{"id":108126,"date":"2017-02-09T17:28:49","date_gmt":"2017-02-09T19:28:49","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108126"},"modified":"2017-02-14T11:01:32","modified_gmt":"2017-02-14T13:01:32","slug":"poesias-julio-dinis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poesias-julio-dinis","title":{"rendered":"Poesias &#8211; J\u00falio Dinis"},"content":{"rendered":"<h2>J\u00falio Dinis<\/h2>\n<p align=\"left\">&#8230;quelle singuli\u00e9re et triste impression<br \/>\nProduit un manuscritl Tout \u00e1 l&#8217;heure, \u00e1 ma table<br \/>\nTout ce que j&#8217;\u00e9crivais me semblait admirable.<br \/>\nMaintenant, je ne sais \u2014 je n&#8217;ose y regarder .<br \/>\nAu moment du travail chaque nerf, chaque fibre<br \/>\nTressaille comme un luth que Ton vient d&#8217;accorder<br \/>\nOn n&#8217;\u00e9crit pas un mot qu e tout T&#8217;\u00e9tre ne vibre.<br \/>\n(Soit dit sans vanit\u00e9, c&#8217;est ce que Ton ressent) On ne travaille pas \u2014 on ecoute \u2014 on attend.<br \/>\nC&#8217;est comme un inconnu qui vous parle \u00e1 voix basse. On rest quelque fois une nuit sur la place.<br \/>\nSans faire un mouvement et sans se retourner.<br \/>\nOn est comme un enfant dans sea habits de f\u00e9te,<br \/>\nQui criant de se salir et de se profanar.<br \/>\nEt puis et puis \u2014 enfin! \u2014 On a mal \u00e1 la tete,<br \/>\nQuel \u00e9trange r\u00e9veil ! Comme on se sent boiteux!<br \/>\nComme on voit que Vulcain vient de tomber des \u00e9teux.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>(Alfred de Musset \u2014 Premieres po\u00e9sies)<\/b><\/p>\n<p>Rien, \u00e0 mon avis, de si insupportable que la lecture suivie d&#8217;un recueil de vers ; ils ne peuvent se lire que fort \u00e0 batons rompus; cepen- dant en les reprenant et les quittant souvent, on les lit tout entiers et quelque foi on y trouve de tr\u00e8s jolies choses.<\/p>\n<p>Essais dans le go\u00fct de ceux de Montagne, on les loisirs<br \/>\nd&#8217;un ministre d&#8217;\u00c9tat (p\u00e1g. 388).<\/p>\n<p>Nota do Autor. \u2014 Havia muito tempo que eu pensava isto mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos volumes de poes\u00edas.<\/p>\n<h2>PRIMEIRA PARTE<\/h2>\n<p align=\"left\"><b>A MEU IRM\u00c3O<br \/>\n(JOS\u00c9 JOAQUIM GOMES COELHO)<\/b><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m tu, meu irm\u00e3o, inda aos vinte anos, Dizes ao mundo teu extremo adeus!<br \/>\nDeixas-me s\u00f3 e partes! os arcanos<br \/>\nVais da vida sondar aos p\u00e9s de Deus?<\/p>\n<p>Inda h\u00e1 bem pouco aspira\u00e7\u00f5es ridentes, Despertadas ao sol da juventude,<br \/>\nTe apontavam futuros resplendentes<br \/>\nDe mil gl\u00f3rias, de amor e de virtude.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco em devaneios t\u00e3o risonhos, Cantavas em sentida poesia<br \/>\nAs meigas ilus\u00f5es, dourados sonhos<br \/>\nQue te adejavam sempre \u00e0 fantasia.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tu julgavas do horizonte<br \/>\nVer dum belo porvir sorrir-te a aurora,<br \/>\nBem como a \u00e1urea luz c&#8217;roando o monte,<br \/>\nDo Sol preced e a chama animadora.<\/p>\n<p>Tudo isso era ilus\u00e3o, simples quimera, Que aos vinte anos sonhamos acordados; Curta p\u00e1gina a sorte te escrevera<br \/>\nNo grande livro inc\u00f3gnito dos fados<\/p>\n<p>E enquanto descuidado te entregavas<br \/>\nAos sonhos da exaltada fantasia,<br \/>\nSob a florea vereda que trilhavas<br \/>\nA morte, a fria morte, se escondia!<\/p>\n<p>Tu viste uma por uma emurchecerem<br \/>\nAs mais vi\u00e7osas flores da tua vida;<br \/>\nE as esperan\u00e7as seu verdor perderem<br \/>\nCom a aridez da exist\u00eancia desflorida.<\/p>\n<p>E a vida te pareceu \u00e1spero deserto, Assim desguarnecida de ilus\u00f5es,<br \/>\nDe la\u00e7os materiais cedo liberto<br \/>\nRemontaste \u00e0s celestes regi\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o te lamento, irm\u00e3o; a tua sorte, Ao que padece, inveja s\u00f3 produz;<br \/>\nPorque \u00e0s trevas finais da hora da morte<br \/>\nSeguem-se anos sem fim de imensa luz.<\/p>\n<p>Eras justo, no C\u00e9u gozas a palma,<br \/>\nQue ao mundo, aqui debalde pedirias,<br \/>\nE os anjos acolheram a tua alma<br \/>\nNum coro de suaves harmonias.<\/p>\n<p>Mas eu, que te amei, pra quem tu eras<br \/>\nMais que irm\u00e3o, mais que pai, mais que amigo,<br \/>\nEu, a quem desde infante ofereceras,<br \/>\nPra suprir o de m\u00e3e fraterno abrigo.<\/p>\n<p>Mais infeliz fui eu ; junto a meu lado Vago est\u00e1 o lugar que abandonaste. Vivo s\u00f3, com as saudades do passado, Do tempo que de encantos povoaste.<\/p>\n<p>Nesta acerba aridez do meu presente<br \/>\nRecordo-me da vida que passou,<br \/>\nE bem vejo que a sorte fatalmente<br \/>\nNa vida do infort\u00fanio me lan\u00e7ou.<\/p>\n<p>Como a do nauta desditosa sorte,<br \/>\nQue o mar arrosta em tormentosa viagem,<br \/>\nE viu nas ondas que enfurece a morte<br \/>\nSucumbir todo o resto da equipagem;<\/p>\n<p>Tal o destino meu; entrei no mundo<br \/>\nE saudei-o com hinos de alegria;<br \/>\nNos \u00eaxtases dum j\u00fabilo profundo,<br \/>\nO dom da vida a Deus agradecia.<\/p>\n<p>Em ambiente de amor desabrocharam<br \/>\nNa inf\u00e2ncia as flores da exist\u00eancia minha.<br \/>\nAmor de pai, de m\u00e3e, de irm\u00e3os, douraram<br \/>\nA amena senda, que ante mim eu tinha.<\/p>\n<p>E depois&#8230; ai, irm\u00e3o! que acerbas dores Juntos sofremos! Murchas, ressequidas, Desfolharam-se as mais vi\u00e7osas flores, Ceifou a dura morte aquelas vidas.<\/p>\n<p>O belo c\u00e9u, que nos sorriu na inf\u00e2ncia, Em brev e se mostrou turbado e triste; A terna m\u00e3e pedira a outra est\u00e2ncia<br \/>\nA paz, que neste mundo n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>E ai daquele, que no alvor da vida Perdeu pra sempre maternais afagos, Ai, que bem cedo a v\u00ea ser consumida Por mil anelos, mil desejos vagos.<\/p>\n<p>Ai, bem cedo o sentimos! Separados<br \/>\nDo sol que a inf\u00e2ncia em luz nos envolvia,<br \/>\nQuais estioladas plantas, assombrados,<br \/>\nA fronte inda infantil, j\u00e1 nos pendia.<\/p>\n<p>E assim viveste! e quando a idade ardente<br \/>\nDe mil aspira\u00e7\u00f5es te enchia o peito,<br \/>\nOlhaste, e vendo a isola\u00e7\u00e3o somente,<br \/>\nCansado, te deitaste em frio leito.<\/p>\n<p>E eu, em v\u00e3o no ata\u00fade me curvava, Em v\u00e3o hei procurado a tua campa;<br \/>\nA morte de mist\u00e9rios te falava,<br \/>\nMas nos l\u00e1bios do morto o dedo estampa.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o te perguntei: Nessa morada<br \/>\nOutros f\u00falgidos sonhos imaginas?<br \/>\nAo sair da vida deparaste o nada?<br \/>\nOu acordaste em regi\u00f5es divinas?<\/p>\n<p>Mudo ficaste. Os ventos perpassaram, Soltando queixas no volver das folhas, E teus l\u00e1bios im\u00f3veis n\u00e3o falaram,<br \/>\nNem sequer o irm\u00e3o saudoso olhas.<\/p>\n<p>Meu Deus! permite que atrav\u00e9s da lousa<br \/>\nPossa ele ouvir a minha voz ainda,<br \/>\nE desse leito, onde afinal repousa,<br \/>\nMe diga: A vida neste p\u00f3 n\u00e3o finda;<\/p>\n<p>Me diga: A cren\u00e7a que na leda inf\u00e2ncia<br \/>\nAprendemos da m\u00e3e \u00e9 verdadeira;<br \/>\nH\u00e1 outra vida, h\u00e1 uma outra est\u00e2ncia,<br \/>\nT\u00e3o feliz, quanto esta \u00e9 passageira;<\/p>\n<p>Que se encontram os entes mais queridos,<br \/>\nE em eterno amplexo a Deus se humilham;<br \/>\nOue os prazeres em sonhos concebidos<br \/>\nS\u00f3 h\u00e1 no espa\u00e7o onde as estrelas brilham.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, \u00f3 Senhor, com a f\u00e9 mais pura<br \/>\nEu ansiarei pelo supremo instante<br \/>\nEm que, livre da humana desventura,<br \/>\nDemandar tua est\u00e2ncia radiante.<\/p>\n<p>Deixa que o amigo ao amigo s\u00f3 revele Os segredos que a morte lhe confia, Esta incerteza&#8230; em v\u00e3o a f\u00e9 repele,<br \/>\nA d\u00favida cruel continuo a cria.<\/p>\n<p>Porque negas, Senhor, ao peregrino<br \/>\nQue vai cumprindo s\u00f3 esta romagem ,<br \/>\nUm raio ao menos do saber divino,<br \/>\nQue lhe brade na d\u00favida: Coragem !?<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o ha-de a lousa funer\u00e1ria Erguer-se \u00e0 voz saudosa da amizade, Para falar \u00e0 alma solit\u00e1ria<br \/>\nQue anela por saber toda a verdade ?<\/p>\n<p>Porqu\u00ea?&#8230; Mas, Deus, perdoa! eu creio! eu creio! No seu leito de morte o conheci:<br \/>\nSim, nesse instante de tormentos cheio, No peito a voz da cren\u00e7a bem ouvi!<\/p>\n<p>E por isso prostrei-me de joelhos, E os l\u00e1bios murmuravam a ora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nE cri ent\u00e3o no Deus dos Evangelhos, E a d\u00favida deixou-me o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Repousa, irm\u00e3o, \u00e0 sombra do cipreste; N\u00e3o repousar na terra \u00e9 desventura. Dorme no mundo e acorda \u00e0 luz celeste, Cruzando o limiar da sepultura.<\/p>\n<p>Dezembro de 1859.<\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Duvidar da verdade desta poesia, era duvidar dos meus senti.<br \/>\nmentos mais puros, dos meus mais queridos afectos e nesse caso, n\u00e3o sei de palavras<br \/>\nque me pudessem justificar.<\/p>\n<h2>A MORTE DO POETA<br \/>\n(A mem\u00f3ria de A. A. Soares de Passos)<\/h2>\n<p>Calou-se a lira! E a cria\u00e7\u00e3o nos coros<br \/>\nDe menos uma voz aos c\u00e9us revoa!<br \/>\nNa imensa harpa, em que o universo entoa<br \/>\nSeus c\u00e2nticos, de menos uma corda!<br \/>\nQue foi? que nota falta \u00e0s harmonias?<br \/>\nQue foi? que m\u00e3o deixou quebrar a lira?<br \/>\nO poeta morreu, o canto expira,<br \/>\nCessam seus hinos do sepulcro \u00e0 borda !<\/p>\n<p>Morreu o teu cantor, \u00f3 Armamento! Teu sacerdote ardente, \u00f3 poesia!<br \/>\n\u00d3 Deus, \u00f3 P\u00e1tria, a \u00faltima agonia<br \/>\nGelou a voz que hosanas vos sagrara!<br \/>\nCrente inspirado, os brados do entusiasmo<br \/>\nN\u00e3o lhe esfriou dos homens a indiferen\u00e7a,<br \/>\nE a venenosa ta\u00e7a da descren\u00e7a<br \/>\nDos generosos l\u00e1bios arrojara!<\/p>\n<p>O poeta morreu! E o Sol e os astros Que ele cantou, e a ab\u00f3bada celeste De lutuosas trevas se n\u00e3o veste;<br \/>\nE tu, \u00f3 P\u00e1tria, que ele amava tanto, Tu dormes inda esse gelado sono ?! N\u00e3o te acorda o seu \u00faltimo gemido? Sente-lhe a morte, se n\u00e3o h\u00e1s sentido De anima\u00e7\u00e3o e gl\u00f3ria o eterno canto<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o; os homens v\u00eaem pasmar o f\u00e9retro, V\u00eaem do sepulcro alevantar-se a lousa,<br \/>\nE, olhando a nobre fronte que repousa,<br \/>\n\u2014 Quem \u00e9 ? perguntam com cruel frieza.<br \/>\n\u2014 \u00c9 um poeta, lhes respondem poucos. Um poeta! palavra incompreens\u00edvel!<br \/>\nPor ele a multid\u00e3o passa insens\u00edvel,<br \/>\nE a campa desampara com presteza.<\/p>\n<p>E um poeta morreu! listas palavras<br \/>\nNada vos dizem, povos, que as ouvistes?<br \/>\nN\u00e3o as h\u00e1 mais solenes nem mais tristes.<br \/>\nOh! nelas reflecti um s\u00f3 momento!<br \/>\nN\u00e3o sabeis o que diz a morte do homem<br \/>\nQue se encaminha \u00e0 campa que lhe ergueram<br \/>\nSeguido apenas dos que ainda veneram<br \/>\nO culto da poesia e pensamento?<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvis esse dobre, que o lamenta? \u00c9 como a voz do s\u00e9culo, que brada :<br \/>\n\u2014 \u00abChorai, \u00f3 multid\u00f5es, que na cruzada<br \/>\nDa civiliza\u00e7\u00e3o vos alistastes,<br \/>\nChorai, um dos soldados que h\u00e0 ca\u00eddo,<br \/>\nDeus lhe dera a bandeira que vos guia,<br \/>\nO estandarte da id\u00e9ia, a poesia;<br \/>\nMas v\u00f3s na her\u00f3ica empresa o abandonastes !<\/p>\n<p>\u00abLamenta, \u00f3 liberdade, o teu ap\u00f3stolo! Amor, o cora\u00e7\u00e3o que te entendia!<br \/>\nTu, P\u00e1tria, o filho que melhor podia<br \/>\nEntre as na\u00e7\u00f5es da terra engrandecer-te!<br \/>\nReligi\u00e3o, ai! chora o sacerdote,<br \/>\nQue, entoando no templo os sacros hinos,<br \/>\nChamara os povos aos altares divinos<br \/>\nE cultos sem iguais pudera erguer-te!\u00bb<\/p>\n<p>E tu, 0 mundo, o v\u00eas quase indiferente! Curva a cabe\u00e7a ante essa campa aberta, Ajoelha-te, e a fronte descoberta,<br \/>\nVenera as cinzas que deixou na Terra; Os restos s\u00e3o da mais violenta chama, Que o fogo do C\u00e9u no mundo ateia;<br \/>\nA chama ardente de inspirada id\u00e9ia, Fogo que a mente do poeta encerra I<\/p>\n<p>Verte, oh! verte uma l\u00e1grima na tumba; Uma l\u00e1grima s\u00f3. Outros desejam<br \/>\nSoberbos mausol\u00e9us onde se vejam Fulgir os nomes seus em letras d&#8217;ouro; Ele n\u00e3o. Flores e l\u00e1grimas, eis tudo!<br \/>\nEis o diadema a que o poeta aspira; Porque lho negas? Que paix\u00e3o te inspirar Delas fizeste, \u00f3 mundo, o teu tesouro?<\/p>\n<p>Ai, n\u00e3o ; umas e outras as desprezas: As flores procuram as campinas,<br \/>\nPorque a turba, ao passar, calca as boninas, E o sopro das cidades as murchava.<br \/>\nAs l\u00e1grimas, as flores do sentimento, N\u00e3o as diviso j\u00e1 nos olhos do homem, Ou das paix\u00f5es as lavas as consomem,<br \/>\nOu morto \u00e9 o sentimento que as gerava.<\/p>\n<p>Fazes bem em passar, mundo, se ignoras<br \/>\nDesta cena a solene majestade,<br \/>\nImpass\u00edvel ficar era impiedade.<br \/>\nParte, vai; a indiferen\u00e7a era um insulto.<br \/>\nOh! mil vezes mais grato o isolamento&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o, o isolamento n\u00e3o existe:<br \/>\nJunto da campa se re\u00fane triste<br \/>\nLongo cortejo de lutuoso vulto.<\/p>\n<p>Ei-los; do vasto templo se avizinham, Trazem no rosto a dor, que os consome. Esses veneram do poeta o nome,<br \/>\nDo f\u00e9retro ao passar, curvam a fronte, Respeitai esse pranto, que \u00e9 sentido; Longe, indiferentes, que o lugar \u00e9 santo! Os que entenderam seu sublime canto, Sa\u00fadam-no ao sumir-se no horizonte I<\/p>\n<p>Sil\u00eancio! A P\u00e1tria do seu sono acorda! Sono talvez, que precursor da morte, Do filho s\u00f3 lamenta a triste sorte,<br \/>\n3eme saudosa com magoado acento! Ai, nos seus dias de passada gl\u00f3ria,<br \/>\nDe m\u00e3e o desespero a voz lhe erguera, E, em seu clamor, \u00e0s praias estendera<br \/>\nDas na\u00e7\u00f5es mais long\u00ednquas o alto alento.<\/p>\n<p>Mas hoje, j\u00e1 de for\u00e7as exaurida,<br \/>\n\u00c9 fraca a sua voz ante essa tumba;<br \/>\nDo peito vem, por\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o retumba<br \/>\nNos ecos das na\u00e7\u00f5es mais poderosas.<br \/>\nApenas sua irm\u00e3, a mais vizinha,<br \/>\nQue quase a mesma linguagem fala,<br \/>\nCompassiva parece lament\u00e1-la,<br \/>\nOuvindo suas queixas dolorosas.<\/p>\n<p>Poeta, dorme pois: a tua campa<br \/>\nN\u00e3o ficar\u00e1 sem l\u00e1grimas nem flores,<br \/>\nAs liras soltam f\u00fanebres clamores<br \/>\nE os ventos reproduzem suas queixas.<br \/>\nDorme, dorme, poeta, que teu sono<br \/>\nA turba inquietaria com seus passos;<br \/>\nMas qual o infante nos maternos bra\u00e7os,<br \/>\nDorme ao som dessas l\u00e2nguidas endeixas.<\/p>\n<p>Dorme, dorme em sossego&#8230; mas, sil\u00eancio! Para que solto a voz? Cala-te \u00f3 lira!<br \/>\nSe o g\u00eanio da poesia n\u00e3o te inspira, Para que o seu cultor lamentas triste? Diante da mudez deste sepulcro<br \/>\nTeus ais de dor, \u00f3 cora\u00e7\u00e3o, suspende;<br \/>\nV\u00ea em sil\u00eancio o Sol, que ao ocaso pende<br \/>\nComo em sil\u00eancio no z\u00e9nite o viste.<\/p>\n<p><b><br \/>\nMar\u00e7o de 1860.<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Obedeci a um impulso irresist\u00edvel escrevendo esta poesia.<br \/>\nAdmirei Soares de Passos durante a vida, como poeta, no seu livro; como homem, nas<br \/>\nsempre lembradas noites em que, entre poucos mas escolhidos amigos, v\u00edamos em sua<br \/>\ncasa correrem as horas como instantes e passarem as longas noites de Inverno como um<br \/>\nsonho delicioso e apraz\u00edvel. Foi ent\u00e3o que pudemos apreciar a pureza daquele caracter,<br \/>\naquela rigidez de princ\u00edpios, que nesta \u00e9poca de indiferentismo e ego\u00edsta especula\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncausava assombro a quantos o ouviam. Por isso, quando morreu, senti-o. como todos que<br \/>\nprezavam as letras p\u00e1trias e como todos que respeitam os caracteres elevados; mas senti-o<br \/>\ntamb\u00e9m, como ningu\u00e9m, pela dor que a sua morte deixava no cora\u00e7\u00e3o de seu irm\u00e3o, o mais sincero, desinteressado e generoso amigo que nunca hei encontrado. Tudo isto me levou a lamentar a sua morte, temer\u00e1ria empresa de onde me n\u00e3o podia sair bem.<\/p>\n<h2>UMA RECORDA\u00c7\u00c3 O<\/h2>\n<p>Lembra-me ver-te inda infante, Quando nos campos corrias<br \/>\nEm folguedos palpitantes; Eras bela! e ent\u00e3o sorrias.<\/p>\n<p>Depois, na inf\u00e2ncia, eras inda, Junto ao cad\u00e1ver rezavas<br \/>\nDe tua m\u00e3e, com dor infinda; Eras bela! e ent\u00e3o choravas.<\/p>\n<p>Num baile vi-te valsando<br \/>\nDa juventude nos dias,<br \/>\nTodos de amor fascinando;<br \/>\nEras bela! e ent\u00e3o sorrias.<\/p>\n<p>Dias depois encontrei-te; Nos c\u00e9us os olhos fitavas;<br \/>\nSem me veres contemplei-te; Eras bela! e ent\u00e3o choravas.<\/p>\n<p>Quando ao templo caminhando<br \/>\nEntre flores e alegrias,<br \/>\nDe esposa a vida encetando,<br \/>\nEras bela! e ent\u00e3o sorrias.<\/p>\n<p>Quando na campa do esposo<br \/>\nCom teu filho ajoelhavas,<br \/>\nGrupo inocente e saudoso!<br \/>\nEras bela! e ent\u00e3o choravas.<\/p>\n<p>Num ata\u00fade deitada<br \/>\nEu te vi em breves dias,<br \/>\nMimosa flor desfolhada!<br \/>\nEras bela! e ent\u00e3o sorrias.<\/p>\n<p>Sorrindo, na vida entraste, Sorrindo deixaste a vida; Alguma flor que encontraste A espinhos a viste unida.<\/p>\n<p>Sim, \u00e0s vezes tu sorrias, E os sorrisos o que s\u00e3o?<br \/>\nQuase sempre profecias<br \/>\nDas penas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>1857.<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Sorrisos e l\u00e1grimas andam muitas vezes acompanhados, uns<br \/>\npor os outros, na vida. Olhada por este lado. esta poesia \u00e9 verdadeira. Alguma coisa me<br \/>\npodiam dizer as minhas recorda\u00e7\u00f5es, para o provar, mas n\u00e3o seria absolutamente o que<br \/>\nescrevi. Neste ponto \u00e9 ela mentirosa. \u00c9 pecado de que me confesso arrependido.<\/p>\n<h2>\u00c9S BELA<\/h2>\n<p>Es bela, sim, quando, corando, foges<br \/>\nDum beijo perseguida;<br \/>\nOu quando cedes com mais pejo ainda,<br \/>\nMas na luta vencida.<\/p>\n<p>\u00c9s bela, sim, quando, banhada em l\u00e1grimas, Soltas mimosas queixas;<br \/>\nOu quando, comovida por maus prantos, J\u00e1 ameigar-te deixas.<\/p>\n<p>\u00c9s bela, sim, \u00e0 luz do Sol nascente<br \/>\nRegando tuas flores,<br \/>\nOu com os olhos no ocaso e o pensamento<br \/>\nNo pa\u00eds dos amores.<\/p>\n<p>\u00c9s bela sempre, e o mesmo fogo acendes<br \/>\nNo cora\u00e7\u00e3o do poeta;<br \/>\n\u00c9s bela sempre, \u00f3 linda flor do prado,<br \/>\n\u00d3 mimosa violeta,<\/p>\n<p><b>Mar\u00e7o de 1882.<\/b><\/p>\n<p>Quem te disse o segred o destas l\u00e1grimas,<br \/>\nPra assim me consolares?<br \/>\nQuem te disse que a dor que me angustiava<br \/>\nCedia aos teus olhares?<\/p>\n<p>Crian\u00e7a, onde aprendeste essa ci\u00eancia, Ignorada de tantos?<br \/>\nAlgum anjo do C\u00e9u \u00e9 quem te inspira<br \/>\nDo conforto os encantos?<\/p>\n<p>Oh! vem, vem junto a mim com teus sorrisos<br \/>\nLivrar-me destas trevas,<br \/>\nRir-te do meu ar l\u00fagubre, falar-me,<br \/>\nVem, que s\u00f3 tu me enlevas.<\/p>\n<p>Protegido por ti em c\u00edrculo m\u00e1gico, Desafio a tristeza,<br \/>\nQue onde a inf\u00e2ncia se mostra tudo folga,<br \/>\nHomens e natureza;<\/p>\n<p>Pra ti, pra tua idade descuidosa<br \/>\nSemeou Deus as flores,<br \/>\nDeu-te o cantar das aves por cortejo, Deu-te o C\u00e9u por amores.<\/p>\n<p>Vem, pois, os teus cabelos d&#8217;ouro puro<br \/>\nA pousar-me na fronte,<br \/>\nComo os raios do Sol cingindo as serras<br \/>\nAo surgir no horizonte.<\/p>\n<p>Vem, que junto de ti nem compreendo<br \/>\nEstes falsos tormentos;<br \/>\nMensageira celeste, s\u00ea bem-vinda,<br \/>\nLonge meus pensamentos!<\/p>\n<p>Quando, baixando a fronte, os olhos pousam<br \/>\nEm sorrisos de infantes,<br \/>\nEsquece-se o infort\u00fanio, os risos voltam<br \/>\nE erguemo-nos radiantes.<\/p>\n<p>Assim como nos rimos de teus ogos, Tu ris das nossas penas ;<br \/>\nAmbos somos crian\u00e7as, variando<br \/>\nNosso brinquedo apenas.<\/p>\n<p>Tu criaste uma vida imagin\u00e1ria<br \/>\nQue cede \u00e0 fantasia.<br \/>\nN\u00f3s co&#8217;a vida real tamb\u00e9m brincamos,<br \/>\nPor\u00e9m sem alegria.<\/p>\n<p><b>3 de Junho de 1862.<\/b><\/p>\n<h2>SAUDADE E ESPERAN\u00c7A<\/h2>\n<p>Ai n\u00e3o foi sonho, n\u00e3o. Era na inf\u00e2ncia, Duas vis\u00f5es queridas<br \/>\nAo lado do meu ber\u00e7o me sorriam<br \/>\nDe uma amorosa aur\u00e9ola cingidas;<\/p>\n<p>Eu sorria tamb\u00e9m. Vendo-as t\u00e3o belas, Por anjos as tomava,<br \/>\nE acordando dum sonho de inoc\u00eancia, Inda a mais gratos sonhos me entregava.<\/p>\n<p>E repetindo as ora\u00e7\u00f5es ferventes, Que \u00e0 voz da m\u00e3e ouvia,<br \/>\nOlhava-as, e julgava que era a elas<br \/>\nQue t\u00e3o sentidas preces dirigia.<\/p>\n<p>Quando as via, t\u00e3o jovens e j\u00e1 tristes, Olhar a m\u00e3e chorando,<br \/>\nEu cismava, e o infort\u00fanio pressentia, Vago ainda, os meus dias amea\u00e7ando.<\/p>\n<p>E o infort\u00fanio chegou. Era uma noite, E eu ainda infante<br \/>\nDespertei aos gemidos dolorosos<br \/>\nDas \u00f3rf\u00e3s junto \u00e0 m\u00e3e agonizante!<\/p>\n<p>Transportaram-me ao leito aonde a triste<br \/>\nLutara na .agonia,<br \/>\nEra tarde! A primeira vez na vida,<br \/>\nAo beij\u00e1-la, suas b\u00ean\u00e7\u00e3os n\u00e3o colhia I<\/p>\n<p>E as l\u00e1grimas, tao fluentes na inf\u00e2ncia<br \/>\nMeus olhos n\u00e3o banhavam!<br \/>\nEnt\u00e3o senti que os dias de ventura<br \/>\nCom ela para sempre me deixavam.<\/p>\n<p>Depois os mesmos anjos, que na inf\u00e2ncia<br \/>\nNo ber\u00e7o me sorriam,<br \/>\nEm vez das vestes c\u00e2ndidas d&#8217;outrora,<br \/>\nAgora negras t\u00fanicas cingiam.<\/p>\n<p>Nunca mais como a flor na Primavera<br \/>\nEu as vi radiantes;<br \/>\nMas sim como no Outono ela se ostenta,<br \/>\nPendendo as alvas p\u00e9talas fragrantes.<\/p>\n<p>Pobres flores! t\u00e3o cedo sem abrigo, Dia a dia enlanguescem<br \/>\nComo as que adornam virginais capelas, E ao fim dum baile pelo ch\u00e3o fenecem.<\/p>\n<p>Como c\u00e2ndidas pombas surpreendidas<br \/>\nPor furiosa tormenta,<br \/>\nVoam amedrontadas a acolher-se<br \/>\nJunto \u00e0 m\u00e3e que no seio as acalenta,<\/p>\n<p>Assim elas tamb\u00e9m amedrontadas<br \/>\nDas tormentas da vida<br \/>\nVoam pro C\u00e9u, e no materno seio<br \/>\nProcuram contra elas fiel guarida.<\/p>\n<p>Um dia eu vi-me s\u00f3! junto ao meu ber\u00e7o<br \/>\nOs anjos n\u00e3o sorriam,<br \/>\nNem sequer suas l\u00e1grimas saudosas<br \/>\nUma a uma nas faces me ca\u00edam.<\/p>\n<p>Passaram tempos, e da inf\u00e2ncia aos dias<br \/>\nSeguiu-se uma outra idade ;<br \/>\nMas nem o tempo, nem paix\u00f5es mais vivas<br \/>\nMe extinguiram a imagem da saudade.<\/p>\n<p>Ainda as vejo a ambas, quando \u00e0s vezes<br \/>\nEm sonhadas delicias,<br \/>\nRecordo o tempo da passada inf\u00e2ncia,<br \/>\nRecordo seu amor, suas car\u00edcias.<\/p>\n<p>Outras vezes, mais vago o pensamento, Num s\u00f3 anjo as confunde;<br \/>\nE ent\u00e3o adoro essa vis\u00e3o querida,<br \/>\nQue n&#8217;aima ignotas sensa\u00e7\u00f5es me infunde.<\/p>\n<p>Se a imagem delas \u00e9 como o crep\u00fasculo<br \/>\nDum dia j\u00e1 passado,<br \/>\nA nova imagem ser\u00e1 ainda aurora<br \/>\nDum dia ardentemente desejado?<\/p>\n<p>Meu Deus! a flor dos campos tamb\u00e9m murcha<br \/>\nVive um momento apenas;<br \/>\nMas depois nova quadra veste os prados<br \/>\nDe outro manto de rosas e a\u00e7ucenas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as flores de infantil idade<br \/>\nEu vi cair sem vida:<br \/>\nDeixa que a nova quadra dos vinte anos<br \/>\nSe adorne de uma t\u00fanica florida.<\/p>\n<h2>VIS\u00c3O<\/h2>\n<p>N\u00e3o \u00e9s real. Para o seres N\u00e3o foras, \u00f3 flor, t\u00e3o bela; Se \u00e0 mente Deus te revela, N\u00e3o te cria o mundo, n\u00e3o.<br \/>\nVegetas no peito do homem, Mas n\u00e3o h\u00e1 vi\u00e7oso prado<br \/>\nOnde te beije embriagado<br \/>\nO sopro da vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>MORENA<\/h2>\n<p>Morena, morena<br \/>\nDos olhos castanhos,<br \/>\nQuem te deu morena,<br \/>\nEncantos tamanhos?<\/p>\n<p>Encantos tamanhos N\u00e3o vi nunca assim. Morena, morena<br \/>\nTem pena de mim.<\/p>\n<p>Morena, morena<br \/>\nDos olhos rasgados,<br \/>\nTeus olhos, morena,<br \/>\nS\u00e3o os meus pecados.<\/p>\n<p>S\u00e3o os meus pecados Uns olhos assim. Morena, morena<br \/>\nTem pena de mim.<\/p>\n<p>Morena, morena Dos olhos galantes, Teus olhos morena<br \/>\nS\u00e3o dois diamantes.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois diamantes Olhando-me assim. Morena, morena Tem pena de mim.<\/p>\n<p>Morena, morena<br \/>\nDos olhos morenos,<br \/>\nO olhar desses olhos<br \/>\nConcede-me ao menos.<\/p>\n<p>Concede-me ao menos N\u00e3o sejas assim. Morena, morena<br \/>\nTem pena de mim.<\/p>\n<p align=\"right\"><b><br \/>\nDe As Pupilas do Sr. Reitor.<\/b><\/p>\n<h2>MOMENTO DECISIVO<\/h2>\n<p>O Sol descia ao poente,<br \/>\nE florente estava o prado ;<br \/>\nOuviam-se auras suaves<br \/>\nE das aves o trinado.<\/p>\n<p>Tu sentada ao p\u00e9 da fonte O horizonte contemplavas Vias o Sol declinando<br \/>\nE, corando, suspiravas.<\/p>\n<p>E depois&#8230; seria acaso?<br \/>\nDo ocaso a vista ergueste,<br \/>\nE, ao olhar-me, mais coraste,<br \/>\nSuspiraste e emudeceste.<\/p>\n<p>Foi bem r\u00e1pido o momento Dum alento repentino; Por\u00e9m nesse olhar de fogo Eu li logo o meu destino.<\/p>\n<p>Nesse olhar, no rubor vivo, No furtivo respirar&#8230;<br \/>\nDiz, tu mesma nessas letras<br \/>\nN\u00e3o soletras j\u00e1: amar?<\/p>\n<p><b>1860.<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; N\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil esta esp\u00e9cie de leitura, o sentido das letras<br \/>\n\u00e9 diferente, conforme os desejos do que as pretende decifrar e da\u00ed mil decep\u00e7\u00f5es e amar<br \/>\ngos desenganos.<br \/>\nEu n\u00e3o sei se li bem ou mal; mas \u00e9 certo que depois disso, o livro parece fechado&#8230;<br \/>\nnao descubro caracteres novos.<\/p>\n<h2>CULTO SECRETO<\/h2>\n<p>Ouve, l\u00e2nguida virgem das cidades, A paix\u00e3o que me inspiraste.