realizado uma id&eacute;ia, com que havia muito tempo lhe lidava o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> A mulher achou-o mais falador do que de costume ; e, depois de jantar, voltou<br \/>\n    para a eira, cantando.<\/p>\n<p> Era feliz naquele momento a sua alma generosa.<\/p>\n<p><b>IV<\/b><\/p>\n<p>EM uma das espa&ccedil;osas salas da Casa Mourisca, alumiada por tr&ecirc;s<br \/>\n    rasgadas janelas ogivais e mobilada ainda com certa opul&ecirc;ncia, vest&iacute;gios<br \/>\n    do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capel&atilde;o,<br \/>\n    procurador frei Janu&aacute;rio dos Anjos.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi rigoroso o emprego no plural do verbo da &uacute;ltima ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio era quem esperava, porque essa era tamb&eacute;m a<br \/>\n    principal ocupa&ccedil;&atilde;o dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe<br \/>\n    compensavam as amarguras destas longas expecta&ccedil;&otilde;es. Eram elas<br \/>\n    talvez que n&atilde;o o deixavam medrar na propor&ccedil;&atilde;o dos alimentos<br \/>\n    consumidos, porque frei Janu&aacute;rio era magro. O mist&eacute;rio fisiol&oacute;gico<br \/>\n    desta magreza ainda n&atilde;o era para se devassar de pronto&#8230;<\/p>\n<p> D. Luis lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto,<br \/>\n    e dava assim em alimento ao seu &oacute;dio contra as institui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liberais um dos frutos mais saborosos delas &#8212; a liberdade de imprensa<br \/>\n    ; &#8212; fruto em que os seus correligion&aacute;rios mordem com demasiada<br \/>\n    complac&ecirc;ncia, apesar de ser para eles fruto proibido.<\/p>\n<p> De quando em quando D. Luis interrompia a leitura com uma frase de aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo Governo,<br \/>\n    que nunca tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio secundava, com toda a for&ccedil;a do seu obscuro credo<br \/>\n    pol&iacute;tico, as reflex&otilde;es de S. Ex.&#8217;, e requintava na intensidade<br \/>\n    dos anatemas, com que eram fulminados os homens da &eacute;poca.<\/p>\n<p> Mas, solta a frase que o caso pedia, e as competentes exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    voltava o padre a consultar o rel&oacute;gio, a abrir a boca, a suspirar ;<br \/>\n    dava dois ou tr&ecirc;s passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a<br \/>\n    cozinha. Os intervalos das refei&ccedil;&otilde;es eram para ele s&eacute;culos<br \/>\n    ! &#8212; Hum! &#8212;disse D. Luis naquela manh&atilde;, pousando a folha,<br \/>\n    como enojado com o que lera. &#8212; L&aacute; foi concedido um subs&iacute;dio<br \/>\n    para a constru&ccedil;&atilde;o do lan&ccedil;o de estrada de Vale Escuro.<\/p>\n<p> &#8212; Fartos sejam eles de estradas ! &#8212; acudiu logo frei Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Para esta gente a moralidade e a ventura de um pa&iacute;s consiste<br \/>\n    em ter estradas e dilig&ecirc;ncias, e acabou-se. Olhem l&aacute; se eles<br \/>\n    levantam sequer uma igreja? Isso sim! O dinheiro do clero sabem eles roubar!<br \/>\n    E que pena n&atilde;o ter&atilde;o por n&atilde;o deitarem abaixo os templos<br \/>\n    que por a&iacute; ainda h&aacute; ! Mas atr&aacute;s do tempo tempo vem. Vontade<br \/>\n    n&atilde;o lhes falta.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei se foi esta &uacute;ltima frase que recordou ao padre que<br \/>\n    tamb&eacute;m a ele n&atilde;o faltava vontade&#8230; de comer. O certo &eacute;<br \/>\n    que, mudando de tom, acrescentou : &#8212; Querem ver que o Bernardino se<br \/>\n    esqueceu hoje do jantar? Isto s&atilde;o quase duas horas, e eu n&atilde;o<br \/>\n    oi&ccedil;o tugir nem mugir na coziriha! Nada, aqui anda coisa. com licen&ccedil;a,<br \/>\n    eu vou ver e volto j&aacute;.<\/p>\n<p> E frei Janu&aacute;rio saiu da sala para ir pela vig&eacute;sima vez &agrave;<br \/>\n    cozinha, que ele suspeitava abandonada pela inc&uacute;ria do cozinheiro,<br \/>\n    estando pois a fam&iacute;lia t&ocirc;da amea&ccedil;ada com a tremenda cat&aacute;strofe<br \/>\n    de uma retarda&ccedil;&atilde;o de jantar.<\/p>\n<p> D. Luis pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo at&eacute; &agrave;<br \/>\n    volta do padre, que entrou indignado.<\/p>\n<p> &#8212; Eu que dizia?! Posto &agrave; taramela com o hortel&atilde;o, sem<br \/>\n    se lembrar do jantar ! Olhem se eu l&aacute; n&atilde;o ia ! N&atilde;o que<br \/>\n    dizem que uma pessoa pode descansar nos criados. H&aacute;-de poder! S&atilde;o<br \/>\n    uma corja! E, V. Ex.&ordf; n&atilde;o quer crer, aquele excomungado daquele<br \/>\n    hortel&atilde;o h&aacute;-de ser a ru&iacute;na desta casa. Foi uma imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    da parte do Sr. D. Luis meter na casa um libertino daqueles, ma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nos ossos e no sangue. Foi um passo muito errado&#8230; Aquilo &eacute; um p&eacute;ssimo<br \/>\n    exemplo para os outros.<\/p>\n<p> Sabe V. Ex.&ordf; em que ele estava falando? Na cantiga do costume. No desembarque<br \/>\n    do Mindelo. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e quinhentos<br \/>\n    bravos que vieram p&ocirc;r fora da cidade os oitenta mil lobos que andavam<br \/>\n    l&aacute;, e coisa assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leit&atilde;o<br \/>\n    a queimar-se, e a sopa a pegar-se no fundo da panela, que logo me cheirou<br \/>\n    a esturro. &Eacute; preciso que V. Ex.&ordf; d&ecirc; as providencias, quando<br \/>\n    n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> D. Luis, tomando menos a peito do que o capel&atilde;o os destinos do jantar<br \/>\n    e da sopa, e fiel ao h&aacute;bito de nunca falar, nem em mal, nem em Bem,<br \/>\n    do hortel&atilde;o, n&atilde;o respondeu e prosseguiu a leitura das folhas.<\/p>\n<p> Da&iacute; a pouco referiu ao padre a not&iacute;cia que tinha lido do desastre<br \/>\n    sucedido a uma dilig&ecirc;ncia ao passar em uma ponte, que na ocasi&atilde;o<br \/>\n    abatera, resultando muitas v&iacute;timas.<\/p>\n<p> A indigna&ccedil;&atilde;o do padre exaltou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em<br \/>\n    um abandono desses ! Vejam que tempos os nossos ! e que governos, que n&atilde;o<br \/>\n    se importam com as vidas dos cidad&atilde;os ! Em que pa&iacute;s do mundo<br \/>\n    se v&ecirc;em estradas assim arruinadas como as nossas? S&atilde;o os bens<br \/>\n    que nos trouxeram os homens da Carta ! Isto &eacute; bonito ! E o padre Janu&aacute;rio<br \/>\n    continuou ainda por algum tempo a condenar, pelo crime de desleixo e de falta<br \/>\n    de protec&ccedil;&atilde;o &agrave; via&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica, os<br \/>\n    mesmos governos que, momentos antes, acusara de conceder para esse fim subs&iacute;dios<br \/>\n    e de lhe dar import&acirc;ncia demasiada.<\/p>\n<p> A pol&iacute;tica de frei Janu&aacute;rio &eacute; vulgar na nossa terra.<\/p>\n<p> D. Luis, tendo conclu&iacute;do a leitura da folha, p&ocirc;-la de lado<br \/>\n    e resumiu a s&eacute;rie de pensamentos que essa leitura lhe sugerira, na<br \/>\n    seguinte e contra&iacute;da s&iacute;ntese : &#8212; Isto vai cada vez melhor,<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Isto vai bonito, n&atilde;o tem d&uacute;vida nenhuma &#8212; secundou<br \/>\n    o padre.<\/p>\n<p> &#8212; O pior &eacute; o futuro &#8212; tornou o fidalgo, assombrado.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, o futuro h&aacute;-de ser fresco!-&#8212;repetiu o procurador,<br \/>\n    fungando uma pitada.<\/p>\n<p> &#8212; Enfim, quem viver ver&aacute; aonde isto vai parar, aonde nos leva<br \/>\n    esta torrente.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o &eacute; preciso viver muito. Mais dia menos dia temos<br \/>\n    a&iacute; os Espanh&oacute;is, ou ent&atilde;o passamos a ser ingleses. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; que ver ; da maneira por que v&atilde;o as coisas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, pobre Portugal ! &#8212; exclamou melanc&oacute;licamente D.<br \/>\n    Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Que vais &agrave; vela &#8212; concluiu o padre. &#8212; Desde que<br \/>\n    puseram a cabe&ccedil;a &agrave; roda a esta gente com liberalismos&#8230; ficou<br \/>\n    tudo transtornado.<\/p>\n<p> Agora todos mandam, todos falam, e n&atilde;o h&aacute; quem governe. Isto<br \/>\n    de n&atilde;o haver um que governe&#8230; Estes patetas n&atilde;o se desenganam<br \/>\n    de que um pa&iacute;s &eacute; como uma casa. Ora deixem &agrave; vontade<br \/>\n    os criados em uma cozinha, sem ningu&eacute;m que os vigie, e ver&atilde;o<br \/>\n    o que vai ! esperem por o jantar, que h&atilde;o-de achar-se servidos! O simile<br \/>\n    fora sugerido a frei Janu&aacute;rio pela sua constante preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O que me custa &eacute; lembrar-me de que meus filhos t&ecirc;m<br \/>\n    de viver nesta sociedade assim organizada! Quem sabe a sorte que lhes est&aacute;<br \/>\n    reservada, aos pobres rapazes ! &#8212; disse o fidalgo, suspirando com escuras<br \/>\n    apreens&otilde;es sobre a posi&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Os filhos de V. Ex.&ordf; n&atilde;o devem transigir em caso algum<br \/>\n    com estes homens ! &#8212; exclamou com veem&ecirc;ncia o padre. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    n&atilde;o fazer como a sobrinha de V. Ex.&quot;, a Sr.* D. Gabriela, que<br \/>\n    j&aacute; &eacute; baronesa das feitas por eles. Quando se &eacute; fidalgo,<br \/>\n    &eacute; preciso ser fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e<br \/>\n    sabe Deus se em parte preparado por n&oacute;s &#8212; insistia o fidalgo.<br \/>\n    &#8212; Tamb&eacute;m pecamos.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; uma triste verdade, mas isso n&atilde;o &eacute; raz&atilde;o<br \/>\n    para que os que nasceram nessas casas se abaixem diante dos que nem sabem<br \/>\n    onde nasceram. Deixe V. Ex.&raquo; medrar quanto quiser o Tom&eacute; da Herdade,<br \/>\n    que no fim de tudo sempre h&aacute;-de mostrar que andou descal&ccedil;o em<br \/>\n    crian&ccedil;a e que foi levar a beber o gado desta casa. H&aacute; certas<br \/>\n    coisas que n&atilde;o d&aacute; o dinheiro.<\/p>\n<p> &#8212; O Tom&eacute; da Herdade ! &#8212; repetiu D. Luis com amargura.<br \/>\n    &#8212; Esse &eacute; que prospera, os tempos est&atilde;o para ele. Quem<br \/>\n    viu e quem v&ecirc; aquilo ! &#8212; Ent&atilde;o que quer ? Ainda mais havemos<br \/>\n    de ver. E ent&atilde;o n&atilde;o sabe V. Ex.&ordf; que o homem mandou educar<br \/>\n    a filha na cidade, como se fosse a filha de algu&eacute;m? &#8212; A Berta?<br \/>\n    &#8212; Sim, a que &eacute; afilhada de V. Ex.&ordf;. com que fim faz aquele<br \/>\n    toleir&atilde;o uma coisa dessas ? Veja a parlapatice daquele homem. N&atilde;o<br \/>\n    repara na posi&ccedil;&atilde;o falsa em que coloca a rapariga. Meteu-se-lhe<br \/>\n    talvez na cabe&ccedil;a que ainda a casava com algum fidalgo ! Pode ser. Veja<br \/>\n    V. Ex.a se ela serve para algum dos seus filhos.<\/p>\n<p> D. Luis sorriu, encolhendo os ombros.<\/p>\n<p> &#8212; Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que &eacute; afinal<br \/>\n    o que ela tem de ser, das prendas e da educa&ccedil;&atilde;o que o pai lhe<br \/>\n    mandou dar? N&atilde;o me dir&aacute; V. Ex.&ordf;? &#8212; Todos hoje t&ecirc;m<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es a subir &#8212; reflectiu D. Luis com ironia. &#8212;<br \/>\n    A mar&eacute; sobe.<\/p>\n<p> &#8212; Eu bem sei o que &eacute; que d&aacute; causa a estas tolarias.<br \/>\n    Tudo isso vem da barulhada que estes liberal&otilde;es fizeram na Sociedade.<br \/>\n    Tudo est&aacute; remexido e ningu&eacute;m se entende. O sapateiro que nos<br \/>\n    vem tomar medida de umas botas parece um visconde. Onde isso &eacute; bonito,<br \/>\n    segundo dizem, &eacute; em Lisboa. Hoje todos por l&aacute; t&ecirc;m excel&ecirc;ncia<br \/>\n    ! Nestes sedi&ccedil;os coment&aacute;rios sobre o estado do s&eacute;culo<br \/>\n    deixaram-se ficar os dois por muito tempo, desafogando assim a sua m&aacute;<br \/>\n    vontade contra as institui&ccedil;&otilde;es modernas. O padre Janu&aacute;rio,<br \/>\n    por&eacute;m, n&atilde;o perdia com isto a id&eacute;ia do jantar e, de quando<br \/>\n    em quando, voltava os olhos para o rel&oacute;gio, cujos lentos ponteiros<br \/>\n    n&atilde;o correspondiam nunca &agrave; impaci&ecirc;ncia dos seus desejos.<br \/>\n    Enfim deu a hora e frei Janu&aacute;rio ergueu-se instintivamente para ir<br \/>\n    ver se o jantar estava servido.<\/p>\n<p> Passado pouco tempo tocava a sineta, t&atilde;o grata aos ouvidos do reverendo.<br \/>\n    Vibravam pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca aqueles<br \/>\n    sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e espl&ecirc;ndida<br \/>\n    corte, que os ventos da adversidade tinham dispersado. <\/p>\n<p>D. Luis entrou na sala do jantar, onde com impaci&ecirc;ncia o aguardava<br \/>\n    j&aacute; o capel&atilde;o.<\/p>\n<p> Aquela grande sala vazia, aquela extensa mesa, apenas servida com quatro<br \/>\n    talheres, falava tanto do esplendor passado e da decad&ecirc;ncia presente,<br \/>\n    que poucos lugares havia na casa que deixassem no fidalgo mais melanc&oacute;licas<br \/>\n    impress&otilde;es. Nunca se lhe anuviava tanto o cora&ccedil;&atilde;o como<br \/>\n    ao sentar-se &agrave; cabeceira da mesa, em torno da qual outr&oacute;ra vira<br \/>\n    rostos conhecidos e amigos, hoje t&atilde;o solit&aacute;ria e abandonada.<\/p>\n<p> D. Luis, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, apontando<br \/>\n    para os lugares dos filhos, que ainda estavam de vago : &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    os senhores n&atilde;o ouviram a sineta ? &#8212; Os senhores ainda n&atilde;o<br \/>\n    vieram.<\/p>\n<p> &#8212; Nem Jorge ? &#8212; perguntou D. Luis, como se estranhasse menos<br \/>\n    a aus&ecirc;ncia de Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Nem um, nem outro.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. D. Maur&iacute;cio &#8212; observou o padre, que temia um<br \/>\n    adiamento ao jantar &#8212; saiu para a ca&ccedil;a; quando vir&aacute; ele<br \/>\n    agora? E, dizendo isto, fazia sinal ao criado para que servisse o fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; E Jorge ? &#8212; insistiu o pai.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. D. Jorge&#8230; esse n&atilde;o sei&#8230; talvez esteja a&iacute;<br \/>\n    por alguma parte.<\/p>\n<p> O fidalgo, evidentemente contrariado com a aus&ecirc;ncia dos filhos, que<br \/>\n    ainda mais aumentava a solid&atilde;o daquela sala, resignou-se a principiar<br \/>\n    a jantar sem eles.<\/p>\n<p> O jantar correu em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> O humor negro de um dos comensais e o apetite do outro n&atilde;o davam<br \/>\n    azo ao di&aacute;logo.<\/p>\n<p> Estava o frade deliciando-se com uma farta posta de assado e o competente<br \/>\n    acess&oacute;rio de massas, quando Jorge entrou na sala.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.<\/p>\n<p> Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pai interrompeu com um gesto a mand&aacute;-lo<br \/>\n    sentar; e passados momentos, levantou-se ele e saiu silencioso.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, tendo j&aacute; satisfeito as primeiras e mais urgentes<br \/>\n    exig&ecirc;ncias do seu est&ocirc;mago, achou-se disposto a cor.tinrar o di&aacute;logo.<\/p>\n<p> Por isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge<br \/>\n    : &#8212; com que vem do seu passeio, hem? A manh&atilde; estava bem bonita.<br \/>\n    E ent&atilde;o o que viu por esses campos? &#8212; Muito trabalho, sr. frei<br \/>\n    Janu&aacute;rio, muita vida rural &#8212; respondeu Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, agora &eacute; o tempo das colheitas. Anda por a&iacute; tudo<br \/>\n    azafamado.<\/p>\n<p> &#8212; Mas porque &eacute;, sr. frei Janu&aacute;rio, que nos campos da<br \/>\n    nossa casa n&atilde;o vejo o movimento dos outros? A imprevista interpela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do adolescente ia entalando o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Causou-me sensa&ccedil;&atilde;o isto hoje &#8212; prosseguiu Jorge.<br \/>\n    &#8212; Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de l&aacute;,<br \/>\n    em roda de si, para o vale, pode marcar as propriedades da nossa casa; onde<br \/>\n    vir um campo quase maninho, um muro a cair, umas paredes negras, um aspecto<br \/>\n    de cemit&eacute;rio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; tanto assim&#8230; &Eacute; verdade que&#8230; meu rico<br \/>\n    filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tornaram conta deste<br \/>\n    pais, as coisas mudaram. Quem n&atilde;o est&aacute; por o que eles querem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o vejo em que eles influam para isto, sr. frei Janu&aacute;rio.<br \/>\n    Quem nos impede de fazer o que os outros fazem ? de cultivar os nossos campos?<br \/>\n    de p&ocirc;r homens a trabalhar nessas terras incultas? &#8212; O que os outros<br \/>\n    fazem, diz ele! Os outros&#8230; os outros&#8230; e quem s&atilde;o os outros ? Uns<br \/>\n    miser&aacute;veis que eu conheci de p&eacute; descal&ccedil;o, a limpar os<br \/>\n    cavalos e a cavar nos campos desta casa.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto mais para admirar e para louvar o esfor&ccedil;o que os tirou<br \/>\n    dessa posi&ccedil;&atilde;o humilde e os elevou &agrave;quela que hoje ocupam.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem que grande milagre ! Homens que n&atilde;o devem respeito<br \/>\n    a si mesmo, para quem todo o trabalho est&aacute; bem, como n&atilde;o h&atilde;o-de<br \/>\n    enriquecer ? Ora essa &eacute; muito boa ! &#8212; E os que devem respeito<br \/>\n    a si mesmo est&atilde;o, pois, condenados &agrave; mis&eacute;ria? &#8212;<br \/>\n    &Atilde; mis&eacute;ria&#8230; &agrave; mis&eacute;ria!&#8230; Que palavra! Ora para<br \/>\n    o que lhe deu hoje! Foi febre que se lhe pegou? Se ela anda por a&iacute;<br \/>\n    t&atilde;o acesa! O menino ainda &eacute; muito crian&ccedil;a para pensar<br \/>\n    nestas coisas. Coma e beba e&#8230;<\/p>\n<p> As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso e redarguiu com energia<br \/>\n    e irrita&ccedil;&atilde;o : &#8212; N&atilde;o sou crian&ccedil;a, frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    ; acredite que o n&atilde;o sou. Tenho niais de vinte anos e estou resolvido<br \/>\n    a ser homem. Coro na minha ociosidade, quando vejo que somente as nossas terras<br \/>\n    fazem vergonha &agrave; actividade deste povo. Tenho anos para viver, deveres<br \/>\n    de honra a cumprir, um nome para conservar sem mancha, e quero saber que futuro<br \/>\n    me preparam os gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda<br \/>\n    responsabilidade de ser na minha fam&iacute;lia talvez o primeiro a faltar<br \/>\n    um dia aos seus compromissos. &Eacute; por isso que falei e que desejo que<br \/>\n    me responda, sr. frei Janu&aacute;rio? &#8212; Ai menino, menino; isso n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; s su! Ai anda doutrina liberal.<\/p>\n<p> Eu cheiro-a a dist&acirc;ncia de l&eacute;guas. Ent&atilde;o quando o senhor<br \/>\n    seu pai me honra com a sua confian&ccedil;a, &eacute; acaso justo, &eacute;<br \/>\n    acaso bonito que eu seja suspeitado e interrogado por uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    que ainda nada sabe do mundo ? &#8212; E quando hei-de aprender? Querem-me<br \/>\n    est&uacute;pido, como esses morgados que por ai se arruinam? &#8212; Mas que<br \/>\n    quer o Sr. Jorge, afinal? Ent&atilde;o n&atilde;o sabe que desde que os lavradores<br \/>\n    se fizeram fidalgos ningu&eacute;m luta com eles ? O dinheiro est&aacute;<br \/>\n    de l&aacute;; para l&aacute; v&atilde;o os trabalhadores, senhor. Ora &eacute;<br \/>\n    boa! Eu acho gra&ccedil;a a certa gente !<\/p>\n<p>&#8212; O dinheiro est&aacute; de l&aacute; ! Mas como conseguiram eles enriquecer?<br \/>\n    Pois n&atilde;o diz que eram uns miser&aacute;veis? &#8212; Ah ! ent&atilde;o<br \/>\n    quer principiar como eles principiaram, cavando com uma enxada todo o dia<br \/>\n    e furtando &agrave; boca para juntar ao canto da caixa com o fim de comprar<br \/>\n    uns bois?, etc., etc. Veja se quer.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o principi&aacute;vamos de t&atilde;o longe como eles,<br \/>\n    escus&aacute;vamos de tantos sacrif&iacute;cios. Bastava que olh&aacute;ssemos<br \/>\n    com aten&ccedil;&atilde;o para o muito que temos ainda, e que tent&aacute;ssemos<br \/>\n    desenredar, a pouco e pouco, esta meada que nos enleia e que nos h&aacute;-de<br \/>\n    afogar a todos.<\/p>\n<p> &#8212; Ora &eacute; boa ! E ent&atilde;o o que &eacute; que eu fa&ccedil;o,<br \/>\n    o que &eacute; que estou fazendo h&aacute; quase trinta e oito anos em que<br \/>\n    o Sr. D. Luis me distingue com a sua confian&ccedil;a? Mas a coisa n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil como lhe parece.<\/p>\n<p> &Eacute; boa! &#8212; Mas quais s&atilde;o os seus planos, padre Janu&aacute;rio,<br \/>\n    qual &oacute; o seu sistema de administra&ccedil;&atilde;o? &#8212; Os meus<br \/>\n    planos ? !&#8230; Ora essa !&#8230; Ent&atilde;o que planos quer que sejam os meus?<br \/>\n    Sistema de administra&ccedil;&atilde;o!&#8230; isso &eacute; frase de cortes&#8230;<\/p>\n<p> Hum! tenho entendido&#8230; &Eacute; o que eu,digo&#8230; &Oacute; Sr. Jorge, ora<br \/>\n    fale-me a verdade, a&iacute; andam id&eacute;ias do liberalismo. com quem<br \/>\n    falou esta manh&atilde; ? ora diga.<\/p>\n<p> &#8212; Venham de onde vierem as id&eacute;ias. A origem pouco importa,<br \/>\n    a quest&atilde;o &eacute; que elas sejam boas. Eu n&atilde;o trato de liberais<br \/>\n    nem de absolutistas agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo ca&iacute;rem<br \/>\n    os muros e nunca se repararem ; vejo campos e campos sem a menor cultura ;<br \/>\n    encontro em tudo quanto nos pertence profundos sinais de decad&ecirc;ncia,<br \/>\n    e quero saber a grandeza do mal que nos oprime.<\/p>\n<p> &#8212; E se for grande o mal, o que quer que se lhe fa&ccedil;a ? &#8212;<br \/>\n    Quero que se trabalhe para remedi&aacute;-lo ; que se fa&ccedil;am sacrif&iacute;cios<br \/>\n    &uacute;teis, que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos<br \/>\n    faz viver hoje ainda uma vida que n&atilde;o &eacute; destes tempos. Desenganemo-<br \/>\n    nos ; a &eacute;poca n&atilde;o &eacute; de privil&eacute;gios nem de isen&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nobiliarias, &eacute; de trabalho e de actividade. Plebeu &eacute; hoje s&oacute;<br \/>\n    o ocioso, nobre &eacute; todo o que se torna &uacute;til pelo trabalho honrado.<\/p>\n<p> &#8212; Jesus ! O que a&iacute; vai ! O que a&iacute; vai ! Eu bem o digo<br \/>\n    ! H&aacute; liberal na costa! Isso &eacute; t&atilde;o certo como dois e dois<br \/>\n    serem quatro. Se o pai o ouvia ! &#8212; H&aacute;-de ouvir-me, porque tenciono<br \/>\n    hoje mesmo falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Que vai fazer, Sr. Jorge ? &#8212; O meu dever. Eu e meu irm&atilde;o<br \/>\n    seremos um dia os representantes da nossa fam&iacute;lia. Para que nos orgulhemos<br \/>\n    no nome que herdamos, &eacute; necess&aacute;rio que esse nome n&atilde;o<br \/>\n    tenha manchas e que n&oacute;s n&atilde;o lhas lancemos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem lhe diz, quem lhe fala em manchas? Ora&#8230; ora&#8230;<\/p>\n<p> ora&#8230; ora esta n&atilde;o est&aacute; m&aacute;! &#8212; Frei Janu&aacute;rio,<br \/>\n    eu n&atilde;o sou crian&ccedil;a, repito-o. S&ecirc;-lo-ia ontem, hoje n&atilde;o<br \/>\n    o sou j&aacute;. Fa&ccedil;a de conta que o sol desta manh&atilde; me amadureceu.<\/p>\n<p>Por isso n&atilde;o me iludo enquanto &agrave; natureza dos meios com que<br \/>\n    se sustenta ainda nesta casa um resto de esplendor de antigos tempos. Pois<br \/>\n    mais valeria comer em lou&ccedil;a nacional e vender as matilhas e os dois<br \/>\n    cavalos de luxo, que ainda temos, para comprar dois bois.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; logo, frei Janu&aacute;rio, conversaremos mais de espa&ccedil;o<br \/>\n    sobre isto.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> Jorge, sem o atender, dispunha-se a sair, quando o padre, quase assustado,<br \/>\n    o chamou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas venha c&aacute;. Oi&ccedil;a-me, valha-me Deus ! Olhem que homem<br \/>\n    este ! Tem muita raz&atilde;o no que diz. Sim, senhor. As coisas n&atilde;o<br \/>\n    v&atilde;o bem.<\/p>\n<p> Hoje n&atilde;o &eacute; ontem ; e esta casa j&aacute; viu melhores tempos<br \/>\n    do que os que correm. Mas de quem &eacute; a culpa? &Eacute; de mim ou do<br \/>\n    senhor seu pai? Pois n&atilde;o foste ! Para remediar o mal trabalhamos n&oacute;s<br \/>\n    h&aacute; muito. A culpa &eacute; desta gente que nos governa, destes homens<br \/>\n    que juraram perder tudo quanto era nobreza, para poderem &agrave; vontade<br \/>\n    fazer das suas, sem ter quem lhes v&aacute; &agrave; m&atilde;o. Percebe agora?<br \/>\n    Desde que os liberais&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Por quem &eacute;, frei Janu&aacute;rio, n&atilde;o me venha outra<br \/>\n    vez com os liberais. Eu tenho a raz&atilde;o bastante clara para ver as coisas<br \/>\n    como elas s&atilde;o e n&atilde;o me deixar levar por essa cantiga do costume.<br \/>\n    Os liberais!&#8230;<\/p>\n<p> Os liberais o que fizeram foi aliviar a agricultura dos enormes encargos<br \/>\n    que dantes pesavam sobre ela e que n&atilde;o a deixavam prosperar, foi criar<br \/>\n    leis e institui&ccedil;&otilde;es que facilitassem os esfor&ccedil;os dos<br \/>\n    laboriosos e castigassem severamente a inc&uacute;ria e a ociosidade. Quando<br \/>\n    ao desoprimiese o lavrador de tributos pesados e in&iacute;quos e dos odiosos<br \/>\n    vexames do fisco, ao tornarem-se-lhe mais f&aacute;ceie os contratos e as<br \/>\n    transmiss&otilde;es da propriedade, ao criarem-se-lhe recursos para ele tirar<br \/>\n    do seu trabalho e da sua intelig&ecirc;ncia dez vezes mais do que dantes podia<br \/>\n    obter, quando na &eacute;poca em que tudo isto se realiza, uma casa como a<br \/>\n    nossa, em vez de prosperar como tantas, v&ecirc; apressada a sua decad&ecirc;ncia,<br \/>\n    &eacute; porque tem em si um velho cancro a ro&ecirc;-la. E &eacute; esse<br \/>\n    cancro que eu quero conhecer, para extirp&aacute;-lo, se ainda for poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Eu estou pasmado ! Pelo que oi&ccedil;o, acha o menino que todas<br \/>\n    essas fornadas de leis, que esta gente tem feito, s&atilde;o muito boas, e<br \/>\n    que a sua casa devia ser muito bem servida com elas? &#8212; Essas leis, de<br \/>\n    que se queixa, sao racionais; uma casa racionalmente administrada n&atilde;o<br \/>\n    pode pois perder com elas.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhor ! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,<br \/>\n    ficou sendo o filho mais velho da fam&iacute;lia, gostou talvez muito de ver<br \/>\n    acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas s&atilde;o t&atilde;o boas,<br \/>\n    havia de gostar &#8212; argumentou o procurador, com ares de finura, como<br \/>\n    de quem apanhava em falso o seu advers&aacute;rio.<\/p>\n<p> Jorge respondeu serenamente : &#8212; E porque n&atilde;o ? A aboli&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos morgados acho eu que foi um grande acto de justi&ccedil;a e de moralidade<br \/>\n    ; al&eacute;m de ser uma medida de longo alcance pol&iacute;tico. <\/p>\n<p>&#8212; .Ai&#8230; ai&#8230; ei.&#8211; O que mais terei de ouvir! O menino est&aacute;<br \/>\n    perdido!&#8230;<\/p>\n<p> Pois j&aacute; me aplaude a maldita lei, que h&aacute;-de dar cabo das fam&iacute;lias<br \/>\n    mais ilustres do reino&#8230; Ai, como ele est&aacute;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-se disso. A aboli&ccedil;&atilde;o dos v&iacute;nculos s&oacute;<br \/>\n    trouxe a morte &agrave;s casas que deviam morrer. O que ela fez foi proclamar<br \/>\n    a necessidade do trabalho, indistintamente, para quem quiser prosperar. O<br \/>\n    esplendor das fam&iacute;lias deve ficar somente ao cuidado dos membros delas<br \/>\n    e n&atilde;o da lei. Quando esses n&atilde;o tenham brio nem dignidade para<br \/>\n    o sustentar, justo &eacute; que ele se apague, e que o nome dos antepassados<br \/>\n    n&atilde;o continue a ser desonrado pelos vicios e ociosidades dos descendentes.<\/p>\n<p> Mas deixemo-nos destas discuss&otilde;es, frei Janu&aacute;rio. O meu partido<br \/>\n    est&aacute; tomado. Mais tarde saber&aacute; das consequ&ecirc;ncias dele.<\/p>\n<p> E Jorge saiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.<\/p>\n<p> &#8212; Que anda aqui liberalismo, isso para mim &eacute; de f&eacute;.<br \/>\n    Mas que mosca o morderia? Querem ver que j&aacute; fizeram do rapaz ma&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Pois olhem que n&atilde;o &eacute; outra coisa. Eu quando os oi&ccedil;o falar<br \/>\n    muito do trabalho&#8230;<\/p>\n<p> j&aacute; estou de p&eacute; atr&aacute;s. Tem gra&ccedil;a! Quem os ouvir,<br \/>\n    persuade-se que o trabalho &eacute; um prazer. Ora adeus ! O trabalho &eacute;<br \/>\n    uma necessidade, o trabalho &eacute; um castigo. Para a&iacute; vou eu. Que<br \/>\n    trabalho tinha Ad&atilde;o no Para&iacute;so? E n&atilde;o lhe chamam os livros<br \/>\n    sagrados um lugar de del&iacute;cias? Amassar o p&atilde;o com o suor do rosto,<br \/>\n    olhem que t&iacute;tulos de nobreza ! Estes modernismos ! Mas &eacute; a cantiga<br \/>\n    da moda. O trabalho enobrece, o trabalho consola, o trabalho &eacute; uma<br \/>\n    coisa muito apetitosa&#8230; Ser&aacute;, ser&aacute;, mas eu, por mim, se pudesse<br \/>\n    deixar de trabalhar&#8230; Ah! Ah! Ah! Aqui bocejava o egresso.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que ali anda liberalismo, isso &eacute; t&atilde;o certo como<br \/>\n    eu estar onde estou. Como ele falou nos morgados !&#8230; Provar&aacute; que &eacute;<br \/>\n    t&atilde;o pateta que, sendo ele morgado, diz daquilo. E que vai declarar<br \/>\n    ao pai&#8230; N&atilde;o declara nada. um crian&ccedil;ola que n&atilde;o sabe<br \/>\n    sen&atilde;o passear&#8230; Tomara ele que o deixem&#8230; O ocioso &eacute; que &eacute;<br \/>\n    o plebeu, o nobre &eacute; o que trabalha.<\/p>\n<p> Sim, sim, contem-me dessas. Aquilo &eacute; m&uacute;sica de anjos. Diga-se<br \/>\n    o que &eacute; verdade, quem puder deixar de trabalhar&#8230;<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, nestas graves pondera&ccedil;&otilde;es, deixou-se<br \/>\n    a pouco e pouco invadir pelo sono, e acabou por adormecer &agrave; mesa, sonhando-se<br \/>\n    em uma esp&eacute;cie de para&iacute;so, como o tal lugar de del&iacute;cias<br \/>\n    de Ad&atilde;o, cuja ociosidade sempre fora objecto muito dos seus enlevos.<\/p>\n<p> Deixemo-lo adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados &acirc;ngulos<br \/>\n    da Casa Mourisca.<\/p>\n<p><b>V<\/b><\/p>\n<p>JORGE continuou no seu quarto a s&eacute;rie de medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com que trouxera ocupado o esp&iacute;rito toda a manh&atilde;. Abria alguns<br \/>\n    livros, consultava-os com aten&ccedil;&atilde;o, afastava-os depois com impaci&ecirc;ncia,<br \/>\n    porque raros pareciam responder cabalmente &agrave;s mudas interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que ele lhes dirigia.<\/p>\n<p> A biblioteca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros pr&oacute;prios<br \/>\n    para a cultura do esp&iacute;rito, mas sem definida tend&ecirc;ncia para uma<br \/>\n    aplica&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica qualquer.<\/p>\n<p> Jorge tinha o gosto bem-educado e n&atilde;o era indiferente &agrave;s obras<br \/>\n    de pura arte ; mas desta vez dominava-o uma id&eacute;ia fixa, um ardente<br \/>\n    desejo de se instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos<br \/>\n    necess&aacute;rios para a realiza&ccedil;&atilde;o da grande obra em que meditava.<br \/>\n    Algumas aritm&eacute;ticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos<br \/>\n    n&uacute;meros soltos de jornais estrangeiros, foi tudo quanto p&ocirc;de<br \/>\n    encontrar e que consultou, sem que o satisfizessem as no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    rudimentares que neles lia. A pequena livraria do tio, &agrave; qual devera<br \/>\n    grande parte dos seus avan&ccedil;ados princ&iacute;pios sociais, estava j&aacute;<br \/>\n    esgotada por ele ; al&eacute;m de que n&atilde;o abundava em livros de &iacute;ndole<br \/>\n    verdadeiramente did&aacute;ctica.<\/p>\n<p> Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge fechou<br \/>\n    os olhos, como para concentrar o esp&iacute;rito, e resolver s&oacute; por<br \/>\n    ele os problemas, cuja solu&ccedil;&atilde;o em v&atilde;o procurara na leitura.<\/p>\n<p> E a raz&atilde;o de Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho<br \/>\n    ; colheu dela mais frutos, do que das p&aacute;ginas dos livros elementares,<br \/>\n    que ansiosamente consultara.<\/p>\n<p> A estas cogita&ccedil;&otilde;es veio enfim arranc&aacute;-lo a chegada<br \/>\n    de Maur&iacute;cio, j&aacute; quase ao fechar da tarde.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, logo que transp&ocirc;s a porta, arremessou o chap&eacute;u<br \/>\n    sobre a mesa com certa vivacidade de movimentos, que tra&iacute;a uma profunda<br \/>\n    agita&ccedil;&atilde;o. Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados,<br \/>\n    sentou-se, ou antes deixou-se cair sobre uma cadeira, e correu a m&atilde;o<br \/>\n    por a fronte, sacudindo para tr&aacute;s os cabelos com um movimento febril.<\/p>\n<p> Jorge, que percebeu em todos estes sinais um dos costumados frenesis do<br \/>\n    irm&atilde;o, interrogou-o : &#8212; Que &eacute; isso, Maur&iacute;cio ?<br \/>\n    Que &eacute; que tens ? Que te sucedeu l&aacute; por fora? &#8212; Deixa-me,<br \/>\n    Jorge &#8212; respondeu Maur&iacute;cio, levantando-se outra vez e pondo-se<br \/>\n    a passear no quarto. &#8212; Se soubesses como eu venho sufocado de raiva?<br \/>\n    &#8212; Contra quem? &#8212; Contra esta canalha desta gente do campo. Uns<br \/>\n    miser&aacute;veis insolentes que lan&ccedil;am a lama suja, onde nasceram<br \/>\n    e vivem, &agrave; face da gente, com o mais intoler&aacute;vel arrojo ! Mas<br \/>\n    eu esmago-os com a sola da bota! &#8212; Bom ! Temos bravatas de fidalguia<br \/>\n    ! Esses arreganhos de senhor feudal hoje s&atilde;o de mau gosto, Maur&iacute;cio.<br \/>\n    Olha que j&aacute; passou o tempo deles.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; sempre tempo de castigar um insolente. O essencial &eacute;<br \/>\n    que se tenha sangue nas veias e pundonor no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E sangue tamb&eacute;m no cora&ccedil;&atilde;o &#8212; emendou<br \/>\n    Jorge, sorrindo. &#8212; Olha que tamb&eacute;m &eacute; l&aacute; preciso.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o rias, Jorge ! Por quem &eacute;s ! &#8212; tornou o irm&atilde;o,<br \/>\n    despeitado.<\/p>\n<p> &#8212; Bem v&ecirc;s que falo s&egrave;riamente.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o conta-me tudo. Receio que haja ai alguma das tuas exagera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o exagero. Esta manh&atilde; fui ca&ccedil;ar, como sabes.<br \/>\n    Corri o monte com pouca felicidade ; os c&atilde;es pareciam ter perdido o<br \/>\n    faro. Voltava j&aacute; para casa sem esperan&ccedil;a, quando, ali pela Quebrada<br \/>\n    do Moinho, levantaram-se-me quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri.<br \/>\n    Elas seguem na direc&ccedil;&atilde;o das azenhas, atravessam os campos que<br \/>\n    est&atilde;o em baixo e v&atilde;o poisar no pinhal que fica para l&aacute;<br \/>\n    da presa do Queimado.<\/p>\n<p> Sabes? Eu des&ccedil;o com os c&atilde;es, e, para n&atilde;o dar a volta<br \/>\n    ao portelo, galguei o murito da fazenda do Luis da Azinhaga, e ia para atravessar<br \/>\n    o campo, quando aquele grosseir&atilde;o do mato, aquele vil&atilde;o infame,<br \/>\n    sai da casa da eira, onde andava com os criados, e berra-me : &laquo; Ol&aacute;,<br \/>\n    &oacute; fidalguinho, isto aqui n&atilde;o &eacute; terra baldia, nem roupa<br \/>\n    de franceses &raquo;.<\/p>\n<p> Eu olhei para ele, mas n&atilde;o lhe respondi e continuei andando; ele<br \/>\n    tornou de l&aacute;, e j&aacute; caminhando para mim: &laquo;Menino, n&atilde;o<br \/>\n    ouviu? Eu n&atilde;o quero os meus campos trilhados&raquo;. &laquo;O que estragar<br \/>\n    pagarei&raquo;, respondi- lhe j&aacute; azedado. O est&uacute;pido soltou<br \/>\n    uma risada insolente, e disse-me : &laquo;com o qu&ecirc;? Pergunte primeiro<br \/>\n    em casa se o que l&aacute; tem chega para pagarem o que devem j&aacute;&raquo;.<br \/>\n    Ouvindo isto, perdi a cabe&ccedil;a e corri para o homem, exclamando: &laquo;Para<br \/>\n    que n&atilde;o duvides da minha palavra, eu te vou j&aacute; pagar uma divida,<br \/>\n    canalha&raquo;. Ele estava desarmado, mas recuou para pegar em uma enxada<br \/>\n    ; os homens que trabalhavam na eira correram para mim com malhos e mangoais<br \/>\n    ; armei a espingarda logo ; o primeiro que me amea&ccedil;asse estendia-o,<br \/>\n    palavra de honra! Nisto ouvi uns gritos por detr&aacute;s de mim. Era o Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa, que passava e correu a separar-nos. Fez-nos um serm&atilde;o<br \/>\n    e trouxe-me quase &agrave; for&ccedil;a dali. Al tens como est&aacute; esta<br \/>\n    gentalha. J&aacute; n&atilde;o podemos sair sem nos arriscarmos a ser insultados<br \/>\n    e assassinados. Quem deu a esses miser&aacute;veis o atrevimento de falar<br \/>\n    nas d&iacute;vidas da nossa casa? &#8212; Quem as contraiu e n&atilde;o procura<br \/>\n    pag&aacute;-las &#8212; respondeu, triste.<\/p>\n<p> mas pl&agrave;cidamente, Jorge.<\/p>\n<p> E logo depois, acrescentou: &#8212; Mas dizes bem, Maur&iacute;cio, foi<br \/>\n    uma desagrad&aacute;vel ocorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> J&aacute; v&ecirc;s agora que eu tinha raz&atilde;o no que te dizia pela<br \/>\n    manh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; O que foi ? &#8212; Isto n&atilde;o pode continuar assim, Maur&iacute;cio.<br \/>\n    Nem tu nem eu temos &acirc;nimo para sofrer humilha&ccedil;&otilde;es, e elas<br \/>\n    s&atilde;o inevit&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; Inevit&aacute;veis?! Eu te juro&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o jures ; n&atilde;o &eacute; pela viol&ecirc;ncia que<br \/>\n    os obrigaremos a calar.<\/p>\n<p> Ou, se se calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o<br \/>\n    pensamento que lhes despertamos, ser&atilde;o para n&oacute;s igualmente humilhantes.<br \/>\n    H&aacute; muito que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam.<br \/>\n    E foi isso que me fez pensar.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que intentas fazer, ent&atilde;o ? Qual &eacute; o teu plano<br \/>\n    ? &#8212; Fazer-me respeitado ; mostrar que n&atilde;o sou inferior a eles.<\/p>\n<p> &#8212;Sim, mas de que maneira? &#8212; Resgatando a nossa casa, calando<br \/>\n    com a paga a boca desses credores insolentes, e colocando-nos, pela prosperidade<br \/>\n    das nossas terras, ao lado deles todos, e acima pela nobreza dos nossos sentimentos.<\/p>\n<p> &#8212; Queres ent&atilde;o fazer-te lavrador ? &#8212; Quero trabalhar.<br \/>\n    Olha, Maur&iacute;cio, tenho pensado muito estes &uacute;ltimos dias, e hoje<br \/>\n    mais do que nos outros. A nossa regenera&ccedil;&atilde;o depende de nos despirmos<br \/>\n    dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa perda &eacute;<br \/>\n    uma inevit&aacute;vel e justa conseq&uuml;&ecirc;ncia do nosso louco modo<br \/>\n    de pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos h&aacute;bitos viciosos.<br \/>\n    Pois que quer dizer este enfatuamento com que falamos dos nossos av&oacute;s?<br \/>\n    Qual foi a ac&ccedil;&atilde;o nobre, magn&acirc;nima, que deu tal esplendor<br \/>\n    &agrave; nossa fam&iacute;lia, que se n&atilde;o possa apagar esse esplendor<br \/>\n    com a vida de ociosidade, de desleixo e de dissipa&ccedil;&atilde;o ingl&oacute;ria<br \/>\n    que levamos? A cr&ocirc;nica n&atilde;o &eacute; clara a esse respeito. Tivemos<br \/>\n    guerreiros que morreram pela p&aacute;tria, &eacute; nobreza decerto ; mas<br \/>\n    quantos soldados obscuros n&atilde;o existiram entre os ascendentes desses<br \/>\n    pobres homens que por a&iacute; h&aacute; t&atilde;o her&oacute;is como os<br \/>\n    nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos ; eles, algum pobre sacerdote,<br \/>\n    modesto e humilde, que fez porventura mais servi&ccedil;os &agrave; religi&atilde;o<br \/>\n    do que o nosso parente mitrado; mas n&atilde;o lhes deu isso nobreza. O que<br \/>\n    lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse servi&ccedil;os particulares<br \/>\n    a algum rei benevolente, que em compensa&ccedil;&atilde;o o fez nobre por<br \/>\n    toda a eternidade ; porque tamb&eacute;m h&aacute; destas ra&iacute;zes em<br \/>\n    muitas &aacute;rvores geneal&oacute;gicas ; desengana-te.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s eivado de uma filosofia democr&aacute;tica e revolucion&aacute;ria,<br \/>\n    que n&atilde;o sei onde te levar&aacute;, Jorge. E em vista disso o que resolves?<br \/>\n    &#8212; Resolvo n&atilde;o continuar a merecer essas humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que n&atilde;o posso deixar de reconhecer que s&atilde;o justas. Eles t&ecirc;m<br \/>\n    mais direito de nos desprezar, do que n&oacute;s a eles.<\/p>\n<p> &#8212; Desprezar-nos ! &#8212; repetiu, indignado, Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, sim ; desprezar-nos. E sen&atilde;o repara. A nossa casa deve<br \/>\n    muito. Grande parte dos nossos bens est&atilde;o hipotecados. O nome da nossa<br \/>\n    fam&iacute;lia n&atilde;o &eacute; j&aacute; segura garantia nos contratos,<br \/>\n    e os empr&eacute;stimos, que todos os dias os nossos procuradores contraem,<br \/>\n    s&atilde;o obtidos por um pre&ccedil;o que em pouco tempo nos levar&aacute;<br \/>\n    &agrave; mis&egrave;ria. Na aldeia todos sabem isto. N&atilde;o queres pois<br \/>\n    que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte anos, robustos, e com energia<br \/>\n    e intelig&ecirc;ncia, gastar ociosamente a vida e a juventude em passeios<br \/>\n    e em ca&ccedil;adas, olhando por cima do ombro para esses homens que talvez<br \/>\n    amanh&atilde;, autorizados por a lei, nos vir&atilde;o p&ocirc;r fora de nossas<br \/>\n    casas e tomar posse delas? &Eacute; acaso nobre este nosso proceder, Maur&iacute;cio?<br \/>\n    Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao precip&iacute;cio,<br \/>\n    n&atilde;o merece pelo menos um sorriso de compaix&atilde;o? &#8212; Tu exageras,<br \/>\n    Jorge. Acaso teremos j&aacute; chegado a tais extremos que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nem tu imaginas a que extremos temos chegado ; mas ainda nos poderemos<br \/>\n    salvar, se quisermos ser homens.<\/p>\n<p> &#8212; E como ? &#8212; Mudando de vida, aplicando-nos deveras &agrave;<br \/>\n    restaura&ccedil;&atilde;o desta casa, &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Daqui a pouco tenciono procurar o pai e falar-lhe desenganadamente,<br \/>\n    pedir-lhe que me deixe olhar por mim pr&oacute;prio para a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das nossas propriedades, que nas m&atilde;os de frei Janu&aacute;rio caminham<br \/>\n    a uma perda certa.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que entendes tu de administra&ccedil;&atilde;o ? &#8212; Aprenderei.<br \/>\n    O interesse &eacute; um grande mestre. N&atilde;o tiveram outro esses r&uacute;sticos<br \/>\n    propriet&aacute;rios, que por a&iacute; vemos enriquecer.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ficou pensativo.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia do irm&atilde;o parecia hav&ecirc;-lo ferido profundamente.<br \/>\n    Estava- -lhe achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Maur&iacute;cio,<br \/>\n    n&atilde;o tendo o car&aacute;cter meditativo e o espirito anal&iacute;tico<br \/>\n    de Jorge, era nas coisas da vida guiado mais pela imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que pela raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Se uma causa o seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria,<br \/>\n    se &agrave; primeira intui&ccedil;&atilde;o lhe desagradasse. Era t&atilde;o<br \/>\n    f&aacute;cil de se entusiasmar por o que ao princ&iacute;pio repelira, que<br \/>\n    n&atilde;o se podia ter muita confian&ccedil;a naquele ardor. Lavrava muito<br \/>\n    depressa a labareda, para ser de longa dura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim aconteceu desta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com uma<br \/>\n    impetuosidade juvenil: &#8212; Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar<br \/>\n    com esta vida de &oacute;cio e de inutilidade. &Eacute; assim. &Eacute; preciso<br \/>\n    que sejamos homens.<\/p>\n<p> Temos uma miss&atilde;o a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho<br \/>\n    traz consigo a recompensa e os gozos. Decerto deve sentir-se orgulhosa e satisfeita<br \/>\n    a alma do que trabalha, porque v&ecirc; que cumpre um dever. O que se nos<br \/>\n    afigura fadiga &eacute; prazer. Pois n&atilde;o te parece que um escritor,<br \/>\n    por exemplo, deve ser feliz nas horas de composi&ccedil;&atilde;o ? e que<br \/>\n    o artista curvado sobre os instrumentos do seu of&iacute;cio, e o lavrador<br \/>\n    vergado no campo, nem sequer sentem o suor que lhes corre da fronte ? Tens<br \/>\n    raz&atilde;o, trabalhemos, a poesia visitar-nos-&aacute; nas nossas horas<br \/>\n    de labor, e n&atilde;o nos deixar&aacute; sentir saudades dos perdidos &oacute;cios<br \/>\n    de fidalgo.<\/p>\n<p>Jorge escutava o irm&atilde;o com um sorriso triste e inocentemente malicioso,<br \/>\n    e comentava com um movimento de cabe&ccedil;a uma e outra destas estrofes<br \/>\n    em honra do trabalho. Quando Maur&iacute;cio concluiu ele ponderou-lhe com<br \/>\n    a sua habitual serenidade : &#8212; Valha-te Deus, Maur&iacute;cio, que est&aacute;s<br \/>\n    tu a&iacute; a dizer? N&atilde;o sonhes nem adoptes uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;ria, como a de que falo, sob o dom&iacute;nio dessas ilus&otilde;es.<br \/>\n    V&ecirc; as coisas como elas s&atilde;o. O trabalho e nobre por certo, mas<br \/>\n    a poesia dele nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as fadigas.<br \/>\n    N&atilde;o v&aacute;s seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te<br \/>\n    desanimaria um cruel desengano. &Eacute; preciso entrar nisto guiado pela<br \/>\n    raz&atilde;o, e n&atilde;o por um entusiasmo fugaz. O escritor nas horas de<br \/>\n    composi&ccedil;&atilde;o, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas<br \/>\n    do seu mister, n&atilde;o t&ecirc;m esses gozos que fantasias ; antes devem<br \/>\n    sentir muitas vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula,<br \/>\n    mais do que a poesia, &eacute; o dever. Recompensas h&aacute;, n&atilde;o<br \/>\n    nego que as haja, al&eacute;m das materiais. Deve haver uma certa tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    de consci&ecirc;ncia, uma aus&ecirc;ncia de remorsos, isto de um homem poder<br \/>\n    fitar sem vergonha os que trabalham a seu lado, como se lhes dissesse : &laquo;Tamb&eacute;m<br \/>\n    tenho direito a viver&raquo;. Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe<br \/>\n    das oficinas, das f&aacute;bricas e dos gabinetes de estudo, ou se a&iacute;<br \/>\n    penetra, &eacute; &agrave; maneira daqueles deuses do paganismo, que acompanhavam<br \/>\n    invis&iacute;veis os her&oacute;is que protegiam. Estar&aacute;s sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    dele, mas n&atilde;o o ver&aacute;s. Se a contempla&ccedil;&atilde;o dessa<br \/>\n    divindade &eacute; a recompensa que esperas, deixa-te antes ficar a montear<br \/>\n    por estas aldeias.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio sorriu, objectando ao irm&atilde;o : &#8212; &Eacute;s suspeito,<br \/>\n    Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando trabalhares, porque<br \/>\n    ainda n&atilde;o a viste onde todos a v&ecirc;em, a&iacute; por essas devesas,<br \/>\n    vales e ribeiras.<\/p>\n<p> &#8212; Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, onde se trabalhava ; tu<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o a vias l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ent&atilde;o j&aacute; confessas que ela est&aacute; com os<br \/>\n    que trabalham? &#8212; Mas n&atilde;o a v&ecirc;em esses. N&atilde;o a viu<br \/>\n    Tom&eacute;, nem nenhum dos seus criados, vi-a eu, que estava de fora.<\/p>\n<p> &#8212; E quem deu a Tom&eacute; sentidos para a ver ? &#8212; A ningu&eacute;m<br \/>\n    faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro ardor, a vis&atilde;o<br \/>\n    encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem presente, t&atilde;o<br \/>\n    namorado est&aacute; dela, que o assaltam as distrac&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    namorados. E o trabalho &eacute; exigente e severo ; h&aacute; uns cuidados<br \/>\n    pequeninos, impertinentes, prosaicos, de que ele n&atilde;o prescinde.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes &eacute; &uacute;til at&eacute; certa irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    provocada pelas dificuldades fastidiosas que ele suscita; instigam, estimulam<br \/>\n    brios para venc&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Continuaram os dois irm&atilde;os este di&aacute;logo, e assentaram enfim<br \/>\n    na resolu&ccedil;&atilde;o de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza<br \/>\n    pr&oacute;pria do seu car&aacute;cter ; e portanto com firmeza desigual. Decidiram<br \/>\n    falar naquele mesmo momento a D. Luis. <\/p>\n<p>A ocasi&atilde;o era propicia. Frei Janu&aacute;rio dormia ainda a sesta,<br \/>\n    e portanto o fidalgo devia estar s&oacute; no seu quarto.<\/p>\n<p> Era j&aacute; noite. O luar coloria com tintas m&aacute;gicas a paisagem<br \/>\n    fronteira &agrave; Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o<br \/>\n    fundo azul-p&aacute;lido do c&eacute;u sem estrelas. A ramaria dos carvalhos<br \/>\n    e a queda da &aacute;gua nas fontes levantavam vozes melanc&oacute;licas do<br \/>\n    meio das indistintas sombras da quinta.<\/p>\n<p> Em noites assim conservava-se D. Luis longo tempo &agrave; janela do quarto.<br \/>\n    A fronte encostada &agrave; m&atilde;o, os olhos fitos nos pontos iluminados<br \/>\n    da perspectiva, e o pensamento&#8230; ai, quem sabe porque melanc&oacute;licas<br \/>\n    paragens andava o pensamento do pobre velho ? ! Passadas magnificencias, festas,<br \/>\n    alegrias e triunfos de tempos mais felizes, mem&oacute;rias de vida nesta<br \/>\n    habita&ccedil;&atilde;o hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a p&aacute;lida<br \/>\n    imagem da filha morta, o enlevo de t&ocirc;da a sua vida, que ao desaparecer<br \/>\n    lha deixou escura e desencantada&#8230; que outras podiam ser as vis&otilde;es<br \/>\n    presentes &agrave;quele esp&iacute;rito sombrio? Pobre velho ! Foi para este<br \/>\n    quarto escuro que se dirigiram os dois irm&atilde;os.<\/p>\n<p><b>VI<\/b><\/p>\n<p>AO chegar &agrave; porta dos aposentos do pai, experimentou Jorge uma primeira<br \/>\n    hesita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Luis tratava sempre os filhos de uma maneira t&atilde;o austera, abria-se-lhes<br \/>\n    t&atilde;o pouco em confidencias, mostrava t&atilde;o m&aacute; vontade em<br \/>\n    ter com eles longas e s&eacute;rias conversa&ccedil;&otilde;es, que Jorge<br \/>\n    precisava de exercer um grande esfor&ccedil;o sobre si mesmo para dar aquele<br \/>\n    passo t&atilde;o fora dos seus h&aacute;bitos.<\/p>\n<p> Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pai no pr&oacute;prio quarto<br \/>\n    dele ; a estranheza do facto seria pois j&aacute; uma raz&atilde;o bastante<br \/>\n    para os perturbar, ainda quando n&atilde;o concorresse para o mesmo efeito<br \/>\n    a natureza do assunto da confer&ecirc;ncia, que n&atilde;o podia ser mais<br \/>\n    solene.<\/p>\n<p> A resolu&ccedil;&atilde;o de Jorge era, por&eacute;m, muito forte, e o entusiasmo<br \/>\n    de Maur&iacute;cio muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por<br \/>\n    aquela quase instintiva timidez.<\/p>\n<p> Jorge bateu &agrave; porta com intimo sobressalto.<\/p>\n<p> Respondeu imediatamente a voz de D. Luis, mandando entrar quem batia.<\/p>\n<p> Os dois irm&atilde;os impeliram diante de si a porta, e afastando o reposteiro<br \/>\n    entraram.<\/p>\n<p> Os raios do luar tinham j&aacute; principiado a penetrar na sala, desenhando<br \/>\n    no pavimento as projec&ccedil;&otilde;es das janelas ogivais, que a pouco<br \/>\n    e pouco cresciam para o interior.<\/p>\n<p>Do lado da porta eram, por&eacute;m, ainda espessas as sombras, e D. Luis<br \/>\n    n&atilde;o podia pois conhecer quem entrava.<\/p>\n<p> A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a<br \/>\n    paci&ecirc;ncia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao lugar onde<br \/>\n    ele os esperava, escutando com estranheza aqueles passos, sem poder conjecturar<br \/>\n    de quem fossem.<\/p>\n<p> Afinal, pr&oacute;ximos da cadeira do pai, pararam e guardaram por instantes<br \/>\n    sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia daquela misteriosa<br \/>\n    luz uma singular express&atilde;o de gravidade.<\/p>\n<p> D. Luis, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para eles, e perguntou-lhes<br \/>\n    admirado : &#8212; O que &eacute; que pretendem ? Jorge foi o que respondeu:<br \/>\n    &#8212; Se V. Ex.a nos quiser ouvir, meu pai, desej&aacute;vamos falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Falar-me?! &#8212; repetiu D. Luis, em tom de espanto e quase irritado.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhor.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; singular ! E a prop&oacute;sito de qu&ecirc; ? &#8212;<br \/>\n    Do nosso futuro.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a<br \/>\n    sua crescente irrita&ccedil;&atilde;o. &#8212; Deu-lhes para pensar nele agora<br \/>\n    pelo luar ? &#8212; Penso nele h&aacute; muitos dias, meu pai. H&aacute; muitos<br \/>\n    dias que ele me inquieta.<\/p>\n<p> D. Luis fez um movimento, que imediatamente reprimiu, e passou a interrogar<br \/>\n    Maur&iacute;cio no mesmo tom de afectada ironia: &#8212; Tamb&eacute;m te<br \/>\n    atacaram as mesmas inquieta&ccedil;&otilde;es pelo futuro ? &#8212; H&aacute;<br \/>\n    menos tempo, mas com maior fundamento talvez &#8212; respondeu- lhe com firmeza<br \/>\n    o filho interrogado.<\/p>\n<p> D. Luis calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge: &#8212;<br \/>\n    Ent&atilde;o vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.<\/p>\n<p> E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos bra&ccedil;os da cadeira.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai &#8212; principiou Jorge. &#8212; Perdoe-me a liberdade<br \/>\n    que tomo de falar nisto a V. Ex.a, mas &eacute; o empenho que fa&ccedil;o<br \/>\n    em que o nome e o cr&eacute;dito de nossa fam&iacute;lia se conservem sem<br \/>\n    mancha&#8230; que&#8230;<\/p>\n<p> O fidalgo interrompeu-o, batendo com viol&ecirc;ncia no peitoril da janela.<\/p>\n<p> &#8212; E quem o manchou ? &#8212; rugiu ele, quase meio erguido e fitando<br \/>\n    o filho com um olhar, cujo fulgor at&eacute; &agrave; claridade t&iacute;bia<br \/>\n    da Lua se percebia.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; hoje ningu&eacute;m: manch&aacute;-lo-ei eu talvez amanh&atilde;,<br \/>\n    quando n&atilde;o puder satisfazer os compromissos da nossa casa; manch&aacute;-lo-ei<br \/>\n    quando me bater &agrave; porta a mis&eacute;ria e me encontrar com h&aacute;bitos<br \/>\n    de ociosidade e sem a ci&ecirc;ncia do trabalho &#8212; respondeu pl&agrave;cidamente<br \/>\n    Jorge &agrave; violenta interpela&ccedil;&atilde;o do pai.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o j&aacute; sabes que te bater&aacute; &agrave; porta<br \/>\n    a mis&egrave;ria ? &#8212; inquiriu o fidalgo, amargamente.<\/p>\n<p> Desta vez foi Mauricio quem respondeu: &#8212; H&aacute; quem se encarregue<br \/>\n    de no-lo ensinar. Em cada homem do campo temos um mestre, e as crian&ccedil;as<br \/>\n    por a&iacute; j&aacute; sabem dizer que os Fidalgos da Casa Mourisca est&atilde;o<br \/>\n    empenhados.<\/p>\n<p> D. Luis a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro candente<br \/>\n    : virou-se irritado para Jorge, falando quase a custo : &#8212; No meu tempo<br \/>\n    pagavam-se essas li&ccedil;&otilde;es bem caras ! Para isso serviam ent&atilde;o,<br \/>\n    pelo menos, os rapazes das nossas fam&iacute;lias.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m n&oacute;s as pagar&iacute;amos, senhor; mas, voltando<br \/>\n    a casa, dir-nos-ia a consci&ecirc;ncia que n&atilde;o ficavam assim saldadas<br \/>\n    todas as d&iacute;vidas.<\/p>\n<p> O orgulho e a vingan&ccedil;a estariam satisfeitos ; mas a raz&atilde;o<br \/>\n    e o dever, n&atilde;o &#8212; contestou-lhe Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o queiram dizer-me o que lhes manda a raz&atilde;o e&#8230;<br \/>\n    e o que mais?&#8230; Ah, sim&#8230; e mais o dever.<\/p>\n<p> Jorge sem se perturbar, acudiu: &#8212; Mandam-nos trabalhar para remir<br \/>\n    essas d&iacute;vidas, lutar pela integridade destes bens, que s&atilde;o nossa<br \/>\n    heran&ccedil;a, aument&aacute;-los antes, se for poss&iacute;vel; mandam-nos<br \/>\n    manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, destruindo para<br \/>\n    isso os fundamentos da sua insolencia. A raz&atilde;o, meu pai, diz-nos que<br \/>\n    &eacute; uma vergonha e um crime para os nossos vinte anos a vida ociosa e<br \/>\n    in&uacute;til que passamos aqui.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem ; querem ent&atilde;o, meus filhos, que eu lhes d&ecirc;<br \/>\n    um modo de vida ; v&ecirc;m aqui no prop&oacute;sito de arguir-me por me ter<br \/>\n    descuidado de os&#8230; arrumar? O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor<br \/>\n    burgu&ecirc;s, t&ocirc;da a &ecirc;nfase sarc&aacute;stica, que lhe inspiravam<br \/>\n    a sua irrita&ccedil;&atilde;o e orgulho aristocr&aacute;tico.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, meu pai &#8212; insistiu Jorge &#8212; vimos apenas<br \/>\n    lembrar a V.<\/p>\n<p> Ex.1 que chegamos a uma idade em que j&aacute; nos n&atilde;o satisfazem<br \/>\n    os gozos da vida de rapaz, de que o muito amor de V. Ex.&ordf; nos tem permitido<br \/>\n    saciar. Vimos pedir-lhe que nos conceda agora licen&ccedil;a de nos ocuparmos<br \/>\n    de outra ordem de id&eacute;ias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar<br \/>\n    em n&oacute;s desejos novos, vimos respeitosamente anunci&aacute;-lo a V.<\/p>\n<p> Ex.&ordf; e rogar-lhe a permiss&atilde;o para realiz&aacute;-los.<\/p>\n<p> D. Luis sorriu ir&ocirc;nico, porque n&atilde;o podia ainda tomar a s&eacute;rio<br \/>\n    a resolu&ccedil;&atilde;o dos filhos, em quem s&oacute; via duas crian&ccedil;as<br \/>\n    ; e continuou zombando : &#8212; Est&aacute; bem. Ent&atilde;o tu o que queres<br \/>\n    ser? Jorge respondeu prontamente: &#8212; Procurador de V. Ex.&ordf; na administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da nossa casa.<\/p>\n<p> D. Luis olhou desta vez para o filho mais s&egrave;riamente, porque lhe<br \/>\n    causara impress&atilde;o a firmeza e prontid&atilde;o da resposta, em vez<br \/>\n    das titubea&ccedil;&otilde;es que esperava. Convenceu-se de que Jorge n&atilde;o<br \/>\n    procedia levianamente de todo, e que nele havia uma ten&ccedil;&atilde;o formada.<br \/>\n    Voltando-se para Maur&iacute;cio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que<br \/>\n    principiara : &#8212; E tu? Queres ir para o Brasil? Maur&iacute;cio n&atilde;o<br \/>\n    tinha, como Jorge, uma resposta pronta, porque nele o projecto era apenas<br \/>\n    uma resolu&ccedil;&atilde;o vaga e mal definida, e n&atilde;o um plano fixo<br \/>\n    e meditado como o do irm&atilde;o. Era nessas formas vagas que ele mais o<br \/>\n    namorava, e talvez ao pretender fix&aacute;-lo, principiasse a experimentar<br \/>\n    as primeiras repugnancias e desilus&otilde;es.<\/p>\n<p> D. Luis esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas como<br \/>\n    o visse hesitar, continuou, encolhendo os ombros: &#8212; Ainda n&atilde;o<br \/>\n    pensaste nisso. Bem. Ou&ccedil;amos ent&atilde;o primeiro teu irm&atilde;o.<br \/>\n    Visto isso achas tu que, sob a tua ger&ecirc;ncia, a administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da nossa casa prosperaria? &#8212; Creio que n&atilde;o iria pior conduzida<br \/>\n    do que vai. V. Ex.&quot; conhece perfeitamente que n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    grande fa&ccedil;anha ir t&atilde;o longe como frei Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; &Euml; um homem experiente.<\/p>\n<p> &#8212; Triste resultado o da experi&ecirc;ncia. O pai deve, melhor do que<br \/>\n    n&oacute;s, saber o estado dos neg&oacute;cios desta casa; mas quer-me parecer<br \/>\n    que n&atilde;o me enganarei muito, conjecturando a maneira por que eles v&atilde;o.<br \/>\n    Pedir emprestado sob encargos e hipotecas pesad&iacute;ssimos, n&atilde;o<br \/>\n    para melhorar o que ainda possu&iacute;mos, mas para consumir o pouco que<br \/>\n    se obt&eacute;m em gastos improdutivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio<br \/>\n    nada lucra e com que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras<br \/>\n    n&atilde;o arrendadas, &eacute; a pr&aacute;tica at&eacute; hoje seguida,<br \/>\n    t&atilde;o f&aacute;cil como funesta.<\/p>\n<p> &#8212; E quem te disse que &eacute; poss&iacute;vel fazer outra coisa?<br \/>\n    &#8212; objectou j&aacute; sem ironia o pai. &#8212; Os tempos actu&aacute;is<br \/>\n    s&atilde;o de prova para fam&iacute;lias como as nossas, a mar&eacute; que<br \/>\n    sobe traz &agrave; flor da &aacute;gua o que era lodo em outros tempos.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-me tentar, meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Tentar o qu&ecirc;, crian&ccedil;a? Queres ser enganado e escarnecido<br \/>\n    por esses manhosos propriet&aacute;rios e rendeiros, com quem infelizmente<br \/>\n    temos de lidar? Que sabes tu da administra&ccedil;&atilde;o dos bens rurais?<br \/>\n    &#8212; Aprenderei. A ci&ecirc;ncia, patente &agrave;s faculdades de frei<br \/>\n    Janu&aacute;rio, n&atilde;o &eacute; defesa a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Nem tu sabes o que pedes. N&atilde;o corarias de vergonrn no trato<br \/>\n    familiar, a que esses neg&oacute;cios obrigam, com homens grosseiros, insolentes,<br \/>\n    miser&aacute;veis de ontem, e que hoje nos atiram &agrave; cara com a sua<br \/>\n    riqueza? &#8212; Procuraria de entre esses os de mais educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O velho encolheu os ombros com impaci&ecirc;ncia, murmurando: &#8212; Educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ! Eles ! &#8212; Por&eacute;m, meu pai &#8212; argumentou Jorge com mais veem&ecirc;ncia<br \/>\n    &#8212; &eacute; uma triste necessidade esta. Pense bem. Se &eacute; vergonha,<br \/>\n    como diz, procur&aacute;-los para tratar neg&oacute;cios, maior vergonha ser&aacute;<br \/>\n    que eles nos procurem para nos expulsar desta casa; se a um homem da nossa<br \/>\n    fam&iacute;lia ficar mal velar por ela, pior e menos decoroso lhe ser&aacute;<br \/>\n    ter de deixar esta terra, onde j&aacute; n&atilde;o possua um palmo de seu,<br \/>\n    sem poder atribuir essa desgra&ccedil;a sen&atilde;o &agrave; sua pr&ograve;pria<br \/>\n    inc&ugrave;ria. A mem&ograve;ria dos nossos antepassados sofrer&aacute; menos<br \/>\n    se um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam para livrar da destrui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de m&atilde;os alheias o solar que lhes pertencia, do que se se contar,<br \/>\n    apontando para as ru&iacute;nas desta casa, que eles a deixaram cair e invadir<br \/>\n    por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es que a<br \/>\n    ilustravam. &Eacute; pouco para ambicionar-se esta fama.<\/p>\n<p> &#8212; E depois, meu pai &#8212; acudiu Maur&iacute;cio &#8212; que dor<br \/>\n    n&atilde;o seria o ver devassado por invasores o quarto em que morreu minha<br \/>\n    m&atilde;e, esta sala, o sal&atilde;o onde brinc&aacute;vamos em crian&ccedil;as,<br \/>\n    e at&eacute; os aposentos de nossa irm&atilde;, da sua querida Beatriz? A<br \/>\n    mem&oacute;ria da filha morta comovia sempre o cora&ccedil;&atilde;o daquele<br \/>\n    velho, que ela ainda povoava de saudades ; por isso curvou desalentado a cabe&ccedil;a<br \/>\n    assim que lhe ouviu o nome, e murmurou : &#8212; N&atilde;o ; a minha mis&eacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o ir&aacute; t&atilde;o longe. Creio que Deus n&atilde;o me reservar&aacute;<br \/>\n    esse tremendo castigo, Morrerei primeiro.<\/p>\n<p> &#8212; E n&oacute;s, se lhe sobrevivermos, senhor, n&atilde;o sofreremos<br \/>\n    tamb&eacute;m? Querer&aacute; legar a seus filhos uma heran&ccedil;a dessas<br \/>\n    ? &#8212; interpelou-o Jorge.<\/p>\n<p> O pai escondeu a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, j&aacute; sem sinais<br \/>\n    de rispidez com que principiara a cena, e n&atilde;o p&ocirc;de responder<br \/>\n    a esta interroga&ccedil;&atilde;o de Jorge.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio sentia-se comovido ante aquela sincera manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de dor, que observava no pai, na presen&ccedil;a deles de ordin&aacute;rio<br \/>\n    t&atilde;o reservado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &#8212; acudiu ele, impelido por aquele sentimento &#8212;<br \/>\n    o interior da nossa casa n&atilde;o ser&aacute; devassado por estranhos, nem<br \/>\n    na sua vida, meu pai, nem depois da sua morte. D&ecirc;-nos apenas permiss&atilde;o<br \/>\n    para trabalharmos e n&oacute;s juramos evitar essa humilha&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Luis ergueu finalmente a cabe&ccedil;a e pela primeira vez fez sinal<br \/>\n    aos filhos para que se sentassem junto de si.<\/p>\n<p> Depois, dirigindo-se ao mais velho, j&aacute; em tom menos severo: &#8212;<br \/>\n    Jorge &#8212; ponderou ele &#8212; a tarefa que queres empreender n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; f&aacute;cil. &Eacute; verdade que n&atilde;o t&ecirc;m corrido pelas<br \/>\n    minhas m&atilde;os esses neg&oacute;cios, mas sei deles o bastante para prever<br \/>\n    os espinhos que neles encontrar&iacute;as. Frei Janu&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; um homem de talento, bem o sei, mas tem experi&ecirc;ncia e boa vontade<br \/>\n    de nos servir, e ainda assim n&atilde;o prospera esta casa, que foi das melhores<br \/>\n    da prov&iacute;ncia. Como queres tu, pois, h&aacute; poucos dias uma crian&ccedil;a<br \/>\n    que em nada disto pensa vas, tomar de repente sobre ti o encargo desta ger&ecirc;ncia,<br \/>\n    e como imaginas que danas boa conta dela? Os teus planos s&atilde;o vagos.<br \/>\n    Falas-me mais nos defe?tos dos seguidos at&eacute; hoje, do que nas excel&ecirc;ncias<br \/>\n    dos teus.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, meu pai, mas n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o vagos<br \/>\n    como os sup&otilde;e. Pensei j&aacute; muito nisso. As dificuldades que ainda<br \/>\n    tenho, com tempo e medita &ccedil;&atilde;o espero resolv&ecirc;-las; al&eacute;m<br \/>\n    disso&#8230; auxiliado&#8230; quando&#8230; necess&aacute;rio for&#8230; dos conselhos de<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio, espero que nos ser&aacute; possivel realizar o meu intento.<br \/>\n    Se me permite exponho-lhe esses planos em poucas palavras.<\/p>\n<p> Tomando o sil&ecirc;ncio do pai por sinal de aquiesc&ecirc;ncia, Jorge encetou<br \/>\n    a exposi&ccedil;&atilde;o dos seus projectos econ&oacute;micos.<\/p>\n<p> N&atilde;o o seguiremos no longo relat&oacute;rio, que pai e irm&atilde;o<br \/>\n    escutaram admirados de t&atilde;o inesperada ci&ecirc;ncia. De facto, as informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Tom&eacute; os frutos da pr&oacute;pria reflex&atilde;o, as id&eacute;ias<br \/>\n    adquiridas na leitura meditada nos poucos livros da sua biblioteca, foram<br \/>\n    os elementos com que o esp&iacute;rito essencialmente met&oacute;dico e organizador<br \/>\n    de Jorge constru&iacute;ra um completo sistema de administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que, se tinha defeitos, n&atilde;o eram para ser apreciados pelo velho fidalgo,<br \/>\n    que nunca fora dado a esses exames. A exposi&ccedil;&atilde;o clara, o tom<br \/>\n    de convic&ccedil;&atilde;o, o calor do quase entusiasmo com que o filho falava,<br \/>\n    entusiasmo contagioso, exerceram no velho uma profunda influ&ecirc;ncia. Ao<br \/>\n    concluir, Jorge tinha vencido a causa.<\/p>\n<p> D. Luis estava no fundo da alma convicto de que este filho fora destinado<br \/>\n    pela Provid&ecirc;ncia para ser o restaurador de sua casa.<\/p>\n<p> E, contudo, havia um ponto essencial no plano de Jorge que ele n&atilde;o<br \/>\n    mencionara. Para realizar a maior parte das medidas econ&oacute;micas, cujos<br \/>\n    maravilhosos efeitos com tanta eloq&uuml;&ecirc;ncia expusera, era indispens&aacute;vel<br \/>\n    um capital inicial n&atilde;o pouco avultado, e Jorge n&atilde;o dissera como<br \/>\n    havia de obt&ecirc;-lo. Esta era a parte secreta do seu plano; aquela cuja<br \/>\n    men&ccedil;&atilde;o bastaria para desvanecer toda a boa impress&atilde;o<br \/>\n    produzida no &acirc;nimo de D. Luis.<\/p>\n<p> O capital inicial devia vir do empr&eacute;stimo razo&aacute;vel, oferecido<br \/>\n    por Tom&eacute; da P&#038;oacutoacute;voa, ou obtido sob a garantia do cr&eacute;dito<br \/>\n    dele. Esta opera&ccedil;&atilde;o era indispens&aacute;vel, era a &uacute;nica<br \/>\n    talvez salvadora; porquanto os outros capitalistas tinham sempre em vista<br \/>\n    apoderar-se dos bens do fidalgo, e por isso somente emprestavam sob condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    oneros&iacute;ssimas e perigosas.<\/p>\n<p> Mas o orgulho de D. Luis n&atilde;o lhe deixaria aceitar favores de Tom&eacute;<br \/>\n    ; nunca ele consentiria na menor transac&ccedil;&atilde;o com o que fora seu<br \/>\n    criado.<\/p>\n<p> Por isso Jorge guardou para si somente esta parte das suas projectadas opera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e com D. Luis felizmente era f&aacute;cil passar por alto certos pontos de<br \/>\n    quest&otilde;es desta natureza, que ele mal examinava.<\/p>\n<p> Assim, pois, o pai acabou por dar o consentimento pedido.<\/p>\n<p> &#8212; Seja; n&atilde;o me oponho a que te ocupes da ger&ecirc;ncia da<br \/>\n    casa, que dentro em pouco tempo ser&aacute; vossa. Vejo que tens reflectido<br \/>\n    nisso mais do que eu julgava ; contudo marco duas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    : a primeira &eacute; que nunca fa&ccedil;as contratos que sejam vergonhosos<br \/>\n    para o nome da nossa fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Prometo-lhe que n&atilde;o o envergonharei.<\/p>\n<p> &#8212; A segunda &eacute; que n&atilde;o desprezes os conselhos de frei<br \/>\n    Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Por certo que n&atilde;o prescindirei das suas informa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Eu lhe darei pane do que resolvi. E agora&#8230;&#8212;acrescentou 3.<br \/>\n    Luis &#8212; vamos ao resto&#8230; E Maur&iacute;cio? Maur&iacute;cio, interpelado<br \/>\n    pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas dificuldades para responder &agrave;<br \/>\n    interpela&ccedil;&atilde;o se Jorge n&atilde;o respondesse por ele : &#8212;<br \/>\n    Tamb&eacute;m pensei em Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! tamb&eacute;m ? &#8212; disse o pai, n&atilde;o podendo ocultar<br \/>\n    a quase admira&ccedil;&atilde;o, que lhe estava impondo Jorge.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio interrogou tamb&eacute;m com a vista o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Se Maur&iacute;cio confia em mim, &eacute; in&uacute;til a sua perman&ecirc;ncia<br \/>\n    aqui na aldeia, onde n&atilde;o tem em que se ocupe.<\/p>\n<p> &#8212; Tens a minha plena confian&ccedil;a, Jorge. E a n&atilde;o me quereres<br \/>\n    para teu guarda-livros&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Lembrou-me que Maur&iacute;cio devia partir para Lisboa. L&aacute;<br \/>\n    poder&aacute; ser mais &uacute;til a si e &agrave; nossa casa. &Eacute; verdade<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; essa por ora uma medida econ&ocirc;mica; antes obriga<br \/>\n    a alguns sacrif&iacute;cios. Far-se-&atilde;o, por&eacute;m, se precisos forem,<br \/>\n    e Maur&iacute;cio tem brios bastantes para n&atilde;o os deixar ficar improdutivos.<\/p>\n<p> D. Luis fez um gesto de d&uacute;vida.<\/p>\n<p> &#8212; Hum ! &#8212; objectou ele &#8212; que carreira pode nestes tempos<br \/>\n    seguir na capital um filho meu? Queres acaso que ele v&aacute; renegar da<br \/>\n    causa, que a nossa fam&iacute;lia sempre abra&ccedil;ou, e fazer pacto com<br \/>\n    essa gente que hoje governa? &#8212; Confesso que mal pensei ainda na carreira<br \/>\n    que lhe convir&aacute; seguir; mas somente l&aacute; &eacute; que &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel a escolha. Parece-me que sem desonra se poder&aacute; trabalhar<br \/>\n    e ser &uacute;til &agrave; p&aacute;tria, que &eacute; sempre a mesma, qualquer<br \/>\n    que seja o partido que a governe. Mas o caso n&atilde;o urge. V. Ex.&ordf;<br \/>\n    poder&aacute; escrever nesse sentido a nossa prima Gabriela, que melhor que<br \/>\n    ningu&eacute;m poder&aacute; fornecer-nos valiosas indica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Gabriela?! A senhora baronesa de Souto Real! &#8212; acentuou sarc&agrave;sticamente<br \/>\n    o fidalgo. &#8212; Ora adeus! uma doida&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tem-se mostrado sempre nossa amiga &#8212; corrigiu Jorge &#8212;<br \/>\n    e ainda por ocasi&atilde;o do falecimento de Beatriz&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, bom cora&ccedil;&atilde;o tem ela. Mas a sociedade em que vive,<br \/>\n    desde que casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades<br \/>\n    da &eacute;poca. N&atilde;o se lembra de que seu pai foi um militar, que morreu<br \/>\n    com as armas na m&atilde;o a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus<br \/>\n    amigos entre a gente que a fez &oacute;rf&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ela n&atilde;o tem cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para &oacute;dios, bem o sabe. Parece-me contudo que, apesar das suas apar&ecirc;ncias<br \/>\n    frivolas, tem um fundo de bom senso, de onde pode sair um aproveit&aacute;vel<br \/>\n    conselho. Fale-lhe V. Ex.&#8217; com franqueza, diga-lhe quais as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sob que entende poder Maur&iacute;cio entrar na sociedade, onde vivem sem<br \/>\n    apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ela o compreender&aacute;<br \/>\n    e lhe dar&aacute; as informa&ccedil;&otilde;es pedidas.<\/p>\n<p> Ainda nisto se deixou convencer D. Luis pela eloq&uuml;&ecirc;ncia do filho.<\/p>\n<p>Jorge sabia que a prima era uma mulher de influ&ecirc;ncia no mundo pol&iacute;tico<br \/>\n    e elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia dela conseguisse aplanar<br \/>\n    as dificuldades, em que naturalmente se embara&ccedil;ariam o orgulho e a<br \/>\n    paix&atilde;o partid&aacute;ria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado<br \/>\n    que esperava, resolveu ele pr&oacute;prio escrever-lhe confidencialmente.<\/p>\n<p> Quando o pai e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus artigos<br \/>\n    sancionado o projecto de Jorge.<\/p>\n<p><b>VII<\/b><\/p>\n<p> FREI Janu&aacute;rio, dormida a sua regalada sesta, disp&ocirc;s-se a fazer<br \/>\n    horas para a ceia, indo comunicar ao fidalgo a grande nova das suspeitas e<br \/>\n    subversivas disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito, em que encontrou<br \/>\n    o filho mais velho.<\/p>\n<p> Ainda D. Lu&iacute;s meditava nas mudan&ccedil;as que ia sofrer o regimen<br \/>\n    econ&oacute;mico da casa e nas mais ou menos prov&aacute;veis consequ&ecirc;ncias<br \/>\n    delas, quando a voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir &agrave; porta,<br \/>\n    articulando o costumado &#8212; licet ? &#8212; E sem esperar a resposta o<br \/>\n    padre frei Janu&aacute;rio foi entrando.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda &agrave;s escuras, Sr. D. Luis?! &#8212; Nem sempre temos<br \/>\n    para nos alumiar luzes t&atilde;o belas como esta&#8212;respondeu o fidalgo,<br \/>\n    designando o luar que j&aacute; lhe inundava o quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Quer n&atilde;o ; isto de luar n&atilde;o &eacute; l&aacute; das<br \/>\n    melhores coisas, e depois o ar da noite&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A noite est&aacute; que parece de Maio.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas sempre os vapores dos campos&#8230; Eu acho mais prudente acender<br \/>\n    luz e fechar as janelas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me oponho, frei Janu&aacute;rio, at&eacute; porque temos<br \/>\n    que falar.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? Tamb&eacute;m tenho que comunicar a V. Ex.a.<\/p>\n<p> &#8212; Pois muito bem. Vamos a isso.<\/p>\n<p> Fecharam-se as janelas, vieram as luzes e disp&ocirc;s-se tudo para a confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> D. Luis exigiu que frei Janu&aacute;rio falasse primeiro.<\/p>\n<p> &#8212; Visto isso, principiarei, e o que sinto &eacute; que seja para dar<br \/>\n    a V. Ex.&#8217; not&iacute;cias assustadoras &#8212; preludiou o egresso. &#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Assustadoras? Que &eacute; afinal? Alguma insolente exig&ecirc;ncia<br \/>\n    de credor.<\/p>\n<p> &#8212; Nada, nada ; a coisa &eacute; outra. Trata-se do filho de V. Ex.1.<\/p>\n<p> &#8212; De Maur&iacute;cio ? que fez ele ? &#8212; N&atilde;o, senhor ;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; do Sr. D. Maur&iacute;cio que eu falo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? &Eacute; de Jorge ?<\/p>\n<p>&#8212; Justamente. Eu conto a V. Ex.&ordf;.<\/p>\n<p> E frei Janu&aacute;rio principiou a expor ao fidalgo os pormenores da discuss&atilde;o<br \/>\n    que tivera com Jorge, ao jantar, e a coment&aacute;-la com reflex&otilde;es<br \/>\n    pr&oacute;prias. Horas antes, esta comunica&ccedil;&atilde;o teria talvez<br \/>\n    produzido o efeito estupendo, que o egresso calculara; mas a pr&eacute;via<br \/>\n    entrevista de D. Luis com os filhos tirara t&ocirc;da a import&acirc;ncia<br \/>\n    &agrave; revela&ccedil;&atilde;o. D. Luis apenas franziu o sobrolho &agrave;<br \/>\n    parte mais demag&oacute;gica das doutrinas do filho, mas esse mesmo sinal<br \/>\n    de desgosto foi passageiro, e quando o procurador acabou a sua estirada confer&ecirc;ncia,<br \/>\n    em vez da indigna&ccedil;&atilde;o e do espanto, com que esperava v&ecirc;-la<br \/>\n    acolhida, apenas escutou estas simples palavras, pronunciadas com a maior<br \/>\n    fleuma: &#8212; E ent&atilde;o que pensa disto, frei Janu&aacute;rio? L&aacute;<br \/>\n    de si para si o padre replicou &agrave; pergunta com a sua express&atilde;o<br \/>\n    favorita de desapontamento. &#8212; L&eacute;rias ! &#8212; mas em voz alta<br \/>\n    n&atilde;o foi t&atilde;o expressivo, e respondeu em frase mais parlamentar.<\/p>\n<p> &#8212; O que penso? Que hei-de eu pensar? E V. Ex.&quot; o que pensa? Eu<br \/>\n    por mim penso que anda aqui febre liberal; o veneno j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    no sangue. T&atilde;o certo ! Aquilo d&aacute; logo sinal de si. Em eles principiando<br \/>\n    a cantar-me ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus bot&otilde;es:<br \/>\n    &laquo;Pois sim, sim, est&aacute;s arranjadinho&raquo;. O Sr. D. Jorge conversou<br \/>\n    por a&iacute; com algum ma&ccedil;&atilde;o. Quem sabe? Alguns desses engenheiros<br \/>\n    que est&atilde;o na estalagem do Manco. Isto de engenheiros &eacute; gente<br \/>\n    que se n&atilde;o confessa; ou ent&atilde;o s&atilde;o coisas do hortel&atilde;o,<br \/>\n    que eu n&atilde;o seja quem sou se ainda n&atilde;o h&aacute;-de dar que falar<br \/>\n    nesta casa ; mas o certo &eacute; que lhe meteram na cabe&ccedil;a essas caraminholas,<br \/>\n    e se V. Ex.&ordf; n&atilde;o olha por isso, eu lhe protesto que d&atilde;o<br \/>\n    com o rapaz ma&ccedil;&atilde;o, o que &eacute; uma pena, porque &eacute;<br \/>\n    um bom rapazinho. Mas quando eles me v&ecirc;m com a nobreza do trabalho aos<br \/>\n    contos, tor&ccedil;o-lhe logo o nariz.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que desta vez s&atilde;o sem fundamento os seus receios,<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio. Afinal, pondo de parte alguma express&atilde;o menos<br \/>\n    sensata, e que o verdor dos anos desculpa, as id&eacute;ias do rapaz sao razo&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; Razo&aacute;veis ? &#8212; Pois porque n&atilde;o? Que quer ele?<br \/>\n    Ocupar em alguma coisa o tempo que perde na ociosidade. Est&aacute; cansado<br \/>\n    da vida de rapaz.<\/p>\n<p> &Eacute; natural e &eacute; louv&aacute;vel. E em que quer ele empreg&aacute;-lo?<br \/>\n    No que amanh&atilde; ser&aacute; constrangido a fazer com pior resultado;<br \/>\n    no que eu devera ter feito na idade dele ; em trabalhar, em gerir os bens<br \/>\n    da sua casa. Mais vale ent&atilde;o que principie j&aacute;, frei Janu&aacute;rio,<br \/>\n    sob a guia dos seus conselhos, do que tarde, &agrave;s cegas e sem uma pessoa<br \/>\n    de confian&ccedil;a a encaminh&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; verdade, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ele falou-me nisso h&aacute; pouco.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! pois sempre fez o que disse ? ! &#8212; Fez, sim, e fez bem.<br \/>\n    Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no caso e dei-lhe a permiss&atilde;o<br \/>\n    que ele pediu. Era at&eacute; o que eu tinha para dizer-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, visto isso, de hoje em diante ?<\/p>\n<p>&#8212; De hoje em diante, Jorge se entender&aacute; consigo. O frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    precisa de descansar tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Eu ainda n&atilde;o estou cansado &#8212; resmungou o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Espero que dar&aacute; a meu filho todos os esclarecimentos de que<br \/>\n    ele precise e todos os conselhos da sua muita experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o seja essa a d&uacute;vida; mas, na verdade&#8230;<\/p>\n<p> O rel&oacute;gio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente<br \/>\n    a frase ao egresso.<\/p>\n<p> Pelos modos a ceia ia tardando.<\/p>\n<p> &#8212; com licen&ccedil;a &#8212; disse ele, levantando-se &#8212; eu vou<br \/>\n    ver como correm as coisas na cozinha.<\/p>\n<p> Mas nos corredores murmurava consigo, em lom aforism&aacute;tico : &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o tem que ver. Filho ma&ccedil;&atilde;o, pai idiota&#8230; casa perdida.<\/p>\n<p> Como frei Janu&aacute;rio suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos<br \/>\n    atento no desempenho dos seus grav&iacute;ssimos deveres, dirigiu-se, p&eacute;<br \/>\n    ante p&eacute;, &agrave; cozinha, a fim de surpreend&ecirc;-lo em flagrante.<\/p>\n<p> Ao avizinhar-se deu-lhe mais rebate &agrave;s suspeitas um acalorado travar<br \/>\n    de vozes, que de l&aacute; vinha.<\/p>\n<p> Espreitou. A criadagem estava em congresso ; orava o hortel&atilde;o, o<br \/>\n    inimigo irreconcili&aacute;vel do padre; escutavam-no os outros boquiabertos,<br \/>\n    e mais atento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo,<br \/>\n    com uma perna atravessada sobre a outra e as m&atilde;os a segurarem o joelho,<br \/>\n    nem ouvia o chiar das ca&ccedil;arolas nem se lembrava da ceia.<\/p>\n<p> O padre fumou com a descoberta.<\/p>\n<p> O hortel&atilde;o dizia: &#8212; Foi ent&atilde;o que o imperador&#8230; oh<br \/>\n    ! aquilo &eacute; que era um homem !&#8230;<\/p>\n<p> foi ent&atilde;o que ele fez aquela fala que l&aacute; est&aacute; t&ocirc;da<br \/>\n    na mem&oacute;ria do Mindelo, que foi onde n&oacute;s desembarc&aacute;mos,<br \/>\n    no dia 8 de Julho de 1832, ali pela tardinha.<\/p>\n<p> E o hortel&atilde;o, tomando uns ares solenes e endireitando o corpo, come&ccedil;ou<br \/>\n    recitando orat&ograve;riamente : &#8212; &laquo;Soldados! Aquelas praias s&atilde;o<br \/>\n    as do malfadado Portugal ; ali, vossos pais, m&atilde;es, filhos, esposas,<br \/>\n    parentes e amigos, suspiram pela vossa vinda e confiam&#8230;&raquo; Era de mais<br \/>\n    para a magnanimidade de frei Janu&aacute;rio. A proclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de D. Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que n&atilde;o<br \/>\n    era poucas vezes, gra&ccedil;as ao entusiasmo do hortel&atilde;o. Cedendo<br \/>\n    pois ao seu &acirc;nimo indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando<br \/>\n    : &#8212; Ent&atilde;o que pouca-vergonha &eacute; esta ? O fidalgo &agrave;<br \/>\n    espera da ceia, e esta s&uacute;cia de mandri&otilde;es aqui postos a ouvir<br \/>\n    as patranhas daquele senhor ! Os criados surpreendidos ergueram-se em alvoro&ccedil;o<br \/>\n    e tomaram os seus postos. O hortel&atilde;o reagiu, como era seu costume.<\/p>\n<p> &#8212; Patranhas ? isso l&aacute; mais devagar. Isto vi e ouvi eu, como<br \/>\n    o vejo e oi&ccedil;o a vossemec&ecirc;, e muito me honro em diz&ecirc;-lo.<br \/>\n    Patranhas ! Quem quiser, pode 1er tudo isso nas gazetas e muitas coisas mais.<br \/>\n    Eu fui soldado do imperador e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bom, est&aacute; bom: pouco falat&oacute;rio. Voc&ecirc;<br \/>\n    o que &eacute;, &eacute; hortel&atilde;o; e o lugar dos hortel&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; na cozinha.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; se vamos a isso, tamb&eacute;m o de capel&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; ao p&eacute; das panelas, e, contudo, vossemec&ecirc; pode dizer-se<br \/>\n    que n&atilde;o tem outro posto onde esteja mais firme.<\/p>\n<p> &#8212; Tenha cuidado com a l&iacute;ngua : olhe que um dia a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    esgota-se e depois n&atilde;o se queixe.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se meta o sr. padre comigo, se n&atilde;o quer ouvir.<br \/>\n    Olhe que eu fui soldado, e n&atilde;o &eacute; um frade que me leva a melhor.<br \/>\n    A vontade que eles nos t&ecirc;m sei eu, que ainda me lembra de ver arder<br \/>\n    por os quatro cantos o convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de<br \/>\n    Julho, e por pouco que n&atilde;o morriam queimados todos os meus camaradas<br \/>\n    de ca&ccedil;adores 5. Hem? que diz vossemec&ecirc; &agrave;quela caridade?<br \/>\n    &#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o se quer calar ? Eu direi ao Sr. D. Luis as conversas<br \/>\n    que voc&ecirc; tem aqui na cozinha e a maneira por que fala da religi&atilde;o<br \/>\n    e da Igreja.<\/p>\n<p> &#8212; Quem falou em tal? Eu em quem falo &eacute; nos frades, que &eacute;<br \/>\n    coisa diferente.<\/p>\n<p> A desaven&ccedil;a terminou com a s&uacute;bita sa&iacute;da do padre que<br \/>\n    perdia as estribeiras nestas lutas. A criadagem ficou rindo pelas costas,<br \/>\n    e o hortel&atilde;o passou a contar por mi&uacute;do como tinha sido o caso<br \/>\n    do inc&ecirc;ndio do convento dos Franciscanos.<\/p>\n<p> O padre, na presen&ccedil;a do fidalgo, encetou a sua milion&egrave;sima<br \/>\n    queixa contra o jardineiro, e acabou por dar o milion&egrave;simo conselho<br \/>\n    da sua imediata demiss&atilde;o. O fidalgo ouviu-o pela milion&egrave;sima<br \/>\n    vez com o sil&ecirc;ncio do costume.<\/p>\n<p> Da&iacute; a momentos estava o procurador aplacado&#8230; porque ceava.<\/p>\n<p> &Agrave; ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m falou durante a refei&ccedil;&atilde;o nocturna. O padre<br \/>\n    estava amuado, D. Luis pensativo, Jorge e Maur&iacute;cio trocando olhares<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia sobre o aspecto carrancudo do padre.<\/p>\n<p> Ao erguer-se da mesa, D. Luis disse para o filho mais velho : &#8212; O<br \/>\n    sr. frei Janu&aacute;rio j&aacute; est&aacute; informado do que hoje se combinou.<\/p>\n<p> Amanh&atilde; ele que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.<\/p>\n<p> E depois de uma seca &laquo;boa-noite&raquo;, D. Luis saiu da sala.<\/p>\n<p> Os filhos levantaram-se para tamb&eacute;m se retirarem.<\/p>\n<p> Jorge interrogou o padre: &#8212; A que horas quer que o procure amanh&atilde;,<br \/>\n    sr. frei Janu&aacute;rio ? &#8212; A que horas?&#8230; Ah!&#8230; sim&#8230; isso&#8230; eu<br \/>\n    sei&#8230; A coisa n&atilde;o &eacute; de pressa&#8230; Se n&atilde;o for amanh&atilde;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;-de ser amanh&atilde; &#8212; atalhou Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;-de ser! Essa &eacute; boa! Sabe l&aacute; a minha vida?<br \/>\n    H&aacute;-de ser! Tem gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o lhe tirarei muito tempo. Sossegue. Quero s&oacute; que<br \/>\n    me passe os livros e os pap&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8212; Os livros!&#8230; e os pap&eacute;is&#8230; Mas para qu&ecirc;? &#8212;<br \/>\n    Porque de amanh&atilde; em diante tomo conta deles.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o me entendo com criancices. Na verdade o Sr. D. Luis<br \/>\n    fez-me o que eu nunca esperei dele. &Eacute; bem custoso receber tal paga<br \/>\n    no fim de tantos anos de servi&ccedil;o ! E ent&atilde;o que patetices ! Atender<br \/>\n    aos caprichos de uma crian&ccedil;a em coisas t&atilde;o s&eacute;rias como<br \/>\n    estas ! E sabe que mais, Sr. Jorge ? Eu n&atilde;o tenho vagar nem paci&ecirc;ncia<br \/>\n    para me p&ocirc;r agora a ensinar meninos.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-<br \/>\n    o, dizendo : &#8212; Mas quem lhe fala em ensinar ? Quem lhe pede li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou conselho ? &#8212; Ent&atilde;o para que me procura amanh&atilde; ? &#8212;<br \/>\n    Para que me d&ecirc; os livros e mais documentos relativos &agrave; ger&ecirc;ncia<br \/>\n    da casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. N&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    perguntas de disc&iacute;pulo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Percebo o que quer dizer na sua : s&atilde;o de juiz.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o. Quem o sup&otilde;e r&eacute;u? N&atilde;o, senhor.<br \/>\n    &Eacute; apenas uma curta confer&ecirc;ncia, como o trocar da senha entre<br \/>\n    as guardas que se rendem.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o o Sr. Jorge est&aacute; s&egrave;riamente resolvido<br \/>\n    a tomar conta disso ? &#8212; Muito s&egrave;riamente.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhores. H&aacute;-de ser bonito ! Mas isto &eacute; at&eacute;<br \/>\n    um caso de consci&ecirc;ncia, e eu n&atilde;o sei se devo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Aplaque os seus escr&uacute;pulos, frei Janu&aacute;rio. A responsabilidade<br \/>\n    de um procurador expira no dia em que a procura&ccedil;&atilde;o lhe &eacute;<br \/>\n    retirada pelo constituinte. At&eacute; amanh&atilde;. N&atilde;o se esque&ccedil;a<br \/>\n    de me apresentar todos os livros da sua escritura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E ele ai torna ! Ora que cisma ! Eu sei l&aacute; de livros e de<br \/>\n    escritura&ccedil;&atilde;o, homem? &Eacute; boa! isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nenhum armaz&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o geria de cabe&ccedil;a, frei Janu&aacute;rio ? &#8212;<br \/>\n    perguntou Maur&iacute;cio, rindo.<\/p>\n<p> &#8212; Geria como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas l&aacute;<br \/>\n    de parlapatices e espalhafatos &eacute; que nunca fui.<\/p>\n<p> &#8212; Bem ; amanh&atilde; examinaremos esses apontamentos ; boas noites,<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio &#8212; concluiu Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. frei Janu&aacute;rio, muito boas noites &#8212; secundou zombeteiramente<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ide com Nossa Senhora &#8212; respondeu o padre, irritado.<\/p>\n<p> Os dois rapazes sa&iacute;ram, rindo dos amuos do egresso.<\/p>\n<p> Este ficou s&oacute;, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa<br \/>\n    ceia, ia resmungando : &#8212; Forte pancada a desta gente ! Olhem agora o<br \/>\n    crian&ccedil;ola&#8230; E como ele fala ! Parece j&aacute; um senhor que todo<br \/>\n    Io manda ! Os livros ! Era o que &#8216;me faltava! era ter livros para assentar<br \/>\n    contas com rendeiros e d&iacute;vidas a casa. Bem digo eu ! Mas deixa estar<br \/>\n    que eu o curo da mania de meter o nariz nestas coisas. Dou-lhe uma esfrega<br \/>\n    amanh&atilde;. Em ele vendo como a casa est&aacute; embrulhada, perde logo<br \/>\n    o furor com que est&aacute; de a administrar.<\/p>\n<p> Sempre lhe hei-de fazer &quot;uma tal barafunda de papelada que o rapazinho<br \/>\n    h&aacute;-de ir dizer ao pap&aacute; que n&atilde;o quer saber de contas.<br \/>\n    Ora deixa estar ! Muito me hei-de rir. Quando ele principiar a ver o sarilho,<br \/>\n    em que isto tudo est&aacute; metido, que nem eu sei j&aacute; como sair dele,<br \/>\n    ent&atilde;o &eacute; que h&aacute;-de dar vivas, e gritar &laquo;aqui d&#8217;el-rei&raquo;.<br \/>\n    Ora deixa estar.<\/p>\n<p> E o padre ria, ria de boa fei&ccedil;&atilde;o, ao pensar no logro que havia<br \/>\n    de pregar a Jorge, ria e comia, o bom do homem, que era um gosto v&ecirc;-lo,<br \/>\n    Depois foi deitar-se, e o sono de uma certa classe de bem-aventurados baixou-lhe<br \/>\n    sobre as p&aacute;lpebras, suave e restaurador.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o dormiu, como o padre ; velou at&eacute; alta noite, lendo,<br \/>\n    calculando, combinando planos econ&oacute;micos. Maur&iacute;cio tamb&eacute;m<br \/>\n    dormiu pouco ; pensou igualmente no futuro, na revolu&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ia operar-se na sua vida, mas de um modo vago, sem ter ainda um plano formado,<br \/>\n    nem trabalhar para isso. As mais variadas e brilhantes imagens passavam- lhe<br \/>\n    pela fantasia, sem que se fixasse uma s&oacute; delas. Era um suceder de id&eacute;ias<br \/>\n    t&atilde;o r&aacute;pido, que parecia estonte&aacute;-lo como o ilus&oacute;rio<br \/>\n    movimento das margens perturba o viajante m&oacute;vel arrebatado no conv&eacute;s<br \/>\n    veloc&iacute;ssimo de um barco a vapor.<\/p>\n<p> No dia seguinte teve lugar a solene confer&ecirc;ncia do padre e de Jorge.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio tentou realizar a tra&ccedil;a que com aplauso pr&oacute;prio<br \/>\n    delineara na v&eacute;spera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontoou,<br \/>\n    sem classifica&ccedil;&atilde;o nem escolha, procura&ccedil;&otilde;es, recibos,<br \/>\n    contas, contratos de arrendamento, t&iacute;tulos de propriedades, escritos<br \/>\n    de quita&ccedil;&atilde;o com a fazenda, e outros v&aacute;rios documentos,<br \/>\n    com intuito de assoberbar a inexperi&ecirc;ncia de Jorge e castigar-lhe as<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es ambiciosas.<\/p>\n<p> Depois de ter assim patenteado aquele caos aos olhos do seu proposto sucessor,<br \/>\n    o padre, encostando os bra&ccedil;os &agrave; banca, apoiou o queixo entre<br \/>\n    as m&atilde;os, posi&ccedil;&atilde;o em que a boca repuxada lhe tomava um<br \/>\n    jeito de caricatura eminentemente c&ograve;mico, e ficou &agrave; espera do<br \/>\n    resultado das suas manhas com um sorriso de mal&iacute;cia e triunfo.<\/p>\n<p> Jorge, por&eacute;m, n&atilde;o desanimou. com um r&aacute;pido lan&ccedil;ar<br \/>\n    de olhos julgava da import&acirc;ncia dos pap&eacute;is, que sucessivamente<br \/>\n    examinava, e assim os punha de lado para segundo exame, ou os guardava como<br \/>\n    vistos.<\/p>\n<p> Dentro em pouco tempo entrou a ordem no caos e Jorge passou a mais minuciosa<br \/>\n    revista.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio j&aacute; se sentia um pouco incomodado com o andamento<br \/>\n    que ia vendo &agrave;s coisas, e insens&igrave;velmente foi tomando uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais discreta e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que at&eacute; ali observara<br \/>\n    Jorge.<\/p>\n<p> O pior n&atilde;o tinha principiado ainda.<\/p>\n<p> Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu, sobre os pap&eacute;is<br \/>\n    de importancia, de uma s&eacute;rie de perguntas, que embara&ccedil;aram sobremaneira<br \/>\n    o padre. Reconheceu ent&atilde;o que o filho de D, Luis n&atilde;o era a crian&ccedil;a<br \/>\n    que ele supusera, que via mais claro naqueles neg&oacute;cios do que ele pr&oacute;prio<br \/>\n    com t&ocirc;da a sua experi&ecirc;ncia, e que a confer&ecirc;ncia, na qual<br \/>\n    esperava dar uma memoranda li&ccedil;&atilde;o ao impertinente disc&iacute;pulo,<br \/>\n    podia muito bem terminar com not&aacute;vel desvantagem do mestre.<\/p>\n<p> Ao princ&iacute;pio do fogo cerrado de quest&otilde;es e objec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    o padre tentou entrincheirar-se atr&aacute;s de evasivas, tratando o caso<br \/>\n    jovialmente ; mas teve de abandonar essa t&aacute;ctica diante do tom e aspecto<br \/>\n    de seriedade varonil, com que Jorge lhe insinuou : &#8212; Sr. frei Janu&aacute;rio,<br \/>\n    eu n&atilde;o vim aqui para brincar, nem o assunto da nossa conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; digno dessas jovialidades. Sou um dos futuros herdeiros desta casa<br \/>\n    e quero saber como ela tem sido administrada at&eacute; agora, O padre experimentou<br \/>\n    a arma da dignidade ofendida.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o quer dizer que desconfia de mim?&#8230; e instaura-me um<br \/>\n    processo.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o-lhe por favor que n&atilde;o venha com isso outra vez.<br \/>\n    Ningu&eacute;m o acusa, j&aacute; lho disse. Pe&ccedil;o-lhe s&oacute; esclarecimentos<br \/>\n    sobre o passado, para poder caminhar para diante.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio acabou por se convencer de que n&atilde;o havia fugir<br \/>\n    &agrave; sabatina. N&atilde;o lhe foi suave tarefa aquela.<\/p>\n<p> Jorge pela primeira vez lhe fazia ver os erros de of&iacute;cio que ele<br \/>\n    cometera, a imprud&ecirc;ncia com que dirigira certos neg&oacute;cios, o desleixo<br \/>\n    em que deixara outros, a ilegalidade de certos actos, os riscos em que pusera<br \/>\n    parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a testa, entrava<br \/>\n    em explica&ccedil;&otilde;es confusas, de onde com muito custo sa&iacute;a,<br \/>\n    titubeava, gemia, protestava, limpava os &oacute;culos, chamava em seu aux&iacute;lio<br \/>\n    C&eacute;us e Terra ; mas tudo era in&uacute;til poeira de encontro &agrave;<br \/>\n    paci&ecirc;ncia e fleuma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o que, sem ser formulada como censura, feria no vivo<br \/>\n    a Susceptibilidade do padre. Em uma palavra o resultado da confer&ecirc;ncia<br \/>\n    foi exactamente o oposto ao que frei Janu&aacute;rio prognosticara. Quem dela<br \/>\n    saiu atordoado, desgostoso, e disposto deveras a n&atilde;o querer saber mais<br \/>\n    da administra&ccedil;&atilde;o da casa, foi o padre e n&atilde;o o rapaz.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio viu com espanto esboroar-se o edif&iacute;cio da sua<br \/>\n    experi&ecirc;ncia, em cuja solidez ele pr&oacute;prio tinha a ingenuidade<br \/>\n    de acreditar, ao simples sopro de uma crian&ccedil;a. A impress&atilde;o que<br \/>\n    lhe ficou deste apertado inqu&eacute;rito foi tal, que o pobre homem come&ccedil;ou<br \/>\n    a sentir um entranhado medo de Jorge e a empalidecer s&oacute; com a lembran&ccedil;a<br \/>\n    de uma cena como aquela.<\/p>\n<p> Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra dali por diante, j&aacute; o padre<br \/>\n    previa com terror uma interpela&ccedil;&atilde;o e ficava nervoso ! Muito<br \/>\n    mais se D. Luis estivesse presente.<\/p>\n<p> Assim, pois, gra&ccedil;as a estes medos, frei Janu&aacute;rio em vez de<br \/>\n    tornar-se vigilante em rela&ccedil;&atilde;o aos actos de Jorge, tratou de<br \/>\n    evit&aacute;-lo tanto quanto podia.<\/p>\n<p> O desgra&ccedil;ado persuadira-se de que tinha cometido tantas faltas na<br \/>\n    sua administra&ccedil;&atilde;o, que o seu desejo era ver passar j&aacute;<br \/>\n    sobre elas muitos anos para desvanecer-lhe os vest&iacute;gios.<\/p>\n<p> Jorge ficou, pois, completamente &agrave; vontade. D. Luis, interrogando<br \/>\n    o capel&atilde;o, ouvira dele que Jorge estava habilitad&iacute;ssimo para<br \/>\n    administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar cegamente<br \/>\n    no filho e para anuir sem exame a todos os seus projectos, como por tantos<br \/>\n    anos fizera aos do padre.<\/p>\n<p> Portanto, sem desconfian&ccedil;a de pessoa alguma, p&ocirc;de Jorge combinar<br \/>\n    com Tom&eacute;, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tom&eacute; era nestas coisas um prudente e avisado conselheiro.<\/p>\n<p> Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas cometidas, entraram<br \/>\n    em correspond&ecirc;ncia com o advogado do fazendeiro, por causa de uma velha<br \/>\n    e importante demanda da casa; Jorge visitou todas as suas terras, celebrou<br \/>\n    novos e mais vantajosos arrendamentos sempre que p&ocirc;de, e para estes<br \/>\n    primeiros actos levantou em segredo parte do empr&eacute;stimo agenciado por<br \/>\n    meio do capital e do cr&eacute;dito de Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> Causou espanto na terra a revolu&ccedil;&atilde;o administrativa da Casa<br \/>\n    Mourisca.<\/p>\n<p> Os que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que, movidos<br \/>\n    por elas, entravam em transac&ccedil;&otilde;es com a casa, conceberam ao<br \/>\n    principio lisonjeiras esperan&ccedil;as vendo que tinham a tratar com um mo&ccedil;o<br \/>\n    inexperiente. Cedo, por&eacute;m, se desenganaram, encontrando- o sempre cauteloso<br \/>\n    e perspicaz, gra&ccedil;as &agrave; intelig&ecirc;ncia pr&oacute;pria e aos<br \/>\n    conselhos do previdente Tom&eacute;, que entrava em tudo sem ser visto nem<br \/>\n    suspeitado sequer.<\/p>\n<p> As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre lugar de noite, como<br \/>\n    j&aacute; dissemos.<\/p>\n<p> Jorge sa&iacute;a de casa quando j&aacute; todos dormiam, menos Maur&iacute;cio,<br \/>\n    &uacute;nico que se recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das surtidas<br \/>\n    do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava<br \/>\n    com o mesmo mist&eacute;rio, e &agrave;s vezes prolongavam-se at&eacute; altas<br \/>\n    horas estes concili&aacute;bulos econ&oacute;micos.<\/p>\n<p> Neles, ambos aprendiam. Tom&eacute; abria a Jorge os tesouros da sua muita<br \/>\n    experi&ecirc;ncia, e esclarecia-o com os conselhos ditados por um s&atilde;o<br \/>\n    ju&iacute;zo e uma natural lucidez. Jorge, que j&aacute; enriquecera a sua<br \/>\n    biblioteca de novos livros e de peri&oacute;dicos de agricultura e de economia<br \/>\n    rural, falava a Tom&eacute; dos progressos e melhoramentos agr&iacute;colas<br \/>\n    dos pa&iacute;ses estrangeiros, e eram para ver a aten&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    o entusiasmo com que o lavrador o escutava. com o &acirc;nimo arrojado e despido<br \/>\n    do cego e supersticioso amor pelas pr&aacute;ticas velhas, Tom&eacute; tomava<br \/>\n    notas de muitas dessas inova&ccedil;&otilde;es, para as experimentar, praticando-as<br \/>\n    nas suas pr&oacute;prias terras. Que belos e grandiosos projectos de futura<br \/>\n    realiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o planeavam eles, inspirados das maravilhas<br \/>\n    obtidas pela agricultura nos pa&iacute;ses mais adiantados, onde &eacute;<br \/>\n    exercida por homens inteligentes e instru&iacute;dos ! Passado pouco tempo<br \/>\n    Jorge gozava j&aacute; na aldeia de uma fama de fino administrador, que lhe<br \/>\n    granjeou o respeito de todos os habitantes .<\/p>\n<p> Para esta fama concorreu uma circunst&acirc;ncia preparada ainda pelos ressentimentos<br \/>\n    de frei Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> Depois de destitu&iacute;do, e ainda para mais, derrotado pelo estreito<br \/>\n    inqu&eacute;rito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o<br \/>\n    seu despeito, tentara o padre levar ao rapaz uma nova dificuldade.<\/p>\n<p> com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,<br \/>\n    que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperan&ccedil;a delas, e<br \/>\n    depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a not&iacute;cia de que, tendo<br \/>\n    sido dispensado pelo Sr. D. Luis de continuar a gerir os neg&oacute;cios da<br \/>\n    casa, n&atilde;o era da&iacute; por diante respons&aacute;aacute;vel pelo pagamento<br \/>\n    das soldadas atrasadas nem das futuras, que esses neg&oacute;cios estavam,<br \/>\n    agora, ao cargo do Sr. D. Jorge e que se entendessem com ele, porquanto da<br \/>\n    sua parte lavava as m&atilde;os de tudo.<\/p>\n<p> A estas palavras, levantou-se murmura&ccedil;&atilde;o entre alguns criados<br \/>\n    que n&atilde;o tinham grande confian&ccedil;a no novo gerente e que reclamavam<br \/>\n    do padre o pagamento das soldadas vencidas dizendo que era ele o respons&aacute;vel<br \/>\n    por esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quero saber de contas &#8212; insistia o padre.&#8212;<br \/>\n    Por feliz me dou eu em me terem tirado dos ombros esta canseira. Os outros<br \/>\n    que se avenham como puderem.<\/p>\n<p> A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortel&atilde;o, que declarou<br \/>\n    que pela sua parte estava satisfeito com a mudan&ccedil;a, porque o Sr. Jorge<br \/>\n    era um rapaz de ju&iacute;zo e de brio, e, melhor do que ningu&eacute;m, homem<br \/>\n    para cumprir a sua palavra.<\/p>\n<p> Estavam as coisas nestes termos, quando um facto imprevisto as modificou.<\/p>\n<p> Foi o aparecimento de Jorge.<\/p>\n<p> A cena passara-se em uma sala cont&iacute;gua &agrave; do cart&oacute;rio<br \/>\n    da casa, onde desde pela manh&atilde; Jorge se encerrara a examinar uns pap&eacute;is<br \/>\n    de import&acirc;ncia. O padre supunha-o fora, e por isso promovera aquela<br \/>\n    reuni&atilde;o prestes a tornar-se tumultuosa. Assim p&ocirc;de Jorge ouvir<br \/>\n    tudo.<\/p>\n<p> Percebeu a necessidade de fazer cessar aquela cena escandalosa, e termin&aacute;-la<br \/>\n    airosamente, embora &agrave; custa de algum sacrif&iacute;cio. Nesta resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual comunicavam as duas salas.<\/p>\n<p> Assim que o viram, os criados emudeceram. O padre julgou-se perdido.<\/p>\n<p>Jorge dirigiu-se placidamente aqueles.<\/p>\n<p> &#8212; Quando o sr. frei Janu&aacute;rio lhes disse que me procurassem<br \/>\n    para serem pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e n&atilde;o<br \/>\n    levantassem esse clamor pr&oacute;prio de uma feira. Entrem que eu aqui estou<br \/>\n    pronto para lhes fazer contas.<\/p>\n<p> E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram t&iacute;midos no gabinete,<br \/>\n    ocultando-se uns com os outros.<\/p>\n<p> &#8212; Entre tamb&eacute;m, frei Janu&aacute;rio &#8212; disse Jorge ao<br \/>\n    padre, que procurava retirar-se sorrateiramente da sala.<\/p>\n<p> O padre, teve de obedecer, a seu pesar.<\/p>\n<p> Jorge sentou-se &agrave; mesa e principiou a interrogar os criados, um por<br \/>\n    um, sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lha integralmente, depois<br \/>\n    de obtida a informa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim os correu e satisfez a todos, &agrave; excep&ccedil;&atilde;o do hortel&atilde;o,<br \/>\n    que o estava a observar calado e com os olhos h&uacute;midos.<\/p>\n<p> Jorge voltou-se para ele e disse-lhe : &#8212; Estou que te fazia ofensa,<br \/>\n    se te pagasse ao mesmo tempo que a estes desconfiados. Tu &eacute;s dos que<br \/>\n    esperam com esta garantia.<\/p>\n<p> E estendeu-lhe a m&atilde;o francamente aberta.<\/p>\n<p> O hortel&atilde;o quase se precipitou para ela e apertou-a comovido nas<br \/>\n    suas.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Sr. Jorge! a maior paga que me pode dar &eacute;&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    me pagar nunca.<\/p>\n<p> Movidos por esta cena, os outros criados vieram depositar na mesa outra<br \/>\n    vez o dinheiro recebido.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; por isso, n&oacute;s tamb&eacute;m esperamos&#8230;<\/p>\n<p> Jorge restituiu-lhes o dinheiro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio&#8230; Levem-no.<\/p>\n<p> E depois acrescentou: &#8212; As circunst&acirc;ncias actu&aacute;is da<br \/>\n    nossa casa obrigam-nos a fazer mudan&ccedil;as no servi&ccedil;o. Temos de<br \/>\n    reduzir o n&uacute;mero dos criados de dentro e aumentar os de lavoura. Por<br \/>\n    isso, voc&ecirc;s quatro, Francisco, Louren&ccedil;o, Pedro e Rom&atilde;o,<br \/>\n    podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois. Voc&ecirc;s,<br \/>\n    os de lavoura, ficam, se quiserem, e se tiverem parentes que pretendam empregar-se<br \/>\n    aqui no mesmo servi&ccedil;o, mandem-nos ter comigo. E agora podem ir.<\/p>\n<p> O tom em que foram ditas estas palavras exclu&iacute;a qualquer observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Sa&iacute;ram todos.<\/p>\n<p> &#8212; Frei Janu&aacute;rio &#8212; acrescentou Jorge, dirigindo-se ao<br \/>\n    padre, que estava meio aparvalhado &#8212; podia fazer-me saber mais delicadamente<br \/>\n    esta d&iacute;vida da casa. Apesar disso agrade&ccedil;o-lhe o ensejo que<br \/>\n    me deu de a pagar.<\/p>\n<p> O padre resmungou n&atilde;o sei o qu&ecirc;, e saiu cada vez com mais medo<br \/>\n    de Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Onde foi o diabo buscar j&aacute; tanto dinheiro? &#8212; pensava<br \/>\n    ele.&#8212; N&atilde;o pode deixar de ser da ma&ccedil;onaria. <\/p>\n<p>O hortel&atilde;o .ficou s&oacute; com Jorge.<\/p>\n<p> O pobre homem estava entusiasmado com a honrosa distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que recebera, e para manifestar o seu entusiasmo passou a contar a Jorge como<br \/>\n    &eacute; que se tinha dado o ataque do monte das Antas.<\/p>\n<p> Esta cena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para aumentar<br \/>\n    os cr&eacute;ditos de Jorge em toda a aldeia.<\/p>\n<p><b>VIII<\/b><\/p>\n<p>SUCEDERAM muitos dias sem que na vida dos diferentes personagens, que temos<br \/>\n    apresentado ao leitor, ocorressem incidentes dignos de men&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio permanecia na aldeia, e vivia nela a mesma vida que at&eacute;<br \/>\n    ali, porque n&atilde;o se obtivera ainda da prima baronesa a resposta &agrave;<br \/>\n    carta de D. Luis.<\/p>\n<p> Apesar da energia com que vimos aquele rapaz abra&ccedil;ar os projectos<br \/>\n    do irm&atilde;o, exige a verdade que se diga que ele sofria com demasiada<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o as delongas da empresa, na parte que lhe dizia respeito,<br \/>\n    e continuava a distrair-se como dantes em passeios, ca&ccedil;adas e aventuras<br \/>\n    galantes. Estava-lhe isso no car&aacute;cter.<\/p>\n<p> Jorge, esse deitara-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no gabinete,<br \/>\n    discutia nas confer&ecirc;ncias com Tom&eacute;, e principiara j&aacute; a<br \/>\n    realizar reformas e melhoramentos, prometedores de vantagens futuras.<\/p>\n<p> Os capitais agenciados pelo fazendeiro haviam j&aacute; permitido libertar<br \/>\n    a casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo<br \/>\n    morgado trabalhos agr&iacute;colas mais activos e met&oacute;dicos ; viam-se<br \/>\n    j&aacute; por l&aacute; as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem<br \/>\n    as ervas est&eacute;reis ; j&aacute; se podava e enxertava nas vinhas e pomares<br \/>\n    quase bravios, aproveitavam-se as &aacute;guas, fertilizava-se o solo, sentia-se<br \/>\n    renascer aquela natureza adormecida, como se entrasse na convalescen&ccedil;a<br \/>\n    de uma longa enfermidade.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio presenciava aqueles prod&iacute;gios com espanto e<br \/>\n    desj peito, murmurando dos gastos loucos em que o rapaz se metia.<\/p>\n<p> &#8212; Muito havemos de rir afinal &#8212; dizia ele. &#8212; Entradas<br \/>\n    de le&atilde;o ; agora as sa&iacute;das&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o comunicava, por&eacute;m, as suas reflex&otilde;es ao fidalgo,<br \/>\n    porque tinha medo de Jorge.<\/p>\n<p> D. Luis, que em um dos passeios que costumava dar a cavalo, acompanhado<br \/>\n    de escudeiro &agrave; dist&acirc;ncia marcada pela velha pragm&aacute;tica,<br \/>\n    teve ocasi&atilde;o de observar esses melhoramentos, sentiu um &iacute;ntimo<br \/>\n    prazer, sabendo que aquela fazenda era agricultada por conta da casa.<\/p>\n<p> O fidalgo n&atilde;o procurou informar-se dos meios pelos quais Jorge che<br \/>\n    gara a realizar o milagre. Cresceu a confian&ccedil;a no filho e de olhos<br \/>\n    fechados entregou-se a ela.<\/p>\n<p> n&atilde;o pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como j&aacute; dissemos,<br \/>\n    lutava, havia muito tempo, com um importante lit&iacute;gio, que podia decidir<br \/>\n    do destino de quase metade dos seus bens. Esta demanda complicada e de uma<br \/>\n    marcha morosissima, tomara &ugrave;ltimamente uma fei&ccedil;&atilde;o pouco<br \/>\n    favor&aacute;vel aos fidalgos da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio j&aacute; prevenira D. Luis de que a considerasse perdida.<\/p>\n<p> Jorge, na revista a que procedeu nos arquivos de fam&iacute;lia, encontrou<br \/>\n    documentos, a seu ver importantes e at&eacute; ali n&atilde;o aproveitados,<br \/>\n    por inc&uacute;ria do padre capel&atilde;o. Mostrou-os a Tom&eacute;, que,<br \/>\n    experiente nestes neg&oacute;cios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou<br \/>\n    a valia do achado, e ambos resolveram remet&ecirc;-los a um novo advogado,<br \/>\n    a quem se entregou a direc&ccedil;&atilde;o do lit&iacute;gio.<\/p>\n<p> Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o seu<br \/>\n    pensamento da realiza&ccedil;&atilde;o completa. O que havia por fazer era<br \/>\n    muito mais do que o que estava feito, mas os princ&iacute;pios animavam.<\/p>\n<p> Por este tempo, por&eacute;m, sobreveio um aconte rimento, que algum tanto<br \/>\n    transformou a face destes neg&oacute;cios.<\/p>\n<p> Recebeu-se na Herdade uma carta de Berta.<\/p>\n<p> Preciso &eacute; por&eacute;m dizermos algumas palavras a respeito de Berta,<br \/>\n    antes de a introduzirmos em cena; porque a leitora suspeita j&aacute; que<br \/>\n    vai chegar afinal a hero&iacute;na da hist&oacute;ria ; e a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    dela em sete cap&iacute;tulos inteiros talvez n&atilde;o tenha j&aacute; sido<br \/>\n    pouco estranhada.<\/p>\n<p> Berta, segundo atr&aacute;s fica dito, era a filha mais velha de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Nascida na &eacute;poca em que o fazendeiro n&atilde;o era ainda o homem<br \/>\n    abastado em que depois se tornou, procuraram-lhe os pais bons padrinhos, para<br \/>\n    assegurar o futuro da pequena.<\/p>\n<p> Tom&eacute; obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescend&ecirc;ncia de<br \/>\n    acompanhar a crian&ccedil;a &agrave; pia baptismal ; Luisa, pela sua parte,<br \/>\n    solicitou e conseguiu id&ecirc;ntico favor de uma senhora do Porto, para casa<br \/>\n    de quem ela por muito tempo lavara, quando nesse mister ocupava a sua robusta<br \/>\n    juventude.<\/p>\n<p> A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revolu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    alterou a posi&ccedil;&atilde;o relativa de t&ocirc;da esta gente, durante<br \/>\n    o decurso dos primeiros anos de Berta.<\/p>\n<p> J&aacute; sabemos como, em virtude desta revolu&ccedil;&atilde;o, Tom&eacute;<br \/>\n    subiu gradual e incessantemente, enquanto D. Luis descia. O mesmo que a este<br \/>\n    &uacute;ltimo, sucedeu &agrave; tal senhora, cuja &iacute;ndole bondosa e<br \/>\n    t&iacute;mida n&atilde;o soube opor estorvos &agrave;s prodigalidades de um<br \/>\n    irm&atilde;o perdul&aacute;rio, vendo-se em conseq&uuml;&ecirc;ncia disso<br \/>\n    obrigada a sair do Porto, onde vendeu tudo o que tinha, para ir para Lisboa<br \/>\n    educar meninas.<\/p>\n<p> A primeira disc&iacute;pula que teve foi Berta. Os pais sentiam ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    por a filha e queriam dar-lhe a educa&ccedil;&atilde;o de uma senhora, aproveitando<br \/>\n    e cultivando nela as boas disposi&ccedil;&otilde;es que j&aacute; adquirira<br \/>\n    na conviv&ecirc;ncia cem os pequenos da Casa Mounsca, onde era recebida com<br \/>\n    afecto. Alem disso, outra e mais generosa inten&ccedil;&atilde;o levou-os<br \/>\n    a darem aquele passo. Queriam concorrer para aliviar o infort&uacute;nio da<br \/>\n    infeliz senhora que sempre na opul&ecirc;ncia os auxiliara e estimara. Possu&iacute;am,<br \/>\n    por&eacute;m, bastante delicadeza para lhe oferecerem socorros, sem um pretexto<br \/>\n    a colori-los. Pediram-lhe, pois, que tomasse conta da educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Berta, e assim, al&eacute;m da mesada do costume, tinham o ensejo de fazerem<br \/>\n    valiosos presentes &agrave; mestra, que percebia e apreciava com l&aacute;grimas<br \/>\n    a generosidade daquele proceder.<\/p>\n<p> Foi assim Berta mandada educar para Lisboa, o que n&atilde;o provocou escassos<br \/>\n    coment&aacute;rios na aldeia, onde se disse que o Tom&eacute; da Herdade se<br \/>\n    afidalgava, e que j&aacute; n&atilde;o queria ter filhos lavradores.<\/p>\n<p> O senhor da Casa Mourisca n&atilde;o viu tamb&eacute;m com bons olhos aquele<br \/>\n    passo de Tom&eacute;, cujo engrandecimento havia j&aacute; muito tempo que<br \/>\n    principiara a incomod&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Berta, que fora at&eacute; ent&atilde;o a companheira de brinquedos dos<br \/>\n    meninos da Casa Mourisca e de Beatriz, a p&aacute;lida e meiga crian&ccedil;a,<br \/>\n    que temos visto viver ainda na mem&oacute;ria de quantos a amaram, deixou<br \/>\n    a aldeia uma madrugada com l&aacute;grimas e solu&ccedil;os.<\/p>\n<p> Desde ent&atilde;o conservou-se em Lisboa, onde s&oacute; o pai a foi ver,<br \/>\n    por duas vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora,<br \/>\n    que lhe ganhara afei&ccedil;&atilde;o, cada vez mais funda.<\/p>\n<p> Berta crescera ; as gra&ccedil;as infantis foram a pouco e pouco perdendo<br \/>\n    nela aquelas iluminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas misteriosas<br \/>\n    sombras de uma juventude de mulher, sombras que n&atilde;o empanam a beleza,<br \/>\n    antes lhe d&atilde;o mais e mais sedutor relevo. Berta n&atilde;o era j&aacute;<br \/>\n    a crian&ccedil;a que sa&iacute;ra da aldeia, sem um pensamento que retivesse,<br \/>\n    nem um sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou<br \/>\n    t&iacute;mido, sem uma dor que se n&atilde;o manifestasse em l&aacute;grimas<br \/>\n    ; era j&aacute; a virgem de dezoito anos, sob a influ&ecirc;ncia da vida nascente<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o, e portanto sujeita a todas as subtis impress&otilde;es,<br \/>\n    dominada por todos os impulsos contradit&oacute;rios e por todas as indefinidas<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es daquela quadra m&aacute;gica.<\/p>\n<p> A vida das cidades, sem lhe dar a m&oacute;rbida languidez, que t&atilde;o<br \/>\n    sem-raz&atilde;o anda confundida com a eleg&acirc;ncia, apurara-lhe a delicadeza<br \/>\n    feminina, desenvolvera-lhe a sensibilidade para os afectos e a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    para os prazeres do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Mas o que em Berta sobretudo havia mais digno de referir-se aqui, por ser<br \/>\n    menos comum fen&ocirc;meno do que esses que descrevemos, era a perman&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma raz&atilde;o clara no meio dos atractivos e sedu&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    com que a fantasia tantas vezes, em circunst&acirc;ncias tais, a ofusca.<\/p>\n<p> Gozava, mas sem embriaguez ; sentia, mas sem arroubamentos ; e apreciando<br \/>\n    as prendas de educa&ccedil;&atilde;o que ia adquirindo, nunca perdia de vista<br \/>\n    a mod&eacute;stia do seu nascimento e a mod&eacute;stia do futuro que naturalmente<br \/>\n    devia ser o seu. Se tinha sonhos de juventude&#8230; e quem os n&atilde;o tem<br \/>\n    naquela idade? s&aacute;bia que sonhava, e n&atilde;o se distra&iacute;a a<br \/>\n    procurar no mundo real as vis&otilde;es que neles lhe apareciam.<\/p>\n<p> A lembran&ccedil;a da sua origem modesta n&atilde;o a fazia melanc&oacute;lica,<br \/>\n    mas prudente. N&atilde;o era aquela id&eacute;ia uma sombra negra, que n&atilde;o<br \/>\n    lhe deixava ver a luz; simplesmente um como cristal corado, que lhe permitia<br \/>\n    fit&aacute;-la, sem medo de ofusca&ccedil;&atilde;o e cegueira.<\/p>\n<p> Assim, no meio das suas efus&otilde;es, das suas melaneolias e at&eacute;<br \/>\n    dos seus pequenos caprichos de rapariga, Berta nunca deixava de ser uma rapariga<br \/>\n    de juizo.<\/p>\n<p> A educa&ccedil;&atilde;o de col&eacute;gio n&atilde;o produz;, a nela a<br \/>\n    adocicada pedantaria de algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia<br \/>\n    aos pais, nunca se lia uma frase que eles n&atilde;o entendessem, uma palavra<br \/>\n    que os embara&ccedil;asse e lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Revelava-se nisto um natural instinto de delicadeza, que Tom&eacute;, por<br \/>\n    um instinto an&aacute;logo, sabia apreciar.<\/p>\n<p> Sentia que Berta nunca se envergonharia de chamar a ele pai, e m&atilde;e<br \/>\n    &agrave; boa Luisa, e esta convic&ccedil;&atilde;o n&atilde;o o deixava arrepender<br \/>\n    de a haver educado com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem<br \/>\n    alienado os afectos da rapariga! As cartas de Berta eram escritas de forma,<br \/>\n    que n&atilde;o somente aos pais agradavam, mas a quantos as liam.<\/p>\n<p> Tom&eacute; mostrara-as a Jorge ; este n&atilde;o p&ocirc;de deixar de apreciar<br \/>\n    a redac&ccedil;&atilde;o singela e despretensiosa em que parecia reflectir-se<br \/>\n    a candura e pureza daquele caracter de mulher. Havia nelas uma maneira de<br \/>\n    pensar t&atilde;o acertada, vistas t&atilde;o despidas de preconceitos, tanto<br \/>\n    sentimento revelado com tanta sobriedade de frases sentimentais, que s&atilde;o<br \/>\n    o maior achaque nas cartas de mulher; transpareciam t&atilde;o distintamente<br \/>\n    os suaves e generosos instintos da sua alma feminina, que o esp&iacute;rito<br \/>\n    de Jorge simpatizou naturalmente com aquele outro esp&iacute;rito que, nessas<br \/>\n    ligeiras manifesta&ccedil;&otilde;es, se revelava t&atilde;o irm&atilde;o<br \/>\n    seu.<\/p>\n<p> A pouco e pouco uma dessas simpatias, que &agrave;s vezes se originam no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, lentas, brandas,, ignoradas, sem a agudeza das paix&otilde;es,<br \/>\n    despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou guando muito<br \/>\n    uma fei&ccedil;&atilde;o, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jorge. Era um sentimento, que n&atilde;o o inquietava ao princ&iacute;pio,<br \/>\n    nem lhe perturbava o esp&iacute;rito ; por isso n&atilde;o se acautelou dele<br \/>\n    ; deixou-se repassar daquele grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar<br \/>\n    a natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.<\/p>\n<p> um dia mostrou-lhe Tom&eacute; o retrato da filha. Jorge encontrou nele<br \/>\n    as fei&ccedil;&otilde;es que conhecera infantis, animadas agora pela vida<br \/>\n    da adolesc&ecirc;ncia. Pareceu-lhe n&atilde;o haver contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre aquela fisionomia e o car&aacute;cter que supusera a Berta ; e a imagem<br \/>\n    da rapariga come&ccedil;ou a aparecer-lhe com insist&ecirc;ncia nos seus devaneios<br \/>\n    de rapaz.<\/p>\n<p> Jorge ent&atilde;o assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em<br \/>\n    si, de que a raz&atilde;o lhe n&atilde;o dava boas contas. Pareceu-lhe ser<br \/>\n    aquilo uma fraqueza, indigna do seu car&aacute;cter s&eacute;rio, e resolveu<br \/>\n    pois venc&ecirc;-la. Desde esse momento principiou uma estranha luta naquela<br \/>\n    alma, sem que aparecessem fora vest&iacute;gios que a denunciassem. Sentia<br \/>\n    um inexprim&iacute;vel prazer ao ouvir falar de Berta; e por isso mesmo fugia<br \/>\n    aos ensejos de experiment&aacute;-lo. Esta contens&atilde;o for&ccedil;ada<br \/>\n    acabou por produzir no esp&iacute;rito de Jorge um efeito singular ; foi um<br \/>\n    grau de irrita&ccedil;&atilde;o, revelado em uma esp&eacute;cie de hostilidade<br \/>\n    para com Berta, cuja imagem viera perturbar-lhe a limpidez de cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que tivera at&eacute; ali, e fazer-lhe pela primeira vez vacilar a raz&atilde;o,<br \/>\n    que todos nele admiravam.<\/p>\n<p> Era o caso de poder dizer-se, em estilo de conceitos: &laquo;Queria- -lhe<br \/>\n    mal por lhe querer bem&raquo;. Receava-se dela, e fazia o poss&iacute;vel<br \/>\n    para desvanecer a impress&atilde;o por que se sentia dominado.<\/p>\n<p> Tais s&atilde;o as indica&ccedil;&otilde;es que julgamos dever dar a respeito<br \/>\n    de Berta, antes de narrarmos o efeito da carta que dela se recebeu na Herdade.<\/p>\n<p> Esta n&atilde;o era uma simples carta de cumprimentos ou daquelas, em que<br \/>\n    a filha se estendia em longas conversas com o pai, contando-lhe por mi&uacute;do<br \/>\n    os singelos epis&oacute;dios da sua vida de rapariga. Desta vez havia nela<br \/>\n    uma nova importante e que a modificar o plano de vida da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> A senhora, em casa de quem Berta se educava, havia repentinamente falecido.<\/p>\n<p> Berta escrevia assim ao pai : &laquo;Meu querido pai: &laquo;Escrevo-lhe<br \/>\n    a chorar e com o cora&ccedil;&atilde;o a partir-se-me de dor.<\/p>\n<p> A minha madrinha faleceu esta madrugada. Ainda ontem &agrave; noite esteve<br \/>\n    a conversar e a rir connosco, e t&iacute;nhamos at&eacute; combinado para<br \/>\n    hoje um passeio a Sintra ! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para<br \/>\n    ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a ver expirar ; custou-lhe<br \/>\n    j&aacute; a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como estou ! N&oacute;s<br \/>\n    todas fic&aacute;mos como loucas ! Ainda isto me parece um sonho i Veja que<br \/>\n    malfadada senhora ! Agora, que principiava a viver outra vez mais feliz!&#8230;<br \/>\n    Pe&ccedil;o-lhe que me diga o que devo fazer neste caso.<\/p>\n<p> Eu sei que o pai j&aacute; uma vez falou em mandar-me para outro col&eacute;gio,<br \/>\n    se por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me por&eacute;m lembrar-<br \/>\n    -lhe algumas coisas, e depois decida. Eu n&atilde;o quero dizer que tenha<br \/>\n    uma educa&ccedil;&atilde;o perfeita; mas, como n&atilde;o conto, nem desejo,<br \/>\n    viver nas salas daqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me<br \/>\n    seriam precisos. Muito tem j&aacute; o pai feito por mim, &eacute; preciso<br \/>\n    agora olhar por meus irm&atilde;os, e alguns est&atilde;o em idade em que<br \/>\n    ainda podem agradecer- me alguns servi&ccedil;os, que eu a&iacute; consiga<br \/>\n    fazer-lhes. Mande-me ir.<\/p>\n<p> A m&atilde;e deve ter muito trabalho em olhar por tudo em casa. &Eacute;<br \/>\n    tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito anos &eacute; uma vergonha<br \/>\n    n&atilde;o o fazer. &Euml; uma parte da minha educa&ccedil;&atilde;o que posso<br \/>\n    concluir a&iacute; e que me ser&aacute; bem necess&aacute;ria. Demais, confesso-lhe<br \/>\n    que, depois da morte da minha madrinha, havia de custar-me a continuar etti<br \/>\n    Lisboa.<\/p>\n<p> pe&ccedil;o-lhe pois que me deixe ir viver consigo e matar as saudades,<br \/>\n    que j&aacute; tenho de todos e de tudo.<\/p>\n<p> &laquo;Muitas lembran&ccedil;as &agrave; m&atilde;e, muitos beijos aos pequenos.<\/p>\n<p> &laquo;Sua filha, que espera muito cedo abra&ccedil;&aacute;-lo,<\/p>\n<p> <b>&laquo;.Berta.&raquo;<\/b><\/p>\n<p>&laquo;P. S. &#8212; Que n&atilde;o esque&ccedil;a dar muitos recados &agrave;<br \/>\n    Joana, ao Manuel da Costa e &agrave; filha, assim como &agrave; tia Eusebia<br \/>\n    e &agrave;s mais pessoas amigas.&raquo; Tom&eacute; leu &agrave; mulher a<br \/>\n    carta da filha, e entre ambos discutiram o partido que conviria adoptar.<\/p>\n<p> Saudades maternas e paternas, desejos de ver de perto e abra&ccedil;ar a<br \/>\n    filha dilecta e primog&eacute;nita que havia tanto tempo lhes andava longe<br \/>\n    das vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor<br \/>\n    de vida que em torno de si difunde uma rapariga de dezoito anos, resolveram<br \/>\n    a quest&atilde;o no sentido indicado por Berta ; e, para assim a resolver,<br \/>\n    quase bastava que eia o indicasse.<\/p>\n<p> Decidiu-se, pois, que Berta voltasse para a Herdade.<\/p>\n<p> Dal os necess&aacute;rios preparativos para a acomoda&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    filha, cujos h&aacute;bitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exig&ecirc;ncias,<br \/>\n    a que era justo atender.<\/p>\n<p> O instinto materno adivinhava melhor do que era de esperar essas mi&uacute;das<br \/>\n    necessidades, e a liberalidade paterna provia a elas.<\/p>\n<p> E tudo isto preocupava o feliz casal, cujo contentamento se reflect&iacute;a<br \/>\n    em criados e jornaleiros.<\/p>\n<p> Jorge encontrou uma noite Tom&eacute; ainda empenhado nesta labuta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    caseira, e soube dele a causa de tanto alvoro&ccedil;o.<\/p>\n<p> O filho mais velho de D. Luis ouviu com sobressalto a not&iacute;cia.<\/p>\n<p> Dissimulou contudo o que sentia, e deu a Tom&eacute; e a Luisa os parab&eacute;ns<br \/>\n    pela pr&oacute;xima chegada da filha, e at&eacute; os auxiliou com o seu alvitre<br \/>\n    na resolu&ccedil;&atilde;o de algumas dificuldades, relativas ao arranjo do<br \/>\n    gabinete destinado a Berta.<\/p>\n<p> Saiu, por&eacute;m, da Herdade debaixo de estranhas impress&otilde;es morais.<\/p>\n<p> Experimentava um misto de mai definido prazer e ao mesmo tempo de desgosto.<\/p>\n<p> Tom&eacute; resolvera ir ele pr&oacute;prio a Lisboa buscar a filha.<\/p>\n<p> Interromperam-se, pois, durante alguns dias, as confer&ecirc;ncias econ&oacute;micas<br \/>\n    da Herdade.<\/p>\n<p> A demora de Tom&eacute; n&atilde;o foi longa.<\/p>\n<p> Pouco mais de oito dias passados, era ele de volta com a Berta.<\/p>\n<p> uma tarde vinha Maur&iacute;cio a cavalo, de uma excurs&atilde;o pelos campos,<br \/>\n    quando, ao descer por entre os pinheiros de uma bou&ccedil;a cerrada, viu<br \/>\n    passar, em um curto lan&ccedil;o de estrada, que as entreabertas do arvoredo<br \/>\n    deixavam patentes, o vulto de dois cavaleiros. <\/p>\n<p>Atra&iacute;ram-lhe naturalmente a aten&ccedil;&atilde;o e esperou, para<br \/>\n    melhor os reconhecer, que chegassem a outro lan&ccedil;o mais pr&oacute;ximo<br \/>\n    e mais descoberto da estrada que seguiam.<\/p>\n<p> De facto, pouco depois viu que era um homem e uma senhora, que cavalgavam<br \/>\n    a par.<\/p>\n<p> No homem reconheceu Tom&eacute; ; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.<\/p>\n<p> Em resultado desta dupla descoberta dirigiu o cavalo imediatamente para<br \/>\n    eles.<\/p>\n<p> Perto principiou a divisar na dama, que Tom&eacute; acompanhava, fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    conhecidas.<\/p>\n<p> Antes, por&eacute;m, que esclarecesse a vaga id&eacute;ia que aquelas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    lhe iam suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a m&atilde;o: &#8212;<br \/>\n    Venha dar-me aqui os parab&eacute;ns. Sr. Maur&iacute;cio ; venha c&aacute;,<br \/>\n    que me volta ao pombal uma pomba que deixei sair dele h&aacute; muito tempo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio acabou por corroborar a suspeita que j&aacute; tivera.<\/p>\n<p> Era Berta a amazona.<\/p>\n<p> Berta, a pequena alde&atilde; com quem brincara em crian&ccedil;a no p&aacute;tio<br \/>\n    e na quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irm&atilde; Beatriz, a<br \/>\n    afilhada de seu pai e a pequenina dama a quem dedicava j&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    os seus galanteios infantis ; era ela, mas com todas as surpreendentes e r&aacute;pidas<br \/>\n    transforma&ccedil;&otilde;es que opera o sangue da juventude na formosura<br \/>\n    da crian&ccedil;a, com todo o realce e prest&iacute;gio que d&aacute; &agrave;<br \/>\n    beleza a educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta era uma rapariga de olhos negros e de boca graciosa, onde flutuava<br \/>\n    um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade.<\/p>\n<p> Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos dela um misto da candura de<br \/>\n    uma crian&ccedil;a e dos delicados instintos da mulher; reconhecia- se a falta<br \/>\n    de dissimula&ccedil;&atilde;o, que &eacute; pr&oacute;pria dos caracteres<br \/>\n    generosos e ao mesmo tempo uma natural dignidade, que imp&otilde;e respeito<br \/>\n    aos menos reverentes.<\/p>\n<p> Mauncio sentia-se maravilhado diante da filha de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Berta ! &#8212; exclamou ele, sem disfar&ccedil;ar a sua surpresa,<br \/>\n    nem desviar os olhos da rapariga, que o saudara, corando. &#8212; E &eacute;<br \/>\n    certo que &eacute; Berta ! Conhe&ccedil;o ainda o sorriso, que &eacute; o<br \/>\n    mesmo de outros tempos.<\/p>\n<p> Mas que diferen&ccedil;a em tudo o mais ! Berta desviou os olhos sob a insist&ecirc;ncia<br \/>\n    e express&atilde;o dos de Maur&iacute;cio, e dominando a custo a como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    conseguiu dizer: &#8212; Fiz-me mais velha, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, Berta, fez-se um anjo &#8212; acudiu Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; que n&atilde;o &#8212; atalhou Tom&eacute; &#8212;<br \/>\n    anjo era dantes. Hoje j&aacute; n&atilde;o repicariam os sinos, se ela morresse.<\/p>\n<p> &#8212; A terra teria bem raz&atilde;o para lamentar-se. Ao C&eacute;u &eacute;<br \/>\n    que competiriam as festas &#8212; atalhou, galanteando, Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m eu encontro mudan&ccedil;as em si, Sr. Maur&iacute;cio<br \/>\n    &#8212; observou Berta. &#8212; Quando o deixei, n&atilde;o dizia ainda essas<br \/>\n    coisas.<\/p>\n<p>E a mesma intima urba&ccedil;&atilde;o tirava-lhe ainda a firmeza &agrave;<br \/>\n    voz e ao olhar.