{"id":108063,"date":"2017-02-09T13:09:07","date_gmt":"2017-02-09T15:09:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108063"},"modified":"2017-02-09T13:09:07","modified_gmt":"2017-02-09T15:09:07","slug":"ineditos-e-esparsos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/ineditos-e-esparsos","title":{"rendered":"In\u00e9ditos e Esparsos"},"content":{"rendered":"<h2>J\u00falio Dinis<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Carta do Visconde de Castilho a J&uacute;lio Dinis acerca<br \/>\n    do seu romance Uma Fam&iacute;lia Inglesa, transcrita, por am&aacute;vel concess&atilde;o<br \/>\n    do Sr. Visconde de Castilho Quito), das Novas Telas Liter&aacute;rias (vol.<br \/>\n    IIP (1).)<\/b><\/p>\n<p>Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho.<\/p>\n<p> Recebi, mas s&oacute; muitos dias depois, o exemplar, com que V. Ex.&quot;<br \/>\n    me obsequiou, do seu romance Uma Fam&iacute;lia Inglesa.<\/p>\n<p> Dizer a V. Ex.&quot; que nos lan&ccedil;&aacute;mos a ele com verdadeira<br \/>\n    sofreguid&atilde;o, fora uma superfluidade; acrescentar que o lev&aacute;mos<br \/>\n    de um f&ocirc;lego, sem a m&iacute;nima distrac&ccedil;&atilde;o, at&eacute;<br \/>\n    &agrave; &uacute;ltima p&aacute;gina, e que depois dela nos estava ainda inteiro<br \/>\n    o apetite para o dobro, ou o triplo, outra superfluidade n&atilde;o menos<br \/>\n    escusada.<\/p>\n<p> Sim senhor: a sua inglesinha n&atilde;o &eacute; menos para amores que a<br \/>\n    Margarida. Esta sua segunda filha h&aacute;-de-lhe dar tanta gl&oacute;ria<br \/>\n    como a primog&eacute;nita; e se lha n&atilde;o der maior, &eacute; porque<br \/>\n    n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p> Coisa muito para se citar com louvor e admira&ccedil;&atilde;o neste seu<br \/>\n    novo livro, &eacute; (quanto a mim) que, sendo t&atilde;o s&oacute;brio o<br \/>\n    enredo, e t&atilde;o pequeno o teatro da ac&ccedil;&atilde;o, o interesse<br \/>\n    dela &eacute; todavia dos mais poderosos.<\/p>\n<p> 0 talento real foi sempre assim, e assim &eacute; tamb&eacute;m em todos<br \/>\n    os seus poemas a Natureza: de elementos m&iacute;nimos comp&otilde;e, sem<br \/>\n    esfor&ccedil;os nem viol&ecirc;ncia, os m&aacute;ximos efeitos.<\/p>\n<p> Deus o conserve (e j&aacute; se v&ecirc; que o h&aacute;-de conservar at&eacute;<br \/>\n    ao fim) no &oacute;ptimo sistema que adoptou.<\/p>\n<p> Outros que o elogiem (e com esses tamb&eacute;m eu fa&ccedil;o coro) como<br \/>\n    escritor de romances j&aacute; distint&iacute;ssimo, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    para entre n&oacute;s. Eu, por cima desse m&eacute;rito, reconhe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    ainda o de fil&oacute;sofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado<br \/>\n    entre os de primeira plana. Te&oacute;frasto e La Bruy&egrave;re n&atilde;o<br \/>\n    debuxaram com mais exac&ccedil;&atilde;o os caracteres. Balzac mesmo n&atilde;o<br \/>\n    l&ecirc; mais por dentro nos indiv&iacute;duos. V. Ex.a, al&eacute;m do esmero<br \/>\n    com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem.<\/p>\n<h2>NOTAS<\/h2>\n<p align=\"right\"> Colhidas de um livro manuscrito.<\/p>\n<p>PRINCIPIEI a escrever as &laquo;Pupilas&raquo; em Ovar (1863) durante os<br \/>\n    meses de Julho e Agosto. Terminei-as no Porto em Setembro ou Outubro. Ficaram-me<br \/>\n    na gaveta at&eacute; ao ano de 1866 em que solvi public&aacute;-las. Alterei<br \/>\n    bastante o romance e ampliei-o introduzindo- lhe personagens e cap&iacute;tulos<br \/>\n    novos. Publicou-se em 1866 de Mar&ccedil;o a Julho. Publicou-se em volume<br \/>\n    em Outubro de 1867. O primeiro exemplar brochado em 20 de Outubro.<\/p>\n<p> Os primeiros factos da minha exist&ecirc;ncia liter&aacute;ria remontam<br \/>\n    aos 11 anos. N&atilde;o os recordo porque pretenda persuadir-te que efectivamente<br \/>\n    de algum valor eram j&aacute; essas fa&ccedil;anhas de crian&ccedil;a, mas<br \/>\n    t&atilde;o somente para me darem ensejo de fazer algumas reflex&otilde;es<br \/>\n    sobre os motivos principais que podem actuar sobre a inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nascente e criar o gosto pelas letras; assim como, mais tarde, apreciar as<br \/>\n    causas que podem educ&aacute;-lo em melhor caminho.<\/p>\n<p> Permite-me que te recorde alguns factos da minha vida.<\/p>\n<p> Sabes que aos 5 anos fiquei sem m&atilde;e, que a nossa vida de fam&iacute;lia&#8230;<\/p>\n<p> &#8230;(N&atilde;o continua).<\/p>\n<p> P. &#8212; Um homem que doma feras como est&aacute; mais sujeito a morrer<br \/>\n    ? R. &#8212; De uma dor. (Domador).<\/p>\n<p> P. &#8212; Que basta a qualquer para enriquecer ? R. &#8212; Ser Henrique.<br \/>\n    (Enrique-cer).<\/p>\n<p> P, &#8212; Em que dia do ano tocam melhor os sinos ? R. &#8212; No dia de<br \/>\n    defuntos porque tocam todos a finados. (Afinados).<\/p>\n<p> P. &#8212; Para que serve a cal na artilharia ? R. &#8212; Para fazer pe&ccedil;as<br \/>\n    de cal e bronze. (Calibre onze).<\/p>\n<p> P. &#8212; Qual &eacute; o exemplo de um homem inevitavelmente incur&aacute;vel<br \/>\n    ? R. &#8212; Um abade sem cura. (Coadjutor).<\/p>\n<p>Principiei a escrever &laquo;Os Fidalgos da Casa Mourisca&raquo;, no Funchal,<br \/>\n    em Mar&ccedil;o de 1869. Levava-o em meio do capitulo 8.&deg; quando voltei<br \/>\n    ao Porto em Maio do mesmo ano. Trabalhei no Porto e escrevi-o at&eacute; princ&iacute;pios<br \/>\n    do cap&iacute;tulo 17, desde Junho at&eacute; Outubro, &eacute;poca em que<br \/>\n    voltei para a Madeira. Conclu&iacute;-o no Funchal em 11 de Abril de 1870.<\/p>\n<p> Levei-o manuscrito para o Porto. Principiei a copi&aacute;-lo a&iacute;<br \/>\n    e levei a revis&atilde;o e c&oacute;pia at&eacute; ao cap&iacute;tulo 22.<br \/>\n    Conclu&iacute; este segundo trabalho no Funchal a 27 de Novembro de 1870.<\/p>\n<h2>AUS&Ecirc;NCIAS<\/h2>\n<h2>ACTO I<\/h2>\n<p> 1863 &#8212; Ovar.<\/p>\n<p> 1864 &#8212; Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcoba&ccedil;a, Batalha, Nazar&eacute;,<br \/>\n    Aveiro, Ovar.<\/p>\n<p> 1865 &#8212; Felgueiras, 1866 &#8212; 1867 &#8212; Aveiro, Ovar, Vila do<br \/>\n    Conde, P&oacute;voa.<\/p>\n<p> 1868 &#8212; Matosinhos, Le&ccedil;a, Lisboa.<\/p>\n<p> 1869 &#8212; Lisboa, Funchal, Coimbra, F&acirc;nzeres.<\/p>\n<p> 1869-1870 &#8212;Lisboa, Funchal.<\/p>\n<p>Quando uma na&ccedil;&atilde;o forte e vigorosa, no gozo da sua autonomia,<br \/>\n    respirando a aura vivificadora da liberdade, &eacute; invadida pela agress&atilde;o<br \/>\n    estrangeira; quando o despotismo e a servid&atilde;o se aproximam, a campo<br \/>\n    descoberto, dos seus muros, estes transformam-se em baluartes, a reac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; pronta e eficaz, cada indiv&iacute;duo &eacute; um soldado, cada<br \/>\n    soldado cinge-se da coroa dos her&oacute;is e o sangue, patri&oacute;tica<br \/>\n    e generosamente vertido no altar da p&aacute;tria, reverdece salutarmente<br \/>\n    as palmas da vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Mas se o mal se aproximou obscura e lentamente, se o veneno se inoculou<br \/>\n    gota a gota nos esp&iacute;ritos, pervertendo-os, infeccionando-os; se rastejou<br \/>\n    como a serpente; se a falsa doutrina foi insidiosamente segredada no confession&aacute;rio,<br \/>\n    pregada do p&uacute;lpito, administrada em sacr&iacute;lega comunh&atilde;o<br \/>\n    com a h&oacute;stia consagrada; se as gera&ccedil;&otilde;es novas a bebem<br \/>\n    na educa&ccedil;&atilde;o, dirigida por a hipocrisia, a vida da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    definha, os esp&iacute;ritos aviltam-se, os sentimentos nobres perdem-se,<br \/>\n    a alma adormece voluptuosamente numa inac&ccedil;&atilde;o vergonhosa ou,<br \/>\n    se um dia um excesso de opress&atilde;o a faz acordar, se pretende reagir,<br \/>\n    o esfor&ccedil;o moment&acirc;neo n&atilde;o a salva, antes acaba de a deprimir.<\/p>\n<p> A luta &eacute; ainda gloriosa, mas improf&iacute;cua e talvez prejudicial.<br \/>\n    Disto, a Europa nos ofereceu h&aacute; pouco um triste exemplo.<\/p>\n<p> No mundo fisiol&oacute;gico h&aacute; tamb&eacute;m umas e outras destas<br \/>\n    como&ccedil;&otilde;es, bem compar&aacute;veis &agrave;s como&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas a que nos referimos. &Agrave;s vezes o mal vem do exterior,<br \/>\n    acomete subitamente, violento sim, mas declarado, franco, sum&aacute;rio.<br \/>\n    Ent&atilde;o a economia, na presen&ccedil;a do perigo, rica de todos os seus<br \/>\n    recursos, forte de toda a sua energia, p&otilde;e em jogo toda a sua actividade<br \/>\n    de que est&aacute; de posse. E o combate trava-se, pronto, violento, muitas<br \/>\n    vezes eficaz. A febre &eacute; o tipo destas revolu&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas.<\/p>\n<p> Mas se as causas obraram lentamente, se desde o primeiro e misterioso instante<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia, esse momento que encerra s&eacute;culos, o da fecunda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se assenhoreou da organiza&ccedil;&atilde;o, se perverteu o leite materno,<br \/>\n    se infeccionou as fontes de toda a subst&acirc;ncia, viciando o ar, envenenando<br \/>\n    as &aacute;guas&#8230; ent&atilde;o o organismo cede-lhe pouco a pouco, segue,<br \/>\n    sem reagir, um plano de vida m&oacute;rbida, ou, quando reage, est&aacute;<br \/>\n    longe de manifestar aquelas eficazes e salutares sinergias que decidem os<br \/>\n    fen&oacute;menos m&oacute;rbidos como se estivessem despeda&ccedil;ados os<br \/>\n    la&ccedil;os da unidade vital. &Eacute; uma reac&ccedil;&atilde;o anormal,<br \/>\n    irregular, aquela que muitas vezes afronta (?) a subjei&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    corpo. (?) Os organismos, em certas mol&eacute;stias cr&oacute;nicas, s&atilde;o<br \/>\n    um exemplo destas outras como&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Baixou do minist&eacute;rio do reino aos estabelecimentos de instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    superior uma portaria mandando-os consultar sobre um plano geral de reforma<br \/>\n    e nela o ministro deixou transparecer o seu pensamento em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos destinos de cada um desses estabelecimentos.<\/p>\n<p> Prepara-se pois uma reforma radical na instru&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica<br \/>\n    do Pa&iacute;s; desde a instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria, a t&atilde;o<br \/>\n    descurada sempre dos nossos governos, at&eacute; &agrave; instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    superior, t&atilde;o longe ainda entre n&oacute;s do que devia ser. A portaria<br \/>\n    &eacute; a aurora de um clar&atilde;o que promete iluminar- -nos para a legislatura<br \/>\n    seguinte; faremos votos para que n&atilde;o seja apenas uma aurora boreal,<br \/>\n    como a que aparece aos navegadores dos mares do norte para, momentos depois,<br \/>\n    se resolver em trevas.<\/p>\n<p> O convite que o minist&eacute;rio do reino fez &agrave;s escolas e &agrave;s<br \/>\n    academias, vimos n&oacute;s faz&ecirc;-lo aqui a toda a Imprensa, a todos<br \/>\n    os publicistas, a todos os pensadores do reino e principalmente aos das prov&iacute;ncias<br \/>\n    do norte, que mais que nenhuns t&ecirc;m raz&otilde;es para se ocuparem desta<br \/>\n    tentativa de reforma.<\/p>\n<p> O nosso pa&iacute;s &eacute; pequeno em &aacute;rea; mas ainda assim parece<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o &eacute; um s&oacute; o dialecto que se fala em todas<br \/>\n    as regi&otilde;es dele. Palavras h&aacute; que, segundo as latitudes em que<br \/>\n    se pronunciam, assim tomam diversas acep&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A palavra reforma est&aacute; neste caso.<\/p>\n<p> Quando pelas secretarias do Terreiro do Pa&ccedil;o, pelos gabinetes dos<br \/>\n    ministros, pelas salas e corredores das duas c&acirc;maras e pelas pra&ccedil;as<br \/>\n    e teatros principia a vogar esta palavra &#8212; reforma &#8212; os ouvidos<br \/>\n    da capita! escutam-na com prazer; mas, se os ventos a transmitem &agrave;s<br \/>\n    prov&iacute;ncias, se os ecos da Imprensa a repercutem, &eacute; raro que<br \/>\n    n&atilde;o estreme&ccedil;am de apreens&otilde;es os esp&iacute;ritos menos<br \/>\n    timoratos.<\/p>\n<p> De onde prov&eacute;m esta diferen&ccedil;a? &Eacute; que ha muito as reformas<br \/>\n    manifestam-se em Lisboa por amplia &ccedil;&atilde;o nos quadros dos funcion&aacute;rios,<br \/>\n    aumento da despesa p&uacute;blica, eleva&ccedil;&atilde;o das cifras de vencimentos,<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o de sinecuras, com que a proverbial indol&ecirc;ncia<br \/>\n    dos nossos compatriotas do sul se pressente lisonjeada.<\/p>\n<p> Para n&oacute;s, por&eacute;m, os que vivemos longe do sol, aquele belo<br \/>\n    e fomentador sol da capital, diversa e quase antin&oacute;mica acep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tem a palavra, quando a procuramos no dicion&aacute;rio, que por experi&ecirc;ncia<br \/>\n    sabemos ser o mais fiel.<\/p>\n<p> Em tudo &eacute; assim. Como a antiga Roma, que fora da sua cidade n&atilde;o<br \/>\n    via sen&atilde;o pa&iacute;ses b&aacute;rbaros, Lisboa para l&aacute; dos<br \/>\n    seus muros, esquece que existe o Pa&iacute;s e procura s&oacute; por si absorver<br \/>\n    tudo.<\/p>\n<p>We view the world with our own eyes, each of us; and we make from wifhin<br \/>\n    us the world we see. A weary heart gets no gladness out of sunshine; a selfish<br \/>\n    man is sceptical about friendship, as a man with no ear doesn&#8217;t care for music.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Thackeray &#8212; The english humour&iacute;sts of the eighteen<br \/>\n    century (p&aacute;g. 39 Swift).<\/b><\/p>\n<p>Les &eacute;l&eacute;ments de la conjecture au sujet de telle ou telle action<br \/>\n    sont, d&#8217;une part, ce que l&#8217;on croit savoir du caractere de celui qui l&#8217;a fait;<br \/>\n    de 1&#8217;autre, le caractere de celui qui la juge. Les bons supposent volontiers<br \/>\n    de bons motifs; les m&eacute;chants ou les sots en supposent de m&eacute;chants<br \/>\n    ou de sots. De m&ecirc;me qu&#8217;on ne trouve dans un livre qu&#8217;autant d&#8217;esprit<br \/>\n    que l&#8217;on en a, on ne peut aussi sentir que dans la mesure de son propre m&eacute;rite<br \/>\n    ou de sa propre d&eacute;licatesse, le m&eacute;rite et la d&eacute;licatesse<br \/>\n    d&#8217;autrui. Attendez-vous donc &agrave; ce que les gents sans esprit et sans<br \/>\n    cceur, c&#8217;est-&agrave;-dire un tr&ecirc;s grand nombre de gens, supposent &agrave;<br \/>\n    vos actions les motifs mesqums qui r&eacute;glent les leurs.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>&Eacute;mile Deschanel &#8212; &Eacute;tude sur le Rochefoucauld.<\/b><\/p>\n<p>Causou-me vivo prazer a leitura dos dois trechos que transcrevi, por me ter<br \/>\n    encontrado no pensamento com os seus ilustres autores, quando escrevi na Morgadinha:<br \/>\n    &laquo;&Eacute; uma triste verdade esta da pouca ou nenhuma f&eacute; que<br \/>\n    se tem no desinteresse dos outros!<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o h&aacute; explica&ccedil;&atilde;o mais dif&iacute;cil<br \/>\n    de ser recebida do que a que se fundamenta em um sentimento nobre de abnega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou de generosidade, &laquo;&Eacute; preciso que duvidemos muito de n&oacute;s<br \/>\n    mesmos para assim desconfiarmos do pr&oacute;ximo. Porque afinal o que &eacute;<br \/>\n    verdade, &eacute; que a mais exacta e infal&iacute;vel ci&ecirc;ncia do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humano s&oacute; se adquire pelo estudo do pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    esse &eacute; o &uacute;nico que nos est&aacute; bem patente. &Eacute; por<br \/>\n    isso que as melhores almas s&atilde;o de ordin&aacute;rio as mais crentes.<\/p>\n<p> &laquo;Um homem a quem a desconfian&ccedil;a tenazmente escuda contra todas<br \/>\n    as apar&ecirc;ncias de virtude, ainda as mais insinuantes, tem j&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    inquinado o cora&ccedil;&atilde;o como sup&otilde;e o dos outros.&raquo;<\/p>\n<p>Li ainda no estudo de Deschanel:<\/p>\n<p> Chamfort conte quelque part ceci: &laquo;Mr. Th. me disait un jour qu&#8217;en<br \/>\n    general dans la soci&eacute;t&eacute;, lorsqu&#8217;on avait fait quelque action<br \/>\n    honn&ecirc;te et courageuse par un motif digne d&#8217;elle, c&#8217;est-&agrave;-dire<br \/>\n    tr&ecirc;s noble, il fallait que celui qui avait fait cette action lui pr&eacute;tat,<br \/>\n    pour adoucir l&#8217;envie, quelque motif moins honn&ecirc;te et plus vulga&iacute;re.<\/p>\n<p>Este pensamento devido a um autor desconhecido, igualmente me causou satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    por haver tamb&eacute;m posto na boca de Jenny na Fam&iacute;lia Inglesa:<br \/>\n    &laquo;O mundo &eacute; assim. D&aacute;-se-lhe a verdadeira explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos factos, raras vezes a acredita. Forja-se outra, &agrave;s vezes menos<br \/>\n    natural e plaus&iacute;vel, quase sempre a prefere. Principalmente se a verdadeira<br \/>\n    &eacute; generosa e nobre e a falsa interesseira e mesquinha.&raquo; E na<br \/>\n    de Mr. Richard: &laquo;E julgas tu que a gratid&atilde;o &eacute; facto mais<br \/>\n    natural para o mundo do que a iniciativa no benef&iacute;cio? Se subtra&iacute;res<br \/>\n    da explica&ccedil;&atilde;o o elemento interesse, o facto ser&aacute; incompreens&iacute;vel.&raquo;<\/p>\n<p>Quand un discours naturel peint une passion ou un effet, on trouve dans soi<br \/>\n    m&ecirc;me la v&eacute;rit&eacute; de ce qu&#8217;on entend, qu&#8217;y &eacute;tait sans<br \/>\n    qu&#8217;on le sut, et on se sent porte &agrave; aimer celui qui nous le fait sentir.<br \/>\n    Car il ne nous fait pas montre de son bien, mais du notre et ainsi ce bienfait<br \/>\n    nous le rend aimable; outre que cette communaut&eacute; d&#8217;int&eacute;lligence<br \/>\n    que nous avons avec lui, incline n&eacute;cessairement le coeur &agrave; 1&#8217;aimer.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Pascal &#8212; Pens&eacute;es VII du 1 article &#8212; Edit.<br \/>\n    Bibl. Nation., p&aacute;g. 33.<\/b><\/p>\n<p>Quand on voit le style naturel on est tout &eacute;tonn&eacute; et ravi;<br \/>\n    car on s&#8217;attendait de voir un auteur et on trouve un homme; au lieu que ceux<br \/>\n    qui ont le go&uacute;t bon et qui en voyant un livre croient voir un homme,<br \/>\n    sont surpris de trouver un auteur plus poetico quam humane locuttes est.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Idem VIII, p&aacute;g. 33.<\/b><\/p>\n<p>II y en a qui masquent toute la nature. II n&#8217;y a point de roi parmi eux,<br \/>\n    mais un auguste monarque; point de Paris, mais une capitale de royaume. II<br \/>\n    y a des endroits ou il faut appeler Paris, Paris, et d&#8217;autres ou il faut l&#8217;appeler<br \/>\n    capitale du royaume.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Idem IX, p&aacute;g. 34.<\/b><\/p>\n<p>Transcrevi estes pensamentos de Pascal por me parecerem mais segura guia<br \/>\n    liter&aacute;ria do que os conselhos que me deram alguns cr&iacute;ticos em<br \/>\n    p&uacute;blico e em particular, de ataviar mais o meu estilo nos romances<br \/>\n    que escrevo porque o achavam demasiado desornado. Em contraposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tinha a maioria dos leitores a convencer-me de que o &ecirc;xito de alguns<br \/>\n    dos meus livros era principalmente devido a essa pobreza de ornatos e arabescos,<br \/>\n    que me apontavam os censores. Muita vez ouvi dizerem-me que liam com prazer<br \/>\n    os romances que eu escrevia porque os entendiam do princ&iacute;pio at&eacute;<br \/>\n    ao fim. Pareceu-me entrever nos pensamentos de Pascal mais a confirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pensar do vulgo do que o dos cr&iacute;ticos.<\/p>\n<p><b>Funchal, 27 de Outubro.<\/b><\/p>\n<p>We are so fond of him because we laugh at him so.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Thackeray &#8212; Engl. humourist 100.<\/b><\/p>\n<p>Acho um pensamento profundamente verdadeiro nesta frase Thackeray.<\/p>\n<p> * Acabo de ler pela primeira vez na Histoire de Sibylle de Oct&aacute;vio<br \/>\n    Feuillet o seguinte: &laquo;En &eacute;t&eacute;, quand 1&#8217;aube s&#8217;est lev&eacute;e<br \/>\n    radieuse dans un azur &iacute;mmacul&eacute;, les prerni&egrave;res heures<br \/>\n    du jour ont une puret&eacute; et un calme que l&#8217;on croirait &eacute;ternels.<br \/>\n    Cependant des brises folies se levent tout-&agrave;-coup, inclinent les herbes<br \/>\n    et agitent le feuiilage, des roseaux blanch&acirc;tres s&#8217;entrecroisent dans<br \/>\n    le ciei d&#8217;un horizon &agrave; 1&#8217;autre, comme des voiles tendus soudain par<br \/>\n    de mains invisibles. On s&#8217;inquiete et l&#8217;on se dit qui pourrait bien venir<br \/>\n    de l&#8217;orage dans la journ&eacute;e.&raquo; Ora em 1866 havia eu escrito na<br \/>\n    Fam&iacute;lia Inglesa, a p&aacute;gs. 268: &laquo;No Estio dos nossos climas<br \/>\n    amanhece &agrave;s vezes o dia puro e formos&iacute;ssimo; o c&eacute;u &eacute;<br \/>\n    azul, resplendentes os raios do Sol; t&eacute;pida e perfumada a vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que agita as folhas dos arvoredos; pouco a pouco parece que o Sol desmaia,<br \/>\n    que desbota o azul do c&eacute;u, que nos abafa a atmosfera inflamada; acumulam-se<br \/>\n    no horizonte e espalham-se depois por todo o firmamento nuvens de um azulado<br \/>\n    de chumbo; forma-se a trovoada.&raquo; O s&iacute;mile &egrave; aplicado por<br \/>\n    Oct&aacute;vio Feuillet a indicar-nos a revolu&ccedil;&atilde;o que se operou<br \/>\n    na inf&acirc;ncia de Sibylle, depois dos seis anos.<\/p>\n<p> No meu romance escrevi eu: &laquo;Esta manh&atilde; de Cec&iacute;lia foi<br \/>\n    bem semelhante a um destes dias de Ver&atilde;o.&raquo; Com estas e outras<br \/>\n    descobertas aprende-se, &agrave; custa pr&oacute;pria, a n&atilde;o ser precipitado<br \/>\n    em atribuir prop&oacute;sitos de plagi&aacute;rio a quem inocentemente muitas<br \/>\n    vezes o foi. Ningu&eacute;m se deve persuadir de que, depois de tantos s&eacute;culos<br \/>\n    de literatura, ainda qualquer possa ter pensamentos ou conceber imagens absolutamente<br \/>\n    novos. Esta, de mais a mais, que &eacute; j&aacute; chamada por Oct&aacute;vio<br \/>\n    Feuillet une vieille image.<\/p>\n<p> Funchal, Dezembro de 1869.<\/p>\n<p>S&#8217;il y avait un lieu dans l&#8217;univers ou un homme put n&#8217;avoir sous les yeux<br \/>\n    que 1&#8217;aspect des grandes sc&egrave;nes de la nature et 1&#8217;espectacle d&#8217;honn&ecirc;tes<br \/>\n    gens, il serait difficile que son &acirc;me, si boulevers&eacute;e qu&#8217;on la<br \/>\n    suppose, n&#8217;y recouvrat pas un peu de paix et de confiance.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Oct. Feuillet &#8212; Hist. de Sibylle, p&aacute;g. 339.<\/b><\/p>\n<p>O romancista convencido desta verdade, deve empregar o poder criador da sua<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o em realizar esse lugar bem-aventurado, onde se possa<br \/>\n    passar mentalmente algum tempo da vida e colher parte dos ben&eacute;ficos<br \/>\n    frutos que t&atilde;o ridente realidade prometeria. O autor das linhas citadas<br \/>\n    assim o faz e eu conhe&ccedil;o, por experi&ecirc;ncia, o efeito salutar dos<br \/>\n    seus livros.<\/p>\n<p> Pourvu que tout vienne se reunir dans un m&ecirc;me noeud facile &agrave;<br \/>\n    saisir, la simplicit&eacute; d&#8217;une action d&eacute;pend beaucoup moins du<br \/>\n    nombre des int&eacute;r&ecirc;ts et des personnages qu&#8217;y concourent que du<br \/>\n    jeu naturel et clair des ressorts qui la font mouvoir. Mais, de plus, il ne<br \/>\n    faut jamais oublier que 1&#8217;unit&eacute; par Shakespeare consiste dans une id&eacute;e<br \/>\n    dominante qui, se reproduisant sous diverses formes, ram&egrave;ne, continue,<br \/>\n    redouble sans cesse la m&ecirc;me impression.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Guizot &#8212; Notice sur le Roi Lear<\/b><\/p>\n<p>Parece-me verdadeira esta observa&ccedil;&atilde;o do erudito tradutor de<br \/>\n    Shakespeare. E se ela se pode admitir em rela&ccedil;&atilde;o ao drama, onde<br \/>\n    a ac&ccedil;&atilde;o tem necessidade de se restringir, com muita mais raz&atilde;o<br \/>\n    vigora no romance cujo plano &eacute; naturalmente mais vasto e permite mais<br \/>\n    explana&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; por isso que n&atilde;o posso concordar com os que taxam de falta<br \/>\n    de unidade o meu romance A Morgadinha. Todas as personagens e epis&oacute;dios<br \/>\n    nele introduzidos est&atilde;o ligados por interesses comuns e subordinados<br \/>\n    a uma ideia principal. Essa &eacute; a unidade que eu procuro sempre realizar.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Funchal&#8212;Janeiro de 1870<\/b><\/p>\n<p>No difuso e confuso livro de critica de Luciano Cordeiro, l&ecirc;-se a p&aacute;g.<br \/>\n    240: &laquo;O chamado romance de costumes, geralmente variante buc&oacute;lica<br \/>\n    daquela (a fei&ccedil;&atilde;o social), desfastio da literatura burguesa,<br \/>\n    sem alcance cr&iacute;tico&raquo;&#8230; &Eacute; uma das muitas leviandades e<br \/>\n    fraquezas de crit&eacute;rio do que a si mesmo se apresenta como o reformador<br \/>\n    da cr&iacute;tica.<\/p>\n<p> Os romances de costumes, bem compreendidos, pintando a maneira de viver<br \/>\n    e o pensar comum dos povos, sobre serem de irresist&iacute;vel interesse para<br \/>\n    a actualidade e os que mais prontamente adquirem os t&atilde;o disputados<br \/>\n    foros de popularidade, s&atilde;o mina preciosa para o estudo da &eacute;poca<br \/>\n    fornecida aos vindouros. Se as idades passadas da nossa literatura cultivassem<br \/>\n    o g&eacute;nero, importante subs&iacute;dio colheriam nele os historiadores,<br \/>\n    que tanto se queixam da aridez das cr&oacute;nicas e dos escritos liter&aacute;rios<br \/>\n    desses tempos.<\/p>\n<p> Estou convencido de que &eacute; mais prov&aacute;vel que a posteridade<br \/>\n    leia com mais interesse o romance de costumes, que n&atilde;o chega ao alcance<br \/>\n    da critica do Sr. Luciano Cordeiro, do que, com seriedade, os ditames, que<br \/>\n    uma pretensiosa e pedantesca coorte de rapazelhos, lhe est&aacute; ditando,<br \/>\n    c&aacute; do nosso s&eacute;culo, como se gozassem do privil&eacute;gio de<br \/>\n    videntes.<\/p>\n<p><b>Funchal &#8212; Mar&ccedil;o de 1870<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Das cartas mencionadas nesta rela&ccedil;&atilde;o existiam<br \/>\n    na posse da fam&iacute;lia de J&uacute;lio Dinis apenas as duas que em seguida<br \/>\n    se publicam, do poeta portuense Faustino Xavier de Novais.<\/p>\n<p>II.m&deg; Sr.<\/p>\n<p> Rio de Janeiro, 23 de Dezembro de 1867.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei se lhe ser&aacute; completamente estranho o nome que assina<br \/>\n    carta. Nessa hip&oacute;tese v&atilde;o algumas palavras necess&aacute;rias<br \/>\n    como ex&oacute;rdio ao assunto que me move a escrever-lhe.<\/p>\n<p> Sou natural do Porto, l&aacute; passei a inf&acirc;ncia e a parte melhor<br \/>\n    da mocidade. Filho de um pobre e honrado artista tive por bras&otilde;es os<br \/>\n    calos que me deixara nas m&atilde;os o uso da ferramenta empregada no trabalho<br \/>\n    de ourivesaria, de que vivi muitos anos. Estudei as primeiras letras apenas.<br \/>\n    Apareceu-me tarde a paix&atilde;o pela literatura e se hoje n&atilde;o sou<br \/>\n    inteiramente ignorante, devo o pouqu&iacute;ssimo que sei &agrave; perseveran&ccedil;a<br \/>\n    com que me dediquei, em horas vagas, &agrave; leitura de bons livros e &agrave;<br \/>\n    conviv&ecirc;ncia que tive com literatos, e especialmente com Camilo Castelo<br \/>\n    Branco, a quem posso chamar mestre, como lhe chamo amigo. Publiquei dois volumes<br \/>\n    de versos sat&iacute;ricos e rabisquei por a&iacute; muito papel em jornais.<\/p>\n<p> Loucuras do cora&ccedil;&atilde;o me impeliram a deixar a p&aacute;tria<br \/>\n    em 1858, dirigindo-me para aqui, onde me tenho conservado sempre e onde me<br \/>\n    esperam sete palmos de terra que o mundo n&atilde;o poder&aacute; negar-me.<\/p>\n<p> A minha sa&iacute;da foi traduzida a&iacute; como ambi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou antes cobi&ccedil;a. <\/p>\n<p>Eu deixei ao mundo a liberdade da tradu&ccedil;&atilde;o, escondendo as minhas<br \/>\n    m&aacute;goas onde n&atilde;o pudesse perturb&aacute;-las o sarcasmo dos moralistas<br \/>\n    de m&aacute;scara.<\/p>\n<p> Tenho sido sempre infeliz, estou pobr&iacute;ssimo e altamente convencido<br \/>\n    que assim morrerei.<\/p>\n<p> Cansado de dissabores, vivo retirado do mundo, que s&oacute; frequento no<br \/>\n    exerc&iacute;cio de um emprego que me d&aacute; a subsist&ecirc;ncia. Abandonei<br \/>\n    a literatura, sem preju&iacute;zo para mim nem para ela e perdi de todo a<br \/>\n    vontade de escrever. Ao terminar esta p&aacute;gina, perguntaria V, S.\\ se<br \/>\n    tivesse a quem, com que fim o estou eu ma&ccedil;ando com esta narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    biogr&aacute;fica. Eu lhe digo. Quis mostrar-lhe que sei ler, que tenho cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e que sou fan&aacute;tico por Camilo Castelo Branco, para lhe dar depois os<br \/>\n    mais sinceros parab&eacute;ns pelo resultado do seu trabalho liter&aacute;rio<br \/>\n    As Pupilas do Senhor Reitor.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o vi aqui anunciado o livro &agrave; venda mas foi-me confiado<br \/>\n    um exemplar, de cinco que vieram para o Gabinete de Leitura, e li-o com prazer<br \/>\n    e com entusiasmo.<\/p>\n<p> Sinceramente lhe digo que h&acirc; muito tempo n&atilde;o encontrei um livro<br \/>\n    t&atilde;o precioso como o seu.<\/p>\n<p> Acresce em mim a circunst&acirc;ncia de me serem muito conhecidos os costumes<br \/>\n    do campo, que por v&aacute;rias vezes observei de perto e detidamente quando<br \/>\n    eu achava poesia em tudo o que a tinha.<\/p>\n<p> Admirei, pois, a extrema verdade das suas descri&ccedil;&otilde;es e lembrei-<br \/>\n    me com saudade de colegas que conheci do Reitor, do Jo&atilde;o Semana e do<br \/>\n    Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p> &Eacute; imposs&iacute;vel que V. S.* n&atilde;o seja filho do Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas; mesmo porque dizem os jornais que o autor do romance se chama<br \/>\n    Joaquim Guilherme Gomes Coelho e &eacute; lente na Escola M&eacute;dico-Cir&uacute;rgica<br \/>\n    do Porto. M&eacute;dico tamb&eacute;m era o Daniel.<\/p>\n<p> Aceite, pois, os meus sinceros parab&eacute;ns e creia que conto no n&uacute;mero<br \/>\n    das minhas m&aacute;goas a impossibilidade em que estou de dar-lhe um abra&ccedil;o.<\/p>\n<p> Oxal&aacute; que a vida lhe corra pr&oacute;spera e desassombrada e que<br \/>\n    a sua robusta intelig&ecirc;ncia continue, com mais frutos como aquele, a<br \/>\n    enriquecer a nossa literatura.<\/p>\n<p> S&atilde;o estes os mais ardentes votos de um homem que V. S.&quot; obrigou<br \/>\n    a assinar-se<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Amigo e ardente admirador Faustino Xavier de Novais,<\/b><\/p>\n<p>Amigo Senhor Gomes Coelho.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Rio &#8212;Mar&ccedil;o 23-1868<\/b><\/p>\n<p>Satisfez-me, penhorou-me, encantou-me a sua carta de 26 de &#8216;Fevereiro &uacute;ltimo.<br \/>\n    &Eacute; o seu retrato moral. De nada mais preciso para avali&aacute;-lo como<br \/>\n    homem, como, pelas Pupilas, o tinha avaliado como escritor.<\/p>\n<p> Vejo que compreendeu bem a sinceridade das minhas palavras a carta que lhe<br \/>\n    dirigi, inspirada pelo entusiasmo que me causara o eu magn&iacute;fico livro.<\/p>\n<p> N&atilde;o sou lisonjeiro nem pretendo mostrar-me. A um literato de grande<br \/>\n    e antiga nomeada, n&atilde;o haveria entusiasmo que me impelisse a escrever<br \/>\n    naquele sentido, n&atilde;o havendo entre n&oacute;s rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de amizade.<\/p>\n<p> Receava que me julgasse adulador, ou charlat&atilde;o, porque a um homem<br \/>\n    not&aacute;vel nunca se apresenta, prestando-lhe homenagem, o obscuro e ignorante.<br \/>\n    Nesses casos eu mesmo julgo mal muitas vezes. Se n&atilde;o conhe&ccedil;o<br \/>\n    de perto o que se apresenta, fico em d&uacute;vida se vai ver, ou mostrar-se.<br \/>\n    Cedi, pois, ao impulso do entusiasmo que me inspirara o livro, porque a mod&eacute;stia<br \/>\n    do autor se revelava no pseud&oacute;nimo.<\/p>\n<p> Os seus apontamentos biogr&aacute;ficos &eacute; que vieram tarde. Quando<br \/>\n    lhe escrevi perguntei daqui a meu irm&atilde;o Miguel Novais se o conhecia<br \/>\n    e pedi-lhe informa&ccedil;&otilde;es a seu respeito. Deu-mas imediatamente<br \/>\n    recordando- me tamb&eacute;m a antiga actriz do Teatro de Cam&otilde;es, de<br \/>\n    que me lembro perfeitamente. As suas fei&ccedil;&otilde;es de ent&atilde;o<br \/>\n    desenhava-as eu ainda agora, se fosse conhecedor da arte. As de hoje, por&eacute;m,<br \/>\n    devem ser outras, que eu queria ver copiadas pela fotografia.<\/p>\n<p> Se eu lhe merecesse essa prova de estima! Estou ansioso por ver mais trabalhos<br \/>\n    liter&aacute;rios seus. Os correspondentes do Porto para os jornais daqui<br \/>\n    anunciaram a pr&oacute;xima publica&ccedil;&atilde;o de outro seu romance,<br \/>\n    j&aacute; publicado em folhetins, intitulado &#8212; Uma Fam&iacute;lia de<br \/>\n    Ingleses no Porto.&#8212;&Eacute; verdade que vai aparecer? Desejo-o ardentemente.<\/p>\n<p> Louvo sinceramente a resolu&ccedil;&atilde;o em que est&aacute; de n&atilde;o<br \/>\n    adoptar a literatura como profiss&atilde;o, que o n&atilde;o pode ser em Portugal,<br \/>\n    e menos, muito menos, aqui.<\/p>\n<p> Aceite um conselho que lhe oferece a amizade, auxiliada pela experi&ecirc;ncia.<br \/>\n    Conserve sempre essas ideias. Tome como extraordin&aacute;rio o lucro que<br \/>\n    lhe advenha da literatura e nunca o espere para ocorrer &agrave;s necessidades<br \/>\n    da vida. A inspira&ccedil;&atilde;o desaparece no momento em que a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do escritor come&ccedil;a a fixar-se no interesse que lhe dar&aacute; a sua<br \/>\n    obra, calculando antecipadamente a aplica&ccedil;&atilde;o que h&aacute;-de<br \/>\n    dar ao produto.<\/p>\n<p> Chegada essa ocasi&atilde;o, o escritor n&atilde;o escreve &#8212; trabalha.<br \/>\n    E esse trabalho &eacute; de todos o mais mal remunerado.<\/p>\n<p> Estimei saber que convive ainda com o Augusto Luso e com o Cust&oacute;dio<br \/>\n    Passos, duas recorda&ccedil;&otilde;es vivas de dois amigos mortos.<\/p>\n<p> Ainda bem que em ambos sobra o merecimento pr&oacute;prio, diante do que<br \/>\n    se modifica a saudade.<\/p>\n<p> Abrace-os em meu nome, assim como ao Nogueira Lima, Ant&oacute;nio Correia<br \/>\n    e mais amigos que se lembrarem de mim. Eu recordo-me de todos eles.<\/p>\n<p> Se quiser escrever-me algumas vezes, creia que o prazer de ler as suas cartas<br \/>\n    me distrair&aacute; do desalento em que vivo, sem esperan&ccedil;a em coisa<br \/>\n    alguma e, com m&aacute;goa o digo, quase sem as cren&ccedil;as que outrora<br \/>\n    me tornavam feliz.<\/p>\n<p> Agradecendo-lhe as suas ben&eacute;volas express&otilde;es termino pedindo-<br \/>\n    -lhe que no n&uacute;mero dos seus afei&ccedil;oados conte afoitamente o seu<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Amigo e admirador F. X. de Novais<\/b><\/p>\n<h2>IDEIAS QUE ME OCORREM<\/h2>\n<p align=\"right\">Extracto de um livro manuscrito<\/p>\n<p>TENHO ouvido dizer que &agrave; &iacute;ndole do romance repugna a lentid&atilde;o<br \/>\n    no suceder das cenas e epis&oacute;dios; que num g&eacute;nero de literatura,<br \/>\n    como &eacute; aquele, o leitor quer depressa chegar ao desenace e impacienta-se<br \/>\n    quando o autor entra em profusas descri&ccedil;&otilde;es, em an&aacute;lises<br \/>\n    de caracteres, ou em divaga&ccedil;&otilde;es metaf&iacute;sicas.<\/p>\n<p> J&aacute; me apontaram isto em processo de cr&iacute;tica feita a um dos<br \/>\n    meus livros.<\/p>\n<p> Examinei com cuidado os argumentos que se apresentaram e, na melhor boa<br \/>\n    f&eacute;, pensei nisto alguns dias. Acabei por convencer-me de que n&atilde;o<br \/>\n    tinham raz&atilde;o os censores.<\/p>\n<p> Se foi bem tirada a conclus&atilde;o, n&atilde;o sei; mas que a adoptei<br \/>\n    com sincera convic&ccedil;&atilde;o, posso afirm&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Ainda que suspeito, devo, primeiro que tudo, declarar que n&atilde;o sei<br \/>\n    bem por que se h&aacute;-de julgar o romance uma forma liter&aacute;ria menos<br \/>\n    grave e perfeita que as outras quando ela pode conter em si, em boa e fecunda<br \/>\n    harmonia, as qualidades de todas.<\/p>\n<p> Este descr&eacute;dito do romance, que seguindo, com mais ou menos fidelidade<br \/>\n    os modelos de Walter Scott, &eacute; a forma liter&aacute;ria verdadeiramente<br \/>\n    caracter&iacute;stica dos nossos tempos, prov&eacute;m dos abusos dos romancistas<br \/>\n    que, possu&iacute;dos por uma falsa ideia, julgaram ser a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a &uacute;nica base do romance.<\/p>\n<p> Pensaram e pensam estes que o romance &eacute; o enredo e esta ideia generalizou-se<br \/>\n    e radicou-se a tal ponto que muitos cr&iacute;ticos, ali&aacute;s ilustrados,<br \/>\n    fizeram e fazem, talvez irreflectidamente, artigos de legisla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria inspirados por ela.<\/p>\n<p> Parece-me que a opini&atilde;o que me suscitou estas reflex&otilde;es est&aacute;<br \/>\n    nesse caso. O romance &eacute; o enredo? tudo o mais s&atilde;o condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    secund&aacute;rias, elementos indispens&aacute;veis para que a ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    principie, para que o n&oacute; se aperte e enfim para que o desenlace termine<br \/>\n    a obra ? Por isso se clama contra o romancista se a ac&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    caminha durante dois, tr&ecirc;s ou mais cap&iacute;tulos; por isso se diz,<br \/>\n    em ar de censura, ao autor, como se a descoberta o devesse desgostar: &#8212;j&aacute;<br \/>\n    sei o fim do romance; F. casa com L&#8230; M. perdoa ao filho, etc, etc.<\/p>\n<p> Porque &eacute; que est&aacute; em deplor&aacute;vel e espantosa decad&ecirc;ncia<br \/>\n    o romance de imagina&ccedil;&atilde;o? Porque se tem derrancado o g&eacute;nero<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s indigestas e escandalosas produ&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    Ponson du Terrail? Exactamente por n&atilde;o pretenderem prender o leitor<br \/>\n    sen&atilde;o pela sucess&atilde;o r&aacute;pida das perip&eacute;cias e dos<br \/>\n    lances imprevistos.<\/p>\n<p> Nem uma an&aacute;lise de caracteres, nem um curto olhar lan&ccedil;ado<br \/>\n    ao &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o humano a devassar o que l&aacute;<br \/>\n    &eacute; de costume encontrar- se e n&atilde;o nenhuma dessas monstruosidades,<br \/>\n    que poderiam ter existido num ou noutro cora&ccedil;&atilde;o, mas por excep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que o leitor n&atilde;o tem decerto no seu.<\/p>\n<p> N&atilde;o caluniem o p&uacute;blico dizendo que &eacute; s&oacute; desse<br \/>\n    alimento que ele digere. N&atilde;o &eacute; assim. V&oacute;s sois que o<br \/>\n    alimentais h&aacute; muito nesse vicioso reg&iacute;men, que, sem dar s&oacute;lida<br \/>\n    nutri&ccedil;&atilde;o, estraga o paladar, cuja sensibilidade embotada exige<br \/>\n    est&iacute;mulos cada vez mais acres e irritantes.<\/p>\n<p> H&aacute; uma lei do gosto liter&aacute;rio em que eu acredito firmemente.<\/p>\n<p> O excepcional, o extravagante, o desregrado n&atilde;o &eacute; o que desperta<br \/>\n    nos leitores ou nos espectadores o mais verdadeiro, o mais duradouro interesse;<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, &eacute; o comum, o vulgar na justa acep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do termo.<\/p>\n<p> Quando encontramos em um livro pensamentos que j&aacute; tivemos um dia,<br \/>\n    sentimos agrad&aacute;vel surpresa, como ao darmos em um lugar, inesperadamente,<br \/>\n    com uma pessoa conhecida; quando no car&aacute;cter, no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma personagem liter&aacute;ria h&aacute; alguma coisa que &eacute; nossa,<br \/>\n    quando nos reconhecemos em parte personificados numa cria&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    redobra o interesse com que o acompanhamos nas perip&eacute;cias do drama.<\/p>\n<p> &Eacute; por isso que eu gosto dos romances lentos, em que o autor nos identifica<br \/>\n    bem com as personagens entre quem se passa a ac&ccedil;&atilde;o, antes de<br \/>\n    a travar.<\/p>\n<p> Depois desta inicia&ccedil;&atilde;o, creiam-no ou experimentem-no, excita-<br \/>\n    -nos mais interesse um simpl&iacute;ssimo drama que se passe entre esses indiv&iacute;duos,<br \/>\n    do que uma violenta e ultradram&aacute;tica trag&eacute;dia em que tomam parte<br \/>\n    personagens que o autor apenas nos faz conhecer pelos nomes.<\/p>\n<p> Querem um exemplo a corroborar a minha opini&atilde;o, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    s&oacute; minha? Muita vez haveis de ter ouvido contar um caso not&aacute;vel,<br \/>\n    acompanhado das mais curios&iacute;ssimas circunst&acirc;ncias, um grande<br \/>\n    e horroroso crime, por exemplo, acontecido entre pessoas que vos s&atilde;o<br \/>\n    desconhecidas.<\/p>\n<p> O caso &eacute; de si bastante para vos espantar, independentemente das<br \/>\n    personagens e, efectivamente, por um momento pasmais do que ouvis. Mas a impress&atilde;o<br \/>\n    embota-se, extingue-se e cedo pensais em outra coisa, porque ignorando o car&aacute;cter<br \/>\n    das pessoas a quem mais directamente o caso afecta, n&atilde;o podeis prever<br \/>\n    a natureza das paix&otilde;es (?) que elas suscitaram. N&atilde;o as conheceis<br \/>\n    (?) antes para poder calcular o reflexo psicol&oacute;gico desse facto.<\/p>\n<p> Contem-vos, por&eacute;m, um acontecimento muito mais simples, um destes<br \/>\n    casos comuns na hist&oacute;ria de todas as fam&iacute;lias, mas que se refere<br \/>\n    a pessoas de cujo car&aacute;cter, de cujo viver, de cujos h&aacute;bitos<br \/>\n    estais bem ao facto e a not&iacute;cia vos impressionar&aacute; muito mais<br \/>\n    do que a outra e correreis de mem&oacute;ria, uma por uma, aquelas pessoas,<br \/>\n    calculando e prevendo pelo conhecimento que tendes delas o estado em que esse<br \/>\n    acontecimento as conservar&aacute;.<\/p>\n<p> Isto reproduz-se no sucesso liter&aacute;rio de um livro de romance.<\/p>\n<p> As complicadas perip&eacute;cias de uma hist&oacute;ria &agrave; Ponson<br \/>\n    du Terrail atordoam- vos, como a descri&ccedil;&atilde;o de um crime horroroso<br \/>\n    cometido a dist&acirc;ncia da vossa terra; mas deixai passar oito dias sobre<br \/>\n    essa leitura e n&atilde;o vos ficar&aacute; dela mem&oacute;ria porque nunca<br \/>\n    chegastes a conhecer e fixar, a estimar portanto, as pessoas entre quem ele<br \/>\n    se travou.<\/p>\n<p> Pelo contr&aacute;rio, dos simples epis&oacute;dios de um romance como o<br \/>\n    Vig&aacute;rio de Waksfield e tantos outros da escola genuinamente inglesa,<br \/>\n    fica-vos uma como mem&oacute;ria saudosa, porque aquelas figuras que vistes<br \/>\n    em ac&ccedil;&atilde;o, que sofreram e choraram, eram j&aacute; de h&aacute;<br \/>\n    muito conhecidas vossas e t&iacute;nheis tido tempo durante a ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lenta da hist&oacute;ria para lhes conhecer bem o car&aacute;cter antes de<br \/>\n    as ver sofrer.<\/p>\n<p> Mas os epis&oacute;dios indiferentes, que n&atilde;o conduzem ao enredo?<br \/>\n    Para que roubar tempo com eles? Para aumentar o efeito das cenas principais.<br \/>\n    Insensivelmente, sofreis a influ&ecirc;ndia deles.<\/p>\n<p> Ainda outro exemplo, tirado da vida real: Suponde que tendes um vizinho<br \/>\n    a quem, por involunt&aacute;ria e distra&iacute;da observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tendes descoberto certos h&aacute;bitos. Vede-lo sair a certas horas, falar<br \/>\n    de certa maneira, parar em certas lojas, etc, etc. S&atilde;o factos indiferentes<br \/>\n    em que maquinalmente atentais.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde; dizem-vos que este homem teve o pr&eacute;mio grande da<br \/>\n    lotaria, por exemplo, ou outro facto an&aacute;logo. E todos os pormenores<br \/>\n    do viver desse homem vos acodem &agrave; mem&oacute;ria e a todos ligais valor,<br \/>\n    ao referi-los aos vossos amigos, e destas particularidades indiferentes resulta<br \/>\n    mais interesse para o epis&oacute;dio principal.<\/p>\n<p> ; &Eacute; por estas e an&aacute;logas reflex&otilde;es que eu n&atilde;o<br \/>\n    posso concordar com os cr&iacute;ticos a que me referi.<\/p>\n<p>1 Assinalamos com um sina! interrogativo as palavras que n\u00e3o temos a certeza<br \/>\n    de haver fielmente decifrado. O autor nos seus livros manuscritos escrevia<br \/>\n    com muita rapidez e usava numerosas e curtas abreviaturas de dif\u00edcil decifra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conseguir com meios naturais e conhecidos um resultado daqueles ; comover<br \/>\n    e excitar o interesse sem recorrer ao extravagante nem sair da &oacute;rbita<br \/>\n    do veros&iacute;mil; pintar com cores pr&oacute;prias um quadro da vida e<br \/>\n    com t&atilde;o perfeita perspectiva que a ilus&atilde;o seja completa, n&atilde;o<br \/>\n    requer isto mais imagina&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o exige mais esfor&ccedil;o<br \/>\n    de intelig&ecirc;ncia do que a concep&ccedil;&atilde;o desses romances desregrados<br \/>\n    em que todas as lembran&ccedil;as se aproveitam sem as sujeitar ao crit&eacute;rio<br \/>\n    da l&oacute;gica liter&aacute;ria, em que o autor tem sempre um subterf&uacute;gio<br \/>\n    &agrave; m&atilde;o para se desembara&ccedil;ar das veredas sem salda onde<br \/>\n    a sua intelig&ecirc;ncia imprudente o conduziu ? Parece poder servir-me de<br \/>\n    um s&iacute;mile para confirmar a minha ideia. Nos espect&aacute;culos de<br \/>\n    prestidigita&ccedil;&atilde;o tendes visto alguns artistas trabalharem rodeados<br \/>\n    de uma multid&atilde;o de acess&oacute;rios complicad&iacute;ssimos? mesas<br \/>\n    com fundos falsos, caixas de todos os tamanhos, maquinismo igualmente misterioso,<br \/>\n    armas de fogo de constru&ccedil;&atilde;o particular, etc, etc? Conquanto<br \/>\n    n&atilde;o saibais trabalhar com esses aparelhos de magia branca, desde logo<br \/>\n    acreditais que s&atilde;o eles os principais elementos do espect&aacute;culo<br \/>\n    e n&atilde;o admirais demasiadamente a prestidigita&ccedil;&atilde;o do artista.<\/p>\n<p> Vedes, por&eacute;m, outros apresentarem-se diante de v&oacute;s, sem aparato,<br \/>\n    com fato simples, m&atilde;os nuas, uma mesa sem falso, etc, etc, e surpreender-vos<br \/>\n    ali&aacute;s, tanto como o outro, com sortes maravilhosas.<\/p>\n<p> A este aplaudis com mais entusiasmo e vontade porque aplaudis um verdadeiro<br \/>\n    artista. Admirais o resultado de estudos e esfor&ccedil;os de longo tempo<br \/>\n    para, com t&atilde;o simples meios, vos maravilhar assim.<\/p>\n<p> Dizei agora se n&atilde;o vos mover&aacute; tamb&eacute;m o mesmo sentimento<br \/>\n    a aplaudir mais o escritor consciencioso que vos comove com os recursos naturais<br \/>\n    que lhe fornece a observa&ccedil;&atilde;o do homem, do que o pelotiqueiro<br \/>\n    liter&aacute;rio que recorre para vos prender e maravilhar a todas as extravag&acirc;ncias<br \/>\n    poss&iacute;veis?<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Funchal, Novembro de 1869<\/b><\/p>\n<p>Muitos autores de romances e dramas julgam que os amantes em literatura escusam<br \/>\n    de ter car&aacute;cter pr&oacute;prio. A hero&iacute;na &eacute; uma rapariga<br \/>\n    que ama, o her&oacute;i &eacute; um rapaz que a ama a ela. A linguagem de<br \/>\n    um e de outro &eacute; sempre mais ou menos casta e liricamente er&oacute;tica.<\/p>\n<p> Encontram-se, falam de amor; separam-se, falam um do outro e n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m ocasi&atilde;o de revelar ao leitor mais nenhuma qualidade do seu<br \/>\n    car&aacute;cter, sen&atilde;o a de estarem apaixonados.<\/p>\n<p> Resulta daqui que em vez de serem criaturas humanas, vivas, dominadas por<br \/>\n    uma paix&atilde;o, que combinada com o seu car&aacute;cter individual as leva<br \/>\n    a actuarem de determinada maneira, s&atilde;o simples personifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do amor, frias e incapazes de comover, como alegoria, como personagens abstractas<br \/>\n    daqueles poemas em que falam as virtudes e os v&iacute;cios personificados.<\/p>\n<p> O leitor n&atilde;o pode fixar uma fei&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica<br \/>\n    desse par, cujos infort&uacute;nios, tribula&ccedil;&otilde;es e felicidade<br \/>\n    ou infelicidade final, comp&otilde;em a narra&ccedil;&atilde;o e, por isso,<br \/>\n    dias depois da leitura, evaporaram-se essas imagens, como a de uma prova fotogr&aacute;fica<br \/>\n    n&atilde;o fixada e confundem-se no vago em que j&aacute; se haviam perdido<br \/>\n    as fei&ccedil;&otilde;es de outros muitos ternos casais, cuja sorte j&aacute;<br \/>\n    anteriormente o tinha igualmente comovido.<\/p>\n<p> Desenganem-se&#8230; Para que o romance ou o drama produzam profundo e duradouro<br \/>\n    interesse, &eacute; indispens&aacute;vel desenhar bem as fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    caracter&iacute;sticas das personagens e dar-lhes um colorido de carna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que simule a vida. A n&atilde;o ser assim, a alma assiste indiferente &agrave;<br \/>\n    leitura ou &agrave; representa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Funchal, Novembro de 1869<\/b><\/p>\n<p>Nos meus romances n&atilde;o h&aacute; indiv&iacute;duos caracterizadamente<br \/>\n    maus.<\/p>\n<p> N&atilde;o tenho pintado crimes; quando muito, v&iacute;cios. Algu&eacute;m<br \/>\n    h&aacute; que me tem feito o favor de me louvar essa falta como virtude, como<br \/>\n    se andasse nisso prop&oacute;sito liter&aacute;rio. Verdadeiramente n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o penso que o estudo moral de uma alma criminosa ou perversa n&atilde;o<br \/>\n    seja digno da arte. O que me custa a admitir, a n&atilde;o ser como excep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    rara, s&atilde;o os tiranos sem l&oacute;gica, sem motivo, que amam o mal<br \/>\n    por instinto e sem que &agrave; pr&aacute;tica dele sejam levados por o impulso<br \/>\n    de uma paix&atilde;o.<\/p>\n<p> A raz&atilde;o por que fogem do campo da minha imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aqueles tipos &eacute; outra. Tanto eu me deleito em conceber um car&aacute;cter<br \/>\n    com que simpatize, em o encarar por todas as suas faces para as p&ocirc;r<br \/>\n    em evid&ecirc;ncia aos olhos do leitor, em v&ecirc;-lo em ac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e em harmonizar o di&aacute;logo com esse car&aacute;cter, quanto me repugna<br \/>\n    e enfastia o demorar o pensamento em um tipo antip&aacute;tico, em um car&aacute;cter<br \/>\n    revoltante, em uma destas criaturas em cuja contempla&ccedil;&atilde;o a alma<br \/>\n    se enoja ou se indigna.<\/p>\n<p> O artista deve vencer essa repugn&acirc;ncia, se a arte o exigir. Eu, por&eacute;m,<br \/>\n    que procuro na cultura das letras distrac&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o a<br \/>\n    tomo por of&iacute;cio, quero condescender com os meus prazeres, sem que deixe<br \/>\n    por isso de admirar as concep&ccedil;&otilde;es magn&iacute;ficas dos romancistas<br \/>\n    que sabem pintar o mal e a perversidade, sempre que o fazem, por assim dizer,<br \/>\n    logicamente.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Funchal, Novembro de 1869<\/b><\/p>\n<p>Lendo um r&aacute;pido estudo biogr&aacute;fico de Thackeray sobre os escritores<br \/>\n    humoristas ingleses do s&eacute;culo XVIIIe as notas que o acompanham, algumas<br \/>\n    das quais constam de cartas dos pr&oacute;prios escritores, lembrei-me da<br \/>\n    mis&eacute;ria da vida liter&aacute;ria do nosso pa&iacute;s, onde a preciosa<br \/>\n    correspond&ecirc;ncia dos nossos homens de letras raras vezes se salva para<br \/>\n    a posteridade.<\/p>\n<p> Quem h&aacute;, por exemplo, que se tenha lembrado de coligir as cartas<br \/>\n    particulares de Garrett, que por tantos motivos deviam ser um elemento poderoso<br \/>\n    para a aprecia&ccedil;&atilde;o daquele vulto liter&aacute;rio e para a da<br \/>\n    hist&oacute;ria da literatura moderna em Portugal, de que ele foi o principal<br \/>\n    instituidor? Dev&iacute;amos aprender com os estrangeiros a dar o devido valor<br \/>\n    a estas origens preciosas de informa&ccedil;&atilde;o para a cr&iacute;tica<br \/>\n    e para a hist&oacute;ria.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Funchal, 3 de Janeiro de 1869<\/b><\/p>\n<p>Acabo de ler o romance de Oct&aacute;vio Feuillet Histoire de Sibylle, A<br \/>\n    morte da hero&iacute;na no desenlace n&atilde;o me parece muito justificada<br \/>\n    pelas regras naturais da arte. O problema principal do romance estava resolvido<br \/>\n    da maneira que o autor julgou plaus&iacute;vel resolv&ecirc;-lo. O cepticismo<br \/>\n    religioso de Raul era o obst&aacute;culo &uacute;nico para a felicidade dos<br \/>\n    dois amantes. Esperava-se que a influ&ecirc;ncia poderosa de Sibylle, j&aacute;<br \/>\n    provada com o doido Feray, com o reitor Renaud, com os duques de Vargnes e<br \/>\n    com a duquesa Clotilde, se exercesse tamb&eacute;m sobre Raul, cujo &acirc;nimo<br \/>\n    mais do que os outros, devia sujeitar-se &agrave; catecjuese daquela mulher<br \/>\n    que ele idolatrava. Restava saber as circunst&acirc;ncias que deviam cooperar<br \/>\n    para a convers&atilde;o, que conspira&ccedil;&atilde;o de influ&ecirc;ncias<br \/>\n    poderia incutir naturalmente a f&eacute; em uma alma generosa, leal, incapaz<br \/>\n    de hipocrisia e de simular, por interesse, uma un&ccedil;&atilde;o religiosa<br \/>\n    que n&atilde;o sentisse. Que b&aacute;lsamo havia de curar aquele cancro da<br \/>\n    d&uacute;vida num cora&ccedil;&atilde;o que lamentava sinceramente a perda<br \/>\n    das passadas cren&ccedil;as? Conseguiu-se tudo isso. Ap&oacute;s uma crise<br \/>\n    violenta em que a descren&ccedil;a do homem da sociedade parecia mais radicada,<br \/>\n    o simples espect&aacute;culo da mulher que ele amava, desfalecida pela como&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    numa pobre choupana, &agrave; borda do mar, ao calor de uma fogueira, bastou<br \/>\n    para fazer penetrar a luz da f&eacute; naquele cora&ccedil;&atilde;o assombrado<br \/>\n    pela d&uacute;vida e para prostrar de joelhos em ora&ccedil;&atilde;o sentida,<br \/>\n    esse homem que n&atilde;o cria em Deus. Bem ou mal, o problema estava pois<br \/>\n    resolvido.<\/p>\n<p>Inesperadamente, por&eacute;m, surge mais uma entidade no romance; aparece<br \/>\n    uma febre perniciosa que em duas p&aacute;ginas sacrifica a hero&iacute;na<br \/>\n    e dissipa as esperan&ccedil;as de felicidade que finalmente parecia sorrirem<br \/>\n    aos simp&aacute;ticos amantes.<\/p>\n<p> Revolta-me a brutalidade desta febre paludosa.<\/p>\n<p> Que papel liter&aacute;rio representa ela aqui? Por acaso a morte de Sibylle<br \/>\n    era necess&aacute;ria para a convers&atilde;o de Raul? N&atilde;o; e tanto<br \/>\n    que, s&oacute; depois de se haver bem verificado essa convers&atilde;o, &eacute;<br \/>\n    que Sibylle pediu ao reitor que lhe aben&ccedil;oasse a uni&atilde;o, e que<br \/>\n    o reitor se resolveu a faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Completaria ela o car&aacute;cter da hero&iacute;na, como uma consequ&ecirc;ncia<br \/>\n    necess&aacute;ria da sua exalta&ccedil;&atilde;o m&oacute;rbida, da sua esquisita<br \/>\n    sensibilidade? Mas trata-se de uma infec&ccedil;&atilde;o palustre, da prosaica<br \/>\n    realidade de uma perniciosa, que nada tem que ver com os caracteres dos doentes.<\/p>\n<p> Consolidar-se-iam mais firmemente as cren&ccedil;as do convertido com a<br \/>\n    morte daquela, cuja influ&ecirc;ncia lhe abrira o cora&ccedil;&atilde;o ao<br \/>\n    raiar da f&eacute;? &Eacute; duvidosa a hip&oacute;tese e no mesmo romance<br \/>\n    h&aacute; um exemplo de que nem sempre os golpes da adversidade fortalecem<br \/>\n    o &acirc;nimo para a f&eacute;; antes &agrave;s vezes fazem descrer da justi&ccedil;a<br \/>\n    divina e da exist&ecirc;ncia de um Deus que premeia os bons. Este exemplo<br \/>\n    &eacute; o do doido Feray. As cren&ccedil;as, ainda t&iacute;bias de Raul,<br \/>\n    n&atilde;o se fortaleceriam mais na vida de paz e ventura, que o futuro lhe<br \/>\n    prometia, do que com aquele doloroso transe, com aquele inesperado fugir da<br \/>\n    felicidade, no momento em que julgava possu&iacute;-la? N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o mero desgosto de ver acabar mal o romance o que me leva a estas reflex&otilde;es.<br \/>\n    Eu concebo os fins tr&aacute;gicos, que concorrem para o desenvolvimento da<br \/>\n    ideia primordial da obra liter&aacute;ria, quando s&atilde;o a consequ&ecirc;ncia<br \/>\n    l&oacute;gica das situa&ccedil;&otilde;es dram&aacute;ticas imaginadas ou<br \/>\n    o complemento do desenho de um car&aacute;cter. Comove-me o lutuoso fim dos<br \/>\n    amores de Lucy Ashton, de Paulo e Virg&iacute;nia, de Eurico e Hermengarda<br \/>\n    e de Madalena de Vilhena.<\/p>\n<p> Suprimi o fim tr&aacute;gico destas e an&aacute;logas concep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias e alterar-lhes-eis completamente a &iacute;ndole e falsear-lhes-eis<br \/>\n    a significa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica.<\/p>\n<p> Na hist&oacute;ria de Sibylle, por&eacute;m, n&atilde;o se d&aacute; o mesmo<br \/>\n    caso.<\/p>\n<p> A febre perniciosa &eacute; um acidente brutal que nada significa, que n&atilde;o<br \/>\n    em raz&atilde;o de ser, debaixo do ponto de vista da arte, que aflige sem<br \/>\n    comover. &Eacute; uma simples impertin&ecirc;ncia do autor.<\/p>\n<p> Na vida real h&aacute; disso; mas estes tristes acidentes da vida, quando<br \/>\n    entram no campo liter&aacute;rio, precisam representar a&iacute; algum papel;<br \/>\n    de outra forma n&atilde;o s&atilde;o mais do que uma desagrad&aacute;vel e<br \/>\n    cruel inutilidade.<\/p>\n<p> <b>Funchal, 4 de Dezembro de 1869<\/b><\/p>\n<p>A aus&ecirc;ncia prolongada, digam o que quiserem, &eacute; prejudicial as<br \/>\n    mais estreitas amizades. A conveni&ecirc;ncia habitual, pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    fomenta-as.<\/p>\n<p> Separaram-se dois amigos &iacute;ntimos. Ao principio escrevem-se todos<br \/>\n    os dias e enchem folhas e folhas de papel com m&uacute;tuas expans&otilde;es;<br \/>\n    pouco a pouco, as cartas resumem-se e rareiam, e mais tarde deixam de escrever<br \/>\n    quando n&atilde;o t&ecirc;m necessidade que a isso os impila. Nenhum querer&aacute;<br \/>\n    admitir que a amizade sofreu a menor quebra da sua parte, &laquo;Que excelente<br \/>\n    rapaz aquele, dir&aacute; um do outro; palavra de honra que &eacute; dos poucos<br \/>\n    amigos que tenho&#8230; Esta minha pregui&ccedil;a em escrever.<\/p>\n<p> H&aacute; tanto tempo que lhe n&atilde;o dou not&iacute;cias minhas nem<br \/>\n    dele as tenho&raquo;.<\/p>\n<p> Ora, na minha opini&atilde;o, muito enfraquecida est&aacute; j&aacute; a<br \/>\n    amizade que nem tem for&ccedil;a para dissipar a pregui&ccedil;a de escrever.<br \/>\n    &Eacute; da experi&ecirc;ncia de todos o prazer que se encontra em escrever<br \/>\n    a qualquer pessoa, quando deveras a trazemos no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> <b>Funchal, Janeiro 1870<\/b><\/p>\n<p> Quando escrevo, &eacute; para mim estimulo o completo segredo. Se por acaso<br \/>\n    durante o trabalho sou tra&iacute;do por alguma indiscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sinto-mo esfriar e durante dias repugna-me o assunto, que at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    me atraia.<\/p>\n<p> N&atilde;o compreendo como, pelo contr&aacute;rio, muitos autores gostam<br \/>\n    de fazer constar que v&atilde;o encetar uma obra e estimam at&eacute; que<br \/>\n    o p&uacute;blico seja informado, passo a passo, do progresso do seu trabalho.<\/p>\n<p> Todos os dias leio nas gazetas de not&iacute;cias uma ou outra dessas revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias, atr&aacute;s das quais andam os noticiaristas. &laquo;Consta-<br \/>\n    -nos que o Sr. F. vai escrever um drama que tem por t&iacute;tulo &laquo;As<br \/>\n    mis&eacute;rias dos ricos&raquo;. O Sr. C. concluiu j&aacute; o primeiro acto<br \/>\n    de um drama, que nos dizem ser magnifico. O Sr. B. leu ontem a alguns amigos<br \/>\n    as primeiras cenas do seu drama e viu coroada pelos aplausos deles a sua magn&iacute;fica<br \/>\n    concep&ccedil;&atilde;o&raquo;, etc, etc.<\/p>\n<p> Estas e an&aacute;logas participa&ccedil;&otilde;es, que parece alentarem<br \/>\n    muitos, a mim dissipariam aquele misterioso prestigio que tem o trabalho discreto.<\/p>\n<p> J&aacute; experimentei este efeito de indiscri&ccedil;&atilde;o alheia.<br \/>\n    Escrevia &laquo;A Morgadinha dos Canaviais&raquo; e entregava-me com ardor<br \/>\n    ao trabalho. Um dia o correspondente portuense do &laquo;Jornal do Com&eacute;rcio&raquo;,<br \/>\n    de Lisboa, noticiou ao p&uacute;blico que eu andava escrevendo um novo romance<br \/>\n    assim intitulado.<\/p>\n<p> Causou-me uma desagrad&aacute;vel surpresa a revela&ccedil;&atilde;o e por<br \/>\n    muitos dias n&atilde;o me apeteceu trabalhar.<\/p>\n<p>A raz&atilde;o principal deste efeito em mim, est&aacute; em me serem insuport&aacute;veis<br \/>\n    todas as esp&eacute;cies de peias neste g&eacute;nero de trabalho.<\/p>\n<p> Quero absoluta liberdade para alterar, modificar, inverter e at&eacute;<br \/>\n    abandonar um assunto desde que me desagrada. E esta liberdade &eacute; sempre<br \/>\n    tanto mais restrita, quanto mais informado est&aacute; o p&uacute;blico da<br \/>\n    natureza e do progresso da obra.<\/p>\n<p> A cada momento inquirir&atilde;o sobre o prov&aacute;vel termo do livro<br \/>\n    em que se trabalha. Se, condescendendo com uma dessas passageiras indisposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para escrever, que atacam mais ou menos todos os homens de letras, se interromper<br \/>\n    a obra, ter&aacute; de sofrer-se a impertin&ecirc;ncia dos que n&atilde;o<br \/>\n    compreendem que a composi&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    tarefa de empreitada para a qual n&atilde;o se precise consultar a aptid&atilde;o.<\/p>\n<p> Se &eacute; conhecido um cap&iacute;tulo do romance, antes de completo este,<br \/>\n    &aacute; quase &eacute; vedado ao autor alter&aacute;-lo, ainda quando assim<br \/>\n    o exija um melhor plano que lhe ocorra ou mais perfeita harmonia do todo alterada<br \/>\n    em ulteriores cap&iacute;tulos.<\/p>\n<p> Enquanto o manuscrito &eacute; s&oacute; conhecido do autor, este decide<br \/>\n    desaontado os incidentes que durante a composi&ccedil;&atilde;o sobrev&ecirc;m,<br \/>\n    guia-se pela ideia liter&aacute;ria que concebeu, e mutila, suprime ou acrescenta<br \/>\n    conforme conv&eacute;m ao completo desenvolvimento dessa ideia.<\/p>\n<p> Se mais algu&eacute;m foi admitido &agrave; confid&ecirc;ncia do segredo<br \/>\n    liter&aacute;rio, vem uma considera&ccedil;&atilde;o a mais perturbar a livre<br \/>\n    ac&ccedil;&atilde;o t&atilde;o necess&aacute;ria ao autor: &laquo;Assim ficava<br \/>\n    melhor, pensa ele muita vez, mas F. gostou tanto deste cap&iacute;tulo que<br \/>\n    havia de estranhar que eu o modificasse ou suprimisse&raquo;. E o cap&iacute;tulo<br \/>\n    fica em aten&ccedil;&atilde;o ao tal F.<\/p>\n<p> Quantos defeitos descobre muitas vezes a cr&iacute;tica que n&atilde;o tiveram<br \/>\n    outra raz&atilde;o de existir? Depois, o prest&iacute;gio de uma obra liter&aacute;ria<br \/>\n    perde sempre com a assist&ecirc;ncia do leitor &agrave;s min&uacute;cias da<br \/>\n    composi&ccedil;&atilde;o. Ler hoje uma cena de paix&atilde;o violenta, amanh&atilde;,<br \/>\n    ao repetir a leitura, encontrar a mesma cena conduzida por outra forma, dissipa<br \/>\n    a ilus&atilde;o, deixa ver muito a arte, que s&oacute; deve mostrar a sua<br \/>\n    obra depois de removidos da oficina os instrumentos e mais aprestos com que<br \/>\n    trabalha.<\/p>\n<p> Guarde-se, pois, muito escrupulosamente o autor de devassar os segredos<br \/>\n    da sua elabora&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria e s&oacute; apare&ccedil;a<br \/>\n    ao p&uacute;blico para lhe apresentar completa a nova cria&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Siga o exemplo que lhe d&aacute; a natureza, que t&atilde;o avara se mostra<br \/>\n    dos mist&eacute;rios da forma&ccedil;&atilde;o dos seres, para a celebra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos quais como que, mais do que para outros, se recata e concentra.<\/p>\n<p><b>Funchal, Janeiro 1870<\/b><\/p>\n<p>A publica&ccedil;&atilde;o de um livro, por muita gl&oacute;ria e proveito<br \/>\n    que traga ao autor, &eacute; sempre uma esp&eacute;cie de profana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desses filhos queridos da fantasia, que ele velava e acalentava com um verdadeiro<br \/>\n    amor de pai.<\/p>\n<p> H&aacute; uma esp&eacute;cie de antagonismo nos sentimentos de alma com<br \/>\n    que o autor v&ecirc; sair do recato do seu gabinete para o mundo da publicidade<br \/>\n    o manuscrito a que dedicou longas horas de medita&ccedil;&atilde;o e de vig&iacute;lia.<br \/>\n    Por um lado experimenta-se a satisfa&ccedil;&atilde;o que acompanha sempre<br \/>\n    a realiza&ccedil;&atilde;o de qualquer projecto.<\/p>\n<p> Para o p&uacute;blico foi escrito o livro; o dia em que ao p&uacute;blico<br \/>\n    se entrega &eacute; pois um dia de vit&oacute;ria. Por&eacute;m, ao mesmo<br \/>\n    tempo uma certa melancolia, uma quase saudade nos punge nesse momento solene.<\/p>\n<p> Toda aquela gente que vivia s&oacute; para n&oacute;s, vai ser o alvo da<br \/>\n    observa&ccedil;&atatilde;o de milhares de pessoas. O mundo onde s&oacute; os<br \/>\n    nossos olhares penetravam, vai ser devassado por olhares curiosos; cessa de<br \/>\n    alguma maneira o imp&eacute;rio absoluto da nossa vontade no destino daquelas<br \/>\n    criaturas.<\/p>\n<p> Da&iacute; em diante j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o exclusivamente nossas.<br \/>\n    Emancipam-se.<\/p>\n<p> Eu, pelo menos, que nunca me enfado de reler o manuscrito em que trabalho,<br \/>\n    s&oacute; com esfor&ccedil;o consigo levar ao fim um cap&iacute;tulo de romance<br \/>\n    meu, depois de publicado e conhecido. Sinto que n&atilde;o tenho tanto amor<br \/>\n    &agrave;quela gente, como tinha antes de a introduzir no mundo; que &eacute;<br \/>\n    menos minha do que era.<\/p>\n<p> O autor est&aacute; no caso de um pai que educa esmeradamente uma filha<br \/>\n    estremecida para fazer dela um dia uma esposa e m&atilde;e digna destes sagrados<br \/>\n    nomes. Anseia pelo momento de a entregar a um marido que a estime e fa&ccedil;a<br \/>\n    feliz. Chega, enfim, esse dia, realiza-se sob os melhores ausp&iacute;cios<br \/>\n    o desejado casamento e o pai, sem deixar de agradecer a Deus a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de seus desejos, sente o cora&ccedil;&atilde;o oprimido todo o dia. E, ao<br \/>\n    entregar nos bra&ccedil;os do esposo a virgem que para ele com tanto amor<br \/>\n    educou, parece-lhe quase praticar uma profana&ccedil;&atilde;o. Fica menos<br \/>\n    sua aquela filha que lhe era a melhor parte da vida e desvanece-se aquele<br \/>\n    casto perfume virginal que o enlevava.<\/p>\n<p> Desde esse dia o seu amor por ela n&atilde;o pode deixar de sofrer uma leve<br \/>\n    diminui&ccedil;&atilde;o porque n&atilde;o e o &uacute;nico a am&aacute;-la<br \/>\n    e a enlevar-se nos seus encantos.<\/p>\n<p><b>Funchal, Janeiro de 1870<\/b><\/p>\n<p>H&aacute; livros que s&atilde;o monumentos e livros que s&atilde;o instrumentos.<\/p>\n<p> Os primeiros levantam-se a perpetuar a mem&oacute;ria de uma literatura,<br \/>\n    ainda mesmo que se extinga a nacionalidade a que pertencia. Primorosamente<br \/>\n    trabalhados, constitu&iacute;dos por os materiais mais dur&aacute;veis, &eacute;<br \/>\n    antes para o futuro que eles se erigem do que para os contempor&acirc;neos,<br \/>\n    cuja maioria nem sempre os compreende Os livros instrumentos s&atilde;o, pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, para andarem nas m&atilde;os de todos, para o uso quotidiano,<br \/>\n    para educarem, civilizarem e doutrinarem as massas.<\/p>\n<p> Da&iacute;, dessa diversidade de destinos, vem a diversidade de exig&ecirc;ncias<br \/>\n    a que uns e outros devem satisfazer.<\/p>\n<p> O livro instrumento precisa ser popular, escrito na linguagem do dia, ao<br \/>\n    alcance das intelig&ecirc;ncias da &eacute;poca, de f&aacute;cil trato em<br \/>\n    suma. Os extremos de lavor, que ornam o monumento, podem ser prejudiciais<br \/>\n    ao instrumento que, menos ambicioso, deve contentar-se com mais modesta execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave; cr&iacute;tica compete ter isto em vista para que lhe n&atilde;o<br \/>\n    suceda instaurar processo a um livro que se destina a instrumento, como se<br \/>\n    na mente do autor estivesse a ideia de levantar com ele um monumento &agrave;<br \/>\n    posteridade.<\/p>\n<p> Grande e bom servi&ccedil;o prestam j&aacute; os autores que conseguem escrever<br \/>\n    livros para o seu tempo, de cuja leitura possa resultar algum bem para quem<br \/>\n    os l&ecirc;.<\/p>\n<p> Direi at&eacute; que esta turba mais obscura de autores n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    menos &uacute;til &agrave; sociedade do que os raros g&eacute;nios que a alumiam<br \/>\n    de quando em quando e que, se o progresso da humanidade estivesse s&oacute;<br \/>\n    confiado a estes excepcionais luminares, nem sempre compreendidos por os seus<br \/>\n    contempor&acirc;neos, decerto n&atilde;o estaria ainda no grau que j&aacute;<br \/>\n    atingiu.<\/p>\n<p> Se os arquitectos levantassem somente pir&acirc;mides e monumentos e desprezassem<br \/>\n    a constru&ccedil;&atilde;o de casas e outras edifica&ccedil;&otilde;es mais<br \/>\n    modestas, a civiliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o lhes seria devedora de tantos<br \/>\n    benef&iacute;cios. Um povo pode viver sem monumentos; mas n&atilde;o sem as<br \/>\n    constru&ccedil;&otilde;es que as primeiras necessidades da natureza exigem.<\/p>\n<p> O s&iacute;mile &eacute; de f&aacute;cil e &oacute;bvia aplica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Funchal, Fevereiro de 1870<\/b><\/p>\n<p>H&aacute; uma idade em que a mulher gosta mais de ser namorada do que amada.<br \/>\n    Entre um amor recatado e reverente e um galanteio indiscreto e ostensivo,<br \/>\n    n&atilde;o hesita; prefere o segundo. O que lhe enche o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; o amor; &eacute; a vaidade. Lisonjeia-a o culto que recebe<br \/>\n    e quer que as outras mulheres a vejam triunfante. O mais puro e dedicado amor<br \/>\n    que lhe tributassem n&atilde;o a satisfaria, se fosse ignorado pelo Quando<br \/>\n    um homem de afei&ccedil;&otilde;es sinceras e profundas se apaixona por uma<br \/>\n    destas mulheres, pode ter a certeza de que principia para ele uma dolorosa<br \/>\n    prova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Funchal, Mar&ccedil;o de 1870<\/b><\/p>\n<h2>ESCRITOS INCOMPLETOS<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Uma parte do drama Bolo Quente, escrito aos 17 anos de idade.<br \/>\n    &#8212; Ac&ccedil;&atilde;o passada no Minho.<\/b><\/p>\n<h2>ACTO II<\/h2>\n<h2><b>CENA I<\/b><\/h2>\n<p>Francisco, criado, pondo a mesa para uma ceia que o filho da fidalga oferece<br \/>\n    em sua casa aos primos de Lisboa, seus h\u00f3spedes. Jo\u00e3o, primo de Francisco.<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Ent&atilde;o como &eacute; isto? Eles n&atilde;o ceiam sen&atilde;o fruta?<\/p>\n<p>FRANCISCO<\/p>\n<p> N&atilde;o, homem. A fruta p&otilde;e-se na mesa, com flores e com os vinhos,<br \/>\n    e o mais &eacute; servido por fora.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Por fora? Ent&atilde;o eles ceiam fora de casa e v&ecirc;m depois comer<br \/>\n    a fruta aqui?<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Ora adeus! Tu &eacute;s tolo? Ceiam aqui; mas os pratos trazem-se &agrave;<br \/>\n    volta da mesa para cada um se servir do que quiser.<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Ah! agora entendo. Mas que moda! Antes me quero com a moda da aldeia, porque<br \/>\n    a gente, tendo a comida defronte de uma pessoa, sabe logo o que vai comer.<\/p>\n<p>FRANCISCO<\/p>\n<p> Tudo vai do costume&#8230; Os fidalgos t&ecirc;m outra cria&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Est&atilde;o afeitos a coisas que a gente s&oacute; conhece nas cidades&#8230;<br \/>\n    E, &eacute; verdade, como vai o neg&oacute;cio do teu casamento ? D&aacute;-me<br \/>\n    c&aacute; essa garrafa. A coisa faz-se ou n&atilde;o se faz ?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Nem eu sei, Francisco, nem eu sei. Vontade tenho eu e mais a namorada. O<br \/>\n    pai tamb&eacute;m n&atilde;o vai longe disso: mas&#8230; falta o principal.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Aquilo com que se compram os mel&otilde;es? Chega para c&aacute; essas cadeiras,<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Tal e qual.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Tu n&atilde;o tens nada, e ela nada tem, e a gente n&atilde;o vive do ar.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Pois &eacute; assim, &eacute;, Mas eu estou t&atilde;o farto de esperar<br \/>\n    pela sorte, que nunca me favorece, que &agrave;s vezes cuido que, depois de<br \/>\n    casado ela me vir&aacute;, e por isso acho que&#8230;<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Ora adeus; n&atilde;o fa&ccedil;as tolices. O orvalho n&atilde;o mata a<br \/>\n    sede, nem tiram a fome as ra&iacute;zes do monte. V&ecirc; l&aacute; se vais<br \/>\n    dar por a&iacute; alguma cabe&ccedil;ada.<\/p>\n<p> Toma conta!<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> N&atilde;o tenhas medo. N&atilde;o que, ainda que eu quisesse d&aacute;-la,<br \/>\n    tanto juizo tem a minha rapariga que n&atilde;o deixava. E depois o tio Marcos<br \/>\n    &eacute; quem manda, e ele j&aacute; me disse que enquanto eu n&atilde;o ganhar<br \/>\n    para sustentar minha mulher, n&atilde;o quer ouvir falar em tal casamento.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> E tu n&atilde;o tens feito dilig&ecirc;ncias para arranjar emprego?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Ora se tenho ! Mas tanto faz. Ningu&eacute;m me quer<\/p>\n<p>FRANCISCO<\/p>\n<p> Porqu&ecirc;?<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> &Eacute; por n&atilde;o estar arrumado.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Ora essa! Explica-me isso.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Pois &eacute; como te digo. Quando um homem tem um emprego menos mau, h&aacute;<br \/>\n    quem lhe ofere&ccedil;a outro melhor porque, diz l&aacute; consigo: O patr&atilde;o<br \/>\n    que o tem em casa &eacute; porque ele &eacute; bom. Conv&eacute;m-me ainda<br \/>\n    que lhe pague mais alguma coisa, porque isto de meter vadios em casa &eacute;<br \/>\n    arriscado&#8230;&#8217; V&ecirc;s tu? De maneira que um homem n&atilde;o arranja emprego<br \/>\n    exactamente porque precisa dele.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> A modo que tens raz&atilde;o. Hei-de falar &agrave; fidalga e tu tamb&eacute;m<br \/>\n    lhe podes pedir. Olha ela a&iacute; vem. N&atilde;o fujas! Deixa-te ficar<br \/>\n    que ela n&atilde;o repara nisso. &Eacute; uma santa senhora. Se ela te falar,<br \/>\n    tens de a tratar por excel&ecirc;ncia.<\/p>\n<h2>CENA II Os mesmos e D. Joana<\/h2>\n<p>D. JOANA<\/p>\n<p> Olhe la, Francisco, n&atilde;o ponha na mesa vinhos muito fortes nem comidas<br \/>\n    indigestas. De noite &eacute; preciso toda a cautela. N&atilde;o me agradam<br \/>\n    nada estas ceias. &Eacute; isto que estraga por a&iacute; tantos rapazes que,<br \/>\n    aos vinte anos, j&aacute; andam cheios de achaques, como se fossem velhos&#8230;<\/p>\n<p> Quem &eacute; este rapaz?<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> &Eacute; meu primo, minha senhora.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Ah sim; j&aacute; me falou nele&#8230; Chama-se&#8230; Jo&atilde;o. <\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Jo&atilde;o do Choupelo, minha senhora, para a servir.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> &Eacute; isso mesmo, que est&aacute; para casar&#8230;<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Com a filha do mestre-escola, o mestre Marcos. &Eacute; este mesmo.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> E ent&atilde;o porque n&atilde;o casaram ainda? A sua noiva &eacute; uma<br \/>\n    bonita rapariga e um belo cora&ccedil;&atilde;o. O pai &eacute; um santo e<br \/>\n    honrado velho a quem minha fam&iacute;lia muito deve. Em tempos aflitivos<br \/>\n    foi ele que nos valeu. &Eacute; verdade. Das suas m&atilde;os caridosas recebemos<br \/>\n    j&aacute;, eu e os meus, a esmola do p&atilde;o e do abrigo. Vai muito bem,<br \/>\n    Jo&atilde;o; melhor noiva n&atilde;o encontra, por mais que procure.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Diz bem, minha senhora. Por essa estou eu.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Pois olhe, eu tenho deveres a cumprir para com essa fam&iacute;lia e muito<br \/>\n    desejo cumpri-los. Avise-me com anteced&ecirc;ncia, e, se quiserem, j&aacute;<br \/>\n    me ofere&ccedil;o para madrinha. Quando ser&aacute;, pouco mais ou menos?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> &Oacute; minha senhora, muito obrigado por t&atilde;o grande favor&#8230; Eu<br \/>\n    sei la quando nos casaremos? FRANCISCO (a meia voz) Sabes que mais? Conta-lhe<br \/>\n    tudo que talvez seja bom.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> O que diz, Francisco?<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o sei se devo servir a maionese de lagosta que &eacute; um dos<br \/>\n    pratos da ceia. <\/p>\n<p>D. JOANA<\/p>\n<p> Ai n&atilde;o, n&atilde;o. Credo! &Eacute; tudo quanto h&aacute; de mais<br \/>\n    indigesto &agrave; noite.<\/p>\n<p> Nem lhe fale nela, ouviu? Mas ent&atilde;o o que &eacute; que estorva o<br \/>\n    seu casamento, Jo&atilde;o? Assim como assim, visto vossa&#8230; vossa&#8230;<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Excel&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Visto que vossa excel&ecirc;ncia tanto se interessa por n&oacute;s, com<br \/>\n    sua licen&ccedil;a, vou contar-lhe tudo, toda a verdade, com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nas m&atilde;os.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Isso mesmo &eacute; o que eu quero. Fale &agrave; vontade.<\/p>\n<p> Pois, minha senhora, como o outro que diz, eu sou um pobre rapaz e mais<br \/>\n    nada. Sabe a senhora?<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Pobre, honrado&#8230;<\/p>\n<p> La isso n&atilde;o &eacute; para me gabar&#8230;<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> E trabalhador&#8230;<\/p>\n<p> Isso &eacute; que n&atilde;o.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Como n&atilde;o? Para ser trabalhador, faz m&iacute;ngua trabalhar, para<br \/>\n    trabalhar &eacute; preciso que haja em que e para haver em qu&egrave; e necess&aacute;rio<br \/>\n    que algu&eacute;m no-lo queira dar, percebe vossa&#8230;<\/p>\n<p>FRANCISCO<\/p>\n<p> Excel&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Vossa excel&ecirc;ncia?<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Pobre rapaz! Est&aacute; ent&atilde;o desarrumado?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Estou, sim, minha senhora.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> E &eacute; por isso que n&atilde;o casa? Mas parece imposs&iacute;vel! Pois<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; por a&iacute; tantos modos de vida?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Isto em mim &eacute; a minha sina. O que quer a senhora?<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Ah! n&atilde;o, n&atilde;o&#8230; n&atilde;o diga isso, Jo&atilde;o. Neste mundo<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; sinas nem para o bem nem para o mal. Dores todos as sentem,<br \/>\n    l&aacute;grimas todos as choram, e risos&#8230; vamos, tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; alma t&atilde;o atribulada que n&atilde;o tenha conhecido o prazer<br \/>\n    que d&aacute; uma alegria verdadeira<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Pois quer vossa&#8230; vossa excel&ecirc;ncia ouvir? Depois me dir&aacute; se<br \/>\n    isto &eacute; sina ou n&atilde;o &eacute; sina. N&oacute;s &eacute;ramos tr&ecirc;s<br \/>\n    os filhos de minha santa m&atilde;e, que Deus tenha; n&atilde;o &eacute; verdade,<br \/>\n    Francisco?<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Sim, a tia Quit&eacute;ria, tua m&atilde;e, teve tr&ecirc;s filhos.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Eu era o mais novo. Meu pai, Deus lhe perdoe, era pedreiro; meus irm&atilde;os,<br \/>\n    um era aprendiz do mesmo of&iacute;cio, o outro quis embarcar.<\/p>\n<p> Vai eu, tinha dez anos e a&iacute; cai meu pai dumas obras abaixo e morreu<br \/>\n    no hospital; o nosso Jos&eacute; teve a febre no Brasil e l&aacute; se foi<br \/>\n    tamb&eacute;m, e o nosso Manuel, que ia principiando a endireitar a vida,<br \/>\n    deram-lhe na cidade as bexigas e morreu queimadinho, que nem eu quero que<br \/>\n    me lembre. E a&iacute; fiquei eu com a minha pobre m&atilde;e que se matava<br \/>\n    a chorar. Bom. Vai eu, quis ir para a cidade aprender um of&iacute;cio Mas<br \/>\n    corno havia de ser se a minha santa criatura me ficou cega de repente ? Havia<br \/>\n    de deix&aacute;-la ? Coitadinha! Aqui na terra h&aacute; gente caridosa que<br \/>\n    n&atilde;o nos deixava morrer de fome. Na cozinha do lavrador ha sempre, como<br \/>\n    a senhora sabe, sobras de p&atilde;o e de caldo para os que os n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m.<\/p>\n<p> Andava eu pois com ela de porta em porta, meio envergonhado quando via passar<br \/>\n    os rapazes da minha idade com a saca dos livros da aula ou com a ferramenta<br \/>\n    do of&iacute;cio; mas que havia eu de fazer? Chamavam-me o rapaz da cega ou<br \/>\n    o Jo&atilde;o da cega.<\/p>\n<p> Era um desprezado que nem companheiros tinha para brincar! Um dia, depois<br \/>\n    de muito sofrer, levou-me Deus para si aquela desgra&ccedil;adinha que sempre<br \/>\n    me teve a seu lado at&eacute; ao &uacute;ltimo suspiro.<\/p>\n<p> 3om, agora que est&aacute;s s&oacute; no mundo trata da vida, Jo&atilde;o,<br \/>\n    dizia eu para mim. Mas quem me queria? Roto e pedinte, achavam-me taludo para<br \/>\n    aprendiz e estragado na vadiagem, Eu bem lhes dizia que nada mais tinha feito<br \/>\n    que o meu dever servindo de bord&atilde;o a uma pobre cega, que me tinha s&oacute;<br \/>\n    a mim, e que isto n&atilde;o era coisa ruim nem crime. Matavam- me a fome<br \/>\n    mas ningu&eacute;m me queria! At&eacute; que um bom homem, velho carpinteiro,<br \/>\n    teve compaix&atilde;o de mim e aceitou-me. Principiei ent&atilde;o a trabalhar<br \/>\n    e a andar mais contente. Cuidei at&eacute; que estava feliz para o resto da<br \/>\n    vida.<\/p>\n<p> Foi por esse tempo que eu vi a filha do mestre Marcos e logo fiquei doido<br \/>\n    por ela. At&eacute; com ela sonhava! Mas nunca futurei que ela fizesse caso<br \/>\n    de mim. Se andavam tantos a arrastar-lhe a asa, tantos, e todos eram mais<br \/>\n    do que eu! Mas, veja a senhora aquele cora&ccedil;&atilde;o! Foi para mim,<br \/>\n    que era o mais pobre e desgra&ccedil;ado do rancho, que ela se inclinou.<\/p>\n<p> Uma tarde, havia festa no adro, entrei a sentir-me t&atilde;o triste, t&atilde;o<br \/>\n    triste, que peguei em mim e fui parar ao cemit&eacute;rio onde n&atilde;o<br \/>\n    estava ningu&eacute;m, porque toda a gente andava a divertir-se e a dan&ccedil;ar<br \/>\n    na festa.<\/p>\n<p> Vai sen&atilde;o quando, quem me h&aacute;-de ali aparecer? Era ela, a filha<br \/>\n    do mestre Marcos. Eu fiquei sem pinga de sangue e, vai ela, diz-me assim com<br \/>\n    aquela voz que sabe dizer as coisas: &laquo;Que est&aacute; aqui a fazer no<br \/>\n    cemit&eacute;rio, Jo&atilde;o, em que est&aacute; a pensar?&raquo; Penso,<br \/>\n    menina, disse-lhe eu, que estou s&oacute; no mundo, t&atilde;o s&oacute;,<br \/>\n    t&atilde;o s&oacute;, que era bem melhor para mim me fosse deitar ali ao p&oacute;<br \/>\n    de minha m&atilde;e. &laquo;Ainda &eacute; cedo para procurar companhia no<br \/>\n    cemit&eacute;rio &#8212; disse-me ela;&#8212;j&aacute; todos os vivos ha negaram?&raquo;<br \/>\n    Nem eu me atrevo a pedi-la.&#8212;&laquo;Pois nisso &eacute; que faz mal&raquo;.&#8212;<br \/>\n    E que tenho eu para agradar a algu&eacute;m? &#8212;&laquo;O seu bom cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a sua alma, Jo&atilde;o&raquo;, e nisto foi-se embora. Olhe, minha senhora,<br \/>\n    que isto passou- se assim tal como lhe estou contando e vai da&iacute; principiou<br \/>\n    esta nossa inclina&ccedil;&atilde;o e ela tais artes empregou que at&eacute;<br \/>\n    o tio Marcos entrou a querer-me bem. Vai depois, sucede, por minha desgra&ccedil;a,<br \/>\n    andar eu a trabalhar de carpinteiro em casa do fidalgo de Altotojo quando<br \/>\n    desa pareceu l&aacute; de uma gaveta uma por&ccedil;&atilde;o de notas que<br \/>\n    valiam muito dinheiro.<\/p>\n<p> Fez-se muito barulho em toda a casa, procura daqui, procura dacol&aacute;,<br \/>\n    perguntam estes, revistam aqueles. Foi um caso falado em toda a aldeia e vai,<br \/>\n    de repente o fidalgo entra a olhar para mim carrancudo e no dia seguinte manda-me<br \/>\n    despedir. Perguntei porqu&ecirc;, ningu&eacute;m me respondeu. Imagine a senhora<br \/>\n    o que isto deu que falar depois do que se tinha passado. Como eu estava inocente,<br \/>\n    n&atilde;o podia futurar que na terra todos me chamavam ladr&atilde;o. O pr&oacute;prio<br \/>\n    mestre Marcos n&atilde;o me acusava, sim, mas tinha para mim uns modos t&atilde;o<br \/>\n    secos, t&atilde;o zangados que eu logo entendi tudo. Estava perdido. N&atilde;o<br \/>\n    sei como n&atilde;o rebentei de dor, logo ali. Saltaram-me as l&aacute;grimas<br \/>\n    dos olhos quando me lembrei que a Ana tamb&eacute;m me havia de julgar ladr&atilde;o<br \/>\n    e, como um desesperado, corri em busca dela. Mal a topei, gritei-lhe de longe:<br \/>\n    &Oacute; menina, olhe que eu&#8230; Ela n&atilde;o me deixou continuar. Cala-te,<br \/>\n    Jo&atilde;o, cala-te, disse-me ela, chorando tanto como eu, n&atilde;o me<br \/>\n    digas nada porque n&atilde;o te julgo culpado. N&atilde;o te desculpes comigo<br \/>\n    porque eu conhe&ccedil;o-te e sei que n&atilde;o podes deixar de estar inocente.<\/p>\n<p> Ouvindo-lhe estas palavras t&atilde;o boas, n&atilde;o sei o que teve m&atilde;o<br \/>\n    em.<\/p>\n<p> mim para n&atilde;o ir a correr dizer a toda a gente: Sabem que mais ? Se<br \/>\n    querem acreditar que eu sou um ladr&atilde;o, acreditem. N&atilde;o se me<br \/>\n    importa o que v&oacute;s todos pensais porque j&aacute; sei que a Ana n&atilde;o<br \/>\n    pensa como v&oacute;s.<\/p>\n<p> Mas, enfim, ela acalmou-me, e disse-me mesmo que era mister convencer os<br \/>\n    outros, pois n&atilde;o tinham os mesmos motivos que ela para n&atilde;o acreditar<br \/>\n    o que se dizia na terra. Fui ent&atilde;o procurar o fidalgo mas n&atilde;o<br \/>\n    me quis ver. Vai um dia, olhe, senhora, que at&eacute; custa a acreditar,<br \/>\n    ao acabar a missa, estava o adro cheio de gente e o fidalgo vinha a sair.<br \/>\n    A Ana p&otilde;e-se-lhe diante no caminho e diz-lhe em voz alta que todos<br \/>\n    ouviram: &laquo;Sr. D. &Aacute;lvaro, queira perdoar. Corre a fama em toda<br \/>\n    a aldeia que o fidalgo acusa aquele rapaz que est&aacute; ali&raquo; &#8212;<br \/>\n    e apontou para mim, que estava a um canto muito envergonhado &#8212; &laquo;de<br \/>\n    ter feito o roubo de dinheiro em casa do fidalgo. Ele &eacute; meu noivo e<br \/>\n    est&aacute; inocente, que o sei eu, que o vou jurar porque sei a alma que<br \/>\n    ali est&aacute;. Por a&iacute; todos o acusam e o Sr. D. &Aacute;lvaro, se<br \/>\n    &eacute; um homem de honra, n&atilde;o pode mentir e h&aacute;-de aqui, diante<br \/>\n    de toda esta gente, declarar que ele n&atilde;o &eacute; o ladr&atilde;o,<br \/>\n    porque &eacute; imposs&iacute;vel que o n&atilde;o saiba, e que, se despediu<br \/>\n    aquele rapaz de sua casa, foi por outro motivo. Responda, fidalgo, mas lembre-se<br \/>\n    que vem da missa e que esteve ajoelhado no altar do Sant&iacute;ssimo&raquo;.<\/p>\n<p> Se a senhora quer ver?! Toda a gente pasmada, a Ana a olhar direita para<br \/>\n    ele e o fidalgo, enfiado, fez-se vermelho, depois branco, tremeu, suou e afinal<br \/>\n    disse assim esta fala: &#8212;&laquo;Esse rapaz &eacute; inocente.<\/p>\n<p> O roubo foi feito por pessoa de casa. E eu quis desviar suspeitas.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o-lhe perd&atilde;o&raquo;.<\/p>\n<p> Afinal, sabe a senhora? o ladr&atilde;o tinha sido o filho dele, para extravag&acirc;ncias,<br \/>\n    O fidalgo ficou t&atilde;o envergonhado que deixou a aldeia e n&atilde;o voltou.<br \/>\n    Veja a senhora como eu fiquei contente e todos ficaram ali sabendo que eu<br \/>\n    era o noivo da Ana. Mas isto foi h&aacute; tr&ecirc;s meses e nada arranjei<br \/>\n    ainda porque a fam&iacute;lia do fidalgo faz-me guerra, por vingan&ccedil;a,<br \/>\n    porque se veio a saber que foram eles que aconselharam o fidalgo a fazer o<br \/>\n    que ele fez, para n&atilde;o dar que falar contra o filho, que era vergonha<br \/>\n    para todos os parentes.<\/p>\n<p>D. JOANA<\/p>\n<p>Sabe que &eacute; simp&aacute;tica e comovente a sua hist&oacute;ria ?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Assim Deus salve a minha alma como &eacute; verdade tudo quanto disse.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Acredito. E como a hist&oacute;ria me interessa, por ambos, pela pureza<br \/>\n    e generosidade dos seus sentimentos, prometo-lhes para ela um agrad&aacute;vel<br \/>\n    final.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> O que diz, minha senhora?<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Nunca lhe contaram hist&oacute;rias em pequeno, Jo&atilde;o?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Contaram, sim, minha senhora. Ainda me lembro daquela da Gata Borralheira<br \/>\n    que minha m&atilde;ezinha nos contava nas noites de Inverno.<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Ent&atilde;o h&aacute;-de saber que h&aacute; sempre um rapaz que gosta<br \/>\n    de uma rapariga. Se eles casam, a hist&oacute;ria acaba bem e, se n&atilde;o<br \/>\n    casam&#8230; o fim &eacute; triste e faz chorar quem a ouve.<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Quer ent&atilde;o vossa&#8230; excel&ecirc;ncia dizer&#8230;<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Que a sua hist&oacute;ria h&aacute;-de acabar bem.<\/p>\n<p>JO&Atilde;O<\/p>\n<p> Mas&#8230;<\/p>\n<p> D. JOANA<\/p>\n<p> Mau; se se diz logo tudo, o fim n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma.<\/p>\n<p> JO&Atilde;O (querendo beijar-lhe a m&atilde;o) &Oacute; minha protectora<br \/>\n    I<\/p>\n<p> D. JOANA (retirando-se)<\/p>\n<p> Est&aacute; bom, est&aacute; bom. N&atilde;o gosto disso. Ande, v&aacute;<br \/>\n    &agrave; sua vida e guarde antes esse beijo para a sua desposada.<\/p>\n<p> FRANCISCO<\/p>\n<p> Ent&atilde;o eu n&atilde;o te disse que era melhor contar-lhe tudo?<\/p>\n<p> JO&Atilde;O (sorrindo)<\/p>\n<p> D&aacute;-me um abra&ccedil;o. Agora come&ccedil;o a acreditar que sou feliz<br \/>\n    e vou a correr contar tudo &agrave; minha Ana.<\/p>\n<p> Ouve-se-lhe a voz dentro, cantando.<\/p>\n<p>Quem se ri, est&aacute; contente.<\/p>\n<p> Quem est&aacute; contente &eacute; feliz; Mas&#8230; cala-te, cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    O que sentes n&atilde;o se diz.<\/p>\n<h2>O ROMANCE DE UM GUARDA-BARREIRA<\/h2>\n<p>Um dos meus amigos, m&aacute;rtir entusiasta da ca&ccedil;a, que tem sofrido<br \/>\n    com uma resigna&ccedil;&atilde;o her&oacute;ica aguaceiros diluviais, s&oacute;is<br \/>\n    calculadores, ventos de assolar cidades, que vadeia rios, escala montes, embrenha-se<br \/>\n    em matas gigantes, atola-se em brejos p&eacute;rfidos, aspira miasmas sezon&aacute;ticos,<br \/>\n    come o p&atilde;o negro do lavrador hospitaleiro, sem o menor quebrantamento<br \/>\n    de &acirc;nimo, instigado pelo ardor da persegui&ccedil;&atilde;o das lebres,<br \/>\n    codornizes e galinholas; amigo cruel que tem feito de mim uma v&iacute;tima<br \/>\n    da estopante odisseia das suas fa&ccedil;anhas venat&oacute;rias, que me quer<br \/>\n    obrigar a decorar as biografias de quantos podengos e perdigueiros t&ecirc;m<br \/>\n    sido os companheiros das suas excurs&otilde;es intermin&aacute;veis; um amigo<br \/>\n    como decerto o leitor h&aacute;-de ter algum, contou-me h&aacute; dias uma<br \/>\n    pequena hist&oacute;ria que eu, por minha vez, vou contar ao leitor, &Eacute;<br \/>\n    curta, n&atilde;o lhe roubar&aacute; meia hora ao seu tempo t&atilde;o ocupado.<\/p>\n<p> H&aacute; meses, no tempo do Inverno, tinha este Act&eacute;on, inexor&aacute;vel<br \/>\n    flagelo das t&iacute;midas lebres do monte, saldo a montear de espingarda<br \/>\n    ao ombro, botas de &aacute;gua, polvorinho a tiracolo, chap&eacute;u largo,<br \/>\n    sandu&iacute;ches de queijo londrino na saca e vinho no pichei, despedindo-se<br \/>\n    da fam&iacute;lia assim como se fosse empreender uma explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos p&oacute;los.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o houve l&aacute;grimas na despedida &eacute; porque o h&aacute;bito<br \/>\n    desses apartamentos costumou os olhos a n&atilde;o chorar. Apenas a m&atilde;e,<br \/>\n    boa senhora, toda votada a coisas dom&eacute;sticas, contraste perfeito com<br \/>\n    a bossa aventureira e viajante de seu &uacute;nico filho, lhe disse do alto<br \/>\n    das escadas ao v&ecirc;-lo sair: &#8212; Olha l&aacute; se tens cautela com<br \/>\n    essa arma, meu filho&#8230; Sempre que e lembra que um dia&#8230;<\/p>\n<p> A hist&oacute;ria contou-a a boa senhora &agrave;s meninas de casa que,<br \/>\n    sendas a trabalhar em costura, contavam mentalmente os dias que faltapara<br \/>\n    o desejado domingo. <\/p>\n<p>Sossegue o leitor que n&atilde;o pretendo arranc&aacute;-lo do mole repouso<br \/>\n    do seu gabinete para o constranger a seguir o meu amigo no fadigoso exerc&iacute;cio<br \/>\n    de sua paix&atilde;o dominante. Esteja descansado. Saiba que tem em mim um<br \/>\n    homem que odeia a ca&ccedil;a e que por coisa nenhuma se decidiria a servir-lhe<br \/>\n    de companheiro nestas excurs&otilde;es sanguin&aacute;rias e laboriosas.<\/p>\n<p> Demais, seria mal escolhido o dia para tentar o passeio, porque o meu amigo,<br \/>\n    segundo ele mesmo confessou, esteve de uma infelicidade excepcional. Era quase<br \/>\n    noite e nem lhe tinha aparecido ca&ccedil;a de jeito, nem a pouca que p&ocirc;de<br \/>\n    ver conseguira fazer pontaria certeira.<\/p>\n<p> Imaginem o desespero e mau humor com que ele voltava a casa.<\/p>\n<p> Este mau humor para alguma coisa lhe havia de dar. Chegando &agrave; base<br \/>\n    de um monte de onde se descia para a estrada, o meu amigo, em vez de o costear<br \/>\n    at&eacute; ao lugar onde ele se nivelava com o caminho, pretendeu imprudentemente<br \/>\n    desc&ecirc;-lo ali mesmo. Principiou a segurar-se aos troncos das giestas,<br \/>\n    a firmar os p&eacute;s nalgumas ra&iacute;zes de pinheiros que rompiam a parede<br \/>\n    saibrosa do caminho; mas, a uma vara de altura do solo, o p&eacute; resvalou,<br \/>\n    as m&atilde;os n&atilde;o puderam sustentar o peso do corpo e o desapontado<br \/>\n    ca&ccedil;ador veio cair no ch&atilde;o, sentindo uma dor agud&iacute;ssima<br \/>\n    na articula&ccedil;&atilde;o do p&eacute; direito com a perna, que o fez involuntariamente<br \/>\n    soltar um gemido.<\/p>\n<p> &#8212;Estou arranjado!&#8212;disse ele.&#8212;Uma fractura pelo menos.<br \/>\n    Quarenta dias de imobilidade e de entala&ccedil;&atilde;o ! E faltou-lhe o<br \/>\n    &acirc;nimo para se mexer e verificar se efectivamente tinha fracturado o<br \/>\n    p&eacute;.<\/p>\n<p> Quanto tempo assim esteve ? Quando os romancistas fazem esta pergunta &eacute;<br \/>\n    sinal de que se lhes n&atilde;o pode responder. &Eacute; o caso em que estou.<\/p>\n<p> Umas crian&ccedil;as que vinham do monte viram aquele homem estirado e deitaram<br \/>\n    a correr, gritando: &#8212; Um homem morto! Um homem morto! O meu amigo deixou-as<br \/>\n    gritar. Tinha procurado mover o p&eacute; e julgou que o n&atilde;o sentia.<br \/>\n    , &#8212; Adeus! Este j&aacute; me n&atilde;o pertence. Declarou-se independente<br \/>\n    da metr&oacute;pole. Faz bem. N&atilde;o lhe durar&aacute; muito a autonomia.<\/p>\n<p> Esta reflex&atilde;o parece muito ligeira nas circunst&acirc;ncias s&eacute;rias<br \/>\n    em que se encontrava o meu amigo. E o que &eacute; certo &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    tinha nada tranquilo o esp&iacute;rito quando pronunciara estas palavras.<br \/>\n    Depois lembrou-se do tratamento de fracturas, da cara do seu facultativo,<br \/>\n    das pessoas que o iriam visitar durante o processo de consolida&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua t&iacute;bia e j&aacute; procurava saber qual o seu passatempo nessas<br \/>\n    horas de for&ccedil;ado &oacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ocasi&atilde;o de ler um romance do Ponson du Terrail.<br \/>\n    F. ir&aacute; l&aacute; por casa para jogarmos uma partida de xadrez. Pe&ccedil;o<br \/>\n    a C. que me empreste o estereosc&oacute;pio&#8230;<\/p>\n<p> Foi interrompido nestas cogita&ccedil;&otilde;es pelo ru&iacute;do de uns<br \/>\n    passos apressados e vozes confusas e cedo se viu rodeado por um magote de<br \/>\n    povo, capitaneado ao que parecia por um velho de bigode branco e espingarda<br \/>\n    ao ombro, vestido com o uniforme de guarda das barreiras municipais.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; criatura de Cristo, voc&ecirc; ainda vive ? &#8212; Foi<br \/>\n    a interroga&ccedil;&atilde;o que lhe dirigiu este homem.<\/p>\n<p> &#8212; Eu julgo que sim.<\/p>\n<p> &#8212; E o outro fugiu ? &#8212; O outro? &#8212; O assassino! &#8212;<br \/>\n    Qual assassino ? &#8212; Adeus minha vida! Ent&atilde;o n&atilde;o o mataram<br \/>\n    ? &#8212; Eu julgo que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que est&aacute; voc&ecirc; ai a fazer ? &#8212; exclamou<br \/>\n    j&aacute; meio desconfiado o velho guarda.<\/p>\n<p> &#8212; Eu&#8230; estou a pensar.<\/p>\n<p> &#8212; A pensar !&#8212;disseram os circunstantes espantados com a extravag&acirc;ncia<br \/>\n    da resposta.<\/p>\n<p> &#8212; A pensar em qu&ecirc;? &#8212;perguntou o velho guarda-barreira<br \/>\n    adiantando- se.<\/p>\n<p> &#8212; A pensar&#8230; ai!&#8230; nos grandes servi&ccedil;os que prestam&#8230; ai!&#8230;<br \/>\n    ai!&#8230;<\/p>\n<p> ai!&#8230; &agrave; humanidade esses modestos filantropos&#8230; ai!&#8230; ai!&#8230; a<br \/>\n    quem chamamos cadeirinhas&#8230; ai!&#8230; ai!&#8230; ai!&#8230;&#8212;Estes ais eram desafiados<br \/>\n    pelas pungentes dores da articula&ccedil;&atilde;o t&iacute;bio-t&aacute;rsica<br \/>\n    direita do meu amigo.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; b&ecirc;bedo! &#8212; murmurou o guarda aos que o rodeavam<br \/>\n    e depois, dirigindo-se ao meu amigo: &#8212; Levante-se e ande da&iacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; bom de dizer. Andar! &Eacute; dos maiores prazeres<br \/>\n    deste mundo, &eacute;; mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; e aproximando-se dele puxou-o por um bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ai&#8230; ai&#8230; ai&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O que &eacute; ? &#8212; disse o velho, largando-o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o v&ecirc; que tenho um p&eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Dois vejo eu.<\/p>\n<p> &#8212; Pois est&aacute; enganado, porque um j&aacute; me n&atilde;o pertence,<br \/>\n    porque est&aacute; quebrado.<\/p>\n<p> &#8212; Oh diabo! Isso ent&atilde;o &eacute; mais s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; A quem voc&ecirc; o diz! E muito s&eacute;rio porque perdi o meu<br \/>\n    rico p&eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o: visto isso&#8230; Eh! rapazes, levantem este senhor<br \/>\n    e levem-no para o meu quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Ai&#8230; ai&#8230; Esperem&#8230; Fa&ccedil;am isso com jeito! &#8212; Peguem<br \/>\n    nele com cautela e aviem-se.<\/p>\n<p> Para encurtar raz&otilde;es: passada meia hora estava o meu amigo deitado<br \/>\n    na enxerga do guarda-barreira, com o p&eacute; ligado com panos embebidos<br \/>\n    em &aacute;gua fria.<\/p>\n<p> A les&atilde;o n&atilde;o passava afinal de uma distens&atilde;o de ligamentos.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>{N&atilde;o continua).<\/b><\/p>\n<h2>O RAMO DAS MAIAS<\/h2>\n<p>QUE apar&ecirc;ncia festival d&atilde;o aos campos as giestas quando em Maio<br \/>\n    ostentam as vistosas galas da sua vigorosa floresc&ecirc;ncia! Que profus&atilde;o<br \/>\n    de corolas amarelas naquele verde, t&atilde;o verde, dos ramos tenazes! &Eacute;<br \/>\n    por certo a flor mais alegre que a natureza produz; por isso lhe querem as<br \/>\n    galhofeiras raparigas do campo, onde nunca foi moda a melancolia.<\/p>\n<p> A&iacute; est&aacute; a violeta; &eacute; uma flor bonita sem d&uacute;vida,<br \/>\n    mas triste. A mim s&oacute; o cheiro da violeta me faz cismar, deste cismar<br \/>\n    que os Franceses chamam r&ecirc;verie e que n&oacute;s n&atilde;o sei bem<br \/>\n    que nome lhe damos. &Eacute; a raz&atilde;o por que os poetas a cantam. Os<br \/>\n    poetas s&atilde;o habitualmente inclinados &agrave; tristeza e &agrave;s coisas<br \/>\n    que a suscitem.<\/p>\n<p> As rosas t&ecirc;m j&aacute; um aspecto mais risonho, &eacute; verdade,<br \/>\n    mas ainda comedido ou, como hoje se diz, guardam as conveni&ecirc;ncias nas<br \/>\n    suas alegrias. &Eacute; um j&uacute;bilo grave aquele seu.<\/p>\n<p> Uma elegante pode irrepreensivelmente trazer no chap&eacute;u uma rosa artificial;<br \/>\n    mas v&atilde;o la dizer-lhe que traga um ramo de maias! &Eacute; que as maias<br \/>\n    s&atilde;o alegres &agrave; moda dos campos, que &eacute; a verdadeira moda<br \/>\n    de o ser, a mais racional. &Eacute; ali que o contentamento se n&atilde;o<br \/>\n    revela em um simples e espremido sorriso, mas em prolongadas e altissonantes<br \/>\n    gargalhadas; &eacute; ali que se usam os len&ccedil;os escarlates e amarelos,<br \/>\n    e se odeiam as cores escuras; que se canta desde o nascer do Sol at&eacute;<br \/>\n    ao nascer das estrelas e onde, no fim da vida, se tem rido mais do que chorado,<br \/>\n    a ponto de fazer duvidar da exactid&atilde;o do ep&iacute;teto de vale de<br \/>\n    l&aacute;grimas com que o cristianismo designa o mundo em que vivemos.<\/p>\n<p> Ora eu tenho, em muitas coisas, gostos campesinos; &eacute; por isso que<br \/>\n    poucas flores me agradam tanto como as flores das maias.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"imagens\/juilio-dinis-4.jpg\" alt=\"In\u00e9ditos e Esparsos\"  width=\"259\" height=\"399\" border=\"0\" title=\"In\u00e9ditos e Esparsos\"\/><br \/>\n    <b>&Eacute; que as maias s&atilde;o alegres &agrave; moda dos campos&#8230;<\/b>\n  <\/p>\n<p>perdoe-me a leitora delicada esta confiss&atilde;o de mau gosto, mas sincera.<\/p>\n<p> Tenho-lhe afei&ccedil;&atilde;o deveras &aacute; despretensiosa flor.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; uma alegria estudada aquela sua; &eacute; uma alegria<br \/>\n    expansiva, lhana, sem refolhos, sem momices afectadas; alegria de flor montanhesa,<br \/>\n    enfim.<\/p>\n<p> O ar das montanhas &eacute; inimigo do cerimonial, que prescreve at&eacute;<br \/>\n    as maneiras pr&oacute;prias de manifestarmos nossos prazeres e nossas penas!<br \/>\n    A gargalhada de um highlander produziria uma irrita&ccedil;&atilde;o de nervos<br \/>\n    em um homem das plan&iacute;cies; ao p&eacute; das flores de jardins e de<br \/>\n    estufa, as singelas maias haviam de ser estranhadas e escarnecidas; seriam<br \/>\n    como uma camponesa de cores vi&ccedil;osas e sadias numa reuni&atilde;o dessas<br \/>\n    formosuras p&aacute;lidas e franzinas que povoam os sal&otilde;es.<\/p>\n<p> Decididamente o gosto est&aacute; estragado! Pois n&atilde;o &eacute; nestas<br \/>\n    &uacute;ltimas que os poetas v&atilde;o, de ordin&aacute;rio, escolher tipos<br \/>\n    para hero&iacute;nas de poemas e romances ?! Como se n&atilde;o fossem belezas<br \/>\n    degeneradas! Como se nossa m&atilde;e Eva, que &eacute; de supor ter sido<br \/>\n    o ideal da beleza feminina, n&atilde;o tivesse possu&iacute;do uma organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    robusta, excelente carna&ccedil;&atilde;o e cores para invejar. A sa&uacute;de<br \/>\n    &eacute; para mim como um complemento da beleza.<\/p>\n<p> Era j&aacute; opini&atilde;o dos antigos que a perfei&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    organismos depende de quatro condi&ccedil;&otilde;es: integridade, for&ccedil;a,<br \/>\n    beleza e sa&uacute;de; reparem bem &#8212; e sa&uacute;de.<\/p>\n<p> A febre, os espasmos, a histeria, a dem&ecirc;ncia, podem excitar-me a compaix&atilde;o<br \/>\n    pelos infelizes que as padecem, mas da&iacute; a adoptar como rigor de est&eacute;tica<br \/>\n    a necessidade de uma destas mol&eacute;stias para cada protagonista de romance,<br \/>\n    vai muito longe.<\/p>\n<p> Vejam as mulheres da B&iacute;blia; que po&eacute;ticos e interessantes<br \/>\n    tipos aqueles! E sabem de alguma cuja sa&uacute;de melindrosa nos suscite<br \/>\n    apreens&otilde;es? Em toda a literatura cl&aacute;ssica pouco h&aacute; que<br \/>\n    ver com a medicina.<\/p>\n<p> Se algumas doen&ccedil;as por l&aacute; aparecem, encaram-se literariamente,<br \/>\n    n&atilde;o se lhes desenvolve a patogenia com um rigor cient&iacute;fico digno<br \/>\n    de uma mem&oacute;ria acad&eacute;mica. N&atilde;o se v&ecirc;em ali confer&ecirc;ncias<br \/>\n    de m&eacute;dicos, estupendos r&eacute;cipes, nem frascos medicinais e tisanas<br \/>\n    por cima das mesas; as rubricas dos autores dram&aacute;ticos n&atilde;o obrigam<br \/>\n    as actrizes a tossirem de vez em quando para for&ccedil;ar o interesse dos<br \/>\n    espectadores, incomodando- os.<\/p>\n<p> O del&iacute;rio de Orestes, prudentemente atribu&iacute;do &agrave;s f&uacute;rias,<br \/>\n    n&atilde;o era explicado ao p&uacute;blico por nenhuma teoria m&eacute;dica.<\/p>\n<p> Hoje, ent&atilde;o, um m&eacute;dico tomando o pulso, percutindo e auscultando<br \/>\n    a protagonista doente, &eacute; uma cena de efeito seguro. Digam-me se no<br \/>\n    teatro cl&aacute;ssico viram alguma vez entrar em cena Hip&oacute;crates,<br \/>\n    Galeno, Celso, Ambr&oacute;sio Pare e outros vultos da extensa galeria m&eacute;dica<br \/>\n    que havia j&aacute; ent&atilde;o ? &Eacute; que a doen&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    estava em moda. Hoje n&atilde;o h&aacute; autor que, a n&atilde;o querer arriscar<br \/>\n    o interesse inspirado pela sua hero&iacute;na, se atreva a faz&ecirc;-la s&atilde;<br \/>\n    e escorreita; pelo menos uma doen&ccedil;a nervosa &eacute; inevit&aacute;vel.<br \/>\n    Eu por mim julgo ser isto uma pervers&atilde;o de gosto. Enganar- me-ei ?<br \/>\n    &Eacute; uma igual pervers&atilde;o que faz com que as flores das maias n&atilde;o<br \/>\n    sejam apreciadas, n&atilde;o estejam na moda. S&atilde;o alegres e garridas<br \/>\n    como qualquer lavradeira em dia de romaria. Excitam de longe as vistas com<br \/>\n    a cor viva de suas p&eacute;talas, destacando-se do fundo verde-escuro das<br \/>\n    folhas e dos ramos.<\/p>\n<p> Ora venham c&aacute; dizer-me que n&atilde;o s&atilde;o flores bonitas!<br \/>\n    Eu tenho por elas uma afei&ccedil;&atilde;o desinteressada, sincera, que data<br \/>\n    de muitos anos.<\/p>\n<p> Crian&ccedil;a ainda, nunca voltava do campo, no fim de uma tarde de Maio,<br \/>\n    que n&atilde;o viesse adornado das prazenteiras flores; mais tarde, em certa<br \/>\n    &eacute;poca em que me quiseram ensinar bot&acirc;nica, nunca tive cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para dilacerar a bicos de alfinetes essas pobres flores alpestres com o &uacute;nico<br \/>\n    fim, o mais f&uacute;til de quantos pode imaginar uma ci&ecirc;ncia, de substituir<br \/>\n    o nome pr&aacute;tico que lhe d&aacute; o povo, por o nome pedante da nomenclatura<br \/>\n    t&eacute;cnica.<\/p>\n<p> O bot&acirc;nico! Nunca vi gente mais fleum&agrave;ticamente cruel! Com<br \/>\n    que indiferen&ccedil;a eles partem uma manh&atilde; para o campo, munidos<br \/>\n    do indispens&aacute;vel estojo, que me produz o efeito de um aparelho de torturas<br \/>\n    em tribunal inquisitorial, e atravessam plan&iacute;cies, trepam colinas e<br \/>\n    outeiros, profundam vales, devassam moitas, costeiam rios, colhendo quantas<br \/>\n    flores encontram, sem que o belo das cores ou o inebriante dos perfumes lhes<br \/>\n    mere&ccedil;am uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer. Com que selvagem sangue-frio<br \/>\n    procedem a esta provis&atilde;o de plantas, que amontoam sem gosto em suas<br \/>\n    caixas de folha ou de cart&atilde;o, e voltam &agrave; cidade carregados de<br \/>\n    modestas presas para, fechados no seu gabinete, encetarem o seu trabalho de<br \/>\n    destrui&ccedil;&atilde;o! J&aacute; os viram alguma vez postos &agrave; obra<br \/>\n    ? Que espect&aacute;culo! Nas suas m&atilde;os as pobres flores s&atilde;o<br \/>\n    torturadas, despeda&ccedil;adas, como as v&iacute;timas nos circos pelas garras<br \/>\n    das feras ; p&eacute;tala a p&eacute;tala caem desfolhadas; os bicos de alfinetes<br \/>\n    movidos por m&atilde;os sem piedade rasgam-lhes os c&aacute;lices, destroem-lhes<br \/>\n    os nect&aacute;rios, penetram nos ov&aacute;rios que rompem, disseminam-lhes<br \/>\n    os gr&atilde;os, g&eacute;rmenes de futuras flores que sem remorsos aniquilam,<br \/>\n    estendem-lhes os restos inanimados sob o campo do microsc&oacute;pio e, com<br \/>\n    a placidez do fil&oacute;sofo e uma insensibilidade de selvagens, examinam<br \/>\n    as ru&iacute;nas de uma bela obra.