{"id":108057,"date":"2017-02-09T12:37:40","date_gmt":"2017-02-09T14:37:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108057"},"modified":"2017-02-09T12:39:36","modified_gmt":"2017-02-09T14:39:36","slug":"a-morgadinha-dos-canaviais-cronicas-da-aldeia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-morgadinha-dos-canaviais-cronicas-da-aldeia","title":{"rendered":"A Morgadinha dos Canaviais: Cr\u00f4nicas da Aldeia"},"content":{"rendered":"<\/p>\n<h2>J\u00falio Dinis<\/h2>\n<p>AO cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genu&iacute;no Dezembro,<br \/>\nchuvoso, frio, a&ccedil;outado do Sul e sem contrafeitos sorrisos<br \/>\nde Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte<br \/>\npor a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das<br \/>\nhonras de estrada, &agrave; falta de competidora, em que melhor coubessem.<\/p>\n<p>\nEra nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima<br \/>\nprov&iacute;ncia come&ccedil;a j&aacute; a ressentir-se, sen&atilde;o ainda nos vales e planuras,<br \/>\nnos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhan&ccedil;a de sua irm&atilde;, a alpestre<br \/>\ne severa Tr&aacute;s-os-Montes.<\/p>\n<p>\nO s&iacute;tio, naquele ponto, tinha o aspecto solit&aacute;rio, melanc&oacute;lico, e,<br \/>\nnessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoa&ccedil;&atilde;o importante, e com<br \/>\nnome em carta corogr&agrave;fica, estendiam-se milhas de pouco transit&aacute;veis<br \/>\ncaminhos. Vest&iacute;gios de exist&ecirc;ncia humana raro se encontravam. S&oacute;<br \/>\nde longe em longe, a cho&ccedil;a do pegureiro ou a cabana do rachador,<br \/>\nmas estas t&atilde;o ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a<br \/>\nabsoluta solid&atilde;o.<\/p>\n<p>\nNao se moviam em perfeita igualdade de condi&ccedil;&otilde;es os dois viandantes,<br \/>\nque dissemos,<br \/>\nUm, o mais mo&ccedil;o e pela apar&ecirc;ncia o de mais grada posi&ccedil;&atilde;o social,<br \/>\nera transportado num pouco escultural, mas possante muar, de inquietas<br \/>\norelhas, m&uacute;sculos de m&aacute;rmore e articula&ccedil;&otilde;es fi&eacute;is ; o outro seguia<br \/>\na p&eacute;, ao lado dele, competindo, nas grandes passadas que devoravam<br \/>\no caminho, com a quadrupedante alim&aacute;ria, cujos brios, al&eacute;m disso,<br \/>\nexcitava por est&iacute;mulos menos brandos do que os da simples e nobre<br \/>\nemula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nContra o que seria plaus&iacute;vel esperar deste desigual processo<br \/>\nde transporte, dos dois o menos extenuado e impaciente com as longuras<br \/>\ne fadigas da jornada n&atilde;o se pode dizer que fosse o cavaleiro.<\/p>\n<p>\nA postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melanc&oacute;lico,<br \/>\nfito nas orelhas do macho, a indiferen&ccedil;a, a taciturnidade ou o<br \/>\nmanifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem<br \/>\nnatural conseguiam j&aacute; desvanecer, o obstinado sil&ecirc;ncio que apenas<br \/>\nde quando em quando interrompia com uma frase curta mas en&eacute;rgica,<br \/>\ncom uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam<br \/>\ncom a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre,<br \/>\ncom a sua torrencial verbosidade, a que n&atilde;o opunha diques, e com<br \/>\nas joviais cantigas e minuciosas informa&ccedil;&otilde;es a respeito de tudo, por<br \/>\nmeio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir<br \/>\no seu sorumb&aacute;tico companheiro.<\/p>\n<p>\nExplica-se bem esta diferen&ccedil;a, dizendo que o cavaleiro era um<br \/>\nelegante rapaz de Lisboa, que fazia ent&atilde;o a sua primeira jornada, e o<br \/>\noutro um almocreve de profiss&atilde;o.<\/p>\n<p>\nO leitor provavelmente h&aacute;-de ter jornadeado alguma vez; sabe<br \/>\nportanto que o grato e quase voluptuoso alvoro&ccedil;o, com que se concebe<br \/>\ne planiza qualquer projecto de viagem, assim como a suave recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\nque dela guardamos depois, s&atilde;o coisas de incomparavelmente muito<br \/>\nmaiores del&iacute;cias, do que as impress&otilde;es experimentadas no pr&oacute;prio<br \/>\nmomento de nos vermos errantes em plena estrada ou pernoitando<br \/>\nnas estalagens, e mormente nas cl&aacute;ssicas estalagens das nossas prov&iacute;ncias.<\/p>\n<p>\nAs pequenas impertinencias, em que se n&atilde;o pensa antes, que<br \/>\nse esquecem depois, ou que a saudade consegue dourar at&eacute; e poetizar<br \/>\na seu modo; esses microsc&oacute;picos mart&iacute;rios, que de longe n&atilde;o avultam,<br \/>\nactuam-nos, na ocasi&atilde;o, a ponto de nos inabilitar para o gozo do<br \/>\nque &eacute; realmente belo. A dureza do colch&atilde;o, em que se dorme, do<br \/>\nalbard&atilde;o ou selim sobre que se monta, o tempero ou destempero<br \/>\ndo heter&oacute;clita cozinhado com que se enche o est&ocirc;mago, a lama que<br \/>\nnos incrusta at&eacute; os cabelos, o p&oacute; que se nos insinua at&eacute; os pulm&otilde;es,<br \/>\no frio que nos inteiri&ccedil;a os membros, o sol que nos congestiona o c&eacute;rebro,<br \/>\ntudo ent&atilde;o nos desafina o esp&iacute;rito, que traz&iacute;amos na tens&atilde;o necess&aacute;ria<br \/>\npara vibrar perante as maravilhas da natureza ou da arte.<\/p>\n<p>\nS&oacute; pelo pre&ccedil;o de muitas jornadas se compra o h&aacute;bito de ficar<br \/>\nimpass&iacute;vel no meio dos epis&oacute;dios destas pequenas odiss&eacute;ias, que atormentam<br \/>\ne exaurem o &acirc;nimo dos Ulisses novatos ; mas ai, quando se<br \/>\nadquire esse h&aacute;bito, tamb&eacute;m nos achamos j&aacute; com a sensibilidade mais<br \/>\nembotada para as como&ccedil;&otilde;es do belo.<\/p>\n<p>\nExamina-se com mais minuciosidade, mas com menos entusiasmo ;<br \/>\nanalisa-se mais e melhor; por&eacute;m a pr&oacute;pria an&aacute;lise &eacute; a prova de que<br \/>\nse sente menos. Onde domina o sentimento e a imagina&ccedil;&atilde;o, mal t&ecirc;m<br \/>\ncabida a paci&ecirc;ncia e fleuma, necess&aacute;rias aos processos anal&iacute;ticos.<\/p>\n<p>\nO homem positivo e frio recolhe de qualquer excurs&atilde;o &agrave; p&aacute;tria com<br \/>\na carteira cheia de apontamentos; o entusiasta e poeta nem uma data<br \/>\nregista. Viu menos, sentiu mais.<\/p>\n<p>\nMas Henrique de Souselas &#8212; que era este o nome do cavaleiro &#8212;<br \/>\nfora educado e passado da inf&acirc;ncia &agrave; plena juventude, em Lisboa, levan-<br \/>\nA MORGADINHA DOS CANAVIAIS<br \/>\ntando-se por avan&ccedil;ada manh&atilde;, frequentando o teatro, o Gr&ecirc;mio, as<br \/>\nc&acirc;maras, parolando no Chiado ou no Rossio, e indo alguns dias no ano<br \/>\na Sintra, ou qualquer praia de banhos, desenfadar-se da monotonia<br \/>\nda capital.<\/p>\n<p>\nDesde que fazia perfeito e consciente uso da raz&atilde;o, fora esta<br \/>\nornada, em que o encontr&aacute;mos, a primeira levada a efeito, e logo sob<br \/>\n&atilde;o maus auso&iacute;cios, que era para sufocar-lhe &agrave; nascen&ccedil;a os instintos<br \/>\nde turista, se porventura quisessem despertar nele.<\/p>\n<p>\nHavia dois dias que cavalgava aquele rocinante, &uacute;nico ve&iacute;culo<br \/>\nacomodado aos caminhos por que passara. E ent&atilde;o que dois dias !<br \/>\nDaqueles, durante os quais o c&eacute;u, uniformemente pardo, parece desfazer-<br \/>\nse em &aacute;gua, e a chuva cai sem interrup&ccedil;&atilde;o e com uma teimosia<br \/>\ne const&acirc;ncia impacientadoras ; daqueles em que a terra saciada rejeita<br \/>\nj&aacute; a &aacute;gua que recebe, a qual escorre nos declives, trasborda dos algares,<br \/>\ne encharca-se nos terrenos baixos, transformando em brejos as<br \/>\nlez&iacute;rias ; em que as lufadas do sui vergam e torcem os ramos, melanc&oacute;licamente<br \/>\ndespidos, dos &aacute;lamos e sobreiros, e emprestam aos pinheirais<br \/>\na voz dos mares ; em que os campos se mostram desertos, a noite<br \/>\nse antecipa, e t&atilde;o densas nuvens cobrem o firmamento, que parece<br \/>\ntomar-nos a persuas&atilde;o de que nunca mais o veremos com as suas formosas<br \/>\nvestes de azul.<\/p>\n<p>\nVejam se, nestas circunst&acirc;ncias, o pobre rapaz podia deixar de<br \/>\nir cabisbaixo, triste e dando ao Diabo a viagem que cometera.<\/p>\n<p>\nE para qu&ecirc; e porqu&ecirc; a cometera ele assim?<br \/>\nEm poucas palavras procuraremos satisfazer a natural interroga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\nque &eacute; de supor nos dirigissem os leitores, se pudessem faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>\nEste Henrique de Souselas atingira a idade dos vinte e sete anos,<br \/>\nvivendo, como dissemos, aquela enlanguescedora vida da capital,<br \/>\ne dividindo as aten&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito pela pol&iacute;tica, pela literatura e pelos<br \/>\ndestinos do teatro de S&atilde;o Carlos, do qual estava habilitado a fazer circunstanciada<br \/>\ncr&oacute;nica, que abrangesse os &uacute;ltimos dez anos.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o concebia vida fora daquilo.<\/p>\n<p>\nO mundo para ele era Lisboa. N&atilde;o sentia desejos, nem imaginava<br \/>\npossibilidade de visitar a Europa, quanto mais a prov&iacute;ncia ; o que<br \/>\nseria maior fa&ccedil;anha.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o que lhe faltassem recursos para realizar qualquer projecto<br \/>\ndesta natureza.<\/p>\n<p>\nHenrique herdara dos pais rendimentos bastantes, dos quais vivia<br \/>\nfolgadamente e sem precisar de sacrificar nos altares da economia.<\/p>\n<p>\nMas a indol&ecirc;ncia lisbonense manietava-o ali. A poucos ia t&atilde;o direita<br \/>\na apostrofe de Garrett aos seus &laquo;queridos alfacinhas&raquo;, a qual se pode<br \/>\n1er no livro s&eacute;timo das &laquo;Viagens&raquo;.<\/p>\n<p>\nDe certo tempo em diante come&ccedil;ou, por&eacute;m, a incomod&aacute;-lo uma<br \/>\nesp&eacute;cie de v&aacute;cuo interior, um mal-estar, doen&ccedil;a infal&iacute;vel nos celibat&aacute;rios<br \/>\nsem fam&iacute;lia, quando chegam &agrave; idade a que chegou Henrique,<br \/>\ns passam a vida como ele.<\/p>\n<p>\nTudo lhe causava fastio. Bocejava em S&atilde;o Carlos, bocejava nas<br \/>\nc&acirc;maras, bocejava no Gr&ecirc;mio, bocejava no Su&iacute;&ccedil;o, no Chiado e nos<br \/>\nc&iacute;rculos dos seus amigos, os quais principiaram tamb&eacute;m a ach&aacute;-lo<br \/>\ninsuport&aacute;vel de insipidez; porque poucas coisas h&aacute; que mais perturbem<br \/>\no esp&iacute;rito, do que o espect&aacute;culo de um homem que boceja ou<br \/>\ndorme, onde e quando os outros forcejam por divertir-se.<\/p>\n<p>\nO dem&ocirc;nio da hipocondr&iacute;a, esse dem&ocirc;nio negro e l&ugrave;gubre, implac&aacute;vel<br \/>\nverdugo dos ociosos e ego&iacute;stas, o qual havia muito o espiava,<br \/>\napoderou-se dele em corpo e alma.<\/p>\n<p>\nA&iacute; temos, desde esse instante, Henrique muito preocupado com<br \/>\na sua pessoa, imaginando-se v&iacute;tima de mil e uma mol&eacute;stias, as mais<br \/>\ndisparatadas e incompat&iacute;veis, suspeitando-se conjuntamente predestinado<br \/>\npara a apoplexia e para a t&iacute;sica, para o cancro e para a aliena&ccedil;&atilde;o,<br \/>\npara a cegueira e para os aneurismas, tremendo &agrave; leitura do obitu&agrave;rio<br \/>\nda semana, folheando livros de medicina, construindo teorias fisiol&oacute;gicas,<br \/>\nconsultando todos os m&eacute;dicos da capital, experimentando todo<br \/>\no arsenal farmac&ecirc;utico e todos os an&uacute;ncios, em parangona, da quarta<br \/>\np&aacute;gina dos peri&oacute;dicos, e elevando as cren&ccedil;as do seu esp&iacute;rito amedrontado<br \/>\nat&eacute; &agrave;s misteriosas e nevoentas alturas do credo homeop&aacute;tico !<br \/>\nAo mesmo tempo manifestou-se nele uma progressiva degenera&ccedil;&atilde;o<br \/>\nde gosto ; n&atilde;o podia 1er uma p&aacute;gina dos livros que lhe eram predilectos<br \/>\n; desfazia-se sem desgosto de quadros, m&oacute;veis, est&aacute;tuas e objectos<br \/>\ncuriosos que coleccionara com paix&atilde;o ; detestava a m&uacute;sica, o teatro,<br \/>\nnuma palavra, tornara-se um dos maiores flagelos que podem pesar<br \/>\nsobre a humanidade e que muito em especial causam o supl&iacute;cio dos<br \/>\nm&eacute;dicos que os aturam.<\/p>\n<p>\nForam estes os que, em parte de boa f&eacute;, em parte com o desculp&aacute;vel<br \/>\nintuito de sacudirem de si tal pesadelo, lhe deram um dia de<br \/>\nconselho que fosse viajar.<\/p>\n<p>\nHenrique de Souselas julgou ouvir uma heresia nesta palavra :<br \/>\nviajar.<\/p>\n<p>\nViajar? E os seus aneurismas? E as suas imin&ecirc;ncias apopl&eacute;cticas?<br \/>\nE as suas disposi&ccedil;&otilde;es para tantas outras enfermidades ? Pois um homem<br \/>\npode l&aacute; viajar com esta bagagem patol&oacute;gica?<br \/>\nE se lhe desse alguma coisa pelo caminho? Recusou com mau<br \/>\nhumor a receita, e ficou na capital.<\/p>\n<p>\nExacerbaram-se os padecimentos, repetiram-se as consultas, e os<br \/>\nm&eacute;dicos, como se para isso apostados, a insistirem em que sa&iacute;sse de<br \/>\nLisboa.<\/p>\n<p>\n&#8212; O senhor n&atilde;o tem nada &#8212; diziam alguns.<\/p>\n<p>\nHenrique perdia a cabe&ccedil;a, ao ouvir isto.<\/p>\n<p>\nProlongou-se este estado de coisas, at&eacute; que um dia o hipocondr&iacute;aco<br \/>\nrapaz persuadiu-se muito s&egrave;riamente de que estava chegada a sua<br \/>\nhora extrema..<\/p>\n<p>\nUm m&eacute;dico velho e grave, que por essa ocasi&atilde;o o escutou, em vez<br \/>\nde se rir dele, disse-lhe, muito sisudo:<br \/>\n&#8212; Homem ! O senhor est&aacute; realmente mal. Esse estado de imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\nn&atilde;o pode prolongar-se mais tempo, sem romper por a&iacute; em alguma<br \/>\ndoen&ccedil;a que o sacrifique. Se quiser salvar-se, saia-me daqui, enquanto<br \/>\n&eacute; tempo. Quebre por todos os h&aacute;bitos, e escolha entre as fortes impress&otilde;es<br \/>\nde uma grande capital, como Paris ou Londres, ou as mornas sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\nde um completo viver de aldeia. Os revulsivos e os emolientes<br \/>\ncuram por meios opostos &agrave;s vezes as mesmas mol&eacute;stias.<\/p>\n<p>\nOra sucedeu que nesse mesmo dia recebesse Henrique um presente<br \/>\nde fruta de uma sua tia, santa criatura que ele, desde crian&ccedil;a, n&atilde;o<br \/>\nornara a ver.<\/p>\n<p>\nVivia regalada em uma aldeia sertaneja do Minho onde na idade<br \/>\nde cinco anos Henrique passara alguns meses na companhia de<br \/>\nsua m&atilde;e.<\/p>\n<p>\nAquela presente frugal recordara-lhe esse tempo, j&aacute; meio apagado<br \/>\nna mem&oacute;ria, e conseguira fazer-lhe saudades. Da&iacute; uns vagos<br \/>\ndesejos de voltar a ver aqueles s&iacute;tios.<\/p>\n<p>\nPor isso ao ouvir o conselho do doutor, Henrique nomeou-lhe<br \/>\na aldeia, em que esta sua parents vivia.<\/p>\n<p>\nO velho facultativo aplaudiu a id&eacute;ia e instou para que fosse<br \/>\nabra&ccedil;ada.<\/p>\n<p>\nO sobrinho escreveu ent&atilde;o &agrave; tia, e, passados dias, punha-se a<br \/>\ncaminho.<\/p>\n<p>\nMil vezes se arrependeu, depois da resolu&ccedil;&atilde;o tomada ; mil vezes<br \/>\nmandou ao Diabo o conselho do m&eacute;dico e fantasiou horr&iacute;veis exacerbases<br \/>\nem todos os seus males. Os inconvenientes de uma jornada, feita<br \/>\nainda segundo os velhos processos, com malas, coldres e pistolas,<br \/>\ncotas de montar e almocreve, ampliava-lhos a propor&ccedil;&otilde;es estupendas,<br \/>\no prisma da hipocondr&iacute;a.<\/p>\n<p>\nNo momento em que nos associamos ao cavaleiro, ca&iacute;ra ele num<br \/>\ndesalento profundo, num quase convencimento de pr&oacute;xima aniquila&ccedil;&atilde;o,<br \/>\ndo qual nem a loquacidade do almocreve, condimentada, como<br \/>\nera, de pragas eloq&uuml;entes e de cantigas pouco edificantes, o conseguiu<br \/>\narrancar.<\/p>\n<p>\nHavia mais de uma hora que estavam lutando com as dificuldades<br \/>\nda ascens&atilde;o do &iacute;ngreme e escabroso caminho, que torneava o monte<br \/>\ncomo as voltas de uma h&eacute;lice.<\/p>\n<p>\nEra este monte uma como irregular pir&acirc;mide, levantada no meio<br \/>\nda ampl&iacute;ssima bacia, onde tinha assento a aldeia que Henrique demandava<br \/>\n; por isso o estafado rapaz n&atilde;o podia atinar a raz&atilde;o de conveni&ecirc;ncia<br \/>\npela qual, tendo de procurar o vale, assim porfiavam em descrever<br \/>\nas fastidiosas curvas da quase intermin&aacute;vel espiral, que os aproximava<br \/>\ndo v&eacute;rtice.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o se concebe uma estrada menos l&oacute;gica do que aquela.<\/p>\n<p>\nNo nosso pa&iacute;s s&atilde;o por&eacute;m freq&uuml;entes estas faltas de l&oacute;gica nas<br \/>\nestradas.<\/p>\n<p>\nO almocreve havia-se separado por momentos de Henrique com<br \/>\no fim de encurtar dist&acirc;ncias, seguindo por um atalho s&oacute; franque&aacute;vel<br \/>\na gente de p&eacute;.<\/p>\n<p>\nHenrique nem desviara os olhos ptra o fundo vale, que se abria<br \/>\n&agrave; esquerda, velado pela densa n&eacute;voa daquela atmosfera saturada de<br \/>\nhumidade, nem prestava aten&ccedil;&atilde;o &agrave; agreste e selv&aacute;tica paisagem, do<br \/>\nlado direito, toda encrespada de pinheirais nascentes e de espinhosas<br \/>\ntojeiras.<\/p>\n<p>\nOs olhos procuravam, em ansiosa interroga&ccedil;&atilde;o, o mais alto da<br \/>\nflexuosa ladeira que subia, no s&iacute;tio em que ela, formando um cotovelo,<br \/>\nfurtava &agrave; vista o seguimento ulterior.<\/p>\n<p>\nNestas curvas das estradas sorri sempre de longe ao viajante,<br \/>\ncansado e aborrecido, que pela primeira vez as trilha, uma prometedora<br \/>\nesperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>\n&#8212; Dali verei talvez o termo do caminho &#8212; pensava ele.<\/p>\n<p>\nMas quantas vezes, ao aproximar-se, esta esperan&ccedil;a lhe foge !<br \/>\nAssim aconteceu a Henrique, que, ao chegar &agrave; almejada inflex&atilde;o<br \/>\ne quando esperava principiar enfim a descer para o vale e aproximar-<br \/>\nse da aldeia, viu que o macho, pr&aacute;tico no caminho, e &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\nde cujo instinto ele colocara a raz&atilde;o, dobrava ainda para a direita e<br \/>\ncontinuava a contornar e a subir o monte. A espiral n&atilde;o terminara<br \/>\nainda. Henrique olhou em torno de si, profundou a vista nas sombras<br \/>\ndo vale, nada p&ocirc;de descobrir, que lhe prometesse a aldeia procurada.<\/p>\n<p>\nMuita &aacute;rvore, povoa&ccedil;&atilde;o nenhuma. Teve um paroxismo de impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Isto n&atilde;o &eacute; estrada ! &#8212; exclamou ele, exasperado. &#8212; S&atilde;o os nove<br \/>\nc&iacute;rculos do Inferno de Dante virados para fora.<\/p>\n<p>\nE a luz do dia a fugir cada vez mais, e a chuva a aumentar, a calar<br \/>\natrav&eacute;s do grosso gab&atilde;o de jornada que Henrique vestia ! O desgra&ccedil;ado<br \/>\nvergava sob o peso da sua consterna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nAjuntou-se-lhe outra vez o almocreve, assobiando com fleuma<br \/>\ndesesperadora.<\/p>\n<p>\n&#8212; com um milh&atilde;o de dem&ocirc;nios ! &#8212; bradou-lhe Henrique, n&atilde;o<br \/>\npodendo conter-se. &#8212; Essa maldita terra foge diante de n&oacute;s, homem !<br \/>\n&#8212; Estamos quase l&aacute;, meu patr&atilde;o. &Eacute; ali logo adiante &#8212; respondeu<br \/>\no almocreve, sem se alterar. V&ecirc; aquela capelinha branca em cima<br \/>\ndaquele monte? pois fica j&aacute; para al&eacute;m da povoa&ccedil;&atilde;o. E a ermida da<br \/>\nSenhora da Sa&uacute;de. &Eacute; um instante.<\/p>\n<p>\n&#8212; Desde as duas horas da tarde que me dizes que &eacute; um instante,<br \/>\ne eu estou acreditando que cada vez nos afastamos mais. Pois se a aldeia<br \/>\nfica ali em baixo, para que diabo subimos n&oacute;s? &Atilde;s voltas que temos<br \/>\ndado, estou persuadido de que vamos t&atilde;o adiantados como quando<br \/>\nprincipiamos a subir.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois olha que d&uacute;vida ! Se se fosse a direito l&aacute; por baixo, era<br \/>\nmais perto, mas&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; Mas foi ent&atilde;o pelo prazer de trepar, que me trouxests<br \/>\npor aqui?<br \/>\n&#8212; N&atilde;o &eacute; isso, patr&atilde;o ; mas bem v&ecirc; V. S.&quot; que o caminho l&aacute; por<br \/>\nbaixo &eacute; todo cortado por quintas e campos, e &eacute; preciso dar tais voltas,<br \/>\nque afinal fica mais longe. Depois, com a chuva que tem ca&iacute;do, faz l&aacute;<br \/>\nid&eacute;ia de como est&atilde;o os riachos por l&aacute;! S&oacute; o esteiro do almargeal e<br \/>\npara uma pessoa se afogar. Mas tenha o patr&atilde;o paci&ecirc;ncia, que pouco<br \/>\n;alta agora. V&ecirc; V. S.&#8217; aquele tronco de sobreiro que parece, visto daqui,<br \/>\num frade de &quot;capuz?<br \/>\n&#8212; &Eacute; ali?<br \/>\n&#8212; N&atilde;o, senhor &#8212; disse o homem rindo ; &#8212; mas v&ecirc;em-se daquele<br \/>\ns&iacute;tio as primeiras casas da aldeia.<\/p>\n<p>\n&#8212; As primeiras ! &#8212; murmurou Henrique em tom lastimoso ; e penderam-<br \/>\nlhe os bra&ccedil;os com mais desalento e aumentou-se-lhe a flex&atilde;o<br \/>\nda coluna vertebral.<\/p>\n<p>\nO almocreve prosseguiu, para o distrair :<br \/>\n&#8212; Tenho passado por estes s&iacute;tios muita vez com neve de se cortar<br \/>\n&agrave; faca e de noite. E olhe que nunca tive medo. Qual hist&oacute;ria ! Medo !<br \/>\nIsso sim ! E vamos l&aacute; ! o s&iacute;tio n&atilde;o &eacute; dos mais seguros. V&ecirc; o senhor essa<br \/>\ncruz preta, a&iacute; &agrave; sua m&atilde;o direita, pregada no tronco desse pinheiro?<br \/>\nPois a&iacute; mesmo mataram um homem, que vinha com uns centos de mil-<br \/>\n-r&eacute;is da Feira Franca de Viseu, fez pelo S. Miguel um ano. E ainda hoje<br \/>\nse est&aacute; para saber quem foi. Num ermo destes s&oacute; os santos podem valer<br \/>\na uma criatura.<\/p>\n<p>\nHenrique sentiu-se pouco &agrave; vontade com as elucida&ccedil;&otilde;es do cicerone<br \/>\n; olhou para ele com desconfian&ccedil;a e quase julgou ver moverem-se<br \/>\nsombras suspeitas por entre os troncos dos pinheiros. Apalpou nos coldres<br \/>\nos cabos das pistolas, e aproximou as esporas dos ilhais da cavalgadura.<\/p>\n<p>\nDentro em pouco atingiam o indicado tronco de sobreiro, de junto<br \/>\ndo qual deviam avistar a aldeia.<\/p>\n<p>\nHenrique olhou ; viu l&aacute; no fundo do vale muitas &aacute;rvores, mas continuou<br \/>\na n&atilde;o enxergar vest&iacute;gios de casas.<\/p>\n<p>\n&#8212; Onde est&aacute; a aldeia que dizias, homem?<br \/>\n&#8212; Da&iacute; j&aacute; se v&ecirc; &#8212; disse o almocreve, correndo para alcan&ccedil;ar o<br \/>\ncavaleiro.&#8212;N&atilde;o v&ecirc; V. S.*. al&eacute;m. al&eacute;m, aqueles pinheirais mansos?<br \/>\n&#8212; Vejo, sim.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois j&aacute; s&atilde;o da freguesia. Se fosse mais claro havia de avistar<br \/>\na casa do guarda. &Eacute; a tapada dos Bajuncos, que pertence &agrave; morgadinha<br \/>\ndos Canaviais.<\/p>\n<p>\nHenrique n&atilde;o respondeu. A dist&acirc;ncia a que ficava ainda a tal<br \/>\ntapada f&ecirc;-lo suspirar.<\/p>\n<p>\nEnfim, passados minutos, principiaram a descer para o vale, costeando<br \/>\nsempre obliquamente o monte.<\/p>\n<p>\nCem passos andados, fez-lhe o almocreve notar um pequeno<br \/>\nponto branco, que se divisava ao longe por entre a rama do arvoredo,<br \/>\nmas j&aacute; indistintamente, em virtude do adiantado da hora e da intensidade<br \/>\nda neblina.<\/p>\n<p>\n&#8212; L&aacute; est&aacute; a capela da freguesia &#8212; dizia o homem.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ali ? E um s&eacute;culo para l&aacute; chegar !<br \/>\n&#8212; Qual ! Estamos aqui, estamos l&aacute;. Eh, ru&ccedil;o !<br \/>\nE aplicou uma vigorosa vergastada nas ancas do macho, que acelerou<br \/>\no passo.<\/p>\n<p>\nO homem continuou :<br \/>\n&#8212; At&eacute; se fosse mais dia podia-se ver daqui a pedra, que est&aacute; no<br \/>\ncemit&eacute;rio, e que &eacute; da fam&iacute;lia da morgadinha dos Canaviais. Foi a m&atilde;e<br \/>\ndela a primeira pessoa que l&aacute; se enterrou, e at&eacute; hoje mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>\nO povo, como o outro que diz, tem sua aquela em se enterrar fora da<br \/>\nigreja. Ele, a falar a verdade&#8230; Eu bem sei que tudo vai do costume&#8230;<\/p>\n<p>\nmas enfim a gente foi criada nisto&#8230; Mas a pedra &eacute; coisa asseada.<\/p>\n<p>\n&Eacute; como as que est&atilde;o na cidade.<\/p>\n<p>\nHenrique, transido de frio, quebrado de desalento, j&aacute; nem atendia<br \/>\nao que o homem ia dizendo.<\/p>\n<p>\nCerrara-se a noite de todo, quando atingiram enfim o vale. O terreno<br \/>\nmudava agora de aspecto. Apareciam j&aacute;, aqui e ali, alguns indicios<br \/>\nde cultura, anunciando a proximidade de um povoado. Os caminhos<br \/>\nestreitavam, internando-se no vale, e seguiam tortuosamente por<br \/>\nentre muros toscos de pedra ensossa, silvados e sebes naturais. A chuva,<br \/>\nque n&atilde;o cessara de cair, transformara estes caminhos, onde o declive<br \/>\nn&atilde;o dava escoamento &agrave;s &aacute;guas, em charcos e tremedais.<\/p>\n<p>\nNovos ind&iacute;cios da vizinhan&ccedil;a da aldeia iam sucessivamente aparecendo.<\/p>\n<p>\nAqui era uma manada de bois soltos, em direc&ccedil;&atilde;o do curral,<br \/>\nguiados por uma crian&ccedil;a de palho&ccedil;a e pernas nuas, os quais paravam<br \/>\na olhar com aquela express&atilde;o de composta curiosidade, que lhes &eacute;<br \/>\npeculiar, para o rec&eacute;m-chegado visitante da aldeia. N&atilde;o faltou receio a<br \/>\nHenrique, que sup&ocirc;s a estes bonacheir&otilde;es quadr&uacute;pedes a &iacute;ndole travessa<br \/>\ne bravia dos touros, a cuja chegada tantas v&ecirc;zes fora assistir em<br \/>\nLisboa.<\/p>\n<p>\nMais adiante passava por eles uma fileira de carros a vergarem<br \/>\nsob o peso do mato e atroando os ares com o chiar inc&ocirc;modo das rodas<br \/>\nsob o eixo, incomodo para os ouvidos cidad&atilde;os de Henrique, cujos nervos<br \/>\nse irritavam com ele, mas aparentemente agradabil&iacute;ssimo para os<br \/>\ncondutores alde&atilde;os, que ou dormiam ou cantavam com aquele acompanhamento.<\/p>\n<p>\nNum e noutro ponto deparavam-se-lhe j&aacute; algumas casas de tectos<br \/>\nde colmo, de cujas in&uacute;meras fendas sa&iacute;a um fumo espesso, que a atmosfera<br \/>\nh&uacute;mida mal deixava elevar nos ares. No olfacto desabituado de<br \/>\nHenrique de Souselas o cheiro resinoso e activo das pinhas e das agulhas<br \/>\nsecas dos pinheiros, queimadas no lar, produziam sensa&ccedil;&otilde;es muito<br \/>\nlonge de serem agrad&aacute;veis.<\/p>\n<p>\nAumentava-se-lhe com tudo isto a funda melancolia que j&aacute; lhe<br \/>\ntomara o &acirc;nimo.<\/p>\n<p>\n&#8212; Tantas fadigas para este resultado ! &#8212; pensava ele. &#8212; Sair de<br \/>\nLisboa para me enterrar nesta aldeia escura e suja! Enganou-se o<br \/>\nparvo do doutor. Cuidava que me salvava e matou-me. Eu morro por<br \/>\ncerto aqui. Deus lhe perdoe o homic&iacute;dio.<\/p>\n<p>\nOs caminhos sucediam-se aos caminhos, qual mais tortuoso e<br \/>\ninc&oacute;modo de trilhar ; as curvas complicavam-se como as ruas de um<br \/>\nlabirinto. Aqui subiam ; desciam mais al&eacute;m, para subir outra vez. umas<br \/>\nvezes caminhavam em terreno descoberto, outras penetravam em t&atilde;o<br \/>\nestreitas quelhas, apertadas entre paredes argilosas e h&uacute;midas e toldadas<br \/>\nde ramos entrela&ccedil;ados, que s&oacute; o instinto do animal podia evitar-lhes<br \/>\ncs perigos. Ora soavam as patas do macho como em ch&atilde;o lajeado, ora<br \/>\namortecia-lhes o som um terreno, que a chuva encharcava, e a &aacute;gua<br \/>\namacenta vinha salpicar o rosto do cavaleiro.<\/p>\n<p>\nAs casas eram j&aacute; freq&uuml;entes, e algumas de menos humilde apa&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>\nOs c&atilde;es, que, pelo timbre de voz, mostravam ser gigantes, ladravam<br \/>\nraivosos por dentro dos port&otilde;es ou de sobre os muros das quintas,<br \/>\nao ouvirem os passos da cavalgadura ou a voz do almocreve,<br \/>\nque falava ou cantava sempre.<\/p>\n<p>\nOutras vezes era um inarm&oacute;nico grunhir su&iacute;no que acusava a<br \/>\nvizinhan&ccedil;a das cortes ou, partindo de um casebre r&uacute;stico, o chorar de<br \/>\ncrian&ccedil;as, entremeado com os ralhos das m&atilde;es e com as pragas dos<br \/>\nchefes de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>\nO almocreve n&atilde;o desistira das suas fun&ccedil;&otilde;es de cicerone, que<br \/>\nsomente interrompia para saudar alguns conhecidos seus, a cuja porta<br \/>\npassavam.<\/p>\n<p>\n&#8212; Estes campos e lameiros &#8212; ia dizendo &#8212; s&atilde;o da morgadinha<br \/>\ndos Canaviais ; andam arrendados a um compadre meu.<\/p>\n<p>\nE exclamava para dentro de uma casa t&eacute;rrea, escassamente alumiada<br \/>\npor uma candeia:<br \/>\n&#8212; Boas noites, tia Escol&aacute;stica. como vai a pequenada?<br \/>\n&#8212; Ai, &eacute; vossemec&ecirc;, Sr. Jos&eacute;? Ent&atilde;o n&atilde;o entra? &#8212; respondia-lhe<br \/>\numa voz feminina.<\/p>\n<p>\n&#8212; Agora, n&atilde;o, amanh&atilde;.<\/p>\n<p>\nE prosseguiu para Henrique :<br \/>\n&#8212; &Eacute; uma santa criatura. A moraadinha&#8230;<\/p>\n<p>\nHenrique interrompeu-o :<br \/>\n&#8212; Onde fica, afinal, a quinta de Alvapenha? Onde mora minha<br \/>\nia? N&atilde;o me dir&aacute;s?<br \/>\n&#8212; &Eacute; logo a&iacute; adiante, meu patr&atilde;o. Em n&oacute;s passando umas casas<br \/>\namarelas que h&aacute; a&iacute;&#8230; &eacute; logo ao p&eacute;. Essas casas que digo s&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\nda morgadinha, mas h&aacute; uma demanda pelos modos.<\/p>\n<p>\nO almocreve falava pela d&eacute;cima ou und&eacute;cima vez na morgadinha.<\/p>\n<p>\nAt&eacute; esta peri&oacute;dica refer&ecirc;ncia a uma personagem que ele n&atilde;o conhecia,<br \/>\nimpacientava Henrique de Souselas.<\/p>\n<p>\nE continuavam a suceder-se em enredado d&eacute;dalo as quelhas e<br \/>\nazinhagas, a ponto de fazer perder t&ocirc;da a orienta&ccedil;&atilde;o. umas vezes<br \/>\nouviam o ru&iacute;do das levadas, que as ultimas chuvas tinham engrossado ;<br \/>\nadiante, transpunham uma ponte r&uacute;stica, escutando das profundezas<br \/>\ndo despenhadeiro, que ela atravessava, o fragor das cascatas nos a&ccedil;udes<br \/>\nou o ranger das rodas dos moinhos.<\/p>\n<p>\nHenrique a cada momento imaginava cair num abismo.<\/p>\n<p>\n&#8212; S&atilde;o os a&ccedil;udes do Casal &#8212; dizia o almocreve, berrando para<br \/>\nse fazer ouvir atrav&eacute;s do estrondo da torrente. &#8212; Pertencem &agrave; morgadinha<br \/>\ndos Canaviais.<\/p>\n<p>\nHenrique nem alento j&aacute; tinha para falar.<\/p>\n<p>\nAo triste e quase sinistro aspecto daquela aldeia, t&atilde;o cerrada lhe<br \/>\nenvolveu o cora&ccedil;&atilde;o a nuvem de melancolia, que cedeu sem resist&ecirc;ncia<br \/>\nao crescente torpor gue o invadia, como o que desespera da vida e da<br \/>\nsalva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nMais adiante, excitou-lhe ainda as aten&ccedil;&otilde;es uma toada piangente,<br \/>\nmelanc&oacute;lica, mon&oacute;tona, que exacerbou estes efeitos.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; uma fiada em casa do Tapadas &#8212; disse o almocreve. &#8212;<br \/>\nE um dos maiores amigos do pai da morgadinha. V&ecirc; aquele muro<br \/>\nacol&aacute; ?<br \/>\n&#8212; Eu n&atilde;o vejo nada. Deixa-me !<br \/>\n&#8212; Pois pertence j&aacute; &agrave; quinta dos Canaviais, que a morgadinha&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; Outra vez ! Cala-te para a&iacute; com essa morgadinha ! &#8212; exclamou<br \/>\nHenrique.<\/p>\n<p>\nEra evidente enfim que estavam em pleno cora&ccedil;&atilde;o do povoado.<\/p>\n<p>\nAs casas apareciam mais juntas. De algumas sa&iacute;a um surdo rumor de<br \/>\nvozes que tinha o que quer que era de lugubre. Era a coroa rezada<br \/>\nem fam&iacute;lia a Nossa Senhora. A voz grave do lavrador casava-se com<br \/>\na voz quebrada e tr&eacute;mula do av&ocirc;, com a voz sonora e fresca da m&atilde;e,<br \/>\ne a juvenil das raparigas e crian&ccedil;as naquele piedoso coro, produzindo<br \/>\num efeito que acabou por levar ao auge a impaci&ecirc;ncia do nosso esplen&eacute;tico<br \/>\nviajante.<\/p>\n<p>\n&#8212; Sumiu-se essa endiabrada cruinta de Alvapenha, que n&atilde;o a<br \/>\nacabamos de atingir?<br \/>\nO almocreve desta vez nem respondeu; sacudiu uma chicotada<br \/>\nsibilante junto &agrave;s orelhas do muar, o qual com desusada rapidez galgou<br \/>\numa ladeira orlada de &aacute;rvores, volveu &agrave; direita e, &agrave; voz do almocreve,<br \/>\nestacou em frente de um Dort&atilde;o de ouinta resguardado por um telheiro<br \/>\nr&uacute;stico.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; aqui &#8212; disse o guia.<\/p>\n<p>\n&#8212; At&eacute; que enfim ! &#8212; exclamou Henrique, suspirando. Suspiro de<br \/>\nconforto e de tristeza ao mesmo tempo, como o do homem cansado da<br \/>\nvida, quando antev&ecirc; o repouso do t&uacute;mulo. Em Henrique era &iacute;ntima<br \/>\na convic&ccedil;&atilde;o de que a quinta de Alvapenha lhe havia de servir de<br \/>\ncemit&eacute;rio.<\/p>\n<p>\nII<br \/>\nalmocreve assentou duas vigorosas pancadas no s&oacute;lido port&atilde;o<br \/>\nde castanho, diante do qual tinham parado.<\/p>\n<p>\nAs primeiras vozes, a responderem-lhe, foram as de dois<br \/>\nc&atilde;es, que acudiram de longe ao sinal e vieram ladrar &agrave; porta com<br \/>\nfuria, que fez agourar mal a Henrique da cordialidade da recep&ccedil;&atilde;o<br \/>\nque o esperava. De facto as inten&ccedil;&otilde;es dos quadr&uacute;pedes n&atilde;o pareciam<br \/>\ndemasiado hospitaleiras. O almocreve divertia-se excitando-os de fora<br \/>\ncom uma vara de vime, apesar de quantas recomenda&ccedil;&otilde;es de prud&ecirc;ncia<br \/>\nlhe fazia Henrique, n&atilde;o em demasia sossegado.<\/p>\n<p>\nAfinal ouviu-se uma voz &aacute;spera e rouca, chamando os c&atilde;es &agrave;<br \/>\nordem, se &eacute; l&iacute;cito, sem irrever&ecirc;ncia, empregar neste caso a frase consagrada<br \/>\npara outro g&eacute;nero de algazarra.<\/p>\n<p>\nHenrique ouviu rodar a chave, correr os ferrolhos, levantar a<br \/>\naldraba, gemerem os gonzos, e enfim um homem de lavoura alto e<br \/>\nmagro, trazendo em punho um lampi&atilde;o de froux&iacute;ssima luz, apareceu-<br \/>\n-lhes &agrave; porta e saudou-os com a f&oacute;rmula do estilo :<br \/>\n&#8212; Ora Nosso Senhor lhes d&ecirc; muito boas noites.<\/p>\n<p>\nE, levantando a luz &agrave; altura do rosto de Henrique, p&ocirc;s-se a mir&aacute;-lo<br \/>\ncom a menos cerimoniosa curiosidade.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; o sobrinho c&aacute; da senhora, n&atilde;o &eacute; verdade ?<br \/>\n&#8212; Sou eu mesmo.<\/p>\n<p>\n&#8212; Est&aacute; um tempo muito azedo. Eu j&aacute; julgava que n&atilde;o vinham.<\/p>\n<p>\nEntre.<\/p>\n<p>\nHenrique n&atilde;o se resolvia a aceitar o convite, porque lhe continuavam<br \/>\na impor respeito os olhares ferinos e os rugidos surdos dos dois<br \/>\nfa&ccedil;anhosos quadr&uacute;pedes, cuja m&aacute; vontade era a custo refreada.<\/p>\n<p>\n&#8212; Entre, entre &#8212; insistia o homem.<\/p>\n<p>\n&#8212; Mas esses animalejos?&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; Ah ! isto n&atilde;o faz mal. Sai-te para l&aacute;, Lobo ; passa, Tirano !<br \/>\nLobo ! Tirano ! Que nomes ! E dizia o homem que n&atilde;o faziam mal !<br \/>\n&#8212; Com os diabos! ti&#8217;Manel &#8212; disse o almocreve &#8212; em ocasi&atilde;o de<br \/>\ne esperarem h&oacute;spedes, n&atilde;~ se soltam assim os c&atilde;es. Os diabos n&atilde;o<br \/>\ns&atilde;o nenhuns cordeiros. Olhe no outro dia o Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes,<br \/>\nque por pouco lhes deixava nos dentes as barrigas das pernas.<\/p>\n<p>\n&#8212; Forte perca ! &#8212; resmoneou o outro. &#8212; N&atilde;o trouxesse c&aacute; os<br \/>\nele. N&atilde;o tem d&uacute;vida; entre o senhor, que eles n&atilde;o lhe fazem mal.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o entro; assim &eacute; que n&atilde;o entro &#8212; teimou Henrique, aqu&eacute;m<br \/>\nas palavras do almocreve acabaram de fortificar na sua resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nO homem em vista disto encolheu os ombros e bradou :<br \/>\n&#8212; O Luis !<br \/>\nUma crian&ccedil;a de cinco anos, e quase nua, correu ao chamamento.<\/p>\n<p>\n&#8212; Enxota para l&aacute; esses c&atilde;es, que aqui o senhor tem medo.<\/p>\n<p>\nA crian&ccedil;a, &agrave; palavra medo, fitou Henrique com uns olhos espan<br \/>\ntados, e tomando do ch&atilde;o um tronco de tojo, deu-se a zurzir desapig,<br \/>\ndadamente nas feras, que, com todos os sinais de respeito, de orelha<br \/>\nbaixa e cauda abatida, fugiram diante dela.<\/p>\n<p>\nO orgulho de Henrique de Souselas ficou um tanto maltratado<br \/>\ncom o desfecho da cena; mas a prud&ecirc;ncia consolava-o, dizendo-lhe que<br \/>\nandara ajuizadamente.<\/p>\n<p>\n&#8212; Agora vossemec&ecirc; &#8212; disse o campon&ecirc;s para o almocreve<br \/>\narranje-se como puder e mais a besta a&iacute; pelas lojas, enquanto eu ensino<br \/>\no caminho ao senhor.<\/p>\n<p>\n&#8212; V&atilde;o, v&atilde;o com Nossa Senhora, que eu c&aacute; me arranjarei. Muito<br \/>\nboas noites, Sr. Henriquinho.<\/p>\n<p>\n&#8212; Adeus, Jos&eacute; &#8212; disse Henrique, passando para a m&atilde;o do guia<br \/>\na esp&oacute;rtula da gorjeta, e ap&oacute;s seguiu, com as pernas tr&ocirc;pegas de cavalgar,<br \/>\no homem do lampi&atilde;o.<\/p>\n<p>\nNao era para dissipar a impress&atilde;o penosa, que subjugava o espirito<br \/>\nde Henrique, o aspecto que lhe oferecia, &agrave;quela hora da noite, a<br \/>\nparte da quinta, por onde era conduzido para a casa de Alvapenha,<br \/>\nPrimeiro, trilhou o pavimento mole de um quinteiro ou eido, estradado<br \/>\nde altas camadas de mato e embebido de chuva, de onde se exalava<br \/>\num cheiro de curtumes, pouco de lisonjear a olfacto mal habituado<br \/>\na estes aromas campesinos. A luz do lampi&atilde;o a custo conseguiu evitar<br \/>\na Henrique o trope&ccedil;ar num carro desaparelhado, numa dorna, numa pia<br \/>\npara galinhas, e em outros objectos que atrancavam o quinteiro. Transpondo<br \/>\na cancela que terminava este, seguiram por uma rua de folhas ;<br \/>\natravessaram diagonalmente a horta, pelo carreiro que a dividia ; ladearam<br \/>\na eira e a casa do caba&ntilde;al, e, efectuados mais alguns rodeios, acharam-<br \/>\nse finalmente junto da escadaria de pedra, por onde se subia para<br \/>\numa esp&eacute;cie de patamar ou varanda alpendrada, que servia de um<br \/>\nmodesto p&oacute;rtico &agrave; casa de Alvapenha.<\/p>\n<p>\nA propriedade da tia de Henrique era um genu&iacute;no tipo de casa<br \/>\nr&uacute;stica, &agrave; moda do Minho.<\/p>\n<p>\nAo subir as escadas, e apesar de mal poder divisar os objectos<br \/>\n&agrave; escassa luz que os alumiava, recebeu Henrique a primeira impress&atilde;o<br \/>\nagrad&aacute;vel de t&ocirc;da aquela mal estreada excurs&atilde;o.<\/p>\n<p>\nEstas escadas, esta varanda de pedra e este alpendre avivaram<br \/>\nnele mem&oacute;rias, quase apagadas. Lembrava-se agora vagamente de ter<br \/>\nbrincado ali, a cavalo nesse mesmo parapeito, ent&atilde;o, como agora, enfeitado<br \/>\nde uma formid&aacute;vel coorte de ab&oacute;boras meninas, v&iacute;timas votadas<br \/>\n&agrave;s festas do pr&oacute;ximo Natai.<\/p>\n<p>\nA um canto do patamar deparou-se-lhe ainda um grande vaso<br \/>\nde lou&ccedil;a, que ele, havia vinte e tantos anos, conhecera, e ao qual tinha<br \/>\na id&eacute;ia vaga de haver quebrado uma asa ; abaixou-se no intento de se<br \/>\ncertificar, e viu que de facto ainda lhe faltava a asa, sendo este o &uacute;nico<br \/>\nestrago que ap&oacute;s tanto tempo o velho utens&iacute;lio sofrer&aacute;.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; admir&aacute;vel ! &#8212; n&atilde;o p&ocirc;de deixar de exclamar Henrique ao<br \/>\nfazer a descoberta, vendo que em oito dias operava maior reforma<br \/>\nnos seus aposentos em Lisboa, do que num quarto de s&eacute;culo se realizava<br \/>\nem Alvapenha.<\/p>\n<p>\nO hortel&atilde;o bateu &agrave; porta e disse para dentro que era o sobrinho<br \/>\nja senhora que chegava.<\/p>\n<p>\nSeguiu-se um mexer de cadeiras, um trocar de vozes, um arrastar<br \/>\nde passos ; moveu-se a chave na fechadura ; abriram-se as portas<br \/>\ne no limiar apareceu de bra&ccedil;os abertos a tia Doroteia, e por tr&aacute;s dela,<br \/>\nelevando a luz acima do ombro da ama, a criada Maria de Jesus, a que,<br \/>\nhavia trinta anos, lhe era companheira e interessada em l&aacute;grimas e pesajes.<\/p>\n<p>\nJ&aacute; Henrique lhe andara ao colo no tempo em que estiver&agrave; crian&ccedil;a<br \/>\nna quinta.<\/p>\n<p>\nDiante da figura esbelta, do tipo varonil e do comprido bigode<br \/>\nde Henrique, a Sr.a Doroteia reprimiu as suas expans&otilde;es e quase recuou.<\/p>\n<p>\nNunca mais vira Henrique desde que este, aos cinco anos, deixara<br \/>\nAlvapenha, e dir-se-ia que esperava ainda encontrar os mesmos cabelos<br \/>\nlouros e anelados e o mesmo rosto menineiro da travessa crian&ccedil;a<br \/>\nde outros tempos, em vez do homem feito, em que os vinte e tantos<br \/>\nanos volvidos o tinham transformado.<\/p>\n<p>\nH&aacute; destas ilus&otilde;es na gente.<\/p>\n<p>\nA mais segura raz&atilde;o n&atilde;o est&aacute; precavida contra elas ; a infundada<br \/>\nsurpresa invade-nos de s&uacute;bito, e os l&aacute;bios n&atilde;o podem prender a exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\nque a denuncia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois na verdade tu &eacute;s o Henriquinho ? ! &#8212; disse espantada a<br \/>\nboa senhora.<\/p>\n<p>\n&#8212; Eu julgo que sim, tia Doroteia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Tu ! Ai como est&aacute;s um homem ! &Oacute; Maria de Jesus, voc&ecirc; n&atilde;o<br \/>\nquer ver isto ! ?<br \/>\n&#8226;&#8212; Parece mesmo um soldado ! &#8212; disse a criada, igualmente estupefacta.<\/p>\n<p>\n&#8212; Credo, mulher ! Sant&iacute;ssima Trindade ! Voc&ecirc; que est&aacute; a dizer ?<br \/>\nNossa Senhora nos livre de tal ! &#8212; exclamou a ama, em cujo conceito<br \/>\no soldado estabelecia a transi&ccedil;&atilde;o do homem para o Diabo.<\/p>\n<p>\nNo entretanto Henrique de Souselas abra&ccedil;ava a tia, que havia<br \/>\ntanto tempo que n&atilde;o vira, e ela correspondia-lhe, beijando-o com todo<br \/>\no carinho e chorando.<\/p>\n<p>\nChorando porqu&ecirc; ? Porqu&ecirc; ? Pela muita bondade que tinha naquela<br \/>\nalma. A bondade &eacute; um rico manancial, que brota l&aacute;grimas ao toque da<br \/>\nmenor como&ccedil;&atilde;o !<br \/>\nHenrique n&atilde;o tinha ainda bem conseguido libertar-se dos roxeados<br \/>\namplexos e mais provas de afecto de sua tia, quando se sentiu<br \/>\npreso em novos la&ccedil;os. Era Maria de Jesus, que o abra&ccedil;ava tamb&eacute;m<br \/>\ne lhe pespegava nas faces dois beijos muito chiados, como aqueles<br \/>\nque v&ecirc;m a ferver do cora&ccedil;&atilde;o, e isto acompanhado de um &#8212; Ai o meu<br \/>\nrico filho ! &#8212; t&atilde;o eloquente com&ograve; os beijos.<\/p>\n<p>\nHenrique, habituado &agrave;s etiquetas da civiliza&ccedil;&atilde;o urbana, que esta.<\/p>\n<p>\nbelece entre amos e criados dist&acirc;ncias desconhecidas na aldeia, estra,<br \/>\nnhou um pouco a familiaridade, mas sujeitou-se a ela sem reflex&otilde;es.<\/p>\n<p>\nMaria de Jesus dizia, ainda admirada :<br \/>\n&#8212; &Oacute; senhora ! N&atilde;o que uma coisa assim ! Pois &eacute; este o menino<br \/>\nque vinha &agrave; cozinha limpar o tacho, em que se fazia a marmelada !<br \/>\n&#8212; &Eacute; verdade ! E que boa marmelada c&aacute; se fazia !<br \/>\n&#8212; Lambareiro ! &#8212; disse a tia, sorrindo. &#8212; Se eu soubesse que<br \/>\neras assim, n&atilde;o tinha mandado lavar o tacho do doce, que ainda hoje<br \/>\nserviu.<\/p>\n<p>\n&#8212; Sim ? Ent&atilde;o ainda se faz doce c&aacute; em casa, como dantes ? &#8212; perguntou<br \/>\nHenrique.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois ent&atilde;o? todos os anos. Mas valha-me Deus! E nao querem<br \/>\nver n&oacute;s aqui postas &agrave; palestra ! Entra, menino, entra c&aacute; para dentro,<br \/>\nque est&aacute; frio e tu deves vir cansado.<\/p>\n<p>\n&#8212; Um pouco, um pouco, tia Doroteia.<\/p>\n<p>\nE Henrique entrou para a sala.<\/p>\n<p>\nDemoremo-nos no limiar para informar o leitor sobre as pessoas<br \/>\nem cuja casa se vai alojar Henrique de Souselas.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o se imagina a santa paz de esp&iacute;rito, a placidez de para&iacute;so<br \/>\nque estas duas mulheres &#8212; D. Doroteia e Maria de Jesus, ama e criada<br \/>\n&#8212;&#8226; gozavam na quinta de Alvapenha, onde Henrique de Souselas i<br \/>\nprocurar al&iacute;vio aos seus muitos e variados males.<\/p>\n<p>\nAmbas da mesma idade, ambas muito aferradas aos seus h&aacute;bitos<br \/>\nambas muito tementes a Deus e amigas do pr&oacute;ximo, as duas celibat&aacute;rias<br \/>\npassavam ali uma vida, rescendente a um suave perfume de santi<br \/>\ndade, como o da alfazema e do rosmaninho, que lhes aromatizava as<br \/>\ngavetas e de que se repassava t&ocirc;da a roupa branca, objecto muito<br \/>\ndos seus cuidados.<\/p>\n<p>\nA inalter&aacute;vel harmonia, mantida havia tantos anos entre as duas<br \/>\npoderia ser exemplo &agrave; maior parte das fam&iacute;lias deste mundo. Entre<br \/>\nvelhas, que nunca tiveram filhos, circunst&acirc;ncia que em geral faz o humo<br \/>\nmais acre e desabrido, era tanto mais para admirar o caso.<\/p>\n<p>\nTinham elas por&eacute;m a precisa toler&acirc;ncia para fazerem m&uacute;tuas con<br \/>\ncess&otilde;es ; cada uma fechava os olhos aos pequenos caprichos da outra<br \/>\ne tudo corria bem. Nunca adentro daquelas paredes se ouviu uma so<br \/>\npalavra, que, por mais alto pronunciada ou por menos expressiva<br \/>\nde paci&ecirc;ncia, destoasse da invari&aacute;vel monotonia dos seus habituais<br \/>\ndi&aacute;logos.<\/p>\n<p>\nEram um exemplo edificante para os vizinhos, que, pela maio<br \/>\nparte, devorados por demandas entre primos e irm&atilde;os, pais e filhos<br \/>\nmarido e mulher, mostravam infelizmente ser esta aben&ccedil;oada s&egrave;ment<br \/>\nca&iacute;da em improdutivo terreno.<\/p>\n<p>\nAs disc&oacute;rdias intestinas nas fam&iacute;lias do seu conhecimento afligiam<br \/>\nas duas sexagen&aacute;rias e aumentavam o n&uacute;mero de padre-nossos com<br \/>\nque todas as noites se faziam lembrar dos santos, de quem eram vali<br \/>\ndas pedindo-lhes a felicidade dos outros tanto ou mais do que a sua<br \/>\npr&oacute;pria<br \/>\nOuvir rezar as duas santas velhas &#8212; e era essa a ocupa&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\nseus curtos ser&otilde;es &#8212; eq&uuml;ivalia a escutar uma resenha das diferentes<br \/>\ncalamidades, que perseguem e apoquentam o g&eacute;nero humano, e que<br \/>\nelas, desta maneira, pretendiam evitar.<\/p>\n<p>\n&#8212; Um padre-nosso e uma ave-maria a S. Marcal, para que nos<br \/>\nivre do fogo &#8212; dizia D. Doroteia, e seguia-se o Padre-Nosso. &#8212; Outro<br \/>\na Santa Luzia milagrosa, para que nos d&ecirc; vista e claridade na alma e no<br \/>\ncorpo; outro a S. Br&aacute;s, para que nos proteja da garganta: outro a<br \/>\ng, Vicente, por causa das bexigas, etc. Seguia-se um padre-nosso por<br \/>\ntodos os que andam sobre as &aacute;guas do mar; outro por os pobres sem<br \/>\nabrigo nem alimento ; outro por os &oacute;rf&atilde;os ; outro pelos doentes ; um<br \/>\npelos vivos ; outro pelos mortos ; um pelos justos ; outro pelas almas do<br \/>\npurgat&oacute;rio, n&atilde;o hesitando at&eacute; a sua caridade em transpor as portas do<br \/>\nInferno e pedir tamb&eacute;m a remiss&atilde;o dos condenados. E ainda depois<br \/>\ndesta minuciosa e longa enumera&ccedil;&atilde;o, um &uacute;ltimo padre-nosso fechava aprimeira s&eacute;rie, compreendendo todos os n&atilde;o contemplados por esquedos,<br \/>\nou por n&atilde;o terem lugar na classifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nCompunha a segunda s&eacute;rie a men&ccedil;&atilde;o especial de cada uma das<br \/>\npessoas falecidas das suas rela&ccedil;&otilde;es : parentes, amigos e conhecidos,<br \/>\npor cujo &laquo;eterno descanso entre os resplendores da luz perp&eacute;tua&raquo;<br \/>\noravam com verdadeira compun&ccedil;&atilde;o. Nesta falange ia tamb&eacute;m D. Jo&atilde;o VI,<br \/>\npor quem, havia quarenta anos, se costumara a rezar D. Doroteia, e n&atilde;o<br \/>\nera ela mulher que rompesse com h&aacute;bitos semi-seculares. Era esse<br \/>\ntalvez o &uacute;nico padre-nosso que a alma do monarca recebia no C&eacute;u,<br \/>\ncom proced&ecirc;ncia do seu antigo reino.<\/p>\n<p>\nQuanto &agrave;s qualidades f&iacute;sicas, a imagina&ccedil;&atilde;o dos leitores pintar-lhas-&aacute;<br \/>\nmelhor do que a minha descri&ccedil;&atilde;o. For&ccedil;osamente conheceram uma destas<br \/>\nboas velhas, para quem nos sentimos atra&iacute;dos ; a quem se estima e com<br \/>\nquem se brinca ao mesmo tempo ; que nos podem inspirar sacrif&iacute;cios e<br \/>\nsimultaneamente nos tentam a travessura ; a quem mistificamos agora e<br \/>\nlogo beijamos respeitosamente a m&atilde;o ; contra quem n&atilde;o reprimimos impaciencias,<br \/>\nescutando depois submissos os seus nunca terminados serm&otilde;es.<\/p>\n<p>\nOra estas velhas assim t&ecirc;m quase sempre um tipo uniforme, que<br \/>\n&eacute; o reflexo exterior da bondade do cora&ccedil;&atilde;o; esse era o tipo da tia<br \/>\nDoroteia com o seu vestido roxo, o seu len&ccedil;o castamente cruzado no<br \/>\npeito, a sua touca de folhos alv&iacute;ssimos e de fitas escuras, o molho de<br \/>\nchaves &agrave; cinta, o livro de ora&ccedil;&otilde;es na algibeira e os &oacute;culos a marcarem<br \/>\nno livro a reza habitual.<\/p>\n<p>\nMaria de Jesus de igual maneira. Era apenas uma edi&ccedil;&atilde;o popular<br \/>\nda mesma alma. Sucedera de mais com elas o que &eacute; sempre de esperar<br \/>\nde uma longa e &iacute;ntima conviv&ecirc;ncia ; haviam reciprocamente adoptado<br \/>\nmaneiras e modos de pensar e de ver e de dizer as coisas uma da outra,<br \/>\na ponto de qualquer delas ser como que uma premissa de onde a modo<br \/>\nde conclus&atilde;o, se deduzia a outra facilmente.<\/p>\n<p>\nTudo isto percebeu logo Henrique de Souselas ao primeiro<br \/>\nexame que fez das duas santas mulheres.<\/p>\n<p>\nEntremos agora com ele para dentro da sala.<\/p>\n<p>\nQuem, vinte anos antes, tivesse visitado a casa de Alvapenha e ai<br \/>\nvoltasse de novo com Henrique julgaria, &agrave; vista da uniforme disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\nde coisas mantida ali dentro em t&atilde;o distantes &eacute;pocas, que todo esse<br \/>\ntempo n&atilde;o fora mais do que um sonho de momentos.<\/p>\n<p>\nEncontraria os mesmos m&oacute;veis, na mesma coloca&ccedil;&atilde;o ; as mesmas<br \/>\ncobertas nos leitos, apenas mais desbotadas ; as mesmas ou iguais cortinas<br \/>\nnas janelas ; o mesmo cheiro de feno e alfazema na atmosfera<br \/>\ndos quartos, os mesmos quadros na parede, as mesmas jarras nas<br \/>\nc&oacute;modas.<\/p>\n<p>\nA mem&oacute;ria de Henrique, aquela inconstante e leviana mem&oacute;ria<br \/>\nde rapaz estouvado, sentia-se acordar, &agrave; vista daquilo tudo.<\/p>\n<p>\nA sala tinha uma fisionomia caracter&iacute;stica.<\/p>\n<p>\nSuponha-se uma n&atilde;o muito ampla quadra de pouca altura, t&ocirc;da<br \/>\npintada a oca, e alumiada por duas mal rasgadas janelas de peitoril,<br \/>\ncom os seus competentes assentos de pedra, um defronte do outro,<br \/>\ncom meias cortinas de cambraia sempre corridas &#8212; pleonasmo de<br \/>\ndiscri&ccedil;&atilde;o que se n&atilde;o justificava, visto que as janelas, abrindo para a<br \/>\nquinta, n&atilde;o tinham vizinhan&ccedil;a de cujos olhares precisassem de recatar-<br \/>\nse. O tecto era de almofadas de castanho, em tempos pintado de<br \/>\nazul, agora de uma cor duvidosa. Havia quinze anos que D. Doroteia<br \/>\nfalava em o mandar retocar, mas o projecto, momentoso como era, ia<br \/>\nsendo adiado de Primavera para Primavera. Orlava a sala, no alto,<br \/>\num friso ou cornija saliente, onde coroadas ma&ccedil;&atilde;s de Inverno aguardavam,<br \/>\nem vistosa fileira, a completa matura&ccedil;&atilde;o, e derramavam no aposento<br \/>\no mais agrad&aacute;vel aroma. O pavimento, apesar de muito picado<br \/>\nde caruncho, andava limpo e escafunado &#8212; termo do vocabul&aacute;rio de<br \/>\ncasa &#8212; que metia gosto v&ecirc;-lo. Cada parede era um museu de estampas<br \/>\nde devo&ccedil;&atilde;o. Poucos santos e santas da corte celestial n&atilde;o estavam<br \/>\nali representados e com um colorido, que era o maior pecado, a que<br \/>\nestes bem-aventurados haviam dado lugar c&aacute; no mundo.<\/p>\n<p>\nC&aacute; se via Santa Quit&eacute;ria e as suas sete companheiras ; Santa Ana<br \/>\nensinando Nossa Senhora a 1er ; o Senhor dos Passos, venerado em<br \/>\nS. Jo&atilde;o Novo, no Porto ; o Bom Jesus de Bou&ccedil;as, representa&ccedil;&atilde;o da imagem,<br \/>\nque, segundo reza a respectiva cr&ocirc;nica, &eacute; obra das m&atilde;os de Jos&eacute;<br \/>\nde Nicodemo ; os Santos M&aacute;rtires de Marrocos, da igreja de S. Francisco,<br \/>\netc, etc. Sobre a comoda de pau-preto era devotamente venerado<br \/>\no mais rubicundo, menineiro e bem disposto Santo Ant&ocirc;nio, que ainda<br \/>\nmodelaram as m&atilde;os de santeiro afamado. E seja dito de passagem<br \/>\nque n&atilde;o sei por que a tradi&ccedil;&atilde;o popular d&aacute; a este austero franciscano<br \/>\no aspecto chorudo de um moderno reitor de farta abadia de aldeia.<\/p>\n<p>\nNo interior da redoma onde se abrigava o santo estava estabelecido<br \/>\no museu de raridades da tia Doroteia. Eram flores artificiais, conchazinhas<br \/>\ne caramujos, um ros&aacute;rio de caro&ccedil;os de azeitonas, uns poucos<br \/>\nde vint&eacute;ns de prata, enfiados e pendentes do bra&ccedil;o do menino Jesus,<br \/>\nque o santo sustentava ao colo, ver&oacute;nicas, escapul&aacute;rios, uma campainha<br \/>\nbenta, uma medida do bra&ccedil;o do Senhor de Matosinhos, um p&atilde;o do saco<br \/>\nde Santa Isabel, que vai na prociss&atilde;o de Cinza, no Porto, e outros<br \/>\nobjectos curiosos.<\/p>\n<p>\nA mob&iacute;lia da sala consistia em cadeiras de palhinha, que gemiam<br \/>\nquando entravam em servi&ccedil;o, como militar, cujas articula&ccedil;&otilde;es o reumatismo<br \/>\ninvadiu ; mesas cobertas com colchas de chita ; ba&uacute;s cravados de<br \/>\npregaria amarela, disposta em letras e arabescos ; uma papeleira de<br \/>\npau-santo, e uma gaiola com um can&aacute;rio decr&eacute;pito, objecto, havia muitos<br \/>\nanos, das tenta&ccedil;&otilde;es de um gato, mais decr&eacute;pito do que ele e pertencente<br \/>\nas classes inactivas.<\/p>\n<p>\nHenrique, adivinhando por todo aquele cheiro de beatitude e de<br \/>\nantig&uuml;idade que ali se respirava, os h&aacute;bitos da casa, sentia j&aacute; certo<br \/>\ndesconforto, corno de quem &eacute; arrancado de s&uacute;bito ao ambiente, em<br \/>\nque se educou e vive, e engolfado num ambiente estranho ; esp&eacute;cie de<br \/>\nasfixia moral, nao menos angustiosa do que a do peixe fora da &aacute;gua.<\/p>\n<p>\nA saudade que ao princ&iacute;pio sentira, dissipara-se j&aacute;. O perfume<br \/>\nda saudade &eacute; como o de certas flores, que s&oacute; se percebe quando de<br \/>\nlonge o recebemos. Se, iludidos, as tentamos aspirar de perto, dissipa-se.<\/p>\n<p>\nAcontecera isto com Henrique.<\/p>\n<p>\nCada vez portanto se lhe radicava mais funda a cren&ccedil;a de que<br \/>\nn&atilde;o seria por muito tempo que se demoraria ali.<\/p>\n<p>\n&#8212; Os emolientes do doutor &#8212; pensava ele, enquanto sua tia<br \/>\nfalava &#8212; ser&atilde;o eficazes para quem os puder sofrer sem enj&ocirc;o, mas<br \/>\npara mim&#8230;<\/p>\n<p>\nNo entretanto sentou-se.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ora o Henriquinho ! &#8212; dizia ainda D. Doroteia, pondo-se de<br \/>\nbra&ccedil;os cruzados em contempla&ccedil;&atilde;o defronte dele. &#8212; &Oacute; menino, onde<br \/>\nfoste tu arranjar esses bigodes tamanhos? Ent&atilde;o isso agora usa-se?<br \/>\nPergunta que sobremaneira embara&ccedil;ou Henrique.<\/p>\n<p>\n&#8212; Quem quer usar, usa, tia. N&atilde;o &eacute; obriga&ccedil;&atilde;o &#8212; respondeu ele,<br \/>\ncom leve mau humor.<\/p>\n<p>\n&#8212; Em nome do Padre e do Filho ! &#8212; dizia Maria de Jesus, benzendo-<br \/>\nse e tomando lugar ao lado da ama. &#8212; At&eacute; nem sei que parece,<br \/>\nlembrar-se a gente que trouxe este marmanj&atilde;o ao colo!<br \/>\nO termo &laquo;marmanj&atilde;o&raquo; n&atilde;o soou bem a Henrique. Principiava<br \/>\ntamb&eacute;m a impacient&aacute;-lo o ver as duas embasbacadas diante dele; um<br \/>\nhomem sujeito a uma exposi&ccedil;&atilde;o destas, por mais que fa&ccedil;a, -n&atilde;o atina<br \/>\ncom o modo de arrostar com ela, que n&atilde;o seja rid&iacute;culo. Ora Henrique,<br \/>\ncomo todo o homem da sociedade, o que mais que tudo temia neste<br \/>\nmundo era o rid&iacute;culo.<\/p>\n<p>\nFelizmente acudiu-lhe a caridosa interven&ccedil;&atilde;o da tia Doroteia,<br \/>\nque fez perceber &agrave; criada a conveni&ecirc;ncia de ir preparando a ceia de<br \/>\nHenrique, que havia de querer recolher-se. Henrique, apesar de n&atilde;o<br \/>\ncostumar cear, aceitou a id&eacute;ia, porque o frio, as fadigas e a m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\ndos &uacute;ltimos dias, haviam-lhe desafiado o apetite. Demais, o espanto<br \/>\nde D. Doroteia, quando lhe ouviu dizer que as ceias n&atilde;o entravam nos<br \/>\nseus h&aacute;bitos, foi tal que lhe tirou o &acirc;nimo de rejeitar.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o ceias! O menino, que me dizes? ent&atilde;o vais-te deitar sem<br \/>\nceia? Ora essa! Por isso voc&ecirc;s s&atilde;o uns pelens. Vejam l&aacute; que arranjo<br \/>\neste ! ficar t&ocirc;da a santa noite sem alguma coisa que d&ecirc; sustento ao est&ocirc;mago,<br \/>\nque aconchegue. Nada, nada ; a ceiinha em todo o caso. E tu<br \/>\nh&aacute;s-de tamb&eacute;m querer mudar de fato?<br \/>\n&#8212; Eu venho bastante molhado.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ai, ent&atilde;o depressa, menino, que nao h&aacute; nada pior do que a<br \/>\nroupa molhada no corpo. Maria&#8230; ou deixe estar, eu vou&#8230; Anda, Henriquinho,<br \/>\nanda l&aacute;, que eu guio-te ao teu quarto para te arranjares.<\/p>\n<p>\nMeia hora depois, Henrique banhado, enxugado e comodamente<br \/>\nvestido, saboreava uma gorda galinha de canja, sobre uma mesa coberta<br \/>\nde toalha lavada, e na melhor lou&ccedil;a da copeira.<\/p>\n<p>\nEle que tinha sempre severidades de cr&iacute;tica contra os mais afamados<br \/>\ncozinheiros de Lisboa, estava achando deliciosa aquela comida<br \/>\nprimitiva, com que o regalava a tia.<\/p>\n<p>\nEsta sentou-se a v&ecirc;-lo comer, e com a mema familiaridade, que<br \/>\nHenrique j&aacute; anteriormente estranhara, Maria de Jesus sentou-se ao<br \/>\nlado da ama.<\/p>\n<p>\nAmbas tinham ceado j&aacute;; pois que o faziam ao cerrar da<br \/>\nnoite.<\/p>\n<p>\nEnquanto Henrique comia, elas, sem deixarem de o observar<br \/>\ncom a natural curiosidade de quem havia tanto tempo n&atilde;o tivera um<br \/>\nh&oacute;spede, faziam-lhe perguntas, &agrave;s quais ele ia respondendo conforme<br \/>\nlhe era poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>\n&#8212; Tu dizias-me na tua carta que estavas doente ; pois olha que na<br \/>\ncara n&atilde;o o parece.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o &#8212; concordou a criada &#8212; tem boas cores, e, vamos, a<br \/>\nmagreza ainda n&atilde;o &eacute; l&aacute; essas coisas.<\/p>\n<p>\nEra este o ponto fraco de Henrique ; respondeu logo ao reclamo.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o me digam isso ! Ent&atilde;o n&atilde;o v&ecirc;em como estou ? Pois isto &eacute;<br \/>\nl&aacute; cor de sa&uacute;de? de febre, ser&aacute;. Gordo? pois acham-me gordo?!<br \/>\n&#8212; Gordo, n&atilde;o digo, mas assim, assim&#8230; E depois como Vieste de<br \/>\njornada&#8230; Mas afinal que mol&eacute;stia &eacute; a tua, menino?<br \/>\n&#8212; Eu sei l&aacute;, tia Doroteia? Nem os m&eacute;dicos a conhecem bem.