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o as sentia Berta &#8212; redarguiu Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Berta abanou a cabe&ccedil;a com ar de d&uacute;vida e quase de tristeza,<br \/>\n    e tornou sobressaltada: &#8212; Parece-me que os que melhor dizem dessas coisas<br \/>\n    s&atilde;o os que menos sentem.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m lhe ensinaram a desconfiar, Berta ? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    t&atilde;o f&aacute;cil ensino! Cada um ap:ende por si.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; interrompeu Tom&eacute; &#8212; nada de estarem parados<br \/>\n    no meio da estrada. Lembra-te, Berta, de que tua m&atilde;e a estas horas<br \/>\n    n&atilde;o faz outra coisa mais do que espreitar da janela, a ver se te v&ecirc;<br \/>\n    chegar.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos l&aacute;.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio dirigiu o cavalo para o lado do de Berta, que cavalgava<br \/>\n    assim entre o fidalgo e o pai.<\/p>\n<p> &#8212; Que saudades me est&atilde;o fazendo estes s&iacute;tios ! &#8212;<br \/>\n    dizia Berta, suspirando e enquanto corria a vista pelo horizonte, que a rodeava.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo me &eacute; t&atilde;o conhecido ainda ! &#8212; Lembra-se<br \/>\n    daqueles freixos, l&aacute; em baixo, ao descer para os Palheiros Queimados<br \/>\n    ? &#8212; perguntou Maur&iacute;cio, apontando para o lugar que designava.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei. &Eacute; onde est&aacute; a fonte da Moira.<\/p>\n<p> &#8212; E onde n&oacute;s fomos um dia com a Ana do Vedor colher agri&otilde;es.<\/p>\n<p> Est&aacute; certa? &#8212; &Eacute; verdade. E por sinal que nos saiu da<br \/>\n    quinta do Emigrado um c&atilde;o grande que l&aacute; havia, e que se atirou<br \/>\n    a mim com uma f&uacute;ria! &#8212; E n&atilde;o se lembra de quem lhe acudiu<br \/>\n    ? &#8212; Sim, foi o Sr. Maur&iacute;cio, mas tamb&eacute;m lhe valeu a Ana<br \/>\n    do Vedor, que se n&atilde;o fosse ela, vamos, n&atilde;o sei o que seria.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda assim n&atilde;o impediu que o endiabrado me mordesse no pulso<br \/>\n    ; ainda conservo a cicatriz. Olhe.<\/p>\n<p> E Maur&iacute;cio mostrou o pulso a Berta, que se curvou para observar o<br \/>\n    vest&iacute;gio daquele epis&oacute;dio de inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8212; prosseguiu Berta, j&aacute; mais &agrave;<br \/>\n    vontade &#8212; e a boa ti Ana do Vedor? que tanto lhes queria, a si e ao<br \/>\n    sr. Jorge? Sei que vive; mas ainda &eacute; o que era dantes? alegre, robusta,<br \/>\n    franca?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quem? a ti&#8217;Ana?! &#8212; acudiu Tom&eacute;. &#8212; Ver&aacute;s,<br \/>\n    Berta, que ainda te parece mais nova. Aquilo &eacute; que &eacute; mulher<br \/>\n    de casa ! &Eacute; um gosto v&ecirc;-la, no meio dos campos, de mangas arrega&ccedil;adas<br \/>\n    e chap&eacute;u de palha na cabe&ccedil;a e de enxada ou mangual na m&atilde;o.<br \/>\n    O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois numa eira? Neste ponto Tom&eacute;<br \/>\n    deu um assobio, que exprimia a grande conta em que tinha o trabalho de Ana<br \/>\n    do Vedor.<\/p>\n<p> &#8212; O filho est&aacute; regedor.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma boa e generosa alma &#8212; tornou Maur&iacute;cio,<br \/>\n    com uma express&atilde;o de sincera simpatia. &#8212; E quer-nos como filhos.<\/p>\n<p>&#8212; Isso quer &#8212; confirmou Tom&eacute;. &#8212; Quando fala nos<br \/>\n    seus meninos, que trouxe ao colo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe<br \/>\n    os olhos.<\/p>\n<p> &#8212; E tamb&eacute;m me ralha com uma severidade ! &#8212; Vamos, que<br \/>\n    ela bem sabe por que o faz. Ent&atilde;o pensa que n&atilde;o lhe merece ainda<br \/>\n    mais? &#8212; N&atilde;o digo que n&atilde;o. S&oacute; me queixo de certa<br \/>\n    parcialidade que manifesta por Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; E como vai o Sr. Jorge ? &#8212; perguntou Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem. F&ecirc;z-se caixeiro. N&atilde;o sabe? Atirou-se aos<br \/>\n    livros e &agrave; papelada da casa, como um homem, e j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; tirar-lhe palavra que n&atilde;o seja de contas e de neg&oacute;cios.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; um homem &agrave;s direitas &#8212; disse o Tom&eacute;,<br \/>\n    com gravidade.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas podia distrair-se mais um bocado. Mas ent&atilde;o?<br \/>\n    Deu-lhe Deus aquele g&ecirc;nio frio como gelo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o sei l&aacute; se &eacute; frio ou se &eacute; quente.<br \/>\n    O que sei &eacute; que &eacute; um rapaz de juizo e que, se continuar assim,<br \/>\n    h&aacute;-de remediar muita doidice, antiga e moderna, que h&aacute; l&aacute;<br \/>\n    por casa.<\/p>\n<p> &#8212; A moderna &eacute; comigo, aposto. N&atilde;o tem raz&atilde;o.<br \/>\n    Eu tamb&eacute;m estou decidido a trabalhar. Se ainda aqui me v&ecirc;, a<br \/>\n    culpa n&atilde;o &eacute; minha.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o vai partir ? &#8212; perguntou Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Que rem&eacute;dio, Berta? Cumpro uma dura lei. Deixo o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por aqui, acredite : por esses vales, por essas devesas, por essas ribeiras&#8230;<\/p>\n<p> Mas que hei-de fazer? &#8212; E para onde vai ? &#8212; Eu sei? Para onde<br \/>\n    me levar o destino. Mas o Tom&eacute; ri-se! Seu pai ri-se, Berta! &#8212;<br \/>\n    Rio-me da lam&uacute;ria. Quem o ouvir, h&aacute;-de acreditar que ele parte<br \/>\n    deveras e que lhe custa imenso a partida.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o? &#8212; A mim j&aacute; me custa a crer que o Sr.<br \/>\n    Maur&iacute;cio nos deixe ; mas, a isso suceder, n&atilde;o h&aacute;-de ser<br \/>\n    a chorar que arranjar&aacute; as malas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; injusto com o meu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; o que<br \/>\n    se segue.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, senhor, n&atilde;o sou; mas sei o que &eacute; ter vinte<br \/>\n    anos, e sei o que &eacute; essa cabe&ccedil;a. E agora o nosso caminho &eacute;<br \/>\n    por aqui. O Sr. Maur&iacute;cio, se quiser dar-nos o prazer da sua companhia,<br \/>\n    tem no fim desta rua uma casa para o receber, sen&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Agradecido, Tom&eacute;. Outro dia ser&aacute;. N&atilde;o quero<br \/>\n    perturbar com a minha presen&ccedil;a as alegrias de fam&iacute;lia. Adeus,<br \/>\n    Berta; continuaremos a ser os amigos que &eacute;ramos dantes, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade? &#8212; Porque n&atilde;o, Maur&iacute;cio&#8230; Sr. Maur&iacute;cio?<br \/>\n    E Berta, com um sorriso de generosa confian&ccedil;a, estendeu a pequena e<br \/>\n    delicada m&atilde;o &agrave; que Maur&iacute;cio lhe oferecia.<\/p>\n<p> Este, com uma galantaria, que o s&eacute;culo actual traz quase esquecida,<br \/>\n    levou-a cavalheirosamente aos l&aacute;bios, movimento que aumentou as cores<br \/>\n    nas faces de Berta; depois, cortejando-a com perfeita eleg&acirc;ncia, partiu<br \/>\n    a galope.<\/p>\n<p> Berta seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois que<br \/>\n    o perdeu de vista.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, que notara tudo isto, n&atilde;o deixou passar muito tempo<br \/>\n    que n&atilde;o admoestasse a filha.<\/p>\n<p> &#8212; Olha c&aacute;, Berta, tem cautela com o teu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o v&aacute; ele por a&iacute; deixar-se prender. Eu n&atilde;o<br \/>\n    sei como &eacute; costume viver-se hoje na cidade, mas aqui sei o que vai.<br \/>\n    Eu te digo, n&atilde;o ponhas muita confian&ccedil;a nestas amizades de Maur&iacute;cio.<br \/>\n    N&atilde;o digo que ele seja mau rapaz, mas a cabe&ccedil;a &eacute; que &eacute;<br \/>\n    assim n&atilde;o sei como. E nisso mesmo &eacute; que est&aacute; o perigo.<br \/>\n    Aqui h&aacute; poucos rapazes que agradem mais do que ele ; &eacute; bem feito,<br \/>\n    vivo, esperto, generoso&#8230; Na tua idade, e com a educa&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    tens, n&atilde;o era para admirar que te agradasses de um rapaz assim.<\/p>\n<p> Mas, pensa enquanto &eacute; tempo, filha, no mal que a ti pr&oacute;pria<br \/>\n    fazias, se estouvadamente te deixavas enfeiti&ccedil;ar. Eles sao os fidalgos<br \/>\n    que sabes, e mais fidalgos ainda se julgam do que s&atilde;o. Tu, rapariga,<br \/>\n    &eacute;s minha filha, e eu sou um lavrador, que j&aacute; serviu naquela<br \/>\n    casa. Entendes? &Oacute; Berta, por quem &eacute;s, n&atilde;o me fa&ccedil;as<br \/>\n    arrepender da educa&ccedil;&atilde;o que te dei. Porque eu, &agrave;s vezes,<br \/>\n    tenho minhas d&uacute;vidas. Digo eu comigo : &laquo;Faria eu bem em educar<br \/>\n    minha filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a criasse como filha<br \/>\n    de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ela havia de estim&aacute;-lo<br \/>\n    e de ser feliz com ele, e de olhar com amor pelos filhos descal&ccedil;os,<br \/>\n    que the andassem pelos campos e apegados &agrave; saia de baeta; mas assim&#8230;<br \/>\n    Quem poder&aacute; costum&aacute;-la a isso? Mas que outro marido pode ela<br \/>\n    escolher?&raquo; Berta escutou o pai com um sorriso nos l&aacute;bios, mas<br \/>\n    sorriso que n&atilde;o anulava a express&atilde;o melanc&oacute;lica e pensativa,<br \/>\n    que conservava o resto das fei&ccedil;&otilde;es. Mais de uma vez se perturbou<br \/>\n    ao ouvi-lo, mas cedo adquiriu a serenidade habitual.<\/p>\n<p> Neste ponto atalhou-o, dizendo : &#8212; S&atilde;o prudentes os conselhos<br \/>\n    que me d&aacute;. Farei por n&atilde;o os esquecer.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei iludir pelos<br \/>\n    bens que a sua bondade me tem permitido gozar na vida; n&atilde;o perdi de<br \/>\n    vista o que sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por n&atilde;o colocar a<br \/>\n    felicidade muito acima do alcance do meu bra&ccedil;o. Na amizade de Maur&iacute;cio<br \/>\n    creio que n&atilde;o haver&aacute; perigos para mim; mas se os houver, hei-de<br \/>\n    saber fugir-lhes. Foram meus companheiros, quando brinc&aacute;vamos todos<br \/>\n    naquela casa; quero-lhes por isso, mas sei o que deles me separa.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; de Jorge nada temas. &Eacute; um car&aacute;cter s&eacute;rio<br \/>\n    aquele. Se disser que &eacute; teu amigo, &eacute; teu amigo deveras; sen&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o to diria; mas este&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Jorge &eacute; ainda o que sempre foi. J&aacute; em crian&ccedil;a<br \/>\n    era o mesmo.<\/p>\n<p> Sempre t&atilde;o s&eacute;rio! &#8212; Agora ainda mais. Ele hoje n&atilde;o<br \/>\n    pensa sen&atilde;o nos neg&oacute;cios da casa, que tomou a seu cuidado e<br \/>\n    que levar&aacute; a bom fim. Creio-o.<\/p>\n<p> Vem Vem quase todas as noites a nossa casa ; vem de noite por causa do pai,<br \/>\n    porque o velho n&atilde;o tem cura, a querer-me mal.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ? ! Mas que pena ! &#8212;Deix&aacute;-lo l&aacute;, que eu<br \/>\n    em vingan&ccedil;a hei-de fazer-lhe o bem que puder.<\/p>\n<p> Poucos momentos depois chegavam a casa o pai e a filha; esta foi recebida<br \/>\n    nos bra&ccedil;os da boa Luisa, que a devorou com beijos e a banhou de l&aacute;grimas<br \/>\n    generosas; os irm&atilde;os pequenos olhavam espantados para Berta, que n&atilde;o<br \/>\n    conheciam e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados felicitavam-na<br \/>\n    tirando o chap&eacute;u e murmuravam frases incompletas.<\/p>\n<p> Berta, no meio daquela efus&atilde;o, daquele cordial acolhimento, daquele<br \/>\n    renascer dos dias passados e despertar de mem&oacute;rias queridas, sentia-se<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p> Debalde Tom&eacute;, um dos mais folgados cora&ccedil;&otilde;es ali presentes,<br \/>\n    bradava que era tempo de p&ocirc;r termo &agrave; festa, que cada um tinha<br \/>\n    a sua vida a tratar, e que Berta precisava de descanso; os abra&ccedil;os<br \/>\n    sucediam- se, os beijos estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam-<br \/>\n    -se as respostas em meio.<\/p>\n<p> Prolongou-se por muito tempo aquele grato alvoro&ccedil;o, que produz a<br \/>\n    chegada duma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo esquece<br \/>\n    ; a manifesta&ccedil;&atilde;o &eacute; ruidosa, irresist&iacute;vel, desordenada,<br \/>\n    an&aacute;rquica.<\/p>\n<p> Somente quando principia a acalmar-se este agrad&aacute;vel del&iacute;rio<br \/>\n    da alma, &eacute; que se repara nas irregularidades da cena, e que se remedeiam.<\/p>\n<p> Sucedeu desta vez que s&oacute; passada meia hora Luisa notou que tinham<br \/>\n    estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ela de prop&oacute;sito<br \/>\n    e t&atilde;o antecipadamente preparara para a recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A fam&iacute;lia recolheu-se ent&atilde;o, principiou mais regular e ordenada<br \/>\n    conversa entre m&atilde;e e filha, e prolongou-se at&eacute; tarde.<\/p>\n<p> Tom&eacute; foi nesse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que<br \/>\n    era seu costume.<\/p>\n<p> Foram momentos festivos para a Herdade, destes que &eacute; in&uacute;til<br \/>\n    descrever, porque n&atilde;o h&aacute; express&otilde;es que bem traduzam<br \/>\n    o que se sente ent&atilde;o. Supram-nas as recorda&ccedil;&otilde;es do leitor<br \/>\n    ; e muito sem conforto deve ter sido o seu passado, se n&atilde;o lhe d&aacute;<br \/>\n    elementos para conceber alegrias destas.<\/p>\n<p><b>IX<\/b><\/p>\n<p>DURAM pouco as efus&otilde;es, dissipa-se em breve o entusiasmo dos primeiros<br \/>\n    instantes, em que tornamos a ver cenas e pessoas conhecidas, de que por muito<br \/>\n    tempo vivemos separados. A alma, de s&uacute;bito, agitada, readquire gradualmente<br \/>\n    a serenidade do costume; e o cora&ccedil;&atilde;o, que julgava saciar enfim<br \/>\n    a &acirc;nsia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece que<br \/>\n    ainda n&atilde;o chegou essa hora, porque o invadem de novo as mesmas vagas<br \/>\n    e inquietadoras aspira&ccedil;&otilde;es que sentia.<\/p>\n<p> &Eacute; grande a alegria do regresso, mas r&aacute;pidos os momentos, em<br \/>\n    que se experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a fantasiar um prazer<br \/>\n    perdur&aacute;vel, sem fim e, ap&oacute;s as primeiras e irreprim&iacute;veis<br \/>\n    expans&otilde;es, desvanece-se a ilus&atilde;o em que se vinha; como sempre,<br \/>\n    como em t&ocirc;da a parte, o vazio sente-se no cora&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    nenhum gozo enche, e a&iacute; se volta a aspirar sem saber o qu&ecirc;, e<br \/>\n    a aguardar uma nova aurora sem saber de onde.<\/p>\n<p> Quando, &agrave; noite, Berta se retirou enfim ao seu antigo quarto, havia<br \/>\n    j&aacute; satisfeito a sede de afectos e de saudades, que a devorava ao chegar.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o batia-lhe com o ritmo normal, habituara-se de novo<br \/>\n    a sua sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na inf&acirc;ncia;<br \/>\n    da impress&atilde;o que o primeiro olhar, que lan&ccedil;ou sobre eles, lhe<br \/>\n    produzira, j&aacute; nem ind&iacute;cios restavam.<\/p>\n<p> O passado, ressuscitando, perdera j&aacute; o prest&iacute;gio e a poesia,<br \/>\n    que s&oacute; como passado tem.<\/p>\n<p> &Oacute; feiticeiras fadas, que nos acompanhais quando por longe andamos,<br \/>\n    devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque t&atilde;o<br \/>\n    depressa nos abandonais &agrave; chegada? Porque dissipais os vapores inebriantes<br \/>\n    de que rode&aacute;veis aquelas imagens aos nossos olhos fascinados, e nos<br \/>\n    fazeis ver a realidade como a v&iacute;amos dantes? Berta, s&oacute; no remanso<br \/>\n    e solid&atilde;o do seu quarto, sentia uma profunda melancolia tomar-lhe o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Os cuidados e desvelos de Tom&eacute; e de Luisa n&atilde;o<br \/>\n    tinham sido suficientes para transformar completamente aquele aposento em<br \/>\n    um desses recintos, perfumados e graciosos, em que respira, como em atmosfera<br \/>\n    pr&oacute;pria, uma mulher delicada.<\/p>\n<p> A este desconforto relativo n&atilde;o podia ser de todo insens&iacute;vel<br \/>\n    a organiza&ccedil;&atilde;o feminil de Berta.<\/p>\n<p> Sem que ela pr&oacute;pria tivesse consci&ecirc;ncia do que lhe produzia<br \/>\n    esse efeito, sentia-se com uma disposi&ccedil;&atilde;o para l&aacute;grimas,<br \/>\n    que a surpreendia.<\/p>\n<p> O sossego da hora, o sil&ecirc;ncio do campo apenas cortado por uns indistintos<br \/>\n    murm&uacute;rios, que s&atilde;o o mist&eacute;rio das noites campestres,<br \/>\n    conspiravam para aumentar-lhe esta melancolia.<\/p>\n<p> H&aacute; horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de<br \/>\n    n&oacute;s o cora&ccedil;&atilde;o, e o futuro escurecer e contrair-se o c&iacute;rculo<br \/>\n    que nos abrange a exist&ecirc;ncia, como um horizonte que as nuvens pesadas<br \/>\n    da tempestade estreitam cada vez mais, a sufocar-nos.<\/p>\n<p> N&atilde;o acusem Berta por esta inexplic&aacute;vel tristeza, que lhe invadiu<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o na pr&oacute;pria noite, em que voltara &agrave; casa<br \/>\n    paterna. N&atilde;o duvidem por isso dos afectos daquela amor&aacute;vel &iacute;ndole<br \/>\n    de mulher.<\/p>\n<p> Nem todas as almas nascem dotadas da c&oacute;moda flexibilidade com que<br \/>\n    algumas a tudo se amoldam. H&aacute;-as t&atilde;o delicadas, que a menor<br \/>\n    mudan&ccedil;a ressentem.<\/p>\n<p> Os cora&ccedil;&otilde;es que se prendem depressa com ra&iacute;zes onde<br \/>\n    se demo ram, s&atilde;o os que mais sofrem nos primeiros momentos de uma transplanta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o era isto em Berta pesar por ser t&atilde;o modesta a casa de<br \/>\n    seus pais ; a sua tristeza era mais de instinto que de raz&atilde;o. E pelas<br \/>\n    impress&otilde;es que v&ecirc;m do instinto ningu&eacute;m &eacute; respons&aacute;vel<br \/>\n    ; s&oacute; &agrave; raz&atilde;o h&aacute; direito de pedir contas, e a de<br \/>\n    Berta n&atilde;o recearia prest&aacute;-las.<\/p>\n<p> Como para fugir &agrave; estranha melancolia que a dominava, Berta chegou<br \/>\n    &agrave; janela do quarto, que deitava para os campos.<\/p>\n<p> H&aacute; uma misteriosa solenidade no espect&aacute;culo que de noite,<br \/>\n    e noite de pouca luz, se goza assim de uma janela aberta, no campo. H&aacute;<br \/>\n    fora um sil&ecirc;ncio que amedronta, uma escura vastid&atilde;o que apavora,<br \/>\n    sil&ecirc;ncio que &agrave;s vezes interrompe o rastejar furtivo de um r&eacute;ptil,<br \/>\n    o cair de uma folha, e n&atilde;o sei que outros ru&iacute;dos vagos ; escurid&atilde;o,<br \/>\n    onde parece distinguir-se o movimento de umas formas estranhas e monstruosas.<\/p>\n<p> Se vos demorais silenciosos nessa contempla&ccedil;&atilde;o, por algum<br \/>\n    tempo, j&aacute; n&atilde;o a interrompereis por uma palavra, por um movimento,<br \/>\n    sem que essa interrup&ccedil;&atilde;o vos sobressalte ou intimide quase.<br \/>\n    Estremecer&eacute;is ao ouvir-vos no meio daquele sil&ecirc;ncio. Instintivamente<br \/>\n    fala-se baixo.<\/p>\n<p> Parece que aquela paz, que aquela quieta&ccedil;&atilde;o, que aquela tre<br \/>\n    va nos absorve, que nos domina, que nos atrai e que de alguma maneira nos<br \/>\n    faz parte integrante de si mesma.<\/p>\n<p> Opera-se em n&oacute;s uma quase magnetiza&ccedil;&atilde;o. Adormece a<br \/>\n    sensibilidade que nos revela o mundo exterior ; exalta-se o esp&iacute;rito<br \/>\n    ; e o ru&iacute;do, que nos acorda deste sonho, faz-nos estremecer. E o que<br \/>\n    se pensa calado nesses momentos, santo Deus ! Como a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vagueia, como parece que daquelas confusas sombras, que temos diante de n&oacute;s,<br \/>\n    nos surgem as mem&oacute;rias do passado e v&ecirc;m, em silencioso voo, adejar<br \/>\n    sobre as nossas cabe&ccedil;as e estontear-nos com as suas &#8216;r&aacute;pidas<br \/>\n    e vertiginosas voltas ! O passado de Berta era uma singela hist&oacute;ria<br \/>\n    dos mais inocentes afectos. N&atilde;o havia nela a intensa luz dos amores,<br \/>\n    apenas o d&eacute;bil clar&atilde;o da aurora que os precede, essa misteriosa<br \/>\n    vibra&ccedil;&atilde;o de alma, que sente nascer em si faculdades novas.<\/p>\n<p> Eram pois imagens apraz&iacute;veis as que naquele momento lhe apareciam.<\/p>\n<p> Entre elas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a delicada<br \/>\n    crian&ccedil;a, que parecia ter vivido somente para semear de saudades o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quantos a conheceram.<\/p>\n<p> Reviviam para Berta naquela hora todas as cenas de inf&acirc;ncia passadas<br \/>\n    com ela: os jogos, os folgares e at&eacute; as l&aacute;grimas, choradas em<br \/>\n    comum.<\/p>\n<p> Que tempos ! E ao lado da meiga e p&aacute;lida figura de Beatriz surgiam<br \/>\n    as d&aacute;s outras duas crian&ccedil;as, seus irm&atilde;os. Via o rosto<br \/>\n    infantil de Jorge, no qual j&aacute; ent&atilde;o havia uns assomos de seriedade<br \/>\n    do seu car&aacute;cter futuro; lem brava-se Berta das v&ecirc;zes em que ele<br \/>\n    tornava um ar grave para admoestar ou repreender os seus mais turbulentos<br \/>\n    companheiros, e do respeito que todos lhe tinham, e do muito que estimavam<br \/>\n    a sua opini&atilde;o; a a contrastar com esta serena imagem esbo&ccedil;ava-se<br \/>\n    a do inquieto, vivo e estouvado Maur&iacute;cio, crian&ccedil;a pronta nos<br \/>\n    risos e no choro, violenta nas paix&otilde;es, t&atilde;o amor&aacute;vel<br \/>\n    como col&eacute;rica, e em cujo cora&ccedil;&atilde;o infantil ferviam j&aacute;<br \/>\n    nascentes as paix&otilde;es do homem. Era esta talvez de todas a imagem que<br \/>\n    avultava mais distinta nas recorda&ccedil;&otilde;es de Berta. Que de epis&oacute;dios<br \/>\n    em que ela recebia a luz principal do quadro ! Dos dois irm&atilde;os fora<br \/>\n    este o predilecto ; o seu cora&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;a abrira-se<br \/>\n    mais &agrave; franqueza de Maur&iacute;cio, do que &agrave; seriedade de Jorge<br \/>\n    ; havia no olhar deste uma express&atilde;o grave que a intimidava. Depois<br \/>\n    a diferen&ccedil;a da idade concorria para aumentar esse efeito.<\/p>\n<p> E Berta, pensando nisto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa Mourisca,<br \/>\n    onde se tinham passado aquelas alegres cenas.<\/p>\n<p> Era escuro todo ele, e parecia ali posto, como um destes monstros enormes,<br \/>\n    que guardavam os jardins encantados.<\/p>\n<p> De repente o monstro abriu um olho.<\/p>\n<p> Apareceu uma luz em uma das torres do pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Era a &uacute;nica que divisava em t&ocirc;da aquela escurid&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o p&ocirc;de mais desviar os olhos dela.<\/p>\n<p> De quando em quando desaparecia momentaneamente a luz, como se algu&eacute;m<br \/>\n    passeasse diante. Depois fixou-se, e somente mais de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o<br \/>\n    se eclipsava, para surgir mais viva.<\/p>\n<p> Tudo parecia indicar que se velava ali dentro.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; o Sr. D. Luis? &#8212; perguntava a si mesma Berta,<br \/>\n    observando a luz. &#8212; Em que pensar&aacute; ele a estas horas? Pobre velho,<br \/>\n    ali s&oacute;, naquela casa deserta!&#8230; E em Beatriz decerto que pensa como<br \/>\n    eu&#8230; Ou, quem sabe? talvez n&atilde;o seja o fidalgo, mas algum dos filhos;<br \/>\n    Maur&iacute;cio provavelmente&#8230;<\/p>\n<p> Sim, ali deve ser o quarto deles&#8230;<\/p>\n<p> E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luis entrava outra vez no campo<br \/>\n    da vis&atilde;o de Berta.<\/p>\n<p> As palavras que trocara com ele aquela tarde, a maneira como a olhara, e<br \/>\n    o que o pai depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia reflectir.<\/p>\n<p> Adivinharia Tom&eacute; com o seu bom instinto de homem do campo? Haveria<br \/>\n    para o cora&ccedil;&atilde;o de Berta perigos na presen&ccedil;a de Maur&iacute;cio?<br \/>\n    Era t&atilde;o natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que &agrave;<br \/>\n    semelhan&ccedil;a da noiva nos livros sagrados, espera h&aacute; muito, perfumada<br \/>\n    de mirra e de puros aromas, o noivo que tarda, encontra t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    asilo a imagem de um adolescente como Maur&iacute;cio, sobretudo se o rodeia<br \/>\n    0 prest&iacute;gio das saudades de um passado ridente e o vago reflexo que<br \/>\n    sempre deixam de si umas pueris paix&otilde;es com que se iludiu a inf&acirc;ncia,<br \/>\n    que raz&atilde;o tinha Tom&eacute; para receios, e que raz&atilde;o tinha<br \/>\n    Berta para, pensando neles, sondar com inquieta apreens&atilde;o o santu&aacute;rio<br \/>\n    dos seus mai3 &Iacute;ntimos afectos. Prolongou-se esta contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em Berta, e sucederam-se-lhe no esp&iacute;rito os mais diversos pensamentos,<br \/>\n    enquanto os olhos se fixaram na luz da Casa Mourisca. S&oacute; muito tarde<br \/>\n    desapareceu subitamente essa luz. Berta, como acordando de um sonho, voltou-se<br \/>\n    ent&atilde;o para o interior do quarto, do qual lhe parecia haver andado longe<br \/>\n    em todo aqu&ecirc;le tempo.<\/p>\n<p> A vela, quase gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito que,<br \/>\n    sem sentir, se prolongou aquela sua abstrac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A vista dos objectos do quarto evocou-a &agrave; realidade. Passou as m&atilde;os<br \/>\n    pelo rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a<br \/>\n    oprimiam, sacudiu a cabe&ccedil;a suspirando, e procurou serenar o esp&iacute;rito<br \/>\n    para dormir.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; &Eacute; necess&aacute;rio ter ju&iacute;zo &#8212; murmurava<br \/>\n    ela, soltando as trancas &#8212; e soprar quanto antes estes nevoeiros que<br \/>\n    me rodeiam, para ver, como ele &eacute;, o sol da realidade. &Eacute; tempo<br \/>\n    de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida que tenho a viver, como ela<br \/>\n    deve ser aceite por uma mulher como eu. Os anos de crian&ccedil;a passaram.<\/p>\n<p> E adormeceu nesta prudente e ajuizada resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das janelas<br \/>\n    da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ela uma longa s&eacute;rie<br \/>\n    de pensamentos, tamb&eacute;m a do quarto de Berta n&atilde;o se perdera no<br \/>\n    espa&ccedil;o, sem encontrar uns olhos que lhe reco lhessem alguns raios na<br \/>\n    passagem.<\/p>\n<p> Jorge era quem velava no &uacute;nico aposento alumiado do velho solar do<br \/>\n    fidalgo.<\/p>\n<p> Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da noite,<br \/>\n    interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no quarto, ou<br \/>\n    melhor diremos, continuando-os assim.<\/p>\n<p> Era dele o vulto que Berta via passear por diante da luz, ocultando- se<br \/>\n    momentaneamente.<\/p>\n<p> Esta noite havia, por&eacute;m, mais agita&ccedil;&atilde;o em Jorge do<br \/>\n    que lhe era habitual ; os seus movimentos tinham o que quer que era de nervoso<br \/>\n    e quase febril ; concentrava menos o esp&iacute;rito na leitura, e interrompia-a<br \/>\n    mais frequentemente.<\/p>\n<p> As vig&iacute;lias de Maur&iacute;cio n&atilde;o eram mais curtas do que<br \/>\n    as de Jorge, mas consagravam-se a diferente mister: gastavam-se em aventurosas<br \/>\n    digress&otilde;es pelos montados e vales da aldeia, em visitas aos solares<br \/>\n    das circunvizinhan&ccedil;as, onde houvesse uma mesa de whist ou um cante<br \/>\n    de fog&atilde;o, animado pelo sorriso das damas.<\/p>\n<p> Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irm&atilde;o estudando, e<br \/>\n    era costume deles passarem alguns momentos a conversar.<\/p>\n<p> Naquela noite, Maur&iacute;cio n&atilde;o recolheu muito tarde. Ao senti-lo,<br \/>\n    Jorge, que passeava no quarto, sentou-se depressa &agrave; banca, e inclinou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a sobre um livro que tinha aberto diante de si.<\/p>\n<p> &Agrave; entrada de Maur&iacute;cio, Jorge apenas lhe acenou com a m&atilde;o,<br \/>\n    e prosseguiu ou fingiu que prosseguia na leitura que encetara, at&eacute;<br \/>\n    terminar a p&aacute;gina.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, nigromante &#8212; saudou-o Maur&iacute;cio, &#8212;<br \/>\n    A estas horas, nesta torre, &agrave; luz morti&ccedil;a de um candeeiro e<br \/>\n    com um livro aberto diante de ti, representas admir&agrave;velmente um astr&ograve;logo.<\/p>\n<p> Jorge apenas lhe resDondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio chegou-se &agrave; janela: &#8212; Mas &eacute; preciso,<br \/>\n    de quando em quando, examinar as estrelas tamb&eacute;m. E elas hoje, que<br \/>\n    est&atilde;o t&atilde;o cintilantes! Ah! grande novidade no nosso firmamento<br \/>\n    ! Gra&ccedil;as a Deus que, al&eacute;m de n&oacute;s, h&aacute; j&aacute;<br \/>\n    mais algu&eacute;m na aldeia que n&atilde;o dorme a estas horas ! Jorge fechou<br \/>\n    o livro e foi ter com o irm&atilde;o &agrave; janela.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres dizer ? &#8212; perguntou, aproximando-se.<\/p>\n<p> &#8212; Que descobri um planeta novo ! mais uma luz na aldeia ! &#8212;<br \/>\n    uma luz? &#8212; Sim, e &eacute; em casa de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo calado;<br \/>\n    depois murmurou: &#8212; Tom&eacute; ainda de vela a estas horas ! &Eacute;<br \/>\n    singular ! &#8212; Faz-lhe mais justi&ccedil;a &#8212; tornou Maur&iacute;cio.<br \/>\n    &#8212; Tom&eacute; dorme h&aacute; boas quatro horas. A gente do campo &eacute;<br \/>\n    incapaz do extravagante delito de escandalizar com luz as trevas da noite.<br \/>\n    Naquilo percebem-se vest&iacute;gios de h&aacute;bitos cidad&atilde;os. Quem<br \/>\n    vela &eacute; a filha, com certeza.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! sim&#8230; Berta&#8230; esquecia-me de que tinha voltado &#8212; acudiu<br \/>\n    Jorge, esfor&ccedil;ando-se por dizer isto em tom natural e indiferente.<\/p>\n<p> &#8212; Voltou, e bem outra do que foi ! &#8212; advertiu Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Em qu&ecirc; ? &#8212; perguntou Jorge, olhando para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Foi daqui uma crian&ccedil;a agrad&aacute;vel, e veio uma encantadora<br \/>\n    mulher ! &#8212; Ah! ah! j&aacute; notaste? &#8212; disse Jorge, com um sorriso<br \/>\n    contrafeito.<\/p>\n<p> &#8212; Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me imposs&iacute;vel, ao v&ecirc;-la,<br \/>\n    que fosse a filha do Tom&eacute;. um ar t&atilde;o delicado, umas maneiras<br \/>\n    t&atilde;o distintas, t&atilde;o de cidade!&#8230;<\/p>\n<p> 1&#8212; Olha se te deixas apaixonar por ela ; anda l&aacute; ! &#8212;<br \/>\n    continuou Jorge, ainda no mesmo tom.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o seria prova de mau gosto, afian&ccedil;o-te. Que superioridade,<br \/>\n    comparada a todas as nossas primas destes arredores ! O que &eacute; a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ! Jorge encolheu os ombros, dizendo com certo modo irritado : &#8212; Provavelmente<br \/>\n    n&atilde;o produzir&aacute; em mim os mesmos efeitos.<\/p>\n<p> Tenho a certeza de que hei-de sentir saudades, ao v&ecirc;-la, da Berta<br \/>\n    que conheci pequena.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o duvido, porque &eacute;s bastante fil&oacute;sofo para<br \/>\n    isso. Eu por mim confesso-te que, na idade em que estou, e apesar de toda<br \/>\n    a simpatia que tenho por crian&ccedil;as, n&atilde;o me sinto com disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para repetir as palavras de Cristo, a respeito delas. Eu prefiro que se cheguem<br \/>\n    para mim&#8230; as grandes&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Em vez da crian&ccedil;a alegre e inocente &#8212; prosseguiu Jorge<br \/>\n    com acrim&ograve;nia &#8212; da crian&ccedil;a que brincava connosco e com<br \/>\n    a nossa pobre Beatriz, preferes encontrar a colegial, com o esp&iacute;rito<br \/>\n    voltado todo para a moda, com um pouco de geografia e de hist&oacute;ria na<br \/>\n    cabe&ccedil;a, e deixando cair da boca, quando fala, palavras francesas, como<br \/>\n    deitava pedras preciosas a hero&iacute;na daqueles contos que nos ensinavam<br \/>\n    em pequenos. E &eacute; isto o que te encanta?&#8230; Pois olha, eu at&eacute;<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o gosto de ver aberta aquela janela a estas horas. Sabe-me<br \/>\n    aquilo a romanticismo, e &eacute; nas raparigas uma doen&ccedil;a impertinente,<br \/>\n    insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> E Jorge retirou-se da janela com um mau humor dif&iacute;cil de explicar.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ! se o facto de uma janela aberta de noite fosse um indicio<br \/>\n    do crime que dizes, at&eacute; tu, o homem menos capaz de comet&ecirc;-lo<br \/>\n    que eu conhe&ccedil;o, poderias ser tamb&eacute;m acusado. Enganas-te ; Berta<br \/>\n    &eacute; realmente ador&aacute;vel. Ver&aacute;s. As mulheres, Jorge, t&ecirc;m<br \/>\n    isso consigo. Amoldam- se muito mais depressa aos h&aacute;bitos da eleg&acirc;ncia<br \/>\n    do que os homens.<\/p>\n<p> com certeza ningu&eacute;m suspeitar&aacute;, ao ver Berta, a origem alde&atilde;<br \/>\n    que ela teve. A mim parecia-me imposs&iacute;vel que aquela gentil rapariga,<br \/>\n    que t&atilde;o airosamente cavalgava ao meu lado, fosse a filha do Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa e daquela excelente Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! pois cavalgaste ao lado dela ? J&aacute; ? ! &#8212; notou<br \/>\n    Jorge em um tom de acerba ironia, que era novo nele.<\/p>\n<p> &#8212; Sim; encontrei-os na estrada, quando chegavam. N&atilde;o a conheci<br \/>\n    ao princ&iacute;pio. Aproximei-me, conversei com ela, achei-a encantadora.<\/p>\n<p> E depois tinha no olhar tantas promessas! Jorge deu em passear, evidentemente<br \/>\n    agitado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o que eu digo &#8212; murmurava ele com um sorriso nervoso<br \/>\n    e continuou : &#8212; Maur&iacute;cio, Maur&iacute;cio ; cautela ! Cuidado<br \/>\n    com esse galanteio ! Pode ser de mais s&eacute;rias consequ&ecirc;ncias do<br \/>\n    que as d&uacute;zias de paix&otilde;es que tens tido por as nossas primas<br \/>\n    destes s&iacute;tios. Essas o pior resultado a que poderiam conduzir-te era<br \/>\n    a casar com alguma delas e a enxertar assim no tronco ilustre da nossa &aacute;rvore<br \/>\n    geneal&ograve;gica alguma ilustr&iacute;ssima verg&ocirc;ntea de uma cepa<br \/>\n    igualmente antediluviana.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; est&aacute;s tu zombando de novo da nossa aristocracia.<br \/>\n    Desconhe&ccedil;o- te, Jorge. Realmente n&atilde;o sei de onde te veio essa<br \/>\n    febre democr&aacute;tica e filos&oacute;fica, com que andas h&aacute; tempos.<br \/>\n    Picou-te a mosca revolucion&aacute;ria.<\/p>\n<p> Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente n&atilde;o lhe era inspirada<br \/>\n    pelo assunto: &#8212; N&atilde;o sabes de onde me vem ? Vem-me de meia hora<br \/>\n    de reflex&atilde;o por dia. &Eacute; o que basta para me rir da fidalguia<br \/>\n    de t&ocirc;da essa nossa parentela que se deixa devorar por dividas, imaginando<br \/>\n    que h&aacute; em si alguma coisa que resista &agrave; sua in&uacute;til ociosidade<br \/>\n    ; e que h&atilde;o-de ficar muito admirados quando, ao receberem um dia esmola<br \/>\n    da mulher do seu rendeiro, esta os n&atilde;o tratar por fidalgos, nem lhes<br \/>\n    agradecer a honraria de aceit&aacute;-la.<\/p>\n<p> Outro menos despreocupado do que Maur&iacute;cio desconfiaria que na veem&ecirc;ncia<br \/>\n    com que Jorge fulminava a inc&uacute;ria aristocr&aacute;tica, havia muito<br \/>\n    de fact&iacute;cio, como se procurasse desviar a aten&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    verdadeiro motivo do seu estado nervoso.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o estou disposto a discutir a legitimidade das pretens&otilde;es<br \/>\n    aristocr&aacute;ticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar<br \/>\n    por Berta. Reconhe&ccedil;o a prud&ecirc;ncia do conselho. Porque &eacute;<br \/>\n    certo que h&aacute; naquela rapariga um n&atilde;o sei qu&ecirc; t&atilde;o<br \/>\n    superior ao que por a&iacute; vejo que, se eu n&atilde;o tivesse de deixar<br \/>\n    dentro em pouco tempo estes s&iacute;tios para&#8230; arranjar um modo de vida&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o juro que pudesse ser indiferente &agrave;queles encantos. Demais,<br \/>\n    h&aacute; entre n&oacute;s recorda&ccedil;&otilde;es de inf&acirc;ncia e quer<br \/>\n    parecer-me que ela ainda as n&atilde;o esqueceu.<\/p>\n<p> Jorge, sem responder, continuava a passear no quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Mae aquela luz n&atilde;o me sai do pensamento &#8212; prosseguiu<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Que estar&aacute; fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite<br \/>\n    ? N&atilde;o te parece que est&aacute; algu&eacute;m &agrave; janela? &#8212;<br \/>\n    Mal se pode divisar atrav&eacute;s das folhas desses castanheiros ; mas julgo<br \/>\n    que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre pequena! Ali, s&oacute;, nesta aldeia. Est&aacute; cismando<br \/>\n    em como poder&atilde;o ter realidade as vagas aspira&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo : &#8212; Ou de que maneira h&aacute;-de<br \/>\n    corresponder-se com algum Romeu colegial, que deixou suspirando em Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s insuport&aacute;vel, Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; uma experi&ecirc;ncia ! &#8212; exclamou, passados alguns momentos<br \/>\n    de sil&ecirc;ncio, Jorge, voltando &agrave; janela onde permanecia ainda Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Tu est&aacute;s dando tratos &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    adivinhares qual ser&aacute; o pensamento de Berta. Eu aventuro uma suposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Assim como n&oacute;s vimos aquela luz, ela v&ecirc; esta e talvez a nossa<br \/>\n    sombra na janela. &Eacute; natural que suponha que para ali dirigimos as vistas,<br \/>\n    e muito prov&aacute;vel que adivinhe que falamos dela. Sabendo-se observada,<br \/>\n    n&atilde;o ousa apagar a luz, por querer mostrar que tamb&eacute;m prolonga<br \/>\n    as suas r&ecirc;veries por noite alta.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ! deixa-me com as tuas observa&ccedil;&otilde;es ! &#8212; Queres<br \/>\n    verificar ? Apaguemos a luz e veremos o resultado.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio condescendeu.<\/p>\n<p> A &uacute;nica janela alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> Como o leitor j&aacute; sabe, Berta, por um motivo diferente do insinuado<br \/>\n    por Jorge, apagou tamb&eacute;m pouco depois a luz do seu quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Eu que dizia? &#8212; exclamou Jorge, rindo triunfantemente, mas<br \/>\n    como se aquele rir lhe fizesse mal.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor &#8212; disse Maur&iacute;cio,<br \/>\n    despeitado. &#8212; Tanto melhor?! &#8212; Sim. Porque n&atilde;o hei-de eu<br \/>\n    ver, neste prop&oacute;sito de acompanhar a nossa vig&iacute;lia, uma prova<br \/>\n    de simpatia pelo companheiro de inf&acirc;ncia que hoje tornou a ver? &#8212;<br \/>\n    Ah ! ah ! Pensas nisso ? &#8212; Porque n&atilde;o ? Olha, Jorge, a mulher<br \/>\n    sem as fraquezas do cora&ccedil;&atilde;o pr&oacute;prias do sexo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma mulher perfeita. Eu se visse anjos c&aacute; por este mundo,<br \/>\n    anjos puros, correctos, impec&aacute;veis, tirava-lhes reverente o chap&eacute;u,<br \/>\n    benzia-me diante deles, rezava-lhes uma ora&ccedil;&atilde;o, mas afian&ccedil;o-te<br \/>\n    que n&atilde;o os amava.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, Maur&iacute;cio. Olha que s&atilde;o duas horas.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sonhes com Berta.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sonhes tu com a aritm&eacute;tica, que &eacute; pior<br \/>\n    pesadelo.<\/p>\n<p> E os dois irm&atilde;os separaram-se, rindo.<\/p>\n<p> A ambos dominou por muito tempo a imagem de Berta.<\/p>\n<p> Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Berta, quanto podia,<br \/>\n    no pr&oacute;prio conceito, esfor&ccedil;ando-se por convencer-se de tudo<br \/>\n    quanto a respeito dela dissera ao irm&atilde;o, para diminuir assim a impress&atilde;o<br \/>\n    que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio dera-lhe a entender que Berta fora sens&iacute;vel ao seu<br \/>\n    galanteio, e esta id&eacute;ia torturava o esp&iacute;rito de Jorge.<\/p>\n<p> Pela sua parte, Maur&iacute;cio tanto lidou com a suposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que a vig&iacute;lia de Berta lhe fora consagrada, que adormeceu firmemente<br \/>\n    convencido disso e sonhou&#8230; sonhou&#8230; Oh! quem pode exprimir o longo romance<br \/>\n    dos sonhos de um rapaz aos vinte anos e quando possui uma imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como a de Maur&iacute;cio I<\/p>\n<p><b>X<\/b><\/p>\n<p>BERTA acordou firme no prop&oacute;sito que formara na v&eacute;spera, de<br \/>\n    aceitar com coragem de mulher as suas novas condi&ccedil;&otilde;es de vida,<br \/>\n    e de entregar-se de alma e vontade ao cumprimento dos deveres dom&eacute;sticos,<br \/>\n    sofreando para isso a ind&oacute;cil imagina&ccedil;&atilde;o de rapariga.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, pelo contr&aacute;rio, estreou os seus pensamentos daquele<br \/>\n    dia, avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar Berta, e formando a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de v&ecirc;-la e de falar-lhe.<\/p>\n<p> Jorge levantou-se cedo, um tanto fatigado pelo inquieto sono daquela noite,<br \/>\n    e procurou distrair-se, estudando uma quest&atilde;o econ&ocirc;mica, em que<br \/>\n    meditava havia muitos dias.<\/p>\n<p> Veremos o que as diversas disposi&ccedil;&otilde;es de &acirc;nimo destes<br \/>\n    tr&ecirc;s personagens deram de si no decurso do dia. <\/p>\n<p>O aspecto risonho da manh&atilde; dissipou as nuvens, que de noite se haviam<br \/>\n    acumulado sobre o esp&iacute;rito de Berta. J&aacute; lhe parecia, &agrave;quela<br \/>\n    suave e vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e n&atilde;o podia perdoar<br \/>\n    a si mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a m&atilde;e nas ocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dom&eacute;sticas, encontrava nisso uma distrac&ccedil;&atilde;o poderosa<br \/>\n    e quase um &iacute;ntimo prazer. As caricias dos irm&atilde;os comoviam-na,<br \/>\n    e foi j&aacute; com desassombrada alegria que, tomando um deles ao colo e<br \/>\n    dando a m&atilde;o ao outro, atravessou os campos cultivados, os vinhedos<br \/>\n    e os lameiros da Herdada, e foi sentar-se no limite dela, junto a uma fonte<br \/>\n    r&uacute;stica meia oculta entre a sebe de roseiras e estevas, que separava<br \/>\n    do caminho aquela parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida<br \/>\n    pelo orvalho, que ainda pousava nos trevos e nas fumarias do ch&atilde;o,<br \/>\n    e ca&iacute;a em gotas l&iacute;mpidas dos cumes das &aacute;rvores sacudidas<br \/>\n    na passagem ! Os irm&atilde;os corriam a trazer-lhe as rosas e as mais flores<br \/>\n    campestres que iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de<br \/>\n    passagem, e ela entretinha-se a ajunt&aacute;-las em pequenos ramos, com que<br \/>\n    os presenteava depois.<\/p>\n<p> Entregue t&ocirc;da a esta tarefa, sentia-se t&atilde;o do &iacute;ntimo<br \/>\n    contente, que se p&ocirc;s a cantar a meia voz a m&uacute;sica de uma cantiga<br \/>\n    em voga no s&iacute;tio.<\/p>\n<p> Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras vizinhas, mas<br \/>\n    julgou-o produzido por algum p&aacute;ssaro agitando-se no ninho oculto nos<br \/>\n    silvados, e n&atilde;o lhe deu maior aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> De uma vez, por&eacute;m, em que os irm&atilde;os corriam para ela com uma<br \/>\n    rega&ccedil;ada de flores, viu-os de repente pararem enleados e olharem para<br \/>\n    a sebe que a separava da rua pr&oacute;xima. Berta voltou-se na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele olhar, e descobriu Maur&iacute;cio, que, por uma entreaberta das silvas,<br \/>\n    a estava observando.<\/p>\n<p> A filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa levantou-se sobressaltada; e, sem<br \/>\n    poder ocultar de todo a confus&atilde;o que experimentava com o inesperado<br \/>\n    encontro, interrogou sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Estava a&iacute; h&aacute; muito ? &#8212; H&aacute; alguns momentos,<br \/>\n    ao que me parece.<\/p>\n<p> &#8212; A fazer o qu&ecirc; ? &#8212; A v&ecirc;-la e a ouvi-la.<\/p>\n<p> &#8212; com t&atilde;o pouco se entret&eacute;m ! &#8212; Ent&atilde;o parece-lhe<br \/>\n    que n&atilde;o ser&aacute; novo para mim o espect&aacute;culo? &#8212; Novo<br \/>\n    ? ! um campo, uma fonte e umas crian&ccedil;as ? Ora essa ! &#8212; Enumerou<br \/>\n    os acess&oacute;rios, e esqueceu-lhe a figura principal, e nessa &eacute;<br \/>\n    que est&aacute; a novidade. Se a Berta soubesse que g&eacute;nero de figuras<br \/>\n    femininas por a&iacute; se me deparam, nessas bonitas paisagens deste nosso<br \/>\n    belo pa&iacute;s? &#8212; &Eacute; muito injusto com as suas patr&iacute;cias.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! n&atilde;o as lisonjeie.<\/p>\n<p> &#8212; Nisso interesso eu tamb&eacute;m, bem v&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8212; Poupe-lhes a humilha&ccedil;&atilde;o de comparar-se com elas, Berta.<br \/>\n    Creia que, indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instintos<br \/>\n    da sua natureza superior. Seu pai, julgando tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    espont&acirc;nea, ao mand&aacute;-la para a capital, obedeceui sem o saber,<br \/>\n    a uma for&ccedil;a oculta que assim o exigia. O seu esp&iacute;rito estava<br \/>\n    voando para as cidades, onde somente encontrava ambiente apropriado.<\/p>\n<p> &#8212; Engana-se; v&ecirc;? Achava-me desterrada ali at&eacute;, e, desde<br \/>\n    que voltei, sinto um bem-estar, que me prova que &eacute; esta a minha verdadeira<br \/>\n    p&aacute;tria, que estes s&atilde;o os ares em que respiro &agrave; vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Esse bem-estar n&atilde;o tardar&aacute; que se transforme em fastio.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, n&atilde;o creio.<\/p>\n<p> &#8212; Eu &eacute; que n&atilde;o creio que possa dar-se bem aqui, privada<br \/>\n    de satisfazer as aspira&ccedil;&otilde;es naturais a um esp&iacute;rito como<br \/>\n    o seu.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, oh meu Deus, que qualidade de espirito me sup&otilde;e ent&atilde;o<br \/>\n    ? Que aspira&ccedil;&otilde;es s&atilde;o essas que diz? &#8212; Ora para<br \/>\n    que finge ignor&aacute;-las? Acaso, diga, a satisfaria a vida da imensa maioria<br \/>\n    das tr&ecirc;s ou quatro mil pessoas deste concelho? &#8212; E espero que<br \/>\n    h&aacute;-de satisfazer-me.<\/p>\n<p> &#8212; E que h&aacute;-de fazer da sua imagina&ccedil;&atilde;o ? Sim,<br \/>\n    que h&aacute;-de fazer disto que se sente na nossa idade quando se n&atilde;o<br \/>\n    nasceu Manuel do Portelo ou Maria da Azenha? &#8212; Perd&atilde;o, ser&aacute;<br \/>\n    por eu ter nascido simplesmente Berta da P&oacute;voa, que n&atilde;o me incomodo<br \/>\n    com isso.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me entendeu, Berta. N&atilde;o havia nas minhas palavras<br \/>\n    a menor baforada aristocr&aacute;tica; dessa rid&iacute;cula mania n&atilde;o<br \/>\n    pade&ccedil;o eu, gra&ccedil;as a Deus. De entre os preclaros membros das<br \/>\n    casas fidalgas destes arredores, posso assegurar que, apesar dos sete ou oito<br \/>\n    nomes, com que cada um se assina, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas<br \/>\n    Berta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, Sr. Maur&iacute;cio. Falo-lhe com franqueza. N&atilde;o me<br \/>\n    suponha o que eu n&atilde;o sou, ou ent&atilde;o n&atilde;o diga o que n&atilde;o<br \/>\n    sente. Acredite ; as minhas aspira&ccedil;&otilde;es s&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    leves, t&atilde;o realiz&aacute;veis ! Satisfazem-se com estes cuidados caseiros<br \/>\n    ; e, fora disto, n&atilde;o me sinto bem. Para fazer a vontade a meu pai,<br \/>\n    segui a educa&ccedil;&atilde;o que ele desejou que seguisse ; mas nunca senti<br \/>\n    prazer nisso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos trabalhos alde&atilde;os&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem j&aacute;<br \/>\n    sentidos educados para a poesia que ela rescende.<\/p>\n<p> &#8212; A poesia ! &#8212; repetiu Berta, com um for&ccedil;ado gesto de<br \/>\n    desd&eacute;m, encolhendo os ombros.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio percebeu-o.<\/p>\n<p> &#8212; Ri-se ? &#8212; interrogou ele.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que oi&ccedil;o falar h&aacute; tanto nisso, e se quer<br \/>\n    que lhe fale a verdade, ainda n&atilde;o pude saber bem o que seja.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; N&atilde;o sabe o que &eacute; a poesia ? ! &#8212; A que<br \/>\n    se escreve nos livros, sei, mas fora dai&#8230; &#8212;disse Berta, simulando<br \/>\n    um tom de completa ingenuidade.<\/p>\n<p>A chegada das crian&ccedil;as, pedindo &agrave; irm&atilde; que as conduzisse<br \/>\n    a casa, interrompeu neste ponto o di&aacute;logo. Berta despediu-se amigavelmente<br \/>\n    de Maur&iacute;cio, que por muito tempo a seguiu com a vista.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; poss&iacute;vel que eu me engane ? &#8212; pensava ele.<br \/>\n    &#8212; Ser&aacute; afinal de contas uma mulher vulgar, capaz de continuar<br \/>\n    as prosaicas tradi&ccedil;&otilde;es da fam&iacute;lia? N&atilde;o creio.<br \/>\n    Antes &eacute; astuciosa e dissimulada. Nesta aparente singeleza de gostos<br \/>\n    h&aacute; muito esp&iacute;rito escondido. E, ou eu me engano muito, ou n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; indiferen&ccedil;a o que ela sente, quando me fala.<\/p>\n<p> E saiu dali, trabalhando nesses pensamentos.<\/p>\n<p> Berta, rindo e brincando com os irm&atilde;os, pensava tamb&eacute;m : &#8212;<br \/>\n    Parece-me que alguma coisa conseguiria. &Eacute; preciso desvi&aacute;-lo<br \/>\n    deste prop&oacute;sito; &eacute; preciso que ele se enfastie deste galanteio;<br \/>\n    que me aborre&ccedil;a. Hei-de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz<br \/>\n    de sentir e de entend&ecirc;-lo. Que eu n&atilde;o posso ficar pelo meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que ainda n&atilde;o experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero<br \/>\n    n&atilde;o lutar. Chamam-me uma rapariga de ju&iacute;zo. N&atilde;o sei,<br \/>\n    n&atilde;o sei se o sou, n&atilde;o o posso saber, nem quero. As vezes&#8230;<br \/>\n    desconfio de mim&#8230; receio&#8230;<\/p>\n<p> assusto-me. Sentia-me mais animosa dantes. Parecia-me t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    dominar- me!&#8230; Hoje&#8230; N&atilde;o quero, n&atilde;o quero tentar; n&atilde;o<br \/>\n    quero expor a tranq&uuml;ilidade do meu cora&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o<br \/>\n    me sinto senhora de mim mesma quando ele me fala. &Eacute; preciso acabar<br \/>\n    com isto, antes que aumente.<\/p>\n<p> O dia passou sem outro epis&oacute;dio para Berta, al&eacute;m da visita<br \/>\n    de algumas rela&ccedil;&otilde;es da fam&iacute;lia, que vinham festejar a<br \/>\n    chegada da primog&eacute;nita do venturoso casal.<\/p>\n<p> Berta conseguiu ser am&aacute;vel com todos, apesar das impertinencias com<br \/>\n    que a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.<\/p>\n<p> Luisa n&atilde;o se fartava de admirar as maneiras e a eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    da filha, e n&atilde;o fazia sen&atilde;o alternar a vista entre o rosto de<br \/>\n    Berta, que t&atilde;o grata perspectiva era para o seu amor de m&atilde;e,<br \/>\n    e o dos seus interlocutores, onde espiava o reflexo da admira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de que ela pr&oacute;pria se sentia possu&iacute;da.<\/p>\n<p> Assim correu o dia.<\/p>\n<p> O princ&iacute;pio da noite foi consagrado &agrave; fam&iacute;lia. Ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que chegou a vez a Tom&eacute; de perguntar, de querer saber, de<br \/>\n    fazer reflex&otilde;es sobre o que ouvia; e Luisa, a santa mulher, muitas<br \/>\n    vezes a responder por a filha, como quem j&aacute; se achava mais adiantada<br \/>\n    em conhecimentos do que o marido.<\/p>\n<p> Era j&aacute; um pouco tarde, e Tom&eacute; admirava-se da demora de Jorge,<br \/>\n    a quem mandara aviso para que viesse aquela noite, porque tinha que comunicar-lhe<br \/>\n    a respeito de neg&oacute;cios que tratara no Porto e Lisboa.<\/p>\n<p> Ouviu-se, por&eacute;m, o ladrar dos c&atilde;es no quinteiro, o som da<br \/>\n    aldraba no port&atilde;o e em seguida passos no lajedo das escadas que conduziam<br \/>\n    ao patamar.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; vem o Sr. Jorge &#8212; disse Luisa para o homem. &#8212;<br \/>\n    Conhe&ccedil;o-o j&aacute; pelo andar.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ele, &eacute; ; e temos hoje bastante que falar. <\/p>\n<p>&#8212; Eu vou acender o candeeiro no quarto &#8212; acrescentou Luisa, que<br \/>\n    saiu a preparar a sala das conferencias.<\/p>\n<p> Pouco depois Jorge aparecia na sala, em que ficara Tom&eacute; com a filha.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o era superior a uma oculta como&ccedil;&atilde;o, ao entrar<br \/>\n    ali. Ia encontrar-se com Berta. O momento, de que vagamente se temia, chegara<br \/>\n    enfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas apreens&otilde;es.<br \/>\n    Era t&atilde;o forte a sua turba&ccedil;&atilde;o, que lhe tremiam as pernas<br \/>\n    ao transpor a porta da sala.<\/p>\n<p> Na presen&ccedil;a de Berta, Jorge lan&ccedil;ou para ela um olhar r&aacute;pido,<br \/>\n    mas penetrante, e desviou-o logo. O esp&iacute;rito n&atilde;o serenou com<br \/>\n    o resultado desse primeiro exame.<\/p>\n<p> Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.<\/p>\n<p> Berta, prevenida como estava, a respeito do g&ecirc;nio de Jorge, t&atilde;o<br \/>\n    diferente do do irm&atilde;o, acolheu-o com mais franqueza e menos precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do que tivera com Maur&iacute;cio. Contra Jorge n&atilde;o precisava de acautelar<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O cumprimento de Jorge foi s&eacute;rio e quase frio, sem um vislumbre de<br \/>\n    galanteio, que se parecesse com as finezas de Maur&iacute;cio. Apenas disse,<br \/>\n    quase sem olhar para Berta: &#8212; Bem-vinda, Berta ; estimo v&ecirc;-la<br \/>\n    restituida aos seus. Espero que ainda se lembre de um antigo conhecido.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o costumo esquecer-me, Sr. Jorge &#8212; respondeu Berta,<br \/>\n    sem Doder deixar de examin&aacute;-lo com curiosidade Jorge prosseguiu no<br \/>\n    mesmo tom: &#8212; Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas<br \/>\n    quero acreditar que a sua mem&oacute;ria desmentir&aacute; o dito. E que lhe<br \/>\n    parece agora esta terra? E Jorge, fazendo a pergunta, quis fitar os olhos<br \/>\n    em Berta, mas desviou-os ao encontrar os dela.<\/p>\n<p> &#8212; A mesma que deixei &#8212; respondeu Berta &#8212; a aldeia guarda<br \/>\n    melhor as mem&oacute;rias do passado, do que a cidade. Vive-se anos longe<br \/>\n    dela, e na volta parece que as mesmas &aacute;rvores e as mesmas flores, que<br \/>\n    nos despediram, nos d&atilde;o as boas-vindas outra vez. Se alguma mudan&ccedil;a<br \/>\n    h&aacute; &eacute; nas pessoas.<\/p>\n<p> &#8212; Encontrou mudan&ccedil;a nessas ? E Jorge tentou de novo, mas sem<br \/>\n    melhor resultado, fitar os olhos em Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Nem podia deixar de ser &#8212; tornou esta &#8212; para n&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; esta&ccedil;&otilde;es ; as folhas que v&atilde;o caindo,<br \/>\n    n&atilde;o vem a Primavera renov&aacute;-las.<\/p>\n<p> &#8226; Jorge p&ocirc;s-se a folhear, com aparente distrac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um livro que encontrou sobre a mesa; e a fronte contraiu-se-lhe levemente,<br \/>\n    como se tivesse ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.<\/p>\n<p> Berta continuou falando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a curiosidade<br \/>\n    que despertava naturalmente no seu esp&iacute;rito de rapariga aquele car&aacute;cter<br \/>\n    s&eacute;rio de rapaz, Tom&eacute; prop&ocirc;s a Jorge principiarem os seus<br \/>\n    trabalhos.<\/p>\n<p> Berta despediu-se deles, e foi ter com a m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que lhe parece a minha rapariga, Sr. Jorge ? &#8212;<br \/>\n    perguntou o enlevado Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Jorge articulou uma pouca intelig&iacute;vel frase de louvor.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe o que &eacute; a educa&ccedil;&atilde;o ! &#8212; insistiu<br \/>\n    Tom&eacute;. &#8212; Quem h&aacute;-de dizer que foi nascida e criada aqui<br \/>\n    neste palheiro e no tempo em que ele era ainda um pouco pior do que hoje?!<br \/>\n    &#8212; Ah! sim&#8230; a educa&ccedil;&atilde;o&#8230; vale muito, mas &eacute; preciso<br \/>\n    que os dotes naturais a auxiliem &#8212; murmurou Jorge, como se lhe causasse<br \/>\n    repugn&acirc;ncia o assunto da conversa.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ; tamb&eacute;m me parece que se a pequena n&atilde;o tivesse<br \/>\n    queda&#8230;<\/p>\n<p> Mas o que ela sabe ! o que ela leu ! o que ela aprendeu ! &Eacute; de uma<br \/>\n    pessoa ficar a ouvi-la uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais<br \/>\n    nada! um ligeiro sorriso, n&atilde;o de todo despido de ironia, encrespou<br \/>\n    os l&aacute;bios a Jorge, que nada respondeu desta vez.<\/p>\n<p> Tom&eacute; interpretou o sil&ecirc;ncio do rapaz como uma manifesta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para<br \/>\n    ver aquela noite, e por isso abriu a sess&atilde;o.<\/p>\n<p> Antes, por&eacute;m, teve de ir em procura de uns pap&eacute;is necess&aacute;rios.<\/p>\n<p> Jorge ficou s&oacute; por um instante, e deu alguns passeios no quarto.<\/p>\n<p> Aproximando-se de uma mesa que estava pr&oacute;xima da janela, pegou maquinalmente<br \/>\n    na obra de costura, a&iacute; deixada por Berta, mas logo a arrojou de si<br \/>\n    com impaci&ecirc;ncia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto elegante da<br \/>\n    encaderna&ccedil;&atilde;o, conhecia-se pertencer tamb&eacute;m &agrave; filha<br \/>\n    de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Era um exemplar do po&eacute;tico idilio de Saint-Pierre, da hist&oacute;ria<br \/>\n    dos amores de Paulo e Virg&iacute;nia.<\/p>\n<p> Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos l&aacute;bios o mesmo estranho<br \/>\n    sorriso, que mais de uma vez lhos contra&iacute;ra naquela noite.<\/p>\n<p> &#8212; L&ecirc; romances &#8212; murmurava ele. &#8212; A estas horas fantasia-se<br \/>\n    a hero&iacute;na de algum. Est&aacute; apaixonada por o tipo que mais lhe<br \/>\n    agradou, e busca pelo mundo a realiza&ccedil;&atilde;o desse ideal. Afinal<br \/>\n    &eacute; o que eu digo.<\/p>\n<p> &Eacute; como as outras. &Eacute; uma rapariga da moda, pretensiosa, rom&acirc;ntica,<br \/>\n    e um pouco pedante&#8230; &Eacute; o resultado do sistema de Tom&eacute;&#8230; Fazer<br \/>\n    viver estas mulheres em um mundo de fantasia e traz&ecirc;-las depois para<br \/>\n    a realidade, que lhes h&aacute;-de parecer insuport&aacute;vel!&#8230; Triste<br \/>\n    m&eacute;todo para formar esposas e m&atilde;es ! E ao pensar isto sentia<br \/>\n    uma amargura, uma irrita&ccedil;&atilde;o, que ele pr&oacute;prio n&atilde;o<br \/>\n    podia justificar.<\/p>\n<p> Depois prosseguiu, com crescente malignidade : &#8212; E quem sabe?&#8230; Este<br \/>\n    livro deixado aqui! Seria esquecimento ou prop&oacute;sito? &Eacute; natural<br \/>\n    o desejo de ostentar a ci&ecirc;ncia e cultura de esp&iacute;rito adquiridas<br \/>\n    no col&eacute;gio, e h&aacute; t&atilde;o pouca gente no caso de as apreciar<br \/>\n    nesta aldeia, que n&atilde;o admira que seja eu um dos eleitos. Enfim, s&atilde;o<br \/>\n    vaidades de rapariga ; e pecado venial para que se deve ser indulgente.<\/p>\n<p> E demais, que tenho eu com isso?&#8230; Mauricio que averig&uuml;e, se quiser.<br \/>\n    Est&aacute; no gosto dele&#8230;<\/p>\n<p> Tom&eacute; voltou, e minutos depois estavam ambos em plena confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Notou contudo o lavrador naquela noite, que Jorge se mostrava mais desatento<br \/>\n    do que de costume.<\/p>\n<p> No meio dos seus exames, distraiu-os uma voz melodiosa que, em outro aposento<br \/>\n    da casa, cantava em tom de acalentar crian&ccedil;as:<\/p>\n<p>Quando uma crian&ccedil;a dorme, V&ecirc;m os anjos a sorrir Abrir as portas<br \/>\n    do C&eacute;u, Para Deus a ver dormir.<\/p>\n<p>&#8212; Escute &#8212; disse Tom&eacute;, apurando o ouvido &#8212; &eacute;<br \/>\n    a minha Berta a adormecer o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> E Tom&eacute; p&ocirc;s-se a escutar com fervor paternal.<\/p>\n<p> Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquela voz juvenil,<br \/>\n    que continuava cantando ; E um deles &agrave; Terra desce Junto do ber&ccedil;o<br \/>\n    a velar, Para longe do menino Os sonhos maus afastar.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o? N&atilde;o tem uma linda voz a rapariga? &#8212; continuava<br \/>\n    Tom&eacute;, olhando para Jorge, que n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> A voz continuou:<\/p>\n<p> Dorme, dorme, meu menino, Que &eacute; alegre o sono teu, E enquanto na<br \/>\n    Terra dormes, Folgam os anjos no C&eacute;u.<\/p>\n<p> Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo queria confessar, o canto<br \/>\n    que lhe chegava aos ouvidos naquela mon&oacute;tona e melanc&oacute;lica melop&eacute;ia<br \/>\n    de todas as m&uacute;sicas destinadas a acalentar o sono das crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia<br \/>\n    encontrar um caminho direito para o cora&ccedil;&atilde;o daquele pai extremoso,<br \/>\n    e comov&ecirc;-lo quase a ponto de lhe enevoar os olhos com l&aacute;grimas<br \/>\n    consoladoras.<\/p>\n<p> Quando expiraram as &uacute;ltimas notas do canto, Jorge levantou-se.<\/p>\n<p> Era j&aacute; tarde e mais que tempo de dar por conclu&iacute;da a confer&ecirc;ncia;<br \/>\n    mas neste movimento de Jorge actuara urna outra id&eacute;ia.<\/p>\n<p> Ele pr&oacute;prio estranhava o que ia na sua alma naquele momento.<\/p>\n<p> Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os artif&iacute;cios<br \/>\n    de uma mulher, contra a qual devia estar precavido ; Jorge supunha- se persuadido<br \/>\n    de que Berta aproveitara de prop&oacute;sito o ensejo de fazer-se ouvir e<br \/>\n    de mostrar os encantos da sua voz agrad&aacute;vel e sonora; t&aacute;ctica<br \/>\n    vaidosa que muito escandalizava o car&aacute;cter sisudo do rapaz. Mas o pior<br \/>\n    era dizer-lhe a consci&ecirc;ncia que, mau grado seu, a t&aacute;ctica tivera<br \/>\n    efeito. A preven&ccedil;&atilde;o hostil, de que &agrave; for&ccedil;a queria<br \/>\n    armar-se, n&atilde;o era talism&atilde; bastante forte para o livrar de encantamento.<\/p>\n<p> Isto principalmente o indignava, sem a si pr&oacute;prio o confessar.<\/p>\n<p> Sentia-se sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como sucede<br \/>\n    quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue, anulava-se<br \/>\n    o esfor&ccedil;o que fazia para quebr&aacute;-lo, e a seu pesar permanecia<br \/>\n    no perigo.<\/p>\n<p> Desconhecia-se, sentia uma turba&ccedil;&atilde;o indefin&iacute;vel, parecia-lhe<br \/>\n    que o ar livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e saiu. Ao passarem<br \/>\n    em um corredor, que conduzia para o exterior da sala, abriu-se a porta de<br \/>\n    um quarto, meio alumiado por a frouxa luz de uma lamparina, que ardia junto<br \/>\n    do ber&ccedil;o de uma crian&ccedil;a, e por o espa&ccedil;o entreaberto apareceu<br \/>\n    a figura de Berta, com o cabelo j&aacute; meio despenteado e solto, e tendo<br \/>\n    nos l&aacute;bios o mais suave e afectuoso sorriso.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, Sr. Jorge &#8212; disse ela, estendendo-lhe a m&atilde;o,<br \/>\n    com uma express&atilde;o de voz cheia de cordial franqueza.<\/p>\n<p> Jorge estremeceu &agrave;quela vista inesperada, mas, dominando-se, correspondeu<br \/>\n    ao cumprimento, apertando-lhe a m&atilde;o : &#8212; Adeus ; boas noites,<br \/>\n    Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o o pequeno j&aacute; dorme ? &#8212; perguntou Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa, procurando sondar com a vista a meia claridade do quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Psiu ! &#8212; disse a filha, pondo um dedo nos l&aacute;bios &#8212;<br \/>\n    sossegou por fim. Trouxe-o para o meu quarto, porque n&atilde;o deixava dormir<br \/>\n    a m&atilde;e. Boas noites, meu pai.<\/p>\n<p> E, tomando a m&atilde;o do lavrador, beijou-a com afecto.<\/p>\n<p> &#8212; Deus te fa&ccedil;a feliz, minha filha &#8212; tornou-lhe este,<br \/>\n    exultando com aquela simples ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E os dois seguiram, cerrando-se logo atr&aacute;s deles a porta dos aposentos<br \/>\n    de Berta, e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.<\/p>\n<p> Jorge, ao ver-se na rua, aspirou com viol&ecirc;ncia o ar fresco da noite,<br \/>\n    como para libertar-se de uma opress&atilde;o que o angustiava. Descobriu a<br \/>\n    fronte e seguiu agitado pelos dif&iacute;ceis caminhos que iam dali at&eacute;<br \/>\n    &agrave; Casa Mourisca.<\/p>\n<p> &#8212; Eu estou doido ! &#8212; murmurou ele &#8212; que tenho eu com esta<br \/>\n    rapariga? Era o que me faltava que me entrasse na cabe&ccedil;a uma doidice<br \/>\n    destas ! Estou vendo que n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil ter ju&iacute;zo,<br \/>\n    como supunha.<\/p>\n<p> Se isto fosse com Maur&iacute;cio, n&atilde;o admirava! E ent&atilde;o uma<br \/>\n    crian&ccedil;a de col&eacute;gio&#8230;<\/p>\n<p> provavelmente estouvada&#8230; Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.<\/p>\n<p> Mas, era singular ! aquela r&aacute;pida vista, insinuada por entre a porta<br \/>\n    meia aberta do gabinete cast&iacute;ssimo, em que dormia uma crian&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; meia luz da lamparina, e aquela gentil figura de mulher, colocada<br \/>\n    &agrave; entrada, com um dedo nos labios, e no rosto um ar de solicitude quase<br \/>\n    maternal, n&atilde;o se lhe tiravam da id&eacute;ia. Era como a vis&atilde;o<br \/>\n    de um para&iacute;so que sonhara.<\/p>\n<p> Quando Maur&iacute;cio, voltando de um baile dado por um propriet&aacute;rio<br \/>\n    vizinho, entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume,<br \/>\n    sentado pr&oacute;ximo da janela, com a cabe&ccedil;a sobre o bra&ccedil;o<br \/>\n    dobrado, que repousava no peitoril, e t&atilde;o absorto, que quase n&atilde;o<br \/>\n    deu pela aproxima&ccedil;&atilde;o do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio parou diante dele admirado, e interpelou-o : &#8212; Que<br \/>\n    fazes a&iacute; ? Jorge sobressaltou-se, e respondeu sorrindo: &#8212; Julgo<br \/>\n    que dormia.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso farei outra pergunta &#8212; que Vieste para a&iacute;<br \/>\n    fazer ? &#8212; Tinha calor&#8230; cansei-me de 1er&#8230; vim tomar ar. H&aacute;<br \/>\n    um instante, &#8212; H&aacute; um instante? N&atilde;o diz isso aquela luz,<br \/>\n    que parece de casa mortu&agrave;ria. Nada haveria mais natural do que tudo<br \/>\n    isso, se fosse com outro ; por&eacute;m om ti &eacute; para estranhar a menor<br \/>\n    irregularidade de h&aacute;bitos.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m eu me estranho. &Eacute; certo, por&eacute;m, que<br \/>\n    esta noite n&atilde;o me sinto disposto para estudar.<\/p>\n<p> &#8212; Pois aproveita essas felizes disposi&ccedil;&otilde;es, e descansa,<br \/>\n    descansa.<\/p>\n<p> Que diabo ! Parece-me que d&aacute;s &agrave; administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da nossa casa mais import&acirc;ncia do que ela merece. Afinal de contas sempre<br \/>\n    &eacute; tarefa que o frei Janu&aacute;rio fez durante anos. Se soubesses<br \/>\n    como a noite est&aacute; agrad&aacute;vel ! N&atilde;o esteve de todo m&aacute;<br \/>\n    a partida em casa dos Curuj&atilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! vens de l&aacute;? &#8212; inquiriu Jorge, com indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Venho sim. Bastante gente. O Ven&acirc;ncio cada vez mais parvo.<\/p>\n<p> A D. Ana cantando a Norma da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral,<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos<br \/>\n    do Ant&ocirc;nio Rodrigo estavam perdidos de riso.<\/p>\n<p> Quem n&atilde;o est&aacute; feia &eacute; a Dores, a pequenita do Jo&atilde;o<br \/>\n    Tavares ; dois anos que passem mais por aquela inf&acirc;ncia e estar&aacute;<br \/>\n    ali uma bela mulher.<\/p>\n<p> Mas que noite t&atilde;o sombria ! Nem a luz de ontem em casa do Tom&eacute;<br \/>\n    ! Hoje nem Berta nos faz companhia. Sirva-lhe isto para desconto dos grandes<br \/>\n    pecados de que a acusas. Est&aacute; provado que a vig&iacute;lia de ontem<br \/>\n    foi consagrada &agrave; prosaica tarefa de arrumar as suas coisas pelas gavetas<br \/>\n    e ba&uacute;s. &Eacute; verdade, j&aacute; a viste?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o.,, j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212;N&atilde;o? J&aacute;? Que diabo de distrac&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    essa? E que te pareceu?&#8230;<\/p>\n<p> Jorge esteve algum tempo sem responder : &#8212; Bem.<\/p>\n<p> &#8212; T&atilde;o secamente bem? Deveras?! &#8212; Ent&atilde;o que queres<br \/>\n    que te diga? Sabes que n&atilde;o tenho o teu g&ecirc;nio, para esgotar a<br \/>\n    minha eloq&uuml;&ecirc;ncia diante da primeira figura de mulher que me apare&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; E a respeito das tuas preven&ccedil;&otilde;es ? &#8212; Nada pude<br \/>\n    decidir.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu j&aacute; decidi. Acho-a cada vez mais ador&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; Sabes que estive com ela esta manh&atilde; ? &#8212;<br \/>\n    Sim?! Hum! &#8212; disse Jorge com evidente constrangimento.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; &Eacute; verdade, falei-lhe e, j&aacute; se sabe, n&atilde;o<br \/>\n    me descuidei de advogar a minha causa.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! sim? E ent&atilde;o?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o&#8230; apesar de uma certa esquivan&ccedil;a nas respostas<br \/>\n    que obtive, quer-me parecer que n&atilde;o tenho raz&atilde;o de queixa.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, bem.<\/p>\n<p> &#8212;Enfim, certas recorda&ccedil;&otilde;es de inf&acirc;ncia&#8230; como<br \/>\n    sabes.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! ela recorda-se da inf&acirc;ncia? &#8212; Ora, como queres que<br \/>\n    ela se n&atilde;o recorde? &#8212; Sim, &eacute; natural &#8212; concordou<br \/>\n    Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas contrac&ccedil;&otilde;es nervosas.<\/p>\n<p> E, estendendo s&ugrave;bitamente a m&atilde;o ao irm&atilde;o, acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Boas noites, Maur&iacute;cio. &Eacute; tarde e eu tenho sono. Adeus.<\/p>\n<p> E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que<br \/>\n    costumava. Se dormia &eacute; que n&atilde;o sabemos. , Maur&iacute;cio dormiu<br \/>\n    com certeza melhor do que ele. Embalava-o a vaidosa persuas&atilde;o de que<br \/>\n    havia impressionado Berta. Tinha Maur&iacute;cio este defeito de supor que<br \/>\n    eram prontas e profundas as impress&otilde;es que produzia no &acirc;nimo<br \/>\n    das mulheres. Defeito este vulgar, e que ainda n&atilde;o &eacute; dos que<br \/>\n    d&atilde;o de si mais s&eacute;rias consequ&ecirc;ncias.<\/p>\n<p><b>XI<\/b><\/p>\n<p>PELA manh&atilde; do dia seguinte recebeu Jorge um recado do pai, para ir<br \/>\n    falar-lhe.<\/p>\n<p> Apressou-se em obedecer. Foi encontrar D. Luis a passear no quarto e manifestamente<br \/>\n    irritado. Vendo entrar o filho, mostrou- -lhe uma carta aberta que estava<br \/>\n    em cima da mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &Eacute; da prima? &#8212; exclamou Jorge, depois de examinar<br \/>\n    a assinatura. &#8212; Finalmente escreveu ! &#8212;Podia dispensar-se de o<br \/>\n    fazer &#8212; resmungou o fidalgo e prosseguiu : Parece-me que n&atilde;o<br \/>\n    foste muito feliz na lembran&ccedil;a de bater a essa porta.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o?! &#8212; L&ecirc; e ver&aacute;s.<\/p>\n<p> Jorge leu, a meia voz, a carta, que era concebida nestes termos : <\/p>\n<p>&laquo;Meu bom tio: &laquo;Tive, ao voltar a Lisboa de uma visita &agrave;<br \/>\n    Espanha, a mais agrad&aacute;vel surpresa. Recebi, enfim, uma carta sua! A<br \/>\n    singularidade do facto n&atilde;o me inabilitou para sentir no maior grau<br \/>\n    uma salutar alegria. Cuidava que me tinham esquecido. Convenci-me agora de<br \/>\n    que felizmente me enganara. Lisonjeou-me ainda o ver que o meu bom tio se<br \/>\n    dirigia a mim, para me pedir conselho ! Claro estava que j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era no seu conceito aquela doidivanas de outros tempos. Ainda bem que me faz<br \/>\n    um poucochinho de justi&ccedil;a. N&atilde;o se arrependa; efectivamente hoje<br \/>\n    estou mais ajuizada. O meu car&aacute;cter de vi&uacute;va d&aacute;-me um<br \/>\n    ar de respeitabilidade, que vai muito bem com os meus vestidos escuros, nos<br \/>\n    quais a garridice n&atilde;o ultrapassa ainda os limites do roxo. Mas devo<br \/>\n    confessar- -lhe que me incumbe de uma espinhosa tarefa! Descobrir a carreira<br \/>\n    mais adequada ao nosso caro Maur&iacute;cio, que deve ser a estas horas um<br \/>\n    bonito e elegante rapaz, mas contanto que, acrescenta o meu querido tio, ele<br \/>\n    n&atilde;o seja obrigado a transigir com as iaeias do &laquo;s&eacute;culo&raquo;,<br \/>\n    &eacute; deveras uma miss&atilde;o dif&iacute;cil e para melhor engenho do<br \/>\n    que o meu. Principio por n&atilde;o saber bem quais s&atilde;o as tais id&eacute;ias<br \/>\n    do s&eacute;culo, com que o priminho Maur&iacute;cio n&atilde;o deve transigir.<br \/>\n    Eu, que sou a pessoa mais transigente deste mundo, n&atilde;o posso assim<br \/>\n    de repente saber quais s&atilde;o aqueles princ&iacute;pios, com que os meus<br \/>\n    primos s&atilde;o incompat&iacute;veis, ou que s&atilde;o incompat&iacute;veis<br \/>\n    com os meus primos. Depois, h&aacute; tantas id&eacute;ias remo&ccedil;adas,<br \/>\n    que passam por novas, que j&aacute; n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil distinguir<br \/>\n    quais s&atilde;o as do s&eacute;culo e quais n&atilde;o s&atilde;o. E deixe-me<br \/>\n    dizer-lhe, meu bom tio, que h&aacute; uma certa ordem de coisas, com que provavelmente,<br \/>\n    na sua opini&atilde;o, Maur&iacute;cio n&atilde;o deve transigir, mas sem<br \/>\n    transigir com as quais n&atilde;o se d&aacute; hoje neste mundo um passo que<br \/>\n    tenha jeito. Creia que nos nossos dias &eacute; pouca a gente que n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; convencida disso, e raros os que ainda se contentam com ficarem<br \/>\n    sendo im&oacute;veis colunas do trono e do altar, enquanto os outros v&atilde;o<br \/>\n    andando.<\/p>\n<p> &laquo;A&iacute; est&aacute; que me lembrava a mim arranjarmos, com tempo,<br \/>\n    para Maur&iacute;cio, um destes c&oacute;modos c&iacute;rculos eleitorais,<br \/>\n    por onde uma pessoa sai deputado sem o sentir. A carreira &eacute; das melhores<br \/>\n    para rapazes de intelig&ecirc;ncia e de aspira&ccedil;&otilde;es ; mas a urna<br \/>\n    popular, provavelmente, figura no rol das coisas, com que Maur&iacute;cio<br \/>\n    n&atilde;o deve transigir. Enfim, meu intransigente tio, apesar de todos os<br \/>\n    meus bons desejos, sinto-me deveras com os bra&ccedil;os atados, e trope&ccedil;o<br \/>\n    a cada momento em uma incompatibilidade ! Julgo prefer&iacute;vel conferenciarmos<br \/>\n    de viva voz. Tendono visit&aacute;-lo brevemente. Preciso de revistar a minha<br \/>\n    quinta dos Bacelos, da qual j&aacute; tenho saudade. A&iacute; irei, pois,<br \/>\n    e de sua boca ouvirei aquilo com que podemos, e aquilo com que n&atilde;o<br \/>\n    devemos transigir.<\/p>\n<p> At&eacute; ent&atilde;o creia-me sempre sua muito transigente, mas afectuosa<br \/>\n    sobrinha,<\/p>\n<p align=\"right\"><b>&laquo;Gabriela.&raquo;<\/b><\/p>\n<p>&laquo; P. S. &#8212; Se um abra&ccedil;o cordial e bem-intencionado de uma<br \/>\n    prima vi&uacute;va &eacute; coisa com que Maur&iacute;cio possa transigir,<br \/>\n    pe&ccedil;o o favor de lho dar em meu nome e outro a Jorge, que, pelo que<br \/>\n    vejo, tem ju&iacute;zo aos vinte anos, facto que, seja dito entre n&oacute;s,<br \/>\n    n&atilde;o tem sido frequente em nossa fam&iacute;lia.&raquo; Esta carta,<br \/>\n    escrita &agrave; vontade e no tom familiar de uma mulher caprichosa, costumada<br \/>\n    a n&atilde;o se constranger com pessoa alguma, e a ver admitirem-lhe, como<br \/>\n    naturais, todos os caprichos, n&atilde;o podia ser menos acomodada ao g&ecirc;nio<br \/>\n    sisudo e respeitador de etiquetas, que era uma das pronunciadas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do velho fidalgo.<\/p>\n<p> A maneira por que a sobrinha lhe escrevia, a sem-cerim&oacute;nia com que<br \/>\n    parecia rir-se dos seus delicados escr&uacute;pulos pol&iacute;ticos, era<br \/>\n    t&atilde;o subversiva da ordem estabelecida e respeitada nos usos tradicionais<br \/>\n    da fam&iacute;lia, que D. Luis escandalizou-se.<\/p>\n<p> Jorge compreendeu, &agrave; primeira leitura, qual o efeito que esta carta<br \/>\n    deveria ter produzido no &acirc;nimo do pai, mas procurou dissimular.<\/p>\n<p> &#8212; uma vez que ela vem, esperemos &#8212; disse em tom indiferente.<\/p>\n<p> &#8212; De viva voz trata-se melhor destes neg&oacute;cios.<\/p>\n<p> &#8212; Que hei-de eu tratar com uma doida destas ? Tomara que ela me deixasse<br \/>\n    ! : &#8212; S&atilde;o maneiras de Gabriela, mas nem por isso deixar&aacute;<br \/>\n    de olhar com seriedade para este assunto.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o maneiras?&#8230; Tudo tem limites. Isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    carta que uma rapariga escreva a um velho, que &eacute; seu tio.<\/p>\n<p> E D. Luis, ao dizer isto, pegava na carta por uma ponta e airemessava- a<br \/>\n    sobre a mesa, como se fora um objecto que lhe inspirasse repuls&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Costumes do tempo &#8212; aventurou timidamente Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Bons costumes! Pois, embora ela o diga zombando, n&atilde;o transijo<br \/>\n    com eles, n&atilde;o, senhora; nem filho meu, enquanto auiser que eu por filho<br \/>\n    o tenha, h&aacute;-de transigir tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Esperemos, at&eacute; que ela venha.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei que de nada servir&aacute; a confer&ecirc;ncia. Essa<br \/>\n    porta podes consider&aacute;-la fechada.<\/p>\n<p> Jorge, depois de mais algumas tentativas para acalmar a irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    paterna, voltou para o quarto, intimamente satisfeito com a carta da baronesa,<br \/>\n    em cujo aux&iacute;lio confiava para vencer as relut&acirc;ncias do velho.<\/p>\n<p> Aumentaram-lhe ainda mais as esperan&ccedil;as, quando leu um lac&oacute;nico<br \/>\n    bilhete, em que a prima lhe respondia tamb&eacute;m, assegurando-lhe que viria<br \/>\n    breve, e que trabalharia com empenho no sentido que lhe indicara.<\/p>\n<p> Meia hora depois dava Jorge a novidade a Maur&iacute;cio, que encontrou<br \/>\n    descendo as escadas em elegante e caprichoso traje de cavalgar e cantarolando<br \/>\n    despreocupado:<\/p>\n<p>Dai-me uma casa na aldeia Casa r&uacute;stica, isolada, Que mostre por entre<br \/>\n    verdea A sua frente caiada.<\/p>\n<p>&#8212; Esse desejo vem fora de prop&oacute;sito &#8212; disse Jorge, sorrindo<br \/>\n    &#8212; porque justamente hoje chegou a carta que esper&aacute;vamos de Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! chegou ! E ent&atilde;o? &#8212; interrogou Maur&iacute;cio<br \/>\n    um pouco sobressaltado.<\/p>\n<p> &#8212; Promete vir aqui. Pede uma confer&ecirc;ncia para breve, na qual<br \/>\n    se discutir&atilde;o as bases da reforma.<\/p>\n<p> &#8212;-Ai, ela vem c&aacute;? Visto isso, adiada t&ocirc;da e qualquer<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o a meu respeito? &#8212; At&eacute; que ela chegue.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ainda bem ! &#8212; Estimas ? &#8212; &Eacute; que hoje qualquer<br \/>\n    ordem de partida encontrava-me pouco de &acirc;nimo para deixar a aldeia.<\/p>\n<p> E continuou a cantar:<\/p>\n<p>Donde se eleve &agrave;s trindades um fumozinho cinzento, Que se dissipe<br \/>\n    nos ares Ao menor sopro do vento,<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute; ! Como se desenvolveu assim em ti esse apego &agrave;s<br \/>\n    coisas r&uacute;sticas ? &#8212; perguntou Jorge com ironia.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres tu ? Caprichos ! &#8212; Caprichos ? ! mas &eacute; que<br \/>\n    n&atilde;o estamos no caso de os ter. Ai, Maur&iacute;cio, receio que d&ecirc;s<br \/>\n    em mau homem de neg&oacute;cios, se a confer&ecirc;ncia decidir que o deves<br \/>\n    ser &#8212; continuou Jorge no mesmo tom.<\/p>\n<p> &#8212; A Gabriela ter&aacute; o bom senso necess&aacute;rio, para propor<br \/>\n    outra solu&ccedil;&atilde;o ao problema da minha vida. Creio&#8230;<\/p>\n<p> E Maur&iacute;cio desceu as escadas, exclamando alegremente : &#8212; Adeus,<br \/>\n    adeus, que eu vou ver quem tu sabes.<\/p>\n<p> Jorge contraiu a fronte ao escutar-lhe as palavras com que se despediu,<br \/>\n    e conservou-se im&oacute;vel ainda depois que o perdeu de vista, e j&aacute;<br \/>\n    quando o n&atilde;o ouvia, nem o bater das patas do cavalo no lajedo do p&aacute;tio<br \/>\n    ; afinal sacudiu a cabe&ccedil;a como para livrar-se de uma id&eacute;ia importuna,<br \/>\n    e murmurou: &#8212; Ora! Tudo isto &eacute; natural&#8230; Vamos trabalhar.<\/p>\n<p> E foi encerrar-se no quarto.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio saiu a cavalo, mas n&atilde;o estendeu por muito longe o<br \/>\n    seu passeio matutino. Parecia errar ao acaso, mas acaso era esse que por duas<br \/>\n    vezes o conduzia na via da casa de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> E de ambas as vezes uma cabe&ccedil;a de mulher aparecia &agrave; janela,<br \/>\n    ao ru&iacute;do que faziam no caminho as patas do cavalo, o qual Maur&iacute;cio<br \/>\n    obrigava a evolu&ccedil;&otilde;es ao chegar &agrave;quele s&iacute;tio. Essa<br \/>\n    cabe&ccedil;a era a de Berta. Maur&iacute;cio saudou-a com um sorriso e dirigiu-lhe<br \/>\n    algumas palavras de galanteio. Berta retirou-se para dentro, depois de eie<br \/>\n    ter passado, dizendo consigo: &#8212; &Eacute; uma imprud&ecirc;ncia o que<br \/>\n    estou fazendo. Vamos ; &eacute; preciso cautela.<\/p>\n<p> E &agrave; terceira vez que o sentiu, j&aacute; n&atilde;o apareceu para<br \/>\n    o ver.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, por&eacute;m, estava contente com a manh&atilde;; continuando<br \/>\n    no seu passeio, dirigiu o cavalo por uma azinhaga cavada em barrancos pelas<br \/>\n    enxurradas, e depois de dif&iacute;cil e precipitosa descida por entre pinheirais,<br \/>\n    veio sair a outra rua mais larga, ao fim da qual havia uma resid&ecirc;ncia<br \/>\n    campestre de menos m&aacute; apar&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Era uma casa branca, de um s&oacute; andar e ao correr da rua, mas de s&oacute;lida<br \/>\n    constru&ccedil;&atilde;o ; bem caiada, bem pintada e bem esfregada. Entrava-<br \/>\n    se para ela por um p&aacute;tio coberto de ramada, cercado de um muro baixo<br \/>\n    e fechado por uma meia cancela de castanho enegrecido. Dentro deste p&aacute;tio<br \/>\n    pouco espa&ccedil;o havia desobstru&iacute;do ; aqui um monte de rama de pinheiro,<br \/>\n    al&eacute;m duas ou tr&ecirc;s rimas de achas, acol&aacute; um tronco de laranjeira<br \/>\n    partido, uma m&oacute; de moinho, dois carros desaparelhados, dornas, arados,<br \/>\n    pipas, canastras, escadas de m&atilde;o, e v&aacute;rios outros utens&iacute;lios<br \/>\n    de lavoura e de uso dom&eacute;stico.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio prendeu o cavalo ao muro e entrou para o p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Abria-se para este a porta da cozinha: vinha de l&aacute; um grande rumor<br \/>\n    de vozes, de risadas e de cantares; via-se brilhar no fundo um clar&atilde;o<br \/>\n    avermelhado e ouvia-se um estalar de lenha, devorada pela chama. Chegando-se<br \/>\n    mais perto, Maur&iacute;cio contemplou por alguns momentos, sem ser visto,<br \/>\n    o quadro que se lhe oferecia &agrave; observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Era uma cozinha alde&atilde;, vasta, desafogada; imenso lar, compridos preguiceiros<br \/>\n    ao longo das paredes, no alto prateleiros pejados de lou&ccedil;a nacional,<br \/>\n    de panelas e alguidares; nas traves os cabos de cebola, no fumeiro a bem curada<br \/>\n    p&aacute; de presunto ; o amplo forno vomitava labaredas pela boca escancarada<br \/>\n    e a cada instante engolia as novas e enormes doses de lenha que lhe ministravam<br \/>\n    ; na masseira fumegava j&aacute; a farinha ainda n&atilde;o levedada para<br \/>\n    a fornada da semana, e nela os bra&ccedil;os valentes e roli&ccedil;os de<br \/>\n    duas frescas mo&ccedil;as do campo enterravam-se at&eacute; aos cotovelos<br \/>\n    ; a um sinal destas, outras traziam da lareira grandes panelas de &aacute;gua<br \/>\n    fervendo, com que acrescentavam a massa, levantando ao ar nuvens de densos<br \/>\n    vapores. uma peneirava a um canto a farinha para o bolo, outra arrumava o<br \/>\n    cinzeiro do forno com a vara meia carbonizada; limpava esta a p&aacute; grande<br \/>\n    para a introdu&ccedil;&atilde;o das boroas, e aquela empunhava a pequena p&aacute;<br \/>\n    de ferro de rapar a masseira. No meio desta legi&atilde;o feminina assim atarefada,<br \/>\n    a patroa da casa, que, como Calipso sobre as ninfas que a serviam, ou, segundo<br \/>\n    a compara&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica, como o elegante cipreste sobre<br \/>\n    as vinhas rasteiras, olhava sobranceira para todas, superintendia no trabalho<br \/>\n    de cada uma e distribu&iacute;a as tarefas com m&eacute;todo e intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Era esta a ti&#8217;Ana do Vedor, em quem j&aacute; ouvimos falar, a que havia<br \/>\n    criado aos seus v&aacute;lidos e sadios peitos os dois meninos da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Era ela, enfarinhada, arrega&ccedil;ada, afogueada, com os cabelos escondidos<br \/>\n    debaixo do len&ccedil;o vermelho, que atava sobre o occipital, com a voz potente,<br \/>\n    o olhar fino e os movimentos f&aacute;ceis, apesar dos cinq&uuml;enta anos<br \/>\n    j&aacute; contados.<\/p>\n<p> &Agrave; sua vista perspicaz n&atilde;o escapou por muito tempo a presen&ccedil;a<br \/>\n    de Maur&iacute;cio ; e logo que o viu, correu para ele com os bra&ccedil;os<br \/>\n    abertos, exclamando : &#8212; Ai, meu rico filho ! &#8212; Cautela, cautela,<br \/>\n    Ana, olha que me enfarinhas ! &#8212; advertiu Maur&iacute;cio, tentando fugir-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; E que tem que te enfarinhe ? Olhagora ! A farinha &eacute; p&atilde;o,<br \/>\n    e o p&atilde;o vem de Deus.<\/p>\n<p> E, sem precau&ccedil;&otilde;es nem reparos, apertou o corpo delgado de<br \/>\n    Maur&iacute;cio nos seus robustos bra&ccedil;os, deixando-lhe na roupa vest&iacute;gios<br \/>\n    evidentes deste cordial amplexo.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc;s, v&ecirc;s? &#8212; dizia Maur&iacute;cio, sacudindo-se<br \/>\n    &#8212; olha em que preparo me puseste, ama ! Estou asseado ! &#8212; Sim?<br \/>\n    Pois melhor para ti, que j&aacute; tens que fazer, e n&atilde;o me andas por<br \/>\n    a&iacute; a vadiar e a fazeres-me doidas as mo&ccedil;as c&aacute; da terra<br \/>\n    com as tuas brejeirices. Sa&iacute;ste-me boa r&ecirc;s ! n&atilde;o t&ecirc;m<br \/>\n    d&uacute;vida nenhuma ! E pronunciava isto com um modo, acompanhava-o com<br \/>\n    um olhar tal, que fazia temer a imin&ecirc;ncia de um outro beijo e de um<br \/>\n    outro abra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio continuava sacudindo-se.<\/p>\n<p> &#8212; O mal que tenho, vem do leite que bebi &#8212; dizia ele no entretanto.<\/p>\n<p> &#8212; Hum ! &#8212; acudiu a ti&#8217;Ana com um gesto de soberba. &#8212; Conta-me<br \/>\n    dessas ! O que vos valeu, meus fidalguinhos de torr&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car,<br \/>\n    foi trazer-vos eu a estes peitos, sen&atilde;o o que seria feito do vosso<br \/>\n    corpinho de vime? Olhagora! &iacute;eis como foram indo vossos irm&atilde;os<br \/>\n    mais velhos e aquele anjo de vossa irm&atilde;, que ainda hoje me resta pena<br \/>\n    de n&atilde;o ter criado tamb&eacute;m. Mas quem adivinha vai para a casinha.<\/p>\n<p> &#8212; Aos preparativos que estou vendo &#8212; observou Maur&iacute;cio<br \/>\n    &#8212; h&aacute; grande fornada para hoje.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; como v&ecirc;s. E n&atilde;o minguam bocas que a comam.<br \/>\n    O Senhor n&atilde;o nos falte com estas c&ocirc;deas.<\/p>\n<p> &#8212; E o bolo que n&atilde;o esque&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Eram bons tempos aqueles em que voc&ecirc;s ambos o comiam como<br \/>\n    se fosse man&aacute; ! Esquecer, olhagora ! N&atilde;o h&aacute;-de esquecer,<br \/>\n    n&atilde;o, se Deus quiser, que n&atilde;o falta por a&iacute; gente necessitada<br \/>\n    com quem se reparta. V&aacute;, v&aacute;, raparigada ! n&atilde;o se me ponham<br \/>\n    agora paradas a olhar para as moscas, que o servi&ccedil;o n&atilde;o espera<br \/>\n    ! Olhagora ! Deita-me o centeio naquela massa, pasmada, avia-te! Parece que<br \/>\n    nunca viram um rapaz! Bem tirado das canelas &eacute; ele, salvo seja; mas<br \/>\n    isso n&atilde;o basta! Olhagora ! Mas que milagre foi este que te trouxe aqui<br \/>\n    a estas horas ? &#8212; um passeio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Um passeio !&#8230; Hum ! a&iacute; anda moiro na costa. Olha l&aacute;<br \/>\n    se me desinquietas coisa que me perten&ccedil;a, que tens de te haver depois<br \/>\n    comigo&#8230; Eu ainda tenho um par de sobrinhas que s&atilde;o mo&ccedil;as de<br \/>\n    m&atilde;o cheia. Ora olha l&aacute; ! Quem te desse o ju&iacute;zo de Jorge<br \/>\n    ! Aquilo &eacute; outro estofo ! &Eacute; verdade &#8212; continuou ela, dando<br \/>\n    &ecirc;nfase a interroga&ccedil;&atilde;o com o pousar das m&atilde;os nos<br \/>\n    quadris &#8212; dizem-me que ele &eacute; quem dirige agora os neg&oacute;cios<br \/>\n    l&aacute; em casa? &#8212; H&aacute; muito tempo j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Pois foi bem pensado ! Sim, senhores. Porque olha que eu nunca gostei<br \/>\n    do frade, Deus me perdoe ; e enquanto ao fidalgo, com ser boa pessoa, n&atilde;o<br \/>\n    serve l&aacute; muito para governar casa. E tu que fazes? &#8212; Eu&#8230; eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Passeias ; ora pois, pudera ! Se este senhor havia de fazer outra<br \/>\n    coisa. Pois n&atilde;o fazes bem, que pelos modos isso l&aacute; por casa<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; para gra&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; do Clemente, Ana? &#8212; inquiriu Maur&iacute;cio,<br \/>\n    mudando de conversa.<\/p>\n<p> &#8212; O meu Clemente? &oacute; filho, nem eu sei. Se queres que te diga,<br \/>\n    o rapaz desde que o meteram na regedoria, n&atilde;o faz outra coisa. Isto<br \/>\n    &eacute;, eu devo dizer o que &eacute; verdade ; o servi&ccedil;o aparece<br \/>\n    feito, isso l&aacute; aparece ; mas a gente n&atilde;o sabe quando, nem como.<br \/>\n    Mas, agora me lembro, ele pelos modos est&aacute; hoje para casa do Tom&eacute;<br \/>\n    da Herdade.<\/p>\n<p> Chegou-lhe a filha da cidade, sabes? A Berta, a que brincava com voc&ecirc;s<br \/>\n    na Casa Mourisca, e que tu dizias que era a tua namorada? Garoto foste tu<br \/>\n    sempre desde crian&ccedil;a! Diz que vem uma senhora. Tolices do pai.<\/p>\n<p> Olhagora ! Mas o caso &eacute; que a rapariga &eacute; jeitosa e diz que<br \/>\n    muitas nadas e criadas na cidade dariam uma orelha para parecerem t&atilde;o<br \/>\n    bem como ela. Estou morta por a ver, mas esta minha vida n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    para vagares.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o disse ao meu Clemente: &laquo;Vai tu a casa de Tom&eacute;,<br \/>\n    rapaz, e faz- -lhe l&aacute; os meus cumprimentos &raquo;. E o caso &eacute;<br \/>\n    que ele foi e&#8230; 0 raparigas, ent&atilde;o esse p&atilde;o ainda n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; amassado? E, n&atilde;o lhe sofrendo a impaci&ecirc;ncia de &acirc;nimo<br \/>\n    a inac&ccedil;&atilde;o, aproximou- se da masseira, e afastando as mo&ccedil;as<br \/>\n    que lhe cederam o lugar com defer&ecirc;ncia, remexeu, com o vigor dos seus<br \/>\n    desenvolvidos m&uacute;sculos, a massa que, sob t&atilde;o poderoso motor,<br \/>\n    cedo adquiriu a consist&ecirc;ncia precisa.<\/p>\n<p> Depois amontoou-a, alisou-a, tra&ccedil;ou-lhe em cima com a m&atilde;o<br \/>\n    uma cruz, e murmurou:<\/p>\n<p>S. Vicente te acrescente, S. Mamede te levede.<\/p>\n<p>Cobriu-a com a baeta, e depois acrescentou, voltando-se para a sua gente<br \/>\n    : &#8212; Ora a&iacute; o t&ecirc;m ; agora olhem-me por esse forno, que s&atilde;o<br \/>\n    horas.<\/p>\n<p> E, tornando a Maur&iacute;cio, continuou, como se n&atilde;o tivesse havido<br \/>\n    interrup&ccedil;&atilde;o :<\/p>\n<p>&#8212; Pois &eacute; verdade, ele foi e ainda n&atilde;o veio. Sabes tu<br \/>\n    que era esta a mulher que ficava a matar para o meu Clemente? Maur&iacute;cio<br \/>\n    estremeceu, como se ouvira uma heresia.<\/p>\n<p> &#8212; Quem? Ela? Berta? &#8212; Sim ; ent&atilde;o que achas ? Pois com<br \/>\n    quem queres tu que ela case c&aacute; na terra? Fidalgos n&atilde;o a querem;<br \/>\n    os rapazes por a&iacute; s&atilde;o uns labregos que Deus nos acuda. O meu<br \/>\n    Clemente&#8230; n&atilde;o &eacute; agora por ser meu filho, mas n&atilde;o se<br \/>\n    lhe faz favor nenhum confessando que &eacute; mais jeitoso do que eles. E,<br \/>\n    sobretudo, depois disto da regedoria. Ele fala com o sr. administrador e at&eacute;<br \/>\n    com o governador civil, quando vai ao Porto, e a cada passo est&aacute; a<br \/>\n    escrever-lhes e a receber cartas deles, e &eacute; tudo : Deus guarde a V.<br \/>\n    S.&ordf; para aqui, Deus guarde a V. Ex.&quot; para acol&aacute;. Ora a filha<br \/>\n    do Tom&eacute; vem acostumada a estas coisas l&aacute; da cidade, e, enfim,<br \/>\n    sendo de costume, j&aacute; se n&atilde;o gosta de passar sem isso.<\/p>\n<p> Mauricio n&atilde;o podia seguir pl&agrave;cidamente as conjecturas da ama;<br \/>\n    parecia-lhe uma profana&ccedil;&atilde;o o que ouvia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, Ana. Clemente n&atilde;o &eacute; marido<br \/>\n    que convenha a Berta.<\/p>\n<p> De modo nenhum. Desengana-te.<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o ? Ora essa &eacute; boa ! quem &eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    que lhe conv&eacute;m ? Olhagora ! &#8212; Berta tem&#8230; teve&#8230; h&aacute;-de<br \/>\n    ter&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tem, teve e h&aacute;-de ter o qu&ecirc; ? &#8212; uma educa&ccedil;&atilde;o&#8230;<br \/>\n    gostos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora viva ! J&aacute; fazes a filha do Tom&eacute; fidalga de mais<br \/>\n    para o meu rapaz! Ora quem ali est&aacute;! Olha que eu sou da cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Tom&eacute;, e conheci-o rapazinho de p&eacute; descal&ccedil;o a guardar<br \/>\n    o gado&#8230; Olhagora.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o duvido, Ana, mas&#8230; Berta j&aacute; viu a cidade e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Toma? E o meu Clemente? Ora deixa-te de hist&oacute;rias. Sabes<br \/>\n    que mais?&#8230; N&atilde;o me andes tu j&aacute; por a&iacute; com o olho na<br \/>\n    pequena, que &eacute; o que me parece ; olha que n&atilde;o &eacute; nenhuma<br \/>\n    tola como as outras&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; 0 Ana, que ela n&atilde;o &eacute; como as outras sei eu. Nunca<br \/>\n    esta terra soube o que era um anjo assim.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem, olhem ! &Eacute; o que eu digo ! Temo-la travada ! Eu logo<br \/>\n    vi.<\/p>\n<p> &Oacute; filho, que n&atilde;o sei a quem me sais. Eu logo vi. Tu que te<br \/>\n    espinhavas todo por eu querer a rapariga para o meu Clemente&#8230; Mas, ol&aacute;,<br \/>\n    Sr. Maur&iacute;cio, veja o que faz. Lembre-se de quem ela &eacute; filha.<br \/>\n    &Eacute; um homem s&eacute;rio e que n&atilde;o gosta de quem o n&atilde;o<br \/>\n    tratar como homem s&eacute;rio&#8230; Mas a&iacute; vem o meu Clemente ; ele &eacute;<br \/>\n    que me vai dizer da rapariga.<\/p>\n<p><b>XII<\/b><\/p>\n<p>CLEMENTE, o fililo &uacute;nico da vigorosa matrona que t&atilde;o desenganadamente<br \/>\n    falava a Maur&iacute;cio, era um sincero rapaz alde&atilde;o, de esp&iacute;rito<br \/>\n    pouco desenvolvido, mas de excelente &iacute;ndole.<\/p>\n<p> Tinha uma fisionomia vulgar, destas que fogem da mem&oacute;ria, porque<br \/>\n    nem as fixa um vislumbre de intelig&ecirc;ncia que acentue alguma fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    predominante dela, nem o cunho de estupidez, que as assemelhe a caricaturas.<\/p>\n<p> S&oacute; na boca e nos olhos &eacute; que havia um jeito revelador da natural<br \/>\n    bondade daquele car&aacute;cter; o mais nada exprimia.<\/p>\n<p> Clemente aceitara com certo desvanecimento o cargo de regedor, e exercia-o<br \/>\n    com a imparcial inteireza que deve ter o magistrado.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante o g&ecirc;nio brando, de que era dotado, ousara arcar,<br \/>\n    no desempenho dos seus deveres, com os privilegiados da terra, que ainda n&atilde;o<br \/>\n    haviam perdido de todo os h&aacute;bitos de sobranceria e de desprezo &agrave;s<br \/>\n    leis, adquiridos por seus ascendentes nos tempos das regalias feudais.<\/p>\n<p> Clemente era supersticiosamente acatador do c&oacute;digo administrativo,<br \/>\n    e este fervor de funcion&aacute;rio dava-lhe coragem para a luta, ali&aacute;s<br \/>\n    muito contr&aacute;ria &agrave; sua &iacute;ndole pac&iacute;fica e conciliadora.<\/p>\n<p> Por vezes sofreu pelo seu muito amor de justi&ccedil;a. Julgou ele, com<br \/>\n    simp&aacute;tica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor,<br \/>\n    quanto mais exacto e imparcial ele fosse no cumprimento dos seus deveres ;<br \/>\n    com funda e amarga dor de cora&ccedil;&atilde;o viu, pois, que tendo arrostado<br \/>\n    com as sanhas de alguns fidalgos, cujas ilegais franquias procurara fazer<br \/>\n    cessar, o administrador, que sabia teorizar muito melhor do que ele sob o<br \/>\n    tema de emancipa&ccedil;&atilde;o do povo, dos direitos do homem e da igualdade<br \/>\n    perante a lei, mas que tamb&eacute;m sabia quebrar na pr&aacute;tica as quinas<br \/>\n    e os &acirc;ngulos agudos &agrave;s suas teorias, tomava o partido dos fidalgos,<br \/>\n    e censurava asperamente em of&iacute;cios o procedimento do regedor.<\/p>\n<p> Estas injusti&ccedil;as sociais principiavam j&aacute; a inocular no &acirc;nimo<br \/>\n    leal e sincero de Clemente o cepticismo a respeito dos homens, e a prepar&aacute;-<br \/>\n    lo talvez para vir a ser uma autoridade menos intrat&aacute;vel e de mais<br \/>\n    condescendente consci&ecirc;ncia, e por conseguinte mais ao agrado dos homens,<br \/>\n    n&atilde;o sei se diga pr&aacute;ticos ou corruptos, que clamam contra a absoluta<br \/>\n    inflexibilidade dos princ&iacute;pios, Achava-se o bom Clemente naquela desconsoladora<br \/>\n    fase de transi&ccedil;&atilde;o, em que o funcion&aacute;rio novel principia<br \/>\n    a sentir que o deixa o ideal que concebera da sua entidade civil, e que vai<br \/>\n    descendo pelo escorregadio pendor das condescendencias mundanas para o n&iacute;vel,<br \/>\n    onde redemoinham as turbas, que ao princ&iacute;pio fitara sobranceiro, de<br \/>\n    t&ocirc;da a altura da sua dignidade moral. <\/p>\n<p>Triste &eacute;poca de desilus&atilde;o e de desencantamento essa! Clemente<br \/>\n    votava sincera afei&ccedil;&atilde;o aos rapazes da Casa Mourisca, e sobretudo<br \/>\n    a Jorge, a quem cedera o seio de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> Jorge nunca lhe dava motivo de colis&atilde;o entre os seus deveres de regedor<br \/>\n    e os impulsos do seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o assim Maur&iacute;cio, que n&atilde;o era de todo inocente<br \/>\n    de certas infrac&ccedil;&otilde;es da lei e de desprezo pelo c&oacute;digo<br \/>\n    administrativo, com que n&atilde;o poucos sonos tinha afugentado ao honrado<br \/>\n    rapaz.<\/p>\n<p> Clemente desculpava Maur&iacute;cio, dizendo que eram as m&aacute;s companhias<br \/>\n    que o levavam &agrave;quilo, mas prometia n&atilde;o ceder a considera&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    se o encontrasse em flagrante.<\/p>\n<p> Fosse por&eacute;m acaso, fosse quase insciente prop&oacute;sito de amizade<br \/>\n    em n&atilde;o querer ver, &eacute; certo que nunca tal conting&ecirc;ncia<br \/>\n    se deu. Apenas por vagas den&uacute;ncias lhe constava ter Maur&iacute;cio<br \/>\n    uma ou outra vez quebrado o defeso da ca&ccedil;a, tomado parte em alguma<br \/>\n    rixa nocturna, quase sempre em companhia de seus primos, os fidalgos do Cruzeiro.<\/p>\n<p> Estes sim, estes eram os mais rebel&otilde;es daqueles arredores. com eles<br \/>\n    era que as mais das vezes tinham lugar certos conflitos, em que os cabos de<br \/>\n    Clemente nem sempre eram tratados com o respeito que para eles a farda pedia.<\/p>\n<p> Os fidalgos do Cruzeiro viviam ainda &agrave; moda antiga, como senhores<br \/>\n    feudais da terra, desconhecendo direitos de propriedade e calcando aos p&eacute;s<br \/>\n    dos seus cavalos todos os c&oacute;digos, com que tentassem conter-lhes os<br \/>\n    impetos nobiliarios.<\/p>\n<p> Eram tr&ecirc;s estes nobres senhores.<\/p>\n<p> um morgado e&#8230; morgado &agrave;s direitas; outro doutor&#8230; por ter andado<br \/>\n    dez anos em Coimbra, para deixar incompleto um curso de cinco ; o terceiro,<br \/>\n    abade, escorra&ccedil;ado pelo povo de uma freguesia que fora mandado paroquiar<br \/>\n    ; ligavam-se todos tr&ecirc;s, em tem&iacute;vel triunvirato, para invadirem<br \/>\n    as propriedades, esgotarem as tabernas, insultarem as mulheres e espancarem<br \/>\n    os homens daqueles s&iacute;tios.<\/p>\n<p> O povo, ou por h&aacute;bito legado de submiss&atilde;o os deixava &agrave;<br \/>\n    vontade, contentando-se com praguej&aacute;-los pela calada, desfor&ccedil;o<br \/>\n    dos oprimidos em todas as &eacute;pocas da hist&oacute;ria da humanidade,<br \/>\n    ou exasperado e descrendo da efic&aacute;cia da lei, recorria &agrave; defesa<br \/>\n    pr&oacute;pria, e procurava manter em respeito esses turbulentos vadios, que<br \/>\n    mais de uma vez sa&iacute;ram malferidos da refrega.<\/p>\n<p> Jorge afastara-se cada vez mais da companhia dos primos, cujos asselvajados<br \/>\n    h&aacute;bitos lhe repugnavam; Maur&iacute;cio frequentava-os ainda, e era<br \/>\n    de facto a companhia deles que &agrave;s vezes o impelia a passos repreens&iacute;veis.<\/p>\n<p> Clemente vinha agitado quando entrou em casa aquela manh&atilde;.<\/p>\n<p> Era evidente que o regedor se tinha encontrado em uma das colis&otilde;es,<br \/>\n    a que a vida p&uacute;blica o sujeitava.<\/p>\n<p> A m&atilde;e, logo que lhe lan&ccedil;ou os olhos ao rosto contra&iacute;do<br \/>\n    e levemente purpureado, conheceu que tinha havido novidade e interpelou-o<br \/>\n    :<\/p>\n<p>&#8212; Que tiveste tu l&aacute; por fora, Clemente ? Essa cara n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; de quem vem satisfeito com a sua vida.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-me, minha m&atilde;e, deixe-me &#8212; rompeu o irritado rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Como assim, enquanto n&atilde;o largar esta coisa da regedoria,<br \/>\n    n&atilde;o tenho um momento de sossego.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que foi ? &#8212; Que foi? Que havia de ser? O que<br \/>\n    foi ontem, e que h&aacute;-de sciamanna, e que h&aacute;-de ser sempre, enquanto&#8230;<br \/>\n    enquanto se n&atilde;o fechar os olhos e se der para baixo, seja em quem for.<br \/>\n    Parece imposs&iacute;vel que gente de educa&ccedil;&atilde;o, gente que devia<br \/>\n    ter vergonha e ser a primeira a mostrar o exemplo, seja a que anda por ai<br \/>\n    dando esc&acirc;ndalo, sem fazer caso da autoridade, nem da lei, nem de coisa<br \/>\n    alguma ! E um padre ent&atilde;o ! e um doutor ! &#8212; Pelo que vejo temos<br \/>\n    os do Cruzeiro fazendo das suas? &#8212; Pois quem sen&atilde;o eles? Essa<br \/>\n    s&uacute;cia de libertinos, de&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Olha que est&aacute; ali um primo deles, Clemente &#8212; admoestou<br \/>\n    a m&atilde;e, sorrindo.<\/p>\n<p> Clemente reparou pela primeira vez em Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8216;&#8212;Ah! desculpe, Sr. Maur&iacute;cio, que ainda agora o vejo. Mas isto<br \/>\n    &eacute; assim. Aqueles senhores cuidam&#8230; Eu sei l&aacute; o que eles cuidam?<br \/>\n    Cuidam talvez que isto hoje &eacute; como dantes e que eles h&atilde;o-de<br \/>\n    fazer a sua vontade&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas afinal de que se trata?&#8212;inquiriu Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Desta vez deu-lhes para meterem em casa um refractario do servi&ccedil;o<br \/>\n    militar, contra quem h&aacute; um mandado de captura, e com o maior descaramento<br \/>\n    o declaram por a&iacute;. Temos outra como quando esconderam em casa o assassino<br \/>\n    do reitor de Fieiras e lhe deram esc&aacute;pula para o Brasil. Mas eu n&atilde;o<br \/>\n    quero saber, a lei l&aacute; est&aacute; que diz bem claro o que deve fazer-se,<br \/>\n    e o sr. administrador n&atilde;o &eacute; para gra&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Fia-te nele ! Olhagora ! &#8212; atalhou a m&atilde;e. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    fresco ! Vendo-te metido em talas, s&oacute; se n&atilde;o puder deitar a<br \/>\n    m&atilde;o &agrave; caravelha para te atenazar ainda mais. N&atilde;o te lembras<br \/>\n    do que ele fez quando foi da pris&atilde;o do morgado dos Code&ccedil;os,<br \/>\n    por causa das pancadas na feira? Ora bem me fio eu nele ! Todo cola&ccedil;o<br \/>\n    com o Louren&ccedil;o do Cruzeiro, e companheiro de s&uacute;cias deles todos.<br \/>\n    Sabes que mais, meu filho? deixa-os l&aacute; e n&atilde;o te consumas com<br \/>\n    isso. Olhagora! Estas eram as m&aacute;ximas que o cepticismo inspirava j&aacute;<br \/>\n    a Ana do Vedor.<\/p>\n<p> Clemente encolheu os ombros.<\/p>\n<p> &#8212; Ou hei-de ser regedor, ou n&atilde;o hei-de ser. Por isso &eacute;<br \/>\n    que eu digo que vou pedir a demiss&atilde;o. Para injusti&ccedil;as &eacute;<br \/>\n    que eu n&atilde;o sirvo.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero que se diga que quando um pobre homem faz alguma coisa,<br \/>\n    j&aacute; tudo s&atilde;o pressas para o prender e castigar, e l&aacute; porque<br \/>\n    uns senhores..<\/p>\n<p> . Senhores ? Melhor tratassem de pagar o que devem a meio mundo, e n&atilde;o<br \/>\n    andassem por ai a fazer o que fazem.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, Clemente, perdoa-lhes as rapaziadas, porque afinal eles sao<br \/>\n    teus amigos &#8212; interveio Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; Amigos eles r ! Muito agradecido ; mas nem acredito na tal amizade,<br \/>\n    nem tamb&eacute;m a desejo ; isto &eacute; para dizer o que &eacute; verdade.<\/p>\n<p> Interromperam-no neste ponto duas vigorosas vozes masculinas, que bradavam<br \/>\n    da rua: &#8212; Maur&iacute;cio ! &Oacute; Maur&iacute;cio ! que diabo fazes<br \/>\n    tu a&iacute; dentro, com o cavalo preso &agrave; porta ? Eh ! &#8212; Tu tamb&eacute;m<br \/>\n    p&otilde;es m&atilde;o na fornada? &#8212; Parece-me mais certo que ponhas<br \/>\n    m&atilde;o nas forneiras.<\/p>\n<p> A ti&#8217;Ana foi a primeira que tomou a palavra: &#8212; Falai do ruim&#8230; S&atilde;o<br \/>\n    os do Cruzeiro.<\/p>\n<p> E, chegando ao limiar da porta, exclamou com os seus modos desempe&ntilde;ados<br \/>\n    : &#8212; Que &eacute; l&aacute;, que &eacute;, meus fidalguinhos ? Que temos<br \/>\n    n&oacute;s que dizer das forneiras? Em minha casa n&atilde;o h&aacute; monte<br \/>\n    para ca&ccedil;ada de galgos, como vossemec&ecirc;s. Entendem? Deixem sossegado<br \/>\n    o Maur&iacute;cio, que j&aacute; n&atilde;o pouco mal lhe t&ecirc;m feito<br \/>\n    com os seus conselhos e companhia.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio apareceu aos primos, rindo do serm&atilde;o da ama.<\/p>\n<p> Clemente permanecia carrancudo no fundo da cozinha.<\/p>\n<p> Os primos do Cruzeiro, o doutor e o abade, vestiam &agrave; maneira do campo,<br \/>\n    de jaqueta de alamares, faixa vermelha &agrave; cinta, chap&eacute;u de abas<br \/>\n    largas, de espingarda ao ombro, c&atilde;es em redor, e as v&iacute;timas<br \/>\n    das suas fa&ccedil;anhas venatorias pendentes ao tiracolo, como trof&eacute;us<br \/>\n    de combate.<\/p>\n<p> O padre respondeu &agrave; Ana do Vedor: &#8212; &Oacute; mulher, guarde<br \/>\n    l&aacute; a sua l&iacute;ngua que nos n&atilde;o tira a sede que trazemos,<br \/>\n    e d&ecirc;-nos antes uma pinga do verde, porque o nosso pichei vai vazio de<br \/>\n    todo.<\/p>\n<p> E, com a maior cem-cerim&oacute;nia, entraram para o p&aacute;tio pousando<br \/>\n    as espingardas e os aparelhos de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p> O doutor sentou-se nos degraus da porta da cozinha, o padre na pilha de<br \/>\n    lenha que havia no quinteiro.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor, com as m&atilde;os na cinta, observava-os e prosseguiu na<br \/>\n    objurgat&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; com que ent&atilde;o o sr. abade, o sr. doutor, e o sr. seu mano<br \/>\n    entendem que as leis destes reinos n&atilde;o foram feitas para vossemec&ecirc;s<br \/>\n    ? &#8212; A que vem agora essa cantilena, &oacute; mulher? D&egrave;-nos vinho<br \/>\n    &#8212; insistiu o padre.<\/p>\n<p> &#8212; A que vem? &#8212; tornou a ti Ana &#8212; a&iacute; est&aacute;<br \/>\n    o meu Clemente, que melhor o pode dizer.<\/p>\n<p> Os dois voltaram-se e viram Clemente, que, pela sua vez apareceu &agrave;<br \/>\n    porta.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ah ! o sr. regedor ! &#8212; Pelos modos o homem est&aacute;<br \/>\n    zangado connosco por lhe escondermos o filho do soqueiro, queres tu ver? Maur&iacute;cio<br \/>\n    tomou o partido de Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sabem que &eacute; da responsabilidade dele.<\/p>\n<p> &#8212; Ora deixa-te de contos &#8212; atalhou o doutor.<\/p>\n<p>&#8212; O pior &eacute; que, vistos os autos, n&atilde;o temos vinho &#8212;<br \/>\n    fez notar o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; enganado, sr. abade &#8212; veio-lhe &agrave; m&atilde;o<br \/>\n    Clemente&#8212;fosse um criminoso que me pedisse de comer e de beber, quando<br \/>\n    passasse &agrave; minha porta, eu, com ser regedor, n&atilde;o lho recusaria.<br \/>\n    O que a minha casa n&atilde;o h&aacute;-de ser, isso n&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    esconderijo de ladr&otilde;es, de malvados e de refractarios ; nem sei que<br \/>\n    grande gl&oacute;ria venha da&iacute; a quem tanto mal faz &agrave; sociedade,<br \/>\n    n&atilde;o deixando que se cumpram as leis. O vinho a&iacute; est&aacute;.<\/p>\n<p> Efectivamente apareceram dois rapazes, empunhando cada qual uma caneca a<br \/>\n    trasbordar de pur&iacute;ssimo vinho verde, que os dois ca&ccedil;adores esvaziaram<br \/>\n    de um f&ocirc;lego.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; disse o doutor no fim da liba&ccedil;&atilde;o. &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o te arrenegues, Clemente, que n&atilde;o &eacute;s mau rapaz afinal.<br \/>\n    Est&aacute;s muito soberbo com a rua regedoria, mas isso h&aacute;-de passar-te.<br \/>\n    Ora agora fica sabendo que na quinta do Cruzeiro, desde tempos imemoriais,<br \/>\n    encontra asilo quem a&iacute; se acolher.<\/p>\n<p> &#8212; Mas o senhor sabe que a lei pune a quem der esconderijo a um refractario.<br \/>\n    Parece-me que um doutor n&atilde;o pode deixar de saber estas coisas.<\/p>\n<p> &#8212; A lei diz muita coisa que todos n&oacute;s sabemos ; mas deixa l&aacute;<br \/>\n    a lei, que est&aacute; quieta.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se o sr. administrador ordenar uma busca na casa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que veja se se mete nisso &#8212; acudiu o abade, sorrindo amea&ccedil;adoramente.<\/p>\n<p> &#8212; Tem direito para o fazer &#8212; questionou Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que se contente com o direito.<\/p>\n<p> Clemente ia-se irritando.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; preciso p&ocirc;r cobro a isto, meus senhores. N&atilde;o<br \/>\n    se pode sofrer que em tempo de leis e autoridades haja uma casa, onde nem<br \/>\n    lei, nem autoridade entram.<\/p>\n<p> &#8212; Pois tenta, &oacute; Clemente ; quando te sentires de pachorra manda-<br \/>\n    nos l&aacute; o ex&eacute;rcito dos teus cabos, e comanda o assalto. Ah !<br \/>\n    ah ! ah ! Havia de ter gra&ccedil;a! &#8212; Pelos modos por que vejo irem<br \/>\n    as coisas, n&atilde;o direi que se n&atilde;o chegue um dia a isso, &#8212;<br \/>\n    Hei-de gostar de ver.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu n&atilde;o. Os rneus desejos eram que todos vivessem em<br \/>\n    paz e sossego. E o que me custa &eacute; que partam os maus exemplos de onde<br \/>\n    deviam vir os bons.<\/p>\n<p> &#8212; Ora sabes que mais, Clemente? &#8212; ponderou o padre. &#8212;<br \/>\n    Dou-te de conselho que n&atilde;o puxes de mais pelo fiado. O mundo &eacute;<br \/>\n    assim em t&ocirc;da a parte, rapaz ; e &eacute; preciso fazer a vista grossa<br \/>\n    para certas coisas.<\/p>\n<p> As leis s&atilde;o boas, mas n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio sen&atilde;o<br \/>\n    sofrei&#8217; de quando em quando que n&atilde;o as cumpra quem est&aacute; no caso<br \/>\n    de ter vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a vontade tira-se, se as autoridades forem o que devem ser.<\/p>\n<p>&#8212; Viva, sr. regedor ! &#8212; Digo isto, sr. abade, e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; um seu criado, sr. regedor ! &#8212; E um dia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Agrave;s suas ordens, sr. regedor.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. regedor, sim ! e honro-me disso muito. E enquanto for regedor,<br \/>\n    h&atilde;o-de-me respeitar como tal. J&aacute; disse. O seu tempo j&aacute;<br \/>\n    l&aacute; vai, sr. abade, e hoje a justi&ccedil;a quando tem de entrar em<br \/>\n    uma casa, n&atilde;o repara no bras&atilde;o que est&aacute; &agrave; porta&#8230;<br \/>\n    ou n&atilde;o deve reparar. Ningu&eacute;m tem direito de n&atilde;o respeitar<br \/>\n    a lei, e eu prometo-lhes que j&aacute; que assim o querem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem, bem &#8212; acudiu Maur&iacute;cio, que receou que a cena se<br \/>\n    tor nasse mais azeda &#8212; n&atilde;o prossigamos nesta contenda. Venham<br \/>\n    voc&ecirc;s da&iacute;, que temos que conversar. Clemente, sossega, que tudo<br \/>\n    se h&aacute;-de arranjar. Adeus, Ana.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos l&aacute;, vamos l&aacute; &#8212; concordaram os dois primos,<br \/>\n    empunhando outra vez as espingardas &#8212; deixemos o sr. regedor, que est&aacute;<br \/>\n    hoje muito zangado.<\/p>\n<p> E, ao atravessarem o quinteiro, o doutor e o abade abra&ccedil;aram, cada<br \/>\n    um por sua vez, uma das mo&ccedil;as de Ana do Vedor, que voltava da fonte<br \/>\n    com um c&acirc;ntaro de &aacute;gua.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;, ol&aacute;, fidalguinhos ! &#8212; bradou da porta da<br \/>\n    cozinha a patroa.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; disse que isto aqui n&atilde;o &eacute; terras do Cruzeiro.<br \/>\n    Olhem se querem que eu os enxote como a raposas do galinheiro? E, quando a<br \/>\n    criada chegou ao p&eacute; dela, disse-lhe com aspereza: &#8212; Tu n&atilde;o<br \/>\n    sabias chimpar-lhes o c&acirc;ntaro pela cabe&ccedil;a abaixo, minha maluca?<br \/>\n    Sempre voc&ecirc;s n&atilde;o sei para que querem a esperteza.<\/p>\n<p> Os rapazes retiraram-se rindo.<\/p>\n<p> Ana voltou a ouvir e a mitigar as queixas do filho.<\/p>\n<p><b>XIII<\/b><\/p>\n<p>MAUR&Iacute;CIO mandou para casa o cavalo, no prop&oacute;sito de seguir<br \/>\n    os primos a p&eacute;. Estes enviaram tamb&eacute;m para o Cruzeiro os c&atilde;es,<br \/>\n    as espingardas e os mais petrechos de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p> Os dois manos riram-se por muito tempo da pros&agrave;pia do regedor, e<br \/>\n    n&atilde;o se deram por satisfeitos sen&atilde;o depois de terem conseguido<br \/>\n    fazer tamb&eacute;m rir Maur&iacute;cio, que a princ&iacute;pio tentou admoest&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8212; Deixemos o assunto &#8212; disse afinal o padre &#8212; que destino<br \/>\n    levas ? &#8212; Nenhum.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso vem por nossa casa, que n&atilde;o te h&aacute;s-de arrepender.<\/p>\n<p> &#8212; Que h&aacute; l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Vem e saber&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; O Jos&eacute; recebeu ontem do Douro uns cascos prometedores &#8212;<br \/>\n    explicou o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, adeus ; a&iacute; est&aacute;s tu a desfazer a surpresa.<br \/>\n    Deixa-o ir.<\/p>\n<p> &#8212; Vou &#8212; respondeu Maur&iacute;cio &#8212; mas havemos de seguir<br \/>\n    o caminho que eu disser.<\/p>\n<p> &#8212; Mas por onde diabo queres tu ir ? &#8212; Temos empreitada ? &#8212;<br \/>\n    Tamb&eacute;m vos prometo que se n&atilde;o arrepender&atilde;o &#8212; insistiu<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; rapaz, se s&atilde;o olhos pretos e cabelos fartos, diz,<br \/>\n    e vamos l&aacute; ver isso &#8212; alvitrou o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Olhos, cabelos, dentes, gestos, riso, figura, tudo uma perfei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; ampliou Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Onde desenterraste essa maravilha ? &#8212; Chegou aqui h&aacute;<br \/>\n    poucos dias.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ponhas mais na carta.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei &#8212; interveio o doutor &#8212; falaram-me nela.<br \/>\n    &Eacute; a filha do Tom&eacute; da Herdade.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; Exactamente.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o ela sempre &eacute; essas coisas? &#8212; S&oacute;<br \/>\n    te digo que eu ando cada vez mais doido por a rapariga.<\/p>\n<p> Isto c&aacute; dentro est&aacute; em iminente perigo de explos&atilde;o.<br \/>\n    Que admira, se nunca at&eacute; hoje vi uma beleza assim? &#8212; Est&aacute;s<br \/>\n    bem bom. &Oacute; rapaz, o mais que posso fazer &eacute; casar-vos.<\/p>\n<p> Conjugo-vos&#8212;disse o padre, cantarolando.<\/p>\n<p> &#8212; Em uma palavra, para voc&ecirc;s imaginarem o estado disto, basta<br \/>\n    que vos diga que me custou a conter a indigna&ccedil;&atilde;o quando ouvi<br \/>\n    h&aacute; pouco a Ana do Vedor dizer-me que a Berta era um bom casamento para<br \/>\n    o filho.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, para o sr. regedor ! &#8212; &Ecirc; verdade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o S. Ex.a tenciona tomar estado? &#8212; E vamos l&aacute;<br \/>\n    a saber &#8212; informou-se o doutor &#8212; a rapariga &eacute; arisca ou<br \/>\n    acess&iacute;vel? &#8212; Por ora parece-me desconfiada apenas, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Como disseste que se chama ? Berta ? &#8212; Sim.<\/p>\n<p> O padre cantarolou:<\/p>\n<p>Berta, Berta, meus amores, Berta do meu cora&ccedil;&atilde;o, &Eacute;s<br \/>\n    a rainha das flores, Trailari, lari, lar&atilde;o.<\/p>\n<p>E, cantando, trepava o muro de um pomar para colher laranjas que de l&aacute;<br \/>\n    o estavam seduzindo. <\/p>\n<p>&#8212; Deixa l&aacute; as laranjas ; anda da&iacute; &#8212; dizia o mano<br \/>\n    doutor, que seguia &agrave; frente do rancho.<\/p>\n<p> &#8212; A casa do cidad&atilde;o &eacute; inviol&aacute;vel &#8212; acrescentou<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhor &#8212; tornou o padre, j&aacute; a cavalo no muro &#8212;<br \/>\n    mas se me faz favor, nem isto &eacute; casa, nem um homem que mora na aldeia<br \/>\n    &eacute; cidad&atilde;o.<\/p>\n<p> E saltou do muro com a sua colheita, e p&ocirc;s-se a caminho, comendo as<br \/>\n    laranjas que roubara.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o d&aacute; c&aacute; uma &#8212; disse o doutor, voltando-se<br \/>\n    para tr&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ah ! j&aacute; cobi&ccedil;as ? E o padre arremessou duas laranjas,<br \/>\n    que o mano destramente aparou nas m&atilde;os.<\/p>\n<p> A companhia foi seguindo pelos acidentados caminhos da aldeia, cantando,<br \/>\n    saltando, pondo em confus&atilde;o as lavadeiras mo&ccedil;as que ensaboavam<br \/>\n    nas presas, abra&ccedil;ando &agrave; for&ccedil;a na estrada as raparigas<br \/>\n    que, vergadas sob molhos de erva ou de milho cortado, mal lhes podiam fugir<br \/>\n    ; visitando todas as tabernas, fazendo correr&iacute;as a galinhas, porcos<br \/>\n    ou vacas, se se lhes deparavam na passagem, calcando campos e escalando muros<br \/>\n    com o desassombro de senhores.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio imitava-os meio constrangido, mas imitava-os. Se &agrave;s<br \/>\n    vezes os seus melhores instintos ou a influ&ecirc;ncia do trato com Jorge<br \/>\n    o faziam conter, a reflex&atilde;o maliciosa de qualquer dos primos, que ironicamente<br \/>\n    lhe celebrava a candura, impelia-o a vencer a primeira hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e afinal dava o passo que lhe repugnara.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio possu&iacute;a um desses caracteres f&aacute;ceis de dominar,<br \/>\n    m&oacute;veis, que cedem ao bem e ao mal, e que tanto habilitam o homem a<br \/>\n    realizar her&oacute;icos feitos, como a perder-se. Tudo est&aacute; na influ&ecirc;ncia<br \/>\n    que os rege.<\/p>\n<p> Se t&ecirc;m faculdades para apreciar o gozo, que resulta de uma ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    grande e generosa; se s&atilde;o capazes de a conceber e d&atilde;o est&iacute;mulos<br \/>\n    para a executar, tamb&eacute;m as sedu&ccedil;&otilde;es do v&iacute;cio os<br \/>\n    enlevam, tamb&eacute;m a vertigem do abismo os atrai, e aproximam-se fascinados<br \/>\n    do precip&iacute;cio sem que a raz&atilde;o acorde para os suspender no progresso<br \/>\n    fatal.<\/p>\n<p> Caracteres assim s&atilde;o instrumento poderoso do bem ou do mal, conforme<br \/>\n    a m&atilde;o que deles usa e a inten&ccedil;&atilde;o que os dirige. S&atilde;o<br \/>\n    os que sentem a influ&ecirc;ncia das boas ou m&aacute;s companhias.<\/p>\n<p> Dentro em pouco chegaram os tr&ecirc;s rapazes &agrave; Herdade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o a rapariga ? &#8212; perguntou o padre, examinando<br \/>\n    as janelas vazias.<\/p>\n<p> &#8212; Nem sempre aparece &agrave; janela &#8212; informou Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; E de que meio te serves para cham&aacute;-la? tosses, cantas, assobias?&#8212;<br \/>\n    perguntou o doutor. &#8212; Qual &eacute; o teu sistema? &#8212; Eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho sistema.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o para que nos trouxe por aqui este inocente, n&atilde;o<br \/>\n    me dir&atilde;o ? &#8212; Tu n&atilde;o tens entrada em casa ? &#8212; Meu<br \/>\n    pai n&atilde;o gosta que n&oacute;s visitemos o Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! l&aacute; se o pap&aacute; ralha&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Este Mauricio tem coisas ! &#8212; Isto &eacute; mesmo uma menina<br \/>\n    inocente ! &#8212; Aqui n&atilde;o h&aacute; mal&iacute;cia alguma ! Estas<br \/>\n    observa&ccedil;&otilde;es dos manos estavam causando a Maur&iacute;cio vergonha<br \/>\n    da sua pr&oacute;pria candura.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o daqui ? &#8212; interpelou o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o&#8230; &#8212; titubeou Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Segue-se dar meia volta &agrave; direita, e retirarmo-nos com caras<br \/>\n    de asnos, n&atilde;o &eacute; assim? &#8212; Fa&ccedil;am voc&ecirc;s o que<br \/>\n    quiserem &#8212; exclamou o padre &#8212; eu por mim, j&aacute; que aqui estou,<br \/>\n    n&atilde;o me retiro sem ver a pequena.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como ? &#8212; interrogou Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Eu te digo. A coisa &eacute; simples.<\/p>\n<p> E, dizendo isto, dirigiu-se a uma pequena porta que havia no muro da quinta,<br \/>\n    e sem a menor hesita&ccedil;&atilde;o, impeliu-a com for&ccedil;a, e ela cedeu<br \/>\n    sem grande resist&ecirc;ncia. O padre entrou primeiro, seguiu-o o mano doutor,<br \/>\n    e Maur&iacute;cio, ainda que mais a medo, imitou-os.<\/p>\n<p> Os do Cruzeiro caminhavam com a sem-cerim&oacute;nia, que caracterizava<br \/>\n    todos os seus actos naquela terra, assobiando, cortando flores e frutas, e<br \/>\n    encurtando caminho por cima dos campos semeados.<\/p>\n<p> De repente o padre, que ia adiante, parou, e voltando-se, disse em tom mais<br \/>\n    baixo : &#8212; E ainda dir&atilde;o que n&atilde;o sou bom ca&ccedil;ador<br \/>\n    ! E, afastando-se para o lado, deixou ver o objecto que ele designava, apontando<br \/>\n    para a extremidade da rua em que iam entrar.<\/p>\n<p> Era Berta.<\/p>\n<p> A filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa acabara de ajudar a p&ocirc;r &agrave;<br \/>\n    cabe&ccedil;a de uma rapariguita alde&atilde; o &uacute;ltimo feixe de canas<br \/>\n    de milho que os segadores haviam deixado no campo, e ficara seguindo-a com<br \/>\n    a vista, t&atilde;o atenta, que nem deu pelos rec&eacute;m-chegados.<\/p>\n<p> &#8212; Vejam que figura de fada ! &#8212; murmurou Maur&iacute;cio para<br \/>\n    os primos. &#8212; &Eacute; a Rute da escritura.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, a figura temos visto, agora quero ver-lhe a cara &#8212; disse<br \/>\n    o padre ; e acompanhado pelo mano bacharel, dirigiu-se para Berta.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, surpreendido por este passo, que n&atilde;o esperara, seguiu-os,<br \/>\n    para conter-lhes a brutal galantaria.<\/p>\n<p> Berta, ouvindo passos, voltou-se, e ao reconhecer os tr&ecirc;s rapazes,<br \/>\n    n&atilde;o reprimiu um movimento de assustada surpresa, a qual, por&eacute;m,<br \/>\n    se desvaneceu, reparando que Maur&iacute;cio era um deles.<\/p>\n<p> Todos se descobriram cortejando Berta.<\/p>\n<p> O padre, fitando impertinentemente os olhos nela, principiou: &#8212; Minha<br \/>\n    senhora, n&atilde;o repare nesta invas&atilde;o de territ&oacute;rio. Mas<br \/>\n    quem teve a culpa foi aqui o primo Maur&iacute;cio. Falou-nos com tal entusiasmo<br \/>\n    da gentil filha do nosso velho amigo Tom&eacute;, que n&oacute;s tomamos a<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o de vir admir&aacute;-la e cumpriment&aacute;-la. E<br \/>\n    aqui estamos.<\/p>\n<p> Berta corou intensamente perante a grosseira sem-cerim&oacute;nia do padre<br \/>\n    e dirigiu a Maur&iacute;cio um olhar, em que se fazia uma interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e se formulava uma censura.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio respondeu a este olhar, dizendo em tom de irritado : &#8212;<br \/>\n    Desculpe, minha senhora, as maneiras pouco delicadas de meu primo. &Eacute;<br \/>\n    um javali silvestre que n&atilde;o sabe amaciar as sedas.<\/p>\n<p> O mano bacharel soltou uma gargalhada quase t&atilde;o grosseira como a<br \/>\n    apresenta&ccedil;&atilde;o do padre, e apimentou-a com a express&atilde;o<br \/>\n    de igual delicadeza : &#8212; Ora toma ! apara l&aacute; esse pi&atilde;o<br \/>\n    &agrave; unha ! ah ! ah I O padre olhou espinhado para Maur&iacute;cio, e<br \/>\n    redarguiu: &#8212; Ora n&atilde;o querem ver este senhor de sal&atilde;o,<br \/>\n    que se ofende com as minhas sem-cerim&oacute;nias? Javali! Tem gra&ccedil;a!<br \/>\n    Quem o ouvir, h&aacute;-de sup&ocirc;-lo um c&atilde;ozinho de rega&ccedil;o.<br \/>\n    Meu lindo priminho, esta menina n&atilde;o &eacute; nenhuma tola e sabe o<br \/>\n    que &eacute; o mundo ; e escusas, para lhe agradar, de te apresentares como<br \/>\n    um gal&atilde; choramigas. Ora &eacute; boa! &#8212; Adeus, adeus, padre Louren&ccedil;o,<br \/>\n    isso previa eu! &#8212; Previas o qu&ecirc; ? Ent&atilde;o eu ofendi algu&eacute;m<br \/>\n    ? &#8212; De ofender, a ser menos delicado, vai alguma dist&acirc;ncia, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Diz tu que o que eu n&atilde;o sou &eacute; impostor e hip&oacute;crita,<br \/>\n    apesar de me terem feito padre. Eu disse o que era verdade. N&oacute;s, se<br \/>\n    estamos aqui, &eacute; por tua causa. N&atilde;o &eacute; assim, Chico? O<br \/>\n    mano Chico afirmou.<\/p>\n<p> Berta assistia a t&ocirc;da esta cena com vis&iacute;vel desgosto, mas sem<br \/>\n    interromp&ecirc;-la com uma palavra.<\/p>\n<p> &#8212; Berta, afirmo-lhe&#8230; &#8212;ia a dizer Maur&iacute;cio para justificar-se<br \/>\n    da t&aacute;cita arg&uuml;i&ccedil;&atilde;o, que lia no olhar dela.<\/p>\n<p> &#8212; com licen&ccedil;a &#8212; cortou-lhe o padre a palavra &#8212;<br \/>\n    se sou grosseiro e javali, hei-de s&ecirc;-lo at&eacute; ao fim. A coisa passou-se<br \/>\n    desta maneira.<\/p>\n<p> O Chico que o diga. Aqui o primo Maur&iacute;cio parece que est&aacute;<br \/>\n    perdido por a menina, e por tal modo nos falou de si, tanto nos matou o bicho<br \/>\n    do ouvido para que lhe pass&aacute;ssemos por a porta, que n&oacute;s viemos.<\/p>\n<p> E como n&atilde;o estava &agrave; janela, nem ele tinha ainda combinado<br \/>\n    sinal para a fazer aparecer, eu, para n&atilde;o perder o tempo e as passadas,<br \/>\n    abri brecha no reduto e entr&aacute;mos. Ora aqui est&aacute;. Se isto &eacute;<br \/>\n    ofensa&#8230;<\/p>\n<p> Berta respondeu, j&aacute; serenamente : &#8212; Creio que n&atilde;o &eacute;,<br \/>\n    porque n&atilde;o pode decerto haver inten&ccedil;&atilde;o de ofender-me<br \/>\n    em quem entra em minha casa na companhia do Sr. Maur&iacute;cio. Ele bem se<br \/>\n    lembra de que eu fui em pequena a companheira de sua irm&atilde; Beatriz,<br \/>\n    de que sou afilhada de seu pai, e naquela casa, a que ele pertence, julgo<br \/>\n    que ainda h&aacute;, como dantes, muito respeito por estes la&ccedil;os de<br \/>\n    fam&iacute;lia e de amizade&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;, Berta, h&aacute;, e t&atilde;o santo como em outros tempos.<br \/>\n    E h&aacute; mais, h&aacute; a firme resolu&ccedil;&atilde;o de os fazer respeitar<br \/>\n    aos outros, como l&aacute; se respeitam.<\/p>\n<p> &#8212; Abranda-te, le&atilde;o ! N&atilde;o estou disposto a lutar contigo,<br \/>\n    apesar desses olhares ferozes. Esta menina far-me-&aacute; mais justi&ccedil;a,<br \/>\n    reconhecendo que eu n&atilde;o a ofendi&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o falemos mais nisso &#8212; acudiu Berta, friamente.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; um caso de consci&ecirc;ncia &#8212; insistiu o abade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ningu&eacute;m t&atilde;o habilitado para o decidir<br \/>\n    como um sacerdote &#8212; tornou-lhe Berta, com desd&eacute;m.<\/p>\n<p> Gargalhada do mano bacharel.<\/p>\n<p> &#8212; Chucha! Ora mete-te com ela, anda.<\/p>\n<p> &#8212; Em coisas do cora&ccedil;&atilde;o &#8212; redarguiu o padre, galanteadoramente<br \/>\n    &#8212; s&atilde;o melhores juizes do que os sacerdotes, as madamas.<\/p>\n<p> Berta contraiu a fronte com desgosto e respondeu-lhe com maior severidade<br \/>\n    : &#8212; Quando elas t&ecirc;m um pai, podem eles tamb&eacute;m ser ju&iacute;zes.<br \/>\n    E o meu a&iacute; vem.<\/p>\n<p> Efectivamente chegava Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> O honrado fazendeiro, que tinha a sua opini&atilde;o formada a respeito<br \/>\n    dos fidalgos do Cruzeiro, franziu o sobrolho, assim que os avistou com a filha.<\/p>\n<p> Nem a presen&ccedil;a de Maur&iacute;cio bastou para tranquiliz&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Tom&eacute; conhecia de pequenos os rapazes da Casa Mourisca, e sabia at&eacute;<br \/>\n    que ponto se podia contar com o que em Maur&iacute;cio havia de bom, e recear<br \/>\n    do que nele havia de mau.<\/p>\n<p> Depois a fisionomia de Berta denunciava que a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos fidalgos n&atilde;o tinha sido demasiadamente apropositada.<\/p>\n<p> Nem Convinha &agrave; boa fama de uma casa, em que houvesse raparigas, a<br \/>\n    assiduidade de qualquer dos tr&ecirc;s manos do Cruzeiro.<\/p>\n<p> Tudo isto actuava no espirito de Tom&eacute; durante os instantes que precederam<br \/>\n    a sua introdu&ccedil;&atilde;o na cena.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute; ! V. Ex as por aqui ! Grande honra ! Grande honra ! &#8212;<br \/>\n    &Eacute; verdade, Tom&eacute; &#8212; come&ccedil;ou o padre a dizer &#8212;<br \/>\n    entramos, como rapazes de escola, sem pedir licen&ccedil;a ao dono da casa<br \/>\n    ; mas confiamos que n&atilde;o se nos leva a mal&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! Levar a mal porqu&ecirc; ? V. Ex.