<br \/>\nCurvada, como a flor em vaso d&#8217;ouro, Tu, bela, me encantaste.<\/p>\n<p>Eu vi-te assim pendida; a estrela d&#8217;alva<br \/>\nAo surgir do oriente<br \/>\nN\u00e3o nos envia mais saudosos raios<br \/>\nDo seu leito fulgente.<\/p>\n<p>A vira\u00e7\u00e3o da tarde, mais amena<br \/>\nNo bosque, n\u00e3o murmura;<br \/>\nA alva a\u00e7ucena, que o vergel enfeita,<br \/>\nN\u00e3o tem a cor mais pura.<\/p>\n<p>Eu vi-te, e desde ent\u00e3o sempre em meus sonhos<br \/>\nSurges, e magoada<br \/>\nPareces ver as vagas desta vida<br \/>\nNa margem debru\u00e7ada<\/p>\n<p>Vejo-te ent\u00e3o ainda, e pensativa, Os l\u00e1bios entreabertos,<br \/>\nMurmurando em sentida linguagem<br \/>\nPensamentos incertos.<\/p>\n<p>Vejo-te ainda, as l\u00e1grimas ferventes<br \/>\nDos olhos rebentando,<br \/>\nE, ao correrem nas faces, indiscretas,<br \/>\nSegredos revelando.<\/p>\n<p>Que segredo \u00e9 o teu, l\u00e3nguida virgem, Ideal dos meus amores?<br \/>\nQue imaginas nos sonhos dessas noites<br \/>\nT\u00e3o cheias de fulgores?<\/p>\n<p>Que mist\u00e9rio procuras no ocidente<br \/>\nAo desmaiar do dia?<br \/>\nOu que vis\u00e3o esperas, quando a aurora<br \/>\nCom rosas se anuncia?<\/p>\n<p>Que oculto sentimento reprimido<br \/>\nTe faz ansiar o seio?<br \/>\nQue \u00edntima dor, que pensamento acerbo?<br \/>\nQue indefinido enleio?<\/p>\n<p>Olha, se o cora\u00e7\u00e3o te ped e amores, Virgem, n\u00e3o chores, canta,<br \/>\nPara ti \u00e9 que s\u00e3o as flores da vida<br \/>\nE a luz que nos encanta.<\/p>\n<p>Tu, sim, podes amar; nas sacras aras<br \/>\nDessa chama inquieta,<br \/>\nAteia o sacro fogo com que inflamas<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o do poeta.<\/p>\n<p>Tu sim, podes amar; mas eu&#8230; se ao ver-te<br \/>\nInterrogo o futuro,<br \/>\nUma voz me murmura: \u00abAdora, m\u00e1rtir,<br \/>\nAdora, e morre obscuro\u00bb.<\/p>\n<h2>ENFIM !<\/h2>\n<p>Enfim! enfim! encontrei-te. Luz h\u00e1 tanto suspirada! Raiaste, aurora fadada<br \/>\nDum longo dia de amor! Resplandece, Sol brilhante Da primavera da vida!<br \/>\nSurge, surge, estrela querida, Que t\u00e3o grato \u00e9 teu fulgorl<\/p>\n<p>Se soubesses como ansioso Aguardava este momento, Que h\u00e1 tanto no pensamento Me aprazia em conceber!<br \/>\nSe soubesses, minha esp&#8217;ran\u00e7a, Que anelar ardente e incerto Na aridez deste deserto<br \/>\nMe fazia esperar e crer !<\/p>\n<p>Ai, bem-vinda, mensageira<br \/>\nDuma indiz\u00edvel ventura!<br \/>\nA uma vida de amargura,<br \/>\nRidente imagem, p\u00f5e fim!<br \/>\nPara longe esta tristeza,<br \/>\nVejo enfim formosos dias!<br \/>\nOh! d\u00e1-me, d\u00e1-me alegrias,<br \/>\nOue me cansa a vida assim!<\/p>\n<p>Qual a terra desflorida<br \/>\nPelas m\u00e3os do Inverno agreste,<br \/>\nQue de gelos a reveste,<br \/>\nE lhe afrouxa a luz do Sol;<br \/>\nCinge as vestes de verdura,<br \/>\nToda de amor palpitante,<br \/>\nQual virgem junto do amante<br \/>\nDa Primavera ao arrebol;<\/p>\n<p>Tal minh&#8217;alma envolta em trevas<br \/>\nDum passado de incerteza,<br \/>\nRasga o seu v\u00e9u de tristeza,<br \/>\nAo ver-te surgir, amor !<br \/>\nE num hino de alegria<br \/>\nSa\u00fada a risonha aurora,<br \/>\nQue deslumbrante a namora<br \/>\nCom fat\u00eddico fulgor,<\/p>\n<p>Bela flor, fragrante rosa<br \/>\nNos agros campos da vida,<br \/>\nEntre as outras escondida,<br \/>\nComo pudeste florir!<br \/>\nComo os vendavais furiosos<br \/>\nDas tempestades humanas,<br \/>\nEm suas f\u00farias insanas<br \/>\nTe n\u00e3o puderam ferir?<\/p>\n<p>Foi cond\u00e3o do C\u00e9u por certo, Foi talvez aura celeste<br \/>\nQue, ao nasceres, recebeste<br \/>\nE em ti se difundiu;<br \/>\nE, forte, desceste ao mundo,<br \/>\nBrilhando de luz divina;<br \/>\nEssa luz que me fascina,<br \/>\nQue nas trevas me sorriu I<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, tu, bela, aspiravas A um futuro vago ainda? Tamb\u00e9m uma dita infinda<br \/>\nTe pedia o cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nAi, conta-me os teus segredos,<br \/>\nOs teus sonhos, teus anelos,<br \/>\nConta-me, quero sab\u00ea-los:<br \/>\nTeus sentimentos meus s\u00e3o.<\/p>\n<p>Em que te vi meiga e bela, Quando tu, formosa estrela, Te elevaste no meu c\u00e9u, Uma voz misteriosa,<br \/>\nPrendendo-te em doce enleio, Segredar-te ao ouvido veio:<br \/>\n\u00abAma! teu dia nasceu!\u00bb<\/p>\n<p>Diz-me, se ao viver inquieto Por n\u00e3o sei que oculta chama N\u00e3o sucede, quando se ama, Uma exist\u00eancia de paz?<br \/>\nSe no horizonte sombrio, Novo astro fulgurando,<br \/>\nLong\u00ednquas praias mostrando, Venturas ver-te n\u00e3o faz?<\/p>\n<p>Conta-me a vida passada Antes do m\u00e1gico instante Em que te vi radiante Meiga vis\u00e3o a sorrir.<br \/>\nDiz-me os teus jogos da inf\u00e2ncia<br \/>\nAs l\u00e1grimas que verteste,<br \/>\nAs penas que padeceste,<br \/>\nSem eu as poder sentir.<\/p>\n<p>Tu choravas! quando longe<br \/>\nEu de ti, talvez sorria!<br \/>\nTu choravas! e eu podia<br \/>\nT\u00e3o indiferente viver!<br \/>\nOh! n\u00e3o! m\u00edstica influ\u00eancia,<br \/>\nQue dois entes num s\u00f3 liga,<br \/>\nEmbora longe, os obriga<br \/>\nUm com outro a padecer.<\/p>\n<p>E \u00e9 esse, esse o segredo<br \/>\nDa tristeza indefinida,<br \/>\nQue em certas horas da vida<br \/>\nNos oprime o cora\u00e7\u00e3o;<br \/>\nEsse o segredo das l\u00e1grimas, Que de olhos virg\u00edneos correm,<br \/>\nE dos suspiros que morrem<br \/>\nNas asas da vira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Mas deixemos o passado, Suas penas, suas dores, Deixemos auras melhores<br \/>\nNos manda o porvir de al\u00e9m, Qual no meio do oceano,<br \/>\nAp\u00f3s long\u00ednqua viagem,<br \/>\nAo nauta fragrante aragem<br \/>\nDa P\u00e1tria falar-lhe vem.<\/p>\n<p>Em que mago encantamento Esta dita a alma me embebe ! S\u00f3 quem o sente o concebe; N\u00e3o se exprime este prazer! Bem hajas, c\u00e2ndida virgem! Bem hajas tu, que no seio<br \/>\nDe aspira\u00e7\u00f5es todo cheio,<br \/>\nO amor fizeste nascer!<br \/>\n*<br \/>\nAdeus pois, passado triste, Longas horas de amargura; Adeus, paz da sepultura, Sem encantos para mim; Adeus sofrimentos vagos, Adeus, febris pensamentos;<br \/>\nEsperam-me outros momentos, Que o amor surgiu enfim.<\/p>\n<p>Acorda pois, \u00f3 minh&#8217;alma, Chegou enfim tua festa;<br \/>\nE qual se adorna a floresta Da manh\u00e3 ao grato alvor, Veste tamb\u00e9m tuas galas,<br \/>\nO teu mais florido manto E leva um sentido canto Ao sol da vida, ao amor<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Julho de 1859.<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. \u2014Em vez de \u2014enfim \u2014 antes lhe devera chamar \u2014 rebate falso. A ser mais de que um sonho, n\u00e3o passou de um desejo. N\u00e3o se deve portanto tirar ila\u00e7\u00f5es arrojadas porque seriam falsas.<\/p>\n<h2>METAMORFOSE<\/h2>\n<p>Repara: \u2014 a im\u00f3vel cris\u00e1lida<br \/>\nJ\u00e1 se agitou inquieta,<br \/>\nCedo, rasgando a mortalha,<br \/>\nRessurgir\u00e1 borboleta.<\/p>\n<p>Que misteriosa influ\u00eancia<br \/>\nA metamorfose opera!<br \/>\nUm raio de Sol, um sopro<br \/>\nAo passar, a vida gera.<\/p>\n<p>Assim minh&#8217;alma, inda ontem<br \/>\nCris\u00e1lida entorpecida,<br \/>\nJ\u00e1 hoje treme, e amanh\u00e3<br \/>\nVoar\u00e1 cheia de vida.<\/p>\n<p>Tu olhaste \u2014 e do letargo Mago influxo me desperta; Surjo ao amor, surjo \u00e0 vida,<br \/>\n\u00c0 luz de uma aurora incerta.<\/p>\n<p><b><br \/>\n1 de Maio de 1860.<\/b><\/p>\n<p>Onde vai teu pensamento<br \/>\nQuando, os olhos elevando,<br \/>\nSegues das aves ligeiras<br \/>\nEsse harmonioso bando?<\/p>\n<p>Que te dizem os gorjeios Dessas pobres foragidas, Que v\u00e3o procurar ao longe<br \/>\nOutras selvas mais floridas?<\/p>\n<p>Acaso temes, como elas,<br \/>\nAs nuvens negras, pesadas,<br \/>\nE os ventos que descem r\u00e1pidos<br \/>\nDas altas serras nevadas?<\/p>\n<p>Acaso invejas as asas<br \/>\nDesses plumosos viajantes?<br \/>\nAcaso aspiras \u00e0 vida<br \/>\nNoutros climas mais distantes?<\/p>\n<p>N\u00e3o, querida, n\u00e3o receies<br \/>\nDo Inverno os duros rigores;<br \/>\nQuando do Sol falta a chama<br \/>\nBrilha a chama dos amores<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o para n\u00f3s mais l\u00facidas<br \/>\nAs noites que o pr\u00f3prio dia?<br \/>\nQue onde a luz do c\u00e9u falece,<br \/>\nA paix\u00e3o \u00e9 que alumia.<\/p>\n<p>E o gelo, que as pobres aves Na relva prostra sem vida, Fundir-se-\u00e1 ao fogo ardente<br \/>\nDa nossa paix\u00e3o, querida.<\/p>\n<p><b><br \/>\n18 de Outubro de 1862.<\/b><\/p>\n<h2>A CABREIRA<\/h2>\n<p>Andava a pobre cabreira O seu rebanho a guardar Desde que rompia o dia At\u00e9 a noite fechar.<\/p>\n<p>De pequenina nos montes N\u00e3o tivera outro brincar. Nas canseiras do trabalho Seus dias vira passar.<\/p>\n<p>Sentada no alto da serra<br \/>\nP\u00f4s-se a cabreira a chorar.<br \/>\nPorque chorava a cabreira<br \/>\nIdes agora escutar:<\/p>\n<p>\u00abAi! que triste a sina minha, Ai! que triste o meu penar, Que n\u00e3o sei d e pai nem m\u00e3e Nem de irm\u00e3os a quem amar,<\/p>\n<p>\u00abDe pequenina nos montes Nunca tive outro brincar. Nas canseiras do trabalho Meus dias vejo passar.\u00bb<\/p>\n<p>Mas, ao desviar seus olhos Viu coisa que a fez pasmar: Uma cabra toda branca<br \/>\nSe lhe fora aos p\u00e9s deitar I<\/p>\n<p>Branca toda, como a neve, Que nem se deixa fitar, Coberta de finas sedas<br \/>\nQue era coisa singular!<\/p>\n<p>Nunca a tinha visto ante3<br \/>\nNo seu rebanho a pastar,<br \/>\nE foi a fazer-lhe festa&#8230;<br \/>\nE foi para a afagar&#8230;<\/p>\n<p>Eis vai a cabra fugindo Pelos vales sem parar ; Ia a cabreira atr\u00e1s dela<br \/>\nMas n\u00e3o a p\u00f4de alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>E andaram assim tr\u00eas dias<br \/>\nE tr\u00eas noites, sempre a andar!<br \/>\nAt\u00e9 que \u00e0s portas de uns pa\u00e7os<br \/>\nAfinal foram parar.<\/p>\n<p>Chorava o&#8217; rei e a rainha H\u00e1 dez anos, sem cessar, Que lhe roubaram a filha Numa noite de luar.<\/p>\n<p>E dez anos s\u00e3o passados<br \/>\nSem mais dela ouvir falar;<br \/>\nEis chega a cabreira \u00e0 porta<br \/>\nA porta se foi sentar.<\/p>\n<p>\u00abAi que bonita cabreira<br \/>\nQue l\u00e1 em baixo vejo estar!<br \/>\nE uma cabra toda branca<br \/>\nQue nem se deixa fitar.<\/p>\n<p>\u00abMeus criados e escudeiros, Ide a cabreira buscar.\u00bb<br \/>\nIsto dizia a rainha,<br \/>\nEste foi o seu mandar.<\/p>\n<p>Foram buscar a cabreira<br \/>\nE a cabra de a acompanhar<br \/>\nAt\u00e9 \u00e0s salas do pa\u00e7o<br \/>\nOnde o rei a viu chegar.<\/p>\n<p>\u00abPela minha c&#8217;roa de ouro Eu quero agora apostar, Que \u00e9 esta a filha roubada Numa noite de luar.\u00bb<\/p>\n<p>Milagre! quem tal diria! Quem tal pudera contar! A cabrinha toda branca Ali se p\u00f4s a falar:<\/p>\n<p>\u00abEsta \u00e9 a filha roubada<br \/>\nNuma noite de luar,<br \/>\nAndou dez anos no monte<br \/>\nQuem nasceu para reinar!\u00bb<\/p>\n<p>Que alegrias v\u00e3o nos pa\u00e7os! E que festas sem cessar!<br \/>\nA filha h\u00e1 tanto perdida<br \/>\nNo trono os pais v\u00e3o sentar.<\/p>\n<p>E v\u00eam damas pra vesti-la<br \/>\nE v\u00eam damas pra cal\u00e7ar;<br \/>\nE as mais prendadas de todas<br \/>\nPara as trancas lhe enfeitar.<\/p>\n<p>V\u00e3o procurar a cabrinha&#8230; Ningu\u00e9m a p\u00f4de encontrar; Mas um anjo de asas brancas Viram aos C\u00e9us a voar.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>De As Pupilas do Sr Reitor.<\/b><\/p>\n<h2>NUVENS<\/h2>\n<p>V\u00eas as nuvens no azul do firmamento<br \/>\nDe brancuras ofuscantes,<br \/>\nComo impelidas por tuf\u00e3o violento<br \/>\nSe formam em legi\u00f5es extravagantes?<\/p>\n<p>Olha; acol\u00e1, reunidas uma a uma, Um trono simbolizam;<br \/>\nAli, rasgam-se em flocos, como a espuma<br \/>\nDas vagas crespas que em areais deslizam.<\/p>\n<p>Mais longe, v\u00eas? as massas vaporosas<br \/>\nInforme monstro imitam,<br \/>\nE al\u00e9m, tingidas pela cor das rosas,<br \/>\nPa\u00e7os que ocultas m\u00e1gicas habitam.<\/p>\n<p>Agora, vastos p\u00f3rticos, ogivas, E um longo peristilo,<br \/>\nColunas, capiteis, arcadas vivas,<br \/>\nArquitecturas de ignorado estilo.<\/p>\n<p>Logo por esses plainos dispersadas<br \/>\nPelo sopro do vento,<br \/>\nComo n\u00edveos cordeiros \u00e0s manadas<br \/>\nSucedem-se velozes cento a cento:<\/p>\n<p>Ora parecem gigantescas serras<br \/>\nCom seus eternos gelos;<br \/>\nOra plan\u00edcies de nevadas terras,<br \/>\nE das \u00e1guas boreais os caramelos:<\/p>\n<p>Ali nos representam funda gruta<br \/>\nE rochas diamantinas;<br \/>\nAcol\u00e1, mil ex\u00e9rcitos em luta;<br \/>\nMais al\u00e9m, mil cidades em ruinas.<\/p>\n<p>E sabes tu no que essas formas vagas<br \/>\nPerto de n\u00f3s se tornam!<br \/>\nDize, quando no prado a s\u00f3s divagas,<br \/>\nTens visto as gotas que o vergel adornam?<\/p>\n<p>Pois s\u00e3o esses os tronos deslumbrantes, A ogiva preciosa,<br \/>\nOs fustes das colunas de diamantes, E encantados pal\u00e1cios cor-de-rosa.<\/p>\n<p>Esse vasto espect\u00e1culo dos ares, Essas m\u00e1gicas cenas,<br \/>\nA que presos est\u00e3o nossos olhares,<br \/>\nV\u00ea-los ao perto? s\u00e3o orvalho apenas.<\/p>\n<p>Bem assim os projectos, \u00e1ureos sonhos<br \/>\nQue na vida sonhamos;<br \/>\nBelos fantasmas, f\u00falgidos, risonhos,<br \/>\nQue nos c\u00e9us do futuro divisamos.<\/p>\n<p>Pois que junto de n\u00f3s, essas imagens, Essa vis\u00e3o querida,<br \/>\nDesvanecem-se, p\u00e9rfidas miragens, Fundem-se como a neve derretida;<\/p>\n<p>Esp&#8217;ran\u00e7a no porvir, nuvens formosas, Em que assim te deleitas,<br \/>\nCom esse orvalho que humedece as rosas<br \/>\nH\u00e1s-de v\u00ea-las em l\u00e1grimas desfeitas.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>4 de Setembro de 1862<\/b><\/p>\n<h2>LAVA OCULTA<\/h2>\n<p>N\u00e3o me entendes? n\u00e3o suspeitas<br \/>\nQue esta frieza \u00e9 fingida?<br \/>\nN\u00e3o v\u00eas, .cega, que envolvida Est\u00e1 nela ardente paix\u00e3o?<br \/>\nQuando teus olhares evito, Quando julgas que medito,<br \/>\nN\u00e3o compreendes que me agito<br \/>\nEm profunda inquieta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E julgas isto frieza?<br \/>\nJulgas que o meu peito \u00e9 gelo? Se o que sinto n\u00e3o revelo,<br \/>\nJulgas que isso \u00e9 n\u00e3o sentir? Ai, louca, que assim te iludes;<br \/>\nUm momento que me estudes, Ver\u00e1s que tortnentas rudes<br \/>\nMe est\u00e3o no peito a brarnir.<\/p>\n<p>Se a m\u00e3o te cinjo \u00e0 partida, N\u00e3o a sentes vacilante?<br \/>\nDiz, n\u00e3o v\u00eas como inconstante Busco e evito o teu olhar? Chamas<br \/>\na isto indiferen\u00e7a? N\u00e3o \u00e9, n\u00e3o, repara, pensa;<br \/>\nE o amor que se condensa<br \/>\nPara mais me devorar.<\/p>\n<p>E tu n\u00e3o sentes&#8230; nem podes ; Pra que os olhos vejam tanto, E, sob<br \/>\nindiferente manto, Descubram violento amor,<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o basta olhar somente; O que o peito n\u00e3o pressente,<br \/>\nS\u00f3 quando fora rebente<br \/>\nPode aos olhos ter valor&#8230;<\/p>\n<p>E o teu cora\u00e7\u00e3o&#8230; outrora Esperei que me entendesse; Julguei<br \/>\nque nunca esquecesse O que na inf\u00e2ncia nasceu,<br \/>\nE com os olhos no futuro Caminhei firme e seguro, E nunca este culto puro<br \/>\nNo peito me adormeceu-<\/p>\n<p>Mas tu&#8230; Essa flor singela<br \/>\nDa afei\u00e7\u00e3o que nos unia<br \/>\nSe definhava e morria<br \/>\nDesde que outra flor surgiu; Cenas da inf\u00e2ncia, folguedos, Seus sorrisos,<br \/>\nseus segredos, Passam, como nos olmedos,<br \/>\nA folha que ao ch\u00e3o caiu.<\/p>\n<p>E por isso as esqueceste;<br \/>\nEu n\u00e3o; que ent\u00e3o j\u00e1 no seio<br \/>\nOcultava com receio<br \/>\nMais do que infantil amor. Quando, s\u00f3, em ti pensava, E s\u00f3 contigo<br \/>\nme achava, N\u00e3o te lembras? j\u00e1 corava, Nem pra mais tinha valor.<\/p>\n<p>Cresci, e esta id\u00e9ia sempre<br \/>\nAfagava na lembran\u00e7a;<br \/>\nSempre, sempre esta esperan\u00e7a, Sempre, sempre esta ilus\u00e3o!<br \/>\nIlus\u00e3o, sim, era apenas; Todas as passadas cenas E recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\namenas Riscou-tas nova paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi uma noite. Esta id\u00e9ia Inda a conservo bem viva, Cada dia mais<br \/>\nse aviva<br \/>\nPra mais me fazer sentir; Desde ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o me iludo,<br \/>\nFoi uma noite; vi tudo,<br \/>\nE fiquei gelado, mudo,<br \/>\nSem esperan\u00e7as, sem porvir I<\/p>\n<p>Um outro estranho, que importa? Te falava com meiguice<br \/>\nE \u00e0s palavras que te disse<br \/>\nTu sorriste e ele sorriu, E, desumana, n\u00e3o vias<br \/>\nQue o amigo de outros dias, De cada vez que sorrias, Cru\u00e9is ang\u00fastias<br \/>\nsentiu!<\/p>\n<p>Ai, noite de ins\u00f3nia aquela! Tu cai\u00e7aras o passado,<br \/>\nNem talvez nunca pensado<br \/>\nHavias nele como eu ;<br \/>\nQuis esquecer-te, vingar-me, A outro amor entregar-me, Mas s\u00f3 consegui<br \/>\ncansar-me; Este amor permaneceu.<\/p>\n<p>At\u00e9 quando? S\u00f3 Deus sabe. Comprimido ele floresce, Mas vive,<br \/>\nmas n\u00e3o fenece,<br \/>\nQue j\u00e1 da inf\u00e2ncia ele vem;<br \/>\nTu n\u00e3o v\u00eas, que uma outra chama<br \/>\nH\u00e1 muito teu seio inflama, E quando deveras se ama,<br \/>\nV\u00ea-se o amante e mais ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>Bom \u00e9 pois que n\u00e3o suspeites<br \/>\nQue esta frieza \u00e9 mentida, Que n\u00e3o vejas que envolvida Oculta<br \/>\nardente paix\u00e3o.<br \/>\nQuando teus olhares evito, Quando julgas que medito, Nunca saibas que me agito<br \/>\nEm profunda inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Abril de 1860.<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Esta poesia \u00e9 um enigma, que eu n\u00e3o decifrarei. Isto quase<br \/>\neq\u00fci. vale a dizei que ficar\u00e1 sendo um enigma para todos e para sempre talvez.<br \/>\nFoi escrita o ano passado e esquecida. Encontrei-a, fiz-lhe algumas modifica\u00e7\u00f5es<br \/>\n. inclui-a nesta colec\u00e7\u00e3o. \u00c9 em grande parte imagin\u00e1ria.<\/p>\n<h2>PRESS\u00c1GIO<\/h2>\n<p>Era em florente Junho; A Lua se ostentava Serena em seu brilhar; A brisa<br \/>\nna alameda Saudosa suspirava<br \/>\nNas folhas ao passar.<\/p>\n<p>Contigo, eu s\u00f3 no bosque<br \/>\nOuvia-te, tao triste,<br \/>\nSoltar, mais triste, a voz;<br \/>\nFalavas magoada<br \/>\nDa paz que s\u00f3 existe<br \/>\nDa fria morte ap\u00f3s.<\/p>\n<p>E os olhos lacrimosos<br \/>\nFitavas nos espa\u00e7os<br \/>\nDa mais amena cor,<br \/>\nComo se desejasses<br \/>\nRomper terrenos la\u00e7os<br \/>\nE o azul do c\u00e9u transpor.<\/p>\n<p>Calado eu te fitava,<br \/>\nPor\u00e9m ao ver-te o pranto<br \/>\nBanhar-te a face assim,<br \/>\nN\u00e3o sei que dor pungente,<br \/>\nN\u00e3o sei que mago encanto,<br \/>\nMe fez falar-te enfim.<\/p>\n<p>E disse-te: \u00abN\u00e3o chores, Na Terra \u00e9 tudo flores, No C\u00e9u<br \/>\n\u00e9 tudo luz.<br \/>\nEscuta os sons do bosque, Respira os seus odores,<br \/>\nO aroma que seduz.\u00bb<\/p>\n<p>Olhaste-me e sorriste; E quanto n\u00e3o diziam Ent\u00e3o os olhos<br \/>\nteus! Qu\u00e3o \u00edntima tristeza,<br \/>\nQue dor n\u00e3o reflectiam<br \/>\nQuando os erguestes aos c\u00e9us!<\/p>\n<p>E eu ficava mudo, Olhando-te inquieto,<br \/>\nSem bem te compreender; E um ramo de cipreste,<br \/>\nO arbusto teu dilecto, Vieste-me oferecer.<\/p>\n<p>\u00abBem v\u00eas, da campa \u00e0 beira Tamb\u00e9m a flor rebenta\u00bb,<br \/>\nDisseste-me a sorrir,<br \/>\n\u00abTamb\u00e9m no ch\u00e3o da morte De seiva se alimenta, Tamb\u00e9m<br \/>\na v\u00eas florir.<\/p>\n<p>\u00abQuem vir esta campina<br \/>\nVirente e matizada<br \/>\nVi\u00e7ar \u00e0 luz do Sol,<br \/>\nDir\u00e1, que neste manto<br \/>\nSe envolve a fria ossada<br \/>\nDo morto em seu len\u00e7ol!\u00bb<\/p>\n<p>De novo emudeceste,<br \/>\nE eu, triste, contemplei-te:<br \/>\nMas n\u00e3o, n\u00e3o te entendi,<br \/>\nParecia que na m\u00e1goa<br \/>\nAchavas um deleite,<br \/>\nQual nunca igual senti!<\/p>\n<p>Mas cedo teus perfumes<br \/>\nDa Terra aos C\u00e9us subiram,<br \/>\nE soube tudo ent\u00e3o!<br \/>\nEra uma voz prof\u00e9tica<br \/>\nDas que o poeta inspiram,<br \/>\nFalando ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No meio dos festejos Da estiva natureza, Sentias s\u00f3 a dor,<br \/>\nVias a campa aberta<br \/>\nE em sua profundeza<br \/>\nSumir-se a esp&#8217;ran\u00e7a em flor.<\/p>\n<p>E hoje, sim, compreendo Tua conversa triste, Quando comigo a s\u00f3s&#8230;<br \/>\nE porque a entende agora? N\u00e3o sei. Talvez existe<br \/>\nEm mim a mesma voz.<\/p>\n<p>Oh! sim, ele me mostre<br \/>\nNo meio destas galas,<br \/>\nQue vejo em torno de mim,<br \/>\nA terra h\u00famida e fria,<br \/>\nDo cemit\u00e9rio as valas<br \/>\nE o esquecimento enfim.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Abril de 1860<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Esta \u00e9 filha de um momento de spleen. Pareceu-me verdadeira<br \/>\nent\u00e3o, hoje n\u00e3o. Estes pensamentos l\u00fagubres acometem-me de quando em quando,<br \/>\nmas passam. Estando dominado por eles, acho nesta produ\u00e7\u00e3o um valor que. depois,<br \/>\ndebalde lhe procuro. N\u00e3o \u00e9 decerto no primeiro caso que melhor a avalio no<br \/>\nque ela vale. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o tenha os seus momentos de hipocondria,<br \/>\nmuitos com menos raz\u00f5es do que eu. Desculpem-me portanto os efeitos de um<br \/>\ndesses momentos.<\/p>\n<h2>JUNT O A UMA CAMPA<\/h2>\n<p>Que seria de ti, se desfolhada<br \/>\nN\u00e3o fosses, linda flor, no ch\u00e3o da morte?<br \/>\nQuem pode ler na p\u00e1gina cerrada<br \/>\nDo livro do futuro a ignota sorte?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m; e quantas vezes iludidos<br \/>\nChoramos o que \u00e9 n\u00fancio de ventura?<br \/>\nQuantas, na esperan\u00e7a de prazeres mentidos,<br \/>\nVemos luz onde tudo \u00e9 noite escura?<\/p>\n<p>Que seria de ti? N\u00e3o sei. Se escuto<br \/>\nA voz do cora\u00e7\u00e3o, fala de amores.<br \/>\nMas quem me diz que a dor com que hoje luto<br \/>\nN\u00e3o findar\u00e1 com o aroma doutras flores?<\/p>\n<p>Que me diz que minh&#8217;alma, que palpita<br \/>\nAo recordar-te, \u00f3 virgem desditosa,<br \/>\nN\u00e3o viria inda um dia a ser precita<br \/>\nAo fogo da paix\u00e3o mais poderosa?<\/p>\n<p>Quem sane ? Tudo muda: o peito do homem<br \/>\nComo a ondulante face do oceano;<br \/>\nA um volvem as paix\u00f5es que nos consomem,<br \/>\nA outro as f\u00farias do vento v\u00e1rio e insano<\/p>\n<p>Tudo muda! E meu seio n\u00e3o se exime Da eterna lei que reg e este universo:<br \/>\nB\u00ean\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o. Ela se exprime<br \/>\nSem cessar na exist\u00eancia desde o ber\u00e7o.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o se no porvir o ardente culto Que eu te votava, \u00f3 sombra<br \/>\nidolatrada, Tivesse de findar, antes sepulto<br \/>\nSeja todo este amor na urna gelada.<\/p>\n<p>Foste feliz talvez, talvez na vida<br \/>\nTivesses de provar amarga ta\u00e7a,<br \/>\nE hoje \u00e0 sombra da campa, adormecida<br \/>\nColhes a prec e e o pranto de quem passa.<\/p>\n<p>Vivias para amar, morreste amando, Morreste rodeada do perfume<br \/>\nDa divindade, e virgem, n\u00e3o ansiando<br \/>\nNo pungir aflitivo do ci\u00fame.<\/p>\n<p>Morreste amando e amada. Sobre o leito<br \/>\nOnde tombaste in\u00e2nime, sentiste<br \/>\nA sacra chama que me enchia o peito<br \/>\nE na extrema agonia inda sorriste.<\/p>\n<p>N\u00e3o devo lamentar-te, n\u00e3o. Podias<br \/>\nSentir na vida dores que ignoraste;<br \/>\nE eu mesmo, a quem do t\u00famulo sorrias,<br \/>\nTalvez te desse a coroa, que enjeitaste;<\/p>\n<p>A coroa do mart\u00edrio, que a n\u00e3o colhe Quem verga, como tu,<br \/>\nt\u00e3o cedo \u00e0 terra; Mas sim quem vive e ao t\u00famulo se colhe<br \/>\nDepois de transes de porfiada guerra.<\/p>\n<p>Eu li na descri\u00e7\u00e3o de antigas viagens<br \/>\nO destino de um n\u00e1ufrago, que os ventos<br \/>\nSobre parc\u00e9is e inc\u00f3gnitas voragens<br \/>\nDe longe arremessaram violentos.<\/p>\n<p>Ia a desfalecer, no h\u00famido abismo Buscando o \u00faltimo leito e<br \/>\no eterno olvido, Mas no esfor\u00e7o do extremo paroxismo<br \/>\nFirmou-se \u00e0s rochas de um penhasco erguido.<\/p>\n<p>E salvou-se! prostrado sobre as<br \/>\nAo Eterno com j\u00fabilo agradece ;<br \/>\nE, olhando ao longe as furiosas vagas,<br \/>\nDo destino dos mais se compadece.<\/p>\n<p>Mas bem cedo na est\u00e9ril penedia Colheu o triste amargo desengano,<br \/>\nVendo seguir-se um dia ap\u00f3s um dia, E tudo s\u00f3 na vastid\u00e3o<br \/>\ndo oceano.<\/p>\n<p>Era a mudez da campa! Em passos lentos<br \/>\nSe aproximava a descarnada fome;<br \/>\nLongos dias de horr\u00edficos tormentos<br \/>\nA preceder-lhe um t\u00famulo sem nome!<\/p>\n<p>At\u00e9 que enfim o pobre, quase louco, Pra fugir \u00e0 tortura que<br \/>\no devora,<br \/>\nNas pr\u00f3prias ondas, que evitara h\u00e1 pouco, Busca o ref\u00fagio,<br \/>\no passamento, agora!<\/p>\n<p>Nos naufr\u00e1gios da vida, quantas vezes N\u00f3s, pobres nautas,<br \/>\no furor das vagas Vencemos, pra mais r\u00edspidos reveses Irmos sofrer<br \/>\nem solit\u00e1rias plagas!<\/p>\n<p>Feliz o que sucumbe na tormenta;<br \/>\nUm instante de ang\u00fastia&#8230; e o eterno sono<br \/>\nO livra do mart\u00edrio que experimenta<br \/>\nO que sofre na Terra o abandono.<\/p>\n<p>Feliz pois tu, que cedo desfolhada Ca\u00edste, \u00f3 bela flor, no<br \/>\nch\u00e3o da morte; Quem sabe o que na p\u00e1gina cerrada Do livro seu<br \/>\nte reservava a sorte?<\/p>\n<p align=\"right\"><b>20 de Dezembro de 1861<\/b><\/p>\n<h2>A ESPERAN\u00c7A<\/h2>\n<p>No passado, uma saudade, No presente, uma amargura, E no futuro, uma esp&#8217;ran\u00e7a<br \/>\nDe imagin\u00e1ria ventura;<\/p>\n<p>Eis no que consiste a vida Imposta por Deus ao homem. Nisto se consomem<br \/>\ndias!<br \/>\nNisto anos se consomem!<\/p>\n<p>Saudade \u00e9 flor sem perfumes<br \/>\nQuando ainda verdejante,<br \/>\nMas \u00e0 medida que murcha,<br \/>\nAi, que aroma inebriante!<\/p>\n<p>A amargura \u00e9 duro espinho Que nas carnes penetrando, Faz desesperar<br \/>\nda vida,<br \/>\nSuas flores definhando.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9 frouxa luz<br \/>\nQue nas trevas nos fulgura;<br \/>\nVendo-a, ousados caminhamos:<br \/>\nMas, ai, que bem pouco dura;<\/p>\n<p>Quantos mais passos andados Na agra senda desta vida, Mais amargo \u00e9<br \/>\no presente,<br \/>\nE a saudade mais sentida.