<\/p>\n<p>\n&Eacute;, entre outras coisas, uma tristeza, uma melancolia, que me n&atilde;o deixa,<br \/>\nque me persegue por t&ocirc;da a parte. &Agrave;s vezes parece-me que sinto<br \/>\napertar-se-me dolorosamente o cora&ccedil;&atilde;o ; outras, s&atilde;o palpita&ccedil;&otilde;es, &acirc;nsias&#8230;<\/p>\n<p>\nTenho quase vontade de chorar, irrito-me, impaciento-me, n&atilde;o quero<br \/>\nque me falem, nada quero ver, nada quero ouvir ; n&atilde;o leio, n&atilde;o durmo,<br \/>\nn&atilde;o como. Finalmente todo eu sou doen&ccedil;a e tristeza.<\/p>\n<p>\nA boa tia Doroteia olhava com sisudez e aten&ccedil;&atilde;o para o sobrinho,<br \/>\nenquanto ele falava, e na fisionomia iam-se-lhe desenhando, ao<br \/>\nouvi-lo, os mais expressivos sinais de espanto e consterna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>\nAssim que Henrique terminou a exposi&ccedil;&atilde;o, ela disse-lhe com uma<br \/>\nador&aacute;vel candura:<br \/>\n&#8212; Ent&atilde;o &eacute; assim uma esp&eacute;cie de mania !<br \/>\n&Agrave; palavra &laquo;mania&raquo; Henrique sobressaltou-se. Seria a consci&ecirc;ncia<br \/>\nque se sentiu ferida?<br \/>\n&#8212; Mania ? &Oacute; tia Doroteia ! Mania ! Veja bem, olhe que o termo<br \/>\n&eacute; forte ! Mania ?<br \/>\n&#8212; Sim, menino &#8212; insistiu ing&egrave;nuamente a boa senhora &#8212; pois olha<br \/>\nque n&atilde;o &eacute; outra coisa. Pois isto de estar triste sem ter de qu&ecirc;&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p>\nporque n&atilde;o te morrendo ningu&eacute;m, nem te doendo nada&#8230;<\/p>\n<p>\n&Oacute; poetas devaneadores, &oacute; almas melanc&oacute;licas, que percebeis no<br \/>\nsussurrar das brisas, no ciciar das folhas, no murmurar dos arroios,<br \/>\nqueixas ocultas de dr&iacute;ades e de n&aacute;iades, sentidas vibra&ccedil;&otilde;es das harpas<br \/>\nde fadas a&eacute;reas, que vivem em pal&aacute;cios de nuvens ; &oacute; cora&ccedil;&otilde;es inoculados<br \/>\nde poesia, quo vos confrangeis e gotejais l&aacute;grimas sinceras ao<br \/>\ndesmaiar do dia, ao desfolhar das &aacute;rvores no Outono; ooetas, que escutais,<br \/>\ncom V&iacute;tor Hugo, as vozes interiores, os cantos do crep&uacute;sculo,<br \/>\ne com ele adivinhais os mist&eacute;rios dos raios e das sombras, perdoai<br \/>\na involunt&aacute;ria blasf&ecirc;mia da tia Doroteia, que n&atilde;o cont&eacute;m o menor fermento<br \/>\nde mal&iacute;cia ; perdoai-lhe a dura express&atilde;o de que ela se serviu<br \/>\npara caracterizar os vossos arroubamentos, as vossas tristezas vagas,<br \/>\nos vossos devaneios, e crede que, apesar da frase, ter&iacute;eis nela uma<br \/>\nalma mais afinada para simpatizar convosco, do que tantas que por a&iacute;<br \/>\nfazem gala de vos compreender melhor.<\/p>\n<p>\nHenrique n&atilde;o podia por&eacute;m digerir a express&atilde;o, de que se servira<br \/>\na tia, para diagnosticar o seu mal.<\/p>\n<p>\n&#8212; Mania ! &#8212; repetia ele &#8212; essa agora ! Sempre &eacute; forte de mais.<\/p>\n<p>\nMania, n&atilde;o, tia Doroteia, l&aacute; isso n&atilde;o. Mania!<br \/>\n&#8212; Eu lhe digo &#8212; acudiu a criada. &#8212; Nao v&aacute; sem resposta ; que<br \/>\nest&aacute; quase como o cunhado da Rosa do Bacelo. A senhora nao se lembra?<br \/>\nAndou aquela alminha por a&iacute; sempre triste, sempre a falar s&oacute;,<br \/>\nat&eacute; que afinal l&aacute; foi parar&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; Aonde ? &#8212; perguntou Henrique, erguendo os olhos mterregadoramente<br \/>\npara a criada.<\/p>\n<p>\n&#8212; L&aacute; foi parar a Rilhafoles &#8212; concluiu esta, espevitando a vela<br \/>\no mais naturalmente deste mundo.<\/p>\n<p>\nHenrique de Souselas pulou com a sinceridade.<\/p>\n<p>\nNem acabou de sorver a &uacute;ltima colher de caldo de arroz, que<br \/>\nlhe estava sabendo como nunca manjar lhe soubera.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o comes mais ? &#8212; perguntou a tia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Muito gradecido ; eu o mais que tenho &eacute; sono.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois sim, mas &eacute; preciso fazer por comer &#8212; insistiu ela.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ora va mais este cox&atilde;o &#8212; disse a criada.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel &#8212; teimou Henrique, e insistiu para e recolher<br \/>\nao quarto.<\/p>\n<p>\n&#8212; Tens raz&atilde;o, tens &#8212; concordou a tia Doroteia &#8212; deves estar fatigado.<\/p>\n<p>\nVai com Nossa Senhora, menino. E deixa-te l&aacute; de pensar e estar<br \/>\ntriste, que isso n&atilde;o &eacute; bom. &Eacute; fazer por espairecer. Come, bebe, passeia,<br \/>\nque &eacute; o que d&aacute; sa&uacute;de. Nada de malucar.<\/p>\n<p>\n&#8212; Sim &#8212; acrescentou a criada &#8212; e n&atilde;o queira estar doente, que<br \/>\nn&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma.<\/p>\n<p>\n&#8212; E olha, Henriquinho, tu tens por a&iacute; com quem te podes distrair.<\/p>\n<p>\nO brasileiro Seabra, que tem uma casa como um pal&aacute;cio ; o Augustito<br \/>\ndo doutor, que &eacute; um bom mocinho. E depois vai dar um passeio por<br \/>\na&iacute;, um dia at&eacute; aos moinhos, outro dia at&eacute; &agrave; ermida da Senhora da Sa&uacute;de,<br \/>\nAgora me lembra: a Lenita j&aacute; mandou a&iacute; outra vez saber se tinha chegado<br \/>\no h&oacute;spede &#8212; disse D. Doroteia.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o foi s&oacute; a morgadinha&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; A&iacute; est&aacute; voc&ecirc; a chamar-lhe tamb&eacute;m a morgadinha.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ent&atilde;o, senhora? isto &eacute; o costume. Mas todas as outras senhoras<br \/>\nmandaram tamb&eacute;m o Torcato saber do Sr. Henrique. A Sr.* D. Vit&oacute;ria<br \/>\ne a Cristininha.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ai, pois cuidadosas s&atilde;o elas ! Tu h&aacute;s-de-te entender com aquela<br \/>\ngente. &Eacute; uma gente muito dada e sem cerim&ocirc;nia. &Eacute; preciso l&aacute; ir. Olha,<br \/>\namanh&atilde; podes ir visit&aacute;-las. &Eacute; um passeio bonito.<\/p>\n<p>\nHenrique, que tinha estado distra&iacute;do durante a conversa das duas,<br \/>\nnem se dava ao trabalho de intervir no di&aacute;logo em que elas dispunham<br \/>\nj&aacute; do seu tempo e tra&ccedil;avam-lhe planos de vida.<\/p>\n<p>\n&#8212; Mas vai descansar, menino, vai e faz por dormir. Olha l&aacute;, tu<br \/>\ncostumas dormir com luz?<br \/>\n&#8212; N&atilde;o, tia, n&atilde;o costumo.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; porque nesse caso&#8230; Maria, onde est&aacute; aquela lamparina, que<br \/>\nme serviu quando eu estive doente, h&aacute; seis anos?<br \/>\n&#8212; Est&aacute; l&aacute; dentro, senhora; se a senhora quer eu&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; V&ecirc; l&aacute;, menino&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o, tia, n&atilde;o quero.<\/p>\n<p>\n&#8212; H&aacute; pessoas que n&atilde;o podem dormir &agrave;s escuras &#8212; dizia a criada.<\/p>\n<p>\n&#8212; Eu, gra&ccedil;as a Deus, durmo bem de qualquer forma.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois sim, mas nem todos s&atilde;o como voc&ecirc;. Olha, &oacute; Henriquinho,<br \/>\nh&aacute;s-de ver se queres o travesseiro mais alto ou&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; Muito agradecido, tia Doroteia, tudo deve estar bom&#8212; disse<br \/>\nHenrique, procurando fugir &agrave;s muitas reflex&otilde;es, perguntas e conselhos,<br \/>\ncom que as duas o iam perseguindo at&eacute; ao quarto.<\/p>\n<p>\n&#8212; Olha, &oacute; menino, tu bebes &aacute;gua de noite ?<br \/>\n&#8212; &Agrave;s vezes.<\/p>\n<p>\n&#8212; Voc&ecirc; p&ocirc;s-lhe &aacute;gua no quarto, Maria?<br \/>\n&#8212; Pus, sim, minha senhora; pois ent&atilde;o? J&aacute; minha m&atilde;ezinha dizia,<br \/>\nque antes sem luz do que sem &aacute;gua.<\/p>\n<p>\n&#8212; Bem, ent&atilde;o est&aacute; bom. Ent&atilde;o muito boa noite, menino.<\/p>\n<p>\n&#8212; Boa noite, tia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ai, &eacute; verdade. H&aacute;s-de ver se queres mais roupa na cama.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o hei-de querer, n&atilde;o, tia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Olha que est&aacute; muito frio. Voc&ecirc; quantos cobertores lhe deitou,<br \/>\n&oacute; Maria?<br \/>\n&#8212; Cinco, senhora.<\/p>\n<p>\n&#8212; Cinco ! &#8212; exclamou Henrique, quase horrorizado. &#8212; Cinco<br \/>\ncobertores.<\/p>\n<p>\n&#8212; &Eacute; pouco ?<br \/>\n&#8212; Pouco ? &Eacute; de morrer esmagado debaixo deles.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ai, quer n&atilde;o ! Olha que est&aacute; muito frio.<\/p>\n<p>\n&#8212; Bem, bem ; eu c&aacute; me arranjarei.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ent&atilde;o, muito boa noite.<\/p>\n<p>\n&#8212; Muito boa noite, tia.<\/p>\n<p>\nE Henrique ia a fechar a porta.<\/p>\n<p>\n&#8212; Olha&#8230; &#8212; disse ainda a tia.<\/p>\n<p>\nHenrique parou.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o sei o que &eacute; que me esquece&#8230;<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o h&aacute;-de ser nada, tia ; boa noite.<\/p>\n<p>\n&#8212; N&atilde;o esquecer&aacute; ?&#8230; Eu sei ?&#8230; Enfim&#8230; boa noite. Ai, &eacute; verdade&#8230;<\/p>\n<p>\nSempre &eacute; bom ficar com lumes prontos<br \/>\n&#8212; Ai, sim; l&aacute; isso sempre &eacute; bom.<\/p>\n<p>\n&#8212; V&ecirc;s ? n&atilde;o que bem me parecia.<\/p>\n<p>\n&#8212; J&aacute; l&aacute; est&atilde;o, senhora &#8212; disse a criada de longe.<\/p>\n<p>\n&#8212; Melhor ; ent&atilde;o muito boa noite nos d&ecirc; Nosso Senhor,<br \/>\nmenino.<\/p>\n<p>\n&#8212; Muito boa noite, tia.<\/p>\n<p>\nE Henrique conseguiu fechar a porta.<\/p>\n<p>\nEstava finalmente s&oacute;.<\/p>\n<p>\n&#8212; Que desastrada lembran&ccedil;a a minha ! &#8212; disse o pobre rapaz,<br \/>\nao fechar a porta sobre si. &#8212; como posso eu viver com esta santa e<br \/>\nvirtuosa gente, que chama manias aos meus padecimentos? Que futuro<br \/>\nde impertin&ecirc;ncias me espera ! Ai, Lisboa, Lisboa, e pensar eu que s&oacute;<br \/>\nposso voltar para ti &agrave; custa de outra jornada !<br \/>\nO quarto de Henrique era arranjado com simplicidade. Um alto<br \/>\nleito de almofadas na cabeceira e rodap&eacute; de chita, t&atilde;o alto que se n&atilde;o<br \/>\ndispensava o aux&iacute;lio de cadeira para trepar acima dele, uma c&ocirc;moda<br \/>\ncom um pequeno espelho, um ba&uacute;, um lavatorio e duas cadeiras mais,<br \/>\nconstitu&iacute;am a mob&iacute;lia t&ocirc;da.<\/p>\n<p>\nHenrique de Souselas sentiu a falta de mil pequenos objectos de<br \/>\ntoucador, a que estava habituado. Aquele estritamente necess&aacute;rio n&atilde;o<br \/>\nlhe prometia grandes confortos.<\/p>\n<p>\nDeitou-se. A roupa da cama era de linho alv&iacute;ssimo e respirava<br \/>\num asseio e frescura convidativos : os travesseiros, de largos folhos<br \/>\nengomados, possu&iacute;am uma moleza agrad&aacute;vel &agrave;s faces ; o colch&atilde;o de<br \/>\npenas abatia-se suavemente sob o peso do corpo fatigado.<\/p>\n<p>\nHenrique conchegou a roupa a si; &agrave; falta de velador, pousou o<br \/>\ncasti&ccedil;al no travesseiro, e, abrindo um livro que trouxera de Lisboa,<br \/>\np&ocirc;s-se a 1er, para obedecer a um h&aacute;bito adquirido.<\/p>\n<p>\nN&atilde;o teria ainda lido um quarto de p&aacute;gina, quando ouviu a voz da<br \/>\ntia Doroteia, que lhe dizia de fora da porta:<br \/>\n&#8212; &Oacute; menino, tu j&aacute; te deitaste?<br \/>\n&#8212; J&aacute;, sim, tia Doroteia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Olha se tens cautela com a luz. Eu tenho um medo de<br \/>\nfogos !<br \/>\n&#8212; Esteja descansada, tia. Eu apago j&aacute;.<\/p>\n<p>\n&#8212; Ent&atilde;o ser&aacute; melhor. S. Marcai nos acuda.<\/p>\n<p>\nE afastou-se, rezando ao santo.<\/p>\n<p>\nHenrique continuou a 1er.<\/p>\n<p>\nDa&iacute; a pouco a mesma voz:<br \/>\n&#8212; Tu j&aacute; dormes, Henriquinho?<br \/>\n&#8212; N&atilde;o, tia, ainda n&atilde;o durmo.<\/p>\n<p>\n&#8212; Olha que n&atilde;o v&aacute;s adormecer sem apagar a luz. Eu tenho um<br \/>\nmedo de fogos ! N&atilde;o descanso, enquanto n&atilde;o vejo tudo apagado<br \/>\nem casa.<\/p>\n<p>\nHenrique perdeu a paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>\n&#8212; Pois pode sossegar, olhe.<\/p>\n<p>\nE apagou a vela, meio zangado.<\/p>\n<p>\n&#8212; Fizeste bem, fizeste bem; isto j&aacute; &eacute; tarde, e &eacute; melhor fazer por<br \/>\ndormir. Ent&atilde;o, muito boas noites.<\/p>\n<p>\n&#8212; Muito boas noites &#8212; respondeu Henrique quase amuado ; e<br \/>\najeitando-se na cama, dizia consigo:&#8212;E esta! J&aacute; vejo que nem 1er<br \/>\nme &eacute; permitido aqui. Olhem que vida me espera ! &Eacute; isto o que me<br \/>\ndevia curar ? Que fatalidade !<br \/>\nDentro em pouco, os dois felpudos cobertores de papa, &uacute;nicos que<br \/>\nconservava dos cinco primitivos, come&ccedil;aram a fazer o seu efeito, insinuando<br \/>\nnos membros cansados da jornada um agrad&aacute;vel calor. Convidavam<br \/>\nao sono o som da &aacute;gua num tanque que ficava por debaixo das<br \/>\njanelas do quarto e as gotas da chuva, que dos beirais do telhado ca&iacute;am<br \/>\ncompassadas na t&aacute;bua do peitoril.<\/p>\n<p>\nA noite sossegara. De quando em quando apenas algumas lufadas<br \/>\nde vento, j&aacute; menos impetuosas, faziam bater as vidra&ccedil;as.<\/p>\n<p>\nEram como estes estados, que sucedem a um choro aberto. Correm<br \/>\nainda algumas l&aacute;grimas nas faces, mas j&aacute; n&atilde;o brotam novas dos<br \/>\nolhos : saem ainda do peito os solu&ccedil;os, por&eacute;m mais espa&ccedil;ados ; dentro<br \/>\nem pouco ser&aacute; completa a serenidade.<\/p>\n<p> Henrique come&ccedil;ou a experimentar uma languidez, um delicioso bem-estar<br \/>\n    naquele confort&aacute;vel leito e no meio daquele sossego ; fecharam- se-lhe<br \/>\n    enfraquecidos os olhos, e deslizou suave, insensivelmente, no mais profundo,<br \/>\n    tranquilo e restaurador sono, que, havia muito tempo, tinha dormido.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Ao romper da manh&atilde;, quando a consci&ecirc;ncia principia, pouco a<br \/>\n    pouco, a acudir aos sentidos, at&eacute; ent&atilde;o tomados pelo torpor<br \/>\n    de um sono profundo, Henrique de Souselas sonhava-se comodamente sentado em<br \/>\n    uma cadeira de S&atilde;o Carlos, disposto a assistir ao desempenho de uma<br \/>\n    &oacute;pera favorita.<\/p>\n<p> Moviam-se os arcos nas cordas dos violinos, violoncelos e contrabaixos ;<br \/>\n    sopravam, a plena boca, os tocadores dos instrumentos de vento ; agitavam<br \/>\n    descompostamente os bra&ccedil;os os ruidosos timbaleiros ; dedos amestrados<br \/>\n    faziam vibrar as cordas da harpa; a batuta do mestre fendia airosamente os<br \/>\n    ares, e contudo n&atilde;o chegava aos ouvidos de Henrique, de t&ocirc;da<br \/>\n    esta riqueza de instrumenta&ccedil;&atilde;o, mais do que uma nota &uacute;nica,<br \/>\n    arrastada, cont&iacute;nua, piangente, baixando e subindo na escala dos tons,<br \/>\n    e sem formar uma s&oacute; frase musical.<\/p>\n<p> Era de desesperar um diletante como ele; torcia-se na cadeira, inclinava<br \/>\n    convenientemente a cabe&ccedil;a, fazia das m&atilde;os cometas ac&uacute;sticas,<br \/>\n    e sempre o mesmo resultado ! Este violento estado de aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    este esfor&ccedil;o do sens&oacute;rio, principiou nele a obra de despertar<br \/>\n    ; principiou pois pelos ouvidos, mas cedo se transmitiu a todos os outros<br \/>\n    &oacute;rg&atilde;os.<\/p>\n<p> Antes de dar a si pr&oacute;prio conta do que era aquele som, e quase esquecido<br \/>\n    ainda do lugar em que estava, Henrique abriu os olhos.<\/p>\n<p> A luz do dia penetrava j&aacute; pelas frestas mal vedadas das janelas e<br \/>\n    espalhava no aposento uma t&eacute;nue claridade.<\/p>\n<p> Veio ent&atilde;o a Henrique a consci&ecirc;ncia do lugar em que estava,<br \/>\n    e uma alegria profunda lhe dilatou o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O leitor se ainda n&atilde;o padeceu de ins&oacute;nias, de pesadelos, ou<br \/>\n    de sonos febris, n&atilde;o avalia por certo o contentamento &iacute;ntimo,<br \/>\n    que se apossa das desgra&ccedil;adas v&iacute;timas desses demonios nocturnos,<br \/>\n    quando por excep&ccedil;&atilde;o eles as deixam em paz, e lhes respeitam<br \/>\n    o sono de uma noite completa. Acordar s&oacute; aos raios da aurora &eacute;<br \/>\n    um dos mais inef&aacute;veis prazeres, a que eles aspiram na vida.<\/p>\n<p> Penetra-lhes ent&atilde;o nos membros um ins&oacute;lito vigor ; a arca<br \/>\n    do peito expande-se-lhes mais livre e as sombras do esp&iacute;rito dissipam-<br \/>\n    -se-lhes com aquele clar&atilde;o matinal.<\/p>\n<p> Foi o que sucedeu a Henrique. Pela primeira vez depois de muitos meses,<br \/>\n    dormira de um sono a noite inteira.<\/p>\n<p> Sentia-se com isto t&atilde;o bom, t&atilde;o vigoroso, t&atilde;o contente<br \/>\n    que teve vontade de cantar.<\/p>\n<p> Mas o som, que o acordara, aquela nota &uacute;nica, em que se confundiam<br \/>\n    todas as notas da sonhada orquestra, ainda lhe soava aos ouvidos.<\/p>\n<p> Prestando-lhe a aten&ccedil;&atilde;o de acordado, conheceu que era o chiar<br \/>\n    9 dos carros &#8212; o mesmo som, que na v&eacute;spera o irritara, agora<br \/>\n    assim a dist&acirc;ncia, estava-lhe agradando, como nota extra&iacute;da por<br \/>\n    m&atilde;o h&aacute;bil das cordas de um violino.<\/p>\n<p> N&atilde;o resistiu mais tempo &atilde;o impulso que naquela manh&atilde;<br \/>\n    o incitava ao exerc&iacute;cio, rara disposi&ccedil;&atilde;o no indolente<br \/>\n    filho da capital, que tinha por h&aacute;bito ouvir o meio-dia na cama.<\/p>\n<p> Ergueu-se e abriu as janelas.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; l&iacute;cita a compara&ccedil;&atilde;o entre a mais<br \/>\n    surpreendente transmuta &ccedil;&atilde;o de uma dessas aparatosas m&aacute;gicas,<br \/>\n    que tanto extasiam as multid&otilde;es embasbacadas nas plat&eacute;ias e<br \/>\n    camarotes de um teatro, e as que de instante para instante, realiza a natureza.<br \/>\n    Descerrando o v&eacute;u de nuvens que encobre o fulgor do Sol, elevando,<br \/>\n    acima do horizonte, esse majestoso lampad&agrave;rio do mundo, ou o brilhante<br \/>\n    reflect&iacute;dor que ilumina as noites desanuviadas, a natureza opera, a<br \/>\n    cada momento, as mais admir&aacute;veis e completas metamorfoses.<\/p>\n<p> Durante o sonho de Henrique realizara-se um desses efeitos m&aacute;gicos.<\/p>\n<p> Abrandara gradualmente a viol&ecirc;ncia do sul ; o vento, mudando, voltou<br \/>\n    em sentido oposto a grimpa do campan&aacute;rio ; dispersaram-se as nuvens<br \/>\n    ; luziram tr&eacute;mulas por momentos as estrelas, empalideceram perante<br \/>\n    o alvor do dia, e quando o Sol assomou por sobre a crista das serras, estendia-se-lhe<br \/>\n    diante um vasto manto azul, tapetando a estrada, que tinha a percorrer. S&oacute;,<br \/>\n    muito para o ocidente, ainda algumas nuvens amontoadas formavam uma como franja,<br \/>\n    que o astro nascente em breve tingiu de carmim e de ouro.<\/p>\n<p> Foi pois a luz de um dia espl&ecirc;ndido e a brisa, cheia de aromas, que<br \/>\n    vem dos campos nas alvoradas serenas que penetraram no quarto de Henrique,<br \/>\n    quando ele abriu as janelas.<\/p>\n<p> A inesperada surpresa quase lhe soltava do peito uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de prazer! A aldeia, aquela mesma aldeia, escura e triste que, com o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apertado, atravessara na v&eacute;spera, parecia outra.<\/p>\n<p> O sol da manh&atilde; baixara sobre ela, dissipara-lhe as sombras, colorira-<br \/>\n    lhe as verduras, reflectira-se-lhe nas presas, dispersara-se em &iacute;ris<br \/>\n    cambiantes na espuma das torrentes e cascatas naturais, perfumara-a de aromas,<br \/>\n    animara-a de cantos, transformara-a enfim na mais risonha paisagem, em que<br \/>\n    os olhos de Henrique, pouco habituados &agrave;s espl&ecirc;ndidas galas do<br \/>\n    Minho, tinham nunca repousado.<\/p>\n<p> O Inverno despojara parte dessas galas ; embora ! At&eacute; da pr&oacute;pria<br \/>\n    nudez de algumas &aacute;rvores resultavam encantos. As folhas crestadas,<br \/>\n    os ramos despidos, as moitas sem flores infundem tristeza; mas n&atilde;o<br \/>\n    tem a tristeza poesia tamb&eacute;m? Pode haver completa paisagem onde n&atilde;o<br \/>\n    haja uns tons escuros de melancolia? Henrique de Souselas, debru&ccedil;ado<br \/>\n    na varanda de pedra do quarto, n&atilde;o se cansava de admirar aquela cena.<\/p>\n<p> Parecia-lhe estar assistindo a um milagre de fadas, que, num momento, elevam,<br \/>\n    nos ermos, jardins e pa&ccedil;os, como os de Armida e Alcina.<\/p>\n<p> Pois era esta a mesma aldeia, atrav&eacute;s da qual ele cavalgara de noite?<br \/>\n    Os acidentes do terreno, aqueles acidentes, que t&atilde;o do fundo da alma<br \/>\n    amaldi&ccedil;oara na v&eacute;spera, produziam, vistos ent&atilde;o dali,<br \/>\n    os mais pitorescos efeitos. Abatia-se-lhe aos p&eacute;s um n&atilde;o muito<br \/>\n    profundo vale, opulento em vegeta&ccedil;&atilde;o, e que a certa dist&acirc;ncia<br \/>\n    se continuava insens&iacute;vel e gradualmente com uma amen&iacute;ssima colina.<\/p>\n<p> Al&eacute;m, um belo bosque de carvalhos seculares, que o Inverno, privando-os<br \/>\n    de folhas, tingira quase da cor da violeta, contrastava com a fronde sempre<br \/>\n    verde das laranjeiras nos pomares vizinhos, fronde por entre a qual se divisavam<br \/>\n    abundantes os dourados frutos, poupados pela m&atilde;o do lavrador. As copas,<br \/>\n    como umbeladas dos pinheiros mansos, desenhavam nas encostas e emin&ecirc;ncias<br \/>\n    fronteiras as mais suaves ondula&ccedil;&otilde;es. Dispersos aqui e ali,<br \/>\n    e entremeados com a verdura, grupos de casas campestres, alvejantes &agrave;<br \/>\n    luz do Sol, moinhos e azenhas, noras toldadas de ramadas c&oacute;nicas, eiras,<br \/>\n    pontes r&uacute;sticas, as mesmas talvez que com mau humor trilhara na v&eacute;spera,<br \/>\n    t&atilde;o sinistras ent&atilde;o, como graciosas agora; extensas e virentes<br \/>\n    campinas e larneiros, onde pastavam numerosas manadas de gado. Mais longe<br \/>\n    a igreja com a sua alameda &agrave; entrada e o cemit&eacute;rio, onde um<br \/>\n    s&oacute; mausol&eacute;u avultava ainda ; uma ou outra casa apala&ccedil;ada,<br \/>\n    enegrecida pelo tempo ; algumas ru&iacute;nas, consolidadas pelas heras, revestidas<br \/>\n    de musgos, douradas de liq&uacute;enes ; finalmente, tudo o que tenta os paisagistas,<br \/>\n    tudo o que exal&ccedil;a os poetas, tudo quanto suspende os passos ao viajante;<br \/>\n    e, encobrindo todo o quadro, um tenuissimo sendal de vapores azulados, dando-lhe<br \/>\n    a apar&ecirc;ncia de uma das mimosas composi&ccedil;&otilde;es a pastel da<br \/>\n    m&atilde;o de Pillement.<\/p>\n<p> A mudan&ccedil;a de aspecto da cena operou n&atilde;o menor mudan&ccedil;a<br \/>\n    nos sentimentos e disposi&ccedil;&atilde;o do enlevado espectador que das<br \/>\n    varandas de Alvapenha a estava observando.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; preciso sair ! &eacute; preciso sair ! &#8212; disse Henrique<br \/>\n    consigo. &#8212; Quero ver isto de perto ; quero entranhar-me nestes bosques,<br \/>\n    quero trepar por aqueles montes, debru&ccedil;ar-me daquelas ribanceiras.<\/p>\n<p> E vestindo-se &agrave; pressa, e sem sentir a necessidade de uma escrupulosa<br \/>\n    toilette, saiu do quarto.<\/p>\n<p> Encontrou nos corredores a tia Doroteia, que o saudou amavelmente.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bons dias, menino, ent&atilde;o como passaste tu a noite ?<br \/>\n    &#8212; Deliciosamente, minha querida tia &#8212; respondeu ele, abra&ccedil;ando-<br \/>\n    a com maior afecto e bom humor do que na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> O que &eacute; sentir-se a gente bem ! &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o estranhaste?<br \/>\n    &#8212; Estranhei imenso ! &#8212; Sim?! &#8212; disse a tia, mortificada.<\/p>\n<p> &#8212; Dormi a noite de um sono, e acordei bem disposto ; o que para mim<br \/>\n    &eacute; a mais estranha das ocorr&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> A tia sorriu satisfeita.<\/p>\n<p> &#8212; Pois antes assim. E agora&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E agora quero sair, quero ver esta terra, que me est&aacute; parecendo<br \/>\n    um para&iacute;so terreal.<\/p>\n<p> &#8212; Espera, menino. N&atilde;o v&aacute;s sem almo&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8212; Almo&ccedil;ar ! Pois que horas s&atilde;o ? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; cedo ; s&atilde;o i&aacute; sete horas ! &#8212; J&aacute; sete horas.<\/p>\n<p> E Henrique insensivelmente desviou os olhos para a janela, para ver como<br \/>\n    era a natureza, a uma hora a que raras vezes a examinava.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o acha que se pode almo&ccedil;ar &agrave;s sete horas<br \/>\n    ? &#8212; Porque n&atilde;o? Se est&aacute; j&aacute; pronto.<\/p>\n<p> &#8212; Bom; almocemos. O doutor disse-me que tomasse os h&aacute;bitos<br \/>\n    da aldeia. Principiemos por este.<\/p>\n<p> Entrando para a sala de jantar, Henrique viu diante de si uma ta&ccedil;a<br \/>\n    de leite espumante, tepido, odorifero, extra&iacute;do de pouco tempo.<\/p>\n<p> Foi por ele que principiou o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> Pela primeira vez na sua vida disse ele ter bebido o leite verdadeiro, o<br \/>\n    leite que n&atilde;o faz mentir a an&aacute;lise dos qu&iacute;micos, de que<br \/>\n    os fisiologistas exaltam as qualidades nutritivas, de que os poetas das ge&oacute;rgicas<br \/>\n    cantam as del&iacute;cias e virtudes ; s&oacute; agora os compreendeu ele,<br \/>\n    que bem diferente daquilo era o aguado e quantas vezes derrancado soro, a<br \/>\n    que estava habituado na cidade.<\/p>\n<p> D. Doroteia, almo&ccedil;ando, e Maria de Jesus, servindo, falaram, segundo<br \/>\n    o costume, continuadamente.<\/p>\n<p> Henrique, desta vez, falou tanto como elas.<\/p>\n<p> Ouvia-as j&aacute; com mais aten&ccedil;&atilde;o e respondia-lhes com mais<br \/>\n    vontade e paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Falaram em muitas coisas.<\/p>\n<p> A tia deu parte ao sobrinho de que v&aacute;rias pessoas da vizinhan&ccedil;a,<br \/>\n    sabendo-o chegado, lhe tinham mandado presentes de galinhas, oferecendo- se,<br \/>\n    ao mesmo tempo, para lhe mostrarem as raridades da terra; disse mais que as<br \/>\n    senhoras da quinta do Mosteiro tamb&eacute;m tinham j&aacute; mandado saber<br \/>\n    dele, Henrique, e lembrou que seria delicado ir visit&aacute;- las aquela<br \/>\n    manh&atilde;.<\/p>\n<p> Henrique concordou em tudo, quase sem reparar em qu&ecirc;, e terminando<br \/>\n    o almo&ccedil;o apressou-se a sair para o campo.<\/p>\n<p> &#8212; E se te perdes, menino ? &#8212;&#8226; lembrou a tia.<\/p>\n<p> &#8212; Se me perder, farei por achar-me.<\/p>\n<p> Riram-se muito as boas mulheres e deixaram-no ir.<\/p>\n<p> Dentro em pouco, Henrique atravessava a quinta, que tamb&eacute;m ent&atilde;o<br \/>\n    lhe parecia graciosa, de uma gra&ccedil;a buc&oacute;lica, a que n&atilde;o<br \/>\n    estava habituado. O aspecto melanc&oacute;lico da v&eacute;spera desvanecera-se.<br \/>\n    At&eacute; para ser completa a mudan&ccedil;a, estavam encadeados nas casotas<br \/>\n    o Lobo e o Tirano, cujas boas gra&ccedil;as contudo procurou conquistar, atirando-lhes<br \/>\n    biscoitos.<\/p>\n<p> Foi um passeio delicioso o que ele deu. Tudo quanto via lhe era novidade,<br \/>\n    tudo lhe cativava a aten&ccedil;&atilde;o e o distra&iacute;a dos seus l&uacute;gubres<br \/>\n    pensamentos.<\/p>\n<p> Depois de muito andar, de subir colinas, de descer vales e costear ribeiros,<br \/>\n    foi sair a um pequeno largo, ao fim do qual havia uma casa t&eacute;rrea,<br \/>\n    caiada de branco, com portas verdes e janelas envidra&ccedil;adas, sendo os<br \/>\n    vidros em alguns dos caixilhos substitu&iacute;dos por papel. &Agrave; porta<br \/>\n    desta casa estava muita gente parada ; mulheres, velhos, mo&ccedil;os, crian&ccedil;as,<br \/>\n    uns sentados, outros deitados, outros de p&eacute; e encostados &agrave; ombreira,<br \/>\n    e todos aparentemente aguardando alguma coisa ou algu&eacute;m do lado de<br \/>\n    uma das ruas, que vinha terminar no largo, e para a qual se dirigiam todos<br \/>\n    os olhares.<\/p>\n<p> Henrique aproximou-se desta casa com alguma curiosidade, que cede satisfez,<br \/>\n    vendo em uma tabuleta, suspensa no alto da janela, a seguinte pomposa inscri&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &laquo;Reparti&ccedil;&atilde;o do correio&raquo;, e, como a confirmar o d&iacute;stico,<br \/>\n    um corte feito na porta para a recep&ccedil;&atilde;o das cartas.<\/p>\n<p> Lembrando-se da conveni&ecirc;ncia de avisar o empregado do correio para<br \/>\n    lhe serem remetidas a Alvapenha as cartas que lhe viessem de Lisboa, Henrique<br \/>\n    entrou na reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Consistia esta numa loja apenas, mobilada com um banco de pinho e dividida<br \/>\n    por um mostrador, para dentro do qual se alojava todo o pessoal do servi&ccedil;o,<br \/>\n    isto &eacute;, um homem por junto ; e era este o Sr. Bento Pertunhas, personagem<br \/>\n    importante na terra, e a cuja intelig&ecirc;ncia e solicitude estavam confiadas<br \/>\n    mais do que uma fun&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m de servir, em interinidade<br \/>\n    permanente, como muitas vezes s&atilde;o as interinidades do nosso pa&iacute;s,<br \/>\n    este cargo, dito por ele, de &laquo;director do correio&raquo;, estava de<br \/>\n    posse S. S.&quot; de uma das cadeiras de latim e de latinidade, com que se<br \/>\n    procura em Portugal fomentar nos concelhos rurais o gosto pelas letras antigas<br \/>\n    ; era ainda regente e director da filarm&ograve;nica da terra, armador de<br \/>\n    igreja em dias festivos, ensaiador de autos e entremezes populares, e, quando<br \/>\n    Deus queria, autor de alguns tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Vendo entrar Henrique nos seus dom&iacute;nios, o ilustre funcion&aacute;rio<br \/>\n    tirou cort&ecirc;smente o seu bon&eacute; de pele de lontra e ergueu-se da<br \/>\n    banca para cumprimentar t&atilde;o honrosa visita. Nos cumprimentos que formulou<br \/>\n    disse o nome de Henrique.<\/p>\n<p> Admirado por ser conhecido j&aacute;, Henrique interrogou o latinista e,<br \/>\n    achando-o muito informado de tudo quanto lhe dizia respeito, convenceu- se<br \/>\n    de que estava na presen&ccedil;a dum esmerilhador de vidas alheias do mais<br \/>\n    fino quilate e de um falador de assustar.<\/p>\n<p> com o ifim de cortar a divaga&ccedil;&atilde;o, em que o homem entrara a<br \/>\n    respeito de certa viagem que fizera a Lisboa, perguntou-lhe Henrique se o<br \/>\n    correio n&atilde;o chegara ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Saiba V. S.&#8217; que ainda n&atilde;o-&#8212;respondeu o Sr. Bento Pertunhas<br \/>\n    &#8212; mas n&atilde;o deve tardar ; o homem que daqui vai buscar as malas<br \/>\n    &agrave; vila, se bem andasse, j&aacute; c&aacute; podia estar. Esse formigueiro<br \/>\n    de gente que V. S.&ordf; a&iacute; v&ecirc; &agrave; porta, est&aacute; &agrave;<br \/>\n    espera dele, Hoje ent&atilde;o, que chegam as cartas do Brasil, ningu&eacute;m<br \/>\n    p&aacute;ra com este povo. D&atilde;o-me cabo da paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Isto &eacute; um Inferno ! Eu sirvo este lugar interinamente, enquanto o<br \/>\n    empregado est&aacute; paral&iacute;tico ; porque eu tenho outro cargo p&uacute;blico<br \/>\n    ; sou professor de latinidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; &Eacute; verdade, mas a minha voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era para as artes. Meu pai queria que eu fosse padre e mandou-me ensinar latim<br \/>\n    ; mas j&aacute; ent&atilde;o a minha paix&atilde;o era a m&uacute;sica. Eu<br \/>\n    ainda queria que V. S.* me ouvisse tocar trompa, que &eacute; o instrumento<br \/>\n    que mais tenho estudado&#8230; Se V. S.a se demorar h&aacute;-de fazer-me o favor&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; com muito gosto.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o poder um homem seguir no mundo a sua voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ! &#8212; Ainda assim n&atilde;o se pode queixar muito. O cultivo das letras<br \/>\n    latinas deve-lhe proporcionar gozos ; porque enfim para quem possui instintos<br \/>\n    de arte, a leitura dos poetas j&aacute; &eacute; um lenitivo contra as agruras<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p> O mestre Pertunhas fitou Henrique com olhos muito abertos.<\/p>\n<p> &#8212; Os poetas ? Os poetas latinos ! Ora essa ! Ent&atilde;o parece-lhe<br \/>\n    que pode achar-se gosto em l&ecirc;-los ? Ai, meu caro senhor, eu por mim<br \/>\n    tenho- -lhe uma vontade!&#8230; O latim!&#8230; a mais destemperada e desesperadora<br \/>\n    l&iacute;ngua que se tem falado no mundo ! Se &eacute; que se falou &#8212;<br \/>\n    acrescentou em voz baixa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o duvida que se falasse latim? &#8212; perguntou Henrique,<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Eu duvido. N&atilde;o sei como os homens se pudessem entender com<br \/>\n    aquela endiabrada contradan&ccedil;a de palavras, com aquela desafina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que faz dar volta ao ju&iacute;zo de uma pessoa. Sabe o senhor o que &eacute;<br \/>\n    uma casa desarranjada, onde ningu&eacute;m se lembra onde tem as suas coisas<br \/>\n    quando precisa delas e passa o tempo todo a procur&aacute;-las? Pois &eacute;<br \/>\n    o que &eacute; o latim. Abre a gente um livro e p&otilde;e-se a traduzir e<br \/>\n    vai dizendo : &laquo;As armas, o homem e eu, canto, de Tr&oacute;ia, e primeiro,<br \/>\n    das praias&raquo;.<\/p>\n<p> Quem percebe isto ! Ora agora peguem nestas palavras e em outras, que eles<br \/>\n    punham &agrave;s vezes em casa do Diabo, e fa&ccedil;am uma coisa que se entenda<br \/>\n    ! &Eacute; quase uma adivinha. Ora adeus ! E depois &#8212; continuou ele,<br \/>\n    entusiasmado com o riso de Henrique, supondo-o de aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; e depois as diferentes maneiras de chamar a um objecto? Isso tamb&eacute;m<br \/>\n    tem gra&ccedil;a. N&oacute;s c&aacute; dizemos por exemplo : &laquo; reino<br \/>\n    e reinos &raquo; e est&aacute; acabado; l&aacute; n&atilde;o senhor; diz-se<br \/>\n    &laquo;regnum&raquo; e &laquo;regna&raquo; e &laquo;regni&raquo; e &laquo;regno&raquo;<br \/>\n    e &laquo;regnis&raquo; e at&eacute; &laquo;regnorum&raquo;. Ora venham-me<br \/>\n    c&aacute; elogiar a tal lingua! Henrique estava achando delicioso o &oacute;dio<br \/>\n    entranhado de mestre Benlo Pertunhas &agrave; latinidade que ensinava com<br \/>\n    a profici&ecirc;ncia, que o leitor pode imaginar, depois do que ouviu.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, meu caro senhor &#8212; continuou o atribulado magister &#8212;<br \/>\n    eu se me vejo um dia livre deste amaldi&ccedil;oado latim, fa&ccedil;o uma<br \/>\n    fogueira, na qual me hei-de regalar de ver arder o Tito Livio e os Virgilios<br \/>\n    todos tr&egrave;s.<\/p>\n<p> &Eacute; de advertir que mestre Bento falava sempre no plural, ao referir-<br \/>\n    se a Virg&iacute;lio.<\/p>\n<p> Quer-me parecer que para este int&eacute;rprete da literatura latina tinham<br \/>\n    de facto existido tr&ecirc;s Virgilios, provavelmente irm&atilde;os, e cada<br \/>\n    um autor de cada um dos tr&ecirc;s volumes da edi&ccedil;&atilde;o, que lhe<br \/>\n    servia de texto. Dizia Virg&iacute;lio 1.&deg;, 2.&deg; e 3.&deg;, como quem<br \/>\n    se refere aos monarcas hom&oacute;nimos, que sucederam num mesmo reino.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me salvo se morro mestre de latim &#8212; prosseguia<br \/>\n    ele. &#8226;&#8212; afunda-me no Inferno o trambolho da sintaxe.<\/p>\n<p> Ia continuar, quando t&ocirc;da a gente, que Henrique viu fora da porta,<br \/>\n    principiou em desordenada az&aacute;fama a entrar para a loja, que em breve<br \/>\n    n&atilde;o comportava mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; vem o homem, Sr. Pertunhas ; a&iacute; vem. Gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus, que a&iacute; vem ! &#8212; diziam todos &agrave; uma.<\/p>\n<p> O funcion&aacute;rio principiou a impacientar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ! ent&atilde;o ! Por onde h&aacute;-de ele entrar,<br \/>\n    fazem favor de me dizer? Saiam, saiam. N&atilde;o ouvem? Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    fazem caso das minhas ordens ? D&ecirc;em lugar. N&atilde;o v&ecirc;em que<br \/>\n    est&atilde;o molestando este senhor ? Cada um dos repreendidos nestes termos<br \/>\n    indignava-se, ao ver que os outros n&atilde;o obedeciam &agrave;s ordens,<br \/>\n    mas, pela sua parte, n&atilde;o cedia um passo, como se lhe valesse algum<br \/>\n    especial privil&eacute;gio.<\/p>\n<p> &#8212; Saia voc&ecirc;, mulher &#8212; dizia um.<\/p>\n<p> &#8212; E voc&ecirc; porque n&atilde;o sai ? Olha agora ! &#8212; A todos<br \/>\n    h&aacute;-de chegar a vez. Descanse. Se tiver carta lha dar&atilde;o.<\/p>\n<p> L&aacute; por estar aqui n&atilde;o &eacute; que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o saia tamb&eacute;m. Ora essa! &#8212; &Oacute;<br \/>\n    santinha, n&atilde;o empurre.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; filho, quem &eacute; que lhe faz mal? &#8212; Por onde<br \/>\n    &eacute; que se quer meter, homem de Deus ? &#8212; Eu n&atilde;o sou menos<br \/>\n    que os outros.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer&eacute;is v&oacute;s daqui, canalhada? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    bata, que ningu&eacute;m lhe tocou, seu velhote.<\/p>\n<p> &#8212; Espera que eu te falo.<\/p>\n<p> Estas e an&aacute;logas vozes abafavam num rumor tumultuoso as agudas declama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do &laquo;director do correio&raquo;, o qual obrigou Henrique a passar para<br \/>\n    dentro da teia, para se salvar das ondas populares.<\/p>\n<p> Henrique estava achando igualmente curiosa a indigna&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    homem e a alvoro&ccedil;ada ansiedade do povo.<\/p>\n<p> H&aacute; de facto poucas cenas t&atilde;o animadas, como a da chegada do<br \/>\n    correio e da distribui&ccedil;&atilde;o das cartas em uma terra pequena. Durante<br \/>\n    a leitura dos sobrescritos, feita em voz alta pelo empregado respectivo, um<br \/>\n    observador, que estude atento as impress&otilde;es que essa leitura opera<br \/>\n    nos semblantes dos que &aacute;vidos a escutam, como que v&ecirc; levantar-se<br \/>\n    uma ponta de cortina, corrida a ocultar-nos as cenas da com&eacute;dia ou<br \/>\n    da trag&eacute;dia da vida de cada um.<\/p>\n<p> Que hora de como&ccedil;&otilde;es aquela, em que se abrem as malas, onda<br \/>\n    v&ecirc;m encerrados porventura os destinos de tantas fam&iacute;lias ! Quantas<br \/>\n    vezes verdadeira boceta de Pandora, de onde se espalham as desgra&ccedil;as<br \/>\n    e os pesares ! Nas grandes cidades dispersam-se estas como&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; passam-se no recato dos gabinetes de cada um. Lembrem-se por&eacute;m das<br \/>\n    v&ecirc;zes, em que t&ecirc;m segurado com m&atilde;o tr&eacute;mula na correspond&ecirc;ncia,<br \/>\n    que o correio lhes traz; no ansiar do cora&ccedil;&atilde;o com que lhe rasgam<br \/>\n    o selo; nas l&aacute;grimas ou sorrisos com que lhe interrompem a leitura;<br \/>\n    no irresist&iacute;vel movimento de desespero com que a amarrotam depois,<br \/>\n    ou nas expans&otilde;es apaixonadas com que beijaram c nome que a subscreve;<br \/>\n    lembrem-se disso, multipliquem depois esses afectos todos, despojem- -nos<br \/>\n    das reservas que a etiqueta imp&otilde;e &agrave;s classes mais civilizadas,<br \/>\n    fa&ccedil;am-nos manifestarem-se num mesmo momento e num mesmo lugar, e digam<br \/>\n    se concebem muitas outras cenas, em que mais sentimentos e paix&otilde;es<br \/>\n    se agitem em luta travada.<\/p>\n<p> Chegou enfim o homem das cartas, e a custo conseguiu romper at&eacute; ao<br \/>\n    mostrador, onde pousou a maia. O &laquo;director&raquo;, depois de tossir,<br \/>\n    de assoar-se, de suspirar e de limpar os &oacute;culos com umas delongas,<br \/>\n    que formavam com a ansiedade do povo um contraste desesperador, abriu neum&aacute;ticamente<br \/>\n    o saco, extraiu um n&atilde;o muito volumoso ma&ccedil;o de cartas, que despejou<br \/>\n    num cesto de vime, e tomou apontamentos.<\/p>\n<p> Era digno do pincel de um artista aquele grupo de fisionomias, que seguiam<br \/>\n    &aacute;vidas todos os movimentos de mestre Bento. Olhos e bocas abertas,<br \/>\n    m&atilde;os juntas, pesco&ccedil;os estendidos, a cabe&ccedil;a inclinada<br \/>\n    para receber o menor som, tudo caracterizava profundamente a ansiedade que<br \/>\n    lhes dominava os &acirc;nimos.<\/p>\n<p> Mestre Bento Pertunhas achou a ocasi&atilde;o apropriada para dizer a Henrique<br \/>\n    : &#8212; Pois, senhor, eu nasci para artista, quase sem mestre aprendi a<br \/>\n    tocar trompa e, n&atilde;o &eacute; por me gabar, mas prezo-me de tocar com<br \/>\n    certo mimo e express&atilde;o.<\/p>\n<p> Henrique volveu o olhar para o audit&oacute;rio ; apiedou-o a consterna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquelas fisionomias. Resolveu valer-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Tem a bondade de ver se h&aacute; alguma carta para mim ? &#8212;<br \/>\n    Ah ! pois j&aacute; as espera hoje ? &#8212; N&atilde;o &eacute; prov&aacute;vel;<br \/>\n    por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> Mestre Bento Pertunhas, em vista disto, come&ccedil;ou em voz lenta e fanhosa<br \/>\n    a leitura dos sobrescritos.<\/p>\n<p> Seguiu-se novo e n&atilde;o menos interessante espect&aacute;culo.<\/p>\n<p> A cada nome proferido, erguia-se quase sempre uma voz, &agrave;s vezes um<br \/>\n    grito ; estendia-se por cima das cabe&ccedil;as um bra&ccedil;o, e, podemos<br \/>\n    acrescentar, ainda que se n&atilde;o visse, alvorotava-se um cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Outros, os n&atilde;o nomeados ainda, olhavam com ansiedade para o ma&ccedil;o.<br \/>\n    que diminu&iacute;a, e cada v&ecirc;z mais se lhes assombrava o semblante.<\/p>\n<p> &#8212; Luisa Escol&aacute;stica, do lugar dos Cojos &#8212; lia o mestre<br \/>\n    Pertunhas.<\/p>\n<p> &#8212; Sou eu, senhor, sou eu; ai, o meu rico homem! &#8212; exclamou uma<br \/>\n    mulher jovem, apoderando-se avidamente da carta.<\/p>\n<p> &#8212; Joana Pedrosa, de Serzedo &#8212; continuava &#8212; Aqui estou<br \/>\n    ; ser&aacute; do meu Ant&ocirc;nio, senhor ? &#8212; disse uma velha, pobremente<br \/>\n    vestida.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; do seu Ant&ocirc;nio, ser&aacute; &#8212; respondeu<br \/>\n    o insens&iacute;vel funcion&aacute;rio ; &#8212; o que lhe posso dizer &eacute;<br \/>\n    que traz obreia preta.<\/p>\n<p> A mulher, que j&aacute; tremia ao receber a carta, deixou-a cair, ouvindo<br \/>\n    aquelas sinistras palavras. Apanharam-lha; e ela, tomando-a, saiu da loja,<br \/>\n    a chorar lastimosamente.<\/p>\n<p> &#8212; Se foi o filho que lhe morreu, n&atilde;o sei o que h&aacute;-de<br \/>\n    ser dela &#8212; dis;e um dos circunstantes.<\/p>\n<p> &#8212; Coisas do mundo ! &#8212; respondeu outro.<\/p>\n<p> Estes coment&aacute;rios foram interrompidos pela continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da leitura.<\/p>\n<p> &#8212; Jo&atilde;o Carrasqueiro.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto, senhor &#8212; bradou um velho.<\/p>\n<p> &#8212; A mesada, hem ? &#8212; disse Bento Pertunhas, fitando-o por cima<br \/>\n    dos &oacute;culos. &#8212; O rapaz n&atilde;o se esquece.<\/p>\n<p> &#8212; Deus Nosso Senhor o ajude, que bem bom filho tem sa&iacute;do.<\/p>\n<p> &#8212; D. Madalena Adelaide de&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; a morgadinha, &eacute; a morgadinha &#8212; disseram a<br \/>\n    um tempo muitas vozes.<\/p>\n<p> &#8212; Agradecido pela novidade ; era c&aacute; muito precisa a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; disse o Pertunhas : e passando a carta para uma mulher, que era a<br \/>\n    encarregada de fazer a distribui&ccedil;&atilde;o a quem a podia gratificar,<br \/>\n    acrescentou : &#8212; Leve-lha a casa.<\/p>\n<p> E prosseguiu: &#8212; Augusto Gabriel&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o mestre-escola&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora fazem o favor de estar calados ! Esta .. como ele vem por aqui&#8230;<br \/>\n    pode ficar&#8230; ainda que&#8230; ser&aacute; melhor levar-lha a casa, leve, leve<br \/>\n    tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Jo&atilde;o Cancela.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; o Jo&atilde;o Herodes.<\/p>\n<p> &#8212; Esse foi a Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, quando vier, que apare&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; O tio Z&eacute;-Pereira ficou de receber as cartas. &Eacute; compadre<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p> Eu n&atilde;o quero saber de compadrices. O tio Z&eacute;-Pereira que se<br \/>\n    ocupe com o seu zabumba e deixe l&aacute; os outros.<\/p>\n<p> A leitura mais ou menos acompanhada destes di&aacute;logos prosseguiu, redobrando<br \/>\n    de momento para momento a ansiedade dos que iam ficando.<\/p>\n<p> Um fundo suspiro, un&iacute;ssono, melanc&oacute;lico, expressivo de desalento,<br \/>\n    seguiu-se &agrave; leitura do &uacute;ltimo nome e &agrave;s poucas palavras,<br \/>\n    com que o funcion&aacute;rio fechou a tarefa.<\/p>\n<p> &#8212; E acabou-se.<\/p>\n<p> Os que ainda estavam na loja sa&iacute;ram cabisbaixos, morosos e com t&atilde;o<br \/>\n    m&aacute; vontade, como se ainda tivessem esperan&ccedil;a de comover a inexor&aacute;vel<br \/>\n    sorte.<\/p>\n<p> Henrique, ficando s&oacute; com Bento Pertunhas, teve de lhe escutar ainda,<br \/>\n    por muito tempo, a narra&ccedil;&atilde;o dos seus passados triunfos art&iacute;sticos,<br \/>\n    das suas amarguras presentes no magist&eacute;rio, e das suas esperan&ccedil;as<br \/>\n    em melhoramentos futuros. Entre as ambi&ccedil;&otilde;es mais inquietas do<br \/>\n    mestre, a de obter o lugar de recebedor de comarca, pr&oacute;ximo a vagar<br \/>\n    por a morte iminente do respectivo empregado, figurava em primeira linha.<\/p>\n<p> Depois de v&aacute;rias tentativas, Henrique conseguiu deixar o seu interlocutor,<br \/>\n    e continuou o passeio, que este epis&oacute;dio interrompera, t&atilde;o satisfeito<br \/>\n    e distra&iacute;do, que nem apreens&otilde;es lhe causava a id&eacute;ia de<br \/>\n    trazer as botas humedecidas pelas ervas do caminho, id&eacute;ia que, em outra<br \/>\n    ocasi&atilde;o, bastaria para o fazer doente.<\/p>\n<p> Ladeava ele um campo, cingido de altas silvas, a procurar sa&iacute;da para<br \/>\n    a devesa, da qual um fundo vaiado o separava, quando lhe pareceu ouvir um<br \/>\n    rumor de vozes, como de algu&eacute;m, que conversasse perto dali.<\/p>\n<p> Parou a certificar-se.<\/p>\n<p> N&atilde;o se enganara. Era do outro lado da sebe, e na devesa, para onde<br \/>\n    tentava passar, que se estava falando.<\/p>\n<p> Espreitou por entre as folhas do silvado que o encobria, e viu uma cena,<br \/>\n    que lhe moveu a curiosidade.<\/p>\n<p> Um grupo de crian&ccedil;as e de mulheres do povo escutavam em pleno ar<br \/>\n    e com religiosa aten&ccedil;&atilde;o, a leitura que uma senhora jovem e elegante<br \/>\n    lhes fazia das cartas, que elas para esse fim lhe davam. A senhora estava<br \/>\n    montada, n&atilde;o como rom&acirc;ntica amazona, em hacaneia fogosa, mas<br \/>\n    modesta e simplesmente num digno exemplar daqueles pac&iacute;ficos animais,<br \/>\n    a que Sterne n&atilde;o duvidou dedicar algumas palavras de simpatia nas suas<br \/>\n    p&aacute;ginas mais humor&iacute;sticas, e que Pelletan incluiu entre os colaboradores<br \/>\n    da humanidade na grande obra do progresso, ou, deixando a per&iacute;frase,<br \/>\n    em uma possante e bem aparelhada jumenta.<\/p>\n<p> &Agrave; roda as ouvintes encostavam-se com familiaridade &agrave;s ancas<br \/>\n    e ao pesco&ccedil;o do im&oacute;vel quadr&uacute;pede.<\/p>\n<p> A leitora segurava no colo a mais pequena e a mais nua das crian&ccedil;as<br \/>\n    do rancho.<\/p>\n<p> Lia com voz agrad&aacute;vel e sonora ; e, gra&ccedil;as &agrave; serenidade<br \/>\n    da manh&atilde; e ao sossego do lugar, ouviam-se distintas, &agrave; dist&acirc;ncia<br \/>\n    que ficava Henrique, as palavras que ela pronunciava lentamente, como para<br \/>\n    as deixar penetrar bem na intelig&ecirc;ncia do audit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Henrique reconheceu muita desta pobre gente, por a mesma que, momentos antes,<br \/>\n    vira na casa do correio.<\/p>\n<p> Mas as suas aten&ccedil;&otilde;es voltaram-se com especialidade para a<br \/>\n    leitora.<\/p>\n<p> Era uma mulher muito nova ainda. uma graciosa figura de mulher, suave, elegante,<br \/>\n    distinta, um desses tipos que insensivelmente desenha uma m&atilde;o de artista,<br \/>\n    quando movida ao grado da livre fantasia ; a cor, essa cor inimit&aacute;vel,<br \/>\n    onde nunca dominam as rosas, mas que n&atilde;o &eacute; bem o desmaiado das<br \/>\n    p&aacute;lidas, encarna&ccedil;&atilde;o surpreendente, a que ainda n&atilde;o<br \/>\n    ouvi dar nome apropriado.<\/p>\n<p> Os cabelos em fartas trancas, em ondas naturais, n&atilde;o de todo pretos,<br \/>\n    por&eacute;m, mais distintos ainda dos louros ; a estatura esbelta, sem ser<br \/>\n    alta ; o corpo flex&iacute;vel, sem ser l&agrave;nguido ; um vulto de fada,<br \/>\n    enfim, com a majestade, com a gra&ccedil;a que deviam ter estas cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da poesia popular, se fosse certo tomarem a forma de virgens, para matar de<br \/>\n    amores.<\/p>\n<p> N&atilde;o se concebe aten&ccedil;&atilde;o t&atilde;o distra&iacute;da,<br \/>\n    que esta mulher n&atilde;o fixasse ; olhos, que se n&atilde;o voltassem para<br \/>\n    segui-la, depois de a ver passar ; cora&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o se<br \/>\n    perturbasse na sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Trajava um singelo vestido de xadrez branco e preto, adornado no colo e<br \/>\n    punhos apenas por colarinhos lisos. Desca&iacute;a-lhe natural e elegantemente<br \/>\n    dos ombros um xale de casimira escura, sem lhe ocultar as belezas da airosa<br \/>\n    conforma&ccedil;&atilde;o ; o chap&eacute;u de palha de largas abas, cobrindo-lhe<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, espalhava pelo rosto as meias-tintas, t&atilde;o favor&aacute;veis<br \/>\n    &agrave;s belezas delicadas.<\/p>\n<p> Henrique compreendeu logo a significa&ccedil;&atilde;o da cena, a que, t&atilde;o<br \/>\n    inesperadamente, viera assistir. Aquela mulher parara ali, para 1er a essa<br \/>\n    gente, pobre e ignorante, as cartas que haviam recebido do correio.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m era caridade a ac&ccedil;&atilde;o, muito mais cumprida com<br \/>\n    o bom modo e com o carinho com que ela o fazia.<\/p>\n<p> Henrique aplicou a aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &#8230;&laquo;E por isso, minha m&atilde;e&raquo; &#8212; lia ela &#8212;<br \/>\n    &laquo;se Deus me ajudar, espero dentro em pouco ir a essa terra e darei rem&eacute;dio<br \/>\n    a tudo. E n&atilde;o me fale vossemec&ecirc; mais em vender o cord&atilde;o<br \/>\n    e as arrecadas. Diga ao senhorio que tenha paci&ecirc;ncia, que eu satisfarei<br \/>\n    a tudo&raquo;.<\/p>\n<p> Aqui a leitora parou para perguntar: &#8212; Ent&atilde;o que hist&oacute;ria<br \/>\n    &eacute; esta das arrecadas, Ana? &#8212; &Eacute;, senhora, que o aluguer<br \/>\n    estava vencido&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o podia falar-me antes de se lembrar do seu filho ? &#8212;<br \/>\n    Ora, senhora, bem basta o que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fez mal. Estar a afligi-lo com estas coisas ! Ele que precisa de<br \/>\n    toda a coragem! E continuou a 1er a carta, no meio das l&aacute;grimas e das<br \/>\n    expans&otilde;es de alegria da ouvinte, mais interessada nela.<\/p>\n<p> Acabando, deu um beijo na crian&ccedil;a, que tinha ao colo, e estendeu<br \/>\n    a m&atilde;o a receber a carta, que outra mulher do grupo lhe passou. Esta<br \/>\n    era menos de consolar. N&atilde;o se falava ali sen&atilde;o de contratempos,<br \/>\n    de reveses e desesperan&ccedil;as. Mais do que uma vez teve de suspender a<br \/>\n    leitura, para mitigar a dor e enxugar as l&aacute;grimas, que ela estava produzindo<br \/>\n    na pobre mulher, a quem era dirigida.<\/p>\n<p> Ap&oacute;s esta, ainda outra e outra ; uma do marido para mulher ; outra<br \/>\n    de filho para m&atilde;e ; outra de noivo para noiva.<\/p>\n<p> Foi com o riso nos l&aacute;bios e inofensiva mal&iacute;cia nas inflex&otilde;es<br \/>\n    da voz e no olhar, que ela decifrou os mal legiveis caracteres, com que em<br \/>\n    papel bordado, pintado e recortado, vinham expressos os mais arrebicados conceitos<br \/>\n    amorosos, que ainda ditou uma paix&atilde;o.<\/p>\n<p> A noiva corava, sorria ; mas, no meio da sua modesta turba&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    era evidente que estava exultando de j&uacute;bilo.<\/p>\n<p> com esta terminou a leitura.<\/p>\n<p> Henrique n&atilde;o resistiu a esbo&ccedil;ar rapidamente o gracioso grupo<br \/>\n    na carteira, que trazia consigo. N&atilde;o p&ocirc;de, por&eacute;m, deixar<br \/>\n    de dar-lhe urti sabor de Idade M&eacute;dia, substituindo a jumenta por um<br \/>\n    palafr&eacute;m de pura ra&ccedil;a e dando &agrave; donzela, pelos trajes<br \/>\n    com que a desenhou, os ares de uma castel&atilde; rodeada dos seus vassalos.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe bastou o natural do quadro, quis revesti-lo de um figurino<br \/>\n    de conven&ccedil;&atilde;o. Perdoe-lhe a arte, que julgou servir.<\/p>\n<p> Depois de distribuir mais alguns beijos pelas crian&ccedil;as, a gentil<br \/>\n    rapariga passou a que tinha no colo para os bra&ccedil;os da m&atilde;e e<br \/>\n    partiu rodeada de agradecimentos e b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os, perdendo-a<br \/>\n    Henrique de vista, por entre as &aacute;rvores do caminho.<\/p>\n<p> Aquele tipo delicado de mulher, aquela singeleza do apurado gosto, em que<br \/>\n    n&atilde;o podiam enganar-se olhos conhecedores, como os dele, aquela preciosa<br \/>\n    p&eacute;rola ali na aldeia ! em uma terra para chegar &agrave; qual era necess&aacute;rio<br \/>\n    fazer uma comprida e laboriosa jornada ! De onde viera ela e como? que nuvem<br \/>\n    a trouxera? que vira&ccedil;&atilde;o a transportara ? Em tudo isto ficou<br \/>\n    a pensar Henrique, e quando se lembrou de que podia, para esclarecer-se, interrogar<br \/>\n    algu&eacute;m do grupo, j&aacute; n&atilde;o ia a tempo ; tinham dispersado.<\/p>\n<p> Conseguiu finalmente passar para a devesa, e foi sentar-se no lugar, em<br \/>\n    que lhe aparecera a vis&atilde;o, e a&iacute; se demorou algum tempo; mas<br \/>\n    lembrando-se de que eram quase onze horas, levantou-se para n&atilde;o faltar<br \/>\n    &agrave;s promessas feitas &agrave; tia Doroteia, e que eram: a de visitar<br \/>\n    as senhoras do Mosteiro e a de estar em casa pouco depois do meio-dia, para<br \/>\n    n&atilde;o transtornar a regularidade dos h&aacute;bitos dom&eacute;sticos<br \/>\n    em Alvapenha.<\/p>\n<p> Pediu pois a uma criancinha que passava, que o guiasse &agrave; quinta do<br \/>\n    Mosteiro, e ai chegou depois de um quarto de hora de caminho.<\/p>\n<p> IV casa do Mosteiro, com a quinta anexa &agrave; casa, como o dava a entender<br \/>\n    o nome, pelo qual o povo a conhecia, tinha pertencido em tempo a uma ordem<br \/>\n    mon&aacute;stica.<\/p>\n<p> Era um destes conventos campestres, que hoje ou se encontram em ru&iacute;nas<br \/>\n    ou transformados em solar de alguma &laquo;notabilidade&raquo; provinciana.<\/p>\n<p> Ao de que falamos coubera o &uacute;ltimo destino.<\/p>\n<p> Inclu&iacute;do, depois do acto ditatorial de 1834, na lista dos bens nacionais,<br \/>\n    fora, por insignificante pre&ccedil;o, vendido a um modesto propriet&aacute;rio<br \/>\n    das imedia&ccedil;&otilde;es, mais arrojado do que os vizinhos, ou mais convencido<br \/>\n    da estabilidade da nova ordem de coisas politicas, que se inaugurava no Pa&iacute;s.<\/p>\n<p> E em t&atilde;o auspiciosa hora lhe acudir&aacute; aquela inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que, em pouco tempo, lho restitu&iacute;a a quinta o capital empregado, regalando-o<br \/>\n    todos os anos com n&atilde;o calculados juros, e ele, sem intermitencias,<br \/>\n    cresceu da&iacute; por diante em prosperidade a ponto de deixar, ao morrer,<br \/>\n    a fam&iacute;lia no n&uacute;mero das mais abastadas daquela terra.<\/p>\n<p> A propriedade do Mosteiro, apesar de v&aacute;rios melhoramentos e reformas<br \/>\n    efectuadas nela, oferecia, ainda claros, muitos vest&iacute;gios de seus primitivos<br \/>\n    usos. N&atilde;o era raro encontrar-se, aqui e ali, em p&eacute; uma cruz<br \/>\n    de pedra marcando antigos lugares de devo&ccedil;&atilde;o ; no alto de algumas<br \/>\n    portas conservava-se vis&iacute;vel o emblema e divisa da ordem, ou restos<br \/>\n    de inscri&ccedil;&otilde;es latinas ; nas paredes de arcaria, em que se apoiava<br \/>\n    a face posterior do edif&iacute;cio, mantinha-se ainda um azulejo contempor&acirc;neo<br \/>\n    dos frades ; finalmente resistira a sucessivas reforma&ccedil;&otilde;es certo<br \/>\n    colorido mon&aacute;stico, que s&oacute; ap&oacute;s muitos anos se dissiparia<br \/>\n    de todo.<\/p>\n<p> Entrava-se para a propriedade por uma larga, comprida e majestosa &aacute;lea<br \/>\n    de sobreiros seculares, alcatifada de relva, que, sobretudo dos lados, por<br \/>\n    pouco trilhada, crescia espessa e verdejante. Abria-se, ao fim desta rua,<br \/>\n    o alto port&atilde;o do p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Henrique, deixado s&oacute; pelo guia ao chegar ali, foi caminhando vagarosamente<br \/>\n    por esta avenida, dominado por a &iacute;ntima como&ccedil;&atilde;o e sentimento<br \/>\n    quase de temor, que se apodera de n&oacute;s, em todos os lugares a que se<br \/>\n    ligam mem&oacute;rias do passado.<\/p>\n<p> A fantasia estava-o transportando a tempos, a que n&atilde;o chegavam j&aacute;<br \/>\n    as suas recorda&ccedil;&otilde;es, &agrave;s &eacute;pocas, em que, por entre<br \/>\n    estas &aacute;rvores gigantes, se via passar, como um fantasma, o h&aacute;bito<br \/>\n    escuro do monge, cuja sombra o Sol, ao declinar no horizonte, tantas vezes<br \/>\n    projectou, esguia e estirada, ao longo daquela mesma avenida.<\/p>\n<p> Impressionado por esta ordem de pensamentos, chegou Henrique ao port&atilde;o,<br \/>\n    transpondo o qual se introduziu no p&aacute;tio. Era um largo terreiro de<br \/>\n    perfeita forma rectangular, limitado ao fundo pela fachada da casa, e lateralmente<br \/>\n    por elevadas paredes, armadas &agrave; maneira de panos de Arras, com tape&ccedil;arias<br \/>\n    de vigorosas heras. A cada uma das paredes encostavam-se dois tanques de vasta<br \/>\n    capacidade.<\/p>\n<p> No tempo dos frades vomitavam, sem cessar, as feias e enormes carrancas<br \/>\n    de todos estes quatro tanques grossos jorros de fresca e pur&iacute;ssima<br \/>\n    &aacute;gua ; por&eacute;m as medidas econ&oacute;micas do &uacute;ltimo propriet&aacute;rio<br \/>\n    e as exig&ecirc;ncias dos seus projectos agr&iacute;colas haviam derivado<br \/>\n    para outros fins, parte desta abundante veia, de maneira que tr&ecirc;s daquelas<br \/>\n    bacias estavam agora completamente a seco.