&ordf;&#8217; quiseram talvez<br \/>\n    ver por seus pr&oacute;prios olhos como esta aben&ccedil;oada terra, que dantes<br \/>\n    se definhava nas m&atilde;os de um fidalgo, medra agora nas m&atilde;os de<br \/>\n    um lavrador ? &#8212; Justamente. E depois tivemos a felicidade de encontrar<br \/>\n    a menina Berta, que &eacute; a maravilha destes s&iacute;tios.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; disse Tom&eacute;, com um meio sorriso ; e voltando-se<br \/>\n    para a filha, que instintivamente se aproximou dele : &#8212; &Eacute; verdade.<br \/>\n    Agora me lembra ! Olha que tua m&atilde;e recebeu j&aacute; aquelas meadas.<br \/>\n    Se queres ir v&ecirc;-las&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vou, vou j&aacute; &#8212; respondeu Berta.<\/p>\n<p> E, cortejando levemente os tr&ecirc;s rapazes, afastou-se dali.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; outra vez, Berta &#8212; disse Maur&iacute;cio com voz<br \/>\n    afectuosa.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Maur&iacute;cio &#8212; correspondeu-lhe Berta, e desapareceu<br \/>\n    por uma rua da quinta.<\/p>\n<p>E pensava consigo mesma: &#8212; Agora&#8230; agora&#8230; j&aacute; n&atilde;o sinto<br \/>\n    medo dele&#8230; nem de mim&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Na verdade, Tom&eacute;, a sua casa est&aacute; um perfeito para&iacute;so,<br \/>\n    e nem os anjos lhe faltam &#8212; disse o mano bacharel, depois que Berta<br \/>\n    se retirou.<\/p>\n<p> &#8212; O que eu posso afirmar &#8212; insinuou o abade &#8212; &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o faltar&atilde;o tamb&eacute;m em volta destes muros enxames<br \/>\n    de namorados. Que te parece, Maur&iacute;cio? &#8212; Berta &eacute; digna<br \/>\n    de todos os respeitos &#8212; murmurou Maur&iacute;cio, confuso.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, bem, quem diz menos disso? mas&#8230;<\/p>\n<p> Tom&eacute; interrompeu o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Eu lhes digo, meus senhores. Berta &eacute; filha de uma fam&iacute;lia,<br \/>\n    em que todos trabalham, e pouco tempo pode ter para aparecer a namorados.<\/p>\n<p> Quando algum homem de bem se me afei&ccedil;oar &agrave; filha, n&atilde;o<br \/>\n    serei eu que lha recuse, se o cora&ccedil;&atilde;o dela estiver para esse<br \/>\n    lado ; pois para freira n&atilde;o a quero. Enquanto aos enfeitados, que andam<br \/>\n    por a&iacute; a zunir aos ouvidos das raparigas e a faz&ecirc;-las doidas,<br \/>\n    Berta sabe bem o que eles valem&#8230; mas, se por acaso a importunarem muito&#8230;<br \/>\n    eu sei como se d&aacute; cabo do vespeiro.<\/p>\n<p> E, falando, Tom&eacute; da P&oacute;voa n&atilde;o ficara im&oacute;vel,<br \/>\n    mas pusera-se naturalmente em caminho da porta, e os tr&ecirc;s seguiram-no,<br \/>\n    sem fazer observa&ccedil;&atilde;o alguma.<\/p>\n<p> S&oacute; quando o viram parar no port&atilde;o &eacute; que perceberam<br \/>\n    que o lavrador como que t&agrave;citamente os convidava para sa&iacute;rem.<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o p&ocirc;de deixar sem uma reflex&atilde;o este procedimento.<\/p>\n<p> &#8212; Agradecemos, Tom&eacute;, o inc&ocirc;modo que teve a ensinar-nos<br \/>\n    o caminho da porta para sairmos.<\/p>\n<p> &#8212; Os lavradores da nossa terra t&ecirc;m estes excessos de hospitalidade<br \/>\n    &#8212; secundou o doutor.<\/p>\n<p> Tom&eacute; corou e respondeu com certa confus&atilde;o: &#8212; A minha<br \/>\n    cabe&ccedil;a&#8230; Desculpem. Isto em mim foi uma distrac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando a gente n&atilde;o est&aacute; bem em si, faz, sem reparar, coisas<br \/>\n    que muitas vezes lhe podem estar na vontade, mas que por delicadeza n&atilde;o<br \/>\n    faria, se pensasse melhor. Queiram desculpar.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; desculpado. N&oacute;s tamb&eacute;m n&atilde;o t&iacute;nhamos<br \/>\n    mais que fazer aqui. O fim da nossa visita estava preenchido.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, tamb&eacute;m me quis parecer isso.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Tom&eacute; &#8212; bradou o doutor. &#8212; Deixamo-lo entregue<br \/>\n    &agrave; sua vida patriarcal.<\/p>\n<p> &#8212; E est&aacute; um verdadeiro patriarca, este bonacheir&atilde;o do<br \/>\n    Tom&eacute; &#8212; disse o padre, batendo familiarmente no ombro do lavrador.<\/p>\n<p> &#8212; Bonacheir&atilde;o? &#8212; repetiu Tom&eacute;, encolhendo os ombros<br \/>\n    e com meio sorriso. &#8212; Isso &eacute; conforme. &Agrave;s vezes&#8230; A&iacute;<br \/>\n    est&aacute; que, sendo eu amigo do mestre-escola, como sou e h&aacute; tantos<br \/>\n    anos, estive h&aacute; meses para o esmagar. E sabem porqu&ecirc;? Porque<br \/>\n    passava eu por a escola e ouvi chorar uma crian&ccedil;a, e pareceu-me que<br \/>\n    era o meu pequeno; <\/p>\n<p>n&atilde;o me sossegou o cora&ccedil;&atilde;o sem que me afirmasse se era<br \/>\n    ele ou n&atilde;o.<\/p>\n<p> Entrei e vi o desalmado do Z&eacute; Domingues que mo desancava sem n&oacute;<br \/>\n    nem piedade. Escureceu-se-me a vista, entrei furioso por ali dentro, e por<br \/>\n    um triz que n&atilde;o deixava o homem a pernear.<\/p>\n<p> Os rapazes estavam j&aacute; fora da porta, quando Tom&eacute; acabou de<br \/>\n    contar o caso, e acrescentou : &#8212; N&atilde;o, que se tratava de meu filho,<br \/>\n    e isto de amor de pai e de m&atilde;e&#8230; &Eacute; como nos animais. Sabem<br \/>\n    aquela vaca malhada que eu tenho ? um borrego, com que uma crian&ccedil;a<br \/>\n    brinca ; pois haviam de v&ecirc;-la uma vez em que lhe tiraram a cria! Estava<br \/>\n    furiosa e arremet&iacute;a como um touro bravo. &Eacute; preciso cuidado com<br \/>\n    isto de pais e de m&atilde;es ! &#8212; concluiu o fazendeiro, em tom sentencioso<br \/>\n    e enf&aacute;tico, E dando as boas-tardes aos tr&ecirc;s rapazes, fechou a<br \/>\n    porta, murmurando.<\/p>\n<p> &#8212; O padre ainda n&atilde;o aprendeu com a corrida que levou na abadia.<\/p>\n<p> E este Maur&iacute;cio a acompanhar com eles ! Valha-o Deus.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que vos parece o Sr. Tom&eacute; ? &#8212; perguntou<br \/>\n    o bacharel c&aacute; fora.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o est&aacute; mau com a hist&oacute;ria da vaca &#8212;<br \/>\n    disse o abade, rindo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio conservou-se silencioso.<\/p>\n<p> &#8212; Tu a modo que vais assim emba&ccedil;ado, &oacute; Maur&iacute;cio?<br \/>\n    &#8212; observou o bacharel.<\/p>\n<p> &#8212; Estou arrependido de vos ter trazido comigo aqui &#8212; confessou<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ora n&atilde;o sejas parvo ! querias talvez que fiz&eacute;ssemos<br \/>\n    muito gasto de excel&ecirc;ncias com a filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; uma rapariga de educa&ccedil;&atilde;o, e o pai&#8230; &#8212;ia<br \/>\n    a dizer Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; E o pai &#8212; atalhou o padre &#8212; anda-me chiando muito alto,<br \/>\n    mas bom ser&aacute; que tenha mais cuidadinho consigo.<\/p>\n<p> &#8212; As &uacute;ltimas palavras dele cheiraram-me a uma amea&ccedil;a<br \/>\n    &#8212; observou o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Eu nem dei por isso &#8212; respondeu o mano.<\/p>\n<p> E os tr&ecirc;s retiraram-se de mau humor.<\/p>\n<p><b>XIV<\/b><\/p>\n<p>JORGE, que ultimamente era menos ass&iacute;duo em casa de Tom&eacute;, sem<br \/>\n    que este pudesse atinar com a raz&atilde;o do facto, recebeu, na tarde daquele<br \/>\n    mesmo dia, um bilhete do fazendeiro, pedindo- lhe que o procurasse na Herdade<br \/>\n    &agrave;s horas do costume. Jorge n&atilde;o faltou.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa recebeu-o com modos menos desenleados do que<br \/>\n    os que lhe eram habituais, e com ares de misteriosa preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    conduziu-o a um gabinete mais retirado da casa, cerrando a porta, depois que<br \/>\n    entraram, com excepcional cuidado, Jorge seguia-lhe com estranheza os movimentos.<br \/>\n    Tom&eacute; com um gesto denunciador do esfor&ccedil;o que naquele momento<br \/>\n    fazia sobre si pr&oacute;prio, entrou no assunto com vis&iacute;vel repugn&acirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Jorge &#8212; principiou ele &#8212; sei que &eacute; meu amigo,<br \/>\n    e que tem o ju&iacute;zo e a prud&ecirc;ncia de um homem feito, apesar de<br \/>\n    novo como &eacute; ; por isso vou falar-lhe com a franqueza de um homem de<br \/>\n    bem e de um amigo.<\/p>\n<p> &#8212; Nem o Tom&eacute; sabe conversar de outra maneira. Diga.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, A coisa &eacute; esta&#8230; Eu antes queria n&atilde;o falar<br \/>\n    nisto, mas&#8230;<\/p>\n<p> enfim&#8230; se o neg&oacute;cio h&aacute;-de ir a mais&#8230; e suceder por a&iacute;<br \/>\n    alguma desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> enfim&#8230; a tempo &eacute; que &eacute; evitar o mal; quanto ao depois&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas de que se trata ? &#8212; Sr. Jorge. &Eacute; um pai que lhe<br \/>\n    fala. Tenho uma filha e enfim preciso de vigiar por ela, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    tem marido que a zele e proteja&#8230;<\/p>\n<p> n&atilde;o &eacute; verdade? Jorge n&atilde;o p&ocirc;de ouvir sem se perturbar<br \/>\n    estas palavras, e interiormente inquieto, sem saber porqu&ecirc;, murmurou<br \/>\n    : &#8212; Decerto, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora bem. O Sr. Jorge &eacute; rapaz sisudo e pacato, mas enfim sempre<br \/>\n    h&aacute;-de saber o que s&atilde;o dezoito, dezanove ou vinte anos, hem?<br \/>\n    Pode-se ter o ju&iacute;zo muito claro, ver as coisas como elas s&atilde;o,<br \/>\n    mas&#8230; isto de sangue novo&#8230; parece que ferve, e depois &eacute; como uma<br \/>\n    doen&ccedil;a e como uma febre ; a cabe&ccedil;a desarranja-se e n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; conselhos que a consertem.<\/p>\n<p> Pois n&atilde;o &eacute; assim? Jorge corou ouvindo estas considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Tom&eacute;, que lhe pareciam dirigidas, olhou para ele com desconfian&ccedil;a<br \/>\n    e respondeu confusamente : &#8212; Talvez seja; por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora ent&atilde;o segue-se que o melhor &eacute; livrar-se a gente<br \/>\n    de trabalhos e fugir das ocasi&otilde;es, para que depois se n&atilde;o diga:<br \/>\n    &laquo;Ai, porque se eu soubesse ; ai, porque o que eu devia ter feito era&#8230;<br \/>\n    &raquo;. Entende-me ? &#8212; Entendo, Tom&eacute;, mas afinal a que quer<br \/>\n    chegar ? &#8212; interrogou Jorge, cada vez mais sobressaltado.<\/p>\n<p> &#8212; Ora eu lhe digo. A minha Berta &eacute; uma rapariga de ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> A confus&atilde;o de Jorge ledobrou. O rosto tingiu-se-lhe de rubor, em<br \/>\n    que Tom&eacute; n&atilde;o reparou.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; &#8212; prosseguiu o fazendeiro &#8212; tenho a certeza<br \/>\n    disso, mas &eacute; rapariga, e enfim teve uma educa&ccedil;&atilde;o bem<br \/>\n    bonitinha ; e Deus me perdoe se fiz mal em lha dar; ora eu, conquanto seja<br \/>\n    um r&uacute;stico, sei o valor que t&ecirc;m certas coisas, e que quem se<br \/>\n    costuma a elas, com elas sonha.<\/p>\n<p> Isso &eacute; que &eacute; verdade ! E nem eu me admirava de que a pequena<br \/>\n    tivesse sua inclina&ccedil;&atilde;o para rapazes da cidade. Era natural,<br \/>\n    j&aacute; digo. Mas aqui n&atilde;o v&ecirc;m eles, os da terra s&atilde;o<br \/>\n    assim meios&#8230; meios&#8230; enfim, rapazes de lavoura, como eu fui : muito bons<br \/>\n    para raparigas como era a minha Luisa. Ora agora o que por ai h&aacute;, sao,<br \/>\n    e perdoe-me dizer-lhe isto, uns fidalguinhos que n&atilde;o t&ecirc;m que<br \/>\n    fazer, e que passam o seu tempo a inquietar as raparigas da terra. Desses<br \/>\n    &eacute; que eu tenho medo ! E se quer que lhe fale a verdade, c&aacute; em<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o &agrave; minha pequena, h&aacute; um sobre todos de<br \/>\n    que eu muito me receio.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute;? &#8212; perguntou Jorge, ainda n&atilde;o senhor<br \/>\n    de si.<\/p>\n<p> Tom&eacute; hesitou por algum tempo, mas afinal, como tomando uma resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    respondeu: &#8212; &Eacute; seu irm&atilde;o Mauricio.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio ! &#8212; repetiu Jorge, contraindo a fronte. &#8212;<br \/>\n    Pois acaso tem ele dado j&aacute; motivos para suspeitar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Poucos ; isto em mim &eacute; mais medo do que outra coisa. Hoje,<br \/>\n    por&eacute;m, j&aacute; me n&atilde;o agradou o que ele fez.<\/p>\n<p> E Tom&eacute; narrou a Jorge a cena da manh&atilde;, acrescentando: &#8212;<br \/>\n    Ora dos do Cruzeiro n&atilde;o tenho medo. Berta conhece-os, e &eacute; o<br \/>\n    que basta para ficar livre de perigo ; mas com o Sr. Maur&iacute;cio j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; assim. Apesar das suas doidices, n&atilde;o se pode deixar<br \/>\n    de gostar do rapaz, porque o fundo &eacute; bom e generoso, e depois&#8230; conhecem-se<br \/>\n    h&aacute; muito&#8230; e ele &eacute; estouvado e um rapaz bonito&#8230; e ela&#8230;<br \/>\n    ela tem dezoito anos&#8230; Enfim, Sr. Jorge, isto anda-me c&aacute; a pesar,<br \/>\n    e por isso pedia-lhe que visse se obrigava seu irm&atilde;o a deixar-me em<br \/>\n    paz a rapariga, porque nada de bom pode resultar daqui.<\/p>\n<p> Jorge sentia apertar-se-!he o cora&ccedil;&atilde;o ao ouvir aquela confidencia.<\/p>\n<p> Era pois certo que Berta amava j&aacute; Maur&iacute;cio ! &#8212; Tom&eacute;<br \/>\n    &#8212; respondeu ele, sem trair a sua agita&ccedil;&atilde;o &#8212; sossegue.<\/p>\n<p> Eu falarei a Maur&iacute;cio. N&atilde;o creio que ele fizesse com m&aacute;<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o o que diz; mas em todo o caso concordo em que &eacute;<br \/>\n    preciso evitar a tempo piores ocorr&ecirc;ncias. Fa&ccedil;o justi&ccedil;a<br \/>\n    a Berta; mas quero que meu irm&atilde;o seja o primeiro a respeit&aacute;-la.<br \/>\n    Eu lhe falarei, creia.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem &#8212; respondeu Tom&eacute;, apertando-lhe a m&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Eu estava certo de que me daria essa mesma resposta.<\/p>\n<p> Jorge acrescentou : &#8212; Demais, Maur&iacute;cio pouco se demorar&aacute;<br \/>\n    aqui. Espero que em breve parta para Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Bom ser&aacute;. Talento tem ele para o poder aproveitar na vida,<br \/>\n    e aqui o que h&aacute;-de ele fazer? Depois a companhia daqueles primos !&#8230;<\/p>\n<p> Jorge separou-se de Tom&eacute; sem que se ocupasse naquela noite do assunto<br \/>\n    habitual das suas confer&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Ao sair, mais cedo do que o costume, atravessou uma sala onde Berta costurava<br \/>\n    &agrave; luz de um candeeiro.<\/p>\n<p> Ao v&ecirc;-lo passar, Berta estendeu-lhe familiarmente a m&atilde;o, dizendo<br \/>\n    com um sorriso afectuoso : &#8212; Retira-se muito cedo hoje ; durou pouco<br \/>\n    a li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; As vezes &eacute; quando mais se aprende &#8212; respondeu-lhe Jorge,<br \/>\n    com mal disfar&ccedil;ada ironia.<\/p>\n<p>&#8212; E at&eacute; quando ? &#8212; prosseguiu Berta, parecendo n&atilde;o<br \/>\n    atentar no sentido da resposta. &#8212; H&aacute; j&aacute; bastante tempo<br \/>\n    que o n&atilde;o v&iacute;amos.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute;&#8230; at&eacute; cedo.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. Maur&iacute;cio vejo-o mais vezes&#8230; ainda ontem a&iacute;<br \/>\n    passou.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8212; disse Jorge com um malicioso sorriso. &#8212; Maur&iacute;cio<br \/>\n    tem essa habilidade, de ser visto todos os dias por as mulheres bonitas da<br \/>\n    terra.<\/p>\n<p> Berta olhou admirada para Jorge ; feriram-na aquelas respostas secas e sarc&aacute;sticas,<br \/>\n    que n&atilde;o esperava ouvir-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o d&aacute;-se ao trabalho de se mostrar a todas ? &#8212;<br \/>\n    perguntou ela sem desviar os olhos.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, provavelmente &#8212; tornou Jorge no mesmo tom &#8212; e parece<br \/>\n    que todas se d&atilde;o ao trabalho de lhe aparecer.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! E Berta calou-se ; fixou os olhos na costura e pareceu at&eacute;<br \/>\n    esquecer- se da presen&ccedil;a de Jorge na sala.<\/p>\n<p> Este finalmente despediu-se, estendendo a m&atilde;o a Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, Berta.<\/p>\n<p> Sem levantar os olhos da costura e portanto sem lhe corresponder ao gesto<br \/>\n    de despedida, Berta respondeu: &#8212; Boas noites, Sr. Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Ofendeu-se &#8212; pensava Jorge ao retirar-se &#8212; ent&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; fundamentos para as apreens&otilde;es de Tom&eacute;. Ju&iacute;zo<br \/>\n    de rapariga afinal ! Cabe&ccedil;a doida, que n&atilde;o espera que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se declare e alimenta paix&otilde;es com reminisc&ecirc;ncias de romances.<br \/>\n    Pobre Tom&eacute; ! &Eacute; o que ele afinal colhe dos seus sacrif&iacute;cios<br \/>\n    para a educar. Eu logo o supus.<\/p>\n<p> As reflex&otilde;es de Jorge sucederam e encadearam-se neste teor.<\/p>\n<p> Crescia nele mais do que nunca a sua irrita&ccedil;&atilde;o contra Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que tenho eu com Berta &#8212; reconsiderava ele &#8212; para<br \/>\n    me importar com isto ? &#8212; Afinal s&atilde;o pequenas fraquezas de rapariga<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p> Mas a amizade que consagro ao pai obriga-me a intervir, Maur&iacute;cio<br \/>\n    &eacute; um louco, e ela j&aacute; vejo que n&atilde;o tem mais prud&ecirc;ncia<br \/>\n    do que outra qualquer rapariga da sua idade.<\/p>\n<p> E esta id&eacute;ia de Berta ser sens&iacute;vel aos galanteios de Maur&iacute;cio<br \/>\n    era o que mais que tudo o incomodava.<\/p>\n<p> E Berta? Que ficou pensando, com a cabe&ccedil;a inclinada sobre a costura,<br \/>\n    mas com a m&atilde;o parada e o olhar pensativamente fixo? &#8212; Porque<br \/>\n    &eacute; esta severidade de Jorge para comigo ? &#8212; pensava ela. &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o posso j&aacute; duvidar. H&aacute; nele n&atilde;o sei que preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    contra mim. Ou n&atilde;o me fala, ou fala-me deste modo. um motivo leve n&atilde;o<br \/>\n    pode ser, porque Jorge &eacute;, ao que dizem, um rapaz de t&atilde;o bom<br \/>\n    senso, que decerto por uma insignificancia n&atilde;o me trataria assim. Mas<br \/>\n    que faria eu ? Nada ; se em mim h&aacute; loucuras, ficam-me no pensamento,<br \/>\n    e a&iacute; quem as vai devassar?&#8230; E que fossem?&#8230; E que as achassem?&#8230;<br \/>\n    Eu podia dizer-lhes: Sim, est&atilde;o a&iacute;, mas eu bem sei que est&atilde;o,<br \/>\n    e a&iacute; mesmo as sufoco e ven&ccedil;o. N&atilde;o sou respons&aacute;vel<br \/>\n    perante ningu&eacute;m do que se passa em mim s&oacute;. Entre mim e Deus<br \/>\n    &eacute; que essas coisas se julgam. Quando me revelar, quando me trair, que<br \/>\n    me pe&ccedil;am contas ent&atilde;o. A que v&ecirc;m estas severidades? Que<br \/>\n    fiz eu a este generoso rapaz? Imaginar&aacute; ele que o galanteio de Maur&iacute;cio<br \/>\n    me ter&aacute; fascinado ? &Eacute; um car&aacute;cter t&atilde;o s&eacute;rio,<br \/>\n    que talvez por isso me condene. Fascinar-me ! Maur&iacute;cio ! !&#8230; Ao princ&iacute;pio<br \/>\n    talvez ; agora, por&eacute;m, vejo que se v&atilde;o desvanecendo essas fantasias<br \/>\n    de crian&ccedil;a, nascidas e robustecidas nas minhas horas de solid&atilde;o<br \/>\n    no col&eacute;gio, e que senti alvoro&ccedil;arem-se ao chegar aqui, e ao<br \/>\n    v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio n&atilde;o &eacute; o car&aacute;cter de que eu me posso<br \/>\n    recear. E ainda bem.<\/p>\n<p> Mas Jorge porque me querer&aacute; mal ? Lembra-me que meu pai me disse<br \/>\n    que, se ele n&atilde;o fosse meu amigo, n&atilde;o me dizia que o era&#8230; E<br \/>\n    ele ainda mo n&atilde;o disse.<\/p>\n<p> Estas reflex&otilde;es foram interrompidas pela entrada de Tom&eacute;,<br \/>\n    que, satisfeito pela promessa de Jorge, j&aacute; n&atilde;o sentia nuvens<br \/>\n    a escurecer-lhe o pensamento.<\/p>\n<p> Jorge chegou a casa antes do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Era noite de luar, tepida noite de Outubro, l&agrave;nguida e serena, como<br \/>\n    podem desejar os mais exaltados devaneadores. Havia uma limpidez no c&eacute;u,<br \/>\n    uma quieta&ccedil;&atilde;o nos bosques t&atilde;o completa, que parecia que<br \/>\n    a natureza toda parara em suspens&atilde;o a contemplar o solene progresso<br \/>\n    da Lua pelo firmamento, que inundava de luz.<\/p>\n<p> Era uma destas noites em que s&oacute; a custo se troca o ar livre dos campos<br \/>\n    pelo ar confinado do gabinete, em que se hesita ao cerrar as janelas aos raios<br \/>\n    da Lua que invadem a sala, para os substituir pela luz vacilante da l&acirc;mpada,<br \/>\n    que alumia as vig&iacute;lias do estudo.<\/p>\n<p> O pr&oacute;prio Jorge, habituado como estava ao trabalho, cedeu &agrave;s<br \/>\n    sedu&ccedil;&otilde;es daquela noite e deixou-se ficar sob as &aacute;rvores<br \/>\n    da quinta.<\/p>\n<p> O peito precisava de ar livre que o desoprimisse.<\/p>\n<p> Os carvalhos e castanheiros seculares temperavam a claridade da Lua, coando-a<br \/>\n    atrav&eacute;s da folhagem, de que o Inverno os n&atilde;o despira ainda.<br \/>\n    uma luz misteriosamente discreta penetrava no bosque ; raros sons interrompiam<br \/>\n    aquele sil&ecirc;ncio, al&eacute;m do rumor long&iacute;nquo e mon&oacute;tono<br \/>\n    das fontes e cascatas.<\/p>\n<p> O pensamento de Jorge perdera a placidez habitual; como que despertavam<br \/>\n    nele os instintos de juventude, povoando-lhe de vis&otilde;es o campo da fantasia,<br \/>\n    de ordin&aacute;rio ocupado por mais severas imagens.<\/p>\n<p> Os seus c&aacute;lculos, os seus projectos de futuro, os problemas de administra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que lhe absorviam o pensamento, cederam agora o lugar a id&eacute;ias menos<br \/>\n    positivas, a medita&ccedil;&otilde;es vagas, a quase devaneios, em que raras<br \/>\n    vezes a sua raz&atilde;o se deixava arrebatar. Primeiro dominou- o a magia<br \/>\n    do passado : evocou do sil&ecirc;ncio dos t&uacute;mulos aqueles dos seus<br \/>\n    antepassados, que trouxeram com todo o esplendor o nome que hoje era seu,<br \/>\n    os que mais alto elevaram o enegrecido bras&atilde;o que honrava ainda a frontaria<br \/>\n    daquele solar em ru&iacute;nas. Depois, saudades mais pungentes, dessas que<br \/>\n    ainda trazem vest&iacute;gios de l&aacute;grimas, como restos da sua natureza<br \/>\n    de dor, de que s&oacute; o tempo as vai privando, ocupa ram-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o pensamento. A sombra da p&aacute;lida e estremecida irm&atilde;, que a<br \/>\n    morte arrebatara quando mais seduzia com sorrisos e afagos, a sombra de Beatriz,<br \/>\n    que era a mais querida e mais dolorosa recorda&ccedil;&atilde;o daqueles rapazes<br \/>\n    e daquele velho, parecia surgir ao misterioso apelo da noite, e vaguear, como<br \/>\n    uma apari&ccedil;&atilde;o fant&aacute;stica, por entre essas &aacute;rvores<br \/>\n    que menina a viram e menina a protegeram do sol abrasador dos campos.<\/p>\n<p> Jorge ainda n&atilde;o esgotara as l&aacute;grimas consagradas &agrave;<br \/>\n    mem&oacute;ria da irm&atilde;. Tinha-as nos olhos, quando a tinha no pensamento<br \/>\n    a ela.<\/p>\n<p> Pouco e pouco, por uma insens&iacute;vel transi&ccedil;&atilde;o, a imagem<br \/>\n    de Berta substituiu a de Beatriz.<\/p>\n<p> Diferentes eram as impress&otilde;es que esta nova imagem lhe produzia,<br \/>\n    diferentes e indecifr&aacute;veis quase.<\/p>\n<p> J&aacute; vimos que antagonismo de sentimentos havia no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jorge em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> Como lutava a involunt&aacute;ria atrac&ccedil;&atilde;o que por ela sentia<br \/>\n    com a reflectida resist&ecirc;ncia que lhe opunha! Lidava por levantar obst&aacute;culos<br \/>\n    ao progresso do violento afecto que lhe ia tomando o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e a seu pesar via que esses obst&aacute;culos eram in&uacute;teis. Inventava<br \/>\n    defeitos que lhe desprestigiassem o car&aacute;cter de Berta, acusava-a de<br \/>\n    v&iacute;cios de educa&ccedil;&atilde;o que ainda lhe n&atilde;o reconhecera,<br \/>\n    fingia-se convencido da leviandade daquela pobre rapariga, e com toda a austeridade<br \/>\n    do seu car&aacute;cter sisudo lavrava contra ela a senten&ccedil;a condenatoria;<br \/>\n    mas no fim de tudo isto achava-se cada vez mais subjugado; revoltava-se-lhe<br \/>\n    debalde a consci&ecirc;ncia contra esta fraqueza, em v&atilde;o revelava com<br \/>\n    maneiras rudes e quase hostis para com Berta este desgosto de si mesmo que<br \/>\n    estava experimentando&#8230; o efeito era cada vez mais pronunciado.<\/p>\n<p> O que tinha acabado de ouvir a Tom&eacute; aumentara-lhe aquela inquieta<br \/>\n    luta de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia da inclina&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca de Berta e de<br \/>\n    Maur&iacute;cio irritava-o e afligia-o.<\/p>\n<p> N&atilde;o eram as consequ&ecirc;ncias do facto que o assustavam. Jorge<br \/>\n    n&atilde;o acreditava na sinceridade das afei&ccedil;&otilde;es de Maur&iacute;cio<br \/>\n    ; sabia quanto elas eram fugazes, e estava convencido de que a pr&oacute;xima<br \/>\n    partida do irm&atilde;o bastaria para desvanecer essa paix&atilde;o nascente.<\/p>\n<p> E contudo n&atilde;o lhe sa&iacute;a do pensamento aquilo. Torturava-o aquela<br \/>\n    id&eacute;ia, n&atilde;o lhe permitia repouso.<\/p>\n<p> A consci&ecirc;ncia de Jorge aventurava, muito a medo, a vaga explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste enigma psicol&oacute;gico que se estava passando nele, mas Jorge recusava<br \/>\n    dar aten&ccedil;&atilde;o &agrave;quela voz.<\/p>\n<p> H&aacute; casos assim, em que nem connosco somos sinceros, em que se faz<br \/>\n    mais evidente do que nunca esta esp&eacute;cie de dualidade unificada em todo<br \/>\n    o indiv&iacute;duo, porque guardamos discretamente de n&oacute;s um segredo<br \/>\n    nosso, e lutamos connosco em oposi&ccedil;&atilde;o declarada.<\/p>\n<p> A dom&iacute;nios t&atilde;o &iacute;ntimos da consci&ecirc;ncia seria,<br \/>\n    por&eacute;m, irreverente levar a luz da an&aacute;lise ; aguardemos que a<br \/>\n    ulterior evolu&ccedil;&atilde;o de afectos melhor nos revele o segredo que<br \/>\n    ia no cora&ccedil;&atilde;o de Jorge.<\/p>\n<p> Era j&aacute; noite avan&ccedil;ada, quando chegou aos ouvidos do pensativo<br \/>\n    &Ecirc;: o ru&iacute;do de uma porta que se abria; pouco depois passava Mauricio<br \/>\n    pela extrema do bosque, cantando distra&iacute;damente: Al&eacute;m, naquela<br \/>\n    avenida De pl&aacute;tanos e salgueiros, Foi que em teus beijos primeiros<br \/>\n    Bebi a primeira vida.<\/p>\n<p> A luz do luar batia-lhe em cheio na figura e n&atilde;o o deixou passar<br \/>\n    inc&oacute;gnito.<\/p>\n<p> Jorge, reconhecendo-o, chamou-o, em alta voz.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ficou surpreendido.<\/p>\n<p> &#8212; Quem me chama? &#8212; Sou eu.<\/p>\n<p> &#8212; Tu?! Jorge! &#8212; Sim, pois quem havia de ser? Maur&iacute;cio<br \/>\n    caminhou ao encontro do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Transportas-me de surpresa em surpresa ! uns dias a seguir da janela<br \/>\n    do teu quarto o caminhar das nuvens, outros a errar &agrave; meia- -noite<br \/>\n    por entre as sombras dos bosques ! Em que havia de dar a aritm&eacute;tica<br \/>\n    ! i&#8212; Cheguei h&aacute; pouco. Abafava l&aacute; dentro. Vim para aqui<br \/>\n    esperar-te, porque desejava conversar contigo.<\/p>\n<p> &#8212; O tom &eacute; grave e s&eacute;rio ; &eacute; de crer que o assunto<br \/>\n    corresponda.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o te enganas. &Eacute; bastante s&eacute;rio o que tenho<br \/>\n    para dizer-te.<\/p>\n<p> &#8212; Penetremos ent&atilde;o na sombra dru&iacute;dica deste bosque,<br \/>\n    para aumentar a solenidade da cena.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o-te que deixes para outra ocasi&atilde;o as tuas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    joviais ; repito-te que &eacute; s&eacute;rio o que tenho a dizer-te.<\/p>\n<p> &#8212; Pois aqui me tens s&eacute;rio como o assunto. Fala.<\/p>\n<p> Jorge guardou ainda por instantes sil&ecirc;ncio. Sob os passos dos dois<br \/>\n    irm&atilde;os ouvia-se estalar as folhas secas que alastravam o ch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio &#8212; principiou Jorge afinal &#8212; Tom&eacute;<br \/>\n    procurou-me hoje para fazer-me um pedido.<\/p>\n<p> &#8212; Hum ! &#8212; atalhou Maur&iacute;cio com meio riso &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    me enganei, previ logo que se tratava disso.<\/p>\n<p> &#8212; De qu&ecirc; ? &#8212; Fizeram-te queixa de mim, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade ? Pintaram-me como um lobo voraz, rondando e assaltando o curral da<br \/>\n    tenra ovelhinha, criada com tanto mimo e recato? e tu, na tua inexperiente<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o de rapaz s&eacute;rio, viste logo um drama pavoroso<br \/>\n    em tudo isso e distribu&iacute;ste- me nele o papel de tirano. Confessa que<br \/>\n    tudo isto &eacute; verdade.<\/p>\n<p> &#8212; E estimaria bem que n&atilde;o fosse.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o que eu digo. Olha, Jorge, eu sou mais novo do que tu,<br \/>\n    mas, vivendo mais da vida comum da sociedade, n&atilde;o estou t&atilde;o<br \/>\n    sujeito a ver as coisas sob o colorido particular do prisma, atrav&eacute;s<br \/>\n    do qual as v&ecirc;em os que, como tu, trazem quase sempre o pensamento tomado<br \/>\n    por altas e abstractas especula&ccedil;&otilde;es. com a maior franqueza te<br \/>\n    confesso que Berta me agrada, que todos os dias procuro v&ecirc;-la, que,<br \/>\n    se lhe falo, n&atilde;o perco tempo a dizer-lhe que o ano vai bom para as<br \/>\n    colheitas ou que ontem esteve mais calor do que hoje ; n&atilde;o tenho raz&otilde;es<br \/>\n    para supor que as minhas visitas a importunem. Esta &eacute; que &eacute;<br \/>\n    a verdade ; mas daqui a realizar o tipo de Lovelace ou D. Jo&atilde;o Tenorio,<br \/>\n    incumbindo a ela a parte de Clarisse ou de Elvira, vai muita dist&acirc;ncia.<br \/>\n    Estas coisas se tu n&atilde;o andasses t&atilde;o alheado dos neg&oacute;cios<br \/>\n    terrenos, d&eacute;vias saber que s&atilde;o da pr&aacute;tica comum, em qualquer<br \/>\n    parte onde se encontra uma rapariga bonita e um rapaz que se preza de saber<br \/>\n    apreciar o belo. Ora agora v&ecirc; l&aacute; se h&aacute; motivo para o terror<br \/>\n    tr&aacute;gico que te infundiram.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; terror tr&aacute;gico, &eacute; desgosto. Eu<br \/>\n    bem sei que s&atilde;o usuais esses galanteios que dizes, essas falsas ostenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de amor, com as quais se profana e desprestigia tudo quanto h&aacute; de mais<br \/>\n    santo e respeit&aacute;vel no cora&ccedil;&atilde;o do homem. &Agrave;s vezes<br \/>\n    sucede, &eacute; verdade, que uma das partes interessadas, talvez por andar<br \/>\n    alheada dos neg&oacute;cios terrenos, como dizes, entra com a alma nessas<br \/>\n    com&eacute;dias sociais, e quando a cena finda, muito a bel-prazer do outro<br \/>\n    actor e sob os aplausos dos espectadores que riem, essa alma sente-se ferida<br \/>\n    de um golpe mortal.<\/p>\n<p> As ilus&otilde;es da mocidade, o suave perfume de um afecto virginal, as<br \/>\n    primicias de um amor casto, tudo se desvanece nestas profana&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e n&atilde;o sei que haja esp&iacute;rito t&atilde;o leviano que ouse tentar<br \/>\n    a representa&ccedil;&atilde;o destas com&eacute;dias rid&iacute;culas e ao<br \/>\n    mesmo tempo perversas com uma pessoa a quem se devem afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    leais e respeitos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Em uma palavra, Berta &eacute; a filha de um homem honrado ; Berta<br \/>\n    era a amiga e companheira de Beatriz e muitas vezes se sentou connosco &agrave;<br \/>\n    mesa, a que presidia nossa m&atilde;e, que a aben&ccedil;oava quando nos aben&ccedil;oava<br \/>\n    a n&oacute;s. N&atilde;o te lembras disso? &#8212; Lembro, e por isso mesmo<br \/>\n    a amo. N&atilde;o te disse que havia entre n&oacute;s recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de inf&acirc;ncia? &#8212; Amas ! &#8212; exclamou Jorge, com uma impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    a que era pouco sujeito. &#8212; Que amor ! um amor de que fazes confidentes<br \/>\n    os primos do Cruzeiro, que sabes tratarem irreverentemente todos os amores,<br \/>\n    um amor que ostentas sem recato, chegando a sujeitar &agrave; aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    c&iacute;nica desses doidos a mulher que dizes objecto dele ; um amor que<br \/>\n    n&atilde;o procuras ocultar com aquele casto e natural pudor de uma alma deveras<br \/>\n    apaixonada. Que amor esse que apregoas sem escr&uacute;pulos nem reservas<br \/>\n    diante de quem quer que seja! &#8212; Mas&#8230; como imaginas tu ent&atilde;o<br \/>\n    que se ama, quando se ama deveras? O sistema da publicidade aplicado &agrave;s<br \/>\n    paix&otilde;es n&atilde;o ser&aacute; antes uma garantia da boa natureza delas?<br \/>\n    Como se nem tivesse escutado estas palavras, Jorge, acelerando um tanto a<br \/>\n    rapidez dos seus passos, prosseguiu com exalta&ccedil;&atilde;o crescente<br \/>\n    : &#8212; Nunca amei, nunca senti por uma mulher uma destas paix&otilde;es<br \/>\n    &uacute;nicas, dominadoras, exclusivas, a que se sacrifica tudo ; mas &agrave;s<br \/>\n    vezes tenho pensado nisto e julgo haver concebido o que seria para mim o amor,<br \/>\n    se o sentisse. Se eu um dia amasse, parece-me que procuraria esconder de todos<br \/>\n    os olhos essa paix&atilde;o; desejaria que ningu&eacute;m ma suspeitasse nem<br \/>\n    por uma palavra, nem por um gesto, nem por um olhar. Ouvir estranhos falar<br \/>\n    sequer na mulher que amasse, ferir-me-ia como uma profana&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o escolheria confidentes, a ningu&eacute;m revelaria esse segredo<br \/>\n    da minha alma. A mais alta, a mais casta voluptuosidade, que me produziria<br \/>\n    este amor, seria o poder dizer, quando estivesse s&oacute;: ningu&eacute;m<br \/>\n    no mundo sabe, ningu&eacute;m suspeita esse mist&eacute;rio do meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sen&atilde;o ela. Para ela s&oacute;, para essa mulher que eu amasse quereria<br \/>\n    reservar todas as manifesta&ccedil;&otilde;es dos meus sentimentos, as mais<br \/>\n    s&eacute;rias e as mais pueris, pertenciam-lhe ; e permitir que outros as<br \/>\n    percebessem era profanar o culto. S&oacute; com ela, sim, todas as reservas<br \/>\n    acabavam ; ent&atilde;o no gesto, na palavra, no olhar revelaria inteira a<br \/>\n    minha alma, sem mist&eacute;rio nem discri&ccedil;&atilde;o. Aspiraria assim<br \/>\n    nesses instantes todo o suave e delicado perfume do amor. Que o mundo, ao<br \/>\n    ver-me frio e concentrado, pensasse: &laquo;A&iacute; est&aacute; um homem<br \/>\n    de gelo, este n&atilde;o sabe amar&raquo;, e que ela s&oacute; pudesse dizer:<br \/>\n    &laquo;Oh! eu &eacute; que sei de que extremos &eacute; capaz aquele amor<br \/>\n    que ningu&eacute;m suspeita&raquo;.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio estava maravilhado de ouvir Jorge, que parecia dominado<br \/>\n    por uma excita&ccedil;&atilde;o nervosa, ao falar assim, mais para si do que<br \/>\n    para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Tais expans&otilde;es eram raras em Jorge, e esta era a mais veemente e<br \/>\n    completa que o irm&atilde;o presenciara.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; singular ! &#8212; notou Maur&iacute;cio. &#8212; Nesta<br \/>\n    vida trope&ccedil;a-se a cada passo em uma maravilha. Quem te ouvisse agora<br \/>\n    n&atilde;o acreditaria que &eacute;s aquele rapaz s&eacute;rio, para quem<br \/>\n    as raparigas se n&atilde;o atrevem a lan&ccedil;ar um olhar furtivo, porque<br \/>\n    nunca uma frase de galanteio ou um sorriso as animou a tanto. Estou admirado<br \/>\n    ! e quase me conven&ccedil;o de que afinal sou apenas um simples curioso na<br \/>\n    arte de amar, cuja metaf&iacute;sica transcendente tu professas como verdadeiro<br \/>\n    mestre. A minha sensibilidade &eacute; menos exigente, mas por essa mesma<br \/>\n    raz&atilde;o admiro a suprema delicadeza da tua! Jorge como que voltou a si<br \/>\n    e estranhou a exalta&ccedil;&atilde;o de que se deixara possuir. Rindo e falando<br \/>\n    j&aacute; em tom natural, tentou atenuar a impress&atilde;o produzida, e disse<br \/>\n    para o irm&atilde;o: &#8212; A Lua tem decididamente uma influ&ecirc;ncia<br \/>\n    poderosa at&eacute; nos &acirc;nimos mais fleum&aacute;ticos. A&iacute; est&aacute;<br \/>\n    que querendo eu falar-te de coisas s&eacute;rias, esqueci-me em uma divaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sentimental, que Deus sabe at&eacute; onde me levaria. Deixemos isto. Vais<br \/>\n    prometer-me, Maur&iacute;cio, que desistir&aacute;s de inquietar Berta e tranquilizar&aacute;s<br \/>\n    o espirito de Tom&eacute; ! &#8212; Ora que ridicula promessa exiges tu de<br \/>\n    mim ! Deixa-me ver de quando em quando aquela rapariga, que eu te afian&ccedil;o<br \/>\n    que n&atilde;o corre perigo algum com isso. Quanto mais que eu n&atilde;o<br \/>\n    posso assegurar que ela de facto me corresponda.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o antecipes ju&iacute;zos sobre o efeito incalcul&aacute;vel<br \/>\n    que pode produzir no espirito daquela rapariga a assiduidade das tuas aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Berta &eacute; muito nova, tem h&aacute;bitos e gostos da cidade, e n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; de crer que possas ter na aldeia concorrentes que te ofusquem. Por<br \/>\n    isso o melhor &eacute; acabar com esse galanteio perigoso para ela. Lembra-te<br \/>\n    das consequ&ecirc;ncias que pode ter um tal capricho da tua parte. Al&eacute;m<br \/>\n    de que parece que j&aacute; te esqueceste da gravidade da nossa posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e das resolu&ccedil;&otilde;es que h&aacute; dias tomamos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o me esqueci ; estou pronto para a primeira<br \/>\n    voz ; mas, enquanto espero, desejo dar um adeus &agrave; vida de rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Mas evita sair dela, semeando remorsos que frutifiquem na tua vida<br \/>\n    de homem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Terminemos. Pe&ccedil;o-te, em nome de Beatriz, que n&atilde;o continues<br \/>\n    galanteando Berta. Prometes? Maur&iacute;cio acabou por prometer.<\/p>\n<p> E horas depois voltavam a casa os dois irm&atilde;os.<\/p>\n<p> A Lua declinava j&aacute; no arco espl&ecirc;ndido que descrevia no c&eacute;u.<\/p>\n<p><b>XV<\/b><\/p>\n<p>EM uma das seguintes madrugadas foi Jorge sobressaltadamente acordado pelo<br \/>\n    velho jardineiro, que depois das &uacute;ltimas reformas estava empregado<br \/>\n    no servi&ccedil;o interno da casa. O homem tinha uns ares de espantado, como&#8217;<br \/>\n    se viera a comunicar a not&iacute;cia de um inc&ecirc;ndio.<\/p>\n<p> &#8212; Que temos? &#8212; perguntou Jorge, sentando-se inquieto no leito.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que n&atilde;o tarda a&iacute; a sr.&#8217; baronesa. J&aacute;<br \/>\n    est&atilde;o l&aacute; em baixo umas bagagens e uns criados, e&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; nada preparado.<\/p>\n<p> &#8212; Cuidei que era outra coisa. E o que quer&iacute;as tu que estivesse<br \/>\n    preparado ? &#8212; Ora pois ent&atilde;o?! Sempre &eacute; uma pessoa&#8230;<br \/>\n    L&aacute; o padre j&aacute; deu ordem para se ir pedir a baixela aos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se pede coisa alguma. A&iacute; principia o frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    a fazer das suas. Diz-lhe que deixe tudo ao meu cuidado. Que se n&atilde;o<br \/>\n    estafe, nem aflija, que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; olhe l&aacute;, Sr. Jorge! O fidalgo mesmo n&atilde;o h&aacute;-de<br \/>\n    gostar&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Faz o que eu te digo. Isso em ti, a falar a verdade, at&eacute;<br \/>\n    me admira. N&atilde;o parece franqueza de soldado. Para ocultar aos olhos<br \/>\n    de minha prima a nossa pobreza, que n&atilde;o &eacute; vergonha nenhuma,<br \/>\n    quer&iacute;as que fosse descobrir &agrave;s fam&iacute;lias que t&ecirc;m<br \/>\n    baixelas, a nossa vaidade, que essa, sim, seria uma vergonha? N&atilde;o estou<br \/>\n    resolvido a faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> O velho meneou a cabe&ccedil;a por algum tempo, e acabou por dizer : &#8212;<br \/>\n    Parece-me que tem raz&atilde;o, Sr. Jorge, como sempre. Ai. se nesta casa<br \/>\n    todos tivessem tido o seu ju&iacute;zo, ela n&atilde;o chegaria ao estado<br \/>\n    a que chegou. Lembro-me agora de quando o imperador&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixa o caso para outra ocasi&atilde;o. Vai arranjar, como puderes,<br \/>\n    essa gente e essas coisas t&ocirc;das, enquanto eu me visto e preparo para<br \/>\n    ir receber a prima&#8230;<\/p>\n<p> O velho criado obedeceu com presteza militar.<\/p>\n<p> Meia hora depois ouviam-se tilintar as campainhas dos machos da liteira,<br \/>\n    em que vinha a baronesa.<\/p>\n<p> Gabriela, a baronesinha vi&uacute;va de Souto Real, ainda n&atilde;o tinha<br \/>\n    trinta anos, e mais nova parecia do que era. Alva, loura e delicadamente formosa,<br \/>\n    realizava o tipo da mulher elegante, criada na atmosfera dos bailes e dos<br \/>\n    teatros, e mais &agrave; luz artificial que &agrave; luz do Sol. Apaixonada<br \/>\n    por perfumes e rendas, observadora fiel da moda, sujeitava-se aos mais extravagantes<br \/>\n    caprichos dela, sabendo-os por&eacute;m corrigir pela influ&ecirc;ncia do<br \/>\n    seu gosto apurad&iacute;ssimo. Tinha a languidez e a particular cor p&aacute;lida<br \/>\n    das formosas de Lisboa, que n&atilde;o recebem do sol da prov&iacute;ncia<br \/>\n    a vigorosa encarna&ccedil;&atilde;o de sa&uacute;de. &iacute;ndole verdadeiramente<br \/>\n    feminina, exercia mais imp&eacute;rio sobre as suas paix&otilde;es, do que<br \/>\n    sobre os seus caprichos. com dificuldade sacrificaria o mais ligeiro destes<br \/>\n    ; aquelas, por&eacute;m, subjugava-as com fortaleza varonil. Possu&iacute;a<br \/>\n    um g&ecirc;nio alegre e &agrave;s vezes um tanto sat&iacute;rico, mas sem<br \/>\n    malignidade. N&atilde;o professava os princ&iacute;pios daquela moral intrat&aacute;vel,<br \/>\n    que se arma da severidade puritana contra as paix&otilde;es e defeitos dos<br \/>\n    outros ; pelo contr&aacute;rio, era tolerante e latitudin&aacute;ria, n&atilde;o<br \/>\n    se esquivando a apertar a m&atilde;o aos maiores pecadores, com quem se encontrava<br \/>\n    no mundo, sem que, sob essa* apar&ecirc;ncias de leviana indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    deixasse de manter um discernimento seguro do bem e do mal, e um grande fundo<br \/>\n    de moralidade e de justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso possu&iacute;a um bom cora&ccedil;&atilde;o e uma alma<br \/>\n    generosa.<\/p>\n<p> No trato da mais ilustrada sociedade lisbonense e nas viagens em que acompanhara<br \/>\n    o bar&atilde;o, seu falecido marido, adquirira uma variada c&oacute;pia de<br \/>\n    conhecimentos, de que o seu natural bom senso sabia usar, sem abuso. Passava<br \/>\n    por uma das mais espirituosas damas de Lisboa, sem que se lhe notasse a ostenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pedantesca, que &eacute; o escolho em que tanta vez naufragam as que a tal<br \/>\n    nome aspiram. As primeiras capacidades art&iacute;sticas, liter&aacute;rias<br \/>\n    e pol&iacute;ticas freq&uuml;entavam as salas da baronesa e apreciavam a sua<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Gabriela casara por conveni&ecirc;ncia, que n&atilde;o por inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com um homem mais velho do que ela, sem foros de nobreza, mas pertencendo<br \/>\n    &agrave; classe argenteria, que &eacute; a verdadeira aristocracia moderna.<\/p>\n<p> Apesar disso, soube ser esposa fiel e dedicada daquele homem que a livrara<br \/>\n    da prec&aacute;ria condi&ccedil;&atilde;o em que a decad&ecirc;ncia da sua<br \/>\n    casa a colocara. Viuvando, Gabriela n&atilde;o deu ind&iacute;cios de se alistar<br \/>\n    nas diminutas falanges das vi&uacute;vas inconsol&aacute;veis, mas n&atilde;o<br \/>\n    se precipitou na escolha do esposo. A sua beleza, o seu esp&iacute;rito e<br \/>\n    os rendimentos que herdara atra&iacute;ram uma nuvem de adoradores, que ela<br \/>\n    ia deixando viver de ilus&otilde;es, sem se dar para isso ao trabalho de fabricar,<br \/>\n    &agrave; imita&ccedil;&atilde;o de Pen&egrave;lope, uma intermin&aacute;vel<br \/>\n    teia. Esta vida e estes galanteios enfadavam- na, e, para distrair-se, empreendia<br \/>\n    pequenas viagens. Foi ao voltar de uma que fizera pela Espanha, que recebeu<br \/>\n    a carta do tio, e resolveu desenfadar-se por algum tempo da vida das capitais,<br \/>\n    visitando a sua prov&iacute;ncia e os lugares onde passara a inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Tal era a baronesinha de Souto Real, que acabara de apear-se no p&aacute;tio<br \/>\n    lajeado da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Jorge ajudou-a cort&ecirc;smente a descer.<\/p>\n<p> &#8212; Agradecida, Jorge &#8212; disse ela, apertando-lhe a m&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Fazes as honras do teu castelo com a galhardia de um perfeito cavaleiro.<\/p>\n<p> &#8212; A prima n&atilde;o repare na mod&eacute;stia com que a recebemos<br \/>\n    ; mas pareceu-me que seria mais digno da nossa amizade e do seu car&aacute;cter<br \/>\n    apresentarmo-nos tais quais somos, do que encher o p&aacute;tio de criados<br \/>\n    e jornaleiros a quem vest&iacute;ssemos &agrave; pressa fardas&#8230;<\/p>\n<p> E completou a meia voz: &#8212; &#8230; Emprestadas.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! por certo ; e eu reconhe&ccedil;o melhor a tua fidalguia, Jorge,<br \/>\n    na franqueza desta recep&ccedil;&atilde;o, do que na libr&eacute; dos teus<br \/>\n    criados e nos bras&otilde;es dos reposteiros.<\/p>\n<p> E conversando familiarmente com o primo, a quem tomara o bra&ccedil;o, a<br \/>\n    baronesa subiu os degraus da escadaria, que subia para a sala nobre.<\/p>\n<p> &Agrave; porta encontraram-se com frei Janu&aacute;rio, que voltava azafamado<br \/>\n    da cozinha, onde tinha ido dar ordens acomodadas &agrave; solenidade do caso<br \/>\n    e &agrave;s impaciencias e apetite do pr&oacute;prio est&ocirc;mago.<\/p>\n<p> O padre limpava ainda os l&aacute;bios ao len&ccedil;o, para fazer desaparecer<br \/>\n    os vest&iacute;gios de uma liba&ccedil;&atilde;o extra-oficial, que de passagem<br \/>\n    fizera.<\/p>\n<p> &#8212; Queira V. Ex.&ordf; perdoar, sr.a baronesa, o aparecer-lhe ainda<br \/>\n    agora, mas as obriga&ccedil;&otilde;es do meu cargo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; sr. frei Janu&aacute;rio, por quem &eacute;, lembre-se<br \/>\n    de que somos conhecidos antigos, e que at&eacute; por vezes lhe dei motivos<br \/>\n    para me abjurar como jacobina. Tinha que ver se me preparava a honra de uma<br \/>\n    felicita&ccedil;&atilde;o em forma. Onde est&aacute; meu tio? &#8212; O fidalgo<br \/>\n    n&atilde;o estava prevenido de que V. Ex.&quot; chegava t&atilde;o cedo, e<br \/>\n    por isso ainda est&aacute; recolhido no seu quarto, mas eu vou&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, n&atilde;o, n&atilde;o ; por amor de Deus n&atilde;o o acorde<br \/>\n    ! &#8212; N&atilde;o ; ele est&aacute; j&aacute; a p&eacute; ; mas enfim a<br \/>\n    fazer a barba e tal&#8230; sempre leva alguns minutos.<\/p>\n<p> &#8212; Que se n&atilde;o apresse por minha causa. Eu iludirei a grande<br \/>\n    vontade que tenho de lhe beijar a m&atilde;o, conversando com o primo Jorge.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o, se V. Ex.&ordf; me d&aacute; licen&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; logo, frei Janu&aacute;rio.<\/p>\n<p> E quando ia j&aacute; longe, acrescentou: &#8212; O sr. frei Janu&aacute;rio,<br \/>\n    aquele grande dia que estava j&aacute; para chegar na &uacute;ltima vez que<br \/>\n    nos vimos, aquele dia de reden&ccedil;&atilde;o, ao que parece n&atilde;o<br \/>\n    chegou ainda? O ex-frade encolheu os ombros, e respondeu com ar de mist&eacute;rio<br \/>\n    : &#8212; Ainda n&atilde;o &eacute; tarde, minha senhora. Pouco viver&aacute;<br \/>\n    quem n&atilde;o o vir.<\/p>\n<p> Gabriela entrou rindo com Jorge para a sala.<\/p>\n<p> &#8212; E Mauricio &#8212; inquiriu ela &#8212; tamb&eacute;m j&aacute;<br \/>\n    tem barba para fazer ? &#8212; Parece-me que saiu, ainda com estrelas, para<br \/>\n    uma partida de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Bom ; esse, pelo que vejo, conserva puros os tradicionais h&aacute;bitos<br \/>\n    de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Jorge sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Tu &eacute; que degeneraste. Deu-me que cismar a novidade. Estou<br \/>\n    t&atilde;o costumada a ver a deteriora&ccedil;&atilde;o progressiva na linha<br \/>\n    dos representantes das fam&iacute;lias que tomam a peito n&atilde;o caldearem<br \/>\n    o sangue de primeira qualidade que lhes corre nas veias, que ao ver sair desta<br \/>\n    velha casa um rapaz de ju&iacute;zo, fiquei espantada.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; pouco lisonjeira para a nobreza, mas muito lisonjeira para<br \/>\n    mim a sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Digo-to com franqueza, e j&aacute; agora deixa-me aproveitar este<br \/>\n    tempo, em que estamos s&oacute;s, para falar nisto e assentar as bases do<br \/>\n    meu procsder. Vamos direitos &agrave; quest&atilde;o. As finan&ccedil;as n&atilde;o<br \/>\n    correm bem c&aacute; por casa, ao que entendi.<\/p>\n<p> &#8212; Correm muito mal.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o admira ; &eacute; doen&ccedil;a da &eacute;poca. E tu<br \/>\n    tomas a peito endireit&aacute;- las ? &#8212; Tento-o.<\/p>\n<p> &#8212; E consegue-lo. Consegues porque o teu g&ecirc;nio &eacute; o de<br \/>\n    uns certos homens que eu tenho conhecido, que conseguem tudo quanto querem,<br \/>\n    s&oacute; a querer e sem fazer barulho. Ai, Jorge, l&aacute; por Lisboa oi&ccedil;o<br \/>\n    dizer que h&aacute; tanta falta de financeiros, que estou tentada a exportar-te.<\/p>\n<p> E Maur&iacute;cio? &#8212; Maur&iacute;cio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Percebo; &eacute; mais dif&iacute;cil de acomodar esse. Era f&aacute;cil,<br \/>\n    se n&atilde;o fossem as pieguices de teu pai, que h&aacute;-de morrer assim.<br \/>\n    Diz-me uma coisa, &oacute; Jorge, tu &eacute;s absolutista tamb&eacute;m?<br \/>\n    &#8212; Eu quase que n&atilde;o tenho id&eacute;ias fixas em pol&iacute;tica.<\/p>\n<p> &#8212; Bom, bom, j&aacute; entendo. N&atilde;o queres declarar-te por contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para com as tradi&ccedil;&otilde;es de fam&iacute;lia. Est&aacute;s como eu<br \/>\n    ; eu sou, sem d&uacute;vida alguma, liberal ; porque enfim deves concordar<br \/>\n    que para se ficar t&ocirc;da a vida a ser absolutista &eacute; preciso viver,<br \/>\n    assim como teu pai, em uma aldeia como esta e com um padre procurador a dizer-nos<br \/>\n    h&aacute; vinte anos a mesma coisa ; por&eacute;m, como meu pai foi militar<br \/>\n    no ex&eacute;rcito realista, n&atilde;o tenho rem&eacute;dio sen&atilde;o<br \/>\n    obrigar a guardar certas conveni&ecirc;ncias ao meu liberalismo. Ora tu est&aacute;s<br \/>\n    no mesmo caso.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez. &Eacute; certo que do que est&aacute; feito acho muita coisa<br \/>\n    boa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o est&aacute;s como eu. Mas como dizia, Maur&iacute;cio<br \/>\n    podia encontrar muita carreira aberta, mas era necess&aacute;rio que o pai<br \/>\n    o deixasse partir sem levar o topete vermelho e azul muito &agrave; vista,<br \/>\n    ou a vera efigie ao pesco&cccedil;o ; salvar as apar&ecirc;ncias, porque das<br \/>\n    id&eacute;ias ningu&eacute;m quer saber. A sombra da Carta engorda muito absolutista<br \/>\n    encapotado.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai est&aacute; hoje em um estado de t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    irrita&ccedil;&atilde;o, que duvido que chegue a consentir.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o o rem&eacute;dio &eacute; procurar por a&iacute; alguma<br \/>\n    descendente de Egas Moniz ou de Martim de Freitas, que por milagre n&atilde;o<br \/>\n    tenha ainda a casa em ru&iacute;nas, e enxertar esse garfo ilustre na vossa<br \/>\n    &aacute;rvore geneal&ograve;gica.<\/p>\n<p> &#8212; Mau rem&eacute;dio para finan&ccedil;as. Deu o arejo nas &aacute;rvores<br \/>\n    geneal&oacute;gicas, prima Gabriela ; est&atilde;o por aqui todas muito enfezadas.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Neste momento ouviram-se passos ligeiros nas escadas, como de quem as subia<br \/>\n    duas a duas.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; vem Maur&iacute;cio &#8212; disse Jorge, escutando-os.<\/p>\n<p> Foi de facto Maur&iacute;cio que apareceu &agrave; porta da sala.<\/p>\n<p> A baronesa correu-lhe ao encontro, estendendo-lhe as m&atilde;os, que Maur&iacute;cio<br \/>\n    galanteadoramente levou aos l&aacute;bios, curvando-se.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo I J&aacute; vejo que observas irrepreensivelmente as tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos bons tempos em que se era cort&ecirc;s com as damas. A prov&iacute;ncia<br \/>\n    mant&eacute;m-se mais delicada do que a corte. Se soubesses como a moda hoje<br \/>\n    capricha por l&aacute; em um &agrave;-vontade com senhoras, que at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s vezes chega a ser grossaria! &#8212; Deveras, prima? Felizmente<br \/>\n    com certas belezas femininas sente-se a necessidade de ser delicado, independentemente<br \/>\n    de prop&oacute;sito ou dos preceitos da moda.<\/p>\n<p> &#8212; E se eu te deixasse completar a frase, far-me-ias o favor de me<br \/>\n    incluir no n&uacute;mero das tais. Que requinte de lisonja ! E isto a perder-se<br \/>\n    nas selvas ! &#8212; N&atilde;o zombe da minha sinceridade provinciana.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o calunies tu a prov&iacute;ncia, dando esse ep&iacute;teto<br \/>\n    &agrave; tua sinceridade.<\/p>\n<p> Nada, nada, o tio que tenha paci&ecirc;ncia. Conservar em casa um Cortes&atilde;o<br \/>\n    desta for&ccedil;a &eacute; quase uma usurpa&ccedil;&atilde;o feita aos direitos<br \/>\n    da coroa.<\/p>\n<p> &#8212; Bem; deixe-me falar-lhe com sinceridade. Como se sente da jornada?<br \/>\n    &#8212; Hei-de sentir-me cansada, quando tiver satisfeito toda a minha curiosidade,<br \/>\n    que por enquanto n&atilde;o me deixa sentir coisa alguma. Por exemplo, quais<br \/>\n    s&atilde;o os teus projectos, os teus c&aacute;lculos sobre o futuro? &#8212;<br \/>\n    &Oacute; prima Gabriela, sempre cuidei que s&oacute; na prov&iacute;ncia se<br \/>\n    perdia tempo a calcular futuros. uma pessoa de bom senso n&atilde;o calcula<br \/>\n    o futuro, que em um momento se transtorna. &#8212; Bem, entendo o subterf&uacute;gio.<br \/>\n    O priminho Maur&iacute;cio ainda n&atilde;o tem planos definidos sobre a sua<br \/>\n    carreira na vida. Mas &eacute; preciso que saibas que vim aqui principalmente<br \/>\n    por tua causa. Trata-se de te arranjar uma coloca&ccedil;&atilde;o qualquer,<br \/>\n    um assento nas c&acirc;maras, um emprego na alf&acirc;ndega, seja o que for,<br \/>\n    com que tu possas transigir; foi a condi&ccedil;&atilde;o &uacute;nica imposta<br \/>\n    por teu pai. Por isso v&ecirc; l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, prima, j&aacute; que a sorte me levou &agrave; dura impertinencia<br \/>\n    de me ver obrigado a adoptar um modo de vida, n&atilde;o quero tornar a impertinencia<br \/>\n    dupla, encarregando-me eu pr&oacute;prio de o escolher. Subscrevo ao acordo<br \/>\n    a que chegarem; decidam por mim, que ou me fa&ccedil;am general ou tabeli&atilde;o,<br \/>\n    a tudo me resignarei.<\/p>\n<p> &#8212; Desconfio de tanta condescend&ecirc;ncia. Quer-me parecer que havemos<br \/>\n    de encontrar dificuldades mais s&eacute;rias do que as intransig&ecirc;ncias<br \/>\n    sonhadas por o tio Luis. Dar-se-&aacute; que haja aqui por estes bosques cenas<br \/>\n    de Romeu e de Julieta? &#8212; Ai, n&atilde;o fale nisso a Maur&iacute;cio<br \/>\n    &#8212; disse Jorge com um sorriso n&atilde;o de todo despido de ironia &#8212;<br \/>\n    por quem &eacute;, prima ! &Eacute; a sua corda sens&iacute;vel, e tem de<br \/>\n    o aturar por muitas horas! &#8212; Ah ! ent&atilde;o existe a Julieta ? &#8212;<br \/>\n    As Julietas, as Desd&eacute;monas, as Ofelias e todos os tipos imagin&aacute;veis.<\/p>\n<p> &Eacute; um enxame que ele traz constantemente pousado no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ah ! pois tu &eacute;s dos que declinam o amor sempre no plural<br \/>\n    ? N&atilde;o sabia! &#8212; Deixe falar, prima Gabriela. O Jorge bem sabe<br \/>\n    que nesta mesma ocasi&atilde;o t&iacute;o absorvido ando por uma s&oacute;<br \/>\n    imagem, que &eacute; sem fundamento a acusa&ccedil;&atilde;o de inconstante<br \/>\n    que me dirige.<\/p>\n<p> Jorge contraiu a fronte, ao perceber a alus&atilde;o, e disse secamente<br \/>\n    : &#8212; Julguei que havias resolvido deveras ter ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; tempo agora de examinar esta quest&atilde;o<br \/>\n    &#8212; acudiu Gabriela &#8212; porque me parece que vem a&iacute; o tio Luis.<\/p>\n<p> De facto o fidalgo aparecia &agrave; porta da sala e um pouco atr&aacute;s<br \/>\n    dele o padre procurador.<\/p>\n<p> O velho D. Luis vestira-se quase elegantemente para receber a sobrinha.<br \/>\n    Eleg&acirc;ncia severa, acomodada &agrave; sua grave figura de anci&atilde;o,<br \/>\n    mas eleg&acirc;ncia inquestion&aacute;vel. D. Luis tinha uma presen&ccedil;a<br \/>\n    majestosa e um todo de diplomata que impunha respeito.<\/p>\n<p> O vestu&aacute;rio preto de que usava, sobre o qual sobressa&iacute;a a<br \/>\n    gravata cuidadosamente lavada e engomada, aumentava o efeito natural dos seus<br \/>\n    dotes f&iacute;sicos.<\/p>\n<p> O procurador formava inteiro contraste com o fidalgo. Curvado, olhando por<br \/>\n    cima dos &oacute;culos, com o len&ccedil;o constantemente empunhado para acudir<br \/>\n    &agrave;s instantes reclama&ccedil;&otilde;es de um defluxo cr&ocirc;nico,<br \/>\n    parecia dominado por uma infantil timidez, mas n&atilde;o perdia um s&oacute;<br \/>\n    gesto dos outros, que manhosamente observava.<\/p>\n<p> A baronesa inclinou-se para beijar a m&atilde;o do tio, que a acolheu nos<br \/>\n    bra&ccedil;os. &#8212; O t&iacute;o Luis ! &#8212; dizia a gentil vi&uuml;va,<br \/>\n    olhando-o&#8212;sempre o mesmo? N&atilde;o o acho mudado.<\/p>\n<p> &#8212; n&atilde;o ? ! &#8212; disse o fidalgo com leve ironia na intona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e no sorriso.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe que n&atilde;o. E &eacute; natural. Bem v&ecirc; que se golpes<br \/>\n    dolorosos o t&ecirc;m feito padecer, tamb&eacute;m lhe servem de conforto<br \/>\n    o sossego destes s&iacute;tios, a pureza destes ares, a tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    desta vida e o afecto dos filhos que ainda lhe restam.<\/p>\n<p> D. Luis abanou a cabe&ccedil;a, mais triste e sombrio do que antes.<\/p>\n<p> &#8212; Na sua idade, Gabriela, cicatrizam depressa as feridas. Quando se<br \/>\n    chega aos meus anos, golpe que se recebe &eacute; ferida com que se morre.<\/p>\n<p> &#8212; Diga o Sr. D. Luis &#8212; interveio o padre &#8212; que o que tem<br \/>\n    &eacute; muita resigna&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, que nestes tempos que<br \/>\n    v&atilde;o correndo n&atilde;o &eacute; coisa vulgar.<\/p>\n<p> E assoou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para isso vale a meu tio o seu exemplo, sr. frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    &#8212; acudiu Gabriela. &#8212; Resigna&ccedil;&atilde;o a&iacute; ! Eu sou<br \/>\n    testemunha da heroicidade com que arrosta as vig&iacute;lias e os jejuns.<\/p>\n<p> Os presentes, incluindo o pr&oacute;prio D. Luis, n&atilde;o puderam ouvir<br \/>\n    sem um sorriso a alus&atilde;o da baronesa.<\/p>\n<p> O padre corou, assoou-se com mais for&ccedil;a e resmoneou com azedume :<br \/>\n    &#8212; Bem sei que n&atilde;o &eacute; quanta Deus manda, nem quanta a alma<br \/>\n    precisa&#8230; e por pecador me tenho.<\/p>\n<p> &#8212; Deve vir cansada, Gabriela &#8212; lembrou D. Luis. &#8212; Eu julgo<br \/>\n    que ter&atilde;o tido o cuidado de&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tudo est&aacute; pronto. Logo que a prima queira descansar&#8230;&#8212;<br \/>\n    respondeu Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; n&atilde;o sinto grande necessidade de descanso. Descansarei depois<br \/>\n    do almo&ccedil;o, se fizerem o favor de me dar alguma bebida quente, porque<br \/>\n    tenho frio.<\/p>\n<p> Em virtude desta reclama&ccedil;&atilde;o, sa&iacute;ram sucessivamente<br \/>\n    da sala Jorge, o procurador e Maur&iacute;cio, ficando Gabriela s&oacute;<br \/>\n    com o fidalgo.<\/p>\n<p> Este parecia hesitar em aludir ao principal motivo da visita da baronesa.<\/p>\n<p> Foi ela quem rompeu o gelo da entrevista.<\/p>\n<p> &#8212; Recebeu a minha carta, tio? &#8212; Recebi, sim, e agrade&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Diga que perdoa. Se quer que lhe fale a verdade, julgo que n&atilde;o<br \/>\n    escrevi em estilo muito apropriado, mas t&atilde;o desacostumada ando de escrever-lhe<br \/>\n    e a gente com quem de costume me correspondo permite-me tal familiaridade,<br \/>\n    que me descuidei.<\/p>\n<p> &#8212; A carta nada tinha de censur&aacute;vel. O que por ela vi foi que<br \/>\n    devemos renunciar aos projectos que formei a respeito de Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o ; mas como viu por ela isso ?<\/p>\n<p>&#8212; Desde o principio ao fim. N&atilde;o me diz que para que Mauricio<br \/>\n    abra carreira no mundo &eacute; necess&aacute;rio condescender com certas<br \/>\n    coisas ? &#8212; Ai, sim, mas quem &eacute; que n&atilde;o tem de condescender<br \/>\n    nesta vida? &#8212; Gabriela &#8212; tornou D. Luis com certa aspereza &#8212;<br \/>\n    j&aacute; h&aacute; pouco lho disse ; as nossas idades diferem. Quando se<br \/>\n    possui a sua juventude h&aacute; movimentos f&aacute;ceis, a que se n&atilde;o<br \/>\n    prestam as fibras inflex&iacute;veis dos meus sessenta anos.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas quando se &eacute; jovem como Maur&iacute;cio e se est&aacute;<br \/>\n    nas circunst&acirc;ncias dele, das quais estou informada pela sua obsequiosa<br \/>\n    confidencia, &eacute; menos prudente n&atilde;o ceder um pouco no tempo em<br \/>\n    que se pode ainda ceder com dignidade; porque depois&#8230; a vida para ele &eacute;<br \/>\n    longa e quem sabe a que prova&ccedil;&otilde;es e sacrif&iacute;cios o sujeitar&aacute;?<br \/>\n    O tio est&aacute; em uma idade avan&ccedil;ada, n&atilde;o espera numerosos<br \/>\n    anos de vida, n&atilde;o ama demasiadamente o mundo, e para a luta conta com<br \/>\n    a inflexibilidade das suas fibras de sessenta anos. Mas eles, seus filhos,<br \/>\n    s&atilde;o novos, t&ecirc;m futuro, amor &agrave; vida, e n&atilde;o possuem<br \/>\n    ainda a tal inflexibilidade para sustentarem o peso de uma institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    morta, sem vergar ou quebrar debaixo dela. Veja bem.<\/p>\n<p> &#8212; De uma institui&ccedil;&atilde;o morta! &#8212; repetiu o fidalgo,<br \/>\n    acentuando as s&iacute;labas e levantando os olhos para o tecto.<\/p>\n<p> &#8212; Morta sim, meu tio, desengane-se. Deus me livre de falar agora em<br \/>\n    pol&iacute;tica com o tio. Mas a verdade &eacute; que quem vive em certa sociedade,<br \/>\n    e ouve certas coisas, e estuda certos homens, acaba por convencer- se, mesmo<br \/>\n    sem pensar muito nisso, de que um sonho como o de meu tio, &eacute;&#8230; &eacute;&#8230;<br \/>\n    &eacute; um sonho.<\/p>\n<p> &#8212; Seu pai morreu por um sonho assim, Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; E eu venero a mem&oacute;ria de meu pai, n&atilde;o o duvide, assim<br \/>\n    como venero o car&aacute;cter e as opini&otilde;es de meu tio ; porque venero<br \/>\n    todas as convic&ccedil;&otilde;es sinceras. Mas o que eu n&atilde;o queria<br \/>\n    &eacute; que sacrificasse mais do que deve. A sua vida, a sua felicidade t&ecirc;m<br \/>\n    o direito de dar esse sacrif&iacute;cio. Mas a vida, o futuro, a honra e a<br \/>\n    felicidade de seus filhos, isso n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; A honra?! A honra &eacute; que eu quero salvar-lhes.<\/p>\n<p> &#8212; E quem lhe diz que eles t&ecirc;m as suas convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ? Os olhos de D. Luis fuzilaram ao ouvir esta insinua&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Se meus filhos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sei o que vai dizer &#8212; atalhou Gabriela &#8212; mas n&atilde;o<br \/>\n    diga, porque contradiz os seus pr&oacute;prios actos. Esmerou-se em dar educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a seus filhos, em desenvolver-lhes a intelig&ecirc;ncia, e agora quer que<br \/>\n    eles n&atilde;o usem desse instrumento que possuem, e que para pensar lhe<br \/>\n    venham pedir licen&ccedil;a? N&atilde;o valia a pena ensinar-lhes a raciocinar<br \/>\n    nesse caso.<\/p>\n<p> &#8212; A raz&atilde;o deve-lhes ter mostrado a verdade.<\/p>\n<p> &#8212; A verdade&#8230; a verdade&#8230; Ora Valha-nos Deus, meu tio; e quem sabe<br \/>\n    onde est&aacute; ela? Pois todas estas mudan&ccedil;as que sucedem no mundo,<br \/>\n    de que procedem sen&atilde;o de se julgar a cada passo ter-se descoberto que<br \/>\n    a verdade n&atilde;o est&aacute; onde se supunha? &#8212; Vejo que a conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    social lhe tem dado uma boa dose de filosofia para bem viver no mundo. Mas<br \/>\n    que quer? Eu regulo-me ainda por as cartilhas velhas.<\/p>\n<p> &#8212; E o que lhe ensinam as cartilhas velhas a fazer a favor de seus<br \/>\n    filhos? O que &eacute; que, em harmonia com elas, tem tentado e tenciona executar?<br \/>\n    &#8212; Dar-lhes o exemplo de como se sofre na adversidade, quando se tem<br \/>\n    brios e um nome que respeitar.<\/p>\n<p> &#8212; A nobreza n&atilde;o est&aacute; em sofrer de bra&ccedil;os cruzados<br \/>\n    a adversidade, quando eles se podem empregar nobremente em repeli-la ; Jorge<br \/>\n    bem o compreendeu. Esse ilustrar&aacute; deveras o seu nome da &uacute;nica<br \/>\n    maneira por que nestas circunst&acirc;ncias ele pode ser ilustrado. O que<br \/>\n    &eacute; preciso &eacute; que a ociosidade de Maur&iacute;cio lhe n&atilde;o<br \/>\n    anule os esfor&ccedil;os.<\/p>\n<p> D. Luis ia replicar, quando o padre procurador entrou a anunciar que o almo&ccedil;o<br \/>\n    estava na mesa.<\/p>\n<p> O fidalgo aproveitou de boa vontade o ensejo para cortar o di&aacute;logo,<br \/>\n    que evidentemente o incomodou.<\/p>\n<p> Cedo estava a fam&iacute;lia da Casa Mourisca reunida &agrave; mesa na sala<br \/>\n    do almo&ccedil;o, da qual desta vez a voz alegre e a jovial presen&ccedil;a<br \/>\n    da baronesa parecia afugentar parte das sombras que de ordin&aacute;rio pesavam<br \/>\n    sobre ela.<\/p>\n<p> E na noite desse dia Gabriela escreveu uma longa carta a uma das amigas<br \/>\n    da capital, em que lhe narrava por mi&uacute;do os epis&oacute;dios da sua<br \/>\n    jornada, a sua recep&ccedil;&atilde;o na Casa Mourisca e as impress&otilde;es<br \/>\n    que recebera.<\/p>\n<p> Esta carta terminava por as seguintes palavras : &laquo;Do que tenho dito<br \/>\n    parece-me que podes concluir que se desvaneceram aqueles projectos de sacrif&iacute;cio<br \/>\n    que trouxe da&iacute; e com os quais te n&atilde;o conformavas. O meu primo<br \/>\n    Jorge &eacute; um rapaz mais s&eacute;rio ainda do que eu o supunha. N&atilde;o<br \/>\n    fazes id&eacute;ia. Afirmo-te que &eacute; incapaz de casar por interesse,<br \/>\n    e como o esp&iacute;rito dele anda muito ocupado por c&aacute;lculos e combina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    econ&ocirc;micas, n&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m prov&aacute;vel que se<br \/>\n    deixe tomar por o amor, e portanto n&atilde;o casa. Assim fico dispensada<br \/>\n    de sacrificar os meus queridos h&aacute;bitos de vida de Lisboa, ao que vinha<br \/>\n    deveras decidida para salvar esta fam&iacute;lia com os meus capitais, que<br \/>\n    mal sei gerir. Este rapaz se amar, o que n&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel,<br \/>\n    h&aacute;-de ser de alguma maneira extravagante, inesperada.<\/p>\n<p> &laquo;O outro &eacute; uma crian&ccedil;a, que se n&atilde;o pode tomar<br \/>\n    a s&eacute;rio por marido. &raquo; Por aqui se v&ecirc; quais eram as generosas<br \/>\n    inten&ccedil;&otilde;es de Gabriela ao chegar &agrave; Casa Mourisca, e quais<br \/>\n    as modifica&ccedil;&otilde;es que no decurso daquele dia os seus projectos<br \/>\n    haviam sofrido.<\/p>\n<h2>XVI<\/h2>\n<p>AO outro dia pela manh&atilde;, estava Maur&iacute;cio aparelhando pelas<br \/>\n    pr&oacute;prias m&atilde;es o cavalo favorito, quando Jorge foi ter com ele.<\/p>\n<p> &#8212; Tencionas ir hoje ao Cruzeiro? &#8212; perguntou Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez passe por l&aacute;. Porqu&ecirc; ? &#8212; Porque nesse<br \/>\n    caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite especial para o jantar<br \/>\n    de amanh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; O jantar de amanh&atilde; ? ! &#8212; Sim ; o pai insiste em celebrar<br \/>\n    com um jantar a chegada de Gabriela, e bem v&ecirc;s que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    poss&iacute;vel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que, por minha vontade,<br \/>\n    os deixaria quietos no seu antro.<\/p>\n<p> &#8212; Eu os convidarei. Desses me incumbo. E a outra parentela? &#8212;<br \/>\n    Mandar-se-&atilde;o cartas.<\/p>\n<p> &#8212; um jantar na Casa Mourisca! &Oacute; sombra dos nossos antepassados,<br \/>\n    folgai! &#8212; Estremecei, diz antes, que mais raz&atilde;o t&ecirc;m para<br \/>\n    isso.<\/p>\n<p> &#8212; Estes velhacos n&atilde;o deitaram ontem de comer a este pobre animal<br \/>\n    &#8212; observou Maur&iacute;cio, afagando o cavalo.<\/p>\n<p> &#8212; Seria uma prova de afei&ccedil;&atilde;o que lhe dar&iacute;amos<br \/>\n    se lhe proporcion&aacute;ssemos ocasi&atilde;o para mudar de dono &#8212;<br \/>\n    murmurou Jorge, sorrindo.<\/p>\n<p> Pouco depois, Maur&iacute;cio montava e partia a trote para o Cruzeiro.<\/p>\n<p> A Casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Maur&iacute;cio, ficava<br \/>\n    no extremo da povoa&ccedil;&atilde;o, exibindo nos campos que a cercavam uma<br \/>\n    agricultura pregui&ccedil;osa e mesquinha, e dominando um vasto trato de mal<br \/>\n    cuidadas bou&ccedil;as, onde os senhores da propriedade perseguiam implac&aacute;veis<br \/>\n    as lebres e perdizes que ali se acoutavam.<\/p>\n<p> Causava l&aacute;stima o estado de decad&ecirc;ncia a que a m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a vida dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquela casa, de<br \/>\n    cuja passada grandeza j&aacute; nem se descobriam vest&iacute;gios.<\/p>\n<p> Na actualidade n&atilde;o era mais que um velho casar&atilde;o enegrecido,<br \/>\n    mal vedado aos ventos e &agrave;s chuvas onde cada dia realizava um novo estrago,<br \/>\n    que nunca mais era reparado. Por fora e por dentro a mesma absoluta car&ecirc;ncia<br \/>\n    de confortos ; porque n&atilde;o sentia a necessidade deles a robusta organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de qualquer dos propriet&aacute;rios, afeitos &agrave; vida dos montes, &agrave;s<br \/>\n    longas ca&ccedil;adas e &agrave;s lutas com os rigores do tempo.<\/p>\n<p> O solo &aacute;rido, os celeiros vazios, a abegoaria deteriorada, os currais<br \/>\n    desertos, a cultura perdida,., era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro<br \/>\n    ! Parecia hav&ecirc;-lo fulminado um daqueles tremendos anatemas de que rezam<br \/>\n    os livros santos, os quais feriam de esterilidade igual as entranhas da mulher<br \/>\n    e&#8217; as entranhas da Terra. Os pinhais, cortados sem m&eacute;todo nem prud&ecirc;ncia,<br \/>\n    ca&iacute;am sacrificados &agrave;s pen&uacute;rias monet&aacute;rias do morgado<br \/>\n    que ia a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As &aacute;guas,<br \/>\n    vendidas para acudir a iguais urg&ecirc;ncias, abandonavam as terras &agrave;<br \/>\n    sede, que as fazia infecundas. Urnas apar&ecirc;ncias de movimento agr&iacute;cola,<br \/>\n    que ainda se divisavam na quinta, eram-lhe mais fatais que ben&eacute;ficas,<br \/>\n    e podiam comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Naquele vasto corpo, que se decompunha, tamb&eacute;m se agitavam seres que<br \/>\n    viviam dos seus detritos.<\/p>\n<p> Trabalhava-se ali para destruir e n&atilde;o para semear ou edificar.<\/p>\n<p> O desbarato com que os propriet&aacute;rios sacrificavam os seus bens, atra&iacute;a<br \/>\n    os &aacute;vidos vizinhos, como corvos sinistros em volta do cad&aacute;ver<br \/>\n    exposto na estrada.<\/p>\n<p> Era meio-dia, quando Maur&iacute;cio se apeou no espa&ccedil;oso p&aacute;tio<br \/>\n    da casa, onde reinava o sil&ecirc;ncio das ru&iacute;nas. Apenas se ouvia<br \/>\n    o latir de uma matilha encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as matas<br \/>\n    e bou&ccedil;as. O aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade<br \/>\n    inteiramente abandonada ; ali apodrecia um arado in&uacute;til ; al&eacute;m<br \/>\n    oxidavam-se os metais de inactivos instrumentos de lavoura; a &aacute;gua<br \/>\n    empo&ccedil;ada das &uacute;ltimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta<br \/>\n    esverdeada ; as ortigas e pariet&aacute;rias vegetavam em plena liberdade<br \/>\n    nas junturas das l&aacute;jeas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam<br \/>\n    em verdadeira floresta as ervas parasitas ; fragmentos de lou&ccedil;a, de<br \/>\n    garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, mont&otilde;es de cali&ccedil;a,<br \/>\n    pejavam, desde tempos imemoriais, a superf&iacute;cie do p&aacute;tio. Manchas<br \/>\n    verdes de musgos e de liq&uacute;enes, que a humidade desenvolvera, cobriam<br \/>\n    a fachada do edif&iacute;cio, por onde havia muitos anos n&atilde;o passara<br \/>\n    a broxa do caiador.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio subiu as escadas desta casa h&uacute;mida e entrou nos corredores,<br \/>\n    que estavam t&atilde;o desertos como o p&aacute;tio. Passeavam por eles imperturbadas<br \/>\n    as galinhas e as pombas como em terreno familiar, e ocasi&otilde;es havia<br \/>\n    em que pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    su&iacute;na. S&oacute; os criados n&atilde;o apareciam ; a ociosidade dos<br \/>\n    amos era contagiosa. Conhecedor da topografia da casa, Maur&iacute;cio foi<br \/>\n    ter direito ao quarto dos primos que procurava.<\/p>\n<p> Dormiam ainda os dois mais novos, enquanto o morgado andava labutando com<br \/>\n    alguns lavradores vizinhos no destro&ccedil;o do que ainda lhe restava.<\/p>\n<p> O sono do padre e do doutor n&atilde;o era para ceder &agrave; primeira<br \/>\n    chamada.<\/p>\n<p> Ainda depois de lhes bater &agrave; porta, Maur&iacute;cio continuou a ouvi-los<br \/>\n    ressonar em um duo assustador.<\/p>\n<p> Afinal respondeu a voz rouca de um deles com um som inarticulado, que claramente<br \/>\n    expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.<\/p>\n<p> &#8212; Sou eu, abram &#8212; disse Maur&iacute;cio, continuando a bater.<\/p>\n<p> Respondeu-lhe uma piaga, e depois outra voa acrescentou: &#8212; A porta<br \/>\n    est&aacute; aberta. Levanta a tranqueta e entra.<\/p>\n<p>Maur&iacute;cio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento comum<br \/>\n    dos dois manos.<\/p>\n<p> Havia dentro uma atmosfera quente, abafadi&ccedil;a e viciada de fumo de<br \/>\n    cigarro que sufocava.<\/p>\n<p> A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescrit&iacute;veis.<\/p>\n<p> Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo, sustentando<br \/>\n    a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio; a roupa pendurada em cabides<br \/>\n    fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou ca&iacute;da pelo ch&atilde;o ;<br \/>\n    o espelho pendente dos caixilhos da janela ; veias de sebo meio gastas metidas<br \/>\n    em garrafas, cuja superf&iacute;cie era adornada de gordurentas estalactites,<br \/>\n    e em palmat&oacute;rias de metal pintado de l&aacute;grimas verdes pela oxida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; a um canto o dep&oacute;sito de roupa suja ; em outro o arsenal, composto<br \/>\n    de espingardas, rev&oacute;lveres, paus ferrados, chicotes e cassetetes ;<br \/>\n    al&eacute;m os arreios de cavalgadura ; na mesa, ao p&eacute; da cama, os<br \/>\n    restos das grosseiras iguarias da ceia da v&eacute;spera, alguns usados baralhos<br \/>\n    de cartas, de mistura com umas ins&iacute;gnias pobres e desprezadas da vestimenta<br \/>\n    do padre, tudo enodoado de azeite e de vinho, e pontas de cigarros por toda<br \/>\n    a parte.<\/p>\n<p> Os dois achavam del&iacute;cias neste viver, que chamavam escol&aacute;stico,<br \/>\n    e que diziam avivar-lhes recorda&ccedil;&otilde;es dos seus tempos de estudantes,<br \/>\n    Bem podia contudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que nisso tivesse<br \/>\n    de despir a fei&ccedil;&atilde;o de desordem, caracter&iacute;stica a um quarto<br \/>\n    de rapaz solteiro.<\/p>\n<p> Quando Maur&iacute;cio abriu para tr&aacute;s as portas das janelas, os<br \/>\n    dois primos saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incomodar-lhes com<br \/>\n    os seus raios a retina pregui&ccedil;osa. Depois de um ruidoso e prolongado<br \/>\n    bocejo, o doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabelos caindo-lhe<br \/>\n    em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se para a parede,<br \/>\n    no intento de encetar outro sono.<\/p>\n<p> &#8212; Que vida de in&uacute;teis vadios esta ! &#8212; exclamou Maur&iacute;cio,<br \/>\n    puxando para o meio da sala a mais desocupada e limpa cadeira que encontrou,<br \/>\n    e pondo-se de cavaleiras nela. &#8212; Ao meio-dia ! &#8212; Isso ! Vem c&aacute;<br \/>\n    para falar da vida de vadios. Olha se me convences de que te afadigas muito<br \/>\n    a trabalhar.<\/p>\n<p> &#8212; Em todo o caso j&aacute; vim de minha casa at&eacute; aqui, e tu,<br \/>\n    ao que parece, ias no meio de um sono, e l&aacute; o padre&#8230; esse vai, pelo<br \/>\n    que estou vendo, no princ&iacute;pio de outro.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como diabo te deu para vires por aqui t&atilde;o cedo ? &#8212;<br \/>\n    Cedo? Olha que &eacute; meio-dia! Mas&#8230; vim encarregado de uma miss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; De quem ? &#8212; De meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; De teu pai ? ! Para n&oacute;s ? ! &#8212; &Eacute; verdade. Estou<br \/>\n    incumbido de vos convidar a todos os tr&ecirc;s para um jantar amanh&atilde;.<\/p>\n<p>O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite, e fitando Maur&iacute;cio<br \/>\n    com os olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de<br \/>\n    sono: &#8212; O tio Luis d&aacute; amanh&atilde; um jantar?! &#8212; Sim,<br \/>\n    senhor. Em obs&eacute;quio a Gabriela, a baronesinha de Souto Real, que l&aacute;<br \/>\n    est&aacute; desde ontem de manh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! &#8212; exclamou o padre, e tornou a voltar-se para a<br \/>\n    parede.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo ! &#8212; aplaudiu o doutor &#8212; isso j&aacute; me cheira<br \/>\n    melhor do que a tal hist&oacute;ria do Jorge feito guarda-livros. Aquele Jorge<br \/>\n    como assim h&aacute;-de ser sempre dessas ratices. E diz-me c&aacute;: que<br \/>\n    tal est&aacute; agora a Gabriela ? &#8212; N&atilde;o me pareceu mal ; ainda<br \/>\n    que, para te falar a verdade, n&atilde;o lhe dei muita aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, tu andas agora distra&iacute;do com a&#8230;<\/p>\n<p> Neste ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no travesseiro,<br \/>\n    a qual lhe fez cair na cama a cinza inflamada do cigarro que principiou nos<br \/>\n    len&ccedil;&oacute;is uma cent&eacute;sima combust&atilde;o, exclamou ! &#8212;<br \/>\n    &Eacute; verdade ! que me ia esquecendo ! fizemos uma grande descoberta esta<br \/>\n    noite, homem! &#8212; Qual foi? O padre, ao ouvir as palavras do irm&atilde;o,<br \/>\n    deu um salto para sentar- se na cama, e preparando tamb&eacute;m um cigarro,<br \/>\n    disse, fitando Maur&iacute;cio, com um sorriso alvar: &#8212; Olha l&aacute;,<br \/>\n    &oacute; Chico. V&ecirc; como contas a coisa, porque o Maur&iacute;cio &eacute;<br \/>\n    nervoso ; n&atilde;o sei se sabes.<\/p>\n<p> &#8212; Mas de que se trata ? &#8212; De um caso muito engra&ccedil;ado.<br \/>\n    Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir mais, porque a hist&oacute;ria promete<br \/>\n    dar de si.<\/p>\n<p> O padre, meio estendido pela cama fora para pedir lume ao irm&atilde;o,<br \/>\n    confirmou o dito deste com um gesto e um grunhido.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, digam l&aacute; o que foi &#8212; insistia Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ontem &agrave; noite &#8212; principiou o doutor &#8212; fui eu<br \/>\n    aqui com o Louren&ccedil;o &agrave; espadelada do Martinho. Aquilo n&atilde;o<br \/>\n    esteve de todo mau.<\/p>\n<p> Bem boas raparigas, e a luz conveniente. Mas, ali pelas onze horas, apareceram<br \/>\n    uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que principiaram<br \/>\n    a fazer ferver-me o sangue.<\/p>\n<p> &#8212; Eram os mesmos da feira do m&ecirc;s passado &#8212; acudiu o padre<br \/>\n    &#8212; mal fiz eu em n&atilde;o ter quebrado os ossos ao Gaud&ecirc;ncio,<br \/>\n    quando o deixei atordoado na estrada, &#8212; O certo &eacute; &#8212; prosseguiu<br \/>\n    o mano doutor &#8212; que os homens come&ccedil;aram a fazer-se finos, e eu<br \/>\n    que vi o Louren&ccedil;o j&aacute; a fumegar, previ logo o caldo entornado,<br \/>\n    e fui procurar o marmeleiro que deixara atr&aacute;s da porta, para o que<br \/>\n    desse e viesse.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o era preciso. Para aqueles basto eu s&oacute; &#8212;<br \/>\n    anotou o padre, sugando com for&ccedil;a o cigarro, que teimava em n&atilde;o<br \/>\n    arder. <\/p>\n<p>&#8212; Meu dito, meu feito &#8212; continuou o outro &#8212; n&oacute;s<br \/>\n    a sairmos e eles connosco. O Louren&ccedil;o p&ocirc;s logo dois fora do combate<br \/>\n    ; eu arquei com o terceiro, que me derreou o bra&ccedil;o esquerdo, mas a<br \/>\n    quem escangalhei a cabe&ccedil;a ; o &uacute;ltimo fugiu-nos. Era o Jo&atilde;o<br \/>\n    do Pinh&atilde;o.<\/p>\n<p> O padre interveio : &#8212; Eu, que lhe ando com sede, disse logo para o<br \/>\n    Chico: &laquo;Vamos daqui cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma li&ccedil;&atilde;o&raquo;.<br \/>\n    E tomamos pela quelha do Regedor, &#8212; E viemos sair mesmo defronte da<br \/>\n    porta do Tom&eacute;, por tr&aacute;s da presa. Sabes? &#8212; Sei muito bem.<\/p>\n<p> &#8212; Ora o homem n&atilde;o apareceu.<\/p>\n<p> &#8212; Mas apareceu coisa melhor &#8212; acudiu o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Havia de andar pela meia-noite e n&oacute;s sem fazer bulha ainda<br \/>\n    escondidos na sombra. Percebes? &#8212; Mesmo defronte da casa do Tom&eacute;<br \/>\n    &#8212; insistiu o padre.<\/p>\n<p> &#8212; E depois ? &#8212; interrogou Maur&iacute;cio impaciente.<\/p>\n<p> &#8212; Depois&#8230;<\/p>\n<p>A mulher &eacute; um cata-vento,<br \/>\n    Que com os ventos varia;<br \/>\n    Seu amor dura um momento,<br \/>\n    Tolo &eacute; quem nela se fia.<\/p>\n<p>Cantarolou o doutor.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio olhou interrogadoramente para o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Meu caro priminho &#8212; disse-lhe este &#8212; p&otilde;e as tuas<br \/>\n    cren&ccedil;as de molho e prepara-te para arrancares um punhado de cabelos;<br \/>\n    um ou dois.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que queres dizer com isso? &#8212; Quero dizer que a porta do<br \/>\n    Tom&eacute; abriu-se sorrateiramente e saiu de l&aacute; um patusco&#8230; Trai<br \/>\n    la rai lai lai.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; imposs&iacute;vel ! &#8212;exclamou Maur&iacute;cio com<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o, compreendendo as malignas alus&otilde;es do primo.<\/p>\n<p> &#8212; Qual imposs&iacute;vel? &#8212; confirmou o padre. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; imposs&iacute;veis neste mundo. Desengana-te, menino.<\/p>\n<p> &#8212; Mas t&ecirc;m a certeza de que se n&atilde;o iludiram ? &#8212;<br \/>\n    Ora se temos ! Era um homem em corpo e alma.<\/p>\n<p> &#8212; E viram quem era? Conheceram-no? Os dois irm&atilde;os, a esta pergunta,<br \/>\n    trocaram entre si um olhar e um sorriso de velhacaria.<\/p>\n<p> &#8212; Com certeza, n&atilde;o; mas suspeitamos &#8212; respondeu o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; ? &#8212; Alto l&aacute; ! Nada de ferver em pouca<br \/>\n    &aacute;gua. Isso fica para segunda observa&ccedil;&atilde;o. Por ora n&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;mos ainda a certeza. Por&eacute;m j&aacute; mais de uma noite<br \/>\n    temos encontrado o tal rat&atilde;o, de quem suspeitamos, n&atilde;o muito<br \/>\n    longe do s&iacute;tio, e j&aacute; and&aacute;vamos com a pedra no sapato.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Chico, olha que o Maur&iacute;cio n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    bom. Estes golpes repentinos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Qual ! Se eu n&atilde;o acredito uma &uacute;nica palavra do que<br \/>\n    voc&ecirc;s est&atilde;o para ai a dizer &#8212; tornou-lhe Maur&iacute;cio,<br \/>\n    erguendo-se e passeando na sala agitado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o que a coisa &eacute; muito para se n&atilde;o crer &#8212;<br \/>\n    disse o doutor, principiando a vestir-se &#8212; uma rapariga de dezoito anos,<br \/>\n    que vem do col&eacute;gio, ter um apaixonado?&#8230; Sim, o caso &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    raro! &#8212; Voc&ecirc;s n&atilde;o conhecem Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados, que ainda<br \/>\n    anda a sonhar por este mundo com princesas encantadas &#8212; observou o padre,<br \/>\n    tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Kock, com que adormecera<br \/>\n    na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o l&aacute; porque um homem sai de noite de casa do Tom&eacute;,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o pode ser sen&atilde;o por amor de Berta. &Eacute; boa<br \/>\n    ! &#8212; insistiu Maur&iacute;cio, contra a sua pr&oacute;pria convic&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, meu menino, sim ; isso tudo e o mais que tu quiseres &#8212;<br \/>\n    respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.<\/p>\n<p> &#8212; Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem &#8212; tornou<br \/>\n    o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, mas digam-me ; Pois n&atilde;o h&aacute; tanta gente em casa<br \/>\n    ? &#8212; Pois h&aacute;, h&aacute;.<\/p>\n<p> -&#8212;Ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o tem vossemec&ecirc; raz&atilde;o &#8212; concluiu impertinentemente<br \/>\n    o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem &#8212; prop&ocirc;s o doutor. &#8212; Para sair de d&uacute;vidas<br \/>\n    queres tu vir connosco bater a mata esta noite para conheceres o coelho ?<br \/>\n    &#8212; Quero, sim.<\/p>\n<p> &#8212; Muito me hei-de rir esta noite ! &#8212; exultou o padre, saltando<br \/>\n    abaixo da cama.<\/p>\n<p> &#8212; Mas prometes n&atilde;o assassinares a pequena na f&uacute;ria do<br \/>\n    teu ci&uacute;me ? &#8212; N&atilde;o creio verdadeira a vossa suposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas se o fosse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que farias ? Ora diz l&aacute; &#8212; perguntou o padre, piscando<br \/>\n    um olho enquanto esperava a resposta.<\/p>\n<p> &#8212; Achava essa mulher t&atilde;o desprez&iacute;vel que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pumba! Ora a&iacute; temos outra. Na verdade h&aacute; nada t&atilde;o<br \/>\n    desprez&iacute;vel como uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de prefer&ecirc;ncia<br \/>\n    ao menino Maur&iacute;cio, a j&oacute;ia dos namorados &#8212; ponderou zombeteiramente<br \/>\n    o padre.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quero dizer isso, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta &agrave;s<br \/>\n    priminhas dos Barrocais, que essas s&atilde;o fi&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, mas digam-me voc&ecirc;s uma coisa &#8212; insistiu Maur&iacute;cio<br \/>\n    &#8212; quem querem que seja o homem que possa estar j&aacute; com Berta nesse<br \/>\n    tom de familiaridade? &#8212; N&atilde;o entremos nessa quest&atilde;o. A<br \/>\n    seu tempo cair&atilde;o as cataratas.<\/p>\n<p>&#8212; Ja digo, eu n&atilde;o acredito.<\/p>\n<p> &#8212; Pois Nosso Senhor te d&ecirc; sempre essa c&ocirc;moda incredulidade<br \/>\n    ; antes de casar e depois de casar.<\/p>\n<p> E entre os tr&ecirc;s ficou pactuada para aquela noite uma espionagem cerrada<br \/>\n    &agrave; casa de Tom&eacute;, com o fim de reconhecerem a misteriosa visita.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio passou o dia todo pensativo e preocupado com a revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que os primos lhe fizeram.<\/p>\n<p> Ainda quando Berta n&atilde;o tivesse adquirido grande preponder&acirc;ncia<br \/>\n    sobre os pensamentos de Maur&iacute;cio, bastaria a id&eacute;ia de que outro<br \/>\n    o preterira no cora&ccedil;&atilde;o de uma mulher, a quem ele havia dedicado<br \/>\n    um olhar de galanteio, para deveras o irritar.<\/p>\n<p> Mas, de justi&ccedil;a &eacute; que se diga, o amor, a paix&atilde;o, a<br \/>\n    inclina&ccedil;&atilde;o, o capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o<br \/>\n    sentimento de Maur&iacute;cio para Berta atingira a m&aacute;xima intensidade<br \/>\n    a que podiam subir os afectos daquele caracter vol&uacute;vel. Se n&atilde;o<br \/>\n    amava ainda deveras, &eacute; certo tamb&eacute;m que nunca amara melhor.<br \/>\n    Berta demais possu&iacute;a sobre as outras mulheres que nas &eacute;pocas<br \/>\n    sucessivas haviam reinado na imagina&ccedil;&atilde;o deste rapaz, o prest&iacute;gio<br \/>\n    das recorda&ccedil;&otilde;es de inf&acirc;ncia, a distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de trato adquirida na educa&ccedil;&atilde;o da cidade, e at&eacute; a desafectada<br \/>\n    reserva com que lhe tinha acolhido o galanteio.<\/p>\n<p> As reflex&otilde;es de Jorge contra aqueles amores, a perspectiva das repugnancias<br \/>\n    de fam&iacute;lia, dos obst&aacute;culos a vencer, dos preconceitos e paix&otilde;es<br \/>\n    com que lutar, longe de extinguirem a chama em que ele procurava abrasar-se,<br \/>\n    antes mais a activavam.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia de um amor entre dois cora&ccedil;&otilde;es jovens, amor<br \/>\n    constante em despeito do antagonismo, das animadvers&otilde;es e dos &oacute;dios<br \/>\n    das fam&iacute;lias ; esse eterno e po&eacute;tico tema de tantas obras de<br \/>\n    arte, era simp&aacute;tico &agrave; fantasia de Maur&iacute;cio, que, seduzido<br \/>\n    por ele, chegou a convencer-se de que estava destinado a ser mais um exemplo<br \/>\n    do caso; est&iacute;mulo este suficiente para o apaixonar.<\/p>\n<p> Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas n&atilde;o o interrogou.<\/p>\n<p> A baronesa, usando dos privil&eacute;gios de mulher nova, elegante, costumada<br \/>\n    a n&atilde;o refrear a sua curiosidade feminina, interpelou-o directamente<br \/>\n    : &#8212; N&atilde;o voltaste muito am&aacute;vel do teu passeio matinal,<br \/>\n    Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Que foi isso? &#8212; Perdoe-me, prima. Isto &eacute; uma das muitas mudan&ccedil;as<br \/>\n    de colorido que, sem que se saiba porqu&ecirc;, se opera no humor de uma pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; Hum! n&atilde;o andar&aacute; a&iacute; influ&ecirc;ncia do cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Maur&iacute;cio soltou um meio riso de descrente, respondendo: &#8212; O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ! O meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; modesto. N&atilde;o aspira a dominar.<\/p>\n<p> Nunca lhe conheci essas tend&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> &#8212; Nisso mesmo que dizes dele se est&aacute; a perceber que h&aacute;<br \/>\n    espinho l&aacute; dentro.<\/p>\n<p> &#8212; A prima h&aacute;-de perdoar-me a franqueza ; mas j&aacute; vejo<br \/>\n    que tem o defeito do seu sexo, que &eacute; n&atilde;o poder imaginar que<br \/>\n    haja sobre o car&aacute;cter e a boa ou m&aacute; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um homem outra influ&ecirc;ncia que n&atilde;o seja a de uma mulher.<\/p>\n<p> &#8212; E quando os homens se ocupam t&atilde;o pouco de coisas graves,<br \/>\n    como&#8230; certos que n&oacute;s conhecemos, a lei n&atilde;o deixa de ser verdadeira.<\/p>\n<p> &#8212; Engana-se ; v&ecirc; ? Os homens da minha &iacute;ndole s&atilde;o<br \/>\n    exactamente aqueles que est&atilde;o menos sujeitos &agrave; influ&ecirc;ncia<br \/>\n    que diz. Aceitamos a infidelidade e a inconst&acirc;ncia feminina como um<br \/>\n    facto natural e com que j&aacute; cont&aacute;vamos, porque em n&oacute;s<br \/>\n    nunca se desenvolvem aquelas ilus&otilde;es que levam muitos esp&iacute;ritos<br \/>\n    a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as ocorr&ecirc;ncias, porque<br \/>\n    nunca nos esquecemos da fragilidade desses delicados objectos, que amamos<br \/>\n    s&oacute; porque s&atilde;o fr&aacute;geis e delicados. As grandes desilus&otilde;es<br \/>\n    e os profundos desesperos s&atilde;o para os que fazem do amor um culto e<br \/>\n    sonham a mulher de uma ess&ecirc;ncia superior. Persuadem-se de que &eacute;<br \/>\n    de cristal a bola de sab&atilde;o matizada que os seduz, e portanto ficam<br \/>\n    muito desconsolados quando ela se lhes desfaz no ar.<\/p>\n<p> &#8212; Cada vez confirmo mais a minha suposi&ccedil;&atilde;o. Eras bastante<br \/>\n    delicado para me poupares a essa teoria de mau gosto sobre a mulher, se n&atilde;o<br \/>\n    estivesse falando em ti o despeito por uma causa recente.<\/p>\n<p> A exactid&atilde;o da observa&ccedil;&atilde;o da baronesa feriu Maur&iacute;cio<br \/>\n    no vivo e f&ecirc;-lo balbuciar, corando : &#8212; Pe&ccedil;o perd&atilde;o,<br \/>\n    se a minha franqueza a ofendeu, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o te canses a desculpar-te. Eu at&eacute; achei gra&ccedil;a<br \/>\n    a essa profiss&atilde;o de cepticismo, j&aacute; muito meu conhecido, mas<br \/>\n    que n&atilde;o sabia que tamb&eacute;m nascia nos bosques, onde julguei que<br \/>\n    se haviam refugiado as boas cren&ccedil;as desde que emigraram das cidades.<br \/>\n    Amanh&atilde; espero que estar&aacute;s mais senhor de ti.<\/p>\n<p> &#8212; Estou a sangue-frio, creia.<\/p>\n<p> &#8212; Veremos com mais vagar esse cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute;-me isso<br \/>\n    preciso para os meus planos.<\/p>\n<p> &#8212; Os seus planos ? &#8212; Ent&atilde;o j&aacute; te esqueceste de<br \/>\n    que eu estou aqui principalmente por tua causa? &#8212; Ah ! sim, agrade&ccedil;o-lhe<br \/>\n    o cuidado, mas estou receando ter de dar-lhe muito que fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Veremos.<\/p>\n<p> A noite chegou e bem vagarosa para a impaci&ecirc;ncia de Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Pouco mais passava de ave-marias, j&aacute; ele instava com os primos do<br \/>\n    Cruzeiro para que fossem p&ocirc;r-se de vigia.<\/p>\n<p> &#8212; Isso n&atilde;o vai assim ! &#8212; diziam eles. &#8212; Pois que<br \/>\n    cuidas tu ? N&atilde;o sabes que o p&aacute;ssaro &eacute; dos que s&oacute;<br \/>\n    voam de noite ? Fala-nos l&aacute; para as onze horas.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio iludiu em todo este tempo a sua impaci&ecirc;ncia, tentando<br \/>\n    provar aos primos com argumentos novos, que lhe tinham ocorrido em casa, a<br \/>\n    impossibilidade de ser para Berta a visita nocturna da Herdade.<\/p>\n<p>Os primos respondiam, rindo, s&oacute; com frases equ&iacute;vocas, que Mauricio<br \/>\n    n&atilde;o compreendia.<\/p>\n<p> &#8212; Olha c&aacute;, &oacute; Maur&iacute;cio &#8212; perguntou o mano<br \/>\n    doutor &#8212; em tua casa sabe-se do teu namoro com a filha do Tom&eacute;?<br \/>\n    &#8212; Ai vens tu com o namoro !&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois seja o que quiseres ; da tua afei&ccedil;&atilde;o, se achas<br \/>\n    mais bonito ; mas sabem? &#8212; Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas<br \/>\n    reflex&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! o Jorge falou-te nisso ? &#8212; H&aacute; dias. Pelos modos<br \/>\n    o Tom&eacute; queixou-se-lhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, o Tom&eacute; queixou-se ao Jorge? Sim, senhor, tem gra&ccedil;a.<br \/>\n    Que te parece, &oacute; Louren&ccedil;o? &#8212; &Eacute; bem bom! e ent&atilde;o<br \/>\n    o Jorge deu-te conselhos, hem? &#8212; Sim, disse-me alguma coisa ; que era<br \/>\n    preciso cautela, que n&atilde;o era prudente o meu proceder&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; E quase me fez prometer que desistiria.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! fez-te prometer isso ? &#8212; Quase&#8230;<\/p>\n<p> Os dois n&atilde;o podiam suster o riso.<\/p>\n<p> &#8212; &Ecirc; impag&aacute;vel aquele Jorge ! &#8212; repetia de quando<br \/>\n    em quando o padre.<\/p>\n<p> &#8212; Voc&ecirc;s bem sabem o g&ecirc;nio dele.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, sabemos. Pois n&oacute;s bem sabemos&#8230; o g&ecirc;nio dele.<br \/>\n    Ah! ah! E os risos redobravam.<\/p>\n<p> Mas a noite chegara enfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre os<br \/>\n    caminhos do campo. Maur&iacute;cio p&ocirc;de finalmente acompanhar os primos<br \/>\n    ao lugar da espia.<\/p>\n<p> Dirigiram-se ali pelos s&iacute;tios menos freq&uuml;entados, e sem soltarem<br \/>\n    uma palavra.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio a seu pesar, sentia-se dominado por uma como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    profunda.<\/p>\n<p> N&atilde;o era s&oacute; despeito, era j&aacute; uma nascente repugn&acirc;ncia<br \/>\n    pelo acto que praticava. Envergonhava-se daquele furtivo mister de espi&atilde;o.<\/p>\n<p> Chegados ao local, o padre escolheu a posi&ccedil;&atilde;o de maneira que<br \/>\n    pudessem ver, sem serem vistos.<\/p>\n<p> Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som que o melanc&oacute;lico<br \/>\n    gemer dos sapos, a dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nulo da espionagem,<br \/>\n    principiava a dirigir aos primos alguns ditos epigram&aacute;ticos, quando<br \/>\n    a m&atilde;o do doutor lhe tapou a boca, ao mesmo tempo que o padre se voltava<br \/>\n    para lhe recomendar sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Efectivamente, encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a sombra<br \/>\n    da noite n&atilde;o deixava conhecer.<\/p>\n<p> Chegando &agrave; porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou,<br \/>\n    e fechou-a de novo sem fazer ru&iacute;do.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio quis correr atr&aacute;s daquele homem. Retiveram-no os<br \/>\n    primos.<\/p>\n<p>&#8212; Espera, pateta ! Deixa-o sair, que eu te prometo que havemos de conhec&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Que diabo queres tu fazer, maluco? N&atilde;o v&ecirc;s que espantas<br \/>\n    a ca&ccedil;a? &#8212; Hei-de ver quem ele &eacute; ! &#8212; Pois sim, mas<br \/>\n    para isso &eacute; preciso prud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; A porta ficou aberta. Eu vou&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vais aonde ? Ora tem ju&iacute;zo. &Agrave; salda pilhamo-lo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, por&eacute;m, insistiu, e os primos condescenderam em passar<br \/>\n    um cauteloso exame &agrave; entrada por onde o vulto desaparecera.<\/p>\n<p> Reprimindo a custo os &iacute;mpetos de Maur&iacute;cio, o padre dirigiu<br \/>\n    a explora&ccedil;&atilde;o, e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram<br \/>\n    no p&aacute;tio de casa; perto ficava a escada, por onde se subia para as<br \/>\n    salas.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ia a transp&ocirc;-la, mas os primos impediram-no. Daqui<br \/>\n    originou-se uma pequena alterca&ccedil;&atilde;o, que, ainda que em voz baixa,<br \/>\n    foi percebida pelos c&atilde;es, que latiram furiosos.<\/p>\n<p> De uma das janelas da casa partiu uma voz, perguntando : &#8212; Quem est&aacute;<br \/>\n    ai ? Era a voz de Berta.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ia a responder-lhe, cheio de indigna&ccedil;&atilde;o, mas<br \/>\n    o padre tapou-lhe a boca e obrigou-o a retirar-se.<\/p>\n<p> Esta retirada foi feita com tal per&iacute;cia, que n&atilde;o excitou mais<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o da gente da casa.<\/p>\n<p> Tudo recaiu em sossego.<\/p>\n<p> A presen&ccedil;a de Berta foi para Maur&iacute;cio a confirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das suspeitas dos primos. Por isso mais excitado e impaciente do que at&eacute;<br \/>\n    ali, aguardava a salda do misterioso inc&oacute;gnito.<\/p>\n<p> O padre colocou-se em s&iacute;tio apropriado para poder tolher a passagem<br \/>\n    ao visitador nocturno.<\/p>\n<p> Perto de hora e meia aguardaram os tr&ecirc;s. Afinal ouviu-se ru&iacute;do<br \/>\n    na porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro, a meia voz, o homem<br \/>\n    espiado saiu.<\/p>\n<p> Ouviu-se atr&aacute;s dele correr a chave na fechadura, cautelosamente.<\/p>\n<p> A vinte passos, pouco mais ou menos, de dist&acirc;ncia da casa de Tom&eacute;,<br \/>\n    o personagem que tanta curiosidade excitava viu o vulto de tr&ecirc;s homens<br \/>\n    im&oacute;veis, que lhe estorvavam a passagem.<\/p>\n<p> Mais peito d&ecirc;les, parou e perguntou-lhes : &#8212; Tenho o caminho<br \/>\n    livre ? &#8212; Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar<br \/>\n    a conhecer &#8212; respondeu o padre.<\/p>\n<p> &#8212; &Agrave; ordem de quem ? &#8212; De tr&ecirc;s contra um.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; direito que n&atilde;o reconhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> E o indiv&iacute;duo, desembara&ccedil;ando um pouco os bra&ccedil;os que<br \/>\n    levava envolvidos em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma dessas<br \/>\n    agress&otilde;es, que n&atilde;o s&atilde;o raras em algumas das nossas freguesias<br \/>\n    rurais.<\/p>\n<p>Neste tempo, por&eacute;m, Maur&iacute;cio, a quem a voz deste homem havia<br \/>\n    ferido desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantando-se para ele,<br \/>\n    e ao v&ecirc;-lo desembara&ccedil;ado, exclamou: &#8212; Mas&#8230; ele &eacute;<br \/>\n    Jorge! Os primos soltaram uma risada.<\/p>\n<p> Jorge, que o leitor j&aacute; tinha reconhecido, vendo enfim quem eram os<br \/>\n    seus supostos agressores, deixou outra vez cair a manta sobre os ombros e<br \/>\n    perguntou em tom de leve despeito : &#8212; Ent&atilde;o que brincadeira &eacute;<br \/>\n    esta ? &#8212; N&atilde;o &eacute; nada, primo Jorge &#8212; respondeu o doutor<br \/>\n    &#8212; quisemos apenas verificar uma suspeita.<\/p>\n<p> &#8212; Uma suspeita ? ! &#8212; Vamos, perdoa-nos a indiscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mas bem v&ecirc;s que h&aacute; poucos prazeres para uns pecadora&ccedil;os<br \/>\n    como n&oacute;s, iguais ao que nos causa o ver cair um santo nas mesmas fraquezas<br \/>\n    de que nos acusam.<\/p>\n<p> Isto disse o padre ; o doutor acrescentou : &#8212; O que te pedimos de<br \/>\n    hoje em diante &eacute; menos severidade nos teus ju&iacute;zos e mais indulg&ecirc;ncia<br \/>\n    para as mis&eacute;rias dos humanos.<\/p>\n<p> Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos ; voltando- se<br \/>\n    para Maur&iacute;cio, disse-lhe com certa rispidez e quase tremendo de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    : &#8212; Tu, que est&aacute;s mais habituado do que eu a lidar com estes<br \/>\n    senhores, n&atilde;o me saber&aacute;s explicar estes ditos, que n&atilde;o<br \/>\n    percebo, e ao mesmo tempo a significa&ccedil;&atilde;o da tua presen&ccedil;a<br \/>\n    aqui, a tolher-me os passos, como um ladr&atilde;o nocturno? O sil&ecirc;ncio<br \/>\n    de Maur&iacute;cio significava tamb&eacute;m muita indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e c&oacute;lera concentrada.<\/p>\n<p> A presen&ccedil;a de Jorge naquele lugar somente a podia explicar aceitando<br \/>\n    a hip&oacute;tese maligna dos do Cruzeiro ; e na recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da conversa que tivera com o irm&atilde;o, a respeito da filha de Tom&eacute;,<br \/>\n    via agora um excesso de dissimula&ccedil;&atilde;o e hipocrisia, que o revoltavam<br \/>\n    tanto mais veementemente, quanto maior era o respeito que at&eacute; ali lhe<br \/>\n    mereceu o car&aacute;cter de Jorge.<\/p>\n<p> Por isso a severa interpela&ccedil;&atilde;o deste fez rebentar em explos&atilde;o<br \/>\n    aquela c&oacute;lera mal reprimida.<\/p>\n<p> &#8212; Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor,<br \/>\n    Jorge &#8212; exclamou Maur&iacute;cio indignado &#8212; bem v&ecirc;s que,<br \/>\n    desde este momento, perdeste para mim todo o prest&iacute;gio e toda a autoridade<br \/>\n    moral. Tive at&eacute; hoje candura bastante para tomar a s&eacute;rio o teu<br \/>\n    car&aacute;cter de prud&ecirc;ncia e a tua lealdade, mas desde que vejo a<br \/>\n    hipocrisia, que havia em tudo isso, sou eu que domino e que tenho o direito<br \/>\n    de interrogar e de censurar.<\/p>\n<p> &#8212; Enlouqueceste, Maur&iacute;cio? &#8212; perguntou Jorge em tom quase<br \/>\n    de piedade, que mais irritou o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que indigna e rid&iacute;cula com&eacute;dia andas tu a representar<br \/>\n    neste mundo? &#8212; tornou este quase alucinado. &#8212; Na tua idade tens<br \/>\n    j&aacute; coragem para tanto ! Armares-te de severidades pedantes contra as<br \/>\n    minhas loucuras de rapaz, loucuras leais afinal de contas e a descoberto,<br \/>\n    loucuras, mas n&atilde;o vilezas, e ocultares na sombra actos, que a mim,<br \/>\n    ao estouvado e perdido, fariam corar de vergonha! Oh! n&atilde;o te invejo<br \/>\n    o talento de comediante, Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio, repara que n&atilde;o est&aacute;s em ti.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, eu tenho esse defeito. N&atilde;o sei medir as minhas palavras,<br \/>\n    n&atilde;o sei encobrir, nem disfar&ccedil;ar ; tudo o que penso me vem aos<br \/>\n    l&aacute;bios.<\/p>\n<p> Ontem dizia que te estimava e respeitava, e era verdade ; hoje digo-te que<br \/>\n    te desprezo e te lastimo, e &eacute; verdade tamb&eacute;m. Cuidas que n&atilde;o<br \/>\n    me recordo das tuas palavras e dos teus conselhos de h&aacute; poucos dias<br \/>\n    ? Invocaste o nome sagrado de nossa m&atilde;e, a mem&oacute;ria veneranda<br \/>\n    de Beatriz, para qu&ecirc;? para exigires de mim uma promessa, dizias tu,<br \/>\n    que era a de respeitar a paz de cora&ccedil;&atilde;o de uma rapariga, que<br \/>\n    uma aben&ccedil;oara e a quem a outra quisera como a irm&atilde;; mas sob<br \/>\n    a capa dessa promessa ia a de te deixar em paz no gozo das tuas aventuras<br \/>\n    nocturnas e dos teus amores trai&ccedil;oeiros e escandalosos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sil&ecirc;ncio ! &#8212; exclamou Jorge com um tom intimativo que<br \/>\n    cortou em meio as palavras do irm&atilde;o. &#8212; Podia perdoar-te todos<br \/>\n    os insultos feitos ao meu car&aacute;cter; n&atilde;o posso consentir que<br \/>\n    calunies quem n&atilde;o est&aacute; aqui para se defender, e quem tinha direito<br \/>\n    a esperar encontrar em ti um defensor e n&atilde;o um caluniador. Ordeno-te<br \/>\n    sil&ecirc;ncio em nome de alguns restos de honra, que ainda te deixassem intacta<br \/>\n    as companhias devassas que freq&uuml;entas.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; l&aacute; isso, priminho, que &eacute; l&aacute; isso<br \/>\n    ? &#8212; acudiram imediatamente os dois manos.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o se intimidou.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me assustam as suas amea&ccedil;as. Sei agora o que significa<br \/>\n    esta espionagem e aquelas gargalhadas c&iacute;nicas e alvares de h&aacute;<br \/>\n    pouco.<\/p>\n<p> Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem &eacute; de<br \/>\n    estranhar o conceito que formam das inten&ccedil;&otilde;es dos outros de<br \/>\n    que julgam pelas suas. O que lamento &eacute; ver-te associado a esta empresa,<br \/>\n    Maur&iacute;cio, porque, fa&ccedil;o justi&ccedil;a ao teu caracter, deve<br \/>\n    repugnar-te intimamente o passo que deste.<\/p>\n<p> &#8212; Em vez de serm&otilde;es, priminho, n&atilde;o acha que seria melhor<br \/>\n    explicar-nos o que veio fazer a horas mortas a esta casa? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    sinto a necessidade de explicar as minhas ac&ccedil;&otilde;es diante de tais<br \/>\n    ju&iacute;zes. Pouco me importa a estima em que t&ecirc;m a minha reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    os senhores do Cruzeiro. Resignar-se-&atilde;o portanto a prescindirem das<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es que pedem, Os dois riram-se maliciosamente. Jorge<br \/>\n    prosseguiu: &#8212; Entendo esse riso. Conhe&ccedil;o-os. Sei que depois da<br \/>\n    espionagem se segue a cal&uacute;nia ; mas o meu desprezo &eacute; muito grande<br \/>\n    para transigir.<\/p>\n<p> Caluniem.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! N&oacute;s sabemos guardar um segredo. Sossega.<\/p>\n<p> &#8212; Sei qual &eacute; o alimento com que se nutre a sua ociosidade.<br \/>\n    N&atilde;o importa. A vontade, meus senhores, t&ecirc;m a estrada livre e<br \/>\n    contem que n&atilde;o serei eu que os estorve naquela que costumam seguir,<br \/>\n    porque n&atilde;o a frequento.<\/p>\n<p> Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar ; depois, voltando- se para<br \/>\n    Maur&iacute;cio: &#8212; Repara que j&aacute; desceste o primeiro degrau da<br \/>\n    inf&acirc;mia : espiaste ; agora v&ecirc; se desces o segundo, caluniando.<br \/>\n    H&aacute; naquela casa uma fam&iacute;lia tranquila e respeitada, ajuda agora<br \/>\n    esta gente a manch&aacute;-la de lama, ajuda ; o insulto &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    para quem n&atilde;o precisa de se abaixar muito para a apanhar.<\/p>\n<p> Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional prud&ecirc;ncia<br \/>\n    a correc&ccedil;&atilde;o que lhes infligiram as palavras de Jorge, e limitaram-se<br \/>\n    a acompanh&aacute;-lo de risadas, quando ele se retirou.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio estava j&aacute; sentindo remorsos do que dissera ao irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Este adquirira sobre ele o seu antigo ascendente.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui &#8212; disse Maur&iacute;cio,<br \/>\n    arrependido.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ? Parece-te isso ? Pois vai pedir perd&atilde;o ao mano &#8212;<br \/>\n    tornou- lhe o padre, rindo com desd&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Parvo ! &#8212; exclamou o doutor. &#8212; Querem ver que engoliu<br \/>\n    a arara ? ! &#8212; Deixa l&aacute;, ent&atilde;o que queres? a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    tem destas canduras.<\/p>\n<p> &#8212; Mas voc&ecirc;s ainda acreditam?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, adeus ! Vai-te deitar e v&ecirc; se nos arranjas umas<br \/>\n    indulg&ecirc;ncias do mano Jorge.<\/p>\n<p> E os primos deixaram Maur&iacute;cio, e partiram zombando da candura dele.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio voltou a casa desgostoso de si e com o esp&iacute;rito flutuando<br \/>\n    entre o remorso e a suspeita.<\/p>\n<h2>XVII<\/h2>\n<p>AMANHECEU alvoro&ccedil;ada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para<br \/>\n    o jantar, em homenagem a Gabriela.<\/p>\n<p> Naquele tranquilo e silencioso edificio, que parecia constantemente absorvido<br \/>\n    nas recorda&ccedil;&otilde;es dos seus tempos de gl&oacute;ria, notava-se<br \/>\n    um movimento excepcional.<\/p>\n<p> O velho fidalgo n&atilde;o quisera faltar &agrave;s tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de hospitalidade que a fam&iacute;lia lhe legara.<\/p>\n<p> Ordenou que, embora &agrave; custa de qualquer sacrif&iacute;cio, se celebrasse<br \/>\n    a chegada da sobrinha, segundo o velho estilo, convidando-se para jantar cs<br \/>\n    representantes da mais preclara nobreza dos arredores.<\/p>\n<p> Ainda que a tristeza e misantropia, de que era v&iacute;tima, o trouxes<br \/>\n    sem, havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras &eacute;pocas,<br \/>\n    o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se &agrave; impertinencia de lhes<br \/>\n    abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pr&aacute;tica<br \/>\n    que lhe impunham os brios de fidalgo criado nos h&aacute;bitos de grandeza<br \/>\n    e liberalidade de um solar de prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> Jorge tentara ainda opor algumas sensatas reflex&otilde;es a esta dispendiosa<br \/>\n    exibi&ccedil;&atilde;o de uma opul&ecirc;ncia mentida; mas encontrou o pai<br \/>\n    inflex&iacute;vel.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, que antevia a perspectiva de um daqueles regalados<br \/>\n    jantares, que se tinham ido com os d&iacute;zimos, com os forais, com as lutuosas,<br \/>\n    com os conventos, com as mil&iacute;cias e com muitas outras coisas igualmente<br \/>\n    despertadoras das suas clericais saudades, frei Janu&aacute;rio, dizemos,<br \/>\n    sentia em si uns j&uacute;bilos de crian&ccedil;a, que nem podia nem procurava<br \/>\n    disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Eloquente como nunca, corroborou a opini&atilde;o do fidalgo, fazendo- lhe<br \/>\n    bem sentir o deslustro que sofreria o bras&atilde;o da casa se n&atilde;o<br \/>\n    se observassem essas pr&aacute;ticas senhoris dos tempos passados, e dando<br \/>\n    como f&aacute;ceis de aplanar todas as dificuldades que, &agrave; primeira<br \/>\n    vista, apresentava o projecto.<\/p>\n<p> A Jorge, que lhe suscitava algumas objec&ccedil;&otilde;es, o egresso somente<br \/>\n    respondia : &#8212; Tenha paci&ecirc;ncia, Sr. Jorge, a nobreza obriga ! &#8212;<br \/>\n    Obriga a ser nobre, que &eacute; ser leal, sincero, honrado, sem afecta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem prodigalidade e sem sumptuosidades que se sustentem &agrave; custa alheia.<\/p>\n<p> &#8212; &Agrave; custa alheia ? ! &#8212; Enquanto esta casa tiver uma d&iacute;vida<br \/>\n    &eacute; &agrave; custa alheia que vive, gere o dinheiro de outros e n&atilde;o<br \/>\n    lhe &eacute; airoso gastar em festas e banquetes o que precisa para remir-se<br \/>\n    primeiro e para prosperar depois.<\/p>\n<p> &#8212; uma casa de fidalgos n&atilde;o &eacute; uma casa de comerciantes.<br \/>\n    Que estes, n&atilde;o t&ecirc;m um nome a respeitar, que se n&atilde;o metam<br \/>\n    em cavalarias altas, entende-se. E &eacute; at&eacute; muito para sentir ver<br \/>\n    por a&iacute; fazer o contr&aacute;rio, como se v&ecirc; ! Mas agora quem<br \/>\n    tem bras&atilde;o na porta e retratos nas paredes&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quem tem bras&atilde;o e retratos, e vive como nesta casa se tem<br \/>\n    vivido, arrisca-se muito a ter de vender um dia bras&otilde;es e av&oacute;s,<br \/>\n    por pre&ccedil;o m&oacute;dico, ao comerciante que teima em meter-se em cavalarias<br \/>\n    altas, e que tem a felicidade de n&atilde;o cair do cavalo abaixo.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, ele a&iacute; vem com as suas ! Eu j&aacute; lhe disse, n&atilde;o<br \/>\n    percebo que id&eacute;ias s&atilde;o essas com que o menino me anda h&aacute;<br \/>\n    tempos. Ora para o que lhe havia de dar! O filho mais velho de uma casa como<br \/>\n    esta, aparentado com as primeiras fam&iacute;lias do reino, com marqueses<br \/>\n    e duques da melhor linhagem, tudo nobreza antiga e da que n&atilde;o admite<br \/>\n    d&uacute;vida, a falar como qualquer desses bacharelitos que v&ecirc;m de<br \/>\n    Coimbra, ma&ccedil;&otilde;es nos ossos e republicanos na alma ! uma coisa<br \/>\n    assim ! Apesar da repugn&acirc;ncia que sentia pela festa ordenada por o pai,<br \/>\n    Jorge julgou prudente superintender nos aprestos dela, para obstar a que fossem<br \/>\n    dirigidos pelos alvitres do padre procurador.<\/p>\n<p> um desses alvitres fora o de se pedir emprestadas &agrave;s pr&oacute;prias<br \/>\n    familias convidadas diversas pe&ccedil;as de baixela, de que estava desprevenida<br \/>\n    a copa da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Este rid&iacute;culo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa<br \/>\n    t&aacute;ctica, porque, explicava ele : cada familia, conhecendo apenas a<br \/>\n    prata que lhe pertencia, havia de supor que t&ocirc;da a mais era da casa,<br \/>\n    que em tempo fora das mais bem providas nesta esp&eacute;cie. Por tal forma<br \/>\n    n&atilde;o se tornaria notada a falta, e cada qual se daria at&eacute; por<br \/>\n    lisonjeado em haver merecido do propriet&aacute;rio esta prova de confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o se deixou convencer, apesar do persuasivo da l&oacute;gica<br \/>\n    ; e em despeito de veementes protestos do padre, exigiu que o servi&ccedil;o<br \/>\n    se fizesse somente com o pouco ou muito que houvesse em casa.<\/p>\n<p> O padre apelou para o fidalgo, que nisto por&eacute;m decidiu a favor do<br \/>\n    filho.<\/p>\n<p> Os convidados para o jantar eram todos da mais genu&iacute;na fidalguia<br \/>\n    da prov&iacute;ncia. Por muitas daquelas veias andava gl&oacute;bulo de sangue,<br \/>\n    que j&aacute; pertencera a Fu&aacute;s Roupinho ou a Egas Moniz, e que por<br \/>\n    um mist&eacute;rio fisiol&oacute;gico, que s&oacute; se d&aacute; naquela<br \/>\n    esmerilhada casta, conseguira transmitir-se inteiro de veias para veias, atrav&eacute;s<br \/>\n    de vinte gera&ccedil;&otilde;es, com o fim providencial de manter inabal&aacute;veis<br \/>\n    os brios da ra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Era um gosto seguir pelos s&eacute;culos fora a linha, pela qual alguns<br \/>\n    dos presentes procediam muito direitamente de qualquer not&aacute;vel her&oacute;i<br \/>\n    das origens da monarquia. Havia tal que havia tirado a limpo o n&uacute;mero<br \/>\n    de ordem que lhe competia naquela ilustre enfiada de morgados, e que deixava<br \/>\n    evidente, por um autem genuit nobiliario, ser o vig&eacute;simo ou o d&eacute;cimo<br \/>\n    s&eacute;timo rebent&atilde;o de sua preclar&iacute;ssima cepa. Bom fora que<br \/>\n    ele se tivesse entregado a esses c&aacute;lculos, por n&atilde;o ser prov&aacute;vel<br \/>\n    que aparecesse, no suceder dos tempos, outro esp&iacute;rito de igual alcance,<br \/>\n    que ousasse mergulhar em t&atilde;o transcendentes e &uacute;teis computa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; e assim ficaria a humanidade privada de uma no&ccedil;&atilde;o valios&iacute;ssima.<\/p>\n<p> Embora estivessem um tanto enfezadas e pecas quase todas aquelas verg&ocirc;nteas,<br \/>\n    sempre derivavam de uma profunda cepa; e quem n&atilde;o havia de preferi-las<br \/>\n    a ramos embora cheios de vi&ccedil;o, cujas ra&iacute;zes estivessem &agrave;<br \/>\n    flor da terra? _. Os dotes f&iacute;sicos tinham, &eacute; verdade, sofrido<br \/>\n    um pouco com os extremos e cuidados empregados para conservar a crise aristocr&aacute;tica<br \/>\n    daquele sangue livre de t&ocirc;da a mistura que o derrancasse ; os dotes<br \/>\n    intelectuais, em geral, ressentiam-se do cord&atilde;o sanit&aacute;rio, de<br \/>\n    que os chefes daquelas fam&iacute;lias as haviam cingido para precav&ecirc;-las<br \/>\n    da infec&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias novas, propagadas pelos livros<br \/>\n    e jornais da actualidade.<\/p>\n<p> Mas l&aacute; estava o fermento da fidalguia, que era o essencial, e que<br \/>\n    supria bem a sa&uacute;de e a ilustra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Algumas fam&iacute;lias, que cedendo um pouco &agrave;s exig&ecirc;ncias<br \/>\n    da &eacute;poca, n&atilde;o tinham trancado de todo os port&otilde;es dos<br \/>\n    seus solares a certas inova&ccedil;&otilde;es, eram por esse facto olhadas<br \/>\n    com desconfian&ccedil;a por os puros, que as acusavam de eivadas pela lepra<br \/>\n    do s&eacute;culo.<\/p>\n<p> Enquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre da<br \/>\n    Casa Mourisca grupos variados e caracter&iacute;sticos. As senhoras de idade<br \/>\n    madura, tias e m&atilde;es, sentadas em semic&iacute;rculo em um dos &acirc;ngulos<br \/>\n    da sala, narravam pausadamente umas &agrave;s outras as ocorr&ecirc;ncias<br \/>\n    dom&eacute;sticas relativas ao intervalo de tempo em que se n&atilde;o tinham<br \/>\n    visto, exaltavam os dotes pessoais do filho primog&eacute;nito e as prendas<br \/>\n    da menina da casa.<\/p>\n<p> Finalmente combinavam enlaces matrimoniais entre os seus filhos e sobrinhos,<br \/>\n    de maneira que o sangue dos descendentes sa&iacute;sse ainda mais rico em<br \/>\n    ess&ecirc;ncia aristocr&aacute;tica, se &eacute; que era suscept&iacute;vel<br \/>\n    de maior apuro.<\/p>\n<p> Os chefes de fam&iacute;lia, passeando na sala ou formando grupos nos v&atilde;os<br \/>\n    das janelas, lidavam na sua tarefa de vinte anos: a de demonstrar que o que<br \/>\n    perdera a causa realista fora a trai&ccedil;&atilde;o e o suborno ; e, arvorados<br \/>\n    em profetas, entoavam trenos sobre a iminente dissolu&ccedil;&atilde;o social,<br \/>\n    parafraseando os artigos de fundo da Na&ccedil;&atilde;o e do Direito.<\/p>\n<p> A aboli&ccedil;&atilde;o dos morgados e v&iacute;nculos, definitivamente<br \/>\n    decretada poucos anos antes, fornecia farto alimento para aquelas jeremiadas<br \/>\n    ; os dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos<br \/>\n    filhos, desbaratando-lhes a leg&iacute;tima com a sua imprevid&ecirc;ncia<br \/>\n    e prodigalidade, lan&ccedil;avam agora &agrave; conta da lei o que era a conseq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    l&oacute;gica da sua m&aacute; administra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As raparigas falavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e dispunham<br \/>\n    de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer dos primos presentes,<br \/>\n    em cujo n&uacute;mero se continham os namorados de cada uma ou de mais do<br \/>\n    que uma. Estas representantes das po&eacute;ticas e vaporosas castel&atilde;s,<br \/>\n    que na Meia-idade premiavam os campeadores na li&ccedil;a, os guerreiros na<br \/>\n    volta dos combates, e os menestr&eacute;is e pajens que lhes endere&ccedil;avam<br \/>\n    conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham perdido muito da poesia<br \/>\n    do tipo primitivo.<\/p>\n<p> Vivendo em uma &eacute;poca em que n&atilde;o havia campe&otilde;es, guerreiros,<br \/>\n    nem trovadores para premiar, limitavam-se as meninas a aceitar a corte dos<br \/>\n    primos, tamb&eacute;m muito pouco parecidos com os seus cavaleirosos av&oacute;s,<br \/>\n    e com a maior candura, que pode medrar na prov&iacute;ncia, roubavam umas<br \/>\n    &agrave;s outras os noivos e os namorados.<\/p>\n<p> Algumas havia ali mais revolucion&aacute;rias, que tinham conseguido introduzir<br \/>\n    o piano em casa e com ele as m&uacute;sicas da moda, obtendo uma ou outra<br \/>\n    vez dos pais a concess&atilde;o de dar uma partida, onde a nata da nobreza<br \/>\n    provinciana dan&ccedil;ava os Lanceiros como qualquer sociedade de artistas.<\/p>\n<p> Os rapazes, reunidos no terra&ccedil;o, fumavam e atiravam a rev&oacute;lver<br \/>\n    aos troncos das &aacute;rvores ou &agrave;s avezitas que pousavam nos ramos.<\/p>\n<p> A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios ;<br \/>\n    se alguns haviam descido at&eacute; ao ponto de irem a Coimbra fazer &agrave;<br \/>\n    ci&ecirc;ncia a honra de a estudar, poucos desses mostravam as habilita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    adquiridas, exercendo qualquer mister social. Seria dobrar o desdouro. Cometida<br \/>\n    a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos filhos dos comerciantes<br \/>\n    e lavradores, devia-se ao menos seguir o exemplo do mano bacharel do Cruzeiro,<br \/>\n    o qual evitara a circunst&acirc;ncia agravante de servir depois para alguma<br \/>\n    coisa.<\/p>\n<p> Formava grupo &agrave; parte frei Janu&aacute;rio em animado coloquio com<br \/>\n    outros dois padres, tamb&eacute;m apensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos<br \/>\n    na defesa dos leg&iacute;timos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros-livres.<\/p>\n<p> Mauricio, na companhia dos rapazes no terra&ccedil;o, entre os quais se<br \/>\n    achavam os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas divers&otilde;es,<br \/>\n    mas sem perder certo ar de melancolia, que lhe ficara das cenas da v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Jorge atendia a todos, mas nele era ainda mais evidente do que em Maur&iacute;cio<br \/>\n    a preocupa&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Desde a v&eacute;spera os dois irm&atilde;os n&atilde;o haviam trocado uma<br \/>\n    palavra.<\/p>\n<p> Gabriela notara-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado<br \/>\n    entre eles.<\/p>\n<p> N&atilde;o deixava, por&eacute;m, a baronesa de desempenhar pela sua parte,<br \/>\n    com superior ci&ecirc;ncia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra<br \/>\n    de quem tinha lugar a festa de fam&iacute;lia. Ia de grupo a grupo, tendo<br \/>\n    uma amabilidade certeira para cada indiv&iacute;duo, e conseguindo desvanecer<br \/>\n    com as inebriantes inala&ccedil;&otilde;es de lisonja a superciliosa desconfian&ccedil;a<br \/>\n    que os seus ares de corte da actualidade despertavam naqueles esp&iacute;ritos,<br \/>\n    escrupulosos e respeitadores da corte velha.<\/p>\n<p> Houve uma circunst&acirc;ncia que excitou a curiosidade da baronesa.<\/p>\n<p> Notara ela que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro<br \/>\n    haviam conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre<br \/>\n    que este lhes voltava costas, trocavam uns com os outros risos mal sufocados.<br \/>\n    Da roda dos rapazes comunicara-se o mesmo efeito &agrave; das raparigas, por<br \/>\n    interm&eacute;dio dos coloquios de alguns namorados, e, dentro em pouco, viu-as<br \/>\n    olharem tamb&eacute;m para Jorge com certa estranheza, e cochicharem e rirem<br \/>\n    umas com as outras, quando livres da observa&ccedil;&atilde;o dele.<\/p>\n<p> A misteriosa confidencia passava de l&aacute;bios para ouvidos com rapidez<br \/>\n    tal, que momentos depois estava nas vizinhan&ccedil;as de Gabriela.<\/p>\n<p> N&atilde;o p&ocirc;de a curiosidade desta tardar mais tempo em informar-se<br \/>\n    do que assim agitava a sociedade mo&ccedil;a e que at&eacute; j&aacute; havia<br \/>\n    deixado estupefacta mais de uma respeit&aacute;vel matrona, que por acaso<br \/>\n    fora part&iacute;cipe do segredo.<\/p>\n<p> &#8212; O que &eacute; que se diz por a&iacute;, priminha ? &#8212; perguntou<br \/>\n    a baronesa &agrave; rapariga mais pr&oacute;xima &#8212; corre decerto alguma<br \/>\n    not&iacute;cia estranha, porque as vejo todas em alvoro&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; E com raz&atilde;o. Ent&atilde;o n&atilde;o sabe ? O primo Jorge<br \/>\n    tem um namoro ! &#8212; E o caso &eacute; para tais espantos ?<\/p>\n<p>&#8212; Pudera n&atilde;o ! Ent&atilde;o n&atilde;o conhece o primo Jorge,<br \/>\n    j&aacute; vejo. Ainda n&atilde;o houve quem lhe merecesse um cumprimento,<br \/>\n    que n&atilde;o fosse de simples cerim&ocirc;nia. Todos iriam jurar que era<br \/>\n    imposs&iacute;vel que ele gostasse de algu&eacute;m. E vejam l&aacute;! &#8212;<br \/>\n    &Eacute; porque pertence &agrave; esp&eacute;cie rara dos que amam s&oacute;<br \/>\n    uma vez e dos que amam de maneira tal que n&atilde;o podem sem remorsos amar<br \/>\n    por passatempo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ser&aacute;. Mas vejam aonde ele foi cair I &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    quem &eacute; ela? &#8212; A Berta. A filha do Tom&eacute; ! &#8212; Fico<br \/>\n    na mesma, priminha.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o conhece o Tom&eacute;? O Tom&eacute; da Herdade. um lavrador<br \/>\n    que foi criado do tio Luis e que est&aacute; hoje rico.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! bem sei ; ent&atilde;o &eacute; uma rapariga do campo.<\/p>\n<p> &#8212; Envernizada na cidade, onde o pateta do pai a mandou educar.<\/p>\n<p> Chegou h&aacute; dias a casa.<\/p>\n<p> &#8212; E Jorge conhecia-a? &#8212; Em crian&ccedil;a, sim. Depois julgo<br \/>\n    que se n&atilde;o viram sen&atilde;o agora.<\/p>\n<p> &#8212; E quem descobriu essa paix&atilde;o? &#8212; Viram-no sair umas<br \/>\n    poucas de noites de casa dela.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge ? ! &#8212; &Eacute; verdade. O3 primos do Cruzeiro viram-no,<br \/>\n    e parece at&eacute; que o primo Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Maur&iacute;cio?! &#8212; Sim, e o mais bonito &eacute; que<br \/>\n    esse tamb&eacute;m pelos modos tinha as suas pretens&otilde;es, por passatempo,<br \/>\n    j&aacute; se sabe, olha o outro ! a esse ent&atilde;o tudo lhe serve. De maneira<br \/>\n    que hoje est&atilde;o que nem palavra dizem um ao outro.<\/p>\n<p> &#8212; Isso j&aacute; eu notei; mas custa-me a crer que Jorge&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E a todos. Pois aquele sonsinho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; isso o que eu dizia. O que eu acredito &eacute;<br \/>\n    que, sendo verdade o que me diz, Jorge ama deveras essa rapariga, e ele n&atilde;o<br \/>\n    tem car&aacute;cter para abusar de algu&eacute;m. Deus sabe o que de tudo<br \/>\n    isso pode resultar.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer a prima que &eacute; capaz de casar com ela? &#8212;<br \/>\n    Sim, estou convencida de que se ele a ama, formou j&aacute; essa ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e h&aacute;-de cumpri-la.<\/p>\n<p> &#8212; Tinha que ver a prima Berta da P&oacute;voa ! &#8212; Eu lhe digo,<br \/>\n    para a menina talvez tivesse que ver, para mim, que j&aacute; estou costumada<br \/>\n    a esses espect&aacute;culos, seria a coisa mais natural do mundo.<\/p>\n<p> Assim informada do que se passava na sala, Gabriela observou com mais aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Maur&iacute;cio e Jorge, e estudou nas fisionomias de ambos os vest&iacute;gios<br \/>\n    daquele mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Era manifesta a frieza que os separava naquela manh&atilde;. Evitavam-se<br \/>\n    tanto quanto podiam. As frontes de um e de outro estavam contra&iacute;das,<br \/>\n    e os sorrisos gelavam-se-lhes nos l&aacute;bios, sempre que queriam for&ccedil;&aacute;-los<br \/>\n    a aparecerem.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; verdade que Jorge ame essa rapariga ? Nesse caso deve<br \/>\n    ser uma paix&atilde;o bem s&eacute;ria a dele &#8212; pensava Gabriela.<\/p>\n<p> Nesse tempo a porta da sala abriu-se e D. Luis apareceu aos seus h&oacute;spedes<br \/>\n    vestido com aquele esmero e gravidade, que sabia guardar em todos os actos<br \/>\n    da sua vida.<\/p>\n<p> O fidalgo n&atilde;o tivera pressa em apresentar-se na sala.<\/p>\n<p> Fizera-se substituir por Jorge na solenidade da recep&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    na apresenta&ccedil;&atilde;o de Gabriela a todos os primos, que ainda a n&atilde;o<br \/>\n    conhecessem.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio explicara a aus&ecirc;ncia do fidalgo, atribuindo-a<br \/>\n    a inc&oacute;modos habituais, que somente mais tarde lhe permitiam sair dos<br \/>\n    aposentos.<\/p>\n<p> A verdade, por&eacute;m, era que D. Luis desejava encurtar, quanto lhe fosse<br \/>\n    poss&iacute;vel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes naquele<br \/>\n    dia dedicado aos deveres de hospitalidade.<\/p>\n<p> Produziu alvoro&ccedil;o na sala a entrada de D. Luis.<\/p>\n<p> Todos correram a cumpriment&aacute;-lo com aquela defer&ecirc;ncia, que<br \/>\n    a &iacute;ndole s&eacute;ria e melanc&oacute;lica do fidalgo e a evidente<br \/>\n    superioridade da sua intelig&ecirc;ncia e educa&ccedil;&atilde;o a todos impunha.<\/p>\n<p> &#8212; Como vais tu, D. Luis? &#8212; disse, apertando-lhe a m&atilde;o,<br \/>\n    um ex-coronel de mil&iacute;cias, que havia acabado, pouco tempo antes, de<br \/>\n    amea&ccedil;ar com a espada, que tinha em casa na gaveta, todas as constitui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do mundo. &#8212; Gra&ccedil;as a Deus, que deste sinal de vida, homem ! &#8212;<br \/>\n    G primo D. Luis devia procurar mais distrac&ccedil;&otilde;es &#8212; acudiu<br \/>\n    a vig&eacute;sima descendente de um dos guerreiros de Ourique.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda bem que a priminha Gabriela o veio tirar do seu letargo &#8212;<br \/>\n    acrescentou outra, ramo infrut&iacute;fero de &aacute;rvore igualmente ilustre.<\/p>\n<p> O t&iacute;tulo de baronesa raros o concediam a Gabriela, porque era de<br \/>\n    origem suspeita para aqueles pechosos aristocratas.<\/p>\n<p> D. Luis respondeu com um for&ccedil;ado sorriso aos cumprimentos, dizendo<br \/>\n    : &#8212; Devem procurar-se as distrac&ccedil;&otilde;es, quando o esp&iacute;rito<br \/>\n    se n&atilde;o d&aacute; bem com as id&eacute;ias tristes. Mas isso n&atilde;o<br \/>\n    sucede comigo. J&aacute; n&atilde;o posso viver sem esta escura companhia<br \/>\n    dos meus pensamentos. O esfor&ccedil;o para fugir-lhe mais me aflige.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! Sentir-se um homem bem com a tristeza I Ora essa ! &#8212;<br \/>\n    estranhou o ex-miliciano.