<\/p>\n<p> E para qu&ecirc;, santo Deus? Que buscam eles nestes trabalhos de destrui&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    Um nome, um nome pedantesco, b&aacute;rbaro, inarm&oacute;nico, prosaico,<br \/>\n    nome de bulir com os nervos, nome que fomenta as silabadas, para o aplicarem,<br \/>\n    sem compaix&atilde;o nem consci&ecirc;ncia, &agrave; obra mais singela, po&eacute;tica<br \/>\n    e despretensiosa da natureza! Eu quando vejo a ci&ecirc;ncia ocupar-se com<br \/>\n    os f&oacute;sseis, com os mastodontes, os pterod&aacute;ctilos, digo comigo:<br \/>\n    sois dignos um do outro; mas, quando volta as suas iras classificadoras contra<br \/>\n    as flores, lamento-lhe a barbaridade.<\/p>\n<p> De todas as vezes que eu ia a colher uma dessas vitimas inofensivas de uma<br \/>\n    ci&ecirc;ncia cruel, parecia-me v&ecirc;-las animarem-se, erguerem- se na<br \/>\n    haste para me olharem, rociadas de gotas de orvalho que semelhavam l&aacute;grimas,<br \/>\n    e dizerem-me: &#8212; Tem piedade de n&oacute;s! Que as borboletas e as abelhas<br \/>\n    nos beijem, namoradas dos nossos matizes e perfumes. Se esse beijo nos der<br \/>\n    a morte, embora; morreremos em um estremecimento de prazer.<\/p>\n<p> Se nos colhe a m&atilde;o delicada da virgem que fantasia amores. Se em<br \/>\n    breve nos espera o esquecimento e o desprezo&#8230; ao menos fomos por um instante<br \/>\n    amadas. Que nos desfolhe a brisa na corrente dos arroios&#8230; partir&aacute;<br \/>\n    com nossos perfumes e embalsamar&aacute; com eles os prados e os bosques.<br \/>\n    &Eacute; uma esp&eacute;cie de imortalidade que nos d&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> Mas tu&#8230; para que nos cortas? Em crian&ccedil;a amavas-nos e, como as borboletas,<br \/>\n    deixavas-te namorar das nossas cores vi&ccedil;osas e dos nossos aromas; ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute;ramos n&oacute;s as primeiras a inclinarmo-nos na tua passagem para<br \/>\n    te desafiar os afagos e para morrermos amadas; mas hoje &eacute; com fria<br \/>\n    indiferen&ccedil;a que nos procuras, que nos vens separar da haste para nos<br \/>\n    desfolhar sem d&oacute;, dilacerar-nos, sepultar-nos entre as folhas de um<br \/>\n    herb&aacute;rio, sem vida, sem perfumes, esqueleto do que fomos, p&aacute;lidas<br \/>\n    m&uacute;mias que ufanamente designais com um nome, s&oacute; de per si capaz<br \/>\n    de nos fazer murchar. Oh! tem piedade de n&oacute;s! Esta voz das plantas<br \/>\n    fez-me desgostar da bot&acirc;nica, que penso ser a ci&ecirc;ncia mais b&aacute;rbara<br \/>\n    que ainda inventaram homens.<\/p>\n<p> Um dia em que numa destas explora&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas chegara<br \/>\n    a vez das pobres maias de serem classificadas, a tal voz que eu escutei pareceu<br \/>\n    falar mais alto; a ponto que n&atilde;o pude resolver-me a despeda&ccedil;&aacute;-<br \/>\n    las para as classificar. Se eu as conhecia de crian&ccedil;a! Era quase um<br \/>\n    sacril&eacute;gio.<\/p>\n<p> Com este culto pelas flores em geral e esta afei&ccedil;&atilde;o pelas<br \/>\n    maias em particular, tinha eu ido passar ao campo os mais floridos meses do<br \/>\n    ano.<\/p>\n<p> Todos os dias o Sol, despontando por cima da crista dos outeiros, me encontrava<br \/>\n    sentado ou, mais rigorosamente, deitado nas pedras musgosas de um muro derrocado<br \/>\n    ou junto ao tronco meio carcomido de algum carvalho secular.<\/p>\n<p> Um frondoso e amen&iacute;ssimo vale seguia em sinuosidades por entre duas<br \/>\n    colinas, em cujas fraldas e encostas rompia uma vigorosa vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sovereiros e carvalhos e cujos cimos eram coroados pelas elegantes umbelas<br \/>\n    de pinheiros mansos que faziam lembrar uma vila napolitana. As arcadas de<br \/>\n    um extenso aqueduto avistavam-se ao longe e, atrav&eacute;s delas, descobria-se<br \/>\n    &agrave;quela hora um c&eacute;u sem nuvens apavonado pelos nascentes clar&otilde;es<br \/>\n    da luz oriental. Enchia as espessuras do vale e das encostas fronteiras um<br \/>\n    enxame de p&aacute;ssaros, cujos gorjeios se confundiam, combinavam, ou afrouxando,<br \/>\n    ou crescendo, e produzindo sempre a harmonia na disson&acirc;ncia, coisa que<br \/>\n    a arte julga um absurdo, mas que a natureza entende e realiza.<\/p>\n<p> Era no &uacute;ltimo dia de Abril. Flores em profus&atilde;o esmaltavam<br \/>\n    de variado matiz o fundo verde da relva.<\/p>\n<p> Havia lugares em que o campo tinha reflexos dourados, roxos azuis, de magn&iacute;ficos<br \/>\n    efeitos e l&aacute; estavam tamb&eacute;m dispersas pela colina e debru&ccedil;adas<br \/>\n    sobre o vale as minhas queridas flores das maias, todas alegres e festivas.<\/p>\n<p> Eu estava enfeiti&ccedil;ado com o que via. Todo me embevecia a seguir com<br \/>\n    a vista uma rosa que o vento desfolhara no rio e que, arrebatada pela corrente<br \/>\n    ia, bem longe da roseira que a produzira, exalar o &uacute;ltimo alento; outras<br \/>\n    vezes acompanhava a abelha no seu adejar de flor em flor ou o movimento da<br \/>\n    sombra da folhagem agitada projectando-se sobre a relva do ch&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>(N&atilde;o conclui).<\/b><\/p>\n<h2>PECADOS LITER&Aacute;RIOS<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Programa de um conto para os novos Ser&otilde;es da Prov&iacute;ncia.<\/b>\n  <\/p>\n<p>PAULO AM&Eacute;RICO encetou prematuramente a vida de escritor.<\/p>\n<p> Crian&ccedil;a ainda, j&aacute; firmava com o seu nome escritos de todo<br \/>\n    o g&eacute;nero. Perdeu cedo aquele virginal pudor que &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    salutar reserva para os escritores incipientes. Costumou-se ao p&uacute;blico,<br \/>\n    aos risos e zombarias de cr&iacute;ticos e j&aacute; o n&atilde;o magoavam<br \/>\n    os golpes com que o feriam, quando entrou na idade da adolesc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Imagina&ccedil;&atilde;o viva e espirito cultivado, Paulo Am&eacute;rico<br \/>\n    tornou-se um escritor distinto mas pouco simp&aacute;tico.<\/p>\n<p> A &uacute;nica fam&iacute;lia que conhecera fora um tio velho e ego&iacute;sta,<br \/>\n    que n&atilde;o lhe soubera semear no cora&ccedil;&atilde;o sentimentos ternos<br \/>\n    e nobres. N&atilde;o havia carinhos de mulher nas suas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de inf&acirc;ncia. De pequeno se familiarizou com o v&iacute;cio e aos vinte<br \/>\n    anos achava-se um desiludido.<\/p>\n<p> Assim, os seus livros eram eivados de cepticismo e desconsoadores.<\/p>\n<p> Romances &agrave; imita&ccedil;&atilde;o dos de uma certa escola francesa,<br \/>\n    em que o v&iacute;cio se adorna de galas sedutoras e a virtude &eacute; tratada<br \/>\n    com risos de zombaria, eram a sua produ&ccedil;&atilde;o favorita. A mocidade<br \/>\n    procurava- os com avidez, porque tinham para ela a sedu&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    v&iacute;cio.<\/p>\n<p> Paulo Am&eacute;rico tornou-se um escritor conhecido, lido clandestinamente<br \/>\n    selos filhos, temido e abominado pelos pais.<\/p>\n<p> Um dia chegou &agrave; cidade uma vi&uacute;va rica e muito requestada por<br \/>\n    os pretendentes a casamentos vantajosos, um dos quais era Paulo Am&eacute;rico.<\/p>\n<p> A vi&uacute;va manifestou por ele alguma predilec&ccedil;&atilde;o mas depressa<br \/>\n    o desiludiu, declarando-lhe que nunca tencionara casar-se segunda vez.<\/p>\n<p> Que a raz&atilde;o da simpatia que manifestava por ele, era a compaix&atilde;o<br \/>\n    que ele lhe inspirava. Paulo Am&eacute;rico pede-lhe a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    destas palavras e ela diz-lhe que, estudando-o e conhecendo as suas obras,<br \/>\n    n&atilde;o o supunha um c&iacute;nico, mas apenas um infeliz que nunca amara<br \/>\n    e que da&iacute; provinha o seu desespero. <\/p>\n<p>Paulo Am&eacute;rico concorda em parte e a vi&uacute;va, depois de v&aacute;rios<br \/>\n    conselhos, acaba por decidi-lo a ir passar algum tempo &agrave; terra dela<br \/>\n    na prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> Paulo Am&eacute;rico vai. A mudan&ccedil;a de h&aacute;bitos e de meio faz<br \/>\n    dele um outro homem e, tempos depois, apaixona-se por uma menina, filha de<br \/>\n    um facultativo pobre, casa burgu&ecirc;smente e prop&otilde;e-se sinceramente<br \/>\n    a realizar o tipo de marido de que tanto zombara.<\/p>\n<p> Escreveu ainda um romance de g&eacute;nero inteiramente oposto aos antecedentes,<br \/>\n    no que procurou esmerar-se como em nenhum. O p&uacute;blico por&eacute;m,<br \/>\n    repudiou-o, achando que o autor estava fora do seu g&eacute;nero.<\/p>\n<p> Isto desgostou Paulo Am&eacute;rico que nunca mais escreveu.<\/p>\n<p> Passaram-se anos e Paulo Am&eacute;rico teve uma filha cuja educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    absorvia todos os seus desvelos. A filha cresceu e era a mais formosa e ing&eacute;nua<br \/>\n    crian&ccedil;a que pode causar o enlevo de um pai. Paulo Am&eacute;rico era<br \/>\n    verdadeiramente feliz, quando um dia a filha o surpreende pedindo- lhe para<br \/>\n    ler os romances que ele publicara em tempo. Paulo Am&eacute;rico assusta-se.<br \/>\n    C&ocirc;nscio dos seus delitos, nunca falara a filha nas suas obras. Tremia<br \/>\n    s&oacute; de imaginar que os seus livros chegassem &agrave;s m&atilde;os da<br \/>\n    filha. Esta, por&eacute;m, ouvira a uma menina de Lisboa, que passara alguns<br \/>\n    dias na sua terra, falar deles e agora ansiava por l&ecirc;-los.<\/p>\n<p> Principiou uma verdadeira tortura para Paulo Am&eacute;rico, uma quase expia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Falou nisso &agrave; mulher e ambos procuraram desvanecer aquela ideia na<br \/>\n    filha.<\/p>\n<p> Um dia Paulo Am&eacute;rico entra no quarto da filha e v&ecirc; um livro<br \/>\n    em cima da banca; repara, era justamente o mais escandaloso dos seus romances.<br \/>\n    O pobre pai tem quase uma s&iacute;ncope. A mulher acode e faz-lhe ver que<br \/>\n    o livro est&aacute; ainda por abrir. Informando-se, soube que a filha ainda<br \/>\n    n&atilde;o o vira e que o livro tinha chegado momentos antes remetido pela<br \/>\n    menina de Lisboa. &Eacute; subtra&iacute;do o livro juntamente com um bilhete<br \/>\n    em que lho anunciavam como o melhor do pai. A m&atilde;e tem a lembran&ccedil;a<br \/>\n    de o substituir pelo &uacute;ltimo romance, &uacute;nico honesto, que publicou<br \/>\n    Paulo Am&eacute;rico e deste modo a filha p&ocirc;de ler um livro do pai,<br \/>\n    sem perigo para a reputa&ccedil;&atilde;o paterna.<\/p>\n<h2>UM RET&Aacute;BULO DE ALDEIA<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Programa de um conto para os novos Ser&otilde;es da Prov&iacute;ncia.<\/b><\/p>\n<p>(I) Uma irmandade ou confraria de certa par&oacute;quia rural, procurando<br \/>\n    dar aplica&ccedil;&atilde;o ao dinheiro que tinha em cofre, convoca assembleia<br \/>\n    para se discutir o assunto. Aventam-se v&aacute;rios e desencontrados alvitres<br \/>\n    e afinal resolve-se mandar pintar &agrave; cidade um ret&aacute;bulo para<br \/>\n    o altar da santa sob cuja invoca&ccedil;&atilde;o se erigiu a irmandade.<\/p>\n<p> (II) Os mordomos dirigem-se para esse fim a um propriet&aacute;rio da localidade<br \/>\n    que, passando metade do ano em Lisboa, estava no caso de melhor do que eles<br \/>\n    arranjar artista para a execu&ccedil;&atilde;o da obra. Assim se fez. O propriet&aacute;rio<br \/>\n    escreve a um rapaz seu amigo, disc&iacute;pulo da Escola de Belas-Artes, para<br \/>\n    se encarregar da pintura do ret&aacute;bulo e, tendo de partir para o estrangeiro,<br \/>\n    oferece ao amigo a sua casa na aldeia para lhe servir de atelier.<\/p>\n<p> (III) O artista aceita, encantado com a perspectiva do tempo delicioso que<br \/>\n    vai passar no campo e ao mesmo tempo orgulhoso de encontrar finalmente uma<br \/>\n    tela, uma obra de mais f&ocirc;lego do que os retratos de burgueses a cuja<br \/>\n    confec&ccedil;&atilde;o se via constrangido a aplicar os seus talentos.<\/p>\n<p> (IV) Parte para a aldeia. Aloja-se na casa senhorial que o amigo deixou<br \/>\n    vaga &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o. Toma as medidas da obra, estuda<br \/>\n    a luz e procura informar-se da hist&oacute;ria da santa.<\/p>\n<p> (V) Contam-lhe a lenda respectiva.<\/p>\n<p> (VI) O artista percorre, solit&aacute;rio, os montes da aldeia, &agrave;<br \/>\n    procura de inspira&ccedil;&atilde;o. O povo principia a not&aacute;-lo e a<br \/>\n    desconfiar dos seus modos.<\/p>\n<p> A inspira&ccedil;&atilde;o chegou. A santa fora pastora e o artista, um<br \/>\n    dia, depara com uma linda serrana adormecida sobre uns pitorescos rochedos<br \/>\n    e rodeada de numeroso gado. V&ecirc; realizado o tipo que se esfor&ccedil;ara<br \/>\n    por conceber. Ali mesmo o esbo&ccedil;a rapidamente e sente que venceu a primeira<br \/>\n    dificuldade da obra.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; O rec&eacute;m-chegado responde com a primeira<br \/>\n    copla da x&aacute;cara de Claralinda.<\/p>\n<p> Uma voz parece contest&aacute;-lo cantando a segunda. &Eacute; de um outro<br \/>\n    cavaleiro que chega em trajos de viagem, inculcando ter caminhado muito. Os<br \/>\n    primeiros interrogam-no. O rec&eacute;m-chegado &eacute; novo ainda, alegre<br \/>\n    e descuidado. Responde que chegou h&aacute; pouco de Paris, onde seguiu o<br \/>\n    estudo da medicina, que &eacute; nascido em &Eacute;vora e que vem para viver<br \/>\n    na corte. Que sabendo em Lisboa que ela estava em Almeirim, para ali se dirigia,<br \/>\n    por&eacute;m que o seu cavalo precisa de pronto socorro, raz&atilde;o pela<br \/>\n    qual ele n&atilde;o passar&aacute; mais al&eacute;m de uma pequena taberna,<br \/>\n    que avista dali, sem recuperar novas for&ccedil;as. Com mais algumas palavras<br \/>\n    afastam-se, os primeiros em direc&ccedil;&atilde;o a Almeirim e o &uacute;ltimo<br \/>\n    na da taberna.<\/p>\n<p> Apesar das fortes pancadas que o fatigado cavaleiro descarrega na porta<br \/>\n    da taberna, esta n&atilde;o se abre logo. Porfiando, aparece-lhe uma gorda<br \/>\n    personagem de fartos bigodes e aspecto marcial que, em portugu&ecirc;s, com<br \/>\n    ressaibos de castelhano, lhe pergunta rudemente o que quer. &#8212; Repouso<br \/>\n    e comida para mim e para o meu cavalo. &#8212; O estalajadeiro fez uma visagem<br \/>\n    como se o requerimento o lan&ccedil;asse em dificuldades imprevistas. A taberna<br \/>\n    parece estar inteiramente desprovida do necess&aacute;rio. O cavaleiro, Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora, estranha o seu hospedeiro e a singularidade da recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o tinham chegado a um acordo quando subitamente entrou na<br \/>\n    taberna um embu&ccedil;ado, em vestidos de paisano, que n&atilde;o reparando<br \/>\n    em Jo&atilde;o de &Eacute;vora, rompe em exclama&ccedil;&otilde;es contra<br \/>\n    o rei e a corte de Portugal e Castela e lamenta apaixonadamente a Excelente<br \/>\n    Senhora, a quem se mostra devotado do fundo de alma. O estalajadeiro faz-lhe<br \/>\n    sinais que ele n&atilde;o compreende at&eacute; que por acaso repara em Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora. Surpreende-se e instintivamente leva a m&atilde;o &agrave;<br \/>\n    adaga. Jo&atilde;o de &Eacute;vora procura tranquiliz&aacute;-lo e inspirar-lhe<br \/>\n    confian&ccedil;a, dizendo que tem vivido fora de Portugal e que &eacute; inteiramente<br \/>\n    alheio aos neg&oacute;cios pol&iacute;ticos, que n&atilde;o compreendera o<br \/>\n    segredo que pressentira, nem, que o compreendesse, era de &acirc;nimo a abusar<br \/>\n    dele. &#8226; O espanhol retira-se um pouco mais tranquilo para mudar de trajo.<\/p>\n<p> Rompe a tempestade e uma chuva diluviai. Quando o fingido estalajadeiro<br \/>\n    vai fechar a porta, uma nova personagem entra na taberna fugindo &agrave;<br \/>\n    chuva. Descobre-se e Jo&atilde;o de &Eacute;vora e ele acham-se conhecidos.<\/p>\n<p> Dois anos antes o rec&eacute;m-chegado, agora oficial da casa do Duque de<br \/>\n    Beja, D. Manuel, tinha ido a Paris fazendo parte da embaixada mandada por<br \/>\n    D. Jo&atilde;o II a Carlos VIII por causa da pris&atilde;o de Maximiliano<br \/>\n    em Bruges. Foi l&aacute; que tomou conhecimento e amizade com Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora, ent&atilde;o estudante.<\/p>\n<p> O desconhecido espanhol volta, j&aacute; vestido de cavaleiro e por sua<br \/>\n    vez Filipe do Casal (o rec&eacute;m-chegado) o reconhece e mostra estar ao<br \/>\n    facto do segredo dele. O espanhol afecta-se contrariado por ver as rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de intimidade de Filipe e Jo&atilde;o de &Eacute;vora. Filipe tranquiliza-c<br \/>\n    relativamente&#8217; ao car&aacute;cter do seu amigo e o fidalgo castelhano resolve-se<br \/>\n    a ser franco. Confessa que vive na corte, onde procura desviar de si todas<br \/>\n    as suspeitas, mas que &eacute; um dos &uacute;ltimos e fi&eacute;is partid&aacute;rios<br \/>\n    da causa da infeliz D. Joana de Castela e que jurou empregar todos os esfor&ccedil;os<br \/>\n    para a tirar da clausura em que vive encerrada, Para isso faz visitas frequentes<br \/>\n    ao convento sob disfarce e, para n&atilde;o atrair suspeitas, tomou esta pequena<br \/>\n    casa isolada onde se disfar&ccedil;a, encarregando o seu criado fiel D. Manrique<br \/>\n    Pantalon, do papel de taberneiro. Foi no convento de Santar&eacute;m que Filipe,<br \/>\n    que tinha l&aacute; uma parente, chegara a descobrir D. Pedro Aires ser o<br \/>\n    burgu&ecirc;s disfar&ccedil;ado e o seu segredo.<\/p>\n<p> Filipe procura convencer D. Pedro da loucura dos seus projectos, mas encontra<br \/>\n    nele um paladino de antigos tempos pronto a desafiar o poder reunido de Portugal<br \/>\n    e Castela em favor da dama de quem traz a divisa.<\/p>\n<p> D. Pedro retira-se deixando a casa aos dois amigos que por algum tempo continuam<br \/>\n    as suas confer&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o de &Eacute;vora admira a dedica&ccedil;&atilde;o do castelhano.<br \/>\n    Filipe observa, sorrindo, que ali h&aacute; um pouco de amor tamb&eacute;m.<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora espanta- se da loucura daquele amor e, &agrave;s<br \/>\n    observa&ccedil;&otilde;es de Filipe de que os h&aacute; mais loucos e mais<br \/>\n    fatais, descobre que o seu amigo est&aacute; apaixonado e convida-o &agrave;<br \/>\n    confid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Filipe conta-lhe que tendo sido h&aacute; pouco tempo enviado a Castela<br \/>\n    por neg&oacute;cios do Duque D. Manuel salvara por acaso da persegui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Inquisi&ccedil;&atilde;o a velha mulher e a filha de um c&eacute;lebre<br \/>\n    judeu que fora queimado dias antes em Sevilha. Ao princ&iacute;pio a compaix&atilde;o<br \/>\n    e mais tarde um amor nascente pela judia levaram-no a prometer-lhes conduzi-<br \/>\n    la a um porto de onde pudessem procurar um asilo seguro. Chegando a Portugal,<br \/>\n    para onde tinham vindo j&aacute; avisos de Castela e fazendo- se aqui, desde<br \/>\n    1485, severa inquiri&ccedil;&atilde;o e justi&ccedil;a sobre os judeus refugiados<br \/>\n    de Espanha, que fossem mais culpados de heresias, foi-lhe mister todo o recato<br \/>\n    para n&atilde;o atrair suspeitas. Apenas confiou este segredo a D. Manuel<br \/>\n    e enquanto preparava ama embarca&ccedil;&atilde;o em Lisboa para transportar<br \/>\n    as fugitivas, abrigara-se numa pobre casa de um pescador de Alfange onde a<br \/>\n    bela judia, sob o nome de Clara, passava por amante clandestina de um alto<br \/>\n    senhor da corte &#8212; insinua&ccedil;&atilde;o que teve de fazer entrever<br \/>\n    ao pescador para lhe vencer os escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p> Agora confessava Filipe que nas v&eacute;speras de as ver partir hesitava<br \/>\n    e que a sua paix&atilde;o crescera a ponto que n&atilde;o podia afirmar que,<br \/>\n    se Ester lhe confessasse am&aacute;-lo como ele a amava a ela, n&atilde;o<br \/>\n    fugiria tamb&eacute;m do reino, confiando-se &agrave;s cegas &agrave;quele<br \/>\n    amor e ao seu destino.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o de &Eacute;vora procura combater-lhe aquela paix&atilde;o, mas<br \/>\n    encontrou o seu amigo profundamente possu&iacute;do por ela. Nisto ouvem um<br \/>\n    estr&eacute;pito de cavalos que passam.<\/p>\n<p> No entretanto a tempestade serena, a noite &eacute; j&aacute; adiantada<br \/>\n    e Filipe .prop&otilde;e a Jo&atilde;o de &Eacute;vora que o acompanhe a casa<br \/>\n    de Ester. Jo&atilde;o de &Eacute;vora aceita e partem.<\/p>\n<p>Chegam a casa do pescador. Tudo &eacute; silencioso. A porta est&aacute;<br \/>\n    aberta e dentro tudo &eacute; escuridade. Apenas algumas brasas no lar.<\/p>\n<p> Filipe chama por Ester e ningu&eacute;m lhe responde. Chama por D&eacute;bora,<br \/>\n    a velha judia. Uma voz seca e severa responde desta vez. Ao mesmo tempo o<br \/>\n    fogo do lar ateia-se em alguma lenha ainda n&atilde;o queimada e alumia de<br \/>\n    uma luz amarela o recinto. A velha mulher est&aacute; acocorada junto ao lar<br \/>\n    com os cotovelos apoiados nos joelhos e a barba nas m&atilde;os. H&aacute;<br \/>\n    no olhar dela um fulgor sinistro.<\/p>\n<p> Filipe pergunta por Ester. &#8212; Partiu &#8212; responde a velha. Pergunta-<br \/>\n    lhe para onde e como partira. &#8212; Para a perdi&ccedil;&atilde;o e nos<br \/>\n    bra&ccedil;os do seu amante.<\/p>\n<p> Durante a tempestade Ester havia abandonado a casa e a m&atilde;e para fugir<br \/>\n    com um jovem cavaleiro que a requestara e por quem ela se apaixonara a ponto<br \/>\n    de n&atilde;o poder deixar Portugal como Filipe combinara.<\/p>\n<p> Filipe desespera-se, blasfema, chora e jura vingar-se. A velha parece insens&iacute;vel<br \/>\n    e lan&ccedil;a-lhe em rosto a fraqueza, afirmando-lhe que a vingan&ccedil;a<br \/>\n    de Deus correr&aacute; atr&aacute;s deles. Passado ternpo Filipe aconselha-<br \/>\n    lhe que fuja, que ele procurar&aacute; a filha. Ela recusa e diz que n&atilde;o<br \/>\n    deixar&aacute; aquele lugar, pois ali espera a filha culpada e o seu roubador<br \/>\n    porque a vingan&ccedil;a de Deus lhos trar&aacute; ali, mortos ou vivos, e<br \/>\n    que, s&oacute; ent&atilde;o, abandonar&aacute; esta terra.<\/p>\n<p> Filipe exorta-a debalde. Ela diz-lhe que n&atilde;o procure a filha, que<br \/>\n    &eacute; in&uacute;til o esfor&ccedil;o. Espera que a vingan&ccedil;a de Deus<br \/>\n    a trar&aacute;. Imposs&iacute;vel demov&ecirc;-la desta resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Filipe n&atilde;o sabe que partido seguir. Jo&atilde;o de &Eacute;vora,<br \/>\n    combinando este acontecimento com o que ouvira aos da cavalgada com quem se<br \/>\n    encontrara, insinua a Filipe que Ester fora raptada por pessoas da corte e<br \/>\n    que l&aacute; a encontrar&aacute;. Filipe prop&otilde;e-se a seguir para Almeirim<br \/>\n    mas pede a Jo&atilde;o de &Eacute;vora que v&aacute; a Lisboa para ver se<br \/>\n    descobre os fugitivos e ao mesmo tempo para dar aviso contr&aacute;rio ao<br \/>\n    barco que destinara &agrave; fugida das israelitas. Jo&atilde;o de &Eacute;vora<br \/>\n    condescende e combinando encontrarem-se em &Eacute;vora, separam-se.<\/p>\n<p> <b>Termina o pr&oacute;logo.<\/b><\/p>\n<p> Passaram-se alguns dias. A corte est&aacute; toda em &Eacute;vora. Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora, de volta da sua comiss&atilde;o, entra pela primeira vez,<br \/>\n    depois que dali saiu crian&ccedil;a, na sua cidade natal. &Eacute; noite;<br \/>\n    depois de errar ao acaso pelas ruas estreitas e escuras, p&aacute;ra em uma<br \/>\n    taberna onde abundam os grupos populares e entra para descansar. A conversa<br \/>\n    corre animada.<\/p>\n<p>Fala-se em neg&oacute;cios da corte; respiram-se mal extintos &oacute;dios<br \/>\n    contra Castela, mas com desejos de paz. Supersti&ccedil;&otilde;es, alvoro&ccedil;os<br \/>\n    pelas festas pr&oacute;ximas e amor pelo rei, do qual se referem v&aacute;rias<br \/>\n    anedotas. Murmura- se da nobreza, cujos excessos no &uacute;ltimo reinado<br \/>\n    se referem.<\/p>\n<p> Contam-se vagamente os casos dos Duques de Bragan&ccedil;a e Viseu. Uma<br \/>\n    personagem que parecia de autoridade entre os do grupo, fixa atentamente Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora e dirige-lhe a palavra. Jo&atilde;o de &Eacute;vora entra<br \/>\n    na conversa e granjeia simpatias pelo que conta de Paris. Este interlocutor<br \/>\n    e Jo&atilde;o de &Eacute;vora ficam s&oacute;s depois que os populares se<br \/>\n    retiram.<\/p>\n<p> Tomado de s&uacute;bita afei&ccedil;&atilde;o por Jo&atilde;o de &Eacute;vora,<br \/>\n    o seu rec&eacute;m-conhecido oferece-lhe o seu valimento no Pa&ccedil;o, onde<br \/>\n    ele &eacute; benquisto por S. A. e conta-lhe a origem deste valimento: Em<br \/>\n    1475, no ano do casamento de D. Jo&atilde;o II, era este homem, que se chama<br \/>\n    Vaz Gil, escudeiro de um fidalgo de &Eacute;vora, que se apaixonara por uma<br \/>\n    mulher da burguesia de extraordin&aacute;ria beleza mas que debalde requestava.<br \/>\n    Esta mulher principiou a ser requestada tamb&eacute;m por muita gente da corte<br \/>\n    e tamb&eacute;m pelo pr&oacute;prio D. Jo&atilde;o, ent&atilde;o pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    ao qual ela afinal cedeu, recebendo-o muita vez de noite em sua casa. O amo<br \/>\n    de Vaz Gil, sabendo das visitas nocturnas a Margarida, reuniu uma noite com<br \/>\n    ele, Vaz Gil e outro escudeiro, homem de prodigiosa for&ccedil;a, e postos<br \/>\n    de emboscada, esperaram o visitador nocturno. Vaz Gil ignorava a jerarquia<br \/>\n    do homem que estavam esperando.<\/p>\n<p> Noite alta, chegaram tr&ecirc;s embu&ccedil;ados e a luta travou-se. Vaz<br \/>\n    Gil fez o que p&ocirc;de, mas foi rudemente mimoseado com um enorme golpe<br \/>\n    que, por pouco, lhe decepava uma orelha. Caiu sem sentidos e n&atilde;o soube,<br \/>\n    sen&atilde;o depois, que os seus companheiros, mais felizes, tinham fugido<br \/>\n    &agrave; aproxima&ccedil;&atilde;o dos guardas e que, passados dias, haviam<br \/>\n    desaparecido de &Eacute;vora.<\/p>\n<p> Mestre Ant&oacute;nio, f&iacute;sico do Pa&ccedil;o, ent&atilde;o judeu,<br \/>\n    mas que anos depois veio a receber o baptismo, sendo o rei padrinho e servindo-lhe<br \/>\n    de toalha a pr&oacute;pria manga da camisa real, obedecendo &agrave;s ordens<br \/>\n    de D. Jo&atilde;o, que a todos os f&iacute;sicos ordenara que lhe dessem parte<br \/>\n    de quantos feridos de espada tratassem naqueles dias, denunciou Vaz Gil, a<br \/>\n    quem D. Jo&atilde;o mandou chamar e, em vez de o castigar, revelou- se-lhe<br \/>\n    como o advers&aacute;rio da v&eacute;spera e recebeu-o como oficial da sua<br \/>\n    casa, contentando-se apenas em o alcunhar pela enorme cicatriz aberta pela<br \/>\n    espada do rei e, invertendo-lhe os dois nomes do seu apelido &#8212; Vaz Gil<br \/>\n    de Gilvaz. Desde ent&atilde;o gozava Vaz Gil do seu emprego e das boas gra&ccedil;as<br \/>\n    de S. A. e nunca mais ouvira falar do amo, da rapariga, nem dos seus companheiros<br \/>\n    da briga.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o de &Eacute;vora agradece e aceita o oferecimento de Vaz Gil<br \/>\n    e combina encontrar-se com ele no dia seguinte de manh&atilde;, ali mesmo<br \/>\n    na taberna, para ser introduzido na corte, sob os ausp&iacute;cios de t&atilde;o<br \/>\n    valente personagem. Pede-lhe instru&ccedil;&otilde;es para atinar com o convento<br \/>\n    de Santa Maria do Espinheiro, onde &eacute; esperado por um parente seu, e<br \/>\n    os dois separam-se em cordial amizade.<\/p>\n<p><b>(Note-se que as portas fecham-se e Santa Maria est\u00e1 fora dos muros)<\/b><\/p>\n<p>Jo&atilde;o de &Eacute;vora &eacute; recebido em Santa Maria do Espinheiro<br \/>\n    por Frei Domingos, homem de quem recebia todos os recursos de vida e de educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O frade mostra prazer em v&ecirc;-lo, mas apesar das boas palavras que lhe<br \/>\n    dirige, h&aacute; pouco de afectuoso na voz e na express&atilde;o desse homem.<br \/>\n    Durante a ceia com que recebe o jovem doutor e a que este faz a devida honra,<br \/>\n    o frade deixa entrever-lhe a ideia de que alguma coisa tem a exigir dele em<br \/>\n    troca de tantos servi&ccedil;os prestados.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o de &Eacute;vora conserva no di&aacute;logo uma leviandade que<br \/>\n    exaspera o frade. O frade principia a dar as raz&otilde;es que o levaram a<br \/>\n    fazer seguir Jo&atilde;o de &Eacute;vora a carreira da medicina e associa<br \/>\n    esta resolu&ccedil;&atilde;o a vagos pensamentos de vingan&ccedil;a, que excitam<br \/>\n    a desconfian&ccedil;a de Jo&atilde;o de &Eacute;vora, o qual lhe afirma nunca<br \/>\n    abusar&aacute; da sua profiss&atilde;o para fins menos honrosos. O frade ridiculariza<br \/>\n    as ideias de pundonor e Jo&atilde;o de &Eacute;vora come&ccedil;a a achar<br \/>\n    no frade um ar e express&atilde;o diab&oacute;licos e francamente lho declara,<br \/>\n    O frade transige a princ&iacute;pio, mas quando por suas explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora parece mais tranquilo, volta de novo &agrave;<br \/>\n    quest&atilde;o e afirma a Jo&atilde;o de &Eacute;vora que ele tem uma hist&oacute;ria<br \/>\n    que deveria procurar saber e que exige uma vingan&ccedil;a. Que a m&atilde;e<br \/>\n    dele fora v&iacute;tima de um homem que a lan&ccedil;ou na mis&eacute;ria<br \/>\n    e na inf&acirc;mia e que perseguiu sem piedade todos os membros da sua fam&iacute;lia.<br \/>\n    E esse homem ainda vive. Jo&atilde;o de &Eacute;vora pergunta-lhe por que<br \/>\n    o n&atilde;o fez cavaleiro para que pedisse raz&atilde;o no campo a esse homem.<br \/>\n    O frade responde que era imposs&iacute;vel atingi-lo em salto de le&atilde;o<br \/>\n    e s&oacute; em meneios de serpente. Jo&atilde;o de &Eacute;vora declara francamente<br \/>\n    a sua repugn&acirc;ncia por vingan&ccedil;as dessa ordem. Frei Domingos responde-lhe<br \/>\n    ironicamente, que &eacute; melhor aceitar a desonra e a mis&eacute;ria da<br \/>\n    m&atilde;e e reprimir o impulso de filho pundonoroso que lhe reclama a vingan&ccedil;a.<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora pergunta-lhe se sua m&atilde;e ainda existe. O<br \/>\n    frade afirma-lho mas assegura-lhe que nunca ele lhe revelar&aacute; o nome,<br \/>\n    sem que primeiro tenha jurado solenemente ving&aacute;-la. Jo&atilde;o de<br \/>\n    &Eacute;vora hesita porque lhe repugna o papel de trai&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    o frade lhe destina. Depois de alguns momentos de luta, o frade concede-lhe<br \/>\n    tempo para decidir e deixa-o. Jo&atilde;o de &Eacute;vora adormece e o frade,<br \/>\n    vendo-o adormecido, observa-o com desprezo e censura o seu car&aacute;cter<br \/>\n    que ele alcunha de covarde. Em seguida encaminha-se para a cela do prior.<\/p>\n<p>O prior do convento era um antigo partid&aacute;rio do Duque de Bragan&ccedil;a<br \/>\n    e mais ainda do Cardeal de Alpedrinha, neste tempo em grande valimento em<br \/>\n    Roma; apoiara deveras as lucubra&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas do duque<br \/>\n    chegando a fazer da sua cela o lugar do concili&aacute;bulo dos nobres, mas,<br \/>\n    como pol&iacute;tico que era, n&atilde;o concedera confian&ccedil;a nem aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; malograda e louca empresa do Duque de Viseu, &agrave; qual o astuto<br \/>\n    amigo do Cardeal D. Jorge n&atilde;o viu alcance pol&iacute;tico. A entrevista<br \/>\n    de Frei Domingos com o prior &eacute; toda pol&iacute;tica. Frei Domingos<br \/>\n    procura ressuscitar o partido da alta nobreza, ferido de morte nas pessoas<br \/>\n    dos seus mais poderosos representantes. O prior pondera-lhe a inanidade destes<br \/>\n    projectos. Recorda-lhe a pr&oacute;xima alian&ccedil;a de Castela e Portugal,<br \/>\n    que vem destruir o antigo elemento em que se firmara o Duque de Bragan&ccedil;a.<br \/>\n    Refere-se &agrave; pouca import&acirc;ncia dos actuais nobres, uns devotados<br \/>\n    ao rei que os exaltou, outros incapazes de qualquer ac&ccedil;&atilde;o por<br \/>\n    covardia e falta de chefe. Frei Domingos lembra D. Manuel. O prior responde<br \/>\n    que o mais conveniente &eacute; lan&ccedil;ar sobre outros fundamentos os<br \/>\n    projectos de resist&ecirc;ncia. Que a ocasi&atilde;o das revolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    declaradas passou. A decad&ecirc;ncia da nobreza feudal n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    obra de D. Jo&atilde;o II; e obra do tempo. A classe m&eacute;dia julga que<br \/>\n    a queda do feudalismo &eacute; j&aacute; a aurora de um dia de gl&oacute;ria.<br \/>\n    O principal &eacute; fazer-lhe mentida a esperan&ccedil;a, deixar cair o feudalismo<br \/>\n    mas evitar que o municipalismo lhe venha ocupar o lugar. Para isso, &eacute;<br \/>\n    procurar dominar a realeza, sendo a ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para o<br \/>\n    clero dominar.<\/p>\n<p> Estava a declinar o reinado actual. Precisava-se de paci&ecirc;ncia para<br \/>\n    contemporizar e ir fazendo a sementeira para o reinado futuro. D. Afonso era<br \/>\n    um &acirc;nimo fraco e f&aacute;cil de vencer. Convinha segur&aacute;-lo.<br \/>\n    D. Manuel, personagem de influ&ecirc;ncia, que bem podia tomar um dia o caminho<br \/>\n    do trono, era tamb&eacute;m uma presa que se n&atilde;o devia perder de vista.<\/p>\n<p> A grande influ&ecirc;ncia do cardeal em Roma, o aumento de poder que ia<br \/>\n    cada vez mais tomando a inquisi&ccedil;&atilde;o, preparavam o terreno.<\/p>\n<p> Frei Domingos, lembrou se n&atilde;o conviria antecipar os acontecimentos<br \/>\n    apressando o reinado do fraco. O prior, como prudente, iludiu a pergunta e<br \/>\n    recomendou a Frei Domingos que, como director espiritual de Justa Rodrigues,<br \/>\n    ama de D. Manuel, procurasse dominar o esp&iacute;rito do duque. Frei Domingos<br \/>\n    aludiu, sorrindo, &agrave;s inclina&ccedil;&otilde;es do duque para a corte<br \/>\n    de Castela e em especialidade para algu&eacute;m dessa corte que em breve<br \/>\n    estaria em Portugal (primeira alus&atilde;o &agrave; paix&atilde;o de D. Manuel<br \/>\n    pela infanta D. Isabel). O prior acolheu com um sorriso favor&aacute;vel a<br \/>\n    alus&atilde;o e aconselhou que se n&atilde;o perdesse de vista e, por sua<br \/>\n    vez, d&aacute; informa&ccedil;&otilde;es sobre o car&aacute;cter fan&aacute;tico<br \/>\n    da infanta. O frade retira-se da cela do prior e, a s&oacute;s, mostra um<br \/>\n    soberano desprezo por todas estas vistas pol&iacute;ticas, das quais ele procura<br \/>\n    servir-se como instrumentos da sua vingan&ccedil;a particular.<\/p>\n<p>No dia seguinte ergue-se Jo&atilde;o de &Eacute;vora, ainda preocupado pela<br \/>\n    conversa&ccedil;&atilde;o que tivera com o frade na v&eacute;spera, mas, por<br \/>\n    disposi&ccedil;&atilde;o natural, resolvido a distrair-se, toma o caminho<br \/>\n    da cidade para comparecer no lugar marcado a Gil Vaz. No entretanto n&atilde;o<br \/>\n    adopta resolu&ccedil;&atilde;o alguma enquanto &agrave; proposta do frade.<\/p>\n<p> Meio distra&iacute;do, acha-se &agrave; porta da S&eacute; (ou S. Francisco)<br \/>\n    onde entra a fazer ora&ccedil;&atilde;o. Impress&otilde;es que recebe no interior<br \/>\n    deste templo. Ora com fervor para que Deus decida na sua consci&ecirc;ncia<br \/>\n    a luta que as palavras do frade nela despertaram e lhe mande a inspira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    No momento em que est&aacute; ajoelhado, passam por ele Marta e D. Briolanja.<\/p>\n<p> Sensa&ccedil;&atilde;o que lhe causa Marta e o sentido misterioso que liga<br \/>\n    &agrave;s palavras que ela ia dizendo a sua tia. Levanta-se, segue-a at&eacute;<br \/>\n    &agrave; porta e avan&ccedil;a, colocando-se de lado para a ver passar. Marta<br \/>\n    repara no ardor com que ele a fita e baixa os olhos. Afagos de Marta a uma<br \/>\n    crian&ccedil;a pobre. Jo&atilde;o de &Eacute;vora, obedecendo a um impulso<br \/>\n    irresist&iacute;vel, cobre de beijos a crian&ccedil;a que Marta afagara. Confus&atilde;o<br \/>\n    de Marta. Jo&atilde;o de &Eacute;vora prop&otilde;e-se segui-la. Nisto dobram<br \/>\n    a esquina tr&ecirc;s cavaleiros que cortejam Marta, descendo um do estribo<br \/>\n    para lhe falar. Jo&atilde;o de &Eacute;vora fita-o com despeito, que n&atilde;o<br \/>\n    passa despercebido pelos dois outros cavaleiros, que se sorriem e comunicam<br \/>\n    entre si. Quando Marta continua o seu caminho, Jo&atilde;o de &Eacute;vora,<br \/>\n    que a vai seguir, &eacute; impedido pelos tr&ecirc;s cavaleiros, um dos quais<br \/>\n    o interroga impertinentemente (era o que falara a Marta). Jo&atilde;o de &Eacute;vora<br \/>\n    responde-lhe com soberba, dizendo-lhe que &laquo;as cabe&ccedil;as dos vil&otilde;es<br \/>\n    andam mais elevadas desde que principiaram a rolar pelos cadafalsos e nos<br \/>\n    desv&atilde;os de janelas as dos fidalgos e cavaleiros&raquo;. Esta alus&atilde;o<br \/>\n    ao supl&iacute;cio do Duque de Bragan&ccedil;a e assass&iacute;nio do Duque<br \/>\n    de Viseu, fez empalidecer o cavaleiro aparentemente mais mo&ccedil;o, enquanto<br \/>\n    que um dos outros levou com &iacute;mpeto a m&atilde;o &agrave; espada e correu<br \/>\n    para Jo&atilde;o de &Eacute;vora. Aquele, que parecia exercer alguma autoridade<br \/>\n    nos outros dois, sust&eacute;m-no e murmura-lhe algumas palavras ao ouvido,<br \/>\n    fitando em Jo&atilde;o de &Eacute;vora um olhar de orgulho soberano. Neste<br \/>\n    momento desembocava de uma outra rua uma guarda de ginetes comandada por Fern&atilde;o<br \/>\n    Martim Mascarenhas, o qual fez respeitosa cortesia aos tr&ecirc;s cavaleiros.<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora, ainda na posi&ccedil;&atilde;o defensiva que<br \/>\n    o gesto do fidalgo lhe fizera tomar, saiu da sua abstrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; voz de um homem que lhe falava da porta de uma casa junto da qual<br \/>\n    se ia dando o conflito. Este homem aconselhava-lhe se aproveitasse da distrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ocorrida para sair do campo que a sua imprud&ecirc;ncia lhe tinha tornado<br \/>\n    perigoso. Jo&atilde;o de &Eacute;vora reconhece no monitor Andr&eacute; Girarte,<br \/>\n    o taberneiro da v&eacute;spera. Interroga-o sobre o sentido das suas palavras<br \/>\n    e dele sabe que dos tr&ecirc;s cavaleiros, um &eacute; o Duque de Beja, D.<br \/>\n    Manuel, irm&atilde;o do Duque de Viseu, assassinado pelo rei em Set&uacute;bal,<br \/>\n    os outros, D. Jo&atilde;o e D. Nuno Manuel, filhos de Justa Rodrigues, a ama<br \/>\n    de D. Manuel e ambos &iacute;ntimos do duque.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o de &Eacute;vora segue o aviso de Girarte e entra na taberna,<br \/>\n    a qual era de mais a mais o ponto de reuni&atilde;o marcado por Gil Vaz. Este<br \/>\n    n&atilde;o se fez esperar e, alegando para desculpa da demora de alguns minutos<br \/>\n    as suas ocupa&ccedil;&otilde;es no Pa&ccedil;o, onde a proximidade das festas<br \/>\n    do casamento do pr&iacute;ncipe traz tudo atarefado, p&otilde;e-se &agrave;<br \/>\n    disposi&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o de &Eacute;vora para o servir na sua<br \/>\n    introdu&ccedil;&atilde;o na corte. Jo&atilde;o de &Eacute;vora em v&atilde;o<br \/>\n    procura saber dele quem seja a desconhecida da S&eacute;; as suas indica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    bastante vagas, a nada conduzem o esp&iacute;rito pregui&ccedil;oso de Gil<br \/>\n    Vaz.<\/p>\n<p>Gil Vaz entra com Jo&atilde;o de &Eacute;vora no Pa&ccedil;o. Grande movimento<br \/>\n    de pajens e cavaleiros nos corredores e antec&acirc;maras. Impress&otilde;es<br \/>\n    de Jo&atilde;o de &Eacute;vora. Gil Vaz serve-lhe de cicerone, mas Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora vai sus peitando que a sua import&acirc;ncia na corte n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o grande como ele dava a entender. Afinal Gil Vaz aproximou-se<br \/>\n    de um pajem muito mo&ccedil;o e de aspecto agrad&aacute;vel e maneiras corteses<br \/>\n    e procurou servir-se do seu interm&eacute;dio para abrir a Jo&atilde;o de<br \/>\n    &Eacute;vora o acesso do gabinete real.<\/p>\n<p> Este pajem &eacute; Garcia de Resende, ent&atilde;o mo&ccedil;o de c&acirc;mara<br \/>\n    do rei. Garcia de Resende manifestou a opini&atilde;o de que seria dif&iacute;cil<br \/>\n    naquele dia receber audi&ecirc;ncia, porquanto o rei est&aacute; muito ocupado.<br \/>\n    Que est&aacute; tratando com Martinho de Castelo Branco e Henrique de Figueiredo<br \/>\n    dos grandes preparativos da festa, dos quais Garcia fala com volubilidade<br \/>\n    de pajem e entusiasmo de mancebo e que al&eacute;m disso tinham vindo noticias<br \/>\n    de Aveiro de que a infanta D. Joana estava mui gravemente doente e que por<br \/>\n    isso S. A. tencionava ouvir em seguida mestre Ant&oacute;nio para irem v&ecirc;-la<br \/>\n    ao convento alguns dos m&eacute;dicos da corte. Que depois tinha o rei de<br \/>\n    conferenciar com o seu conselho a respeito de neg&oacute;cios de &Aacute;frica,<br \/>\n    dizendo-se que se tratava de tomar Targa e Camice, sendo a empresa confiada<br \/>\n    a D. Fernando de Meneses. Gil Vaz perguntou se mestre Ant&oacute;nio j&aacute;<br \/>\n    tinha chegado, respondendo Garcia de Resende que j&aacute; h&aacute; muito<br \/>\n    aguardava o rei no gabinete particular. Nisto os porteiros anunciam o rei<br \/>\n    que atravessou a antec&acirc;mara, dirigindo a palavra a alguns nobres. Impress&otilde;es<br \/>\n    de Jo&atilde;o de &Eacute;vora.<\/p>\n<p> Passado algum tempo sai da c&acirc;mara mestre Ant&oacute;nio. Gil Vaz aproxima-<br \/>\n    se dele e apresenta-lhe Jo&atilde;o de &Eacute;vora. Mestre Ant&oacute;nio,<br \/>\n    a princ&iacute;pio distra&iacute;do, atende com defer&ecirc;ncia Jo&atilde;o<br \/>\n    de &Eacute;vora desde que o sabe doutor em Paris; pratica com ele sobre algumas<br \/>\n    notabilidades m&eacute;dicas da Universidade e promete-lhe o seu valimento.<br \/>\n    Em seguida, como se lhe ocorresse um pensamento, pergunta-lhe se tem alguma<br \/>\n    d&uacute;vida em sair por alguns dias de &Eacute;vora, numa comiss&atilde;o<br \/>\n    que o pode adiantar no favor real. Jo&atilde;o de &Eacute;vora, n&atilde;o<br \/>\n    obstante se lembrar da sua desconhecida, n&atilde;o se atreve a recusar. Mestre<br \/>\n    Ant&oacute;nio diz-lhe ent&atilde;o que tendo de partir para Aveiro para observar<br \/>\n    a infanta D. Joana, que se dizia em perigo de vida, fora encarregado por el-rei<br \/>\n    de escolher, al&eacute;m do Dr. Lucena, f&iacute;sico-mor, um outro f&iacute;sico<br \/>\n    de confian&ccedil;a que o acompanhasse e que ele iria dar parte a el-rei da<br \/>\n    sua escolha de Jo&atilde;o de &Eacute;vora se este aceitasse acompanh&aacute;-lo.<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora aceita e agradece.<\/p>\n<p> Mestre Ant&oacute;nio volta &agrave; c&acirc;mara real e traz a concess&atilde;o<br \/>\n    do rei.<\/p>\n<p> Gil Vaz, orgulhoso pelo resultado da sua interven&ccedil;&atilde;o, convida<br \/>\n    Jo&atilde;o de &Eacute;vora para jantar em casa de um amigo. Mestre Ant&oacute;nio<br \/>\n    combina para o dia seguinte a partida.<\/p>\n<p>No entretanto D. Manuel e os seus companheiros continuam cavalgando at&eacute;<br \/>\n    sa&iacute;rem as portas da cidade e procuram os arrabaldes. Conversam com<br \/>\n    familiaridade sobre o encontro com Jo&atilde;o de &Eacute;vora e pretens&otilde;es<br \/>\n    do povo, sobre algumas lendas que certos pontos de &Eacute;vora lhes fazem<br \/>\n    lembrar. A qualquer alus&atilde;o sobre as pr&oacute;ximas festas anuvia-<br \/>\n    se o rosto de D. Manuel. Chegam a uma casa dos arrabaldes. &Eacute; a casa<br \/>\n    de Justa Rodrigues. Entram. Justa recebe-os com alegria e na conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revela as suas ten&ccedil;&otilde;es de se retirar do mundo e encerrar- se<br \/>\n    no convento que projecta edificar. Frei Domingos aparece na sala e sa&uacute;da<br \/>\n    D. Manuel. Este mostra-se constrangido na presen&ccedil;a dele.<\/p>\n<p> Justa retira-se. A conversa declina para uma fei&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica,<br \/>\n    procurando o frade e os filhos de Justa instigar o &acirc;nimo do duque para<br \/>\n    tomar a direc&ccedil;&atilde;o da resist&ecirc;ncia &agrave;s pretens&otilde;es<br \/>\n    da monarquia. O duque mostra reserva e prud&ecirc;ncia. O frade alude aos<br \/>\n    boatos da pr&oacute;xima morte da infanta D. Joana e que depois desse acontecimento<br \/>\n    D. Jo&atilde;o II tencionava chamar &agrave; corte o seu bastardo D. Jorge,<br \/>\n    ainda em poder de sua irm&atilde;, para o ter mais pr&oacute;ximo dos degraus<br \/>\n    do trono, para que, dado algum caso imprevisto, possa tolher o passo a algu&eacute;m<br \/>\n    que S. A. n&atilde;o gostaria de ver sentar-se nele. D. Manuel n&atilde;o<br \/>\n    pode inteiramente ocultar o seu desgosto ao ouvir isto. D. Jo&atilde;o e D.<br \/>\n    Nuno clamam contra as pretens&otilde;es reais. O frade fingindo tranquiliz&aacute;-los,<br \/>\n    lembra, hipocritamente, que o pr&oacute;ximo casamento do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    D. Afonso tirar&aacute; toda a import&acirc;ncia &agrave; medida, assegurando<br \/>\n    um herdeiro directo ao trono.<\/p>\n<p> O tiro n&atilde;o errou o alvo porque D. Manuel, mal podendo reprimir a<br \/>\n    sua como&ccedil;&atilde;o, chega a soltar algumas palavras imprudentes que<br \/>\n    a chegada de Justa Rodrigues lhe faz reprimir. Justa v&ecirc; o duque abatido<br \/>\n    e procura alent&aacute;-lo com a esperan&ccedil;a de um brilhante futuro,<br \/>\n    que &eacute; nela um press&aacute;gio. O duque mostra que a posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ocupa, rodeado de suspeitas e vigil&acirc;ncias, lhe n&atilde;o deixar&aacute;<br \/>\n    nunca abalan&ccedil;ar-se a grandes empresas. Justa diz-lhe que tenha f&eacute;<br \/>\n    na sua estrela. Frei Domingos, entrando na conversa, pergunta se D. Manuel<br \/>\n    j&aacute; consultou o c&eacute;lebre astr&oacute;logo judeu que vive junto<br \/>\n    a uma das portas da cidade, mais afamado que o pr&oacute;prio Galeotti (?)<br \/>\n    &eacute; um verdadeiro profeta. Excita ao duque e aos fidalgos o desejo de<br \/>\n    o consultarem e sai.<\/p>\n<p>Frei Domingos, deixando os nobres em casa de Justa Rodrigues, foi procurar<br \/>\n    o astr&oacute;logo judeu. A habita&ccedil;&atilde;o deste n&atilde;o desdizia<br \/>\n    nada da pragm&aacute;tica astrol&oacute;gica. O frade entra como para consultar<br \/>\n    o astr&oacute;logo ; mas, sentando-se, principiou a blasonar de c&eacute;ptico<br \/>\n    e a ridicularizar a ci&ecirc;ncia do s&aacute;bio. Este irrita-se. O frade<br \/>\n    mostra-se conhecedor de alquimia e de astrologia judici&aacute;ria e revela-se<br \/>\n    ao astr&oacute;logo como um competidor respeit&aacute;vel. Este pergunta-lhe<br \/>\n    o que o levou a procur&aacute;- lo. Frei Domingos responde-lhe que a vontade<br \/>\n    de lhe prestar um servi&ccedil;o. Pergunta-lhe o astr&oacute;logo qual. Frei<br \/>\n    Domingos diz-lhe que lhe vem ler o hor&oacute;scopo. O astr&oacute;logo dispensa-o.<br \/>\n    O frade insiste e diz-lhe que ele tamb&eacute;m possui a ci&ecirc;ncia judici&aacute;ria<br \/>\n    e que esta prev&ecirc; que o astr&oacute;logo est&aacute; sob uma fatal influ&ecirc;ncia<br \/>\n    e que ao longe avista o clar&atilde;o da fogueira com que se castigam os her&eacute;ticos.<br \/>\n    O astr&oacute;logo, judeu refugiado de Castela, perturba-se e olha com suspeita<br \/>\n    para o frade. Este tranquiliza-o assegurando que est&aacute; para com ele<br \/>\n    nas melhores inten&ccedil;&otilde;es e que a prova &eacute; vir ensinar-lhe<br \/>\n    novos e mais seguros processos astrol&oacute;gicos do que os da antiga ci&ecirc;ncia.<br \/>\n    O astr&oacute;logo desconfia que alguma ten&ccedil;&atilde;o oculta trouxe<br \/>\n    o frade ali e prepara-se para escut&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Este aconselha-o a que n&atilde;o fite tantas vezes os astros, mas que procure<br \/>\n    achar a previs&atilde;o dos acontecimentos humanos nos sinais terrenos.<\/p>\n<p> Que escute mais os homens como melhores guias e conselheiros para formular<br \/>\n    os seus vatic&iacute;nios. Que, por exemplo, n&atilde;o despreze os avisos,<br \/>\n    ainda dos mais humildes. Que se ele um dia viesse dizer-lhe que tr&ecirc;s<br \/>\n    nobres, disfar&ccedil;ados, tencionavam procur&aacute;-lo numa certa noite,<br \/>\n    todos ambiciosos mas prudentes e dissimulados e que a dois podia, sem receio<br \/>\n    de desagrado, predizer honras, grandezas e favor real, sendo prov&aacute;vel<br \/>\n    que o futuro n&atilde;o deixasse muito mentiroso o vatic&iacute;nio, mas que<br \/>\n    a um, ao que trouxesse por exemplo um anel de esmeralda, o futuro devia ser<br \/>\n    mais prometedor, elev&aacute;-lo, elev&aacute;-lo ao mais alto, n&atilde;o<br \/>\n    duvidando para isso derrubar alguns obst&aacute;culos que lhe tolhiam o passo,<br \/>\n    aos &uacute;ltimos degraus&#8212;sem dizer a maneira como &#8212; deixando<br \/>\n    apenas entrever que um pouco de boa vontade da parte do consultante, alguma<br \/>\n    condescend&ecirc;ncia para com os amigos, facilitaria o acesso. Que procedendo<br \/>\n    assim se faria uma astrologia menos vision&aacute;ria.<\/p>\n<p> O astr&oacute;logo compreendeu o frade e prometeu aproveitar a li&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Frei Domingos retira-se. O astr&oacute;logo, como para se vingar da superioridade<br \/>\n    que o frade assumia sobre ele, disse-lhe &agrave; sa&iacute;da, que, enquanto<br \/>\n    ele falara lhe estivera lendo o hor&oacute;scopo. Frei Domingos pergunta-lhe<br \/>\n    com desprezo o que tinha descoberto. &#8212; Que a vossa cabe&ccedil;a anda<br \/>\n    arriscada, reverendo nono&#8212;foi a resposta do astr&oacute;logo, dita com<br \/>\n    uma simplicidade velhaca. O frade encolheu os ombros coro desd&eacute;m e<br \/>\n    prometeu voltar.<\/p>\n<p>Segundo o frade tinha predito os tr&ecirc;s nobres n&atilde;o faltaram &agrave;<br \/>\n    consulta do astr&oacute;logo. Este, avisado por Frei Domingos, preparou-se<br \/>\n    para os receber, fingindo ignorar que debaixo das capas de cavaleiros se ocultavam<br \/>\n    tr&ecirc;s grandes personagens. Promete a D. Jo&atilde;o e D. Nuno um futuro<br \/>\n    de gl&oacute;ria, de poder e de valimento real. D. Jo&atilde;o afecta descren&ccedil;a<br \/>\n    e numa frase d&aacute; a conhecer a D. Manuel a causa, que &eacute; o seu<br \/>\n    pouco valimento com D. Jo&atilde;o II. O astr&oacute;logo fala num reinado<br \/>\n    em que os abatidos ser&atilde;o exaltados, os expatriados restitu&iacute;dos<br \/>\n    &agrave; p&aacute;tria e honradas as mem&oacute;rias dos condenados. A predi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do judeu causa sensa&ccedil;&atilde;o e D. Manuel, ao adiantar-se para ouvir<br \/>\n    o seu hor&oacute;scopo, tremia. O judeu permanece por muito tempo silencioso<br \/>\n    ante a contempla&ccedil;&atilde;o dos astros, depois volta para D. Manuel<br \/>\n    os olhos espantados e fita de novo os astros.<\/p>\n<p> Em seguida mostra-se confundido e hesita em formular a sua predi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Manuel insiste. O judeu diz-lhe que o v&ecirc; subir a um ponto t&atilde;o<br \/>\n    alto que mal acredita em seus olhos, que o que &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    se realiza, que todos os obst&aacute;culos se aplanam no caminho, que os que<br \/>\n    julgaram ferir a &aacute;rvore s&oacute; deram mais vigor ao novo rebento,<br \/>\n    que ele seria o Venturoso, pois que ambi&ccedil;&otilde;es de poder, de gl&oacute;ria,<br \/>\n    de riqueza e at&eacute; de amor, tudo realizaria; que o mundo se alargaria<br \/>\n    para se lhe submeter ao seu imp&eacute;rio, que o seu nome voaria a partes<br \/>\n    ignoradas e que a paz sorriria (?) &agrave; sombra do seu manto real. D. Manuel<br \/>\n    p&aacute;lido, interrompe o judeu, ao ouvi-lo pronunciar esta profecia, perguntando-lhe<br \/>\n    se sabe quem ele &eacute;. O astr&oacute;logo responde que o ignora mas que<br \/>\n    os astros falam claro e que mostram nele um rei. Os nobres retiram-se impressionados<br \/>\n    e D. Manuel recompensou generosamente a predi&ccedil;&atilde;o do astr&oacute;logo.<br \/>\n    Quando eles saem o astr&oacute;logo abre um gabinete onde o frade se ocultou<br \/>\n    e pergunta-lhe, sorrindo: &#8212; Que dizes da profecia?&#8212; Representais<br \/>\n    optimamente, mestre, Dir-vos-iam verdadeiramente inspirado.<\/p>\n<p>Transporta-se a cena ao pa&ccedil;o e &agrave; c&acirc;mara de D. Jo&atilde;o<br \/>\n    II. O rei est&aacute; encostado, consultando um livro de onde transcreve nomes<br \/>\n    para um rol. Em p&eacute;, por detr&aacute;s da cadeira real, est&aacute;<br \/>\n    Garcia de Resende, com uma pena molhada em tinta, pronta para substituir aquela<br \/>\n    com que S. A.<\/p>\n<p> escreve desde que esta seque. D. Jo&atilde;o mostra-se preocupado no trabalho.<\/p>\n<p> Como Garcia desviasse o rosto para n&atilde;o ler o que o rei escrevia,<br \/>\n    n&atilde;o lhe deu a pena a tempo. S. A. repreendeu-o e mandou-o olhar, que<br \/>\n    n&atilde;o se trigava (?) dele e diz-lhe que terminara a lista dos oficiais<br \/>\n    da casa do pr&iacute;ncipe, escolhendo-os do livro particular em que se registam<br \/>\n    os homens que s&atilde;o para os of&iacute;cios e que o inclu&iacute;ra a<br \/>\n    ele Garcia de Resende. O pajem mostra-se sentido por ter de deixar o servi&ccedil;o<br \/>\n    de S. A. e abandonar o Pa&ccedil;o. O rei fala-lhe afectuosamente e diz- -lhe<br \/>\n    que o continuar&aacute; a proteger e que vivendo D. Afonso juntamente com<br \/>\n    ele rei, n&atilde;o ter&aacute; Garcia de sair do Pa&ccedil;o. D. Jo&atilde;o<br \/>\n    II, cansado de trabalhar, recosta-se numa cadeira de bra&ccedil;os e convida<br \/>\n    Garcia de Resende a cantar-lhe algumas can&ccedil;&otilde;es. Garcia canta.<br \/>\n    O rei faz algumas observa&ccedil;&otilde;es sobre a import&acirc;ncia da poesia,<br \/>\n    afirmando o muito apre&ccedil;o em que tem a arte. Garcia faz ao rei a confid&ecirc;ncia<br \/>\n    de que tamb&eacute;m comp&otilde;e. O rei deseja ouvir-lhe as suas produ&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Garcia obedece. O rei aplaude-o e faz-lhe os maiores elogios, falando dele<br \/>\n    com louvor Rui de Pina, que entra na c&acirc;mara, e p&otilde;e a par os seus<br \/>\n    m&eacute;ritos de cronista e de trovador.<\/p>\n<p>Rui de Pina chama a aten&ccedil;&atilde;o do rei para os neg&oacute;cios<br \/>\n    s&eacute;rios e de pol&iacute;tica. Fala-se do casamento e da paz com Castela.<br \/>\n    Alude-se aos reparos de Castela em quanto &agrave;s fortifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    na fronteira. Combina-se a resposta. Em seguida entram Henrique de Figueiredo<br \/>\n    e Martinho de Castelo Branco. S. A. d&aacute; algumas instru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para as festas do casamento.<\/p>\n<p> Ant&atilde;o de Faria vem depois com o prior do Crato e Fern&atilde;o Martins<br \/>\n    de Mascarenhas; fala-se em neg&oacute;cios de pol&iacute;tica em &Aacute;frica,<br \/>\n    Fran&ccedil;a, Roma e Inglaterra, na doen&ccedil;a da infanta D. Joana e probabilidades<br \/>\n    da sua morte. O rei manifesta a vontade de educar na corte D. Jorge.<\/p>\n<p> Observa&ccedil;&otilde;es do prior do Crato sobre a repugn&acirc;ncia da<br \/>\n    rainha. Ant&atilde;o de Faria aconselha S. A. que procure a rainha e cavalheiramente<br \/>\n    lhe pe&ccedil;a para receber o bastardo. Depois de algumas hesita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    S. A.<\/p>\n<p> adopta o conselho. O rei fica s&oacute; com Ant&atilde;o de Faria. O privado<br \/>\n    &eacute; mais expl&iacute;cito agora, desvanece ao rei os receios que podia<br \/>\n    ter de encontrar da parte da rainha uma resist&ecirc;ncia que o humilhasse.<br \/>\n    A exist&ecirc;ncia em &Eacute;vora de uma filha natural do Duque de Viseu,<br \/>\n    que a rainha e D. Manuel, irm&atilde;o do duque, para subtra&iacute;rem &agrave;<br \/>\n    persegui&ccedil;&atilde;o, que receiam do rei, fazem educar como filha do<br \/>\n    antigo m&eacute;dico da infanta D. Beatriz, sua m&atilde;e, torna a rainha<br \/>\n    cautelosa e pouco disposta a exacerbar o &acirc;nimo de seu esposo. Ant&atilde;o<br \/>\n    de Faria, h&aacute; muito ao facto da exist&ecirc;ncia daquela filha natural<br \/>\n    de D. Diogo, comunicou o segredo ao rei que, fingindo ignor&aacute;-lo, principiou<br \/>\n    a encher de honras e distin&ccedil;&otilde;es o Dr. Lucena, a ponto de o atrair<br \/>\n    a si e, a pretexto desta protec&ccedil;&atilde;o encarregou-se de lhe casar<br \/>\n    a filha com um dos pajens de sua casa muito favorito de S. A. Estas vistas<br \/>\n    contrariavam muito a rainha e D. Manuel, o qual favorecia as aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de D. Jo&atilde;o Manuel, cola&ccedil;o do duque, &agrave; m&atilde;o da filha<br \/>\n    de D. Diogo e viam no casamento, que S. A.<\/p>\n<p> premeditava, uma alian&ccedil;a desigual. O rei sabia-o, o que mais o fazia<br \/>\n    insistir no seu projecto. Despedindo Ant&atilde;o de Faria, o rei mandou,<br \/>\n    por Garcia de Resende, parte &agrave; rainha que a iria procurar e chamou<br \/>\n    Ant&atilde;o de Figueiredo, mo&ccedil;o do guarda-roupa, para que o vestisse.<br \/>\n    Era este o noivo destinado por S. A. &agrave; filha suposta do Dr. Lucena.<br \/>\n    Era um rapaz cheio de v&iacute;cios que, por uma destas singularidades frequentes<br \/>\n    nos homens mais severos, era muito predilecto do rei, com quem tinha grande<br \/>\n    familiaridade. Ant&atilde;o de Figueiredo tardou em responder ao chamamento<br \/>\n    do rei. S. A. repreendeu-o. O pajem defende-se secamente.<\/p>\n<p> O rei, vestindo-se, pergunta-lhe o motivo do seu desgosto.<\/p>\n<p> Queixa-se o pajem de que S. A. sendo ele t&atilde;o bom servidor, n&atilde;o<br \/>\n    lhe dava mais que 1500 rs. de moradia, sem ten&ccedil;a nem outra coisa.<\/p>\n<p> O rei, sorrindo, pergunta-lhe quem lhe sustenta seis homens de capa, seis<br \/>\n    mo&ccedil;os, quatro escravos e duas escravas brancas e dois ginetes e duas<br \/>\n    az&eacute;molas? Ao enleio de Ant&atilde;o, o rei acrescentou que se calasse<br \/>\n    que ele dispunha do seu guarda-roupa para tudo porque ele lhe fazia disso<br \/>\n    merc&ecirc; e n&atilde;o porque o ignorasse; portanto n&atilde;o tinha raz&atilde;o<br \/>\n    de queixa por n&atilde;o receber mais ten&ccedil;a. Acabando de vestir- se<br \/>\n    tomou a direc&ccedil;&atilde;o dos aposentos da rainha.<\/p>\n<p>Antes de receber o aviso da visita do rei, a rainha estava s&oacute; com<br \/>\n    uma das suas mais intimas damas. Adormecida, com a cabe&ccedil;a sobre os<br \/>\n    joelhos da rainha, est&aacute; a filha de D. &Aacute;lvaro de Bragan&ccedil;a,<br \/>\n    que ficou em Portugal e foi sempre educada na corte. A rainha afaga tristemente<br \/>\n    a cabe&ccedil;a da crian&ccedil;a e suspira. A dama interroga-a por esta tristeza.<\/p>\n<p> A rainha diz que esta crian&ccedil;a lhe faz sempre pena; que a acha triste<br \/>\n    por dormir assim sobre um rega&ccedil;o real. As feridas que as &uacute;ltimas<br \/>\n    lutas do rei e dos nobres abriram no cora&ccedil;&atilde;o da pobre princesa<br \/>\n    n&atilde;o fecharam ainda; ainda est&atilde;o iminentes as l&aacute;grimas<br \/>\n    pela sorte desgra&ccedil;ada de seu irm&atilde;o e dos seus, l&aacute;grimas<br \/>\n    que diante do esposo, que deveria ser o confidente das suas penas, ela tinha<br \/>\n    que reprimir.<\/p>\n<p> Lamenta a realeza; sem ela n&atilde;o teriam tido lugar as cena3 que lhe<br \/>\n    despeda&ccedil;avam o cora&ccedil;&atilde;o. Recorda-se de que um destino<br \/>\n    fatal parece pesar sobre a sua fam&iacute;lia. Lembra-se dos infort&uacute;nios<br \/>\n    da rainha Isabel, mulher de Afonso V, da &eacute;poca de lutas e dissens&otilde;es<br \/>\n    em que se fez o casamento com D. Jo&atilde;o e, chorando, lamenta n&atilde;o<br \/>\n    ter a obscuridade de uma alde&atilde;. Em seguida tira do seio uma carta de<br \/>\n    sua m&atilde;e, a infanta D. Beatriz, que lhe fala no filho natural de D.<br \/>\n    Diogo, que vive obscuramente em Pinhel e lhe pede que vigie sempre por D.<br \/>\n    Manuel e por a filha natural a que j&aacute; nos referimos no cap&iacute;tulo<br \/>\n    antecedente.<\/p>\n<p> Mostra a incerteza das suas ac&ccedil;&otilde;es. V&ecirc; essa pobre rapariga<br \/>\n    pr&oacute;xima a ser sacrificada &agrave; vontade de el-rei e nem ousa manifestar<br \/>\n    a sua opini&atilde;o e o seu interesse por ela, com receio de excitar desconfian&ccedil;as.<\/p>\n<p> &Eacute; neste momento que recebe o aviso da visita do rei; oculta apressadamente<br \/>\n    a carta da infanta e acorda a crian&ccedil;a para que v&aacute; ao encontro<br \/>\n    do rei a beijar-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>D. Jo&atilde;o II entra no aposento da rainha com o sorriso nos l&aacute;bios;<br \/>\n    depois de afagar a crian&ccedil;a, que lhe beija a m&atilde;o, corteja a rainha,<br \/>\n    senta- se junto dela e informa-se com interesse da sua sa&uacute;de. Diz-lhe<br \/>\n    que a sua ocupa&ccedil;&atilde;o nos preparativos da festa lhe impediu de<br \/>\n    a visitar mais cedo. D&aacute;-lhe conta de alguns projectos meditados para<br \/>\n    os festejos e pede-lhe mesmo um conselho. Diz que tenciona permitir o uso<br \/>\n    de sedas e pergunta &agrave; rainha se j&aacute; viu as que t&ecirc;m chegado<br \/>\n    do estrangeiro.<\/p>\n<p> Encaminhando a conversa para o assunto que o trouxe ali, manifesta o receio<br \/>\n    de que algum desgosto venha transtornar estas festas, pois que as not&iacute;cias<br \/>\n    vindas de Aveiro a respeito da sa&uacute;de da infanta s&atilde;o m&aacute;s.<br \/>\n    A rainha mostra-se sinceramente sentida. D. Jo&atilde;o, ponderando os resultados<br \/>\n    daquela morte, menciona o nome de D. Jorge. A rainha n&atilde;o p&ocirc;de<br \/>\n    reprimir um movimento de desgosto que o rei finge n&atilde;o perceber. Continua,<br \/>\n    pedindo desculpa &agrave; rainha por se referir a um assunto de antigas dissens&otilde;es<br \/>\n    conjugais, felizmente hoje acabadas, .<\/p>\n<p> mas que, enfim, &eacute; pai e como tal n&atilde;o pode ver sem apreens&otilde;es<br \/>\n    a pobre crian&ccedil;a privada do ben&eacute;fico carinho da sua santa irm&atilde;,<br \/>\n    D. Joana; que, confiando no &acirc;nimo generoso da rainha, ousava vir pedir-lhe<br \/>\n    que abrisse os bra&ccedil;os &agrave;quele pobre &oacute;rf&atilde;o, que<br \/>\n    ia ficar sem as caricias de uma mulher de que tanto precisava. A rainha n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de suster as l&aacute;grimas &agrave; ideia do sacrif&iacute;cio que<br \/>\n    se exige dela e lembra a D. Jo&atilde;o que ela lhe sup&otilde;e um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    diferente do cora&ccedil;&atilde;o humano; que j&aacute; sacrificcu muito<br \/>\n    &agrave; realeza, as saudades, a afei&ccedil;&atilde;o fraternal e o orgulho<br \/>\n    de esposa; pede-lhe que a n&atilde;o sujeite a uma nova humilha&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    D. Jo&atilde;o afirma-lhe que n&atilde;o se humilha perdoando nobremente antigas<br \/>\n    culpas e estendendo a m&atilde;o a uma crian&ccedil;a, que a n&atilde;o ofendeu.<br \/>\n    &#8212; E julgais que lhe posso abrir o cora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\n    ? &#8212; exclama a rainha. O rei diz-lhe que sim, porque lhe conhece a generosidade<br \/>\n    e depois, como exemplo, mostrou como ela trata em sua casa a filha de D. &Aacute;lvaro,<br \/>\n    de quem recebeu muitas inj&uacute;rias e que de Castela ousou escrever-lhe<br \/>\n    uma carta insolente.<\/p>\n<p> A rainha n&atilde;o p&ocirc;de deixar de perguntar-lhe por que n&atilde;o<br \/>\n    estende a mesma generosidade ao bastardo de Portel (primeiro do Duque de Viseu).<br \/>\n    D. Jo&atilde;o, j&aacute; menos bondoso, responde-lhe que pela tranquilidade<br \/>\n    do reino; que a infanta D. Beatriz (perdoasse-lhe falar assim de sua m&atilde;e)<br \/>\n    tinha j&aacute; dado provas de leveza, deixando apoderar-se a cabe&ccedil;a<br \/>\n    de seu filho de ideias loucas que lha perderam; que, por felicidade desse<br \/>\n    bastardo, julgava bom arred&aacute;-lo dessas influ&ecirc;ncias perigosas.<\/p>\n<p> Por isso achara aplic&aacute;vel a receita que a infanta e os reis de Castela<br \/>\n    em tempo aconselhavam para seu filho D. Jorge. A rainha observa-lhe que, para<br \/>\n    quem vem pedir o esquecimento, ele se mostra muito lembrado.<\/p>\n<p> D. Jo&atilde;o afirma que sabe esquecer e n&atilde;o hesita em faz&ecirc;-lo<br \/>\n    quando s&oacute; tem a sacrificar o seu orgulho. Que &agrave;s vezes chega<br \/>\n    a ser demasiado confiado. Acaso manifestou alguma m&aacute; vontade contra<br \/>\n    D. Manuel? N&atilde;o o educou junto de si, n&atilde;o lhe deu aumento e riqueza?<br \/>\n    &#8212; o que o n&atilde;o impede de conspirar um pouco, acrescenta sorrindo.<br \/>\n    A rainha defende o irm&atilde;o, dizendo injusta a acusa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O rei tranquiliza-a dizendo que &eacute; leve o pecado do duque, apenas o<br \/>\n    de escutar &agrave;s vezes, com complac&ecirc;ncia, as lisonjas de certos<br \/>\n    amigos imprudentes e n&atilde;o afastar de si alguns vision&aacute;rios perigosos;<br \/>\n    mas que confia no bom senso e ju&iacute;zo do duque, que n&atilde;o dar&aacute;<br \/>\n    passo algum que o comprometa. Enquanto a chamarem-lhe cruel, repare a rainha<br \/>\n    que nem para todos os bastardos da fam&iacute;lia dele, ele se apresenta como<br \/>\n    perseguidor. A insinua&ccedil;&atilde;o, que parece referir-se &agrave; filha<br \/>\n    do Duque de Viseu, aterra D. Leonor, que em v&atilde;o procura ler no rosto<br \/>\n    de el-rei o sentido daquelas palavras.<\/p>\n<p> D. Jo&atilde;o repete o pedido de chamar &agrave; corte D. Jorge. A rainha,<br \/>\n    ainda atemorizada com o que ouvira, acede, acrescentando que ele ser&aacute;<br \/>\n    o companheiro de jogos de Beatriz, a filha de D. &Aacute;lvaro. D. Jo&atilde;o<br \/>\n    beija a m&atilde;o &agrave; rainha, com tanta galantaria e afecto que a comove<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &#8226; Nisto entra na sala D. Afonso. &Eacute; ainda muito mo&ccedil;o,<br \/>\n    formoso, mas efeminado, traja com um apuro excessivo cetins e arminhos e em<br \/>\n    tudo mostra delicadeza. Aproxima-se do rei e da rainha e corteja-os com respeito,<br \/>\n    mas ao mesmo tempo com certa petul&acirc;ncia de filho amimado.<\/p>\n<p> A rainha olha-o com amor. D. Jo&atilde;o, que o viu entrar, acolheu-o com<br \/>\n    um olhar de profundo afecto, mas com uma certa severidade perguntou- -lhe,<br \/>\n    apontando para o cinto desarmado, onde tinha deixado a espada? D. Afonso sorriu<br \/>\n    e respondeu que achava impr&oacute;prio do trato dom&eacute;stico uma arma<br \/>\n    de ofensa ou defesa, quando se vivia em completa harmonia.<\/p>\n<p> O rei recorda-lhe que j&aacute; mais do que uma vez o encontrara desarmado<br \/>\n    e que, para um futuro rei de uma na&ccedil;&atilde;o, que conquistou, palmo<br \/>\n    a palmo, o solo que ocupa e que vai, dia a dia, alargando &agrave; custa do<br \/>\n    sangue dos infi&eacute;is, &eacute; uma triste garantia. D. Afonso observa<br \/>\n    ao rei, com certa confian&ccedil;a, que ele n&atilde;o tem culpa em ter nascido<br \/>\n    em &eacute;poca de menos guerras e cavalarias e que talvez a sua pouca tend&ecirc;ncia<br \/>\n    para as armas provenha de ter visto, quando come&ccedil;ava a fazer uso da<br \/>\n    raz&atilde;o, infringirem-se as regras de cavalaria na pessoa de D. Joana<br \/>\n    de Castela que se sacrificara ao bem do estado, o que mostrava que essa devia<br \/>\n    ser a raz&atilde;o principal das ac&ccedil;&otilde;es de um rei. D. Jo&atilde;o<br \/>\n    II mostrou- se irritado com a atrevida alus&atilde;o do filho. A rainha interveio<br \/>\n    sorrindo, lembrando a D. Afonso que esse acto pol&iacute;tico lhe preparara<br \/>\n    a felicidade, assegurando-lhe o pr&oacute;ximo casamento na casa de Castela.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou eu que o censuro! &#8212; exclamou o pr&iacute;ncipe.<br \/>\n    &#8212; Vejo antes nele uma justifica&ccedil;&atilde;o do meu amor pela paz,<br \/>\n    cujo reinado chegou.<\/p>\n<p> O rei, mais severo, replicou que o amor pela paz obriga muitas vezes &agrave;<br \/>\n    guerra e que n&atilde;o &eacute; cuidando de enfeites e galas pr&oacute;prias<br \/>\n    de mulheres que os grandes reis se formam. D. Afonso pergunta ao rei qual<br \/>\n    a raz&atilde;o por que ele repreendeu um dos mo&ccedil;os da sua c&acirc;mara<br \/>\n    por usar espada, sendo crian&ccedil;a. &#8212; Porque n&atilde;o quero v&ecirc;-las<br \/>\n    empunhadas por quem as n&atilde;o saiba honrar, brandindo-as. Espero que o<br \/>\n    meu filho n&atilde;o esteja neste caso e n&atilde;o esque&ccedil;a que &eacute;<br \/>\n    neto de Afonso V, do Infante D. Pedro, de D. Jo&atilde;o I e que da sua idade<br \/>\n    fui eu armado cavaleiro na mesquita de Arzila, onde combati ao lado dos mais<br \/>\n    valentes. &#8212; Visivelmente irritado, D. Jo&atilde;o retirou-se recomendando<br \/>\n    a rainha que se esfor&ccedil;asse por criar um rei como o povo havia mister.<\/p>\n<p>A rainha, ficando s&oacute; com o filho, chama-o para junto de si. Afonso<br \/>\n    senta-se-lhe aos p&eacute;s em um tamborete raso. A rainha passando-lhe a<br \/>\n    m&atilde;o pelos cabelos, censura-lhe os modos de acolher as observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de el-rei. Afonso desculpa-se, perguntando se seu pai o desejaria ver de armadura<br \/>\n    e viseira calada ao vir receber as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> A rainha sorri com complac&ecirc;ncia, mas adverte-o que o rei v&ecirc;<br \/>\n    com desgosto o muito cuidado que o pr&iacute;ncipe d&aacute; aos enfeites,<br \/>\n    que D. Jo&atilde;o &eacute; inimigo de homens efeminados, que olha para a<br \/>\n    companhia que D. Afonso mais frequenta, com desgosto vis&iacute;vel. Afonso<br \/>\n    defende os seus amigos. Prosseguem estes conselhos maternais e terminam por<br \/>\n    a rainha dar o seu parecer sobre o costume que D. Afonso tenciona usar por<br \/>\n    ocasi&atilde;o das festas e sobre os len&ccedil;os bordados de que S. A.<\/p>\n<p> usa e contra os quais tinha acabado de falar, contando o que o rei dissera<br \/>\n    a um fidalgo que os usava.<\/p>\n<p> Anuncia-se D. Manuel. A rainha recebe o irm&atilde;o com evidentes s&iacute;nais<br \/>\n    de afecto. Pede-lhe, sorrindo, que venha em seu aux&iacute;lio para fazer<br \/>\n    do pr&iacute;ncipe um homem, comunicando &agrave;quela cabe&ccedil;a leve<br \/>\n    um pouco do seu ju&iacute;zo. O duque responde em favor de D. Afonso. Este<br \/>\n    agradece, e acrescenta que o duque alguma coisa tem na consci&ecirc;ncia que<br \/>\n    lhe n&atilde;o permite aceitar os gabos da rainha. A raz&atilde;o desta alus&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que o pr&iacute;ncipe, que desde j&aacute; podemos dizer o raptador<br \/>\n    da judia Ester, julgou que esta era amante de D. Manuel, por mal interpretadas<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es colhidas. D. Manuel n&atilde;o entendeu o verdadeiro<br \/>\n    sentido da alus&atilde;o e fitou o pr&iacute;ncipe, n&atilde;o ousando acreditar<br \/>\n    e ao mesmo tempo receando, que ele pudera referir-se ao mais rec&ocirc;ndito<br \/>\n    segredo do seu cora&ccedil;&atilde;o, ao seu amor a Isabel de Castela, que<br \/>\n    sentia desde crian&ccedil;a quando a vira em Moura nos tempos das Ter&ccedil;arias.<br \/>\n    No entretanto, o pr&iacute;ncipe, sempre inquieto, levantou-se para brincar<br \/>\n    com Beatriz, que adormecera no ber&ccedil;o, passando-lhe pelas faces a ponta<br \/>\n    de um len&ccedil;o ao de leve.<\/p>\n<p> D. Manuel, aproximando-se da rainha, perguntou-lhe se era verdade que el-rei<br \/>\n    tencionava chamar D. Jorge &agrave; corte. A rainha respondeu- lhe afirmativamente.<br \/>\n    &#8212; E V. A. consente? &#8212; disse D. Manuel com desgosto, &#8212; Assim<br \/>\n    &eacute; preciso. &#8212; Sempre humilha&ccedil;&otilde;es, exclama D Manuel,<br \/>\n    suspirando. D. Leonor recorda-lhe que eles t&ecirc;m algu&eacute;m a proteger<br \/>\n    e que por isso conv&eacute;m n&atilde;o irritar el-rei, contrariando-o.<\/p>\n<p> D. Manuel diz &agrave; rainha constar que D. Jo&atilde;o tencionava apressar<br \/>\n    o casamento de sua sobrinha Marta com Ant&atilde;o de Figueiredo. Tamb&eacute;m<br \/>\n    se lhe consentiria isso? A rainha promete opor-se formalmente. Nisto Beatriz<br \/>\n    queixa-se de D. Afonso. A rainha repreende o filho e pede a D. Manuel que<br \/>\n    se retire com ele. Depois de a cortejarem saem os dois.<\/p>\n<p>Pelo corredor que conduz aos aposentos do duque, D. Afonso, apoiando-se no<br \/>\n    seu bra&ccedil;o e precedido por pajens com tochas e seguidos por oficiais<br \/>\n    de armas em riste, vai conversando com D. Manuel, queixando-se das injusti&ccedil;as<br \/>\n    de opini&atilde;o que lhe atribui a ele pr&iacute;ncipe, uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    estouvada, em quanto que muito levianamente concede a D. Manuel uma prud&ecirc;ncia<br \/>\n    e sisudez, que em parte &eacute; simulada.<\/p>\n<p> D. Manuel sorri e pergunta-lhe em que fundamenta o seu modo de pensar. Afonso<br \/>\n    responde vagamente, referindo-se por obscuras alus&otilde;es &agrave; desconhecida<br \/>\n    de Almeirim que ele diz estar agora&quot;&raquo;mais perto do amor que a procura.<br \/>\n    O duque julga que D. Afonso suspeita alguma coisa do seu secreto amor pela<br \/>\n    princesa e confunde-se. Esta confus&atilde;o aumenta o bom humor do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    que se despede do duque, rindo de boa vontade.<\/p>\n<p> Filipe do Casal, um dos oficiais que mais de perto seguia os reais parentes,<br \/>\n    p&ocirc;de ouvir a conversa dos dois e por ela ficou suspeitando ser D. Manuel<br \/>\n    o raptador.<\/p>\n<p> D. Afonso seguiu at&eacute; chegar aos seus aposentos. Apar&ecirc;ncia destes<br \/>\n    ; o luxo. A corte de D. Afonso &eacute; demasiado jovial. Todos elegantes,<br \/>\n    mo&ccedil;os e estouvados. D. Afonso entret&eacute;m-se com eles de aventuras<br \/>\n    amorosas. Referem-se a Ester, que se sabe estar em &Eacute;vora.<\/p>\n<p> Afonso mostra-se enfadado dela e julga conveniente, atendendo ao seu pr&oacute;ximo<br \/>\n    casamento, livrar-se de todos os la&ccedil;os importunos. Ant&atilde;o de<br \/>\n    Figueiredo, um dos mais afei&ccedil;oados ao pr&iacute;ncipe, pede-lhe autoriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para se encarregar dessa empresa. O pr&iacute;ncipe sorri e lembra-lhe que<br \/>\n    ele est&aacute; igualmente em v&eacute;speras de casar. Ant&atilde;o encolhe<br \/>\n    os ombros respondendo que lhe pesam pouco esses la&ccedil;os e n&atilde;o<br \/>\n    receia que o estorvem.<\/p>\n<p> Depois de alguma discuss&atilde;o, organiza-se um bando para irem tentar<br \/>\n    a empresa de remirem o pr&iacute;ncipe das liga&ccedil;&otilde;es amorosas<br \/>\n    que o prendem. E com a maior alegria saem do quarto para se espalharem pelas<br \/>\n    ruas de &Eacute;vora,<\/p>\n<p align=\"right\"><b>(Fim do programa do 1.&deg; volume)<\/b><\/p>\n<p>Esbo\u00e7o de um programa para o conto A vida nas terras pequenas.<\/p>\n<p>Cap. I &#8212; Quem eram Est&ecirc;v&atilde;o e Adelina. Motivos da sua partida<br \/>\n    para a vila de Meloais do Duque. Sentimentos de um e de outro.<\/p>\n<p> Cap. II &#8212; A chegada. Aspecto da vila. Coment&aacute;rios do p&uacute;blico.<\/p>\n<p> A casa. A vizinhan&ccedil;a. A senhoria. Visita do botic&aacute;rio e da<br \/>\n    sua gente.<\/p>\n<p> Reflex&otilde;es de Est&ecirc;v&atilde;o e de Adelina.<\/p>\n<p> Cap. III &#8212; Est&ecirc;v&atilde;o &eacute; levado pelo botic&aacute;rio<br \/>\n    &agrave; c&acirc;mara. O presidente.<\/p>\n<p> V&iacute;tor de Ans&atilde;o e o que se diz dele. Desilus&otilde;es de Est&ecirc;v&atilde;o.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o entra em exerc&iacute;cio.<\/p>\n<p> Cap. IV &#8212; A visita da fam&iacute;lia do administrador. Tipos. Conversa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O reverso da medalha. Fala-se no presidente, no botic&aacute;rio e em V&iacute;tor<br \/>\n    de Ans&atilde;o. Convite. Coment&aacute;rios da vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Cap. V &#8212; Os ser&otilde;es de Est&ecirc;v&atilde;o. Uma tenta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Catequese inconsciente de Adelina, Resolu&ccedil;&otilde;es de Est&ecirc;v&atilde;o.<br \/>\n    Na botica.<\/p>\n<p> Cap. VI &#8212; A visita ao botic&aacute;rio. Confid&ecirc;ncias de Matilde<br \/>\n    e Adelina.<\/p>\n<p> Conselhos desta. Despeitos de Joana. Procedimento de Est&ecirc;v&atilde;o.<br \/>\n    Joga-se o quino. Murmura-se do administrador. Reflex&otilde;es dos irm&atilde;os<br \/>\n    em casa.<\/p>\n<p> Cap. VII &#8212; O ser&atilde;o em casa do administrador. A fam&iacute;lia.<br \/>\n    O delegado.<\/p>\n<p> O juiz e Eurico. Charadas e recita&ccedil;&atilde;o. Murmura-se do presidente<br \/>\n    e do botic&aacute;rio. Oposi&ccedil;&atilde;o ao clube. A Sociedade Filot&eacute;cnica.<\/p>\n<p> Oferecimento a Est&ecirc;v&atilde;o. O doutor Venceslau e os sonetos.<\/p>\n<p> Cap. VIII &#8212; Cl&iacute;nica de Est&ecirc;v&atilde;o. Em casa da moleira.<br \/>\n    O c&oacute;nego e a vi&uacute;va. Entrevista com Joana. Conselhos de Est&ecirc;v&atilde;o.<br \/>\n    Desfeitas de Matilde. Desgosto de Est&ecirc;v&atilde;o contra o botic&aacute;rio.<\/p>\n<p> Cap. IX &#8212; No clube. O que se diz de Est&ecirc;v&atilde;o. Desgosto<br \/>\n    do presidente&#8230;<\/p>\n<p> Adelina encontra V&iacute;tor em casa da moleira. Carta de V&iacute;tor<br \/>\n    a Estev&atilde;o pedindo-lhe para deixar voltar a irm&atilde;, que ele n&atilde;o<br \/>\n    voltar&aacute;.<\/p>\n<p>Carta an&oacute;nima a Adelina participando-lhe os sacrif&iacute;cios de<br \/>\n    Est&ecirc;v&atilde;o.<\/p>\n<p> Resolu&ccedil;&atilde;o de Adelina. As j&oacute;ias v&atilde;o parar &agrave;s<br \/>\n    m&atilde;os de V&iacute;tor. Suspeitas de Est&ecirc;v&atilde;o. V&iacute;tor<br \/>\n    convence o Dr. Venceslau a deixar-se operar.<\/p>\n<h2>PERSONAGENS<\/h2>\n<p>Adelina &#8212; Dezoito anos, bondosa, sem afecta&ccedil;&atilde;o. Cheia<br \/>\n    de boa f&eacute; para com todos. Passando atrav&eacute;s do mal e das intrigas<br \/>\n    sem suspeitar- lhe a exist&ecirc;ncia. Confia no irm&atilde;o como num her&oacute;i.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o &#8212; Esp&iacute;rito honesto, mas n&atilde;o entusiasta.<br \/>\n    Incapaz de uma paix&atilde;o extrema; mas com o cora&ccedil;&atilde;o amoldado<br \/>\n    para sentimentos brandos, O amor fraterno &eacute; o mais ardente afecto que<br \/>\n    l&aacute; encerra. Pode sacrificar-se mas reflectidamente ou como obedecendo<br \/>\n    a um dever e n&atilde;o por irresist&iacute;vel impulso de entusiasmo. N&atilde;o<br \/>\n    forma sonhos dourados nem ambiciosos. Homem para transigir com o mundo tal<br \/>\n    como ele &eacute;.<\/p>\n<p> V&iacute;tor de Ans&atilde;o &#8212; Rapaz de excelente educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e h&aacute;bitos da moda. Vive na prov&iacute;ncia porque os seus teres n&atilde;o<br \/>\n    lhe permitem viver em Lisboa. Convive pouco, &Eacute; mais entusiasta do que<br \/>\n    Est&ecirc;v&atilde;o; mas exigente em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro. Pouco<br \/>\n    dissimulado. Mais querido entre a classe baixa do que entre a m&eacute;dia,<br \/>\n    que, n&atilde;o obstante, se lisonjeia sempre que lhe merece aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    o que raras vezes sucede.<\/p>\n<p> Estouvado nos seus primeiros dias da mocidade.<\/p>\n<p> D. Roberta de Ans&atilde;o &#8212; Senhora de fina educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e profundo bom senso. As prova&ccedil;&otilde;es da sua vida t&ecirc;m-lhe<br \/>\n    dado uma t&ecirc;mpera de toler&acirc;ncia e uma repugn&acirc;ncia &agrave;<br \/>\n    conviv&ecirc;ncia que perfeitamente se identifica com o g&eacute;nio de V&iacute;tor,<br \/>\n    por quem &eacute; extremosa.<\/p>\n<p> Baltasar &#8212; Botic&aacute;rio. G&eacute;nio vivo e forte, f&aacute;cil<br \/>\n    em encolerizar-se.<\/p>\n<p> Homem pol&iacute;tico e a alma do presidente da camara. Exerce descaradamente<br \/>\n    a medicina e promove guerra aos m&eacute;dicos que lhe v&atilde;o nisso, &agrave;<br \/>\n    m&atilde;o. Gosta de fazer ostenta&ccedil;&atilde;o da sua liberalidade. Descura<br \/>\n    um pouco a farm&aacute;cia.<\/p>\n<p> D. Maria do C&eacute;u &#8212; Mulher dele.. Tipo de burguesa faladora,<br \/>\n    curiosa e maledicente. Exaltando a import&acirc;ncia do marido, mas sempre<br \/>\n    deixando entrever que &eacute; de proced&ecirc;ncia superior &agrave; dele;<br \/>\n    mas que n&atilde;o olhou a isso porque a verdadeira distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; no saber e na intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Matilde e Joana &#8212; As filhas. Ambas curiosas janeleiras e amigas de<br \/>\n    namorar. Matilde, de melhor fundo, tem uma afei&ccedil;&atilde;o sincera pelo<br \/>\n    praticante da botica, a qual, n&atilde;o obstante tempor&aacute;rias infidelidades,<br \/>\n    sobrevive sempre no seu cora&ccedil;&atilde;o. Joana &eacute; menos ing&eacute;nua.<br \/>\n    Aspira a um casamento vantajoso. Odeia mais cordialmente do que a irm&atilde;,<br \/>\n    a filha do administrador, e ambiciona o afecto de Est&ecirc;v&atilde;o. Em<br \/>\n    tempo namorou-a V&iacute;tor de Ans&atilde;o.<\/p>\n<p>Belchior Azevedo &#8212; O administrador. Homem muito preocupado da sua posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oficial, falando a todo o momento dos seus of&iacute;cios ao governador civil<br \/>\n    e ao governo. Com pretens&otilde;es a conhecedor dos neg&oacute;cios p&uacute;blicos<br \/>\n    e dos usos diplom&aacute;ticos.<\/p>\n<p> D. Helo&iacute;sa &#8212; Sua mulher. Senhora de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    liter&aacute;ria mas sem senso. Preciosa rid&iacute;cula. Discorre em literatura<br \/>\n    e pretende que a sua casa seja um gr&eacute;mio liter&aacute;rio. Escolheu<br \/>\n    para os filhos nomes rom&acirc;nticos.<\/p>\n<p> Casa bem mobilada, mas sem fei&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica.<\/p>\n<p> Julieta &#8212; Filha do administrador. Participa um pouco das qualidades<br \/>\n    da m&atilde;e. Aspira&ccedil;&otilde;es a espirituosa e julga-se muito superior<br \/>\n    a todas as raparigas da vila. Fala sempre em Lisboa, teatros, etc. Antigo<br \/>\n    namoro de V&iacute;tor de Ans&atilde;o.<\/p>\n<p> Eurico &#8212; O irm&atilde;o de Julieta. Estudante dos primeiros anos da<br \/>\n    Universidade. Um pouco pedante com pretens&otilde;es a falar de tudo com eloqu&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> O Z&eacute; do botic&aacute;rio &#8212; Pobre rapaz que ama sinceramente<br \/>\n    a filha mais nova do patr&atilde;o. Aflige-se quando ela lhe &eacute; infiel<br \/>\n    e perdoa-lhe, de todas as vezes, as infidelidades.<\/p>\n<p> Dominguinhos da Pra&ccedil;a &#8212; Um pateta. Cavalheiro servente de quase<br \/>\n    todas as meninas da vila. Adivinha charadas figuradas, faz flores de papel,<br \/>\n    arma e enfeita altares, superintende em todas as fun&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Recita ao piano.<\/p>\n<p> O delegado &#8212; Rapaz namorador, cujo maior prazer &eacute; conversar<br \/>\n    com senhoras. Conviva do administrador e sarc&aacute;stico contra o partido<br \/>\n    do presidente. Fala muito no seu tio do Supremo Tribunal.<\/p>\n<p> O juiz &#8212; Surdo. Apaixonado do voltarete e contando sempre as mesmas<br \/>\n    hist&oacute;rias.<\/p>\n<p> O presidente da c&acirc;mara &#8212; Criatura cheia de import&acirc;ncia<br \/>\n    e no fundo um parvo, que o botic&aacute;rio move &agrave; vontade. Propriet&aacute;rio<br \/>\n    rico e influente na terra.<\/p>\n<p> O c&oacute;nego&#8212;Velho rabugento e sem contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> A vi&uacute;va &#8212; Mulher positiva e met&oacute;dica.<\/p>\n<p> Dr. Venceslau &#8212; Po&ccedil;o de direito r&aacute;bula. Metrificador<br \/>\n    de sonetos a prop&oacute;sito de tudo.<\/p>\n<p> O capit&atilde;o do destacamento &#8212; Gordo e comodista.<\/p>\n<p> Adelina &#8212; Luta contra o seu amor a V&iacute;tor pelo mau conceito<br \/>\n    em que o fazem ter as intrigantes.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o &#8212; Preocupado com a felicidade da irm&atilde;,<br \/>\n    faz por vencer todas as causas pessoais de desgosto. S&oacute; se exalta quando<br \/>\n    sup&otilde;e amea&ccedil;ada a felicidade de Adelina.<\/p>\n<p> V&iacute;tor&#8212;Deixa-se possuir cada vez mais pelo amor a Adelina, cuja<br \/>\n    frieza o n&atilde;o aflige.<\/p>\n<p> D. Roberta &#8212; Ambiciona que o casamento de V&iacute;tor lhe d&ecirc;<br \/>\n    mais uma filha e netos que suavizem a velhice. Aprova a escolha do filho e<br \/>\n    condescende com V&iacute;tor em salvar Adelina de -censuras p&uacute;blicas.<\/p>\n<p> Joana &#8212; Odeia Adelina quando suspeita do seu amor a V&iacute;tor.<\/p>\n<p> Odeia Est&ecirc;v&atilde;o por este a haver razoavelmente dissuadido do<br \/>\n    seu amor.<\/p>\n<p> Julieta &#8212; Tem quase os mesmos motivos que Joana.<\/p>\n<p> Baltasar&#8212;O seu desgosto contra Est&ecirc;v&atilde;o procede da intima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do administrador para se coibir de exercer a medicina e do parecer sobre a<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o de porcos.<\/p>\n<p> O. Helo&iacute;sa &#8212; Suspeitas sobre as ten&ccedil;&otilde;es de Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o ao c&oacute;nego.<\/p>\n<h2>A VIDA NAS TERRAS PEQUENAS Dois cap&iacute;tulos de um conto<\/h2>\n<p>TINHA vinte e quatro anos Est&ecirc;v&atilde;o de Urzeiros quando recebeu,<br \/>\n    legalmente selado e rubricado, um diploma que o declarava apto para tratar<br \/>\n    de medicina e de cirurgia em todo o continente, ilhas e mais possess&otilde;es<br \/>\n    do reino.<\/p>\n<p> Conclu&iacute;ra, sem pr&eacute;mios nem erres, a sua formatura na Escola<br \/>\n    do Porto, &agrave; custa de alguns sacrif&iacute;cios do pai, que nesta cidade<br \/>\n    exercia com escrupuloso zelo um modesto emprego p&uacute;blico.<\/p>\n<p> Durante o tiroc&iacute;nio escolar, Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o se apaixonara<br \/>\n    por a ci&ecirc;ncia, nem prometera ser homem para a fazer progredir; mas &eacute;<br \/>\n    certo tamb&eacute;m que n&atilde;o a odiava, nem lhe negava as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    devidas.<\/p>\n<p> Convivia com ela, como a grande maioria dos maridos convivem com as suas<br \/>\n    mulheres, sem extremos de paix&atilde;o mas tamb&eacute;m sem as tratarem<br \/>\n    mal.<\/p>\n<p> Meses antes do ultimato dos seus estudos, sofreu Est&ecirc;v&atilde;o um<br \/>\n    golpe, que sobre doloroso que lhe foi para o cora&ccedil;&atilde;o, veio estorvar-<br \/>\n    lhe com um embara&ccedil;oso trope&ccedil;o os primeiros passos na carreira<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p> Morreu-lhe quase de repente o pai, deixando-lhe por &uacute;nica heran&ccedil;a<br \/>\n    uma irm&atilde; de dezoito anos, tendo por dote bondade e formosura e que,<br \/>\n    al&eacute;m do irm&atilde;o, ningu&eacute;m mais possu&iacute;a no mundo a<br \/>\n    quem legitimamente se encostasse.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o recebeu-a com os bra&ccedil;os abertos e as l&aacute;grimas<br \/>\n    nos olhos.<\/p>\n<p> Adelina, que assim se chamava a &oacute;rf&atilde;, desorientada por uma<br \/>\n    perda que nunca previra, em que nunca pensara, cingiu-se estreita mente ao<br \/>\n    peito do irm&atilde;o, onde sentia bater um cora&ccedil;&atilde;o movido por<br \/>\n    os mesmos afectos que a atribulavam, e a consci&ecirc;ncia desta simpatia<br \/>\n    mais lhe engrossava o pranto.<\/p>\n<p> &#8212;N&atilde;o chores, minha pobre Adelina &#8212; dizia-lhe Est&ecirc;v&atilde;o,<br \/>\n    t&atilde;o comovido como ela &#8212; n&atilde;o chores que enquanto eu puder&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, n&atilde;o &eacute; o medo do que vem que me faz chorar, Est&ecirc;v&atilde;o;<br \/>\n    &eacute; a saudade do que passou. Eu bem sei que tu me proteger&aacute;s,<br \/>\n    tu que &eacute;s t&atilde;o bom; e se tu me protegeres, que posso eu recear<br \/>\n    ? Esta ing&eacute;nua confian&ccedil;a no valor do bra&ccedil;o a que se apoiava<br \/>\n    era sincera na inexperiente crian&ccedil;a. E o mais &eacute; que ao ouvir<br \/>\n    aquelas palavras, Est&ecirc;v&atilde;o sentia com o simp&aacute;tico orgulho<br \/>\n    que lhe vinha da consci&ecirc;ncia da sua superioridade, o alento de uma nobre<br \/>\n    coragem. Olhou para a formosa cabe&ccedil;a que, para chorar, se lhe ocultou<br \/>\n    no seio, e convencia- se de que em ser a provid&ecirc;ncia daquela orfandade,<br \/>\n    no velar, trabalhar, sacrificar-se pela felicidade dela, havia para a alma<br \/>\n    uma suave e consoladora tarefa, no preenchimento da qual encontraria a melhor<br \/>\n    recompensa a esperar no mundo; porque, se para c&aacute; do t&uacute;mulo<br \/>\n    h&aacute; alguma coisa que se possa chamar C&eacute;u e Inferno, &eacute;<br \/>\n    na pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia que se encontra.<\/p>\n<p> N&atilde;o se julgue, por&eacute;m, que Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    antevia sombras quando alongava a vista pela desconhecida vastid&atilde;o<br \/>\n    do futuro.<\/p>\n<p> Antevia-as e bem cerradas! O leitor experiente do mundo n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    n&atilde;o estranhar&aacute; estas apreens&otilde;es, mas antes ser&aacute;<br \/>\n    capaz de com antecipa&ccedil;&atilde;o indicar os fortes motivos que Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    tinha para senti-las.<\/p>\n<p> &Eacute; uma &eacute;poca solene a da entrada na vida social.<\/p>\n<p> At&eacute; &agrave;quele momento teve-se por viver o sonhar. Acorda-se ent&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; um segundo nascimento quase; &eacute; a transmigra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alma humana para um mundo novo.<\/p>\n<p> E n&atilde;o h&aacute;-de ela estremecer na passagem? Tendes reparado alguma<br \/>\n    vez nesses pobres emigrantes que, seduzidos pelos ourop&eacute;is de enganosas<br \/>\n    esperan&ccedil;as, saem meninos das sombras da sua aldeia e v&ecirc;m, em<br \/>\n    folgada peregrina&ccedil;&atilde;o, at&eacute; ao porto de mar onde os espera<br \/>\n    o navio que tem de os levar a praias desconhecidas? Antes de verem o oceano,<br \/>\n    essas imprevidentes crian&ccedil;as vinham alegres, riam, cantavam, sem saudades<br \/>\n    da sua terra, sem terrores do futuro e suspirando s&oacute; pelo fim da jornada,<br \/>\n    que a sua impaci&ecirc;ncia alonga desesperadoramente. Mas, &agrave; vista<br \/>\n    do mar, dessa imensidade de &aacute;guas que nunca tinham sonhado; &agrave;<br \/>\n    vista do navio, essa movedi&ccedil;a habita&ccedil;&atilde;o, que por muito<br \/>\n    tempo vai ser a sua; quando lhes dizem que t&ecirc;m de perder-se como um<br \/>\n    ponto naquele horizonte vago, indistinto e solenemente mon&oacute;tono, ao<br \/>\n    grado daquelas ondas irrequietas, baixa-lhes ao cora&ccedil;&atilde;o uma<br \/>\n    nuvem de tristeza, corre-lhes os membros um estremecimento de receio; assaltam-nos<br \/>\n    as primeiras saudades, que s&atilde;o para as tristezas do desterro o que<br \/>\n    os vapores do Outono s&atilde;o para as cruezas do Inverno, chama-os ent&atilde;o<br \/>\n    da aldeia que abandonaram uma voz desvanecida em que se confundem o canto<br \/>\n    das aves, o ciciar dos arvoredos e o sussurrar das fontes e dos ribeiros.<\/p>\n<p> Assim na vida. N&oacute;s todos, iludidos como essas crian&ccedil;as, vimos<br \/>\n    dos risonhos verg&eacute;is da inf&acirc;ncia, atrav&eacute;s das floridas<br \/>\n    e pitorescas veredas da juventude, ansiosos por chegar ao termo da jornada<br \/>\n    e confiamo-nos &agrave;s ondas deste oceano do mundo, em demanda de n&atilde;o<br \/>\n    sei que nunca realizado futuro. N&atilde;o nos ret&ecirc;m as flores que se<br \/>\n    debru&ccedil;am dos caminhos; quando muito, colhemo-las distra&iacute;dos<br \/>\n    e sem piedade as desfolhamos, deixando-as no ch&atilde;o murchas e esquecidas,<br \/>\n    e seguimos sempre com os olhos e com o pensamento no termo da estrada que<br \/>\n    trilhamos.<\/p>\n<p> Mas ao chegarmos &agrave; praia, ao vermos diante de n&oacute;s as grandes<br \/>\n    &aacute;guas e os que nos precederam, em luta j&aacute; com elas, ora elevando-se-<br \/>\n    -lhes no dorso, ora engolfando-se-lhes no seio, apodera-se-nos ent&atilde;o<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o um certo pavor, fogem-nos dos l&aacute;bios o riso<br \/>\n    e o canto e tamb&eacute;m sentimos as primeiras saudades do passado, as primeiras<br \/>\n    apreens&otilde;es do futuro.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o de Urzeiros achava-se neste momento cr&iacute;tico.<\/p>\n<p> E davam-se com ele circunst&acirc;ncias que mais cr&iacute;tico o tornavam.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o humano, digam o que quiserem os que o taxam de ego&iacute;sta,<br \/>\n    desfalece menos ante a perspectiva dos perigos quando &eacute; &uacute;nico<br \/>\n    a arrost&aacute;-los, do que quando a tempestade que amea&ccedil;a feri-lo,<br \/>\n    atinge tamb&eacute;m outro a que os afectos o ligam.<\/p>\n<p> O nosso esp&iacute;rito prev&ecirc; melhor o futuro quando nenhum outro<br \/>\n    futuro depende dele; concebe e previne melhor as eventualidades, calcula melhor<br \/>\n    o alcance e a compreens&atilde;o da desgra&ccedil;a, porque pelo conhecimento<br \/>\n    que tem de si, pode pressentir o mal que ele lhe causar&aacute;.<\/p>\n<p> Mas, se mais algu&eacute;m sofre connosco, como n&atilde;o temos consci&ecirc;ncia<br \/>\n    do sentir dos outros, nem podemos antever neles a intensidade do mal, mais<br \/>\n    nos assusta o pensamento do futuro porque h&aacute; nele uma maior por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de desconhecido e o desconhecido &eacute; o eterno terror do homem.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o podia fazer entrar como elemento dos seus c&aacute;lculos<br \/>\n    do futuro a sensibilidade do pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o<br \/>\n    a do cora&ccedil;&atilde;o de Adelina.<\/p>\n<p> Deus s&oacute; sabia at&eacute; que ponto qualquer sucesso poss&iacute;vel<br \/>\n    afectaria aquela delicad&iacute;ssima &iacute;ndole feminina.<\/p>\n<p> Isto o fazia receoso.<\/p>\n<p> Depois vinha a natureza da miss&atilde;o social que lhe cumpria desempenhar.<\/p>\n<p> &Eacute; natural que o confrangimento de cora&ccedil;&atilde;o que &agrave;<br \/>\n    semelhan&ccedil;a do actor novel, experimenta todo o homem, ao entrar em cena<br \/>\n    neste grande teatro da sociedade, seja tanto mais intenso e doloroso quanto<br \/>\n    maior &eacute; a import&acirc;ncia do papel que vai representar. <\/p>\n<p>No teatro o actor encarregado de um papel sem import&acirc;ncia, de entregar<br \/>\n    uma mensagem, de anunciar a entrada de uma figura do drama, que n&atilde;o<br \/>\n    tem de falar ao cora&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico, n&atilde;o pode sentir<br \/>\n    a como&ccedil;&atilde;o que sente o protagonista, em quem todos os olhos se<br \/>\n    fitam, cujas palavras e gestos t&ecirc;m de dirigir-se aos afectos, de excitar<br \/>\n    a sensibilidade, de desencadear as paix&otilde;es no p&uacute;blico que o<br \/>\n    escuta.<\/p>\n<p> E, sendo assim, concebem-se mais justificadas e mais angustiosas apreens&otilde;es<br \/>\n    do que as do estudante de medicina de ontem a quem a faculdade, em cujo seio<br \/>\n    viveu descuidado, lhe diz, separando-o de si e impelindo-o &agrave;s lutas<br \/>\n    sociais:&#8212;&laquo;parte, lida; &eacute; tempo de experimentares as armas<br \/>\n    que te confiei&raquo;.<\/p>\n<p> O que n&atilde;o estremecer nesse momento solene, o que se n&atilde;o sentir<br \/>\n    hesitante, impressionado por uma &iacute;ntima desconfian&ccedil;a em si pr&oacute;prio,<br \/>\n    nas suas for&ccedil;as e faculdades, n&atilde;o &eacute; digno de ser m&eacute;dico<br \/>\n    porque n&atilde;o compreende nem compreender&aacute; nunca o alcance da miss&atilde;o<br \/>\n    que vai desempenhar.<\/p>\n<p> Na vida que o espera n&atilde;o h&aacute; afecto humano com que n&atilde;o<br \/>\n    tenha de confrontar-se, desgra&ccedil;a que lhe n&atilde;o projecte no caminho<br \/>\n    o seu triste reflexo, interesse que n&atilde;o possa depender dos seus actos,<br \/>\n    segredo que n&atilde;o possa ser confiado &agrave; sua lealdade. Abrir-lhe-&atilde;o<br \/>\n    um dia a porta de uma casa a esperan&ccedil;a e as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os;<br \/>\n    fechar-lha-&atilde;o amanh&atilde; a ingratid&atilde;o e as inj&uacute;rias;<br \/>\n    receb&ecirc;-lo-&aacute; hoje aqui o desespero, acol&aacute; o crime, al&eacute;m<br \/>\n    a mis&eacute;ria e, como um espectro implac&aacute;vel, lhe surgir&aacute;<br \/>\n    a cada momento a morte, sob formas sempre diversas e sempre pavorosas, cingida<br \/>\n    com a capela virginal umas vezes, coroada outras pelas c&atilde;s de velhice,<br \/>\n    animada por o sorriso da inf&acirc;ncia ou sinistra com os vest&iacute;gios<br \/>\n    do crime.<\/p>\n<p> Vai pois viver em uma atmosfera de afectos, mover-se no &iacute;ntimo seio<br \/>\n    das fam&iacute;lias, onde cada movimento levanta um capricho, magoa um preconceito,<br \/>\n    agita um interesse ou revolta uma paix&atilde;o.<\/p>\n<p> O que, sabendo isto, aceita com desassombro a miss&atilde;o, ou n&atilde;o<br \/>\n    tem intelig&ecirc;ncia para a compreender, ou possui um car&aacute;cter de<br \/>\n    deplor&aacute;vel natureza.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o estava em nenhum destes casos. Ao seu car&aacute;cter<br \/>\n    faltava-lhe, diga-se a verdade, um elemento dos mais poderosos para, na sua<br \/>\n    situa&ccedil;&atilde;o, lhe infundir coragem: &#8212; a paix&atilde;o do ideal.<\/p>\n<p> Os que no mundo perseguem esta luminosa vis&atilde;o, esta fada atraente<br \/>\n    e sedutora, aqueles cujas vistas penetram atrav&eacute;s do mundo das realidades<br \/>\n    e al&eacute;m dele, descobrem um mundo novo, o mundo das ilus&otilde;es e<br \/>\n    da poesia, sentem-se, ao empreender uma destas tarefas &aacute;rduas e dolorosas,<br \/>\n    rodeados de um prest&iacute;gio que lhes d&aacute; alentos e, longe de desanimarem,<br \/>\n    mais se lhes exalta o &acirc;nimo com as prova&ccedil;&otilde;es da vida.<br \/>\n    Estas frontes humanas parecem ambicionar uma coroa, seja embora de espinhos,<br \/>\n    que misturem o seu pungir &agrave;s embriagadoras como&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    gl&oacute;ria.<\/p>\n<p>Est&ecirc;v&atilde;o, por&eacute;m, era um homem positivo. A imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o lhe coloria a perspectiva com tintas suas; deixava-lhe o colorido<br \/>\n    real.<\/p>\n<p> Antes da morte do pai, Est&ecirc;v&atilde;o, olhando friamente para o futuro,<br \/>\n    concebera uns projectos que nada tinham de ambiciosos. Contentava- se em estabelecer-se<br \/>\n    como facultativo municipal em qualquer terra da prov&iacute;ncia e realizar<br \/>\n    a&iacute; um casamento, sen&atilde;o rico, remediado, embora n&atilde;o presidissem<br \/>\n    &agrave;s n&uacute;pcias nem a beleza da noiva nem a intensa paix&atilde;o<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao sentir-se o amparo de Adelina, Est&ecirc;v&atilde;o, sem renunciar de<br \/>\n    todo aos seus projectos, recuou para mais remota &eacute;poca a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de parte deles e tomou para primeira tarefa a felicidade da irm&atilde;.<\/p>\n<p> Para estes brandos afectos tinha ele cora&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    para paix&otilde;es violentas.<\/p>\n<p> Era honrado, prudente, exacto no cumprimento dos seus deveres, regular na<br \/>\n    divis&atilde;o do seu trabalho; um destes esp&iacute;ritos t&atilde;o raros<br \/>\n    hoje em que os h&aacute;bitos sociais e n&atilde;o sei que auras que se respiram<br \/>\n    nas cidades, fazem t&atilde;o predominantes os temperamentos nervosos, com<br \/>\n    as suas alternativas de desalento e de coragem, de actividade e de indol&ecirc;ncia,<br \/>\n    que n&atilde;o os deixa trabalhar com regular const&acirc;ncia em qualquer<br \/>\n    obra empreendida. Mas por isso mesmo que via tudo friamente, Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o desconhecia as muitas dificuldades com que tinha de lutar.<\/p>\n<p> Oferecera-se-lhe um partido municipal na vila de Meloais do Duque, pseud&oacute;nimo<br \/>\n    que adoptamos para comodidade da narra&ccedil;&atilde;o e por julgarmos que<br \/>\n    n&atilde;o pertence a trato algum de terra na corografia p&aacute;tria. Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    escreveu ao presidente da c&acirc;mara, este respondeu- -lhe, entraram em<br \/>\n    negocia&ccedil;&otilde;es e enfim Est&ecirc;v&atilde;o foi nomeado superintendente<br \/>\n    da sa&uacute;de p&uacute;blica da mencionada vila.<\/p>\n<p> Apurou, a muito custo, o dinheiro preciso para as despesas de instala&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de transporte, preparou a bagagem e partiu na companhia da irm&atilde; para<br \/>\n    a sua nova terra, levando em dois ba&uacute;s todos os seus haveres, em sete<br \/>\n    ou oito livros a sua ci&ecirc;ncia e numa pequena caixa de folha os seus diplomas<br \/>\n    de formatura e de nomea&ccedil;&atilde;o de facultativo municipal.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o ia grave e meditabundo. Interrogava-se intimamente,<br \/>\n    achava-se inexperiente; procurava pesar a ci&ecirc;ncia com que podia contar,<br \/>\n    achava-a t&atilde;o leve! E aos ouvidos soava-lhe lugubremente como formid&aacute;vel<br \/>\n    memento, pronunciado pela boca de espectro perseguidor, o aforismo hipocr&agrave;tico:<br \/>\n    &#8212; Vita brevis, ars longa, occasio celers, exper&iacute;mentum pericolosum,<br \/>\n    judicium difficile.<\/p>\n<p> Estas cinco breves ora&ccedil;&otilde;es eram como badaladas a dobrar por<br \/>\n    finados; faziam-no esmorecer.<\/p>\n<p> Adelina, pelo contr&aacute;rio, ia descuidada e distra&iacute;da pelas impress&otilde;es<br \/>\n    da jornada. A alegria dos dezoito anos principiava j&aacute; a romper a nuvem<br \/>\n    de luto com que a morte do pai a assombrara. Os sorrisos vinham-lhe j&aacute;<br \/>\n    aos l&aacute;bios talhados para eles.<\/p>\n<p>Ela n&atilde;o sentia apreens&otilde;es pelo futuro. Tal era a confian&ccedil;a<br \/>\n    que depositava em Est&ecirc;v&atilde;o que n&atilde;o concebia perigos que<br \/>\n    ele n&atilde;o pudesse arrostar, desgra&ccedil;a que a ferisse sob t&atilde;o<br \/>\n    valiosa protec&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O irm&atilde;o com a sua robustez, com a sua juventude, com a sua ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    com a sua posi&ccedil;&atilde;o social, era para a ing&eacute;nua crian&ccedil;a<br \/>\n    um her&oacute;i, que lhe inspirava coragem, a qual florescia em sorrisos naquela<br \/>\n    expressiva e simp&aacute;tica fisionomia. Porque era deveras simp&aacute;tica<br \/>\n    Adelina com os seus olhos negros e amor&aacute;veis que temperavam sempre,<br \/>\n    pela express&atilde;o de bondade que tinham, o sorriso da travessura e inofensiva<br \/>\n    mal&iacute;cia que &agrave;s vezes lhe brincava nos l&aacute;bios juvenis.<\/p>\n<p> Era Adelina uma destas raparigas delicadas de complei&ccedil;&atilde;o mas<br \/>\n    em quem a delicadeza nada tem de m&oacute;rbido; onde n&atilde;o domina t&atilde;o<br \/>\n    absolutamente o sistema nervoso que as torne escravas das suas caprichosas<br \/>\n    determina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Com este car&aacute;cter, Adelina era para Est&ecirc;v&atilde;o uma &oacute;ptima<br \/>\n    companheira de jornada, temperando com o seu bom humor as impaci&ecirc;ncias<br \/>\n    do irm&atilde;o.<\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<p>QUER-ME parecer que poucos leitores necessitar&atilde;o que eu lhes descreva<br \/>\n    as impress&otilde;es recebidas por um pobre viajante, extenuado pelas fadigas<br \/>\n    de uma fastidiosa jornada, desconjuntado pelo chouto de uma cavalgadura manhosa,<br \/>\n    numa palavra, mal disposto do corpo e do esp&iacute;rito, ao entrar de noite<br \/>\n    em uma vila do interior da prov&iacute;ncia.<\/p>\n<p> Uma vila! Perdoem-me as muitas pessoas estim&aacute;veis constrangidas pelos<br \/>\n    fados a contar num desses circulozinhos sociais os trezentos sessenta e cinco<br \/>\n    dias do ano, mas a minha sinceridade constrange- me a declar&aacute;-lo: uma<br \/>\n    vila &eacute; a mais impertinente localidade em que um homem pode desgastar<br \/>\n    as rodas do seu complicado mecanismo.<\/p>\n<p> Ainda se &eacute; uma dessas povoa&ccedil;&otilde;es, de onde se escuta<br \/>\n    o rugir do mar vizinho e que participa do ar de fam&iacute;lia que t&ecirc;m<br \/>\n    todas as terras mar&iacute;timas, um ar alegre, desafogado, que &eacute; como<br \/>\n    o sorriso das povoa&ccedil;&otilde;es, modifica-se um pouco a fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    caracter&iacute;stica e a alma n&atilde;o se acha oprimida ao encerrar-se<br \/>\n    ali.<\/p>\n<p> Mas, se &eacute; uma terra bem encravada no centro da prov&iacute;ncia,<br \/>\n    uma dessas pinhas de casas velhas, cortadas por quatro ruas tortuosas e doze<br \/>\n    vielas intransit&aacute;veis, que de quando em quando interrompem o curso<br \/>\n    de uma estrada, se &eacute; uma terra bem sertaneja, onde em geral se fala<br \/>\n    do mar como de uma coisa mitol&oacute;gica, uma vila com uns forais e um pelourinho<br \/>\n    e uns fidalgos e uns pardieiros que foram uns pal&aacute;cios, uma vila, enfim,<br \/>\n    perfeito esp&eacute;cime do g&eacute;nero, e n&atilde;o excep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    duvido que haja cora&ccedil;&atilde;o despreocupado que n&atilde;o se sinta<br \/>\n    opresso ao entranhar-se nela. Ora a vila de Meloais do Duque era tudo isto.<\/p>\n<p> Por isso Est&ecirc;v&atilde;o e at&eacute; a pr&oacute;pria Adelina, cediam<br \/>\n    a uma opressora melancolia quando as cavalgaduras que os transportavam come&ccedil;aram<br \/>\n    a trilhar o lajedo das ruas estreitas e n&atilde;o iluminadas da terra que<br \/>\n    tinha de ser o campo de manobras do novo facultativo.<\/p>\n<p> Adelina, a jovial Adelina, olhava para as casas altas e velhas que parecia<br \/>\n    curvarem-se para a verem passar, procurava devassar o segredo das adufas e<br \/>\n    crivos discretos que sentia entreabrirem-se a satisfazer curiosidades de quem<br \/>\n    por dentro deles se ocultava, perdia o olhar nas lojas funebremente esclarecidas<br \/>\n    por uma morti&ccedil;a luz de azeite, que desenhava em escuro o grupo de fregueses<br \/>\n    estacionados no v&atilde;o da porta a desfiar a cr&oacute;nica do dia, e a<br \/>\n    pobre rapariga, t&atilde;o sequiosa de espect&aacute;culos alegres, experimentava<br \/>\n    esta aura de tristeza, que precede &agrave;s vezes uma explos&atilde;o de<br \/>\n    pranto. Mas cedo triunfava desta influ&ecirc;ncia com uma reflex&atilde;o<br \/>\n    jovial.<\/p>\n<p> &#8212; Olha, Est&ecirc;v&atilde;o, repara &#8212; dizia ela, mostrando<br \/>\n    ao irm&atilde;o uma casa por diante da qual passavam naquele momento &#8212;<br \/>\n    esta casa, com aquela janela aberta e assim corcovada, n&atilde;o te parece<br \/>\n    mesmo uma velha a tossir? Est&ecirc;v&atilde;o desviou o olhar distra&iacute;do<br \/>\n    para a casa em quest&atilde;o e respondeu com um sorriso &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    da irm&atilde;.<\/p>\n<p> Ao passarem os nossos dois desconfortados viajantes, deixavam atr&aacute;s<br \/>\n    de si uma esteira de coment&aacute;rios trocados de adufa para adufa, de uma<br \/>\n    loja para outra, da rua para as janelas, ou entre os grupos que estacionavam<br \/>\n    nas esquinas e largos.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ele, &eacute; &#8212; dizia, por exemplo, uma voz de mulher<br \/>\n    que sa&iacute;a atrav&eacute;s de uns crivos meio descerrados.<\/p>\n<p> &#8212; Bem disse o Chico do botic&aacute;rio que eles vinham hoje&#8212;<br \/>\n    respondia outra voz da &aacute;gua-furtada fronteira.<\/p>\n<p> &#8212; Vai na burra do Z&eacute; Domingues.<\/p>\n<p> &#8212; E a madama &eacute; mulher dele? &#8212; Pelos modos dizem que &eacute;<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; E tem s&oacute; aquela ? &#8212; Tem. O pai morreu no outro dia.<\/p>\n<p> &#8212; E ele &eacute; novo ainda ? &#8212; &Eacute; uma crian&ccedil;a;<br \/>\n    pois se ainda ontem, se pode dizer, acabou os estudos.<\/p>\n<p> &#8212; Hum! E ent&atilde;o j&aacute; lhe d&atilde;o assim o partido ? Mais<br \/>\n    adiante ficou a dizer um caixeiro de balc&atilde;o para a menina da casa defronte,<br \/>\n    com quem provavelmente tinha de vir a casar.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o m&eacute;dico novo.<\/p>\n<p> &#8212; Ai &eacute; ?! E a senhora que vai com ele ? &#8212; Diz que &eacute;<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Ele &eacute; solteiro, Manelzinho?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, sim, menina; veja se lhe serve.<\/p>\n<p> &#8212; Ora n&atilde;o &eacute; por isso. Tamb&eacute;m! &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o se constranja; a irm&atilde; tamb&eacute;m &eacute; solteira.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, adeus; n&atilde;o se ponha a brincar. Olhe, viu se ela ia<br \/>\n    de chap&eacute;u ? &#8212; Para lhe falar a verdade, n&atilde;o reparei. Acho<br \/>\n    que n&atilde;o; levava assim uma manta ..<\/p>\n<p> &#8212; Um cachen&eacute; ? &#8212; N&atilde;o, menina. Era assim uma coisa&#8230;<br \/>\n    seria um cachen&eacute;, seria.<\/p>\n<p> &#8212; Mas olhe, o vestido era de fazenda? &#8212; Isso agora &eacute;<br \/>\n    que eu n&atilde;o sei, menina.<\/p>\n<p> Um homem, que, ao dobrar uma esquina, parara para os ver passar, disse,<br \/>\n    entrando depois na loja pr&oacute;xima, para outro que, embrulhado num capote<br \/>\n    e cal&ccedil;ado com socos e meias de l&atilde;, estava sentado no banco da<br \/>\n    porta : &#8212; Ent&atilde;o chegou o bicho? &#8212; Qu&ecirc;? &#8212; O<br \/>\n    cirurgi&atilde;o novo.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, pois era esse que ai passou? Ora com Deus venha.<\/p>\n<p> &#8212; Se n&atilde;o for melhor do que o outro&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; H&atilde;-de ser como todos; o melhor sempre &eacute; n&atilde;o<br \/>\n    lhes cair nas m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; Isto daqui at&eacute; que se ponha ao facto da natureza das pessoas!<br \/>\n    A resposta foi um prolongado assobio, acompanhado de um movimento da cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre o dorso.