<\/p>\n<p> Os fetos de folhas recortadas, as pegajosas pariet&aacute;rias, os funchos<br \/>\n    odor&iacute;feros, havia muito que tinham invadido a boca dos encanamentos<br \/>\n    in&uacute;teis onde encontravam asilo lagartos, aranhas e miri&aacute;podes,<br \/>\n    e se estabeleciam pac&iacute;ficas col&ocirc;nias de carac&oacute;is.<\/p>\n<p> A fachada do ex-mosteiro nada tinha de not&aacute;vel pelo lado arquitect&oacute;nico.<\/p>\n<p> A arte n&atilde;o tivera fadigas ao conceb&ecirc;-la ; o cinzel pouco se<br \/>\n    embotara a execut&aacute;-la; nem uma coluna singela, nem um flor&atilde;o,<br \/>\n    nem um t&iacute;mpano lhe davam a menos pretensiosa apar&ecirc;ncia monumental.<\/p>\n<p> Imagine-se uma vasta casaria de um andar al&eacute;m do t&eacute;rreo, com<br \/>\n    muitas janelas do peitoril e uma s&oacute; varanda de pedra sobranceira &agrave;<br \/>\n    porta principal ; acima do telhado uma esp&eacute;cie de &aacute;gua-furtada<br \/>\n    de constru&ccedil;&atilde;o evidentemente posterior e aconselhada aos propriet&aacute;rios<br \/>\n    modernos por conveni&ecirc;ncias de acomoda&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica;<br \/>\n    e ter-se-&aacute; concebido o edif&iacute;cio.<\/p>\n<p> Enquanto Henrique se ocupava a examinar estas particularidades, um velhito<br \/>\n    que sentado em um banco de pedra, que havia &agrave; porta de casa, se estava<br \/>\n    aquecendo ao sol, ergueu-se e veio ao encontro do rec&eacute;m-chegado, tossindo<br \/>\n    e arrastando os passos.<\/p>\n<p> Junto de Henrique, o velho, de apar&ecirc;ncia meia r&uacute;stica, meia<br \/>\n    urbana, depois de o saudar com grave cortesia, que deixou a descoberto o &laquo;solid&eacute;u&raquo;<br \/>\n    fradesco com que resguardava a fronte calva, perguntou se havia alguma coisa<br \/>\n    em que o pudesse servir.<\/p>\n<p> Ouvindo, depois de repetida, a resposta de Henrique, que disse procurar<br \/>\n    as senhoras, com nova cortesia lhe fez sinal para que o acompanhasse, e ambos<br \/>\n    atravessaram o p&aacute;tio em direc&ccedil;&atilde;o da casa.<\/p>\n<p> No portal o velho afastou-se de lado com toda a defer&ecirc;ncia para deixar<br \/>\n    passar Henrique ; em seguida abriu-lhe a porta de uma primeira sala, e, voltando-se,<br \/>\n    pediu-lhe para que lhe dissesse quem havia de anunciar. Henrique deu-lhe para<br \/>\n    esse fim um bilhete de visita, cuja significa&ccedil;&atilde;o teve de explicar,<br \/>\n    porque o velho n&atilde;o a compreendia bem.<\/p>\n<p> Afinal, por&eacute;m, retirou-se por outra porta, levando o bilhete.<\/p>\n<p> A sala, em que Henrique ficou esperando, era t&ocirc;da mobilada com pesadas<br \/>\n    cadeiras de couro lavrado e alto espaldar, mesas de p&eacute;s em espiral,<br \/>\n    e pelas paredes alguns enegrecidos retratos de frades, pertencentes provavelmente<br \/>\n    aos antigos propriet&aacute;rios do mosteiro.<\/p>\n<p> No momento em que o velho servo, que era uma esp&eacute;cie de feitor honor&aacute;rio<br \/>\n    da casa, abriu outra porta da sala, para ir anunciar &agrave; fam&iacute;lia<br \/>\n    a visita de Henrique, chegaram aos ouvidos deste, de mistura com um tinir<br \/>\n    de lou&ccedil;as e de cristais, as vozes e risos de crian&ccedil;as, que falavam<br \/>\n    ao mesmo tempo. com a entrada do velho produziu-se um certo sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    e ap&oacute;s uma voz de mulher, de timbre fresco e agrad&aacute;vel, disse<br \/>\n    audivelmente e como em resposta &agrave;s palavras do criado: &#8212; Ora<br \/>\n    as etiquetas com que esteve, Torcato! Mande entrar para aqui.<\/p>\n<p> O feitor parece que resmoneou n&atilde;o sei o qu&ecirc;, a que ainda a<br \/>\n    mesma voz redarguiu: &#8212; O que n&atilde;o &eacute; bonito &eacute; faz&ecirc;-lo<br \/>\n    esperar. Ande, v&aacute;.<\/p>\n<p> Torcato &#8212; chamemos-lhe assim, visto que assim lhe chamaram &#8212;<br \/>\n    apareceu outra vez e fez sinal a Henrique, de que o esperavam na sala imediata.<\/p>\n<p> Henrique que pressentiu ir achar-se na presen&ccedil;a de uma mulher nova<br \/>\n    e porventura bonita, correu, com instinto de perfeito homem de corte, os dedos<br \/>\n    pelos cabelos, afagou o bigode, ajeitou r&agrave;pidamente o la&ccedil;o da<br \/>\n    gravata e entrou.<\/p>\n<p> Era completo o contraste deste aposento com o primeiro ; transpondo aquela<br \/>\n    porta dissipava-se todo o perfume antigo, todo o car&aacute;cter de vetustez,<br \/>\n    que at&eacute; ali reinava em tudo. Era moderno o estuque do tecto, modernissimo<br \/>\n    o papel que forrava as paredes, e a mob&iacute;lia t&ocirc;da de um cunho<br \/>\n    de actualidade, vis&iacute;vel aos olhos menos pesquisadores.<\/p>\n<p> como para tornar mais frisante o contraste, a presen&ccedil;a do velho feitor<br \/>\n    estava aqui substitu&iacute;da por a de duas crian&ccedil;as, a mais velha<br \/>\n    das quais mal passaria dos seis anos.<\/p>\n<p> O reposteiro, que caiu atr&aacute;s de Henrique, foi como que uma cortina<br \/>\n    corrida sobre o passado. A porta, que ele transpusera, a barreira que separava<br \/>\n    dois s&eacute;culos.<\/p>\n<p> Sentadas no topo de uma longa mesa de jantar, coberta de lou&ccedil;a fina<br \/>\n    inglesa, estavam as duas crian&ccedil;as qu&eacute; dissemos, com os seus<br \/>\n    babeiros brancos e tendo cada qual defronte de si um prato de odorifera sopa.<br \/>\n    Em p&eacute;, &agrave; cabeceira, presidia ao lunch infantil uma mulher, de<br \/>\n    quem Henrique s&oacute; p&ocirc;de notar vagamente os contornos gerais do<br \/>\n    corpo e n&atilde;o as particularidades das fei&ccedil;&otilde;es, porque,<br \/>\n    ficando voltada de costas &agrave; luz das janelas, velavam-lhe o rosto umas<br \/>\n    meias sombras que n&atilde;o favoreciam o exame.<\/p>\n<p> Ao ver entrar Henrique, ela disse-lhe jovialmente : &#8212; Na aldeia a<br \/>\n    sala de recep&ccedil;&otilde;es &eacute; aquela em que a gente se acha, quando<br \/>\n    lhe anunciam uma visita. &Eacute; assim pelo menos que eu compreendo o viver<br \/>\n    do campo.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; assim que eu o aprecio, minha senhora &#8212; respondeu<br \/>\n    Henrique, aproximando-se da mesa.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as, interrompendo a refei&ccedil;&atilde;o, fitavam o rec&eacute;m-chegado<br \/>\n    com aqueles olhos espantados e penetrantes, com que elas, prontamente, e quase<br \/>\n    sempre com a certeza de um verdadeiro instinto, decidem para si das simpatias<br \/>\n    ou antipatias de que lhes &eacute; merecedor um estranho, a quem v&ecirc;em<br \/>\n    pela primeira vez.<\/p>\n<p> A mulher, que presidia ao banquete n&atilde;o suspendeu com a entrada de<br \/>\n    Henrique, a ocupa&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica, na. qual estava empenhada.<br \/>\n    Mostrava receber-lhe a visita com um perfeito &laquo;&agrave;-vontade&raquo;,<br \/>\n    que nada tinha por&eacute;m de afectado.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei se V. Ex.&ordf; sabe&#8230; &#8212;ia dizendo Henrique,<br \/>\n    quando, ao chegar perto dela, parou s&ugrave;bitamente em meio da frase.<\/p>\n<p> Na mulher, que estava diante de si, reconheceu a leitora da devesa, a interessante<br \/>\n    rapariga que tanto o preocupara.<\/p>\n<p> Era ela, era o mesmo vestido de xadrez, era a mesma cabe&ccedil;a, agora<br \/>\n    melhor apreciada ainda, porque nada havia a encobrir-lhe a fronte de um primoroso<br \/>\n    modelo, e os cabelos penteados com tanta gra&ccedil;a como singeleza. Em vez<br \/>\n    do longo xale de casimira, trazia agora uma esp&eacute;cie de jaqueta, curta<br \/>\n    e larga, apertada por alamares, de forma pouco mais ou menos semelhante &agrave;<br \/>\n    que, na nomenclatuia das modistas, nomenclatura quase sempre absurda, e de<br \/>\n    mau gosto, teve depois a impr&oacute;pria e desastrada denomina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de zuavo! A surpresa de Henrique n&atilde;o passou despercebida a quem era<br \/>\n    causa dela e que lhe correspondeu com um gesto de curiosa interroga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, minha senhora &#8212; disse Henrique, compreendendo<br \/>\n    aquele gesto &#8212; mas ignorava que vinha encontrar aqui uma pessoa, que<br \/>\n    j&aacute; me n&atilde;o era estranha.<\/p>\n<p> &#8212; E sou eu essa pessoa ? &#8212; &Eacute; V. Ex.&raquo; efectivamente.<\/p>\n<p> &#8212; Pois j&aacute; nos vimos? &#8212; J&aacute;&#8230; quero dizer, eu j&aacute;<br \/>\n    vi V. Ex.&ordf;.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser ; pela minha parte confesso-lhe que me n&atilde;o lembra<br \/>\n    de o ter visto nunca. Apesar disso sei que &eacute; o Sr. Henrique de Souselas,<br \/>\n    sobrinho daquela boa senhora de Alvapenha, a tia Doroteia; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade ? &#8212; Eu pr&oacute;prio. O conhecimento que tenho de V. Ex.&#8217; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; antigo tamb&eacute;m ; data de algumas horas apenas.<\/p>\n<p> A interlocutora de Henrique, ouvindo isto, contraiu levemente as sobrancelhas<br \/>\n    bem desenhadas, fez um movimento de l&aacute;bios e deu &agrave; cabe&ccedil;a<br \/>\n    uma ligeira inclina&ccedil;&atilde;o sobre o ombro, de onde resultou para<br \/>\n    aquela gentil fisionomia a mais ador&aacute;vel express&atilde;o de estranheza,<br \/>\n    que pode animar um semblante de mulher.<\/p>\n<p> &#8212; Esta manh&atilde; &#8212; prosseguiu Henrique, a quem os encantos<br \/>\n    daquele gesto n&atilde;o tinham passado despercebidos &#8212; assisti a uma<br \/>\n    cena comovente.<\/p>\n<p> O lugar era uma devesa ; uma jovem senhora&#8230; jovem e&#8230; e com outras qualidades,<br \/>\n    al&eacute;m desta, para excitar aten&ccedil;&otilde;es, lia, em voz alta,<br \/>\n    as cartas que algumas pobres mulheres do povo acabavam de receber pelo correio&#8230;<\/p>\n<p> Ela n&atilde;o o deixou continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! entendo agora. Viu-me ?j&aacute; andava por fora? N&atilde;o<br \/>\n    o supunha assim madrugador. Mas onde estava t&atilde;o escondido? Vejo que<br \/>\n    &eacute; indiscreto.&#8211; N&atilde;o admira, h&aacute;bitos da cidade. &Eacute;<br \/>\n    verdade, &eacute;. Aquela gente encontrou-me no caminho quando eu voltava<br \/>\n    de uma visita a uns parentes pobres, e n&atilde;o me deixou sem que eu lhe<br \/>\n    abrandasse a &acirc;nsia de cora&ccedil;&atilde;o que a afligia. Coitados<br \/>\n    ! Que havia eu de fazer ? Diga-me, j&aacute; pensou no supl&iacute;cio que<br \/>\n    deve ser olhar a gente para uma folha de papel escrita, na qual sabemos que<br \/>\n    se fala de uma pessoa querida, e n&atilde;o ter poder para decifrar aquele<br \/>\n    enigma ? Que mart&iacute;rio ! Eu por mim, confesso que me falta o &acirc;nimo<br \/>\n    para recusar pedidos daqueles, como me faltaria para negar uma gota de &aacute;gua<br \/>\n    ao desgra&ccedil;ado que visse a morrer de sede. A crueldade seria quase igual.<br \/>\n    N&atilde;o lhe parece? Henrique formulou um galanteio, que ela por&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o ouviu, entreuda j&aacute; a escutar o que uma das crian&ccedil;as<br \/>\n    lhe dizia.<\/p>\n<p> &#8212; Lena, olha a Anica, que est&aacute; a deitar a sopa dela no meu<br \/>\n    prato.<\/p>\n<p> &#8212; Deixa falar, Lena, deixa falar, foi ela que primeiro a deitou no<br \/>\n    meu. N&atilde;o tem vergonha de mentir ! &#8212; Ent&atilde;o ! &#8212; disse<br \/>\n    Madalena, que a este nome correspondia a contrac&ccedil;&atilde;o familiar,<br \/>\n    de que se serviam as crian&ccedil;as. &#8212; Olhem agora se t&ecirc;m ju&iacute;zo.<br \/>\n    Vejam se querem que eu v&aacute; dizer &agrave; mama que venha para aqui.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; ela a m&atilde;e, visto isso &#8212; pensou<br \/>\n    Henrique, como quem modificava uma opini&atilde;o que concebera antes e folgava<br \/>\n    com a modifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; irm&atilde;? Talvez&#8230; Ou mestra&#8230; &Eacute; mais prov&aacute;vel<br \/>\n    que seja mestra. Esta mulher foi decerto educada na cidade. Tem uns ares distintos&#8230;<\/p>\n<p> E elevando a voz : &#8212; V. Ex.&ordf; est&aacute;-me recordando uma cena<br \/>\n    de um precioso livro, que nunca me canso de 1er.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; Werther.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; Conhece ? &#8212; Conhe&ccedil;o&#8230; quero dizer, li-o,<br \/>\n    por acaso, h&aacute; pouco tempo. Compara- me a Carlota? &Eacute; por estar<br \/>\n    a distribuir as ra&ccedil;&otilde;es destas crian&ccedil;as? Que mulher h&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o seja Carlota, nessa parte? Em todas as casas se passa uma cena<br \/>\n    assim. Bem se v&ecirc; que n&atilde;o tem fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc; ? &#8212; Por lhe fazer tanta sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o espect&aacute;culo desta.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; certo &#8212; respondeu Henrique com melancolia. &#8212;<br \/>\n    Deve ser essa uma das causas ; mas nao a &uacute;nica &#8212; acrescentou<br \/>\n    galanteadoramente.<\/p>\n<p> E, de si para si, estava encantado de saber que a sua interlocutora tinha<br \/>\n    lido Werther.<\/p>\n<p> Madalena, para mudar de conversa, perguntou-lhe : &#8212; Ent&atilde;o que<br \/>\n    lhe parece esta nossa aldeia ? &#8212; Um jardim. Ontem, ao chegar, confesso<br \/>\n    que me foi desagrad&aacute;vel a impress&atilde;o recebida. Nem admira; a<br \/>\n    noite, o frio, a chuva, o cansa&ccedil;o. Esta manh&atilde;, por&eacute;m,<br \/>\n    a transforma&ccedil;&atilde;o foi completa. Estou encantado, fascinado ! Numa<br \/>\n    palavra, minha senhora, eu, cidad&atilde;o em corpo e alma, reconciliei-me<br \/>\n    em poucas horas com a vida do campo.<\/p>\n<p> &#8212; Desconfie da mudan&ccedil;a r&aacute;pida. H&aacute;bitos radicados,<br \/>\n    qualidades ou defeitos de educa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se perdem assim<br \/>\n    depressa. Alguns dias aqui, e suspirar&aacute; por Lisboa outra vez.<\/p>\n<p> &#8212; Talvez n&atilde;o. Hoje estou at&eacute; em acreditar que tinha<br \/>\n    raz&atilde;o o doutor, que me prometeu a cura das minhas doen&ccedil;as, se<br \/>\n    me costumasse deveras a estes h&aacute;bitos campestres.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, prometeram-lhe isso? E espera costumar-se? &#8212; Porque n&atilde;o?<br \/>\n    Hoje j&aacute; almocei &agrave;s sete horas, j&aacute; andei mais do que uma<br \/>\n    semana inteira ando em Lisboa. E ainda tenho por ver as raridades da terra.<\/p>\n<p> !&#8212; As raridades ? ! E que raridades sao essas que ainda tem para ver?<br \/>\n    A nossa pobre aldeia n&atilde;o lhe merece essa ironia.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o acha t&atilde;o pouco curiosa esta terra ? Do quase<br \/>\n    nada que dela observei esta manh&atilde;, parece-me at&eacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, se fala da natureza, e outra coisa. A cada passo se encontra<br \/>\n    um ponto de vista que nos obriga a uma exclama&ccedil;&atilde;o. Mas h&aacute;<br \/>\n    por a&iacute; certos cicerones, que insistem em mostrar aos h&oacute;spedes<br \/>\n    as belezas da arte. Pe&ccedil;a a Deus que o livre desse flagelo.<\/p>\n<p> &#8212; V. Ex.* assusta-me. Embora ; se lhes cair nas m&atilde;os, farei<br \/>\n    por achar curioso o que eles acharem. Vai ser esse o meu sistema de cura.<\/p>\n<p> Interessar-me por tudo o que a um homem da aldeia interessa. Foi o regimen<br \/>\n    que me prescreveu o m&eacute;dico, quando me receitou o campo, a t&iacute;tulo<br \/>\n    de emoliente ; se o seguir, salvo-me.<\/p>\n<p> &#8212; E nao o diga a rir. Se quiser prender-se &agrave; aldeia, abjurar<br \/>\n    os atractivos da cidade, deve rustificar-se em tudo ; principiar por cultivar<br \/>\n    o interesse por as quest&otilde;ezinhas da terra; deve, por exemplo, declarar-se<br \/>\n    pelo abade contra a junta de par&oacute;quia ou pela junta de par&oacute;quia<br \/>\n    contra o abade ; ralhar do regedor na quest&atilde;o com os taberneiros ou<br \/>\n    defend&ecirc;-lo. Enquanto n&atilde;o chegar a isto, desconfie da sua aclima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Farei por consegui-lo o mais depressa poss&iacute;vel. Outra coisa<br \/>\n    necess&aacute;ria &eacute; deixar-me convencer ing&egrave;nuamente dos inexced&iacute;veis<br \/>\n    dotes de espirito das notabilidades da terra, o que &eacute; de rigor; estar<br \/>\n    em perp&eacute;tua admira&ccedil;&atilde;o diante de uns certos nomes famosos<br \/>\n    que h&aacute; sempre em todas as terras pequenas, e que nos atiram &agrave;<br \/>\n    cabe&ccedil;a a cada momento.<\/p>\n<p> Por exemplo, aqui j&aacute; sei de um, com que encherei a boca a prop&oacute;sito<br \/>\n    de tudo ; &eacute; o de uma c&eacute;lebre morgadinha dos Canaviais, pessoa<br \/>\n    em quem oi&ccedil;o falar, desde que pus os p&eacute;s, ou por mim a alim&aacute;ria<br \/>\n    que me trouxe, neste produtivo torr&atilde;o.<\/p>\n<p> Madalena sorriu de uma maneira singular, ouvindo isto.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o com que, tem ouvido falar muito nessa morgadinha? &#8212;<br \/>\n    Oh ! mas n&atilde;o faz id&eacute;ia ; de uma maneira desesperadora. N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; pinhal, quinta, azenha, cho&ccedil;a ou lameiro que n&atilde;o perten&ccedil;a<br \/>\n    a essa entidade, para mim desconhecida. Este nome anda-me j&aacute; nos ouvidos,<br \/>\n    como um estribilho de cantiga popular; na estrada, nos campos, em casa de<br \/>\n    minha tia, na loja do correio, em t&ocirc;da a parte o oi&ccedil;o pronunciar.<\/p>\n<p> Parece que voga nos ares.<\/p>\n<p> &#8212; Isso deve ter-lhe excitado a curiosidade de conhecer a pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; Qual ! tem-me impacientado a ponto de nem perguntar por ela.<\/p>\n<p> E demais parece-me que a estou a ver.<\/p>\n<p> &#8212; Ora diga. Ent&atilde;o como a imagina ? Anica, n&atilde;o tens a&iacute;<br \/>\n    um guardanapo ? &#8212; como a imagino? Imagino-a uma morgada, e est&aacute;<br \/>\n    dito tudo; uma senhora nutrida, a rever sa&uacute;de por todos os poros, encarnada<br \/>\n    como uma rom&atilde;, sobre quem os vestidos &agrave; moda assentam como pendurados<br \/>\n    de um cabide, as m&atilde;os cheias de an&eacute;is, meias luvas de retr&oacute;s,<br \/>\n    um chap&eacute;u com uma cercadura de rendas, pousado no cocoruto da cabe&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    V. Ex.a ri-se? Acertei? &#8212; Parece-me. que sim ; mas julgue-o por si j&aacute;<br \/>\n    que tem &agrave; vista o oriqinal.<\/p>\n<p> &#8212; como ? ! &#8212; A morgadinha dos Canaviais, sou eu.<\/p>\n<p> &#8212; Vossa excel&ecirc;ncia !&#8230;<\/p>\n<p> Henrique de Souselas, apesar do seu uso do mundo, esteve por muito tempo<br \/>\n    sem saber como sair da situa&ccedil;&atilde;o em que se pusera.<\/p>\n<p> Madalena ria com t&ocirc;da a vontade ; os pequenos riam, por cont&aacute;gio,<br \/>\n    sem saberem de qu&ecirc;. Tudo aumentava pois a confus&atilde;o de Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Ora confesse &#8212; insistia cruelmente Madalena &#8212; confesse<br \/>\n    que o est&aacute; lisonjeando a exactid&atilde;o das suas conjecturas.<\/p>\n<p> Henrique teve enfim uma lembran&ccedil;a. Tirou do bolso a carteira, em<br \/>\n    que, horas antes, esbo&ccedil;ara rapidamente a figura ei belt&agrave; da<br \/>\n    morgadinha, rodeada das mulheres do povo, e mostrando-lha, disse : &#8212;<br \/>\n    Veja V. Ex.a se esse esbo&ccedil;o, apesar da sua imperfei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    est&aacute; de acordo com a est&uacute;pida concep&ccedil;&atilde;o que eu<br \/>\n    formara.<\/p>\n<p> Madalena lan&ccedil;ou a vista para a carteira e sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! desenha ? &#8212; Quando os modelos tentam, tenho dessas ousadias.<br \/>\n    Os resultados s&atilde;o lastimosos, como estes. Perdoe-me o original, que<br \/>\n    julguei poss&iacute;vel copiar, o desacato, mas&#8230;<\/p>\n<p> Madalena fitou em Henrique um olhar penetrante.<\/p>\n<p> &#8212; Isso que diz sabe-me a um galanteio. Devo adverti-lo de uma coisa,<br \/>\n    Sr. Henrique de Souselas. N&atilde;o h&aacute; nada t&atilde;o mal empregado<br \/>\n    como uma fineza no campo. Tudo quer o seu lugar. Em Lisboa talvez o achasse<br \/>\n    pouco delicado.,, ou pelo menos pouco am&aacute;vel, se me n&atilde;o dirigisse<br \/>\n    dessas frases conceituosas e bonitas. Vive-se disso l&aacute;. Aqui acho-as<br \/>\n    afectadas e in&uacute;teis&#8230; Que quer? Influ&ecirc;ncias da cena. H&aacute;<br \/>\n    tanta sem-cerim&oacute;nia no campo ! Aqui todos nos tratamos como parentes<br \/>\n    : h&aacute;-de ver.<\/p>\n<p> N&atilde;o repara como eu o recebo numa sala de jantar, sem nem sequer tirar<br \/>\n    os babeiros a estas crian&ccedil;as? Olhe l&aacute; que fizesse o mesmo em<br \/>\n    Lisboa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o V. Ex.&#8217; j&aacute; l&aacute; esteve ? &#8212; Eu nasci<br \/>\n    l&aacute; e l&aacute; me eduquei.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! bem se v&ecirc;.<\/p>\n<p> &#8212; Ah? A&iacute; est&aacute; um ah, que eu desejaria muito que me explicasse.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o me ser&aacute; dificil faz&ecirc;-lo. &Eacute; que antes<br \/>\n    j&aacute; de ouvir falar V. Ex.&#8217;, s&oacute; ao ver certa distin&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    certa eleg&acirc;ncia de maneiras, conjecturei&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Basta. &Eacute; um ah, portanto, que tem umas poucas de m&aacute;s<br \/>\n    qualidades.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras ? uma interjei&ccedil;&atilde;o t&atilde;o inocente ! &#8212;<br \/>\n    Pelo contr&aacute;rio, &eacute; a voz mais p&eacute;rfida e inconstante da<br \/>\n    nossa l&iacute;ngua; tudo exprime, a hip&oacute;crita. O seu ah &eacute; vaidoso,<br \/>\n    adulador e in&iacute;quo pelo menos. Pela vaidade castigue-o algum resto de<br \/>\n    mod&eacute;stia que ainda se abrigue no seu cora&ccedil;&atilde;o lisbonense<br \/>\n    ; a adula&ccedil;&atilde;o competia- me castig&aacute;-la, mas perdoo-lha<br \/>\n    porque quero ainda supor que &eacute; um sintoma da doen&ccedil;a das cidades,<br \/>\n    a meu ver, a principal doen&ccedil;a, que o obrigou a procurar a aldeia ;<br \/>\n    da iniq&uuml;idade, da injusti&ccedil;a, que faz &agrave; educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que se pode dar na prov&iacute;ncia, h&aacute;-de convencer-se dentro em pouco,<br \/>\n    quando eu lhe apresentar minha prima Cristina, uma rapariga, que tem vivido<br \/>\n    aqui sempre e que protesta contra essa sua opini&atilde;o; possui tudo quanto<br \/>\n    pode dar de bom a educa&ccedil;&atilde;o das cidades, e, o que mais vale,<br \/>\n    aquilo que l&aacute; &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil perder-se depressa,<br \/>\n    uma candura ador&aacute;vel. &Eacute; a irm&atilde; mais velha destas crian&ccedil;as<br \/>\n    &#8212; acrescentou, pousando a m&atilde;o na cabe&ccedil;a dos pequenos,<br \/>\n    que comiam e conversavam um com o outro.<\/p>\n<p> &#8212; Mas V. Ex.&#8217;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o. Outra coisa. J&aacute; agora que entrei no caminho<br \/>\n    dasadmoesta&ccedil;&otilde;es, permita-me mais uma, antes de perder o ar grave,<br \/>\n    que hei-de por for&ccedil;a ter. N&atilde;o me soa bem o impertinente tratamento<br \/>\n    de excel&ecirc;ncia que me d&aacute;. Essa excel&ecirc;ncia est&aacute; a<br \/>\n    pedir-me uma senhoria, pelo menos, e confesso-lhe ing&egrave;nuamente que<br \/>\n    me custaria a voltar na l&iacute;ngua uma palavra t&atilde;o comprida.<\/p>\n<p> &#8212; como quer ent&atilde;o que a trate ? &#8212; Eu sei?&#8230; Olhe, uma<br \/>\n    id&eacute;ia! H&aacute; pouco n&atilde;o me comparou &agrave; Carlota de Goethe<br \/>\n    ? Deixe-me pois adoptar urna lembran&ccedil;a dela. Est&aacute; certo de que<br \/>\n    tratou o Werther por primo, a primeira vez que lhe falou? &Eacute; um tratamento<br \/>\n    como outro qualquer; e entre n&oacute;s mais justificado, porque sendo o Sr.<br \/>\n    Henrique sobrinho direito de D. Doroteia, e teimando minha tia Vit&oacute;ria,<br \/>\n    a m&atilde;e destes pequenos e de Cristina, que D. Doroteia &eacute; ainda<br \/>\n    uma esp&eacute;cie de nossa tia arredada, e como tal a tratamos, n&oacute;s<br \/>\n    afinal de contas vimos a ser uma esp&eacute;cie de primos tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Pelo menos assim o sustentou e decidiu ontem minha tia Vit&oacute;ria; e<br \/>\n    h&aacute;-de ver como por primo o tratar&aacute;! &Eacute; um tratamento menos<br \/>\n    inc&oacute;modo ; eu chamar-lhe-ei primo Henrique ; chamar-me-&aacute;, se<br \/>\n    quiser, prima Madalena, e desterraremos para sempre a antip&aacute;tica senhoria<br \/>\n    e excel&ecirc;ncia ; concorda ? &#8212; Aceito e acho deliciosa a proposta.<br \/>\n    Adoptamos o principio falso, admitido pela fidalguia em Portugal, de que &laquo;<br \/>\n    os primos dos nossos primos, nossos primos s&atilde;o&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Fica pois ajustado.<\/p>\n<p> &#8212; Fica ajustado.<\/p>\n<p> &#8212; Bem. Mas que ia dizer h&aacute; pouco ? &#8212; Nem eu j&aacute;<br \/>\n    sei&#8230; Ah!&#8230; Perguntava se tinha estado muito tempo em Lisboa e o que a obrigou<br \/>\n    a vir viver para aqui.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; nem mais nem menos do que pedir-me a hist&oacute;ria<br \/>\n    da minha vida. Seja ; &eacute; um sacrif&iacute;cio inevit&aacute;vel a quem<br \/>\n    se v&ecirc; pela primeira vez. Deixe-me primeiro atender a estes pequenos,<br \/>\n    que eu principio.<\/p>\n<p> E, depois de partir a cada crian&ccedil;a uma fatia de queijo, a morgadinha<br \/>\n    principiou : &#8212; A hist&oacute;ria &eacute; curta e sem perip&eacute;cias,<br \/>\n    tranquilize-se. Eu sou filha de Manuel Bernardo de Mesquita e&#8230;<\/p>\n<p> Este nome era o de um dos principais vultos pol&iacute;ticos da &eacute;poca,<br \/>\n    e que ent&atilde;o militava no campo oposicionista, sendo indigitado para<br \/>\n    ministro na primeira reforma ministerial, homem influente, de grande capacidade<br \/>\n    pol&iacute;tica, tendo sempre advogado no parlamento as id&eacute;ias mais<br \/>\n    liberais, e militado no partido progressista.<\/p>\n<p> Henrique de Souselas, que conhecia todas as personagens de import&acirc;ncia<br \/>\n    no Pa&iacute;s, fitou Madalena com olhar estupefacto : t&atilde;o longe estava<br \/>\n    de encontrar ali a filha de um futuro ministro.<\/p>\n<p> &#8212; Filha do conselheiro Manuel Bernardo&#8217; V. Ex.&quot;? &#8212; Excel&ecirc;ncia<br \/>\n    ! Esquece-se da nossa conven&ccedil;&atilde;o ? Repare ! E verdade.<\/p>\n<p> N&atilde;o sabia que meu pai era daqui? Eu e meu irm&atilde;o Angelo, que<br \/>\n    estuda actualmente num col&eacute;gio em Lisboa, somos os &uacute;nicos filhos<br \/>\n    de meu pai. Nasci, como disse, em Lisboa, mas as cont&iacute;nuas enfermidades<br \/>\n    de minha m&atilde;e fizeram-nos vir para aqui viver na companhia dela ; aqui<br \/>\n    mesmo morreu, e aqui est&aacute; sepultada. O &Acirc;ngelo nasceu j&aacute;<br \/>\n    nesta casa.<\/p>\n<p> A morte de minha m&atilde;e deixou-me &oacute;rf&atilde; aos doze anos,<br \/>\n    e incompleta a educa&ccedil;&atilde;o que ela principiara a dar-me e para<br \/>\n    a qual, se vivesse, ela s&oacute; bastaria. Fui pois obrigada a voltar a Lisboa,<br \/>\n    onde continuei com mestra a minha educa&ccedil;&atilde;o. Mas, ao chegar &agrave;<br \/>\n    idade dos quinze anos, receando meu pai que os ares da cidade desenvolvessem<br \/>\n    em mim g&eacute;rmenes de mol&eacute;stia, que porventura tivesse herdado,<br \/>\n    mandou-me outra vez para aqui, onde sempre passava alguns meses no ano, e<br \/>\n    para onde me chamavam tamb&eacute;m h&aacute;bitos adquiridos em crian&ccedil;a.<br \/>\n    Eu sou muito alde&atilde;. Para aqui vim pois. A morte de meu tio, passado<br \/>\n    pouco tempo, impressionou profundamente a minha tia Vit&oacute;ria, que ficou<br \/>\n    desde ent&atilde;o um pouco&#8230; um pouco&#8230; com pouca paci&ecirc;ncia para<br \/>\n    olhar por as coisas dom&eacute;sticas. Isto criou-me novos deveres ; havia<br \/>\n    aqui muitas crian&ccedil;as, estas duas, outras que est&atilde;o l&aacute;<br \/>\n    dentro, e Cristina, que era ent&atilde;o crian&ccedil;a tamb&eacute;m ; ocupei-me<br \/>\n    a ajudar minha tia.<\/p>\n<p> &#8212; E t&atilde;o admir&agrave;velmente, que a mais carinhosa m&atilde;e<br \/>\n    o n&atilde;o faria melhor.<\/p>\n<p> &#8212; Dou-me bem com as crian&ccedil;as, dou. E a meu pai devo, em parte,<br \/>\n    o ter aprendido cedo esta ci&ecirc;ncia. Porque &eacute; uma ci&ecirc;ncia<br \/>\n    tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o como procedeu o conselheiro para a ensinar? &#8212;<br \/>\n    Eu lhe digo. Meu pai tem em certas coisas umas id&eacute;ias muito singulares.<br \/>\n    Excelentes as acho eu. Oh! n&atilde;o imagina que boa e excelente alma &eacute;<br \/>\n    a de meu pai! Era eu uma crian&ccedil;a, tinha onze anos, talvez, quando ele,<br \/>\n    um dia, vindo de Lisboa passar aqui algum tempo connosco, me trouxe uma boneca,<br \/>\n    realmente bonita; uma maravilha de Nuremberga.<\/p>\n<p> Nos primeiros dias n&atilde;o me fartava de a ver, de a beijar, at&eacute;<br \/>\n    comigo a deitava. Oito dias depois sucedia o que era de esperar, j&aacute;<br \/>\n    nem dela sabia. Meu pai notou-o. &#8212; Ent&atilde;o, Lena &#8212; aqui todos<br \/>\n    me chamam assim &#8212; j&aacute; n&atilde;o gostas da tua boneca? &#8212;<br \/>\n    Disse-lhe eu: Gosto, mas&#8230; &#8212; Bem sei, j&aacute; fizeste tudo o que<br \/>\n    tinhas a fazer por ela, e como, pela sua parte ela nada faz por ti, enfastias-te,<br \/>\n    cansas-te de conceber, a cada momento, brinquedos novos. Tens raz&atilde;o<br \/>\n    ; onze anos j&aacute; n&atilde;o &eacute; idade em que o interesse se sustente<br \/>\n    com t&atilde;o pouco, &eacute; necess&aacute;rio mais.<\/p>\n<p> Ora diz-me, Lena &#8212; continuou ele &#8212; se eu te mandasse vir uma<br \/>\n    boneca que movesse os bra&ccedil;os e os olhos, que te sorrisse, que chorasse<br \/>\n    tamb&eacute;m, que te beijasse at&eacute;&#8230; &#8212;Pois h&aacute; bonecas<br \/>\n    assim?&#8212;-perguntei eu, admirada.&#8212; E desej&aacute;va-la? &#8212;<br \/>\n    Oh! se a houvesse!&#8230;&#8212;Trago-ta amanh&atilde;.<\/p>\n<p> N&atilde;o dormi aquela noite a pensar na boneca. No dia seguinte apresentou-<br \/>\n    me meu pai uma crian&ccedil;a de um ano, &oacute;rf&atilde; de uma pobre fam&iacute;lia,<br \/>\n    que uma epidemia extinguira, e disse-me : &#8212; A&iacute; tens a boneca<br \/>\n    que te prometi, Lena; vou confi&aacute;-la aos teus onze anos. Veremos se<br \/>\n    tens ju&iacute;zo para brincares com ela. &Eacute; assim que eu quero que<br \/>\n    aprendas os deveres de m&atilde;e, que &eacute; a verdadeira ci&ecirc;ncia<br \/>\n    apropriada a mulheres. E o que &eacute; certo &eacute; que eu, dissipado o<br \/>\n    desgosto dos primeiros momentos, porque o tive, confesso, costumei-me a querer<br \/>\n    &agrave;quela pobre crian&ccedil;a, fui avara nas suas caricias, troquei por<br \/>\n    ela todos os meus brinquedos, e senti-lhe do cora&ccedil;&atilde;o a morte,<br \/>\n    quando, um ano depois, ela me expirou nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> Quando fui para Lisboa, j&aacute; ia educada para amar crian&ccedil;as,<br \/>\n    Madalena contara tudo isto naturalmente, sem a menor afecta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    sem deixar at&eacute; de atender aos primos, o que aumentava o interessa com<br \/>\n    que a escutava Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; E assim fica sabendo quem &eacute; a morgadinha dos Canaviais &#8212;<br \/>\n    concluiu ela, desnatando o babeiro das crian&ccedil;as, que tinham terminado<br \/>\n    o lynch.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, mas de onde lhe vem este t&iacute;tulo singular,<br \/>\n    prima Madalena? &#8212;perguntou Henrique, tomando ao colo uma das crian&ccedil;as,<br \/>\n    que a morgadinha pousou no ch&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que eu sou realmente a morgadinha dos Canaviais. Quero<br \/>\n    dizer, minha madrinha vivia na quinta dos Canaviais, uma quinta que fica daqui<br \/>\n    perto. Era uma senhora velha, rica, elegante e muito caprichosa ; chamavam-lhe<br \/>\n    todos a morgada dos Canaviais. Tomou-me ela afei&ccedil;&atilde;o, e, sempre<br \/>\n    que passeasse, me havia de levar consigo ; da&iacute; come&ccedil;aram a chamar-me<br \/>\n    de pequena a morgadinha. Quando ela morreu deixou-me tudo quanto possu&iacute;a<br \/>\n    ; nesse legado entrava a quinta dos Canaviais, de que sou propriet&aacute;ria<br \/>\n    ainda. Foi uma como confirma&ccedil;&atilde;o do t&iacute;tulo, que j&aacute;<br \/>\n    desde crian&ccedil;a me tinham dado; e para todos sou aqui a morgadinha, t&iacute;tulo<br \/>\n    na verdade pouco elegante e que t&atilde;o mau conceito fez conceber ao primo<br \/>\n    Henrique da possuidora dele.<\/p>\n<p> &#8212; Retracto-me, prima Madalena; agora que sei a pessoa aqu&eacute;m<br \/>\n    ele pertence, parece-me outro. Acho-o bonito, gracioso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, vamos. Confesse que o t&iacute;tulo n&atilde;o &eacute; dos<br \/>\n    mais rom&acirc;nticos e que, de boa vontade, escreveria outro nome debaixo<br \/>\n    do desenho de fantasia que ai fez, da mesma maneira que deu &agrave; humilde<br \/>\n    e fiel jumenta, que eu montava h&aacute; pouco, a conforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e orelhas elegantes de um palafr&eacute;m, e quase me transformou em uma amazona<br \/>\n    inglesa.<\/p>\n<p> Henrique respondeu, sorrindo: &#8212; Na impossibilidade de reproduzir as<br \/>\n    gra&ccedil;as naturais, socorri-me ao expediente das belezas de conven&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Confesso o meu deplor&aacute;vel erro.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe que n&atilde;o estamos em Lisboa, primo Henrique. Repare para<br \/>\n    essas &aacute;rvores e refreie o sestro galanteador com que est&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Por quem &eacute; ! Nao leve o rigor a tal extremo. T&atilde;o injusta<br \/>\n    &eacute; consigo, que se recuse a aceitar, como naturais e sinceras, as frases<br \/>\n    que a sua presen&ccedil;a inspira? &#8212; Ai, meu Deus, como refina ! Veja<br \/>\n    como essa crian&ccedil;a, que tem no colo, o est&aacute; encarando com os<br \/>\n    olhos espantados. Se ela nunca ouviu falar assim aqui ! Henrique beijou as<br \/>\n    faces da crian&ccedil;a, movimento em que n&atilde;o ia uma inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    menos lisonjeira do que nas frases que dissera, porque ele percebia que Madalena<br \/>\n    era extremosa pelos seus pequenos primos.<\/p>\n<p> Abriu-se, neste meio tempo, a porta da sala, e entrou, saltando, outra crian&ccedil;a<br \/>\n    mais crescida, mas ainda de vestidos curtos, trazendo na m&atilde;o uma folha<br \/>\n    de papel.<\/p>\n<p> &#8212; Lena &#8212; dizia ela em voz alta. &#8212; Olha ; queres ver o<br \/>\n    que o Sr. Augusto s&oacute; me emendou hoje no tema de franc&ecirc;s? Chegando<br \/>\n    ao meio da sala, parou a olhar com estranheza para Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; &Ecirc; o Sr. Henrique de Souselas &#8212; disse Madalena. &#8212;<br \/>\n    O h&oacute;spede da tia Doroteia. Esta &eacute; Mariana, outra de minhas primas<br \/>\n    &#8212; acrescentou, vcltando-se para Henrique. &#8212; J&aacute; v&ecirc;<br \/>\n    que n&atilde;o faltam crian&ccedil;as nesta casa ; e ainda h&aacute; mais.<br \/>\n    &Eacute; o que lhe d&aacute; o ar alegre que tem.<\/p>\n<p> Mariana cumprimentou Henrique e n&atilde;o se constrangeu por mais tempo<br \/>\n    ; mostrando &agrave; prima a composi&ccedil;&atilde;o que o mestre lhe emendara,<br \/>\n    disse : &#8212; Ora v&ecirc; que nao tive muitos erros.<\/p>\n<p> Madalena sorria, examinando o tema.<\/p>\n<p> Henrique ia a fazer n&atilde;o sei que pergunta a Mariana, quando &agrave;<br \/>\n    mesma porta, por onde ela entrara, apareceu o mestre, de quem se falava.<\/p>\n<p> Augusto, que assim se chamava o rec&eacute;m-chegado, era um rapaz de pouco<br \/>\n    mais de vinte anos de idade: de rosto p&aacute;lido e fisionomia inteligente.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m adivinharia naquele tipo um mestre-escola de aldeia.<\/p>\n<p> Trajava com simplicidade, por&eacute;m com asseio e gosto, e havia em t&ocirc;da<br \/>\n    a sua figura certo ar de distin&ccedil;&atilde;o, que feria quem pela primeira<br \/>\n    vez o visse.<\/p>\n<p> Num leve pendor de cabe&ccedil;a, no olhar penetrante e fixo, e nos l&aacute;bios,<br \/>\n    como habituados a fecharem-se &agrave; sa&iacute;da dos pensamentos &iacute;ntimos,<br \/>\n    lia-se o car&aacute;cter pouco expansivo daquele adolescente.<\/p>\n<p> Madalena dirigiu-lhe a palavra, em tom de manifesta defer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; como v&atilde;o os seus disc&iacute;pulos, Sr. Augusto ? &#8212;<br \/>\n    &Oacute;ptimamente, minha senhora &#8212; respondeu o interrogado.<\/p>\n<p> &#8212; O Sr. Augusto &#8212; disse Madalena, apresentando-o a Henrique<br \/>\n    &#8212; o primeiro mestre de meu irm&atilde;o &Acirc;ngelo e hoje mestre de<br \/>\n    Mariana e Eduardo.<\/p>\n<p> &#8212; Esquece-se, minha senhora &#8212; acrescentou Augusto &#8212; que<br \/>\n    de Angelo sou disc&iacute;pulo tamb&eacute;m, e mais disc&iacute;pulo do que<br \/>\n    fui mestre.<\/p>\n<p> &#8212; Do que me esqueci, e, a falar a verdade, n&atilde;o devia, foi de<br \/>\n    que de &Acirc;ngelo &eacute; efectivamente mais do que mestre, &eacute; amigo<br \/>\n    ; assim como de todos n&oacute;s. Este senhor &#8212; continuou ela, concluindo<br \/>\n    a apresenta&ccedil;&atilde;o &#8212; &eacute; o senhor Henrique de Souselas,<br \/>\n    eme se esperava em Alvapenha; &eacute; ainda nosso primo.<\/p>\n<p> Os dois cortejaram-se com af&aacute;vel delicadeza.<\/p>\n<p> &#8212; Teve carta de &Acirc;ngelo ? &#8212; perguntou em seguida a morgadinha.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o recebi ainda o correio de hoje.<\/p>\n<p> &#8212; Nem n&oacute;s; e &eacute; de estranhar que meu pai pelo menos n&atilde;o<br \/>\n    me escrevesse ! &Acirc;ngelo n&atilde;o vir&aacute; passar a festa connosco<br \/>\n    ? Pobre rapaz ! Parece que renasce quando se v&ecirc; aqui. &Eacute; uma perfeita<br \/>\n    crian&ccedil;a ent&atilde;o.<\/p>\n<p> Eduardo, outro primo de Madalena, que Henrique ainda n&atilde;o vira, entrou<br \/>\n    neste momento na sala, trazendo um ma&ccedil;o de cartas na m&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois de cumprimentar Henrique, a quem Madalena o apresentou, disse para<br \/>\n    Augusto : &#8212; A mama deu-me essas cartas para o Sr. Augusto escolher da&iacute;<br \/>\n    aquelas que eu pudesse 1er.<\/p>\n<p> &#8212; Eu verei devagar &#8212; disse Augusto, guardando-as numa pasta<br \/>\n    que trazia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! j&aacute; temos o Eduardo a 1er cartas ! &#8212; disse a morgadinha,<br \/>\n    afagando o primo.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo que vejo &#8212; disse Henrique de Souselas, vendo Augusto<br \/>\n    em disposi&ccedil;&otilde;es de partir &#8212; tem uma vida muito ocupada<br \/>\n    ? &#8212; E tanto que sou obrigado a pedir licen&ccedil;a para me retirar.<\/p>\n<p> Tenho de ir esta tarde a casa do Seabra&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, lecciona ainda as pequenas do brasileiro ? &#8212; perguntou<br \/>\n    Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda, sim, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8212; E como v&atilde;o essas mulatinhas ? Augusto encolheu os ombros,<br \/>\n    sorrindo ; gesto que n&atilde;o devia lisonjear a vaidade do sobredito brasileiro,<br \/>\n    se tomasse a peito os dotes intelectuais das referidas mulatinhas.<\/p>\n<p> Passados segundos, Augusto retirou-se apertando a m&atilde;o a Madalena<br \/>\n    que familiarmente lha estendeu, e a Henrique, que a imitou.<\/p>\n<p> &#8212; Ia apostar que vai ali uma intelig&ecirc;ncia &#8212; disse Henrique<br \/>\n    ao v&ecirc;-lo sair &#8212; algum desses grandes esp&iacute;ritos que vivem<br \/>\n    e morrem ignorados e improdutivos, porque os n&atilde;o aquece o sol do favor<br \/>\n    p&uacute;blico, nem os bafeja a aura da moda caprichosa. &Eacute; terra de<br \/>\n    maravilhas esta, ao que estou vendo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um rapaz inteligente, &eacute; &#8212; disse a morgadinha<br \/>\n    &#8212; e uma alma generosa. Desde tenra idade costumou-se a trabalhar. N&atilde;o<br \/>\n    tem fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> O pai foi um pobre e honrado advogado de um lugar perto daqui, que morreu<br \/>\n    quase na mis&eacute;ria, deixando-o por educar. A m&atilde;e, que era destes<br \/>\n    s&iacute;tios, para a&iacute; veio, depois que viuvou. Ele tem sido, pode<br \/>\n    dizer-se, mestre de si mesmo. Dirigiu os primeiros estudos de &Acirc;ngelo<br \/>\n    e hoje &eacute; o seu melhor amigo. A morgada, minha madrinha, legou-lhe um<br \/>\n    patrim&ocirc;nio para ele se ordenar: n&atilde;o quis, e preferiu ser mestre-<br \/>\n    escola. Meu pai, que lhe reconhecia intelig&ecirc;ncia para mais, tentou dissuadi-lo<br \/>\n    disso, mas nada conseguiu. N&atilde;o h&aacute; quem o arranque destes s&iacute;tios.<\/p>\n<p> &#8212; Prende-o talvez alguma paix&atilde;o? &#8212; N&atilde;o sei. &Eacute;<br \/>\n    certo que &eacute; um professor modelo. O seu primeiro despacho foi tempor&aacute;rio<br \/>\n    ; agora, por&eacute;m, espera meu pai faz&ecirc;-lo efectivo ; para o que<br \/>\n    j&aacute; ele fez novo concurso. J&aacute; v&ecirc; que ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o as deste rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Na verdade ! com muito menos fundamentos h&aacute; quem aspire a<br \/>\n    ser ministro. Mas com certeza o cora&ccedil;&atilde;o entra como elemento<br \/>\n    no problema desse car&aacute;cter.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ainda agora reparo ! &#8212; exclamou a morgadinha &#8212; eu<br \/>\n    esquecida a conversar, e sem avisar a minha tia e Cristina da sua chegada<br \/>\n    ! N&atilde;o o fiz logo, porque as sabia ocupadas em umas longas novenas,<br \/>\n    em que andam ; mas agora &eacute; tempo. Vai Mariana, e tu, Eduardo ; ide<br \/>\n    ambos dizer-lhes que est&aacute; aqui o&#8230; o primo Henrique de Souselas.<\/p>\n<p> Mariana e o irm&atilde;o sa&iacute;ram a correr.<\/p>\n<p> &#8212; Vai conhecer duas boas almas &#8212; disse Madalena, voltando-se<br \/>\n    para Henrique &#8212; minha tia &eacute; uma santa senhora, cujo pior defeito<br \/>\n    &eacute; supor-se v&iacute;tima dos criados; e Cristina&#8230; Cristina &eacute;<br \/>\n    um anjo.<\/p>\n<p> r V HENRIQUE DE SOUSELAS sentia-se cada vez mais penetrado da simpatia que,<br \/>\n    logo &agrave; primeira vista, aquela mulher lhe despertara.<\/p>\n<p> Havia na morgadinha um misto de candura e de ironia, certa delicada reserva<br \/>\n    flutuando, como uma sombra di&aacute;fana, na conversa familiar, a que t&atilde;o<br \/>\n    espontaneamente se dava ; um vis&iacute;vel conhecimento dos usos e etiquetas<br \/>\n    sociais, e ao mesmo tempo uma coragem para cortar por eles, como quem se sentia<br \/>\n    sobranceira a toda a ousadia, inacess&iacute;vel &agrave;s suspeitas dos mais<br \/>\n    atrevidos : havia tantos enigmas naquela simp&aacute;tica &iacute;ndole feminina,<br \/>\n    que poucos seriam impass&iacute;veis diante dela.<\/p>\n<p> A pensar nisto se ficou Henrique de Souselas, calado, im&oacute;vel, absorto,<br \/>\n    seguindo com os olhos os movimentos de Madalena, que, sem o menor constrangimento,<br \/>\n    prosseguia nas suas ocupa&ccedil;&otilde;es dom&eacute;sticas.<\/p>\n<p> Ouviram-se finalmente passos e vozes de diferentes timbres na sala imediata.<\/p>\n<p> &#8212; Elas a&iacute; v&ecirc;m &#8212; disse a morgadinha.<\/p>\n<p> De feito, precedidas por Mariana e Eduardo, entraram na sala D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    e Cristina.<\/p>\n<p> A m&atilde;e vinha dizendo : &#8212; &Eacute; o que eu digo&#8230; N&atilde;o<br \/>\n    que voc&ecirc;s n&atilde;o querem crer ! Ora vejam se isto se atura&#8230; se<br \/>\n    isto n&atilde;o &eacute; para meter uma pessoa no Inferno!&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o tem que ver !&#8230; N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m que mais<br \/>\n    dinheiro gaste com criados e que seja t&atilde;o mal servida como eu!&#8230; Eu<br \/>\n    s&oacute; queria saber o que fazem os criados desta casa? Sim, s&oacute; queria<br \/>\n    que me dissessem o que eles fazem, esse bando de mandri&otilde;es !&#8230; Ele<br \/>\n    &eacute; o Torcato, ele &eacute; o Luis, ele &eacute; o Dami&atilde;o, ele<br \/>\n    &eacute; a Ermelinda, ele &eacute; a Rosa, ele &eacute; a Violante&#8230; e nao<br \/>\n    havia um s&oacute; que me viesse dizer que tinha chegado o primo ! &Eacute;<br \/>\n    forte coisa !&#8230; Comprometem uma pessoa ! Ent&atilde;o como est&aacute; ?<br \/>\n    &#8212; acrescentou ela, mudando de tom para cumprimentar Henrique, a quem<br \/>\n    estendeu a m&atilde;o.<\/p>\n<p> Madalena, ao ouvi-la, tinha j&aacute; trocado com este um olhar malicioso.<\/p>\n<p> Henrique correspondeu delicadamente &agrave; sauda&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    senhoras e procurou justificar os criados.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o mos desculpe &#8212; atalhou D. Vit&oacute;ria, elevando<br \/>\n    outra vez o tom de voz &#8212; aquilo &eacute; de prop&oacute;sito para fazerem<br \/>\n    ficar mal uma pessoa; ningu&eacute;m me tira isto da cabe&ccedil;a&#8230; Aquilo<br \/>\n    &eacute; de prop&oacute;sito! &#8212; Mas a marn&atilde; n&atilde;o v&ecirc;<br \/>\n    que as criadas estavam connosco &agrave; novena ? &#8212; lembrou timidamente<br \/>\n    Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Pois que n&atilde;o estivessem. Quem tem servi&ccedil;o a fazer<br \/>\n    n&atilde;o pode ouvir novenas.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se a mama &eacute; que as mandou ! &#8212; Pois sim&#8230; pois<br \/>\n    sim&#8230; mas&#8230; mas elas &eacute; que me deviam dizer nue tinharn que fazer.<br \/>\n    Ent&atilde;o eu &eacute; que lhes hei-de estar a lembrar as suas obriga&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    N&atilde;o me faltava mais nada! Ora tens coisas, menina! Mas ent&atilde;o<br \/>\n    vamos a saber, primo Henrique, fez bem a sua jornada? Henrique principiou<br \/>\n    a falar para desvanecer a irrita&ccedil;&atilde;o de P. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> como n&oacute;s j&aacute; sabemos dos pormenores da tal jornada, aproveitaremos<br \/>\n    a ocasi&atilde;o para dizer duas palavras a respeito das novas personagens,<br \/>\n    que est&atilde;o em cena.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria, havendo atingido j&aacute; a idade respeit&aacute;vel<br \/>\n    dos quarenta e tantos anos, dispensa-nos grandes longuras e esmeros de descri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Basta que o leitor saiba que era uma senhora nutrida, bondosa no fundo,<br \/>\n    e que sabia muito bem trazer os vestidos escuros da sua viuvez. Impertinente<br \/>\n    com os criados, doida pelos filhos e sobrinhos, muito sujeita a esquecimentos,<br \/>\n    e confundindo-se facilmente sempre que tentava for&ccedil;ar o esp&iacute;rito<br \/>\n    a abra&ccedil;ar alguma id&eacute;ia mais complexa ; m&atilde;os rotas com<br \/>\n    a pobreza; intolerante, em teoria, com os ladr&otilde;es e malfeitores, por&eacute;m<br \/>\n    felizes deles se daquelas m&atilde;os lhes dependesse a condena&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; eis o que era D. Vit&oacute;ria. Cristina, por&eacute;m, tinha dezanove<br \/>\n    anos ; e esta idade goza de privil&eacute;gios, que eu n&atilde;o posso infringir.<br \/>\n    O leitor n&atilde;o me perdoaria se me visse passar estouvadamente por diante<br \/>\n    da prima de Madalena, sem um olhar de homenagem &agrave; sua juventude e ao<br \/>\n    seu tipo feminino. Reparemos pois.<\/p>\n<p> Cristina era mais bonita do que bela. N&atilde;o havia naquele rosto uma<br \/>\n    s&oacute; fei&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o fosse correda e delicada. Tez<br \/>\n    alva e fin&iacute;ssima ; olhos meigos e quebrando-se com suavidade infantil<br \/>\n    ; boca, de onde parecia sempre prestes a sair um afago ou uma consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; voz, que da muita piedade daquele bom cora&ccedil;&atilde;o, tirava &agrave;s<br \/>\n    vezes modula&ccedil;&otilde;es comoventes ; numa palavra, uma figura de querubim,<br \/>\n    como as sonharam os mais inspirados artistas, cuja m&atilde;o representou<br \/>\n    na tela os augustos mist&eacute;rios do cristianismo, tal era a primog&eacute;nita<br \/>\n    de D. Vit&oacute;ria. Mas n&atilde;o procurassem nela alguns daqueles atractivos,<br \/>\n    que fixam de repente e como por magn&iacute;fico influxo, a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos olhos, uma dessas particularidades fision&ocirc;micas, pelas quais a natureza<br \/>\n    destruindo com arrojo feliz a geral harmonia de um semblante, consegue torn&aacute;-lo<br \/>\n    mais fascinador ; temperavam-se ali t&atilde;o completamente todas as fei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que a aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se sentia obrigada a passar do conjunto<br \/>\n    delas, o que lhes diminu&iacute;a muito a intensidade. &Eacute; o grande sen&atilde;o<br \/>\n    dos rostos harmonicamente perfeitos.<\/p>\n<p> Concordava-se em que Cristina era galante, ningu&eacute;m lhe negaria simpatias<br \/>\n    ; mas o pensamento na aus&ecirc;ncia dela, n&atilde;o se sentia dominado por<br \/>\n    a sua imagem: perdia-a at&eacute; num vago, quando pretendia fix&aacute;-la:<br \/>\n    eram suaves de mais as inflex&otilde;es daqueles contornos, brandas as tintas<br \/>\n    que lhes davam relevo, para que a mem&oacute;ria conseguisse reproduzir f&aacute;cilmente<br \/>\n    o tipo ang&eacute;lico, de que lhe ficara uma agrad&aacute;vel mas vaga impress&atilde;o.<\/p>\n<p> Por um homem, em que predominasse a raz&atilde;o, Cristina poderia vir a<br \/>\n    ser adorada; mas nas imagina&ccedil;&otilde;es ardentes, nos cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    inflam&aacute;veis, dif&iacute;cil lhe seria produzir alguma impress&atilde;o<br \/>\n    duradoura.<\/p>\n<p> Para bem se compreender a beleza de Cristina, era preciso sondar- lhe primeiro<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o, apreciar todo o tesouro de sentimentos que ali se<br \/>\n    continha ; ent&atilde;o descobrir-se-lhe-ia nas fei&ccedil;&otilde;es certa<br \/>\n    beleza ideal, reflexo de bondade e candura, uma dessas claridades que as almas<br \/>\n    puras e generosas vertem nas fisionomias. Se nao fosse recear-me da Iinguagem<br \/>\n    que saiba a filosofia, diria que a beleza, que possuem umas mulheres assim,<br \/>\n    &eacute; uma beleza subjectiva.<\/p>\n<p> De tudo isto &eacute; natural concluir que Henrique de Souselas podia simpatizar<br \/>\n    com a c&acirc;ndida figura de Cristina, a qual baixava timidamente os olhos<br \/>\n    diante dele, corando cheia de enleio e confus&atilde;o, mas que qualquer sentimento<br \/>\n    que ela lhe inspirasse n&atilde;o conseguiria por muito tempo desviar-lhe<br \/>\n    o sentido dos encantos mais atraentes da morgadinha &#8212; que a muitos respeitos,<br \/>\n    menos na bondade de cora&ccedil;&atilde;o, formava contraste completo com<br \/>\n    sua prima.<\/p>\n<p> Travara-se animada conversa&ccedil;&atilde;o entre as pessoas presentes,<br \/>\n    e principalmente entre Henrique, D. Vit&oacute;ria e Madalena.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria quis ser informada da doen&ccedil;a de Henrique. Este<br \/>\n    passou a fazer-lhe uma exposi&ccedil;&atilde;o igual, com pequenas variantes,<br \/>\n    &agrave; que fizera &agrave; tia.<\/p>\n<p> Mencionou, como a ela, aqueles vagos sintomas, aquelas tristezas, impaciencias<br \/>\n    e desalentos, que t&atilde;o ing&egrave;nuamente a boa senhora classificara<br \/>\n    como mania.<\/p>\n<p> Enquanto Henrique falava, Madalena p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p> Henrique tornou para ela os olhos.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; menina, de que ris tu ? &#8212; perguntou D. Vit&oacute;ria,<br \/>\n    com certo tom de severidade.<\/p>\n<p> &#8212; Rio-me daquela doen&ccedil;a, tia. Pois j&aacute; viu algu&eacute;m<br \/>\n    padecer daquilo? Ora diga? &#8212; Eu?&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pode dizer que nao. E contudo o primo Henrique n&atilde;o mente.<\/p>\n<p> H&aacute; daquelas doen&ccedil;as na cidade, h&aacute;; mas na aldeia s&atilde;o<br \/>\n    t&atilde;o raras, que eu mesma as estranho j&aacute;, eu que as vi em outro<br \/>\n    tempo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc; na realidade delas.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o lhes estou a dizer que sim ? Oi&ccedil;o at&eacute; que<br \/>\n    j&aacute; t&ecirc;m levado ao suic&iacute;dio. Acredito-o. Os h&aacute;bitos<br \/>\n    da civiliza&ccedil;&atilde;o afei&ccedil;oam a seu modo a natureza humana<br \/>\n    e criam mol&eacute;stias novas, que nem por isso s&atilde;o menos naturais.<br \/>\n    Mas que quer, primo ? A minha estranheza, ao ver um desses doentes em plena<br \/>\n    aldeia, n&atilde;o &eacute; modificada por todas essas considera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &Eacute; como um homem de casaca e gravata branca ; n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    nada mais s&eacute;rio e mais grave numa sala de baile, mas coloque-mo num<br \/>\n    monte, e diga se o pode olhar a s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que n&atilde;o devo queixar-me aqui, sob pena de zombarem<br \/>\n    de mim.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto nao digo ; mas n&atilde;o o entender&atilde;o ; isso n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m a minha doen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    dessas, que se n&atilde;o d&atilde;o na deia, prima Madalena ; eu creio que<br \/>\n    verdadeiras desordens org&acirc;nicas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! tamb&eacute;m ? com esse aspecto de robustez ? !&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se eu sei o que tu est&aacute;s a&iacute; a dizer, Lena! &#8212;<br \/>\n    disse D. Vit&oacute;ria, que n&atilde;o tinha percebido bem o di&aacute;logo.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que eu, minha tia, teimei em fazer perder ao primo Henrique<br \/>\n    dos os maus h&aacute;bitos da cidade, com que veio para aqui. Sem isso o pode<br \/>\n    curar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Sujeitar-me-ei da melhor vontade a t&atilde;o agrad&aacute;vel dom&iacute;nio.<\/p>\n<p> &#8212; Principia mal, se principia com uma fineza. J&aacute; o avisei h&aacute;<br \/>\n    pouco&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; necess&aacute;rio tornar-me grosseiro, para me salvar<br \/>\n    ? Nesse caso renuncio &agrave; cura.<\/p>\n<p> &#8212; Grosseiro, n&atilde;o; basta que seja razo&aacute;vel e sobretudo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Acabe.<\/p>\n<p> &#8212; .Acabo? eu sei? Eu &agrave;s vezes sou sincera de mais.<\/p>\n<p> &#8212; Eu adoro as sinceridades.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; que o quer&#8230; &Eacute; preciso que seja razo&aacute;vel<br \/>\n    e sobretudo&#8230;<\/p>\n<p> esafectado.<\/p>\n<p> Henrique de Souselas mordeu ligeiramente os l&aacute;bios, corando.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o acha?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Acho que est&aacute; sempre a imaginar-se num sal&atilde;o ; faz<br \/>\n    uns gestos e galantaria, desnecess&aacute;rios e perdidos.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; meninos, eu n&atilde;o vos entendo &#8212; repetia D. Vit&oacute;ria,<br \/>\n    Madalena sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Digo eu que&#8230;<\/p>\n<p> Um criado entrando com as cartas do correio, n&atilde;o a deixou continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre chegou o correio ! &#8212; exclamou Madalena com vivaciade,<br \/>\n    recebendo as cartas. &#8212;Porque veio t&atilde;o tarde? &#8212; A mulher<br \/>\n    contou-me l&aacute; umas hist&oacute;rias de uma queda, e&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Coitada ! Aconteceu-lhe algum mal ? &#8212; Esteja descansada, minha<br \/>\n    senhora. Ela partiu j&aacute; e era um gosto -la a correr.<\/p>\n<p> Madalena abriu com presad a carta recebida.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; de meu pai &#8212; disse ela, olhando-lhe para a letra<br \/>\n    e, depois e pedir licen&ccedil;a, come&ccedil;ou a 1er para si.<\/p>\n<p> &#8212; Pois agora &#8212; dizia, neste meio tempo, D. Vit&oacute;ria a<br \/>\n    Henrique&#8212; que deve &eacute; aproveitar estes bonitos dias para dar alguns<br \/>\n    passeios.<\/p>\n<p> As pequenas acompanham-no. Aonde me dizias tu no outro dia que querias ir,<br \/>\n    Cristina? &#8212; Eu ! &#8212; disse Cristma, corando.<\/p>\n<p> &#8212; Tu, sim, menina. Ainda ontem me falaste nisso. Ora onde era?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A Senhora da Sa&uacute;de, mama.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, &eacute; verdade, &agrave; Senhora da Sa&uacute;de. A&iacute;<br \/>\n    est&aacute; j&aacute; um passeio bonito.<\/p>\n<p> e? Saem daqui uma manh&atilde; cedo, levam alguma coisa para l&aacute; comer,<br \/>\n    porque o ar do monte abre o apetite, e a cavalo est&atilde;o l&aacute; num<br \/>\n    instante&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A cavalo, mam&atilde; ! daqui &agrave; Senhora da Sa&uacute;de ?<br \/>\n    Ora ! Vai-se muito bem a p&eacute; &#8212; notou Cristina do lado.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; por os a&ccedil;udes.<\/p>\n<p> &#8212; Pois por onde hav&iacute;amos de ir ? &#8212; Por a Granja, que<br \/>\n    &eacute; melhor.<\/p>\n<p> &#8212; Por a Granja ! &Eacute; uma l&eacute;gua ! &#8212; Que tem? mas<br \/>\n    escusam de trepar como cabras por o lado dos a&ccedil;udes, que at&eacute;<br \/>\n    &eacute; perigoso ; e depois para que h&atilde;o-de ir a p&eacute;, se para<br \/>\n    a&iacute; est&atilde;o os cavalos sem fazerem nada? &Eacute; vontade de se<br \/>\n    cansarem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas apetece ainda mais neste tempo. S&oacute; se&#8230; s&oacute; se<br \/>\n    ali o Sr. Henriaue&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; disse Cristina, embara&ccedil;ada ao continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Eu o qu&ecirc;, minha senhora? &#8212; Perd&atilde;o &#8212; interrompeu<br \/>\n    D. Vit&oacute;ria. &#8212; Porque n&atilde;o h&aacute;s-de tu chamar primo<br \/>\n    ao primo Henrique? pois n&atilde;o chamamos tia &agrave; tia Doroteia? &#8212;<br \/>\n    Por isso mesmo, mama &#8212; respondeu Cristina &#8212; os sobrinhos da tia<br \/>\n    Doroteia n&atilde;o s&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o averig&uuml;emos desses parentescos, priminha &#8212;<br \/>\n    acudiu Henrique &#8212; eu aceito a proposta da mama, pe&ccedil;o para ser<br \/>\n    considerado do n&uacute;mero de seus primos.<\/p>\n<p> Cristina baixou os olhos, sorrindo.<\/p>\n<p> Henrique prosseguiu: &#8212; Mas parece que receava por mim, quando falou<br \/>\n    em ir a p&eacute; &agrave; Senhora da Sa&uacute;de. N&atilde;o sei onde &eacute;<br \/>\n    o lugar, mas desde j&aacute; me comprometo a n&atilde;o cansar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem que saber &#8212; disse D. Vit&oacute;ria, caminhando<br \/>\n    para ume janela. &#8212; Ela l&aacute; est&aacute;. Olhe que ainda &eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio saber trepar.