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o contradi&ccedil;&otilde;es aparentes &#8212; disse Gabriela<br \/>\n    para o tio. &#8212; As saudades t&ecirc;m disso. Por isso lhes chamaram &laquo;gosto<br \/>\n    amargo e pungir delicioso&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; que lhes chama isso ? &#8212; perguntou uma fidalga<br \/>\n    de &oacute;culos, um pouco sentimental e literata, que estava ao p&eacute;<br \/>\n    de Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; Foi Almeida Garrett &#8212; respondeu esta, sorrindo, como quem<br \/>\n    suspeitava que n&atilde;o ficaria satisfeita a curiosidade da interrogante,<br \/>\n    Efectivamente a historia liter&aacute;ria de Portugal parara para ela em Jos&eacute;<br \/>\n    Agostinho de Macedo.<\/p>\n<p> &#8212; Almeida Garrett ! &#8212; repetiu um dos mais intrat&aacute;veis<br \/>\n    realistas presentes que ouvira a resposta &#8212; eu conheci um desse nome,<br \/>\n    que era secret&aacute;rio ou coisa assim do duque de P&aacute;lmela naqueles<br \/>\n    bons governos do Porto em 1834; isso era um liberalengo dos quatro costados!<br \/>\n    Na linguagem pitoresca deste sujeito, a palavra liberalengo era a mais eloquente<br \/>\n    express&atilde;o com que S. Ex.&ordf; conseguia traduzir todo o desprezo que<br \/>\n    lhe mereciam as id&eacute;ias e os homens de 1820 e 1832.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; E perdeu-o de vista depois ? &#8212; inquiriu Gabriela com<br \/>\n    leve ironia.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, perdi. Eu conheci-o por acaso.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o o conheceu orador no parlamento, ministro,<br \/>\n    poeta, prosador e chefe de uma revolu&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria? O<br \/>\n    fidalgo abriu os olhos, prolongou os l&aacute;bios e sacudiu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    dizendo : &#8212; Olhe, prima; eu, a respeito de parlamento&#8230; Temos conversado<br \/>\n    ; n&atilde;o sei se me entende. De ministros tamb&eacute;m n&atilde;o quero<br \/>\n    sabei, porque tenho receio de que me digam que nos governa o filho do meu<br \/>\n    sapateiro. Agora a respeito de poetas&#8230; se quer tamb&eacute;m que lhe diga,<br \/>\n    eu nunca tive queda para sonetos. L&aacute; chefe de revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estou convencido de que ele seria, porque para guerrilheiro estava talhado.<\/p>\n<p> A baronesa deu muita raz&atilde;o a este seu primo e foi para um grupo de<br \/>\n    raparigas, que passaram a interrog&aacute;-la sobre a &uacute;ltima moda do<br \/>\n    talhe dos vestidos.<\/p>\n<p> Anunciou-se, enfim, o jantar. Houve geral reboli&ccedil;o na sala, e a companhia<br \/>\n    seguiu mais ou menos an&aacute;rquicamente para o banquete.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio tinha meditado maduramente a ordem de coloca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos diversos convivas, segundo as regras da etiqueta, em que ele era mestre.<br \/>\n    E como neste ponto ningu&eacute;m lhe contrariasse os planos, havia-se sa&iacute;do<br \/>\n    muito &agrave; sua vontade da tarefa.<\/p>\n<p> Assumindo, pois, as fun&ccedil;&otilde;es de mestre de cerim&ocirc;nias,<br \/>\n    come&ccedil;ou a designar a cada convidado o lugar que lhe competia.<\/p>\n<p> Infelizmente, por&eacute;m, nem iodos foram d&oacute;ceis &agrave;s indica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do padre, e sobretudo os rapazes, que, sem lhe darem aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    iam sentar- se onde muito bem queriam, e ao p&eacute; quase sempre de alguma<br \/>\n    prima, que n&atilde;o desgostava da vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Isto transtornou completamente os estudos do padre, que tivera mais que<br \/>\n    tudo em vista a separa&ccedil;&atilde;o dos sexos e das idades ; mas debalde<br \/>\n    protestou contra a anarquia que invadira a mesa.<\/p>\n<p> Quem, por&eacute;m, acabou por o perturbar foi D. Luis, quando do alto da<br \/>\n    mesa e com a hospitaleira cordialidade, que conseguiu afectar, exclamou :<br \/>\n    &#8212; Queiram sentar-se &agrave; vontade. &Eacute; bom que os velhos se<br \/>\n    misturem com os mo&ccedil;os para temperar os ardores da juventude com a prud&ecirc;ncia<br \/>\n    dos anos. Outras desigualdades n&atilde;o h&aacute; aqui a atender.<\/p>\n<p>Esta &ugrave;ltima parte fez torcer o nariz a um ou outro fidalgo que tinha<br \/>\n    motivos para se supor mais preclaro do que os primos, mas n&atilde;o houve<br \/>\n    protesto formulado e todos obedeceram ao convite do dono da casa.<\/p>\n<p> O padre esteve em risco de perder o apetite.<\/p>\n<p> Valeu-lhe, por&eacute;m, a judiciosa reflex&atilde;o que lhe fez ao ouvido<br \/>\n    o colega, dizendo: &#8212; Sentemo-nos, que bom lugar &eacute; todo aquele<br \/>\n    onde se come bem.<\/p>\n<p> Jorge ficou aos p&eacute;s da mesa e portanto fronteiro ao pai.<\/p>\n<p> Os primos do Cruzeiro, um de cada lado da mesa e perto da cabeceira, continuavam<br \/>\n    a sorrir provocadoramente e a fazer rir os outros.<\/p>\n<p> A passar perto de Jorge, para tomar lugar, a baronesa murmurou- lhe : &#8212;<br \/>\n    Fala-se de ti, Jorge.<\/p>\n<p> Jorge fez um sinal de quem estava informado do facto, e respondeu sorrindo<br \/>\n    de uma maneira especial: &#8212; Talvez se fale mais, e mais alto, daqui a<br \/>\n    pouco.<\/p>\n<p> O jantar n&atilde;o desdizia do puritanismo daquela sociedade.<\/p>\n<p> Era um jantar &agrave; portuguesa e digno de portugueses, que n&atilde;o<br \/>\n    querem: nostrum regnum ire fore de Portucalensibus.<\/p>\n<p> A Casa Mourisca, bem explorada, ainda deu para ostentar um esplendor, que<br \/>\n    se nada era em compara&ccedil;&atilde;o com o dos magn&iacute;ficos festins,<br \/>\n    que em tempos passados a animaram, n&atilde;o envergonhava o seu bras&atilde;o<br \/>\n    perante os fidalgos presentes, que, pela maior parte, o tinham tanto ou mais<br \/>\n    deteriorado.<\/p>\n<p> Os criados supriram com dilig&ecirc;ncia o n&uacute;mero, de modo que o<br \/>\n    servi&ccedil;o correu regular.<\/p>\n<p> Enquanto se servia a sopa e n&atilde;o se havia encetado as liba&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    reinou na sala aquele sil&ecirc;ncio moment&acirc;neo, pr&oacute;prio da ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> S&oacute; se ouve o tocar das colheres nos pratos e o sorvo mais ruidoso<br \/>\n    de alguns convivas, que se n&atilde;o constrangem. O apetite satisfaz-se,<br \/>\n    d&atilde;o-se tr&eacute;guas &agrave;s conversas. Depois retiram-se os primeiros<br \/>\n    pratos, enchem-se os copos, repousam os comensais, e de vizinho para vizinho<br \/>\n    trava-se a meia voz um di&aacute;logo cortado, sobre assuntos insignificantes.<\/p>\n<p> Depois o tinir das lou&ccedil;as e dos cristais, o vapor oloroso das iguarias,<br \/>\n    os efeitos excitantes dos vinhos animam o espirito ; o tom das conversas eleva-se,<br \/>\n    o vizinho fronteiro interv&eacute;m, cresce a confus&atilde;o, os risos misturam-se<br \/>\n    com as palavras, a timidez dissipa-se, cada qual sente-se com um arrojo que<br \/>\n    desconhece, vencem-se reservas e resist&ecirc;ncias que pareciam insuper&aacute;veis,<br \/>\n    reina a vida na sala do banquete.<\/p>\n<p> Por estas diversas e sucessivas fases passou o jantar em casa de D. Luis.<br \/>\n    No meio dele, berrava-se pol&iacute;tica ali, jogavam-se epigramas acol&aacute;,<br \/>\n    segredavam-se requebros em outro ponto, e dava-se largas &agrave; maledicencia<br \/>\n    em quase todos.<\/p>\n<p> Jorge conservara-se s&eacute;rio e reservado como estiver&agrave; toda a<br \/>\n    manh&atilde;.<\/p>\n<p>Mauricio fazia esfor&ccedil;os para mostrar-se despreocupado, por&eacute;m<br \/>\n    mal o conseguia.<\/p>\n<p> Para o fim do jantar percebia-se pelo tom de algumas risadas e pelo teor<br \/>\n    de algumas conversas, que os restos da garrafeira da Casa Mourisca n&atilde;o<br \/>\n    tinham desmentido os seus antigos cr&eacute;ditos, firmados em tantas fa&ccedil;anhas.<\/p>\n<p> Os primos do Cruzeiro sobre todos falavam em um tom de voz, que mais do<br \/>\n    que uma vez atra&iacute;ra as gerais aten&ccedil;&otilde;es e fizera contrair<br \/>\n    o sobrolho a D. Luis.<\/p>\n<p> A cada momento as alus&otilde;es a Jorge, que eles entremeavam nos seus<br \/>\n    informes discursos, tinham obrigado a maioria dos olhares a convergirem para<br \/>\n    o filho mais velho de D. Luis, que os arrostava com uma serenidade desprezadora,<br \/>\n    Encetaram-se os brindes. Brindou-se a baronesa, brindaram-se na pessoa dos<br \/>\n    seus chefes as fam&iacute;lias ilustres ali presentes, brindaram-se os caudilhos<br \/>\n    do partido realista, brindou-se em honra da santa causa, em honra da imprensa<br \/>\n    fiel, em honra das velhas institui&ccedil;&otilde;es, em honra do trono e<br \/>\n    do altar e de muitas outras coisas.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio para mostrar o seu fervor, esgotava o c&aacute;lice<br \/>\n    a cada brinde, e aproveitava os intervalos para fazer com os colegas, a meia<br \/>\n    voz, os seus brindes particulares.<\/p>\n<p> J&aacute; quando os &acirc;nimos estavam um pouco excitados por estas sucessivas<br \/>\n    liba&ccedil;&otilde;es, o primo padre levantou-se, e com os olhos injertados<br \/>\n    e o gesto um tanto transtornado, disse: &#8212; Meus senhores, tenho notado<br \/>\n    que o primo Jorge est&aacute; com um ataque de melancolia, de que n&atilde;o<br \/>\n    pode livrar-se. Os brindes que aqui se t&ecirc;m feito ainda o n&atilde;o<br \/>\n    desanuviaram. &Eacute; verdade que se brindaram fam&iacute;lias antigas e<br \/>\n    coisas velhas, e o passado n&atilde;o &eacute; l&aacute; das id&eacute;ias<br \/>\n    mais alegres. Eu por isso vou propor um brinde menos soturno, a ver se o distraio.<br \/>\n    Bebo &agrave; sa&uacute;de do Tome da Herdade e da sua fam&iacute;lia, com<br \/>\n    particular men&ccedil;&atilde;o da menina Berta, a quem Deus fa&ccedil;a muito<br \/>\n    feliz, assim como a todos quantos lhe querem bem.<\/p>\n<p> Este inesperado brinde produziu grande sensa&ccedil;&atilde;o. A parte mo&ccedil;a<br \/>\n    da companhia, prevenida como estava, principiou a sufocar os risos e a falar<br \/>\n    ao ouvido dos vizinhos ; os velhos abriram os olhos espantados ou indignavam-se<br \/>\n    com o desconchavo de brindar uma fam&iacute;lia pleb&eacute;ia depois de outras<br \/>\n    de t&atilde;o apurada ra&ccedil;a. A conseq&uuml;&ecirc;ncia foi que ningu&eacute;m<br \/>\n    correspondeu ao brinde, e os c&aacute;lices ficaram intactos na mesa. Seguiu-se<br \/>\n    um sil&ecirc;ncio profundo na sala.<\/p>\n<p> O primo do Cruzeiro, sem se intimidar, perguntou: &#8212; Ent&atilde;o que<br \/>\n    &eacute; isto? Ningu&eacute;m me secunda? E corria a vista em redor da mesa<br \/>\n    com express&atilde;o ir&ocirc;nica, que, a seu pesar, se desvaneceu ao encontrar<br \/>\n    a vista de Jorge, que, p&aacute;lido de intima como&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m<br \/>\n    se erguera e levantara o c&aacute;lice para responder : &#8212; Secundo eu,<br \/>\n    primo &#8212; disse ele, com um leve tremor na voz &#8212; e creia que da<br \/>\n    melhor vontade o fa&ccedil;o. Brinda-se uma fam&iacute;lia honrada, laboriosa<br \/>\n    e justa. A ningu&eacute;m deve repugnar o brinde, e muito menos a mim, a quem<br \/>\n    motivos particulares obrigam a vener&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; murmurou provocadoramente o padre, sentando-se com<br \/>\n    ares de vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> um meio sorriso passou por os l&aacute;bios de alguns dos espectadores desta<br \/>\n    cena.<\/p>\n<p> &#8212; Levante-se ! &#8212; ordenou Jorge ao padre com intimativa &#8212;<br \/>\n    oi&ccedil;a- -me de p&eacute;, que eu tamb&eacute;m estou de p&eacute; para<br \/>\n    secundar o seu brinde.<\/p>\n<p> &Ecirc; singular ! O padre ergueu-se, como se n&atilde;o pudesse resistir<br \/>\n    ao olhar indignado e imperioso de Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Repito &#8212; continuou este &#8212; brindo aquela fam&iacute;lia<br \/>\n    honrada, porque &eacute; honrada e porque motivos particulares me levam a<br \/>\n    vener&aacute;-la.<\/p>\n<p> E para lhes n&atilde;o dar ocasi&atilde;o de sorrirem outra vez, ou de afagarem<br \/>\n    a v&iacute;bora venenosa, que a&iacute; soltaram, eu lhes explico as minhas<br \/>\n    palavras.<\/p>\n<p> Se ouvirem verdades que lhes firam o orgulho de fidalgos, lancem a culpa<br \/>\n    da vexa&ccedil;&atilde;o a quem mas provocou. Meus senhores, eu acordei um<br \/>\n    dia com a firme resolu&ccedil;&atilde;o de lutar contra esta torrente que<br \/>\n    nos arrasta e afoga a todos, apesar dos nossos bras&otilde;es, dos nossos<br \/>\n    solares, dos nossos pergaminhos e das nossas galerias de retratos. Todos quantos<br \/>\n    aqui est&atilde;o podem contar das gl&oacute;rias passadas e da decad&ecirc;ncia<br \/>\n    e das humilha&ccedil;&otilde;es presentes. E n&oacute;s como todos. Eu era<br \/>\n    novo, tinha diante de mim a perspectiva de uma longa vida, pensava no futuro<br \/>\n    e n&atilde;o podia resignar-me &agrave; id&eacute;ia de morrer assim cobarde<br \/>\n    e ingloriamente. Reagi, encontrei felizmente em meu pai o aux&iacute;lio preciso,<br \/>\n    e, autorizado por ele, tomei sobre meus ombros a tarefa de sustentar as ru&iacute;nas<br \/>\n    vacilantes desta casa. A empresa, por&eacute;m, era mais dif&iacute;cil do<br \/>\n    que a supusera. Tolhia- me os movimentos a rede complicada, em que a errada<br \/>\n    ger&ecirc;ncia de muitos anos embara&ccedil;ara a administra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Cada passo dado para salvar-nos era mais um para a total ru&iacute;na. Devem<br \/>\n    compreender bem isto os que me escutam, porque a sorte das nossas casas &eacute;<br \/>\n    quase a mesma. De todos os lados para onde nos viramos, surge-nos a usura,<br \/>\n    o dolo e a m&aacute; f&eacute;. Nestas circunst&acirc;ncias s&oacute; me podia<br \/>\n    valer a experi&ecirc;ncia dos neg&oacute;cios, e essa faltava-me, o cr&eacute;dito,<br \/>\n    e quem mo reconheceria e aceitaria? o capital, e porque pre&ccedil;o poderia<br \/>\n    obt&ecirc;-lo? Perguntem ao nosso antigo administrador, aqui presente, o pre&ccedil;o<br \/>\n    por que ele o encontrava. Pois bem, senhores, um homem chegou-se a mim nestas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es e p&ocirc;s &agrave; minha disposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    leal e desinteressadamente, a sua experi&ecirc;ncia, o seu cr&eacute;dito<br \/>\n    e o seu capital. Gra&ccedil;as a este homem, era-me poss&iacute;vel libertar-me,<br \/>\n    sem baixeza, da usura que havia tantos anos nos devorava, aplicar vantajosamente<br \/>\n    os capitais obtidos e encetar um sistema, lento mas seguro, de administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que preparasse o caminho para um futuro resgate desta casa. Gra&ccedil;as<br \/>\n    a este homem, sorriam-me as esperan&ccedil;as de poder dizer um dia &agrave;s<br \/>\n    cinzas dos nossos antepassados, que eu tamb&eacute;m respeito, que repousassem<br \/>\n    em paz na sepultura, pois n&atilde;o viriam estranhos dissemin&aacute;-las<br \/>\n    ; e &agrave; mem&oacute;ria querida de minha m&atilde;e e de minha irm&atilde;<br \/>\n    que os que elas amaram n&atilde;o desertariam cobardemente dos lugares que<br \/>\n    lhes eram caros e que as viram morrer. Mas contra o generoso auxilio deste<br \/>\n    homem havia velhos preconceitos de fam&iacute;lia, mais apaixonados do que<br \/>\n    justos ; era-me pois imposs&iacute;vel recorrer a ele abertamente. Entre as<br \/>\n    preven&ccedil;&otilde;es e a gl&oacute;ria de minha casa n&atilde;o hesitei<br \/>\n    por&eacute;m. A consci&ecirc;ncia dizia-me que n&atilde;o devia hesitar. Resolvi<br \/>\n    acolher o oferecimento leal, mas tive de ocultar na sombra da noite, actos<br \/>\n    que n&atilde;o se envergonhariam da mais clara luz do dia. Quando precisava<br \/>\n    do conselho experiente desse homem, procurava- o de noite e clandestinamente.<br \/>\n    Os difamadores, que correm nas trevas &agrave; procura do alimento para a<br \/>\n    cal&uacute;nia, surpreenderam-me.<\/p>\n<p> Medindo as ac&ccedil;&otilde;es dos outros pela sua capacidade moral, sup&otilde;em-lhes<br \/>\n    sempre um motivo infame. O homem de quem lhes falei tem uma filha.<\/p>\n<p> No que h&aacute; de mais puro e mais sens&iacute;vel nas fam&iacute;lias,<br \/>\n    &eacute; ai que a cal&uacute;nia gosta de ferir. Essa pobre menina foi pois<br \/>\n    a v&iacute;tima escolhida. Agora se querem saber o nome do homem honrado,<br \/>\n    a quem devo experi&ecirc;ncia, cr&eacute;dito e capital, dir-lhes-ei que se<br \/>\n    chama Tom&eacute; da P&oacute;voa, a filha &eacute; Berta, a afilhada de meu<br \/>\n    pai; os caluniadores s&atilde;o esses que prop&otilde;em o brinde, lan&ccedil;ando<br \/>\n    no c&aacute;lice a pe&ccedil;onha de sua natureza de v&iacute;bora; mas brinde<br \/>\n    que eu de novo secundo sem receio nem hesita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E eu &#8212; exclamou a baronesa, imitando-o ; mas por ningu&eacute;m<br \/>\n    mais foi seguida, porque uma nova ocorr&ecirc;ncia veio absorver as aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> D. Luis que revelara a mais profunda estranheza desde o princ&iacute;pio<br \/>\n    da cena, provocada pelo fidalgo do Cruzeiro, crescera em agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; medida que as palavras de Jorge iam tendo para ele um sentido mais<br \/>\n    claro.<\/p>\n<p> As &uacute;ltimas fizeram-lhe passar o rosto por uma s&eacute;rie de mudan&ccedil;as,<br \/>\n    cada uma delas denunciadora de uma paix&atilde;o violenta.<\/p>\n<p> Ao nome de Tom&eacute; da P&oacute;voa, a ing&egrave;nua e leal declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jorge, os olhos do irritado fidalgo faiscaram e um rubor fugaz e intenso<br \/>\n    correu- -lhe nas faces, sucedendo-Ihe uma palidez profunda.<\/p>\n<p> Quando o filho terminou de falar, foi ele quem, por sua vez, se ergueu na<br \/>\n    cabeceira da mesa.<\/p>\n<p> A como&ccedil;&atilde;o que o dominava n&atilde;o lhe permitiu desde logo<br \/>\n    o uso da palavra.<\/p>\n<p> Todos os olhares se desviaram para aquele velho, p&aacute;lido, vestido<br \/>\n    de preto, severo e mudo, que, com as m&atilde;os apoiadas sobre a mesa e o<br \/>\n    olhar fulgurante, seguia com a vista por todos os espectadores desta cena.<\/p>\n<p> Afinal com a voz tr&eacute;mula e meia abafada, mas que a pouco e pouco<br \/>\n    se foi animando, o velho fidalgo come&ccedil;ou, dizendo: &#8212; Meus senhores,<br \/>\n    quando h&aacute; dias os convidei para virem a esta casa solenizar a honra<br \/>\n    que eu recebia da hospedagem da minha sobrinha, estava persuadido de que esta<br \/>\n    casa ainda era minha. N&atilde;o sabia que, abusando da confian&ccedil;a que<br \/>\n    eu depositara nele, um filho meu, o mais velho, o primeiro representante,<br \/>\n    no futuro, do nome e das gl&oacute;rias de sua fam&iacute;lia, havia empenhado<br \/>\n    a um dos criados dela o solar em que nascera. Soube-o agora. Pe&ccedil;o-lhes<br \/>\n    humildemente perd&atilde;o de os haver, pela minha ignor&acirc;ncia, sujeitado<br \/>\n    a esta baixeza. Desde este momento estamos todos aqui em situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    iguais, todos somos h&oacute;spedes do Tom&eacute; da Herdade. Em outros tempos,<br \/>\n    nos festins e saraus das nossas casas, os criados subiam disfar&ccedil;adamente<br \/>\n    as escadas, para virem das antec&aacute;maras e corredores espreitar para<br \/>\n    as salas, fascinados pelo esplendor que nelas viam; permitia-se-lhesisso.<br \/>\n    Hoje, por&eacute;m, senhores, se aqui nos demor&aacute;ssemos, v&ecirc;-los-&iacute;amos<br \/>\n    subir com outro intento, para vigiar que nas expans&otilde;es do nosso j&uacute;bilo<br \/>\n    n&atilde;o deterior&aacute;ssemos as alfaias, a mob&iacute;lia, a baixela<br \/>\n    e a casa, que j&aacute; lhes pertencem. A esta espionagem n&atilde;o me sujeito<br \/>\n    eu. Meus senhores, as minhas obriga&ccedil;&otilde;es de dono de casa terminaram.<br \/>\n    H&oacute;spede como os outros, tomo a liberdade de seguir o caminho que a<br \/>\n    dignidade me imp&otilde;e. Cada um consulte o mesmo conselheiro.<\/p>\n<p> E D. Luis, curvando-se diante de todos que o escutaram espantados, saiu<br \/>\n    da sala sem dar tempo a que o interrogassem ou detivessem.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio foi o primeiro que pressurosamente o seguiu.<\/p>\n<p> O resto da companhia parecia imobilizada nos seus lugares.<\/p>\n<p> Jorge, com os cotovelos apoiados na borda da mesa, conservava 0 rosto escondido<br \/>\n    entre as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Gabriela foi quem se subtraiu primeiro &agrave;quela influ&ecirc;ncia paralisadora.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que, depois do que se passou, d&aacute;-se a triste necessidade<br \/>\n    de nos separarmos. O tio Luis est&aacute; muito agitado, &eacute; preciso<br \/>\n    dar- -lhe tempo para serenar e ver as coisas sob um aspecto mais racional<br \/>\n    do que aquele em que a paix&atilde;o lhas apresenta agora. Por isso&#8230;<\/p>\n<p> A retic&ecirc;ncia foi seguida de um arrastar de cadeiras, prova de todos<br \/>\n    haverem compreendido a conveni&ecirc;ncia da retirada.<\/p>\n<p> Formaram-se ainda na sala alguns grupos conversando sobre o facto.<\/p>\n<p> Os primos do Cruzeiro foram os primeiros a retirar-se. O padre ainda manifestou<br \/>\n    desejos de pedir a Jorge uma satisfa&ccedil;&atilde;o pelos insultos que ele<br \/>\n    lhe dirigira, mas intervieram terceiros que o dissuadiram.<\/p>\n<p> Os fidalgos velhos tentaram procurar D. Luis para o acalmarem ; mas foi-lhes<br \/>\n    dito por frei Janu&aacute;rio que o fidalgo n&atilde;o podia receb&ecirc;-los.<\/p>\n<p> Pouco e pouco foram os convidados abandonando a Casa Mourisca, e os caminhos<br \/>\n    que dela partiam eram momentos depois cobertos de cavalgadas, liteiras e carro&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    em que aquelas nobres fam&iacute;lias regressavam aos seus solares.<\/p>\n<p> As ocorr&ecirc;ncias singulares do jantar foram entre elas assunto de conversa<br \/>\n    em t&ocirc;da a jornada. Todos, conquanto criticassem a esquisitice do velho<br \/>\n    D. Luis, que t&atilde;o pouco urbano se mostrou com os seus h&oacute;spedes,<br \/>\n    eram acordes em atribuir a principal culpa a Jorge.<\/p>\n<h2>XVIII<\/h2>\n<p>FICARAM apenas na sala Jorge, Maur&iacute;cio e a baronesa.<\/p>\n<p> A indigna&ccedil;&atilde;o de D. Luis parecia haver desvanecido a energia<br \/>\n    de Jorge ; a consci&ecirc;ncia do pobre rapaz, como que vacilando ao embate<br \/>\n    das violentas paix&otilde;es paternas, quase lhe censurara a precipita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do passo que dera.<\/p>\n<p> Igualmente abatido, Maur&iacute;cio sentia remorsos ainda mais vivos.<\/p>\n<p> n&atilde;o podendo j&aacute; duvidar da inoc&ecirc;ncia do irm&atilde;o,<br \/>\n    como perdoaria a si pr&oacute;prio as suspeitas e insulto com que o ferira?<br \/>\n    Do v&atilde;o da janela a baronesa observava-os im&oacute;vel e silenciosa.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio ergueu enfim a cabe&ccedil;a, e tendo nos olhos ainda vest&iacute;gios<br \/>\n    de l&aacute;grimas, hesitou alguns instantes ; depois, por um desses movimentos<br \/>\n    prontos e irresist&iacute;veis, a que a viol&ecirc;ncia dos afectos o provocava,<br \/>\n    caminhou agitado para Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge &#8212; disse ele, &iacute;ntima e sinceramente comovido &#8212;<br \/>\n    se ainda se n&atilde;o esgotou a generosidade da tua nobre alma, n&atilde;o<br \/>\n    me retires a afei&ccedil;&atilde;o, que por tanto tempo te mereci.<\/p>\n<p> Jorge apertou-lhe a m&atilde;o com afecto.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca ta retirei, Maur&iacute;cio. Podes cr&ecirc;-lo. Afligem-me<br \/>\n    alguns dos teus desvarios, principalmente porque sei que eles est&atilde;o<br \/>\n    em contradi&ccedil;&atilde;o com os nobres sentimentos da tua alma. Mas para<br \/>\n    te perder a afei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; isso motivo. Para mim<br \/>\n    &eacute;s, nesses momentos, como uma crian&ccedil;a que se v&ecirc; a dormir<br \/>\n    &agrave; beira de um precipicio. Inspiras-me, como ela, apenas sustos, e n&atilde;o<br \/>\n    c&oacute;lera nem avers&atilde;o.<\/p>\n<p> E os dois rapazes abra&ccedil;aram-se com efus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; disse a baronesa, intervindo &#8212; a situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    precisa de que se pense nela s&egrave;riamente. As pazes est&atilde;o feitas,<br \/>\n    em boa hora ; pensemos agora como gente de juizo. Antes de mais nada, Jorge,<br \/>\n    o que h&aacute; de verdade em tudo isto? &#8212; O que eu disse.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc; bem ; fala-me com franqueza. Eu n&atilde;o acreditei no<br \/>\n    que de ti se espalhou. Concederia que Jorge pudesse praticar uma loucura,<br \/>\n    mas uma ac&ccedil;&atilde;o indigna, um abuso de confian&ccedil;a, sabia que<br \/>\n    n&atilde;o. Por&eacute;m n&atilde;o h&aacute; em t&ocirc;da esta hist&oacute;ria<br \/>\n    alguma coisa que n&atilde;o disseste ainda? Berta &eacute; para ti completamente<br \/>\n    indiferente? Esta e que &eacute; a quest&atilde;o.<\/p>\n<p> S&oacute; a muito custo Jorge p&ocirc;de disfar&ccedil;ar a turba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que a pergunta de Gabriela o lan&ccedil;ou ; mas respondeu com aparente<br \/>\n    serenidade : &#8212; Berta &eacute; uma rapariga que por todos os motivos<br \/>\n    respeito.<\/p>\n<p> E com mais custo ainda acrescentou: &#8212; E nada mais.<\/p>\n<p> &#8212; E para Maur&iacute;cio o que &eacute; Berta ? &#8212; continuou<br \/>\n    a baronesa, sorrindo ao voltar-se para o primo mais novo.<\/p>\n<p>N&atilde;o obteve logo resposta.<\/p>\n<p> &#8212; Bem v&ecirc;em &#8212; insistiu ela &#8212; que h&aacute; uma coisa<br \/>\n    que eu n&atilde;o posso ainda explicar. Assisti &agrave; vossa reconcilia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sinal de que tinha havido uma desintelig&ecirc;ncia. Qual foi pois o motivo<br \/>\n    dela? &#8212; uma das minhas loucuras &#8212; respondeu Maur&iacute;cio afinal<br \/>\n    &#8212; cedi a um movimento de paix&atilde;o, encontrando-me com Jorge ontem,<br \/>\n    quando ele sa&iacute;a da casa de Tom&eacute; da P&oacute;voa, e soltei express&otilde;es,<br \/>\n    que parece que ainda me est&atilde;o queimando os l&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, visto isso, achavas-te com direito de sentir ci&uacute;mes.<\/p>\n<p> Segue-se que amas Berta. E &eacute; deveras esse amor? A fronte de Jorge<br \/>\n    contraiu-se levemente ao ouvir a pergunta, enquanto aguardava a resposta do<br \/>\n    irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Se responder pelo que penso dele &#8212; disse Maur&iacute;cio &#8212;<br \/>\n    juro que &eacute;.<\/p>\n<p> Desta vez um ligeiro sorriso deslizou nos l&aacute;bios de Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Isso quer dizer &#8212; tornou a baronesa&#8212;que respondendo<br \/>\n    pelo que pensas de ti, receias muito que n&atilde;o. Pois, meu caro priminho,<br \/>\n    a ocasi&atilde;o exige que se ponham de lado caprichos e brinquedos de crian&ccedil;a,<br \/>\n    e que se siga com sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. N&atilde;o<br \/>\n    estamos em tempo de brincar. D&aacute;-se uma grave crise, em que todos os<br \/>\n    bons planos de Jorge podem ser destru&iacute;dos de encontro &agrave; resist&ecirc;ncia<br \/>\n    do tio Luis. Eu nem posso calcular o que resultar&aacute; de tudo isto. E<br \/>\n    portanto&#8230;<\/p>\n<p> Interrompeu-a neste ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para chegar<br \/>\n    ao quarto de D. Luis, que desejava falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212;Neste caso esperemos o resultado desta entrevista, para adoptar um<br \/>\n    partido &#8212; dizia ela apressando-se em satisfazer os desejos do tio.<\/p>\n<p> Em caminho para o quarto de D. Luis, a baronesa notou nos corredores e nas<br \/>\n    salas interm&eacute;dias um movimento extraordin&aacute;rio, que n&atilde;o<br \/>\n    sabia a que atribuir.<\/p>\n<p> Os criados iam e vinham apressurados, comunicavam as ordens uns aos outros,<br \/>\n    abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas e transportavam<br \/>\n    diferentes objectos, como se se tratasse dos preparativos de uma jornada.<\/p>\n<p> Nos aposentos de D. Luis achou Gabriela o fidalgo em p&eacute; no meio da<br \/>\n    sala, enquanto frei Janu&aacute;rio, de joelhos junto de uma arca, introduzia<br \/>\n    nela algumas pe&ccedil;as de roupa, que aquele lhe ia indicando.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o sei o que V. Ex.&quot; vai fazer, Sr. D. Luis &#8212;<br \/>\n    murmurava no entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de m&aacute;<br \/>\n    vontade, suando em bagas &#8212; isto n&atilde;o tem p&eacute;s nem cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Olhem agora sem c&oacute;modos nenhuns&#8230; assim de um momento para outro&#8230;<\/p>\n<p> D. Luis, sem responder &agrave;s reflex&otilde;es do procurador, continuava<br \/>\n    a indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.<\/p>\n<p> Gabriela dirigiu-se a ele: &#8212; Mandou chamar-me, meu tio?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! mandei, sim, Gabriela. Desculpe importun&aacute;-la. Mas tenho<br \/>\n    que lhe pedir um favor &#8212; respondeu D. Luis com for&ccedil;ada placidez.<\/p>\n<p> &#8212; Mil que sejam.<\/p>\n<p> &#8212; Depois do que se passou, n&atilde;o quero demorar-me nesta casa<br \/>\n    uma s&oacute; noite. Pe&ccedil;o-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me<br \/>\n    n&atilde;o engano, tencionava partir amanh&atilde; para l&aacute;. n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade? Pois bem, fa&ccedil;a o sacrif&iacute;cio de partir hoje<br \/>\n    e permita-me que a acompanhe. um quarto e uma enxerga bastam-me. Preciso de<br \/>\n    me ir acostumando a tudo.<\/p>\n<p> A baronesa ficou por alguns momentos muda de surpresa.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; por quem &eacute;, meu tio&#8230; Grande prazer me dar&aacute;<br \/>\n    a sua visita&#8230; por&eacute;m em outras circunst&acirc;ncias e por outros motivos.<br \/>\n    N&atilde;o tome resolu&ccedil;&atilde;o alguma enquanto assim est&aacute;<br \/>\n    dominado pela paix&atilde;o.<\/p>\n<p> Veja o que vai fazer! O que se dir&aacute;? O que se falar&aacute; por toda<br \/>\n    a parte ? &#8212; J&aacute; de sobra t&ecirc;m em que falar. A vergonha n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; maior &#8212; tornou o velho mais agitado.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, acudiu o padre &#8212; mas reunir a vergonha ao inc&oacute;modo&#8230;<\/p>\n<p> a falar a verdade&#8230; &eacute;&#8230; &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A vergonha&#8230; a vergonha&#8230; Mas tem a certeza, tio, de que julga<br \/>\n    bem e despreocupado de paix&otilde;es os actos de seu filho? Quem lhe diz<br \/>\n    que outros n&atilde;o chamar&atilde;o virtude &agrave;quilo a que chama baixeza?<br \/>\n    A c&oacute;lera relampagueou de novo nos olhos do velho.<\/p>\n<p> &#8212; Gabriela, por quem &eacute;, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe<br \/>\n    que me n&atilde;o demove da resolu&ccedil;&atilde;o em que estou e que somente<br \/>\n    me aflige. Se n&atilde;o quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater<br \/>\n    a outra porta.<\/p>\n<p> Gabriela n&atilde;o insistiu.<\/p>\n<p> &#8212; A minha casa &eacute; sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens<br \/>\n    para partirmos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o esperem por mim &#8212; recomendou ainda o fidalgo &#8212;<br \/>\n    eu irei com frei Janu&aacute;rio, mais tarde, porque tenho que fazer antes.<br \/>\n    Sinto o inc&oacute;modo que isto lhe vai causar, Gabriela. Mas os criados<br \/>\n    ficar&atilde;o na estalagem da Encruzilhada.<\/p>\n<p> &#8212; Todos cabem ; visto que tamb&eacute;m os quer levar, escusam de<br \/>\n    ficar a meio caminho. Ent&atilde;o fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou<br \/>\n    vendo ! Muito bem. A casa de meu pai &eacute; bastante espa&ccedil;osa, e<br \/>\n    com os arranjos que eu mandei fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para<br \/>\n    n&oacute;s todos, Agora um pedido.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &egrave;? &#8212; Jorge est&aacute; consternado pelas suas<br \/>\n    &aacute;speras palavras ao jantar.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute;-de reconciliar-se com ele? &#8212; Gabriela, se &eacute;<br \/>\n    amiga de Jorge, n&atilde;o procure traz&ecirc;-lo &agrave; minha presen&ccedil;a,<br \/>\n    e se quer que isto que sinto c&aacute; dentro contra meu filho n&atilde;o<br \/>\n    cres&ccedil;a ou degenere em pior, n&atilde;o pronuncie diante de mim por<br \/>\n    ora o nome dele.<\/p>\n<p> Gabriela tinha certo dom para conhecer quando Convinha lutar e quando era<br \/>\n    prefer&iacute;vel ceder. Desta vez percebeu que o &acirc;nimo de D. Luis n&atilde;o<br \/>\n    estava para acalmar de pronto.<\/p>\n<p> Saiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os preparativos<br \/>\n    da partida.<\/p>\n<p> Ao passar na sala, onde ainda estavam Jorge e Maur&iacute;cio, apenas lhes<br \/>\n    disse : &#8212; Trata-se de partir j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Para onde ? &#8212; Para minha casa, nos Bacelos.<\/p>\n<p> &#8212; E meu pai? &#8212; Tudo parte. &Eacute; uma emigra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    completa.<\/p>\n<p> &#8212; E a Casa Mourisca? &#8212; Fechada, ao que parece, at&eacute;&#8230;<br \/>\n    acabar o interdito.<\/p>\n<p> &#8211; Mas isso n&atilde;o pode ser ! &#8212; Mas &eacute;, e eu vou j&aacute;<br \/>\n    dar ordens precisas para a mudan&ccedil;a, &#8212; E eu vou falar com meu<br \/>\n    pai &#8212; exclamou Jorge, erguendo-se.<\/p>\n<p> A baronesa reteve-o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o v&aacute;s. &Eacute; in&uacute;til e perigoso. Deixa<br \/>\n    que os factos sucedam naturalmente. Eu j&aacute; estou convencida de que esse<br \/>\n    &eacute; o melhor expediente.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso que teu pai desafogue a paix&atilde;o que l&aacute; tem<br \/>\n    dentro. Entende que deve sair daqui, deixemo-lo sair. Estas exterioridades<br \/>\n    acalmam-no.<\/p>\n<p> Depois lhe aparecer&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o agora recusa ver-me ? &#8212; Recusa. O que n&atilde;o<br \/>\n    tira que n&atilde;o possas estar muito &agrave; tua vontade na minha casa<br \/>\n    dos Bacelos. H&aacute; l&aacute; um pavilh&atilde;o na quinta, para um refugiado<br \/>\n    como tu.<\/p>\n<p> Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em movimento<br \/>\n    para a quinta dos Bacelos.<\/p>\n<p> Os preparativos n&atilde;o ocuparam muito tempo, porque o fidalgo mandara<br \/>\n    apenas levar o que fosse estritamente necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> A baronesa veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o &uacute;ltimo<br \/>\n    a sair de casa.<\/p>\n<p> Jorge e Maur&iacute;cio partiram em companhia de Gabriela.<\/p>\n<p> C fidalgo ficou s&oacute; com frei Janu&aacute;rio, que continuava a protestar<br \/>\n    por todas as formas contra a resolu&ccedil;&atilde;o da mudan&ccedil;a de<br \/>\n    quartel a horas impr&oacute;prias.<\/p>\n<p> D. Luis nem lhe respondia.<\/p>\n<p> Quando o procurador, a fim de suavizar as agruras do desterro, pretendia<br \/>\n    fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor acomoda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fam&iacute;lia, o fidalgo ordenava-lhe secamente que o deixasse ficar,<br \/>\n    o que cada vez mais exasperava o padre.<\/p>\n<p> Vendo que tudo estava pronto, D. Luis deixou por alguns instantes o procurador<br \/>\n    na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos antigos aposentos<br \/>\n    da filha que perdera.<\/p>\n<p> Ao penetrar ali, que doloroso estremecer o do cora&ccedil;&atilde;o do velho<br \/>\n    ! Ia desamparar tamb&eacute;m aquele quarto ! Esta id&eacute;ia s&oacute;<br \/>\n    poderia vacilar-lhe a inabal&aacute;vel coragem ! Era um lugar de recolhimento<br \/>\n    aquele para o desconfortado anci&atilde;o. Tudo ali dentro se conservava como<br \/>\n    no fatal dia em que ela morrera. Todos os objectos que haviam pertencido &agrave;<br \/>\n    infeliz crian&ccedil;a ali se guardavam religiosamente. E ia deix&aacute;-los<br \/>\n    ! O leito, o genuflex&oacute;rio, o toucador, a harpa, parecia possu&iacute;rem<br \/>\n    uma voz para falar-lhe dela. E havia de fugir-lhes! A coragem, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o so&ccedil;obrou na luta. D. Luis fechou discretamente a porta para<br \/>\n    si ; depois com fervorosa como&ccedil;&atilde;o beijou quase um por um esses<br \/>\n    diferentes objectos, e, ao chegar junto ao leito, o mesmo em que a vira adormecer<br \/>\n    do &uacute;ltimo sono, ajoelhou solu&ccedil;ando, e cobriu de beijos e de<br \/>\n    l&aacute;grimas as almofadas, onde tantas vezes se encostara a p&aacute;lida<br \/>\n    cabe&ccedil;a da sua Beatriz.<\/p>\n<p> Mais tranquilo depois desta efus&atilde;o de dor, ergueu-se, enxugou os<br \/>\n    olhos e desceu com a mesma lentid&atilde;o as escadas at&eacute; ao portal,<br \/>\n    onde o padre esperava j&aacute; com impaci&ecirc;ncia e inquieto pelo adiantado<br \/>\n    da hora.<\/p>\n<p> um criado segurava pela r&eacute;dea os cavalos, que deviam transport&aacute;-<br \/>\n    los.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, vamos, Sr. D. Luis, olhe que nos apanha a noite na estrada<br \/>\n    e os caminhos n&atilde;o s&atilde;o l&aacute; essas coisas &#8212; exclamou<br \/>\n    o padre aflito.<\/p>\n<p> D. Luis, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os cavalos<br \/>\n    : &#8212; Vai esperar-nos na baixa do Paul. N&oacute;s j&aacute; l&aacute;<br \/>\n    vamos ter.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o V. Ex.&ordf; quer ir a p&eacute; at&eacute; &agrave;<br \/>\n    baixa do Paul?! &#8212; perguntou o padre assustado.<\/p>\n<p> &#8212; Vou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; &eacute; um estir&atilde;o e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que fazes ? &#8212; Parte &#8212; disse D. Luis com<br \/>\n    impaci&ecirc;ncia para o criado ; e este obedeceu-lhe prontamente.<\/p>\n<p> O padre ficou a resmonear: &#8212; Eu cada vez ando mais &agrave;s aranhas<br \/>\n    com a gente desta casa.<\/p>\n<p> Sempre tenho visto e ouvido coisas h&aacute; tempos a esta parte ! Olhem<br \/>\n    que preparos estes ! Havemos de cear a boas horas, n&atilde;o tem d&uacute;vida<br \/>\n    nenhuma ! &#8212; Agora feche a porta, frei Janu&aacute;rio &#8212; ordenou<br \/>\n    D. Luis.<\/p>\n<p> O padre tomou com ambas as m&atilde;os a enorme chave do port&atilde;o,<br \/>\n    e f&ecirc;-la girar na fechadura.<\/p>\n<p> Este movimento produziu um som agudo, semelhante ao gemido de uma ave, o<br \/>\n    qual ressoou tristemente pelo interior daquela casa deserta.<\/p>\n<p> O padre tirou a chave, que juntou ao molho que trazia, deu um encontr&atilde;o<br \/>\n    &agrave; porta, para verificar se ela estaria bem fechada, e depois olhou<br \/>\n    para D. Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; disse este, O padre ia p&ocirc;r-se a caminho, mas<br \/>\n    parou vendo o fidalgo seguir a direc&ccedil;&atilde;o oposta &agrave; da quinta<br \/>\n    dos Eacelos.<\/p>\n<p> &#8212; V. Ex.&#8217; para onde vai ? &#8212; Por aqui&#8212;respondeu secamente<br \/>\n    o fidalgo, continuando a andar.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; v. Ex.&ordf; est&aacute; enganado. Esse n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o caminho.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei.<\/p>\n<p> O padre seguiu-o, murmurando contra as v&eacute;netas do fidalgo: &#8212;<br \/>\n    Esta cabe&ccedil;a j&aacute; n&atilde;o regula direita. Onde diabo quer ir<br \/>\n    este homem ? O caminho que D. Luis continuava a seguir era t&atilde;o divergente<br \/>\n    do que o padre esperava, que outra vez o interpelou : &#8212; Mas V. Ex.&ordf;<br \/>\n    onde quer ir? &#8212; A casa do Tom&eacute; da P&oacute;voa &#8212; respondeu<br \/>\n    D. Luis, e acrescentou : &#8212; E advirto-lhe, frei Janu&aacute;rio, que<br \/>\n    n&atilde;o me sinto com disposi&ccedil;&otilde;es para conversar.<\/p>\n<p> O padre sabia que sempre que D. Luis fazia certas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em certo tom e com certa inflex&atilde;o de voz, era in&uacute;tii e imprudente<br \/>\n    contrari&aacute;- lo. Por isso calou-se, o que aumentou o mau humor que j&aacute;<br \/>\n    trazia acumulado.<\/p>\n<p> &#8212; A casa do Tom&eacute; da P&oacute;voa ! &#8212; resmungava ele.<br \/>\n    &#8212; O homem est&aacute; doido ! Ora isto ! E eu a atur&aacute;-lo ! O<br \/>\n    que me estava reservado ! A inten&ccedil;&atilde;o com que o fidalgo demandava<br \/>\n    a casa do fazendeiro era um mist&eacute;rio indecifr&aacute;vel para o esp&iacute;rito<br \/>\n    do procurador.<\/p>\n<p> Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Aproximavam-se da ponte que atravessava o vale. A tarde ia no fim. Era j&aacute;<br \/>\n    a claridade do crep&uacute;sculo que iluminava a paisagem.<\/p>\n<p> A az&aacute;fama do trabalho acalmara. Nos marcos dos campos, &agrave; soleira<br \/>\n    das portas e nos parapeitos da ponte repousavam finalmente os lavradores das<br \/>\n    fadigas do dia. O gado caminhava para as presas, conduzido por crian&ccedil;as<br \/>\n    de seis a sete anos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, t&iacute;mido<br \/>\n    como ele &eacute; ao aproximar do Outono e ao aproximar da noite. Era tal<br \/>\n    a serenidade da tarde, que se percebia o sino de uma freguesia distante, dobrando<br \/>\n    a finados.<\/p>\n<p> A suave melancolia daquela hora influiu no &acirc;nimo de D. Luis.<\/p>\n<p> Que densidade de tristeza a que pousou naquele cora&ccedil;&atilde;o ! Saudades,<br \/>\n    mas saudades escuras de velhice, saudades de quem n&atilde;o tem futuro, era<br \/>\n    o que havia naquela alma. com o passado lhe tinham ido todos os objectos das<br \/>\n    suas cren&ccedil;as, do seu amor, das suas afei&ccedil;&otilde;es. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era capaz de entusiasmo, e os olhos em que o entusiasmo n&atilde;o<br \/>\n    influi, v&ecirc;em tristemente coloridas todas as cenas da vida. Ao desencantamento<br \/>\n    do presente juntavam-se as apreens&otilde;es pelo futuro a entenebrecer-lhe<br \/>\n    o esp&iacute;rito. Era deveras infeliz aquele velho ! Depois da ponte seguia-se<br \/>\n    a colina, onde prosperava a Herdade de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> D. Luis reuniu alento para subi-la.<\/p>\n<p> O padre aventurou outra observa&ccedil;&atilde;o: &#8212; Sr. D. Luis, eu<br \/>\n    n&atilde;o atino com as raz&otilde;es que trazem V. Ex.&ordf; aqui, mas n&atilde;o<br \/>\n    vejo que possa resultar bem algum de semelhante visita. Veja o que faz! A<br \/>\n    prud&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sossegue, frei Janu&aacute;rio &#8212; atalhou D. Luis com um sorriso<br \/>\n    vai o tempo em que n&oacute;s resolv&iacute;amos &agrave; for&ccedil;a de<br \/>\n    bra&ccedil;o os nossos pleitos.<\/p>\n<p> A nossa vez passou, bem v&ecirc;.<\/p>\n<p> O padre conheceu pelo tom da resposta que o fidalgo estava j&aacute; mais<br \/>\n    quebrado, mas ainda pouco disposto para explicar-se.<\/p>\n<p> Para se chegar &agrave; casa de Tom&eacute; da P&oacute;voa por o lado por<br \/>\n    onde D. Luis seguia, tinha-se de tomar por uma avenida de olmeiros, orlada<br \/>\n    por sebes naturais formadas de madressilvas e de roseiras. No fim desta avenida<br \/>\n    ficava uma das entradas da quinta do fazendeiro, que era a parte que ele cedera<br \/>\n    &agrave;s predilec&ccedil;&otilde;es da filha e da mulher, e onde as balsaminas,<br \/>\n    os limonetes e hortensias cresciam vigorosas, e a relva rescendia com as violetas<br \/>\n    e malvas que a entremeavam.<\/p>\n<p> D. Luis desceu lentamente a avenida, com os olhos fitos no port&atilde;o<br \/>\n    da quinta.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; aquela uma das entradas da propriedade, n&atilde;o &eacute;?<br \/>\n    &#8212; perguntou ele ao padre.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;, sim, senhor. Repare V. Ex.&ordf; que &eacute; um port&atilde;o<br \/>\n    de quinta nobre.<\/p>\n<p> Falta-lhe o bras&atilde;o.<\/p>\n<p> O fidalgo calou-se e n&atilde;o tirou os olhos do port&atilde;o da quinta,<br \/>\n    da qual se ia avizinhando. Passados alguns instantes respondeu &agrave; observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do procurador, dizendo : &#8212; Dentro de alguns anos mais pode comprar barato<br \/>\n    o da Casa Mourisca. Os meus filhos n&atilde;o ser&atilde;o exigentes no pre&ccedil;o.<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o soube bem o que devia dizer neste caso. Limitou-se por<br \/>\n    isso a expelir um simples &laquo;Oh!&raquo; sem entona&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    o definisse.<\/p>\n<p> Chegaram enfim ao port&atilde;o. D. Luis ordenou ao padre que tocasse a<br \/>\n    sineta.<\/p>\n<p> Este ia a faz&ecirc;-lo, quando se voltou, dizendo: &#8212; Anda gente c&aacute;<br \/>\n    dentro.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o foi superior a certo sobressalto ao ouvir a not&iacute;cia<br \/>\n    ; vencendo-se, por&eacute;m, caminhou resoluto e com a fronte contra&iacute;da,<br \/>\n    para diante. De repente estremeceu, parou, e comprimindo o peito como se fora<br \/>\n    ferido ali, murmurou: &#8212; Oh Santo Deus ! &#8212; Que tem V. Ex.&ordf;?<br \/>\n    &#8212; interrogou inquieto o padre, que reparara no gesto de D. Luis. &#8212;<br \/>\n    Foi pontada?! Estes passeios violentos e fora de horas&#8230;<\/p>\n<p> O fidalgo n&atilde;o respondeu, e continuou com os olhos fitos em n&atilde;o<br \/>\n    sei que ponto da quinta.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio desviou para ali a vista, a fim de elucidar-se na explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Chegava neste momento ao port&atilde;o uma rapariga, singelamente vestida<br \/>\n    de branco, que correu ao encontro deles.<\/p>\n<p> Era Berta.<\/p>\n<p> &#8212; O meu padrinho ! &#8212; exclamava ela dirigindo-se ao fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. D. Luis ! At&eacute; que enfim o vejo ! Julguei que n&atilde;o<br \/>\n    chegava este dia!<\/p>\n<p>E, pegando-lhe na m&atilde;o, beijou-a com respeito e afecto.<\/p>\n<p> E D. Luis n&atilde;o lha retirou, nem teve uma palavra que lhe dissesse.<\/p>\n<p> Continuava a olh&aacute;-la, como esquecido de tudo e profundamente perturbado.<\/p>\n<p> O padre observava a cena boquiaberto.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; que tempos o n&atilde;o via ! &#8212; prosseguiu Berta<br \/>\n    com uma carinhosa volubilidade de crian&ccedil;a. &#8212; Pois tinha bem saudades<br \/>\n    ! Quantas vezes olhava para aquelas janelas a ver se por acaso o descobria<br \/>\n    em alguma? Mas nunca, nunca! Que vontade que tinha de l&aacute; ir, mas&#8230;<\/p>\n<p> Disseram-me que o padrinho nunca sa&iacute;a e que vivia quase sempre s&oacute;<br \/>\n    no seu quarto. Para que &eacute; que vive assim? Isso faz-lhe mal&#8230; Mas&#8230;<\/p>\n<p> que tem, Sr. D. Luis? Meu Deus&#8230; est&aacute; a chorar! O padre deu um passo<br \/>\n    &agrave; frente, como duvidando do que ouvira.<\/p>\n<p> D. Luis afastou-o com a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8212; disse ele afinal, profundamente comovido.<br \/>\n    &#8212; &Eacute; singular isto em mim! Mas que quer, Berta? Quando aqui cheguei<br \/>\n    e a vi&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me trata j&aacute; por tu? &#8212; interrompeu-o Berta,<br \/>\n    sorrindo tristemente.<\/p>\n<p> O fidalgo, depois de uma curta hesita&ccedil;&atilde;o, repetiu: &#8212;<br \/>\n    Quando aqui cheguei e te vi, lembrei-me da minha pobre Beatriz. Parecias-me<br \/>\n    ela. Ela era mais mo&ccedil;a quando morreu, mas &ugrave;ltimamente tinha<br \/>\n    deitado corpo e&#8230; depois trazia &agrave;s vezes um vestido dessa cor, e enfim&#8230;<br \/>\n    h&aacute; tanto tempo que n&atilde;o via uma rapariga que se lhe assemelhasse&#8230;<br \/>\n    Sim, porque h&aacute; muitas por a&iacute;, mas nenhuma ainda ma recordou<br \/>\n    como tu. &Eacute; not&aacute;vel! a mesma cor de cabelo, a mesma estatura,<br \/>\n    certas maneiras e at&eacute; o metal de voz&#8230; N&atilde;o &eacute; verdade,<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio? &Eacute; not&aacute;vel! A minha pobre filha! Como tu<br \/>\n    ma recordas, Berta, ai, como tu ma recordas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se aflija.<\/p>\n<p> &#8212; &laquo;N&atilde;o se aflija&raquo; era mesmo assim que ela me dizia:<br \/>\n    n&atilde;o que era mesmo assim. Pois n&atilde;o era, frei Janu&aacute;rio?<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o se aflija&raquo;. Se tu soubesses o que eu estou sentindo,<br \/>\n    Berta? se tu soubesses o que v&atilde;o de saudades aqui dentro? &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o sei ? N&atilde;o era eu amiga de Beatriz tamb&eacute;m ? O tempo<br \/>\n    mais feliz da minha vida n&atilde;o foi aquele em que a conheci? Ainda ontem<br \/>\n    chorei ao reler as cartas que ela me escrevia.<\/p>\n<p> &#8212; E ela escrevia-te ? &#8212; A &uacute;ltima que tenho dela &eacute;<br \/>\n    datada de oito dias antes da sua morte.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre crian&ccedil;a ! E&#8230; e dizia-te que sabia o estado em que<br \/>\n    estava ? &#8212; Dizia ; mas que fingia iludir-se para n&atilde;o afligir<br \/>\n    os seus.<\/p>\n<p> &#8212; E era assim, era. Nunca se ouviu uma queixa daquela boca.<\/p>\n<p> Morreu a sorrir o pobre anjo.<\/p>\n<p> E o saudoso pai quase solu&ccedil;ava ao avivar aquela permanente chaga<br \/>\n    do seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. D. Luis &#8212; aoudiu frei Janu&aacute;rio &#8212; olhe que<br \/>\n    lhe faz mal estar a recordar essas coisas. O passado, passado. A noite est&aacute;connosco<br \/>\n    e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade ! &#8212; atalhou Berta &#8212; e eu a demor&aacute;-lo<br \/>\n    aqui ! Fa&ccedil;a favor de entrar, meu padrinho ; a m&atilde;e anda l&aacute;<br \/>\n    para a quinta. Meu pai est&aacute; para a cidade e julgo que s&oacute; amanh&atilde;<br \/>\n    vir&aacute;, mas&#8230;<\/p>\n<p> Estas palavras recordaram a D. Luis o motivo que o trouxera ali.<\/p>\n<p> Chamaram-no &agrave; realidade da sua presente situa&ccedil;&atilde;o, afugentando<br \/>\n    as mem&oacute;rias do passado, melanc&oacute;licas, mas suaves para o seu<br \/>\n    esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Mudou imediatamente de express&atilde;o. As l&aacute;grimas como que se<br \/>\n    lhe secaram aos estos da paix&atilde;o que crescia nele. Ergueu a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    que a tristeza acurvara. Assumiu aquela apar&ecirc;ncia majestosa que costumava<br \/>\n    apresentar aos olhos dos estranhos, e em tom n&atilde;o r&iacute;spido, por&eacute;m<br \/>\n    menos cordial do que at&eacute; ali, disse para Berta, que era agora para<br \/>\n    ele a filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa e j&aacute; n&atilde;o a companheira<br \/>\n    de Beatriz : &#8212; Berta, ia-me esquecendo o que me trouxe aqui. O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    domina-me ainda &agrave;s vezes. Mas a crise passou. Vinha procurar teu pai.<br \/>\n    Visto que o n&atilde;o encontro, pe&ccedil;o-te que lhe transmitas o meu recado.<\/p>\n<p> Soube hoje que um de meus filhos havia recebido dele adiantamentos de dinheiro<br \/>\n    a t&iacute;tulo de empr&eacute;stimo para melhorar a nossa propriedade, e<br \/>\n    isto sem garantia alguma. N&atilde;o sei a quanto monta a soma recebida, mas<br \/>\n    em todo o caso n&atilde;o posso aceitar o empr&eacute;stimo&#8230; ou a esmola.<\/p>\n<p> A d&iacute;vida h&aacute;-de ser paga em breve tempo; mas, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    o for, deixo em penhor da minha palavra aquela casa, que hoje mesmo abandono,<br \/>\n    e tudo que nela se cont&eacute;m. As chaves aqui ficam. Virei a seu tempo<br \/>\n    busc&aacute;-las.<\/p>\n<p> E, fazendo sinal ao procurador, tomou as chaves das m&atilde;os deste, que<br \/>\n    continuava a estar abismado, e entregou-as a Berta.<\/p>\n<p> A estupefac&ccedil;&atilde;o da rapariga era tal, que maquinalmente as recebeu,<br \/>\n    sem bem saber o que fazia.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que ser&aacute; bastante garantia &#8212; acrescentou<br \/>\n    D. Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Se eu n&atilde;o sou v&iacute;tima de uma persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do C&eacute;u, espero resgat&aacute;- las ainda. Se n&atilde;o&#8230; Adeus, Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8212; p&ocirc;de enfim dizer a filha de Tom&eacute;, saindo<br \/>\n    da sua abstrac&ccedil;&atilde;o&#8212; isto n&atilde;o pode ser! Eu&#8230; nem<br \/>\n    sei o que estou fazendo. Por quem &eacute;, padrinho, meu pai n&atilde;o pode<br \/>\n    querer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o te pertence julgar destes neg&oacute;cios, Berta. Faz<br \/>\n    o que te digo.<\/p>\n<p> &#8212; Deixar a Casa Mourisca ! a casa em que tem vivido sempre, onde nasceu<br \/>\n    e morreu Beatriz! E porqu&ecirc;?&#8230; Que somos n&oacute;s para si ent&atilde;o,<br \/>\n    padrinho? O fidalgo tornou-se de novo sombrio ao responder: &#8212; Berta,<br \/>\n    quando a minha consci&ecirc;ncia me imp&otilde;e um acto na vida, &eacute;<br \/>\n    in&uacute;til tentar demover-me.<\/p>\n<p> &#8212; A consci&ecirc;ncia ! &#8212; repetiu Berta, t&igrave;midamente,<br \/>\n    como exprimindo uma d&uacute;vida.<\/p>\n<p> &#8212; Se queres tamb&eacute;m chamar a isto um preconceito de classe,<br \/>\n    com&ograve; j&aacute; lhe chamou um de meus filhos, chama-lho embora. Em todo<br \/>\n    o caso obede&ccedil;o-lhe e de obedecer-lhe me orgulho.<\/p>\n<p> E o fidalgo ia para retirar-se, quando Berta lhe disse, hesitando : &#8212;<br \/>\n    E n&atilde;o me consente que lhe beije outra vez a m&atilde;o ? O &acirc;nimo<br \/>\n    irritado do senhor da Casa Mourisca abrandou outra vez ao som daquelas palavras<br \/>\n    meigas. D. Luis estendeu a m&atilde;o a Berta, que lha beijou chorando.<\/p>\n<p> Ao sentir-lhe as l&aacute;grimas, o fidalgo ergueu-lhe amigavelmente a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    perguntando-lhe : &#8212; Porque choras, Berta? &#8212; Porque sinto que j&aacute;<br \/>\n    me n&atilde;o tem a amizade que dantes me tinha.<\/p>\n<p> &#8212; Crian&ccedil;a ! &#8212; disse o fidalgo com uma brandura que havia<br \/>\n    muito tempo ningu&eacute;m conhecera nele &#8212; que tens tu com as paix&otilde;es<br \/>\n    &aacute;ridas das nossas almas de homens? Os entes como tu e como aquele que<br \/>\n    eu perdi, nasceram para as dissipar e n&atilde;o para sofr&ecirc;-las.<\/p>\n<p> E, cedendo &agrave; como&ccedil;&atilde;o que de novo o dominava, o severo<br \/>\n    e implac&aacute;vel D. Luis, com admira&ccedil;&atilde;o crescente de frei<br \/>\n    Janu&aacute;rio, apertou a afilhada nos bra&ccedil;os e pousou-lhe na fronte<br \/>\n    um beijo como os que dava em Beatriz.<\/p>\n<p> E, ao separar-se daquele lugar, ia outra vez com as l&aacute;grimas nos<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p> Ao fim da avenida, de onde se avistava o port&atilde;o, voltou-se. Berta<br \/>\n    permanecia no mesmo s&iacute;tio, a segui-lo com a vista.<\/p>\n<p> &#8212; Repare, frei Janu&aacute;rio, repare ; a quem v&ecirc; daqui, a<br \/>\n    dist&acirc;ncia, n&atilde;o parece mesmo a minha Beatriz, quando nos esperava<br \/>\n    &agrave; porta da Casa M&oacute;urisca? &#8212; Sim, as raparigas ao longe<br \/>\n    todas se parecem ; mas olhe que &eacute; noite fechada, Sr. D. Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Jesus ! e agora a dizer-nos adeus ! &#8212; continuou D. Luis, dizendo<br \/>\n    adeus tamb&eacute;m &#8212; &eacute; mesmo aquele anjo que eu perdi. Fujamos,<br \/>\n    fujamos destes s&iacute;tios, que tenho medo de enlouquecer.<\/p>\n<p> &#8212; E at&eacute; porque &eacute; noite fechada&#8212; acrescentou o<br \/>\n    padre. &#8212; Valha- nos, Deus ! Depois de longo trato de caminho andado<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio, D. Luis parou, e, levantando os olhos ao C&eacute;u, exclamou<br \/>\n    com paix&atilde;o: &#8212; Que tremendas culpas estou eu expiando, meu Deus<br \/>\n    ! Porque me roubas tudo, para tudo dares &agrave;quele homem?! At&eacute;<br \/>\n    a filha? at&eacute; a suave consola&ccedil;&atilde;o daquele amor de filha,<br \/>\n    que eu perdi, at&eacute; esse ele possui? Que tremendo castigo, Senhor! Da&iacute;<br \/>\n    at&eacute; ao termo da jornada, na quinta dos Bacelos, n&atilde;o tornou a<br \/>\n    pronunciar uma s&oacute; palavra.<\/p>\n<p> Quando l&aacute; chegaram ia a noite adiantada ; e j&aacute; havia desassossego<br \/>\n    pela demora dos dois. <\/p>\n<p>O padre procurador estava furioso. Dizia ele completamente desconsertado<br \/>\n    : &#8212; uma estafa assim depois de um jantar lauto ! Esta gente n&atilde;o<br \/>\n    tem consci&ecirc;ncia. Deus queira que n&atilde;o me venha por a&iacute; alguma<br \/>\n    apoplexia ! Os filhos s&atilde;o doidos, o pai est&aacute; pateta, e eu que<br \/>\n    os ature ! E correu &agrave; cozinha a ver se havia alguma coisa quente que<br \/>\n    o confortasse.<\/p>\n<h2>XIX<\/h2>\n<p> Oantigo solar da fam&iacute;lia da baronesa, chamado a Casa dos Bacelos,<br \/>\n    como que ao despertar de um sono de muitos anos, abrira &agrave; luz do dia<br \/>\n    as suas amplas janelas, reacendendo o fogo nos lares apagados, e restaurara<br \/>\n    o movimento e a vida nos aposentos vazios.<\/p>\n<p> Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baronesa voltava aos<br \/>\n    s&iacute;tios onde lhe correra a inf&acirc;ncia, cujas suaves mem&oacute;rias<br \/>\n    ainda os povoavam. Ao ver de novo aquelas velhas paredes e aquelas &aacute;rvores<br \/>\n    frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas espa&ccedil;osas<br \/>\n    salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriela, ainda que pouco propensa<br \/>\n    a melancol&iacute;as, n&atilde;o p&ocirc;de subtrair o esp&iacute;rito a uma<br \/>\n    impress&atilde;o de saudade.<\/p>\n<p> Vest&iacute;gios mal apagados daquele tempo long&iacute;nquo a cada passo<br \/>\n    lho relembravam; ali fora o teatro dos seus brinquedos e jogos, al&eacute;m<br \/>\n    estava um objecto, ao qual se prendia a reminiscencia de uma prova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    infantil, aquele era o lugar favorito de seu pai, acol&aacute;, desenhava-lhe<br \/>\n    vagamente a sua recorda&ccedil;&atilde;o a imagem da m&atilde;e, que perdera<br \/>\n    em crian&ccedil;a, e dominada por esta influ&ecirc;ncia, Gabriela suspirava<br \/>\n    e conhecia que ainda n&atilde;o morrera de todo em si o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    provinciano.<\/p>\n<p> Mas uma tal disposi&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito n&atilde;o podia<br \/>\n    durar muito. A baronesa era uma mulher de ac&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o<br \/>\n    se esquecia de que tinha muito em que pensar e que fazer em virtude dos acontecimentos<br \/>\n    &uacute;ltimos da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> N&atilde;o eram somente as canseiras de dona de casa, que deseja acomodar<br \/>\n    convenientemente os seus h&oacute;spedes, que a preocupavam, mas tamb&eacute;m,<br \/>\n    e mais ainda, o desejo de restituir &agrave;quela familia a harmonia t&atilde;o<br \/>\n    inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o filho,<br \/>\n    que pelo seu nobre proceder incorrera no desagrado do velho. Gabriela tomava<br \/>\n    deveras a peito esta pacificadora empresa; mas para isso era ainda cedo. A<br \/>\n    paix&atilde;o ensurdecia ainda muito D. Luis, para que lhe fosse poss&iacute;vel<br \/>\n    escutar conselhos.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; imediata &agrave; noite da instala&ccedil;&atilde;o soiene<br \/>\n    da fam&iacute;lia de D. Luis na Casa dos Bacelos, Gabriela foi procurar Jorge<br \/>\n    ao pavilh&atilde;o no fundo da quinta, onde ele desde a v&eacute;spera se<br \/>\n    alojara, longe dos olhares paternos.<\/p>\n<p>A baronesa tinha sabido de frei Janu&aacute;rio tudo o que se passara entre<br \/>\n    D. Luis e Berta &agrave; porta da quinta de Tom&eacute;, e desejava falar<br \/>\n    nisto ao primo.<\/p>\n<p> Jorge recebeu-a com umas apar&ecirc;ncias de serenidade, que n&atilde;o<br \/>\n    eram de todo sinceras.<\/p>\n<p> &#8212; E meu pai ? &#8212; foi a primeira pergunta de Jorge, depois das<br \/>\n    palavras de cumprimento.<\/p>\n<p> &#8212; um pouco menos afrontado, depois que realizou uma id&eacute;ia cavalheirosa<br \/>\n    e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocr&aacute;tica.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que fez ele ? &#8212; Foi entregar pessoalmente as chaves da<br \/>\n    Casa Mourisca nas m&atilde;os do Tom&eacute; da P&oacute;voa. O frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    contou-me tudo. A aristocracia &eacute; assim em t&ocirc;da a parte. Tem a<br \/>\n    cabe&ccedil;a cheia de tradi&ccedil;&otilde;es da Idade M&eacute;dia e por<br \/>\n    elas se regula. Procura sempre dar &agrave;s suas ac&ccedil;&otilde;es uma<br \/>\n    fei&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica, e sempre que o consegue, sai desoprimida<br \/>\n    de qualquer situa&ccedil;&atilde;o apertada.<\/p>\n<p> &#8212; E Tom&eacute; aceitou-as ? &#8212; O Tom&eacute; n&atilde;o estava<br \/>\n    em casa. A entrevista teve lugar &agrave; porta da Herdade entre o tio Luis<br \/>\n    e Berta, a hero&iacute;na de toda esta historia; e a prop&ograve;sito&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, mas&#8230; o que se passou nessa entrevista? &#8212;<br \/>\n    Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao princ&iacute;pio.<\/p>\n<p> A vista de Berta recordou ao tio a imagem de Featriz e comoveu- o a ponto<br \/>\n    de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que acabaram<br \/>\n    de o sensibilizar; aben&ccedil;oou-a, beijou-a e quase se ia esquecendo do<br \/>\n    que o levara ali, mas de repente recordou- se e fez a entrega das chaves com<br \/>\n    uma gravidade igual &agrave; de Martini de Freitas, cuja vaga recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi o que provavelmente lhe sugeriu a id&eacute;ia da cena. Tu sorris ? Olha<br \/>\n    que &eacute; o que te digo. Eu conhe&ccedil;o os achaques destes nobres. Os<br \/>\n    mais s&eacute;rios e ajuizados s&atilde;o perdidos por umas coisas assim.<br \/>\n    Se em uma ocasi&atilde;o de crise tiverem um dito sentencioso, uma ac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um gesto dram&aacute;tico destes que se tornam proverbi&aacute;is, ficam muito<br \/>\n    satisfeitos e resignam-se &agrave;s consequ&ecirc;ncias da crise. O certo<br \/>\n    &eacute; que as chaves l&aacute; ficaram.<\/p>\n<p> &#8212; Tom&eacute; por certo lhas restitu&igrave;.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser, mas &eacute; pior. Teu pai sossegar&aacute; sabendo que<br \/>\n    as chaves est&atilde;o nas m&atilde;os de Tom&eacute;. Ent&atilde;o que queres?<br \/>\n    &Eacute; uma puerilidade que se deve respeitar. O acto em si, olhando &agrave;<br \/>\n    luz da actualidade, n&atilde;o tem o m&iacute;nimo valor. Bem sabemos. Mas<br \/>\n    visto, como o tio Luis o v&ecirc;, iluminado pelo crep&uacute;sculo dos bons<br \/>\n    tempos passados, &eacute; um desfor&ccedil;o e uma ac&ccedil;&atilde;o fidalga,<br \/>\n    capaz de o desafrontar perante os s&eacute;culos passados e futuros. Mas vamos<br \/>\n    ao que importa. Em t&ocirc;da esta hist&oacute;ria figura o nome de uma mulher.<br \/>\n    Ora &eacute; sabido que nos atribuem sempre as primeiras honras no travar<br \/>\n    e complicar da ac&ccedil;&atilde;o dos diferentes dramas e com&eacute;dias<br \/>\n    da vida ; por isso, conquanto o papel de Berta se nos tenha apresentado at&eacute;<br \/>\n    aqui como secund&aacute;rio, ningu&eacute;m me tira a ideia de que ela &eacute;<br \/>\n    a figura principal da hist&oacute;ria. Que te parece, Jorge? Jorge, evidentemente<br \/>\n    enleado pela reflex&atilde;o da baronesa, respondeu : &#8212; Bem v&ecirc;<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute;. A prima est&aacute; j&aacute; ao corrente de tudo,<br \/>\n    pode portanto julgar da parte da ac&ccedil;&atilde;o que cabe a essa rapariga.<\/p>\n<p> &#8212; Estou ao corrente de tudo ? Isso &eacute; que eu n&atilde;o sei,<br \/>\n    Maur&iacute;cio tem por ela uma grande paix&atilde;o, ao que parece.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o creio &#8212; acudiu Jorge vivamente.<\/p>\n<p> &#8212; Como se explica ent&atilde;o que, sendo ele t&atilde;o teu amigo,<br \/>\n    se irritasse por uma errada interpreta&ccedil;&atilde;o dos teus actos, a<br \/>\n    ponto de estar iminente uma ac&ccedil;&atilde;o tr&aacute;gica, de que nem<br \/>\n    quero lembrar-me? &#8212; Ora essa ! Ent&atilde;o n&atilde;o conhece o g&ecirc;nio<br \/>\n    de Maur&iacute;cio ? &#8212; tornou Jorge quase impaciente. &#8212; Os primeiros<br \/>\n    movimentos s&atilde;o nele sempre impetuosos. Aquele rapaz n&atilde;o se conhece.<br \/>\n    A cada instante se engana consigo pr&oacute;prio. Anda persuadido h&aacute;<br \/>\n    certo tempo de que ama Berta, e essa persuas&atilde;o &eacute; tal que d&aacute;<br \/>\n    lugar a cenas como essa que sabe.<\/p>\n<p> &#8212; E porque dizes que n&atilde;o a ama ? &#8212; Porque o conhe&ccedil;o<br \/>\n    e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.<\/p>\n<p> &#8212; uma s&eacute;rie de amores verdadeiros, &eacute; o que se conclui<br \/>\n    da&iacute; ; verdadeiros, mas curtos.<\/p>\n<p> Jorge sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-me que n&atilde;o acreditas que sejam verdadeiros os que<br \/>\n    s&atilde;o curtos? Tu amar&iacute;as sempre, se amasses? &#8212; Creio que<br \/>\n    sim. Ou pelo menos quando visse acabar um amor, dizia comigo: enganei-me,<br \/>\n    n&atilde;o era amor ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Simp&aacute;tica teoria, mas n&atilde;o sei se muito aceit&aacute;vel.<br \/>\n    Por&eacute;m quem 1e diz que Maur&iacute;cio n&atilde;o se fixaria desta vez<br \/>\n    ? E olha que n&atilde;o seria uma m&aacute; resolu&ccedil;&atilde;o da vossa<br \/>\n    crise. O Tom&eacute; julgo que est&aacute; em condi&ccedil;&otilde;es de ser<br \/>\n    um sogro salvador, assim n&atilde;o houvesse a preven&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    tio Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Dessa maneira n&atilde;o queria eu nunca regenerar a nossa casa<br \/>\n    &#8212; replicou Jorge gravemente.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! tamb&eacute;m tens desses escr&uacute;pulos ? Pois olha, filho,<br \/>\n    &eacute; o processo hoje mais seguido.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei, mas em um homem acho-o ign&oacute;bil.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o havendo amor, concordo ; mas quando o amor absolve a<br \/>\n    alma&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mais honra haveria em venc&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Esta provincia &eacute; um terreno onde as velhas plantes duram<br \/>\n    eternamente. N&atilde;o h&aacute; vento revolucion&aacute;rio, nem corrente<br \/>\n    de id&eacute;ias novas que as derrubem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas deve confessar que s&atilde;o belas e boas &aacute;rvores essas<br \/>\n    i &#8212; Algumas ; outras s&atilde;o in&uacute;teis e daninhas, e fariam<br \/>\n    muito bem se cedessem o lugar a melhor e mais produtiva cultura. Agora outra<br \/>\n    pergunta: e Berta ama Maur&iacute;cio?<\/p>\n<p>Jorge corou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu apenas:<br \/>\n    &#8212; Talvez.<\/p>\n<p> A baronesa ia a insistir, quando o coloquio foi interrompido pela voz do<br \/>\n    padre procurador pedindo licen&ccedil;a para entrar.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio entrou tossindo e assoando-se de uma maneira particular,<br \/>\n    que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, sr. frei Janu&aacute;rio, como se tem dado nestas<br \/>\n    ru&iacute;nas? &#8212; perguntou-lhe a baronesa com a amabilidade de dona<br \/>\n    de casa.<\/p>\n<p> &#8212; Excelentemente, minha senhora. Ent&atilde;o at&eacute; direi a V.<br \/>\n    Ex.&ordf; que h&aacute; muito tempo n&atilde;o dei com um cozinheiro que melhor<br \/>\n    atinasse com o meu paladar.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? O Gavi&atilde;o merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe!<br \/>\n    &Eacute; capaz de se me estragar de vaidade. N&atilde;o o gabe na presen&ccedil;a.<br \/>\n    Recomendo- lhe t&ocirc;da a discri&ccedil;&atilde;o, sr. frei Janu&aacute;rio.<br \/>\n    Olhe l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; que &eacute; verdade o que eu digo. Que lhe pareceram<br \/>\n    a V. Ex.&ordf; aqueles bifes hoje ao almo&ccedil;o? Olhe que aqueles bifes!&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o lhe digo nada ! O rapaz &eacute; jeitoso. Mas deixemos isso. Trata-se<br \/>\n    de uma coisa que me d&aacute; cuidado.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que &eacute; ? &#8212; perguntou a baronesa, recostando-se.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o quer sentar-se, sr. frei Janu&aacute;rio? O padre puxou<br \/>\n    uma cadeira, sentou-se e tomou a tossir e a assoar-se.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. D. Luis &#8212; disse ele, interrompendo-se a cada momento<br \/>\n    &#8212; enfim&#8230; eu h&aacute; tempos a esta parte ando assim a modo de doido&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, sr. frei Janu&aacute;rio, solte a grande novidade que nos<br \/>\n    traz debaixo do capote. Depois far&aacute; os coment&aacute;rios, que entenderemos<br \/>\n    e apreciaremos melhor.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. D. Luis chamou-me h&aacute; poucos momentos ao seu quarto<br \/>\n    para me dizer&#8230; para me ordenar&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc;? &#8212; Para me confiar de novo a procura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me retirara, e ordenar- me que participasse isto mesmo ao Sr. Jorge, para<br \/>\n    seu governo.<\/p>\n<p> Enfim&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Cumpra-se a vontade de meu pai &#8212; disso Jorge &#8212; e Deus<br \/>\n    permita que ele tenha motivos para se aplaudir por ela.<\/p>\n<p> &#8212; Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luis,&#8212; observou<br \/>\n    francamente a baronesa &#8212; confesso que fazia. E o sr. frei Janu&aacute;rio<br \/>\n    acha-se com for&ccedil;as de desenredar esta meada embara&ccedil;ada como<br \/>\n    est&aacute; ? &#8212; Pois a&iacute; &eacute; que bate o ponto &#8212; acudiu<br \/>\n    o egresso. &#8212; Eu&#8230; &eacute; verdade que por mais de vinte anos dirigi<br \/>\n    estas coisas, e se mais n&atilde;o fiz, foi porque os tempos eram o que n&oacute;s<br \/>\n    todos sabemos. Mas, depois que o Sr. Jorge tomou conta disto, perdi o fio<br \/>\n    da meada, entende V. Ex.&ordf;? Eu tinha c&aacute; o meu sistema e por ele<br \/>\n    me guiava. Agora, por&eacute;m, venho encontrar as coisas todas mudadas e&#8230;<br \/>\n    enfim, pode ser que estejam muito bem, n&atilde;o digo menos disso, mas eu<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o as entendo. Para p&ocirc;r tudo outra vez como dantes,<br \/>\n    isso leva um tempo dos meus pecados ; para continuar no caminho em que isto<br \/>\n    vai, era preciso ter muito trabalho, e a falar a verdade j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    estou na idade disso.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que tenciona fazer ? &#8212; Eu sei ? O fidalgo n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; quem o conven&ccedil;a. Credo ! V&atilde;o l&aacute; hoje contrari&aacute;-lo<br \/>\n    na mais pequena coisa ! Vai tudo pelos ares ! Por isso a mim lembrava-me&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O que lhe lembra, sr. frei Janu&aacute;rio ? &#8212; perguntou Gabriela,<br \/>\n    fitando-o com olhar penetrante.<\/p>\n<p> &#8212; Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de<br \/>\n    fazer como ele mandava, que eu me encarregaria da direc&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    casa, mas, por baixo de m&atilde;o, continuar o Sr. Jorge a levar as coisas<br \/>\n    l&aacute; pelo seu sistema.<\/p>\n<p> &#8212; E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, sr. frei<br \/>\n    Janu&aacute;rio? Repare bem. J&aacute; sabe a que portas costumo ir bater,<br \/>\n    quando preciso de capital, e quais os meios que adopto. As suas cren&ccedil;as<br \/>\n    e opini&otilde;es devem sofrer com isso.<\/p>\n<p> &#8212; E a mim que me importa? &#8212; tornou o padre impaciente.&#8212;<br \/>\n    Afinal de contas, a casa &eacute; sua e n&atilde;o minha. O mal que fizer<br \/>\n    mais o h&aacute;-de sentir do que eu.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o dep&otilde;e muito a favor da sinceridade do seu afecto<br \/>\n    &agrave; minha fam&iacute;lia esse dizer. Eu queria antes v&ecirc;-lo opondo-se<br \/>\n    en&egrave;rgicamente &agrave; administra&ccedil;&atilde;o viciosa que principiei.<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o tinha coragem para tomar conta da ger&ecirc;ncia da casa<br \/>\n    sob a inspec&ccedil;&atilde;o de Jorge, a quem tomara um medo excessivo ;<br \/>\n    tentava, por&eacute;m, colorir airosamente a proposta que ali viera fazer.<\/p>\n<p> A baronesa interpelou-o muito terminantemente.<\/p>\n<p> A sua posi&ccedil;&atilde;o nesta casa, sr. frei Janu&aacute;rio, e as exig&ecirc;ncias<br \/>\n    morais do seu caracter e da sua miss&atilde;o tra&ccedil;am-lhe distintamente<br \/>\n    o caminho que deve seguir. Ou entende na sua consci&ecirc;ncia que pode fazer<br \/>\n    mais e melhor do que Jorge, e nesse caso deve obedecer ao tio Luis, ou tem<br \/>\n    a convic&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria, e s&oacute; ent&atilde;o &eacute;<br \/>\n    admiss&iacute;vel a sua proposta, mas depois de confessar com franqueza e<br \/>\n    lealdade o motivo dela.<\/p>\n<p> O padre torceu-se, balbuciando: &#8212; Eu n&atilde;o digo&#8230; isto &eacute;&#8230;<br \/>\n    quero dizer&#8230; no estado em que as coisas est&atilde;o&#8230; no p&eacute; em<br \/>\n    que as puseram&#8230; Sim&#8230; cada qual tem l&aacute; o seu sistema&#8230; e eu&#8230;<br \/>\n    sim, V. Ex.&quot; bem sabe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixemo-nos disso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do primo? &#8212; Defeitos&#8230; defeitos&#8230; n&atilde;o digo defeitos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mereceu-lhe alguns reparos ? Seja franco. N&atilde;o se admitem<br \/>\n    palavras amb&iacute;guas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, minha senhora, eu n&atilde;o tenho reparos a fazer&#8230;<br \/>\n    quero dizer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Achou-a boa ?<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; achei-a&#8230; isto &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Parece-lhe que n&atilde;o &eacute; capaz de fazer melhor? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o tenho vaidades&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;Tem medo de estragar o bem que est&aacute; feito? &#8212; Todos podem<br \/>\n    errar&#8230; enfim&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista disso, n&atilde;o<br \/>\n    discordar&aacute; do seu parecer. N&atilde;o &eacute; verdade, Jorge? &#8212;<br \/>\n    Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente, mas n&atilde;o me eximo a<br \/>\n    esfor&ccedil;o algum para salvar a minha casa.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem; agora o sr. frei Janu&aacute;rio pode dizer ao tio Luis<br \/>\n    que se cumprir&atilde;o as suas ordens, e o mais que ter&aacute; a fazer &eacute;<br \/>\n    assinar, sem 1er, alguns pap&eacute;is que porventura sejam necess&aacute;rios,<br \/>\n    isto nos primeiros dias, porque eu confio ainda na boa raz&atilde;o do tio.<br \/>\n    E agora coma, beba e durma, e deixe correr o mundo, que h&aacute;-de correr<br \/>\n    para bom lado.<\/p>\n<p> O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da<br \/>\n    baronesa, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar a<br \/>\n    sua inaptid&atilde;o administrativa.<\/p>\n<h2> XX<\/h2>\n<p> ENQUANTO frei Janu&aacute;rio conferenciava com Jorge e com a baronesa sobre<br \/>\n    a maneira de melhor harmonizar a vontade e as ordens expressas do fidalgo<br \/>\n    com os interesses da casa e com a comodidade pessoal de sua reverendissima,<br \/>\n    D. Luis, a quem desde a v&eacute;spera uma impaci&ecirc;ncia nervosa n&atilde;o<br \/>\n    deixava repousar ainda, e que n&atilde;o pudera conformar-se aos seus novos<br \/>\n    h&aacute;bitos de vida, saiu do quarto e veio passear agitado e meditativo<br \/>\n    na vasta sala da entrada, de cujas paredes o contemplavam sisudos os velhos<br \/>\n    retratos da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> N&atilde;o vergava sob uma id&eacute;ia &uacute;nica e exclusiva o esp&iacute;rito<br \/>\n    do velho fidalgo ; perdia-se no redemoinhar de id&eacute;ias diversas e antag&oacute;nicas,<br \/>\n    que umas &agrave;s outras o disputavam. Saudades, terrores, despeitos, desalentos<br \/>\n    e at&eacute; remorsos dos seus passados &oacute;dios e vingan&ccedil;as, eram<br \/>\n    os dem&ocirc;nios perseguidores e implac&aacute;veis, cujo voltear fant&aacute;stico,<br \/>\n    r&aacute;pido como o de um c&iacute;rculo de feiticeiros, quase lhe alienava<br \/>\n    a raz&atilde;o, ferindo- a de vertigem.<\/p>\n<p> D. Luis envelhecera &ugrave;ltimamente de uma maneira r&aacute;pida. De<br \/>\n    encontro &agrave; sua organiza&ccedil;&atilde;o robusta quebrara-se por muito<br \/>\n    tempo a for&ccedil;a da corrente dos anos e amortecera a viol&ecirc;ncia dos<br \/>\n    embates da adversidade, sem que ele experimentasse a leve vacila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que preludia a queda. Por&eacute;m, desde o momento em que se manifestaram<br \/>\n    os primeiros sinais de fraqueza, o progresso da declina&ccedil;&atilde;o foi<br \/>\n    r&aacute;pido, e de dia para dia sentia-se desfalecer aquele corpo vigoroso<br \/>\n    e aqu&ecirc;le espirito en&eacute;rgico.<\/p>\n<p> A manh&atilde; estava sombria, o c&eacute;u carregado, e a chuva mi&uacute;da.<\/p>\n<p> cont&iacute;nua, persistente, sem vento que a agitasse, e ainda mais desesperadora<br \/>\n    por isso; porque um dia de Inverno sem vento &eacute; como a tristeza sem<br \/>\n    a explos&atilde;o das paix&otilde;es, perde-se a esperan&ccedil;a de o ver<br \/>\n    terminar.<\/p>\n<p> A sala em que D. Luis passeava era a menos confortavelmente mobilada de<br \/>\n    t&ocirc;da a casa ; o alto fog&atilde;o, que ocupava o espa&ccedil;o de duas<br \/>\n    janelas, jazia apagado, frio, e conservando apenas, como mem&oacute;ria da<br \/>\n    vida que j&aacute; o animara, as cinzas sem calor. O aspecto de um fog&atilde;o<br \/>\n    apagado &eacute; triste ; tem o que quer que seja de um cad&aacute;ver. A<br \/>\n    tristeza da manh&atilde; e a tristeza da sala aumentavam evidentemente com<br \/>\n    a presen&ccedil;a desse fog&atilde;o. Por muito tempo apenas o som dos passos<br \/>\n    do fidalgo despertava os ecos daquelas altas e despidas paredes e tectos elevados.<\/p>\n<p> De repente, por&eacute;m, ouviu-se rumor &agrave; porta da entrada.<\/p>\n<p> D. Luis voltou para ali instintivamente os olhos, sentindo que algu&eacute;m<br \/>\n    a abria; e estremeceu, como se de improviso fosse ferido, ao ver surgir detr&aacute;s<br \/>\n    do reposteiro a figura de Tom&eacute; da Herdade.<\/p>\n<p> O pai de Berta vinha todo molhado, e parecia chegar de longa jornada. Trazia<br \/>\n    as faces mais afogueadas do que o costume e os olhos mais brilhantes. Em cada<br \/>\n    gesto e em cada movimento denunciava uma funda agita&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    lhe n&atilde;o era habitual. Ao avistar D. Luis, n&atilde;o p&ocirc;de reter<br \/>\n    uma exclama&ccedil;&atilde;o, como quem dera com o objecto que ansiosamente<br \/>\n    procurava.<\/p>\n<p> Vencida a turba&ccedil;&atilde;o dos primeiros instantes, o senhor da Casa<br \/>\n    Mourisca fez uma cortesia muito grave ao rec&eacute;m-chegado e disp&otilde;s-se<br \/>\n    para sair da sala.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa n&atilde;o lho permitiu.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, tenha paci&ecirc;ncia, Sr. D. Luis, n&atilde;o<br \/>\n    se retira assim. Eu vim para lhe falar e n&atilde;o me vou embora sem o fazer.<\/p>\n<p> D. Luis parou e respondeu friamente : &#8212; Os neg&oacute;cios da minha<br \/>\n    casa tratam-se com o meu procurador.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o posso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixemo-nos disso, fidalgo. Eu nada tenho, nem quero ter com o procurador<br \/>\n    de V. Ex.&ordf;. n&atilde;o foi ele quem me ofendeu; n&atilde;o &eacute; a<br \/>\n    ele que devo dirigir-me.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ent&atilde;o vem aqui pedir-me satisfa&ccedil;&otilde;es ?<br \/>\n    ! &#8212; Venho, sim, senhor.<\/p>\n<p> &#8212; Tem gra&ccedil;a ! &#8212; observou o fidalgo, com um sorriso cheio<br \/>\n    de aristocr&aacute;tico sarcasmo. ft &#8212; Ent&atilde;o V. Ex.&ordf; acha<br \/>\n    que um homem que &eacute; insultado n&atilde;o tem o direito de vir perguntar<br \/>\n    &agrave; pessoa que o insultou a raz&atilde;o porque o fez ? &#8212; E sup&otilde;e<br \/>\n    que eu j&aacute; alguma vez me ocupei a insult&aacute;-lo ? &#8212; Suponho,<br \/>\n    sim, senhor; e suponho mais, suponho que V. Ex.&ordf; bem sabe quando e de<br \/>\n    que maneira me insultou. Porque era preciso n&atilde;o ter brios para imaginar<br \/>\n    que um homem de bem n&atilde;o se ofenderia com ac&ccedil;&otilde;es, como<br \/>\n    as de V. Ex.&ordf; para comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! &#8212; comentou D. Luis, voltando-lhe as costas e caminhando<br \/>\n    desdenhosamente para a janela.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa a quem este movimento aumentou a excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que estava possuido, deu alguns passos mais agitados para o seu orgulhoso<br \/>\n    interlocutor.<\/p>\n<p> O fidalgo, sentindo-o, voltou-se subitamente e encarou-o fixo.<\/p>\n<p> &#8212; Vem decidido a alguma viol&ecirc;ncia, ao que parece.<\/p>\n<p> A irrita&ccedil;&atilde;o de Tom&eacute; desvaneceu-se. O olhar de D. Luis<br \/>\n    parecia avivar-lhe mem&oacute;rias do tempo em que se costumara a obedecer-lhe<br \/>\n    e a tem&ecirc;-lo quase.<\/p>\n<p> A reflex&atilde;o venceu esta timidez de instinto ; contudo foi menos agressivo<br \/>\n    do que at&eacute; ai que ele respondeu: &#8212; N&atilde;o, Sr. D. Luis ;<br \/>\n    venho aqui decidido a explicar-me. &Eacute; preciso que fiquemos ambos sabendo<br \/>\n    o que um e outro somos. N&atilde;o posso por mais tempo sofrer calado os desprezos<br \/>\n    e as desfeitas de V. Ex.&ordf;, sem perguntar qual o motivo que dei para elas.<br \/>\n    Palavra de honra, Sr. D. Luis, que por mais que me mate, n&atilde;o posso<br \/>\n    ver em toda a minha vida uma s&oacute; ac&ccedil;&atilde;o, uma &uacute;nica,<br \/>\n    que merecesse da parte de V. Ex.&ordf; este procedimento para comigo ; n&atilde;o<br \/>\n    posso.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; sonhando, Tom&eacute;? Cuida que eu n&atilde;o tenho<br \/>\n    mais em que pensar do que em desfeite&aacute;-lo? Que mania se lhe meteu na<br \/>\n    cabe&ccedil;a! &#8212; E que foi sen&atilde;o uma desfeita o que V. Ex.&ordf;<br \/>\n    me fez no outro dia, indo &agrave; porta de minha casa entregar nas m&atilde;os<br \/>\n    de minha pr&oacute;pria filha as chaves do seu pal&aacute;cio, que deixou,<br \/>\n    s&oacute; porque eu havia adiantado ao Sr. Jorge um pouco de dinheiro por<br \/>\n    um contrato honesto e leal? Que foi aquilo sen&atilde;o uma desfeita? &#8212;<br \/>\n    Se n&atilde;o compreende os motivos que me levaram &agrave;quele passo, n&atilde;o<br \/>\n    sei que lhe fa&ccedil;a. Nas fam&iacute;lias, como a minha, h&aacute; certas<br \/>\n    regras tradicionais de conduta que talvez pare&ccedil;am estranhas a outras,<br \/>\n    educadas em h&aacute;bitos diferentes, no que eu n&atilde;o tenho culpa.<\/p>\n<p> &#8212; Entendo o que quer dizer, Sr. D. Luis. Foi ac&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    fidalgo a sua, e, por ser tal, eu, que nasci em palhas, n&atilde;o posso entend&ecirc;-la<br \/>\n    bem. Mas porque &eacute; que s&oacute; comigo usa V. Ex.&ordf; das tais ac&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Por acaso fui eu o primeiro que emprestei dinheiro aos senhores da Casa Mourisca?<br \/>\n    Quando o padre procurador de V. Ex.&ordf; andava por a&iacute;, batendo de<br \/>\n    porta em porta, a levantar dinheiro, n&atilde;o para o empregar em melhoramentos<br \/>\n    que, mais ano menos ano, pudessem remir a divida, mas para o desperdi&ccedil;ar<br \/>\n    sem tom nem som, e obtinha esses capitais a 10, 12 e 15 por cento; quando<br \/>\n    ele lavrava hipotecas e arrendamentos vergonhosos e a gente de m&aacute; f&eacute;,<br \/>\n    que fazia dele o que queria, o orgulho de V. Ex.&ordf; nunca o obrigou a sair<br \/>\n    de sua casa, que se perdia nesse andar, e a ir p&ocirc;r as chaves dela nas<br \/>\n    m&atilde;os desses usurarios, que viviam &agrave; custa das tolices e dos<br \/>\n    desperd&iacute;cios do padre ; e agora ent&atilde;o, todo se espinhou porque<br \/>\n    eu, honestamente, e sem m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o, antes pelo muito amor<br \/>\n    que ainda tenho a esta familia e a estes meninos, que trouxe ao colo, pus<br \/>\n    &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o de um deles, que &eacute; hoje um rapaz<br \/>\n    de ju&iacute;zo, o dinheiro de que precisava para se ir livrando da usura,<br \/>\n    que o ro&iacute;a at&eacute; aos ossos, e emendar os erros da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do padre ! S&oacute; agora &eacute; que V. Ex.&ordf; se sente ferido na sua<br \/>\n    fidalguia e sai da casa, em que vive h&aacute; tantos anos, clamando que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; sua! Isto &eacute; colocar-me abaixo desses miser&aacute;veis,<br \/>\n    a quem me pejo de apertar a m&atilde;o. O contrato feito entre mim e o filho<br \/>\n    de V. Ex.&ordf; &eacute; um contrato que n&atilde;o envergonha nem a mim nem<br \/>\n    a ele. Pode aparecer &agrave; luz do dia, e tenha a certeza de que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;-de haver muitos, mais de cavalheiros do que ele. N&atilde;o dei<br \/>\n    dinheiro sem garantias, nem tamb&eacute;m o dei com usura. Nenhum de n&oacute;s<br \/>\n    aceitou favor do outro. Ent&atilde;o qual &eacute; a raz&atilde;o dos escr&uacute;pulos<br \/>\n    de V. Ex.&ordf;? &#8212; Vejo que est&aacute; mais informado dos neg&oacute;cios<br \/>\n    de minha casa, do que eu pr&oacute;prio. Pode ser que eu devesse h&aacute;<br \/>\n    mais tempo fazer o que fiz. A culpa &eacute; da minha ignor&acirc;ncia. Quando,<br \/>\n    por&eacute;m, t&atilde;o p&uacute;blica foi a confiss&atilde;o da nossa baixeza,<br \/>\n    a minha dignidade obrigava-me a proceder como procedi.<\/p>\n<p> &#8212; A dignidade&#8230; a dignidade&#8230; Perdoe-me o fidalgo, mas se quer que<br \/>\n    lhe fale a verdade, eu j&aacute; n&atilde;o sei bem o que seja dignidade,<br \/>\n    quando vejo o que por a&iacute; se faz &agrave; conta dela. Dignidade acho<br \/>\n    eu que a tem tido seu filho, trabalhando como um homem de bem para desempenhar<br \/>\n    a sua casa, e confessando diante de todos os seus actos, que n&atilde;o o<br \/>\n    envergonham ; dignidade teve ele, quando defendeu uma pobre rapariga das cal&uacute;nias<br \/>\n    de uns miser&aacute;veis, que tamb&eacute;m se dizem fidalgos, e que tamb&eacute;m<br \/>\n    falam muito na sua dignidade.<\/p>\n<p> &#8212; Creio que &eacute; melhor n&atilde;o discutirmos. Os nossos princ&iacute;pios<br \/>\n    s&atilde;o diversos, n&atilde;o podemos entender-nos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; tal. Os nossos princ&iacute;pios, aqueles que<br \/>\n    me levam a falar, s&atilde;o os mesmos, s&atilde;o os de qualquer homem de<br \/>\n    bem. E eu prezo-me de o ser e V. Ex.&quot; tamb&eacute;m o &eacute;. Havemos<br \/>\n    de entender-nos por for&ccedil;a.<\/p>\n<p> Nisto at&eacute; o homem e Deus se entendem, n&atilde;o &eacute; muito que<br \/>\n    V. Ex.&ordf;, por mais fidalgo que seja, se entenda comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que quer afinal ? ! N&atilde;o terei eu a liberdade de deixar<br \/>\n    a minha casa quando entender que me conv&eacute;m faz&ecirc;-lo? N&atilde;o<br \/>\n    serei o mais competente juiz das minhas ac&ccedil;&otilde;es? &#8212; V. Ex.&quot;<br \/>\n    saiu de sua casa, declarando a todos por que era que o fazia; e j&aacute;<br \/>\n    a&iacute; o meu nome e a minha pessoa andaram envolvidos.<\/p>\n<p> Depois foi afligir a minha pobre Berta, que nada sabe destas coisas, obrigando-a<br \/>\n    a aceitar as chaves da Casa Mourisca para mas entregar, como se eu fosse um<br \/>\n    miser&aacute;vel que tivesse sequer sonhado um dia em especular com a confian&ccedil;a<br \/>\n    que seu filho p&ocirc;s em mim ! As novidades correm depressa na aldeia e<br \/>\n    n&atilde;o falta gente para denegrir o car&aacute;cter de um homem. Depois<br \/>\n    do passo que V. Ex.&ordf; deu, o que se n&atilde;o ter&aacute; dito ? Que<br \/>\n    eu andava sugando os &uacute;ltimos restos de sangue da sua fam&iacute;lia<br \/>\n    e abusando da boa f&eacute; e da pouca experi&ecirc;ncia do seu filho, mas<br \/>\n    que o fidalgo me desmascarou a tempo ! E se se disser isto, n&atilde;o sentir&aacute;<br \/>\n    V. Ex.&ordf; remorsos por ter dado azo a uma cal&uacute;nia ? Fale-me francamente,<br \/>\n    fidalgo, aqui diante de mim e de Deus que nos ouve, em sua consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e sob a sua palavra de honra, que sempre honrou, fale-me franco, Sr. D. Luis<br \/>\n    ; em t&ocirc;da a minha vida, desde os tempos em que servi a sua casa at&eacute;<br \/>\n    hoje, no meio dos meus trabalhos, das minhas felicidades e dos meus reveses,<br \/>\n    pratiquei j&aacute; alguma ac&ccedil;&atilde;o que obrigue V. Ex.&quot; a<br \/>\n    desconfiar de mim? Fale-me franco, Sr. D. Luis! Hoje mesmo, agora, neste momento<br \/>\n    em que me v&ecirc; e me escuta, cr&ecirc;, na sua consci&ecirc;ncia, que est&aacute;<br \/>\n    na presen&ccedil;a de um miser&aacute;vel? D. Luis respondeu sem hesitar e<br \/>\n    em tom grave e digno: &#8212; N&atilde;o, nunca o acusei, Tom&eacute;, e creio<br \/>\n    que &eacute; um homem trabalhador e honrado.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o para que h&aacute;-de ter somente para mim essa m&aacute;<br \/>\n    vontade ? Para que me h&aacute;-de desprezar, como se eu fosse um vil? a mim,<br \/>\n    que o servi fielmente, enquanto o servi, que ent&atilde;o ganhei e conservei<br \/>\n    at&eacute; hoje &agrave; sua fam&iacute;lia um amor c&aacute; de dentro, como<br \/>\n    se ela me pertencesse, que chorei a sua pobre menina, aquele anjo que Deus<br \/>\n    lhe levou, come choraria morta uma filha minha ! Para que h&aacute;-de ter<br \/>\n    s&oacute; para este homem, que apenas bens deseja &agrave; sua casa, esses<br \/>\n    desprezos e essas afrontas? para este homem, que tem uma filha que lhe chama<br \/>\n    padrinho? E n&atilde;o quer que eu me sinta ? Pois julga que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    aqui dentro um cora&ccedil;&atilde;o ? Ah ! fidalgo, fidalgo, creia o que<br \/>\n    lhe digo, em cada um desses jornaleiros que passam o dia vergados a trabalhar<br \/>\n    nas propriedades de V. Ex.&quot;, h&aacute; um cora&ccedil;&atilde;o de carne<br \/>\n    como o dos nobres; e enquanto eles trabalham, ele n&atilde;o p&aacute;ra de<br \/>\n    bater.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; inventando agravos para se dar por agravado. Nunca tive<br \/>\n    ten&ccedil;&atilde;o de ofend&ecirc;-lo. Nestes &uacute;ltimos tempos azedou-se-me<br \/>\n    um tanto o g&egrave;nio, e confesso que n&atilde;o me &eacute; demasiado agrad&aacute;vel<br \/>\n    a conviv&ecirc;ncia dos homens. Eis o motivo por que vivo retirado.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. D. Luis V. Ex.&quot; n&atilde;o &eacute; franco. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; por essa aldeia quem n&atilde;o saiba que os filhos de V. Ex.&ordf;,<br \/>\n    se alguma vez se atrevem a procurar a Herdade em que eu vivo, correm o risco<br \/>\n    do desagrado do pai. N&atilde;o sei quem &eacute; que em minha casa os pode<br \/>\n    corromper. V. Ex.&quot; por&eacute;m, acha menos perigosa para eles a companhia<br \/>\n    dos fidalgos do Cruzeiro do que a minha. O Sr. Jorge fez mal em arriscar-se<br \/>\n    a entrar naquela casa excomungada; mais seguro andou o Sr. Maur&iacute;cio<br \/>\n    frequentando a dos primos, apesar de&#8230;, perdoe-me a sua fidalguia, apesar<br \/>\n    de n&atilde;o serem mais do que uns b&ecirc;bedos, uns devassos e uns caluniadores.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; fora de si, Tom&eacute; &#8212; observou o fidalgo,<br \/>\n    que corou ao ouvir estas afrontas a uns parentes t&atilde;o pr&oacute;ximos,<br \/>\n    mas a quem n&atilde;o se sentia com &acirc;nimo de desagravar. &#8212; Terminemos<br \/>\n    esta desagrad&aacute;vel confer&ecirc;ncia. Que quer afinal de mim? &#8212;<br \/>\n    Restituir-lhe as chaves da sua casa, que me n&atilde;o servem para nada &#8212;<br \/>\n    respondeu Tom&eacute;, tirando do bolso o molho das chaves que Berta recebera<br \/>\n    do fidalgo.<\/p>\n<p>D. Luis, com um gesto, desviou de si as chaves que o fazendeiro lhe oferecia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; in&uacute;til insistir. A minha resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; formada.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; uma resolu&ccedil;&atilde;o disparatada ; perdoe-me<br \/>\n    dizer-lho, fidalgo ; uma resolu&ccedil;&atilde;o sem valor algum, sem significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perante a lei, sem efeito sen&atilde;o o de afrontar-me.<\/p>\n<p> &#8212; Eu j&aacute; lhe disse que n&oacute;s temos umas leis especiais<br \/>\n    por que nos regulamos.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o se V. Ex.&ordf; entende que deve p&ocirc;r nas m&atilde;os<br \/>\n    dos seus credores as chaves de sua casa, &eacute; preciso saber quem tem mais<br \/>\n    direito a elas. Na lista n&atilde;o est&aacute; s&oacute; escrito o meu nome.<br \/>\n    Deite V. Ex.&ordf; preg&atilde;o para saber quem deve ser o deposit&aacute;rio<br \/>\n    disso, que eu por mim sou o menos habilitado.<\/p>\n<p> E Tom&eacute; da P&oacute;voa arrojou sobre a mesa as chaves, com irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crescente.<\/p>\n<p> D. Luis fitou-o por momentos com um olhar de c&oacute;lera, que aquele movimento<br \/>\n    desafiara, mas conseguiu dominar-se, e respondeu com firmeza : &#8212; Leve<br \/>\n    consigo as chaves, Tom&eacute; ! A minha dignidade n&atilde;o me consente<br \/>\n    ficar com elas. Fiz um protesto, hei-de cumpri-lo. Se os meus credores s&atilde;o<br \/>\n    muitos, seja o representante deles todos. Em poucos posso depositar mais confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Muito agradecido pela confian&ccedil;a qu&eacute; mostra&#8230; Olhe,<br \/>\n    fidalgo, quer que lhe diga o que tudo isto significa? quer que lhe diga o<br \/>\n    que penso deste maior rigor comigo? Pois oi&ccedil;a. Cada qual tem os seus<br \/>\n    defeitos ; o meu &eacute; o da franqueza. A raz&atilde;o de tudo isto est&aacute;<br \/>\n    no grande orgulho de V. Ex.&ordf;. &Eacute; o que eu lhe digo.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser; o orgulho &eacute; o defeito de certa classe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o lho invejo, nem lho gabo. Orgulho entendo eu que<br \/>\n    se deve ter de certa maneira ; dessa n&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; nobre.<br \/>\n    V. Ex.&ordf; preza muito o nome de sua fam&iacute;lia, deve ent&atilde;o trabalhar<br \/>\n    honestamente para o conservar ilustre. Mas n&atilde;o receie que lhe possa<br \/>\n    fazer sombra a casa do seu antigo criado, ainda que em cada ano ele levante<br \/>\n    um sobrado e meta mais um campo dentro dos muros da quinta. O vale que nos<br \/>\n    separa &eacute; muito largo, fidalgo, e ainda quando o Sol se esconde, a sombra<br \/>\n    da minha chamin&eacute; n&atilde;o chega nem sequer ao princ&iacute;pio dos<br \/>\n    dom&iacute;nios de V. Ex.&ordf;. Deixe-me pois crescer, Sr. D. Luis, e n&atilde;o<br \/>\n    me leve a mal o trabalho para ganhar para meus filhos p&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    lhes falte para o futuro.<\/p>\n<p> D. Luis, ao ouvir estas palavras, estremeceu, como se elas o ferissem no<br \/>\n    vivo ; as faces tingiram-se-lhe de um intenso rubor, e foi tai a sua perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que, sem tirar os olhos do fazendeiro, n&atilde;o p&ocirc;de articular uma<br \/>\n    palavra que lhe respondesse.<\/p>\n<p> Tom&eacute; prosseguiu, mais exaltado : &#8212; Deixe-me crescer e medrar,<br \/>\n    fidalgo, que as minhas planta&ccedil;&otilde;es, para terem vi&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    v&atilde;o roubar o suco das. suas terras. N&atilde;o &eacute; por isso que<br \/>\n    elas est&atilde;o maninhas, n&atilde;o. E se quiser ofuscar-me, deixe seu<br \/>\n    filho Jorge empregar o talento, a honestidade e o amor ao trabalho que deve<br \/>\n    a Deus, em tornar a sua casa no que ela foi em outros tempos.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o sim, ent&atilde;o ter&aacute; raz&atilde;o o orgulho de V.<br \/>\n    Ex.&ordf;, porque ningu&eacute;m ser&aacute; mais para louvar e admirar do<br \/>\n    que o mo&ccedil;o que der um tal exemplo, a crian&ccedil;a que se fez homem<br \/>\n    para trabalhar, e o fidalgo que se fez lavrador para salvar a sua casa, e<br \/>\n    por isso n&atilde;o deixou de ser fidalgo, antes rnais do que nunca mostrou<br \/>\n    que o era. Este orgulho entende-se; mas h&aacute; um de m&aacute; casta que<br \/>\n    se parece muito com a inveja.<\/p>\n<p> A esta &uacute;ltima palavra D. Luis n&atilde;o conteve um movimento de<br \/>\n    viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Basta. Desde que principia a ser insolente, n&atilde;o devo escut&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Talvez tenha feito mal em ouvi-lo tanto tempo. Do motivo das minhas ac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    s&oacute; tenho a dar contas a Deus. A si, basta que lhe diga que n&atilde;o<br \/>\n    recebo essas chaves, nem volto para a Casa Mourisca, enquanto n&atilde;o estiverem<br \/>\n    saldadas as minhas contas consigo.<\/p>\n<p> &#8212; Comigo ! E sempre comigo ! Pois bem : teima em ofender-me ?&#8230;<\/p>\n<p> aceito as chaves, levo-as para casa. Mas fa&ccedil;o-lhe aqui, eu tamb&eacute;m,<br \/>\n    um protesto, fidalgo. Juro que hei-de, a seu pesar, fazer-lhe o bem que puder.<br \/>\n    Se os meus socorros o humilham e envergonham, h&aacute;-de ter a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    de se humilhar e envergonhar por muito tempo, porque de hoje em diante vou<br \/>\n    trabalhar como nunca na restaura&ccedil;&atilde;o de sua casa. Ah! cuida que<br \/>\n    &eacute; s&oacute; desfeitear-me e eu calar-me envergonhado? Enganou-se. Enganou-se.<br \/>\n    Enganou-se. Apre ! Eu tamb&eacute;m tenho vontade.<\/p>\n<p> H&aacute;-de ver com quem se meteu. Ainda que o fidalgo quisesse dar cabo<br \/>\n    do que lhe resta, eu lhe juro que n&atilde;o o conseguiria. Fica por minha<br \/>\n    conta a empresa de p&ocirc;r no p&eacute; em que esteve a sua casa e a sua<br \/>\n    propriedade. Ora aqui est&aacute;. Agora queixe-se, insulte-me, desfeiteie-me<br \/>\n    &agrave; vontade ; ande, n&atilde;o tenha escr&uacute;pulos. A minha ten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; formada.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero saber se o seu orgulho se ofende, ou se se n&atilde;o ofende.<br \/>\n    Se se ofender, tanto melhor, que dele tamb&eacute;m &eacute; que eu recebi<br \/>\n    ofensa.<\/p>\n<p> Apre ! Cuidam que n&oacute;s n&atilde;o temos brio nem pundonor ? &Eacute;<br \/>\n    s&oacute; afrontar- nos, como se n&atilde;o f&ocirc;ssemos capazes de sentir?<br \/>\n    Sim? Ele &eacute; isso? pois n&oacute;s veremos. Ora deixa estar, que eu lhe<br \/>\n    direi como as coisas correm. Quer que eu lhe fique com as chaves, n&atilde;o<br \/>\n    quer? Pois n&atilde;o, com muito gosto. Olhe, c&aacute; as levo. V&ecirc;?<br \/>\n    Passe muito bem V. Ex.&quot;, passe muito bem. Eu lhe prometo que h&aacute;-de<br \/>\n    ter not&iacute;cias minhas. Ora &eacute; boa! A paci&ecirc;ncia esgota-se.<br \/>\n    A gente tamb&eacute;m tem c&aacute; uma medida de sofrer ; cheia ela, acabou-se,<br \/>\n    vai tudo por a&iacute; fora. Adeus, fidalgo, eu lhe protesto de novo que lhe<br \/>\n    hei-de fazer todo o bem que puder.<\/p>\n<p> E Tom&eacute; da P&oacute;voa, inflamado naquele ardente desejo de santa<br \/>\n    e honrada vingan&ccedil;a, saiu da sala resmoneando ainda: &#8212; Estes fidalgos<br \/>\n    que cuidam que a gente n&atilde;o sente ! Ora deixa que j&aacute; que ele<br \/>\n    tanto se espinha com o bem que lhe fa&ccedil;o, eu o flagelarei.<\/p>\n<p> Vou tomar mais a peito a casa dele do que a minha, e se eu n&atilde;o conseguir<br \/>\n    o que quero&#8230; Ora deixa estar! Apre! Que &eacute; de mais! D. Luis ficou<br \/>\n    ai&ntilde;da mais triste e pensativo depois que Tom&eacute; se retirou.<\/p>\n<p> A seu pesar a entrevista com o fazendeiro impressionara-o profundamente.<\/p>\n<p> O honesto car&aacute;cter do pai de Berta transparecia t&atilde;o claro<br \/>\n    sob a franca rudeza da sua linguagem! A &uacute;nica vingan&ccedil;a concebida<br \/>\n    por aquele velho, no auge de indigna&ccedil;&atilde;o, contra a humilhadora<br \/>\n    aristocracia do seu nobre vizinho, era mais uma prova da sua generosa &iacute;ndole.<\/p>\n<p> Vingava-se a fazer bem! E o mais &eacute; que se vingaria, se o conseguisse<br \/>\n    fazer. O benef&iacute;cio recebido das m&atilde;os dele seria pior castigo<br \/>\n    para D. Luis, do que a persegui&ccedil;&atilde;o mais cruel.<\/p>\n<p> O fidalgo sentia-o no &iacute;ntimo da consci&ecirc;ncia, e um pensamento,<br \/>\n    que nem as palavras ousavam formular, atravessou-lhe o esp&iacute;rito como<br \/>\n    a luz r&aacute;pida do rel&acirc;mpago.<\/p>\n<p> &#8212; Ter&aacute; raz&atilde;o este homem? Ser&aacute; inveja isto?!&#8230;<br \/>\n    Inveja! Passados momentos, pensava ainda: &#8212; O que &eacute; certo, &eacute;<br \/>\n    que &eacute; um homem honrado. Porque me irrito, pois, com o aux&iacute;lio<br \/>\n    que vem dele?&#8230; Inveja! E, perseguido por este grito da consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    D. Luis correu a encerrar-se no seu gabinete, onde passou o resto do dia.<\/p>\n<h2>XXI<\/h2>\n<p> Aviol&ecirc;ncia das impress&otilde;es que deixara em Tom&eacute; da P&oacute;voa<br \/>\n    a entrevista com o fidalgo da Casa Mourisca n&atilde;o era para se desvanecer<br \/>\n    com o inquieto sono de uma s&oacute; noite.<\/p>\n<p> No dia seguinte, pela manh&atilde;, o fazendeiro acordou ainda indignado<br \/>\n    e firme na resolu&ccedil;&atilde;o que abra&ccedil;ara, de se vingar a seu<br \/>\n    modo.<\/p>\n<p> Nem o &acirc;nimo impaciente lhe sofria grande demora na execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Logo de madrugada principiou a dispor as coisas para naquele mesmo dia inaugurar<br \/>\n    a empresa. Deu contra-ordens a criados que tinham servi&ccedil;o talhado de<br \/>\n    v&eacute;spera; foi mais expedito na visita quotidiana &agrave;s diversas<br \/>\n    reparti&ccedil;&otilde;es do casal ; afagou mais distra&iacute;do a &eacute;gua<br \/>\n    fiel, que lhe cheirava os bolsos, habituais portadores de uma lambarice matutina<br \/>\n    ; deu um beijo nas crian&ccedil;as, sem se demorar a faz&ecirc;-las saltar<br \/>\n    nos joelhos ; mandou que lhe fizessem o almo&ccedil;o mais cedo ; depois de<br \/>\n    almo&ccedil;ar calado contra o seu costume, ergueu-se da mesa, ordenou que<br \/>\n    tr&ecirc;s criados se preparassem para sair com ele, levando alguns instrumentos<br \/>\n    de lavoura, e afinal acabou por pedir &agrave; mulher as chaves da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Luisa, a boa e prudente Luisa, que desde a v&eacute;spera observava, sem<br \/>\n    reflex&otilde;es, os sinais de desassossego de esp&iacute;rito que manifestava<br \/>\n    o marido, n&atilde;o p&ocirc;de, ao ouvir a &uacute;ltima ordem, reprimir<br \/>\n    um movimento de estranheza, e violentando um pouco o seu respeito conjugai,<br \/>\n    disse, olhando fixamente para Tom&eacute; : &#8212; As chaves da Casa Mourisca?<br \/>\n    Para que queres tu as chaves da Casa Mourisca? &#8212; Provavelmente para<br \/>\n    abrir as portas.<\/p>\n<p> &#8212; E tu vais l&aacute;? &#8212; Vou, e olha que j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    mais tempo l&aacute; me queria.<\/p>\n<p> &#8212; E que vais tu fazer &agrave; Casa Mourisca, Tom&eacute; ? &#8212;<br \/>\n    O que vou fazer? Vou trabalhar.<\/p>\n<p> &#8212; Trabalhar?! Pois tu tomaste-a de renda?! &#8212; Tom&aacute;-ia<br \/>\n    de renda ? Para qu&ecirc; ? Ent&atilde;o o fidalgo n&atilde;o me deu as chaves?<br \/>\n    Ent&atilde;o n&atilde;o embirrou em que eu havia de ficar com elas? Pois para<br \/>\n    espantalho n&atilde;o me servem c&aacute; em casa. As chaves s&atilde;o para<br \/>\n    abrir as portas, e quem as tem entra quando quer.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas que tens l&aacute; que fazer? &#8212; Oh! n&atilde;o me<br \/>\n    falta tarefa. Aquilo n&atilde;o viu enxada h&aacute; bom tempo.<\/p>\n<p> Os canos est&atilde;o entupidos, as minas por limpar, os tanques rotos,<br \/>\n    as ruas cobertas de erva, os muros no ch&atilde;o, e tudo por este gosto.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o tu &eacute; que vais p&ocirc;r isso tudo em ordem<br \/>\n    ? &#8212; Vou, sim, senhora. &Eacute; assim que hei-de ensinar aquele soberbo,<br \/>\n    que se julga desonrado, s&oacute; porque eu lhe fiz um servi&ccedil;o insignificante.<\/p>\n<p> Pois agora veremos como r&oacute;i estes que lhe vou fazer. Olha, mulher,<br \/>\n    v&ecirc;s aquele casar&atilde;o negro, coroado de dentes, muitos dos quais<br \/>\n    j&aacute; lhe ca&iacute;ram de velhos? Pois se eu n&atilde;o lhe puser dentadura<br \/>\n    nova e n&atilde;o lhe lavar aquela cara de maneira que pare&ccedil;a que est&aacute;<br \/>\n    a rir e perca o ar carrancudo com que dali nos olha, n&atilde;o seja eu quem<br \/>\n    sou.<\/p>\n<p> &#8212; Tu n&atilde;o est&aacute;s em ti, Tom&eacute;. V&ecirc; l&aacute;<br \/>\n    no que te vais meter. S&atilde;o despesas grandes, e nem tu tens direito para<br \/>\n    semelhante coisa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei de hist&oacute;rias. O homem n&atilde;o quer tomar<br \/>\n    conta da casa enquanto n&atilde;o pagar as suas d&iacute;vidas ; p&ocirc;s-ma<br \/>\n    ao meu cuidado, e eu do que est&aacute; ao meu cuidado cuido assim.<\/p>\n<p> &#8212; Ih ! Jesus, que homem este ! N&atilde;o fa&ccedil;as as coisas no<br \/>\n    ar, Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Qual no ar ; prometi que hei-de trabalhar para p&ocirc;r aquela<br \/>\n    casa em cima, s&oacute; para fazer uma pirra&ccedil;a ao fidalgo ; e ainda<br \/>\n    que tenha de hipotecar todos os meus bens e de arriscar o futuro dos meus<br \/>\n    filhos, hei-de faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas j&aacute; falaste com o Sr. Jorge a este respeito ? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, nem preciso.<\/p>\n<p> &#8212; Pois d&eacute;vias falar. &Ecirc; um rapaz ajuizado e que p&otilde;e<br \/>\n    as coisas no seu lugar.<\/p>\n<p> &#8212; O que ele me vinha dizer sei eu, e por isso &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    desejo falar-lhe, porque n&atilde;o quero que me tire isto da cabe&ccedil;a,<br \/>\n    nem quero brigar com ele. Mas os rapazes j&aacute; est&atilde;o &agrave; minha<br \/>\n    espera. Vamos l&aacute;.<\/p>\n<p> D&aacute; c&aacute; as chaves, ouviste? &#8212; Tom&eacute;, Tom&eacute;!<br \/>\n    Olha l&aacute; o que fazes! Eu n&atilde;o sei,.. <\/p>\n<p>&#8212; Pois por isso ; se n&atilde;o sabes, deixa-me c&aacute;. Basta-me<br \/>\n    a chave grande. Eu hoje n&atilde;o passo da quinta.<\/p>\n<p> E, pegando na chave, que a mulher lhe deu a medo, o lavrador saiu &agrave;<br \/>\n    frente dos tr&ecirc;s criados, em direc&ccedil;&atilde;o da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Luisa, a cujo bom senso n&atilde;o agradava a resolu&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    marido, veio desabafar com a filha.<\/p>\n<p> O que sobretudo levava a mal a bondosa Luisa era o n&atilde;o haver o marido<br \/>\n    consultado Jorge. Para Luisa Jorge era um conselheiro infal&iacute;vel.<\/p>\n<p> A simpatia que sempre lhe inspirara aquela crian&ccedil;a, &laquo;que se<br \/>\n    n&atilde;o metia com ningu&eacute;m&raquo; como a boa mulher tantas vezes<br \/>\n    dizia, crescera, e misturara- se &agrave; admira&ccedil;&atilde;o, ao respeito<br \/>\n    e &agrave; absoluta confian&ccedil;a, assim que o viu, adolescente, tomar<br \/>\n    aos ombros o pesado encargo da direc&ccedil;&atilde;o e reforma da sua casa,<br \/>\n    e que ouviu os louvores em que o entusiasmo de Tom&eacute; se desafogava,<br \/>\n    falando dele. Luisa afez-se a sup&ocirc;-lo um ente privilegiado, incapaz<br \/>\n    de errar, com faculdades criadas para levar ao fim qualquer empresa e realizar<br \/>\n    todas as suas ten&ccedil;&otilde;es, por menos exeq&uuml;&iacute;veis que<br \/>\n    parecessem.<\/p>\n<p> O dogma da infalibilidade de Jorge fora por ela definido.<\/p>\n<p> Transpirara al&eacute;m disso c&aacute; fora o grande sucesso do dia do<br \/>\n    jantar na Casa Mourisca, e porventura a vers&atilde;o mais seguida sa&iacute;ra<br \/>\n    colorida por aquelas tintas maravilhosas, com que o povo ilumina as suas narrativas.<\/p>\n<p> O que &eacute; certo &eacute; que este facto acabou de divinizar Jorge no<br \/>\n    conceito de Luisa, e agora menos do que nunca ela estava disposta a perdoar<br \/>\n    ao marido o haver prescindido dos conselhos de um rapaz t&atilde;o brioso<br \/>\n    e prudente.<\/p>\n<p> Berta escutou o arrazoado materno com ar pensativo e triste.<\/p>\n<p> Ouviu, sem a interromper, a longa exposi&ccedil;&atilde;o das excelentes<br \/>\n    qualidades do filho mais velho do fidalgo e os artigos de ben&eacute;vola<br \/>\n    acusa&ccedil;&atilde;o, acremente formulados contra Tom&eacute;, por quem<br \/>\n    ali&aacute;s menos do que ningu&eacute;m estava disposta a conden&aacute;-lo.<\/p>\n<p> De quando em quando a vista de Berta erguia-se para o vulto escuro da Casa<br \/>\n    Mourisca, e parecia que o aspecto dela lhe aumentava a melancolia.<\/p>\n<p> Luisa saiu enfim da sala, chamada pelas exig&ecirc;ncias do servi&ccedil;o<br \/>\n    dom&eacute;stico.<\/p>\n<p> Berta ficou s&oacute;. Reclinando a cabe&ccedil;a &agrave; m&atilde;o e<br \/>\n    apoiada no peitoril da janela, conservou por muito tempo a imobilidade e a<br \/>\n    fixidez do olhar, que denunciava uma grande abstrac&ccedil;&atilde;o, Em que<br \/>\n    pensaria Berta? Que nuvem cruzaria o seu firmamento, para assim lhe projectar<br \/>\n    sobre a fronte aquelas sombras de tristeza? Operava-se uma revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral naquele esp&iacute;rito. Berta sa&iacute;ra crian&ccedil;a da aldeia,<br \/>\n    levando, entre as mais agrad&aacute;veis mem&oacute;rias da inf&acirc;ncia,<br \/>\n    a dos momentos passados na Casa Mourisca e das pessoas a quem ali dera ent&atilde;o<br \/>\n    os seus primeiros afectos.<\/p>\n<p> Crescera, e essas imagens modificaram-se pela influ&ecirc;ncia do amor na<br \/>\n    fantasia, pela influ&ecirc;ncia da solid&atilde;o e dos devaneios de juventude<br \/>\n    ; a de Beatriz, corno que santificada pela morte, cercara-se de um resplendor<br \/>\n    ang&eacute;lico claro e suave como os raios do luar em luminosas noites do<br \/>\n    Estio ; a de Jorge aparecia-lhe como a de um amigo leal e seguro, a quem se<br \/>\n    n&atilde;o confiam puerilidades do cora&ccedil;&atilde;o, mas de quem se pode<br \/>\n    esperar aux&iacute;lio e conselho das prova&ccedil;&otilde;es da vida ; a<br \/>\n    de Maur&iacute;cio, por&eacute;m, fora a que a imagina&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    despertava, colorira de mais sedutores reflexos. O seu campe&atilde;o da inf&acirc;ncia<br \/>\n    assumira as formas nobres e prestigiosas dos her&oacute;is de todos os poemas<br \/>\n    de amor.<\/p>\n<p> Beleza pr&oacute;pria de uma juventude varonil, coragem, generosidade, tudo<br \/>\n    quanto exalta e enobrece a alma, a fantasia daquela rapariga, entregue a si,<br \/>\n    elaborando a s&oacute;s sobre as mem&oacute;rias do passado, associara ao<br \/>\n    nome de Maur&iacute;cio. Fora isto que Berta trouxera no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a sua aldeia. Era o seu romance. Tinha ela a raz&atilde;o bastante clara<br \/>\n    para n&atilde;o o tomar por outra coisa mais real do que um verdadeiro romance,<br \/>\n    e bastante poder de reflex&atilde;o para n&atilde;o se deixar dominar por<br \/>\n    ele.<\/p>\n<p> Percebendo que em Maur&iacute;cio n&atilde;o estavam ainda extintas tamb&eacute;m<br \/>\n    as mem&oacute;rias do passado, e que ainda os seus sentimentos presentes recebiam<br \/>\n    dele luz e calor, Berta assustou-se, desconfiou de si, e mais do que nunca<br \/>\n    procurou precaver-se, fugindo &agrave; influ&ecirc;ncia de que se temia, mas<br \/>\n    cedendo a ela sem querer.<\/p>\n<p> Seguiram-se, por&eacute;m, as cenas que sabemos ; e o &iacute;ris que rodeava<br \/>\n    Maur&iacute;cio aos olhos de Berta dissipou-se conio um verdadeiro &iacute;ris<br \/>\n    em tardes h&uacute;midas de Inverno.<\/p>\n<p> O ideal de Berta n&atilde;o era somente belo, era generoso e impec&aacute;vel,<br \/>\n    e Maur&iacute;cio n&atilde;o atingia t&atilde;o alto. O instinto do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    denunciou a Berta o segredo do car&aacute;cter de Maur&iacute;cio ; n&atilde;o<br \/>\n    havia deprava&ccedil;&atilde;o nele, somente leviandade e inconst&acirc;ncia;<br \/>\n    mas j&aacute; era bastante para o desprestigiar.<\/p>\n<p> Nem leviano, nem inconstante era o Maur&iacute;cio que sonhara. Pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    de dia para dia lhe aparecia mais na sua verdadeira luz o car&aacute;cter<br \/>\n    de Jorge, desse rapaz honesto, generoso, grave, respeitado por todos. As suas<br \/>\n    qualidades morais atra&iacute;ram enfim a aten&ccedil;&atilde;o de Berta,<br \/>\n    e muita vez, enquanto conversava com Tom&eacute;, absorvido em uns vastos<br \/>\n    e generosos projectos, ou quando seguia pensativo pelos irregulares caminhos<br \/>\n    dos campos, era ele, sem o suspeitar, o objecto da contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Berta, em quem s&oacute; ent&atilde;o parecia terem feito impress&atilde;o<br \/>\n    a nobreza e intelig&ecirc;ncia, que nos gestos, na fisionomia e nas palavras<br \/>\n    daquele adolescente se revelavam.<\/p>\n<p> A cena do jantar na Casa Mourisca aumentou a intensidade destas nascentes<br \/>\n    impress&otilde;es. Nem podia deixar de ser assim.<\/p>\n<p> &Eacute; natural supor que a imagem de Jorge, desse rapaz corajoso e leal<br \/>\n    que, perante uma desdenhosa companhia do fidalgo, se erguera a reivindicar<br \/>\n    a boa fama da fam&iacute;lia pleb&eacute;ia, p&egrave;rfidamente caluniada<br \/>\n    por um deles, ocupasse o pensamento da que mais sofrer&aacute; da cal&uacute;nia,<br \/>\n    e ofuscasse a do outro, leviano e estouvado, que concorrera para levantar<br \/>\n    o aleive.<\/p>\n<p>Poderia deixar de insinuar-se em um cora&ccedil;&atilde;o aberto a sentimentos<br \/>\n    generosos, como era o de Berta, esse rapaz de vinte anos, diante de quem os<br \/>\n    velhos se descobriam, cheios de respeito pelas suas nobres qualidades de alma<br \/>\n    e pela superioridade da sua intelig&ecirc;ncia ? uma outra causa influ&iacute;ra,<br \/>\n    por&eacute;m, al&eacute;m destas, no esp&iacute;rito de Berta e no mesmo sentido<br \/>\n    que elas ; ainda que &agrave; primeira vista se pudesse julgar que diversa<br \/>\n    deveria ter sido a sua ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta causa fora a frieza, a quase hostilidade delicada com que Jorge a tratava.<br \/>\n    Berta n&atilde;o se iludia. Via bem claro que Jorge lhe falava sempre constrangido,<br \/>\n    e como se tivesse pressa de interromper um di&aacute;logo que o impacientava.<br \/>\n    As vezes havia nas palavras, que dele obtinha, um leve tom de ironia, que<br \/>\n    ela n&atilde;o sabia a que atribu&iacute;sse.<\/p>\n<p> Este proceder de Jorge deu que pensar a B&egrave;rta. Formando um conceito<br \/>\n    elevado do sao juizo e da seriedade do jovem amigo de seu pai, convencia-se<br \/>\n    de que aquelas maneiras frias com que era tratada por ele n&atilde;o podiam<br \/>\n    deixar de ter um fundamento. E este fundamento oculto procurava-o Berta com<br \/>\n    &acirc;nsia, em si mesma, estudava profundamente o seu pr&oacute;prio caracter,<br \/>\n    na esperan&ccedil;a de descobrir a solu&ccedil;&atilde;o deste enigma que<br \/>\n    a afligia ; e ao mesmo tempo estudava em Jorge o efeito dos esfor&ccedil;os<br \/>\n    com que fazia por vencer aquela preven&ccedil;&atilde;o, qualquer que ela<br \/>\n    fosse.<\/p>\n<p> Sucedeu o que era natural que sucedesse. N&atilde;o &eacute; sem perigo<br \/>\n    que a imagina&ccedil;&atilde;o de uma rapariga como Berta se entrega ao estudo<br \/>\n    de um car&aacute;cter de rapaz como o de Jorge, que lucra sempre em ser estudado<br \/>\n    e conhecido. &Agrave; medida que caracteres como este melhor se observam,<br \/>\n    mais virtudes se lhes descobrem, ao inverso de outros, cujos v&iacute;cios<br \/>\n    latentes v&atilde;o a pouco e pouco transparecendo no decurso de uma atenta<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o, e destruindo a impress&atilde;o favor&aacute;vel<br \/>\n    que ao princ&iacute;pio produziram.<\/p>\n<p> Berta reconheceu um dia que n&atilde;o obrigara impunemente o esp&iacute;rito<br \/>\n    a pensar a todo o instante em Jorge.<\/p>\n<p> Assustou-a a descoberta, mas o efeito j&aacute; n&atilde;o podia evit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Inquieta com os novos sentimentos que lhe invadiram o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a levaram a estas vagas apreens&otilde;es, &agrave;quelas tristezas, que<br \/>\n    t&atilde;o freq&uuml;entes lhe estavam sendo, n&atilde;o era outro o motivo<br \/>\n    da distrac&ccedil;&atilde;o com que escutara a m&atilde;e e da melancolia<br \/>\n    em que se deixou ficar &agrave; janela, depois que ela saiu.<\/p>\n<p> De repente estremeceu.<\/p>\n<p> Jorge, que j&aacute; n&atilde;o procurava ocultar-se nas visitas que fazia<br \/>\n    a Tom&eacute;, e dava aos seus actos uma publicidade mais conforme com o seu<br \/>\n    car&aacute;cter, acabara de entrar no p&aacute;tio da Herdade, e, desmontando-se,<br \/>\n    prendia o cavalo, em que viera, ao esteio da ramada.<\/p>\n<p> Alguns criados, que andavam por ali ocupados em diversos servi&ccedil;os<br \/>\n    da lavoura, descobriram-se ao v&ecirc;-lo entrar. Jorge cortejou-os com afabilidade<br \/>\n    e passou a interrog&aacute;-los sobre pormenores de trabalho em que eles se<br \/>\n    entretinham. Os homens davam-lhe as informa&ccedil;&otilde;es pedidas com<br \/>\n    os maiores sinais de defer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Depois Jorge subiu lentamente as escadas que conduziam &agrave; sala onde<br \/>\n    estava Berta. Ao v&ecirc;-lo subir o primeiro degrau, ela tentou retirar-<br \/>\n    se ; mas susteve-a uma inexplic&aacute;vel hesita&ccedil;&atilde;o, e quando<br \/>\n    Jorge abriu a porta, ainda a encontrou na sala.<\/p>\n<p> O olhar de Jorge desviou-se de Berta, como se fosse contrariado com a sua<br \/>\n    presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Vim talvez importun&aacute;-la? Perdoe. Ignorava que a acharia aqui<br \/>\n    &#8212; disse Jorge com aparente placidez.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o estava menos constrangida ao responder-lhe : &#8212; Importunar-me?<br \/>\n    De maneira alguma&#8230; Eu &eacute; que sinto que meu pai n&atilde;o esteja em<br \/>\n    casa, que &eacute; decerto quem o Sr. Jorge procurava.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! seu pai n&atilde;o est&aacute; em casa ? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    ; saiu agora mesmo.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o ousou dizer para onde.<\/p>\n<p> O nome da Casa Mourisca recordaria a cena do jantar e Berta tremia de record&aacute;-la<br \/>\n    diante de Jorge.<\/p>\n<p> Este caminhou para a janela distra&iacute;damente. E, passeando a vista<br \/>\n    por os campos, perguntou, sem ainda olhar para Berta: &#8212; N&atilde;o sabe<br \/>\n    se o pai tardar&aacute; muito ? &#8212; Eu&#8230; julgo que sim&#8230; Mas talvez<br \/>\n    minha m&atilde;e o possa informar melhor.<\/p>\n<p> A prop&oacute;sito chegava Luisa para dar informa&ccedil;&otilde;es precisas<br \/>\n    e para fazer cessar o constrangimento daquele di&aacute;logo, cuja prolonga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    seria um mart&iacute;rio para ambos.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Sr. Jorge, Sr. Jorge &#8212; exclamou Luisa logo que o viu &#8212;<br \/>\n    ainda bem que veio, e pena &eacute; que n&atilde;o viesse meia hora mais cedo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o era c&aacute; t&atilde;o necess&aacute;ria a minha<br \/>\n    presen&ccedil;a? &#8212; Ora se era ! Eu ponho as m&atilde;os numas horas<br \/>\n    se estando c&aacute; o Sr. Jorge, se metia aquela cisma na cabe&ccedil;a do<br \/>\n    meu Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Que cisma &eacute; essa de que fala? &#8212; Pois ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    sabe para o que havia de dar &agrave;quele homem de Cristo? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    sei, n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Berta, ent&atilde;o tu n&atilde;o disseste ao Sr. Jorge<br \/>\n    para onde teu pai foi? &#8212; Eu&#8230; eu ignorava.<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus ! Se eu n&atilde;o tenho falado de outra coisa, desde<br \/>\n    que ele saiu. Ignorava ! Voc&ecirc;s sempre t&ecirc;m coisas ! Pois o meu<br \/>\n    Tom&eacute; est&aacute; a estas horas na Casa Mourisca.<\/p>\n<p> &#8212; A fazer o qu&ecirc; ? &#8212; Isso s&oacute; ele sabe e Deus. Mal<br \/>\n    almo&ccedil;ou foi para l&aacute; com tr&ecirc;s criados.<\/p>\n<p> Diz ele que j&aacute; que o fidalgo teima em lhe p&ocirc;r as chaves em<br \/>\n    casa e que todo se espinhou por lhe querer ser prest&aacute;vel, vai fazer<br \/>\n    o bem que puder &agrave; sua fam&iacute;lia, e melhorar a quinta e a Casa<br \/>\n    Mourisca, e que ainda que tenha de empenhar os seus teres e os dos filhos,<br \/>\n    se h&aacute;-de vingar do fidalgo, fazendo-lhe todo o bem que estiver na sua<br \/>\n    m&atilde;o.<\/p>\n<p> E tirem-lhe l&aacute; isso da cabe&ccedil;a! &#8212; &Eacute; uma alma generosa<br \/>\n    a de Tom&eacute;, mas eu o dissuadirei dessa vingan&ccedil;a, que viria transtornar<br \/>\n    os meus planos e tirar-me a gl&oacute;ria, a que aspiro, de trabalhar por<br \/>\n    minhas pr&oacute;prias m&atilde;os nessa obra de restaura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o o disse? &laquo;Tom&eacute;, tu n&atilde;o fa&ccedil;as<br \/>\n    nada sem falares com o Sr. Jorge&raquo;. Mas qual? Bem lhe importava ele com<br \/>\n    o que eu pregava! &Eacute; um bom-ser&aacute;s o meu Tom&eacute;. Em vinte<br \/>\n    anos de casada, nunca me deu um desgosto. Pode haver maridos t&atilde;o bons<br \/>\n    como ele, melhores n&atilde;o posso crer que haja. Devo dizer o que &eacute;<br \/>\n    verdade. Mas l&aacute; de quando em quando, em se lhe metendo umas cismas<br \/>\n    na cabe&ccedil;a ! adeus, minhas encomendas ! j&aacute; se lhe n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute; volta. S&oacute; o Sr. Jorge. Ele l&aacute; ao Sr. Jorge ainda cede.<br \/>\n    E o que ele lhe n&atilde;o fizer, escusam de vir a&iacute; os poderes do mundo,<br \/>\n    que nada fazem. L&aacute; o Sr. Jorge ! credo ! Isso basta ouvi-lo falar em<br \/>\n    si. Ora, n&atilde;o &eacute; agora por estar presente, mas raz&atilde;o tem<br \/>\n    ele para fazer o que faz.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado, Sr.&raquo; Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado porqu&ecirc; ? 0 filho, n&atilde;o, a minha boca n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; para gabar quem o n&atilde;o merece. Mas, diga-me c&aacute;, que<br \/>\n    rapaz h&aacute; a&iacute; que fa&ccedil;a o que o menino faz? Que na sua idade,<br \/>\n    em que enfim todos sabemos que o que se quer &eacute; brincar, olha como um<br \/>\n    homem por a sua casa, como nem muitos velhos sabem? E depois, &oacute; Sr.<br \/>\n    Jorge, sempre lhe digo que ainda h&aacute; bem poucos dias estes olhos choraram<br \/>\n    bastantes l&aacute;grimas por sua causa.<\/p>\n<p> &#8212; Por minha causa?! Pois eu fi-la chorar, Sr.* Luisa? &#8212; Oh!<br \/>\n    n&atilde;o foi por mal que me fizesse, foi porque enfim&#8230; h&aacute; certas<br \/>\n    ac&ccedil;&otilde;es que bolem c&aacute; dentro com uma pessoa e&#8230; quando<br \/>\n    me contaram o que se passou em sua casa, com aqueles vadios dos seus primos<br \/>\n    e em que o menino&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! n&atilde;o falemos nisso, Sr.* Luisa, que n&atilde;o vale a<br \/>\n    pena.<\/p>\n<p> &#8212; Se n&atilde;o vale!&#8230; Olhe que n&atilde;o fui eu s&oacute; que<br \/>\n    chorei. E Berta? &#8212; Ah ! sinto deveras ter sido motivo de um desgosto<br \/>\n    para Berta &#8212; disse Jorge no tom que habitualmente usava falando dela.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o p&ocirc;de responder.<\/p>\n<p> &#8212; Desgosto ? &#8212; acudiu Luisa. &#8212; Ora essa ! Antes ela deve<br \/>\n    agradecer- lhe ; e querem ver que ainda o n&atilde;o fizeste, Berta? A confus&atilde;o<br \/>\n    de Berta aumentou com esta arg&uuml;i&ccedil;&atilde;o da m&atilde;e.<\/p>\n<p> Jorge atalhou: &#8212; Eu &eacute; que me esqueci de pedir a Berta perd&atilde;o<br \/>\n    por haver dado ensejo, com os meus actos, a que o seu nome andasse por bocas<br \/>\n    de pessoas a todos os respeitos indignas de pronunci&aacute;-lo. Coisas minhas<br \/>\n    ; ando t&atilde;o alheio ao trato do mundo, que a cada passo caio nestas imprud&ecirc;ncias,<br \/>\n    e sacrifico os outros, sem querer. Berta tem raz&atilde;o para estranhar este<br \/>\n    car&aacute;cter bravio ; mas espero que me perdoar&aacute;.<\/p>\n<p> Berta ia a responder, mas era tal a sua como&ccedil;&atilde;o, aumentada<br \/>\n    pelo modo por que Jorge dissera estas palavras, que sentiu n&atilde;o lhe<br \/>\n    ser poss&iacute;vel formular uma resposta ; os olhos inundaram-se-lhe de l&aacute;grimas<br \/>\n    e o rosto traiu-a.<\/p>\n<p> Levantando-se agitada, saiu da sala em sil&ecirc;ncio, como se precisasse<br \/>\n    de estar s&oacute; para desafogar em l&aacute;grimas a opress&atilde;o que<br \/>\n    a angustiava.<\/p>\n<p> Luisa viu-a sair, e ficou admirada. Olhou para Jorge com estranheza, olhou<br \/>\n    para a porta, como se n&atilde;o soubesse explicar a cena a que assistira.<\/p>\n<p> &#8212; Estas raparigas t&ecirc;m uns modos ! J&aacute; viram uma coisa<br \/>\n    assim ? ! &#8212; murmurou ela, passada a primeira surpresa. &#8212; Queira<br \/>\n    perdoar, Sr. Jorge.<\/p>\n<p> Igualmente enleado, Jorge procurou mudar o sentido da conversa, falando<br \/>\n    outra vez de Tom&eacute;, em procura do qual saiu poucos minutos depois.<\/p>\n<p> Assim que o viu deixar a sala, Luisa ficou pensativa por algum tempo ; e<br \/>\n    no fim disse em voz alta, como era costume seu : &#8212; Deix&aacute;-los.<br \/>\n    Se assim fosse, tanto melhor. Coisas mais incr&iacute;veis se t&ecirc;m visto.<br \/>\n    Seja o que Deus quiser ! Ao passar no patamar das escadas que davam para o<br \/>\n    quinteiro, Jorge encontrou ali Berta, que parecia esper&aacute;-lo. Cortejando-a,<br \/>\n    procurou nos olhos dela o vest&iacute;gio de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Jorge &#8212; disse-lhe Berta com voz triste e levemente tr&eacute;mula<br \/>\n    &#8212; perdoe-me a minha perturba&ccedil;&atilde;o de h&aacute; pouco. Fui<br \/>\n    obrigada a sair da sala sem lhe dizer nem uma simples palavra de agradecimento<br \/>\n    por o muito que lhe devia; mas creia que n&atilde;o &eacute; por que o desconhe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; O que me deve ! Ent&atilde;o quer que lhe repita o que j&aacute;<br \/>\n    l&aacute; dentro lhe disse? Eu sou que tenho a pedir perd&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Basta, Sr. Jorge &#8212; atalhou Berta, tentando sorrir, mas raiando-<br \/>\n    -lhe o sorriso por entre mal contidas l&aacute;grimas, como o Sol no meio<br \/>\n    da chuva do Inverno. &#8212; Hoje n&atilde;o&#8230; mas&#8230; em outro dia&#8230; h&aacute;-de<br \/>\n    dizer- -me por que n&atilde;o &eacute; meu amigo.<\/p>\n<p> Jorge estremeceu, e olhando para ela repetiu : &#8212; Porque n&atilde;o<br \/>\n    sou seu amigo?! Que quer dizer, Berta? &#8212; Oh! creia que h&aacute; sinais<br \/>\n    que n&atilde;o enganam. Seja o que for, mas no seu pensamento h&aacute; alguma<br \/>\n    coisa contra mim, Sr. Jorge. &Eacute; pouco dissimulado, bem v&ecirc;, n&atilde;o<br \/>\n    o pode disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8212; Berta ! mas que criancice ! Pois que h&aacute;-de haver contra si<br \/>\n    no meu pensamento? &#8212; N&atilde;o sei. um dia mo dir&aacute;, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade ? &Eacute; muito leal e muito generoso para n&atilde;o mo<br \/>\n    dizer. Bem v&ecirc; que preciso sab&ecirc;-lo para me emendar, porque&#8230; eu<br \/>\n    desejava que fosse meu amigo, Sr. Jorge. Todos o respeitam, todos falam na<br \/>\n    sua generosidade ; espero que n&atilde;o a desmentir&aacute; comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m&#8230; &#8212; ia Jorge a objectar, quando Berta o interrompeu,<br \/>\n    dizendo :<\/p>\n<p>&#8212; Agora n&atilde;o, agora n&atilde;o. Lembre-se s&oacute; de que eu<br \/>\n    fico acreditando que ser&aacute; sincero comigo, no dia em que eu o interrogar,<br \/>\n    e que decerto n&atilde;o se recusar&aacute; ent&atilde;o a falar-me com franqueza.<br \/>\n    Adeus, Sr. Jorge. Creia que desejava deveras que fosse t&atilde;o meu amigo,<br \/>\n    como &eacute; de meu pai.<\/p>\n<p> E retirou-se depois de pronunciar estas palavras.<\/p>\n<p> Jorge desceu vagarosamente as escadas, montou distra&iacute;do o cavalo<br \/>\n    que o aguardava no quinteiro, e deixou-lhe a r&eacute;dea livre, de maneira<br \/>\n    que o animal seguiu a passo o caminho da casa, que por tanto tempo lhe dera<br \/>\n    abrigo, o caminho da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Desapercebidamente ia passando Jorge por todos os lugares interm&eacute;dios.<br \/>\n    As palavras de Berta, animadas por aquela sentida como&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    a dominava ao falar-lhe, estavam-lhe ainda nos ouvidos, e nos olhos a imagem<br \/>\n    da gentil rapariga, em quem uma grave express&atilde;o de dor mais real&ccedil;ava<br \/>\n    a beleza.<\/p>\n<p> &#8212; E se voltar a interrogar-me &#8212; pensava Jorge &#8212; que posso<br \/>\n    eu dizer-lhe? que devo confessar-lhe? Nada. Pois que tenho eu contra ela?<br \/>\n    Pobre rapariga! Mas &eacute; certo que me parece que tenho sido um tanto rude,<br \/>\n    um tanto desabrido&#8230; E porqu&ecirc;? Jorge parecia neste momento estar sondando<br \/>\n    o fundo do seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o, para investigar a verdade.<br \/>\n    De repente fez um movimento com a cabe&ccedil;a, como tentando rejeitar uma<br \/>\n    id&eacute;ia pertinaz.<\/p>\n<p> &#8212; Mas isto n&atilde;o pode ser, senhor. Isto &eacute; uma loucura<br \/>\n    que n&atilde;o tem raz&atilde;o de existir. Pois n&atilde;o hei-de ter for&ccedil;a<br \/>\n    de a abafar &agrave; nascen&ccedil;a? Acaso o sangue da minha idade tamb&eacute;m<br \/>\n    me h&aacute;-de fazer doidejar como aos outros? Eu felizmente n&atilde;o possuo<br \/>\n    o temperamento de Maur&iacute;cio e hei-de vencer na luta, hei-de. Mas em<br \/>\n    todo o caso &eacute; uma puerilidade a maneira por que estou procedendo com<br \/>\n    Berta. Porque &eacute; certo que o modo por que a trato n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    natural. &Eacute; medo de me trair? Mais me traio ainda por esta forma. &Eacute;<br \/>\n    despeito por as aten&ccedil;&otilde;es que a vejo dar a outro?&#8230; a meu irm&atilde;o?!<br \/>\n    &Eacute; verdade que se ele a amasse deveras&#8230;<\/p>\n<p> mas eu que o conhe&ccedil;o&#8230; &Eacute; uma loucura afinal, &eacute; o que<br \/>\n    &eacute;. E fiem-se no ju&iacute;zo de um rapaz de vinte anos ! A&iacute;<br \/>\n    estou eu t&atilde;o doido como qualquer desses estouvados. E o mais &eacute;<br \/>\n    que a mim &eacute; que se n&atilde;o perdoaria a loucura. A loucura em um<br \/>\n    rapaz de ju&iacute;zo &eacute; um delito imperdo&aacute;vel.<\/p>\n<p> Se soubessem por a&iacute;&#8230; se descobrissem&#8230; &laquo;E quem havia de<br \/>\n    dizer! Ora vejam, um rapaz que parecia t&atilde;o ajuizado ! &raquo; &Eacute;<br \/>\n    como eles principiam logo. Ai, tem pesadas responsabilidades o que na minha<br \/>\n    idade mereceu que lhe chamassem &laquo;um rapaz de ju&iacute;zo&raquo;. &Eacute;<br \/>\n    preciso a cada momento sufocar a revolta do temperamento e da idade, lutar<br \/>\n    incessantemente com a imagina&ccedil;&atilde;o&#8230; E hei-de lutar! &Eacute;<br \/>\n    for&ccedil;oso que n&atilde;o deixe sair c&aacute; de dentro os meus desvarios<br \/>\n    de rapaz. Doideje o cora&ccedil;&atilde;o &agrave; sua vontade, contanto que<br \/>\n    s&oacute; eu o saiba&#8230; Mas a luta &eacute; comigo e n&atilde;o com ela&#8230;<br \/>\n    Berta tem raz&atilde;o em perguntar-me o motivo da minha hostilidade. A minha<br \/>\n    hostilidade ! Ah, que se ela tivesse um olhar mais penetrante&#8230; Disso &eacute;<br \/>\n    que me receio&#8230; N&atilde;o h&aacute; que ver, hei-de preocupar tanto, tanto,<br \/>\n    a minha cabe&ccedil;a com algarismos e neg&oacute;cios, que hei-de por for&ccedil;a<br \/>\n    perder a consci&ecirc;ncia dos afectos, e &eacute; assim que hei-de mat&aacute;-los.<\/p>\n<p> Neste momento vencia Jorge o declive que levava &agrave; porta principal<br \/>\n    da Casa Mourisca. O caminho desafrontado naquela altura de &aacute;rvores<br \/>\n    e de sebes altas subia &agrave; vista do casal de Tom&eacute; e permitia descobrir<br \/>\n    na encosta fronteira as veredas que para l&aacute; conduziam.<\/p>\n<p> Jorge desviou naturalmente a vista para aquele s&iacute;tio.<\/p>\n<p> Na varanda de entrada divisava-se ainda o vulto de Berta, na mesma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que a deixara.<\/p>\n<p> Alvoro&ccedil;ou-se o cora&ccedil;&atilde;o do rapaz com isso ; ao mesmo<br \/>\n    tempo, por&eacute;m, ia subindo, na direc&ccedil;&atilde;o da Herdade, um<br \/>\n    cavaleiro, que ele reconheceu ser Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Esta nova descoberta desagradou-lhe manifestamente, purpurearam- se-lhe<br \/>\n    as faces por momentos, e a fronte contraiu-se-lhe com uma express&atilde;o<br \/>\n    de desgosto. Pela primeira vez fustigou o cavalo, que at&eacute; ali deixara<br \/>\n    entregue ao capricho.