<\/p>\n<p> &#8212; Quem s&atilde;o ? quem s&atilde;o ? &#8212; perguntava, incorporando-se<br \/>\n    no grupo que se formara numa esquina, um indiv&iacute;duo que os vira passar.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o cirurgi&atilde;o do Porto &#8212; responderam-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, &eacute; verdade. Ele sempre vai morar para a casa da Teresa<br \/>\n    do Carniceiro? &#8212; Vai. O presidente l&aacute; lhe arranjou esse neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Qual presidente; foi o Baltasar botic&aacute;rio que &eacute; afinal<br \/>\n    quem ganha com o neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; Ai sim; porque a Teresa deve-lhe umas dez moedas.<\/p>\n<p> &#8212; Por quanto anda aquela casa ? &#8212; Ele alugou-a por nove moedas.<\/p>\n<p> &#8212; Oh! que logra&ccedil;&atilde;o! &#8212; Pois vedes! Aquele menino!<br \/>\n    Uma ou outra palavra destes variados di&aacute;logos, a que ele dava motivo,<br \/>\n    chegavam aos ouvidos de Est&ecirc;v&atilde;o e mostravam-lhe que pouco teria<br \/>\n    j&aacute; que informar aquela gente a respeito da biografia pr&oacute;pria,<br \/>\n    t&atilde;o adiantada a vinha j&aacute; encontrar.<\/p>\n<p> A cavalgada prosseguia entretanto ao longo da rua principal da vila, a qual<br \/>\n    abundava em lojas de ferradores e quase impedida de tr&ecirc;s em tr&ecirc;s<br \/>\n    portas por uma recua de cavalgaduras de carga, entregues &agrave; pr&oacute;pria<br \/>\n    discri&ccedil;&atilde;o &agrave; porta das tabernas e alquiles, Sons predominantes:<br \/>\n    o das campainhas das alim&aacute;rias, o das ferraduras na cal&ccedil;ada<br \/>\n    e o das pragas dos almocreves. Cheiro: o de palha curtida e da erva segada<br \/>\n    nas estrebarias.<\/p>\n<p> Quase ao fim desta rua e no ponto mais estreito dela havia uma casa de triste<br \/>\n    apar&ecirc;ncia, tendo defronte outras casas mais altas a assombrarem-na.<\/p>\n<p> Pararam a&iacute;. Tinham chegado ao termo da jornada.<\/p>\n<p> As janelas e portas da vizinhan&ccedil;a trasbordavam de curiosos.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o desmontou e foi ajudar a irm&atilde; a saltar em terra.<\/p>\n<p> Esta, ao ver a fachada da casa em que ia entrar, sentiu a impress&atilde;o<br \/>\n    de um pesadelo.<\/p>\n<p> A senhoria, com uma vela acesa na m&atilde;o, a qual, com a outra, resguardava<br \/>\n    das correntes de vento, veio ao limiar da porta a receber os seus inquilinos.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o, depois de a cumprimentar, dispunha-se a vencer o &iacute;ngreme<br \/>\n    lan&ccedil;o de escadas que o deviam conduzir aos aposentos superiores e,<br \/>\n    nesse intuito, segurava-se j&aacute; ao corrim&atilde;o de corda que seguia<br \/>\n    junto &agrave; parede salitrosa.<\/p>\n<p> Adelina imitava-o.<\/p>\n<p> Ouviram por&eacute;m atr&aacute;s de si a voz da senhoria, que, antes de<br \/>\n    retirar- se, dava as boas noites &agrave; vizinhan&ccedil;a. Voltaram-se logo<br \/>\n    e por um acto de cortesia imitaram-na.<\/p>\n<p> Imediatamente rompeu das janelas das casas vizinhas um coro de vozes de<br \/>\n    todos os timbres, de homens, de mulheres, de novos, de velhos e de crian&ccedil;as<br \/>\n    a corresponderem-lhes &agrave; sauda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Dentro de alguns minutos mais, achavam-se os dois irm&atilde;os instalados<br \/>\n    na sua nova resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Era uma sala baixa e desguarnecida, com janelas acanhadas olhando para a<br \/>\n    rua, duas alcovas e um corredor, na extens&atilde;o do qual havia dois quartos<br \/>\n    pequenos e no fim a cozinha e uma ex&iacute;gua casa de jantar.<\/p>\n<p> A senhoria, que para ceder o andar nobre aos inquilinos, passava a habitar<br \/>\n    os baixos da casa, andou de luz em punho a mostrar-lhes toda a topografia<br \/>\n    do lugar, demorando-se muito em explica&ccedil;&otilde;es e coment&aacute;rios<br \/>\n    a prop&oacute;sito de cada compartimento.<\/p>\n<p> Adelina, conquanto sentisse que lhe passava ao cora&ccedil;&atilde;o o desconforto<br \/>\n    que a rodeava, fazia frente &agrave; verbosa rendat&aacute;ria, respondia-<br \/>\n    -lhe e interrogava-a com o insinuante tom de bondade que lhe era natural.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o se for&ccedil;ava a tanto; ouvia mudo e<br \/>\n    soturno as divaga&ccedil;&otilde;es da velha; n&atilde;o sei se lhes prestava<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ela falava por ambos. Em menos de um quarto de hora, operando as mais r&aacute;pidas<br \/>\n    e imprevistas transi&ccedil;&otilde;es, conseguiu esbo&ccedil;ar a pr&oacute;pria<br \/>\n    hist&oacute;ria geneal&oacute;gica, a descri&ccedil;&atilde;o minuciosa da<br \/>\n    doen&ccedil;a e morte do marido, a rela&ccedil;&atilde;o comentada das pessoas<br \/>\n    que tinham morado j&aacute; naquela casa, idem dos facultativos que tinham<br \/>\n    precedido Est&ecirc;v&atilde;o, das qualidades do &uacute;ltimo; a r&aacute;pida<br \/>\n    resenha das principais fam&iacute;lias da terra e dos seus parentescos no<br \/>\n    Porto.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o p&ocirc;de mais tempo lutar. Deixou-se cair<br \/>\n    extenuado sobre um ba&uacute; e declarou os irresist&iacute;veis desejos que<br \/>\n    tinha de dormir.<\/p>\n<p> Adelina olhou, compadecida, para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois pudera n&atilde;o! &#8212; disse a implac&aacute;vel senhoria&#8212;quem<br \/>\n    vem de uma caminhada dessas! Eu nunca na minha vida dormi t&atilde;o bem como<br \/>\n    em uma ocasi&atilde;o em que fui ao Porto pelo Entrudo. Umas senhoras minhas<br \/>\n    amigas, que lhe chamam aqui as Apar&iacute;cias. N&atilde;o sei se t&ecirc;m<br \/>\n    ouvido falar? Est&ecirc;v&atilde;o n&atilde;o respondeu.<\/p>\n<p> Adelina disse, sentando-se tamb&eacute;m no outro ba&uacute; da jornada<br \/>\n    que estava no meio da sala: &#8212; N&atilde;o ; daqui n&atilde;o conhecemos<br \/>\n    ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Elas v&ecirc;m a ser primas dos Borges do Porto; esses conhecem?<br \/>\n    &#8212; L&aacute; h&aacute; muitos Borges &#8212; disse Est&ecirc;v&atilde;o,<br \/>\n    bocejando e com mau humor.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o uns que t&ecirc;m neg&oacute;cio para o Brasil &#8212;<br \/>\n    insistiu a senhoria e aguardou a ver se com esta particularidade ficava elucidada<br \/>\n    a quest&atilde;o dos Borges.<\/p>\n<p> Como n&atilde;o observasse ind&iacute;cios disso, continuou: &#8212; Que<br \/>\n    t&ecirc;m uma filha casada e outra solteira? Nova pausa.<\/p>\n<p> &#8212; Um deles chama-se Ant&oacute;nio e outro Jos&eacute; ? Idem.<\/p>\n<p> &#8212; Pois eles s&atilde;o muito conhecidos.<\/p>\n<p> Adelina acudiu: &#8212; Sim, mas como o Porto &eacute; muito grande&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; um tio deles n&atilde;o sei o que &eacute; la do governo<br \/>\n    de Lisboa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem, mas ent&atilde;o que fizeram esses Lopes? &#8212; perguntou<br \/>\n    Est&ecirc;v&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Lopes! N&atilde;o &eacute; Lopes, &eacute; Borges. Por isso o senhor<br \/>\n    n&atilde;o conhecia! Borges, Borges; um homem bem apessoado. Ainda s&atilde;o<br \/>\n    aparentados com os Cardosos. Esses conhecem decerto? &#8212; N&atilde;o sei;<br \/>\n    pode ser.<\/p>\n<p> &#8212; Que tem um filho que &eacute; oficial da tropa, que anda a cavalo.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o trocou com a irm&atilde; um olhar de l&aacute;stima.<\/p>\n<p> Adelina interveio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas dizia a Sr. Teresa que tinha ido ao Porto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fui com as tais senhoras. Elas andavam a perseguir-me para irmos<br \/>\n    e uma vez em casa do sr. major&#8230; Conhecem o sr. major, um que &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, sim, que &eacute; da tropa; esse conhe&ccedil;o; lembro-me<br \/>\n    de ter ouvido falar nele &#8212;&#8226; apressou-se a dizer Est&ecirc;v&atilde;o<br \/>\n    para conjurar o vendaval de explica&ccedil;&otilde;es que via iminente.<\/p>\n<p> E a senhoria em p&eacute; no limiar da porta, como quem est&aacute; para<br \/>\n    sair, preparava-se para entrar na intermin&aacute;vel divaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre a sua ida ao Porto, sem aten&ccedil;&atilde;o &agrave; fadiga manifesta<br \/>\n    dos seus dois inquilinos, que mal a ouviam j&aacute;.<\/p>\n<p> No meio, por&eacute;m, desta divaga&ccedil;&atilde;o interrompeu-a o ru&iacute;do<br \/>\n    de passos na escada e uma voz varonil que bradava de baixo: &#8212; D&aacute;<br \/>\n    licen&ccedil;a, sr. doutor? &#8212; Ai que &eacute; o Sr. Baltasar, botic&aacute;rio!<br \/>\n    &#8212; exclamou a Sr.&quot; Teresa, acudindo alvoro&ccedil;ada a alumiar<br \/>\n    a escada, que estalava sob o peso do rec&eacute;m-chegado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se incomode, n&atilde;o se incomode &#8212; dizia ele,<br \/>\n    subindo.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o e Adelina levantaram-se a receber a visita.<\/p>\n<p> &#8212; Ora muito boas noites&#8212;disse, entrando na sala, um homem baixo<br \/>\n    e gordo, vivo de movimentos e de fisionomia jovial; e sempre voz em grita,<br \/>\n    prosseguiu &#8212; Eu sou o Baltasar, botic&aacute;rio, estabelecido nesta<br \/>\n    freguesia h&aacute; vinte e dois anos, que os faz para o Santiago, moro aqui<br \/>\n    mesmo defronte e venho oferecer, em meu nome e no de minha mulher, aquela<br \/>\n    fraca choupana para tudo aquilo em que lhes possa ser &uacute;til.<\/p>\n<p> Est&ecirc;v&atilde;o e Adelina agradeceram com reconhecimento.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem que agradecer &#8212; continuou o Sr. Baltasar; &#8212;<br \/>\n    isto &eacute; sincero. N&oacute;s c&aacute; n&atilde;o somos de cerim&oacute;nias.<br \/>\n    Eu sei o que &eacute; isto de uma mudan&ccedil;a, apesar de que estou naquela<br \/>\n    casa, vai fazer para o S. Miguel quinze anos; mas at&eacute; assentar, tamb&eacute;m<br \/>\n    corri fad&aacute;rio&#8230; Isso, antes que as coisas entrem na ordem, &eacute;<br \/>\n    uma consumi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; verdade &#8212; disse Adelina,&#8212;Temos para uma<br \/>\n    semana.<\/p>\n<p> S&oacute; se d&aacute; por a falta das coisas quando se precisa delas.<\/p>\n<p> &#8212; Ora pois a&iacute; est&aacute;; por isso &egrave; que eu digo. &Oacute;<br \/>\n    Sr.&#8217; Teresa, ent&atilde;o n&atilde;o prepara o ch&aacute; para esta senhora?<br \/>\n    Provavelmente tomam ch&aacute; &agrave; noite? &#8212; Sim; costumamos tomar<br \/>\n    &#8212; respondeu Est&ecirc;v&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu logo vi. &Eacute; o sistema da cidade. Eu c&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    posso costumar-me.<\/p>\n<p> Aqui onde me v&ecirc; j&aacute; estou ceado. E l&aacute; a minha patroa<br \/>\n    &eacute; o mesmo. As pequenas &eacute; que j&aacute; n&atilde;o tanto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;Ah! tem meninas, Sr. &#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Baltasar, um seu criado, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Baltasar &#8212; concluiu Adelina.<\/p>\n<p> &#8212; Tenho, tenho, por meus pecados. Tenho duas raparigas. Elas queriam<br \/>\n    c&aacute; vir agora, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o porque n&atilde;o vieram ?&#8212; perguntou Adelina.<\/p>\n<p> &#8212; Davam-nos muito prazer &#8212; secundou Est&ecirc;v&atilde;o, com<br \/>\n    pouca sinceridade.<\/p>\n<p> O botic&aacute;rio chegou &agrave; janela e berrou para defronte: &#8212;<br \/>\n    &Oacute; meninas! &#8212; Meu pai ?! &#8212; responderam duas frescas vozes<br \/>\n    de mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o vinde e digam &agrave; m&atilde;e.<\/p>\n<p> Voltando-se para dentro, continuou, passeando de um para outro lado da sala<br \/>\n    e fazendo estalar as articula&ccedil;&otilde;es dos dedos.<\/p>\n<p>&#8212; Pois &eacute; verdade&#8230; Com que ent&atilde;o v&ecirc;m para esta nossa<br \/>\n    terra&#8230;<\/p>\n<p> Eu lhe digo; isto por aqui ainda n&atilde;o &eacute; mau de todo. A quest&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma pessoa dar-se bem. Olhe que ainda h&aacute; por estes s&iacute;tios<br \/>\n    um par de fam&iacute;lias, que n&atilde;o fazem maus lucros a um facultativo;<br \/>\n    o ponto est&aacute; que ele se acredite e queira trabalhar. Ora o sr. doutor<br \/>\n    est&aacute; novo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah! e n&atilde;o me falta vontade de trabalhai&quot;, pode cr&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bom &eacute; isso. Aqui o que h&aacute; de pior s&atilde;o<br \/>\n    as intrigas.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, sim? &#8212; Isso n&atilde;o falemos. Com certa gente &eacute;<br \/>\n    preciso viver com toda a cautela. Foi o que perdeu o outro que daqui saiu;<br \/>\n    principiou a frequentar certa roda, a meter-se com certa gente&#8230;<\/p>\n<p> Ouviram-se risos e vozes na escada, o ranger de saias engomadas, o raspar<br \/>\n    dos sapatos no lajedo do portal e, pouco depois, entravam a mulher e as meninas<br \/>\n    do botic&aacute;rio, que beijaram e abra&ccedil;aram Adelina e cumprimentaram<br \/>\n    cerimoni&agrave;ticamente Est&ecirc;v&atilde;o.<\/p>\n<p> A Sr.&#8217; Teresa foi buscar aos quartos cadeiras para todos e o c&iacute;rculo<br \/>\n    formou-se.<\/p>\n<p> As meninas eram duas formosuras vulgares, rosadas, sadias, de cabelos escuros,<br \/>\n    bonitos dentes e riso pronto; a m&atilde;e uma senhora gorda, de voz arrastada<br \/>\n    e ditos sentenciosos.<\/p>\n<p> Entraram logo em conversa com Adelina, contando-lhe o que tinham dito umas<br \/>\n    &agrave;s outras em rela&ccedil;&atilde;o a esta visita, porque n&atilde;o<br \/>\n    tinham vindo logo e a pressa com que resolveram vir, e falavam quase a um<br \/>\n    tempo.<\/p>\n<p> &#8212; E a Joaninha queria vestir-se &#8212; dizia uma.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o me queria vestir. Olha a mentirosa! &#8212; atalhou<br \/>\n    a outra.<\/p>\n<p> &#8212; Eu disse-lhe: &Oacute; menina, deixa-te agora disso &#8212; Eu vim<br \/>\n    como estava &#8212; notou a m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; E eu tamb&eacute;m &#8212; acudiu a Joaninha.&#8212;Mas &eacute;<br \/>\n    que esta Matilde tem um costume&#8230; Credo!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixe falar; &eacute; cisma dela.<\/p>\n<p> &#8212; Escusas de negar.<\/p>\n<p> &#8212; Tu &eacute; que negas que te foste vestir.<\/p>\n<p> &#8212; E a dar-lhel Olhe, sabe? &Eacute; que eu estava de avental.<\/p>\n<p> &#8212; Olha, olha! L&aacute; vem ela com o avental! Pois n&atilde;o foste!<br \/>\n    Ela j&aacute; tinha dobrado o avental na cesta da meia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; mentira. Ent&atilde;o n&atilde;o tinha o avental verde<br \/>\n    ? &#8212; Qual avental verde? &#8212; Qual h&aacute;-de ser ? O das florzinhas.<\/p>\n<p> &#8212; Ora viva, esse ainda ontem o deste a lavar.<\/p>\n<p> &#8212; Olha a mentirosa! j&aacute; viram? Se eu at&eacute; hoje te disse<br \/>\n    assim&#8230;<\/p>\n<p> Adelina ouvia toda esta discuss&atilde;o, &agrave; qual debalde tentar&iacute;amos<br \/>\n    transmitir toda a vida que o atabalhoado do di&aacute;logo lhe dava e, como<br \/>\n    n&atilde;o pudesse intervir, limitava-se a olhar para as contendoras com um<br \/>\n    sorriso de amabilidade.<\/p>\n<p>A m&atilde;e foi quem cortou o di&aacute;logo, dizendo para Adelina: &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o, que isto &eacute; sempre assim; em se tratando de sair, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o sabem o que fazem.<\/p>\n<p> &#8212; Ora a m&atilde;e tamb&eacute;m! Ela &eacute; que.,.<\/p>\n<p> E come&ccedil;ou nova discuss&atilde;o, digna em volubilidade da precedente.<\/p>\n<p> O botic&aacute;rio, que estivera falando com Est&ecirc;v&atilde;o a respeito<br \/>\n    das pessoas da terra, disse para a senhoria, no tom de familiaridade de quem<br \/>\n    est&aacute; na sua casa: &#8212; &Oacute; Sr.&ordf; Teresa, olhe se d&aacute;<br \/>\n    andamento a isto que esta senhora h&aacute;-de querer acomodar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Eu vou &#8212; disse a senhoria. &#8212; E ent&atilde;o sempre h&atilde;o-de<br \/>\n    querer o ch&aacute;? &#8212; Pois ent&atilde;o ? j&aacute; disseram que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Eu o que sinto &eacute; estar ainda t&atilde;o estranha nesta casa<br \/>\n    &#8212; disse Adelina &#8212; que nem sei se posso ou devo pedir-lhes o favor<br \/>\n    de nos fazerem companhia.<\/p>\n<p> &#8212; Ora essa &eacute; boa &#8212; acudiu a senhora do botic&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o eu n&atilde;o sei o que &eacute; isso? E at&eacute;,<br \/>\n    deixe-me ent&atilde;o dizer-lhe, que &eacute; prov&aacute;vel que sintam a<br \/>\n    falta de muita coisa e n&atilde;o t&ecirc;m mais do que mandar ali defronte.<br \/>\n    Olhe l&aacute;, &oacute; senhora Teresa, tem c&aacute; servi&ccedil;o de ch&aacute;<br \/>\n    em termos? &#8212; Eu&#8230; assim ele remedeie.<\/p>\n<p> &#8212; Nada, nada; sabe que mais? &Oacute; Joaninha, chega a casa e manda<br \/>\n    trazer o aparelho azul. Leva a chave do guarda-lou&ccedil;a; toma, &eacute;<br \/>\n    esta.<\/p>\n<p> Adelina e Est&ecirc;v&atilde;o debalde quiseram opor-se ao oferecimento.<\/p>\n<p> Estava aberto o dique aos obs&eacute;quios, dif&iacute;cil era ret&ecirc;-los.<\/p>\n<p> As meninas andaram para c&aacute; e para l&aacute;, trazendo isto e aquilo.<\/p>\n<p> A m&atilde;e dava-lhes ordens sobre ordens na sala, repetia-lhas do patamar<br \/>\n    quando elas desciam a escada; vinha explic&aacute;-las ou modific&aacute;-las<br \/>\n    &agrave; janela, quando j&aacute; iam na rua, ou ainda quando elas j&aacute;<br \/>\n    lhe respondiam das janelas da casa.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as a esta febre obsequiadora tudo se resolveu. A senhora do botic&aacute;rio<br \/>\n    em tudo p&ocirc;s a sua m&atilde;o met&oacute;dica e administradora. Infundiu<br \/>\n    o ch&aacute;, cortou as tostas, teimou em fazer uma cama, deitou a m&atilde;o<br \/>\n    a um m&oacute;vel, que, a conselho seu, se mudou de um para outro quarto,<br \/>\n    preparou as lamparinas e mil outros servi&ccedil;os. As meninas eram diligentes<br \/>\n    correios e atravessaram a rua um sem-n&uacute;mero de vezes e quase nunca<br \/>\n    com as m&atilde;os vazias. O botic&aacute;rio era mais pronto em dar ordens<br \/>\n    do que em execut&aacute;-las e foi pr&oacute;digo em conselhos em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a melhoramentos futuros.<\/p>\n<p> Feito o ch&aacute;, a fam&iacute;lia do Sr. Baltasar n&atilde;o se recusou<br \/>\n    a tomar parte nele.<\/p>\n<p> De maneira que Est&ecirc;v&atilde;o e Adelina, logo na primeira noite da<br \/>\n    chegada, tiveram reuni&atilde;o em casa e s&oacute; conseguiram descansar<br \/>\n    de tantos obs&eacute;quios perto das dez horas. fam&iacute;lias de pescadores,<br \/>\n    longe de imprimirem apar&ecirc;ncias de vida e anima&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    fei&ccedil;&atilde;o severa e melanc&oacute;lica do quadro, antes parecia<br \/>\n    concorrer para lha exagerar, talvez recordando &eacute;pocas de maior movimento<br \/>\n    na praia e fazendo, pelo contraste, sentir o seu actual abandono.<\/p>\n<p> As companhas n&atilde;o trabalhavam naquela tarde. Os arrais, estudando<br \/>\n    com os olhos experimentados a cor do c&eacute;u, o rumo do vento, a forma<br \/>\n    das nuvens e a ondula&ccedil;&atilde;o particular das vagas, prudentemente<br \/>\n    mandaram recolher as lanchas &agrave; praia. Esta n&atilde;o apresentava,<br \/>\n    portanto, aquele laborioso tumulto e confusa agita&ccedil;&atilde;o que acompanha<br \/>\n    sempre o trabalho das pescarias.<\/p>\n<p> Apenas algumas crian&ccedil;as de pernas nuas, crestadas pelo sol e pelas<br \/>\n    brisas mar&iacute;timas, lutavam umas com as outras na areia ou brincavam<br \/>\n    com as ondas, ora correndo para elas, ora fugindo-lhes, mas nem sempre com<br \/>\n    a presteza necess&aacute;ria para no movimento do fluxo n&atilde;o serem alcan&ccedil;adas,<br \/>\n    acontecimento que era sempre saudado com estrepitosas gargalhadas e apupos.<br \/>\n    Dos pescadores, uns haviam ido saborear &agrave; vila o tempo de tr&eacute;guas<br \/>\n    que lhes concedera o mar, outros refocilavam-se na taberna da tia Salgada,<br \/>\n    a mais afamada da costa do Furadouro, com longas e preciosas liba&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do vinho da Bairrada que desafiava compet&ecirc;ncias com os mais acreditados<br \/>\n    que se vendiam na vila; finalmente alguns mais s&oacute;brios, dispersos em<br \/>\n    grupos na praia, conversavam tranquilamente, quando n&atilde;o dormiam ao<br \/>\n    som mon&oacute;tono das ondas e na convidativa cama de areia solta, que t&atilde;o<br \/>\n    confortavelmente se lhes amoldava &agrave;s formas do corpo.<\/p>\n<p> O grupo, de onde haviam partido as poucas palavras que pudemos ainda escutar,<br \/>\n    era um daqueles em que mais intensamente pareciam absorvidas as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pelo assunto que se discutia. Na posi&ccedil;&atilde;o e no gesto de quase<br \/>\n    todos os que o formavam, revelava-se uma &aacute;vida curiosidade e o velho<br \/>\n    Caba&ccedil;a, que tinha a palavra naquela ocasi&atilde;o, assumira certo<br \/>\n    ar de gravidade que n&atilde;o concorria pouco para o efeito produzido.<\/p>\n<p> Era o tio Caba&ccedil;a uma bela figura de velho, alentado e musculoso e<br \/>\n    de uma robustez de organiza&ccedil;&atilde;o que reagia ainda, vitoriosamente,<br \/>\n    contra o peso dos anos.<\/p>\n<p> Era tido em grande conta na companha, n&atilde;o s&oacute; pelo muito que<br \/>\n    entendia de coisas do mar, como pelo bem que sabia contar hist&oacute;rias<br \/>\n    curiosas, cr&oacute;nicas dos tempos passados, recebidas por tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus pais e que de boa vontade transmitia aos mo&ccedil;os, que o escutavam<br \/>\n    sempre atentos, embebidos naquelas recorda&ccedil;&otilde;es, quase todas<br \/>\n    aloriosas para a gente do mar.<\/p>\n<p> Desta vez, por&eacute;m, o objecto da narra&ccedil;&atilde;o parecia ter<br \/>\n    encontrado incr&eacute;dulos entre o audit&oacute;rio, cujo cepticismo chegara<br \/>\n    a manifestar-se por aquela exclama&ccedil;&atilde;o de d&uacute;vida, com<br \/>\n    que abrimos o primeiro cap&iacute;tulo desta singela e despretensiosa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>O velho protestara, como vimos, pela veracidade do facto; mas ainda assim,<br \/>\n    encontrou uma voz de incr&eacute;dulo que redarguiu: &#8212; Essa l&aacute;<br \/>\n    me custa a crer, ti&#8217;Caba&ccedil;a. Eu sei que h&aacute; muitas estranhas e<br \/>\n    esquisitas castas de peixes l&aacute; por esses mares de Cristo. Velho n&atilde;o<br \/>\n    sou eu nesta vida de pescador e, contudo, posso j&aacute; dizer, sem me gabar,<br \/>\n    que tenho visto alguma coisa e que n&atilde;o ando nisto de todo &agrave;s<br \/>\n    cegas. Vi j&aacute; alguns peixes levantarem voo como os p&aacute;ssaros,<br \/>\n    outros eri&ccedil;ados de espinhos, que nem ouri&ccedil;os; j&aacute; experimentei<br \/>\n    o abalo que causam as tremelgas vivas quando se lhes toca com o p&eacute;,<br \/>\n    e at&eacute; um dia me mostraram de longe o chafariz de &aacute;gua que fazem<br \/>\n    as baleias ao respirar; mas agora as tais sereias&#8230; na verdade&#8230; peixes<br \/>\n    que falam e que cantam como a gente!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que falam e que cantam, sim, senhor, que falam e que cantam.<\/p>\n<p> ent&atilde;o que falar e que cantar! N&atilde;o &eacute; l&aacute; qualquer<br \/>\n    coisa! Eu s&oacute; queria que voc&ecirc;s ouvissem o meu pai, que Deus haja,<br \/>\n    contar o caso.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ent&atilde;o diga-nos mais por mi&uacute;do como isso foi &#8212;<br \/>\n    exclamou do lado um jovem pescador, que se mostrava excessivamente interessado<br \/>\n    com a hist&oacute;ria e mais disposto do que o seu companheiro a acreditar<br \/>\n    na exist&ecirc;ncia do fabuloso animal de que falara o velho.<\/p>\n<p> O tio Caba&ccedil;a sacudiu fleum&agrave;ticamente a cinza do seu volumoso<br \/>\n    cachimbo, soprou ao tubo para o desimpedir, fez nova provis&atilde;o de tabaco<br \/>\n    e acendeu-o &#8212; tudo isto com movimentos pausados &#8212; e, depois de<br \/>\n    expelir a primeira baforada, principiou, revestindo-se da devida gravidade,<br \/>\n    a narra&ccedil;&atilde;o que se lhe pedira.<\/p>\n<p> &#8212; O caso que lhes vou contar sucedeu, pelos modos, no tempo em que<br \/>\n    meu av&ocirc; era ainda rapaz. Vai por isso&#8230; Eu sei l&aacute;!?&#8230; h&aacute;<br \/>\n    mais de um cento de anos bem contados. Tinham ido certa tarde as companhas<br \/>\n    para o mar. Nos lan&ccedil;os da manh&atilde; a safra havia sido pequena,<br \/>\n    apesar de ter esperado que a sardinha, fugindo &agrave; trovoada que toda<br \/>\n    a semana andara pelo mar alto, viesse em abund&acirc;ncia &agrave; costa.<br \/>\n    Mas, como tal n&atilde;o sucedera, tiveram de se fazer de tarde os barcos<br \/>\n    mais ao largo. Estava um tempo assim como hoje: os ares soturnos, o vento<br \/>\n    sul e o mar picado. Laigaram-se as redes e seria a&iacute; pelo fim da tarde<br \/>\n    quando de novo remaram para a praia. Chega n&atilde;o chega, desembarca n&atilde;o<br \/>\n    desembarca, era j&aacute; lusco-fusco. O mar come&ccedil;ou ent&atilde;o a<br \/>\n    levantar-se mais, sem que tivesse havido mudan&ccedil;a de vento ou coisa<br \/>\n    que fosse motivo para isso. Os homens mais entendidos das companhas n&atilde;o<br \/>\n    podiam dizer o que adivinhava o mar, que assim t&atilde;o do p&eacute; para<br \/>\n    a m&atilde;o se fizera ruim. Este dizia uma coisa, aquele dizia outra, tantas<br \/>\n    cabe&ccedil;as, tantas senten&ccedil;as, e ningu&eacute;m se entendia.<\/p>\n<p> No entretanto puxavam-se as redes para terra: a canalha fazia, cantando,<br \/>\n    a algazarra do costume, os homens berravam como&#8230; voc&ecirc;s berram ainda<br \/>\n    agora, rapazes&#8230; eis sen&atilde;o quando&#8230; &quot; Um movimento de curiosidade<br \/>\n    se manifestou na assembleia ando o velho Caba&ccedil;a chegou a este t&oacute;pico<br \/>\n    da sua descri&ccedil;&atilde;o, que ele, como profundo conhecedor da arte<br \/>\n    de impressionar os audit&oacute;rios, soube fazer valer por uma pausa conveniente<br \/>\n    e uma particular e expressiva inflex&atilde;o de voz.<\/p>\n<p> Depois correu a vista por todos aqueles rostos, eloquentes de curiosidade<br \/>\n    e, satisfeito consigo pelos dotes orat&oacute;rios de que se percebia possuidor,<br \/>\n    continuou: &#8212; Eis sen&atilde;o quando, principiou-se a ouvir uma m&uacute;sica,<br \/>\n    a modo de m&uacute;sica de igreja.<\/p>\n<p> &#8212; De instrumental, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212; N&atilde;o, homem, daquela<br \/>\n    m&uacute;sica que se toca nas igrejas do Porto.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei, &eacute; a dos realejos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; dos realejos, n&atilde;o; &eacute; dos orgos,<br \/>\n    orgos &#8212; emendou um outro, melhor informado sobre a mat&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; verdade ! &#8212; continuou o orador. &#8212; Come&ccedil;ou-se<br \/>\n    a ouvir aquela m&uacute;sica e logo todos se calaram a escutar. Pareceu-lhes<br \/>\n    depois mais uma voz de mulher que chorava e que rompia em altas queixas.<\/p>\n<p> Olharam em redor para ver de onde partia aquilo e quanto mais olhavam mais<br \/>\n    se lhes afigurava virem do mar os tais choros e gemidos.<\/p>\n<p> Contudo, por mais que reparassem para as ondas, nada podiam enxergar.<\/p>\n<p> Continuavam puxando as redes e continuavam a ouvir as vozes, que cada vez<br \/>\n    aumentavam mais. Havia j&aacute; quem pensasse ser feiti&ccedil;aria aquilo.<\/p>\n<p> &#8212; Feiti&ccedil;aria, sim. Bem me fio eu nisso &#8212; disse, n&atilde;o<br \/>\n    desmentindo o seu provado cepticismo, o mesmo pescador que pusera em d&uacute;vida<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia das sereias.<\/p>\n<p> O velho Caba&ccedil;a julgou do seu dever corrigir a incredulidade deste<br \/>\n    companheiro, a qual lhe ia parecendo demasiada.<\/p>\n<p> &#8212; Homem, sabes que mais? Pede a Deus para que n&atilde;o venhas &agrave;<br \/>\n    tua custa a fiar-te em bruxedos e feiti&ccedil;os. Tu fazes-te muito valente,<br \/>\n    meu rapazote, mas acautela-te, porque um dia&#8230;&#8212;E operando uma r&aacute;pida<br \/>\n    divers&atilde;o no curso das suas ideias, o velho prosseguiu: &#8212; Mas<br \/>\n    no meio deste &#8212; que ser&aacute; que n&atilde;o ser&aacute; &#8212; estavam<br \/>\n    as redes chegando &agrave; praia; o pranto ouvia-se ainda mais claro, at&eacute;<br \/>\n    que enfim&#8230; viram os pescadores a coisa mais maravilhosa, que ainda apareceu<br \/>\n    na costa.<\/p>\n<p> &#8212; Era a sereia? &#8212; perguntaram, a um tempo, com ansiosa curiosidade<br \/>\n    alguns impacientes, cujo &acirc;nimo lhes n&atilde;o deixara sofrer as delongas<br \/>\n    da narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O tio Caba&ccedil;a continuou imperturb&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Viram um animal que da cinta para baixo era um peixe completo.<\/p>\n<p> &#8212; Um peixe?! &#8212; Sem tirar nem p&ocirc;r, escamas, cauda, barbatanas,<br \/>\n    finalmente tudo.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Barbatanas tamb&eacute;m? &#8212; Tamb&eacute;m barbatanas.<\/p>\n<p> &#8212; E da cinta para cima ? &#8212; Da cinta para cima era a mulher mais<br \/>\n    bonita que se tem visto no mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &#8212; Ora essa! &#8212; Isso era arte do Diabo! &#8212; E ent&atilde;o<br \/>\n    tinha cabelo e dentes e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Era uma mulher perfeita; n&atilde;o lhes estou eu a dizer? &#8212;<br \/>\n    Vou-me por esse mundo! &#8212; Olhem os meus pecados! &#8212; E ent&atilde;o<br \/>\n    falava, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212; Pois dela &eacute; que vinha a tal carpideira<br \/>\n    e os tais choros que te disse.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Estou para morrer.<\/p>\n<p> &#8212; Eu se visse tal estarrecia.<\/p>\n<p> &#8212; E que dizia ela, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212; Chorava e carpia-se que<br \/>\n    metia mesmo d&oacute;. Toda a sua pena era tirarem-na do mar. O que ela pedia<br \/>\n    &eacute; que a soltassem da rede e que a deixassem voltar para a &aacute;gua,<br \/>\n    pois s&oacute; l&aacute; &eacute; que podia viver.<\/p>\n<p> &#8212; E ela falava assim como a gente, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212; Pois<br \/>\n    ent&atilde;o ? E com uma voz e de uma maneira que fazia mesmo enternecer os<br \/>\n    mais empedernidos. &#8212; E o narrador, for&ccedil;ando a voz a um desafinado<br \/>\n    falsete, para lhe dar a mais feminil modula&ccedil;&atilde;o de que ela era<br \/>\n    suscept&iacute;vel, tentou, pouco modestamente, reproduzir o timbre fascinador<br \/>\n    da sereia, dizendo, conforme a tradi&ccedil;&atilde;o que fielmente conservara:<br \/>\n    &#8212; &laquo;Ai, soltai-me, soltai-me &#8212; dizia ela &#8212; deixai-me<br \/>\n    voltar para o mar, que, se me levais para terra, eu morrerei logo.&raquo;<br \/>\n    &#8212; Pobre rapariga! &#8212; Pobre peixe! &#8212; emendou outro.<\/p>\n<p> &#8212; E porque h&aacute;-de ser peixe e n&atilde;o rapariga? &#8212; O<br \/>\n    qu&ecirc; ? O qu&ecirc; ? Aquilo tem la alma ? &#8212; Eu sei l&aacute; se<br \/>\n    ela tem alma ? &#8212; Que dizes tu, homem, nem que fosse gente crist&atilde;!<br \/>\n    &#8212; Mas ela que falava&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; por artes do Mafarrico.<\/p>\n<p> O velho Caba&ccedil;a prosseguiu, depois de terminada esta acidental discuss&atilde;o<br \/>\n    psicol&oacute;gica: &#8212; Houve ainda assim quem quisesse tir&aacute;-la<br \/>\n    para seco, mas tais foram os seus queixumes, que o arrais, comovido, mandou<br \/>\n    solt&aacute;-la da rede.<\/p>\n<p> &#8212; E era muito grande, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212; Assim como uma corvina&#8230;<br \/>\n    taluda.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; feito! &#8212; Logo que se viu livre &#8212; continuou<br \/>\n    o orador &#8212; fugiu nadando, como um peixe que era, mas a cantar e com<br \/>\n    tanta aquela que nem m&uacute;sica de anjos do C&eacute;u pode ser t&atilde;o<br \/>\n    linda. Era um cantar de tal casta, que toda a companha se deixou ficar a escut&aacute;-lo,<br \/>\n    sem se lhe importar com a sardinha que j&aacute; estava na areia. As cachopas<br \/>\n    da vila, que tinham vindo aos caminhos para o Carregal, n&atilde;o queriam<br \/>\n    saber de outra coisa que n&atilde;o fosse ouvir aquela voz. E assim ficaram<br \/>\n    todos postos enquanto ela se p&ocirc;de ouvir e s&oacute; depois se deitaram<br \/>\n    ao trabalho, ainda que com bem pouca alma.<\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o que um pescador velho disse ser aquilo uma sereia e que<br \/>\n    bem mal tinham feito em a deixar fugir, pois de nada sabia t&atilde;o perigoso<br \/>\n    para os marinheiros como encontr&aacute;-las no mar largo ou escut&aacute;-las<br \/>\n    muito tempo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o o que fazem elas, ti&#8217;Caba&ccedil;a? &#8212;perguntou<br \/>\n    um dos pescadores mais jovens e que de todos parecia tamb&eacute;m o mais<br \/>\n    interessado pela narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Com aqueles cantos &#8212; respondeu o interpelado &#8212; pelos<br \/>\n    modos atordoam a gente, que fica assim como com uma bebedeira. N&atilde;o<br \/>\n    se faz mais coisa com coisa, n&atilde;o se atina com o governo do leme, nem<br \/>\n    com o das velas ou dos remos. Neste comenos elas levantam o mar e um homem<br \/>\n    vai para os peixinhos que &eacute; mesmo uma consola&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E nunca mais voltou &agrave; costa essa&#8230; esse peixe? &#8212; perguntou<br \/>\n    ainda o mesmo pescador.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca mais at&eacute; hoje. Ele anda sempre muito ao largo e s&oacute;<br \/>\n    quando alguma trovoada forte o escorra&ccedil;a &eacute; que foge para as<br \/>\n    costas.<\/p>\n<p> Seguiram-se v&aacute;rios coment&aacute;rios sobre a plausibilidade do caso.<\/p>\n<p> O tio Caba&ccedil;a contara-o com tal acento de convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e era t&atilde;o pouco dado a gracejos o velho pescador, que todo o audit&oacute;rio<br \/>\n    se sentiu inclinado a admitir o car&aacute;cter ver&iacute;dico do facto extraordin&aacute;rio<br \/>\n    que lhe acabara de ser narrado.<\/p>\n<p> Depois de muito conversar, dispersou-se finalmente o grupo, a&iacute; pelo<br \/>\n    cerrar da noite, e a taberna da tia Salgada viu aumentar o n&uacute;mero dos<br \/>\n    h&oacute;spedes e o das bocas que faziam justi&ccedil;a, por palavras e obras,<br \/>\n    &agrave;s excel&ecirc;ncias do seu Bairrada.<\/p>\n<p> Na praia apenas ficaram dois homens.<\/p>\n<p> Um era o tio Caba&ccedil;a, que, sentado, com as m&atilde;os entrela&ccedil;adas<br \/>\n    por diante dos joelhos e o cachimbo pendente dos l&aacute;bios crestados,<br \/>\n    olhava para as ondas que se sucediam na areia e parecia absorvido em profunda<br \/>\n    medita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Este h&aacute;bito de cismar gera-o a continuada contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das cenas mar&iacute;timas.<\/p>\n<p> O homem que vive e envelhece a escutar aquela m&uacute;sica das ondas, que<br \/>\n    do alvorecer ao crep&uacute;sculo &eacute; embalado por elas, o que alternadamente<br \/>\n    as conheceu af&aacute;veis e irritadas, que delas recebeu car&iacute;cias<br \/>\n    e amea&ccedil;as e as viu ora suavemente iluminadas pelo luar, ora reflectindo<br \/>\n    a luz sinistra dos rel&acirc;mpagos, surpreende-se muitas vezes nestas silenciosas<br \/>\n    e inexprim&iacute;veis divaga&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito, t&atilde;o<br \/>\n    frequentes nos poetas.<\/p>\n<p> Em todos os portos de mar se encontram, ao fim da tarde, desses velhos cismadores<br \/>\n    que, aparentemente atentos nas formas em que se condensa no ar o fumo do seu<br \/>\n    cachimbo, trazem por bem longe o pensamento, &quot;alvez que a colher saudades<br \/>\n    nas recorda&ccedil;&otilde;es daquele viver incerto de marinheiro, para cujas<br \/>\n    laboriosas perip&eacute;cias os anos os invalidaram j&aacute;.<\/p>\n<p> O velho Caba&ccedil;a principiava a pensar nessa &eacute;poca pr&oacute;xima,<br \/>\n    na qual lhe havia de fraquejar o bra&ccedil;o que ainda movia vigorosamente<br \/>\n    o remo; nesses longos dias, em que, preso &agrave; terra, se veria obrigado<br \/>\n    a ocupar- se num trabalho de mulheres, reparando as redes da companha, Aquele<br \/>\n    futuro tranquilo, reservado &agrave; sua velhice, entristecia-o, como, nos<br \/>\n    tempos de brios cavalheirosos, desanimava o guerreiro a ideia de uma morte<br \/>\n    que n&atilde;o fosse no meio da refrega e disputada at&eacute; ao &uacute;ltimo<br \/>\n    suspiro com feitos de arrojada bravura.<\/p>\n<p> Por isso o tio Caba&ccedil;a tinha frequentes momentos de melancolia.<\/p>\n<p> O outro homem era o pescador mo&ccedil;o, a quem tanto interessara a hist&oacute;ria<br \/>\n    da sereia, contada pelo primeiro, havia pouco, e que, desde que a ouvira,<br \/>\n    parecia haver ficado sob o dom&iacute;nio de uma profunda impress&atilde;o.<\/p>\n<p> A alta estatura deste jovem pescador, as suas formas bem desenvolvidas e<br \/>\n    a fisionomia expressiva de intelig&ecirc;ncia e vivacidade, davam- -lhe um<br \/>\n    certo ar de nobreza e resolu&ccedil;&atilde;o que fazia lembrar aquele c&eacute;lebre<br \/>\n    her&oacute;i napolitano, o ousado e patri&oacute;tico Mazaniello.<\/p>\n<p> As amplas e pitorescas vestes de pescador deixavam sobressair todas as vantagens<br \/>\n    da sua vigorosa e excelente corporatura.<\/p>\n<p> Era uma organiza&ccedil;&atilde;o cheia de vida e de robustez, a daquele<br \/>\n    mo&ccedil;o, em cujo rosto trigueiro e imberbe se desenhavam neste momento<br \/>\n    os sinais evidentes, ainda que desvanecidos, de uma certa preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Por baixo do cl&aacute;ssico gorro de l&atilde; escarlate sa&iacute;am-lhe<br \/>\n    profusos os cabelos, que lhe vinham quase pousar nos ombros. Com os bra&ccedil;os<br \/>\n    cruzados e a fronte pendida, este homem passeava silencioso no extremo da<br \/>\n    praia, t&atilde;o pr&oacute;ximo das ondas, que estas, nos maiores fluxos,<br \/>\n    chegavam a alcan&ccedil;&aacute;-lo sem que mesmo assim conseguissem distra&iacute;-lo<br \/>\n    daquela abstrac&ccedil;&atilde;o em que parecia concentrado.<\/p>\n<p> Este pescador que com o velho Caba&ccedil;a ficou na praia, o Pedro do Ramires,<br \/>\n    andava, de h&aacute; tempo, apreensivo e taciturno. Possu&iacute;a instintos<br \/>\n    de poeta, o malfadado.<\/p>\n<p> Eram esses instintos que o impeliam para aquela irresist&iacute;vel tend&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; solid&atilde;o, os que lhe faziam perceber, no som plangente das<br \/>\n    vagas, modula&ccedil;&otilde;es, para as quais os seus companheiros n&atilde;o<br \/>\n    tinham sentidos organizados, que por muito tempo o conservavam im&oacute;vel,<br \/>\n    a seguir com a vista aquelas ondas espumosas que se desfaziam na areia, as<br \/>\n    formas extravagantes das nuvens, os contrastes surpreendentes da luz que as<br \/>\n    atravessa ou se reflecte nelas, colorindo-as com inimit&aacute;vel paleta,<br \/>\n    a curva descrita na amplid&atilde;o pela ave aqu&aacute;tica de voo r&aacute;pido,<br \/>\n    e at&eacute; o estalai do trov&atilde;o e o fuzilar dos rel&acirc;mpagos em<br \/>\n    noites de tempestade. <\/p>\n<p>Pedro sentia, e por infelicidade sua, sentia com excesso. Este mundo, evidentemente<br \/>\n    n&atilde;o foi feito para quem sente assim! Aceitava, por&eacute;m, as impress&otilde;es<br \/>\n    que recebia sem se lembrar de as discutir; aceitava-as como um quase fatalismo,<br \/>\n    que nem lhe deixava pensar na possibilidade de se subtrair a elas.<\/p>\n<p> Via que por toda a parte o acompanhava uma como atmosfera de inebriantes<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es&#8217; e recebia a influ&ecirc;ncia bals&acirc;mica desse<br \/>\n    ambiente sem se interrogar sobre a natureza dele.<\/p>\n<p> Sentia, sem a conhecer, a poesia da natureza, a que se revela em cores,<br \/>\n    em sons e em perfumes e que desperta a poesia do sentimento em almas organizadas<br \/>\n    para esses sublimes acordes. Era um poeta sem ter a consci&ecirc;ncia de o<br \/>\n    ser, sem ter sequer a consci&ecirc;ncia da poesia.<\/p>\n<p> Quando esta esp&eacute;cie de encarna&ccedil;&atilde;o de um segundo verbo,<br \/>\n    mist&eacute;rio original dos entes privilegiados que se dizem poetas, se opera<br \/>\n    em esp&iacute;ritos que a educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vem cultivar depois,<br \/>\n    surgem caracteres, como o de Pedro, nos quais se passam os mais estranhos<br \/>\n    e admir&aacute;veis fen&oacute;menos que pode oferecer ao estudo a natureza<br \/>\n    humana.<\/p>\n<p> &Eacute; uma luta cont&iacute;nua, um antagonismo in&uacute;til, um combater<br \/>\n    desesperado de aspira&ccedil;&otilde;es que se estorcem impotentes sob a cadeia<br \/>\n    que lhes sopeia os esfor&ccedil;os. Algemados Prometeus que t&ecirc;m por<br \/>\n    principal supl&iacute;cio os irrealiz&aacute;veis anelos do seu pr&oacute;prio<br \/>\n    g&eacute;nio! T&acirc;ntalos, sequiosos de um ignoto licor, que adivinham,<br \/>\n    sem o conhecer, como o al&iacute;vio &uacute;nico &agrave; ansiedade que os<br \/>\n    martiriza! &#8212; Mas em que andavas tu a cismar agora que nem sequer me<br \/>\n    vias, de t&atilde;o perto que estavas? &#8212; Diga-me, ti&#8217;Caba&ccedil;a,<br \/>\n    sempre ser&aacute; verdade que existem sereias? O interrogado, recebendo &agrave;<br \/>\n    queima-roupa a interpela&ccedil;&atilde;o, vacilou um bocado; assumiu, por&eacute;m,<br \/>\n    em breve, todo o seu sangue-frio e respondeu: &#8212; Conquanto eu as n&atilde;o<br \/>\n    visse, nem ouvisse nunca &#8212; &eacute; nem disso me resta pena &#8212;<br \/>\n    creio que as h&aacute;, pelo que j&aacute; disse do que muita vez ouvi contar<br \/>\n    a meu pai &#8212; o Senhor o chame a si.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; certo que esses peixes ou essas mulheres, que n&atilde;o<br \/>\n    sei ao certo como lhes chame, cantam &agrave;s maravilhas? &#8212; Assim o<br \/>\n    dizem. Pelos modos &eacute; com esses cantares que elas perdem os navegantes<br \/>\n    no alto mar. Poucos s&atilde;o os que t&ecirc;m for&ccedil;a para as n&atilde;o<br \/>\n    seguir, s&oacute; para escutar-lhes aquela m&uacute;sica de anjos.<\/p>\n<p> Pedro ficou novamente silencioso e pensativo. O velho pescador respeitou<br \/>\n    por algum tempo aquele sil&ecirc;ncio, mas enfim dirigiu ao seu companheiro<br \/>\n    uma s&uacute;bita interroga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para que diabo queres tu saber isso, rapaz? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    porque&#8230;&#8212;Pedro ia a responder, mas outra vez hesitou.<\/p>\n<p> &#8212; Porque &eacute; ? Fala! &#8212; Olhe, ti&#8217;Caba&ccedil;a. Vou dizer-lhe<br \/>\n    uma coisa: mas n&atilde;o se ponha a rir de mim, que juro-lhe, por minha m&atilde;e,<br \/>\n    ser verdade tudo quanto me ouvir.<\/p>\n<p> &#8212; Fala l&aacute;, rapaz &#8212; respondeu o tio Caba&ccedil;a, que<br \/>\n    tomou logo um ar sisudo e grave, ao ouvir a invoca&ccedil;&atilde;o a que<br \/>\n    recorrera Pedro e j&aacute; deveras interessado pela comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ia receber. &#8212; Fala, que eu te escuto.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que eu&#8230; ouvi j&aacute; cantar uma sereia, ti&#8217;Caba&ccedil;a<br \/>\n    &#8212; disse Pedro em tom misterioso e interrogando ao mesmo tempo a fisionomia<br \/>\n    do velho, a ver o g&eacute;nero de impress&atilde;o que esta nova produzira<br \/>\n    nele.<\/p>\n<p> &#8212; Ouviste cantar uma sereia! &#8212; disse Jo&atilde;o Caba&ccedil;a<br \/>\n    deveras surpreendido.<\/p>\n<p> &#8212; Quando? &#8212; H&aacute; algumas noites a fio que a escuto, &#8212;<br \/>\n    Onde?&#8217; &#8212; Aqui, da praia. &Eacute; uma m&uacute;sica de anjos que vem<br \/>\n    das ondas.<\/p>\n<p> Uma m&uacute;sica como ainda a n&atilde;o ouvi em parte alguma. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; alegre e divertida, como a das festas e arraiais; nem s&eacute;ria<br \/>\n    e de devo&ccedil;&atilde;o, como a que cantam as mulheres na vila &agrave;<br \/>\n    missa do dia, ao consagrar da h&oacute;stia e do c&aacute;lix; mas &eacute;<br \/>\n    uma m&uacute;sica triste, saudosa, uma m&uacute;sica que me faz chorar. A<br \/>\n    voz que canta parece de mulher, mas, ao ouvi-la, at&eacute; chego a esquecer-me<br \/>\n    do lugar em que estou. Sabe? A praia, o mar, as estrelas, o c&eacute;u, tudo<br \/>\n    desaparece diante de mim. Parece-me que ent&atilde;o s&oacute; sei viver para<br \/>\n    ouvir aquela voz no meio do barulho das ondas, que n&atilde;o consegue abaf&aacute;-la.<br \/>\n    Procuro, apesar da escurid&atilde;o da noite, descobrir a mulher, se &eacute;<br \/>\n    mulher, eu sei? a fada, talvez o anjo, que canta assim, mas nada pude ainda<br \/>\n    ver. Sinto em mim uma coisa que n&atilde;o sei bem dizer o que &eacute;. Queria<br \/>\n    seguir aquela voz. Tenho sentido desejos de me deitar &agrave;s ondas para<br \/>\n    ouvir de mais perto aquele cantar divino.<\/p>\n<p> &Eacute; quase uma tenta&ccedil;&atilde;o t&atilde;o forte que lhe tenho<br \/>\n    resistido a custo e n&atilde;o sei se alguma vez&#8230;<\/p>\n<p> O velho pescador segurou com &iacute;mpeto no bra&ccedil;o de Pedro, como<br \/>\n    se naquele momento o visse j&aacute; pr&oacute;ximo a seguir a voz que perfidamente<br \/>\n    o atra&iacute;a.<\/p>\n<p> &#8212; Que te livre Deus de tal, rapaz! &#8212; exclamou Jo&atilde;o Caba&ccedil;a.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o te disse eu que corre &agrave; sua perdi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    quem se deixar levar por esse canto que parece de anjos, mas que &eacute;<br \/>\n    antes de dem&oacute;nios? Pedro prosseguiu: &#8212; Eu perguntava h&aacute;<br \/>\n    muito a mim mesmo que mist&eacute;rio seria aquele. Ao princ&iacute;pio julguei<br \/>\n    que fosse um engano dos meus ouvidos.<\/p>\n<p> Os ventos da noite e o barulho das ondas soam &agrave;s vezes de maneira<br \/>\n    que semelham uma m&uacute;sica a dist&acirc;ncia, mas era diferente o que<br \/>\n    eu ouvia; os p&aacute;ssaros do mar, gemendo &agrave;s noites pelas praias,<br \/>\n    imitam tamb&eacute;m queixumes e gemidos, mas eu que nasci e tenho vivido<br \/>\n    a escut&aacute;-los, bem lhes sei distinguir o canto; se o tempo &eacute;<br \/>\n    sossegado e o vento favor&aacute;vel, o cantar dos marinheiros de algumas<br \/>\n    embarca&ccedil;&otilde;es que pairam ao largo, chega-nos aos ouvidos confuso<br \/>\n    e quase sumido; mas a m&uacute;sica que eu escutava n&atilde;o era para se<br \/>\n    confundir com aquela. Era de mulher a voz, mas o estilo do cantar n&atilde;o<br \/>\n    era o da nossa terra. Nunca at&eacute; ent&atilde;o o tinha eu escutado, n&atilde;o<br \/>\n    sei at&eacute; se em alguma parte do mundo se canta assim. Quando h&aacute;<br \/>\n    pouco lhe ouvi a hist&oacute;ria da sereia, foi como se uma luz me alumiasse<br \/>\n    na escurid&atilde;o em que estava.<\/p>\n<p> &Eacute; aquele, deve ser aquele o canto de que falavam os antigos pescadores.<\/p>\n<p> Nem eu sei que outro possa haver mais para nos confundir e perder.<\/p>\n<p> Bem vejo que pode ser perigosa para os marinheiros, porque, digo-lhe uma<br \/>\n    coisa, se aquela voz cantasse do fundo de um abismo, parece-me que poucos<br \/>\n    se venceriam para, levados por ela, se n&atilde;o precipitarem.<\/p>\n<p>A praia estava, enfim, completamente deserta.<\/p>\n<p> O vento tinha virado a oeste. Nuvens cada vez mais negras e grandes como<br \/>\n    montanhas, levantavam-se do ocidente, semelhantes a informes monstros marinhos,<br \/>\n    surgindo do seio das &aacute;guas. Bandos de aves aqu&aacute;ticas ora baixavam<br \/>\n    o voo ligeiro at&eacute; ro&ccedil;arem com as asas pela superf&iacute;cie<br \/>\n    das ondas, ora se erguiam a perderem-se de vista no espa&ccedil;o nebuloso,<br \/>\n    onde por algum tempo volteavam em curvas complicadas ; depois soltando gritos<br \/>\n    agudos e lastimosos, desciam de novo em par&aacute;bolas de extensa curvatura,<br \/>\n    para colherem do oceano a presa que com o olhar penetrante haviam descoberto<br \/>\n    da altura em que se libravam.<\/p>\n<p> Por toda aquela imensa amplid&atilde;o de &aacute;gua nem uma vela, nem<br \/>\n    um pequeno barco sequer; na longa plan&iacute;cie de areia que forma esta<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o da costa, eram os palheiros escuros e fechados, as<br \/>\n    lanchas em seco ou alguma embarca&ccedil;&atilde;o, ainda de menor lote, a<br \/>\n    &uacute;nica divers&atilde;o que encontrava a vista cansada da monotonia da<br \/>\n    perspectiva.<\/p>\n<p> Haviam chegado as horas talhadas para o descanso e os pescadores, que tinham<br \/>\n    com o sono antigas d&iacute;vidas a solver, encerravam-se nas acanhadas recoletas,<br \/>\n    onde quase miraculosamente se albergam numerosas fam&iacute;lias desta pobre<br \/>\n    gente e, dentro em pouco, estavam experimentando quanto &eacute; f&aacute;cil<br \/>\n    a um esp&iacute;rito tranquilo e a um corpo fatigado encontrarem as restauradoras<br \/>\n    del&iacute;cias do sono, ainda que em camas bem pouco de apetecer.<\/p>\n<p> A Pedro do Ramires, por&eacute;m, sobrava-lhe imagina&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    o n&atilde;o deixar, t&atilde;o facilmente como os seus companheiros, saborear<br \/>\n    este prazer.<\/p>\n<p> As horas da noite eram as suas horas predilectas, eram as suas horas de<br \/>\n    vida. Ent&atilde;o podia ele, sem despertar estranhezas, ficar im&oacute;vel<br \/>\n    a olhar para as ondas, essas suas companheiras insepar&aacute;veis, com as<br \/>\n    quais brincara tantas vezes em crian&ccedil;a e que pareciam conservar ainda<br \/>\n    para ele uma linguagem misteriosa, corresponder-lhe, saud&aacute;-lo como<br \/>\n    a um antigo conhecimento.<\/p>\n<p> Aquele car&aacute;cter, essencialmente contemplativo, sentia-se livre e<br \/>\n    desafogado ent&atilde;o. N&atilde;o havia ningu&eacute;m a espiar-lhe no semblante<br \/>\n    o refluxo dos encontrados pensamentos que de cont&iacute;nuo o assaltavam;<br \/>\n    ningu&eacute;m a perguntar-lhe a causa, por ele mesmo talvez ignorada, de<br \/>\n    um sorriso instant&acirc;neo, de uma melancolia mais duradoura, e &agrave;s<br \/>\n    vezes at&eacute; de uma l&aacute;grima, em que a sua tristeza habitual parecia<br \/>\n    de quando em quando condensar-se, raras crises que por momentos lhe desanuviavam<br \/>\n    o esp&iacute;rito vision&aacute;rio.<\/p>\n<p> Por isso caminhava longas horas pensativo pelo ermo da costa, Parecia procurar<br \/>\n    acalmar, por esta forma, a vaga inquieta&ccedil;&atilde;o que sentia em si.<br \/>\n    Como se aquela &acirc;nsia que o devorava fora a necessidade de movimento!<br \/>\n    Pobre alma! Iludia-se na sua ignor&acirc;ncia. A actividade a que tendiam<br \/>\n    as suas aspira&ccedil;&otilde;es n&atilde;o era aquela; n&atilde;o se realiza<br \/>\n    assim. O movimento dos afectos, as lutas da intelig&ecirc;ncia, o est&iacute;mulo<br \/>\n    da gl&oacute;ria, os gozos da vida do espirito, tudo isso ela procurava, mas,<br \/>\n    cega, andava tacteando um caminho bem longe do que a devia conduzir ali. Como<br \/>\n    n&atilde;o teria de sucumbir no empenho! Como n&atilde;o cairia exausta de<br \/>\n    for&ccedil;as, e abatida pelo desalento! Que vale ao febricitante a incoerente<br \/>\n    convuls&atilde;o em que se revolve no leito? Mitigam-lhe, acaso, esses movimentos<br \/>\n    o angustioso escaldar do fogo que lhe circula nas veias ? No mesmo caso estava<br \/>\n    Pedro ao procurar satisfazer os seus indecifr&aacute;veis anelos, correndo<br \/>\n    pela beira-mar, &agrave;s vezes possu&iacute;do de uma verdadeira alucina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta noite, em que tivera lugar o di&aacute;logo entre ele e o velho Jo&atilde;o<br \/>\n    Caba&ccedil;a, foi uma daquelas em que Pedro do Ramires prolongou at&eacute;<br \/>\n    horas adiantadas o seu passeio habitual, seguindo para o sul da costa.<\/p>\n<p> Absorvido em seus pensamentos, caminhou insensivelmente a passos r&aacute;pidos<br \/>\n    e desiguais, at&eacute; deixar a uma grande dist&acirc;ncia os palheiros da<br \/>\n    povoa&ccedil;&atilde;o do Furadouro.<\/p>\n<p> Por este tempo j&aacute; a escuridade da noite era completa, antecipada,<br \/>\n    como fora, pelos c&uacute;mulos de nuvens que, partindo do ocidente, se tinham,<br \/>\n    em pouco, espalhado por toda a ab&oacute;bada celeste.<\/p>\n<p> O jovem pescador parou enfim; parou e p&ocirc;s-se a olhar vagamente para<br \/>\n    o mar,- como se de mistura com o clamor das ondas, esperasse receber alguma<br \/>\n    voz que lhe fosse destinada.<\/p>\n<p> Depois quase se deixou cair na areia da praia e pousando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    nas m&atilde;os encruzadas, deitou-se e fitou os olhos nas nuvens, como se<br \/>\n    nas formas irregulares que elas desenhavam no espa&ccedil;o estivesse lendo<br \/>\n    uma p&aacute;gina misteriosa escrita em caracteres desconhecidos.<\/p>\n<p> E assim se conservou durante horas, n&atilde;o o inquietando a viol&ecirc;ncia<br \/>\n    do vento h&uacute;mido que lhe a&ccedil;outava as faces, os gritos roucos<br \/>\n    e angustiados de alguma ave que fugia &agrave; borrasca iminente, nem o rumor<br \/>\n    surdo que j&aacute; se escutava de quando em quando, eco amea&ccedil;ador<br \/>\n    de tempestades long&iacute;nquas.<\/p>\n<p> Mas, de s&uacute;bito, estremeceu, levantou sobressaltado a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e, recostando-se ao bra&ccedil;o, tr&eacute;mulo de inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    dirigiu a vista para aquele espa&ccedil;o tenebroso que se estendia diante<br \/>\n    dele, como pretendendo devassar na obscuridade da noite o que quer que fosse<br \/>\n    que t&atilde;o repentinamente o arrancava da im&oacute;vel contempla&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que se conservava havia tanto.<\/p>\n<p> A noite foi, por&eacute;m, discreta; n&atilde;o ergueu uma s&oacute; ponta<br \/>\n    do seu manto para revelar o mist&eacute;rio. Pedro continuava na mesma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o expressiva de &aacute;vida curiosidade que de repente tomara.<\/p>\n<p> Pouco a pouco as notas maviosas de um cantar distante chegaram, como um<br \/>\n    eco ainda mal apreci&aacute;vel, aos ouvidos atentos do pescador.<\/p>\n<p> Escutando-o, ele erguia-se fremente e agitado sobre os joelhos e, de m&atilde;os<br \/>\n    postas e a cabe&ccedil;a inclinada na direc&ccedil;&atilde;o de onde chegava<br \/>\n    esta voz, conservava-se im&oacute;vel e em profundo recolhimento, como um<br \/>\n    eleito do Senhor, recebendo em &ecirc;xtase a inspira&ccedil;&atilde;o divina.<br \/>\n    Aquele som contrastava, na sua melodia e suavidade, com o bramir discorde<br \/>\n    das vagas, que batiam violentas na praia.<\/p>\n<p> Dir-se-ia o canto de algumas dessas fadas que, segundo as cren&ccedil;as<br \/>\n    populares, atravessam extensas regi&otilde;es mar&iacute;timas em fant&aacute;stica<br \/>\n    viagem e sob um fatal encantamento.<\/p>\n<p> Pedro escutava embevecido aquela m&uacute;sica cuja toada lhe era estranha<br \/>\n    e de um estilo inteiramente diverso do das can&ccedil;&otilde;es populares,<br \/>\n    &uacute;nicas que at&eacute; ent&atilde;o ele tinha conhecido.<\/p>\n<p> Falava-lhe por isso poderosamente &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o esse<br \/>\n    canto, cujas palavras a dist&acirc;ncia lhe n&atilde;o permitia ainda perceber,<br \/>\n    A invis&iacute;vel cantora parecia aproximar-se; percebiam-se agora melhor<br \/>\n    as modula&ccedil;&otilde;es so.ioros:Ssimas daquela voz potente e argentina<br \/>\n    que conseguia dominar o ru&iacute;do das vagas e que se estendia ao longe<br \/>\n    pela praia, como &agrave; procura de um eco que a. repercutisse.<\/p>\n<p> Agora j&aacute; a letra da can&ccedil;&atilde;o podia ser percebida. Mas,<br \/>\n    se o estilo pouco vulgar daquela m&uacute;sica causara j&aacute; estranheza<br \/>\n    e influ&iacute;ra poderosamente no &acirc;nimo agora excitado do mo&ccedil;o<br \/>\n    pescador, a linguagem desconhecida de que era acompanhada n&atilde;o lhe produzia,menor<br \/>\n    impress&atilde;o.<\/p>\n<p> Ignorava o que dizia, mas achava-lhe qualidades musicais que o enlevavam<br \/>\n    ao escut&aacute;-la. Era uma linguagem cujas palavras pareciam ter um sentido<br \/>\n    universalmente apreciado, em t&atilde;o perfeita e inexplic&aacute;vel concord&acirc;ncia<br \/>\n    pareciam estar com as ideias e sentimentos que exprimiam, De repente pareceu-lhe<br \/>\n    distinguir um ru&iacute;do, como o do bater de remos na &aacute;gua e, com<br \/>\n    a vista excitada de pescador, julgou reconhecer, n&atilde;o obstante o tenebroso<br \/>\n    da noite, uma forma negra movendo-se no cimo das ondas, erguendo-se, abaixando-se,<br \/>\n    desaparecendo para tornar a surgir e a elevar-se e como demandando a praia<br \/>\n    com esfor&ccedil;os porfiados! Pedro fitou aquele objecto com ansiedade. Nas<br \/>\n    formas mal distintas, nos movimentos, no som particular que produzia ao caminhar,<br \/>\n    dividindo as &aacute;guas, parecia-lhe um destes pequenos barcos que os pescadores<br \/>\n    chamam chinchorro, fr&aacute;geis esquifes em que esta intr&eacute;pida gente<br \/>\n    do mar tantas vezes arrosta, a esfor&ccedil;os de poucos bra&ccedil;os, com<br \/>\n    a viol&ecirc;ncia das ondas.<\/p>\n<p> Impelido pela for&ccedil;a do vento e pelo esfor&ccedil;o dos remos, este<br \/>\n    barco cada vez se aproximava mais da praia. Pedro n&atilde;o sabia ainda era<br \/>\n    dele que partira o canto que havia seis noites o trazia enlevado pela solid&atilde;o<br \/>\n    da costa mar&iacute;tima e que, depois da hist&oacute;ria narrada pelo tio<br \/>\n    Jo&atilde;o Caba&ccedil;a, muito seriamente atribu&iacute;a j&aacute; &agrave;<br \/>\n    soberba e artificiosa filha das ondas, de que se julgava v&iacute;tima.<\/p>\n<p> &Agrave; medida, por&eacute;m, que ele se avizinhava, p&ocirc;de perceber<br \/>\n    o som &#8216;e v&aacute;rias vozes de timbre diverso empenhadas num di&aacute;logo<br \/>\n    animado; e, cedo, a pouca dist&acirc;ncia a que j&aacute; vogava da costa<br \/>\n    tornou distintas seguintes palavras: &#8212; Eu bem disse &agrave; Madama<br \/>\n    que era perigoso o passeio numa noite destas. O mar n&atilde;o &eacute; o<br \/>\n    rio, e&#8230;<\/p>\n<p> Isto dizia uma voz rouca e &aacute;spera, &agrave; qual outra de timbre<br \/>\n    melodioso e vibrante, e que evidentemente pertencia &agrave; pessoa a quem<br \/>\n    fora dirigida a insinua&ccedil;&atilde;o, respondeu: &#8212; Acaso me competir&aacute;<br \/>\n    a mim dar &acirc;nimo a homens, que, desde lan&ccedil;a, vivem no mar? Que<br \/>\n    vergonha! &#8212;E riu-se. Estas palavras foram ditas com uma certa inflex&atilde;o,<br \/>\n    que denunciava a origem estraneira da que as pronunciara.<\/p>\n<p> Pedro reconheceu nesta voz a da cantora desconhecida e o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobressaltava-se-lhe a escut&aacute;-la.<\/p>\n<p> A voz rouca respondeu &agrave; argui&ccedil;&atilde;o que a outra lhe fizera:<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, Madama, n&atilde;o somos n&oacute;s que temos medo do<br \/>\n    mar e tanto que n&atilde;o pusemos pecha em a trazermos aqui. Mas por um divertimento,<br \/>\n    brincar assim com as ondas; escolher uma noite escura, fria e ventosa para<br \/>\n    vir cantar desta forma ao ar livre, quando est&atilde;o a&iacute; &agrave;<br \/>\n    porta tantas de luar claro, como o dia! A falar a verdade&#8230;<\/p>\n<p> Uma risada jovial respondeu &agrave; observa&ccedil;&atilde;o e a mesma<br \/>\n    voz feminima replicou: &#8212; Parece-lhes tudo isto uma loucura, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim ? Pobres homens! E talvez tenham raz&atilde;o. Mas eu quero<br \/>\n    satisfazer as minhas loucuras todas. Sinto nisto um prazer!&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    se inquietem. Eu conhe&ccedil;o alguma coisa o mar e sei ler na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do vento e no aspecto das nuvens as mudan&ccedil;as prov&aacute;veis do tempo.<br \/>\n    Estudei as tempestades da minha terra. Nasci como v&oacute;s &agrave; beira-mar.<br \/>\n    Meus pais eram pescadores tamb&eacute;m. O ber&ccedil;o que me embalou nos<br \/>\n    meus primeiros sonos foi o barco em que toda a minha fam&iacute;lia se transportava;<br \/>\n    a rede a coberta &uacute;nica em que muita vez me envolveram para dormir.<br \/>\n    Aprendi assim, de pequena, esta m&uacute;sica das ondas, de pequena me costumei<br \/>\n    a cantar com elas. Depois que a sorte me impeliu nesta vida art&iacute;stica,<br \/>\n    errante e aventureira que tenho seguido, n&atilde;o esqueci nunca as predilec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    os meus primeiros anos. Sou como as aves aqu&aacute;ticas; ando sempre junto<br \/>\n    &agrave;s costas mar&iacute;timas. A escola em que aprendi foi a escola do<br \/>\n    mar; n&atilde;o me quero longe deste mestre inspirado que me ensinou a arte<br \/>\n    sublime da m&uacute;sica. Parece-me que lhe sei j&aacute; compreender os segredos<br \/>\n    todos; cada praia revela-me um novo mist&eacute;rio de arte. As ondas do Adri&aacute;tico,<br \/>\n    o mar da minha terra, n&atilde;o cantam como as outras. O mar &eacute; como<br \/>\n    o povo. Em cada pa&iacute;s tem a m&uacute;sica popular um g&eacute;nio pr&oacute;prio,<br \/>\n    uma &iacute;ndole especial. Assim tamb&eacute;m o mar. Tenho escutado as ondas<br \/>\n    de quase todas as praias da Europa. O mar Negro, o Mediterr&acirc;neo, o B&aacute;ltico,<br \/>\n    a Mancha, o Atl&acirc;ntico, todos t&ecirc;m uma modula&ccedil;&atilde;o sua<br \/>\n    e que me parece j&aacute; distinguir. Nuns &eacute; mais majestosa e terr&iacute;vel<br \/>\n    a m&uacute;sica das tempestades; outros t&ecirc;m mais suaves harmonias nas<br \/>\n    noites sossegadas de calma. J&aacute; v&ecirc;em que eu e o mar somos antigos<br \/>\n    companheiros.<\/p>\n<p> Ele entende-me e eu tamb&eacute;m o compreendo. Sosseguem, pois; eu n&atilde;o<br \/>\n    me iludo com a sua agita&ccedil;&atilde;o desta noite. Bem cedo o veremos<br \/>\n    tranquilo.<\/p>\n<p>Os pescadores n&atilde;o responderam. Estranhas lhe deviam parecer estas palavras,<br \/>\n    incompreens&iacute;veis at&eacute;. A mulher que as pronunciara num tom de<br \/>\n    voz em que se revelava toda a exalta&ccedil;&atilde;o de um car&aacute;cter<br \/>\n    entusiasta e ardente, falava mais a si pr&oacute;pria do que &agrave;s rudes<br \/>\n    intelig&ecirc;ncias dos seus companheiros nesta extraordin&aacute;ria excurs&atilde;o<br \/>\n    mar&iacute;tima.<\/p>\n<p> Pedro escutava, por&eacute;m, aquelas palavras, com um entusiasmo de artista<br \/>\n    apaixonado e como que se lhe comunicava o fogo oculto da imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que as ditava. Sobressaltavam-no, como se lhe oferecessem a inesperada solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um enigma em que, muito havia, lidava a sua intelig&ecirc;ncia. &Eacute;<br \/>\n    que o mar tamb&eacute;m lhe falava. Ele pressentia-lhe uma linguagem que procurava<br \/>\n    adivinhar. Longas horas passava nas praias a escutar aquele rumor melanc&oacute;lico<br \/>\n    e solene e perguntava &agrave;s vezes a si pr&oacute;prio o que o retinha<br \/>\n    ali. As palavras da cantora pareciam ter sido a resposta aguardada, h&aacute;<br \/>\n    muito, &agrave;quela t&aacute;cita interroga&ccedil;&atilde;o da sua consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Havia, pois, mais algu&eacute;m que, como ele, escutava as ondas e se deliciava<br \/>\n    com a sua harmonia? Passado algum tempo, a noite, como se quisesse confirmar<br \/>\n    o progn&oacute;stico da desconhecida, principiou a serenar um pouco mais,<br \/>\n    abrandou a viol&ecirc;ncia da ventania e as ondas vinham j&aacute; quebrar-se<br \/>\n    com menos for&ccedil;a nas areias da praia.<\/p>\n<p> &#8212; Vejamos &#8212; disse a cantora &#8212; que lhes dizia eu, homens<br \/>\n    sem confian&ccedil;a no mar? A&iacute; temos o vento sul para nos ajudar na<br \/>\n    volta. A que dist&acirc;ncia estamos de Espinho? &#8212; A l&eacute;gua e<br \/>\n    meia, Madama; ali mais adiante est&atilde;o os palheiros do Furadouro.<\/p>\n<p> &#8212; Voltemos. N&atilde;o lhes disse eu que era desnecess&aacute;rio<br \/>\n    aproximarmo- nos tanto da costa ? Ao largo ! Ao largo! Os pescadores obedeceram-lhe,<br \/>\n    o barco sulcou as ondas afastando- se da praia, o rumor das vozes tomou-se<br \/>\n    cada vez menos distinto, mais confusa a forma escura do barco, at&eacute;<br \/>\n    que enfim tudo se confundiu na escurid&atilde;o da noite e no rumor mon&oacute;tono<br \/>\n    das vagas, j&aacute; menos impetuosas.<\/p>\n<p> Pedro ainda por muito tempo interrogou aquelas trevas e aquele ru&iacute;do<br \/>\n    confuso do mar&#8230;<\/p>\n<p> Era uma formos&iacute;ssima noite de luar, aquela! A alvacenta nebrina que<br \/>\n    se condensara na atmosfera aumentava o aspecto teatral da cena, difundindo<br \/>\n    em toda ela um certo colorido vaporoso de surpreendente efeito art&iacute;stico.<\/p>\n<p> As vagas onde a luz se quebrava em multiplicados e cintilantes reflexos,<br \/>\n    estendiam-se languidamente pela praia, com um brando murm&uacute;rio.<\/p>\n<p> Das pequenas cataratas que, ao dobrarem-se sobre si, produziam as ondas,<br \/>\n    levantava-se um orvalho denso que retratava a luz num &iacute;ris desvanecido.<br \/>\n    Alvejavam ao longo da costa flocos de espuma que, num lento refluxo, desciam<br \/>\n    de novo &agrave;s &aacute;guas, at&eacute; que outra vaga os impelia mais<br \/>\n    longe.<\/p>\n<p> Tudo era solid&atilde;o! No mar, na praia e no c&eacute;u! O mar sem um<br \/>\n    barco, a praia sem uma habita&ccedil;&atilde;o, o c&eacute;u sem uma estrela!<br \/>\n    E a Lua, como uma l&acirc;mpada morti&ccedil;a pendente da vasta ab&oacute;bada<br \/>\n    de um templo deserto, alumiava esta majestosa e imponente solid&atilde;o!<br \/>\n    Pedro caminhava r&aacute;pido por este vasto areal da praia e nem sentia o<br \/>\n    seu isolamento, que povoada levava a fantasia por mil imagens e pensamentos<br \/>\n    encontrados.<\/p>\n<p> Era noite avan&ccedil;ada quando chegou &agrave; vista dos palheiros de<br \/>\n    Espinho.<\/p>\n<p> Palpitava-lhe de ansiedade o cora&ccedil;&atilde;o ao aproximar-se daquele<br \/>\n    lugar.<\/p>\n<p> Aquelas sombras escuras em que se destacavam no horizonte, tingido de um<br \/>\n    azul-p&aacute;lido pelos reflexos do luar os palheiros desta parte do litoral,<br \/>\n    envolviam uma mulher que, sem o suspeitar, se transformara em objecto de um<br \/>\n    culto fervoroso para um mancebo em cujo cora&ccedil;&atilde;o virgem pela<br \/>\n    primeira vez se ateara a chama ardente de uma paix&atilde;o definida.<\/p>\n<p> Pela primeira vez Pedro afrouxou a velocidade dos seus passos e parou levando<br \/>\n    a m&atilde;o ao cora&ccedil;&atilde;o como para lhe sentir as palpita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    agitadas e irregulares.<\/p>\n<p> Dominando esta como&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea, prosseguiu, por&eacute;m,<br \/>\n    na sua marcha e penetrou no centro da povoa&ccedil;&atilde;o. Estava quase<br \/>\n    deserta &agrave;quela hora. Pedro correu, como em del&iacute;rio, todas aquelas<br \/>\n    estreitas e turtuosas ruas de areia, que seguiam por entre os palheiros, e<br \/>\n    parou em toda a parte onde imaginava encontrar aquela que t&atilde;o ansiosamente<br \/>\n    procurava.<\/p>\n<p> Em cada sombra que se destacava no v&atilde;o esclarecido de uma janela,<br \/>\n    supunha ver o perfil da mulher a quem consagrara todos os afectos do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    todos os seus pensamentos e aspira&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Cansou-o esta in&uacute;til pesquisa, desalentou-o este baldado procurar,<br \/>\n    e quase se deixou cair, extenuado de for&ccedil;as e de esperan&ccedil;as,<br \/>\n    junto &agrave; porta de um pequeno palheiro situado no extremo oposto da povoa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Assim permaneceu alguns minutos sem consci&ecirc;ncia do que se passava em<br \/>\n    torno de si, pensando no destino da sua paix&atilde;o insensata e absorvido<br \/>\n    por amargas ideias de que tantas vezez se lhe alimentava a imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Pouco a pouco principiou a despertar-lhe a aten&ccedil;&atilde;o, at&eacute;<br \/>\n    ali poderosamente distra&iacute;da, um rumor de vozes que vinham do interior<br \/>\n    do palheiro &agrave; porta do qual se encostara. Uma das que falava n&atilde;o<br \/>\n    lhe era desconhecida e esta circunst&acirc;ncia operou uma salutar divers&atilde;o<br \/>\n    naquele preocupado pensamento, afugentando-lhe por instantes o tropel de ideias<br \/>\n    negras que o assombravam.<\/p>\n<p> Aplicando o ouvido &agrave; porta detr&aacute;s da qual lhe chegava aquele<br \/>\n    sussurro, Pedro p&ocirc;s-se a escutar, com mal reprimida curiosidade, o que<br \/>\n    se dizia l&aacute; dentro.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes que a Madama nos tomou outra vez o barco para todo o resto<br \/>\n    da semana? &#8212; dizia uma das vozes.<\/p>\n<p> &#8212; Outra vez ?! Julguei que desde aquela noite de ventania lhe passara<br \/>\n    o gosto por estes passeios.<\/p>\n<p> &#8212; Enquanto a mim aquilo &eacute; mania. Pois n&atilde;o v&ecirc;s<br \/>\n    tu como ela n&atilde;o aproveitou as belas noites que t&ecirc;m estado e agora<br \/>\n    diz que quer o barco, quer chova, quer vente?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Estas estrangeiras t&ecirc;m destas coisas. Ela, pelos modos, &eacute;<br \/>\n    alguma princesa; paga que nem uma rainha.<\/p>\n<p> &#8212; O sor Morgado que aqui esteve a banhos o ano passado disse no outro<br \/>\n    dia que a conhece do Porto. &Eacute; uma fidalga estrangeira que anda a viajar.<\/p>\n<p> . &#8212; H&aacute; gente que vem a este mundo s&oacute; para passar vida<br \/>\n    de rosas.<\/p>\n<p> &#8212; E aborrecem-se dele. &Eacute; ver como ela acha gosto naquilo que<br \/>\n    nos d&aacute; pena a n&oacute;s outros. Deu-lhe para cantar no mar! &#8212;<br \/>\n    E olha que l&aacute; isso!&#8230; Sempre canta que &eacute; um gosto ouvi-la.<\/p>\n<p> &#8212; Mas para que lhe havia de dar! Cantar no mar! A falar a verdade&#8230;<\/p>\n<p> Aquilo nem sei o que parece! &#8212; Deixa l&aacute;, homem. Para n&oacute;s<br \/>\n    tem sido uma provid&ecirc;ncia; &agrave;s m&aacute;s pescas que tem havido,<br \/>\n    de muito nos t&ecirc;m valido os tais passeios da Madama.<\/p>\n<p> &#8212; Mas tamb&eacute;m caro pagamos esses lucros, que quando ela empreende<br \/>\n    demorar-se por l&aacute;, nem que a lev&aacute;ssemos a Lisboa a satisfar&iacute;amos.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; mar que a intimide. Uma mulher<br \/>\n    t&atilde;o animosa ainda estou para ver.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre &eacute; estrangeira! Ser&aacute; ela crist&atilde; ? <\/p>\n<p>&#8212; Ih! N&atilde;o v&ecirc;s como fala tanto na Virgem ? E as esmolas<br \/>\n    que d&aacute;! N&atilde;o, isso, boa senhora &eacute; ela. Verdade, verdade.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute;. Tirante l&aacute; aquela veneta!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quem tem dinheiro nem sabe em que o h&aacute;-de gastar, &#8212;<br \/>\n    Quanto tempo se conservar&aacute; ela ainda aqui na praia ? &#8212; Disse-me<br \/>\n    que at&eacute; ao fim da semana. Depois vai para o Porto.<\/p>\n<p> &#8212; Nem eu sei como se tem demorado tanto, agora que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    tempo de banhos, e tudo isto est&aacute; deserto.<\/p>\n<p> Pedro escutava, com indescrit&iacute;vel avidez, este di&aacute;logo dos<br \/>\n    pescadores; esfor&ccedil;ava-se por n&atilde;o perder uma s&oacute; das particularidades<br \/>\n    referidas nele, relativas &agrave; desconhecida viajante.<\/p>\n<p> Nas disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito em que o apaixonado mo&ccedil;o<br \/>\n    estava naquele momento, o nome s&oacute; da pessoa que assim nos traz, como<br \/>\n    os dele, avassalados os pensamentos, n&atilde;o &eacute; escutado sem uma<br \/>\n    extrema e agrad&aacute;vel como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Recolhia, como revela&ccedil;&otilde;es preciosas, tudo quanto diziam os<br \/>\n    pescadores e ardia em desejos de lhes dirigir milhares de interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a respeito da mulher que eles tinham a ventura de transportar no seu barco<br \/>\n    &agrave;s horas solenes da noite e pela majestosa solid&atilde;o do mar. Porque<br \/>\n    pre&ccedil;o n&atilde;o pagaria ele esse invejado prazer! Desta quase ext&aacute;tica<br \/>\n    contempla&ccedil;&atilde;o foi finalmente arrebatado pelas vozes de um piano<br \/>\n    que partiam do palheiro pr&oacute;ximo. Pedro estremeceu, escutando os prel&uacute;dios<br \/>\n    que uma m&atilde;o exercitada extra&iacute;a das teclas sonoras.<\/p>\n<p> Poucas vezes, se algumas, Pedro tinha ouvido um piano. Aqueles sons encantavam-no,<br \/>\n    estimulavam-lhe os viv&iacute;ssimos instintos musicais que possu&iacute;a,<br \/>\n    ignorando-os, essa alma nobre de artista, criada para grandes concep&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que o destino impossibilitava de realizar, condenando- a totalmente a sucumbir<br \/>\n    de cont&iacute;nuo nos esfor&ccedil;os a que, por instinto, obedecia, desconhecendo<br \/>\n    sempre o alvo em que eles se convergiam.<\/p>\n<p> Depois teve um pressentimento de que a m&atilde;o que despertava do sil&ecirc;ncio<br \/>\n    da noite aquela suave harmonia era a da mulher que ele procurava.<\/p>\n<p> Que febril agita&ccedil;&atilde;o ent&atilde;o a sua! Era uma quase vertigem<br \/>\n    o que ! ele experimentava! &#8212; Ela a&iacute; principiou a cantar. E ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; como os rouxin&oacute;is&#8230; Canta s&oacute; de noite &#8212; disse<br \/>\n    um dos pescadores cujo di&aacute;logo Pedro estivera escutando.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o a mesma voz, que tantas vezes o apaixonado mo&ccedil;o escutara<br \/>\n    na praia, e que por muito tempo julgara um mist&eacute;rio do mar, principiou<br \/>\n    cantando, acompanhada, desta vez, pelos acordes sonorosos do piano, que mais<br \/>\n    a fazia sobressair.<\/p>\n<p> Agora o estilo da m&uacute;sica era suave e melanc&oacute;lico; era a can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da rosa, a &aacute;ria formos&iacute;ssima da qual Flotow fez o motivo de<br \/>\n    toda a sua &oacute;pera, a Marta, e que raros t&ecirc;m o poder de escutar<br \/>\n    sem que se sintam possu&iacute;dos de uma profunda como&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    com disposi&ccedil;&otilde;es para l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> A artista cantava-a na letra italiana da &oacute;pera, cuja tradu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute;, aproximadamente, a seguinte:<\/p>\n<p>Aqui, s&oacute;, virg&iacute;nea rosa, Como podes florescer I Inda em bot&atilde;o<br \/>\n    desditosa, E j&aacute; pr&oacute;xima a morrer !<\/p>\n<p> Em vez do orvalho da vida Cresta-te a neve e o tuf&atilde;o &Eacute; j&aacute;<br \/>\n    sobre a haste pendida Incidias a fronte ao ch&atilde;o!<\/p>\n<p>Escutando aquela m&uacute;sica eleg&iacute;aca e sentida, Pedro experimentou<br \/>\n    uma como&ccedil;&atilde;o ainda mais profunda que das outras vezes; n&atilde;o<br \/>\n    compreendendo a letra italiana do canto, tal era a express&atilde;o da cantora<br \/>\n    e a eloqu&ecirc;ncia da m&uacute;sica que ele ouvia-a com intenso recolhimento,<br \/>\n    como se escutasse a voz do seu pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o. Esquecia-se<br \/>\n    de tudo, como nos esquecemos, levados pela corrente dos nossos pensamentos,<br \/>\n    a escutar a nossa pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Quando as &uacute;ltimas notas deste canto magoado se desvaneceram, confundindo-se<br \/>\n    com o murm&uacute;rio do mar, Pedro, voltando a si do &ecirc;xtase em que<br \/>\n    esta m&uacute;sica o arrebatara, sentiu que as l&aacute;grimas lhe banhavam<br \/>\n    as faces.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; isto, meu Deus? &#8212; exclamou o pobre adolescente<br \/>\n    com um acento de desespero. &#8212;Porque me faz chorar esta m&uacute;sica?<br \/>\n    Porque me sinto entristecer sempre que a oi&ccedil;o cantar, a esta mulher<br \/>\n    que n&atilde;o conhe&ccedil;o, que nem sequer ainda a vi? Que homem sou eu,<br \/>\n    t&atilde;o singular! Jesus, Jesus! Ser&aacute; isto uma loucura? Tudo na praia<br \/>\n    reca&iacute;ra em profundo sil&ecirc;ncio. Pedro, com os olhos postos na janela<br \/>\n    obscura, conservava-se im&oacute;vel, como se temesse desvanecer uma vis&atilde;o<br \/>\n    deliciosa ou quisesse recolher as &uacute;ltimas e impercept&iacute;veis vibra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sonoras que um sentido superiormente organizado lhe permitia ainda apreciar.<\/p>\n<p> Principiava a tingir-se o horizonte dos rubores da madrugada e Pedro em<br \/>\n    v&atilde;o se esfor&ccedil;ava por se arrancar dali. Prendia-o uma esperan&ccedil;a;<br \/>\n    a de entrever, por instantes que fosse, a mulher por quem concebera t&atilde;o<br \/>\n    violenta paix&atilde;o; instava com ele, para partir, aquela esp&eacute;cie<br \/>\n    de pudor do cora&ccedil;&atilde;o, com que de todas as vistas procuramos esconder<br \/>\n    os menores vest&iacute;gios de um primeiro amor, tanto mais ardentemente quanto<br \/>\n    maior &eacute; a sua candura e quanto mais digno ele &eacute; da nobreza de<br \/>\n    sentimentos pr&oacute;prios da juventude.<\/p>\n<p> Era j&aacute; manh&atilde; alta quando Pedro voltou ao Furadouro.<\/p>\n<p> Notaram a sua falta na companha, que &agrave; hora do costume se fizera<br \/>\n    ao mar e, segundo a lei, foi multado na parte do quinh&atilde;o que lhe tocava.\n  <\/p>\n<p>Na noite desse dia reproduziu-se para Pedro a apari&ccedil;&atilde;o do mar.<\/p>\n<p> Foi pela altura dos palheiros, ent&atilde;o ainda desertos, de Maceda e<br \/>\n    Cortega&ccedil;a, que ele a veio encontrar.<\/p>\n<p> A noite estava tranquila, o mar sereno. A claridade da Lua, penas velada<br \/>\n    por um transparente cendal de tenu&iacute;ssima nebrina, permitiu distinguir<br \/>\n    o vulto da cantora que, recostada &agrave; proa, entoava ma m&uacute;sica<br \/>\n    cheia de entusiasmo e energia, uma esp&eacute;cie de hino patri&oacute;tico,<br \/>\n    a cujas palavras ela sabia comunicar todo o fervor do seu animo exaltado.<br \/>\n    Ainda desta vez foi contagioso para o impression&aacute;vel mo&ccedil;o o<br \/>\n    sentimento que em todo aquele canto se reflectia.<\/p>\n<p> Assim como na v&eacute;spera a melancolia do canto lhe havia feito assomar<br \/>\n    aos olhos l&aacute;grimas incompreens&iacute;veis, agora a energia, o ardor<br \/>\n    com que as palavras p&aacute;tria e liberdade eram pronunciadas pela cantora,<br \/>\n    comunicaram-se ao enlevado mancebo, que experimentava um desses voluptuosos<br \/>\n    estremecimentos e sensa&ccedil;&otilde;es indefin&iacute;veis que ressentimos<br \/>\n    nos movimentos de entusiasmo, e nos transformam, e nos sublimam, elevando-nos<br \/>\n    acima de n&oacute;s mesmos e fazendo-nos capazes de superiores concep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e empenhos.<\/p>\n<p> Ele caminhava na praia como atra&iacute;do por aquela harmonia sedutora.<\/p>\n<p> Ela fugia-lhe j&aacute;. O barco movia-se em direc&ccedil;&atilde;o ao norte.<br \/>\n    Pedro seguia-o, seguia-o com uma velocidade que s&oacute; lhe podia vir da<br \/>\n    alucina&ccedil;&atilde;o que o dominava. J&aacute; mal se percebia o canto,<br \/>\n    j&aacute; quase se tornara indistinto o barco de onde aquela m&uacute;sica<br \/>\n    partia e Pedro, com o olhar fixo naquele ponto e com os ouvidos atentos &agrave;<br \/>\n    desvanecida harmonia, caminhava ainda, e caminhou sempre, at&eacute; que um<br \/>\n    s&uacute;bito obst&aacute;culo lhe tolheu os passos.<\/p>\n<p> Estava defronte da Barrinha.<\/p>\n<p> Quem viajasse h&aacute; anos por esta parte da prov&iacute;ncia da Beira,<br \/>\n    deve conhecer, por tradi&ccedil;&atilde;o, sen&atilde;o por experi&ecirc;ncia,<br \/>\n    o ponto do litoral que recebeu este nome e onde tantos epis&oacute;dios, uns<br \/>\n    c&oacute;micos e outros tr&aacute;gicos, se sucederam, antes que se constru&iacute;sse<br \/>\n    a ponte que hoje o viajante, ao percorrer a linha f&eacute;rrea, pr&oacute;ximo<br \/>\n    &agrave; esta&ccedil;&atilde;o de Esmoriz, descobre desenhando os seus quatro<br \/>\n    arcos sobre o fundo esverdeado das aguas do oceano.<\/p>\n<p> A Barrinha &eacute; uma estreita abertura cavada pelo mar na costa de areia,<br \/>\n    interrompida neste ponto, e por a qual ele se precipita, vaga a vaga, em um<br \/>\n    pequeno golfo que se estende para o norte e para o sul, separando dois extensos<br \/>\n    cabos de areia fronteiros um ao outro. Nas mar&eacute;s brandas, e quando<br \/>\n    o mar &eacute; pouco agitado, esta abertura &eacute; vade&aacute;vel e os<br \/>\n    viandantes, aproveitando o refluxo, quase a p&eacute; enxuta atravessam, t&atilde;o<br \/>\n    inc&oacute;lumes como Mois&eacute;s atravessou as ondas do mar Vermelho; mas<br \/>\n    uma hesita&ccedil;&atilde;o, uma demora pode ser-lhe fatal; se a vaga volta<br \/>\n    com um pouco mais de viol&ecirc;ncia, envolve o incauto e n&atilde;o poucas<br \/>\n    vezes o arrasta consigo.<\/p>\n<p> Nas mar&eacute;s vivas, por&eacute;m, e quando as correntes mar&iacute;timas<br \/>\n    s&atilde;o mais fortes, a passagem torna-se imposs&iacute;vel, a n&atilde;o<br \/>\n    ser nos barcos que estacionam no pequeno golfo, e cujas &aacute;guas nem sempre<br \/>\n    s&atilde;o pl&aacute;cidas, recebendo a agita&ccedil;&atilde;o que o oceano,<br \/>\n    em completa comunica&ccedil;&atilde;o com elas, lhes transmite.<\/p>\n<p> Ora nesta noite era a Barrinha intransit&aacute;vel; ainda ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o existia a ponte que hoje permite f&aacute;cil passagem em toda<br \/>\n    a ocasi&atilde;o, e o mar era abundante.<\/p>\n<p> E, contudo, Pedro hesitou ainda, como se tentasse lutar com a natureza no<br \/>\n    obst&aacute;culo que ela lhe oferecia. Mas o canto cessara de todo, a vista<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o distinguia no mar o menor vest&iacute;gio do barco; o<br \/>\n    alento que animara at&eacute; ali o pobre vagabundo abandonou-o todo &agrave;<br \/>\n    languidez da sua definhada sa&uacute;de.<\/p>\n<p> Em algumas das noites sucessivas, tranquilas como esta, voltaram de novo<br \/>\n    o barco e a cantora. Pedro procurou-os com o mesmo fervor, escutou-a com o<br \/>\n    mesmo recolhimento, viu-a afastar-se com a mesma ou mais intensa saudade.<\/p>\n<p> E o pobre pescador abatia-se a olhos vistos.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Caba&ccedil;a vivia taciturno e oprimido, preso &agrave;s suas<br \/>\n    cren&ccedil;as e preconceitos, sentindo o estado de Pedro, a quem de cada<br \/>\n    vez mais se sentia afei&ccedil;oado.<\/p>\n<p> ! Na opini&atilde;o do velho, opini&atilde;o que ele n&atilde;o revelava<br \/>\n    para n&atilde;o excitar terrores ou causar maiores desgra&ccedil;as, era evidente<br \/>\n    ser tudo aquilo malef&iacute;cios da sereia. Ao que j&aacute; soubera pela<br \/>\n    comunica&ccedil;&atilde;o que lhe tinha feito Pedro, acresceu uma nova circunst&acirc;ncia,<br \/>\n    que muito influiu para corroborar esta cren&ccedil;a no &acirc;nimo do velho<br \/>\n    pescador.<\/p>\n<p> &Eacute; que ele tamb&eacute;m a ouvira, tamb&eacute;m em uma das &uacute;ltimas<br \/>\n    noites lhe escutara o canto e n&atilde;o lhe ficou d&uacute;vida que&#8217; era&#8217;<br \/>\n    de sereia, pois nunca tinha ouvido mulher cantar assim e muito mais no mar<br \/>\n    e por tais horas da noite.<\/p>\n<p> O velho tinha sido obrigado a ir a Espinho e, ao voltar, a&iacute; pr&oacute;ximo<br \/>\n    da capela da Senhora Aparecida, principiou a ouvir aquele canto que o sobressaltou;<br \/>\n    aplicou o ouvido e percebeu-o mais distante.<\/p>\n<p> O velho ficou aterrado! Quanto mais involuntariamente o deleitava aquela<br \/>\n    m&uacute;sica, tanto maior vulto tomavam as suas apreens&otilde;es.<\/p>\n<p> Considerava-se j&aacute; perdido, mas teve uma inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    salvadora: correu para a pequena ermida, que lhe estava pr&oacute;xima, e,<br \/>\n    ajoelhando-se na entrada, p&ocirc;s o pensamento na Virgem e serviu-se do<br \/>\n    expediente que, segundo a f&aacute;bula, tinha utilizado um companheiro de<br \/>\n    Ulisses em uma situa&ccedil;&atilde;o id&ecirc;ntica. A pr&aacute;tica surtiu<br \/>\n    efeito. Quando o velho destapou os ouvidos, j&aacute; n&atilde;o se percebia<br \/>\n    o canto; tinha, pois, esconjurado o malef&iacute;cio.<\/p>\n<p> Prosseguiu no seu caminho, mas sempre inquieto.<\/p>\n<p> Nessa noite n&atilde;o p&ocirc;de conciliar o sono. Volvia-se e revolvia-se<br \/>\n    no eito, fechava os olhos e escondia a cabe&ccedil;a no travesseiro&#8230; Debalde&#8230;<\/p>\n<p> Era sempre aquela ideia a afugentar-lhe o sono; afigurava-se-lhe ainda ouvir<br \/>\n    aquela voz e o pobre velho principiava a imaginar-se enfeiti&ccedil;ado.<\/p>\n<p> Fez o sinal da cruz, encomendou-se &agrave; Virgem e ao Pedro Santo que,<br \/>\n    antes de ser Papa, fora pescador; mas parece que desta vez tinha de ser ineficaz<br \/>\n    t&atilde;o valiosa intercess&atilde;o. Depois lembrava-se de Pedro, bom do<br \/>\n    velho, e compreendia como ele devia andar perdido, quando a si pr&oacute;prio<br \/>\n    nem a reflex&atilde;o nem o peso dos anos lhe foram preservativo contra a<br \/>\n    influ&ecirc;ncia daquela endemoninhada tentadora.<\/p>\n<p> Se, pr&oacute;ximo &agrave; manh&atilde;, Jo&atilde;o Caba&ccedil;a conseguiu<br \/>\n    dormir, foi de um sono t&atilde;o agitado, t&atilde;o cheio de sonos febris<br \/>\n    e assustadores que, longe de o restaurar, o fatigou&#8230;<\/p>\n<p> Quando apareceu diante dos da companha, perguntaram-lhe de todos os lados<br \/>\n    se estava doente.<\/p>\n<p> Esta pergunta desagradou ao velho.<\/p>\n<p> &#8212; Doente! E que me acham voc&ecirc;s para o pensarem ? &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    amarelo, o ti&#8217;Caba&ccedil;a, que nem uma cidra e tem cara de quem lidou com<br \/>\n    bruxas.<\/p>\n<p> &#8212; Malditas, malditas! S&oacute; de as ouvir uma vez, j&aacute; assim<br \/>\n    me puseram! &#8212; exclamou o velho, n&atilde;o podendo reprimir uma indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Quem? Quem? &#8212; perguntaram v&aacute;rias vozes com grande curiosidade.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Caba&ccedil;a apenas respondeu: &#8212; Ningu&eacute;m, ningu&eacute;m.<br \/>\n    Eu c&aacute; me entendo.<\/p>\n<p> Vejam como deveria ter adquirido firmeza a cren&ccedil;a de Jo&atilde;o<br \/>\n    Caba&ccedil;a, quando juntara &agrave; experi&ecirc;ncia de estranhos a sua<br \/>\n    pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Procurou Pedro e, desta vez, foi eloquente na pr&eacute;dica em que lhe<br \/>\n    pintou com as mais vivas cores os artif&iacute;cios das sereias, e pediulhe<br \/>\n    que resistisse &agrave;quela tenta&ccedil;&atilde;o que lhe viria a ser funesta.<br \/>\n    Que ele pr&oacute;prio, por a ter ouvido uma noite, se sentira incomodado<br \/>\n    e que, portanto, tomasse tento, que mais sujeita ao perigo andava a juventude<br \/>\n    do que a idade em que alvejam os cabelos e a fronte enruga e verga sob a press&atilde;o<br \/>\n    &#8216;dos anos.<\/p>\n<p> Estas e outras muitas coisas dizia o bom do velho, mas o seu companheiro<br \/>\n    escutava-as distra&iacute;do e provavelmente sem ter sequer consci&ecirc;ncia<br \/>\n    do que elas significavam. A abstrac&ccedil;&atilde;o de Pedro aumentara de<br \/>\n    ponto a fazer julgar a todos que ele transpusera as raias da loucura.<\/p>\n<p> Tudo fazia maquinalmente; se respondia &agrave;s perguntas que lhe dirigiam<br \/>\n    era como se as n&atilde;o houvesse compreendido.<\/p>\n<p> Esta distrac&ccedil;&atilde;o continuada, que o alheava ao trato usual dos<br \/>\n    seus companheiros, acabou por o isolar completamente, pois todos pareciam<br \/>\n    experimentar um certo afastamento por aquele car&aacute;cter excessiv&atilde;mente<br \/>\n    concentrado e t&atilde;o sujeito a aberra&ccedil;&otilde;es que se assemelhavam<br \/>\n    a uma verdadeira loucura. <\/p>\n<p>Apesar das recomenda&ccedil;&otilde;es de Jo&atilde;o Caba&ccedil;a, j&aacute;<br \/>\n    a noite veio encontrar a Pedro no seu posto de vigia.<\/p>\n<p> A tarde estivera magn&iacute;fica.<\/p>\n<p> No firmamento l&iacute;mpido n&atilde;o se formara uma s&oacute; dessas<br \/>\n    pequenas nuvens que s&atilde;o o primeiro assomo da c&oacute;lera dos elementos.<br \/>\n    Reinava uma calmaria completa ainda no princ&iacute;pio da noite.<\/p>\n<p> A atmosfera t&eacute;pida e asfixiante n&atilde;o era agitada pela menor<br \/>\n    vira&ccedil;&atilde;o ; as ondas, como que dominadas pela geral languidez<br \/>\n    da natureza, estendiam-se lentamente na praia com suave murm&uacute;r-io.<\/p>\n<p> E, contudo, no meio desta tranquilidade, Pedro sentia-se inquieto, como<br \/>\n    se alguma coisa pressentisse amea&ccedil;ando-o de um perigo latente.<\/p>\n<p> As organiza&ccedil;&otilde;es impression&aacute;veis s&atilde;o formadas<br \/>\n    por estas misteriosas percep&ccedil;&otilde;es, que se n&atilde;o explicam.<\/p>\n<p> Por um instinto, semelhante ao das aves que volteiam sobre as praias ainda<br \/>\n    quando a tempestade est&aacute; longe, mas que elas pressentem j&aacute;,<br \/>\n    n&atilde;o as ilude as apar&ecirc;ncias de bonan&ccedil;a que o c&eacute;u<br \/>\n    &agrave;s vezes oferece ; o que quer que seja de invis&iacute;vel lhes prognostica<br \/>\n    as tormentas.<\/p>\n<p> Aonde se engana a experi&ecirc;ncia dos anos, realiza-a a voz prof&eacute;tica<br \/>\n    destes inexplic&aacute;veis instintos.<\/p>\n<p> Nesta noite Pedro sentia-se triste, e experimentava um secreto medo que<br \/>\n    a si pr&oacute;prio admirava.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei o que descobria no cintilar das estrelas, que o assustava;<br \/>\n    a voz das vagas, na sua aparente suavidade, parecia-lhe murmurar amea&ccedil;as<br \/>\n    surdas; o sorriso da natureza dir-se-ia um sorriso trai&ccedil;oeiro; n&atilde;o<br \/>\n    lhe infundia confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Passeava na praia, com os olhos fitos naquela imensa superf&iacute;cie l&iacute;quida<br \/>\n    de onde lhe tinham vindo os &uacute;nicos momentos de felicidade que entrevira<br \/>\n    na vida. Mas comprimia-se-lhe desta vez o cora&ccedil;&atilde;o respirando<br \/>\n    a inflamada atmosfera daquela noite de sinistra influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Esta vez os temores que ressentia, na apar&ecirc;ncia mal fundados, pouco<br \/>\n    a pouco os principiou a justificar o novo aspecto que foram tomando o mar<br \/>\n    e o firmamento.<\/p>\n<p> Levantou-se do sul uma vira&ccedil;&atilde;o, ao princ&iacute;pio branda,<br \/>\n    mas que adquiriu gradualmente mais intensidade, turbando a limpidez do c&eacute;u<br \/>\n    com um sem-n&uacute;mero de pequenas nuvens que coalhavam a imensa ab&oacute;bada<br \/>\n    que se descobria dali. A forma, a disposi&ccedil;&atilde;o destas nuvens era<br \/>\n    de um agouro pouco seguro para os olhos amestrados. Pedro surpreendeu toda<br \/>\n    a significa&ccedil;&atilde;o destes sintomas do c&eacute;u e via confirmados<br \/>\n    por eles os seus vagos terrores de h&aacute; pouco.<\/p>\n<p> Temia j&aacute; que o barco, cujo aparecimento ele t&atilde;o ardentemente<br \/>\n    esperava, n&atilde;o viesse aquela noite, e s&oacute; com esta lembran&ccedil;a<br \/>\n    sentia-se desfalecer.<\/p>\n<p> Era como se aquela esperan&ccedil;a, se aquele gozo de momentos fosse o<br \/>\n    &uacute;nico la&ccedil;o que j&aacute; agora o prendia &agrave; vida.<\/p>\n<p> Pensar que lhe poderia faltar era para ele a origem de uma tristeza t&atilde;o<br \/>\n    &iacute;ntima, de uma t&atilde;o absoluta desesperan&ccedil;a, que na morte<br \/>\n    antevia o &uacute;nico al&iacute;vio a esperar, depois de t&atilde;o dolorosa<br \/>\n    desilus&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas, no meio destas apreens&otilde;es, puderam seus olhos descobrir, apesar<br \/>\n    da cerra&ccedil;&atilde;o cada vez mais densa que principiava a ocultar- lhe<br \/>\n    o mar, uma forma que lhe pareceu a do barco que aguardava com tanto fervor.<\/p>\n<p> Tr&eacute;mulo de ansiedade indiz&iacute;vel, se aproximou da beira-mar,<br \/>\n    fazendo excessivos esfor&ccedil;os, para devassar o fundo impenetr&aacute;vel<br \/>\n    daquela escurid&atilde;o.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o dizia-lhe que era aquela a apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pela qual esperava, no seu palpitar ansiado, e na misteriosa sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ressentia.<\/p>\n<p> De repente, como respondendo &agrave; t&aacute;cita interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela alma apaixonada, e impelindo-a a extremos de j&uacute;bilo indefin&iacute;vel,<br \/>\n    a conhecida voz feminima principiou cantando uma evoca&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    tempestade, que se poderia traduzir assim:<\/p>\n<p>&laquo; Vinde I Soprai furiosos, Ventos de tempestade Ergue-te, majestade<br \/>\n    ! Ergue-te, &oacute; vasto mar ! Passai, legi&otilde;es de nuvens! Velai o<br \/>\n    c&eacute;u de estrelas! &Oacute; gemo das procelas ! Vem, quero-ta saudar!<\/p>\n<p>&laquo;A luz fatal do raio Guie o meu barco apenas I E rujam como hienas<br \/>\n    As vagas ao redor&#8230;<\/p>\n<p> Pairem nos ar&#8217;s fat&iacute;dicos As aves de carnagem.<\/p>\n<p> E cave-se a voragem Com s&uacute;bito fragor !<\/p>\n<p>&laquo;Surjam do fundo abismo Os pavorosos vultos Dos n&aacute;ufragos sepultos<br \/>\n    Dos mares na amplid&atilde;o ! Responda &agrave; voz das &aacute;guas Fermentes,<br \/>\n    agitadas, O silvo das rajadas, Os brados do trov&atilde;o !<\/p>\n<p>&laquo;Do arcanjo de exterm&iacute;nio O gl&aacute;dio chamejante Ostente-se<br \/>\n    radiante De amea&ccedil;adora luz ! Da tempestade &agrave;s f&uacute;rias<br \/>\n    Assistirei sorrindo, E bradarei: &laquo;Bem-vindo!&raquo; Ao g&eacute;nio<br \/>\n    que a conduz!<\/p>\n<p>&laquo;Bem-vindo, sim, que eu sinto No seio, mais violenta, Uma cruel tormenta,<br \/>\n    A luta das paix&otilde;es ! Procuro o mar furioso Como um seguro asilo 1 Arrosto-o,<br \/>\n    e n&atilde;o vacilo Das ondas aos baldoes !<\/p>\n<p>Como se efectivamente a tempestade obedecesse a esta evoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    singular, um violento tuf&atilde;o do sul veio encapelar as ondas j&aacute;<br \/>\n    inquietas, encobrindo com a sua voz poderosa as &uacute;ltimas notas da can&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O barco jogava nas ondas agitadas de uma maneira assustadora.<\/p>\n<p> Os remadores faziam esfor&ccedil;os poderosos para resistirem &agrave; viol&ecirc;ncia<br \/>\n    das ondas e, pelos seus movimentos, denotavam a pouca tranquilidade de esp&iacute;rito<br \/>\n    que possu&iacute;am j&aacute;.<\/p>\n<p> Nos intervalos das rajadas, algumas palavras destacadas da tumultuosa discuss&atilde;o<br \/>\n    e ordens encontradas da manobra que se trocavam entre eles, vinham at&eacute;<br \/>\n    aos ouvidos de Pedro, que principiava a inquietar- se pela sorte daquela a<br \/>\n    quem votara todos os seus pensamentos, a quem consagrara inteiros os tesouros<br \/>\n    de seus ardentes afectos.<\/p>\n<p> &#8212; Temo-la connosco! &#8212; dizia um dos remadores. &#8212; E esta<br \/>\n    &eacute; de respeito! &#8212; Quem o havia de dizer, com a noite que estava<br \/>\n    I &#8212; J&aacute; me n&atilde;o agrada muito, a falar a verdade&#8230;<\/p>\n<p> Neste ponto, nova rajada impediu que chegasse &agrave; praia o resto do<br \/>\n    di&aacute;logo.<\/p>\n<p> Quando, por sua vez, serenou, era a voz da cantora a que se ouvia dizer:<br \/>\n    &#8212; Hei-de ser eu ainda desta vez que lhes d&ecirc; &acirc;nimo ? Homens<br \/>\n    h&aacute; tanto no mar e que ainda n&atilde;o t&ecirc;m confian&ccedil;a neste<br \/>\n    seu companheiro de juventude! Sosseguem, eu lhes asseguro que&#8230;<\/p>\n<p> O fuzilar de um rel&acirc;mpago, que iluminou com o clar&atilde;o sinistro<br \/>\n    toda a extensa amplid&atilde;o do mar, interrompeu estas palavras; e, instintivamente,<br \/>\n    a cantora levou as m&atilde;os aos olhos, exclamando: &#8212; Jesus! O ru&iacute;do<br \/>\n    ensurdecedor de um alt&iacute;ssono trov&atilde;o acabou de desorientar os<br \/>\n    pescadores, em cujo manobrar inconsequente se reconhecia toda a turba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &acirc;nimo que sentiam.<\/p>\n<p> Pedro examinava com indescrit&iacute;vel ansiedade o resultado daquela luta<br \/>\n    de s&uacute;bito travada entre os elementos enfurecidos e a for&ccedil;a humana.<\/p>\n<p> Palpitava-lhe violentamente o cora&ccedil;&atilde;o com a lembran&ccedil;a<br \/>\n    do perigo que aquele barco corria e, por vezes, uma for&ccedil;a instintiva<br \/>\n    o aproximava<\/p>\n<p>1 Esta poesia vem publicada nas \u00faltimas edi\u00e7\u00f5es das Poesias de J\u00falio D\u00ednis<br \/>\n    com o titulo Evoca\u00e7\u00e3o \u00e0 tempestade. Deve ter sido escrita em Ovar em 1863.<\/p>\n<p>das ondas, como para voar em socorro daquela exist&ecirc;ncia, &agrave; qual<br \/>\n    t&atilde;o indissoluvelmente deixara ligar a sua.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel vencer este mar! Faz-te &agrave;<br \/>\n    terra, Louren&ccedil;o, que eu j&aacute; mal posso segurar o remo I &#8212;<br \/>\n    &Eacute; melhor, &eacute; melhor. A terral &#8212; Vira!&#8212;bradaram os<br \/>\n    outros.<\/p>\n<p> Quando, seguindo esta nova ordem de manobra, o barco se voltou para demandar<br \/>\n    a praia, um forte tuf&atilde;o de vento soprou t&atilde;o de s&uacute;bito<br \/>\n    e com tal viol&ecirc;ncia que, apanhando de lado o barco, por pouco o virava.<\/p>\n<p> Um dos homens, que se achava desprevenido, n&atilde;o p&ocirc;de resistir<br \/>\n    ao impulso e caiu ao mar.<\/p>\n<p> &#8212; Santa Virgem!&#8212;bradou com voz angustiada a jovem italiana.<\/p>\n<p> &#8212; Acudam! A este grito sucederam as exclama&ccedil;&otilde;es dos<br \/>\n    remadores, que se esfor&ccedil;aram para salvar o seu companheiro. Este p&ocirc;de<br \/>\n    voltar ao cimo da &aacute;gua a tempo de se encontrar ainda a pouca dist&acirc;ncia<br \/>\n    do barco e, firmando-se sobre a borda, saltou para dentro. A escurid&atilde;o<br \/>\n    da noite era completa.<\/p>\n<p> Pedro ouviu da praia o grito angustiado da cantora, o qual lhe penetrou<br \/>\n    at&eacute; ao cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ouviu as vozes confusas dos remadores e uma ideia terr&iacute;vel lhe passou<br \/>\n    pelo esp&iacute;rito. Pensou que aquela mulher desconhecida havia ca&iacute;do<br \/>\n    &agrave;s ondas e lutava nesse momento com a viol&ecirc;ncia do mar.<\/p>\n<p> Pedro era um dos melhores nadadores do Furadouro. De pequeno fazia admirar<br \/>\n    os mais h&aacute;beis pela maneira como se confiava ao seio das ondas quando<br \/>\n    mais inquietas, e como que brincava com elas.<\/p>\n<p> N&atilde;o hesitou muito tempo; correu como um louco ao longo da praia e<br \/>\n    deitou-se ao mar, nadando na direc&ccedil;&atilde;o do barco.<\/p>\n<p> Guiava-o o som das vozes dos remadores no meio daquelas trevas que o rodeavam.<\/p>\n<p> Mas, passados os primeiros momentos, Pedro sentiu que o abandonavam as for&ccedil;as<br \/>\n    em que, por h&aacute;bito, confiara. Mal fundada esperan&ccedil;a fora esta<br \/>\n    sua! O pobre mo&ccedil;o j&aacute; n&atilde;o era aquele pescador robusto<br \/>\n    e vigoroso para quem um remo era um brinco de crian&ccedil;a, e que fazia<br \/>\n    inveja aos mais alentados, por aquela for&ccedil;a muscular que subjugava<br \/>\n    a viol&ecirc;ncia das vagas; tinham-no alquebrado as vig&iacute;lias cont&iacute;nuas<br \/>\n    e os extremos da paix&atilde;o que lhe absorveram todas as faculdades daquela<br \/>\n    alma at&eacute; ent&atilde;o virgem de afectos t&atilde;o poderosos. Agora<br \/>\n    sentia-se desfalecer.<\/p>\n<p> A meio caminho da praia ao barco que procurava, j&aacute; os movimentos<br \/>\n    lhe eram dificultosos e um certo atordoamento de cabe&ccedil;a lhe impedia<br \/>\n    regulariz&aacute;-los.<\/p>\n<p> J&aacute; o animava apenas aquela for&ccedil;a instintiva que nos estimula<br \/>\n    em situa&ccedil;&otilde;es desesperadas.<\/p>\n<p> De quando em quando deixava-se tomar de um desalento t&atilde;o completo<br \/>\n    que a custo sufocava a tenta&ccedil;&atilde;o de se deixar vencer pela for&ccedil;a<br \/>\n    da corrente e baixar, sem esfor&ccedil;os de resist&ecirc;ncia, ao t&uacute;mulo<br \/>\n    que se lhe cavava aos p&eacute;s. Depois a voz do instinto reanimava a energia<br \/>\n    de lutar, quando ele j&aacute; deixava pender exaustos os m&uacute;sculos<br \/>\n    e se sentia sucumbir.<\/p>\n<p> Renovava-se ent&atilde;o aquele combate singular, terr&iacute;vel e solene,<br \/>\n    cujos resultados n&atilde;o podiam ser duvidosos.<\/p>\n<p> O mar parecia deleitar-se em atormentar a sua v&iacute;tima antes de a devorar.<br \/>\n    Uma vaga impetuosa anulava em um momento os esfor&ccedil;os de muitos; depois<br \/>\n    abrandava-se, como deixando-se vencer, para cedo redobrar de viol&ecirc;ncia<br \/>\n    e subjug&aacute;-lo.<\/p>\n<p> A situa&ccedil;&atilde;o do infeliz era desesperada.<\/p>\n<p> No seu esp&iacute;rito principiavam a suceder-se, em confuso tropel, cujo<br \/>\n    r&aacute;pido voltear lhe fazia sentir uma verdadeira vertigem, mil imagens<br \/>\n    variadas, origem de quantas ideias nos &uacute;ltimos tempos lhe haviam preocupado<br \/>\n    o pensamento.<\/p>\n<p> Por momentos esquecia-se j&aacute; do fim a que tendiam todos estes esfor&ccedil;os<br \/>\n    extenuantes que estava empregando, perdia a consci&ecirc;ncia da sua situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prec&aacute;ria, duvidava da imin&ecirc;ncia do perigo, parecia-lhe um sonho<br \/>\n    tudo o que estava passando por ele e como se esfor&ccedil;ava por acordar.<br \/>\n    Mas cedo aparecia-lhe a realidade mais amarga ainda, torturava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um paroxismo de desespero.<\/p>\n<p> Vinham-lhe as saudades de um passado que havia esquecido, surgiam-lhe os<br \/>\n    terrores de um futuro que ia devassar.<\/p>\n<p> D&uacute;vidas, supersti&ccedil;&otilde;es, preconceitos, tudo lhe assaltava<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia e o fazia delirar. Depois a lembran&ccedil;a daquela a<br \/>\n    cuja salva&ccedil;&atilde;o sacrificara a sua exist&ecirc;ncia surgia-lhe<br \/>\n    de repente como um clar&atilde;o nas trevas que o cercavam e por instantes<br \/>\n    lhe comunicava uma energia improf&iacute;cua. Era um lidar in&uacute;til,<br \/>\n    aquele. J&aacute; sem consci&ecirc;ncia dos rumos, n&atilde;o vendo, n&atilde;o<br \/>\n    ouvindo nada que lhe indicasse a direc&ccedil;&atilde;o na qual devia fazer<br \/>\n    convergir os seus esfor&ccedil;os, lutava por instinto; mas o esp&iacute;rito<br \/>\n    alucinado j&aacute; n&atilde;o presidia &agrave; luta. Os membros enregelados,<br \/>\n    entorpecidos, exaustos, n&atilde;o lhe permitiam uma muito mais longa resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Subitamente um rel&acirc;mpago prolongado iluminou o vasto teatro desta<br \/>\n    cena terr&iacute;vel. Aos olhos de Pedro, j&aacute; meio velados pela ang&uacute;stia,<br \/>\n    mostrou-se bem claro e pr&oacute;ximo o barco que t&atilde;o energicamente<br \/>\n    demandava e sentada nele a mulher por quem votava em sacrif&iacute;cio a pr&oacute;pria<br \/>\n    vida, depois de lhe ter tributado todos os tesouros da sua alma.<\/p>\n<p> Um novo rel&acirc;mpago reflectiu a sua luz fulgurante nas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    simpaticamente belas daquela mulher extraordin&aacute;ria.<\/p>\n<p> Este resultado reanimou por instantes as for&ccedil;as j&aacute; abatidas<br \/>\n    do n&aacute;ufrago. Pela primeira vez lhe era dado contemplar o rosto daquela<br \/>\n    por quem concebeu uma t&atilde;o singular paix&atilde;o. Essa vista fascinou-o!<br \/>\n    Com uma energia quase sobre-humana, segurou-se &agrave; borda do barco, quando<br \/>\n    este se abaixava obedecendo &agrave; ondula&ccedil;&atilde;o das vagas, e,<br \/>\n    com os olhos espantados, fitou aquela mulher, cuja voz o enfeiti&ccedil;ava<br \/>\n    e, como a da sereia, parecia arrast&aacute;-lo a uma inevit&aacute;vel perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ela tamb&eacute;m o viu.<\/p>\n<p> Batia-lhe em cheio no rosto, desfigurado singularmente pelos afectos que<br \/>\n    ent&atilde;o se combatiam tumultuosos e contr&aacute;rios naquele peito, um<br \/>\n    novo clar&atilde;o de rel&acirc;mpago.<\/p>\n<p> A cantora deu um grito ao descobrir aquela inesperada apari&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Por um instinto de compaix&atilde;o estendeu as m&atilde;os ao n&aacute;ufrago.<\/p>\n<p> O barco, neste mesmo instante, executou um movimento; as for&ccedil;as de<br \/>\n    Pedro abandonaram-no; quebrara-lhas de todo a viol&ecirc;ncia da &uacute;ltima<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o que recebeu. Soltou as m&atilde;os do bordo do barco,<br \/>\n    o qual lhe passou por cima do corpo.<\/p>\n<p> &#8212; Esperem! Esperem! &#8212; bradou angustiada a cantora. &#8212; Um<br \/>\n    homem no mar! Os pescadores pararam e olharam uns para os outros, como contando-se.<\/p>\n<p> &#8212; Estamos todos &#8212; responderam depois. &#8212; A Madama enganou-<br \/>\n    se.<\/p>\n<p> &#8212; Vi-o! N&atilde;o foi ilus&atilde;o! Segurou-se &agrave; borda do<br \/>\n    barco, agora mesmo! Valham-lhe! Tenham piedade dele ! Os pescadores estenderam<br \/>\n    as vistas por toda a extens&atilde;o do mar, que os rel&acirc;mpagos iluminavam<br \/>\n    por intervalos, mas n&atilde;o descobriram vest&iacute;gios do n&aacute;ufrago.<br \/>\n    Demais eles tinham pressa de se p&ocirc;r a salvo e n&atilde;o depositavam<br \/>\n    demasiada confian&ccedil;a no sossego de esp&iacute;rito da cantora para supor<br \/>\n    que n&atilde;o fosse poss&iacute;vel uma ilus&atilde;o da sua parte.<\/p>\n<p> Passado tempo, o maior furor da tempestade abrandara, os pescadores puderam<br \/>\n    vencer a resist&ecirc;ncia do mar e, algumas horas depois, desembarcavam na<br \/>\n    praia de Espinho, jurando nunca mais tornarem a meter-se ao mar numa noite<br \/>\n    como aquela por dinheiro nenhum deste mundo.<\/p>\n<p> O &acirc;nimo da cantora n&atilde;o era desta vez contr&aacute;rio a iguais<br \/>\n    disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Impressionara-a demasiado aquela figura do n&aacute;ufrago que entrevira<br \/>\n    e que ela n&atilde;o acreditava haver sido alucina&ccedil;&atilde;o dos sentidos;<br \/>\n    impressionara-a, sobretudo, a estranha express&atilde;o daquela fisionomia<br \/>\n    descomposta, onde parecia reflectir-se, entre os tormentos da agonia, um certo<br \/>\n    reflexo de inexplic&aacute;vel voluptuosidade.<\/p>\n<p>Era j&aacute; dia claro quando as companhas se reuniram na praia, preparando-se<br \/>\n    para se fazerem ao mar.<\/p>\n<p> O tempo melhorara. E do aspecto do c&eacute;u tiravam os entendidos progn&oacute;sticos<br \/>\n    favor&aacute;veis.<\/p>\n<p>Um grupo de pescadores no qual se contava o nosso conhecido Jo&atilde;o Caba&ccedil;a,<br \/>\n    caminhava, conversando, em direc&ccedil;&atilde;o &agrave; beira-mar. A trovoada<br \/>\n    da v&eacute;spera era o assunto discutido.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que te parece a trovoada desta noite ? &#8212; perguntava<br \/>\n    um dos mais idosos.<\/p>\n<p> &#8212; S. Jer&oacute;nimo ! Alguns trov&otilde;es estalaram mesmo em cima<br \/>\n    dos palheiros. Julguei que n&atilde;o ficaria um s&oacute; de p&eacute;! &#8212;<br \/>\n    Vinha puxada do sul com uma for&ccedil;a ! &#8212; Mas deixa l&aacute;! Era<br \/>\n    precisa para limpar os ares. Olha que manh&atilde; est&aacute; hoje! N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;-de ser pequena a safra.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; precisa, &eacute; precisa. Olha, o pior &eacute; dos que<br \/>\n    ela apanhou no mar &#8212; disse Jo&atilde;o Caba&ccedil;a, meneando a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; isso &eacute; verdade ! Mas que rem&eacute;dio! &#8212;<br \/>\n    Andem mais depressa, rapazes! Olhai que os barcos est&atilde;o prontos. N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;em? &#8212; Mas que diabo fazem aqueles ali, ao p&eacute; do mar?<br \/>\n    &#8212; Para que ser&aacute; que eles olham assim? A curiosidade apressou<br \/>\n    o passo aos pescadores, que correram em direc&ccedil;&atilde;o ao ponto da<br \/>\n    costa onde muitos dos da companha j&aacute; estavam reunidos.<\/p>\n<p> &#8212; Que &eacute; ? Que &eacute; ? &#8212; perguntavam uns aos outros,<br \/>\n    amontoando- se, comprimindo-se, empurrando-se, sem obterem a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que desejavam.<\/p>\n<p> &#8212; Aquilo &eacute; afogado decerto&#8230; &#8212; dizia um pescador novo,<br \/>\n    depois de aplicar a vista por algum tempo a um objecto que boiava nas &aacute;guas.<\/p>\n<p> Estas palavras excitaram a curiosidade de Jo&atilde;o Caba&ccedil;a, que<br \/>\n    se aproximou do que as dissera, com n&atilde;o disfar&ccedil;ada curiosidade.<\/p>\n<p> &#8212; Mostra-me o que tu dizes que &eacute; um afogado, Lu&iacute;s do<br \/>\n    Moleiro.,.<\/p>\n<h2>TRECHOS<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Tirados de dois manuscritos referentes aos romances Pupilas<br \/>\n    e Morgadinha.<\/b><\/p>\n<h2>D. DOROTEIA<\/h2>\n<p>E disso se poderia gabar quem h&aacute; cinco anos fosse admitido na sala<br \/>\n    de recep&ccedil;&atilde;o da sr.