<\/p>\n<p>Mas a esperan\u00e7a n\u00e3o; os anos Fazem-lhe perde r o brilho; Caem-lhe<br \/>\numa a uma as folhas Da exist\u00eancia pelo trilho.<\/p>\n<p>A velhice nada espera,<br \/>\nNada da esperan\u00e7a lhe dura&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o, cansada da vida,<br \/>\nTem a paz da sepultura.<\/p>\n<p>Tem a morada fulgente<br \/>\nDa intelig\u00eancia divina;<br \/>\nTem as regi\u00f5es sagradas,<br \/>\nQue eterno sol ilumina.<\/p>\n<p>Bendito sejas, meu Deus! Que nos d\u00e1s na vida inteira<br \/>\nA filha dos c\u00e9us, a esperan\u00e7a, Por suave companheira.<\/p>\n<p>Ela nos enxuga o pranto<br \/>\nO pranto alegre e amargoso;<br \/>\nN\u00e3o a acusemos de p\u00e9rfida,<br \/>\nEsperar j\u00e1 \u00e9 um gozo.<\/p>\n<p>A mente, esperando, concebe, Concep\u00e7\u00e3o sempre iludida, Prazeres<br \/>\ntalvez entrevistos<br \/>\nNas cenas duma outra vida.<\/p>\n<p>Esperemos, pois, companheiros<br \/>\nDesta fadigosa viagem!<br \/>\nSe a esp&#8217;ran\u00e7a \u00e9 a imagem do gozo,<br \/>\nAdoremos essa imagem.<\/p>\n<p>E cruzando este oceano Com os olhos no porvir. Esque\u00e7amos no presente<br \/>\nSeu horroroso bramir.<\/p>\n<p>E quando enfim, j\u00e1 cansados, Reclinarmos nossa fronte.<br \/>\nQue a esperan\u00e7a nos revele<br \/>\nMais dilatado horizonte.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Agosto de 1859.<\/b><\/p>\n<h2>ILUDAMO-NOS<\/h2>\n<h2>Desenganos do passado, N\u00e3o servireis ao porvir? Sempre a perde r<br \/>\nilus\u00f5es Sempre ilus\u00f5es a sentir!<\/h2>\n<p>N\u00e3o mais, n\u00e3o mais; nesta vida<br \/>\nAinda esperar \u00e9 loucura.<br \/>\nSofrer: eis nosso destino!<br \/>\nSonhar: eis toda a ventura!<\/p>\n<p>Soframos pois&#8230; N\u00e3o, sonhemos, Criando mundos ideais,<br \/>\nE com mentidos prazeres<br \/>\nCuremos penas reais.<\/p>\n<p>Ilus\u00f5es, sede bem-vindas, Povoai-me o pensamento: Convosco, sim,<br \/>\na ventura Se goza per um momento.<\/p>\n<h2>O ANJO DA GUARDA DA INF\u00c2NCIA<\/h2>\n<p>Desci dor celestes coros, Por Deus mandada escutar<br \/>\nDa inf\u00e2ncia as queixas e os choros, Para lhos ir confiar.<\/p>\n<p>Desci. Na terra, nos mares<br \/>\nTanta mis\u00e9ria encontrei,<br \/>\nQue os meus magoados olhares<br \/>\nDe terra e mar desviei.<\/p>\n<p>Desci. E tantos gemidos, T\u00e3o dolorosos ouvil<br \/>\nQue, turbados os sentidos, Quis recuar&#8230; mas desci.<\/p>\n<p>Nesta colheita de dores Pelo mundo todo andei, No pranto dos pecadores As<br \/>\nminhas vestes molhei.<\/p>\n<p>Vagueando dias e dias<br \/>\nChegara \u00e0 Judeia enfim,<br \/>\nQuando um clamor de agonias<br \/>\nVeio de longe at\u00e9 mim.<\/p>\n<p>O Sol, o Sol inflamado Destas terras orientais Tinha no disco afogueado<br \/>\nN\u00e3o sei que estranhos sinais.<\/p>\n<p>Soavam menos distantes<br \/>\nSinistros brados de dor<br \/>\nChoros de m\u00e3es e de infantes<br \/>\nCantos de morte e terror.<\/p>\n<p>Vi anjos de asas nevadas<br \/>\nEm bandos subir ao C\u00e9u,<br \/>\nQuais pombas amedrontadas<br \/>\nFugindo \u00e0 voz de escarc\u00e9u.<\/p>\n<p>\u00abOnde ides? Quem vos persegue ? A que tormentos fugis?\u00bb<br \/>\nUm que triste o bando segue, Estas palavras me diz:<\/p>\n<p>Somos as almas de infantes Mortos em guerra feroz; Inda das m\u00e3es<br \/>\ndelirantes Nos chama a sentida voz.<\/p>\n<p>\u00ab S\u00f3 a materna saudade<br \/>\nNossa carreira det\u00e9m,<br \/>\nEmbora no C\u00e9u, quem h\u00e1-de<br \/>\nEsquecer o amor de m\u00e3e?\u00bb<\/p>\n<p>Disse e o semblante formoso<br \/>\nCom as asas encobriu,<br \/>\nE ao bando silencioso<br \/>\nSilencioso se uniu.<\/p>\n<p>Eu segui. Na ampla cidade<br \/>\nAterrada penetrei&#8230;<br \/>\nAi, da fera humanidade<br \/>\nOs meus olhos desviei!<\/p>\n<p>Que cena! Corre nas pra\u00e7as<br \/>\nSanguin\u00e1ria multid\u00e3o<br \/>\nComo nuvem de desgra\u00e7as<br \/>\nSemeando a desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Caem por terra, sem vida, Tenras crian\u00e7as \u00e0s mil,<br \/>\nE uma turba enfurecida<br \/>\nCorre \u00e0 matan\u00e7a, febril.<\/p>\n<p>As m\u00e3es p\u00e1lidas, chorosas, Suplicam, pedem em v\u00e3o!<br \/>\nNessas feras sanguinosas N\u00e3o palpita um cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros tentam, em del\u00edrio, Os seus filhos disputar<br \/>\nE com eles no mart\u00edrio<br \/>\nGostosas se v\u00e3o juntar.<\/p>\n<p>Sobre a terra ensang\u00fcentada<br \/>\nEu solu\u00e7ando, ajoelhei,<br \/>\nE de intensa dor magoada,<br \/>\nA Deus piedade implorei.<\/p>\n<p>Findava a prece, e uma estrela<br \/>\nNo horizonte despontou,<br \/>\nPura, cintilante, ela<br \/>\nO caminho me tra\u00e7ou.<\/p>\n<p>\u00c0 humilde e escondida est\u00e2ncia<br \/>\nDa venturosa Bel\u00e9m<br \/>\nCheguei; vi um Deus na inf\u00e2ncia<br \/>\nNos ternos bra\u00e7os da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Minha colheita de dores<br \/>\nNaquele ber\u00e7o depus,<br \/>\nDa humanidade aos rigores<br \/>\nPedi rem\u00e9dio a Jesus.<\/p>\n<p>No olhar do divino infante<br \/>\nRaiou luz e fulgor,<br \/>\nFoi a aurora radiante<br \/>\nQue anuncia um redentor<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Publicados no romance A Morgadinha dos Canaviais,<\/b><\/p>\n<h2>HINO DA AMIZADE<br \/>\n(A meu primo e amigo Jos\u00e9 Joaquim Pinto<br \/>\nCoelho)<\/h2>\n<p>Amigo, concede que as notas da lira<br \/>\nTe sagre num dia a que tantos sorri;<br \/>\nSe a triste, saudosa, de m\u00e1goas suspira,<br \/>\nSoar\u00e1 d&#8217;esperan\u00e7as agora por ti.<\/p>\n<p>Escuta-a; se as vozes s\u00e3o fracas, afeita<br \/>\nQue ela \u00e9 desde muito com os cantos da dor,<br \/>\nSeu d\u00e9bil tributo, seus hinos aceita<br \/>\nQual t\u00eanue perfume de l\u00e2nguida flor.<\/p>\n<p>Os anos s\u00e3o marcos na senda da vida, Nos quais o viajante costuma<br \/>\nparar,<br \/>\nE os olhos volvendo na estrada corrida, As cenas passadas lhe apraz recordar.<\/p>\n<p>Suspende um momento teus passos, suspende, Na santa romagem que cumpres<br \/>\nal,<br \/>\nE al\u00e9m, ao passado teus olhos estende, Al\u00e9m, ao passado, contempla-o<br \/>\ndaqui.<\/p>\n<p>Oh! p\u00e1ra, paremos, que as cenas doutrora, T\u00e3o ricas de encantos,<br \/>\ns\u00e3o minhas tamb\u00e9m; Pois juntos nos vimos da vida na aurora,<br \/>\nE juntos passamos os anos al\u00e9m.<\/p>\n<p>Al\u00e9m,- ao mais longe que avistam teus olhos, Estende-os amigo; repara,<br \/>\nque v\u00eas?<br \/>\nFormosa campina de flores, sem abrolhos, Mais bela a dist\u00e2ncia, que<br \/>\nao perto talvez.<\/p>\n<p>Ai \u2014 n\u00e3o te lembras ? R#8212; correu-nos a vida, Qual linfa<br \/>\ntranq\u00fcila no prado em Abril,<br \/>\nDe dia em folguedos a mente esquecida, De noite enlevada por sonhos aos mil.<\/p>\n<p>Ai tempos de encantos, ai f\u00falgidas cenas<br \/>\nVolvidas com os anos chorados em v\u00e3o;<br \/>\nAi, quanto mais gratas n\u00e3o s\u00e3o tuas penas,<br \/>\nQue a pr\u00f3pria ventura que as outras nos d\u00e3o!<\/p>\n<p>Paremos, amigo, paremos ainda<br \/>\nA olhar esta quadra t\u00e3o longe de n\u00f3s;<br \/>\nQue a luz que a ilumina bem cedo se finda,<br \/>\nQue os entes que a adornam deixaram-nos s\u00f3s.<\/p>\n<p>T\u00e3o &#8220;gratos nos eram da aurora os fulgores, Como o \u00faltimo<br \/>\nraio do dia a findar,<br \/>\nQue se uns ainda ao peito nos falam d&#8217;amores, Os outros saudades nos vem despertar.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esta parte da nossa jornada,<br \/>\nT\u00e3o bela e t\u00e3o curta, l\u00e1 se ergue uma cruz,<br \/>\nE eu, \u00f3rf\u00e3o mesquinho, na campa ignorada<br \/>\nN\u00e3o pude ajoelhar-me, nem flores depus.<\/p>\n<p>E as cinzas queridas&#8230; mas n\u00e3o, adiante, Perdoa, perdoa, se esque\u00e7o<br \/>\no meu fim;<br \/>\n\u00d3 lira, teus crepes arroja distante; \u00d3 alma, tuas dores divulgas<br \/>\nassim?<\/p>\n<p>Mas nesses instantes em que eu na orfandade<br \/>\nAos ecos t\u00e3o tristes falava da m\u00e3e,<br \/>\nOs la\u00e7os ligando da nossa amizade,<br \/>\nAs vestes de luto cingias tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Por\u00e9m nova quadra se segue. A corrente Da vida mais turva pra n\u00f3s<br \/>\nse mostrou; Pequenos mart\u00edrios que sofre o inocente De que hoje nos<br \/>\nrimos, o peito provou.<\/p>\n<p>No meio de estranhos eu vi-me sozinho, E assim na carreira das letras entrei.<br \/>\nA m\u00e3o que meus passos guiou com carinho<br \/>\nA morte roubou-ma, eu s\u00f3 caminhei.<\/p>\n<p>Mas ainda ent\u00e3o mesmo na vida de crian\u00e7a<br \/>\nA nossa amizade n\u00e3o p\u00f4de esfriar;<br \/>\nNas horas votadas \u00e0 grata folgan\u00e7a<br \/>\nDe j\u00fabilo cheio te vinha encontrar.<\/p>\n<p>Mais tarde a n\u00f3s ambos na senda da vida Guiou-nos os passos ben\u00e9vola<br \/>\nm\u00e3o. Recordas-te dele ? Da imagem querida,<br \/>\nDa imagem saudosa do amigo, do irm\u00e3o?<\/p>\n<p>Que tempo, que cenas pass\u00e1mos unidos! &#8221; Prazeres, trabalhos,<br \/>\nleituras comuns!<br \/>\nAi, quantas saudades dos tempos volvidos<br \/>\nMe restam no peito, remorsos nenhuns!<\/p>\n<p>Aquela nobre alma, j\u00e1 perto da morte, Que negra adejava de si ao<br \/>\nredor,<br \/>\nMais nobre por isso, mais bela, mais forte, Pra as lutas da vida nos dava<br \/>\ncalor.<\/p>\n<p>O Sol \u00e0 florinha que adorna a colina, J\u00e1 perto do ocaso n\u00e3o<br \/>\nnega o luzir; Sem ele os rigores da brisa ferina Faziam-lhe o sopro da vida<br \/>\nexaurir.<\/p>\n<p>A estrada apontou-nos que afouto seguira, E onde t\u00e3o firme marchar<br \/>\nsempre o vi,<br \/>\nEm n\u00f3s verte o alento que a ele o inspira, E p\u00e1ra ao dizer-nos:<br \/>\n\u00abEu fico \u2014 parti!\u00bb<\/p>\n<p>E a sombra seguindo do irm\u00e3o, que lhe aponta, Fugenta de esperan\u00e7as<br \/>\na estrada do C\u00e9u,<br \/>\nA terra abandona, no emp\u00edreo desponta, E cedo para sempre de n\u00f3s<br \/>\nse perdeu.<\/p>\n<p>Ao ver-me sem ele sozinho na vida, Faltaram-me as for\u00e7as, tentei<br \/>\nrecuar,<br \/>\nQue a luz que me guiava, na campa sumida, Em trevas profundas deixou-me ficar.<\/p>\n<p>Mas ainda de novo pra mim sua imagem, Surgindo da campa, me veio sorrir,<br \/>\nAlento infundir-me, bradar-me: \u00abCoragem !\u00bb E eu, forte, sua obra<br \/>\nn\u00e3o quis destruir.<\/p>\n<p>Por outro caminho seguiste, contudo<br \/>\nDe espa\u00e7os a espa\u00e7os cingimos as m\u00e3os:<br \/>\nNas lides da vida, nas lides do estudo,<br \/>\nJamais esquecemos o nome de irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Mil vezes \u00e0 sombra do denso arvoredo<br \/>\nFal\u00e1vamos ambos do nosso porvir,<br \/>\nDos tempos passados, do ignoto segredo<br \/>\nQue dentro do peito tentava florir.<\/p>\n<p>Ao fim da carreira, que ansiado trilhava, Ap\u00f3s mil fadigas enfim<br \/>\nte encontrei;<br \/>\nMas antes, de novo a dor nos magoava: De um t\u00famulo \u00e0 beira contigo<br \/>\nchorei.<\/p>\n<p>Aos mares da vida teu barco lan\u00e7aste: Na margem parado, meu barco<br \/>\nsustei. \u00c9 tempo! Partamos. Tu, forte, cruzaste<br \/>\nAs ondas, e \u00abAo largo!\u00bb bradar escutei.<\/p>\n<p>Mas l\u00e1 que me espera ? nas vagas furiosas Veria afundar-se meu pobre<br \/>\nbaixei; Vogando t\u00e3o longe de praias formosas<br \/>\nIr\u00e1 destruir-se num outro parcel?<\/p>\n<p>Calai-vos, inquietos anelos dum peito, Que muito receia, por muito querer<br \/>\n;<br \/>\nCalai-vos, esp&#8217;ran\u00e7as com que eu me deleito<br \/>\nNas horas mais gratas dum triste viver.<\/p>\n<p>Oh! deixa, deixemos t\u00e3o longo horizonte, Que vago e obscuro para<br \/>\ntodos ele \u00e9: Deixemo-lo, amigo, &#8216;t\u00e9 quando desponte, Esperemo-lo<br \/>\nfortes de esperan\u00e7a e de f\u00e9.<\/p>\n<p>E a vista lancemos mais perto: no espa\u00e7o<br \/>\nBem curto em dist\u00e2ncia, de afectos maior,<br \/>\nQue vemos? Os entes, que um c\u00e2ndido la\u00e7o<br \/>\nRe\u00fane em fam\u00edlia com santo fervor.<\/p>\n<p>Nos rostos que anima fulgente alegria, Amor e ventura bem f\u00e1cil se<br \/>\nl\u00ea;<br \/>\nE a id\u00e9ia que \u00e9 hoje de encantos um dia, O seio lhes enche de<br \/>\nj\u00fabilo. V\u00ea.<\/p>\n<p>Louvemos o Eterno, que assim te permite Provar duma ta\u00e7a tao pura<br \/>\ne sem fel; Saudemos o dia que aos rostos transmite Os gozos, que verte no<br \/>\npeito fiel.<\/p>\n<p>Desviemos o rosto das nuvens passadas, Fechemos os olhos \u00e0s trevas<br \/>\npor vir,<br \/>\nE as horas presentes, \u00e0 paz consagradas, Gozemos; gozemos t\u00e3o<br \/>\nbelo existir.<\/p>\n<p>E agora perdoa se as notas da lira<br \/>\nNum dia como este, que a tantos sorri,<br \/>\nAs vezes, saudosa de m\u00e1goas, suspira,<br \/>\nEm vez de esperan\u00e7as soar s\u00f3 por ti.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>20 de Outubro de 1861<\/b><\/p>\n<h2>VOZ DE SIMPATIA<\/h2>\n<p>Ao despontares da amena juventude, De galas e de flores ornaste o seio. E<br \/>\nde mil sonhos de prazer no meio,<br \/>\nCom que o peito se ilude, Aguardaste o alvor do Sol fulgente,<br \/>\nQue a luz e vida ao cora\u00e7\u00e3o dispensa, De amores ideais, na dita<br \/>\nimensa,<br \/>\nDeleitava a mente.<\/p>\n<p>Ele surgiu! esse astro rutilante! N\u00e3o;ef\u00eamera luz, que instantes<br \/>\nbrilha, Por\u00e9m cujo fulgor cedo se humilha,<br \/>\nNasce e morre inconstante.<br \/>\nSurgiu! n\u00e3o como a chama das estrelas, Que em multid\u00e3o infinda<br \/>\no c\u00e9u povoam, E p\u00e1lidas o v\u00e9u da noite coroam,<br \/>\nQuais l\u00facidas capelas;<\/p>\n<p>Mas \u00fanico brilhante, duradouro, Como o astro do dia, que surgindo, E<br \/>\nluminosas vagas difundindo<br \/>\nRaios de fulgente ouro, Dispersa na amplid\u00e3o a imensa turba<br \/>\nDos outros astros que no espa\u00e7o giram, Enquanto eles no c\u00e9u sua<br \/>\nluz admiram,<br \/>\nE nenhum o perturba.<\/p>\n<p>Volveram anos, risos e fulgores<br \/>\nDa idade juvenil se desvanecem,<br \/>\nMas n\u00e3o morre a afei\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o fenecem<br \/>\nTeus c\u00e2ndidos amores;<br \/>\nN\u00e3o fenecem, n\u00e3o morrem; crescem antes, O sentimento e a raz\u00e3o<br \/>\nos gera,<br \/>\nSentimento e a raz\u00e3o, que Deus vertera<br \/>\nNo teu ser, abundantes.<\/p>\n<p>Volveram anos&#8230; e afinal? Gozaste Essa ventura, esp&#8217;ran\u00e7a de teus<br \/>\ndias? Ai, n\u00e3o; em vez do c\u00e1lix de alegrias,<br \/>\nO do travor provaste.<br \/>\nTra\u00edram-te! e um frio esquecimento<br \/>\nO pr\u00eamio foi de teu amor constante I E a luz que te guiava fulgurante<br \/>\nSumiu-se num momento.<\/p>\n<p>E a d\u00favida n\u00e3o veio na tua alma<br \/>\nNegar dum Deus supremo a exist\u00eancia, Descrer dessa irris\u00f3ria<br \/>\nprovid\u00eancia,<br \/>\nQue aos maus concede a palma? Oh! n\u00e3o; curvaste a fronte angustiada,<br \/>\nEscondeste tuas l\u00e1grimas ardentes,<br \/>\nE mostraste-te aos olhos indiferentes<br \/>\nVitima resignada.<\/p>\n<p>Eles v\u00eaem em teus l\u00e1bios o sorriso,<br \/>\nE julgam que prov\u00e9m do esquecimento 1<br \/>\nCegos! vissem-te \u00e0 luz do sentimento<br \/>\nComo eu te diviso.<br \/>\nSaberiam que ang\u00fastia ele escondera, Que pungente amargura nele oculta!<br \/>\nSaberiam que a dor que mais avulta<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 a mais sincera.<\/p>\n<p>Que mundo! \u00c0quele que sua f\u00e9 trair\u00e1, Os prazeres, os<br \/>\ngozos, a riqueza;<br \/>\nA ti saudade, isola\u00e7\u00e3o, tristeza!<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 Deus mentira ?!<br \/>\nE o crime folga, e \u00e9 vitima a inoc\u00eancia!&#8230; N\u00e3o folga;<br \/>\no C\u00e9u \u00e9 justo, e o mau condena, D\u00e1-lhe o remorso por<br \/>\namarga pena,<br \/>\nE a ti a consci\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>35 de Abri] de 1860<\/b><\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Se chegar aos olhos da pessoa a quem \u00e9 dirigida, ela com.<br \/>\npreender\u00e1.<\/p>\n<h2>O DESTINO DA LIRA<\/h2>\n<p>Cantar o amor \u00e9 destino Quando o seio pulsa ardente, Quando no nosso<br \/>\nhorizonte Surge a imagem resplendente Dum sol que a aridez da vida Transforma<br \/>\nem jardim florente.<\/p>\n<p>Mas quando a chama se extingue, Que no peito nos ardia,<br \/>\nA lira n\u00e3o canta amores, Nem os sonha a fantasia; Ent\u00e3o natureza<br \/>\ne p\u00e1tria<br \/>\nS\u00f3 nos inspiram poesia.<\/p>\n<p>Depois, os anos declinam<br \/>\nComo o Sol no azul dos c\u00e9us ;<br \/>\nE quando a noite da vida<br \/>\nJ\u00e1 nos estende seus v\u00e9us,<br \/>\nTodos os cantos da lira<br \/>\nS\u00e3o consagrados a Deus!<\/p>\n<p align=\"right\"><b>12 de Agosto de 1860<\/b><\/p>\n<p>\u00c0 luz do Sol nascente Resplendem pelas selvas Mil p\u00e9rolas nas<br \/>\nrelvas, Nos ares mil rubis; .<br \/>\nNo azul do c\u00e9u nevoado N\u00e3o brilham as estrelas, Mas s\u00e3o<br \/>\nimagens delas As flores do tapiz.<\/p>\n<p>As aves perpassando<br \/>\nAgitam a ramagem,<br \/>\nE a perfumada aragem<br \/>\nNos bosques se introduz;<br \/>\nA\u00ed mil vozes falam<br \/>\nAo c\u00e9u sereno e mudo;<br \/>\nNo bosque \u00e9 sombra tudo,<br \/>\nNo c\u00e9u \u00e9 tudo luz.<\/p>\n<p>Ridente madrugada,<br \/>\nHora em que do oriente<br \/>\nCom o gl\u00e1dio refulgente<br \/>\nO arcanjo da luz vem;<br \/>\nE as trevas se dissipam,<br \/>\nCom as trevas a tristeza,<br \/>\nQue em toda a natureza<br \/>\nA noite eivado tem.<\/p>\n<p>Oh! vinde, vinde ao prado<br \/>\nQue o orvalho inda humedece;<br \/>\nAli tudo parece<br \/>\n\u00c0 vida ressurgir.<br \/>\nEm v\u00f3rtices cont\u00ednuos,<br \/>\nEm doudejantes ,valsas<br \/>\nElevam-se das balsas<br \/>\nInsectos a zumbir.<\/p>\n<p>Subi do prado ao v\u00e9rtice<br \/>\nDa florida colina,<br \/>\nEnt\u00e3o pela campina,<br \/>\nOs olhos prolongai<br \/>\nAo longe, ao longe as vagas,<br \/>\nLutando nos fraguedos;<br \/>\nMais perto os arvoredos<br \/>\nQue o arroio banhar vai.<\/p>\n<p>A tudo anima a esp&#8217;ran\u00e7a No monte e vale e praia; No c\u00e9u V\u00e9sper<br \/>\ndesmaia Ao matutino alvor.<br \/>\nO c\u00e2ntico das aves, Das flores o aroma<br \/>\nNos diz: \u2014 O dia assoma I Hosana ao Criador!<\/p>\n<p><b>1 de Julho de 1862<\/b><\/p>\n<h2>NOVA V\u00c9NUS<\/h2>\n<p>Solta aos ventos as trancas douradas, Meiga filha das bordas do mar,<br \/>\nE no meio das vagas iradas<br \/>\nSolta aos ventos o alegre cantar.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o temas as nuvens sombrias. Que uma a uma se elevam<br \/>\nd&#8217;al\u00e9m, Que rodeado d&#8217;amor e alegrias,<br \/>\nO teu c\u00e9u dessas nuvens n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Canta sempre ; de noite \u00e0s estrelas, De manh\u00e3 ao luzir do<br \/>\narrebol,<br \/>\nAo passarem no mar as procelas, Ao sorrir aos outeiros do sol.<\/p>\n<p>Canta sempre, \u00f3 alc\u00edone destas vagas, Nova filha da espuma<br \/>\ndo mar,<br \/>\nCanta sempre, e eu sentado nas fragas, Voltarei para ouvir-te cantar.<\/p>\n<p><b>28 de Fevereiro de 1863<\/b><\/p>\n<p>Hoje, quando te vi, estavas cismando; Em que cismavas tu, virgem formosa,<br \/>\nDesmaiadas as faces cor-de-rosa,<br \/>\nE o seio, o gentil seio, inquieto arfando?<\/p>\n<p>Em que cismavas tu? De quando em quando<br \/>\nElevavas ao c\u00e9u, triste, saudosa,<br \/>\nA vista amortecida, lacrimosa,<br \/>\nPara a baixar depois em gesto brando.<\/p>\n<p>No ch\u00e3o jaziam murchas, desfolhadas,<br \/>\nAs rosas, que ainda h\u00e1 pouco te toucavam,<br \/>\nAgora j\u00e1 por ti abandonadas.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos clar\u00f5es do Sol douravam<br \/>\nAs tuas belas tran\u00e7as desatadas;<br \/>\nDiz, que \u00edntimos anelos te turbavam?<\/p>\n<h2>DESESPERAN\u00c7A<\/h2>\n<p>Meu Deus, que destino!&#8230; viver isolado,<br \/>\nSem ter quem no mundo me possa entender!<br \/>\nN\u00e3o era esta a vida que tinha sonhado<br \/>\nNos sonhos passados dum outro viver!<\/p>\n<p>As feras, as aves, as flores, quanto existe, Se abrasam num terno, dulc\u00edssimo<br \/>\nardor! S\u00f3 eu, solit\u00e1rio, viver sempre triste!<br \/>\nViver ? \u2014 N\u00e3o: que \u00e9 vida, faltando-lhe o amor ?<\/p>\n<p>\u00c9 ermo entre gelos, \u00e9 h\u00f3rrida noite, Onde um s\u00f3<br \/>\nastro, sequer, nem reluz!<br \/>\nComo hei-de, sem cren\u00e7as onde a alma se a\u00e7oite, Do G\u00f3lgota<br \/>\nao cimo levar minha cruz ?!<\/p>\n<p>O anseio, este fogo que lento me inflama<br \/>\nN\u00e3o hei-de apag\u00e1-lo num gozo real?<br \/>\nE os vagos transportes que sente quem ama<br \/>\nTer\u00e1 de abaf\u00e1-los paix\u00e3o mundanal?<\/p>\n<p>N\u00e3o ter seio amigo no qual eu repouse<br \/>\nA fronte cansada de ardente pensar,<br \/>\nUma alma conforme com a minha, a quem ouse<br \/>\nDizer quanto sinto no peito a pesar I<\/p>\n<p>Ai! triste, que sorte! viver entre gelo, Sentindo atear-se c\u00e1 dentro<br \/>\num vulc\u00e3o! Nutrir tanto afecto no peito, e perd\u00ea-lo!&#8230; Desejos<br \/>\nque abrasam, mant\u00ea-los em v\u00e3o!<\/p>\n<p>Meu Deus! Es injusto!&#8230; mas oh! se blasfemo, Perdoa, que a mente mal pensa<br \/>\no que diz! Perdoa, perdoa-me, \u00f3 Ente supremo,<br \/>\nConcede-me ainda que eu seja feliz!<\/p>\n<p>Oh! d\u00e1-me a ventura que em sonhos j\u00e1 tivel&#8230; Uma alma que<br \/>\nesfalma soubesse entender!<br \/>\nUm ente, se acaso na Terra ele vive,<br \/>\nQue possa este v\u00e1cuo de amor preencher.<\/p>\n<p>Que imenso tesouro d&#8217;afectos lhe dera ! Sorria-lhe a vida num \u00e9den<br \/>\ngentil!<br \/>\nEntre outros segredos ent\u00e3o lhe dissera<br \/>\nTais falas, cortadas por beijos aos mil!<\/p>\n<p>Ai! foge, deixemos da vida mundana Seus v\u00e3os devaneios, seu fogo<br \/>\nfalaz! Busquemos sozinhos deserta cabana, Aonde n\u00e3o turve ningu\u00e9m<br \/>\nnossa paz!<\/p>\n<p>Que imensos prazeres que l\u00e1 nos esperam I Que ledo futuro que ent\u00e3o<br \/>\nnos sorri!<br \/>\nAli n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1goas, que o peito laceram, Dos homens o<br \/>\nbafo n\u00e3o chega at\u00e9 &#8216;li!<\/p>\n<p>Que vida, essa vida que ent\u00e3o l\u00e1 teremos<br \/>\nT\u00e3o rica d&#8217;afectos, de gozo sem fim!<br \/>\nQue ternos enlevos, que doces extremos,<br \/>\nQue belos os dias, passados assim!<\/p>\n<p>D&#8217;esp&#8217;ran\u00e7as e flores no quadro t\u00e3o lindo No cimo do monte,<br \/>\nda aurora ao nascer, Iremos saud\u00e1-la, dizer-lhe: \u2014 Bem-vinda<br \/>\nTu sejas, que \u00e0 Terra d\u00e1s luz e prazer!<\/p>\n<p>Depois, vendo as aves com doce harmonia<br \/>\nSoltarem seus cantos no bosque al\u00e9m,<br \/>\nNa l\u00edngua dos anjos, na maga poesia,<br \/>\nAos C\u00e9us nossos hinos se elevam tamb\u00e9m;<\/p>\n<p>Oremos ao Eterno, sagremos-lhe os cantos, Que d&#8217;alma espont\u00e2neos prorrompem<br \/>\nent\u00e3o! Depois resolvamos provar dos encantos<br \/>\nDa vida inef\u00e1vel que anima a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Da tarde ao crep\u00fasc&#8217;lo, nos breves instantes<br \/>\nDessa hora em que se unem as sombras e a luz,<br \/>\nTamb\u00e9m nossas almas unidas e amantes<br \/>\nAnelem del\u00edcias que a noite conduz!<\/p>\n<p>Ali, o murm\u00fario da r\u00e1pida brisa<br \/>\nBanhada em perfumes, roubados \u00e0 flor,<br \/>\nA linfa, que mansa no prado desliza,<br \/>\nVir\u00e3o segredar-nos mil falas d&#8217;amor!<\/p>\n<p>\u2014 Amor \u2014 repercutam os ecos da serra!<br \/>\n\u2014 Amor \u2014 l\u00e1 das aves se escute na voz!<br \/>\nE as nuvens, as fontes, os bosques, a terra,<br \/>\n\u2014 Amor \u2014 s\u00f3 respirem em torno de n\u00f3s!<\/p>\n<p>\u2014 Amor \u2014 alta noite veremos escrito<br \/>\nCom letras douradas no livro de Deus!&#8230;<br \/>\nPress\u00e1gio divino do gozo infinito,<br \/>\nQue um dia teremos unidos nos C\u00e9us.<\/p>\n<p>E um dia l\u00e1 corre, d&#8217;amor bafejado, Ao outro que surge prazeres iguais!<br \/>\nE sempre esta vida!&#8230; Mas, ai! desgra\u00e7ado!&#8230; Que assim me enlevava<br \/>\nd&#8217;esp&#8217;ran\u00e7as banais!<\/p>\n<p>Debalde iludir-me procuro num sonho! Cruel desengano, cruel que ele \u00e9!<br \/>\nEle aponta o futuro, sombrio e tristonho,<br \/>\nSem cren\u00e7as, sem gl\u00f3ria, sem vida, sem f\u00e9!<\/p>\n<p>A mim s\u00f3 me resta viver isolado!<br \/>\nSem ter quem no mundo me possa entender!<br \/>\nAi! sonhos t\u00e3o Belos que outrora hei sonhado I<br \/>\nDel\u00edcias passadas dum outro viver.<\/p>\n<h2>SIMILIA SIMILIBUS<\/h2>\n<p>Nova seita proclamaram<br \/>\nDe Escul\u00e1pio os descendentes;<br \/>\nD\u00e3o vivas os botic\u00e1rios,<br \/>\nEstremecem os doentes.<\/p>\n<p>Mas que achado! Os velhos m\u00e9dicos<br \/>\nV\u00eaem o passado com m\u00e1goa;<br \/>\nEstes, de novo sistema,<br \/>\nAquecem \u00e1gua com \u00e1gua.<\/p>\n<p>O fogo apagam com fogo,<br \/>\nD\u00e3o vista aos cegos, cegando,<br \/>\nE at\u00e9 pra coroar a obra,<br \/>\nCuram da morte&#8230; matando.<\/p>\n<h2>HIST\u00d3RIA DE UNS BEIJOS<\/h2>\n<p>Ouvia gabar os beijos, Dizer deles tanto bem,<br \/>\nQue me nasceram desejos<br \/>\nDe provar alguns tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Esta fruta n\u00e3o \u00e9 rara,<br \/>\nMas nem toda tem valor,<br \/>\nA melhor \u00e9 muito cara<br \/>\nE a barata \u00e9 sem sabor.<\/p>\n<p>Colhi-os dos mais mimosos, Provei tr\u00eas ; mas, por meu mal, Ao princ\u00edpio<br \/>\nsaborosos, Amargaram-me afinal.<\/p>\n<p>Um colhi eu de uma bela Que era Rosa, sem ser flor, Se tinha espinhos como<br \/>\nela, Dela tamb\u00e9m tinha a cor.<\/p>\n<p>Vi-a a dormir e furtei-lhe<br \/>\nUm beijo, que a acordou,<br \/>\nEu gostei, por\u00e9m causei-lhe<br \/>\nTal susto que desmaiou.<\/p>\n<p>Logo que a v: sem sentidos<br \/>\nFugi sem outro lhe dar,<br \/>\nPois beijos sem ser pedidos<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o coisas pra brincar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m deste beijo ainda<br \/>\nPouco tive que dizer,<br \/>\nPois a tal rosa&#8230; era linda<br \/>\nE tornou a reviver.<\/p>\n<p>Outra vez, duma morena, Olhos azuis, cor do c\u00e9u, Corpo &#8216;sbelto, m\u00e3o<br \/>\npequena, Um beijo me apeteceu.<\/p>\n<p>Pedi-lho, e ent\u00e3o por bom modos, Pedi-lho do cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nZombou dos meus rogos todos<br \/>\nE respondeu-me: que nao.<\/p>\n<p>Zombei, como ela zombava<br \/>\nE um beijo, \u00e0 for\u00e7a lhe dei;<br \/>\nMas&#8230; bem dado ainda n\u00e3o estava<br \/>\nE c&#8217;um bofet\u00e3o o paguei.<\/p>\n<p>Custou-me caro o desejo, Que mui caro ela o vendeu.<br \/>\nPagar por tal pre\u00e7o um beijo! Assim n\u00e3o os quero eu.