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, que tamb&eacute;m da outra margem avistara o irm&atilde;o,<br \/>\n    fez-lhe um aceno com a m&atilde;o ao qual Jorge respondeu apontando-lhe para<br \/>\n    a Casa Mourisca, como a designar-lhe o motivo do seu passeio. Maur&iacute;cio<br \/>\n    replicou-lhe com um movimento de bra&ccedil;os, exprimindo que o seu giro<br \/>\n    era mais extenso e para outro lado. E na direc&ccedil;&atilde;o que seguiu<br \/>\n    era inevit&aacute;vel a passagem pela casa de Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> &#8212; Por isso ela se demorou na varanda &#8212; murmurou Jorge com amargura<br \/>\n    ; e prosseguiu, olhando para Maur&iacute;cio : &#8212; Aquele pode ser louco<br \/>\n    &agrave; sua vontade ; ningu&eacute;m lho estranhar&aacute;, ningu&eacute;m<br \/>\n    lhe far&aacute; disso um crime. E afinal talvez que de n&oacute;s dois n&atilde;o<br \/>\n    seja ele o mais louco. A loucura &eacute; insepar&aacute;vel do homem ; umas<br \/>\n    vezes toma-lhe a cabe&ccedil;a e deixa-lhe em paz o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que nunca se empenha nos desvarios a que ela &eacute; arrastada ; &eacute;<br \/>\n    o caso de Maur&iacute;cio ; outras vezes h&aacute; na cabe&ccedil;a a frieza<br \/>\n    da raz&atilde;o, e ao cora&ccedil;&atilde;o desce a loucura para o perturbar<br \/>\n    com afectos ; quer-me parecer que &eacute; o que sucede comigo.<\/p>\n<p> O cavalo parou espontaneamente &agrave; porta da Casa Mourisca e arrancou<br \/>\n    Jorge &agrave; corrente de vagas cogita&ccedil;&otilde;es em que lhe flutuava<br \/>\n    o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, Jorge &#8212; dizia ele a si mesmo, ao desmontar &#8212;<br \/>\n    j&aacute; agora &eacute; necess&aacute;rio ser rapaz de ju&iacute;zo at&eacute;<br \/>\n    ao fim. Tu n&atilde;o tens direito de condescender com a tua mocidade, homem.<br \/>\n    Ningu&eacute;m te relevaria os ardores da juventude, porque todos te sup&otilde;em<br \/>\n    o sangue de gelo.<\/p>\n<p> E, serenando outra vez a fisionomia, at&eacute; ali um pouco alterada sob<br \/>\n    a influ&ecirc;ncia de encontrados pensamentos, entrou para a quinta em procura<br \/>\n    de Tom&eacute;, que o precedera a&iacute;. Quando depois de algumas pesquisas,<br \/>\n    Jorge, guiado por o som de vozes e por um ru&iacute;do de sachos e de enxadas,<br \/>\n    conseguiu avistar o fazendeiro, n&atilde;o p&ocirc;de reter um sorriso de<br \/>\n    estranheza e de simpatia, que o espect&aacute;culo que via lhe provocava.\n  <\/p>\n<p>E t&atilde;o grave efeito parecia produzir-lhe esse espect&aacute;culo que,<br \/>\n    sem ter querido interromp&ecirc;-lo com a sua presen&ccedil;a, continuou por<br \/>\n    algum tempo observando-o.<\/p>\n<p> Efectivamente para quem soubesse a verdadeira significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos actos em que Tom&eacute; estava empenhado naquele momento, n&atilde;o<br \/>\n    seria para estranhar o sorriso de Jorge, nem a sua express&atilde;o d&ugrave;plice<br \/>\n    de simpatia e de espanto.<\/p>\n<p> Tom&eacute; n&atilde;o havia meditado no plano para a vingan&ccedil;a que<br \/>\n    jurara contra o fidalgo. Ansiava por principiar a p&ocirc;-la em pr&aacute;tica,<br \/>\n    e encetou-a sem m&eacute;todo nem sistema. Intimou os criados para que o acompanhassem,<br \/>\n    sem que tivesse ainda pensado no que lhes mandaria fazer.<\/p>\n<p> Chegados que foram &agrave; quinta, fixou-se na primeira avenida &agrave;<br \/>\n    entrada, e a&iacute; principiou a az&aacute;fama, arrancando as ervas in&uacute;teis,<br \/>\n    decepando ramos mortos, varrendo as folhas ca&iacute;das, amparando os arbustos<br \/>\n    derrubados sobre o caminho, desassombrando as plantas afrontadas e &agrave;<br \/>\n    m&iacute;ngua de sol, enxugando e nivelando os passeios alagados, e desobstruindo<br \/>\n    os encanamentos de rega. A rua ficou que era um primor.<\/p>\n<p> No momento em que Jorge o avistou, limpavam os criados o limo depositado<br \/>\n    em um tanque, enquanto Tom&eacute;, suando, tentava erguer sobre o pedestal<br \/>\n    a est&aacute;tua de pedra de n&atilde;o sei que divindade paga, que havia<br \/>\n    muitos anos repousava em leito de malvas e ortigas, coberta de liq&uacute;enes<br \/>\n    esverdeados.<\/p>\n<p> &#8212; E dia de festa por c&aacute;, &agrave; balb&uacute;rdia que estou<br \/>\n    vendo ! &#8212; disse Jorge, adiantando-se enfim, e aparecendo aos olhos do<br \/>\n    fazendeiro, que se voltou precipitado ao ouvir-lhe a voz. &#8212; Quem visse<br \/>\n    dizia que passa por aqui prociss&atilde;o, em que n&oacute;s somos mordomos.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, readquirindo a sua presen&ccedil;a de espirito, respondeu:<br \/>\n    &#8212; Prociss&atilde;o n&atilde;o digo, mas festa em que eu sou mordomo,<br \/>\n    h&aacute;-de haver aqui, se Deus me der sa&uacute;de.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, visto que o Tom&eacute; &eacute; o juiz da festa, pode dispor<br \/>\n    do seu tempo sem pedir licen&ccedil;a a ningu&eacute;m. Por isso h&aacute;-de<br \/>\n    conceder-me um momento de conversa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, Sr. Jorge, tenha paci&ecirc;ncia ; mas eu<br \/>\n    tenho grande empenho em dar andamento a isto.<\/p>\n<p> &#8212; E eu absoluta necessidade de falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ora valha-me Deus ! E eu ent&atilde;o que estou quase a adivinhar<br \/>\n    o que me vai dizer! &#8212; Talvez que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O que lhe afirmo &eacute; que se me quer tirar da cabe&ccedil;a<br \/>\n    isto que se me meteu c&aacute; dentro, &eacute; tempo perdido.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a conjecturas antecipadas, Tom&eacute;. E sente-se<br \/>\n    primeiro.<\/p>\n<p> &#8212; Pois v&aacute; l&aacute;. Voc&ecirc;s sigam por ai adiante &#8212;<br \/>\n    disse o lavrador.<\/p>\n<p> voltando-se para os criados &#8212; e al&eacute;m naquela nora&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pode mand&aacute;-los embora, Tom&eacute; &#8212; atalhou Jorge.<\/p>\n<p>&#8212; Embora? Adeus! &Eacute; o que eu digo! Olhe que se &eacute; com o<br \/>\n    fim de me dissuadir que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mande-os embora que est&aacute; a cair meio-dia e pouco servi&ccedil;o<br \/>\n    podem fazer at&eacute; l&aacute;. De tarde ou amanh&atilde; continuar&atilde;o,<br \/>\n    se o Tom&eacute; achar conveniente.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o hei-de achar ! Enfim v&atilde;o l&aacute;<br \/>\n    &agrave; sua vida, mas em sendo duas horas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus ; deixe as ordens para lhas dar em casa, que tem tempo<br \/>\n    &#8212; atalhou pela segunda vez Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Pois tenho, tenho, mas enfim&#8230; Ide l&aacute; com Deus.<\/p>\n<p> E, ficando s&oacute; com o jovem fidalgo, Tom&eacute; da P&oacute;voa cruzou<br \/>\n    os bra&ccedil;os e interrogou em tom de amig&aacute;vel enfado: &#8212; Aqui<br \/>\n    me tem. Ent&atilde;o o que &eacute; que me quer? Jorge enfiou o bra&ccedil;o<br \/>\n    no dele e encaminhando-o para o tanque de pedra, limpo e esfregado de pouco<br \/>\n    pelos criados da Herdade, disse-lhe : &#8212; Vamos sentar-nos ali, que o<br \/>\n    que eu tenho a dizer-lhe &eacute; s&eacute;rio, e precisa de ser tratado com<br \/>\n    sossego e descanso.<\/p>\n<p> E, sentando-se ambos na borda do tanque, voltados na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Casa Mourisca, cuja fachada se descobria por entre uma das &aacute;rvores,<br \/>\n    Jorge prosseguiu: &#8212; Agora que estamos s&oacute;s, Tom&eacute;, vai dizer-me<br \/>\n    o que significa t&ocirc;da esta brincadeira.<\/p>\n<p> A palavra &laquo;brincadeira&raquo;, o fazendeiro deu um salto.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o o disse ? ! Ele a&iacute; vem com as suas reflex&otilde;es<br \/>\n    ! Por essa esperava eu. Mas n&atilde;o tem d&uacute;vida, eu estou pronto<br \/>\n    para explicar-lhe a brincadeira. Se o Sr. Jorge visse, como eu vi, olharem<br \/>\n    as minhas ac&ccedil;&otilde;es como insultos, n&atilde;o servi&ccedil;os,<br \/>\n    que bem sei que n&atilde;o os fiz, mas pelo menos bons desejos, como s&atilde;o<br \/>\n    os que tenho de lhe ser &uacute;til e aos seus, tamb&eacute;m n&atilde;o havia<br \/>\n    de sofrer com tanta paci&ecirc;ncia a injusti&ccedil;a, que n&atilde;o procurasse<br \/>\n    tirar desforra.<\/p>\n<p> E Tom&eacute;, levantando-se, p&ocirc;s-se a passear agitado.<\/p>\n<p> &#8212; Mas venha c&aacute;, Tom&eacute;, quem lhe diz que n&atilde;o tem<br \/>\n    raz&atilde;o em se ofender e at&eacute; em se vingar nobremente, como empreendeu<br \/>\n    faz&ecirc;-lo? &#8212; Sim, mas ent&atilde;o n&atilde;o chame brincadeira<br \/>\n    ao que fa&ccedil;o &#8212; tornou o fazendeiro amuado.<\/p>\n<p> &#8212; Chamo, por ver que n&atilde;o realiza a sua vingan&ccedil;a por<br \/>\n    essa forma.<\/p>\n<p> O Tom&eacute;, se pensar a sangue-frio, h&aacute;-de ser o primeiro a concordar<br \/>\n    comigo. Ora diga, pois acha que a obra mais dificil a levar a efeito em nossa<br \/>\n    casa &eacute; a limpeza destas ruas e destes tanques? Acha que vale a pena<br \/>\n    principiar por aqui a exercer a sua actividade? Se um dia, entrando em bom<br \/>\n    caminho a administra&ccedil;&atilde;o dos nossos bens, nos restituir, como<br \/>\n    espero, o pleno gozo deles, livre das demandas, dos &ocirc;nus e da usura<br \/>\n    que os definham, n&atilde;o lhe parece que os nossos criados far&atilde;o<br \/>\n    em dois ou tr&ecirc;s dias obra correspondente ao valor da sua vingan&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; iremos. Da quinta subirei os degraus e entrarei em casa,<br \/>\n    que remo&ccedil;arei do portal at&eacute; aos telhados.<\/p>\n<p> &#8212; E que &eacute; tudo isso para o muito que ainda haveria por fazer,<br \/>\n    e onde os seus aux&iacute;lios poderiam ser-nos mais vantajosos? N&atilde;o<br \/>\n    vale muito mais tudo o que j&aacute; tem feito? O Tom&eacute; bem sabe que<br \/>\n    o nosso grande mal n&atilde;o est&aacute; naquelas pedras ca&iacute;das ;<br \/>\n    isso &eacute; apenas o sintoma da doen&ccedil;a, que &eacute; preciso combater<br \/>\n    primeiro.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas&#8230;&#8212;titubeou o lavrador, j&aacute; abalado.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe o que consegue com isso, Tom&eacute; ? consegue uma vingan&ccedil;a<br \/>\n    aparente, que fala mais aos olhos, isso &eacute; verdade ; mas n&atilde;o<br \/>\n    a vingan&ccedil;a real, generosa e nobre, representada pelo seu empenho em<br \/>\n    auxiliar-me deveras na obra que empreendi. Consegue contrastar as minhas ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; sou eu quem mais sofro da sua vingan&ccedil;a. Esta casa, como sabe, &eacute;<br \/>\n    apenas uma pequena parte da nossa propriedade, mas &eacute; a que, por assim<br \/>\n    dizer, a representa. O povo enquanto n&atilde;o vir renovar aquelas ameias<br \/>\n    ca&iacute;das, aclarar aquelas paredes negras, restaurar aquela capela abandonada,<br \/>\n    nunca se persuadir&aacute; de que a nossa casa conseguiu escapar do naufr&aacute;gio<br \/>\n    em que esteve para perder-se. Quando eu tivesse assentado em bases s&oacute;lidas<br \/>\n    esta propriedade que encontrei vacilante, quando pudesse desafogadamente chamar<br \/>\n    meu ao mesmo que meus av&oacute;s chamaram deles, havia ent&atilde;o de renovar<br \/>\n    esta velha habita&ccedil;&atilde;o, que s&oacute; ent&atilde;o teria o direito<br \/>\n    de sorrir defronte da sua Herdade, Tom&eacute;, e dessas alegres casas que<br \/>\n    a&iacute; se estendem por a colina abaixo. Nesse dia ficaria o povo sabendo<br \/>\n    que eu tinha cumprido um dever, e havia de respeitar-me por for&ccedil;a.<br \/>\n    Mas o Tom&eacute; quer privar-me dessa gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Vai fazer sorrir esse fiel confidente dos nossos infort&uacute;nios, quando<br \/>\n    ainda o sorriso &eacute; uma mentira e uma ironia aos seus propriet&aacute;rios.<\/p>\n<p> Depois, embora eu lute e obre prodigios, e consiga vencer, o povo dir&aacute;:<br \/>\n    Os fidalgos da Casa Mourisca est&atilde;o hoje melhor do que j&aacute; estiveram.<\/p>\n<p> Houve um homem, o dono da casa ali defronte, que teve compaix&atilde;o deles<br \/>\n    e lhes restaurou por esmola a casa que cala em ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> N&atilde;o falar&atilde;o nos seus outros valiosos servi&ccedil;os, que<br \/>\n    n&atilde;o os conhecem nem apreciam; n&atilde;o falar&atilde;o daqueles que<br \/>\n    me n&atilde;o envergonho, antes me orgulho de confessar. Falar&atilde;o apenas<br \/>\n    do &uacute;nico que me humilha, do &uacute;nico que tem efectivamente um car&aacute;cter<br \/>\n    de esmola, do menos importante de todos, do que se realizaria com o rendimento<br \/>\n    da nossa menor tapada, depois de remido. Agora veja l&aacute;, Tom&eacute;<br \/>\n    ; se o seu intento &eacute; realmente o de humilhar-me, prossiga na sua obra,<br \/>\n    que eu prometo n&atilde;o a embara&ccedil;ar com os meios legais que n&atilde;o<br \/>\n    desconhece ; mas se a sua vingan&ccedil;a &eacute;, como suponho, mais nobre,<br \/>\n    mais digna de si, se ousa fazer- -nos bem, apesar do orgulho que lho rejeita,<br \/>\n    sem se lhe importar que um bem seja aparente para que os outros nos vejam<br \/>\n    humilhados, ent&atilde;o deixo ao seu ju&iacute;zo resolver se este &eacute;<br \/>\n    o melhor caminho que tem a seguir.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa ouviu tudo isto com os olhos no ch&atilde;o,<br \/>\n    apertando o l&aacute;bio inferior entre o p&oacute;lex e o index e balanceando<br \/>\n    lentamente com o corpo.<\/p>\n<p>Depois que Jorge acabou de falar, permaneceu assim ainda por algum tempo,<br \/>\n    e acabou por dizer: &#8212; Bem; visto isso, desisto. Engolirei os meus projectos<br \/>\n    conforme puder. n&atilde;o digo que n&atilde;o tem raz&atilde;o, acho at&eacute;<br \/>\n    que a tem. Quando me resolvi a isto, pensava s&oacute; no fidalgo, n&atilde;o<br \/>\n    pensava no Sr. Jorge&#8230; Agora vejo que fui muito apressado. Muito bem, farei<br \/>\n    por me resignar. L&aacute; me custa, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o lhe pe&ccedil;o que desista da sua vingan&ccedil;a. Quero<br \/>\n    tamb&eacute;m que um dia a verdade obrigue meu pai a reconhecer que a nobreza<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; s&oacute; nos pergaminhos e que a alian&ccedil;a com<br \/>\n    um homem honrado honra sempre quem a contrai.<\/p>\n<p> Tom&eacute; j&aacute; tinha l&aacute;grimas nos olhos, ao apertar a m&atilde;o<br \/>\n    a Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o-lhe at&eacute; que continue o seu aux&iacute;lio, sem<br \/>\n    o qual eu nada faria, e at&eacute; vou indicar-lhe um g&eacute;nero de servi&ccedil;os<br \/>\n    que espero dever-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Fale, fale, Sr. Jorge, o que o senhor de mim n&atilde;o conseguir,<br \/>\n    ningu&eacute;m consegue.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; muito que eu desejo ir ao Porto. A esp&eacute;cie de ex&iacute;lio,<br \/>\n    a que meu pai me condenou, facilita-me agora essa empresa. Queria conversar<br \/>\n    directamente com os nossos advogados na demanda do Casal do Reguengo. Parece-me<br \/>\n    que h&aacute; circunstancias de valor que no processo n&atilde;o se t&ecirc;m<br \/>\n    feito sentir devidamente. Depois aquele documento que lhe mostrei n&atilde;o<br \/>\n    me sai da id&eacute;ia. Enfim, pode ser uma ilus&atilde;o minha, mas tenho<br \/>\n    com tanto afinco estudado a quest&atilde;o, que me parece que vejo claro nela.<br \/>\n    E como sabe, Tom&eacute;, se ela se nos resolvesse favoravelmente era meia<br \/>\n    vit&oacute;ria ganha.<\/p>\n<p> &#8212; Isso era.<\/p>\n<p> &#8212; Portanto, quando o Tom&eacute; puder dispor de si, desejava que<br \/>\n    me acompanhasse &agrave; cidade, para me apresentar aos ju&iacute;zes e letrados,<br \/>\n    que conhece. Depois, tenho ainda outro fim em vista; desenredadas estas teias<br \/>\n    que me embara&ccedil;am, preciso de um grande capital para incorporar &agrave;<br \/>\n    terra, para tirar dela os recursos, que de outra maneira n&atilde;o pode dar.<br \/>\n    A sua generosidade e os seus sacrif&iacute;cios n&atilde;o podem ir t&atilde;o<br \/>\n    longe : gra&ccedil;as a eles, j&aacute; a usura me deixa respirar mais livremente<br \/>\n    ; e j&aacute; a equidade substituiu o dolo de muitos dos contratos da nossa<br \/>\n    casa. Mais tarde a escala do empr&eacute;stimo tem de subir for&ccedil;osamente<br \/>\n    para realizar em grande os aperfei&ccedil;oamentos agr&iacute;colas que em<br \/>\n    pequeno vou ensaiando. O capital particular n&atilde;o me bastar&aacute; para<br \/>\n    esse intento. Lembrei-me da nova companhia de Cr&eacute;dito Predial, que<br \/>\n    se instalou agora no Pa&iacute;s. Preciso, pois, informar-me dos neg&oacute;cios<br \/>\n    atinentes a estas opera&ccedil;&otilde;es e da regularidade de alguns t&iacute;tulos<br \/>\n    que possu&iacute;mos.<\/p>\n<p> Pode auxiliar-me no que lhe pe&ccedil;o? &#8212; Amanh&atilde; partiremos,<br \/>\n    se quiser.<\/p>\n<p> &#8212; Pois seja amanh&atilde;. E n&atilde;o acha que encaminho melhor<br \/>\n    a sua vingan&ccedil;a por este lado, Tom&eacute;? &#8212; Acho que quem tem<br \/>\n    o ju&iacute;zo do Sr. Jorge pode muito bem passar sem o aux&iacute;lio de<br \/>\n    pessoa alguma. Mas enfim c&aacute; estou &agrave;s ordens.<\/p>\n<p>Passada meia hora, entrou Tom&eacute; em casa e participou &agrave; mulher<br \/>\n    que ia no dia seguinte ao Perto, na companhia de Jorge, e que talvez ai se<br \/>\n    demorassem alguns dias.<\/p>\n<p> Luisa ficou compreendendo que os projectos de restaura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Casa Mourisca haviam sido pelo menos adiados, e com isso cresceu nela admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pelo caracter de Jorge.<\/p>\n<p> Mas Luisa tinha durante aquela manh&atilde; recebido impress&otilde;es,<br \/>\n    que n&atilde;o se atrevia a revelar totalmente ao marido, mas que a n&atilde;o<br \/>\n    deixavam estar sossegada, enquanto n&atilde;o transpirassem em vagas insinua&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Estavam &agrave; janela os dois esposos, conversando pl&agrave;cidamente<br \/>\n    de Jorge e de D. Luis, e da pr&oacute;xima jornada &agrave; cidade, quando<br \/>\n    Luisa, depois de uma pausa na conversa, disse ex-abrupto para o marido : &#8212;<br \/>\n    &Oacute; Tom&eacute;, o que dir&iacute;as tu, se um dia a tua filha morasse<br \/>\n    naquela casa? E, ao dizer isto, designava com a cabe&ccedil;a a Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Tom&eacute; olhou para a mulher, como se aquelas palavras lhe fizessem duvidar<br \/>\n    da firmeza do ju&iacute;zo dela.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres tu dizer com isso ? &#8212; Ora! isto de rapazes e raparigas&#8230;<br \/>\n    quando se v&ecirc;em a mi&uacute;do&#8230;<\/p>\n<p> Tom&eacute; corou, exclamando com mau modo : &#8212; Tu est&aacute;s doida,<br \/>\n    Luisa? &#8212; Ora adeus ! Quem sabe l&aacute; ? &#8212; &Oacute; mulher,<br \/>\n    n&atilde;o queiras que eu perca a confian&ccedil;a que sempre tive no teu<br \/>\n    juizo.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o digo&#8230; mas enfim&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, adeus ! &#8212; atalhou Tom&eacute;, quase agastado &#8212;<br \/>\n    h&aacute; certas coisas que nem a brincar se dizem.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que mal havia ? &#8212; Mau ! &Oacute; Luisa, pe&ccedil;o-te<br \/>\n    por favor que te n&atilde;o ponhas com essas gra&ccedil;as. Ora para o que<br \/>\n    te havia de dar ! &#8212; Ent&atilde;o, porqu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora, porque n&atilde;o. H&aacute; certas lembran&ccedil;as que at&eacute;<br \/>\n    me envergonho de pensar nelas.<\/p>\n<p> Luisa, em vista da repugn&acirc;ncia do marido, n&atilde;o ousou insistir.<\/p>\n<p> Mas a pobre mulher, com as ambi&ccedil;&otilde;es de m&atilde;e, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o podia deixar de olhar a Casa Mourisca e imaginar o efeito que produziria<br \/>\n    a sua Berta em uma das balaustradas ou das ogivas daquele antigo edif&iacute;cio.<\/p>\n<h2>XXII<\/h2>\n<p>JORGE apenas a Gabriela deu parte do seu projecto de jornada.<\/p>\n<p> No dia seguinte partiu efectivamente para o Porto na companhia de Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa.<\/p>\n<p>D. Luis, ainda no firme prop&oacute;sito de n&atilde;o querer ver o filho,<br \/>\n    nem ouvir falar dele, nada soube desta excurs&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio estranhou a aus&ecirc;ncia do irm&atilde;o ; mas, desde<br \/>\n    que a baronesa lha explicou, dizendo-lhe a verdade, n&atilde;o pensou mais<br \/>\n    em tal.<\/p>\n<p> O padre, quando soube que Jorge tinha ido ao Porto, cidade que, no conceito<br \/>\n    do egresso, era um foco de corrup&ccedil;&atilde;o, e onde mais risco havia<br \/>\n    para a juventude de infeccionar-se com a peste da ma&ccedil;onaria e outros<br \/>\n    males correlativos, abanou tr&ecirc;s vezes a cabe&ccedil;a, em sinal de mau<br \/>\n    progn&oacute;stico ; mas n&atilde;o ousou falar das suas apreens&otilde;es<br \/>\n    ao fidalgo, porque andava desconfiado, havia algum tempo, com os humores em<br \/>\n    que o via.<\/p>\n<p> De facto D. Luis, depois de algumas das severas palavras que ouvira a Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa, n&atilde;o podia vencer um tal ou qual ressentimento contra<br \/>\n    o padre, cuja imprevidente ger&ecirc;ncia tinha talvez concorrido para o estado<br \/>\n    prec&aacute;rio da sua casa e as humilha&ccedil;&otilde;es que sofria.<\/p>\n<p> Apenas atenuava este ressentimento a id&eacute;ia fatalista de que a decad&ecirc;ncia<br \/>\n    das casas nobres era inevit&aacute;vel, e que baldado era tentar reagir.<\/p>\n<p> Para ele o padre n&atilde;o podia ser mais que o instrumento cego da sua<br \/>\n    desgra&ccedil;a irrevogavelmente decretada.<\/p>\n<p> T&ocirc;da a energia moral de D. Luis exercia-se pois em encarar com o rosto<br \/>\n    firme a adversidade, e cair sem perder na queda a fidalga compostura do porte.<\/p>\n<p> Destas sucessivas impress&otilde;es que recebera nos &uacute;ltimos tempos,<br \/>\n    resultava para o &acirc;nimo, j&aacute; de &iacute;ndole irrit&aacute;vel<br \/>\n    de D. Luis, uma impaci&ecirc;ncia, uma quase permanente exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nervosa, que aumentava &agrave; medida que se lhe depauperavam as for&ccedil;as<br \/>\n    e o vigor corp&ograve;reo. Quem melhor sabia agora lidar com ele era a baronesa.<br \/>\n    O instinto feminino &eacute; o mais pr&oacute;prio para descobrir o lado acess&iacute;vel<br \/>\n    destes caracteres azedados e para mov&ecirc;-los sem os magoar.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, que percebia isto, afastava-se cada vez mais do quarto<br \/>\n    do fidalgo e cada vez mais se aproximava da despensa e da cozinha.<\/p>\n<p> Em casa de Tom&eacute; prosseguiam os trabalhos agr&iacute;colas sob a activa<br \/>\n    vigil&acirc;ncia de Luisa, que, na aus&ecirc;ncia do marido, tomava a seu<br \/>\n    cargo aquela prov&iacute;ncia do governo dom&eacute;stico.<\/p>\n<p> Berta olhava ent&atilde;o pelos irm&atilde;os e pelo arranjo da casa.<\/p>\n<p> Havia, por&eacute;m, alguns dias que uma id&eacute;ia fixa n&atilde;o deixava<br \/>\n    tranauilo o esp&iacute;rito de Eerta.<\/p>\n<p> Quando, ao cair da tarde, os &uacute;ltimos raios do Sol parecia encandecerem<br \/>\n    as vidra&ccedil;as da Casa Mourisca, e &agrave; sua luz se tingiam de um leve<br \/>\n    doirado as frontes dos carvalhos seculares da quinta, ainda n&atilde;o despidos<br \/>\n    pelo Outono, apoderava-se de Berta urna saudade intima, profunda, que lhe<br \/>\n    desafiava as l&aacute;grimas. Toda a inf&acirc;ncia era evocada ent&atilde;o.<br \/>\n    Ressurgiam-lhe as recorda&ccedil;&otilde;es dos jogos, dos risos, das alegrias<br \/>\n    que havia gozado naqueles s&iacute;tios onde os olhares se lhe fixavam com<br \/>\n    insist&ecirc;ncia, e a pouco e pouco cresceu nela um natural e veemente desejo<br \/>\n    de visit&aacute;-los, de tornar a ver de perto aquelas &aacute;rvores, fontes<br \/>\n    e salas, cada uma das quais lhe guardava uma mem&oacute;ria do passado.<\/p>\n<p> As chaves desse como relicario das suas mais gratas recorda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    tinha-as ao alcance da m&atilde;o ; a dist&acirc;ncia n&atilde;o era grande,<br \/>\n    as tardes corriam amenas e no campo ningu&eacute;m estranharia a uma rapariga<br \/>\n    um passeio daqueles.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia ganhou vulto e Berta resolveu realiz&aacute;-la.<\/p>\n<p> Tomou a chave que abria uma das pequenas portas da quinta, e uma tarde saiu<br \/>\n    e dirigiu-se lentamente &agrave; Casa Mourisca. Em pouco tempo chegou &agrave;<br \/>\n    ponte que reunia as duas margens do ribeiro do vale.<\/p>\n<p> Ao transp&ocirc;-la, por&eacute;m, reteve-a um vago rumor que soava nos<br \/>\n    ares.<\/p>\n<p> Eram as surdas detona&ccedil;&otilde;es de uma trovoada long&iacute;nqua.<\/p>\n<p> Berta olhou em roda um tanto inquieta.<\/p>\n<p> O colorido do c&eacute;u e o dos campos era belo, mas pouco tranquilizador.<\/p>\n<p> O firmamento estava esplendidamente pintado, n&atilde;o com o azul uniforme<br \/>\n    dos dias serenos, mas com as variadas tintas que recebia da influ&ecirc;ncia<br \/>\n    el&eacute;ctrica de uma tempestade iminente. Grandes nuvens isoladas iluminavam-se,<br \/>\n    ao Sol poente, de reflexos doirados. O campo em que elas se desenhavam, ostentava<br \/>\n    todas as grada&ccedil;&otilde;es do azul, desde o anil carregado at&eacute;<br \/>\n    um quase verde esvaecido que interrompiam leves e longos estratos tingidos<br \/>\n    de roxo e violeta. Ao nascente, no seio de um denso c&uacute;mulo de vapores<br \/>\n    amarelados, desenhava-se vagamente o majestoso &iacute;ris. O verde das &aacute;rvores<br \/>\n    e dos prados recebia desta luz uma cambiante mais viva. Principiava a soprar<br \/>\n    a vira&ccedil;&atilde;o quente e rasteira, que levantava em redemoinhos as<br \/>\n    folhas ca&iacute;das no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Tudo anunciava uma tempestade pr&oacute;xima.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o ousou ir mais adiante.<\/p>\n<p> A vizinhan&ccedil;a da noite e da tempestade obrigou-a a retroceder.<\/p>\n<p> Neste momento, por&eacute;m, entrava na ponte um cavaleiro, que assim que<br \/>\n    avistou a filha de Tom&eacute;, desmontou com ligeireza e dirigiu-se para<br \/>\n    ela a p&eacute;.<\/p>\n<p> Era Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Bem desejaria Berta evit&aacute;-lo, mas j&aacute; o n&atilde;o podia fazer<br \/>\n    sem afecta&ccedil;&atilde;o mais indiscreta do que a pr&oacute;pria entrevista.<\/p>\n<p> Em poucos momentos Maur&iacute;cio estava a seu lado.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; que finalmente a encontro, Berta. Quase me tinha chegado<br \/>\n    a convencer de que uma fatalidade ou um prop&oacute;sito nos separava.<\/p>\n<p> H&aacute; tanto tempo que n&atilde;o conseguia v&ecirc;-la! &#8212; E procurava-me,<br \/>\n    Sr. Maur&iacute;cio? &#8212; Todos os dias o tenho feito.<\/p>\n<p> &#8212; O mais natural era procurar-me em casa ; a&iacute; &eacute; que<br \/>\n    passo a maior parte do meu tempo, auxiliando minha m&atilde;e, que bem precisa<br \/>\n    de quem a ajude.<\/p>\n<p>&#8212; Em casa? E seria eu bem recebido l&aacute;? &#8212; J&aacute; alguma<br \/>\n    vez meu pai deixaria de receber, como merecem ser recebidos, os filhos do<br \/>\n    Sr. D. Luis? &#8212; Como merecem ; a&iacute; &eacute; que est&aacute; a dificuldade.<br \/>\n    E se a consci&ecirc;ncia me dissesse que eu n&atilde;o merecia esse bom acolhimento?<br \/>\n    &#8212; Muito grandes deviam ser as suas culpas, para que meu pai se esquecesse<br \/>\n    da amizade que lhes deve, a si e aos seus, Sr. Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Creio bem que a consci&ecirc;ncia n&atilde;o lhe diz isso.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Berta. Eu julgo-me com imparcialidade. Sei o que h&aacute;<br \/>\n    de repreens&iacute;vel no meu proceder inconsiderado ; ainda que nada me pese<br \/>\n    na consci&ecirc;ncia, enquanto &agrave;s minhas inten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o essencial.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o o &eacute; para os outros. Por os actos me julgam, e<br \/>\n    esses &agrave;s vezes condenam-me.<\/p>\n<p> &#8212; Nem todos os seus actos h&atilde;o-de ser maus. Os bons desfar&atilde;o<br \/>\n    os efeitos dos outros &#8212; tornou-lhe Berta, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Suceder&aacute; isso comigo, Berta ? N&atilde;o estarei ainda condenado<br \/>\n    no seu conceito? &#8212; Se principio por ignorar as culpas de que &eacute;<br \/>\n    acusado ! Maur&iacute;cio calou-se por algum tempo, como concentrando alentos<br \/>\n    para mais dif&iacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o, e rompeu depois com maior<br \/>\n    vivacidade : &#8212; Pois bem; escute-me e julgue depois; condene ou absolva,<br \/>\n    conforme a consci&ecirc;ncia lho ditar. N&atilde;o lhe vou fazer uma geral<br \/>\n    confiss&atilde;o da minha vida, apenas dos &uacute;ltimos tempos dela. As<br \/>\n    ac&ccedil;&otilde;es boas ou m&aacute;s, os actos irreflectidos, a que me<br \/>\n    impele este temperamento estranho com que nasci, tenho-os &ugrave;ltimamente<br \/>\n    executado sob o influxo de uma paix&atilde;o forte, irresist&iacute;vel, que<br \/>\n    nasceu e assoberbou rapidamente todo o meu cora&ccedil;&atilde;o, Berta, desde<br \/>\n    que a vi, quando voltou de Lisboa. com a franqueza pr&oacute;pria do meu car&aacute;cter,<br \/>\n    com a lealdade que lhe devo, Berta, confesso-lhe que a amo. Deve t&ecirc;-lo<br \/>\n    percebido.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o sei dissimular. &Eacute; este amor que me perturba, que me<br \/>\n    faz ser injusto, desconfiado, louco, que me arrasta a extremos, de onde n&atilde;o<br \/>\n    volto sem remorsos.<\/p>\n<p> &#8212; Devia pois fazer por destru&iacute;-lo, vendo a maligna natureza<br \/>\n    que tem &#8212; respondeu Berta, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o zombe, Berta.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o zombo ; pois n&atilde;o diz que o arrasta a ac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que lhe causam remorsos? &#8212; Mas &eacute; por esta incerteza em que estou.<br \/>\n    Assegure-me, por&eacute;m, Berta, de que o seu cora&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    ainda o que em outro tempo conheci&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Maur&iacute;cio&#8212;tornou-lhe Berta, desta vez sem a menor<br \/>\n    reflex&atilde;o de gracejo &#8212; seria faltar &agrave; amizade que lhe devo,<br \/>\n    se o deixasse continuar. Quero supor que n&atilde;o zomba de mim ao falar-me<br \/>\n    dessa maneira; quero convencer-me de que &eacute; sincero, ou de que julga<br \/>\n    s&ecirc;-lo, pelo menos nessa declara&ccedil;&atilde;o que me faz, e vou responder-lhe<br \/>\n    como se assim fosse. Pe&ccedil;o-lhe que fa&ccedil;a por esquecer isso que<br \/>\n    diz sentir por mim e que n&atilde;o pode ter futuro.<\/p>\n<p> &#8212; Para me dar esse conselho, para ter direito de dar-mo, &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio que me fa&ccedil;a uma confiss&atilde;o, &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que me diga: Eu n&atilde;o posso am&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Direi : Eu n&atilde;o posso am&aacute;-lo, Sr. Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; E ser&aacute; sincera no que diz? Veja bem. Interrogue somente o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o a amedrontem as dificuldades e as resist&ecirc;ncias<br \/>\n    que possam oferecer-se-nos. Eu as vencerei, arrostarei eu s&oacute; com todas.<\/p>\n<p> &#8212; Eu disse : eu n&atilde;o posso am&aacute;-lo ; e n&atilde;o : eu<br \/>\n    n&atilde;o devo am&aacute;-lo, como nesse caso diria.<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o pode ? Que h&aacute; na sua alma contra mim,<br \/>\n    Berta, que nem as recorda&ccedil;&otilde;es da inf&acirc;ncia me valem? E<br \/>\n    contudo eu tinha nesse tempo adquirido direitos &agrave; sua afei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que valor que d&aacute; aos brinquedos da inf&acirc;ncia ! &#8212;<br \/>\n    &Eacute; porque em mim a juventude do cora&ccedil;&atilde;o principiou cedo.<\/p>\n<p> Eu j&aacute; ent&atilde;o sabia amar.<\/p>\n<p> &#8212; Mau &eacute; que n&atilde;o ache diferen&ccedil;a entre o amor de<br \/>\n    que &eacute; capaz agora e o de ent&atilde;o ; &eacute; pois claro que ama<br \/>\n    como uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; com a ingenuidade delas.<\/p>\n<p> &#8212; E com a inconst&acirc;ncia tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Berta, n&atilde;o me fale assim. Nas suas palavras sinto um tom<br \/>\n    de d&uacute;vida que me aflige. Responda-me : porque &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    pode amar-me? Ha j&aacute; no seu cora&ccedil;&atilde;o outro amor? Berta<br \/>\n    corou e n&atilde;o foi superior a certa confus&atilde;o, que se esfor&ccedil;ou<br \/>\n    por vencer, dizendo : &#8212; Ainda que n&atilde;o haja, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    isso motivo para o abrir ao primeiro que apare&ccedil;a. com t&ocirc;da a<br \/>\n    sinceridade da minha alma lhe falo, Sr. Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> Creia que para todas as pessoas que t&ecirc;m o nome de sua fam&iacute;lia<br \/>\n    h&aacute; no meu cora&ccedil;&atilde;o muito respeito, muita estima e muita<br \/>\n    gratid&atilde;o. De todos esses sentimentos se pode dar raz&atilde;o. Mas<br \/>\n    o amor n&atilde;o &eacute; assim.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m sabe por que ama ou por que n&atilde;o pode amar. Julgo eu.<br \/>\n    &Eacute; uma coisa que se sente, mas que n&atilde;o se explica. Pois n&atilde;o<br \/>\n    concorda? E agora pe&ccedil;o-lhe que me n&atilde;o acompanhe mais longe.<br \/>\n    Repare que a tempestade est&aacute; para breve. Espero, Sr. Maur&iacute;cio,<br \/>\n    que ser&aacute; sempre nosso amigo.<\/p>\n<p> E, dizendo isto, estendia-lhe a m&atilde;o, que Maur&iacute;cio apertou<br \/>\n    silenciosamente.<\/p>\n<p> E separaram-se, seguindo direc&ccedil;&otilde;es opostas.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio murmurava: &#8212; E contudo creio que me ama. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; essa frieza que me h&aacute;-de iludir.<\/p>\n<p> Pela sua parte, pensava Berta: &#8212; Daqui n&atilde;o vem perigo para<br \/>\n    o meu cora&ccedil;&atilde;o. Acabei de convencer- me agora. Basta ver a tranq&uuml;ilidade<br \/>\n    que sinto. Assim pudesse dizer o mesmo do outro. <\/p>\n<p>Mas a Casa Mourisca continuava a atra&iacute;-la. De noite, &agrave; claridade<br \/>\n    vaga do luar, &agrave;s tardes, quando os &uacute;ltimos e desmaiados raios<br \/>\n    do Sol lhe tremiam na fachada enegrecida, de madrugada, no meio das nebrinas<br \/>\n    do rio, que fant&agrave;sticamente o envolviam, a todo o momento enfim, as<br \/>\n    encantadas mem&oacute;rias da inf&acirc;ncia de Berta adejavam sobre o deserto<br \/>\n    solar, e as saudades, evocadas por ela, como que se lhe levantavam do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a encontr&aacute;-las.<\/p>\n<p> &Agrave;s mesmas horas da tarde, repetiu Berta, no dia seguinte ao do seu<br \/>\n    encontro com Maur&iacute;cio, a tentativa para visitar o solit&aacute;rio<br \/>\n    pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Desta vez passou al&eacute;m da ponte, subiu a ladeira da colina oposta,<br \/>\n    e chegou a tocar com a m&atilde;o na porta da quinta. Faltou-lhe, por&eacute;m,<br \/>\n    ainda a resolu&ccedil;&atilde;o para a abrir e entrar. Apoderou-se dela uma<br \/>\n    esp&eacute;cie de pavor sagrado no momento de penetrar ali. Parecia imporem-lhe<br \/>\n    respeito aquelas &aacute;rvores seculares, aquelas ervas vigorosas que forravam<br \/>\n    os muros da quinta e o sil&ecirc;ncio que pairava naquela habita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    abandonada.<\/p>\n<p> As sombras melanc&oacute;licas da tarde cresciam, e Berta retirou-se no<br \/>\n    fim de alguns momentos, quase tomada de entranhado terror.<\/p>\n<p> No dia seguinte voltou ainda &agrave; Casa Mourisca. Armara-se ao partir<br \/>\n    de maior resolu&ccedil;&atilde;o. Prometera a si pr&oacute;pria n&atilde;o<br \/>\n    hesitar um s&oacute; momento ao abrir a porta, para n&atilde;o dar tempo a<br \/>\n    possuir-se da mesma fraqueza, Assim fez ; ao chegar &agrave; porta pequena<br \/>\n    da quinta introduziu rezolutamente a chave e abriu-a. Estava enfim dentro<br \/>\n    dos muros da Casa Mourisca. Cobria-a o denso toldo de ramos entrela&ccedil;ados<br \/>\n    dos carvalhos, dos freixos e dos cedros ; estalavam-lhe sob os p&eacute;s<br \/>\n    as folhas crestadas, de que os ventos do Outono haviam alastrado o ch&atilde;o<br \/>\n    ; prendiam-se-lhe os vestidos &agrave;s silvas espinhosas, que cresciam &agrave;<br \/>\n    vontade de mistura com os fetos e as ortigas ; &agrave; sua chegada houve<br \/>\n    um s&uacute;bito rumor de aves esvoa&ccedil;ando surpreendidas, e de r&eacute;pteis<br \/>\n    escondendo-se por entre a folhagem seca do ch&atilde;o. O bosque tinha um<br \/>\n    aspecto de braveza selvagem, adquirida durante longos anos de independ&ecirc;ncia<br \/>\n    de cultura.<\/p>\n<p> Era espl&ecirc;ndida a anarquia daquela vegeta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta parou afectada de inexplic&aacute;vel susto.<\/p>\n<p> Tudo recaiu em sil&ecirc;ncio ; apenas se ouvia um leve ramalhar das &aacute;rvores,<br \/>\n    denunciando a passagem de uma brisa ligeira, a queda de algum ramo seco desprendendo-se<br \/>\n    da &aacute;rvore, o pio t&iacute;mido de algum p&aacute;ssaro escondido, e,<br \/>\n    um pouco mais distante, o rumor mon&oacute;tono e confuso das fontes e cascatas.<\/p>\n<p> Dissipadas as primeiras impress&otilde;es, o sagrado terror que infunde<br \/>\n    no esp&iacute;rito o aspecto de um bosque secular &agrave;quela adiantada<br \/>\n    hora da tarde, Berta aventurou alguns passos e p&ocirc;de percorrer os s&iacute;tios<br \/>\n    da quinta que lhe eram mais conhecidos.<\/p>\n<p> Quem pode referir as saudades que lhe pululavam do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao voltar, depois de tantos anos decorridos, &agrave;queles lugares saudosos?<br \/>\n    Quem n&atilde;o tenha ainda experimentado na vida sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquelas, nunca chorou as mais sentidas e ao mesmo tempo as mais consoladoras<br \/>\n    l&aacute;grimas que os olhos podem verter.<\/p>\n<p>Voltar com os pensamentos da juventude ou da virilidade, com a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    adquirida no trato do mundo, com a mem&oacute;ria dos dolorosos embates sofridos<br \/>\n    no meio das lutas da vida, e a impress&atilde;o das paix&otilde;es gravada<br \/>\n    fundo na alma ; voltar assim ao lugar dos nossos jogos de inf&acirc;ncia,<br \/>\n    dos nossos risos e choros pueris, uns e outros t&atilde;o sem- -raz&atilde;o<br \/>\n    nem vest&iacute;gios, olharmo-nos outra vez, depois de longa aus&ecirc;ncia,<br \/>\n    em frente dos objectos que nos assistiram aos brinquedos, e que parece saudarem-nos<br \/>\n    ainda como se nos vissem crian&ccedil;as, sentirmos em um momento dissipar-se-nos<br \/>\n    da mem&oacute;ria todos os tempos interm&eacute;dios e como que ressuscitarem<br \/>\n    as id&eacute;ias, os gestos, os pensamentos daquela &eacute;poca, como se<br \/>\n    apenas tivessem adormecido para acordarem mais vivos, &eacute; uma das mais<br \/>\n    violentas e ao mesmo tempo mais gratas como&ccedil;&otilde;es que pode experimentar<br \/>\n    uma alma humana; e a que n&atilde;o ceder e se n&atilde;o abrandar sob essa<br \/>\n    influ&ecirc;ncia, &eacute; uma alma perdida para os afectos e para a regenera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Poderia a de Berta estar neste caso, a dela, alma sens&iacute;vel e amor&aacute;vel,<br \/>\n    para a qual o passado era objecto de um fervoroso culto? Poderia olhar sem<br \/>\n    l&aacute;grimas para aqueles lugares, onde lia como que p&aacute;gina por<br \/>\n    p&aacute;gina a sua vida de ent&atilde;o? Chorou, chorou sentada no banco<br \/>\n    musgoso, junto de uma fonte, onde ela e Beatriz tantas vezes vinham sentar-se,<br \/>\n    e onde Jorge e Maur&iacute;cio corriam a ter com elas, logo que terminavam<br \/>\n    as suas horas de estudo.<\/p>\n<p> Era tarde quando voltou a si o pensamento daquela digress&atilde;o pelo<br \/>\n    passado. N&atilde;o tinha j&aacute; tempo desta vez de visitar a Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Procurou de novo a porta da quinta, por onde entrara, e saiu com saudades<br \/>\n    daqueles lugares.<\/p>\n<p> No momento em que Berta se afastava, dois ca&ccedil;adores, que desciam<br \/>\n    um pinhal vizinho, de onde se descobria a entrada da Casa Mourisca, viram-na<br \/>\n    e reconheceram-na.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Chico, olha l&aacute;, aquela n&atilde;o &eacute; a Berta<br \/>\n    do Tom&eacute; ? &#8212; disse um deles para o outro.<\/p>\n<p> &#8212; Nem pode ser outra coisa.<\/p>\n<p> &#8212; So ! a estas horas&#8230; e pr&oacute;ximo da Casa Mourisca? Que quer<br \/>\n    dizer isto? &#8212; &Eacute; que vem de l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; a casa n&atilde;o est&aacute; vazia? &#8212; Tanto melhor.<br \/>\n    Se l&aacute; estivesse o velho, a coisa mudava de figura.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, fala s&eacute;rio, &oacute; Chico, que conjecturas tu de t&ocirc;da<br \/>\n    esta hist&oacute;ria? &#8212; Que o Maur&iacute;cio ou o Jorge fazem tamb&eacute;m<br \/>\n    as suas visitas &agrave; capoeira.<\/p>\n<p> &#8212; O Maur&iacute;cio foi hoje para a ca&ccedil;ada dos Monteiros do<br \/>\n    Rio baixo, e o Jorge, segundo ouvi dizer, est&aacute; no Porto.<\/p>\n<p> &#8212; Quod probandum &#8212; redarguiu o outro, recorrendo &agrave;s suas<br \/>\n    reminisc&ecirc;ncias escol&aacute;sticas ; e, como se receasse que o companheiro<br \/>\n    o n&atilde;o compreendesse, traduziu : &#8212; Isso &eacute; o que resta provar.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"imagens\/juilio-dinis-5.jpg\" alt=\"Os Fidalgos da Casa Mourisca\"  width=\"256\" height=\"384\" border=\"0\" title=\"Os Fidalgos da Casa Mourisca\"\/><br \/>\n    <b>Depois, assim que vi esta harpa&#8230; Oh meu Deus que saudades!<\/b> <\/p>\n<p>&#8212; Foi o mesmo Maur&iacute;cio que o disse.<\/p>\n<p> &#8212; E tu a dares muita import&acirc;ncia ao que diz o Maur&iacute;cio<br \/>\n    ! Ent&atilde;o n&atilde;o sabes que se o Jorge lhe disser que est&aacute;<br \/>\n    papa, o toleir&atilde;o &eacute; capaz de lhe beijar o p&eacute;? &#8212;<br \/>\n    Mas l&aacute; em casa, pelos modos, todos o fazem no Porto.<\/p>\n<p> &#8212; Pois a&iacute; &eacute; que est&aacute; a finura. E se ele, pilhando<br \/>\n    fora do ninho a raposa velha, se veio ali estabelecer muito &agrave; sua vontade?<br \/>\n    &#8212; Se eu o acreditasse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que farias ? &#8212; Era bem feito dar-lhe uma assaltada.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; me lembrou isso, mas &eacute; melhor outra coisa. Vigiamos<br \/>\n    isto a ver quando a pequena c&aacute; volta, temos o Maur&iacute;cio debaixo<br \/>\n    de m&atilde;o e trazemo-lo ent&atilde;o connosco. O caso deve ser interessante<br \/>\n    ! &#8212; Apoiado ! &#8212; Enquanto a mim, ningu&eacute;m me tira da cabe&ccedil;a<br \/>\n    que aquele velhaco do Jorge anda a comer-nos a todos com os seus ares de santo.<br \/>\n    Vou ainda jurar que as tais visitas a casa do Tom&eacute; levam &aacute;gua<br \/>\n    no bico. Se agora o pilh&aacute;vamos ! &#8212; Era soberbo ! Mas o Maur&iacute;cio<br \/>\n    anda esquisito connosco, depois da hist&oacute;ria do jantar.<\/p>\n<p> &#8212; Deixa que eu o amansarei ; era bom que ele estivesse um pouco picado<br \/>\n    nesse dia; tudo se arranja, deixa estar.<\/p>\n<p> E os dois ca&ccedil;adores seguiram, combinando e comentando o plano que<br \/>\n    tinham tra&ccedil;ado.<\/p>\n<p> O leitor, que j&aacute; os conheceu pelos primos do Cruzeiro, fica sabendo<br \/>\n    que estes esperan&ccedil;osos jovens prosseguiam nos seus h&aacute;bitos de<br \/>\n    vida fidalga, em cata e prepara&ccedil;&atilde;o de esc&acirc;ndalos, e cada<br \/>\n    vez mais implac&aacute;veis contra Jorge, cuja desdenhosa frieza para com<br \/>\n    eles h&aacute; muito tempo os irritava, antes mesmo que o acontecimento do<br \/>\n    dia do jantar viesse aumentar essa irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2>XXIII<\/h2>\n<p> Aimpaci&ecirc;ncia de D. Luis tocara o extremo. Em v&atilde;o procurava<br \/>\n    aparentar resigna&ccedil;&atilde;o e conformidade &agrave; sua nova vida nos<br \/>\n    Bacelos. Os la&ccedil;os que o prendiam &agrave;s velhas paredes da Casa Mourisca<br \/>\n    eram mais fortes do que julgara, ao separar-se delas. Estava- o sentindo pelo<br \/>\n    mal-estar que experimentava agora.<\/p>\n<p> Todos os objectos da antiga resid&ecirc;ncia, que t&atilde;o precipitadamente<br \/>\n    abandonara, pareciam ocupar um lugar no seu cora&ccedil;&atilde;o; e o vazio<br \/>\n    em que o deixaram era terr&iacute;vel para uma velhice j&aacute; sem esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> A corrente daquela vida, ainda que turvada pelas paix&otilde;es, seguia<br \/>\n    desde muitos anos regular e silenciosa pelo &aacute;lveo e margens invari&aacute;veis.<br \/>\n    De repente, por&eacute;m, corno sucede &agrave;s &aacute;guas de s&uacute;bito<br \/>\n    constrangidas a mudar de leito, perdeu a serenidade melanc&oacute;lica, a<br \/>\n    calmante monotonia, t&atilde;o salutar a um esp&iacute;rito atribulado ; e<br \/>\n    atrav&eacute;s de novas perspectivas e de novas cenas precipitava-se inquieta<br \/>\n    e turva.<\/p>\n<p> Recrudesceram violentamente as torturas daquela alma exagitada, como despertam<br \/>\n    as dores de um membro enfermo ao arrancar-se da quieta&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    repouso em que adormeceram.<\/p>\n<p> Em certa idade as divers&otilde;es n&atilde;o distraem, afligem. Vive-se<br \/>\n    do passado, e para que o pensamento o retrate, &eacute; mister que o remanso<br \/>\n    lhe d&ecirc; a limpidez do lago tranquilo.<\/p>\n<p> S&oacute; o orgulho e o pundonor de fidalgo &eacute; que impediam D. Luis<br \/>\n    de voltar de novo aos lares abandonados.<\/p>\n<p> Esta disposi&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito era insustent&aacute;vel.<\/p>\n<p> uma manh&atilde; viram-no, mais nervoso do que nunca, medir a passos largos<br \/>\n    o comprimento da maior sala do solar dos Bacelos, parando &agrave;s vezes<br \/>\n    junto das janelas, a olhar abstracto, atrav&eacute;s dos caixilhos das vidra&ccedil;as,<br \/>\n    para as fran&ccedil;as das &aacute;rvores mais distantes que dali se descobriam,<br \/>\n    entre as quais avultavam as do parque da Casa Mourisca. De s&uacute;bito interrompeu<br \/>\n    uma destas mudas contempla&ccedil;&otilde;es, manifestando que lhe aparelhassem<br \/>\n    o cavalo para de tarde.<\/p>\n<p> O procurador, a quem fora dada a ordem, perguntou timidamente se S. Ex.&ordf;<br \/>\n    sa&iacute;a a cavalo.<\/p>\n<p> com o seco laconismo de que, havia certo tempo, usava nas respostas ao padre,<br \/>\n    o fidalgo limitou-se a dizer : &#8212; Parece que sim.<\/p>\n<p> O padre tocou a campainha a chamar por um criado, a quem transmitiu a ordem<br \/>\n    recebida, acrescentando a de que fosse avisado o escudeiro para acompanhar<br \/>\n    S. Ex.&quot;.<\/p>\n<p> D. Luis acudiu com vivacidade: &#8212; Quem lhe disse isso? Eu n&atilde;o<br \/>\n    preciso de acompanhamento.<\/p>\n<p> Que me tenham aparelhado o cavalo para de tarde.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o V. Ex.&ordf; vai s&oacute;?!&#8212;perguntou o padre,<br \/>\n    em quem esta quebra de pragm&aacute;tica causava grande confus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vou &#8212; respondeu D. Luis, continuando o seu passeio na sala.<\/p>\n<p> O padre saiu dali estupefacto para a cozinha, onde foi assistir &agrave;<br \/>\n    &uacute;ltima dem&atilde;o de uma empada, e nesse exame conseguiu felizmente<br \/>\n    desvanecer a viol&ecirc;ncia da impress&atilde;o, que a ordem do fidalgo lhe<br \/>\n    havia produzido.<\/p>\n<p> Efectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Maur&iacute;cio n&atilde;o<br \/>\n    assistira, D. Luis montou a cavalo, e cortejando garbosamente a baronesa,<br \/>\n    que veio despedir-se dele &agrave; janela, partiu a meio trote pelos caminhos<br \/>\n    dos campos.<\/p>\n<p> Era um &uacute;ltimo lampejo da sua eleg&acirc;ncia passada.<\/p>\n<p> Na maneira como dirigia o cavalo n&atilde;o se notava, por&eacute;m, a indecis&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;pria de quem vai ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado<br \/>\n    destino &agrave;quele passeio.<\/p>\n<p>Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rural, rodeou quase t&ocirc;da a freguesia, e, seguindo pelas raias das cont&iacute;guas<br \/>\n    e por desvios ermos de casas e cultura, por chapadas maninhas e pinhais, onde<br \/>\n    apenas se entrevia a cho&ccedil;a do guardador, foi dar ao extremo oposto<br \/>\n    da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o cuidado<br \/>\n    que o cavaleiro parecia ter em n&atilde;o ser observado e em dirigir por veredas<br \/>\n    pouco freq&uuml;entadas a sua cautelosa carreira.<\/p>\n<p> Entrou por fim em uma bou&ccedil;a pertencente &agrave; casa, colocada,<br \/>\n    por&eacute;m, fora dos muros da quinta e separada deles por uma esp&eacute;cie<br \/>\n    ae vala, que servia de caminho p&uacute;blico.<\/p>\n<p> Dali avistavam-se as &aacute;rvores, os telhados, as torres e as mais elevadas<br \/>\n    janelas da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> D. Luis fez parar o cavalo e fixou melanc&oacute;licamente os olhos no velho<br \/>\n    solar, onde nascera e onde apreendia n&atilde;o poder morrer, como haviam<br \/>\n    morrido os seus av&oacute;s.<\/p>\n<p> Ia adiantada a tarde, e &agrave; luz desmaiada do Sol, que declinava, crescia<br \/>\n    a tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Era solenemente triste aquele quadro. A nobre figura do anci&atilde;o, assim<br \/>\n    im&oacute;vel, ext&aacute;tico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos<br \/>\n    da tarde arrancavam um gemer mon&oacute;tono e triste, com os olhos fitos<br \/>\n    nas ameias do seu pal&aacute;cio acastelado, de onde as paix&otilde;es o expulsaram,<br \/>\n    com o rosto iluminado pelos tr&eacute;mulos raios do Sol, que desenhava distintamente<br \/>\n    o rendilhado da rama dos carvalhos long&iacute;nquos, atr&aacute;s dos quais<br \/>\n    se escondia, era uma personifica&ccedil;&atilde;o vigorosa do desalento e<br \/>\n    da saudade sob o colorido de desesperan&ccedil;a que a velhice lhe dava.<\/p>\n<p> A imobilidade do cavaleiro contrastava com a impaci&ecirc;ncia do fogoso<br \/>\n    animal, que escarvava insofrido o solo, sem que pudesse satisfazer a &acirc;nsia<br \/>\n    do movimento que o devorava. De s&uacute;bito o cavaleiro fez um movimento,<br \/>\n    como de quem adopta uma resolu&ccedil;&atilde;o, que por muito tempo lhe repugnara.<\/p>\n<p> P&ocirc;s-se de novo a caminho, seguindo sempre a direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do muro da quinta, e sem abandonar o pinhal.<\/p>\n<p> Pouco adiante encontrou as ru&iacute;nas de uma antiga casa de guarda, j&aacute;<br \/>\n    quase destelhada, e em cujo recinto cresciam &agrave; vontade as giestas e<br \/>\n    as tojeiras, por entre os mont&otilde;es de telha e de cali&ccedil;a ca&iacute;da,<br \/>\n    e onde encontravam tranquilo abrigo r&eacute;pteis de toda a esp&eacute;cie.<\/p>\n<p> D. Luis levou para ali o cavalo, que prendeu ao var&atilde;o oxidado e torcido<br \/>\n    de um caixilho de janela, e saiu outra vez, continuando a rodear a quinta.<\/p>\n<p> Havia um lugar onde o muro era em parte derrubado e facilitava extremamente<br \/>\n    o ingresso. Sabiam-no bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas vezes<br \/>\n    por ali efectuaram as suas explora&ccedil;&otilde;es depredat&oacute;rias<br \/>\n    no mal vigiado terreno da Casa Mourisca.<\/p>\n<p>Foi por o mesmo caminho desses visitadores suspeitos, que o propriet&aacute;rio<br \/>\n    daquele nobre solar a&iacute; entrou furtivamente, e corando do passo .a que<br \/>\n    a viol&ecirc;ncia de uma entranhada saudade o impelia.<\/p>\n<p> Dentro em pouco achava-se na quinta.<\/p>\n<p> Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solit&aacute;rias, atravessou as<br \/>\n    devesas, onde &agrave;quela hora n&atilde;o penetrava um s&oacute; raio de<br \/>\n    Sol, e sem vacilar seguiu na direc&ccedil;&atilde;o da casa. Ao chegar ao<br \/>\n    p&aacute;tio, viu aberta uma pequena porta por onde habitualmente se fazia<br \/>\n    o servi&ccedil;o do pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Ocorreu-lhe s&oacute; ent&atilde;o que poderia estar algu&eacute;m l&aacute;<br \/>\n    dentro, &agrave;quela hora.<\/p>\n<p> Se se encontrasse ali com Tom&eacute;, como conseguiria arrostar com a vergonha<br \/>\n    de ser por ele descoberto naquela visita furtiva? Ia a recuar, mas o impulso<br \/>\n    interior a obrig&aacute;-lo a progredir era mais forte.<\/p>\n<p> Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por alguns<br \/>\n    instantes. No interior havia o mais completo sil&ecirc;ncio. N&atilde;o se<br \/>\n    divisavam vest&iacute;gios que denunciassem presen&ccedil;a de algu&eacute;m<br \/>\n    estranho.<\/p>\n<p> D. Luis deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da<br \/>\n    escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que subia.<\/p>\n<p> Sempre o mesmo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> Pensou ent&atilde;o o fidalgo que bem poderia ser que na precipita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sa&iacute;da tivesse ficado aberta aquela porta; e animado por esta hip&oacute;tese<br \/>\n    adiantou-se mais resoluto.<\/p>\n<p> Havia nas largas escadas uma luz frouxa e quase misteriosa ; esta luz e<br \/>\n    aquele sil&ecirc;ncio eram dos que infundem no &acirc;nimo um sentimento quase<br \/>\n    de pavor.<\/p>\n<p> Nesses corredores e escadas vazias e obscuras, ele, o senhor e propriet&aacute;rio<br \/>\n    do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto ! Que situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a sua ! Que humilhadora situa&ccedil;&atilde;o para o seu orgulho ! As correntes<br \/>\n    de ar sibilavam melanc&oacute;licamente ao enfiarem-se pelas fechaduras das<br \/>\n    portas e frestas, que deitavam para a escadaria ; os passos do fidalgo tinham<br \/>\n    sob aquelas abobadas urna resson&acirc;ncia estranha.<\/p>\n<p> Eram sem-n&uacute;mero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos<br \/>\n    da sua alvoro&ccedil;ada sa&iacute;da da Casa Mourisca: caixas vazias, sacos,<br \/>\n    bocetas, pap&eacute;is de empacotar, tudo jazia ainda em confus&atilde;o nos<br \/>\n    corredores, como, na pressa dos preparativos, frei Janu&aacute;rio os deixara.<\/p>\n<p> Sinais eram estes que pareciam indicar que desde aquele dia ainda ningu&eacute;m<br \/>\n    entrara na Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Mais seguro j&aacute; na persuas&atilde;o de que n&atilde;o seria surpreendido<br \/>\n    nesta clandestina visita, D. Luis subiu sem o menor receio as escadas que<br \/>\n    levavam ao Sancta Sanctorum das suas afei&ccedil;&otilde;es, &agrave; torre<br \/>\n    onde haviam sido os aposentos de Beatriz, onde ela tinha vivido e expirado.<br \/>\n    Era esta a peregrina&ccedil;&atilde;o que empreendera aquele desconfortado<br \/>\n    velho ; para ali era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha j&aacute;<br \/>\n    subido mais de meio lance da escadaria, quando s&ugrave;bitamente estremeceu,<br \/>\n    parando a escutar um mal distinto som que lhe chegara aos ouvidos.<\/p>\n<p> Correu-lhe no rosto uma palidez mortal, e a fronte principiou a cobrir-se<br \/>\n    de um suor como de agonia.<\/p>\n<p> A turba&ccedil;&atilde;o que sentiu foi t&atilde;o intensa, que teve de<br \/>\n    apoiar-se &agrave; parede para n&atilde;o cair.<\/p>\n<p> Eram os sons long&iacute;nquos de um instrumento de m&uacute;sica, que partiam<br \/>\n    do lugar para onde ele se dirigia, vagos, confusos ainda, mas melodiosos como<br \/>\n    de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar das brisas<br \/>\n    da tarde.<\/p>\n<p> Na triste solid&atilde;o daquela casa abandonada, &agrave; hora misteriosa<br \/>\n    do escurecer do dia, aqueles sons ressoando pelos longos corredores e pela<br \/>\n    vastid&atilde;o das salas desertas, tinham de facto n&atilde;o sei qu&ecirc;<br \/>\n    de sobrenatural ; dir-se-ia m&uacute;sica de fadas em um desses pa&ccedil;os<br \/>\n    encantados, que ergue no meio das florestas a imagina&ccedil;&atilde;o popular.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o era somente o inesperado e a estranheza do facto que feriam<br \/>\n    de espanto o senhor da Casa Mourisca. Aqueles sons exerciam sobre ele outra<br \/>\n    e superior influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Conhecia-os ; n&atilde;o eram vozes estranhas aos ouvidos do anci&atilde;o<br \/>\n    ralado de saudades, e que se achava ali atra&iacute;do por elas.<\/p>\n<p> &#8212; Conhecia-os ; em outras &eacute;pocas tinham j&aacute; ressoado<br \/>\n    entre aquelas tristes paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje desabitados.<\/p>\n<p> Nesses tempos, havia ali dentro cora&ccedil;&otilde;es que pulsavam de simpatia<br \/>\n    ao escut&aacute;-los. Eram o sinal de que o anjo da fam&iacute;lia velava,<br \/>\n    de que a meiga crian&ccedil;a, sobre cuja cabe&ccedil;a se condensavam todos<br \/>\n    os castos afectos daquela alma de homem, praticava com os anjos, seus irm&atilde;os,<br \/>\n    na misteriosa linguagem da m&uacute;sica.<\/p>\n<p> Aqueles sons&#8230; podia ele desconhec&ecirc;-los?&#8230; eram os da harpa de Beatriz.<\/p>\n<p> Mas que mist&eacute;rio revelavam eles agora? Que magia os fazia renascer,<br \/>\n    quando, havia tanto, ca&iacute;ra \\ gelada a m&atilde;o que os desferia? As<br \/>\n    sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos? A alma<br \/>\n    querida de Beatriz viera porventura chorar e lamentar-se da solid&atilde;o<br \/>\n    em que os seus haviam deixado os lugares que ainda conservavam t&atilde;o<br \/>\n    vivas as mem&oacute;rias dela? Quem pode analisar o confuso turbilh&atilde;o<br \/>\n    de id&eacute;ias que atravessou naquele momento o esp&iacute;rito do fidalgo?<br \/>\n    Piedosas cren&ccedil;as da inf&acirc;ncia, supersti&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    a raz&atilde;o subjugara, quim&eacute;ricos produtos de um c&eacute;rebro<br \/>\n    febril, tudo se levantou em enxame alvoro&ccedil;ado e revolto a obscurecer<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia do anci&atilde;o, que tremia sob um inexplic&aacute;vel<br \/>\n    terror.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma alucina&ccedil;&atilde;o &#8212; pensava ele, esfor&ccedil;ando-se<br \/>\n    por dominar aquela fraqueza &#8212; &eacute; uma quase loucura produzida por<br \/>\n    esta id&eacute;ia fixa, que nunca me abandona.<\/p>\n<p>E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.<\/p>\n<p> Mas os sons, que ele julgava efeitos dos sentidos alucinados, longe de se<br \/>\n    desvanecerem, cada vez se ouviam mais distintos. Sem d&uacute;vida alguma<br \/>\n    partiam dos aposentos de Beatriz.<\/p>\n<p> Estava terrivelmente p&aacute;lido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a<br \/>\n    mobilidade que produz o del&iacute;rio. H&aacute; situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    na vida em que a raz&atilde;o mais segura vacila e sente-se vergar sob a influi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das mais supersticiosas cren&ccedil;as.<\/p>\n<p> D. Luis naquele momento acreditava sinceramente na realidade das apari&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A dist&acirc;ncia permitia-lhe j&aacute; distinguir a melodia que executava<br \/>\n    a harpa. Tamb&eacute;m lhe era conhecida ; era a de uma can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    predilecta de Beatriz, uma m&uacute;sica cheia de recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para o pobre pai. O presente desaparecia naquele momento ; o passado ressurgia<br \/>\n    com t&ocirc;da a luz, que desde muito se lhe apagara na carreira da vida.<br \/>\n    Chegara quase &agrave; porta do quarto de onde partiam os sons. Restava entrar&#8230;<\/p>\n<p> Mas o que o esperava ali ? Talvez se desvanecesse o encanto e a vazia realidade<br \/>\n    o aguardasse para o punir.<\/p>\n<p> A raz&atilde;o de D. Luis n&atilde;o podia formar ju&iacute;zos sobre o<br \/>\n    que se estava passando. A m&atilde;o tr&eacute;mula, que se estendeu para<br \/>\n    abrir a porta do quarto misterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia<br \/>\n    im&oacute;vel no patamar, subjugado pela for&ccedil;a daquele encantamento.<\/p>\n<p> Neste tempo juntara-se aos sons da harpa a voz de uma mulher ; baixinho,<br \/>\n    quase a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da esta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cantava a letra da mesma can&ccedil;&atilde;o que Beatriz preferia. Era um<br \/>\n    timbre juvenil, sonoro, agrad&aacute;vel, o daquela voz, e na meia altura<br \/>\n    a que se elevava, havia um n&atilde;o sei qu&ecirc; de m&iacute;stico e sobrenatural,<br \/>\n    que veio completar a alucina&ccedil;&atilde;o do velho.<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus ! meu Deus ! tende miseric&oacute;rdia de mim ! &#8212;<br \/>\n    murmurava ele, passando a m&atilde;o na fronte p&aacute;lida. &#8212; Se isto<br \/>\n    &eacute; um sonho, deixai-me morrer a sonh&aacute;-lo ! E vergaram-se-lhe<br \/>\n    os joelhos diante daquela porta misteriosa, e, solu&ccedil;ando e rebentando-lhe<br \/>\n    enfim impetuosas as l&aacute;grimas dos olhos, caiu, dizendo em uma desvairada<br \/>\n    exclama&ccedil;&atilde;o: &#8212; &Oacute; minha filha ! minha filha ! Se<br \/>\n    &eacute;s tu que assim me arrebatas deste mundo, tem compaix&atilde;o do teu<br \/>\n    velho pai, e n&atilde;o partas sem que lhe apare&ccedil;as um instante que<br \/>\n    seja! Calaram-se de s&uacute;bito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco<br \/>\n    depois, a porta abria-se e Berta aparecia no limiar.<\/p>\n<p> Ao ver o fidalgo de joelhos, com a cabe&ccedil;a escondida entre as m&atilde;os<br \/>\n    e solu&ccedil;ando, a filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa correu para ele<br \/>\n    comovida: &#8212; O Sr. D. Luis ! O meu padrinho ! Oh, perd&atilde;o, perd&atilde;o<br \/>\n    ! &#8212; exclamava ela.<\/p>\n<p> E o susto, que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper- -Ihe inesperadamente<br \/>\n    o canto, cedeu o passo &agrave; mais sentida afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Agrave; voz de Berta, D. Luis ergueu a cabe&ccedil;a e fitou a afilhada<br \/>\n    com um olhar espantado e interrogador.<\/p>\n<p> As l&aacute;grimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emagrecidas.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, perd&atilde;o, meu bom padrinho &#8212; prosseguia<br \/>\n    Berta, tentando ergu&ecirc;-lo &#8212; fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora,.,<br \/>\n    mas havia tanto tempo que eu desejava visitar estes s&iacute;tios ! mas n&atilde;o<br \/>\n    chore, Sr. D. Luis, por amor de Deus perdoe-me ! O fidalgo, quase ainda alheio<br \/>\n    ao que se passava, deixou-se erguer e conduzir por Berta para dentro do quarto,<br \/>\n    e sentou-se, sem consci&ecirc;ncia dos seus actos, na cadeira junto da harpa,<br \/>\n    cujas &uacute;ltimas notas parecia ainda vibrarem no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p> A como&ccedil;&atilde;o violenta quebrara-lhe as for&ccedil;as.<\/p>\n<p> Os bra&ccedil;os e a fronte pendiam-lhe em um desfalecimento profundo.<\/p>\n<p> Berta ajoelhou-se-lhe aos p&eacute;s, tomando-lhe as m&atilde;os, beijando-as<br \/>\n    e cobrindo-as de l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8212; Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, n&atilde;o teria<br \/>\n    vindo. Foi uma loucura minha; agora &eacute; que vejo; mas trazia isto na<br \/>\n    id&eacute;ia havia tantos dias!&#8230; S&oacute; hoje me atrevi a subir aqui&#8230;<br \/>\n    Se soubesse como chorei ao tornar a ver este quarto e estes objectos, que<br \/>\n    todos conhecia! Todos ! Oh, n&atilde;o se aflija, Sr. D. Luis, e perdoe-me,<br \/>\n    perdoe-me por quem &eacute;, por amor dela. Fiz mal, bem conhe&ccedil;o, mas,<br \/>\n    como tamb&eacute;m lhe queria muito&#8230; Depois, assim que vi esta harpa&#8230;<br \/>\n    Oh meu Deus, que saudades ! Como me lembrei dela, da m&uacute;sica que tantas<br \/>\n    vezes lhe ouvi, da can&ccedil;&atilde;o que ela preferia&#8230; Quis avivar essas<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es e&#8230; Mal sabia eu o que estava fazendo! Como era<br \/>\n    cruel sem o suspeitar ! Quem me h&aacute;-de perdoar o mal que lhe fiz ? Imagino<br \/>\n    o que sofreu, o que est&aacute; sofrendo ainda&#8230; E ser eu quem lhe avivou<br \/>\n    essas feridas!&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o me queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe at&eacute;<br \/>\n    aqui, a saudade daquele anjo que eu conheci no mundo. Por amor dele lhe pe&ccedil;o<br \/>\n    que me perdoe a dor que lhe causei.<\/p>\n<p> E a voz de Berta tremia ao falar assim. D. Luis n&atilde;o a interrompera,<br \/>\n    porque a agita&ccedil;&atilde;o era ainda nele muito forte para o deixar falar.<\/p>\n<p> Pousando, por&eacute;m, as m&atilde;os na cabe&ccedil;a de Berta e afastando-lhe<br \/>\n    os cabelos da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos<br \/>\n    ainda enevoados de l&aacute;grimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra,<br \/>\n    em luta com a como&ccedil;&atilde;o que o sufocava; &#8212; De que me pedes<br \/>\n    perd&atilde;o, Berta? Destas l&aacute;grimas? Oh! deixa-as correr, que h&aacute;<br \/>\n    muito n&atilde;o choro l&aacute;grimas que me d&ecirc;em um al&iacute;vio<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p> Eu sou que te digo: obrigado, Berta, obrigado, que me fizeste entrever a<br \/>\n    felicidade que o C&eacute;u me pode ainda dar ; nestes curtos instantes da<br \/>\n    minha ilus&atilde;o luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu s&oacute;<br \/>\n    pod&iacute;as ressuscitar-me a filha, e eu quase a senti ao ouvir-te, ao escutar<br \/>\n    essa aben&ccedil;oada m&uacute;sica e a voz, que julguei que s&oacute; me<br \/>\n    chegaria outra vez aos ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos<br \/>\n    do C&eacute;u. Agradecido, Berta. A este meu cora&ccedil;&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    mais conhecidas as dores que o despeda&ccedil;am e queimam, do que estas que<br \/>\n    o desafogam em l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> Agradecido, filha.<\/p>\n<p> E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilizado, sem o menor vest&iacute;gio<br \/>\n    da sua habitual rigidez, aproximou dos l&aacute;bios a fronte de Barta e beijou-a<br \/>\n    com a doce afabilidade de um pai.<\/p>\n<p> Berta beijava-lhe as m&atilde;os, chorando com ele.<\/p>\n<p> Por muito tempo assim se entenderam mudos aquele velho e aquela rapariga,<br \/>\n    trazidos ali por uma mesma saudade, consagrando l&aacute;grimas a uma mesma<br \/>\n    recorda&ccedil;&atilde;o. D. Luis estava cada vez mais fascinado.<\/p>\n<p> Nem por a id&eacute;ia lhe corria que fosse a filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa<br \/>\n    quem tinha na sua presen&ccedil;a, a quem aben&ccedil;oara e beijara.<\/p>\n<p> Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma daquele anjo de conservar<br \/>\n    no mundo a sua mem&oacute;ria, de avivar as simpatias que ela inspirara na<br \/>\n    alma dos que a choravam ainda, e que a chor&aacute;-la morreriam.<\/p>\n<p> As m&atilde;os de Berta n&atilde;o tinham profanado a harpa de Beatriz,<br \/>\n    tocando- a, nem ultrajara a sua mem&oacute;ria a voz que cantava a balada<br \/>\n    favorita da infeliz menina.<\/p>\n<p> D. Luis cedia &agrave; influ&ecirc;ncia daquele brando car&aacute;cter feminino,<br \/>\n    e adorava em Berta a imagem da filha que perdera.<\/p>\n<p> Ambos se esqueciam do presente, falando dela. D. Luis mostrou a Berta todos<br \/>\n    os objectos que haviam pertencido &agrave; filha e que ele ali conservava<br \/>\n    ainda como rel&iacute;quias sagradas.<\/p>\n<p> A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Berta. Mas a quem conservava<br \/>\n    t&atilde;o bem a mem&oacute;ria de Beatriz n&atilde;o era sacril&eacute;gio<br \/>\n    o devass&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Berta, Berta, para que me quis mostrar Deus aquela alma na vida,<br \/>\n    se havia assim de roubar-ma? &#8212; exclamava D. Luis no decurso deste melanc&oacute;lico<br \/>\n    exame.<\/p>\n<p> &#8216; &#8212; Para lhe dar um anjo que o veja do C&eacute;u e vele pelo destino<br \/>\n    desta fam&iacute;lia, que ela tanto estremecia na Terra.<\/p>\n<p> &#8212; O destino desta fam&iacute;lia ! &#8212; repetiu o fidalgo, assombrando-se-<br \/>\n    -lhe o semblante. &#8212; Triste destino ! &#8212; Confio nas ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquele anjo.<\/p>\n<p> &#8212; Quando uma fam&iacute;lia cumpre no mundo uma dolorosa expia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem as ora&ccedil;&otilde;es dos anjos podem alivi&aacute;-la dela. Deus afastou<br \/>\n    do mundo a inocente e fraca, para me deixar s&oacute; a mim o peso do meu<br \/>\n    infort&uacute;nio e o das longas culpas dos nossos. Ele bem sabia que enquanto<br \/>\n    a tivesse ao meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo.<\/p>\n<p> Aceito a senten&ccedil;a de Deus, procurarei cumpri-la com firmeza, e oxal&aacute;<br \/>\n    que meus filhos, recebendo o sinistro legado, n&atilde;o desfale&ccedil;am<br \/>\n    como covardes.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pense nessas coisas, meu padrinho. Tenho f&eacute; que<br \/>\n    ainda voltar&atilde;o dias felizes para esta casa.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ; quando a comprar em hasta p&uacute;blica qualquer propriet&aacute;rio<br \/>\n    endinheirado, que fa&ccedil;a depois ressoar por estas salas os sons dos bailes<br \/>\n    e dos festins. A casa ver&aacute; ent&atilde;o dias alegres, ver&aacute;.<br \/>\n    E quem se lembrar&aacute; dos velhos senhores dela, cujos descendentes talvez<br \/>\n    acei tem um lugar de conviva &agrave; mesa do novo propriet&aacute;rio ? Porque<br \/>\n    vamos para uma &eacute;poca de f&aacute;ceis condescendencias.<\/p>\n<p> Berta calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que levava a conversa.<\/p>\n<p> D. Luis tinha delicadeza para compreender a discri&ccedil;&atilde;o de Berta,<br \/>\n    e mudando de tom, continuou : &#8212; Mas perdoa-me, Berta ; estas id&eacute;ias<br \/>\n    tristes da velhice n&atilde;o s&atilde;o para a tua idade. &Eacute; uma crueldade<br \/>\n    da minha parte n&atilde;o guardar para mim estes pensamentos.<\/p>\n<p> &#8212; Se eu pudesse desvanec&ecirc;-los ! O fidalgo limitou-se a fazer<br \/>\n    um gesto de nega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Neste momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a<br \/>\n    ambos fez estremecer.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; teu pai, Berta? &#8212; perguntou D. Luis, erguendo-se<br \/>\n    e olhando em redor com inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai n&atilde;o est&aacute; na terra. H&aacute; tr&ecirc;s dias<br \/>\n    que partiu e n&atilde;o o esperamos ainda hoje &#8212; respondeu Berta, sobressaltada<br \/>\n    tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Calaram-se, como para melhor escutarem o rumor, que parecia j&aacute; mais<br \/>\n    pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p> Ouviu-se uma voz dizer: &#8212; Vejamos contudo deste lado ; a torre pode<br \/>\n    muito bem servir para pombal.<\/p>\n<p> D. Luis estremeceu ao som daquela voz.<\/p>\n<p> Outro respondeu em tom mais baixo: &#8212; Parece-me que entrevejo uma porta<br \/>\n    aberta. Devagar, devagar.<\/p>\n<p> &#8212; Animo, Maur&iacute;cio ; olha se deixas perder as vantagens da tua<br \/>\n    bela posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio ! &#8212; exclamaram ao mesmo tempo D. Luis e Berta,<br \/>\n    e uma intensa palidez cobriu o rosto desta.<\/p>\n<p> D. Luis desviou para ela um olhar, em que havia um fulgor de desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Ouviste ? Berta fez-lhe sinal afirmativo.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes o que significa isto ? &#8212; N&atilde;o &#8212; respondeu<br \/>\n    Berta com firmeza, levantando a vista para o fidalgo que a observava.<\/p>\n<p> Na firmeza e limpidez daqueles meigos olhos, que n&atilde;o fugiam dos seus,<br \/>\n    ele conheceu a verdade da resposta.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, juro-lhe que n&atilde;o &#8212; repetiu Berta com energia.<\/p>\n<p> &#8212; Bem &#8212; tornou o velho, carregando o sobrolho e apertando a<br \/>\n    m&atilde;o de Berta em sinal de protec&ccedil;&atilde;o &#8212; esperemos<br \/>\n    ent&atilde;o.<\/p>\n<p> Os que subiam estavam j&aacute; na proximidade da porta.<\/p>\n<p> D. Luis recuou alguns passos e ficou oculto pelo cortinado do leito da filha;<br \/>\n    Berta permaneceu im&oacute;vel com a m&atilde;o apoiada a harpa.<\/p>\n<p>Depois de alguns instantes de demora, a porta moveu-se vagarosamente sobre<br \/>\n    os gonzos, e no v&atilde;o deixou aparecer a figura de Maur&iacute;cio, e,<br \/>\n    mais atr&aacute;s, meio encobertos pelas sombras do corredor, os dois malignos<br \/>\n    semblantes dos manos do Cruzeiro.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio trazia o olhar desvairado e certa desordem de fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    denunciadoras da orgia, com que os primos trai&ccedil;oeiramente o tinham<br \/>\n    preparado para o esc&acirc;ndalo que meditavam.<\/p>\n<p> Ao reparar em Berta, Maur&iacute;cio fitou-a com uma express&atilde;o de<br \/>\n    quase c&iacute;nica ironia.<\/p>\n<p> &#8212; Boas tardes, Berta &#8212; disse ele, curvando-se com gesto de esc&aacute;rnio<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o sei se a minha presen&ccedil;a interrompeu alguma doce<br \/>\n    medita&ccedil;&atilde;o, que esta luz amortecida da tarde lhe estivesse inspirando.<\/p>\n<p> Mas t&atilde;o longe estava de encontr&aacute;-la aqui ! Berta tremia e<br \/>\n    baixava os olhos sem atinar o que dissesse. A consci&ecirc;ncia de que o fidalgo<br \/>\n    estava escutando Maur&iacute;cio n&atilde;o era o menor motivo para a sua<br \/>\n    confus&atilde;o. Se se achasse s&oacute; encontraria coragem para arrostar<br \/>\n    com o insulto. No olhar, nas palavras, no gesto de Maur&iacute;cio percebera<br \/>\n    o desarranjo da raz&atilde;o em que ele estava. Temia pois mais por ele do<br \/>\n    que por si.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio prosseguiu : &#8212; Julg&aacute;vamos encontrar outra pessoa<br \/>\n    nesta velha casa abandonada, porque vimos um cavalo guardado furtivamente,<br \/>\n    a&iacute; perto, em uns pardieiros arruinados. Isto indicava a presen&ccedil;a<br \/>\n    do cavaleiro. Saber- -me-&aacute; dar not&iacute;cias dele, Berta? Berta n&atilde;o<br \/>\n    respondeu.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o fala? Parece perturbada. &Eacute; inexplic&aacute;vel<br \/>\n    a sua confus&atilde;o diante de mim, Berta. Conhecidos h&aacute; tanto tempo<br \/>\n    ! companheiros de inf&acirc;ncia !&#8230; N&atilde;o se lembra de que brinc&aacute;mos<br \/>\n    nesta sala, eu, minha irm&atilde;, Berta e&#8230; Jorge? um dos primos tossiu<br \/>\n    ao ouvir o &uacute;ltimo nome.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio voltou-se : &#8212; Que &eacute; ? Que reflex&otilde;es<br \/>\n    vos despertou este nome ? Parece que tamb&eacute;m Berta n&atilde;o o ouve<br \/>\n    a sangue-frio.<\/p>\n<p> Berta tremia cada vez mais.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui h&aacute; um mist&eacute;rio. Berta est&aacute; dominada por<br \/>\n    alguma influ&ecirc;ncia m&aacute;. Desconhe&ccedil;o-a. Dar-se-&aacute; que<br \/>\n    o mau esp&iacute;rito se oculte de n&oacute;s, tr&ecirc;s bons rapazes inofensivos,<br \/>\n    que respeitam todas as entrevistas secretas, todas as doces afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da alma, e que s&oacute; querem que se seja franco e leal com eles nas palavras<br \/>\n    e nas obras, e se ponha de parte a falsa moralidade dos hip&oacute;critas?<br \/>\n    Depois, deixando o tom de sarcasmo pelo da veem&ecirc;ncia, bradou: &#8212;<br \/>\n    Se algu&eacute;m me ouve e ainda tem uns restos de brio e de vergonha, que<br \/>\n    se n&atilde;o esconda, que apare&ccedil;a. &Eacute; tempo de acabar a com&eacute;dia.<\/p>\n<p> Apare&ccedil;a ou eu prometo tentar a sua covardia, obrigando-o pela honra<br \/>\n    a acudir &agrave; mulher que furtivamente corteja, se a quiser livrar do galanteio<br \/>\n    que ela desdenhosamente rejeita.<\/p>\n<p> Estavam Estavam mal acabadas estas palavras e D. Luis achava-se j&aacute;<br \/>\n    em frente do filho, fitando-o em sil&ecirc;ncio e com um olhar de severa e<br \/>\n    expressa interroga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mauricio recuou, como se aquela apari&ccedil;&atilde;o o ferisse em pleno<br \/>\n    peito. Os do Cruzeiro envolveram-se a mais e mais nas sombras dos corredores.<\/p>\n<p> Seguiram-se alguns momentos de sil&ecirc;ncio ; D. Luis foi o primeiro a<br \/>\n    interromp&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui estou pronto para responder ao interrogat&oacute;rio de meu<br \/>\n    filho e desses senhores que se escondem&#8230; por mod&eacute;stia na sombra do<br \/>\n    corredor. Interroguem.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai&#8230;&#8212;balbuciou Mauricio, baixando os olhos.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o deu nisso a bravata da atrevida provoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me fez aparecer? E os senhores n&atilde;o ser&atilde;o mais ousados? Muito<br \/>\n    bem; se &eacute; a consci&ecirc;ncia que os abaixa ao lugar de r&eacute;us,<br \/>\n    eu tomo o meu lugar de juiz. Que significa t&ocirc;da esta cena de orgia?<br \/>\n    Que inf&acirc;mia, que vileza os fez subir estas escadas e empurrar aquela<br \/>\n    porta? Julguei perceber que se tratava de insultar uma senhora. Boa divers&atilde;o<br \/>\n    para fidalgos ! E voltando-se para Maur&iacute;cio prosseguiu: &#8212; Dantes<br \/>\n    aqueles que traziam o nome de que usas, baixavam cort&ecirc;smente os olhos<br \/>\n    diante das damas e erguiam-nos para cruzar a vista de homem, quem quer que<br \/>\n    ele fosse, que procurasse a sua. Tu hoje desonras esse nome, fazendo o contr&aacute;rio.<br \/>\n    &Eacute;s insultante e provocador com a fraqueza, e baixas a vista ign&ograve;bilmente<br \/>\n    sob o peso da tua covardia. Envergonho-me de te ter por filho.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor! &#8212; Basta. n&atilde;o quero aumentar a minha vergonha,<br \/>\n    devassando o &iacute;ntimo das tuas inten&ccedil;&otilde;es, vindo aqui em<br \/>\n    companhia dos teus camaradas das devassas orgias. Berta, bem v&ecirc;. Quando,<br \/>\n    movida por um sentimento generoso, subiu os degraus destas escadas, no intento<br \/>\n    de se entreter com a alma de Beatriz, que melhor do que ningu&eacute;m conheceu,<br \/>\n    confiava mais na boa f&eacute; dos outros, julgando-a pela sua. Devia lembrar-se<br \/>\n    de que nesta casa em ruinas, de onde voou para o C&eacute;u aquele anjo, criaram-se<br \/>\n    os h&oacute;spedes das ru&iacute;nas, os r&eacute;pteis e as v&iacute;boras,<br \/>\n    que se arrastam at&eacute; aqui para a ferirem com o insulto e com a cal&uacute;nia,<br \/>\n    aqui mesmo neste lugar que devia ser sagrado para meus filhos, se a fatal<br \/>\n    influ&ecirc;ncia que pesa sobre esta fam&iacute;lia n&atilde;o tivesse j&aacute;<br \/>\n    apagado neles todos os instintos de dignidade e de nobreza. Deus, por&eacute;m,<br \/>\n    trouxe-me aqui para proteg&ecirc;-la do insulto, e espero que apesar de tr&eacute;mulo,<br \/>\n    ainda o meu bra&ccedil;o lhe servir&aacute; de seguro apoio. Talvez que a<br \/>\n    deprava&ccedil;&atilde;o nestes homens perdidos n&atilde;o tenha chegado ainda<br \/>\n    ao ponto de ousarem amea&ccedil;ar-me ; uns restos de respeito filial lhe<br \/>\n    servir&atilde;o de salvaguarda.<\/p>\n<p> E D. Luis, dando o bra&ccedil;o a Berta, que maquinalmente lhe obedecia,<br \/>\n    saiu do aposento com a cabe&ccedil;a erguida e o gesto severo.<\/p>\n<p>Mauricio e os primos do Cruzeiro afastaram-se timidamente para os deixar<br \/>\n    passar.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio deixou-se cair em uma cadeira e escondeu o rosto &#8216; entre<br \/>\n    as m&atilde;os, exclamando: &#8212; Eu sou um miser&aacute;vel! Os primos<br \/>\n    olharam-se com o gesto c&ocirc;mico de dois colegiais encontrados em flagrante<br \/>\n    delito de insubordina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h2> XXIV<\/h2>\n<p> NO dia seguinte pela manh&atilde;, D. Luis mandou pedir &agrave; baronesa<br \/>\n    autoriza&ccedil;&atilde;o para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos<br \/>\n    urgentes.<\/p>\n<p> Gabriela respondeu que o ficava aguardando com impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> E n&atilde;o foi por mero cumprimento que o disse ; os neg&oacute;cios daquela<br \/>\n    fam&iacute;lia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento<br \/>\n    para momento uma crise importante, e o menor sucesso podia provoc&aacute;-la.<\/p>\n<p> Gabriela sabia-o e aguardava-a.<\/p>\n<p> Meia hora depois entrou D. Luis sombrio e grave no gabinete da sobrinha.<\/p>\n<p> Esta acolheu-o com a maior defer&ecirc;ncia, procurando ler-lhe no semblante<br \/>\n    o pensamento que o trouxera ali, mas empregando no exame toda a sua dissimula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Para que se incomodou, tio Luis? Se quisesse ter a bondade de esperar<br \/>\n    eu iria receber as suas ordens.<\/p>\n<p> &#8212; Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui t&atilde;o<br \/>\n    matinal.<\/p>\n<p> &#8212; Meu Deus ! Achou-se ent&atilde;o incomodado ? &#8212; De espirito,<br \/>\n    muito; muito.<\/p>\n<p> E D. Luis passou a m&atilde;o pela fronte, suspirando.<\/p>\n<p> &#8212; E posso proporcionar-lhe algum al&iacute;vio, meu tio? &#8212; perguntou<br \/>\n    Gabriela, conduzindo-o para um sof&aacute; onde se sentou ao lado dele, olhando-o<br \/>\n    com ar de interroga&ccedil;&atilde;o e de interesse.<\/p>\n<p> &#8212; Gabriela, a sorte de minha fam&iacute;lia est&aacute; jogada. &Eacute;<br \/>\n    uma fam&iacute;lia perdida &#8212; rompeu veementemente o fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o diga isso, tio Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Digo-o e sinto-o &#8212; continuou ele mais exaltado. &#8212; Quando<br \/>\n    uma casa como a nossa, que n&atilde;o pode j&aacute; conservar o antigo esplendor<br \/>\n    e o estado que em melhores tempos sustentou, r.&atilde;o sabe de mais a mais<br \/>\n    manter o prest&iacute;gio que teve por as pr&aacute;ticas tradicionais de<br \/>\n    nobreza, por ac&ccedil;&otilde;es de fidalguia, enfim por estes actos de superioridade<br \/>\n    que fazem dobrar a cabe&ccedil;a aos mais insolentes e intimidar a vista dos<br \/>\n    invejosos, quando uma casa chega a um tal estado de decad&ecirc;ncia, nenhum<br \/>\n    apoio s&oacute;lido tem a sustent&aacute;-la e em pouco tempo cair&aacute;<br \/>\n    em ru&iacute;na total.<\/p>\n<p> A minha est&aacute; perdida! &#8212; Seus filhos&#8230;<\/p>\n<p> D. Luis estremeceu de irrita&ccedil;&atilde;o a estas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; Meus filhos ! Que me quer dizer deles ? Deles me queixo eu.<\/p>\n<p> Jorge fez-me corar pela pouca dignidade dos seus sentimentos ; Mauricio<br \/>\n    pela vileza dos seus actos.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio ? ! Santo Deus ! Pois que sucedeu mais ? D. Luis<br \/>\n    ainda tr&eacute;mulo de indigna&ccedil;&atilde;o, contou &agrave; baronesa<br \/>\n    a cena da v&eacute;spera. A c&oacute;lera do velho contra o filho era violenta<br \/>\n    e contrastava com a brandura e quase respeito que o dominava ao falar de Berta.<\/p>\n<p> A baronesa ia notando estes fen&oacute;menos todos.<\/p>\n<p> Assim que D. Luis concluiu, Gabriela, encolhendo os ombros, formulou a emenda:<br \/>\n    &#8212; Loucuras de rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Loucuras! Loucuras de rapaz! que diz, Gabriela? Nem tudo se pode<br \/>\n    permitir ou desculpar ao verdor dos anos. E quando nas ac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de um rapaz se nota, j&aacute; n&atilde;o apenas o estouvamento e a inconsidera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que &eacute; pr&oacute;pria dos anos, mas os sinais de uma profunda deprava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral, esse rapaz, aos vinte anos, tem j&aacute; a alma corrompida.<\/p>\n<p> &#8212; Mas o que v&ecirc; mais do que estouvamento nos actos de Maur&iacute;cio<br \/>\n    ? &#8212; Que ia ele fazer embriagado e na companhia de devassos, &agrave;<br \/>\n    Casa Mourisca? &#8212; Saiba ent&atilde;o, meu tio, que o primo Maur&iacute;cio<br \/>\n    tem o fraco de se julgar apaixonado por todas as raparigas bonitas que v&ecirc;.<br \/>\n    &Eacute; o seu defeito. Portanto, julga-se tamb&eacute;m apaixonado por Berta,<br \/>\n    que me dizem ser gentil. Parece, por&eacute;m, que n&atilde;o tem sido feliz<br \/>\n    por esse lado. Da&iacute; os seus desafogos. Depois os planos de Jorge, mal<br \/>\n    interpretados, as mal&eacute;volas instiga&ccedil;&otilde;es daquelas santas<br \/>\n    criaturas dos nossos primos do Cruzeiro fizeram-lhe j&aacute; por mais de<br \/>\n    uma vez ver no irm&atilde;o inocente um rival preferido, e a&iacute; est&aacute;.<br \/>\n    Acrescentando a isto a influ&ecirc;ncia do estado anormal em que diz que ele<br \/>\n    ontem se achava, tudo se explica. Loucuras de uma cabe&ccedil;a estouvada;<br \/>\n    que por o cora&ccedil;&atilde;o fico eu.<\/p>\n<p> &#8212; Perde-se, perde-se &#8212; insistia D. Luis. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    respeitar os sentimentos mais puros ! nem pelo menos lhe merecer respeito<br \/>\n    aquela pobre rapariga, que tem as mais santas tradi&ccedil;&otilde;es de nossa<br \/>\n    fam&iacute;lia a proteg&ecirc;-la ! Nem ela ! &Eacute; uma inf&acirc;mia !<br \/>\n    &#8212; Sabe o que tudo isto est&aacute; pedindo, meu tio? &#8212; O que &eacute;?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; que se tire Maur&iacute;cio daqui. Esta ociosidade perde-o.<br \/>\n    Este viver apertado no pequeno c&iacute;rculo da aldeia h&aacute;-de acabar<br \/>\n    por sufocar nele as melhores aptid&otilde;es e desenvolver-lhe as m&aacute;s.<br \/>\n    Creia. O tio deve vencer os seus escr&uacute;pulos em deixar Maur&iacute;cio<br \/>\n    partir.<\/p>\n<p>&#8212; Lembrei-me j&aacute; disso. E nesse intuito a procurei. Mas pense<br \/>\n    bem, Gabriela. Engolf&aacute;-lo na grande sociedade, onde os v&iacute;cios<br \/>\n    e as tenta&ccedil;&otilde;es se conspiram para embriagar e seduzir a juventude,<br \/>\n    e ele em quem germinam j&aacute; t&atilde;o maus instintos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tem dotes de alma, que l&aacute; se desenvolver&atilde;o e neutralizar&atilde;o<br \/>\n    os v&iacute;cios e as tenta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> D. Luis curvou a cabe&ccedil;a pensativo. Os seus preconceitos pol&iacute;ticos<br \/>\n    eram muito vivazes, n&atilde;o cediam sem resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Para que me deu o Senhor filhos ! &#8212; exclamou ele, re voltando-<br \/>\n    se contra a sua perplexidade ; e acrescentou : &#8212; Mas afinal que carreira<br \/>\n    pode ele seguir? &#8212; N&atilde;o fixemos de antem&atilde;o planos. Em geral<br \/>\n    os acontecimentos anulam-nos. Decida-se a partida. Eu o recomendarei de maneira<br \/>\n    que ele pr&oacute;prio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, se tiver de ceder&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Meu tio, permita-me uma reflex&atilde;o. Se quisermos prevenir todos<br \/>\n    os fortuitos inconvenientes de uma resolu&ccedil;&atilde;o qualquer, antes<br \/>\n    de a tomarmos, nenhuma abra&ccedil;aremos. Deixemos as objec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e os reparos para o momento apropriado. Quer que Maur&iacute;cio parta? &#8212;<br \/>\n    Se ele h&aacute;-de perturbar a paz dessa fam&iacute;lia e obrigar-me mais<br \/>\n    uma vez a humilhar-me diante dela&#8230; Porque meus filhos t&ecirc;m tido a rara<br \/>\n    habilidade de deixar a humilha&ccedil;&atilde;o por o &uacute;nico expediente<br \/>\n    ao meu pundonor ! Colocaram a raz&atilde;o e a justi&ccedil;a da parte dos<br \/>\n    meus inimigos, for&ccedil;oso era, para poder ter a cabe&ccedil;a erguida,<br \/>\n    curv&aacute;-la primeiro e implorar perd&atilde;o.<\/p>\n<p> Gabriela fingiu n&atilde;o atender &agrave; primeira parte das reflex&otilde;es<br \/>\n    do tio.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem. Vou falar ao Maur&iacute;cio. Tudo se h&aacute;-de decidir<br \/>\n    em pouco tempo. Tenha f&eacute; em que se n&atilde;o perde uma fam&iacute;lia,<br \/>\n    cujos futuros representantes t&ecirc;m, um o car&aacute;cter honrado e a raz&atilde;o<br \/>\n    clara de Jorge, outro, os bons instintos e as brilhantes qualidades de Maur&iacute;cio.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, creio que ela est&aacute; destinada a dar um salutar<br \/>\n    exemplo &agrave;queles cuja estrela tamb&eacute;m declina, ensinando-lhes<br \/>\n    a &uacute;nica maneira de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos seus antepassados.<\/p>\n<p> &#8212; E qual &eacute; essa maneira &uacute;nica? &#8212; interrogou o<br \/>\n    fidalgo, quase ir&ocirc;nico, como se j&aacute; esperasse a resposta.<\/p>\n<p> &#8212; Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho ; distinguir-se<br \/>\n    a&iacute;, como se distinguiram outr&oacute;ra nas guerras de &Aacute;frica<br \/>\n    e nas navega&ccedil;&otilde;es os que tinham o mesmo nome para enobrecer.<br \/>\n    Ser ocioso, por n&atilde;o poder ser guerreiro, &eacute; fraco t&iacute;tulo<br \/>\n    para venera&ccedil;&atilde;o dos contempor&acirc;neos. Cada s&eacute;culo<br \/>\n    tem a sua tarefa, meu tio ; a de hoje n&atilde;o se cumpre &agrave;s lan&ccedil;adas<br \/>\n    nem &agrave;s cutiladas. O bom senso do tio Luis h&aacute;-de dar-me raz&atilde;o.<br \/>\n    Sabe al&eacute;m disso muito bem o que se faz l&aacute; por fora, o que se<br \/>\n    faz na Inglaterra, por exemplo, onde tamb&eacute;m h&aacute; nobreza e orgulhos<br \/>\n    nobili&aacute;rquicos, como por c&aacute;, e mais talvez ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Bem v&ecirc; que n&atilde;o desprezei a educa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    meus filhos, nem impedi que Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, nesse dia julguei receber uma li&ccedil;&atilde;o daquela<br \/>\n    crian&ccedil;a, e cheguei a corar dos meus setenta anos de inc&uacute;ria<br \/>\n    e de ociosidade. A minha velhice achou-se menos veneranda do que aquela juventude.<br \/>\n    Mas repare, Gabriela, que disse : entrar nobremente no caminho do trabalho.<\/p>\n<p> E nobremente n&atilde;o &eacute; andar a estender a m&atilde;o &agrave;<br \/>\n    esmola dos antigos servos da nossa casa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o houve esmola. Foi um honrado contrato aquele, feito entre<br \/>\n    dois homens igualmente honrados. Se faltaram nele todas as seguran&ccedil;as<br \/>\n    do costume, tanto melhor ; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no<br \/>\n    outro. As garantias mais poderosas s&atilde;o afinal essas. Contratos destes<br \/>\n    s&oacute; se d&atilde;o entre homens de bem. Olhe, tio Luis, longe de mim<br \/>\n    discutir agora o proceder de Jorge, mas, se quer que lhe diga, tenho a &iacute;ntima<br \/>\n    convic&ccedil;&atilde;o de que a&iacute; dentro, bem no fundo da sua consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    n&atilde;o se conserva j&aacute; grande ressentimento contra seu filho mais<br \/>\n    velho.<\/p>\n<p> H&aacute; for&ccedil;osamente uma voz interior que lhe clama que Jorge &eacute;<br \/>\n    um nobre e generoso car&aacute;cter.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem,<br \/>\n    Gabriela, n&atilde;o discutamos agora isto. Pe&ccedil;o-lhe ent&atilde;o que<br \/>\n    decida Maur&iacute;cio a sair, para evitar novas imprud&ecirc;ncias e indignidades<br \/>\n    ; n&atilde;o tanto por n&oacute;s, como por essa boa rapariga, que &eacute;<br \/>\n    digna deveras de t&ocirc;da a simpatia. Que parta e que n&atilde;o me apare&ccedil;a.<\/p>\n<p> E D. Luis saiu do quarto, repetindo esta &uacute;ltima recomenda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A baronesa ficou pensando.<\/p>\n<p> &#8212; Decididamente &eacute; preciso p&ocirc;r Maur&iacute;cio daqui para<br \/>\n    fora. Este car&aacute;cter em uma cidade grande &eacute; uma coisa insignificante<br \/>\n    ; a agita&ccedil;&atilde;o que causa perdia-se na grande agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele mundo. Aqui &eacute; um terr&iacute;vel elemento de desordem e talvez<br \/>\n    de s&eacute;rias cat&aacute;strofes. Agora quem me agrada mais e muito mais<br \/>\n    &eacute; o tio Luis. Sim, senhores. Acho-o menos bravo, apesar dos seus furores.<br \/>\n    Como ele falava da filha de Tom&eacute; ! Do Tom&eacute;, que &eacute; afinal<br \/>\n    a pedra de esc&acirc;ndalo disto tudo ! Quem o domaria a este ponto? A rapariga,<br \/>\n    ao que parece, tem cond&atilde;o para se insinuar.<\/p>\n<p> O tio Luis tem um grande fraco por ela, conhece-se. J&aacute; o que o padre<br \/>\n    me contou de quando foi a hist&oacute;ria da entrega das chaves, e agora esta<br \/>\n    entrevista&#8230; Preciso de conhecer Berta; est&aacute; dito. &Eacute; uma influ&ecirc;ncia<br \/>\n    que &eacute; bom cultivar. Digam o que quiserem ; n&atilde;o h&aacute; nada<br \/>\n    melhor para amansar um velho bravio como este. &Eacute; ver a falta que fez<br \/>\n    aquela pobre Beatriz. Ao p&eacute; de um velho quer-se sempre uma rapariga<br \/>\n    para n&atilde;o o deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opini&otilde;es<br \/>\n    avinagradas, que o tio Luis j&aacute; ia adquirindo. Nada; o padre procurador<br \/>\n    o mais distante dele poss&iacute;vel, que pregue a outros os seus sopor&iacute;feros<br \/>\n    serm&otilde;es sobre o direito divino e sobre a corrup&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    &eacute;poca ; no lugar dele coloquemos Berta, e quero saber se o le&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute;-de amansar. Agora vamos l&aacute; ver Maur&iacute;cio.<br \/>\n    Para falar a verdade, ainda n&atilde;o sei bem o que se h&aacute;-de fazer<br \/>\n    dele ; mas, em todo o caso, mandemo-lo para Lisboa, porque nos est&aacute;<br \/>\n    causando muito embara&ccedil;o aqui.<\/p>\n<p> E Gabriela dirigiu-se para a sala do almo&ccedil;o, onde Maur&iacute;cio<br \/>\n    todas as manh&atilde;s a precedia.<\/p>\n<p> Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido<br \/>\n    na contempla&ccedil;&atilde;o do abundante jorro de &aacute;gua que dali se<br \/>\n    despenhava por entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precip&iacute;cio.<br \/>\n    Os raios de Sol da manh&atilde; irisavam a h&uacute;mida poeira, que a &aacute;gua,<br \/>\n    ao quebrar-se, levantava do abismo.<\/p>\n<p> Gabriela aproximou-se de Maur&iacute;cio sem ser percebida, e depois de<br \/>\n    o observar alguns momentos, pousou-lhe a m&atilde;o no ombro.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio voltou-se quase sobressaltado. Ao ver a prima, sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o a senti chegar.<\/p>\n<p> &#8212; Isso vi eu. Que profunda medita&ccedil;&atilde;o era essa? Queira<br \/>\n    Deus que n&atilde;o estivesses sentindo a atrac&ccedil;&atilde;o do abismo.<br \/>\n    Dizem-me que &eacute; irresist&iacute;vel ; sobretudo para certas organiza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, os abismos f&iacute;sicos n&atilde;o s&atilde;o os que<br \/>\n    me atraem.<\/p>\n<p> &#8212; O que &eacute; o mesmo que dizer que os morais alguma atrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exercem sobre ti.<\/p>\n<p> &#8212; Estou quase a persuadir-me disso.<\/p>\n<p> &#8212; De qu&ecirc;? &#8212; De que me impele uma for&ccedil;a irresist&iacute;vel<br \/>\n    por um caminho, no fim do qual a minha queda &eacute; inevit&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um pressentimento tr&aacute;gico.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma opini&atilde;o ditada pela experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Experi&ecirc;ncia ! Essa palavra na tua boca, Maur&iacute;cio !<br \/>\n    O eterno mote dos velhos, glosado por um rapaz de dezoito anos, e estouvado<br \/>\n    como n&oacute;s sabemos !&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o h&aacute;-de ser esse mesmo estouvamento o que<br \/>\n    me perde ? Os estouvados s&atilde;o os homens que n&atilde;o t&ecirc;m na<br \/>\n    raz&atilde;o for&ccedil;a bastante para conterem os impulsos das paix&otilde;es,<br \/>\n    e que por isso obedecem a estas, sem que os fa&ccedil;am parar os preconceitos<br \/>\n    do mundo e os conselhos dos ju&iacute;zos frios.<\/p>\n<p> &#8212; Se me faz favor, esses s&atilde;o os apaixonados. Os estouvados<br \/>\n    n&atilde;o chegam nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paix&atilde;o,<br \/>\n    porque mudam de soberana a cada momento, de onde resulta um mover indeciso,<br \/>\n    um flutuar sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que n&atilde;o lhes<br \/>\n    permite vencer longo caminho.<\/p>\n<p> &#8212; Neste caso rejeito o ep&iacute;teto de estouvado.<\/p>\n<p> &#8212; Achas ent&atilde;o que h&aacute; j&aacute; o governo constitu&iacute;do<br \/>\n    e definitivo no teu cora&ccedil;&atilde;o? &#8212; Estou convencido de que<br \/>\n    se fixou o meu destino.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo lado do amor ? &#8212; Sim ; pelo lado do amor.<\/p>\n<p> &#8212; A not&iacute;cia contraria grandemente os meus planos.<\/p>\n<p> &#8212; Os seus planos ?<\/p>\n<p>&#8212; Sim ; n&atilde;o sabes o que me trouxe aqui ? Vim para declarar-te<br \/>\n    que o tio Luis exige terminantemente que o Maur&iacute;cio parta quanto antes<br \/>\n    para Lisboa, por se ter afinal convencido de que, apesar de todos os perigos<br \/>\n    da vida da capital, &eacute; esse um passo prefer&iacute;vel a deixa-lo permanecer<br \/>\n    aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, &eacute; a m&atilde;e de todos<br \/>\n    os v&iacute;cios.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso principia hoje a luta. Eu declaro que n&atilde;o parto<br \/>\n    &#8212; Deveras ? &#8226;&#8212; Deveras. A minha sorte est&aacute; decidida,<br \/>\n    prima. E qualquer que seja o resultado desta resolu&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, vamos a saber, primo Maur&iacute;cio, e Berta?&#8230; (porque me<br \/>\n    parece que se trata de Berta) e Berta corresponde-te? &#8212; Creio que sim.<br \/>\n    Por timidez procura fugir-me, ou por desconfian&ccedil;a talvez. Por isso<br \/>\n    mesmo hei-de provar-lhe que sou sincero, e que atrav&eacute;s de todos os<br \/>\n    preconceitos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; a tentar-te o papel de Romeu, &eacute; o que estou vendo.<br \/>\n    Desconfio da sinceridade dessa exalta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ver&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ponhamos as coisas no seu lugar. N&atilde;o principies tu a<br \/>\n    fantasiar escaramu&ccedil;as de Montechi e Capuletti, que provavelmente n&atilde;o<br \/>\n    ter&atilde;o lugar, com grande dano das fei&ccedil;&otilde;es rom&acirc;nticas<br \/>\n    do caso. A coisa h&aacute;-de passar-se mais prosaicamente, como hoje se passa<br \/>\n    tudo.- O rjrimo Maur&iacute;cio, depois de uns arrufos do tio Luis, havia<br \/>\n    de, mais ano menos.<\/p>\n<p> ano, ver sancionado por ele o seu casamento. Muito bem. A&iacute; o t&iacute;nhamos<br \/>\n    patriarca rural, burgu&ecirc;smente instalado na lareira da Herdade, com os<br \/>\n    filhos a treparem-lhe aos joelhos, e conversando em santa paz com o pap&aacute;<br \/>\n    Tom&eacute; e com a mama Luisa, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a<br \/>\n    boca de sono, quando a ceia se demorasse alguns minutos al&eacute;m das nove<br \/>\n    horas. Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos<br \/>\n    aptid&atilde;o do que ele, caminhariam por entre os fulgores da moda, da eleg&acirc;ncia<br \/>\n    e da gl&oacute;ria, conhecidos e apreciados nos c&iacute;rculos onde radia<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia e onde as brilhantes qualidades do esp&iacute;rito encontram<br \/>\n    sempre em que se exercerem. N&atilde;o chegariam a este solit&aacute;rio Maur&iacute;cio<br \/>\n    &agrave;s vezes umas invejazinhas desses tais, mesmo ao suave calor da fogueira<br \/>\n    patriarcal? &#8212; E quem me impediria de os seguir tamb&eacute;m ? &#8212;<br \/>\n    disse Maur&iacute;cio contrariado. &#8212; Nesses caminhos que diz n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; for&ccedil;a progredir solit&aacute;rio.<\/p>\n<p> O apoio de um cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> A baronesa abanou a cabe&ccedil;a em sinal de d&uacute;vida, dizendo: &#8212;<br \/>\n    Desengana-te, Maur&iacute;cio,, se ainda te sorri a vida da grande sociedade,<br \/>\n    n&atilde;o procures a companhia de cora&ccedil;&otilde;es como o de Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o ? &#8212; Os cora&ccedil;&otilde;es como o de<br \/>\n    Berta precisam do calor suave da vida de fam&iacute;lia para rescenderem o<br \/>\n    grato perfume do seu amor. Para um homem a quem ainda atraem as lutas da vida<br \/>\n    e as lides da gl&oacute;ria, n&atilde;o &eacute; das mais adequadas companhias<br \/>\n    a destas mulheres extremosas e modestas, que somente se satisfazem com afectos,<br \/>\n    e cujo amor n&atilde;o se nutre da gl&oacute;ria do objecto que amam, mas<br \/>\n    exclusivamente do amor qre dele exigem. Almas que o ci&uacute;me desalenta,<br \/>\n    que a aus&ecirc;ncia definha, n&atilde;o s&atilde;o para companheiras daqueles<br \/>\n    homens. Se um dos tais mais imprudente liga um destes cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ao seu destino, ou o martiriza, cedendo aos pr&oacute;prios instintos da gl&oacute;ria,<br \/>\n    ou sacrificando-lhos, tortura- se, e a tortura reflecte-se sobre essas almas<br \/>\n    arnor&aacute;veis, que a adivinham.<\/p>\n<p> &#8212; E poder&aacute; ser verdadeiro um amor que n&atilde;o tenha essas<br \/>\n    qualidades que diz? &#8212; Pode. Pois n&atilde;o pode ! &Eacute; preciso<br \/>\n    que evites, Maur&iacute;cio, o preconceito que tem muita gente de que tudo<br \/>\n    &eacute; falso e mau nos brilhantes c&iacute;rculos sociais. N&atilde;o &eacute;.<br \/>\n    L&aacute; h&aacute; tamb&eacute;m amores e afei&ccedil;&otilde;es verdadeiras,<br \/>\n    podes cr&ecirc;-lo, mas nascidas e criadas em condi&ccedil;&otilde;es diversas,<br \/>\n    vivem e resistem a ventos que definham as outras. uma mulher daquele mundo,<br \/>\n    sem que deixe de amar seu marido, n&atilde;o aspira a monopoliz&aacute;-lo<br \/>\n    para o seu amor. Pelo contr&aacute;rio, deseja que ele desempenhe a sua miss&atilde;o<br \/>\n    na sociedade. com a gl&oacute;ria que a&iacute; adquirir, se ilumina ela tamb&eacute;m,<br \/>\n    e em vez de o reter na obscuridade do lar dom&eacute;stico, impele-o para<br \/>\n    a luz e sente que o seu amor por ele cresce na propor&ccedil;&atilde;o em<br \/>\n    que os outros o admiram. &Eacute; uma vaidade que se converte em est&iacute;mulo.<br \/>\n    Estas mulheres assim servem de incentivo &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e s&atilde;o as que conv&eacute;m aos artistas, aos pol&iacute;ticos, em uma<br \/>\n    palavra, aos ambiciosos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem lhe disse que eu era ambicioso ? &#8212; perguntou Maur&iacute;cio,<br \/>\n    j&aacute; em tom diferente, e demorando na baronesa um olhar analisador, como<br \/>\n    de quem pela primeira vez descobria nela qualidades dignas de aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E podes negar que o &eacute;s ? &#8212; prosseguiu Gabriela. &#8212;<br \/>\n    Ora fala-me com franqueza. Resignar-te-ias sem pesar &agrave; id&eacute;ia<br \/>\n    de passar o resto da tua vida esquecido e obscuro neste canto da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    tendo por &uacute;nica divers&atilde;o uma ca&ccedil;ada de lebre ? Conformar-te-ias<br \/>\n    com as modestas aspira&ccedil;&otilde;es de Jorge, que se satisfaz com dirigir<br \/>\n    em bom caminho a administra&ccedil;&atilde;o da vossa casa? N&atilde;o sonhas<br \/>\n    muita vez com a brilhante sociedade dos sal&otilde;es da capital, onde todas<br \/>\n    as aristocracias se confrontam, onde se trata com tudo quanto h&aacute; de<br \/>\n    elegante, de nobre, de distinto nas ci&ecirc;ncias, nas letras e nas artes?<br \/>\n    N&atilde;o tens j&aacute; sentido a ansiedade de viajar, de te engolfares<br \/>\n    nos focos da civiliza&ccedil;&atilde;o moderna; finalmente de viver em um<br \/>\n    mundo, onde os teus talentos, as tuas qualidades possam ser devidamente apreciadas?<br \/>\n    &#8212; &Eacute; muito lisonjeira, prima Gabriela. Mas quando eu sonhasse<br \/>\n    com tudo isso&#8230; E n&atilde;o negarei que mais de que uma vez essas fantasias<br \/>\n    me tenham enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo est&aacute; &agrave;<br \/>\n    minha espera para me patentear todas as portas desses lugares de fascina&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Para os rapazes de vinte anos, de talento e de vontade, n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; barreiras no mundo. Querer &eacute; poder. O mundo &eacute; menos<br \/>\n    feroz do que parece. Quando algu&eacute;m se aproxima dele com a intrepidez<br \/>\n    e o arrojo do domador, esta terr&iacute;vel fera abaixa a cabe&ccedil;a e<br \/>\n    n&atilde;o ataca.<\/p>\n<p> &#8212; E qual pode ser a minha carreira nesse mundo ? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    se escolhe de longe. Na presen&ccedil;a dos caminhos escuta-se uma voz interior,<br \/>\n    que nos diz: &laquo;Por aqui&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas creia que eu sou um inexperiente. Fora destes ares sentir- me-ia<br \/>\n    embara&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8212; Eu prometo acompanhar-te nos primeiros passos.<\/p>\n<p> &#8212; Somente nos primeiros ? Maur&iacute;cio fez a pergunta com uma entona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de voz e com um olhar, que causaram estranheza a Gabriela.<\/p>\n<p> Fitou-o como para perscrut&aacute;-lo, e depois com um sorriso malicioso<br \/>\n    nos l&aacute;bios, tornou-lhe : &#8212; Pareceu-me perceber uma m&uacute;sica<br \/>\n    de galanteio nessa pergunta.<\/p>\n<p> V&ecirc; l&aacute;. Pois nem eu te merecerei indulg&ecirc;ncia e contempla&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; Demasiada contempla&ccedil;&atilde;o me tem merecido at&eacute;, e<br \/>\n    Deus sabe se por meu mal.<\/p>\n<p> &#8212; um calembur ao que percebo. Bonito. Onde est&aacute; aquele fiel<br \/>\n    Romeu de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma declara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    formal, estou vendo.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o para zombar, prima, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Previno-te, Maur&iacute;cio, de que n&atilde;o vale a pena perder<br \/>\n    o tempo comigo. Eu tenho uma maneira pronta e rasgada de tratar as coisas,<br \/>\n    que se n&atilde;o compadece com as longuras e alternativas de um galanteio<br \/>\n    a teu modo. Bem v&ecirc;s que j&aacute; n&atilde;o sou crian&ccedil;a de quinze<br \/>\n    anos, e que perdi a paci&ecirc;ncia dessa idade. Mas vamos almo&ccedil;ar,<br \/>\n    que nos est&atilde;o chamando.<\/p>\n<p> Durante o almo&ccedil;o, ao qual n&atilde;o assistiu D. Luis, a conversa<br \/>\n    resumiu- se em observa&ccedil;&otilde;es de cr&iacute;tica e an&aacute;&#8217;ise<br \/>\n    culin&aacute;ria de frei Janu&aacute;rio e nas glosas lac&ocirc;nicas de Gabriela,<br \/>\n    que p&ocirc;s final &agrave; prelec&ccedil;&atilde;o, levantando- se da mesa<br \/>\n    e ordenando que lhe aparelhassem a &eacute;gua para um passeio.<\/p>\n<p> Quando, momentos depois, descia ao p&aacute;tio, apanhando a longa cauda<br \/>\n    do seu vestido de amazona, encontrou Maur&iacute;cio, que parecia esper&aacute;-la<br \/>\n    para a ajudar a montar e porventura para lhe servir de j&oacute;quei.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de monteiro-mor ? &#8212; perguntou-lhe Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; Se me permite que desempenhe estas fun&ccedil;&otilde;es, muito<br \/>\n    me honrarei com elas.<\/p>\n<p> &#8212; Quem pode recusar um oferecimento t&atilde;o am&aacute;vel ? Mas<br \/>\n    que me encontras tu de novo para me olhares com esses olhos? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    porque efectivamente ainda a n&atilde;o tinha visto assim.<\/p>\n<p> &#8212; Assim, como? &#8212; T&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; T&atilde;o?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; com esses vestidos.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, ainda n&atilde;o? &Eacute; verdade que ainda me n&atilde;o tinha<br \/>\n    dado para isso aqui. Ent&atilde;o tamb&eacute;m ainda me n&atilde;o viste<br \/>\n    cavalgar? &#8212; Ainda n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem que descuido o meu ! &#8212; disse Gabriela, saltando &agrave;gilmente<br \/>\n    sobre o selim, auxiliando-se da m&atilde;o de Maur&iacute;cio ; e enquanto<br \/>\n    ajeitava as dobras do vestido, preparava as r&eacute;deas e acabava de apertar<br \/>\n    as luvas, prosseguiu : &#8212; Pois nesse caso vais ver o que s&atilde;o primores<br \/>\n    na arte. Ao que parece vens tamb&eacute;m? &#8212; Se me permite? &#8212;<br \/>\n    disse Maur&iacute;cio, parando junto do cavalo, que ia j&aacute; a montar.<\/p>\n<p> &#8212; com uma condi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; Quando eu te disser que nos separemos, h&aacute;s-de<br \/>\n    condescender.<\/p>\n<p> &#8212; Obedecerei, embora me custe.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; indispens&aacute;vel. Tenho hoje uns projectos, que n&atilde;o<br \/>\n    posso realizar sen&atilde;o sozinha.<\/p>\n<p> &#8212; Acompanh&aacute;-la-ei at&eacute; onde me permitir.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; dito. A cavalo ! E, instigando de s&uacute;bito a &eacute;gua,<br \/>\n    partiu a galope, fazendo sinal a Maur&iacute;cio para que a seguisse.<\/p>\n<p> Apesar de t&ocirc;da a dilig&ecirc;ncia deste em montar, e da desfilada<br \/>\n    em que lan&ccedil;ou o cavalo, n&atilde;o lhe foi f&aacute;cil atingi-la.<br \/>\n    Sendo enfim alcan&ccedil;ada, a baronesa afrouxou a rapidez da &eacute;gua,<br \/>\n    e os dois cavalgaram a passo, um ao lado do outro.<\/p>\n<p> A viol&ecirc;ncia do exerc&iacute;cio avivara o carmim nas faces da baronesa<br \/>\n    e dera-lhe ao olhar uma anima&ccedil;&atilde;o maior do que a que lhe era<br \/>\n    habitual.<\/p>\n<p> O sorriso que lhe entreabr&iacute;a os l&aacute;bios, e o arfar do seio,<br \/>\n    agitado pelo &iacute;mpeto da carreira, real&ccedil;avam os dotes naturais<br \/>\n    naquele tipo feminino, no qual, se j&aacute; se desvanecera o frescor da primeira<br \/>\n    juventude, sobreviviam ainda tra&ccedil;os permanentes de uma beleza correcta.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio n&atilde;o se fartava de a admirar aquela manh&atilde;.<br \/>\n    Fora para ele uma imprevista revela&ccedil;&atilde;o. Dir-se-ia que at&eacute;<br \/>\n    ali uma nuvem lhe ocultara as perfei&ccedil;&otilde;es da prima, e que, de<br \/>\n    repente, essa nuvem se rasgara para o surpreender.<\/p>\n<p> O prest&iacute;gio da eleg&acirc;ncia, da moda, dos distintos h&aacute;bitos<br \/>\n    sociais, do esp&iacute;rito cultivado na freq&uuml;&ecirc;ncia da mais selecta<br \/>\n    sociedade, estavam actuando no cora&ccedil;&atilde;o de Maur&iacute;cio, predisposto<br \/>\n    como o de noucos para aquele influxo.<\/p>\n<p> A beleza e a intelig&ecirc;ncia de Gabriela, aprimoradas ambas por uma arte,<br \/>\n    que sabia ocultar-se para n&atilde;o prejudicar os efeitos que obtinha, atra&iacute;am<br \/>\n    Maur&iacute;cio de uma maneira irresist&iacute;vel.<\/p>\n<p> A baronesa tinha a perspic&aacute;cia necess&aacute;ria para o perceber.<br \/>\n    O seu amor-pr&oacute;prio feminino era naturalmente afagado pela descoberta<br \/>\n    ; mas, al&eacute;m desta desculp&aacute;vel fraqueza, outras raz&otilde;es<br \/>\n    havia mais poderosas para que essa observa&ccedil;&atilde;o a lisonjeasse.<\/p>\n<p>Gabriela, como j&aacute; dissemos, ficara vi&uacute;va muito jovem do bar&atilde;o<br \/>\n    de Souto Real. Tendo ainda instintos de juventude a satisfazer, prometera<br \/>\n    a si pr&oacute;pria consultar o cora&ccedil;&atilde;o antes de prender-se<br \/>\n    segunda vez.<\/p>\n<p> Quando recebeu a carta de D. Luis e veio ter com ele &agrave; Casa Mourisca,<br \/>\n    sabedora das dificuldades financeiras com que lutava o fidalgo e dos nobres<br \/>\n    esfor&ccedil;os de Jorge para remedi&aacute;-las, ocorrera-lhe o pensamento<br \/>\n    generoso de favorecer o empenho do primo oferecendo- lhe com a sua m&atilde;o<br \/>\n    os recursos de que ele precisava para realiz&aacute;-lo.<\/p>\n<p> A admira&ccedil;&atilde;o e o respeito que lhe inspirava o car&aacute;cter<br \/>\n    sisudo de Jorge permitiam-lhe dar esse passo com o cora&ccedil;&atilde;o folgado.<\/p>\n<p> Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital a que se habituara<br \/>\n    e que amava com toda a paix&atilde;o de uma mulher da moda ; mas confiava<br \/>\n    em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de fam&iacute;lia lhe suavizariam<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio. Tratando, por&eacute;m, mais de perto com o primo, compreendeu<br \/>\n    que devia desistir do seu projecto.<\/p>\n<p> Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar ; e com certeza, n&atilde;o a<br \/>\n    amando, n&atilde;o se resolveria a aceitar a m&atilde;o que ela lhe oferecesse,<br \/>\n    mormente por levar consigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre<br \/>\n    empresa.<\/p>\n<p> Gabriela abandonou, pois, a id&eacute;ia que tivera. Em Maur&iacute;cio<br \/>\n    n&atilde;o pensara ao princ&iacute;pio. Achava-o t&atilde;o leviano, que,<br \/>\n    como ela dizia, n&atilde;o podia lembrar-se s&egrave;riamente de fazer dele<br \/>\n    um marido. Agora, por&eacute;m, notando a s&uacute;bita impress&atilde;o que<br \/>\n    ocasionalmente lhe produzira, e cujos efeitos duravam e progrediam, a baronesa<br \/>\n    principiou a encarar o caso debaixo de diferente luz.<\/p>\n<p> Se Maur&iacute;cio se apaixonasse por ela, ser-lhe-ia f&aacute;cil faz&ecirc;-lo<br \/>\n    partir para Lisboa e vencer a repugn&acirc;ncia que ele parecia opor a abandonar<br \/>\n    a aldeia justamente na ocasi&atilde;o em que a resist&ecirc;ncia do pai havia<br \/>\n    cedido.<\/p>\n<p> Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de Maur&iacute;cio<br \/>\n    ela s&ugrave;bitamente partisse para Lisboa, sem d&uacute;vida que o arrastaria<br \/>\n    atr&aacute;s de si. O resto f&aacute;-lo-iam as sedu&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    capital.<\/p>\n<p> Para conseguir este resultado julgou, pois, Gabriela que n&atilde;o devia<br \/>\n    apagar aquele fogo que principiava a atear-se no inflam&aacute;vel cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do primo ; labareda r&aacute;pida e fugaz, que importava ? contanto que durasse<br \/>\n    at&eacute; extinguir a outra que l&aacute; ardia.<\/p>\n<p> E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de Gabriela<br \/>\n    se pudesse realizar com uma variante. Maur&iacute;cio n&atilde;o era Jorge.<br \/>\n    O car&aacute;cter vol&uacute;vel e inconstante do filho mais novo de D. Luis<br \/>\n    n&atilde;o o garantia como um modelo de maridos. Mas a baronesa, segundo ela<br \/>\n    pr&oacute;pria dissera ao primo, n&atilde;o era destas mulheres exigentes<br \/>\n    que zelam a posse de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem<br \/>\n    que amam. A vida da alta sociedade ensinara-a a ser condescendente. Se encontrasse<br \/>\n    no marido verdadeira estima e delicadeza, n&atilde;o seria uma ou outra infidelidade<br \/>\n    que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.<\/p>\n<p>Depois, Maur&iacute;cio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.<\/p>\n<p> N&atilde;o exigiria dela o sacrif&iacute;cio dos seus queridos h&aacute;bitos,<br \/>\n    nem a desterraria dos luzidos c&iacute;rculos que ela amava tanto. Antes lhe<br \/>\n    abriria ampla carreira de gozos, quando soltasse os v&ocirc;os &agrave;s ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que lhe adivinhara.<\/p>\n<p> Assim, pois, Gabriela deixava-se galantear por o primo e ensaiava nele a<br \/>\n    sua t&aacute;ctica admir&aacute;vel, que o encontrou mais inexperiente do<br \/>\n    que era de supor em quem de tanta fama de experimentado gozava.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, por&eacute;m, achava-se pela primeira vez diante de uma<br \/>\n    mulher educada na alta escola desta especial esgrima. A arte era demasiadamente<br \/>\n    subtil para ele a descobrir. Todo o artif&iacute;cio estava em simular a mais<br \/>\n    completa aus&ecirc;ncia de afecta&ccedil;&atilde;o. Parecia tudo espontaneidade,<br \/>\n    irreflex&atilde;o, imprud&ecirc;ncia at&eacute;, e julgando conquistar um<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o indefeso e sem arte, o novel combatente era v&iacute;iacute;tima<br \/>\n    de um gladiador previdente, armado de viseira e coura&ccedil;a e jogando magistralmente<br \/>\n    com armas da melhor tempera.<\/p>\n<p> A baronesa estava a acabar de convencer-se de que a suposta paix&atilde;o<br \/>\n    de Maur&iacute;cio por Berta n&atilde;o passava de uma ilus&atilde;o ou de<br \/>\n    um capricho.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o haveria em Berta algum sentimento menos ef&ecirc;mero e que<br \/>\n    pudesse amea&ccedil;ar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o? Era esse o problema que<br \/>\n    restava resolver. E para esse fim sa&iacute;ra a baronesa. A presen&ccedil;a<br \/>\n    de Maur&iacute;cio impedia-a de proceder a essa investiga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    por isso exigira dele a promessa de a deixar, quando lho pedisse.<\/p>\n<p> Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o cumprimento<br \/>\n    dessa promessa. Maur&iacute;cio ia cada vez mais enlevado.<\/p>\n<p> Somente pr&oacute;ximo da estrada, que conduzia &agrave; Herdade, foi que<br \/>\n    a baronesa lhe pediu para se separarem.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio quis romper o contrato ; Gabriela, por&eacute;m, insistiu.<\/p>\n<p> Ao despedirem-se, a baronesa disse para o primo, com uma inflex&atilde;o<br \/>\n    de voz, que alvoro&ccedil;ou o cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz: &#8212;<br \/>\n    Agora, provavelmente, vais procurar ver a menina Bei ta; Maur&iacute;cio respondeu<br \/>\n    expansivamente : &#8212; Conceda-me que lhe beije a m&atilde;o, prima, e correrei<br \/>\n    a encerrar- me em casa com as impress&otilde;es desta memor&aacute;vel manh&atilde;.<\/p>\n<p> Gabriela concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o galanteio.<\/p>\n<p> E Maur&iacute;cio foi efectivamente para os Bacelos, com o pensamento ocupado<br \/>\n    pela imagem da prima.<\/p>\n<p> No meio dos seus enlevos pungia-o uma id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &laquo;E Berta?&raquo; pensava ele.<\/p>\n<p> A pobre Berta, que a vaidosa imagina&ccedil;&atilde;o do rapaz teimava em<br \/>\n    representar perdida de amores, n&atilde;o sofreria muito se outra lhe disputasse<br \/>\n    com vantagem a posse do cora&ccedil;&atilde;o dele ? E n&atilde;o estava esse<br \/>\n    perigo iminente ?<\/p>\n<p>&Eacute;, por&eacute;m, de notar que esta contrariedade era um dos maiores<br \/>\n    incentivos para aumentar a chama da sua nascente paix&atilde;o por Gabriela.<\/p>\n<p> Havia uma perspectiva de l&aacute;grimas e de dores a servir-lhe de fundo<br \/>\n    de quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se at&eacute; de antem&atilde;o<br \/>\n    do mal que supunha ir causar ao cora&ccedil;&atilde;o de Berta, sentia-se<br \/>\n    seduzido por a situa&ccedil;&atilde;o que criara.<\/p>\n<p> Expliquem como puderem estas contradi&ccedil;&otilde;es de car&aacute;cter,<br \/>\n    na certeza de que o facto n&atilde;o &eacute; excepcional, antes muito da<br \/>\n    regra comum.<\/p>\n<h2> XXV<\/h2>\n<p> DEPOIS de separar-se de Maur&iacute;cio, a baronesa guiou a &eacute;gua<br \/>\n    na direc&ccedil;&atilde;o da Herdade. Decidida a ver e a estudar Berta, para<br \/>\n    saber at&eacute; que ponto estava o cora&ccedil;&atilde;o da rapariga empenhado<br \/>\n    nos conflitos dom&eacute;sticos dos senhores da Casa Mourisca, Gabriela adoptou<br \/>\n    a resolu&ccedil;&atilde;o de procur&aacute;-la sem simular pretexto algum.<br \/>\n    Os costumes singelos do campo autorizavam esta supress&atilde;o de cerim&ocirc;nias<br \/>\n    ; demais, como parenta que era de Jorge e de Maur&iacute;cio, tinha a certeza<br \/>\n    de ser bem recebida l&aacute;.<\/p>\n<p> Desviando-se da estrada para seguir por um atalho que ladeava a colina,<br \/>\n    avistou uma pequena capela r&uacute;stica, com a sua galil&eacute; e o seu<br \/>\n    pequeno bosque de sobreiros a rode&aacute;-la, e t&atilde;o pitorescamente<br \/>\n    situada em uma das emin&ecirc;ncias pr&oacute;ximas, que n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    resistir ao desejo de subir at&eacute; ali.<\/p>\n<p> A capelinha, erigida sob a invoca&ccedil;&atilde;o de Santa Luzia, um dos<br \/>\n    nomes de mais devo&ccedil;&atilde;o entre os do floril&egrave;gio crist&atilde;o,<br \/>\n    pousava sobre a colina em uma dessas situa&ccedil;&otilde;es que o povo, com<br \/>\n    seus instintos po&eacute;ticos, costuma escolher para assentar esses modestos<br \/>\n    monumentos da sua f&eacute; e piedade.<\/p>\n<p> O vale feracissimo por onde se estendiam os verg&eacute;is, as searas, as<br \/>\n    quintas e os lameiros de duas ou tr&ecirc;s freguesias, descobria-se todo<br \/>\n    dali. A vista seguia nos seus sucessivos meandros o pequeno rio que se estirava<br \/>\n    em ch&atilde;o de areia, por entre moitas de azevinhos, de laurentins e de<br \/>\n    salgueiros, cujos ramos aqui e al&eacute;m se abra&ccedil;avam de margem para<br \/>\n    margem. O campan&aacute;rio da igreja paroquial, a ponte de dois arcos, os<br \/>\n    a&ccedil;udes, as azenhas, as presas onde cantavam, lavando, as raparigas<br \/>\n    do campo, os estendais, onde a roupa de linho branqueava sob os raios do Sol,<br \/>\n    as noras toldadas de parreirais completavam a fei&ccedil;&atilde;o campestre<br \/>\n    da paisagem.<\/p>\n<p> Prendendo a &eacute;gua ao ramo vigoroso de um destes carvalhos decepados,<br \/>\n    a que na prov&iacute;ncia chamam tocas, Gabriela caminhou a p&eacute; para<br \/>\n    a galil&eacute; da ermida.<\/p>\n<p>Ao chegaram descobriu no muro sobranceiro ao lado menos acess&iacute;vel<br \/>\n    da colina, uma rapariga sentada costurando.<\/p>\n<p> A baronesa adivinhou logo que era Berta e aplaudiu-se do palpite que a fizera<br \/>\n    desviar do caminho para subir ali.<\/p>\n<p> Berta saudou-a afavelmente, como quem tamb&eacute;m a reconhecera.<\/p>\n<p> A baronesa dirigiu-se-lhe sem rodeios.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; verdade que &eacute; a menina Berta da P&oacute;voa<br \/>\n    que tenho a felicidade de encontrar aqui? &#8212; Sou, sim, senhora baronesa&#8230;<br \/>\n    porque me parece que estou falando com&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Justamente. Achamo-nos pois conhecidas. Tanto melhor, para n&atilde;o<br \/>\n    perdermos tempo com apresenta&ccedil;&otilde;es. Agora permite-me que a abrace,<br \/>\n    como a uma pessoa a quem estimo? &#8212; Oh ! minha senhora ! E as duas mulheres<br \/>\n    abra&ccedil;aram-se, saudando-se afectuosamente, como se uma s&uacute;bita<br \/>\n    simpatia as aproximasse.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe &#8212; prosseguiu a baronesa, sentando-se ao lado de Berta<br \/>\n    &#8212; que ia procur&aacute;-la? &#8212; A mim?! &#8212; &Eacute; verdade.<br \/>\n    Veja que feliz acaso o que me fez subir a esta capela, para gozar do panorama<br \/>\n    que se descobre daqui.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um dos passeios mais bonitos destes s&iacute;tios.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo que vejo costuma fazer daqui a sua casa de lavor ? &#8212;<br \/>\n    Ai, n&atilde;o; raras vezes; hoje vim para esperar meu pai, que chega do Porto.<br \/>\n    Daqui avista-se quase meia l&eacute;gua de estrada. V&ecirc;? &#8212; Ai,<br \/>\n    volta hoje o pai? Visto isso tamb&eacute;m o meu primo Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m&#8230; julgo que tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o foi superior a uma leve turba&ccedil;&atilde;o, ao ouvir<br \/>\n    o nome de Jorge e ao responder &agrave; baronesa. Quem tem no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um segredo que de todos quer recatar, trai-o muitas vezes, &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de disfar&ccedil;&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Em cada olhar suspeita uma espionagem, em cada palavra uma alus&atilde;o,<br \/>\n    e se a conversa se aproxima do assunto, segue-a tr&eacute;mulo, como se segue<br \/>\n    o caminho que se abeira de um precip&iacute;cio.<\/p>\n<p> A baronesa, que tinha ainda os olhos fitos em Berta com a curiosidade pr&oacute;pria<br \/>\n    de uma mulher ao observar outra que sabe causar impress&atilde;o nos &acirc;nimos<br \/>\n    masculinos, notou aquele ind&iacute;cio de confus&atilde;o, e n&atilde;o o<br \/>\n    desprezou.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um generoso rapaz o meu primo Jorge, n&atilde;o acha? &#8212;<br \/>\n    interrogou ela, demorando o olhar no rosto de Berta.<\/p>\n<p> Esta sentiu o perigo em que estava de trair-se, e concentrando por isso<br \/>\n    t&ocirc;da a sua coragem, conseguiu levantar os olhos para fitar a baronesa<br \/>\n    e responder com aparente serenidade: &#8212; &Eacute; um nobre car&aacute;cter,<br \/>\n    um rapaz a quem se deve respeitar como a um velho honrado.<\/p>\n<p> &#8212; Respeitar como a um velho honrado, diz bem ; amar como a um rapaz<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Berta corou desta vez, respondendo: &#8212; N&atilde;o queria dizer isso.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei que n&atilde;o. Mas digo-o eu. Jorge &eacute; um escravo<br \/>\n    do dever, e t&atilde;o absorvido anda nos seus grandes e generosos projectos,<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; para sonhos de amor lugar naquela cabe&ccedil;a.<br \/>\n    As raparigas n&atilde;o podem amar um homem assim, em quem os olhares da mais<br \/>\n    afectuosa simpatia n&atilde;o insinuam calor no cora&ccedil;&atilde;o. Tem<br \/>\n    umas maneiras para todos uniformemente polidas e af&aacute;veis, que excluem<br \/>\n    a id&eacute;ia da menor prefer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Pois n&atilde;o lhe parece? &#8212;- Os nobres sentimentos da alma tamb&eacute;m<br \/>\n    podem exercer algum prest&iacute;gio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, valha-me Deus, Berta, esse prestigio revela-se em tais casos<br \/>\n    por uma venera&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; amor. &Eacute; como<br \/>\n    a que temos pelos santos. De virtuosos e justos que no-los pintam, fogem do<br \/>\n    nosso n&iacute;vel e temos de elevar a vista para contempl&aacute;-los ; e<br \/>\n    desta maneira, com os olhos no C&eacute;u, adora-se, mas n&atilde;o se ama.<\/p>\n<p> Berta, com os olhos fitos em n&atilde;o sei que ponto da perspectiva, n&atilde;o<br \/>\n    respondia e parecia engolfada na corrente de profundos pensamentos.<\/p>\n<p> A baronesa, sem interromper a sua observa&ccedil;&atilde;o, continuou: &#8212;<br \/>\n    J&aacute; assim n&atilde;o &eacute; Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> A abstrac&ccedil;&atilde;o de Berta n&atilde;o lhe deixou reprimir um movimento<br \/>\n    que estas palavras lhe provocaram. Dir-se-ia que lhe custava a aceitar a compara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Gabriela, observando-a sempre, prosseguiu: &#8212; Maur&iacute;cio n&atilde;o<br \/>\n    tem o ju&iacute;zo de Jorge, &eacute; verdade ; por&eacute;m &eacute; mais<br \/>\n    am&aacute;vel. Os seus mesmos defeitos fazem com que seja poss&iacute;vel<br \/>\n    fit&aacute;-lo mais directamente, sem que o esplendor dos seus m&eacute;ritos<br \/>\n    nos ofusque. &Eacute; um rapaz, que sem deixar de ser generoso, permanece<br \/>\n    no n&iacute;vel comum, em que todos vivemos, e a&iacute; &eacute; bem mais<br \/>\n    f&aacute;cil am&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Berta escutava quase distra&iacute;da ; s&oacute; passados instantes, depois<br \/>\n    das &uacute;ltimas palavras da baronesa, foi que rompeu o sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    dizendo vagamente : &#8212; Sao ambos duas almas generosas e merecedoras de<br \/>\n    estima.<\/p>\n<p> &#8212; Decerto &#8212; insistiu a baronesa. &#8212; Mas, minha querida<br \/>\n    Berta, eu n&atilde;o sei se lhe sucede o mesmo&#8230; mas em geral estes rapazes<br \/>\n    s&eacute;rios e de ju&iacute;zo, como Jorge, intimidam-nos a n&oacute;s outras,<br \/>\n    mulheres; n&atilde;o ousamos fit&aacute;-los com um olhar de simpatia, com<br \/>\n    medo de que s&oacute; por este olhar eles nos acusem, mentalmente pelo menos,<br \/>\n    de estouvadas, e o resultado disto &eacute; que n&atilde;o olhamos para eles.<\/p>\n<p> Berta sorria, sem responder.<\/p>\n<p> &#8212; Conhece h&aacute; muito esta fam&iacute;lia ? &#8212; perguntou<br \/>\n    a baronesa.<\/p>\n<p> &#8212; De pequena. Brinc&aacute;mos muitas vezes, eu, Beatriz e todos eles<br \/>\n    na Casa Mourisca.<\/p>\n<p> &#8212; E Jorge era ent&atilde;o j&aacute; assim sisudo ?<\/p>\n<p>&#8212; Foi sempre mais ajuizado do que as crian&ccedil;as da sua idade.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um rapaz singular. J&aacute; tenho pensado em que era preciso<br \/>\n    cas&aacute;-lo, porque dar&aacute; um excelente chefe de fam&iacute;lia. O<br \/>\n    essencial &eacute; passar em claro os tr&acirc;mites de um galanteio, porque<br \/>\n    para isso &eacute; que ele n&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p> Berta nada disse ainda.<\/p>\n<p> A baronesa prosseguiu : &#8212; Por isso &eacute; necess&aacute;rio que<br \/>\n    os estranhos tratem disso e escolham por ele.<\/p>\n<p> Berta aventurou timidamente algumas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; E aceitar&aacute; ele a interven&ccedil;&atilde;o em um acto t&atilde;o<br \/>\n    essencial da sua vida? Ele que est&aacute; costumado a olhar em pessoa por<br \/>\n    os neg&oacute;cios que lhe dizem respeito? &#8212; Isso &eacute; verdade,<br \/>\n    mas contentar-se-&aacute; em falar directamente com a noiva que lhe propuseram<br \/>\n    e dizer-lhe com aquela natural franqueza todo o seu pensamento ; e feito isso<br \/>\n    pode a escolhida ter a certeza de que ter&aacute; nele um marido leal e afei&ccedil;oado,<br \/>\n    talvez sem grandes requebros de amante, mas com a verdadeira estima de um<br \/>\n    amigo.<\/p>\n<p> &#8212; Decerto que a pessoa a quem o Sr. Jorge estender a m&atilde;o pode<br \/>\n    confiar nela como na de um pai.<\/p>\n<p> Berta, julgando dizer estas palavras naturalmente, n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    tirarlhes um tremor de como&ccedil;&atilde;o, que a baronesa notou.<\/p>\n<p> Berta foi quem primeiro rompeu o sil&ecirc;ncio, que se seguiu a estas palavras<br \/>\n    : &#8212; Mas dizia a sr.&raquo; baronesa que viera procurar-me? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    verdade. Andava ansiosa por conhec&ecirc;-la. Adivinhava-a pela impress&atilde;o<br \/>\n    que via causar em quantos se aproximavam de si. O tio Luis falava-me de Berta<br \/>\n    com uma ternura a que j&aacute; &eacute; pouco sujeito ; Maur&iacute;cio com<br \/>\n    um entusiasmo de apaixonado; e Jorge&#8230;<\/p>\n<p> Gabriela fez aqui intencionalmente uma pausa, durante a qual estudou a fisionomia<br \/>\n    de Berta.<\/p>\n<p> Esta baixara-se, como para cortar uma malva do ch&atilde;o, mas nas faces<br \/>\n    estendia-se-lhe um rubor fugaz, que denunciava um &iacute;ntimo alvoro&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; E Jorge &#8212; concluiu a baronesa &#8212; com aquele modo aparentemente<br \/>\n    frio que tem para dizer todas as coisas, mas em termos que exprimiam bem a<br \/>\n    sua estima por a pessoa de quem falava; daqui o meu desejo de conhec&ecirc;-la;<br \/>\n    n&atilde;o me admiro agora de todo aquele efeito, porque eu mesma o estou<br \/>\n    sentindo j&aacute;.<\/p>\n<p> Berta sorriu, agradecendo-lhe o cumprimento.<\/p>\n<p> &#8212; Creia-me, Berta. Conhecemo-nos de pouco, mas olhe que sou j&aacute;<br \/>\n    sua amiga e talvez possa ainda mostrar-lho um dia.<\/p>\n<p> &#8212; Agradecida, sr.&quot; baronesa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tome esse tom de cerim&ocirc;nia para me falar. O que<br \/>\n    eu digo n&atilde;o &eacute; um cumprimento. Sabe que mais, Berta ? Talvez<br \/>\n    que pouca gente esteja t&atilde;o adiantada no conhecimento do seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como eu, depois desta nossa primeira e curta entrevista.<\/p>\n<p> Berta corou desta vez intensamente, e olhando para Gabriela com um olhar<br \/>\n    assustado, balbuciou quase tr&eacute;mula: &#8212; Do meu cora&ccedil;&atilde;o?&#8230;<br \/>\n    Porventura&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se assuste. N&atilde;o quero falar mais nisto enquanto<br \/>\n    n&atilde;o me conhecer melhor. S&oacute; lhe digo que eu n&atilde;o passo<br \/>\n    de uma pobre mulher com bastante cora&ccedil;&atilde;o e com o grau da loucura<br \/>\n    preciso para me entusiasmar pelo partido dos sentimentos generosos e sinceros,<br \/>\n    quando lutam com as conven&ccedil;&otilde;es e os preconceitos sociais. E<br \/>\n    agora deixe-me mostrar-lhe um grupo de cavaleiros que estou daqui vendo, e<br \/>\n    que talvez o seu olhar melhor possa distinguir do que o meu.<\/p>\n<p> Berta, seguindo com os olhos a direc&ccedil;&atilde;o que a baronesa lhe<br \/>\n    indicava, exclamou: &#8212; S&atilde;o eles, s&atilde;o! &Eacute; meu pai<br \/>\n    e Jorge&#8230; e o Sr. Jorge.<\/p>\n<p> E, aproximando-se do &acirc;ngulo do adro, de onde melhor poderia ser vista,<br \/>\n    p&ocirc;s-se a acenar com o len&ccedil;o para os rec&eacute;m-chegados.<\/p>\n<p> Tom&eacute; n&atilde;o respondeu logo, mas passado algum tempo tremulava<br \/>\n    na ponta da vara do cavaleiro, como fl&aacute;mula em mastar&eacute;u de navio,<br \/>\n    o len&ccedil;o de quadros, que o vento desenrolava.