&quot; morgada das Fontainhas, Doroteia de<br \/>\n    Melo Carragena e Sousa de Fran&ccedil;a e Albergaria, &agrave;s horas em que<br \/>\n    se tomava o ch&aacute;. O solar da septuagen&aacute;ria, representante de<br \/>\n    tantos nomes ilustres, ficava situado nos sub&uacute;rbios da vila de Ovar,<br \/>\n    p&aacute;tria da nobre fidalga, e onde seu pai foi capit&atilde;o-mor em tempos<br \/>\n    cuja mem&oacute;ria arrancava, a cada passo, do peito de D. Doroteia um suspiro<br \/>\n    de saudosa significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Doroteia n&atilde;o tinha cabedal para sustentar com o devido esplendor<br \/>\n    e galhardia a sua &aacute;rvore geneal&oacute;gica t&atilde;o carregada de<br \/>\n    nobil&iacute;ssimas produ&ccedil;&otilde;es; era-lhe insuport&aacute;vel a<br \/>\n    vista do luxo que ostentavam fam&iacute;lias cujos mais pr&oacute;ximos ascendentes<br \/>\n    n&atilde;o se cobriam diante dos seus; e, na impossibilidade de os sobrepujar<br \/>\n    em luxo e magnific&ecirc;ncias, ela preferia encerrar-se em uma quase completa<br \/>\n    reclus&atilde;o, sob o pretexto de um desapego ao mundo e descren&ccedil;a<br \/>\n    em coisas e pessoas, digna, tanto na manifesta&ccedil;&atilde;o como na sinceridade,<br \/>\n    de um dos nossos c&eacute;pticos de vinte anos.<\/p>\n<p> Enclausurava-se, pois, D. Doroteia com as suas pratas, os seus vestidos,<br \/>\n    cuja moda estava esquecida h&aacute; vinte anos, os seus gatos, os seus criados<br \/>\n    e os seus m&oacute;veis, e lan&ccedil;ava, da sua clausura, olhares de soberano<br \/>\n    desd&eacute;m para o resto do mundo.<\/p>\n<p> O acesso &agrave;s salas desguarnecidas da aristocr&aacute;tica morgada<br \/>\n    era dific&iacute;limo. Frequentavam-nas, a titulo de amigos, apenas um padre<br \/>\n    meio fidalgo, dois velhos fidalgotes, igualmente ilustres e igualmente pobres,<br \/>\n    que passavam o tempo a consumir os restos de uma fortuna que demandas e hipotecas<br \/>\n    haviam, de ano para ano, reduzido em propor&ccedil;&atilde;o assustadora,<br \/>\n    a t&iacute;tulo de familiares, que nunca se deviam esquecer do favor que recebiam<br \/>\n    nisso, sob pena de lhes ser lembrado, com severas admoesta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    um botic&aacute;rio da vila e um doutor que ajudava a morgada a perder v&aacute;rias<br \/>\n    demandas e lhe preparava o andamento de outras.<\/p>\n<p> O lugar onde, de ordin&aacute;rio, se reunia esta escolhida assembleia,<br \/>\n    era uma pequena sala quadrada, de soalho nu e carcomido, tecto de castanho<br \/>\n    pintado de branco, e altas paredes que uma s&eacute;rie de quadros adornava,<br \/>\n    de caixilhos negros, contendo umas p&eacute;ssimas litografias, escandalosamente<br \/>\n    coloridas, das passagens mais interessantes da par&aacute;bola do filho pr&oacute;digo.<\/p>\n<p> A mob&iacute;lia desta sala mostrava uma variedade prodigiosa; o canap&eacute;<br \/>\n    de mogno era flanqueado por duas cadeiras de pau-preto de estilo inteiramente<br \/>\n    diverso; em volta da sala, cadeiras de variadas qualidades, e junto ao canap&eacute;,<br \/>\n    um pequeno tapete que revelava longos anos de servi&ccedil;o no desbotado<br \/>\n    das cores. Sobre uma pequena mesa, uma redoma onde se abrigava um S&atilde;o<br \/>\n    Jo&atilde;o de marfim, e ao lado dois casti&ccedil;ais de prata ofuscantemente<br \/>\n    polidos.<\/p>\n<p> Logo ao princ&iacute;pio da noite, &agrave;s horas em que, quando o vento<br \/>\n    n&atilde;o era contr&aacute;rio, chegavam &agrave; solid&atilde;o do solar<br \/>\n    da morgada os sons das ave-marias da igreja de Ovar, a mesa puxava-se para<br \/>\n    junto do canap&eacute;, os habituais convivas acercavam-se dela e a criada<br \/>\n    trazia os preparativos do ch&aacute;.<\/p>\n<p> D. Doroteia dignava-se prepar&aacute;-lo e servi-lo com hospitaleira amabilidade<br \/>\n    e a conversa principiava a tomar uma vivacidade mais consider&aacute;vel,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; confort&aacute;vel infus&atilde;o e ao delicioso doce<br \/>\n    com que a verbosidade dos circunstantes era alimentada. D. Doroteia, constrangida<br \/>\n    pelas circunst&acirc;ncias a prescindir de muitas ostenta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    limitava-se a caprichar no bem servido do ch&aacute;, e em mostrar, no servi&ccedil;o<br \/>\n    magn&iacute;fico de prata e porcelana, uma passada riqueza de que hoje restavam<br \/>\n    apenas raros esp&eacute;cimes. Educada num convento de Aveiro, D. Doroteia<br \/>\n    trouxera de l&aacute; uma qualidade apreci&aacute;vel, a de saber preparar<br \/>\n    uma infinita variedade de doce que lhe granjeara entre a vizinhan&ccedil;a<br \/>\n    uma merecida reputa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Doroteia tinha sido casada com um coronel de mil&iacute;cias que a deixou<br \/>\n    vi&uacute;va passado pouco tempo e do qual lhe ficou um filho &uacute;nico<br \/>\n    para educar e imensas d&iacute;vidas a satisfazer.<\/p>\n<p> A decad&ecirc;ncia da sua fortuna principiava da&iacute;; procuradores &agrave;s<br \/>\n    m&atilde;os de quem a confiou continuaram a obra at&eacute; ao ponto em que<br \/>\n    ent&atilde;o se encontrava.<\/p>\n<p> O filho da sr.&ordf; morgada, na impossibilidade de viver da sua fortuna,<br \/>\n    foi obrigado a seguir uma carreira. A &uacute;nica que pareceu &agrave; descendente<br \/>\n    dos Carragenas digna de t&atilde;o alta linhagem foi a das armas.<\/p>\n<p> Duarte foi enviado para Lisboa e recomendado a um titular, seu primo em<br \/>\n    terceiro grau, e entrou para o Col&eacute;gio dos Nobres.<\/p>\n<p>D. Doroteia, como estes monumentos antigos que o vandalismo e o gosto estragado<br \/>\n    dos modernos t&ecirc;m coberto de emplastagens de cal e gesso que lhes ocultam<br \/>\n    o estilo da &eacute;poca, encobria, sob pastas de algod&atilde;o, tran&ccedil;as<br \/>\n    de &eacute;bano, e marcas de carmim, os vest&iacute;gios que atestavam a idade<br \/>\n    deste esp&eacute;cime de arquitectura viva. N&atilde;o havia a nobre morgada<br \/>\n    abdicado de todas as velhas pretens&otilde;es de eleg&acirc;ncia com que tanto<br \/>\n    brilhara nos sal&otilde;es do tempo de D. Carlota Joaquina e conservava ainda<br \/>\n    a tal respeito uma excelente opini&atilde;o de si, corroborada pelas lisonjas<br \/>\n    aduladoras dos seus comensais, a quem as deliciosas sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que o doce modelo de D. Doroteia produziam no paladar, exigiam tal retribui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Acabara justamente de encetar uma destas finezas insinuadoras a descendente<br \/>\n    da produtiva enxertia de tantos troncos ilustres, na ocasi&atilde;o em que<br \/>\n    n&oacute;s tamb&eacute;m penetr&aacute;mos neste sal&atilde;o privilegiado<br \/>\n    que o espirito nivelador da &eacute;poca n&atilde;o modificara ainda. A fineza<br \/>\n    partira de um dos fidalgos que, com a boca cheia de toucinho do c&eacute;u,<br \/>\n    deveu talvez a esta circunst&acirc;ncia a do&ccedil;ura do cumprimento.<\/p>\n<p> A morgada sorriu com um gesto de amabilidade de outros tempos e respondeu,<br \/>\n    oferecendo ao galanteador uma fatia de p&atilde;o-de-l&oacute;: &#8212; Vamos,<br \/>\n    Sr. de Refojos. Agora compete-me pagar do&ccedil;ura com do&ccedil;ura. Este<br \/>\n    p&atilde;o-de-l&oacute; coberto&#8230;<\/p>\n<p> O fidalgo estendeu a m&atilde;o e agradeceu com os olhos a oferta, Com os<br \/>\n    olhos, poderia dizer, parodiando o poeta, porque a boca lhe atravancavam de<br \/>\n    doces uns fragmentos volumosos.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. de Refojos &#8212; disse o outro fidalgo que se reputava seu<br \/>\n    rival nas boas gra&ccedil;as de D. Doroteia &#8212; o Sr. de Refojos &eacute;<br \/>\n    muito feliz.<\/p>\n<p> Os seus galanteios s&atilde;o-lhe pagos com usura.<\/p>\n<p> &#8212; Do&ccedil;ura, quer dizer, Sr. de Alpedrinha &#8212; respondeu o<br \/>\n    interpelado tendo conseguido desembara&ccedil;ar a l&iacute;ngua o suficiente<br \/>\n    para pronunciar estas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe l&aacute;, primo &#8212; disse D. Doroteia para o segundo<br \/>\n    que falara.<\/p>\n<p> &#8212; Longe de me arruinar com os juros que pago, ainda me considero em<br \/>\n    d&iacute;vida; e como gosto de ser leal em minhas contas, vai o Sr. de Refojos<br \/>\n    dar-me o prazer de aceitar esta p&ecirc;ra de doce.<\/p>\n<p> O Sr. de Refojos n&atilde;o recusou esse prazer &agrave; sua am&aacute;vel<br \/>\n    parenta.<\/p>\n<p> O morgado de Alpedrinha mostrava-se impaciente. D. Doroteia acalmou- o voltando-se<br \/>\n    para ele com um sorriso: &#8212; O primo Henrique quer ter o mart&iacute;rio<br \/>\n    de me servir o a&ccedil;&uacute;car ? O primo Henrique apressou-se em satisfazer<br \/>\n    o convite e endirei tando-se na cadeira meditou uma resposta galanteadora.<br \/>\n    Mas a imagina&ccedil;&atilde;o do bom do morgado n&atilde;o era para pressas.<br \/>\n    Em casa, no sil&ecirc;ncio de um gabinete, era fertil&iacute;ssimo em ditos<br \/>\n    lisonjeiros e finezas de bom gosto que, se viessem em tempo oportuno, dever-lhe-iam<br \/>\n    ter valido mais do que uma fortuna amorosa; mas na ocasi&atilde;o era de uma<br \/>\n    esterilidade desesperadora.<\/p>\n<p> &#8212; Os m&aacute;rtires&#8230; &#8212; dizia ele, sem poder encontrar o fio<br \/>\n    do galanteio&#8212; os m&aacute;rtires&#8230; os m&aacute;rtires&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fala-nos de Marrocos, Sr. de Alpedrinha? &#8212; perguntou com ares<br \/>\n    de simplicidade o doutor, ao passo que escolhia do tabuleiro o mais bem recheado<br \/>\n    covilhete que o adornava.<\/p>\n<p> O Sr. de Alpedrinha, j&aacute; embara&ccedil;ado com a perspectiva de um<br \/>\n    galanteio, acabou de perder-se com a interpela&ccedil;&atilde;o do doutor.<br \/>\n    N&atilde;o sabia conservar o seu sangue-frio na presen&ccedil;a de um aparte.<\/p>\n<p> &#8212; De Marrocos, n&atilde;o senhor. Em Marrocos&#8230; em Marrocos&#8230;&#8212;<br \/>\n    balbuciou o Sr. de Alpedrinha, tendo Marrocos atravancado na garganta como<br \/>\n    tivera os m&aacute;rtires. Fora t&atilde;o infeliz na execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do epigrama como no galanteio.<\/p>\n<p> Felizmente que uma rajada do oeste, seguida de um desses aguaceiros de que<br \/>\n    este vento &eacute; tantas vezes acompanhado, veio operar uma natural divers&atilde;o<br \/>\n    no di&aacute;logo, com grande aprazimento do Sr. de Alpedrinha, que decididamente<br \/>\n    n&atilde;o era para respostas de momento.<\/p>\n<p> O botic&aacute;rio foi o primeiro a fazer sobre o tempo uma observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    importante.<\/p>\n<p> &#8212; Esta &eacute; a mais fresca de hoje! Est&atilde;o-se a preparar<br \/>\n    os caminhos para regressarmos &agrave; vila! &#8212; Isto &eeacute; nuvem que<br \/>\n    passa e como as terras est&atilde;o secas n&atilde;o formam lama &#8212; acrescentou<br \/>\n    o doutor em tom de confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe chover, Sr. Bento Firmino &#8212; disse D. Doroteia pousando<br \/>\n    a x&iacute;cara &#8212; deixe chover que bem precisado estava o trigo e o<br \/>\n    milho.<\/p>\n<p> Que se n&atilde;o perca tudo j&aacute; agora que se foi a colheita do centeio<br \/>\n    e da cevada.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o V. Ex.*, minha senhora. Isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    chuva, &eacute; man&aacute;.<\/p>\n<p> At&eacute; as hortali&ccedil;as estavam secas que metiam d&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, primo Alexandre, que tempos estes! Parece o fim do mundo! Olhe<br \/>\n    aquelas minhas terras das Leivas que me chegaram a render tr&ecirc;s e quatro<br \/>\n    carros de p&atilde;o macho e este ano nem um ter&ccedil;o, nem a quarta parte<br \/>\n    talvez me produzir&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer, prima, &eacute; como o vinho da Bairrada. Este ano nem<br \/>\n    uma pipa me veio.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o os bra&ccedil;os est&atilde;o t&atilde;o caros! &#8212;<br \/>\n    disse o Sr. de Alpedrinha que estendia a x&iacute;cara para, pela quarta vez,<br \/>\n    a encher de ch&aacute;.<\/p>\n<p> O doutor, que se ocupava agora a palitar os dentes, tomou tamb&eacute;m<br \/>\n    parte na conversa.<\/p>\n<p> &#8212; E o sustento! A carne sobe a um pre&ccedil;o extraordin&aacute;rio;<br \/>\n    o vinho est&aacute; pelo que se sabe; a fruta vai toda para o embarque; o<br \/>\n    pescado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O pescado &#8212; disse o botic&aacute;rio interrompendo-o &#8212;<br \/>\n    o pescado come-se em toda a parte menos aqui na vila. Mal os marinh&otilde;es<br \/>\n    chegam aos Campos j&aacute; ele est&aacute; todo vendido para esses homens<br \/>\n    das estradas que juraram fazer-nos morrer de fome, pois levam-nos quanto peixe<br \/>\n    se vem ali vender. E quem h&aacute; que lhes pode cobrir o lan&ccedil;o ?<br \/>\n    Homens ordin&aacute;rios como eles s&atilde;o! &#8212; M&aacute; praga esta<br \/>\n    das estradas &#8212; acrescentou D. Doroteia, suspirando.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; pouco, as de macadame, agora as de ferro, amanh&atilde;<br \/>\n    as de ouro&#8230; e as nossas terras a partirem-se, a retalharem-se que faz mesmo<br \/>\n    enegrecer o cora&ccedil;&atilde;o ao v&ecirc;-las.<\/p>\n<p> &#8212; Mas eles indemnizam os propriet&aacute;rios &#8212; disse o doutor,<br \/>\n    que sabia ser esta a objec&ccedil;&atilde;o mais insuport&aacute;vel para<br \/>\n    D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Indemnizam! Tem gra&ccedil;a a palavra, doutor. Dez-r&eacute;is<br \/>\n    de mel coado por um terreno onde se empregavam para mais de quatro alqueires<br \/>\n    de semeadura. Indemnizam! O Demo os indemnize a eles quando mesmo pagassem<br \/>\n    o valor do terreno! Pagam-me o desgosto de ver as terras retalhadas? E as<br \/>\n    despesas, ao fabric&aacute;-las, n&atilde;o aumentaram? E ent&atilde;o para<br \/>\n    qu&ecirc;? Pois n&atilde;o se ia at&eacute; hoje ao Porto e a Lisboa pelos<br \/>\n    caminhos que havia? O padre que estivera calado lendo um n&uacute;mero do<br \/>\n    Direito, &uacute;nico jornal, no Porto, &oacute;rg&atilde;o do partido legitimista,<br \/>\n    levantou a cabe&ccedil;a a esta ap&oacute;strofe da sr.&quot; morgada contra<br \/>\n    o progresso e acrescentou: &#8212; Hoje &eacute; a &eacute;poca das estradas,<br \/>\n    menos a da virtude onde crescem cardos e abrolhos de pouco calcada que vai.<br \/>\n    Edificam-se imensos casar&otilde;es para teatros, para pal&aacute;cios e para<br \/>\n    esta&ccedil;&otilde;es; e n&atilde;o se edificam igrejas nem capelas. A &eacute;poca<br \/>\n    vai boa, n&atilde;o tem d&uacute;vida nenhuma! Boa para esses p&aacute;ssaros<br \/>\n    de arriba&ccedil;&atilde;o que v&ecirc;m do estrangeiro chupar-nos a &uacute;ltima<br \/>\n    gota de sangue e bom para os pedreiros&#8230;.<\/p>\n<p> E em tom de aparte acrescentou: &#8212; &#8230; livres! E continuou a ler com<br \/>\n    frieza imperturb&aacute;vel um artigo de fundo da pol&iacute;tica cedi&ccedil;a<br \/>\n    que acabara de parafrasear.<\/p>\n<p> D. Doroteia, que vivia em eterna admira&ccedil;&atilde;o da eloqu&ecirc;ncia,<br \/>\n    profundeza de vistas e pureza de sentimentos do seu confessor, abanou a cabe&ccedil;a<br \/>\n    e suspirou melancolicamente, o que exprimia ades&atilde;o completa &agrave;s<br \/>\n    palavras pronunciadas e de comisera&ccedil;&atilde;o pelos destinos futuros<br \/>\n    da sociedade actual.<\/p>\n<p> &#8212; Por isso nos castiga Deus, por isso deu um ano de sequeiro e o mar&#8230;<\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<h2>AS DUAS MANAS<\/h2>\n<p>QUE santa paz de esp&iacute;rito gozavam as sr.as D. Quit&eacute;ria e D.<br \/>\n    Genoveva na sua casa de Alvapenha a&iacute; pelo correr do ano de 1847! Ambas<br \/>\n    solteiras e quinquagen&aacute;rias, ambas muito aferradas aos seus h&aacute;bitos,<br \/>\n    muito tementes a Deus e inimigas da murmura&ccedil;&atilde;o, as duas irm&atilde;s<br \/>\n    passavam uma vida, onde se descobria um suave cheiro de santidade, como o<br \/>\n    da alfazema que perfumava as suas gavetas e repassava a roupa branca pela<br \/>\n    qual elas velavam com escrupuloso carinho.<\/p>\n<p> A inalter&aacute;vel harmonia mantida h&aacute; muitos anos entre elas,<br \/>\n    dava que entender a quantos as conheciam. E com raz&atilde;o, pois n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; vulgar observ&aacute;-la em casos tais, quando a idade e o humor<br \/>\n    naturalmente um tanto acre das velhas celibat&aacute;rias, justificam as pequenas<br \/>\n    impertin&ecirc;ncias que, sem outro aux&iacute;lio, bastam j&aacute; para<br \/>\n    originar tempestades no seio das fam&iacute;lias.<\/p>\n<p> As duas irm&atilde;s, por&eacute;m, tinham o bom senso e abnega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    suficientes para fazerem m&uacute;tuos sacrif&iacute;cios em honra dos seus<br \/>\n    pequenos caprichos, inclina&ccedil;&otilde;es ou antipatias. H&aacute; vinte<br \/>\n    e tantos anos que viviam ali isoladas na companhia apenas de uma criada t&atilde;o<br \/>\n    velha como elas, e em todo esse tempo n&atilde;o se ouvira dentro daquelas<br \/>\n    paredes uma s&oacute; palavra que, por mais alto pronunciada ou por significar<br \/>\n    uma menos evang&eacute;lica paci&ecirc;ncia, destoasse da invari&aacute;vel<br \/>\n    monotonia dos seus di&aacute;logos habituais.<\/p>\n<p> Era um exemplo edificante que elas davam aos seus vizinhos que, devorados<br \/>\n    por demandas entre primos, irm&atilde;os, pais e filhos, tios e sobrinhos,<br \/>\n    mostravam claramente, por seus actos, que era semente ca&iacute;da em amaldi&ccedil;oado<br \/>\n    terreno.<\/p>\n<p> Estas disc&oacute;rdias intestinas entre as fam&iacute;lias de seu conhecimento<br \/>\n    faziam suspirar as senhoras de Alvapenha e aumentavam o n&uacute;mero de padre-nossos<br \/>\n    com que toda a noite se faziam lembrar dos santos de quem eram validas, pedindo<br \/>\n    a felicidade dos outros, tanto ou mais ainda que a sua.<\/p>\n<p> A alma ia-lhes toda nestas ora&ccedil;&otilde;es. Ouvir rezar as duas irm&atilde;s,<br \/>\n    era escutar uma resenha das diferentes calamidades que afligem o g&eacute;nero<br \/>\n    humano e que elas pretendiam desta maneira evitar. Um padre-nosso a S&atilde;o<br \/>\n    Mar&ccedil;al para que nos livre do fogo; outro a Santa Luzia milagrosa para<br \/>\n    que nos defenda da cegueira; outro a S&atilde;o Br&aacute;s para nos proteger<br \/>\n    das doen&ccedil;as da garganta; um padre-nosso por todos os que andam sobre<br \/>\n    as &aacute;guas do mar; outro por os pobres sem abrigo nem alimento; outro<br \/>\n    pelos &oacute;rf&atilde;os; outro pelos doentes; um pelos bons, outro pelos<br \/>\n    maus; um pelos vivos, outro pelos mortos; um pelos justos, outro pelas almas<br \/>\n    do Purgat&oacute;rio; n&atilde;o hesitando mesmo a sua clem&ecirc;ncia a transpor<br \/>\n    as portas do Inferno e pedir tamb&eacute;m a remiss&atilde;o dos condenados;<br \/>\n    &#8212; enfim, depois desta enumera&ccedil;&atilde;o, um &uacute;ltimo padre-nosso<br \/>\n    compreendia todos aqueles n&atilde;o mencionados por esquecidos, que pudessem<br \/>\n    necessitar das suas ora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> D. Genoveva, mais velha tr&ecirc;s anos que sua irm&atilde;, era a despenseira<br \/>\n    e superintendente dos neg&oacute;cios caseiros. D. Quit&eacute;ria ocupava-<br \/>\n    se das contas e direc&ccedil;&atilde;o dos contratos monet&aacute;rios, arrecada&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de rendas, etc, etc.<\/p>\n<p> Elas tinham uma fortuna sofr&iacute;vel que, n&atilde;o obstante as respectivas<br \/>\n    omiss&otilde;es que o seu procurador lhes fazia, bastava de sobra para elas,<br \/>\n    cujas necessidades eram limitadas.<\/p>\n<p> Havia quem tivesse j&aacute; dado a entender a estas senhoras qu&atilde;o<br \/>\n    mal administrada lhes andava a fortuna nas m&atilde;os daquele homem&#8230;<\/p>\n<p> que fazia render os seus servi&ccedil;os.<\/p>\n<p> A estes avisos razo&aacute;veis as boas irm&atilde;s respondiam sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Deix&aacute;-lo, deix&aacute;-lo. N&oacute;s estamos costumadas<br \/>\n    com ele e n&atilde;o nos poder&iacute;amos entender com outro.<\/p>\n<p> Nestes caracteres o h&aacute;bito impera como senhor desp&oacute;tico.<\/p>\n<p> A sociedade habitual das boas senhoras era, como j&aacute; disse, a sua<br \/>\n    criada Ant&oacute;nia; tipo de criada velha bastante comum, para dispensar<br \/>\n    descri&ccedil;&atilde;o. Nesta preponderava um pouco o elemento malicioso<br \/>\n    e murmurador, sempre vantajosamente combatido pelo espirito tolerantemente<br \/>\n    conciliador das suas amas, que a repreendiam com severidade.<\/p>\n<p> Os neg&oacute;cios de lavoura andavam a cargo de um jovial hortel&atilde;o<br \/>\n    que, de quando em quando, subia &agrave;s salas a divertir as senhoras de<br \/>\n    Alvapenha com as suas r&uacute;sticas franquezas e simpl&oacute;rias observa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disto, apenas recebiam como visitas alguns, poucos, vizinhos,<br \/>\n    entre os quais olhavam como valido um modesto rapaz de vinte anos, futuro<br \/>\n    ministro do altar, para o que se habilitava no Porto&#8230;<\/p>\n<p> Tinham h&aacute; pouco acabado de almo&ccedil;ar as senhoras de Alvapenha<br \/>\n    e preparavam-se para se votarem &agrave; labuta&ccedil;&atilde;o da casa,<br \/>\n    quando Ant&oacute;nia, com a roca &agrave; cinta, entrou na sala tossindo,<br \/>\n    como quem preparava a voz para dar uma novidade.<\/p>\n<p> Uma continuada conviv&ecirc;ncia tinha habilitado as suas amas a decifrar<br \/>\n    a significa&ccedil;&atilde;o destes modos de express&atilde;o da criada: era<br \/>\n    uma semi&oacute;tica muito do seu conhecimento. Por isso D. Genoveva, que,<br \/>\n    naquele momento, fechava o arm&aacute;rio onde arrecadara o a&ccedil;ucareiro,<br \/>\n    manteigueira e o bule, voltou-se para a rec&eacute;m-chegada, dirigindoe um<br \/>\n    interrogat&oacute;rio: &#8212; Ent&atilde;o que temos ? Ant&oacute;nia tossiu<br \/>\n    de novo, como para se ver livre de um importuno cataarro que amea&ccedil;ava<br \/>\n    interromp&ecirc;-la no meio da novidade e explicou: &#8212; Sabem quem chegou?<br \/>\n    D. Genoveva encolheu os ombros em resposta. <\/p>\n<p>&#8212; Ora! Pois n&atilde;o se lembram? N&atilde;o sabem que estamos em<br \/>\n    Julho? &#8212; E que tem isso ? &#8212; Pois em Julho quem &eacute; que chega<br \/>\n    ? &#8212; &Eacute; o Ver&atilde;o &#8212; disse, da sala pr&oacute;xima, a<br \/>\n    voz de D. Quit&eacute;ria, que escutara a conversa.<\/p>\n<p> &#8212; O Ver&atilde;o?! &#8212; observou a criada meio espinhada.&#8212;Bem<br \/>\n    digo eu! &Oacute; senhoras, pois na verdade&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute;, v&aacute; &#8212;disse D. Genoveva, que n&atilde;o gostava<br \/>\n    de enigmas.&#8212; Deixe-se disso. Se quer dizer, diga. Se n&atilde;o, trate<br \/>\n    da sua vida que eu tenho mais que fazer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Chegou o Sr. Valentim. Ora, quem havia de ser! As senhoras &agrave;s<br \/>\n    vezes&#8230;<\/p>\n<p> Esta nova efectivamente parecia de interesse para as duas irm&atilde;s.<\/p>\n<p> D. Genoveva, que n&atilde;o concedeu grande aten&ccedil;&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    a&iacute; &agrave; criada, voltou- se agora risonha para ela.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Chegou? Quando? &#8212; Esta manh&atilde;, disse-mo o padeiro,<br \/>\n    que o viu passar&#8230;<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria tamb&eacute;m entrou na sala a perguntar com carinhosa<br \/>\n    solicitude: &#8212; E vir&aacute; bom, n&atilde;o sabe ? &#8212; Bem v&ecirc;<br \/>\n    a senhora que eu n&atilde;o lhe pus ainda olho. Digo o que me contaram.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre rapaz! &#8212; observou D. Genoveva. &#8212; Aquele &eacute;<br \/>\n    um cora&ccedil;&atilde;o de pomba, &eacute; um bom-ser&aacute;s, como se contam<br \/>\n    poucos.<\/p>\n<p> &#8212; E que voca&ccedil;&atilde;o aquela para a vida eclesi&aacute;stica!<br \/>\n    Senhor o ajude! &#8212; Enquanto a isso &#8212; observou a criada, que era<br \/>\n    a c&eacute;ptica da casa &#8212; veremos. Estes rapazes novos mudam de ten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de um momento para o outro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o aquele! &#8212; replicou D. Genoveva.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m digo &#8212; apoiou a irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; E que gosto para aquela pobre m&atilde;e, que tantos sacrif&iacute;cios<br \/>\n    tem feito para o sustentar nos estudos! &#8212; Bem lhe valeriam eles se as<br \/>\n    senhoras o n&atilde;o socorressem! &#8212; disse Ant&oacute;nia, que n&atilde;o<br \/>\n    gostava de ocultar benef&iacute;cios.<\/p>\n<p> . &#8212; Pois, Deus nos aceite a boa vontade e n&atilde;o &eacute; preciso<br \/>\n    que ningu&eacute;m o saiba. Voc&ecirc; gosta muito de dar &agrave; l&iacute;ngua,<br \/>\n    mulher! &#8212; observou D. Quit&eacute;ria com algum azedume.<\/p>\n<p>Era Valentim que entrava na sala, com express&atilde;o de &iacute;ntimo contentamento<br \/>\n    no rosto, e n&atilde;o sei que suave alegria no cora&ccedil;&atilde;o, como<br \/>\n    sempre sentia ao entrar na casa de Alvapenha.<\/p>\n<p> As duas irm&atilde;s acercaram-se dele com ansiosa solicitude.<\/p>\n<p> Pareciam devorar-lhe aquela fisionomia pl&aacute;cida, que n&atilde;o reflectia<br \/>\n    nada das tempestades interiores, se as havia; pois podiam ter-se originado<br \/>\n    naquele peito que de pequeno se conhecera votado &agrave;s coisas divinas<br \/>\n    e aceitara, sem exterioriza&ccedil;&atilde;o de saudade pelas coisas terrenas,<br \/>\n    o destino que lhe haviam tra&ccedil;ado no ber&ccedil;o.<\/p>\n<p> Valentim nunca deixara perceber que o amito lhe pesava nos ombros, que as<br \/>\n    m&atilde;os lhe vacilavam a sustentar o c&aacute;lix, o s&iacute;mbolo da<br \/>\n    f&eacute;, nem que as l&aacute;grimas humedeciam, em noites de angustiosas<br \/>\n    vig&iacute;lias, o leito solit&aacute;rio.<\/p>\n<p> Se era m&aacute;rtir, tinha a fortaleza do mart&iacute;rio; se, sob o crepe<br \/>\n    do sacerdote, lhe palpitava o cora&ccedil;&atilde;o, ainda rico de vida, nem<br \/>\n    no rubor das faces se lhe tra&iacute;a essa agita&ccedil;&atilde;o comprimida.<\/p>\n<p> E por isso lhe festejavam a vinda e suspiravam por o glorioso dia em que<br \/>\n    o tinham de ver, revestido de todas as dignidades sacerdotais, entrar, pela<br \/>\n    primeira vez, no altar do Senhor, pagar com a sagrada b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as carinhosas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os maternais e as de tantos que o viam<br \/>\n    caminhar seguro pelo caminho da f&eacute;.<\/p>\n<p> D. Genoveva, depois de muito o observar em sil&ecirc;ncio, e de o fazer<br \/>\n    sentar na mais c&oacute;moda cadeira da sala, ficando ela em p&eacute; defronte<br \/>\n    do futuro sacerdote, e nisto acompanhada por sua irm&atilde;, passou a informar-<br \/>\n    se do adiantamento de Valentim na carreira eclesi&aacute;stica.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, ent&atilde;o, quando temos missa nova? &#8212; Quando<br \/>\n    mo permitir a idade. Ainda n&atilde;o tenho 25 anos.<\/p>\n<p> &#8212; Eu pe&ccedil;o a Deus que me n&atilde;o chame &agrave; sua divina<br \/>\n    presen&ccedil;a antes de receber de suas m&atilde;os, Valentim, a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    paroquial &#8212; disse D. Quit&eacute;ria, que tinha esperan&ccedil;a de<br \/>\n    que o cuidado da abadia passasse, em pouco, &agrave;s m&atilde;os do jovem<br \/>\n    sacerdote.<\/p>\n<p> Valentim sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma profecia? Deus a realize. Ser-me-ia grato consagrar-me<br \/>\n    ao servi&ccedil;o de Deus na mesma terra onde recebi as primeiras no&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da religi&atilde;o; poder socorrer com as consola&ccedil;&otilde;es da f&eacute;<br \/>\n    aqueles a quem antigas afei&ccedil;&otilde;es me ligam.<\/p>\n<p> &#8212; E espero em Deus que o h&aacute;-de permitir. E ent&atilde;o o senhor<br \/>\n    abade h&aacute;-de ver como lhe querem os fregueses! &#8212;Muito contente<br \/>\n    devia ficar sua m&atilde;e ao v&ecirc;-lo hoje ! Pobre mulher! &Eacute; uma<br \/>\n    consola&ccedil;&atilde;o para a sua velhice. E ela que tantas consumi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    teve noutras idades! &#8212; Minha m&atilde;e!&#8212;disse Valentim, com voz<br \/>\n    afectuosa. &#8212; Quando, ao abra&ccedil;ar o sacerd&oacute;cio, eu tivesse<br \/>\n    de consumar grandes sacrif&iacute;cios, a sua alegria mos compensaria de sobra;<br \/>\n    e eu ainda teria de agradecer a Deus a const&acirc;ncia que me concedeu&#8230;<\/p>\n<p> As palavras de Valentim suspiravam uma melancolia vaga de mais para ser<br \/>\n    percebida pelas senhoras de Alvapenha, que se exultaram com a evang&eacute;lica<br \/>\n    voca&ccedil;&atilde;p do mancebo.<\/p>\n<p> No momento em que Valentim se dispunha a p&ocirc;r termo &agrave; sua visita,<br \/>\n    soaram &agrave; porta duas sonoras pancadas que puseram em excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    os nervos da parte feminina da assembleia.<\/p>\n<p>Era o portador de uma carta do correio.<\/p>\n<p> A chegada de uma carta era um acontecimento em Alvapenha.<\/p>\n<p> As duas irm&atilde;s perdiam-se em conjecturas sobre o objecto e proced&ecirc;ncia<br \/>\n    da ep&iacute;stola, antes de se resolverem a adoptar a &uacute;nica medida<br \/>\n    que as poderia esclarecer: a sua leitura.<\/p>\n<p> &#8212; Uma carta! Que lhe parece, mana Genoveva, de onde pode ela vir?<br \/>\n    &#8212; Eu sei, menina. Do procurador&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, por certo que n&atilde;o. E da&iacute;&#8230;<\/p>\n<p> Valentim, que reparara no carimbo, observou que ela vinha de Lisboa.<\/p>\n<p> Nova surpresa.<\/p>\n<p> &#8212; De Lisboa? &#8212; De quem pode ser ent&atilde;o ? Ant&oacute;nia<br \/>\n    notou com timidez: &#8212; Da mana das senhoras, talvez&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Da Anica &#8212; disse D. Quit&eacute;ria com estupefac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Esta admira&ccedil;&atilde;o explica-se, sabendo-se que h&aacute; muitos<br \/>\n    anos as irm&atilde;s da prov&iacute;ncia n&atilde;o se correspondiam com a<br \/>\n    mana da corte.<\/p>\n<p> &#8212; Pois na verdade ser&aacute; da mana Anica? L&ecirc; l&aacute;, Quit&eacute;ria!<br \/>\n    &#8212; Leia, mana Genoveva, leia! &#8212; N&atilde;o. L&ecirc; tu. E sen&atilde;o&#8230;<br \/>\n    deixa estar. O Valentim l&ecirc;, n&atilde;o l&ecirc;? &#8212; Mas&#8230; quem<br \/>\n    sabe&#8230; que neg&oacute;cios&#8230;&#8212; observou o interpelado.<\/p>\n<p> &#8212; Connosco n&atilde;o h&aacute; segredos. E demais, se os houvesse,<br \/>\n    era a um sacerdote que os confi&aacute;vamos.<\/p>\n<p> &#8212; Leia, Valentim, leia!&#8230;<\/p>\n<p> Valentim cedeu e abriu a carta.<\/p>\n<p> No fim da p&aacute;gina lia-se a assinatura de Jo&atilde;o Soares de Carvalho.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, &eacute; do mano Jo&atilde;o? Acaso a Anica estar&aacute; doente?<br \/>\n    Leia, leia!&#8230;<\/p>\n<p> Valentim leu: &laquo; Estimad&iacute;ssimas manas: &laquo;Desejo-lhes sa&uacute;de<br \/>\n    e felicidades. H&aacute; muito que n&atilde;o recebo not&iacute;cias suas<br \/>\n    e espero que n&atilde;o sejam m&aacute;s as primeiras que obtiver.<\/p>\n<p> &laquo;Escrevo-lhes para lhes pedir um obs&eacute;quio e ouso confiar que<br \/>\n    serei atendido pelas manas, n&atilde;o obstante n&atilde;o lho merecer.<\/p>\n<p> Sua mana e minha mulher acha-se presentemente algum tanto adoentada, a ponto<br \/>\n    de me causar receios; os m&eacute;dicos votam por ares de campo e ela lembrou-se<br \/>\n    da casa onde passou grande parte da sua vida e na qual deixou pessoas por<br \/>\n    muitos respeitos dignas do amor que ela sempre lhes tributou. Se as manas<br \/>\n    virem que n&atilde;o h&aacute; inconveniente em nos receber a&iacute; por<br \/>\n    algum tempo, pe&ccedil;o-lhes mo &#8212; queiram participar e por isso lhe<br \/>\n    ficar&aacute; muito obrigado aquele que se confessa &laquo; Seu mano e muito<br \/>\n    atencioso criado, &laquo;Lisboa, 17 de Julho de 1852.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>&laquo;Jo&atilde;o Soares de Carvalho. &raquo;<\/b><\/p>\n<p>A leitura terminada, houve um solene sil&ecirc;ncio na assembleia.<\/p>\n<p> s h&aacute;bitos pac&iacute;ficos e monotonamente uniformes das senhoras<br \/>\n    de &#8216;Alvapenha esta carta produziu o efeito de uma completa subvers&atilde;o.<\/p>\n<p> Por algum tempo se conservaram mudas, por n&atilde;o saberem o que haviam<br \/>\n    de dizer ou de pensar de tudo aquilo.<\/p>\n<p> D. Genoveva mantinha-se na mesma atitude de religiosa aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com que escutara a leitura, enquanto os dedos polegares descreviam maquinalmente,<br \/>\n    em volta um do outro, c&iacute;rculos intermin&aacute;veis.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria, com a boca semiaberta, os olhos espantados, o queixo<br \/>\n    apoiado sobre a m&atilde;o direita, n&atilde;o se mostrava em menor grau de<br \/>\n    abstrac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia, cujos olhos oscilavam de uma para a outra, parecia ansiosa<br \/>\n    por escutar a resposta.<\/p>\n<p> D. Genoveva foi a primeira que interrompeu o sil&ecirc;ncio, mas nao ainda<br \/>\n    para decidir coisa nenhuma. Voltando-se para Valentim, cujo pensamento se<br \/>\n    diria muito longe dali, disse: &#8212; Ora faz favor de tornar a ler. Tenha<br \/>\n    paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A import&acirc;ncia desta medida era contest&aacute;vel; mas passou sem<br \/>\n    oposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Valentim obedeceu.<\/p>\n<p> As coisas amea&ccedil;avam permanecer em statu quo, como&#8230; outras muitas<br \/>\n    coisas.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria desta vez foi mais al&eacute;m que sua irm&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem que ver, mana Genoveva; que venham, que venham, coitados.<\/p>\n<p> &#8212; Pois, porque n&atilde;o? &#8212; respondeu esta, como se achasse<br \/>\n    muito natural o que ainda agora a deixara toda perplexa. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    dizer-lhe que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; &#8212; balbuciou Ant&oacute;nia.<\/p>\n<p> A observa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi admitida.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; &#8212; disse D. Quit&eacute;ria &#8212; n&atilde;o temos<br \/>\n    sen&atilde;o que escreverlhes e preparar-lhes os quartos.<\/p>\n<p> &#8212; Eles trar&atilde;o a pequena? &#8212; observou D. Genoveva.<\/p>\n<p> &#8212; Pois haviam de deix&aacute;-la, mana Genoveva? E a coisa ficou discutida.<\/p>\n<p> Valentim p&ocirc;de enfim retirar-se, deixando aquela boa gente toda atrapalhada<br \/>\n    com a repentina nova da chegada dos seus pr&oacute;ximos parentes da capital.<\/p>\n<p>Quem sacrificou, com menos resigna&ccedil;&atilde;o, os seus h&aacute;bitos<br \/>\n    de pac&iacute;fico remanso foi a velha Ant&oacute;nia&#8230;<\/p>\n<p> De resolver responder ao rico capitalista lisboeta a p&ocirc;r em pr&aacute;tica<br \/>\n    a medida ia grande dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> As senhoras de Alvapenha nunca haviam cultivado a epistolografia e era empresa<br \/>\n    esta, de escrever uma carta, digna de muito meditar.<\/p>\n<p> D. Genoveva lembrou-se de Valentim, mas, chegado de pouco, o pobre rapaz<br \/>\n    precisava de todo o tempo para visitas e descanso.<\/p>\n<p> E que rude fadiga n&atilde;o era o redigir uma carta para o mano Jo&atilde;o<br \/>\n    Soares ! &#8212; Nada! Nem que nos custe, mana Quit&eacute;ria, vamos atirar-nos<br \/>\n    a isto. Escreve tu, que tens melhor letra, que eu dito.<\/p>\n<p> E D. Quit&eacute;ria, depois de procurar o tinteiro, que, n&atilde;o sendo<br \/>\n    ali traste de primeira necessidade, n&atilde;o se achava &agrave; m&atilde;o,<br \/>\n    dobrou com toda a arte uma folha de papel, molhou a pena e esperou.<\/p>\n<p> D. Genoveva assoou-se, tossiu, esfregou a testa e disse: &#8212; P&otilde;e-l&aacute;.<\/p>\n<p> E parou.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc;? &#8212; perguntou D. Quit&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Espera.<\/p>\n<p> Novo sil&ecirc;ncio, durante o qual D. Genoveva tornou a assoar-se, a tossir<br \/>\n    e a esfregar a testa.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria experimentou a pena fazendo S S.<\/p>\n<p> &#8212; P&otilde;e l&aacute; &#8212; disse, pela segunda vez, D. Genoveva.<\/p>\n<p> Depois de outra pausa, continuou: &#8212; Estimad&iacute;ssimo mano do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Do cora&ccedil;&atilde;o &#8212; repetiu D. Quit&eacute;ria, depois<br \/>\n    de escrever, &#8212; Puseste? &#8212; Pus.<\/p>\n<p> &#8212; Bem. Recebemos a sua carta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Carta&#8230; &#8212; repetiu o eco.<\/p>\n<p> &#8212; E por ela tivemos not&iacute;cia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Not&iacute;cia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; De que a mana Anica&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Anica&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se acha adoentada.<\/p>\n<p> &#8212; A&#8230; do&#8230; en&#8230; ta&#8230; da&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se os m&eacute;dicos dizem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Dizem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que os ares do campo lhe fazem bem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Esta casa aqui est&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que pobre como &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; . . .<\/p>\n<p> &#8212; Os h&aacute;-de receber com prazer&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto D. Quit&eacute;ria n&atilde;o apoiou a redac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e, como um deputado discutindo a resposta ao discurso da coroa, observou,<br \/>\n    pousando a pena: &#8212; &Oacute; mana Genoveva, n&atilde;o &eacute; melhor<br \/>\n    dizer gente em vez de casa ? Sim, pois a casa n&atilde;o &eacute; que sente<br \/>\n    prazer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Dizes bem, mana Quit&eacute;ria, mas agora como h&aacute;-de ser?<br \/>\n    &#8212; Emenda-se.<\/p>\n<p> &#8212; Ora l&ecirc; do princ&iacute;pio e tem paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria leu o que tinha escrito.<\/p>\n<p> A emenda foi adoptada e modificou-se o &uacute;ltimo par&aacute;grafo da<br \/>\n    seguinte maneira: esta casa que aqui est&aacute;, pobre como &eacute;, e a<br \/>\n    gente dela que os h&aacute;-de receber com prazer.<\/p>\n<p> D. Genoveva continuou: &#8212; Por isso, mano, quando quiser&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Quiser&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Utilizar-se do nosso fraco pr&eacute;stimo&#8230; &#8212; E acrescentou:<br \/>\n    &#8212; Olhe que pr&eacute;stimo &eacute; palavra grega, mana.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o? &#8212; disse D. Quit&eacute;ria, que n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de tirar nenhum corol&aacute;rio da observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> D. Genoveva elucidou: &#8212; &Eacute; que escreve-se com &iacute;psilo.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &Eacute; verdade! &#8212; disse D. Quit&eacute;ria, escrevendo<br \/>\n    em virtude da nota: o nosso fraco prestymo.<\/p>\n<p> &#8212; Acredite que o veremos com j&uacute;bilo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; grega tamb&eacute;m, mana? &#8211; &Eacute; .<\/p>\n<p> E D. Quit&eacute;ria escreveu jubylo.<\/p>\n<p> &#8212; Recomenda&ccedil;&otilde;es &agrave; mana Anica e muitos beijos<br \/>\n    &agrave; Laurinha e fa&ccedil;am por vir o mais cedo que puderem &#8212; Puderem.<\/p>\n<p> &#8212; Suas manas que muito o estimam e muito reconhecidas aos seus obs&eacute;quios.<\/p>\n<p> &#8212; Obs&eacute;quios. Agora assine, mana&#8230;<\/p>\n<p> D. Genoveva aproximou-se da mesa e, depois de ter puxado a escrita assinou<br \/>\n    com a m&atilde;o tr&eacute;mula: Genoveva Martins.<\/p>\n<p> Depois seguiu-se a coloca&ccedil;&atilde;o das v&iacute;rgulas, tarefa importante<br \/>\n    de que as boas senhoras se sa&iacute;ram sofrivelmente, colocando v&iacute;rgulas<br \/>\n    quase de duas em duas palavras, sistema de ortografia t&atilde;o bom como<br \/>\n    outro qualquer, visto que n&atilde;o temos nenhum.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia foi chamada para ouvir a leitura e todas tr&ecirc;s admiraram<br \/>\n    a redac&ccedil;&atilde;o da carta, que n&atilde;o duvidaram em considerar<br \/>\n    um modelo no g&eacute;nero.<\/p>\n<h3>III<\/h3>\n<h2>A CHEGADA<\/h2>\n<p>DIF&Iacute;CIL empresa seria tentar descrever o alvoro&ccedil;o que ia naquele<br \/>\n    momento em Alvapenha. O sangue-frio das boas senhoras abandonou- as completamente<br \/>\n    quando noticiaram a chegada da cavalgada.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia, cuja vida isolada a tinha tornado um pouco insoci&aacute;vel,<br \/>\n    correu a esconder-se na cozinha. D. Genoveva, que tremia com a lembran&ccedil;a<br \/>\n    de n&atilde;o receber condignamente os seus cunhado e mana, foi ter com o<br \/>\n    Santo Ant&oacute;nio, a quem fez uma prece do cora&ccedil;&atilde;o para que<br \/>\n    a n&atilde;o desamparasse.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria foi quem mostrou ali mais firmeza. Puxou para diante<br \/>\n    os folhos da sua touca, arrojou a dist&acirc;ncia o avental do servi&ccedil;o,<br \/>\n    e galgando as escadas, postou-se &agrave; porta a esperar os rec&eacute;m-chegados.<\/p>\n<p> Ela n&atilde;o queria acreditar os seus olhos, quando viu aproximar-se,<br \/>\n    em r&aacute;pido trote, a gentil amazona da cavalgada.<\/p>\n<p> &#8212; Jesus, santo nome de Jesus! Ela vai despeda&ccedil;ar-se! &#8212;<br \/>\n    murmurou D. Quit&eacute;ria, e principiou a encomendar a cavaleira &agrave;<br \/>\n    Senhora da Nazar&eacute;, que valeu a Fuas Roupinho num caso id&ecirc;ntico,<br \/>\n    quando esta, por um &aacute;gil movimento, se desapeou, atirando as r&eacute;deas<br \/>\n    para as m&atilde;os de um criado e num momento a boa senhora se viu rodeada<br \/>\n    por os bra&ccedil;os da elegante menina, que a beijava com efus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me conhece, pois n&atilde;o? &#8212; dizia ela, da completa<br \/>\n    estupefac&ccedil;&atilde;o da pobre senhora que nunca na sua vida vira aqueles<br \/>\n    trajos! Com qual das minhas tias falo eu? D. Quit&eacute;ria caiu em si. Era<br \/>\n    pois a menina.<\/p>\n<p> &#8212; Pois tu &eacute;s a Laura! T&atilde;o crescida! &#8212; E afastando-a<br \/>\n    de si para a ver melhor, exclamava, benzendo-se: &#8212; Em nome do Padre<br \/>\n    e do Filho e do Esp&iacute;rito Santo! Pois tu &eacute;s a Laura ?! Laura,<br \/>\n    uma vez que este &eacute; o seu nome, continuava a sorrir-se e parecia deleitar-se<br \/>\n    com a estupefac&ccedil;&atilde;o de sua tia.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; mana Genoveva &#8212; bradou esta para as escadas. &#8212;<br \/>\n    Venha ver, venha ver, ande c&aacute; depressa! &#8212; Ah! Ent&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a tia Quit&eacute;ria &#8212; exclamou Laura, apertando-a de novo nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria desta vez correspondeu a esta prova de efus&atilde;o.<\/p>\n<p> A mana Genoveva decidiu-se enfim a descer com a protec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Santo Ant&oacute;nio e houve repeti&ccedil;&atilde;o da cena.<\/p>\n<p> Elas olhavam assim para Laura como para uma coisa bonita que nunca tinham<br \/>\n    visto e pareciam estranhar-lhe sobretudo a altura. De acto as duas irm&atilde;s,<br \/>\n    n&atilde;o tendo ouvido falar de Laura sen&atilde;o quando esta era crian&ccedil;a,<br \/>\n    costumaram-se a imagin&aacute;-la ainda nessa idade, esquecendo- se que, desde<br \/>\n    ent&atilde;o, se haviam passado quinze anos.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia, debru&ccedil;ada no corrim&atilde;o da escada, espreitava<br \/>\n    para baixo, surpreendida pelo chap&eacute;u e vestido de Laura, mas n&atilde;o<br \/>\n    ousava aproximar- se.<\/p>\n<p> No entretanto chegara o resto da cavalgada. Jo&atilde;o Soares de Carvalho<br \/>\n    cumprimentou com afecto, ainda que menos expansivo, suas cunhadas, e, apeando-se,<br \/>\n    ajudou a descer sua mulher, a quem as duas irm&atilde;s receberam nos bra&ccedil;os,<br \/>\n    derramando l&aacute;grimas de enternecimento.<\/p>\n<p> Ana Soares, irm&atilde; mais nova das senhoras de Alvapenha, enfraquecida<br \/>\n    pela doen&ccedil;a, tr&eacute;mula pela emo&ccedil;&atilde;o que a vista dos<br \/>\n    s&iacute;tios onde passara a inf&acirc;ncia e de pessoas t&atilde;o queridas<br \/>\n    lhe determinava, vacilou aos primeiros passos que deu. Laura apressou-se a<br \/>\n    dar-lhe o bra&ccedil;o, que ela parecia preferir e, enquanto Jo&atilde;o Soares<br \/>\n    dava ordens em baixo aos criados, tendentes &agrave; melhor acomoda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das cavalgaduras, a m&atilde;e e a filha, precedidas pelas boas senhoras que,<br \/>\n    &agrave; vista de sua irm&atilde;, puseram de parte todo o estudo da etiqueta<br \/>\n    constrangida, para seguirem apenas os ditames do instinto, entraram na sala<br \/>\n    verde destinada ao alojamento dos h&oacute;spedes.<\/p>\n<p> Depois de conduzir sua m&atilde;e a uma cadeira de bra&ccedil;os, objecto<br \/>\n    de antiga exist&ecirc;ncia na casa, Laura aproximou-se da janela a contemplar<br \/>\n    a perspectiva campestre que se descobria de l&aacute;.<\/p>\n<p> D. Ana, no meio de suas irm&atilde;s, passeava por toda aquela sala olhares<br \/>\n    de um sentimento exaltado e suscept&iacute;vel, que todas as organiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    recebem quando afectadas por estas doen&ccedil;as que lavram latentes na economia,<br \/>\n    em sintomas que atormentam em acessos ou paroxismos, mas apenas gastam as<br \/>\n    for&ccedil;as do corpo para exaltar as do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o est&aacute; muito doentinha, mana Anica ? &#8212; perguntou<br \/>\n    D. Geno veva, com inflex&atilde;o de voz carinhosa.<\/p>\n<p> . &#8212;N&atilde;o muito &#8212; respondeu a irm&atilde;.&#8212;Apenas<br \/>\n    uma fraqueza que estes ares do campo h&atilde;o-de curar, espero eu.<\/p>\n<p> &#8212; H&atilde;o-de, h&atilde;o-de ; Nosso Senhor h&aacute;-de permiti-lo<br \/>\n    &#8212; acrescentou D. Quit&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Os ares do campo ? E n&atilde;o &eacute; s&oacute; isso &#8212;<br \/>\n    continuou a doente&#8212; e a companhia das manas e a lembran&ccedil;a daqueles<br \/>\n    tempos que aqui pass&aacute;mos juntas e em que havemos de falar muito, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; verdade? As duas senhoras sorriram, fazendo um gesto de aquiesc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; E tamb&eacute;m a companhia da&#8230;&#8212; E a bondosa senhora procurou<br \/>\n    com os olhares algu&eacute;m na sala, que n&atilde;o encontrou. &#8212; Que<br \/>\n    &eacute; dela? &#8212; Quem? &#8212; perguntou D. Quit&eacute;ria. &#8212;A<br \/>\n    Laurinha? &#8212; N&atilde;o&#8230; Ant&oacute;nia porque n&atilde;o aparece?<br \/>\n    ! &#8212;Eu nem sei&#8212;disse a irm&atilde;, levantando-se. &#8212; Querem<br \/>\n    ver que a mulher tem vergonha?&#8212; E, chegando &agrave; porta, chamou pela<br \/>\n    criada, no interior da qual se travava, efectivamente, naquele instante uma<br \/>\n    luta entre os desejos de ver a sua ama de outros tempos e o seu acanhamento.<\/p>\n<p> Enfim sempre veio trazida a reboque por D. Quit&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; muito estranha, esta menina &#8212; disse D. Quit&eacute;ria<br \/>\n    ao entrar na sala.<\/p>\n<p> &#8212; Venha c&aacute;, Ant&oacute;nia! J&aacute; se esqueceu de mim? &#8212;<br \/>\n    Quem, eu, minha senhora? Eu n&atilde;o me esque&ccedil;o assim depressa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o fuja, venha c&aacute;.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia ganhou &acirc;nimo e aproximou-se. Laura voltara-se e examinava<br \/>\n    com interesse a criada, em que sua m&atilde;e lhe falara bastas vezes.<\/p>\n<p> Ant&oacute;nia cumprimentou-a o mais lisonjeiramente que p&ocirc;de, E a<br \/>\n    conversa generalizou-se.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Soares de Carvalho entrou, por sua vez, na sala.<\/p>\n<p> As cunhadas levantaram-se ao v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Por quem s&atilde;o, manas. Nada de cerim&oacute;nias. Laura &#8212;<br \/>\n    disse, voltando-se para a filha &#8212; uma das tuas malas j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    desimpedida.<\/p>\n<p> Laura pediu para a conduzirem ao quarto que lhe era destinado e Ant&oacute;nia,<br \/>\n    que terminou o seu estudado cumprimento ao cunhado das senhoras, foi por estas<br \/>\n    mandada a acompanh&aacute;-la. Subindo as escadas com a vivacidade que se<br \/>\n    tra&iacute;a em todos os seus gestos e movimentos, Laura dirigiu a palavra<br \/>\n    a Ant&oacute;nia: &#8212; J&aacute; principio por lhe dar inc&oacute;modo,<br \/>\n    Sr.&#8217; Ant&oacute;nia&#8230;<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria foi em dilig&ecirc;ncia ao quarto da gentil rapariga<br \/>\n    e despertou- a daquela quase abstrac&ccedil;&atilde;o em que ela se achava.<\/p>\n<p> &#8212; Credo, menina! Olha se o ar da noite te vai fazer mal. Sempre ouvi<br \/>\n    dizer que esta hora das trindades &eacute; mal-azada a quem a ela se exp&otilde;e.<\/p>\n<p> Laura sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Sossegue, minha tia, a mim nada me faz mal e depois&#8230;<\/p>\n<p> este espect&aacute;culo &eacute; novo para mim, que tenho vivido t&atilde;o<br \/>\n    pouco no campo.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria aproximou-se para ver o espect&aacute;culo de que falava<br \/>\n    a sobrinha. &Eacute; de crer que o n&atilde;o achasse empolgante, pois observou:<br \/>\n    &#8212; Mas isto s&atilde;o horas de descer, menina. Vai-se tomar o ch&aacute;.<\/p>\n<p> A m&atilde;e est&aacute; inquieta.<\/p>\n<p> &#8212; Eu vou, eu vou, minha tia; s&oacute; o tempo de mudar de fato.<\/p>\n<p> D. Quit&eacute;ria desceu, de novo, &agrave; sala onde serenou o &acirc;nimo<br \/>\n    da irm&atilde;.<\/p>\n<p> Al&eacute;m da fam&iacute;lia havia apenas naquele momento, na sala, o reitor,<br \/>\n    que conversava em assuntos s&eacute;rios com o comerciante lisbonense, e sua<br \/>\n    sobrinha que, &agrave; f&eacute; de historiador, eu afirmo ser tal, embora,<br \/>\n    como todos os homens, o nosso reitor n&atilde;o escapasse &agrave;s l&iacute;nguas<br \/>\n    viperinas de seus desmoralizados fregueses.<\/p>\n<p> Esta menina fora mandada convidar pelas senhoras de Alvapenha, porque as<br \/>\n    suas muitas prendas a faziam uma companhia conveniente para Laura, que n&atilde;o<br \/>\n    podia encontrar no resto da assembleia elementos t&atilde;o adequados para<br \/>\n    seu entretenimento.<\/p>\n<p> In&ecirc;s dispensa descri&ccedil;&atilde;o. Era uma mulher como h&aacute;<br \/>\n    muitas. Nem feia que incomodasse a vista, nem bela que entusiasmasse. Tinha<br \/>\n    uma fisionomia vulgar, destas que zombam da arte dos pintores&#8230; &#8216; Os dotes<br \/>\n    espirituais or&ccedil;avam pelos corp&oacute;reos; n&atilde;o tinha instintos<br \/>\n    que a chamassem ao mal, nem intelig&ecirc;ncia para compreender o bem.<\/p>\n<p> O seu sistema era um indiferentismo por tudo e por todos, que nada vencia.<\/p>\n<p> Quando Laura entrou na sala, trazia um vestido de cassa branca, liso e singelo;<br \/>\n    os cabelos sem um &uacute;nico adorno, mais sobressaindo pelo contraste da<br \/>\n    enfeitada cabe&ccedil;a de In&ecirc;s. Laura foi sentar-se junto da sobrinha<br \/>\n    do reitor, depois de ter cumprimentado as novas personagens da roda das tias.<\/p>\n<p> Entre as duas raparigas travou-se um di&aacute;logo, indiferente &agrave;<br \/>\n    primeira vista, mas cujas primeiras palavras bastaram a Laura para formar<br \/>\n    ideia do car&aacute;cter ridiculamente pretensioso da sua interlocutora.<\/p>\n<p> In&ecirc;s mostrava-se em atitude de n&atilde;o ser compreendida naquela<br \/>\n    terra de selvagens, onde n&atilde;o havia uma &uacute;nica intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    culta.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o faz ideia, menina &#8212; dizia ela suspirando e com<br \/>\n    um gesto de enfado &#8212; com que gente r&uacute;stica se lida aqui; vejo-me<br \/>\n    obrigada a viver isolada, porque esta sociedade e conviv&ecirc;ncia estupidifica,<br \/>\n    longe de civilizar.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? &#8212; respondia Laura. Depois perguntou, com um certo sabor<br \/>\n    de zombaria, que In&ecirc;s n&atilde;o compreendeu: &#8212; Veio h&aacute;<br \/>\n    muito do col&eacute;gio, menina? &#8212; H&aacute; seis meses.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Este monoss&iacute;labo mostrava que Laura tinha achado a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do soberbo spleen da colegial. A vida do col&eacute;gio d&aacute;, na verdade,<br \/>\n    um certo verniz de pedantaria que s&oacute; o tempo ou o bom gosto natural<br \/>\n    fazem perder.<\/p>\n<p> Momentos depois, uma nova visita entrou no c&iacute;rculo que se formara<br \/>\n    na sala.<\/p>\n<p> Era Valentim.<\/p>\n<p>Nas maneiras do protegido das senhoras de Alvapenha havia um certo acanhamento<br \/>\n    n\u00e3o desgracioso, filho da natural timidez daquele car\u00e1cter singular. Gra\u00e7as<br \/>\n    ao muito que dele haviam j\u00e1 dito as santas cunhadas de Jo\u00e3o Soares e que o<br \/>\n    reitor confirmara, o acolhimento que recebeu Valentim foi mais que favor\u00e1vel.<br \/>\n    D. Ana Soares, sobretudo, quis que viesse para ao p\u00e9 de si. Os doentes gostam<br \/>\n    de quem lhes fa\u00e7a lembrar a religi\u00e3o, cujos aux\u00edlios<\/p>\n<p>1 &Eacute; dif&iacute;cil compreender o manuscrito nesta passagem.<\/p>\n<p>eles talvez em pouco tempo exijam, e a voca\u00e7\u00e3o de Valentim para a vida da<br \/>\n    Igreja, apregoada por suas irm\u00e3s, valeram-lhe no \u00e2nimo de D. Ana Soares uma<br \/>\n    certa venera\u00e7\u00e3o que ela n\u00e3o disfar\u00e7ava.<\/p>\n<h2>IV<br \/>\n    VALENTIM<\/h2>\n<p>Apobre mulher n&atilde;o via neste mundo sen&atilde;o o filho. De cada vez<br \/>\n    que o via entrar ressentia uma alegria nova.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, m&atilde;e &#8212; disse Valentim, sentando-se junto<br \/>\n    dela e segurando-lhe as m&atilde;os entre as suas.<\/p>\n<p> &#8212; Como vens frio, filho. Faz-te mal este ar dos campos assim t&atilde;o<br \/>\n    tarde.<\/p>\n<p> &#8212; Frio? &Eacute; um engano! Veja! &#8212; E levou-lhe as m&atilde;os<br \/>\n    &agrave; fronte.<\/p>\n<p> &#8212; A testa escalda. Tanto pior. Recolhe-te, Valentim; parece que te<br \/>\n    n&atilde;o sentes bem.<\/p>\n<p> &#8212; Sinto; e, se a m&atilde;e quisesse, pod&iacute;amos ficar um pouco<br \/>\n    mais a conversar. H&aacute; ocasi&otilde;es em que n&atilde;o gosto de estar<br \/>\n    s&oacute;. Tenho pensamentos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, filho, sim. N&atilde;o te fazendo isso mal&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o faz, m&atilde;e, n&atilde;o faz.<\/p>\n<p> &#8212; Ora diz-me, Valentim: tu pareces-me triste. Que tens, filho? Eu<br \/>\n    bem sei que sou uma pobre mulher, que n&atilde;o sei como hei-de dizer-te<br \/>\n    para te consolar. Mas olha, n&atilde;o sei porque &eacute;, mas uma m&atilde;e<br \/>\n    sempre atina com palavras para consolar seus filhos&#8230;<\/p>\n<p> Valentim levou aos l&aacute;bios a m&atilde;o de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; assim, m&atilde;e. O que nos consola n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    as palavras, &eacute; o amor que nelas verte o cora&ccedil;&atilde;o. &Agrave;s<br \/>\n    vezes uma s&oacute; palavra &eacute; mais rica de sentimentos que longas frases<br \/>\n    e discursos.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o, filho, diz-me o que assim te faz t&atilde;o triste.<\/p>\n<p> &#8212; Triste ? Pois acha que quem, como eu, se destina ao servi&ccedil;o<br \/>\n    de Deus pode acolher a alegria infundada que os prazeres nos fazem sentir?<br \/>\n    &#8212; A seriedade cabe bem aos sacerdotes, mas h&aacute; tamb&eacute;m uma<br \/>\n    alegria que nos d&aacute; a consci&ecirc;ncia quando est&aacute; de bem com<br \/>\n    Deus e consigo mesma; uma alegria s&eacute;ria&#8230; que nem outro nome lhe sei<br \/>\n    eu dar a essa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E essa, m&atilde;e, quem a pode ter? Pois quem tem a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    t&atilde;o pura que lhe n&atilde;o sinta a voz a todo o instante? &#8212;<br \/>\n    Olha &#8212; disse a pobre m&atilde;e depois de fitar em Valentim uns olhos<br \/>\n    perscrutadores &#8212; tu sabes que o meu maior desejo &eacute; ver-te seguir<br \/>\n    essa santa carreira a que te destinas. Mas, v&ecirc; bem, se para isso tens<br \/>\n    de fazer sacrif&iacute;cios para que te faltam as for&ccedil;as e te n&atilde;o<br \/>\n    sentes com &acirc;nimo para a seguir at&eacute; ao fim,..<\/p>\n<p> E parava dizendo isto, como se, para concluir, tivesse de fazer um esfor&ccedil;o<br \/>\n    superior&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, filho, ent&atilde;o&#8230; p&aacute;ra&#8230;<\/p>\n<p> Valentim n&atilde;o respondeu. Deixando pender a cabe&ccedil;a, parecia<br \/>\n    meditar nas &uacute;ltimas palavras de sua m&atilde;e, que era o mesmo que,<br \/>\n    h&aacute; muito tempo, lhe murmurava baixinho a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Terminada esta medita&ccedil;&atilde;o silenciosa, ergueu a cabe&ccedil;a.<br \/>\n    Havia resigna&ccedil;&atilde;o na sua fisionomia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o. Eu posso ter instantes de fraqueza; mas espero me n&atilde;o<br \/>\n    abandonar&atilde;o inteiramente as for&ccedil;as. Desanimado t&atilde;o cedo,<br \/>\n    para as primeiras dificuldades&#8230; Pois que esperava eu? N&atilde;o as devia<br \/>\n    ter previsto e n&atilde;o as previ, de facto? N&atilde;o, m&atilde;e, ainda<br \/>\n    me n&atilde;o falece o &acirc;nimo, &#8212; Espero em Deus que nunca te abandonar&aacute;.<br \/>\n    Mas de onde vens tu, que assim te puseste t&atilde;o triste? &#8212; De casa<br \/>\n    das senhoras de Alvapenha.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! N&atilde;o havia gente de fora esta noite? Pareceu-me ouvir<br \/>\n    dizer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Havia&#8230; A fam&iacute;lia de Lisboa&#8230;<\/p>\n<p> E Valentim calou-se de novo, como se lhe acudissem outra vez as imagens<br \/>\n    tumultuosas que as palavras de sua m&atilde;e tinham, em parte, afugentado.<\/p>\n<p> &#8212; Boa noite, m&atilde;e &#8212; disse o inquieto jovem, levantando-se<br \/>\n    com vivacidade.<\/p>\n<p> &#8212; Vai deitar-te, vai, filho, que bem o precisas tu. Deus queira que<br \/>\n    n&atilde;o seja doen&ccedil;a, isso.<\/p>\n<p> Valentim retirou-se para o seu quarto, simples aposento despido de ornatos<br \/>\n    e que denunciava os h&aacute;bitos simples da vida do pobre adolescente. Uma<br \/>\n    mesa, um leito e poucas cadeiras eram toda a mob&iacute;lia.<\/p>\n<p> De uma das paredes nuas pendia, um crucifixo que ele recebera de sua m&atilde;e,<br \/>\n    e sobre a mesa alguns pap&eacute;is dispersos, em desordem, revelavam laboriosas<br \/>\n    vig&iacute;lias a que se entregava o melanc&oacute;lico protegido das senhoras<br \/>\n    de Alvapenha.<\/p>\n<p> Valentim, entrando no quarto, sentou-se &agrave; mesa. Deixou pender a cabe&ccedil;a<br \/>\n    sobre as m&atilde;os e por tanto tempo se manteve assim im&oacute;vel que,<br \/>\n    quando enfim se ergueu, j&aacute; os primeiros alvores do dia penetravam pelas<br \/>\n    frestas das janelas.<\/p>\n<p>Foi num destes momentos em que a ideia de Valentim seguia a sua melanc&oacute;lica<br \/>\n    propens&atilde;o, que Laura, tentando arrebat&aacute;-lo daquele desconforto<br \/>\n    em que o via mergulhado, lhe disse sorrindo: &#8212; Vamos, Sr. Valentim,<br \/>\n    eu e meu pai j&aacute; explan&aacute;mos as nossas predilec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias; queremos saber as suas. Recite-nos alguma coisa. N&atilde;o<br \/>\n    lhe ocorre nada? Valentim ergueu a cabe&ccedil;a a estas palavras e sorriu.<\/p>\n<p> Havia naquele sorriso uma express&atilde;o de amargura sens&iacute;vel aos<br \/>\n    olhos menos perspicazes. Laura observou-o atentamente.<\/p>\n<p> &#8212; Agora mesmo me estavam ocorrendo &#8212; disse Valentim com o tom<br \/>\n    melanc&oacute;lico que lhe era habitual &#8212; umas est&acirc;ncias irregulares<br \/>\n    cujo autor ignoro. Quero-lhes pelo assunto.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; perguntou Laura com interesse.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma elegia sobre o t&uacute;mulo de um padre.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; disse Laura fixando os seus olhares sobre o rosto do<br \/>\n    mancebo. &#8212; Recite, recite&#8230;<\/p>\n<p> Valentim correu a m&atilde;o pela fronte, que deixou ficar encostada, enquanto<br \/>\n    que, com a voz vagarosa, e repassada de tristeza, o olhar perdido no espa&ccedil;o,<br \/>\n    recitou as singelas quadras que., na v&eacute;spera, lhe haviam sido ditadas<br \/>\n    pelo cora&ccedil;&atilde;o junto ao t&uacute;mulo onde tantas vezes parou,<br \/>\n    a meditar no seu destino.<\/p>\n<h2>O BOM REITOR<\/h2>\n<p>Sabem a hist&oacute;ria triste Do bom reitor? M&iacute;sero! toda a vida<br \/>\n    Levou com dor.<\/p>\n<p>Fez quanto bem podia&#8230;<\/p>\n<p> Mas&#8230; afinal, Morre, e na pobre campa, Nem um sinal!<\/p>\n<p>Nem uma cruz, ao menos, Se ergue do ch&atilde;o! Geme-lhe s&oacute; no t&uacute;mulo<br \/>\n    A vira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vedes al&eacute;m, no vale, Junto ao rosal, Fl&oacute;rea que h&aacute; desfolhado<br \/>\n    O vendaval?<\/p>\n<p>Cobrem-lhe a lousa fria, A cria&ccedil;&atilde;o S&oacute; lhe venera as<br \/>\n    cinzas Co&#8217;ignota m&atilde;o.<\/p>\n<p>Pobres que tanto amava Nunca, ao passar, Curvam a fronte e ajoelham Para<br \/>\n    rezar.<\/p>\n<p>Nunca, ao nascer do dia, O lavrador Passa e lamenta a sorte Do bom reitor.<\/p>\n<p>Nem, do cair da tarde, &Agrave; t&eacute;nue luz, Serve, de triste l&acirc;mpada,<br \/>\n    Humilde cruz.<\/p>\n<p>H&aacute; nesta vida amarga Sortes assim&#8230;<\/p>\n<p> Vive-se num mart&iacute;rio.<\/p>\n<p> Morre-se enfim.<\/p>\n<p>Sem que mem&oacute;ria fique Para dizer &Agrave;s gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    futuras Nosso sofrer.<\/p>\n<p>E calou-se. Todos pareciam respeitar aquele sil&ecirc;ncio e fitavam em Valentim<br \/>\n    olhares de sol&iacute;cito interesse.<\/p>\n<p> Laura foi quem primeiro rompeu este prolongado sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8212; E o resto? &#8212; disse ela, n&atilde;o desviando a vista de Valentim.<\/p>\n<p> Este estremeceu como se uma voz o despertasse de um sonho.<\/p>\n<p> Ergueu a cabe&ccedil;a e, corando levemente, respondeu com aparente indiferen&ccedil;a:<br \/>\n    &#8212; O resto &eacute; curto, &eacute; uma s&uacute;plica apenas. &#8212;E<br \/>\n    acrescentou:<\/p>\n<p>Quem me escutar, se, um dia, Ao vale for, Reze sentida prece Ao bom reitor.<\/p>\n<p>Laura conservou-se pensativa depois que Valentim terminou a &uacute;ltima<br \/>\n    est&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Soares interrogou-o sobre o autor daquela poesia.<\/p>\n<p> &#8212; Ignoro-o &#8212; respondeu Valentim; mas tendo-se, por acaso, os<br \/>\n    seus olhares encontrado com os de Laura, baixou os olhos com embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; &laquo;Entendo &#8212; murmurou esta para consigo.&#8212;Parece-me<br \/>\n    que atinei enfim com a verdadeira causa daquela tristeza. Veremos.&raquo;<br \/>\n    A noite ia-se adiantando.<\/p>\n<p>D. Ana Soares retirara-se com suas irm&atilde;s e apenas se demoravam na<br \/>\n    sala Valentim, Laura e seu pai. Tinham descoberto a maneira de .conciliar<br \/>\n    com os seus, os h&aacute;bitos regulares das senhoras de Alvapenha.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Soares retirara-se um tanto para o lado a examinar umas cartas<br \/>\n    que recebera de Lisboa naquela tarde, e mostrava-se absorvido na leitura.<\/p>\n<p> Laura e Valentim acharam-se, quase s&oacute;s, na presen&ccedil;a um do<br \/>\n    outro.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma hist&oacute;ria singela, mas triste a que nos contou.<\/p>\n<p> Valentim ergueu a cabe&ccedil;a ouvindo isto, como se correspondesse ao<br \/>\n    que ele pr&oacute;prio estava pensando naquele momento.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sempre pensei &#8212; continuou Laura &#8212; que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o menos para lamentar estes m&aacute;rtires de esp&iacute;rito, deixe-me<br \/>\n    assim chamar-lhes, que se estorcem nas ang&uacute;stias de uma tortura moral,<br \/>\n    do que aqueles cujo mart&iacute;rio todos lamentam porque todos os compreendem.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; certo &#8212; disse Valentim &#8212; sofre-se mais talvez<br \/>\n    quando se sofre uma dor que muitos julgam fingida e de que muitos n&atilde;o<br \/>\n    fazem ideia sequer.<\/p>\n<p> &#8212; E, contudo, quem sabe? &#8212;disse Laura, como se os seus pensamentos<br \/>\n    tomassem uma outra direc&ccedil;&atilde;o. &#8212; Quem sabe se o pobre reitor,<br \/>\n    se existiu, como creio, se julgava a si mesmo infeliz! O poeta imaginava-o<br \/>\n    assim, porque o imaginou por si. O bom homem talvez nunca aspirasse a esta<br \/>\n    esp&eacute;cie de imortalidade que &eacute; o sonho dourado das almas jovens<br \/>\n    e entusiastas; e talvez se achasse t&atilde;o feliz com esse olvido que sucedeu<br \/>\n    &agrave; morte, como com a obscuridade que o envolveu em vida.<\/p>\n<p> Valentim corou a estas palavras.<\/p>\n<p> Laura prosseguiu: &#8212; Eu tenho por costume procurar ler, atrav&eacute;s<br \/>\n    das obras, os pensamentos dos autores; nos romances, nos poemas, toda a minha<br \/>\n    aten&ccedil;&atilde;o se fixa nas personagens que o autor parece tratar mais<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; a essas que ele encarrega de exprimir os<br \/>\n    seus pr&oacute;prios sentimentos; &eacute; pois nas ac&ccedil;&otilde;es e<br \/>\n    nas palavras destas que eu busco descobri-los.<\/p>\n<p> Valentim escutava Laura com um interesse que n&atilde;o procurava disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Ela continuou: &#8212; Este sistema n&atilde;o digo que n&atilde;o possa<br \/>\n    falhar, mas acerto muitas vezes. Por exemplo, quer que lhe diga como eu imagino<br \/>\n    o autor daquela poesia que recitou h&aacute; pouco? E tenho pena que o n&atilde;o<br \/>\n    conhe&ccedil;a para me desenganar se n&atilde;o adivinhei.<\/p>\n<p> &#8212; Diga &#8212; disse Valentim com um vis&iacute;vel movimento de curiosidade<br \/>\n    &#8212; diga&#8230;<\/p>\n<p> Laura notou-o e, afectando um ar indiferente, prosseguiu: &#8212; Imagino-o<br \/>\n    um homem ainda jovem, por circunst&acirc;ncias especiais votado a viver em<br \/>\n    uma esfera obscura e que sente em si alguma coisa que o proclama capaz de<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es mais subidas. Este homem ainda muito novo, mas que<br \/>\n    a gl&oacute;ria j&aacute; embriaga, n&atilde;o renuncia, sem um doloroso sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    a esses dourados futuros que a sua imagina&ccedil;&atilde;o insiste em lhe<br \/>\n    representar; mas foge-lhes talvez por um exagerado sentimento de dever, talvez<br \/>\n    porque se julgue ligado por uma for&ccedil;a maior a uma miss&atilde;o que<br \/>\n    exige dele esses sacrif&iacute;cios&#8230; E todos faz, mas ao mesmo tempo despeda&ccedil;a-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o cada um que realiza&#8230;<\/p>\n<p>As senhoras de Alvapenha davam li&ccedil;&otilde;es de madruga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao pr&oacute; prio dia. Ainda o Sol n&atilde;o pensava em alumiar a Terra,<br \/>\n    j&aacute; elas saltavam fora do leito a procederem aos seus trabalhos dom&eacute;sticos.<br \/>\n    Era interessante ver as duas irm&atilde;s, &agrave; luz duvidosa que antecede<br \/>\n    a aurora, combinada com os amortecidos raios de uma quase extinta lamparina,<br \/>\n    passarem e perpassarem naquele quarto, sem despertarem o menor ru&iacute;do<br \/>\n    que pudesse acordar os h&oacute;spedes cujo aposento era subjacente ao seu.<br \/>\n    O di&aacute;logo que se trocava entre elas, n&atilde;o longo e com frequentes<br \/>\n    intermit&ecirc;ncias, era pronunciado em uma voz baixa, como se se tratasse<br \/>\n    de mist&eacute;rios espantosos.<\/p>\n<p> Na manh&atilde; seguinte &agrave; noite em que se passou o cap&iacute;tulo<br \/>\n    precedente, a az&aacute;fama que ia no quarto das irm&atilde;s de D. Ana Soares<br \/>\n    era maior ainda que a de costume. Havia nos seus movimentos uma vivacidade<br \/>\n    de que elas se n&atilde;o julgavam capazes e uma pressa not&aacute;vel de<br \/>\n    terminar a arruma&ccedil;&atilde;o em que se mostravam empenhadas.<\/p>\n<p> &Eacute; que naquele dia &#8212; era um domingo &#8212; n&atilde;o tardou<br \/>\n    que na torre da igreja paroquial se ouvissem tocar as badaladas que chamam<br \/>\n    os fi&eacute;is &agrave; missa primeira.<\/p>\n<p> Envolvidas nas suas longas capas de pano e cobrindo a cabe&ccedil;a com<br \/>\n    um modesto len&ccedil;o de cor escura, as senhoras de Alvapenha, chamando<br \/>\n    Ant&oacute;nia, que lhes n&atilde;o ficava atr&aacute;s em h&aacute;bitos<br \/>\n    madrugadores, e depois de recomendar ao Sr. Vicente a vigil&acirc;ncia da<br \/>\n    casa, sa&iacute;ram atrav&eacute;s dos campos e dirigiram-se &agrave; igreja,<br \/>\n    ainda ent&atilde;o quase vazia.<\/p>\n<p> Come&ccedil;aram as suas rezas pieparat&oacute;rias, encomendando-se a todos<br \/>\n    os santos e santas que existiam nos altares e mesmo a alguns que ali n&atilde;o<br \/>\n    tinham representantes.<\/p>\n<p> Nestes actos de piedade crist&atilde; punham as senhoras de Alvapenha toda<br \/>\n    a aten&ccedil;&atilde;o. Olhos no altar, pensamento no C&eacute;u, bem podia<br \/>\n    abalar-se o templo nos seus alicerces que se lhes n&atilde;o desviaria a cabe&ccedil;a<br \/>\n    num movimento de justificada distrac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m ningu&eacute;m as interrompia, inteiramente entregues &agrave;quela<br \/>\n    santa abstrac&ccedil;&atilde;o. Deixemo-las n&oacute;s tamb&eacute;m por um<br \/>\n    pouco e aproximemo- nos de um outro grupo que ali junto da pia baptismal d&aacute;<br \/>\n    largas &agrave; verbosidade de que participa cada uma das tr&ecirc;s personagens<br \/>\n    de que ele &eacute; formado.<\/p>\n<p>Bento Crispim &eacute; um deles, outro o seu amigo Jos&eacute; da F&aacute;brica,<br \/>\n    o terceiro o botic&aacute;rio Bartolomeu, todos importantes personagens da<br \/>\n    terra, tr&ecirc;s caudilhos que os candidatos n&atilde;o dispensam em &eacute;pocas<br \/>\n    eleitorais.<\/p>\n<p> Bento Crispim tem a palavra, quando nos acercamos. O botic&aacute;rio luta<br \/>\n    com os restos de um catarro matinal e Jos&eacute; da F&aacute;brica abre,<br \/>\n    de quando em quando, a boca, ruidosa manifesta&ccedil;&atilde;o de simpatia<br \/>\n    pelo travesseiro que abandonou h&aacute; pouco.<\/p>\n<h2>V O PEQUENO &Acirc;NGELO<\/h2>\n<p>ENT&Atilde;O era este o ju&iacute;zo que o menino me prometia ter? N&atilde;o<br \/>\n    sabe que &eacute; at&eacute; um pecado zombar assim de um velho? Quando o<br \/>\n    pap&aacute; me perguntar como o &Acirc;ngelo se tem portado, o que hei-de<br \/>\n    dizer? Ora vamos. Reze outra vez ao seu anjo da guarda e n&atilde;o fa&ccedil;a<br \/>\n    mais travessuras destas, que parecem muito mal a um menino bem-educado.<\/p>\n<p> O pequeno &Acirc;ngelo, sinceramente contrito, juntou as m&atilde;os e principiou<br \/>\n    rezando a ora&ccedil;&atilde;o ao seu anjo cust&oacute;dio com verdadeiro<br \/>\n    fervor: &#8212; Anjo da minha guarda, por Deus enviado a proteger-me com as<br \/>\n    tuas asas brancas, vela por mim enquanto eu durmo e guarda-me dos maus sonhos<br \/>\n    como dos maus pensamentos, conduzindo-me pela m&atilde;o no caminho do dever,<br \/>\n    n&atilde;o me abandonando nas afli&ccedil;&otilde;es nem nas alegrias, mostrando-me<br \/>\n    sempre o C&eacute;u atrav&eacute;s das penas e dos prazeres da Terra e ensinando-me<br \/>\n    a receb&ecirc;-los como da m&atilde;o do Senhor.<\/p>\n<p> Em seguida, benzeu-se devotamente e beijando a m&atilde;o que sua m&atilde;e<br \/>\n    lhe estendia, recebeu por b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o beijos e afagos em que<br \/>\n    parecia esgotarem-se todos os tesouros maternais.<\/p>\n<p> &#8212; Bem &#8212; dizia a m&atilde;e em tom j&aacute; carinhoso, anediando<br \/>\n    com os dedos as longas madeixas da crian&ccedil;a &#8212; agora vai-te deitar<br \/>\n    que s&atilde;o horas. E n&atilde;o fa&ccedil;as arengar a Doroteia, n&atilde;o?<br \/>\n    Olha que tens de te confessar este ano e v&ecirc; l&aacute; se queres ir logo<br \/>\n    da primeira vez carregado de culpas. Se tiveres juizo hei-de mandar-te vir<br \/>\n    de Lisboa uma galgazinha preta&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, mande, mande, mam&atilde;. E eu hei-de p&ocirc;r-lhe, ao pesco&ccedil;o,<br \/>\n    uma golazinha de veludo vermelho, sim? &#8212; Pois sim, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E um guizo ? N&atilde;o &eacute; bonito um guizo tamb&eacute;m ?<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m, mas &eacute; se&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, mas olhe, mam&atilde;. E um casaco para o frio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m h&aacute;-de ter um casaco.<\/p>\n<p> &#8212; E de que cor, mam&atilde;, de que cor h&aacute;-de ser ? &#8212;<br \/>\n    N&oacute;s veremos.<\/p>\n<p> &#8212; Azul, sim, mam&atilde;? &#8212; Pois seja azul, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, mam&atilde;, e&#8230; e&#8230; como se h&aacute;-de chamar? &#8212;<br \/>\n    Tu o dir&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Borboleta n&atilde;o, pois n&atilde;o? &#8212; Como quiseres&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Borboleta n&atilde;o&#8230; Andorinha &eacute; mais bonito,<br \/>\n    pois n&atilde;o &eacute;? &#8212; N&atilde;o &eacute; feio&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;-de ser Andorinha&#8230; e&#8230; o casaco h&aacute;-de ter fitas,<br \/>\n    mam&atilde;? &#8212; Sim, h&aacute;-de ter&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah! E&#8230; N&atilde;o sei que queria dizer&#8230; Ah!&#8230; E quando a manda<br \/>\n    vir, mam&atilde;? &#8212; Breve, se tiveres ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> &#8212; Tenho. A mam&atilde; ver&aacute;. Olhe, vou-me j&aacute; deitar<br \/>\n    e prometo n&atilde;o dizer nem uma palavra a Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, pois n&atilde;o lhe h&aacute;s-de dar as boas noites<br \/>\n    ? O que eu n&atilde;o quero &eacute; que te v&aacute;s p&ocirc;r a conversar<br \/>\n    e a rir at&eacute; que horas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ponho, n&atilde;o&#8230; Ora h&aacute;-de ver! &#8212; Pois<br \/>\n    hei-de ver.<\/p>\n<p> Nisto entrou na sala Torcato, seguido de Doroteia, antiga criada da casa,<br \/>\n    mulher baixa, de uma gordura n&atilde;o extremamente vulgar e cores florescentes,<br \/>\n    em cuja fisionomia alegre transluzia um g&eacute;nio bonacheir&atilde;o e<br \/>\n    o contentamento de si e de sua sorte verdadeiramente digno de inveja.<\/p>\n<p> &#8212;Doroteia&#8212; disse-lhe a senhora, pousando o filho no ch&atilde;o<br \/>\n    depois de um &uacute;ltimo beijo &#8212; v&aacute; deitar este menino e n&atilde;o<br \/>\n    se me ponha agora a contar-lhe hist&oacute;rias. Estragam-me as crian&ccedil;as<br \/>\n    com esses contos de feiticeiras; fazem-nas umas medrosas que se n&atilde;o<br \/>\n    atrevem a passar, &agrave;s escuras, por um corredor ou a ficar de noite s&oacute;<br \/>\n    num quarto. V&aacute;, &Acirc;ngelo, e olhe o que eu lhe recomendei. Daqui<br \/>\n    a pouco irei ver se o menino est&aacute; sossegado.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, mam&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, filho, boas noites.<\/p>\n<p> E beijando-o ainda outra vez, entregou-o a Doroteia, que saiu com ele da<br \/>\n    sala.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes, Doroteia &#8212; disse-lhe pelo caminho a crian&ccedil;a,<br \/>\n    a quem o j&uacute;bilo quase obrigava a saltar; &#8212; a mam&atilde; vai<br \/>\n    mandar-me vir uma galguinha preta que se h&aacute;-de chamar Andorinha. Tu<br \/>\n    &eacute; que lhe h&aacute;s-de dar de comer&#8230; N&atilde;o, n&atilde;o&#8230; isso<br \/>\n    hei-de ser eu&#8230; Tu&#8230; h&aacute;s-de fazer-lhe uma goleira de veludo&#8230; ou<br \/>\n    ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> O resto dos projectos j&aacute; se n&atilde;o ouviu na sala.<\/p>\n<p>Cedo, por&eacute;m, uma prolongada risada de Doroteia veio mostrar que o<br \/>\n    pequeno &Acirc;ngelo n&atilde;o cumpria escrupulosamente a promessa que fizera<br \/>\n    momentos antes.<\/p>\n<h2>VI APRESENTA&Ccedil;&Atilde;O<\/h2>\n<p>MAS com raz&atilde;o ter&aacute; o leitor estranhado que t&atilde;o sem-cerim&oacute;nia<br \/>\n    o tenhamos introduzido numa casa e feito assistir a algumas cenas da vida<br \/>\n    dom&eacute;stica de uma fam&iacute;lia, sem previamente o apresentarmos.<\/p>\n<p> N&atilde;o obstante, ser&atilde;o as principais personagens que teremos<br \/>\n    de encontrar no decurso desta narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Passo, desde j&aacute;, a emendar esta falta de m&eacute;todo, o que farei<br \/>\n    o mais sucintamente que possa, por saber que, regra geral, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    bem recebidas estas notas explicativas.<\/p>\n<p> Ela torna-se, contudo, indispens&aacute;vel.<\/p>\n<p> O palacete, em cujo sal&atilde;o principal surpreendemos dormindo a sono<br \/>\n    solto o nosso conhecido Torcato, pertencia a Jo&atilde;o Mexia de Melo e Moita,<br \/>\n    conde de Aveleiras, o mais benquisto propriet&aacute;rio da sua comarca. Jo&atilde;o<br \/>\n    de Alvito, ou, como ele pr&oacute;prio se assinava por uma inofensiva veleidade<br \/>\n    aristocr&aacute;tica. D. Jo&atilde;o de Alvito, era um homem de quarenta e<br \/>\n    tantos anos, ainda vigoroso e activo, de maneiras corteses, &acirc;nimo generoso<br \/>\n    e resolu&ccedil;&otilde;es inabal&aacute;veis.<\/p>\n<p> De estatura elevada e de porte airoso, ele possu&iacute;a as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    de um verdadeiro fidalgo.<\/p>\n<p> D. Jo&atilde;o de Alvito era legitimista, mais por tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que por.<\/p>\n<p> cren&ccedil;a, embora quisesse sustentar o contr&aacute;rio. Repugnava-lhe<br \/>\n    mudar de ideias pol&iacute;ticas em que fora educado, parecia-lhe uma quase<br \/>\n    apostasia para a qual lhe faltava o &acirc;nimo e que lhe reprovava com antecipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia. Era, por&eacute;m, do n&uacute;mero daqueles que transigia<br \/>\n    com o estado actual dos neg&oacute;cios pol&iacute;ticos, a ponto de aceitar,<br \/>\n    por vezes, uma candidatura &agrave;s cortes e prestar o juramento exigido,<br \/>\n    n&atilde;o sei se com reservas mentais.<\/p>\n<p> Como deputado, granjeara sempre merecidos cr&eacute;ditos. Era um orador<br \/>\n    pouco vulgar e nunca negociara com o mandato, vendendo o seu voto para utilidade<br \/>\n    sua ou dos protegidos. Sol&iacute;cito em promover os interesses locais do<br \/>\n    c&iacute;rculo que o elegera, n&atilde;o tentou nunca antepor- lhes os interesses<br \/>\n    gerais do Pa&iacute;s. Nem os governos nem a oposi&ccedil;&atilde;o contavam<br \/>\n    com ele, porque de um momento para outro era-lhe infiel por consci&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> Em fam&iacute;lia n&atilde;o era menos exemplar. Quando o n&atilde;o chamavam<br \/>\n    &agrave; capital os trabalhos parlamentares recolhia-se &agrave; obscuridade<br \/>\n    da vida provinciana, todo absorvido no afecto da esposa e na educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos filhos que, em pessoa, dirigia.<\/p>\n<p> Ao apartar-se deles borbulhavam-lhe as l&aacute;grimas nos olhos e a custo<br \/>\n    podia pronunciar as palavras de despedida.<\/p>\n<p> O car&aacute;cter de D. Lu&iacute;sa oferecia a maior conformidade poss&iacute;vel<br \/>\n    com o de seu marido.<\/p>\n<p> Era a mesma gravidade, as mesmas maneiras af&aacute;veis e delicadas, o<br \/>\n    mesmo cora&ccedil;&atilde;o compassivo, os mesmos impulsos generosos. Conservava<br \/>\n    em todos os seus actos uma certa majestade natural, que imprimia &agrave;s<br \/>\n    afei&ccedil;&otilde;es, que geralmente inspirava, um cunho de venera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O seu nome adquirira j&aacute; um verdadeiro prestigio entre os infelizes,<br \/>\n    que era t&atilde;o sol&iacute;cita em socorrer&#8230;<\/p>\n<p> Adelaide fora educada por sua m&atilde;e, que se esmerara em formar- lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o de que hoje tanto se descura na pretensiosa educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos col&eacute;gios que recebem raparigas.<\/p>\n<p> Adelaide n&atilde;o era destas presumidas que, aos quinze anos, nos cumprimentam<br \/>\n    em franc&ecirc;s e travam connosco um di&aacute;logo moldado pelos do Guia<br \/>\n    de Conversa&ccedil;&atilde;o, que dan&ccedil;am uma valsa e garganteiam uma<br \/>\n    cavatina de um modo elegantemente detest&aacute;vel, o que as autoriza a falarem<br \/>\n    da prima-dona da companhia l&iacute;rica com conhecimento de causa e desdenhosas<br \/>\n    superioridades, que&#8230;<\/p>\n<p> Que mal-educados cora&ccedil;&otilde;es palpitam por baixo daqueles apertados<br \/>\n    espartilhos! Perdoem-me as am&aacute;veis leitoras que foram confiadas a um<br \/>\n    col&eacute;gio se eu tenho saudades da educa&ccedil;&atilde;o mais patriarcal<br \/>\n    de outros tempos em que as m&atilde;es n&atilde;o abdicavam t&atilde;o completamente<br \/>\n    do seu dever de instruidoras da inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> As meninas ficavam talvez falando um pouco mais defeituosamente o franc&ecirc;s,<br \/>\n    por&eacute;m, quer-nos parecer que ficavam sentindo e amando melhor, mais<br \/>\n    pelo cora&ccedil;&atilde;o e menos pela fantasia.<\/p>\n<p> Mas voltemos a Adelaide.<\/p>\n<p> Esta aprendeu noutra e na melhor das escolas: tivera por mestra a m&atilde;e<br \/>\n    que a educara &agrave; sua semelhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Adelaide lia poucos romances e mal suspeitava at&eacute;, quando em companhia<br \/>\n    de D. Lu&iacute;sa socorria os seus pobres amigos doentes, quase mortos de<br \/>\n    fome e de frio, que estava imitando esta ou aquela hero&iacute;na de quem<br \/>\n    nunca ouvira falar.<\/p>\n<p> Tais coisas fazia-as naturalmente, sem ao menos se lembrar do efeito que<br \/>\n    poderiam produzir. N&atilde;o tinha culpa no interesse que a todos inspirava.<\/p>\n<p> Adelaide cantava como os passarinhos que, no laranjal fronteiro &agrave;<br \/>\n    sua janela pareciam, de cont&iacute;nuo, provoc&aacute;-la. Desafiava-lhe<br \/>\n    hinos a verdura do arvoredo, o rumorejar das fontes e as meias-tintas das<br \/>\n    madrugadas e dos crep&uacute;sculos. Cantava para acalentar as criancinhas<br \/>\n    nuas e tiritando de frio que ia procurar &agrave;s choupanas, como uma presa<br \/>\n    que arrebata &agrave; mis&eacute;ria; cantava para entreter as raparigas da<br \/>\n    sua idade que se enlevavam a ouvi-la ou quando seu pai manifestava desejos<br \/>\n    de escut&aacute;-la. Eram quase sempre singelas can&ccedil;&otilde;es e toadas<br \/>\n    populares que ela preferia &#8212; outro ponto em que infringia o sancionado<br \/>\n    c&oacute;digo da eleg&acirc;ncia, que n&atilde;o admite que se cante sen&atilde;o<br \/>\n    em l&iacute;ngua estrangeira.<\/p>\n<p>Subindo da pouco confort&aacute;vel sala dos retratos, D. Lu&iacute;sa entrou<br \/>\n    na c&acirc;mara imediata, cujo aspecto contrastava notavelmente com o daquela.<br \/>\n    Quanto ali tudo respirava tristeza e abandono, aqui se denunciavam as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    da vida em cada particularidade, a mais insignificante. Nas luzes, nas flores,<br \/>\n    nos tapetes, nos estofos e almofadas das cadeiras e sof&aacute;s, no papel<br \/>\n    de custo que forrava as paredes, nas cortinas de damasco que adornavam as<br \/>\n    janelas, no magn&iacute;fico piano Erard, aberto ainda, no fog&atilde;o consolador,<br \/>\n    tudo indicava que a imagina&ccedil;&atilde;o esgotara todos os recursos para<br \/>\n    reunir a eleg&acirc;ncia &agrave; comodidade.<\/p>\n<p> Era a antec&acirc;mara de D. Lu&iacute;sa o ponto de reuni&atilde;o da fam&iacute;lia,<br \/>\n    onde tinham lugar os prolongados ser&otilde;es do Inverno, as li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nocturnas de &Acirc;ngelo e as leituras em comum feitas em voz alta por D.<br \/>\n    Jo&atilde;o de Alvito, e escutadas com religiosa aten&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    at&eacute; os concertos familiares em que a voz de Adelaide. .<\/p>\n<p> &#8212; Adelaide &#8212; disse D. Lu&iacute;sa passado algum tempo &#8212;<br \/>\n    esta solid&atilde;o em que vivemos aqui &eacute; demasiado triste para a tua<br \/>\n    juventude.<\/p>\n<p> Nessa idade amam-se, &eacute; verdade, as flores e o canto das aves que<br \/>\n    se v&ecirc;em e escutam em abund&acirc;ncia da janela do teu quarto.<\/p>\n<p> S&atilde;o as primeiras a dar-te os bons dias todas as madrugadas, s&atilde;o<br \/>\n    as primeiras amigas que nos sa&uacute;dam; mas o cora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\n    nos pede afectos, que a nenhuma conviv&ecirc;ncia que temos aqui te n&atilde;o<br \/>\n    permite activar&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que diz, mam&atilde;? Faltam-me por acaso afectos nesta casa? Afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pai, de m&atilde;e; do &Acirc;ngelo; a do velho Torcato, da Doroteia, de&#8230;<\/p>\n<p> Enganar-me-ei acreditando que todos aqui me querem ? &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    filha, n&atilde;o te- engana a consci&ecirc;ncia quando assim to afirma.<\/p>\n<p> Mas falta-te uma amiga a quem n&atilde;o hesites em confiar todos os teus<br \/>\n    pensamentos, diante de quem n&atilde;o cores quando, com a penetra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da amizade,, te devassar alguns que reserves ocultos.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o tenho eu essa amiga? &#8212; disse Adelaide, baixando<br \/>\n    os olhos um tanto confusa, como se temesse denunciar na express&atilde;o deles<br \/>\n    um pensamento diverso do que ia exprimir. &#8212; Quando &eacute; que a mam&atilde;<br \/>\n    se recusou a escutar-me as confid&ecirc;ncias de todas as minhas penas e prazeres;<br \/>\n    desde quando &eacute; que o seu cora&ccedil;&atilde;o deixou de participar<br \/>\n    de todos os sentimentos do meu? &#8212; Canta, Adelaide, a primeira can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que te lembrar. Aquela que ontem cantaste quando te recolheste ao teu quarto.<br \/>\n    Lembras-te dela? Estas palavras pareciam ocasionar em Adelaide uma inexplic&aacute;vel<br \/>\n    confus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me recordo bem&#8230;&#8212; respondeu ela, desviando os<br \/>\n    olhos dos de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> D. Lu&iacute;sa continuou: &#8212; A can&ccedil;&atilde;o das Andorinhas,<br \/>\n    julgo eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Essa! &#8212; disse Adelaide como se lhe repugnasse aceder ao<br \/>\n    convite de sua m&atilde;e.<\/p>\n<p> &#8212; Gostei ontem de te ouvir. Se te n&atilde;o custasse&#8230;<\/p>\n<p> Adelaide encaminhou-se para o piano com vis&iacute;vel constrangimento.<\/p>\n<p> Sentou-se e principiou a preludiar.<\/p>\n<p> Sua m&atilde;e fitava os olhos nela e sorria-se vendo aquele enleio, como<br \/>\n    se compreendesse a causa que o ocasionava.<\/p>\n<p> Cedo a voz argentina de Adelaide, interrompendo o sil&ecirc;ncio da noite,<br \/>\n    principiou a cantar, em toada popular, a seguinte can&ccedil;&atilde;o conhecida<br \/>\n    nos arredores:<\/p>\n<p>Volta andorinha aos pa&iacute;ses Dos perfumados verdores, Onde t&ecirc;m<br \/>\n    mais vi&ccedil;o as flores Onde tem mais luz o c&eacute;u&#8230;<\/p>\n<p> Cruza o mar, que a Primavera J&aacute; ri nos vales e outeiros . Dispersando<br \/>\n    os nevoeiros Em que o Inverno os envolveu&#8230;<\/p>\n<h2>CARTAS LITER&Aacute;RIAS<\/h2>\n<h5>COISAS VERDADEIRAS&quot;<\/h5>\n<p align=\"right\"><b>Ao folhetinista (Ramalho Ortig&atilde;o) do &laquo;Jornal<br \/>\n    do Porto&raquo;<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Publicada sob o pseud&oacute;nimo de Diana de Aveleda, naquele<br \/>\n    jornal, em 25 de Fevereiro de 1863.<\/b><\/p>\n<p>II.&quot;&#8217;- Sr.<\/p>\n<p> H&aacute; tempos escreveu V. S.&quot; no &laquo;Jornal do Porto&raquo; um<br \/>\n    folhetim, onde debaixo da p&eacute;rfida e insinuante epigrafe: &#8212; Coisas<br \/>\n    inocentes &#8212; dizia as falsidades mais abominavelmente culp&aacute;veis<br \/>\n    que eu tenho lido em folhetins, dos quais n&atilde;o &eacute;, de ordin&aacute;rio,<br \/>\n    a inoc&ecirc;ncia a fei&ccedil;&atilde;o caracter&iacute;stica.<\/p>\n<p> Logo eu duvidei da sinceridade e exactid&atilde;o do titulo, quando no curto<br \/>\n    argumento que se lhe segue e no qual se acha em resumo, como &eacute; de estilo,<br \/>\n    o tema da subsequente disserta&ccedil;&atilde;o, vi duas palavras que quase<br \/>\n    nunca se juntam sem preju&iacute;zo reciproco para as ideias que designam:<br \/>\n    a filosofia e a mulher.<\/p>\n<p> &Eacute; sabido que uma eterna pend&ecirc;ncia, perpetuada atrav&eacute;s<br \/>\n    dos s&eacute;culos, lavra entre n&oacute;s, as mulheres, e os fil&oacute;sofos,<br \/>\n    essa por&ccedil;&atilde;o mais impertinentemente pretensiosa do sexo feio,<br \/>\n    do qual V. S.&quot; &eacute; um exemplar.<\/p>\n<p> E isto vem de longe! Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este<br \/>\n    t&iacute;tulo e que ser&aacute; conclu&iacute;do a folha de amanh&atilde;.<br \/>\n    Era ele acompanhado de uma carta muito elegante igualmente assinada pela autora.<br \/>\n    Aplaudo-me de haver escrito com o t&iacute;tulo de &laquo;Coisas inocentes&raquo;<br \/>\n    a bagatela que me proporcionou esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda &oacute;<br \/>\n    um pseud&oacute;nimo ou um nome. Basta-me tamb&eacute;m saber que &eacute;<br \/>\n    uma senhora quem o escreve.<\/p>\n<p> Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal<br \/>\n    compreendido e mal analisado pela minha leritora e colaboradora excelente.<br \/>\n    No entanto Curvo-me1 muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber<br \/>\n    e ponho o meu cordial agradecimento aos p&eacute;s de Diana dei Aveleda.<\/p>\n<p> <b>Ramalho Ortig&atilde;o.<\/b><\/p>\n<p>Veja o que disse Salom&atilde;o, citado por V. S.\\ Salom&atilde;o que, a<br \/>\n    acreditarmos as letras sagradas, tinha motivos para falar de n&oacute;s com<br \/>\n    mais conhecimento do causa; recorde-se de Arist&oacute;teles, o maior folhetinista<br \/>\n    do seu tempo, o qual nos supunha uma obra por concluir nas oficinas da natureza;<br \/>\n    repare como Dem&oacute;crito&#8230; tamb&eacute;m trazido a ju&iacute;zo h&aacute;<br \/>\n    poucos dias por V. S.&quot;, Dem&oacute;crito que, dizem, em tudo achava pasto<br \/>\n    para a sua alacridade, chegou a arrancar os olhos, falo tamb&eacute;m sob<br \/>\n    a responsabilidade de Tertuliano e de V, S.&quot;, para n&atilde;o ver mulher<br \/>\n    nenhuma, lembran&ccedil;a que V. S.&quot; muito ajuizadamente taxou de est&uacute;pida,<br \/>\n    com grande aprazimento meu.<\/p>\n<p> E depois disto, depois de tantas causas de agravo, com que olhos poderemos<br \/>\n    n&oacute;s encarar os fil&oacute;sofos e a filosofia, n&atilde;o me dir&aacute;?<br \/>\n    Poucos s&atilde;o os que, &agrave; imita&ccedil;&atilde;o dos tr&ecirc;s que<br \/>\n    mencionei, se n&atilde;o distra&iacute;ram em seus momentos de pedantesco<br \/>\n    spleen &agrave; custa de n&oacute;s outras mulheres, caluniando-nos, ensaiando<br \/>\n    em nossa humilde personalidade as suas aguadas voca&ccedil;&otilde;es epigram&aacute;ticas,<br \/>\n    tentando at&eacute; ter esp&iacute;rito, que &oacute; o ponto mais alto a<br \/>\n    que podem subir as aspira&ccedil;&otilde;es de um fil&oacute;sofo.<\/p>\n<p> Acerca das mulheres e dos m&eacute;dicos, toda a gente se julga com direito<br \/>\n    para gracejar. &Eacute; balda antiga! O epigrama a nosso respeito tornou-se<br \/>\n    juntamente com as observa&ccedil;&otilde;es sobre o bom e o mau tempo, um<br \/>\n    lugar comum de todas as conversas f&uacute;teis, assunto acomodado &agrave;<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia de todos os parvos e excelente material para o tiroteio<br \/>\n    de banalidades, remoques alambicados e galanteadoras sandices, que fazem as<br \/>\n    delicias dos nossos encasacados frequentadores de bailes.<\/p>\n<p> E a culpa disso tiveram-na os fil&oacute;sofos com suas sumarentas senten&ccedil;as<br \/>\n    e apotegmas absurdos. Pois quem mais? &Eacute; irreconcili&aacute;vel j&aacute;<br \/>\n    agora esta avers&atilde;o que nos separa deles; um &oacute;dio perp&eacute;tuo<br \/>\n    cavar&aacute; entro n&oacute;s um abismo imensur&aacute;vel. Nunca seus livros<br \/>\n    ter&atilde;o acesso em nossos gabinetes, nunca repousar&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    nossas cabeceiras ou em nossos cestos de costura.<\/p>\n<p> Podem-se esfalfar e mumificar, esses senhores, &agrave; vontade, em estupendas<br \/>\n    elucubra&ccedil;&otilde;es sobre a identidade do eu e do n&atilde;o eu, sobre<br \/>\n    os fins finais, as ess&ecirc;ncias e as modalidades e quantas outras extravag&acirc;ncias<br \/>\n    lhes acudam &agrave; ideia, que nunca far&atilde;o com que uma mulher, verdadeiramente<br \/>\n    digna deste nome, lhes conceda um s&oacute; momento de suas horas de deliciosos<br \/>\n    e frequentes &oacute;cios.<\/p>\n<p> Repare que digo uma mulher verdadeiramente digna deste nome ; porque &eacute;<br \/>\n    not&oacute;rio que muitas h&aacute; que o n&atilde;o merecem.<\/p>\n<p> S&atilde;o essas tais, rid&iacute;culos disparates da natureza que se descuidou,<br \/>\n    insuflando em formas femininas um esp&iacute;rito varonil com todas as suas<br \/>\n    impertin&ecirc;ncias e engravatadas predilec&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Assim: h&aacute; mulheres que, como M.ml!Dacier, sabem o grego e traduzem<br \/>\n    Homero! Que abomin&aacute;vel saber! Outras, como a nossa Alcipe, que entendia<br \/>\n    o latimI Algumas at&eacute;, &oacute; monstruosa aberra&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    que chegam, como n&atilde;o sei que marquesa parisiense, a comentar o pr&oacute;prio<br \/>\n    Newton e a lidar com f&oacute;rmulas alg&eacute;bricas; isto com grande aplauso<br \/>\n    dos fil&oacute;sofos, a quem essas tais agradam! S&atilde;o exactamente as<br \/>\n    que eu detesto; a respeito das quais penso como Arist&oacute;teles, n&atilde;o<br \/>\n    serem mais que homens abortidos. Contra elas protesto! Nunca impass&iacute;vel<br \/>\n    as verei agremiadas a um sexo que, &agrave; custa de muitos esfor&ccedil;os<br \/>\n    e sacrif&iacute;cios, conseguiu adquirir uma tr&iacute;plice qualifica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da qual deve justamente ufanar-se: a de belo e por isso devemos protestar<br \/>\n    contra as feias, tomadas como esp&eacute;cime do g&eacute;nero; a de am&aacute;vel<br \/>\n    e por isso protestaremos sempre contra as eruditas e versadas em l&iacute;nguas<br \/>\n    mortas ou em ci&ecirc;ncias espinhosas; e a de fr&aacute;gil e por isso protestaremos<br \/>\n    tamb&eacute;m contra as chamadas mulheres fortes, muito do gosto ali&aacute;s<br \/>\n    dos senhores poetas. Sim; deve saber que nunca pude simpatizar com as Judites,<br \/>\n    Joanas d&#8217;Arc, Carlotas Cordays e outras hero&iacute;nas que adquiriram grande<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o entre as mulheres, justamente por o n&atilde;o saberem<br \/>\n    ser.<\/p>\n<p> Para mim, a mulher verdadeira &eacute;, por exemplo, aquela Lic&iacute;nia<br \/>\n    de um romance de Mery, que adormeceu enquanto um fil&oacute;sofo laquista<br \/>\n    lhe lia uma disserta&ccedil;&atilde;o sobre os sonhos e que, dormindo, converteu<br \/>\n    o tal fil&oacute;sofo &agrave; raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; a mulher como a Ifig&eacute;nia do teatro grego que, votada &agrave;<br \/>\n    morte, chora, ajoelha-se, procura comover, implora a vida, lamenta as flores<br \/>\n    que vai deixar, o esplendor do dia, a claridade do c&eacute;u, os prazeres<br \/>\n    gozados e tantos outros, vagamente entrevistos ainda e de que o futuro lhe<br \/>\n    falava. Lamentos que, como diz Saint-Marc Girardin h&aacute;-de sempre repetir<br \/>\n    toda a rapariga moribunda, porque s&atilde;o saudades pelos bens mais universais<br \/>\n    e mais doces da vida.<\/p>\n<p> Esta &oacute; que &eacute; a verdadeira mulher, a mulher fr&aacute;gil e<br \/>\n    n&atilde;o as est&oacute;icas hero&iacute;nas que tanto vos despertam a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o interesse.<\/p>\n<p> A mulher digna de o ser &eacute; aquela em cuja ortografia os eruditos tenham<br \/>\n    que lamentar a ignor&acirc;ncia absoluta das letras gregas e latinas, a que<br \/>\n    dos jornais pol&iacute;ticos s&oacute; l&ecirc; o folhetim, a que de um livro<br \/>\n    passa em claro os pr&oacute;logos, que p&otilde;e de parte as considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    filos&oacute;ficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que<br \/>\n    perde de vista a ideia metaf&iacute;sica do autor, para n&atilde;o ver nos<br \/>\n    acontecimentos narrados sen&atilde;o acontecimentos; a que n&atilde;o tem<br \/>\n    o rid&iacute;culo descoco de repetir ap&oacute;s a leitura o qu&#8217;est ce que<br \/>\n    cela prouve de filos&oacute;fica e insuport&aacute;vel mem&oacute;ria. &Eacute;<br \/>\n    a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte<br \/>\n    da hero&iacute;na, sonha com a beleza do her&oacute;i e odeia do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o pai, o tio, tutor ou conselho de fam&iacute;lia que se op&otilde;e &agrave;<br \/>\n    realiza&ccedil;&atilde;o dos castos desejos dos dois amantes.<\/p>\n<p> &Eacute; assim que eu compreendo a mulher, pois &eacute; assim que eu sou<br \/>\n    formada, eu e as minhas amigas todas. Ora &eacute; exactamente o contr&aacute;rio<br \/>\n    disto que os senhores nos fazem. Quer para bem, quer para mal, nunca os poetas,<br \/>\n    romancistas e fil&oacute;sofos, nos pintam tais como somos. &Eacute; vulgar<br \/>\n    chamarem-nos anjos e dem&oacute;nios, rar&iacute;ssimo que nos chamem simplesmente<br \/>\n    mulheres.<\/p>\n<p>Por saber isto e o mais que vem dito, foi que logo principiei a agourar mal<br \/>\n    da apregoada inoc&ecirc;ncia do folhetim que V. S.* assinava e no qual se<br \/>\n    prometia uma confronta&ccedil;&atilde;o entre a mulher e a filosofia.<\/p>\n<p> A leitura dele veio mostrar-me que, se em parte me enganara, fora em parte<br \/>\n    fat&iacute;dico o meu pressentimento.<\/p>\n<p> De facto, V. S.* principia bem. Come&ccedil;a a rir dos fil&oacute;sofos,<br \/>\n    que &eacute; passatempo inocente e para o qual eu me sinto sempre nas melhores<br \/>\n    disposi&ccedil;&otilde;es de espirito; duvida da ci&ecirc;ncia desses moralistas<br \/>\n    antigos e modernos, que tanto falaram da mulher e t&atilde;o pouco a conheceram,<br \/>\n    do que muitos deixaram irrecus&aacute;veis e eloquentes testemunhos; ocuparam-<br \/>\n    se, diz pouco mais ou menos V. S.*, de uma mulher que n&atilde;o existe, de<br \/>\n    uma mulher imagin&aacute;ria, mulher de conven&ccedil;&atilde;o, mulher mito,<br \/>\n    feita &agrave; imagem da fantasia deles, que aqui para n&oacute;s, digo eu<br \/>\n    agora, n&atilde;o fornece grandes modelos; e ai est&aacute; o que eles fiseram.<\/p>\n<p> E eu a gostar de ouvi-lo! Oh! 3e gostava! Tratava-se pois de refazer o trabalho<br \/>\n    desde o princ&iacute;pio; prop&ocirc;s- se V. S.&#8217; a isso, adoptando o m&eacute;todo<br \/>\n    anal&iacute;tico para chegar ao descobrimento da verdade. Logo me n&atilde;o<br \/>\n    agradou a escolha. Receei que analisando meia d&uacute;zia de mulheres, se<br \/>\n    apressasse a generalizar, arvorando a excep&ccedil;&atilde;o em regra e caindo<br \/>\n    no mesmo defeito dos fil&oacute;sofos que combatia e que me parece terem pecado<br \/>\n    por anal&iacute;ticos de mais.<\/p>\n<p> Contudo entrei de &acirc;nimo folgado no corrente das considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que sobre o assunto V. S.&#8217; expendeu.<\/p>\n<p> Cedo perdi as ilus&otilde;es que me seguiram at&eacute; ali.<\/p>\n<p> Ainda desta vez n&atilde;o nos faziam justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> Era ainda a mesma fisiologia da mulher&#8212;aleij&atilde;o, da mulher &#8212;<br \/>\n    anomalia, da mulher &#8212; extravag&acirc;ncia e n&atilde;o da mulher &#8212;<br \/>\n    mulher, a &uacute;nica que, n&atilde;o obstante, mais importaria conhecer<br \/>\n    a um verdadeiro fisiologista.<\/p>\n<p> Meu marido possui um livro de um tal Geoffroy de Saint-Hilaire.<\/p>\n<p> que trata de todas as monstruosidades humanas: &eacute; horr&iacute;vel!<br \/>\n    Pois as suas fisiologias da mulher, meus caros senhores, fazem-me lembrar<br \/>\n    este livro. Pode ser que tenham um valor cientifico igual ao dele, o qual<br \/>\n    valor, aqui para n&oacute;s, eu ainda n&atilde;o pude compreender bem qual<br \/>\n    seja.<\/p>\n<p> Depois de acabar de ler o folhetim de V, S.&quot;, tive vontade de lhe responder<br \/>\n    imediatamente para refutar, um por um, os aforismos com que termina, dos quais<br \/>\n    nenhum lhe posso admitir; mas h&aacute; tanto tempo que perdi o h&aacute;bito<br \/>\n    destes empreendimentos, que me custou a decidir-me.<\/p>\n<p> Se fosse noutro tempo!&#8230;<\/p>\n<p> Noutro tempo era eu tamb&eacute;m mulher&#8212; excep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    mulher &#8212; extravag&acirc;ncia, ou como quiser chamar-lhe. Febricitava-me<br \/>\n    a vacina do romanticismo, como lhe chamou Garrett, o Jenner da nossa literatura,<br \/>\n    e dava-me ent&atilde;o para velar noites inteiras &agrave; janela, entre os<br \/>\n    ramos de trepadeiras que me enfloravam o balc&atilde;o, vestida com um penteador<br \/>\n    branco, os cabelos soltos, a face encostada &agrave; m&atilde;o e de olhos<br \/>\n    fitos na Lua, naquela mesma Lua que andava ent&atilde;o tanto na moda. Escrevi-lhe<br \/>\n    uma balada sentimental e n&atilde;o como as de Alfredo Musset, que nos acessos<br \/>\n    desse derrancado romanticismo, lhe chamou quantas extravag&acirc;ncias e nomes<br \/>\n    feios lhe vieram &agrave; cabe&ccedil;a, tais como: o ponto de letra !, olho<br \/>\n    do c&eacute;u zanaga, m&aacute;scara de um querubim, sonsa, bola, aranha sem<br \/>\n    pernas e rel&oacute;gio dos condenados e n&atilde;o sei que mais inj&uacute;rias.<br \/>\n    Eu n&atilde;o; n&atilde;o ofendi as conveni&ecirc;ncias, que se devem ter,<br \/>\n    para com um astro f&ecirc;mea. A minha balada publiquei-a na Miscel&acirc;nea<br \/>\n    Po&eacute;tica, vasto viveiro de poetas e poetisas que havia por aquele tempo<br \/>\n    no Porto.<\/p>\n<p> Um critico de ent&atilde;o, o qual V. S.&raquo; conhece muito bem, fez-me<br \/>\n    o favor de me profetizar um auspicioso futuro liter&aacute;rio. O cr&iacute;tico<br \/>\n    enganou- se, acontecimento vulgar nos cr&iacute;ticos, assim como eu tamb&eacute;m<br \/>\n    me enganei com ele; pois agoirando-lhe igualmente pela minha parte, em vista<br \/>\n    das suas tend&ecirc;ncias rom&acirc;ntica?, a elabora&ccedil;&atilde;o futura<br \/>\n    de dez volumes de poesias sentimentais, v n&#8217;e dramas ultra-rom&acirc;nticos<br \/>\n    e ultra- -hist&oacute;ricos, etc, etc, vejo-o hoje todo entregue a estudos<br \/>\n    paleogr&aacute;ficos, entre pergaminhos amarelos e monstruosos in-f&oacute;lios,<br \/>\n    anotando e discutindo bulas e pastorais e correspondendo-se com bispos, arcebispos<br \/>\n    e eminent&iacute;ssimos dignit&aacute;rios da c&uacute;ria.<\/p>\n<p> Se fosse nesse tempo, em que despedi o meu facultativo de partido por me<br \/>\n    dizer um dia que para ele o cora&ccedil;&atilde;o era apenas &laquo;um m&uacute;sculo<br \/>\n    oco, com suas^fibras e v&aacute;lvulas e o principal motor do movimento sangu&iacute;neo&raquo;,<br \/>\n    n&atilde;o teriam mediado tantos dias entre a leitura do folhetim de V. S.&raquo;<br \/>\n    e a minha refuta&ccedil;&atilde;o; mas hoje, que me deixei de versos para<br \/>\n    tratar dos filhos, que a realidade de um marido expeliu do meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    os luminosos fantasmas ideais, belos como o arcanjo S&atilde;o Miguel, que<br \/>\n    estavam comigo, quando todos me julgavam solit&aacute;ria; hoje que as canseiras<br \/>\n    dom&eacute;sticas me n&atilde;o deixam tempo para inventar tormentos imagin&aacute;rios,<br \/>\n    hesitei, por n&atilde;o saber se me n&atilde;o abandonaria o f&ocirc;lego<br \/>\n    antes de levar ao fim o empreendimento. Por isso deixei passar tanto tempo<br \/>\n    sem responder, por isso nunca responderia talvez, se me n&atilde;o instigassem<br \/>\n    algumas amigas, igualmente escandalizadas como eu corn a falsa fisiologia<br \/>\n    da mulher, exposta por V. S.&raquo;.<\/p>\n<p> Fisiologia da mulher! Principiaremos por aqui.<\/p>\n<p> De duas uma, ou a mulher n&atilde;o &eacute; uma entidade moralmente distinta<br \/>\n    do homem e ent&atilde;o para que tentar presentear-nos com as honras de uma<br \/>\n    fisiologia especial? Ou o &eacute; e cumpre nesse caso que as descobertas<br \/>\n    fisiol&oacute;gicas que nos disserem respeito, nos sejam exclusivas, capazes<br \/>\n    de caracterizar o sexo, de lhe fazer perder o aspecto nebuloso, de que alguns<br \/>\n    teimam em revesti-lo chamando &agrave; mulher um mito e ficando muito satisfeitos<br \/>\n    de si, como se tivessem dito alguma coisa de jeito.<\/p>\n<p> Ora n&atilde;o est&atilde;o nesse caso muitas das suas observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    meu caro senhor, as quais s&atilde;o igualmente aplic&aacute;veis aos homens<br \/>\n    e, desde ent&atilde;o, impr&oacute;prias de uma fisiologia especial do sexo<br \/>\n    am&aacute;vel.<\/p>\n<p>Vamos por ordem: Rompe V. S.&laquo; por a seguinte proposi&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    Toda a mulher que cora n&atilde;o &eacute; inocente.<\/p>\n<p> Segue-se uma defini&ccedil;&atilde;o da inoc&ecirc;ncia e uma teoria do<br \/>\n    pudor, teoria contra a qual nos revoltamos n&oacute;s todas com as reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    de nossos sentimentos passados.<\/p>\n<p> O pudor &eacute; instintivo na mulher, precede a raz&atilde;o que o explica.<\/p>\n<p> Cora-se, sem saber porqu&ecirc;, como a crian&ccedil;a chora de medo antes<br \/>\n    de ter conhecimento do perigo. Os caracteres mais feminilmente delicados,<br \/>\n    ou, como quiser, mais delicadamente feminis, recebem da natureza a faculdade<br \/>\n    de corar de pejo, como um sexto sentido, que lhes faz pressentir um mal ainda<br \/>\n    para eles indeterminado. S&atilde;o como estas organiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    excessivamente nervosas que experimentam sensa&ccedil;&otilde;es indefin&iacute;veis<br \/>\n    na aproxima&ccedil;&atilde;o das tempestades e enquanto um c&eacute;u ainda<br \/>\n    l&iacute;mpido as n&atilde;o revela &agrave;s minuciosas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos homens entendidos.<\/p>\n<p> &Eacute; uma faculdade misteriosa esta de corar, pr&oacute;pria da mulher,<br \/>\n    como a contractilidade da sensitiva; &eacute; como o instinto da andorinha<br \/>\n    que a impele &agrave; procura de climas novos, sem conceber o perigo que corre<br \/>\n    persistindo nas mesmas florestas, cuja verdura come&ccedil;a apenas a desbotar.<\/p>\n<p> Adora o pudor, diz V. S.&raquo;, mas prefere-lhe a inoc&ecirc;ncia. E aonde<br \/>\n    &eacute; que a vai reconhecer, essa apreci&aacute;vel inoc&ecirc;ncia? Na<br \/>\n    mulher que n&atilde;o cora ?! Pois deveras pensa isso ? Custa-me a acreditar<br \/>\n    que nos falasse sincero! Nem sequer lhe ocorreram &agrave; ideia aqueles belos<br \/>\n    versos que Racine p&ocirc;s na boca de Fedra e que Scribe fez repetir a Lecouvreur,<br \/>\n    quando na presen&ccedil;a do amante comum, fulminava com um gesto a sua poderosa<br \/>\n    rival:<\/p>\n<p><b>&#8230; Je ne suis point de ces femmes hardies Qui goutant dans le crime une<br \/>\n    tranquille paix, Ont su se feire un front qui &laquo;ne rougil jamais&raquo;.<\/b><\/p>\n<p>Fedra n&atilde;o era inocente mas ainda se n&atilde;o supunha t&atilde;o<br \/>\n    culpada que l&aacute; nem sequer corasse. Era um resto de inoc&ecirc;ncia,<br \/>\n    que lhe ficava ainda, e esse rubor que lhe tinge as faces, &eacute; justamente<br \/>\n    o que em nosso conceito a salva, o que nos comove uma fibra oculta do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Veja como s&atilde;o as coisas. Eu, se tivesse de fazer um aforismo sobre<br \/>\n    o pudor, proporia o seguinte para substituir o que analiso: Toda a mulher<br \/>\n    que n&atilde;o cora ou &eacute; idiota ou desfa&ccedil;ada.<\/p>\n<p> Uma n&atilde;o cora porque seus instintos embotados n&atilde;o lhe facultam<br \/>\n    essas delicadas impress&otilde;es, exclusivas das organiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais perfeitas, tem a inoc&ecirc;ncia da ovelha &#8212; inoc&ecirc;ncia mais<br \/>\n    que modesta para inspirar poetas. Outra n&atilde;o cora porque um perfeito<br \/>\n    conhecimento do mal a familiarizou de h&aacute; muito com ele; s&atilde;o<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es antigas; estas n&atilde;o t&ecirc;m inoc&ecirc;ncia.<br \/>\n    Se estivessem no teatro que V. S.a imaginou, esteja certo que se haviam de<br \/>\n    rir &agrave;s esc&acirc;ncaras, ou baixar hipocritamente os olhos, corar &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o poderiam; &eacute; um recurso de que n&atilde;o disp&otilde;e<br \/>\n    quem quer. &Eacute; pois pela candura destas que V. S.&raquo; opta? Deve ser,<br \/>\n    sob pena de se mostrar inconsequente. E tem alma para preferir essa candura<br \/>\n    &agrave; castidade, que &eacute; a inoc&ecirc;ncia que cora? Dir-se-ia que<br \/>\n    V. S.