<\/p>\n<p>Este mais do que o primeiro, Me deixou fraca impress\u00e3o; Quis provar<br \/>\ninda um terceiro, Para n\u00e3o jurar em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quis fruta roubada, Que mal com ela me dei ; Uma dama delicada<br \/>\nOfereceu-ma&#8230; eu aceitei.<\/p>\n<p>Ai que boa fruta era ! Estava mesmo a cobi\u00e7ar. Passar a vida quisera,<br \/>\nTal fruta a saborear.<\/p>\n<p>Mas no meio da colheita&#8230; Da fruta o dono apareceu; Zelosos olhos me deita:<br \/>\nSe zelava o que era seu!<\/p>\n<p>Vendo o caso mal seguro Eu logo ali lhe jurei Restituir at\u00e9 com juro<br \/>\nA fruta que lhe tirei.<\/p>\n<p>E acaso n\u00e3o discordasse, N\u00e3o me parecia mal<br \/>\nQue a ele os juros pagasse, E \u00e0 senhora&#8230; o capital,<\/p>\n<p>Esta sensata proposta Em f\u00farias o arrebatou, E, por \u00fanica<br \/>\nresposta, Pra luta se preparou&#8230;<\/p>\n<p><b>1859.<\/b><\/p>\n<p>Oi\u00e7o ainda gabar os beijos,<br \/>\nDizer deles muito bem,<br \/>\nMas findaram-me os desejos,<br \/>\nJ\u00e1 sei o sabor que t\u00eam.<\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Desde j\u00e1 afirmo que n\u00e3o fui eu o protagonista da hist\u00f3ria.<br \/>\nAinda n\u00e3o tive uma indigest\u00e3o deste g\u00eanero de fruta, e nem sei, para falar<br \/>\nfrancamente, se mesmo quando a tivesse, a ficaria abominando para sempre.<br \/>\nO caso, enquanto a mim, n\u00e3o foi de natureza que justificasse semelhante avers\u00e3o;<br \/>\nmas enfim h\u00e1 susceptibilidades tais&#8230; N\u00e3o afirmamos, contudo, que a dieta<br \/>\ntenha sido escrupulosamente observada. Nesta esp\u00e9cie de fruta, parece-me que,<br \/>\nao contr\u00e1rio do que se diz para as outras, \u00e9 a qualidade e n\u00e3o a quantidade<br \/>\nque faz o mal.<\/p>\n<h3>SEGUNDA PARTE<\/h3>\n<h2>A J. , ,<\/h2>\n<p>Acredita que os anjos tamb\u00e9m sofrem<br \/>\nNesta mans\u00e3o de dores,<br \/>\nE n\u00e3o olhes o mundo lacrimosa,<br \/>\nQuando o vires despido de fulgores.<\/p>\n<p>Mal sabe, a rosa, ao vicejar lasciva<br \/>\nEm plena Primavera,<br \/>\nQue \u00e9 passageira a quadra; que ap\u00f3s ela<br \/>\nSe despovoa o prado e a morte a espera.<\/p>\n<p>O terreno que pisas nesta vida<br \/>\nOculta um precip\u00edcio<br \/>\nO caminho, onde ao fim vemos a gl\u00f3ria,<br \/>\nQuantas vezes termina no supl\u00edcio!<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 vi, sobre um t\u00famulo isolado, Um grupo de crian\u00e7as<br \/>\nDando as m\u00e3os, e travando em ch\u00e3o de morte,<br \/>\nCom risos infantis, alegres dan\u00e7as.<\/p>\n<p>Vi-as tamb\u00e9m sorrindo descuidadas, Se piedoso viandante<br \/>\nParava pensativo e, murmurando,<br \/>\nUma humilde ora\u00e7\u00e3o, passava adiante.<\/p>\n<p>Assim tamb\u00e9m sorris, se melanc\u00f3lico<br \/>\nEu penso no futuro,<br \/>\nQuando uma sombra vem turbar-me a fronte.<br \/>\nCom elas, ris do meu semblante escuro.<\/p>\n<p>Mas olha, vais saber a hist\u00f3ria triste<br \/>\nDesses tr\u00eas inocentes,<br \/>\nQue sobre as cinzas frias duma campa<br \/>\nSe entregavam a jogos complacentes.<\/p>\n<p>\u00c0 noite a m\u00e3e, beijando-os, estranhou-lhes<br \/>\nDas faces a brancura;<br \/>\nE um press\u00e1gio sentiu; ao alvor do dia<br \/>\nLevava-os todos os tr\u00eas \u00e0 sepultura.<\/p>\n<p>\u00c9 que os ares do t\u00famulo d\u00e3o morte<br \/>\nEm afago homicida;<br \/>\nNesse ar infecto em que se extingue a chama,<br \/>\nTamb\u00e9m arqueja e expira a luz da vida.<\/p>\n<p>Teme pois tamb\u00e9m tu, c\u00e2ndida virgem, O ar que aqui respiras;<br \/>\nE n\u00e3o perguntes mais ao viandante<br \/>\nQue pensamentos d&#8217;amargor lhe inspiras.<\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; Esta poesia foi enviada ao redactor da Gr\u00ednalda, Jo\u00e3o Marques<br \/>\nNogueira Lima, assinada com o pseud\u00f4nimo J\u00falio Dinis, em 9 de Mar\u00e7o de 1861<br \/>\ne publicada no 3.\u00b0 n\u00famero daquele jornal. No dia 18 de Mar\u00e7o, \u00e0 noite, o Passos<br \/>\nelogiou-a, sem saber quem ara o autor.<\/p>\n<h2>A NOIVA<\/h2>\n<p><b>(NO \u00c1LBUM DA EX.maSR.a D. ISABEL M. FIGUEIREDO DE CARVALHO)<\/b><\/p>\n<p>Mal as regi\u00f5es do oriente<br \/>\nA luz da manh\u00e3 tingia,<br \/>\nJ\u00e1 ao cristalino espelho<br \/>\nA linda noiva sorria,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>A noite passara \u00e0 vela<br \/>\nE que noiva a dormiria?<br \/>\nE ao desmaiar das estrelas,<br \/>\nAlvoro\u00e7ada se erguia.<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>Depois, ligeira, impaciente, Chegava-se \u00e0 gelosia<br \/>\nA ver se o sol j\u00e1 dourava<br \/>\nOs cimos da serrania,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>De quando em quando chorava&#8230; E o que chorar a fazia?<br \/>\nSaudades do que passara? Terrores do que viria?<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>Mas s\u00e3o l\u00e1grimas de noiva, Um s\u00f3 beijo as secaria,<br \/>\nS\u00e3o como gotas de orvalho<br \/>\nQuando o Sol as alumia;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>Que longo porvir d&#8217;amores, Que futuro de poesia,<br \/>\nQue pal\u00e1cios encantados<br \/>\nLhe pintava a fantasia,<br \/>\nQuando a flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia!<\/p>\n<p>E ao casto leito de virgem<br \/>\nDentro da alcova sombria,<br \/>\nA noiva, de quando em quando,<br \/>\nInquieta os olhos volvia;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>Por entre o rosai florido, Que o balc\u00e3o lhe entretecia As avezinhas<br \/>\ncantavam<br \/>\nCom festiva melodia.<br \/>\nE ela a flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia.<\/p>\n<p>Alto ia o Sol, resplendente<br \/>\nNa manh\u00e3 daquele dia,<br \/>\nCuja noite&#8230; Esta lembran\u00e7a<br \/>\nDa noiva as faces tingia;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nAo v\u00e9u de neve prendia<\/p>\n<p>A m\u00e3e, vendo-a t\u00e3o formosa, Julgava um sonho o que via, Que<br \/>\no vestido de noivado<br \/>\nAs gra\u00e7as lhe encarecia,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u de neve pendia.<\/p>\n<p>V\u00eam as irm\u00e3s, que a contemplam<br \/>\nCom inveja, eu juraria: Ela baixa os olhos, cora,<br \/>\nO que mais bela a fazia,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u de neve pendia.<\/p>\n<p>Junto delas, perturbada, Quase nem falar podia;<br \/>\nSo as m\u00e3es bem compreendem O que a noiva ent\u00e3o sentia, Quando<br \/>\na flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u de neve pendia.<\/p>\n<p>As horas passam t\u00e3o lentas! E o cora\u00e7\u00e3o lhe batia,<br \/>\nA m\u00e3e chorava, coitada, Com saudades o fazia;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u de neve pendia.<\/p>\n<p>A sala j\u00e1 estava cheia; A noiva achava-a vazia,<br \/>\nQue entre tantos convidados<br \/>\nAinda o noivo se n\u00e3o via;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nH\u00e1 muito do v\u00e9u pendia!<\/p>\n<p>Passa a manh\u00e3, e n\u00e3o chega! N\u00e3o chega, e \u00e9 j\u00e1<br \/>\nmeio-dia! Nas varandas, nos eirados,<br \/>\nSe dispersa a companhia; E a alva flor da laranjeira H\u00e1 tanto do v\u00e9u<br \/>\npendia!<\/p>\n<p>O rosto da bela noiva<br \/>\nCada vez mais se anuvia,<br \/>\nN\u00e3o sei que voz misteriosa<br \/>\nDesgra\u00e7as lhe pressagia;<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nInda do v\u00e9u pendia.<\/p>\n<p>Fenece a tarde. Eis a noite, Hora de melancolia.<br \/>\nNo rosto dos convidados<br \/>\nDesassossego se lia,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nNo v\u00e9u da noiva tremia.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 sil\u00eancio. A coitada<br \/>\nUma est\u00e1tua parecia&#8230;<br \/>\nT\u00e3o p\u00e1lida como m\u00e1rmore,<br \/>\nComo ele im\u00f3vel, fria;<br \/>\nS\u00f3 a flor da laranjeira<br \/>\nNo v\u00e9u da noiva tremia.<\/p>\n<p>Abrem-se as portas. \u00ab\u00c9 ele!\u00bb Disse toda a companhia:<br \/>\nPor\u00e9m ilus\u00f3ria esperan\u00e7a! Um pajem s\u00f3 aparecia:<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u da noiva ca\u00eda.<\/p>\n<p>Tristes novas traz o pajem, Que triste o rosto trazia;<br \/>\nF\u00eaz-se um sil\u00eancio profundo<br \/>\nEntanto que ele as dizia,<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nInda por terra jazia.<\/p>\n<p>Dispam-se as galas da festa, Calem-se os sons da alegria, Que morto em cruel<br \/>\ncombate O noivo&#8230; Um grito se ouvia, Junto \u00e0 flor da laranjeira,<br \/>\nA noiva no ch\u00e3o ca\u00eda..<\/p>\n<p>Cercam-na todos&#8230; debalde, O seio j\u00e1 n\u00e3o batia;<br \/>\nAquela mimosa planta<br \/>\nSem alentos sucumbia,<br \/>\nComo a flor da laranjeira,<br \/>\nDerrubada ali jazia.<\/p>\n<p>Mal sabia a pobre noiva Pra que bodas se vestia! Mal sonhava a desposada<br \/>\nQue a morte esposar devia! Quando a flor da laranjeira Ao v\u00e9u da neve<br \/>\nprendia.<\/p>\n<p>Com as vestes do noivado Para o sepulcro ela se ia; Em vez do rubor da noiva<br \/>\nA palidez da agonia<br \/>\nE a alva flor da laranjeira<br \/>\nDo v\u00e9u de neve pendia.<\/p>\n<p>Tantos sonhos que sonhara!&#8230; Tanta esp&#8217;ran\u00e7a que nutria!&#8230; Por<br \/>\nesposo tinha a morte,<br \/>\nPor t\u00e1lamo, a lousa fria, E a flor da laranjeira<br \/>\nCom ela \u00e0 campa descia.<\/p>\n<h2>O DESPERTAR DA VIRGEM<\/h2>\n<p>Que \u00e9 isto? que sentimento<br \/>\nMe faz palpitar o seio?<br \/>\nMeu Deus, meu Deus, porque anseio?<br \/>\nA que aspira o cora\u00e7\u00e3o?<br \/>\nQue me revela este fogo,<br \/>\nEsta vaga inquieta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Da vida a clara corrente Porque \u00e9 que se perturba? Porque, fugindo<br \/>\nda turba,<br \/>\nEu s\u00f3 folgo ao ver-me a s\u00f3s, Escutando ignotas falas<br \/>\nDe n\u00e3o sei que estranha voz?<\/p>\n<p>Inda h\u00e1 pouco me apraziam<br \/>\nDa alegre inf\u00e2ncia os folguedos;<br \/>\nHoje n\u00e3o sei que segredos<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o me prediz.<br \/>\nEnfadam-me as alegrias<br \/>\nDesses tempos infantis.<\/p>\n<p>\u00c0s horas do fim do dia, Quando o Sol no mar declina E d&#8217;\u00e1urea<br \/>\nluz ilumina<br \/>\nTodo o horizonte ao redor, Porque me sinto enleada Num indiz\u00edvel langor?<\/p>\n<p>De manh\u00e3, quando nas selvas<br \/>\nO dia desperta as aves,<br \/>\nE mil aromas suaves<br \/>\nSobem dos campos ao c\u00e9u,<br \/>\nPorque sinto ante meus olhos<br \/>\nEstender-se h\u00famido v\u00e9u?<\/p>\n<p>E esta imagem resplendente, Que sorrir-me em sonhos vejo, Ai, t\u00e3o<br \/>\nbela que desejo<br \/>\nSempre mais tempo sonhar!<br \/>\nQuem \u00e9 que em t\u00e3o mago enleio<br \/>\nMe faz, sem querer, sonhar?<\/p>\n<p>Este ansiar incessante,<br \/>\nEsta esp&#8217;ran\u00e7a inda t\u00e3o &#8216;vaga<br \/>\nDe gozos, que a mente alaga,<br \/>\nMal lhe sabendo o valor,<br \/>\nEste ignoto sentimento&#8230;<br \/>\nDeus do C\u00e9u, ser\u00e1 o amor?<\/p>\n<p>Amor! que palavra \u00e9 esta, Que ela s\u00f3 me sobressalta E mil<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es exalta Desconhecidas pra mim&#8230;<br \/>\nQue poder m\u00e1gico encerra<br \/>\nPara me agitar assim?<\/p>\n<p>\u00c9 o amor o sentimento Que me faz arfar o seio? Este gozo por que<br \/>\nanseio<br \/>\nE a que aspira o cora\u00e7\u00e3o? \u00c9 pois amor este fogo,<br \/>\nEsta vaga inquieta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Nota do Autor. &#8211; N\u00e3o sou por certo eu o melhor juiz da verdade desta poesia,<br \/>\ncrevi-a de palpite. Julgue-a quem pode .<\/p>\n<h2>QUINZE ANOS<\/h2>\n<p><b>(NO \u00c1LBUM DO MEU AMIGO J. M. NOGUEIRA LIMA)<\/b><\/p>\n<p>Que s\u00e3o quinze anos, quando a virgem cora? Quando, j\u00e1 triste,<br \/>\nna solid\u00e3o vagueia?<br \/>\nQue s\u00e3o quinze anos, se ao surgir da aurora, A embala em sonhos embriagante<br \/>\nid\u00e9ia?<\/p>\n<p>Se ao fim da tarde, em languidez ca\u00edda, Do peito sente o palpitar<br \/>\ninquieto,<br \/>\nE aspira, ansiosa, mas ardente vida,<br \/>\nVida de amores, de paix\u00f5es, de afecto?<\/p>\n<p>Que s\u00e3o quinze anos, quando um sangue ardente<br \/>\nNo peito infunde abrasadora lava?<br \/>\nQuando aos assomos da paix\u00e3o nascente,<br \/>\nA alma da virgem se submete escrava?<\/p>\n<p>Ai, quantas vezes nesses jovens seios<br \/>\nSe esvai bem prestes a infantil bonan\u00e7a?<br \/>\nQuantas se ocultam juvenis enleios,<br \/>\nNas apar\u00eancias de pudor, crian\u00e7a?<\/p>\n<p>V\u00eas a palmeira, que no nosso clima Arbusto humilde, um vendaval derruba,<br \/>\nComo nas plagas, que o calor anima, Eleva altiva a majestosa juba?<\/p>\n<p>A mesma vida, que recebe a planta<br \/>\nNessas paragens onde o Sol dardeja,<br \/>\nO amor, o astro que a exist\u00eancia encanta,<br \/>\nA mesma vida ao cora\u00e7\u00e3o bafeja.<\/p>\n<p>E tu, que deixas os pueris folguedos, Como a grinalda que esfolhada viste,<br \/>\nE erras em choro por jardins e olmedos, Ai, virgem, virgem, j\u00e1 o amor<br \/>\nsentiste.<\/p>\n<p>J\u00e1 o aspiraste, percorrendo a relva, Entre perfumes de violeta e<br \/>\nrosas; Falou-te dele o rouxinol na selva,<br \/>\nE a estrela em noites de Ver\u00e3o formosas.<\/p>\n<p>Falou-te dele a matutina brisa,<br \/>\nPor entre as folhas sussurrando meiga;<br \/>\nNo prado a linfa, que a correr desliza,<br \/>\nE a borboleta nos rosais da veiga.<\/p>\n<p>Falou-te dele esta gentil paisagem, O azul dos c\u00e9us, a secular floresta.<br \/>\nEsse o mist\u00e9rio que em subtil linguagem<br \/>\n\u00c0s virgens conta a natureza em festa.<\/p>\n<p>Ouvindo, pois, as namoradas falas, Que eu delirante te falei, donzela,<br \/>\nO que receias? porque assim te calas, Rubra de pejo, que te faz mais bela?<\/p>\n<p>Esconde a fronte no meu peito, esconde, Mas n\u00e3o hesites ao dizer-me<br \/>\nque amas.<br \/>\nQue s\u00e3o quinze anos, linda flor? responde, Quando o teu seio se devora<br \/>\nem chamas?<\/p>\n<h2>O BOM REITOR<\/h2>\n<p>Sabem a hist\u00f3ria triste<br \/>\nDo bom reitor?<br \/>\nM\u00edsero, toda a vida<br \/>\nLevou com dor.<\/p>\n<p>Fez quanto bem podia, Mas&#8230; afinal<br \/>\nMorre, e na pobre campa<br \/>\nNem um sinal.<\/p>\n<p>Nem uma cruz ao menos<br \/>\nSe ergue no ch\u00e3o!<br \/>\nGeme-lhe s\u00f3 no t\u00famulo<br \/>\nA vira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vedes, al\u00e9m, na relva<br \/>\nJunto ao rosai,<br \/>\nFlores que h\u00e1 desfolhado<br \/>\nO vendaval?<\/p>\n<p>Cobrem-lhe a lousa humilde; A cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nPaga-lhe assim a d\u00edvida<br \/>\nDe compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Pobres, que amava tanto, Nunca, ao passar,<br \/>\nChoram, curvando a fronte<br \/>\nPara rezar.<\/p>\n<p>Nunca, ao romper do dia, O lavrador<br \/>\nP\u00e1ra e lamenta a sorte<br \/>\nDo bom reitor.<\/p>\n<p>As criancinhas nuas<br \/>\nQue estremeceu,<br \/>\nJ\u00e1 nem sequer se lembram<br \/>\nDo nome seu.<\/p>\n<p>No salgueiral vizinho, Ao p\u00f4r do Sol,<br \/>\nVai carpir-lhe saudades<br \/>\nO rouxinol.<\/p>\n<p>L\u00e1grimas&#8230; pobre campal<br \/>\nAi, n\u00e3o as tem;<br \/>\nS\u00f3 da manh\u00e3 o orvalho<br \/>\nRoci\u00e1-la vem.<\/p>\n<p>Da solit\u00e1ria Lua<br \/>\nA triste luz<br \/>\nGrava-lhe em vagas sombras,<br \/>\nEstranha cruz.<\/p>\n<p>E ele repousa, dorme, Vive no C\u00e9u.<br \/>\nDorme, esquecido e humilde, Como viveu.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesta vida amarga<br \/>\nSortes assim:<br \/>\nVive-se num mart\u00edrio,<br \/>\nMorre-se enfim.<\/p>\n<p>Sem que mem\u00f3ria fique<br \/>\nPara contar<br \/>\n\u00c0s gera\u00e7\u00f5es que passam,<br \/>\nNosso penar.<\/p>\n<p>Quem me escutar, se um dia<br \/>\nAo prado for,<br \/>\nOre pelo descanso<br \/>\nDo bom reitor.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Julho de 1864.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Publicada no \u00abJornal do Porto\u00bb Faz parle<br \/>\ndo folhetim\u2014\u00abImpress\u00f5es do campo\u00bb<br \/>\n\u2014 A Cec\u00edlia \u2014 assinado Diana de Aveleda<\/p>\n<h2>INICIA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Al\u00e9m, naquela avenida, De pl\u00e1tanos e salgueiros,<br \/>\nFoi que em teus beijos primeiros<br \/>\nBebi a primeira vida.<\/p>\n<p>Sob os copados verdores<br \/>\nDaquela frondosa rua,<br \/>\nMal vistos da pr\u00f3pria Lua,<br \/>\nFal\u00e1vamos n\u00f3s d&#8217;amores.<\/p>\n<p>Todos em nossa procura, N\u00f3s a rirmos escondidos.<br \/>\nOh! que instantes decorridos! Oh! que r\u00e1pida ventura!<\/p>\n<p>\u00abVai\u00bb, cusseste-me ao partires, Que estes beijos te d\u00eaem<br \/>\nvida. Adeus, a inf\u00e2ncia \u00e9 volvida! Luta, e&#8230; se n\u00e3o sucumbires&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>E a voz faltava-te em meio;<br \/>\nE eu disse com modo brando :<br \/>\n\u00abSe n\u00e3o sucumbir?&#8230;\u00bb Chorando<br \/>\nApertaste-me ao teu seio<\/p>\n<p>\u00abVolta; e a sentida promessa,<br \/>\nQue em meus beijos entendeste,<br \/>\nCumprida ser\u00e1\u00bb. Disseste:<br \/>\n\u00abAdeus. A luta come\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p>E come\u00e7ava! Ai, por vezes Me tomou o desalento; Por\u00e9m aquele<br \/>\nmomento Lembrava-me nos reveses.<\/p>\n<p>Lutei. E ao voltar agora<br \/>\nCom as lembran\u00e7as do passado,<br \/>\nDize-me, anjo, se me \u00e9 dado<br \/>\nRecordar-te ainda essa hora?<\/p>\n<p><b>1885.<\/b><\/p>\n<h2>A JOVEM MAE<\/h2>\n<h2>Vistes a jovem m\u00e3e junto do ber\u00e7o<br \/>\nDo filho adormecido?<br \/>\nQue lhe importava o resto do universo?<br \/>\nTudo o que a m\u00e3o de Deus nele h\u00e1 disperso<br \/>\nVia ali resumido.<\/h2>\n<p>A guerra vai acesa, o sangue corre<br \/>\nPelas na\u00e7\u00f5es da Terra;<br \/>\nMas todo esse rumor no ber\u00e7o morre :<br \/>\nA aumentar o sil\u00eancio at\u00e9 concorre<br \/>\nQue o gineceu encerra.<\/p>\n<p>Um dia, ao p\u00f4r do Sol, ela embalava<br \/>\nO ber\u00e7o do inocente.<br \/>\nE, com os olhos nele, se entregava<br \/>\nA sonhos de ventura e olvidava<br \/>\nNo porvir o presente.<\/p>\n<p>Por um momento a olhou ele e sorria: Mas que sorriso aquele!<br \/>\nA m\u00e3e, que todos os gestos lhe entendia, Estranhou-lhe o sorrir, que<br \/>\nde alegria<br \/>\nAi, n\u00e3o, n\u00e3o era ele.<\/p>\n<h2>O seio a palpitar-lhe, e mansamente<br \/>\nNos l\u00e1bios o beijava.<br \/>\nMas no amoroso \u00f3sculo. somente<br \/>\nRecebeu o esp\u00edrito inocente,<br \/>\nQue a Terra abandonava,<\/h2>\n<p>Tendes j\u00e1 visto o mar tranq\u00fcilo e unido<br \/>\nNas praias deslizando,<br \/>\nE depois levantar-se embravecido<br \/>\nQual o le\u00e3o, do ca\u00e7ador ferido,<br \/>\nAs crinas eri\u00e7ando?<\/p>\n<p>Tendes j\u00e1 visto o vento pela serra<br \/>\nGemendo brandamente,<br \/>\nPara depois, em tumultuosa guerra,<br \/>\nDescer aos vales, devastar a terra<br \/>\nAssolador, fremente?<\/p>\n<p>Assim a pobre m\u00e3e se ergueu, os ares<br \/>\nEnchendo com seus gritos!<br \/>\nComo a fera a rugir entre os palmares,<br \/>\nCorre a pobre sem tino, os seus olhares<br \/>\nVolvendo ao C\u00e9u aflitos.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la, di-la-eis impelida<br \/>\nPor sobre-humana for\u00e7a.<br \/>\nNem mais veloz, no bosque foragida.<br \/>\nAtrav\u00e9s das devesas perseguida,<br \/>\nCorre a t\u00edmida cor\u00e7a.<\/p>\n<p>De repente parou, como escutando<br \/>\nUma vaga harmonia.<br \/>\nE um estranho fulgor de quando em quando<br \/>\nVinha animar-lhe as faces, revelando<br \/>\nIns\u00f3lita alegria.<\/p>\n<p>Volta ao ber\u00e7o do filho inanimado. P\u00e1ra, olha-o, medita.<br \/>\nDepois cingindo-o ao seio angustiado,<br \/>\nCorre \u00e0 praia do mar, que o vento irado<br \/>\nEnt\u00e3o revolve e agita.<\/p>\n<p>\u00abFilho, filho, n\u00e3o partas s\u00f3 da vida, Espera, eu vou<br \/>\ncontigo.\u00bb<br \/>\nDisse, e nas penhas h\u00famidas erguida, Com o inocente, na vaga enfurecida<br \/>\nBusca o final jazigo.<\/p>\n<p>Viste a jovem m\u00e3e na campa fria<br \/>\nUnido o filho ao peito?<br \/>\nQue lhe importava o mundo, onde o n\u00e3o via?<br \/>\nComo outrora, embalando-o, adormecia,<br \/>\nMas no fun\u00e9reo leito.<\/p>\n<p><b>1862<\/b><\/p>\n<h2>A VIDA<\/h2>\n<p>A alvorada foi risonha; Ergueste-te como o dia, Eu fiz, naquela alvorada,<br \/>\nUma alegre profecia.<\/p>\n<p>Inda radiava fulgente V\u00e9nus, a saudosa estrela, Ja tu ornavas as trancas<br \/>\nE cantavas \u00e0 janela.<\/p>\n<p>E dos laranjais vizinhos<br \/>\nOs rouxin\u00f3is acordados<br \/>\nRespondiam-te com trino s<br \/>\nDa tua voz namorados.<\/p>\n<p>Dos virentes jasmineiros, Que a Primavera enflorava, Vinha cheio de perfumes<br \/>\nO vento que te beijava.<\/p>\n<p>Quem dissera ent\u00e3o ao ver-te<br \/>\nNessa risonha alvorada,<br \/>\nQue a noite, estrela cadente,<br \/>\nSerias inanimada?<\/p>\n<p align=\"right\">Escrito em um \u00e1lbum a pedido de<br \/>\nF. M. de Sousa Viterbo em 1870.<\/p>\n<h2>TRIGUEIRA<\/h2>\n<p>Trigueira! que tem? Mais feia Com essa cor te imaginas? Feia! tu, que assim<br \/>\nfascinas Com um s\u00f3 olhar dos teus! Que ci\u00fames tens da alvura<br \/>\nDesses semelhantes de neve ! Ai, pobre cabe\u00e7a, leve!<br \/>\nQue te nao castigue Deus.<\/p>\n<p>Trigueira! se tu soubesses<br \/>\nO que \u00e9 ser assim trigueira!<br \/>\nDessa ardilosa maneira<br \/>\nPorque tu o sabes ser ;<br \/>\nN\u00e3o virias lamentar-te,<br \/>\nToda sentida e chorosa,<br \/>\nTendo inveja \u00e0 cor da rosa,<br \/>\nSem motivos para a ter.<\/p>\n<p>Trigueira! Porque \u00e9s trigueira \u00c9 que eu assim te quis tanto.<br \/>\nDa\u00ed prov\u00e9m todo o encanto<br \/>\nEm que me traz este amor. E suspiras e murmuras;<br \/>\nQue mais desejavas inda? Pois serias tu mais linda, Se tivesses outra cor?<\/p>\n<p>Trigueira! onde mais real\u00e7a<br \/>\nO brilhar duns olhos pretos,<br \/>\nSempre h\u00famidos, sempre inquietos,<br \/>\nDo que numa cor assim?<br \/>\nOnde o correr duma l\u00e1grima<br \/>\nMais encantos apresenta?<br \/>\nE um sorriso, um s\u00f3, nos tenta,<br \/>\nComo me tentou a mim?<\/p>\n<p>Trigueira! E choras por isso! Choras, quando outras te invejam Essa cor,<br \/>\ne em v\u00e3o forcejam<br \/>\nPor, como tu, fascinar?<br \/>\n\u00d3 louca, nunca mais digas,<br \/>\nNunca mais, que \u00e9s desditosa.<br \/>\nInvejar a cor da rosa,<br \/>\nEm ti, \u00e9 quase pecar.<\/p>\n<p>Trigueira! Vamos, esconde-me<br \/>\nEsse choro de crian\u00e7a.<br \/>\nAi, que falta de confian\u00e7a!<br \/>\nQue graciosa timidez!<br \/>\nEnxuga os bonitos olhos,<br \/>\nEnt\u00e3o, n\u00e3o chores trigueira,<br \/>\nE nunca dessa maneira<br \/>\nTe lamentes outra vez.<\/p>\n<p><b>Abril de 1864<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Escrita no \u00e1lbum da Ex.mn Sr.&#8221; D. M. Veloso<br \/>\ne aproveitada para o romance \u2014 As Pupilas<br \/>\ndo Sr. Reitor \u2014 publicada no jornal do Porto<br \/>\nem 1866 e em volume em 1867.<\/b><\/p>\n<h2>A INTERCESS\u00c2O DA VIRGEM<br \/>\n(H. HE1NE)<\/h2>\n<p><b>I <\/b><\/p>\n<p>Jazia o filho no leito,<br \/>\nA m\u00e3e olhava o balc\u00e3o.<br \/>\n\u2014 \u00abN\u00e3o te levantas, meu filho,<br \/>\nPara ver a prociss\u00e3o?\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abAi, m\u00e3e! se estou t\u00e3o doente, Que n\u00e3o<br \/>\nposso ouvir nem ver ! Penso nela&#8230; a pobre morta&#8230; Como n\u00e3o hei-de<br \/>\neu sofrer!\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abErgue-te, filho, e \u00e0 romagem<br \/>\nIremos juntos a orar,<br \/>\nQue aos cora\u00e7\u00f5es doloridos<br \/>\nSabe a Virgem consolar.\u00bb<\/p>\n<p>J\u00e1 se ouvem os sacros hinos, Da cruz flutua o pend\u00e3o;<br \/>\nEm Col\u00f4nia sobre o Reno<br \/>\nVai passando a prociss\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Il<\/b><\/p>\n<p>Como a Senhora est\u00e1 linda<br \/>\nCom o seu mais rico vestir!<br \/>\nCorrem-lhe em chusma os doentes<br \/>\nMuito tem ela que ouvir!<\/p>\n<p>Todos lhe trazem promessas Com ferventes devo\u00e7\u00f5es: Membros,<br \/>\np\u00e9s e m\u00e3os de cera, Jazem no altar aos mont\u00f5es;<\/p>\n<p>Quem lhe der um p\u00e9 de cera, Logo do p\u00e9 sarar\u00e1;<br \/>\nQuem m\u00e3os de cera lhe ofere\u00e7a, A m\u00e3o curada ver\u00e1.<\/p>\n<p>Mancos, que \u00e0 romagem foram, V\u00eaem-se na corda saltar;<br \/>\nOutros de m\u00e3os aleijadas, Destros agora a tocar.<\/p>\n<p>Da alva cera duma vela<br \/>\nFez a m\u00e3e um cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2014 \u00abLeva isto \u00e0 Virgem Maria,<br \/>\nQue te cure essa paix\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>Gemendo, o filho a recebe, Gemendo a vai ofertar;<br \/>\nDos olhos lhe brota o pranto<br \/>\nDo cora\u00e7\u00e3o este orar;<\/p>\n<p>\u2014 \u00ab\u00d3 Maria gloriosa!<br \/>\nServa pura e m\u00e3e de Deus:<br \/>\nVirgem, dos C\u00e9us Soberana,<br \/>\nEscuta os lamentos meus i<\/p>\n<p>\u00abEm Col\u00f4nia, onde as igrejas<br \/>\nSe podem contar \u00e0s cem,<br \/>\nOs meus dias descuidado<br \/>\nPassava com minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u00abE junto de n\u00f3s vivia Margarida&#8230; a que morreu&#8230; Dou-te um<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o de cera, Cura as feridas do meu!<\/p>\n<p>\u00abCura minh&#8217;alma dorida, Que eu com devoto fervor Direi de dia e de<br \/>\nnoite:<br \/>\n\u2014\u00abGl\u00f3ria a ti. M\u00e3e do Senhor!\u00bb<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>Alta noite, adormecidos<br \/>\nJaziam o filho e a m\u00e3e,<br \/>\nE a Virgem mui de mansinho<br \/>\nEntrando no quarto vem.<\/p>\n<p>Pendida sobre o doente<br \/>\nNo peito a m\u00e3o lhe pousou,<br \/>\nE com gesto suav\u00edssimo<br \/>\nSorrindo se retirou.<\/p>\n<p>Como se atrav\u00e9s dum sonho, Tudo isto a m\u00e3e percebeu<br \/>\nE acordando alvoro\u00e7ada, Junto do filho correu<\/p>\n<p><b>Estendido sobre o leito, Morto, a triste o foi achar; Andava-lhe a luz<br \/>\nda aurora Pelas faces a brincar.<\/b><\/p>\n<p>Vendo-o assim, a m\u00e3e piedosa<br \/>\nJuntou as m\u00e3os com fervor<br \/>\nE em voz baixa disse, orando:<br \/>\n\u2014 \u00ab Gl\u00f3ria a ti, M\u00e3e do Senhor I\u00bb<\/p>\n<p><b>Abril de 1864 <\/b><\/p>\n<h2>METEORO<\/h2>\n<p>N\u00e3o a viram passar? Era no Outono; Quando languesce a flor, quando<br \/>\nna selva Se cala o rouxinol e ao abandono<br \/>\nJazem as folhas na crestada relva.<\/p>\n<p>N\u00e3o a viram passar? As altas neves<br \/>\nRevestiam das serras as cumeadas,<br \/>\nE em vez das brisas perpassando leves,<br \/>\nAssopravam violentas as rajadas.<\/p>\n<p>No meio da tristeza destas cenas, Ela s\u00f3, muda e p\u00e1lida, sorria,<br \/>\nO seio a anuviar-se-lhe de penas, O rosto a iluminar-se de alegria.