<\/p>\n<p> Gabriela, seguindo com os olhos os movimentos de Berta, pensava : &#8212;<br \/>\n    O mist&eacute;rio desta j&aacute; eu descobri. Pobre crian&ccedil;a ! tem<br \/>\n    muito pouca astucia para ocult&aacute;-lo. H&aacute; nela uma transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    que deixa ver at&eacute; o cora&ccedil;&atilde;o. E aquele ? &#8212; prosseguiu,<br \/>\n    dirigindo os olhares para Jorge, que ainda vinha longe.&#8212;Enganar-me-ia<br \/>\n    eu? N&atilde;o ser&aacute; aquilo somente frieza, ser&aacute; reserva? Pode<br \/>\n    ser, pode. Estes homens assim morrem &agrave;s vezes com uma paix&atilde;o<br \/>\n    no peito, e morrem por esfor&ccedil;os que fazem para ocult&aacute;-la. Se<br \/>\n    o facto se der com Jorge, &eacute; uma coisa gravissima ; quem pode calcular<br \/>\n    o que se seguiria ? Enquanto a Maur&iacute;cio, j&aacute; vejo que est&aacute;<br \/>\n    tudo bem; parece-me que por este lado n&atilde;o deixar&aacute; muitas l&aacute;grimas<br \/>\n    por vest&iacute;gios da sua passagem, nem terei de sentir remorsos se o arrebatar<br \/>\n    para longe destas paragens. Mas observemos.<\/p>\n<p> Berta, que correra a esperar os cavaleiros, estava nos bra&ccedil;os do<br \/>\n    pai, que a beijava com efus&atilde;o. A baronesa, meia oculta por um tronco<br \/>\n    de sobreiro, notou um r&aacute;pido olhar de Jorge para Berta, quando a rapariga<br \/>\n    ainda o n&atilde;o podia ver, porque Tom&eacute; lho encobria; notou mais<br \/>\n    que assim que Berta o procurou, estendendo-lhe a m&atilde;o, Jorge correspondeu<br \/>\n    com cerimoniosa defer&ecirc;ncia, e nunca mais dirigiu para ela a vista.<\/p>\n<p> A baronesa foi, enfim, ao encontro dos viajantes.<\/p>\n<p> Recebeu de Jorge um acolhimento sem compara&ccedil;&atilde;o muito mais<br \/>\n    expansivo do que o que Berta lhe merecera. O penetrante esp&iacute;rito de<br \/>\n    Gabriela interpretou esta diferen&ccedil;a a seu modo.<\/p>\n<p> A companha desfez-se passado pouco tempo.<\/p>\n<p>Tome tinha pressa de chegar a casa; segurando a &eacute;gua pela arreata,<br \/>\n    despediu-se da baronesa e de Jorge, e partiu, em companhia da filha, caminho<br \/>\n    da Herdade.<\/p>\n<p> A despedida de Jorge e Berta teve a mesma apar&ecirc;ncia de reserva e de<br \/>\n    constrangimento, que caracterizara o primeiro encontro, Observou, por&eacute;m,<br \/>\n    Gabriela que, pr&oacute;ximo a dobrar uma curva do caminho, al&eacute;m da<br \/>\n    qual se perdia de vista Tom&eacute; da P&oacute;voa e a filha, que seguiam<br \/>\n    em direc&ccedil;&atilde;o oposta, Jorge se voltou para tr&aacute;s com aparente<br \/>\n    naturalidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que resultados colheste da tua excurs&atilde;o ? &#8212;<br \/>\n    inquiriu a baronesa, n&atilde;o demonstrando as descobertas que ia fazendo,<br \/>\n    enquanto cavalgava ao lado do primo.<\/p>\n<p> . &#8212; Excelentes &#8212; respondeu Jorge, em tom de verdadeira satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Estes dias foram preciosos. O nosso pleito entrou em muito melhor<br \/>\n    caminho depois da minha confer&ecirc;ncia com os advogados. N&atilde;o me<br \/>\n    havia iludido sobre a import&acirc;ncia do tal documento que a inc&uacute;ria<br \/>\n    de frei Janu&aacute;rio deixara encher de mofo nas gavetas.<\/p>\n<p> Os advogados quase me asseguraram o &ecirc;xito da causa. Se assim for,<br \/>\n    posso dizer meio vencida a tarefa que empreendi. As informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que colhi sobre a nova institui&ccedil;&atilde;o de Cr&eacute;dito Predial<br \/>\n    animaram-me.<\/p>\n<p> Legalizados alguns t&iacute;tulos menos regulares, e alienando uma parte<br \/>\n    da nossa propriedade, que &eacute; apenas um estorvo ao melhoramento da outra,<br \/>\n    poderei habilitar-me a usar prudentemente do cr&eacute;dito, recorrendo &agrave;<br \/>\n    nova institui&ccedil;&atilde;o ; resgatar a nossa casa, e dentro de alguns<br \/>\n    anos remir a d&iacute;vida, gra&ccedil;as &agrave; efic&aacute;cia dos melhoramentos<br \/>\n    que espero realizar. E dizem ainda mal das institui&ccedil;&otilde;es modernas<br \/>\n    ! Elas apenas sacrificam os que a elas recorrem com uma inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&aacute;. O dissipador que julga iludir o cr&eacute;dito sob falsas promessas<br \/>\n    de melhoramentos, &eacute; um dia por ele severamente castigado. E justo &eacute;<br \/>\n    que o seja. Mas quem o procurar com boa f&eacute;, com lisura, com intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e com o &acirc;nimo decidido para trabalhar, encontrar&aacute; nele aux&iacute;lios<br \/>\n    milagrosos.<\/p>\n<p> Jorge falava com tanto entusiasmo, que a baronesa, ao ouvi-lo, ia sentindo<br \/>\n    dissiparem-se as suspeitas que ao princ&iacute;pio concebera.<\/p>\n<p> &#8212; Este entusiasmo enche completamente todo aquele cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; pensava ela &#8212; n&atilde;o pode haver l&aacute; dentro vazio que<br \/>\n    o atormente.<\/p>\n<p> Jorge prosseguiu informando minuciosamente a prima do estado dos seus neg&oacute;cios,<br \/>\n    dos seus planos de reforma, das suas esperan&ccedil;as no futuro, e quase<br \/>\n    lhe n&atilde;o poupou o c&aacute;lculo de anuidades, pelo qual chegava a determinar<br \/>\n    a &eacute;poca em que poderia amortizar totalmente a d&iacute;vida contra&iacute;da,<br \/>\n    segundo as bases da legisla&ccedil;&atilde;o hipotec&aacute;ria.<\/p>\n<p> S&oacute; pr&oacute;ximo &agrave; quinta dos Bacelos foi que a baronesa<br \/>\n    conseguiu dar &agrave; conversa a direc&ccedil;&atilde;o que havia muito lhe<br \/>\n    desejava ver tomar.<\/p>\n<p> Discutindo com o primo o valor dos meios a que s&eacute; poderia lan&ccedil;ar<br \/>\n    m&atilde;o para trabalhar na empresa em que ele se empenhara, Gabriela lembrou-lhe<br \/>\n    o de um casamento com mulher abastada.<\/p>\n<p> Jorge sacudiu a cabe&ccedil;a em sinal de repugn&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; E aconselha-me isso ? &#8212; exclamou ele. &#8212; n&atilde;o seria<br \/>\n    regenerar- me, seria vender-me, e venda mais vergonhosa do que aquela aonde<br \/>\n    nos conduziria o sistema de administra&ccedil;&atilde;o seguido at&eacute;<br \/>\n    agora nesta casa ; porque nesse apenas se punha em venda a propriedade, e<br \/>\n    neste vendia-se o propriet&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; conforme a maneira de ver as coisas ; al&eacute;m<br \/>\n    de que eu a ti j&aacute; fa&ccedil;o a concess&atilde;o de n&atilde;o supor<br \/>\n    um casamento exclusivamente por interesse, mas quero que um pouco de amor<br \/>\n    autorizasse o contrato, que sem tal san&ccedil;&atilde;o te repugnar&iacute;a.<br \/>\n    Tudo se pode combinar.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o tenho tempo para amar &#8212; respondeu Jorge, sacudidamente.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; Ora ; o amor n&atilde;o espera ocasi&atilde;o oportuna. E<br \/>\n    eu n&atilde;o posso acreditar que uma alma como a tua n&atilde;o esteja conformada<br \/>\n    para uma afei&ccedil;&atilde;o verdadeira.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; N&atilde;o digo que n&atilde;o ; mas quero fugir de p&ocirc;r<br \/>\n    em pr&aacute;tica essa aptid&atilde;o, se a tenho, porque talvez que depois<br \/>\n    n&atilde;o sentisse bastante contempla&ccedil;&atilde;o para com o mundo,<br \/>\n    para aceitar a restri&ccedil;&atilde;o que ele costuma impor &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das paix&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflito entre ti e o<br \/>\n    mundo? &#8212; Era o mais prov&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga<br \/>\n    do povo, pobre, costumada &agrave; vida do trabalho e da economia, do que<br \/>\n    por qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas destes arredores.<\/p>\n<p> &#8212; com certeza que n&atilde;o me seduzir&atilde;o essas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas vamos ; se apesar das tuas precau&ccedil;&otilde;es o facto<br \/>\n    se desse &#8212;porque enfim&#8230; estas coisas nem sempre &eacute; poss&iacute;vel<br \/>\n    evit&aacute;-las &#8212; romper&iacute;as abertamente com o mundo? &#8212;<br \/>\n    Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar- me sacrificar<br \/>\n    aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava decerto, se o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    fosse somente meu. Mas, se amasse deveras e fosse amado, e a mulher, a quem<br \/>\n    dedicasse este amor, n&atilde;o tivesse igual coragem para o mesmo sacrif&iacute;cio&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o me julgaria com o direito de faz&ecirc;-la sofrer por uma id&eacute;ia,<br \/>\n    que nem para ela nem para os seus tivera o prest&iacute;gio de uma cren&ccedil;a.<br \/>\n    Mas falemos em outra coisa, porque este pensamento incomoda-me at&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Dir-se-ia que n&atilde;o &eacute; somente como pura abstrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ele te aparece, Jorge. Falemos, por&eacute;m, de outra coisa, falemos.<\/p>\n<p> E a baronesa mudou efectivamente de conversa.<\/p>\n<p> Mas, ao entrar em casa, julgava ela ter obtido as informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que desejara possuir.<\/p>\n<h2>XXVI<\/h2>\n<p>CLEMENTE, o filho da Ana do Vedor, que nos tem andado longe da vista desde<br \/>\n    a primeira vez que o encontr&aacute;mos, estava destinado a influir na sorte<br \/>\n    dos principais personagens desta hist&oacute;ria ; conv&eacute;m, portanto,<br \/>\n    que outra vez o chamemos mais para a luz.<\/p>\n<p> Sabemos j&aacute; que a vida p&uacute;blica deste bem intencionado rapaz<br \/>\n    n&atilde;o era isenta de espinhos. As resist&ecirc;ncias e estorvos que se<br \/>\n    opunham &agrave; carreira direita, que o seu vivo sentimento de justi&ccedil;a<br \/>\n    lhe tra&ccedil;ara, deixavam-lhe &iacute;ntimos desgostos e turbavam-lhe a<br \/>\n    buc&oacute;lica serenidade dos seus dias.<\/p>\n<p> Embora &agrave;s iniquidades que observara fosse estranha a sua vontade<br \/>\n    e a sua coopera&ccedil;&atilde;o ; embora a consci&ecirc;ncia lhe n&atilde;o<br \/>\n    exprobrasse uma &uacute;nica infrac&ccedil;&atilde;o volunt&aacute;ria das<br \/>\n    leis, que religiosamente acatava, ainda assim, como todas as almas bem formadas,<br \/>\n    Clemente tinha motivos de sobra para lhe amargurarem o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    generoso e leal, vendo de perto a parcialidade e as paix&otilde;es m&aacute;s,<br \/>\n    que presidiam &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a pelas<br \/>\n    m&atilde;os dos seus superiores, e os privil&eacute;gios que faziam desviar<br \/>\n    a balan&ccedil;a da horizontalidade com que ele sonhara.<\/p>\n<p> Todos os caracteres nobres n&atilde;o adquirem, sem doloroso aprendizado,<br \/>\n    a desconsoladora ci&ecirc;ncia, que se chama cepticismo. Cada ilus&atilde;o<br \/>\n    que se desvanece &eacute; um golpe fundo no mais sens&iacute;vel da alma,<br \/>\n    e os conflitos da vida social deixam feridas que s&oacute; lentamente cicatrizam.<\/p>\n<p> Clemente estava neste caso. Modestas como eram as suas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    civis tinham-lhe aberto os olhos para muitas coisas obscuras e desenvolvido<br \/>\n    no esp&iacute;rito um fermento de descren&ccedil;a.<\/p>\n<p> Assustado com o que sentia, temendo saber mais e ser obrigado a operar como<br \/>\n    instrumento passivo em iniquidades que lhe repugnavam, Clemente sentiu o desejo<br \/>\n    de se acolher &agrave; vida privada, onde n&atilde;o lhe chegasse aos ouvidos<br \/>\n    o rumor das injusti&ccedil;as humanas, um novo incidente, em que tomaram parte<br \/>\n    os fidalgos do Cruzeiro, principais fautores de todos os atentados no concelho,<br \/>\n    acabou de decidi-lo.<\/p>\n<p> Vimos em um dos cap&iacute;tulos precedentes, que eles protegiam muito &agrave;s<br \/>\n    escancaras a fuga de um refractario ao servi&ccedil;o militar, facto que sobremaneira<br \/>\n    irritara Clemente, o qual chegou a tentar p&ocirc;r em pr&aacute;tica as medidas<br \/>\n    extremas, que a lei lhe permitia. Encontrou, por&eacute;m, na autoridade administrativa,<br \/>\n    que afagou a influ&ecirc;ncia eleitoral dos fidalgos, frouxo apoio, e o refractario<br \/>\n    conseguiu escapula.<\/p>\n<p> Logo depois de realizada a fuga, Clemente, que a atribu&iacute;a sobretudo<br \/>\n    &agrave; falta de energia do seu chefe, recebeu deste um of&iacute;cio censurando-<br \/>\n    o asperamente pela d&eacute;bil vigil&acirc;ncia que tivera no caso e admoestando-<br \/>\n    o para ser de futuro mais activo e diligente.<\/p>\n<p>Esta duplicidade indignou o ing&ecirc;nuo rapaz, que resistiu a custo &agrave;<br \/>\n    tenta&ccedil;&atilde;o de ir dizer ao administrador algumas amargas verdades.<\/p>\n<p> Dias depois houve um ser&atilde;o em casa de um lavrador da freguesia, e<br \/>\n    Clemente recebeu aviso de que os manos do Cruzeiro premeditavam para essa<br \/>\n    noite umas vingan&ccedil;as contra uns serandeiros com quem mantinham uma<br \/>\n    rixa antiga.<\/p>\n<p> O regedor, n&atilde;o s&oacute; por dever do cargo, como pelo desculp&aacute;vel<br \/>\n    desejo de dar uma severa li&ccedil;&atilde;o a esses incorrig&iacute;veis,<br \/>\n    causa principal dos seus desgostos, tomou provid&ecirc;ncias, reuniu os cabos<br \/>\n    e rondou as proximidades da casa do ser&atilde;o.<\/p>\n<p> A precau&ccedil;&atilde;o policial foi &uacute;til, porque evitou alguma<br \/>\n    desgra&ccedil;a s&eacute;ria. Pela meia-noite os dois irm&atilde;os do Cruzeiro<br \/>\n    sa&iacute;ram ao caminho a um campon&ecirc;s, que recolhia do ser&atilde;o,<br \/>\n    e atacaram-no com impeto, que n&atilde;o denunciava um prop&oacute;sito inocente.<\/p>\n<p> O regedor caiu, por&eacute;m, sobre eles, e a muito custo conseguiu captur&aacute;-los,<br \/>\n    jurando que somente os soltaria &agrave; ordem expressa da autoridade superior.<\/p>\n<p> A ordem veio e redigida em lermos severos para o honesto rapaz, a quem se<br \/>\n    recomendava mais tino e cordura no desempenho das suas obriga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Os apaniguados dos fidalgos, parasitas que ainda se nutriam da seiva quase<br \/>\n    exausta daquela carcomida &aacute;rvore geneal&oacute;gica, clamaram contra<br \/>\n    o atentado do regedor e chegaram a amea&ccedil;ar-lhe a exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    fazendo-lhe esperas nocturnas. Mas, o que mais &eacute; ainda, o povo, os<br \/>\n    pobres, os oprimidos, os esmagados de ontem, esses mesmos, quase levaram a<br \/>\n    mal ao regedor a falta de aten&ccedil;&atilde;o que tivera para com os fidalgos.<br \/>\n    Transtornar uma regra social estabelecida, embora seja para bem, escandaliza<br \/>\n    sempre os fan&aacute;ticos da ordem; e h&aacute;-os t&atilde;o fervorosos,<br \/>\n    que a adoram, ainda quando ela revista a fei&ccedil;&atilde;o moscovita.<\/p>\n<p> A ta&ccedil;a trasbordou para Clemente. Pediu terminantemente a sua demiss&atilde;o<br \/>\n    e foi-lhe concedida, com muita facilidade, por as elei&ccedil;&otilde;es estarem<br \/>\n    pr&oacute;ximas, e serem em regra inc&oacute;modos empecilhos estes caracteres<br \/>\n    amigos do justo para o andamento da m&aacute;quina administrativa, quando<br \/>\n    empregada na grande tarefa de cunhar deputados com a ef&iacute;gie governamental.<\/p>\n<p> com grande j&uacute;bilo celebrou Ana do Vedor a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do filho.<\/p>\n<p> Havia muito tempo que ela lhe aconselhava aquele passo.<\/p>\n<p> &#8212; Que precis&atilde;o tens tu, Clemente, de te meteres nestas barafundas?<br \/>\n    Se n&atilde;o precisas disso para comer, para que h&aacute;s-do perder o sossego<br \/>\n    com coisas que te n&atilde;o d&atilde;o interesse ? &#8212; pregava ela, inoculando<br \/>\n    no filho a sua filosofia um tanto ego&iacute;sta. &#8212; Olha, rapaz, a rua<br \/>\n    casa j&aacute; d&aacute; bem que fazer a um homem. E quem quiser que prenda<br \/>\n    os ladr&otilde;es e ande adiante dos cabos em servi&ccedil;o do rei, que tu,<br \/>\n    gra&ccedil;as a Deus, n&atilde;o ficas mais honrado com isso. Ainda se essa<br \/>\n    gente do Governo fizesse caso de quem os serve bem, mas tu est&aacute;s vendo<br \/>\n    como eles sao. Por isso deixa-os ; eles que se avenham, que l&aacute; se entendem.<\/p>\n<p> Assim que o filho efectivamente declinou o encargo da regedoria, disse-lhe<br \/>\n    a ajuizada matrona: &#8212; Agora para a dares em cheio, sabes tu o que deves<br \/>\n    fazer? &Eacute; casar-te. Isso &eacute; que era ouro sobre azul. Porque enfim,<br \/>\n    rapaz, s&oacute; assim &eacute; que se ganham ra&iacute;zes em casa e que<br \/>\n    um homem &eacute; deveras homem de fam&iacute;lia. Enquanto solteiros, ora<br \/>\n    adeus, por melhores que voc&ecirc;s sejam, l&aacute; vem uma doida de uma<br \/>\n    rapariga que vos faz andar a cabe&ccedil;a &agrave; roda. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    como isto de ouvir gemer as crian&ccedil;as em casa e cantar a mulher a arrol&aacute;-las.<br \/>\n    Tu ris-te ? &Eacute; o que te digo. Quando eu me casei com teu pai, que Deus<br \/>\n    haja, todos me diziam: &laquo;&Oacute; filha, n&atilde;o levas homem que te<br \/>\n    gaste muito os trastes da casa&raquo;. Porque, enquanto solteiro, ele tinha<br \/>\n    sido daqueles de se lhes tirar o chap&eacute;u, dos tais que Deus mandou fazer.<br \/>\n    Pois era v&ecirc;-lo depois. Logo que podia, ele a&iacute; estava ao p&eacute;<br \/>\n    de mim a brincar com as crian&ccedil;as. At&eacute; muitas vezes eu lhe cheguei<br \/>\n    a dizer : &laquo; &Oacute; homem, sai-me daqui para fora ; eu n&atilde;o gosto<br \/>\n    de ver homens t&atilde;o caseiros&raquo;. Por isso, rapaz, faz o que te digo,<br \/>\n    casa-te, que est&aacute;s em boa idade.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o vou longe disso, minha m&atilde;e, mas bem v&ecirc; que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; coisa que se fa&ccedil;a assim do p&eacute; para a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, olha, tu tamb&eacute;m para andares muito tempo a arrastar<br \/>\n    a asa &agrave; rapariga &eacute; que n&atilde;o &eacute;s, que isso sei eu.<br \/>\n    Pois ent&atilde;o &eacute; tratar da coisa como neg&oacute;cio s&eacute;rio<br \/>\n    e casar.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; e a noiva? A&iacute; est&aacute; j&aacute; a primeira dificuldade.<\/p>\n<p> Ana do Vedor olhou muito direita para o filho e, depois de um instante de<br \/>\n    sil&ecirc;ncio, interpelou-o : &#8212; E ent&atilde;o tu, na verdade, ainda<br \/>\n    n&atilde;o lan&ccedil;aste as tuas vistas? Clemente encolheu os ombros, como<br \/>\n    quem n&atilde;o podia dizei que n&atilde;o, nem queria dizer que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Ora para mim &eacute; que tu vens com isso. Lan&ccedil;aste, sim,<br \/>\n    e nem podia deixar de ser, que n&atilde;o tinhas muito onde escolher. Queres<br \/>\n    que te diga quem &eacute;? Olha que tamb&eacute;m eu nunca tive outra na id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas eu n&atilde;o pensei ainda a s&eacute;rio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Adeus ; e que tens tu que pensar ? Porque &eacute; que te n&atilde;o<br \/>\n    havia de convir a pequena do Tom&eacute;? Clemente respondeu um pouco sobressaltado<br \/>\n    : &#8212; A mim decerto Convinha ; agora eu &eacute; que talvez lhe n&atilde;o<br \/>\n    convenha.<\/p>\n<p> A Berta est&aacute; educada tanto &agrave; cidade&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E com quem queres tu que ela case, n&atilde;o me dir&aacute;s? com<br \/>\n    algum dos pequenos do fidalgo, hem? Que eles est&atilde;o ali mesmo &agrave;<br \/>\n    espera dela. Deixa-te de tolices. A rapariga deve erguer as m&atilde;os ao<br \/>\n    C&eacute;u se agarrar um marido, que n&atilde;o &eacute; nenhum labrego, que<br \/>\n    &eacute; homem de bem e capaz de estim&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Mas o pai, que a educou assim e que em tanta conta tem as prendas<br \/>\n    da filha, h&aacute;-de aspirar a mais.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? O Tom&eacute; &eacute; um homem de juizo. E ent&atilde;o<br \/>\n    digo-te mais, eu j&aacute; lhe toquei nesse neg&oacute;cio, e o homem n&atilde;o<br \/>\n    se deitou de fora disso, antes mostrou que lhe agradava bem o projecto.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras falaram nisso ? &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o to estou<br \/>\n    a dizer ? E o Tom&eacute; da P&oacute;voa lembra-me bem que me disse: &laquo;A<br \/>\n    minha Berta, o que deve esperar &eacute; um marido honrado, trabalhador e<br \/>\n    que a saiba estimar, e o seu Clemente &eacute; a nata dos rapazes&raquo;.<br \/>\n    Depois, aqui para n&oacute;s, o Tom&eacute; sabe as circunst&acirc;ncias em<br \/>\n    que tu est&aacute;s, e vamos l&aacute;, isso tamb&eacute;m influi. E faz ele<br \/>\n    muito bem, l&aacute; isso ningu&eacute;m lhe pode levar a mal.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m Berta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixa-te de acanhamentos, rapaz. Sabes o que mais? O que eu estou<br \/>\n    vendo &eacute; que tu como assim n&atilde;o d&aacute;s conta do recado. Por<br \/>\n    isso vai ter com o Jorge. Ele &eacute; ali tudo em casa do Tom&eacute;, &eacute;<br \/>\n    quem l&aacute; d&aacute; os dias santos. O que ele diz &eacute; o que se faz,<br \/>\n    nem se mexe um p&eacute; em casa sem consultar o pequeno. E ju&iacute;zo tem<br \/>\n    ele para aconselhar bem, aquilo foi mesmo um milagre do C&eacute;u, o nascer<br \/>\n    aquele rapaz na fam&iacute;lia. Pois vai tu ter com ele, vai e diz-lhe as<br \/>\n    tuas ten&ccedil;&otilde;es, e ele que se encarregue do mais. Vai por a&iacute;,<br \/>\n    que vais bem. Digo-to eu. O Tom&eacute; tens tu do teu lado, e Luisa diz sempre<br \/>\n    com o marido ; enquanto &agrave; rapariga, ela h&aacute;-de reconhecer que<br \/>\n    tu n&atilde;o &eacute;s noivo que se enjeite.<\/p>\n<p> Horas depois, Clemente, a quem a m&atilde;e acabara de convencer, procurava<br \/>\n    Jorge no seu gabinete do trabalho na propriedade dos Bacelos.<\/p>\n<p> Clemente encontrou Jorge sentado &agrave; banca, tendo diante de si ma&ccedil;os<br \/>\n    de pap&eacute;is e de livros, que consultava com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A entrada do filho de Ana do Vedor n&atilde;o obrigou Jorge a interromper<br \/>\n    a sua tarefa ; saudou-o com a afectuosa familiaridade que de pequeno usava<br \/>\n    para o seu irm&atilde;o de leite, e continuou trabalhando.<\/p>\n<p> &#8212; Bons dias, Sr. Jorge. Pelo que vejo trabalha-se? &#8212; Que rem&eacute;dio,<br \/>\n    meu bom Clemente, que rem&eacute;dio? Estes neg&oacute;cios de minha casa<br \/>\n    est&atilde;o de tal maneira enredados, que n&atilde;o fazes id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso fiz mal em entrar ; vim distra&iacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, Clemente, n&atilde;o. Deixa-te ficar, que<br \/>\n    me n&atilde;o estorvas.<\/p>\n<p> O que estou fazendo n&atilde;o &eacute; de tal transcend&ecirc;ncia, que<br \/>\n    n&atilde;o me deixe falar com os amigos. Estou aqui a ver se descubro nesta<br \/>\n    papelada um documento de que preciso. Aquele frei Janu&aacute;rio sempre tinha<br \/>\n    isto em uma desordem ! Eu bem sei o que ele merecia. E que me d&aacute;s tu<br \/>\n    de novo, Clemente? Disseram-me que te demitiste do lugar de regedor? &#8212;<br \/>\n    E h&aacute; mais tempo que o devia ter feito, que nunca recebi sen&atilde;o<br \/>\n    desgostos no of&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, c&aacute; por este mundo, quem andar por caminho direito pode<br \/>\n    contar com encontr&otilde;es que magoam &#8212; observou Jorge, sem erguer<br \/>\n    os olhos dos pap&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o foram poucos os que me deram. Perdoe dizer-lho, Sr.<br \/>\n    Jorge, mas aqueles seus primos do Cruzeiro&#8230;<\/p>\n<p>Jorge encolheu os ombros, fazendo um gesto de desprezo, &#8212; Que queres<br \/>\n    tu, homem? Se eles nem para si mesmos s&atilde;o bons! Aquilo no Cruzeiro<br \/>\n    &eacute; uma cama de tr&ecirc;s javalis, qual deles mais selvagem.<\/p>\n<p> Que se pode esperar daquela gente? &#8212; Mas t&ecirc;m quem os atenda,<br \/>\n    que &eacute; o que me faz zangar. uma autoridade descer &agrave;quelas baixezas<br \/>\n    e andar a&iacute; a receber o beija-m&atilde;o daqueles senhores! Isto, isto,<br \/>\n    a falar a verdade, parece-me&#8230; nem eu sei o que me parece.<\/p>\n<p> Jorge esteve algum tempo sem retorquir, absorvido pelo exame de um papel<br \/>\n    que encontrara no ma&ccedil;o. Depois, tomando &agrave; margem uma nota a<br \/>\n    l&aacute;pis, e pondo o papel de lado, ponderou vagamente : &#8212; Coisas<br \/>\n    deste mundo, Clemente ; que rem&eacute;dio sen&atilde;o aceit&aacute;-lo assim<br \/>\n    ? &#8212; Isso &eacute; que &eacute; verdade.<\/p>\n<p> &#8212; E l&aacute; por casa como v&atilde;o ? Tua m&atilde;e ? &#8212;<br \/>\n    Bem ; foi ela quem me aconselhou esta visita.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ? Ent&atilde;o j&aacute; ta n&atilde;o agrade&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu a falar a verdade, como sei que tem o tempo muito ocupado, receio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora deixa-te de tolices. Se por acaso estivesse t&atilde;o ocupado<br \/>\n    que me n&atilde;o fosse poss&iacute;vel receber-te, com a maior franqueza<br \/>\n    to diria.<\/p>\n<p> Bem sabes que entre n&oacute;s n&atilde;o h&aacute; etiquetas.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu vinha para pedir-lhe um favor.<\/p>\n<p> &#8212; Terei muito prazer em te servir &#8212; respondeu Jorge, levant&aacute;ndole<br \/>\n    para procurar novos pap&eacute;is na secret&aacute;ria e voltando a sentar-<br \/>\n    se &agrave; banca, sempre entretido no seu trabalho.<\/p>\n<p> &#8212; Como sabe, pedi a minha demiss&atilde;o e estou agora resolvido<br \/>\n    a viver em minha casa e ocupar-me somente dos meus neg&oacute;cios.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; justo. E quem bem trabalha no que &eacute; seu, tamb&eacute;m<br \/>\n    trabalha no que &eacute; de todos &#8212; ponderou Jorge, enquanto executava<br \/>\n    uns c&aacute;lculos aritm&eacute;ticos.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, para fazer a vontade a minha m&atilde;e e tamb&eacute;m por<br \/>\n    me sentir com inclina&ccedil;&atilde;o para isso, estou meio decidido a&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A casar-te, hem? &#8212; concluiu Jorge, sem manifestar surpresa.<\/p>\n<p> e notavelmente embebido na execu&ccedil;&atilde;o dos seus c&aacute;lculos.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma boa resolu&ccedil;&atilde;o. Os homens como tu d&atilde;o<br \/>\n    excelentes chefes de fam&iacute;lia. Podes fazer a tua felicidade e da mulher<br \/>\n    com quem casares.<\/p>\n<p> &#8212; Isso s&atilde;o favores seus, Sr. Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ! Mas afinal o que queres tu ? Vens ouvir-me de conselho nesse<br \/>\n    neg&oacute;cio? A mim, um rapaz solteiro?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, senhor, a coisa &eacute; outra.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; Eu j&aacute; lancei as minhas vistas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, &eacute; natural.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o sei ainda se serei bem acolhido e, para lhe falar<br \/>\n    a verdade&quot;, n&atilde;o me sinto com &acirc;nimo de&#8230; de tratar disso<br \/>\n    em pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ? Ora essa ? E ent&atilde;o ? &#8212; E ent&atilde;o<br \/>\n    lembrei-me do Sr. Jorge para lhe pedir este favor.<\/p>\n<p> &#8212; De mim ? ! Tem gra&ccedil;a. Queres obrigar-me a representar o papel<br \/>\n    de casamenteiro. com todo o gosto. Mas sempre tenho curiosidade de saber a<br \/>\n    raz&atilde;o por que te lembraste de mim &#8212; disse Jorge, que, havendo<br \/>\n    conclu&iacute;do o c&aacute;lculo, pousara a pena e esfregava vivamente as<br \/>\n    m&atilde;os para aquec&ecirc;-las. Olhando desta vez directamente para o seu<br \/>\n    interlocutor, perguntou-lhe : &#8212; E quem &eacute; a noiva ? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    a filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> Estas palavras dissiparam instantaneamente toda a meia indiferen&ccedil;a<br \/>\n    com que Jorge escutara at&eacute; ali as comunica&ccedil;&otilde;es de Clemente.<br \/>\n    O estremecimento que n&atilde;o p&ocirc;de reprimir ao ouvi-las, a s&uacute;bita<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o que se lhe operou na fisionomia, bastariam para<br \/>\n    revelar a verdade a Clemente, se este bom rapaz n&atilde;o tivesse uma daquelas<br \/>\n    almas, onde nunca entram de s&uacute;bito as suspeitas, mas somente depois<br \/>\n    de muitos e porfiados embates.<\/p>\n<p> &#8212; A filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa ! &#8212; repetiu Jorge estupefacto.<\/p>\n<p> &#8212; Sim &#8212; tornou Clemente, interpretando erradamente aquele espanto<br \/>\n    &#8212; a filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa, do Tom&eacute; da Herdade&#8230;<br \/>\n    Berta, a que foi educada em Lisboa e que voltou h&aacute; tempos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei &#8212; atalhou Jorge com impaci&ecirc;ncia &#8212; mas&#8230;<br \/>\n    Berta&#8230;<\/p>\n<p> E acrescentou quase sem consci&ecirc;ncia do que dizia: &#8212; Berta da<br \/>\n    P&oacute;voa&#8230; mas&#8230; mas como te lembraste agora de Berta sem mais nem menos<br \/>\n    ? &Eacute; singular ! &#8212; Como me lembrei agora? Mas n&atilde;o foi agora<br \/>\n    que me lembrei.<\/p>\n<p> Eu j&aacute; tinha pensado nisso. &Eacute; a noiva que eu pr&oacute;prio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas&#8230; Como te deu logo para pensar em Berta da P&oacute;voa?<br \/>\n    &Euml; o que pergunto.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! Em alguma havia eu de pensar. Se n&atilde;o fosse nela,<br \/>\n    seria em outra. Sucedeu ser em Berta. Coisas do cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; vens tu j&aacute; com o cora&ccedil;&atilde;o &#8212;<br \/>\n    acudiu Jorge com mal reprimido despeito. &#8212; Voc&ecirc;s falam no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a prop&oacute;sito de tudo. E at&eacute; agora ent&atilde;o, que andavas todo<br \/>\n    influ&iacute;do com a tua regedoria, n&atilde;o te importaste com o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem ele te dizia nada&#8230; Ora adeus! O cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> E, erguendo-se da banca com certa agita&ccedil;&atilde;o, que estava espantando<br \/>\n    Clemente, p&ocirc;s-se a passear no quarto, e t&atilde;o convulso que n&atilde;o<br \/>\n    conseguia preparar um cigarro, que mal sustinha nas m&atilde;os, Clemente<br \/>\n    alegou: &#8212; Eu n&atilde;o digo que isto seja uma paix&atilde;o muito forte,<br \/>\n    uma paix&atilde;o por a&iacute; al&eacute;m; mas, resolvido a tomar estado,<br \/>\n    pensei na noiva que me conviria e lembrei-me de Berta. &Eacute; uma boa rapariga,<br \/>\n    bem-educada e de alguns ha veres&#8230;<\/p>\n<p> Jorge cortou-lhe a palavra:<\/p>\n<p>&#8212; Ah ! ent&atilde;o diz-me disso. Agora j&aacute; entendo por que te<br \/>\n    lembraste de Berta. D&eacute;vias principiar logo por a&iacute;. De alguns<br \/>\n    haveres ! Ai &eacute; que est&aacute; a quest&atilde;o. Voc&ecirc;s s&atilde;o<br \/>\n    todos os mesmos afinal. O interesse, o maldito interesse ! Pois fazia melhor<br \/>\n    conceito de ti, Clemente ; digo-te francamente que fazia de ti melhor conceito.<br \/>\n    L&aacute; porque uma rapariga tem meia d&uacute;zia de centos de mil-r&eacute;is,<br \/>\n    j&aacute; a perseguem com prop&oacute;sito de casamento, j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Sr. Jorge ! &#8212; interrompeu Clemente, t&atilde;o surpreendido<br \/>\n    como vexado com o que ouvia &#8212; por quem &eacute;, fa&ccedil;a melhor<br \/>\n    opini&atilde;o de mim.<\/p>\n<p> N&atilde;o s&oacute; me n&atilde;o lembrei de Berta apenas pelo dinheiro,<br \/>\n    mas nem a quero perseguir. Olha quem ? Eu ! Se a rapariga disser que n&atilde;o,<br \/>\n    ou o pai, paci&ecirc;ncia. Mas parece-me que a minha proposta n&atilde;o a<br \/>\n    desonra.<\/p>\n<p> Jorge principiava j&aacute; a conhecer a sem-raz&atilde;o com que falava,<br \/>\n    mas n&atilde;o podia ainda ceder totalmente ao bom senso que despertava em<br \/>\n    si. N&atilde;o tinha previsto o caso, que se lhe oferecia, e sentia-se por<br \/>\n    isso irritado contra a hip&oacute;tese que t&atilde;o imprevistamente lhe<br \/>\n    surgira no caminho.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim&#8230; mas&#8230; &#8212;murmurava ele, sem saber o que dissesse<br \/>\n    &#8212; mas&#8230; Berta&#8230; Olha, se queres que te fale a verdade&#8230; Berta n&atilde;o<br \/>\n    te conv&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; E porque acha ? &#8212; Porque&#8230; Ora porqu&ecirc;?&#8230; Eu n&atilde;o<br \/>\n    posso dizer bem porqu&ecirc;&#8230;<\/p>\n<p> porque&#8230; porque n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-lhe talvez que tem uma educa&ccedil;&atilde;o muito fina<br \/>\n    para mim? &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o digo bem isso&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m concordo. Mas atenda o Sr. Jorge que aqui na terra<br \/>\n    as pessoas melhor educadas do que eu n&atilde;o a querem para mulher.<\/p>\n<p> Eu sei de fidalgos que n&atilde;o se lhes daria de inquiet&aacute;-la, e<br \/>\n    j&aacute; o t&ecirc;m mostrado.<\/p>\n<p> Mas creia que menos a honram os olhares desses tais, do que a minha proposta.<br \/>\n    Eu n&atilde;o apreciarei, como conviria, os talentos de Berta, mas talvez<br \/>\n    os respeite melhor. E em todo o caso julgo que se poder&aacute; fazer de mim<br \/>\n    um bom marido.<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m te diz menos disso&#8230; mas&#8230; bem v&ecirc;s que&#8230;<br \/>\n    Eu n&atilde;o sei quais s&atilde;o as ten&ccedil;&otilde;es de Tom&eacute;,<br \/>\n    por&eacute;m parece-me que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; De Tom&eacute; sei eu que aprovaria o casamento, porque j&aacute;<br \/>\n    o disse a minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> A estas palavras cresceu outra vez a irrita&ccedil;&atilde;o de Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o j&aacute; &eacute; neg&oacute;cio tratado ? Os pais<br \/>\n    falaram-se. Est&aacute; dito tudo.<\/p>\n<p> &Eacute; o absurdo costume c&aacute; da terra. Provavelmente v&atilde;o<br \/>\n    exercer press&atilde;o sobre a pobre rapariga, que se sacrifica para fazer<br \/>\n    a vontade &agrave; fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Olha, sabes que mais, Clemente, isso n&atilde;o &eacute; bonito. Para que<br \/>\n    hei-de estar a dizer o contr&aacute;rio? N&atilde;o &eacute; bonito. Nem eu<br \/>\n    te quero dizer tudo o que penso disso.<\/p>\n<p> &#8212; Mas valha-me Deus, eu estou deveras admirado de ver o ju&iacute;zo<br \/>\n    que o Sr. Jorge faz de mim! Pois imagina que eu consentiria em casar com alguma<br \/>\n    mulher contra a vontade dela?<\/p>\n<p>&#8212; Tu &eacute; que disseste que tua m&atilde;e e Tom&eacute; j&aacute;<br \/>\n    se entenderam &#8212; observou Jorge, continuando a passear no quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Disse que falaram nisso e que ele n&atilde;o desaprovara. Mas o<br \/>\n    r. Jorge conhece o Tom&eacute; e por isso sabe que ele n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    homem capaz de obrigar a filha. Deus me livre de imaginar tal ! Mas ei fim,<br \/>\n    vejo que o Sr. Jorge n&atilde;o aprova a minha escolha; eu respeito-o muito<br \/>\n    e n&atilde;o quero ir contra o seu parecer. Direi a minha m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p> Jorge acudiu com vivacidade : &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o. Eu n&atilde;o<br \/>\n    desaprovo. Essa &eacute; boa ! Que tenho eu com isso? Segue l&aacute; o teu<br \/>\n    destino. E se fores feliz&#8230; tanto melhor. Eu sou teu amigo, desejo a tua<br \/>\n    felicidade. Anda&#8230; tenta&#8230; nada perdes em tentar. Enfim&#8230; eu n&atilde;o<br \/>\n    tenho objec&ccedil;&otilde;es a p&ocirc;r&#8230; s&oacute; me parecia que&#8230;<\/p>\n<p> Mas enfim, anda para diante.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas&#8230; eu desejava que o Sr. Jorge fosse quem falasse.<\/p>\n<p> Cresceu a impaci&ecirc;ncia a Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, isso &eacute; que n&atilde;o. Perde isso<br \/>\n    da id&eacute;ia. Que lembran&ccedil;a ! Eu falar ! E porque hei-de ser eu<br \/>\n    ? Que tenho eu com isso ? Conhe&ccedil;o o Tom&eacute;, n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    a filha. Que me importa a mim saber se a Berta te quer para marido, ou se<br \/>\n    n&atilde;o quer? Era at&eacute; rid&iacute;culo. Mas como te lembraste de<br \/>\n    mim para esse emprego? &#8212; Foi minha m&atilde;e quem me aconselhou.<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o vai ela ? assim como tratou com o pai, que trate<br \/>\n    com a filha. Quem quer negociar casamento para os filhos n&atilde;o incumbe<br \/>\n    a estranhos parte da miss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; porque minha m&atilde;e julgava que o Sr. Jorge n&atilde;o<br \/>\n    era para n&oacute;s de todo em todo um estranho &#8212; murmurou tristemente<br \/>\n    o cola&ccedil;o de Jorge, a quem a imprevista maneira por que fora acolhido<br \/>\n    por este tinha deixado em profundo desconsolo.<\/p>\n<p> Estas palavras de t&iacute;mida censura e a maneira branda e resignada com<br \/>\n    que foram ditas, comoveram Jorge e abateram a tempestade que lhe perturbara<br \/>\n    a habitual serenidade do seu esp&iacute;rito. Fazendo um esfor&ccedil;o para<br \/>\n    dominar os despeitos que ainda sentia revoltos no cora&ccedil;&atilde;o, disse<br \/>\n    com maior placidez, apertando a m&atilde;o de Clemente : &#8212; E julgava<br \/>\n    bem tua m&atilde;e. Eu n&atilde;o posso ser para v&oacute;s um estranho, nem<br \/>\n    v&oacute;s para mim o sois. Farei o que desejas. N&atilde;o fa&ccedil;as caso<br \/>\n    das minhas palavras. Tenho andado um pouco impertinente estes dias por causa<br \/>\n    de certos neg&oacute;cios, e por isso falei h&aacute; pouco mais vivamente.<\/p>\n<p> Desculpa. O teu projecto &eacute; razo&aacute;vel, eu falarei nele a Tom&eacute;.<br \/>\n    Que d&uacute;vida ? O que n&atilde;o prometo &eacute; servir-me de qualquer<br \/>\n    influ&ecirc;ncia que tenha sobre ele, porque&#8230; porque enfim&#8230; tenho escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p> &#8212; Nem eu queria que o fizesse. Basta que lhe exponha o caso ; que<br \/>\n    lhe diga que estou resolvido a casar, e sentindo amor&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; melhor n&atilde;o falarmos em amor &#8212; atalhou Jorge<br \/>\n    com renascente impaci&ecirc;ncia &#8212; porque afinal, Clemente, vendo as<br \/>\n    coisas como elas s&atilde;o, tu n&atilde;o amas Berta.<\/p>\n<p>Ao olhar espantado com que foram acolhidas estas palavras, Jorge respondeu<br \/>\n    j&aacute; com mais for&ccedil;a: &#8212; N&atilde;o amas, homem, n&atilde;o<br \/>\n    amas. Talvez estejas persuadido de que a amas, mas n&atilde;o h&aacute; tal<br \/>\n    amor. Desengana-te. Isso em ti &eacute; um projecto frio, pensado, no qual<br \/>\n    s&oacute; achaste vantagens e portanto resolveste adopt&aacute;-lo. Tt is<br \/>\n    considera&ccedil;&otilde;es por Berta, entendes que podes estim&aacute;- la;<br \/>\n    mas amor &eacute; outra coisa. Deixemos, por&eacute;m, isto. Fica decidido,<br \/>\n    eu falarei a Tom&eacute; e dar-te-ei a resposta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Agrade&ccedil;o-lhe, Sr. Jorge. Mas veja l&aacute;, se lhe custa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Porque h&aacute;-de custar ? Ora essa ! Se falo quase todos os dias<br \/>\n    com o Tom&eacute;. Em lugar de conversarmos no tempo que faz, ou no estado<br \/>\n    das terras, conversaremos nisso. Sim, porque para mim &eacute; um assunto<br \/>\n    como outro qualquer. O casamento de Berta &eacute; um assunto em que eu posso<br \/>\n    conversar com Tom&eacute;, naturalmente. Pois que tinha eu com o casamento<br \/>\n    de Berta? Eu n&atilde;o sou irm&atilde;o dela. Estimo-a, &eacute; verdade,<br \/>\n    mas&#8230; o que &eacute; certo &eacute; que&#8230; &eacute; que n&atilde;o me compete<br \/>\n    importar- me com o casamento de Berta. J&aacute; v&ecirc;s ent&atilde;o que<br \/>\n    n&atilde;o me pode ser custoso falar nisto ao pai&#8230; Pois porque te parecia<br \/>\n    que me havia de custar? E Jorge dizia tudo isto com uma volubilidade e com<br \/>\n    uma inquieta&ccedil;&atilde;o que admiravam Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; A mim? Por nada &#8212; respondeu este. &#8212;Eu dizia que no caso<br \/>\n    de n&atilde;o querer.<\/p>\n<p> &#8212; Mas porque n&atilde;o? Falo. N&atilde;o tenho a menor d&uacute;vida.<br \/>\n    Amanh&atilde; dar-te-ei a resposta. Adeus. Agora pe&ccedil;o-te licen&ccedil;a<br \/>\n    para examinar umas contas.<\/p>\n<p> &#8212; Eu retiro-me.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o adeus. E vai descansado ; hoje mesmo tratarei disso.<\/p>\n<p> E uma coisa t&atilde;o simples ! Sim, porque bem v&ecirc;s que eu nisso<br \/>\n    n&atilde;o tomo parte activa. Por acaso tinhas algum motivo para supor?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nenhum.<\/p>\n<p> &#8212; Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo&#8230; talvez&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o julgava tal &#8212; respondeu Clemente, cada vez mais<br \/>\n    espantado com a insist&ecirc;ncia de Jorge, t&atilde;o singular pelo menos<br \/>\n    como a sua primeira irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Jorge conduziu o seu amigo at&eacute; &agrave; porta do gabinete, onde se<br \/>\n    despediu dele, apertando-lhe afectuosamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois de Clemente sair, Jorge voltou a sentar-se &agrave; banca, e como<br \/>\n    quem se dispunha a prosseguir no trabalho interrompido, p&ocirc;s-se com afectada<br \/>\n    tranq&uuml;ilidade a aparar um l&aacute;pis, e trauteando a meia voz; mas<br \/>\n    tal era o estado nervoso em que ficara e a sua distrac&ccedil;&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    completa, que o l&aacute;pis desfazia-se-lhe nas m&atilde;os, em vez de se<br \/>\n    aprontar para o servi&ccedil;o. De repente arremessou de si o l&aacute;pis,<br \/>\n    o canivete e v&aacute;rios livros e pap&eacute;is que encontrou diante e,<br \/>\n    erguendo-se, exclamou com acentuada amargura: &#8212; Est&aacute; pois decidido<br \/>\n    que eu v&aacute; pedir a Tom&eacute; da P&oacute;voa, e para Clemente, a m&atilde;o<br \/>\n    de sua filha! Tem gra&ccedil;a! Sempre se me preparam casos nesta vida ! Principiou<br \/>\n    a passear na sala, com os bra&ccedil;os cruzados, a cabe&ccedil;a pendida<br \/>\n    e o pensamento disputado por as mais contr&aacute;rias paix&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; est&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o que eu n&atilde;o<br \/>\n    previa &#8212; continuou ele.&#8212; Sim senhor ; &eacute; a maneira mais<br \/>\n    simples e mais natural de cortar as dificuldades de que tanto me receava.<br \/>\n    Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam as minhas hesita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    acalma-se a minha febre, aplicarei o pensamento exclusivamente aos meus neg&oacute;cios&#8230;<br \/>\n    E ela&#8230;<\/p>\n<p> ser&aacute; feliz. Ser&atilde;o felizes&#8230; O casamento &eacute; natural&#8230;<br \/>\n    O Clemente &eacute; bom rapaz e Berta&#8230;<\/p>\n<p> Esta id&eacute;ia provocou um movimento de reac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Berta e Clemente ! Clemente marido de Berta ! Berta casada com Clemente<br \/>\n    ! N&atilde;o me posso conformar com esta id&eacute;ia. N&atilde;o posso costumar-me<br \/>\n    a reunir estes dois nomes. &Eacute; monstruoso, &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    ! E ficou por algum tempo abatido com os olhos fitos no ch&atilde;o, como<br \/>\n    subjugado por aquele pensamento. Depois tornava, com nova energia : &#8212;<br \/>\n    Mas quem tem a culpa? Sou eu, eu, que n&atilde;o tenho coragem para passar<br \/>\n    por cima de preconceitos rid&iacute;culos, que me prendo com teias de aranha<br \/>\n    e fico perp&egrave;tuamente aguardando n&atilde;o sei o qu&ecirc;. Pois que<br \/>\n    podia eu esperar ? Ou este pensamento em mim &eacute; real e poderoso ou n&atilde;o<br \/>\n    &eacute;. Se n&atilde;o &eacute;, com que direito me estou incomodando com<br \/>\n    o casamento de Berta? Se &eacute;, porque n&atilde;o lhe obede&ccedil;o? porque<br \/>\n    n&atilde;o me declaro, porque hesito&#8230;<\/p>\n<p> Vinha depois a reflex&atilde;o acalmar este moment&acirc;neo paroxismo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, e havia de descarregar mais esse golpe sobre aquele velho,<br \/>\n    que n&atilde;o tem culpa em acatar esses preconceitos no valor de um credo<br \/>\n    religioso ! O primeiro golpe, por doloroso que ele o sentisse, foi-lhe salutar<br \/>\n    e evitou-lhos mais cru&eacute;is. Este, por&eacute;m, s&oacute; teria compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para mim, e ele n&atilde;o lhe sentiria o benef&iacute;cio. Vamos, deixemo-nos<br \/>\n    de loucuras. Resolvi ter coragem. Hei-de t&ecirc;-la. Falarei a Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Vinha-lhe em seguida um pensamento diverso.<\/p>\n<p> &#8212; E qual ser&aacute; a resposta de Berta ? Ela n&atilde;o pode aceitar<br \/>\n    Clemente.<\/p>\n<p> A educa&ccedil;&atilde;o que recebeu&#8230; E porque n&atilde;o h&aacute;-de<br \/>\n    aceitar? Clemente &eacute; um rapaz honrado, trabalhador, capaz de estimar<br \/>\n    e proteger a sua mulher. Que mais pode ela desejar? Este &eacute; o marido<br \/>\n    que lhe conv&eacute;m.<\/p>\n<p> Talvez lhe preferisse Maur&iacute;cio, que se ri dela, que n&atilde;o pensar&aacute;<br \/>\n    nela, amanh&atilde;, mas que &eacute; um rapaz da moda, elegante e que lhe<br \/>\n    sabe dizer bonitas palavras. A fantasia destas colegiais.., Tornou a raz&atilde;o<br \/>\n    a fazer-se ouvir.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a&iacute; estou eu com a minha loucura, acusando aquela pobre<br \/>\n    rapariga de defeitos, que nunca lhe pude descobrir. Mas se esta id&eacute;ia<br \/>\n    me faz perder o ju&iacute;zo ! Pelo contr&aacute;rio, a Berta tem muito bom<br \/>\n    senso, h&aacute;-de compreender o car&aacute;cter de Clemente, apreciar as<br \/>\n    qualidades daquela excelente alma e aceitar a proposta&#8230; e at&eacute; sem<br \/>\n    a menor hesi ta&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um marido afinal. As mulheres o<br \/>\n    que querem &eacute; um marido.<\/p>\n<p> Talvez at&eacute; o Clemente agrade a Berta&#8230; H&atilde;o-de ser felizes.<br \/>\n    Porque n&atilde;o?&#8230; Berta n&atilde;o tem aspira&ccedil;&otilde;es mais s&oacute;lidas&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o pode ter&#8230; Aquilo com Maur&iacute;cio &eacute; um capricho. Todos<br \/>\n    se h&atilde;o-de dar bem, e Berta com a Ana do Vedor&#8230; Que paz dom&eacute;stica!<br \/>\n    Tudo isto afinal &eacute; naturalissimo.<\/p>\n<p> Eu sou que lhe estou dando mais import&acirc;ncia do que merece&#8230; Trata-<br \/>\n    se de dizer a uma rapariga: &laquo;a&iacute; est&aacute; um homem que te pretende<br \/>\n    para mulher&raquo;. A rapariga, que n&atilde;o tem maiores aspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    responde que aceita. E o casamento faz-se, e tudo entra no caminho ordin&aacute;rio,<br \/>\n    e eu mesmo me hei-de habituar&#8230;<\/p>\n<p> A explos&atilde;o foi maior desta vez, que mais prolongado havia sido o<br \/>\n    per&iacute;odo de repress&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o me hei-de habituar &#8212; exclamou ele agitad&iacute;ssimo<br \/>\n    &#8212; porque&#8230; porque eu amo-a! Escuso de mentir a mim mesmo. Amo-a! &Eacute;<br \/>\n    uma fatalidade, mas amo-a. Foi o meu primeiro amor e h&aacute;-de ser o &uacute;ltimo.<br \/>\n    Amo-a e hei-de padecer horrivelmente, vendo-a casada com outro. Mas, n&atilde;o<br \/>\n    importa, vencerei as minhas paix&otilde;es. Se continuar a am&aacute;-la,<br \/>\n    ningu&eacute;m o saber&aacute;, se odiar Clemente, sufocarei esse &oacute;dio<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o; e se ele se despeda&ccedil;ar nesse esfor&ccedil;o,<br \/>\n    morrerei sem deixar no mundo o segredo da minha morte. O meu destino est&aacute;<br \/>\n    definido ; &eacute; este, o de vencer-me. Principia hoje a luta ; vou procurar<br \/>\n    Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> Depois de muitos destes combates &iacute;ntimos, Jorge tomou efectivamente<br \/>\n    o caminho da Herdade.<\/p>\n<h2>XXVII<\/h2>\n<p>ENTRANDO na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge encontrou<br \/>\n    o fazendeiro, que havia pouco tempo voltara de visitar os campos, sentado<br \/>\n    &agrave; modesta banca do seu escrit&oacute;rio, examinando com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    os livros de assento e algumas cartas que recebera.<\/p>\n<p> Usando da familiaridade, com que era recebido naquela casa, Jorge entrara<br \/>\n    sem se mandar anunciar.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute; ! viva o Sr. Jorge &#8212; exclamou o lavrador, voltando-se<br \/>\n    ao rumor de passos que ouvira &#8212; venha c&aacute;, venha, que temos novidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que h&aacute;? &#8212; perguntou Jorge, sentando-se<br \/>\n    defronte dele.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos a saber. Teve cartas do Porto ? &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Hum ! &Eacute; o que eu digo. Se est&aacute; &agrave; espera de<br \/>\n    que os advogados lhe escrevam, bem tem de esperar. Aqueles senhores, saindo<br \/>\n    do escrit&oacute;rio, n&atilde;o pensam mais nas demandas nem nos clientes.<br \/>\n    Olha quem.<\/p>\n<p> Eu c&aacute; entendo-me com os procuradores e n&atilde;o me dou pior. Ora<br \/>\n    leia.<\/p>\n<p>E passou para as m&atilde;os de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador<br \/>\n    lhe dava lisonjeiras informa&ccedil;&otilde;es relativamente ao pleito que<br \/>\n    a Casa Mourisca sustentava. A quest&atilde;o tomara uma face nova, depois<br \/>\n    da jun&ccedil;&atilde;o ao processo de certos documentos de import&acirc;ncia,<br \/>\n    e o parecer dos ju&iacute;zes era favor&aacute;vel, segundo o que podia conjecturer<br \/>\n    o procurador, forte nestes progn&oacute;sticos.<\/p>\n<p> A not&iacute;cia n&atilde;o podia ser indiferente a Jorge. A boa solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desta demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos econ&oacute;micos<br \/>\n    ; e poderia depois tentar mais desembara&ccedil;ado e com mais efic&aacute;cia<br \/>\n    os expedientes que a sua medita&ccedil;&atilde;o e a experi&ecirc;ncia de<br \/>\n    Tome lhe sugeriam.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que diz a isso ? &#8212; interrogou o fazendeiro.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; deveras uma feliz nova.<\/p>\n<p> &#8212; Diga-me agora se h&aacute;-de ou n&atilde;o vir tempo em que aquela<br \/>\n    casa negra tornar&aacute; a ser o que foi.<\/p>\n<p> &#8212; Espero que Deus me conceda essa ventura.<\/p>\n<p> &#8212; Agora &eacute; necess&aacute;rio escrever para Lisboa para apressar<br \/>\n    o neg&oacute;cio, e com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;queles t&iacute;tulos,<br \/>\n    que parece n&atilde;o estarem muito na ordem, recomendo-lhe este procurador,<br \/>\n    que &eacute; homem diligente e seguro.<\/p>\n<p> &#8212; Era j&aacute; minha ten&ccedil;&atilde;o falar-lhe nele. Deixemos,<br \/>\n    por&eacute;m, agora esta mat&eacute;ria, porque outro grave motivo me trouxe<br \/>\n    aqui e tenho pressa de me desempenhar da miss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute; ! Motivo grave ! Pelo modo de dizer parece que se trata<br \/>\n    de coisa de polpa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; de pequena gravidade, n&atilde;o &#8212; insistiu<br \/>\n    Jorge &#8212; e se quer que lhe fale a verdade, Tom&eacute;, n&atilde;o me<br \/>\n    &eacute; agrad&aacute;vel a incumb&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute; l&aacute;. Estou daqui a adivinhar o que &eacute;. Temos<br \/>\n    algum recado do pai. O Sr. D. Luis sabe invent&aacute;-las de bom feitio.<br \/>\n    &Agrave;s vezes tem lembran&ccedil;as ! Mas eu j&aacute; estou prevenido para<br \/>\n    tudo, venha mais essa. Diga l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Tom&eacute;, n&atilde;o se trata de meu pai. E n&atilde;o<br \/>\n    canse mais a cabe&ccedil;a, que por certo n&atilde;o adivinha, e eu, em duas<br \/>\n    palavras, ponho-o ao corrente de tudo. O Clemente, o filho da Ana do Vedor,<br \/>\n    procurou-me h&aacute; poucas horas para me pedir que me encarregasse de ser<br \/>\n    o seu mediador em uma pretens&atilde;o que ele tem dependente de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &raquo; &#8212; De mim? ! Deve ser bem esquisita, para que o rapaz n&atilde;o<br \/>\n    venha em pessoa falar-me. Ent&atilde;o n&atilde;o somos n&oacute;s amigos?<br \/>\n    &#8212; H&aacute; delicadeza da parte dele nisto, porque a pretens&atilde;o<br \/>\n    de que se trata &eacute; de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado<br \/>\n    de pedir para Clemente a m&atilde;o de Berta.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o pronunciou estas palavras com a mesma for&ccedil;ada placidez<br \/>\n    com que at&eacute; ali sustentara o di&aacute;logo. Parecia que os l&aacute;bios<br \/>\n    as repeliam, como se os escaldassem ao passar.<\/p>\n<p> Tom&eacute; recebeu sem estranheza a comunica&ccedil;&atilde;o. Mostrou<br \/>\n    bem que a id&eacute;ia dessa alian&ccedil;a n&atilde;o era nova para ele,<br \/>\n    e que n&atilde;o carecia de tempo para a examinar, porque todas as faces dela<br \/>\n    lhe eram j&aacute; conhecidas.<\/p>\n<p> &#8212; &#8212; Ah! pois era isso? &#8212; disse eie naturalmente. &#8212;<br \/>\n    Escusava de tantas cerim&ocirc;nias o rapaz, porque j&aacute; deve saber por<br \/>\n    a m&atilde;e o que eu penso do caso. Pela minha parte n&atilde;o ponho d&uacute;vida<br \/>\n    alguma. O Clemente &eacute; um rapaz de bons sentimentos, honrado como poucos,<br \/>\n    trabalhador, e tendo j&aacute; de seu alguns haveres, que n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    maus princ&iacute;pios de vida.<\/p>\n<p> &Eacute; um rapaz de lavoura, como n&atilde;o podia deixar de ser o marido<br \/>\n    de Berta, que filha de lavrador nasceu tamb&eacute;m ; mas sempre tem mais<br \/>\n    um bocadinho de educa&ccedil;&atilde;o do que esses machacazes que por a&iacute;<br \/>\n    conhe&ccedil;o, a quem n&atilde;o entregaria a filha, nem que ma pesassem<br \/>\n    a oiro. O Clemente n&atilde;o, o Clemente &eacute; um homem que sabe dar valor<br \/>\n    &agrave;s coisas, e h&aacute;-de conhecer que a minha Berta sempre se criou<br \/>\n    por a cidade, e que por isso exige outro tratamento que n&atilde;o o dessa<br \/>\n    raparigada por a&iacute;, que de qualquer maneira est&aacute; bem. Pois n&atilde;o<br \/>\n    acha que tenho raz&atilde;o, Sr. Jorge? &#8212; Sim &#8212; respondeu Jorge,<br \/>\n    levantando-se e encaminhando-se para a janela, como para dissipar o despeito<br \/>\n    que lhe causava a maneira por que Tom&eacute; falava daquela alian&ccedil;a<br \/>\n    &#8212; sim, Clemente tem maneiras mais polidas, e, como diz a m&atilde;e<br \/>\n    dele, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da excel&ecirc;ncia pela pr&aacute;tica<br \/>\n    da correspond&ecirc;ncia oficial.<\/p>\n<p> &#8212; Isso l&aacute; hist&oacute;rias &#8212; tornou Tom&eacute;, sem<br \/>\n    perceber a meia ironia das palavras de Jorge &#8212; que para nada lhe serve<br \/>\n    a senhoria e a excel&ecirc;ncia para o casamento. Entre marido e mulher n&atilde;o<br \/>\n    ficam bem essas cerim&ocirc;nias, e n&atilde;o h&aacute; como o &laquo;tu&raquo;<br \/>\n    entre quem se quer bem.<\/p>\n<p> Estas palavras incomodaram tanto Jorge, que principiou a tocar ruidosamente<br \/>\n    nos vidros, como para n&atilde;o as ouvir. &laquo;Tu&raquo; entre Clemente<br \/>\n    e Berta! Tom&eacute; continuou: &#8212; Mas eu n&atilde;o queria dizer isso.<br \/>\n    Quando falava nas maneiras do Clemente, queria dizer que ele tem isto, que<br \/>\n    n&atilde;o sei bem como se chama, isto de um homem saber tratar com uma pessoa<br \/>\n    delicada sem a ofender. Porque, v&ecirc; o Sr. Jorge? eu conhe&ccedil;o homens<br \/>\n    que tiveram grande educa&ccedil;&atilde;o, muitos mestres, e muitos estudos,<br \/>\n    sim, senhores, e que est&atilde;o sempre a dizer coisas que ofendem os outros.<br \/>\n    Enquanto que muitos, que n&atilde;o foram t&atilde;o bem olhados em pequenos,<br \/>\n    t&ecirc;m l&aacute; n&atilde;o sei que dom de conhecer as pessoas e sabem<br \/>\n    viver com elas sem nunca as escandalizar. Isto &eacute; assim como que uma<br \/>\n    delicadeza que n&atilde;o se aprende, que nasce com as pessoas. Ora o Clemente<br \/>\n    &eacute; dos tais.<\/p>\n<p> &#8212; Em vista do que oi&ccedil;o, reputo-me feliz por ter sido o portador<br \/>\n    de t&atilde;o fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para<br \/>\n    obter-lhe um genro t&atilde;o precioso &#8212; disse Jorge cujo despeito se<br \/>\n    exacerbava.<\/p>\n<p> &#8212; Devagar, devagar, esta &eacute; c&aacute; a minha opini&atilde;o,<br \/>\n    mas n&atilde;o sou eu que me caso e portanto Berta &eacute; que h&aacute;-de<br \/>\n    decidir. Eu n&atilde;o duvido dar conselhos a minha filha e dizer-lhe o que<br \/>\n    penso deste ou daquele rapaz de quem ela se lembre para noivo; mas constrang&ecirc;-la,<br \/>\n    isso &eacute; que eu n&atilde;o fa&ccedil;o, &#8212; Decerto ; mas creio que<br \/>\n    Berta n&atilde;o ser&aacute; t&atilde;o cega, que n&atilde;o veja as excel&ecirc;ncias<br \/>\n    que concorrem na pessoa de Clemente, e que se n&atilde;o lisonjeie da prefer&ecirc;ncia<br \/>\n    que lhe mereceu.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eu tamb&eacute;m quero crer que o n&atilde;o enjeitar&aacute;.<br \/>\n    Mas enfim, a gente v&ecirc; as coisas com uns olhos e elas com outros. Por<br \/>\n    muito ajuizadas que sejam, as raparigas afinal t&ecirc;m olhos de raparigas<br \/>\n    e &agrave;s vezes l&aacute; descobrem em um homem umas coisas, que as cativam<br \/>\n    ou que as desgostam, e ningu&eacute;m pode saber o que lhes agradar&aacute;<br \/>\n    mais. Em todo o caso eu vou consult&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem. Consulte-a e se, como &eacute; de esperar do ju&iacute;zo<br \/>\n    dela, Clemente for bem acolhido, d&ecirc;-mo parte para o participar ao meu<br \/>\n    constituinte.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia,<br \/>\n    ao referir-se a Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; &#8212;disse com certa hesita&ccedil;&atilde;o Tom&eacute;<br \/>\n    &#8212; ent&atilde;o ret&iacute;ra-se j&aacute;? &#8212; Pois n&atilde;o diz<br \/>\n    que vai consultar Berta? &#8212; Mas, se se demorasse, podia j&aacute; saber&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A urg&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; tanta que se torne necess&aacute;rio<br \/>\n    esperar. Mas enfim esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, enquanto lhe fala.<\/p>\n<p> &#8212; E tinha d&uacute;vida em ficar ? &#8212; Ficar aonde ? &#8212; Aqui.<\/p>\n<p> &#8212; A fazer o qu&ecirc;? &#8212; A ouvir a resposta de Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Eu? &#8212; exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Tom&eacute;<br \/>\n    n&atilde;o tinha explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que tem ? N&atilde;o se trata de segredo algum. &Eacute;<br \/>\n    uma proposta que vou fazer a minha filha e &agrave; qual ela responder&aacute;<br \/>\n    sim ou n&atilde;o, e est&aacute; acabado. A presen&ccedil;a do Sr. Jorge nada<br \/>\n    estorva. Antes poder&aacute; dar &agrave; pequena informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a respeito do Clemente, que ela conhece mal&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc; ? ! Tom&eacute; ! &#8212; acudiu Jorge irritado &#8212;<br \/>\n    pois cuida que eu me encarrego de semelhante papel? Eu? Que interesse tenho<br \/>\n    eu em que Berta aceite a proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de<br \/>\n    que far&aacute; bem aceitando-a? eu sei l&aacute;? Clemente &eacute; um rapaz<br \/>\n    de quem sou amigo, mas n&atilde;o sei nem quero saber se dele se far&aacute;<br \/>\n    um bom marido.<\/p>\n<p> A respeito de casamentos n&atilde;o dou conselhos. N&atilde;o quero que<br \/>\n    me lancem depois as culpas. Nesse assunto cada um escolha por si, porque para<br \/>\n    si escolhe. Informa&ccedil;&otilde;es a respeito de Clemente? Eu?! Mas que<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es quer que eu d&ecirc;? &#8212; Pois n&atilde;o diz<br \/>\n    que &eacute; seu amigo &#8212; tornou Tom&eacute;, um pouco admirado com as<br \/>\n    maneiras impertinentes que notava em Jorge. &#8212; N&atilde;o &eacute; essa<br \/>\n    j&aacute; pequena garantia para a minha Berta, que sabe o valor que t&ecirc;m<br \/>\n    os homens, a quem o Sr. Jorge d&aacute; esse nome.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! n&atilde;o sabia que eu era a pedra-de-toque no conceito de<br \/>\n    Berta, para julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado.<\/p>\n<p>&#8212; Diga-me uma coisa, Sr. Jorge &#8212; insistiu Tom&eacute;, e em tom<br \/>\n    mais decidido &#8212; se soubesse que o Clemente era um miser&aacute;vel,<br \/>\n    um vicioso, um extravagante, de m&aacute;s qualidades, e estivesse persuadido<br \/>\n    de que seria um mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me em nome dele<br \/>\n    a m&atilde;o de minha filha? &#8212; Por certo que n&atilde;o &#8212; respondeu<br \/>\n    Jorge prontamente e com toda a lealdade.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem ; pois &eacute; isso mesmo que eu desejava que minha filha<br \/>\n    soubesse. O Sr. Jorge n&atilde;o lhe daria conselhos, dir-lhe-ia somente :<br \/>\n    encarreguei-me de dar este passo, porque este homem &eacute; um homem honrado.<br \/>\n    Agora o mais &eacute; com ela. Mas isso poria as coisas no seu lugar.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, uma vez que n&atilde;o quer&#8230;<\/p>\n<p> Passava-se naquele momento na alma de Jorge uma luta de resolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Tom&eacute;, tentava-o<br \/>\n    por outro a curiosidade dolorosa de saber como Berta acolheria o pedido de<br \/>\n    Clemente e a resposta que lhe daria. Receava que a &iacute;ntima como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que procurava sufocar, se tra&iacute;sse na presen&ccedil;a de Berta em t&atilde;o<br \/>\n    solene momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a observ&aacute;-la<br \/>\n    quando ouvisse a proposta do pai. A curiosidade venceu.<\/p>\n<p> Esfor&ccedil;ando-se por desvanecer todos os vest&iacute;gios da sua perturba&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Jorge respondeu a Tom&eacute; no tom da maior indiferen&ccedil;a, que, visto<br \/>\n    que ele julgava conveniente a sua presen&ccedil;a durante a entrevista que<br \/>\n    ia ter com a filha, pela sua parte n&atilde;o opunha objec&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E, sentando-se outra vez &agrave; banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu<br \/>\n    examinar atento, mal podendo reprimir o tremor da m&atilde;o com que o segurava.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa chamou a filha ao escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Jorge ouviu os passos de Berta descendo as escadas ; sentiu-a abrir a porta<br \/>\n    e entrar na sala ; levantou timidamente os olhos para responder ao cumprimento<br \/>\n    que ela lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que abrira.<\/p>\n<p> Berta olhou interrogadoramente para o pai, que permanecia silencioso, como<br \/>\n    quem estudava a maneira de principiar.<\/p>\n<p> Afinal entrou assim no assunto: &#8212; Mandei chamar-te, Berta, porque<br \/>\n    se trata de um neg&oacute;cio s&eacute;rio, que te diz respeito.<\/p>\n<p> &#8212; A mim? &#8212; perguntou Berta admirada, alternando os olhares entre<br \/>\n    o pai e Jorge, que n&atilde;o erguia os seus.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, filha, a ti. O caso n&atilde;o &eacute; de espantar. H&aacute;<br \/>\n    um rapaz nesta terra, um mo&ccedil;o honrado e trabalhador, a quem tu agradaste,<br \/>\n    e que te pede para mulher.<\/p>\n<p> Jorge aventurou um olhar furtivo para o rosto de Berta, Viu-o mudar rapidamente<br \/>\n    de cor; corou, primeiro, empalideceu, depois.<\/p>\n<p> &#8212; Este rapaz &#8212; prosseguiu Tom&eacute; &#8212; &eacute; j&aacute;<br \/>\n    teu conhecido. &Eacute; o Clemente, o filho da ti&#8217;Ana do Vedor, de quem &eacute;s<br \/>\n    amiga. Agora decide l&aacute;.<\/p>\n<p>Berta permaneceu silenciosa, como se a inesperada not&iacute;cia lhe tivesse<br \/>\n    tirado o uso das faculdades, a ponto de n&atilde;o compreender o que ouvira.<\/p>\n<p> Notando o sil&ecirc;ncio da filha, Tom&eacute; acrescentou: &#8212; O Sr.<br \/>\n    Jorge foi quem teve a bondade de se encarregar do pedido de Clemente, porque<br \/>\n    o rapaz n&atilde;o teve coragem para o fazer em pessoa.<\/p>\n<p> Jorge franziu ligeiramente o sobrolho a estas palavras que n&atilde;o quisera<br \/>\n    ouvir.<\/p>\n<p> Berta estremeceu e desviou para Jorge um olhar expressivo de profunda amargura,<br \/>\n    que ele n&atilde;o observou. Voltando-se depois para o pai, perguntou-lhe<br \/>\n    com a voz tr&eacute;mula e presa pela como&ccedil;&atilde;o : &#8212; E que<br \/>\n    respondeu o pai ao pedido que lhe fez, em nome de Clemente, o Sr. Jorge? &#8212;<br \/>\n    Eu, filha? &#8212; respondeu Tom&eacute;. &#8212;Pela minha parte disse e<br \/>\n    digo que n&atilde;o ponho estorvos. Conhe&ccedil;o o rapaz, sei as qualidades<br \/>\n    que ele tem, e para genro agrada-me. Mas isso n&atilde;o tira. Tu &eacute;<br \/>\n    que deves dizer se ele te agrada para marido.<\/p>\n<p> Berta baixou, durante alguns momentos, os olhos e n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> Depois ergueu-os e fitou-os em Jorge, como a procurar penetrar-lhe no pensamento<br \/>\n    ; afinal com voz j&aacute; mais firme, mas comovida ainda, disse : &#8212;<br \/>\n    Visto que foi o Sr. Jorge quem se encarregou dessa proposta, parece-me ter<br \/>\n    direito a pedir tamb&eacute;m a sua opini&atilde;o a respeito dela.<\/p>\n<p> Jorge estremeceu e olhou para Berta de uma maneira que denunciava um &iacute;ntimo<br \/>\n    sobressalto.<\/p>\n<p> &#8212; A minha opini&atilde;o? &#8212; repetiu ele, sem saber o que dizia.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, o Sr. Jorge &eacute; amigo de meu pai, e julgo que meu amigo<br \/>\n    tamb&eacute;m. N&atilde;o h&aacute;-de querer ver-me infeliz. Encarregando-se<br \/>\n    de dar o passo que deu, &eacute; decerto porque julga que eu poderei encontrar<br \/>\n    a felicidade, seguindo o caminho que me facilita assim. A sua lealdade obriga-o<br \/>\n    a diz&ecirc;-lo francamente, se assim o pensa. E eu atrevo-me a exigi-lo da<br \/>\n    sua lealdade.<\/p>\n<p> &#8212; Eu apenas cumpri a miss&atilde;o de que me encarregaram, mas n&atilde;o<br \/>\n    aconselho &#8212; balbuciou Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. Jorge &eacute; demasiado sincero na sua amizade a meu pai<br \/>\n    para aceitar essa miss&atilde;o de um homem de quem receasse que me podia<br \/>\n    vir a infelicidade. Quero acredit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Jorge irritou-se ; irritou-se contra si, por a turba&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    sentia, e contra Berta, por suspeitar que era o amor a Maur&iacute;cio que<br \/>\n    lhe estava ditando aquelas palavras ; por isso respondeu com o tom ir&ocirc;nico<br \/>\n    do costume : &#8212; N&atilde;o duvido afirmar que o Clemente &eacute; um<br \/>\n    excelente rapaz, que pode fazer feliz qualquer mulher que n&atilde;o aspire<br \/>\n    a mais do que &agrave; estima leal e sincera de um homem de bem. Vejo em Clemente<br \/>\n    garantias de que dar&aacute; a uma esposa de id&eacute;ias razo&aacute;veis<br \/>\n    aquela felicidade que consiste na paz dom&eacute;stica e no amor da fam&iacute;lia.<br \/>\n    Mas eu n&atilde;o sei se isto satisfar&aacute; a t&ocirc;da a gente. A&iacute;<br \/>\n    est&aacute; que as educa&ccedil;&otilde;es modernas fazem &agrave;s vezes<br \/>\n    o esp&iacute;rito das mulheres mais exigente e habituam-nas a sonhar com umas<br \/>\n    certas poesias na vida, que um homem como o Clemente sem d&uacute;vida n&atilde;o<br \/>\n    pode realizar. A essas agrada &agrave;s vezes mais qualquer estouvado com<br \/>\n    a cabe&ccedil;a cheia de loucuras e o cora&ccedil;&atilde;o vazio, mas que<br \/>\n    tenha a brilhante qualidade de saber dizer falsidades em bonitas palavras.<\/p>\n<p> Depois, reprimindo esta excepcional vivacidade, que estava espantando Tom&eacute;,<br \/>\n    acrescentou: &#8212; Se, como creio, Berta n&atilde;o est&aacute; neste caso.<br \/>\n    parece-me que encontrar&aacute; em Clemente um marido leal.<\/p>\n<p> Estas palavras pronunciou-as Jorge em tom sumido e baixando de novo o olhar<br \/>\n    para o livro que n&atilde;o lia.<\/p>\n<p> Tom&eacute; voltou &agrave; fala: &#8212; Sabes que mais, Berta? estas coisas<br \/>\n    querem-se pensadas. Tu dar&aacute;s a resposta quando quiseres, que a pressa<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; muita.<\/p>\n<p> Berta atalhou: &#8212; N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio, meu pai. A<br \/>\n    minha resolu&ccedil;&atilde;o est&aacute; formada.<\/p>\n<p> Pode mandar dizer a Clemente que aceito.<\/p>\n<p> Jorge sentiu enevoarem-se as letras do livro, como se lhes passasse por<br \/>\n    diante uma nuvem escura.<\/p>\n<p> Tom&eacute; insistiu: &#8212; N&atilde;o, filha; para que h&aacute;s-de<br \/>\n    ser t&atilde;o apressada? Valha-te Deus.<\/p>\n<p> Pensa e depois resolver&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; resolvi, meu pai &#8212; repetiu Berta com firmeza. &#8212;<br \/>\n    Clemente &eacute; um homem honrado, eu n&atilde;o posso aspirar a mais. Dizem<br \/>\n    que &eacute; uma alma generosa, h&aacute;-de estimar-me, eu n&atilde;o procuro<br \/>\n    outras delicadezas al&eacute;m daquelas que sabem poupar-nos uma ofensa imerecida.<br \/>\n    E &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil evitar ofender uma rapariga como eul E,<br \/>\n    dizendo isto, desviava na direc&ccedil;&atilde;o de Jorge um olhar intencional.<\/p>\n<p> &#8212; Pode mandar dizer a Clemente que aceito, meu pai &#8212; repetiu<br \/>\n    ela, concluindo.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc; l&aacute; ! Olha que eu n&atilde;o quero que te constranjas<br \/>\n    ! E agora deixa-me tamb&eacute;m falar a tua m&atilde;e, que sem a ouvir n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bom decidir nada. Espera-me aqui um pouco, que eu vou cham&aacute;-la.<\/p>\n<p> E, sem aguardar reflex&otilde;es, Tom&eacute;, &igrave;ntimamente satisfeito<br \/>\n    com a pronta condescend&ecirc;ncia de sua filha, saiu da sala em procura de<br \/>\n    Luisa.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o desejaria conservar-se mais tempo ali, s&oacute;, na presen&ccedil;a<br \/>\n    de Berta, mas faltou-lhe o &acirc;nimo para levantar-se. Ambos se conservaram<br \/>\n    calados por algum tempo.<\/p>\n<p> Jorge nem levantara os olhos do livro.<\/p>\n<p> Berta foi quem primeiro rompeu aquele glacial sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8212; Devo-lhe agradecer, Sr. Jorge, o muito cuidado que lhe merece a<br \/>\n    minha felicidade.<\/p>\n<p>Jorge ergueu a cabe&ccedil;a e fitou os olhos no semblante de Berta.<\/p>\n<p> A viol&ecirc;ncia que ela fazia para reprimir a sua profunda como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era bem manifesta.<\/p>\n<p> &#8212; Espero que Berta se n&atilde;o decidisse pelo partido que adoptou,<br \/>\n    sen&atilde;o por sua livre vontade &#8212; disse Jorge com mais brandura do<br \/>\n    que at&eacute; ali &#8212; e que a minha inger&ecirc;ncia em tudo isto n&atilde;o<br \/>\n    influisse de maneira alguma para obrig&aacute;-la a sacrificar a sua felicidade.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! por certo que n&atilde;o &#8212; atalhou Berta cada vez mais<br \/>\n    agitada &#8212; eu sou&#8230; hei-de ser muito feliz&#8230;<\/p>\n<p> E, n&atilde;o podendo reter mais tempo as l&aacute;grimas que lhe subiam<br \/>\n    impetuosas aos olhos, ocultou o rosto entre as m&atilde;os e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a chorar.<\/p>\n<p> Jorge aproximou-se dela com compassiva solicitude.<\/p>\n<p> &#8212;Porque chora, Berta? &#8212; perguntou ele com afabilidade.&#8212;<br \/>\n    Se por acaso foi contra sua vontade que deu aquela resposta, ainda est&aacute;<br \/>\n    em tempo. Ningu&eacute;m lhe pede um sacrif&iacute;cio, repare. Porque chora<br \/>\n    assim, Berta? Em vez de responder, Berta elevando para Jorge os olhos banhados<br \/>\n    de l&aacute;grimas, perguntou com a voz tr&eacute;mula ainda : &#8212; Ficar&aacute;<br \/>\n    pelo menos extinta de uma vez com este sacrif&iacute;cio a avers&atilde;o<br \/>\n    que me tem, Sr. Jorge? Jorge estremeceu.<\/p>\n<p> &#8212; A avers&atilde;o que lhe tenho?! Que diz, Berta? Pois imagina?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E quer ainda neg&aacute;-la? N&atilde;o sei em que lha tenho merecido,<br \/>\n    mas existe, e bem clara se manifestou agora.<\/p>\n<p> &#8212; Bertal&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o lho disse eu j&aacute; no outro dia? E agora o que o<br \/>\n    moveu a encarregar-se dessa proposta? e porque o fez com aquelas palavras<br \/>\n    cru&eacute;is? Eu bem as percebi. Meu Deus, em que foi que o ofendi, Sr. Jorge,<br \/>\n    para ser t&atilde;o severo comigo, quando para com todos &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    indulgente? A minha educa&ccedil;&atilde;o&#8230; Deus sabe se me deixei fascinar<br \/>\n    por ela.<\/p>\n<p> Deus sabe se n&atilde;o lutei sempre contra a imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando ela me fazia conceber loucuras como a todas as raparigas da minha idade.<\/p>\n<p> Quem pode condenar-me por elas, se eu sou a primeira que as condeno? Em<br \/>\n    que tenho mostrado esses defeitos de educa&ccedil;&atilde;o, que t&atilde;o<br \/>\n    severamente me censura? Se soubesse, Sr. Jorge, como, percebendo o seu desd&eacute;m,<br \/>\n    tenho sido escrupulosa em procurar em todos os meus actos o motivo dele&#8230;<br \/>\n    Deus &eacute; testemunha de que nada descobri&#8230; Fale, j&aacute; agora que<br \/>\n    est&aacute; consumado o sacrif&iacute;cio, j&aacute; agora que deve julgar<br \/>\n    satisfeita a expia&ccedil;&atilde;o que me imp&ocirc;s, tenho direito a exigir<br \/>\n    de si o cumprimento da promessa, que h&aacute; poucos dias n&atilde;o ousou<br \/>\n    recusar-me.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc;, se descobriu em mim culpas, para remir as quais me marcou<br \/>\n    esta penit&ecirc;ncia, bem v&ecirc; que com resigna&ccedil;&atilde;o eu a<br \/>\n    aceito e a cumpro.<\/p>\n<p> Valha-me pelo menos este pouco m&eacute;rito para obter da sua parte uma<br \/>\n    declara&ccedil;&atilde;o franca, j&aacute; que n&atilde;o pode valer-me&#8230;<br \/>\n    a sua amizade. Fale, Sr. Jorge, diga-me porque me quer mal, o que fiz eu,<br \/>\n    que m&aacute;s qualidades descobriu em mim para me tratar como trata? Fale.<\/p>\n<p>E a como&ccedil;&atilde;o cortava-lhe em meio as palavras ao dizer isto.<br \/>\n    Jorge n&atilde;o estava menos comovido.<\/p>\n<p> Berta deixara-se cair solu&ccedil;ando em uma cadeira, e escondia o rosto<br \/>\n    entre as m&atilde;os. Jorge, cujo semblante j&aacute; n&atilde;o conservava<br \/>\n    vest&iacute;gios da sua fria e habitual reserva, veio sentar-se junto dela,<br \/>\n    tomou-lhe afectuosamente as m&atilde;os e, dirigindo-se-lhe com brandura,<br \/>\n    disse-lhe : &#8212; Vou satisfaz&ecirc;-la, Berta ; vou ser sincero e leal<br \/>\n    consigo, j&aacute; que assim o quer. Escute-me, e saber&aacute; a causa oculta<br \/>\n    de todo o meu estranho procedimento. Olhe bem para mim, Berta, para 1er no<br \/>\n    meu semblante a sinceridade da minha confiss&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta ergueu para ele os olhos h&uacute;midos de pranto.<\/p>\n<p> Jorge prosseguiu, apertando-lhe com mais fervor as m&atilde;os, que conservava<br \/>\n    nas suas : &#8212; A causa &iacute;ntima, a causa oculta das minhas ac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para consigo, Berta, essa causa misteriosa, que eu procurava esconder da vista<br \/>\n    de todos e sufocar no meu cora&ccedil;&atilde;o&#8230; quer sab&egrave;-la, Berta?<br \/>\n    Essa causa &eacute; o muito amor que lhe tenho.<\/p>\n<p> Berta estremeceu, e, retirando as m&atilde;os das de Jorge, levou-as ao<br \/>\n    rosto, como para reprimir um grito.<\/p>\n<p> Jorge prosseguiu: &#8212; Agora h&aacute;-de escutar-me, Berta. Os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    reservados, como o meu, quando chegam a soltar a primeira confidencia, precisam<br \/>\n    de se revelar inteiros ; escute-me. Amo-a ; amava-a antes mesmo de a ver depois<br \/>\n    do seu regresso &agrave; aldeia. Insinuou-se-me na alma este amor no meio<br \/>\n    das minhas preocupa&ccedil;&otilde;es e dos meus cuidados, sem eu bem saber<br \/>\n    como. Ouvia falar de si a seu pai; lia as suas cartas, pensava em si e&#8230;<br \/>\n    e amei-a. Foi o meu primeiro amor. Nunca tinha sentido outro, nunca sentira<br \/>\n    at&eacute; a necessidade de amar. Nenhuma mulher me havia escutado uma s&oacute;<br \/>\n    palavra de galanteio. Persuadira-me eu pr&oacute;prio de que o meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era superior &agrave; viol&ecirc;ncia dos afectos, a que os outros cediam.<br \/>\n    Quando, pelo que senti, me vi for&ccedil;ado a abandonar esta cren&ccedil;a,<br \/>\n    quando comecei a duvidar da minha imunidade, assustei-me e irritei-me contra<br \/>\n    mim mesmo por me achar fraco. Quis lutar e vencer essa paix&atilde;o que,<br \/>\n    a despeito da minha vontade, sentia ocupar cada vez mais espa&ccedil;o no<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o. Ai, Berta, come&ccedil;ou para mim uma luta extenuadora<br \/>\n    ; quanto mais resistia, tanto mais me sentia subjugado. Revoltei-me contra<br \/>\n    a fatalidade deste afecto, revoltei-me contra si, Berta, a quem desejava querer<br \/>\n    mal por o muito que a amava j&aacute;. Da&iacute; a rudeza das minhas palavras,<br \/>\n    a quase hostilidade do meu proceder para consigo. Para apagar o prest&iacute;gio<br \/>\n    que o seu nome, que a sua imagem tinha adquirido no meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    supunha-lhe defeitos imagin&aacute;rios, inventava-lhe v&iacute;cios de educa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    procurava assim alienar de si os meus afectos, antes que chegasse o temido<br \/>\n    momento de v&ecirc;-la; em v&atilde;o, cada vez a amava mais, e, no dia em<br \/>\n    que finalmente a tornei a ver, conheci que era irremedi&aacute;vel aquela<br \/>\n    fatalidade ; amava-a muito e tanto, que at&eacute; ci&uacute;mes sentia j&aacute;.<\/p>\n<p>Berta a estas palavras levantou os olhos para ele.<\/p>\n<p> Jorge prosseguiu, respondendo &agrave;quele gesto: &#8212; Ci&uacute;mes,<br \/>\n    sim, Berta : ci&uacute;mes que ralavam, ci&uacute;mes que me enchiam de remorsos,<br \/>\n    e que envenenavam quase o afecto que me ligava a meu irm&atilde;o. Porque<br \/>\n    era dele que os sentia. Veja que m&aacute; loucura a minha! &Eacute; a Maur&iacute;cio<br \/>\n    que Berta ama, pensava eu; seduzem-na as qualidades brilhantes de meu irm&atilde;o,<br \/>\n    e contudo ele n&atilde;o a ama como eu.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o indignava-me contra si, Berta, e contra mim pr&oacute;prio,<br \/>\n    porque a amava tanto.<\/p>\n<p> A uma pequena pausa, que Jorge fez na sua apaixonada exposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Berta ergueu outra vez os olhos para ele, e nesse olhar ia a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daqueles ci&uacute;mes.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge continuou: &#8212; E porque me assustava tanto este amor ?<br \/>\n    Porque tentava resistir- lhe assim? Ao princ&iacute;pio foi pela estranheza<br \/>\n    que me causou este sentimento novo e desconhecido ; depois, o receio de que<br \/>\n    fosse descoberto este amor em um homem que todos supunham incapaz de amar<br \/>\n    ; um quase pudor do cora&ccedil;&atilde;o. Finalmente veio a reflex&atilde;o<br \/>\n    aumentar estes receios. Se este afecto crescesse e me dominasse como paix&atilde;o<br \/>\n    violenta e exclusiva, que obst&aacute;culos n&atilde;o teria a vencer ! que<br \/>\n    preconceitos n&atilde;o teria de calcar ! Desprezando arreigados preju&iacute;zos<br \/>\n    de meu pai, incorrera eu j&aacute; nas suas iras, mas dessa vez desatendi-os,<br \/>\n    menos pela minha felicidade, do que pela dele ; para salvar o nome e a honra<br \/>\n    da nossa fam&iacute;lia, a cuja avilta&ccedil;&atilde;o meu pai n&atilde;o<br \/>\n    sobreviveria. Tive por isso coragem para lutar e tenho-a para prosseguir.<br \/>\n    Mas agora tratava-se somente da minha felicidade ; era s&oacute; a ela que<br \/>\n    eu teria de sacrificar os preconceitos, o orgulho, as radicadas opini&otilde;es<br \/>\n    daquele honrado velho. Faltava- me o alento para tent&aacute;-lo. Preferia<br \/>\n    dar-lhe em holocausto o meu cora&ccedil;&atilde;o. E o sacrif&iacute;cio devia<br \/>\n    ser definitivo, porque a mem&oacute;ria de meu pai o exigiria de mim, impor-mo-ia<br \/>\n    t&atilde;o fortemente como ele pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> Mas, se este amor fosse correspondido, faltar-me-ia o &acirc;nimo e at&eacute;<br \/>\n    o direito de o sacrificar assim. Por isso fugi de me revelar, Berta, por isso<br \/>\n    tentei antes fazer-me aborrecido do que estimado de si, de quem eu apreciaria<br \/>\n    o amor como um dom do C&eacute;u. Creia. Por isso aceitei com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a despeda&ccedil;ar-se-me, mas com certo doloroso prazer, a miss&atilde;o<br \/>\n    de que me encarregou Clemente. Deus sabe o que eu sofria h&aacute; pouco.<br \/>\n    A sua condescend&ecirc;ncia torturava-me, nas suas hesita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    julgava descobrir vest&iacute;gios de uma afei&ccedil;&atilde;o&#8230; por Maur&iacute;cio.<br \/>\n    Da&iacute; vieram todas as loucuras que eu disse. Eis o segredo do meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Berta, eis o mist&eacute;rio das minhas ac&ccedil;&otilde;es. Agora julgue-me<br \/>\n    e perdoe-me. Bem v&ecirc; que tamb&eacute;m sofro.<\/p>\n<p> E, terminando estas palavras, Jorge inclinou a fronte sobre a m&atilde;o,<br \/>\n    como se o esfor&ccedil;o que fizera o tivesse extenuado.<\/p>\n<p> Berta foi desta vez a que primeiro interrompeu aquele sil&ecirc;ncio eloquente<br \/>\n    de paix&atilde;o ; com a voz ainda sobressaltada, mas com o olhar seguro,<br \/>\n    ela respondeu apertando a m&atilde;o de Jorge: <\/p>\n<p>&#8212; A sua confidencia leal e a sua generosidade deu-me coragem de ser<br \/>\n    tamb&eacute;m sincera. Jorge, repare, sem o menor receio nem hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    com o olhar erguido diante do seu, vencida por a confian&ccedil;a que se sente<br \/>\n    em uma alma t&atilde;o nobremente generosa, tamb&eacute;m lhe fa&ccedil;o<br \/>\n    a minha confidencia. Jorge&#8230; eu tamb&eacute;m o amava&#8230;<\/p>\n<p> Jorge ergueu a cabe&ccedil;a ao ouvir a inesperada declara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e pot momentos brilhou-lhe no rosto um clar&atilde;o de alegria.<\/p>\n<p> Berta, baixando timidamente os olhos, continuou: &#8212; Sim, tamb&eacute;m<br \/>\n    o amava ; mas tamb&eacute;m tinha compreendido a necessidade do sacrif&iacute;cio<br \/>\n    de que fala, e n&atilde;o serei decerto eu quem lhe tire o &acirc;nimo de<br \/>\n    realiz&aacute;-lo. &Eacute; antes para lhe dar coragem que lhe falo assim<br \/>\n    ; para que a certeza de que algu&eacute;m sofre consigo lhe d&ecirc; al&iacute;vio<br \/>\n    no sofrimento. Venero e estimo seu pai, como se fosse o meu, Jorge, e para<br \/>\n    lhe evitar uma dor, n&atilde;o acho grande o sacrif&iacute;cio do meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e dos meus afectos. E agora muito menos ; deu-me a certeza de que me n&atilde;o<br \/>\n    despreza. Era essa suspeita que me torturava. Agora sou feliz, e sinto-me<br \/>\n    corajosa. Encaro sem desalento o meu dever e o meu futuro. N&atilde;o ser&atilde;o<br \/>\n    obst&aacute;culos os sentimentos da minha alma; porque neles sinto eu antes<br \/>\n    aux&iacute;lio. &Eacute; desta natureza o amor que lhe tenho, Jorge. Amando-o,<br \/>\n    aceitarei sem remorsos a proposta de Clemente.<\/p>\n<p> V&ecirc;? &Eacute; porque este afecto enobrece, e enquanto o sentir n&atilde;o<br \/>\n    receio de me tornar indigna dele. Apenas falarei com lealdade a meu noivo,<br \/>\n    para dizer-lhe que n&atilde;o posso prometer-lhe amor, porque o n&atilde;o<br \/>\n    sinto por ele.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Berta, n&atilde;o ; n&atilde;o aceite a proposta de<br \/>\n    Clemente. Se &eacute; verdade que me ama, n&atilde;o aceite&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o, Jorge? Creia-me. &Eacute; a mais segura maneira<br \/>\n    de vencermos este sentimento, que a nosso pesar nos dominou. Ambos n&oacute;s<br \/>\n    respeitamos muito o dever. Ele nos dar&aacute; coragem.<\/p>\n<p> &#8212; Berta, diga outra vez que me ama; diga-me que me iludi sempre em<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o aos seus sentimentos, e eu vencerei as resist&ecirc;ncias<br \/>\n    que se opuserem a este amor, como tenho vencido as que lutavam contra os projectos<br \/>\n    que formei de salvar a minha casa de ru&iacute;na.<\/p>\n<p> &#8212; Que diz, Jorge? Nunca me poder&aacute; vir a felicidade da disc&oacute;rdia<br \/>\n    da sua fam&iacute;lia, e bem v&ecirc; que era inevit&aacute;vel. Eu sou a<br \/>\n    filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa, lembro-me disso, Jorge ; de Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa, o antigo criado da Casa Mourisca ; o homem de quem o Sr.<br \/>\n    D. Luis recebe os servi&ccedil;os como humilha&ccedil;&otilde;es e insultos.<br \/>\n    Seu pai estima-me ; ainda h&aacute; bem pouco me aben&ccedil;oou, como se<br \/>\n    eu fosse sua filha. N&atilde;o queira obrigar-me a perder essa estima, que<br \/>\n    tanto prezo. N&atilde;o seria feliz depois ; n&atilde;o podia s&ecirc;-lo.<br \/>\n    Assim conservarei a amizade de todos&#8230; porque o Sr. Jorge h&aacute;-de estimar-me<br \/>\n    sempre, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212; Hei-de ador&aacute;-la, Berta<br \/>\n    &#8212; murmurou Jorge, submetido.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos ; procedamos agora como se nada se passasse entre n&oacute;s.<br \/>\n    Ganhemos coragem para cada um cumprir o seu dever, e separetno- nos como bons<br \/>\n    amigos.<\/p>\n<p>E, comovida ainda, estendeu a m&atilde;o a Jorge, que a levou apaixonadamente<br \/>\n    aos l&aacute;bios, cobrindo-a de beijos.<\/p>\n<p> &#8212; Berta, Berta, n&atilde;o ser&aacute; quase um crime o que fazemos?<br \/>\n    Despedirmo- nos assim, quando pela primeira vez nos revelamos? &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    Jorge, n&atilde;o &eacute;. &Eacute; um dever&#8230; doloroso, mas &eacute; um<br \/>\n    dever.<\/p>\n<p> Ouviram-se as vozes de Tom&eacute; e de Luisa, que voltavam.<\/p>\n<p> Jorge ergueu-se sobressaltado : &#8212; N&atilde;o posso simular a placidez<br \/>\n    necess&aacute;ria para falar-lhes e ouvi- -los falar neste casamento, Berta;<br \/>\n    como hei-de ter &acirc;nimo para o presenciar? Adeus, e se lhe faltar a coragem&#8230;<br \/>\n    tudo se remediar&aacute; ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. N&atilde;o fraquejaremos.<\/p>\n<p> E Jorge saiu da sala para n&atilde;o se encontrar com Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Berta recebeu os pais j&aacute; com os olhos enxutos, ainda que agitada<br \/>\n    pela viol&ecirc;ncia da &uacute;ltima cena.<\/p>\n<p> Luisa parecia mediocremente encantada com a perspectiva do casamento que<br \/>\n    tanto satisfazia Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o &eacute; verdade, Berta? E tu quere-lo? &#8212; perguntou<br \/>\n    ela em tom de quem duvidava.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, minha m&atilde;e, julgo que devo aceitar.<\/p>\n<p> &#8212; E&#8230; e o Sr. Jorge tamb&eacute;m te aconselhou? &#8212; Sim &#8212;<br \/>\n    respondeu Berta mais enleada &#8212; o Sr. Jorge &eacute; de parecer que sim.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; se retirou? &#8212; perguntou Tom&eacute; da P&oacute;voa,<br \/>\n    procurando-o com a vista.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute;. Disse que n&atilde;o podia demorar-se. E eu pe&ccedil;o<br \/>\n    licen&ccedil;a para me retirar tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> E Berta apressou-se a sair da sala para se esconder no seu quarto e chorar.<\/p>\n<p> &#8212; Enfim ! &#8212; concluiu Luisa, suspirando, e depois de seguir a<br \/>\n    filha com a vista. &#8212; Voc&ecirc;s l&aacute; o l&ecirc;em, l&aacute; o<br \/>\n    entendem. Mas n&atilde;o era isto que eu esperava.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que esperavas tu? &#8212; perguntou Tom&eacute;, levemente<br \/>\n    despeitado.<\/p>\n<p> &#8212; Julgavas talvez que viria por a&iacute; algum pr&iacute;ncipe pedir-te<br \/>\n    a filha para casar? &#8212; Eu c&aacute; me entendo.<\/p>\n<p> &#8212; E eu tamb&eacute;m me entendo. Que ainda ningu&eacute;m te pode<br \/>\n    tirar da cabe&ccedil;a umas teias de aranha que l&aacute; se meteram. Agora<br \/>\n    pelo menos deves estar desenga&ntilde;ada.<\/p>\n<p> Luisa suspirou e n&atilde;o deu resposta. Mas pensava consigo: &#8212; Berta<br \/>\n    j&aacute; eu vi, e a cara n&atilde;o &eacute; de noiva contente. Tenho pena<br \/>\n    de n&atilde;o ver a dele. Mas, enfim, seja o que Deus quiser I<\/p>\n<h2>XXVIII<\/h2>\n<p>TINHAM decorrido alguns dias desde que a baronesa principiara a receber de<br \/>\n    Maur&iacute;cio sinais inequ&iacute;vocos de um galanteio, que ela com as<br \/>\n    mais louv&aacute;veis inten&ccedil;&otilde;es favorecia.<\/p>\n<p> Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrara &agrave; sua nova paix&atilde;o<br \/>\n    todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. N&atilde;o perdia<br \/>\n    a menor ocasi&atilde;o de se encontrar com a prima e de renovar as cenas,<br \/>\n    que a agudeza de g&egrave;nio e a vivacidade de esp&iacute;rito de Gabriela<br \/>\n    sabiam rodear de atractivos inteiramente novos para a inexperi&ecirc;ncia<br \/>\n    do apaixonado mo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Em &eacute;poca alguma tinham os criados conhecido Maur&iacute;cio t&atilde;o<br \/>\n    caseiro como ent&atilde;o ; cessaram as suas correr&iacute;as pelos arredores,<br \/>\n    e os cavalos s&oacute; eram por ele tirados da ociosidade quando Gabriela<br \/>\n    se lembrava de passear pelos campos. Maur&iacute;cio era ent&atilde;o certo<br \/>\n    a acompanh&aacute;-la.<\/p>\n<p> Este estado de coisas inquietava, por&eacute;m, a baronesa.<\/p>\n<p> Caracteres como o de Maur&iacute;cio, por muito os ver na roda da sociedade<br \/>\n    em que vivia, j&aacute; para ela n&atilde;o tinham segredos n&atilde;o estudados.<\/p>\n<p> N&atilde;o confiava tanto no prest&iacute;gio que actualmente exercia no<br \/>\n    &acirc;nimo do seu jovem e vol&uacute;vel primo, que n&atilde;o temesse a<br \/>\n    influ&ecirc;ncia que poderia exercer sobre ela a monotonia das impress&otilde;es<br \/>\n    da vida que ele passava nos Bacelos.<\/p>\n<p> A baronesa tinha, &eacute; verdade, imensos recursos para vari&aacute;-las.<\/p>\n<p> Estava ainda longe de os dar&#8217;por esgotados. Quando Maur&iacute;cio julgava<br \/>\n    ter conhecido a verdadeira fei&ccedil;&atilde;o moral de Gabriela, eia desiludia-o<br \/>\n    impressionando-o sob uma fei&ccedil;&atilde;o nova.<\/p>\n<p> uma vezes falava-lhe com uma seriedade maternal ; outras parecia abrir-se-lhe<br \/>\n    na mais fraternal expans&atilde;o ; mostrava-se-lhe mais tarde reservada e<br \/>\n    discreta; depois sat&iacute;rica e espirituosa, sempre cheia de encantos,<br \/>\n    que com perfeit&iacute;ssimo conhecimento e uso da arte sabia fazer real&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Apesar disso, por&eacute;m, a baronesa antevia perigos na prolonga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela vida mon&oacute;tona, e sentia a necessidade de dar um golpe decisivo.<\/p>\n<p> Era preciso partir para Lisboa e obrigar Maur&iacute;cio a segui-la.<\/p>\n<p> A demora deste projecto poderia malogr&aacute;-lo. Resolveu portanto apressar<br \/>\n    a sua partida.<\/p>\n<p> uma circunst&acirc;ncia, por&eacute;m, a tornara dif&iacute;cil.<\/p>\n<p> Os sucessivos desgostos que tinham ferido o cora&ccedil;&atilde;o de D.<br \/>\n    Luis, a resigna&ccedil;&atilde;o que ele fizera dos seus antigos h&aacute;bitos,<br \/>\n    a homizia&ccedil;&atilde;o a que condenou sucessivamente ambos os filhos,<br \/>\n    as saudades avivadas de Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperan&ccedil;as<br \/>\n    de melhor futuro, e porventura com remorsos do passado, todas estas influ&ecirc;ncias<br \/>\n    acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo e por acabrunh&aacute;-lo<br \/>\n    e envelhec&ecirc;-lo em poucos dias, como se estes se contassem por anos.<\/p>\n<p> Nada o distra&iacute;a. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr&oacute;ra<br \/>\n    a chama legitimista, que lhe abrasava o cora&ccedil;&atilde;o, enfastiavam-no,<br \/>\n    e tinham sido intencionalmente desviadas pela baronesa ; a companhia e a conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de frei Janu&aacute;rio n&atilde;o as podia j&aacute; aturar sem impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    ; perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir h&aacute;bitos progressivamente<br \/>\n    sedent&aacute;rios.<\/p>\n<p> Interrompeu os seus passeios ; deixou de aparecer &agrave; mesa, jantava<br \/>\n    e almo&ccedil;ava no quarto, e acabou por passar quase todo o dia na cama,<br \/>\n    debilitando-se nesta inac&ccedil;&atilde;o a olhos vistos.<\/p>\n<p> Gabriela via com cuidado os sintomas deste crescente abatimento f&iacute;sico<br \/>\n    e moral, e procurava combat&ecirc;-lo por todos os meios.<\/p>\n<p> Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas<br \/>\n    as gra&ccedil;as que o esp&iacute;rito e o estudo lhe sugeriam, conseguia<br \/>\n    distra&iacute;-lo e chegava at&eacute; a faz&ecirc;-lo sorrir.<\/p>\n<p> Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que,<br \/>\n    no dizer dela, pudessem ado&ccedil;ar as cruezas do g&ecirc;nio do fidalgo<br \/>\n    e amaciar-lhe as asperezas das suas escamas aristocr&aacute;ticas. Quantas<br \/>\n    ocasi&otilde;es D. Luis escutava atento e comovido os epis&oacute;dios de<br \/>\n    certos livros, mansamente revolucion&aacute;rios, e abria desprevenido o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, t&atilde;o ocultas elas<br \/>\n    se lhe insinuavam entre os artif&iacute;cios da concep&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    da linguagem ! A baronesa tinha muita f&eacute; nesta vacina liter&aacute;ria.<\/p>\n<p> O resultado, por&eacute;m, de tudo isto foi que assim que ela tentou partir<br \/>\n    para Lisboa, encontrou no tio uma relut&acirc;ncia com que n&atilde;o havia<br \/>\n    contado.<\/p>\n<p> O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado &agrave; companhia<br \/>\n    daquela mulher cheia de vida, de intelig&ecirc;ncia e de alegria, e queria-lhe<br \/>\n    com o apego que, nessas idades, a alma contrai a todas as imagens que lhe<br \/>\n    recordam o tempo em que se conheceu jovem e vigorosa.<\/p>\n<p> D. Luis experimentava quase um secreto terror ao lembrar-se de que a baronesa<br \/>\n    o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu melanc&oacute;lico<br \/>\n    leito, assim que ela partisse? Os filhos afastara-os para longe de si, em<br \/>\n    castigo dos delitos com que tanto o haviam ofendido.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio era-lhe insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Mas ficar s&oacute;, viver s&oacute;, pensar s&oacute;, ali naquela casa<br \/>\n    que nem era sua, s&oacute; nas suas longas e melanc&oacute;licas vig&iacute;lias,<br \/>\n    com as escuras mem&oacute;rias do seu passado, com as sombrias apreens&otilde;es<br \/>\n    pelo futuro&#8230; esta id&eacute;ia aterrava-o. Quando Gabriela aludia &agrave;<br \/>\n    sua pr&oacute;xima partida, ele desviava o sentido da conversa e claramente<br \/>\n    lhe pedia que n&atilde;o falasse nisso.<\/p>\n<p> A baronesa via-se, pois, obrigada a transferir indefinidamente o seu projecto<br \/>\n    de deixar a aldeia.<\/p>\n<p> Contudo, cada dia que se demorava nos Bacelos, contava-o ela como uma probabilidade<br \/>\n    menos a favor dos seus planos.<\/p>\n<p>Esta dif&iacute;cil situa&ccedil;&atilde;o, em que se via, obrigava-a a pensar<br \/>\n    s&egrave;riamente no partido que devia adoptar.<\/p>\n<p> Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa, sem<br \/>\n    causar a D. Luis o desgosto e a pena que, no estado de sa&uacute;de e de esp&iacute;rito<br \/>\n    em que o via, ela receava que lhe pudesse ser fatal.<\/p>\n<p> uma manh&atilde; foi ela procurar o seu primo Jorge, muito convencida de<br \/>\n    que tinha enfim descoberto o expediente que procurava.<\/p>\n<p> Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustara o casamento<br \/>\n    de Berta. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez que lhe amortecesse<br \/>\n    as dores no cora&ccedil;&atilde;o, que aquele facto lhe produzira. Mas a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    do esfor&ccedil;o cansava-o, e bem claro o revelava na palidez e depress&atilde;o<br \/>\n    da fisionomia.<\/p>\n<p> Gabriela n&atilde;o p&ocirc;de deixar de fazer uma observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mal o viu aquela manh&atilde;: &#8212; &Eacute; preciso cautela, primo Jorge.<br \/>\n    Nada de trabalho imoderado I Lembra-te de que a tua constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; para tais fadigas.<\/p>\n<p> &#8212; Porque me diz isso ? &#8212; Porque te estou lendo no rosto a necessidade<br \/>\n    de ar livre, de sol, de exerc&iacute;cio e de distrac&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    pensamento.<\/p>\n<p> &#8212; Efeitos de uma noite mal passada. Eu n&atilde;o me sinto cansado.<\/p>\n<p> &#8212; Embora. S&ecirc; prudente. Olha que o bom &ecirc;xito dos teus planos<br \/>\n    depende da tua perseveran&ccedil;a, e a tua perseveran&ccedil;a est&aacute;<br \/>\n    mais na combina&ccedil;&atilde;o dos esfor&ccedil;os do que na viol&ecirc;ncia<br \/>\n    deles.<\/p>\n<p> &#8212; Creia que me sei poupar.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem. Agora far&aacute;s o favor de fechar esses livros e de<br \/>\n    me escutar, porque tenho que te dizer.<\/p>\n<p> &#8212; &Agrave;s suas ordens &#8212; respondeu Jorge, obedecendo-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Entrarei sem demora no assunto. Sabes que formei o plano de partir<br \/>\n    amanh&atilde; pela madrugada para Lisboa? &#8212; Ent&atilde;o que urg&ecirc;ncias<br \/>\n    s&atilde;o essas ? &#8212; &Euml; que se n&atilde;o tomo uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    assim, n&atilde;o acabo de partir.<\/p>\n<p> Vou de adiamento em adiamento at&eacute; ao fim do ano. E &eacute; indispens&aacute;vel<br \/>\n    que parta.<\/p>\n<p> &#8212; Indispens&aacute;vel ! &#8212; repetiu Jorge com ar de d&uacute;vida.<\/p>\n<p> &#8212; com certeza que &eacute;. Al&eacute;m de que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    arranjarmos Maur&iacute;cio. H&aacute;s-de concordar comigo, que esta vida<br \/>\n    perde-o. Cada dia que se passa para ele nesta ociosidade campestre, exerce<br \/>\n    uma funesta influ&ecirc;ncia sobre aquele car&aacute;cter, ali&aacute;s de<br \/>\n    muito aproveit&aacute;veis qualidades.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; assim. Por&eacute;m Maur&iacute;cio que parta s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o partir&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc;? Gabriela hesitou em dar a raz&atilde;o que Jorge lhe<br \/>\n    pedia, e respondeu evasivamente: __&quot; &#8212; Sei que n&atilde;o partir&aacute;.<br \/>\n    Demais, &eacute; conveniente que eu lhe prepare o caminho em Lisboa, e por<br \/>\n    isso preciso de l&aacute; ir.<\/p>\n<p>&#8212; Por&eacute;m meu pai ? &#8212; Pois a&iacute; &eacute; que est&aacute;<br \/>\n    a dificuldade, e por causa disso &eacute; que eu reclamei esta confer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; O tio Luis est&aacute; bastante doente. Do<br \/>\n    corpo e do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Chega a dar-me cuidados. Naquele estado n&atilde;o pode prescindir de certos<br \/>\n    carinhos e desvelos, pr&oacute;prios s&oacute; de uma mulher. S&atilde;o-lhe<br \/>\n    ja t&atilde;o indispens&aacute;veis que ele, coitado, aterra-se somente com<br \/>\n    a id&eacute;ia de ter de viver sem eles. Por isso n&atilde;o quer ouvir falar<br \/>\n    na minha partida.<\/p>\n<p> A mim mesma me custa deix&aacute;-lo, porque sei que lhe hei-de fazer falta.<\/p>\n<p> &#8212; E contudo diz que parte amanh&atilde;! &#8212; &Eacute; verdade,<br \/>\n    porque julgo ter descoberto uma combina&ccedil;&atilde;o que remediar&aacute;<br \/>\n    tudo.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; &Eacute; preciso substituir-me. &Eacute;<br \/>\n    preciso sentar uma mulher &agrave; cabeceira do tio Luis, mas uma mulher que<br \/>\n    o estime, que olhe por ele, que o distraia e a quem ele consagre uma afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o fa&ccedil;a esquecer de mim, e que lhe torne essa enfermeira ainda mais<br \/>\n    necess&aacute;ria do que eu hoje lhe sou, e ningu&eacute;m mais est&aacute;<br \/>\n    neste caso do que a afilhada dele, essa rapariga por quem o tio parece haver<br \/>\n    j&aacute; manifestado uma particular simpatia, e quem melhor do que ningu&eacute;m<br \/>\n    pode vir a exercer sobre ele uma influ&ecirc;ncia salutar; numa palavra, Berta<br \/>\n    da P&oacute;voa, a filha do Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Jorge n&atilde;o p&ocirc;de reprimir um movimento de contrariedade ao escutar<br \/>\n    o projecto da baronesa.<\/p>\n<p> Ergueu-se da mesa, junto da qual estiver&agrave; sentado, e disse com certo<br \/>\n    modo sacudido, como exprimindo uma opini&atilde;o irrevog&aacute;vel: &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc; ? &#8212; perguntou Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc;?&#8230; porque n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Querer&aacute;s dar-te ao inc&oacute;modo de procurar outra raz&atilde;o<br \/>\n    mais l&oacute;gica, primo Jorge? &#8212; Meu pai n&atilde;o aceitaria os cuidados<br \/>\n    da filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> &#8212; Primeiro que tudo &eacute; preciso que consideres que o doente que<br \/>\n    eu deixo l&aacute; dentro n&atilde;o &eacute; j&aacute; aquele D. Luis que<br \/>\n    n&oacute;s ambos conhecemos na Casa Mourisca ; depois Berta para ele &eacute;<br \/>\n    raras vezes a filha do Tom&eacute;, &eacute; a amiga de Beatriz, &eacute;<br \/>\n    a imagem viva daquele anjo que ele ainda hoje chora. Teu pai n&atilde;o ter&aacute;<br \/>\n    coragem para afugentar Berta de junto do seu leito, e dif&iacute;cil ser&aacute;<br \/>\n    tir&aacute;-la de l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Tom&eacute; n&atilde;o consentiria&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O Tom&eacute; &eacute; um homem generoso e que, apesar de tudo,<br \/>\n    tem uma sincera afei&ccedil;&atilde;o ao tio Luis. Tu bem o sabes.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, afinal de contas, a principal objec&ccedil;&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    em que o primo n&atilde;o quei. E porque nao quer?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; isso, mas&#8230; De mais a mais Berta n&atilde;o<br \/>\n    viria decerto nesta ocasi&atilde;o, em que lhe n&atilde;o falta que fazer<br \/>\n    em casa.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que h&aacute; por l&aacute; ? &#8212; Os preparativos do casamento<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> &#8212; Do casamento de&#8230; quem?! &#8212; De Berta.<\/p>\n<p> A baronesa ficou desta vez verdadeiramente surpreendida.<\/p>\n<p> &#8212; De Berta ? ! Pois Berta casa-se ? ! &#8212; E em pouco tempo.<\/p>\n<p> &#8212; com quem ? &#8212; com o Clemente, o filho da minha ama, da Ana<br \/>\n    do Vedor.<\/p>\n<p> Gabriela permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de Jorge,<br \/>\n    como se quisesse devassai o que se passava no esp&iacute;rito do primo, ao<br \/>\n    dar-lhe em tom de indiferen&ccedil;a aquela not&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8212; Berta casa-se ! &#8212; repetiu ela. &#8212; E por sua vontade ?<br \/>\n    &#8212; Por certo. Quem a obrigaria? &#8212; Parece-me incr&iacute;vel. E<br \/>\n    que pensa o primo Jorge desse casamento ? &#8212; Acho-o t&atilde;o natural,<br \/>\n    que fui eu pr&oacute;prio que fiz a proposta.<\/p>\n<p> &#8212; A proposta do casamento ? I &#8212; Sim, a proposta do casamento.<\/p>\n<p> &#8212; A Berta? I &#8212; Ao pai e a ela.<\/p>\n<p> &#8212; E como te lembraste disso ? &#8212; Porque o Clemente me pediu.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! E condescendeste sem dificuldades ? &#8212; Porque n&atilde;o<br \/>\n    ? &#8212; E Berta tamb&eacute;m aceitou sem objec&ccedil;&otilde;es? &#8212;<br \/>\n    Sim, sem grande hesita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Jorge respondia a esta s&eacute;rie de perguntas de uma maneira constrangida,<br \/>\n    como quem ansiava por libertar-se depressa do inqu&eacute;rito.<\/p>\n<p> Nunca olhara directamente para a baronesa, que pelo contr&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\n    tirava dele os olhos, nem perdia os sinais de turba&ccedil;&atilde;o com que<br \/>\n    ele lhe respondia.<\/p>\n<p> Afinal Gabriela dirigiu-se ao primo no tom de resolu&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    quem se decide por um partido manifesto.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge, olha bem para mim.<\/p>\n<p> Jorge fitou na prima os olhos, admirado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; com indiferen&ccedil;a que v&ecirc;s realizar-se o casamento<br \/>\n    de Berta e que me est&aacute;s falando nele? Jorge corou intensamente &agrave;<br \/>\n    inesperada interpela&ccedil;&atilde;o, e tentou responder, ladeando: &#8212;<br \/>\n    com indiferen&ccedil;a n&atilde;o, decerto. Sou amigo do Tom&eacute;, e Berta<br \/>\n    &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A filha dele, bem sei. Deixemos esses parentescos. E j&aacute; que<br \/>\n    desejas que fale mais claro, pergunto-te : &Eacute; ou n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade que amas Berta?<\/p>\n<p>&#8212; Eu?! &#8212; Sim, tu. E repara no que v&atilde;o responder os l&aacute;bios,<br \/>\n    porque o rosto j&aacute; me respondeu.<\/p>\n<p> Jorge conheceu que n&atilde;o lhe era possivel dissimular; abra&ccedil;ou<br \/>\n    portanto o partido da franqueza, que lhe era mais congenial.<\/p>\n<p> &#8212;r Nesse caso era desnecess&aacute;ria outra resposta. Por&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o duvidarei em dar-lha. &Eacute; verdade que a amo.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso que quer dizer t&ocirc;da essa com&eacute;dia? &#8212;<br \/>\n    Quer dizer que eu e Berta estamos decididos a cumprir corajosamente o nosso<br \/>\n    dever. Ela, fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima, e realizando<br \/>\n    o papel de provid&ecirc;ncia de uma fam&iacute;lia, que &eacute; a mais gloriosa<br \/>\n    miss&atilde;o da mulher ; eu, votando-me todo &agrave; obra que empreendi,<br \/>\n    e procurando tornar tranquilos os &uacute;ltimos dias de meu pai neste mundo,<br \/>\n    sem lhe ir exacerbar as paix&otilde;es do seu cora&ccedil;&atilde;o irritado,<br \/>\n    para satisfazer as minhas.<\/p>\n<p> &#8212; A poesia dos meus sentimentos est&aacute; muito atrasada, ao que<br \/>\n    vejo. Dantes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos<br \/>\n    dos seus puros afectos. Eu sou das que l&ecirc;em por a cartilha desses tempos.<\/p>\n<p> &#8212; Os afectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos<br \/>\n    dos outros cora&ccedil;&otilde;es, ainda quando lhes s&atilde;o opostos. Respeitam-<br \/>\n    nos.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; muito sublime ; n&atilde;o entendo bem. Vamos a saber,<br \/>\n    primo Jorge, dar-se-&aacute; que ainda haja por a&iacute; uns fumozinhos de<br \/>\n    vaidade aristocr&aacute;tica ? &#8212; Em mim n&atilde;o a conhe&ccedil;o<br \/>\n    ; mas respeito-a naquele velho, em quem descarregaria o &uacute;ltimo golpe<br \/>\n    se n&atilde;o a respeitasse.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; esse o obst&aacute;culo? N&atilde;o vejo a&iacute; sen&atilde;o<br \/>\n    a necessidade de uma contemporiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o digo isso, prima. As contempla&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    tenho com meu pai, t&ecirc;-las-ei com a sua mem&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o &eacute; muito de crist&atilde;o supor que o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    feito &agrave; vaidade do vivo pode ser agrad&aacute;vel &agrave; alma, que<br \/>\n    deixou no sepulcro todos os preju&iacute;zos do barro em que se envolvia.<br \/>\n    Os preconceitos aristocr&aacute;ticos n&atilde;o sobem ao C&eacute;u ; quero<br \/>\n    cr&ecirc;-lo ; ficam nos sarc&oacute;fagos da fam&iacute;lia de mistura com<br \/>\n    as cinzas mortu&aacute;rias.<\/p>\n<p> &#8212; Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade,<br \/>\n    que se baseassem em um facto t&atilde;o funesto como esse a que alude.<\/p>\n<p> Em tais fundamentos n&atilde;o serei eu quem os edifique.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me h&aacute; dias que<br \/>\n    n&atilde;o se julgava com direito de sacrificar outra felicidade que n&atilde;o<br \/>\n    fosse a sua.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade. Mas n&atilde;o sou eu s&oacute; que tenho coragem.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! Ela tamb&eacute;m ? ! Visto isso concertaram ambos esse plano<br \/>\n    ? &Eacute; generoso, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida. Eu cada vez adoro<br \/>\n    mais a prov&iacute;ncia, onde se d&atilde;o umas raras plantas em cuja exist&ecirc;ncia<br \/>\n    quase n&atilde;o acreditava.<\/p>\n<p>Agora j&aacute; compreendo a oposi&ccedil;&atilde;o que encontra em ti o<br \/>\n    meu projecto.<\/p>\n<p> Depois da vossa her&oacute;ica resolu&ccedil;&atilde;o, &eacute; claro que<br \/>\n    devia contrariar-te a presen&ccedil;a de Berta nesta casa.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Concebe-se. Pois &eacute; pena, porque me agrada o projecto, e assim<br \/>\n    tem de ficar s&oacute; o tio Luis.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o parta.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; Alto l&aacute;. Por muito estranhos que me pare&ccedil;am<br \/>\n    os teus planos, viste que n&atilde;o lhes opus obst&aacute;culos, reclamo<br \/>\n    a mesma condescend&ecirc;ncia para com os meus.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m, meu pai?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei o que lhe fa&ccedil;a, primo. Pensa nisso a ver se<br \/>\n    at&eacute; &agrave; hora da partida me lembras alguma solu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Eu n&atilde;o acho.<\/p>\n<p> A baronesa retirou-se poucos momentos depois, aparentemente dissuadida da<br \/>\n    sua primeira id&eacute;ia.<\/p>\n<p> Chegando, por&eacute;m, ao seu quarto, sentou-se &agrave; secret&aacute;ria<br \/>\n    e, preparando uma folha de papel, escreveu com a sua mi&uacute;da caligrafia<br \/>\n    o seguinte : &laquo;Meu caro Sr. Tom&eacute; da P&oacute;voa: &laquo;Sou obrigada<br \/>\n    a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e muito sentido pela<br \/>\n    minha falta. Na idade em que ele est&aacute; e nas suas tristes disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de esp&iacute;rito d&aacute;-se muito apre&ccedil;o aos cuidados de uma mulher.<br \/>\n    A minha aus&ecirc;ncia deixa-o t&atilde;o s&oacute; e t&atilde;o sem conforto,<br \/>\n    que receio dos efeitos dela. Sei quais os ardentes desejos de vingan&ccedil;a<br \/>\n    que o Sr. Tom&eacute; tem contra meu tio e a &iacute;ndole dos actos com que<br \/>\n    os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para que se vingue a seu modo.<\/p>\n<p> &laquo;Sua muito respeitad- &laquo;Gabriela.&raquo; E depois de 1er o que<br \/>\n    escrevera, principiou a dobrar cuidadosamente a carta, murmurando: &#8212;<br \/>\n    A bom entendedor meia palavra basta.<\/p>\n<p> E ao lacrar e ao escrever o sobrescrito, dizia sorrindo: &#8212; O primo<br \/>\n    Jorge que tenha paci&ecirc;ncia e tome contra si pr&oacute;prio as precau&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que quiser.<\/p>\n<p> Depois tocou a campainha e mandou expedir quanto antes a carta de Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa. E na seq&uuml;&ecirc;ncia dos seus pensamentos murmurava<br \/>\n    : &#8212; E se o acaso lhe der para fazer das suas, l&aacute; se avenham.<br \/>\n    Eu lavo da&iacute; as m&atilde;os. &#8222;,:..<\/p>\n<p> E foi proceder aos preparativos da sua jornada nas mais joviais disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do esp&iacute;rito.<\/p>\n<h2> XXIX<\/h2>\n<p>A baronesa a ningu&eacute;m participou, al&eacute;m de Jorge, a sua partida<br \/>\n    para Lisboa. Havia muito tempo que os principais preparativos estavam feitos,<br \/>\n    e por isso o movimento dos criados, que lhe executavam as &uacute;ltimas ordens,<br \/>\n    n&atilde;o se tornou notado.<\/p>\n<p> Na v&eacute;spera &agrave; noite, Gabriela demorou-se mais tempo no quarto<br \/>\n    do tio e deu-lhe a entender que brevemente teria de deix&aacute;-lo por alguns<br \/>\n    dias, porque a sua presen&ccedil;a era necess&aacute;ria em Lisboa, mas que<br \/>\n    voltaria, e seria ent&atilde;o para demorar-se mais tempo.<\/p>\n<p> D. Luis mostrou a mesma oposi&ccedil;&atilde;o a esse projecto, que j&aacute;<br \/>\n    por vezes manifestara ; mas a baronesa desta vez insistiu mais e obrigou-o<br \/>\n    a conformar-se com a id&eacute;ia de uma separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte, &agrave;s horas a que o velho fidalgo costumava<br \/>\n    receber a primeira visita matinal da sobrinha, estava ele j&aacute; impaciente,<br \/>\n    porque ela lhe tardava.<\/p>\n<p> J&aacute; mais do que uma vez erguera os olhos para o mostrador do rel&oacute;gio<br \/>\n    fronteiro, e espreitara atrav&eacute;s das cortinas para a altura do Sol,<br \/>\n    e de cada vez que fizera esta observa&ccedil;&atilde;o, acabara-a suspirando.<\/p>\n<p> O pobre doente tinha tanta necessidade de falar com Gabriela! Havia nada<br \/>\n    menos do que um longo e complicado sonho a contar-lhe.<\/p>\n<p> E ela sem aparecer! Depois de muito esperar, D. Luis ouviu, enfim, mexer<br \/>\n    na chave da porta e voltou-se com ar de satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas a este vislumbre de esperan&ccedil;a sucedeu um movimento de impaci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Era frei Janu&aacute;rio quem entrara.<\/p>\n<p> O padre vinha com uns olhos de embasbacado, virando e revirando uma carta<br \/>\n    que trazia na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; ? O que quer, frei Janu&aacute;rio ? &#8212; perguntou<br \/>\n    D. Luis com impaci&ecirc;ncia n&atilde;o disfar&ccedil;ada. &#8212; Onde est&aacute;<br \/>\n    Gabriela ? Tenha a bondade de ir pedir-lhe o favor de vir falar-me.<\/p>\n<p> &#8212; A sr.&ordf; baronesa?&#8230; A&iacute; tem V. Ex.&ordf; as not&iacute;cias<br \/>\n    que posso dar- -lhe a respeito dela.<\/p>\n<p> E estendeu para o fidalgo a carta que trouxera.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc;?! que quer dizer? Not&iacute;cias dela? Ent&atilde;o<br \/>\n    Gabriela? &#8212; Partiu esta madrugada quase sem dizer &laquo;Deus te salve&raquo;<br \/>\n    a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Esta gente de hoje sempre tem umas maneiras esquisitas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Partiu! Gabriela partiu! sem se despedir de mim? &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    que quer V. Ex.&ordf; ? Costumes de agora. Tudo est&aacute; mudado.<\/p>\n<p> Ma&ccedil;onarias. Mas a&iacute; tem V. Ex.&ordf; uma carta que ela deixou.<\/p>\n<p> D. Luis pegou na carta meio tr&eacute;mulo e abriu-a.<\/p>\n<p> Era concebida nestes termos: <\/p>\n<p>&laquo;Perdoe-me, meu querido tio, a maneira s&uacute;bita por que o deixo.<\/p>\n<p> Julguei prefer&iacute;vel isto, porque me faltava o &acirc;nimo para despedidas<br \/>\n    que talvez o afligissem mais. Espero n&atilde;o prolongar por muito tempo<br \/>\n    a minha aus&ecirc;ncia. Seria conveniente que Mauricio viesse enquanto estou<br \/>\n    em Lisboa, Escrevo-lhe neste sentido e confio em que V. Ex.&ordf; lhe dar&aacute;<br \/>\n    permiss&atilde;o para ele vir ter comigo. Pe&ccedil;o-lhe que me espere nos<br \/>\n    Bacelos, onde em breve conto v&ecirc;-lo mais feliz e contente. At&eacute;<br \/>\n    l&aacute; tenho um pressentimento de que Deus h&aacute;-de providenciar para<br \/>\n    que n&atilde;o sinta muito a falta que eu lhe possa fazer. Conceda-me sempre<br \/>\n    a sua amizade e creia-me &laquo;Sua afectuosa e reconhecida sobrinha &laquo;Gabriela.&raquo;<br \/>\n    O fidalgo leu e releu a carta em sil&ecirc;ncio, suspirou, e voltando-se para<br \/>\n    o padre, disse-lhe simplesmente : &#8212; Tem a bondade de me deixar s&oacute;<br \/>\n    por um pouco, sr, frei Janu&aacute;rio ? O padre saiu do quarto, encolhendo<br \/>\n    os ombros.<\/p>\n<p> D. Luis tornou a 1er a carta, carregando-se-lhe de mais sombria tristeza<br \/>\n    o semblante, e deixou-se cair desalentado nos travesseiros.<\/p>\n<p> E ningu&eacute;m lhe ouviu aquela manh&atilde; tocar a campainha a chamar<br \/>\n    um criado para que lhe prestasse qualquer servi&ccedil;o que o seu estado<br \/>\n    de sa&uacute;de exigia, e se um ou outro, mais cuidadoso, espontaneamente<br \/>\n    se apresentava a receber-lhe as ordens, era despedido com rudeza, recaindo<br \/>\n    ele na esp&eacute;cie de so&ntilde;olencia em que depois da leitura da carta<br \/>\n    havia ficado.<\/p>\n<p> Ao meio-dia, por&eacute;m, hora em que a baronesa costumava por suas pr&oacute;prias<br \/>\n    m&atilde;os servir-lhe algumas colheres de gel&eacute;ia e um c&aacute;lice<br \/>\n    de vinho do Porto, sentiu que lhe abriam mansamente a porta do quarto, com<br \/>\n    a mesma cautela, com o mesmo cuidado com que o fazia Gabriela.<\/p>\n<p> Deu-lhe rebate o cora&ccedil;&atilde;o e, no meio dos tristes pensamentos<br \/>\n    que o acabrunhavam, fez-se um clar&atilde;o de esperan&ccedil;as. Voltado<br \/>\n    com as costas para a porta, D. Luis n&atilde;o p&ocirc;de conhecer logo a<br \/>\n    pessoa que entrava, por isso perguntou com uma voz, em que se denunciava o<br \/>\n    &iacute;ntimo sobressalto que estava sentindo: &#8212; Quem vem a&iacute;<br \/>\n    ? Ningu&eacute;m lhe respondeu; mas percebeu claramente o som.de uns passos<br \/>\n    leves, que n&atilde;o podiam deixar de ser de mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Quem est&aacute; a&iacute; ? &#8212; repetiu D. Luis, fazendo um<br \/>\n    esfor&ccedil;o para voltar-se.<\/p>\n<p> Mas neste momento parava defronte dele Berta, com um sorriso nos l&aacute;bios,<br \/>\n    e segurando nas m&atilde;os a bandeja com o c&aacute;lice de vmho e a gel&eacute;ia,<br \/>\n    que a baronesa costumava servir-lhe.<\/p>\n<p> D. Luis olhou para a afilhada com a express&atilde;o da maior surpresa e<br \/>\n    espanto.<\/p>\n<p> &#8212; Berta ! &#8212; exclamou ele, solevantando o corpo. &#8212; Berta<br \/>\n    aqui ? ! <\/p>\n<p>&#8212; E h&aacute; mais tempo seria este o meu lugar, se n&atilde;o soubesse<br \/>\n    que at&eacute; hoje lhe n&atilde;o faltavam os cuidados de que a sua doen&ccedil;a<br \/>\n    precisa.<\/p>\n<p> &#8212; E vens&#8230; vens para ficar? &#8212; perguntou o doente com uma inflex&atilde;o<br \/>\n    de alegria quase infantil.<\/p>\n<p> &#8212; Se me der licen&ccedil;a que fique&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se te der licen&ccedil;a, filha !&#8230;<\/p>\n<p> De s&uacute;bito reprimiu a sua express&atilde;o de alegria, e emendou em<br \/>\n    tom mais grave ! &#8212; N&atilde;o, Berta ; n&atilde;o &eacute; aqui o teu<br \/>\n    lugar. Eu n&atilde;o sou teu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; meu padrinho e est&aacute; doente. E &agrave; cabeceira<br \/>\n    de um doente uma mulher est&aacute; sempre no seu lugar. &Eacute; o nosso<br \/>\n    posto de honra &#8212; respondeu Berta, com aquela entona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    carinhosa com que as raparigas sabem enfeiti&ccedil;ar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e enlear a vontade dos seus velhos pais e av&oacute;s.<\/p>\n<p> O fidalgo sorriu com brandura e, passando a m&atilde;o tr&eacute;mula pelos<br \/>\n    fartos cabelos de Berta, disse-lhe, olhando-a com simpatia: &#8212; Mas que<br \/>\n    dir&aacute; teu pai ? A estas palavras Berta dirigiu para a porta do quarto<br \/>\n    um olhar indiscreto, olhar que despertou suspeitas no esp&iacute;rito de D.<br \/>\n    Luis e o obrigou a seguir com a vista a mesma direc&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Atrav&eacute;s da porta meia aberta descobriu a figura de Tom&eacute;, que<br \/>\n    ficara no corredor. uma r&aacute;pida contrac&ccedil;&atilde;o atravessou<br \/>\n    como o efeito de um choque el&eacute;ctrico a fronte de D. Luis ; em breve,<br \/>\n    por&eacute;m, dissipou- se este sinal de desgosto, e com voz serena e sem<br \/>\n    aspereza interrogou : &#8212; Estava a&iacute;, Tom&eacute; da P&oacute;voa?<br \/>\n    O fazendeiro deu alguns passos no quarto, ainda timidamente, e respondeu volteando<br \/>\n    o chap&eacute;u entre as m&atilde;os : &#8212; Estava, sim, fidalgo ; fui<br \/>\n    eu mesmo que acompanhei a rapariga, e se V. Ex.&ordf; me quiser fazer o favor<br \/>\n    de aceitar a companhia dela, com muito gosto lha deixo ficar. Porque enfim,<br \/>\n    Sr. D. Luis, isto de mulheres sempre &eacute; outra coisa para lidar connosco.<br \/>\n    T&ecirc;m l&aacute; umas maneiras de enfeiti&ccedil;ar um homem, que quem<br \/>\n    uma vez foi tratado por elas em doen&ccedil;a, j&aacute; se n&atilde;o entende<br \/>\n    com outros enfermeiros. L&aacute; sabem temperar os rem&eacute;dios, arrefecer<br \/>\n    os caldos, ajeitar a roupa da cama e os travesseiros, que parece que uma pessoa<br \/>\n    come, bebe e dorme ainda que n&atilde;o tenha vontade, desde que elas queiram.<br \/>\n    Por isso, como a rapariga &eacute; afilhada de V. Ex.&ordf; e a sr.* baronesa<br \/>\n    foi para Lisboa e V. Ex.&ordf; ficou s&oacute;, e ela n&atilde;o nos faz falta,<br \/>\n    porque, gra&ccedil;as a Deus, a minha Luisa ainda basta s&oacute; para o tr&aacute;fego<br \/>\n    da casa, lembrou-me traz&ecirc;-la, por me parecer que podia prestar alguns<br \/>\n    servi&ccedil;os a V. Ex.&ordf;.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o sabe agora, meu padrinho, o que dir&aacute; meu pai<br \/>\n    ? &#8212; perguntou Berta, ocupada j&aacute; a acomodar a cama que o doente<br \/>\n    tinha desordenada.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; Tom&eacute; &#8212; dizia D. Luis, descontente por ter de<br \/>\n    aceitar um favor do fazendeiro, por&eacute;m, sem coragem de recus&aacute;-lo<br \/>\n    &#8212; eu n&atilde;o quero priv&aacute;-lo da companhia de Berta&#8230; Sei quanto<br \/>\n    se quer a urna filha e n&atilde;o posso aceitar o sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, fidalgo ! Eu quero bem &agrave; rapariga, isso l&aacute;<br \/>\n    &eacute; verdade ; mas n&atilde;o me faltam por casa filhos com que me entretenha.<\/p>\n<p> E depois isto de filhas, mais tarde ou mais cedo, &eacute; contar que batem<br \/>\n    as asas para fugirem do ninho. &Eacute; bom costumarmo-nos a passar sem elas.<br \/>\n    Por isso, se V. Ex.&ordf; n&atilde;o tem d&uacute;vida em aceitar a companhia<br \/>\n    da pequena&#8230; &eacute; fazer de conta que ela nada tem comigo&#8230;<\/p>\n<p> D. Luis sentiu que ia ser vencido pela generosidade de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Resistir por mais tempo era revelar inutilmente repugn&acirc;ncia em aceitar<br \/>\n    o benef&iacute;cio, e tornar evidente a sua fraqueza quando finalmente o aceitasse.<\/p>\n<p> Cedeu pois a tempo, e enquanto o podia fazer, salvando a dignidade aristocr&aacute;tica,<br \/>\n    que sobretudo prezava.<\/p>\n<p> &#8212; D&iacute;vidas dessa natureza n&atilde;o hesito em contra&iacute;-las,<br \/>\n    apesar de saber que as deixarei em aberto. Aceito, Tom&eacute;, aceito a companhia<br \/>\n    desta menina, que me falar&aacute; de minha filha, e ma recordar&aacute;.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; verdade, Berta? &#8212; Decerto que havemos de falar muito<br \/>\n    de Beatriz.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem &#8212; exclamou Tom&eacute; da P&oacute;voa &#8212; pois<br \/>\n    ent&atilde;o a&iacute; lha deixo, fidalgo e vou &agrave; minha vida.<\/p>\n<p> Compreendeu D. Luis que n&atilde;o devia ficar inferior em generosidade<br \/>\n    ao seu antigo criado.<\/p>\n<p> Assim que Tom&eacute;, fazendo-lhe uma cortesia, se dispunha a transpor<br \/>\n    a porta para sair, o fidalgo reteve-o, estendendo-lhe a m&atilde;o, e disse-<br \/>\n    -lhe naquele tom solene que lhe era habitual: &#8212; Tom&eacute; da P&oacute;voa,<br \/>\n    n&atilde;o se retire, sem que eu lhe aperte a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc; que &oacute; a maneira que tenho de remir d&iacute;vidas destas.<\/p>\n<p> &#8212; com todo o gosto, fidalgo.<\/p>\n<p> E o honrado lavrador aproximou-se do leito a apertar nas suas m&atilde;os<br \/>\n    robustas a m&atilde;o magra e aristocr&aacute;tica do senhor da Casa Mourisca,<br \/>\n    dizendo com a expans&atilde;o de entusi&aacute;stica simpatia que tinha em<br \/>\n    excesso na alma: &#8212; Pode acreditar, fidalgo, que aperta a m&atilde;o<br \/>\n    de um amigo.<\/p>\n<p> D. Luis fez um gesto silencioso de aquiesc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa, quando saiu da sala, levava nos olhos um brilho<br \/>\n    denunciador de como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Todas as cenas e ac&ccedil;&otilde;es generosas exerciam nele este efeito.<\/p>\n<p> Berta ficou s&oacute; com o padrinho. com aquela instinto de actividade<br \/>\n    e de ordem, natural &agrave; &iacute;ndole feminina, entrou imediatamente<br \/>\n    no exerc&iacute;cio de suas fun&ccedil;&otilde;es, dispondo os preparativos<br \/>\n    para a leve refei&ccedil;&atilde;o do doente, da qual ela se encarregara ao<br \/>\n    encontrar no corredor um criado com a bandeja na m&atilde;o.<\/p>\n<p> Trabalhando e conversando, Berta tinha j&aacute; aqueles ares de familiaridade,<br \/>\n    que naturalmente assumem as mulheres no trato da casa que dirigem. Tomara<br \/>\n    posse daquele terreno como de dom&iacute;nio seu, e dentro em pouco a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    dos seus cuidados fazia-se j&aacute; sentir na apar&ecirc;ncia de ordem e<br \/>\n    de m&eacute;todo que ali dentro vestira tudo.<\/p>\n<p> D. Luis seguia-a com olhos de satisfa&ccedil;&atilde;o. Parecia-lhe que<br \/>\n    ela s&oacute; povoava o quarto.<\/p>\n<p> com que indiz&iacute;vel prazer a via tirar dos ombros o xale que trouxera,<br \/>\n    dobr&aacute;-lo e pous&aacute;-lo, junto com o chap&eacute;u, no sof&aacute;<br \/>\n    pr&oacute;ximo do leito, como se estivesse em sua casa! A presen&ccedil;a<br \/>\n    daquela jovem e gentil rapariga, ocupada na lida dom&eacute;stica, falando-lhe<br \/>\n    com meiguice e alegria, adivinhando-lhe e prevenindo- lhe os menores desejos,<br \/>\n    satisfazia uma t&atilde;o ardente e t&atilde;o antiga necessidade do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele homem, que, esquecido quase de seus infort&uacute;nios, reputava-se<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p> Animado por Berta, comeu com mais apetite e falou com uma anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe n&atilde;o era habitual.<\/p>\n<p> &#8212; Mas agora me lembra, Berta &#8212; disse D. Luis, como se de repente<br \/>\n    lhe ocorresse uma id&eacute;ia &#8212; preciso de dar ordens para a tua acomoda&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Talvez o quarto de Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se incomode&#8212;-atalhou Berta. &#8212; A sr.&#8217; baronesa<br \/>\n    parece que tinha tudo prevenido, porque me receberam como quem me esperava<br \/>\n    j&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como sabia Gabriela?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois se foi ela quem me mandou dizer que partia e que me fez sentir<br \/>\n    a necessidade de vir ocupar o seu lugar.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! agora entendo a carta dela. &Eacute; uma boa rapariga afinal.<\/p>\n<p> E D. Luis tinha nos l&aacute;bios, ao dizer isto, um sorriso de simpatia,<br \/>\n    que lhe suavizava a dureza habitual das fei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A agrad&aacute;vel do&ccedil;ura que o fidalgo da Casa Mourisca estava saboreando<br \/>\n    com a presen&ccedil;a e o conversar de Berta foi interrompida por umas pancadas<br \/>\n    t&iacute;midas na porta do quarto, que ele escutou de m&aacute; vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Quem est&aacute; a&iacute; ? &#8212; perguntou quase irritado.<\/p>\n<p> &#8212; Licet ? &#8212; murmurou a voz do padre fora da porta.<\/p>\n<p> &#8212; Entre quem &eacute; &#8212; respondeu D. Luis, ainda mais irritado<br \/>\n    depois de conhecer a voz.<\/p>\n<p> O padre entrou s&ugrave;bitamente, cortejou Berta com olhos desconfiados<br \/>\n    e avan&ccedil;ou com passos vagarosos.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; o que quer, frei Janu&aacute;rio ? &#8212; perguntou<br \/>\n    D. Luis desabridamente.<\/p>\n<p> O padre continuou a aproximar-se do leito e respondeu melifluamente : &#8212;<br \/>\n    Os filhos de V. Ex.&ordf;, os srs. D. Jorge e D. Maur&iacute;cio, pedem licen&ccedil;a<br \/>\n    para lhe falarem.<\/p>\n<p> D. Luis fez um movimento de impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Que me querem eles ? O padre encolheu os ombros. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    posso dizer a V. Ex.&ordf;, porque eu mesmo n&atilde;o o sei.<\/p>\n<p> &#8212; Que lhes n&atilde;o falo agora &#8212; respondeu em tom sacudido<br \/>\n    o fidalgo. Mas ao voltar-se deu com os olhos no rosto de Berta, que insensivelmente<br \/>\n    revelou nele o desprazer com que ouvira aquela resposta.<\/p>\n<p> O padre ia a retirar-se com o recado, quando ouviu D. Luis dizer: &#8212;<br \/>\n    Mas n&atilde;o poderei saber o que &eacute; que me querem os senhores meus<br \/>\n    filhos? O padre parou, esperando uma ordem definitiva.<\/p>\n<p> Berta, que estava alisando uma das travesseiras em que o padrinho se encostava,<br \/>\n    murmurou como a gracejar: &#8212; A melhor maneira de ficar sabendo &eacute;<br \/>\n    ouvi-los.<\/p>\n<p> D. Luis encolheu os ombros, como a exprimir o pouco valor que supunha &agrave;<br \/>\n    confer&ecirc;ncia pedida, mas disse ao padre : &#8212; Diga-lhes que entrem.<\/p>\n<p> Estava finalmente revogada a senten&ccedil;a que votara ao ostracismo os<br \/>\n    dois filhos do fidalgo. O cora&ccedil;&atilde;o do velho sentia-se muito brando<br \/>\n    naquele momento para conservar rancores. A influ&ecirc;ncia de Berta principiava<br \/>\n    a actuar.<\/p>\n<p> A negrura dos delitos de que at&eacute; ali acusara os filhos, dir-se-ia<br \/>\n    que a dissipara um sorriso da afilhada.<\/p>\n<p> Jorge e Maur&iacute;cio entraram pouco tempo depois no quarto, descobertos<br \/>\n    ambos, e com aquele ar de respeito que sempre lhes impunha a presen&ccedil;a<br \/>\n    do pai.<\/p>\n<p> Berta sentiu que se lhe sobressaltava o cora&ccedil;&atilde;o, ao tornar<br \/>\n    a ver Jorge, depois da cena que tivera lugar na Herdade.<\/p>\n<p> N&atilde;o p&ocirc;de, por&eacute;m, deixar de fit&aacute;-lo com interesse.<br \/>\n    Achou-o p&aacute;lido e abatido.<\/p>\n<p> Dominando as suas violentas impress&otilde;es, saudou os dois irm&atilde;os<br \/>\n    com um sorriso afectuoso e sereno.<\/p>\n<p> Jorge e Mauricio corresponderam-lhe com um gesto de defer&ecirc;ncia e simpatia.<\/p>\n<p> Ambos estavam prevenidos da presen&ccedil;a dela.<\/p>\n<p> Jorge compreendeu que a baronesa insistira em realizar os seus projectos,<br \/>\n    apesar das objec&ccedil;&otilde;es com que ele os combatera. E n&atilde;o<br \/>\n    desestimou que ela o tivesse feito. Incomodava-o a id&eacute;ia de isolamento<br \/>\n    em que ia ficar seu pai. Os carinhos de Berta deviam ser-lhe preciosos.<\/p>\n<p> Depois a vinda dela para os Bacelos n&atilde;o retardaria o fatal casamento,<br \/>\n    com que n&atilde;o pudera ainda conformar o esp&iacute;rito? De pouco serviria<br \/>\n    a demora, vista a irrevog&aacute;vel resolu&ccedil;&atilde;o que ambos haviam<br \/>\n    adoptado; mas fazer recuar a consuma&ccedil;&atilde;o de um facto funesto<br \/>\n    &eacute; sempre um al&iacute;vio.<\/p>\n<p> Aceitou pois de boa vontade a vinda de Berta para junto de seu pai, mas<br \/>\n    resolveu precaver o cora&ccedil;&atilde;o dos perigos que correria, se permanecesse<br \/>\n    junto dela.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, que dias antes n&atilde;o receberia tamb&eacute;m com sangue-frio<br \/>\n    a not&iacute;cia da presen&ccedil;a de Berta, estava naquela manh&atilde;<br \/>\n    muito preocupado, para se alterar ao receb&ecirc;-la. A s&ugrave;bita partida<br \/>\n    de Gabriela surpreendera-o e exacerbara a paix&atilde;o nascente que por ela<br \/>\n    sentia.<\/p>\n<p> A baronesa calculara bem o alcance da medida e assegurara-lhe ainda mais<br \/>\n    o efeito, deixando a Mauricio um bilhete concebido nestes termos : &laquo;Meu<br \/>\n    caro primo: &laquo;Parto para Lisboa. N&atilde;o preveni pessoa alguma. Levo<br \/>\n    muitas saudades comigo. N&atilde;o sei se as deixo tamb&eacute;m. Se acreditasse<br \/>\n    na const&acirc;ncia de certos sentimentos, consolar-me-ia a id&eacute;ia de<br \/>\n    te ver dentro de poucos dias em Lisboa. Mas infelizmente duvido tanto ! Por<br \/>\n    isso limita-se a deixar-te ficar um longo e desconsolado adeus a &laquo;Tua<br \/>\n    prima e muito afei&ccedil;oada &laquo;Gabriela.&raquo; Esta carta veio a tempo<br \/>\n    para atalhar os primeiros sintomas manifestados j&aacute; em Maur&iacute;cio<br \/>\n    de uma nova crise, que podia ser fatal aos planos da baronesa.<\/p>\n<p> Como dissemos, Maur&iacute;cio, imaginando que &agrave; sua nova paix&atilde;o<br \/>\n    pela baronesa n&atilde;o seria indiferente o cora&ccedil;&atilde;o de Berta,<br \/>\n    recebia dessa id&eacute;ia, que ali&aacute;s o mortificava, um est&iacute;mulo<br \/>\n    que ati&ccedil;ava aquela paix&atilde;o. S&uacute;bita e inesperadamente,<br \/>\n    por&eacute;m, veio uma not&iacute;cia desvanecer-lhe estas ilus&otilde;es.