&quot; pertence a uma seita de literatos que, por comodidade pr&oacute;pria,<br \/>\n    exigem tais condi&ccedil;&otilde;es a uma rapariga para lhe passarem diploma<br \/>\n    de inoc&ecirc;ncia, que o mesmo vale negar a exist&ecirc;ncia dessa qualidade<br \/>\n    neste mundo sublunar. Ora negada ela, ficam esses senhores mais -&agrave;<br \/>\n    vontade por n&atilde;o terem tantas contempla&ccedil;&otilde;es a guardar.<\/p>\n<p> Alphonse Kajrr, por exemplo, que nunca foi modelo em platonismos e que,<br \/>\n    estou certa, V. S.a n&atilde;o quereria tomar como norma em costumes, dir-se-ia,<br \/>\n    ao ouvi-lo, o homem mais pechoso em mat&eacute;rias de virgindade, que ainda<br \/>\n    apareceu no mundo e, se n&atilde;o, oi&ccedil;a esses versos, que s&atilde;o<br \/>\n    dele: descrevem-nos a virgem que diz imaginar.<\/p>\n<p><b>Vierge d&#8217;&acirc;me et de corps, ignorante, ignor&egrave;e Vierge de ses<br \/>\n    propres d&egrave;sirs, Vierge qu&#8217;aucun n&#8217;a vue et d&egrave;sir&egrave;e, Vierge<br \/>\n    qui n&#8217;a jamais &eacute;t&ecirc; m&ecirc;me effleur&ecirc;e Par de iointains<br \/>\n    soupirsl<\/b><\/p>\n<p>E mais adiante:<\/p>\n<p><b>Car je n&#8217;appelle pas vierge une jeune filie Qui donne des cheveux &agrave;<br \/>\n    son petit cousin Ou qui chaque matin se rencontre et babille Avec un ecolier<br \/>\n    dans le fond du jardin; J&#8217;n&#8217;apelle pas vierge une filie qui donne<\/b><\/p>\n<p><b> Un coup d&#8217;ceil au miroir sit&ocirc;t que quelqu&#8217;un sonne.<\/b><\/p>\n<p>  <b> <\/p>\n<p> Pour celui-ci d&#8217;abord, pour Ia premi&egrave;re fois Elle voulait &ecirc;tre<br \/>\n    belie et par&egrave;e; Par cet autre sa main en dansant fut serr&egrave;e;<br \/>\n    Ceiui-la vit sa jambe un certain jour qu&#8217;au bois On montait &agrave; cheval;<br \/>\n    un autre eut un sourire; Un autre s&#8217;empara, tout en feignant de rire D&#8217;une<br \/>\n    fleur morte sur son sein; Un autre ose baiser sa main Dans ces jeux innocents,<br \/>\n    source de tant de fi&egrave;vres Qui troub&iacute;ent les jeunes sens Un monsieur<br \/>\n    a bais&eacute;, devant les grands parents Tout en baissant la joue, un peu<br \/>\n    la com des l&egrave;vres;<\/p>\n<p>  <\/b> <\/p>\n<p><b> On a rougi vingt fois, d&#8217;un gest ou d&#8217;un rega rd ; On a recu des vers<br \/>\n    et rendu de la prose&#8230;<\/b><\/p>\n<p>Conceda-me que n&atilde;o prossiga na cita&ccedil;&atilde;o, para n&atilde;o<br \/>\n    ser for&ccedil;ada a corar &#8212; o que me faria descer consideravelmente<br \/>\n    no conceito de V. S.&deg;.<\/p>\n<p> O que, de mim para mim fiquei julgando, ao ler esses versos, foi que t&atilde;o<br \/>\n    extremas exig&ecirc;ncias tinham por certo um fim reservado, o qual me parece<br \/>\n    haver descoberto, e vem a ser: que elevando t&atilde;o alto o tipo de absoluta<br \/>\n    virgindade, t&atilde;o alto que foge da Terra; para se misturar com os anjos,<br \/>\n    o escritor pretendia talvez desculpar-se a si pr&oacute;prio do pouco respeito<br \/>\n    que lhe impunham as virgindades reais, que se encontram neste mundo, de onde<br \/>\n    muito h&aacute; se retirou o absoluto; queria talvez abafar remorsos que lhe<br \/>\n    falavam de tantas sacrificadas por ele, em seus momentos de irreverente cepticismo.<\/p>\n<p> E esta considera&ccedil;&atilde;o me fez formular o seguinte aforismo, que<br \/>\n    ofere&ccedil;o hoje como pendant ao de V. S.* sobre o pudor feminino: &#8212;<br \/>\n    Os mais pechosos em mat&eacute;rias de inoc&ecirc;ncia e virgindade s&atilde;o<br \/>\n    justamente os menos dispostos a respeit&aacute;-las.<\/p>\n<p> N&atilde;o queira, por&eacute;m, ver nisto a menor alus&atilde;o pessoal.<br \/>\n    Eu abro uma excep&ccedil;&atilde;o para o delicado folhetinista do &laquo;Jornal<br \/>\n    do Porto&raquo;, semelhante &agrave;quela em que teve a bondade de incluir<br \/>\n    as senhoras portuenses.<\/p>\n<p> Vamos adiante Estou suspeitando que V. S.* h&aacute;-de ter j&aacute; feito<br \/>\n    reparo em me ver tanto em dia com os escritos da Bo&eacute;mia liter&aacute;ria<br \/>\n    de Paris, e ter&aacute; feito suas considera&ccedil;&otilde;es, repletas de<br \/>\n    bom senso, sobre a inconveni&ecirc;ncia de tais leituras para uma senhora.<br \/>\n    N&atilde;o pode deixar de estar pensando isto, uma vez que &eacute; de opini&atilde;o<br \/>\n    que &laquo;um livro escondido no estojo de costura ou aberto na gaveta do<br \/>\n    toucador, pode fazer ajuizar de como pensa nesse dia a dona do toucador e<br \/>\n    do estojo&raquo;. Asser&ccedil;&atilde;o, que voltarei a discutir mais tarde.<\/p>\n<p> Por agora, deixe-me observar-lhe que sou m&atilde;e, que tamb&eacute;m creio,<br \/>\n    como o senhor, &laquo;que um mau livro &eacute; mais perigoso do que geralmente<br \/>\n    se julga&raquo; e &eacute; esse talvez o &uacute;nico ponto em que estamos<br \/>\n    de acordo, por ser uma verdade antiga e quase uma banalidade &#8212; e que<br \/>\n    por isso preciso conhec&ecirc;-los, esses maus livros, para os arredar do<br \/>\n    quarto de minhas filhas.<\/p>\n<p> Dos bons livros tem-se dito muita vez: La m&egrave;re en permettra la lecture<br \/>\n    &agrave; sa filie.<\/p>\n<p> Isto faz supor que as m&atilde;es precisam ler tudo para saber escolher.<\/p>\n<p> E por estas considera&ccedil;&otilde;es sou naturalmente conduzida a examinar<br \/>\n    outra das proposi&ccedil;&otilde;es de V. S.*.<\/p>\n<p> &laquo;A mulher virtuosa, que acompanha e convive com a mulher leviana,<br \/>\n    tem por for&ccedil;a defeito grave; ou lhe tomou o exemplo ou se julga exemplar.<br \/>\n    Uma coisa exclui a outra mas qualquer delas &eacute; p&eacute;ssima.&raquo;<br \/>\n    Pobres m&atilde;es que chegastes a reconhecer em vossas filhas os graves sintomas<br \/>\n    da leviandade; tendes de hoje por diante de cessar a vossa aben&ccedil;oada<br \/>\n    obra de educa&ccedil;&atilde;o sob pena de se vos apegar o mal que pretend&iacute;eis<br \/>\n    curar ou serdes tidas na conta de presumidas.<\/p>\n<p> Eu tenho duas filhas, Ernestina e Lu&iacute;sa Ernestina &eacute; de uma<br \/>\n    sisudez de car&aacute;cter, de uma const&acirc;ncia nos afectos, de uma perseveran&ccedil;a<br \/>\n    nos sentimentos bons, que a mim e a todos que a conhecem, imp&otilde;e, apesar<br \/>\n    dos seus quinze anos apenas, uma certa venera&ccedil;&atilde;o. Lu&iacute;sa<br \/>\n    &eacute; boa tamb&eacute;m, mas afectada de-leviandade, que cedo principiou<br \/>\n    a inquietar aquela pobre cabe&ccedil;a. Sei que &eacute; vol&uacute;vel, sinto<br \/>\n    apreens&otilde;es pelo seu futuro, temo, se temo! que pode vir a causar o<br \/>\n    infort&uacute;nio dos que lhe confiarem o seu amor, fazendo-os sacrificar,<br \/>\n    a um mero capricho, a uma fantasia moment&acirc;nea, a mais violenta paix&atilde;o<br \/>\n    que se possa inspirar.<\/p>\n<p> E sabe a &uacute;nica esperan&ccedil;a que me restava ainda? Era a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    ben&eacute;fica de Ernestina; confiava nela para dominar as m&aacute;s tend&ecirc;ncias<br \/>\n    da irm&atilde;, n&atilde;o por meio de pr&eacute;dicas presumidas e rid&iacute;culas,<br \/>\n    mas com a silenciosa eloqu&ecirc;ncia do exemplo, g&eacute;nero de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que, sem repararmos, pouco a pouco se apodera de n&oacute;s e cedo nos tem<br \/>\n    avassalado inteiramente, operando em nossos pensamentos uma completa metamorfose.<\/p>\n<p> Sempre que as via juntas, as duas irm&atilde;s, parecia-me aquilo a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma vista providencial, imaginava o anjo a purificar a pecadora. E hei-de<br \/>\n    acaso, de hoje em diante, ver em lugar disso a pecadora a contaminar o anjo?<br \/>\n    N&atilde;o; &eacute; desconsoladora de mais essa maneira de pensar. Eu continuarei<br \/>\n    sem receio a reunir as duas irm&atilde;s, folgarei sempre que as vir juntas;<br \/>\n    porque ainda acredito no poder do bem e espero que Ernestina h&aacute;-de<br \/>\n    vencer.<\/p>\n<p> Agora seguem-se algumas observa&ccedil;&otilde;es acerca da mulher, colhidas<br \/>\n    no teatro. Permita-me desde j&aacute; que lhe diga que foi p&eacute;ssima<br \/>\n    a escolha do terreno para as explora&ccedil;&otilde;es a que V. S.a se prop&ocirc;s.<\/p>\n<p> O teatro &eacute; f&eacute;rtil em observa&ccedil;&otilde;es para n&oacute;s<br \/>\n    outras, que n&atilde;o para os senhores. A plateia! Que mau posto de observa&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Basta reparar na posi&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada e violenta em que s&atilde;o<br \/>\n    obrigados a manterem-se os homens que aspiram a observar-nos no teatro.<\/p>\n<p> Em p&eacute;, com a cabe&ccedil;a em fadigosa extens&atilde;o, o bin&oacute;culo<br \/>\n    sustentado a uma altura, necessariamente incomodativa, as costas voltadas<br \/>\n    para o palco, circunst&acirc;ncia que os obriga a interromper o seu exame<br \/>\n    durante todo o tempo do espect&aacute;culo para s&oacute; o continuar nos<br \/>\n    intervalos, &eacute; essa uma esp&eacute;cie de observa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    astr&oacute;logo, falsa como todas as deles.<\/p>\n<p> N&oacute;s por&eacute;m estudamos-vos dos camarotes o mais comodamente poss&iacute;vel.<\/p>\n<p> Basta-nos baixar os olhos, toda a plateia nos fica aos p&eacute;s; observamos-<br \/>\n    vos justamente quando menos o suspeitais, quando, distra&iacute;dos, esqueceis<br \/>\n    o vosso belo ar de conven&ccedil;&atilde;o e, sem o saber, vos achais revestidos<br \/>\n    das apar&ecirc;ncias que melhor se harmonizam com o vosso car&aacute;cter<br \/>\n    e indiscretamente o denunciam. Oh! n&oacute;s temos nesse ponto uma superioridade<br \/>\n    inquestion&aacute;vel e s&oacute; a cedemos aos espectadores das varandas.<\/p>\n<p> Esses sim! O folhetinista deve trepar ali, se quiser estudar os mist&eacute;rios<br \/>\n    de uma noite de teatro; l&aacute; &eacute; o terreno dos verdadeiros fil&oacute;sofos.<\/p>\n<p> Aquelas gargalhadas estrepitosas, que dali rebentam de quando em quando,<br \/>\n    nada vos dizem? Pois a mim causam-me um efeito formid&aacute;vel! N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; sem um certo terror que &agrave;s vezes ouso profundar as vistas<br \/>\n    nas meias trevas daquele recinto, de onde com olhos de &aacute;guia, vos contemplam<br \/>\n    desapiedados observadores! Doem-me bem mais as tais gargalhadas do que me<br \/>\n    afligem todas as vossas baterias de bin&oacute;culos impertinentemente assestados<br \/>\n    contra os nossos camarotes.<\/p>\n<p>Pobre gente das plateias! m&iacute;seros diletantes da superior! mostrai-<br \/>\n    -nos o resultado das vossas observa&ccedil;&otilde;es, for&ccedil;osamente<br \/>\n    mesquinhas.<\/p>\n<p> A&iacute; est&atilde;o duas: 1.&quot; &#8212; &laquo;A mulher que, na &oacute;pera,<br \/>\n    compassa o andamento da m&uacute;sica com o bambear da cabe&ccedil;a ou com<br \/>\n    o rufo dos dedos no parapeito do camarote, ou &eacute; mestra de m&uacute;sica,<br \/>\n    ou &eacute; pretensiosa.&raquo; E foi para isto que passastes uma noite inteira<br \/>\n    a incomodar-nos com o vosso bin&oacute;culo? Realmente n&atilde;o valia a<br \/>\n    pena.<\/p>\n<p> Esta &oacute; uma das tais leis da fisiologia da mulher que passam por serem<br \/>\n    comuns ao homem e portanto n&atilde;o servem para caracterizar o sexo.<\/p>\n<p> Contudo &eacute; necess&aacute;rio em todo o caso fazer-lhe uma modifica&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    pois tenho bons fundamentos para pensar que os que procedem na &oacute;pera,<br \/>\n    como V. S.* diz, s&atilde;o os mais crassamente ignorantes dos principais<br \/>\n    rudimentos de arte. Deixe ir s&oacute; o pretensioso e suprima o professor<br \/>\n    de m&uacute;sica e ter-se-&atilde;o encontrado as nossas observa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas, nesse sentido, quanto mais rica &eacute; a minha ci&ecirc;ncia! Que<br \/>\n    belos aforismos n&atilde;o poderia eu fazer a respeito: dos que entram na<br \/>\n    plateia de chap&eacute;u na cabe&ccedil;a, quando o pano j&aacute; est&aacute;<br \/>\n    em cima, despertando-nos a aten&ccedil;&atilde;o com o ruidoso bater de seus<br \/>\n    tac&otilde;es; dos que murmuram uns bravos em voz cavernosa, assim como um<br \/>\n    aparte de tirano, e isto nos momentos em que o sil&ecirc;ncio &eacute; geral;<br \/>\n    dos que fixam impertinentemente o bin&oacute;culo na prima-dona, ou na cantora<br \/>\n    predilecta do p&uacute;blico, a darem-se as apar&ecirc;ncias de preferidos<br \/>\n    ou profundamente engolfados nas intrigas de bastidor; dos que desviam os olhos<br \/>\n    do palco para os fitarem nos camarotes justamente quando todos seguem mais<br \/>\n    &aacute;vidos o espect&aacute;culo; dos que trauteiam a letra da cavatina<br \/>\n    antes que os cantores, esperando pelo compasso, voltem &agrave; boca de cena<br \/>\n    do seu passeio obrigado aos bastidores do fundo e principiem a gargantear;<br \/>\n    dos que de vez em quando fazem uma cara feia, dando a entender que o seu ouvido<br \/>\n    admiravelmente ac&uacute;stico, percebera uma desafina&ccedil;&atilde;o ignorada<br \/>\n    pelos profanos; dos que se levantam antes dos fins dos actos, demonstrando<br \/>\n    que, sem a advert&ecirc;ncia do apito, j&aacute; sabem quando eles est&atilde;o<br \/>\n    pr&oacute;ximos a terminar; dos que percorrem numa noite os sessenta camarotes<br \/>\n    das tr&ecirc;s primeiras ordens, e nem sequer elevam as vistas para a quarta,<br \/>\n    como se ignorassem at&eacute; a sua exist&ecirc;ncia, dos que dizem meia d&uacute;zia<br \/>\n    de palavras em italiano e tratam familiarmente com o artista de moda, etc.<\/p>\n<p> Era obra esta para mais vagar e n&atilde;o a desenvolverei por agora.<\/p>\n<p> Vamos &agrave; 2.* observa&ccedil;&atilde;o: &#8212; &laquo;Aquela que ao<br \/>\n    findar o espect&aacute;culo vira as costas ao seu marido e levanta silenciosamente<br \/>\n    os bra&ccedil;os para receber a capa que sabe j&aacute; com certeza ele lhe<br \/>\n    lan&ccedil;ar&aacute; nos ombros, &eacute; mulher de mau g&eacute;nio que<br \/>\n    domina e subjuga o osso do seu osso e de quem &eacute; l&iacute;cito suspeitar<br \/>\n    que o espanca muita vez.&raquo;<\/p>\n<p>Queira confrontar essa proposi&ccedil;&atilde;o com a reciproca que ofere&ccedil;o<br \/>\n    a V. S.\\ &#8212; &laquo;O marido que, ao findar o espect&aacute;culo, n&atilde;o<br \/>\n    tem a delicadeza de lan&ccedil;ar nos ombros de sua mulher a capa de salda,<br \/>\n    &eacute; homem malcriado, que despreza e maltrata o osso de seu osso e de<br \/>\n    quem &eacute; l&iacute;cito suspeitar que a espanca muitas vezes.&raquo; Sendo<br \/>\n    os dois aforismos verdadeiros, todos os m&eacute;nages devem ser de uma amabilidade!&#8230;<\/p>\n<p> Quer-me antes parecer que ambos s&atilde;o falsos e que entre casados reina<br \/>\n    em geral a mais beatifica harmonia e invej&aacute;vel conc&oacute;rdia.<\/p>\n<p> H&aacute; mais uma observa&ccedil;&atilde;o relativa aos livros, &agrave;<br \/>\n    qual j&aacute; aludi. Essa &eacute; recolhida fora dos teatros.<\/p>\n<p> Nada nos revela tamb&eacute;m de caracter&iacute;stico a respeito das mulheres,<br \/>\n    por ser comum e at&eacute; mais peculiar aos homens.<\/p>\n<p> E sen&atilde;o, diga-me: n&atilde;o v&ecirc; por a&iacute; tantos que se<br \/>\n    julgam Chattertons ? tantos que macaqueiam os her&oacute;is de Byron? outros<br \/>\n    que batem na cabe&ccedil;a, como Andr&eacute; Ch&oacute;nier e teimam, contra<br \/>\n    a opini&atilde;o p&uacute;blica, qu&#8217;il y a pourtant quelque chose l&agrave;<br \/>\n    ? N&atilde;o os houve t&atilde;o tolos que se fizeram salteadores, depois<br \/>\n    de lerem Schiller; ou se suicidaram para tomarem as rom&acirc;nticas apar&ecirc;ncias<br \/>\n    de Werther? Extremos de imita&ccedil;&atilde;o de que uma mulher nunca seria<br \/>\n    capaz.<\/p>\n<p> Permita-me que passe por hoje em claro a observa&ccedil;&atilde;o relativa<br \/>\n    aos dentes negros e &agrave;s bocas grandes porque, quando se discute abstractamente<br \/>\n    a mulher&#8212;a mulher-tipo&#8212;deve supor-se sempre bela, como j&aacute;<br \/>\n    disse no princ&iacute;pio da minha carta.<\/p>\n<p> A respeito das mulheres faladoras e das mudas, o que, em tudo o que V. S.&quot;<br \/>\n    disse h&aacute; de verdade &eacute; admiravelmente aplic&aacute;vel tamb&eacute;m<br \/>\n    ao sexo masculino. E reparo at&eacute; que &eacute; lustamente aos folhetinistas<br \/>\n    que parecem referir-se os caracteres apontados por V. S.&quot; &laquo;Homem<br \/>\n    que fala muito de si e de todos e ri descomedidamente de tudo, incluindo as<br \/>\n    coisas mais s&eacute;rias e l&uacute;gubres&raquo;.<\/p>\n<p> As conclus&otilde;es que V. S.a tirar portanto a respeito de tais mulheres,<br \/>\n    eu as aplicarei pela minha parte a tais homens.<\/p>\n<p> Em quanto ao sil&ecirc;ncio das mulheres remeto V. S.&quot; para a m&aacute;xima<br \/>\n    grega, que dizia ser essa qualidade o melhor ornato do sexo.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>D&gt;ana de Aveleda<\/b><\/p>\n<h2>COISAS INOCENTES<\/h2>\n<p align=\"right\">A filosofia e a mulher&#8212;Sistemas empregados para descobrir<br \/>\n    a verdade. &#8212; Transcrito, com autoriza&ccedil;&atilde;o do seu autor,<br \/>\n    do Jornal do Porto, de 21 de Janeiro de 1863,<\/p>\n<p>&laquo;N&atilde;o meiabalan&ccedil;o eu a decidir at&eacute; que ponto um<br \/>\n    homem pode conhecer outro homem, e muito menos, se &eacute; poss&iacute;vel,<br \/>\n    que um homem conhe&ccedil;a uma mulher.<\/p>\n<p> D&aacute;-se uma coisa: O nosce te ipsum tem atravessado s&eacute;culos<br \/>\n    sempre venerado pelos estudantes de l&oacute;gica como o verbo supremo da<br \/>\n    filosofia copiosamente transcendental e bojudamente s&eacute;ria.<\/p>\n<p> Aquela compendiosa senten&ccedil;a do fil&oacute;sofo &eacute; ainda hoje<br \/>\n    tida por alguns crendeiros simpl&oacute;rios e ainda por um ou outro engenho<br \/>\n    agudo, mas de bom comer, como o teorema sumo em que pode p&ocirc;r a mira,<br \/>\n    a atrevida, a esfomeada, a insaci&aacute;vel ci&ecirc;ncia humana.<\/p>\n<p> Pois se o meu curto ju&iacute;zo me n&atilde;o engana, a raz&atilde;o da<br \/>\n    popularidade deste preceito est&aacute; na rasteira faculdade que ele barateia<br \/>\n    a qualquer jo&atilde;o-ningu&eacute;m de considerar-se impunemente s&aacute;bio.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade, n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida alguma em ser verdade,<br \/>\n    que os s&aacute;bios desmereceram muito a considera&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica<br \/>\n    e que o respeito que a gente lhes tem anda muito caldeado de galhofa depois<br \/>\n    que ultimamente se descobriu que eles n&atilde;o prestavam para nada, os magan&otilde;es<br \/>\n    dos s&aacute;bios.<\/p>\n<p> Mas com ser pequena e desasseada esta pobre vaidade da sabedoria, aqueles<br \/>\n    a querem que n&atilde;o t&ecirc;m coisa melhor para desejar.<\/p>\n<p> Pelo que foram os ignorantes, segundo eu alcan&ccedil;o, que deram ao nosce<br \/>\n    te ipsum a celebridade que lhe anda aforada.<\/p>\n<p> Tanto que o ouviram gostaram daquilo, quiseram-no para si, e adoptaram-no<br \/>\n    para ornamento e lustre da sua intelig&ecirc;ncia e ju&iacute;zo, assim como<br \/>\n    tamb&eacute;m pegaram na moda das cal&ccedil;as largas as pessoas cambaias<br \/>\n    e de p&eacute;s volumosos. &laquo;Vamos, isto disfar&ccedil;a&raquo; foi o<br \/>\n    sentido deles.<\/p>\n<p> Estas grandes verdades que passam em julgado, e s&atilde;o confirmadas por<br \/>\n    senten&ccedil;a no tribunal da opini&atilde;o p&uacute;blica, por via de regra,<br \/>\n    s&atilde;o mentiras. Haja vista aos rif&otilde;es. Eu lembro-me apenas de<br \/>\n    um que seja absolutamente verdadeiro, que &eacute; o seguinte: D&aacute; Deus<br \/>\n    o frio conforme a roupa. &Eacute; rigorosamente assim: est&aacute; provado<br \/>\n    que quem tem pouca roupa tem muito frio e quem tem muita n&atilde;o tem frio<br \/>\n    nenhum. &#8212; Este &eacute; excep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ora no fim de tudo conhecer-se a si mesmo devemos desenganar- nos de que<br \/>\n    &eacute; f&aacute;cil e vulgar&iacute;ssima coisa. O que &eacute; peregrino,<br \/>\n    excepcional, rar&iacute;ssimo, &eacute; haver homem que se n&atilde;o conhe&ccedil;a<br \/>\n    perfeita e cabalmente.<\/p>\n<p> Encontra-se um toleir&atilde;o com fumos de avisado.<\/p>\n<p> Vemo-lo entrar em todas as discuss&otilde;es de chap&eacute;u na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    como conhecido velho, avassalar a conversa&ccedil;&atilde;o, pux&aacute;-la<br \/>\n    para diante de si, trinchar o assunto para os convivas; e &eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    o caso de cuidar a gente que aquele homem se, n&atilde;o conhece. Conhece<br \/>\n    ! conhece ! e sabe profundamente que &eacute; um parvo. Olhem l&aacute; se<br \/>\n    ele se apresenta alguma vez qual &eacute;. se ele se faz bonacheir&atilde;o<br \/>\n    ou simples! Faz-se atilado &eacute; o que ele se faz; faz-se vivo, sagaz,<br \/>\n    fura-paredes. Atabafar a pen&uacute;ria de dentro e &egrave;ncampar-nos como<br \/>\n    possa o fingimento de fora &eacute; no que ele cuida.<\/p>\n<p> E esse cuidar &eacute; de tolo, mas de tolo que se conhece.<\/p>\n<p> H&aacute; em todos os cora&ccedil;&otilde;es uma latente corda sumamente<br \/>\n    boa e uma outra sumamente m&aacute; que ningu&eacute;m mostra aos seus amigos<br \/>\n    mais particulares e mais &iacute;ntimos. Costumamos tanto as nossas &iacute;ndoles<br \/>\n    &agrave; estreiteza de molduragem comum e m&atilde;e que j&aacute; nos envergonhamos<br \/>\n    de parecermos t&atilde;o bons como &agrave;s vezes somos, e t&atilde;o maus<br \/>\n    como frequentemente nos vemos.<\/p>\n<p> Quantos milh&otilde;es de homens ter&atilde;o passado a vida a fingir! Quantos<br \/>\n    idearam um tipo que lhes pareceu bom e consumiram depois a exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    trazendo ajustada &agrave; face a m&aacute;scara daquele her&oacute;i filho<br \/>\n    da sua imagina&ccedil;&atilde;o! Quantos ter&atilde;o rido e quantos chorado<br \/>\n    ao cotejar perante a consci&ecirc;ncia o que intimamente s&atilde;o e o que<br \/>\n    s&atilde;o no mundo! Venera a sociedade este que morreu esmagado pelo sobrepeso<br \/>\n    de uma honradez med&iacute;ocre, e que, obedecendo ao natural pendor da vontade,<br \/>\n    teria desafogadamente sido um salteador insigne; e &eacute; desprezado aquele,<br \/>\n    transviado em diversa trilha, que mais mau &eacute; pelo que finge ser do<br \/>\n    que por aquilo que realmente &eacute;.<\/p>\n<p> Dizia o Agostinho de Macedo, metendo o caso a chacota, segundo era useiro,<br \/>\n    que Larochefoucauld era moquenco como um padre da companhia de Jesus. N&atilde;o<br \/>\n    quero desfazer das mordeduras de anavalhada mem&oacute;ria com que o c&eacute;lebre<br \/>\n    cr&iacute;tico assinalava o transeunte, mas nunca puderam nem o Jos&eacute;<br \/>\n    Agostinho, nem o pr&oacute;prio Lamartine, convencer- me a mim de que n&atilde;o<br \/>\n    fosse um discreto pensador aquele duque Larochefoucauld. Ainda me recordo<br \/>\n    que l&aacute; reprega ele a minha assevera&ccedil;&atilde;o em uma not&aacute;vel<br \/>\n    m&aacute;xima, cuja subst&acirc;ncia &eacute; esta: O h&aacute;bito de encobrir<br \/>\n    os nossos pensamentos muitas vezes faz com que os ocultemos a n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p> Ocultamos e fechamos os olhos e dizemo-nos at&eacute; que os n&atilde;o<br \/>\n    vemos; &#8212; ressaltos da nossa vaidade tantas vezes atarantada entre o<br \/>\n    aplauso do mundo, que nos laureia, e a &iacute;ntima corrima&ccedil;a da consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    que nos escarni&ccedil;a e apupa! Ora v&aacute; l&aacute; agora cada um conhecer<br \/>\n    assim os outros como se conhece a si! Os escritores que melhor demonstram<br \/>\n    conhecer o cora&ccedil;&atilde;o humano fizeram um estudo de introvers&atilde;o,<br \/>\n    e leram na sua alma os ditames da doutrina que pregoam.<\/p>\n<p> Isto &eacute; estudar o cora&ccedil;&atilde;o, isto &eacute; talvez conhecer<br \/>\n    o homem, mas a grande ci&ecirc;ncia, a que dificilmente se atinge, e que mais<br \/>\n    importava alcan&ccedil;ar, tem outro fim. O seu objecto &eacute; conhecer<br \/>\n    um certo homem e principalmente conhecer uma certa e determinada mulher.<\/p>\n<p> Alphonse Karr, o conhecido autor de dois excelentes e bem pensados livros<br \/>\n    Les lemmes e Encore les femmes consta que se divorciara no fim do primeiro<br \/>\n    ano de casado. O simp&aacute;tico escritor conhecia as mulheres&#8230; excepto<br \/>\n    uma, a que mais lhe convinha conhecer, a que ele escolheu para si.<\/p>\n<p> Moli&egrave;re, que t&atilde;o fundamente conhecia o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humano e a sociedade, sabe-se que n&atilde;o gozou a felicidade conjugal.<\/p>\n<p> Labruy&egrave;re, o imortal autor dos Caracteres, receou tanto iludir-se<br \/>\n    que se conservou celibat&aacute;rio.<\/p>\n<p> Todos os moralistas do meu conhecimento consumiram a exist&ecirc;ncia a<br \/>\n    estudar a mulher, a qual mulher dos moralistas, c&aacute; no meu entender,<br \/>\n    &eacute; um mito, &eacute; um ser mitol&oacute;gico, &eacute; um ente de conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que eu n&atilde;o encontrei nunca no mundo.<\/p>\n<p> O resultado &eacute; que as opini&otilde;es divergem porque se n&atilde;o<br \/>\n    conhece o assunto, os tiros encontram-se porque se n&atilde;o v&ecirc; o alvo.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o h&aacute; argumento nem a favor nem contra, que n&atilde;o<br \/>\n    esteja refutado.<\/p>\n<p> Que importa que Malherbe escrevesse esta linda frase a favor da mulher:<br \/>\n    &laquo;Deus, que se arrependeu de fazer o homem, n&atilde;o se arrependeu<br \/>\n    nunca de ter feito a mulher?&raquo; Acodem a isso os pessimistas que foi justamente<br \/>\n    para se desfazer do primeiro que o Criador imaginou a segunda; e Arist&oacute;teles<br \/>\n    l&aacute; diz claramente que a natureza s&oacute; produz mulheres, quando<br \/>\n    n&atilde;o consegue fazer homens. O pr&iacute;ncipe de Ligne assegura que,<br \/>\n    seguindo-se durante a sua vida cem pessoas de cada sexo h&atilde;o-de encontrar-se<br \/>\n    vinte vezes mais virtudes no sexo feminino do que no sexo feio, e Salom&atilde;o<br \/>\n    assevera-nos que em mil homens encontrou um bom, e que em todas as mulheres<br \/>\n    n&atilde;o encontrou boa nenhuma.<\/p>\n<p> Balzac, a quem se n&atilde;o pode negar toda a compet&ecirc;ncia nestas<br \/>\n    mat&eacute;rias, Balzac, que &eacute; geralmente tido como um dos mais sagazes<br \/>\n    observadores da sociedade e do cora&ccedil;&atilde;o humano, diz qu&egrave;&#8217;<br \/>\n    a mulher &oacute; a cria&ccedil;&atilde;o transit&oacute;ria entre o homem<br \/>\n    e o anjo, e chama-lhe a mais perfeita das criaturas, ao passo que S&atilde;o<br \/>\n    Jer&oacute;nimo, grande santo e grande doutor, escreveu que a mulher de boa<br \/>\n    &iacute;ndole &eacute; mais rara do que a esfinge.<\/p>\n<p> Espero eu que as minhas am&aacute;veis leitoras se n&atilde;o sensibilizem<br \/>\n    rom os argumentos que meramente reproduzo. N&atilde;o se entende o que fica<br \/>\n    dito com nenhuma de V. Ex.as. Tudo isto &eacute; a respeito da mulher, quer<br \/>\n    dizer: a respeito do mito, que &eacute; como se diss&eacute;ssemos a respeito<br \/>\n    da Lua.<\/p>\n<p> No tempo em que me dei a estes consp&iacute;cuos estudos segui eu uma senda<br \/>\n    diversa e procurei conhecer por mera observa&ccedil;&atilde;o a fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    predominante no car&aacute;cter das pessoas que via, antes de falar-lhes ou<br \/>\n    de perguntar quem fossem.<\/p>\n<p> O m&eacute;todo para estes trabalhos &eacute; o anal&iacute;tico puro. A<br \/>\n    dificuldade do sistema consiste em descobrir as grandes causas nos efeitos<br \/>\n    m&iacute;nimos, em conhecer o gigante pela unha.<\/p>\n<p> Vou com inicicar ao leitor o resultado das minhas observa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    resutado por cuja infalibilidade eu me responsabilizo porque est&aacute; j&aacute;<br \/>\n    confirmada e consagrada pelos factos.<\/p>\n<p> Pensa-se geralmente que o rubor que sobe &agrave;s faces da donzela &eacute;<br \/>\n    um respiro de candura que lhe perfuma como olores do C&eacute;u a alma virgem.<br \/>\n    Eu estabele&ccedil;o a respeito do rubor o axioma seguinte: Toda a mulher<br \/>\n    que cora n&atilde;o &eacute; inocente.<\/p>\n<p> Inoc&ecirc;ncia na acep&ccedil;&atilde;o em que tomamos a palavra, quer<br \/>\n    dizer ignor&acirc;ncia do que &eacute; impuro. Quem cora ao ouvir uma impud&ecirc;ncia,<br \/>\n    claro &eacute; que distingue, e quem distingue duas coisas conhece-as ambas.<\/p>\n<p> Tenho notado que uma crian&ccedil;a de quatro anos n&atilde;o cora nunca,<br \/>\n    e que as meninas s&oacute; principiam a corar depois que v&atilde;o para a<br \/>\n    mestra.<\/p>\n<p> N&atilde;o se pense que eu venho aqui a menosprezar o pudor. Oh! eu adoro<br \/>\n    o pudor!&#8230; mas prefiro a inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Duas meninas igualmente bem educadas, igualmente conhecedoras e respeitadoras<br \/>\n    da sua dignidade ouvem no palco de um teatro uma dessas frases amb&iacute;guas<br \/>\n    criadas por gamenho indecente e expostas em fars&iacute;cula de cordel para<br \/>\n    regalo de paladares broeiros; a plateia escancara uma gargalhada estrepitosamente<br \/>\n    galega; uma das meninas corou, a outra p&ocirc;s-se a rir daquela bulha. Pensem<br \/>\n    os outros a seu modo, eu opto pela candura da que riu, e deixo que v&aacute;<br \/>\n    jurar quem quiser a inoc&ecirc;ncia da que est&aacute; vermelha.<\/p>\n<p> Releva que estejamos precavidos sempre contra estes abus&otilde;es, que<br \/>\n    s&atilde;o copiosos e vulgar&iacute;ssimos, como brevemente demonstrarei em<br \/>\n    um cap&iacute;tulo ad hoc.<\/p>\n<p> A verdade apresenta caracter&iacute;sticos infal&iacute;veis e de todo o<br \/>\n    ponto concludentes.<\/p>\n<p> Por exemplo: A mulher que na &oacute;pera compassa o andamento da m&uacute;sica<br \/>\n    com o bambear da cabe&ccedil;a ou com o rufo dos dedos no parapeito do camarote<br \/>\n    ou &eacute; mestra de m&uacute;sica ou pretensiosa. <\/p>\n<p>A mulher virtuosa que acompanha e convive com mulher leviana tem por for&ccedil;a<br \/>\n    defeito grave: &#8212; ou lhe tomou o exemplo, ou se julga exemplar. Uma coisa<br \/>\n    encobre a outra, mas qualquer delas &eacute; p&eacute;ssima.<\/p>\n<p> Aquela que, ao findar o espect&aacute;culo vira as costas a seu marido e<br \/>\n    levanta silenciosamente os bra&ccedil;os para receber a capa que sabe j&aacute;<br \/>\n    com certeza que ele lhe lan&ccedil;ar&aacute; nos ombros, &eacute; mulher<br \/>\n    de mau g&eacute;nio, que domina e subjuga o osso do seu osso, e de quem &eacute;<br \/>\n    l&iacute;cito suspeitar que o espancou alguma vez. * As meninas contemplativas<br \/>\n    que l&ecirc;em romances, ou se julgam semelhantes &agrave;s hero&iacute;nas<br \/>\n    deles ou procuram fingir que o s&atilde;o. Daqui resulta que pelo livro escondido<br \/>\n    no estojo da costura ou aberto no toucador, podemos ajuizar como pensa nesse<br \/>\n    dia a dona do toucador e do estojo.<\/p>\n<p> Ainda resulta outra coisa, mas essa n&atilde;o vem ao ponto, e &eacute;<br \/>\n    que um livro mau &eacute; muito mais perigoso do que geralmente se cuida.<\/p>\n<p> Os bonitos dentes e a boca pequena t&ecirc;m a desconveni&ecirc;ncia de<br \/>\n    aconselhar sorrisos demasiadamente frequentes. As senhoras de maus dentes<br \/>\n    s&atilde;o sempre de uma compostura irrepreens&iacute;vel. As meninas de boca<br \/>\n    grande chegam a ser presumidas no seu recato e tenho observado que afectam<br \/>\n    quase todas uma melancolia sobremaneira c&oacute;mica.<\/p>\n<p> H&aacute; dois tipos que eu frequentemente encontro. Um &eacute; a mulher<br \/>\n    que fala muito de si e de todos, e ri descomedidamente de tudo o que eu lhe<br \/>\n    digo, inclu&iacute;das as coisas mais s&eacute;rias e mais l&uacute;gubres;<br \/>\n    o outro &eacute; aquela que s&oacute; fala ao ouvido de uma amiga que tem<br \/>\n    junto de si, e n&atilde;o entra na conversa&ccedil;&atilde;o comum, sen&atilde;o<br \/>\n    para enviusar os bei&ccedil;os, figurar com eles um canudo e gotejar de longe<br \/>\n    em longe a palavra sim ou a palavra n&atilde;o, isto &eacute;, despender da<br \/>\n    voz o estrito necess&aacute;rio para comprar o sil&ecirc;ncio. &#8212; S&atilde;o<br \/>\n    os dois extremos a tocarem-se pelo rid&iacute;culo que pertence a ambos, &eacute;<br \/>\n    a boca demasiadamente graciosa e a boca sem gra&ccedil;a nenhuma, &eacute;<br \/>\n    o dente alv&iacute;ssimo e dente negro.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m me diga que o sil&ecirc;ncio aturado e pertinaz inculca discri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A senhora que nunca tira as luvas tem a pele &aacute;spera ou as unhas mal<br \/>\n    talhadas; a que n&atilde;o fala nunca, tenho para mim que troca o b pelo v<br \/>\n    ou que &eacute; t&aacute;tara.&raquo;<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>J. D. Ramalho Ortig&atilde;o.<\/b><\/p>\n<p>1 Este tipo, assim como alguns outros de que terei de ocupar-me, para bem<br \/>\n    da ci\u00eancia, n\u00e3o existe no Porto. O autor destas linhas estima por muitos t\u00edtulos<br \/>\n    as senhoras portuenses, e respeita e venera sobretudo os seus elevados dotes<br \/>\n    como esposas virtuos\u00edssimas.<\/p>\n<h2>A CI&Ecirc;NCIA A DAR RAZ&Atilde;O AOS POETAS<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Cartas ao redactor do &laquo;Jornal do Porto&raquo;<\/b><\/p>\n<p>Meu amigo: Nestes tempos que correm, asados para toda a esp&eacute;cie de<br \/>\n    luta, &eacute; de alegrar deveras a not&iacute;cia de uma reconcilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    cordial entre inimigos velhos. O ditado portugu&ecirc;s, &Oacute;dio velho<br \/>\n    n&atilde;o cansa, que o Sr. Rebelo da Silva tomou para ep&iacute;grafe do<br \/>\n    seu primeiro romance, sofre felizmente ainda de quando em quando not&aacute;veis<br \/>\n    desmentidos.<\/p>\n<p> A nossa &eacute;poca est&aacute; presenciando fen&oacute;menos bastante<br \/>\n    singulares.<\/p>\n<p> Enquanto por um lado, e t&atilde;o perto de n&oacute;s, vemos o espect&aacute;culo<br \/>\n    desconsolador de um ingl&oacute;rio e j&aacute; fastidioso certame entre os<br \/>\n    nossos literatos, contenda desapiedada e nem sempre cort&ecirc;s, de onde<br \/>\n    as reputa&ccedil;&otilde;es feitas saem enxovalhadas, as nascentes, feridas<br \/>\n    talvez de morte pela dureza do combate, e s&oacute; inc&oacute;lume quem nada<br \/>\n    arriscou, por nada ter que perder; l&aacute; por fora, mostram-se-nos ins&ograve;litamente<br \/>\n    am&aacute;veis para com as fantasias dos poetas at&eacute; os seus antigos<br \/>\n    advers&aacute;rios &#8212; os homens da ci&ecirc;ncia! &Eacute; j&aacute;<br \/>\n    um facto reconhecido o da galantaria da ci&ecirc;ncia contempoea.<\/p>\n<p> Esta sisuda dona, a quem dantes as harmonias da lira rom&acirc;ntica escandalizavam<br \/>\n    os ouvidos, demasiado escrupulosos, j&aacute; lhes sorri e despojada de velharias<br \/>\n    pedantescas, vai reconhecendo que, sob apar&ecirc;ncias fr&iacute;volas mas<br \/>\n    n&atilde;o obstante ou n&atilde;o sei se por isso mesmo,<\/p>\n<p>1 Publicada em Dezembro de 1879 e acompanhada da seguinte nota da redac\u00e7\u00e3o:<br \/>\n    \u00abEntre os manuscritos de J\u00falio Dinis, que vimos h\u00e1 pouco, encontramos as duas<br \/>\n    cartas que vamos publicar, escritas em 1864, as quais deveriam ser seguidas<br \/>\n    de outras, e se perderam se porventura chegaram a ser escritas.\u00bb<\/p>\n<p>agrad&aacute;veis, a musa dos poetas e romancistas costuma &agrave;s vezes<br \/>\n    dizer coisas, que valem bem a pena de ser atendidas.<\/p>\n<p> N&atilde;o concorda, meu amigo, que estes factos s&atilde;o uma feliz compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para aqueles outros, que eu lamentava? Quando lavre no seio de um povo a guerra<br \/>\n    civil, ao menos que ande ele em paz com os seus vizinhos da fronteira.<\/p>\n<p> Se estiver para me ouvir, quero entret&ecirc;-lo hoje a respeito de uma<br \/>\n    destas finezas da ci&ecirc;ncia &agrave; literatura.<\/p>\n<p> Trata-se do cora&ccedil;&atilde;o, assunto ao qual, sem flagrante injusti&ccedil;a,<br \/>\n    se n&atilde;o poder&aacute; negar o ep&iacute;teto de palpitante.<\/p>\n<p> H&aacute;-de saber, que entre os poetas e fisiologistas reinava de h&aacute;<br \/>\n    muito grande diverg&ecirc;ncia em quanto &agrave; maneira de conceber a vida<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Cada est&acirc;ncia de poema er&oacute;tico, na qual era referido &agrave;quela<br \/>\n    v&iacute;scera o misterioso e delicad&iacute;ssimo mundo dos afectos, passava<br \/>\n    por uma verdadeira blasf&eacute;mia cient&iacute;fica; cada soneto de Petrarca,<br \/>\n    ou medita&ccedil;&atilde;o de Lamartine, cada estrofe de Byron, de Zorrilla<br \/>\n    ou de Musset, em que se via escrito o nome deste &oacute;rg&atilde;o, &uacute;nico<br \/>\n    que os poetas c&iacute;nicos disputam aos s&aacute;bios, eram para estes atrevidas<br \/>\n    heresias, e quando muito perdoadas, corno uma leviandade sem consequ&ecirc;ncias,<br \/>\n    por aquela esp&eacute;cie de toler&acirc;ncia, com que se perdoa um absurdo<br \/>\n    se &eacute; dito pela boca de uma mulher bonita.<\/p>\n<p> Ora, devemos confess&aacute;-lo, algumas dessas formas po&eacute;ticas,<br \/>\n    dessas frases sonoras relativas ao cora&ccedil;&atilde;o, eram de t&atilde;o<br \/>\n    impertinente arrojo, de desplante t&atilde;o provocador que se n&atilde;o<br \/>\n    podia de todo culpar o fisiologista que, mais insofridamente cioso das prerrogativas<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia, franzisse o sobrolho a essas veleidades liter&aacute;rias<br \/>\n    da atrevida coorte de poetas, romancistas e folhetinistas, pret&eacute;ritos<br \/>\n    e contempor&acirc;neos; n&atilde;o se lhe podia estranhar demasiado que ralhasse<br \/>\n    ao ver, que sem ao menos terem not&iacute;cia de Harvey, esses estouvados<br \/>\n    se punham assim a falar no cora&ccedil;&atilde;o que, ignorando quais e quantos<br \/>\n    os tubos arteriais e venosos que se continuam com este m&uacute;sculo oco,<br \/>\n    quantas as v&aacute;lvulas que lhe fecham as cavidades, os planos de fibras<br \/>\n    que o constituem, se apregoavam por a&iacute;, urbi et orbi, profundos conhecedores<br \/>\n    desse &oacute;rg&atilde;o que nunca sequer tinham visto dissecar.<\/p>\n<p> Quem tivesse vagar para se deitar &agrave; colheita de v&aacute;rias asser&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a respeito do cora&ccedil;&atilde;o pelos livros dos prosadores e dos poetas,<br \/>\n    teria tarefa para longo tempo e curios&iacute;ssima e instrutiva.<\/p>\n<p> Se mo permite, recordar-lhe-ei alguns exemplos colhidos em livros familiares<br \/>\n    a todos n&oacute;s, e que por acaso tenho &agrave; m&atilde;o: Lamartine fala-nos<br \/>\n    em uma das suas melhores Medita&ccedil;&otilde;es de um cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    lasse de tout, m&ecirc;me de 1&#8217;esp&eacute;rance. A patologia deixava- o dizer,<br \/>\n    mas nunca tomou a s&eacute;rio a frase. Se falassem nisso a Barillaud estou<br \/>\n    certo que se punha a rir.<\/p>\n<p>Une tristesse vague, une ombre de malheur Comme un frisson sur l&#8217;eau courut<br \/>\n    sur tout inon coeur<\/p>\n<p>Dizia ainda o mesmo admir&aacute;vel poeta no seu inspirado livro &#8212;<br \/>\n    o Jocelyn.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia, por&eacute;m, m&eacute;dico que visse nestes dois alexandrinos<br \/>\n    a express&atilde;o de um facto digno de ser arquivado. Uma sombra de desgra&ccedil;a<br \/>\n    sobre o cora&ccedil;&atilde;o; eis a&iacute; um fen&oacute;meno que sem d&uacute;vida<br \/>\n    o mais experimentado especialista confessaria ignorar.<\/p>\n<p> Abre-se o Cam&otilde;es, do Almeida Garrett &#8212; livro do qual n&atilde;o<br \/>\n    sei se os contendores da actual quest&atilde;o liter&aacute;ria j&aacute;<br \/>\n    fizeram tamb&eacute;m pataratas para se acometerem &#8212; depara-se logo<br \/>\n    ao princ&iacute;pio com estes singular&iacute;ssimos versos:<\/p>\n<p>Saudade Misterioso n&uacute;men que aviventas Cora&ccedil;&otilde;es que<br \/>\n    estalaram e gotejam N&atilde;o j&aacute; sangue de vida mas delgado Soro de<br \/>\n    estanques l&aacute;grimas&#8230;<\/p>\n<p>Veja o que a&iacute; vai! O anat&oacute;mico intransig&iacute;vel, ao ler<br \/>\n    isto, n&atilde;o podia deixar de se afligir. Imaginava sentir as gl&acirc;ndulas<br \/>\n    lacrimais a estremecerem no canto das &oacute;rbitas e protestarem contra<br \/>\n    uma tal usurpa&ccedil;&atilde;o de direitos; e ele achava-lhes raz&atilde;o,<br \/>\n    achava-lhes raz&atilde;o contra Garrett e contra Lamartine, que &eacute; relapso<br \/>\n    nesta ordem de pecados, porque no Rafael tinha tamb&eacute;m escrito:<\/p>\n<p>Dans cette larme qui tombe toule chaude de votre coeur sur ma main &#8212;<\/p>\n<p>O Sr. Alexandre Herculano, car&aacute;cter sisudo e o mais severamente portugu&ecirc;s<br \/>\n    dos nossos tempos, n&atilde;o era isento de culpa perante o tribunal dos cient&iacute;ficos<br \/>\n    escrupulosos. Em uma passagem da Harpa do Crente parece tentado a atribuir<br \/>\n    ao cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o sei que usos vocais e arvor&aacute;-lo<br \/>\n    em habita&ccedil;&atilde;o de mem&oacute;ria; tentativa que a ci&ecirc;ncia<br \/>\n    moderna, nisto mais intolerante que algumas das suas ascendentes, n&atilde;o<br \/>\n    podia acolher sem protestar.<\/p>\n<p> A passagem a que me refiro est&aacute; nestes dois versos:<\/p>\n<p>Que f&eacute;rreo cora&ccedil;&atilde;o esquece a terra Que lhe escutou os<br \/>\n    infantis suspiros.<\/p>\n<p>Pois V&iacute;tor Hugo ? Esse g&eacute;nio que t&atilde;o bem e tanto &agrave;<br \/>\n    vontade sabe manejar a arma perigosa das ant&iacute;teses e das imagens, tantas<br \/>\n    vezes fatal aos menos destros e experientes, e cujos arrojos l&iacute;ricos<br \/>\n    chegam a espantar, a intimidar at&eacute; os mais dispostos a admir&aacute;-los,<br \/>\n    como n&atilde;o havia de escandalizar os fi&eacute;is respeitadores da frase<br \/>\n    ao p&eacute; da letra! Nas Contempla&ccedil;&otilde;es, por exemplo, fala-nos<br \/>\n    ele de uma rapariga que, em apaixonado col&oacute;quio com o amante, lhe diz<br \/>\n    entre outras coisas:<\/p>\n<p>Oh! de mon cceur leve les chastes voiles Si tu savais comme il est plein<br \/>\n    d&#8217;&egrave;toilest<\/p>\n<p>Com estes dois versos tamb&eacute;m os astr&oacute;nomos tinham que ver.<\/p>\n<p> Ora &eacute; verdade que Lamartine, que &eacute; tido por mais moderado<br \/>\n    do que o autor dos Miser&aacute;veis, j&aacute; tamb&eacute;m dissera no Rafael:<br \/>\n    &laquo;Eu sentia que nunca mais haveria noite nem frialdade em meu cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    porque ele (J&uacute;lio) af luziria sempre.&raquo; Diga-me se n&atilde;o<br \/>\n    tinham alguma desculpa os que protestavam contra tais liberdades? A anatomia,<br \/>\n    que h&aacute; tantos anos anda a estudar o cora&ccedil;&atilde;o pelo escalpelo<br \/>\n    e pelo microsc&oacute;pio, e que algum proveito julga haver tirado j&aacute;<br \/>\n    desse estudo, devia encolher os ombros de apiedada, ouvindo o Sr. Mendes Leal<br \/>\n    come&ccedil;ar assim a primeira das suas Indianas:<\/p>\n<p>Foi-se a t&ecirc;mpera dos peitos Dos portugueses le&otilde;es; Quem sabe<br \/>\n    de que eram feitos Seus robustos cora&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>Quem sabe de que eram feitos! Se ela n&atilde;o veio a campo a elucidar esta<br \/>\n    d&uacute;vida, foi por uma esp&eacute;cie de contempla&ccedil;&atilde;o delicada,<br \/>\n    por uma absten&ccedil;&atilde;o, como a do astr&oacute;nomo cort&ecirc;s,<br \/>\n    diante de quem uma senhora p&otilde;e em d&uacute;vida a exactid&atilde;o<br \/>\n    das suas previs&otilde;es.<\/p>\n<p> O nosso Cam&otilde;es usou tamb&eacute;m de iguais liberdades para com o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o. Recorda-se, por exemplo, daquele:<\/p>\n<p>Tu, s&oacute; tu, puro amor, com for&ccedil;a crua Que os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    humanos tanto obriga?<\/p>\n<p>Filinto pinta-nos o cora&ccedil;&atilde;o devorado por consumi&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>As penas e os cuidados que os humanos Cora&ccedil;&otilde;es remordiam como<br \/>\n    abrolhos.<\/p>\n<p>Bocage descrevendo-nos a agonia de Leandro:<\/p>\n<p>e de Hero o nome Do ansioso cora&ccedil;&atilde;o num ai lhe arranca.<\/p>\n<p>A ci&ecirc;ncia ainda mal conformada com este ai, sa&iacute;do do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    achou-se na presen&ccedil;a de Espronceda, que, pelo contr&aacute;rio, lhe<br \/>\n    falava de um outro que para l&aacute; entrava:<\/p>\n<p>un ay Que penetra el corazon<\/p>\n<p>E j&aacute; que estamos de volta com o l&iacute;rico espanhol, n&atilde;o<br \/>\n    posso resistir ao desejo de transcrever por inteiro a sentid&iacute;ssima<br \/>\n    quintilha do Estudiante de Salamanca, como mais outra heresia fisiol&oacute;gica,<br \/>\n    e das mais arrojadas:<\/p>\n<p>Hojas dei arbol ca&iacute;das Juguetes del viento son Las illusiones perdidas<br \/>\n    Ayl son ojas desprendidas De! arbol del corazon.<\/p>\n<p>Com certeza n&atilde;o era da &aacute;rvore circulat&oacute;ria que o poeta<br \/>\n    falou e por conseguinte &#8212; delito.<\/p>\n<p> Fazer falar o cora&ccedil;&atilde;o em um aperto amig&aacute;vel de m&atilde;o.<br \/>\n    &eacute; tamb&eacute;m frequente nos poetas.<\/p>\n<p> Garrett, por duas vezes que eu saiba, deixou entrever tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de encerrar a alma inteira dentro do cora&ccedil;&atilde;o. Foi na D. Branca<\/p>\n<p>Que a alma nesses pa&iacute;ses regelados<\/p>\n<p>(Refere-se &agrave; Inglaterra).<\/p>\n<p>Toda no cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o vem aos l&aacute;bios<\/p>\n<p>E noutro lugar:<\/p>\n<p>&#8230;quando a alma inteira Rompe do cora&ccedil;&atilde;o e acode aos l&aacute;bios.<\/p>\n<p>No mesmo poema ainda, n&atilde;o hesita em p&ocirc;r na boca do pr&oacute;prio<br \/>\n    Diabo, em uma ocasi&atilde;o em que o maligno esp&iacute;rito sentia o alvoro&ccedil;o<br \/>\n    das pulsa&ccedil;&otilde;es card&iacute;acas de um cavaleiro, que fugia com<br \/>\n    uma beleza nos bra&ccedil;os, as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&laquo;Tu que bates assim, m&aacute; ten&ccedil;&atilde;o levas.&raquo;<\/p>\n<p>Autorizar com o nome do Diabo, que dizem ser de peso em coisas destas, uma<br \/>\n    opini&atilde;o que de encontro &agrave; ci&ecirc;ncia, atribui ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ten&ccedil;&otilde;es reservadas &eacute; muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p> Muitas outras amostras, como estas, se podiam trazer para aqu&iacute;, respigando-as<br \/>\n    pelos poetas de todas as na&ccedil;&otilde;es e de todas as idades.<\/p>\n<p> Estas, por&eacute;m, bastam para nos levar a conceder, que provas evidentes<br \/>\n    de toler&acirc;ncia deu ainda assim a ci&ecirc;ncia, ouvindo quase resignada<br \/>\n    estas heterodoxas interpreta&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    n&atilde;o saindo a campo a combat&ecirc;-las.<\/p>\n<p> Diga-me como podia ser agrad&aacute;vel a qualquer erudito, r&iacute;gido<br \/>\n    observador do suum cuique, ouvir falar de Balzac, o romancista, que provavelmente<br \/>\n    nunca viu um stothoscopo, nem teve not&iacute;cias do plessi metro do Sr.<br \/>\n    Piorny, imortal descoberta que, &agrave; falta de &eacute;picos, o pr&oacute;prio<br \/>\n    autor celebrou em alexandrinos, e ouvir falar de Balzac, mas como? Como de<br \/>\n    um profundo conhecedor do cora&ccedil;&atilde;o humano, reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    adquirida com detrimento de Andral, de Bouillaud, de Laenec, de Beau e tantos<br \/>\n    que por longa experi&ecirc;ncia cl&iacute;nica a mereciam.<\/p>\n<p> Caprichos de opini&atilde;o p&uacute;blica! Mas o certo &eacute; que essas<br \/>\n    gratuitas ideias, assim espalhadas pelos poetas, ganharam ra&iacute;zes profundas,<br \/>\n    vulgarizaram-se e ao lado do cora&ccedil;&atilde;o fisiol&oacute;gico, cient&iacute;fico,<br \/>\n    ortodoxo, &oacute;rg&atilde;o motor da circula&ccedil;&atilde;o sangu&iacute;nea,<br \/>\n    de h&aacute; muito se insinuara outro, um cora&ccedil;&atilde;o convencional,<br \/>\n    rom&acirc;ntico, po&eacute;tico, sem foro de ci&ecirc;ncia, contra o qual<br \/>\n    do &aacute;dito do santu&aacute;rio se fulminaria a excomunh&atilde;o, se<br \/>\n    ele manifestasse tenta&ccedil;&otilde;es de l&aacute; entrar.<\/p>\n<p> Seja por&eacute;m dito em seu abono que nunca as manifestou; procedeu, como<br \/>\n    esses escritores, queridos das multid&otilde;es e a quem as academias repelem,<br \/>\n    deviam todos proceder.<\/p>\n<p> Agora &eacute; justo confessar que dos dois cora&ccedil;&otilde;es, o mais<br \/>\n    popular e simp&aacute;tico, n&atilde;o era decerto o primeiro, o legal, o<br \/>\n    acad&eacute;mico.<\/p>\n<p> Que dama namorada, que m&atilde;e extremosa, que poeta inspirado, que guerreiro<br \/>\n    sob o dom&iacute;nio da paix&atilde;o de gl&oacute;ria, que expatriado consumido<br \/>\n    pelas saudades da sua terra, que nauta, suspirando no meio da sublime mas<br \/>\n    desconsoladora solid&atilde;o das vagas, aceitaria sem repugn&acirc;ncia,<br \/>\n    aquele cora&ccedil;&atilde;o m&aacute;quina, m&uacute;sculo, &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    impulsor do sangue e nada mais, que lhe apresentavam os s&aacute;bios? Embora<br \/>\n    lho vitalizassem um pouco ultimamente, n&atilde;o era ainda nada, para aquele<br \/>\n    irresist&iacute;vel instinto que lhes pedia mais.<\/p>\n<p> Verdade &eacute; que j&aacute; lho n&atilde;o apresentavam como uma simples<br \/>\n    m&aacute;quina hidr&aacute;ulica, uma esp&eacute;cie de bomba aspirante e<br \/>\n    expelente, concep&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grosseiramente materialista<br \/>\n    que revoltou os pr&oacute;prios fisiologistas; mas, em todo o caso, melhor<br \/>\n    enervado e vivificado, promovido da categoria de m&aacute;quina &agrave; de<br \/>\n    &oacute;rg&atilde;o, do mundo f&iacute;sico e mec&acirc;nico ao vital; era<br \/>\n    ainda o &oacute;rg&atilde;o da circula&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o passava<br \/>\n    da&iacute;.<\/p>\n<p> Os poetas deixavam dizer os fisiologistas e continuavam na sua propaganda<br \/>\n    e o vulgo aplaudia-os com alma e identificava-se com aquelas cren&ccedil;as<br \/>\n    po&eacute;ticas, sem cuidar do seu car&aacute;cter hipot&eacute;tico.<\/p>\n<p> Quantas vezes os adeptos da ci&ecirc;ncia, os disc&iacute;pulos em via de<br \/>\n    inicia&ccedil;&atilde;o, punham de lado, na banca do estudo, as p&aacute;ginas<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia positiva sobre a vida do cora&ccedil;&atilde;o, para saborearem<br \/>\n    furtivamente a fisiologia de contrabando, que em todas as l&iacute;nguas do<br \/>\n    mundo mortas e vivas os poetas oferecem &agrave;s imagina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    seduzidas.<\/p>\n<p> Mas o encanto era ainda poderoso; revelava-se por provas ainda mais evidentes.<\/p>\n<p> Os pr&oacute;prios sacerdotes, os que proclamavam o interdito contra as<br \/>\n    falsas doutrinas, os que dentro do templo nunca permitiriam a entrada a essas<br \/>\n    metrificadas fisiologias do cora&ccedil;&atilde;o &#8212; n&atilde;o obstante<br \/>\n    l&aacute; terem entrado coisas muito menos racionais e em estilo incomparavelmente<br \/>\n    pior &#8212; os pr&oacute;prios sacerdotes digo, fecharam muita vez sobre<br \/>\n    si as portas do santu&aacute;rio e iam-se a praticar amavelmente com esses<br \/>\n    livres-pensadores e poetas paradoxais, agradados, sem saber porque, daqueles<br \/>\n    mesmos paradoxos, contra os quais seriam inexor&aacute;veis quando chamados<br \/>\n    a ju&iacute;zo no tribunal da ci&ecirc;ncia, Muitos foram at&eacute; os que<br \/>\n    aprenderam a falar essa mesma linguagem profana, esp&eacute;cie de g&iacute;ria<br \/>\n    po&eacute;tica que condenavam como &iacute;mpia, her&eacute;tica e atentat&oacute;ria<br \/>\n    contra os dogmas da fisiologia.<\/p>\n<p> Haller, por exemplo, a quem principalmente se deve uma das mais fecundas<br \/>\n    revolu&ccedil;&otilde;es que tem sofrido a ci&ecirc;ncia da vida &#8212; foi<br \/>\n    poeta tamb&eacute;m. E ainda hoje parece que os seus compatriotas mais o conhecem<br \/>\n    por essa qualidade, do que por aquela que lhe granjeou, na hist&oacute;ria<br \/>\n    da ci&ecirc;ncia, um nome imorredouro.<\/p>\n<p> Ora ser poeta, sem falar alguma vez do cora&ccedil;&atilde;o &agrave; maneira<br \/>\n    dos poetas, n&atilde;o sei bem como possa ser. Desejava agora consultar as<br \/>\n    produ&ccedil;&otilde;es liter&aacute;rias deste s&aacute;bio alem&atilde;o,<br \/>\n    a ver se o encontrava, como suspeito, em flagrante delito de lesa-fisiologia,<br \/>\n    justamente naquele artigo, que, como poucos, ele tinha raz&atilde;o e interesse<br \/>\n    de respeitar.<\/p>\n<p> Mas, no meio de tudo isto, uma coisa n&atilde;o perdoo eu aos homens de<br \/>\n    ci&ecirc;ncia &#8212; que &eacute; o n&atilde;o haverem meditado sobre quais<br \/>\n    pudessem ser os fundamentos desta cren&ccedil;a t&atilde;o geral que, a seu<br \/>\n    pesar, domina at&eacute; o homem mais versado nas teorias cient&iacute;ficas,<br \/>\n    e no pr&oacute;prio selvagem se manifesta, pois que na sua m&iacute;mica express&atilde;o,<br \/>\n    a m&atilde;o sobre o lado em que pulsa o cora&ccedil;&atilde;o, traduz a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    de um sentimento de afecto, de amizade, de amor, de dedica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; gesto, que o actor mais exercitado, pelo estudo, em exprimir vivamente<br \/>\n    as paix&otilde;es humanas, n&atilde;o se esquece de imitar.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>Dizia eu que quando um facto se apresenta assim com um tal car&aacute;cter<br \/>\n    de generalidade, quando um t&atilde;o completo assentimento aceita a interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    un&acirc;nime a express&atilde;o n&iacute;mia que parece confirm&aacute;-lo,<br \/>\n    n&atilde;o obstante os protestos da ci&ecirc;ncia, quando os mais rigorosos<br \/>\n    nem sempre s&atilde;o demasiado austeros na observa&ccedil;&atilde;o dos preceitos<br \/>\n    da moral cientifica &#8212; se assim lhes posso chamar &#8212; que proclamam,<br \/>\n    &agrave; ci&ecirc;ncia compete reflectir sobre este facto, e fiel ao seu programa<br \/>\n    de an&aacute;lise filos&oacute;fica, procurar-lhe a raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p> &Eacute;poca houve em que a ci&ecirc;ncia deu provas de querer congra&ccedil;ar-<br \/>\n    se neste ponto com a poesia, direi at&eacute;, foi talvez quem deu o exemplo<br \/>\n    destas teorias hoje olhadas por cima do ombro pelos s&aacute;bios intolerantes,<br \/>\n    Mas em que tempo foi isto? Quando as ci&ecirc;ncias naturais eram poesia tamb&eacute;m<br \/>\n    e n&atilde;o haviam adquirido ainda este ar severo e grave que hoje as caracteriza.<br \/>\n    Fil&oacute;sofos e poetas eram &agrave; porfia quais deixariam mais &agrave;<br \/>\n    solta correr a imagina&ccedil;&atilde;o. Foi quando Plat&atilde;o, desenvolvendo,<br \/>\n    o sistema de Pit&aacute;goras, colocava no cora&ccedil;&atilde;o a parte da<br \/>\n    alma de onde a generosidade, a coragem, a c&oacute;lera dependiam; e Arist&oacute;teles<br \/>\n    supunha que dele nasciam as paix&otilde;es, que era essa a urna onde o fogo<br \/>\n    natural era mantido. Depois disso ainda sob a influ&ecirc;ncia de Galeno &#8212;<br \/>\n    que tinha muito de poeta tamb&eacute;m &#8212; a ci&ecirc;ncia fazia sair<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o uns certos esp&iacute;ritos que eram alguma coisa<br \/>\n    mais subtil e po&eacute;tico do que o sangue; mas ultimamente, orgulhosa com<br \/>\n    as &uacute;ltimas riquezas adquiridas, ensoberbeceu-se e rejeitou com desd&eacute;m<br \/>\n    e ate pouca delicadeza os enfeites que, em &eacute;pocas de priva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o duvidara aceitar de sua mais leviana, mas, e talvez que por isso<br \/>\n    mesmo, mais sedutora rival.<\/p>\n<p> Mas enfim a nossa &eacute;poca &eacute;, por mais que fa&ccedil;am, uma<br \/>\n    &eacute;poca de reconcilia&ccedil;&atilde;o e toler&acirc;ncia. Os homens<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia e os poetas d&atilde;o-se finalmente as m&atilde;os e fazem<br \/>\n    concess&otilde;es m&uacute;tuas.<\/p>\n<p> Nunca se viram t&atilde;o amigos e reciprocamente lisonjeiros.<\/p>\n<p> Os poetas celebram em verso teorias que dantes apenas conseguiam ser prosaicamente<br \/>\n    expostas nas p&aacute;ginas pouco elegantes dos livros eruditos.<\/p>\n<p> Em um interessante op&uacute;sculo de Aug. Langel que, sob o t&iacute;tulo<br \/>\n    de Probl&egrave;mes de la natvre, foi h&aacute; pouco editado por Balliere<br \/>\n    na Biblioteca de Filosofia Contempor&acirc;nea, j&aacute; o autor faz notar<br \/>\n    esta crescente popularidade das ci&ecirc;ncias, como um dos fen&oacute;menos<br \/>\n    mais singulares da nossa &eacute;poca: Observa-nos, como o historiador Michelet,<br \/>\n    que a opini&atilde;o p&uacute;blica de Fran&ccedil;a (como a de Portugal)<br \/>\n    n&atilde;o est&aacute; ainda resolvida a aceitar como um velho estonteado<br \/>\n    e treslido &#8212; e a romancista George Sand, ambos na idade em que &eacute;<br \/>\n    l&iacute;cito repousar no seio da gl&oacute;ria adquirida, se deitaram &agrave;<br \/>\n    obra e deixando um o dom&iacute;nio da hist&oacute;ria, outro o da paix&atilde;o,<br \/>\n    entraram no reino sempre virgem da natureza.<\/p>\n<p> &laquo;Eu n&atilde;o sou daqueles, concluiu o autor citado, que censuram<br \/>\n    ou temem estas excurs&otilde;es um pouco aventurosas no terreno da observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &laquo;A ci&ecirc;ncia &eacute; invulner&aacute;vel; se pode desprezar os<br \/>\n    golpes dos seus inimigos, porque lhes havia de temer os amplexos demasiado<br \/>\n    apaixonados? Pode ficar nua como a verdade, mas as suas formas nobres conservam-se<br \/>\n    ainda vis&iacute;veis debaixo da t&eacute;nue p&uacute;rpura que a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe deita aos ombros. J&aacute; t&atilde;o naturalista com Goethe, Byron e<br \/>\n    Lamartine, a poesia, ainda mais o ficou nos versos de V&iacute;tor Hugo. Deu<br \/>\n    uma voz harmoniosa, n&atilde;o s&oacute; ao Homem, mas a tudo quanto vive,<br \/>\n    e aos mares, aos ventos, &agrave;s estrelas e at&eacute; &agrave; pr&oacute;pria<br \/>\n    Terra.&raquo; Isto em rela&ccedil;&atilde;o aos poetas; em quanto aos homens<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia vemo-los a atenderem mais cuidadosamente ao estilo e n&atilde;o<br \/>\n    desprezarem, nem afugentarem as imagens quando estas travessas se lhes p&otilde;em<br \/>\n    a voejar em torno da sua secret&aacute;ria.<\/p>\n<p> Os m&eacute;dicos, sobretudo, t&ecirc;m ido longe nesta via de concess&otilde;es.<\/p>\n<p> Um professor agregado na Universidade de Medicina de Paris, n&atilde;o p&ocirc;s<br \/>\n    d&uacute;vida nenhuma em tomar para ep&iacute;grafe de um livro de filosofia<br \/>\n    m&eacute;dica, uma quadra de Gerard de Nerval! Gerard de Nerval! o tradutor<br \/>\n    e amigo de Henry Heine, o infeliz poeta &#8212; mais uma alma do que um homem,<br \/>\n    como Heine dizia dele, cuja morte tr&aacute;gica roubou &agrave; Fran&ccedil;a<br \/>\n    um dos mais prometedores talentos l&iacute;ricos da &eacute;poca? Gerard de<br \/>\n    Nerval, o suicida da ign&oacute;bil rua de la Vieille lanterne, levado &agrave;quele<br \/>\n    acto de desespero pela pobreza um pouco, mas por um desses ocultos padecimentos<br \/>\n    que s&atilde;o um mist&eacute;rio para as organiza&ccedil;&otilde;es menos<br \/>\n    delicadas? E forneceu ep&iacute;grafe, para uma obra de ci&ecirc;ncia! &Eacute;<br \/>\n    verdade. Ainda n&atilde;o vai longe a &eacute;poca em que os pr&oacute;prios<br \/>\n    que mais ornavam a literatura, os menos severos para com as produ&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos engenhos liter&aacute;rios, que olhavam como f&uacute;teis, n&atilde;o<br \/>\n    se atreveriam a passar al&eacute;m da cita&ccedil;&atilde;o latina. Quando<br \/>\n    muito teriam escrito:<\/p>\n<p>Mens agitat molem et magno se corpore mistet<\/p>\n<p>em vez da quadra rom&acirc;ntica que escolheu Bouchut.<\/p>\n<p>Espere, enfin, mon ame, espere Du doute brise le reseau, Non, ce globe n&#8217;est<br \/>\n    pas ton p&egrave;re Le nid na pas cr&egrave;e l&#8217;oiseau.<\/p>\n<p>Rasga da d&uacute;vida as redes! Espera, &oacute; minh&#8217;alma, espera.<\/p>\n<p> Tu da Terra n&atilde;o procedes, O ninho as aves n&atilde;o gera.<\/p>\n<p>Eu considero o facto desta ep&iacute;grafe como o maior preito prestado at&eacute;<br \/>\n    hoje por homens de ci&ecirc;ncia &agrave; escola rom&acirc;ntica actual.<\/p>\n<p> Aos m&eacute;dicos competia dar destes exemplos. Os filhos de Escul&aacute;pio<br \/>\n    deviam lembrar-se, como bem diz L. Peine, de que Apolo, pai do semideus, estabelece<br \/>\n    o estreito parentesco entre a poesia e a arte salutar.<\/p>\n<p> Ora o n&uacute;mero dos m&eacute;dicos poetas tem sido bastante avultado,<br \/>\n    mas &eacute; certo que n&atilde;o andavam com franqueza e &agrave; vontade<br \/>\n    nesta empresa de concilia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Quando muito metrificavam ci&ecirc;ncia, o que &eacute; uma tarefa perigosa<br \/>\n    de tentar, pois d&aacute; muitas vezes em resultado esp&eacute;cimes como<br \/>\n    este do Sr. Piorry:<\/p>\n<p>Le diamant gazeux et le pur oxigene, Se mariant &agrave; 1&#8217;hydrog&egrave;ne,<br \/>\n    Se group&egrave;rent en v&eacute;getaux; ..L&#8217;azote. .elastique fluide Se m&ecirc;tamorphosant<br \/>\n    en mati&egrave;re liquide, S&#8217;y joigni&#8217; pour former les corps des animaux.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe parece que estamos em plena inspira&ccedil;&atilde;o l&iacute;rica?<br \/>\n    Outros sabiam ser alternadamente poetas e eruditos; duas entidades reunidas<br \/>\n    no mesmo indiv&iacute;duo mas em completa independ&ecirc;ncia. &#8212; Nos<br \/>\n    seus versos ningu&eacute;m podia descobrir a sombra do barrete de doutor e<br \/>\n    ao escreverem obras de ci&ecirc;ncia tinham o cuidado de apagar cautelosamente<br \/>\n    o facho da imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Hoje a fus&atilde;o &eacute; mais natural e desassombrada.<\/p>\n<p> Por isso era esta mais que nenhuma a &eacute;poca destinada para que a face<br \/>\n    po&eacute;tica do cora&ccedil;&atilde;o, at&eacute; agora deixado na sombra<br \/>\n    pelos homens de ci&ecirc;ncia, se adiantasse para o campo luminoso da observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da an&aacute;lise; e a cren&ccedil;a un&acirc;nime da opini&atilde;o viesse<br \/>\n    pedir &agrave; ci&ecirc;ncia a sua raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p> E quem se encarregou de estudar o problema? Exemplo eloquente de concilia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que falamos! Foi Claude Bernard. Se por acaso sabe quem &eacute; Claud<br \/>\n    Bernard h&aacute;-de por certo admirar-se.<\/p>\n<p> Claude Bernard &eacute; um fisiologista mais que tudo experimental, um homem<br \/>\n    costumado a manejar o escalpelo, a empregar os reagentes, a manipular o microsc&oacute;pio;<br \/>\n    um homem a quem as vivissec&ccedil;&otilde;es n&atilde;o comovem e que, no<br \/>\n    Col&eacute;gio de Fran&ccedil;a, prossegue imperturb&aacute;vel uma das suas<br \/>\n    interessantes e proveitos&iacute;ssimas li&ccedil;&otilde;es, sem que o afectem<br \/>\n    os gritos dos animais que se estorcem mutilados, v&iacute;timas de uma demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fisiol&oacute;gica; sem que hesite em sacrificar nas aras da ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    desde a r&atilde;, um pobre e fleum&aacute;tico animal j&aacute; chamado por<br \/>\n    algu&eacute;m o Job da fisiologia, at&eacute; ao c&atilde;o, o fiel companheiro,<br \/>\n    o amigo dedicado do homem, at&eacute; ao inofensivo coelho, e at&eacute;,<br \/>\n    isto sobretudo poucas leitoras lhe perdoariam, at&eacute; &agrave; pomba,<br \/>\n    o s&iacute;mbolo de inoc&ecirc;ncia, querida das almas ternas e pelas quais<br \/>\n    os poetas mitol&oacute;gicos faziam mover o coche de C&iacute;tera.<\/p>\n<p> Pois foi este homem, de quem uma senhora dizia n&atilde;o possuir cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que h&aacute; pouco na Sorbona inaugurou uma li&ccedil;&atilde;o por estas<br \/>\n    palavras : &laquo;Para o fisiologista o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; o &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    central da circula&ccedil;&atilde;o do sangue. Mas, por um singular privil&eacute;gio,<br \/>\n    que com nenhum outro aparelho org&acirc;nico se d&aacute;, a palavra cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    passou, da linguagem do fisiologista, para a do poeta, romancista, e homem<br \/>\n    de sociedade, com acep&ccedil;&otilde;es muito diversas. O cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o seria somente um motor vital impelindo o l&iacute;quido sangu&iacute;neo<br \/>\n    a todas as partes do corpo que anima, mas tamb&eacute;m a sede e o emblema<br \/>\n    dos mais nobres sentimentos e dos mais ternos de nossa alma. O esludo do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humano n&atilde;o deveria ser somente o objecto do anat&oacute;mico e do fisiologista,<br \/>\n    mas servir tamb&eacute;m de base a todas as concep&ccedil;&otilde;es do fil&oacute;sofo,<br \/>\n    a todas as inspira&ccedil;&otilde;es do poeta e do artista.<\/p>\n<p> &laquo;A fisiologia dever&aacute; desvanecer-nos estas ilus&otilde;es e<br \/>\n    mostrar-nos que o papel sentimental atribu&iacute;do em todos os tempos ao<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o passa de uma ac&ccedil;&atilde;o puramente<br \/>\n    arbitr&aacute;ria? Numa palavra, teremos a assinalar uma contradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    completa e perempt&oacute;ria entre a ci&ecirc;ncia e &agrave; arte, entre<br \/>\n    o sentimento e a raz&atilde;o ? Em quanto a mim n&atilde;o creio na possibilidade<br \/>\n    dessa contradi&ccedil;&atilde;o. A verdade n&atilde;o pode diferir de si mesmo<br \/>\n    e a verdade do s&aacute;bio n&atilde;o poderia contradizer a verdade do artista.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, eu creio que a ci&ecirc;ncia que prov&eacute;m de uma<br \/>\n    fonte pura, para todos se far&aacute; luminosa, e que ci&ecirc;ncia e arte<br \/>\n    por toda a parte se dar&atilde;o as m&atilde;os interpretando-se e explicando-se<br \/>\n    uma pela outra.<\/p>\n<p> &laquo;Eu n&atilde;o procurarei negar sistematicamente, em nome da ci&ecirc;ncia,<br \/>\n    o que em nome da arte se tenha dito sobre o cora&ccedil;&atilde;o, considerado<br \/>\n    como &oacute;rg&atilde;o destinado a exprimir nossos sentimentos e afei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, desejaria demonstrar a arte pela ci&ecirc;ncia, tentando<br \/>\n    explicar por meio da fisiologia o que at&eacute; ao presente n&atilde;o passava<br \/>\n    de uma simples intui&ccedil;&atilde;o do espirito. Empresa dif&iacute;cil,<br \/>\n    tamb&eacute;m temer&aacute;ria at&eacute;, por causa do estado ainda hoje<br \/>\n    t&atilde;o pouco avan&ccedil;ado da ci&ecirc;ncia dos fen&oacute;menos vitais.<\/p>\n<p> &laquo;Entretanto a beleza da quest&atilde;o e os clar&otilde;es que a fisiologia,<br \/>\n    me parece, j&aacute; poder lan&ccedil;ar sobre ela, tudo me determina e anima.&raquo;<br \/>\n    E efectivamente, depois da primeira parte da sua prelec&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    na qual, debaixo do ponto de vista anat&oacute;mico, tratou do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da sua fisiologia oficial, isto &eacute;, das suas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    como &oacute;rg&atilde;o impulsor do sangue &#8212; parte a que n&atilde;o<br \/>\n    me referirei, por ser para as leitoras a parte antip&aacute;tica do &oacute;rg&atilde;o<br \/>\n    &#8212; o c&eacute;lebre membro do Instituto entrou na quest&atilde;o pendente,<br \/>\n    a prop&oacute;sito das rela&ccedil;&otilde;es do cora&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    o sistema nervoso e particularmente com o c&eacute;rebro.<\/p>\n<p> Um dia Davy, depois de uma longa medita&ccedil;&atilde;o sobre as propriedades<br \/>\n    e usos do sangue, este mais que todos important&iacute;ssimo l&iacute;quido<br \/>\n    org&acirc;nico, n&atilde;o p&ocirc;de deixar de escrever:&#8217; It is a mysterious<br \/>\n    fluid the blood.<\/p>\n<p> Bem se podia, parodiando o m&eacute;dico;ingl&ecirc;s, exclamar tamb&eacute;m:<br \/>\n    &Eacute; um misterioso &oacute;rg&atilde;o o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Basta que &eacute; ele o infatig&aacute;vel obreiro&#8217;desta complicad&iacute;ssima<br \/>\n    oficina org&acirc;nica; o que primeiro se ergue paira o trabalho no ainda<br \/>\n    mal distinto crep&uacute;sculo da vida embrion&aacute;ria; o &uacute;ltimo<br \/>\n    a despegar da tarefa quando os outros j&aacute; repousam no sono da morte.<br \/>\n    O primum vivens e o ultimum moriens, como bem o chamou Haller que, como m&eacute;dico<br \/>\n    e poeta, o conhecia bem, Haller, essa delicada organiza&ccedil;&atilde;o germ&acirc;nica,<br \/>\n    a quem o grito da dor e a vista do sangue afastou sempre do anfiteatro para<br \/>\n    onde ali&aacute;s o chamava a vasta profundeza dos seus conhecimentos m&eacute;dicos,<br \/>\n    e a ardente ansiedade do seu amor de saber.<\/p>\n<p> As primeiras palpita&ccedil;&otilde;es, compar&aacute;veis &agrave;s primeiras<br \/>\n    oscila&ccedil;&otilde;es do p&ecirc;ndulo regulador da vida, come&ccedil;am.quando<br \/>\n    ainda o cora&ccedil;&atilde;o mal se desenha no campo germinal e pelas;suas<br \/>\n    ex&iacute;guas dimens&otilde;es recebe ainda o nome de ponto &#8212; punctum<br \/>\n    saliens. Na galinha&#8230; (n&atilde;o se revoltem as leitoras se conclu&iacute;mos<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o da galinha para o cora&ccedil;&atilde;o humano; debaixo<br \/>\n    do ponto de vista circulat&oacute;rio n&atilde;o &eacute; que eles se distinguem)<br \/>\n    ; na galinha nas primeiras vinte seis ou trinta horas de incuba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    manifesta-se o fen&oacute;meno.<\/p>\n<p> Depois de definitivamente organizado e desenvolvido o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    continua no seu lidar incessante, sem precisar dessas interrup&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    reparadoras que exigem os outros m&uacute;sculos, ap&oacute;s um exerc&iacute;cio<br \/>\n    continuado.<\/p>\n<p> As pernas do mais maravilhoso andarilho vergam-se no fim de um excessivo<br \/>\n    trabalho; o bra&ccedil;o do mais aguerrido campeador cai desfalecido depois<br \/>\n    de brandir por muito tempo o pesado montante a decepar cabe&ccedil;as de inimigos;<br \/>\n    a voz dos mais vigorosos tribunos abandona- os depois de uma ora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    muito prolongada; finalmente a fadiga, a impossibilidade do exerc&iacute;cio<br \/>\n    produzida pelo exerc&iacute;cio, parece a lei geral do funcionar dos &oacute;rg&atilde;os,<br \/>\n    o cunho da fraqueza humana impresso em cada pe&ccedil;a da m&aacute;quina.<br \/>\n    E s&oacute; o cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o cansa! s&oacute; este &oacute;rg&atilde;o,<br \/>\n    cujo trabalho violento e r&aacute;pido, cujas contrac&ccedil;&otilde;es vigorosas<br \/>\n    e sucessivas, pareciam mais pr&oacute;prias para o extenuarem e exigirem a<br \/>\n    influ&ecirc;ncia ben&eacute;fica de um repouso vivificador, &eacute; o que<br \/>\n    produz o supl&iacute;cio de Ixion, come&ccedil;ando incessantemente a tarefa<br \/>\n    terminada; como se a consci&ecirc;ncia da sua responsabilidade o impedisse<br \/>\n    de adormecer; ele &eacute; sempre vigilante, desconhece a inac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    proveitosa do sono. O sono para ele n&atilde;o &eacute; somente a imagem da<br \/>\n    morte, mas a morte verdadeira.<\/p>\n<p> Outro facto singular da vida deste &oacute;rg&atilde;o, facto em que Cl&aacute;udio<br \/>\n    Bernard cr&ecirc;&raquo; piamente, conquanto nem todos os fisiologistas o<br \/>\n    acompanhem t&atilde;o longe, &eacute; a emancipa&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    permita-se-me esta linguagem, da tutela administrativa do sistema nervoso.<br \/>\n    Como pot&ecirc;ncia que &eacute;, o cora&ccedil;&atilde;o trata de igual para<br \/>\n    igual com o c&eacute;rebro, essa outra pot&ecirc;ncia que imp&otilde;e leis<br \/>\n    a todos os &oacute;rg&atilde;os. Contrai com ele rela&ccedil;&otilde;es muito<br \/>\n    &iacute;ntimas, mas sem fazer cess&atilde;o completa de sua espontaneidade.<\/p>\n<p> O movimento nos outros m&uacute;sculos tem sempre por facto anterior o da<br \/>\n    excita&ccedil;&atilde;o dos cord&otilde;es nervosos que os prendem aos grandes<br \/>\n    centros inervadores.<\/p>\n<p> Ora estes nervos e centros nervosos excitam-se por meios diversos&#8212;<br \/>\n    ac&ccedil;&otilde;es mec&acirc;nicas, agentes qu&iacute;micos, est&iacute;mulos<br \/>\n    el&eacute;ctricos, tudo pode dar o efeito final, o encurtamento, a contrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do m&uacute;sculo onde o nervo se ramifica e por ela o movimento desta ou<br \/>\n    daquela parte do corpo. E independente destes est&iacute;mulos artificiais,<br \/>\n    os mesmos efei tos se produzem quando s&oacute; &agrave; evoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da vontade, parte do c&eacute;rebro a corrente misteriosa pelo mesmo caminho<br \/>\n    dos nervos, para diversos pontos da massa muscular.<\/p>\n<p> Pois o cora&ccedil;&atilde;o, diz Cl&aacute;udio Bernard, reproduzindo neste<br \/>\n    ponto uma j&aacute; antiga teoria de Haller, o cora&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    independente do c&eacute;rebro e nisto se extrema dos &oacute;rg&atilde;os<br \/>\n    seus cong&eacute;neres.<\/p>\n<p>Arrancado do peito de um animal bate ainda sobre a mesa da dissec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e por tempo consider&aacute;vel. Este facto, por&eacute;m, j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    muito sabido, presta-se a outras explica&ccedil;&otilde;es e n&atilde;o resolve<br \/>\n    imediatamente a quest&atilde;o no sentido favor&aacute;vel &agrave; opini&atilde;o<br \/>\n    halleriana.<\/p>\n<p> Mas, diz Bernard, se n&oacute;s pusermos a nu os nervos que se distribuem<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o, nervos que se chamam pneumog&aacute;stricos&#8230; &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o queiram mal &agrave; ci&ecirc;ncia por inventar este nome na verdade<br \/>\n    pouco euf&oacute;nico; ainda ela aqui teve algumas contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para com as exig&ecirc;ncias da harmonia, que se fosse obedecer ao pensamento<br \/>\n    de que se inspirou ao form&aacute;-lo, teria de lhe multiplicar muito mais<br \/>\n    as s&iacute;labas ; mas, dizia eu, se descobrirmos os pneumog&aacute;stricos<br \/>\n    e aplicarmos sobre eles os est&iacute;mulos ordin&aacute;rios, em vez da exacerba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de contrac&ccedil;&atilde;o card&iacute;aca que seria de esperar, o que se<br \/>\n    observa? a suspens&atilde;o s&uacute;bita das suas pulsa&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    as quais s&oacute; continuam depois de cessar o est&iacute;mulo, se a impress&atilde;o<br \/>\n    recebida n&atilde;o foi t&atilde;o forte ou t&atilde;o continuada que trouxesse<br \/>\n    consigo a suspens&atilde;o definitiva e com ela a morte.<\/p>\n<p> Este facto mostra no cora&ccedil;&atilde;o uma certa disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para contrariar as ordens nervosas, efectivamente singular. Bem merecia um<br \/>\n    nome feminino uma v&iacute;scera assim! Se repetirmos a experi&ecirc;ncia,<br \/>\n    observaremos o mesmo resultado, somente cada vez menos pronunciado. Sucede<br \/>\n    com todos os m&uacute;sculos que a repeti&ccedil;&atilde;o de uma impress&atilde;o<br \/>\n    estimuladora embota a faculdade de a ressentir.<\/p>\n<p> Com o cora&ccedil;&atilde;o sucede o mesmo; somente como ele revela a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    recebida n&atilde;o pela ac&ccedil;&atilde;o, mas pela supress&atilde;o dela,<br \/>\n    a indiferen&ccedil;a adquirida evidencia-se aqui pela continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das pulsa&ccedil;&otilde;es sob a influ&ecirc;ncia dos est&iacute;mulos.<\/p>\n<p> Os que n&atilde;o querem admitir em todo o seu valor a lei de independ&ecirc;ncia<br \/>\n    que Bernard admite em rela&ccedil;&atilde;o ao cora&ccedil;&atilde;o, recordam<br \/>\n    a exist&ecirc;ncia de uma outra esp&eacute;cie de nervo neste &oacute;rg&atilde;o,<br \/>\n    nervo que desta vez tem um nome a faz&ecirc;-lo benquisto dos mais exigentes;<br \/>\n    chama-se o grande simp&aacute;tico. Mas sigamos Bernard, que foi esse o nosso<br \/>\n    intento.<\/p>\n<p> Nestes estudos sobre o cora&ccedil;&atilde;o em geral e o humano em particular,<br \/>\n    os homens da ci&ecirc;ncia moderna tiveram um valios&iacute;ssimo colaborador.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as a ele muitos destes pontos da fisiologia do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    adquiriram um grau de exactid&atilde;o at&eacute; agora nunca obtido. Imagine<br \/>\n    de que colaborador eu falo ? Do mais competente neste assunto; do pr&oacute;prio<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; facto; o cora&ccedil;&atilde;o auxiliou com as suas mem&oacute;rias,<br \/>\n    escritas por ele mesmo, o trabalho dos fisiologistas.<\/p>\n<p> As mem&oacute;rias do cora&ccedil;&atilde;o! O cora&ccedil;&atilde;o autobi&oacute;grafo!<br \/>\n    Sim, senhor. Aquele misterioso &oacute;rg&atilde;o, aquela discreta e reservada<br \/>\n    individualidade, que todos julgavam incapaz de trair um segredo &#8212; e<br \/>\n    tantos se lhe confiavam! &#8212; cedeu &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    &eacute;poca &#8212; deu em escritor! &#8212; Ele pr&oacute;prio, em pessoa,<br \/>\n    se encarregou de tra&ccedil;ar sobre um papel com o estilete antigo as suas<br \/>\n    impress&otilde;es&#8230; vitais. E f&ecirc;-lo e tem-no feito na presen&ccedil;a<br \/>\n    de um curso; diante do audit&oacute;rio de Bernard e de outros fisiologistas<br \/>\n    experimentadores, que andam agora a ensinar a escrever a todas as v&iacute;sceras<br \/>\n    e &oacute;rg&atilde;os da economia.<\/p>\n<p> O Dr. Marey, laureado pela Academia, afei&ccedil;oou a pena e o papel; p&ocirc;-la<br \/>\n    ao alcance do &oacute;rg&atilde;o e ele n&atilde;o hesitou; palpitando ora<br \/>\n    regular e pausado, ora tumultuoso e r&aacute;pido, fez as suas confiss&otilde;es,<br \/>\n    revelou os seus mist&eacute;rios.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as ao cardi&oacute;grafo &#8212; &eacute; o nome do instrumento<br \/>\n    &#8212; pode-se j&aacute; dizer sem met&aacute;fora que se l&ecirc; no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humano.<\/p>\n<p> Pressinto o susto que estar&atilde;o experimentando as leitoras ao ouvirem<br \/>\n    esta revela&ccedil;&atilde;o. Ai, que se o cora&ccedil;&atilde;o lhes fala!<br \/>\n    Se lhe der para publicar tamb&eacute;m as suas mem&oacute;rias! O que a&iacute;<br \/>\n    n&atilde;o iria, santo Deus! &Oacute; reservas de tantos tempos, que singulares<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o receber&iacute;eis ! Como a todos nos<br \/>\n    surpreenderia o conceito dessas continuadas charadas, que n&oacute;s, pobres<br \/>\n    intelig&ecirc;ncias, tanto &agrave;s cegas andamos a decifrar, s&iacute;laba<br \/>\n    a s&iacute;laba&#8212;-procurando interpretar um sorriso, um olhar, uma l&aacute;grima,<br \/>\n    um rubor, um movimento de leque, um movimento de cortinas, e que tantas desilus&otilde;es<br \/>\n    nos preparam! J&aacute; imagino estas interessantes d&eacute;spotas meditando<br \/>\n    um sistema repressivo contra a mania da publicidade que temem; procurando<br \/>\n    organizar a censura para vigiar pelas indiscri&ccedil;&otilde;es do seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Assusta-as esta liberdade e verdadeiros diplomatas, s&oacute; querem deixar<br \/>\n    falar os l&aacute;bios, e quando muito os olhos, os quais uma longa educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; conseguiu h&aacute; muito diplomatizar, se me permitem esta express&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas sosseguem, minhas senhoras, ainda n&atilde;o chegou para esse imp&eacute;rio<br \/>\n    desp&oacute;tico que V. Ex.1&quot; exercem contra as franquias e liberdades<br \/>\n    dos seus &oacute;rg&atilde;os um novo 93. O cora&ccedil;&atilde;o de V. Ex.a&raquo;<br \/>\n    &eacute; ainda demasiadamente feminino, para dizer assim toda a verdade. Mais<br \/>\n    concentrado que o dos homens, tem j&aacute; causado o desespero dos fisiologistas.<br \/>\n    Querem ouvir Cl&aacute;udio Bernard? Depois de nos descrever o cardi&oacute;grafo,<br \/>\n    esse, para V. Ex.&raquo;&#8217; antip&aacute;tico instrumento do delito da publicidade<br \/>\n    dos mist&eacute;rios do cora&ccedil;&atilde;o, ele conclui: &laquo;Este instrumento<br \/>\n    &eacute; tanto mais delicado e mais fiel quanto mais pr&oacute;ximo do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se pode aplicar e menos separado dele fica pelas paredes do peito. &Eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil, pois, de conceber, sem que eu o explique, por que &eacute; mais<br \/>\n    f&aacute;cil ler no cora&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as do que no dos<br \/>\n    adultos, e tamb&eacute;m por que &eacute; naturalmente mais dif&iacute;cil<br \/>\n    ler no cora&ccedil;&atilde;o das mulheres do que no dos homens.&raquo; A independ&ecirc;ncia<br \/>\n    que, segundo Bernard, admitimos para o cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se<br \/>\n    deve entender, repetimos, como absoluta car&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre ele o o c&eacute;rebro, este suserano da confedera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    org&acirc;nica.<\/p>\n<p> Nisto se extrema a teoria moderna de outras anteriores, que &agrave; primeira<br \/>\n    vista parecem manter com ela estreito parentesco, Assim, j&aacute; vimos que<br \/>\n    as excita&ccedil;&otilde;es dos nervos s&atilde;o ressentidas, a seu modo,<br \/>\n    pelo cora&ccedil;&atilde;o; elas modificam, suspendendo-o, o exerc&iacute;cio<br \/>\n    do pr&oacute;prio &oacute;rg&atilde;o. Mas a espontaneidade deste exerc&iacute;cio<br \/>\n    &eacute; que caracteriza a independ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Nas condi&ccedil;&otilde;es normais, de integridade e normalidade do organismo,<br \/>\n    as coisas passam-se de uma maneira an&aacute;loga &agrave; que a experimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    revelou.<\/p>\n<p> Um facto novo entra no fen&oacute;meno &#8212; a sensibilidade.<\/p>\n<h2>CARTA AO REDACTOR DO &laquo;JORNAL DO PORTO&raquo; ACERCA DE V&Aacute;RIAS<br \/>\n    COISAS<\/h2>\n<p align=\"right\">Publicada com o pseud&oacute;nimo de Diana de Aveleda, naquele<br \/>\n    jornal, em 28 de Maio de 1864.<\/p>\n<p align=\"left\">Meu caro redactor: Permita-me que aproveite hoje meia hora de<br \/>\n    ociosidade a conversar consigo. A n&oacute;s outras, mulheres, assiste-nos<br \/>\n    o inaufer&iacute;vel direito de fazer, de quando em quando, destas exig&ecirc;ncias<br \/>\n    e os senhores devem ser-nos reconhecidos por assim usarmos dele, pois &eacute;<br \/>\n    um dos poucos ensejos, que se lhes oferecem na pr&aacute;tica da vida, de<br \/>\n    se mostrarem am&aacute;veis &#8212; coisa da qual os homens s&eacute;rios<br \/>\n    e preocupados t&atilde;o impertinentemente se descuidam.<\/p>\n<p> N&atilde;o espere de mim, estim&aacute;vel redactor, que, sujeitando-me<br \/>\n    &agrave;s praxes geralmente seguidas, principie esta carta por apresentar<br \/>\n    o programa que desenvolverei no decurso dela, pondo em relevo a ideia principal,<br \/>\n    o pensamento subordinante e, numa palavra, observando escrupulosamente os<br \/>\n    ditames de uma l&oacute;gica inflex&iacute;vel.<\/p>\n<p> Sei que seria mais met&oacute;dica se o fizesse e contudo n&atilde;o o farei.<\/p>\n<p> Por quem &eacute;, deixe-me ser mulher &agrave; vontade! N&atilde;o sabe<br \/>\n    que odeio a l&oacute;gica? Era nome com que antipatizava havia muito, este<br \/>\n    nome de l&oacute;gica, como, regra geral, antipatizo com quase todos os esdr&uacute;xulos;<br \/>\n    mas, principalmente depois que soube o que a coisa era, subiu a minha antipatia<br \/>\n    a um ponto elevad&iacute;ssimo.<\/p>\n<p> Disseram-me um dia que assim se chamava a arte de cogitar ou de raciocinar.<\/p>\n<p> Que pretensiosa arte! Folguei depois muito em saber que um tal Dalembert,<br \/>\n    o qual, Deus lhe perdoe, julgo que tamb&eacute;m foi fil&oacute;sofo, dizia<br \/>\n    que esta arte s&oacute; aproveitava aos que podiam passar sem ela. <\/p>\n<p align=\"left\">Sabe de alguma outra, da qual se possa dizer o mesmo? S&oacute;<br \/>\n    se for a dos cabeleireiros, a qual aproveita principalmente aos calvos, que<br \/>\n    pareciam ter motivos para, melhor que ningu&eacute;m, prescindirem dos seus<br \/>\n    servi&ccedil;os.<\/p>\n<p> Portanto n&atilde;o me exija grandes exibi&ccedil;&otilde;es de l&oacute;gica,<br \/>\n    nem me censure por falta de m&eacute;todo.<\/p>\n<p> Programa para qu&ecirc;? H&aacute; l&aacute; nada mais desacreditado? Desde<br \/>\n    os programas dos minist&eacute;rios at&eacute; aos dos pedicuros, ainda n&atilde;o<br \/>\n    apareceu um que fosse cumprido, por mais compridos que sejam todos, N&atilde;o<br \/>\n    me leve a mal o calembur, que prometo n&atilde;o abusar da indulg&ecirc;ncia<br \/>\n    com que mo desculpar.<\/p>\n<p> N&atilde;o farei programa. Est&aacute; decidido. Vou escrever sem saber<br \/>\n    ainda de que tratarei. &Eacute; a mais agrad&aacute;vel maneira de conversar<br \/>\n    que eu conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> Semelha-se a bordejar sem destino no rio por uma tarde de Primavera.<\/p>\n<p> Primavera? Como me veio esta ideia? Bonita maneira de gozar a Primavera<br \/>\n    atrav&eacute;s das persianas do meu quarto! A primavera das cidades! Que ins&iacute;pida<br \/>\n    par&oacute;dia &agrave; primavera dos campos ! Faz-me lembrar estas paisagens<br \/>\n    de teatro, onde a luz do g&aacute;s substitui a aurora e as &aacute;rvores<br \/>\n    de lona, na sua imobilidade, exigem do espectador a for&ccedil;a de concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    necess&aacute;ria para as supor rumorejando : Ai o campo! o campo! H&aacute;<br \/>\n    um ano fui eu l&aacute; passar alguns meses. Aconselharam-mo os facultativos,<br \/>\n    &#8226; a pretexto de combater as tend&ecirc;ncias de uma di&aacute;tese heredit&aacute;ria;<br \/>\n    &#8212; o termo &eacute; deles. Ora eu, confesso-o, tenho a fragilidade de<br \/>\n    os respeitar, temer e servir.<\/p>\n<p> Era tamb&eacute;m em plena Primavera! O campo estava esplendidamente verde,<br \/>\n    o c&eacute;u magnificamente azul.<\/p>\n<p> Que madrugadas! Que crep&uacute;sculos! Como eu me sentia bem no meio de<br \/>\n    tantas maravilhas! Como se me inoculava a vida da natureza inteira! Aqueles<br \/>\n    ares embalsamados, infiltrando-se por entre a espessura dos arvoredos; aquela<br \/>\n    relva, humedecida como orvalho matutino, aqueles arbustos que, quando eu passava,<br \/>\n    me faziam a delicada surpresa de me cobrirem de p&eacute;talas esfolhadas,<br \/>\n    como se eu fosse uma prima-dona em noite de seu beneficio; aquele inimit&aacute;vel<br \/>\n    concerto de p&aacute;ssaros, insectos, brisas, ribeiros, a&ccedil;udes e campan&aacute;rios;<br \/>\n    aquela turbamulta de borboletas e abelhas com suas valsas extravagantes por<br \/>\n    sobre moitas enfloradas; aquelas criancinhas loiras e meias nuas que me surgiam<br \/>\n    de toda a parte, como espont&acirc;neas produ&ccedil;&otilde;es do campo,<br \/>\n    a rirem por entre os silvados em que colhiam amoras, do meio das searas onde<br \/>\n    pareciam flutuar em um oceano de verdura, a espreitarem- me da copa frondosa<br \/>\n    dos carvalhos e castanheiros, como estas cabe&ccedil;as de querubins que marchetam<br \/>\n    o pedestal de nuvens de Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o; a saudarem-me,<br \/>\n    batendo as palmas quando me viam passar pela margem dos pequenos rios, onde<br \/>\n    se banhavam nuas, tudo isto, meu caro redactor, me deliciava; tudo isto operou<br \/>\n    em mim uma metamorfose completa. H&aacute;bitos, gostos, pensamentos, tudo<br \/>\n    senti eu que se me ia pouco a pouco modificando&#8230; n&atilde;o sei se para<br \/>\n    bem se para mal.<\/p>\n<p> Era outra, muito outra do que fora. Desconhecia-me&#8217; N&atilde;o encontrava<br \/>\n    prazer em tantas coisas que apreciava na cidade e descobria, em outras, belezas<br \/>\n    que at&eacute; ent&atilde;o ignorava! N&atilde;o me viessem falar, por exemplo,<br \/>\n    em monumentos de arquitectura ou modelos de estatu&aacute;ria. Artes s&atilde;o<br \/>\n    estas que nasceram nas cidades, que para as cidades vivem, s&eacute;rias e<br \/>\n    graves de mais para se darem naqueles ares campestres, onde tudo &eacute;<br \/>\n    ligeiro, folgaz&atilde;o e jovial.<\/p>\n<p> Produziriam l&aacute; o mesmo desgra&ccedil;ado efeito, que uma daquelas<br \/>\n    elegantes dos arredores, que eu via a cada passo, exibindo por montes e vales<br \/>\n    o seu vestido de moire e xale de tonquin, rid&iacute;culas futilidades, no<br \/>\n    meio das futilidades sublimes da natureza: flores, perfumes e harmonias.<\/p>\n<p> O que sobretudo me agradava ent&atilde;o era o desenho ligeiro, esbo&ccedil;ado<br \/>\n    apenas, ao correr do crayon; o ornato fantasiado e caprichoso, como os arrendilhados<br \/>\n    irregulares que descrevem na relva as sombras da folhagem; as aguarelas em<br \/>\n    que o pincel copiara a tra&ccedil;os r&aacute;pidos as paisagens mais campestres;<br \/>\n    agradava-me a simples obra de talha que adornava as colunatas dos altares<br \/>\n    na igreja paroquial, e a cruz r&uacute;stica a marcar no cemit&eacute;rio<br \/>\n    o lugar onde a genuflex&atilde;o e a prece de um amigo pode ser mais grata<br \/>\n    &agrave; mem&oacute;ria do morto.<\/p>\n<p> Pois em m&uacute;sica? Pode acreditar que n&atilde;o trocaria ent&atilde;o<br \/>\n    por uma composi&ccedil;&atilde;o de Bellini, cantada pelo melhor tenor do<br \/>\n    mundo, as cantilenas singel&iacute;ssimas que as raparigas entoavam por l&aacute;<br \/>\n    em coro ao voltarem &agrave;s trindades do trabalho ou nos ser&otilde;es nocturnos?<br \/>\n    Mais ainda, e agora hesito deveras ao fazer a confiss&atilde;o, achava at&eacute;&#8230;<\/p>\n<p> desculpem-me os legisladores municipais, achava no chiar dos carros ao longe<br \/>\n    uma harmonia inexprim&iacute;vel. &Agrave;s vezes chegava a impressionar-<br \/>\n    me mais&#8230; &oacute; g&eacute;nio da arte, perdoa-me, que me parece vou ser<br \/>\n    her&eacute;tica!&#8230; do que me lembro ter-me impressionado a rabeca de Sivori,<br \/>\n    quando me entusiasmou no Porto.<\/p>\n<p> De igual influ&ecirc;ncia se ressentiam as minhas predilec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    liter&aacute;rias.<\/p>\n<p> Quer saber? N&atilde;o me foi poss&iacute;vel apreciar a leitura de Notre-<br \/>\n    -Dame, por exemplo: o Chatterton do A. de Vigny, tamb&eacute;m o n&atilde;o<br \/>\n    compreendia; Ponsard, achava-o de gelo; o monge de Cister n&atilde;o me satisfez<br \/>\n    como dantes; Byron parecia-me falso; Balzac raras vezes correspondia aos meus<br \/>\n    desejos. Falava-se t&atilde;o pouco de &aacute;rvores e campinas em quase<br \/>\n    todos aqueles livros; tantas vezes me apareciam edif&iacute;cios, pra&ccedil;as<br \/>\n    e sal&otilde;es em vez de choupanas, florestas e lares, que eu n&atilde;o<br \/>\n    me dava bem com eles. Achava-os deslocados. Que querem? Pus-me ent&atilde;o<br \/>\n    a reflectir.<\/p>\n<p align=\"left\">Isto que era em mim apenas uma fei&ccedil;&atilde;o passageira<br \/>\n    do gosto, fei&ccedil;&atilde;o acidental, como o novo sistema de vida que<br \/>\n    levava, para quantos n&atilde;o seria permanente? Quantos, desejando ler,<br \/>\n    teriam procurado sempre em v&atilde;o, como eu somente procurava agora, um<br \/>\n    livro que pudessem compreender, ao alcance da sua intelig&ecirc;ncia, &agrave;<br \/>\n    altura do seu sentimento, que n&atilde;o sa&iacute;sse da esfera dos seus<br \/>\n    h&aacute;bitos ? Quantos poderiam repetir aquela sublime exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Reine Garde, a simp&aacute;tica costureira para quem Lamartine escreveu<br \/>\n    o seu romance Genoveva: Quem nos dar&aacute; a esmola de um livro?! Que expressiva<br \/>\n    frase! Sempre que a recordo me sinto comovida at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas.<br \/>\n    Quem me dera poder satisfazer aquela sede de esp&iacute;rito! Aflige-me ent&atilde;o<br \/>\n    a minha incapacidade, como quando, em crian&ccedil;a, um velho mendigo se<br \/>\n    chegava a mim pedindo-me esmola, que eu n&atilde;o tinha para lhe dar.<\/p>\n<p> Ora se o povo franc&ecirc;s, pela boca de Reine Garde ou pela boca de Lamartine<br \/>\n    pedia assim a esmola de um livro, que far&aacute; o nosso povo, coitado, para<br \/>\n    o qual escasseiam muito mais ainda os alimentos intelectuais.<\/p>\n<p> Como os nossos escritores se lembram pouco dele! Bem o sentia eu quando<br \/>\n    esgotava a pequena biblioteca que da cidade levara comigo, escolhida segundo<br \/>\n    as minhas predilec&ccedil;&otilde;es anteriores, e desesperava de encontrar<br \/>\n    um livro que me servisse.<\/p>\n<p> Apareceu um finalmente, um livro, cujo autor aben&ccedil;oarei com todas<br \/>\n    as veras do meu cora&ccedil;&atilde;o. Infeliz! Morreu j&aacute;.<\/p>\n<p> A meu ver desapareceu com ele um dos mais prometedores talentos de romancista<br \/>\n    popular, que t&ecirc;m surgido entre n&oacute;s. O autor era Rodrigo Paganino,<br \/>\n    o livro Os Contos do Tio Joaquim.<\/p>\n<p> A Imprensa havia recomendado pouco este livro.<\/p>\n<p> Tem desses descuidos a Imprensa. Lio-o por isso sem a menor preven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    favor&aacute;vel. Mas era justamente um livro assim que Reine Garde pedia;<br \/>\n    &eacute; deste g&eacute;nero de literatura que o povo precisa; &eacute; por<br \/>\n    esta forma que se resolve a importante quest&atilde;o das subsist&ecirc;ncias<br \/>\n    intelectuais, n&atilde;o menos valiosa do que a que ocupa as aten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos economistas.<\/p>\n<p> Pouco tempo antes, discutia-se primazias entre os Lus&iacute;adas e o poema<br \/>\n    do Sr. Tom&aacute;s Ribeiro; tratava-se de tirar a limpo qual dos dois seria<br \/>\n    prefer&iacute;vel como livro para leitura nas aulas de instru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    prim&aacute;ria.<\/p>\n<p> Todos se lembram dessas renhidas controv&eacute;rsias. Eu por mim nunca<br \/>\n    pude tom&aacute;-las a s&eacute;rio naquele ponto. Achei sempre muita gra&ccedil;a<br \/>\n    ao empenho em que via metidos os cr&iacute;ticos. Quem se podia convencer<br \/>\n    seriamente de que qualquer daqueles excelentes livros fosse pr&oacute;prio<br \/>\n    para as intelig&ecirc;ncias infantis dos pequenos leitores? Um com o seu sabor<br \/>\n    cl&aacute;ssico e &eacute;pico e suas compara&ccedil;&otilde;es mitol&oacute;gicas,<br \/>\n    o outro com o seu pronunciad&iacute;ssimo car&aacute;cter de lirismo e suas<br \/>\n    imagens rom&acirc;nticas e arrojadas, e ambos a suscitarem fundamentadas apreens&otilde;es<br \/>\n    aos mestres, por um ou outro epis&oacute;dio, que, baldados os esfor&ccedil;os<br \/>\n    dos cr&iacute;ticos, ningu&eacute;m poder&aacute; considerar como demasiado<br \/>\n    edificantes.<\/p>\n<p> Ora quando eu li o livro de Faganino pareceu-me encontrar nele justamente<br \/>\n    tudo o que debalde os cr&iacute;ticos procuravam nos outros.<\/p>\n<p> Aquele, sim, era um livro verdadeiramente escrito para o povo e para as<br \/>\n    crian&ccedil;as! livro em que a aten&ccedil;&atilde;o se prende pela verdade,<br \/>\n    em que o gosto se educa pelo estilo, em que o sentimento se cultiva por uma<br \/>\n    moral sem liga, porque &eacute; a moral do dec&aacute;logo e do evangelho:<br \/>\n    livro escrito segundo o programa estabelecido por Lamartine naquele belo pref&aacute;cio<br \/>\n    da Genoveva e talvez mais fielmente observado ainda por o nosso romancista<br \/>\n    do que por o pr&oacute;prio legislador.<\/p>\n<p> Lembro-me bem que o li a um rancho de raparigas do campo e pude observar<br \/>\n    como elas o compreendiam sem custo. N&atilde;o havia uma palavra que ignorassem,<br \/>\n    uma maneira de dizer que lhes causasse estranheza, as imagens faziam-nas sorrir<br \/>\n    pela exactid&atilde;o, como sorrimos ao ver o retrato fiel de uma pessoa conhecida;<br \/>\n    n&atilde;o eram caracteres extravagantes, paix&otilde;es excepcionais, situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inesperadas e &uacute;nicas o que assim lhes absorvia a aten&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio, era por aquelas personagens pensarem, sentirem e viverem<br \/>\n    como elas, que tanto lhes interessava o livro.<\/p>\n<p> Foi uma grande perda a de Rodrigo Paganino! E, vejam: aquele volume, escrito<br \/>\n    para se ler no campo, como eu o li, junto &agrave; fogueira que crepita no<br \/>\n    lar, sobre a ponte r&uacute;stica que atravessa o ribeiro ou no degrau da<br \/>\n    ermida que, elevando-se no topo do monte, domina a aldeia toda, passou quase<br \/>\n    desapercebido no mundo das letras. N&atilde;o suscitou esse murm&uacute;rio<br \/>\n    liter&aacute;rio, que acompanha certas obras felizes, murm&uacute;rio em que<br \/>\n    se re&uacute;ne o louvor &agrave; maledic&ecirc;ncia, a hip&eacute;rbole laudat&oacute;ria<br \/>\n    &agrave; cal&uacute;nia escandalosa, os guindados elogios &agrave;s censuras<br \/>\n    exageradas.<\/p>\n<p> Foi um livro anunciado apenas, lido por poucos, comprado por menos, livro<br \/>\n    cujo autor n&atilde;o tem o seu retrato gravado na Revista Contempor&acirc;nea<br \/>\n    e que portanto quem quer tem o direito de desconhecer.<\/p>\n<p> E, apesar de tudo isso, aquele livro, como disse n&atilde;o sei quem a respeito<br \/>\n    de n&atilde;o sei que obra, era alguma coisa mais do que um bom livro, era<br \/>\n    uma boa ac&ccedil;&atilde;o! Aceitem-se-me estas palavras &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    a t&iacute;tulo de critica liter&aacute;ria &#8212; Deus me defenda de pretens&otilde;es<br \/>\n    a esse g&eacute;nero &#8212; mas como um tributo rendido &agrave; mem&oacute;ria<br \/>\n    de um escritor infeliz, a quem sou devedora de algumas horas de incompar&aacute;vel<br \/>\n    prazer, que a sua leitura me proporcionou.<\/p>\n<p align=\"left\">J&aacute; que estou em mar&eacute; de comunicar-lhe as minhas<br \/>\n    impress&otilde;es daquela &eacute;poca, permita-me que lhe refira uma outra<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o, que ent&atilde;o principiei a fazer e que desse<br \/>\n    tempo para c&aacute; tenho tido o desgosto de ver confirmada muita vez.<\/p>\n<p align=\"left\">Depois da leitura dos romances, havia eu passado para a leitura<br \/>\n    das poesias, e pela primeira vez notei, dolorosa descoberta! que uma terr&iacute;vel<br \/>\n    doen&ccedil;a lavrava em grande n&uacute;mero dos jovens poetas, de cujas<br \/>\n    produ&ccedil;&otilde;es me havia rodeado.<\/p>\n<p> Quando menos o esperava, saiam-me fil&oacute;sofos! Fil&oacute;sofos a fazerem<br \/>\n    versos! Cada poesia era a exposi&ccedil;&atilde;o de uma teoria de metaf&iacute;sica<br \/>\n    ultragerm&acirc;nica, uma argumenta&ccedil;&atilde;o de sofista, e at&eacute;,<br \/>\n    quando Deus queria, o desenvolvimento de qualquer princ&iacute;pio de ci&ecirc;ncia<br \/>\n    politica; e n&oacute;s, as mulheres, que nos afiz&eacute;ramos a contar com<br \/>\n    os poetas do nosso lado, a acharmo-nos abandonadas por eles! &Eacute; uma<br \/>\n    das faces mais peculiares do nosso tempo.<\/p>\n<p> Singular&iacute;ssima face! Os homens de ci&ecirc;ncia amenizam-se; perdem<br \/>\n    a cl&aacute;ssica e quase selvagem esquivan&ccedil;a que os caracterizava;<br \/>\n    as teorias outrora inacess&iacute;veis, procuram revesti-las hoje de formas<br \/>\n    elegantes que deleitam, que atraem, que seduzem; e os poetas, pelo contr&aacute;rio,<br \/>\n    fazem-se bisonhos, cient&iacute;ficos, dissertam, discutem, demonstram, concluem<br \/>\n    em verso e ningu&eacute;m os entende.<\/p>\n<p> Quantas vezes eu, mulher, eu, que aborre&ccedil;o as torturas da intelig&ecirc;ncia,<br \/>\n    me ponho a ler o Michelet, o Babinet, o sr. visconde de Vila Maior, o Sr.<br \/>\n    Lapa e outros cultores da ci&ecirc;ncia intelig&iacute;vel e am&aacute;vel,<br \/>\n    de prefer&ecirc;ncia a muitos dos nossos poetas, que me d&atilde;o muito mais<br \/>\n    que entender j Como eu tinha vontade de dizer-lhes: &laquo;N&atilde;o vos<br \/>\n    desenganareis, meus caros poetas, que trilhais um caminho errado? Se renegais<br \/>\n    as nossas bandeiras, se desertais das nossas coortes, correis &agrave; vossa<br \/>\n    perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &laquo;Gloriosa ala dos namorados, n&atilde;o vedes que as vit&oacute;rias<br \/>\n    alcan&ccedil;adas, as deveis principalmente a essa antiga e simp&aacute;tica<br \/>\n    divisa do vosso estandarte? &laquo;Olhai: crede-me, os fil&oacute;sofos nunca,<br \/>\n    por mais que teimeis, aceitar&atilde;o as vossas teorias metrificadas; os<br \/>\n    governos, tamb&eacute;m n&atilde;o espereis que tomem a s&eacute;rio os vossos<br \/>\n    sistemas de organiza&ccedil;&atilde;o social. S&oacute; n&oacute;s &eacute;<br \/>\n    que vos sabemos ter na import&acirc;ncia que mereceis e contudo assim vos<br \/>\n    descuidais de escrever para n&oacute;s? &laquo;&Eacute; uma ingratid&atilde;o<br \/>\n    indesculp&aacute;vel e da qual tereis ainda de dar estreitas contas um dia.&raquo;<br \/>\n    Pois o amor, pois a natureza, pois a P&aacute;tria, pois a liberdade, pois<br \/>\n    Deus, j&aacute; n&atilde;o ser&atilde;o fontes perenes da mais verdadeira<br \/>\n    inspira&ccedil;&atilde;o? Estar&atilde;o esgotados esses inesgot&aacute;veis<br \/>\n    assuntos? Porque os pondes de parte? ou, quando os tratais, porque os transformais<br \/>\n    em tema de disserta&ccedil;&otilde;es, em vez de motivos para cantos? Discutis<br \/>\n    o amor, discutis a liberdade, discutis Deus, mas n&atilde;o os cantais.<\/p>\n<p> Quase nunca os cantais. J&aacute; vos envergonhais de ser simplesmente poetas!<br \/>\n    Mas, reparai:<\/p>\n<p align=\"left\">Quando foi que Soares de Passos, esse grande talento l&iacute;rico,<br \/>\n    que v&oacute;s todos admirais, se elevou mais alto nos voos da sua poderosa<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o de poeta? N&atilde;o foi, quando, erguendo os olhos<br \/>\n    ao C&eacute;u, se sentiu inspirado pelo magnificente espect&aacute;culo do<br \/>\n    firmamento, e nas p&aacute;ginas abertas desse &laquo;livro do infinito&raquo;<br \/>\n    leu uma hossana ao Criador? N&atilde;o foi, quando volvendo as vistas para<br \/>\n    o passado as fixou no maior e mais sublime vulto da nossa hist&oacute;ria<br \/>\n    p&aacute;tria, em Cam&otilde;es, e, sondando o &laquo;estreito espa&ccedil;o&raquo;<br \/>\n    daquele seio her&oacute;ico, lhe compreendeu, com instintos de poeta, a &laquo;imensidade<br \/>\n    do tormento&raquo; que l&aacute; ia? &Eacute; um poeta a revelar-nos os mist&eacute;rios<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o de outro poeta, em t&atilde;o solen&iacute;ssimo<br \/>\n    instante.<\/p>\n<p> Escutai-o, que vos ser&aacute; util&iacute;ssima a li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Que viu ele a combater-se naquela grande alma &laquo;como o vento nas ondas<br \/>\n    do oceano&raquo;? Que imagens a povoavam?<\/p>\n<p align=\"left\">O amor da P&aacute;tria, a ingratid&atilde;o doa homens Nat&eacute;rcia,<br \/>\n    a gl&oacute;ria, as ilus&otilde;es passadas E a P&aacute;tria Exalando moribunda<br \/>\n    Seu &uacute;ltimo gemido.<\/p>\n<p align=\"left\">V&oacute;s provavelmente n&atilde;o ter&iacute;eis resistido<br \/>\n    &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de nos pintar Cam&otilde;es lutando tamb&eacute;m<br \/>\n    com alguns desses insol&uacute;veis problemas de esfinge, como o &laquo;&iacute;o<br \/>\n    be or not to be&raquo; de Hamlet.<\/p>\n<p> Ora confessai: n&atilde;o &eacute; verdade que n&atilde;o ter&iacute;eis<br \/>\n    resistido ? Mas o Cam&otilde;es de Soares de Passos n&atilde;o morre como<br \/>\n    o seu S&oacute;crates.<\/p>\n<p> O sentimento predomina naquele, e o sentimento n&atilde;o discute.<\/p>\n<p> O primeiro era um poeta, o segundo era um fil&oacute;sofo.<\/p>\n<p> Ao fil&oacute;sofo competia morrer rodeado dos seus disc&iacute;pulos; a<br \/>\n    morte era a &uacute;ltima li&ccedil;&atilde;o que lhes dava; ao poeta competia<br \/>\n    morrer pronunciando aquele<\/p>\n<p align=\"left\">&laquo;P&aacute;tria querida, morreremos juntos&raquo;!<\/p>\n<p align=\"left\">Assim o compreendeu Soares de Passos e assim o tinha j&aacute;<br \/>\n    compreendido Garrett ao terminar tamb&eacute;m o seu poema com a sentida exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do grande &eacute;pico:<\/p>\n<p align=\"left\">P&aacute;tria, ao menos, juntos morreremos.<\/p>\n<p align=\"left\">Para Cam&otilde;es, Nat&eacute;rcia e Portugal! Amor e P&aacute;tria<br \/>\n    para todos os poetas! E que alma inspirada de poesia deixaria de ter um c&acirc;ntico<br \/>\n    a sagrar-lhes ?<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o queirais que seja a vossa; &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que ela n&atilde;o proteste contra a tirania dos vossos caprichos. Quereis<br \/>\n    saber agora como a natureza tamb&eacute;m inspirou Soares de Passos? Vede-o<br \/>\n    no Bu&ccedil;aco, sentindo- se estremecer ao escutar o solene rumorejar dos<br \/>\n    cedros; vede-o, quando, servindo-me de suas pr&oacute;prias palavras:<\/p>\n<p align=\"left\">Mais longe deste mundo Mais pr&oacute;ximo dos C&eacute;us Ali,<br \/>\n    meditabundo Se erguia aos p&eacute;s de Deus.<\/p>\n<p align=\"left\">Reparai tamb&eacute;m como ele lhe consagrava um c&acirc;ntico,<br \/>\n    quando a viu despir melanc&oacute;lica no Outono as suas galas festivas e<br \/>\n    misturar j&aacute; com as primeiras l&aacute;grimas de orvalho os seus &uacute;ltimos<br \/>\n    sorrisos; como ela o inspirava na Primavera, ao cingir alvoro&ccedil;ada as<br \/>\n    suas vestes de verdura e adornando-se de flores. O passado brilhante e o incerto<br \/>\n    porvir da p&aacute;tria; a f&eacute; na reden&ccedil;&atilde;o, a liberdade,<br \/>\n    o amor nas suas mais puras e delicadas sensa&ccedil;&otilde;es, a solene como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do momento da partida, a saudade&#8230; eis as principais notas daqueles seus<br \/>\n    cantos harmoniosos, notas que em todos os peitos, patentes &agrave; poesia,<br \/>\n    despertar&atilde;o sempre um eco, que todas as almas repercutir&atilde;o.<\/p>\n<p> No volume de Soares de Passos n&atilde;o h&aacute; uma s&oacute; poesia<br \/>\n    que n&oacute;s, as mulheres, n&atilde;o compreendamos: nos vossos, auspiciosos<br \/>\n    talentos liter&aacute;rios que surgis agora, quantas se contar&atilde;o, se<br \/>\n    continuais assim ? &Eacute; um pedido de mulher, n&atilde;o &eacute; um conselho<br \/>\n    de cr&iacute;tico, o que eu registo aqui.<\/p>\n<p> Por amor de Deus, n&atilde;o nos abandoneis, poetas! Olhai que somos n&oacute;s<br \/>\n    as vossas mais fi&eacute;is aliadas, n&oacute;s as que temos sempre protestado<br \/>\n    contra o ostracismo a que muitos homens sisudos vos t&ecirc;m votado por vezes.<\/p>\n<p> V&iacute;tor Hugo, entre as suas poesias transcendentes e metaf&iacute;sicas,<br \/>\n    tem composi&ccedil;&otilde;es para n&oacute;s. Nos volumes das Contempla&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    porventura os mais filos&oacute;ficos de todos os seus, h&aacute; pequenas<br \/>\n    poesias que v&oacute;s talvez julg&aacute;sseis indignas da vossa empertigada<br \/>\n    seriedade. Ficam-vos t&atilde;o mal esses ares catedr&aacute;ticos, meus queridos<br \/>\n    poetas ! N&atilde;o que se soub&eacute;sseis como vos ficam mall Disseram-me<br \/>\n    que era a escola de V&iacute;tor Hugo, a que seguis.<\/p>\n<p> Que Deus perdoe ao ilustre poeta, se ele concorreu para vos p&ocirc;r assim.<br \/>\n    Mas eu julgo-o inocente.<\/p>\n<p> Que culpa teria Leotard, por exemplo, se algum imprudente, querendo imit&aacute;-lo<br \/>\n    nos seus voos de trap&eacute;zio, quebrasse as pernas &agrave;s primeiras<br \/>\n    tentativas? Dos imitadores de P&iacute;ndaro, dizia Hor&aacute;cio, segundo<br \/>\n    eu vejo numa tradu&ccedil;&atilde;o de Garrett &#8212; n&atilde;o v&atilde;o<br \/>\n    agora julgar que eu sei latim &#8212; &laquo;que se fiavam em asas que tinham<br \/>\n    pegado com cera e que, novos &iacute;caros, viriam a ter a sorte deste&raquo;.<\/p>\n<p> Se se chegasse um dia a dizer o mesmo de v&oacute;s? Perdoai-me este mau<br \/>\n    humor impertinente; mas se a poesia l&iacute;rica era a minha leitura favorita<br \/>\n    e v&oacute;s ma preparais de maneira que eu tenho de renunciar a ela! Respeitai<br \/>\n    a pronunciada individualidade po&eacute;tica de V&iacute;tor Hugo e desenvolvei<br \/>\n    a vossa, que &eacute; melhor. N&atilde;o vedes que estais fazendo torturas<br \/>\n    ao vosso talento, o qual tem faculdades de sobra para ser original ? Tudo<br \/>\n    isto que eu pensava o ano passado, penso ainda agora, porque vejo aumentar<br \/>\n    de intensidade a febre filos&oacute;fica de alguns dos nossos poetas.<\/p>\n<p> As justas e torneios da Idade-M&eacute;dia acabaram. N&oacute;s resignamo-<br \/>\n    -nos. Os gabinetes diplom&aacute;ticos usurparam-nos o direito de decidir<br \/>\n    das contendas.<\/p>\n<p> A humanidade pouco lucrou com a mudan&ccedil;a de j&uacute;ri. N&oacute;s,<br \/>\n    se pud&eacute;ssemos, n&atilde;o ter&iacute;amos deixado esmagar a Pol&oacute;nia<br \/>\n    e tomar&iacute;amos decerto o partido do fraco nessa desigual e antip&aacute;tica<br \/>\n    luta travada na Dinamarca; ou, pelo menos, far&iacute;amos observar as leis<br \/>\n    da cavalaria, que t&atilde;o esquecidas andam nestes tempos. Mas enfim resignemo-<br \/>\n    nos.