<\/p>\n<p>N\u00e3o a viram? Passou. A natureza<br \/>\n\u00c9 outra vez de galas revestida,<br \/>\nMas minh&#8217;alma \u00e9 coberta de tristeza<br \/>\nComo naquele instante da partida.<\/p>\n<p><b>Setembro de 1860.<\/b><br \/>\n<b>Escrita em um \u00e1lbum<\/b><\/p>\n<h2>A DESPEDIDA DA AMA<br \/>\n(A meu primo e amigo J. ]. Pinto<br \/>\nCoelho)<\/h2>\n<p align=\"justify\">Adeus filho do meu peito, Que do meu peito nutri&#8230; Parto.<br \/>\nVou deixar-te, filho, Ai, que farei eu sem ti? !<\/p>\n<p>Adeus! J\u00e1 quando acordares<br \/>\nChorando n\u00e3o me ver\u00e1s;<br \/>\nAs noites a acalentar-te<br \/>\nOutra voz escutar\u00e1s.<\/p>\n<p>Que amor te ganhei, meu filho I Que triste amor este meu!<br \/>\nSe assim tinha de deixar-te, Pra que tanto te quis eu ?<\/p>\n<p>Os teus primeiros gemidos<br \/>\nTua m\u00e3e n\u00e3o quis ouvir;<br \/>\nE a mim, que os calei com beijos,<br \/>\nMandam-me agora partir!<\/p>\n<p>Pus \u00e0 volta do teu ber\u00e7o<br \/>\nTodo o amor que um seio tem,<br \/>\nE arrancam-te de meus bra\u00e7os,<br \/>\nPorque eu n\u00e3o sou tua m\u00e3e!<\/p>\n<p>Os teus vagidos de infante Fui eu quem os sosseguei; Carinhos que semeava,<br \/>\nPara a outra os semeei !<\/p>\n<p>Parto. Dentro em pouco, filho, Nem tu me h\u00e1s-de conhecer;<br \/>\nE assim de pequenino<br \/>\nTe ensinam j\u00e1 a esquecer.<\/p>\n<p>Adeus! Nesta despedida<br \/>\nA alma toda se me vai.<br \/>\nE, sem querer, o meu pranto<br \/>\nSobre a tua fronte cai,<\/p>\n<p>Que desse sono inocente<br \/>\nTe n\u00e3o v\u00e1 ele acordar;<br \/>\nQue as for\u00e7as me faltariam<br \/>\nEnt\u00e3o, para te deixar.<\/p>\n<p>Vamos, pobre mulher, vamos<br \/>\nEst\u00e1 finda a cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nDeste vida a este menino,<br \/>\nN\u00e3o lhe d\u00eas o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o? Quem to pede ? Pedem-te o leite, n\u00e3o mais.<br \/>\nVamos, pobre mulher, vamos, Que o acordas com teus ais!<\/p>\n<p>Adeus filho da minha alma, Teus carinhos n\u00e3o s\u00e3o meus, O choro<br \/>\ncorta-me a fala,<br \/>\nMal posso dizer-te&#8230; adeus.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Mar\u00e7o de 1865.<\/b><\/p>\n<h2>NO ALTAR DA P\u00c1TRIA<br \/>\n(Ao meu amigo Jo\u00e3o Marques Nogueira<br \/>\nUma)<\/h2>\n<p>1<\/p>\n<p>Tinge do oriente as serras<br \/>\nO matutino alvor;<br \/>\nE do clarim das guerras<br \/>\nSe ouve o mortal clangor.<\/p>\n<p>\u2014 \u00abAi, grata paz dos lares, Adeus, for\u00e7a \u00e9 partir.<br \/>\n\u00d3 sombra dos pomares! \u00d3 rosas a florir!<\/p>\n<p>\u00abAs hostes reunidas Chamam-me a combater, Ai, longas avenidas, Tornar-vos-ei<br \/>\na ver ?<\/p>\n<p>\u00abAdeus, loucos amores! Adeus, beijos febris, Adeus, mudos verdores,<br \/>\nQue em sombras os encobris.\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00ab\u00d4 m\u00e3e, d\u00e1-me uma espada<br \/>\nOi\u00e7o da P\u00e1tria a voz!\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00abEi-la. \u00c9 imaculada, Era a de teus av\u00f3s!\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abPura a trarei, voltando&#8230; Se n\u00e3o morrer ali.\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00abVai! disse a m\u00e3e, chorando, Eu rezarei por ti.\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abFilho, meu filho, espera! N\u00e3o me ouve j\u00e1. Partiu!\u00bb<br \/>\nE o ardor que a sustivera<br \/>\nDe todo se extinguiu.<\/p>\n<p>No campo j\u00e1 se escuta Das alas o marchar. Que agigantada luta Al\u00e9m<br \/>\nse vai travar?<\/p>\n<p>D\u00e1-se o sinal! Furiosas Partem as legi\u00f5es; Encontram-se raivosas<br \/>\nBramem como os le\u00f5es.<\/p>\n<p>Ai, que tinir de espadas! Que estr\u00e9pito fatal!<br \/>\nQue vozes angustiadas<br \/>\nSe escutam no arraial!<\/p>\n<p>O sangue rutilante Inunda e tinge o ch\u00e3o; Aos ais do agonizante<br \/>\nResponde a impreca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em p\u00e9, os combatentes, Perdidos os corc\u00e9is, Cingem-se quais<br \/>\nserpentes Em p\u00e9rfidos an\u00e9is.<\/p>\n<p>A luta \u00e9 bra\u00e7o a bra\u00e7o, A golpes de punhais;<br \/>\nSe caem de cansa\u00e7o, N\u00e3o se levantam mais.<\/p>\n<p>A luta \u00e9 peito a peito, Terr\u00edvel e cruel!<br \/>\n\u00c0s c\u00e3s n\u00e3o h\u00e1 respeito, \u00c0 dor n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quartel<\/p>\n<p>Findou! Tranq\u00fcilo \u00e9 tudo&#8230; J\u00e1 tudo emudeceu.<br \/>\nO campo \u00e9 triste e mudo; \u00c9 triste e escuro o c\u00e9u!<\/p>\n<p>A custa de mil vidas Salvou-se a P\u00e1tria enfim! Mas porque s\u00e3o<br \/>\nsentidas As vozes do clarim?<\/p>\n<p>As hostes vitoriosas Porque t\u00e3o tristes v\u00eam? Ai, que \u00e2nsias<br \/>\ndolorosas Sentia a pobre m\u00e3e!<\/p>\n<p>Passa a primeira fila&#8230; M\u00edsera, que o n\u00e3o v\u00eas!&#8230; Outra,<br \/>\noutra mais. Vacila&#8230; Cresce-lhe a palidez!<\/p>\n<p>Olha-as uma por uma, E a \u00faltima passou;<br \/>\nE delas em nenhuma<br \/>\nInquieta o filho achou!<\/p>\n<p>E o c\u00e9u mais se escurece ; O campo \u00e9 envolto em p\u00f3<br \/>\n; E a triste permanece Absorta, muda e s\u00f3 I<\/p>\n<p>Que solid\u00e3o de morte! Que erma a plan\u00edcie jaz! Dorme no campo<br \/>\no forte, Sono de gl\u00f3ria e paz.<\/p>\n<p>Dorme a valente ra\u00e7a<br \/>\nDe intr\u00e9pidos her\u00f3is!<br \/>\nCegos, ao sol que passa<br \/>\nSa\u00fadam novos s\u00f3is.<\/p>\n<p>Que sepulcral figura<br \/>\nSe adianta al\u00e9m subtil;<br \/>\nT\u00e3o cheio de amargura<br \/>\nO gesto e o olhar febril!<\/p>\n<p>\u00c0 ensang\u00fcentada arena Os passos seus conduz; Raiou sobre esta<br \/>\ncena Da Lua a tarda luz.<\/p>\n<p>S\u00fabito em desvario<br \/>\nSolta um sentido ai,<br \/>\nJunto a um cad\u00e1ver frio<br \/>\nDesfeita em pranto cai<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9s tu! \u00e9s tu? ai, filho! Ai, como te encontrei!<br \/>\nComo est\u00e3o j\u00e1 sem brilho<br \/>\nOs olhos que eu beijei!<\/p>\n<p>\u00abVai, sombra idolatrada, \u00c0 tua P\u00e1tria, aos C\u00e9us!\u00bb<br \/>\nCinge-lhe ao peito a espada; Morre ao dizer-lhe: &lt; Adeus!\u00bb<\/p>\n<h2>HINO AO TABACO<\/h2>\n<p>No centro dos c\u00edrculos De nuvens de fumo, Um deus me presumo,<br \/>\nUm deus sobre o altar! Nem doutros tur\u00edbulos<br \/>\nMe apraz tanto o incenso Como o deste imenso Cachimbo exemplar!<\/p>\n<p>Em divas espl\u00eandidos, Cruzadas as pernas, Fuma, horas eternas.<br \/>\nO ardente sult\u00e3o Subindo-lhe ao c\u00e9rebro O m\u00e1gico aroma,<br \/>\nEsquece Mafoma,<br \/>\nHouris e Alcor\u00e3o.<\/p>\n<p>Longe, oh! longe o \u00f3pio, Que os sonhos deleita<br \/>\nDa m\u00edsera seita<br \/>\nDos Theriakis!<br \/>\nHorror ao narc\u00f3tico<br \/>\nQue vem das papoulas!<br \/>\nE ao que arde em ca\u00e7oulas<br \/>\nNo altar de Caciz!<\/p>\n<p>Que a ra\u00e7a gent\u00edlica Das zonas ardentes Consuma as sementes<br \/>\nDo ar\u00e1bio caf\u00e9.<br \/>\nDespejem-se as ch\u00e1venas<br \/>\nDa atroz beberagem<br \/>\nDa cor do selvagem<br \/>\nDa adusta Guin\u00e9.<\/p>\n<p>E a tal folha ex\u00f3tica, Del\u00edcias da China, Por nossa m\u00e1<br \/>\nsina Trazida de l\u00e1,<br \/>\nServida em fam\u00edlia<br \/>\nNum morno hidro-infuso?&#8230; An\u00e1tema ao uso<br \/>\nDas folhas do ch\u00e1!<\/p>\n<p>Nem tu, \u00f3 alco\u00f3lico Humor dos lagares, Ter\u00e1s meus cantares,<br \/>\nMeus hinos ter\u00e1s, Embora das \u00e2nforas, Vazado nas ta\u00e7as,<br \/>\nAos outros tu fa\u00e7as, A l\u00edngua loquaz.<\/p>\n<p>Cerveja brit\u00e2nica, De furor espuma? De coisa nenhuma Me podes servir.<br \/>\nQuando oi\u00e7o do l\u00fapulo<br \/>\nGabarem proezas<br \/>\n\u00c0s boas inglesas,<br \/>\nDesato-me a rir.<\/p>\n<p>Nem venha da c\u00e2nfora<br \/>\nPregar maravilhas<br \/>\nO das cigarrilhas<br \/>\nFamoso inventor.<br \/>\nRaspail \u00e9 cism\u00e1tico<br \/>\nE eu sou ortodoxo<br \/>\nO seu paradoxo<br \/>\nN\u00e3o me h\u00e1-de ele impor.<\/p>\n<p>Meu canto \u00e9 da Am\u00e9rica, Pa\u00eds do tabaco,<br \/>\nPerante o qual Baco<br \/>\nSeu ceptro partiu.<br \/>\nA Europa, \u00c1sia e \u00c1frica<br \/>\nE a Terra hoje toda<br \/>\nEste her\u00f3i da moda<br \/>\nDe fumo cobriu.<\/p>\n<p>At\u00e9 na Lap\u00f3nia<br \/>\nDa gente pequena,<br \/>\nSe fuma; e no Sena,<br \/>\nNo Tibre e no P\u00f3,<br \/>\nNo Volga e no V\u00edstula,<br \/>\nNo Tejo e no Douro;<br \/>\nQue imenso tesouro<br \/>\nSe deve a Nicot!<\/p>\n<p>Meus \u00e1ridos l\u00e1bios<br \/>\nMais fumo inda aspirem;<br \/>\nQue os parvos suspirem<br \/>\nPor beijos aos mil.<br \/>\nN\u00e3o quero outros \u00f3sculos,<br \/>\nN\u00e3o quero outra amante..<br \/>\nQual mais doudejante<br \/>\nQue o fumo subtil?<\/p>\n<p>Tornadas Ves\u00favios, As bocas fumegam<br \/>\nDe nuvens que cegam Vomitam mont\u00f5es. Fumar! Oh del\u00edcias! Prazer<br \/>\nde nababo!<br \/>\nE leve o Diabo<br \/>\nDo mundo as paix\u00f5es.<\/p>\n<h2>TERESA<br \/>\n(A minha sobrinha Ana C. Gomes Coelho)<\/h2>\n<p>Era uma crian\u00e7a loura<br \/>\nQuando a conheci pequena;<br \/>\nMais branca do que a a\u00e7ucena<br \/>\nE pronta sempre a chorar.<br \/>\nHavia naqueles olhos<br \/>\nDe um certo azul esva\u00eddo,<br \/>\nN\u00e3o sei que oculto sentido<br \/>\nQue me fazia cismar.<\/p>\n<p>Quantas vezes, ao p\u00e9 dela, Correndo-lhe a m\u00e3o nas trancas,<br \/>\nEu lhe disse : \u00abTu n\u00e3o dan\u00e7as, Como v\u00eas dan\u00e7ar<br \/>\nas mais?\u00bb<br \/>\nEla olhava-me e sorria, Sorria, mas suspirava,<br \/>\nE inda mais triste ficava, Como nem imaginais.<\/p>\n<p>Meu Deus, que crian\u00e7a aquela! Que t\u00e3o precoce tristeza!<br \/>\nDizem-lhe um dia: \u00abTeresa Sabes? tua m\u00e3e morreu.\u00bb F\u00eaz-se<br \/>\np\u00e1lida de morte&#8230;<br \/>\nE, levando as m\u00e3os ao seio, Ia a falar, mas, no meio, Reprimiu-se e<br \/>\nemudeceu<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o nunca a viram Mais com as suas companheiras; Ficava-se<br \/>\nhoras inteiras<br \/>\n\u00c0 sombra do laranjal. Surpreendiam-na sozinha<br \/>\nCom os olhos fitos no espa\u00e7o<br \/>\nE esfolhando no rega\u00e7o<br \/>\nAs rosas do seu rosai.<\/p>\n<p>As brisas, gemendo tristes Por entre a verd e folhagem, Segredavam-lhe a<br \/>\nlinguagem Sonora da solid\u00e3o.<br \/>\nEssas mil vozes do campo, Todas ela compreendia, Que fadado pra poesia<br \/>\nFora aquele cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ai, que inf\u00e2ncia t\u00e3o de gelo! Que madrugada da vida!<br \/>\nAi, pobr e alma estremecida Pelas saudades da m\u00e3e! Quantas vezes, alta<br \/>\nnoite,<br \/>\nA triste julgava v\u00ea-la<br \/>\nEm cada f\u00falgida estrela<br \/>\nQue o firmamento cont\u00e9m!<\/p>\n<p>Um dia, ao cair da tarde,<br \/>\nE de uma tarde de Outono,<br \/>\nAcordou de um brando sono<br \/>\nE p\u00f4s-se a rir para mim.<br \/>\n\u00abJ\u00e1 sorris? \u00c9s salva, filha,<br \/>\nEnfim!\u00bb E a beijei contente.<br \/>\nOlhando-me ternamente<br \/>\nEla repetiu: \u00abEnfim!\u00bb<\/p>\n<p>Enfim!&#8230; mas que triste acento<br \/>\nNessa palavra vertera!<br \/>\nFoi como que se dissera<br \/>\nA vida um \u00faltimo adeus.<br \/>\nEra como um grito d&#8217;alma,<br \/>\nRompendo a pris\u00e3o que a encerra,<br \/>\nE partindo-se da Terra<br \/>\nPra fundir-se nos C\u00e9us<\/p>\n<p>Iluminavam-lhe as faces<br \/>\nOs raios de estranho fogo.<br \/>\nAo v\u00ea-la compreendi logo<br \/>\nTudo o que se ia passar.<br \/>\n\u00abTeresa, que tens? Responde.\u00bb<br \/>\nDisse, cingindo-a a meu peito;<br \/>\nE ao levant\u00e1-la do leito<br \/>\nAssustou-me aquele olhar.<\/p>\n<p>As faces s\u00e3o-lhe de neve Na frialdade e na alvura. O sorrir que a<br \/>\ntransfigura<br \/>\nD\u00e1-lhe um todo divinal.<br \/>\nPor sobre as c\u00e2ndidas roupas<br \/>\nCaem-lhe as trancas douradas,<br \/>\nE nas p\u00e1lpebras cerradas<br \/>\nSe extingue o alento vital.<\/p>\n<p>Nos l\u00e1bios j\u00e1 descorados<br \/>\nQue meiga express\u00e3o escrita!<br \/>\nO seio j\u00e1 n\u00e3o palpita&#8230;<br \/>\nL\u00e2nguida a fronte lhe cai&#8230;<br \/>\nUma l\u00e1grima saudosa<br \/>\nPelas faces lhe resvala,<br \/>\nE a vida inteira se exala<br \/>\nNum sumido e extremo ai.<\/p>\n<p>Era uma crian\u00e7a loura Quando a vi na sepultura, Da a\u00e7ucena<br \/>\ntinha a alvura, Teve seu curto durar. Daqueles olhos serenos<br \/>\nDe um certo azul esva\u00eddo, Ai, fatal era o sentido<br \/>\nQue me fazia cismar<\/p>\n<h2>NUM \u00c1LBUM<\/h2>\n<p>Se exigirem perfumes \u00e0s flores<br \/>\nPra tecerem com elas grinaldas,<br \/>\nN\u00e3o procurem do monte nas fraldas<br \/>\nA modesta e inodora cec\u00e9m.<br \/>\nSe igualmente desejas, amigo,<br \/>\nPara aqui mais que versos, poesia,<br \/>\nAntes deixes a folha vazia,<br \/>\nPois meus versos poesia n\u00e3o t\u00eam<\/p>\n<h2>SONHO<br \/>\n(DE H. HEINE)<\/h2>\n<p>Sonhando, chorei. Sonhava Que morta te estava a ver. Acordei: ardentes l\u00e1grimas<br \/>\nSenti nas faces correr.<\/p>\n<p>Sonhando, chorei. Sonhada Que tu me querias deixar. Acordei: amargamente Fiquei<br \/>\ndepois a chorar.<\/p>\n<p>Sonhando, chorei, Sonhava<br \/>\nQue esse amor ainda era meu.<br \/>\nAcordei: corre o meu pranto<br \/>\nComo ainda assim n\u00e3o correu,<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Abril da 1864.<\/b><\/p>\n<h2>A NOVI\u00c7A<br \/>\n(NO \u00c1LBUM DA EX.MA SR.\u00aa D. J\u00daLIA ALVES PASSOS)<\/h2>\n<p>\u00abOh! vem, querida irm\u00e3, do santu\u00e1rio do templo, J\u00e1<br \/>\ndesce a receber-te o celestial Esposo.<br \/>\nVem ser da nossa f\u00e9 sublime o vivo exemplo; Vem, deixa sem pesar do<br \/>\nmundo o falso gozo.<\/p>\n<p>\u00abVem; dos c\u00edrios \u00e0 luz, ao som de alegres hinos, Cinge o<br \/>\nh\u00e1bito escuro, emblema da humildade,<br \/>\nE, abrasada no ardor dos teus estos divinos,<br \/>\nDespe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade,<\/p>\n<p>\u00abEsposa do Senhor, virgem c\u00e2ndida e pura, Do teu noviciado expiram<br \/>\nhoje os dias.<br \/>\nN\u00e3o tremas ao fitar as portas da clausura; Tamb\u00e9m na estreita<br \/>\ncela h\u00e1 brandas alegrias.\u00bb<\/p>\n<p>Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em prociss\u00e3o pelas extensas<br \/>\nnaves,<br \/>\nEspalham-se na igreja as vozes do hino santo, Melanc\u00f3lica voz de aprisionadas<br \/>\naves.<\/p>\n<p>Ca\u00eddo o longo v\u00e9u por sobre a fronte airosa<br \/>\nCaminha lentamente a p\u00e1lida novi\u00e7a;<br \/>\nNos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,<br \/>\nUm como cintilar de l\u00e2mpada morti\u00e7a.<\/p>\n<p>Sobre os degraus do altar humilde se ajoelha<br \/>\nE ao culto fervorosa as trancas sacrifica.<br \/>\n\u00abRecolhe-te ao redil, imaculada ovelha,<br \/>\nTeus tesouros d&#8217;amor nas aras santifica.\u00bb<\/p>\n<p>E o coro ergue outra vez o ritual hosana,<br \/>\nEntre nuvens de incenso, \u00e0 voz do \u00f3rg\u00e3o sagrado; Responde-lhe<br \/>\no rezar da multid\u00e3o profana,<br \/>\nQue transp\u00f4s curiosa o p\u00f3rtico elevado.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia \u00e9 finda; a monja de joelhos<br \/>\nPermanece, inclinada a face sobre a terra;<br \/>\nEra no ocaso o Sol; e seus clar\u00f5es vermelhos<br \/>\nVinham tingir o altar, tingindo ao longe a serra.<\/p>\n<p>Longo tempo ali esteve, as p\u00e1lpebras descidas. Im\u00f3vel, silenciosa,<br \/>\nem \u00eaxtase absorta.<br \/>\nErgueram-na afinal as monjas comovidas: Doloroso mist\u00e9rio&#8230; a pobre<br \/>\nestava morta!<\/p>\n<p><b>Julho de 1865.<\/b><\/p>\n<h2>O CASTIGO DE DEUS<\/h2>\n<p>Terminara a peleja. Ensang\u00fcentado Jaz o campo da atroz carnificina: Um<br \/>\nsinistro clar\u00e3o avermelhado<br \/>\nDo ex\u00e9rcito ao longe a marcha ensina.<\/p>\n<p>O inc\u00eandio, a ruina e a feroz matan\u00e7a<br \/>\nS\u00e3o as rel\u00edquias da j\u00e1 finda guerra.<br \/>\nAi dos vencidos! Gritos de vingan\u00e7a,<br \/>\nPerseguem os fugidos pela serra.<\/p>\n<p>Ai dos vencidos! A furiosa plebe<br \/>\nErra nos campos com medonha grita;<br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 quartel, piedade n\u00e3o concebe;<br \/>\nUm cruento furor a move e agita.<\/p>\n<p>Corre em tropel, corre \u00e9bria de vit\u00f3ria, Arrastando os cad\u00e1veres<br \/>\ndespidos. Maculando os laur\u00e9is da sua gl\u00f3ria<br \/>\nNa lama, envolta em sangue dos vencidos<\/p>\n<p>Num vale retirado, umbroso, oculto, Estorcia-se um velho agonizante.<br \/>\nOuve em del\u00edrio, um h\u00f3rrido tumulto, Qual de dem\u00f4nios<br \/>\ninfernal descante.<\/p>\n<p>Com o rosto alterado, o olhar extinto, P\u00e1lida a fronte, sem vigor, j\u00e1<br \/>\nfria.<br \/>\n\u00abAi, que sede cruel esta que sinto!<br \/>\n\u00c1gua, dai-me \u00e1gua!\u00bb diz. Ningu\u00e9m o ouvia.<\/p>\n<p>\u00ab\u00c1gua, dai-me \u00e1gua!\u00bb brada com voz rouca, Que se lhe<br \/>\nprende na \u00e1rida garganta.<br \/>\nAo longe, a turba, numa orgia louca, Hinos blasfemos, implac\u00e1vel, canta.<\/p>\n<p>No del\u00edrio violento, que alucina,<br \/>\nJulga-se \u00e0s vezes de um regato \u00e0 borda ;<br \/>\nBem-diz, chorando, protec\u00e7\u00e3o divina,<br \/>\nMas ai, que cedo deste sonho acorda.<\/p>\n<p>Acorda, e v\u00ea-se \u00e0 beira de um abismo; Queimam-lhe os l\u00e1bios<br \/>\nqual ardente fr\u00e1gua, E a custo, em terr\u00edvel paroxismo,<br \/>\nSufocado repete : \u00ab\u00c1gua, dai-me \u00e1gua!\u00bb<\/p>\n<p>Como se Deus escutasse<br \/>\nO grito do agonizante,<br \/>\nSurge do velho diante<br \/>\nUma ang\u00e9lica vis\u00e3o;<br \/>\nCom as l\u00e1grimas em fio<br \/>\nPelas faces cor de neve<br \/>\nCaminha com passo leve<br \/>\nPara o prostrado anci\u00e3o.<\/p>\n<p>Na brandura do semblante,<br \/>\nNo olhar magoado e aflito<br \/>\nL\u00ea-se um poema inteiro escrito<br \/>\nDe caridade e de amor.<br \/>\nCorre ansiada e pressurosa<br \/>\nE toda cheia de gra\u00e7a<br \/>\nEm socorro da desgra\u00e7a<br \/>\nCom piedoso fervor.<\/p>\n<p>Junto do velho ajoelhada Ergue-o com meigo desvelo; E as trancas do seu cabelo<br \/>\n\u00c0s c\u00e3s se v\u00e3o misturar. Aproxima-lhe dos l\u00e1bios<br \/>\nA \u00e1gua que ele pedia;<br \/>\nE ao v\u00ea-lo bebe r sorria&#8230; Sorria&#8230; mas a chorar.<\/p>\n<p>E uma l\u00e1grima fervente, Gentil p\u00e9rola preciosa, Caiu na fronte<br \/>\nrugosa<br \/>\nDo velho, que estremeceu.<br \/>\nE s\u00f3 ent\u00e3o, como em sonhos,<br \/>\nFoi que o triste moribundo<br \/>\nFitou um olhar profundo<br \/>\nNeste enviado do C\u00e9u.<\/p>\n<p>Ela sorrindo-lhe meiga, Ao v\u00ea-lo assim admirado<br \/>\nLhe disse : \u00abVelho soldado, Bebei, coitado, bebei.<br \/>\nH\u00e1 dez anos, nestes s\u00edtios, Como v\u00f3s, velho, ferido,<br \/>\nO meu pai estremecido, Ap\u00f3s a guerra encontrei.<\/p>\n<p>\u00abComo o vi, meu Deus! J\u00e1 frio, J\u00e1 co&#8217;a vista embaciada,<br \/>\nA fronte roxa, gelada,<br \/>\nOs l\u00e1bios em fogo, a arder.<br \/>\n\u00ab\u2014 \u00c1gua! \u2014 bradava convulso;<br \/>\n\u2014 \u00c1gua! \u2014 que de sede morro I \u00bb<br \/>\nA fonte vizinha corro&#8230;<br \/>\nCheguei&#8230; para o ver morrer.<\/p>\n<p>\u00abEra ent\u00e3o crian\u00e7a ainda; Mas esta cena de morte Impressionou-me<br \/>\nde sorte Que nunca mais a esqueci.<br \/>\nSempre, sempre aquela imagem<br \/>\nMuda, p\u00e1lida, cruenta,<br \/>\nNos meus sonhos se apresenta;<br \/>\nVejo-a ainda como a vi.<\/p>\n<p>\u00abCurvei-me sobre o cad\u00e1ver<br \/>\nA aquec\u00ea-lo com meus beijos;<br \/>\nAi, baldados meus desejos!<br \/>\nQue esse frio era mortal.<br \/>\nJurei ent\u00e3o, pela Virgem,<br \/>\nNo fervor da minha m\u00e1goa,<br \/>\nDe correr sempre com \u00e1gua<br \/>\nPelas tendas do arraial.<\/p>\n<p>\u00abQuantas vezes \u00e0 blasf\u00eamia,<br \/>\nQue o del\u00edrio ao peito arranca,<br \/>\nEsta \u00e1gua, que a sede estanca,<br \/>\nBendita por Deus, p\u00f4s fim!&#8230;<br \/>\nQuantos nobres cavaleiros,<br \/>\nQuantos mo\u00e7os, quantos velhos,<br \/>\nEu vi cair de joelhos,<br \/>\nSolu\u00e7ando ao p\u00e9 de mim!<\/p>\n<p>\u00abA cada sede que estanco, A cada dor que mitigo, Pareca-me que consigo<br \/>\nMatar a sede a meu pai, \u00c0quele velho soldado<br \/>\nQue h\u00e1 dez anos, nesta selva, Sobre uma cama de relva Exalou o extremo<br \/>\nai.\u00bb<\/p>\n<p>O velho, ouvindo-a, estremece.<br \/>\n\u00abNestes s\u00edtios ! H\u00e1 dez anos!<br \/>\nImpenetr\u00e1veis arcanos!<br \/>\nDedo invis\u00edvel de Deus!<br \/>\nE \u00e9s tu quem me socorres ?!<br \/>\nLuz fatal se me revela.<br \/>\nVingaste teu pai, donzela,<br \/>\nCumpriste as ordens do C\u00e9u!\u00bb<\/p>\n<p>E a fronte l\u00edvida, exausta Por extremado cansa\u00e7o, Deixou pender<br \/>\nno rega\u00e7o<br \/>\nDa pobre \u00f3rf\u00e3 que a sustem. Um supremo olhar de ang\u00fastia<br \/>\nNela por momentos fita;<br \/>\nNela, que o encara aflita<br \/>\nComo carinhosa m\u00e3e,<\/p>\n<p>\u00abMorre em paz, velho soldado, Por mim meu pai te perdoa,<br \/>\nSe a hora extrema j\u00e1 te soa, Podes alegre partir.<br \/>\nQue seja esta gota d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nA que te lave do crime;<br \/>\nPossa esta dor, que te oprime<br \/>\nAs tuas culpas remir I\u00bb<\/p>\n<p>E ao longe a turba infrene tripudiava Sobre o cruento campo da matan\u00e7a;<br \/>\nDos homens a vingan\u00e7a ali reinava. Reinava aqui de Deus s\u00f3 a<br \/>\nvingan\u00e7a.<\/p>\n<h2>NO BAILE<\/h2>\n<p>Ia o baile a findar. Nas vastas salas, Que o fulgor de mil cirios ilumina,<br \/>\nSoarn da orquestra as notas harmoniosas<br \/>\nA convidar a derradeira valsa.<br \/>\nO seio a arfar, as trancas em desordem,<br \/>\nOs ombros nus, o gesto requebrado. Como estrelas cadentes, as valsistas<br \/>\nEm veloz turbilh\u00e3o girando, passam. Nos dourados espelhos se reflecte<br \/>\nTodo o encanto da cena. Novos mundos<br \/>\nLuminosos, \u00edlorentes, dali surgem<br \/>\nLonge e ao longe se estendem sem que possa<br \/>\nEncontrar-lhes limite a vista errante.<br \/>\nTudo se move e agita, aqui e em torno.<br \/>\nConfunde-se a ilus\u00e3o com a realidade;<br \/>\nCingem-se ao peito virgens palpitantes, E v\u00eaem-se fugir, fugir, sorrindo,<br \/>\nNo fant\u00e1stico mundo dos espelhos; Outras se lhe sucedem. Que segredos<br \/>\n! Que segredos d&#8217;amor nesses olhares L\u00e2nguidos, desvairados, expressivos!<br \/>\nQue segredos tra\u00eddos na imprud\u00eancia<br \/>\nDe um aperto de m\u00e3o involunt\u00e1rio! Que mudas confidencias eloq\u00fcentes!<br \/>\nQue indiscretos suspiros! um momento<br \/>\nTraiu as longas, t\u00edmidas reservas<br \/>\nDe castas namoradas. No del\u00edrio<br \/>\nEm que a valsa lasciva as arrebata,<br \/>\nJ\u00e1 nem sabem fingir, dissimulando, Em frias apar\u00eancias, os ardentes<br \/>\nEstos do cora\u00e7\u00e3o, rendidos a amores. Soltam-se-lhes as flores<br \/>\ndo cabelo.<br \/>\nE esfolhadas no p\u00f3, s\u00e3o esquecidas.<br \/>\nAi, descuidosas virgens, que n\u00e3o vedes<br \/>\nNo destino da flor vosso destino!<br \/>\nEsquecidas as tristes! J\u00e1 sem vi\u00e7o,<br \/>\nSem cs encantos j\u00e1 do aroma e cores,<br \/>\nQuem se lembrar\u00e1 delas? Quem, sens\u00edvel, As erguer\u00e1 do<br \/>\nch\u00e3o, murchas, calcadas,<br \/>\nSe v\u00f3s as desprezais assim? Mas ide, Ide, voai, ligeiras borboletas!<br \/>\nIde, voai nas asas da harmonia!<br \/>\nEmbriagadas d&#8217;amor, correi&#8230; mais tarde, Como essas flores que por v\u00f3s&#8230;<br \/>\nMas longe,<br \/>\nLonge uma id\u00e9ia negra, no momento<br \/>\nEm que o prazer vos foge. \u00c0 valsa! \u00e0 valsa!<br \/>\nMais r\u00e1pida! mais r\u00e1pida! Nas salas<br \/>\nJ\u00e1 desmerece o refulgir das luzes.<br \/>\nMais r\u00e1pida! Convulsos, enlevados<br \/>\nGiram os pares em redor. Que febre!<br \/>\nQue febre de vol\u00fapia os alucina! Mais r\u00e1pida! A vertigem se<br \/>\napodera<br \/>\nDos sentidos. Estreitam-se os bra\u00e7os, E os l\u00e1bios inflamados,<br \/>\nquase, quase Em \u00eaxtase d&#8217;amor se tocam. Vede-a! A alvoro\u00e7ada<br \/>\nturba de formosas, Louras, morenas, c\u00e2ndidas, lascivas, Quais rosas<br \/>\nsoltas de variadas cores.<br \/>\nEm v\u00f3rtice fatal arrebatadas<br \/>\nDe profunda voragem, assim passam!<br \/>\nQue m\u00e1gico poder as enlouquece?<br \/>\nEm que \u00f3rbita de luz volvem sem tino? Que vista as seguir\u00e1,<br \/>\nque fascinada<br \/>\nN\u00e3o vacile tamb\u00e9m? Inda mais r\u00e1pida! Mais e mais &#8216;t\u00e9<br \/>\nque exaustas de cansa\u00e7o Caiam, talvez sem vida, as imprudentes<\/p>\n<h2>TER\u00c7A-FEIRA<\/h2>\n<p><b>I<\/b><\/p>\n<p>Rompera a manh\u00e3 sombria,<br \/>\nDestas que fazem tristeza;<br \/>\nEm perfeita calmaria<br \/>\nRepousava a natureza.<\/p>\n<p>Repousava. As ondas mansas Vinham quebrar-se na areia. Que mar tanto de esperan\u00e7as!<br \/>\nQue enganadora sereia!<\/p>\n<p>O arrais, correndo os palheiros,<br \/>\n\u00abAo mar!\u00bb grita. \u00abao mar, aos remos !\u00bb<br \/>\n\u00abPara as lanchas, companheiros;<br \/>\nGrande safra hoje teremos.\u00bb<\/p>\n<p>E a pobre gente da costa, Essa ra\u00e7a destemida,<br \/>\nQue a morte sem medo arrosta, Num momento \u00e9 toda erguida.<\/p>\n<p>Ei-los na praia. Cantando<br \/>\nSe d\u00e3o \u00e0 tarefa santa,<br \/>\nQue nesse arrojado bando<br \/>\nQuem mais trabalha, mais canta.<\/p>\n<p>Sao todos? Todos n\u00e3o. Falta Da companha o mais valente! Esta nova sobressalta<br \/>\nO peito daquela gente.<\/p>\n<p>\u00abPartir sem ele ! Por Cristo, Que a primeira vez seria.<br \/>\nEm qualquer lance imprevisto<br \/>\nQuem tanto nos valeria?\u00bb<\/p>\n<p>Tudo p\u00e1ra, tudo hesita,<br \/>\nM\u00e3os nos remos, m\u00e3o no leme;<br \/>\nQue o seio a muitos palpita,<br \/>\nQue a muitos a m\u00e3o j\u00e1 treme<\/p>\n<p><b>II<\/b><\/p>\n<p>Ora, no pobre palheiro<br \/>\nDo pescador que tardava,<br \/>\nEis que ao alvor primeiro<br \/>\nDesta manh\u00e3 se passava:<\/p>\n<p>Ele acordara, e na esposa, Que ao lado dorme tranq\u00fcila, Repousa a vista<br \/>\namorosa,<br \/>\nE ao despert\u00e1-la, vacila.<\/p>\n<p>Vacila \u2014 se \u00e9 t\u00e3o suave Aquele dormir ! t\u00e3o brando!<br \/>\nMas n\u00e3o sei que id\u00e9ia grave Lhe est\u00e1 na mente pesando.<\/p>\n<p>Ternamente ao seio a aperta, E lhe diz com gesto ameno:<br \/>\n\u2014 \u00abMulher, teu filho desperta, Acorda-me esse pequeno.\u00bb<\/p>\n<p>A jovem m\u00e3e estremece<br \/>\n\u2014 \u00abQue acorde meu filho, dizes !<br \/>\nDeixa-o dormir. Deus lhe desse<br \/>\nSempre assim sonos felizes.\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abAcorda teu filho, acorda, Tal dormir n\u00e3o \u00e9 para<br \/>\nele ;<br \/>\nTempo \u00e9 que da lancha \u00e0 borda<br \/>\nComo os outros tamb\u00e9m vele.