<\/p>\n<p> Foi a do pr&oacute;ximo casamento de Berta, que a Ana do Vedor lhe deu,<br \/>\n    respondendo assim com ar triunfante &agrave;s d&uacute;vidas que ele em tempo<br \/>\n    antepusera contra tal uni&atilde;o. Ana assegurou-lhe que Berta e toda a fam&iacute;lia<br \/>\n    haviam acolhido com favor a id&eacute;ia, e que mesmo Jorge a apoiara, Esta<br \/>\n    revela&ccedil;&atilde;o impressionou Maur&iacute;cio. Seria poss&iacute;vel<br \/>\n    que Berta n&atilde;o sentisse por ele afecto algum? Ter-se-ia ele iludido,<br \/>\n    imaginando hav&ecirc;-la impressionado ? Haveria antes em tudo isso um plano<br \/>\n    de Jorge ? Estas suspeitas despertaram-lhe uma leve irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de vaidade e avivaram as quase apagadas impress&otilde;es, que lhe restavam<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o da imagem de Berta. Nesse dia passou duas vezes pela<br \/>\n    Herdade.<\/p>\n<p> Estava, pois, em iminente risco a paix&atilde;o por Gabriela, quando a repentina<br \/>\n    partida desta e a sua carta de despedida lhe fizeram outra vez pender o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para aquele lado.<\/p>\n<p> Todos os despeites gerados com a not&iacute;cia de Ana do Vedor dissiparam-<br \/>\n    se perante os despeitos novos.<\/p>\n<p> Acabando de 1er o bilhete de Gabriela, Maur&iacute;cio pensou em montar<br \/>\n    logo a cavalo e seguir no encal&ccedil;o da baronesa, at&eacute; atingi-la.<\/p>\n<p> Custou a persuadi-lo da conveni&ecirc;ncia de moderar a precipita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus projectos. Decidiu, por&eacute;m, apressar quanto pudesse os preparativos<br \/>\n    da jornada e partir naquele mesmo dia para Lisboa. A perman&ecirc;ncia no<br \/>\n    campo era-lhe j&aacute; insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p> Foi sob estas impress&otilde;es que, em companhia de Jorge, ele entrou no<br \/>\n    quarto de D. Luis. O pai revestiu-se outra vez do seu aspecto de severidade<br \/>\n    ao dirigir aos filhos um olhar interrogador.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio falou primeiro: &#8212; H&aacute; muito que est&aacute;<br \/>\n    projectada a minha partida para Lisboa.<\/p>\n<p> A prima Gabriela saiu esta manh&atilde; para l&aacute;, e escrevendo-me,<br \/>\n    deixou-me dito que me ficava esperando. Venho pedir a V. Ex.&ordf; autoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para partir hoje mesmo.<\/p>\n<p> D. Luis respondeu secamente: &#8212; Pode ir. Fale a frei Janu&aacute;rio,<br \/>\n    para lhe dar o dinheiro de que precisa.<\/p>\n<p> Em seguida voltou o olhar para Jorge, como convidando-o a expor o motivo<br \/>\n    da sua visita.<\/p>\n<p> Jorge aproximou-se e, abrindo uma pasta, apresentou ao pai um ma&ccedil;o<br \/>\n    de pap&eacute;is.<\/p>\n<p> &#8212; Desejava que V. Ex.&#8217; examinasse estes documentos e tUulos, que dizem<br \/>\n    respeito a propriedades nossas e a contratos antigos, e que eu pus em ordem<br \/>\n    com o fim de facilitar o exame.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para qu&ecirc; ? Eu n&atilde;o quero estar com isso. Que necessidade<br \/>\n    h&aacute; de incomodar-me com essa papelada? &#8212; &Eacute; porque depois<br \/>\n    desejava expor a V. Ex.&quot; os planos que concebi, e no caso de merecerem<br \/>\n    a sua aprova&ccedil;&atilde;o, pedir-lhe licen&ccedil;a para proceder em harmonia<br \/>\n    com eles.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o tenho cabe&ccedil;a para entrar nessas investiga&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Tive sempre por costume deixar os neg&oacute;cios confiados a procuradores.<\/p>\n<p> &#8212; Se V. Ex.&quot; me autoriza ainda como tal eu n&atilde;o o incomodarei.<\/p>\n<p> D. Luis sentia que depois das ordens terminantes que dera ao padre Janu&aacute;rio,<br \/>\n    em um momento de despeito contra o filho, tinha motivo para irritar-se ao<br \/>\n    ver Jorge em flagrante desobedi&ecirc;ncia, ocupando-se ainda da administra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da casa. Mas a viol&ecirc;ncia do despeito abrandara, e interiormente o fidalgo<br \/>\n    estimava ter sido desobedecido.<\/p>\n<p> &#8212; Fa&ccedil;am o que quiserem &#8212; respondeu ele &#8212; o futuro<br \/>\n    que prepararem n&atilde;o ser&aacute; para mim que o preparam.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o se V. Ex.&ordf; n&atilde;o duvida assinar estes pap&eacute;is&#8230;<\/p>\n<p> E Jorge apresentou ao pai uma s&eacute;rie de documentos, que requisitavam<br \/>\n    a assinatura do chefe e representante actual da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> D. Luis fez um gesto de enfado, mas correu com a vista o quarto a procurar<br \/>\n    alguma coisa.<\/p>\n<p> Berta, compreendendo-o, trouxe-lhe ao leito os preparativos para escrever.<\/p>\n<p> E o fidalgo, com a mais aristocr&aacute;tica indiferen&ccedil;a, assinou<br \/>\n    sem 1er os pap&eacute;is que Jorge sucessivamente lhe apresentava, autorizando<br \/>\n    assim as medidas, que porventura deviam regenerar a sua casa, com a mesma<br \/>\n    facilidade e imprevid&ecirc;ncia com que tantas vezes autorizara as que a<br \/>\n    haviam perdido.<\/p>\n<p> &#8212; Agora precisava tamb&eacute;m da autoriza&ccedil;&atilde;o de V.<br \/>\n    Ex.&quot; &#8212; prosse guiu Jorge &#8212; para ausentar-me por alguns dias,<br \/>\n    porque necessito de visitar as nossas propriedades mais distantes.<\/p>\n<p> D. Luis repetiu com o mesmo tom de voz a frase que j&aacute; dissera a Maur&iacute;cio:<br \/>\n    &#8212; Pode ir.<\/p>\n<p> Os dois rapazes curvaram-se respeitosamente diante do velho e aproximaram-se<br \/>\n    para receber-lhe as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os.<\/p>\n<p> D. Luis estendeu a m&atilde;o, que um ap&oacute;s outro beijou, e saudando-o<br \/>\n    outra vez iam a sair do quarto.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o do pai sentiu, por&eacute;m, a necessidade de uma<br \/>\n    despedida mais afectuosa naquele instante em que ambos os filhos o iam deixar.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio &#8212; disse ele quando os viu j&aacute; pr&oacute;ximos<br \/>\n    da porta &#8212; repare que vai entrar em uma sociedade nova para si, cheia<br \/>\n    de sedu&ccedil;&otilde;es e perigos. Seja homem e digno do nome que tem, e&#8230;<br \/>\n    d&ecirc;-me o gosto de o ver feliz e honrado.<\/p>\n<p> &#8212; Terei sempre em vista o seu nobre exemplo, meu pai, e espero que<br \/>\n    assim nunca me desviarei do caminho da honra.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez o n&atilde;o conduza pelo da felicidade &#8212; murmurou<br \/>\n    o velho ; e depois, dirigindo-se a Jorge : &#8212; Jorge, espero do seu ju&iacute;zo<br \/>\n    que seja prudente no uso dessas autoriza&ccedil;&otilde;es que lhe dou. Repare<br \/>\n    que nos esfor&ccedil;os que faz para restaurar a sua casa n&atilde;o sacrifique<br \/>\n    o nome que a torna ilustre. Seja sempre t&atilde;o brioso como &eacute; activo.<\/p>\n<p> &#8212; Espero que nunca os meus actos deslustrar&atilde;o o nome com que<br \/>\n    me honro.<\/p>\n<p> E os dois irm&atilde;os retiraram-se enfim.<\/p>\n<p> Vendo-os sair, D. Luis voltou-se para Berta, suspirando, e disse com desconforto<br \/>\n    : . &#8211; &#8211; &#8212; E ficamos sos, Berta! &#8212; Eles voltar&atilde;o cedo, e<br \/>\n    com eles mais alegria para esta casa.<\/p>\n<p> D. Luis fez um sinal de quem n&atilde;o tinha f&eacute; no futuro.<\/p>\n<p> &#8212; Tem paci&ecirc;ncia, Berta &#8212; disse da&iacute; a pouco &#8212;<br \/>\n    mas se pudesses ir ver que lhes n&atilde;o falte nada&#8230; O padre &eacute;<br \/>\n    capaz de se descuidar das malas, e Maur&iacute;cio n&atilde;o repara.<\/p>\n<p> Berta apressou-se a satisfazer o desejo do velho.<\/p>\n<p> Encontrou Jorge e Maur&iacute;cio na casa do jantar, fazendo os preparativos<br \/>\n    para a jornada.<\/p>\n<p> Berta coadjuvou-os com vantagem.<\/p>\n<p> &#8212; Berta &#8212; disse Maur&iacute;cio &#8212; neste reconhecimento<br \/>\n    de despedida, ser&aacute; bastante generosa para perdoar-me algumas loucuras,<br \/>\n    que talvez n&atilde;o fossem de todo inocentes? &#8212; Antes de perdoar &eacute;<br \/>\n    preciso condenar, e eu nem sequer acusei ! Maur&iacute;cio apertou-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    com verdadeira e desta vez insuspeita simpatia.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe, Berta, que vendo-a aqui, a ajudar-nos assim nesta tarefa caseira,<br \/>\n    custa-me a acreditar que n&atilde;o seja nossa irm&atilde;? <\/p>\n<p>&#8212; n&atilde;o, que esse persuade-me do mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o deixe-se persuadir, Sr. Maur&iacute;cio, que vai nisso<br \/>\n    t&atilde;o pouco mal ! Maur&iacute;cio trocou algumas palavras com ela, mas<br \/>\n    sem aludir ao casamento.<\/p>\n<p> Jorge falava menos do que o irm&atilde;o. Em um momento em que este saiu<br \/>\n    da sala, Berta perguntou: &#8212; Parte para muito longe, Sr. Jorge? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, Berta. Vou viver para a Casa Mourisca : mas bem v&ecirc; que n&atilde;o<br \/>\n    podia diz&ecirc;-lo a meu pai; era ainda cedo talvez para ele o consentir.<\/p>\n<p> &#8212; E parte&#8230; por eu chegar?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;Parto, sim, Berta, e n&atilde;o acha que deva faz&ecirc;-lo? &#8212;<br \/>\n    Talvez tenha raz&atilde;o&#8230; Tem por certo. Mas perdoa-me obrig&aacute;- lo<br \/>\n    a isso? &#8212; Agrade&ccedil;o-lho. A sua vinda h&aacute;-de salvar meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o separamo-nos amigos? &#8212; Como sempre, Berta.<\/p>\n<p> Berta estendeu-lhe a m&atilde;o comovida, e Jorge levou-a aos l&aacute;bios<br \/>\n    com mais ardor do que Convinha a quem formara o prop&oacute;sito de sufocar<br \/>\n    no peito o amor que nele crescia.<\/p>\n<p> E nessa tarde deixaram a quinta dos Bacelos os filhos de D. Luis.<\/p>\n<p> Este ficou s&oacute; com Berta e com o padre, que via um plano ma&ccedil;&oacute;nico<br \/>\n    em todas estas mudan&ccedil;as.<\/p>\n<h2> XXX<\/h2>\n<p> AUMENTAVA de dia para dia a influ&ecirc;ncia de Berta sobre o &acirc;nimo<br \/>\n    de D. Luis. Todas as manilas desafiava as primeiras alegrias do enfermo o<br \/>\n    sorriso com que Berta lhe entrava no quarto, sorriso que parecia ilumin&aacute;-lo<br \/>\n    mais do que os matutinos raios do Sol.<\/p>\n<p> Sob a ben&eacute;fica ac&ccedil;&atilde;o daqueles desvelos femininos, sentia<br \/>\n    o desconfortado doente um renascer de vida; voltava-lhe o apetite perdido,<br \/>\n    revigoravam-se-lhe os membros extenuados, corria-lhe nas veias mais vivificado<br \/>\n    o sangue que o desalento empobrecera, e aquela mesma negrura de pensamentos,<br \/>\n    que o assombrava, parecia clarear-se progressivamente.<\/p>\n<p> Berta fizera-lhe j&aacute; esquecer Gabriela. Era mais ass&iacute;dua &agrave;<br \/>\n    cabeceira do seu leito, mais exclusivamente devotada &agrave;quela obra de<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o, mais perspicaz em adivinhar-lhe os desejos, mais<br \/>\n    carinhosa na maneira de satisfaz&ecirc;-los, e a ingenuidade quase infantil<br \/>\n    das suas conversas tinha mais sedu&ccedil;&otilde;es para o fidalgo do que<br \/>\n    todas as galas do esp&iacute;rito com que a baronesa sabia temperar as suas.\n  <\/p>\n<p>As horas, que t&atilde;o longas e fastidiosas se sucedem na vida do doente,<br \/>\n    passavam para ele r&aacute;pidas e despercebidas, preenchidas pela companhia<br \/>\n    de Berta.<\/p>\n<p> A v&ecirc;-la trabalhar a seu lado, a ouvi-la falar de Beatriz ou a conversar<br \/>\n    no mais trivial assunto, a seguir-lhe com a vista os movimentos f&aacute;ceis<br \/>\n    que lhe recordavam a filha, a escutar pela voz dela a leitura dos livros de<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o a que a baronesa o habituara, D. Luis esquecia o<br \/>\n    tempo e os ponderosos motivos da sua usual melancolia. um dia manifestou desejos<br \/>\n    de ouvir Berta tocar.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte a harpa de Beatriz era transportada para junto<br \/>\n    do leito do doente, e sob os dedos de Berta, o m&aacute;gico instrumento,<br \/>\n    que serenava as furiosas alucina&ccedil;&otilde;es de Saul, provou mais uma<br \/>\n    vez a sua eficaz influ&ecirc;ncia moral.<\/p>\n<p> D. Luis escutava-a comovido, e quase sempre corriam-lhe as l&aacute;grimas<br \/>\n    ao expirarem as vibra&ccedil;&otilde;es das &uacute;ltimas notas.<\/p>\n<p> Berta fez-lhe ouvir, uma por uma, todas as m&uacute;sicas que Beatriz tocava.<br \/>\n    Ressuscitou-lhe o passado. Sob t&atilde;o profundas impress&otilde;es quase<br \/>\n    s&eacute; confundiam no espirito do anci&atilde;o a imagem da filha que perdera<br \/>\n    com a da afectuosa rapariga, que tanto lhe amenizava a exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Foi cedendo &agrave; af&aacute;vel viol&ecirc;ncia de Berta e apoiado no<br \/>\n    bra&ccedil;o dela, que trocou o leito pela poltrona ao lado da janela do quarto<br \/>\n    ; que saiu depois do quarto para a varanda do terra&ccedil;o, e que finalmente<br \/>\n    desceu as escadas que do terra&ccedil;o conduziam &agrave; quinta, &agrave;<br \/>\n    sombra de cujas &aacute;rvores se costumara a passar as melhores horas do<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p> Era a&iacute; que tinham lugar as leituras quotidianas, que j&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    necess&aacute;rias lhe eram. Berta interrompia-as apenas para lhe fazer escutar<br \/>\n    o c&acirc;ntico dos p&aacute;ssaros na espessura das &aacute;rvores, ou para<br \/>\n    lhe ir colher uma ou outra flor, com que bizarramente enfeitava a lapela do<br \/>\n    casaco do fidalgo. A influ&ecirc;ncia de Berta sobre ele era j&aacute; por<br \/>\n    todos conhecida, o que valia &agrave; gentil rapariga os mais expressivos<br \/>\n    sinais de defer&ecirc;ncia de todos quantos a tratavam.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio era o mais desconfiado, mas ainda assim n&atilde;o<br \/>\n    se mostrou de todo insens&iacute;vel &agrave;s aten&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    Berta lhe dispensava e que muito o lisonjeavam.<\/p>\n<p> Berta era feliz naqueles dias.<\/p>\n<p> Para a sua alma generosa era motivo de j&uacute;bilo a id&eacute;ia de que<br \/>\n    algu&eacute;m lhe devia a felicidade.<\/p>\n<p> Ao sentir voltar a vida ao rosto de D. Luis e a serenidade ao seu esp&iacute;rito<br \/>\n    atribulado, quase esquecia, no enlevo em que esta observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a arrebatava, a grandeza do sacrif&iacute;cio, que pouco tempo antes realizara<br \/>\n    e a dolorosa viol&ecirc;ncia com que esmagava ainda no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o afecto mais vivaz que l&aacute; nascera.<\/p>\n<p> Era grata a D. Luis pelo bem que ela pr&oacute;pria lhe fazia.<\/p>\n<p> um dia Berta erguera-se, como costumava, muito cedo, para correr a quinta<br \/>\n    a fim de colher o ramo com que adornava a mesa do almo&ccedil;o de D. Luis.<\/p>\n<p>Todos os dias se renovava este ramo e todos os dias o fidalgo consagrava<br \/>\n    alguns momentos ao exame e &agrave; an&aacute;lise das diversas flores que<br \/>\n    o compunham.<\/p>\n<p> Berta esmerava-se muito nesta tarefa para obter sempre efeitos novos, que<br \/>\n    merecessem as aten&ccedil;&otilde;es e aplausos do padrinho.<\/p>\n<p> Nesta explora&ccedil;&atilde;o atingia ela sempre os t&eacute;rminos da<br \/>\n    quinta. Chegara aquela manh&atilde; ao port&atilde;o de ferro da entrada oposta<br \/>\n    &agrave; casa e trazia j&aacute; na m&atilde;o uma variada c&oacute;pia de<br \/>\n    flores, quando lhe pareceu que algu&eacute;m parava de fora das grades a observ&aacute;-la.<\/p>\n<p> Voltou-se e reconheceu Clemente.<\/p>\n<p> Berta estremeceu e sentiu sobressaltar-se-lhe pouco agradavelmente o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; vista do seu noivo. T&atilde;o longe tinha naquele instante o pensamento<br \/>\n    do futuro que a vista de Clemente lhe recordava, que a surpresa da transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi cruel.<\/p>\n<p> Demais era a primeira vez que se achava na presen&ccedil;a de Clemente,<br \/>\n    depois do ajuste do casamento, o que sobremaneira aumentara a sua confus&atilde;o.<\/p>\n<p> Concentrando, por&eacute;m, toda a sua coragem, saudou-o afectuosamente.<\/p>\n<p> Mais confuso ainda do que ela, retribuiu-lhe Clemente a sauda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Quer entrar ? &#8212; perguntou Berta, caminhando para a portaria.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, menina; passei aqui por acaso&#8230; &Eacute; verdade que<br \/>\n    desejava falar-lhe&#8230; mas para outra vez ser&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o h&aacute;-de ser j&aacute;? &#8212; tornou Berta,<br \/>\n    abrindo a porta.<\/p>\n<p> &#8212; Depois do que se passou &eacute; indispens&aacute;vel que conversemos,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade? Eu tamb&eacute;m tenho precis&atilde;o de falar-lhe,<br \/>\n    Sr. Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso aqui estou para ouvi-la, Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, sentemo-nos mesmo aqui. N&atilde;o acha? &#8212; disse Berta,<br \/>\n    preparando lugar em um mont&iacute;culo de relva que as folhas caldas tapetavam.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;-se aqui t&atilde;o bem como dentro de uma sala.<\/p>\n<p> Clemente tomou timidamente lugar ao lado dela.<\/p>\n<p> Berta soltou no rega&ccedil;o as flores que colhera, e falando ocupava-se<br \/>\n    a disp&ocirc;-las em ramo, como se facilitasse daquela maneira o desempenho<br \/>\n    da miss&atilde;o que se propunha.<\/p>\n<p> Clemente escutava-a.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; j&aacute; informado, Sr. Clemente, do que respondi &agrave;<br \/>\n    proposta que, em seu nome, me fez&#8230; o filho do Sr. D. Luis? &#8212; Sim,<br \/>\n    Berta, deram-me essa resposta que muito me alegrou ; mas desejava saber da<br \/>\n    sua boca, se foi de livre vontade e por que lho ditava o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que a deu assim.<\/p>\n<p> &#8212; Por minha vontade foi. Ningu&eacute;m me obrigou a responder como<br \/>\n    respondi. Agora se foi do cora&ccedil;&atilde;o&#8230; Era sobre isso mesmo que<br \/>\n    desejava falar-lhe, Sr. Clemente.<\/p>\n<p> Clemente respondeu um pouco inquieto: &#8212; Fale, Berta, que eu escuto-a<br \/>\n    com aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Clemente, devo ser franca e leal consigo, e fazer-lhe uma confiss&atilde;o<br \/>\n    completa dos meus sentimentos, para que pense bem antes de se resolver a dispor<br \/>\n    assim do seu futuro. N&atilde;o posso dizer que fosse o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me ditasse a resposta que dei. Se o dissesse, nem o Sr. Clemente me acreditaria<br \/>\n    ; n&atilde;o &eacute; verdade ? Bem v&ecirc;, eu mal o conhecia, quase que<br \/>\n    nem t&iacute;nhamos falado ainda, eu vivi at&eacute; agora longe de si, e<br \/>\n    nenhum de n&oacute;s costumava pensar no outro. Pois n&atilde;o &eacute; assim?<br \/>\n    Quando ouvi a sua proposta, surpreendeu-me por inesperada; respondi como sabe<br \/>\n    ; mas &eacute; claro que n&atilde;o podia ser do cora&ccedil;&atilde;o a resposta.<\/p>\n<p> Clemente fez um gesto de assentimento, mas tornou-se melanc&oacute;lico.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, perguntar&aacute; o senhor, porque respondi eu ent&atilde;o<br \/>\n    assim, t&atilde;o pronta, sem hesitar? Vou dizer-lho, Sr. Clemente, vou dizer-lhe<br \/>\n    t&ocirc;da a verdade, e resolva depois o que deve fazer. Eu n&atilde;o podia<br \/>\n    esperar que o cora&ccedil;&atilde;o respondesse, porque sabia que ele j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o podia dizer que sim a uma proposta daquelas.<\/p>\n<p> Clemente, que julgava compreender o enleio crescente e as palavras hesitantes<br \/>\n    de Berta, interrompeu-a dizendo: &#8212; J&aacute;? disse que j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    podia? J&aacute;? Berta teria acaso alguma inclina&ccedil;&atilde;o a que<br \/>\n    o meu pedido viesse causar mal? Berta, corando, replicou firmemente : &#8212;<br \/>\n    Havia no meu cora&ccedil;&atilde;o um outro afecto, havia, o primeiro e &uacute;nico<br \/>\n    dessa natureza que nele tinha de nascer ; mas n&atilde;o lhe causou mal o<br \/>\n    seu pedido, Clemente. Esse afecto, de que me n&atilde;o envergonho, nasceu,<br \/>\n    mas n&atilde;o podia viver. Era preciso sufoc&aacute;-lo. Opunham-se-lhe tantos<br \/>\n    obst&aacute;culos, que n&atilde;o podia haver futuro para ele. Era como uma<br \/>\n    &aacute;rvore de grandes raizes que nascesse em um vaso apertado. Nunca eu<br \/>\n    mesma me iludi com ele. Esta era a confiss&atilde;o que devia e queria fazer-lhe,<br \/>\n    Clemente. Julguei que poderia, sem indignidade, aceitar a sua proposta, dado<br \/>\n    que lhe falasse lealmente, como lhe estou falando ; desde que lhe dissesse<br \/>\n    : n&atilde;o h&aacute; amor no meu cora&ccedil;&atilde;o para lhe oferecer,<br \/>\n    n&atilde;o o podia haver ; estimo-o como um homem honrado e aceito para mim<br \/>\n    o destino de lhe servir de companheira na vida. &Ecirc; a miss&atilde;o de<br \/>\n    uma mulher, e eu tenho coragem de cumprir no mundo a minha miss&atilde;o.<br \/>\n    Amizade leal, respeito, dedica&ccedil;&atilde;o, posso prometer-lhe, mais<br \/>\n    n&atilde;o, que n&atilde;o tenho para dar.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;&#8212;balbuciou Clemente, que n&atilde;o podia disfar&ccedil;ar<br \/>\n    a sua perturba&ccedil;&atilde;o &#8212; mas esse homem existe ? Berta corou<br \/>\n    instantaneamente ao ouvir a pergunta.<\/p>\n<p> &#8212; Existe &#8212; respondeu, por&eacute;m, sem hesitar &#8212; e ama-me.<br \/>\n    Mas ele tamb&eacute;m sente, como eu, a necessidade de vencer este afecto.<br \/>\n    E h&aacute;-de venc&ecirc;-lo ou pelo menos ocult&aacute;-lo no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque &eacute; forte. A consci&ecirc;ncia do dever ajudar-nos-&aacute; a<br \/>\n    ambos a vencer esta loucura. Bem v&ecirc; que lhe chamo loucura. Mas deixe-me<br \/>\n    dizer-lhe, Clemente, se, depois da confiss&atilde;o que lhe fiz, se abriu<br \/>\n    no seu esp&iacute;rito uma entrada para a desconfian&ccedil;a, pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    por piedade que desista da sua proposta, enquanto &eacute; tempo. &#8226;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me entendeu, Berta. Creia que eu sei ter na devida conta<br \/>\n    a lealdade com que me est&aacute; falando, e que mais do que nunca sinto por<br \/>\n    si a maior considera&ccedil;&atilde;o e estima. Se a escolhesse para esposa,<br \/>\n    juro-lhe que, apesar da sua confiss&atilde;o &#8212; n&atilde;o digo bem &#8212;<br \/>\n    por causa at&eacute; da sua confiss&atilde;o, teria em si tanta confian&ccedil;a,<br \/>\n    Berta, como em mim mesmo. O que me faz pensar &eacute; outra coisa. Se esse<br \/>\n    homem existe, porque &eacute; que a menina perdeu j&aacute; as esperan&ccedil;as<br \/>\n    e quer assim tornar imposs&iacute;vel o que ainda o n&atilde;o &eacute;? &#8212;<br \/>\n    &Eacute; imposs&iacute;vel &eacute;, Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Ora &eacute; ! Quem sabe ? Eu n&atilde;o queria ser um dia o obst&aacute;culo<br \/>\n    da sua felicidade. Nem de tal me quero lembrar ! &#8212; Clemente ! suponha<br \/>\n    que em vez da confiss&atilde;o que lhe fiz, eu lhe tinha dito apenas : Sonhei<br \/>\n    um dia com um noivo, que n&atilde;o se parecia consigo, Clemente. E t&atilde;o<br \/>\n    louca sou, que me ficou ainda daquele sonho uma vaga saudade no cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por isso n&atilde;o mo ocupa inteiro o afecto que tenho para lhe consagrar.<br \/>\n    &Eacute; assim que posso oferecer-lho. E agora resolva como se assim lhe tivesse<br \/>\n    falado. Bem v&ecirc; que nunca se arriscar&aacute; a ser estorvo a uma felicidade&#8230;<br \/>\n    que se sonhou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, valha-me Deus, Berta, os sonhos que nunca saem certos s&atilde;o<br \/>\n    os que se sonham a dormir&#8230; e at&eacute; esses &agrave;s vezes&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; os que se sonham em vig&iacute;lia menos realiz&aacute;veis<br \/>\n    ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Mas em todo o caso&#8230; N&atilde;o me leva a mal se eu pedir tempo<br \/>\n    para reflectir? &#8212; Decerto que n&atilde;o. Para isso mesmo foi que lhe<br \/>\n    falei assim.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um anjo, Berta, e creia que se tenho duvidas, &eacute;<br \/>\n    porque n&atilde;o queria ser nunca estorvo &agrave; sua felicidade. A tempo<br \/>\n    lhe darei a resposta.<\/p>\n<p> E Clemente saiu dali pensativo e indeciso sobre a resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que devia adoptar.<\/p>\n<p> Pensava o pobre rapaz: &#8212; Afinal de contas ela gosta do outro. &Eacute;<br \/>\n    o que isto tudo quer dizer. Ent&atilde;o que fa&ccedil;o eu em meter-me de<br \/>\n    permeio nesses amores? Mas&#8230; s&atilde;o amores imposs&iacute;veis, diz ela,<br \/>\n    at&eacute; lhes chamou loucuras; e espera que os cuidados da fam&iacute;lia<br \/>\n    lhe ajudem a esquec&ecirc;-los. Mas se n&atilde;o esquecer?&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    receio dela, isso n&atilde;o. Aquilo &eacute; alma que se n&atilde;o perde<br \/>\n    nem atrai&ccedil;oa. Mas, se por acaso os tais obst&aacute;culos desapareciam<br \/>\n    e ficasse eu s&oacute; no lugar deles ? Ah ! Santa Virgem ! Era para um homem<br \/>\n    p&ocirc;r fim &agrave; vida! Por&eacute;m, ao mesmo tempo a rapariga fala<br \/>\n    com uma seguran&ccedil;a, como se este caso fosse imposs&iacute;vel. Imposs&iacute;vel<br \/>\n    ! E porqu&ecirc; ? Quem ser&aacute; ele, o tal? Amores que ela trouxe da cidade&#8230;<br \/>\n    Algu&eacute;m que j&aacute; a esqueceu e que talvez nunca lhe quisesse deveras.<br \/>\n    Se eu adivinhasse que era isso, aceitava. Porque enfim aquilo esquecia, e&#8230;<\/p>\n<p> e eu creio que hav&iacute;amos de dar-nos bem. Veremos o que pensa minha<br \/>\n    m&atilde;e. Mas que pode ela pensar? Que sabe ela mais do que eu? Aqui o que<br \/>\n    era preciso era quem me informasse dos tais amores. Se eu procurasse o Sr.<br \/>\n    Jorge? Ele &eacute; tanto da casa de Tom&eacute;, que talvez&#8230; Ele est&aacute;<br \/>\n    agora na Casa Mourisca. Pois vou l&aacute;.<\/p>\n<p>E, em harmonia com esta resolu&ccedil;&atilde;o, tomou o caminho do antigo<br \/>\n    solar do fidalgo, Jorge encerrara-se nos ermos aposentos daquele sombrio pal&aacute;cio,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; para trabalhar, como para procurar al&iacute;vio aos<br \/>\n    dolorosos golpes de cora&ccedil;&atilde;o, que lhe sangravam ainda.<\/p>\n<p> Fizera-lhe companhia o jardineiro, que n&atilde;o quis ficar nos Bacelos<br \/>\n    quando soube que Jorge partia. Era a &uacute;nica pessoa que tinha ao servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Jorge entregara-se ao trabalho com mais assiduidade e ardor do que nunca.<br \/>\n    Erguia-se cedo, prolongava por noite alta as suas vig&iacute;lias ; mas se<br \/>\n    conseguia com estes esfor&ccedil;os adiantar o servi&ccedil;o, n&atilde;o<br \/>\n    obtinha deles a realiza&ccedil;&atilde;o do seu principal empenho : acalmar<br \/>\n    as torturas morais com que viera para aquela solid&atilde;o.<\/p>\n<p> As poucas horas de sono eram-lhe agitadas por sonhos fatigados, e sempre<br \/>\n    uma id&eacute;ia fixa e amarga lhe ocupava o pensamento, ainda quando mais<br \/>\n    absorvido pelo estudo.<\/p>\n<p> Atrav&eacute;s das mais fortes distrac&ccedil;&otilde;es sentia como que<br \/>\n    a sombria projec&ccedil;&atilde;o de uma nuvem negra.<\/p>\n<p> Quando um poderoso motivo de desgosto nos amargura o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; de todo imposs&iacute;vel afast&aacute;-lo do pensamento<br \/>\n    por um esfor&ccedil;o de distrac&ccedil;&atilde;o, mas a impress&atilde;o<br \/>\n    dolorosa que ele produziu n&atilde;o se desvanece completamente ; persiste<br \/>\n    um vago sentimento de m&aacute;goa, um indefinido mal-estar, que ainda nesses<br \/>\n    raros instantes nos aflige, sem que o expliquemos.<\/p>\n<p> Estava-se dando com Jorge este fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p> Conseguia fixar a aten&ccedil;&atilde;o no estudo, vencer as dificuldades<br \/>\n    de um problema, profundar as quest&otilde;es mais obscuras, mas o esp&iacute;rito<br \/>\n    mantinha-se doente ; estas vit&oacute;rias da intelig&ecirc;ncia n&atilde;o<br \/>\n    lhe provocavam aquele prazer, que de ordin&aacute;rio as acompanha. Parecia<br \/>\n    que o cora&ccedil;&atilde;o perdera a elasticidade necess&aacute;ria para<br \/>\n    vibrar dessa maneira.<\/p>\n<p> Quando se trabalha em tais disposi&ccedil;&otilde;es de &acirc;nimo, o esfor&ccedil;o<br \/>\n    atenua a actividade do esp&iacute;rito, toma o car&aacute;cter de uma febre<br \/>\n    consumptiva, de uma chama que se alimenta gastando as for&ccedil;as e a vida.<\/p>\n<p> Depois havia momentos em que os instintos se revoltavam contra a tirania<br \/>\n    da raz&atilde;o, em que os gelos do temperamento de Jorge como que se fundiam<br \/>\n    no calor do seu sangue de adolescente ; e ent&atilde;o com um frenesi de desespero<br \/>\n    concebia os mais arrojados projectos. Resolvia romper com todos os preconceitos,<br \/>\n    com todas as considera&ccedil;&otilde;es sociais, e obedecer somente aos impulsos<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o, que ele julgava nesses momentos os &uacute;nicos<br \/>\n    autorizados motores das ac&ccedil;&otilde;es do homem. A estes paroxismos<br \/>\n    sucedia um desalento mais profundo e uma sombria tristeza.<\/p>\n<p> E o resultado desta luta moral, deste isolamento, deste excesso de trabalho,<br \/>\n    revelava-se-lhe no semblante alterado e na palidez, que aumentava de dia para<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p> A amargura daqueles dias passados nas salas desertas e nas devesas melanc&oacute;licas<br \/>\n    da Casa Mounsca, havia-o abatido a um ponto que, ao chegar &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n    dele, Clemente encarou-o com gesto de espanto.<\/p>\n<p> Jorge interrogou-o sorrindo : &#8212; O que me achas tu, para me fitares<br \/>\n    com esses olhos ? &#8212; O Sr. Jorge tem estado doente?! &#8212; N&atilde;o;<br \/>\n    vou passando bem. Parece-te que tenho cara de doente? &#8212; Sim ; acho-o<br \/>\n    descorado e abatido &#8212; disse Clemente, procurando disfar&ccedil;ar as<br \/>\n    apreens&otilde;es que sentia ao v&ecirc;-lo. &#8212; N&atilde;o trabalhe tanto,<br \/>\n    Sr. Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Isto n&atilde;o &eacute; de trabalhar. uma noite de bom sono far-me-&aacute;<br \/>\n    voltar ao que fui. Ent&atilde;o o que te traz por aqui?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Venho consult&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; tempos a esta parte obrigas-me a funcionar como conselheiro,<br \/>\n    sem que eu saiba bem em que mereci a honra da nomea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora diz l&aacute; o que queres.<\/p>\n<p> &#8212; Trata-se ainda do mesmo neg&oacute;cio do outro dia.<\/p>\n<p> Jorge fez um gesto de impaci&ecirc;ncia e desagrado.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o est&aacute; j&aacute; tudo decidido ? Que mais queres<br \/>\n    ? A respeito do enxoval n&atilde;o dou conselhos.<\/p>\n<p> &#8212; Nem tudo est&aacute; decidido, n&atilde;o senhor.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o? &#8212; Eu lhe digo o que se passa.<\/p>\n<p> E Clemente narrou a Jorge a subst&acirc;ncia da entrevista que tivera com<br \/>\n    a sua noiva.<\/p>\n<p> Custou a Jorge ocultar a perturba&ccedil;&atilde;o que lhe causava a narrativa.<\/p>\n<p> No fim conseguiu perguntar com aparente frieza: &#8212; E que queres tu<br \/>\n    que eu diga ? &#8212; Queria que me dissesse se por acaso sabia alguma coisa<br \/>\n    destes amores.<\/p>\n<p> Jorge saltou na cadeira e olhou para Clemente, fazendo-se excessivamente<br \/>\n    corado.<\/p>\n<p> &#8212; Eu ? ! E porque &eacute; que hei-de saber desses amores ? Clemente,<br \/>\n    admirado do efeito das suas palavras, disse com hesita&ccedil;&atilde;o :<br \/>\n    &#8212; Lembrava-me&#8230; como &eacute; amigo do Tom&eacute; da P&oacute;voa&#8230;<br \/>\n    talvez soubesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; As rela&ccedil;&otilde;es que possa ter com o pai n&atilde;o me<br \/>\n    habilitam a devassar o cora&ccedil;&atilde;o da filha; mas que desejavas tu<br \/>\n    saber desses amores? N&atilde;o te disse ela que era como se n&atilde;o existissem?<br \/>\n    que nasceram sem faculdades para viver? O que te resta &eacute; julgar por<br \/>\n    ti se nas condi&ccedil;&otilde;es em que Berta aceita a tua proposta, ainda<br \/>\n    podes insistir em faz&ecirc;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; isso mesmo. E depois de a ouvir hesito.<\/p>\n<p> &#8212; Duvidas de Berta, n&atilde;o &eacute; verdade ? Receias que esses<br \/>\n    amores n&atilde;o lhe morram no cora&ccedil;&atilde;o e que um dia revivam<br \/>\n    como a labareda quando se desfaz o monte de cinzas que a sufocava? Se assim<br \/>\n    &eacute;, se n&atilde;o tens no car&aacute;cter de Berta a precisa confian&ccedil;a<br \/>\n    que devemos ter na mulher que escolhemos para companheira na vida, se n&atilde;o<br \/>\n    repousas cegamente nela, na sua lealdade, nas suas virtudes, ent&atilde;o<br \/>\n    desiste, porque irias envenenar a tua vida com ci&uacute;mes e a dela com<br \/>\n    suspeitas injuriosas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o desconfio de Berta; mas queria saber por que julga ela<br \/>\n    imposs&iacute;vel esse amor que sente, para ver se a mim me parecia tamb&eacute;m<br \/>\n    que o era. Quem sabe l&aacute; se o &eacute; ? E se deixar de s&ecirc;-lo<br \/>\n    por o motivo de hoje e o for por Berta ser minha mulher ? Quem me podia curar<br \/>\n    desse desgosto? &#8212; Sossega, Clemente, os motivos que hoje se d&atilde;o,<br \/>\n    dar-se-&atilde;o sempre &#8212; disse imprudentemente Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sabe quais s&atilde;o?! &#8212; perguntou Clemente admirado.<\/p>\n<p> Jorge conheceu a indiscri&ccedil;&atilde;o em que tinha ca&iacute;do, e<br \/>\n    procurou emend&aacute;-la, dizendo: &#8212; N&atilde;o; mas se Berta to assegurou&#8230;<br \/>\n    Ela n&atilde;o costuma ser irreflectida&#8230;<\/p>\n<p> E motivos h&aacute; na vida t&atilde;o poderosos e permanentes, que pode<br \/>\n    bem predizer-se na presen&ccedil;a deles a impossibilidade de um facto.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sempre os queria conhecer, para julgar por mim.<\/p>\n<p> Jorge replicou com impaci&ecirc;ncia: &#8212; Julgar por ti ! E quem te<br \/>\n    diz que saberias apreci&aacute;-los ? Talvez os julgasses f&aacute;ceis de<br \/>\n    vencer, n&atilde;o obstante eles serem insuper&aacute;veis.<\/p>\n<p> Acredita o que te digo, Clemente. um homem s&oacute; pode ser perfeito juiz<br \/>\n    das ac&ccedil;&otilde;es de um outro, quando entre ambos se d&atilde;o absolutamente<br \/>\n    as mesmas condi&ccedil;&otilde;es de exist&ecirc;ncia. Desde que estas variam,<br \/>\n    varia com elas a maneira de ver as coisas. O que para ti &eacute; um facto<br \/>\n    natural e f&aacute;cil, &eacute; para mim um imposs&iacute;vel, porque se<br \/>\n    lhe op&otilde;em opini&otilde;es, sentimentos, cren&ccedil;as que me s&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;prias, que fazem parte de mim mesmo, da minha entidade moral, e<br \/>\n    que tu n&atilde;o possuis e de que porventura te ris. Por isso escusado seria<br \/>\n    talvez saber do segredo de Berta mais do que o que ela te revelou. Cr&ecirc;,<br \/>\n    sob a garantia da sua palavra, que esses amores foram apenas uma fantasia<br \/>\n    da mocidade, que os rudes deveres da vida extinguir&atilde;o, e resolve.<\/p>\n<p> Clemente permaneceu ainda por muito tempo silencioso.<\/p>\n<p> Jorge p&ocirc;s-se a passear no quarto.<\/p>\n<p> Afinal o noivo de Berta ergueu-se e disse suspirando: &#8212; Bem; veremos<br \/>\n    o que pensa minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; E que direito tens tu de ires falar a tua m&atilde;e nas confidencias<br \/>\n    de Berta? &#8212; interpelou-o Jorge, com u i n veem&ecirc;ncia que sobressaltou<br \/>\n    Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Devo confiar em minha m&atilde;e, pelo menos tanto quanto confiei<br \/>\n    no Sr. Jorge. Berta n&atilde;o mo levar&aacute; a mal.<\/p>\n<p> Jorge reprimiu-se ao responder : &#8212; Decerto que n&atilde;o acho mais<br \/>\n    justificado o escolheres-me para confidente. Enfim, faz o que quiseres, mas&#8230;<br \/>\n    segue principalmente o que te ditar a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Clemente saiu mais pensativo do que viera. <\/p>\n<p>O desconsolado noivo estranhara Jorge. A maneira por que ele lhe falou fora<br \/>\n    t&atilde;o fria e desabrida e de t&atilde;o dif&iacute;cil explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o podia Clemente atinar com o motivo daquilo. A &uacute;ltima<br \/>\n    reflex&atilde;o, sobretudo, deixou-o muito sentido. Jorge pusera em d&uacute;vida<br \/>\n    o direito que ele tinha de consultar sua m&atilde;e neste neg&oacute;cio !<br \/>\n    Pois n&atilde;o era ela a mais natural conselheira que ele tinha no mundo<br \/>\n    ? E n&atilde;o pedia o caso o conselho de pessoa experiente ? ! Poderia Berta<br \/>\n    levar-lhe a mal a precau&ccedil;&atilde;o que tomava principalmente em vista<br \/>\n    da felicidade dela? Mas enfim Jorge dissera-o e Clemente, a seu pesar, come&ccedil;ou<br \/>\n    a sentir escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p> De facto aquele segredo n&atilde;o era seu, e Berta n&atilde;o o tinha autorizado<br \/>\n    a revel&aacute;-lo. J&aacute; em comunic&aacute;-lo a Jorge exorbitara.<\/p>\n<p> E no meio destas alternativas de resolu&ccedil;&otilde;es entrou cabisbaixo<br \/>\n    e assombrado em casa, e n&atilde;o falou em coisa alguma a sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> Esta, ao v&ecirc;-lo assim, atribuiu o facto a impaciencias do amor.<\/p>\n<p> A ida de Berta para a companhia do fidalgo prorrogara o prazo para a fixa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do casamento, e Ana do Vedor conjecturou que era isso que contrariava o filho.<\/p>\n<p> Resolveu, pois, falar a Tom&eacute; para apressar quanto pudesse a festa,<br \/>\n    porque ela sabia que D. Luis estava melhor, e que at&eacute; j&aacute; andava<br \/>\n    a p&eacute; e portanto era justo que prescindisse de Berta, que n&atilde;o<br \/>\n    se destinava a fazer-lhe eternamente companhia.<\/p>\n<h2>XXXI<\/h2>\n<p>CHEGARAM cartas da baronesa e de Maur&iacute;cio, datadas de Lisboa.<\/p>\n<p> As not&iacute;cias que davam eram satisfat&oacute;rias. Maur&iacute;cio<br \/>\n    fora hospedado em casa de um primo remoto de D. Luis e por ele introduzido<br \/>\n    nos primeiros c&iacute;rculos da cidade, onde recebeu um lisonjeira acolhimento.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio achava-se naquele mundo, novo para si, como se nele tivesse<br \/>\n    sido educado. Sentia-se bem ali, agradavam-lhe aqueles h&aacute;bitos de eleg&acirc;ncia<br \/>\n    e de distin&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o conhecera no canto da sua prov&iacute;ncia,<br \/>\n    mas cuja necessidade vagamente experimentava havia muito tempo. Era para aquele<br \/>\n    viver que os seus instintos o inclinavam.<\/p>\n<p> Quando se viu ali, respirou com o desafogo de quem sai de um ambiente que<br \/>\n    o asfixiava. N&atilde;o necessitou de longo tiroc&iacute;nio para conhecer<br \/>\n    os usos daquela sociedade e adoptar-lhe os costumes. Em poucos dias n&atilde;o<br \/>\n    restavam nele vest&iacute;gios sequer do seu provincianismo. uma forte voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    substitui um lento noviciado. Os homens acharam-no espirituoso; as mulheres,<br \/>\n    am&aacute;vel; e para com todos soube ser t&atilde;o insinuante, que os influentes<br \/>\n    pol&iacute;ticos a quem a baronesa o recomendara, tomaram por ele o mais vivo<br \/>\n    e prometedor interesse, Escusado &eacute; dizer que Maur&iacute;cio n&atilde;o<br \/>\n    foi muito escrupuloso na observ&acirc;ncia dos artigos de f&eacute; pol&iacute;ticos<br \/>\n    com que D. Luis doutrinara os filhos.<\/p>\n<p> Para g&ecirc;nios como o de Maur&iacute;cio, um dos maiores achaques que<br \/>\n    pode ter uma id&eacute;ia &eacute; o estar fora da moda.<\/p>\n<p> Jorge sentia que n&atilde;o lhe era poss&iacute;vel abra&ccedil;ar a cren&ccedil;a<br \/>\n    do pai, porque a raz&atilde;o a condenava; e estas convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para toda a parte o acompanhariam, porque procediam de um ju&iacute;zo claro<br \/>\n    e de uma aturada reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio, apesar de nunca ter aderido manifestamente ao credo paterno,<br \/>\n    s&oacute; agora parecia hav&ecirc;-lo deveras renegado, porque o desgostavam<br \/>\n    os ares de sedi&ccedil;o e desusado, com que ele aparecia &agrave; espl&ecirc;ndida<br \/>\n    claridade dos sal&otilde;es da moda.<\/p>\n<p> Tudo quanto havia de eminente no jornalismo pol&iacute;tico, na literatura,<br \/>\n    no parlamento, no foro, constitu&iacute;a agora o c&iacute;rculo habitual<br \/>\n    das rela&ccedil;&otilde;es de Maur&iacute;cio, e nas conversas animadas, cheias<br \/>\n    de vivacidade, brilhantes de eloq&uuml;&ecirc;ncia e de esp&iacute;rito, em<br \/>\n    que ele tamb&eacute;m tomava parte, jogavam, como princ&iacute;pios assentes,<br \/>\n    certas proposi&ccedil;&otilde;es que ele fora educado a considerar como abomin&aacute;veis<br \/>\n    heresias, Isto era o bastante para que ele abjurasse o credo velho com que<br \/>\n    o haviam catequizado na prov&iacute;ncia e professasse a doutrina nova.<\/p>\n<p> A baronesa, que revelava tudo isto muito extensamente a Jorge, colorira<br \/>\n    e ocultara parte da verdade a D. Luis, para n&atilde;o o assustar.<\/p>\n<p> Ela, por&eacute;m, via com prazer o &ecirc;xito do seu protegido, que excedia<br \/>\n    a sua expectativa.<\/p>\n<p> &laquo;Em pouco tempo &#8212; escrevia ela a Jorge &#8212; teu irm&atilde;o<br \/>\n    tornou-se um homem da moda, e &eacute; para ver o bem que ele sabe sustentar<br \/>\n    aposi&ccedil;&atilde;o que tomou de assalto. Nas frisas de S. Carlos, nos<br \/>\n    primeiros sal&otilde;es de Lisboa, Maur&iacute;cio est&aacute; como em terreno<br \/>\n    conhecido, e muitos nados e criados nestes ares invejam-lhe o seu aplomb e<br \/>\n    o seu savoir faire inimit&aacute;veis. O ministro dos Negocios Estrangeiros,<br \/>\n    a quem muito especialmente o recomendei, d&aacute;-me as melhores esperan&ccedil;as<br \/>\n    de ele ser despachado como adido para o corpo diplom&aacute;tico, carreira<br \/>\n    que sobre todas me parece a mais talha4a para as predilec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e talentos do nosso protegido.&raquo; Estas not&iacute;cias foram recebidas<br \/>\n    com prazer por Jorge e por D. Luis.<\/p>\n<p> Este recordou-se, ao l&ecirc;-las, do tempo da sua juventude, em que tamb&eacute;m<br \/>\n    trilhara a carreira da diplomacia. Jorge conhecia a fundo o car&aacute;cter<br \/>\n    do irm&atilde;o e sentia que ele tinha de facto entrado no caminho para onde<br \/>\n    o chamavam os seus talentos e as suas disposi&ccedil;&otilde;es morais.<\/p>\n<p> A imagina&ccedil;&atilde;o de Maur&iacute;cio era muito podei osa e exigente<br \/>\n    ; as tarefas proveitosas, mas modestas, o trabalho na obscuridade da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    consagra&ccedil;&atilde;o de uma vida inteira ao cumprimento de um dever,<br \/>\n    n&atilde;o lhe bastavam.<\/p>\n<p> uma impaci&ecirc;ncia insuper&aacute;vel desviava-o desse caminho.<\/p>\n<p> As brilhantes apar&ecirc;ncias, a vida agitada, a variedade de impress&otilde;es,<br \/>\n    as lutas incessantes, alimento da febril ansiedade que devora certos esp&iacute;ritos,<br \/>\n    eram-lhe indispens&aacute;veis. Sob a influ&ecirc;ncia de tais est&iacute;mulos,<br \/>\n    as suas faculdades entravam em ac&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o se contentava<br \/>\n    com os aplausos da consci&ecirc;ncia pr&oacute;pria, precisava dos aplausos<br \/>\n    do mundo.<\/p>\n<p> Para os conquistar tentaria esfor&ccedil;os sobre-humanos.<\/p>\n<p> Jorge era uma alma formada para o dever ; Maur&iacute;cio uma alma formada<br \/>\n    para a gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o p&ocirc;de deixar de sentir-se lisonjeado com o bom &ecirc;xito<br \/>\n    do filho, n&atilde;o obstante as vagas apreens&otilde;es que sentia de que<br \/>\n    a &iacute;ntima conviv&ecirc;ncia com a corrupta mocidade da corte o contaminasse.<br \/>\n    Felizmente o velho realista n&atilde;o tinha j&aacute; a seu lado o padre<br \/>\n    procurador com a sua incessante prega&ccedil;&atilde;o contra os costumes<br \/>\n    do s&eacute;cuIo, que era dantes o tema obrigado das conversa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    di&aacute;rias. E desde ent&atilde;o as preven&ccedil;&otilde;es do fidalgo<br \/>\n    haviam perdido muito das cores carregadas que as tingiam.<\/p>\n<p> &Agrave;s primeiras cartas seguiram-se outras, confirmando as not&iacute;cias<br \/>\n    dadas naquelas.<\/p>\n<p> As auras continuavam a soprar favor&aacute;veis a Maur&iacute;cio nos mares<br \/>\n    insidiosos da corte. A baronesa dava quase como certo o pr&oacute;ximo despacho<br \/>\n    dele para adido a uma embaixada de Viena ou de Berlim.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio relacionara-se intimamente com os primeiros personagens<br \/>\n    da situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica dominante, que se interessavam por<br \/>\n    ele. As simpatias femininas, poderoso elemento de prosperidade naquelas altas<br \/>\n    regi&otilde;es, como em geral em todas, conspiravam tamb&eacute;m a seu favor.<\/p>\n<p> &laquo; com mais um pequeno esfor&ccedil;o talvez fosse poss&iacute;vel<br \/>\n    faz&ecirc;-lo ministro &#8212; escrevia a baronesa a Jorge &#8212; que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; em Portugal dos postos de mais dif&iacute;cil acesso. Ministro da<br \/>\n    Marinha, pelo menos, que &eacute; a pasta dos principiantes e a mais adequada<br \/>\n    para os homens de imagina&ccedil;&atilde;o como ele, onde t&ecirc;m muito<br \/>\n    que alimentar, porque &eacute; a pasta simb&oacute;lica das nossas gl&oacute;rias<br \/>\n    passadas e pouco mais.&raquo; Nesta mesma carta de Gabriela havia alguns per&iacute;odos<br \/>\n    em que, usando uma linguagem mais grave, ela falava da probabilidade do seu<br \/>\n    casamento com Maur&iacute;cio.<\/p>\n<p> &laquo;N&atilde;o atribuas este projecto a um mero capricho de mulher. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute;. Resolvi-me a dar este passo depois de ter reflectido o mais friamente<br \/>\n    poss&iacute;vel nas vantagens e consequ&ecirc;ncias dele. Mais tarde ou mais<br \/>\n    cedo eu tinha de contrair segundas nupcias ; a posi&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    me acho e as impertinencias dos in&uacute;meros aspirantes &agrave; minha<br \/>\n    m&atilde;o, ou antes aos bens que herdei de meu marido, assim o exigiam. Era<br \/>\n    dif&iacute;cil deixar de ceder. A minha simpatia por Maur&iacute;cio &eacute;<br \/>\n    um motivo de prefer&ecirc;ncia muito justificado. Nenhum candidato me agradava<br \/>\n    mais, o que n&atilde;o quer dizer que me sinta apaixonada. Mas muito teria<br \/>\n    que esperar se aguardasse por uma paix&atilde;o para me decidir. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o estou em tempo disso. Maur&iacute;cio &eacute; um rapaz am&aacute;vel<br \/>\n    e delicado bastante para n&atilde;o me dar motivos de arrepender-me. &Eacute;<br \/>\n    quanto exijo. Sou tolerante por &iacute;ndole e por h&aacute;bito ; n&atilde;o<br \/>\n    ter&atilde;o portanto efeito sobre mim os costumados motivos de desola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todas as esposas extremosas, motivos que muito provavelmente Maur&iacute;cio<br \/>\n    n&atilde;o deixar&aacute; de dar &agrave; sua. Isto pelo que me diz respeito.<br \/>\n    Quanto a ele, entende que lhe conv&eacute;m este casamento.<\/p>\n<p> Primeiro, porque realizar&aacute; uma opera&ccedil;&atilde;o financeira<br \/>\n    um tanto vantajosa; depois, porque, gra&ccedil;as &agrave; minha longanimidade,<br \/>\n    n&atilde;o pear&aacute; demasiadamente os seus movimentos de rapaz com os<br \/>\n    la&ccedil;os matrimoniais, sem que por isso corra os percal&ccedil;os dos<br \/>\n    maridos pouco fi&eacute;is aos lares dom&eacute;sticos. O Jorge faz-me a justi&ccedil;a<br \/>\n    de assim o acreditar, n&atilde;o &eacute; verdaue ? E, finalmente, porque<br \/>\n    desta maneira precav&ecirc;-se contra alguma tenta&ccedil;&atilde;o, a que<br \/>\n    s&atilde;o sujeitas as cabe&ccedil;as como a dele, que em um momento de entusiasmo<br \/>\n    transtornam todo o seu futuro. Casando comigo, fica livre de desposar a primeira<br \/>\n    dan&ccedil;arina de S. Carlos que o fascinar. Em conclus&atilde;o, creio que<br \/>\n    poucas mulheres poderiam como eu aceitar Maur&iacute;cio para marido, com<br \/>\n    tanta probabilidade de n&atilde;o o fazerem infeliz nem de o serem. O que<br \/>\n    &eacute; preciso &eacute; aproveitar o ensejo em que Maur&iacute;cio me fa&ccedil;a<br \/>\n    a honra de uma prefer&ecirc;ncia. Por isso talvez qualquer dia surpreendamos<br \/>\n    o tio Luis pedindo-lhe a autoriza&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria.<\/p>\n<p> Espero que o Jorge advogar&aacute; a nossa causa. Perdoa-me se alguma leviandade<br \/>\n    descobrires ainda nesta minha resolu&ccedil;&atilde;o. Acredita, por&eacute;m,<br \/>\n    que nunca pude ser mais s&eacute;ria do que o estou sendo, ao escrever-te<br \/>\n    esta carta.&raquo; Havia ainda um p&oacute;s-escrito, em que ela acrescentava:<br \/>\n    &laquo;Berta ainda est&aacute; nos Bacelos? Ser&aacute; bom que se demore.<br \/>\n    Nunca &eacute; tarde de mais para o tal casamento, com o qual por enquanto<br \/>\n    me n&atilde;o pude conformar.&raquo; A comunica&ccedil;&atilde;o que lhe fazia<br \/>\n    Gabriela surpreendeu em extremo Jorge, que muito longe estava de prev&ecirc;-la.<br \/>\n    Reflectindo, por&eacute;m, acabou por achar que a prima tinha raz&atilde;o<br \/>\n    e por convencer-se de que, n&atilde;o obstante o tom ligeiro da carta que<br \/>\n    lera, expunham-se nela raz&otilde;es de peso para justificar o facto anunciado.<\/p>\n<p> Casando com a baronesa, Maur&iacute;cio precavia-se contra si pr&oacute;prio<br \/>\n    e ligava-se a uma mulher que, por as especiais disposi&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    sua &iacute;ndole, saberia respeitar o nome do marido, sem que a fizessem<br \/>\n    desgra&ccedil;ada os prov&aacute;veis desvarios dele.<\/p>\n<p> Efectivamente, conforme o que a baronesa predissera, semanas depois era<br \/>\n    D. Luis surpreendido por uma carta dela e outra de Maur&iacute;cio, pedindo-lhe<br \/>\n    o benepl&aacute;cito para o referido casamento O fidalgo recebeu com prazer<br \/>\n    a inesperada nova.<\/p>\n<p> Gabriela era por muitos motivos uma esposa que para qualquer dos seus filhos<br \/>\n    ele ambicionava. Jovem, rica, de sangue igual ao seu, e de sentimentos elevados<br \/>\n    sob a frivola apar&ecirc;ncia de que os revestia, a baronesa augurava um auspicioso<br \/>\n    futuro ao homem a quem desse o t&iacute;tulo de marido. Para Maur&iacute;cio<br \/>\n    seria demais uma prudente conselheira e um obst&aacute;culo a muitas loucuras,<br \/>\n    que, entregue a si ou a pior vigil&acirc;ncia, o rapaz n&atilde;o deixaria<br \/>\n    de cometer.<\/p>\n<p> Por isso D. Luis, com &acirc;nimo folgado e um sorriso expansivo a alisar-lhe<br \/>\n    na fronte e nos l&aacute;bios a contrac&ccedil;&atilde;o habitual, apressou-se<br \/>\n    a responder ao pedido nas mais ben&eacute;volas e lisonjeiras frases que lhe<br \/>\n    inspirava o seu bom humor.<\/p>\n<p> Berta veio dar com ele sentado &agrave; secret&aacute;ria a escrever. A<br \/>\n    filha de Tom&eacute; da P&oacute;voa quis retirar-se para n&atilde;o o interromper.<\/p>\n<p> D. Luis, conhecendo-lhe os passos, disse sem desviar os olhos do papel em<br \/>\n    que escrevia: &#8212; Entra, Berta, entra, que n&atilde;o me incomodas.<\/p>\n<p> E, sentindo-a mais perto, acrescentou: &#8212; Sabes o que estou fazendo<br \/>\n    ? &#8212; A escrever ; bem vejo.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ; mas a quem ? &#8212; A seu filho Maur&iacute;cio, talvez.<\/p>\n<p> &#8212; A Maur&iacute;cio e a Gabriela tamb&eacute;m. E sabes a respeito<br \/>\n    de qu&ecirc; ? &#8212; Eu n&atilde;o, senhor.<\/p>\n<p> O fidalgo terminava naquele momento a assinatura no extremo inferior da<br \/>\n    p&aacute;gina, e s&oacute; depois de conclu&iacute;-la foi que, voltando-se<br \/>\n    para Berta, continuou : &#8212; Autorizo um casamento.<\/p>\n<p> &#8212; um casamento ? ! &#8212; &Eacute; verdade. Havia algu&eacute;m de<br \/>\n    supor que o Maur&iacute;cio se casava ? ! &#8212; Casa-se ! com quem ? &#8212;<br \/>\n    A ver se adivinhas.<\/p>\n<p> Berta reflectiu alguns instantes.<\/p>\n<p> &#8212; E eu conhe&ccedil;o a noiva ? &#8212; Conheces perfeitamente.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o pode deixar de ser a sr.a baronesa.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente. &Eacute; Gabriela.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma felicidade para ele.<\/p>\n<p> &#8212; Assim tamb&eacute;m o julgo. Se algu&eacute;m se aventura neste<br \/>\n    casamento &eacute; a noiva.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. Maur&iacute;cio tem uma boa alma, n&atilde;o dar&aacute; motivos<br \/>\n    de arrependimento a quem depositar confian&ccedil;a nele.<\/p>\n<p> &#8212; Hum ! &Eacute; muito rapaz &#8212; murmurou o fidalgo, fingindo<br \/>\n    sentir contra o filho maiores preven&ccedil;&otilde;es do que efectivamente<br \/>\n    sentia.<\/p>\n<p> Berta julgou que era ocasi&atilde;o oportuna de p&ocirc;r em pr&aacute;tica<br \/>\n    um projecto, que desde madrugada meditava.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa tinha-a na v&eacute;spera procurado para lhe<br \/>\n    falar na visita que recebera da m&atilde;e de Clemente, e no que ela lhe dissera<br \/>\n    sobre o desgosto em que andava o filho com a demora do projectado casamento.<\/p>\n<p> Tom&eacute; n&atilde;o queria apressar a sa&iacute;da de Berta dos Bacelos,<br \/>\n    mas, lembrando-se de que o fidalgo ia melhor e de que, por certo, n&atilde;o<br \/>\n    seria ele o primeiro a dizer a Berta que prescindia dos seus cuidados, pensava<br \/>\n    que seria bom que ela lhe insinuasse a necessidade da separa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e para isso bastava pedir-lhe, como a padrinho que era, licen&ccedil;a para<br \/>\n    o casamento que se ajustara.<\/p>\n<p>Berta perguntou ao pai se tinha j&aacute; a certeza de que Clemente estivesse<br \/>\n    ainda resolvido a insistir na sua proposta. Tom&eacute; admirou-se da pergunta,<br \/>\n    porque nada sabia da confer&ecirc;ncia da filha com o noivo, e assegurou-a<br \/>\n    de que a resolu&ccedil;&atilde;o de Clemente era ainda a mesma, visto que<br \/>\n    a m&atilde;e naquele mesmo dia lhe viera recordar o ajuste.<\/p>\n<p> Em vista desta declara&ccedil;&atilde;o, Berta prometeu falar naquele assunto<br \/>\n    a D. Luis, no dia seguinte, e era esse o ensejo que ela desde pela manh&atilde;<br \/>\n    procurava.<\/p>\n<p> O assunto a que a coincid&ecirc;ncia das cartas de Maur&iacute;cio e da<br \/>\n    baronesa chamava a conversa, preparara excelentemente o caminho para o pedido<br \/>\n    de Berta.<\/p>\n<p> Aproximando-se da cadeira em que estava sentado o padrinho, disse-lhe com<br \/>\n    o tom de afabilidade com que aprendera a domin&aacute;-lo : &#8212; J&aacute;<br \/>\n    que est&aacute; em mar&eacute; de condescender com os pedidos que lhe fazem,<br \/>\n    n&atilde;o quero perder a ocasi&atilde;o de lhe fazer um tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! tens um pedido a fazer-me ? &#8212; Tenho. &Eacute; t&atilde;o<br \/>\n    parecido com esse ! &#8212; com esse&#8230; qual? &#8212; com o que lhe fez seu<br \/>\n    filho.<\/p>\n<p> &#8212; com o pedido de Maur&iacute;cio? mas&#8230; ent&atilde;o trata-se de<br \/>\n    casamento ? &#8212; Sim, meu padrinho. &Eacute; de um casamento que se trata.<\/p>\n<p> &#8212; De quem? &#8212; interrogou o fidalgo, fitando os olhos em Berta.<\/p>\n<p> &#8212; De quem h&aacute;-de ser, se sou eu a que lhe pe&ccedil;o? &#8212;<br \/>\n    respondeu esta, baixando os seus, e n&atilde;o podendo disfar&ccedil;ar a<br \/>\n    melancolia que ainda lhe causava aquela id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; Tu?! &#8212; exclamou D. Luis sobressaltado, e voltando-se rapidamente.&#8212;<br \/>\n    Tu queres&#8230; tu vais casar-te?! &#8212; Sim, Sr. D. Luis, est&aacute; decidido<br \/>\n    que isto se fa&ccedil;a e eu pe&ccedil;o-lhe licen&ccedil;a para o fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Tu casares-te, Berta ! &#8212; repetia o velho, como se lhe fosse<br \/>\n    dif&iacute;cil conformar-se com essa id&eacute;ia &#8212; mas&#8230; com quem?<br \/>\n    &#8212; com o filho da Ana do Vedor, com Clemente.<\/p>\n<p> D. Luis deu um salto na cadeira, ao ouvir a resposta, e bateu com a m&atilde;o<br \/>\n    na banca que tinha diante de si.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc; ? !&#8230; Ora adeus ! Tu est&aacute;s a brincar comigo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, meu padrinho, falo-lhe s&egrave;riamente.<\/p>\n<p> &#8212; com o Clemente ? ! Tu casares com o Clemente ? Tu, uma rapariga<br \/>\n    delicada, de educa&ccedil;&atilde;o, de gosto, de sentimentos elevados, casares-<br \/>\n    te com um r&uacute;stico, com um rapaz que quando muito saber&aacute; escrever<br \/>\n    o seu nome! com o filho da Ana, com o sr. regedor! Isso n&atilde;o tem jeito<br \/>\n    nenhum. Isso &eacute; um disparate de tal ordem !&#8230; Quem foi que se lembrou<br \/>\n    de tal ? ! &#8212; Clemente pediu-me a meu pai&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E teu pai concedeu? Coisas do Tom&eacute; afinal. Mas tu? tu, Berta,<br \/>\n    tu consentiste ? !<\/p>\n<p>&#8212; Clemente &eacute; um bom rapaz, honrado, amigo do trabalho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, amigo do trabalho, honrado, e e isso bastante para que<br \/>\n    uma rapariga como tu v&aacute; sacrificar o seu futuro e ligar a sua exist&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; de um homem que n&atilde;o pode servir-lhe de boa companhia?! &#8212;<br \/>\n    E porque &eacute; que n&atilde;o pode, meu padrinho? Ele &eacute; bom e delicado,<br \/>\n    dizem.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! que grandes delicadezas as de Clemente ! Nem tu sabes o que<br \/>\n    vais fazer, Berta. Pois deveras o teu cora&ccedil;&atilde;o aprova essa escolha<br \/>\n    ? &#8212; N&atilde;o, Sr. D. Luis, n&atilde;o &eacute; que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ma pe&ccedil;a, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o quem te obriga ? Por acaso teu pai violenta-te ? &#8212;<br \/>\n    Tamb&eacute;m n&atilde;o ; mas o padrinho sabe que nem sempre o &iquest;ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bom conselheiro. Mais vale &agrave;s vezes n&atilde;o esperar que<br \/>\n    ele escolha.<\/p>\n<p> Oh ! se mais vale ! Podendo-se decidir a sangue-frio e antes que o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    decida, mais vale.<\/p>\n<p> &#8212; O Clemente n&atilde;o pode ser teu marido. Tu, Berta, tu a quem<br \/>\n    Deus concedeu qualidades t&atilde;o distintas, que melhor estarias nessas<br \/>\n    casas nobres que por a&iacute; h&aacute; do que algumas raparigas atoleimadas<br \/>\n    que por l&aacute; tenho encontrado, tu, que me recordas a minha pobre Beatriz,<br \/>\n    que pareces ter herdado os modos, os gostos, os sentimentos dela, tu h&aacute;s-de<br \/>\n    ir casar com o Clemente ! Nem quero ouvir falar mais nisso.<\/p>\n<p> &#8212; A sua muita bondade para comigo, padrinho, &eacute; que o cega.<\/p>\n<p> Pois diga a que posso eu afinal aspirar? &#8212; A que podes aspirar?! &#8212;<br \/>\n    exclamou o fidalgo, a quem a exalta&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito, que<br \/>\n    o pedido de Berta produzira, quase fazia esquecer os seus princ&iacute;pios<br \/>\n    mais radicados &#8212; aqui, nesta terra de selvagens, n&atilde;o podes aspirar<br \/>\n    a mais, porque n&atilde;o h&aacute; quem te mere&ccedil;a at&eacute;. Aqui<br \/>\n    nem sequer por sonhos se sabe o que &eacute; delicadeza de sentimentos, nem<br \/>\n    sequer de longe se apreciam essas nobres qualidades de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de esp&iacute;rito de que Deus te dotou, e que tu queres perder na conviv&ecirc;ncia<br \/>\n    com um homem grosseiro, e que nem pode conhecerFo tesouro que deseja possuir.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, Sr. D. Luis, que outra pode ser a minha sorte? Ora diga.<\/p>\n<p> D. Luis, fazendo um gesto de despeito, respondeu com veem&ecirc;ncia : &#8212;<br \/>\n    Pois bem, queres ser mulher de Clemente, n&atilde;o &eacute; assim ? queres<br \/>\n    ir sacrificar os teus merecimentos a esse homem? queres dedicar-lhe todo o<br \/>\n    teu futuro, consagrar todos os teus pensamentos, todas as tuas aptid&otilde;es<br \/>\n    aos arranjos da casa da Ana do Vedor? Pois bem, faz a tua vontade. Mas escusas<br \/>\n    de vir pedir o meu consentimento. Eu n&atilde;o quero ficar com remorsos de<br \/>\n    ter sancionado um disparate dessa marca. Tu mulher do Clemente! Voc&ecirc;s,<br \/>\n    as raparigas, afinal, s&atilde;o todas assim; as mais ajuizadas, ou tarde<br \/>\n    ou cedo caem em uma loucura, como para mostrarem que s&atilde;o mulheres.<br \/>\n    Para que vens pedir-me conselho, se formaste o prop&oacute;sito de n&atilde;o<br \/>\n    o escutares? Anda l&aacute;, faz a tua vontade, e Deus queira que te n&atilde;o<br \/>\n    arrependas, quando j&aacute; n&atilde;o for tempo. Tu n&atilde;o necessitas<br \/>\n    do meu consentimento, faz l&aacute; o que quiseres.<\/p>\n<p> E D. Luis encostou-se &agrave; mesa com gesto e movimentos de amuado.<\/p>\n<p>&#8212; Por&eacute;m, meu padrinho &#8212; insistiu Berta, pousando-lhe as<br \/>\n    m&atilde;os no ombro com a doce familiaridade de filha &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    era esse consentimento de m&aacute; vontade que eu lhe pedia ; esse n&atilde;o<br \/>\n    me trar&aacute; felicidade, bem v&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8212; Queres talvez for&ccedil;ar-me a dizer que aprovo um casamento contra<br \/>\n    o qual se revolta a consci&ecirc;ncia? &Eacute; boal &#8212; Mas pense bem<br \/>\n    e talvez que a sua consci&ecirc;ncia n&atilde;o ache motivos para revoltar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes que mais? Diz que amas esse homem, que sentes por ele uma<br \/>\n    inclina&ccedil;&atilde;o irresist&iacute;vel, e ent&atilde;o eu entenderei<br \/>\n    a tua insist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o digo, porque n&atilde;o diria a verdade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ent&atilde;o onde est&aacute; essa necessidade de casamento<br \/>\n    ? Berta sentiu que devia falar com toda a gravidade ao padrinho para convenc&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, Sr. D. Luis &#8212; disse ela &#8212; eu vou inform&aacute;-lo<br \/>\n    de todo o meu pensamento, e dir&aacute; depois se tenho raz&atilde;o. A educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que meu pai me deu n&atilde;o me cegou a ponto de iludir-me a respeito do<br \/>\n    meu futuro e do destino que me est&aacute; reservado. O exemplo de minha m&atilde;e,<br \/>\n    que tem sabido em t&ocirc;da a sua vida ser a companheira fiel de um homem<br \/>\n    de trabalho e tem compreendido que a sua miss&atilde;o era aquela, a de fazer-lhe<br \/>\n    esquecer em casa os desgostos de fora e dar-lhe for&ccedil;as para continuar<br \/>\n    a sua tarefa, este exemplo nunca o perdi de vista ; entendi sempre que ter&aacute;<br \/>\n    de ser esse o meu papel neste mundo, e nem me envergonhei, nem me temi nunca<br \/>\n    dele. Sinto em mim for&ccedil;as para aceit&aacute;- lo e para cumpri-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas nem s&oacute; os homens de trabalho material e grosseiro s&atilde;o<br \/>\n    os que precisam desse conforto da casa e da fam&iacute;lia. As lidas da intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    tamb&eacute;m cansam, Berta, e &agrave; cabe&ccedil;a desfalecida &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a de estudo tamb&eacute;m &eacute;.grato encontrar um seio amigo<br \/>\n    onde se encoste a descansar &#8212; redarguiu o fidalgo com uma anima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    excepcional.<\/p>\n<p> Berta tornou-lhe, sorrindo: &#8212; E qual seria a cabe&ccedil;a cansada<br \/>\n    de muito pensar que viria procurar a esta aldeia o seio em que repousasse<br \/>\n    ? De longe &eacute; de crer que n&atilde;o viessem, e as daqui&#8230; h&aacute;<br \/>\n    t&atilde;o poucas que se sintam cansadas disso! Creia, Sr. D. Luis, s&oacute;<br \/>\n    um lavrador como Clemente procuraria a filha do lavrador Tom&eacute; da P&oacute;voa,<br \/>\n    e Clemente &eacute; um homem digno de ser estimado.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; um lavrador ! Que est&aacute;s tu a&iacute; a dizer ?<br \/>\n    ! E porqu&ecirc; ? Tomaram- te para esposa esses doutores que por a&iacute;<br \/>\n    est&atilde;o ociosos, comendo e bebendo &agrave; custa dos pais, e esquecendo<br \/>\n    o pouco que aproveitaram em Coimbra na vida in&uacute;til que levam ; olha<br \/>\n    que n&atilde;o te haviam de enjeitar esses morgados vadios e perdul&aacute;rios,<br \/>\n    que passam a vida em ca&ccedil;adas e que arrastam o nome que herdaram pelas<br \/>\n    tabernas e por todos os lugares de devassid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Esses enjeit&aacute;-los-ia eu. Pois julga que lhe n&atilde;o devo<br \/>\n    preferir Clemente ?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o digo esses, mas&#8230; enfim&#8230; ainda por a&iacute; h&aacute;<br \/>\n    gente&#8230;<\/p>\n<p> bem-educada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se n&atilde;o fosse a sua muita bondade para comigo, o meu padrinho<br \/>\n    mesmo acharia natural este casamento, e pelo contr&aacute;rio estranharia<br \/>\n    se, algum dos filhos dessas fam&iacute;lias que diz, fosse procurar noiva<br \/>\n    a casa de meu pai.<\/p>\n<p> O sentido epigram&aacute;tico desta resposta, ditado a Berta por a nobre<br \/>\n    e justa indigna&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o, que depois de se<br \/>\n    haver sacrificado aos preconceitos de um homem, via o pr&oacute;prio por quem<br \/>\n    fizera o sacrif&iacute;cio negar a necessidade dele, feriu certeiro o fidalgo,<br \/>\n    que se sentiu vencido.<\/p>\n<p> Mudou, pois, de t&aacute;ctica, e com a eloq&uuml;&ecirc;ncia que lhe inspirava<br \/>\n    o receio de perder a companhia de Berta, tomou: &#8212; Muito bem ; dizes<br \/>\n    que n&atilde;o amas esse homem, que n&atilde;o cedes a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alguma do cora&ccedil;&atilde;o, aceitando-o por marido ; que se o fazes &eacute;<br \/>\n    por julgares que &eacute; essa a tua miss&atilde;o de mulher, a de suavizar<br \/>\n    a vida de um homem, e de tornar-lhe mais f&aacute;cil o seu caminho no mundo.<\/p>\n<p> E para cumprires essa miss&atilde;o vais deixar-me s&oacute;, velho, doente,<br \/>\n    abandonado dos filhos, sem conforto algum na vida ; s&oacute; com as lembran&ccedil;as<br \/>\n    pungentes do meu passado, e isso depois de me habituares &agrave; tua companhia,<br \/>\n    depois de me haveres recordado as do&ccedil;uras deste viver ao lado de uma<br \/>\n    filha, do&ccedil;uras que o amargor das saudades me tirava dos l&aacute;bios<br \/>\n    havia muito tempo. Para que vieste ent&atilde;o? Quem te chamou? Se eu tivesse<br \/>\n    ficado s&oacute;, estaria morto talvez e seria feliz. Vieste para me obrigares<br \/>\n    a sentir agora esta separa&ccedil;&atilde;o; para me fazeres morrer de paix&atilde;o<br \/>\n    no dia em que celebrares esse casamento. Que queres? Estava habituado a considerar-te<br \/>\n    quase como uma segunda Beatriz que Deus me concedera, e podes julgar se eu<br \/>\n    daria a Clemente uma filha minha.<\/p>\n<p> &#8212; Meu padrinho ! &#8212; exclamou Berta, inquietando-se com a exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do fidalgo.<\/p>\n<p> D. Luis prosseguiu sem a escutar : &#8212; Mas que te importas comigo ?<br \/>\n    Eu estou velho ; as cabe&ccedil;as na minha idade vergam muito para a terra,<br \/>\n    pesam demasiado, n&atilde;o se pode exigir de umas m&atilde;os jovens a tarefa<br \/>\n    de as sustentarem. Ainda se fossem as de uma filha ! Mas para que vieste ?<br \/>\n    Julgas que me deixas forte? Est&aacute;s enganada. Esta vida em mim &eacute;<br \/>\n    fict&iacute;cia. &Eacute; da tua presen&ccedil;a que a recebo. Amanh&atilde;<br \/>\n    que me deixes, ver-me-&aacute;s mais prostrado do que me encontraste. Enquanto<br \/>\n    viveu a minha Beatriz, ningu&eacute;m me viu fraquear. Dois meses consecutivos,<br \/>\n    dois meses, passei junto do leito onde ela agonizava, quase sem dormir, quase<br \/>\n    sem comer, e nunca me faltaram as for&ccedil;as, e desde o momento em que<br \/>\n    ma tiraram dos bra&ccedil;os para ma encerrarem no t&uacute;mulo, abandonou-me<br \/>\n    toda a minha energia, e ca&iacute; no leito quase exausto de vida. Mas vai,<br \/>\n    n&atilde;o quero sacrificar o teu futuro. A companhia de um velho cansa. Os<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es na tua idade precisam de ar e de alegrias. Eu bem conhe&ccedil;o<br \/>\n    isso ; mas n&atilde;o me digas que &eacute; somente a consci&ecirc;ncia da<br \/>\n    miss&atilde;o que te compete na vida a que te impele ; essa bem a desempenharias<br \/>\n    tu aqui, e generosa e aben&ccedil;oada como nenhuma, porque nenhum cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    receber&aacute; de ti consola&ccedil;&atilde;o igual &agrave;quela que me<br \/>\n    d&aacute;s ; podes cr&ecirc;-lo, porque tamb&eacute;m poucos h&aacute; mais<br \/>\n    apertados de ang&uacute;stias e que h&aacute; tanto tempo abafassem como este<br \/>\n    meu. Mas queres deixar-me&#8230; Vai&#8230; vai, que eu n&atilde;o devo, nem quero<br \/>\n    impedir-te.<\/p>\n<p> Havia t&atilde;o sens&iacute;vel como&ccedil;&atilde;o na voz com que D.<br \/>\n    Luis pronunciava estas palavras, que Berta sentiu o cont&aacute;gio dela,<br \/>\n    e pegando nas m&atilde;os do padrinho para as levar aos l&aacute;bios, disse<br \/>\n    sensibilizada: &#8212; &Oacute; meu padrinho, se &eacute; verdade o que diz,<br \/>\n    se a minha companhia lhe faz t&atilde;o bem, ordene-me que fique, e ningu&eacute;m<br \/>\n    me tirar&aacute; de junto de si, e nenhuma sorte me ser&aacute; mais querida<br \/>\n    do que esta. Concorrendo para aliviar-lhe os seus sofrimentos, parece-me que<br \/>\n    estou cumprindo um encargo que Beatriz me deixou, e que ela do C&eacute;u<br \/>\n    me sorri e agradece. Quer que n&atilde;o saia de ao p&eacute; de si ? quer<br \/>\n    que lhe consagre todos os meus cuidados? f&aacute;-lo-ei, e f&aacute;-lo-ei<br \/>\n    com prazer.<\/p>\n<p> O velho cingiu a formosa cabe&ccedil;a daquela rapariga, que se lhe ajoelhava<br \/>\n    aos p&eacute;s, e aproximando-lhe dos l&aacute;bios a fronte e as faces beijou-as<br \/>\n    a chorar.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado, Berta, obrigado por essas palavras, que me entram pelo<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o como um b&aacute;lsamo salutar. A minha vida n&atilde;o<br \/>\n    pode ser muito longa, filha, o teu sacrif&iacute;cio n&atilde;o duraria muito<br \/>\n    tempo&#8230; mas nem eu quero que fa&ccedil;as promessas de cumpri-lo. S&oacute;<br \/>\n    te pe&ccedil;o que me d&ecirc;s algum tempo para responder &agrave; tua peti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que at&eacute; l&aacute; me n&atilde;o fales mais nesse casamento. Eu pensarei<br \/>\n    e talvez&#8230; talvez me conforme com essa id&eacute;ia contra a qual ainda me<br \/>\n    revolto. Pode ser isto ? Podes esperar na minha companhia alguns dias mais?<br \/>\n    &#8212; Esperarei o tempo que quiser. E n&atilde;o pense por ora em tal casamento,<br \/>\n    se esse pensamento o aflige. Se soubesse nem lhe tinha falado nisto.<\/p>\n<p> &#8212; Melhor foi que falasses ; &eacute; preciso pensar com vagar nisso.<\/p>\n<p> &#8212; Mas agora n&atilde;o, vamos at&eacute; &agrave; quinta, que a manh&atilde;<br \/>\n    est&aacute; bonita.<\/p>\n<p> Em resultado desta confer&ecirc;ncia nada ficou determinado enquanto &agrave;<br \/>\n    &eacute;poca do casamento. Tom&eacute; teve de dizer &agrave; Ana do Vedor<br \/>\n    que o fidalgo ainda n&atilde;o podia prescindir da companhia de Berta.<\/p>\n<p> Ana n&atilde;o ouviu a not&iacute;cia sem fazer-lhe coment&aacute;rios,<br \/>\n    nos quais havia algumas azedas alus&otilde;es ao ego&iacute;smo do fidalgo,<br \/>\n    que depois de ofender o pai, assim se sabia apropriar dos servi&ccedil;os<br \/>\n    que lhe prestava a filha.<\/p>\n<p> Cumpre, por&eacute;m, notar que a boa Ana seria a primeira a aconselhar<br \/>\n    Berta a que ficasse, porque sentia verdadeira pena do estado a que chegara<br \/>\n    D. Luis.<\/p>\n<h2>XXXII<\/h2>\n<p>N&atilde;o podia passar da id&eacute;ia a Clemente a maneira ins&oacute;lita<br \/>\n    e quase desabrida com que Jorge por duas vezes recebera as suas consultas<br \/>\n    relativamente ao assunto do casamento de Berta.<\/p>\n<p> Clemente conhecera sempre em Jorge uma tal placidez de esp&iacute;rito,<br \/>\n    uma tal impassibilidade em presen&ccedil;a dos casos mais estranhos, que n&atilde;o<br \/>\n    sabia como explicar aquela s&uacute;bita transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta mudan&ccedil;a em Jorge e a revela&ccedil;&atilde;o que ouvira da boca<br \/>\n    de Berta t&atilde;o preocupado traziam o pobre rapaz, que n&atilde;o podia<br \/>\n    dispor da aten&ccedil;&atilde;o para outro objecto. Distra&iacute;am-no estas<br \/>\n    id&eacute;ias das suas tarefas di&aacute;rias e agitavam-lhe o sono das suas<br \/>\n    noites.<\/p>\n<p> Jogava-lhe alternadamente o pensamento com estes dois assuntos, como se<br \/>\n    joga com duas esferas em uma s&oacute; m&atilde;o ; enquanto se arroja uma<br \/>\n    ao espa&ccedil;o, cai a outra a ocupar o lugar que fica vazio. Ora sucede<br \/>\n    que muitas vezes as esferas encontram-se e batem uma na outra ; s que muito<br \/>\n    ser&aacute; para admirar se deste choque resultar uma fa&iacute;sca? Pois<br \/>\n    com o jogo do pensamento pode suceder o mesmo. De duas id&eacute;ias que se<br \/>\n    encontram, &agrave; for&ccedil;a de se cruzarem muitas vezes no c&eacute;rebro,<br \/>\n    pode sair um clar&atilde;o. Este fen&oacute;meno sucedeu com Clemente.<\/p>\n<p> Pensava ele uma noite no seu leito: &#8212; Mas quem poder&aacute; ser o<br \/>\n    tal rapaz que Berta diz que amou e que ainda ama? Porque ser&aacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    o casamento com ele? E Jorge tamb&eacute;m diz que o &eacute;. Ele parece<br \/>\n    que sabe a este respeito alguma coisa mais do que disse. At&eacute; quando<br \/>\n    lhe falam nisso se enraivece. Quando me lembro ! Nunca o vi assim ! Nem ele<br \/>\n    era daquelas coisas. Como est&aacute; impertinente ! Mas o tal rapaz, o tal<br \/>\n    rapaz? &Eacute; claro que &eacute; conhecimento da cidade. Sim, porque da<br \/>\n    terra n&atilde;o pode ser&#8230; a rapariga j&aacute; h&aacute; muito que daqui<br \/>\n    saiu&#8230; e saiu crian&ccedil;a&#8230; Desde que chegou com ningu&eacute;m tem convivido&#8230;<br \/>\n    a n&atilde;o ser com os fidalgos da Casa Mourisca, mas esses&#8230; &Eacute; verdade<br \/>\n    que pelos modos Maur&iacute;cio lhe arrastou a asa, como faz a todas, mas<br \/>\n    ela n&atilde;o lhe deu confian&ccedil;a; enquanto a Jorge&#8230;<\/p>\n<p> Jorge&#8230; Jorge&#8230;<\/p>\n<p> De repente o filho da Ana do Vedor sentou-se de um salto na cama e murmurou<br \/>\n    j&aacute; audivelmente : &#8212; Jorge! Querem ver que&#8230;<\/p>\n<p> E sem bem saber o que fazia, acendeu luz. Este movimento de instinto, pelo<br \/>\n    qual parece que queremos desfazer com a luz de fora as meias sombras que dentro<br \/>\n    de n&oacute;s escurecem ainda uma id&eacute;ia, &eacute; frequente nestas<br \/>\n    circunst&acirc;ncias. Clemente permaneceu sentado no leito com a vista fixa<br \/>\n    e o queixo apoiado na m&atilde;o.<\/p>\n<p> E continuava murmurando: &#8212; E porque n&atilde;o ? E a mim que n&atilde;o<br \/>\n    me tinha ocorrido ! &Eacute; at&eacute; o mais prov&aacute;vel. E assim explica-se<br \/>\n    tudo&#8230; A maneira por que ele falou a primeira vez e ontem&#8230; Aquilo de sair<br \/>\n    da casa dos Bacelos, quando ela foi para l&aacute;&#8230; E a tristeza em que<br \/>\n    anda&#8230; Mas ent&atilde;o&#8230; e porque &eacute; imposs&iacute;vel? Ai, sim,<br \/>\n    o velho. Isso l&aacute; &eacute; verdade, quem falasse ao velho em tal, o<br \/>\n    que a&iacute; n&atilde;o iria!&#8230; Por&eacute;m&#8230; morrendo o pai&#8230; j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o havia trope&ccedil;o&#8230; E a&iacute; ficava eu&#8230; &Eacute; o que<br \/>\n    eu digo&#8230; &Eacute; verdade que o rapaz tem l&aacute; uns modos de pensar<br \/>\n    ! Aqui bateu Clemente uma palmada no travesseiro, exclamando quase : &#8212;<br \/>\n    E n&atilde;o &eacute; outra coisa ! Agora &eacute; que eu explico tudo o que<br \/>\n    ele me disse&#8230; e ela tamb&eacute;m. &Eacute; certo. Coitados! Se assim for&#8230;<br \/>\n    Mas &eacute; com certeza. Vou jur&aacute;-lo. Pois se n&atilde;o fosse&#8230;<br \/>\n    Ora se n&atilde;o &eacute;, &eacute; sem a menor d&uacute;vida. Eles gostam<br \/>\n    um do outro. Berta gosta de Jorge e o rapaz tamb&eacute;m gosta dela.<\/p>\n<p> E, formulando esta conclus&atilde;o, Clemente, com abstrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    igual &agrave; do fil&oacute;sofo que, excitado pela alegria de uma descoberta,<br \/>\n    saiu como estava do banho a proclam&aacute;-la por t&ocirc;da a cidade, saltou<br \/>\n    da cama e come&ccedil;ou a vestir-se com presteza sem reflectir no que fazia.<\/p>\n<p> J&aacute; meio vestido foi que reparou que eram duas horas da noite, e que<br \/>\n    portanto era aquele acto extempor&acirc;neo. com instintiva repugn&acirc;ncia<br \/>\n    deitou-se outra vez.<\/p>\n<p> Quando no decurso de uma noite nos luz assim de s&uacute;bito uma id&eacute;ia,<br \/>\n    em busca da qual and&aacute;vamos havia muito, quando nos ocorre a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um problema em que medit&aacute;vamos, impacienta-nos o imperturb&aacute;vel<br \/>\n    sil&ecirc;ncio e quieta&ccedil;&atilde;o que nos rodeia, formando t&atilde;o<br \/>\n    completo contraste com o tumulto que nos vai no pensamento. Ansiamos pelo<br \/>\n    dia para ter a quem comunicar a descoberta, e para a examinar &agrave; luz<br \/>\n    bem clara, e desenganarmo-nos de que n&atilde;o fomos v&iacute;timas de uma<br \/>\n    ilus&atilde;o nocturna.<\/p>\n<p> Enquanto o dia n&atilde;o rompe, o c&eacute;rebro &eacute; irritado por<br \/>\n    aquela sua cria&ccedil;&atilde;o, como o seio materno pelo ser desenvolvido<br \/>\n    ; acabado o per&iacute;odo da gesta&ccedil;&atilde;o mental, &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que a id&eacute;ia venha &agrave; luz, e qualquer demora &eacute; aflitiva.<\/p>\n<p> Este fen&oacute;meno psicol&oacute;gico passava-se em Clemente. Custou-lhe<br \/>\n    a respeitar o sono da m&atilde;e, esperando a luz do dia para lhe transmitir<br \/>\n    a descoberta que fizera.<\/p>\n<p> O resto da noite passou-a volvendo-se e revolvendo-se na cama sem poder<br \/>\n    dormir. Era quase um estado febril o seu.<\/p>\n<p> Incomodara-o a id&eacute;ia de que a sua pretens&atilde;o &agrave; alian&ccedil;a<br \/>\n    com Berta era o motivo da tristeza de Jorge, e que, sem o saber, fora ele<br \/>\n    o importuno despertador daquele sonho em que se embalavam ambos, deixando-<br \/>\n    se amar, sem pensarem no futuro do amor a que cediam. Sonho irrealiz&aacute;vel<br \/>\n    embora, por&eacute;m Clemente n&atilde;o quereria ter sido quem os acordou,<br \/>\n    Antemanh&atilde;, quando ainda a estrela de alva despedia pr&oacute;ximo do<br \/>\n    horizonte as suas &uacute;ltimas cintila&ccedil;&otilde;es, Clemente deixou<br \/>\n    finalmente o leito, onde n&atilde;o encontrara repouso, e foi passear para<br \/>\n    o campo contiguo &agrave; casa, aguardando o despertar da m&atilde;e.<\/p>\n<p> Ana do Vedor era matinal, e por isso Clemente n&atilde;o esperou muito.<\/p>\n<p> Efectivamente a vidra&ccedil;a do quarto em que dormia a robusta matrona<br \/>\n    abriu-se, e ela bradou da janela para o filho: &#8212; Que for&ccedil;a de<br \/>\n    servi&ccedil;o foi essa que te estremunhou, rapaz?! Sume-te ! Mal luzia o<br \/>\n    buraco e tu j&aacute; a sarilhares por essa casa ! &#8212; Levantei-me um<br \/>\n    bocadito mais cedo e vim espairecer at&eacute; aqui.<\/p>\n<p> &#8212; Qual hist&oacute;ria ! Ent&atilde;o cuidas tu que te n&atilde;o<br \/>\n    senti toda a santa noite? &Oacute; rapaz, olha que isto n&atilde;o me vai<br \/>\n    agradando. Aquele maldito empate do casamento&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, bem se trata agora disso.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que outra coisa h&aacute;-de ser ? &#8212; Quer que lho diga<br \/>\n    ? Fa&ccedil;a vossemec&ecirc; favor de chegar aqui abaixo e conversaremos.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;! A coisa &eacute; s&eacute;ria? Temos hist&oacute;ria.<br \/>\n    &Eacute; o que eu digo.<\/p>\n<p> E saindo da janela e descendo as escadas para ir ter com o filho ao quintal,<br \/>\n    a boa Ana ia a dizer para si : &#8212; O rapaz anda esquisito ! Que me querer&aacute;<br \/>\n    ele ? &Eacute; coisa que lhe d&aacute; freima. Na cara se v&eacute;. Queira<br \/>\n    Deus que n&atilde;o tenhamos por a&iacute; alguma alhada. O diacho do casamento<br \/>\n    ! E, chegando ao quintal, onde a aguardava o filho, exclamou: &#8212; Ora<br \/>\n    aqui me tens. Vamos l&aacute; a ouvir isso que tens para me contar.<\/p>\n<p> Desabafa l&aacute;, que isto de guardar cada um as coisas consigo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bom. V&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ora venha para aqui, minha m&atilde;e &#8212; disse Clemente, chamando-<br \/>\n    a para um banco de madeira, por baixo de um parreiral.<\/p>\n<p> &#8212; Mas avia-te, filho, que eu tenho que fazer l&aacute; dentro. J&aacute;<br \/>\n    sei que me vais falar no casamento.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, vou falar-lhe no casamento que se n&atilde;o faz.<\/p>\n<p> &#8212; Que se n&atilde;o faz ? ! &#8212; repetiu Ana, dando um salto e<br \/>\n    fitando no filho os olhos espantados. &#8212; Tu que dizes ? &#8212; Isso<br \/>\n    mesmo que entendeu. Que se n&atilde;o faz.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o porque &eacute; que se n&atilde;o h&aacute;-de fazer<br \/>\n    ? &#8212;Porque pensei melhor.<\/p>\n<p> &#8212; Ora vai pensar para os quintos. Olha agora ! Viu-se j&aacute; um<br \/>\n    disparate assim? Pensaste melhor em qu&ecirc; e porqu&ecirc;? &#8212; Olhe,<br \/>\n    minha m&atilde;e, vossemec&ecirc; bem sabe que eu n&atilde;o sou nenhuma crian&ccedil;a<br \/>\n    capaz de fazer as coisas no ar. E por isso eu que lhe digo que o tal casamento<br \/>\n    n&atilde;o deve fazer-se, &eacute; porque&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o crian&ccedil;a sou eu, para tu nem sequer me dares<br \/>\n    a import&acirc;ncia de me dizeres o porqu&ecirc;? Olha que teu pai at&eacute;<br \/>\n    bem velho se aconselhou comigo, apesar de ser homem ajuizado, e n&atilde;o<br \/>\n    tenho lembran&ccedil;a de o haver feito nunca arrepender por isso. Olha agora<br \/>\n    I &#8212; Pois tamb&eacute;m eu lhe direi tudo, mas &eacute; se vir a m&atilde;e<br \/>\n    bem disposta a ouvir-me com sossego.<\/p>\n<p> &#8212; E parece-te que eu estou desassossegada ? Ora valha-te n&atilde;o<br \/>\n    sei que diga. Em piores talas me tenho visto na minha vida, sem perder a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Boa mulher estava eu se me estonteava assim &agrave; primeira.<\/p>\n<p> Olha agora! Anda, diz l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Pois, minha m&atilde;e, este casamento n&atilde;o tem lugar, porque<br \/>\n    Berta&#8230;<\/p>\n<p> enfim&#8230;&#8217; Ana do Vedor franziu o sobrolho.<\/p>\n<p> &#8212; Berta o qu&ecirc;? O que disse ela? Disse que n&atilde;o? Olha a<br \/>\n    presumida ! Ent&atilde;o quem acha ela que &eacute; ? Sempre se v&ecirc;em<br \/>\n    coisas no mundo ! Olha agora! Ent&atilde;o ela disse que&#8230; &Oacute; senhores,<br \/>\n    n&atilde;o estar eu l&aacute;! sempre queria perguntar-lhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Valha-me Deus, minha m&atilde;e, &eacute; essa a paci&ecirc;ncia<br \/>\n    que me prometeu ? Nem me deixa concluir, nem espera por saber o que vou dizer.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; porque eu cuidei que ela&#8230; sim, porque isso ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Oi&ccedil;a, Berta aceita, mas n&atilde;o tem verdadeira inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para mim.<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o ? Clemente sorriu ao ouvir a pergunta.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa ! &#8212; repetiu ele brandamente &#8212; ent&atilde;o<br \/>\n    nestas coisas precisa-se de se dar raz&otilde;es? Gosta-se porque se gosta;<br \/>\n    n&atilde;o se gosta, porque se n&atilde;o gosta, e acabou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Mas enfim uma pessoa sempre diz: N&atilde;o gosto daquele, porque<br \/>\n    &eacute; feio, daquele, porque &eacute; torto, ou porque &eacute; aleijado,<br \/>\n    ou porque tem mau g&ecirc;nio, por isto ou por aquilo, eu sei l&aacute;! Mas<br \/>\n    tu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, eu n&atilde;o tenho defeito que me fa&ccedil;a enjeitar, hem<br \/>\n    ? Se todos me vissem com os seus olhos, minha m&atilde;e ! &#8212; Ora, mas<br \/>\n    vem c&aacute;, mas ent&atilde;o diz-me&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, oi&ccedil;a-me vossemec&ecirc; primeiro. Berta n&atilde;o<br \/>\n    sente inclina&ccedil;&atilde;o por mim, porque a sentia j&aacute; por outro.<br \/>\n    Est&aacute; satisfeita? &#8212; Olha a pateta da rapariga! Ent&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    a sonsinha&#8230; tinha tamb&eacute;m o seu namorado ! Que mundo este ! &#8212;<br \/>\n    &Oacute; minha m&atilde;e, ent&atilde;o se ela se agradasse de mim, n&atilde;o<br \/>\n    era pateta, e l&aacute; porque se inclina para outro, j&aacute; vossemec&ecirc;<br \/>\n    faz um espanto desses ! Que sou eu mais do que eles? &#8212; N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    isso &#8212; disse a m&atilde;e, um pouco embara&ccedil;ada com o argumento<br \/>\n    &#8212; eu o que queria dizer era&#8230; enfim&#8230; se fosse um homem capaz&#8230; mas<br \/>\n    qual?&#8230; algum menino bonito, algum peralvilhito de Lisboa.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o disse-te assim mesmo na cara que n&atilde;o gostava de ti.<br \/>\n    E tu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Berta disse-me que tinha tido uma paix&atilde;o, mas que fazia por<br \/>\n    venc&ecirc;-la, porque n&atilde;o podia casar com o homem de quem gostava;<br \/>\n    e que se eu, sabendo isso, ainda a quisesse para mulher, ela n&atilde;o duvidava<br \/>\n    em dizer que sim, e que jurava que me seria fiel companheira na vida.<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigada aos seus favores, mas n&atilde;o s&atilde;o c&aacute;<br \/>\n    precisos.<\/p>\n<p> Olha agora! Nem que tu morresses sem os seus bonitos olhos. Se deu o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a outro, que lhe preste, e que passe por l&aacute; muito bem sem ele. Olha<br \/>\n    agora ! Como quem diz : enfim, eu n&atilde;o gosto de ti, mas vejo-te t&atilde;o<br \/>\n    embei&ccedil;ado, que me metes pena. Gra&ccedil;as a Deus, n&atilde;o faltam<br \/>\n    por a&iacute; mulheres com quem cases, e se faltassem, tamb&eacute;m vivias<br \/>\n    bem sem elas, que, Deus louvado, n&atilde;o te falta que comer, que &eacute;<br \/>\n    o essencial.<\/p>\n<p> Olha agora ! N&atilde;o que eu nunca vi umas delambidas como agora h&aacute;<br \/>\n    ! Aquele Tom&eacute; &eacute; quem tem a culpa.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; minha m&atilde;e, j&aacute; estou arrependido de lhe ter<br \/>\n    falado nisto.<\/p>\n<p> Olhem o escarc&eacute;u que a&iacute; est&aacute; levantando ! &#8212; &Oacute;<br \/>\n    filho, isto &eacute; um modo de falar. A gente faz c&aacute; os seus votos<br \/>\n    de raz&atilde;o. Mas vamos ao caso. Tu disseste-lhe logo que passavas regaladamente<br \/>\n    sem os seus obs&eacute;quios? est&aacute; entendido. Fizeste muito bem, e<br \/>\n    est&aacute; acabado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o disse, n&atilde;o, senhora, n&atilde;o lhe disse isso<br \/>\n    logo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ? Pois isso &eacute; que eu n&atilde;o esperava de ti.<\/p>\n<p> &#8212; Pedi-lhe tempo para pensar. Eu o que queria era saber quem era o<br \/>\n    tal, para ver se de facto o casamento seria imposs&iacute;vel, porque se visse<br \/>\n    que o era, casava eu, isso casava. O que n&atilde;o queria era vir a ser trope&ccedil;o<br \/>\n    algum dia.<\/p>\n<p> &#8212; E da&iacute;? &#8212; E da&iacute; tanto pensei, tanto parafusei,<br \/>\n    que esta noite dei com a hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? Algum janotinha da cidade ? &#8212; Sabe o que lhe<br \/>\n    digo, minha m&atilde;e, &eacute; que o caso &eacute; bastante s&eacute;rio<br \/>\n    ; e agora o que me d&aacute; cuidado n&atilde;o &eacute; o meu casamento,<br \/>\n    que esse j&aacute; eu sei que se n&atilde;o faz; o que me d&aacute; cuidado<br \/>\n    s&atilde;o eles.<\/p>\n<p> &#8212; Eles quem? &#8212; A Berta e o rapaz de quem ela gosta e que &eacute;&#8230;<br \/>\n    Sabe quem? O filho mais velho do fidalgo, Jorge.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor empurrou o ombro do filho e fez um gesto que, combinado &agrave;quele<br \/>\n    movimento, exprimia a mais radicada d&uacute;vida.<\/p>\n<p> &#8212; Vai-te dal! Olha agora o disparate! Ora, ora&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Creia que &eacute; verdade.<\/p>\n<p> &#8212;Pois a tola da rapariga&#8230; meter-se-lhe-ia em cabe&ccedil;a?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se lhe meteu em cabe&ccedil;a coisa nenhuma. Gosta dele,<br \/>\n    mas sem esperan&ccedil;a, e tanto que n&atilde;o hesita em casar com outro.<br \/>\n    Mas o pior &eacute; que Jorge ainda gosta mais dela talvez. E Deus queira<br \/>\n    que isto n&atilde;o venha a dar cabo dele.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc; ? a dar cabo dele ? &#8212; Pois se vossemec&ecirc;<br \/>\n    o visse ! &Eacute; olhar-lhe para a cara e diz-se logo : este rapaz tem coisa<br \/>\n    que o r&oacute;i l&aacute; por dentro. Eu n&atilde;o suspeitava o que fosse,<br \/>\n    mas agora que pensei&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas como &eacute; que tu Vieste a saber isso ? Clemente contou &agrave;<br \/>\n    m&atilde;e as entrevistas que tivera com Jorge, e a maneira estranha por que<br \/>\n    ele o recebera, a irrita&ccedil;&atilde;o com que o ouvira falar em Berta,<br \/>\n    a singularidade das reflex&otilde;es que lhe fez e dos con selhos que lhe<br \/>\n    deu, e Ana do Vedor acabou por oonvencer-se de que o filho acertara.<\/p>\n<p> Tinha um compassivo cora&ccedil;&atilde;o a boa mulher, e como dissemos<br \/>\n    era perdida por Jorge, a quem amava quase tanto como ao filho. Por isso tomou<br \/>\n    logo o partido dele, e exclamou : &#8226; &#8212; Mas ent&atilde;o porque<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute;-de esse rapaz casar com a pequena, se gosta assim dela?<br \/>\n    &#8212; E o pai? &#8212; O velho? Isso l&aacute; &eacute; verdade. O fidalgo<br \/>\n    &eacute; perro, mas adeus, primeiro est&aacute; o gosto de cada um, e quando<br \/>\n    o amor &eacute; de raiz, tolice &eacute; querer arranc&aacute;-lo.<\/p>\n<p> E depois de curta medita&ccedil;&atilde;o, acrescentava: &#8212; Mas vejam<br \/>\n    l&aacute; como o dem&ocirc;nio as arma! aquele rapaz, que parecia nem sequer<br \/>\n    pensar em que havia raparigas neste mundo, deixar-se lego embei&ccedil;ar<br \/>\n    por aquela! por a filha do Tom&eacute; da Herdade, que se o fidalgo o via<br \/>\n    por sogro de um filho seu, era para estoirar de paix&atilde;o! Sempre &eacute;<br \/>\n    uma! &Oacute; Clemente, pois deveras ser&aacute; isso assim? &#8212; Quase<br \/>\n    que ia jur&aacute;-lo, minha m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; Quem me dera encontrar o rapaz, que logo lho pergunto.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o diga isso, minha m&atilde;e. Ia faz&ecirc;-la boa! N&atilde;o<br \/>\n    conhece ainda o Jorge? &#8212; Ora vem tu ensinar-me a conhec&ecirc;-lo, a<br \/>\n    mim, que o trouxe a estes peitos, que o ensinei a falar e a andar; vem c&aacute;<br \/>\n    dizer-me o que ele &eacute;. Ent&atilde;o que achas tu ? que ele se zanga<br \/>\n    comigo ? E a mim que me h&aacute;-de importar muito que ele se zangue. Mais<br \/>\n    me zango eu e veremos quem vence. Olha agora! &#8212; Mas para que h&aacute;-de<br \/>\n    falar-lhe nisso ? &#8212; Para qu&ecirc; ? Pois ent&atilde;o tu dizes-me que<br \/>\n    o rapaz anda a consumir- se e a moer l&aacute; consigo essa paix&atilde;o,<br \/>\n    e queres que eu o deixe assim rebentar ? H&aacute; l&aacute; nada pior do<br \/>\n    que uma pessoa calar consigo estas coisas que roem l&aacute; por dentro? Nada,<br \/>\n    a boca fez-se para falar e para a gente desabafar as suas melancolias.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se a m&atilde;e lhe pudesse dar rem&eacute;dio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E que cuidas tu ? Pois parece-te que se eu visse que o rapaz se<br \/>\n    me definhava por causa disto, que n&atilde;o tinha alma para ir ter com o<br \/>\n    fidalgo e dizer-lhe as coisas como elas s&atilde;o ? Ent&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    vejo que tu est&aacute;s muito enganado com tua m&atilde;e. Nada, n&atilde;o,<br \/>\n    era melhor deixar morrer aquele rapaz, que &eacute; a p&eacute;rola dos rapazes,<br \/>\n    aquele rapaz, que eu criei e que h&aacute;-de ser, e j&aacute; &eacute;, a<br \/>\n    honra da fam&iacute;lia. Pois sim, n&atilde;o que eu sou mesmo mulher para<br \/>\n    o deixar morrer assim.<\/p>\n<p> &#8212; Havia de valer-lhe bem. O fidalgo est&aacute; mesmo agora &agrave;<br \/>\n    espera dos seus conselhos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o estar&aacute;, mas olha que duro como &eacute;, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o era a primeira vez que eu me avinha com ele e sem ele levar a melhor.<br \/>\n    No tempo da senhora, que era um anjo, Deus a chame l&aacute;, ainda mais for&ccedil;a<br \/>\n    de g&ecirc;nio tinha ele e fazia-a chorar sangue e &aacute;gua pelo muito<br \/>\n    que lhe perse guia o irm&atilde;o. A pobre criatura doente, e ele sem querer<br \/>\n    que ela recebesse as cartas que o irm&atilde;o lhe escrevia, nem lhe deixar<br \/>\n    saber noticias dele. Eu, um dia, dei com o fidalgo no corredor e disse-lhe:<br \/>\n    :&lt;&Oacute; Sr. D. Luis, olhe que V. Ex.&ordf; anda a fazer com que se rale<br \/>\n    de remorsos t&ocirc;da a-sua vida, por deixar morrer a senhora assim a estalar<br \/>\n    de saudades e afli&ccedil;&otilde;es. Veja bem V. Ex.&ordf; que estas coisas<br \/>\n    pagam-se&raquo;. Foi mesmo assim. E cuidas l&aacute; que ele se enfureceu<br \/>\n    ? Qual ! Calou-se muito caladinho, e da&iacute; por diante a senhora teve<br \/>\n    not&iacute;cias amiudadas, e at&eacute; o jardineiro mais tarde foi para casa<br \/>\n    e ainda l&aacute; est&aacute;. Ent&atilde;o j&aacute; v&ecirc;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas o caso agora &eacute; mais dif&iacute;cil.<\/p>\n<p> &#8212; Deixa-o ser ; mas tamb&eacute;m o homem est&aacute; mais quebrado.<\/p>\n<p> &#8212; Tenha cuidado, minha m&atilde;e. Olhe, n&atilde;o v&aacute; l&aacute;<br \/>\n    fazer alguma das suas.<\/p>\n<p> &#8212; Alguma das minhas ! Eu l&aacute; vejo quem &eacute; que te d&aacute;<br \/>\n    melhores conselhos do que eu. Alguma das minhas ! Olha agora ! Sabes tu que<br \/>\n    mais ? Vou j&aacute; daqui falar com Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o lhe diga nada disto.<\/p>\n<p> &#8212; Ora n&atilde;o querem ver a bonita cabe&ccedil;a que tem este rapaz<br \/>\n    ? Est&aacute; o casamento tratado, resolve agora n&atilde;o casar, e nada<br \/>\n    de falar nisso ao pai da rapariga. Sim, que o Tom&eacute; &eacute; mesmo homem<br \/>\n    com quem se brinque e que se contente com meias raz&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; O que eu quero dizier &eacute; que n&atilde;o ponha a boca em Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Deixa-me c&aacute;. Sabes o que te digo ? &Eacute; que eu n&atilde;o<br \/>\n    sou mulher de planos. Ao sair de casa para procurar algu&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    penso no que lhe hei-de dizer e no que hei-de calar. Quando as palavras me<br \/>\n    v&ecirc;m &agrave; boca, deixo-as sair e n&atilde;o quero saber de contas.<br \/>\n    Mas vamos ao almo&ccedil;o, que s&atilde;o horas. Ora o Jorge ! o Jorge !<br \/>\n    para o que lhe havia de dar! E o diacho da rapariga se apanha aquilo ! Olha,<br \/>\n    eu n&atilde;o duvido, porque j&aacute; h&aacute; muito tenho para mim que<br \/>\n    o Tom&eacute; nasceu num fole. Ora o diacho ! Boa pequena &eacute; ela, coitadita,<br \/>\n    ainda que n&atilde;o andou muito bem contigo, n&atilde;o, mas&#8230;<\/p>\n<p> A m&atilde;e e o filho almo&ccedil;aram, conversando sempre sobre o assunto,<br \/>\n    e Clemente tentando combater a resolu&ccedil;&atilde;o que percebia na m&atilde;e<br \/>\n    de cumprir o que anunciara.<\/p>\n<p> Ana do Vedor, depois do almo&ccedil;o, deu as suas ordens e saiu.<\/p>\n<p> Ela falara verdade; ao sair n&atilde;o formara plano de conduta, mas instintivamente<br \/>\n    dirigiu-se para a Herdade.<\/p>\n<p> O caso de Jorge n&atilde;o lhe sa&iacute;a da id&eacute;ia.<\/p>\n<h2>XXXIII<\/h2>\n<p>Ameio caminho da Herdade, a Ana do Vedor, ao abrir uma cancela, para tomar<br \/>\n    por o atalho de um campo, deu de rosto inesperadamente com a pessoa que tanto<br \/>\n    lhe estava ocupando o pensamento. Jorge vinha em direc&ccedil;&atilde;o oposta<br \/>\n    e preparava-se tamb&eacute;m para transpor o portelo.<\/p>\n<p> Em um relance de olhos, a boa mulher verificou, na mudan&ccedil;a de aspecto<br \/>\n    em Jorge, a exactid&atilde;o das informa&ccedil;&otilde;es que lhe dera o<br \/>\n    filho, e com isso cresceram ainda mais as suas apreens&otilde;es, obrigando-a<br \/>\n    a exclamar consternada: &#8212; &Oacute; Virgem M&atilde;e dos homens ! que<br \/>\n    maus olhares te deitaram, meu filho, que parece mesmo que saiste agora do<br \/>\n    cemit&eacute;rio? Bem mo tinham dito, mas tanto n&atilde;o esperava eu ver!<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o o que lhe tinham dito, ama ? Que me haviam desenterrado<br \/>\n    ? &#8212; O que me tinham dito? Queres sab&ecirc;-lo? Pois olha que n&atilde;o<br \/>\n    ponho nenhuma d&uacute;vida em to dizer. Tinham-me dito que tu n&atilde;o<br \/>\n    eras o rapaz de ju&iacute;zo que eu supunha, que afinal eras t&atilde;o bom<br \/>\n    como os outros, e que por doidices de rapaz andavas mais morto que vivo, amarelo<br \/>\n    e chupado, como quem tem j&aacute; um p&eacute; na cova.<\/p>\n<p> &#8212; E parece-lhe ent&atilde;o que a informaram bem ? &#8212; De menos<br \/>\n    que n&atilde;o de mais. Que cara &eacute; essa com que tu me apareces? Tu<br \/>\n    queres ir atr&aacute;s de tua irm&atilde;? Olha se queres. A coisa &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil, se continuares nesse andar.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que lhe hei-de eu fazer, ama? uma pessoa n&atilde;o<br \/>\n    tem na sua m&atilde;o o engordar e emagrecer.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; teres ju&iacute;zo, e n&atilde;o pensares em tolices, ou<br \/>\n    ent&atilde;o, quando j&aacute; n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio, &eacute;<br \/>\n    andares para diante com a cara e n&atilde;o sofreres at&eacute; rebentares.<\/p>\n<p> &#8212; Agora &eacute; que n&atilde;o entendo, ama.<\/p>\n<p> &#8212; Entendes, entendes ; mas se queres que eu fale mais claro, sempre<br \/>\n    te perguntarei se era coisa que se fizesse dar por noiva ao meu Clemente,<br \/>\n    que se criou aos mesmos peitos que tu, a menina que o senhor fidalguinho da<br \/>\n    Casa Mourisca enjeitou? A impetuosidade do movimento com que Jorge respondeu<br \/>\n    a estas palavras da ama, a s&uacute;bita e intensa vermelhid&atilde;o que<br \/>\n    lhe cobriu o rosto p&aacute;lido, e o olhar indignado que fitou na boa velha,<br \/>\n    assustaram profundamente esta, que quase se arrependeu do que dissera.<\/p>\n<p> &#8212; Ama &#8212; disse-lhe Jorge comovido e com voz severa &#8212; quero<br \/>\n    acreditar que n&atilde;o pensou nas palavras que disse, nem sabe bem o que<br \/>\n    elas significam. Vejo, por&eacute;m, que conhece a meu respeito um segredo<br \/>\n    que eu desejaria que fosse ignorado. N&atilde;o quero saber como lhe chegou<br \/>\n    ao conhecimento. N&atilde;o negarei a verdade. Deixe-me, por&eacute;m, dizer-<br \/>\n    -lhe que mal sabe Clemente, mal imagina sequer a grandeza do sacrif&iacute;cio<br \/>\n    que eu fiz, facilitando-lhe o casamento em que ele me falou.<\/p>\n<p> Ana recuperou a sua presen&ccedil;a de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212;E quem foi que lhe pediu que fizesse esse sacrif&iacute;cio? O meu<br \/>\n    Clemente sabia l&aacute; o que vossemec&ecirc; tinha no cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Julgas tu que ele era homem que aceitasse de ti favores desses? Olha o outro,<br \/>\n    que assim que soube tudo, imediatamente deu o dito por n&atilde;o dito.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc;? Soube tudo&#8230; o qu&ecirc;? O que sabe Clemente? Tom&eacute;<br \/>\n    da Herdade, e que a menina do Tom&eacute; da Herdade gosta do Sr. Jorge, e<br \/>\n    o senhor meu filho, que &eacute; um rapaz de brio, n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    resolvido a ser o trambolho que separe esses dois cora&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    morrem um pelo outro.<\/p>\n<p> &#8212; n&atilde;o sabe Clemente que essa afei&ccedil;&atilde;o, que por<br \/>\n    infelicidade &eacute; verdadeira, est&aacute; condenada &agrave; morte e que<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; a recusa dele que a salvar&aacute; ? N&atilde;o estava<br \/>\n    seu filho resolvido a aceitar a amizade leal, que lhe oferecia Berta, sentimento<br \/>\n    que mais tarde as afei&ccedil;&otilde;es comuns de fam&iacute;lia por certo<br \/>\n    transformariam em verdadeiro amor conjugai? n&atilde;o me disse ele a mim<br \/>\n    que estava decidido a aceitar, se se convencesse de que a ilus&atilde;o de<br \/>\n    Berta n&atilde;o podia ser nunca realidade? Pois essa certeza pode t&ecirc;-la<br \/>\n    agora, se sabe tudo. E ent&atilde;o porque hesita? Se n&atilde;o tem confian&ccedil;a<br \/>\n    em Berta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Hesita e deve hesitar, sim senhor. Pois que vem c&aacute; a ser<br \/>\n    esses imposs&iacute;veis? Olha agora a coisa do outro mundo que o Sr. Jorge<br \/>\n    case com a Berta do Tom&eacute; da P&oacute;voa ! Jorge encolheu os ombros,<br \/>\n    sorrindo melanc&oacute;licamente.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor, interpretando mal aquele sorriso, insistiu com mais acrim&ograve;nia:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; como lhe digo. Ai, os escr&uacute;pulos ent&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; para quando muito bem lhes parece? Os imposs&iacute;veis v&ecirc;m<br \/>\n    s&oacute; ao atar das feridas? N&atilde;o que ele n&atilde;o h&aacute; mais.<br \/>\n    Tem um pobre homem uma filha, para quem deseja encontrar um marido trabalhador<br \/>\n    e honesto, que lhe sirva de arrimo ; e vai sen&atilde;o quando aparece um<br \/>\n    fidalguinho que principia a olhar para a rapariga e a fazer-lhe gaifonas e<br \/>\n    a meter-lhe teias de aranha na cabe&ccedil;a, e ela, coitadinha, deixa-se<br \/>\n    ir e prende as asas na rede; e &eacute; ent&atilde;o que o menino bonito se<br \/>\n    lembra dos imposs&iacute;veis e a deixa, e por muito favor cede-a a um rapaz<br \/>\n    honrado que a estima com lisura e com as melhores inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de fazer dela sua mulher, mas a quem ela j&aacute; n&atilde;o pode dar o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque o outro lho roubou. E diga-me uma coisa, ficava bem a este rapaz aceitar<br \/>\n    para mulher a rapariga que lhe diz que deu a outro o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ? Para que quer um homem em casa uma mulher sem cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    me dir&aacute; vossemec&ecirc;? Jorge ouvia cada vez mais triste e pensativo<br \/>\n    as recrimina&ccedil;&otilde;es da ama. Dir-se-ia que algumas daquelas palavras<br \/>\n    lhe feriam o cora&ccedil;&atilde;o de remorsos, como se nelas sentisse o que<br \/>\n    quer que fosse verdadeiro; ao mesmo tempo protestava-lhe tamb&eacute;m contra<br \/>\n    a acusa&ccedil;&atilde;o a consci&ecirc;ncia, que n&atilde;o o havia acusado<br \/>\n    t&atilde;o severamente.<\/p>\n<p> Olhando com gesto melanc&oacute;lico para a m&atilde;e de Clemente, que,<br \/>\n    levada pelo impulso da sua eloq&uuml;&ecirc;ncia, ia aumentando de severidade,<br \/>\n    Jorge disse-lhe com placidez : &#8212; Tem raz&atilde;o em parte no que diz,<br \/>\n    ama, por&eacute;m creia que trabalhei deveras para vencer isto em mim. Nem<br \/>\n    eu sei como me adivinharam; como ela o adivinhou. Ah! sim&#8230; lembro-me j&aacute;&#8230;<br \/>\n    Disse-lho eu; mas n&atilde;o foi, como julga, no intento de iludi-la ; disse-lho<br \/>\n    em um momento de desespero, quando ela com l&aacute;grimas me perguntava por<br \/>\n    que eu lhe queria mal. Eu querer-lhe mal ! Disse-lhe ent&atilde;o tudo. Ela<br \/>\n    soube de mim pela primeira vez este segredo e eu dela um segredo igual.<\/p>\n<p> Pedi-lhe ent&atilde;o que me indicasse o que devia fazer. Da sua pr&oacute;pria<br \/>\n    vontade nasceu a minha resolu&ccedil;&atilde;o, a nossa&#8230; Bem v&ecirc;, ama,<br \/>\n    que n&atilde;o sou t&atilde;o criminoso como sup&ocirc;s. Acredita que eu<br \/>\n    fosse capaz da vileza que disse? O que fiz por Clemente n&atilde;o podia desonr&aacute;-lo.<br \/>\n    Berta sab&ecirc;- -lo-ia fazer feliz, porque compreende bem os seus deveres.<br \/>\n    Eu conhe&ccedil;o a tempera daquela alma. Mas enfim, se me iludi, se nos meus<br \/>\n    actos ia ofensa para Clemente, ele que me perdoe, que n&atilde;o houve nisso<br \/>\n    inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ana do Vedor sentiu que lhe vibrava a corda da sensibilidade no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ao escutar aquelas palavras s&eacute;rias e tristes que lhe dizia Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Vai-te da&iacute; ! &#8212; exclamou ela, disfar&ccedil;ando a sua<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o. &#8212; Quem fala aqui de ofensas ? Ent&atilde;o acreditas<br \/>\n    que tudo isto que eu disse foi a s&eacute;rio? Era o que me faltava! Sim,<br \/>\n    que eu n&atilde;o te conhe&ccedil;o, sim, que eu n&atilde;o te trouxe nestes<br \/>\n    bra&ccedil;os e te fiz saltar no meu colo e te vi brincar com os mais rapazes<br \/>\n    e sempre com mais juizo do que eles todos? Pateta de rapaz, que me n&atilde;o<br \/>\n    entendeu! O que me faz enraivecer &eacute; o ver-te assim consumido por uma<br \/>\n    coisa destas. Logo te deu o diacho tamb&eacute;m para gostares da filha do<br \/>\n    Tom&eacute;, quando n&atilde;o faltavam raparigas que boa conta te fizessem.<br \/>\n    Que ela &eacute; boa pequena e poucas dessa fidalgaria que por a&iacute; h&aacute;<br \/>\n    merecem servir-lhe de criada, mas enfim&#8230; &eacute; filha do Tom&eacute;,<br \/>\n    e teu pai era capaz de estoirar se&#8230; Mas adeus, minha vida, o tempo dele<br \/>\n    j&aacute; passou e tu &eacute; que n&atilde;o h&aacute;s-de definhar-te e<br \/>\n    entisicar s&oacute; para fazer-lhe a vontade. V&ecirc; l&aacute;, se achas<br \/>\n    que isso em ti &eacute; do cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, ama, n&atilde;o, a resolu&ccedil;&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    tomada. Hei-de acabar com isto em mim, suceda o que suceder. Jurei.<\/p>\n<p> A ama tornou com maior veem&ecirc;ncia: &#8212; E a mim &eacute; que se<br \/>\n    me importa com os teus juramentos ! Ora veja eu o caso mal parado, e veremos<br \/>\n    o que por a&iacute; vai. Vou-me ter com o fidalgo&#8230; N&aacute;, n&aacute;,<br \/>\n    n&aacute;, escusas de bulir com a cabe&ccedil;a, que isso para mim n&atilde;o<br \/>\n    vale nada. Eu bem sei o que me pediu tua m&atilde;e &agrave; hora da morte.<br \/>\n    Deus a chame l&aacute;. Coitadinha! Levou-vos atravessados no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a sepultura. Sabia o g&egrave;nio do pai e via-vos t&atilde;o criancinhas!&#8230;<\/p>\n<p> &laquo;&Oacute; ama &#8212; disse-me ela, e parece-me que ainda a estou<br \/>\n    a ouvir &#8212; o que me n&atilde;o deixa morrer em sossego s&atilde;o estes<br \/>\n    tr&ecirc;s meninos&raquo;.<\/p>\n<p> Voc&ecirc;s brincavam na outra sala: &laquo;Olhe-me por eles, ama, lembre-se<br \/>\n    de que ficam sem m&atilde;e&raquo;. Ai! E eu que tanto gostava daquela senhora,<br \/>\n    havia agora de te ver assim consumido e ficar-me de bra&ccedil;os cruzados<br \/>\n    ? Pois sim, espera que logo.<\/p>\n<p> &#8212; Ama, pe&ccedil;o-lhe que n&atilde;o d&ecirc; passo algum junto de<br \/>\n    meu pai sem me consultar.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, estava bem aviada se esperava pelo teu conselho. Olha agora<br \/>\n    ! &#8212; Veja que pode causar-me um grande mal, ama! &#8212; Olha, eu s&oacute;<br \/>\n    te digo uma coisa. Queres que eu me deixe ficar sossegada? trata de me aparecer<br \/>\n    com outra cara. Sen&atilde;o, n&atilde;o te queixes.<\/p>\n<p> Jorge, que conhecia por experi&ecirc;ncia os repentes da ama, ainda insistiu<br \/>\n    por muito tempo. Ela, por&eacute;m, respondendo-lhe com evasivas, conseguiu<br \/>\n    separar-se sem haver prometido coisa alguma.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor seguiu por muito tempo com olhos tristes Jorge, que se afastava<br \/>\n    lentamente. Depois que o perdeu de vista na volta de um caminho, suspirou<br \/>\n    e foi murmurando: &#8212; Nada, isto assim n&atilde;o vai bem. O rapaz est&aacute;<br \/>\n    que faz pena v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Ainda se fosse com o irm&atilde;o, era coisa que passava, mas com este!&#8230;<\/p>\n<p> Lembra-me que j&aacute; em pequenino, se o pai ou a m&atilde;e lhe ralhavam,<br \/>\n    ficava aquela crian&ccedil;a entalada e sem chorar, mas era sabido que o tinham<br \/>\n    doente por uma semana. Foi sempre assim. Brioso como uma pessoa de ju&iacute;zo.<br \/>\n    Agora &eacute; capaz de estalar de paix&atilde;o e deixar-se morrer por a&iacute;<br \/>\n    sem se queixar. Pois, ao poder que eu possa, tal n&atilde;o h&aacute;-de suceder.<\/p>\n<p> Isso lhe prometo eu.<\/p>\n<p> Neste solil&ograve;quio foi vencendo a boa mulher a dist&acirc;ncia que<br \/>\n    a separava da Herdade, onde chegou na ocasi&atilde;o em que Tom&eacute; e<br \/>\n    a sua companheira examinavam e discutiam juntos na sala de jantar as vantagens<br \/>\n    da aquisi&ccedil;&atilde;o de um campo, que o lavrador trazia em vista.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor foi recebida como quase parenta que era da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Viva a ti&#8217;Ana ! &#8212; exclamou folgadamente Tom&eacute; &#8212;<br \/>\n    a mais guapa das raparigas do meu tempo, sem querer fazer desfeita &agrave;<br \/>\n    Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; se viu qual das duas ele escolheu &#8212; acudiu com igual<br \/>\n    humor a m&atilde;e de Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que quer? tudo neste mundo &eacute; sorte. Al&eacute;m<br \/>\n    de que a tiAna j&aacute; andava tentada com aquela alma lavada do Jo&atilde;o<br \/>\n    do Vedor, e n&atilde;o se lhe dava volta.<\/p>\n<p> &#8212; Foi o que te valeu, Luisa, sen&atilde;o bem perdias esta boa j&oacute;ia.<\/p>\n<p> Luisa sorriu bonacheironamente, como sempre fazia quando o marido gracejava.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que santa a trouxe a esta sua casa?&#8212; perguntou Tom&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;, vamos c&aacute; a saber, quer tomar alguma coisa? &#8212;<br \/>\n    Qual hist&oacute;ria ! De almo&ccedil;ar venho eu, e isso mesmo sabe Deus<br \/>\n    o que me custou.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, andas doente, Ana? informou-se Luisa com bondosa solicitude.<\/p>\n<p> &#8212; Eu, doente? Ora essa! Eu sou l&aacute; criatura que adoe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; E como vai o Clemente ? o nosso Clemente ? &#8212; perguntou Tom&oacute;<br \/>\n    &#8212; porque eu e Luisa tamb&eacute;m j&aacute; o podemos chamar nosso.<\/p>\n<p> &#8212; Devagar, devagar, o melhor &eacute; n&atilde;o se costumarem a isso,<br \/>\n    para n&atilde;o lhes custar depois a perder o costume.<\/p>\n<p> &#8212; A perder o costume? E porque o havemos n&oacute;s de p e r d e r?<br \/>\n    &#8212; Porque j&aacute; l&aacute; vai o afilhado de quem &eacute;ramos padrinhos.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o a entendo, ti&#8217;Ana.<\/p>\n<p> &#8212; Ora a coisa &eacute; simples. E voc&ecirc;s o que devem &eacute;<br \/>\n    erguer os olhos mais para o alto.<\/p>\n<p> &#8212; O ti&#8217;Ana, se quer que a entenda, fale-me claro e c&aacute; &agrave;<br \/>\n    nossa moda; p&atilde;o, p&atilde;o, queijo, queijo.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto.&#8217; Para a&iacute; vou eu. Pois a&iacute; tem : o casamento<br \/>\n    da sua rapariga com o meu rapaz foi caso falado e acabou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Acabou-se ? Como acabou-se ? Porqu&ecirc; ? &#8212; Porque Berta<br \/>\n    n&atilde;o tem para a&iacute; o sentido.<\/p>\n<p> &#8212;Ora essa! Ent&atilde;o ela n&atilde;o disse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Disse, sim, senhor, disse que casava, e tamb&eacute;m o disse a<br \/>\n    meu filho, mas acrescentou que n&atilde;o lhe levaria o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    consigo.<\/p>\n<p> &#8212; Berta disse isso ? Quando ? A quem ? A Clemente ? N&atilde;o pode<br \/>\n    ser!&#8230; Mas n&atilde;o leva o cora&ccedil;&atilde;o&#8230; Porqu&ecirc;? &#8212;<br \/>\n    Porque j&aacute; o n&atilde;o tem.<\/p>\n<p> &#8212; Como j&aacute; o n&atilde;o tem?! &#8212; Porque j&aacute; fez presente<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p> &#8212; Que est&aacute; a dizer, ti&#8217;Ana? J&aacute; fez presente do cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Berta? A quem? &#8212; Ora diga a verdade, Tom&eacute;, n&atilde;o suspeita<br \/>\n    mesmo, mesmo de ningu&eacute;m ? &#8212; Na minha salva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois olhe que &eacute; verdade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas a quem? &#8212; A uma pessoa que vinha por aqui.<\/p>\n<p> &#8212; A uma pessoa que vinha&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Tom&eacute;, qre bem o suspeitava eu &#8212; exclamou Luisa,<br \/>\n    juntando as m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; Cali-te, mulher; a&iacute; voltas tu com as tuas tolices ; mas diga,<br \/>\n    ti&#8217;Ana&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que suspeitavas tu, Luisa &#8212; perguntou Ana do Vedor.<\/p>\n<p> &#8212; Que eles tinham alguma inclina&ccedil;&atilde;o um para o outro.<\/p>\n<p> &#8212; Eles quem ? &#8212; Ningu&eacute;m, ningu&eacute;m. Esta minha mulher<br \/>\n    de vez em quando tem vis&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Eles quem? &#8212; insistia a Ana do Vedor.<\/p>\n<p> &#8212; A nossa rapariga e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Cala-te, Luisa, tu n&atilde;o tens vergonha ? &#8212; atalhou o<br \/>\n    marido.<\/p>\n<p> &#8216;&#8212; E quem mais ? acaba &#8212; repetiu Ana.<\/p>\n<p> &#8212; E o fidalgo &#8212; completou t&igrave;midamente Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge? Pois adivinhaste.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; exclamou Luisa, com natural satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc; ! &#8212; bradou Tom&eacute;, erguendo-se com &iacute;mpeto<br \/>\n    e corando &#8212; adivinhaste? adivinhou? Quem?&#8230; Luisa? Ent&atilde;o&#8230;<br \/>\n    Berta&#8230; a ti&#8217;Ana diz que Berta&#8230; N&atilde;o disse que Berta&#8230;? &#8212;<br \/>\n    &Oacute; Tom&eacute;, escusa de fazer tanto espanto. Eu disse que Berta gosta<br \/>\n    do fidalgo e que ele gosta da rapariga.<\/p>\n<p>&#8212; T&atilde;o doida est&aacute; a ti&#8217;Ana, como est&aacute; a minha mulher.<\/p>\n<p> &#8212; O seu juizo, Tom&eacute;, &eacute; que n&atilde;o me parece muito<br \/>\n    seguro. Olhem o grande milagre que a sua filha goste do rapaz, que n&atilde;o<br \/>\n    tem por a&iacute; outro que se lhe ponha ao p&eacute;, e que o rapaz, enfim,<br \/>\n    que o rapaz tamb&eacute;m tenha a sua inclina&ccedil;&atilde;o por a pequena,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; para enjeitar.<\/p>\n<p> Olhem a grande admira&ccedil;&atilde;o ! &#8212; Eu bem pregava a este homem,<br \/>\n    mas coisa que lhe diga, &eacute; o mesmo que nada &#8212; observou Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem lhe meteu essas patranhas na cabe&ccedil;a? &#8212; perguntou<br \/>\n    o lavrador com um sorriso contrafeito, j&aacute; interiormente inquieto, e<br \/>\n    tentando resistir &agrave; convic&ccedil;&atilde;o que se lhe estava formando<br \/>\n    no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Ora quem havia de ser? uma pessoa que me parece que tem Obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de estar bem informada. Foi o mesmo Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge ? ! Jorge disse-lhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Agora mesmo o deixei na Corredoura, onde lhe estive falando bem<br \/>\n    bem um quarto de hora talvez.<\/p>\n<p> &#8212; Ti&#8217;Ana, eu n&atilde;o quero ofend&ecirc;-la, mas h&aacute; coisas<br \/>\n    t&atilde;o incr&iacute;veis ! Ora diga-me, n&atilde;o sabe quem me falou na<br \/>\n    pretens&atilde;o do seu filho? &#8212; Sei, sei muito bem que foi Jorge, e<br \/>\n    vai da&iacute;? E sei que Berta tamb&eacute;m disse que sim. Ent&atilde;o<br \/>\n    que mais quer? Mas sei tamb&eacute;m que o rapaz, quando Clemente lhe falou<br \/>\n    nisso, ia rompendo com ele; sei que depois do casamento ajustado, emagreceu<br \/>\n    e anda como desenterrado ; sei que a sua pequena disse aquilo, que eu j&aacute;<br \/>\n    contei, ao meu Clemente, e que o rapaz teve as suspeitas, e que eu falei claro<br \/>\n    ao Jorge, que n&atilde;o teve cara para negar. Ora aqui tem.<\/p>\n<p> Tom&eacute; da P&oacute;voa ficou assombrado com a revela&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Nunca o lavrador dera import&acirc;ncia &agrave;s suspeitas da mulher, cujos<br \/>\n    instintos tinham visto melhor do que a raz&atilde;o clara do marido.<\/p>\n<p> &#8212; Pois se isso &eacute; verdade &#8212; disse Tom&eacute;, medindo<br \/>\n    a sala a passos largos &#8212; &eacute; uma grande desgra&ccedil;a ! &#8212;<br \/>\n    Oh ! A&iacute; vem o outro ! &#8212; respondeu-lhe a Ana do Vedor com o seu<br \/>\n    &acirc;nimo intemerato. &#8212; Credo ! Parece-me um sino a tocar a defunto.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o que grande desgra&ccedil;a vem a ser essa? &#8212; Nem voc&ecirc;<br \/>\n    pensa o que da&iacute; pode resultar, ti&#8217;Ana. Mas sempre se lembre de que<br \/>\n    nessa hist&oacute;ria entro eu, o fidalgo velho, o rapaz e a minha pequena.<br \/>\n    Se nos conhece bem a todos, suponha o que da&iacute; pode sair de bom.<\/p>\n<p> &#8212; Quer voc&ecirc; dizer na sua: &laquo;N&oacute;s os velhos somos<br \/>\n    dois caturras e os novos s&atilde;o capazes de morrer de paix&atilde;o&raquo;.<br \/>\n    Mas se os novos tiverem ju&iacute;zo, n&atilde;o se lhes importa com as caturrices<br \/>\n    dos velhos, e estes o mais que podem fazer &eacute; irem um ano mais cedo<br \/>\n    para a sepultura, o que &eacute; bem feito para n&atilde;o serem teimosos.<br \/>\n    Olha agora! &#8212; Eu bem o suspeitava &#8212; repetia de quando em quando<br \/>\n    a boa Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Nem eu quero pensar nisso para n&atilde;o me arrepender pelo pouco<br \/>\n    que tenho feito por aquela fam&iacute;lia &#8212; tornava Tom&eacute;..&#8212;<br \/>\n    Se o fidalgo soubesse que o filho mais velho se agradara da minha pequena,<br \/>\n    o que havia de pensar? O que eu no seu lugar pensaria. Que isto em mim fora<br \/>\n    tudo um c&aacute;lculo, que procurei trazer o rapaz a minha casa, depois de<br \/>\n    mandar buscar a filha &agrave; cidade, que lha meti &agrave; cara, que levei<br \/>\n    a rapariga para o p&eacute; do velho com o fim de o dispor para a aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos meus planos&#8230; Oh que vergonha! que vergonha! Ent&atilde;o &eacute; que<br \/>\n    ele teria raz&atilde;o de me olhar com desconfian&ccedil;a, e quem lha n&atilde;o<br \/>\n    daria? Mas que cegueira a minha! Cegueira! Mas se eles mal se falavam, se<br \/>\n    Jorge parecia t&atilde;o ocupado nos seus neg&oacute;cios, que a nada mais<br \/>\n    dava aten&ccedil;&atilde;o ! &#8212; Ai, eu c&aacute; bem o suspeitava &#8212;<br \/>\n    repetiu Luisa.<\/p>\n<p> &#8212; Isso n&atilde;o pode ser ! Cada vez mais me conven&ccedil;o de que<br \/>\n    isso &eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Pois digo-lhe eu que &eacute; verdade, como dois e dois serem quatro.<\/p>\n<p> Ora agora eles dizem que decidiram acabar a todo o custo com aquilo por<br \/>\n    causa do velho, e da&iacute; veio a hist&oacute;ria t&ocirc;da do casamento<br \/>\n    ; mas no andar em que v&atilde;o as coisas, parece-me que eles acabam mas<br \/>\n    &eacute; consigo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma desgra&ccedil;a ! mas que rem&eacute;dio ? Ainda que<br \/>\n    eu cuidasse de ver morrer-me a filha, havia de opor-me a esses amores. E mais<br \/>\n    depressa a recolheria em um convento&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O que a&iacute; vai ! o que a&iacute; vai ! &Oacute; homem de Deus,<br \/>\n    ia-lhe talvez muito mal se a filha lhe casasse com o rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Era uma desgra&ccedil;a, repito. E eu nunca mais poderia olhar de<br \/>\n    frente para o fidalgo, como o fiz at&eacute; agora, gra&ccedil;as a Deus!<br \/>\n    porque ent&atilde;o teria ele raz&atilde;o de me suspeitar de intriguista.<\/p>\n<p> &#8212; Se a sua consci&ecirc;ncia o n&atilde;o acusa, n&atilde;o lhe d&ecirc;<br \/>\n    canseira o que os outros pensam.<\/p>\n<p> &#8212; Eu bem to dizia, Tom&eacute;, n&atilde;o que tu n&atilde;o querias<br \/>\n    crer ! &#8212; insistiu Luisa, entre pesarosa e satisfeita.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; me tarda ver a rapariga para fora dos Bacelos. Mal sabia<br \/>\n    eu quando a levei para l&aacute;, que um dia podiam vir a julgar que eu o<br \/>\n    fizesse por c&aacute;lculo! &#8212; Deixe estar a rapariga onde est&aacute;<br \/>\n    ; Deus que conduziu as coisas assim, l&aacute; sabe para que o fez.<\/p>\n<p> &#8212; A ti Ana n&atilde;o sabe o que o fidalgo velho tem sido para comigo?<br \/>\n    N&atilde;o sabe que ele mal me pode perdoar o eu ter levantado a casa defronte<br \/>\n    do seu pal&aacute;cio? e melhorado de ano para ano a minha, ao passo que a<br \/>\n    dele ia caindo por terra ? N&atilde;o viu o que ele fez s&oacute; por que<br \/>\n    soube que o filho tinha vindo ter comigo para o ajudar a livrar-se da usura<br \/>\n    e das d&iacute;vidas, que lhe deitavam a perder a casa? E agora ent&atilde;o<br \/>\n    julga que eu hei-de sofrer que ele suspeite sequer que as minhas ten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eram ou s&atilde;o as de engrandecer &agrave; custa dos seus a minha fam&iacute;lia?<br \/>\n    A ti&#8217;Ana sofria isto? &#8212; Mas n&atilde;o se est&aacute; a ver como o velho<br \/>\n    gosta da sua pequena, que nem de ao p&eacute; de si a deixa sair? Quem sabe?<br \/>\n    As vezes&#8230;<\/p>\n<p>Luisa suspirou, entrevendo a risonha perspectiva que a Ana do Vedor assim<br \/>\n    em confusas tintas lhe pintara.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou eu que me iludo com essas coisas, ti&#8217;Ana &#8212;<br \/>\n    prosseguiu Tom&eacute;. &#8212; O meu plano est&aacute; feito. Hoje mesmo<br \/>\n    Berta h&aacute;-de dormir na Herdade. Se o seu Clemente a n&atilde;o quiser,<br \/>\n    paci&ecirc;ncia. Nem eu quero obrig&aacute;-lo, nem &agrave; rapariga, a casar<br \/>\n    contra vontade. Apesar de tudo confio no ju&iacute;zo de Berta, que h&aacute;-de<br \/>\n    ver as coisas como elas s&atilde;o, e por isso n&atilde;o me d&aacute; cuidado.<br \/>\n    Que se assim n&atilde;o fosse, eu lhe afirmo que a levaria outra vez para<br \/>\n    Lisboa. O Jorge &eacute; tamb&eacute;m um rapaz honrado.<\/p>\n<p> Tudo se h&aacute;-de remediar ainda, querendo Deus.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem que homem este ! Escusa de tomar essas cautelas todas, se<br \/>\n    o que quer &eacute; separ&aacute;-los. O perigo n&atilde;o est&aacute; onde<br \/>\n    pensa. Eles mesmos resolveram esquecerem-s&eacute; um do outro e n&atilde;o<br \/>\n    precisam que voc&ecirc; os separe. Olha agora ! O perigo est&aacute; em que<br \/>\n    Jorge j&aacute; anda doente, e que provavelmente a rapariga n&atilde;o h&aacute;-de<br \/>\n    ficar com muita sa&uacute;de se ele lhe morre. Veja l&aacute; se isso n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; bem pior do que o casamento.<\/p>\n<p> &#8212; Deus Nosso Senhor nos acuda i &#8212; exclamou Luisa assustada.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fale em casamento, ti Ana, que at&eacute; me envergonha<br \/>\n    essa palavra ! &#8212; Pois ent&atilde;o n&atilde;o se envergonhe e prepare<br \/>\n    o enterro de sua filha, que o do rapaz n&atilde;o tardar&aacute; muito. Olha<br \/>\n    agora ! Este homem parece que n&atilde;o tem cora&ccedil;&atilde;o de pai<br \/>\n    ! Eu n&atilde;o sei que diacho de cora&ccedil;&atilde;o &eacute; o dele !<br \/>\n    Deixe que quando lhe quiser acudir, j&aacute; n&atilde;o h&aacute;-de ser<br \/>\n    tempo.<\/p>\n<p> H&aacute;-de ver a filha morrer-lhe, e ent&atilde;o &eacute; que h&atilde;o-de<br \/>\n    ser os arrependimentos.<\/p>\n<p> &#8212; E que quer que lhe eu fa&ccedil;a, mulher? &#8212; exclamou Tom&eacute;<br \/>\n    j&aacute; exasperado. &#8212; O meu dever &eacute; este. Deus que determine<br \/>\n    depois o que for da sua vontade. E julga que se eu pensasse como pensa a tiAna,<br \/>\n    que isso me serviria de alguma coisa? Parece que n&atilde;o conhece o fidalgo<br \/>\n    ! Pois tantos anos que conviveu com aquela fam&iacute;lia ainda lhe n&atilde;o<br \/>\n    fizeram conhecer o g&ecirc;nio dele? &#8212; Mas que me importa a mim o genio<br \/>\n    do velho ? Ora essa &eacute; que est&aacute; muito boa ! O velho tem um ou<br \/>\n    dois anos de vida, e l&aacute; para o n&atilde;o zangar, n&atilde;o h&aacute;-de<br \/>\n    um rapaz e uma rapariga fazer a sua felicidade.<\/p>\n<p> Olha agora! &#8212; Pois sim, pois sim, vossemec&ecirc; fala bem; mas o<br \/>\n    que lhe digo &eacute; que n&atilde;o tardo nos Bacelos, e que j&aacute; de<br \/>\n    l&aacute; n&atilde;o venho sem a rapariga- E saindo da sala deveras preocupado,<br \/>\n    Tom&eacute; ia murmurando : &#8212; Foi uma desgra&ccedil;a ! uma verdadeira<br \/>\n    desgra&ccedil;a, meu Deus !&#8230;<\/p>\n<p> A Ana do Vedor viu-o sair e meneou a cabe&ccedil;a com certo ar de amea&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? Ele &eacute; isso? Pois j&aacute; que tu &eacute;s teimoso,<br \/>\n    eu te prometo que me h&aacute;s-de ver pela frente. Vai, vai aos Bacelos,<br \/>\n    que quando l&aacute; chegares j&aacute; h&aacute;s-de encontrar novidades.<br \/>\n    Olha agora ! Adeus, Luisa, adeus.<\/p>\n<p> Luisa ergueu-se, e abra&ccedil;ando-se na amiga, desatou a chorar.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; mulher, voc&ecirc; porque chora? Olha agora ! Tenha juizo,<br \/>\n    mulher.<\/p>\n<p>Deixe l&aacute;, que h&aacute;-de viver para ver a sua filha bem casada e<br \/>\n    feliz. E deixe- me, que preciso de ir adiante do Tom&eacute; para ele n&atilde;o<br \/>\n    fazer tolices.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, eu sempre suspeitei isto, ele &eacute; que n&atilde;o queria<br \/>\n    acreditar.<\/p>\n<p> &#8212; Pois agora j&aacute; acredita. E o mais confie em Deus, e deixe-me<br \/>\n    sair.<\/p>\n<p> E a Ana do Vedor saiu apressada, e murmurando de instante a instante : &#8212;<br \/>\n    Olha agora !<\/p>\n<h2> XXXIV<\/h2>\n<p> DESDE o dia em que Berta falara no seu casamento ao fidalgo da Casa Mourisca<br \/>\n    nunca mais correram as horas nos Bacelos para o velho e para a rapariga t&atilde;o<br \/>\n    alegres como at&eacute; a&iacute;.<\/p>\n<p> Nem uma palavra se trocou mais entre eles sobre o assunto, mas f&aacute;cil<br \/>\n    era de perceber que ele ainda dominava o pensamento de ambos.<\/p>\n<p> Tanto os sorrisos de Berta como aqueles com que D. Luis lhes correspondia<br \/>\n    empanava-os uma nuvem de tristeza.<\/p>\n<p> O fidalgo a cada momento pensava na separa&ccedil;&atilde;o iminente, na<br \/>\n    necessidade de dar &agrave; afilhada o consentimento prometido, e cada vez<br \/>\n    menos coragem sentia para faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Berta recebia como que a projec&ccedil;&atilde;o da tristeza do velho ;<br \/>\n    demais, a sua pr&oacute;pria crescia &agrave; medida que se aproximava o momento<br \/>\n    em que tinha de realizar-se o sacrif&iacute;cio do seu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sacrif&iacute;cio cuja grandeza de dia para dia mais avultava no seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Actuou esta influ&ecirc;ncia no estado do enfermo, que ia perdendo o alento<br \/>\n    adquirido sob a ben&eacute;fica vigil&acirc;ncia da rapariga.<\/p>\n<p> Por isso no dia em que se passaram as cenas narradas no &uacute;ltimo cap&iacute;tulo<br \/>\n    e nas quais a intr&eacute;pida Ana do Vedor desempenhou t&atilde;o importante<br \/>\n    papel, D. Luis achava-se em um estado de abatimento pouco animador.<\/p>\n<p> N&atilde;o sa&iacute;ra esse dia do quarto, como era seu costume, quando<br \/>\n    ia sentar-se com Berta &agrave; sombra das &aacute;rvores. Queixou-se de fraqueza<br \/>\n    e de frio, e ficou na poltrona ao lado da janela a espreitar por dentro das<br \/>\n    vidra&ccedil;as para as avenidas da quinta.<\/p>\n<p> Berta havia por instantes deixado o padrinho para temperar-lhe um rem&eacute;dio;<br \/>\n    e o doente, ficando s&oacute;, ca&iacute;ra em uma profunda medita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    seguindo maquinalmente com a vista os movimentos de uma avezita que saltava<br \/>\n    nos ramos de uma &aacute;rvore distante.<\/p>\n<p> De repente chamou-lhe a aten&ccedil;&atilde;o o rumor dos passos de algu&eacute;m,<br \/>\n    que se aproximava no corredor e que parou &agrave; porta do quarto, como se<br \/>\n    hesitasse em entrar.<\/p>\n<p> &#8212; Quem est&aacute; ai ? &#8212; perquntou o fidalgo n&atilde;o vendo<br \/>\n    aparecer ningu&eacute;m. <\/p>\n<p>A esta pergunta a porta entreabriu-se e a figura da Ana do Vedor, ofegante<br \/>\n    pela carreira que trouxera de casa de Tom&eacute; at&eacute; ali, desenhou-<br \/>\n    se no limiar.<\/p>\n<p> &#8212; Sou eu ; o fidalgo d&aacute; licen&ccedil;a ? &#8212; respondeu<br \/>\n    a Ana.<\/p>\n<p> D. Luis teve um negro pressentimento assim que viu a figura da m&atilde;e<br \/>\n    de Clemente, o pretendido noivo de Berta.<\/p>\n<p> com mal disfar&ccedil;ado azedume, disse-lhe: &#8212; &Eacute; voc&ecirc;,<br \/>\n    Ana? Entre.<\/p>\n<p> Ana entrou com o desembara&ccedil;o com que entrava em toda a parte.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o como vai o fidalgo? Fraquinho, hem? Enfim, Sr. D. Luis,<br \/>\n    tudo se guarda para a velhice.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; assim, &eacute; &#8212; disse secamente o fidalgo. &#8212;<br \/>\n    Ent&atilde;o a que vem aqui, Ana? Ana do Vedor percebeu a d&eacute;bil cordialidade<br \/>\n    com que estava sendo recebida e por isso respondeu menos af&aacute;vel: &#8212;<br \/>\n    Primeiro que tudo, vim v&ecirc;-lo, como era da minha obriga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pois n&atilde;o me esque&ccedil;o de que j&aacute; comi do p&atilde;o de sua<br \/>\n    casa. H&aacute; mais tempo teria vindo, se a minha vida me deixasse ; mas<br \/>\n    sou eu s&oacute; em casa, como V. Ex.a sabe, a fazer o servi&ccedil;o, e a<br \/>\n    idade j&aacute; me vai pesando. E agora por isso vem a p&ecirc;lo dizer a<br \/>\n    outra coisa que me trouxe c&aacute;. Venho saber de V. Ex.&ordf; quando &eacute;<br \/>\n    que pode dispensar a Berta para se fazer o casamento que est&aacute; justo<br \/>\n    entre ela e o meu filho.<\/p>\n<p> O rosto de D. Luis passou por diferentes cambiantes de cor, e mais do que<br \/>\n    uma paix&atilde;o lhe desenhou sucessivamente no semblante em tra&ccedil;os<br \/>\n    fugitivos o aspecto fision&ocirc;mico.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o vem para a buscar ? &#8212; perguntou ele com voz alterada.<\/p>\n<p> &#8212; n&atilde;o, senhor, n&atilde;o venho para a buscar, venho para saber<br \/>\n    de V. Ex.&quot; quando ela pode ir.<\/p>\n<p> &#8212; Ela n&atilde;o &eacute; minha filha. Quando quiser, que v&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Mau ! o fidalgo n&atilde;o quer entender-me.<\/p>\n<p> &#8212; Eu o que n&atilde;o quero &eacute; ocupar-me desse casamento &#8212;<br \/>\n    replicou D. Luis mais agastado. &#8212; Quando quiserem fazer esse disparate,<br \/>\n    fa&ccedil;am-no. Levem dai a rapariga, sacrifiquem-na &agrave; sua vontade,<br \/>\n    mas n&atilde;o me pe&ccedil;am o consentimento, porque eu estou com os p&eacute;s<br \/>\n    na cova e n&atilde;o quero levar para a sepultura mais remorsos.<\/p>\n<p> A m&atilde;e de Clemente n&atilde;o estranhou esta resposta azeda do fidalgo,<br \/>\n    que de prop&oacute;sito provocara.<\/p>\n<p> Picada, por&eacute;m, no seu orgulho materno por algumas frases que ouvira,<br \/>\n    acudiu logo: &#8212; Que est&aacute; o fidalgo a dizer? Disparate&#8230; remorsos&#8230;<br \/>\n    Que disparate acha o fidalgo no casamento de Berta com o meu Clemente? Remorsos<br \/>\n    ! Ora essa est&aacute; boa ! Nem que se tratasse de enforcar algu&eacute;m<br \/>\n    ! Ora esta! Olha agora! &#8212; Ana, eu n&atilde;o quero ofender o seu filho,<br \/>\n    que sei que &eacute; bom rapaz, mas o que ele n&atilde;o &eacute;, &eacute;<br \/>\n    homem para Berta<\/p>\n<p>&#8212; E onde &eacute; que V. Ex.&#8217; vai buscar marido para Berta? O meu Clemente<br \/>\n    n&atilde;o serve? Pois bem, como a rapariga n&atilde;o est&aacute; para freira.<\/p>\n<p> diga-me V. Ex.&quot; que faz ten&ccedil;&atilde;o de a casar na sua fam&iacute;lia,<br \/>\n    e eu calo j&aacute; a boca e sou a primeira a dizer : &laquo;Tem raz&atilde;o<br \/>\n    o fidalgo, a pequena encontrou marido muito melhor do que o meu filho&raquo;.<br \/>\n    Ah! eu j&aacute; estou vendo a cara que V. Ex.a faz, Pois ent&atilde;o, Sr.