<\/p>\n<p> Restavam-nos os certames liter&aacute;rios, competia-nos naturalmente cingir<br \/>\n    os laur&eacute;is &agrave; fronte do vencedor, pagar-lhes os brios do combate<br \/>\n    com um gesto, com uma flor, com um sorriso; mas se eles j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    combatem por n&oacute;s? se abjuraram o nosso culto? se nos falam uma linguagem<br \/>\n    que n&oacute;s n&atilde;o compreendemos ?! se nos querem iniciar nos dogmas<br \/>\n    da sua filosofia abstrusa, nebulosa, inintelig&iacute;vel ?! Assistiremos<br \/>\n    impass&iacute;veis a mais esta nova usurpa&ccedil;&atilde;o? Eu n&atilde;o,<br \/>\n    por certo, e pe&ccedil;o-lhe licen&ccedil;a, meu caro redactor, j&aacute;<br \/>\n    que as minhas ideias tomaram tal direc&ccedil;&atilde;o, para dedicar o resto<br \/>\n    desta carta &agrave;s leitoras do seu jornal.<\/p>\n<p> Sim, quero promover uma cruzada feminina, cujos destinos dever&atilde;o<br \/>\n    ser brilhant&iacute;ssimos.<\/p>\n<p> De n&oacute;s, de n&oacute;s todas, minhas am&aacute;veis leitoras, &eacute;<br \/>\n    que deve partir a desejada e salutar reac&ccedil;&atilde;o. Olhai que nos<br \/>\n    querem privar da poesia que se canta, dando-nos a poesia que se estuda. Vede<br \/>\n    que os poetas nos fogem, justamente na ocasi&atilde;o em que os homens da<br \/>\n    ci&ecirc;ncia se estavam fazendo galanteadores e am&aacute;veis, pensai no<br \/>\n    que disto pode resultar e empenhai toda a for&ccedil;a dos vossos atractivos<br \/>\n    para conjurar esse mal.<\/p>\n<p> O que n&atilde;o poder&aacute; conseguir um olhar, um sorriso, um pedido,<br \/>\n    uma simples insinua&ccedil;&atilde;o, um arrufo, uma l&aacute;grima&#8230; sim,<br \/>\n    at&eacute; uma l&aacute;grima das vossas? Por amor de Deus, chorai, chorai<br \/>\n    se tanto preciso for, mas salvai- me a poesia da doen&ccedil;a que a corr&oacute;i,<br \/>\n    transformai-me estes poetas, de reformadores em amantes, e tereis conseguido<br \/>\n    tudo, tereis operado uma das mais salutares revolu&ccedil;&otilde;es que se<br \/>\n    t&ecirc;m visto no mundo.<\/p>\n<p> E permita-me que com esta perora&ccedil;&atilde;o fique hoje por aqui, amigo<br \/>\n    redactor, confessando-me.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Maio de 1864.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Sua toda dedicada Diana de Aveleda.<\/p>\n<h2>IMPRESS&Otilde;ES DO CAMPO A CEC&Iacute;LIA<\/h2>\n<p align=\"right\">Transcrita do &laquo;Jornal do Porto&raquo;, de 1 de Agosto<br \/>\n    de 1864.<\/p>\n<p align=\"left\">&#8230;Levantava-me ent&atilde;o pela manh&atilde; cedo e ia passear.<\/p>\n<p> No campo farias o mesmo, acredita. Perderias tamb&eacute;m esses enraizados<br \/>\n    h&aacute;bitos de vida da cidade, que t&atilde;o escrupulosamente respeitas<br \/>\n    em ti. Se &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil sair no campo! N&atilde;o imaginas!<br \/>\n    Passa-se, t&atilde;o naturalmente, t&atilde;o sem se sentir, da sala para<br \/>\n    a rua, que nem a tua indol&ecirc;ncia se intimidaria com a ideia, como sucede<br \/>\n    ai.<\/p>\n<p> Era levantar-se a gente da mesa de costura, p&ocirc;r o primeiro chap&eacute;u<br \/>\n    que encontrasse &agrave; m&atilde;o, e, sem consultar o espelho, ir por esses<br \/>\n    campos fora, comendo cerejas, como uma crian&ccedil;a e sem a afectada compostura<br \/>\n    a que somos obrigadas aqui.<\/p>\n<p> O meu passeio favorito era por uma extensa avenida de castanheiros que havia<br \/>\n    .nas imedia&ccedil;&otilde;es. Que majestade a daquelas &aacute;rvores! Quantas<br \/>\n    vezes me lembrei das &aacute;rvores an&atilde;s do teu jardim, disso a que<br \/>\n    tu chamas pomposamente a tua floresta.<\/p>\n<p> A tua floresta, Cec&iacute;lia! Floresta de tangerinas e lilases! Valha-te<br \/>\n    Deus, minha pretensiosa! Se as devesas e soutos, que vi por l&aacute;, soubessem<br \/>\n    do insulto! Quase sempre sa&iacute;a s&oacute;, levando apenas um livro comigo.<\/p>\n<p> Esta faculdade de sair s&oacute;! Atreves-te a marcar-lhe o pre&ccedil;o<br \/>\n    ? S&oacute;, s&oacute;, repara bem! S&oacute; por meio dos campos, s&oacute;<br \/>\n    &agrave; sombra dos bosques, s&oacute; pelas margens arrelvadas dos ribeiros!<br \/>\n    Que vida! Que desafogo! Que liberdade de respirar e, o que &eacute; mais ainda,<br \/>\n    de cismar! &Agrave;s vezes sentava-me para ler no primeiro lugar pitoresco<br \/>\n    que encontrava; um tronco de &aacute;rvore derrubada, uma pedra musgosa, um<br \/>\n    c&ocirc;moro virente, tudo me oferecia uma convidativa esta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Passados momentos, era sabido, achava-me rodeada de criancinhas, rotas e<br \/>\n    quase nuas, que me contemplavam admiradas.<\/p>\n<p> Pegava na mais pequena ao colo e beijava-a. As outras riam e olhavam-se,<br \/>\n    como espantadas de me verem fazer aquilo.<\/p>\n<p> Distribu&iacute;a por cada uma delas uma pequena moeda de cobre e a&iacute;<br \/>\n    se dispersava, saltando, aquela turba infantil, como um bando de p&aacute;ssaros<br \/>\n    que se levantam de uma seara, inquietos pela voz do lavrador.<\/p>\n<p> N&atilde;o cabiam em si de contentes, as pobrezinhas, com a inesperada fortuna<br \/>\n    e corriam apressadas a comunicar a nova &atilde;s m&atilde;es, que as acariciavam.<\/p>\n<p> Pobres crian&ccedil;as! Contava muitos amigos neste pequenino povo, n&atilde;o<br \/>\n    fazes ideia. Tinha entre eles uma popularidade! Basta que te diga que j&aacute;<br \/>\n    me saudavam pelo nome quando me viam passar e todas as manh&atilde;s me vinham<br \/>\n    trazer raminhos de malmequeres, margaridas e violetas silvestres, ufanas com<br \/>\n    o presente e orgulhosas pelo prazer com que eu o recebia.<\/p>\n<p> Prazer sincero, podes acredit&aacute;-lo. Olha que nunca apreciei tanto<br \/>\n    as mais bonitas cam&eacute;lias do teu jardim, desculpa-me a confiss&atilde;o,<br \/>\n    como estas floritas selvagens e sem perfumes que tinha ent&atilde;o sempre<br \/>\n    no quarto.<\/p>\n<p> Outro espect&aacute;culo que me atra&iacute;a sempre a aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    era o das lavadeiras. Que alegria aquela! Ai, Cec&iacute;lia, Cec&iacute;lia,<br \/>\n    como &eacute; rid&iacute;culo o nosso sentimentalismo e vaporosa melancolia<br \/>\n    das cidades! Pois que quer dizer isto, que n&atilde;o existia enquanto os<br \/>\n    romancistas e poetas o n&atilde;o inventaram, mas de que logo a humanidade<br \/>\n    se apropriou, como faz sempre a tudo quanto &eacute; afectado e piegas, como<br \/>\n    se apropria dos enfeites com que a imagina&ccedil;&atilde;o estragada de qualquer<br \/>\n    modista parisiense se lembra de adornar as cabe&ccedil;as de suas freguesas<br \/>\n    ? Que quer dizer isto, que passa por uma coisa muito natural e a que euf&ograve;nicamente<br \/>\n    se chama: devaneios, tristezas vagas, aspira&ccedil;&otilde;es ignotas, anseio<br \/>\n    sem motivo, l&aacute;grimas inexplic&aacute;veis e n&atilde;o sei que mais,<br \/>\n    que n&atilde;o est&aacute;, que n&atilde;o pode estar na natureza humana,<br \/>\n    a qual &eacute; espontaneamente alegre e expansiva e s&oacute; disposta a<br \/>\n    ser afectada por infort&uacute;nios reais e n&atilde;o por males, como esses,<br \/>\n    fict&iacute;cios e fant&aacute;sticos? &Eacute; falso. Tudo isso &eacute;<br \/>\n    falso e for&ccedil;ado como um p&eacute; de chinesa.<\/p>\n<p> Reconheci-o ent&atilde;o e cheguei a envergonhar-me de ter, eu tamb&eacute;m,<br \/>\n    por vezes julgado ser uma v&iacute;tima desse mal da moda, que n&atilde;o<br \/>\n    tem, que n&atilde;o pode ter a m&iacute;nima raz&atilde;o de ser. Arrebiques<br \/>\n    de caracteres rom&acirc;nticos que destoam no meio da simplicidade do viver<br \/>\n    campesino e&#8230; nada mais.<\/p>\n<p> No caminho que eu frequentemente seguia nestes meus passeios matutinos h&aacute;<br \/>\n    uma pequena ponte de pedra de dois arcos, por baixo da qual corre mansamente<br \/>\n    o rio da aldeia. Rio sem nome ! Por isso mesmo eu lhe queria. N&atilde;o compreendes<br \/>\n    isto? Um rio sem nome, um rio que n&atilde;o vem nas cartas geogr&aacute;ficas,<br \/>\n    virgem das explora&ccedil;&otilde;es e estudos dos engenheiros hidr&aacute;ulicos,<br \/>\n    conservando toda a poesia dos primeiros tempos!&#8230; &Eacute; quase um tesouro<br \/>\n    oculto e tem n&atilde;o sei qu&ecirc; de misterioso que, por isso mesmo, me<br \/>\n    atra&iacute;a.<\/p>\n<p> As margens elevam-se, de um e outro lado, em suav&iacute;ssimos declives,<br \/>\n    orlam-nas renques de &aacute;lamos aos quais as vides se abra&ccedil;am estreitamente,<br \/>\n    debru&ccedil;ando-se depois em vi&ccedil;osos &iacute;est&otilde;es a tocarem<br \/>\n    quase na &aacute;gua. Pequenas ilhas, todas floridas e ramosas, agrupam-se<br \/>\n    na mais graciosa miniatura de arquip&eacute;lago, que se pode conceber.<\/p>\n<p> Nesta parte do rio e &agrave;quela hora da manh&atilde; era certo encontrarem-<br \/>\n    se, a lavar e a cantar, as mais bonitas raparigas do s&iacute;tio e t&atilde;o<br \/>\n    desafogada e jovialmente o faziam que comunicavam alegria aos mais hipocondr&iacute;acos.<\/p>\n<p> Que pureza e frescura de timbre em algumas daquelas vozes! Eu s&oacute;<br \/>\n    queria que as ouvisses. Tu, que em gosto musical n&atilde;o fazes envergonhar<br \/>\n    a tua canonizada hom&oacute;nima, minha Cec&iacute;lia, confessarias que &eacute;<br \/>\n    raro encontrar mais simp&aacute;tica voz de contralto do que a da Margarida,<br \/>\n    a filha da minha lavadeira.<\/p>\n<p> Vejo-te sorrir ao ler isto. N&atilde;o me acreditas, bem sei.<\/p>\n<p> Os preconceitos art&iacute;sticos&#8230; Mas n&atilde;o tens raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Outra vez te falarei ainda de Margarida. Tenho uma pequena hist&oacute;ria<br \/>\n    a contar-te a respeito dela. &Eacute; uma curta hist&oacute;ria de amores.<\/p>\n<p> Agora n&atilde;o.<\/p>\n<p> Como eu dizia, demorava-me muito naquele s&iacute;tio. Aprazia-me em escutar<br \/>\n    aquelas singelas can&ccedil;&otilde;es &#8212; t&atilde;o graciosas algumas<br \/>\n    &#8212; e sem autor, que se saiba; poetas e maestros desconhecidos e &agrave;s<br \/>\n    vezes bem dignos de celebridade, vamos.<\/p>\n<p> O amor &eacute; o tema favorito destas composi&ccedil;&otilde;es. Recordo-me<br \/>\n    ainda de uma quadra que muitas vezes ouvi e &agrave; qual achava uma certa<br \/>\n    eleg&acirc;ncia e singeleza de dizer inexprim&iacute;veis.<\/p>\n<p> A ver se concordas comigo. Era assim:<\/p>\n<p align=\"left\">Os teus olhos, negros, negros S&atilde;o gentios da Guin&eacute;.<\/p>\n<p> Da Guin&eacute; por serem negros.<\/p>\n<p> Gentios por n&atilde;o ter f&eacute;.<\/p>\n<p align=\"left\">Cito-te de prefer&ecirc;ncia este por estarem no referido caso<br \/>\n    os teus olhos, que, em sua negrura, revelam uma incredulidade verdadeiramente<br \/>\n    gent&iacute;lica, incredulidade de que s&oacute; aqueles ares de campo te<br \/>\n    podem vir a curar.<\/p>\n<p> Sim, minha Cec&iacute;lia, sim; devias ir ao campo para dar largas a essa<br \/>\n    bondade de cora&ccedil;&atilde;o que possuis, mas que o espartilho comprime.<\/p>\n<p> &Eacute; certo. Em quanto a mim o espartilho n&atilde;o influi s&oacute;<br \/>\n    na arcadura das costelas, como pensa o meu facultativo, mas no car&aacute;cter<br \/>\n    moral das mulheres tamb&eacute;m e muito. Pois um cora&ccedil;&atilde;o comprimido,<br \/>\n    encani&ccedil;ado, entalado entre varas de a&ccedil;o e baleia pode l&aacute;<br \/>\n    bater livre, ter estas expans&otilde;es de bondade, estas explos&otilde;es<br \/>\n    de sentimento, que alegram, que fazem bem, que aliviam? Eu pelo menos sinto-me<br \/>\n    em geral de tanto mais endurecida disposi&ccedil;&atilde;o de &acirc;nimo,<br \/>\n    quanto mais apertada ando. Nos bailes, por exemplo, reconhe&ccedil;o em mim<br \/>\n    uma malignidade de Mefist&oacute;feles e a causa &eacute; essa; n&atilde;o<br \/>\n    sei de outra.<\/p>\n<p> Depois os teus instintos de artista, adormecidos no teu bonito e confort&aacute;vel<br \/>\n    quarto da cidade, inebriados na atmosfera do &laquo;patchouly&raquo; e &aacute;gua-de-col&oacute;nia<br \/>\n    que o perfuma, despertariam por l&aacute;. Verias. Isso com certeza.<\/p>\n<p> A&iacute;, que tens tu a inspirar-te? a ramagem do papel das paredes, as<br \/>\n    ros&aacute;ceas do tapete, os acantos do estuque, as florestas e lagos das<br \/>\n    gravuras encaixilhadas, os gorjeios de uma avezita aprisionada, as flores<br \/>\n    agrupadas com artif&iacute;cio e esmero em jarras de porcelana, montes de<br \/>\n    cadernos de m&uacute;sica, o piano aberto&#8230; que inspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    meu Deus! que inspira&ccedil;&otilde;es, comparadas com a grandeza das que<br \/>\n    se recebem no campo! Os nossos artistas &#8212; poetas, pintores e m&uacute;sicos<br \/>\n    &#8212; s&atilde;o em geral como tu. Encontro-os nas pra&ccedil;as do Porto,<br \/>\n    estacionados nas lojas mais concorridas, nos teatros, frequentam os caf&eacute;s,<br \/>\n    dizem-me&#8230; mas no campo, na presen&ccedil;a desses magn&iacute;ficos espect&aacute;culos<br \/>\n    da natureza que os inspirariam, a escutarem as li&ccedil;&otilde;es desta<br \/>\n    grande mestra da arte&#8230;<\/p>\n<p> s&oacute; por uma casualidade, de que eles pr&oacute;prios se admiram.<\/p>\n<p> As vezes penso, por exemplo, vendo elevar-se com t&atilde;o violento impulso<br \/>\n    de inspira&ccedil;&atilde;o entre os nossos actuais poetas um dos mais jovens,<br \/>\n    mais verdadeiros e o mais injustamente deslembrado no are&oacute;pago dos<br \/>\n    promulgadores de diplomas de celebridades contempor&acirc;neas, numa palavra,<br \/>\n    Guilherme Braga, pois que para ti basta dizer-lhe o nome para dizer tudo;<br \/>\n    penso a que altura prodigiosa o ver&iacute;amos n&oacute;s subir, se fosse<br \/>\n    de quando em quando, vigorizar ao ar livre do campo aquele seu talento; t&atilde;o<br \/>\n    robusto que nem os h&aacute;bitos indolentes da vida urbana conseguem amortecer.<\/p>\n<p> Dos nossos pintores ainda encontrei &agrave;s vezes por aqueles lugares<br \/>\n    o Resende, sobra&ccedil;ando a sua pasta de esbo&ccedil;os ou parado diante<br \/>\n    de uma paisagem surpreendente.<\/p>\n<p> Basta v&ecirc;-lo em verdadeiro &ecirc;xtase diante de um efeito qualquer<br \/>\n    de luz, para se lhe reconhecer as pronunciadas tend&ecirc;ncias art&iacute;sticas<br \/>\n    que possui.<\/p>\n<p> A projec&ccedil;&atilde;o da sombra de uma nuvem, numa parte do horizonte,<br \/>\n    o colorido do ocidente no crep&uacute;sculo, o efeito da atmosfera nas tintas<br \/>\n    sob que se apresentam desenhadas as montanhas distantes&#8230; &eacute; o bastante<br \/>\n    para o arrebatar.<\/p>\n<p> E &eacute; contagioso aquele entusiasmo. Tenho-o sentido.<\/p>\n<p> Mas, perdoa-me a digress&atilde;o, sabes que &eacute; modo meu e que j&aacute;<br \/>\n    agora n&atilde;o perco. Eu continuo. <\/p>\n<p align=\"left\">Da ponte de que te falei seguia eu pela encosta de uma pequena<br \/>\n    colina, debaixo de um continuado toldo de verdura, parando, de momento a momento,<br \/>\n    para colher uma flor ou um desses bonitos insectos de asas cintilantes e matizadas<br \/>\n    que brilham como pedras preciosas. Outras vezes era a ouvir o rouxinol. O<br \/>\n    rouxinol, percebes? o verdadeiro rouxinol, a filomela cl&aacute;ssica, o rouxinol,<br \/>\n    que eu quase cheguei a pensar ser um mito, o rouxinol de que tanto se fala<br \/>\n    na cidade e que a m&aacute;xima parte da gente que fala dele nunca ouviu.<\/p>\n<p> Ia at&eacute; jurar que neste caso est&aacute; a maioria dos nossos poetas.<br \/>\n    &Oacute; imperdo&aacute;vel descuido! Numa planura em que terminava a colina,<br \/>\n    estava o cemit&eacute;rio da par&oacute;quia, um cemit&eacute;rio de aldeia;<br \/>\n    n&atilde;o to descrevo. Imagina-lo sem isso, n&atilde;o &eacute; verdade?<br \/>\n    Continuava-se com o cemit&eacute;rio um prado extenso, todo orlado de &aacute;lamos<br \/>\n    gigantes e revestido de relva. Era no meio dele que se elevava a velha igreja<br \/>\n    paroquial, cujo estado de ru&iacute;na, devido &agrave; sua remota antiguidade,<br \/>\n    a fizera, de h&aacute; muito, abandonar de p&aacute;roco e paroquianos.<\/p>\n<p> Em mais completa ru&iacute;na se achava ainda a casa do &uacute;ltimo abade,<br \/>\n    que, apesar disso, ali vivera sempre e atr&aacute;s de cujo f&eacute;retro<br \/>\n    se haviam fechado as portas da resid&ecirc;ncia para nunca mais se abrirem.<\/p>\n<p> O novo abade vivia pr&oacute;ximo &agrave; capela, para onde provisoriamente<br \/>\n    se transferiu a sede paroquial; ficava um quarto de l&eacute;gua afastada<br \/>\n    da primeira e mais no centro do povoado, que, como acontece tantas vezes,<br \/>\n    pouco a pouco se deslocara, abandonando a sua antiga igreja em torno &agrave;<br \/>\n    qual primitivamente se havia agrupado e procurando aproximar- se da estrada<br \/>\n    principal que passava perto; de maneira que hoje s&oacute; se encontram nas<br \/>\n    proximidades do velho templo meia d&uacute;zia de pardieiros desertos e t&atilde;o<br \/>\n    arruinados como ele, os quais d&atilde;o ao s&iacute;tio um aspecto melanc&oacute;lico.<\/p>\n<p> A mudan&ccedil;a da par&oacute;quia, que se dizia provis&oacute;ria, prometia<br \/>\n    tornar- se efectiva. O novo abade n&atilde;o manifestava desejos de viver<br \/>\n    no ermo em que jazia a sua verdadeira resid&ecirc;ncia e menos ainda os fregueses<br \/>\n    de ir ouvir missa t&atilde;o distante, quando mais perto de casa a podiam<br \/>\n    ter.<\/p>\n<p> Folgavam com a resolu&ccedil;&atilde;o as corujas e os mochos, agora senhores<br \/>\n    absolutos daquelas ru&iacute;nas; e uma multid&atilde;o de r&eacute;pteis,<br \/>\n    rastejando em liberdade por baixo das pequenas moitas de ortigas, pariet&aacute;rias<br \/>\n    e leitugas que rebentavam luxuosamente de entre os mont&otilde;es de tijolo<br \/>\n    e cali&ccedil;a do tecto desmoronado que se acumulavam no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Subia eu esta colina e sentava-me no &uacute;ltimo degrau de pedra que havia<br \/>\n    &agrave; porta da casa arruinada e ficava horas esquecidas a contemplar tudo<br \/>\n    aquilo, que estava diante de mim e que mal te posso descrever.<\/p>\n<p> Deste ponto dominava-se a aldeia toda. As suaves ondula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquele terreno, pitorescamente acidentado, eram todas forradas de folhagem<br \/>\n    vi&ccedil;osa; as casas alv&iacute;ssimas disseminadas por aquela verdura,<br \/>\n    tinham um aspecto festivo, que consolava o cora&ccedil;&atilde;o. O pequeno<br \/>\n    rio que atravessava a aldeia em tortuosos meandros, o meu rio an&oacute;nimo,<br \/>\n    cortado a cada passo por pontes r&uacute;sticas e a&ccedil;udes, fazia mais<br \/>\n    apraz&iacute;vel a cena; nas relvas de um verde magn&iacute;fico, verdadeira<br \/>\n    relva inglesa, alvejavam as roupas estendidas por lavadeiras madrugadoras<br \/>\n    ; numerosas manadas de gado pastavam por lameiros extensos e a sons de frauta<br \/>\n    pastoril, a frauta primitiva, nobilitada h&aacute; pouco por um artista inspirado,<br \/>\n    vinha ecoar nas concavidades da colina e desafiar as vozes das aves escondidas<br \/>\n    na impenetr&aacute;vel espessura dos arbustos que a guarneciam.<\/p>\n<p>O colorido da aurora animava, poetizava tudo isto, tornava tudo surpreendente,<br \/>\n    inimit&aacute;vel. Nunca em paleta alguma de artista se combinaram tintas<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p> Digo-te, minha Cec&iacute;lia, que raras vezes me tenho sentido t&atilde;o<br \/>\n    comovida como me sentia ent&atilde;o.<\/p>\n<p> Uma manh&atilde; levara comigo o Jocelin, aquele teu livro predilecto, mas<br \/>\n    do qual mais gostarias ainda, se o lesses ali. Olha que h&aacute; nele coisas<br \/>\n    que eu s&oacute; ent&atilde;o compreendi e que tinham escapado &agrave; aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que dele faz&iacute;amos nas nossas leituras em comum. Lembras-te? Garrett<br \/>\n    tem raz&atilde;o quando diz que certos livros devem ler-se em certos lugares<br \/>\n    e de certo modo.<\/p>\n<p> Eu por mim, se for ao Bu&ccedil;aco, hei-de levar comigo La chute d&#8217;un ange.<br \/>\n    Quero ler debaixo daqueles cedros seculares a magn&iacute;fica descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do L&iacute;bano primitivo, visto que j&aacute; desesperei de o fazer no pr&oacute;prio<br \/>\n    L&iacute;bano.<\/p>\n<p> Mas&#8230; por Bu&ccedil;aco, sabes tu que estou com medo de l&aacute; ir? Este<br \/>\n    caminho de ferro povoou-me aquelas solid&otilde;es majestosas e despoetizou-<br \/>\n    mas; estou vendo. Temo de encontrar por l&aacute; uma fam&iacute;lia burguesa<br \/>\n    jantando &agrave; sombra dos cedros como jantaria &agrave; sombra de qualquer<br \/>\n    parreiral, com a mesma insensibilidade, com a mesma irrever&ecirc;ncia, e,<br \/>\n    o que &eacute; pior, dormindo a sesta depois. Tremo de encontrar meninas a<br \/>\n    jogar as escondidas e a cabra-cega naquela famosa mata, rapazes jogando a<br \/>\n    bola ou homesns s&eacute;rios a lerem jornais e a tomarem caf&eacute; para<br \/>\n    auxiliarem a digest&atilde;o. Se tal me acontecesse&#8230; ficava doente oito<br \/>\n    dias. Por isso tremo de l&aacute; ir. Continuemos.<\/p>\n<p> Tinha eu comigo o Jocelyn, que abri ao acaso. Li algumas p&aacute;ginas<br \/>\n    das mais apaixonadas daquele belo livro e fiquei-me a cismar, sabes em qu&ecirc;?<br \/>\n    Nos destinos do padre, n&atilde;o do padre vulgar e prosaico que vemos todos<br \/>\n    os dias; mas do padre ideal, irrealiz&aacute;vel talvez como a gente concebe<br \/>\n    e como quase acredito que j&aacute; n&atilde;o existe. Um padre como Jocelyn;<br \/>\n    com travadas lutas, com &iacute;ntimas tempestades no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e com a impass&iacute;vel serenidade e brandura no semblante; como esse p&aacute;roco<br \/>\n    obscuro, que Genoveva servia e de cuja juventude o leitor do inspirado poema<br \/>\n    de Lamartine sabia bastante j&aacute; para mais admirar a heroicidade daquela<br \/>\n    vida tranquila, para cismar no que havia de ir no cora&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    malfadado quando lhe pairava nos l&aacute;bios um sorriso de placidez que<br \/>\n    enganava, de benevol&ecirc;ncia que atra&iacute;a; esse homem sem pre votado<br \/>\n    &agrave; consola&ccedil;&atilde;o dos outros, ele, o desconfortado, que abafou<br \/>\n    no crepe as revela&ccedil;&otilde;es dos seus tormentos.<\/p>\n<p> Pensava nisto, Cecilia, nestes mart&iacute;rios obscuros e ignorados; nestes<br \/>\n    her&oacute;is que se n&atilde;o celebram, nestes poemas que se n&atilde;o<br \/>\n    escrevem, nestas l&aacute;grimas que se escondem, nestes suspiros que se abafam&#8230;<\/p>\n<p> pensava nisto e comovia-me.<\/p>\n<p> Quem pudesse devassar os dramas &iacute;ntimos de algumas isoladas resid&ecirc;ncias<br \/>\n    rurais! E isto a ocorrer-me e logo a lembran&ccedil;a de que justamente naquele<br \/>\n    momento estava eu sentada talvez nas ru&iacute;nas de um desses teatros, onde<br \/>\n    dolorosos dramas &iacute;ntimos se tinham passado j&aacute;.<\/p>\n<p> A vida solit&aacute;ria do &uacute;ltimo p&aacute;roco, aquele seu apego<br \/>\n    &agrave; velha igreja e resid&ecirc;ncia, que ambas amea&ccedil;avam a cada<br \/>\n    instante sepult&aacute;-lo nas suas ru&iacute;nas, a pouca mem&oacute;ria<br \/>\n    que deixara de si&#8230; tudo parecia conspirar- se para fazer-me crer ter sido<br \/>\n    este um daqueles her&oacute;is em que eu pensava, um daqueles m&aacute;rtires<br \/>\n    sem panegiristas, v&iacute;timas sacrificadas sem deixarem vest&iacute;gios<br \/>\n    que lhes prolonguem, mais que a vida, a mem&oacute;ria entre os que ficam,<br \/>\n    quando a n&atilde;o perpetuem.<\/p>\n<p> Sob o dom&iacute;nio desta ideia, levantei-me e possuiua de certa inquieta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    olhei para aquelas paredes arruinadas, como se a ver ae elas encontrariam<br \/>\n    uma voz com que me dissessem: &laquo;&Eacute; verdade! padeceu&raquo;; como<br \/>\n    se pudesse descobrir ainda vest&iacute;gios de l&aacute;grimas vertidas em<br \/>\n    segredo ; como se a tristeza de um olhar se pudesse imprimir, pela continua&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nos objectos em que se fixa.<\/p>\n<p> E queres que te diga? Pareceu-me ent&atilde;o que alguma coisa havia efectivamente<br \/>\n    naquelas pedras soltas, que n&atilde;o podia ter outra origem.<\/p>\n<p> Puerilidade minha, n&atilde;o &eacute; verdade? Mas olha, Cec&iacute;lia,<br \/>\n    eu &agrave;s vezes penso: Quem sabe que mist&eacute;rios ter&aacute; ainda<br \/>\n    a devassar a ci&ecirc;ncia? Sabes tu? Tenho sempre escr&uacute;pulos de me<br \/>\n    rir dos vision&aacute;rios e utopistas; receio que os vindouros se riam do<br \/>\n    meu riso. Isto de ver as coisas s&oacute; &agrave; luz da ocasi&atilde;o tem<br \/>\n    seus inconvenientes tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> O que &eacute; certo &eacute; que me pus a examinar as paredes com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e quase com supersticioso temor.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o durava um quarto de hora este exame, quando fiz uma descoberta.<\/p>\n<p> Pr&oacute;ximo a um dos &acirc;ngulos da parede reconheci, em letras a l&aacute;pis<br \/>\n    quase desvanecido o que quer que era escrito. Corri para elas com uma sofreguid&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o descrevo.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi sem dificuldade que consegui ler e &agrave;s vezes adivinhar<br \/>\n    o que elas diziam.<\/p>\n<p> Eram versos.<\/p>\n<p> Pareciam uma resposta &agrave;s minhas mudas interroga&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Se o esp&iacute;rito das ru&iacute;nas me ouviria? A&iacute; tos copio da<br \/>\n    minha carteira, onde ent&atilde;o os escrevi com a m&atilde;o tr&eacute;mula<br \/>\n    e em sobressalto:<\/p>\n<h2>O BOM REITOR<\/h2>\n<p>Sabem a hist&oacute;ria triste<br \/>\n    Do bom reitor ? M&iacute;sero ! toda a vida<br \/>\n    Levou com dor.<\/p>\n<p>Fez quanto bem podia&#8230; Mas&#8230; afinal<br \/>\n    Morre, e na pobr e campa<br \/>\n    Nem um sinal.<\/p>\n<p>Nem uma cruz ao meno3<br \/>\n    Se ergue do ch&atilde;o !<br \/>\n    Geme-lhe s&oacute; no t&uacute;mulo<br \/>\n    A vira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vedes, al&eacute;m&#8230; na relva<br \/>\n    Junto ao rosal<br \/>\n    Flores que h&aacute; desfolhado<br \/>\n    O vendaval?<\/p>\n<p>Cobrem-lhe a lousa humilde: A cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    Paga-lhe assim a d&iacute;vida<br \/>\n    De compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>Pobres que amava tanto, Nunca ao passar<br \/>\n    Choram, curvando a fronte<br \/>\n    Para rezar,<\/p>\n<p>Nunca, ao romper do dia<br \/>\n    O lavrador<br \/>\n    P&aacute;ra e lamenta a sorte<br \/>\n    Do bom reitor.<\/p>\n<p>As criancinhas nuas<br \/>\n    Que estremeceu<br \/>\n    J&aacute; nem sequer se lembram<br \/>\n    Do nome seu.<\/p>\n<p>No salgueiral vizinho, Ao p&ocirc; r d o Sol,<br \/>\n    Vai-lhe carpir saudades<br \/>\n    O rouxinol.<\/p>\n<p>L&aacute;grimas, pobr e campa! Ai, n&atilde;o as tem,<br \/>\n    S&oacute; de manh&atilde; o orvalho<br \/>\n    Roci&aacute;-la vem<\/p>\n<p>Da solit&aacute;ria Lua<br \/>\n    A triste luz<br \/>\n    Grava-lhe em vagas sombras<br \/>\n    Estranha cruz.<\/p>\n<p>E ele repousa, dorme&#8230; Vive no C&eacute;u;<br \/>\n    Dorme esquecido e humilde<br \/>\n    Como viveu.<\/p>\n<p>H&aacute; nesta vida amarga<br \/>\n    Sortes assim,<br \/>\n    Vive-se num mart&iacute;rio,<br \/>\n    Morre-se enfim&#8230;<\/p>\n<p>Sem que mem&oacute;ria fique<br \/>\n    Para dizer<br \/>\n    &Agrave;s gera&ccedil;&otilde;es que passam<br \/>\n    Nosso viver.<\/p>\n<p>Quem me escutar se um dia<br \/>\n    Ao prado for<br \/>\n    Ore pelo descanso<br \/>\n    Do bom reitor.<\/p>\n<p> N&atilde;o te copio a poesia se n&atilde;o por lhe andar ligada uma das<br \/>\n    mais profundas e indel&eacute;veis impress&otilde;es que trouxe do campo.<\/p>\n<p> Que m&atilde;o escreveu estes versos? Ignoro. Algu&eacute;m que passou e<br \/>\n    que, como eu, se sentiu arrebatar por a mesma s&eacute;rie de pensamentos,<br \/>\n    dominar pela mesma ordem de impress&otilde;es.<\/p>\n<p> Na aldeia n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o h&aacute; quem fa&ccedil;a versos,<br \/>\n    mas at&eacute; n&atilde;o sei de quem os leia.<\/p>\n<p> O primeiro leitor desta pequena produ&ccedil;&atilde;o fui por certo eu.<br \/>\n    Que te direi mais? Vais rir da minha simplicidade. Desci ao cemit&eacute;rio,<br \/>\n    procurei, adivinhei o lugar onde o velho p&aacute;roco repou&#8226; sava e&#8230;<br \/>\n    cumpri o desejo do poeta, ajoelhei e orei. Depois colhi da roseira pr&oacute;xima<br \/>\n    quantas flores ela tinha e esfolhei-as na campa.<\/p>\n<p> Era talvez a primeira homenagem que recebia o bom velho. Ser-lhe-ia ao menos<br \/>\n    grata? Gosto de acreditar que sim.<\/p>\n<p> Adeus, minha boa Cec&iacute;lia, at&eacute; cedo ; pois bem sabes que fiz<br \/>\n    voto de te comunicar as minhas impress&otilde;es do campo, a ver se te converto.<\/p>\n<p align=\"left\"> <b>Porto, Julho de 1864.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Diana de Aveleda<\/p>\n<p align=\"right\">*<\/p>\n<p align=\"right\"> Publicada em 21 de Agosto de 1864 no &laquo;Jor&#8226; nal<br \/>\n    do Porto&raquo;.<\/p>\n<p> Ai est&aacute; como tu &eacute;s. Falei-te de tanta coisa na minha &uacute;ltima<br \/>\n    carta, empreguei todos os meus esfor&ccedil;os em excitar o teu interesse<br \/>\n    a favor de um pobre e obscuro p&aacute;roco, ou antes da sua mem&oacute;ria<br \/>\n    t&atilde;o mal con&#8226; servada entre os homens&#8230; e tu vais logo ocupar<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o&#8230; com o qu&ecirc; ? Com uma palavra que eu soltei<br \/>\n    ao acaso, uma promessa que fiz, talvez sem pensar em satisfaz&ecirc;-la; e<br \/>\n    agora j&aacute; me n&atilde;o deixas, impa- cientas-te, agitas-te, interrogas-me,<br \/>\n    persegues-me para que eu te fale&#8230; nos amores de Margarida.<\/p>\n<p> Mas sabes o que me custa, filha? &eacute; supores tu talvez que &eacute;<br \/>\n    a his&#8226; t&oacute;ria de uns amores rom&acirc;nticos, que eu tenho para<br \/>\n    te contar. E com certeza que o sup&otilde;es, de outra sorte n&atilde;o insistirias<br \/>\n    assim. Que sei eu ? Imaginas que enquanto examinava o rol da minha lavadeira<br \/>\n    descobri na filha dela uma Virg&iacute;nia, uma Graziela, uma dessas raras<br \/>\n    p&eacute;rolas de que os romancistas se apoderam s&ocirc;fregos e que os leitores<br \/>\n    com mais sofreguid&atilde;o contemplam e admiram ? P&eacute;rolas na maior<br \/>\n    parte artificiais, sempre to irei dizendo. Est&aacute;s fantasiando cenas<br \/>\n    de requintado senti&#8226; mentalismo, frases de delicada ingenuidade, frases<br \/>\n    que est&atilde;o mesmo a pedir que Manuela Rei as pronuncie, porque s&oacute;<br \/>\n    na boca dela real&#8226; &ccedil;am com toda a sua graciosa singeleza; e vais<br \/>\n    decerto ficar&#8230; ficar&#8230; sim, ficar desapontada quando souberes o que &eacute;.<\/p>\n<p> Primeiro que tudo preciso dizer-te que Margarida nada tem de vaporoso, silf&iacute;dico,<br \/>\n    e franzino; n&atilde;o &eacute; destas mulheres nevoeiros que nos aparecem<br \/>\n    nos romances e que nos conservam em continuado sobressalto, receando que o<br \/>\n    menor raio de Sol as evapore, que o mais leve sopro de vento as desvane&ccedil;a.<\/p>\n<p> Margarida n&atilde;o &eacute; p&aacute;lida, n&atilde;o tosse, n&atilde;o<br \/>\n    tem ataques nervosos, dorme tranquilamente, tem digest&otilde;es f&aacute;ceis<br \/>\n    e ri com todas as veras do cora&ccedil;&atilde;o, quando h&aacute; motivo<br \/>\n    para o riso.<\/p>\n<p> J&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o tem nenhum dos requisitos das hero&iacute;nas<br \/>\n    de romances sentimentais. Margarida n&atilde;o permanece em contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ext&aacute;ticas diante da luz po&eacute;tica da Lua. Quando a v&ecirc;, sai-lhe<br \/>\n    esponta&#8226; neamente dos l&aacute;bios, quando muito, uma sauda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como esta:<\/p>\n<p>&Oacute; luar da meia-noite,<br \/>\n    Tu &eacute;s o meu inimigo,<br \/>\n    Estou &atilde; porta de quem amo,<br \/>\n    N&atilde;o posso falar contigo,<\/p>\n<p>que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no<br \/>\n    ber&ccedil;o? &Eacute; muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou<br \/>\n    com crian&ccedil;as. D&eacute;-me licen&ccedil;a, Sr. F&#8230;, o meu par vem<br \/>\n    buscar-me.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc; que ainda dan&ccedil;o. Observe-me, mas&#8230; por quem &eacute;,<br \/>\n    seja benigno.<\/p>\n<p> E o meu fil&oacute;sofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.<br \/>\n    Que pena que conserve in&eacute;ditos os sumarentos frutos da sua observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade ; ainda dan&ccedil;o; mas, aqui<br \/>\n    para n&oacute;s, n&atilde;o dan&ccedil;o &agrave; minha vontade.<\/p>\n<p> A dan&ccedil;a n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o deva ser isto assim.<\/p>\n<p> Antigamente &eacute; que se compreendia o dan&ccedil;ar. Basta dizer que<br \/>\n    n&atilde;o havia quem de o fazer se envergonhasse.<\/p>\n<p> Em quanto a mim, aquele s&eacute;culo de Lu&iacute;s XIV n&atilde;o se chamou<br \/>\n    o grande s&eacute;culo s&oacute; por as grandezas pol&iacute;ticas, militares,<br \/>\n    financeiras e liter&aacute;rias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito,<br \/>\n    para lhe granjearem o ep&iacute;teto, as festas espl&ecirc;ndidas de Fouquet,<br \/>\n    as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Moli&egrave;re<br \/>\n    era cons&#8226; trangido a entremear nas suas com&eacute;dias para satisfazer<br \/>\n    a mania coreo&#8226; gr&aacute;fica da corte e nos quais tomava parte o pr&oacute;prio<br \/>\n    rei, transfigurado em pastor; dessa graciosa ra&ccedil;a de pastores que povoavam<br \/>\n    os tablados daquele tempo. E julgas que Lu&iacute;s XIV era l&aacute; homem<br \/>\n    que dan&ccedil;asse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa<br \/>\n    um fastidioso solo? Qual! dan&ccedil;ava saltando, rodopiando e cabriolando,<br \/>\n    que &eacute; a ver&#8226; dadeira maneira de dan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Dan&ccedil;ar, dan&ccedil;ava David &agrave; frente da arca da alian&ccedil;a<br \/>\n    e vejam l&aacute; os nossos elegantes se se lhes mete na cabe&ccedil;a deixarem<br \/>\n    aos vindouros mem&oacute;ria de si, mais acatada e sisuda do que a do rei<br \/>\n    salmista.<\/p>\n<p> Sisudos e at&eacute; sombrios foram D. Pedro ! e D. Jo&atilde;o II e digam-me<br \/>\n    se eles n&atilde;o dan&ccedil;aram com toda a agilidade dos seus m&uacute;sculos.<\/p>\n<p> D. Pedro, o terr&iacute;vel D. Pedro, o amante de D. In&ecirc;s, tomava<br \/>\n    parte em folias populares, e D. Jo&atilde;o II s&oacute; deixou de dan&ccedil;ar<br \/>\n    quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que n&atilde;o<br \/>\n    se conten&#8226; tava com dan&ccedil;ar, passeando.<\/p>\n<p> E depois&#8230; que santos e singel&iacute;ssimos costumes aqueles! As mais<br \/>\n    honradas e respeit&aacute;veis damas n&atilde;o punham muito em sa&iacute;rem<br \/>\n    &agrave; rua de pandeiro na m&atilde;o e em festivais coreias por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de regozijos p&uacute;blicos.<\/p>\n<p> Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo &agrave;s<br \/>\n    elegantes dos nossos dias, f&ecirc;-lo nas ruas de &Eacute;vora, diante de<br \/>\n    D. Jo&atilde;o II, o qual tanto folgou com a lembran&ccedil;a, que a tomou<br \/>\n    nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos pa&ccedil;os.<\/p>\n<p> Ora a isto &eacute; que eu chamo compreender o dan&ccedil;ar. No s&eacute;culo<br \/>\n    passado&#8230;<\/p>\n<p> Ai, perd&atilde;o, perd&atilde;o ! esquecia-me que est&aacute;s impaciente,<br \/>\n    que est&aacute;s febril, que est&aacute;s fren&eacute;tica, por eu n&atilde;o<br \/>\n    entrar no assunto.<\/p>\n<p> Venham os amores de Margarida &agrave; barra. Vamos l&aacute; aos amores<br \/>\n    de Margarida.<\/p>\n<p> Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Marga&#8226; rida<br \/>\n    veio ter comigo. Estava ofegante.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimit&aacute;vel, sabes? Nunca admi&#8226;<br \/>\n    rei tanto a tua agilidade na dan&ccedil;a, nem a tua voz no canto! &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; a mangar ? &#8212; Falo s&eacute;ria. Muito alegre te principiou<br \/>\n    hoje o dia! &#8212; Que diz, senhora; alegre ! N&atilde;o, ao que hoje tenho<br \/>\n    chorado j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; nesse caso, Margarida, se essas s&atilde;o as tuas tristezas,<br \/>\n    n&atilde;o me dar&aacute;s uma amostra das tuas alegrias? &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    ? a gente precisa de se distrair. Isso l&aacute;! De que vale dar-se uma pessoa<br \/>\n    &agrave; melancolia? N&atilde;o remedeia nada e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E posso saber a causa das tuas tristezas ? &#8212; atalhei eu.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, porque n&atilde;o? julguei at&eacute; que a sabia j&aacute;.<br \/>\n    &Eacute; que ontem pren&#8226; deram o Luis&#8230; a senhora conhece-o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei, o teu conversado. Mas&#8230; prenderam-no porqu&ecirc; ? &#8212;<br \/>\n    Prenderam-no para soldado.<\/p>\n<p> &#8212; Para soldado?! &#8212; &Eacute; verdade, minha senhora. Veja o pobre<br \/>\n    rapaz que &eacute; t&atilde;o sossegado, t&atilde;o bom, t&atilde;o metido<br \/>\n    consigo. Aquilo &eacute; mesmo um cora&#8226; &ccedil;&atilde;o de pomba.<br \/>\n    Que vai ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia<br \/>\n    em que ele matar algu&eacute;m na guerra, estala-lhe o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pena, assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega, Margarida, os nossos soldados n&atilde;o matam ningu&eacute;m&#8230;<br \/>\n    na guerra ; felizmente n&atilde;o lhes d&atilde;o ocasi&atilde;o para isso.<br \/>\n    Morrer, isso l&aacute; morrem&#8230; mas como toda a gente, como qualquer de n&oacute;s<br \/>\n    pode morrer. Tu est&aacute;s muito nova; dentro em cinco anos Lu&iacute;s<br \/>\n    obt&eacute;m a baixa e est&atilde;o muito em idade de se casarem.<\/p>\n<p> &#8212; Dentro em cinco anos! Ora! daqui at&eacute; l&aacute;, tinha ele<br \/>\n    tempo de me esquecer. Longe da vista&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nem para t&atilde;o longe vai que vos n&atilde;o possais ver e visitar.<br \/>\n    Do Porto aqui &eacute; um passeio e assim n&atilde;o tens probabilidades de<br \/>\n    ser esque&#8226; cida, falando-lhe a mi&uacute;do.<\/p>\n<p> &#8212; Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! &#8212; Ah! ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, isso &eacute; que n&atilde;o, senhora. Que diriam por<br \/>\n    a&iacute; se me vissem a falar com um soldado? &#8212; Mas sendo esse soldado<br \/>\n    um rapaz da terra, sendo Lu&iacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nem assim. Isso parece muito mal.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ent&atilde;o&#8230; est&aacute;s resolvida a romper para sempre<br \/>\n    com ele ? &#8212; Eu! Agora estou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o dizes que os cinco anos de aus&ecirc;ncia.., &#8212;<br \/>\n    Mas &eacute; que eu&#8230; Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa&#8230;<br \/>\n    Agora vou dan&ccedil;ar, mas volto j&aacute;.<\/p>\n<p>E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe<br \/>\n    j&aacute; a voz cantando:<\/p>\n<p>&Aacute;gua leva o ribeirinho<br \/>\n    Pra regar o laranjal;<br \/>\n    As pena3 do amor que eu peno<br \/>\n    H&atilde;o-de acabar afinal.<\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute;, pensava eu comigo, v&atilde;o l&aacute; acusar aquele<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o de insensibilidade. &Eacute; pr&oacute;prio da natureza<br \/>\n    humana esta inconst&acirc;ncia na dor ; cada vez mais o acredito. &#8212;<br \/>\n    Percebo o gesto que fazes ao leres isto, Cec&iacute;lia. Eu bem sei. Entre<br \/>\n    n&oacute;s s&atilde;o menos vulgares estas s&uacute;bitas transi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mas&#8230; ser&aacute; porque o nosso cora&ccedil;&atilde;o seja menos vol&uacute;vel?<br \/>\n    Que te parece, Cec&iacute;lia, ser&aacute; ? Fala-me com franqueza. Eu, pela<br \/>\n    minha parte, hesito em afirm&aacute;-lo. N&atilde;o haver&aacute; antes em<br \/>\n    n&oacute;s um pouco de afecta&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m? A sociedade<br \/>\n    para tudo faz regulamentos, &eacute; a sua mania; em tudo quer as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    salvas. Decreta que o &oacute;rf&atilde;o seja inconsol&aacute;vel durante<br \/>\n    seis meses, e m&acirc;nda-o vestir de rigoroso d&oacute; ; outros seis meses<br \/>\n    quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto<br \/>\n    aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer<br \/>\n    completamente os pais falecidos. Para irm&atilde;os reduz apenas a metade<br \/>\n    estas manifesta&ccedil;&otilde;es de saudade. Se durante o prazo em que nos<br \/>\n    manda ser tristes, se infringe a mais pequena cl&aacute;u&#8226; sula do seu<br \/>\n    regulamento funer&aacute;rio, estigmatiza a infrac&ccedil;&atilde;o com severi&#8226;<br \/>\n    dade ; mas, se no fim desse tempo, nunca mais se venera a mem&oacute;ria do<br \/>\n    morto, pouco se lhe importa com isso, n&atilde;o se julga autorizada a censurar<br \/>\n    porque se teve para com ela as aten&ccedil;&otilde;es reclamadas.<\/p>\n<p> Ora muitas das nossas inconsol&aacute;veis amantes, repara que ainda n&atilde;o<br \/>\n    digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exig&ecirc;ncias!<br \/>\n    e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente&#8230; Margarida que n&atilde;o<br \/>\n    sabia afectar o que n&atilde;o sentia, ia assim alternando com suas lamenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    as cantigas festivais que a dis&#8226; traiam. Fazia ela muito bem.<\/p>\n<p> Quando de novo se interrompeu a dan&ccedil;a, voltou a procurar-me.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que me querias tu pedir ? &#8212; Olhe; lembrou-me<br \/>\n    uma coisa. Disseram-me que quem der n&atilde;o sei quantas moedas se livra<br \/>\n    de soldado. Ora o rapaz, coitado, n&atilde;o as tem. Sabe Deus como ele se<br \/>\n    arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora que era minha madrinha,<br \/>\n    quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no fundo da caixa, porque<br \/>\n    afinal a gente anda c&aacute; no tra&#8226; balho e quase nunca traz aquilo.<br \/>\n    Lembrou-me que se o vendesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o quere s desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, senhora, ent&atilde;o? &Eacute; bom t&ecirc;-lo para as ocasi&otilde;es.<br \/>\n    E esta &eacute; uma. Lu&iacute;s &eacute; trabalhador. Eu&#8230; vendendo o meu<br \/>\n    ouro&#8230; perco, &eacute; ver&#8226; dade ; mas, quem sabe? Talvez ainda venha<br \/>\n    a ganhar.<\/p>\n<p>&#8212; Como ? &#8212; Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando<br \/>\n    comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor;<br \/>\n    e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto<br \/>\n    que ficando ele soldado&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que me querias tu pedir ? &#8212; Era para que falasse<br \/>\n    a minha m&atilde;e nisso. Eu tenho medo que ela me n&atilde;o deixe.<\/p>\n<p> Terminei este di&aacute;logo, como tu o terminarias, Cec&iacute;lia; apertei<br \/>\n    Margarida nos bra&ccedil;os e prometi-lhe colaborar naquela boa ac&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Margarida voltou a dan&ccedil;ar. Dan&ccedil;ar outra vez! Ainda! Que incons&#8226;<br \/>\n    t&acirc;ncia! N&atilde;o &eacute; verdade ? Mas quantas das nossas belas apaixonadas,<br \/>\n    que se privariam de dan&ccedil;ar oito dias depois da aus&ecirc;ncia de um<br \/>\n    namo&#8226; rado como Luis, n&atilde;o teriam cora&ccedil;&atilde;o para se<br \/>\n    desfazerem&#8230; do seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrif&iacute;cio<br \/>\n    lho restituiria? N&atilde;o te ofendas por quem &eacute;s, nem tu nem as tuas<br \/>\n    amigas; repara que n&atilde;o disse todas.<\/p>\n<p> Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e<br \/>\n    deixei-lhe percebe r desejos de poupar este sacrif&iacute;cio &agrave; rapa&#8226;<br \/>\n    riga, adiantando ele o dinheiro para a soltura.<\/p>\n<p> Sabes o que ele me respondeu ? &#8212; &laquo;Deixa-a. Esse sacrif&iacute;cio<br \/>\n    de agora &eacute; uma garantia para a sua felicidade futura. D&aacute;-lhe<br \/>\n    direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza&raquo;. Em vista deste<br \/>\n    parecer, resolvi falar &agrave; m&atilde;e e, com algumas dificuldades, sempre<br \/>\n    obtive o seu consentimento.<\/p>\n<p> Meu marido encarregou-se de comprar, ele pr&oacute;prio, o ouro que pagou<br \/>\n    por um pre&ccedil;o muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu<br \/>\n    poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.<\/p>\n<p> Lu&iacute;s foi efectivamente livre. Comoveu-me v&ecirc;-lo chorar de alegria<br \/>\n    aos p&eacute;s da sua desposada. Por nossa interven&ccedil;&atilde;o conseguiu<br \/>\n    uma colo&#8226; ca&ccedil;&atilde;o mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou<br \/>\n    uma quinta e sus&#8226; peito que j&aacute; capitaliza um poucochito. O rapaz<br \/>\n    n&atilde;o deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer &agrave;quela<br \/>\n    que se sacrificou por ele. Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores<br \/>\n    de Marga&#8226; rida. Bem v&ecirc;s que n&atilde;o h&aacute; aqui nada de<br \/>\n    rom&acirc;ntico; &eacute; uma hist&oacute;ria que a gente conta sem percebe<br \/>\n    r que a est&aacute; contando e da mesma maneira a escuta, t&atilde;o desprovida<br \/>\n    ela &eacute; de situa&ccedil;&otilde;es que afectem a imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o me queiras mal por te haver feito conceber esperan&ccedil;as,<br \/>\n    que n&atilde;o pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprud&ecirc;ncia.<br \/>\n    Adeus, Cec&iacute;lia, adeus que se eu continuo a falar n&atilde;o acabo hoje;<br \/>\n    at&eacute; outra vez<\/p>\n<p><b>Porto, Agosto de 1864.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\">Tua afei&ccedil;oada<\/p>\n<p align=\"right\">Diana de Aveleda.<\/p>\n<p align=\"right\">Publicada no &laquo;Jornal do Porto&raquo; em 11 de Janeiro<br \/>\n    de 1865.<\/p>\n<p align=\"right\">Fragmento de uma carta que n&atilde;o era para ser publicada.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>J&aacute; que me falaste em m&uacute;sica na tua &uacute;ltima carta, n&atilde;o<br \/>\n    quero ter&#8226; minar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais<br \/>\n    sobre o assunto.<\/p>\n<p> Repara que digo &#8212; actuais. &#8212; &Eacute; que eu sou j&aacute; cautelosa.<br \/>\n    Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha<br \/>\n    em contradi&ccedil;&atilde;o comigo mesma dentro em pouco tempo.<\/p>\n<p> Vamos por isso firmando desde j&aacute; a cl&aacute;usula que me seja depois<br \/>\n    desculpa. Tratemos pois de m&uacute;sica.<\/p>\n<p> Poucas como tu est&atilde;o no caso de falar nisto; poucas, menos do que<br \/>\n    eu, no de te responder.<\/p>\n<p> Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do<br \/>\n    antigo sistema e nada mais.<\/p>\n<p> Meus pais entenderam que me seria mais &uacute;til uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me tornasse prest&aacute;vel, quando os anos da juventude me n&atilde;o<br \/>\n    garan&#8226; tissem j&aacute; um bill de indemnidade para a minha inaptid&atilde;o,<br \/>\n    do que rodear-me desses mil pequenos dotes que at&eacute; aos vinte anos nos<br \/>\n    ser&#8226; vem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente<br \/>\n    nos abandonam, deixando-nos ent&atilde;o mais desacompanhadas e indefe&#8226;<br \/>\n    sas que nunca.<\/p>\n<p> Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar;<br \/>\n    minha m&atilde;e n&atilde;o abdicou nas directoras do col&eacute;gio o cui&#8226;<br \/>\n    dado da minha educa&ccedil;&atilde;o. Coitada! dizia ela que n&atilde;o me<br \/>\n    poderia for&#8226; mar t&atilde;o bem a intelig&ecirc;ncia, mas que o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tinha f&eacute; que o formaria melhor.<\/p>\n<p> Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera cren&ccedil;a, acredito-o<br \/>\n    porque esta intelig&ecirc;ncia n&atilde;o saiu l&aacute; de grandes for&ccedil;as.<\/p>\n<p> Reconhe&ccedil;o-me, em desenvolvimento intelectual, muito aqu&eacute;m<br \/>\n    de todas as mulheres da gera&ccedil;&atilde;o nova, que falam franc&ecirc;s<br \/>\n    com uma acen&#8226; tua&ccedil;&atilde;o de parisiense pur sang; copiam a<br \/>\n    dois crayons cabe&ccedil;as de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um<br \/>\n    desplante admir&aacute;vel. Ultimamente parece que at&eacute; se filiam nas<br \/>\n    lojas ma&ccedil;&oacute;nicas &#8212; pelo menos assim mo afirmaram.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se tu tamb&eacute;m estar&aacute;s j&aacute; iniciada nos<br \/>\n    mist&eacute;rios do grande Oriente.<\/p>\n<p> Agora sim, acredito na regenera&ccedil;&atilde;o da p&aacute;tria. &Ccedil;&agrave;<br \/>\n    ir&agrave;.<\/p>\n<p> Mas em todo o caso, bem sei que eu n&atilde;o posso discutir m&uacute;sica<br \/>\n    contigo; nem &eacute; essa a minha ten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Com este g&eacute;nio que Deus me deu hei-de &#8212; isso sim &#8212; dizer<br \/>\n    tudo o que penso, que a mais n&atilde;o pode ningu&eacute;m ser obrigado.<\/p>\n<p> Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos<br \/>\n    col&oacute;quios que tantas vezes temos tido em que at&eacute; os maiores<br \/>\n    absurdos e atrevidos paradoxos s&atilde;o aventados sem a menor responsabilidade,<br \/>\n    sem incorrermos na censura de nin&#8226; gu&eacute;m. Porque hei-de ter mais<br \/>\n    escr&uacute;pulos escrevendo-te do que falando-te ? Acaso ter&aacute; uma<br \/>\n    carta mais fundadas pretens&otilde;es &agrave; imortalidade do que um di&aacute;logo<br \/>\n    ? As palavras voam, os escritos ficam. Hist&oacute;rias! Se os escritos ficassem<br \/>\n    todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira. S&oacute; fica o que merece<br \/>\n    ficar.<\/p>\n<p> H&aacute; palavras que atravessaram s&eacute;culos e escritos que nem duram<br \/>\n    dias. Mas vamos ao assunto.<\/p>\n<p> Tu entraste em plenos mist&eacute;rios da arte, Cec&iacute;lia. Admirei-te<br \/>\n    mas compreendi-te mal. Via-te c&aacute; de baixo, subir, n&atilde;o te pude<br \/>\n    seguir.<\/p>\n<p> O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direc&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que estranhar&aacute;s em minhas ideias.<\/p>\n<p> E depois eu recebi a tua carta em uma &eacute;poca em que andava preocupada<br \/>\n    por um pensamento, que alguns meses de vida campes&#8226; tre me haviam sugerido.<br \/>\n    Foi talvez por isso que n&atilde;o pude apreciar as tuas teorias musicais,<br \/>\n    como as apreciaria a&iacute; debaixo das mesmas impress&otilde;es sob que<br \/>\n    as meditaste e formulaste.<\/p>\n<p> Ocupava-me muito da m&uacute;sica popular, cuja singeleza e originali&#8226;<br \/>\n    dade me tinham enamorado.<\/p>\n<p> Sabes que eu em m&uacute;sica tenho o mau gosto, que s&oacute; a ti muito<br \/>\n    baixinho confessarei, de preferir a execu&ccedil;&atilde;o fiel e correcta<br \/>\n    de qual&#8226; quer trecho l&iacute;rico que me agrade, &agrave;s brilhantes<br \/>\n    fioritures e varia&ccedil;&otilde;es de fantasia com que um artista de g&eacute;nio<br \/>\n    consegue revel&aacute;-lo, sacrifi&#8226; cando&#8212; aos meus ouvidos profanos<br \/>\n    &#8212; o motivo musical que lhe serve de pretexto.<\/p>\n<p> &Eacute; por uma raz&atilde;o an&aacute;loga &agrave;quela que me faz preferir<br \/>\n    o ondeado natural das tuas belas tran&ccedil;as negras ao impertinente e caprichoso<br \/>\n    fri&#8226; sado com que as martirizas em uma noite de baile.<\/p>\n<p> Espero que a compara&ccedil;&atilde;o me fa&ccedil;a perdoar a heresia de<br \/>\n    arte, que acima julgo que pronunciei.<\/p>\n<p> Podes ver que com estas decididas tend&ecirc;ncias para tudo que &eacute;<br \/>\n    natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela m&uacute;sica<br \/>\n    popular, por essa caprichosa e ligeira m&uacute;sica que voga nos ares com<br \/>\n    todos os mais rumores de que a escola rom&acirc;ntica h&aacute; tempos os<br \/>\n    traz povoados.<\/p>\n<p> Ora, apaixonada assim, diz-me se me era poss&iacute;vel escutar com a rever&ecirc;ncia<br \/>\n    de disc&iacute;pula ignorante, a erudita disserta&ccedil;&atilde;o, a que<br \/>\n    o &uacute;ltimo concertista, de quem eu te pedi informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    deu lugar.<\/p>\n<p> Esses per&iacute;odos da rua apreci&aacute;vel carta vieram despertar-me<br \/>\n    de uma esp&eacute;cie de sonho &#8212; e digo sonho por n&atilde;o saber bem<br \/>\n    como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente r&ecirc;verie dos Franceses<br \/>\n    &#8212; em que me deixara arrebatar; &eacute; natural que respondesse com<br \/>\n    a rabu- gice pr&oacute;pria do despertar.<\/p>\n<p> Vinhas fazer-me a apologia da m&uacute;sica cient&iacute;fica, acad&eacute;mica,<br \/>\n    cl&aacute;s&#8226; sica, entendida s&oacute; por os raros iniciados nos mist&eacute;rios<br \/>\n    do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena alde&atilde; repassada<br \/>\n    de poesia, impacientei-me, reagi.<\/p>\n<p> Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora h&aacute;s-de ouvir-me<br \/>\n    tu. V&ecirc; se a tua ci&ecirc;ncia musical te d&aacute; a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seguinte problema que era o que me preocupava. &Eacute; como respondo &agrave;<br \/>\n    tua dis&#8226; serta&ccedil;&atilde;o. Este problema &#8212; em que eu muitas<br \/>\n    vezes cismo e para o qual pe&ccedil;o a tua coopera&ccedil;&atilde;o &#8212;<br \/>\n    &eacute; o da origem da m&uacute;sica popular.<\/p>\n<p> Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam<br \/>\n    ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espi&#8226; gas nas eiras,<br \/>\n    ao espadelar do linho nos ser&otilde;es? E ter&atilde;o elas compositor? Chego<br \/>\n    a duvid&aacute;-lo. Ouve a minha teoria: &Agrave;s vezes lembra-me que o povo<br \/>\n    &eacute; como os p&aacute;ssaros, que ame&#8226; nizam a espessura das selvas.<br \/>\n    Qual deles foi o autor desses quebros e gorjeios que todos repetem ? Quais<br \/>\n    os maestros? Quais os disc&iacute;&#8226; pulos? N&atilde;o h&aacute; distin&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Cantam assim porque lhes est&aacute; na natureza aquele cantar, porque as<br \/>\n    vozes do campo desafiam um eco e eles res- pondem-lhes, como a concavidade<br \/>\n    da colina responde aos ventos que bafejam. &#8212; Ai est&aacute;.<\/p>\n<p> Assim me parece o povo.<\/p>\n<p> Uma noite &#8212; penso eu &#8212; as brisas adormentadas mal fazem ciciar<br \/>\n    os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmu&#8226; rando<br \/>\n    apenas, os musgos h&uacute;midos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro<br \/>\n    do c&eacute;u; prorrompe das moitas e silvados um concerto magn&iacute;fico<br \/>\n    de insectos&#8230; e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite,<br \/>\n    a poesia da natureza.<\/p>\n<p> Sente-a o velho pensativo &agrave; soleira da porta, balanceando lenta&#8226;<br \/>\n    mente nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a m&atilde;e,<br \/>\n    jovem e desvelada, ao acalentar o filho no ber&ccedil;o e fitando os olhos<br \/>\n    na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela<br \/>\n    crian&ccedil;a que estremece; sente-a a alde&atilde; namorada aspirando os<br \/>\n    aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem at&eacute; ao peitoril da janela,<br \/>\n    onde se esquece a devanear; sente-a a pr&oacute;pria inf&acirc;ncia, deixando<br \/>\n    os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando&#8230;&#8212;Este cismar<br \/>\n    da inf&acirc;ncia! este cismar da inf&acirc;ncia! Que g&eacute;rmen de futuros<br \/>\n    pensamentos! Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mist&eacute;rio,<br \/>\n    o g&eacute;nio popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite<br \/>\n    acorda a est&aacute;tua de M&eacute;mnon; e ent&atilde;o, no mesmo instante,<br \/>\n    no instante solene, um canto vem naturalmente aos l&aacute;bios desses numerosos<br \/>\n    poe&#8226; tas, que todos sentiram e cismaram.<\/p>\n<p> Do balc&atilde;o enflorado, do limiar da porta, de junto dos ber&ccedil;os,<br \/>\n    dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o anci&atilde;o, a donzela,<br \/>\n    a m&atilde;e, as crian&ccedil;as cantam a um tempo e uma nova m&uacute;sica<br \/>\n    nasce ent&atilde;o, suave, saudosa, melanc&oacute;lica, como as mavios&iacute;ssimas<br \/>\n    notas daquela noite que a inspirou.<\/p>\n<p> Todos compuseram, todos imitaram. Mist&eacute;rios das multid&otilde;es!<br \/>\n    Decifre-os quem puder. Eu n&atilde;o os discuto; creio neles, como outros<br \/>\n    tantos artigos de f&eacute;.<\/p>\n<p> Como explicar de outra sorte as nenhumas reclama&ccedil;&otilde;es de pro&#8226;<br \/>\n    priedade, t&atilde;o naturais &agrave; vaidade humana, e que, at&eacute; no<br \/>\n    seio das mais doutas academias, consomem a m&aacute;xima parte do tempo, que<br \/>\n    devia ser votado a investiga&ccedil;&otilde;es mais &uacute;teis, do que as<br \/>\n    de prioridade entre dois inventores litigantes ? N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva gra&ccedil;a a<br \/>\n    de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto<br \/>\n    &#8212; vinha-me de fora um t&atilde;o suave perfume de laranjeiras que n&atilde;o<br \/>\n    tive coragem para fech&aacute;-la &#8212; o rouxinol, esse poeta dos bos&#8226;<br \/>\n    ques, o chefe da escola rom&acirc;ntica entre aquela sonora turba, porque<br \/>\n    n&atilde;o sofre modular as suas can&ccedil;&otilde;es por formas sempre as<br \/>\n    mesmas, antes as varia, segundo as aspira&ccedil;&otilde;es do seu g&eacute;nio,<br \/>\n    o rouxinol estava admir&aacute;vel! As folhas brincavam com a luz do luar<br \/>\n    e desenhavam no corti&#8226; nado do meu leito uma renda buli&ccedil;osa de<br \/>\n    extravagantes ramagens. Cedi &agrave; influ&ecirc;ncia languescente e deliciosa<br \/>\n    daquela noite de Estio. Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga<br \/>\n    alde&atilde;.<\/p>\n<p> Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como<br \/>\n    ainda nenhuma prima-dona. Perd&atilde;o, perd&atilde;o, reconsi&#8226; derei<br \/>\n    a tempo. &Eacute; certo, por&eacute;m, que me comoveu aquela voz. Durante<br \/>\n    o meu sono a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas p&aacute;lidas,<br \/>\n    procurando combater infrutuosamente a escurid&atilde;o mais intensa que preced<br \/>\n    e o amanhecer.<\/p>\n<p> N&atilde;o pude resistir, corri &agrave; janela.<\/p>\n<p> A voz partia j&aacute; de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que<br \/>\n    ia para as presas lavar.<\/p>\n<p> Olhei o rel&oacute;gio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga!<br \/>\n    Ela a&iacute; ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu<br \/>\n    e todas as tuas elegantes companheiras; &agrave; hora em que v&oacute;s apagais<br \/>\n    a luz, ainda com a imagina&ccedil;&atilde;o alvoro&ccedil;ada pelas aventuras<br \/>\n    da mais simp&aacute;tica personagem do romance que vos disputou ao sono, &agrave;<br \/>\n    hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tran&ccedil;as no baile<br \/>\n    e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o &uacute;ltimo<br \/>\n    valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha<br \/>\n    os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos,<br \/>\n    melin&#8226; drosas organiza&ccedil;&otilde;es. &#8226; Muito felizes sois!<br \/>\n    muito malfadada &eacute; ela! E contudo.,. &#8212;vede . &#8212; De quando<br \/>\n    em quando o vosso sil&ecirc;ncio &eacute; interrompido por um suspiro, que<br \/>\n    n&atilde;o podeis reprimir; ca&iacute;s em desalento no sof&aacute; vizinho<br \/>\n    do leito e apodera-se de v&oacute;s uma tristeza que vos faz chorar.<\/p>\n<p> E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas<br \/>\n    e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recan&#8226; tos obscuros.<\/p>\n<p> Mas &eacute; que v&oacute;s n&atilde;o podeis cantar como ela, por isso<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o tendes aquelas expans&otilde;es que distraem e aliviam.<\/p>\n<p> Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda,<br \/>\n    essa tir&acirc;nica divindade que do alto do seu trono de ren&#8226; das e<br \/>\n    vidrilhos vos imp&otilde;e um c&oacute;digo absurdo, menospreza a nossa harmoniosa<br \/>\n    l&iacute;ngua! Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar &#8212; casta<br \/>\n    diva &#8212; e repetir a letra de Felice Romani! se s&oacute; com o aux&iacute;lio<br \/>\n    dos libretos e martirizando a l&iacute;ngua do Dante podeis celebrar Deus,<br \/>\n    as flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos &agrave;s onze<br \/>\n    horas! Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras ingle&#8226; sas<br \/>\n    ou, quando muito, no poliorama que adorna uma das mesas do vosso sal&atilde;o!<br \/>\n    Se s&oacute; vedes o mar quando apequenado pela aflu&ecirc;ncia de banhistas!<br \/>\n    Se vos mandam cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma.<br \/>\n    cantora que tem escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto!<br \/>\n    Oh! v&oacute;s n&atilde;o podeis, v&oacute;s n&atilde;o sabeis cantar! Com<br \/>\n    todo o vosso estudo ficais suplantadas por tantas espont&acirc;&#8226; neas<br \/>\n    cantoras que abundam nos campos.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o encontrei artista de profiss&atilde;o que afinal de contas<br \/>\n    n&atilde;o fizesse caretas a cantar e ainda n&atilde;o vi rapariga alde&atilde;<br \/>\n    que n&atilde;o fosse mais bonita cantando. Porque &eacute; isto? O artif&iacute;cio<br \/>\n    mata-vos.<\/p>\n<p> E n&atilde;o &eacute; s&oacute; a letra estrangeira que neutraliza para<br \/>\n    v&oacute;s todo o efeito calmante que um antigo ditado portugu&ecirc;s de<br \/>\n    tempos imemo&#8226; riais concede ao canto, &eacute; tamb&eacute;m a m&uacute;sica<br \/>\n    estrangeira.<\/p>\n<p> Da It&aacute;lia, da Fran&ccedil;a, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha,<br \/>\n    de toda a parte aceitais de bom grado a m&uacute;sica; s&oacute; desdenhosamente<br \/>\n    sorris para a que n&atilde;o &eacute; de importa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    firmada com um nome portugu&ecirc;s, &eacute; como envergonhada e escondida<br \/>\n    nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se l&ecirc;em os nomes de compositores<br \/>\n    de fora, nem sempre dignos de celebridade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se n&oacute;s n&atilde;o temos m&uacute;sica popular &#8212;<br \/>\n    disse-me ainda h&aacute; pouco um dos nossos melhores talentos musicais. N&atilde;o<br \/>\n    o contestei; seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o<br \/>\n    saber, lhe respondesse &#8212; e pela Imprensa &#8212; que a fizesse ele.<br \/>\n    O artista lendo o conselho, encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Como! fazer m&uacute;sica popular! Pois a m&uacute;sica popular<br \/>\n    faz-se ? Se ela n&atilde;o existe, haveria g&eacute;nio t&atilde;o superior<br \/>\n    que a tirasse do nada? Mas, n&atilde;o existir&aacute; de facto? Ai &eacute;<br \/>\n    qu e se resume a quest&atilde;o. Pois ser&aacute; este nosso povo um povo<br \/>\n    que n&atilde;o canta? ou para cantar ir&aacute; pedir trovas emprestadas &agrave;s<br \/>\n    outras na&ccedil;&otilde;es? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos,<br \/>\n    que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas,<br \/>\n    das malhas&#8230; M&uacute;sica rudimentar &#8212; dizem-me. Concordo. Mas &eacute;<br \/>\n    que se n&atilde;o vai assim de repente &agrave; &oacute;pera.<\/p>\n<p> Exigir de um compositor que escreva uma &oacute;pera com m&uacute;sica nacional<br \/>\n    &eacute; exigir muito, &eacute; marcar-lhe uma meta superior &agrave;s for&ccedil;as<br \/>\n    de qualquer artista.<\/p>\n<p> Fossem l&aacute; dizer aos escritores de l&iacute;ngua portuguesa, esses<br \/>\n    que balbuciavam as prim&iacute;cias da poesia nacional, ao autor daquela can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Figueiredo das Donas por exemplo &#8212; se &eacute; que depois da opini&atilde;o<br \/>\n    de um nosso ilustre cr&iacute;tico ainda lhe podemos dar o foro de nacio&#8226;<br \/>\n    nalidade&#8212; fossem l&aacute; dizer-lhe: Escrevei um poema &eacute;pico<br \/>\n    nacional! Tomai f&ocirc;lego, fazei o que fez Homero, o que fez Virg&iacute;lio.<\/p>\n<p> Mas a ave n&atilde;o sobe &agrave;s alturas logo ao primeiro voo. Cam&otilde;es<br \/>\n    s&oacute; podia nascer quando nasceu.<\/p>\n<p> N&atilde;o digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei &oacute;peras<br \/>\n    nacio&#8226; nais. &#8212; Isso &eacute; exigir-lhes o imposs&iacute;vel &#8212;<br \/>\n    mas dizei-lhe: Escrevei tro&#8226; vas, escrevei can&ccedil;&otilde;es, escrevei<br \/>\n    cantigas&#8230; porque deveras n&atilde;o sei por que se h&aacute;-de p&ocirc;r<br \/>\n    de parte esta palavra e esta coisa t&atilde;o genuina&#8226; mente portuguesa<br \/>\n    &#8212; a cantiga &#8212; deveras que n&atilde;o sei.<\/p>\n<p> V&oacute;s que falais em romanzas, em cavatinas, em rond&oacute;s, em bar&#8226;<br \/>\n    carolas, sentis um certo escr&uacute;pulo de mau gosto em falar de cantigas.<br \/>\n    Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, n&atilde;o o<br \/>\n    sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos art&iacute;sticos:<br \/>\n    Fazei m&uacute;sica para cantigas inspirando-vos do gosto popu&#8226; lar,<br \/>\n    subireis depois &agrave;s composi&ccedil;&otilde;es l&iacute;ricas ligeiras<br \/>\n    e mais tarde, no futuro, os nossos netos aplaudir&atilde;o a verdadeira &oacute;pera<br \/>\n    nacional &#8212; antes disso tent&aacute;-lo &eacute; absurdo.<\/p>\n<p> As artes t&ecirc;m todas a sua inf&acirc;ncia. E Deus nos livre de crian&ccedil;as<br \/>\n    assenhoradas que &eacute; a mais antip&aacute;tica esp&eacute;cie de Preciosas<br \/>\n    rid&iacute;culas que eu conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> Mas atendei a que n&atilde;o &eacute; s&oacute; dos compositores que depende<br \/>\n    a reforma.<\/p>\n<p> Alguns t&ecirc;m feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda<br \/>\n    potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que<br \/>\n    te vi nos l&aacute;bios quando em certa reuni&atilde;o uma senhora teve a<br \/>\n    coragem de cantar deli ciosamente a can&ccedil;&atilde;o do Marujo, do drama<br \/>\n    de C&eacute;sar de Lacerda. Sor&#8226; risos como esse &eacute; que estragam<br \/>\n    tudo, Cec&iacute;lia.<\/p>\n<p> Momentos depois ouvias, j&aacute; muito sisuda e atenta, uma pequena &aacute;ria<br \/>\n    francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons<br \/>\n    e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom &#8212; porque s&atilde;o francesas.<\/p>\n<p> Eu tenho vontade de promover uma revolu&ccedil;&atilde;o proclamando neste<br \/>\n    sentido: &#8212; Senhores folhetinistas, &eacute; necess&aacute;rio convencer<br \/>\n    as nossas ele&#8226; gantes que n&atilde;o &eacute; de mau gosto cantar em<br \/>\n    m&uacute;sica portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem<br \/>\n    L&iacute;lia e as antigas modi&#8226; nhas, mas substitu&iacute;-lhe can&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nacionais como elas. N&atilde;o vos mostreis benignos somente para com os<br \/>\n    ohim&eacute;s, infelices, m&iacute;seros, mios con&#8226; tentos e addios<br \/>\n    das letras italianas.<\/p>\n<p> A moda &eacute; um potentado. Para a combater &eacute; preciso uma alian&ccedil;a<br \/>\n    poderosa, poderos&iacute;ssima.<\/p>\n<p> N&atilde;o exijais de ningu&eacute;m desacompanhado essa fa&ccedil;anha<br \/>\n    de H&eacute;r&#8226; cules. N&atilde;o h&aacute; for&ccedil;as isoladas que<br \/>\n    bastem.<\/p>\n<p> V&oacute;s n&atilde;o criareis m&uacute;sica nacional nos sal&otilde;es<br \/>\n    e gabinetes. Desen- ganai-vos. Ide ao campo e &agrave;s ruas, percorrei as<br \/>\n    prov&iacute;ncias e depois ponde &agrave; moda a Euterpe r&uacute;stica que<br \/>\n    tiverdes encontrado por l&aacute;, per- fumando-a e apresentando-a com a etiqueta<br \/>\n    do estilo, na sociedade elegante.<\/p>\n<p> &Eacute; uma subserviv&ecirc;ncia necess&aacute;ria. A musa popular, para<br \/>\n    se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores<br \/>\n    dos diplomas n&atilde;o lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se<br \/>\n    &agrave; moda, depois o resto vir&aacute; naturalmente.<\/p>\n<p> A&iacute; tens o meu modo de pensar.<\/p>\n<p> Em troca da tua disserta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fico-art&iacute;stica,<br \/>\n    que me impacien&#8226; tou &#8212; por inintelig&iacute;vel &#8212; dou-te<br \/>\n    uma opini&atilde;o de leiga que te revol&#8226; tar&aacute; &#8212; por absurda.<\/p>\n<p> Estamos quites. At&eacute; outra ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Continuo a ser toda ao teu, dispor.<\/p>\n<p><b>Janeiro de 1865.<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"> Diana de Aveleda<\/p>\n<h2>UMA DAS MINHAS MADRUGADAS<br \/>\n    CARTA A CEC&Iacute;LIA<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>(In&eacute;dita)<\/b><\/p>\n<p>Na antev&eacute;spera da nossa partida, o administrador, vindo visi- tar-nos,<br \/>\n    perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.<\/p>\n<p> &#8212; O arranjo das malas, respondeu-lhe a L&#8230; sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Por amor de Deus ;&#8212;disse aquele jovial companheiro dos nos&#8226;<br \/>\n    sos ser&otilde;es da aldeia. &#8212; Por amor de Deus! V. Ex.a s fazem-me<br \/>\n    recor&#8226; dar o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus<br \/>\n    bons tempos de Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, &eacute;<br \/>\n    obra de uma hora quando muito.<\/p>\n<p> &#8212; Mas tamb&eacute;m que mais curiosidades nos pode oferecer a sua<br \/>\n    terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investiga&#8226;<br \/>\n    dores de arque&oacute;logo, de naturalista e de poeta, que poder&aacute; ter<br \/>\n    ainda escapado ? &#8212; O mosteiro.<\/p>\n<p> &#8212; O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cec&iacute;lia, que fic&aacute;mos<br \/>\n    j&aacute; sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar<br \/>\n    de pronunciar aquela palavra m&aacute;gica &#8212; mosteiro &#8212; e logo<br \/>\n    um mundo todo de fantasia, como se evocado por um cond&atilde;o misterioso,<br \/>\n    a surgir-me, a encan- tar-me, a pedir-me toda a aten&ccedil;&atilde;o aos<br \/>\n    meus sentidos distra&iacute;dos&#8230; Um mosteiro ! E n&oacute;s h&aacute; um<br \/>\n    m&ecirc;s ali, ignorando-lhe a exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe, doutor &#8212; disse-lhe eu &#8212; que &eacute; indesculp&aacute;vel<br \/>\n    a levian&#8226; dade com que at&eacute; hoje se tem conservado silencioso<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o a esse mosteiro? N&atilde;o&#8217;nos podia ter prevenido<br \/>\n    da exist&ecirc;ncia dele, para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter<br \/>\n    Scott e ir bem pre &#8226; venida do esp&iacute;rito fantasioso que concebeu<br \/>\n    a &laquo;Dama do Lago&raquo;, aquela deliciosa cria&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Seria uma triste desilus&atilde;o para V. Ex.a s quando vissem as<br \/>\n    mudan&ccedil;as que o tempo exerceu naquele antigo retiro de virgens.<\/p>\n<p> &#8212; E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! &Oacute; doutor, cada<br \/>\n    vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudan&ccedil;as do tempo?<br \/>\n    Tem gra&ccedil;a. Tanto melhor. Hera pelos muros, n&atilde;o &eacute; isso<br \/>\n    que quer dizer? Est&aacute;tuas derrubadas, fustes partidos, capit&eacute;is<br \/>\n    despeda&ccedil;a&#8226; dos nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de<br \/>\n    asilo &agrave;s aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena.<br \/>\n    Pois uma lenda bem conservada na mem&oacute;ria do povo vizinho, cheia de<br \/>\n    maravilhoso, cheia de fant&aacute;stico. Diga, diga se h&aacute; em toda esta<br \/>\n    sua terra, a que tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz<br \/>\n    de se esquecer ? &#8212; Infelizmente, minha senhora &#8212; continuava o<br \/>\n    desapiedado dou&#8226; tor, parecendo deliciar-se em destruir todas estas<br \/>\n    minhas fantasias com a indiferen&ccedil;a revoltante do bot&acirc;nico que<br \/>\n    desconjunta a mais bela flor do campo para &#8212; in&uacute;til crueldade<br \/>\n    &#8212; para a classificar. &#8212; Infeliz&#8226; mente, minha senhora, o<br \/>\n    mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento &agrave; curiosidade<br \/>\n    justificadamente feminil de V. Ex.as. N&atilde;o &eacute; a poesia do tempo<br \/>\n    que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitol&oacute;gico velho para ser utilit&aacute;rio<br \/>\n    e esqueceu os seus antigos brios de poeta. Ver&atilde;o V. Ex.as a cerca aproveitada<br \/>\n    para hortas, transformadas as celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a<br \/>\n    igreja invadida pela cal e pelo desastrado pincel do &uacute;nico artista<br \/>\n    da localidade.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso n&atilde;o vamos.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o? &#8212; disse a L&#8230; &#8212; deixa falar o doutor.<br \/>\n    Eu te pro&#8226; meto que a poesia e a saudade do passado conseguir&atilde;o<br \/>\n    romper toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra h&atilde;o-de<br \/>\n    subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses<br \/>\n    mesmos campos, penetrar nas celas com os &uacute;ltimos raios de sol, voejar<br \/>\n    na igreja com as part&iacute;culas coloridas da poeira que a clari&#8226;<br \/>\n    dade de uma fresta venha iluminar.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo! &#8212; exclamou o doutor. &#8212; Com essa boa vontade,<br \/>\n    minhas senhoras, n&atilde;o h&aacute; poesia que se n&atilde;o encontre.<\/p>\n<p> &#8212; Emprazamo-lo para amanh&atilde;, doutor.<\/p>\n<p> &#8212; E t&ecirc;m coragem de madrugar ? &#8212; Boa! Ao romper do dia<br \/>\n    estaremos prontas.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, at&eacute; ao romper do dia de amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Tu sabes como eu sou, Cec&iacute;lia, podes imaginar em que az&aacute;fama<br \/>\n    andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda n&atilde;o consegui<br \/>\n    olhar com indiferen&ccedil;a para o convento de Monchique, do Porto, n&atilde;o<br \/>\n    obstante estar desde crian&ccedil;a habituada com aquelas ru&iacute;nas e<br \/>\n    apesar da influ&ecirc;ncia do Trem, da Alf&acirc;ndega e de tudo, como poderia<br \/>\n    receber de &acirc;nimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado,<br \/>\n    quase destru&iacute;do, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por<br \/>\n    mim, Porque para mim &eacute; de facto nova a exist&ecirc;ncia do convento<br \/>\n    de&#8230; das&#8230; Ent&atilde;o n&atilde;o queres tu ver que nem nome lhe posso<br \/>\n    dar! Pois &eacute; verdade, satisfiz-me com a denomina&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica<br \/>\n    de mos&#8226; teiro e nem me lembrou perguntar qual a invoca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sob que foi eri&#8226; gido aquele obscuro asilo de almas t&iacute;midas e<br \/>\n    qual a ordem mon&aacute;stica que por tanto tempo o habitou.<\/p>\n<p> Mas que importa? N&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m uma mem&oacute;ria arqueol&oacute;gica<br \/>\n    que eu te escrevo. &Eacute; uma carta, como todas as minhas, como todas as<br \/>\n    tuas em que se diz tudo quanto lembra e n&atilde;o se fica respons&aacute;vel<br \/>\n    por nada do que esqueceu.<\/p>\n<p> Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite. Lembrou-me<br \/>\n    efectivamente Walter Scott e lembrou-me tamb&eacute;m Meyerbeer.<\/p>\n<p> A dan&ccedil;a fant&aacute;stica que no quarto acto do Roberto fascinava<br \/>\n    o filho de Bertrand e cuja m&uacute;sica, por uma diab&oacute;lica coincid&ecirc;ncia,<br \/>\n    a L&#8230; lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava<br \/>\n    a madrugada e que h&aacute; muito havia luz no quarto do doutor.<\/p>\n<p> Tu n&atilde;o sabes bem ao certo o que &eacute; uma madrugada, tu a quem<br \/>\n    vai despertar no teu tranquil&iacute;ssimo bairro o ru&iacute;do das dez horas<br \/>\n    da manh&atilde;; nem eu me proponho a fazer-te a an&aacute;lise dos encontrados<br \/>\n    sentimentos que nos agitam em tais ocasi&otilde;es. Dir-te-ei s&oacute;, de<br \/>\n    passa&#8226; gem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das<br \/>\n    nossas ideias muda de direc&ccedil;&atilde;o. Costumadas a pensar no meio<br \/>\n    de um determinado grupo de condi&ccedil;&otilde;es, de luz, de movimento,<br \/>\n    de vida, quase sempre as mesmas, quando em presen&ccedil;a de condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    t&atilde;o outras das ordin&aacute;rias, como s&atilde;o as de uma madrugada,<br \/>\n    como que os nossos pen&#8226; samentos tomam uma diversa fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e novas solu&ccedil;&otilde;es a problemas, que t&iacute;nhamos por definitivamente<br \/>\n    resolvidos, avultam e avultam sob um aspecto t&atilde;o luminoso que todos<br \/>\n    os mais ofusca.<\/p>\n<p> Isto n&atilde;o &eacute; filosofia, sossega; &eacute; a simples express&atilde;o<br \/>\n    do que eu senti quando acordada por L&#8230; me dispunha, n&atilde;o sem um pouco<br \/>\n    de m&aacute; vontade, a cumprir a promessa feita na v&eacute;spera ao doutor.<\/p>\n<p> AL.. . estava admirada do meu sil&ecirc;ncio, pois desde que principiara<br \/>\n    a vestir-me n&atilde;o lhe dera uma palavra s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Em que pensas tu? &#8212; disse-me por fim, impaciente &#8212; se<br \/>\n    isso n&atilde;o &eacute; ainda sonhar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o. Queres saber ? Penso que talvez<br \/>\n    n&atilde;o tiveram raz&atilde;o os que mandaram fechar as portas dos conventos<br \/>\n    e proibiram as profiss&otilde;es.<\/p>\n<p> AL.. . obrigou-me a repetir esta resposta.<\/p>\n<p> &#8212; Que extravagante reflex&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; essa tua<br \/>\n    agora? ! &#8212; &Eacute; que eu, por mais que tenha estado a recordar-me<br \/>\n    dos argu&#8226; mentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me<br \/>\n    da utilidade de tal reforma, n&atilde;o os encontro.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc; se os deixaste no travesseiro &#8212; disse a L&#8230;, rindo.<\/p>\n<p> &#8212; Olha que te falo s&eacute;ria! Nesse caso dir-te-ei que a raz&atilde;o<br \/>\n    mais justificativa, a meu ver, &eacute; a de nos ter proporcionado esta visita<br \/>\n    matinal, que espero ser&aacute; deli&#8226; ciosa. Porque, olha que se existissem<br \/>\n    l&aacute; freiras que n&atilde;o fossem pena&#8226; das, tudo mudava.<\/p>\n<p> Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e deci&#8226;<br \/>\n    didamente n&atilde;o acompanharia o doutor, se me esperassem l&aacute; essas<br \/>\n    duas esp&eacute;cies de gulodices.<\/p>\n<p> N&atilde;o gostei da fei&ccedil;&atilde;o jocosa que a L&#8230; continuava a<br \/>\n    dar &agrave; conversa, e por isso calei-me.<\/p>\n<p> A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc;s que o momento era solene.<\/p>\n<p> Tal se manifestou em mim desta vez a influ&ecirc;ncia da madrugada. Mais<br \/>\n    poder do que as jovialidades de L&#8230; teve por&eacute;m a voz do admi&#8226;<br \/>\n    nistrador cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do<br \/>\n    Trovador: Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chap&eacute;us e apresentando-nos<br \/>\n    na rua.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar<br \/>\n    quando estivermos no mosteiro? &#8212; Eu? ! &#8212; Sim; &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que h&aacute; tanto tempo nesta terra tenha resis&#8226; tido &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de meditar a esse respeito algum romance.<\/p>\n<p> &#8212; Um romance meditado no gabinete da administra&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Nem V. Ex.&quot; sabe o que pede .<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso medite-o no caminho porque n&atilde;o posso dispensar<br \/>\n    uma hist&oacute;ria quando visito ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um mau sistema. O mais interessante &eacute; fantasi&aacute;-la<br \/>\n    cada um a seu modo na ocasi&atilde;o. &Eacute; a maneira melhor de nos satisfazer.<br \/>\n    Eu por mim tenho sempre achado muito aqu&eacute;m do merecimento da cena as<br \/>\n    lendas dos s&iacute;tios que visito.<\/p>\n<p> E neste conversar fomos n&oacute;s matando o tempo do nosso curto passeio.<\/p>\n<p> Como sabes est&aacute;vamos no Outono e as manh&atilde;s eram j&aacute;<br \/>\n    repas&#8226; sadas daquela suav&iacute;ssima poesia da tua esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    predilecta.<\/p>\n<p> O caminho que segu&iacute;amos, ora por vales cheios de sombras e de mist&eacute;rios,<br \/>\n    ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrif&iacute;cio da<br \/>\n    madrugada, quando a visita do mosteiro nos n&atilde;o reser&#8226; vasse outra<br \/>\n    compensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave;quela hora do dia h&aacute; mais vida nos campos do que nesses magn&iacute;&#8226;<br \/>\n    ficos sarc&oacute;fagos que se chamam cidades.<\/p>\n<p> Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lava&#8226; deiras,<br \/>\n    os lavradores nos campos e o moleiro ao ru&iacute;do das levadas despeda&ccedil;ando-se<br \/>\n    nas rodas das azenhas.<\/p>\n<p> Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e t&atilde;o variadas<br \/>\n    na cor, no canto e no voo que eu n&atilde;o sei como h&aacute; naturalistas<br \/>\n    que as conhe&ccedil;am a todas, se &eacute; verdade o que se diz.<\/p>\n<p> Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.<\/p>\n<p> Pois h&aacute; l&aacute; prazer como o de internar-se a gente por entre<br \/>\n    campos orlados de moitas vi&ccedil;osas, sebes naturais do onde se debru&ccedil;am<br \/>\n    as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro<br \/>\n    deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhen- do-as na passagem?<br \/>\n    A luz do Sol coada pelas frondes dos &aacute;lamos e castanheiros e das vides<br \/>\n    que estreitamente abra&ccedil;adas com eles suspendem no caminho seus fest&otilde;es<br \/>\n    verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas<br \/>\n    veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez &agrave;s recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de muitos amantes campesinos. Numa manh&atilde; bem clara, passando por uma<br \/>\n    rua assim, Cec&iacute;lia, parece-me que com os insectos que a minha chegada<br \/>\n    vai perturbar e que, impacientes, ou amedrontados, se p&otilde;em a voltear-me<br \/>\n    em torno da cabe&ccedil;a, se ergue tamb&eacute;m um enxame de mem&oacute;rias<br \/>\n    agrad&aacute;veis que me ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos<br \/>\n    da minha vida que tenho passado l&aacute;, turba inquieta que me envolve,<br \/>\n    que me embriaga, que me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe<br \/>\n    do presente, da realidade, do mundo.<\/p>\n<p> Digo-te uma coisa; ent&atilde;o reproduzem-se em mim aquelas intensas e<br \/>\n    desanuviadas alegrias de crian&ccedil;a que t&atilde;o depressa os anos modifi&#8226;<br \/>\n    cam, alegrias espont&acirc;neas sem pensamento reservado, sem explica&#8226;<br \/>\n    &ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel, que se n&atilde;o reprimem, que rompem<br \/>\n    em risos, em cantos, em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum<br \/>\n    travo perturba.<\/p>\n<p> Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho,<br \/>\n    retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contra&#8226; riada disse:<br \/>\n    &#8212; Uma dificuldade imprevista! &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; pergunt&aacute;mos<br \/>\n    n&oacute;s a um tempo.<\/p>\n<p> &#8212; Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se n&atilde;o<br \/>\n    pode abrir.<\/p>\n<p> Saud&aacute;mo-la com uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer que deixou<br \/>\n    embara&#8226; &ccedil;ado o administrador, homem comodista, que desejaria<br \/>\n    ver alisar-se- -lhe debaixo dos p&eacute;s em suave macadame todos os caminhos<br \/>\n    e arra- sarem-se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse<br \/>\n    o ponto do universo para onde a necessidade ou o capricho o pudes&#8226; sem<br \/>\n    um dia levar.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que &eacute; isso? Pois deveras n&atilde;o as amedronta<br \/>\n    uma cancela? ! &#8212; Est&aacute; a gracejar &#8212; disse a L&#8230; Pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    acolhemo-la como um interessante epis&oacute;dio no decurso de um poema.<\/p>\n<p> &#8212; Ah!&#8230; pois est&atilde;o nessas disposi&ccedil;&otilde;es? Ent&atilde;o<br \/>\n    eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros epis&oacute;dios para o poema, inclusive<br \/>\n    um ata&#8226; que de c&atilde;es de quinta.<\/p>\n<p> &#8212; Menos isso &#8212; exclamou a L&#8230; j&aacute; quase s&eacute;ria<br \/>\n    Devo por&eacute;m confessar-te que efectivamente foi com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade<br \/>\n    minha.<\/p>\n<p> Nisto conservo todos os instintos de crian&ccedil;a. &Eacute; sabido que<br \/>\n    nada h&aacute; mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos<br \/>\n    naturais ainda n&atilde;o foram falsificados pelo prosa&iacute;smo da vida<br \/>\n    ordin&aacute;ria e pela influ&ecirc;ncia das ocupa&ccedil;&otilde;es que,<br \/>\n    tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles,<br \/>\n    como a seguir um caminho f&aacute;cil, c&oacute;modo, feito de prop&oacute;sito,<br \/>\n    trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas mon&oacute;tonas,<br \/>\n    sem acidentes, s&eacute;rias de mais para eles, essas risonhas criaturas de<br \/>\n    Deus.<\/p>\n<p> E se n&atilde;o, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de<br \/>\n    fam&iacute;lias burguesas que transp&otilde;em as barreiras da nossa cidade<br \/>\n    e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e &agrave; sombra<br \/>\n    das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom<br \/>\n    repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais<br \/>\n    e as m&atilde;es seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles,<br \/>\n    do tempo do cerco, do estado das novidades agr&iacute;colas e das quest&otilde;es<br \/>\n    do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas,<br \/>\n    das criadas, das nove&#8226; nas e das teias de pano de linho que deitaram<br \/>\n    esse ano; enquanto as meninas donzelas, de bra&ccedil;o dado, e languidamente<br \/>\n    apoiadas uma na outra, entregues a confid&ecirc;ncias de tal ordem que nem<br \/>\n    se atrevem a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliqua&#8226;<br \/>\n    mente entre os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso,<br \/>\n    indom&aacute;vel, borboleteia em torno de uns e de outros, amea- &ccedil;ando-lhes<br \/>\n    perturbar estonteados cometas, a regularidade da trajec&#8226; t&oacute;ria<br \/>\n    que seguiam. Trepa aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora<br \/>\n    os caminhos vicinais, desaparece atr&aacute;s de um c&ocirc;moro, surge &agrave;s<br \/>\n    gargalhadas do alto de outro mais distante, pendura-se das &aacute;rvores,<br \/>\n    rebola-se na relva, atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente<br \/>\n    aos gritos, exclama&ccedil;&otilde;es, amea&ccedil;as e at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    cor&#8226; rec&ccedil;&otilde;es maternas e paternas.<\/p>\n<p> E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas can&#8226; celas<br \/>\n    r&uacute;sticas como a que t&iacute;nhamos diante de n&oacute;s, enquanto<br \/>\n    os pap&aacute;s se preparam para abri-la, j&aacute; as crian&ccedil;as a t&ecirc;m<br \/>\n    cavalgado, receando perde r a ocasi&atilde;o de uma nova perip&eacute;cia<br \/>\n    que vem aumentar o interesse do passeio.<\/p>\n<p> Efectivamente abrir uma cancela &eacute; uma vulgaridade, &eacute; o que<br \/>\n    todos os dias cada um faz em sua pr&oacute;pria casa e uma excurs&atilde;o<br \/>\n    nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso mon&oacute;tono da vida,<br \/>\n    a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.<\/p>\n<p> Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presun&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m pejo de brincar, saltar um muro, sendo poss&iacute;vel,<br \/>\n    transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro&#8230;<br \/>\n    que impa&#8226; g&aacute;veis prazeres ! Passados momentos ach&aacute;vamo-nos<br \/>\n    em plena campina.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos diante de n&oacute;s a indicar-nos o caminho um desses estrei&#8226;<br \/>\n    tos carreiros conservado entre terras cultivadas para o servi&ccedil;o das<br \/>\n    lavouras. De um lado e de outro eleva-se-nos o milho at&eacute; aos joelhos.<br \/>\n    Em torno uma imensa plan&iacute;cie verd e onde s&oacute; alvejavam as camisas<br \/>\n    brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela. As improvisadas<br \/>\n    cantigas com que esta gente se anima no tra&#8226; balho cruzavam-se em disputado<br \/>\n    certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras gargalhadas.<\/p>\n<p> O sossego da hora, a vastid&atilde;o do horizonte do lugar e o timbre puro<br \/>\n    daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilan- cetes cantados<br \/>\n    na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas<br \/>\n    circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.<\/p>\n<p> Altos castanheiros, cuja plena floresc&ecirc;ncia os tingia naquele tempo<br \/>\n    de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela vira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor,<br \/>\n    repartiam em figuras irregulares toda esta pla&#8226; n&iacute;cie. Aqui e<br \/>\n    ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas e volitavam<br \/>\n    as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros adjacentes<br \/>\n    misturava-se com o agrad&aacute;vel ru&iacute;do de vozes infantis o cantar<br \/>\n    do galo respondido por o de outros mais afastados.<\/p>\n<p> Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de<br \/>\n    pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha<br \/>\n    dispostas em longas fileiras, que vistas de noite &agrave; luz fant&aacute;stica<br \/>\n    da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas pro&#8226; ciss&otilde;es<br \/>\n    de monges brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta supers&#8226; ti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tem fomentado por l&aacute;! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra,<br \/>\n    f&eacute;rtil, risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em &aacute;gua,<br \/>\n    onde a luz e as sombras se casam em misteriosa combina&ccedil;&atilde;o; cheia<br \/>\n    de vagos rumores de folhas agitadas, de arroios invis&iacute;veis, de gorjeios<br \/>\n    de aves, de tudo o que consola, de tudo o que nos d&aacute; vida.<\/p>\n<\/p>\n<p>Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e &agrave;<br \/>\n    sombra de magn&iacute;ficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que<br \/>\n    os limitavam e, atra&iacute;dos pelo long&iacute;nquo rumor de uma queda de<br \/>\n    &aacute;gua fomos ladeando a encosta at&eacute; encontrarmos a corrente de<br \/>\n    onde esse rumor partia.<\/p>\n<p> Era para ver a agilidade com que eu e L&#8230; desc&iacute;amos ent&atilde;o<br \/>\n    a ver&#8226; tente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com<br \/>\n    grande susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver-<br \/>\n    -nos despenhadas no abismo.<\/p>\n<p> &#8212; Cautela! cautela! &#8212; bradou ele de longe, embara&ccedil;ado<br \/>\n    em afas&#8226; tar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.<\/p>\n<p> De quando em quando volt&aacute;vamo-nos. V&iacute;amo-lo apegado aos tron&#8226;<br \/>\n    cos das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo<br \/>\n    arrelvado e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade<br \/>\n    saudava-o ent&atilde;o c&aacute; de baixo.<\/p>\n<p> A corrente era a cada passo interrompida por a&ccedil;udes e moinhos, atravessada<br \/>\n    por pontes r&uacute;sticas, oculta &agrave;s vezes pelos arbustos das margens<br \/>\n    e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sem&#8226; pr e<br \/>\n    &aacute;vidos e insaci&aacute;veis de frescura.<\/p>\n<p> Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual ces&#8226; saram<br \/>\n    as tribula&ccedil;&otilde;es do administrador. O mau humor que a descida lhe<br \/>\n    tinha exacerbado desvaneceu-se totalmente no remanso que o esperava ali e<br \/>\n    n&atilde;o foi ele o que menos se riu dos seus passados ter&#8226; rores e<br \/>\n    apreens&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas que devesa aquela, Cec&iacute;lia! Que &iacute;ntimo recolhimento !<br \/>\n    Que misteriosa tranquilidade! Os rouxin&oacute;is, ocultos na copa espess&iacute;ssima<br \/>\n    de carvalhos seculares, cantavam &agrave; porfia sem que a nossa presen&ccedil;a<br \/>\n    os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confian&ccedil;a, passava<br \/>\n    ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos,<br \/>\n    que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida<br \/>\n    da &aacute;rvore vinham cair-nos aos p&eacute;s ; um raio de Sol que, atravessando<br \/>\n    j&aacute; amortecido aquele arren&#8226; dado de verdura, descia a procurar<br \/>\n    na relva a florinha cor de anil que n&atilde;o sei que nome b&aacute;rbaro<br \/>\n    tem em bot&acirc;nica, tra&ccedil;ava obliquamente no recinto assombrado pelo<br \/>\n    arvoredo uma coluna luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em<br \/>\n    ru&iacute;nas. Insectos de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor<br \/>\n    daquela solid&atilde;o, seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade<br \/>\n    e vertigem.<\/p>\n<p> Instintivamente fal&aacute;vamos baixo ali.<\/p>\n<p> Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. &#8212;A<br \/>\n    caminho! a caminho!&#8212;foi a exclama&ccedil;&atilde;o que ruidosamente<br \/>\n    nos arrancou da silenciosa abstrac&ccedil;&atilde;o em que pouco a pouco nos<br \/>\n    dei&#8226; x&aacute;ramos cair.<\/p>\n<p> Desnecess&aacute;rio ser&aacute; dizer-te que foi do doutor que ela partiu.<br \/>\n    Para tanto s&oacute; a coragem dele.<\/p>\n<p> &#8212; A terra da promiss&atilde;o n&atilde;o est&aacute; longe &#8212;<br \/>\n    continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.<\/p>\n<p> Olh&aacute;mos nessa direc&ccedil;&atilde;o. Descobrimos ao longe a grimpa<br \/>\n    e toda a parte superior de um velho campan&aacute;rio. Saiu-nos dos l&aacute;bios<br \/>\n    uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer a mim e &agrave; L&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O mosteiro ? &#8212; O pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> A estas duas palavras sucedeu o sil&ecirc;ncio. Com os olhos fitos naquele<br \/>\n    enegrecido edif&iacute;cio que, pouco a pouco, parecia ir-se des&#8226; pojando<br \/>\n    &agrave; nossa vista do inv&oacute;lucro da folhagem que ao princ&iacute;pio<br \/>\n    no-lo encobria, fomos caminhando para ele de novo, possu&iacute;das daquela<br \/>\n    mesma impress&atilde;o que sent&iacute;ramos na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Perdoa &agrave; minha ignor&acirc;ncia de arquitectura se omito a minuciosa<br \/>\n    descri&ccedil;&atilde;o daquele vetusto convento, transformado hoje em uma<br \/>\n    d&uacute;zia de coisas muito diversas, que nem j&aacute; te sei enumerar.<br \/>\n    N&atilde;o perde s muito, tu, nem perd e a arte com a lacuna porque afinal<br \/>\n    de contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou<br \/>\n    de uma dessas constru&ccedil;&otilde;es irregular&iacute;ssirnas, acanhadas,<br \/>\n    sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos<br \/>\n    foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simboli&#8226; zar<br \/>\n    o desapego &atilde;s vaidades da Terra na aus&ecirc;ncia completa da menor<br \/>\n    beleza arquitect&oacute;nica. Extensas paredes crivadas de janelas mesqui&#8226;<br \/>\n    nhas, car&ecirc;ncia absoluta de simetria nas constru&ccedil;&otilde;es posteriores<br \/>\n    &agrave; do edif&iacute;cio principal, assim uma coisa &agrave; semelhan&ccedil;a<br \/>\n    do convento de Cor&#8226; pus Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.<\/p>\n<p> Tinha alguma raz&atilde;o o administrador quando nos falava no car&aacute;c&#8226;<br \/>\n    ter prosaico das modifica&ccedil;&otilde;es que o tempo introduzira neste<br \/>\n    mosteiro. Nada do grandioso das ru&iacute;nas! renova&ccedil;&otilde;es escandalosas,<br \/>\n    verda&#8226; deiros sacril&eacute;gios de arte, isso, muitas. Montes de palha<br \/>\n    por toda a parte e a vegeta&ccedil;&atilde;o das hortali&ccedil;as de uma<br \/>\n    exuber&acirc;ncia insolente! AL.. . bem se esfor&ccedil;ava por reconstituir<br \/>\n    um romance com o pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros<br \/>\n    dilacera- vam-lho &agrave; nascen&ccedil;a. &Eacute; uma ave essencialmente<br \/>\n    burguesa a galinha. N&atilde;o h&aacute; lenda que possa florescer onde constantemente<br \/>\n    cacarejam estes prosaicos bipedes.<\/p>\n<p> AL.. . chegou a desesperar.<\/p>\n<p> &#8212; Visto isso, nem uma pedr a hist&oacute;rica, nem uma mem&oacute;ria<br \/>\n    ligada a estas paredes. &Oacute; doutor, compade&ccedil;a-se desta nossa ansiedade.<\/p>\n<p> Recorde, descubra, invente um romance &#8212; dizia eu.<\/p>\n<p> &#8212; Eu s&oacute; conhe&ccedil;o o lugar como a matriz de um c&iacute;rculo<br \/>\n    eleitoral e ligada a este recinto s&oacute; posso recordar-me da hist&oacute;ria<br \/>\n    das elei&ccedil;&otilde;es passadas.<\/p>\n<p> Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.<\/p>\n<p> &#8212; Sil&ecirc;ncio ! Nada de profana&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; E contudo estas naves &#8212; disse a L&#8230; entrando na igreja, efecti&#8226;<br \/>\n    vamente a parte mais solene do edif&iacute;cio &#8212; s&atilde;o ainda assim<br \/>\n    longas, ele&#8226; vadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas<br \/>\n    tolas dos restauradores conseguiram priv&aacute;-las de uma certa majestade<br \/>\n    e poesia. Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impress&atilde;o mais<br \/>\n    dura&#8226; doura ! N&atilde;o saio sem isso.<\/p>\n<p> E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por<br \/>\n    um lampad&aacute;rio antigo e ainda n&atilde;o visitada por n&oacute;s.<\/p>\n<p> Seguimo-la. &Agrave; entrada, por&eacute;m, a imprevista apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um vulto fez-nos recuar. N&atilde;o er a afinal nenhuma alma do outro mundo,<br \/>\n    t&atilde;o somente um rapaz muito p&aacute;lido, vestido com singeleza, o<br \/>\n    qual com um sorriso modesto e melanc&oacute;lico nos cortejou.<\/p>\n<p> O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; este homem ? &#8212; perguntei ao doutor quando o<br \/>\n    rec&eacute;m- -aparecido se afastou de n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o mestre-escola da aldeia.<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m o dir&aacute;! Tem uma fisionomia inteligente.<\/p>\n<p> &#8212; E desta vez n&atilde;o fica mal Lav&aacute;ter.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras? Mas&#8230; mestre-escola! &#8212; Ent&atilde;o que quer ? Com<br \/>\n    aquele estofo &#8212; disse o doutor, apon&#8226; tando para ele que j&aacute;<br \/>\n    ia &agrave; porta da igreja &#8212; fazia-se talvez um bom acad&eacute;mico,<br \/>\n    fazia. Mas amarraram-no &agrave; atafona das primeiras letras.<\/p>\n<p> Nisto sa&iacute;a a L&#8230; da capela, verdadeiramente desesperada.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; meio de tirar coisa alguma destas paredes.<br \/>\n    Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode,<br \/>\n    sacuda a sua imagina&ccedil;&atilde;o para nos mentir, doutor, ande. Invente,<br \/>\n    seja am&aacute;vel uma vez na vida.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou poeta e V. Ex.a s perderam talvez a ocasi&atilde;o<br \/>\n    de satisfa&#8226; zerem t&atilde;o inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc; ! Pois &eacute; tamb&eacute;m poeta! exclamei, admirada.<\/p>\n<p> &#8212; Afian&ccedil;a-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ?<br \/>\n    &#8212; perguntou a L&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Pois vou cham&aacute;-lo.<\/p>\n<p> E a L&#8230; com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta,<br \/>\n    sem fazer caso das minhas observa&ccedil;&otilde;es e dentro em pouco voltava<br \/>\n    com o p&aacute;lido mestre-escola, singularmente embara&ccedil;ado com a assist&ecirc;ncia<br \/>\n    que se lhe pedia.<\/p>\n<p> &#8212; Emprazamo-lo &#8212; disse a L&#8230;, usando das maneiras convenien&#8226;<br \/>\n    temente familiares com que logo &agrave; primeira entrevista sabe p&ocirc;r<br \/>\n    &agrave; von&#8226; tade os seus interlocutores. &#8212; Emprazamo-lo para<br \/>\n    que nos tire destas paredes, destas naves, destas ab&oacute;badas uma mem&oacute;ria,<br \/>\n    uma lenda, um drama, seja o que for. Porque, h&aacute;-de concordar, ir a<br \/>\n    gente daqui sem qualquer destas coisas &eacute; desagrad&aacute;vel, &eacute;<br \/>\n    impertinente, &eacute; triste.<\/p>\n<p> O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde<br \/>\n    o v&iacute;ramos sair.<\/p>\n<p> &#8212; Dali ? &#8212; exclamou a L&#8230; que lhe seguira o olhar. &#8212;Bem<br \/>\n    me quis parecer. H&aacute; um ar de mist&eacute;rio naquele altar, h&aacute;;<br \/>\n    mas j&aacute; procurei e nada vi.<\/p>\n<p> &#8212; Quer V. Ex.&#8217; que as paredes falem, sem se lembrar que elas s&oacute;<br \/>\n    dizem o que a gente lhe ordena.<\/p>\n<p> &#8212; Cale-se, doutor. Os c&oacute;digos asfixiaram-lhe toda a poesia<br \/>\n    que talvez em tempos felizes existiu em si. E se n&atilde;o experimentemos.<br \/>\n    Glose este mote alambicado:<\/p>\n<p>Saudade, cruel saudade<br \/>\n    Tormento da minha vida<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sou capaz de a satisfazer a n&atilde;o ser que me conceda<br \/>\n    algu&#8226; mas semanas para procurar inspira&ccedil;&atilde;o nos autos administrativos<br \/>\n    e par&#8226; tes dos regedores.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, sil&ecirc;ncio! Este senhor, tenho f&eacute; que satisfar&aacute;<br \/>\n    gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele n&atilde;o fosse um poeta! &#8212;<br \/>\n    Poeta! &#8212; disse timidamente o interpelado.<\/p>\n<p> &#8212; Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o at&eacute;<br \/>\n    esta sua visita solit&aacute;ria &agrave; capela de onde h&aacute; pouco saiu.<br \/>\n    Vamos, diga-nos, o que h&aacute; nela de interessante? O mancebo continuou<br \/>\n    a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o. Depois, corando<br \/>\n    levemente, tirou de um livro que trazia na m&atilde;o um pequeno papel, no<br \/>\n    qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra mi&uacute;da mas de tra&ccedil;o<br \/>\n    firme e entregou-o sem pronunciar uma s&oacute; palavra &agrave; L,.., que<br \/>\n    se apoderou dele com vivacidade. Com n&atilde;o menor presteza nos aproxim&aacute;mos<br \/>\n    eu e o doutor e por cima do ombro da L&#8230; fomos acompanhando a leitura das<br \/>\n    seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida\n  <\/p>\n<h2> A NOVI&Ccedil; A<\/h2>\n<p>&laquo;Oh! vem, querida irm&atilde;; do santu&aacute;rio do templo<br \/>\n    J&aacute; desce a receber-te o celestial esposo.<br \/>\n    Vem ser da nossa f&eacute; sublime e vivo exemplo;<br \/>\n    Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.<\/p>\n<p>&laquo;Vem; dos c&iacute;rios &agrave; luz, ao som de alegres hinos, Cinge<br \/>\n    o h&aacute;bito escuro, emblema da humildade,<br \/>\n    E, abrasada no ardor dos teus estos divinos<br \/>\n    Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.<\/p>\n<p>&laquo;Esposa do Senhor, virgem c&acirc;ndida e pura, Do teu noviciado expiram<br \/>\n    hoje os dias.<br \/>\n    N&atilde;o tremas ao fitar as portas da clausura, Tamb&eacute;m na estreita<br \/>\n    cela h&aacute; grandes alegrias.&raquo;<\/p>\n<p>Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em prociss&atilde;o pelas<br \/>\n    extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melanc&oacute;lica<br \/>\n    voz de aprisionadas aves.<\/p>\n<p>Ca&iacute;do o longo v&eacute;u por sobre a fronte airosa<br \/>\n    Caminha lentamente a p&aacute;lida novi&ccedil;a;<br \/>\n    Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,<br \/>\n    Um como cintilar de l&acirc;mpada morti&ccedil;a.<\/p>\n<p>Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha<br \/>\n    E ao culto fervoroso as tran&ccedil;as sacrifica.<br \/>\n    &laquo;Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,<br \/>\n    Teus tesouros d&#8217;amor nas asas santifica.&raquo;<\/p>\n<p>E o coro ergue outra vez o ritual hosana,<br \/>\n    Entre nuvens de incenso, &agrave; voz do &oacute;rg&atilde;o sagrado ; Responde-lhe<br \/>\n    o rezar de multid&atilde;o profana,<br \/>\n    Que transp&ocirc;s curiosa o p&oacute;rtico elevado.<\/p>\n<p>A cerim&oacute;nia &eacute; finda; a monja de joelhos<br \/>\n    Permanece, inclinada a face para a terra ;<br \/>\n    Era no ocaso o Sol; e seus clar&otilde;es vermelhos<br \/>\n    Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.<\/p>\n<p>Longo tempo ali esteve, as p&aacute;lpebras descidas,<br \/>\n    . Im&oacute;vel, silenciosa, em &ecirc;xtase absorta,<br \/>\n    Ergueram-na afinal as monjas comovidas;<br \/>\n    Doloroso mist&eacute;rio, a pobre estava morta!<\/p>\n<p>&#8212; Tinha ou n&atilde;o raz&atilde;o ? &#8212; exclamou a L&#8230;, elevando<br \/>\n    ao ar o papel assim que acabou de o ler.<\/p>\n<p> Todos instintivamente procur&aacute;mos o autor. Havia desaparecido.<\/p>\n<p> Estupefactos olh&aacute;mo-nos em sil&ecirc;ncio sem saber o que pensar<br \/>\n    desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador<br \/>\n    de alexandrinos ! &#8212; Agora o que me apetecia decifrar &#8212; disse eu<br \/>\n    ao doutor &#8212; era o mist&eacute;rio deste melanc&oacute;lico e simp&aacute;tico<br \/>\n    mestre-escola.<\/p>\n<p> &#8212; Se V. Ex.* ordena, porei em ac&ccedil;&atilde;o os meus cabos de<br \/>\n    pol&iacute;cia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, j&aacute; se<br \/>\n    sabe, em estilo de relat&oacute;rio administrativo, &#8212; Pois olhe, esse<br \/>\n    mist&eacute;rio preocupa-me pouco &#8212; disse L&#8230; &#8212; o que pretendo<br \/>\n    &eacute; saber os fundamentos disto &#8212; e apontou para o papel que conservava<br \/>\n    na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Fantasias &#8212; disse o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; E como diz isso! Fantasias! E &eacute; coisa de pouco valor isto<br \/>\n    de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois h&aacute; tr&ecirc;s horas estou<br \/>\n    eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos<br \/>\n    modos, lhe parec e f&aacute;cil tarefa. Ora, na verdade, n&atilde;o lhe mere&ccedil;o<br \/>\n    essa crueza de frase que me est&aacute; revoltando.<\/p>\n<p> &#8212; Por amor de Deus, n&atilde;o me condene, minha senhora. Ningu&eacute;m<br \/>\n    admira mais do que eu as obras de imagina&ccedil;&atilde;o; mas como vejo<br \/>\n    que V. Ex.&quot; quer achar for&ccedil;osamente raz&atilde;o de ser a uma<br \/>\n    coisa que a con&#8226; t&eacute;m em si, &eacute; por isso que eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui<br \/>\n    a explica&ccedil;&atilde;o que procuramos.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; disse eu &#8212; tenha a condescend&ecirc;ncia de<br \/>\n    procurar connosco.<\/p>\n<p> &#8212; Mas procurar o qu&ecirc; ? &#8212; O mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que mist&eacute;rio ? &#8212; O vest&iacute;gio do drama denunciado<br \/>\n    nestes versos &#8212; disse a L&#8230; &#8212; Venha, acompanhe-nos.<\/p>\n<p> Investig&aacute;mos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. .<br \/>\n    n&atilde;o era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi&#8226;<br \/>\n    feren&ccedil;a que lhe dera para afectar naquela manh&atilde;; &#8212; Serve-lhes<br \/>\n    uma inscri&ccedil;&atilde;o tumular ? &#8212; Uma inscri&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; exclamou a L&#8230; &#8212;Pois que mais poderemos querer ? Est&aacute;<br \/>\n    decifrado o enigma! Leia, leia depressa.<\/p>\n<p> &#8212; Hic jacet &#8212; principiou a dizer o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Latim, doutor! &#8212; exclam&aacute;mos n&oacute;s a um tempo,<br \/>\n    com o mais justificado dos terrores.<\/p>\n<p> &#8212; Eu traduzirei, que at&eacute; a&iacute; ainda chega a minha sabedoria.<\/p>\n<p> O pior &eacute; que as letras est&atilde;o quase todas safadas. Aqui jaz&#8230;<br \/>\n    a irm&atilde; Maria de.. . n&atilde;o sei qu&ecirc;&#8230; Nasceu aos&#8230; do ano<br \/>\n    do Senhor de mil seis&#8226; centos e&#8230; tantos, professou aos&#8230; tantos de<br \/>\n    tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.<\/p>\n<p> &#8212; Vit&oacute;ria! &#8212; exclamou a L&#8230; com um grito que ecoou por<br \/>\n    toda a igreja. &#8212; At&eacute; que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente<br \/>\n    laconismo vale um tesouro! &#8212; Que entusiasmo! N&atilde;o o compreendo<br \/>\n    &#8212; dizia o doutor, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Que grande significa&ccedil;&atilde;o acha V. Ex.&quot; nessa descoberta?