\u00bb<\/p>\n<p>\u2014\u00abAs lanchas! ao mar!&#8230; pois queres?&#8230; \u00bb E a m\u00e3e<br \/>\nempalidecia.<br \/>\n\u2014 \u00abNesta vida de mulheres<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 que um homem se cria.\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abMas t\u00e3o novo!&#8230;\u00bb \u2014 \u00abInda mais novo<br \/>\nMeu pai me levou consigo.\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00abMas&#8230; \u2014j\u00e1 se fala entre o povo<br \/>\n\u00abDo rapaz\u00bb. \u2014 Mas ouve, amigo&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>E a voz tr\u00eamula e chorosa Quase em pranto se afogava. Curvara-se ao mar<br \/>\na esposa, Mas a m\u00e3e, essa, hesitava.<\/p>\n<p>Hesitava, que se lhe ia<br \/>\nA alma toda, dando aos mares<br \/>\nO filho, a sua alegria,<br \/>\nO lume dos seus olhares.<\/p>\n<p>\u2014 \u00abOuve\u00bb, murmura, chorando<br \/>\n\u00abPor Deus te vou pedir isto!\u00bb<br \/>\nE depois, em tom mais brando,<br \/>\n\u2022&lt;Em nome de Jesus Cristo!<\/p>\n<p>\u00abDeixa-mo ficar, marido,<br \/>\nHoje s\u00f3, ai! hoje ao menos!&#8230;<br \/>\nFraco aux\u00edlio o recebido<br \/>\nDos bra\u00e7os desses pequenos!<\/p>\n<p>\u00abBem sabes que tudo os cansa&#8230; Sempre sois t\u00e3o desumanos!<br \/>\nE depois&#8230; essa crian\u00e7a<br \/>\nInda n\u00e3o fez os dez anos.\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abAgoura-me bem o dia<br \/>\nPara lhe abrir a carreira.\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00abPor\u00e9m, \u00f3 Virgem Maria,<br \/>\nE hoje ent\u00e3o que \u00e9 ter\u00e7a-feira!\u00bb<\/p>\n<p>\u2014 \u00abMulher, deixa essas id\u00e9ias, Iguais s\u00e3o todos os<br \/>\ndias;<br \/>\nEm maus agouros n\u00e3o creias, Se \u00e9 que no Senhor confias.<\/p>\n<p>\u00abApronta teu filho, apronta,<br \/>\nQue hoje h\u00e1-de entrar na partilha,<br \/>\nE olha que o Sol j\u00e1 desponta;<br \/>\nAnda, acorda-o, minha filha.\u00bb<\/p>\n<p><b>III<\/b><\/p>\n<p>\u2014 \u00abFilho, filho, ergue-te, acorda&#8230; Para qu\u00ea, s\u00f3<br \/>\nDeus o sabe&#8230;\u00bb<br \/>\nE em l\u00e1grimas lhe trasborda<br \/>\nA dor que n&#8217;alma nao cabe.<\/p>\n<p>\u2014 \u00abSonhavas talvez brinquedos, Pois que sorrias dormindo; Ver\u00e1s<br \/>\nbrincar nos rochedos<br \/>\nEsse mar que est\u00e1 bramindo.<\/p>\n<p>\u00abVai inda quente do ber\u00e7o, Inda quente dos meus beijos, Para<br \/>\num mundo bem diverso Do sonhado em meus desejos.<\/p>\n<p>\u00abVai, tu que sempre dormiste Ao som de minhas cantigas, Dormitar \u00e0<br \/>\ncan\u00e7\u00e3o triste<br \/>\nDessas ondas inimigas.<\/p>\n<p>\u00abE sorris, anjo querido,<br \/>\nAo passo que eu choro tanto,<br \/>\nPois n\u00e3o sabes o sentido<br \/>\nDeste doloroso pranto?<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o sabes que se me parte<br \/>\nO meu cora\u00e7\u00e3o no peito<br \/>\nAo vir assim acordar-te<br \/>\nDo teu sossegado leito?<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o sabes que minha vida, Pobre filho, vai contigo,<br \/>\nE que nesta despedida<br \/>\nTrocas pra sempre este abrigo.<\/p>\n<p>\u00abEste abrigo de meu seio, Por perigos e cansa\u00e7os?! N\u00e3o sei,<br \/>\nn\u00e3o sei que receio Ao tirar-te de meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u00abChoras, filho? Ai, n\u00e3o, n\u00e3o chores, Que me tiras todo o<br \/>\nalento;<br \/>\nJ\u00e1 me bastam minhas dores, Basta-me o meu pensamento.<\/p>\n<p>\u00abDeus \u00e9 bom. Nem sempre os mares<br \/>\nSe alevantam com tormentas.<br \/>\nN\u00e3o chores, que se chorares,<br \/>\nO meu pesar acrescentas.<\/p>\n<p>\u00abSossega. Esta cruz benzida<br \/>\nLeva contigo, e descansa,<br \/>\nPois quem \u00e9 t\u00e3o bom na vida,<br \/>\nDeve em Deus ter confian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00abVai, que eu \u00e0 nossa Senhora, \u00c0quela Virgem das Dores,<br \/>\nQue \u00e9 a tua protectora, Rezarei logo que fores.<\/p>\n<p>\u00abLimpa essas l\u00e1grimas, vamos, Que teu pai tas n\u00e3o conhe\u00e7a.<br \/>\nE a ora\u00e7\u00e3o que te ensinamos, Ai, v\u00ea l\u00e1! nunca te<br \/>\nesque\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p><b>IV<\/b><\/p>\n<p>E viu-os partir. E o pranto<br \/>\nLhe inunda as faces. Desmaia.<br \/>\nDos pescadores o canto<br \/>\nSe escuta ao longe na praia.<\/p>\n<p>Oh! que tristeza tamanha! Que pressentimento amargo,<br \/>\nQuando as lanchas da companha<br \/>\nSe fazem, remando, ao largo!<\/p>\n<p>Junto \u00e0 imagem de Maria Esta outra m\u00e3e dolorosa De joelhos todo<br \/>\no dia<br \/>\nLhe ergue preces, fervorosa.<\/p>\n<p>\u00ab\u00d3 M\u00e3e de Deus, luz divina, Que alumias nossas almas!<br \/>\n\u00d3 estrela matutina,<br \/>\nQue as tempestades acalmas!<\/p>\n<p>\u00abBaixa \u00e0 Terra esses olhares, Nossa \u00fanica esperan\u00e7a,<br \/>\nE, voltando-os sobre os mares, Protege aquela crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00abCompadece-te, Senhora, Destas l\u00e1grimas sentidas; Estende a m\u00e3o<br \/>\nprotectora Sobre aquelas pobres vidas.<\/p>\n<p>\u00abV\u00ea que me andam sobre as \u00e1guas<br \/>\nTodos quantos estreme\u00e7o.<br \/>\nM\u00e3e, que entendes minhas m\u00e1goas,<br \/>\nDiz se essas vidas t\u00eam pre\u00e7o !<\/p>\n<p>\u00abPela ang\u00fastia que sentiste<br \/>\nJunto da cruz, \u00f3 Maria,<br \/>\nVale-me nesta hora triste,<br \/>\nVale-me nesta agonia.\u00bb<\/p>\n<p>No meio de ardente prec e Ergue-se inquieta, palpita, Fitando o c\u00e9u,<br \/>\nque escurece, Ouvindo o mar, que se agita.<\/p>\n<p><b>V<\/b><\/p>\n<p>Era ao tempo das Trindades: As aves, que pressagiam<br \/>\nO chegar das tempestades, Amedrontadas gemiam.<\/p>\n<p>A m\u00e3e segue na carreira<br \/>\nUma vaga e outra vaga.<br \/>\n\u00ab Ter\u00e7a-feira! ter\u00e7a-feira!\u00bb<br \/>\nLhe diz uma voz pressaga.<\/p>\n<p>J\u00e1 treme. Os olhos velados, Onde a ang\u00fastia se revela, Pelos<br \/>\nmares agitados<br \/>\nN\u00e3o descobrem uma vela.<\/p>\n<p>E as nuvens correm velozes, E o vento revolve a areia.<br \/>\nJ\u00e1 se ouvem confusas vozes<br \/>\nNa praia de gente cheia.<\/p>\n<p>Velhos, m\u00e3es, tristes esposas, Crian\u00e7as nuas, em choro,<br \/>\nAltas vozes, lastimosas, Erguem num sinistro coro.<\/p>\n<p>Que cena! e redobra o vento, E condensa-se a neblina,<br \/>\nE o mar rebrame violento, E a noite a cena domina.<\/p>\n<p>E \u00e0 luz de algumas fogueiras<br \/>\nEscassa, t\u00eanue, funesta,<br \/>\nMovem-se sombras ligeiras<br \/>\nComo se em diab\u00f3lica festa.<\/p>\n<p>E ela, a m\u00e3e em desatino, Corre, p\u00e1ra, escuta, chora, Maldiz o<br \/>\npoder divino&#8230; Depois seu perd\u00e3o implora.<\/p>\n<p>Os olhos na sombra fitos, Dessa noite escura, escura, Eleva-os ao C\u00e9u<br \/>\naflitos,<br \/>\nE em v\u00e3o um astro procura.<\/p>\n<p>E o raio, que as trevas densas<br \/>\nDe quando em quando devassa,<br \/>\nMostra-lhes vagas imensas,<br \/>\nNegros abismos, e passa<\/p>\n<p><b>VI<\/b><\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e0 luz da madrugada<br \/>\nSe acalma a brava tormenta.<br \/>\nQue noite em \u00e2nsias passada,<br \/>\nT\u00e3o pavorosa! t\u00e3o lenta!<\/p>\n<p>O c\u00e9u reflecte nas \u00e1guas<br \/>\nA cor azul de bonan\u00e7a.<br \/>\nE vai sanando as m\u00e1goas<br \/>\nA branda luz da esperan\u00e7a,<\/p>\n<p>\u2014 \u00abBarcas ao longe! nao vedes ! Oh! que alegria tamanha!<br \/>\nDeus aben\u00e7oou as redes,<br \/>\nS\u00e3o as lanchas da companha.\u00bb<\/p>\n<p>Crian\u00e7as, mulheres, velhos, Ao ouvirem este grito, Todos, todos de joelhos<br \/>\nCantam piedoso Bendito.<\/p>\n<p>Ei-las v\u00eam! Bra\u00e7os valentes Afeitos \u00e0quela guerra, Cortando<br \/>\nos mares frementes As impelem para a terra.<\/p>\n<p>Na turba dos pescadores<br \/>\nA m\u00e3e com turbado aspecto,<br \/>\nInda escuro de terrores,<br \/>\nProcura o filho dilecto.<\/p>\n<p>Tudo exulta de alegria;<br \/>\nCada qual os seus conhece&#8230;<br \/>\nE ela s\u00f3, muda, sombria,<br \/>\nSobre a praia permanece.<\/p>\n<p>Ei-los enfim! Que transportes, Que l\u00e1grimas os esperam! V\u00eaem-se<br \/>\nchorar os mais fortes<br \/>\nDos que no mar n\u00e3o tremeram.<\/p>\n<p>Por entre os grupos vagueia<br \/>\nA m\u00e3e, tr\u00eamula, calada,<br \/>\nDe negros agouros cheia,<br \/>\nDe vago pavor tomada.<\/p>\n<p>Quase em del\u00edrio v\u00ea tudo, Como se atrav\u00e9s dum sonho; De<br \/>\nrepente um grito agudo Soa na praia medonho.<\/p>\n<p>\u00c9 que p\u00e1lido, abatido,<br \/>\nJunto ao mar o esposo vira;<br \/>\nE que terr\u00edvel sentido<br \/>\nNaquela dor descobrira.<\/p>\n<p>\u2014 \u00abQue negro press\u00e1gio \u00e9 este<br \/>\nQue leio nos teus olhares?<br \/>\nDo meu filho o que fizeste?\u00bb<br \/>\n\u2014 \u00abPergunta-o a esses mares.\u00bb<\/p>\n<p>No grito que a triste solta<br \/>\nVai-lhe a raz\u00e3o, mais que a vida!<br \/>\nDepois para o mar se volta,<br \/>\nTurba, p\u00e1lida, perdida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00abN\u00e3o! n\u00e3o h\u00e1s-de assim roubar-me<br \/>\nO filho destas entranhas,<br \/>\nN\u00e3o podem intimidar-me<br \/>\nAs tuas iras tamanhas.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o v\u00eas que tenho no seio Este amor? Espera, espera, Ruge<br \/>\n! n\u00e3o tenho receio; Ruge, amaldi\u00e7oada fera!<\/p>\n<p>\u00abRuge!\u00bb e sem tino, movida Da alucina\u00e7\u00e3o que a<br \/>\nagita, Rompendo em veloz corrida, Nas ondas se precipita.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o lhe a\u00e7odem, que forte<br \/>\nO filho \u00e0s vagas disputa.<br \/>\nEra um combate de morte!<br \/>\nEra uma tremenda luta!<\/p>\n<p>E na manh\u00e3 do outro dia Viu-se na praia arrojada A m\u00e3e, que,<br \/>\nmorta, sorria<br \/>\nDo filho ao corpo abra\u00e7ada.<\/p>\n<p><b>1865<\/b><\/p>\n<h2>MELANCOLIA<\/h2>\n<p>Em paz, deixai-me em paz, meus pensamentos, N\u00e3o me faleis nos tempos<br \/>\nque l\u00e1 v\u00e3o.<br \/>\nDe que serve pensar nesses momentos? Volvidos para sempre eles n\u00e3o<br \/>\nest\u00e3o?<\/p>\n<p>Oh! deixai-me esquecer o curto instante<br \/>\nEm que m\u00e3e e irm\u00e3os no mundo vi!<br \/>\nN\u00e3o achais triste e amarga ainda bastante,<br \/>\nA amarga solid\u00e3o que passo aqui?<\/p>\n<p>Que pretendeis falando do passado?<br \/>\nQue quereis? que exigis ainda de mim?<br \/>\nL\u00e1grimas? N\u00e3o vos bastam as que hei chorado?<br \/>\nPra que as saudades me avivais assim?<\/p>\n<p>Eu vejo os outros anelar ansiosos<br \/>\nPrazer, orgias, festas sem cessar;<br \/>\nEu n\u00e3o, que invejo mais suaves gozos,<br \/>\nGozos que a morte me impediu de gozar<\/p>\n<p>E assim me corre a vida! s\u00f3 comigo, E a mem\u00f3ria do tempo que<br \/>\npassou,<br \/>\nE sem um cora\u00e7\u00e3o, um peito amigo<br \/>\nQue a sorte, a sofrer s\u00f3, me condenou.<\/p>\n<p>O homem primeiro, do \u00c9den desterrado, Triste, rojava a fronte pelo<br \/>\np\u00f3 ;<br \/>\nMas ele tinha ao menos a seu lado<br \/>\nUm ente que o amava e eu&#8230; estou s\u00f3 !<\/p>\n<p>Que a solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 erma de gente,<br \/>\n&#8216;T\u00e9 no meio da turba a pode haver.<br \/>\nPois que nos vale a turba, quando um ente<br \/>\nN\u00e3o vemos, que nos saiba compreender ?<\/p>\n<p>Quase tudo que amava, emurchecido<br \/>\nPelo sopro da morte cair vi.<br \/>\nComo entre ru\u00ednas, mausol\u00e9u erguido,<br \/>\n\u00c0 destrui\u00e7\u00e3o dos meus sobrevivi.<\/p>\n<p>E para qu\u00ea, Senhor? Qual \u00e9 meu norte? Que miss\u00e3o nesta<br \/>\nvida hei-de cumprir? Oh! antes, antes me levara a morte,<br \/>\nPois que assim, \u00e9 tormento o existir.<\/p>\n<p>Sombra da campa! que te tema aquele, A quem ventura, ou um amor sem fim Da<br \/>\nvida ao seio e do amor impele.<br \/>\nTeu frio leito n\u00e3o me assusta a mim.<\/p>\n<p>Foi-me o passado instante de ventura, \u00c9-me o presente um s\u00e9culo<br \/>\nde dor ;<br \/>\nE o porvir, envolvido em noite escura, Que me reservar\u00e1? Morte ou amor?<\/p>\n<p>Se o anjo que em meus sonhos imagino, Eu tenho de encontrar, quero viver.<br \/>\nMas&#8230; se n\u00e3o&#8230; corre, apressa-te, destino! Abre-me a campa; tarda-me<br \/>\nmorrer.<\/p>\n<p>Em paz, deixai-me em paz, meus pensamentos, N\u00e3o me faleis nos tempos<br \/>\nque l\u00e1 v\u00e3o.<br \/>\nOn! deixai-me esquecer esses momentos, J\u00e1 que volvidos para sempre<br \/>\nest\u00e3o.<\/p>\n<p><b>1859<\/b><\/p>\n<h2>NAO POSSO<\/h2>\n<p>Pedes-me um canto, anjo? Ai n\u00e3o, n\u00e3o sei cantar-te, Hinos para<br \/>\nelevar-te<br \/>\nN\u00e3o sabe a minha voz. Os grandes sentimentos As majestosas cenas Sentimo-las<br \/>\napenas;<br \/>\nQue mais podemos n\u00f3s?<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a linguagem,<br \/>\nQue as sensa\u00e7\u00f5es exprime<br \/>\nDessa hora t\u00e3o sublime<br \/>\nDas confiss\u00f5es de amor?<br \/>\nSe um ente amado expira&#8230;<br \/>\nJunto ao lutuoso leito,<br \/>\nDo que nos vai no peito<br \/>\nQuem pode ser cantor?<\/p>\n<p>Nas praias do oceano<br \/>\nAo som dos seus bramidos<br \/>\nEnlevam-se os sentidos,<br \/>\nEscuta o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE as horas passam r\u00e1pidas,<br \/>\nDel\u00edcias sonha a mente&#8230;<br \/>\nMas, o que ent\u00e3o se sente<br \/>\nCantar se tenta em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Sob as arcadas tristes De templo sacrossanto Sobe, com fervor santo, O pensamento<br \/>\na Deus. Da f\u00e9 \u00edntima e pura<br \/>\nA alma a\u00ed se inspira&#8230; Por\u00e9m pode a lira Cantar nos hinos seus!<\/p>\n<p>Ai n\u00e3o me pe\u00e7as cantos! O sentimento \u00e9 mudo, Diga o<br \/>\nsil\u00eancio tudo Quanto eu n\u00e3o sei cantar<br \/>\nMas, se amas&#8230; se no peito<br \/>\n\u00cdntima voz te fala,<br \/>\nTudo o que a lira cala<br \/>\nLer\u00e1s num meu olhar<\/p>\n<p><b>Novembro de 1859<\/b><\/p>\n<p>Se esta poesia tem um leve fumo de verdade, ele \u00e9 t\u00e3o fraco e desvanecido,<br \/>\nque n\u00e3o me atrevo a alist\u00e1-la entre as verdadeiras, em quanto ao facto; pois<br \/>\nem quanto aos sentimentos, sustento qu e o \u00e9; e julgo n\u00e3o ser o \u00fanico nesta<br \/>\ncren\u00e7a. Estes versos talvez me justifiquem de argui\u00e7\u00f5es futuras. \u00c9 uma poesia<br \/>\nde preven. \u00e7\u00e3o. Olhem-na como tal.<\/p>\n<h2>AURORA DE ARREPENDIMENTO<\/h2>\n<p>Fugi, fantasmas lividos! Fugi, l\u00fagubres sonhos! Espectros t\u00e3o<br \/>\nmedonhos Deixai-me em paz! parti! N\u00e3o vedes como f\u00falgida<br \/>\nA Lua do Sol j\u00e1 surge? Deixai-me; o tempo urge, Nas trevas vos sumi!<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que a ave l\u00fagubre<br \/>\nCalou seus tristes hinos;<br \/>\nE, ao longe, a voz dos sinos<br \/>\nVos diz \u2014 eis a manh\u00e3!<br \/>\nE v\u00f3s, negros esp\u00edritos,<br \/>\nTravando estranha dan\u00e7a,<br \/>\nMe murmurais: Vingan\u00e7a!<br \/>\nVingan\u00e7a?&#8230; Sombra v\u00e3!<\/p>\n<p>Esperais que ao som horr\u00edfico De vossos mil clamores, Pungindo de<br \/>\nterrores<br \/>\nMe roje pelo ch\u00e3o?<br \/>\nQue ao ver as minhas v\u00edtimas<br \/>\nSurgir da sepultura<br \/>\nCedendo a atroz tortura<br \/>\nEu clame por perd\u00e3o?<\/p>\n<p>Sob as arcadas tristes De templo sacrossanto Sobe, com fervor santo, O pensamento<br \/>\na Deus. Da f\u00e9 \u00edntima e pura<br \/>\nA alma a\u00ed se inspira&#8230; Por\u00e9m pode a lira Cantar nos hinos seus!<\/p>\n<p>Ai nao me pe\u00e7as cantos! O sentimento \u00e9 mudo, Diga o sil\u00eancio<br \/>\ntudo Quanto eu n\u00e3o sei cantar.<br \/>\nMas, se amas&#8230; se no peito \u00edntima voz te fala,<br \/>\nTudo o que a lira cala<br \/>\nLer\u00e1s num meu olhar.<\/p>\n<p><b>Novembro de 1889<\/b><\/p>\n<h2>AURORA DE ARREPENDIMENTO<\/h2>\n<p>Fugi, fantasmas l\u00edvidos! Fugi, l\u00fagubres sonhos! Espectros t\u00e3o<br \/>\nmedonhos Deixai-me em paz! parti! N\u00e3o vedes como f\u00falgida<br \/>\nA Lua do Sol j\u00e1 surge ? Deixai-me; o tempo urge, Nas trevas vos sumi!<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que a ave l\u00fagubre<br \/>\nCalou seus tristes hinos;<br \/>\nE, ao longe, a voz dos sinos<br \/>\nVos diz \u2014 eis a manh\u00e3!<br \/>\nE v\u00f3s, negros esp\u00edritos,<br \/>\nTravando estranha dan\u00e7a,<br \/>\nMe murmurais: Vingan\u00e7a!<br \/>\nVingan\u00e7a?&#8230; Sombra v\u00e3!<\/p>\n<p>Esperais que ao som horr\u00edfico De vossos mil clamores, Pungindo de<br \/>\nterrores<br \/>\nMe roje pelo ch\u00e3o?<br \/>\nQue ao ver as minhas v\u00edtimas<br \/>\nSurgir da sepultura<br \/>\nCedendo a atroz tortura<br \/>\nEu clame por perd\u00e3o ?<\/p>\n<p>Cingi o vosso sud\u00e1rio, Voltai ao frio leito,<br \/>\nQue dentro do meu peito N\u00e3o despertais horror. Dormi o sono g\u00e9lido<br \/>\nQue a morte vos prepara Deixai pr a turba ignara Imagens de terror!<\/p>\n<p>Eis o sombrio pr\u00e9stito Das v\u00edtimas sangrentas! As faces macilentas,<br \/>\nTintas de sangue e p\u00f3 ! Rojando as alvas t\u00fanicas No sepulcral<br \/>\nlajedo<br \/>\nCaminham, como a medo&#8230; Infundem pasmo e d\u00f3.<\/p>\n<p>Entoando um canto f\u00fanebre, Qual \u00faltimo gemido,<br \/>\nDos ossos ao ru\u00eddo, Acercam-se de mim!<br \/>\nFormam-se em vasto c\u00edrculo, E erguendo-se horr\u00edvel grito,<br \/>\nBradam-me: S\u00ea maldito, Qual j\u00e1 o foi Caim!<\/p>\n<p>E de medonha ab\u00f3bada Os ecos despertando, Seu grito continuando,<br \/>\nRepetem-me: Caim!<br \/>\nOh! que mortal ang\u00fastia<br \/>\nEste supl\u00edcio eterno!<br \/>\nE nem no pr\u00f3prio Inferno<br \/>\nSe penar\u00e1 assim!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o&#8230; n\u00e3o tremo .. rio-me<br \/>\nDos v\u00e3os terrores da turba;<br \/>\nS\u00f3 ela se perturba<br \/>\nCom t\u00e9tricas vis\u00f5es.<br \/>\nEu n\u00e3o, que desde a inf\u00e2ncia<br \/>\nTravei ardentes lutas,<br \/>\nE, qual as rochas brutas,<br \/>\nSorri aos furac\u00f5es.<\/p>\n<p>E, se me vedes tr\u00eamulo, Perante v\u00f3s curvar-me<br \/>\nE a fronte rociar-me<br \/>\nUm fr\u00edgido suor&#8230;<br \/>\nEmbora! a alma intr\u00e9pida<br \/>\nE forte permanece,<br \/>\nO corpo \u00e9 que parece<br \/>\nCeder a um frio horror!<\/p>\n<p>Sob o len\u00e7ol fun\u00e9reo<br \/>\nQue os membros vos recobre<br \/>\nO meu olhar descobre<br \/>\nOs tra\u00e7os de um punhal.<br \/>\nE o sentimento do \u00f3dio<br \/>\nQue o vosso aspecto exprime<br \/>\nTraz-me \u00e0 mem\u00f3ria um crime&#8230;<br \/>\nUm estertor mortal!<\/p>\n<p>E eu vos fito imp\u00e1vido! A ti, anci\u00e3o primeiro; No instante<br \/>\nderradeiro Louvavas o teu Deus,<br \/>\nTentaste opor-te \u00e0s f\u00farias Da minha ardente coorte Foi negra<br \/>\na tua sorte! Ca\u00edste aos golpes meus!<\/p>\n<p>Do templo no vest\u00edbulo<br \/>\nSevero te elevavas<br \/>\nE an\u00e1temas lan\u00e7avas<br \/>\nTremendos contra n\u00f3s ;<br \/>\nAo grito de sacr\u00edlegos<br \/>\nO bando estremecera,<br \/>\nSem mim talvez cedera<br \/>\nEm breve \u00e0 tua voz.<\/p>\n<p>E tu, mancebo? Adiantas-te<br \/>\nCom p\u00e1lido semblante?<br \/>\nPra libertar a amante<br \/>\nVoaste a combater;<br \/>\nCego! que no teu \u00edmpeto<br \/>\nTolheste-me a carreira!<br \/>\nExangue na poeira<br \/>\nCedo te fiz volver.<\/p>\n<p>Menos do que tu, misero, O incauto viandante<br \/>\nSe se encontrou diante Do carro que \u00e1gil vem; No seu giro mais r\u00e1pido<br \/>\nQue o pr\u00f3prio pensamento<br \/>\nEsmaga-o num momento<br \/>\nE livre, passa al\u00e9m.<\/p>\n<p>E tu que me olhas t\u00farbida<br \/>\nQual r\u00e1bida leoa<br \/>\nQue o bosque que o ar atroa<br \/>\nChamando os filhos seus;<br \/>\nNum maternal del\u00edrio<br \/>\nAo veres-me, furiosa,<br \/>\nErgueste-te raivosa<br \/>\nA defender os teus.<\/p>\n<p>Mas qual a onda t\u00fcmida De encontro \u00e0 rija fraga, Mas qual a<br \/>\nfina adaga<br \/>\nDe encontro ao forte arn\u00eas, Dobrou teu corpo l\u00e2nguido Ao encontrar<br \/>\nmeu peito, Caindo em p\u00f3 desfeito&#8230; Nem vacilar me fez!<\/p>\n<p>E tu que ergues, p\u00e1lida, Coroada de alvas flores? Na quadra dos amores<br \/>\nPendeste, flor, pra o ch\u00e3o.<br \/>\nCrestou-te as lindas p\u00e9talas, De embriagador perfume.<br \/>\nO fogo do ci\u00fame, A lava da paix\u00e3o 1<\/p>\n<p>Enquanto nos meus \u00eaxtases<br \/>\nContigo eu s\u00f3 sonhava,<br \/>\nTeu seio se agitava<br \/>\nPensando noutro amor;<br \/>\nEnt\u00e3o&#8230; em minha c\u00f3lera<br \/>\nPerdida toda a esperan\u00e7a.<br \/>\nJurei cruel vingan\u00e7a;<br \/>\nCumpri-a com rigor.<\/p>\n<p>Volvei aos frios c\u00e1rceres, Ao sepulcral jazigo,<br \/>\nOnde buscais abrigo Quando desponta o Sol. E os rostos cadav\u00e9ricos<br \/>\nAos matutinos raios, Espectros, ocultai-os<br \/>\nNo funeral len\u00e7ol.<\/p>\n<p>Mas outro se ergue s\u00fabito!&#8230; Que vago horror me infunde! Que estranha<br \/>\nluz difunde<br \/>\nSe eleva o seu olhar! Descobre o rosto, fita-me&#8230; Que vejo! \u00e9 ele,<br \/>\no infante Que num fatal instante<br \/>\nNa campa fiz rolar.<\/p>\n<p>No teu suspiro \u00faltimo Que triste melodia ! Na hora da agonia Sorriste<br \/>\npara mim!<br \/>\nEsta lembran\u00e7a punge-me,<br \/>\n\u00c9 dor que n\u00e3o se exprime.<br \/>\nAi! nunca a voz do crime<br \/>\nMe fez sofrer assim.<\/p>\n<p>Ai! foge, foge, poupa-me O horror da tua vista. Que for\u00e7a h\u00e1<br \/>\nresista<br \/>\nA um tormento igual?&#8230;<br \/>\nOh! que vergonha! L\u00e1grimas!<br \/>\nO l\u00fagubre cortejo<br \/>\nSorrir-se ufano vejo<br \/>\nCom j\u00fabilo infernal.<\/p>\n<p>Embora! Espectros, ride-vos, Sou fraco, anseio tremo.<br \/>\nNem no momento extremo<br \/>\nSe pode sofrer mais!<br \/>\nFogem-me as for\u00e7as, cansa-me<br \/>\nA luta, caio exausto;<br \/>\n\u00d3 meu destino infausto<br \/>\nQue dores me guardais?!<\/p>\n<p>De mim ei-los j\u00e1 pr\u00f3ximos E os descarnados bra\u00e7os Agitam<br \/>\nnos espa\u00e7os Soltando impreca\u00e7\u00f5es,<br \/>\nE ao som dos seus an\u00e1temas<br \/>\nMil sombras pavorosas<br \/>\nMe arrastam \u00e0s tenebrosas<br \/>\nSombrias regi\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c0 chama dos rel\u00e2mpagos J\u00e1 treme a pr\u00f3pria terra<br \/>\n; E qual enorme serra<br \/>\nO mar se eleva aos c\u00e9us, Eis a mans\u00e3o dos r\u00e9probos E<br \/>\nos fogos infinitos<br \/>\nOnde ardem os proscritos<br \/>\nDa habita\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Oh! longe este espect\u00e1culo! A morte, antes a morte! Talvez ent\u00e3o<br \/>\na sorte<br \/>\nConceda ao morto paz.<br \/>\nTalvez transportando os p\u00f3rticos<br \/>\nDa sepulcral morada<br \/>\nN\u00e3o reste do homem nada<br \/>\nAl\u00e9m do p\u00f3 que jaz.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, qual som da P\u00e1tria Soa o proscrito ouvido, Meu \u00faltimo<br \/>\ngemido<br \/>\nMe soar\u00e1 tamb\u00e9m;<br \/>\nMas&#8230; quem me diz que as \u00e2nsias<br \/>\nDeste cruel tormento<br \/>\nT\u00eam fim no pensamento<br \/>\nN\u00e3o v\u00e3o da campa al\u00e9m?<\/p>\n<p>A vida \u00e9 me um mart\u00edrio; Minha alma outrora forte Ao sopro<br \/>\nde agra sorte Vergou, pendeu pr \u00f3 ch\u00e3o;<br \/>\nNem mesmo a paz do t\u00famulo<br \/>\nMe resta! No seu seio<br \/>\nPenar inda receio<br \/>\nPra sempre ! Deus perd\u00e3o I<\/p>\n<p>Mas&#8230; que suave b\u00e1lsamo<br \/>\nO peito me serena?<br \/>\nQue luz t\u00e3o grata e amena<br \/>\nNas trevas me luziu?<br \/>\nQual desesp&#8217;rado n\u00e1ufrago<br \/>\nEm t\u00e3o negra procela<br \/>\nNos c\u00e9us um&#8217;alva estrela<br \/>\nLong\u00ednqua me sorriu!<\/p>\n<p>Acaso \u00e9 dado ao \u00edmpio Erguer as m\u00e3os manchadas Ainda<br \/>\nensang\u00fcentadas<br \/>\nA celestial mans\u00e3o ?!<br \/>\nPode ainda a sua s\u00faplica<br \/>\nChegar aos p\u00e9 s do Eterno?!<br \/>\nDa beira j\u00e1 do Inferno<br \/>\nClamar inda perd\u00e3o ?!<\/p>\n<p>Supremo Deus! atende-me I Na Terra o meu castigo! Por\u00e9m, quando o<br \/>\njazigo<br \/>\nSe abrir ao pecador, Quando em gelado f\u00e9retro A fronte j\u00e1 cansada,<br \/>\nPousar extenuada, Perdoa-lhe, Senhor.<\/p>\n<p><b>Novembro de 1859<\/b><\/p>\n<p>Escusado \u00e9 dizer que nao sou eu quem fala neste canto de remorsos. Conquanto<br \/>\npecador, como todos os filhos de Ad\u00e3o, ainda n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o cheio o meu cabaz<br \/>\nde culpas. Aqui usei da liberdade, que nos d\u00e1 a lira, boa ou m\u00e1, de exprimir,<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 os nossos senti. mentos, mas tamb\u00e9m os dos outros. Se bem ou mal o<br \/>\nfiz, desta vez, n\u00e3o o sei, e espero ter juizes que o possam saber melhor do<br \/>\nque eu.<\/p>\n<h2>AS MULHERES<br \/>\n(RECORDA\u00c7\u00d5ES DE UM VELHO)<\/h2>\n<p>Tenho oitenta anos contados Dos meus cabelos nevados Bem poucos me restam<br \/>\nj\u00e1;<br \/>\nTem-me ido at\u00e9 agora a vida<br \/>\nD&#8217;amor pr&#8217;amor impelida,<br \/>\nAt\u00e9 quando&#8230; Deus dir\u00e1.<\/p>\n<p>Tinha dez anos apenas, E j\u00e1 nas tardes serenas,<br \/>\nAo declinar do calor,<br \/>\nMe agitava o pensamento<br \/>\nComo agita as flores o vento<br \/>\nUma id\u00e9ia s\u00f3 \u2014 amor.<\/p>\n<p>Na aldeia em que eu residia<br \/>\nDefronte de mim vivia<br \/>\nQuem tal amor me inspirou.<br \/>\nUma crian\u00e7a era ainda,<br \/>\nPor\u00e9m nunca flor t\u00e3o linda<br \/>\nOs olmedos enfeitou.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3, como a visse<br \/>\nJunto de mim, eu lhe disse<br \/>\nCoisas que me lembram mal;<br \/>\nEla, ao passo que me ouvia,<br \/>\nBaixava os olhos, sorria&#8230;<br \/>\nE deu-me um beijo, afinal<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o por diante<br \/>\nFiquei sendo seu amante<br \/>\nE fui amado tamb\u00e9m.<br \/>\n\u00c0 sombra dos arvoredos, Diz\u00edamos mil segredos,<br \/>\nQue nunca entendemos bem.<\/p>\n<p>Tempos assim decorreram, Felizes tempos que eram!<br \/>\n&#8216;T\u00e9 que pra cidade eu vim. Chor\u00e1mos na despedida<br \/>\nMas supondo-se esquecida, Ela esqueceu-se de mim.<\/p>\n<p>Outra vida, outros amores<br \/>\nDa cidade entre os fulgores,<br \/>\nTinha quinze anos, amei.<br \/>\nEra uma virgem trigueira<br \/>\nOlhos negros, prazenteira,<br \/>\nDoido por ela fiquei.<\/p>\n<p>Os livros abandonava, Horas e horas passava Com ela, sem o sentir; Meu tio<br \/>\nfranzia a testa, Por\u00e9m, \u00e0 hora da sesta, Costumava ele dormir.<\/p>\n<p>Ia ent\u00e3o pra junto dela, Chamava-lhe meiga, bela,<br \/>\nE o que \u00e9 costume chamar. Ela ouvia-me, corava,<br \/>\nNa costura continuava<br \/>\nE deixava-me falar.