<br \/>\n    D. Luis, se V. Ex,a ainda se tem l&aacute; nas suas tamancas, como dantes,<br \/>\n    deixe casar a rapariga com um homem honrado, e n&atilde;o lhe ande a meter<br \/>\n    loucuras na cabe&ccedil;a, que isso at&eacute; &eacute; uma consci&ecirc;ncia<br \/>\n    ! Olha agora ! D. Luis sentia que lhe fugia o terreno neste campo e tentou<br \/>\n    uma evasiva.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o teria nada que dizer a esse casamento, se Berta sentisse<br \/>\n    inclina&ccedil;&atilde;o para seu filho, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas o qu&ecirc; ? Pois n&atilde;o foi ela que por sua livre vontade<br \/>\n    disse que sim? Quem a obrigou? Ora essa! &#8212; Por comprazer, por condescend&ecirc;ncia,<br \/>\n    mas n&atilde;o por que lho pedisse o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, e V. Ex.&ordf; a importar-se com o que pede o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma rapariga, ora, ora&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o ? Desgra&ccedil;ada dela se der um passo tal<br \/>\n    sem que lho aprove o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o acha o fidalgo que nisto de casamentos o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tamb&eacute;m tem voto? &#8212; Por certo.<\/p>\n<p> &#8212; O cora&ccedil;&atilde;o de uma rapariga e de um rapaz. Olhem que<br \/>\n    conselheiros ! &#8212; um cora&ccedil;&atilde;o como o de Berta, &eacute;<br \/>\n    um bom conselheiro ; n&atilde;o se engana, nem engana.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; que te pilhei ! &#8212; exclamou a Ana do Vedor, batendo<br \/>\n    as m&atilde;os, e esquecendo-se, no &iacute;mpeto da exclama&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de manter o mesmo tom e tratamento, que at&eacute; ali estiver&agrave; usando<br \/>\n    com o fidalgo. &#8212; Muito bem, pois saiba o fidalgo, que para mim j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; novidade o n&atilde;o ter Berta inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para o meu filho, nem de tal casamento se fala j&aacute;, porque o meu Clemente,<br \/>\n    por enquanto, n&atilde;o aceita mulheres que n&atilde;o entrem para casa dele<br \/>\n    com o cora&ccedil;&atilde;o. Isso j&aacute; estava decidido. Mas eu o que<br \/>\n    quis foi ouvir o que ouvi ao fidalgo, porque quero ver agora como se h&aacute;-de<br \/>\n    sair das talas em que se meteu. Porque sabe porque a Bertazinha n&atilde;o<br \/>\n    gosta do meu Clemente? &Euml; porque j&aacute; gostava de outro&#8230;<\/p>\n<p> E sabe V. Ex.a quem &eacute; esse outro? Olhe que foi o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Berta que o escolheu, o tal cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o se engana;<br \/>\n    esse outro &eacute; o filho de V. Ex.&ordf;, o Sr. Jorge. Ora a&iacute; tem;<br \/>\n    agora ent&atilde;o veja se est&aacute; por o que disse.<\/p>\n<p> D. Luis ficou por muito tempo a olhar para a Ana do Vedor com a vista espantada<br \/>\n    e sem articular palavra.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge ! &#8212; murmurou ele afinal e quase inaudivelmente.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, senhor, Jorge. E que me diz V. Ex.&ordf; a isto?<\/p>\n<p>&#8212; Jorge, Berta&#8230; &#8212; repetia o velho, assombrado com a revela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Mulher, quem lhe disse isso ? &#8212; Seu filho, entre outros.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge ! Terei por acaso eu sido v&iacute;tima de uma intriga infame<br \/>\n    ? &#8212; exclamou o fidalgo, tr&eacute;mulo de raiva. &#8212; Isto &eacute;<br \/>\n    de enlouquecer.<\/p>\n<p> &#8212; Qual intriga nem meia intriga ! Isto tudo foi a coisa mais natural<br \/>\n    e inocente do mundo inteiro. O rapaz gostou da pequena, a pequena gostou do<br \/>\n    rapaz, o costume desde o tempo de Ad&atilde;o e Eva, e ningu&eacute;m soube<br \/>\n    disso sen&atilde;o agora.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge ! Oh meu Deus, porque me havias de dar filhos s&oacute; para<br \/>\n    me afligirem e envergonharem! &#8212; Ora a&iacute; est&aacute;. At&eacute;<br \/>\n    agora nem o meu Clemente lhe servia para a Berta, em tais alturas a punha.<br \/>\n    Agora ent&atilde;o j&aacute; o filho o desonra s&oacute; por gostar da rapariga.<br \/>\n    Entendam-no l&aacute;. Que tal &eacute; o amor que o padrinho tem &agrave;<br \/>\n    afilhada ?! Eu c&aacute; de mim n&atilde;o entendo estas amizades de tarraxa.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o dava aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s reflex&otilde;es<br \/>\n    da Ana. Lutavam-lhe no cora&ccedil;&atilde;o paix&otilde;es encontradas e<br \/>\n    violentas : sob a influ&ecirc;ncia de umas sentia-se cair em profundo desalento,<br \/>\n    outras incitavam-no, pelo contr&aacute;rio, a uma reac&ccedil;&atilde;o desesperada.<\/p>\n<p> Tom&eacute; n&atilde;o se enganara nas suas previs&otilde;es. As suspeitas<br \/>\n    e preconceitos mal abafados no cora&ccedil;&atilde;o do fidalgo contra o lavrador<br \/>\n    alvoro&ccedil;aram- se com a revela&ccedil;&atilde;o que acabava de ouvir.<\/p>\n<p> A intimidade de Jorge com Tom&eacute;, os servi&ccedil;os prestados por<br \/>\n    este &agrave; casa, a vinda de Berta para os Bacelos por espont&acirc;nea<br \/>\n    delibera&ccedil;&atilde;o do pai, tudo explicava o seu esp&iacute;rito preocupado<br \/>\n    por uma trama infernal: combinada por o fazendeiro.<\/p>\n<p> &#8212; Era a isto que ele queria chegar ! &#8212; bradava irritado o fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; Descobriu-se finalmente o hip&oacute;crita ! A aud&aacute;cia desta<br \/>\n    gente n&atilde;o tem limites ! Gabem-me os brios e a nobreza de alma destes<br \/>\n    miser&aacute;veis ! Rodou em volta de minha casa o lobo, espiou a presa, atraiu-a<br \/>\n    a si e feriu-a ! Que ambi&ccedil;&atilde;o ! Al est&aacute; no que deu o desinteresse<br \/>\n    dos seus actos, a lealdade das suas inten&ccedil;&otilde;es ! At&eacute; da<br \/>\n    filha se servia, o infame, como instrumento dos seus planos e maquina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ! H&aacute; nada mais vil? Trouxe-ma para casa, como a v&iacute;bora que me<br \/>\n    havia de inocular o veneno. E eu, fraco e tonto pela velhice e pela doen&ccedil;a,<br \/>\n    deixei-me iludir ! Oh ! mas eles mal sabem com quem se metem e no que se metem<br \/>\n    ! Deviam lembrar-se de que, nos homens como eu, ainda quando a vida se lhes<br \/>\n    est&aacute; a apagar, a vontade pode reunir em um instante toda a energia<br \/>\n    de que precisa para esmag&aacute;-los antes de morrer.<\/p>\n<p> E D. Luis no auge da indigna&ccedil;&atilde;o, ergueu-se da cadeira em que<br \/>\n    estava sentado, e com o rosto afogueado pela ira, os punhos cerrados e os<br \/>\n    bra&ccedil;os estendidos, bradou: &#8212; E eu esmago-os ! esmago-os a todos,<br \/>\n    se se atreverem a vir insultar-me nestes &uacute;ltimos dias da minha vida!<br \/>\n    Ana tentou acalmar a f&uacute;ria do fidalgo, mas ele nem j&aacute; a ouvia.<\/p>\n<p>Fraquejando-lhe j&aacute; a voz, tr&eacute;mulo, ansiado, banhado em suor<br \/>\n    frio, continuava em tom cavernoso : &#8212; Eu lhes juro que n&atilde;o me<br \/>\n    h&atilde;o-de vencer na luta que provocaram.<\/p>\n<p> Quando me tiverem j&aacute; usurpado a casa, seduzido os filhos e insultado<br \/>\n    o nome de minha fam&iacute;lia, h&atilde;o-de ainda vergar sob o peso das<br \/>\n    minhas maldi&ccedil;&otilde;es, porque eu acredito que h&aacute; um Deus no<br \/>\n    C&eacute;u e que as pragas de um velho ludibriado t&ecirc;m ainda poder para<br \/>\n    atrair as desgra&ccedil;as sobre a cabe&ccedil;a dos miser&aacute;veis que<br \/>\n    me insultam, &#8212; Fidalgo, fidalgo, volte a si ! &#8212; bradava Ana do<br \/>\n    Vedor, deveras consternada.<\/p>\n<p> O velho, arredando-a com um movimento impetuoso, exclamou com energia crescente<br \/>\n    : &#8212; Deixem-me ! Deixem-me ! Quero viver s&oacute;, de hoje em diante<br \/>\n    ! S&oacute;! N&atilde;o quero ver ningu&eacute;m, nem filhos, nem fam&iacute;lia!<br \/>\n    Ningu&eacute;m! Cada pessoa que se aproxima de mim vem com o intento de me<br \/>\n    atormentar ; cada afecto a que abro o cora&ccedil;&atilde;o transforma-se<br \/>\n    c&aacute; dentro em um veneno corrosivo ! Oh ! &Eacute; de mais ! Deixem-me<br \/>\n    ! deixem-me morrer para aqui s&oacute;, ningu&eacute;m me apare&ccedil;a,<br \/>\n    ningu&eacute;m me fale deixem- me ! Neste momento a porta abriu-se e Berta<br \/>\n    apareceu atra&iacute;da pela alterca&ccedil;&atilde;o que lhe parecera ouvir<br \/>\n    no quarto do padrinho e perguntou assustada : &#8212; Que &eacute; que tem,<br \/>\n    Sr. D. Luis, o que lhe sucedeu? O fidalgo, exasperado, voltou-se com vivacidade<br \/>\n    ao ouvir-lhe a voz, e injectando-se-lhe ainda mais o rosto, bradou: &#8212;<br \/>\n    &Eacute;s tu ? Que queres ? Vens continuar a obra que te incumbiram ? I Sai<br \/>\n    da&iacute; ! Sai ! N&atilde;o me apare&ccedil;as ! N&atilde;o me fales ! N&atilde;o<br \/>\n    me fa&ccedil;as descrer de Deus ! N&atilde;o quero ver ningu&eacute;m, j&aacute;<br \/>\n    disse ! Deixem-me ! Berta parou, surpreendida e intimidada por aquela s&uacute;bita<br \/>\n    transforma&ccedil;&atilde;o nas maneiras do padrinho para com ela, e, ao sair<br \/>\n    do quarto, saltavam-lhe de sentida as l&aacute;grimas dos olhos.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; fidalgo ! &#8212; acudiu a Ana do Vedor, cada vez mais<br \/>\n    assustada pelo estado em que o via &#8212; &oacute; fidalgo ! olhe que est&aacute;<br \/>\n    fora de si ! Isto que &eacute; ? A pobre rapariga vai a chorar por a maneira<br \/>\n    por que a tratou.<\/p>\n<p> Que culpa tem ela ? Coitada da pobre ! &#8212; &Eacute; o que lucra quem<br \/>\n    se aproxima de um homem maldito de Deus como eu sou &#8212; respondeu o velho,<br \/>\n    deixando-se cair na cadeira j&aacute; desalentado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o diga essas coisas, que at&eacute; &eacute; pecado! Que<br \/>\n    motivos tem para essas f&uacute;rias ! Olha agora ! O que eu lhe disse n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; para tanto.<\/p>\n<p> Al&eacute;m de que, sossegue, tanto a rapariga como seu filho Jorge t&ecirc;m<br \/>\n    ju&iacute;zo, mais at&eacute; do que lhes Convinha para serem felizes. Digo-lhe<br \/>\n    eu que mais depressa eles se deixar&atilde;o morrer, e at&eacute; parece que<br \/>\n    est&atilde;o nessa resolu&ccedil;&atilde;o, do que lhe dar&atilde;o o desgosto<br \/>\n    de que tanto se receia, n&atilde;o sei porqu&ecirc;. E olhe que o rapaz j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; longe de fazer a tal viagem.<\/p>\n<p> A n&atilde;o lhe agradar mais v&ecirc;-lo morrer, o que o fidalgo deve fazer<br \/>\n    &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>D. Luis mostrava n&atilde;o dar a menor aten&ccedil;&atilde;o ao que a mulher<br \/>\n    dizia.<\/p>\n<p> O acesso de desespero passara. com gesto e voz de abatimento interrompeu-<br \/>\n    a, perguntando: &#8212; A pequena ia deveras a chorar ? &#8212; Pudera n&atilde;o.<br \/>\n    Ao rompante com que V. Ex.&ordf; lhe falou ! E sem raz&atilde;o alguma, porque,<br \/>\n    como eu disse a V. Ex.&quot;, eles&#8230;<\/p>\n<p> O fidalgo suspirou : &#8212; &Eacute; uma fatalidade ! &#8212; disse ele<br \/>\n    a meia voz. &#8212; Pobre rapariga ! , Decerto que n&atilde;o &eacute; ela<br \/>\n    culpada nisto. Instrumento inocente nas m&atilde;os dos outros, nem ela sabe<br \/>\n    o que faz ! Ana, eu preciso de estar s&oacute;, pe&ccedil;o- -lhe que me deixe<br \/>\n    s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Pois fique-se com Deus.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, Ana, olhe, se vir a&iacute; fora a pequena diga-lhe que venha<br \/>\n    c&aacute;; se a&iacute; n&atilde;o estiver&#8230; mande cham&aacute;-la, sim?<br \/>\n    Eu quero falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe l&aacute; o que vai dizer-lhe, fidalgo ! N&atilde;o aflija<br \/>\n    a pobre rapariga, que bem lhe basta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fa&ccedil;a-me o que lhe pe&ccedil;o, Ana, fa&ccedil;a, e v&aacute;<br \/>\n    descansada.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre me deixe dizer-lhe, fidalgo, que se n&atilde;o quer perder<br \/>\n    o filho, ande com cautela neste neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor, que n&atilde;o obteve resposta a esta &uacute;ltima advert&ecirc;ncia,<br \/>\n    saiu duvidando de que tivesse tirado alguma utilidade do passo que deu junto<br \/>\n    do fidalgo, e quase arrependida por o haver dado.<\/p>\n<p> D. Luis ficou s&oacute; por algum tempo, com a cabe&ccedil;a escondida entre<br \/>\n    as m&atilde;os e os cotovelos apoiados nos bra&ccedil;os da poltrona.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; que ponto levareis esta prova&ccedil;&atilde;o, meu Deus?<br \/>\n    &#8212; murmurava ele quase solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p> Passados momentos entrava no quarto e avan&ccedil;ava timidamente com hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao encontro do velho, Berta, com os olhos ainda chorosos e o gesto comovido.<\/p>\n<p> Ao rumor dos passos leves de Berta, o fidalgo elevou a cabe&ccedil;a e fitou<br \/>\n    a afilhada com express&atilde;o de melancolia e afecto.<\/p>\n<p> &#8212; Anda c&aacute;, Berta; vem c&aacute;, minha filha. Ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;s como eu pago os cuidados que tens tido comigo? Que queres<br \/>\n    tu? Isto em mim &eacute; j&aacute; loucura! Ao tom afectuoso e triste destas<br \/>\n    palavras dissipou-se a hesita&ccedil;&atilde;o de Berta, que correu a ajoelhar-se<br \/>\n    junto do velho, pegando-lhe nas m&atilde;os, enternecida: &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    diga isso, Sr. D. Luis. Eu bem sei que eram impaciencias de doente.<\/p>\n<p> D. Luis segurou-lhe a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, e, olhando-a fixamente,<br \/>\n    murmurou: &#8212; Pobre crian&ccedil;a ! Fiz-te chorar ! Nem que te n&atilde;o<br \/>\n    bastassem os teus sofrimentos. Perdoa-me, minha filha. Tu n&atilde;o tens<br \/>\n    culpa do que os outros fazem. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que tenhas<br \/>\n    culpa.<\/p>\n<p> E beijava-lhe os olhos, onde de novo queriam aparecer as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; Perdoar-lhe ? O que hei-de eu perdoar-lhe ? A afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me tem? S&oacute; se for isso.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; v&ecirc;m outra vez as l&aacute;grimas ! Enxuga-as. N&atilde;o<br \/>\n    quero fazer-te chorar mais. N&atilde;o fa&ccedil;as caso do que eu digo, Berta,<br \/>\n    que sou um tonto.<\/p>\n<p> &Eacute; uma ingratid&atilde;o de minha parte, uma feia ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O que me faz pena &eacute; v&ecirc;-lo aflito. Cuidei que estava<br \/>\n    pior.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o; &eacute; que essa mulher que dai saiu disse-me coisas&#8230;<\/p>\n<p> E, olhando outra vez fixamente para Berta, acrescentou depois de alguma<br \/>\n    hesita&ccedil;&atilde;o: &#8212; Berta, tu &eacute;s sinceramente minha amiga?<br \/>\n    &#8212; &Oacute; meu padrinho. Que pergunta ! &#8212; Nem tu eras capaz de<br \/>\n    fingir um afecto que n&atilde;o sentisses.<\/p>\n<p> Creio bem.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m, meu Deus, o que quer dizer com isso? &#8212; Nada.<br \/>\n    Olha c&aacute;, Berta&#8230; Quando tu vieste para os Bacelos&#8230;<\/p>\n<p> quando vieste para ao p&eacute; de mim&#8230; foi teu pai que te disse que viessos,<br \/>\n    n&atilde;o foi? &#8212; Meu pai leu-me a carta da sr.&quot; baronesa, em que<br \/>\n    lhe participava que ia para Lisboa e que o Sr. D. Luis ficava sem ter quem<br \/>\n    o tratasse&#8230;<\/p>\n<p> e eu ent&atilde;o lembrei-me do mesmo que meu pai j&aacute; tinha tamb&eacute;m<br \/>\n    no pensamento, e pedi-lhe para me deixar vir.<\/p>\n<p> &#8212; E ele disse logo que sim, j&aacute; se sabe ? &#8212; Se era essa<br \/>\n    mesma a sua id&eacute;ia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! era essa a sua id&eacute;ia? E&#8230; e Jorge n&atilde;o foi ouvido<br \/>\n    nessa ocasi&atilde;o? Porque Jorge ia muito por vossa casa, n&atilde;o ia?<br \/>\n    Berta principiava a sentir-se inquieta com esta inquiri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. Jorge &#8212; respondeu ela um pouco a medo &#8212; ia &agrave;s<br \/>\n    vezes procurar meu pai para falar de neg&oacute;cios com ele ; mas nisto n&atilde;o<br \/>\n    foi consultado, que eu saiba.<\/p>\n<p> &#8212; Algumas vezes. Parece que ia todos os dias e que usava em vossa<br \/>\n    casa de toda a familiaridade.<\/p>\n<p> &#8212; Era raro que se demorasse a conversar com outra pessoa que n&atilde;o<br \/>\n    fosse meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Pois nem contigo ? &#8212; Comigo? &#8212; repetiu Berta, perturbada.<br \/>\n    &#8212; Comigo menos do que com os outros.<\/p>\n<p> D. Luis contraiu as sobrancelhas, como se esta resposta lhe fizesse suspeitar<br \/>\n    uma dissimula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o Jorge nunca falaria contigo? &#8212; Muito de<br \/>\n    passagem, quando por acaso me encontrava e sempre com umas maneiras tais,<br \/>\n    que cheguei a acreditar que me queria mal por algum motivo desconhecido para<br \/>\n    mim.<\/p>\n<p> D. Luis fez um gesto de desgosto e de novo lhe assomaram ao semblante os<br \/>\n    vest&iacute;gios da desvanecida irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o esperava isso de ti, Berta! Tu n&atilde;o &eacute;s sincera<br \/>\n    comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Eu?<\/p>\n<p>&#8212; Tu iludes-me como os outros, afinal ; tu conspiras com eles contra<br \/>\n    a tranq&uuml;ilidade dos meus dias, contra o sossego deste cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    atribulado. Deus te perdoe o mal que me fazes, eu, mais do que ningu&eacute;m,<br \/>\n    porque te queria deveras.<\/p>\n<p> &#8212; Jesus, Sr. D. Luis, meu padrinho, que quer dizer? Em que lhe fiz<br \/>\n    eu mal? Por amor de Deus, diga, fale-me claro.<\/p>\n<p> &#8212; Berta, &eacute; preciso que me digas a verdade, se queres que n&atilde;o<br \/>\n    suspeite de ti, como suspeito dos outros, como suspeito de todos ; &eacute;<br \/>\n    preciso que n&atilde;o dissimules, como eles fazem, para me iludirem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que quer que lhe diga, Sr. D. Luis? Prometo dizer-lhe a verdade,<br \/>\n    nem eu lhe sei mentir.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o para que me dizes que Jorge te queria mal ? Berta sentia-se<br \/>\n    cada vez mais sobressaltada pelas perguntas do fidalgo, que parecia dirigir-se<br \/>\n    ao segredo recatado, que ela conservava no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu disse &#8212; respondeu ela &#8212; que cheguei a pensar que<br \/>\n    o Sr. Jorge me queria mal, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> A confus&atilde;o que sentia n&atilde;o a deixou continuar.<\/p>\n<p> O fidalgo notou aquela perturba&ccedil;&atilde;o e abrandou mais a voz,<br \/>\n    tomou um tom carinhoso e disse, pegando-lhe afectuosamente na m&atilde;o :<br \/>\n    &#8212; Vamos, Berta, sossega. Acredita que tens em mim um amigo, e abre-me<br \/>\n    francamente o cora&ccedil;&atilde;o sem receio. Diz-me : &eacute; verdade<br \/>\n    que Jorge te disse alguma vez que te amava? &Eacute; verdade que entre v&oacute;s<br \/>\n    ambos h&aacute; alguma afei&ccedil;&atilde;o, alguma promessa? A pergunta,<br \/>\n    ainda que j&aacute; n&atilde;o de todo inesperada, sobressaltou Berta, que<br \/>\n    n&atilde;o atinou com o que respondesse.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega, minha filha &#8212; prosseguiu o fidalgo, animando-a. &#8212;<br \/>\n    Bem v&ecirc;s que eu n&atilde;o quero repreender-te. Somente queria que me<br \/>\n    dissesses a verdade a este respeito.<\/p>\n<p> &#8212; Meu padrinho &#8212; disse Berta, perturbada ainda &#8212; pois<br \/>\n    n&atilde;o se lembra do pedido que lhe fiz ainda h&aacute; poucos dias? &#8212;<br \/>\n    Do pedido?&#8230; Ah!&#8230; sim&#8230; Falas do casamento?&#8230; Mas se ele j&aacute; se<br \/>\n    n&atilde;o faz? Se foi a pr&oacute;pria m&atilde;e de Clemente que me contou<br \/>\n    desses amores entre ti e meu filho? &#8212; Oh ! n&atilde;o pode ser ! &#8212;<br \/>\n    exclamou Berta, consternada. &#8212; Como havia ela de saber?&#8230; Como podia<br \/>\n    ela dizer isso? &#8212; O mesmo Jorge lho revelou.<\/p>\n<p> &#8212; Jorge!&#8230; o Sr. Jorge?&#8230; &Eacute; imposs&iacute;vel! &#8212; Mas<br \/>\n    porque n&atilde;o respondes &agrave; rninha pergunta ? O que h&aacute; de<br \/>\n    verdade em tudo isso? Berta conservou-se ainda algum tempo silenciosa e irresoluta,<br \/>\n    Depois, como se abra&ccedil;asse um partido decisivo, tornou com maior vivacidade<br \/>\n    : &#8212; Tem raz&atilde;o, meu padrinho, devo dizer-lhe a verdade. Nem ela<br \/>\n    tem em que me envergonhar. .<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o &eacute; certo?<\/p>\n<p>Berta, com os olhos fitos no ch&atilde;o e a voz mal firme, mas exprimindo<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o, principiou: &#8212; um dia o Sr. Jorge apresentou-se<br \/>\n    em casa de meu pai, a pedir- -lhe, em nome de Clemente, licen&ccedil;a para<br \/>\n    o casamento que sabe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Como ? I Foi Jorge que pediu esse consentimento ? E antes disso<br \/>\n    n&atilde;o tinha ele j&aacute; dado a conhecer-te&#8230;<\/p>\n<p> Berta n&atilde;o o deixou continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Escute, Sr. D. Luis, que eu prometo dizer-lhe toda a verdade.<\/p>\n<p> Meu pai chamou-me para consultar-me a esse prop&oacute;sito.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! teu pai consultou-te ? E esperava que tu r&eacute;cusasses,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212; Eu nunca pensara em casar-me, nunca pensara<br \/>\n    at&eacute; no futuro, por isso aquela proposta sobressaltou-me.<\/p>\n<p> &#8212; E respondeste&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Depois o ter sido feita pelo Sr. Jorge mais me perturbava ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, porque ele havia-te jurado talvez&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o havia jurado coisa alguma ; quase nem me falara detidamente<br \/>\n    desde que eu voltara &agrave; aldeia. Parecia fugir de mim, parecia que a<br \/>\n    minha presen&ccedil;a lhe desagradava, que as minhas palavras o irritavam.<\/p>\n<p> N&atilde;o era poss&iacute;vel iludir-me a este respeito. Afligia-me ver<br \/>\n    a pouca simpatia que eu merecera, sem saber porqu&ecirc;, a um rapaz que todos<br \/>\n    diziam t&atilde;o generoso, t&atilde;o indulgente e de tanto ju&iacute;zo<br \/>\n    ; e isto era causa para eu muito pensar no que poderia dar motivo &agrave;quele<br \/>\n    proceder dele para comigo. Tinha isto sempre na id&eacute;ia, observava-o,<br \/>\n    estudava- o&#8230; e foi mau isto, bem sinto que foi mau.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc;? &#8212; Porque quanto mais o observava &#8212; continuou<br \/>\n    Berta, com ing&ecirc;nua sinceridade &#8212; mais de perto lhe conhecia as<br \/>\n    nobres qualidades e sentia a pouco e pouco em mim uma admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por ele, uma simpatia, um respeito, um&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; um amor &#8212; concluiu D. Luis, vendo a hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Berta.<\/p>\n<p> &#8212; uma loucura &#8212; emendou esta &#8212; que eu tratei logo de abafar<br \/>\n    em mim, porque desde o princ&iacute;pio a vi tal como ela era.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;s um anjo &#8212; disse D. Luis, afagando-a.<\/p>\n<p> Berta prosseguiu : &#8212; Mas a proposta daquele casamento, feita pelo<br \/>\n    Sr. Jorge, foi para mim mais uma prova da antipatia, que eu julgava merecer-lhe.<\/p>\n<p> Pareceu-me quase uma persegui&ccedil;&atilde;o ; despeitada com ela, disse<br \/>\n    a meu pai que aceitava a proposta de Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; E ele&#8230; e eles que disseram? &#8212; Ficando momentos depois s&oacute;<br \/>\n    com o Sr. Jorge e sem que pudesse j&aacute; reter as l&aacute;grimas que me<br \/>\n    afogavam, perguntei-lhe quais eram as raz&otilde;es que o tinham levado a<br \/>\n    dar aquele passo, a encarregar-se daquela proposta, porque motivo eu lhe era<br \/>\n    t&atilde;o odiosa, o que &eacute; que o levara a fazer-me mal, a mim, que<br \/>\n    nunca lho fizera nem desejara.<\/p>\n<p> &#8212; E ele?<\/p>\n<p>&#8212; Foi ent&atilde;o &#8212; prosseguiu Berta, mas enleada &#8212; que<br \/>\n    imprevistamente ele me confessou que o &uacute;nico motivo de todo o seu proceder,<br \/>\n    da sua aparente m&aacute; vontade, da dureza das suas palavras era&#8230; a afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me tinha e que, desde que a sentira, se esfor&ccedil;ara por ocultar e<br \/>\n    vencer, como eu tamb&eacute;m fizera; que estava decidido a sacrific&aacute;-la<br \/>\n    aos seus deveres de fam&iacute;lia, mas que n&atilde;o queria que o sacrif&iacute;cio<br \/>\n    ferisse a mais algu&eacute;m sen&atilde;o a ele, e para isso procurara sempre<br \/>\n    desviar de si pelo seu proceder as minhas aten&ccedil;&otilde;es e simpatias.<br \/>\n    N&atilde;o o conseguiu ; mas que importava? Eu n&atilde;o tinha menos coragem<br \/>\n    do que ele, e compreendia t&atilde;o bem como ele quais eram os meus deveres,<br \/>\n    que em mim eram mais fortes ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre rapariga ! &#8212; murmurou D. Luis, comovido.<\/p>\n<p> &#8212; Assim posso dizer que foi aquele o primeiro e o &uacute;ltimo dia<br \/>\n    desses&#8230; amores, de que lhe vieram falar, n&atilde;o sei para qu&ecirc;.<br \/>\n    No mesmo dia em que nos declar&aacute;mos, no mesmo dia prometemos abafar<br \/>\n    em n&oacute;s mesmos essa loucura que nascera sem que o sent&iacute;ssemos.<br \/>\n    E tanto que dias depois eu vinha pedir-lhe o consentimento para me casar com<br \/>\n    Clemente.<\/p>\n<p> &#8212; E teu pai nada soube de tudo isto ? &#8212; perguntou o desconfiado<br \/>\n    fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; Se n&oacute;s mesmos o n&atilde;o sab&iacute;amos ! &#8212; respondeu<br \/>\n    Berta com ingenuidade.<\/p>\n<p> Depois de um intervalo de muda reflex&atilde;o, D. Luis segurou outra vez<br \/>\n    nas m&atilde;os a graciosa cabe&ccedil;a da afilhada, e pousou-lhe na fronte<br \/>\n    um beijo, verdadeiramente paternal.<\/p>\n<p> &#8212; Era bem digna de ter nascido entre a nobreza &#8212; disse ele suspirando<br \/>\n    &#8212; quem t&atilde;o nobremente pensa e procede. Quantas raparigas criadas<br \/>\n    em pal&aacute;cios deviam ouvir e aprender de ti, Berta ! Pobre pequena !<br \/>\n    O teu sacrif&iacute;cio &eacute; grande e custoso, porque tu com esse cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tens, se amas, deves amar deveras ; mas bem v&ecirc;s, e tu mesma o reconheces,<br \/>\n    &eacute; um sacrif&iacute;cio inevit&aacute;vel! Nas fam&iacute;lias como<br \/>\n    as aessas h&aacute; certas exig&ecirc;ncias tradicionais&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sr. D. Luis &#8212; disse Berta interrompendo-o &#8212; repare que<br \/>\n    h&aacute; dias que eu lhe pedi o seu consentimento&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei, Berta; bem vejo que o teu ju&iacute;zo dominou a tua fantasia<br \/>\n    de rapariga. Por isso te admiro, filha. Mas para que levavas tamb&eacute;m<br \/>\n    t&atilde;o longe o sacrif&iacute;cio, indo casar-te com um homem que n&atilde;o<br \/>\n    amavas ? &#8212; Era um homem honrado, que me pedia para companheira da sua<br \/>\n    vida. O destino de uma mulher como eu &eacute; esse. &Eacute; a nossa miss&atilde;o.<\/p>\n<p> Porque n&atilde;o havia de cumpri-la? &#8212; Iludindo, porque n&atilde;o<br \/>\n    pod&iacute;as amar.<\/p>\n<p> &#8212; Disse-o a Clemente. N&atilde;o lhe prometi o que n&atilde;o podia<br \/>\n    dar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; E ele aceitou ? &#8212; Pediu tempo para pensar. Agora vejo que<br \/>\n    n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Calaram-se por algum tempo. Berta, sem erguer os olhos, dobrava e desdobrava<br \/>\n    distra&iacute;da o pequeno avental de seda. D. Luis observava-a com ar pensativo.<\/p>\n<p> Foi ele quem renovou o di&aacute;logo.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; Custa-te muito o sacrif&iacute;cio que fazes, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade ? &#8212; Para que hei-de dizer que n&atilde;o? Custa-me<br \/>\n    como quando ao acordar de sonhar um sonho agrad&aacute;vel me conven&ccedil;o<br \/>\n    de que foi um sonho tudo. Sabe, por&eacute;m, o que me anima? &Eacute; o pensar<br \/>\n    que mais me custaria se o sonho se realizasse.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc;? &#8212; Porque teria remorsos de pagar dessa maneira<br \/>\n    o afecto que encontrei sempre nesta casa ; porque teria vergonha de que pensassem<br \/>\n    que, da minha parte, esses afectos eram calculados e interesseiros.<\/p>\n<p> N&oacute;s tamb&eacute;m temos o nosso orgulho, Sr. D. Luis &#8212; acrescentou<br \/>\n    ela, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; E nobre que ele &eacute; &#8212; acudiu o fidalgo, cada vez mais<br \/>\n    fascinado.<\/p>\n<p> Neste momento a porta abriu-se, e frei Janu&aacute;rio meteu a cabe&ccedil;a<br \/>\n    pela abertura.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute;? &#8212; perguntou D. Luis, irritado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o Tom&eacute; da P&oacute;voa&#8230; &eacute; o pai dessa menina<br \/>\n    que a procura.<\/p>\n<p> &#8212; A mim ! &#8212; disse Berta, levantando-se.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, menina &#8212; tornou o padre &#8212; e parece-me que procura<br \/>\n    a V. Ex.&#8217; tamb&eacute;m, &#8212; Pois que entre &#8212; respondeu D. Luis,<br \/>\n    asperamente.<\/p>\n<p> Passados momentos Tom&eacute; da P&oacute;voa entrava para o quarto de D.<br \/>\n    Luis com as maneiras respeitosas mas rasgadas que lhe eram peculiares.<\/p>\n<h2>XXXV<\/h2>\n<p>COMO homem a quem pesava a comiss&atilde;o que se propunha a desempenhar<br \/>\n    ali, Tom&eacute; da P&oacute;voa, depois de cumprimentar o fidalgo e de aben&ccedil;oar<br \/>\n    a filha, foi direito ao fim da sua visita.<\/p>\n<p> &#8212; Pois, Sr. D. Luis, eu venho aqui para buscar a rapariga, se V. Ex.&ordf;<br \/>\n    der licen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Berta desviou para o fidalgo um olhar inquieto e investigador.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o respondeu, mas correu-lhe pelos &iexcl;&aacute;bio3 um<br \/>\n    r&aacute;pido sorriso, entre amargo e ir&ograve;nico.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, em vista do sil&ecirc;ncio do fidalgo, sentiu que n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar de dizer mais algumas palavras de explica&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    por isso, enleado a forjar um pretexto que n&atilde;o lhe ocorria, acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Ela est&aacute; sendo l&aacute; precisa&#8230; porque&#8230; sim, a minha<br \/>\n    Luisa, pelos modos&#8230; anda assim adoentada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Minha m&atilde;e est&aacute; doente? &#8212; perguntou Berta com<br \/>\n    inquieta&ccedil;&atilde;o, &#8212; Doente, doente&#8230; o que se chama doente,<br \/>\n    n&atilde;o digo, mas&#8230;<\/p>\n<p> E depois h&aacute; l&aacute; uns milhos a arrecadar e os pequenos&#8230; E enfim,<br \/>\n    nesta &eacute;poca do ano, a casa de um lavrador&#8230; Os jornaleiros s&atilde;o<br \/>\n    muitos&#8230;<\/p>\n<p> E, a cada pretexto que mal aDontava, Tom&eacute; erguia a vista para D.<br \/>\n    Luis a estudar-lhe na fisionomia o efeito da desculpa.<\/p>\n<p> Mas de todas as vezes a achava cerrada na mesma express&atilde;o de reserva<br \/>\n    e de mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> De repente, por&eacute;m, D. Luis fez um movimento, como se uma s&uacute;bita<br \/>\n    resolu&ccedil;&atilde;o lhe acudisse, estendeu a m&atilde;o para Berta, que<br \/>\n    se demorara ainda ao lado dele, e como que a impeliu de si e na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Tom&eacute;, dizendo com afectada placidez.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; a tem. Pode lev&aacute;-la.<\/p>\n<p> A estranheza com que Tom&eacute; o encarou, vendo-o fazer aquele gesto,<br \/>\n    correspondeu o fidalgo, acrescentando em tom de amargura e sarcasmo : &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o calculou bem o tempo. Antecipou-se. A ocasi&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    era ainda esta; por ora n&atilde;o estou enfeiti&ccedil;ado, bem v&ecirc;.<\/p>\n<p> Tom&eacute; julgou perceber vagamente o sentido destas palavras e corou,<br \/>\n    dizendo : &#8212; Ou eu entendo mal o fidalgo, ou quer dizer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que pode levar sua filha. A presen&ccedil;a dela aqui n&atilde;o<br \/>\n    adianta os seus projectos. Meus filhos n&atilde;o est&atilde;o nos Bacelos,<br \/>\n    como v&ecirc;, e eu&#8230;<\/p>\n<p> eu j&aacute; n&atilde;o tenho cora&ccedil;&atilde;o sujeito a feiti&ccedil;os.<\/p>\n<p> A ilus&atilde;o n&atilde;o era poss&iacute;vel para Tom&eacute;. As palavras<br \/>\n    de D. Luis confirmavam as previs&otilde;es que ele tivera antes de lhas ouvir.<\/p>\n<p> O rosto do lavrador tomou a express&atilde;o que os fortes golpes e as paix&otilde;es<br \/>\n    violentas lhe costumavam dar.<\/p>\n<p> Ficou-se por algum tempo a olhar para o fidalgo sem soltar uma palavra,<br \/>\n    mordendo os bei&ccedil;os e abanando significativamente com a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Dapois tomou a filha pela m&atilde;o, e encaminhando-se para a porta do quarto,<br \/>\n    disse-lhe : &#8212; Berta, vai aprontar as tuas coisas, que eu espero por<br \/>\n    ti&#8230; e no entretanto conversarei com o fidalgo.<\/p>\n<p> Berta sentia que entre aqueles dois homens havia iminente uma luta de paix&otilde;es,<br \/>\n    que n&atilde;o estava j&aacute; na sua m&atilde;o dissipar. Mais valia, pois,<br \/>\n    deix&aacute;-los chegar a uma explica&ccedil;&atilde;o decisiva, que definisse<br \/>\n    a posi&ccedil;&atilde;o de cada um.<\/p>\n<p> Obedeceu portanto &agrave; indica&ccedil;&atilde;o do pai, dirigindo-lhe<br \/>\n    apenas um olhar, uma s&uacute;plica que n&atilde;o passou despercebida de<br \/>\n    Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Depois que Berta saiu, o lavrador voltou para defronte do fidalgo, e, cruzando<br \/>\n    os bra&ccedil;os, disse-lhe com um modo decidido: &#8212; Agora que estamos<br \/>\n    s&oacute;s, Sr. D. Luis, fa&ccedil;a V. Ex.&quot; o favor de me acusar abertamente<br \/>\n    e de uma maneira clara e franca.<\/p>\n<p> D. Luis respondeu com frieza e sobranceria: &#8212; Se nas minhas palavras<br \/>\n    viu coisa que lhe parecesse uma acusa&ccedil;&atilde;o, &eacute; porque decerto<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia lhas interpretou assim.<\/p>\n<p>Tom&eacute; da P&oacute;voa n&atilde;o p&ocirc;de reter um movimento de impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Por quem &eacute;, fidalgo, n&atilde;o me principie V. Ex.&ordf;<br \/>\n    com esses discursos enredados, com que n&atilde;o me entendo. Jogo franco!<br \/>\n    Ou sen&atilde;o, come&ccedil;o eu; e sera talvez melhor.<\/p>\n<p> D. Luis encolheu os ombros, exprimindo a mais aristocr&aacute;tica indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me custou a entender as suas palavras de h&aacute; pouco,<br \/>\n    fidalgo, porque depois do que eu soube esta manh&atilde;, esta manh&atilde;<br \/>\n    apenas, repare bem, Sr. D. Luis, depois do que soube esta manh&atilde; e conhecendo<br \/>\n    como conhe&ccedil;o o g&ecirc;nio de V. Ex.&quot;, j&aacute; esperava ouvir<br \/>\n    alguma coisa parecida com o que ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram<br \/>\n    menos as tais palavras. &Eacute; preciso que V. Ex.&quot; saiba. Porque um<br \/>\n    homem que n&atilde;o tem a pesar-lhe na consci&ecirc;ncia nenhuma deslealdade,<br \/>\n    um homem que tem brios, n&atilde;o pode a sangue-frio ser suspeitado como<br \/>\n    eu o estou sendo por V. Ex.&quot;.<\/p>\n<p> &#8212; Bem; pois se a consci&ecirc;ncia lhe n&atilde;o exprobra nada, &eacute;<br \/>\n    o essencial.<\/p>\n<p> V&aacute; em paz com ela e deixe-me em sossego, homem, deixe-me, que bem<br \/>\n    preciso dele.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, fidalgo. Isso &eacute; que eu n&atilde;o posso fazer.<br \/>\n    Deus me livre de ser acusado pela minha consci&ecirc;ncia, mas Deus me livre<br \/>\n    tamb&eacute;m de o ser pela dos homens que respeito e estimo. E V. Ex.&ordf;,<br \/>\n    ainda que o n&atilde;o creia, &eacute; um desses.<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigado.<\/p>\n<p> &#8212; Permita-me que v&aacute; direito ao caso. Minha filha n&atilde;o<br \/>\n    tarda a&iacute;, e eu n&atilde;o quero falar diante dela. Esta manh&atilde;<br \/>\n    foram a minha casa (provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram<br \/>\n    tamb&eacute;m aqui com a mesma nova&#8230; Foram a minha casa e disseram-me&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, eu n&atilde;o preciso de saber o que se diz nas casas<br \/>\n    alheias.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem &#8212; acudiu Tom&eacute; j&aacute; irritado &#8212; eu<br \/>\n    lhe conto ent&atilde;o o que se disse na sua. Vieram aqui, a casa de V. Ex.&ordf;<br \/>\n    e disseram-lhe : &laquo;O seu filho Jorge est&aacute; namorado da filha do<br \/>\n    Tom&eacute;, e a rapariga tamb&eacute;m gosta dele&raquo;. Disseram-lhe isto<br \/>\n    com certeza, e disseram-mo a mim tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Ora agora eu lhe conto mais, eu lhe conto o que V. Ex.&ordf; pensou e o<br \/>\n    que eu logo previ que V. Ex.&ordf; pensava. Pensou V. Ex.&ordf; : Aquele insolente<br \/>\n    Tom&eacute; foi quem maquinou isto tudo. Atreveu-se a sonhar em apanhar o<br \/>\n    meu filho para marido da filha dele, em aliar a sua fam&iacute;lia &agrave;<br \/>\n    minha, em dar por aposento &agrave;quela rapariga as salas do meu pal&aacute;cio.<\/p>\n<p> Para isso principiou a amimar-me o filho, para isso prestou-lhe servi&ccedil;os<br \/>\n    com sinais de desinteresse, para isso o levou por sua casa e lhe meteu a cara<br \/>\n    a filha, e enfim para assegurar ainda melhor os seus projectos, sabendo da<br \/>\n    predilec&ccedil;&atilde;o que eu mostrava pela rapariga, trouxe-ma para casa,<br \/>\n    porque, velho e doente como me via, conjecturou que bem podia ser deixar-me<br \/>\n    de tal maneira prender por ela, que n&atilde;o opusesse obst&aacute;culos<br \/>\n    aos seus projectos. Ora aqui est&aacute; o que V. Ex.&ordf; pensou.<\/p>\n<p> Negue-o se &eacute; capaz.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o ousou negar.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem, fidalgo. O tempo &eacute; pouco, como disse, e por isso<br \/>\n    eu vou direito ao meu fim. Eu logo vi que deviam ser estes os pensamentos<br \/>\n    de V. Ex.a, porque ainda quando as apar&ecirc;ncias eram menos contra mim<br \/>\n    do que desta vez, V. Ex.&quot; costumava fazer sempre a meu respeito suposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&atilde;o boas como esta. Por isso, n&atilde;o pude sofrer a id&eacute;ia<br \/>\n    de conservar nem mais uma hora minha filha nesta casa. Vim e vim &agrave;<br \/>\n    carreira para a levar comigo. Procurava dar um pretexto qualquer a esta retirada,<br \/>\n    mas foi desnecess&aacute;rio, porque logo vi &agrave;s primeiras palavras<br \/>\n    de V. Ex.a que j&aacute; chegara tarde para remediar o mal qse previra.<\/p>\n<p> Muito bem, nesse caso resta-me pouco a fazer para descargo da minha consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e depois retiro-me.<\/p>\n<p> Tom&eacute; passou a m&atilde;o pela fronte, que tinha inundada de suor.<br \/>\n    Na voz como no semblante eram evidentes os sinais da sua excessiva como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Luis, que o ouvira conservando os olhos fitos no tapete do pavimento,<br \/>\n    sentiu-se involuntariamente obrigado a levant&aacute;-los naquele momento<br \/>\n    para os fitar na fisionomia do homem que tinha diante de si e que a seu pesar<br \/>\n    o impressionava.<\/p>\n<p> &#8212; Fidalgo &#8212; prosseguiu Tom&eacute;, depois desta breve pausa&#8212;juro-<br \/>\n    -lhe que nunca percebi estas afei&ccedil;&otilde;es entre minha filha e o<br \/>\n    Sr. Jorge ; juro-lhe que nunca pensei em que elas pudessem dar-se. Quando<br \/>\n    o soube estalou-me o cora&ccedil;&atilde;o de dor e coraram-me as faces de<br \/>\n    vergonha.<\/p>\n<p> Cheguei a arrepender-me, pela primeira vez, de alguns servi&ccedil;os que<br \/>\n    em boa f&eacute; prestei ao Sr. Jorge, pequenos mas feitos da melhor vontade.<br \/>\n    Mas uma vez que o caso se deu sem culpa minha, s&oacute; tenho &aacute; dizer-lhe<br \/>\n    isto, fidalgo ; oi&ccedil;a-me bem. Quero do cora&ccedil;&atilde;o a seu filho,<br \/>\n    de pequeno o estimo, e respeito-o agora como um homem de bem que &eacute;<br \/>\n    ; quero deveras, se quero ! a minha filha, &eacute; a primeira que eu tive,<br \/>\n    &eacute; a &uacute;nica rapariga, &eacute; a que trago mais chegada ao cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fraquezas de pai, como sabe ; pois bem, quero-lhes a ambos e muito, mas ainda<br \/>\n    que a afei&ccedil;&atilde;o que eles tivessem um pelo outro fosse tal que<br \/>\n    eu os visse morrer, e que a salva&ccedil;&atilde;o deles s&oacute; dependesse<br \/>\n    do meu consentimento para se casarem, deix&aacute;-los-ia morrer, deixava;<br \/>\n    morreria com eles, mas n&atilde;o daria esse consentimento. Juro-lho, fidalgo,<br \/>\n    juro-lho ! que para tanto tenho coragem; porque o meu orgulho n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    menos forte do que o de V. &pound;x.&quot; ! Para eu consentir que um filho<br \/>\n    meu entrasse na sua fam&iacute;lia, fidalgo, era necess&aacute;rio&#8230; Eu sei<br \/>\n    l&aacute; o que era necess&aacute;rio?&#8230;<\/p>\n<p> Era necess&aacute;rio que V. Ex.&#8217; primeiro me pedisse por favor para assim<br \/>\n    o consentir. Agora veja l&aacute; se isso &eacute; poss&iacute;vel ! Ao terminar,<br \/>\n    Tom&eacute; tinha a respira&ccedil;&atilde;o cortada, ofegante, como de quem<br \/>\n    realizou um esfor&ccedil;o enorme. Ca&iacute;am-lhe bagadas de suor pela fronte<br \/>\n    afogueada e as m&atilde;os contra&iacute;am-se-lhe em crispa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nervosas.<\/p>\n<p> D. Luis ia a responder-lhe, quando Berta entrou no quarto preparada para<br \/>\n    a partida.<\/p>\n<p> A sua chegada cortou neste ponto a cena.<\/p>\n<p>Berta relanceou um olhar para os dois velhos e adivinhou que a cena que ela<br \/>\n    previra tivera lugar.<\/p>\n<p> &#8212; Quer que vamos? &#8212; perguntou ela ao pai, timidamente.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; respondeu este com um modo sacudido, dirigindo-se<br \/>\n    para a porta.<\/p>\n<p> Berta aproximou-se do fidalgo, olhando-o com timidez.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dar-me a sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de despedida, meu padrinho<br \/>\n    ? &#8212; perguntou Berta a meia voz, como receosa de uma recusa.<\/p>\n<p> D. Luis, sem voltar o rosto, estendeu-lhe silenciosamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta apoderou-se dela e beijou-a, banhando-a de l&aacute;grimas de saudade.<\/p>\n<p> D. Luis estremeceu ao sentir aqueles beijos e aquelas l&aacute;grimas, mas<br \/>\n    fez por se reprimir na presen&ccedil;a de Tom&eacute;.<\/p>\n<p> Enfim, Berta separou-se dele, e encaminhou-se para a porta, onde o pai a<br \/>\n    esperava.<\/p>\n<p> Poucos passos andados ouviu que a chamava uma voz sufocada.<\/p>\n<p> Voltou-se. D. Luis seguiu-a com a vista nublada de pranto e estendia- lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os para um &uacute;ltimo adeus.<\/p>\n<p> Ela correu para o velho e abra&ccedil;aram-se solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p> Tom&eacute;, sensibilizado, escondeu-se discretamente nas dobras do reposteiro.<\/p>\n<p> Por algum tempo durou ainda aquela tocante cena de despedida, que despeda&ccedil;ou<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o do velho fidalgo.<\/p>\n<p> Afinal afastando brandamente de si a rapariga e beijando-lhe a fronte, enternecido,<br \/>\n    murmurou: &#8212; Vai, minha filha ; &eacute; melhor que v&aacute;s. O teu<br \/>\n    sacrif&iacute;cio &eacute; grande, mas cr&ecirc; que n&atilde;o &eacute; maior<br \/>\n    do que o meu. Diz a teu pai&#8230;<\/p>\n<p> Mas percebendo Tom&eacute; meio escondido na porta, dirigiu-se a ele: &#8212;<br \/>\n    Tom&eacute;, h&aacute; pouco fui injusto consigo. Desculpe-me ; a velhice,<br \/>\n    a doen&ccedil;a, fizeram-me assim. Creio na sua boa f&eacute; e espero que<br \/>\n    todos n&oacute;s saberemos proceder como o dever nos manda. Adeus, entrego-<br \/>\n    -lhe a sua filha. Tem raz&atilde;o em a querer junto de si.<\/p>\n<p> E, pela segunda vez na sua vida, o fidalgo da Casa Mourisca estendeu a m&atilde;o<br \/>\n    ao seu antigo criado.<\/p>\n<p> Tom&eacute; aceitou-lha com a efus&atilde;o com que sempre acolhia a m&atilde;o<br \/>\n    que lealmente se estendia para a sua.<\/p>\n<p> &#8212; Fidalgo, se V. Ex.&#8217;&#8230; Mas n&atilde;o; &eacute; melhor que Berta<br \/>\n    venha comigo. &Eacute; melhor para sossego de todos. Custa ao principio, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim; &eacute; melhor, &eacute;, Berta que v&aacute; &#8212; assentiu<br \/>\n    D. Luis.<\/p>\n<p> E, depois de uma &uacute;ltima despedida, t&atilde;o terna como a primeira,<br \/>\n    o pobre doente viu desaparecer, para n&atilde;o voltar, a doce figura da sua<br \/>\n    carinhosa enfermeira.<\/p>\n<p> Assim que deixou de ouvir-lhe os passos no corredor, o desalentado velho<br \/>\n    escondeu a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os j&aacute; tr&eacute;mulas, e<br \/>\n    com a voz cortada pelos solu&ccedil;os, exclamou com desespero: &#8212; Agora<br \/>\n    morre ! morre ! morre para a&iacute; s&oacute;, velho desgra&ccedil;ado, sem<br \/>\n    filhos, sem fam&iacute;lia, sem amigos; morre s&oacute; com os teus rancores,<br \/>\n    com as tuas paix&otilde;es, com o teu orgulho, j&aacute; que assim o queres.<br \/>\n    Quando acabar&aacute; de se despeda&ccedil;ar este cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    para me deixar descansar? Frei Janu&aacute;rio veio surpreend&ecirc;-lo neste<br \/>\n    apaixonado mon&oacute;logo e recuou assustado ante a veem&ecirc;ncia daquela<br \/>\n    dor.<\/p>\n<p> D. Luis nem deu pela chegada do padre. Caindo em um profundo abatimento,<br \/>\n    assim permaneceu sem que as perguntas e s&uacute;plicas do padre conseguissem<br \/>\n    arrancar-lhe uma palavra dos l&aacute;bios contra&iacute;dos.<\/p>\n<p> Somente ao fim da tarde, D. Luis disse que queria deitar-se ; ajudaram-<br \/>\n    no a despir-se e a met&ecirc;-lo na cama, onde ele ficou como ca&iacute;do<br \/>\n    em uma so&ntilde;olencia m&oacute;rbida.<\/p>\n<p> O padre, receoso do resultado daquela s&uacute;bita depress&atilde;o de<br \/>\n    for&ccedil;as, pensou em avisar Jorge.<\/p>\n<p> O bom do padre, apesar dos seus defeitos, n&atilde;o era um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    insens&iacute;vel, e por D. Luis tinha uma afei&ccedil;&atilde;o sincera.<br \/>\n    Aquela noite, reagindo contra o seu amor pelas comodidades, velou, ou melhor,<br \/>\n    permaneceu &agrave; cabeceira do doente. Teve, por&eacute;m, o desgosto de<br \/>\n    perceber que este n&atilde;o sentia grande refrig&egrave;rio em v&ecirc;-lo<br \/>\n    ali, porque sempre que no intervalo dos seus sonos agitados dava com os olhos<br \/>\n    nele, desviava- os logo com despeito.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante, o padre conservou-se fiel no seu posto.<\/p>\n<h2>XXXVI<\/h2>\n<p>Oestado do doente no dia seguinte n&atilde;o era mais animador. O abatimento,<br \/>\n    em que t&atilde;o de s&uacute;bito ca&iacute;ra, mostrava jeitos de prolongar-<br \/>\n    se e porventura de terminar por uma solu&ccedil;&atilde;o funesta.<\/p>\n<p> O padre mandou &agrave; pressa aviso a Jorge para que viesse aos Bacelos.<\/p>\n<p> A carta de frei Janu&aacute;rio chegou &agrave;s m&atilde;os de Jorge juntamente<br \/>\n    com outras de mais felizes novas. Umas eram do Porto, noticiando-lhe a decis&atilde;o<br \/>\n    favor&aacute;vel da importante demanda que ele sustentava ; outras da baronesa<br \/>\n    e de Maur&iacute;cio, participando-lhe o seu casamento e prometendo uma pr&oacute;xima<br \/>\n    visita &agrave; aldeia. Todas estas not&iacute;cias, de t&atilde;o diversa<br \/>\n    &iacute;ndole, impressionaram extraordinariamente Jorge.<\/p>\n<p> Por esse lado iluminava-se-lhe o horizonte do caminho, que seguia com a<br \/>\n    const&acirc;ncia e tenacidade de um &acirc;nimo varonil ; por outro, assombrava-<br \/>\n    o o estado perigoso do seu velho pai, a quem ele desejaria dar ainda a consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ver como que erguida das ru&iacute;nas a casa de seus antepassados.<\/p>\n<p> As novas, quase f&uacute;nebres, que lhe vinham dos Bacelos, enlutavam-<br \/>\n    lhe as alegrias nupciais das cartas do irm&atilde;o e de Gabriela,<\/p>\n<p>Debaixo da influ&ecirc;ncia destas impress&otilde;es opostas, Jorge, depois<br \/>\n    de escrever um pequeno bilhete a Tom&eacute;, em resposta a outro que dole<br \/>\n    recebeu, comunicando-lhe tamb&eacute;m o resultado da demanda, montou a cavalo<br \/>\n    e partiu a t&ocirc;da a pressa para os Bacelos.<\/p>\n<p> O procurador recebeu-o com ar consternado, e abanando sinistramente a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    conduziu-o ao quarto de D. Luis.<\/p>\n<p> Jorge sentia comprimir-se-lhe dolorosamente o cora&ccedil;&atilde;o ao aproximar-<br \/>\n    se do leito do pai.<\/p>\n<p> &#8212; Ele j&aacute; nem fala &#8212; dissera-lhe a meia voz o padre, que<br \/>\n    de facto ainda n&atilde;o conseguira obter uma s&oacute; palavra do fidalgo.<\/p>\n<p> Jorge afastou quase tremendo as cortinas do leito.<\/p>\n<p> D. Luis, que jazia com os olhos fechados e naquela imobilidade quase m&oacute;rbida<br \/>\n    em que desde a partida de Berta ca&iacute;ra, n&atilde;o deu sinal de ter<br \/>\n    percebido a chegada do filho.<\/p>\n<p> Jorge, assustado com aquela impassibi]idade, pegou-lhe na m&atilde;o que<br \/>\n    tinha estendida por fora da roupa, como para procurar nela o calor da vida.<\/p>\n<p> Ao contacto da m&atilde;o do filho, o fidalgo estremeceu e abriu os olhos<br \/>\n    ; vendo Jorge, passou-lhe nos l&aacute;bios um desvanecido sorriso de afecto.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &eacute;s tu, Jorge? &#8212; disse ele com a voz ainda fraca<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o te tinha visto entrar.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio ficou estupefacto, ouvindo falar o doente, que ele<br \/>\n    j&aacute; supunha em estado de n&atilde;o poder faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Acha-se melhor? &#8212; perguntou Jorge, vergando-se sobre o leito.<\/p>\n<p> O velho s&oacute; respondeu encolhendo os ombros, como exprimindo indiferen&ccedil;a<br \/>\n    pela sua parte, e depois fitando outra vez os olhos no filho, interrogou-o<br \/>\n    por sua vez: &#8212; E tu? Jorge estranhou esta solicitude no pai, t&atilde;o<br \/>\n    fora dos seus h&aacute;bitos, e sentiu-se comovido.<\/p>\n<p> &#8212; Eu?&#8230; eu estou bom.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s p&aacute;lido e doente &#8212; prosseguiu o pai, fitando-o.<\/p>\n<p> E, sem desviar os olhos, recaiu no sil&ecirc;ncio, que manteve por alguns<br \/>\n    segundos.<\/p>\n<p> Depois, procurando a m&atilde;o do filho e apertando-a na sua, murmurou<br \/>\n    com uma como&ccedil;&atilde;o a que s&oacute; &ugrave;ltimamente era sujeito<br \/>\n    : &#8212; &Eacute;s um homem, Jorge ! &Eacute;s digno do nome que tens e da<br \/>\n    fam&iacute;lia que representas.<\/p>\n<p> Estas palavras surpreenderam extraordinariamente Jorge e n&atilde;o menos<br \/>\n    frei Janu&aacute;rio, que as atribuiu ao del&iacute;rio produzido pela doen&ccedil;a.<\/p>\n<p> D. Luis acrescentou no mesmo tom: &#8212; Saber sacrificar tudo a um dever<br \/>\n    &eacute; a principal e a mais dif&iacute;cil ci&ecirc;ncia que n&oacute;s<br \/>\n    temos a aprender na vida, e tu&#8230; mostras que est&aacute;s bem senhor dela.\n  <\/p>\n<p>Julgando perceber o sentido destas palavras, Jorge fitou no pai um olhar<br \/>\n    perscrutador.<\/p>\n<p> Ele, por&eacute;m, fechou novamente os olhos e por muito tempo permaneceu<br \/>\n    como ca&iacute;do em um sono profundo.<\/p>\n<p> O filho e o padre conservaram-se ao lado do leito.<\/p>\n<p> &#8212; Como v&atilde;o os neg&oacute;cios da nossa casa ? &#8212; perguntou<br \/>\n    da&iacute; a pouco ele sem abrir os olhos.<\/p>\n<p> Jorge comunicou-lhe a boa nova que recebera de se haver vencido a mais antiga<br \/>\n    e a mais importante demanda que sustentavam.<\/p>\n<p> Na palidez das faces do doente passou um instant&acirc;neo rubor.<\/p>\n<p> Os l&aacute;bios agitaram-se-lhe, e baixo, muito baixo, que mal o p&ocirc;de<br \/>\n    ouvir o filho, murmurou : &#8212; Ser&aacute; chegado o termo desta longa<br \/>\n    prova&ccedil;&atilde;o ? ! Depois recaiu no torpor em que passara a noite,<br \/>\n    e n&atilde;o disse mais palavra alguma.<\/p>\n<p> Jorge, vendo-o a dormir, correu-lhe as cortinas do leito, diminuiu a claridade<br \/>\n    do aposento, e entregando-o &agrave; vigil&acirc;ncia do padre, retirou- se<br \/>\n    ao escrit&oacute;rio para trabalhar nos neg&oacute;cios da casa.<\/p>\n<p> Todo esse dia e a noite que se lhe seguiu passaram sem novidade.<\/p>\n<p> Pela madrugada do dia imediato despertou a gente nos Bacelos &agrave; chegada<br \/>\n    de um numeroso cortejo de criados e portadores de bagagens, acompanhando a<br \/>\n    baronesa e Maur&iacute;cio, noivos de pouco, e que vinham cumprir a promessa<br \/>\n    da sua visita.<\/p>\n<p> Jorge correu a receb&ecirc;-los e cingiu nos bra&ccedil;os, comovido, o<br \/>\n    irm&atilde;o e a cunhada.<\/p>\n<p> Passados os primeiros momentos absorvidos pelos transportes de alegria,<br \/>\n    a baronesa e Maur&iacute;cio, reparando mais atentamente para o ar abatido<br \/>\n    e a palidez de Jorge, fizeram-lho notar com apreens&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo que vejo, as tuas imprud&ecirc;ncias continuam, Jorge? &#8212;<br \/>\n    disse a baronesa. &#8212; Ajuizado como &eacute;s, n&atilde;o v&ecirc;s que<br \/>\n    pelo caminho que segues n&atilde;o podes realizar os teus grandes projectos?<br \/>\n    Jorge sorriu, encolhendo os ombros.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer que lhe fa&ccedil;a, Gabriela? A vontade do homem n&atilde;o<br \/>\n    rege os processos &iacute;ntimos da sua vida org&acirc;nica. N&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    na minha m&atilde;o modificar o andamento dos meus actos nutritivos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas podes desviar muito bem as causas que os perturbam.<\/p>\n<p> O excesso de trabalho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; isso, Gabriela &#8212; acudiu Maur&iacute;cio<br \/>\n    &#8212; eu sempre conheci em Jorge o h&aacute;bito de estudar e de trabalhar<br \/>\n    sem estes efeitos. O que o mata &eacute; a louca presun&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    ser superior &agrave;s paix&otilde;es, e a tentativa que faz para sacrific&aacute;-las<br \/>\n    a n&atilde;o sei que imagin&aacute;rios deveres.<\/p>\n<p> Jorge sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; vejo que se estabeleceu entre os noivos o comunismo de<br \/>\n    segredos. Esse soubeste-o s&oacute; depois de casares.<\/p>\n<p> &#8212; Suspeitei-o muito antes, bem o sabes.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; verdade, suspeitaste-o muito antes de eu pr&oacute;prio<br \/>\n    me convencer dele.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &#8212; tornou a baronesa &#8212; &eacute; preciso sair disto.<br \/>\n    O Jorge sup&otilde;e-se mais forte do que &eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Creia, Gabriela, o melhor &eacute; deixar ao tempo o cuidado de<br \/>\n    resolver as crises. Hoje o que me preocupa &eacute; a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos meus neg&oacute;cios que felizmente v&atilde;o tomando uma face animadora.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, disseram-me em Lisboa que se decidiu em bem a<br \/>\n    demanda que tanto te preocupava. O que tu n&atilde;o sabes &eacute; que ao<br \/>\n    valimento de Maur&iacute;cio com um dos desembargadores, em cujas m&atilde;os<br \/>\n    parava o processo, se deve essa pronta resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212; Deveras ? &#8212; N&atilde;o ouso cr&ecirc;-lo &#8212; disse<br \/>\n    Maur&iacute;cio &#8212; ainda que &eacute; verdade ter- -lhe falado e haver<br \/>\n    recebido dele a promessa de aviar depressa o processo.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje quase posso assegurar-lhe que &eacute; certa a nossa regenera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; tornou Jorge. &#8212; Esta primeira vit&oacute;ria prepara-me o terreno<br \/>\n    para outras e solta-me os movimentos que tinha peados. E os teus projectos,<br \/>\n    Maur&iacute;cio ? ! &#8212; V&atilde;o em bom caminho. Tenho quase certo um<br \/>\n    lugar na embaixada de Londres ou de Berlim.<\/p>\n<p> &#8212; Eu ainda n&atilde;o desespero de envelhecer embaixatriz &#8212;<br \/>\n    disse a baronesa, sorrindo, e acrescentou : &#8212; Mas que &eacute; da Berta<br \/>\n    ? J&aacute; c&aacute; n&atilde;o est&aacute;?! &#8212; Retirou-se h&aacute;<br \/>\n    dias. Desde ent&atilde;o recrudesceu a doen&ccedil;a do pai.<\/p>\n<p> &#8212; E para que se retirou? &#8212; O Tom&eacute; veio busc&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; com que fim ? &#8212; N&atilde;o sei&#8230; Ainda que&#8230; por algumas<br \/>\n    coisas que ouvi&#8230; quer-me parecer que fizeram conceber a Tom&eacute; certos<br \/>\n    receios. Enfim, eu pr&oacute;prio n&atilde;o quis profundar os motivos da<br \/>\n    retirada, por temer que n&atilde;o me fosse agrad&aacute;vel ouvi-los.<\/p>\n<p> &#8212; E querem ver que o tio Luis tamb&eacute;m o soube ? &Eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que tudo isto n&atilde;o lhe tenha feito muito mal ! Eu nunca vi ! Esta gente<br \/>\n    t&ocirc;da entregue a si parece que porf&iacute;a em complicar a situa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Maur&iacute;cio, vamos ver teu pai. Deus queira que ainda seja possivel remediar<br \/>\n    o mal feito. Vens, Jorge? Passados momentos entravam todos tr&ecirc;s no quarto<br \/>\n    de D. Luis, onde penetrava apenas a discreta claridade coada pelas cortinas<br \/>\n    corridas e pelas janelas meio abertas.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, que dormitava ao lado do leito, com o len&ccedil;o<br \/>\n    vermelho em uma m&atilde;o e o brevi&agrave;rio na outra, ergueu-se ao ver<br \/>\n    a baronesa, e depois de cumpriment&aacute;-la dispunha-se a avisar o fidalgo.<\/p>\n<p> Gabriela susteve-o, e avizinhando-se do leito, correu ela pr&oacute;pria<br \/>\n    os panos do cortinado e contemplou o rosto do anci&atilde;o, que dormia profundamente.<\/p>\n<p>Maur&iacute;cio e Jorge acercaram-se tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> A nobre fisionomia de D. Luis, abatida pelo sofrimento f&iacute;sico e moral,<br \/>\n    e sobre a qual o sono parecia derramar uma serenidade, como de resigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    impressionou-os a todos.<\/p>\n<p> A baronesa ajoelhou ao lado do velho e, pegando-lhe na m&atilde;o, beijou-a<br \/>\n    com afecto e respeito. Maur&iacute;cio ajoelhou tamb&eacute;m ao lado de sua<br \/>\n    esposa.<\/p>\n<p> D. Luis acordou um tanto sobressaltado. Deu primeiro com a vista em Jorge,<br \/>\n    e depois, desviando-a, reconheceu a sobrinha e o filho mais novo, e raiou-lhe<br \/>\n    no semblante, ao v&ecirc;-los, um clar&atilde;o de alegria.<\/p>\n<p> &#8212; &OOacute; meus filhos ! &#8212; exclamou ele, solevantando-se no<br \/>\n    leito e apoiando-se no bra&ccedil;o tr&ecirc;mulo.<\/p>\n<p> Depois, passando a m&atilde;o por sobre a cabe&ccedil;a dos noivos, acrescentou<br \/>\n    : &#8212; Deus vos aben&ccedil;oe, como eu vos aben&ccedil;oo.<\/p>\n<p> E deixou-se cair extenuado sobre o travesseiro.<\/p>\n<p> Gabriela levantou-se para ampar&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Gabriela &#8212; disse ele, suspirando &#8212; finalmente parece<br \/>\n    que chegou a hora da liberdade.<\/p>\n<p> &#8212; Diga que chegou a hora da ressurrei&ccedil;&atilde;o. Ver&aacute;<br \/>\n    como de hoje em diante tudo vai ser ventura nesta casa. H&aacute;-de trazer-lha<br \/>\n    Jorge, Maur&iacute;cio e eu, at&eacute; eu e&#8230; e mais algu&eacute;m, quem<br \/>\n    sabe? D. Luis voltou os olhos para o filho mais novo.<\/p>\n<p> &#8212; Maur&iacute;cio &#8212; disse com a voz cansada e interrompida &#8212;<br \/>\n    &eacute;s ainda muito rapaz e vais viver em um mundo perigoso ; n&atilde;o<br \/>\n    desprezes a conselheiia que Deus colocou a teu lado.<\/p>\n<p> &#8212; Como hei-de desprez&aacute;-la, se a adoro ? &#8212; disse Maur&iacute;cio<br \/>\n    com o galanteio de um noivo ainda namorado.<\/p>\n<p> A baronesa correspondeu-lhe com um sorriso, e observou: &#8212; Nem receio<br \/>\n    o desprezo, nem creio na adora&ccedil;&atilde;o. Deixemos as coisas nos termos<br \/>\n    ajustados. Estimemo-nos e seremos felizes.<\/p>\n<p> &#8212; Nem todos podem ter a frieza do teu &acirc;nimo, filha &#8212; disse<br \/>\n    Maur&iacute;cio a meia voz.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; tempo agora de discutirmos isso. Sabes ? O pai<br \/>\n    n&atilde;o pode por enquanto ouvir longas conversas. Acordou h&aacute; pouco<br \/>\n    e precisa de poupar a aten&ccedil;&atilde;o. Se tu fosses com Jorge dar ordem<br \/>\n    a essas coisa3 que os criados trouxeram&#8230; Eu ficaria entretanto aqui.<\/p>\n<p> Jorge e Maur&iacute;cio perceberam que a baronesa tinha desejos de que a<br \/>\n    deixassem s&oacute; com D. Luis, e sa&iacute;ram por isso da sala.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, meio adormecido, n&atilde;o deu pela sa&iacute;da<br \/>\n    dos rapazes e permaneceu entre o leito e a parede encoberto pelo cortinado<br \/>\n    e despercebido de Gabriela.<\/p>\n<p> Esta sentou-se &agrave; cabeceira do leito e com feminil carinho come&ccedil;ou<br \/>\n    a ajeitar a travesseira do doente e a desviar-lhe da fronte as c&atilde;s<br \/>\n    desordenadas.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o esperava vir encontr&aacute;-lo sem enfermeira&#8212;dizia<br \/>\n    Gabriela o mais natural possivel.<\/p>\n<p> D. Luis suspirou.<\/p>\n<p> Ela insistiu: &#8212; &Eacute; uma coisa t&atilde;o necess&aacute;ria !<br \/>\n    Porque h&aacute; certos cuidados que s&oacute; uma mulher pode ter. &Eacute;<br \/>\n    a nossa especialidade.<\/p>\n<p> D. Luis abanou a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o, Gabriela. &Eacute; uma desconsoladora solid&atilde;o<br \/>\n    a de um doente sem esses cuidados de que fala.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; porque se retirou Berta? D. Luis n&atilde;o respondeu logo<br \/>\n    a essa pergunta, que parecia contrari&aacute;- lo, porque lhe chamou &agrave;<br \/>\n    fronte uma contrac&ccedil;&atilde;o de desgosto.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, raparigas ! &#8212; tornou a baronesa &#8212; ferve-lhes o sangue<br \/>\n    afinal.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o diga isso, Gabriela, que &eacute; injusti&ccedil;a. Berta<br \/>\n    &eacute; um anjo de abnega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para que havia o anjo de abandonar o seu posto ? &#8212; Vieram<br \/>\n    busc&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Quem? &#8212; O pai.<\/p>\n<p> &#8212; Pois o Tom&eacute; da P&oacute;voa seria capaz de lev&aacute;-la<br \/>\n    daqui contra vontade dela e do padrinho ? &#8212; O Tom&eacute; teve raz&atilde;o<br \/>\n    para o fazer. Eu mesmo lhe disse que devia lev&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ent&atilde;o n&atilde;o entendo.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; sacrif&iacute;cios t&atilde;o dolorosos, que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; justo exigi-los nem permiti-los.<\/p>\n<p> &#8212; E o que Berta fazia, ficando aqui a seu lado, eia dessa natureza?<br \/>\n    &#8212; Talvez fosse.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o posso conceber de que maneira.<\/p>\n<p> D. Luis, cansado do esfor&ccedil;o que fazia para falar ou hesitando no<br \/>\n    que dissesse, n&atilde;o respondeu logo.<\/p>\n<p> Depois murmurou: &#8212; Aquela pobre rapariga tem uma alma nobre e her&oacute;ica.<br \/>\n    n&atilde;o seria ela que se trairia por um sinal de dor, ainda quando sentisse<br \/>\n    despeda&ccedil;ar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E corria esses riscos aqui ? &#8212; perguntou a baronesa com afectada<br \/>\n    candura.<\/p>\n<p> &#8212; Gabriela &#8212; continuou D. Luis &#8212; Berta saiu vitoriosa<br \/>\n    de uma grande luta. O cora&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, ainda lhe devia<br \/>\n    sangrar, e n&atilde;o era aqui que se lhe consolidariam as cicatrizes.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o t&atilde;o vagos esses dizeres ! Ora vamos ; diga-me<br \/>\n    o que houve ; fale-me claro.<\/p>\n<p> &#8212; Que havia de ser? Berta &eacute; um anjo, mas sob a encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mulher, tem um cora&ccedil;&atilde;o&#8230; e esse, sujeito a apaixonar-se<br \/>\n    como os outros.<\/p>\n<p> Gabriela fez um gesto de quem tivera uma id&eacute;ia s&uacute;bita.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! J&aacute; sei! Percebo agora! Era a isso que aludia? Cuidei que<br \/>\n    seria outra coisa mais grave.<\/p>\n<p> D. Luis fixou na sobrinha um olhar admirado.<\/p>\n<p> i&#8212; A Gabriela por certo n&atilde;o sabe ao que me refiro.<\/p>\n<p> &#8212; Sei, sei, pois n&atilde;o sei ! Havia muito que eu tinha descoberto<br \/>\n    esse segredo de Berta e de Jorge.<\/p>\n<p> &#8212; E deu-lhe t&atilde;o pouca import&acirc;ncia ? &#8212; Apenas a<br \/>\n    que merece. Mas deveras, foi esse o motivo da retirada de Berta ? Parece-me<br \/>\n    imposs&iacute;vel ! &#8212; J&aacute; n&atilde;o pouco imprudente havia sido<br \/>\n    a demora dela nesta casa.<\/p>\n<p> Eles ambos s&atilde;o fortes, mas n&atilde;o devem abusar das suas for&ccedil;as<br \/>\n    com risco de agravar o mal e lev&aacute;-lo a extremos irremedi&aacute;veis.<\/p>\n<p> &#8212; O mal,., extremos irremedi&aacute;veis&#8230; Que linguagem t&atilde;o<br \/>\n    carregada para uma coisa t&atilde;o simples ! Pois diga-me, considera um grande<br \/>\n    mal o facto de eles gostarem um do outro? D. Luis encarou Gabriela, deveras<br \/>\n    admirado da pergunta.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; a zombar, Gabriela ? &#8212; N&atilde;o estou. Falo-lhe<br \/>\n    com toda a minha seriedade. Sabe quando eu receio mal da inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rec&iacute;proca de duas pessoas? &Eacute; quando nos caracteres delas h&aacute;<br \/>\n    tais contradi&ccedil;&otilde;es que o futuro promete ser uma continuada luta.<br \/>\n    Agora todas as mais desigualdades, desigualdades de riqueza, de posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    social e de jerarqu&iacute;a, s&atilde;o facilmente niveladas por um amor<br \/>\n    verdadeiro e s&eacute;rio. E esta &eacute; decerto a &iacute;ndole do amor<br \/>\n    deles.<\/p>\n<p> &#8212; Visto isso, achava Gabriela muito natural que meu filho casasse<br \/>\n    com a filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa? A pergunta era feita com certa<br \/>\n    acrimonia, que n&atilde;o passou despercebida da baronesa. Ela, por&eacute;m,<br \/>\n    estava resolvida a atacar de frente os preconceitos do tio e n&atilde;o titubeou<br \/>\n    ao responder-lhe : &#8212; Se quer que lhe diga, achava at&eacute; muito conveniente.<\/p>\n<p> D. Luis moveu com certa impaci&ecirc;ncia a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Gabriela insistiu: &#8212; Queria antes que eu votasse, pela continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste estado de coisas, que o h&aacute;-de matar, que infalivelmente o mata,<br \/>\n    porque &#8212; diga o tio o que disser &#8212; a companhia de Berta &eacute;-lhe<br \/>\n    j&aacute; t&atilde;o necess&aacute;ria como lhe foi a de Beatriz ! Queria<br \/>\n    antes que eu votasse por esta ordem de coisas, que traz definhado seu filho<br \/>\n    e que irremediavelmente o sacrificar&aacute; e com ele as esperan&ccedil;as<br \/>\n    de regenera&ccedil;&atilde;o desta casa e desta fam&iacute;lia? Desengane-se,<br \/>\n    meu tio, o futuro da sua fam&iacute;lia est&aacute; indissoluvelmente ligado<br \/>\n    a Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;, digo-lho eu, que bem conhe&ccedil;o Jorge. Ele renunciou<br \/>\n    espontaneamente ao mais violento desejo do seu cora&ccedil;&atilde;o, julgando<br \/>\n    que seria empresa ao alcance das suas for&ccedil;as. O resultado est&aacute;-se<br \/>\n    vendo. De dia para dia cresce nele o abatimento e as consequ&ecirc;ncias n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dif&iacute;cil prev&ecirc;-las. E diga-me se vale a pena sacrificar<br \/>\n    vidas t&atilde;o preciosas, e t&atilde;o nobres e brilhantes projectos a um<br \/>\n    capricho aristocr&aacute;tico?<\/p>\n<p>&#8212; Capricho ? ! &#8212; Capricho, sim. Se invocar toda a sua filosofia,<br \/>\n    o tio Luis h&aacute;-de reconhecer que n&atilde;o merece outro nome esse escr&uacute;pulo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ser&aacute; dever? &#8212; Em que c&oacute;digo lhe &eacute;<br \/>\n    imposto? &#8212; No da nobreza.<\/p>\n<p> &#8212; O dever de quem &eacute; nobre de origem &eacute; conservar-se pelas<br \/>\n    suas ac&ccedil;&otilde;es digno dela. Ora hoje, meu tio, que o mundo est&aacute;<br \/>\n    quase todo descoberto e em que j&aacute; passaram de moda as conquistas dos<br \/>\n    Mouros e as guerras com os Castelhanos, que melhor pode cumprir-se esse dever<br \/>\n    de que o faz Jorge, lutando nobremente para resgatar a sua casa e dando um<br \/>\n    grande e salutar exemplo, que oxal&aacute; fosse seguido ? Ele sim, &eacute;<br \/>\n    quem continua as gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es dos seus av&oacute;s e<br \/>\n    olhe que n&atilde;o ser&aacute; menos &uacute;til &agrave; p&aacute;tria do<br \/>\n    que eles foram. Mas h&aacute; um est&iacute;mulo necess&aacute;rio para manter<br \/>\n    nele aquela actividade. Ele pr&oacute;prio ilude-se, julgando que pode prescindir<br \/>\n    desse est&iacute;mulo. N&atilde;o pode. Esse esfor&ccedil;o h&aacute;-de sacrific&aacute;-lo.<br \/>\n    Agora veja o tio, em respeito a quem &eacute; somente feito o sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    se n&atilde;o sentir&aacute; remorsos um dia por hav&ecirc;-lo consentido.<\/p>\n<p> D. Luis parecia pouco satisfeito com a discuss&atilde;o, que o colocava<br \/>\n    entre duas for&ccedil;as que igualmente o oprimiam.<\/p>\n<p> &#8212; A minha vida &eacute; de sacrif&iacute;cios ; &eacute; destino.<br \/>\n    Devo estar preparado para aceit&aacute;-los com resigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Resigna&ccedil;&atilde;o nada crist&atilde; ; porque Deus n&atilde;o<br \/>\n    quer que nos resignemos com os males que podemos evitar e muito menos quando<br \/>\n    &eacute; uma paix&atilde;o ruim que os prepara.<\/p>\n<p> &#8212; uma paix&atilde;o ruim ! &#8212; exclamou o fidalgo mais exaltado<br \/>\n    &#8212; at&eacute; que ponto a traz cega a corrente das id&eacute;ias modernas,<br \/>\n    que j&aacute; chama paix&atilde;o&#8217;ruim ao respeito que devemos ao esplendor<br \/>\n    das nossas casas? &#8212; E que perderia esse esplendor com a alian&ccedil;a<br \/>\n    de Berta? N&atilde;c &eacute; ela uma rapariga de sentimentos nobres, cheia<br \/>\n    de virtudes e de exce lentes qualidades? Nessas fam&iacute;lias que mant&ecirc;m<br \/>\n    o esplendor que diz conta muitas noivas mais dignas de seus filhos? E depois,<br \/>\n    meu todeixe- me dizer-lhe : n&oacute;s precisamos de misturar sangue novo<br \/>\n    ao nosso, sen&atilde;o morreremos asfixiados nestes ares modernos. &Eacute;<br \/>\n    verdade isto; as fam&iacute;lias que escrupulizam em n&atilde;o caldearem<br \/>\n    o sangue antigrque trazem nas veias, d&atilde;o de si uns descendentes quase<br \/>\n    sempre parvos e pecos, por isso mesmo que saem organizados para viverem e1<br \/>\n    uma sociedade talhada por moldes que j&aacute; se n&atilde;o usam, e n&atilde;o<br \/>\n    sabei viver na actual.<\/p>\n<p> D. Luis n&atilde;o podia ainda habituar-se a ouvir tais doutrina irreverentemente<br \/>\n    expostas por uma das representantes dessas vetusta fam&iacute;lias.<\/p>\n<p> Era prov&aacute;vel que as frases incisivas da baronesa lhe provocassem<br \/>\n    uma resposta apaixonada, se uma inesperada ocorr&ecirc;ncia o n&atilde;o viesse<br \/>\n    distrair.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, que ficara, como dissemos, oculto pelo cortinado do<br \/>\n    leito, e despercebido tanto da baronesa como de T Luis, ouvira com surpresa<br \/>\n    crescente o di&aacute;logo que temos descrito. Para ele eram ainda novidades<br \/>\n    os amores de Jorge e Berta, porque D. Luis j&aacute; n&atilde;o fazia do padre<br \/>\n    o confidente dos seus segredos.<\/p>\n<p> Admirado com a descoberta, mais admirado ficou ainda ao ouvir os coment&aacute;rios<br \/>\n    de Gabriela a tal respeito, e as id&eacute;ias revolucion&aacute;rias e subversivas<br \/>\n    que sustentara contra o fidalgo.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, mais respeitador dos foros da fidalguia do que o mais<br \/>\n    esmerilhado aristocrata, sentiu-se provocado a protestar contra aquelas doutrinas<br \/>\n    e a vir em aux&iacute;lio do fidalgo com inesperado socorro, que por certo<br \/>\n    o faria de novo entrar nas suas boas gra&ccedil;as.<\/p>\n<p> Portanto, nesta altura da discuss&atilde;o, levantou-se do canto em que<br \/>\n    estiver&agrave; oculto, e acabando de sorver os restos de uma pitada, que<br \/>\n    conservara entre os dedos, afastou a cortina e surgindo do outro lado do leito,<br \/>\n    defronte da baronesa, disse, escandalizado: &#8212; Perdoe-me V. Ex.&ordf;,<br \/>\n    Sr.&#8217; D. Gabriela, mas eu n&atilde;o posso deixar de manifestar o meu espanto<br \/>\n    pelo que acabo de ouvir.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Pois estava ai, sr. frei Janu&aacute;rio? Confesso que nem de<br \/>\n    tal me lembrava &#8212; disse Gabriela sorrindo.<\/p>\n<p> D. Luis franziu o sobrolho, como quem n&atilde;o agradecia ao padre a interven&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Aqui tenho estado de noite e de dia, minha senhora &#8212; respondeu<br \/>\n    o padre em tom de censura &#8212; e fiquei, porque ningu&eacute;m me mandou<br \/>\n    sair. Al&eacute;m de que eu j&aacute; estou costumado a ouvir e a guardar<br \/>\n    os segredos desta fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Quem lhe diz menos disso, sr. frei Janu&aacute;rio ? Eu apenas observei<br \/>\n    que me n&atilde;o lembrava da sua presen&ccedil;a a&iacute;. Mas pelo que<br \/>\n    vejo as minhas id&eacute;ias n&atilde;o merecem a sua aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Decerto que n&atilde;o &#8212; tornou o padre. &#8212; O Sr. D.<br \/>\n    Luis tem raz&atilde;o.<\/p>\n<p> A nobreza &eacute; a nobreza ; e mal de n&oacute;s se ela se esquecia dos<br \/>\n    seus deveres e assim se misturava &agrave;s classes &iacute;nfimas, &#8212;<br \/>\n    Ent&atilde;o que mal sucedia com isso ao sr. frei Janu&aacute;rio ? &#8212;<br \/>\n    perguntou a baronesa rindo.<\/p>\n<p> &#8212; A mim ? &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o disse : &laquo;mal de n&oacute;s?&raquo;<br \/>\n    &#8212; Sim, mal de n&oacute;s todos, porque a sociedade precisa destas disti&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; sen&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; ordem, n&atilde;o h&aacute; governo,<br \/>\n    tudo &eacute; anarquia e rep&uacute;blica.<\/p>\n<p> &#8211; Leu isso no evangelho ? -&#8226;&Eacute; o que a experi&ecirc;ncia me<br \/>\n    tem mostrado.<\/p>\n<p> &#8212;Ah! a experi&ecirc;ncia! Muitos obs&eacute;quios deve &agrave; experi&ecirc;ncia<br \/>\n    o sr. frei Janu&aacute;rio ! &#8212; Porem deveras, minha senhora, V. Ex.&ordf;<br \/>\n    podia aconselhar s&egrave;riamente ao Sr. D. Luis o casamento do Sr. Jorge,<br \/>\n    do morgado, morgado n&atilde;o, que &iexcl;O ja com isso acabaram, para acabarem<br \/>\n    com todas as fam&iacute;lias ilustrei mas enfim do representante, o filho<br \/>\n    mais velho de S. Ex.&ordf;&#8230;<\/p>\n<p> o casamento dele com quem? com a filha do Tom&eacute; da P&oacute;voa! um<br \/>\n    homem, senhores, que eu conheci criado desta casa ! V. Ex.&quot; n&atilde;o<br \/>\n    falava a s&eacute;no h&aacute; pouco. &Eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe que falava, sr. frei Janu&aacute;rio, falava, falava.<\/p>\n<p> &#8212; Oh minha senhora, por quem &eacute;! Lembre-se V. Ex.&ordf; da fam&iacute;lia<br \/>\n    a que pertence, do nome que tem, e ver&aacute; que se h&aacute;-de envergonhar<br \/>\n    da lembran&ccedil;a. Berta da P&oacute;voa ! a filha do Tom&eacute; ! Era<br \/>\n    o que me faltava ver neste mundo ! Berta, que o pai enfeitou com vestidos<br \/>\n    de senhora, mas que afinal sempre h&aacute;-de mostrar a origem de onde saiu<br \/>\n    ! Eu sempre ouvi dizer que o que o ber&ccedil;o d&aacute;, a tumba leva, e<br \/>\n    que o p&eacute; de tamanca foge sempre para a tamanca. Havia de ter gra&ccedil;a<br \/>\n    ouvir o Sr. D. Luis chamar filha &agrave; rapariga ! e ela feita senhora na<br \/>\n    Casa Mourisca ! Ora essa ! Em tal n&atilde;o podia consentir o Sr. D. Luis,<br \/>\n    ainda mesmo que quisesse.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc; V. Ex.&ordf; que uma pessoa da nobreza do Sr. D. Luis n&atilde;o<br \/>\n    tem s&oacute; a consultar a sua vontade. L&aacute; est&aacute; a mais fam&iacute;lia.<br \/>\n    Que diriam os Srs. Meios da Ribeira Formosa? os Srs. Cunhas do Choupelo? os<br \/>\n    Srs. Sotomaiores da Fonte das Urzes, os Srs. do Cruzeiro, e toda a nobreza<br \/>\n    por essa prov&iacute;ncia adiante? com que olhos veriam esse casamento monstruoso<br \/>\n    as damas de todas essas fam&iacute;lias e em uma palavra, a fidalguia do reino?<br \/>\n    V. Ex,&raquo; decerto n&atilde;o pensou nisto.<\/p>\n<p> Demais&#8230;<\/p>\n<p> O padre n&atilde;o p&ocirc;de prosseguir na sua animada refuta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Interrompeu-o D. Luis.<\/p>\n<p> Dera-se com o fidalgo um fen&ocirc;meno n&atilde;o calculado pela experi&ecirc;ncia<br \/>\n    do padre, ainda que natural ao esp&iacute;rito humano.<\/p>\n<p> Sentindo-se apoiado na defesa das suas id&eacute;ias por um aliado antip&aacute;tico<br \/>\n    &#8212; porque o era para o fidalgo, desde certo tempo, o seu ex-procurador<br \/>\n    &#8212; teve logo um desejo veemente de recusar o aux&iacute;lio e quase o<br \/>\n    de esposar a causa oposta, s&oacute; para o castigar da impertinencia.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso frei Janu&aacute;rio levou a defesa mais longe do que<br \/>\n    devia.<\/p>\n<p> A maneira por que falou de Berta e da depend&ecirc;ncia em que estava o<br \/>\n    fidalgo da opini&atilde;o da sua parentela, irritaram o orgulhoso D. Luis,<br \/>\n    que por isso tudo com extrema vivacidade o interrompeu, dizendo : &#8212;<br \/>\n    Cale-se, frei Janu&aacute;rio, cale-se! Que est&aacute; para a&iacute; a dizer?<br \/>\n    Cuida que eu, querendo fazer a minha vontade, me dou ao trabalho de consultar<br \/>\n    os de Ribeira Formosa, os do Choupelo, ou os do Cruzeiro, ou qualquer dessa<br \/>\n    parentela que tenho por essa prov&iacute;ncia adiante? Era o que me faltava<br \/>\n    ! Do que conv&eacute;m ou n&atilde;o conv&eacute;m &agrave; dignidade do meu<br \/>\n    nome, sou eu o juiz, e n&atilde;o admito inger&ecirc;ncias alheias. Actos<br \/>\n    que deslustram e envergonham t&ecirc;m-nos eles feito que farte, e eu nunca<br \/>\n    lhes fui pedir satisfa&ccedil;&otilde;es por isso.<\/p>\n<p> &#8212; Eu queria dizer&#8230; &#8212; acudiu o padre, intimidado pela irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que via o fidalgo.<\/p>\n<p> Este interrompeu-o outra vez: &#8212; Ora n&atilde;o diga nada, que &eacute;<br \/>\n    melhor. com que olhos veriam as damas este casamento ! &Eacute; boa ! com<br \/>\n    os mesmos olhos com que t&ecirc;m visto muita mis&eacute;ria e muita vergonha<br \/>\n    que vai por casa dos seus. Os olhos deviam elas empreg&aacute;-los em Berta,<br \/>\n    mas era para aprender dela o que &eacute; dignidade, nobreza de sentimentos<br \/>\n    e verdadeira educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como est&aacute; a&iacute; a dizer o frei Janu&aacute;rio que Berta h&aacute;-de<br \/>\n    mostrar afinal a origem de onde vem? Berta h&aacute;-de mostrar que &eacute;<br \/>\n    filha de um homem honrado e de uma mulher virtuosa. Se &eacute; isso que quer<br \/>\n    dizer, tem raz&atilde;o.<\/p>\n<p> E oxal&aacute; que todas as nossas damas pudessem dizer o mesmo de si.<\/p>\n<p> Fique sabendo que n&atilde;o seria ela que ocupasse mal o seu lugar na Casa<br \/>\n    Mourisca. Fique sabendo isto. O quarto de minha filha a poucas o franquearia<br \/>\n    eu com melhor vontade do que a ela, que parece ressuscitar- ma. Para ser nobre<br \/>\n    n&atilde;o basta ser do Cruzeiro ou de Ribeira Formosa.<\/p>\n<p> O Cruzeiro &eacute; um ninho de b&ecirc;bados e a Ribeira Formosa uma gaiola<br \/>\n    de parvos. A ter de escolher entre essa gente sem dignidade e aquela que de<br \/>\n    origem obscura lhe d&aacute; todos os dias li&ccedil;&otilde;es de deveres,<br \/>\n    decerto que n&atilde;o hesitaria, nem iria entre a primeira procurar noiva<br \/>\n    para meu filho. Como se formaram as fam&iacute;lias nobres? S&atilde;o todas<br \/>\n    da mesma &eacute;poca? &Eacute; claro que n&atilde;o. Houve tempo em que umas<br \/>\n    j&aacute; eram nobres e outras n&atilde;o o eram; mas por um feito ilustre<br \/>\n    e verdadeiramente nobre um homem obscuro destas &uacute;ltimas mereceu que<br \/>\n    as primeiras o chamassem a seu gr&ecirc;mio, partilhando com ele o dom que<br \/>\n    j&aacute; possu&iacute;am. Pois bem, tamb&eacute;m n&oacute;s hoje podemos<br \/>\n    fazer o mesmo, que nesses antigos tempos se fazia, e chamar a n&oacute;s os<br \/>\n    esp&iacute;ritos fidalgos, que os h&aacute; fora do nosso gr&ecirc;mio; e<br \/>\n    assim pud&eacute;ssemos tamb&eacute;m expulsar dele os esp&iacute;ritos plebeus<br \/>\n    que por c&aacute; temos I D. Luis, levado pela for&ccedil;a da reac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ia mais longe do que quisera.<\/p>\n<p> Por pouco estava advogando id&eacute;ias manifestamente democr&aacute;ticas.<\/p>\n<p> O padre estava estupefacto, como se assistisse a um cataclismo. A pr&oacute;pria<br \/>\n    Gabriela n&atilde;o esperava ouvir expender tais id&eacute;ias a seu tio.<br \/>\n    Ainda que percebesse que a irrita&ccedil;&atilde;o que dominava o doente fosse<br \/>\n    a principal causa inspiradora naquela defesa acalorada, ainda assim lhe dava<br \/>\n    import&acirc;ncia. As &uacute;ltimas palavras de D. Luis, a esp&eacute;cie<br \/>\n    de racioc&iacute;nio com que pretendera justificar a possibilidade de alian&ccedil;as<br \/>\n    desiguais, realizadas certas circunst&acirc;ncias, davam-lhe a entender que<br \/>\n    ele j&aacute; consigo pr&oacute;prio previra a eventualidade e procurara argumentos<br \/>\n    que porventura a justificassem.<\/p>\n<p> Gabriela viu nesta descoberta um &oacute;ptimo ind&iacute;cio e percebeu<br \/>\n    a conveni&ecirc;ncia de deixar o esp&iacute;rito do tio sob aquela ordem de<br \/>\n    impress&otilde;es e entregue ao movimento pr&oacute;prio que a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do padre iniciara.<\/p>\n<p> Por isso, sob o pretexto de que a discuss&atilde;o fatigara em extremo o<br \/>\n    doente e que os excessos lhe podiam ser funestos, cortou no princ&iacute;pio<br \/>\n    a r&eacute;plica do padre e obrigou-o a retirar-se da sala para deixar dormir<br \/>\n    o doente.<\/p>\n<p> Ao sair dizia ela, tomando o bra&ccedil;o do capel&atilde;o: &#8212; Depois<br \/>\n    de se lan&ccedil;ar o crescente na massa, cobre-se esta e deixa-se em repouso<br \/>\n    levedar. Quando era crian&ccedil;a via fazer isto em minha casa, sempre que<br \/>\n    se cozia p&atilde;o.<\/p>\n<p>O padre n&atilde;o entendeu o alcance da par&aacute;bola. Saiu dali desnorteado<br \/>\n    com o que via naquela casa, que ele supunha eivada do veneno da ma&ccedil;onaria,<br \/>\n    &uacute;nica maneira por que explicava as irregularidades que via.<\/p>\n<p> Gabriela saiu no intento de encaminhar a crise em um sentido favor&aacute;vel.<\/p>\n<h2>XXXVII<\/h2>\n<p>MAUR&Iacute;CIO veio ao encontro da baronesa assim que esta saiu do quarto<br \/>\n    de D. Luis.<\/p>\n<p> Como deixaste meu pai? &#8212; perguntou ele.<\/p>\n<p> &#8212; Mal e bem.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres dizer com isso ? &#8212; Mal, porque me inquieta o abatimento<br \/>\n    em que o vejo. Naquela idade !&#8230; Bem, porque o acho em excelentes disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de se lhe aplicar um rem&eacute;dio her&oacute;ico.<\/p>\n<p> &#8212; Qual? &#8212; Queres principiar hoje a tua carreira diplom&aacute;tica?<br \/>\n    &#8212; De que maneira? &#8212; Vais j&aacute; daqui a casa do Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, e depois ? &#8212; &Eacute; uma visita que lhe deves, visto<br \/>\n    que n&atilde;o te lembraste de lhe dar parte do nosso casamento.<\/p>\n<p> &#8212;&Eacute; verdade que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vais, pois, visitar Tom&eacute;. Repara que nem sequer me lembro<br \/>\n    de ter ci&uacute;mes de Berta.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma prova de confian&ccedil;a que te mere&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? Mereces? Diz-te isso a consci&ecirc;ncia? Bom ser&aacute;.<br \/>\n    Vamos adiante. Em casa de Tom&eacute; contas qual o estado de teu pai. Fazes<br \/>\n    sentir a necessidade de que Berta volte para aqui, ou para o reanimar, do<br \/>\n    que s&oacute; ela &eacute; capaz neste mundo, ou pelo menos para suavizar-lhe<br \/>\n    os &uacute;ltimos momentos e despedir-se dele. &Eacute; prov&aacute;vel que<br \/>\n    encontres objec&ccedil;&otilde;es em Tom&eacute;, mas insiste ; diz que teu<br \/>\n    pai se mostra magoado com a aus&ecirc;ncia de Berta, e que e um pecado imperdo&aacute;vel<br \/>\n    prolongar-lhe essa dor t&atilde;o f&aacute;cil de remediar. Finalmente n&atilde;o<br \/>\n    voltes sem ter resolvido Berta a vir hoje mesmo para aqui.<\/p>\n<p> &#8212; E quais s&atilde;o os teus projectos? &#8212; Ora quais h&atilde;o-de<br \/>\n    ser? S&atilde;o casar Berta com Jorge. Est&aacute; claro.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;s-de encontrar dificuldades.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; me pareceram maiores. O padre fez-nos, sem querer, um<br \/>\n    grande servi&ccedil;o. Meteu-se a advogar com tanto calor a aristocracia,<br \/>\n    que por pouco fazia do teu pai um democrata.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras ? <\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. Agora quatro caricias&quot; de Berta devem consumar<br \/>\n    a vit&oacute;ria. Voc&ecirc;s os homens levam-se por isso.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-te ? &#8212; Veremos se me engano.<\/p>\n<p> Mauricio encarregou-se da mensagem que lhe incumbia a mulher e partiu para<br \/>\n    casa de Tom&eacute;, onde foi recebido com caloroso afecto.<\/p>\n<p> Expondo o principal fim da sua visita, n&atilde;o encontrou grande oposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em Tom&eacute; contra o regresso da filha para os Bacelos. Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    prometeu lev&aacute;-la.<\/p>\n<p> Efectivamente horas depois, Berta era de novo conduzida pela baronesa para<br \/>\n    junto da cabeceira do enfermo, que em todo aquele tempo continuara a manifestar<br \/>\n    sinais da mais profunda depress&atilde;o de for&ccedil;as.<\/p>\n<p> D. Luis dormitava quando Berta se lhe aproximou do leito. A rapariga correu<br \/>\n    cautelosamente o cortinado para contemplar a figura do anci&atilde;o. Comoveu-a<br \/>\n    o aspecto do abatimento que crescera nele desde que Berta o deixara. D. Luis<br \/>\n    tinha o sono agitado por sonhos febricitantes, e sonhando soltava gemidos<br \/>\n    surdos, palavras mal articuladas, estremecia e suava como sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma aflitiva impress&atilde;o.<\/p>\n<p> Berta veio encontr&aacute;-lo em um destes estados e curvou-se, compadecida,<br \/>\n    para enxugar o suor que lhe orvalhava a fronte.<\/p>\n<p> O doente acordou ent&atilde;o e fitou os olhos nela.<\/p>\n<p> Imediatamente lhe distendeu as fei&ccedil;&otilde;es contra&iacute;das um<br \/>\n    sorriso de alegria.<\/p>\n<p> Por algum tempo n&atilde;o falou, como se estivesse duvidando da realidade<br \/>\n    do que via e suspeitando-a de ser a continua&ccedil;&atilde;o de um sonho.<\/p>\n<p> Foi Berta a primeira que falou.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; melhor ? &#8212; interrogou ela, sorrindo.<\/p>\n<p> O tom daquela voz e a particular inflex&atilde;o da pergunta, com que j&aacute;<br \/>\n    estavam familiarizados os ouvidos do doente, parece que o convenceram de que<br \/>\n    n&atilde;o dormia.<\/p>\n<p> Estendendo para a afilhada a m&atilde;o magra e ardente, murmurou, profundamente<br \/>\n    comovido : &#8212; Ent&atilde;o sempre voltaste ? &#8212; Como me disseram<br \/>\n    que tinha passado mais inquieto estes &uacute;ltimos dias&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fizeste bem. Havia de custar-me a morrer sem me despedir de ti.<\/p>\n<p> &#8212; Quem fala aqui em morrer ? Agora que o Inverno passou e que este<br \/>\n    tempo est&aacute; a dar vida a tudo &eacute; que o padrinho se lembra disso?<br \/>\n    Pois veremos. Dentro de poucos dias &eacute; preciso continuarmos aqueles<br \/>\n    nossos passeios na quinta.<\/p>\n<p> D. Luis sorriu tristemente e fechou os olhos, como para reter uma l&aacute;grima,<br \/>\n    que, apesar disso, lhe passou por entre as p&aacute;lpebras e lhe rolou vagarosa<br \/>\n    pelas faces descarnadas.<\/p>\n<p> Berta murmurou ao ouvido do velho :<\/p>\n<p>&#8212; Chore &agrave; vontade, que estou eu s&oacute; aqui. Chore, que lhe<br \/>\n    faz bem.<\/p>\n<p> Como se a densa tristeza que pesava sobre o cora&ccedil;&atilde;o daquele<br \/>\n    homem s&oacute; esperasse aquelas palavras para se fundir em l&aacute;grimas,<br \/>\n    o pranto inundou-lhe o rosto, que ele quase escondeu no seio de Berta.<\/p>\n<p> Aquela expans&atilde;o foi-lhe salutar. O sono seguinte foi mais tranquilo<br \/>\n    e menos cortado por sonhos fatigadores. Contudo o estado do doente era ainda<br \/>\n    muito grave, e na aldeia e imedia&ccedil;&otilde;es corria j&aacute; voz do<br \/>\n    pr&oacute;ximo falecimento do fidalgo da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> A parentela das vizinhan&ccedil;as a cada momento vinha ou mandava aos Bacelos<br \/>\n    saber novas do fidalgo. Tom&eacute; da P&oacute;voa passava ali a maior parte<br \/>\n    do seu tempo ; a pr&oacute;pria Ana do Vedor viera oferecer os seus servi&ccedil;os<br \/>\n    &agrave; fam&iacute;lia, e raras vezes se desviava da casa.<\/p>\n<p> Berta continuava assiduamente junto do leito do enfermo, sem perder a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de o ver sair vitorioso daquela tremenda crise.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m a desviava dali. Re tinha-a a vontade pr&oacute;pria, assim<br \/>\n    como a do doente, a quem a menor contrariedade podia ser fatal.<\/p>\n<p> A baronesa n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o insistia para que Berta cedesse<br \/>\n    a outrem o campo, mas nem deixava que algu&eacute;m insistisse. Dizia ela<br \/>\n    que a juventude de Berta podia bem com aquele sacrif&iacute;cio, e que era<br \/>\n    prov&aacute;vel que Deus n&atilde;o deixasse sem recompensa a sua caridade.<\/p>\n<p> Durante tr&ecirc;s dias a fam&iacute;lia reunida nos Bacelos passava o tempo,<br \/>\n    por assim dizer, na expectativa do triste acontecimento que se esperava.<\/p>\n<p> Jorge interrompeu os seus trabalhos. Maur&iacute;cio nunca sa&iacute;a de<br \/>\n    casa, e a baronesa passeava constantemente entre a sala, onde quase sempre<br \/>\n    permaneciam os dois irm&atilde;os, &agrave;s vezes na companhia de Tom&eacute;,<br \/>\n    e o quarto do enfermo, que mal consentia junto de si outra pessoa al&eacute;m<br \/>\n    de Berta.<\/p>\n<p> uma noite, D. Luis, depois daqueles tr&ecirc;s dias de febre e quase de<br \/>\n    del&iacute;rio, conseguira adormecer de um sono mais tranquilo e reparador.<\/p>\n<p> N&atilde;o foram os sonhos incoerentes, absurdos e fatigadores que o atormentaram<br \/>\n    desta vez ; mas um sonhar grato, sem vis&otilde;es febris, e durante o qual<br \/>\n    a imagem da filha por vezes lhe apareceu sorrindo-lhe e falando- -lhe com<br \/>\n    o carinho de que ele ainda se recordava com a mais pungente saudade do seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Esta imagem transformava-se-lhe &agrave;s vezes por<br \/>\n    insens&iacute;vel transi&ccedil;&atilde;o na imagem de Berta, e t&atilde;o<br \/>\n    semelhantes, t&atilde;o confundidas lhe apareciam, que ele nem sabia ao acordar<br \/>\n    com qual das duas sonhara. Umas vezes era a filha que lhe falava com a voz<br \/>\n    e a figura de Berta ; outras, Berta revestindo a imagem de Beatriz.<\/p>\n<p> Despertou deste sonho por alta e calada da noite. No aposento era completo<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio. Interi ompia-o somente o bater cadenciado da p&ecirc;ndula<br \/>\n    do corredor. A tenue claridade de uma pequena l&acirc;mpada alumiava a cena.<\/p>\n<p> D. Luis depois de acordado tentou avivar as gratas impress&otilde;es que<br \/>\n    lhe deixara o sonho.<\/p>\n<p> Pensou na filha e no passado, nas tristezas presentes, nas venturas perdidas<br \/>\n    e nas desgra&ccedil;as por vir.<\/p>\n<p>&Agrave;quela hora da noite, na solid&atilde;o e repouso da c&acirc;mara<br \/>\n    de um doente, o esp&iacute;rito ergue-se superior &agrave; habitual esfera<br \/>\n    onde ordinariamente paira e contempla com a vista de &aacute;guia as suas<br \/>\n    paix&otilde;es e preconceitos ; v&ecirc;-os flutuar como nuvens nas regi&otilde;es<br \/>\n    inferiores. &Eacute; nesses momentos que a consci&ecirc;ncia nos julga ; a<br \/>\n    parte mais et&eacute;rea do nosso ser parece ent&atilde;o erguer-se l&uacute;cida<br \/>\n    como nunca e contemplar compadecida os maus instintos, as preven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    arreigadas, os falsos preconceitos que no trato comum da vida em t&atilde;o<br \/>\n    viciosas direc&ccedil;&otilde;es nos solicitam.<\/p>\n<p> Enquanto o mundo dorme, dormem com ele no nosso cora&ccedil;&atilde;o as<br \/>\n    paix&otilde;es que o mundo alimenta.<\/p>\n<p> Naquele momento D. Luis n&atilde;o era o mesmo homem que conhecemos.<\/p>\n<p> Luzia-lhe a verdade resplandecente &agrave; sua imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fascinada.<\/p>\n<p> No meio da corrente dos seus pensamentos distraiu-o um quase impercept&iacute;vel<br \/>\n    respirar que ouviu a seu lado. Voltou-se.<\/p>\n<p> Era Berta que, cedendo &agrave;s fadigas de t&atilde;o continuadas vig&iacute;lias,<br \/>\n    adormecera junto do leito do doente.<\/p>\n<p> D. Luis ficou a contempl&aacute;-la assim.<\/p>\n<p> A luz do velador dava-lhe no rosto, em que se desenhava a mais doce express&atilde;o<br \/>\n    de serenidade de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Pendia-lhe a cabe&ccedil;a sobre as travesseiras do leito e urna madeixa<br \/>\n    de cabelo, soltando-se-lhe, viera afagar-lhe a fronte, abrindo caminho por<br \/>\n    entre os dedos que a sustinham.<\/p>\n<p> D. Luis ergueu-se a pouco e pouco no leito para melhor observar aquela figura<br \/>\n    ang&eacute;lica de mulher, adormecida ao seu lado.<\/p>\n<p> Traduziam as fei&ccedil;&otilde;es do velho o &ecirc;xtase, em que o arrebatara<br \/>\n    aquela contempla&ccedil;&atilde;o. Parecia-lhe uma vis&atilde;o sobrenatural.<br \/>\n    com movimentos cautelosos para n&atilde;o a acordar, encostou os bra&ccedil;os<br \/>\n    &agrave;s almofadas da cama e apoiando a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os,<br \/>\n    assim permaneceu im&oacute;vel, abstracto, com os olhos fitos em Berta e o<br \/>\n    esp&iacute;rito subindo &agrave;s regi&otilde;es mais limpas dos espessos<br \/>\n    nevoeiros do mundo.<\/p>\n<p> Era um expressivo grupo o daquela rapariga adormecida e o daquele velho<br \/>\n    p&aacute;lido, descarnado, meio erguido no leito, contemplando-a em um quase<br \/>\n    rapto de adora&ccedil;&atilde;o. &Agrave;quela hora, no meio daquele sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    alumiada por aquela luz, a cena era misteriosamente solene e imponente.<\/p>\n<p> Horas talvez durou aquela contempla&ccedil;&atilde;o silenciosa.<\/p>\n<p> De repente acentuou-se no rosto do fidalgo uma express&atilde;o de energia<br \/>\n    e firmeza que a doen&ccedil;a e a preocupa&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito<br \/>\n    havia muito lhe tinham dissipado.<\/p>\n<p> Curvando-se mais sobre o rosto de Berta, desviou com extrema delicadeza<br \/>\n    a madeixa que lhe ca&iacute;a sobre a fronte, e murmurou como para si : &#8212;<br \/>\n    Porque &eacute;s tu que velas a meu lado ? Que la&ccedil;os te prendem a mim?<br \/>\n    Porque dedicas a este velho a tua juventude?&#8230; E n&atilde;o se recompensa<br \/>\n    esta abneqa&ccedil;&atilde;o? Pagam-te, sacrificando-te aos seus,., preconceitos.<\/p>\n<p>E continuava a contempl&aacute;-la em sil&ecirc;ncio; depois voltava a murmurar<br \/>\n    : &#8212; Beatriz, se fosse viva, chamar-te-ia irm&atilde; ; havia de querer-te<br \/>\n    junto de si, no seu quarto. E eu&#8230; porque n&atilde;o hei-de chamar-te filha?<br \/>\n    N&atilde;o disse mais o velho, mas curvando-se ainda mais, pousou na fi onte<br \/>\n    da rapariga um beijo expressivo de paternal afecto.<\/p>\n<p> Pela madrugada o doente mostrou-se algum tanto inquieto a ponto de sobressaltar<br \/>\n    Berta, que o espiava com solicitude.<\/p>\n<p> &Agrave; interroga&ccedil;&atilde;o que ela lhe dirigiu para saber a causa<br \/>\n    da agita&ccedil;&atilde;o em que o via, D. Luis n&atilde;o respondeu logo<br \/>\n    ; por&eacute;m, momentos depois, olhou para a afilhada com uma express&atilde;o<br \/>\n    singular, pegou-lhe nas m&atilde;os, apertou-as com afecto, e disse-lhe com<br \/>\n    manifesta como&ccedil;&atilde;o: &#8212; Berta, vai chamar Jorge. Que me venha<br \/>\n    falar. Preciso de conversar com ele quanto antes.<\/p>\n<p> Berta saiu do quarto com os olhos arrasados de &aacute;gua.<\/p>\n<p> Aquelas palavras tinham para ela uma dolorosa significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Luis, que mandava chamar o filho mais velho, o directo sucessor do seu<br \/>\n    nome e da sua casa, era porque um daqueles pressentimentos, que nos advertem<br \/>\n    da proximidade da nossa hora final, indicava-lhe ter chegado a ocasi&atilde;o<br \/>\n    de despedir-se do filho e dar-lhe os derradeiros conselhos de pai.<\/p>\n<p> , Todos nos Bacelos formaram a mesma conjectura. Jorge ergueu-se precipitadamente<br \/>\n    do leito, assim que soube que o pai lhe queria falar.<\/p>\n<p> A nova espalhou-se em t&ocirc;da a casa e p&ocirc;s todos em alvoro&ccedil;o.<br \/>\n    Em breve transpirou fora que o fidalgo da Casa Mourisca j&aacute; se despedira<br \/>\n    dos filhos e que em poucas horas seria com Deus.<\/p>\n<p> A casa de Tom&eacute; e de Ana do Vedor chegou a not&iacute;cia e trouxe<br \/>\n    at&eacute; aos Bacelos esses antigos comensais da fam&iacute;lia, cujo representante<br \/>\n    actual chegava &agrave; hora mais solene da vida. A boa Luisa acompanhou o<br \/>\n    marido no intento de oferecer os seus servi&ccedil;os naqueles momentos de<br \/>\n    dor e confus&atilde;o.<\/p>\n<p> Jorge entrou comovido e p&aacute;lido no quarto do pai, onde ningu&eacute;m<br \/>\n    mais o seguiu.<\/p>\n<p> O pobre rapaz ia preparado para uma cena dilacerante ; esperava assistir<br \/>\n    &agrave; agonia do velho.<\/p>\n<p> Tremiam-lhe as pernas ao aproximar-se do leito.<\/p>\n<p> D. Luis percebendo-o chegar, dirigiu-se-lhe com voz d&eacute;bil mas firme:<br \/>\n    &#8212; &Eacute;s tu, Jorge? &#8212; Sou eu, meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Chega-te mais para aqui. Assim.<\/p>\n<p> E, fitando o filho com o olhar ainda cheio de express&atilde;o e vida, continuou<br \/>\n    depois de um demorado sil&ecirc;ncio : &#8212; Jorge, tu n&atilde;o &eacute;s<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p> Jorge olhou para o pai, espantado pela inesperada observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe ouvia.<\/p>\n<p>&#8212; Tens uma nobre alma, tomaste sobre os ombros uma pesada tarefa, dedicaste<br \/>\n    ao cumprimento dela a tua vida inteira, e como se isso n&atilde;o fosse bastante,<br \/>\n    sacrificaste-lhe ainda os teus mais ardentes afectos. Jorge, n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    o sacrificio superior &agrave;s tuas for&ccedil;as? Jorge baixou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sem responder.<\/p>\n<p> A estranheza causada pelas palavras do pai, t&atilde;o diferentes das que<br \/>\n    esperava, perturbara-o a ponto de n&atilde;o saber o que dissesse.<\/p>\n<p> &#8212; Fala, Jorge &#8212; prosseguiu o velho. &#8212; V&aacute;, nunca<br \/>\n    viste em mim um confidente, porque o meu car&aacute;cter s&eacute;rio e reservado<br \/>\n    afugentava as tuas expans&otilde;es de crian&ccedil;a ; mas a doen&ccedil;a<br \/>\n    quebrou-me e hoje posso escutar-te. Tu sofres, Jorge, e sofres por minha causa,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; verdade ? &#8212; Meu pai ! &#8212; dizia Jorge, cada<br \/>\n    vez mais embara&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sei tudo. Sei do amor que se te formou no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e que disputou o teu pensamento aos projectos de reabilita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que empreendeste para salvar esta casa da ru&iacute;na que os nossos e eu<br \/>\n    lhe preparamos ; sei da tenacidade com que combateste esse amor, da coragem<br \/>\n    com que o sacrificavas aos meus princ&iacute;pios aristocr&aacute;ticos, apesar<br \/>\n    de veres apenas neles meros preconceitos de classe.<\/p>\n<p> &#8212;Creia, meu pai, que respeito as suas opini&otilde;es e que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ouve-me. Orgulho-me com o teu car&aacute;cter ; vi nele a nobre<br \/>\n    tempera de um verdadeiro fidalgo, e desde ent&atilde;o creio deveras que a<br \/>\n    regenera&ccedil;&atilde;o da nossa casa, empreendida por um homem como tu,<br \/>\n    n&atilde;o pode deixar de realizar-se. Vou sem este peso para a sepultura.<\/p>\n<p> Os meus erros ser-me-&atilde;o relevados por o facto de te ter por filho.<br \/>\n    Tu reabilitar&aacute;s a minha mem&oacute;ria, Jorge, o meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o tem j&aacute; a dureza de outros tempos ; males de t&ocirc;da a<br \/>\n    esp&eacute;cie acabaram de venc&ecirc;-lo ; agora &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de homem. Por isso me &eacute; intoler&aacute;vel a id&eacute;ia do teu sacrif&iacute;cio.<br \/>\n    Se tu participasses dos meus&#8230; preconceitos, era justo que lhe sacrificasses<br \/>\n    todos os afectos ; sentir&iacute;as na satisfa&ccedil;&atilde;o interior a<br \/>\n    compensa&ccedil;&atilde;o do sacrif&iacute;cio. Mas sacrificares-te s&oacute;<br \/>\n    por meu respeito, sem teres a mesma f&eacute; no objecto a que te sacrificas&#8230;<br \/>\n    nisso n&atilde;o posso eu consentir. Reunirei as minhas for&ccedil;as para<br \/>\n    subjugar alguns restos de vaidade que se revoltem, e antes de morrer desviarei<br \/>\n    o &uacute;nico obst&aacute;culo da tua infelicidade, dizendo-te : &laquo;Podes<br \/>\n    ser feliz, Jorge&raquo;. Al&eacute;m de que, tu &eacute;s nobre bastante para<br \/>\n    enobreceres aquela que cingires ao cora&ccedil;&atilde;o e ficares nobre ainda.\n  <\/p>\n<p>Jorge percebeu o sentido das palavras do pai. Em extremo surpreendido pela<br \/>\n    inesperada condescend&ecirc;ncia do homem que ele julgava incapaz de transigir<br \/>\n    com tais id&eacute;ias, em vez de deixar-se penetrar da alegria que este sucesso<br \/>\n    parecia dever inspirar-lhe, disse com mal sustentada serenidade: &#8212; Por<br \/>\n    muito doloroso que seja para mim o sacrif&iacute;cio de que fala, meu pai,<br \/>\n    talvez seja mais ainda para si o que empreende, querendo dispensar-me dele.<br \/>\n    Creia, senhor, que eu n&atilde;o discuto a legitimidade das suas opini&otilde;es,<br \/>\n    respeito-as; e a satisfa&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima que me vir&aacute;<br \/>\n    da consci&ecirc;ncia de as ter respeitado, ser&aacute; tamb&eacute;m para<br \/>\n    mim uma poderosa compensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E a ela? Quem a compensar&aacute;? &#8212; perguntou D. Luis, com<br \/>\n    inflex&atilde;o de dor.<\/p>\n<p> &#8212; A ela? &Eacute; de Berta que fala? se eu n&atilde;o soubesse que<br \/>\n    aquela alma nobre e forte est&aacute; &agrave; altura do sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    talvez me falecesse a coragem para tent&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma nobre alma deveras &#8212; tornou D. Luis, como falando<br \/>\n    para si. &#8212; E quem a apreciar&aacute;? A que destino a condenaremos se<br \/>\n    a expulsarmos das regi&otilde;es para onde os seus nobres instintos a chamam<br \/>\n    ? Pobre dela! E tu, tu que a amas, tens a certeza de poderes levar ao fim<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio? N&atilde;o &eacute; certo que a tua sa&uacute;de j&aacute;<br \/>\n    se tem ressentido do esfor&ccedil;o que fazes ? V&ecirc; bem, Jorge ! Na tua<br \/>\n    idade os afectos s&atilde;o mais violentos do que na minha. E contudo eu pr&oacute;prio<br \/>\n    quero j&aacute; tanto a essa rapariga, que sinto que estes restos de vida<br \/>\n    que ainda possuo devo-os &agrave; sua presen&ccedil;a. O que n&atilde;o ser&aacute;<br \/>\n    contigo? Jorge nunca previra a situa&ccedil;&atilde;o em que se achava. Havia<br \/>\n    imaginado a possibilidade de ser levado pela for&ccedil;a da sua paix&atilde;o<br \/>\n    a uma luta aberta com os preconceitos paternos, e esfor&ccedil;ara-se por<br \/>\n    evitar essa temerosa crise.<\/p>\n<p> Esta era a menos prov&aacute;vel hip&oacute;tese que antevira. Mas que fosse<br \/>\n    o pai quem advogasse a causa do seu cora&ccedil;&atilde;o de rapaz contra<br \/>\n    as inflex&iacute;veis exig&ecirc;ncias da orgulhosa classe a que pertencia,<br \/>\n    nunca o pudera supor, pois que n&atilde;o tinha seguido passo a passo as transforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que havia operado no car&aacute;cter varonil daquele velho a ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    combinada da doen&ccedil;a e dos carinhos de Berta.<\/p>\n<p> Por isso sentia-se agora irresoluto, sem saber se devia ceder ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e &agrave;s insinua&ccedil;&otilde;es do pai, se resistir em nome do dever,<br \/>\n    que ele chegara a convencer-se opor-se &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    seus ardentes votos.<\/p>\n<p> Na hesita&ccedil;&atilde;o do filho, D. Luis julgou perceber que o orgulho<br \/>\n    aristocr&aacute;tico penetrara j&aacute; naquele cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    vinte anos, e ele, que sabia por si as resist&ecirc;ncias que esse orgulho<br \/>\n    gerava, assustou-se com a apreens&atilde;o de near vencido pela obstina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do filho.<\/p>\n<p> Assustou-se, dizemos, porque o esp&iacute;rito do fidalgo estava completamente<br \/>\n    subjugado. O ego&iacute;smo da sua idade n&atilde;o podia j&aacute; passar<br \/>\n    sem os carinhos de filha. N&atilde;o queria revelar-se inteiro e desejava<br \/>\n    que fosse a paix&atilde;o do filho que aparentemente explicasse a transig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Era ainda custoso ao seu orgulho ceder, mas j&aacute; n&atilde;o tinha fortaleza<br \/>\n    para resistir. Ansiava por isso que Jorge lhe fornecesse o pretexto.<\/p>\n<p> Vendo-o vacilar, tremeu j&aacute; de encontrar um obst&aacute;culo insuper&aacute;vel.<\/p>\n<p> Jorge pela sua parte era v&iacute;tima de um quase estonteamento, que n&atilde;o<br \/>\n    lhe deixava ainda ver claro. T&atilde;o costumado estava a acreditar que invenc&iacute;veis<br \/>\n    resist&ecirc;ncias se erguiam contra a mais ardente aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua alma, que ao v&ecirc;-las removidas de s&uacute;bito, olhava em volta<br \/>\n    de si como aguardando que surgissem outras em seu lugar, e sem poder crer<br \/>\n    que a felicidade viesse colocar-se-lhe ao alcance da m&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Luis insistiu : &#8212; N&atilde;o, Jorge, n&atilde;o aceito o teu sacrif&iacute;cio.<br \/>\n    Estou para despir as vaidades do mundo. Na outra vida, onde os primeiros s&atilde;o<br \/>\n    os &uacute;ltimos, n&atilde;o me perseguir&atilde;o estas paix&otilde;es mundanas.<\/p>\n<p> &#8212; A ter um de n&oacute;s de lutar com uma paix&atilde;o, para condescender<br \/>\n    com a do outro, compete-me faz&ecirc;-lo. Na minha idade &eacute; mais f&aacute;cil<br \/>\n    tentar essas lutas com &ecirc;xito.<\/p>\n<p> D. Luis a custo reprimiu a sua impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; E ela? Jorge, lembra-te de que essa menina ama-te, e talvez n&atilde;o<br \/>\n    tenha a for&ccedil;a de alma que tu tens.<\/p>\n<p> &#8212; Seria para Berta pior tormento mago&aacute;-lo, meu pai. Sei-o da<br \/>\n    boca dela. Nunca aceitaria o seu sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> D. Luis fechou por momentos os olhos, como para concentrar o esp&iacute;rito<br \/>\n    ; depois disse quase a medo : &#8212; Sacrif&iacute;cio ! Maior sacrif&iacute;cio<br \/>\n    seria o meu se renunciasse a t&ecirc;-la junto de mim e a chamar-lhe filha.<br \/>\n    N&atilde;o sei mesmo se para tanto me restam ainda for&ccedil;as. Eu j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o sou o homem forte que fui, Jorge. Quase mere&ccedil;o compaix&atilde;o.<\/p>\n<p> Jorge estremeceu ao ouvir estas palavras. Como que raiou uma s&uacute;bita<br \/>\n    claridade no seu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer dizer, meu pai ? Pois n&atilde;o &eacute; por meu respeito<br \/>\n    que insiste&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Queres obrigar-me a confessar toda a minha fraqueza, Jorge? Pois<br \/>\n    bem, confessarei. Fazendo a tua felicidade, far&aacute;s tamb&eacute;m a minha.<\/p>\n<p> O lugar de tua irm&atilde; s&oacute; pode ser ocupado por Berta. Outra qualquer<br \/>\n    profan&aacute;-lo-ia.<\/p>\n<p> Jorge desta vez n&atilde;o o deixou concluir. Cedendo &agrave; paix&atilde;o<br \/>\n    que enfim se expandia, pegou nas m&atilde;os descarnadas do pai e levando-as<br \/>\n    calorosamente aos l&aacute;bios, exclamou : &#8212; Oh! obrigado, meu pai.<br \/>\n    &Eacute; Deus que o inspira; &eacute; o esp&iacute;rito de minha irm&atilde;<br \/>\n    que o aconselha. Obrigado. Agora sim, desanuvia-se-me o horizonte, e creio,<br \/>\n    creio deveras na felicidade. Triunfo ! Obrigado, obrigado.<\/p>\n<p> E, beijando-lhe mais uma vez a m&atilde;o, correu para a porta chamando<br \/>\n    Berta.<\/p>\n<p> T&ocirc;da a fam&iacute;lia e os amigos que tinham vindo para os Bacelos,<br \/>\n    ao saberem do estado do velho fidalgo, achavam-se na sala imediata, aguardando<br \/>\n    ansiosos o termo da confer&ecirc;ncia entre o pai e o filho e porventura o<br \/>\n    triste desenlace que havia muito se esperava.<\/p>\n<p> Quando se ouviu a voz de Jorge, todos julgaram que se havia realizado enfim<br \/>\n    o acontecimento que se receava, e correram para a porta.<\/p>\n<p> Jorge, quase desorientado, foi ao encontro de Berta, e conduzindo- a &agrave;<br \/>\n    cabeceira do leito do doente, disse, sufocado de contentamento : &#8212; Berta,<br \/>\n    o nosso sacrif&iacute;cio &eacute; in&uacute;til. Meu pai n&atilde;o o aceita,<br \/>\n    e prefere ver-nos felizes. Ajoelha ao lado dele e beija a m&atilde;o de teu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> Berta obedeceu, banhada em l&aacute;grimas de como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A baronesa n&atilde;o reprimiu uma exclama&ccedil;&atilde;o de alegria e<br \/>\n    de triunfo.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio correu a abra&ccedil;ar Jorge.<\/p>\n<p> A Ana do Vedor quase levantou ao ar a boa Luisa, que temia acreditar no<br \/>\n    que julgara entender nas palavras de Jorge.<\/p>\n<p> Somente Tom&eacute; da P&oacute;voa ficou im&oacute;vel e calado. Ao ouvir<br \/>\n    Jorge, ao ver a filha ajoelhada junto do fidalgo e acariciada por ele, um<br \/>\n    clar&atilde;o de alegria passou no rosto do honrado lavrador e brilharam-lhe<br \/>\n    nos olhos as l&aacute;grimas. Mas este rel&acirc;mpago dissipou-se cedo e<br \/>\n    carregou- -se-lhe o semblante de tristeza.<\/p>\n<p> Assim que Jorge, procurando-o com os olhos, se dirigiu para ele, estendendo-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os, Tom&eacute; afastou-o brandamente de si, dizendo-lhe : &#8212;<br \/>\n    Custa-me desfazer essa alegria, senhor, essa alegria que me faz quase chorar,<br \/>\n    que &eacute; sincera da sua parte. Mas quanto mais cedo, melhor ser&aacute;.<br \/>\n    Isto n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p> Todos fitaram estupefactos o fazendeiro. Ningu&eacute;m esperara que a resist&ecirc;ncia<br \/>\n    se levantasse dali. Ana do Vedor resmungou : &#8212; Temo-la travada ! &#8212;<br \/>\n    Valha-nos Deus ! &#8212; gemeu Luisa.<\/p>\n<p> Berta fitou no pai os olhos ainda lacrimosos.<\/p>\n<p> A fronte de D. Luis contraiu-se de novo.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer dizer com essas palavras, Tom&eacute; ? &#8212; perguntou<br \/>\n    Jorge, enquanto que Maur&iacute;cio e a baronesa secundaram a pergunta com<br \/>\n    um olhar interrogador.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; brios a que se n&atilde;o pode faltar &#8212; insistiu<br \/>\n    Tom&eacute; &#8212; ainda quando se nos despedace o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o dos filhos. Que se diria de mim? Como explicariam por a&iacute; o meu<br \/>\n    proceder nesta casa? Que pensaria ali o Sr. D. Luis, que j&aacute; uma vez<br \/>\n    me suspeitou de forjar intrigas infames e de ter ambi&ccedil;&otilde;es indignas<br \/>\n    de um homem de bem? Creia no que lhe digo, Sr. Jorge, mais vale que sacrifiquemos<br \/>\n    todos um pouco das nossas afei&ccedil;&otilde;es, para n&atilde;o termos desgostos<br \/>\n    maiores.<\/p>\n<p> &#8212; Que desgostos pode recear, Tom&eacute;, quando eu lhe pe&ccedil;o<br \/>\n    que me conceda a m&atilde;o de Berta? &#8212; O Sr. Jorge fala cego pela afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que sente, e &eacute; ela que n&atilde;o o deixa ver o que eu vejo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o seja obstinado, Tom&eacute; &#8212; disse a baronesa.&#8212;Bem<br \/>\n    v&ecirc; que de onde era mais de esperar a resist&ecirc;ncia, j&aacute; ela<br \/>\n    caiu.<\/p>\n<p> &#8212; V. Ex.&quot; n&atilde;o falaria assim se soubesse tudo. H&aacute;<br \/>\n    dias, sr.&#8217; baronesa, nesta mesma sala, vendo-me ofendido no meu car&aacute;cter,<br \/>\n    suspeitado de ten&ccedil;&otilde;es que nunca tive, e desesperado por n&atilde;o<br \/>\n    poder justificar- me, porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um<br \/>\n    protesto que n&atilde;o posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu pr&oacute;prio<br \/>\n    daria raz&atilde;o a quem me chamasse, frente a frente, intriguista, falso,<br \/>\n    miser&aacute;vel&#8230; D. Luis atalhou, dizendo: &#8212; Protestou o Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa que se o casamento de sua filha com Jorge dependesse do seu<br \/>\n    consentimento, ele o recusaria, ainda mesmo quando da recusa se seguisse a<br \/>\n    morte para ambos ; e que para o n&atilde;o recusar seria necess&aacute;rio<br \/>\n    que eu, o pai de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o &uacute;nico, segundo<br \/>\n    o pensar do mundo, de quem deveria partir a oposi&ccedil;&atilde;o a essa<br \/>\n    alian&ccedil;a, pedisse a ele, Tom&eacute; da P&oacute;voa, como favor, esse<br \/>\n    consentimento.<\/p>\n<p> Tom&eacute; fez um sinal afirmativo, olhando para a baronesa, para Maur&iacute;cio<br \/>\n    e para Jorge, como perguntando-lhes se a t&atilde;o solene protesto era poss&iacute;vel<br \/>\n    faltar.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem &#8212; continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa,<br \/>\n    e fechando os olhos &agrave; imita&ccedil;&atilde;o de quem se prepara a vencer<br \/>\n    um precip&iacute;cio, cuja vista o faz recuar. &#8212; Pois bem, sou eu quem<br \/>\n    pe&ccedil;o a Tom&eacute; da P&oacute;voa&#8230; como favor&#8230; que permita que<br \/>\n    Berta seja a esposa de meu filho.<\/p>\n<p> E, ao acabar de dizer estas palavras, tingiram-se-lhe as faces de uma vermelhid&atilde;o<br \/>\n    intensa.<\/p>\n<p> Tom&eacute; fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu naqueles sinais a revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do esfor&ccedil;o gigante que ele fizera para conseguir pronunciar t&atilde;o<br \/>\n    nobres e generosas palavras.<\/p>\n<p> N&atilde;o estava no &acirc;nimo de Tom&eacute; resistir mais tempo.<\/p>\n<p> Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na m&atilde;o,<br \/>\n    exclamou, cortada a voz pelos solu&ccedil;os : &#8212; Sr. D. Luis, V. Ex.&#8217;<br \/>\n    venceu. Digam o que quiserem. O meu orgulho n&atilde;o d&aacute; para mais.<br \/>\n    Berta, s&eacute; feliz&#8230;<\/p>\n<p> O pranto n&atilde;o o deixou concluir, a frase perdeu-a solu&ccedil;ando<br \/>\n    sobre as m&atilde;os do fidalgo.<\/p>\n<p> N&atilde;o faltaram l&aacute;grimas e sorrisos aos que presenciavam a cena.<\/p>\n<p> Passada esta explos&atilde;o de sentimento, Jorge, tomando a m&atilde;o<br \/>\n    de Berta, disse para Tom&eacute; : &#8212; Aceito a felicidade que me oferece,<br \/>\n    Tom&eacute;, e prometo ser digno da esposa que me confia. Mas &agrave; minha<br \/>\n    pr&oacute;pria felicidade sou obrigado a impor condi&ccedil;&otilde;es, para<br \/>\n    que no futuro nenhuma nuvem a perturbe.<\/p>\n<p> A nossa casa n&atilde;o est&aacute; ainda, como sabe, livre dos encargos<br \/>\n    que por tanto tempo pesaram sobre ela. As dificuldades principiam a aplanar-<br \/>\n    se e a administra&ccedil;&atilde;o entrou no verdadeiro caminho. E ao seu<br \/>\n    aux&iacute;lio e conselho devo principalmente este resultado. O meu orgulho,<br \/>\n    por&eacute;m, visto que todos aqui atendem a orgulhos, o meu orgulho exige<br \/>\n    que eu s&oacute; por mim realize esta obra que empreendi, que &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    do meu trabalho satisfa&ccedil;a os compromissos contra&iacute;dos. Quando<br \/>\n    receber Berta, quero receb&ecirc;-la em minha casa, e que se n&atilde;o diga<br \/>\n    que foi ela quem me abriu as portas fechadas pela mis&eacute;ria. Por isso<br \/>\n    esperarei at&eacute; ent&atilde;o para realizar a minha felicidade.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem, Jorge ! &#8212; exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o<br \/>\n    olhar de alegria. &#8212; &Eacute; justo &#8212; concordou Tom&eacute;. &#8212;<br \/>\n    Compreendo esse desejo da sua parte, e nada tenho a dizer contra.<\/p>\n<p> &#8212; Mais ainda &#8212; prosseguiu Jorge &#8212; posso aceitar a esposa<br \/>\n    que me oferece, e orgulhar-me dela e da alian&ccedil;a com a sua fam&iacute;lia,<br \/>\n    que &eacute; honrada e generosa, mas uma coisa h&aacute; que n&atilde;o posso<br \/>\n    aceitar sem humilha&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a parte que pertencer a Berta<br \/>\n    da heran&ccedil;a paterna. N&atilde;o quero que se diga que eu restaurei a<br \/>\n    minha casa &agrave; custa da sua. At&eacute; aqui ainda chegam os meus preconceitos<br \/>\n    aristocr&aacute;ticos, devo confess&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, Jorge, muito bem! &#8212; bradou o fidalgo &#8212; quem pensa<br \/>\n    dessa maneira e assim procede, pode transmitir a sua nobreza, mas n&atilde;o<br \/>\n    a perde.<\/p>\n<p> &#8212; Eu, por&eacute;m, &eacute; que n&atilde;o posso deserdar minha filha.<br \/>\n    Essa condi&ccedil;&atilde;o &eacute; imposs&iacute;vel &#8212; disse Tom&eacute;<br \/>\n    friamente.<\/p>\n<p> &#8212; A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irm&atilde;os<br \/>\n    &#8212; disse t&igrave;midamente Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Teus irm&atilde;os n&atilde;o precisam da tua desist&ecirc;ncia,<br \/>\n    Berta.<\/p>\n<p> &#8212; Tom&eacute; &#8212; insistiu Jorge &#8212; sabe que o meu constante<br \/>\n    pensamento &eacute; manter ao nome de minha fam&iacute;lia o prest&iacute;gio<br \/>\n    e o respeito que sempre teve na prov&iacute;ncia ; n&atilde;o queira anular<br \/>\n    os esfor&ccedil;os que emprego para o conseguir.<\/p>\n<p> &#8212; E quer que eu lhe sacrifique a minha reputa&ccedil;&atilde;o? Que<br \/>\n    se dir&aacute; de mim? A baronesa, prevendo que as dificuldades cresciam,<br \/>\n    que esta luta de sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obst&aacute;culos,<br \/>\n    interveio dizendo: &#8212; As cl&aacute;usulas do contrato s&atilde;o uma<br \/>\n    circunst&acirc;ncia secund&aacute;ria e que s&oacute; na presen&ccedil;a de<br \/>\n    um tabeli&atilde;o se regulam. Eu por mim n&atilde;o posso aturar tais discuss&otilde;es,<br \/>\n    sobretudo se o noivo toma parte nelas. Olhem que frieza de namorado ! Deixemos<br \/>\n    isso tudo para depois.<\/p>\n<p> &#8212; Diz bem V. Ex.&ordf; &#8212; apoiou Ana do Vedor &#8212; o tudo<br \/>\n    &oacute; que eles casem, e depois os homens que deslindem l&aacute; esse neg&oacute;cio<br \/>\n    do dinheiro como quiserem. Mas sempre lhes digo que oi&ccedil;am um advogado,<br \/>\n    para n&atilde;o fazerem tolices. Mas o fidalgo ! O fidalgo &eacute; que sempre<br \/>\n    a deu em cheio ! Sim, senhor ! Nunca o esperei ! Quem dantes lhe fosse dizer&#8230;<\/p>\n<p> Mas bom foi e ver&aacute; como at&eacute; Nosso Senhor lhe h&aacute;-de<br \/>\n    dar sa&uacute;de. E vossemec&egrave;, Luisa, que diz a isto? Ande l&aacute;,<br \/>\n    que teve um santo a pedir por si.<\/p>\n<p> Eu bem lhe disse, mulher: cara alegre e confian&ccedil;a naquele que est&aacute;<br \/>\n    l&aacute; em cima. E aqui para n&oacute;s, talvez que a mim deva alguma coisa.<br \/>\n    E tu, rapariga? Apesar de me enjeitares o Clemente, olha que n&atilde;o te<br \/>\n    quero mal. N&atilde;o quero, porque eu, se estivesse no teu lugar, faria o<br \/>\n    mesmo.<\/p>\n<p> E o Tom&eacute; ainda com o nariz torcido ! &Oacute; homem de Deus, voc&ecirc;<br \/>\n    que mais quer? Sempre a gente! louvado seja Deus! Maur&iacute;cio aproximou-se<br \/>\n    de Ana, sorrindo: &#8212; J&aacute; que vai correndo a roda, venha l&aacute;<br \/>\n    a minha ra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8226;&#8212;Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me<br \/>\n    mereces mais aquela? Olha agora! O que me admira &eacute; que hou vesse quern<br \/>\n    te quisesse. Perdoe-me a senhora, mas n&atilde;o lhe gabo o gosto. A seu tempo<br \/>\n    conhecer&aacute; a j&oacute;ia. L&aacute; aquilo &eacute; outro barro.<\/p>\n<p> E apontava para Jorge.<\/p>\n<p> &#8216; Todos riram das francas observa&ccedil;&otilde;es di matrona.<\/p>\n<p> E enquanto D. Luis conversava com Berta, Jorge com Tom&eacute;, e Maur&iacute;cio<br \/>\n    e a baronesa com Luisa e Ana do Vedor, assomou &agrave; porta a cabe&ccedil;a<br \/>\n    de frei Janu&aacute;rio, que ficou espantado de achar tanta gente reunida<br \/>\n    no quarto do fidalgo.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; alguma novidade? &#8212; perguntou ele, inquieto.<\/p>\n<p> Foi a Ana do Vedor que lhe respondeu: &#8212; H&aacute;, sim, senhor. E<br \/>\n    pode j&aacute; preparar-se, porque n&atilde;o lhe faltar&aacute; que fazer<br \/>\n    qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu? O padre olhou espantado para<br \/>\n    os circunstantes.<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc;? Pois ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Est&atilde;o vencidos os obst&aacute;culos &#8212; respondeu a baronesa<br \/>\n    &agrave; incompleta pergunta.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; observou apenas o padre.<\/p>\n<p> E pensava consigo: &#8212; Digam l&aacute; que n&atilde;o anda nisto a ma&ccedil;onaria<br \/>\n    ! O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luis dormiu &ccedil;om sossego<br \/>\n    e deu mais algumas esperan&ccedil;as aos que o rodeavam.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia ali cora&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o encerrasse um<br \/>\n    fermento de felicidade.<\/p>\n<h2>CONCLUS&Atilde;O<\/h2>\n<p>N&Atilde;O se fez esperar muito o casamento ajustado &agrave; cabeceira do<br \/>\n    leito do fidalgo da Casa Mourisca.<\/p>\n<p> Depois de vencida a importante demanda, que havia tanto tempo pesava sobre<br \/>\n    a sua propriedade, Jorge achou-se mais desembara&ccedil;ado na empresa a que<br \/>\n    dedicara a sua juventude.<\/p>\n<p> Alienando algumas fazendas distantes, que serviam apenas de estorvo &agrave;<br \/>\n    administra&ccedil;&atilde;o das outras, sem compensarem os sacrif&iacute;cios<br \/>\n    que exigiam, acabando de desonerar de opressivas hipotecas as que ainda definhavam<br \/>\n    sob elas, e entrando em uma via met&oacute;dica e segura de melhoramentos,<br \/>\n    habilitou-se em breve tempo a contrair um empr&eacute;stimo valioso no Cr&eacute;dito<br \/>\n    Predial, amortiz&aacute;vel em poucos anos ; e, com o capital obtido em t&atilde;o<br \/>\n    favor&aacute;veis condi&ccedil;&otilde;es e prudentemente administrado, tinha<br \/>\n    quase certa para n&atilde;o long&iacute;nquo futuro a completa realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seu constante e generoso pensamento.<\/p>\n<p> O enegrecido e triste solar da Casa Mourisca remo&ccedil;ou no dia em que<br \/>\n    o mo&ccedil;o propriet&aacute;rio dele p&ocirc;de remir a sua &uacute;ltima<br \/>\n    d&iacute;vida a particulares. Esta foi a de Tom&eacute; da P&oacute;voa.<\/p>\n<p> O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janelas da velha<br \/>\n    Casa Mourisca, limparem-se das ervas parasitas as longas avenidas da quinta,<br \/>\n    erguerem-se do ch&atilde;o as est&aacute;tuas derrubadas, jorrarem como em<br \/>\n    outros tempos as &aacute;guas dos encanamentos desobstru&iacute;dos, coroarem-se<br \/>\n    de ameias as torres mutiladas, dourarem-se as colunas de talha da capela do<br \/>\n    pal&aacute;cio, e, ao ver isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes<br \/>\n    para aquela fam&iacute;lia, sobre a qual pesara o jugo do infort&uacute;nio.<\/p>\n<p> Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta restaura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Admirava-se e aplaudia-se a energia e a sensatez do mo&ccedil;o, que emendara<br \/>\n    o desvario dos seus antecessores, comentavam-se os actos da sua vida de rapaz,<br \/>\n    exaltavam-se as virtudes do seu car&aacute;cter varonil, e, a pouco e pouco,<br \/>\n    o esp&iacute;rito da lenda tomou posse desta individualidade e deu-lhe o prest&iacute;gio<br \/>\n    colorido que assegura a imortalidade na tradi&ccedil;&atilde;o popular.<\/p>\n<p> Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a d&iacute;vida de Tom&eacute;,<br \/>\n    D. Luis, a quem os ass&iacute;duos cuidados de Berta tinham feito vencer a<br \/>\n    mol&eacute;stia que o prostrara, voltou ao seu solar com solenidade correspondente<br \/>\n    &agrave;quela com que o deixara. Os instintos dram&aacute;ticos do seu car&aacute;cter<br \/>\n    de fidalgo assim o exigiam.<\/p>\n<p> Ao regressar &agrave; casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-<br \/>\n    a sob o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luis comoveu-se<br \/>\n    profundamente.<\/p>\n<p> A numerosa coorte de criados e jornaleiros, que vieram receb&ecirc;- lo<br \/>\n    &agrave; porta e saud&aacute;-lo com entusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados<br \/>\n    e as tradi&ccedil;&otilde;es feudais de &eacute;pocas volvidas, saudosas sempre<br \/>\n    para o seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Dias depois celebrava-se na capela da casa o casamento de Jorge e de Berta,<br \/>\n    com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do que de festa.<\/p>\n<p> A baronesa e Maur&iacute;cio vieram &agrave; aldeia para assistirem &agrave;<br \/>\n    solenidade, e demoraram-se ainda algumas semanas nela.<\/p>\n<p> A boa Luisa desfazia-se em l&aacute;grimas de j&uacute;bilo. Tom&eacute;<br \/>\n    da P&oacute;voa a custo podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Os esfor&ccedil;os de Gabriela haviam conseguido que o contrato do casamento<br \/>\n    se redigisse de modo que o pai e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias<br \/>\n    concess&otilde;es, n&atilde;o ficassem humilhados por ele.<\/p>\n<p> A fidalguia da prov&iacute;ncia torceu o nariz &agrave; alian&ccedil;a,<br \/>\n    e absteve-se de tomar conhecimento do facto, que tamb&eacute;m lhe n&atilde;o<br \/>\n    foi participado.<\/p>\n<p> com a t&aacute;cita censura desta parentela aumentou a irrita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e despeito de D. Luis, e impelido a reagir, deu mais um passo no terreno dos<br \/>\n    princ&iacute;pios democr&aacute;ticos.<\/p>\n<p> Os propriet&aacute;rios, colegas de Tom&eacute;, fizeram entre si algumas<br \/>\n    reflex&otilde;es a respeito da finura deste, convencidos de que ele desde<br \/>\n    muito visara a este resultado, e profetizando-lhe um baronato futuro. <\/p>\n<p>Mas nem o retraimento da nobreza, nem as murmura&ccedil;&otilde;es dos lavradores<br \/>\n    perturbaram a alegria das nupcias.<\/p>\n<p> D. Luis recebia ainda uma impress&atilde;o desagradarei ao ver t&atilde;o<br \/>\n    perto de si Tom&eacute; e a boa Luisa; procurava, por&eacute;m, minorar este<br \/>\n    desgosto contemplando Berta, que exercia sobre ele uma completa fascina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Insistia sobretudo o fidalgo em que Berta era uma rapariga de excep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que se davam nela as qualidades que valeram em outros tempos a tantos plebeus<br \/>\n    a honra de serem agremiados no seio da nobreza.<\/p>\n<p> Frei Janu&aacute;rio, vendo bem provida a despensa e a cozinha da Casa Mourisca,<br \/>\n    julgou dever transigir com a nova ordem de coisas e instalou-se de novo no<br \/>\n    seu quarto, decidido a respeitar, conforme com os modernos principios de diplomacia,<br \/>\n    os factos consumados.<\/p>\n<p> E anos de paz preparavam-se para aquela casa.<\/p>\n<p> Maur&iacute;cio seguiu diferente destino, em harmonia com as suas aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e instintos.<\/p>\n<p> N&atilde;o se sentindo com tend&ecirc;ncias para agricultor, vendeu a Jorge<br \/>\n    a parte dos bens rurais que lhe pertencia e voltou para Lisboa com a mulher.<\/p>\n<p> Decorrido pouco tempo encetava a sua carreira diplom&aacute;tica, como adido<br \/>\n    &agrave; embaixada de Viena, e sob os melhores ausp&iacute;cios de futuro<br \/>\n    progresso.<\/p>\n<p> Gabriela n&atilde;o teve de arrepender-se do seu casamento. Se Maur&iacute;cio<br \/>\n    n&atilde;o era um modelo de maridos fi&eacute;is, ela tinha a precisa filosofia<br \/>\n    para desculpar-lhe as leviandades, e Maur&iacute;cio intelig&ecirc;ncia para<br \/>\n    apreciar a generosidade e delicadeza da sua mulher, e ador&aacute;-la por<br \/>\n    isso, apesar de tudo.<\/p>\n<p> A vida agitada e as sucessivas como&ccedil;&otilde;es das capitais a ambos<br \/>\n    agradavam; por isso ambos eram felizes.<\/p>\n<p> O contraste entre este viver e o de Jorge era completo.<\/p>\n<p> Jorge era o verdadeiro propriet&aacute;rio rural, repartindo os seus cuidados<br \/>\n    entre a cultura e a administra&ccedil;&atilde;o dos seus bens, e os afectos<br \/>\n    e direc&ccedil;&atilde;o de sua fam&iacute;lia. Abandonara a pouco e pouco<br \/>\n    os h&aacute;bitos de fidalguia, em que fora educado, e contraiu outros puramente<br \/>\n    burgueses.<\/p>\n<p> A sua iniciativa, esclarecida pela intelig&ecirc;ncia e mantida por uma<br \/>\n    forte energia de car&aacute;cter, apontava um exemplo salutar aos propriet&aacute;rios<br \/>\n    vizinhos, que j&aacute; se animavam a segui-lo. Gra&ccedil;as a este exemplo,<br \/>\n    terminavam muitos preju&iacute;zos, esqueciam pr&aacute;ticas rotineiras,<br \/>\n    que ainda hoje tolhem o progresso &agrave; nossa agricultura, aventuravam-se<br \/>\n    inova&ccedil;&otilde;es j&aacute; abonadas pela experi&ecirc;ncia de pa&iacute;ses<br \/>\n    mais cultos, e a que se op&otilde;em entre n&oacute;s a ignor&acirc;ncia e<br \/>\n    a timidez que nasce dela.<\/p>\n<p> A vida inteira de Jorge era uma eloquente e severa li&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    os propriet&aacute;rios rurais, que vivendo longe dos seus bens, consomem<br \/>\n    nos desperd&iacute;cios da corte as magras rendas que eles, longe da solicitude<br \/>\n    do dono, lhes concedem ; deixam assim a pouco e pouco extenuar a terra e definhar-se<br \/>\n    a propriedade nas m&atilde;os de caseiros &aacute;vidos, que, que &eacute;<br \/>\n    o &uacute;nico com que podem contar.<\/p>\n<p> Assim aprendessem nessa li&ccedil;&atilde;o tantos que deveriam segui-la,<br \/>\n    e talvez que a riqueza do Pa&iacute;s se desentranhasse do solo, onde ainda<br \/>\n    est&aacute; enclausurada, surgindo &agrave; luz para nos apresentar aos olhos<br \/>\n    de outras na&ccedil;&otilde;es dignos da nossa &eacute;poca e do trato de<br \/>\n    terra que ocupamos na Europa.<\/p>\n<p> Pela sua parte, Jorge realizando na propriedade a incorpora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do capital, do trabalho e da intelig&ecirc;ncia, e mostrando at&eacute; que<br \/>\n    ponto essa alian&ccedil;a &eacute; fecunda, podia bem dizer que havia cumprido<br \/>\n    a lenda da Casa Mourisca. Fora ele quem desenterrara do solo o tesouro escondido.<\/p>\n<p> Tom&eacute; era o primeiro a seguir Jorge nos seus melhoramentos e reformas.<\/p>\n<p> Nada mais temos a dizer.<\/p>\n<p> Fechamos aqui o quadro, acrescentando apenas que a energia da Ana do Vedor<br \/>\n    ainda n&atilde;o vergou ao peso dos anos ; que o filho desta mulher, o bondoso<br \/>\n    Clemente, casou com uma v&aacute;lida e laboriosa rapariga do campo, que promete<br \/>\n    continuar o exemplo da sogra. Enquanto aos senhores do Cruzeiro, continuam<br \/>\n    a ser cada vez mais viciosos e a acharem-se mais embara&ccedil;ados em d&iacute;vidas<br \/>\n    e mais desprezados do povo.<\/p>\n<p> Os fidalgos da Casa Mourisca s&atilde;o, pelo contr&aacute;rio, hoje respeitados,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; energia e &agrave; honestidade do caracter de Jorge.<\/p>\n<p> O nome desta fam&iacute;lia e dos que ficam honrados na tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular.<\/p>\n<h2>FIM<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Dinis A tradi&ccedil;&atilde;o popular em Portugal, nos assuntos de hist&oacute;ria p&aacute;tria, n&atilde;o se remonta al&eacute;m do periodo da domina&ccedil;&atilde;o &aacute;rabe nas Espanhas. 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