<\/p>\n<p> &#8212; Tendo duas t&atilde;o galantes companheiras de viagem &#8212; tornou<br \/>\n    Henrique, depois de reparar no monte escarpado que ficava a alguma dist&acirc;ncia<br \/>\n    dali, o mesmo que o almocreve lhe mostrou &#8212; parece-me que daria a p&eacute;<br \/>\n    uma volta ao globo e que subiria a correr o Pico de Tenerife.<\/p>\n<p> &#8212; O que eu lhe digo, primo &#8212; acrescentou D. Vit&oacute;ria &#8212;<br \/>\n    &eacute; que se acautele, porque se lhes vai a fazer todas as vontades, tem<br \/>\n    que ver.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda que morresse em t&atilde;o agrad&aacute;vel servi&ccedil;o,<br \/>\n    teria de agradecer a Deus a morte.<\/p>\n<p> &#8212; C&aacute; me chegou aos ouvidos o cumprimento &#8212; disse Madalena,<br \/>\n    que continuava a 1er. &#8212; Logo ajustaremos contas.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; implac&aacute;vel esta nossa prima, n&atilde;o acha? &#8212;<br \/>\n    perguntou Henrique, sorrindo, a Cristina, que por &uacute;nica resposta s&oacute;<br \/>\n    soube sorrir tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ent&atilde;o, &eacute; arranjarem, &eacute; arranjarem isso<br \/>\n    e quanto antes, que n&atilde;o h&aacute; que fiar no tempo. Eu se pudesse<br \/>\n    tamb&eacute;m ia, mas j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o passeios para mim, e<br \/>\n    depois estes criados&#8230;<\/p>\n<p> Henrique de Souselas receou nova divaga&ccedil;&atilde;o sobre o assunto<br \/>\n    predilecto de D. Vit&oacute;ria ; mas felizmente acudiu-lhe a morgadinha,<br \/>\n    que disse, terminando a leitura da carta: &#8212; Escreve-me o pai que tenciona<br \/>\n    vir passar connosco as f&eacute;rias do Natal e trazer &Acirc;ngelo consigo.<br \/>\n    Promete demorar-se at&eacute; ao dia dos Reis.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as saudaram a nova com gritos de alegria, e saltos de causarem<br \/>\n    inveja a um clown de circo.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria zangou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que pouca &#8211; vergonha &eacute; essa ? Parecem-me um<br \/>\n    bando de patetas ! Ora vamos ! J&aacute; quietos. A culpa tem a Ermelinda,<br \/>\n    que j&aacute; vos devia ter levado para a quinta. &Oacute; Senhor, esta praga<br \/>\n    de criados, que nunca h&aacute;-de fazer a sua obriga&ccedil;&atilde;o ! As<br \/>\n    crian&ccedil;as reprimiram um pouco mais as expans&otilde;es de seus j&uacute;bilos,<br \/>\n    mas ainda ficaram cantando a meia voz, em m&uacute;sica de composi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    delas, o seguinte: &#8212; Vem o primo &Acirc;ngelo ! Vem o primo &Acirc;ngelo<br \/>\n    ! Ora viva, viva ! Ora viva, ol&eacute; ! &#8212; Psiu ! Calai-vos ! &#8212;<br \/>\n    bradou ainda D. Vit&oacute;ria ; e voltando-se para Madalena: &#8212; Mas<br \/>\n    ent&atilde;o como se entende isso, Lena? Ent&atilde;o o pai diz que vem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nas v&eacute;speras do Natal.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, nas v&eacute;speras do Natal, e vai&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Depois dos Reis.<\/p>\n<p> &#8212; Sim; est&aacute; bem; e&#8230; sim&#8230; e ent&atilde;o o &Acirc;ngelo?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O &Acirc;ngelo vem com ele. Quer ver a carta? &#8212; N&atilde;o,<br \/>\n    menina. Mas &eacute; preciso n&atilde;o fazer confus&atilde;o&#8230; Ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; nada menos confuso&#8230; &Eacute; s&oacute; isto.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ; pois agora, sim ; agora est&aacute; bem claro. Calai-vos,<br \/>\n    diabretes ! Oh meu Deus, quo consumi&ccedil;&atilde;o ! Mas ent&atilde;o porque<br \/>\n    n&atilde;o entregou o criado h&aacute; mais tempo essa carta ? Eh ! n&atilde;o<br \/>\n    que voc&ecirc;s dizem que eles&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; tia, pois n&atilde;o ouviu que foi a mulher das cartas<br \/>\n    que se demorou, porque&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Hist&oacute;rias ! N&atilde;o me venham para c&aacute; com esses<br \/>\n    contos. Voc&ecirc;s est&atilde;o sempre prontos para desculp&aacute;-los.<br \/>\n    S&atilde;o eles&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; 0 Lena, Lena &#8212; diziam as crian&ccedil;as &#8212; o primo &Acirc;ngelo<br \/>\n    n&atilde;o torna para Lisboa? &#8212; H&aacute;-de tornar.<\/p>\n<p> &#8212; Ora! &#8212; Olha l&aacute;, &oacute; Lena &#8212; disse D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    &#8212; sabes tu o que me lembra?&#8230;<\/p>\n<p> Mas eu nem sei&#8230; com estes criados que tenho&#8230; Mas a mim lembra-me&#8230;<br \/>\n    uma vez que teu pai vem com o pequeno&#8230; e&#8230; est&aacute; agora c&aacute;<br \/>\n    o primo Henrique&#8230; lembra-me a mim&#8230; mas, j&aacute; digo, era se eu pudesse<br \/>\n    contar com os criados que temos&#8230; lembra-me, juntarmo-nos todos para consoar&#8230;<br \/>\n    A prima Doroteia tamb&eacute;m, e aqui o primo; mas era se&#8230;<\/p>\n<p> uma perfeita ova&ccedil;&atilde;o acolheu o projecto; as crian&ccedil;as<br \/>\n    levaram as suas demonstra&ccedil;&otilde;es de entusiasmo at&eacute; ao del&iacute;rio,<br \/>\n    penduraram-se ao pesco&ccedil;o, &agrave; cinta, ao avental da m&atilde;e,<br \/>\n    gritando todas a um tempo: &#8212; Ai, sim, mama, sim ; mande convidar a tia<br \/>\n    Doroteia, mande ! E h&aacute;-de ficar em casa, sim? Olhe e&#8230; e arma-se o<br \/>\n    pres&eacute;pio&#8230; e&#8230; e&#8230;<\/p>\n<p> e havemos de cantar as janeiras&#8230; Mande, mande, mam&atilde;, por as alminhas<br \/>\n    ; ora mande.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria fingia arrenegar-se com aquela pequenada, e erguia o bra&ccedil;o,<br \/>\n    como para a fustigar asperamente, mas, contra a sua vontade, rompia-lhe o<br \/>\n    riso dos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8212; Saiam daqui ! &#8212; exclamava ela, quando conseguiu estar s&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Saiam!&#8230; N&atilde;o ouvem?&#8230; Espera que eu vos falo&#8230; Ai, n&atilde;o<br \/>\n    fazem caso ? Ora esperem&#8230; Mariana, j&aacute; d&eacute;vias ter mais juizo&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o, Eduardo ! Tu tamb&eacute;m ? N&atilde;o tem vergonha ! Um homem<br \/>\n    quase ! Saiam daqui, estafermos !<\/p>\n<p>A id&eacute;ia das consoadas em familia fora uma id&eacute;ia, que a ningu&eacute;m<br \/>\n    deixara impass&iacute;vel. Cristina, a t&iacute;mida Cristina, n&atilde;o<br \/>\n    disfar&ccedil;ou um movimento de j&uacute;bilo ; as m&atilde;os juntaram-se-lhe<br \/>\n    instintivamente, e raiou-lhe no olhar suave um fulgor pouco costumado.<\/p>\n<p> A pr&oacute;pria Madalena n&atilde;o se mostrou superior &agrave;quela tocante<br \/>\n    puerilidade.<\/p>\n<p> Aproximou-se com viveza da tia, e beijando-a nas faces, disse-lhe afectuosamente<br \/>\n    : &#8212; Ora a&iacute; est&aacute; o que &eacute; muito bem-pensado.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, sim, mas o pior &eacute;&#8230; os criados &#8212; disse D.<br \/>\n    Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Quem fala nisso ? Na noite de Natal quem mais trabalha somos n&oacute;s.<br \/>\n    Demais, teremos, para dirigir as tarefas, a Maria de Jesus, a criada da tia<br \/>\n    Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; que &eacute; a p&eacute;rola das criadas ! Oh ! aquela<br \/>\n    prima Doroteia, aquela sua tia, primo Henrique, &eacute; que teve felicidade!<br \/>\n    Mas dizes tu&#8230;<\/p>\n<p> Bem se importam os de c&aacute; com a Maria.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem d&uacute;vida. Naquela noite quanto mais barulho<br \/>\n    e desordem, melhor &#8212; aventurou-se a dizer Cristina, com &iacute;mpeto<br \/>\n    revolucion&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; temos outra ! N&atilde;o, filha ; isso &eacute; que n&atilde;o.<br \/>\n    Para barulhos &eacute; que eu j&aacute; n&atilde;o estou. Ent&atilde;o, n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; resolvido &#8212; disse a morgadinha, para cortar pelas<br \/>\n    divaga&ccedil;&otilde;es da tia. &#8212; Aqui o Sr. de Souselas &#8212; acrescentou,<br \/>\n    com maliciosa inflex&atilde;o &#8212; fica desde j&aacute; encarregado de<br \/>\n    transmitir &agrave; tia Doroteia o nosso plano e, desde j&aacute;, oficialmente<br \/>\n    convidado.<\/p>\n<p> &#8212; Aceito da melhor vontade.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei se o deva dizer. &Eacute; preciso que o avise de<br \/>\n    que naquela noite todos t&ecirc;m de trabalhar na cozinha ; a ningu&eacute;m<br \/>\n    se dispensa, um minuto, pelo menos, de colabora&ccedil;&atilde;o nos guisados.<br \/>\n    Por isso veja l&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; menina, tens coisas ! &#8212; disse D. Vit&oacute;ria.<br \/>\n    Deixe-a falar, primo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; deixe-a falar. Eu n&atilde;o dispenso ningu&eacute;m.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"imagens\/juilio-dinis-2.jpg\" alt=\"J\u00falio Dinis\" width=\"250\" height=\"381\" border=\"0\" title=\"J\u00falio Dinis\"\/><br \/>\n    <b>J&uacute;lio Dinis<\/b> <\/p>\n<p>Um grupo de crian&ccedil;as e de mulheres do povo escutavam&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E eu prometo n&atilde;o me recusar. Prontifico-me a tornar detest&aacute;veis<br \/>\n    os pratos em que puser a m&atilde;o. Que mais querem? Foi alegremente acolhida<br \/>\n    a promessa.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as, familiarizadas j&aacute; com Henrique, em quem tinham<br \/>\n    adivinhado um humor jovial, o que &eacute; sempre para elas um motivo de atrac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    trepavam-lhe j&aacute; aos joelhos e dirigiam-lhe perguntas sobre perguntas,<br \/>\n    dificultando-lhe as respostas.<\/p>\n<p> &#8212; Havemos de jogar o rapa, n&atilde;o havemos ? &#8212; Havemos de<br \/>\n    jogar, havemos &#8212; respondeu Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; E o par ou pern&atilde;o ? &#8212; Tamb&eacute;m ; tamb&eacute;m<br \/>\n    havemos de jogar o par ou pern&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tudo, tudo ; havemos de jogar tudo.<\/p>\n<p> &#8212; Olhe : e sabe contar hist&oacute;rias ? &#8212; Sei tamb&eacute;m<br \/>\n    contar hist&oacute;rias.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o h&aacute;-de contar-nos, que n&oacute;s tamb&eacute;m<br \/>\n    lhe contamos a da Gata Borralheira, a da Maria de Pau e a da Menina com as<br \/>\n    tr&ecirc;s estrelinhas na testa.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, o Sr. Henrique j&aacute; as sabe &#8212; disse, fazendo-se<br \/>\n    sisuda, Mariana.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o sei, n&atilde;o, senhora; quem lhe disse que eu<br \/>\n    as sabia Y hei-de querer ouvir isso tudo.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; meninos ! &#8212; exclamou D. Vit&oacute;ria, que at&eacute;<br \/>\n    ali estiver&agrave; distra&iacute;da a discutir com Madalena. &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    isso que &eacute; ? J&aacute; para baixo.<\/p>\n<p> Ai, se lhes d&aacute; confian&ccedil;a, est&aacute; arranjado, primo.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-os estar, minha senhora, este contacto de alegrias &eacute;<br \/>\n    salutar ; pegam-se.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o o diga a brincar &#8212; disse Madalena &#8212; que<br \/>\n    tamb&eacute;m confio nessas crian&ccedil;as para o curarem dos seus males.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o deveras empreendeu curar-me ? &#8212; com toda a certeza.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso havemos de discutir devagar esse ponto de patologia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o havemos, n&atilde;o, senhor. &Eacute; mau m&eacute;dico<br \/>\n    o que sofre que o doente o interrogue sobre a mol&eacute;stia e o tratamento.<br \/>\n    O m&eacute;dico deve ser obedecido com f&eacute;, e cega.<\/p>\n<p> Cristina que, havia muito, defronte de Madalena,, fazia esfor&ccedil;os<br \/>\n    por lhe chamar a aten&ccedil;&atilde;o, resolveu-se a falar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Lena &#8212; disse ela &#8212; que te parece a lembran&ccedil;a<br \/>\n    que teve h&aacute; pouco a mama? &#8212; A das consoadas ? Excelente.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, menina, a do passeio &agrave; ermida.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! Excelente tamb&eacute;m. Marquemos j&aacute; o dia.<\/p>\n<p> &#8212; Quando queres ? &#8212; Depois de amanh&atilde;, que &eacute; quinta-feira-<br \/>\n    &#8212; Seja, &#8212; Que diz, primo Henrique ? &#8212; Quando quiserem, primas;<br \/>\n    agora mesmo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, veja l&aacute;, atreve-se a fazer uma madrugada ? &#8212; Pois<br \/>\n    n&atilde;o viu hoje ? &#8212; Ai, pois n&atilde;o! Na aldeia n&atilde;o se<br \/>\n    chama isso uma madrugada.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso que se levante &agrave;s horas, a que se deitava na cidade.<\/p>\n<p> &#8212; Que est&aacute;s a dizer, Lena? &#8212; acudiu Cristina.&#8212;Deixe-a<br \/>\n    falar.<\/p>\n<p> Basta que saiamos daqui &agrave;s cinco horas.<\/p>\n<p> &#8212; Esta inocente Cristina ! Pois n&atilde;o &eacute; o mesmo que eu<br \/>\n    digo ? Pergunta ao primo Henrique se tinha costume de se deitar mais cedo<br \/>\n    em Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Engana-se, prima Madalena; lembre-se de que, h&aacute; perto de<br \/>\n    um ano, sou valetudinario.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, &eacute; verdade, que me tinha esquecido. O que vejo &eacute;<br \/>\n    que h&aacute; por aqui muita indol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Quem a ouvir falar, h&aacute;-de julgar que ser&aacute; ela a mais<br \/>\n    madrugadora ; ora havemos de ver &#8212; disse Cristina.<\/p>\n<p> Madalena p&otilde;s-se a rir.<\/p>\n<p> E o passeio ficou ajustado. A morgadinha lembrou que se convidasse Augusto,<br \/>\n    por ser conhecedor do s&iacute;tio e poder mostrar os mais belos pontos de<br \/>\n    vista.<\/p>\n<p> Henrique saiu finalmente da quinta do Mosteiro, j&aacute; retardado uma<br \/>\n    boa hora ao que prometera &agrave; tia Doroteia.<\/p>\n<p> Um criado serviu-lhe de guia at&eacute; Alvapenha.<\/p>\n<p> Henrique de Souselas, ao findar aquela manh&atilde;, era inteiramente outro<br \/>\n    do que viera para a aldeia. Todas aquelas horas se haviam passado, sem que<br \/>\n    o afligissem os males habituais, sem que nem sequer pensasse neles. O viver<br \/>\n    &iacute;ntimo a que assistira, a troca rec&iacute;proca de afectos entre os<br \/>\n    membros de t&atilde;o numerosa fam&iacute;lia, a franqueza cordial com que<br \/>\n    fora recebido, produziram nele uma impress&atilde;o profunda.<\/p>\n<p> Costumado ao viver desconsolador e de gelo de rapaz solteiro e s&oacute;<br \/>\n    ; n&atilde;o passando, nas casas que visitava, al&eacute;m da sala de visitas,<br \/>\n    esse palco artificioso e reservado, onde as fam&iacute;lias ante as fam&iacute;lias<br \/>\n    representavam a com&eacute;dia social, Henrique estranhara, mas agradavelmente,<br \/>\n    o espect&aacute;culo, quase novo, daquele interior, daqueles modestos costumes,<br \/>\n    daquelas alegrias, que n&atilde;o se envergonham de aparecer sem reservas<br \/>\n    nem disfarces. Foi uma revela&ccedil;&atilde;o que recebeu. Sorriu- -lhe a<br \/>\n    id&eacute;ia de ter um dia uma fam&iacute;lia assim ; de viver entre crian&ccedil;as<br \/>\n    que lhe trepassem aos joelhos, na companhia de afectos, que ali via manifestarem-se,<br \/>\n    e at&eacute; com algu&eacute;m que ramasse com os criados, &agrave; maneira<br \/>\n    de D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Escusado &eacute; dizer que a imagem da morgadinha aparecia sempre nestes<br \/>\n    quadros que lhe tra&ccedil;ava a fantasia : assim como, nos quadros dos grandes<br \/>\n    mestres, aparecem quase sempre reproduzidas as fei&ccedil;&otilde;es queridas<br \/>\n    da mulher que eles traziam no pensamento e a quem deram assim a imortalidade.<\/p>\n<p> De manh&atilde; parecera-lhe a aldeia um para&iacute;so terreal ; completara-o<br \/>\n    a figura de uma mulher ; sem o sorriso dela nem o primeiro homem seria feliz<br \/>\n    no &eacute;den, onde a m&atilde;o de Deus o colocara.<\/p>\n<p> &#8212; Anda, vagaroso, anda &#8212; disse D. Doroteia a Henrique, assim<br \/>\n    que o viu chegar. &#8212; Se o jantar tiver esturro, a culpa &eacute; tua.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoe-me, tia. Demorei-me no Mosteiro&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! foste l&aacute; ? E ent&atilde;o gostaste daquela gente &quot;:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; uma fam&iacute;lia para o cora&ccedil;&atilde;o. Passa-se<br \/>\n    o tempo ali t&atilde;o depressa ! A morgadinha, sobretudo, &eacute; ador&aacute;vel<br \/>\n    ! &#8212; Ai, ai; como ele nos vem! Olha l&aacute; no que te metes, menino!<br \/>\n    A mina boa &eacute;, mas&#8230; filho, anda ali encanto, que ainda ningu&eacute;m<br \/>\n    descobriu.<\/p>\n<p> Henrique fitou os olhos na tia Doroteia, que dissera isto com certa mal&iacute;cia.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer dizer, tia? &#8212; Tu bem me percebes. Anda l&aacute;,<br \/>\n    anda. Se fizesses tu o milagre, se quebrasses o encanto, grande coisa seria<br \/>\n    ; mas sempre te digo que n&atilde;o tomes a coisa a peito, que podes agravar<br \/>\n    o teu mal.<\/p>\n<p> Henrique levou o caso a rir, mas &eacute; certo que esteve um pouco mais<br \/>\n    preocupado e distra&iacute;do no resto da tarde.<\/p>\n<p> VI 0 leitor, se alguma vez realizou uma viagem na companhia de qualquer<br \/>\n    amigo, h&aacute;-de ter observado que, durante os primeiros tempos que passam<br \/>\n    juntos numa terra para ambos desconhecida, t&atilde;o alheios &agrave;s coisas<br \/>\n    como &agrave;s pessoas, no meio das quais se v&ecirc;em, nem por momentos<br \/>\n    se sofrem separados ; um segue sempre o outro em todos os passos que d&aacute;,<br \/>\n    precisa dele para comunicar-lhe as primeiras impress&otilde;es recebidas,<br \/>\n    e pedir-lhe em troca as suas ; &agrave; medida por&eacute;m que, pouco a pouco,<br \/>\n    se v&atilde;o familiarizando mais com os lugares e com as personagens daquele<br \/>\n    mundo novo, afrouxa a constri&ccedil;&atilde;o desses la&ccedil;os, e cada<br \/>\n    um principia a readquirir a independ&ecirc;ncia individual que de moto pr&oacute;prio<br \/>\n    havia abdicado.<\/p>\n<p> Um facto semelhante nos sucede com Henrique de Souselas. Encontr&aacute;mo-<br \/>\n    lo na estrada ; na companhia dele entr&aacute;mos em uma terra, onde tudo<br \/>\n    nos era estranho ; nada mais natural do que dar o bra&ccedil;o um ao outro,<br \/>\n    passar juntos a manh&atilde;, e fazer, em comum, as nossas visitas.<\/p>\n<p> Agora, por&eacute;m, que temos j&aacute; algum conhecimento da terra e da<br \/>\n    gente, &eacute; tempo de nos declararmos independentes, e sacudirmos o jugo<br \/>\n    de uma companhia for&ccedil;ada, a qual, embora seja de um amigo estim&aacute;vel,<br \/>\n    se &eacute; for&ccedil;ada, &eacute; sempre jugo, em certas ocasi&otilde;es.<\/p>\n<p> Os pr&oacute;prios Castor e P&oacute;lux, ou P&iacute;lades e Orestes, penso<br \/>\n    eu, haviam de ter momentos em que se desejassem s&oacute;s ; se &eacute; que<br \/>\n    n&atilde;o deviam aos deuses a felicidade de possu&iacute;rem curtos esp&iacute;ritos,<br \/>\n    o que nao creio.<\/p>\n<p> Deixemos, pois, Henrique de Souselas entretendo com a tia Doroteia a mais<br \/>\n    pac&iacute;fica das conversas que podem auxiliar a digest&atilde;o de um jantar;<br \/>\n    deixemo-lo no tranquilo recinto de Alvapenha, e vamos associar-nos a um dos<br \/>\n    nossos recentes conhecimentos, que &eacute; Augusto, o mestre de Mariana e<br \/>\n    de Eduardo, aquele p&aacute;lido rapaz que entrevimos na sala da casa do Mosteiro.<\/p>\n<p> Ao sair dali, Augusto seguiu atrav&eacute;s de campos e &agrave; beira de<br \/>\n    vaiados, com aquele ar pensativo que lhe era peculiar.<\/p>\n<p> O pouco que da hist&oacute;ria dele soubemos, pelas palavras da morgadinha,<br \/>\n    &eacute; j&aacute; bastante para que nos n&atilde;o admire a quase incessante<br \/>\n    melancolia de Augusto.<\/p>\n<p> Aos vinte anos e sem fam&iacute;lia ! com intelig&ecirc;ncia e mal podendo,<br \/>\n    &agrave; custa de sacrif&iacute;cios, cultiv&aacute;-la &agrave; altura das<br \/>\n    suas aspira&ccedil;&otilde;es ! Alma generosa e compassiva, tendo muita vez<br \/>\n    de limitar-se a chorar os infort&uacute;nios que via, porque a pobreza lhe<br \/>\n    negava meios de remedi&aacute;-los !&#8230; n&atilde;o ser&atilde;o estas ainda<br \/>\n    nuvens bastantes para toldarem a luz de uma exist&ecirc;ncia, embora a juventude<br \/>\n    as ilumine? Havia alguns anos que esta disposi&ccedil;&atilde;o para a tristeza<br \/>\n    se exacerbara em Augusto. Coincidiu o facto com algumas circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    que conv&eacute;m referir.<\/p>\n<p> A morgada dos Canaviais, madrinha de Madalena e de quem viera a esta o nome<br \/>\n    de morgadinha, pelo qual mais conhecida era na aldeia, havia ao morrer institu&iacute;do<br \/>\n    um legado a favor de Augusto, ent&atilde;o crian&ccedil;a, com a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ele abra&ccedil;ar a vida eclesi&aacute;stica. O conselheiro, pai de Madalena,<br \/>\n    devia administrar este legado, educando o rapaz nas escolas de Lisboa ou Porto,<br \/>\n    desde o dia do seu primeiro exame at&eacute; ao da primeira missa, porque<br \/>\n    nesse lhe entregaria o capital por inteiro.<\/p>\n<p> Isto sucedeu no tempo em que a m&atilde;e de Augusto, que havia dois anos<br \/>\n    viuvara, lutava com a mis&eacute;ria, e o rapaz, pela sua penetra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e pelo entusiasmo com que aprendia, causava o espanto do velho mestre r&egrave;gio<br \/>\n    da localidade.<\/p>\n<p> Foi por todos aben&ccedil;oada a mem&oacute;ria da morgada, por t&atilde;o<br \/>\n    bem cabido legado, que era ao mesmo tempo que rem&eacute;dio &agrave;s priva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de uma fam&iacute;lia, pr&egrave;mio e est&iacute;mulo &agrave; intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e &agrave; aplica&ccedil;&atilde;o de uma crian&ccedil;a, que prometia vir<br \/>\n    a ser&#8230; Deus sabe o qu&ecirc;.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m se lembrou de perguntar a si pr&oacute;prio se a cl&aacute;usula,<br \/>\n    posta pela legat&aacute;ria como condi&ccedil;&atilde;o &agrave; concess&atilde;o<br \/>\n    do benef&iacute;cio, n&atilde;o podia ser uma crueldade que o anulasse ; se<br \/>\n    comprar um futuro por dinheiro, sem querer saber a quantidade de aspira&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de esperan&ccedil;as, de fantasias que sejam, a que se tem de renunciar pelo<br \/>\n    contrato, n&atilde;o &eacute; uma iniq&uuml;idade ; se n&atilde;o era uma<br \/>\n    quase simonia ir a casa do pobre, e fazendo luzir os reflexos do ouro nas<br \/>\n    sombras da mis&eacute;ria, propor-lhe trocar por estes tesouros, que o fascinam,<br \/>\n    os valiosos tesouros da alma. Eu por mim abomino estes legados condicionais,<br \/>\n    que um esp&iacute;rito mal&eacute;volo, ego&iacute;sta e desejoso de dominar<br \/>\n    ainda depois da morte, tantas vezes dita; essas meigas generosidades sao &agrave;s<br \/>\n    vezes a causa do infort&uacute;nio de uma vida inteira; aceites ou recusadas,<br \/>\n    &eacute; raro que depois, a cada prova&ccedil;&atilde;o que nos experimenta,<br \/>\n    uma voz interior nos n&atilde;o exprobre o partido que abra&ccedil;amos. &#8212;<br \/>\n    &laquo; Louco ! para que hesitaste em trocar meia d&uacute;zia de fantasmas<br \/>\n    por um bem real ? Quem te mandou sacrificar a vaporosos &iacute;dolos de poetas<br \/>\n    o benef&iacute;cio que te ofereciam ?&raquo; &#8212; dir&aacute; ela aos que<br \/>\n    rejeitaram o pacto. &#8212; &laquo;Ambicioso ! &#8212; clamar&aacute; aos<br \/>\n    outros &#8212; a&iacute; tens a felicidade que julgaste comprar &agrave; custa<br \/>\n    do que h&aacute; de mais nobre na alma humana ; embriaga-te agora no incenso,<br \/>\n    em que envolveste o altar do bezerro de ouro, consumindo a&iacute; as tuas<br \/>\n    mais santas e generosas aspira&ccedil;&otilde;es&raquo;. Augusto n&atilde;o<br \/>\n    adivinhou por&eacute;m logo a crueldade da disposi&ccedil;&atilde;o testamentaria.<br \/>\n    Era muito crian&ccedil;a ainda; e depois uma ideia nobre o preocupou ; compreendeu<br \/>\n    que ia ser o amparo daquela pobre m&atilde;e, que s&oacute; podia abrig&aacute;-lo<br \/>\n    com os extremos do seu muito amor.<\/p>\n<p> Seu pai, morrendo, apenas conseguira deixar uma heran&ccedil;a: foi &agrave;<br \/>\n    vi&uacute;va o dever de velar pelo filho. Augusto exultou vendo que podia<br \/>\n    inverter aquele legado, velando ele pela fraca mulher, que, para bem o cumprir,<br \/>\n    esgotaria decerto a vida.<\/p>\n<p> Redobrou por isso a solicitude no aprender ; desenvolveu-se mais e mais<br \/>\n    a intelig&ecirc;ncia, quase espontaneamente, pois justo &eacute; confessar<br \/>\n    que bem rudes eram os cuidados de cultura que o velho magister lhe sabia dar.<br \/>\n    Mas quem ignora os surpreendentes efeitos que da intelig&ecirc;ncia e do estudo,<br \/>\n    da aptid&atilde;o e da vontade, podem resultar? Dotem um homem dessas duas<br \/>\n    faculdades poderosas e neguem-lhe embora os rneios de progresso, ele caminhar&aacute;,<br \/>\n    inventando-os primeiro, se tanto lhe for preciso.<\/p>\n<p> E depois, &eacute; um grande alento aos esp&iacute;ritos superiores a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma nobre miss&atilde;o a cumprir. N&atilde;o h&aacute; fadigas que tal<br \/>\n    est&iacute;mulo nao ven&ccedil;a; abnega&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    inspire.<\/p>\n<p> A Augusto era-lhe incitamento a id&eacute;ia de que sua m&atilde;e precisava<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p> Quando ainda aos seus treze anos fosse j&aacute; bem conhecida a grandeza<br \/>\n    dos sacrif&iacute;cios que lhe exigiam, n&atilde;o hesitaria talvez, instigado<br \/>\n    por aquela aspira&ccedil;&atilde;o ; quanto mais que ainda mais lhe tinham<br \/>\n    animado os sonhos, as doces imagens, t&atilde;o gratas ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do adolescente, e a que teria de renunciar.<\/p>\n<p> Suspirava pelo dia do seu pr&oacute;ximo exame, o qual, gra&ccedil;as aos<br \/>\n    esfor&ccedil;os empregados, n&atilde;o se fez esperar muito.<\/p>\n<p> Quando se aproximava a ocasi&atilde;o, o pai de Madalena mandou ir Augusto<br \/>\n    para Lisboa e hospedou-o em sua casa at&eacute; que chegou o dia.<\/p>\n<p> N&atilde;o confiando demasiadamente no ensino p&uacute;blico da aldeia,<br \/>\n    o conselheiro quis que o &quot;seu pequeno h&oacute;spede recebesse algumas<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es de um professor da cidade, e deste obteve as melhores<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es da intelig&ecirc;ncia do rapaz, que s&oacute; por<br \/>\n    milagre dela conseguira sair muito pouco eivado dos v&iacute;cios do ensino<br \/>\n    de campo.<\/p>\n<p> Augusto demorou-se algumas semanas em casa do conselheiro, Afinal fez o<br \/>\n    exame, no qual foi felic&iacute;ssimo, obtendo nele as mais distintas qualifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Imagine-se o efeito que a not&iacute;cia produziu na aldeia. Exagerando-se,<br \/>\n    dizia-se por l&aacute; que em t&ocirc;da Lisboa corria a fama do rapaz, e<br \/>\n    houve at&eacute; quem nao hesitasse em afirmar que a crian&ccedil;a confundira<br \/>\n    os mestres, que fora uma maravilha.<\/p>\n<p> O mestre-escola reclamou para si a gl&oacute;ria do acontecimento, fundando-se<br \/>\n    em que, atrav&eacute;s do disc&iacute;pulo, resplandecia a ci&ecirc;ncia do<br \/>\n    mestre.<\/p>\n<p> Os invejosos disputavam-lhe por&eacute;m t&atilde;o inquestion&aacute;vel<br \/>\n    gl&oacute;ria e riam-se dele.<\/p>\n<p> A pobre m&atilde;e, essa, levou todo o dia a chorar de prazer e a render<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; Virgem, a quem tanto encomendara o filho.<\/p>\n<p> Voltou Augusto &agrave; terra.<\/p>\n<p> Era o rapaz o assunto de todas as conversas : olhavam-no como um prod&iacute;gio.<br \/>\n    Todos o queriam ver, como se at&eacute; ali o nao tivessem visto bem, e de<br \/>\n    feito todos o foram ver; nem o abade, nem o administrador, nem o presidente<br \/>\n    da C&acirc;mara faltaram. Foi tudo. Pois bem, de tantos que o viram, n&atilde;o<br \/>\n    houve um s&oacute; que n&atilde;o notasse que o pequeno vinha triste.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m contestava o facto : que ele como que saltava aos olhos ;<br \/>\n    as interpreta&ccedil;&otilde;es &eacute; que variavam.<\/p>\n<p> &#8212; Aquilo &eacute; dos ares de Lisboa; a quem n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    costumado&#8230; &#8212; dizia um.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o canseiras de estudos &#8212; aventava outro. &#8212;<br \/>\n    H&aacute; l&aacute; coisa que puxe mais por uma pessoa do que o estudo ! &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o que voc&ecirc;s cuidam ! Um exame sempre abala a gente c&aacute;<br \/>\n    por dentro &#8212; dizia um doutor, que levara dez anos a vencer um curso<br \/>\n    de cinco.<\/p>\n<p> Fosse pelo que fosse, Augusto trouxera de Lisboa uma melancolia, que os<br \/>\n    ares da sua terra n&atilde;o dissiparam e que aumentava sempre que lhe falavam<br \/>\n    no futuro e no legado da morgada.<\/p>\n<p> Quem mais a estudou, e sentiu aquela s&uacute;bita melancolia, foi, como<br \/>\n    era de supor, a receosa m&atilde;e. Deus sabe que noites mal dormidas, que<br \/>\n    sustos e que &iacute;ntimos terrores ela lhe causou! Perguntas, s&uacute;plicas,<br \/>\n    arg&uuml;i&ccedil;oes, l&aacute;grimas, promessas, nada tiravam de Augusto,<br \/>\n    que teimava em responder que nada tinha que o afligisse, que era a ilus&atilde;o<br \/>\n    de quem o via a tristeza que lhe supunham, e, para confirmar o que dizia,<br \/>\n    ria; mas era mais triste aquele riso, do que o pranto, em que se desafogasse.<\/p>\n<p> Para breve estava a entrada de Augusto no col&eacute;gio de Lisboa, onde,<br \/>\n    &agrave; custa do legado da defunta propriet&aacute;ria dos Canaviais, devia<br \/>\n    continuar nos seus estudos, quando o rapaz pediu para ficar algum tempo na<br \/>\n    aldeia. N&atilde;o se p&ocirc;de atinar com os motivos deste pedido. Indol&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o era ; pois no entretanto come&ccedil;ou a estudar os rudimentos<br \/>\n    do latim com o ilustre professor, que o leitor conhece j&aacute;, mestre Bento<br \/>\n    pertunhas.<\/p>\n<p> A sa&uacute;de vacilante da m&atilde;e de Augusto declinou nesse Inverno<br \/>\n    ; o que veio dar outro motivo &agrave; demora do filho.<\/p>\n<p> Dias e dias passou o pobre rapaz sentado &agrave; cabeceira do leito dividindo<br \/>\n    os seus cuidados entre o estudo e os carinhos pela estremecida enferma. Dois<br \/>\n    anos se passaram desta vida, e quando, ao fim deles, Augusto abandonou aquele<br \/>\n    leito, foi depondo um beijo nas faces geladas de um cad&aacute;ver.<\/p>\n<p> Era &oacute;rf&atilde;o.<\/p>\n<p> A vaga sombra de melancolia, que j&aacute; lhe toldava o rosto, condensou-<br \/>\n    se-lhe mais ent&atilde;o. Era quase um negrume de tristeza.<\/p>\n<p> Por esse tempo, veio o conselheiro trazer Madalena para a aldeia, pois receava<br \/>\n    pela sa&uacute;de dela se persistisse em Lisboa.<\/p>\n<p> O conselheiro propunha-se levar consigo Augusto, quando vollasse a Lisboa.<br \/>\n    uma manh&atilde;, por&eacute;m, este, de pouco mais de quinze anos, procurou-o<br \/>\n    e disse-lhe com uma gravidade, que revelava uma ten&ccedil;&atilde;o meditada<br \/>\n    e irrevog&aacute;vel: &#8212; Venho prevenir V. Ex.&ordf; de que desisto do<br \/>\n    legado da sr.&ordf; morgada.<\/p>\n<p> N&atilde;o quero ordenar-me.<\/p>\n<p> O conselheiro fitou-o, estupefacto.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o queres ordenar-te! Porqu&ecirc;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; n&atilde;o tenho m&atilde;e a quem amparar. Por ela for&ccedil;aria<br \/>\n    a minha voca&ccedil;&atilde;o sem remorsos ; por interesse pr&oacute;prio<br \/>\n    n&atilde;o o posso fazer ; parece- me um sacril&eacute;gio.<\/p>\n<p> O conselheiro era um homem muito do s&eacute;culo. O seu trato social, a<br \/>\n    freq&uuml;&ecirc;ncia dos c&iacute;rculos pol&iacute;ticos e elegantes, haviam-lhe<br \/>\n    dado todas as boas e m&aacute;s qualidades, que caracterizam aquela classe<br \/>\n    de homens, e sabe-se que a candura de sentimentos n&atilde;o entra no n&uacute;mero<br \/>\n    das mais habituais dessas qualidades. Tinha uma raz&atilde;o clara, mas fria;<br \/>\n    se abra&ccedil;ava uma boa causa, n&atilde;o o fazia cedendo ao entusiasmo,<br \/>\n    mas somente depois de ponderar neum&aacute;ticamente os fundamentos em que<br \/>\n    ela se baseava; assim era que, em pol&iacute;tica, se costumara a contemporizar,<br \/>\n    espa&ccedil;ando a adop&ccedil;&atilde;o de qualquer medida, inquestionavelmente<br \/>\n    boa, para tempos em que fosse mais conveniente ; n&atilde;o se apaixonava<br \/>\n    por utopias, desconfiava delas ; havia muito tempo que desviara dos olhos<br \/>\n    o prisma encantado, atrav&eacute;s do qual olham o mundo os poetas e todos<br \/>\n    os mais sonhadores ; costumara-se a marcar por modelo, nas diferentes carreiras<br \/>\n    da vida, n&atilde;o um tipo ideal, dotado de todas as virtudes, limpo de todos<br \/>\n    os defeitos e v&iacute;cios ; assentara a menor altura o alvo ; parecia- -lhe<br \/>\n    que bom fito eram j&aacute; os indiv&iacute;duos que tinham conseguido maior<br \/>\n    considera&ccedil;&atilde;o na sua classe ; as m&aacute;culas que eles tivessem<br \/>\n    eram, por esse facto, m&aacute;culas autorizadas. O pensar de outro modo era<br \/>\n    pensar de romance ; agrad&aacute;vel para entreter, por&eacute;m mau nas aplica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    &agrave;s coisas da vida. Numa palavra, o conselheiro era um homem de bem,<br \/>\n    mas na esfera mundana ; n&atilde;o um daqueles tipos de pureza cristalina,<br \/>\n    atrav&eacute;s da qual parece passarem sem desvio os raios da luz celeste;<br \/>\n    mas j&aacute; um tanto embaciado do bafo social, que n&atilde;o o fazia ainda<br \/>\n    totalmente opaco.<\/p>\n<p> Por isso sorriu &agrave; declara&ccedil;&atilde;o de Augusto. A carreira<br \/>\n    eclesi&aacute;stica n&atilde;o lhe parecia t&atilde;o escabrosa, como o futuro<br \/>\n    sacerdote a fazia ; nem t&atilde;o dura a lei, como em teoria se mostrava.<br \/>\n    O conselheiro n&atilde;o pensava necess&aacute;rio tomar ao p&eacute; da letra<br \/>\n    certos deveres impostos ; o mundo seria, como ele, tolerante em naturais infrac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; por tudo isso se riu.<\/p>\n<p> Fez a Augusto uma longa disserta&ccedil;&atilde;o sobre as vantagens da<br \/>\n    vida eclesi&aacute;stica, sobre os muitos interesses que lhe prometia, e a<br \/>\n    leviandade com que ele queria renunciar a uma carreira segura, movido pelas<br \/>\n    instiga&ccedil;&otilde;es de um esp&iacute;rito timorato ou de uma vis&atilde;o<br \/>\n    fant&aacute;stica.<\/p>\n<p> Augusto insistiu. Sem corar perante o sorriso c&eacute;ptico do conselheiro,<br \/>\n    declarou que n&atilde;o abra&ccedil;aria a vida eclesi&aacute;stica sem que<br \/>\n    se sentisse com a coragem precisa para cumprir todos os deveres que ela lhe<br \/>\n    impunha ; que era preciso uma grande abnega&ccedil;&atilde;o, e que ele, depois<br \/>\n    da morte de sua m&atilde;e, n&atilde;o tinha a certeza de a conseguir. Nos<br \/>\n    interesses n&atilde;o pensava, e se pensasse, seria isso a primeira prova<br \/>\n    de n&atilde;o estar preparado para a miss&atilde;o de que se queria encarregar.<\/p>\n<p> Quando algu&eacute;m abra&ccedil;a com lealdade e franqueza uma boa causa,<br \/>\n    dificilmente &eacute; vencido. O conselheiro, costumado a n&atilde;o recuar<br \/>\n    nas mais acerbas lutas do parlamento, calou-se dentro em pouco &agrave;s objec&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquela crian&ccedil;a. como que teve remorsos de tentar sequer desvanecer<br \/>\n    as ilus&otilde;es a que o via abra&ccedil;ado &#8212; ilus&otilde;es pelo<br \/>\n    menos as supunha ele ; parecia-lhe uma obra sat&acirc;nica envenenar com um<br \/>\n    sorriso aquele ideal em que vivia. &#8212; Respeitou-o e calou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Alguma criancice amorosa dos quinze anos &#8212; pensou para si.<\/p>\n<p> Deixemos ao tempo convenc&ecirc;-lo. N&atilde;o me encarregarei eu desse<br \/>\n    papel, que &eacute; pouco simp&aacute;tico. Quem me restituir&agrave; aquelas<br \/>\n    canduras ! Teria alcan&ccedil;ado menos no mundo, mas talvez tivesse gozado<br \/>\n    mais&#8230; ou melhor&#8230;<\/p>\n<p> O conselheiro cedeu aparentemente, esperando que a reflex&atilde;o modificaria,<br \/>\n    mais tarde, as id&eacute;ias do rapaz.<\/p>\n<p> Exigiu dele que a ningu&eacute;m anunciasse as ten&ccedil;&otilde;es em<br \/>\n    que estava de n&atilde;o se ordenar, pelo menos enquanto n&atilde;o passasse<br \/>\n    mais tempo sobre aquela resolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E uma vez que ficava na terra, pediu-lhe o conselheiro que se encarregasse<br \/>\n    da primeira educa&ccedil;&atilde;o de &Acirc;ngelo, ent&atilde;o de nove anos;<br \/>\n    pois mais confiava para isso em Augusto, do que no professor oficial.<\/p>\n<p> Augusto aceitou com prazer a incumb&ecirc;ncia, que, sobreadequada aos seus<br \/>\n    gostos, lhe abria uma carreira, que ele j&aacute; imaginara adoptar.<\/p>\n<p> De ent&atilde;o nasceu uma &iacute;ntima amizade entre &Acirc;ngelo e Augusto.<\/p>\n<p> Foram r&aacute;pidos os progressos do disc&iacute;pulo, e n&atilde;o menos<br \/>\n    reais as vantagens que ao mestre resultaram do ensino, que lhe desenvolvia<br \/>\n    cada vez mais a intelig&ecirc;ncia. &#8212; O conselheiro tinha motivos para<br \/>\n    estar satisfeito da escolha.<\/p>\n<p> Ao fim de um ano as repugnancias de Augusto em aceitar o legado eram as<br \/>\n    mesmas ; o ego&iacute;smo paternal do conselheiro n&atilde;o o deixou ser<br \/>\n    muito ardente a combat&ecirc;-las. &#8212; Espa&ccedil;ou-se mais uma vez<br \/>\n    a decis&atilde;o.<\/p>\n<p> Outras li&ccedil;&otilde;es apareceram a Augusto, as quais ele acolheu com<br \/>\n    gosto ; o mestre-escola reclamava tamb&eacute;m muitas vezes o seu aux&iacute;lio<br \/>\n    ; compadecido da sua velhice, Augusto nunca lho recusou.<\/p>\n<p> O velho acabou por declinar nele o servi&ccedil;o todo, sem que Augusto<br \/>\n    consentisse em receber por isso o menor estipendio.<\/p>\n<p> O p&uacute;blico n&atilde;o se cansava de perguntar quando sena que o rapaz<br \/>\n    principiaria os seus estudos em Lisboa e porque o n&atilde;o fazia j&aacute;.<br \/>\n    como n&atilde;o obtivesse resposta, comentava o facto, corno costuma comentar<br \/>\n    todos os que n&atilde;o entende.<\/p>\n<p> No entretanto, a educa&ccedil;&atilde;o de Augusto n&atilde;o ficara estacionaria.<\/p>\n<p> com grandes sacrif&iacute;cios a continuara ele ; e num ermo, como era aquela<br \/>\n    aldeia, tinha muito de milagre o que fazia.<\/p>\n<p> O latim de mestre Bento j&aacute; mal satisfazia &agrave;s impaciencias<br \/>\n    do esp&iacute;rito deste disc&iacute;pulo entusiasta ; e n&atilde;o era raro<br \/>\n    que a intelig&ecirc;ncia de Augusto visse mais fundo nos textos, do que a<br \/>\n    experi&ecirc;ncia do mestre.<\/p>\n<p> O acaso favoreceu os desejos do estudante.<\/p>\n<p> Numa freguesia pr&oacute;xima estava, como abade, um doutor em teologia,<br \/>\n    homem de s&oacute;lido saber e de reputa&ccedil;&atilde;o extensa.<\/p>\n<p> Um dia em que, por convite do seu colega, viera assistir e pregar na festa<br \/>\n    do orago da aldeia, o padre encontrou-se com Augusto na sacrist&iacute;a e,<br \/>\n    conversando-o, admirou-lhe a penetra&ccedil;&atilde;o, cativou-se da sua mod&eacute;stia<br \/>\n    e lamentou n&atilde;o estar mais perto dele, porque o auxiliaria, como pudesse,<br \/>\n    nos estudos.<\/p>\n<p> Augusto perguntou-lhe se era sincera aquela vontade ; afirmando- lhe o padre<br \/>\n    que sim, respondeu que n&atilde;o seria ent&atilde;o estoivo a dist&acirc;ncia,<br \/>\n    porque ele a venceria.<\/p>\n<p> E da&iacute; em diante, duas vezes por semana, &agrave;s quintas-feiras<br \/>\n    e domingos, franqueava l&eacute;gua e meia dos mais escabrosos caminhos, para<br \/>\n    ir ouvir as li&ccedil;&otilde;es do erudito abade. Assim se aperfei&ccedil;oou<br \/>\n    na latinidade, cultivou a filosofia e adquiriu o gosto pelos nossos velhos<br \/>\n    prosadores e poetas. Vinha de l&aacute; carregado de livros para 1er durante<br \/>\n    a semana.<\/p>\n<p> T&ocirc;da a biblioteca do padre lhe passou pelas m&atilde;os.<\/p>\n<p> Era por&eacute;m o te&oacute;logo cl&aacute;ssico exclusivo e nada visto<br \/>\n    em l&iacute;nguas e literaturas modernas.<\/p>\n<p> A sorte n&atilde;o recusou ainda a Augusto um novo mestre.<\/p>\n<p> Entre os muitos estudos de estradas, de que os governos em Portugal fazem<br \/>\n    preceder, vinte anos antes, a constru&ccedil;&atilde;o definitiva de uma s&oacute;,<br \/>\n    que de ordin&aacute;rio sai sempre como se n&atilde;o fosse t&atilde;o estudada,<br \/>\n    um houve que levou &agrave; aldeia, em que eu e o leitor nos achamos, um engenheiro<br \/>\n    que a&iacute; fez quartel e centro de opera&ccedil;&otilde;es, durante tr&ecirc;s<br \/>\n    meses inteiros, A casa em que ele se alojou ficava pr&oacute;xima da de Augusto.<br \/>\n    Cedo travaram conhecimento os dois. O engenheiro o menos que possu&iacute;a&#8217;<br \/>\n    eram livros de matem&aacute;tica; mas, enquanto a literatura moderna, trazia<br \/>\n    nas malas e ba&uacute;s uma excelente provis&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o tendo que fazer &agrave;s noites, entreteve-se a ensinar o franc&ecirc;s<br \/>\n    a Augusto e a ler-lhe os livros da sua biblioteca port&aacute;til. Voavam<br \/>\n    as horas a Augusto naqueles ser&otilde;es ; neles aprendeu todos os nomes<br \/>\n    da nossa literatura moderna, bem como os principais da de Fran&ccedil;a e<br \/>\n    Inglaterra. .<\/p>\n<p> Quando o engenheiro partiu da aldeia j&aacute; Augusto sabia o franc&ecirc;s<br \/>\n    bastante para se aperfei&ccedil;oar por si ; este amigo deixou-lhe em lembran&ccedil;a<br \/>\n    grande parte dos seus livros, que Augusto releu muitas vezes.<\/p>\n<p> Atingiu finalmente &Acirc;ngelo a idade de precisar do col&eacute;gio. O<br \/>\n    conselheiro, ao lev&aacute;-lo consigo, insistiu mais uma vez com Augusto<br \/>\n    para que viesse tamb&eacute;m e aceitasse o legado da morgada. Foi em v&atilde;o,<br \/>\n    encontrou- o ainda inabal&aacute;vel.<\/p>\n<p> E desta vez fez p&uacute;blica a sua desist&ecirc;ncia, e o ambicionado<br \/>\n    patrim&ocirc;nio foi concedido a outro.<\/p>\n<p> Meses depois morria o velho mestre-escola da aldeia.<\/p>\n<p> Augusto escreveu ao conselheiro, declarando-lhe que pretendia aquele lugar,<br \/>\n    que j&aacute; havia muito tempo servia, e pedindo-lhe para que se interessasse<br \/>\n    por que ele o obtivesse. O conselheiro quis tirar-lhe da id&eacute;ia tal<br \/>\n    projecto ; escreveu-lhe que, na idade em que estava Augusto, o n&atilde;o<br \/>\n    ter ambi&ccedil;&otilde;es era ind&iacute;cio de uma profunda doen&ccedil;a<br \/>\n    moral; que a posi&ccedil;&atilde;o, a que ele aspirava, eq&uuml;ivalia a uma<br \/>\n    sepultura estreita a que se acolhesse vivo. Augusto persistiu por&eacute;m<br \/>\n    no intento; o conselheiro empenhou-se por ele em Lisboa. Conseguiu que uma<br \/>\n    portaria, meio pelo qual se faz em Portugal tudo que &eacute; contra lei expressa,<br \/>\n    o dispensasse da idade que ainda n&atilde;o tinha, pois mal completara dezanove<br \/>\n    anos, e Augusto foi por conseguinte admitido a concurso para t&atilde;o pouco<br \/>\n    disputado lugar e provido nele por tr&ecirc;s anos. O conselheiro, a quem<br \/>\n    n&atilde;o fora imposs&iacute;vel obter-lhe despacho vital&iacute;cio, quis<br \/>\n    ver assim se, no fim de tr&ecirc;s anos, o obrigava a abandonar t&atilde;o<br \/>\n    laboriosa e mal recompensada carreira, e de prop&oacute;sito o fez despachar<br \/>\n    temporariamente, Conquanto o legado da morgada tivesse tido j&aacute; outra<br \/>\n    aplica&ccedil;&atilde;o, o conselheiro n&atilde;o hesitaria em proteger, em<br \/>\n    qualquer carreira, o mestre de seu filho.<\/p>\n<p> Mas ao fim de tr&ecirc;s anos, Augusto, apesar de por experi&ecirc;ncia<br \/>\n    conhecer j&aacute; os espinhos da profiss&atilde;o, apresentou-se novamente<br \/>\n    ao concurso para ob&#8217;ter novo despacho. Na &eacute;poca em que abrimos esta<br \/>\n    narra&ccedil;&atilde;o, voltara Augusto de pouco de ultimar a nova prova;<br \/>\n    e estava pendente ainda a decis&atilde;o do minist&eacute;rio competente.<br \/>\n    Desta vez tivera um competidor, homem muito protegido por influ&ecirc;ncias<br \/>\n    da localidade, as quais ainda n&atilde;o tinham podido vencer a do conselheiro,<br \/>\n    que pugnava por Augusto.<\/p>\n<p> Desde que fora para Lisboa, &Acirc;ngelo n&atilde;o se esquecera de escrever<br \/>\n    amiudadas v&ecirc;zes a Augusto, contando-lhe dos seus estudos, e descrevendo-<br \/>\n    lhe a sua vida na capital ; e quando vinha a f&eacute;rias, procurava transtir<br \/>\n    &atilde;o que fora seu mestre a ci&ecirc;ncia que durante o ano adquirira.<\/p>\n<p> Foi assim que Augusto principiou a estudar a l&iacute;ngua inglesa, geografia<br \/>\n    e a hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> Recebido o primeiro impulso, a sua intelig&ecirc;ncia e aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    faziam resto.<\/p>\n<p> Um homem que havia na aldeia e com quem cedo teremos de travar conhecimento,<br \/>\n    um velho ervan&aacute;rio, para alguns um s&aacute;bio, para tros um louco,<br \/>\n    para todos um homem honrado, concorreu tamb&eacute;m, m o seu contingente,<br \/>\n    para a educa&ccedil;&atilde;o de Augusto.<\/p>\n<p> De tempos a tempos, este velho misterioso apresentava-se em casa ele com<br \/>\n    um pacote de livros debaixo do bra&ccedil;o e, sorrindo, pousava&iacute;os<br \/>\n    em cima da mesa.<\/p>\n<p> Eram quase sempre aqueles, que Augusto mostrava ou sentia mais desejos de<br \/>\n    possuir. Da primeira vez, Augusto fitou o ervan&aacute;rio com espanto. Ningu&eacute;m<br \/>\n    o supunha rico ; como podia ele pois obter aqueles livros, alguns dos quais<br \/>\n    eram de pre&ccedil;o? O velho por&eacute;m disse- -lhe, ao perceber-lhe a<br \/>\n    surpresa: &#8212; N&atilde;o queiras saber da minha vida, rapaz. Sup&otilde;e<br \/>\n    que eu tenho a servir-me uma vara de cond&atilde;o ou uma fada qualquer, e<br \/>\n    deixa correr.<\/p>\n<p> Augusto acabou por persuadir-se de que o ervan&aacute;rio tinha acumulado<br \/>\n    riquezas, &agrave; for&ccedil;a de economias: porque de economias vivera sempre.<\/p>\n<p> De pequeno merecera &agrave;quele velho uma singular simpatia, e com afecto<br \/>\n    de pai fora sempre tratado por ele.<\/p>\n<p> Resignou-se a aceitar sem reflex&otilde;es ; at&eacute; porque sabia ser<br \/>\n    f&aacute;cil o escandalizar o velho com elas. O que fazia era evitar, na presen&ccedil;a<br \/>\n    dele, qualquer palavra que pudesse denunciar desejos de possuir um livro qualquer.<br \/>\n    Mas o velho, como se tivesse de facto algum poder oculto a inform&aacute;-lo,<br \/>\n    &agrave;s vezes parecia adivinhar ; e trazia-lhe livros que Augusto deveras<br \/>\n    desejava, mas a respeito dos quais tinha a certeza de lhe n&atilde;o ter falado,<br \/>\n    nem eram daqueles que o velho conhecia.<\/p>\n<p> A seu pesar via-se quase inclinado a adoptar a cren&ccedil;a supersticiosa<br \/>\n    do povo a respeito daquele seu velho amigo.<\/p>\n<p> Pensando melhor, pareceu-lhe procederem de &Acirc;ngelo as informa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pelas quais o velho se guiava na escolha. N&atilde;o lhe atribu&iacute;a por&eacute;m<br \/>\n    o presente, porque as economias de &Acirc;ngelo n&atilde;o chegavam para tanto.<\/p>\n<p> Depois de tudo quanto temos dito de Augusto, poder&aacute; ainda o leitor<br \/>\n    estranhar os ares pensativos com que o vemos? Poucos passos andados, depois<br \/>\n    que saiu do Mosteiro, encontrou Augusto a distribuidora das cartas, que lhe<br \/>\n    entregou uma sobrescritada para ele. Era de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> Augusto abriu-a imediatamente e leu-a ainda pelo caminho.<\/p>\n<p> Era uma extensa carta, em que se sucediam os per&iacute;odos em um desses<br \/>\n    longos, incoerentes e difusos arrazoados, que constituem a ess&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma carta de amigo para amigo.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo falava dos seus estudos, de saudades da terra, de esperan&ccedil;as<br \/>\n    e de projectos, projectos que, naquelas idades, nascem e morrem a todo o instante.<br \/>\n    Terminava esta carta, em que lhe participava a sua vinda &agrave; aldeia pelo<br \/>\n    Natal, com o seguinte periodo: &laquo;Pe&ccedil;o-lhe que diga &agrave; Lindita<br \/>\n    que se n&atilde;o esque&ccedil;a de mim. Dentro de poucos dias conto ir ver<br \/>\n    os coelhos do quintal dela, e ajud&aacute;-la a tirar&#8217; a &aacute;gua do po&ccedil;o.<br \/>\n    O pai dela chega a&iacute; ao mesmo tempo que esta carta ; leva um livro para<br \/>\n    si. &raquo; Augusto sorriu, ao 1er o p&oacute;s-escrito.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre &Acirc;ngelo ! &#8212; murmurou ele. &#8212; Deus n&atilde;o<br \/>\n    permita que sobreviva &agrave; tua &uacute;ltima criancice essa simpatia por<br \/>\n    Ermelinda. Estas generosas afei&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;a muitas<br \/>\n    vezes, ao crescer, envenenam o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Havia tanta amargura nestas reflex&otilde;es de Augusto ! E, como absorvido<br \/>\n    nelas, caminhou para casa do recoveiro Cancela, que era o pai da pequena,<br \/>\n    a quem na carta se aludia.<\/p>\n<h2>VII <\/h2>\n<p>Acasa do recoveiro Cancela ficava numa das mais estreitas ruas da aldeia<br \/>\n    e ao lado de um pequeno quintal, objecto dos cuidados e das divers&otilde;es<br \/>\n    do propriet&aacute;rio, que ali gastava algumas horas dispon&iacute;veis da<br \/>\n    sua ocupada e laboriosa vida.<\/p>\n<p> Cancela era um verdadeiro judeu errante da aldeia. A maior parte do tempo<br \/>\n    ia-se-lhe nas estradas ; pernoitava hoje numa estalagem ; viam-no amanh&atilde;<br \/>\n    j&aacute; a mais de seis l&eacute;guas de dist&acirc;ncia ; acotovelava um<br \/>\n    dia a multid&atilde;o nas ruas e feiras da cidade ; no outro entretinha os<br \/>\n    curiosos da sua terra, deixando-lhes entrever os tesouros da experi&ecirc;ncia<br \/>\n    adquirida &agrave; custa de muitos anos de fadigas.<\/p>\n<p> As estradas em Portugal e os novos meios de transporte, que conjuntamente<br \/>\n    vieram, n&atilde;o destru&iacute;ram totalmente esse tipo dos antigos tempos,<br \/>\n    anterior a elas. Al&eacute;m da &eacute;poca, que parecia dever marcar-lhes<br \/>\n    limite &agrave; exist&ecirc;ncia, passaram, sustentados pela for&ccedil;a<br \/>\n    dos h&aacute;bitos e justificados pelas irregularidades dos servi&ccedil;os<br \/>\n    das postas ; e Deus sabe quando de vez acabar&atilde;o. Mas Cancela era al&eacute;m<br \/>\n    disso um recoveiro de uma esp&eacute;cie rara e superior. Em todas as profiss&otilde;es<br \/>\n    h&aacute; sempre, no meio do vulgo, que as exerce sem entusiasmo nem consci&ecirc;ncia<br \/>\n    dos gozos, superiores aos interesses, que elas podem oferecer, certo grupo<br \/>\n    de escolhidos, que as idealizam, e enxergam um raio de poesia atrav&eacute;s<br \/>\n    das sombras, uma flor entre os espinhos. Cancela era destes ; era o poeta<br \/>\n    da sua profiss&atilde;o. Tinha em si o que quer que era de um turista, e assim<br \/>\n    aproveitava todos os ensejos que se lhe oferecessem de explorar algum ponto<br \/>\n    do Pa&iacute;s, ainda por ele desconhecido.<\/p>\n<p> Este instinto levava-o frequentemente a Lisboa. As muitas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do conselheiro, pai de Madalena, com as fam&iacute;lias da aldeia, e a barateza<br \/>\n    relativa das recovagens operadas por este meio primitivo, proporcionavam-lhe<br \/>\n    algumas ocasi&otilde;es disso, as quais o Cancela de boamente aproveitava.<br \/>\n    Era de uma dessas expedi&ccedil;&otilde;es que ele devia voltar aquela manh&atilde;,<br \/>\n    como o dava a entender a carta de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> Quando por&eacute;m Augusto lhe bateu &agrave; porta, achou-a ainda fechada;<br \/>\n    escutou &agrave; fechadura, mas n&atilde;o p&ocirc;de verificar o menor sinal<br \/>\n    de que algu&eacute;m estivesse dentro.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; cedo ainda &#8212; pensou consigo. &#8212; Vejamos se estar&aacute;<br \/>\n    em casa do compadre.<\/p>\n<p> Seguiu mais para diante pela rua por onde viera. &#8212; A poucos passos<br \/>\n    mais, e do lado oposto, deparou-se-lhe outra casa de aspecto n&atilde;o menos<br \/>\n    r&uacute;stico do que a primeira, uma pequena casa t&eacute;rrea, de uma s&oacute;<br \/>\n    porta e uma s&oacute; janela, e com o respectivo quintal ao fundo.<\/p>\n<p> Do interior vinha um sussurro de vozes, como de conversa animada ; julgando<br \/>\n    que seria o Cancela, de quem o propriet&aacute;rio era, al&eacute;m de vizinho,<br \/>\n    confidente e compadre, Augusto empurrou a porta, que estava apenas cerrada<br \/>\n    e entrou.<\/p>\n<p> A primeira sala achou-a deserta. Era um aposento quadrado, todo adornado<br \/>\n    &agrave; volta de cruzes de pau, para as devo&ccedil;&otilde;es da via-sacra,<br \/>\n    e de imagens de santos e santas em caixilhos de todos os tamanhos.<\/p>\n<p> Mais do que os outros enramelhetado e enfeitado, via-se ali o bento registo<br \/>\n    de uma confraria, havia pouco tempo instituida na terra pelos mission&aacute;rios,<br \/>\n    o qual ocupava o lugar de honra naquela devota exposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Era recente na aldeia o estabelecimento desta confraria, sociedade um tanto<br \/>\n    misteriosa, por meio da qual seus interessados instituidores s&oacute; visavam<br \/>\n    a dar o reino do C&eacute;u aos filiados, contentando-se &laquo;apenas&raquo;,<br \/>\n    em paga, com o do mundo, do qual, lembrados de antigos tempos, t&ecirc;m saudades<br \/>\n    j&aacute;. Os mission&aacute;rios, certos evangelizadores em terras onde a<br \/>\n    palavra do Evangelho n&atilde;o &eacute; chave que abra a porta, pela qual<br \/>\n    entraram os m&aacute;rtires no C&eacute;u, l&aacute; andavam por aquele tempo,<br \/>\n    na aldeia onde se passa a ac&ccedil;&atilde;o desta hist&oacute;ria, plantando<br \/>\n    a vinha, que eles chamavam do Senhor; as mulheres, abandonando os lares, seguiam-nos<br \/>\n    como rebanhos ; o culto cat&oacute;lico era por eles cada vez mais arrebicado<br \/>\n    com ora&ccedil;&otilde;es absurdas e cerim&ocirc;nias rid&iacute;culas, e<br \/>\n    o eterno anatema da ignor&acirc;ncia contra o progresso da sociedade servia<br \/>\n    de tema predilecto aos seus b&aacute;rbaros discursos.<\/p>\n<p> Ardente pros&oacute;lita destes ap&oacute;stolos de f&eacute; duvidosa,<br \/>\n    a Sr.* Catarina do Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, a metade feminina<br \/>\n    do casal em quest&atilde;o, tomara por modo de vida as devo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da igreja, onda ia chorar as desgra&ccedil;as da humanidade, que t&atilde;o<br \/>\n    fora via andar da estrada direita.<\/p>\n<p> Augusto pouco se demorou nesta sala ; respeitando a alcova conjugal, que<br \/>\n    era vedada aos olhares profanos por uma colcha de chita de largas e folhudas<br \/>\n    ramagens, tomou pelo corredor, que conduzia &agrave; cozinha de onde lhe continuava<br \/>\n    a chegar aos ouvidos o som de vozes, que primeiro o atra&iacute;ra.<\/p>\n<p> Ao contr&aacute;rio do que esperava, por&eacute;m, s&oacute; uma pessoa<br \/>\n    encontrou na cozinha, conquanto falasse com a vivacidade que em poucos di&aacute;logos<br \/>\n    se mant&eacute;m.<\/p>\n<p> Esta pessoa era o dono da casa, o Sr. Jos&eacute; do Enxerto, ou vulgarmente<br \/>\n    chamado ti&#8217;Z&eacute;-Pereira &#8212; nome que lhe vinha do popular e ruidoso<br \/>\n    instrumento, o cl&aacute;ssico zabumba, que nas nossas aldeias tem ainda hoje<br \/>\n    aquele nome. &#8212; Era muito para ver e admirar a mestria, com que o nosso<br \/>\n    homem o sabia tocar nas festas e arraiais, &agrave; frente das prociss&otilde;es<br \/>\n    e cercos, e finalmente em todas as solenidades p&uacute;blicas.<\/p>\n<p> O ti&#8217;Z&eacute;-Pereira era homem dos seus quarenta e tantos anos ; tinha<br \/>\n    no rosto, principalmente no nariz, vest&iacute;gios evidentes das suas simpatias<br \/>\n    pela divindade celebrada nos antigos ditirambos. Esposo da Sr.&#8217; Catarina do<br \/>\n    Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, vivia em perene sabatina com a sua<br \/>\n    cara-metade, sujeitando-lhe todas as suas ac&ccedil;&otilde;es, mas salvando<br \/>\n    sempre o direito de protestar pela palavra. Ganhava a vida no of&iacute;cio<br \/>\n    de hortel&atilde;o e, aos domingos e dias de festa, &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de rufos e pancadaria na retesada pele do seu companheiro insepar&aacute;vel<br \/>\n    &#8212; o zabumba. Era aos cuidados e vigil&acirc;ncia deste par conjugal<br \/>\n    que o recoveiro Cancela confiava o seu mais precioso tesouro, a pequena Ermelinda,<br \/>\n    uma mimosa crian&ccedil;a, que lhe ficara &agrave; sua viuvez t&atilde;o cheia<br \/>\n    de saudades, e a quem ele mais queria do que &agrave; menina dos olhos.<\/p>\n<p> Ermelinda era afilhada da fam&iacute;lia Z&eacute;-Pereira, e a mesma a<br \/>\n    quem ouvimos referir-se Angelo no fim da carta.<\/p>\n<p> Z&eacute;-Pereira estava, como dissemos, s&oacute; na cozinha, quando Augusto<br \/>\n    ali chegou: sentado, no meio da sala, sobre um alqueire voltado com o fundo<br \/>\n    para o ar, viradas as costas para a porta e a face para o lar apagado e vazio,<br \/>\n    falava, gesticulava e mudava de tom desde a nota mais grave e rouca da sua<br \/>\n    escala de bar&iacute;tono, at&eacute; ao mais agudo e desafinado falsete.<br \/>\n    A l&iacute;ngua pegava-se-lhe ao c&eacute;u da boca, dificultando-lhe suspeitosamente<br \/>\n    a articula&ccedil;&atilde;o de algumas s&iacute;labas ; era evidente que se<br \/>\n    apossara do hortel&atilde;o o esp&iacute;rito familiar, o qual, neste caso,<br \/>\n    era um verdadeiro esp&iacute;rito, na acep&ccedil;&atilde;o qu&iacute;mica<br \/>\n    do termo.<\/p>\n<p> Z&eacute;-Pereira era um homem baixo, j&aacute; grisalho, suficientemente<br \/>\n    nutrido, de olhos vesgos e que mais vesgos se faziam quando o entusiasmo,<br \/>\n    o rapto art&iacute;stico se apoderava dele ; usava de umas su&iacute;&ccedil;as<br \/>\n    que pareciam tentar sumir-se-lhe pela boca dentro ; tinha longos bra&ccedil;os,<br \/>\n    acomodados as dificuldades e evolu&ccedil;&otilde;es da sua arte, e pernas<br \/>\n    que, do joelho para baixo, lhe divergiam em &acirc;ngulo de mais de trinta<br \/>\n    graus.<\/p>\n<p> Quando Augusto deu com ele, o homem monologava, gesticulando : &#8212; Ora,<br \/>\n    senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha!&#8230; &Eacute; forte desra&ccedil;a!