<\/p>\n<p>Duma vez, pedi-lhe um beijo, Ela mostrou algum pejo,<br \/>\nMas enfim&#8230; sempre mo deu ; Atr\u00e1s deste, outros vieram<br \/>\nE o bem que me eles souberam<br \/>\nNunca depois me esqueceu.<\/p>\n<p>Mas numa noite de festa, Para mim noite funesta,<br \/>\nTodo este amor se extinguiu; Toda esta nossa ternura,<br \/>\nQue eu julguei de tanta dura, A um capricho sucumbiu.<\/p>\n<p>Todos no baile dan\u00e7avam, E \u00e0s valsas se entregavam Com furor;<br \/>\nfaltava eu s\u00f3. Como dan\u00e7ar n\u00e3o sabia, Para um canto me<br \/>\nmetia, Triste que fazia d\u00f3 ;<\/p>\n<p>Ora, \u00e9 coisa bem sabida, Que a dan\u00e7a c\u00e1 nesta vida,<br \/>\nN\u00e3o se dispensa a um rapaz; Adeus amores, se n\u00e3o dan\u00e7a&#8230;<br \/>\nNeste mundo mais alcan\u00e7a Quem mais cabriolas faz.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o dan\u00e7ar, fui deposto E, como ap\u00f3s um Sol-posto,<br \/>\nSe levanta um novo Sol.<br \/>\nO que pr a par a tirara<br \/>\nLogo ali me arremessara<br \/>\nDos esquecidos para o rol.<\/p>\n<p>Fiquei livre; mas em brev e<br \/>\nA minha cabe\u00e7a leve<br \/>\nMe envolveu noutra pris\u00e3o.<br \/>\nEstava escrito em meu destino<br \/>\nQue havia de errar sem tino<br \/>\nDe afei\u00e7\u00e3o em afei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tinha vinte anos. Um dia Pra ver se me distra\u00eda Num teatro me meti;<br \/>\nMal no palco os olhos prego Que perdi o meu sossego Desde logo conheci.<\/p>\n<p>Estremeci de surpresa<br \/>\nAo contemplar a beleza<br \/>\nCom que brilhava uma actriz!<br \/>\nPerdido fiquei a v\u00ea-la!<br \/>\nNunca vi mulher t\u00e3o bela!<br \/>\nNem uns olhos t\u00e3o gentis!<\/p>\n<p>Cai o pano, as palmas soam<br \/>\nE por toda a parte ecoam<br \/>\nDe poetas mil can\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTudo isso me revela<br \/>\nQue a muitos os olhos dela<br \/>\nIncendiaram os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Abandono a sala, corro, Quero v\u00ea-la, sen\u00e3o morro, Quero ver<br \/>\nos olhos seus, Quero dizer-lhe que a adoro<br \/>\nE que em chamas me devoro, Contar-lhe os tormentos meus.<\/p>\n<p>Entro no palco, perdido, Doido de todo&#8230; varrido, Vejo-a, lan\u00e7o-me<br \/>\na seus p\u00e9s.<br \/>\nDisse am\u00e1-la como um louco, E, como achasse isto pouco, Repeti-lho<br \/>\nmuita vez.<\/p>\n<p>Ela olhou-me com um sorriso, Como nem no para\u00edso<br \/>\nUm sorriso assim se v\u00ea ;<br \/>\n\u2014 \u00abSe tem um amor como o pinta,<br \/>\nQue o futuro o n\u00e3o desminta.\u00bb Me disse ela. \u2014 E tenha fe.<\/p>\n<p>Voltei para casa exaltado Quase meio embriagado, Coisas que o amor produz.<br \/>\nMas dormir debalde tento, Impede-me o pensamento, Toda a noite olho n\u00e3o<br \/>\npus.<\/p>\n<p>J\u00e1 quarenta anos eu tinha Quando, por desgra\u00e7a minha, Tornei<br \/>\nno engodo a cair;<br \/>\nFoi uma rica matrona<br \/>\nQue me meteu nesta fona<br \/>\nDonde me custou a sair.<\/p>\n<p>Vi\u00fava de tr\u00eas maridos, Tinha intentos decididos<br \/>\nDe ainda mais outro matar.<br \/>\nSe a pensar nisto me ponho,<br \/>\nUm destino t\u00e3o medonho<br \/>\nMe faz hoje arrepiar!<\/p>\n<p>Mas enfim o amor \u00e9 cego<br \/>\nE amava-a, n\u00e3o o nego,<br \/>\nA raz\u00e3o n\u00e3o a sei eu.<br \/>\nPor isso talvez influ\u00edsse<br \/>\nPra cair nesta doidice<br \/>\nO que ela tinha de seu.<\/p>\n<p>Fiz-lhe um dia tr\u00eas sonetos, Falei-lhe nos meus afectos, Ela ao l\u00ea-los<br \/>\nme sorriu.<br \/>\nE, respondendo-me em presa, Prometeu ser minha esposa<br \/>\nE um beijo me permitiu.<\/p>\n<p>Com ela as tardes passava, Em sua casa merendava<br \/>\nCh\u00e1 com leite e p\u00e3o-de-l\u00f3. Jogava-se \u00e0 noite o<br \/>\nquino<br \/>\nE aturava-lhe o menino<br \/>\nCom paci\u00eancia de Job.<\/p>\n<p>Nada mais apetecendo, Assim \u00edamos vivendo<br \/>\nUm com outro em santa paz; J\u00e1 se marcava o momento Para o nosso casamento&#8230;<br \/>\nQuando tudo se desfez.<\/p>\n<p>Foi o caso que num dia<br \/>\nChegou, vindo da Ba\u00eda, E lhe lan\u00e7ou o anzol,<br \/>\nUm rica\u00e7o brasileiro,<br \/>\nQue cheirando-lhe a dinheiro,<br \/>\nCasou ele e p\u00f4s-me ao sol.<\/p>\n<p>Causou-me um vivo desgosto<br \/>\nVer-me assim, sem mais, deposto<br \/>\nPor este sensabor\u00e3o&#8230;<br \/>\nMas ent\u00e3o? Tinha dinheiro,<br \/>\nEm brev e o vi Conselheiro<br \/>\nE pouco depois Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Abandonar os amores<br \/>\nQue se pra os mais s\u00f3 tem flores<br \/>\nEu por mim poucas lhe vi.<br \/>\nJurei, mas quis meu fad\u00e1rio,<br \/>\nQue a cruz levasse ao Calv\u00e1rio,<br \/>\nQue rem\u00e9dio obedeci.<\/p>\n<p>J\u00e1 no inverno das idades Eu entrava, e as verdades, Que ent\u00e3o<br \/>\na vida nos diz,<br \/>\nPra mim n\u00e3o se revelavam, Os cabelos me nevavam Quando eu outra asneira<br \/>\nfiz.<\/p>\n<p>E desta vez o objecto Do meu sens\u00edvel afecto E das minhas afei\u00e7\u00f5es<br \/>\nEra uma velha provecta E que j\u00e1 inha uma neta<br \/>\nCapaz de inspirar paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Chamei-lhe rola, gazela, Comparei os olhos dela Com as estrelas dos c\u00e9us.<br \/>\nEla, como bem-criada,<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o ficou calada<br \/>\nMas disse o mesmo dos meus<\/p>\n<p>Uma noite, \u00e0 luz da Lua Eu&#8230; beijei-lhe a face sua A sua enrugada<br \/>\ntez.<br \/>\nE ela a modo que gostava, Mostrou que n\u00e3o estranhava, Pois nem corada<br \/>\nse fez.<\/p>\n<p>Tinha, sim, ela um defeito? Mas no mundo, amor perfeito S\u00f3 em flor,<br \/>\n\u00e9 que se v\u00ea.<br \/>\n\u00c9 que, por mais que eu teimava,<br \/>\nNunca ela se deixava<br \/>\nDe me tratar por voc\u00ea!<\/p>\n<p>Era destas formosuras<br \/>\nQue \u00e9 melhor ver \u00e0s escuras<br \/>\nQue na presen\u00e7a de luz.<br \/>\nQuantas mais trevas a cobrem<br \/>\nMais dotes se lhe descobrem<br \/>\nE mais amor nos seduz.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Ver\u00e3o principiava<br \/>\nE com ele come\u00e7ava<br \/>\nO tempo dos arraiais;<br \/>\nQuis que a uma acompanhasse<br \/>\nE como tal recusasse<br \/>\nDeixou-me pra nunca mais.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 caprichos nesta idade, Como \u00e9 que hav\u00ea-los n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1-de Na esta\u00e7\u00e3o juvenil?<br \/>\nA mulher \u00e9 caprichosa<br \/>\nComo \u00e9 fragrante a rosa<br \/>\nE florido o m\u00eas de Abril.<\/p>\n<p>Livre, fiquei com a rosa Livre, como a mariposa Como a r\u00e3 pelos pauis;<br \/>\nFiquei livre como os ventos<br \/>\nQue espalham nuvens aos centos<br \/>\nPelos espa\u00e7os azuis.<\/p>\n<p>J\u00e1 do que tendes ouvido. Podeis ver como Cupido Se fez comigo taful.<br \/>\nE, com um g\u00eanio assim feito, Para viver tinha jeito<br \/>\nNum serralho de Istambul.<\/p>\n<p>E pr a que tudo vos conte Dir-vos-ei que aqui defronte Descobri esta manh\u00e3<br \/>\nUma velhinha sem dentes<br \/>\nMuito rica e sem parentes 1<br \/>\nVou request\u00e1-la amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Por\u00e9m eu c\u00e1 j\u00e1 estou certo<br \/>\nQue, apesar dos cem bem perto,<br \/>\nCaprichos ela h\u00e1-de ter.<br \/>\nMas, embora, paci\u00eancia,<br \/>\nDa mulher \u00e9 essa a ess\u00eancia&#8230;<br \/>\nO que se lhe h\u00e1-de fazer?<\/p>\n<p>E mal pr a eles iria<br \/>\nSe lhes desse na mama<br \/>\nSeus caprichos desterrar.<br \/>\nCrede, meus alvos cabelos<br \/>\nUm dos seus dotes mais belos<br \/>\n\u00c9 mesmo esse caprichar.<\/p>\n<p><b>Julho de 18S9<\/b><\/p>\n<p>Desta poesia eu sou apenas uma esp\u00e9cie de editor, mas n\u00e3o respons\u00e1vel. \u00a3<br \/>\num velho que fala, e eu n\u00e3o afirmo, pela minha parte, qu e penso exactamente<br \/>\ncomo ele neste assunto. O sexo feminino me perdo e portanto estas sextilhas.<br \/>\nEstou pronto a contradizer a ila\u00e7\u00e3o que delas se pretendeu tirar. Debaixo<br \/>\ndo ponto de vista em que o nosso octogen\u00e1rio encara as mulheres, eu devo confessar<br \/>\nque n\u00e3o tenho motivos para lhes quere r mal nenhum. Ele julgou-as severa.<br \/>\nmente, mas \u00e9 certo qu e tamb\u00e9m n\u00e3o valia mais do que elas. As feridas do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncicatri. zavam-lhe com uma rapidez espantosa e. em quanto a mim, estes cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ns\u00e3o no amor uma calamidade e n\u00e3o merecem sorte melhor que a que ele teve.<br \/>\nJ\u00e1 v\u00eaem qu e sou imparcial.<\/p>\n<h2>EXALTA\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Vida! quero viver! quero em prazeres<br \/>\nSequioso saciar-me!<br \/>\nDeste frio letargo em que hei vivido,<br \/>\nQuero, enfim, libertar-me!<br \/>\nPra longe o manto da indiferen\u00e7a! Aos gozos!<br \/>\nEia! aos festins da vida!<br \/>\nOs mais convivas se sentaram h\u00e1 muito.<br \/>\nDai-me a parte devida.<br \/>\nPra longe pensamentos de tristeza,<br \/>\nGelado desalento!<br \/>\nVou embriagar-me nas ardentes ta\u00e7as<br \/>\nBeber nelas o alento.<br \/>\nMundo, d\u00e1-me o prazer que aos mais concedes!<br \/>\nDa isola\u00e7\u00e3o estou farto. Adeus, \u00f3 solid\u00e3o, adeus<br \/>\nrepouso.<br \/>\nAdeus&#8230; pra sempre eu partoI<br \/>\nOs rumores da turba escuto ao longe<br \/>\nNo seio dos folgares;<br \/>\nE s\u00f3 eu, frio, cruzarei os bra\u00e7os,<br \/>\nN\u00e3o buscarei seus lares?<br \/>\nOh! n\u00e3o; \u00e9 tempo, as alegrias chamam-me.<br \/>\nAntes de exausta a ta\u00e7a<br \/>\nCorramos a bebe r nela, que o gozo<br \/>\nCo&#8217;a juventude passa. Amigos, esperai, eu j\u00e1 vos sigo.<br \/>\nLouco do que se isola?<br \/>\nNem se torna melhor, nem suas penas<br \/>\nNa solid\u00e3o consola.<br \/>\nVamos ao menos no rumor das festas<br \/>\nSufocar este grito<br \/>\nQue nos brada : \u2014 Padece, que de l\u00e1grimas<br \/>\nFoi teu destino escrito.<br \/>\nVamos&#8230; ao menos no fulgor dos bailes<br \/>\nFascinemos a vista.<br \/>\nTalvez a\u00ed se encontre o esquecimento,<br \/>\nTalvez o gozo exista. Quebremos esta l\u00e1pide marm\u00f3rea<br \/>\nQue nos cingia em vida. Ressuscitemos! Eia, \u00f3 alma acorda<br \/>\nDesta feral jazida.<br \/>\nVamos!&#8230; \u00e0s festas, ao prazer, aos cantos,<br \/>\n\u00c0s flores e harmonias.<br \/>\nTa\u00e7as a trasbordar, luzes fulgentes,<br \/>\nDelirantes orgias!<br \/>\nE, ent\u00e3o, no meio do del\u00edrio f\u00e9rvido,<br \/>\nPerdido, embriagado,<br \/>\nTalvez encontre a paz que em balde tenho<br \/>\nNa solid\u00e3o buscado,<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Abril de 1860<\/b><\/p>\n<p>Esta exalta\u00e7\u00e3o, como quase todas, terminou em nada. N\u00e3o cheguei a incomodar<br \/>\nos convivas dos festins da vida para me darem lugar, e espero que nunca os<br \/>\nincomodarei. Meu caminho \u00e9 outro. Divirtam-se em paz<\/p>\n<h2>UMA CONSULTA<\/h2>\n<p>\u2014 D\u00e1 licen\u00e7a? \u2014 Entre quem \u00e9.<br \/>\n\u2014 Muitos bons dias. \u2014 Ol\u00e9,<br \/>\nPor aqui, minha senhora?<br \/>\nDesculpe vossa excel\u00eancia<br \/>\nSe a n\u00e3o conhecia agora.<br \/>\n\u2014 Sem mais&#8230; \u00c0 sua ci\u00eancia<br \/>\nRecorrer venho.\u2014Deveras ?<br \/>\n(Senhor me d\u00ea paci\u00eancia!<br \/>\nNunca tu c\u00e1 me vieras).<br \/>\nEnt\u00e3o que temos ? \u2014 Pade\u00e7o.<br \/>\n\u2014 Sim? por\u00e9m de que doen\u00e7a?<br \/>\n\u2014 Essa \u00e9 boa! acaso pensa<br \/>\nQue eu porventura a conhe\u00e7o?<br \/>\n\u2014 Ah! n\u00e3o conhece ? \u2014 Quem dera ! Ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\no consultava.<br \/>\n\u2014 (E eu que muito estimava).<br \/>\nMas diga, ent\u00e3o? \u2014 Eu lhe conto&#8230;<br \/>\nOi\u00e7a bem. N\u00e3o perca um ponto.<br \/>\n\u2014 Nem um ponto hei-de perder.<br \/>\n\u2014 Ai, doutor, doutor, meu peito&#8230;<br \/>\n\u2014 \u00c9 do peito que padece ? Quem havia de o dizer!<br \/>\n\u2014 E Jesus, doutor, parece Que me quer interromper?! N\u00e3o era a<br \/>\nisso sujeito.<br \/>\n\u2014 Nem o tornarei a ser&#8230; Vamos l\u00e1. \u2014Or a eu come\u00e7o&#8230;<br \/>\nAten\u00e7\u00e3o \u00e9 o que lhe pe\u00e7o ;<\/p>\n<p>Diga-me: que lhe pare\u00e7o ? N\u00e3o me acha muito abatida?<br \/>\n\u2014 Assim, assim; mas \u00e0s vezes<br \/>\nA vista pode enganar.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o. Pode acreditar<br \/>\nQue h\u00e1 j\u00e1 um bom par de meses<br \/>\n\u00c9 um tormento esta vida.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o que \u00e9 o que sente ?<br \/>\n\u2014 O que sinto? Ora eu lhe digo :<br \/>\nO doutor \u00e9 meu amigo?<br \/>\n\u2014 Oh ! senhora&#8230; \u2014 E \u00e9 prudente ? Oi\u00e7a, pois: Eu<br \/>\ndantes era<br \/>\nFera e rija, que era um gosto! Ou em Dezembro ou Agosto Correr o mundo pudera,<br \/>\nSem no fim me achar cansada.<br \/>\n\u2014 E hoje? \u2014 N\u00e3o lhe digo nada, Nem comigo posso j\u00e1.<br \/>\n\u2014 Mau \u00e9! \u2014 Quer saber, doutor ? S\u00f3 para vir at\u00e9<br \/>\nc\u00e1,<br \/>\nQue tormentos n\u00e3o passei!<br \/>\n\u2014 Diga-me, se faz favor.<br \/>\nQue idade tem? \u2014 Eu nem sei&#8230; Eu sou mais nova tr\u00eas anos<br \/>\nQue o reitor da freguesia.<br \/>\n\u2014 (\u00c9 grande consola\u00e7\u00e3o!)<br \/>\n\u2014 Tenho ainda outros dois manos Que mais velhos do que eu s\u00e3o,<br \/>\nPor\u00e9m, como eu lhe dizia, Doutor&#8230;\u2014Qu e mais sente ent\u00e3o?<br \/>\n\u2014 A vista sinto estragada, At\u00e9 j\u00e1 me custa a ler,<br \/>\nDe mais a mais sou nervosa. Isso n\u00e3o lhe digo nada!<br \/>\nOlhe, estou sempre a tremer.<br \/>\n\u2014 Fa\u00e7o id\u00e9ia. \u2014 Andava ansiosa<br \/>\nPor consultar o doutor;<br \/>\nEu tenho em si muita f\u00e9.<br \/>\n\u2014 Lisonjeia-me. \u2014 Outra queixa&#8230; Que eu sofro tamb\u00e9m&#8230;<br \/>\nQual \u00e9?<br \/>\n\u2014 \u00c9 dum forte mal de dentes. Todos me caem. \u2014 Bem, bem.<br \/>\n\u2014 E os que restam, mal assentes, Qualquer dia v\u00e3o tamb\u00e9m.<br \/>\n\u2014 \u00c9 prov\u00e1vel. \u2014 Ai, doutor! Que cruel enfermidade!<\/p>\n<p>N\u00e3o acha? \u2014 Acho e o pior&#8230;<br \/>\n\u2014 H\u00e1-de curar-me, nao h\u00e1-de?<br \/>\n\u2014 E ent\u00e3o nao sente mais nada ?<br \/>\n\u2014 Nada&#8230; ai, sim, tem-me parecido, Por\u00e9m, talvez me iludisse&#8230;<br \/>\n\u2022\u2014 Diga. \u2014 A semana passada, Como ao espelho me visse&#8230;<br \/>\nPareceu-me ter percebido&#8230;<br \/>\n\u2014 O qu\u00ea ? \u2014 Que a pele n\u00e3o era<br \/>\nComo dantes, t\u00e3o macia.<br \/>\n\u2014\u2022 E ent\u00e3o ? \u2014 Quem visse dissera<br \/>\nQue eram rugas. \u2014 (Eu dizia)<br \/>\nE \u00e9 isso o que padece ?<br \/>\n\u2014 Ainda pouco lhe parece, Doutor? \u2014 Por certo que n\u00e3o.<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o que doen\u00e7a tenho &#8216;<br \/>\n\u2014 Em sab\u00ea-lo muito empenho Sempre tem ? \u2014 Eu ? Pois ent\u00e3o<br \/>\n? Para isso o procurei.<br \/>\n\u2014 Bem, ent\u00e3o sempre lho digo<br \/>\nMas julgo n\u00e3o ficarei<br \/>\nPor isto, seu inimigo.<br \/>\n\u2014 O meu doutor! \u2014 O seu mal<br \/>\n\u00c9, senhora, de algum perigo.<br \/>\n\u2014 Ai Jesus! \u2014 E muita gente Dele morre. \u2014Oh santo Deus!<br \/>\nPor quem \u00e9 n\u00e3o diga tal!<br \/>\nE&#8230; morre-se de repente?<br \/>\n\u2014 Conforme. \u2014 Pecados meus? E ent\u00e3o \u00e9 isso o que<br \/>\npensa! Por\u00e9m ainda me n\u00e3o disse<br \/>\nO nome dessa doen\u00e7a<br \/>\nE eu sempre o quero saber&#8230;<br \/>\n\u2014 O nome?\u2014Sim.\u2014\u00c9 . . velhice!<\/p>\n<p>\u2014 E o rem\u00e9dio? \u2014 Morrer.<\/p>\n<p><b>Janeiro de 1860<\/b><\/p>\n<p>A lembran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante<br \/>\nque me contaram<\/p>\n<h2>PROFISS\u00c3O DE F\u00c9<\/h2>\n<p>Se vires a lira entoar alegrias, Prazeres e orgias, das festas \u00e0 luz,<br \/>\nN\u00e3o creias as vozes que solta; mentida<br \/>\n\u00c9 toda essa vida, que nela transluz.<\/p>\n<p>Se a vires cantando felizes amores, Perfumes de flores parecendo aspirar,<br \/>\nN\u00e3o creias; minh&#8217;alma surgir n\u00e3o viu ainda<br \/>\nA aurora bem-vinda de grato raiar.<\/p>\n<p>Se vendo no mundo somente \u00edmpias cenas, P\u00e9rfidas apenas, funestas<br \/>\npaix\u00f5es,<br \/>\nDe esc\u00e1rnio e desprezo soltar os seus cantos, S\u00e3o falsos; que<br \/>\nem prantos lhe v\u00e3o ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quando triste, falar da saudade, Em grata ansiedade fitar<br \/>\no porvir<br \/>\nEm sonhos de esperan\u00e7as, talvez que mentidas,<br \/>\nSoltar seus gemidos, temor exprimir;<\/p>\n<p>Se a ouvires falando de chamas ocultas Que n&#8217;alma sepultas encobrem seus<br \/>\nv\u00e9us, Quais fogos acesos ao ar elevados, Ardendo ateados, numa ara<br \/>\nsem Deus<\/p>\n<p>Se a vire s nos cantos falar magoada, Da lut a travada no meu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nQu e muit o deseja, que tanto empreende<br \/>\nE em v\u00e3 o se defende da ignota pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouvindo- a em segredo, soltar suas queixas<br \/>\nE e m triste s endeixas sentida gemer,<br \/>\nChora r o passado, odiar o presente<br \/>\nE a o long e somente fulgores entrever.<\/p>\n<p>Ent\u00e3 o cr \u00ea os hinos que ouvires \u00e0 lira,<br \/>\nO peit o os inspira, do peito eles vem,<br \/>\nA m \u00e3 o indiferente suas cordas n\u00e3o pulsa<br \/>\nFebri l e convulsa se agita tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><b>22 de Abri l de 1860<\/b><\/p>\n<h2>UM PARECER<\/h2>\n<p>As minhas flores dilectas<br \/>\nN\u00e3o se encontram nos jardins<br \/>\nPor entre est\u00e1tuas erectas<br \/>\nDe m\u00e1rmore e labirintos,<br \/>\nDas estufas nos recintos,<br \/>\nE avenidas de alecrins.<\/p>\n<p>N\u00e3o ornam os toucadores<br \/>\nDe feminis gabinetes,<br \/>\nN\u00e3o perdem as suas cores<br \/>\nBrilhando \u00e0 noite entre sedas<br \/>\nDe manh\u00e3 \u00e0s horas ledas<br \/>\nDesmaiando nos tapetes.<\/p>\n<p>Nas jarras n\u00e3o se acumulam Dos vastos sal\u00f5es de festa; Em grinaldas<br \/>\nn\u00e3o emulam<br \/>\nNo fulgor a pedraria,<br \/>\nA luz que o baile alumia<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 a luz que as cresta.<\/p>\n<p>N\u00e3o; as minhas, as que eu amo<br \/>\nN\u00e3o as procurem por a\u00ed<br \/>\nPois que eu prefiro ao ramo<br \/>\nDas flores mais presumidas<br \/>\nAs singelas margaridas!<br \/>\nQue nas campinas colhi.<\/p>\n<p>As cam\u00e9lia: pe\u00f3nias<br \/>\nQue o jardim ostenta ufano,<br \/>\nE outras destes hierarquias, Prefiro a rara violeta,<br \/>\nE a ros a que vegeta<br \/>\nPelos campos todo o ano.<\/p>\n<p>E, como as flores , as donzelas S\u00e3o iguais nos agostos meus, Pois<br \/>\npar a mim as mai s belas<br \/>\nE aos olhos mais aceites,<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3 o as p em mais enfeites<br \/>\nEncobrem os dotes seus .<\/p>\n<p>Nao s\u00e3o . Eu quero a belez a<br \/>\nSem t\u00e3o presumida arte ;<br \/>\nO qu e vem da natureza<br \/>\nTais atavios dispensa.<br \/>\nMulher, atede-me e pens a<br \/>\nNo conselho que vou dar-te :<\/p>\n<p>Feia ou bela para long e Desterra tanto : aparato. N\u00e3o faz o habito<br \/>\no mong e Sem el e a bela se enfeita E nada \u00e0 feia aproveit a Esse t\u00e3o<br \/>\ncaiado ornato.<\/p>\n<p>Que pedra s mas preciosas , Que enfeites de mais valor E que flores mais<br \/>\nmimosas Do qu e uns olhos radiante s Umas tran\u00e7as abundadantes,<br \/>\nUns l\u00e1bios dizendo amor ?<\/p>\n<p>E v\u00f3s, feias se a belez a Vos nego u seu galard\u00e3o, N\u00e3o<br \/>\nfujais da singeleza,<br \/>\nN\u00e3o busques e extremo oposto. Deixai de ado\u00e7ar o rosto ,<br \/>\nE adornai o cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><b>Maio de 1860<\/b><\/p>\n<p>Vox clamantis in deserto.<\/p>\n<h2>APAR\u00caNCIAS<\/h2>\n<p>Sempre o riso em teus l\u00e1bios! Na alva fronte<br \/>\nNem uma sombra apenas!<br \/>\nNem uma nuvem s\u00f3 no horizonte<br \/>\nA amea\u00e7ar-te com futuras penas!<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel haver inda no mundo<br \/>\nQuem viva e nao pade\u00e7a ?!<br \/>\nNum vale de agonias t\u00e3o profundo.<br \/>\nQuem haver\u00e1 que em j\u00fabilos se esque\u00e7a!<\/p>\n<p>Se hoje os dias teus correm amenos, Olha para o passado.<br \/>\nEle saudades te dar\u00e1 ao menos<br \/>\nDos que \u00e0 beira do t\u00famulo h\u00e1s deixado.<\/p>\n<p>E nem um s\u00f3 instante de tristeza<br \/>\nTe d\u00e3o essas mem\u00f3rias?<br \/>\nTeu passado \u00e9 est\u00e9ril? N\u00e3o te pesa<br \/>\nUma s\u00f3 dessas cenas transit\u00f3rias?<\/p>\n<p>Pois bem; encara as trevas do futuro<br \/>\nE dize se as n\u00e3o receias?<br \/>\nFitando esse horizonte ignoto e escuro<br \/>\nS\u00e3o ainda de prazer tuas id\u00e9ias?<\/p>\n<p>Dizem que a ta\u00e7a do praze.- na vida<br \/>\nCont\u00e9m sempre o absinto,<br \/>\nMas tu, s\u00f3 de alegrias envolvida<br \/>\nN\u00e3o sabes o amargor&#8230; Que digo? Minto!<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 apar\u00eancia. Se eu puder<br \/>\nLer-te no pensamento<br \/>\nQuem sabe se at\u00e9 mesmo estremecera<br \/>\nAo deparar co&#8217;um \u00edntimo tormento?!<\/p>\n<p>Quem sabe quantas vezes \u00e9 mentida<br \/>\nDos l\u00e1bios a alegria!<br \/>\nQuantas vezes no peito comprimida<br \/>\nNos devora latente uma agonia!<\/p>\n<p>E morto o cora\u00e7\u00e3o inda persiste<br \/>\nUm sorriso aparente,<br \/>\nSimulando um prazer que n\u00e3o existe,<br \/>\nFingindo uma ilus\u00e3o que a alma n\u00e3o sente.<\/p>\n<p>Este vislumbre de mentido gozo<br \/>\nQue nos l\u00e1bios se estampa<br \/>\n\u00c9 como as flores do vergel vi\u00e7oso<br \/>\nQue nos encobrem a hediondez da campa.<\/p>\n<p><b>8 de Julho de 1860.<\/b><\/p>\n<h2>DESALENTO<\/h2>\n<p>\u00c9 for\u00e7a descrer. Na vida<br \/>\nSucumbe toda a ilus\u00e3o<br \/>\nComo a flor da haste pendida<br \/>\nMurcha ao sopro do tuf\u00e3o.<\/p>\n<p>Fantasias v\u00e3s da inf\u00e2ncia Deixai-me; sois mentirosas. Pint\u00e1veis-me<br \/>\na vida est\u00e2ncia Coberta de mirto e rosas.<\/p>\n<p>E, ao perto, o mirto e as rosas<br \/>\nEm espinhos se tornaram.<br \/>\nEssas horas venturosas<br \/>\nBem amargas se mostraram.<\/p>\n<p>Descrer \u00e9 fatal destino<br \/>\nQue espera o homem na vida.<br \/>\nE n\u00e3o h\u00e1 poder divino<br \/>\nQue lhes sirva de guarida.<\/p>\n<p>Descrer ? descrer! muito custa Quando o peito \u00e9 de vinte anos, Quando<br \/>\na alma inda se assusta<br \/>\nAo clar\u00e3o dos desenganos<\/p>\n<p>Pobre alma! pobre seio! Ai que mart\u00edrio sofreste.<br \/>\nInda ontem de ilus\u00f5es cheio<br \/>\nE hoje j\u00e1 quantas perdeste!<\/p>\n<p>E agora que mais me resta? Qual, \u00f3 alma a tua sorte!<br \/>\nJ\u00e1 que a vida \u00e9 t\u00e3o funesta<br \/>\nAspira somente \u00e0 morte.<\/p>\n<p><b>6 de Agosto de 1860<\/b><\/p>\n<h2>DESESPERO<\/h2>\n<p>O dia fenece. Co&#8217;a luz purpurina<br \/>\nQue tinge o ocidente, que aromas n\u00e3o vem!<br \/>\nO Sol vacilante no oceano declina,<br \/>\nEleva-se a Lua nos montes d&#8217;al\u00e9m.<\/p>\n<p>Por entre a ramagem de densa espessura<br \/>\nSemeada de alj\u00f4far&#8217;s por l\u00e2nguida luz<br \/>\nMil aves modulam com meiga ternura<br \/>\nSeus hinos que a aragem aos montes conduz.<\/p>\n<p>Que m\u00e1gicas cenas! que aromas na brisa! Que sons! que harmonias se<br \/>\nelevam daqui ! Ditosa a exist\u00eancia que mansa desliza<br \/>\nE a quem esta cena de gra\u00e7as sorri.<\/p>\n<p>Mas; ai, de que valem belezas de selva, Das aves os hinos, perfumes de flor?<br \/>\nQue importa o arroio gemendo na relva<br \/>\nE a Lua surgindo com grato palor?<\/p>\n<p>Que importa o sil\u00eancio que vai na campina A quem dentro d&#8217;alma rebrame<br \/>\na paix\u00e3o? Que importa a folhagem que adorna a colina<br \/>\nSe dentro palpita medonho vulc\u00e3o?<\/p>\n<p>Oh! antes mil vezes ouvir agitadas<br \/>\nAs vagas lutando com as nuvens do c\u00e9u.<br \/>\nOlhar as florestas brilhando incendiadas<br \/>\nE o raio rasgando das noites o v\u00e9u.<\/p>\n<p>Em vez do murm\u00fario das brisas suaves, O vento com raiva no bosque<br \/>\na bramir Em vez do mavioso descante das aves, Das feras o torvo, medonho rugir!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nos horrores de tanta tormenta Talvez meus mart\u00edrios<br \/>\neu visse extinguir, Ent\u00e3o, como o infante que a m\u00e3e acalenta,<br \/>\nAo som das rajadas pudera dormir.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o; ainda mesmo que todo o universo<br \/>\nDesabe em ru\u00ednas em torno de mim<br \/>\nNo caos informe, que fora seu ber\u00e7o,<br \/>\nAchando o seu leito de morte por fim.<\/p>\n<p>A rude tormenta que o seio me agita Inda h\u00e1-de mais alto suas f\u00farias<br \/>\nerguer, Que vagas ardentes de lava maldita<br \/>\nEu sinto violentas no peito ferver.<\/p>\n<p>E os risos do campo, de esc\u00e1rnio parecem, Os sons das florestas, insultos<br \/>\n\u00e0 dor.<br \/>\nMal hajam as galas que o prado guarnecem, Mal haja esta noite de paz e de<br \/>\namor!<\/p>\n<p>Que importa o sil\u00eancio que vai na campina A quem dentro d&#8217;alma rebrame<br \/>\na paix\u00e3o? Que importa a folhagem que adorna a colina<br \/>\nSe dentro palpita medonho vulc\u00e3o?<\/p>\n<p>Oh! antes mil vezes ouvir agitadas<br \/>\nAs vagas lutando com as nuvens do c\u00e9u.<br \/>\nOlhar as florestas brilhando incendiadas<br \/>\nE o raio rasgando das noites o v\u00e9u.<\/p>\n<p>Em vez do murm\u00fario das brisas suaves, O vento com raiva no bosque<br \/>\na bramir Em vez do mavioso descante das aves, Das feras o torvo, medonho rugir!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nos horrores de tanta tormenta Talvez meus mart\u00edrios<br \/>\neu visse extinguir, Ent\u00e3o, como o infante que a m\u00e3e acalenta,<br \/>\nAo som das rajadas pudera dormir.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o; ainda mesmo que todo o universo<br \/>\nDesabe em ru\u00ednas em torno de mim<br \/>\nNo caos informe, que fora seu ber\u00e7o,<br \/>\nAchando o seu leito de morte por fim.<\/p>\n<p>A rude tormenta que o seio me agita Inda h\u00e1-de mais alto suas f\u00farias<br \/>\nerguer, Que vagas ardentes de lava maldita<br \/>\nEu sinto violentas no peito ferver.<\/p>\n<p>E os risos do campo, de esc\u00e1rnio parecem, Os sons das florestas, insultos<br \/>\n\u00e0 dor.<br \/>\nMal hajam as galas que o prado guarnecem, Mal haja esta noite de paz e de<br \/>\namor!<\/p>\n<p><b>13 de Agosto de 1860.