<br \/>\n    &#8212; Que significa&ccedil;&atilde;o ? Pois n&atilde;o v&ecirc; nela confirmada<br \/>\n    a interessante hist&oacute;ria contada nestes versos? Desvendado o doloroso<br \/>\n    mist&eacute;rio que matou aquela pobre m&aacute;rtir no pr&oacute;prio dia<br \/>\n    do seu noviciado? &#8212; Romances, romances&#8230; poesia, minha senhora. Se<br \/>\n    V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epit&aacute;fio. Era<br \/>\n    talvez uma menina&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Cale-se, b&aacute;rbaro ! Que afli&ccedil;&atilde;o! N&atilde;o<br \/>\n    lhe perdoaria nunca se me tirasse a mem&oacute;ria agrad&aacute;vel que afinal<br \/>\n    consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.<\/p>\n<p> E a L&#8230;, ajoelhando junto ao altar da capela, p&ocirc;s-se a rezar. No<br \/>\n    entretanto dizia eu ao doutor: &#8212; O que me parece interessante, curioso<br \/>\n    e, quem sabe se huma&#8226; nit&aacute;rio at&eacute;, &eacute; estudar o<br \/>\n    car&aacute;cter e hist&oacute;ria deste mestre-escola t&atilde;o triste quanto<br \/>\n    simp&aacute;tico. Porque n&atilde;o h&aacute;-de dar-se a essa tarefa, doutor?<br \/>\n    &#8212; Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei j&aacute;<br \/>\n    dele excita-me a curiosidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o diga o que sabe, diga.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-me investigar o que me falta saber para ent&atilde;o lhe contar<br \/>\n    a hist&oacute;ria completa.<\/p>\n<p> &#8212; E promete n&atilde;o se esquecer ? &#8212; Prometo.<\/p>\n<p> 1&#8212; Dou-lhe ent&atilde;o quinze dias.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; pouco; mas farei a dilig&ecirc;ncia por n&atilde;o faltar.<\/p>\n<p> Ao sair da igreja ainda fomos &agrave; escola da aldeia procurar o profes&#8226;<br \/>\n    sor, mas n&atilde;o o encontr&aacute;mos. Volt&aacute;mos em seguida para<br \/>\n    casa. AL&#8230; com a poesia e com a sincera cren&ccedil;a na hist&oacute;ria<br \/>\n    da novi&ccedil;a, hist&oacute;ria que ficar&aacute; sempre misteriosa se algum<br \/>\n    romancista a n&atilde;o quiser decifrar, e eu inte&#8226; ressada em conhecer<br \/>\n    a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou&#8226; tor para se n&atilde;o<br \/>\n    demorar em satisfazer esta t&atilde;o justificada curiosidade.<\/p>\n<p> Se ele cumprir a promessa, ter&aacute;s cedo, minha Cec&iacute;lia, not&iacute;cias<br \/>\n    minhas.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Diana de Aveleda<\/b> <\/p>\n<h2>CARTAS &Agrave; VONTADE A CEC&Iacute;LIA<\/h2>\n<p align=\"right\">Publicada em 10 de Julho de 1867 no sema&#8226; n&aacute;rio<br \/>\n    &laquo;Mocidade&raquo;.<\/p>\n<p><b>AMAS, MESTRA S E MARIDOS<\/b><\/p>\n<p>Vais gritar: paradoxo! ao ouvir-me afirmar, Cec&iacute;lia, que da maneira<br \/>\n    por que as coisas v&atilde;o, cedo veremos desaparecer da cena social essa<br \/>\n    po&eacute;tica e am&aacute;vel entidade, esse tipo afectuoso e c&acirc;ndido<br \/>\n    a que chamamos m&atilde;e.<\/p>\n<p> Pois &eacute; com &iacute;ntimo convencimento que to digo, acredita, e com<br \/>\n    doloroso aperto de cora&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m. A m&atilde;e, a mulher<br \/>\n    sublime, que tantas vezes inspirara o escopro, o pincel e a pena, que a arte<br \/>\n    aureo&#8226; lava de prest&iacute;gios ao apresentar-no-la espiando com antecipada<br \/>\n    ale&#8226; gria o primeiro sorrir da crian&ccedil;a adormecida ou apertando-a<br \/>\n    amorosa&#8226; mente ao seio, &agrave;quele seio que pela segunda vez a faria<br \/>\n    m&atilde;e; o anjo da guarda que velava com carinhosa solicitude o sucessivo<br \/>\n    desabro&#8226; char da intelig&ecirc;ncia do ente fraco, que a natureza e<br \/>\n    a sociedade colo&#8226; caram sob a sua protec&ccedil;&atilde;o e assim fazia<br \/>\n    a aben&ccedil;oada sementeira de afectos, que deviam mais tarde florescer<br \/>\n    e frutificar; a confidente natu&#8226; ral dos primeiros segredos do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que nasce para a vida dos objectos; a fada que pela magia do seu amor extremoso,<br \/>\n    debaixo da sua suavidade, serenava a revolta das paix&otilde;es, tornava salutar<br \/>\n    o fogo que pudera ser destruidor, essa m&atilde;e tende a desaparecer ; mais<br \/>\n    algum tempo e tornar-se-&aacute; lend&aacute;ria. Matam-na, anulam-na os h&aacute;bitos<br \/>\n    actuais.<\/p>\n<p> Um dia vir&aacute; em que o poeta, tocado pela majestade daquele tipo, pelo<br \/>\n    augusto daquela miss&atilde;o, n&atilde;o poder&aacute; exclamar, dirigindo-se<br \/>\n    a elas, como ainda n&atilde;o h&aacute; muito o fazia um poeta portuense;<\/p>\n<p class=\"imagem\"><b>&Oacute; santas que embalais o ber&ccedil; o das crian&ccedil;as<br \/>\n    !<\/b><\/p>\n<p>N&atilde;o; porque as n&atilde;o encontrar&aacute; a&iacute; junto desse<br \/>\n    ber&ccedil;o, de onde a moda ter&aacute; conseguido arranc&aacute;-las para<br \/>\n    as substituir pela ama mer&#8226; cen&aacute;ria.<\/p>\n<p> Ao coroar-se de flores de laranjeira, a noiva dos nossos dias n&atilde;o<br \/>\n    principia vida nova; para ela n&atilde;o se fecham as portas dos bailes e<br \/>\n    dos sal&otilde;es. Espera que os vagidos infantis a n&atilde;o afastem de<br \/>\n    l&aacute;, retendo-a no gineceu, porque em outros ouvidos declinar&aacute;<br \/>\n    a impertin&ecirc;ncia de os escutar, em outros seios o encargo de os satisfazer;<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; ela que escutar&aacute; enlevada, que procurar&aacute;<br \/>\n    decifrar as primeiras mal arti&#8226; culadas s&iacute;labas do pequeno ser<br \/>\n    que desperta &agrave; luz do mundo, n&atilde;o, que mais agrad&aacute;veis<br \/>\n    lhe s&atilde;o as frases completas, intelig&iacute;veis, tornea&#8226; das,<br \/>\n    elegantes, pelas quais recebe nas salas a afirma&ccedil;&atilde;o de que &eacute;<br \/>\n    ainda bela.<\/p>\n<p> Bela ! E precisa que lho afirmem! Como se a verdadeira mater&#8226; nidade<br \/>\n    n&atilde;o devera ter sempre a consci&ecirc;ncia de que o &eacute;! juram-lhe<br \/>\n    que perante o vi&ccedil;o exuberante da sua formosura, ningu&eacute;m a acredi&#8226;<br \/>\n    tar&aacute; m&atilde;e e isto lisonjeia-a! Corre-se deste nome sagrado que<br \/>\n    em casa, a todo o momento, lhe est&aacute; apregoando entre choros e sorrisos<br \/>\n    essa crian&ccedil;a que n&atilde;o sabe ser lisonjeira, calando-ol&#8217; Este continuado<br \/>\n    &#8212; memento quia mater es &#8212; se me &eacute; l&iacute;cito falar latim,<br \/>\n    impacienta-a! Pobre senhora! Ela tem raz&atilde;o. Como se n&atilde;o bas&#8226;<br \/>\n    tassem para preocup&aacute;-la e afligi-la os descuidos e as imperfei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da costureira! Olha, Cec&iacute;lia, no pequeno drama &iacute;ntimo, que o<br \/>\n    nascimento de uma crian&ccedil;a faz representar sob cada tecto, o papel mais<br \/>\n    simp&aacute;tico &eacute;, quanto a mim, o da ama.<\/p>\n<p> Ela, a quem muitas vezes a mis&eacute;ria obriga a recusar o seio ao pr&oacute;prio<br \/>\n    filho para o oferecer ao de outra mulher que, quase sempre, voluntariamente<br \/>\n    o nega ao seu, olha ao princ&iacute;pio com desculp&aacute;vel avers&atilde;o<br \/>\n    para este inocente usurpador que se lhe pendura ao colo; mas pouco a pouco<br \/>\n    afaz-se &agrave;quele olhar carinhoso que a fita; &agrave;quele sorriso que<br \/>\n    inscientemente a consola quando a saudade lhe est&aacute; ainda orvalhando<br \/>\n    de l&aacute;grimas os olhos; &agrave;quelas pequenas m&atilde;os, que a afa&#8226;<br \/>\n    gam ; &agrave;queles l&aacute;bios que a beijam; e ela, a pobre, a rude mulher,<br \/>\n    chega a persuadir-se que um milagre de Deus permitiu que o esp&iacute;rito<br \/>\n    de seu filho viesse animar este corpo d&eacute;bil, que voasse evocado pelo<br \/>\n    amor materno, a acolher-se ao seu abrigo, e iludida, apaixonada, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o distingue entre os dois, j&aacute; sente de novo estremecer suas<br \/>\n    entranhas de m&atilde;e a cada grito aflitivo do infante, inundar-se-lhe de<br \/>\n    j&uacute;bilo o cora&ccedil;&atilde;o, a cada sorriso de alegria! Enquanto<br \/>\n    a m&atilde;e verdadeira se embriaga no volutear das valsas, que a arrebatam<br \/>\n    de sala em sala, como em nuvens de harmonias e perfumes, ela s&oacute;, &agrave;<br \/>\n    luz da lamparina dom&eacute;stica, acalenta-lhe o sono do filho, cantando<br \/>\n    uma daquelas melan&#8226; c&oacute;licas e populares cantilenas, que a m&atilde;e<br \/>\n    ignora, pois s&oacute; lhe ensina&#8226; ram a cantar romanzas, baladas e<br \/>\n    rond&oacute;s, em italiano. Ora o estilo do cantar da &oacute;pera n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; muito pr&oacute;prio para acalentar crian&ccedil;as, e neste ponto,<br \/>\n    &eacute; uma provid&ecirc;ncia que a m&atilde;e se n&atilde;o julgue obrigada<br \/>\n    a soltar junto do ber&ccedil;o as notas que foram aplaudidas na sala.<\/p>\n<p> Assim decorrem meses de &iacute;ntima conviv&ecirc;ncia da ama e da crian&ccedil;a.<br \/>\n    Fora um pensamento de interesse que trouxera aquela mulher &agrave;quela casa;<br \/>\n    mas agora um la&ccedil;o mais forte a ret&eacute;m ali, prende-a um sentimento<br \/>\n    generoso como poucos; e &eacute; quando o la&ccedil;o &eacute; mais forte,<br \/>\n    &eacute; quando o amor a estreita &agrave; crian&ccedil;a, &agrave; qual cedeu<br \/>\n    por&ccedil;&atilde;o de sua vida, que um dia lhe dizem &#8212; &laquo;Parte!&raquo;.<\/p>\n<p> O amor que ela viu nascer, que cultivou com alegria, n&atilde;o lhe era<br \/>\n    destinado; arrancar-lho-&atilde;o do seio, embora este fique sangrando ao<br \/>\n    separar das ra&iacute;zes. A afei&ccedil;&atilde;o daquela crian&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; como a planta estimada que receb e de um terreno a seiva que a faz<br \/>\n    vigorosa e a outro concede mais tarde a sombra da sua folhagem e o perfume<br \/>\n    das suas flores.<\/p>\n<p> Pobre mulher! Curvando resignada a cabe&ccedil;a &agrave; crueldade da sua<br \/>\n    sorte, parte, acompanhada de saudades, como com elas viera. Rega segunda vez<br \/>\n    de l&aacute;grimas o limiar daquela porta. Encontra l&aacute; sentada, onde<br \/>\n    a deixara, a imagem da melancolia, que lhe estende novamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p> E a m&atilde;e, a m&atilde;e elegante, recebe ent&atilde;o nos bra&ccedil;os<br \/>\n    a crian&ccedil;a, que passada j&aacute; a idade dos primeiros vagidos, &eacute;<br \/>\n    menos exigente e inc&oacute;moda; agora j&aacute; diverte pelos seus ditos<br \/>\n    e brinquedos; &eacute; uma dis&#8226; trac&ccedil;&atilde;o para a indolente<br \/>\n    senhora. Mas como todas as distrac&ccedil;&otilde;es repe&#8226; tidas cansam,<br \/>\n    estas mesmas gra&ccedil;as infantis acabam por aborrec&ecirc;-la. Depois vem<br \/>\n    a &eacute;poca da educa&ccedil;&atilde;o e esta exige cuidados e aten&#8226;<br \/>\n    &ccedil;&otilde;es para as quais falta a paci&ecirc;ncia &agrave; nervosa<br \/>\n    dama, que, sem grande preju&iacute;zo dos neg&oacute;cios do toucador, se<br \/>\n    n&atilde;o poderia entregar a eles.<\/p>\n<p> Novas exig&ecirc;ncias s&eacute;rias obrigam portanto a uma nova abdica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Deixando o rega&ccedil;o materno &eacute; a crian&ccedil;a entregue aos cuidados<br \/>\n    de: uma mestra.<\/p>\n<p> Uma mestra! Valha-nos Deus! nesta personagem nem sequer encontra a poesia<br \/>\n    da ama. &Eacute; um tipo ex&oacute;tico e de proced&ecirc;ncia brit&acirc;&#8226;<br \/>\n    nica principalmente, que eu do cora&ccedil;&atilde;o detesto. As melhores<br \/>\n    n&atilde;o pas&#8226; sam de um c&oacute;digo vivo de regras e m&aacute;ximas<br \/>\n    de bem viver, frio, r&iacute;gido, inflex&iacute;vel, impertinente, antip&aacute;tico.<\/p>\n<p> A preceptora, que ensina como se dan&ccedil;a, como se reza, como se fala,<br \/>\n    como se corteja, como se deve sorrir e at&eacute; n&atilde;o sei se como se<br \/>\n    deve chorar, esmera-se principalmente em insinuar no &acirc;nimo de suas educandas<br \/>\n    os princ&iacute;pios de hipocrisia social, que se chama a eti&#8226; queta,<br \/>\n    e esfor&ccedil;a-se por sufocar tudo o que s&atilde;o impulsos naturais, espont&acirc;neos<br \/>\n    de um cora&ccedil;&atilde;o sens&iacute;vel. Das suas m&atilde;os saem destas<br \/>\n    rapa&#8226; rigas que n&oacute;s todos os dias encontramos na sociedade em<br \/>\n    que cada gesto, cada palavra, cada movimento, cada sorriso, &eacute; regulado<br \/>\n    pelas prescri&ccedil;&otilde;es de uma coisa, que se chama por a&iacute;&#8212;uma<br \/>\n    educa&ccedil;&atilde;o distinta.<\/p>\n<p> Pobres meninas! Constrange-as, mais do que o espartilho, uma absurda pragm&aacute;tica,<br \/>\n    &agrave; qual se deixou usurpar o lugar da verda&#8226; deira moral.<\/p>\n<p> Da&iacute; v&ecirc;m essas reservas, menos modestas e c&acirc;ndidas do<br \/>\n    que as express&otilde;es cheias de confian&ccedil;a, de quem muitas vezes<br \/>\n    n&atilde;o desvia os olhos do mal, por o desconhecer; da&iacute; v&ecirc;m<br \/>\n    esses ourop&eacute;is da inteli&#8226; g&ecirc;ncia, com que se procura encobrir<br \/>\n    a nudez, em que deixaram o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A l&iacute;ngua francesa, uma geografia comezinha, uma hist&oacute;ria do<br \/>\n    Museu das Fam&iacute;lias, as primeiras no&ccedil;&otilde;es de desenho e<br \/>\n    n&atilde;o sei o que mais, soma total, uma pedantaria que desespera, um falar<br \/>\n    de tudo com suposi&ccedil;&atilde;o de que de tudo se sabe, eis a grande ci&ecirc;ncia<br \/>\n    por cuja aqui&#8226; si&ccedil;&atilde;o as tristes raparigas pagam o exorbitante<br \/>\n    pre&ccedil;o das car&iacute;cias mater&#8226; nas ! Cada composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    francesa, insulsa e descorada, que a mestra aplaude como um modelo de linguagem<br \/>\n    e de estilo, foi escrita &agrave; custa de um grande sacrif&iacute;cio; foi<br \/>\n    preciso resignar por ela o ensino af&aacute;vel mas insinuante, despretensioso<br \/>\n    mas cont&iacute;nuo, livre mas indel&eacute;vel que uma m&atilde;e verdadeira<br \/>\n    sabe fazer com um sorriso, com uma ora&ccedil;&atilde;o, com uma esmola e<br \/>\n    com o exemplo.<\/p>\n<p> Malfadadas m&atilde;es, que estais por vossas pr&oacute;prias m&atilde;os<br \/>\n    rasgando a alva t&uacute;nica da pureza, o v&eacute;u m&aacute;gico da poesia<br \/>\n    com que o nosso amor vos revestira! J&aacute; vos n&atilde;o v&iacute;amos<br \/>\n    junto dos ber&ccedil;os e ainda agora vos n&atilde;o encontramos a presidir<br \/>\n    aos jogos, a dirigir as primeiras preces1, a formar o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dessas pequenas mulheres, que um dia em sua consci&ecirc;ncia vos julgar&atilde;o<br \/>\n    e condenar&atilde;o por lhes terdes privado assim a inf&acirc;ncia de afectos<br \/>\n    e carinhos.<\/p>\n<p> Que mal compreendeis a vossa miss&atilde;o sagrada! Abdicastes a vossa dignidade<br \/>\n    aben&ccedil;oada, perante a institui&ccedil;&atilde;o dos col&eacute;gios.<br \/>\n    Os col&eacute;gios! Perdoa-me, minha boa Cec&iacute;lia, se n&atilde;o posso<br \/>\n    calar a minha avers&atilde;o por esta palavra e por a coisa que ela exprime<br \/>\n    &#8212; os col&eacute;gios.<\/p>\n<p> O col&eacute;gio &eacute; uma empresa industrial, que se prop&otilde;e formar<br \/>\n    inte&#8226; lig&ecirc;ncias e cora&ccedil;&otilde;es para a sociedade. E como<br \/>\n    os forma ela? Muitas vezes ouvi da tua boca humor&iacute;stica a descri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus processos. As regras da ci&ecirc;ncia e os preceitos da moral s&atilde;o<br \/>\n    formulados em comum e horas fixas por dia a todos os que ali concorrem; observa-se<br \/>\n    nisso a escrupulosa regularidade de um estabelecimento industrial.<\/p>\n<p> A regr a do ensino &eacute; inflex&iacute;vel, inalter&aacute;vel, &uacute;nica.<br \/>\n    N&atilde;o se modifica para amoldar-se &agrave;s desigualdades de aptid&otilde;es<br \/>\n    e caracteres de cada disc&iacute;pulo, que para tanto falta o tempo e a paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> N&atilde;o se procura combater o mal, sob as suas formas mais ocultas e<br \/>\n    dissimuladas; institui-se contra ele uma batalha organizada e geral.<\/p>\n<p> &Eacute; sob um fogo cerrado de preceitos e conselhos, registados no programa,<br \/>\n    artilharia formid&aacute;vel cujo estrondo &eacute; repercutido ao longe,<br \/>\n    que se procura a vit&oacute;ria dos bons princ&iacute;pios. Ora o inimigo<br \/>\n    &eacute; arteiro e dado &agrave; guerra de emboscadas. Deixa troar nos ares<br \/>\n    os canh&otilde;es da educa&ccedil;&atilde;o oficial, mostra-se subjugado pelos<br \/>\n    princ&iacute;pios que lhe s&atilde;o respeit&aacute;velmente impostos e, oculto<br \/>\n    em algum lugar inacesso &agrave;s metra&#8226; lhadas disciplinares, espera<br \/>\n    por ocasi&atilde;o favor&aacute;vel para desenrolar aos ventos a sua bandeira<br \/>\n    de guerrilha.<\/p>\n<p> Porque o desgra&ccedil;ado estava intimidado, mas n&atilde;o convertido,<br \/>\n    se n&atilde;o aparecia era por prud&ecirc;ncia e n&atilde;o porque tivesse<br \/>\n    deposto as armas e renunciado &agrave; rebeli&atilde;o. Para o converter,<br \/>\n    para tornar imposs&iacute;vel a insubordina&ccedil;&atilde;o futura, era mister<br \/>\n    substituir o general que com as bocas dos seus canh&otilde;es e espingardas<br \/>\n    defende todas as estradas e caminhos e o obriga a viver oculto pelas cavernas<br \/>\n    e florestas, pele mission&aacute;rio que se aventura &agrave; longa, laboriosa<br \/>\n    e at&eacute; terr&iacute;vel peregrina&ccedil;&atilde;o do deserto, que fosse<br \/>\n    procurar o rebelde ao seu esconderijo, que se aproximasse dele com o sorriso<br \/>\n    nos l&aacute;bios e a f&eacute; no olhar; que lhe falasse com amor e brandura,<br \/>\n    sem se deixar intimidar nem desalentar pelas primeiras resist&ecirc;ncias<br \/>\n    e defec&ccedil;&otilde;es; que dali se n&atilde;o levantasse sem o trazer<br \/>\n    con&#8226; sigo pela m&atilde;o, humilde, resignado, mais do que resignado,<br \/>\n    contente pela estrada ampla da virtude para o bom caminho da felicidade.<\/p>\n<p> Mas este papel de mission&aacute;rio s&oacute; uma m&atilde;e o pode desempenhar.<br \/>\n    Esta obra de persuas&atilde;o, e n&atilde;o de repress&atilde;o, s&oacute;<br \/>\n    do ensino individual, dom&eacute;stico, &iacute;ntimo pode ser exigida.<\/p>\n<p> A directora do col&eacute;gio contenta-se com a submiss&atilde;o aparente,<br \/>\n    com a obedi&ecirc;ncia expl&iacute;cita; n&atilde;o gasta tempo nas delicadas<br \/>\n    e metaf&iacute;&#8226; sicas sondagens das consci&ecirc;ncias sempre que a<br \/>\n    rebeli&atilde;o se n&atilde;o revele em actos, embora esteja nos esp&iacute;ritos.<br \/>\n    Proclama a ordem.<\/p>\n<p> &Eacute; uma esp&eacute;cie de ordem de Vars&oacute;via. &Eacute; o Evangelho<br \/>\n    imposto a lan&ccedil;adas e pelouros e n&atilde;o pelo poder de catequese.<br \/>\n    Os actos de submiss&atilde;o da educanda s&atilde;o muitas vezes compar&aacute;veis<br \/>\n    &agrave; missa hugue- note de Henrique IV.<\/p>\n<p> Nem outra coisa se podia exigir destas casas de educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O ensino nos col&eacute;gios h&aacute;-de ser for&ccedil;osamente administrado<br \/>\n    como a alimenta&ccedil;&atilde;o &#8212; em refeit&oacute;rio. Mal da instituidora<br \/>\n    se ia a fazer cozinha a parte segundo os gostos e talvez as necessidades de<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o de cada educanda. A tanto n&atilde;o vai o seu compromisso.<br \/>\n    S&oacute; as m&atilde;es sabem temperar diferentemente o prato de cada filho,<br \/>\n    s&oacute; elas igualmente sabem ministrar, sob formas diversas, a cada um<br \/>\n    o ensino dos pre &#8226; ceitos invari&aacute;veis de uma s&atilde; moral.<\/p>\n<p> A este deve o ensino ser feito com sorrisos; &agrave;quele quase que com<br \/>\n    l&aacute;grimas; umas vezes uma s&uacute;plica vale um c&oacute;digo de preceitos;<br \/>\n    outras, uma palavra severa, um gesto de desagrado, corrigem mais que todas<br \/>\n    as cl&aacute;ssicas penalidades do col&eacute;gio. Mas a preceptora tem por<br \/>\n    pr&aacute;tica adoptada n&atilde;o tomar estas fases diversas, o que, segundo<br \/>\n    ela, seria indigno da sua gravidade e import&acirc;ncia profissional.<\/p>\n<p> N&atilde;o ri, n&atilde;o chora e n&atilde;o suplica; endireita-se, franze<br \/>\n    o sobrolho e repreend e &#8212; com a mesma voz com que manda trabalhar, manda<br \/>\n    brincar, manda rezar, manda at&eacute; dormir. Sempre o regulamento, sempre<br \/>\n    a disciplina! Oh! eu abomino os col&eacute;gios e por isso &eacute; que morro<br \/>\n    de simpa&#8226; tias por todas as privilegiadas que, como tu, Cec&iacute;lia,<br \/>\n    sa&iacute;ram daquelas casas com os afectos do cora&ccedil;&atilde;o salvos<br \/>\n    e com o esp&iacute;rito livre de pedan- tescos preconceitos, numa palavra,<br \/>\n    t&atilde;o propriamente tu como se nunca tivesses sa&iacute;do de junto de<br \/>\n    tua m&atilde;e, que s&oacute; a chorar se resignava ao sacrif&iacute;cio de<br \/>\n    te apartar de si.<\/p>\n<p> A mestra &eacute; quando muito como o director de uma oficina de fun&#8226;<br \/>\n    di&ccedil;&atilde;o que recebe de fora os moldes em que tem de vazar os metais<br \/>\n    mais diversos confiados aos seus cadinhos e procede a essa obra com escr&uacute;pulo,<br \/>\n    mas sem aspira&ccedil;&otilde;es; a m&atilde;e &eacute; o artista, que a golpe<br \/>\n    de cinzel vai modelando a sua obra, vendo-a tomar vulto e express&atilde;o<br \/>\n    com estremecimentos de entusiasmo. A inspira&ccedil;&atilde;o nunca a abandona,<br \/>\n    a cada instante o g&eacute;nio lhe formula um preceito, a cada instante lhe<br \/>\n    modifica outros. &Eacute; mais &iacute;ntima a sua rela&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    a obra que produz, porque ela &eacute; efectivamente a realiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um pensamento seu ; &eacute; como que uma parte de si mesma numa exist&ecirc;ncia<br \/>\n    independente.<\/p>\n<p> Deixem embora &agrave;s mestras o cuidado de dar &agrave;s jovens educan&#8226;<br \/>\n    das esse verniz de educa&ccedil;&atilde;o que as tornar&aacute; bem vistas<br \/>\n    na sociedade, quando as m&atilde;es lho n&atilde;o saibam dar, mas n&atilde;o<br \/>\n    lhes confiem o resto, n&atilde;o lhes confiem sobretudo o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; mais uma vez deixar de ser m&atilde;e, renunciar a um dos mais<br \/>\n    santos, mais invejados direitos da mater&#8226; nidade.<\/p>\n<p> Mas enfim volta a casa com quinze anos a filha que aos oito se sepa&#8226;<br \/>\n    rara da vigil&acirc;ncia materna.<\/p>\n<p> Como vem prendada ! Sabe dan&ccedil;ar, tocar piano, bordar, cantar, falar<br \/>\n    franc&ecirc;s, ingl&ecirc;s e italiano, sabe que o mundo &eacute; uma esfera,<br \/>\n    que o descobridor da Am&eacute;rica foi Crist&oacute;v&atilde;o Colombo, que<br \/>\n    Sampetersburgo &eacute; a capital da R&uacute;ssia, que Napole&atilde;o perdeu<br \/>\n    a batalha de Waterloo, sabe de cor os nomes de todos os poetas e romancistas<br \/>\n    not&aacute;veis da Fran&ccedil;a e Inglaterra, sabe tudo que a mestra lhe<br \/>\n    ensinou e muita coisa que lhe deixou aprender. Traz os ba&uacute;s cheios<br \/>\n    de livros de devo&ccedil;&atilde;o fran&#8226; ceses, volumes de Bonald, de<br \/>\n    Lorgnes e Dupanloup e de envolta a literatura de Alphonse Karr e Teoph. Gautier<br \/>\n    e a ci&ecirc;ncia de Figuier e da Biblioteca das Maravilhas.<\/p>\n<p> Numa palavra, vem uma menina da sociedade elegante, mais devota que religiosa.<br \/>\n    Costumada ao culto do regulamento, sujeitar- -lhe-&aacute; tamb&eacute;m o<br \/>\n    cumprimento dos seus deveres para com a divindade. Fora das horas de devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o lhe deixar&aacute; remorsos um estouvamento, um pecado de maledic&ecirc;ncia,<br \/>\n    uma inveja implac&aacute;vel; por&eacute;m, nos momen&#8226; tos decretados<br \/>\n    para o culto, a mais inocente e involunt&aacute;ria distrac&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    lhe avultaria como uma tenta&ccedil;&atilde;o diab&oacute;lica, como um delito<br \/>\n    para ser expiado por jejuns e cil&iacute;cios. &Eacute; moral de ocasi&atilde;o,<br \/>\n    infelizmente muito na moda.<\/p>\n<p> Eis a ocasi&atilde;o escolhida pela m&atilde;e para fazer valer os seus<br \/>\n    direi&#8226; tos, para principiar a colher os frutos apetecidos do amor filial.<br \/>\n    Agora sim, que &eacute; uma intelig&ecirc;ncia desenvolvida j&aacute;, que<br \/>\n    saber&aacute; apreciar devi&#8226; damente os extremos maternais, que com<br \/>\n    a dedica&ccedil;&atilde;o de filha lhe recompensar&aacute; o ter pago a sua<br \/>\n    amamenta&ccedil;&atilde;o a uma pobre mulher de quem j&aacute; ningu&eacute;m<br \/>\n    se lembra, e despendido avultadas mensalidades para a aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquela geografia, daquela hist&oacute;ria, daquela educa&#8226; &ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que todos admiram. Enfim, chega o tempo de principiar a m&atilde;e a ser m&atilde;e,<br \/>\n    tarefa que at&eacute; agora tem adiado. &Eacute;, por&eacute;m, tarde para<br \/>\n    isso.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o da menina j&aacute; come&ccedil;ou vida nova, passou<br \/>\n    a oportunidade para essas suav&iacute;ssimas afei&ccedil;&otilde;es que, cultivadas<br \/>\n    a tempo, deixam ves&#8226; t&iacute;gios eternos mas que n&atilde;o podem<br \/>\n    desenvolver-se quando semeadas tarde.<\/p>\n<p> O ideal revestiu novas formas, n&atilde;o o podereis v&oacute;s realizar.<br \/>\n    Pobres m&atilde;es e dignas de piedade sois decerto, se a peito tomais a tentativa.<br \/>\n    Um dia aparece um homem a pedir-vos a m&atilde;o de vossa filha.<\/p>\n<p> Este homem, ou seja impelido a dar este passo pelas incita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    apai&#8226; xonadas da menina, ou pelos c&aacute;lculos positivos do pai,<br \/>\n    &eacute; em todo o caso mais um rival vosso e desta vez aquele que nunca vos<br \/>\n    restituir&aacute; a filha que ides confiar-lhe.<\/p>\n<p> &laquo;Por este deixar&aacute;s pai e m&atilde;e&raquo;, esta lei quase<br \/>\n    fatal a que n&oacute;s todas, m&atilde;es e filhas, nos curvamos resignadas,<br \/>\n    era uma lei, cujo cumprimento nunca deixava de ser selado com l&aacute;grimas<br \/>\n    de tristeza e de saudade.<\/p>\n<p> E v&oacute;s mesmo tendes-vos esfor&ccedil;ado por lhe facilitar a execu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Afastando de v&oacute;s o ber&ccedil;o de vossos filhos, negando-lhes o seio,<br \/>\n    con&#8226; fiando a estranhos a sua educa&ccedil;&atilde;o, deixando a outros<br \/>\n    tomar o lugar de confidente dos primeiros segredos, anulais-vos ante seus<br \/>\n    olhos, e quando um dia aparece o homem, que as separar&aacute; de v&oacute;s,<br \/>\n    dei- xam-vos quase sem uma l&aacute;grima, porque mal vos conhecem, porque<br \/>\n    se acostumaram a orar, a pensar, a chorar e a sorrir longe de v&oacute;s,<br \/>\n    sem v&oacute;s, que de pequenas as repelistes.<\/p>\n<p> &Eacute; muitas vezes ent&atilde;o que come&ccedil;a o vosso castigo. Os<br \/>\n    anos mos&#8226; tram-vos a inanidade dos gozos do mundo em que viveis, pedem-vos<br \/>\n    e ensinam-vos a apreciar a concentra&ccedil;&atilde;o do lar dom&eacute;stico,<br \/>\n    a alegria &iacute;ntima, o amor dos filhos; mas &eacute; tarde.<\/p>\n<p> Quando os procurais com sincero amor, fogem-vos eles.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, se a cegueira e a loucura da vaidade vos n&atilde;o acompanhar<br \/>\n    at&eacute; ao limiar do t&uacute;mulo, s&oacute; vos resta ser a m&atilde;e<br \/>\n    dos vossos netos.<\/p>\n<p> &Eacute; frequente de facto, Cec&iacute;lia, vermos muitas dessas mulheres<br \/>\n    a quem as loucas exig&ecirc;ncias da moda trouxeram sempre arredadas dos deveres<br \/>\n    da maternidade, tornarem-se depois as m&atilde;es estremecidas dos filhos<br \/>\n    de seus filhos, pagando assim tarde &agrave; natureza o tributo que, quase<br \/>\n    sacrllegamente, at&eacute; ali lhe haviam negado.<\/p>\n<p> &Eacute; tempo de terminar esta carta, Cec&iacute;lia, que n&atilde;o tem<br \/>\n    a pretens&atilde;o de te moralizar. Tu &eacute;s destas &iacute;ndoles privilegiadas<br \/>\n    que saem intactas de todas as m&aacute;s influ&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Vives no mundo onde a moda &eacute; soberana e contudo, v&ecirc; a f&eacute;<br \/>\n    que eu tenho em ti, estou certa que, se um dia fores m&atilde;e, evitar&aacute;s<br \/>\n    que te usurpem o amor dos teus filhos essas duas rivais da maternidade &#8212;<br \/>\n    a ama e a mestra&#8212; e, se o fizeres, est&aacute; certa que nunca to usurpar&aacute;<br \/>\n    intei&#8226; ramente o rival, quase sempre vitorioso &#8212; o marido.<\/p>\n<p> A afei&ccedil;&atilde;o filial, duplamente confirmada pelo estado de amamenta&#8226;<br \/>\n    &ccedil;&otilde;es e dos ensinos n&atilde;o murchar&aacute; nunca, ainda mesmo<br \/>\n    que passe sobre ela o vento esterilizador da paix&atilde;o.<\/p>\n<p> Adeus at&eacute; breve.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Tua sempre Diana de Aveleda<\/b><\/p>\n<h2>CARTAS PARA A MINHA FAM&Iacute;LIA<\/h2>\n<p>Meu amigo<\/p>\n<p>Volt&aacute;mos ontem do campo sem que merec&ecirc;ssemos &agrave; pol&iacute;tica<br \/>\n    o favor da tua presen&ccedil;a, por poucos dias que fosse.<\/p>\n<p> As pequenas chegaram boas e parece-me que n&atilde;o demasiado saudosas<br \/>\n    dos prazeres e das belezas campestres.<\/p>\n<p> &Eacute; t&atilde;o raro que raparigas de dezasseis anos amem a buc&oacute;lica!<br \/>\n    E &eacute; pena, que se me enchia o cora&ccedil;&atilde;o de alegria e de<br \/>\n    confian&ccedil;a, quando as via a elas &agrave; sombra daquelas &aacute;rvores<br \/>\n    salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei como me persuadia de que era imposs&iacute;vel que elas me<br \/>\n    adoecessem ali.<\/p>\n<p> Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros<br \/>\n    pressentimentos pela sa&uacute;de dos nossos filhos, motivo de me ralhares<br \/>\n    tantas vezes? Pois nunca os senti l&aacute;.<\/p>\n<p> O campo era para mim como uma destas pessoas de ju&iacute;zo a quem se deixa<br \/>\n    entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por<br \/>\n    momentos.<\/p>\n<p> Olhava para aquelas velhas e frondosas &aacute;rvores e parecia-me achar-<br \/>\n    -lhes uns ares protectores e amig&aacute;veis que me inspiravam confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as<br \/>\n    connosco que tas protegeremos.<\/p>\n<p> Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos<br \/>\n    at&eacute; &agrave; hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.<\/p>\n<p> E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir &agrave; P&aacute;tria, meu bom amigo,<br \/>\n    e esquecendo por ela um poucochinho a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &Eacute; uma virtude c&iacute;vica a venerar em ti, Gustavo? Ser&aacute;?<br \/>\n    Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, n&atilde;o morro de amores pela pol&iacute;\n  <\/p>\n<p>  tica. Ou eu n&atilde;o fora mulher, com quem em geral os pol&iacute;ticos s&atilde;o<br \/>\n  bem pouco am&aacute;veis. <\/p>\n<p> Al&eacute;m de que a pol&iacute;tica ocupa-se de umas pequeninas coisas,<br \/>\n    que s&atilde;o, sem contesta&ccedil;&atilde;o, as mais detest&aacute;veis<br \/>\n    de todas as coisas pequeninas.<\/p>\n<p> Mas deixemos por hoje as minhas reflex&otilde;es e reparos sobre politica,<br \/>\n    Gustavo, e fa&ccedil;amos como &eacute; nosso costume, quando aqui est&aacute;s.<br \/>\n    Lembras-te? Depois do ch&aacute; conversamos &agrave;s vezes horas esque&#8226;<br \/>\n    cidas sobre os acontecimentos do dia, ora dom&eacute;sticos, ora civis, ora<br \/>\n    alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode &agrave; ideia, sem<br \/>\n    observ&acirc;ncia de programa nem de m&eacute;todo, sem escr&uacute;pulos<br \/>\n    de estilo e at&eacute; sem rigoroso respeito pela coer&ecirc;ncia l&oacute;gica<br \/>\n    da opini&atilde;o.<\/p>\n<p> Se a politica te n&atilde;o derrancou ainda de todo a bondade natural e<br \/>\n    te n&atilde;o cerrou a alma &agrave;s expans&otilde;es afectuosas, ser-te-&aacute;<br \/>\n    agrad&aacute;vel a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, &agrave;<br \/>\n    vontade.<\/p>\n<p> Escrever-te-ei sob a impress&atilde;o dominante do dia. A de hoje &eacute;<br \/>\n    pouco agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver&#8226; dadeiramente<br \/>\n    ansiosas pelas distrac&ccedil;&otilde;es da cidade.<\/p>\n<p> Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, N&atilde;o tive<br \/>\n    rem&eacute;dio sen&atilde;o condescender.<\/p>\n<p> Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car&#8226; tazes<br \/>\n    enormes, anunciando no teatro de S&atilde;o Jo&atilde;o a Gr&atilde;-Duquesa<br \/>\n    de Gerolstein.<\/p>\n<p> As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.<\/p>\n<p> Este olhar, as saudades que eu deveras sentia j&aacute; por aquele nosso<br \/>\n    elegante teatro e este titulo Gr&atilde;-Duquesa, que h&aacute; tanto tempo<br \/>\n    me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno<br \/>\n    de mim, formaram a minha resolu&ccedil;&atilde;o de ir ao teatro essa mesma<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Lu&iacute;sa! Pobres<br \/>\n    pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale&#8226; gria,<br \/>\n    quis mal a mim mesma por ter cedido &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o desta<br \/>\n    vez.<\/p>\n<p> O Gustavo, tu que viste j&aacute; a Gr&atilde;-Duquesa, n&atilde;o adivinhar&aacute;s<br \/>\n    o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte,<br \/>\n    que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade,<br \/>\n    n&atilde;o voltaste de assistir a essa h&iacute;brida e absurda compo&#8226;<br \/>\n    si&ccedil;&atilde;o teatral, como eu vim ontem de l&aacute;? com desgosto,<br \/>\n    com t&eacute;dio, com indigna&ccedil;&atilde;o, duvidando do progresso da<br \/>\n    arte, acreditando na total degenera&ccedil;&atilde;o do gosto entre n&oacute;s?<br \/>\n    Que &eacute;poca atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas<br \/>\n    &eacute; esta em que s&oacute; se aplaude o disparate ? H&aacute; nada mais<br \/>\n    vergonhoso do que uma cr&oacute;nica da &uacute;ltima &eacute;poca teatral<br \/>\n    no Porto ? Dois &ecirc;xitos brilhantes a caracterizam: O jovem Tel&eacute;maco<br \/>\n    e a Gr&atilde;- -Duquesa, dois disparates, duas irrever&ecirc;ncias para com<br \/>\n    o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com<br \/>\n    a arte que se respeita! Mas n&atilde;o &eacute; isto uma imoralidade tamb&eacute;m?<br \/>\n    Pois n&atilde;o &eacute; certo que as belas artes t&ecirc;m uma miss&atilde;o<br \/>\n    social a preencher ? N&atilde;o &eacute; certo que encaminh&aacute;-las erradamente<br \/>\n    &eacute; ofender o interesse p&uacute;blico ? N&atilde;o &eacute; verdade<br \/>\n    que progride na carreira da civiliza&ccedil;&atilde;o um povo, cujo bom gosto<br \/>\n    e instintos se educam e aperfei&ccedil;oam pela arte e que se deprava e desmoraliza<br \/>\n    o que se costuma a insult&aacute;-la? Que mal&eacute;volo esp&iacute;rito<br \/>\n    move ent&atilde;o os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar?<br \/>\n    a porem &agrave;s ordens do desprop&oacute;&#8226; sito e do desconchavo as<br \/>\n    harmonias da m&uacute;sica, a cad&ecirc;ncia da poesia, as ilus&otilde;es<br \/>\n    da pintura, numa palavra, todos os prest&iacute;gios da arte ? E ilumina-se<br \/>\n    para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as<br \/>\n    carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo<br \/>\n    do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou<br \/>\n    pois a religi&atilde;o da arte entre n&oacute;s? Pois n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a arte uma religi&atilde;o tamb&eacute;m? N&atilde;o haver&aacute; ningu&eacute;m<br \/>\n    a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote<br \/>\n    que visse o trip&uacute;dio profanando o lugar de augustos sacrif&iacute;cios<br \/>\n    ? Esta aberra&ccedil;&atilde;o do gosto p&uacute;blico, este desvairamento<br \/>\n    que invade todas as cabe&ccedil;as, esses excessos e abusos que fazem recuar<br \/>\n    s&eacute;culos o nosso progresso art&iacute;stico, dura, reina, propaga-se,<br \/>\n    sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para<br \/>\n    com&#8226; bater a todo o transe o mal deplor&aacute;vel! combat&ecirc;-lo<br \/>\n    atrav&eacute;s de sacri&#8226; f&iacute;cios, combat&ecirc;-lo apesar da indiferen&ccedil;a<br \/>\n    ou das repugn&acirc;ncias do p&uacute;blico, combat&ecirc;-lo como combateu<br \/>\n    Garrett, como combateu V&iacute;tor Hugo, como combateram todos quantos tentaram<br \/>\n    uma reforma liter&aacute;ria &uacute;til e eficaz.<\/p>\n<p> Pois tinha f&eacute; que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem!<br \/>\n    Os instintos da arte n&atilde;o morrem no povo; adormecem &agrave;s vezes;<br \/>\n    mas &eacute; pronto o seu acordar, se os desperta uma voz alt&iacute;- loqua<br \/>\n    animada por uma verdadeira cren&ccedil;a, por uma sincera e pura inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso pronto rem&eacute;dio para este mal, que &eacute; grave.<\/p>\n<p> H&aacute; muito que lavra, revelado por essas produ&ccedil;&otilde;es m&oacute;rbidas<br \/>\n    da arte, que se chamam par&oacute;dias e disparates, galhas venenosas que<br \/>\n    vegetam sobre os ramos vi&ccedil;osos de uma literatura e lhe roubam a seiva<br \/>\n    dissipando-a em excresc&ecirc;ncias balofas e in&uacute;teis como bugalhos<br \/>\n    ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.<\/p>\n<p> Isto acusa uma debilidade crescente na imagina&ccedil;&atilde;o dos autores<br \/>\n    e uma assustadora irrever&ecirc;ncia nas massas para tudo quanto h&aacute;<br \/>\n    de belo e portanto de vener&aacute;vel.<\/p>\n<p> Afadiga-se um compositor em traduzir pela m&uacute;sica as paix&otilde;es<br \/>\n    violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os j&uacute;bilos, que formam<br \/>\n    o drama da vida. Exaltado, febril, na excita&ccedil;&atilde;o nervosa que<br \/>\n    acompanha os mist&eacute;rios da concep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o vive<br \/>\n    sen&atilde;o para aquela ideia, atrav&eacute;s da qual antev&ecirc; o esplendor<br \/>\n    da gl&oacute;ria. A inspira&ccedil;&atilde;o visita-o, ilumina-lhe as noites<br \/>\n    de t&atilde;o longas e laboriosas vig&iacute;lias e ap&oacute;s esta aurora,<br \/>\n    surge a obra de arte espl&ecirc;ndida, impregnada do pensamento do artista,<br \/>\n    cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos<br \/>\n    horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para<br \/>\n    bater as asas, j&aacute; estremece seduzida pelo espa&ccedil;o vasto que a<br \/>\n    rodeia.<\/p>\n<p> Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea&#8226;<br \/>\n    liza&ccedil;&atilde;o da sua &uacute;ltima metamorfose, a sua encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    final.<\/p>\n<p> Chega ao teatro perante uma multid&atilde;o que a aguarda despre &#8226;<br \/>\n    venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha<br \/>\n    coragem e desassombro; fala, penetra nos cora&#8226; &ccedil;&otilde;es, subjuga<br \/>\n    os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambi&ccedil;&atilde;o do artista<br \/>\n    realiza-se e compensa-lhe as vig&iacute;lias de muitas noites uma s&oacute;<br \/>\n    noite de gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e del&iacute;&#8226;<br \/>\n    rio, h&aacute; um cora&ccedil;&atilde;o frio e incapaz de sentir, que se n&atilde;o<br \/>\n    comove; h&aacute; um olhar maligno que estuda a como&ccedil;&atilde;o da plateia<br \/>\n    e n&atilde;o se fascina; h&aacute; um pensamento sat&acirc;nico que premedita<br \/>\n    uma obra sacr&iacute;lega.<\/p>\n<p> E uma noite basta a esse esp&iacute;rito para consumar a obra f&aacute;cil,<br \/>\n    &iacute;mpia, fatal &agrave; arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma<br \/>\n    m&uacute;sica concebida para exprimir sentimentos e paix&otilde;es elevados<br \/>\n    e nobres &eacute; por ele rebaixada &agrave;s vulgares, rid&iacute;culas e<br \/>\n    insulsas perip&eacute;cias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas<br \/>\n    vestes alv&iacute;ssimas com que a inspira&ccedil;&atilde;o a cingira, arrebatara<br \/>\n    a multid&atilde;o, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor<br \/>\n    de tru&atilde;o e atada ao pelourinho das pra&ccedil;as, receb e as alvares<br \/>\n    e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um<br \/>\n    maligno prazer em desprestigiar o seu &iacute;dolo.<\/p>\n<p> E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras<br \/>\n    vestes, h&aacute; sempre quem se recorde de a ter visto j&aacute; de outra<br \/>\n    maneira, e ainda ent&atilde;o o riso a insulta.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; esta uma ac&ccedil;&atilde;o altamente conden&aacute;vel?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente<br \/>\n    curiosos do povo uma virgem ing&eacute;nua e pura, cuja ino&#8226; c&ecirc;ncia<br \/>\n    os mais ousados respeitam e conden&aacute;-la assim a corar eter&#8226; namente<br \/>\n    ao recordar a sua involunt&aacute;ria avilta&ccedil;&atilde;o? E esta profana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; a &uacute;ltima recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas!<br \/>\n    Nos seus sonhos de gl&oacute;ria n&atilde;o contara com o apupar das turbas!<br \/>\n    E consente-se o atentado! E n&atilde;o se protege a obra do g&eacute;nio de<br \/>\n    t&atilde;o irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a m&uacute;sica,<br \/>\n    a poesia tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> A par&oacute;dia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concep&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo,<br \/>\n    de romancista, tudo ela abocanha e profana.<\/p>\n<p> Para fazer rir as turbas, os tru&otilde;es dos nossos dias, ignorantes dos<br \/>\n    verdadeiros mist&eacute;rios da arte, destitu&iacute;dos de engenho, incapazes<br \/>\n    de produzir nada &uacute;til, especulam com os contrastes irreverentes e fazem<br \/>\n    rir como o macaco porque irris&ograve;riamente imita as visagens do homem,<br \/>\n    como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda<br \/>\n    que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como<br \/>\n    o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas par&oacute;dias<br \/>\n    do homem, que nos apresenta a natureza. Quem h&aacute; que experimente por<br \/>\n    um mono a mesma afei&ccedil;&atilde;o que tem a um c&atilde;o? Ou que ligue<br \/>\n    a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspirad&iacute;ssimo<br \/>\n    rouxinol? Em geral &eacute; o gosto duvidoso de um embarcadi&ccedil;o ou sertanejo<br \/>\n    da Am&eacute;rica que mais os aprecia.<\/p>\n<p> Mas ao lado da par&oacute;dia nasce o disparate. &Eacute; mais um passo<br \/>\n    dado pela arte no caminho da devassid&atilde;o.<\/p>\n<p> A musa perd e ent&atilde;o todo o casto pudor que caracterizava as nove<br \/>\n    filhas de J&uacute;piter.<\/p>\n<p> Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, &eacute;bria, rouca da orgia e<br \/>\n    do trip&uacute;dio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas<br \/>\n    c&iacute;nicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas<br \/>\n    dan&ccedil;as e digam se &oacute; esta a musa que se respeita, se &eacute;<br \/>\n    esta a musa que civiliza.<\/p>\n<p> E &eacute; no mesmo tablado onde nos apareceu j&aacute; a severa e nobre<br \/>\n    Melp&oacute;mene, no palco onde se nos revelou o g&eacute;nio de Donizetti,<br \/>\n    de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por<br \/>\n    vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar com&eacute;&#8226;<br \/>\n    dia; &eacute; a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E n&atilde;o<br \/>\n    receiam que n&atilde;o volte ao templo assim profanado a arte que se preza?<br \/>\n    Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espect&aacute;culos assim n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o os que civilizam, corrompem; n&atilde;o educam, pervertem.<\/p>\n<p> Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num<br \/>\n    per&iacute;odo de retrocesso.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei se te lembras de que nos nossos tempos de crian&ccedil;a<br \/>\n    havia nesta hoje t&atilde;o enfastiada cidade uma companhia l&iacute;rica<br \/>\n    italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro portugu&ecirc;s,<br \/>\n    bom ou mau que fosse, era ent&atilde;o concorrido, que ningu&eacute;m se enver&#8226;<br \/>\n    gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.<\/p>\n<p> A arte n&atilde;o florescia, &eacute; certo, mas encontrava no interesse<br \/>\n    do p&uacute;blico uma garantia da sua regenera&ccedil;&atilde;o. Pouco a pouco<br \/>\n    abandonaram o tea&#8226; tro nacional e s&oacute; foi moda tratar do teatro<br \/>\n    l&iacute;rico. Hoje nem desse.<\/p>\n<p> De maneira que no decurso de um ano, abrem-se tr&ecirc;s ou quatro vezes<br \/>\n    as portas dos nossos teatros e lan&ccedil;am-se ao dif&iacute;cil e apurado<br \/>\n    paladar do nosso p&uacute;blico delicados manjares como este : &laquo;El joven<br \/>\n    Tel&eacute;maco&raquo;, &laquo;Franchifredo&raquo;, &laquo;Os sete castelos<br \/>\n    do Diabo&raquo;, a &laquo;Gr&atilde;- -Duquesa&raquo;; amanh&atilde; o &laquo;Barba-Azul&raquo;<br \/>\n    e n&atilde;o sei quantas mais par&oacute;dias, m&aacute;gicas e disparates<br \/>\n    e tudo isto condimentado com uma especiaria de cenas c&oacute;micas insulsas<br \/>\n    e farsas sem sabor, em que um falso c&oacute;mico usurpa o lugar do c&oacute;mico<br \/>\n    de bom quilate.<\/p>\n<p> E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de<br \/>\n    exerc&iacute;cio nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras<br \/>\n    o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do cora&ccedil;&atilde;o abomino<br \/>\n    todos os colaboradores desta obra &iacute;mpia da deprava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da arte. N&atilde;o perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado<br \/>\n    gosto da &eacute;poca, pondo ao servi&ccedil;o dele o seu grande talento musical.<br \/>\n    Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.<\/p>\n<p> O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de &eacute;brios,<br \/>\n    consente em entoar salmos e ant&iacute;fonas na sala de uma orgia, avilta<br \/>\n    a religi&atilde;o de que &eacute; ministro e polui os l&aacute;bios que nunca<br \/>\n    mais celebrar&atilde;o nos altares com a pureza digna do sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto s&atilde;o mud&aacute;veis<br \/>\n    e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais &agrave; moda,<br \/>\n    que escr&uacute;pulos s&atilde;o esses de portuguesa puritana? Acaso n&atilde;o<br \/>\n    se aplaude hoje a &laquo;Gr&atilde;-Duquesa&raquo; em Paris? o &laquo;Barba-<br \/>\n    -Azul&raquo;? e todo este g&eacute;nero a que tanta avers&atilde;o mostras?<br \/>\n    E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris &eacute; este o<br \/>\n    gosto dominante, o que n&atilde;o posso ainda acreditar, se fosse certo que<br \/>\n    o mais espirituoso povo do mundo precisava j&aacute; para excitar a sua embotada<br \/>\n    sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia,<br \/>\n    eu n&atilde;o duvidaria dizer que a arte estava em lament&aacute;vel decad&ecirc;ncia<br \/>\n    l&aacute; tamb&eacute;m; que a imagina&ccedil;&atilde;o parisiense sen- tia-se<br \/>\n    esgotada e o gosto em via de perder-se.<\/p>\n<p> Se em vez de se r s&oacute; Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau&#8226;<br \/>\n    disse estes esc&acirc;ndalos, ainda assim a consci&ecirc;ncia nos dizia que<br \/>\n    toda a Europa, que todo o mundo estava em declina&ccedil;&atilde;o em assuntos<br \/>\n    de arte e de gosto porque n&atilde;o s&atilde;o de conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as regras do belo. H&aacute; em n&oacute;s alguma coisa que no-las formula,<br \/>\n    que no-lo ensina a reconhecer e que nos d&aacute; a coragem e a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para nos revoltarmos contra a opini&atilde;o geral, quando a sentimos extraviada<br \/>\n    da verdadeira e recta estrada que o gosto e a raz&atilde;o lhe tra&ccedil;aram.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; assim, n&atilde;o pode ser assim! Em Paris ao lado<br \/>\n    do mal est&aacute; o rem&eacute;dio; ao lado da arte doente e degenerada,<br \/>\n    a arte s&atilde; e vigorosa.<\/p>\n<p> Entre n&oacute;s o mal &eacute; maior porque, na&ccedil;&atilde;o de pouca<br \/>\n    gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece<br \/>\n    o bom gosto, &agrave; falta de quem o siga.<\/p>\n<p> E depois n&oacute;s hoje estamos em um per&iacute;odo de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica, desfavor&aacute;vel &agrave; verdadeira arte e no qual estes<br \/>\n    excessos s&atilde;o perigo&#8226; s&iacute;ssimos. <\/p>\n<p>O gosto de uma na&ccedil;&atilde;o corre fases como o gosto de qualquer indi&#8226;<br \/>\n    v&iacute;duo. Em crian&ccedil;a, por exemplo, o teatro interessa-nos de uma<br \/>\n    maneira diversa daquela por que nos influi adultos. &Eacute; o enredo do drama<br \/>\n    que nos comove e n&atilde;o as belezas liter&aacute;rias, n&atilde;o o m&eacute;rito<br \/>\n    dos artistas que, se nos influem, &eacute; sem que o percebamos. Choramos<br \/>\n    as desgra&ccedil;as da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real<br \/>\n    a morte das personagens simp&aacute;ticas, trememos ante a perspectiva de<br \/>\n    um duelo e recolhemos a casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.<\/p>\n<p> Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas<br \/>\n    belezas da composi&ccedil;&atilde;o e da execu&ccedil;&atilde;o. Este, por&eacute;m,<br \/>\n    forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilus&atilde;o de que<br \/>\n    fal&aacute;mos. Daqui resulta haver um per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que j&aacute; nos n&atilde;o ilude o enredo como em crian&ccedil;a nem<br \/>\n    ainda nos comovem as belezas liter&aacute;&#8226; rias, como quando o bom<br \/>\n    gosto se formou em n&oacute;s.<\/p>\n<p> Nesse per&iacute;odo frequenta-se o teatro com insensibilidade art&iacute;stica,<br \/>\n    apreciam-se tanto os intervalos como os actos, &eacute; indiferente perde<br \/>\n    r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda p&ocirc;s isso em<br \/>\n    costume, adopta-se o costume da melhor vontade.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; espont&acirc;neo, &eacute; de conven&ccedil;&atilde;o e antes de<br \/>\n    saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos j&aacute; arrebatou<br \/>\n    algu&eacute;m que auto&#8226; rize o entusiasmo.<\/p>\n<p> O nosso povo na sua educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica est&aacute;<br \/>\n    quase neste caso, acha-se neste antip&aacute;tico e est&eacute;ril per&iacute;odo<br \/>\n    de transi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Perdeu j&aacute; aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros<br \/>\n    interessado pelas perip&eacute;cias dos grandes dramas em que chorava e ria<br \/>\n    e se indignava com diversos epis&oacute;dios que presenciava de boa f&eacute;;<br \/>\n    em que t&atilde;o completamente encarnava nos actores as per&#8226; sonagens<br \/>\n    do drama, que nem os distinguia.<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o queria ent&atilde;o saber quem er a o autor da obra dram&aacute;tica,<br \/>\n    que o interessava. Esquecia-se at&eacute; de que um drama precisa de ter um<br \/>\n    autor.<\/p>\n<p> Estava na inf&acirc;ncia do gosto, nem os teatros eram ent&atilde;o con&#8226;<br \/>\n    corridos.<\/p>\n<p> Desenvolveu-se, por&eacute;m, o nosso p&uacute;blico e hoje j&aacute; assiste<br \/>\n    com o sorriso c&eacute;ptico aos espect&aacute;culos; j&aacute; tem vergonha<br \/>\n    de os tomar a s&eacute;rio, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente<br \/>\n    nas c&oacute;micas. Mas, por infelicidade, o bom gosto n&atilde;o veio ainda<br \/>\n    ocupar o terreno para fazer florescer a arte. N&atilde;o h&aacute; ainda bastante<br \/>\n    amor e conheci&#8226; mento dela para manter entre n&oacute;s um teatro permanente.<\/p>\n<p> Quem d&aacute; as leis, quem domina exclusivamente &eacute; a moda. Aplau&#8226;<br \/>\n    de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.<\/p>\n<p> S&atilde;o capazes de fazer hoje uma ova&ccedil;&atilde;o &agrave; Rist&ograve;ri<br \/>\n    e passar a noite seguinte a ouvir em del&iacute;rio as intermin&aacute;veis<br \/>\n    e insulsas coplas de Tel&eacute;- maco na ilha de Calipso.<\/p>\n<p> Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda, Perdoa-me demorar tanto<br \/>\n    esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indigna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a que preciso dar expans&atilde;o.<\/p>\n<p> Custa-me ver que, reconhecendo o mal que est&aacute; corrompendo entre n&oacute;s<br \/>\n    a arte nascente, n&atilde;o se organize entre os nossos homens de letras uma<br \/>\n    cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba&#8226; tendo sem<br \/>\n    quartel nem miseric&oacute;rdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de<br \/>\n    mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas<br \/>\n    a que tenho de atender; at&eacute; breve.<\/p>\n<p> <b> Porto, 6 de Setembro de 1868.<\/b> <\/p>\n<p align=\"right\">Diana de Aveleda.<\/p>\n<p>que dantes visitava apenas os velhos, fez-lhe a fineza de o acalentar no<br \/>\n    ber&ccedil;o? &Eacute; muito para agradecer, porque ela sempre antipatizou<br \/>\n    com crian&ccedil;as. D&eacute;-me licen&ccedil;a, Sr. F&#8230;, o meu par vem<br \/>\n    buscar-me.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc; que ainda dan&ccedil;o. Observe-me, mas&#8230; por quem &eacute;,<br \/>\n    seja benigno.<\/p>\n<p> E o meu fil&oacute;sofo assesta a luneta, senta-se a um canto e observa.<\/p>\n<p> Que pena que conserve in&eacute;ditos os sumarentos frutos da sua observa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nocturna! Mas o que eu lhe dizia era verdade; ainda dan&ccedil;o; mas, aqui<br \/>\n    para n&oacute;s, n&atilde;o dan&ccedil;o &agrave; minha vontade.<\/p>\n<p> A dan&ccedil;a n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o deva ser isto assim.<\/p>\n<p> Antigamente &eacute; que se compreendia o dan&ccedil;ar. Basta dizer que<br \/>\n    n&atilde;o havia quem de o fazer se envergonhasse.<\/p>\n<p> Em quanto a mim, aquele s&eacute;culo de Lu&iacute;s XIV n&atilde;o se chamou<br \/>\n    o grande s&eacute;culo s&oacute; por as grandezas pol&iacute;ticas, militares,<br \/>\n    financeiras e liter&aacute;rias do reinado desse monarca. Concorreram, e muito,<br \/>\n    para lhe granjearem o ep&iacute;teto, as festas espl&ecirc;ndidas de Fouquet,<br \/>\n    as noites deslumbrantes de Versalhes e aqueles bailados que Moli&egrave;re<br \/>\n    era constrangido a entremear nas suas com&eacute;dias para satisfazer a mania<br \/>\n    coreogr&aacute;fica da corte e nos quais tomava parte o pr&oacute;prio rei,<br \/>\n    transfigurado em pastor; dessa graciosa ra&ccedil;a de pastores que povoavam<br \/>\n    os tablados daquele tempo. E julgas que Lu&iacute;s XIV era l&aacute; homem<br \/>\n    que dan&ccedil;asse como qualquer dos nossos partners da actualidade executa<br \/>\n    um fastidioso solo? Qual! dan&ccedil;ava saltando, rodopiando e cabriolando,<br \/>\n    que &eacute; a verdadeira maneira de dan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Dan&ccedil;ar, dan&ccedil;ava David &agrave; frente da arca da alian&ccedil;a<br \/>\n    e vejam l&aacute; os nossos elegantes se se lhes mete na cabe&ccedil;a deixarem<br \/>\n    aos vindouros mem&oacute;ria de si, mais acatada e sisuda do que a do rei<br \/>\n    salmista.<\/p>\n<p> Sisudos e at&eacute; sombrios foram D. Pedro ! e D. Jo&atilde;o II e digam-me<br \/>\n    se eles n&atilde;o dan&ccedil;aram com toda a agilidade dos seus m&uacute;sculos.<\/p>\n<p> D. Pedro, o terr&iacute;vel D. Pedro, o amante de D. In&ecirc;s, tomava<br \/>\n    parte em folias populares, e D. Jo&atilde;o II s&oacute; deixou de dan&ccedil;ar<br \/>\n    quando a gordura o impediu de o fazer, diz o cronista, o que prova que n&atilde;o<br \/>\n    se contentava com dan&ccedil;ar, passeando.<\/p>\n<p> E depois&#8230; que santos e singel&iacute;ssimos costumes aqueles! As mais<br \/>\n    honradas e respeit&aacute;veis damas n&atilde;o punham muito em sa&iacute;rem<br \/>\n    &agrave; rua de pandeiro na m&atilde;o e em festivais coreias por ocasi&atilde;o<br \/>\n    de regozijos p&uacute;blicos.<\/p>\n<p> Uma tal D. Briolanja Henriques, que eu quisera dar por modelo &agrave;s<br \/>\n    elegantes dos nossos dias, f&ecirc;-lo nas ruas de &Eacute;vora, diante de<br \/>\n    D. Jo&atilde;o II, o qual tanto folgou com a lembran&ccedil;a, que a tomou<br \/>\n    nas ancas do seu cavalo e assim a levou aos pa&ccedil;os.<\/p>\n<p> Ora a isto &eacute; que eu chamo compreender o dan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> No s&eacute;culo passado&#8230;<\/p>\n<p> Ai, perd&atilde;o, perd&atilde;o! esquecia-me que est&aacute;s impaciente,<br \/>\n    que est&aacute;s febril, que est&aacute;s fren&eacute;tica, por eu n&atilde;o<br \/>\n    entrar no assunto.<\/p>\n<p>Venham os amores de Margarida &agrave; barra. Vamos l&aacute; aos amores<br \/>\n    de Margarida.<\/p>\n<p> Desci ao largo para gozar mais de perto daquela alegria. Margarida veio<br \/>\n    ter comigo. Estava ofegante.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo! disse-lhe eu, estiveste inimit&aacute;vel, sabes? Nunca admirei<br \/>\n    tanto a tua agilidade na dan&ccedil;a, nem a tua voz no canto! &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    a mangar ? &#8212; Falo s&eacute;ria. Muito alegre te principiou hoje o dia!<br \/>\n    &#8212; Que diz, senhora; alegre ! N&atilde;o, ao que hoje tenho chorado j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; nesse caso, Margarida, se essas s&atilde;o as tuas tristezas,<br \/>\n    n&atilde;o me dar&aacute;s uma amostra das tuas alegrias? &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    ? a gente precisa de se distrair. Isso l&aacute;! De que vale dar-se uma pessoa<br \/>\n    &agrave; melancolia? N&atilde;o remedeia nada e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E posso saber a causa das tuas tristezas ? &#8212; atalhei eu.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, porque n&atilde;o? julguei at&eacute; que a sabia j&aacute;.<br \/>\n    &Eacute; que ontem prenderam o Luis&#8230; a senhora conhece-o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bem sei, o teu conversado. Mas&#8230; prenderam-no porqu&ecirc;? &#8212;<br \/>\n    Prenderam-no para soldado.<\/p>\n<p> &#8212; Para soldado?! &#8212; &Eacute; verdade, minha senhora. Veja o pobre<br \/>\n    rapaz que &eacute; t&atilde;o sossegado, t&atilde;o bom, t&atilde;o metido<br \/>\n    consigo. Aquilo &eacute; mesmo um cora&ccedil;&atilde;o de pomba. Que vai<br \/>\n    ele fazer com uma espingarda, ele que nem aos pardais atira? No dia em que<br \/>\n    ele matar algu&eacute;m na guerra, estala-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de pena,<br \/>\n    assim como me estalaria a mim se o matassem a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega, Margarida, os nossos soldados n&atilde;o matam ningu&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> na guerra; felizmente n&atilde;o lhes d&atilde;o ocasi&atilde;o para isso.<br \/>\n    Morrer, isso l&aacute; morrem&#8230; mas como toda a gente, como qualquer de n&oacute;s<br \/>\n    pode morrer.<\/p>\n<p> Tu est&aacute;s muito nova; dentro em cinco anos Lu&iacute;s obt&eacute;m<br \/>\n    a baixa e est&atilde;o muito em idade de se casarem.<\/p>\n<p> &#8212; Dentro em cinco anos! Ora! daqui at&eacute; l&aacute;, tinha ele<br \/>\n    tempo de me esquecer. Longe da vista&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nem para t&atilde;o longe vai que vos n&atilde;o possais ver e visitar.<br \/>\n    Do Porto aqui &eacute; um passeio e assim n&atilde;o tens probabilidades de<br \/>\n    ser esquecida, falando-lhe a mi&uacute;do.<\/p>\n<p> &#8212; Falar-lhe? Que diz, senhora? Sendo ele soldado! &#8212; Ah! ent&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, isso &eacute; que n&atilde;o, senhora. Que diriam por<br \/>\n    a&iacute; se me vissem a falar com um soldado? &#8212; Mas sendo esse soldado<br \/>\n    um rapaz da terra, sendo Lu&iacute;s&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nem assim. Isso parece muito mal.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ent&atilde;o&#8230; est&aacute;s resolvida a romper para sempre<br \/>\n    com ele? &#8212; Eu! Agora estou.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o dizes que os cinco anos de aus&ecirc;ncia.., &#8212;<br \/>\n    Mas &eacute; que eu&#8230; Olhe, tenho a dizer-lhe e a pedir-lhe uma coisa&#8230;<br \/>\n    Agora vou dan&ccedil;ar, mas volto j&aacute;.<\/p>\n<p>E, dizendo assim, afastou-se de mim a saltar e, dentro em pouco, escutava-lhe<br \/>\n    j&aacute; a voz cantando:<\/p>\n<p>&Aacute;gua leva o ribeirinho Pra regar o laranjal; As pena3 do amor que<br \/>\n    eu peno H&atilde;o-de acabar afinal.<\/p>\n<p>A&iacute; est&aacute;, pensava eu comigo, v&atilde;o l&aacute; acusar aquele<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o de insensibilidade. &Eacute; pr&oacute;prio da natureza<br \/>\n    humana esta inconst&acirc;ncia na dor; cada vez mais o acredito. &#8212; Percebo<br \/>\n    o gesto que fazes ao leres isto, Cec&iacute;lia. Eu bem sei. Entre n&oacute;s<br \/>\n    s&atilde;o menos vulgares estas s&uacute;bitas transi&ccedil;&otilde;es, mas&#8230;<br \/>\n    ser&aacute; porque o nosso cora&ccedil;&atilde;o seja menos vol&uacute;vel?<br \/>\n    Que te parece, Cec&iacute;lia, ser&aacute;? Fala-me com franqueza. Eu, pela<br \/>\n    minha parte, hesito em afirm&aacute;-lo. N&atilde;o haver&aacute; antes em<br \/>\n    n&oacute;s um pouco de afecta&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m? A sociedade<br \/>\n    para tudo faz regulamentos, &eacute; a sua mania; em tudo quer as apar&ecirc;ncias<br \/>\n    salvas. Decreta que o &oacute;rf&atilde;o seja inconsol&aacute;vel durante<br \/>\n    seis meses, e m&acirc;nda-o vestir de rigoroso d&oacute;; outros seis meses<br \/>\n    quer que os empregue a consolar-se, sem o conseguir de todo, e traje luto<br \/>\n    aliviado; passado o ano, deve considerar-se consolado, e permite-lhe esquecer<br \/>\n    completamente os pais falecidos. Para irm&atilde;os reduz apenas a metade<br \/>\n    estas manifesta&ccedil;&otilde;es de saudade. Se durante o prazo em que nos<br \/>\n    manda ser tristes, se infringe a mais pequena cl&aacute;usula do seu regulamento<br \/>\n    funer&aacute;rio, estigmatiza a infrac&ccedil;&atilde;o com severidade ; mas,<br \/>\n    se no fim desse tempo, nunca mais se venera a mem&oacute;ria do morto, pouco<br \/>\n    se lhe importa com isso, n&atilde;o se julga autorizada a censurar porque<br \/>\n    se teve para com ela as aten&ccedil;&otilde;es reclamadas.<\/p>\n<p> Ora muitas das nossas inconsol&aacute;veis amantes, repara que ainda n&atilde;o<br \/>\n    digo todas, bem vontade tinham de fazer como Margarida, mas a moda tem exig&ecirc;ncias!<br \/>\n    e por isso conservam a tristeza por tempo conveniente&#8230; Margarida que n&atilde;o<br \/>\n    sabia afectar o que n&atilde;o sentia, ia assim alternando com suas lamenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    as cantigas festivais que a distraiam.<\/p>\n<p> Fazia ela muito bem.<\/p>\n<p> Quando de novo se interrompeu a dan&ccedil;a, voltou a procurar-me.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que me querias tu pedir ? &#8212; Olhe; lembrou-me<br \/>\n    uma coisa. Disseram-me que quem der n&atilde;o sei quantas moedas se livra<br \/>\n    de soldado. Ora o rapaz, coitado, n&atilde;o as tem.<\/p>\n<p> Sabe Deus como ele se arranja com o pouco que ganha. Mas aquela senhora<br \/>\n    que era minha madrinha, quando morreu, deixou-me um ourito, que eu tenho no<br \/>\n    fundo da caixa, porque afinal a gente anda c&aacute; no trabalho e quase nunca<br \/>\n    traz aquilo. Lembrou-me que se o vendesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o queres desfazer-te do teu ouro, Margarida? Mas repara<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, senhora, ent&atilde;o? &Eacute; bom t&ecirc;-lo para as ocasi&otilde;es.<br \/>\n    E esta &eacute; uma. Lu&iacute;s &eacute; trabalhador. Eu&#8230; vendendo o meu<br \/>\n    ouro&#8230; perco, &eacute; verdade; mas, quem sabe? Talvez ainda venha a ganhar.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Como ? &#8212; Por isto. Olhe, deixando ele de ser soldado e casando<br \/>\n    comigo, eu por um lado e ele por outro, iremos mareando a nossa vida melhor;<br \/>\n    e em pouco tempo poderei comprar ainda mais ouro do que tenho agora. Em quanto<br \/>\n    que ficando ele soldado&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que me querias tu pedir? &#8212; Era para que falasse<br \/>\n    a minha m&atilde;e nisso. Eu tenho medo que ela me n&atilde;o deixe.<\/p>\n<p> Terminei este di&aacute;logo, como tu o terminarias, Cec&iacute;lia; apertei<br \/>\n    Margarida nos bra&ccedil;os e prometi-lhe colaborar naquela boa ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Margarida voltou a dan&ccedil;ar. Dan&ccedil;ar outra vez! Ainda! Que inconst&acirc;ncia!<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; verdade? Mas quantas das nossas belas apaixonadas, que<br \/>\n    se privariam de dan&ccedil;ar oito dias depois da aus&ecirc;ncia de um namorado<br \/>\n    como Luis, n&atilde;o teriam cora&ccedil;&atilde;o para se desfazerem&#8230; do<br \/>\n    seu leque que fosse, mesmo sabendo que esse pequeno sacrif&iacute;cio lho<br \/>\n    restituiria? N&atilde;o te ofendas por quem &eacute;s, nem tu nem as tuas<br \/>\n    amigas; repara que n&atilde;o disse todas.<\/p>\n<p> Eu voltei para casa e pus-me a pensar nisto. Contei tudo a meu marido e<br \/>\n    deixei-lhe perceber desejos de poupar este sacrif&iacute;cio &agrave; rapariga,<br \/>\n    adiantando ele o dinheiro para a soltura.<\/p>\n<p> Sabes o que ele me respondeu ? &#8212; &laquo;Deixa-a. Esse sacrif&iacute;cio<br \/>\n    de agora &eacute; uma garantia para a sua felicidade futura. D&aacute;-lhe<br \/>\n    direitos a exigi-la daquele por quem assim o realiza&raquo;. Em vista deste<br \/>\n    parecer, resolvi falar &agrave; m&atilde;e e, com algumas dificuldades, sempre<br \/>\n    obtive o seu consentimento.<\/p>\n<p> Meu marido encarregou-se de comprar, ele pr&oacute;prio, o ouro que pagou<br \/>\n    por um pre&ccedil;o muito superior ao seu valor e que conserva ainda em seu<br \/>\n    poder, desconfio que para fazer presente dele a Margarida no dia do seu noivado.<\/p>\n<p> Lu&iacute;s foi efectivamente livre. Comoveu-me v&ecirc;-lo chorar de alegria<br \/>\n    aos p&eacute;s da sua desposada. Por nossa interven&ccedil;&atilde;o conseguiu<br \/>\n    uma coloca&ccedil;&atilde;o mais lucrativa do que a que tinha, Arrendou uma<br \/>\n    quinta e suspeito que j&aacute; capitaliza um poucochito. O rapaz n&atilde;o<br \/>\n    deseja casar sem ter algum pequeno dote a oferecer &agrave;quela que se sacrificou<br \/>\n    por ele.<\/p>\n<p> Ora aqui tens o que eu te queria contar dos amores de Margarida.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc;s que n&atilde;o h&aacute; aqui nada de rom&acirc;ntico; &eacute;<br \/>\n    uma hist&oacute;ria que a gente conta sem perceber que a est&aacute; contando<br \/>\n    e da mesma maneira a escuta, t&atilde;o desprovida ela &eacute; de situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que afectem a imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o me queiras mal por te haver feito conceber esperan&ccedil;as,<br \/>\n    que n&atilde;o pude realizar. Eu prometo nunca mais cair nessa imprud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Adeus, Cec&iacute;lia, adeus que se eu continuo a falar n&atilde;o acabo<br \/>\n    hoje; at&eacute; outra vez.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Porto, Agosto de 1864.<\/b><\/p>\n<p><b> <\/b><b>Tua afei&ccedil;oada<\/b><\/p>\n<p>Publicada no &laquo;Jornal do Porto&raquo; em 11 de Janeiro de 1865.<\/p>\n<p> Fragmento de uma carta que n&atilde;o era para ser publicada.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>J&aacute; que me falaste em m&uacute;sica na tua &uacute;ltima carta, n&atilde;o<br \/>\n    quero terminar esta sem te dizer quais os meus pensamentos actuais sobre o<br \/>\n    assunto.<\/p>\n<p> Repara que digo &#8212; actuais. &#8212; &Eacute; que eu sou j&aacute; cautelosa.<br \/>\n    Receio que a minha versatilidade, que sou a primeira a reconhecer, me ponha<br \/>\n    em contradi&ccedil;&atilde;o comigo mesma dentro em pouco tempo.<\/p>\n<p> Vamos por isso firmando desde j&aacute; a cl&aacute;usula que me seja depois<br \/>\n    desculpa. Tratemos pois de m&uacute;sica.<\/p>\n<p> Poucas como tu est&atilde;o no caso de falar nisto; poucas, menos do que<br \/>\n    eu, no de te responder.<\/p>\n<p> Sabes que estou muito longe de ser uma mulher da moda. Sou uma mulher do<br \/>\n    antigo sistema e nada mais.<\/p>\n<p> Meus pais entenderam que me seria mais &uacute;til uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me tornasse prest&aacute;vel, quando os anos da juventude me n&atilde;o<br \/>\n    garantissem j&aacute; um bill de indemnidade para a minha inaptid&atilde;o,<br \/>\n    do que rodear-me desses mil pequenos dotes que at&eacute; aos vinte anos nos<br \/>\n    servem de alguma coisa, mas que, depois de certa idade, infalivelmente nos<br \/>\n    abandonam, deixando-nos ent&atilde;o mais desacompanhadas e indefesas que<br \/>\n    nunca.<\/p>\n<p> Meu pai teve, por exemplo, o mau gosto de me mandar ensinar a cozinhar;<br \/>\n    minha m&atilde;e n&atilde;o abdicou nas directoras do col&eacute;gio o cuidado<br \/>\n    da minha educa&ccedil;&atilde;o. Coitada! dizia ela que n&atilde;o me poderia<br \/>\n    formar t&atilde;o bem a intelig&ecirc;ncia, mas que o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tinha f&eacute; que o formaria melhor.<\/p>\n<p> Em quanto ao primeiro artigo da sua piedosa e sincera cren&ccedil;a, acredito-o<br \/>\n    porque esta intelig&ecirc;ncia n&atilde;o saiu l&aacute; de grandes for&ccedil;as.<\/p>\n<p> Reconhe&ccedil;o-me, em desenvolvimento intelectual, muito aqu&eacute;m<br \/>\n    de todas as mulheres da gera&ccedil;&atilde;o nova, que falam franc&ecirc;s<br \/>\n    com uma acentua&ccedil;&atilde;o de parisiense pur sang; copiam a dois crayons<br \/>\n    cabe&ccedil;as de Julien e discutem Meyerbeer, Rossini com um desplante admir&aacute;vel.<\/p>\n<p> Ultimamente parece que at&eacute; se filiam nas lojas ma&ccedil;&oacute;nicas<br \/>\n    &#8212; pelo menos assim mo afirmaram.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se tu tamb&eacute;m estar&aacute;s j&aacute; iniciada nos<br \/>\n    mist&eacute;rios do grande Oriente.<\/p>\n<p> Agora sim, acredito na regenera&ccedil;&atilde;o da p&aacute;tria. &Ccedil;&agrave;<br \/>\n    ir&agrave;.<\/p>\n<p> Mas em todo o caso, bem sei que eu n&atilde;o posso discutir m&uacute;sica<br \/>\n    contigo; nem &eacute; essa a minha ten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Com este g&eacute;nio que Deus me deu hei-de &#8212; isso sim &#8212; dizer<br \/>\n    tudo o que penso, que a mais n&atilde;o pode ningu&eacute;m ser obrigado.<\/p>\n<p> Respondo-te como te responderia se me falasses nisso em um daqueles despretensiosos<br \/>\n    col&oacute;quios que tantas vezes temos tido em que at&eacute; os maiores<br \/>\n    absurdos e atrevidos paradoxos s&atilde;o aventados sem a menor responsabilidade,<br \/>\n    sem incorrermos na censura de ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Porque hei-de ter mais escr&uacute;pulos escrevendo-te do que falando-te<br \/>\n    ? Acaso ter&aacute; uma carta mais fundadas pretens&otilde;es &agrave; imortalidade<br \/>\n    do que um di&aacute;logo ? As palavras voam, os escritos ficam. Hist&oacute;rias!<br \/>\n    Se os escritos ficassem todos, em pouco tempo o mundo seria uma papeleira.<br \/>\n    S&oacute; fica o que merece ficar.<\/p>\n<p> H&aacute; palavras que atravessaram s&eacute;culos e escritos que nem duram<br \/>\n    dias. Mas vamos ao assunto.<\/p>\n<p> Tu entraste em plenos mist&eacute;rios da arte, Cec&iacute;lia. Admirei-te<br \/>\n    mas compreendi-te mal. Via-te c&aacute; de baixo, subir, n&atilde;o te pude<br \/>\n    seguir.<\/p>\n<p> O mau humor que dai me resultou, explica talvez a direc&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que estranhar&aacute;s em minhas ideias.<\/p>\n<p> E depois eu recebi a tua carta em uma &eacute;poca em que andava preocupada<br \/>\n    por um pensamento, que alguns meses de vida campestre me haviam sugerido.<br \/>\n    Foi talvez por isso que n&atilde;o pude apreciar as tuas teorias musicais,<br \/>\n    como as apreciaria a&iacute; debaixo das mesmas impress&otilde;es sob que<br \/>\n    as meditaste e formulaste.<\/p>\n<p> Ocupava-me muito da m&uacute;sica popular, cuja singeleza e originalidade<br \/>\n    me tinham enamorado.<\/p>\n<p> Sabes que eu em m&uacute;sica tenho o mau gosto, que s&oacute; a ti muito<br \/>\n    baixinho confessarei, de preferir a execu&ccedil;&atilde;o fiel e correcta<br \/>\n    de qualquer trecho l&iacute;rico que me agrade, &agrave;s brilhantes fioritures<br \/>\n    e varia&ccedil;&otilde;es de fantasia com que um artista de g&eacute;nio consegue<br \/>\n    revel&aacute;-lo, sacrificando&#8212; aos meus ouvidos profanos &#8212; o<br \/>\n    motivo musical que lhe serve de pretexto.<\/p>\n<p> &Eacute; por uma raz&atilde;o an&aacute;loga &agrave;quela que me faz preferir<br \/>\n    o ondeado natural das tuas belas tran&ccedil;as negras ao impertinente e caprichoso<br \/>\n    frisado com que as martirizas em uma noite de baile.<\/p>\n<p> Espero que a compara&ccedil;&atilde;o me fa&ccedil;a perdoar a heresia de<br \/>\n    arte, que acima julgo que pronunciei.<\/p>\n<p> Podes ver que com estas decididas tend&ecirc;ncias para tudo que &eacute;<br \/>\n    natural e singelo, estou muito arriscada a apaixonar-me pela m&uacute;sica<br \/>\n    popular, por essa caprichosa e ligeira m&uacute;sica que voga nos ares com<br \/>\n    todos os mais rumores de que a escola rom&acirc;ntica h&aacute; tempos os<br \/>\n    traz povoados.<\/p>\n<p>Ora, apaixonada assim, diz-me se me era poss&iacute;vel escutar com a rever&ecirc;ncia<br \/>\n    de disc&iacute;pula ignorante, a erudita disserta&ccedil;&atilde;o, a que<br \/>\n    o &uacute;ltimo concertista, de quem eu te pedi informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    deu lugar.<\/p>\n<p> Esses per&iacute;odos da rua apreci&aacute;vel carta vieram despertar-me<br \/>\n    de uma esp&eacute;cie de sonho &#8212; e digo sonho por n&atilde;o saber bem<br \/>\n    como hei-de traduzir de outra maneira aquela eloquente r&ecirc;verie dos Franceses<br \/>\n    &#8212; em que me deixara arrebatar; &eacute; natural que respondesse com<br \/>\n    a rabugice pr&oacute;pria do despertar.<\/p>\n<p> Vinhas fazer-me a apologia da m&uacute;sica cient&iacute;fica, acad&eacute;mica,<br \/>\n    cl&aacute;ssica, entendida s&oacute; por os raros iniciados nos mist&eacute;rios<br \/>\n    do contraponto, e eu, que estava a escutar uma cantilena alde&atilde; repassada<br \/>\n    de poesia, impacientei-me, reagi.<\/p>\n<p> Contrariedade por contrariedade, minha querida. Agora h&aacute;s-de ouvir-me<br \/>\n    tu. V&ecirc; se a tua ci&ecirc;ncia musical te d&aacute; a solu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do seguinte problema que era o que me preocupava. &Eacute; como respondo &agrave;<br \/>\n    tua disserta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Este problema &#8212; em que eu muitas vezes cismo e para o qual pe&ccedil;o<br \/>\n    a tua coopera&ccedil;&atilde;o &#8212; &eacute; o da origem da m&uacute;sica<br \/>\n    popular.<\/p>\n<p> Sabes-me dizer qual o maestro inspirado dessas toadas singelas que se cantam<br \/>\n    ao bater das roupas nos ribeiros, ao esfolhar das espigas nas eiras, ao espadelar<br \/>\n    do linho nos ser&otilde;es? E ter&atilde;o elas compositor? Chego a duvid&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Ouve a minha teoria: &Agrave;s vezes lembra-me que o povo &eacute; como<br \/>\n    os p&aacute;ssaros, que amenizam a espessura das selvas. Qual deles foi o<br \/>\n    autor desses quebros e gorjeios que todos repetem? Quais os maestros? Quais<br \/>\n    os disc&iacute;pulos? N&atilde;o h&aacute; distin&ccedil;&atilde;o. Cantam<br \/>\n    assim porque lhes est&aacute; na natureza aquele cantar, porque as vozes do<br \/>\n    campo desafiam um eco e eles respondem- lhes, como a concavidade da colina<br \/>\n    responde aos ventos que bafejam. &#8212; Ai est&aacute;.<\/p>\n<p> Assim me parece o povo.<\/p>\n<p> Uma noite &#8212; penso eu &#8212; as brisas adormentadas mal fazem ciciar<br \/>\n    os olmedos da campina; os ribeiros afagam serenamente, e murmurando apenas,<br \/>\n    os musgos h&uacute;midos das levadas; cintilam as estrelas no azul-escuro<br \/>\n    do c&eacute;u; prorrompe das moitas e silvados um concerto magn&iacute;fico<br \/>\n    de insectos&#8230; e o povo sente vagamente a poesia da hora, a poesia da noite,<br \/>\n    a poesia da natureza.<\/p>\n<p> Sente-a o velho pensativo &agrave; soleira da porta, balanceando lentamente<br \/>\n    nos joelhos um gracioso grupo de netos adormecidos, sente-a a m&atilde;e,<br \/>\n    jovem e desvelada, ao acalentar o filho no ber&ccedil;o e fitando os olhos<br \/>\n    na mais brilhante dessas estrelas, como se ali se escrevera o destino daquela<br \/>\n    crian&ccedil;a que estremece; sente-a a alde&atilde; namorada aspirando os<br \/>\n    aromas que dos alegretes do jardim lhe sobem at&eacute; ao peitoril da janela,<br \/>\n    onde se esquece a devanear; sente-a a pr&oacute;pria inf&acirc;ncia, deixando<br \/>\n    os brinquedos ruidosos, falando baixo, escutando, cismando&#8230;&#8212;Este cismar<br \/>\n    da inf&acirc;ncia! este cismar da inf&acirc;ncia! Que g&eacute;rmen de futuros<br \/>\n    pensamentos!<\/p>\n<p>Nessa noite pois, em uma noite assim, opera-se o mist&eacute;rio, o g&eacute;nio<br \/>\n    popular estremece, visita-o o fogo sagrado, a brisa da noite acorda a est&aacute;tua<br \/>\n    de M&eacute;mnon; e ent&atilde;o, no mesmo instante, no instante solene, um<br \/>\n    canto vem naturalmente aos l&aacute;bios desses numerosos poetas, que todos<br \/>\n    sentiram e cismaram.<\/p>\n<p> Do balc&atilde;o enflorado, do limiar da porta, de junto dos ber&ccedil;os,<br \/>\n    dos largos, das encruzilhadas, prorrompe uma voz; o anci&atilde;o, a donzela,<br \/>\n    a m&atilde;e, as crian&ccedil;as cantam a um tempo e uma nova m&uacute;sica<br \/>\n    nasce ent&atilde;o, suave, saudosa, melanc&oacute;lica, como as mavios&iacute;ssimas<br \/>\n    notas daquela noite que a inspirou.<\/p>\n<p> Todos compuseram, todos imitaram. Mist&eacute;rios das multid&otilde;es!<br \/>\n    Decifre-os quem puder. Eu n&atilde;o os discuto; creio neles, como outros<br \/>\n    tantos artigos de f&eacute;.<\/p>\n<p> Como explicar de outra sorte as nenhumas reclama&ccedil;&otilde;es de propriedade,<br \/>\n    t&atilde;o naturais &agrave; vaidade humana, e que, at&eacute; no seio das<br \/>\n    mais doutas academias, consomem a m&aacute;xima parte do tempo, que devia<br \/>\n    ser votado a investiga&ccedil;&otilde;es mais &uacute;teis, do que as de prioridade<br \/>\n    entre dois inventores litigantes ? N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> Que melancolia a de alguns daqueles cantares; que festiva gra&ccedil;a a<br \/>\n    de outros ! Lembra-me que uma noite deixara eu aberta a janela do meu quarto<br \/>\n    &#8212; vinha-me de fora um t&atilde;o suave perfume de laranjeiras que n&atilde;o<br \/>\n    tive coragem para fech&aacute;-la &#8212; o rouxinol, esse poeta dos bosques,<br \/>\n    o chefe da escola rom&acirc;ntica entre aquela sonora turba, porque n&atilde;o<br \/>\n    sofre modular as suas can&ccedil;&otilde;es por formas sempre as mesmas, antes<br \/>\n    as varia, segundo as aspira&ccedil;&otilde;es do seu g&eacute;nio, o rouxinol<br \/>\n    estava admir&aacute;vel! As folhas brincavam com a luz do luar e desenhavam<br \/>\n    no cortinado do meu leito uma renda buli&ccedil;osa de extravagantes ramagens.<\/p>\n<p> Cedi &agrave; influ&ecirc;ncia languescente e deliciosa daquela noite de<br \/>\n    Estio.<\/p>\n<p> Adormeci. Por altas horas acordei ao som de uma cantiga alde&atilde;.<\/p>\n<p> Entoava-a uma voz feminina, cujo timbre melodioso e juvenil me comoveu como<br \/>\n    ainda nenhuma prima-dona. Perd&atilde;o, perd&atilde;o, reconsiderei a tempo.<br \/>\n    &Eacute; certo, por&eacute;m, que me comoveu aquela voz. Durante o meu sono<br \/>\n    a luz desaparecera e agora cintilavam algumas estrelas p&aacute;lidas, procurando<br \/>\n    combater infrutuosamente a escurid&atilde;o mais intensa que precede o amanhecer.<\/p>\n<p> N&atilde;o pude resistir, corri &agrave; janela.<\/p>\n<p> A voz partia j&aacute; de mais distante. Era a de uma jovem lavadeira, que<br \/>\n    ia para as presas lavar.<\/p>\n<p> Olhei o rel&oacute;gio; pouco passava das quatro horas! Pobre rapariga!<br \/>\n    Ela a&iacute; ia sozinha votar-se ao trabalho! Aos dezoito anos, repara tu<br \/>\n    e todas as tuas elegantes companheiras; &agrave; hora em que v&oacute;s apagais<br \/>\n    a luz, ainda com a imagina&ccedil;&atilde;o alvoro&ccedil;ada pelas aventuras<br \/>\n    da mais simp&aacute;tica personagem do romance que vos disputou ao sono, &agrave;<br \/>\n    hora em que desprendeis o enfeite que vos adornou as tran&ccedil;as no baile<br \/>\n    e vos despis, cismando na frase de leviano galanteio que vos segredou o &uacute;ltimo<br \/>\n    valsista, ela, coitada! ergue-se para ir lavar, ergue-se para atravessar sozinha<br \/>\n    os caminhos ermos, cujo aspecto bastaria para vos desafiar um ataque de nervos,<br \/>\n    melindrosas organiza&ccedil;&otilde;es. &#8226; Muito felizes sois! muito<br \/>\n    malfadada &eacute; ela! E contudo.,. &#8212;vede. &#8212; De quando em quando<br \/>\n    o vosso sil&ecirc;ncio &eacute; interrompido por um suspiro, que n&atilde;o<br \/>\n    podeis reprimir; ca&iacute;s em desalento no sof&aacute; vizinho do leito<br \/>\n    e apodera-se de v&oacute;s uma tristeza que vos faz chorar.<\/p>\n<p> E ela ? ela canta, ela desperta, cantando os ecos escondidos pelas quebradas<br \/>\n    e afugenta os espectros sinistros que povoavam os recantos obscuros.<\/p>\n<p> Mas &eacute; que v&oacute;s n&atilde;o podeis cantar como ela, por isso<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o tendes aquelas expans&otilde;es que distraem e aliviam.<\/p>\n<p> Cantar! Pobres meninas! Se vos ensinam a cantar em italiano! Se a moda,<br \/>\n    essa tir&acirc;nica divindade que do alto do seu trono de rendas e vidrilhos<br \/>\n    vos imp&otilde;e um c&oacute;digo absurdo, menospreza a nossa harmoniosa l&iacute;ngua!<br \/>\n    Se para saudardes a Lua precisais de lhe chamar &#8212; casta diva &#8212;<br \/>\n    e repetir a letra de Felice Romani! se s&oacute; com o aux&iacute;lio dos<br \/>\n    libretos e martirizando a l&iacute;ngua do Dante podeis celebrar Deus, as<br \/>\n    flores, as estrelas, o mar! Se vos ensinam a erguer-vos &agrave;s onze horas!<br \/>\n    Se vos mostram as belezas do amanhecer nas gravuras inglesas ou, quando muito,<br \/>\n    no poliorama que adorna uma das mesas do vosso sal&atilde;o! Se s&oacute;<br \/>\n    vedes o mar quando apequenado pela aflu&ecirc;ncia de banhistas! Se vos mandam<br \/>\n    cantar ao espelho para estudardes o gesto conveniente a uma. cantora que tem<br \/>\n    escola! Se quando cantais tendes na ideia tudo menos o canto! Oh! v&oacute;s<br \/>\n    n&atilde;o podeis, v&oacute;s n&atilde;o sabeis cantar! Com todo o vosso estudo<br \/>\n    ficais suplantadas por tantas espont&acirc;neas cantoras que abundam nos campos.<\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o encontrei artista de profiss&atilde;o que afinal de contas<br \/>\n    n&atilde;o fizesse caretas a cantar e ainda n&atilde;o vi rapariga alde&atilde;<br \/>\n    que n&atilde;o fosse mais bonita cantando. Porque &eacute; isto? O artif&iacute;cio<br \/>\n    mata-vos.<\/p>\n<p> E n&atilde;o &eacute; s&oacute; a letra estrangeira que neutraliza para<br \/>\n    v&oacute;s todo o efeito calmante que um antigo ditado portugu&ecirc;s de<br \/>\n    tempos imemoriais concede ao canto, &eacute; tamb&eacute;m a m&uacute;sica<br \/>\n    estrangeira.<\/p>\n<p> Da It&aacute;lia, da Fran&ccedil;a, da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha,<br \/>\n    de toda a parte aceitais de bom grado a m&uacute;sica; s&oacute; desdenhosamente<br \/>\n    sorris para a que n&atilde;o &eacute; de importa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao lado do vosso piano, se se depara com alguma composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    firmada com um nome portugu&ecirc;s, &eacute; como envergonhada e escondida<br \/>\n    nas rimas de cadernos onde, em grande tipo, se l&ecirc;em os nomes de compositores<br \/>\n    de fora, nem sempre dignos de celebridade.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se n&oacute;s n&atilde;o temos m&uacute;sica popular &#8212;<br \/>\n    disse-me ainda h&aacute; pouco um dos nossos melhores talentos musicais. N&atilde;o<br \/>\n    o contestei;<\/p>\n<p>seria arrojo da leiga, heresia de profana. Houve quem, sem o saber, lhe respondesse<br \/>\n    &#8212; e pela Imprensa &#8212; que a fizesse ele. O artista lendo o conselho,<br \/>\n    encolheu os ombros e riu-se. Desta vez tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Como! fazer m&uacute;sica popular! Pois a m&uacute;sica popular<br \/>\n    faz-se ? Se ela n&atilde;o existe, haveria g&eacute;nio t&atilde;o superior<br \/>\n    que a tirasse do nada? Mas, n&atilde;o existir&aacute; de facto? Ai &eacute;<br \/>\n    que se resume a quest&atilde;o. Pois ser&aacute; este nosso povo um povo que<br \/>\n    n&atilde;o canta? ou para cantar ir&aacute; pedir trovas emprestadas &agrave;s<br \/>\n    outras na&ccedil;&otilde;es? Responde por mim essa harmonia que sai dos campos,<br \/>\n    que nos enche os ouvidos, que anima o trabalho das ceifas, das esfolhadas,<br \/>\n    das malhas&#8230; M&uacute;sica rudimentar &#8212; dizem-me. Concordo. Mas &eacute;<br \/>\n    que se n&atilde;o vai assim de repente &agrave; &oacute;pera.<\/p>\n<p> Exigir de um compositor que escreva uma &oacute;pera com m&uacute;sica nacional<br \/>\n    &eacute; exigir muito, &eacute; marcar-lhe uma meta superior &agrave;s for&ccedil;as<br \/>\n    de qualquer artista.<\/p>\n<p> Fossem l&aacute; dizer aos escritores de l&iacute;ngua portuguesa, esses<br \/>\n    que balbuciavam as prim&iacute;cias da poesia nacional, ao autor daquela can&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Figueiredo das Donas por exemplo &#8212; se &eacute; que depois da opini&atilde;o<br \/>\n    de um nosso ilustre cr&iacute;tico ainda lhe podemos dar o foro de nacionalidade&#8212;<br \/>\n    fossem l&aacute; dizer-lhe: Escrevei um poema &eacute;pico nacional! Tomai<br \/>\n    f&ocirc;lego, fazei o que fez Homero, o que fez Virg&iacute;lio.<\/p>\n<p> Mas a ave n&atilde;o sobe &agrave;s alturas logo ao primeiro voo.<\/p>\n<p> Cam&otilde;es s&oacute; podia nascer quando nasceu.<\/p>\n<p> N&atilde;o digais, pois, aos nossos compositores: Escrevei &oacute;peras<br \/>\n    nacionais.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; exigir-lhes o imposs&iacute;vel &#8212; mas dizei-lhe:<br \/>\n    Escrevei trovas, escrevei can&ccedil;&otilde;es, escrevei cantigas&#8230; porque<br \/>\n    deveras n&atilde;o sei por que se h&aacute;-de p&ocirc;r de parte esta palavra<br \/>\n    e esta coisa t&atilde;o genuinamente portuguesa &#8212; a cantiga &#8212;<br \/>\n    deveras que n&atilde;o sei.<\/p>\n<p> V&oacute;s que falais em romanzas, em cavatinas, em rond&oacute;s, em barcarolas,<br \/>\n    sentis um certo escr&uacute;pulo de mau gosto em falar de cantigas.<\/p>\n<p> Pois eu, se estivesse no vosso lugar, legisladores do gosto, n&atilde;o<br \/>\n    o sentiria; eu havia de dizer desafogadamente aos nossos talentos art&iacute;sticos:<br \/>\n    Fazei m&uacute;sica para cantigas inspirando-vos do gosto popular, subireis<br \/>\n    depois &agrave;s composi&ccedil;&otilde;es l&iacute;ricas ligeiras e mais<br \/>\n    tarde, no futuro, os nossos netos aplaudir&atilde;o a verdadeira &oacute;pera<br \/>\n    nacional &#8212; antes disso tent&aacute;-lo &eacute; absurdo.<\/p>\n<p> As artes t&ecirc;m todas a sua inf&acirc;ncia. E Deus nos livre de crian&ccedil;as<br \/>\n    assenhoradas que &eacute; a mais antip&aacute;tica esp&eacute;cie de Preciosas<br \/>\n    rid&iacute;culas que eu conhe&ccedil;o.<\/p>\n<p> Mas atendei a que n&atilde;o &eacute; s&oacute; dos compositores que depende<br \/>\n    a reforma.<\/p>\n<p> Alguns t&ecirc;m feito as primeiras tentativas, mas como lutar entre a tremenda<br \/>\n    potestade que se chama a moda ? Ainda me recordo de um malicioso sorriso que<br \/>\n    te vi nos l&aacute;bios quando em certa reuni&atilde;o uma senhora teve a<br \/>\n    coragem de cantar deliciosamente a can&ccedil;&atilde;o do Marujo, do drama<br \/>\n    de C&eacute;sar de Lacerda. Sorrisos como esse &eacute; que estragam tudo,<br \/>\n    Cec&iacute;lia.<\/p>\n<p> Momentos depois ouvias, j&aacute; muito sisuda e atenta, uma pequena &aacute;ria<br \/>\n    francesa, destas que os editores de romances publicam nas capas dos seus feuilletons<br \/>\n    e que se podem cantar sem ofensa do bom-tom &#8212; porque s&atilde;o francesas.<\/p>\n<p> Eu tenho vontade de promover uma revolu&ccedil;&atilde;o proclamando neste<br \/>\n    sentido: &#8212; Senhores folhetinistas, &eacute; necess&aacute;rio convencer<br \/>\n    as nossas elegantes que n&atilde;o &eacute; de mau gosto cantar em m&uacute;sica<br \/>\n    portuguesa poesia portuguesa; ridiculizai muito embora a Jovem L&iacute;lia<br \/>\n    e as antigas modinhas, mas substitu&iacute;-lhe can&ccedil;&otilde;es nacionais<br \/>\n    como elas. N&atilde;o vos mostreis benignos somente para com os ohim&eacute;s,<br \/>\n    infelices, m&iacute;seros, mios contentos e addios das letras italianas.<\/p>\n<p> A moda &eacute; um potentado. Para a combater &eacute; preciso uma alian&ccedil;a<br \/>\n    poderosa, poderos&iacute;ssima.<\/p>\n<p> N&atilde;o exijais de ningu&eacute;m desacompanhado essa fa&ccedil;anha<br \/>\n    de H&eacute;rcules.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; for&ccedil;as isoladas que bastem.<\/p>\n<p> V&oacute;s n&atilde;o criareis m&uacute;sica nacional nos sal&otilde;es<br \/>\n    e gabinetes. Desenganai- vos. Ide ao campo e &agrave;s ruas, percorrei as<br \/>\n    prov&iacute;ncias e depois ponde &agrave; moda a Euterpe r&uacute;stica que<br \/>\n    tiverdes encontrado por l&aacute;, perfumando- a e apresentando-a com a etiqueta<br \/>\n    do estilo, na sociedade elegante.<\/p>\n<p> &Eacute; uma subserviv&ecirc;ncia necess&aacute;ria. A musa popular, para<br \/>\n    se tornar nacional, tem de sujeitar-se a essas formalidades. Os promulgadores<br \/>\n    dos diplomas n&atilde;o lho dispensam. Sujeite-se, que faz bem. Coloque-se<br \/>\n    &agrave; moda, depois o resto vir&aacute; naturalmente.<\/p>\n<p> A&iacute; tens o meu modo de pensar.<\/p>\n<p> Em troca da tua disserta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fico-art&iacute;stica,<br \/>\n    que me impacientou &#8212; por inintelig&iacute;vel &#8212; dou-te uma opini&atilde;o<br \/>\n    de leiga que te revoltar&aacute; &#8212; por absurda.<\/p>\n<p> Estamos quites.<\/p>\n<p> At&eacute; outra ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Continuo a ser toda ao teu, dispor.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Janeiro de 1865.<br \/>\n    Diana de Aveleda.<\/b><\/p>\n<h2>A ILHA DA MADEIRA<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>Funchal, Mar&ccedil;o 1870<\/b><\/p>\n<p>Meu amigo Funchal, Mar&ccedil;o 1870 <\/p>\n<p>Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando<br \/>\n    em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, &agrave; procura do ideal<br \/>\n    que se chama sa&uacute;de.<\/p>\n<p> Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geol&oacute;gica, a flora, a fauna da ilha e todas as quest&otilde;es m&eacute;dicas,<br \/>\n    econ&oacute;micas e pol&iacute;ticas que se prendem a este torr&atilde;o fertil&iacute;s-<br \/>\n    simo. O meu intento &eacute; mais modesto.<\/p>\n<p> Quero mostrar-lhe a Madeira atrav&eacute;s das individualissimas impres&#8226;<br \/>\n    s&otilde;es que o meu esp&iacute;rito recebe nela e isto sem plano, sem m&eacute;todo,<br \/>\n    sem coordena&ccedil;&atilde;o did&aacute;ctica e s&oacute; conforme a corrente<br \/>\n    irregular e capri&#8226; chosa das minhas ideias.<\/p>\n<p> Fazer-lhe esta observa&ccedil;&atilde;o equivale a avis&aacute;-lo de que<br \/>\n    n&atilde;o ser&atilde;o de tintas muito vivas os quadros que tra&ccedil;arei.<\/p>\n<p> A imagina&ccedil;&atilde;o de um valetudinario tinge de cores amortecidas<br \/>\n    as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele<br \/>\n    o brilho do Sol &eacute; visto como atrav&eacute;s de um cristal corado; perceb<br \/>\n    e as grada&ccedil;&otilde;es de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som&#8226;<br \/>\n    brio do cristal, que neste caso se chama: preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater<br \/>\n    asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sempre que as empreendemos, for&ccedil;ados por uma triste necessidade e partimos<br \/>\n    levando o esp&iacute;rito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento<br \/>\n    doloroso, Nada ent&atilde;o nos compensa as l&aacute;grimas da despedida e<br \/>\n    o cruel confrangimento do cora&ccedil;&atilde;o, que responde ao &uacute;ltimo<br \/>\n    adeus do amigo que, de olhos h&uacute;midos, nos acena da gare do caminho<br \/>\n    de ferro ou nos aperta a m&atilde;o no tombadilho do vapor. Partimos com a<br \/>\n    alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de j&uacute;bilo que<br \/>\n    se mistu&#8226; ram &agrave;s saudades de quem se aparta dos seus, seduzido<br \/>\n    pelo prazer de viajar.<\/p>\n<p> Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos &Iacute;ntimos,<br \/>\n    parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a v&ecirc;-la.<br \/>\n    E n&atilde;o h&aacute; um clar&atilde;o de esperan&ccedil;a a responder a<br \/>\n    essa interroga&ccedil;&atilde;o! Que tristeza a daquele instante! Depois o<br \/>\n    mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento!<br \/>\n    Olhar em roda e n&atilde;o avistar um s&oacute; desses objectos que nos falam<br \/>\n    do passado, da fam&iacute;lia, do remanso dom&eacute;stico! Ver tudo em movimento,<br \/>\n    tudo em irrequieta&ccedil;&atilde;o, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer<br \/>\n    a instintiva &acirc;nsia de repouso que sen&#8226; timos, de elevar os olhos<br \/>\n    para o C&eacute;u, como faz o homem desalen&#8226; tado pelo tumultuar das<br \/>\n    vagas da vida e que considera aquela outra p&aacute;tria como o &uacute;nico<br \/>\n    lugar do verdadeiro repouso. Impress&otilde;es s&atilde;o estas que n&atilde;o<br \/>\n    dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.<\/p>\n<p> Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano &eacute; um desconso- la,dor<br \/>\n    companheiro para a alma naquelas disposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso&#8226; ladores<br \/>\n    se avista al&eacute;m, muito al&eacute;m no horizonte, uma sombra mal dis&#8226;<br \/>\n    tinta, atrav&eacute;s da qual s&oacute; o olhar amestrado do marinheiro consegue<br \/>\n    distinguir a terra demandada, sa&uacute;da-se essa sombra como uma pro&#8226;<br \/>\n    messa de reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Todos os olhos a procuram com ansiedade e, &agrave; medida que ela se ergue<br \/>\n    e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se<br \/>\n    enfim, tal qual &eacute;, entre o azul do mar e o azul do c&eacute;u, dissipa-se<br \/>\n    a mais e mais a cerra&ccedil;&atilde;o da melancolia que nos pousava no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas&#8226; t&iacute;ssimos,<br \/>\n    abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o esp&iacute;rito,<br \/>\n    cansado daquela imensidade e irrequieta agita&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas,<br \/>\n    voa a engolfar-se no rega&ccedil;o das verduras que parec e haverem enfim<br \/>\n    obedecido &agrave; evoca&ccedil;&atilde;o das suas nost&aacute;lgicas saudades.<\/p>\n<p> Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a<br \/>\n    mitol&oacute;gica Citereia, crescia para n&oacute;s a receber-nos, abrindo<br \/>\n    o seu seio,ben&eacute;fico e maternal aos desconfortados que nela s&oacute;<br \/>\n    depositavam as suas derradeiras esperan&ccedil;as, sent&iacute;amos todos<br \/>\n    pene- trar-nos o cora&ccedil;&atilde;o um desses suaves prazeres como o que<br \/>\n    nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de<br \/>\n    um sorriso de amigo.<\/p>\n<p> Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena<br \/>\n    perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha r&aacute;pida do<br \/>\n    vapor fez-nos dobrar o cabo de S&atilde;o Louren&ccedil;o; transpondo o amplo<br \/>\n    p&oacute;rtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se<br \/>\n    uma s&uacute;bita mudan&ccedil;a de clima, como se de repente se tivessem<br \/>\n    vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa t&eacute;pida<br \/>\n    e perfumada da ilha, aspir&aacute;mos com prazer o h&aacute;lito acalentador<br \/>\n    e salut&iacute;fero desta fada mar&iacute;tima; ach&aacute;vamo-nos sob o<br \/>\n    seu aben&ccedil;oado encantamento, reco&#8226; nhec&iacute;amos enfim a Madeira!<br \/>\n    A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar&#8226; padas,<br \/>\n    as suas ribeiras profundas, a sua vegeta&ccedil;&atilde;o vigorosa, as suas<br \/>\n    formid&aacute;veis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales<br \/>\n    fertil&iacute;ssimos e as povoa&ccedil;&otilde;es graciosas.<\/p>\n<p> Momentos depois, vencida a ponta do Garaj&atilde;o, as casas e as quintas<br \/>\n    do Funchal, iluminadas por. um espl&ecirc;ndido sol de Outono, que dourava<br \/>\n    as extensas planta&ccedil;&otilde;es de cana, saudaram-nos por sua vez.<\/p>\n<p> A magia do espect&aacute;culo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro<br \/>\n    as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo<br \/>\n    a crian&ccedil;a adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.<\/p>\n<p> Dentro em pouco pous&aacute;vamos p&eacute; em terra.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; grata a impress&atilde;o recebida ao desembarcar. Costumados<br \/>\n    aos extensos e alvejantes areais das nossas praias t&atilde;o ricas de formo&#8226;<br \/>\n    s&iacute;ssimas conchas e em cujas penhas se formam aqu&aacute;rios naturais,<br \/>\n    onde aos raios do Sol as act&iacute;nias matizadas escondem os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    gela&#8226; tinosos e as algas crescem em delicad&iacute;ssimas arboriza&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    costuma&#8226; dos &agrave;s praias risonhas que atraem as mulheres e as crian&ccedil;as<br \/>\n    com o animado e variad&iacute;ssimo espect&aacute;culo que lhes oferecem e<br \/>\n    os abun&#8226; dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas m&oacute;veis<br \/>\n    areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus<br \/>\n    roli&ccedil;os, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais<br \/>\n    que s&atilde;o o principal atractivo da beira-mar.<\/p>\n<p> Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vest&iacute;gios<br \/>\n    do cataclismo vulc&acirc;nico que a arremessou &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    das &aacute;guas. Dir- -se-ia que ainda est&aacute; defumada e quente do fogo<br \/>\n    do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do viajante.<\/p>\n<p> Entr&aacute;mos na cidade. H&aacute; um n&atilde;o sei qu&ecirc; de melanc&oacute;lico<br \/>\n    no aspecto dela. Por isso mesmo que &eacute; a generosa consoladora de tantos<br \/>\n    aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de<br \/>\n    toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo,<br \/>\n    parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaix&atilde;o<br \/>\n    que &eacute;, por assim &#8216;dizer, a alegria da caridade.<\/p>\n<p>N&atilde;o nos sentimos impelidos a saud&aacute;-la com um c&acirc;ntico<br \/>\n    festivo, com uma aclama&ccedil;&atilde;o de prazer; mas apenas com uma serena<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o, igual &agrave;quela com que se beija a m&atilde;o generosa<br \/>\n    que se estende a socor- rer-nos ou a enxugar-nos as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &Oacute; Funchal! Que tristes dramas se t&ecirc;m passado &agrave; luz do<br \/>\n    teu sol ben&eacute;fico! Que lutuosos desenlaces de tantas hist&oacute;rias<br \/>\n    de paix&otilde;es! Que de l&aacute;grimas ardentes ca&iacute;das no teu solo<br \/>\n    sequioso que se apressa a escond&ecirc;-las discreto! E &agrave; sombra das<br \/>\n    tuas &aacute;rvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso<br \/>\n    da cruel melancolia! Ilus&otilde;es desvanecidas, esperan&ccedil;as desfolhadas,<br \/>\n    sonhos de amor, de gl&oacute;ria, de felicidade, dos quais se desperta &agrave;<br \/>\n    beira do t&uacute;mulo, tudo tens presenciado, &oacute; humanit&aacute;ria<br \/>\n    cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemit&eacute;rios dormem<br \/>\n    o &uacute;ltimo sono muitos m&aacute;rtires sem que as l&aacute;grimas dos<br \/>\n    que os amaram lhes caiam na campa como tributo.<\/p>\n<p> Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irm&atilde;<br \/>\n    de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma miss&atilde;o cristian&iacute;ssima,<br \/>\n    brilham entre cenas e espect&aacute;culos de deso&#8226; la&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de dor.<\/p>\n<p> Este car&aacute;cter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior<br \/>\n    dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras p&aacute;lidas,<br \/>\n    emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta&#8226; das em redes,<br \/>\n    encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi&#8226; ta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; s&atilde;o ingleses<br \/>\n    cadav&eacute;ricos, alem&atilde;es di&aacute;fanos, portugueses des&#8226;<br \/>\n    carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; s&atilde;o velhos, adultos,<br \/>\n    crian&ccedil;as, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo,<br \/>\n    todos a convencer-nos de que estamos na citt&agrave; dolente; mas no p&oacute;r&#8226;<br \/>\n    tico desta n&atilde;o se l&ecirc; gravado o d&iacute;stico desesperador que<br \/>\n    o poeta ins&#8226; creveu no da regi&atilde;o das tormentas eternas. Pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, &agrave; entrada aqui, revestem-se de esperan&ccedil;a os<br \/>\n    pr&oacute;prios condenados.<\/p>\n<p> Para que a Madeira nos sorria, para que nos apare&ccedil;a formosa como<br \/>\n    a descreve o poeta ingl&ecirc;s e fragrante como uma verdadeira flor do oceano,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio sair do recinto da cidade, procurar as fregue&#8226;<br \/>\n    sias rurais, subir as &iacute;ngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar<br \/>\n    ent&atilde;o a vista pelos formos&iacute;ssimos vales que v&atilde;o descobrindo<br \/>\n    o seio fecund&iacute;ssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade<br \/>\n    de vegeta&ccedil;&atilde;o ! O verde dourado da cana real&ccedil;a entre as<br \/>\n    diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira<br \/>\n    de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana&#8226;<br \/>\n    neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de vi&ccedil;o nos<br \/>\n    mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras<br \/>\n    odor&iacute;feras. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espont&acirc;neas<br \/>\n    &agrave; beira dos caminhos; debru&ccedil;am-se dos muros as &laquo;bou- gainvillias&raquo;<br \/>\n    entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bign&oacute;nias;<br \/>\n    tudo tem um ar de festa e alegria. A cho&ccedil;a mais humilde tem um jardim<br \/>\n    &agrave; entrada; as flores sorriem &agrave; porta dos ricos e dos pobres.<\/p>\n<p> E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do pa&iacute;s.<br \/>\n    De um lado vemos aos nossos p&eacute;s, o mar liso como um espelho, azul como<br \/>\n    safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado<br \/>\n    da dist&acirc;ncia; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos<br \/>\n    cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos<br \/>\n    em fundas que&#8226; bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno,<br \/>\n    uma vege&#8226; ta&ccedil;&atilde;o exuberante, cheia de vida, encobrindo<br \/>\n    aqui uma casa isolada, enfeitando al&eacute;m uma povoa&ccedil;&atilde;o risonha,<br \/>\n    que se agrupa em torno de um campan&aacute;rio.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o sim, ent&atilde;o a atmosfera embriaga, o peito aspira com<br \/>\n    volup- tuosidade esse ar bals&acirc;mico, o esp&iacute;rito liberta-se de<br \/>\n    todas as apreen&#8226; s&otilde;es que nos gelavam os sorrisos nos l&aacute;bios<br \/>\n    e goza-se despreocupado do mais surpreendente espect&aacute;culo que pode<br \/>\n    imaginar-se.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; a natureza que t&atilde;o af&aacute;vel<br \/>\n    e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impress&otilde;es<br \/>\n    igual&#8226; mente gratas, igualmente consoladoras lhes v&ecirc;m de origem<br \/>\n    diversa.<\/p>\n<p> &Eacute; geral a simpatia que os doentes inspiram &agrave; gente da Madeira.<br \/>\n    Se os doces afectos de fam&iacute;lia, se os carinhos de uma esposa, de uma<br \/>\n    m&atilde;e ou de uma filha se podem substituir no mundo, &eacute; aqui a terra<br \/>\n    para tentar a experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram,<br \/>\n    que n&atilde;o conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os<br \/>\n    progressos das vossas melhoras ou as alterna&#8226; tivas do vosso padecimento.<\/p>\n<p> Com o olhar que a experi&ecirc;ncia tem amestrado, estudam-vos no semblante<br \/>\n    as probabilidades de bom ou mau &ecirc;xito na luta pertinaz da natureza contra<br \/>\n    o influxo fatal que vos subjuga. E esse progn&oacute;stico &eacute; quase<br \/>\n    sempre infal&iacute;vel.<\/p>\n<p> Rara &eacute; a fam&iacute;lia que, levada por generosa curiosidade, se<br \/>\n    n&atilde;o informe com o m&eacute;dico que a visita ou com os propriet&aacute;rios<br \/>\n    dos hot&eacute;is, do estado dos estrangeiros doentes.<\/p>\n<p> Nestas vit&oacute;rias do clima sobre a doen&ccedil;a, est&atilde;o empenhados<br \/>\n    os brios e o principal bras&atilde;o da terra, e o amor p&aacute;trio &eacute;<br \/>\n    um sentimento profundamente entranhado no cora&ccedil;&atilde;o deste povo.<br \/>\n    Uma cura operada &eacute; um triunfo e todos a conservam na tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gloriosa da terra com simp&aacute;tico e louv&aacute;vel orgulho.<\/p>\n<p> A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani&#8226;<br \/>\n    festa&ccedil;&atilde;o, exerce-se mais eficaz e aben&ccedil;oada ainda. As<br \/>\n    formosas madei&#8226; renses, e quem, tendo visitado esta terra, n&atilde;o<br \/>\n    conservar&aacute; mem&oacute;ria delas? condescendem muita vez em animar a<br \/>\n    alma desolada dos soli&#8226; t&aacute;rios enfermos com o raio vivificador<br \/>\n    dos seus olhares magn&eacute;ticos. Amor&aacute;veis, movidas por uma generosa<br \/>\n    simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro,<br \/>\n    e iluminam os &uacute;ltimos dias de uma triste exist&ecirc;ncia com a doce<br \/>\n    luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o partido de saudades, lhes devem os &uacute;ltimos<br \/>\n    doces sonhos da sua vida, as derra&#8226; deiras ilus&otilde;es e um tributo<br \/>\n    de l&aacute;grimas na campa? Anjos ador&aacute;veis, cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    generosos, v&oacute;s concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa<br \/>\n    miss&atilde;o que se desempenha aqui. &Agrave;s vezes sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    do vosso amor, voltam as cores &agrave;s faces desmaiadas, um sangue novo<br \/>\n    circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida<br \/>\n    o que a ci&ecirc;ncia j&aacute; condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos<br \/>\n    nos l&aacute;bios um nome querido, no pensamento uma imagem e no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a esperan&ccedil;a de que n&atilde;o ficar&aacute; sem sentido para todos<br \/>\n    a inscri&ccedil;&atilde;o funer&aacute;ria que lhes gravarem na lousa.<\/p>\n<p> Aben&ccedil;oadas sejais pelo conforto que tendes dado &atilde;s almas tristes,<br \/>\n    que sucumbiam &agrave; m&iacute;ngua dele! Reparo por&eacute;m agora, meu<br \/>\n    amigo, no tom eleg&iacute;aco que vai tomando a missiva. Ser&aacute; prudente<br \/>\n    parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre. <\/p>\n<p align=\"right\"><b>Seu do cora&ccedil;&atilde;o<\/b><\/p>\n<h2>CARTAS PARTICULARES<\/h2>\n<p>A SEU PAI QUANDO TEVE NOT\u00cdCIAS DA SUA NOMEA\u00c7\u00c3O DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA<br \/>\n    M\u00c9DICA DO PORTO<\/p>\n<p>Pap&aacute;<\/p>\n<p>A estas horas &eacute; prov&aacute;vel que j&aacute; saiba que estou despachado.<br \/>\n    N&atilde;o tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando<br \/>\n    disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; com a data de 20 que ele vem no Di&aacute;rio de 22.<\/p>\n<p> Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Di&aacute;rio. O<br \/>\n    amanuense da Escola escreveu-me tamb&eacute;m. Finalmente est&aacute; decidido;<br \/>\n    acabaram-se todas as d&uacute;vidas e inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Nesta ocasi&atilde;o em que o meu futuro se fixou, n&atilde;o posso deixar<br \/>\n    de me recordar do muito que devo ao Pap&aacute; pelos sacrif&iacute;cios feitos<br \/>\n    por mim.<\/p>\n<p> Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer<br \/>\n    que me causa, sei que n&atilde;o menos intenso havia de pro&#8226; duzir no<br \/>\n    Pap&aacute;, que at&eacute; agora t&atilde;o improf&iacute;cuos tinha visto<br \/>\n    ficarem os seus grandes esfor&ccedil;os para a felicidade dos filhos.