&#8230;<\/p>\n<p> Aqui estou eu!&#8230; Um homem casado&#8230; casado &agrave; face da Igreja&#8230; que<br \/>\n    me casou em dia de Sant&#8217;Iago o abade que foi&#8230; e que Deus tenha em descanso.<br \/>\n    N&atilde;o faltou nada&#8230; correram-se banhos diante de quem os quis ouvir,<br \/>\n    e n&atilde;o houve quem pusesse impedimento&#8230; porque u n&atilde;o devia nada<br \/>\n    a ningu&eacute;m&#8230; sempre fui liso de contas&#8230; Sou casado com a Catarina<br \/>\n    do Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, filha do Ant&ocirc;nio Canhestro,<br \/>\n    do lugar dos Fojos&#8230; E casado para qu&ecirc;? Faz favor de me izer? Para<br \/>\n    que casei eu?&#8230; Forte desgra&ccedil;a a minha! Casei-me para isso!&#8230; Para<br \/>\n    vir para casa e ach&aacute;-la vazia, o lume apagado e o caldo na horta&#8230;<br \/>\n    e a mulher a papar missas e novenas l&aacute; por essas igrejas&#8230;<\/p>\n<p> Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha! &Eacute; forte<br \/>\n    desgra&ccedil;a!&#8230; Bem morria eu de frio e de fraqueza, se n&atilde;o fosse<br \/>\n    aquele quartilhito&#8230; o timo, que sempre me deu sua aquela&#8230; sim&#8230; sempre<br \/>\n    me conchegou est&ocirc;mago. N&atilde;o que dizem que o vinho que faz, que<br \/>\n    o vinho que aconece&#8230;<\/p>\n<p> Pois casem-se com uma mulher que v&aacute; de madrugada para a reja e venha<br \/>\n    de l&aacute; quando muito bem lhe pare&ccedil;a, e ver&atilde;o depois se<br \/>\n    o vinho n&atilde;o serve de cobrir muita lazeira que se sofre&#8230; ver&atilde;o<br \/>\n    depois&#8230;<\/p>\n<p> Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha !&#8230; Diz que Deus<br \/>\n    que disse, que a mulher que era a carne da nossa carne e o osso do nosso osso&#8230;<\/p>\n<p> Deus devia de vez em quando tornar a dizer estas coisas&#8230; para n&atilde;o<br \/>\n    esquecerem&#8230; como se faz na escola com a tabuada. A minha Catarina j&aacute;<br \/>\n    o n&atilde;o sabe, aposto&#8230; e pelos modos os padres n&atilde;o lhe dizem<br \/>\n    isto na Igreja&#8230; pois deviam dizer!&#8230; A carne da minha carne e o osso do<br \/>\n    meu osso!&#8230; mas &eacute; carne e osso que me n&atilde;o fazem caldo&#8230; Ora,<br \/>\n    senhoes, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha !&#8230; como h&aacute;-de<br \/>\n    um homem, se isto assim continua, pegar na enxada para dar uma cavadela ou<br \/>\n    fazer qualquer sachada?&#8230; E tamb&eacute;m quero ver como hei-de no arraial<br \/>\n    prociss&atilde;o de Santo Amaro, que n&atilde;o tarda a&iacute;, dar sequer<br \/>\n    um rufo assim mais tal&#8230; assim mais cient&iacute;fico? Eu se fosse bispo&#8230;<\/p>\n<p> A caudalosa corrente deste soliloquio foi interrompida pela apa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de nova personagem &agrave; porta do quintal.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe estar, meu padrinho, deixe estar; tenha um bocadinho e paci&ecirc;ncia.<br \/>\n    &Eacute; um instante enquanto acendo o lume e lhe fa&ccedil;o o caldo. Ver&aacute;.<\/p>\n<p> A pessoa, que assim falava ao entrar para a cozinha, era uma rapariga de<br \/>\n    doze anos, alva e franzina, como a mais delicada crian&ccedil;a a cidade,<br \/>\n    com os olhos negros e expressivos de intelig&ecirc;ncia e de do&ccedil;ura,<br \/>\n    e com os mais formosos cabelos louros que ainda enfeitaram uma cabe&ccedil;a<br \/>\n    infantil. N&atilde;o havia neles sombra que desvaecesse aquela cor deslumbrante<br \/>\n    ; reflectia-se-lhes a luz nas ondas, naturalmente lustrosas, como em tenu&iacute;ssimos<br \/>\n    fios de metal ; usava-os oitos e ca&iacute;dos, sem vislumbre de artif&iacute;cio,<br \/>\n    de um e de outro lado o colo.<\/p>\n<p> Condizia com a express&atilde;o ang&eacute;lica do semblante o suave e afecoso<br \/>\n    timbre de voz com que falara.<\/p>\n<p> O leitor prev&ecirc; decerto que &eacute; Ermelinda, a filha do Cancela,<br \/>\n    ou Lindita, como geralmente na aldeia lhe chamavam, a crian&ccedil;a que tem<br \/>\n    na sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ermelinda sobra&ccedil;ava um molho de hortali&ccedil;a, que fora colher<br \/>\n    ao quintal, e dirigia-se com ela para o lar, que o descuido e a indiferen&ccedil;a<br \/>\n    conjugal deixavam ainda apagado &agrave;quela hora do dia.<\/p>\n<p> Dando, por&eacute;m, com os olhos em Augusto, parou, sorrindo-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, pois estava a&iacute;, Sr. Augusto?! E o meu padrinho talvez<br \/>\n    sem reparar.<\/p>\n<p> A estas palavras o desditoso marido voltou a cabe&ccedil;a &egrave; fitou<br \/>\n    em Augusto um dos seus desemparelhados olhos.<\/p>\n<p> &#8212; Ol&aacute;, Sr. Augusto ! Viva ! Passe muito bem ! Entre ; esta<br \/>\n    casa &eacute; sua&#8230; De jantar n&atilde;o lhe ofere&ccedil;o&#8230; porque&#8230;<br \/>\n    porque&#8230; Forte desgra&ccedil;a a minha&#8230; Olhe! repare para este desaforo!&#8230;<br \/>\n    Venho para casa, morto de trabalho&#8230; e vejo o lar apagado ! A minha mulher<br \/>\n    est&aacute; a ouvir missa, a confessar-se, a comungar&#8230; a tomar todos os<br \/>\n    sacramentos&#8230; acho que os est&aacute; a tomar todos&#8230; Louvado seja Deus<br \/>\n    ! Vem a&iacute; t&atilde;o limpa de consci&ecirc;ncia, como eu estou do est&ocirc;mago&#8230;<br \/>\n    Ora, senhores&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixe estar, padrinho&#8230; Ver&aacute; como isto se arranja depressa&#8230;<\/p>\n<p> Olhe ; o lume j&aacute; est&aacute; aceso &#8212; dizia Ermelinda, acendendo<br \/>\n    efectivamente o lume no lar.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; o d&eacute;vias ter feito antes, Lindita &#8212; disse<br \/>\n    Augusto, sentando-se junto dela.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se ainda agora vim das presas, onde fui lavar a roupa? &#8212;<br \/>\n    Pobre pequena &#8212; disse o Z&eacute;-Pereira &#8212; tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    te h&aacute;-de faltar lazeira, tamb&eacute;m ! &#8212; A mim? Agora. N&atilde;o<br \/>\n    que eu n&atilde;o sai de casa com as algibeiras vazias.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim&#8230; mas &eacute; sempre preciso coisa que conforte&#8230; Ainda<br \/>\n    se tu bebesses&#8230; j&aacute; n&atilde;o digo um quartilho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Credo, meu padrinho! Que est&aacute; a dizer? &#8212; Que espanto!&#8230;<br \/>\n    Ora, senhores, que parece que o vinho &eacute; bebida amaldi&ccedil;oada,<br \/>\n    que todos lhe t&ecirc;m medo ! &Eacute; ver se o padre na missa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Padrinho ! padrinho ! que vai dizer ? &#8212; interrompeu Ermelinda,<br \/>\n    quase aterrada.<\/p>\n<p> &#8212; Eu digo o que &eacute; verdade, rapariga!&#8230; Tenho minha presun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de nunca dizer sen&atilde;o a verdade&#8230; L&aacute; o pespeguei na cara do<br \/>\n    sr. juiz de direito e mais do sr. doutor delegado e mais doutores, quando<br \/>\n    fui a um juramento, por causa daquelas pancadas no recebedor&#8230; &Eacute; que<br \/>\n    nenhum desses santalh&otilde;es, desses mission&aacute;rios, me t&ecirc;m<br \/>\n    que ensinar nesse ponto&#8230; Os mission&aacute;rios!&#8230; Eu, um dia, tiro-me<br \/>\n    dos meus cuidados e vou-me ao trabalho de lhes ir perguntar, quando eles estiverem<br \/>\n    no p&uacute;lpito, se Deus lhes manda que tirem as mulheres de casa, para<br \/>\n    que os maridos n&atilde;o tenham que comer, quando voltarem do trabalho&#8230;<\/p>\n<p> Um dia ainda lhes vou perguntar&#8230; isso vou&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Olhe; a &aacute;gua n&atilde;o tarda a ferver; ver&aacute; que dentro<br \/>\n    em pouco&#8230;<\/p>\n<p> continuou Ermelinda.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, Lindita, bem &#8212; disse Augusto &#8212; em paga da boa vontade,<br \/>\n    com que trabalhas, vou dar-te uma alegre nova.<\/p>\n<p> &#8212; A mim? Diga, &#8212; Trago-te visitas de algu&eacute;m, que em poucos<br \/>\n    dias te dar&aacute; em vez de visitas, um abra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; De quem? Ah!&#8230; Angelo escreveu-lhe? &#8212; como adivinhaste depressa<br \/>\n    ! &#8212; Pois de quem mais havia de ser ? Mas diz que&#8230; em poucos dias&#8230;<br \/>\n    Ent&atilde;o ? &#8212; T&ecirc;-lo-emos c&aacute; pelo Natal.<\/p>\n<p> &#8212; Fala verdade ? &#8212; Assim mo diz nesta carta. Queres 1er? &#8212;<br \/>\n    Para qu&ecirc;? &#8212; respondeu a rapariga, fitando por&eacute;m o papel<br \/>\n    com os olhos cheios de curiosidade.<\/p>\n<p> &#8212; Ora l&ecirc;, l&ecirc;&#8230; At&eacute; para ver se ainda te recordas<br \/>\n    das li&ccedil;&otilde;es que eu te dei.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, l&aacute; isso&#8230; mas, o caldo do meu padrinho&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixa que o lume &eacute; que o h&aacute;-de aquecer e n&atilde;o<br \/>\n    a tua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Ermelinda aproximou-se ; tomando a carta das m&atilde;os de Augusto, come&ccedil;ou<br \/>\n    a l&ecirc;-la com intensa curiosidade.<\/p>\n<p> Z&eacute;-Pereira prosseguiu no seu mon&oacute;logo : &#8212; A religi&atilde;o,<br \/>\n    senhores &#8212; dissertava ele&#8212;n&atilde;o manda tal&#8230; Isso &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o manda&#8230; A religi&atilde;o &eacute; a palavra de Deus&#8230; e<br \/>\n    Deus disse&#8230;<\/p>\n<p> sim&#8230; Deus disse&#8230; Deus disse muita coisa&#8230; Disse que por este deixar&aacute;s<br \/>\n    pai e m&atilde;e. Ora a santa madre igreja &eacute; m&atilde;e, &eacute;,<br \/>\n    sim, senhores ; que tem l&aacute; isso? mas n&atilde;o &eacute; mais m&atilde;e<br \/>\n    do que a outra m&atilde;e&#8230; e ent&atilde;o&#8230; senhores, uma mulher n&atilde;o<br \/>\n    deve deixar por ela o seu marido ; porque o marido, senhores, &eacute; o tudo<br \/>\n    de uma casa, e o ganha-p&atilde;o da fam&iacute;lia. Ora, senhores, que &eacute;<br \/>\n    forte desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p> O mon&oacute;logo do desconsolado c&ocirc;njuge e a leitura de Ermelinda<br \/>\n    foram interrompidos por uma voz potente, que cantava na rua: O dinheiro paga<br \/>\n    tudo, Nao se fica a dever nada; Toma, toma o lim&atilde;o verde, &Oacute;<br \/>\n    da &iacute;resca limonada.<\/p>\n<p> E logo em seguida estalaram as t&aacute;buas do soalho no corredor sob uns<br \/>\n    passos pesados e ruidosos, e no limiar da porta da cozinha desenhou-se a figura<br \/>\n    agigantada e herc&uacute;lea do recoveiro Cancela, pai da Ermelinda. Cancela,<br \/>\n    ou o Jo&atilde;o Herodes, que assim tamb&eacute;m lhe chamavam por ter criado,<br \/>\n    nos autos em que era actor aplaudido e popular, o tipo do sanguin&aacute;rio<br \/>\n    e infanticida rei da Judeia, fora pela natureza dotado de uma estatura e robustez,<br \/>\n    dignas de Adamastor.<\/p>\n<p> Encontrava-se nele uma dessas felic&iacute;ssimas realiza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos temperamentos sangu&iacute;neos que, sem amea&ccedil;arem de insultos<br \/>\n    apopl&eacute;cticos, d&atilde;o riqueza ao sangue, vigor aos m&uacute;sculos<br \/>\n    e &agrave; fisionomia o aberto.e colorido da sa&uacute;de e os reflexos da<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o interior.<\/p>\n<p> A barba negra e espessa cercava-lhe as faces coradas, e o natural fulgor<br \/>\n    dos olhos parecia aumentado sob o duplo arco de vastas sobrancelhas, que,<br \/>\n    quando contra&iacute;das os rodeavam de sombras amea&ccedil;adoras, de onde<br \/>\n    fuzilavam rel&acirc;mpagos. Era formid&aacute;vel ent&atilde;o ! O riso pairava-lhe,<br \/>\n    por&eacute;m nos l&aacute;bios, quando na presen&ccedil;a de amigos, descobrindo-lhe<br \/>\n    duas fileiras de alv&iacute;ssimos e bem dispostos dentes, desses que os excessos<br \/>\n    e absurdos culin&aacute;rios ainda n&atilde;o deterioraram.<\/p>\n<p> Parando &agrave; porta da cozinha, o Herodes (&agrave;s vezes lhe chamaremos<br \/>\n    assim, cedendo ao geral costume na aldeia) procurou com a vista algu&eacute;m,<br \/>\n    que mais que tudo trazia na mem&oacute;ria &#8212; a filha. &#8212; Esta,<br \/>\n    pela sua parte, mal o reconheceu, correu a lan&ccedil;ar-se-lhe nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p> O pai pegou nela, como se fosse uma pena, levantou-a &agrave; altura dos<br \/>\n    l&aacute;bios e pousou-lhe nas faces dois s&ocirc;fregos e ruidosos beijos,<br \/>\n    ainda palpitantes de todo aquele intenso amor paternal.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; exclamou, pousando-a no ch&atilde;o e respirando como<br \/>\n    quem acabava de satisfazer uma intensa necessidade do cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; Isto consola que nem o copo de &aacute;gua que a gente, em dias de<br \/>\n    calma, pede &agrave; borda da estrada, quando se leva a boca seca e queimada<br \/>\n    de poeira! Mais do que isso me sabem estes dois beijos que te dou, pequena.<br \/>\n    Que querem?&#8230; &Oacute; Sr. Augusto! tamb&eacute;m por c&aacute;? &#8212;<br \/>\n    Esperava-o, Cancela.<\/p>\n<p> &#8212; A mim? &#8212; continuou o homem, pousando no ch&atilde;o uma maia<br \/>\n    que trazia. &#8212; Pois aqui me tem. Mas, dizia eu, um homem quando anda<br \/>\n    l&aacute; fora, e pensa no que lhe ir&aacute; por casa, sente &agrave;s vezes<br \/>\n    uns sustos, que parece que lhe fazem tudo escuro&#8230; As desgra&ccedil;as, para<br \/>\n    sucederem, n&atilde;o p&otilde;em muito&#8230; De um momento para outro&#8230; E depois<br \/>\n    a gente ouve por l&aacute; conversas, v&ecirc; coisas que parece que s&atilde;o<br \/>\n    agouros&#8230; e que nos fazem a noite no cora&ccedil;&atilde;o&#8230; umas vezes<br \/>\n    &eacute; um enterro&#8230; outras, um desastre&#8230;<\/p>\n<p> um fogo&#8230; um&#8230; E as crian&ccedil;as s&oacute;s, e os pais fora de casa!&#8230;<br \/>\n    Ai! Isto &eacute; de ralar o cora&ccedil;&atilde;o de uma pessoa&#8230; Eu bem<br \/>\n    sei que em boa companhia me fica a pequena. Aqui o compadre, tirante l&aacute;<br \/>\n    a sua aquela pelo sumo da uva&#8230; Quantos foram j&aacute; hoje, compadre, hem?&#8230;<br \/>\n    mas, tirante isso, &eacute; homem de bem; a comadre &eacute; uma santa, que<br \/>\n    s&oacute; tem o defeito de querer ser santa deveras&#8230; mas enfim&#8230; tudo isso<br \/>\n    n&atilde;o obsta; uma coisa &eacute; uma pessoa saber o que lhe vai por casa,<br \/>\n    outra&#8230; Tremem-me as pernas sempre que entro na aldeia. A primeira alma de<br \/>\n    Cristo, que encontro, estou sempre a ver quando me vem dar alguma nova m&aacute;.<\/p>\n<p> Salta-me c&aacute; por dentro o cora&ccedil;&atilde;o, que ningu&eacute;m<br \/>\n    faz uma id&eacute;ia; eu bem canto a ver se disfar&ccedil;o, mas&#8230; Ai, filha<br \/>\n    da minha alma, quando me passa pelo pensamento que te posso um dia vir achar<br \/>\n    doente!&#8230; Assim me sucedeu com tua m&atilde;e&#8230; Deixei-a uma vez t&atilde;o<br \/>\n    satisfeita e alegre, e vai, quando voltei, a primeira pessoa que encontro,<br \/>\n    diz-me &agrave; queima-roupa: &laquo;Venha, Sr. Jo&atilde;o, venha, que j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vem sem tempo. Corra a casa, se ainda quer ver sua mulher&#8230;&raquo;.<br \/>\n    Foi corno se recebesse uma descarga em cheio no peito&#8230; corri, e&#8230;<\/p>\n<p> A como&ccedil;&atilde;o impediu-o de continuar ; disfar&ccedil;ou como envergonhado<br \/>\n    daquela fraqueza, beijando a filha outra vez.<\/p>\n<p> Ermelinda percebeu a perturba&ccedil;&atilde;o do pai e disse-lhe carinhosamente<br \/>\n    : &#8212; Para que est&aacute; agora a pensar nessas coisas que o afligem,<br \/>\n    meu pai? &#8212; Deixa-me c&aacute;, rapariga. Isto &agrave;s vezes tamb&eacute;m<br \/>\n    faz bem. Mas, por isso, quando entro em casa e te vejo, pequena, e te vejo<br \/>\n    com boas cores e alegre&#8230; nem eu sei o que tem m&atilde;o em mim, que n&atilde;o<br \/>\n    me ponho a dan&ccedil;ar. Ah!&#8230; ah!&#8230; Ningu&eacute;m tem uma filha como<br \/>\n    eu! Olhe que n&atilde;o, Sr. Augusto; mal fica a mim diz&ecirc;-lo, mas&#8230;<br \/>\n    L&aacute; por Lisboa e por o Porto h&aacute; muita menina galante, isso h&aacute;;<br \/>\n    muita inglesinha loura, bonitas como anjos, mas cabelos assim dourados? &#8212;<br \/>\n    e passava com orgulho os dedos pelos vastos cabelos de Ermelinda &#8212; mas<br \/>\n    uma pele assim delicada &#8212; e afagava-lhe com as m&atilde;os a face, quase<br \/>\n    a medo &#8212; mas olhos assim a meterem-se mesmo pelo cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; gente? &#8212; e beijava-lhos com paix&atilde;o &#8212; isso &eacute;<br \/>\n    que eu ainda n&atilde;o vi, nem tenho de ver. como o Senhor concedeu um anjo<br \/>\n    destes a um selvagem como eu, &eacute; que n&atilde;o sei&#8230; &Eacute; a imagem<br \/>\n    da m&atilde;e!&#8230; Ela tamb&eacute;m era poucochinho de si&#8230; miudinha e&#8230;<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o pensemos nestas coisas. Sim, senhores ; eis-me aqui outra<br \/>\n    vez, e por sinal com a minha vida por arranjar e eu posto &agrave; taramela.<br \/>\n    Trago- -lhe uma encomenda, Sr. Augusto, e muitos recados, muitos.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei ; &Acirc;ngelo escreveu-me.<\/p>\n<p> &#8212; Escreveu? Ah, Sr. Augusto, que rapaz aquele! Aquilo &eacute; uma<br \/>\n    p&eacute;rola ! com tr&ecirc;s milheiros de dem&ocirc;nios do Inferno ! dali<br \/>\n    h&aacute;-de sair coisa grande. Eu n&atilde;o queria morrer sem ver o que<br \/>\n    sa&iacute;a dali. Brinca como uma crian&ccedil;a, mas, quando quer, p&otilde;e-se<br \/>\n    s&eacute;rio, e fala como homem.<\/p>\n<p> E nada de soberbas, nem de ares enfastiados, como tomam aqueles senhores<br \/>\n    da cidade, quando conversam com uma pessoa r&uacute;stica&#8230; Qual hist&oacute;ria!<br \/>\n    Ele tudo quer saber, tudo pergunta&#8230; isso &eacute; um nunca acabar, quando<br \/>\n    l&aacute; me pilha&#8230; Ent&atilde;o como vai Fulano? e Sicrano? e se j&aacute;<br \/>\n    se fez aquela casa, e se j&aacute; acabou aquela obra, e se j&aacute; casou<br \/>\n    este, e se ainda vive aquele, e mais para aqui, e mais para acol&aacute;,<br \/>\n    e tudo quer muito explicado&#8230; Ah! ah! ah!&#8230; tem diabo o pequeno&#8230; Pois<br \/>\n    c&aacute; a respeito da rapariga?&#8230; Isso &eacute; uma com&eacute;dia!&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o se farta de me ouvir falar dela&#8230; Ah, Sr. Augusto, quantas vezes<br \/>\n    chego a ter pena de que isto nascesse minha filha.<\/p>\n<p> Ermelinda fitou o pai com os olhos espantados.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, filha &#8212; prosseguiu ele. &#8212; Deus n&atilde;o te devia<br \/>\n    dar a um homem como eu, que enfim&#8230; com os diabos! l&aacute; alma e cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> nao quero que haja a&iacute; quem me leve a barra adiante. Eu por um amigo&#8230;<\/p>\n<p> e com mil dem&ocirc;nios, at&eacute; por um inimigo, se n&atilde;o for soberbo,<br \/>\n    vamos l&aacute;, dou a camisa do corpo&#8230; Mas o mundo&#8230; Bem, bem, eu c&aacute;<br \/>\n    me entendo.<\/p>\n<p> Vamos &agrave; minha tarefa. Mas que tem voc&ecirc; estado para a&iacute;<br \/>\n    a pregar, compadre, desde que eu entrei? Hum! hum! parece-me que j&aacute;<br \/>\n    se cantou a gl&oacute;ria, hoje, visto que j&aacute; se est&aacute; ao serm&atilde;o.<\/p>\n<p> Efectivamente Z&eacute;-Pereira tinha apenas concedido ao seu compadre um<br \/>\n    olhar de distrac&ccedil;&atilde;o e um aceno de m&atilde;o, e voltara de novo<br \/>\n    &agrave;s suas queixas amargas contra a sorte e contra a esposa.<\/p>\n<p> Interrogado pelo Herodes, Z&eacute;-Pereira reproduziu uma das suas lamenta&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    o compadre, enquanto desenfardelava a maia, ia cortando com reflex&otilde;es<br \/>\n    pr&oacute;prias essa longa jeremiada.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o com que a ti&#8217;Zefa deixou-o sem caldo, hem? &Eacute;<br \/>\n    malfeito, a falar a verdade. Lume apagado em casa de fam&iacute;lia &eacute;<br \/>\n    coisa triste&#8230; Aqui est&aacute; um livro para si, Sr. Augusto&#8230; Mas deixe<br \/>\n    l&aacute;, compadre, que a minha pequena arranja-lhe num ai algumas ber&ccedil;as&#8230;<br \/>\n    Tamb&eacute;m eu estou em jejum desde as cinco horas da manh&atilde;&#8230; mas<br \/>\n    estes mission&aacute;rios ! Ah ! com seiscentas mil d&uacute;zias de dem&ocirc;nios,<br \/>\n    eu ainda queria um dia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deus Nosso Senhor seja nesta casa &#8212; disse uma voz gemida &agrave;<br \/>\n    porta da cozinha.<\/p>\n<p> &#8212; E o demo na do abade &#8212; resmungou Herodes.<\/p>\n<p> Era a Sr.&#8217; Catarina do Nascimento de S. Jo&atilde;o Baptista, tipo de beata,<br \/>\n    que dispensa descri&ccedil;&atilde;o, que regressava a casa depois de completar<br \/>\n    o ciclo das suas devo&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Viva a comadre ! &#8212; disse o Jo&atilde;o Cancela, continuando<br \/>\n    a mexer na maia.<\/p>\n<p> Ermelinda foi beijar a m&atilde;o &agrave; madrinha.<\/p>\n<p> Augusto saudou-a af&agrave;velmente.<\/p>\n<p> O marido obrigou o corpo a uma meia rota&ccedil;&atilde;o sobre o alqueire,<br \/>\n    e, voltando-se para a mulher, disse-lhe, agitando os bra&ccedil;os e as m&atilde;os,<br \/>\n    espalmadamente abertas : &#8212; Mulher dos meus pecados, mulher de n&atilde;o<br \/>\n    sei que diga, olha que a paci&ecirc;ncia um dia acaba-se, mulher ! Isto n&atilde;o<br \/>\n    pode continuar assim, mulher ! Eu nao me casei para que tu me andes a ganhar<br \/>\n    indulg&ecirc;ncias na igreja, mulher!&#8230; Isto s&atilde;o preparos, mulher?&#8230;<br \/>\n    Um homem chega a casa e acha o caldo por fazer, porque a senhora sua esposa<br \/>\n    deu em ouvir nove missas por dia e uma d&uacute;zia de novenas ! &#8212; Cala-te,<br \/>\n    cala-te &#8212; retorquiu azedamente a devota metade do Z&eacute;-Pereira<br \/>\n    &#8212; cala-te para a&iacute;, desalmado. Excomungado seja o mafarrico, que<br \/>\n    assim me quer atentar logo que entro em casa ! Olha l&aacute; que n&atilde;o<br \/>\n    morresses de fome ! Est&aacute;s mal acostumado. Louvado seja Deus ! J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute; quem queira sofrer neste mundo mortifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ! cuidas que n&atilde;o tens de sofrer as do Purgat&oacute;rio? E Deus nos<br \/>\n    queira dar s&oacute; o Purgat&oacute;rio e livrar-nos das penas do Inferno.<br \/>\n    Que muito mal fazemos por lhe merecer miseric&oacute;rdia! Ora que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute;-de uma pessoa poder ter as suas devo&ccedil;&otilde;es, que n&atilde;o<br \/>\n    venha encontrar lam&uacute;rias em casa ! &Oacute; minha rica M&atilde;e do<br \/>\n    C&eacute;u, seja para desconto dos meus pecados ! Sume-te, inimigo mau ! E<br \/>\n    eu que deixei de rezar oito esta&ccedil;&otilde;es, que prometi &agrave; Senhora<br \/>\n    da Rocha, e vai&#8230; Ora digam como h&aacute;-de esta gente cumprir os jejuns<br \/>\n    que manda a santa madre igreja, se, por duas horas de espera, j&aacute; se<br \/>\n    choram todos ! Bendito e louvado seja o sacrat&iacute;ssimo cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Maria ! &Oacute; homem de Deus, e ent&atilde;o aqueles santos eremitas,<br \/>\n    que viviam no deserto de ra&iacute;zes e de &aacute;gua das fontes&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que lhes prestasse. Haviam de andar muito gordos. Eu queria-os ver<br \/>\n    com uma enxada a trabalhar todo o dia no campo, e que lhes dessem depois ra&iacute;zes<br \/>\n    para roer, a ver se gostavam. Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a<br \/>\n    a minha! Mulher, a religi&atilde;o manda que olhemos pelo nosso cad&aacute;ver.<br \/>\n    &Eacute; m&aacute; crist&atilde; a mulher que deixa o seu marido na pen&uacute;ria.<\/p>\n<p> Isto &eacute; que os padres deviam ensinar. Vai-lhes l&aacute; perguntar<br \/>\n    se, quando chegam a casa, n&atilde;o t&ecirc;m a sopa e o toucinho &agrave;<br \/>\n    espera deles? &#8212; Cala-te, tentador, que me andas a tentar, cala-te, tem<br \/>\n    vergonha nessa cara. Olha agora ! Eu queria ver-te com o trabalho do sr. padre<br \/>\n    Domingos. Coitadinho ! desde as cinco horas da manh&atilde; at&eacute; agora<br \/>\n    a confessar ! &#8212; Confessar &eacute; parolar ; ora adeus ! &#8212; Tu<br \/>\n    est&aacute;s doido, alma perdida?! &#8212; E cuidas que ele n&atilde;o leva<br \/>\n    marmelada nos bolsos? &#8212; &Oacute; chagas do ser&aacute;fico S. Francisco,<br \/>\n    ainda mais terei de ouvir?! &#8212; Mulher, deixemo-nos de hist&oacute;rias<br \/>\n    ; com jejuns ningu&eacute;m engorda.<\/p>\n<p> S&oacute; os santos&#8230; de pau.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, vamos &#8212; disse o Herodes, intervindo. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    vale zangarem- se por causa disso. A minha pequena deve ter o caldo quase<br \/>\n    feito. Comam-no em santa paz e deixem-se de testilhas, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    bonito ; e muito menos entre marido e mulher. Voc&ecirc;, compadre, tamb&eacute;m<br \/>\n    tem culpas em cart&oacute;rio ; vamos l&aacute;. H&aacute; por a&iacute; umas<br \/>\n    certas capelas, onde passa tamb&eacute;m bastante tempo em devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; enquanto &agrave; comadre, acredite o que lhe digo : a palavra de Deus n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil, que uma pessoa precise de estar tanto<br \/>\n    tempo a ouvi-la explicar. Eu c&aacute; penso que, fazendo a gente aquilo que<br \/>\n    lhe diz o cora&ccedil;&atilde;o, e que n&atilde;o sente nenhuma aquela em<br \/>\n    fazer, vai por caminho direito. E mais vale fazer o que Deus manda, do que<br \/>\n    levar a vida a pedir perd&atilde;o por o n&atilde;o ter feito. E tamb&eacute;m<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; bonito estarem agora as mulheres, horas e horas, pegadas<br \/>\n    ao confession&aacute;rio, como lapas nos rochedos, nem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Compadre ! &#8212; atalhou escandalizada a Sr.a Catarina &#8212;<br \/>\n    compadre ! &Eacute; essa a educa&ccedil;&atilde;o que d&aacute; &agrave; sua<br \/>\n    filha ? S&atilde;o coisas que se digam diante de uma crian&ccedil;a de doze<br \/>\n    anos? Ande l&aacute;, ande l&aacute;&#8230; Ora Deus queira que lhe n&atilde;o<br \/>\n    encontre ainda o pago. Era bem melhor que lhe ensinasse, ou mandasse ensinar,<br \/>\n    a doutrina; que &eacute; mesmo uma vergonha o pouco que sabe dela.<\/p>\n<p> &#8212; Bem tenho eu tempo para isso. A minha Ermelinda n&atilde;o deixa<br \/>\n    passar pobre &agrave; porta, a quem n&atilde;o d&ecirc; esmola ; crian&ccedil;a<br \/>\n    que n&atilde;o afague ; velho ou velha, que n&atilde;o corteje ; reza todas<br \/>\n    as manh&atilde;s a ora&ccedil;&atilde;o, que a m&atilde;e lhe ensinou, o padre-nosso<br \/>\n    e a ave-maria, onde se diz tudo o que se deve dizer a Deus ; de dia trabalha,<br \/>\n    como filha de pobre que &eacute;, e mulher de casa que h&aacute;-de ser&#8230;<br \/>\n    O Senhor me perdoe, se mais &eacute; preciso ainda, que mais nao sei eu ensinar-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tenha soberbas, compadre, n&atilde;o tenha soberbas !<br \/>\n    E cautela com o mimo que d&aacute; &agrave; pequena que &eacute; o que perde<br \/>\n    muitas almas.<\/p>\n<p> &#8212; Que mimo,. que mimo ? Logo eu com este g&ecirc;nio de repentes &eacute;<br \/>\n    que hei-de dar mimo a esta pobre crian&ccedil;a, que nem o da m&atilde;e conheceu<br \/>\n    ! &#8212; Ora diga, compadre, acha que &eacute; muito bem feito, da sua parte,<br \/>\n    deixar andar a rapariga com esses cabelos soltos? N&atilde;o sabe que o Dem&ocirc;nio&#8230;<br \/>\n    cruzes! arma com eles la&ccedil;os &agrave;s almas das criaturas? &#8212;<br \/>\n    Fracas pris&otilde;es s&atilde;o as do Diabo, se as forja s&oacute; de cabelos!..,<br \/>\n    Ent&atilde;o por causa das tenta&ccedil;&otilde;es &eacute; que a comadre<br \/>\n    rapou os seus? Ah! ah! Tem coisas! &Eacute; teima velha! Eu j&aacute; lhe<br \/>\n    disse, comadre: Deus, que deu &agrave; pequena esses cabelos t&atilde;o bonitos,<br \/>\n    &eacute; porque lhos quis dar. Se quiser, que lhos tire, eu &eacute; que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Deus cerca-nos de tenta&ccedil;&otilde;es, para que n&oacute;s as<br \/>\n    ven&ccedil;amos.<\/p>\n<p> &#8212; Forte tenta&ccedil;&atilde;o venceu a comadre! aposto que os n&atilde;o<br \/>\n    cortaria assim, se os tivesse como os da minha Ermelinda, hem ! Cortar os<br \/>\n    cabelos &agrave; minha filha, eu ? ! fazer daquela cabe&ccedil;a de querubim<br \/>\n    uma dessas cabe&ccedil;as tosquiadas, que por a&iacute; andam ! &#8212; Talvez<br \/>\n    ainda se arrependa ! &#8212; Deixe l&aacute;, comadre. O que eu vejo &eacute;<br \/>\n    que, junto de Deus e da Virgem, se pintam anjos, como a minha pequena, e n&atilde;o<br \/>\n    figuras&#8230; respeit&aacute;veis, como a da comadre; ora ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> A beata, apesar de trazer sempre na mem&oacute;ria o Vanitas vanitatum do<br \/>\n    &laquo; Ecclesiastes &raquo;, n&atilde;o foi inteiramente insens&iacute;vel<br \/>\n    ao remoque do compadre. Azedou-se-lhe o humor, e, voltando-se para Ermelinda,<br \/>\n    disse-lhe como para descarregar sobre ela a m&aacute; vontade com que estava<br \/>\n    ao pai: &#8212; Sai-te para l&aacute;. O senhor meu homem tinha muita pressa<br \/>\n    de jantar ! Deixar assim uma crian&ccedil;a fazer uma fogueira destas ! Nem<br \/>\n    para assar um boi ! &Eacute; preciso n&atilde;o ter consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> E tirou do lume um pequeno cavaco, para justificar o dito.<\/p>\n<p> Z&eacute;-Pereira monologava ainda. Augusto continuava examinando o livro<br \/>\n    recebido.<\/p>\n<p> Ermelinda afastou-se do lar com timidez. No &acirc;nimo daquela crian&ccedil;a,<br \/>\n    que era de uma organiza&ccedil;&atilde;o nervosa, excepcional na aldeia, exercia<br \/>\n    a beata uma esp&eacute;cie de fascina&ccedil;&atilde;o, um misto de respeito<br \/>\n    e de terror, capaz de dissipar todos os risos dos seus l&aacute;bios infantis.<br \/>\n    Era outra na presen&ccedil;a da madrinha, fitava-lhe nas faces descarnadas<br \/>\n    e macilentas os belos olhos negros ; seguia-lhe, quase assustada, o movimento<br \/>\n    dos l&aacute;bios austeramente contra&iacute;dos ; tremia ao escutar-lhe a<br \/>\n    voz aguda e penetrante, falando nas penas do Inferno ; chorava &agrave; menor<br \/>\n    repreens&atilde;o que dela recebia, e contudo amava-a, amava-a, porque Ermelinda,<br \/>\n    na sua candura de crian&ccedil;a, supunha a madrinha uma santa ; avultavam-<br \/>\n    -lhe, como virtudes beatificantes, os defeitos da devota velha ; a inocente<br \/>\n    julgava-se uma grande pecadora quando, depois de ter na mente aquele Efeito<br \/>\n    tipo, voltava a olhar para si, para o fundo da sua consci&ecirc;ncia ; que<br \/>\n    negros e hediondos pecados l&aacute; encontrava ! Uma pequena menque dissera<br \/>\n    ; um domingo em que faltou &agrave; missa ; um juramento , sem o sentir, lhe<br \/>\n    sa&iacute;ra da boca ; um jejum que nao guardara, e outros crimes da mesma<br \/>\n    for&ccedil;a. A amedrontada crian&ccedil;a chegava a recear pela salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alma.<\/p>\n<p> &Eacute; sempre funesta a influ&ecirc;ncia que exercem sobre a inf&acirc;ncia<br \/>\n    os caracteres como os da beata.<\/p>\n<p> O Herodes percebeu a impress&atilde;o sob a qual estava a filha e acudiu-<br \/>\n    lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Toma l&aacute;, Ermelinda &#8212; disse ele, tirando da maia uma<br \/>\n    pequena medalha com um retrato. &#8212; &Eacute; um presente do nosso amigo<br \/>\n    &Acirc;ngelo para n&oacute;s, ou antes, para ti&#8230;<\/p>\n<p> Ermelinda pegou no retrato com n&atilde;o reprimido alvoro&ccedil;o. Era<br \/>\n    outra vez a crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> A madrinha lan&ccedil;ou para a medalha um olhar obliquo e reconheceu o<br \/>\n    retrato.<\/p>\n<p> &#8212; Em nome do Padre e do Filho e do Esp&iacute;rito Santo ! &#8212;<br \/>\n    rompeu ela, com um espanto exagerado. &#8212; Este homem n&atilde;o tem a<br \/>\n    cabe&ccedil;a no seu lugar, por mais que me digam ! Ele quer perder a filha<br \/>\n    decerto ! A fazer a cabe&ccedil;a doida a uma crian&ccedil;a ! O Herodes,<br \/>\n    ouvindo estas palavras, pousou com &iacute;mpeto a maia no ch&atilde;o, e<br \/>\n    com os olhos chamejantes e as faces injectadas, vociferou, cedendo o campo<br \/>\n    &agrave; c&oacute;lera, que se lhe acumulou no seio : &#8212; Com seiscentos<br \/>\n    milh&otilde;es de diabos ! Voc&ecirc; que est&aacute; a&iacute; a dizer, mulher?<br \/>\n    S&atilde;o os serm&otilde;es dos mission&aacute;rios que lhe t&ecirc;m assim<br \/>\n    afiado a l&iacute;ngua e deitado pe&ccedil;onha na baba ? Com efeito ! Saiba<br \/>\n    que dou mais pela crian&ccedil;a, de quem &eacute; aquele retrato, do que<br \/>\n    por quantos sotainas lhe ouvem os seus pecados todas as semanas e por quantas<br \/>\n    beatas andam consigo a dar marradas no lajedo da igreja. Fazer a cabe&ccedil;a<br \/>\n    doida &agrave; minha filha ! Tenha m&atilde;o na l&iacute;ngua, comadre, que<br \/>\n    lhe n&atilde;o sofro tanto. Doida lha trazem a vossemec&ecirc; os mission&aacute;rios<br \/>\n    e os serm&otilde;es.<\/p>\n<p> Seu marido fora eu, que a mania lhe tirava.<\/p>\n<p> O Z&eacute;-Pereira, apesar dos seus desgostos dom&eacute;sticos, zelava<br \/>\n    a dignidade do casal ; e n&atilde;o levava &agrave; paci&ecirc;ncia que outro,<br \/>\n    al&eacute;m dele, dissesse daquelas verdades &agrave; mulher; por isso, ouvindo-as,<br \/>\n    atrav&eacute;s dos sonidos que lhe chiavam nos ouvidos, levantou-se, e sustentando-se<br \/>\n    nas pernas vacilantes, e bracejando sempre, bradou : &#8212; Compadre ! Eu<br \/>\n    sei quais s&atilde;o os meus deveres ! Compadre, prud&ecirc;ncia !&#8230; Compadre,<br \/>\n    eu n&atilde;o consinto&#8230; Ora, senhores, que &eacute; forte coisa ! Compadre<br \/>\n    !&#8230; veja que eu &eacute; que sou aqui o chefe da fam&iacute;lia e esta &eacute;<br \/>\n    minha mulher! Psiu&#8230; Basta&#8230; Compadre&#8230; basta. Ent&atilde;o? Ora, senhores.<\/p>\n<p> Mas o Herodes j&aacute; nada atendia; cada vez mais lhe crescia a vermelhid&atilde;o<br \/>\n    nas faces ; a irrita&ccedil;&atilde;o rompera os diques da cordura e amea&ccedil;ava<br \/>\n    engrossar cada vez mais. &Agrave;s exclama&ccedil;&otilde;es de Z&eacute;-Pereira<br \/>\n    respondia j&aacute; azedamente.<\/p>\n<p> &#8212; Ora adeus, temos conversado&#8230; Seja homem, que bem pre.<\/p>\n<p> cisa&#8230; N&atilde;o basta dar &agrave; l&iacute;ngua&#8230; Na taberna n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que se governa a casa&#8230;<\/p>\n<p> A Sr.* Catarina abstinha-se agora prudentemente.<\/p>\n<p> Ermelinda, p&aacute;lida, a tremer, abra&ccedil;ou o pai, quase chorando.<\/p>\n<p> Augusto, que fora alheio ao princ&iacute;pio da contenda, conheceu enfim<br \/>\n    que precisava de intervir. Saiu-lhe dif&iacute;cil a empresa.<\/p>\n<p> Ensurdeciam os ouvidos dos contendores, a um o sangue, a outro o vinho.<\/p>\n<p> Depois de muito custo, conseguiu enfim apazigu&aacute;-los. Deram-se m&uacute;tuas<br \/>\n    satisfa&ccedil;&otilde;es, e separaram-se apertando as m&atilde;os.<\/p>\n<p> Augusto retirou-se com Jo&atilde;o Cancela e Ermelinda.<\/p>\n<p> O par conjugai ficou, renovando-se cedo entre eles a intermin&aacute;vel<br \/>\n    contenda em que viviam.<\/p>\n<p> VIII SAINDO de casa do Z&eacute;-Pereira, Augusto teve de escutar, ainda<br \/>\n    por muito tempo, as vocifera&ccedil;&otilde;es e pragas, com que o Herodes<br \/>\n    acoimava a fraqueza do compadre, que assim deixara a mulher tomar sobre si<br \/>\n    um ascendente ofensivo da dignidade varonil. Augusto ouviu tudo com resignado<br \/>\n    sil&ecirc;ncio e aten&ccedil;&atilde;o um pouco distra&iacute;da, conseguindo<br \/>\n    enfim a custo soltar-se das m&atilde;os do seu interlocutor, que, no fogo<br \/>\n    da exposi&ccedil;&atilde;o de t&atilde;o justos agravos, lhe segurava os bra&ccedil;os<br \/>\n    com pouco af&aacute;vel vivacidade ; afinal, por&eacute;m, p&ocirc;de deix&aacute;-lo<br \/>\n    e voltou a casa.<\/p>\n<p> Entrando no seu quarto, um pequeno e modesto quarto, mobi lado com uma banca,<br \/>\n    poucas cadeiras e uma estante, cheia de livros, Augusto respirou.<\/p>\n<p> Era ali o seu lugar de descanso ; a escola era em outra casa vizinha.<\/p>\n<p> Nesta n&atilde;o havia, a amargurar-lhe as horas do repouso, vest&iacute;gios<br \/>\n    que lhe. recordassem as do supl&iacute;cio.<\/p>\n<p> Leitor filantropo, que, abrasado em santo amor da humanidade, s&oacute;<br \/>\n    entrev&eacute;s del&iacute;cias na tarefa do ensino, e fazes deste vigiar<br \/>\n    e encaminhar o esp&iacute;rito infantil, que desabrocha e respira pela primeira<br \/>\n    vez no fecundo ambiente da ci&ecirc;ncia, um sedutor quadro de fantasia, perdoa-<br \/>\n    me a palavra, supl&iacute;cio, de que me servi, e perdoa ainda mais ao car&aacute;cter<br \/>\n    de Augusto o ter sa&iacute;do exacta a express&atilde;o, que te feriu os humanit&aacute;rios<br \/>\n    instintos.<\/p>\n<p> Eu bem sei que &eacute; uma sublime miss&atilde;o a do mestre ; e que &eacute;<br \/>\n    uma graciosa e amor&aacute;vel idade a da inf&acirc;ncia, e poucos melhor<br \/>\n    do que Augusto possu&iacute;am presente o ideal de uma e amenizavam &agrave;<br \/>\n    outra com branduras os amargones do penoso tiroc&iacute;nio ; mas que importa<br \/>\n    ? nem por isso &eacute; menos real o supl&iacute;cio. A cultura dos esp&iacute;ritos<br \/>\n    &eacute; como a cultura das terras. O lavrador exulta, estremece de prazer,<br \/>\n    vendo pulular do solo, arado e semeado de pouco, os rebentos do gr&atilde;o<br \/>\n    que o calor fez germinar, e volverem-se as folhas, estendetrem-se e enflorarem-<br \/>\n    se os ramos, penderem os frutos e colorirem-se das tintas da madureza; mas,<br \/>\n    enquanto vergado, coberto de suor, arquejante, se afadiga a arrotear o terreno<br \/>\n    duro e quem sabe se ingrato aos seus cuidados, muita vez lhe falece o alento,<br \/>\n    e se olha de quando em quando para o C&eacute;u, n&atilde;o &eacute; para<br \/>\n    lhe agradecer com risos os gozos que ele lhe d&aacute; ; mas para lhe pedir,<br \/>\n    com l&aacute;grimas, a for&ccedil;a que lhe mingua.<\/p>\n<p> De igual modo, se &eacute; grato ao cultor das intelig&ecirc;ncias o v&ecirc;-las<br \/>\n    desenvolver, florir, frutificar; &aacute;rdua, &iacute;mproba, desesperadora<br \/>\n    &eacute; muita vez a tarefa da sua primeira educa&ccedil;&atilde;o. &Eacute;<br \/>\n    mister possuir um grande tesouro de ideal, para que o suave e risonho tipo,<br \/>\n    que da inf&acirc;ncia concebemos, n&atilde;o se transtorne, na fantasia destas<br \/>\n    vitimas dela, em n&atilde;o sei que figura diab&oacute;lica e maligna, que<br \/>\n    lhes envenena todos os momentos de alegria.<\/p>\n<p> Al&eacute;m disso, o pobre professor de instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria,<br \/>\n    sobre quem pesam os mais fastidiosos encargos da instru&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o pode ser comparado absolutamente ao agricultor do nosso simile<br \/>\n    ; &eacute; antes o jornaleiro contratado por magro sal&aacute;rio, para, &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a de bra&ccedil;o, lavrar o solo, de onde, mais tarde, romper&aacute;<br \/>\n    a vegeta&ccedil;&atilde;o, que ele n&atilde;o ter&aacute; de ver e que a outros<br \/>\n    conceder&aacute; os gozos e o benef&iacute;cio. Venceu tamb&eacute;m o humilde<br \/>\n    professor, e por o mesmo pre&ccedil;o que o jornaleiro, que n&atilde;o v&atilde;o<br \/>\n    mais longe com ele as liberalidades dos nossos governos, venceu as maiores<br \/>\n    cruezas do magist&eacute;rio ; mas n&atilde;o ver&aacute; tamb&eacute;m o<br \/>\n    resultado das suas fadigas. Fogem-lhe as intelig&ecirc;ncias, que educou,<br \/>\n    justamente quando com mais amor as devia contemplar, e, se o destino reserva<br \/>\n    a qualquer dessas intelig&ecirc;ncias um futuro de gl&oacute;rias, raro &eacute;<br \/>\n    que volvam um olhar agradecido para as humildes m&atilde;os, que as sustentaram,<br \/>\n    quando ainda n&atilde;o tinham asas para voar.<\/p>\n<p> Quase todos os grandes homens cometem esta ingratid&atilde;o. Falam nos<br \/>\n    seus mestres de filosofia, de matem&aacute;tica, de literatura, e n&atilde;o<br \/>\n    salvam do esquecimento, pronunciando-o, o nome do primeiro mestre, do que<br \/>\n    os ensinou a 1er.<\/p>\n<p> Considera&ccedil;&otilde;es da ordem das que acabamos de fazer, quero acreditar,<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o as que mais preocupam o pensamento da maioria desses<br \/>\n    pobres diabos, que, por noventa mil-r&eacute;is anuais, se deixaram ligar<br \/>\n    &agrave; atafona do ensino prim&aacute;rio da aldeia ; por&eacute;m devem<br \/>\n    ser, al&eacute;m das mis&eacute;rias de t&atilde;o mesquinha sorte, causas<br \/>\n    de grandes torturas morais para alguma alma de instintos e aspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais elevadas, que o destino amarrasse, como por esc&aacute;rnio, a este poste<br \/>\n    de expia&ccedil;&atilde;o. Nesse caso estava por certo a alma de Augusto.<br \/>\n    No vasto mundo, que os livros abrem &agrave;s imagina&ccedil;&otilde;es, que<br \/>\n    na vida real n&atilde;o encontram deleite, refugiava- se ele nas horas em<br \/>\n    que as suas obriga&ccedil;&otilde;es lhe permitiam respirar, Desta vez, por&eacute;m,<br \/>\n    por pouco tempo lhe foi dado saborear esse prazer.<\/p>\n<p> Soaram nos vidros da janela pancadas repetidas e chamou-o de fora uma voz<br \/>\n    bem conhecida dele.<\/p>\n<p>Era a do mestre de latim, o Sr. Bento Pertunhas.<\/p>\n<p> &#8212; Sr. Augusto, &oacute; meu querido Sr. Augusto. Amice ! Pode falar<br \/>\n    a um amigo e colega ? &#8212; dizia ele.<\/p>\n<p> Augusto foi abrir-lhe a porta, n&atilde;o reprimindo um gesto de enfado,<br \/>\n    O latinista entrou esfregando as m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; A 1er, hem ! sempre a 1er ! sempre amarrado aos livros ! -jZ dizia<br \/>\n    ele, batendo no ombro a Augusto. &#8212; Invejo-lhe mais a pachorra do que<br \/>\n    o proveito. Olhe que n&atilde;o medra com isso ; nem ningu&eacute;m lhe agradece<br \/>\n    as canseiras que toma. Meu rico, por dois dias que um homem passa c&aacute;<br \/>\n    neste mundo, tolo &eacute; o que se mata. E ent&atilde;o neste pa&iacute;s<br \/>\n    !.. Fa&ccedil;a como eu.<\/p>\n<p> E, imitando com a boca os sons da trompa, seu instrumento predilecto, p&oacute;s-se<br \/>\n    a examinar os livros que via sobre a mesa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que estava lendo? que estava lendo?&#8230; Poh! poh! poh!&#8230;<\/p>\n<p> Versos&#8230; Ora que nunca pude gostar de versos!&#8230; Poh! poh!&#8230; E nao e agora<br \/>\n    porque se diga que n&atilde;o tinha queda ; n&atilde;o senhores ; em tempos<br \/>\n    fiz at&eacute; algumas quadras&#8230; Poh! poh!&#8230; j&aacute; se sabe, at&eacute;<br \/>\n    certa idade, mas nunca fui muito para a&iacute;&#8230; Poh!&#8230; A minha voca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; para a m&uacute;sica,..<\/p>\n<p> Poh! poh!&#8230; L&aacute; para a m&uacute;sica, sim&#8230; Poh! poh! poh!&#8230; Hermano<br \/>\n    e Doroteia&#8212;continuava ele, examinando os livros.&#8212;Novelas&#8230; Poh!&#8230;<\/p>\n<p> E isto que &eacute; ? Confessions de Rousseau &#8212; neste nome deixou<br \/>\n    aos ditongos o valor portugu&ecirc;s. &#8212; Poh ! poh ! As Metamorfoses&#8230;<br \/>\n    Latim ! Oh que ma&ccedil;ada! Poh! poh! poh! poh!&#8230;&#8212;E o Ovidio, que<br \/>\n    lhe chegara &agrave;s m&atilde;os, foi arremessado como se estivesse em brasa.<\/p>\n<p> Augusto n&atilde;o p&ocirc;de conservar-se s&eacute;rio, ante o instintivo<br \/>\n    movimento de repuls&atilde;o do mestre.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que boa fortuna o traz por aqui, Sr. Pertunhas ? &#8212;<br \/>\n    perguntou ele.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, &eacute; verdade ; eu lhe digo ao que venho. &Eacute; para lhe<br \/>\n    pedir um favor, meu caro Sr. Augusto. Eu bem sei que &eacute; abusar da sua<br \/>\n    bondade&#8230;<\/p>\n<p> Quousque tandem, Catilina&#8230; Mas, &eacute; por esta vez&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; sei ; ,quer que lhe v&aacute; dar li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos rapazes.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! grande magan&atilde;o, que adivinhou &#8212; exclamou o mestre,<br \/>\n    abra&ccedil;ando Augusto com efus&atilde;o. &#8212;&gt; &Eacute; isso mesmo,<br \/>\n    se lhe n&atilde;o custasse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Irei.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; que&#8230; eu lhe digo, eu tinha hoje de ir ao ensaio da filarm&ocirc;nica&#8230;<\/p>\n<p> Percebe o senhor? Os Reis est&atilde;o a&iacute; &agrave; porta e as outras<br \/>\n    festas do Natal, e n&atilde;o h&aacute; tempo a perder&#8230; Percebe? E eu tenho<br \/>\n    ainda umas pe&ccedil;as do Trovador para ensinar &agrave; minha gente. S&atilde;o<br \/>\n    muito bonitas&#8230;<\/p>\n<p> Poh! poh! poh! E ent&atilde;o este ano, que pelos modos temos c&aacute;<br \/>\n    o conselheiro e mais o pequeno&#8230; N&atilde;o contando com esse sujeito que<br \/>\n    a&iacute; chegou a Alvapenha. Chama-se Henrique de Souselas, &eacute; sobrinho<br \/>\n    da velha, da D. Doroteia, e julgo que ainda aparentado no Mosteiro. L&aacute;<br \/>\n    chamam- -Ihe primo. Esteve l&aacute; esta manh&atilde; um par de horas, logo<br \/>\n    que saiu da minha reparti&ccedil;&atilde;o. Dizem-me que &eacute; filhote<br \/>\n    de Lisboa, solteiro, rico e se modo de vida. Rico e sem modo de vida! Que<br \/>\n    lhe parece, hem? Olhe que sempre h&aacute; gente muito feliz ! Aqui para n&oacute;s,<br \/>\n    sabe ao que me cheira a visita deste senhor? Aquilo &eacute; mosca que vem<br \/>\n    ao cheiro do mel. Que diz, hem? Ningu&eacute;m me tira disto. Pois n&atilde;o<br \/>\n    lhe parece, hem? &#8212; N&atilde;o sei bem o que quer dizer com a imagem<br \/>\n    &#8212; respondeu Augusto, levemente enfadado. &#8212; Al&eacute;m de que<br \/>\n    n&atilde;o posso adivinhar as inten&ccedil;&otilde;es de um homem que pela<br \/>\n    primeira vez encontrei esta manh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Pois est&aacute; claro que n&atilde;o ; nem eu ; mas enfim uma pessoa<br \/>\n    logo tira pelo que v&ecirc;&#8230; Ora pois diga, um rapaz de Lisboa, afeito a<br \/>\n    divertimentos, a boa m&uacute;sica, etcetera, andar l&eacute;guas e l&eacute;guas<br \/>\n    para se meter neste desterro&#8230; Porque isto &eacute; um desterro. Sim, deve<br \/>\n    concordar que n&atilde;o &eacute; natural. Mas se a gente se lembrar de que<br \/>\n    a morgadinha, etcetera&#8230; O senhor bem me percebe&#8230; Todos, hoje em dia, sabem<br \/>\n    o pre&ccedil;o ao dinheiro, meu amigo.<\/p>\n<p> A verbosidade do mestre Pertunhas estava evidentemente incomodando Augusto,<br \/>\n    que n&atilde;o redarguia.<\/p>\n<p> &#8212; Nada, nada ; ali anda plano, com certeza. Pelos modos, j&aacute;<br \/>\n    depois de amanh&atilde; vai o rapaz acompanhar as pequenas &agrave; ermida<br \/>\n    da Sa&uacute;de.<\/p>\n<p> Ah !.. &#8226; mas agora me lembro ! o senhor &eacute; tamb&eacute;m da<br \/>\n    s&uacute;cia.<\/p>\n<p> &#8212; Eu? &#8212; com certeza. Disse-mo o Dami&atilde;o, que tem ordem<br \/>\n    das pequenas para o convidar. Se ainda n&atilde;o recebeu o recado, h&aacute;-de<br \/>\n    receb&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Em todo o caso, observe-o e ver&aacute; se eu tenho raz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vou jantar, Sr. Pertunhas, que j&aacute; h&aacute; muito para isso<br \/>\n    me chamou a criada &#8212; disse Augusto, erguendo-se como para fugir &agrave;quela<br \/>\n    conversa.<\/p>\n<p> &#8212; Em seguida irei aos seus rapazes.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o v&aacute;, v&aacute;. Deus lhe pague o favor que me<br \/>\n    faz e permita que eu lhe n&atilde;o pe&ccedil;a muitos destes. E eu tenho<br \/>\n    esperan&ccedil;as&#8230; Sabe que ando com id&eacute;ias de arranjar o lugar de<br \/>\n    recebedor, que est&aacute;, como diz o outro, a encher dias? J&aacute; falei<br \/>\n    ao conselheiro; mas o conselheiro promete muito e falta melhor, sobretudo<br \/>\n    a um homem que n&atilde;o tenha influ&ecirc;ncia em elei&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    O Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes interessa-se por mim, &eacute; verdade<br \/>\n    ; mas, por outro lado, o Seabra brasileiro faz-me guerra. Eu ando a ver se<br \/>\n    consigo p&ocirc;r o Seabra a meu favor, porque enfim&#8230; Mas v&aacute;, v&aacute;<br \/>\n    jantar, que eu espero.<\/p>\n<p> &#8212; Se quiser fazer-me companhia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigado. Eu j&aacute; jantei. O meio-dia &eacute; a minha<br \/>\n    hora. &iexcl;ante &agrave; sua vontade.<\/p>\n<p> Augusto saiu da sala. Mestre Bento Pertunhas, ficando s&oacute;, deu algumas<br \/>\n    voltas cantarolando, sentou-se depois, e pegando na pasta de Augusto, p&ocirc;s-se<br \/>\n    a examinar os pap&eacute;is que ela continha.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo simulava umas varia&ccedil;&otilde;es de trompa, &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a de contrac&ccedil;&otilde;es e esgares dos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> A pasta, v&iacute;tima da indiscri&ccedil;&atilde;o do mestre, era a mesma<br \/>\n    que Augusto trazia, quando o vimos no Mosteiro.<\/p>\n<p> Entre os documentos contidos nela algum achou o mestre Pertunhas mais curioso<br \/>\n    do que as escritas e temas dos disc&iacute;pulos, pois ao l&ecirc;-lo, desenhou-se-lhe<br \/>\n    no semblante a mais intensa curiosidade e cessou de todo a exibi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ac&uacute;stica, que com tanto ardor encetara.<\/p>\n<p> Leu-o at&eacute; ao fim com crescente avidez; e depois, olhando em volta<br \/>\n    de si, para verificar que n&atilde;o era observado, dobrou-o e sorrateiramente<br \/>\n    o escondeu no bolso. Fechou outra vez a pasta, pousou-a no s&iacute;tio de<br \/>\n    onde a tirara, continuou a 1er ou a fingir que lia com toda a aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um livro e encetou novas varia&ccedil;&otilde;es de trompa.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o j&aacute; ! Apre ! Isso &eacute; jantar a vapor &#8212;<br \/>\n    disse o latinista, pondo- se a p&eacute;, logo que Augusto voltou.<\/p>\n<p> E momentos depois sa&iacute;ram juntos.<\/p>\n<p> Querendo poupar os leitores &agrave; sensaboria de assistir a uma li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de latim e a um ensaio da filarm&ocirc;nica, deix&aacute;-los-emos ambos,<br \/>\n    para voltarmos ao Mosteiro.<\/p>\n<p> Ao fim da tarde, depois do jantar, estavam as duas primas sentadas ao parapeito<br \/>\n    do.muro da quinta, de onde, por sobre almargens e pomares vizinhos, a vista<br \/>\n    se espraiava em ampl&iacute;ssimo horizonte at&eacute; umas nuvens, que pareciam<br \/>\n    limit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria saboreava, no seu quarto, as del&iacute;cias da sesta<br \/>\n    habitual.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as brincavam a alguma dist&acirc;ncia, e os risos e os clamores<br \/>\n    delas vinham como um chilrear de p&aacute;ssaros aos ouvidos das duas raparigas,<br \/>\n    que, a cada momento, se surpreendiam em meditativo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> A natureza estava seren&iacute;ssima. No ocidente desenhavam-se estreitos<br \/>\n    e longos tra&ccedil;os nebulosos, a que o sol dava um colorido t&atilde;o<br \/>\n    ardente, que se o pintor paisagista o produzisse na paleta, hesitaria, ao<br \/>\n    pass&aacute;-lo &agrave; tela, com receio de que o acoimassem de exagerado.<br \/>\n    O verde dos campos apresentava a grada&ccedil;&atilde;o vigorosa, que a luz<br \/>\n    de um formoso dia de Inverno costuma dar-lhe.<\/p>\n<p> Cristina interrompeu o sil&ecirc;ncio por fim.<\/p>\n<p> &#8212; O que eu n&atilde;o sei &#8212; principiou ela &#8212; &eacute;<br \/>\n    como o primo Henrique de Souselas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Onze ! &#8212; atalhou a morgadinha, sem desviar os olhos do ponto<br \/>\n    da perspectiva que fitava.<\/p>\n<p> &#8212; Onze qu&ecirc;? &#8212; perguntou Cristina, erguendo os dela.<\/p>\n<p> &#8212; com esta s&atilde;o onze as vezes que, esta tarde, depois de um<br \/>\n    longo sil&ecirc;ncio, abres a boca para me falares no primo Henrique de Souselas,<br \/>\n    uma vez que est&aacute; decidido que seja primo.<\/p>\n<p> Cristina fez um gesto de despeito e corou levemente.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o que queres dizer com isso? &#8212; Eu? Nada. Digo<br \/>\n    s&oacute; que s&atilde;o onze vezes com esta.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sabia que era proibido falar-te no primo Henrique. Bem,<br \/>\n    nesse caso falaremos em outra coisa. Est&aacute; um tempo muito bonito; nem<br \/>\n    parece Dezembro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ; vai magn&iacute;fico para os nabais &#8212; replicou<br \/>\n    Madalena zombeteiramente &#8212; Se nao mudar com a nova Lua &#8212; continuou<br \/>\n    Cristina, ainda formalizada.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; excelente para secar os milhos, que bem precisavam ainda<br \/>\n    disso, principalmente os das terras baixas.<\/p>\n<p> E, acabando de dizer estas palavras, a morgadinha desatou a rir.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei de que te ris ! &#8212; acudiu Cristina, cada vez<br \/>\n    mais s&eacute;ria.<\/p>\n<p> pois n&atilde;o &eacute; esta a conversa de que tu gostas? &#8212; Ai, muito.<br \/>\n    Eu sou doida por estas coisas de lavoura, bem sabes.<\/p>\n<p> E, mudando repentinamente de tom, acrescentou: &#8212; Ora vamos, Criste,<br \/>\n    n&atilde;o te zangues comigo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, mas &eacute; que &agrave;s vezes n&atilde;o te entendo,<br \/>\n    a falar verdade. Vens com umas coisas que metem raiva &#8212; respondeu-lhe<br \/>\n    Cristina, sempre agastada.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; estou arrependida ; pe&ccedil;o perd&atilde;o. Fala l&aacute;<br \/>\n    &agrave; tua vontade no primo Henrique, fala; que eu n&atilde;o contarei as<br \/>\n    vezes que o fizeres.<\/p>\n<p> Cristina reproduziu o gesto de impaci&ecirc;ncia: &#8212; Agrade&ccedil;o<br \/>\n    a tua generosidade, mas j&aacute; n&atilde;o tenho mais que dizer dele agora;<br \/>\n    por isso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pelo menos completa a d&uacute;zia.<\/p>\n<p> &#8212; Lena ! Ent&atilde;o ! Olha que se continuas com isso, fazes-me sair<br \/>\n    daqui.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre queria que te vissem agora, Criste, esses que andam por a&iacute;<br \/>\n    a gabar a docilidade do teu g&ecirc;nio, as branduras da tua &iacute;ndole<br \/>\n    ; queria que te vissem essa cara arrenegada, para saberem que tamb&eacute;m<br \/>\n    h&aacute; um &agrave;cidozinho na tal do&ccedil;ura&#8230; Mas fazes-me a gra&ccedil;a<br \/>\n    de s&oacute; para mim teres dessas franquezas.<\/p>\n<p> Cristina sorriu, ainda que n&atilde;o de todo aplacada, ao ouvir esta reflex&atilde;o<br \/>\n    da prima.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o sabes a raz&atilde;o disso ? &#8212; respondeu-lhe<br \/>\n    ela &#8212; a raz&atilde;o &eacute; o g&ecirc;nio que tens, Lena. O teu gosto<br \/>\n    &eacute; mortificares uma pessoa. N&atilde;o h&aacute; santo que n&atilde;o<br \/>\n    perdesse a paci&ecirc;ncia contigo.<\/p>\n<p> &#8212; Que injusti&ccedil;a ! que ingratid&atilde;o ! Eu, que sou a v&iacute;tima<br \/>\n    das tempestades que o teu g&ecirc;nio pouco expansivo te junta no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a todo o instante ! Se alguma coisa te faz chorar, guardas as l&aacute;grimas<br \/>\n    para o meu quarto ; se te irritam, vens desafogar as tuas c&ograve;lerazinhas<br \/>\n    sobre a minha cabe&ccedil;a. E pagas-me assim! &#8212; &Eacute;s muito infeliz<br \/>\n    comigo. Pobre Lena ! &#8212; Vamos, vamos, Criste ! esquece o que eu disse<br \/>\n    h&aacute; pouco. N&atilde;o te posso ver assim. &#8212; E tomando um tom natural,<br \/>\n    mas sob o qual transparecia ainda certa mal&iacute;cia, Madalena continuou<br \/>\n    : &#8212; Pois &eacute; verdade, dizias tu que n&atilde;o sabias por que o<br \/>\n    primo Henrique de Souselas&#8230;<\/p>\n<p> Cristina fez um movimento impaciente, como para levantar-se.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o que &eacute; isso? N&atilde;o me aceitas a expia&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    &#8212; perguntou Madalena, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ; n&atilde;o quero que se fale mais no Sr. Henrique de<br \/>\n    Souselas.<\/p>\n<p> Vejo que te n&atilde;o &eacute; agrad&aacute;vel que as outras se ocupem<br \/>\n    dele. Sejam quais forem as raz&otilde;es que tens para isso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Bravo ! Foi admir&aacute;vel de maldade o entono com que disseste<br \/>\n    esse : &laquo;Sejam quais forem as raz&otilde;es&raquo;. E venham-me falar<br \/>\n    na candura desta crian&ccedil;a! &#8212; Eu n&atilde;o quero dizer&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O que queres dizer, n&atilde;o sei ; mas vejo que n&atilde;o &eacute;s<br \/>\n    senhora tua quando se fala neste assunto.<\/p>\n<p> &#8212; Que lembran&ccedil;a ! &#8212; tornou Cristina, cada vez mais embara&ccedil;ada<br \/>\n    &#8212; pois imaginas deveras que eu?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E porque n&atilde;o ? &#8212; Lena ! &#8212; Nao h&aacute; nada<br \/>\n    mais natural.<\/p>\n<p> &#8212; Se queres, juro-te&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; atalhou a morgadinha. pondo-lhe a m&atilde;o nos l&aacute;bios.<br \/>\n    &#8212; Isso n&atilde;o, que &eacute; mais s&eacute;rio. Jurar n&atilde;o<br \/>\n    te deixo eu. Conhe&ccedil;o os escr&uacute;pulos da tua consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    e n&atilde;o quero obrigar-te a remorsos. &laquo;Juro&raquo;! E com que ousadia<br \/>\n    ias pronunciar um juramento falso ! &#8212; Falso ! &#8212; Falso, sim ; falso<br \/>\n    como os que o s&atilde;o. Olha, minha pobre Criste, queres ent&atilde;o que<br \/>\n    te fale com t&ocirc;da a franqueza ? Esta conversa trouxe-a eu de prop&oacute;sito<br \/>\n    para confirmar umas suspeitas que se me formaram e que vejo agora que eram<br \/>\n    fundadas.<\/p>\n<p> &#8212; Suspeitas! que suspeitas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; O primo Henrique de Souselas deixou em ti uma tal ou qual impress&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Lena ! &#8212; Conheci isso ainda quando ele c&aacute; estava ;<br \/>\n    verifiquei-o depois e agora. Ent&atilde;o tem ju&iacute;zo. Comigo s&ecirc;<br \/>\n    sempre o que tens sido. Eu gozo h&aacute; muito do privil&eacute;gio de conversar<br \/>\n    &agrave; vontade contigo e de te ver sem aquela timidez que tens diante dos<br \/>\n    outros. com o teu g&ecirc;nio, precisas de uma pessoa, como eu, com quem n&atilde;o<br \/>\n    tenhas acanhamento e em quem possas at&eacute; descarregar algumas maldadezitas<br \/>\n    ; e acredita que me lisonjeio com me dares a prefer&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como imaginaste?.., &#8212; Continuas ? N&atilde;o tens de que<br \/>\n    te envergonhar pelo interesse que porventura te inspirou esse rapaz. Henrique<br \/>\n    de Souselas &eacute; elegante, &eacute; espirituoso, af&aacute;vel, possui<br \/>\n    uma intelig&ecirc;ncia cultivada e muito trato do mundo&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Fa&ccedil;a favor de me ouvir &#8212; atalhou Madalena, pondo um<br \/>\n    dedo nos l&aacute;bios. Reconhecendo todas essas qualidades naquele nosso<br \/>\n    primo, n&atilde;o quero por isso concluir que seja natural e prudente denunciares-te<br \/>\n    j&aacute;. E nem receio que isso aconte&ccedil;a, para te falar sinceramente,<br \/>\n    porque te conhe&ccedil;o o g&ecirc;nio t&iacute;mido e porque&#8230; porque te<br \/>\n    conhe&ccedil;o o g&ecirc;nio t&iacute;mido e mais nada.