<\/b><\/p>\n<h2>O DESTINO DAS FLORES<\/h2>\n<p>Um dia em que ambos n\u00f3s, sobre a mesa do estudo<br \/>\nNuma noite hibernai, da l\u00e2mpada ao clar\u00e3o,<br \/>\nEle curvado a ler, eu a escut\u00e1-lo mudo,<br \/>\nSegu\u00edamos com pausa, atentos, a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Inda me lembro bem ! Fal\u00e1vamos das plantas, De sua curta vida e sua amena<br \/>\ncor,<br \/>\nTantas pelos verg\u00e9is e pelos montes tantas, Que vivem, fenecendo ap\u00f3s<br \/>\naberta a flor!<\/p>\n<p>\u2014 \u00abTriste destino o seu\u00bb, disse ele com voz lenta, Pousando<br \/>\ncom tristeza a fronte sobre a m\u00e3o,<br \/>\n\u2014 \u00abDeus as manda florir, de seiva as alimenta, Mas cedo com as flor&#8217;s<br \/>\ncaem murchas no ch\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>Triste destino o teu, ao delas semelhante, Pobre alma de poeta! On! que destino<br \/>\no teul Deus te mandou cantar e o canto vacilante<br \/>\nNa Terra principiado acabaste-o no C\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>28 da junho de 1882.<\/b><\/p>\n<h2>FALSOS AMIGOS<\/h2>\n<p>Como a sombra, amigos temos, Que nos segue em claro dia; Mas que da vista<br \/>\nperdemos Assim que o Sol se anuvia.<\/p>\n<p><b>Outra vers\u00e3o:<\/b><\/p>\n<p>V\u00f3s sois a minha sombra<br \/>\nSe o Sol me luz brilhante..<br \/>\nAtr\u00e1s, ao lado, adiante,<br \/>\nEncontro-a junto a mim !<br \/>\nPor\u00e9m se nuvem negra<br \/>\nA luz do Sol me tira,<br \/>\nA sombra se retira&#8230;<br \/>\nV\u00f3s sois tamb\u00e9m assim<\/p>\n<h2>ORA\u00c7\u00c3O DO REITOR<\/h2>\n<p>A noite era de Inverno, h\u00famida, escura e fria. Soprava nos pinhais<br \/>\nfuriosa a ventania,<br \/>\nImitando o bramir dum tormentoso mar. Os sinos do mosteiro ouviam-se vibrar.<br \/>\nE, contudo, ningu\u00e9m subira ao campan\u00e1rio.<br \/>\nA alameda do adro e o morro do Calv\u00e1rio,<br \/>\nOnde se ergue imponente o sacro emblema \u2014 a Cruz \u2014<br \/>\nRasgando o negro v\u00e9u, enchiam-se de luz<br \/>\nQuando do c\u00e9u pesado o raio fuzilava:<br \/>\nLuz sinistra, fatal, como de ardente lava. A aldeia repousava em pl\u00e1cido<br \/>\ndormir;<br \/>\nSono que n\u00e3o perturba esta \u00e2nsia do porvir<br \/>\nQue \u00e0 vida nos consome, aos filhos das cidades;<br \/>\nEste sonhar sem fim, estas vagas saudades<br \/>\nSempre, sempre a fugir dum fantasiado bem<br \/>\nQue \u00e0 nossa cabeceira acalentar-nos vem.<br \/>\nA aldeia repousava. As cinzas da lareira<br \/>\nOnde h\u00e1 pouco inda ardia a paternal fogueira<br \/>\nCujo grato calor as horas do ser\u00e3o<br \/>\nAjudara a passar, frias, extintas s\u00e3o.<br \/>\nPor\u00e9m na resid\u00eancia um homem inda vela,<br \/>\nPois que uma frouxa luz, atrav\u00e9s da janela, Parece estar dizendo ao<br \/>\npovo que adormece :<br \/>\n\u2014 \u00abDorme, que o teu pastor de velar n\u00e3o se esquece !\u00bb<\/p>\n<p>O p\u00e1roco velava. As venerandas c\u00e3s Pendentes sobre um livro. Em<br \/>\nora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s Iam-se, muita vez, assim, noites inteiras&#8230;<br \/>\nAs contas do ros\u00e1rio eram-lhe companheiras.<\/p>\n<p>Julgava-se ele ent\u00e3o, o bondoso reitor,<br \/>\nMais pr\u00f3ximo do C\u00e9u, mais junto do Senhor !<br \/>\nE, Mois\u00e9s do seu povo, ouvindo mais de perto<br \/>\nA palavra da lei que, no \u00e1rido deserto,<br \/>\nO devia guiar por grandes prova\u00e7\u00f5es,<br \/>\nSentia ent\u00e3o mais f\u00e9 nas suas ora\u00e7\u00f5es !<br \/>\nA est\u00e2ncia humilde e nua do velho cenobita<br \/>\nParece recebe r misteriosa visita<br \/>\nSempre que, como agora, embevecido e s\u00f3, L\u00ea, de David, um salmo,<br \/>\num lamento de Job. P\u00e1ginas imortais dos Santos Evangelhos !<br \/>\nPois houve quem o viu, caindo de joelhos, Erguer, cheio de ardor, os olhos<br \/>\npara o C\u00e9u, Como se, descerrando o impenetr\u00e1vel v\u00e9u,<br \/>\nQue, aos olhos dos mortais, cobre o mist\u00e9rio augusto,<br \/>\nLho deixasse encarar sem turba\u00e7\u00e3o nem custo. Vivera a fazer<br \/>\nbem. Envelhecera assim.<br \/>\nEram-lhe distrac\u00e7\u00f5es as flores do jardim,<br \/>\nO ensino da inf\u00e2ncia, a esmola aos indigentes<br \/>\nE o salutar conselho aos jovens e imprudentes.<br \/>\nLogo pela manh\u00e3, mal sentia o arrebol,<br \/>\nIa-se para o monte, a ver nascer o Sol,<br \/>\nE voltava a almo\u00e7ar mais leve do que fora,<br \/>\nQue a esmola o acompanhava e \u00e9 grande gastadora.<br \/>\nN\u00e3o sabia, o bom velho, h\u00e1 muito resistir&#8230; Cedia-lhe sorrindo&#8230;<br \/>\nAben\u00e7oado sorrir !<br \/>\nSempre s\u00f3brio e frugal. o santo sacerdote, Quisera, muita vez, entesourar<br \/>\num dote<br \/>\nPara as filhas de Deus, \u00f3rf\u00e3s de pai e m\u00e3e ! Socorria<br \/>\na chorar! Pois chorava tamb\u00e9m,<br \/>\nSempre que chorar via, ou de prazer ou pena. Em tudo reflectia aquela alma<br \/>\nserena,<br \/>\nComo lago tranq\u00fcilo, ao tombar do escarc\u00e9u,<br \/>\nAs nuvens reproduz que perpassam no c\u00e9u&#8230;<br \/>\nCom que amor acolhia alguma alma perdida<br \/>\nQue o vinha procurar, um dia, arrependida I<br \/>\nCom que sentida f\u00e9 lhe falava da Cruz,<br \/>\nPrometendo o perd\u00e3o em nome de Jesus !<\/p>\n<p>Quando \u00e0 missa do dia, ao povo que o escutava, Com voz tr\u00eamula<br \/>\nj\u00e1, da religi\u00e3o falava,<br \/>\nNa pr\u00e1tica singela havia tal un\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue vinham gravar-se fundas, no cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAs palavras de amor, de paz, de toler\u00e2ncia.<br \/>\nE o povo procurava ouvi-lo com inst\u00e2ncia.<\/p>\n<h2>ORA\u00c7\u00c3O DO REITOR<\/h2>\n<p>A noite era de Inverno, h\u00famida, escura e fria. Soprava nos pinhais<br \/>\nfuriosa a ventania,<br \/>\nImitando o bramir dum tormentoso mar. Os sinos do mosteiro ouviam-se vibrar.<br \/>\nE, contudo, ningu\u00e9m subira ao campan\u00e1rio.<br \/>\nA alameda do adro e o morro do Calv\u00e1rio,<br \/>\nOnde se ergue imponente o sacro emblema \u2014 a Cruz \u2014<br \/>\nRasgando o negro v\u00e9u, enchiam-se de luz<br \/>\nQuando do c\u00e9u pesado o raio fuzilava:<br \/>\nLuz sinistra, fatal, como de ardente lava. A aldeia repousava em pl\u00e1cido<br \/>\ndormir;<br \/>\nSono que n\u00e3o perturba esta \u00e2nsia do porvir<br \/>\nQue \u00e0 vida nos consome, aos filhos das cidades;<br \/>\nEste sonhar sem fim, estas vagas saudades<br \/>\nSempre, sempre a fugir dum fantasiado bem<br \/>\nQue \u00e0 nossa cabeceira acalentar-nos vem.<br \/>\nA aldeia repousava. As cinzas da lareira<br \/>\nOnde h\u00e1 pouco inda ardia a paternal fogueira<br \/>\nCujo grato calor as horas do ser\u00e3o<br \/>\nAjudara a passar, frias, extintas s\u00e3o.<br \/>\nPor\u00e9m na resid\u00eancia um homem inda vela,<br \/>\nPois que uma frouxa luz, atrav\u00e9s da janela, Parece estar dizendo ao<br \/>\npovo que adormece :<br \/>\n\u2014 \u00abDorme, que o teu pastor de velar n\u00e3o se esquece !\u00bb<\/p>\n<p>O p\u00e1roco velava. As venerandas c\u00e3s Pendentes sobre um livro. Em<br \/>\nora\u00e7\u00f5es crist\u00e3s Iam-se, muita vez, assim, noites inteiras&#8230;<br \/>\nAs contas do ros\u00e1rio eram-lhe companheiras.<\/p>\n<p>Julgava-se ele ent\u00e3o, o bondoso reitor,<br \/>\nMais pr\u00f3ximo do C\u00e9u, mais junto do Senhor !<br \/>\nE, Mois\u00e9s do seu povo, ouvindo mais de perto<br \/>\nA palavra da lei que, no \u00e1rido deserto,<br \/>\nO devia guiar por grandes prova\u00e7\u00f5es,<br \/>\nSentia ent\u00e3o mais f\u00e9 nas suas ora\u00e7\u00f5es !<br \/>\nA est\u00e2ncia humilde e nua do velho cenobita<br \/>\nParece recebe r misteriosa visita<br \/>\nSempre que, como agora, embevecido e s\u00f3, L\u00ea, de David, um salmo,<br \/>\num lamento de Job. P\u00e1ginas imortais dos Santos Evangelhos !<br \/>\nPois houve quem o viu, caindo de joelhos, Erguer, cheio de ardor, os olhos<br \/>\npara o C\u00e9u, Como se, descerrando o impenetr\u00e1vel v\u00e9u,<br \/>\nQue, aos olhos dos mortais, cobre o mist\u00e9rio augusto,<br \/>\nLho deixasse encarar sem turba\u00e7\u00e3o nem custo. Vivera a fazer<br \/>\nbem. Envelhecera assim.<br \/>\nEram-lhe distrac\u00e7\u00f5es as flores do jardim,<br \/>\nO ensino da inf\u00e2ncia, a esmola aos indigentes<br \/>\nE o salutar conselho aos jovens e imprudentes.<br \/>\nLogo pela manh\u00e3, mal sentia o arrebol,<br \/>\nIa-se para o monte, a ver nascer o Sol,<br \/>\nE voltava a almo\u00e7ar mais leve do que fora,<br \/>\nQue a esmola o acompanhava e \u00e9 grande gastadora.<br \/>\nN\u00e3o sabia, o bom velho, h\u00e1 muito resistir&#8230; Cedia-lhe sorrindo&#8230;<br \/>\nAben\u00e7oado sorrir !<br \/>\nSempre s\u00f3brio e frugal. o santo sacerdote, Quisera, muita vez, entesourar<br \/>\num dote<br \/>\nPara as filhas de Deus, \u00f3rf\u00e3s de pai e m\u00e3e ! Socorria<br \/>\na chorar! Pois chorava tamb\u00e9m,<br \/>\nSempre que chorar via, ou de prazer ou pena. Em tudo reflectia aquela alma<br \/>\nserena,<br \/>\nComo lago tranq\u00fcilo, ao tombar do escarc\u00e9u,<br \/>\nAs nuvens reproduz que perpassam no c\u00e9u&#8230;<br \/>\nCom que amor acolhia alguma alma perdida<br \/>\nQue o vinha procurar, um dia, arrependida I<br \/>\nCom que sentida f\u00e9 lhe falava da Cruz,<br \/>\nPrometendo o perd\u00e3o em nome de Jesus !<\/p>\n<p>Quando \u00e0 missa do dia, ao povo que o escutava, Com voz tr\u00eamula<br \/>\nj\u00e1, da religi\u00e3o falava,<br \/>\nNa pr\u00e1tica singela havia tal un\u00e7\u00e3o<br \/>\nQue vinham gravar-se fundas, no cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAs palavras de amor, de paz, de toler\u00e2ncia.<br \/>\nE o povo procurava ouvi-lo com inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ora naquela noite, que parecia sem fim,<br \/>\nCom f\u00e9 ardente e pura, o velho orava assim:<\/p>\n<p>\u00abSenhor! Que, generoso, Todas as aves nutres,<br \/>\nOs p\u00e9rfidos abutres<br \/>\nE os brandos rouxin\u00f3is ! Que juntas nos espa\u00e7os, \u00c0s nuvens<br \/>\ndas procelas, Os raios das estrelas,<br \/>\nA luz de imensos s\u00f3is I<\/p>\n<p>\u00abQue \u00e0 borda dos abismos<br \/>\nFazes brotar a planta;<br \/>\nDa flor que nos encanta<br \/>\nA \u00e1spide fatal;<br \/>\nE a pl\u00e1cida corrente<br \/>\nTornas, num simples gesto, Em v\u00f3rtice fremente,<br \/>\nE a brisa em vendaval!<\/p>\n<p>\u00abSenhor! quem pode, ousado, Sondar os teus mist\u00e9rios? Sombras<br \/>\ndos cemit\u00e9rios,<br \/>\nAcaso o podereis ?<br \/>\nMas n\u00f3s, cegos ainda,<br \/>\nNa sombra intensa, espessa, Curvemos a cabe\u00e7a<br \/>\nA tuas santas leis !<\/p>\n<p>\u00abPor isso, se no mundo, Olharmos, surpreendidos, Os bons aos maus unidos,<br \/>\nUnido o mal ao bem&#8230;<br \/>\nQue os l\u00e1bios se n\u00e3o manchem<br \/>\nNa impreca\u00e7\u00e3o maldita ! \u00c9 lei que est\u00e1 escrita<br \/>\nEm letras de ouro, al\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>\u00abAl\u00e9m, por essa ab\u00f3bada, Alta, sublime, imensa,<br \/>\nOnde a alma do que pensa Se perde a meditar&#8230; Abramos, pois, os bra\u00e7os<br \/>\nA todos igualmente.<br \/>\nA Deus, a Deus somente, Compete esse extremar.\u00bb<\/p>\n<p>uma can\u00e7\u00e3o que o interrompe:<\/p>\n<p>\u00abPobre flor que, nos campos nascida, Entre moitas de humildes violetas,<br \/>\nT\u00e3o saudosa no campo vegetas, Sem um raio de f\u00falgido sol! Pobre<br \/>\nflor, solit\u00e1ria, ignorada,<br \/>\nS\u00f3 a estrela do c\u00e9u te namora, S\u00f3 te beija o rocio da<br \/>\naurora<br \/>\nE te fala o subtil rouxinol !<\/p>\n<p>\u00abAi, se um dia escutares, atenta, Essa voz, \u00f3 violeta da aldeia,<br \/>\nEssa voz que embriaga, que enleia, Qual suave harmonia do C\u00e9u,<br \/>\nNova luz se far\u00e1 na tua alma&#8221;&#8230;<br \/>\nE, chamando-te \u00e0 vida os sentidos<br \/>\nTe abrir\u00e1 os pa\u00edses floridos<br \/>\nQue inda envolve um tenu\u00edssimo v\u00e9u.\u00bb<\/p>\n<p><b>A can\u00e7\u00e3o cessou e o velho reitor segue com a prece<\/b><\/p>\n<p>\u00abSenhor ! Bendito sejas<br \/>\nNa tua majestade !<br \/>\nPor toda a imensidade Teu nome escrito jaz !&#8230; E tu, soberba humana,<br \/>\nLembra-te que \u00e9s poeira&#8230; E, na hora derradeira,<br \/>\nA s\u00ea-lo voltar\u00e1s&#8230;\u00bb<\/p>\n<h2>EXCERTOS<\/h2>\n<p align=\"right\">Ep\u00edstola a meu primo Jos\u00e9 Joaquim<br \/>\nPinto J\u00fanior no dia dos seus anos,<br \/>\n20 de Outubro de 1859.<\/p>\n<p>Dos orientais jardins da bela aurora Foge, a lan\u00e7ar-se no cer\u00faleo<br \/>\nespa\u00e7o, Um grato sol d&#8217;Outono. Poucas flores<br \/>\nLhe oferece a terra j\u00e1, mas pendem frutos<br \/>\nDas \u00e1rvores, vergadas sob o peso<br \/>\nT\u00e3o grato ao lavrador, que mil riquezas<br \/>\nUfano estende nas patentes eiras,<br \/>\nOu em fartos celeiros acumula<br \/>\nPara as guardar do Inverno. Os atavios,<br \/>\nCom que se adorna a quadra, mais semelhain<br \/>\nModestas galas de gentil esposa,<br \/>\nQue, junto ao ber\u00e7o de seus ternos filhos,<br \/>\nDespiu as lou\u00e7ainhas de solteira,<br \/>\nOs seus trajes garridos de donzela, Pra quem a vida \u00e9 s\u00f3 jardim<br \/>\nflorido,<br \/>\nBelo e vi\u00e7oso, mas sem frutos inda. Outono! F\u00e9rtil quadra \u2014<br \/>\nt\u00e3o querida Do povo agricultor! se eu possu\u00edsse&#8230;<\/p>\n<p>Onde iria Mendigar express\u00f5es pr a celebrar-vos, Loiras searas, agrad\u00e1veis<br \/>\nceifas,<br \/>\nSer\u00f5es risonhos a que amor preside, Onde se trocam abra\u00e7os mil,<br \/>\nmil beijos, A cada milho-rei? N\u00e3o sei cantar-vos, Verdes relvas, de<br \/>\norvalho rociadas, Sussurrantes arroios das campinas, Copados, odor\u00edferos<br \/>\npomares&#8230;<\/p>\n<p>Tudo isto eu escrevia h\u00e1 pouco tempo, Ap\u00f3s ter aspirado os mil<br \/>\nperfumes<br \/>\nDo ar do campo, \u00e0s horas matutinas. Que alegria na aldeia !&#8230; Que fervores<br \/>\nNos trabalhos agr\u00edcolas!&#8230; Mas hoje&#8230;<\/p>\n<p>Que importa \u00e0 mole que o vapor impele, O fim pra que trabalha? Reconhece<br \/>\nUma for\u00e7a maior, e indiferente<br \/>\nSegue o impulso. Sejamos como&#8230;<\/p>\n<p>O nosso p\u00e1trio Douro que sombrio, Em torturado leito se revolve,<br \/>\nNem sempre ao levantar a h\u00famida fronte, Depara montes \u00edngremes<br \/>\ne asp\u00e9rrimos Que o fazem suspirar, de angustiado.<br \/>\nAqui e ali, a natureza amena<br \/>\nCom ele se mostrou. Risonhos vales, Gratas colinas, sinceirais formosos,<br \/>\nVerdes campinas que interceptam veias<br \/>\nDe l\u00edmpido cristal, lhe ornam as margens&#8230;<br \/>\nA\u00ed, um brando enleio voluptuoso<br \/>\nVence o soberbo rio, namorado<br \/>\nDos verdores que o circundam. Brandamente<br \/>\nSe deixa adormecer, acalentado<br \/>\nPelas can\u00e7\u00f5es que entoa a leve brisa, Ao som das folhas dos<br \/>\nvirentes olmos,<br \/>\nEnt\u00e3o, ferventes beijos deposita<br \/>\nNas enfloradas margens, que perfumes<br \/>\nLhe d\u00e3o em troca. A fronte majestosa<br \/>\nDesenruga, olvidando seus pesares, Lascivo, espraia as suas frescas ondas<br \/>\nEm mais ameno leito. J\u00e1 n\u00e3o geme, N\u00e3o brame enfurecido,<br \/>\nmaldizendo<br \/>\nAs enormes montanhas que o oprimem<br \/>\nEm apertado espa\u00e7o. Can\u00e7\u00f5es ternas,<br \/>\nCan\u00e7\u00f5es de amor, que s\u00f3 quem ama entende, Enlevado murmura<br \/>\nem brandas notas.<\/p>\n<p>Amo-te sempre, \u00f3 Douro, quer em f\u00farias Invistas contra as rochas,<br \/>\nquer sereno Deslizes, retratando em tuas ondas<br \/>\nOs alamos das margens. Ou turvado<br \/>\nTe rojes em lodoso, \u00e1spero leito,<br \/>\nOu em praias extensas desenroles<\/p>\n<p>Tuas ondas mais l\u00edmpidas, \u00e9s sempre<br \/>\nO Douro, cuja voz me acalentava<br \/>\nNos \u00e1ureos sonos da passada inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mas de novo me acorre o pensamento Atr\u00e1s de id\u00e9ias tristes.<br \/>\nE a tal ponto Que me custa traz\u00ea-lo a bom caminho.<br \/>\nAnte o Sol se interp\u00f4s uma outra nuvem E desta vez bem negra. Mas desculpa<br \/>\nSe, quase a meu pesar, eu fui levado<br \/>\nNa torrente de id\u00e9ias t\u00e3o sombrias&#8230;<br \/>\nDeixa o pa\u00eds fant\u00e1stico que habitas<br \/>\nPra fazer excurs\u00f5es impetuosas<br \/>\nArmado de palavras. T\u00e3o dif\u00edcil<br \/>\n\u00c9 repressar-lhe as f\u00farias, como peias<br \/>\nTentar opor \u00e0s convuls\u00f5es tremendas<br \/>\nDe furioso vulc\u00e3o. A minha id\u00e9ia,<br \/>\nA predilecta, a que na mente afago,<br \/>\nQue, quando s\u00f3, vem povoar de imagens<br \/>\nA minha solid\u00e3o, \u00e9 a da fam\u00edlia.<br \/>\nPrefiro-a \u00e0 gl\u00f3ria, a prazer&#8217;s, a honras !<br \/>\nPe\u00e7o a Deus, com fervor, nas minhas preces,<br \/>\nMil vezes, no seu templo, ajoelhado:<br \/>\n\u2014 \u00abSenhor, lhe digo, por piedade, ouvi-me !<br \/>\nPovoai-me esta aridez da minha vida,<br \/>\nComo na inf\u00e2ncia a vi; pelo passado<br \/>\nConformai meu futuro; j\u00e1 que o homem<br \/>\nRetrogradar n\u00e3o pode em seu caminho.\u00bb<br \/>\nA s\u00faplica \u00e9 sincera e Deus piedoso.<br \/>\nEscutada ser\u00e1 ? N\u00e3o sei que esp&#8217;ran\u00e7a,<br \/>\nN\u00e3o sei que frouxa luz, bem frouxa ainda,<br \/>\nParece divisar no horizonte&#8230;<br \/>\nTalvez n\u00e3o creias que, sincero falo<br \/>\nNestas aspira\u00e7\u00f5es do meu futuro?<br \/>\nAh ! Sinceras s\u00e3o elas, podes crer-me.<br \/>\nAssim reais as vira ! Os mil prazer&#8217;s<br \/>\nQue a juventude sequiosa anseia,<br \/>\nDe boamente, em holocausto, os dera<br \/>\nA santa paz da vida de fam\u00edlia.<br \/>\nTalvez; mas seja embora um sonho apenas, O sonhar e um bem, se o sonho \u00e9<br \/>\ngrato.<br \/>\n\u00c9 milagroso b\u00e1lsamo que sara<br \/>\nAs feridas mais cru\u00e9is da realidade.<\/p>\n<p>Os frades j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o. Esses ao menos<br \/>\nSouberam amenizar a agreste vida,<\/p>\n<p>Est\u00e9ril de afei\u00e7\u00f5es, do homem solteiro, Desfrutando<br \/>\nas del\u00edcias da pregui\u00e7a, Nas confort\u00e1veis celas dos conventos,<br \/>\nTemplos s\u00f3 consagrados \u00e0 mandriice. Onde nada teria que notasse<br \/>\nO mais importante dos vassalos<br \/>\nDa rainha Vit\u00f3ria. E mais \u00e9 gente<br \/>\nQue, no que diz respeito \u00e0 boa vida<br \/>\nE em muita coisa mais, a custo cedem<br \/>\nA qualquer outra, o grau de prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>Se entre os teus me n\u00e3o vires, acredita Que por l\u00e1 me esvoa\u00e7a<br \/>\no pensamento Assistindo ao &#8216;spect\u00e1culo bendito<br \/>\nDos prazer&#8217;s de fam\u00edlia. E, quando os, brindes<br \/>\nSe elevarem em gl\u00f3ria deste dia,<br \/>\nSe nao com os do corpo, com os da alma,<br \/>\nMisteriosos sentidos, ouvir podes, Associar-se ao coro das mais vozes,<br \/>\nUma voz a saudar-te; \u00e9 essa a minha ! E disse. Cai o pano. E finda<br \/>\na ep\u00edstola.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Da segunda carta de J\u00falio Dinis a seu<br \/>\nprimo Jos\u00e9 Joaquim Pinto Coelho<\/b><\/p>\n<p>Eis a idade dos vinte anos, T\u00e3o celebrada em poesia, Em que a ardente<br \/>\nfantasia, Cria mil vis\u00f5es de amor !<br \/>\nVoa a alma atr\u00e1s dos sonhos, No seu seio se embriaga, Como a abelha<br \/>\nque divaga Poisando de flor em flor.<\/p>\n<p>Saudemos pois esta hora<br \/>\nSe ela \u00e9 hora de esperan\u00e7a !<br \/>\nO isolamento cansa,<br \/>\nN\u00e3o amar, \u00e9 n\u00e3o viver !<br \/>\nNa floresta as aves cantam,<br \/>\nQuando alveja a madrugada,<br \/>\nSe a aurora d&#8217;alma \u00e9 chegada,<br \/>\nCantemos-lhe o amanhecer<\/p>\n<p>Mas a pr\u00f3pria natureza Quis saudar-te neste dia, E num sorriso te<br \/>\nenvia Sua grata sauda\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEla fenece, declina,<br \/>\nJ\u00e1 se despe de verdores ;<br \/>\nTu na quadra dos amores<br \/>\nColhe as flores da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00abColhe-as, vi\u00e7osas se mostram No teu extenso horizonte. Exulta<br \/>\npois, ergue a fronte,<br \/>\nQue a tua hora enfim chegou i\u00bb<\/p>\n<p><b>1860<\/b><\/p>\n<p>Cartas a meu primo Jos\u00e9 Joaquim<br \/>\nPinto Coelho.<\/p>\n<p>\u00abVenho uma vez ainda, movido de ansiedade<br \/>\nDos teus, \u00e0s alegrias, meus j\u00fabilos unir;<br \/>\nQueimar d\u00e9bil incenso nas aras da amizade,<br \/>\nLembrar-me do passado, falar-te do porvir.<\/p>\n<p>\u00abLembrar-me do passado, desviando a escura tela Que as cenas dessas<br \/>\neras aos olhos nos cerrou&#8230; Falar-te do futuro, mostrando-te essa estrela<br \/>\nQue para a juventude sempre nos c\u00e9us radiou&#8230;<\/p>\n<p>\u00abParar, onde a plan\u00edcie se espraia, vasta, imensa? E a perspectiva<br \/>\nse orna de flores e de luz?<br \/>\nParar, pendida a fronte, sem \u00e2nimo, sem cren\u00e7a, Vergado sob o<br \/>\npeso de imagin\u00e1ria cruz?<\/p>\n<p>\u00abIsto nos nossos anos, isto na nossa idade, T\u00e3o cheia de futuro,<br \/>\nde alento e de f\u00e9 !<br \/>\nOh, n\u00e3o ! Pra n\u00f3s a esp&#8217;ran\u00e7a; deixemos a saudade !<br \/>\nDeixemos a flor murcha que outra em bot\u00e3o j\u00e1 \u00f3 \u00abSaudemos<br \/>\no futuro, como a risonha aurora<br \/>\nQue tinge o alto dos montes de purpurina cor !<br \/>\nSaudemos o futuro \u00e0 voz consoladora,<br \/>\nQue nos fale, em segredo, duma \u00e9poca melhor !<\/p>\n<p>\u00abDa lira pelas cordas correndo as m\u00e3os nevadas<br \/>\nTira sentidas notas duma imortal can\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nNem das harpas e\u00f3lias, nos olmos pendurados,<br \/>\nAs extrai t\u00e3o sonoras, da noite, a vira\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o s\u00e3o da Terra as notas da m\u00fasica maviosa Que<br \/>\nescuto, n\u00e3o; s\u00e3o ecos de m\u00fasica no C\u00e9u&#8230; Co&#8217;a<br \/>\ncitara dos anjos, em nuvens cor-de rosa, Esta vis\u00e3o celeste junto de<br \/>\nn\u00f3s desceu.<\/p>\n<p>\u00abCantando, pouco a pouco, seu rosto se ilumina&#8230; Nos l\u00e1bios<br \/>\ntudo \u00e9 risos; \u00e9 tudo vida o olhar&#8230; Como, na madrugada, se<br \/>\ndespe de nebrina<br \/>\nA risonha paisagem que o sol vem animar.<\/p>\n<p>\u00abFalou na paz dos justos, falou na recompensa<br \/>\nQue espera os virtuosos na celestial mans\u00e3o&#8230;<br \/>\nPara os C\u00e9us apontando, disse inspirada:\u2014Cren\u00e7a ! \u2014<br \/>\nAbandonando a Terra, disse saudosa: \u2014 Irm\u00e3o ! \u2014<\/p>\n<p><b>1862<\/b><\/p>\n<p>\u00abSim, \u00e0s vezes, n\u00e3o sei fugir ao desalento<br \/>\nQue baixa sobre mim, qual nuvem tempestuosa;<br \/>\nNem posso desviar o curso ao pensamento,<br \/>\nQue desce sem parar, em senda tenebrosa.<\/p>\n<p>\u00abEnt\u00e3o, se olho o porvir, vejo-o sombrio e escuro, Como quando<br \/>\nno c\u00e9u se forma a tempestade,<br \/>\nE em torno do baixei, que voga mal seguro, Uma neblina densa o espa\u00e7o<br \/>\ntodo invade.<\/p>\n<p>\u00abOntem inda sentia esta tristeza vaga<br \/>\nQue pesa sobre n\u00f3s, mais cio que um f\u00e9rreo jugo;<br \/>\nSinistra cerra\u00e7\u00e3o que nos sufoca e esmaga<br \/>\nComo o la\u00e7o fatal de invis\u00edvel verdugo !<\/p>\n<p>\u00abVem, surge, \u00f3 Sol luminoso, Doura os cumes da alta serra, Inunda<br \/>\nde luz a Terra,<br \/>\nVem reflectir-te no mar.., Acorda as aves no bosque, Chama os insectos \u00e0s<br \/>\nbalsas, Onde em doudejantes valsas V\u00e3o as flores namorar&#8230;<\/p>\n<p><b> 1863<\/b><\/p>\n<p>\u00abPenetra nas espessuras,<br \/>\nNesses retiros aonde<br \/>\nA flor silvestre se esconde<br \/>\nPara sozinha florir.<br \/>\nD\u00e1-lhe o calor dos teus raios,<br \/>\nDesperta-a do fatal sono<br \/>\nEm que as nebrinas do Outono<br \/>\nJ\u00e1 a faziam dormir&#8230;\u00bb<\/p>\n<p>\u00abDai-me do campo as mais festivas flores,<br \/>\nN\u00e3o as quero saudosas;<br \/>\nQuero-as alegres, de risonhas cores,<br \/>\nComo os cravos e as rosas.<\/p>\n<p>\u00abDeixemos a violeta, essa morena<br \/>\nHabitante das relvas.<br \/>\nA delicada, a p\u00e1lida a\u00e7ucena,<br \/>\nDeixemo-la nas selvas.<\/p>\n<p>\u00abUma \u00e9 negra, traz vestes de tristeza, Vem de luto trajada;<br \/>\nOutra, lembra nas cores da pureza, Virgem inanimada.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o as quero, que podem essas flores<br \/>\nRenovar na mem\u00f3ria,<br \/>\nAs mal curadas, as pungentes dores,<br \/>\nDuma recente hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00abO caminho da exist\u00eancia<br \/>\n\u00c9 ent\u00e3o grato e florido.<br \/>\nAi ! Bem f\u00e1cil \u00e9 o olvido<br \/>\nDe tudo o que a alma sofreu !<br \/>\nComo \u00e0 roseira da v\u00e1rzea<br \/>\nQue todo o ano floresce,<br \/>\nA cada flor que fenece<br \/>\nUma outra flor sucedeu.<\/p>\n<p>\u00abUma outra flor, e mais bela<br \/>\nE cada vez mais vi\u00e7osa.<br \/>\nUma outra flor, outra rosa,<br \/>\nOu antes, outra ilus\u00e3o.<br \/>\nNunca, nunca o desalento<br \/>\nExtingue o fogo sagrado<br \/>\nQue arde no altar consagrado<br \/>\nQue se chama o cora\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abA saudade, a irm\u00e3 bem-vinda, \u00c0 noite, \u00e0s horas<br \/>\nquietas,<br \/>\nEm que amantes e poetas Livre curso \u00e0 mente d\u00e3o ; A virgem p\u00e1lida<br \/>\ne triste, De branda melancolia,<br \/>\nQue as penas nos alivia, Que nos mitiga a paix\u00e3o!<\/p>\n<p>\u00abTens ao teu lado a saudade Falando-te em voz dolente. Duma mem\u00f3ria<br \/>\nrecente,<br \/>\nDuma luz que se apagou&#8230; Luz que tomaste por guia Para termo da viagem;<br \/>\nMas que o sopro duma aragem, Brandas, apenas, apagou.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abVeste-se a planta de flores Quando a Primavera assoma; E a espessura<br \/>\nde verdores<br \/>\n\u2022 Perfuma com seu aroma.<\/p>\n<p>\u00abMas nem sempre a mesma vida<br \/>\nTransluz nas flores abertas;<br \/>\nUma seiva empobrecida<br \/>\nS\u00f3 lhes d\u00e1 cores incertas.<\/p>\n<p>\u00abTodos os anos floresce, Ao despertar este dia,<br \/>\nA planta que, ignota, cresce, Da minha pobre poesia.<\/p>\n<p>\u00abPor\u00e9m, desta vez, ro\u00e7ada Do mal, pela m\u00e3o funesta,<br \/>\nUma flor s\u00f3, desmaiada, Abriu para a tua festa.<\/p>\n<p>\u00abMas seja o tributo pago, Embora com pobre oferta; Essa mesma a\u00ed<br \/>\na trago, Desbotada e mal aberta.\u00bb 1<\/p>\n<p><b>1866.<\/b><\/p>\n<p>1 \u00daltima carta em verso que J\u00falio Dinis dirigiu a Jos\u00e9<br \/>\nJoaquim Pinto Coelho. Era desta maneira que festejava os anivers\u00e1rios<br \/>\nde seu primo,<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Dinis &#8230;quelle singuli\u00e9re et triste impression Produit un manuscritl Tout \u00e1 l&#8217;heure, \u00e1 ma table Tout ce que j&#8217;\u00e9crivais me semblait admirable. Maintenant, je ne sais \u2014 je n&#8217;ose y regarder . 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