<\/p>\n<p> Meus irm&atilde;os foram privados, n&atilde;o sei por que vistas providen&#8226;<br \/>\n    ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou t&atilde;o novos, parece<br \/>\n    ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia<br \/>\n    a resigna&ccedil;&atilde;o do Pap&aacute;.<\/p>\n<p> Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que n&atilde;o me faltar&aacute;<br \/>\n    a vida e a sa&uacute;de para poder cumprir essa miss&atilde;o talvez providencial.<\/p>\n<p> Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri&#8226; f&iacute;cios<br \/>\n    e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava n&atilde;o mos<br \/>\n    fazer sentir.<\/p>\n<p>Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra<br \/>\n    com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Seu filho grato e afectuoso Joaquim &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br \/>\n    <\/b><\/p>\n<p>Felgueiras, 24 de Julho de 1865.<\/p>\n<p>A SEU PAI, DE FINS DE MAR&Ccedil;O DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTA&Ccedil;&Atilde;O<br \/>\n    DAS &laquo;PUPILAS&raquo; EM LISBOA<\/p>\n<p align=\"right\"><b>(In&eacute;dita)<\/b><\/p>\n<p><b>Pap&aacute;<\/b><\/p>\n<p>Continuo a passar bem e por enquanto n&atilde;o posso dizer quando partirei.<\/p>\n<p> As &laquo;Pupilas&raquo; foram bem desempenhadas e prometem dar &agrave;<br \/>\n    empresa bastantes enchentes.<\/p>\n<p> Do que se passou na noite em que eu l&aacute; estive d&aacute; conta exacta<br \/>\n    a noticia que envio, a qual foi publicada por um Di&aacute;rio daqui. Ontem<br \/>\n    esperavam-me &agrave; noite em casa do Mendes Leal, mas como &agrave;s segundas-<br \/>\n    -feiras &eacute; l&aacute; reuni&atilde;o de etiqueta, a que se vai de casaca<br \/>\n    e em rigor, fui para o teatro franc&ecirc;s e dei por desculpa que n&#038;atiatilde;o<br \/>\n    queria deixar a com&#8226; panhia com quem tinha vindo a Lisboa.<\/p>\n<p> No teatro da Trindade, no s&aacute;bado, pediu-me o Mendes Leal para ir<br \/>\n    ao camarote dele, visto este n&atilde;o poder deixar s&oacute; as senhoras<br \/>\n    com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre<br \/>\n    elas, o Chami&ccedil;o. O Castilho j&aacute; me veio visitar.<\/p>\n<p> As &laquo;Pupilas&raquo; foram postas em cena com bastante fidelidade de<br \/>\n    vestu&aacute;rio e de costumes.<\/p>\n<p> O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante<br \/>\n    animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco&#8226; nhecer.<br \/>\n    No 6.&deg; quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a m&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei<br \/>\n    todo o quadro final.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o recomenda&ccedil;&otilde;es a toda a fam&iacute;lia e ao tio<br \/>\n    Bernardo.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o tamb&eacute;m que mande entregar ao Dr. Reim&atilde;o os livros<br \/>\n    que ai deixei para ele e que se algu&eacute;m a&iacute; for procurar os exemplares<br \/>\n    da Disserta&ccedil;&atilde;o do Il&iacute;dio, lhe entreguem os que est&atilde;o<br \/>\n    em um dos arm&aacute;rios inferiores da estante.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o esque&ccedil;a tamb&eacute;m mandar-me esfregar o quarto.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Seu f.o ob.te Joaquim.<\/b><\/p>\n<h2>A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO<\/h2>\n<h5><b> Anitas<\/b><\/h5>\n<p>Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, n&atilde;o me quis deitar sem<br \/>\n    primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito<br \/>\n    p&oacute; pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.<\/p>\n<p> Ceei bem e espero dormir melhor.<\/p>\n<p> A estas horas em que te estou a escrever j&aacute; tu deves estar sonhando<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas<br \/>\n    agrad&aacute;veis e que acordaste pela manh&atilde; satisfeita da tua vida.<\/p>\n<p> Espero que te lembres de mim ainda que seja s&oacute; quando almo&#8226;<br \/>\n    &ccedil;ares em S&atilde;o Jo&atilde;o Novo e tiveres de fazer por ti mesma<br \/>\n    as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e<br \/>\n    reco- menda-me &agrave; Mam&atilde;, a quem hei-de escrever breve, e aos teus<br \/>\n    dois manos e, se te n&atilde;o esqueceres, faz tamb&eacute;m as visitas do<br \/>\n    costume &agrave;s pessoas que sabes.<\/p>\n<p> O Guilherme &#8216; disse-me o n&uacute;mero da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me.<br \/>\n    V&ecirc; se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Jos&egrave;zinho<br \/>\n    ! para ma enviar com a dele.<\/p>\n<p> Adeus.<\/p>\n<p>Ovar, 7-5-63.<\/p>\n<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Teu tio e muito amigo Joaquim<\/b><\/p>\n<h2>UMA DAS MINHAS MADRUGADAS CARTA A CEC&Iacute;LIA<\/h2>\n<p align=\"right\"><b>(In&eacute;dita)<\/b> <\/p>\n<p>Na antev&eacute;spera da nossa partida, o administrador, vindo visitar- nos,<br \/>\n    perguntou-nos quais os nossos projectos para o dia seguinte.<\/p>\n<p> &#8212; O arranjo das malas, respondeu-lhe a L&#8230; sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Por amor de Deus ;&#8212;disse aquele jovial companheiro dos nossos<br \/>\n    ser&otilde;es da aldeia. &#8212; Por amor de Deus! V. Ex.as fazem-me recordar<br \/>\n    o tempo das liteiras e das jornadas com almocreves, os meus bons tempos de<br \/>\n    Coimbra. O arranjo das malas ! isso, actualmente, &eacute; obra de uma hora<br \/>\n    quando muito.<\/p>\n<p> &#8212; Mas tamb&eacute;m que mais curiosidades nos pode oferecer a sua<br \/>\n    terra meu caro senhor doutor? A seus olhos triplicemente investigadores de<br \/>\n    arque&oacute;logo, de naturalista e de poeta, que poder&aacute; ter ainda<br \/>\n    escapado ? &#8212; O mosteiro.<\/p>\n<p> &#8212; O mosteiro ?! Escuso dizer-te, Cec&iacute;lia, que fic&aacute;mos<br \/>\n    j&aacute; sem a menor vontade de contrariar o nosso cicerone. Eu a acabar<br \/>\n    de pronunciar aquela palavra m&aacute;gica &#8212; mosteiro &#8212; e logo<br \/>\n    um mundo todo de fantasia, como se evocado por um cond&atilde;o misterioso,<br \/>\n    a surgir-me, a encantar- me, a pedir-me toda a aten&ccedil;&atilde;o aos meus<br \/>\n    sentidos distra&iacute;dos&#8230; Um mosteiro ! E n&oacute;s h&aacute; um m&ecirc;s<br \/>\n    ali, ignorando-lhe a exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Sabe, doutor &#8212; disse-lhe eu &#8212; que &eacute; indesculp&aacute;vel<br \/>\n    a leviandade com que at&eacute; hoje se tem conservado silencioso em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a esse mosteiro? N&atilde;o&#8217;nos podia ter prevenido da exist&ecirc;ncia dele,<br \/>\n    para eu ao menos me preparar com a leitura ale Walter Scott e ir bem prevenida<br \/>\n    do esp&iacute;rito fantasioso que concebeu a &laquo;Dama do Lago&raquo;, aquela<br \/>\n    deliciosa cria&ccedil;&atilde;o?&#8212; Seria uma triste desilus&atilde;o<br \/>\n    para V. Ex.as quando vissem as mudan&ccedil;as que o tempo exerceu naquele<br \/>\n    antigo retiro de virgens.<\/p>\n<p> &#8212; E de mais a mais mosteiro de monjas extintas! &Oacute; doutor, cada<br \/>\n    vez estou menos disposta a perdoar-lhe. O tempo! as mudan&ccedil;as do tempo?<br \/>\n    Tem gra&ccedil;a. Tanto melhor. Hera pelos muros, n&atilde;o &eacute; isso<br \/>\n    que quer dizer? Est&aacute;tuas derrubadas, fustes partidos, capit&eacute;is<br \/>\n    despeda&ccedil;ados nos lajedos, baldaquins e cornijas servindo de asilo &agrave;s<br \/>\n    aves? Tudo isso aumenta prodigiosamente o interesse da cena. Pois uma lenda<br \/>\n    bem conservada na mem&oacute;ria do povo vizinho, cheia de maravilhoso, cheia<br \/>\n    de fant&aacute;stico. Diga, diga se h&aacute; em toda esta sua terra, a que<br \/>\n    tanto quer, coisa mais digna de se mostrar e menos capaz de se esquecer ?<br \/>\n    &#8212; Infelizmente, minha senhora &#8212; continuava o desapiedado doutor,<br \/>\n    parecendo deliciar-se em destruir todas estas minhas fantasias com a indiferen&ccedil;a<br \/>\n    revoltante do bot&acirc;nico que desconjunta a mais bela flor do campo para<br \/>\n    &#8212; in&uacute;til crueldade &#8212; para a classificar. &#8212; Infelizmente,<br \/>\n    minha senhora, o mosteiro onde desejo conduzi-las oferece pouco alimento &agrave;<br \/>\n    curiosidade justificadamente feminil de V. Ex.as. N&atilde;o &eacute; a poesia<br \/>\n    do tempo que se respira ali. Desta vez deu-lhe o mitol&oacute;gico velho para<br \/>\n    ser utilit&aacute;rio e esqueceu os seus antigos brios de poeta.<\/p>\n<p> Ver&atilde;o V. Ex.as a cerca aproveitada para hortas, transformadas as<br \/>\n    celas em tulhas e vivendas de rendeiros e a igreja invadida pela cal e pelo<br \/>\n    desastrado pincel do &uacute;nico artista da localidade.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso n&atilde;o vamos.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o? &#8212; disse a L&#8230; &#8212; deixa falar o doutor.<br \/>\n    Eu te prometo que a poesia e a saudade do passado conseguir&atilde;o romper<br \/>\n    toda essa grande camada de prosa. Os perfumes de uma e de outra h&atilde;o-de<br \/>\n    subir ao ar com os vapores que de tarde se elevam de entre o milho desses<br \/>\n    mesmos campos, penetrar nas celas com os &uacute;ltimos raios de sol, voejar<br \/>\n    na igreja com as part&iacute;culas coloridas da poeira que a claridade de<br \/>\n    uma fresta venha iluminar.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo! &#8212; exclamou o doutor. &#8212; Com essa boa vontade,<br \/>\n    minhas senhoras, n&atilde;o h&aacute; poesia que se n&atilde;o encontre.<\/p>\n<p> &#8212; Emprazamo-lo para amanh&atilde;, doutor.<\/p>\n<p> &#8212; E t&ecirc;m coragem de madrugar ? &#8212; Boa! Ao romper do dia<br \/>\n    estaremos prontas.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, at&eacute; ao romper do dia de amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Tu sabes como eu sou, Cec&iacute;lia, podes imaginar em que az&aacute;fama<br \/>\n    andou toda aquela noite a minha fantasia. Eu que ainda n&atilde;o consegui<br \/>\n    olhar com indiferen&ccedil;a para o convento de Monchique, do Porto, n&atilde;o<br \/>\n    obstante estar desde crian&ccedil;a habituada com aquelas ru&iacute;nas e<br \/>\n    apesar da influ&ecirc;ncia do Trem, da Alf&acirc;ndega e de tudo, como poderia<br \/>\n    receber de &acirc;nimo frio a inesperada promessa de um mosteiro retirado,<br \/>\n    quase destru&iacute;do, talvez ignorado de todos ou pelo menos ignorado por<br \/>\n    mim, Porque para mim &eacute; de facto nova a exist&ecirc;ncia do convento<br \/>\n    de&#8230; das&#8230;<\/p>\n<p> Ent&atilde;o n&atilde;o queres tu ver que nem nome lhe posso dar!<\/p>\n<p>Pois &eacute; verdade, satisfiz-me com a denomina&ccedil;&atilde;o gen&eacute;rica<br \/>\n    de mosteiro e nem me lembrou perguntar qual a invoca&ccedil;&atilde;o sob<br \/>\n    que foi erigido aquele obscuro asilo de almas t&iacute;midas e qual a ordem<br \/>\n    mon&aacute;stica que por tanto tempo o habitou.<\/p>\n<p> Mas que importa? N&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m uma mem&oacute;ria arqueol&oacute;gica<br \/>\n    que eu te escrevo. &Eacute; uma carta, como todas as minhas, como todas as<br \/>\n    tuas em que se diz tudo quanto lembra e n&atilde;o se fica respons&aacute;vel<br \/>\n    por nada do que esqueceu.<\/p>\n<p> Mas, como eu te dizia, cismei e sonhei em monjas toda a noite.<\/p>\n<p> Lembrou-me efectivamente Walter Scott e lembrou-me tamb&eacute;m Meyerbeer.<\/p>\n<p> A dan&ccedil;a fant&aacute;stica que no quarto acto do Roberto fascinava<br \/>\n    o filho de Bertrand e cuja m&uacute;sica, por uma diab&oacute;lica coincid&ecirc;ncia,<br \/>\n    a L&#8230; lhe deu para tocar essa noite no piano, parecia atordoar-me tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Acordei deste sono pouco restaurador quando me vieram dizer que principiava<br \/>\n    a madrugada e que h&aacute; muito havia luz no quarto do doutor.<\/p>\n<p> Tu n&atilde;o sabes bem ao certo o que &eacute; uma madrugada, tu a quem<br \/>\n    vai despertar no teu tranquil&iacute;ssimo bairro o ru&iacute;do das dez horas<br \/>\n    da manh&atilde;; nem eu me proponho a fazer-te a an&aacute;lise dos encontrados<br \/>\n    sentimentos que nos agitam em tais ocasi&otilde;es. Dir-te-ei s&oacute;, de<br \/>\n    passagem, que parece que naqueles momentos a habitual corrente das nossas<br \/>\n    ideias muda de direc&ccedil;&atilde;o. Costumadas a pensar no meio de um determinado<br \/>\n    grupo de condi&ccedil;&otilde;es, de luz, de movimento, de vida, quase sempre<br \/>\n    as mesmas, quando em presen&ccedil;a de condi&ccedil;&otilde;es t&atilde;o<br \/>\n    outras das ordin&aacute;rias, como s&atilde;o as de uma madrugada, como que<br \/>\n    os nossos pensamentos tomam uma diversa fei&ccedil;&atilde;o e novas solu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a problemas, que t&iacute;nhamos por definitivamente resolvidos, avultam e<br \/>\n    avultam sob um aspecto t&atilde;o luminoso que todos os mais ofusca.<\/p>\n<p> Isto n&atilde;o &eacute; filosofia, sossega; &eacute; a simples express&atilde;o<br \/>\n    do que eu senti quando acordada por L&#8230; me dispunha, n&atilde;o sem um pouco<br \/>\n    de m&aacute; vontade, a cumprir a promessa feita na v&eacute;spera ao doutor.<\/p>\n<p> AL&#8230; estava admirada do meu sil&ecirc;ncio, pois desde que principiara<br \/>\n    a vestir-me n&atilde;o lhe dera uma palavra s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Em que pensas tu? &#8212; disse-me por fim, impaciente &#8212; se<br \/>\n    isso n&atilde;o &eacute; ainda sonhar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o. Queres saber? Penso que talvez<br \/>\n    n&atilde;o tiveram raz&atilde;o os que mandaram fechar as portas dos conventos<br \/>\n    e proibiram as profiss&otilde;es.<\/p>\n<p> AL&#8230; obrigou-me a repetir esta resposta.<\/p>\n<p> &#8212; Que extravagante reflex&atilde;o pol&iacute;tica &eacute; essa tua<br \/>\n    agora?! &#8212; &Eacute; que eu, por mais que tenha estado a recordar-me dos<br \/>\n    argumentos pelos quais havia conseguido, julgava eu, convencer-me da utilidade<br \/>\n    de tal reforma, n&atilde;o os encontro.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc; se os deixaste no travesseiro &#8212; disse a L&#8230;, rindo.<\/p>\n<p>&#8212; Olha que te falo s&eacute;ria! Nesse caso dir-te-ei que a raz&atilde;o<br \/>\n    mais justificativa, a meu ver, &eacute; a de nos ter proporcionado esta visita<br \/>\n    matinal, que espero ser&aacute; deliciosa.<\/p>\n<p> Porque, olha que se existissem l&aacute; freiras que n&atilde;o fossem penadas,<br \/>\n    tudo mudava.<\/p>\n<p> Eu odeio, como sabes, os doces e os conceitos das freiras e decididamente<br \/>\n    n&atilde;o acompanharia o doutor, se me esperassem l&aacute; essas duas esp&eacute;cies<br \/>\n    de gulodices.<\/p>\n<p> N&atilde;o gostei da fei&ccedil;&atilde;o jocosa que a L&#8230; continuava a<br \/>\n    dar &agrave; conversa, e por isso calei-me.<\/p>\n<p> A ditadura de D. Pedro IV estava a ser julgada no tribunal da minha consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc;s que o momento era solene.<\/p>\n<p> Tal se manifestou em mim desta vez a influ&ecirc;ncia da madrugada.<\/p>\n<p> Mais poder do que as jovialidades de L&#8230; teve por&eacute;m a voz do administrador<br \/>\n    cantando junto de nossas janelas como o baixo no primeiro acto do Trovador:<br \/>\n    Alerta! Alerta! Respondemos-lhe pondo os chap&eacute;us e apresentando-nos<br \/>\n    na rua.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos a saber, doutor, inventou alguma bonita mentira para nos contar<br \/>\n    quando estivermos no mosteiro? &#8212; Eu?! &#8212; Sim; &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    que h&aacute; tanto tempo nesta terra tenha resistido &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de meditar a esse respeito algum romance.<\/p>\n<p> &#8212; Um romance meditado no gabinete da administra&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Nem V. Ex.&quot; sabe o que pede.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso medite-o no caminho porque n&atilde;o posso dispensar<br \/>\n    uma hist&oacute;ria quando visito ru&iacute;nas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um mau sistema. O mais interessante &eacute; fantasi&aacute;-la<br \/>\n    cada um a seu modo na ocasi&atilde;o. &Eacute; a maneira melhor de nos satisfazer.<br \/>\n    Eu por mim tenho sempre achado muito aqu&eacute;m do merecimento da cena as<br \/>\n    lendas dos s&iacute;tios que visito.<\/p>\n<p> E neste conversar fomos n&oacute;s matando o tempo do nosso curto passeio.<\/p>\n<p> Como sabes est&aacute;vamos no Outono e as manh&atilde;s eram j&aacute;<br \/>\n    repassadas daquela suav&iacute;ssima poesia da tua esta&ccedil;&atilde;o predilecta.<\/p>\n<p> O caminho que segu&iacute;amos, ora por vales cheios de sombras e de mist&eacute;rios,<br \/>\n    ora por planuras desafogadas, compensaria de sobra o sacrif&iacute;cio da<br \/>\n    madrugada, quando a visita do mosteiro nos n&atilde;o reservasse outra compensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Agrave;quela hora do dia h&aacute; mais vida nos campos do que nesses magn&iacute;ficos<br \/>\n    sarc&oacute;fagos que se chamam cidades.<\/p>\n<p> Cantam nos montes os guardadores de gado, nos ribeiros as lavadeiras, os<br \/>\n    lavradores nos campos e o moleiro ao ru&iacute;do das levadas despeda&ccedil;ando-se<br \/>\n    nas rodas das azenhas.<\/p>\n<p> Depois e melhor que todos cantam as aves e tantas e t&atilde;o variadas<br \/>\n    na cor, no canto e no voo que eu n&atilde;o sei como h&aacute; naturalistas<br \/>\n    que as conhe&ccedil;am a todas, se &eacute; verdade o que se diz.<\/p>\n<p> Eu sinto-me outra em passeios assim, inteiramente outra.<\/p>\n<p> Pois h&aacute; l&aacute; prazer como o de internar-se a gente por entre<br \/>\n    campos orlados de moitas vi&ccedil;osas, sebes naturais do onde se debru&ccedil;am<br \/>\n    as rosas e as madressilvas seduzindo com seus perfumes o caminhante, que raro<br \/>\n    deixa de ceder aos encantos destas formosas flores, colhendo- as na passagem?<br \/>\n    A luz do Sol coada pelas frondes dos &aacute;lamos e castanheiros e das vides<br \/>\n    que estreitamente abra&ccedil;adas com eles suspendem no caminho seus fest&otilde;es<br \/>\n    verdejantes, cheios de cachos prometedores, derrama uma meia claridade nestas<br \/>\n    veredas pouco frequentadas e por isso mesmo gratas talvez &agrave;s recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de muitos amantes campesinos.<\/p>\n<p> Numa manh&atilde; bem clara, passando por uma rua assim, Cec&iacute;lia,<br \/>\n    parece-me que com os insectos que a minha chegada vai perturbar e que, impacientes,<br \/>\n    ou amedrontados, se p&otilde;em a voltear-me em torno da cabe&ccedil;a, se<br \/>\n    ergue tamb&eacute;m um enxame de mem&oacute;rias agrad&aacute;veis que me<br \/>\n    ficaram pelos campos nos poucos mas deliciosos momentos da minha vida que<br \/>\n    tenho passado l&aacute;, turba inquieta que me envolve, que me embriaga, que<br \/>\n    me arrebata, no seu voo vertiginoso longe, ai bem longe do presente, da realidade,<br \/>\n    do mundo.<\/p>\n<p> Digo-te uma coisa; ent&atilde;o reproduzem-se em mim aquelas intensas e<br \/>\n    desanuviadas alegrias de crian&ccedil;a que t&atilde;o depressa os anos modificam,<br \/>\n    alegrias espont&acirc;neas sem pensamento reservado, sem explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    poss&iacute;vel, que se n&atilde;o reprimem, que rompem em risos, em cantos,<br \/>\n    em jogos, alegrias de causa toda interior que nenhum travo perturba.<\/p>\n<p> Depois de algum tempo de caminho o administrador, que dirigia o rancho,<br \/>\n    retrocedeu a com uma fisionomia entre risonha e contrariada disse: &#8212;<br \/>\n    Uma dificuldade imprevista! &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; pergunt&aacute;mos<br \/>\n    n&oacute;s a um tempo.<\/p>\n<p> &#8212; Nada menos que uma cancela a transpor e uma cancela que se n&atilde;o<br \/>\n    pode abrir.<\/p>\n<p> Saud&aacute;mo-la com uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer que deixou<br \/>\n    embara&ccedil;ado o administrador, homem comodista, que desejaria ver alisar-se-<br \/>\n    -lhe debaixo dos p&eacute;s em suave macadame todos os caminhos e arrasarem-<br \/>\n    se-lhe os mais insignificantes estorvos, qualquer que fosse o ponto do universo<br \/>\n    para onde a necessidade ou o capricho o pudessem um dia levar.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que &eacute; isso? Pois deveras n&atilde;o as amedronta<br \/>\n    uma cancela? ! &#8212; Est&aacute; a gracejar &#8212; disse a L&#8230; Pelo contr&aacute;rio<br \/>\n    acolhemo-la como um interessante epis&oacute;dio no decurso de um poema.<\/p>\n<p> &#8212; Ah!&#8230; pois est&atilde;o nessas disposi&ccedil;&otilde;es? Ent&atilde;o<br \/>\n    eu lhes prometo dificuldades, verdadeiros epis&oacute;dios para o poema, inclusive<br \/>\n    um ataque de c&atilde;es de quinta.<\/p>\n<p> &#8212; Menos isso &#8212; exclamou a L&#8230; j&aacute; quase s&eacute;ria.<\/p>\n<p>Devo por&eacute;m confessar-te que efectivamente foi com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    folgado que eu vi surgir a dificuldade da cancela. Que queres tu? Outra puerilidade<br \/>\n    minha.<\/p>\n<p> Nisto conservo todos os instintos de crian&ccedil;a. &Eacute; sabido que<br \/>\n    nada h&aacute; mais fastidioso para estes pequenos entes, cujos instintos<br \/>\n    naturais ainda n&atilde;o foram falsificados pelo prosa&iacute;smo da vida<br \/>\n    ordin&aacute;ria e pela influ&ecirc;ncia das ocupa&ccedil;&otilde;es que,<br \/>\n    tantas vezes com bem pouco fundamento, se dizem mais graves que as deles,<br \/>\n    como a seguir um caminho f&aacute;cil, c&oacute;modo, feito de prop&oacute;sito,<br \/>\n    trilhado por toda a gente. Eles odeiam as estradas principais, acham-nas mon&oacute;tonas,<br \/>\n    sem acidentes, s&eacute;rias de mais para eles, essas risonhas criaturas de<br \/>\n    Deus.<\/p>\n<p> E se n&atilde;o, observa aos domingos qualquer desses numerosos grupos de<br \/>\n    fam&iacute;lias burguesas que transp&otilde;em as barreiras da nossa cidade<br \/>\n    e se espalham nos arrabaldes para sobre a mesa de lousa e &agrave; sombra<br \/>\n    das frondosas ramadas dos deliciosos retiros campestres, celebrarem o bom<br \/>\n    repasto patriarcal a que classicamente se chama merenda. Enquanto os pais<br \/>\n    e as m&atilde;es seguem em linha recta pelo meio da estrada conversando, aqueles,<br \/>\n    do tempo do cerco, do estado das novidades agr&iacute;colas e das quest&otilde;es<br \/>\n    do abade com a confraria do Sacramento e da confraria com o abade e estas,<br \/>\n    das criadas, das novenas e das teias de pano de linho que deitaram esse ano;<br \/>\n    enquanto as meninas donzelas, de bra&ccedil;o dado, e languidamente apoiadas<br \/>\n    uma na outra, entregues a confid&ecirc;ncias de tal ordem que nem se atrevem<br \/>\n    a fitar-se, quando muito descrevem ziguezagues caminhando obliquamente entre<br \/>\n    os dois lados da estrada; o rancho infantil, turbulento, ruidoso, indom&aacute;vel,<br \/>\n    borboleteia em torno de uns e de outros, amea&ccedil;ando- lhes perturbar<br \/>\n    estonteados cometas, a regularidade da traject&oacute;ria que seguiam. Trepa<br \/>\n    aos muros, salta aos valados, interna-se nos campos, explora os caminhos vicinais,<br \/>\n    desaparece atr&aacute;s de um c&ocirc;moro, surge &agrave;s gargalhadas do<br \/>\n    alto de outro mais distante, pendura-se das &aacute;rvores, rebola-se na relva,<br \/>\n    atola-se nos lameiros, rasga-se pelo tojo e silvas, indiferente aos gritos,<br \/>\n    exclama&ccedil;&otilde;es, amea&ccedil;as e at&eacute; &agrave;s correc&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    maternas e paternas.<\/p>\n<p> E se, por acaso, a pacifica caravana depara com uma dessas cancelas r&uacute;sticas<br \/>\n    como a que t&iacute;nhamos diante de n&oacute;s, enquanto os pap&aacute;s<br \/>\n    se preparam para abri-la, j&aacute; as crian&ccedil;as a t&ecirc;m cavalgado,<br \/>\n    receando perder a ocasi&atilde;o de uma nova perip&eacute;cia que vem aumentar<br \/>\n    o interesse do passeio.<\/p>\n<p> Efectivamente abrir uma cancela &eacute; uma vulgaridade, &eacute; o que<br \/>\n    todos os dias cada um faz em sua pr&oacute;pria casa e uma excurs&atilde;o<br \/>\n    nos arrabaldes, sendo um facto excepcional no curso mon&oacute;tono da vida,<br \/>\n    a regra manda evitar tudo quanto seja vulgar.<\/p>\n<p> Eu sou ainda como eles, essas criaturas sem presun&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    n&atilde;o t&ecirc;m pejo de brincar, saltar um muro, sendo poss&iacute;vel,<br \/>\n    transpor uma cancela, franquear um valado de silvas, vadear um ribeiro&#8230;<br \/>\n    que impag&aacute;veis prazeres!<\/p>\n<p>Passados momentos ach&aacute;vamo-nos em plena campina.<\/p>\n<p> T&iacute;nhamos diante de n&oacute;s a indicar-nos o caminho um desses estreitos<br \/>\n    carreiros conservado entre terras cultivadas para o servi&ccedil;o das lavouras.<br \/>\n    De um lado e de outro eleva-se-nos o milho at&eacute; aos joelhos.<\/p>\n<p> Em torno uma imensa plan&iacute;cie verde onde s&oacute; alvejavam as camisas<br \/>\n    brancas dos sachadores dispersos em numerosos grupos em toda ela.<\/p>\n<p> As improvisadas cantigas com que esta gente se anima no trabalho cruzavam-se<br \/>\n    em disputado certame, interrompido de quando em quando por um coro de sonoras<br \/>\n    gargalhadas.<\/p>\n<p> O sossego da hora, a vastid&atilde;o do horizonte do lugar e o timbre puro<br \/>\n    daquelas vozes deixavam ir ao longe, muito ao longe, esses vilancetes cantados<br \/>\n    na popular toada da Cana-Verde. Percebiam-se ainda distintamente das colinas<br \/>\n    circunvizinhas, cujos ecos as repetiam como se participando da contenda.<\/p>\n<p> Altos castanheiros, cuja plena floresc&ecirc;ncia os tingia naquele tempo<br \/>\n    de reflexos dourados e as faias de tronco liso que, agitadas pela vira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ofereciam alternadamente aos raios solares as duas faces da sua folhagem bicolor,<br \/>\n    repartiam em figuras irregulares toda esta plan&iacute;cie.<\/p>\n<p> Aqui e ali uma pequena casa branca em cujo telhado se beijavam as pombas<br \/>\n    e volitavam as andorinhas, que vinham aninhar-se-lhe nos beirais. Nos quinteiros<br \/>\n    adjacentes misturava-se com o agrad&aacute;vel ru&iacute;do de vozes infantis<br \/>\n    o cantar do galo respondido por o de outros mais afastados.<\/p>\n<p> Depois eiras extensas onde numerosas raparigas ripavam o linho colhido de<br \/>\n    pouco, cabanas e colmo de tentarem o pincel de um artista, medas de palha<br \/>\n    dispostas em longas fileiras, que vistas de noite &agrave; luz fant&aacute;stica<br \/>\n    da Lua, tantas vezes se me afiguravam compridas prociss&otilde;es de monges<br \/>\n    brancos, aspecto que, sabe Deus, quanta supersti&ccedil;&atilde;o tem fomentado<br \/>\n    por l&aacute;! Plena aldeia enfim, plena aldeia da nossa terra, f&eacute;rtil,<br \/>\n    risonha, amena, abundante em verdura, em flores e em &aacute;gua, onde a luz<br \/>\n    e as sombras se casam em misteriosa combina&ccedil;&atilde;o; cheia de vagos<br \/>\n    rumores de folhas agitadas, de arroios invis&iacute;veis, de gorjeios de aves,<br \/>\n    de tudo o que consola, de tudo o que nos d&aacute; vida.<\/p>\n<p>Tendo atravessado os campos subimos por entre giestas e urzes em flor e &agrave;<br \/>\n    sombra de magn&iacute;ficas carvalheiras, o mais frondoso dos outeiros que<br \/>\n    os limitavam e, atra&iacute;dos pelo long&iacute;nquo rumor de uma queda de<br \/>\n    &aacute;gua fomos ladeando a encosta at&eacute; encontrarmos a corrente de<br \/>\n    onde esse rumor partia.<\/p>\n<p> Era para ver a agilidade com que eu e L&#8230; desc&iacute;amos ent&atilde;o<br \/>\n    a vertente oposta da colina, seguindo sempre a beira da levada, com grande<br \/>\n    susto da parte do doutor que, a cada momento, estava esperando ver- -nos despenhadas<br \/>\n    no abismo.<\/p>\n<p>&#8212; Cautela! cautela! &#8212; bradou ele de longe, embara&ccedil;ado<br \/>\n    em afastar os estorvos que lhe interrompiam a passagem.<\/p>\n<p> De quando em quando volt&aacute;vamo-nos. V&iacute;amo-lo apegado aos troncos<br \/>\n    das giestas, deixando-se escorregar docemente pelo suave declive todo arrelvado<br \/>\n    e que ele insultou com o nome de despenhadeiro. A nossa hilaridade saudava-o<br \/>\n    ent&atilde;o c&aacute; de baixo.<\/p>\n<p> A corrente era a cada passo interrompida por a&ccedil;udes e moinhos, atravessada<br \/>\n    por pontes r&uacute;sticas, oculta &agrave;s vezes pelos arbustos das margens<br \/>\n    e, dos sitios mais profundos, soltava do seio os amieiros sempre &aacute;vidos<br \/>\n    e insaci&aacute;veis de frescura.<\/p>\n<p> Conduziu-nos finalmente este caminho a uma devesa na qual cessaram as tribula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do administrador. O mau humor que a descida lhe tinha exacerbado desvaneceu-se<br \/>\n    totalmente no remanso que o esperava ali e n&atilde;o foi ele o que menos<br \/>\n    se riu dos seus passados terrores e apreens&otilde;es.<\/p>\n<p> Mas que devesa aquela, Cec&iacute;lia! Que &iacute;ntimo recolhimento !<br \/>\n    Que misteriosa tranquilidade! Os rouxin&oacute;is, ocultos na copa espess&iacute;ssima<br \/>\n    de carvalhos seculares, cantavam &agrave; porfia sem que a nossa presen&ccedil;a<br \/>\n    os inquietasse. A andorinha dos bosques, cheia de confian&ccedil;a, passava<br \/>\n    ao nosso lado perseguindo os insectos com aquela graciosa agilidade de movimentos,<br \/>\n    que nos encanta nela. De quando em quando uma folha seca, uma lande desprendida<br \/>\n    da &aacute;rvore vinham cair-nos aos p&eacute;s; um raio de Sol que, atravessando<br \/>\n    j&aacute; amortecido aquele arrendado de verdura, descia a procurar na relva<br \/>\n    a florinha cor de anil que n&atilde;o sei que nome b&aacute;rbaro tem em bot&acirc;nica,<br \/>\n    tra&ccedil;ava obliquamente no recinto assombrado pelo arvoredo uma coluna<br \/>\n    luminosa que se dissera fuste tombado de um templo em ru&iacute;nas. Insectos<br \/>\n    de cor variada, cujos zumbidos eram o maior rumor daquela solid&atilde;o,<br \/>\n    seduzidos por este raio de luz procuravam-no com ansiedade e vertigem.<\/p>\n<p> Instintivamente fal&aacute;vamos baixo ali.<\/p>\n<p> Subjuga-nos tanta solenidade, intimida-nos, sentimo-nos pequenos e;.. &#8212;A<br \/>\n    caminho! a caminho!&#8212;foi a exclama&ccedil;&atilde;o que ruidosamente<br \/>\n    nos arrancou da silenciosa abstrac&ccedil;&atilde;o em que pouco a pouco nos<br \/>\n    deix&aacute;ramos cair.<\/p>\n<p> Desnecess&aacute;rio ser&aacute; dizer-te que foi do doutor que ela partiu.<\/p>\n<p> Para tanto s&oacute; a coragem dele.<\/p>\n<p> &#8212; A terra da promiss&atilde;o n&atilde;o est&aacute; longe &#8212;<br \/>\n    continuou, apontando por entre um claro que deixava a folhagem.<\/p>\n<p> Olh&aacute;mos nessa direc&ccedil;&atilde;o. Descobrimos ao longe a grimpa<br \/>\n    e toda a parte superior de um velho campan&aacute;rio. Saiu-nos dos l&aacute;bios<br \/>\n    uma exclama&ccedil;&atilde;o de prazer a mim e &agrave; L&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O mosteiro ? &#8212; O pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> A estas duas palavras sucedeu o sil&ecirc;ncio. Com os olhos fitos naquele<br \/>\n    enegrecido edif&iacute;cio que, pouco a pouco, parecia ir-se despojando &agrave;<br \/>\n    nossa vista do inv&oacute;lucro da folhagem que ao princ&iacute;pio no-lo<br \/>\n    encobria, fomos caminhando para ele de novo, possu&iacute;das daquela mesma<br \/>\n    impress&atilde;o que sent&iacute;ramos na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> Perdoa &agrave; minha ignor&acirc;ncia de arquitectura se omito a minuciosa<br \/>\n    descri&ccedil;&atilde;o daquele vetusto convento, transformado hoje em uma<br \/>\n    d&uacute;zia de coisas muito diversas, que nem j&aacute; te sei enumerar.<br \/>\n    N&atilde;o perdes muito, tu, nem perde a arte com a lacuna porque afinal de<br \/>\n    contas conhecia-se pelo que vimos ainda dele que o convento nunca passou de<br \/>\n    uma dessas constru&ccedil;&otilde;es irregular&iacute;ssirnas, acanhadas,<br \/>\n    sem estilo, que um pensamento religioso erguia a cada canto para abrigo dos<br \/>\n    foragidos aos tormentos mundanos e nos quais se procurava simbolizar o desapego<br \/>\n    &atilde;s vaidades da Terra na aus&ecirc;ncia completa da menor beleza arquitect&oacute;nica.<br \/>\n    Extensas paredes crivadas de janelas mesquinhas, car&ecirc;ncia absoluta de<br \/>\n    simetria nas constru&ccedil;&otilde;es posteriores &agrave; do edif&iacute;cio<br \/>\n    principal, assim uma coisa &agrave; semelhan&ccedil;a do convento de Corpus<br \/>\n    Christi em Vila Nova de Gaia e mais nada.<\/p>\n<p> Tinha alguma raz&atilde;o o administrador quando nos falava no car&aacute;cter<br \/>\n    prosaico das modifica&ccedil;&otilde;es que o tempo introduzira neste mosteiro.<\/p>\n<p> Nada do grandioso das ru&iacute;nas! renova&ccedil;&otilde;es escandalosas,<br \/>\n    verdadeiros sacril&eacute;gios de arte, isso, muitas. Montes de palha por<br \/>\n    toda a parte e a vegeta&ccedil;&atilde;o das hortali&ccedil;as de uma exuber&acirc;ncia<br \/>\n    insolente! AL&#8230; bem se esfor&ccedil;ava por reconstituir um romance com o<br \/>\n    pouco que via; mas as galinhas que esgaravatavam nos claustros dilaceravam-<br \/>\n    lho &agrave; nascen&ccedil;a. &Eacute; uma ave essencialmente burguesa a galinha.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; lenda que possa florescer onde constantemente cacarejam<br \/>\n    estes prosaicos bipedes.<\/p>\n<p> AL&#8230; chegou a desesperar.<\/p>\n<p> &#8212; Visto isso, nem uma pedra hist&oacute;rica, nem uma mem&oacute;ria<br \/>\n    ligada a estas paredes. &Oacute; doutor, compade&ccedil;a-se desta nossa ansiedade.<\/p>\n<p> Recorde, descubra, invente um romance &#8212; dizia eu.<\/p>\n<p> &#8212; Eu s&oacute; conhe&ccedil;o o lugar como a matriz de um c&iacute;rculo<br \/>\n    eleitoral e ligada a este recinto s&oacute; posso recordar-me da hist&oacute;ria<br \/>\n    das elei&ccedil;&otilde;es passadas.<\/p>\n<p> Cheguei a odiar o administrador ao ouvir-lhe dizer isto.<\/p>\n<p> &#8212; Sil&ecirc;ncio ! Nada de profana&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; E contudo estas naves &#8212; disse a L&#8230; entrando na igreja, efectivamente<br \/>\n    a parte mais solene do edif&iacute;cio &#8212; s&atilde;o ainda assim longas,<br \/>\n    elevadas bastante, convenientemente obscuras. Nem as reformas tolas dos restauradores<br \/>\n    conseguiram priv&aacute;-las de uma certa majestade e poesia.<\/p>\n<p> Doutor, doutor, eu quero levar daqui alguma impress&atilde;o mais duradoura<br \/>\n    ! N&atilde;o saio sem isso.<\/p>\n<p> E, dizendo estas palavras, encaminhou-se para uma capela mal alumiada por<br \/>\n    um lampad&aacute;rio antigo e ainda n&atilde;o visitada por n&oacute;s.<\/p>\n<p> Seguimo-la. &Agrave; entrada, por&eacute;m, a imprevista apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um vulto fez-nos recuar. N&atilde;o era afinal nenhuma alma do outro mundo,<br \/>\n    t&atilde;o somente um rapaz muito p&aacute;lido, vestido com singeleza, o<br \/>\n    qual com um sorriso modesto e melanc&oacute;lico nos cortejou. <\/p>\n<p align=\"right\">&nbsp;<\/p>\n<p>O doutor correspondeu-lhe com um gesto de afabilidade.<\/p>\n<p> &#8212; Quem &eacute; este homem ? &#8212; perguntei ao doutor quando o<br \/>\n    rec&eacute;m- -aparecido se afastou de n&oacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o mestre-escola da aldeia.<\/p>\n<p> &#8212; Ningu&eacute;m o dir&aacute;! Tem uma fisionomia inteligente.<\/p>\n<p> &#8212; E desta vez n&atilde;o fica mal Lav&aacute;ter.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras? Mas&#8230; mestre-escola! &#8212; Ent&atilde;o que quer? Com<br \/>\n    aquele estofo &#8212; disse o doutor, apontando para ele que j&aacute; ia<br \/>\n    &agrave; porta da igreja &#8212; fazia-se talvez um bom acad&eacute;mico,<br \/>\n    fazia. Mas amarraram-no &agrave; atafona das primeiras letras.<\/p>\n<p> Nisto sa&iacute;a a L&#8230; da capela, verdadeiramente desesperada.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; meio de tirar coisa alguma destas paredes.<br \/>\n    Temos de nos resignar a partir com as nossas carteiras em branco. Incomode,<br \/>\n    sacuda a sua imagina&ccedil;&atilde;o para nos mentir, doutor, ande. Invente,<br \/>\n    seja am&aacute;vel uma vez na vida.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sou poeta e V. Ex.as perderam talvez a ocasi&atilde;o<br \/>\n    de satisfazerem t&atilde;o inofensivo desejo deixando sair esse rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Qu&ecirc;! Pois &eacute; tamb&eacute;m poeta! exclamei, admirada.<\/p>\n<p> &#8212; Afian&ccedil;a-me que pode dizer-nos alguma coisa interessante ?<br \/>\n    &#8212; perguntou a L&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Aqui, para o que V. Ex.as desejam, ou ele ou ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Pois vou cham&aacute;-lo.<\/p>\n<p> E a L&#8230; com aquele estouvamento que lhe conheces dirigiu-se para a porta,<br \/>\n    sem fazer caso das minhas observa&ccedil;&otilde;es e dentro em pouco voltava<br \/>\n    com o p&aacute;lido mestre-escola, singularmente embara&ccedil;ado com a assist&ecirc;ncia<br \/>\n    que se lhe pedia.<\/p>\n<p> &#8212; Emprazamo-lo &#8212; disse a L&#8230;, usando das maneiras convenientemente<br \/>\n    familiares com que logo &agrave; primeira entrevista sabe p&ocirc;r &agrave;<br \/>\n    vontade os seus interlocutores. &#8212; Emprazamo-lo para que nos tire destas<br \/>\n    paredes, destas naves, destas ab&oacute;badas uma mem&oacute;ria, uma lenda,<br \/>\n    um drama, seja o que for. Porque, h&aacute;-de concordar, ir a gente daqui<br \/>\n    sem qualquer destas coisas &eacute; desagrad&aacute;vel, &eacute; impertinente,<br \/>\n    &eacute; triste.<\/p>\n<p> O professor sorriu e naturalmente dirigiu o olhar para a capela de onde<br \/>\n    o v&iacute;ramos sair.<\/p>\n<p> &#8212; Dali ? &#8212; exclamou a L&#8230; que lhe seguira o olhar. &#8212;Bem<br \/>\n    me quis parecer. H&aacute; um ar de mist&eacute;rio naquele altar, h&aacute;;<br \/>\n    mas j&aacute; procurei e nada vi.<\/p>\n<p> &#8212; Quer V. Ex.&#8217; que as paredes falem, sem se lembrar que elas s&oacute;<br \/>\n    dizem o que a gente lhe ordena.<\/p>\n<p> &#8212; Cale-se, doutor. Os c&oacute;digos asfixiaram-lhe toda a poesia<br \/>\n    que talvez em tempos felizes existiu em si. E se n&atilde;o experimentemos.<br \/>\n    Glose este mote alambicado:<\/p>\n<p>Saudade, cruel saudade Tormento da minha vida.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sou capaz de a satisfazer a n&atilde;o ser que me conceda<br \/>\n    algumas semanas para procurar inspira&ccedil;&atilde;o nos autos administrativos<br \/>\n    e partes dos regedores.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, sil&ecirc;ncio! Este senhor, tenho f&eacute; que satisfar&aacute;<br \/>\n    gentilmente a nossa curiosidade. Ou ele n&atilde;o fosse um poeta! &#8212;<br \/>\n    Poeta! &#8212; disse timidamente o interpelado.<\/p>\n<p> &#8212; Sim. Sabemo-lo porque o doutor o denunciou e denunciava-o at&eacute;<br \/>\n    esta sua visita solit&aacute;ria &agrave; capela de onde h&aacute; pouco saiu.<br \/>\n    Vamos, diga-nos, o que h&aacute; nela de interessante? O mancebo continuou<br \/>\n    a sorrir e parecia hesitar em tomar uma resolu&ccedil;&atilde;o. Depois, corando<br \/>\n    levemente, tirou de um livro que trazia na m&atilde;o um pequeno papel, no<br \/>\n    qual se enfileiravam linhas regulares de uma letra mi&uacute;da mas de tra&ccedil;o<br \/>\n    firme e entregou-o sem pronunciar uma s&oacute; palavra &agrave; L,.., que<br \/>\n    se apoderou dele com vivacidade. Com n&atilde;o menor presteza nos aproxim&aacute;mos<br \/>\n    eu e o doutor e por cima do ombro da L&#8230; fomos acompanhando a leitura das<br \/>\n    seguintes quadras, leitura a que ela procedeu com voz profundamente comovida<\/p>\n<h2>A NOVI&Ccedil;A<\/h2>\n<p>&laquo;Oh! vem, querida irm&atilde;; do santu&aacute;rio do templo<br \/>\n    J&aacute; desce a receber-te o celestial esposo.<br \/>\n    Vem ser da nossa f&eacute; sublime e vivo exemplo;<br \/>\n    Vem, deixa sem pesar do mundo o falso gozo.<\/p>\n<p>&laquo;Vem; dos c&iacute;rios &agrave; luz, ao som de alegres hinos, Cinge<br \/>\n    o h&aacute;bito escuro, emblema da humildade,<br \/>\n    E, abrasada no ardor dos teus estos divinos<br \/>\n    Despe, ao entrar no claustro, as galas da vaidade.<\/p>\n<p>&laquo;Esposa do Senhor, virgem c&acirc;ndida e pura, Do teu noviciado expiram<br \/>\n    hoje os dias.<br \/>\n    N&atilde;o tremas ao fitar as portas da clausura, Tamb&eacute;m na estreita<br \/>\n    cela h&aacute; grandes alegrias.&raquo;<\/p>\n<p>Assim das monjas soa o religioso canto: Juntas, em prociss&atilde;o pelas<br \/>\n    extensas naves Espalham-se na igreja as vozes do hino santo Melanc&oacute;lica<br \/>\n    voz de aprisionadas aves.<\/p>\n<p>Ca&iacute;do o longo v&eacute;u por sobre a fronte airosa<br \/>\n    Caminha lentamente a p&aacute;lida novi&ccedil;a;<br \/>\n    Nos olhos lhe fulgura uma aura misteriosa,<br \/>\n    Um como cintilar de l&acirc;mpada morti&ccedil;a.<\/p>\n<p>Sobe os degraus do altar, humilde se ajoelha<br \/>\n    E ao culto fervoroso as tran&ccedil;as sacrifica.<br \/>\n    &laquo;Recolhe-te ao redil, imaculada ovelha,<br \/>\n    Teus tesouros d&#8217;amor nas asas santifica.&raquo;<\/p>\n<p>E o coro ergue outra vez o ritual hosana,<br \/>\n    Entre nuvens de incenso, &agrave; voz do &oacute;rg&atilde;o sagrado ; Responde-lhe<br \/>\n    o rezar de multid&atilde;o profana,<br \/>\n    Que transp&ocirc;s curiosa o p&oacute;rtico elevado<\/p>\n<p>A cerim&oacute;nia &eacute; finda; a monja de joelhos<br \/>\n    Permanece, inclinada a face para a terra ;<br \/>\n    Era no ocaso o Sol; e seus clar&otilde;es vermelhos<br \/>\n    Vinham tingir o altar, ungindo ao longe a serra.<\/p>\n<p>Longo tempo ali esteve, as p&aacute;lpebras descidas,<br \/>\n    . Im&oacute;vel, silenciosa, em &ecirc;xtase absorta,<br \/>\n    Ergueram-na afinal as monjas comovidas;<br \/>\n    Doloroso mist&eacute;rio, a pobre estava morta!<\/p>\n<p>&#8212; Tinha ou n&atilde;o raz&atilde;o ? &#8212; exclamou a L&#8230;, elevando<br \/>\n    ao ar o papel assim que acabou de o ler.<\/p>\n<p> Todos instintivamente procur&aacute;mos o autor. Havia desaparecido.<\/p>\n<p> Estupefactos olh&aacute;mo-nos em sil&ecirc;ncio sem saber o que pensar<br \/>\n    desta surpresa. Bem longe estava eu naquele momento de encontrar um metrificador<br \/>\n    de alexandrinos ! &#8212; Agora o que me apetecia decifrar &#8212; disse eu<br \/>\n    ao doutor &#8212; era o mist&eacute;rio deste melanc&oacute;lico e simp&aacute;tico<br \/>\n    mestre-escola.<\/p>\n<p> &#8212; Se V. Ex.* ordena, porei em ac&ccedil;&atilde;o os meus cabos de<br \/>\n    pol&iacute;cia para qualquer dia me habilitar a revelar-lho, j&aacute; se<br \/>\n    sabe, em estilo de relat&oacute;rio administrativo, &#8212; Pois olhe, esse<br \/>\n    mist&eacute;rio preocupa-me pouco &#8212; disse L&#8230; &#8212; o que pretendo<br \/>\n    &eacute; saber os fundamentos disto &#8212; e apontou para o papel que conservava<br \/>\n    na m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Fantasias &#8212; disse o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; E como diz isso! Fantasias! E &eacute; coisa de pouco valor isto<br \/>\n    de fantasias? Assim fantasia quem quer ? Pois h&aacute; tr&ecirc;s horas estou<br \/>\n    eu a pedir-lhe que fantasie e o doutor sem me fazer essa fineza que, pelos<br \/>\n    modos, lhe parec e f&aacute;cil tarefa. Ora, na verdade, n&atilde;o lhe mere&ccedil;o<br \/>\n    essa crueza de frase que me est&aacute; revoltando.<\/p>\n<p> &#8212; Por amor de Deus, n&atilde;o me condene, minha senhora. Ningu&eacute;m<br \/>\n    admira mais do que eu as obras de imagina&ccedil;&atilde;o; mas como vejo<br \/>\n    que V. Ex.&quot; quer achar for&ccedil;osamente raz&atilde;o de ser a uma<br \/>\n    coisa que a con&#8226; t&eacute;m em si, &eacute; por isso que eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas ele olhava insistentemente para esta capela. Deve estar aqui<br \/>\n    a explica&ccedil;&atilde;o que procuramos.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; disse eu &#8212; tenha a condescend&ecirc;ncia de<br \/>\n    procurar connosco.<\/p>\n<p> &#8212; Mas procurar o qu&ecirc; ? &#8212; O mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que mist&eacute;rio ? &#8212; O vest&iacute;gio do drama denunciado<br \/>\n    nestes versos &#8212; disse a L&#8230; &#8212; Venha, acompanhe-nos.<\/p>\n<p> Investig&aacute;mos tudo. Eu, pela minha parte, nada encontrava. AL.. .<br \/>\n    n&atilde;o era mais feliz. De repente o doutor perguntou, no tom de indi&#8226;<br \/>\n    feren&ccedil;a que lhe dera para afectar naquela manh&atilde;; &#8212; Serve-lhes<br \/>\n    uma inscri&ccedil;&atilde;o tumular ? &#8212; Uma inscri&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; exclamou a L&#8230; &#8212;Pois que mais poderemos querer ? Est&aacute;<br \/>\n    decifrado o enigma! Leia, leia depressa.<\/p>\n<p> &#8212; Hic jacet &#8212; principiou a dizer o doutor.<\/p>\n<p> &#8212; Latim, doutor! &#8212; exclam&aacute;mos n&oacute;s a um tempo,<br \/>\n    com o mais justificado dos terrores.<\/p>\n<p> &#8212; Eu traduzirei, que at&eacute; a&iacute; ainda chega a minha sabedoria.<\/p>\n<p> O pior &eacute; que as letras est&atilde;o quase todas safadas. Aqui jaz&#8230;<br \/>\n    a irm&atilde; Maria de.. . n&atilde;o sei qu&ecirc;&#8230; Nasceu aos&#8230; do ano<br \/>\n    do Senhor de mil seis&#8226; centos e&#8230; tantos, professou aos&#8230; tantos de<br \/>\n    tal e morreu in codem no mesmo dia. Pater noster.<\/p>\n<p> &#8212; Vit&oacute;ria! &#8212; exclamou a L&#8230; com um grito que ecoou por<br \/>\n    toda a igreja. &#8212; At&eacute; que enfim! Esta pedr a com o seu eloquente<br \/>\n    laconismo vale um tesouro! &#8212; Que entusiasmo! N&atilde;o o compreendo<br \/>\n    &#8212; dizia o doutor, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Que grande significa&ccedil;&atilde;o acha V. Ex.&quot; nessa descoberta?<br \/>\n    &#8212; Que significa&ccedil;&atilde;o ? Pois n&atilde;o v&ecirc; nela confirmada<br \/>\n    a interessante hist&oacute;ria contada nestes versos? Desvendado o doloroso<br \/>\n    mist&eacute;rio que matou aquela pobre m&aacute;rtir no pr&oacute;prio dia<br \/>\n    do seu noviciado? &#8212; Romances, romances&#8230; poesia, minha senhora. Se<br \/>\n    V. Ex.a quer, eu vou glosar-lhe mais prosaicamente este epit&aacute;fio. Era<br \/>\n    talvez uma menina&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Cale-se, b&aacute;rbaro ! Que afli&ccedil;&atilde;o! N&atilde;o<br \/>\n    lhe perdoaria nunca se me tirasse a mem&oacute;ria agrad&aacute;vel que afinal<br \/>\n    consegui levar daqui. E, sabe ? Vou rezar por aquela desventurada.<\/p>\n<p> E a L&#8230;, ajoelhando junto ao altar da capela, p&ocirc;s-se a rezar. No<br \/>\n    entretanto dizia eu ao doutor: &#8212; O que me parece interessante, curioso<br \/>\n    e, quem sabe se huma&#8226; nit&aacute;rio at&eacute;, &eacute; estudar o<br \/>\n    car&aacute;cter e hist&oacute;ria deste mestre-escola t&atilde;o triste quanto<br \/>\n    simp&aacute;tico. Porque n&atilde;o h&aacute;-de dar-se a essa tarefa, doutor?<br \/>\n    &#8212; Estava pensando agora nisso mesmo. Alguma coisa que sei j&aacute;<br \/>\n    dele excita-me a curiosidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o diga o que sabe, diga.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-me investigar o que me falta saber para ent&atilde;o lhe contar<br \/>\n    a hist&oacute;ria completa.<\/p>\n<p> &#8212; E promete n&atilde;o se esquecer ? &#8212; Prometo.<\/p>\n<p> 1&#8212; Dou-lhe ent&atilde;o quinze dias.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; pouco; mas farei a dilig&ecirc;ncia por n&atilde;o faltar.<\/p>\n<p> Ao sair da igreja ainda fomos &agrave; escola da aldeia procurar o profes&#8226;<br \/>\n    sor, mas n&atilde;o o encontr&aacute;mos. Volt&aacute;mos em seguida para<br \/>\n    casa. AL&#8230; com a poesia e com a sincera cren&ccedil;a na hist&oacute;ria<br \/>\n    da novi&ccedil;a, hist&oacute;ria que ficar&aacute; sempre misteriosa se algum<br \/>\n    romancista a n&atilde;o quiser decifrar, e eu inte&#8226; ressada em conhecer<br \/>\n    a vida deste mestre-escola e insistindo com o dou&#8226; tor para se n&atilde;o<br \/>\n    demorar em satisfazer esta t&atilde;o justificada curiosidade.<\/p>\n<p> Se ele cumprir a promessa, ter&aacute;s cedo, minha Cec&iacute;lia, not&iacute;cias<br \/>\n    minhas.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Diana de Aveleda.<\/b><\/p>\n<h2>CARTAS PARA A MINHA FAM&Iacute;LIA<\/h2>\n<p>Meu amigo<\/p>\n<p>Volt&aacute;mos ontem do campo sem que merec&ecirc;ssemos &agrave; pol&iacute;tica<br \/>\n    o favor da tua presen&ccedil;a, por poucos dias que fosse.<\/p>\n<p> As pequenas chegaram boas e parece-me que n&atilde;o demasiado saudosas<br \/>\n    dos prazeres e das belezas campestres.<\/p>\n<p> &Eacute; t&atilde;o raro que raparigas de dezasseis anos amem a buc&oacute;lica!<br \/>\n    E &eacute; pena, que se me enchia o cora&ccedil;&atilde;o de alegria e de<br \/>\n    confian&ccedil;a, quando as via a elas &agrave; sombra daquelas &aacute;rvores<br \/>\n    salutares, respirando com desafogo um ar embalsamado e vivificador.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei como me persuadia de que era imposs&iacute;vel que elas me<br \/>\n    adoecessem ali.<\/p>\n<p> Sabes, meu amigo, aqueles meus continuados sustos, aqueles meus escuros<br \/>\n    pressentimentos pela sa&uacute;de dos nossos filhos, motivo de me ralhares<br \/>\n    tantas vezes? Pois nunca os senti l&aacute;.<\/p>\n<p> O campo era para mim como uma destas pessoas de ju&iacute;zo a quem se deixa<br \/>\n    entregue um filho, quando a necessidade nos obriga a sepa- rar-nos dele por<br \/>\n    momentos.<\/p>\n<p> Olhava para aquelas velhas e frondosas &aacute;rvores e parecia-me achar-<br \/>\n    -lhes uns ares protectores e amig&aacute;veis que me inspiravam confian&ccedil;a.<\/p>\n<p> Dir-se-ia que ao abrigarem minhas filhas na sua sombra me diziam: Deixa-as<br \/>\n    connosco que tas protegeremos.<\/p>\n<p> Mas enfim viemos; aqui estamos outra vez nesta terra do Porto e aqui estaremos<br \/>\n    at&eacute; &agrave; hora de emalarmos para qualquer praia de banhos.<\/p>\n<p> E tu em Lisboa, e tu ocupado em acudir &agrave; P&aacute;tria, meu bom amigo,<br \/>\n    e esquecendo por ela um poucochinho a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &Eacute; uma virtude c&iacute;vica a venerar em ti, Gustavo? Ser&aacute;?<br \/>\n    Eu sei? Desculpa-me mas, como sabes, n&atilde;o morro de amores pela pol&iacute;tica.<br \/>\n    Ou eu n&atilde;o fora mulher, com quem em geral os pol&iacute;ticos s&atilde;o<br \/>\n    bem pouco am&aacute;veis.<\/p>\n<p> Al&eacute;m de que a pol&iacute;tica ocupa-se de umas pequeninas coisas,<br \/>\n    que s&atilde;o, sem contesta&ccedil;&atilde;o, as mais detest&aacute;veis<br \/>\n    de todas as coisas pequeninas.<\/p>\n<p> Mas deixemos por hoje as minhas reflex&otilde;es e reparos sobre politica,<br \/>\n    Gustavo, e fa&ccedil;amos como &eacute; nosso costume, quando aqui est&aacute;s.<br \/>\n    Lembras-te? Depois do ch&aacute; conversamos &agrave;s vezes horas esque&#8226;<br \/>\n    cidas sobre os acontecimentos do dia, ora dom&eacute;sticos, ora civis, ora<br \/>\n    alegres, ora tristes, e dizemos tudo quanto nos acode &agrave; ideia, sem<br \/>\n    observ&acirc;ncia de programa nem de m&eacute;todo, sem escr&uacute;pulos<br \/>\n    de estilo e at&eacute; sem rigoroso respeito pela coer&ecirc;ncia l&oacute;gica<br \/>\n    da opini&atilde;o.<\/p>\n<p> Se a politica te n&atilde;o derrancou ainda de todo a bondade natural e<br \/>\n    te n&atilde;o cerrou a alma &agrave;s expans&otilde;es afectuosas, ser-te-&aacute;<br \/>\n    agrad&aacute;vel a leitura das minhas cartas escritas, como conversamos, &agrave;<br \/>\n    vontade.<\/p>\n<p> Escrever-te-ei sob a impress&atilde;o dominante do dia. A de hoje &eacute;<br \/>\n    pouco agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> Como te disse, chegamos do campo e as pequenas vinham ver&#8226; dadeiramente<br \/>\n    ansiosas pelas distrac&ccedil;&otilde;es da cidade.<\/p>\n<p> Andavam-me a falar em toilettes e teatros havia oito dias, N&atilde;o tive<br \/>\n    rem&eacute;dio sen&atilde;o condescender.<\/p>\n<p> Ao entrarmos na cidade depararam-se-nos nas esquinas uns car&#8226; tazes<br \/>\n    enormes, anunciando no teatro de S&atilde;o Jo&atilde;o a Gr&atilde;-Duquesa<br \/>\n    de Gerolstein.<\/p>\n<p> As pequenas fitaram-me uns olhos eloquentes.<\/p>\n<p> Este olhar, as saudades que eu deveras sentia j&aacute; por aquele nosso<br \/>\n    elegante teatro e este titulo Gr&atilde;-Duquesa, que h&aacute; tanto tempo<br \/>\n    me anda nos ouvidos como um zumbir de importuno mosquito volteando em torno<br \/>\n    de mim, formaram a minha resolu&ccedil;&atilde;o de ir ao teatro essa mesma<br \/>\n    noite.<\/p>\n<p> Fui; fomos e que doida alegria a da Ernestina e da Lu&iacute;sa! Pobres<br \/>\n    pequenas! apesar de todo o prazer que me vem sempre da vossa ale&#8226; gria,<br \/>\n    quis mal a mim mesma por ter cedido &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o desta<br \/>\n    vez.<\/p>\n<p> O Gustavo, tu que viste j&aacute; a Gr&atilde;-Duquesa, n&atilde;o adivinhar&aacute;s<br \/>\n    o resto da minha carta? Tu que tens vivo o sentimento e o respeito da arte,<br \/>\n    que te entusiasmas pelo belo, que concebes o que deve ser o teatro na sociedade,<br \/>\n    n&atilde;o voltaste de assistir a essa h&iacute;brida e absurda compo&#8226;<br \/>\n    si&ccedil;&atilde;o teatral, como eu vim ontem de l&aacute;? com desgosto,<br \/>\n    com t&eacute;dio, com indigna&ccedil;&atilde;o, duvidando do progresso da<br \/>\n    arte, acreditando na total degenera&ccedil;&atilde;o do gosto entre n&oacute;s?<br \/>\n    Que &eacute;poca atravessamos, meu amigo? Que cidade de quase cem mil almas<br \/>\n    &eacute; esta em que s&oacute; se aplaude o disparate ? H&aacute; nada mais<br \/>\n    vergonhoso do que uma cr&oacute;nica da &uacute;ltima &eacute;poca teatral<br \/>\n    no Porto ? Dois &ecirc;xitos brilhantes a caracterizam: O jovem Tel&eacute;maco<br \/>\n    e a Gr&atilde;- -Duquesa, dois disparates, duas irrever&ecirc;ncias para com<br \/>\n    o bom senso, para com o bom gosto, para com a arte nobre e digna, para com<br \/>\n    a arte que se respeita!<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute; isto uma imoralidade tamb&eacute;m? Pois n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; certo que as belas artes t&ecirc;m uma miss&atilde;o social a preencher<br \/>\n    ? N&atilde;o &eacute; certo que encaminh&aacute;-las erradamente &eacute;<br \/>\n    ofender o interesse p&uacute;blico ? N&atilde;o &eacute; verdade que progride<br \/>\n    na carreira da civiliza&ccedil;&atilde;o um povo, cujo bom gosto e instintos<br \/>\n    se educam e aperfei&ccedil;oam pela arte e que se deprava e desmoraliza o<br \/>\n    que se costuma a insult&aacute;-la? Que mal&eacute;volo esp&iacute;rito move<br \/>\n    ent&atilde;o os artistas a perverterem assim o gosto em vez de o educar? a<br \/>\n    porem &agrave;s ordens do desprop&oacute;&#8226; sito e do desconchavo as<br \/>\n    harmonias da m&uacute;sica, a cad&ecirc;ncia da poesia, as ilus&otilde;es<br \/>\n    da pintura, numa palavra, todos os prest&iacute;gios da arte ? E ilumina-se<br \/>\n    para isto um teatro! e enfeitam-se as senhoras nos toucadores! e rodam as<br \/>\n    carruagens nas ruas e avilta-se uma orquestra para acompanhar o carro do triunfo<br \/>\n    do disparate! E no dia seguinte emprega-se tipo para falar no assunto! Acabou<br \/>\n    pois a religi&atilde;o da arte entre n&oacute;s? Pois n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    a arte uma religi&atilde;o tamb&eacute;m? N&atilde;o haver&aacute; ningu&eacute;m<br \/>\n    a quem estas orgias aflijam e revoltem, como o austero, o fervente sacerdote<br \/>\n    que visse o trip&uacute;dio profanando o lugar de augustos sacrif&iacute;cios<br \/>\n    ? Esta aberra&ccedil;&atilde;o do gosto p&uacute;blico, este desvairamento<br \/>\n    que invade todas as cabe&ccedil;as, esses excessos e abusos que fazem recuar<br \/>\n    s&eacute;culos o nosso progresso art&iacute;stico, dura, reina, propaga-se,<br \/>\n    sem que uma coorte de leais entusiastas e vigorosos lutadores se levante para<br \/>\n    com&#8226; bater a todo o transe o mal deplor&aacute;vel! combat&ecirc;-lo<br \/>\n    atrav&eacute;s de sacri&#8226; f&iacute;cios, combat&ecirc;-lo apesar da indiferen&ccedil;a<br \/>\n    ou das repugn&acirc;ncias do p&uacute;blico, combat&ecirc;-lo como combateu<br \/>\n    Garrett, como combateu V&iacute;tor Hugo, como combateram todos quantos tentaram<br \/>\n    uma reforma liter&aacute;ria &uacute;til e eficaz.<\/p>\n<p> Pois tinha f&eacute; que venceriam, se bem de alma e com boa coragem o tentassem!<br \/>\n    Os instintos da arte n&atilde;o morrem no povo; adormecem &agrave;s vezes;<br \/>\n    mas &eacute; pronto o seu acordar, se os desperta uma voz alt&iacute;- loqua<br \/>\n    animada por uma verdadeira cren&ccedil;a, por uma sincera e pura inten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso pronto rem&eacute;dio para este mal, que &eacute; grave.<\/p>\n<p> H&aacute; muito que lavra, revelado por essas produ&ccedil;&otilde;es m&oacute;rbidas<br \/>\n    da arte, que se chamam par&oacute;dias e disparates, galhas venenosas que<br \/>\n    vegetam sobre os ramos vi&ccedil;osos de uma literatura e lhe roubam a seiva<br \/>\n    dissipando-a em excresc&ecirc;ncias balofas e in&uacute;teis como bugalhos<br \/>\n    ou prejudiciais como esses cogumelos destruidores das searas.<\/p>\n<p> Isto acusa uma debilidade crescente na imagina&ccedil;&atilde;o dos autores<br \/>\n    e uma assustadora irrever&ecirc;ncia nas massas para tudo quanto h&aacute;<br \/>\n    de belo e portanto de vener&aacute;vel.<\/p>\n<p> Afadiga-se um compositor em traduzir pela m&uacute;sica as paix&otilde;es<br \/>\n    violentas, os efeitos suaves, as tristezas e os j&uacute;bilos, que formam<br \/>\n    o drama da vida. Exaltado, febril, na excita&ccedil;&atilde;o nervosa que<br \/>\n    acompanha os mist&eacute;rios da concep&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o vive<br \/>\n    sen&atilde;o para aquela ideia, atrav&eacute;s da qual antev&ecirc; o esplendor<br \/>\n    da gl&oacute;ria. A inspira&ccedil;&atilde;o visita-o, ilumina-lhe as noites<br \/>\n    de t&atilde;o longas e laboriosas vig&iacute;lias e ap&oacute;s esta aurora,<br \/>\n    surge a obra de arte espl&ecirc;ndida, impregnada do pensamento do artista,<br \/>\n    cheia de vida e de futuro e anelando levantar o voo em busca de mais amplos<br \/>\n    horizontes, por um instinto como o da ave que, ainda com pouco vigor para<br \/>\n    bater as asas, j&aacute; estremece seduzida pelo espa&ccedil;o vasto que a<br \/>\n    rodeia.<\/p>\n<p> Um dia parte a filha predilecta. Separa-se dela a procurar a rea&#8226;<br \/>\n    liza&ccedil;&atilde;o da sua &uacute;ltima metamorfose, a sua encarna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    final.<\/p>\n<p> Chega ao teatro perante uma multid&atilde;o que a aguarda despre &#8226;<br \/>\n    venida ; revela-se enfim, primeiro timidamente como se as nervosas pulsa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do compositor naquele momento se reflectissem na obra ; pouco a pouco ganha<br \/>\n    coragem e desassombro; fala, penetra nos cora&#8226; &ccedil;&otilde;es, subjuga<br \/>\n    os sentidos, domina as massas, e o sonho da ambi&ccedil;&atilde;o do artista<br \/>\n    realiza-se e compensa-lhe as vig&iacute;lias de muitas noites uma s&oacute;<br \/>\n    noite de gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> Mas, a um canto da sala, no meio desse mesmo entusiasmo e del&iacute;&#8226;<br \/>\n    rio, h&aacute; um cora&ccedil;&atilde;o frio e incapaz de sentir, que se n&atilde;o<br \/>\n    comove; h&aacute; um olhar maligno que estuda a como&ccedil;&atilde;o da plateia<br \/>\n    e n&atilde;o se fascina; h&aacute; um pensamento sat&acirc;nico que premedita<br \/>\n    uma obra sacr&iacute;lega.<\/p>\n<p> E uma noite basta a esse esp&iacute;rito para consumar a obra f&aacute;cil,<br \/>\n    &iacute;mpia, fatal &agrave; arte, perversa e imoral que premeditou: A mesma<br \/>\n    m&uacute;sica concebida para exprimir sentimentos e paix&otilde;es elevados<br \/>\n    e nobres &eacute; por ele rebaixada &agrave;s vulgares, rid&iacute;culas e<br \/>\n    insulsas perip&eacute;cias de um enredo chocho e rasteiro; e a musa que nas<br \/>\n    vestes alv&iacute;ssimas com que a inspira&ccedil;&atilde;o a cingira, arrebatara<br \/>\n    a multid&atilde;o, agora, irreverentemente, vestida com o jaleque multicor<br \/>\n    de tru&atilde;o e atada ao pelourinho das pra&ccedil;as, receb e as alvares<br \/>\n    e insultuosas gargalhadas dos mesmos que a adoraram e que experimentam um<br \/>\n    maligno prazer em desprestigiar o seu &iacute;dolo.<\/p>\n<p> E quando de novo se apresenta aos mesmos olhares, sob as suas primeiras<br \/>\n    vestes, h&aacute; sempre quem se recorde de a ter visto j&aacute; de outra<br \/>\n    maneira, e ainda ent&atilde;o o riso a insulta.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; esta uma ac&ccedil;&atilde;o altamente conden&aacute;vel?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; quase o mesmo que expor em completa nudez aos olhos cinicamente<br \/>\n    curiosos do povo uma virgem ing&eacute;nua e pura, cuja ino&#8226; c&ecirc;ncia<br \/>\n    os mais ousados respeitam e conden&aacute;-la assim a corar eter&#8226; namente<br \/>\n    ao recordar a sua involunt&aacute;ria avilta&ccedil;&atilde;o? E esta profana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; a &uacute;ltima recompensa que recebe o artista pelas suas fadigas!<br \/>\n    Nos seus sonhos de gl&oacute;ria n&atilde;o contara com o apupar das turbas!<br \/>\n    E consente-se o atentado! E n&atilde;o se protege a obra do g&eacute;nio de<br \/>\n    t&atilde;o irreverentes ataques? Estes insultos tem-nos recebido com a m&uacute;sica,<br \/>\n    a poesia tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> A par&oacute;dia nada respeita. Os mais belos tipos, as mais ideais concep&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as mais brilhantes imagens que tem concebido uma fantasia de poeta, de dramaturgo,<br \/>\n    de romancista, tudo ela abocanha e profana.<\/p>\n<p> Para fazer rir as turbas, os tru&otilde;es dos nossos dias, ignorantes dos<br \/>\n    verdadeiros mist&eacute;rios da arte, destitu&iacute;dos de engenho, incapazes<br \/>\n    de produzir nada &uacute;til, especulam com os contrastes irreverentes e fazem<br \/>\n    rir como o macaco porque irris&ograve;riamente imita as visagens do homem,<br \/>\n    como o papagaio porque de igual forma, lhe imita a fala! E todos riem, ainda<br \/>\n    que me quer parecer que no peito de lodos se esconde certo desgosto, como<br \/>\n    o que eu sinto e em geral toda a gente, perante essas duas par&oacute;dias<br \/>\n    do homem, que nos apresenta a natureza. Quem h&aacute; que experimente por<br \/>\n    um mono a mesma afei&ccedil;&atilde;o que tem a um c&atilde;o? Ou que ligue<br \/>\n    a um papagaio o interesse que lhe inspira o original e inspirad&iacute;ssimo<br \/>\n    rouxinol? Em geral &eacute; o gosto duvidoso de um embarcadi&ccedil;o ou sertanejo<br \/>\n    da Am&eacute;rica que mais os aprecia.<\/p>\n<p> Mas ao lado da par&oacute;dia nasce o disparate. &Eacute; mais um passo<br \/>\n    dado pela arte no caminho da devassid&atilde;o.<\/p>\n<p> A musa perd e ent&atilde;o todo o casto pudor que caracterizava as nove<br \/>\n    filhas de J&uacute;piter.<\/p>\n<p> Ei-la no palco, desgrenhada, descomposta, &eacute;bria, rouca da orgia e<br \/>\n    do trip&uacute;dio, soltando como a bacante cantigas licenciosas e risadas<br \/>\n    c&iacute;nicas. Reparem para aqueles gestos, para aquelas maneiras, para aquelas<br \/>\n    dan&ccedil;as e digam se &oacute; esta a musa que se respeita, se &eacute;<br \/>\n    esta a musa que civiliza.<\/p>\n<p> E &eacute; no mesmo tablado onde nos apareceu j&aacute; a severa e nobre<br \/>\n    Melp&oacute;mene, no palco onde se nos revelou o g&eacute;nio de Donizetti,<br \/>\n    de Bellini, de Meyerbeer; em que o drama leal e consciencioso nos tem por<br \/>\n    vezes comovido e onde havemos aplaudido a boa e salutar com&eacute;&#8226;<br \/>\n    dia; &eacute; a esse mesmo tablado que deixaram subir a embriagada?! E n&atilde;o<br \/>\n    receiam que n&atilde;o volte ao templo assim profanado a arte que se preza?<br \/>\n    Fechem antes os teatros, fechem-nos, porque os espect&aacute;culos assim n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o os que civilizam, corrompem; n&atilde;o educam, pervertem.<\/p>\n<p> Sabes tu, meu amigo? estou em acreditar que vamos a respeito de arte num<br \/>\n    per&iacute;odo de retrocesso.<\/p>\n<p> N&atilde;o sei se te lembras de que nos nossos tempos de crian&ccedil;a<br \/>\n    havia nesta hoje t&atilde;o enfastiada cidade uma companhia l&iacute;rica<br \/>\n    italiana e uma companhia nacional. Tenho uma vaga ideia de que o teatro portugu&ecirc;s,<br \/>\n    bom ou mau que fosse, era ent&atilde;o concorrido, que ningu&eacute;m se enver&#8226;<br \/>\n    gonhava de o frequentar e de se interessar por os assuntos teatrais.<\/p>\n<p> A arte n&atilde;o florescia, &eacute; certo, mas encontrava no interesse<br \/>\n    do p&uacute;blico uma garantia da sua regenera&ccedil;&atilde;o. Pouco a pouco<br \/>\n    abandonaram o tea&#8226; tro nacional e s&oacute; foi moda tratar do teatro<br \/>\n    l&iacute;rico. Hoje nem desse.<\/p>\n<p> De maneira que no decurso de um ano, abrem-se tr&ecirc;s ou quatro vezes<br \/>\n    as portas dos nossos teatros e lan&ccedil;am-se ao dif&iacute;cil e apurado<br \/>\n    paladar do nosso p&uacute;blico delicados manjares como este : &laquo;El jovenTel&eacute;maco&raquo;,<br \/>\n    &laquo;Franchifredo&raquo;, &laquo;Os sete castelos do Diabo&raquo;, a &laquo;Gr&atilde;-<br \/>\n    -Duquesa&raquo;; amanh&atilde; o &laquo;Barba-Azul&raquo; e n&atilde;o sei<br \/>\n    quantas mais par&oacute;dias, m&aacute;gicas e disparates e tudo isto condimentado<br \/>\n    com uma especiaria de cenas c&oacute;micas insulsas e farsas sem sabor, em<br \/>\n    que um falso c&oacute;mico usurpa o lugar do c&oacute;mico de bom quilate.<\/p>\n<p> E o talento de alguns bons actores que temos, a corromper-se a falta de<br \/>\n    exerc&iacute;cio nobre e consciencioso da arte! Diz-me tu quantas vezes encontras<br \/>\n    o Taborda desempenhando um papel digno dele ? Do cora&ccedil;&atilde;o abomino<br \/>\n    todos os colaboradores desta obra &iacute;mpia da deprava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da arte. N&atilde;o perdoo, por exemplo, a Offenbach o aceder ao derrancado<br \/>\n    gosto da &eacute;poca, pondo ao servi&ccedil;o dele o seu grande talento musical.<br \/>\n    Um homem verdadeiramente artista nunca o teria consentido.<\/p>\n<p> O sacerdote que, para satisfazer os caprichos de uma companhia de &eacute;brios,<br \/>\n    consente em entoar salmos e ant&iacute;fonas na sala de uma orgia, avilta<br \/>\n    a religi&atilde;o de que &eacute; ministro e polui os l&aacute;bios que nunca<br \/>\n    mais celebrar&atilde;o nos altares com a pureza digna do sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Mas, dizem os homens para quem as regras do bom gosto s&atilde;o mud&aacute;veis<br \/>\n    e chegam todos os anos com os figurinos de Paris e das capitais &agrave; moda,<br \/>\n    que escr&uacute;pulos s&atilde;o esses de portuguesa puritana? Acaso n&atilde;o<br \/>\n    se aplaude hoje a &laquo;Gr&atilde;-Duquesa&raquo; em Paris? o &laquo;Barba-<br \/>\n    -Azul&raquo;? e todo este g&eacute;nero a que tanta avers&atilde;o mostras?<br \/>\n    E que me importa ? Se fosse certo como dizem, que em Paris &eacute; este o<br \/>\n    gosto dominante, o que n&atilde;o posso ainda acreditar, se fosse certo que<br \/>\n    o mais espirituoso povo do mundo precisava j&aacute; para excitar a sua embotada<br \/>\n    sensibilidade, destes derrancados produtos de uma arte aleijada e doentia,<br \/>\n    eu n&atilde;o duvidaria dizer que a arte estava em lament&aacute;vel decad&ecirc;ncia<br \/>\n    l&aacute; tamb&eacute;m; que a imagina&ccedil;&atilde;o parisiense sen- tia-se<br \/>\n    esgotada e o gosto em via de perder-se.<\/p>\n<p> Se em vez de se r s&oacute; Paris, toda a Europa, todo o mundo aplau&#8226;<br \/>\n    disse estes esc&acirc;ndalos, ainda assim a consci&ecirc;ncia nos dizia que<br \/>\n    toda a Europa, que todo o mundo estava em declina&ccedil;&atilde;o em assuntos<br \/>\n    de arte e de gosto porque n&atilde;o s&atilde;o de conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as regras do belo. H&aacute; em n&oacute;s alguma coisa que no-las formula,<br \/>\n    que no-lo ensina a reconhecer e que nos d&aacute; a coragem e a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para nos revoltarmos contra a opini&atilde;o geral, quando a sentimos extraviada<br \/>\n    da verdadeira e recta estrada que o gosto e a raz&atilde;o lhe tra&ccedil;aram.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; assim, n&atilde;o pode ser assim! Em Paris ao lado<br \/>\n    do mal est&aacute; o rem&eacute;dio; ao lado da arte doente e degenerada,<br \/>\n    a arte s&atilde; e vigorosa.<\/p>\n<p> Entre n&oacute;s o mal &eacute; maior porque, na&ccedil;&atilde;o de pouca<br \/>\n    gente, quando o mau gosto estabelece uma corrente para os teatros, desaparece<br \/>\n    o bom gosto, &agrave; falta de quem o siga.<\/p>\n<p> E depois n&oacute;s hoje estamos em um per&iacute;odo de educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    art&iacute;stica, desfavor&aacute;vel &agrave; verdadeira arte e no qual estes<br \/>\n    excessos s&atilde;o perigo&#8226; s&iacute;ssimos O gosto de uma na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    corre fases como o gosto de qualquer indi&#8226; v&iacute;duo. Em crian&ccedil;a,<br \/>\n    por exemplo, o teatro interessa-nos de uma maneira diversa daquela por que<br \/>\n    nos influi adultos. &Eacute; o enredo do drama que nos comove e n&atilde;o<br \/>\n    as belezas liter&aacute;rias, n&atilde;o o m&eacute;rito dos artistas que,<br \/>\n    se nos influem, &eacute; sem que o percebamos. Choramos as desgra&ccedil;as<br \/>\n    da protagonista, odiamos o tirano, aflige-nos como real a morte das personagens<br \/>\n    simp&aacute;ticas, trememos ante a perspectiva de um duelo e recolhemos a<br \/>\n    casa alegres ou tristes, conforme a natureza do desfecho.<\/p>\n<p> Esta ingenuidade dissipa-se cedo ; substitui-a mais tarde o gosto pelas<br \/>\n    belezas da composi&ccedil;&atilde;o e da execu&ccedil;&atilde;o. Este, por&eacute;m,<br \/>\n    forma-se mais lentamente do que se dissipa a primitiva ilus&atilde;o de que<br \/>\n    fal&aacute;mos. Daqui resulta haver um per&iacute;odo de transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que j&aacute; nos n&atilde;o ilude o enredo como em crian&ccedil;a nem<br \/>\n    ainda nos comovem as belezas liter&aacute;&#8226; rias, como quando o bom<br \/>\n    gosto se formou em n&oacute;s.<\/p>\n<p> Nesse per&iacute;odo frequenta-se o teatro com insensibilidade art&iacute;stica,<br \/>\n    apreciam-se tanto os intervalos como os actos, &eacute; indiferente perde<br \/>\n    r uma cena inteira ou no principio ou no fim e, se a moda p&ocirc;s isso em<br \/>\n    costume, adopta-se o costume da melhor vontade.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o aplaude-se tudo quanto a moda recomenda, o entusiasmo n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; espont&acirc;neo, &eacute; de conven&ccedil;&atilde;o e antes de<br \/>\n    saber se nos devemos arrebatar, perguntamos se o que vemos j&aacute; arrebatou<br \/>\n    algu&eacute;m que auto&#8226; rize o entusiasmo.<\/p>\n<p> O nosso povo na sua educa&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica est&aacute;<br \/>\n    quase neste caso, acha-se neste antip&aacute;tico e est&eacute;ril per&iacute;odo<br \/>\n    de transi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Perdeu j&aacute; aquela ingenuidade dos bons tempos em que corria aos teatros<br \/>\n    interessado pelas perip&eacute;cias dos grandes dramas em que chorava e ria<br \/>\n    e se indignava com diversos epis&oacute;dios que presenciava de boa f&eacute;;<br \/>\n    em que t&atilde;o completamente encarnava nos actores as per&#8226; sonagens<br \/>\n    do drama, que nem os distinguia.<\/p>\n<p> Ele n&atilde;o queria ent&atilde;o saber quem er a o autor da obra dram&aacute;tica,<br \/>\n    que o interessava. Esquecia-se at&eacute; de que um drama precisa de ter um<br \/>\n    autor.<\/p>\n<p> Estava na inf&acirc;ncia do gosto, nem os teatros eram ent&atilde;o con&#8226;<br \/>\n    corridos.<\/p>\n<p> Desenvolveu-se, por&eacute;m, o nosso p&uacute;blico e hoje j&aacute; assiste<br \/>\n    com o sorriso c&eacute;ptico aos espect&aacute;culos; j&aacute; tem vergonha<br \/>\n    de os tomar a s&eacute;rio, de chorar nas cenas sentimentais, de rir abertamente<br \/>\n    nas c&oacute;micas. Mas, por infelicidade, o bom gosto n&atilde;o veio ainda<br \/>\n    ocupar o terreno para fazer florescer a arte. N&atilde;o h&aacute; ainda bastante<br \/>\n    amor e conheci&#8226; mento dela para manter entre n&oacute;s um teatro permanente.<\/p>\n<p> Quem d&aacute; as leis, quem domina exclusivamente &eacute; a moda. Aplau&#8226;<br \/>\n    de-se o bom e o mau, contanto que a moda o recomende.<\/p>\n<p> S&atilde;o capazes de fazer hoje uma ova&ccedil;&atilde;o &agrave; Rist&ograve;ri<br \/>\n    e passar a noite seguinte a ouvir em del&iacute;rio as intermin&aacute;veis<br \/>\n    e insulsas coplas de Tel&eacute;- maco na ilha de Calipso.<\/p>\n<p> Ponham pois em moda o bom, os legisladores da moda Perdoa-me demorar tanto<br \/>\n    esta minha conversa, Gustavo; mas sabes que eu tenho destas indigna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    a que preciso dar expans&atilde;o.<\/p>\n<p> Custa-me ver que, reconhecendo o mal que est&aacute; corrompendo entre n&oacute;s<br \/>\n    a arte nascente, n&atilde;o se organize entre os nossos homens de letras uma<br \/>\n    cruzada leal e corajosa, tendo por divisa a arte e comba&#8226; tendo sem<br \/>\n    quartel nem miseric&oacute;rdia o mau gosto que nos vem do estrangeiro de<br \/>\n    mistura com os chignons e os mais artigos da moda. Adeus que chegam visitas<br \/>\n    a que tenho de atender; at&eacute; breve.<\/p>\n<p>Porto, 6 de Setembro de 1868.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Diana de Aveleda<\/b><\/p>\n<h2>A ILHA DA MADEIRA<\/h2>\n<p align=\"right\">Funchal, Mar&ccedil;o 1870<\/p>\n<p>Meu amigo Funchal, Mar&ccedil;o 1870 <\/p>\n<p>Recordo-me de lhe haver prometido, ao separarmo-nos, escre- ver-lhe de quando<br \/>\n    em quando desta ilha, onde pela segunda vez abordei, &agrave; procura do ideal<br \/>\n    que se chama sa&uacute;de.<\/p>\n<p> Tarde me lembrei do cumprimento da promessa; mas a tempo vai ainda.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; uma monografia que eu vou fazer. Deixarei em paz a constitui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geol&oacute;gica, a flora, a fauna da ilha e todas as quest&otilde;es m&eacute;dicas,<br \/>\n    econ&oacute;micas e pol&iacute;ticas que se prendem a este torr&atilde;o fertil&iacute;s-<br \/>\n    simo. O meu intento &eacute; mais modesto.<\/p>\n<p> Quero mostrar-lhe a Madeira atrav&eacute;s das individualissimas impres&#8226;<br \/>\n    s&otilde;es que o meu esp&iacute;rito recebe nela e isto sem plano, sem m&eacute;todo,<br \/>\n    sem coordena&ccedil;&atilde;o did&aacute;ctica e s&oacute; conforme a corrente<br \/>\n    irregular e capri&#8226; chosa das minhas ideias.<\/p>\n<p> Fazer-lhe esta observa&ccedil;&atilde;o equivale a avis&aacute;-lo de que<br \/>\n    n&atilde;o ser&atilde;o de tintas muito vivas os quadros que tra&ccedil;arei.<\/p>\n<p> A imagina&ccedil;&atilde;o de um valetudinario tinge de cores amortecidas<br \/>\n    as mais ridentes paisagens e as cenas mais pitorescas que observa; para ele<br \/>\n    o brilho do Sol &eacute; visto como atrav&eacute;s de um cristal corado; perceb<br \/>\n    e as grada&ccedil;&otilde;es de luz, mas sempre sob o tom uniforme e som&#8226;<br \/>\n    brio do cristal, que neste caso se chama: preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As viagens, esse sonho dourado que tanto seduz a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mocidade, ansiosa como a ave prisioneira, por alargar horizontes e bater<br \/>\n    asas em demanda de climas novos, transforma-se em amarga proscri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sempre que as empreendemos, for&ccedil;ados por uma triste necessidade e partimos<br \/>\n    levando o esp&iacute;rito assombrado por uma ideia, ou antes, por um pressentimento<br \/>\n    doloroso, Nada ent&atilde;o nos compensa as l&aacute;grimas da despedida e<br \/>\n    o cruel confrangimento do cora&ccedil;&atilde;o, que responde ao &uacute;ltimo<br \/>\n    adeus do amigo que, de olhos h&uacute;midos, nos acena da gare do caminho<br \/>\n    de ferro ou nos aperta a m&atilde;o no tombadilho do vapor. Partimos com a<br \/>\n    alma oprimida e sem aqueles voluptuosos estremecimentos de j&uacute;bilo que<br \/>\n    se mistu&#8226; ram &agrave;s saudades de quem se aparta dos seus, seduzido<br \/>\n    pelo prazer de viajar.<\/p>\n<p> Quando se perd e de vista a terra em que nos ficaram todos os afectos &Iacute;ntimos,<br \/>\n    parece-nos escutar uma voz interior a perguntar-nos se voltaremos a v&ecirc;-la.<br \/>\n    E n&atilde;o h&aacute; um clar&atilde;o de esperan&ccedil;a a responder a<br \/>\n    essa interroga&ccedil;&atilde;o! Que tristeza a daquele instante! Depois o<br \/>\n    mar, o mar, esse imenso foco de melancolias, acaba de escurecer-nos o pensamento!<br \/>\n    Olhar em roda e n&atilde;o avistar um s&oacute; desses objectos que nos falam<br \/>\n    do passado, da fam&iacute;lia, do remanso dom&eacute;stico! Ver tudo em movimento,<br \/>\n    tudo em irrequieta&ccedil;&atilde;o, tudo revolto! Ter necessidade, para satisfazer<br \/>\n    a instintiva &acirc;nsia de repouso que sen&#8226; timos, de elevar os olhos<br \/>\n    para o C&eacute;u, como faz o homem desalen&#8226; tado pelo tumultuar das<br \/>\n    vagas da vida e que considera aquela outra p&aacute;tria como o &uacute;nico<br \/>\n    lugar do verdadeiro repouso. Impress&otilde;es s&atilde;o estas que n&atilde;o<br \/>\n    dissipam as nuvens do nosso horizonte, antes mais as carregam.<\/p>\n<p> Apesar da sua grandiosa solenidade, o oceano &eacute; um desconso- la,dor<br \/>\n    companheiro para a alma naquelas disposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Por isso quando, ao amanhecer de um desses dias longos e deso&#8226; ladores<br \/>\n    se avista al&eacute;m, muito al&eacute;m no horizonte, uma sombra mal dis&#8226;<br \/>\n    tinta, atrav&eacute;s da qual s&oacute; o olhar amestrado do marinheiro consegue<br \/>\n    distinguir a terra demandada, sa&uacute;da-se essa sombra como uma pro&#8226;<br \/>\n    messa de reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Todos os olhos a procuram com ansiedade e, &agrave; medida que ela se ergue<br \/>\n    e aclara e avulta e se contorneia e se colora com as tintas naturais, revelando-se<br \/>\n    enfim, tal qual &eacute;, entre o azul do mar e o azul do c&eacute;u, dissipa-se<br \/>\n    a mais e mais a cerra&ccedil;&atilde;o da melancolia que nos pousava no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Como a ave, extenuada de longa travessia por sobre mares vas&#8226; t&iacute;ssimos,<br \/>\n    abate o voo a repousar na terra que lhe surge do seio das ondas, assim o esp&iacute;rito,<br \/>\n    cansado daquela imensidade e irrequieta agita&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas,<br \/>\n    voa a engolfar-se no rega&ccedil;o das verduras que parec e haverem enfim<br \/>\n    obedecido &agrave; evoca&ccedil;&atilde;o das suas nost&aacute;lgicas saudades.<\/p>\n<p> Quando a formosa ilha da Madeira, levantando-se da espuma do mar como a<br \/>\n    mitol&oacute;gica Citereia, crescia para n&oacute;s a receber-nos, abrindo<br \/>\n    o seu seio,ben&eacute;fico e maternal aos desconfortados que nela s&oacute;<br \/>\n    depositavam as suas derradeiras esperan&ccedil;as, sent&iacute;amos todos<br \/>\n    pene- trar-nos o cora&ccedil;&atilde;o um desses suaves prazeres como o que<br \/>\n    nos produz, no meio de uma turba de estranhos, o encontro de um rosto e de<br \/>\n    um sorriso de amigo.<\/p>\n<p> Formava um consolador contraste com a tremenda severidade do mar a amena<br \/>\n    perspectiva da ilha! Horas depois de a avistar, a marcha r&aacute;pida do<br \/>\n    vapor fez-nos dobrar o cabo de S&atilde;o Louren&ccedil;o; transpondo o amplo<br \/>\n    p&oacute;rtico que ele forma com o grupo das penhascosas Desertas, sentira-se<br \/>\n    uma s&uacute;bita mudan&ccedil;a de clima, como se de repente se tivessem<br \/>\n    vencido muitos graus de latitude. Afagou-nos a face a brisa t&eacute;pida<br \/>\n    e perfumada da ilha, aspir&aacute;mos com prazer o h&aacute;lito acalentador<br \/>\n    e salut&iacute;fero desta fada mar&iacute;tima; ach&aacute;vamo-nos sob o<br \/>\n    seu aben&ccedil;oado encantamento, reco&#8226; nhec&iacute;amos enfim a Madeira!<br \/>\n    A costa do sul ia passando em revista com as suas rochas escar&#8226; padas,<br \/>\n    as suas ribeiras profundas, a sua vegeta&ccedil;&atilde;o vigorosa, as suas<br \/>\n    formid&aacute;veis quebradas e os altos picos onde pousam as nuvens, os vales<br \/>\n    fertil&iacute;ssimos e as povoa&ccedil;&otilde;es graciosas.<\/p>\n<p> Momentos depois, vencida a ponta do Garaj&atilde;o, as casas e as quintas<br \/>\n    do Funchal, iluminadas por. um espl&ecirc;ndido sol de Outono, que dourava<br \/>\n    as extensas planta&ccedil;&otilde;es de cana, saudaram-nos por sua vez.<\/p>\n<p> A magia do espect&aacute;culo emudecera-nos. De um lado o mar, do outro<br \/>\n    as serras, e entre estas duas grandezas majestosas, a cidade sorrindo, coroo<br \/>\n    a crian&ccedil;a adormecida entre os pais, que a defendem e acalentam.<\/p>\n<p> Dentro em pouco pous&aacute;vamos p&eacute; em terra.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; grata a impress&atilde;o recebida ao desembarcar. Costumados<br \/>\n    aos extensos e alvejantes areais das nossas praias t&atilde;o ricas de formo&#8226;<br \/>\n    s&iacute;ssimas conchas e em cujas penhas se formam aqu&aacute;rios naturais,<br \/>\n    onde aos raios do Sol as act&iacute;nias matizadas escondem os seus bra&ccedil;os<br \/>\n    gela&#8226; tinosos e as algas crescem em delicad&iacute;ssimas arboriza&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    costuma&#8226; dos &agrave;s praias risonhas que atraem as mulheres e as crian&ccedil;as<br \/>\n    com o animado e variad&iacute;ssimo espect&aacute;culo que lhes oferecem e<br \/>\n    os abun&#8226; dantes tesouros de pedrarias que escondem nas suas m&oacute;veis<br \/>\n    areias, afecta-nos tristemente o aspecto desta praia negra, formada de calhaus<br \/>\n    roli&ccedil;os, cor de lousa, sem uma dessas pequenas maravilhas naturais<br \/>\n    que s&atilde;o o principal atractivo da beira-mar.<\/p>\n<p> Esta pedr a escura parece conservar ainda evidentes os vest&iacute;gios<br \/>\n    do cataclismo vulc&acirc;nico que a arremessou &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    das &aacute;guas. Dir- -se-ia que ainda est&aacute; defumada e quente do fogo<br \/>\n    do imenso forno em que foi fundida. Ao seu aspecto comprime-se o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do viajante.<\/p>\n<p> Entr&aacute;mos na cidade. H&aacute; um n&atilde;o sei qu&ecirc; de melanc&oacute;lico<br \/>\n    no aspecto dela. Por isso mesmo que &eacute; a generosa consoladora de tantos<br \/>\n    aflitos, por isso mesmo que acolhe no seio maternal os que sofrem e que de<br \/>\n    toda a parte do mundo correm a abrigar-se ao seu calor salutar, por isso mesmo,<br \/>\n    parece anuviar-lhe os sorrisos aquele ar de piedade e de compaix&atilde;o<br \/>\n    que &eacute;, por assim &#8216;dizer, a alegria da caridade. N&atilde;o nos sentimos<br \/>\n    impelidos a saud&aacute;-la com um c&acirc;ntico festivo, com uma aclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de prazer; mas apenas com uma serena como&ccedil;&atilde;o, igual &agrave;quela<br \/>\n    com que se beija a m&atilde;o generosa que se estende a socor- rer-nos ou<br \/>\n    a enxugar-nos as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p> &Oacute; Funchal! Que tristes dramas se t&ecirc;m passado &agrave; luz do<br \/>\n    teu sol ben&eacute;fico! Que lutuosos desenlaces de tantas hist&oacute;rias<br \/>\n    de paix&otilde;es! Que de l&aacute;grimas ardentes ca&iacute;das no teu solo<br \/>\n    sequioso que se apressa a escond&ecirc;-las discreto! E &agrave; sombra das<br \/>\n    tuas &aacute;rvores quantas frontes escaldando de febre vergaram sob o peso<br \/>\n    da cruel melancolia! Ilus&otilde;es desvanecidas, esperan&ccedil;as desfolhadas,<br \/>\n    sonhos de amor, de gl&oacute;ria, de felicidade, dos quais se desperta &agrave;<br \/>\n    beira do t&uacute;mulo, tudo tens presenciado, &oacute; humanit&aacute;ria<br \/>\n    cidade! E debaixo dos cedros e ciprestes dos teus cemit&eacute;rios dormem<br \/>\n    o &uacute;ltimo sono muitos m&aacute;rtires sem que as l&aacute;grimas dos<br \/>\n    que os amaram lhes caiam na campa como tributo.<\/p>\n<p> Dai vem a simpatia e a tristeza que inspiras. As tuas virtudes como irm&atilde;<br \/>\n    de caridade que consagra os dias ao cumprimento de uma miss&atilde;o cristian&iacute;ssima,<br \/>\n    brilham entre cenas e espect&aacute;culos de deso&#8226; la&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de dor.<\/p>\n<p> Este car&aacute;cter da cidade avulta aos primeiros passos dados no interior<br \/>\n    dela. O viajante cruza-se a cada momento com certas figuras p&aacute;lidas,<br \/>\n    emaciadas, pensativas, marchando lentamente, ou transporta&#8226; das em redes,<br \/>\n    encontra-as nos assentos dos passeios em ociosa medi&#8226; ta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ou fitando melancolicamente as ondas que se sucedem na praia; s&atilde;o ingleses<br \/>\n    cadav&eacute;ricos, alem&atilde;es di&aacute;fanos, portugueses des&#8226;<br \/>\n    carnados, brasileiros, norte-americanos, russos; s&atilde;o velhos, adultos,<br \/>\n    crian&ccedil;as, vaporosas belezas femininas de todas as partes do mundo,<br \/>\n    todos a convencer-nos de que estamos na citt&agrave; dolente; mas no p&oacute;r&#8226;<br \/>\n    tico desta n&atilde;o se l&ecirc; gravado o d&iacute;stico desesperador que<br \/>\n    o poeta ins&#8226; creveu no da regi&atilde;o das tormentas eternas. Pelo<br \/>\n    contr&aacute;rio, &agrave; entrada aqui, revestem-se de esperan&ccedil;a os<br \/>\n    pr&oacute;prios condenados.<\/p>\n<p> Para que a Madeira nos sorria, para que nos apare&ccedil;a formosa como<br \/>\n    a descreve o poeta ingl&ecirc;s e fragrante como uma verdadeira flor do oceano,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio sair do recinto da cidade, procurar as fregue&#8226;<br \/>\n    sias rurais, subir as &iacute;ngremes ladeiras que costeiam os picos e espraiar<br \/>\n    ent&atilde;o a vista pelos formos&iacute;ssimos vales que v&atilde;o descobrindo<br \/>\n    o seio fecund&iacute;ssimo aos nossos olhos maravilhados, Que vigor e variedade<br \/>\n    de vegeta&ccedil;&atilde;o ! O verde dourado da cana real&ccedil;a entre as<br \/>\n    diferentes cambiantes da mesma cor de plantas de todos os climas. A palmeira<br \/>\n    de Africa agita a sua fronte graciosa junto dos carvalhos da Europa; a bana&#8226;<br \/>\n    neira, vergando sob o peso dos seus cachos, cresce cheia de vi&ccedil;o nos<br \/>\n    mesmos pomares onde se enfeitam de flores os pessegueiros e as laranjeiras<br \/>\n    odor&iacute;feras. As rosas, as malvas, as madressilvas florescem espont&acirc;neas<br \/>\n    &agrave; beira dos caminhos; debru&ccedil;am-se dos muros as &laquo;bou- gainvillias&raquo;<br \/>\n    entretecendo os seus cachos roxos com as flores alaranjadas das bign&oacute;nias;<br \/>\n    tudo tem um ar de festa e alegria. A cho&ccedil;a mais humilde tem um jardim<br \/>\n    &agrave; entrada; as flores sorriem &agrave; porta dos ricos e dos pobres.<\/p>\n<p> E quanto mais nos elevamos mais se pronuncia este magnifico aspecto do pa&iacute;s.<br \/>\n    De um lado vemos aos nossos p&eacute;s, o mar liso como um espelho, azul como<br \/>\n    safira, limitado ao longe pelo grupo das Desertas vagamente tingidas do azulado<br \/>\n    da dist&acirc;ncia; do outro as altas serranias que rompem as nuvens e cujos<br \/>\n    cimos tantas vezes tinge a ofuscante alvura das neves. E nos flancos, abertos<br \/>\n    em fundas que&#8226; bradas, sulcados em ribeiras pelas torrentes do Inverno,<br \/>\n    uma vege&#8226; ta&ccedil;&atilde;o exuberante, cheia de vida, encobrindo<br \/>\n    aqui uma casa isolada, enfeitando al&eacute;m uma povoa&ccedil;&atilde;o risonha,<br \/>\n    que se agrupa em torno de um campan&aacute;rio.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o sim, ent&atilde;o a atmosfera embriaga, o peito aspira com<br \/>\n    volup- tuosidade esse ar bals&acirc;mico, o esp&iacute;rito liberta-se de<br \/>\n    todas as apreen&#8226; s&otilde;es que nos gelavam os sorrisos nos l&aacute;bios<br \/>\n    e goza-se despreocupado do mais surpreendente espect&aacute;culo que pode<br \/>\n    imaginar-se.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o &eacute; s&oacute; a natureza que t&atilde;o af&aacute;vel<br \/>\n    e acariciadora se mostra aos desesperados enfermos que se refugiam aqui; impress&otilde;es<br \/>\n    igual&#8226; mente gratas, igualmente consoladoras lhes v&ecirc;m de origem<br \/>\n    diversa.<\/p>\n<p> &Eacute; geral a simpatia que os doentes inspiram &agrave; gente da Madeira.<br \/>\n    Se os doces afectos de fam&iacute;lia, se os carinhos de uma esposa, de uma<br \/>\n    m&atilde;e ou de uma filha se podem substituir no mundo, &eacute; aqui a terra<br \/>\n    para tentar a experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Sentis que vos rodeia uma atmosfera de simpatia. Pessoas que nunca vos falaram,<br \/>\n    que n&atilde;o conheceis, seguem passo a passo, com sincero interesse, os<br \/>\n    progressos das vossas melhoras ou as alterna&#8226; tivas do vosso padecimento.<\/p>\n<p> Com o olhar que a experi&ecirc;ncia tem amestrado, estudam-vos no semblante<br \/>\n    as probabilidades de bom ou mau &ecirc;xito na luta pertinaz da natureza contra<br \/>\n    o influxo fatal que vos subjuga. E esse progn&oacute;stico &eacute; quase<br \/>\n    sempre infal&iacute;vel.<\/p>\n<p> Rara &eacute; a fam&iacute;lia que, levada por generosa curiosidade, se<br \/>\n    n&atilde;o informe com o m&eacute;dico que a visita ou com os propriet&aacute;rios<br \/>\n    dos hot&eacute;is, do estado dos estrangeiros doentes.<\/p>\n<p> Nestas vit&oacute;rias do clima sobre a doen&ccedil;a, est&atilde;o empenhados<br \/>\n    os brios e o principal bras&atilde;o da terra, e o amor p&aacute;trio &eacute;<br \/>\n    um sentimento profundamente entranhado no cora&ccedil;&atilde;o deste povo.<br \/>\n    Uma cura operada &eacute; um triunfo e todos a conservam na tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gloriosa da terra com simp&aacute;tico e louv&aacute;vel orgulho.<\/p>\n<p> A simpatia vai ainda mais longe, revela-se sob mais cordial mani&#8226;<br \/>\n    festa&ccedil;&atilde;o, exerce-se mais eficaz e aben&ccedil;oada ainda. As<br \/>\n    formosas madei&#8226; renses, e quem, tendo visitado esta terra, n&atilde;o<br \/>\n    conservar&aacute; mem&oacute;ria delas? condescendem muita vez em animar a<br \/>\n    alma desolada dos soli&#8226; t&aacute;rios enfermos com o raio vivificador<br \/>\n    dos seus olhares magn&eacute;ticos. Amor&aacute;veis, movidas por uma generosa<br \/>\n    simpatia, exaltadas pelo entusiasmo natural a um cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    rapariga, acalentam muitas vezes esses amores que elas bem sabem ser sem futuro,<br \/>\n    e iluminam os &uacute;ltimos dias de uma triste exist&ecirc;ncia com a doce<br \/>\n    luz do mais casto e imaculado afecto. Quantos que morriam longe dos seus com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o partido de saudades, lhes devem os &uacute;ltimos<br \/>\n    doces sonhos da sua vida, as derra&#8226; deiras ilus&otilde;es e um tributo<br \/>\n    de l&aacute;grimas na campa? Anjos ador&aacute;veis, cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    generosos, v&oacute;s concorreis com o tesouro dos vossos afectos para a santa<br \/>\n    miss&atilde;o que se desempenha aqui. &Agrave;s vezes sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    do vosso amor, voltam as cores &agrave;s faces desmaiadas, um sangue novo<br \/>\n    circula nas veias exauridas e por um milagre de afecto renasce para a vida<br \/>\n    o que a ci&ecirc;ncia j&aacute; condenara. Outros sucumbem, mas tendo ao menos<br \/>\n    nos l&aacute;bios um nome querido, no pensamento uma imagem e no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a esperan&ccedil;a de que n&atilde;o ficar&aacute; sem sentido para todos<br \/>\n    a inscri&ccedil;&atilde;o funer&aacute;ria que lhes gravarem na lousa.<\/p>\n<p> Aben&ccedil;oadas sejais pelo conforto que tendes dado &atilde;s almas tristes,<br \/>\n    que sucumbiam &agrave; m&iacute;ngua dele! Reparo por&eacute;m agora, meu<br \/>\n    amigo, no tom eleg&iacute;aco que vai tomando a missiva. Ser&aacute; prudente<br \/>\n    parar aqui, procurando para outra vez ser mais alegre.<\/p>\n<p align=\"right\">Seu do cora&ccedil;&atilde;o <\/p>\n<h2>CARTAS PARTICULARES<\/h2>\n<p><b>A SEU PAI QUANDO TEVE NOT\u00cdCIAS DA SUA NOMEA\u00c7\u00c3O DE DEMONSTRA. DOR DA ESCOLA<br \/>\n    M\u00c9DICA DO PORTO<\/b><\/p>\n<p>Pap&aacute;<\/p>\n<p>A estas horas &eacute; prov&aacute;vel que j&aacute; saiba que estou despachado.<br \/>\n    N&atilde;o tinha informado inexactamente o amigo do Teixeira Pinto, quando<br \/>\n    disse que na quinta-feira se assinava o decreto da minha nomea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; com a data de 20 que ele vem no Di&aacute;rio de 22.<\/p>\n<p> Esse mesmo rapaz escreveu de Lisboa e eu acabo de ver o Di&aacute;rio. O<br \/>\n    amanuense da Escola escreveu-me tamb&eacute;m. Finalmente est&aacute; decidido;<br \/>\n    acabaram-se todas as d&uacute;vidas e inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Nesta ocasi&atilde;o em que o meu futuro se fixou, n&atilde;o posso deixar<br \/>\n    de me recordar do muito que devo ao Pap&aacute; pelos sacrif&iacute;cios feitos<br \/>\n    por mim.<\/p>\n<p> Alegra-me duplamente o resultado deste meu empenho porque, com o prazer<br \/>\n    que me causa, sei que n&atilde;o menos intenso havia de pro&#8226; duzir no<br \/>\n    Pap&aacute;, que at&eacute; agora t&atilde;o improf&iacute;cuos tinha visto<br \/>\n    ficarem os seus grandes esfor&ccedil;os para a felicidade dos filhos.<\/p>\n<p> Meus irm&atilde;os foram privados, n&atilde;o sei por que vistas providen&#8226;<br \/>\n    ciais, de colherem neste mundo os frutos da esmerada educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhes dera. Esse mesmo poder, que os sacrificou t&atilde;o novos, parece<br \/>\n    ter-me reservado, como que para realizar em mim a recompensa que lhe merecia<br \/>\n    a resigna&ccedil;&atilde;o do Pap&aacute;.<\/p>\n<p> Alegra-me esta ideia e anima-me a acreditar que n&atilde;o me faltar&aacute;<br \/>\n    a vida e a sa&uacute;de para poder cumprir essa miss&atilde;o talvez providencial.<\/p>\n<p> Creia que tenho sentimentos para avaliar todos os seus sacri&#8226; f&iacute;cios<br \/>\n    e para compreender o alcance da delicadeza com que procurava n&atilde;o mos<br \/>\n    fazer sentir.<\/p>\n<p>Neste dia, um dos mais solenes de toda a minha vida, permita-me que cumpra<br \/>\n    com o meu primeiro dever beijando-lhe respeitosamente a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Seu filho grato e afectuoso<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Joaquim Felgueiras, 24 de Julho de 1865.<\/b><\/p>\n<p><b>A SEU PAI, DE FINS DE MAR&Ccedil;O DE 1868, DEPOIS DA REPRESENTA&Ccedil;&Atilde;O<br \/>\n    DAS &laquo;PUPILAS&raquo; EM LISBOA<\/b><\/p>\n<p>Pap&aacute;<\/p>\n<p>Continuo a passar bem e por enquanto n&atilde;o posso dizer quando partirei.<\/p>\n<p> As &laquo;Pupilas&raquo; foram bem desempenhadas e prometem dar &agrave;<br \/>\n    empresa bastantes enchentes.<\/p>\n<p> Do que se passou na noite em que eu l&aacute; estive d&aacute; conta exacta<br \/>\n    a noticia que envio, a qual foi publicada por um Di&aacute;rio daqui. Ontem<br \/>\n    esperavam-me &agrave; noite em casa do Mendes Leal, mas como &agrave;s segundas-<br \/>\n    -feiras &eacute; l&aacute; reuni&atilde;o de etiqueta, a que se vai de casaca<br \/>\n    e em rigor, fui para o teatro franc&ecirc;s e dei por desculpa que n&atilde;o<br \/>\n    queria deixar a com&#8226; panhia com quem tinha vindo a Lisboa.<\/p>\n<p> No teatro da Trindade, no s&aacute;bado, pediu-me o Mendes Leal para ir<br \/>\n    ao camarote dele, visto este n&atilde;o poder deixar s&oacute; as senhoras<br \/>\n    com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre<br \/>\n    elas, o Chami&ccedil;o. O Castilho j&aacute; me veio visitar.<\/p>\n<p> As &laquo;Pupilas&raquo; foram postas em cena com bastante fidelidade de<br \/>\n    vestu&aacute;rio e de costumes.<\/p>\n<p> O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante<br \/>\n    animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reco&#8226; nhecer.<br \/>\n    No 6.&deg; quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a m&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei<br \/>\n    todo o quadro final.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o recomenda&ccedil;&otilde;es a toda a fam&iacute;lia e ao tio<br \/>\n    Bernardo.<\/p>\n<p> Pe&ccedil;o tamb&eacute;m que mande entregar ao Dr. Reim&atilde;o os livros<br \/>\n    que ai deixei para ele e que se algu&eacute;m a&iacute; for procurar os exemplares<br \/>\n    da Disserta&ccedil;&atilde;o do Il&iacute;dio, lhe entreguem os que est&atilde;o<br \/>\n    em um dos arm&aacute;rios inferiores da estante.<\/p>\n<p> Que n&atilde;o esque&ccedil;a tamb&eacute;m mandar-me esfregar o quarto.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Seu f.o ob.te Joaquim.<\/b><\/p>\n<h2>A SUA SOBRINHA ANA C. GOMES COELHO<\/h2>\n<p>Anitas<\/p>\n<p>Cumprindo a promessa que te fiz hoje mesmo, n&atilde;o me quis deitar sem<br \/>\n    primeiro te escrever. Cheguei a salvamento a esta terra, tendo engolido muito<br \/>\n    p&oacute; pelo caminho, petisco de que, nem por isso, fiquei gostando.<\/p>\n<p> Ceei bem e espero dormir melhor.<\/p>\n<p> A estas horas em que te estou a escrever j&aacute; tu deves estar sonhando<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a no travesseiro. Estimarei saber que sonhaste em coisas<br \/>\n    agrad&aacute;veis e que acordaste pela manh&atilde; satisfeita da tua vida.<\/p>\n<p> Espero que te lembres de mim ainda que seja s&oacute; quando almo&#8226;<br \/>\n    &ccedil;ares em S&atilde;o Jo&atilde;o Novo e tiveres de fazer por ti mesma<br \/>\n    as tuas fatias. Adeus por hoje. Manda-me dizer as flores que tens feito e<br \/>\n    reco- menda-me &agrave; Mam&atilde;, a quem hei-de escrever breve, e aos teus<br \/>\n    dois manos e, se te n&atilde;o esqueceres, faz tamb&eacute;m as visitas do<br \/>\n    costume &agrave;s pessoas que sabes.<\/p>\n<p> O Guilherme &#8216; disse-me o n&uacute;mero da vossa casa em Monchique, mas esqueceu-me.<br \/>\n    V&ecirc; se mo mandas dizer na tua carta, que podes dar ao Jos&egrave;zinho<br \/>\n    ! para ma enviar com a dele.<\/p>\n<p> Adeus.<\/p>\n<p> Ovar, 7-5-63.<\/p>\n<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Teu tio e muito amigo<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><b>Joaquim<\/b><\/p>\n<h3>LIV<\/h3>\n<p align=\"right\">Meu Passos Funchal, 2 de Novembro de 1870.<\/p>\n<p>Aproveito a passagem do vapor de Africa para te escrever duas linhas.<\/p>\n<p> Vou passando como a&iacute; passava, dias melhores, dias piores; impaciente<br \/>\n    com a falta de not&iacute;cias e monotonia desta terra.<\/p>\n<p>Estes primeiros quinze dias pareceram-me uma eternidade.<\/p>\n<p> Li as confiss&otilde;es de Rousseau e o Cromwel de V&iacute;tor Hugo.<\/p>\n<p> Perco-me em conjecturas sobre os resultados prov&aacute;veis do cerco de<br \/>\n    Paris e pergunto a mim mesmo se por acaso os vizinhos castelhanos ainda n&atilde;o<br \/>\n    passariam as fronteiras.<\/p>\n<p> Est&aacute; resumida a minha vida no Funchal.<\/p>\n<p> Aguardo com impaci&ecirc;ncia que me informes de tudo. Faz-me sempre lembrar<br \/>\n    ao Luso, Silva e Albuquerque se os vires.<\/p>\n<p> Em que nova prov&iacute;ncia da Hist&oacute;ria Natural dirige agora o nosso<br \/>\n    amigo Luso as suas sempre gloriosas campanhas? Adeus, para outra vez serei<br \/>\n    mais extenso, sem, com certeza, ser mais noticioso.<\/p>\n<p align=\"right\"> <b>Teu amigo do cora&ccedil;&atilde;o Coelho.<\/b><\/p>\n<h2>LV Meu caro Passos<\/h2>\n<p>Depois do que me disseste nas tuas &uacute;ltimas cartas, aguardo com impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    aquela em que deves pronunciar o Consummatum est, pren&uacute;ncio, a meu<br \/>\n    ver, de um per&iacute;odo de pl&aacute;cida felicidade na tua vida.<\/p>\n<p> A inquieta&ccedil;&atilde;o febril em que h&aacute; tanto tempo te tiveram<br \/>\n    as d&uacute;vidas e hesita&ccedil;&otilde;es do teu esp&iacute;rito acalmar&atilde;o;<br \/>\n    essas apreens&otilde;es de cat&aacute;stro&#8226; fes, que te assombram, h&atilde;o-de<br \/>\n    dissipar-se e tu achar&aacute;s que eu tinha raz&atilde;o ao dizer-te que<br \/>\n    o passo que, &agrave; for&ccedil;a de muito pensar nele, nos costumamos a<br \/>\n    considerar terr&iacute;vel, n&atilde;o merecia, afinal, o estupendo conceito<br \/>\n    que dele faz&iacute;amos. &Eacute; esta a minha convic&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    por isso desejo deveras saber de ti a boa nova de haveres enfim sa&iacute;do<br \/>\n    da insustent&aacute;vel situa&ccedil;&atilde;o em que h&aacute; muito n&oacute;s<br \/>\n    ambos temos vivido.<\/p>\n<p> Sou t&atilde;o desinteressado nisto que te digo, que contra minha con&#8226;<br \/>\n    veni&ecirc;ncia falo.<\/p>\n<p> O que ser&aacute; o Porto para mim depois que tu deres por terminada a tua<br \/>\n    vida de rapaz, deves imagin&aacute;-lo bem tu que desde muitos anos sabes<br \/>\n    qual o meu sistema de vida a&iacute; e quais os meus passatempos pre&#8226;<br \/>\n    dilectos. Afasta, por&eacute;m, da considera&ccedil;&atilde;o esta ideia para<br \/>\n    insistir na urgente necessidade que tens de mudar de h&aacute;bitos de vida.<br \/>\n    O futuro &eacute; de Deus, esse eterno Josu&eacute;, como lhe chama com esquisito<br \/>\n    sainete o nosso amigo Nogueira Lima na sua &uacute;ltima poesia; mas tanto<br \/>\n    quanto &eacute; dado a um homem prognostic&aacute;-lo, palpita-me que se te<br \/>\n    n&atilde;o pre&#8226; para muito sombrio. Animo, pois! Que te direi de mim?<br \/>\n    Eu vivo aqui no Inverno como me v&ecirc;s a&iacute; viver no Ver&atilde;o.<br \/>\n    A mesma sa&uacute;de inst&aacute;vel, o mesmo aborrecimento, a mesma indiferen&ccedil;a<br \/>\n    por quase tudo aquilo por que os homens se interessam. Leio e escrevo &agrave;s<br \/>\n    vezes; passeio sempre que o tempo o con&#8226; cede, mas a minha sensibilidade<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o &eacute; excitada pelos passeios do Funchal. Para mim<br \/>\n    isto agora &eacute; j&aacute; como o Porto.<\/p>\n<p> Precisava de viver com quem me excitasse a arrancar-me destes h&aacute;bitos<br \/>\n    que contra&iacute; e me fizesse empreender excurs&otilde;es pelos campos.<\/p>\n<p> A iniciativa, por&eacute;m, das pessoas com quem mais trato regula por a<br \/>\n    minha. Daqui resulta que vou vivendo morna e sornamente.<\/p>\n<p> Este ano a Madeira &eacute; uma Babel. Todas as na&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m<br \/>\n    aqui os seus representantes. H&aacute; alem&atilde;es que j&aacute; adoeceram<br \/>\n    em conse&#8226; qu&ecirc;ncia das marchas for&ccedil;adas dos generais de<br \/>\n    S. M. o Imperador da Alemanha.<\/p>\n<p> Morreu aqui um m&eacute;dico prussiano esfalfado pelo excessivo tra&#8226;<br \/>\n    balho dos hospitais de sangue.<\/p>\n<p> O Porto, segundo vejo das locais do Jornal do Porto, passa sem novidade.<br \/>\n    Deus o conserve.<\/p>\n<p> Funchal, 20 de Dezembro de 1870.<\/p>\n<h3>LVI<\/h3>\n<p>Meu caro Passos<\/p>\n<p>Funchal, 19 de Janeiro de 1871.<\/p>\n<p>Mais um golpe daqueles que eu e tu conhecemos. Mais uma pessoa que desaparece<br \/>\n    do estreito c&iacute;rculo das que estimo deveras.<\/p>\n<p> Quando da&iacute; vim, sabia que isto tinha de suceder durante a minha aus&ecirc;ncia.<br \/>\n    O adeus que dei &agrave; minha pobre tia, sabia que era o &uacute;ltimo.<\/p>\n<p> Sabia-o eu e ela tamb&eacute;m. N&atilde;o me iludiu a como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e o sil&ecirc;ncio com que se despedia de mim; compreendi-a como se me dissesse<br \/>\n    tudo o que tinha no pensamento. Mas tu bem sabes que estas coisas, embora<br \/>\n    esperadas, nunca deixam de nos surpreender dolorosamente quando sucedem. Em<br \/>\n    cada correio esperava a carta tarjada de preto de meu primo a participar-me<br \/>\n    o falecimento da m&atilde;e dele, que o foi quase minha, e apesar disso causou-me<br \/>\n    abalo, assim que esta manh&atilde; ma vieram entregar, essa carta fatal.<\/p>\n<p> Parece que nestes momentos morre em n&oacute;s uma infundada espe&#8226;<br \/>\n    ran&ccedil;a em n&atilde;o sei que milagre, que bem sabemos que se n&atilde;o<br \/>\n    dar&aacute;.<\/p>\n<p> Custa-me imenso esta perda. Desde a idade de quatro anos que fiquei sem<br \/>\n    m&atilde;e e nesta minha tia, &uacute;nica que foi m&atilde;e tamb&eacute;m,<br \/>\n    encontrei os mesmos extremos que tinha pelos seus pr&oacute;prios filhos.<br \/>\n    Isto me fez querer-lhe um pouco mais que &agrave;s outras, um pouco mais com<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o de filho.<\/p>\n<p>No intervalo de um ano morreram as minhas desveladas enfer&#8226; meiras.<br \/>\n    Quem sabe se os cuidados que tiveram comigo concorreriam para mais depressa<br \/>\n    sucumbirem! Tu deves imaginar o efeito que produzem no meu esp&iacute;rito<br \/>\n    estes sucessos. Sem esperan&ccedil;a de um longo futuro, assusta-me a ideia<br \/>\n    de sair desta vida t&atilde;o desprendido de afectos. Aqui na Madeira tenho<br \/>\n    sido testemunha desse doloroso espect&aacute;culo de um homem que morre longe<br \/>\n    de parentes e de amigos e tendo &agrave; cabeceira uma pessoa estra&#8226;<br \/>\n    nha e indiferente. Deve ser desesperador. E cada vez estou mais con&#8226;<br \/>\n    vencido de que essa sorte me est&aacute; reservada. &#8216; Desejava azedar o espirito<br \/>\n    at&eacute; ao ponto de essa ideia me ser indiferente. Ainda o n&atilde;o consegui.<\/p>\n<p> Perdoa-me esta carta. &Eacute; quase um crime chamar-te o pensa&#8226; mento<br \/>\n    para a beira de uns escuros abismos de onde espontaneamente te aproximas mais<br \/>\n    vezes do que convinha &agrave; tua sa&uacute;de e placidez de espirito; mas<br \/>\n    experimentei nisto um certo al&iacute;vio e confiei na tua ami&#8226; zade<br \/>\n    para me perdoar.<\/p>\n<p> Que me d&ecirc;s not&iacute;cias alegres na primeira carta que me escreve&#8226;<br \/>\n    res &eacute; o que eu mais desejo, e que essas not&iacute;cias te digam respeito.<\/p>\n<p align=\"right\">Teu amigo do cora&ccedil;&atilde;o Coelho.<\/p>\n<p>P. S. &#8212; Esquecia-me dizer-te que de sa&uacute;de continuo passando<br \/>\n    como passava a&iacute; no Ver&atilde;o.<\/p>\n<h2>LVII<\/h2>\n<p>Funchal, 26 de Fevereiro de 1871.<\/p>\n<p>N&atilde;o te escrevi no vapor passado e escrevo-te pouco neste por um motivo:<br \/>\n    tenho estado bastante doente. O que foi nem eu sei bem. Uma verdadeira tempestade<br \/>\n    nervosa que caiu sobre o meu organismo e mo p&ocirc;s em completa anarquia.<br \/>\n    Serenada ela, depois das mais estu&#8226; pendas metralhadas de medicina,<br \/>\n    ficou uma exacerba&ccedil;&atilde;o do meu catarro habitual e uma fraqueza<br \/>\n    devido &agrave; doen&ccedil;a e ao tratamento, de qu e espero sair comendo<br \/>\n    e passeando. <\/p>\n<p>Faleceu oito meses depois, em 12 de Setembro de 1871, no Porto, rodeado de<br \/>\n    parentes e de alguns amigos dos mais &iacute;ntimos,<\/p>\n<p>Por ora o apetite n&atilde;o &eacute; o que precisava ser ; mas vai desenvol-<br \/>\n    vendo-se gradualmente.<\/p>\n<p> Emagreci; quase me desconhe&ccedil;o quando, ao pentear, me vejo. Valham-me<br \/>\n    os meses de Mar&ccedil;o, Abril e Maio e a atmosfera desta ilha para me reconduzirem<br \/>\n    ao estado anterior.<\/p>\n<p> Escuso de te dizer qual teria sido o estado do meu espirito nesta crise.<br \/>\n    Deves sup&ocirc;-lo.<\/p>\n<p> Acho-me melhor depois que escrevi esta carta. Despe&ccedil;o-me por aqui<br \/>\n    e mando-te com um abra&ccedil;o muitas e verdadeiras saudades.<\/p>\n<p align=\"right\"><b>Teu velho amigo Coelho.<\/b><\/p>\n<h2>LVIII<\/h2>\n<p align=\"right\">Meu caro Passos Funchal, 19 de Abril de 1871.<\/p>\n<p>N&atilde;o te escrevi nos vapores passados porque, em parte mal podia escrever<br \/>\n    e, em parte, porque entendi que era melhor n&atilde;o carregar de sombras<br \/>\n    escuras os teus pensamentos, que eu j&aacute; previa estivessem sob a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    habitual e complexa que inclina &agrave; melan&#8226; colia. Creio que n&atilde;o<br \/>\n    me enganei muito. Bom foi, pois, que n&atilde;o te escrevesse e talvez bom<br \/>\n    seria que ainda desta vez seguisse o mesmo exemplo.<\/p>\n<p> O meu estado de sa&uacute;de ia cada vez pior; sentia-me desfalecer de dia<br \/>\n    para dia e j&aacute; n&atilde;o tinha coragem para me mirar a um espelho.<\/p>\n<p> A ideia da dissolu&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica aterra-me. Fiz um esfor&ccedil;o;<br \/>\n    abracei uma das &uacute;nicas medidas que me t&ecirc;m salvado. Mudei de resid&ecirc;ncia.<br \/>\n    Deixei o centro do Funchal, procurei um quarto em um hotel ingl&ecirc;s nos<br \/>\n    sub&uacute;r&#8226; bios desta cidade e onde &eacute; mais f&aacute;cil passear<br \/>\n    e gozar das vantagens do campo.<\/p>\n<p> Principiei a comer melhor, deitei-me ao vinho fraco e forte, &agrave; cerveja,<br \/>\n    aos ovos e ao leite e consegui cor e mais for&ccedil;a (que em parte tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; febre). Dizem-me que vou melhor e aplaudem-me a resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Agora, o reverso. Na apar&ecirc;ncia reconhe&ccedil;o todas essas vantagens.<\/p>\n<p> A tosse e expectora&ccedil;&atilde;o continuam, por&eacute;m ; os intestinos<br \/>\n    est&atilde;o capri&#8226; chosos e de noite o calor e suor n&atilde;o me deixam.<br \/>\n    Respiro pior do que respirava e canso &agrave;s subidas.<\/p>\n<p> Est&aacute; empenhada a luta. Veremos o que resulta at&eacute; 20 de Maio.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span>www.dominiopublico.gov.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Dinis Carta do Visconde de Castilho a J&uacute;lio Dinis acerca do seu romance Uma Fam&iacute;lia Inglesa, transcrita, por am&aacute;vel concess&atilde;o do Sr. Visconde de Castilho Quito), das Novas Telas Liter&aacute;rias (vol. IIP (1).) Ex.mo Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Recebi, mas s&oacute; muitos dias depois, o exemplar, com que V. 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