<\/p>\n<p> Havia mais alguma coisa, havia, mas n&atilde;o era coisa que se dissesse,<br \/>\n    Madalena sabia demais que Henrique n&atilde;o sa&iacute;ra daquela primeira<br \/>\n    visita demasiado impressionado por a imagem de Cristina ; sabia talvez, suspeitava<br \/>\n    decerto, n&atilde;o me atrevo a dizer que lisonjeada algum tanto, que no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do h&oacute;spede de Alvapenha reinava outra imagem mais persistente. Mas<br \/>\n    vejam as leitoras se, sendo este o seu pensamento, ela o poderia formular?<br \/>\n    O rem&eacute;dio pois era completar a frase como a completou.<\/p>\n<p> Cristina j&aacute; n&atilde;o tinha ousadia para negar, nem ainda coragem<br \/>\n    para confessar. Encostando a face &agrave; m&atilde;o, calou-se e deixou falar<br \/>\n    Madalena.<\/p>\n<p> A morgadinha prosseguiu : &#8212;-&Eacute; preciso que saibas, Criste, que<br \/>\n    &eacute; mais f&aacute;cil conhecer os defeitos de uma pessoa, do que as suas<br \/>\n    boas qualidades. Os defeitos s&atilde;o imprudentes e linguareiros, denunciam-se,<br \/>\n    d&atilde;o sinal de si, basta meia hora para se descobrirem em qualquer lugar<br \/>\n    que habitem. As boas qualidades, n&atilde;o; essas sao modestas, humildes,<br \/>\n    discretas; sabem esconder-se. S&atilde;o precisos anos para as descobrir todas.<br \/>\n    Mas com que olhos de espanto me est&aacute;s fitando ! Parece que te causa<br \/>\n    estranheza o meu serm&atilde;o ? Eu te digo a que ele vem. Logo que falei<br \/>\n    com este nosso primo&#8230; e quem sabe se o futuro vir&aacute; confirmar, em<br \/>\n    rela&ccedil;&atilde;o a mim, esse t&iacute;tulo, que por fantasia lhe dou?<br \/>\n    escusas de corar por eu dizer isto, Criste&#8230;; mas, dizia eu, logo que falei<br \/>\n    com ele, saltaram-me aos olhos muitos dos seus defeitos.<\/p>\n<p> &#8212; Quais s&atilde;o? &#8212; perguntou Cristina com viveza.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega ; s&atilde;o ligeiros, felizmente, e parece-me que os poder&aacute;<br \/>\n    ainda perder; sobretudo se continuar a viver aqui. Quis-me tamb&eacute;m logo<br \/>\n    parecer que no fundo havia uma mina de bons sentimentos por explorar. Nasceu<br \/>\n    logo em mim a vontade de c sondar, a ver se conseguia purific&aacute;-lo do<br \/>\n    que nele houvesse de menos her&oacute;ico. Ent&atilde;o que queres? para a<br \/>\n    aldeia era um passatempo como outro qualquer. Mas redobrou-se em mim este<br \/>\n    desejo e revestiu em mim mais s&eacute;rio car&aacute;cter, desde que vi a<br \/>\n    impress&atilde;o que este sobrinho da tia Doroteia te causara.<\/p>\n<p> &#8212; Lena ! como te deu para supor que eu me apaixonei assim em poucas<br \/>\n    horas? Julgo que me imaginas apaixonada? &#8212; N&atilde;o, ainda n&atilde;o;<br \/>\n    inclinada, agradada, atra&iacute;da,., ou outro qualquer termo desta for&ccedil;a,<br \/>\n    que deixarei &agrave; tua escolha, isso sim. Para isso n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso muito tempo. As raz&otilde;es, pelas quais julguei isto, dispensa-<br \/>\n    me de tas dizer, que pouco valem. Sup&otilde;e que foi por um tacto especial,<br \/>\n    por uma qualidade oculta, como a do tino que dizem que t&ecirc;m certos m&eacute;dicos<br \/>\n    para reconhecerem o mal sem estudarem muito o doente.<\/p>\n<p> &#8212; Pois o tino enganou-te.<\/p>\n<p> &#8212; Enganaria ; mas deixa-me continuar. Se este senhor primo intruso<br \/>\n    for realmente o que eu imagino que &eacute;, resta-me prepar&aacute;-lo para<br \/>\n    o tornar mais digno do amor desta boa Criste, que em tal caso favorecerei<br \/>\n    ; se n&atilde;o for, declaro-lhe j&aacute; guerra e guerra de morte. A ti<br \/>\n    competia fazer isso tudo, como a mais interessada, mas desconfiei da tua credulidade<br \/>\n    e boa f&eacute; e da tua experi&ecirc;ncia. Olha, estou certa que o que mais<br \/>\n    te atraiu em Henrique foi exactamente o que nele h&aacute; de pior. Certo<br \/>\n    verniz mentiroso, certo colorido, que &eacute; precise ter visto muita vez,<br \/>\n    e em muitos indiv&iacute;duos diferentes, para se ter na conta devida.<\/p>\n<p> Ilude, agrada a quem n&atilde;o est&aacute; costumado, e pode causar graves<br \/>\n    enganos e desenganos mais graves ainda. Por enquanto o que ele nos mostra<br \/>\n    &eacute; mais da sociedade em que vive, do que dele pr&oacute;prio. &Eacute;<br \/>\n    necess&aacute;rio deixar cair a primeira capa, para que o natural apare&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sabia que era assim f&aacute;cil enganar-se uma pessoa<br \/>\n    a respeito de outra &#8212; notou Cristina, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Se &eacute; ! Lembras-te do que tantas vezes conta tua m&atilde;e<br \/>\n    ? Que, quando h&aacute; anos foi a Lisboa, comprou l&aacute; por bom pre&ccedil;o<br \/>\n    um cofrezinho que ela supunha precios&iacute;ssimo, e que chora hoje a sua<br \/>\n    tenta&ccedil;&atilde;o, desde que o verniz brilhante, que ele tinha, caiu<br \/>\n    e ficou &agrave; vista a realidade? pois o mesmo acontece muitas vezes em<br \/>\n    contratos de outra ordem e bem mais s&eacute;rios do eme este. H&aacute; vernizes<br \/>\n    maravilhosos, que iludem os inexperientes.<\/p>\n<p> Houve um instante de sil&ecirc;ncio, no fim do qual Cristina perguntou,<br \/>\n    olhando pela primeira vez fita para Madalena: &#8212; Ora diz-me, Lena, qual<br \/>\n    ser&aacute; a raz&atilde;o pela qual eu n&atilde;o devo acreditar que esses<br \/>\n    pensamentos te ocorreram, porque era o teu destino, e n&atilde;o o meu, que<br \/>\n    vias dependente do estudo que fazias? A morgadinha fixou na prima um olhar<br \/>\n    triste e cheio de amargas recrimina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Por uma raz&atilde;o muito poderosa, Criste, porque ias abrir o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o a um sentimento mau, que macularia o teu car&aacute;cter<br \/>\n    generoso e c&acirc;ndido &#8212; a desconfian&ccedil;a. Porque me ofenderias,<br \/>\n    duvidando da lealdade, com que te falo, quando te falo s&eacute;ria ; e porque<br \/>\n    me farias mal sem necessidade e imerecidamente, pois que a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    me diz que to n&atilde;o merecia. Satisfaz-te esta raz&atilde;o? A voz de<br \/>\n    Madalena perdera o tom de ironia, que &agrave;s vezes tinha, e tomara quase<br \/>\n    o da como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Cristina arrependeu-se logo do que dissera, e, tamb&eacute;m comovida, apertou<br \/>\n    as m&atilde;os da amiga.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;as caso do que eu disse, Lena ; perdoa-me.<br \/>\n    Quando eu duvidar de ti, pedirei a Deus que me tire a vida, porque terei j&aacute;,<br \/>\n    para tudo e para sempre, envenenado o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A morgadinha readquiriu outra vez o seu bom humor.<\/p>\n<p> &#8212; Estamos quase a cair no sentimentalismo. Cautela. Saldemos antes<br \/>\n    as nossas contas, como mulheres de juizo. Em compensa&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    pequena ofensa que me fizeste, vais-me fazer uma confiss&atilde;o formal,<br \/>\n    a que at&eacute; agora tens evitado. Ora confessa, adivinhei o estado do teu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o ? Diz.<\/p>\n<p> Cristina hesitou, &#8212; Vamos &#8212; insistiu a morgadinha &#8212; acredita<br \/>\n    que preciso de uma declara&ccedil;&atilde;o para me guiar&#8230; E cr&ecirc; que<br \/>\n    &eacute; para bem teu.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres que te diga ? Eu n&atilde;o me sinto apaixonada.<\/p>\n<p> &#8212; Mas j&aacute; te disse que me bastava um termo menos violento&#8230;<\/p>\n<p> um &laquo;agradada&raquo;, por exemplo.<\/p>\n<p> &#8212; Confesso que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;-Olha, se queres, podes at&eacute; parar a&iacute;. Esse &laquo;confesso<br \/>\n    que&#8230;&raquo; j&aacute; diz muito. Agora deixa-te guiar por mim. Eu vigiarei.<br \/>\n    Afian&ccedil;o-te que n&atilde;o corro o perigo ae me apaixonar por ele ;<br \/>\n    creio que h&aacute; ali um excelente cora&ccedil;&atilde;o, mas que queres?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; o tipo que me agrada&#8230;<\/p>\n<p> 0 meu ideal, como se costuma dizer.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o qual &eacute; o teu ideal ? &#8212; Ai, eu sou muito<br \/>\n    exigente. Desespero de o encontrar. Quero-o assim uma esp&eacute;cie de arcanjo<br \/>\n    S. Miguel, &acirc;nimo de querreiro em figura de querubim ; e n&atilde;o sei<br \/>\n    onde o procure.<\/p>\n<p> Neste sentido se prolongou o di&aacute;logo entre as duas primas, at&eacute;<br \/>\n    que D. Vit&oacute;ria, findando a sua sesta, veio ter com elas &agrave; quinta.<br \/>\n    Segundo o costume, ralhava contra os criados, a quem, n&atilde;o sei por que<br \/>\n    processo, atribula umas dores de cabe&ccedil;a com que acordara.<\/p>\n<p> No dia seguinte, Henrique voltou de manh&atilde; ao Mosteiro ; redobrou<br \/>\n    de galanteio com Madalena, a qual redobrou de ironia. Cristina j&aacute; mal<br \/>\n    podia disfar&ccedil;ar a pena que lhe causava o pouco que era atendida, mas<br \/>\n    a sua timidez n&atilde;o a deixava lutar.<\/p>\n<p> De tarde, Henrique teve de condescender com o padre, procurador de Alvapenha,<br \/>\n    que se prontificou a mostrar-lhe as raridades e monumentos da terra. Assim,<br \/>\n    com grande pesar seu, foi obrigado a renunciar a nova visita &agrave;s senhoras<br \/>\n    do Mosteiro, para gastar as express&otilde;es da sua admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    diante das alfaias da sacrist&iacute;a paroquial ; da tosca escultura de n&atilde;o<br \/>\n    sei que imagem de santo, a qual passava por um primor ; de uma sala nua, com<br \/>\n    uma mesa ao centro, forrada de baeta verde e cadeiras &agrave; volta, que<br \/>\n    era a sala das sess&otilde;es do corpo municipal ; e de umas pir&acirc;mides<br \/>\n    de ripa, que tinham servido, havia oito anos, em festejos oficiais.<\/p>\n<p> como e de supor, Henrique passou uma tarde deliciosa.<\/p>\n<p> DOIS dias depois da Chegada de Henrique, e naquele que se destinara para<br \/>\n    o passeio &agrave; ermida, Cristina foi mais madrugadora do que as aves. A<br \/>\n    hora, a que estas ainda se n&atilde;o ouvem chilrear, j&aacute; a prima de<br \/>\n    Madalena abandonava o leito, receosa de se fazer esperar pelos companheiros<br \/>\n    da projectada excurs&atilde;o matinal. Quase n&atilde;o dormira t&ocirc;da<br \/>\n    a noite aquela rapariga, com tal preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As estrelas viram-na erguer, e tiveram muito tempo de se despedirem dela,<br \/>\n    antes de se esconderem discretas ante o aparecimento do dia.<\/p>\n<p> Cristina vestiu-se &agrave; pressa e dirigiu-se ao quarto de Madalena, Esta<br \/>\n    dormia ainda. O projecto de passeio &agrave; ermida n&atilde;o a alvoro&ccedil;ara<br \/>\n    tanto. Cristina foi acord&aacute;-la ao leito.<\/p>\n<p> A morgadinha abriu os olhos e fitou-os admirada na prima.<\/p>\n<p> &#8212; Que queres tu, Cristina? Que lembran&ccedil;a foi essa hoje de andares<br \/>\n    estremunhando a casa esta noite? &#8212; Levanta-te, pregui&ccedil;osa, levanta-te.<br \/>\n    N&atilde;o o dizia eu ontem? Ent&atilde;o s&atilde;o estas as madrugadas em<br \/>\n    que falavas? &#8212; Decerto que n&atilde;o s&atilde;o madrugadas ; isto &eacute;<br \/>\n    noite &eacute; o que &eacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Dentro em pouco &eacute; dia. Queres ver? E, dizendo isto, Cristina<br \/>\n    abriu para tr&aacute;s as portas das janelas e correu as cortinas.<\/p>\n<p> A estrela da manh&atilde;, V&eacute;nus, aquela brilhante e ao mesmo tempo<br \/>\n    suave estrela, que umas vezes assiste no crep&uacute;sculo &agrave;s melancol&iacute;as<br \/>\n    da natureza, outras vezes na aurora ao renascimento dos seus j&uacute;bilos,<br \/>\n    cintilava mesmo defronte do leito de Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc;s ? &#8212; disse Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Muito pouco. &Eacute; esse o teu sol? como vai alto! &Eacute; pena<br \/>\n    que n&atilde;o alumie melhor do que esta lamparina.<\/p>\n<p> Cristina sentia redobrar com estas delongas a sua impaci&ecirc;ncia, quase<br \/>\n    de crian&ccedil;a. &#8226; &#8212; Anda, Lena, anda. Assim n&atilde;o chegamos<br \/>\n    a ver do alto da ermida o romper do Sol.<\/p>\n<p> &#8212; Pois queres ver isso de l&aacute; ? ! Que crueldade ! Em uma manh&atilde;<br \/>\n    de Dezembro ! &#8212; Est&aacute; t&atilde;o bonita, que parece de Primavera,<br \/>\n    &#8212; Triste lembran&ccedil;a a nossa ontem de combinarmos este passeio.<\/p>\n<p> Isto &eacute; l&aacute; coisa que se fa&ccedil;a? Vale por uma viagem aos<br \/>\n    p&oacute;los.<\/p>\n<p> Cristina n&atilde;o fazia sen&atilde;o ir do leito de Madalena para a janela<br \/>\n    e voltar da janela para o leito, em virtude daquela irresist&iacute;vel necessidade<br \/>\n    de movimento, embora sem ordem nem fim, que experimentamos quando nos deixamos<br \/>\n    apossar da impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o fazes id&eacute;ia como est&aacute; bonito c&aacute;<br \/>\n    fora ; nalguns pontos ainda se v&ecirc; neve.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, que agrad&aacute;vel e tentadora beleza! Ainda se v&ecirc; neve!&#8230;<\/p>\n<p> Parece-me que j&aacute; estou gelada&#8230; com essa palavra tiraste-me o alento<br \/>\n    que ia ganhando. V&ecirc;s? &#8212; Mas nao est&aacute; frio ; at&eacute;<br \/>\n    parece que aqueceu o tempo. Ent&atilde;o, Lena!&#8230; Eles&#8230; n&atilde;o tardam<br \/>\n    por ai. Cuidas que te vai custar muito, e &eacute; um engano; aqui estou eu,<br \/>\n    que n&atilde;o sinto frio nenhum.<\/p>\n<p> &#8212; Ora, mas tu est&aacute;s em condi&ccedil;&otilde;es muito particulares.<br \/>\n    Quem tera uma fogueira no cora&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o precisa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; principias com as tuas coisas l &#8212; Eu nao&#8217; sei ;<br \/>\n    o que &eacute; certo &eacute; que esse teu entusiasmo pelos passeios matutinos<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; natural. Quantas vezes recusaste acompanhar- me quando<br \/>\n    eu tos propunha? Ora, se me d&aacute;s licen&ccedil;a, eu explico isso.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o quero saber de explica&ccedil;&otilde;es ; veste-te,<br \/>\n    anda.<\/p>\n<p> &#8212; Seja ! Infeliz lembran&ccedil;a a deste passeio. E foi daquela tia<br \/>\n    Vit&oacute;ria, que nem por isso nos quis acompanhar. N&atilde;o, que j&aacute;<br \/>\n    tem juizo ; dorme a estas horas o sono da madrugada, que &eacute; uma consola&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Que sorte de invejar! E a morgadinha, continuando assim a exagerar o sacrificio<br \/>\n    daquela madrugada e a aludir aos motivos secretos a que atribu&iacute;a o<br \/>\n    ardor e heroicidade da prima ante os rigores de Dezembro, tudo isto de prop&oacute;sito<br \/>\n    para a ver impaciente, principiou a vestir-se.<\/p>\n<p> Cristina ficara &agrave; janela, espiando os progressos do amanhecer e transmitindo<br \/>\n    &agrave; prima as observa&ccedil;&otilde;es que fazia.<\/p>\n<p> &#8212; Olha, eu que digo?&#8230; j&aacute; o Manuel vai abrir o port&atilde;o&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o ouves os pardais?&#8230; &Eacute; dia claro j&aacute;&#8230; Havemos de<br \/>\n    chegar com sol &agrave; ermida, o que n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma&#8230;<br \/>\n    Avia-te, Lena&#8230; H&aacute;s-de ser a &uacute;ltima a estar pronta&#8230; A&iacute;<br \/>\n    vai ja o Luis com o almo&ccedil;o. &Eacute; que n&atilde;o chegamos l&aacute;<br \/>\n    sen&atilde;o ao meio-dia. Ele a&iacute; vem ! Eu bem digo.<\/p>\n<p> &#8212; Ele ! Quem &eacute; esse ele que a&iacute; vem ? &#8212; Pois quem<br \/>\n    h&aacute;-de ser ? Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; o primo Henrique que nos<br \/>\n    acompanha ? &#8212; &Euml; o primo Henrique, &eacute; o Sr. Augusto e &eacute;<br \/>\n    o Luis, que tua m&atilde;e teimou em mandar com o almo&ccedil;o. N&atilde;o<br \/>\n    sabia qual dos tr&ecirc;s te merecia as honras de um &laquo;ele&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; Eu dizia o primo Henrique, que j&aacute; a&iacute; est&aacute; no<br \/>\n    p&aacute;tio &#8212; disse Cristina, que nesta ocasi&atilde;o correspondia<br \/>\n    ao cumprimento que o rec&eacute;m- -chegado lhe fazia de baixo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, com efeito j&aacute; chegou? &#8212; perguntou a morgadinha,<br \/>\n    admirada.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo ! Nunca o esperei. Ai, Criste, que me parece que ele tamb&eacute;m<br \/>\n    tem alguma coisa no cora&ccedil;&atilde;o ! &#8212; Tamc&eacute;m o julgo<br \/>\n    &#8212; respondeu Cristina, despeitada ; &#8212; &eacute; ver como ontem te<br \/>\n    falou.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega. Quando o cora&ccedil;&atilde;o tem alguma coisa, n&atilde;o<br \/>\n    se fala assim com a pessoa que causou esse mal.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei o que ele me est&aacute; a dizer &#8212; disse Cristina,<br \/>\n    olhando para o p&aacute;tio. &#8212; Posso abrir a janela, Lena? &#8212; Eu<br \/>\n    j&aacute; estou preparada para sofrer todas as crueldades esta manh&atilde;.<br \/>\n    Abre l&aacute; a janela, abre. Fala-lhe.<\/p>\n<p> Cristina correu a vidra&ccedil;a.<\/p>\n<p> A voz de Henrique chegou distintamente aos ouvidos de Madalena.<\/p>\n<p> I &#8212; Ent&atilde;o aquela grande madrugadora da nossa prima, onde est&aacute;<br \/>\n    ? &#8212; perguntou ele a Cristina.<\/p>\n<p> Cristina respondeu, sorrindo: &#8212; Est&aacute; a fazer a dilig&ecirc;ncia<br \/>\n    que pode para ficar &#8216;pronta antes do meio-dia.<\/p>\n<p> &#8212; Oh, que vingan&ccedil;a a minha ! Ela que tanto falou da minha indo<br \/>\n    l&ecirc;ncia ! &#8212; disse Henrique jovialmente, e continuou falando sempre<br \/>\n    de Madalena, e elevando a voz &agrave;s vezes para se dirigir directamente<br \/>\n    a ela, mas sempre sem receber resposta.<\/p>\n<p> Esta insist&ecirc;ncia impacientou Cristina, para quem ele nem urn galanteio<br \/>\n    tivera ainda.<\/p>\n<p> &#8212; De maneira que n&oacute;s, priminha &#8212; continuou Henrique &#8212;<br \/>\n    damos uma li&ccedil;&atilde;o de mestre &agrave;quela arrogante de ontem.<br \/>\n    Estou ansioso porque ela nos apare&ccedil;a; quero ver a coragem com que ousa<br \/>\n    apresentar- se.<\/p>\n<p> &#8212; Eu vou cham&aacute;-la &#8212; disse secamente Cristina, e veio<br \/>\n    dizer a Madalena, com certo modo, que n&atilde;o podia escapar a esta : &#8212;<br \/>\n    Olha se apareces ali ao Sr. Henrique de Souselas, que n&atilde;o descansa<br \/>\n    enquanto te n&atilde;o v&ecirc;.<\/p>\n<p> A morgadinha, que acabava de ajustar ao espelho as trancas, dando ao penteado<br \/>\n    a mais singela e graciosa disposi&ccedil;&atilde;o, voltou-se para a priminha<br \/>\n    e disse-lhe sorrindo : &#8212; Isso s&atilde;o j&aacute; ci&uacute;mes ? Mal<br \/>\n    sabes quanto gosto de te ver assim I Ao menos h&aacute; j&aacute; vida nesse<br \/>\n    teu cora&ccedil;&atilde;o, minha pobre pequena. O que te pe&ccedil;o &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o me odeies, s&oacute; por que esse rapaz se lembrou de perguntar<br \/>\n    por quem n&atilde;o via.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute;s a imaginar ci&uacute;mes, como ontem imagina vas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Amores ? justo ; e com a mesma felicidade em acertar ; podes ir<br \/>\n    acrescentando. Mas, parece-me que a&iacute; est&aacute; mais algu&eacute;m<br \/>\n    no p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Oi&ccedil;o falar. Vai ver. Ser&aacute; Augusto? Nesse caso, espera-se s&oacute;<br \/>\n    por mim para completar a caravana. E eu estou pronta. Marchemos.<\/p>\n<p> Augusto havia efectivamente chegado ao p&aacute;tio.<\/p>\n<p> Henrique trocara com ele alguns cumprimentos, e principiaram depois ambos<br \/>\n    a passear, um ao lado do outro, &agrave; espera das que deviam ser-lhes companheiras<br \/>\n    na romagem.<\/p>\n<p> A conversa manteve-se pouco animada. Augusto n&atilde;o era expansivo com<br \/>\n    as pessoas, a quem o n&atilde;o prendiam h&aacute;bitos de longa intimidade<br \/>\n    ; Henrique, talvez por n&atilde;o conhecer a extens&atilde;o e natureza dos<br \/>\n    conhecimentos de Augusto, abstinha-se de falar dos assuntos em que entraria<br \/>\n    de mais vontade. Falaram pois de coisas indiferentes a ambos, e quase frivolas;<br \/>\n    no frio, na chuva, no Inverno e no Ver&atilde;o, nos pr&oacute;s e contras<br \/>\n    da vida do campo e de v&aacute;rios outros assuntos secos de si e j&aacute;<br \/>\n    al&eacute;m disso muito esgotados, e tudo cortado por aquelas pausas e sil&ecirc;ncios<br \/>\n    constrangidos e insuport&aacute;veis, que o leitor h&aacute;-de conhecer por<br \/>\n    experi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Digamos n&oacute;s a verdade ; estes dois homens n&atilde;o sentiam um pelo<br \/>\n    outro aquela s&uacute;bita e inexplic&aacute;vel simpatia, que abre os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e d&aacute; margens a confidencias.<\/p>\n<p> Nos dois curtos encontros que tinham tido, manifestara-se entre eles certa<br \/>\n    frieza mais que cerimoni&aacute;tica, uma quase desconfian&ccedil;a instintiva.<\/p>\n<p> Chegaram as senhoras. Foram acolhidas com prazer por ambos.<\/p>\n<p> Ainda quando n&atilde;o fossem senhoras o seriam; a chegada de Um terceiro,<br \/>\n    quando dois indiferentes est&atilde;o na presen&ccedil;a um do outro, em entrevista<br \/>\n    for&ccedil;ada e fatigadora, &eacute; sempre saudada interiormente como uma<br \/>\n    reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Madalena e Cristina vinham ambas formosas, com a esp&eacute;cie de manti<br \/>\n    lhas ou capuzes de que usavam, adequados aos rigores de uma manh&atilde; de<br \/>\n    Dezembro.<\/p>\n<p> Apareceram ambas a rir. Foi o caso que, passando pr&oacute;ximo do quarto<br \/>\n    de D. Vit&oacute;ria, p&eacute; ante p&eacute;, para n&atilde;o a acordarem,<br \/>\n    esta pressentiu- as, e mesmo do leito perguntou-lhes: &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; v&atilde;o, meninas? &#8212; Vamos, tia ; vamos, mama &#8212; respondsram<br \/>\n    as duas a um tempo &#8212; O Luis j&aacute; partiu com o almo&ccedil;o? &#8212;<br \/>\n    J&aacute; partiu, j&aacute;, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8212; E ides agasalhadas ? &#8212; como se f&ocirc;ssemos para a Sib&eacute;ria<br \/>\n    &#8212; respondeu Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Olhai, sempre levem os guarda-chuvas por cautela. E ide com Nossa<br \/>\n    Senhora.<\/p>\n<p> &#8212; C&aacute; os levamos. Adeus, tia ; adeus, mama.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, filhas ; at&eacute; logo, se Deus quiser. Olhai l&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o vos estaf&eacute;is.<\/p>\n<p> Ora os tais guarda-chuvas &eacute; que n&atilde;o iam. Para qu&ecirc;? com<br \/>\n    uma manh&atilde; daquelas, que nem de Inverno parecia, pois que at&eacute;<br \/>\n    o frio abrandara com o vento ! Por isso &eacute; que vinham ainda a rir.<\/p>\n<p> Chegando ao p&aacute;tio, cumprimentaram os seus dois companheiros.<\/p>\n<p> Henrique, depois de formular um galanteio a Madalena, ofereceu-lhe atenciosamente<br \/>\n    o bra&ccedil;o, que Madalena recusou com alguma impaci&ecirc;ncia, porque<br \/>\n    se lembrou de Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Muito obrigada, primo &#8212; disse ela com vivacidade. &#8212;<br \/>\n    Mas &eacute; preciso que o advirta de que n&atilde;o vamos passear pelas avenidas<br \/>\n    de um parque. Vamos trepar montes, atravessar ribeiras, costear precip&iacute;cios,<br \/>\n    e para tudo isso &eacute; necess&aacute;ria a completa liberdade de movimentos.<\/p>\n<p> H&aacute; ocasi&otilde;es, em que melhor nos servem os nossos dois bra&ccedil;os,<br \/>\n    do que o bra&ccedil;o de outro, embora seja o de um her&oacute;i.<\/p>\n<p> &#8212; Mas decerto que n&atilde;o &eacute; &agrave; borda dos precipicios<br \/>\n    que esse aux&iacute;lio se escusa &#8212; replicou Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;, muitas vezes &eacute;. H&aacute; bordas t&atilde;o estreitas,<br \/>\n    que mal cabe nelas uma pessoa s&oacute;; felizmente que a natureza nos d&aacute;<br \/>\n    um bra&ccedil;o ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> um bra&ccedil;o de giestas, por exemplo.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc; l&aacute;, Lena &#8212; disse Cristina ao ouvido da prima.<br \/>\n    &#8212; Talvez seja melhor que aceites. Resta-me, a mim, o bra&ccedil;o de<br \/>\n    Augusto.<\/p>\n<p> &#8212; Se continuas com essas loucuras, Cristina, obrigas-me a odiar-te.<\/p>\n<p> Sr, Augusto &#8212; continuou voltando-se para este &#8212; espero que tome<br \/>\n    a direc&ccedil;&atilde;o do nosso passeio; ningu&eacute;m melhor conhece os<br \/>\n    mais belos pontos de vista ; leve-nos por l&aacute;, embora tenhamos de comprar<br \/>\n    as belezas &agrave; custa de perigos e de fadigas. Partamos ! O monte onde<br \/>\n    se erigira a capela da Senhora da Sa&uacute;de, afamada pelos seus milagres<br \/>\n    e pela sua romaria num c&iacute;rculo de muitas l&eacute;guas de raio, era<br \/>\n    uma elevada rocha vulc&acirc;nica, que dominava as freguesia rurais de mais<br \/>\n    de dois concelhos. Estendiam-se-lhe aos p&eacute;s as alcatifas da mais rica<br \/>\n    vegeta&ccedil;&atilde;o ; banhava-lhos a &aacute;gua dos ribeiros, das levadas<br \/>\n    e torrentes, art&eacute;rias fertilizadoras de extensas veigas e pomares;<br \/>\n    mas ele, o gigante orgulhoso e selvagem, recebia aqueles preitos, olhava sobranceiro<br \/>\n    aquela opul&ecirc;ncia, e, como se fizesse gala da sua rudeza, em vez de cobrir<br \/>\n    os ombros com o manto real, que lhe estendiam aos p&eacute;s, permanecia &aacute;spero,<br \/>\n    severo e nu, como nas &eacute;pocas primitivas, em que uma convuls&atilde;o<br \/>\n    tremenda o evocara do seio da terra, para o consolidar em colosso.<\/p>\n<p> Apenas, como s&iacute;mbolo de realeza, coroava-lhe a fronte alta a alameda,<br \/>\n    que, havia perto de um s&eacute;culo, a piedade crist&atilde; plantara em<br \/>\n    volta da ermida, para refrig&egrave;rio e conforto dos devotos crist&atilde;os<br \/>\n    que ali iam. Era custosa a ascens&atilde;o por o lado, por onde os nossos<br \/>\n    romeiros, contra os conselhos de D. Vit&oacute;ria, a empreendiam. Quando,<br \/>\n    ao sair de uma longa rua, apertada entre muros de quintas, Henrique achou<br \/>\n    de s&uacute;bito diante de si a mole imensa e talhada quase a pique, que lhe<br \/>\n    disseram tinha de subir; ele, que raro em Lisboa estendia al&eacute;m do Rossio<br \/>\n    os seus passeios, com medo das &iacute;ngremes cal&ccedil;adas da cidade alta,<br \/>\n    julgou ouvir um absurdo.<\/p>\n<p> Parou a contemplar o monte, como hesitando em atravessar o riacho, que dele<br \/>\n    o separava.<\/p>\n<p> O riacho, engrossado pelas &aacute;guas da chuva dos dias anteriores, levantava<br \/>\n    um bramido atordoador ao cair em toalha dos a&ccedil;udes e ao escoar r&aacute;pido<br \/>\n    pela cal da azenha, que lhe obstru&iacute;a o leito e cuja enorme roda movia.<\/p>\n<p> &Agrave;quela hora, ainda pouco clara da madrugada, este s&iacute;tio da<br \/>\n    raiz do monte tinha n&atilde;o sei que aspecto selvagem e melanc&oacute;lico,<br \/>\n    que quase infundia pavor. Os altos choupos, em que se enroscavam, como serpentes<br \/>\n    negras, os troncos flexuosos e despidos das vides ; mais longe, o canavial,<br \/>\n    ondulando ligeiramente ao perpassar atrav&eacute;s dele a brisa da madrugada,<br \/>\n    e, aqui e al&eacute;m, um desses degenerados alo&eacute;s dos nossos climas,<br \/>\n    d&eacute;beis e enfezados, como se os devorasse a nostalgia da sua verdadeira<br \/>\n    p&aacute;tria, eram acess&oacute;rios que concorriam para o efeito geral do<br \/>\n    quadro.<\/p>\n<p> A morgadinha, percebendo a hesita&ccedil;&atilde;o de Henrique, deu-lhe<br \/>\n    alento com lan&ccedil;ar-lhe em rosto a sua pusilanimidade. Henrique encheu-<br \/>\n    -se de brios e atravessou, com n&atilde;o menor denodo do que os outros, o<br \/>\n    riacho, por o passadi&ccedil;o de altas pedras, colocadas a pequena dist&acirc;ncia<br \/>\n    umas das outras, e que as &aacute;guas a cada momento amea&ccedil;avam cobrir.<\/p>\n<p> Atiavessada a corrente, seguia-se escalar o monte; para isso tornava-se<br \/>\n    indispens&aacute;vel caminhar em continuados ziguezagues, aproveitando os<br \/>\n    cortes que a fouce do tempo conseguira abrir naquela massa granitica e os<br \/>\n    toscos degraus, com que uma arte rudimentar procurara facilitar, por aquele<br \/>\n    lado, o acesso da ermida &agrave; piedade dos devotos.<\/p>\n<p> As dificuldades para Henrique eram continuas.<\/p>\n<p> A cada momento os embara&ccedil;os deste forneciam motivo para risos da<br \/>\n    parte de Madalena. Cristina n&atilde;o lhe podia levar a bem que se risse<br \/>\n    daquilo.<\/p>\n<p> Para compensar as fadigas de t&atilde;o trabalhosa ascens&atilde;o, havia,<br \/>\n    por&eacute;m, a paisagem, que, a cada passo andado, a cada &acirc;ngulo que<br \/>\n    se dobrava, aparecia mais surpreendente e maravilhosa.<\/p>\n<p> Poucos peitos teriam for&ccedil;a para reprimir um brado de admira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As n&eacute;voas daquela manh&atilde; de Dezembro n&atilde;o eram bastantes<br \/>\n    para velarem a beleza do quadro.<\/p>\n<p> &Agrave; medida que os nossos quatro peregrinos iam subindo, ampliava- -se-lhes<br \/>\n    mais e mais o horizonte ; aveludava-se a relva da planicie, parecia aplanarem-se<br \/>\n    os outeiros vizinhos, e os campos tomavam a apar&ecirc;ncia dos canteiros<br \/>\n    de um jardim.<\/p>\n<p> Henrique n&atilde;o retinha o entusiasmo que aquele espect&aacute;culo lhe<br \/>\n    causava.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; magn&iacute;fico ! &eacute; admir&aacute;vel ! &eacute;<br \/>\n    soberbo ! &#8212; dizia ele, a cada momento e quando n&atilde;o era inquietadoramente<br \/>\n    preocupado com os perigos do caminho.<\/p>\n<p> O entusiasmo de Augusto n&atilde;o era menos vivo ! Dir-se-ia que eram os<br \/>\n    montes a sua p&aacute;tria, e que a melancolia nost&aacute;lgica, que o oprimia<br \/>\n    na plan&iacute;cie, se ia dissipando &agrave; medida que subia a encosta.<\/p>\n<p> Madalena e Cristina tamb&eacute;m n&atilde;o estavam menos impressionadas<br \/>\n    por o que viam. Esta, por&eacute;m, tinha uma causa secreta a aguarentar-lhe<br \/>\n    o prazer, que as belezas naturais lhe pudessem ocasionar.<\/p>\n<p> Era esta causa a mesma dos seus leves despeitos de pela manh&atilde;.<\/p>\n<p> Henrique continuava a ser todo aten&ccedil;&otilde;es e galanteios com Madalena;<br \/>\n    parava a cada momento naqueles pontos do caminho, que lhe pareciam mais dif&iacute;ceis<br \/>\n    de vencer, para lhe oferecer a m&atilde;o a ela, sempre a ela, a quem dirigia<br \/>\n    tamb&eacute;m todas as reflex&otilde;es que o aspecto da paisagem lhe suscitava<br \/>\n    e nunca &agrave; esquecida Cristina que, nesses momentos, quase achava a manh&atilde;<br \/>\n    desagrad&aacute;vel e o s&iacute;tio feio e sombrio.<\/p>\n<p> A morgadinha respondia sempre em curtas frases a Henrique e recusava insistentemente<br \/>\n    o aux&iacute;lio que ele lhe oferecia.<\/p>\n<p> &#8212; Estou a suspeitar que esses oferecimentos do primo s&atilde;o mais<br \/>\n    devidos &agrave; necessidade que sente, de quem o auxilie, do que ao empenho<br \/>\n    de nos auxiliar &#8212; disse ela sorrindo. &#8212; A falar verdade, para<br \/>\n    quem tem passado a vida a trilhar os passeios do Chiado, que admira ? Eu fui<br \/>\n    criada nisto. Tenho um pouco de alpestre. Adiante.<\/p>\n<p> E de uma ocasi&atilde;o, em que estava perto dele, disse-lhe a meia voz:<br \/>\n    &#8212; Pode ser que Cristina care&ccedil;a mais do seu bra&ccedil;o, primo.<br \/>\n    Ainda n&atilde;o teve a lembran&ccedil;a de lho oferecer.<\/p>\n<p> Henrique s&oacute; ent&atilde;o deu por esse esquecimento ; apressou-se<br \/>\n    a remedi&aacute;-lo, oferecendo a Cristina tamb&eacute;m o bra&ccedil;o, que<br \/>\n    esta recusou corando.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o porque recusas? &#8212; perguntou-lhe a morgadinha,<br \/>\n    em voz baixa.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o quero abusar da delicadeza dele, nem da tua.<\/p>\n<p> A morgadinha abanou a cabe&ccedil;a em ar de repreens&atilde;o, fitando-a,<br \/>\n    mas n&atilde;o lhe disse nada.<\/p>\n<p> Pouco a pouco ia sendo mais completo o sil&ecirc;ncio em torno deles.<\/p>\n<p> J&aacute; tinham passado acima dos rumores do vale, que n&atilde;o subiam<br \/>\n    a mais de meia encosta. Chegaram enfim ao cimo do monte ; tudo anunciava o<br \/>\n    pr&oacute;ximo aparecimento do Sol.<\/p>\n<p> &#8212; Chegamos a tempo ! &#8212; exclamou Madalena que, deitando a correr,<br \/>\n    fora a primeira que atingira a pianura. Sua Majestade ainda se n&atilde;o<br \/>\n    levantou.<\/p>\n<p> Os outros estavam, dentro em pouco tempo, ao p&eacute; dela.<\/p>\n<p> Houve um longo espa&ccedil;o de sil&ecirc;ncio, concedido espontaneamente<br \/>\n    &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o daquela perspectiva solene.<\/p>\n<p> As primeiras palavras, que se disseram, foram ditas em voz baixa, naquele<br \/>\n    tom, que insensivelmente lhes damos, quando na presen&ccedil;a de um espect&aacute;culo<br \/>\n    grandioso e belo. Fala-se baixo e pouco ; n&atilde;o se formulam longos per&iacute;odos<br \/>\n    de aprimorado estilo, nivela-se a eloq&uuml;&ecirc;ncia de todos em simples<br \/>\n    frases, como estas: &#8212; &Eacute; belo! &#8212; &Eacute; magn&iacute;fico<br \/>\n    ! &#8212; &Eacute; sublime ! E nada mais. Pouco mais disseram os quatro na<br \/>\n    ocasi&atilde;o de que fal&aacute;mos. E eu, por an&aacute;logas raz&otilde;es,<br \/>\n    os imitarei, desistindo de descre- .ver o que s&oacute; bem se aprecia, quando<br \/>\n    pela vista se abrange o conjunto de todo o panorama. O leitor, que nunca visse<br \/>\n    alguma cena semelhante, n&atilde;o a imaginaria pela descri&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    for&ccedil;osamente p&aacute;lida, que a&iacute; lhe deixasse dela ; e para<br \/>\n    o que a viu, a mem&oacute;ria lhe preencher&aacute; bem a lacuna.<\/p>\n<p> Desvanecida a primeira impress&atilde;o, que n&atilde;o deixa ao esp&iacute;rito<br \/>\n    a serenidade precisa para os processos da an&aacute;lise, principiaram, como<br \/>\n    &eacute; costume, a fazerem notar uns aos outros os s&iacute;tios mais conhecidos.<\/p>\n<p> Isto manteve por momentos uma perfeita e desenleada familiaridade entre<br \/>\n    os quatro.<\/p>\n<p> Cristina descuidou-se da sua timidez e despeites ; Madalena dos seus projectos<br \/>\n    e desconfian&ccedil;as ; Henriaue e Auqusto deixaram tamb&eacute;m a sua m&uacute;tua<br \/>\n    frieza.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; est&aacute; o Mosteiro &#8212; disse Madalena, apontando<br \/>\n    para o lugar indicado. &#8212; como parece pequeno, visto daqui ! &#8212;<br \/>\n    E verdade &#8212; respondia Cristina &#8212; e olha, Lena, como se v&ecirc;em<br \/>\n    bem as janelas do teu quarto.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; est&aacute; aquela que tu abriste esta manh&atilde; para<br \/>\n    cumprimentares&#8230;<\/p>\n<p> Sentindo a m&atilde;o de Cristina comprimir-lhe o bra&ccedil;o, concluiu:<br \/>\n    &#8212; Para cumprimentares a estrela de alva.<\/p>\n<p> &#8212; As janelas do quarto da mama julgo que ainda est&atilde;o fechadas.<\/p>\n<p> &#8212; Tanto n&atilde;o posso eu distinguir ; contudo afian&ccedil;o-te<br \/>\n    que sim.<\/p>\n<p> A tia Vit&oacute;ria n&atilde;o &eacute; muito matinal.<\/p>\n<p> &#8212; Aquela casa acol&aacute; n&atilde;o &eacute; a de Alvapenha ? &#8212;<br \/>\n    perguntou Henrique, apontando noutra direc&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; &#8212; respondeu Augusto &#8212; e, mais adiante, ali<br \/>\n    tem a devesa, em que passou anteontem. N&atilde;o &eacute; verdade? &#8212;<br \/>\n    &Eacute; justamente. Com efeito ! Foi um soberbo passeio o que eu dei ! Daqui<br \/>\n    &eacute; que se v&ecirc;. L&aacute; vejo umas presas, por onde me lembro de<br \/>\n    ter passado tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; V&ecirc;, acol&aacute;, aquela casa que tem uma capela ao lado?<br \/>\n    &#8212; perguntou Madalena, apontando para um ponto distante.<\/p>\n<p> &#8212; Perfeitamente.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; a minha quinta dos Canaviais.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &Eacute; verdade, l&aacute; est&atilde;o uns canaviais, se me<br \/>\n    n&atilde;o engana a vista.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente. N&atilde;o sei se sabe que h&aacute; naquela capela<br \/>\n    uma imagem de Nossa Senhora, muito milagrosa.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ? hei-de visit&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8212; Coisa que se lhe pe&ccedil;a, fazendo-se o voto da meia-noite, &eacute;<br \/>\n    concedido &#8212; disse Cristina, fitando desta vez Henrique, com a express&atilde;o<br \/>\n    da mais insinuante sinceridade.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer dizer o voto da meia-noite ? &#8212; Tem uma pessoa de<br \/>\n    rezar &agrave; meia-noite, e sozinha, sete esta&ccedil;&otilde;es no altar<br \/>\n    da Senhora &#8212; continuou Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute; isso ? Boa &eacute; de cumprir a promessa. J&aacute; vejo<br \/>\n    que n&atilde;o ha aqui na terra desejo que se n&atilde;o satisfa&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Mais devagar &#8212; acudiu Madalena, sorrindo &#8212; pouca gente<br \/>\n    se atreve at&eacute; a ir l&aacute; &agrave; meia-noite, porque a alma de<br \/>\n    minha madrinha passeia a horas mortas por a sua antiga casa, dizem.<\/p>\n<p> &#8212; Cada vez sinto mais desejos de l&aacute; ir &#8212; acrescentou<br \/>\n    Henrique, depois de ouvi-la.<\/p>\n<p> &#8212; Al&eacute;m, entre aquelas &aacute;rvores, Sr.* D. Madalena, vive<br \/>\n    um fil&oacute;sofo disse Augusto, indicando outro ponto de perspectiva.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade ; o bom do tio Vicente.<\/p>\n<p> &#8212; Tio Vicente ? Quem &eacute; o tio Vicente ? Temos mais algum tio<br \/>\n    com que eu possa aumentar o meu parentesco na aldeia? &#8212; O tio Vicente<br \/>\n    &eacute; um santo velho, que se ocupa a colher ervas pelos montes e vales<br \/>\n    para fazer rem&eacute;dios, que dizem milagrosos. Ainda &eacute; nosso parente,<br \/>\n    mas em grau muito arredado ; contudo chamamos-lhe tio, assim como quase toda<br \/>\n    a gente por aqui.<\/p>\n<p> &#8212; Que sombras negras sao aquelas que se v&ecirc;em no adro da igreja<br \/>\n    ? &#8212; perguntou Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Na igreja? Ah! acol&aacute;? &Eacute; verdade, parece um cord&atilde;o<br \/>\n    de formigas &#8212; disse Henrique de Souselas.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o as mulheres que v&atilde;o ouvir o mission&aacute;rio<br \/>\n    &#8212; respondeu a morgadinha. &#8212; Escutem, l&aacute; est&aacute; a tocar<br \/>\n    o sino.<\/p>\n<p> Efectivamente chegavam ao alto do monte as d&eacute;beis mas sonoras badaladas<br \/>\n    do campan&aacute;rio da aldeia.<\/p>\n<p> &#8212; A estas horas principiam as lamenta&ccedil;&otilde;es daquele pobre<br \/>\n    Z&eacute;- -Pereira, que t&atilde;o mal olhado anda por a mulher, desde que<br \/>\n    ela deu nessas devo&ccedil;&otilde;es &#8212; notou Augusto, sorrindo, ao<br \/>\n    lembrar-se da cena dom&eacute;stica a que na v&eacute;spera assistira.<\/p>\n<p> &#8212; Degenerou aquela mulher ! &#8212; disse Madalena &#8212; e, se quer<br \/>\n    que lhe fale a verdade, Sr. Augusto, custa-me ver o Cancela deixar a Lindita<br \/>\n    entregue assim a essa gente quando sai da terra. A pequena &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    apreensiva! &#8212; Visto isso, j&aacute; chegou aqui &agrave; aldeia a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    dos mission&aacute;rios ? &#8212; perguntou Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o tem lavrado pouco ! &#8212; tornou Madalena.<\/p>\n<p> Cristina, que era um poucochinho devota, censurou timidamente as palavras<br \/>\n    da morgadinha.<\/p>\n<p> &#8212; Primo Henrique &#8212; disse ela &#8212; julgo que ainda ser&aacute;<br \/>\n    preciso o seu aux&iacute;lio para livrar do cont&aacute;gio esta inocente<br \/>\n    Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto, prima Madalena; para as boas causas tenho sempre armada<br \/>\n    a minha vontade.<\/p>\n<p> &#8212; Olha, Lena, n&atilde;o v&ecirc;s ? &#8212; exclamou Cristina &#8212;<br \/>\n    s&atilde;o os pequenos que nos est&atilde;o a dizer adeus das janelas do mirante.<\/p>\n<p> De facto nas mais altas janelas do Mosteiro agitavam-se uns len&ccedil;os<br \/>\n    brancos.<\/p>\n<p> Mariana e Eduardo haviam-se erguido para saudarem, de longe, a irm&atilde;<br \/>\n    e a prima. Estas tiraram tamb&eacute;m os len&ccedil;os e corresponderam-<br \/>\n    -lhes aos sinais.<\/p>\n<p> Interrompeu-as a voz de Henrique, dizendo: &#8212; Anuncio a V. Ex.&ordf;,<br \/>\n    que chega o rei da cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Efectivamente o cume do telhado da ermida e as fran&ccedil;as despidas da<br \/>\n    alameda j&aacute; se tingiam de luz.<\/p>\n<p> Todas as vistas se voltaram para o Oriente. Assinalava-o uma espl&ecirc;ndida<br \/>\n    faixa de p&uacute;rpura, que, em insens&iacute;vel gradua&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    desmaiava para as extremidades at&eacute; se perder de todo no azul-celeste.<\/p>\n<p> Rompia j&aacute;, do meio dela, um pequeno segmento do Sol, depois, o astro<br \/>\n    inteiro aparecia afogueado e vermelho, como um escudo de metal candente, e<br \/>\n    logo se desprendeu da terra, de onde parecia surgir, e subiu nos ares, como<br \/>\n    um brilhante aer&oacute;stato, ao qual se rompessem as pris&otilde;es que<br \/>\n    o retinham.<\/p>\n<p> O monte inundou-se de luz. O vale, em baixo, estava ainda envolto nas meias<br \/>\n    sombras da madrugada.<\/p>\n<p> Nisto apareceu do outro lado da capela um dos criados de Alvapenha, que<br \/>\n    veio anunciar que o almo&ccedil;o estava pronto.<\/p>\n<p> &#8212; Pois deveras temos um almo&ccedil;o? &#8212; exclamou Henrique,<br \/>\n    sinceramente surpreendido.<\/p>\n<p> &#8212; Gra&ccedil;as &agrave; previd&ecirc;ncia de minha t&iacute;a, previd&ecirc;ncia<br \/>\n    de que eu zombava em casa, mas que sou obrigada a admirar agora. De facto,<br \/>\n    parece-me que estes ares do monte e frescuras da madrugada lhe devem ter aberto<br \/>\n    o apetite &#8212; respondeu Madalena. E logo ap&oacute;s continuou para Henrique<br \/>\n    : &#8212; Agora &eacute; ocasi&atilde;o mais acomodada de p&ocirc;r em pr&aacute;tica<br \/>\n    os recursos do seu galanteio, primo. Quer dar o bra&ccedil;o a Cristina? Henrique,<br \/>\n    em quem a morgadinha suspeitara a inten&ccedil;&atilde;o de lhe render a ela<br \/>\n    a fineza, que assim declinou na prima, teve de condescender, limitando-se<br \/>\n    a exprimir num olhar as suas queixas, olhar que Madalena fingiu n&atilde;o<br \/>\n    -perceber.<\/p>\n<p> E, conversando e rindo, dirigiram-se para o lugar onde, sobre uma mesa de<br \/>\n    pedra e lousa e ao ar livre, estava disposto o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria n&atilde;o era senhora que se sa&iacute;sse mal de empresas<br \/>\n    destas.<\/p>\n<p> A alvura da toalha, a excel&ecirc;ncia da lou&ccedil;a e o bem disposto<br \/>\n    e apurado das iguarias convidavam.<\/p>\n<p> N&atilde;o se concebe apetite refractario a um tal conjunto de circunst&acirc;ncias.<\/p>\n<p> O fastio, neste caso, seria um fastio m&oacute;rbido, correspondente a les&atilde;o<br \/>\n    org&acirc;nica e como tal sem poesia.<\/p>\n<p> Henrique e Augusto principalmente fizeram, como era natural, justi&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; cozinha do Mosteiro.<\/p>\n<p> Henrique, que parecia haver esquecido as suas mil e uma doen&ccedil;as,<br \/>\n    conversou animada e espirituosamente.<\/p>\n<p> Contaram-se anedotas ; Augusto aplaudiu as de Henrique ; este riu com vontade<br \/>\n    das que ouviu a Augusto.<\/p>\n<p> A morgadinha, por sua pr&oacute;pria m&atilde;o, preparou o ch&aacute;.<\/p>\n<p> Nestas alturas do almo&ccedil;o encetou novamente Henrique o tiroteio de<br \/>\n    amabilidades, de que por muito tempo n&atilde;o sabia prescindir.<\/p>\n<p> Dir-se-ia ser este o sinal para se perturbar a santa harmonia do congresso.<br \/>\n    Parecia que todos os outros, mais ou menos, se sentiam contrariados.<\/p>\n<p> Henrique ficara sentado junto da parede da capela. Inclinando-se sobre o<br \/>\n    espaldar da cadeira a saborear um charuto havano, descobriu umas letras escritas<br \/>\n    na parede, exactamente por cima da cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo ! &#8212; exclamou, depois de as 1er para si &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    imaginava que havia poetas na aldeia! Querem ouvir? E leu: Se est&aacute;s<br \/>\n    mais perto do C&eacute;u Nestas alturas da serra, Ai, porque tens, peito meu<br \/>\n    Inda saudades da Terra? Em vez de erguer os olhares &Agrave; luz deste firmamento,<br \/>\n    Des&ccedil;o-os &agrave; sombra dos lares, Onde tenho o pensamento.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; pena que a chuva apagasse o resto. Quem &eacute; o bardo,<br \/>\n    prima? &#8212; N&atilde;o sei ; da aldeia decerto que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    &#8212; respondeu Madalena, com indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Augusto ergueu-se da mesa e foi passear para a alameda.<\/p>\n<p> &#8212; Da aldeia, n&atilde;o, diz a prima ; e porque n&atilde;o ? com esta<br \/>\n    natureza &eacute; f&aacute;cil criarem-se os poetas. Eu estou vendo nesta<br \/>\n    quadra a folha de um romance. Aqui a serra de algum Bernardim in&eacute;dito,<br \/>\n    t&atilde;o capaz de escrever saudades, como de as sentir. Os lares, pela sombra<br \/>\n    dos quais o olhar do poeta trocava os esplendores do C&eacute;u&#8230;, algumas<br \/>\n    dessas casas, que a&iacute; se v&ecirc;em em baixo. Quem sabe se n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; at&eacute; o Mosteiro? Eu, por mim, confesso que se estivesse<br \/>\n    hoje aqui s&oacute;, ou em outra companhia &#8212; acrescentou, olhando significativamente<br \/>\n    para a morgadinha &#8212; n&atilde;o teria d&uacute;vida em subscrever esta<br \/>\n    quadra, como a exacta express&atilde;o do meu sentir, porque&#8230;<\/p>\n<p> Em vez de erguer os olhares &Agrave; luz deste firmamento, Eu tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> Os abaixaria aos lares Onde tenho o pensamento.<\/p>\n<p> Cristina levantou-se tamb&eacute;m da mesa e foi ter com Augusto &agrave;<br \/>\n    alameda.<\/p>\n<p> Madalena, que a seguiu com a vista, n&atilde;o disfar&ccedil;ou um gesto<br \/>\n    de despeito ao ficar s&oacute; com Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Prima Madalena &#8212; disse em tom mais afectuoso Henrique, passado<br \/>\n    tempo, e depois de mais algumas palavras &#8212; deixe-me falar- -lhe com<br \/>\n    franqueza, agora que estamos s&oacute;s. Conhecemo-nos h&aacute; dois dias<br \/>\n    ; eu, por&eacute;m, sinto-me t&atilde;o seguro j&aacute; do que lhe vou dizer,<br \/>\n    que n&atilde;o hesito. N&atilde;o pode imaginar a indel&eacute;vel recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que me ficar&aacute; desta manh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o &#8212; atalhou Madalena &#8212; diga-me primeiro<br \/>\n    o que e isso que me vai dizer. Prepara-se para me agradecer o almo&ccedil;o?<br \/>\n    Eu sou como os reis ; gosto de estar prevenida do sentido das felicita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que me dirigem, para ir preparando uma resposta adequada.<\/p>\n<p> &#8212; Que prazer tem em ser cruel ! &#8212; Deixemo-nos de loucuras &#8212;<br \/>\n    continuou Madalena s&eacute;ria j&aacute;. &#8212; Quem ouvisse o Sr. Henrique<br \/>\n    de Souselas havia de supor que se preparava para me fazer uma declara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; uma declara&ccedil;&atilde;o do mais puro afecto, do mais sincere<br \/>\n    sentimento, porque n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Pois, se eram essas de facto as suas inten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pe&ccedil;o-lhe desista delas.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc; ? &#8212; Porque n&atilde;o posso escut&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Ou n&atilde;o quer.<\/p>\n<p> &#8212; Ou n&atilde;o quero ; seja.<\/p>\n<p> &#8212; Teria eu a desventura de chegar tarde, prima? Acaso o seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que impertinente pergunta? Se j&aacute;, n&atilde;o tenho ainda<br \/>\n    no Sr. Henrique a necess&aacute;ria confian&ccedil;a para o tomar por confidente.<br \/>\n    Conhecemo- -nos apenas de ontem, que &eacute; o mesmo que n&atilde;o nos conhecermos.<\/p>\n<p> &#8212; E acrescentou logo depois : &#8212; Cristina, anda ser arbitra numa<br \/>\n    disputa entre mim e o primo Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Que vai fazer? &#8212; perguntou-lhe Henrique, admirado.<\/p>\n<p> Cristina aproximou-se ; Augusto seguiu-a. Henrique n&atilde;o desviava os<br \/>\n    olhos da morgadinha que, sem lhe dar aten&ccedil;&atilde;o, prosseguiu para<br \/>\n    Cristina : &#8212; O primo Henrique falava com certa exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da do&ccedil;ura do teu car&aacute;cter ; o meu amor-pr&oacute;prio disse-me<br \/>\n    que &#8212; era pouco delicado estar assim a lisonjear uma mulher na presen&ccedil;a<br \/>\n    de outra &#8212; e redargu&igrave; por isso, pondo em d&uacute;vida a asser&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e afirmando que havia um fermentozinho de maldade na tua do&ccedil;ura. Ele<br \/>\n    nega por imposs&iacute;vel, eu insisto e estamos nisto. Agora diz tu.<\/p>\n<p> &#8212; Cristina corou intensamente e n&atilde;o teve que responder.<\/p>\n<p> Henrique, que nas palavras de Madalena julgou ouvir algumas que, pelo sentido<br \/>\n    e inflex&atilde;o, com que foram ditas, lhe eram dirigidas, aceitou desafrontadamente<br \/>\n    a posi&ccedil;&atilde;o, em que Madalena o colocara, e respondeu: &#8212;<br \/>\n    Venci eu ! O facto de querer a priminha poupar uma r&eacute;plica amarga &agrave;<br \/>\n    acusa&ccedil;&atilde;o que lhe fazem, &eacute; a mais eloquente prova, j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o digo s&oacute; da do&ccedil;ura, mas da natureza ang&eacute;lica<br \/>\n    do seu car&aacute;cter. J&aacute; v&ecirc;, prima Madalena, que &laquo;quando<br \/>\n    uma das mulheres que diz, for como a nossa boa Cristina, n&atilde;o se podem<br \/>\n    admitir essas revoltas de amor- -pr&oacute;prio a que aludiu&raquo;.<\/p>\n<p> A morgadinha percebeu tamb&eacute;m o duplo sentido destas &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras ; mas fingiu n&atilde;o compreender.<\/p>\n<p> Henrique, ao desviar por acaso os olhos, encontrou os de Augusto fixos nele,<br \/>\n    enquanto um sorriso lhe dissipava um pouco dos l&aacute;bios a grave express&atilde;o<br \/>\n    que lhe era habitual, temperando-a com n&atilde;o sei que de ir&oacute;nico,<br \/>\n    que n&atilde;o escapou tamb&eacute;m a Henrique.<\/p>\n<p> Os olhares destes dois homens trocaram-se por momentos, sem que nenhum parecesse<br \/>\n    disposto a baixar-se diante do outro.<\/p>\n<p> Desviou-os por&eacute;m uma dupla exclama&ccedil;&atilde;o de Madalena e<br \/>\n    de Cristina, dizendo : &#8212; Olhem o tio Vicente por aqui ! Dobrava efectivamente<br \/>\n    naquele momento a esquina da ermida, e aproximava-se da mesa do almo&ccedil;o,<br \/>\n    o velho ervan&aacute;rio, em que j&aacute; temos falado no decurso dos passados<br \/>\n    cap&iacute;tulos.<\/p>\n<p> X ERA uma expressiva figura de anci&atilde;o o ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> A fronte larga e desafrontada de c&atilde;s, os olhos ainda vivos e penetrantes<br \/>\n    e, em t&ocirc;da a fisionomia, permanentes indicios de habituais medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e porventura de passados infort&uacute;nios, elevavam aquele semblante muito<br \/>\n    acima da vulgaridade. Os anos ou, mais ainda do que os anos, os pesares haviam<br \/>\n    subjugado nele a robustez de outros tempos ; os h&aacute;bitos de solid&atilde;o,<br \/>\n    que adquirira, a pouco e pouco lhe amoldaram o car&aacute;cter at&eacute;<br \/>\n    fazerem do velho um desses tipos excepcionais, que atravessam o mundo entre<br \/>\n    a estranheza de quantos os rodeiam, a ningu&eacute;m permitindo sondar os<br \/>\n    mist&eacute;rios que guardam consigo e para si, e criando para uso pr&oacute;prio<br \/>\n    regras de viver, sem aten&ccedil;&atilde;o as conven&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p> Era um enigma vivo.<\/p>\n<p> Nas aldeias acompanhava-o uma fama quase de nigromante; atribu&iacute;am-lhe<br \/>\n    curas milagrosas, obtidas com os s&iacute;mplices, a cuja cultura e colheita<br \/>\n    consagrava as maiores aten&ccedil;&otilde;es e canseiras.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m lhe queria mal, que a ningu&eacute;m o fizera nunca. Poucos<br \/>\n    por&eacute;m ousariam, depois do esconder do Sol, ir procur&aacute;-lo &agrave;<br \/>\n    isolada casa em que vivia, escondida num quintal, que era cultivado com todo<br \/>\n    o amor pelo velho.<\/p>\n<p> Em todos os casos intrincados vinham consultar o ervan&aacute;rio, e ele,<br \/>\n    como seguro da sua profici&ecirc;ncia, em caso algum recusava o alvitre.<\/p>\n<p> Em resultado de leituras aturadas, mas sem escolha nem m&eacute;todo, de<br \/>\n    uns alfarr&aacute;bios herdados de um tio frade que tivera, adquirira imperfeitas<br \/>\n    e mal digeridas no&ccedil;&otilde;es de ci&ecirc;ncia, de que se mostrava<br \/>\n    orgulhoso.<\/p>\n<p> Livros de medicina antigos, alguns de jurisprud&ecirc;ncia, outros de l&oacute;gica<br \/>\n    e de astronomia, constitu&iacute;am a sua mesclada biblioteca. Entre os livros<br \/>\n    mais predilectos e consultados contava um exemplar da Polianteia, de Curvo<br \/>\n    Semedo.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio principiara em crian&ccedil;a uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tal ou qual, que reveses de fam&iacute;lia haviam interrompido.<\/p>\n<p> Os meios conhecimentos, que das suas habituais leituras extra&iacute;ra,<br \/>\n    e os erros, que de tais livros assimilara, eram os elementos com que chegou<br \/>\n    a arquitectar uma ci&ecirc;ncia informe, que na aldeia passava por maravilhosa.<\/p>\n<p> E o caso era que a fama do homem voara de freguesia em freguesia, de concelho<br \/>\n    em concelho, e de muito lonae o vinham ouvir como a or&aacute;culo.<\/p>\n<p> Os costumes do velho, que errava por vales e montes &agrave; procura dos<br \/>\n    s&iacute;mplices, cujas ocultas virtudes conhecia, as suas maneiras rudes,<br \/>\n    a austeridade da fisionomia, a franqueza, sem contempla&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    com que dizia quanto pensava, tinham gravado fundo na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    popular aqu&ecirc;le tipo, para ela quase lend&aacute;rio.<\/p>\n<p> Depois de se sentar &agrave; mesa, o ervan&aacute;rio estendeu familiarmente<br \/>\n    a m&atilde;o a Augusto, que lha apertou com afecto, &#8212; Bons dias, rapaz<br \/>\n    &#8212; disse o velho ; e, dirigindo-se a Madalena e Cristina, acrescentou<br \/>\n    com maneiras paternais &#8212; Adeus, pequenas, grandes madrugadas hoje !<br \/>\n    Voltou-se depois para Henrique, e fitou-o com olhos inquisidores e quase desconfiados,<br \/>\n    terminando por lhe dizer simplesmente : &#8212; Guarde-o Deus ! Henrique correspondeu-lhe<br \/>\n    no mesmo tom.<\/p>\n<p> Sem mais o atender, Vicente voltou-se para Madalena e perguntou- lhe com<br \/>\n    voz aud&iacute;vel para Henrique, e referindo-se a ele : &#8212; Quem &eacute;<br \/>\n    ? Henrique respondeu com ligeiro tom de mofa: &#8212; O homem que, melhor<br \/>\n    que ningu&eacute;m, est&aacute; habilitado a responder a essa pergunta.<\/p>\n<p> O velho nem sequer o olhou.<\/p>\n<p> &#8212; Este senhor &#8212; respondeu Madalena &#8212; &eacute; sobrinho<br \/>\n    de D. Doroteia ; est&aacute; h&oacute;spede em Alvapenha. Veio para aqui restabelecer-se<br \/>\n    da sa&uacute;de.<\/p>\n<p> Vicente tornou a examinar Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o &eacute; doente?&#8230; N&atilde;o parece&#8230; Olhar vivo&#8230;<br \/>\n    Cores boas&#8230;<\/p>\n<p> voz s&atilde;&#8230; Hum!&#8230;<\/p>\n<p> Madalena julgou perceber que as maneiras rudes do velho estavam desagradando<br \/>\n    a Henrique ; por isso apressou-se a intervir, respondendo jovialmente : &#8212;<br \/>\n    A doen&ccedil;a deste senhor &eacute; um pouco de imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; E grandes efeitos nascem da&iacute; &#8212; acudiu sentenciosamente<br \/>\n    o velho. &#8212; L&aacute; v&ecirc;m na Polianteia muitos casos curiosos.<br \/>\n    Um homem, por ter comido umas amoras, foi atacado de dores de cabe&ccedil;a,<br \/>\n    de que morreu. Pois tanto cismou que das amoras lhe viera o mal, que at&eacute;<br \/>\n    se lhe formou no cr&acirc;nio uma pedra do feitio de uma amora.<\/p>\n<p> &#8212; Com efeito ! &#8212; disse Henrique, com ir&oacute;nica express&atilde;o<br \/>\n    de pasmo &#8212; a&iacute; estava um c&eacute;rebro de concep&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    rijas ! &#8212; &Eacute; divertido ! &#8212; disse Vicente, com ligeiro sarcasmo<br \/>\n    e olhando para Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Pelo contr&aacute;rio &#8212; acudiu a morgadinha &#8212; o seu<br \/>\n    mal &eacute; a melancolia.<\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; verdade? &#8212; Eu j&aacute; n&atilde;o sei qual &eacute;<br \/>\n    o meu mal. Estou quase a dar raz&atilde;o &agrave; tia Doroteia, que lhe chamou<br \/>\n    mania.<\/p>\n<p> &#8212; Mania e melancolia n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa &#8212; emendou<br \/>\n    o velho.<\/p>\n<p> .&#8212; Tamb&eacute;m l&aacute; na Polianteia se diz isso bem claro. A<br \/>\n    melancolia &eacute; sem ira nem f&uacute;ria, porque procede de humor frio,<br \/>\n    e a mania de sangue quente ou c&oacute;lera requeimada.<\/p>\n<p> &#8212; De colera requeimada ? Deve ser uma coisa terr&iacute;vel ! &#8212;<br \/>\n    continuou Henrique, no mesmo tom.<\/p>\n<p> Madalena, receando que a ironia dos coment&aacute;rios de Hennque acabasse<br \/>\n    por irritar o velho, perguntou a este : &#8212; Parece-lhe que ter&aacute;<br \/>\n    cura a doen&ccedil;a ? &#8212; Pode ter ; mais rebeldes melancolias se curam.<br \/>\n    Este &eacute; divertido afinal. Hum!&#8230; Mas contra tristezas e manias n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; como as folhas de ouro em caldo de frang&atilde;o com &ntilde;ores<br \/>\n    de borragem e de erva-cidreira, &#8212; Este &eacute; como os calvos, que<br \/>\n    vendem aos outros pomadas para fazer nascer o cabelo ; &eacute; um argumento<br \/>\n    vivo contra a efic&aacute;cia da beberagem que receita para as manias &#8212;<br \/>\n    disse Henrique a meia voz para Augusto, que lhe ficava pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p> O velho, que n&atilde;o tinha ainda dado mostras de ofensa pelas maneiras<br \/>\n    impertinentes de Henrique, corou desta vez e faiscou-lhe nos olhos um rel&acirc;mpago<br \/>\n    de irrita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Havia-se sentido ferido no ponto mais melindroso da sua dignidade.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; bom, menino &#8212; replicou ele amargamente. &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o diga mais, para se n&atilde;o envergonhar depois. Eu calo-me ;<br \/>\n    e desculpe-me se falei. Estou costumado a ver pobres e ricos virem a minha<br \/>\n    casa pedir- -me o favor de os atender. Ainda assim a&iacute; vai mais um conselho,<br \/>\n    apesar de mos n&atilde;o pedir. Seja atencioso com a velhice que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; baixeza nenhuma. Mas que &eacute; isto ? &#8212; exclamou, mudando<br \/>\n    de tom e olhando para um redemoinho de folhas secas que o vento trouxera at&eacute;<br \/>\n    perto dele. &#8212; As folhas v&ecirc;m deste lado ! Ent&atilde;o virou o<br \/>\n    vento ? &Eacute; verdade.<\/p>\n<p> Ah! sim?&#8230; Percebo.<\/p>\n<p> E, depois de olhar para o ar, continuou: &#8212; Mudan&ccedil;as t&atilde;o<br \/>\n    repentinas !&#8230; Hum !&#8230; J&aacute; me n&atilde;o agrada aqu&ecirc;le azul<br \/>\n    e aquelas nuvens.<\/p>\n<p> E levantou-se.<\/p>\n<p> &#8212; Dou-lhes meia hora, e ver&atilde;o tudo isto coberto e quem sab&aacute;<br \/>\n    o mais que vir&aacute;! Aconselho-os a que v&atilde;o descendo o monte, que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; seguro desc&ecirc;-lo quando as enxurradas engrossam.<br \/>\n    Eu, por mim, j&aacute; me n&atilde;o demoro, que n&atilde;o tenho confian&ccedil;a<br \/>\n    na firmeza das minhas pernas. Oh ! noutros tempos !&#8230; Enfim, tudo tem de<br \/>\n    acabar. Adeus ! E, sem mais palavras, sobra&ccedil;ou a caixa de lata em que<br \/>\n    arquivava as&#8217; ervas medicinais e outras subst&acirc;ncias, que andava colhendo,<br \/>\n    e partiu, depois de dizer adeus a Augusto, a Madalena e a Cristina.<\/p>\n<p> Logo que o ervan&aacute;rio desapareceu, Henrique soltou uma risada, em<br \/>\n    que parecia haver o que quer que era de for&ccedil;ado.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; realmente curiosa esta antigualha &#8212; disse ele, que<br \/>\n    interiormente sentia j&aacute; remorsos pela maneira por que tratara o velho.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, primo Henrique ; que ainda est&aacute; muito pouco preparado<br \/>\n    para viver na aldeia ! &#8212; disse a morgadinha. &#8212; Tem uns melindres<br \/>\n    e uma maneira de ver as coisas ! Tudo lhe parecem faltas de aten&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    prop&oacute;sitos de ofender ! depois h&aacute; um sarcasmo cruel nas suas<br \/>\n    palavras, a que os esp&iacute;ritos n&atilde;o est&atilde;o aqui habituados<br \/>\n    e de que se sentem por isso feridos. Isso nao e bom! Se vai assim, ou ter&aacute;<br \/>\n    de nos deixar cedo, ou grandes desaven&ccedil;as suscitara por a&iacute;.<br \/>\n    N&atilde;o repara que estes modos s&atilde;o pr&oacute;prios do campo&#8217;? &#8212;<br \/>\n    Perdoe-me, prima Madalena; mas confesso que nunca tive demasiado jeito para<br \/>\n    iidar com doidos. Deve confessar que este homem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um homem de bem &#8212; atalhou Augusto com voz firme e<br \/>\n    com uma severidade de express&atilde;o, que at&eacute; ali n&atilde;o mostrara<br \/>\n    ainda.<\/p>\n<p> Henrique voltou-se admirado e fitou-o em sil&ecirc;ncio. Augusto arrostou<br \/>\n    firmemente aquele olhar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o o nego &#8212; respondeu Henrique, pouco depois &#8212;<br \/>\n    mas infelizmente os homens de bem envelhecem, como os outros, e a extrema<br \/>\n    velhice traz a imbecilidade.<\/p>\n<p> &#8212; Engana-se ; esse homem, apesar de algumas fantasias, tem ainda um<br \/>\n    ju&iacute;zo s&atilde;o e uma raz&atilde;o clara.<\/p>\n<p> &#8212; Acha? &#8212; tornou Henrique, j&aacute; algum tanto azedado. &#8212;<br \/>\n    H&aacute;-de dar-me licen&ccedil;a de n&atilde;o fazer obra por as suas aprecia&ccedil;&otilde;es&#8230;<br \/>\n    se me &eacute; permitido.<\/p>\n<p> &#8212; Procede mal &#8212; redarguiu Augusto. &#8212; Porque eu conhe&ccedil;o<br \/>\n    aquele homem h&aacute; muito e o senhor acaba apenas de o ver pela primeira<br \/>\n    vez. Foi o senhor quem primeiro deu &agrave;s suas palavras um tom irritante,<br \/>\n    que desafiou uma digna correc&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o lhe ficaria mal<br \/>\n    se tivesse sido mais generoso. A consci&ecirc;ncia lho est&aacute; dizendo<br \/>\n    neste momento melhor do que eu.<\/p>\n<p> &#8212; L&ecirc; fundo nas consci&ecirc;ncias dos outros ! &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dif&iacute;cil. Em todos os homens a consci&ecirc;ncia tem uma s&oacute;<br \/>\n    maneira de ser. Reprova sempre o mal, aponta sempre a culpa.<\/p>\n<p> &#8212; Estou admirando a s&uacute;bita loquacidade que se lhe manifestou<br \/>\n    I At&eacute; aqui supunha-o taciturno. Vejo que lhe mere&ccedil;o a fineza<br \/>\n    de abrir uma excep&ccedil;&atilde;o aos seus h&aacute;bitos de laconismo em<br \/>\n    meu favor. Muito agradecido. Isso que dizia eram m&aacute;ximas ou pensamentos<br \/>\n    morais? N&atilde;o reparei.<\/p>\n<p> Augusto corou, mas respondeu com firmeza: &#8212; Nem uma nem outra coisa<br \/>\n    ; &eacute; um g&eacute;nero muito mais modesto do que qualquer dos dois. Simplesmente<br \/>\n    um preceito de civilidade.<\/p>\n<p> Henrique ia responder irritado, mas conteve-se e tornou com dobrada ironia:<br \/>\n    &#8212; &Eacute; verdade, &eacute; verdade&#8230; esquecia-me que a civilidade<br \/>\n    entra no seu programa&#8230; de mestre-escola.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente ; tenho alguns disc&iacute;pulos que lisonjeiam o mestre<br \/>\n    ; rapazinhos da aldeia, pobres, rotos e descal&ccedil;os, mas nesse ponto<br \/>\n    podem dar li&ccedil;&otilde;es a elegantes filhos das cidades.<\/p>\n<p> &#8212; Pois estimarei, nas minhas longas horas de &oacute;cio, aqui na<br \/>\n    aldeia, dever-lhe algumas li&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m. Contudo, como,<br \/>\n    felizmente, as circunst&acirc;ncias em que estou me permitem prescindir do<br \/>\n    benef&iacute;cio do I Estado, que o subsidia, h&aacute;-de conceder-me que<br \/>\n    pague as li&ccedil;&otilde;es que receber.<\/p>\n<p> &#8212; Nunca me envergonhei de aceitar a recompensa do meu trabalho, se<br \/>\n    o disc&iacute;pulo pode dar-ma&#8230; sem sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p> &#8212; E aceita-a em t&ocirc;da a esp&eacute;cie de moeda, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade? perguntou Henrique, cada vez mais petulantemente.<\/p>\n<p> Augusto respondeu com a mesma serenidade : &#8212; N&atilde;o fa&ccedil;o<br \/>\n    tamb&eacute;m escr&uacute;pulo nisso, contanto que me fique o direito salvo<br \/>\n    de pagar na mesma esp&eacute;cie de trocos, quando julgar que os devo.<\/p>\n<p> O di&aacute;logo ia, como vamos vendo, de momento para momento adquirindo<br \/>\n    mais acerbo car&aacute;cter.<\/p>\n<p> Cristina, que j&aacute; tremia de assustada, cingiu o bra&ccedil;o de Madalena,<br \/>\n    como para convid&aacute;-la a intervir rapidamente.<\/p>\n<p> Esta n&atilde;o o tinha ainda feito por uma simples raz&atilde;o. Desconhecia<br \/>\n    Augusto. A aud&aacute;cia com que o via repelir as ironias do seu advers&aacute;rio,<br \/>\n    a firmeza inalter&aacute;vel com que lhe sustentava o olhar, o sorriso que,<br \/>\n    em desd&eacute;ns, rivalizava com o dele, eram t&atilde;o novos para a morgadinha,<br \/>\n    que a surpresa, que dai lhe vinha, nem a deixava ainda perceber a utilidade<br \/>\n    de uma interven&ccedil;&atilde;o. O aviso de Cristina chamou-a, por&eacute;m,<br \/>\n    &agrave; realidade.<\/p>\n<p> &#8212; Tem-me querido parecer, ainda que me custa a acreditar, que isso<br \/>\n    entre os senhores &eacute; uma alterca&ccedil;&atilde;o &#8212; disse ela<br \/>\n    por fim. &#8212; Vejam que s&oacute; t&ecirc;m por testemunhas duas mulheres,<br \/>\n    que mal lhes podem servir de padrinhos, se a contenda tomar outra fei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por isso n&atilde;o &eacute; muito para louvar a escolha que fizeram da ocasi&atilde;o,<br \/>\n    para uma justa t&atilde;o pouco&#8230; am&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, prima Madalena; reconhe&ccedil;o a minha culpa, e<br \/>\n    a grosseria do meu proceder, Mas aqui o Sr. Augusto, costumado a impor aos<br \/>\n    disc&iacute;pulos o seu pensamento, quis estender at&eacute; mim este despotismo<br \/>\n    de&#8230; magister&#8230; Ora o meu pensamento pugnou pela sua independ&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Desculpe ; supondo-o um homem de brio e de pundonor, julguei que<br \/>\n    me agradeceria, se conseguisse modificar-lhe uma opini&atilde;o desfavor&aacute;vel,<br \/>\n    que levianamente formou de quem lha n&atilde;o merecia.<\/p>\n<p> Vejo que prefere ser injusto. Seja-o. Pense o que quiser. Mas o que eu n&atilde;o<br \/>\n    sofro &eacute; que se diga diante de mim uma palavra contra um homem que respeito<br \/>\n    e de quem sou amigo, sem que erga a voz a defend&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Se n&atilde;o costuma fazer o mesmo por os seus, nem sente viva e irresist&iacute;vel<br \/>\n    a necessidade de o fazer, lastimo-o ; &eacute; porque n&atilde;o os tem.<\/p>\n<p> &#8212; com mais paz de esp&iacute;rito se discutir&aacute; tudo isso depois<br \/>\n    &#8212; disse Madalena. &#8212; &Eacute; de crer que, como sempre, haja de<br \/>\n    parte a parte raz&atilde;o e agravos. Agora convido-os, antes de descermos,<br \/>\n    a visitar a ermida, cuja porta est&aacute; sempre, dia e noite, aberta aos<br \/>\n    devotos que a piedade aqui traz. E tal &eacute; o prest&iacute;gio que a defende,<br \/>\n    que n&atilde;o consta de um s&oacute; roubo sacrilego que se fizesse nela.<\/p>\n<p> Entraram na ermida. Era um pequeno santu&aacute;rio, todo forrado de azulejo<br \/>\n    antigo, com enegrecidas pinturas a fresco nos apainelados do tecto, representando<br \/>\n    epis&oacute;dios da Paix&atilde;o; os altares, adornados de colunas e flor&otilde;es<br \/>\n    de talha dourada, atestavam nos muitos ex-votos que deles pendiam e nos quadros,<br \/>\n    cuja perspectiva deixava a perder de vista a dos desenhos chineses e que representavam<br \/>\n    milagres de todo o g&eacute;nero, a f&eacute; ardente com que era adorada<br \/>\n    a imperfeita escultura da Virgem.<\/p>\n<p> E apesar de tudo tinha este templo um ar de solenidade manifesto.<\/p>\n<p> De onde lhe vinha ele ? Da sua mesma pobreza e nudez, do sil&ecirc;ncio<br \/>\n    que reinava em torno, da altura a que se erguia, do isolamento em que estava.<\/p>\n<p> Ali dentro demoraram-se os quatro visitantes, Madalena e Henrique examinando<br \/>\n    alguns dos quadros dos milagres ; Cristina, que prolongara mais do que a prima<br \/>\n    a ora&ccedil;&atilde;o que fizera, contemplando a imagem da Senhora ; Augusto<br \/>\n    com os olhos fitos nas colunas do altar, por&eacute;m, n&atilde;o sei se pensando<br \/>\n    nelas.<\/p>\n<p> Esperava-os uma surpresa &agrave; sa&iacute;da.<\/p>\n<p> Realizara-se o progn&oacute;stico do ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> O vento sui que,&#8217; segundo ele notara, soprava j&aacute; havia algum tempo,<br \/>\n    viera condensar os vapores, que arrasta de ordin&aacute;rio na sua corrente,<br \/>\n    e empanar com eles a limpidez do firmamento. O azul do c&eacute;u semeara-se,<br \/>\n    pouco a pouco, de pequenos &ntilde;ocos brancos, de manchas irregulares e<br \/>\n    de longos e encurvados veios que lhe davam uma apar&ecirc;ncia quase marm&oacute;rea.<br \/>\n    Cedo estas massas de nuvens cresceram, tocaram-se, confundiram-se, acabando<br \/>\n    por tingir uniformemente t&ocirc;da a extens&atilde;o do firmamento. Ao mesmo<br \/>\n    tempo, outras nuvens, mais pesadas e mais escuras, come&ccedil;aram a erguer-se<br \/>\n    do sul e caminharam impetuosas no espa&ccedil;o, como montanhas m&oacute;veis,<br \/>\n    que viessem em pavorosa carreira, de encontro &agrave;s serras, que as aguardavam<br \/>\n    firmes.<\/p>\n<p> Um denso v&eacute;u de nevoeiro escondia j&aacute; a paisagem, quando sa&iacute;ram<br \/>\n    da ermida.<\/p>\n<p> &#8212; Depressa ! &#8212; exclamou Augusto &#8212; j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; tempo a perder ! Des&ccedil;amos antes que a tormenta nos colha.<\/p>\n<p> &#8212; Tem medo ? &#8212; disse Henrique em tom de mofa. &#8212; Um montanh&ecirc;s<br \/>\n    ! &#8212; Talvez tenha ; em todo o caso h&aacute;-de ver que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de inimigo pouco digno de o inspirar. Por agora pe&ccedil;o-lhe tr&eacute;guas<br \/>\n    &agrave;s zombarias e, por amor destas senhoras, aconselho-o a que trabalhe<br \/>\n    por apressar a descida. Felizmente que o criado j&aacute; partiu. &Euml; um<br \/>\n    embara&ccedil;o de menos.<\/p>\n<p> Vamos. &#8212; Detendo-se, por&eacute;m, disse para Madalena : &#8212; Se<br \/>\n    desc&ecirc;ssemos por o outro lado, minha senhora? &#8212; Para qu&ecirc;?<br \/>\n    &#8212; respondeu esta.&#8212;&Eacute; um momento enquanto chegamos abaixo.<\/p>\n<p> A tempestade caracterizava-se cada vez mais ; crescia a cerra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do ar ; os &aacute;lamos gemiam, vergados pela impetuosidade das lufadas do<br \/>\n    sul ; a chuva principiou por grossas gotas, e cedo aumentou assustadoramente<br \/>\n    ; havia na atmosfera surdos rumores de tempestades long&iacute;nquas ; algumas<br \/>\n    nuvens tomavam uma cor t&eacute;rrea, outras um carregado de chumbo, ambas<br \/>\n    igualmente sinistras Cristina, p&aacute;lida de susto, murmurava em voz baixa<br \/>\n    ora&ccedil;&otilde;es fervorosas ; Madalena sorria para a animar, mas ela<br \/>\n    pr&oacute;pria estava inquieta.<\/p>\n<p> N&atilde;o era de facto uma empresa de todo f&aacute;cil o descer o monte<br \/>\n    por um tempo daqueles. O caminho, j&aacute; de si &iacute;ngreme e precipitoso,<br \/>\n    era quase impratic&aacute;vel quando as correntes se despenhavam por ele,<br \/>\n    como em catadupas, e os ventos vinham despeda&ccedil;ar-se furiosos de encontro<br \/>\n    &agrave;s arestas salientes da rocha. &#8212; Era necess&aacute;rio estar<br \/>\n    muito amestrado para o descer sem perigo.<\/p>\n<p> Augusto era de todos o que melhor o conseguiria ; assim n&atilde;o tivesse<br \/>\n    de repartir os seus cuidados por tantos. De pequeno se costumara &agrave;quelas<br \/>\n    aventuras ; e j&aacute; ent&atilde;o seguia, sem vertigem, a mais estreita<br \/>\n    borda dos despenhadeiros do monte.<\/p>\n<p> A tudo, por&eacute;m, atendia agora, desenvolvendo uma actividade e per&iacute;cia,<br \/>\n    que inspirava alento e confian&ccedil;a aos mais. &Aacute;gil como um animal<br \/>\n    montes, girava em volta da pequena caravana, de que t&agrave;citamente fora<br \/>\n    reconhecido chefe. Ora adiante a dirigir os passos pelos lugares de mais f&aacute;cil<br \/>\n    tr&acirc;nsito, ora &agrave; retaguarda a dar a m&atilde;o a Madalena, que<br \/>\n    vira em embara&ccedil;o, ou a amparar Cristina, a quem muita vez chegou a<br \/>\n    levantar nos bra&ccedil;os, para a fazer franquear um ponto do caminho, em<br \/>\n    que ela parara, sentindo que lhe resvalavam os p&eacute;s no declive e na<br \/>\n    humidade do ch&atilde;o. O pr&oacute;prio Henrique, que n&atilde;o era o menos<br \/>\n    embara&ccedil;ado do rancho, e nem isso admira, s&oacute; a custo podia prescindir,<br \/>\n    em certos lances, do aux&iacute;lio de Augusto.<\/p>\n<p> O amor-pr&oacute;prio e orgulho do h&oacute;spede de Alvapenha iam um tanto<br \/>\n    mortificados nesta retirada ingl&oacute;ria. Nenhum dos seus muitos talentos<br \/>\n    e aptid&otilde;es, de tanto valor no terreno, tamb&eacute;m escorregadio,<br \/>\n    das salas de baile, lhe valiam para ali. Era evidente a sua inferioridade<br \/>\n    neste momento ; ora Henrique n&atilde;o era homem que, tendo consci&ecirc;ncia<br \/>\n    disto, ficasse indiferente; mas que rem&eacute;dio? Procuraria mais tarde<br \/>\n    uma compensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> N&atilde;o descrevemos todos os epis&oacute;dios desta laboriosa descida,<br \/>\n    alguns dos quais somente a preocupa&ccedil;&atilde;o, em que iam os &acirc;nimos,<br \/>\n    impedia achar ris&iacute;veis ; por&eacute;m que mais tarde deviam, como &eacute;<br \/>\n    costume, vir a ser alimento de animadas e joviais recorda&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Assim foi que, a meio da encosta e em s&iacute;tio em que se lhes cortava<br \/>\n    ao lado do caminho, que cautelosamente desciam, uma ribanceira quase a pique<br \/>\n    e eri&ccedil;ada de fragas salientes e &acirc;ngulos de rocha, em cujas fendas<br \/>\n    e sinuosidades apenas os tojos e as giestas e algum pinheiro enfezado tinham<br \/>\n    conseguido vegetar, uma violenta rajada de vento, desprendendo a mantilha<br \/>\n    de Madalena, depois de a revolutear no espa&ccedil;o, arremessou-a ao abismo.<\/p>\n<p> Ficou suspensa nos espinhos das tojeiras, por&eacute;m em lugar, onde seria<br \/>\n    dif&iacute;cil o acesso, de qualquer lado que se tentasse.<\/p>\n<p> Madalena, no momento, n&atilde;o p&ocirc;de reter um grito, que fez parar<br \/>\n    com terror Henrique e Augusto que caminhavam adiante. Voltaram-se assustados.<\/p>\n<p> A morgadinha, com a cabe&ccedil;a descoberta, trancas ligeiramente desordenadas,<br \/>\n    as faces um pouco p&aacute;lidas, sorria j&aacute; do seu exagerado susto.<\/p>\n<p> A rir, explicou o sucedido, pedindo perd&atilde;o pelo sobressalto que involuntariamente<br \/>\n    causara.<\/p>\n<p> &#8212; Descansa em paz ! &#8212; disse ela, olhando para a mantilha ; e<br \/>\n    acrescentou : &#8212; Sigamos.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel tir&aacute;-la dali ?<br \/>\n    &#8212; perguntou Augusto, examinando o s&iacute;tio.<\/p>\n<p> &#8212; Para qu&ecirc; ? N&atilde;o podemos demorar-nos agora com isso &#8212;<br \/>\n    respondeu Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Eu des&ccedil;o a cortar uma cana l&aacute; abaixo aos moinhos e<br \/>\n    volto num momento &#8212; insistiu Augusto, dispondo-se a executar o que dizia.<\/p>\n<p> Henrique notou, sorrindo : &#8212; O alvitre &eacute; de homem prudente.<br \/>\n    Cuidei que os montanheses n&atilde;o eram de t&atilde;o bom aviso.<\/p>\n<p> E, animado pelo desejo de humilhar Augusto, por quem se sentia humilhado,<br \/>\n    e ao mesmo tempo cedendo &agrave; influ&ecirc;ncia que sobre ele exercia a<br \/>\n    fascinadora figura de Madalena, Henrique arrojou-se a uma desnecess&aacute;ria<br \/>\n    imprud&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Sem dar tempo a que o impedissem ou lhe fizessem qualquer reflex&atilde;o,<br \/>\n    deixou-se escorregar no despenhadeiro, segurando-se com as m&atilde;os &agrave;<br \/>\n    borda do caminho ; tenteou com os p&eacute;s as fendas e as anfractuosidades<br \/>\n    da rocha, at&eacute; conseguir firm&aacute;-los ; segurou-se ora a uma raiz<br \/>\n    saliente, ora a um ramo mais tenaz ; &agrave; for&ccedil;a de vontade dominou<br \/>\n    a sua impericia em exerc&iacute;cios desta ordem, e finalmente conseguiu,<br \/>\n    estendendo o bra&ccedil;o, segurar a mantilha, que o vento arrojara ao precip&iacute;cio.<\/p>\n<p> Depois, com dobradas dificuldades e porventura redobrados perigos, p&ocirc;de,<br \/>\n    ro&ccedil;ando-se como r&eacute;ptil, e ferindo as m&atilde;os nas asperezas<br \/>\n    da rocha e nos espinhos das tojeiras, em que se firmava, pousar outra vez<br \/>\n    os p&eacute;s em terra, sem aceitar a m&atilde;o que Augusto lhe oferecia,<br \/>\n    e com gesto radiante entregou a mantilha a Madalena, fixando em Augusto um<br \/>\n    olhar de triunfo.<\/p>\n<p> Os espectadores desta cena haviam-na presenciado sem soltar uma palavra,<br \/>\n    sem fazer um movimento, quase gelados de susto e de espanto.<\/p>\n<p> Quando Henrique voltou com a mantilha, Augusto meneou a cabe&ccedil;a, murmurando<br \/>\n    : &#8212; Que imprud&ecirc;ncia ! &#8212; Na verdade ! &#8212; disse Madalena,<br \/>\n    ainda nervosa com a impress&atilde;o que este incidente lhe causara &#8212;<br \/>\n    foi uma loucura ; uma loucura imperdo&aacute;vel.<\/p>\n<p> E a perturba&ccedil;&atilde;o era tal, que nem acertou com uma frase de<br \/>\n    agradecimento, com que pagasse a imprudente galantaria, que mais desejava<br \/>\n    repreender, do que recompensar.<\/p>\n<p> Esta reserva ofendeu Henrique ; servi&ccedil;os a seu ver de menor import&acirc;ncia,<br \/>\n    tinham merecido a Augusto mais calorosas palavras.<\/p>\n<p> Revoltou-o esta ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p> Mal sabia ele que estava sendo ainda mais ingrato, n&atilde;o concedendo<br \/>\n    sequer um olhar &agrave;s faces desmaiadas pelo terror, aos l&aacute;bios<br \/>\n    tr&eacute;mulos e aos olhos arrasados de l&aacute;grimas, com que o fitava<br \/>\n    Cristina.<\/p>\n<p> Ela, que o tinha seguido muda de susto e de ansiedade em t&ocirc;da aquela<br \/>\n    louca aventura, ela que, ao terror do perigo, ajuntava a afligi-lo o desespero<br \/>\n    de ver que fora outra a que inspirava aquelas loucuras! Aguardavam-nos em<br \/>\n    baixo novos trabalhos a vencer. com a for&ccedil;a das enxurradas, que se<br \/>\n    precipitavam clamorosas pelas vertentes e algares, era prov&aacute;vel que<br \/>\n    a levada que corria na raiz do monte tivesse engrossado mais e acabasse de<br \/>\n    cobrir a ponte r&uacute;stica, que &agrave; vinda j&aacute; tinham encontrado<br \/>\n    quase submersa.<\/p>\n<p> Augusto, prevendo isso, voltou-se para as senhoras, dizendo: &#8212; Eu<br \/>\n    vou adiante assegurar-me do estado da ponte, para no caso de estar j&aacute;<br \/>\n    coberta, como &eacute; prov&aacute;vel, ver se o moleiro nos abre a porta<br \/>\n    do moinho, a fim de passarmos por l&aacute;. V&atilde;o descendo devagar,<br \/>\n    que eu volto.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o deixa-nos s&oacute;s? &#8212; exclamou Cristina, assustada.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um instante.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei se nos atreveremos a dar um passo sem a sua indica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8212; disse Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; O pior est&aacute; passado. Al&eacute;m daquela pedra j&aacute;<br \/>\n    v&ecirc;em o ribeiro e a ponte ; o caminho indica-se por si.<\/p>\n<p> E, dizendo isto, desceu &agrave;gilmente por uma esp&eacute;cie de escadaria<br \/>\n    aberta na rocha, a qual mais depressa o devia conduzir ao lugar que demandava.<\/p>\n<p> Henrique ia agora na frente ; ap&oacute;s, seguia-se Madalena. Cristina<br \/>\n    fechava o cortejo.<\/p>\n<p> O mau humor de Henrique aumentara de ponto, em conseq&uuml;&ecirc;ncia dos<br \/>\n    receios com que as duas raparigas tinham visto Augusto abandonar, por momentos,<br \/>\n    a direc&ccedil;&atilde;o do rancho.<\/p>\n<p> Ficava assim bem evidente a pouca ou nenhuma confian&ccedil;a que lhes estava<br \/>\n    merecendo o aux&iacute;lio de Henrique, representando ele assim naquela conting&ecirc;ncia,<br \/>\n    em vez do papel de protector, o de protegido, que o humilhava.<\/p>\n<p> Obrigado a digerir, como pudesse, o seu fundo descontentamento, Henrique<br \/>\n    perdera com isso aquela volubilidade de conversa&ccedil;&atilde;o que mantivera<br \/>\n    todo o dia.<\/p>\n<p> Nunca, na presen&ccedil;a de Madalena, deixara passar tanto tempo sem formular<br \/>\n    um desses galanteios que a impacientavam e obrigavam a uma resposta, nem sempre<br \/>\n    demasiado af&aacute;vel.<\/p>\n<p> Madalena, por seu lado, n&atilde;o se sentia com disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para falar.<\/p>\n<p> Cristina menos.<\/p>\n<p> Este sil&ecirc;ncio acabou por exasperar Henrique.<\/p>\n<p> Haviam j&aacute; percorrido grande parte do caminho, que os distanciava<br \/>\n    do riacho. Avistavam-se as &aacute;guas turvas e impetuosas, que, com mais<br \/>\n    fragor do que nunca, se contorciam naquele apertado leito.<\/p>\n<p> Foi ent&atilde;o que Henrique desafogou o seu ressentimento.<\/p>\n<p> &#8212; Estou deveras arrependido, prima Madalena &#8212; disse ele com<br \/>\n    leve ironia &#8212; do meu espont&acirc;neo movimento de h&aacute; pouco.<br \/>\n    Devia lembrar- me de que ao nosso cavalheiroso guia devem pertencer todos<br \/>\n    os triunfos e t&ocirc;da a gl&oacute;ria desta jornada ; mas como daquela<br \/>\n    vez se me afigurou que era demasiado cauteloso para her&oacute;i&#8230;<\/p>\n<p> uma simult&acirc;nea exclama&ccedil;&atilde;o de Madalena e de Cristina<br \/>\n    n&atilde;o o deixou prosseguir.<\/p>\n<p> Voltando-se para saber a causa, que a motivara, viu-as paradas, p&aacute;lidas,<br \/>\n    olhando com ansiedade para a base do monte.<\/p>\n<p> Seguindo a direc&ccedil;&atilde;o do olhar delas, Henrique reconheceu a<br \/>\n    causa daquele duplo grito.<\/p>\n<p> Refiramo-lo em poucas palavras.<\/p>\n<p> Quando Augusto chegou ao ribeiro, para averiguar se a ponte estava ou n&atilde;o<br \/>\n    transit&aacute;vel, surpreendeu-o um espect&aacute;culo inesperado.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio que, prevendo tempestade e receoso dos perigos de que<br \/>\n    em tais condi&ccedil;&otilde;es a descida era acompanhada, se apressara a<br \/>\n    partir, n&atilde;o conseguira chegar ao ribeiro, antes do desencadeamento<br \/>\n    da borrasca. O andar vagaroso e precavido do velho e as freq&uuml;entes pausas<br \/>\n    que fazia, ou para descansar ou para colher a rara planta montesinha, o insecto,<br \/>\n    o verme, o molusco ou o mineral de ocultas virtudes, elementos da sua farmacopeia,<br \/>\n    foram retardando de maneira que a chuva apanhou-o a meio caminho, e mais dif&iacute;cil<br \/>\n    de descer lhe tornou a metade que lhe faltava. Assim, n&atilde;o obstante<br \/>\n    haver partido antes dos outros, n&atilde;o lhes levava muitos passos de avan&ccedil;o.<\/p>\n<p> Ao chegar &agrave; levada, encontrou j&aacute; as pedras do tosco passadi&ccedil;o,<br \/>\n    a que se dava o nome de ponte, cobertas pela &aacute;gua. O velho deu-se pressa<br \/>\n    em descer para a passar ainda a p&eacute; enxuto ; mas a levada, agora torrente<br \/>\n    caudalosa, ganhava corpo de momento para momento ; cedo j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se viam sinais de ponte. O ervan&aacute;rio parou, embara&ccedil;ado. Acima<br \/>\n    ficavam-lhe os a&ccedil;udes, transformados em impetuosas cataratas ; abaixo,<br \/>\n    o moinho, em cujas enormes rodas espumava a corrente com espantoso fragor.<\/p>\n<p> O velho Vicente hesitou. Era para causar vertigens o que via.<\/p>\n<p> As &aacute;guas, sem transpar&ecirc;ncia, ocultavam de todo a vista das<br \/>\n    pedras.<\/p>\n<p> Tenteou com o bord&atilde;o o sitio em que as sup&ocirc;s. Encontrou a primeira,<br \/>\n    pousou um p&eacute; nesse ponto ; firmou-se como p&ocirc;de, para resistir<br \/>\n    &agrave; for&ccedil;a da corrente ; tenteou outra vez, reconhecendo outra<br \/>\n    pedra, deu mais um passo, e outro, e mais outro, at&eacute; que de repente,<br \/>\n    ou por esvaimento de sentidos ou por se firmar em falso, vacilou e, perdendo<br \/>\n    o equil&iacute;brio, caiu na levada para o lado dos moinhos.<\/p>\n<p> Foi neste momento que Augusto chegou ; viu-o pois cair, viu-o estrebuchar,<br \/>\n    lutando com a impetuosidade das &aacute;guas ; reconheceu a urgente necessidade,<br \/>\n    para evitar uma horr&iacute;vel desgra&ccedil;a, de acudir, sem perda de tempo,<br \/>\n    ao pobre velho, que a torrente arrastava para os lados do moinho.<\/p>\n<p> Cedendo a este pensamento, Augusto franqueou, quase de um salto, o espa&ccedil;o,<br \/>\n    que o separava ainda do ribeiro, e lan&ccedil;ou-se &agrave; &aacute;gua.<\/p>\n<p> Era a vez de Augusto revelar coragem. Henrique tamb&eacute;m a pos.<\/p>\n<p> su&iacute;a, mas abusava dela ou, por vaidade, malbarata va-a em ninharias,<br \/>\n    Ainda nisto se revelava o seu amor de ostenta&ccedil;&atilde;o. Imaginava-se<br \/>\n    sempre num palco, diante de espectadores que o viam e aplaudiriam, se desempenhasse<br \/>\n    bem o papel de homem perfeito. Fraco perante doen&ccedil;as imagin&aacute;rias,<br \/>\n    arriscaria, para evitar o rid&iacute;culo, a pr&oacute;pria vida, assim como<br \/>\n    sufocaria, porventura, um impulso generoso, que n&atilde;o pudesse harmonizar-se<br \/>\n    com a conven&ccedil;&atilde;o, que se chama eleg&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Eram estes os defeitos que Madalena adivinhara nele.<\/p>\n<p> Augusto era diferente.<\/p>\n<p> As suas grandes qualidades guardava-as com mod&eacute;stia dos olhos estranhos,<br \/>\n    para somente as revelar, quando pudessem ser &uacute;teis.<\/p>\n<p> Ao ver cair a mantilha de Madalena, n&atilde;o arriscou temer&agrave;riamente<br \/>\n    a vida para a buscar. Procurava com placidez os meios de o fazer, com mais<br \/>\n    seguran&ccedil;a, embora com menos romantismo ; mas, para salvar uma vida,<br \/>\n    para obedecer a um instinto, verdadeiramente nobre e generoso, nada o fazia<br \/>\n    recuar.<\/p>\n<p> Logo que Augusto voltou a terra e auxiliou o ervan&aacute;rio a subir para<br \/>\n    a margem, Madalena, respirando enfim com desafogo, respondeu &agrave;s anteriores<br \/>\n    palavras de Henrique, dizendo em suave tom de censura : &#8212; Bem v&ecirc;<br \/>\n    que nem sempre &eacute; cauteloso o nosso guia, primo Henrique.<\/p>\n<p> Sabe tamb&eacute;m arriscar a vida, quando uma raz&atilde;o de humanidade<br \/>\n    Iho pede. A sua imprud&ecirc;ncia de h&aacute; pouco&#8230; agrade&ccedil;o-lha,<br \/>\n    mas&#8230; n&atilde;o posso aprov&aacute;-la. Confesse que n&atilde;o foi t&atilde;o<br \/>\n    justificada como esta.<\/p>\n<p> Henrique tinha a raz&atilde;o clara bastante e a consci&ecirc;ncia justa<br \/>\n    para ver que, apesar da sua fa&ccedil;anha cavalheiresca, ficara, desta vez<br \/>\n    ainda, inferior ao seu companheiro.<\/p>\n<p> Qualquer que fosse o desgosto, que a descoberta lhe produzisse, &eacute;<br \/>\n    certo que teve sobre a rebeli&atilde;o dos maus instintos poder suficiente<br \/>\n    para se obrigar a ir apertar a m&atilde;o a Augusto.<\/p>\n<p> O velho Vicente estava p&aacute;lido e extenuado pelo esfor&ccedil;o da<br \/>\n    luta com a corrente ; ainda assim abra&ccedil;ou tamb&eacute;m Augusto, dizendo<br \/>\n    : &#8212; Agrade&ccedil;o a Deus o haver-me dado esta ocasi&atilde;o de te<br \/>\n    dever a vida, rapaz. Era um prazer que desejava levar da Terra, quando a deixasse.<\/p>\n<p> Madalena e Cristina rodeavam o velho de cuidados.<\/p>\n<p> Apareceram, enfim, do outro lado do ribeiro, os criados enviados por D.<br \/>\n    Vit&oacute;ria com guarda-chuvas e roupas de agasalho. com eles vinha tamb&eacute;m<br \/>\n    o moleiro, a quem mandaram chamar para dar passagem pelo moinho, visto estar<br \/>\n    obstru&iacute;da a ponte, e ao mesmo tempo para que as senhoras pudessem a&iacute;<br \/>\n    dentro mudar de fato.<\/p>\n<p> Augusto seguiu o ervan&aacute;rio a casa.<\/p>\n<p> Passada meia hora sa&iacute;am tamb&eacute;m do moinho os outros todos,<br \/>\n    depois de haverem renovado a roupa que a chuva repassara.<\/p>\n<p> No Mosteiro, D. Vit&oacute;ria recebeu a filha e a sobrinha com muitas exclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e ralhos por n&atilde;o terem ido prevenidas com guarda-chuvas, como ela lhes<br \/>\n    recomendara ; estas iras cedo se derivaram sobre os criados, a quem, entre<br \/>\n    outros delitos, atribu&iacute;a o de a n&atilde;o haverem avisado de que na<br \/>\n    v&eacute;spera passara por ali o caldeireiro ambulante, repemcando nos seus<br \/>\n    arames, o que, sendo progn&oacute;stico infal&iacute;vel de chuva, faria com<br \/>\n    que ela, sabendo-o, se opusesse a tal passeio.<\/p>\n<p> Em Alvapenha, D. Doroteia e Maria de Jesus n&atilde;o levantaram menor celeuma,<br \/>\n    ao verem chegar Henrique. Fizeram-no meter na cama, cobriram-no de cobertores,<br \/>\n    emborcaram-no de punch e tais medos lhe insinuaram, que as apreens&otilde;es<br \/>\n    patol&oacute;gicas de Henrique agitaram-se e tentaram reapossar-se da sua<br \/>\n    antiga v&iacute;tima.<\/p>\n<p> XI CENSUR&Aacute;VEL descuido tem sido o nosso em n&atilde;o conduzir o<br \/>\n    leitor a um dos lugares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos<br \/>\n    epis&oacute;dios desta narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Que se diria de um cicerone que, por esquecimento ou prop&oacute;sito, deixasse<br \/>\n    de apresentar um viajante, rec&eacute;m-chegado a uma cidade, na assembl&eacute;ia,<br \/>\n    clube, gr&ecirc;mio, ou o que quer que seja, onde se re&uacute;nem as principais<br \/>\n    personagens dela, onde se compendiam as grandes quest&otilde;es e interesses<br \/>\n    locais, as pequenas vaidades e intrigas, as modas ef&eacute;meras, os vol&uacute;veis<br \/>\n    caprichos que agitam os esp&iacute;ritos, onde se comenta o boato de ontem,<br \/>\n    se d&atilde;o ao de hoje mil vers&otilde;es diversas e se adivinha j&aacute;<br \/>\n    o de amanh&atilde;? Pois no mesmo delito incorremos n&oacute;s, chegando a<br \/>\n    este und&eacute;rimo cap&iacute;tulo, sem ter guiado os leitores &agrave;<br \/>\n    venda de Dami&atilde;o Canada, a qual podia dizer-se o verdadeiro cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    daquele organismo social.<\/p>\n<p> Tudo quanto na terra havia de certa representa&ccedil;&atilde;o ali ia falar<br \/>\n    da coisa p&uacute;blica e tamb&eacute;m da particular ; &#8212; da particular<br \/>\n    dos outros mais do que da pr&oacute;pria, entenda-se.<\/p>\n<p> Aproveitemos um resto da tarde, em que a natureza ap&oacute;s horas continuadas<br \/>\n    de chuva e de temporal, como que procurou respirar e permitiu que o Sol, j&aacute;<br \/>\n    no ocaso, levantasse uma ponta do manto de nuvens que o envolvia, e mandasse<br \/>\n    os raios amortecidos &agrave;s cristadas serras fronteiras ; aproveitemos<br \/>\n    este intervalo de sossego para entrarmos na taberna.<\/p>\n<p> Tinham passado dois dias depois do passeio ao monte, que descrevemos.<\/p>\n<p> Henrique de Souselas teve de condescender com uma leve angina que lhe legaram<br \/>\n    os rigores daquela excurs&atilde;o, e ficou em Alvapenha entretendo-se a escrever<br \/>\n    cartas aos amigos e a cismar numa iminente desorganiza&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    laringe, a que imaginava conduzirem-no os seus inc&oacute;modos actu&aacute;is.<\/p>\n<p> No Mosteiro nada tamb&eacute;m ocorreu, que mere&ccedil;a narrar-se ao leitor.<\/p>\n<p> Deixemos, pois, por momentos, os nossos conhecidos, e vejamos n que dizem<br \/>\n    os freq&uuml;entadores do estabelecimento de Dami&atilde;o Canada.<\/p>\n<p> Brilhante &eacute; a assembl&eacute;ia ali reunida. Al&eacute;m do propriet&aacute;rio,<br \/>\n    barriguda e rubicunda figura, que, assim posta ao p&eacute; das pipas, podia<br \/>\n    servir de tipo para a representa&ccedil;&atilde;o de um Sileno, havia v&aacute;rias<br \/>\n    individualidades de peso nos destinos de toda a comarca.<\/p>\n<p> D&ecirc;-se primeiro men&ccedil;&atilde;o ao nosso j&aacute; conhecido Bento<br \/>\n    Pertunhas a quem as humanidades n&atilde;o faziam soberbo a ponto de recusar-se<br \/>\n    a entrar em comunica&ccedil;&atilde;o social com os seus conterr&acirc;neos.<\/p>\n<p> Observada esta defer&ecirc;ncia, mencionemos os mais.<\/p>\n<p> Um era nem mais nem menos do que o Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, em<br \/>\n    quem j&aacute; temos ouvido falar por mais do que uma vez.<\/p>\n<p> Era o dito Sr. Jo&atilde;ozinho morgado e propriet&aacute;rio em uma das<br \/>\n    freguesias pr&oacute;ximas, chamada de Pinch&otilde;es ; mas propriedades<br \/>\n    e morgadia andavam-lhe t&atilde;o embara&ccedil;adas em redes de demandas<br \/>\n    e de hipotecas, que Deus nos acuda.<\/p>\n<p> Os autos, que diziam respeito &agrave; casa das Perdizes, enchiam um cart&oacute;rio.<br \/>\n    Gra&ccedil;as, por&eacute;m, ao seu g&ecirc;nio despreocupado e folgaz&atilde;o,<br \/>\n    o Sr. Jo&atilde;ozinho deixava aos procuradores os cuidados judiciais ; os<br \/>\n    cuidados agr&iacute;colas aos rendeiros e feitores ; os do futuro, a Deus<br \/>\n    ou ao Diabo ; e para si n&atilde;o reservava nenhuns.<\/p>\n<p> Prosseguia naquela vida airada, que j&aacute; lhe era necessidade. Frequentava<br \/>\n    as feiras, onde ia para jogar e fazer trocas de cavalos com os ciganos, e<br \/>\n    &agrave;s vezes para dar e levar sovas monumentais. &#8212; Nos meses de ca&ccedil;a,<br \/>\n    a vida do morgado era perfeitamente n&oacute;mada: estendia por l&eacute;guas<br \/>\n    e l&eacute;guas as suas excurs&otilde;es venatorias, contentando-se com qualquer<br \/>\n    cama e comida, de que, de ordin&aacute;rio, participavam os c&atilde;es que<br \/>\n    o acompanhavam ; distra&iacute;a-se tamb&eacute;m a conquistar os cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    femininos da freguesia, calando com dinheiro algumas queixas mais acerbas<br \/>\n    e insofridas de um ou outro pai, marido ou irm&atilde;o. Em todas as tabernas<br \/>\n    das freguesias vizinhas tinha contas em aberto, o que n&atilde;o obstava a<br \/>\n    que entrasse em todas com ares de conquistador e expendesse ali as suas opini&otilde;es<br \/>\n    absolutas, com grande exibi&ccedil;&atilde;o de berros e de punhadas.<\/p>\n<p> com t&ocirc;das estas qualidades, era o Sr. Jo&atilde;ozinho dao Perdizes<br \/>\n    um homem verdadeiramente popular entre os da sua freguesia ; movia-os no sentido<br \/>\n    que quisesse.<\/p>\n<p> Tudo por l&aacute; era o Sr. Jo&atilde;ozinho ; n&atilde;o havia fun&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    rixa, solenidade oficial, para que ele n&atilde;o fosse consultado. &Eacute;<br \/>\n    que a superioridade do morgado das Perdizes n&atilde;o era daquelas que intimidam<br \/>\n    e acanham o povo ; ningu&eacute;m hesitava em falar-lhe e em procur&aacute;-lo<br \/>\n    em casa, porque, falando e vivendo com eles, o Sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o<br \/>\n    constrangia ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Os seus defeitos, a sua vida de feiras e de tabernas eram outras tantas<br \/>\n    causas a populariz&aacute;-lo ; justo &eacute; por&eacute;m que se diga que<br \/>\n    algumas boas qualidades tamb&eacute;m para isso concorriam. O Sr. Jo&atilde;ozinho<br \/>\n    n&atilde;o era avarento, nem soberbo. Sentado a beber, e com dinheiro no bolso.<\/p>\n<p> n&atilde;o consentia que pessoa alguma, desde o mais rico propriet&aacute;rio<br \/>\n    at&eacute; ao jornaleiro mais miser&aacute;vel, recusasse tomar assento a<br \/>\n    seu lado. N&atilde;o eram poucos os filhos-fam&iacute;lias que resgatara de<br \/>\n    soldado, sem a menor cau&ccedil;&atilde;o ou interesse, chegando a ficar empenhado<br \/>\n    para os livrar; e se algum desgra&ccedil;ado se via perseguido pela justi&ccedil;a,<br \/>\n    encontrava, fosse qual fosse a enormidade do crime, asilo seguro na herdade<br \/>\n    das Perdizes, que em certas &eacute;pocas era um perfeito valhacouto de malfeitores.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as, pois, a estas an&aacute;logas qualidades, era o Sr. Jo&atilde;ozinho<br \/>\n    uma verdadeira pot&ecirc;ncia eleitoral.<\/p>\n<p> Eis a&iacute; o homem moralmente.<\/p>\n<p> Pelo lado f&iacute;sico, suponham um sujeito de trinta e cinco anos, gordo,<br \/>\n    vermelho, de longas e encaracoladas melenas em desordem, bigode aparado e<br \/>\n    a barba quase sempre malfeita ou por fazer. Na maneira de vestir inculcava<br \/>\n    os h&aacute;bitos da vida e um certo desleixo com sua pessoa, que lhe era<br \/>\n    peculiar. Trazia o colete quase sempre desapertado e com alguns bot&otilde;es<br \/>\n    de menos, de modo que os peitos da camisa formavam h&eacute;rnia pela abertura;<br \/>\n    entre as cal&ccedil;as desca&iacute;das e o colete avistava-se o c&oacute;s<br \/>\n    das ceroulas, no qual era jeito muito seu o enfiar a m&atilde;o; ao pesco&ccedil;o<br \/>\n    trazia um len&ccedil;o de seda escar&iacute;ate, negligentemente atado e com<br \/>\n    longas pontas flutuantes; uma jaqueta de peles com alamares, cal&ccedil;as<br \/>\n    de fazenda chamada pele do Diabo, botas de montar e esporas constitu&iacute;am<br \/>\n    o resto do vestu&aacute;rio. O cigarro, que quase sempre fumava at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s &uacute;ltimas, crestara-lhe profundamente as pontas dos dedos &#8216;&eacute;<br \/>\n    o canto dos l&aacute;bios. O palito andava-lhe sempre atr&aacute;s da orelha;<br \/>\n    a navalha de ponta na algibeira, e, para qualquer parte que ia, acompanhava-<br \/>\n    o uma tumultuosa matilha de galgos, podengos e perdigueiros.<\/p>\n<p> Segunda e n&atilde;o menos importante personalidade era a do Sr. Eusebio<br \/>\n    Seabra, chamado por antonom&agrave;sia &#8212; o Brasileiro.<\/p>\n<p> Era um homem de cinq&uuml;enta anos ; bem figurado e sisudo, de falar compassado<br \/>\n    e com seus qu&ecirc;s de or&aacute;culo, frases sentenciosas e ares de protec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a todo o mundo.<\/p>\n<p> Sa&iacute;ra crian&ccedil;a da aldeia e fora tentar fortuna ao Brasil. Por<br \/>\n    l&aacute; esteve quarenta anos, e voltou o homem grave que vemos e rico. como<br \/>\n    enriqueceu n&atilde;o sei, e ningu&eacute;m na terra o sabia. Veio edificar<br \/>\n    uma casa no s&iacute;tio em que nascera, uma casa grande de cantaria e azulejo,<br \/>\n    com tr&ecirc;s andares e varandas, jardim com est&aacute;tuas de lou&ccedil;a<br \/>\n    e alegretes pintados de verde e amarelo, o qual jardim tinha mais fama naquela<br \/>\n    aldeias vizinhas do que os jardins suspensos da Babil&ocirc;nia. Trouxera<br \/>\n    um papagaio e uma arara, igualmente famosos, e uma botica homeop&aacute;.<\/p>\n<p> tica, que ele pr&oacute;prio manipulava.<\/p>\n<p> As ambi&ccedil;&otilde;es de Eusebio Seabra limitavam-se a vir a ser a pri-.<\/p>\n<p> meira personagem de influ&ecirc;ncia na aldeia. Para isso principiou por<br \/>\n    fazer alguns reparos na igreja paroquial, presenteou com vestidos novos todos<br \/>\n    os santos dos altares, e mandou renovar um sino, que havia doze anos tocava<br \/>\n    a rachado. Fez &agrave; sua custa a festa do orago chegando a mandar vir fogo<br \/>\n    preso da cidade e um aerostato, que ardeu a pouca altura do ch&atilde;o. Apesar,<br \/>\n    por&eacute;m, de todos estes benef&iacute;cios &agrave; localidade, o conselheiro<br \/>\n    Manuel Bernardo, pai da morgadinha, conquanto vivesse quase sempre em Lisboa,<br \/>\n    continuava a fazer-lhe sombra e a contestar-lhe as ambiciosas vistas. Por<br \/>\n    isso, apesar da aparente amizade com que Seabra o acolhia e lisonjeava at&eacute;,<br \/>\n    conservava p&oacute;jele no fundo uma m&aacute; vontade, um ci&uacute;me,<br \/>\n    de que eram de recear, tarde ou cedo, explos&otilde;es.<\/p>\n<p> Seabra era t&atilde;o asseado, quanto o Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes<br \/>\n    descurado no seu vestir. Usava sempre de su&iacute;&ccedil;a irrepreensivelmente<br \/>\n    talhada em volta do queixo ; camisa muito lavada ; peito aberto e tr&ecirc;s<br \/>\n    grandes bot&otilde;es de brilhantes; no trajo combinavam-se as variegadas<br \/>\n    cores de uma ave da Am&eacute;rica ; e o ouro, distribu&iacute;do com profus&atilde;o<br \/>\n    por todos os acess&oacute;rios da sua pessoa, atestava os bons resultados<br \/>\n    dos seus quarenta anos de Brasil. Passeava pela aldeia de chinelos de marroquitn<br \/>\n    verde ou sapatos de tapete, e era tal nele a delicadeza do andar, que voltava<br \/>\n    a casa sem que uma mancha enodoasse a alvura das suas meias de algod&atilde;o<br \/>\n    fino. Aos domingos e dias de festa indignava a relva dos caminhos, calcando-a<br \/>\n    com bota de polimento.<\/p>\n<p> Al&eacute;m destes dois e do nosso conhecido Z&eacute;-Pereira, que bebia,<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio, ao p&eacute; do taberneiro, havia um padre, coadjutor da<br \/>\n    freguesia, dois lavradores abastados e j&aacute; de avan&ccedil;ada idade,<br \/>\n    e outros que deixaremos confundidos na massa indistinta dos comparsas.<\/p>\n<p> No momento em que entramos, usava da palavra o brasileiro, que estava sentado<br \/>\n    &agrave; porta da taberna, na mais limpa cadeira do estabelecimento.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; verdade &#8212; disse ele &#8212; fomos todos da mesma<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O conselheiro Manuel Bernardo saiu daqui para Lisboa um ano depois de eu<br \/>\n    ir para o Brasil. And&aacute;mos ambos na mesma escola, que era a do padre<br \/>\n    Joaquim, ali pelo s&iacute;tio da Corredoura. Vossemec&ecirc; h&aacute;-de<br \/>\n    estar lembrado, Sr. Luis &#8212; acrescentou, dirigindo-se com a afabilidade<br \/>\n    protectora, que o caracterizava, a um dos lavradores.<\/p>\n<p> &#8212; Ora se estou! muito bem. Era na casa em que hoje mora o Chico da<br \/>\n    Luciana.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade que sim. Pois ali andei eu e o conselheiro e aquela<br \/>\n    rat&atilde;o do Vicente, ervan&aacute;rio, que era j&aacute; rapaz taludo.<br \/>\n    Lembra-me, como se fosse hoje, de quando jog&aacute;vamos todos tr&ecirc;s<br \/>\n    a pedra no terreiro a Corredoura.<\/p>\n<p> &#8212; Olha l&aacute;, hem ! &#8212;&#8226; diziam dois lavradores com<br \/>\n    um sorriso cors&atilde;o nos l&aacute;bios &#8212; ent&atilde;o com que o<br \/>\n    Sr. Seabra tamb&eacute;m jogava a pedra ! Eh! eh! eh!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora, como um homem. Eu fui levadinho da breca. Boa sova levei de<br \/>\n    minha m&atilde;e, por causa de umas cal&ccedil;as novas que rompi.<\/p>\n<p> &#8212; Ora vedes ? &#8212; diziam os outros.<\/p>\n<p> &#8212; Ai tempos, tempos ! &#8212; disse, suspirando, o brasileiro.<\/p>\n<p> &#8212; Quem havia de dizer ent&atilde;o ao que V. S.* e o conselheiro tinham<br \/>\n    e chegar ! &#8212; notou lisonjeiramente o Sr. Bento Pertunhas.<\/p>\n<p> &#8212; Eu sim &#8212; respondeu com t&ocirc;da a sua mod&eacute;stia o<br \/>\n    brasileiro. &#8212; que cheguei eu? Comi candeias acesas pelo Brasil, para<br \/>\n    arranjar m bocado de p&atilde;o para o resto da vida ; com isso me contento.<br \/>\n    O mais, ou um pobre diabo que ningu&eacute;m conhece, um homem ignorante,<br \/>\n    sem princ&iacute;pios. Ele &eacute; outra coisa.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; tanto assim &#8212; insistiu Pertunhas &#8212;<br \/>\n    todos sabem que . S.* se quisesse&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Olhe, meu caro amigo, eu conhe&ccedil;o-me ; se tivesse o ju&iacute;zo<br \/>\n    de muitos, que por a&iacute; vejo figurando, ent&atilde;o havia de me ver<br \/>\n    na brecha; porque, n&atilde;o &eacute; por me gabar, mas n&atilde;o me tenho<br \/>\n    por menos do que muitos deles.<\/p>\n<p> &#8212; Ora pois, n&atilde;o, n&atilde;o &#8212; disseram os lavradores,<br \/>\n    Pertunhas e o adre.<\/p>\n<p> &#8212; Alguns que at&eacute; ministros t&ecirc;m sido&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Por essa estou eu&#8230;<\/p>\n<h2>XIII<\/h2>\n<p> AO outro dia a impaci&ecirc;ncia de &Acirc;ngelo n&atilde;o lhe permitiu<br \/>\n    longa demora no leito. Tardava-lhe o ver todos aqueles s&iacute;tios, t&atilde;o<br \/>\n    seus conhecidos ; &aacute;rvores que uma por uma distingu&iacute;a, sebes,<br \/>\n    atalhos de campos, e quebradas de montes. A custo o puderam reter para o almo&ccedil;o;<br \/>\n    resignou-se por&eacute;m a n&atilde;o ultrapassar, at&eacute; ent&atilde;o,<br \/>\n    os muros da quinta. Logo por&eacute;m que sorveu &agrave; pressa o &uacute;ltimo<br \/>\n    golo de ch&aacute;, partiu, veloz como uma lebre, sem sequer dar ouvidos &agrave;<br \/>\n    enfiada de recomenda&ccedil;&otilde;es de sua tia D. Vit&oacute;ria, que teimava<br \/>\n    em o querer prevenir, com socos, gab&atilde;o e guarda-chuva, de uma hipot&eacute;tica<br \/>\n    mudan&ccedil;a de tempo.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo partiu. A tudo que via pelo caminho encontrava ligada uma recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e uma saudade ; mas seguia sempre, como quem n&atilde;o errava ao acaso pelos<br \/>\n    campos, antes era guiado naquele passeio por um intento, que tinha pressa<br \/>\n    de realizar.<\/p>\n<p> Atravessou grande parte da aldeia, cortejando, cumprimentado e festejado<br \/>\n    por quantos encontrava pelos caminhos, ou &agrave;s portas e janelas das casas,<br \/>\n    nos campos e nos ribeiros.<\/p>\n<p> Chegou enfim &agrave; casa, onde j&aacute; dissemos morar o recoveiro Cancela<br \/>\n    e a sua filha Ermelinda.<\/p>\n<p> Era evidentemente aquele o termo proposto por &Acirc;ngelo ao passeio matinal,<br \/>\n    porque retardou o passo &agrave; medida que se aproximava, e parou &agrave;<br \/>\n    porta da casa.<\/p>\n<p> Achou-a fechada, mas n&atilde;o lhe causou isso embara&ccedil;o.<\/p>\n<p> como quem estava habituado a vencer estes estorvos, sondou resolutamente<br \/>\n    o muro do quintal, constru&iacute;do de pedras soltas, e disp&ocirc;s- se<br \/>\n    &agrave; escalada.<\/p>\n<p> Com a agilidade e destreza pr&oacute;prias de quem passou na aldeia os primeiros<br \/>\n    anos da vida, o irm&atilde;o de Madalena trepou sem vacilar at&eacute; ao<br \/>\n    alto do muro, e num momento pousou os p&eacute;s no ch&atilde;o do quintal.<\/p>\n<p> Vendo-se dentro da fortaleza, olhou em redor com precau&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e, com mais precau&ccedil;&atilde;o ainda, se dirigiu para um bosquezito de<br \/>\n    laranjeiras, que era o lugar de recreio do pequeno horto.<\/p>\n<p> Foi motivo destas precau&ccedil;&otilde;es o ter j&aacute; avistado, por<br \/>\n    entre os troncos e a rama baixa das laranjeiras, um vulto que se lhe figurou<br \/>\n    conhecido.<\/p>\n<p> Assim se foi aproximando sem que o pressentissem e, oculto por detr&aacute;s<br \/>\n    de uma sebe de roseiras silvestres, p&ocirc;s-se &agrave; espreita.<\/p>\n<p> Era Ermelinda a pessoa que estava no laranjal.<\/p>\n<p> Sentada sobre o tronco partido de uma laranjeira velha, que meses antes<br \/>\n    havia sido derrubada, a filha do Cancela e afilhada da fam&iacute;lia Z&eacute;-Pereira,<br \/>\n    tinha todas as faculdades aplicadas &agrave; decifra&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    hierogl&iacute;ficos caracteres de um pequeno papel manuscrito, que segurava<br \/>\n    nas m&atilde;os e lia a meia voz. De quando em quando interrompia a leitura<br \/>\n    e, erguendo a cabe&ccedil;a para o c&eacute;u, parecia repetir o que lera,<br \/>\n    como se pretendesse decor&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Angelo aplicou mais o ouvido, a ver se alguma das palavras, gue ela declamava,<br \/>\n    lhe revelava a natureza do manuscrito.<\/p>\n<p> De facto, de uma vez a pequena leu em voz mais aud&iacute;vel e ele escutou<br \/>\n    a seguinte quadra: &#8212; Que lament&aacute;vel trag&eacute;dia, Que os meus<br \/>\n    olhos tristes viram I E publicam minhas vozes Aqueles que n&atilde;o ouviram<br \/>\n    ! E principalmente o rei, Que se chama o rei tirano, Nesta regi&atilde;o remota<br \/>\n    Do Egipto dilatado.<\/p>\n<p> Depois de 1er isto, a rapariguita levantou a cabe&ccedil;a e repetiu : &#8212;<br \/>\n    Que lament&aacute;vel trag&eacute;dia Que os meus olhos tristes viram . ..<\/p>\n<p> Angelo saiu do esconderijo, e sempre vagarosamente, e com precau&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    veio colocar-se por detr&aacute;s dela, sem que fosse pressentido ainda.<\/p>\n<p> T&atilde;o perto chegou, que, por cima do ombro de Ermelinda, podia j&aacute;<br \/>\n    1er as quadras que ela estava decorando: &#8226;&#8212; Tenho mil l&iacute;nguas,<br \/>\n    mil bocas &#8230;<\/p>\n<p> ia Ermelinda continuar a 1er, quando uma respira&ccedil;&atilde;o mais profunda<br \/>\n    Se Angelo a fez desviar a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Dando com os olhos nele, soltou um grito de sobressalto ; depois sorriu<br \/>\n    e instintivamente procurou esconder no bolso do avental o papel que lia.<\/p>\n<p> Angelo segurou-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Que estavas a 1er, Linda ? &#8212; N&atilde;o &eacute; nada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Deixa ver.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o deixo.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o deixas ? &#8212; Para n&atilde;o ser curioso.<br \/>\n    Que modos s&atilde;o esses de andar a escutar a gente? &#8212; Pois sim, sim<br \/>\n    ; mas deixa-me ver os versos.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o s&atilde;o versos. Quem lhe disse que eram versos? &#8212;<br \/>\n    Pois n&atilde;o ouvi? Que era isso de tirano e de Egipto, que dizias? &#8212;<br \/>\n    Que h&aacute;-de ser ? &#8212; disse afinal Ermelinda, dando-lhe o papel.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o os versos do auto dos Reis. Sabe agora ? &#8212; Do auto<br \/>\n    dos Reis ? Ai, sim ; est&aacute; a chegar o dia ! Mas que tens tu com o auto<br \/>\n    dos Reis? &#8212; &Eacute; que este ano meu pai quer que eu seja a Fama.<\/p>\n<p> &#8212; Viva ! E que bonita Fama que vais ser ! E j&aacute; sabes os versos<br \/>\n    ? &#8212; Estava a decor&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8212; Tenho mil l&iacute;nguas, mil bocas&#8230;<\/p>\n<p> dizia &Acirc;ngelo, lendo no princ&iacute;pio. &#8212; O que &eacute; pena<br \/>\n    &egrave; p&ocirc;r uma chochice destas na boca de uma Fama como tu.<\/p>\n<p> &#8212; Que est&aacute; a dizer ? Ent&atilde;o os versos n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    bonitos ? &#8212; Oh ! pois n&atilde;o s&atilde;o ! &#8212; exclamou &Acirc;ngelo,<br \/>\n    gracejando. &#8212; S&atilde;o uma perfei&ccedil;&atilde;o ! E tendo-os corrido<br \/>\n    com a vista, principiou a l&ecirc;-los com acentua&ccedil;&atilde;o e &ecirc;nfase<br \/>\n    c&oacute;micamente exageradas.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ouve l&aacute; : Sabei que aquele Herodes, Lobo cruel carniceiro.<\/p>\n<p> Tremendo de inveja pura Lhe venham tirar o reino.., &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    que h&aacute; que dizer a isto ? E prosseguiu : Feria raios de fogo De seus<br \/>\n    olhos com mudan&ccedil;a: E s&oacute; pretende fazer Alvo da sua vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Isto &eacute; claro e sublime ! &#8212; Lendo assim, pudera ! &#8212;<br \/>\n    disse Ermelinda, rindo.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso que advirta o leitor que estas quadras e auto, a que nos<br \/>\n    estamos referindo, nao s&atilde;o obra da nossa imagina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Por a&iacute; corre manuscrito o auto, mais ou menos extravagantemente ortografado,<br \/>\n    segundo o sistema ou o capricho do copista. Em quase todas as aldeias &iquest;os<br \/>\n    arredores do Porto podem ver em cada ano representado este ou outro an&aacute;logo,<br \/>\n    com aplauso e gl&ograve;ria da arte. &Agrave;s m&atilde;os nos veio uma dessas<br \/>\n    c&oacute;pias, &agrave; qual, menos na ortografia, escrupulosamente nos cingimos.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo era talvez em demasia severo na aprecia&ccedil;&atilde;o critica<br \/>\n    sobre o merecimento liter&aacute;rio da obra, ao chamar-lhe uma chochice &Eacute;<br \/>\n    raro que a musa popular n&atilde;o tenha, apesar da sua rudeza, alguma inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Neste mesmo auto, se encontram vestigios dela. Mas n&atilde;o &eacute; nossa<br \/>\n    miss&atilde;o apreciar as opini&otilde;es dos actores que pomos em cena; t&atilde;o<br \/>\n    somente as registamos, sem nos responsabilizarmos por nenhuma.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo redarguiu &agrave; reflex&atilde;o de Ermelinda : &#8212; Pois<br \/>\n    bem; para que n&atilde;o digas que &eacute; da maneira de 1er, que eles parecem<br \/>\n    chochos, repara ; vou l&ecirc;-los agora com toda a seriedade.<\/p>\n<p> Ora escuta: Que quantos at&eacute; dois anos Em Bel&eacute;m fossem nascidos,<br \/>\n    E toda a sua comarca Matassem a ferro frio.<\/p>\n<p> Sem excep&ccedil;&atilde;o a pessoa Que nos distritos se achasse.<\/p>\n<p> Entendendo desta sorte Que n&oacute;s lhe n&atilde;o escap&aacute;ssemos.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem que sensaboria ! Esta divis&atilde;o administrativa e judicial,<br \/>\n    em distritos e comarcas, que o autor fez na Judeia e que tanto parecia revoltar<br \/>\n    &Acirc;ngelo, era uma destas liberdades shakespearianas, que se devem perdoar<br \/>\n    aos g&ecirc;nios.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o foi assim? &#8212; perguntou Ermelinda, que n&atilde;o<br \/>\n    percebia ainda o motivo dos reparos de &Acirc;ngelo. &#8212; Pois Herodes<br \/>\n    mandou matar todas as crian&ccedil;as da Judeia ; ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    mandou ? &#8212; Mandou, mandou ; mas a Fama &eacute; que devia contar isso<br \/>\n    melhor.<\/p>\n<p> &#8212; Melhor ? ! Ent&atilde;o n&atilde;o &eacute; bonito esse verso ?<br \/>\n    E Ermelinda, tirando o manuscrito das m&atilde;os de &Acirc;ngelo, leu a seguinte<br \/>\n    quadra : Para livrarem seus filhos Da morte dos inocentes Dos bra&ccedil;os<br \/>\n    faziam cruzes Aquelas m&atilde;es impacientes.<\/p>\n<p> Os instintos populares da filha do Cancela perceberam a beleza, talvez um<br \/>\n    pouco rude, do tocante quadro, que estes versos exprimem.<\/p>\n<p> Esta pequena contenda liter&aacute;ria entre duas crian&ccedil;as podia<br \/>\n    dar margem a profundas reflex&otilde;es a quem para elas estivesse disposto.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo estava no princ&iacute;pio de uma educa&ccedil;&atilde;o esmerada<br \/>\n    Principiara j&aacute; a desenvolver-se nele a intelig&ecirc;ncia, e a acordar<br \/>\n    os instintos art&iacute;sticos que estremeciam j&aacute; sob as primeiras<br \/>\n    sedu&ccedil;&otilde;es da forma.<\/p>\n<p> Nestas &eacute;pocas cr&iacute;ticas, em que esses segredos se revelam,<br \/>\n    &eacute; tal o encanto em que eles nos trazem que exclusivamente nos votamos<br \/>\n    ao novo culto com a fan&aacute;tica intoler&acirc;ncia. Onde as lou&ccedil;amas<br \/>\n    do estilo os primores e a sonora harmon&iacute;a do metro, e o brilhantismo<br \/>\n    das imagens nos nao afagam os sentidos, recusamos demorar a vista; e escapa-nos<br \/>\n    assim na sombra muita beleza real, &agrave;s vezes oculta sob a grosseira<br \/>\n    revestidura da poesia ou narrativa popular.<\/p>\n<p> &Eacute; necess&aacute;rio que passe o entusiasmo, a viol&ecirc;ncia da<br \/>\n    paix&atilde;o nascente, que venha a frieza de &acirc;nimo necess&aacute;ria<br \/>\n    &agrave; imparcialidade do ju&iacute;zo, para que nos n&atilde;o cause repuls&atilde;o<br \/>\n    a aspereza e grosseria at&eacute; da forma e consigamos apreciar o belo que<br \/>\n    porventura nela se envolva.<\/p>\n<p> D&aacute;-se com a beleza da id&eacute;ia e da forma de qualquer obra liter&aacute;ria,<br \/>\n    o que se d&aacute; com a beleza moral e a beleza f&iacute;sica de uma mulher.<\/p>\n<p> Ambas sao feitas para nos comoverem e dominarem. Mas, quando o assomar de<br \/>\n    um sentir novo come&ccedil;a a alvoro&ccedil;ar o sangue do adolescente, quando<br \/>\n    formas vagas e formos&iacute;ssimas principiam a encantar- -lhe os sonhos<br \/>\n    de suas noites febris, a paiz&atilde;o da forma domina-o ; por ela sacrifica<br \/>\n    tudo; uma modela&ccedil;&atilde;o perfeita, um delineamento gracioso poder&aacute;<br \/>\n    decidir da sua vida inteira, e na fascina&ccedil;&atilde;o que o cega, nunca<br \/>\n    ver&aacute; a formosura da alma, que se abriga numa pouco feliz encarna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; que para apreciar a beleza moral, para a ver transparecer, atrav&eacute;s<br \/>\n    do inv&oacute;lucro exterior, &eacute; preciso deixar passar a vertigem dos<br \/>\n    primeiros momentos, ou n&atilde;o a ter ainda experimentado.<\/p>\n<p> Por isso na inf&acirc;ncia e nas idades viris &eacute; que melhor se apreciam<br \/>\n    essas fealdades, que escondem um cora&ccedil;&atilde;o ang&eacute;lico. A<br \/>\n    adolesc&ecirc;ncia &eacute; imp&iacute;amente cruel para com elas.<\/p>\n<p> Por uma lei an&aacute;loga &eacute; o povo, o simile da crian&ccedil;a,<br \/>\n    porque n&atilde;o tem os sentidos educados para as mais subtis belezas da<br \/>\n    forma, e &eacute; o homem a quem ela j&aacute; n&atilde;o fascina, embora<br \/>\n    ainda e sempre o deleite, como poderos&iacute;ssimo elemento de beleza liter&aacute;ria<br \/>\n    &#8212; s&atilde;o estes os leitores que mais aptos est&atilde;o para avaliarem<br \/>\n    uma ou outra inspira&ccedil;&atilde;o que, entre muitos desvarios, tem a humilde<br \/>\n    musa que visita a cabana do lavrador ou a oficina do artista.<\/p>\n<p> Apesar da defesa de Ermelinda, Angelo n&atilde;o perdoou ao auto.<\/p>\n<p> &#8212; Sabes que mais? N&atilde;o decores isso &#8212; disse-lhe ele resolutamente.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai quer.<\/p>\n<p> &#8212; O que &eacute; que quer teu pai ? &#8212; Quer que eu entre no auto.<\/p>\n<p> &#8212; E h&aacute;s-de entrar. Quem te diz que n&atilde;o ? &#8212; E quer<br \/>\n    que seja a Fama.<\/p>\n<p> &#8212; E h&aacute;s-de ser a Fama &#8212; E n&atilde;o hei-de falar ? &#8212;<br \/>\n    H&aacute;s-de falar. Tinha que ver uma Fama que n&atilde;o falasse. Para que<br \/>\n    lhe serviriam as cem bocas? &#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; Ent&atilde;o ;<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o &eacute; for&ccedil;oso que digas o que a&iacute;<br \/>\n    est&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; E que hei-de eu dizer ? &#8212; Outra coisa.<\/p>\n<p> Ermelinda olhava &Acirc;ngelo admirada, sem conseguir compreend&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Outra coisa ! &#8212; repetiu ela, instintivamente.<\/p>\n<p> &#8212; Olha &#8212; prosseguiu &Acirc;ngelo. &#8212; Daqui at&eacute; chegar<br \/>\n    o dia do auto muito tempo. Eu te darei outros versos para estudares, em lugar<br \/>\n    !ses.<\/p>\n<p> &#8212; E onde os tem? &#8212; Eu os procurarei. N&atilde;o digas tu nada.<br \/>\n    Basta que no dia recites, vez desses, os que eu te der!.<\/p>\n<p> &#8212; Mas que dir&aacute; meu pai e o Sr. Pertunhas ? &#8212; O mestre<br \/>\n    de latim ? Pois que tem ele com o auto ? &#8212; &Eacute; quem ensina como<br \/>\n    a gente h&aacute;-de dizer.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! sim ? Pois para que ele nada diga, guarda para a ocasi&atilde;o<br \/>\n    versos que eu te arranjar. At&eacute; h&aacute;-de ter gra&ccedil;a ver a<br \/>\n    cara com que eles ficar&atilde;o todos, quando lhes sair uma coisa bem diferente<br \/>\n    do que esperam.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; diga: onde &eacute; que vai buscar esses versos? &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o sairei da aldeia para isso. Numa visita que daqui vou fazer, conto<br \/>\n    obt&ecirc;-los. Agora falemos de outra coisa. Que &eacute; de teu pai? &#8212;<br \/>\n    Saiu a levar umas encomendas. Minha madrinha dali defronte, est&aacute; para<br \/>\n    a igreja e meu padrinho nas hortas. E eu vou tratar do jantar de meu pai.<\/p>\n<p> &#8212; Pois vai, que eu fa&ccedil;o-te companhia.<\/p>\n<p> E Angelo seguiu-a &agrave; cozinha, e a&iacute;, ela sentada na soleira<br \/>\n    da porta a escolher hortali&ccedil;a, ele a dar de comer aos coelhos e &agrave;s<br \/>\n    galinhas, se entretiveram a conversar.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo falou-lhe de Lisboa, dos teatros, contou-lhe enredos de dramas<br \/>\n    que o tinham comovido; tipos e situa&ccedil;&otilde;es de romances, que se<br \/>\n    lhe haviam gravado na mem&oacute;ria ; inven&ccedil;&otilde;es da arte moderna,<br \/>\n    versos, anedotas, contos.<\/p>\n<p> Ermelinda era t&ocirc;da ouvidos a escut&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Passadas horas, &Acirc;ngelo levantou-se e despediu-se, para sair.<\/p>\n<p> &#8212; Onde &eacute; que vai ? &#8212; Vou visitar Augusto, que deve estar<br \/>\n    agora em casa.<\/p>\n<p> &#8212; E ainda o n&atilde;o viu ? &#8212; Ainda n&atilde;o. A minha primeira<br \/>\n    visita foi esta.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o v&aacute;, que ele deve estar morto por o ver. Ah!&#8230;<br \/>\n    J&aacute; sei a pessoa a quem vai pedir os versos ! &#8212; Quem te disse<br \/>\n    que Augusto os fazia? &#8212; Eu vi-o estar a escrever na parede da capela<br \/>\n    da Senhora da Sa&uacute;de de uma vez que eu ia levar o jantar a meu padrinho,<br \/>\n    que estava a trabalhar para aqueles s&iacute;tios.<\/p>\n<p> &#8212; E leste-os? &#8212; N&atilde;o, que n&atilde;o quis que ele me visse.<br \/>\n    Mas que havia ele de escrever na capela? Ent&atilde;o n&atilde;o adivinhei?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o sei. Adeus.<\/p>\n<p> &#8212; Diga.<\/p>\n<p> &#8212; E chamavas-me curioso ! E &Acirc;ngelo saiu apressadamente.<\/p>\n<p> Momentos depois estava com Augusto.<\/p>\n<p> A conversa entre ambos teve t&ocirc;da a intimidade da de dois afeo.<\/p>\n<p> tuosos amigos.<\/p>\n<p> Angelo fez a narra&ccedil;&atilde;o dos epis&oacute;dios da sua vida de<br \/>\n    col&eacute;gio ; das dificuldades e das belezas dos seus estudos naquele ano.<br \/>\n    Augusto que da aldeia com ele os seguia, passo a passo, interrogava-o sobra<br \/>\n    algumas d&uacute;vidas que tinha, e esclarecia &agrave;s vezes tamb&eacute;m,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave; sua poderosa penetra&ccedil;&atilde;o e natural lucidez,<br \/>\n    as que o ensino do col&eacute;gio havia deixado no esp&iacute;rito do seu<br \/>\n    antigo disc&iacute;pulo.<\/p>\n<p> A geografia e a hist&oacute;ria, que eram as disciplinas estudadas naquele<br \/>\n    ano por &Acirc;ngelo, deram assunto a grande parte deste di&aacute;logo, Augusto<br \/>\n    inclinara-se aos estudos hist&oacute;ricos, inclina&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    o ervan&aacute;rio o entretinha com freq&uuml;entes presentes de livros daquele<br \/>\n    g&eacute;nero.<\/p>\n<p> Em exame de livros novos, refer&ecirc;ncias a outros lidos, e leituras de<br \/>\n    alguns mais apreciados, passaram os dois grande parte da manh&atilde;, at&eacute;<br \/>\n    que por fim &Acirc;ngelo disse a Augusto : &#8212; Ah ! &eacute; verdade !<br \/>\n    Tenho um favor a pedir-lhe.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute;? &#8212; Sabe que est&aacute; para breve o dia de<br \/>\n    Reis ? &#8212; Sim.<\/p>\n<p> &#8212; E portanto o auto com que o povo daqui o festeja ; aquele auto em<br \/>\n    que o Herodes faz tremer meio mundo? &#8212; Bem sei &#8212; respondeu Augusto,<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Este ano teremos a Linda a fazer de Fama. Fama bonita, por certo<br \/>\n    ; mas se soubesse os versos que lhe deram para recitar ! E &Acirc;ngelo reproduziu,<br \/>\n    como p&ocirc;de, as quadras do mon&oacute;logo da Fama no auto dos Reis.<\/p>\n<p> De quando em quando passava um sorriso pelos l&aacute;bios de Augusto.<\/p>\n<p> &#8212; Eu i&aacute; conhecia isso. &Eacute; o costume &#8212; disse ele<br \/>\n    no fim.<\/p>\n<p> &#8212; Mas n&atilde;o lhe parece que de uma Fama como aquela, se devia<br \/>\n    esperar melhor do que isto? &#8212; E ent&atilde;o que quer que eu lhe fa&ccedil;a?<br \/>\n    &#8212; Outros versos para o lugar destes.<\/p>\n<p> &#8212; Outros!&#8230; Eu?&#8230;&#8212;perguntou Augusto.<\/p>\n<p> &#8212; Porque n&atilde;o ? &#8212; Oue lembran&ccedil;a ! &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    me venha negar que os faz.<\/p>\n<p> &#8212; Versos? &#8212; Sim.<\/p>\n<p> &#8212; Quer dizer que os leio.<\/p>\n<p> &#8212; E que os escreve. Vamos. Mas se insiste em recusar, diga-me ent&atilde;o<br \/>\n    quem &eacute; que os escreveu na parede da capela da Senhora da Sa&uacute;de,<br \/>\n    para eu me dirigir a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o houve quem escrevesse versos na parede da capeia? -perguntou<br \/>\n    Augusto, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o que eu visse; mas j&aacute; duas pessoas-mo afirmaram,<br \/>\n    e as peitas de ambas reca&iacute;ram no mesmo homem.<\/p>\n<p> &#8212; Quem foram essas pessoas? &#8212;De uma o ouvi agora mesmo. Foi<br \/>\n    Ermelinda.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; A outra foi Lena.<\/p>\n<p> &#8212;Le&#8230; A Sr.&#8217; D. Madalena? &#8212; &Eacute; verdade, minha irm&atilde;.<br \/>\n    E estranhou, com raz&atilde;o, que eu o n&atilde;o soubesse.<\/p>\n<p> &#8212; E como o soube ela ? &#8212; Leu-os, e pela leitura conjecturou<br \/>\n    o autor.<\/p>\n<p> Augusto calou-se como absorvido por um pensamento, que todo o preocupava.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo continuou falando, sem que fosse escutado; afinal concluiu,<br \/>\n    disendo : &#8212; Ent&atilde;o quer falar ao poeta da Ermida para que me d&ecirc;<br \/>\n    o que pe&ccedil;o? &#8212;Poesia n&atilde;o lhe pode ele dar, agora se&#8230;<br \/>\n    alguns versos o satisfazem&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sim, sim, venham os versos ; que a poesia eu a procurarei neles,<br \/>\n    at&eacute; a achar. Desde j&aacute; lhos agrade&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; A ele? &#8212; A ambos &#8212; respondeu Angelo, rindo. &#8212;<br \/>\n    E agora diga-me, Augusto : Ainda est&aacute; resolvido a viver aqui sempre<br \/>\n    enterrado ? N&atilde;o fensa em mudar de vida? &#8212; Nenhuma outra me namora<br \/>\n    mais ; o destino que a bondade da morgada me oferecia&#8230; n&atilde;o tenho<br \/>\n    coragem para aceit&aacute;-lo. Assusla- me o peso do crepe.<\/p>\n<p> &#8212; Nem eu lhe digo que deva aceitar esse. Mas o Augusto n&atilde;o<br \/>\n    Br&aacute; amigos que o ajudem a seguir outros destinos menos obscuros do<br \/>\n    que este e menos pesados do que o que o legado lhe impunha? Meu pai j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que quer ?( N&atilde;o me posso vencer at&eacute; pedir ou aceitar<br \/>\n    de outrem aux&iacute;lios, quando Deus mos n&atilde;o tem recusado ainda;<br \/>\n    nem sei at&eacute; se esses destinos, que diz menos obscuros, me fariam mais<br \/>\n    venturoso.<\/p>\n<p> H&aacute; &iacute;ndoles que nasceram afei&ccedil;oadas para a obscuridade.<br \/>\n    Incomoda-as a demasiada luz. umas plantas querem ar e sol e luz ; outras vivem<br \/>\n    ai em qualquer canto escuso e obscuro, e l&aacute; mesmo d&atilde;o flor.<br \/>\n    Porque &eacute; isto n&atilde;o sei, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sei eu &#8212; disse uma voz da parte de fora da janela, junto da<br \/>\n    qual se passara o di&aacute;logo ..<\/p>\n<p> Voltaram-se os dois ao ouvi-la. A figura do ervan&aacute;rio desenhava-&raquo;<br \/>\n    no v&atilde;o da janela, como um retrato de velho num caixilho de galeri &#8212;<br \/>\n    Ah ! o tio Vicente ! &#8212; exclamou &Acirc;ngelo, correndo-lhe , encontro.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio encostou-se, ainda de fora, ao&#8217; peitoril da janela ficando<br \/>\n    assim com meio corpo para dentro da sala.<\/p>\n<p> &#8212; Viva o nosso doutor &#8212; disse ele, sorrindo, a &Acirc;ngelo.<br \/>\n    &#8212; Por enquanto ainda esse cora&ccedil;&atilde;ozito est&aacute; como<br \/>\n    era. N&atilde;o esqueceu os seus amigos da aldeia.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; como sempre estar&aacute; &#8212; respondeu &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8212; Sempre ! &#8212; repetiu o velho. &#8212; Sempre e nunca s&atilde;o<br \/>\n    duas palavras de terrivel significa&ccedil;&atilde;o&#8230; Mas enfim&#8230; de bom<br \/>\n    metal &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o assim o n&atilde;o enferrugem os ares<br \/>\n    da cidade, como ao de&#8230; como ao de tantos&#8230;<\/p>\n<p> E mudando subitamente de tom, disse para Augusto : &#8212; com que dizias<br \/>\n    tu que n&atilde;o sabes porque algumas plantas vivem de pouca luz e de pouco<br \/>\n    ar, a&iacute; em qualquer buraco do muro? &Eacute; por que vivem muito pelas<br \/>\n    ra&iacute;zes essas. As plantas vivem do ar pelas folha.<\/p>\n<p> e vivem da terra pelas ra&iacute;zes. L&aacute; diz aquele livro da Hist&oacute;ria<br \/>\n    Natural que eu tenho. umas prendem-se pouco ao ch&atilde;o ; precisam, pois,<br \/>\n    de se abrirem muito ao ar para poderem viver ; outras, por&eacute;m, profun.<\/p>\n<p> dam tanto a terra, com tantas ra&iacute;zes se seguram, que delas lhe vem<br \/>\n    todo o sustento e n&atilde;o desdobram muitas folhas, nem crescem em gran.<\/p>\n<p> des ramos para o ar, como umas e como outras h&aacute; homens no mundo,<br \/>\n    Tu &eacute;s dos que deixam ganhar ra&iacute;zes ao cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e delas vivem. Que te importa o mais? essas grandezas que os outros procuram?<br \/>\n    Mas &eacute; preciso cautela, rapaz! H&aacute; cora&ccedil;&otilde;es como<br \/>\n    a hera, que onde quer que se encosta, prende-se com ra&iacute;zes. Quem &eacute;<br \/>\n    assim deve dirigir com prud&ecirc;ncia as suas inclina&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Se para mau lado dobra, se se encosta a &aacute;rvore de pre&ccedil;o&#8230; mal<br \/>\n    dele! que o separar&atilde;o com for&ccedil;a, fazendo- lhe estalar todas<br \/>\n    as ra&iacute;zes que o prendiam.<\/p>\n<p> As palavras de uma obscuridade sibilina, ditas pelo ervan&aacute;rio, parecia<br \/>\n    terem um sentido para Augusto, que visivelmente se perturbou ao ouvi-las.<\/p>\n<p> &#8212; Que est&aacute; a&iacute; a dizer, tio Vicente ! &#8212; disse Augusto,<br \/>\n    sem ousar fitar o velho.<\/p>\n<p> &#8212; Nada. Tontarias de velhice. A prud&ecirc;ncia, que os anos d&atilde;o,<br \/>\n    v&ecirc; longe e fundo, rapaz&#8230; &Eacute; verdade que&#8230; &agrave;s vezes&#8230;<br \/>\n    o arrojo dos mo&ccedil;os &eacute; tamb&eacute;m guia feliz&#8230; Anda l&aacute;<br \/>\n    com a tua estrela, anda. Ao que j&aacute; vejo, n&atilde;o sei se te possa<br \/>\n    chamar louco&#8230; como ao princ&iacute;pio n&atilde;o duvidei faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    &Eacute; certo que &eacute; pouco seguro o terreno em que sustentas os teus<br \/>\n    castelos.<\/p>\n<p> &#8212; Os meus castelos ! Que castelos fa&ccedil;o eu ? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    hei-de ser eu que tos mostre&#8230; S&oacute; te quero avisar que n&atilde;o ponhas<br \/>\n    grande f&eacute; em sonhos&#8230; Lembras-te do que se passou no monte da ermida?<br \/>\n    &#8212; No monte da ermida? &#8212; Nao viste por l&aacute; no outro dia uns<br \/>\n    sinais de trovoada ? A inconstancia &eacute; sempre de recear. O que naquela<br \/>\n    manh&atilde; se passou, o que ent&atilde;o vi&#8230;<\/p>\n<p> &#8212;Que viu?&#8230; Que se passou? O ervan&aacute;rio demorou por algum tempo<br \/>\n    o olhar em Augusto e com tal express&atilde;o, que o obrigou a desviar o seu<br \/>\n    ; depois acrescentou : &#8212; Nada ; o que todos os dias acontece. O c&eacute;u<br \/>\n    azul tez-se pardo, a luz clara cobriu-se de sombras, os raios do Sol tornaram-se<br \/>\n    torrentes de chuva. Pois n&atilde;o te lembras?&#8230; E tudo devido a uma mudan&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> de vento&#8230; a uns ares que vinham do sul&#8230;<\/p>\n<p> Augusto n&atilde;o entendia ou fingia n&atilde;o entender estes misteriosos<br \/>\n    dizeres do ervan&aacute;rio &Acirc;ngelo estava distra&iacute;do deveras.<\/p>\n<p> O velho voltou-se, de s&uacute;bito, para este, perguntando-lhe : &#8212;<br \/>\n    Tem ido ao Mosteiro o h&oacute;spede de Alvapenha? &#8212; Esteve l&aacute;<br \/>\n    ontem.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; amigo das crian&ccedil;as ? &#8212; Parece-o.<\/p>\n<p> &#8212; Conta muitas hist&oacute;rias &agrave;s senhoras? &#8212; Entret&eacute;m-nas<br \/>\n    bastante.<\/p>\n<p> &#8212; E ao .. e a teu pai ? Ouve-o com aten&ccedil;&atilde;o ? &#8212;<br \/>\n    Conversaram muito toda a noite.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio parecia ligar grande valor a estas perguntas, porque<br \/>\n    a cada resposta obtida, abanava pausadamente a cabe&ccedil;a com certo ar<br \/>\n    meditativo.<\/p>\n<p> Augusto relanceava tamb&eacute;m para a fronte, meio contra&iacute;da, do<br \/>\n    velho um olhar entre curioso e timido.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio prosseguiu : &#8212; Enfim .. A desconfian&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    um achaque da velhice e nem sempre os mais felizes s&atilde;o os mais acautelados.<br \/>\n    Deus que vele, se os bons lhe merecem ainda a gra&ccedil;a da sua protec&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; O tio Vicente desconfia do primo Henrique ? &#8212; perguntou &Acirc;ngelo<br \/>\n    rindo.<\/p>\n<p> &#8212; Primo ? ! &#8212; repetiu o velho, admirado.<\/p>\n<p> &#8212; Primo lhe chamamos n&oacute;s, porque a tia Vit&oacute;ria teima<br \/>\n    que, sendo ele sobrinho da tia Doroteia, &eacute; nosso primo tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Ah? J&aacute; a&iacute; vamos? E Lena?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Lena, Criste, todos lhe chamam por l&aacute; assim.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio p&ocirc;s-se a murmurar algumas palavras inintelig&iacute;veis,<br \/>\n    terminando por estas: &#8212; E, como no Egipto, &eacute; o vento sui que<br \/>\n    traz a praga dos gafanhotos.<\/p>\n<p> Mas Deus que vele, Deus que vele. E eu n&atilde;o me demoro mais, que vou<br \/>\n    ainda daqui aos pardieiros de Cernuche.<\/p>\n<p> &#8212; A ca&ccedil;a dos sapos, tio Vicente ? &#8212; perguntou &Acirc;ngelo,<br \/>\n    gracejando.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, que n&atilde;o &eacute; agora o tempo &#8212; respondeu,<br \/>\n    sisudo, o velho &#8212; Dos sapos ! Galante ca&ccedil;a, na verdade ! &#8212;<br \/>\n    continuou Angelo no mesmo tom.<\/p>\n<p> &#8212; Galante n&atilde;o ser&aacute; ela pequeno &#8212; respondeu o velho<br \/>\n    ; &#8212; mas aben&ccedil;oada a chamar&iacute;as se te torcesses no leito<br \/>\n    com as dores do carb&uacute;nculo, que n&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio<br \/>\n    mais eficaz para o curar, do que a pele destes animais seca ao ar livre.<\/p>\n<p> &#8212; E a das toupeiras? O tio Vicente tamb&eacute;m ca&ccedil;a toupeiras?<br \/>\n    &#8212; Em seu tempo. Oh ! a toupeira &eacute; animal de aben&ccedil;oadas<br \/>\n    vir.<\/p>\n<p> tudes ! Basta que um dente que se lhe arranque, estando ela viva, trazido<br \/>\n    ao pesco&ccedil;o, cura a mais desesperada dor de dentes.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o deve ser f&aacute;cil opera&ccedil;&atilde;o a de tirar<br \/>\n    os dentes &agrave;s toupeiras &#8212; tornou &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio continuou : &#8212; A quinta-ess&ecirc;ncia das toupeiras<br \/>\n    &eacute; milagrosa contra cancros e herpes.<\/p>\n<p> &#8212; A quinta-ess&ecirc;ncia das toupeiras ! &#8212; repetiu Angelo,<br \/>\n    rindo.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o rias, crian&ccedil;a &#8212; acudiu severamente o ervan&aacute;rio.<br \/>\n    &#8212; Qug n&atilde;o &eacute; bonito rir do que os homens doutos asseguram.<br \/>\n    Eu j&aacute; o experimentei, logo que o li naquele grande livro da Polianteia,<br \/>\n    livro corno se n&atilde;o faz hoje outro.<\/p>\n<p> &#8212; E como &oacute; que se tira a quinta-ess&ecirc;ncia a uma toupeira,<br \/>\n    tio Vicente ? &#8212; Tomam-se as toupeiras e queimam-se at&eacute; as fazer<br \/>\n    em cinzas.<\/p>\n<p> Mistura-se a estas cinzas o sumo de celid&oacute;nia maior, at&eacute; haver<br \/>\n    quatro dedos de sumo acima das cinzas. Mete-se tudo num vidro bem fechado,<br \/>\n    que se enterra por dez dias e .. e&#8230; Bem, bem. Ele ri!&#8230; Tolo sou eu em<br \/>\n    gastar tempo e paci&ecirc;ncia com crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Espere, espere, tio Vicente&#8230; N&atilde;o v&aacute; embora&#8230; Ent&atilde;o<br \/>\n    depois de enterrar tudo isso, que se faz? &#8212; At&eacute; logo&#8230; Pede<br \/>\n    a Deus que nunca te seja preciso fazer a pergunta com menos vontade de rir.<\/p>\n<p> &#8212; E assim vai sem me dar um rem&eacute;dio ! Olhe, tio Vicente, eu<br \/>\n    pade&ccedil;o &agrave;s vezes de um sono t&atilde;o pesado que me n&atilde;o<br \/>\n    deixa estudar.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio voltou-se e, com toda a seriedade, respondeu : &#8212;<br \/>\n    E julgas que n&atilde;o sei de rem&eacute;dio para isso ? Experimenta e ver&aacute;s,<br \/>\n    Mete um ou dois morcegos debaixo dos travesseiros e eu te afirmo que&#8230; Mas<br \/>\n    adeus, que se me faz tarde e daqui a Cernuche &eacute; uma l&eacute;gua, E<br \/>\n    o ervan&aacute;rio retirou-se, meio agastado com o cepticismo de &Acirc;ngelo<br \/>\n    e sobra&ccedil;ando a caixa de lata e o saco dos seus tesouros medicinais.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo e Augusto ficaram rindo da ci&ecirc;ncia e das singularidades<br \/>\n    do velho, riso em que n&atilde;o entrava, por&eacute;m, o menor laivo de malignidade;<br \/>\n    porque ambos tinham pelo velho uma verdadeira estima, que ele bem lhes merecia,<br \/>\n    pois sempre do cora&ccedil;&atilde;o o achavam votado a seu favor.<\/p>\n<p> O di&aacute;logo de &Acirc;ngelo e de Augusto prolongou-se ainda at&eacute;<br \/>\n    as horas do jantar.<\/p>\n<p> XIV EU n&atilde;o sei se esta hist&oacute;ria ter&aacute; leitor t&atilde;o<br \/>\n    mal-aventurado, que n&atilde;o possua recorda&ccedil;&otilde;es e saudades<br \/>\n    associadas &agrave; noite de Natal, &agrave;quela festiva-e aben&ccedil;oada<br \/>\n    noite, em que as ruas e os lugares p&uacute;blicos se despovoam, e nos lares<br \/>\n    dom&eacute;sticos parece crepitar e cinlilar o fogo mais acalentador do que<br \/>\n    nunca. Se algum deserdado da fortuna h&aacute; a&iacute; que n&atilde;o saiba<br \/>\n    o que &eacute; a festa das consoadas em fam&iacute;lia, esse que n&atilde;o<br \/>\n    leia este cap&iacute;tulo, que nele n&atilde;o encontrar&aacute; prazer. Se<br \/>\n    alguns as gozaram j&aacute; noutros tempos, por&eacute;m hoje erram a essas<br \/>\n    horas peias ruas solit&aacute;rias, olhando com inveja para cada raio de luz<br \/>\n    que rompe das frestas de tantas janelas discretamente fechadas, ouvindo comovidos<br \/>\n    o ru&iacute;do das alegrias que v&atilde;o no seio das fam&iacute;lias, e<br \/>\n    pela fantasia criando em cada morada um mundo &iacute;ntimo de afectos e de<br \/>\n    venturas, como o de que a sorte os privou, que esses me perdoem as amargas<br \/>\n    saudades que porventura lhes avive assim.<\/p>\n<p> &Eacute; certo que n&atilde;o h&aacute; noite mais alegre; alegre desta<br \/>\n    alegria que vai direita ao cora&ccedil;&atilde;o, sem perturbar os sentidos<br \/>\n    com fumos de embriaguez; alegre desta alegria c&acirc;ndida a que o homem<br \/>\n    &eacute; sujeito do ber&ccedil;o &agrave; velhice, a qual respeitam os estos<br \/>\n    das paix&otilde;es, na idade delas, e o gelo do ego&iacute;smo, no declinar<br \/>\n    da vida.<\/p>\n<p> Bem escura, bem ventosa, bem fria e h&uacute;mida surjas tu sempre, noite<br \/>\n    de vinte e quatro de Dezembro, que melhor ent&atilde;o se avaliar&aacute;<br \/>\n    pelo contraste a luz, o calor, o conchego dos lares, e mais &iacute;ntimos<br \/>\n    se estreitar&atilde;o os c&iacute;rculos da fam&iacute;lia em roda da ceia<br \/>\n    patriarcal.<\/p>\n<p> E v&oacute;s todos, a quem uma moda tola n&atilde;o constrangeu ainda a<br \/>\n    abandonar os h&aacute;bitos que de pequenos contra&iacute;stes, e festejais<br \/>\n    ainda o Natal de Cristo, segundo o estilo velho, continuai a manter genu&iacute;nos<br \/>\n    esses costumes nacionais, que n&atilde;o resultar&aacute; da&iacute; desdouro<br \/>\n    para o vosso nome ou bras&atilde;o. A roda da civiliza&ccedil;&atilde;o, a<br \/>\n    que aplic&aacute;is ombros com tanto denodo, n&atilde;o se cravar&aacute;<br \/>\n    por isso. &#8212; Podeis, elegantes meninas, cantar loas sem escr&uacute;pulo<br \/>\n    diante do pres&eacute;pio armado na sala mais intima da casa, que nem por<br \/>\n    isso cantareis pior na das visitas as &aacute;rias italianas, que aprendestes<br \/>\n    no col&eacute;gio ; n&atilde;o coreis de colaborar, por excep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    esta noite nos mesteres da cozinha, que sobra de &aacute;gua-de-co&#8217;&oacute;nia<br \/>\n    e perfumes tendes no toucador para as ablu&ccedil;&otilde;es purificatorias.<br \/>\n    Homens graves, a rep&uacute;blica perdoar-vos-&aacute; uma pequena infidelidade,<br \/>\n    a pol&iacute;tica do Pais e da Europa n&atilde;o periclitar&aacute; desnorteada<br \/>\n    se, por um pouco, lhe negardes a vossa aten&ccedil;&atilde;o; humanizai-vos<br \/>\n    pois uma vez por ano, e baixai ao seio da fam&iacute;lia os olhares, que ponderosos<br \/>\n    empenhos vos trazem sublimados. &#8212; Entrai com as crian&ccedil;as em jogos<br \/>\n    pueris e f&aacute;ceis, que n&atilde;o destemperareis a intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    para as filos&oacute;ficas cogita&ccedil;&otilde;es &laquo;D bast&oacute;n<br \/>\n    e do whist.<\/p>\n<p> A fam&iacute;lia do Mosteiro era fiel &agrave;s cl&aacute;ssicas usan&ccedil;as<br \/>\n    desta noite tradicional. E naquele ano sobretudo as festas das consoadas deviam<br \/>\n    ser coisa falada gra&ccedil;as ao plano de D. Vit&oacute;ria de reunir no<br \/>\n    Mosteiro a resumida fam&iacute;lia de Alvapenha ; plano que vimos aprovado<br \/>\n    por aclamac&agrave;o por t&ocirc;da a assembl&eacute;ia presente.<\/p>\n<p> D. Doroteia veio efectivamente na companhia de Henrique de Souselas e de<br \/>\n    Maria de Jesus.<\/p>\n<p> Foram recebidos no Mosteiro por uma completa ova&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> D. Doroteia viu-se literalmente enla&ccedil;ada em bra&ccedil;os intantis,<br \/>\n    que lhe tolhiam os movimentos e que, dizia ela, quase amea&ccedil;avam asfixi&aacute;-la<br \/>\n    Tudo isto dava motivo a exclama&ccedil;&otilde;es e risos, que inauguraram<br \/>\n    um estado de coisas, o qual nunca mais devia cessar aquela noite A balb&uacute;rdia,<br \/>\n    a az&aacute;fama festiva que ia no Mosteiro &eacute; indescrit&iacute;vel<br \/>\n    Na cozinha, nas salas, nos corredores tudo era movimento e ru&iacute;do Aqui<br \/>\n    eram as crian&ccedil;as jogando, a pinh&otilde;es, o &laquo;par ou pern&atilde;o&raquo;<br \/>\n    e o &laquo;rapa&raquo;, jogos popularissimos e de ocasi&atilde;o que, de t&atilde;o<br \/>\n    conhecidos dispensam o trabalho de descrev&ecirc;-los. Estes jogos, como &eacute;<br \/>\n    de prever&#8217; n&atilde;o se executavam sem um concurso de vozearia e de algazarra,<br \/>\n    que desafiava a impaci&ecirc;ncia de D. Vit&oacute;ria, a qual, segundo o<br \/>\n    costume, ia pelo que se passava na sala, ralhar com os criados &agrave; cozinha.<\/p>\n<p> No aposento imediato ao quarto cie D. Vit&oacute;ria, armara-se o pres&eacute;pio,<br \/>\n    diante do qual ardiam seis velas de cera em casti&ccedil;ais de prata maci&ccedil;a.<\/p>\n<p> As duas velhas senhoras, D. Doroteia e D. Vit&oacute;ria, encetaram logo<br \/>\n    no princ&iacute;pio da noite uma longa e devota .reza, meio recitada, meio<br \/>\n    cantada, a qual se continuava com uma intermin&aacute;vel enfiada da padre-nossos<br \/>\n    e ave-manas, a que respondia, em coro, a parte feminina da fam&iacute;lia,<br \/>\n    as enancas e as criadas Corifeu era a senhora de Alvapenha, que em voz tr&eacute;mula<br \/>\n    e quebrada pela idade, entoava em singela cantilena copias como esta: &Oacute;<br \/>\n    infante suav&iacute;ssimo, Vinde, vinde j&aacute; ao mundo Livrar-nos do cativeiro<br \/>\n    Deste jazigo profundo.<\/p>\n<p> E seguia-se um padre-nosso e uma ave-maria.<\/p>\n<p> Angelo havia ao princ&iacute;pio, com as suas travessuras desordenado um<br \/>\n    pouco o andamento regular das rezas, mas D. Vit&oacute;ria tomou o her&oacute;ico<br \/>\n    expediente de o expulsar do congresso, e tudo serenou.<\/p>\n<p> &Agrave; sala, onde Henrique de Souselas conversava com o conselheiro em<br \/>\n    assuntos, todos desta vez longe da pol&iacute;tica, chegaram as surdas harmonias<br \/>\n    daquelas cantigas e rezas. Henrique mostrou curiosidade de saber o que era<br \/>\n    aquilo. O conselheiro, sorrindo, convidou-o a segui-lo para por si pr&oacute;prio<br \/>\n    se poder informar.<\/p>\n<p> E, tomando por aposentos interiores, conseguiram ambos introdu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    na sala da novena justamente ao lado de D. Vit&oacute;ria e de D. Dor&oacute;l<br \/>\n    a , que, de embebidas que estavam nas suas ora&ccedil;&otilde;es nem por eles<br \/>\n    deram.<\/p>\n<p> O conselheiro e Henrique ajoelharam sisudamente ao lado daquelas boas senhoras,<br \/>\n    e quando ap&oacute;s um dos padre-nossos, ditos por n, Doroteia, se devia<br \/>\n    seguir a resposta do coro feminino, este emude, com a chegada dos dois, a<br \/>\n    qual desafiara risos a custo sufocados, foi substitu&iacute;do por um dueto<br \/>\n    de vozes masculinas, que sobressaltaram primeiro, e escandalizaram depois<br \/>\n    ambas as sisudas senhoras.<\/p>\n<p> O tumulto que o epis&oacute;dio produziu fez atrair as crian&ccedil;as ;<br \/>\n    D. Vit&oacute;la teve muito que fazer, muito que repreender o cunhado, muito<br \/>\n    que falhar com os filhos e com o sobrinho, muito que carpir-se com D. Dor&oacute;la,<br \/>\n    muito que recriminar os criados, rindo-se, bem a seu pesar, no meio de todas<br \/>\n    estas tarefas.<\/p>\n<p> Terminou confusamente a novena com tal ocorr&ecirc;ncia. Os desordeiros<br \/>\n    somente capitularam, consentindo em retirar-se, quando lhes prometeram que<br \/>\n    se encurtaria a lista dos padre-nossos. Henrique voltou com o conselheiro<br \/>\n    a admirar o primor que a paci&ecirc;ncia de um artista imaginoso realizara<br \/>\n    na confec&ccedil;&atilde;o do pres&eacute;pio, onde estavam representados<br \/>\n    todos os epis&oacute;dios da natividade de Jesus, e muitos outros.<\/p>\n<p> Era efectivamente uma complicada m&aacute;quina aquele pres&eacute;pio,<br \/>\n    e seria prova de profunda indiferen&ccedil;a art&iacute;stica passer por ele<br \/>\n    sem um exame, embora fugaz.<\/p>\n<p> Este traste antiqu&iacute;ssimo na fam&iacute;lia gozava de nomeada num<br \/>\n    c&iacute;rculo de l&eacute;guas em redor. Havia empenhos para o ver no tempo<br \/>\n    do Natal, e se algum viajante estacionava dois dias na aldeia, encontrava<br \/>\n    sempre quem lhe recomendasse o visitar o pres&eacute;pio, como coisa digna<br \/>\n    de ver-se.<\/p>\n<p> Consistia ele numa esp&eacute;cie de santu&aacute;rio de pau-preto, no meio<br \/>\n    do qual havia uma pequena gruta t&ocirc;da cravejada de caramujos e rosas<br \/>\n    de papel, com est&acirc;mes de fio de prata. Dentro dessa gruta estava deitado<br \/>\n    o menino Deus, n&atilde;o sobre umas palhas, como a tradi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    refere, mas gra&ccedil;as aos impulsos do compadecido cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de D. Vit&oacute;ria, que, ainda que tarde, parecia tentear um lenitivo aos<br \/>\n    antigos rigores da humanidade, em uma bonita cama de len&ccedil;&oacute;is<br \/>\n    de renda com cercadura dourada ; colcha de cetim bordado, e colch&atilde;o<br \/>\n    e travesseiro da mais macia penugem de aves americanas. Ao lado, Nossa Senhora<br \/>\n    e S. Jos&eacute;,.<\/p>\n<p> de propor&ccedil;&otilde;es quase iguais &agrave;s do menino ; mais longe<br \/>\n    a vaca e a mula tradicionais. Os epis&oacute;dios por&eacute;m eram inquestionavelmente<br \/>\n    o mais interessante da obra. V&aacute;rios grupos de pastores, soldados e<br \/>\n    fidalgos de todos os tamanhos, feitios e vestu&aacute;rios, ornavam a cena.<br \/>\n    Ali um cego tocador de sanfona; um grupo de galegos dan&ccedil;ando, ao som<br \/>\n    da gaita de fole ; uma pastora com ovos mais adiante ; ao lado, um grupo celebrando<br \/>\n    um piquenique, perfeita actualidade, tudo em mangas de camisa, com gravata<br \/>\n    e botas de cano; &#8212; outros fumando e bebendo cerveja. uma amazona inglesa,<br \/>\n    com o seu j&oacute;quei, galopava pelas cercanias de Bel&eacute;m; um vareiro<br \/>\n    e uma vareira caminhavam a par com ofertas para o menino. Ao longe, nos visos<br \/>\n    da serra, apareciam os tr&ecirc;s Reis Magos, que deviam levar dez dias a<br \/>\n    chegar a baixo N&atilde;o esqueceu ao inspirado autor daquele monumento escultural<br \/>\n    os muros de Jerusal&eacute;m. Eles l&aacute; estavam coroados de ameias e<br \/>\n    de milic&iacute;anos fardados &agrave; inglesa e armados de lan&ccedil;as<br \/>\n    e arcabuz. Eram gigantes aqueles guerreiros, pois, n&atilde;o obstante estar<br \/>\n    a muralha no plano do fundo do quadro, qualquer deles era duas vezes maior<br \/>\n    do que as figuras do plano da frente. No alto da muralha arvorava-se a bandeira<br \/>\n    portuguesa. Havia v&aacute;rios santos espalhados pelas agruras daquelas montanhas,<br \/>\n    e, entre os aditamentos feitos pela devo&ccedil;&atilde;o de D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    ao pres&eacute;pio, contava-se o de um Santo Ant&ocirc;nio de Lisboa, que<br \/>\n    apesar de taumaturgo, parecia muito admirado de se ver naquele tempo e lugar.<br \/>\n    Um galo colossal soltava do telhado do pres&eacute;pio o grito anunciador,<br \/>\n    anjos e querubins espreitavam do C&eacute;u por entre nuvens de algod&atilde;o<br \/>\n    e estrelas de ouropel. Era um prod&iacute;gio.<\/p>\n<p> Descrevendo r&agrave;pidamente esta maravilhosa f&aacute;brica, sentia eu<br \/>\n    vivo orgulho de ter revelado ao mundo uma preciosidade sem igual, e a que<br \/>\n    a un&acirc;nime admira&ccedil;&atilde;o faria cedo ou tarde justi&ccedil;a<br \/>\n    ; tive por&eacute;m de abandonar esta lisonjeira id&eacute;ia, ao achar-me<br \/>\n    precedido por um dos romancistas mais justificadamente populares da na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vizinha. Das p&aacute;ginas de um delicioso quadro de costumes de Fern&aacute;n<br \/>\n    Caballero, a eminente escritora de que a Andaluzia se ufana, conheci eu serem<br \/>\n    n&atilde;o somente nacionais, mas peninsulares pelo menos, estes modelos de<br \/>\n    pres&eacute;pios, com os seus ingenuos anacronismos, cunho irrecus&aacute;vel<br \/>\n    que o povo imprime a todas as suas obras de arte. Onde falta o anacronismo,<br \/>\n    falta a assinatura do povo.<\/p>\n<p> Em todo o caso era digno da men&ccedil;&atilde;o que dele fizemos o pres&eacute;pio<br \/>\n    do Mosteiro.<\/p>\n<p> Enquanto Henrique e o conselheiro o estudavam por mi&uacute;do, D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    fizera desfilar o cortejo das criadas para a cozinha, onde urgia o servi&ccedil;o,<br \/>\n    e seguindo-as ia-lhes demonstrando que eram as piores criadas do mundo, por<br \/>\n    isso que, tendo tanto que fazer, perdiam tempo a cantar loas diante do pres&eacute;pio.<br \/>\n    D. Doroteia cedo tomou com Madalena e Cristina o mesmo caminho.<\/p>\n<p> O conselheiro e Henrique ficaram nas salas com os pequenos, e com eles entraram<br \/>\n    em jogos, como se fossem crian&ccedil;as tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> O aspirante a ministro, o deputado, o orador, o homem grave e s&eacute;rio<br \/>\n    das salas de Lisboa perdera todo o ar diplom&aacute;tico: agora era somente<br \/>\n    o homem da fam&iacute;lia; pueril, travesso, alegre, folgaz&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Meu caro &#8212; dissera ele a Henrique no princ&iacute;pio da noite<br \/>\n    &#8212; vou fazer-lhe um pedido. Hoje deve ser banido o menor assunto pol&iacute;tico,<br \/>\n    a menor discuss&atilde;o s&eacute;ria. Deixe-se correr frivola a conversa<br \/>\n    da noite, o contr&aacute;rio sena urna profana&ccedil;&atilde;o, que atrairia<br \/>\n    sobre nossas cabe&ccedil;as as justas iras dos anjos dom&eacute;sticos que<br \/>\n    nestas noites andam invis&iacute;veis misturados com a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> &#8212; Apoiado &#8212; respondeu Henrique ; &#8212; aceito e comprometo-me<br \/>\n    a cumprir a proposta.<\/p>\n<p> Henrique possu&iacute;a em alto grau o talento de se tornar agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> Compreendendo que eram sinceros os desejos do conselheiro, t&atilde;o frio<br \/>\n    e pueril conseguiu mostrar-se, que todos o tratavam como membro da fam&iacute;lia,<br \/>\n    e ao pr&oacute;prio conselheiro parecia j&aacute; imposs&iacute;vel que ainda<br \/>\n    fossem t&atilde;o recentes as suas rela&ccedil;&otilde;es mais &iacute;ntimas<br \/>\n    com aquele rapaz.<\/p>\n<p> &#8212; Animo, sr. conselheiro &#8212; dizia-lhe Henrique, no momento em<br \/>\n    que eles ambos estavam empenhados a jogar a cabra-cega com os pequenos. &#8212;<br \/>\n    Coragem, que temos gloriosos exemplos a animar- -nos; at&eacute;, entre outros,<br \/>\n    o do meu hom&oacute;nimo Henrique IV. &Eacute; sabido o epis&oacute;dio recordado<br \/>\n    por uma gravura c&eacute;lebre.<\/p>\n<p> O conselheiro secundava-o, rindo ; gra&ccedil;as a estes jogos, a sala estava<br \/>\n    dentro em pouco em desordem ; os m&oacute;veis fora da sua posi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o ch&atilde;o alastrado de cascas de pinh&otilde;es, que estalavam sob os<br \/>\n    passos, os tapetes desviados, as cortinas soltas.<\/p>\n<p> J&aacute; por noite avan&ccedil;ada, disse o conselheiro para Henrique :<br \/>\n    &#8212; Falta-nos ainda um artigo importante do ritual destas festas, o principal.<br \/>\n    &Eacute; dirigir uma visita &agrave; cozinha. Porque a obra principal desta<br \/>\n    noite &eacute; fazer uma ceia e n&atilde;o com&ecirc;-la. Por isso convido-o<br \/>\n    a acompanhar- me l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; com tanta mais vontade, que estou h&aacute; muitos dias comprometido<br \/>\n    a isso com as senhoras.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso &eacute; tempo.<\/p>\n<p> E ambos tomaram pelo corredor, que conduzia &agrave; cozinha.<\/p>\n<p> Escusado parece dizer que a turba infantil os seguiu tumultu&agrave;riamente,<br \/>\n    anunciando-os ao longe com risadas e gritos de alegria.<\/p>\n<p> A cozinha do Mosteiro era uma digna cozinha de frades. Ocupava um vasto<br \/>\n    recinto rectangular, rasgado em amplas janelas e fornecido de bancas monumentais,<br \/>\n    condizendo com a estupenda chamin&eacute;, que parecia ainda saudosa dos odor&iacute;feros<br \/>\n    vapores que outr&oacute;ra espalhavam os tachos e as grelhas mon&aacute;sticas.<\/p>\n<p> Ia indizivel anima&ccedil;&atilde;o na cozinha, quando Henrique a&iacute;<br \/>\n    entrou com o pai de Madalena. Era um barafustar de criadas, um chiar de certas,<br \/>\n    um borbulhar de ca&ccedil;arolas e tachos, um tinir de pratos, um tilintar<br \/>\n    de cristais no meio de uma babel de ordens, de perguntas, de reclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    de conselhos, todos atinentes a neg&oacute;cios culin&aacute;rios. E D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    ralhava, e a Sr.&ordf; de Alvapenha promulgava preceitos, e Maria de Jesus<br \/>\n    desdenhava do servi&ccedil;o das colegas, e Madalena e Cristina riam de todos<br \/>\n    e de tudo, e &Acirc;ngelo a todos impacientava.<\/p>\n<p> N&atilde;o se imagina! A chegada do conselheiro e do seu h&oacute;spede<br \/>\n    veio exacerbar a desordem. Ergueram-se risos e exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as quais ainda assim eram subjugadas pelos reparos e censuras de D. Vit&oacute;ria,<br \/>\n    a qual dizia para o conselheiro: &#8212; Sempre o mano tem coisas ! Olhem<br \/>\n    agora para o que lhe havia de dar ! V&atilde;o l&aacute; para dentro, v&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o venham atrapalhar-nos mais ainda do que estamos. E o primo Henrique<br \/>\n    tamb&eacute;m! Ora esta!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o se aflija, mana. N&oacute;s n&atilde;o pod&iacute;amos<br \/>\n    resignar-nos a ficar alheios &agrave; tarefa principal do dia. E at&eacute;<br \/>\n    porque &eacute; necess&aacute;rio dar andamento a isto para chegarmos a tempo<br \/>\n    da missa do galo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois querem ir &agrave; missa do galo ? &#8212; Est&aacute; de ver<br \/>\n    que sim.<\/p>\n<p> &#8212; Eu tamb&eacute;m vou &#8212; disse Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; E eu &#8212; acudiu Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Mais um, que ir&aacute; tamb&eacute;m &#8212; disse Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; E eu, e eu &#8212; acrescentaram diferentes vozes.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, minhas encomendas ! &#8212; suspirou D. Vit&oacute;ria. &#8212;<br \/>\n    Ent&atilde;o porque n&atilde;o disseram isso logo? Agora como h&aacute;-de<br \/>\n    ser? E saiu em direc&ccedil;&atilde;o &agrave; sala da ceia a dispor as coisas.<\/p>\n<p> &Eacute; preciso que se diga que D. Vit&oacute;ria vivia na c&acirc;ndida<br \/>\n    ilus&atilde;o de que era e&#8217;a quem faz&#8217;a tudo em casa, enquanto que manda a<br \/>\n    verdade declarar que nunca mais regularmente corriam as coisas dom&eacute;sticas<br \/>\n    do que quando dormia esta ali&aacute;s excelente senhora.<\/p>\n<p> &#8212; M&atilde;os &agrave; obra, Sr. Henrique ! &#8212; bradou o conselheiro,<br \/>\n    insistindo na resolu&ccedil;&atilde;o com que viera.<\/p>\n<p> &#8212; Pronto &#8212; respondeu Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? ent&atilde;o ? &#8230; Que v&atilde;o fazer ? &#8212;<br \/>\n    perguntava D. Vit&oacute;ria, aflita, voltando &agrave; cozinha.<\/p>\n<p> &#8212; Querem ver que preparos ? ! &#8212; dizia D. Doroteia, sorrindo<br \/>\n    e olhando com curiosidade para o que faziam os dois.<\/p>\n<p> &#8212; Cumpro uma promessa que fiz a estas senhoras, minha tia &#8212;<br \/>\n    dizia Henrique, aproximando-se da banca, perto da qual trabalhavam Madalena<br \/>\n    e Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade que sim &#8212; acudiu Madalena &#8212; e eu exijo<br \/>\n    o cumprimento da promessa.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos l&aacute;, Sr. Henrique &#8212; tornou o conselheiro &#8212;<br \/>\n    aceite-me alguns preceitos da pr&aacute;tica. A regra &eacute; fazer tudo<br \/>\n    o mais indigesto possivel ; porque essa qualidade &eacute; o caracter&iacute;stico<br \/>\n    dos manjares desta noite.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso, vejo que nasci para cozinhar a ceia do Natal, pois desafio<br \/>\n    o melhor est&ocirc;mago do mundo a que subjugue os meus guisados com os seus<br \/>\n    sucos digestivos.<\/p>\n<p> &#8212; Eu j&aacute; escolhi tarefa &#8212; disse o conselheiro, tirando<br \/>\n    das m&atilde;os de Cristina a colher com que ela mexia o vaso onde se preparava<br \/>\n    o vinho quente, esse punch nacional, que nesta noite seria uma falta imperdo&aacute;vel<br \/>\n    se esquecesse no programa daquele banquete.<\/p>\n<p> Cristina quis resistir ; mas o conselheiro venceu, e cedo principiou a desempenhar-se<br \/>\n    deste trabalho, no meio de hilaridade geral.<\/p>\n<p> Angelo dispensou a tia Doroteia do trabalho da prepara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos mexidos.<\/p>\n<p> Henrique, seguindo o exemplo do conselheiro, e no seguimento do seu constante<br \/>\n    prop&ograve;sito, aproximou-se da morgadinha, que naquele momento se ocupava<br \/>\n    a regar de calda de mel umas recentes rabanadas, &#8212; Pe&ccedil;o trabalho,<br \/>\n    prima Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; falta de bra&ccedil;os nesta reparti&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    primo Henrique. V&aacute; a outra porta.<\/p>\n<p> &#8212; Agrada-me mais esta tarefa, acho-a ao alcance das minhas for&ccedil;as.<\/p>\n<p> &#8212; Esta ? Como se engana ! N&atilde;o sabe que as rabanadas s&atilde;o<br \/>\n    a ess&ecirc;ncia da ceia de Natal? E logo havia de confiar-lhas? &#8212; Ah<br \/>\n    ! n&atilde;o ligava tanta import&acirc;ncia a estas representa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da pastelaria primitiva, not&aacute;veis porque recordam a inf&acirc;ncia<br \/>\n    da arte ! Enquanto a mim, j&aacute; no tempo da peregrina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos hebreus, Mois&eacute;s lhes ensinava a cozinhar disto.<\/p>\n<p> Madalena abanou a cabe&ccedil;a em sinal de repreens&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoe &agrave;s pobres rabanadas o pouco ar de moda que t&ecirc;m.<br \/>\n    A sua eleg&acirc;ncia &eacute; implac&aacute;vel, primo Henrique. Um indigesto<br \/>\n    manjar franc&ecirc;s seria de melhor tom, bem sei. At&eacute; nisso ! &#8212;<br \/>\n    Para provar que estou arrependido da minha irrever&ecirc;ncia, consinta-me<br \/>\n    que a coadjuve, prima.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pode ser ; pesa sobre mim uma tremenda responsabilidade.<\/p>\n<p> &#8212; Isso equivale a recusar-me o foro de fam&iacute;lia, que t&atilde;o<br \/>\n    humildemente reclamo.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente &#8212; respondeu Madalena. &#8212; Eu sou muito escrupulosa<br \/>\n    nisso. Faz mal em n&atilde;o reclamar esse foro de Cristina, que talvez encontrasse<br \/>\n    mais disposta a conceder-lho.<\/p>\n<p> &#8212; Mas, se me n&atilde;o engano, foi a prima Madalena que primeiro<br \/>\n    me conferiu o apreci&aacute;vel titulo de parentesco com que nos tratamos.<\/p>\n<p> &#8212; O de primos? Esse sim; mas n&atilde;o tem os privil&eacute;gios<br \/>\n    que lhe quer dar.<\/p>\n<p> &#8212; Que privil&eacute;gios s&atilde;o ? &#8212; Ah!&#8230; o de colaborar<br \/>\n    numa ceia de consoadas, por exemplo.<\/p>\n<p> &#8212; Parece-lhe, priminha, que ser&aacute; muito exigir o que eu pe&ccedil;o?<br \/>\n    &#8212; perguntou Henrique a Cristina, que principiara a escut&aacute;-los.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ouvi &#8212; respondeu esta, corando e sorrindo, como<br \/>\n    sempre que lhe falava Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Escusado &eacute; consultar Cristina &#8212; acudiu a morgadinha&#8212;por<br \/>\n    que em muitas coisas pensa ela em oposi&ccedil;&atilde;o comigo. E nisto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E nisto&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Nisto de atender a requerimentos, &eacute; talvez mais condescendente.<\/p>\n<p> &#8212; Ao que estou vendo &#8212; disse o conselheiro jovialmente &#8212;<br \/>\n    grandes coisas se tinham passado aqui antes da minha chegada. Vejo lavrar<br \/>\n    uma hostilidade entre Lena e o Sr. de Souselas, que me d&aacute; s&eacute;rias<br \/>\n    inquieta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; E eu julgo que n&atilde;o. Ao que ouvi ao Henriquinho, a primeira<br \/>\n    vez que viu a nossa Lena no Mosteiro!&#8230;&#8212;disse D. Doroteia, com t&ocirc;da<br \/>\n    a indiscri&ccedil;&atilde;o da sua ingenuidade.<\/p>\n<p> Madalena procurou acudir a tempo &agrave; corrente das revela&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a que viu disposta a boa senhora.<\/p>\n<p> Veio oportunamente em seu aux&iacute;lio Angelo, que tendo feito uma digress&atilde;o<br \/>\n    pela sala do refeit&oacute;rio, voltou com a alegre nova de que a ceia estava<br \/>\n    na mesa.<\/p>\n<p> O an&uacute;ncio foi recebido com aparente entusiasmo. Suspenderam-se trabalhos,<br \/>\n    quase completos, u&#8217;timaram-se &agrave; pressa outros, e a companhia dirigiu-se<br \/>\n    para o corredor.<\/p>\n<p> Pouco depois de &Acirc;ngelo, chegou D. Vit&oacute;ria, desmentindo-o e<br \/>\n    pretendendo suster a corrente, que amea&ccedil;ava invadir a sala, que ela<br \/>\n    ainda n&atilde;o dera por pronta. J&aacute; n&atilde;o era tempo. O conselheiro,<br \/>\n    tomando duas crian&ccedil;as ao colo, rompia a marcha, e atr&aacute;s dele<br \/>\n    at&eacute; a pacifica D. Doroteia clamava insubordinada que n&atilde;o recuaria<br \/>\n    um passo.<\/p>\n<p> E falando e rindo, assim entraram na sala.<\/p>\n<p> Estava ofuscante de luzes, espl&ecirc;ndida de lou&ccedil;as e baixelas,<br \/>\n    enfeitada de flores e de cristais e enevoada dos vapores das iguarias.<\/p>\n<p> Houve um grande rumor de cadeiras arrastadas, uma confus&atilde;o e incoer&ecirc;ncia<br \/>\n    de ordens de D. Vit&oacute;ria para marcar lugares, infrac&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    destas ordens, que a impacientavam, como se com isso pudesse perigar a ordem<br \/>\n    natural e social do mundo, e, como justa conseq&uuml;&ecirc;ncia, ca&iacute;a<br \/>\n    sobre a cabe&ccedil;a dos criados uma enfiada de recrimina&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que eles por h&aacute;bito j&aacute; sofriam com exemplar paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Restabelecida enfim a ordem, procedeu-se &agrave; ceia.<\/p>\n<p> Ceia de Natal ! aben&ccedil;oado banquete, ao qual todos se devem sentar<br \/>\n    nas mesmas disposi&ccedil;&otilde;es de &acirc;nimo em que ordenava Cristo<br \/>\n    estivessem os que fossem orar ao templo ; ceia com tanto af&atilde; cozinhada,<br \/>\n    e com t&atilde;o pouca vontade comida, falem embora contra ti os m&eacute;dicos<br \/>\n    e os gastr&oacute;nomos em&eacute;ritos, condenando uns a indigesiibilidade<br \/>\n    dos teus cozinhados, outros o pouco delicado deles ; reage contra as id&eacute;ias<br \/>\n    novas, que v&ecirc;m da Fran&ccedil;a e da Alemanha; cerra as fornalhas &agrave;s<br \/>\n    iguarias ex&oacute;ticas e furta-te &agrave;s m&atilde;os da estranha gera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de vat&eacute;is, que aspiram a dominar pelos paladares o esp&iacute;rito<br \/>\n    nacional.<\/p>\n<p> Modifiquem embora o caracter vern&aacute;culo de todas as outras refei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mas respeitem esta, consagrada pelas mem&oacute;rias da fam&iacute;lia, justificada<br \/>\n    pelo facto de que quase n&atilde;o &eacute; feita para ser comida.<\/p>\n<p> Assim sucedia com a do Mosteiro. Apesar das instiga&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    conselheiro, das inst&acirc;ncias de D. Vit&oacute;ria, das garantias de D.<br \/>\n    Doroteia sobre a inocuidade dos guisados, os pratos corriam &agrave; roda<br \/>\n    da mesa quase intactos e intactos voltavam &agrave; cozinha de onde sa&iacute;ram.<\/p>\n<p> Mas se se comia pouco &#8212; e de facto, &agrave; excep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Henrique, do conselheiro e das crian&ccedil;as, quase ningu&eacute;m parecia<br \/>\n    haver-se sentado ali para cear &#8212; mas, diz&iacute;amos n&oacute;s, se<br \/>\n    se comia pouco, em compensa&ccedil;&atilde;o &iacute;alava-se muito.<\/p>\n<p> O conselheiro a todos dirigia a palavra, demonstrando urna iniciativa eficaz<br \/>\n    para baralhar e generalizar as conversas e assim conservar constante a anima&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Tudo desafiava risos, o dito de uma crian&ccedil;a, a anedota contada por<br \/>\n    Henrique, as distrac&ccedil;&otilde;es de D. Vit&oacute;ria, as canduras de<br \/>\n    D. Doroteia, os paradoxos sustentados pelo conselheiro, as alus&otilde;es<br \/>\n    da morgadinha a Cristina, a confus&atilde;o desta, as maliciosas insinua&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> Assim procedeu o repasto nocturno at&eacute; &agrave; altura das sauda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dos toasts. Nesta parte, justo &eacute; confessar que Henrique e o conselheiro<br \/>\n    foram menos abstinentes. Era dif&iacute;cil resistir &agrave; preciosidade<br \/>\n    dos vinhos.<\/p>\n<p> Passados os rec&iacute;procos brindes entre os parentes, o conselheiro,<br \/>\n    voltando-se para &Acirc;ngelo, autorizou-o a propor tamb&eacute;m um brinde.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo levantou-se ent&atilde;o para brindar Augusto.<\/p>\n<p> O conselheiro secundou-o, levando o copo aos l&aacute;bios.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! o Sr. Augusto &#8212; disse Henrique, antes de beber e com<br \/>\n    certo tom de ironia. &#8212; Conhe&ccedil;o; &eacute; uma ave rara destas<br \/>\n    imedia&ccedil;&otilde;es, que tem obras de cavaleiro errante sob umas apar&ecirc;ncias<br \/>\n    de fil&oacute;sofo.<\/p>\n<p> &#8212; Brios de cavaleiro ? &#8212; disse &Acirc;ngelo, com vivacidade.<br \/>\n    &#8212; Ainda isso n&atilde;o &eacute; tudo, Sr. Henrique ; pode acrescentar,<br \/>\n    e alma de her&oacute;i tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8212; Pois d&ecirc;-se-lhe tamb&eacute;m alma de her&oacute;i, e se for<br \/>\n    preciso at&eacute; consci&ecirc;ncia de santo. V&aacute; &agrave; sa&uacute;de<br \/>\n    da f&eacute;nix.<\/p>\n<p> E bebeu.<\/p>\n<p> Depois de pousar o copo, prosseguiu com o mesmo tom anterior: &#8212; O<br \/>\n    que vejo &eacute; que &eacute; perigoso falar com a mais ligeira irrever&ecirc;ncia<br \/>\n    desta personagem; corre-se o risco de ver voltar contra o &iacute;mpio, que<br \/>\n    tanto ousa, os poderes conspirados do C&eacute;u e da Terra. Bem; prometo<br \/>\n    acatar essa preciosidade.<\/p>\n<p> &#8212; E creia &#8212; disse-lhe o conselheiro &#8212; que lhe &eacute;<br \/>\n    merecedor de t&ocirc;da a considera&ccedil;&atilde;o. Augusto &eacute; um<br \/>\n    destes caracteres excepcionais que vivem &agrave; sombra de uma mod&eacute;stia<br \/>\n    impenetr&aacute;vel e &agrave; sombra dela muitas vezes morrem. &Eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    ter a vista muito exercitada nestas explora&ccedil;&otilde;es de almas modestas,<br \/>\n    para descobrir uma assim.<\/p>\n<p> &#8212; Felizmente para os miopes como eu &#8212; prosseguiu Henrique &#8212;<br \/>\n    elas fazem &agrave;s vezes a fineza de se despojarem da sua timidez e de se<br \/>\n    mostrarem &agrave; luz. N&atilde;o &eacute; verdade, prima Madalena? &#8212;<br \/>\n    Que admira ; &#8212; respondeu Madalena &#8212; bem oculto est&aacute; o fogo<br \/>\n    na pederneira, primo Henrique, mas, percutindo-a, salta a fa&iacute;sca.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre rapaz &#8212; notou a Sr.* de Alvapenha &#8212; aquilo nem<br \/>\n    parece deste tempo. O que eu n&atilde;o sei, primo Manuel, &eacute; porque<br \/>\n    ele se n&atilde;o resolveu a tomar ordens. Recusar o legado da D. Rosa! &#8212;<br \/>\n    N&atilde;o seja isso a d&uacute;vida. Ele sabe que, adoptando essa ou outra<br \/>\n    qualquer carreira, n&atilde;o lhe faltar&atilde;o recursos para segui-la at&eacute;<br \/>\n    ao fim.<\/p>\n<p> Devo-lhe esse auxilio, assim ele o aceitasse; mas tem um g&ecirc;nio singular<br \/>\n    aquele rapaz! &#8212; &Eacute; uma f&eacute;nix &#8212; insistiu Henrique,<br \/>\n    ir&ograve;nicamente. &#8212; Vejo que n&atilde;o &eacute; suscept&iacute;vel<br \/>\n    de discuss&atilde;o, imp&otilde;e-se &agrave; gente como um axioma.<\/p>\n<p> Eu tenho h&aacute;bitos de livre-pensador, mas&#8230; for&ccedil;ar-me-ei a<br \/>\n    incluir no meu credo esse dogma.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o &#8212; replicou Angelo. &#8212; Um axioma n&atilde;o<br \/>\n    se demonstra, e a boa alma de Augusto est&aacute; todos os dias a demonstrar-se<br \/>\n    por ac&ccedil;&otilde;es generosas.<\/p>\n<p> &#8212; Por favor ! ! D&ecirc;em como n&atilde;o ditas as minhas palavras<br \/>\n    ! Arrependo- me da minha irrever&ecirc;ncia, e se ele aqui estivesse, principiaria<br \/>\n    a penitenciar-me na sua presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; certo que nos falta aqui Augusto. como te n&atilde;o<br \/>\n    lembraste dele, &Acirc;ngelo? &#8212; N&atilde;o viria. Nesta noite nao deixaria<br \/>\n    o tio Vicente.<\/p>\n<p> &#8212; Ah, sim. Esquecia-me daquele pobre Vicente.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; do ervan&aacute;rio que falam ? &#8212; perguntou Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente.<\/p>\n<p> &#8212; Outra f&eacute;nix ; e quer-me parecer que tamb&eacute;m pertence<br \/>\n    ao n&uacute;mero dos inviol&aacute;veis; n&atilde;o &eacute; verdade, prima?<br \/>\n    &#8212; Pertence ao n&uacute;mero dos infelizes, primo, o que &eacute; justo<br \/>\n    considerar- se uma esp&eacute;cie de inviolabilidade.<\/p>\n<p> A resposta colocou Henrique em mau terreno e por isso apressou- se a desviar<br \/>\n    do ponto principal a quest&atilde;o, dizendo : &#8212; Infeliz ? Porque lhe<br \/>\n    chama infeliz ? Os vision&aacute;rios como ele t&ecirc;m em si os elementos<br \/>\n    da pr&oacute;pria felicidade, e ningu&eacute;m possui poder de perturbar-lha.<br \/>\n    Al&eacute;m de que o ervan&aacute;rio goza aqui na terra de uma certa soberania,<br \/>\n    que deve lisonje&aacute;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; E olha que nem em Lisboa h&aacute; talvez quem saiba tanto como<br \/>\n    ele em coisas de doen&ccedil;as e de rem&eacute;dios, menino &#8212; disse<br \/>\n    D. Doroteia, que era uma das fervorosas apologistas da ci&ecirc;ncia do ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; na verdade um homem singular ! &#8212; disse o conselheiro.<br \/>\n    &#8212; Dantes, na noite de Natal, e em todas as solenidades de fam&iacute;lia,<br \/>\n    t&iacute;nhamo- lo tamb&eacute;m por comensal, que ainda &eacute; parente<br \/>\n    arredado da casa.<\/p>\n<p> H&aacute; anos, por&eacute;m, deu em tomar a peito o meu procedimento pol&iacute;tico<br \/>\n    e em pregar-me serm&otilde;es e dirigir-me censuras, que eu fazia por escutar<br \/>\n    com a poss&iacute;vel resigna&ccedil;&atilde;o. Mas um dia foi mais amargo<br \/>\n    nas suas recrimina&ccedil;&otilde;es e eu achava-me com maior Susceptibilidade<br \/>\n    ; julgo que lhe respondi com bastante acrim&ograve;nia, e o homem saiu de<br \/>\n    minha casa ofendido e protestando n&atilde;o voltar mais a ela. Procurei-o,<br \/>\n    escrevi-lhe, tentei demov&ecirc;-lo do seu prop&oacute;sito. N&atilde;o houve<br \/>\n    de qu&ecirc;. Havia-o ferido no seu orgulho, e &eacute; intolerante nestas<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; Sei-o j&aacute; por experi&ecirc;ncia ; &#8212; disse Henrique &#8212;<br \/>\n    que numa &uacute;nica entrevista que tive com ele, e que durou minutos, deu-me<br \/>\n    ocasi&atilde;o de lhe conhecer a irritabilidade.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, primo Henrique ; talvez possa haver quem suponha que nessa<br \/>\n    entrevista n&atilde;o demonstrou o primo pior do que ele possuir as qualidades<br \/>\n    de que o acusa.<\/p>\n<p> &#8212; Agora &#8212; continuou o conselheiro &#8212; v&atilde;o consideravelmente<br \/>\n    exacerbar-se os despeitos do ervan&aacute;rio contra mim.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc; ? &#8212;perguntou Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Porqu&ecirc;?&#8230; por causa do tra&ccedil;ado que se adoptou para<br \/>\n    a estrada.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; disseram simultaneamente &Acirc;ngelo e Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; A casa e o quintal do ervan&aacute;rio s&atilde;o os primeiros cortados.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pode ser ! &#8212; exclamou Madalena, com evidente expres&atilde;o<br \/>\n    de susto.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo dirigiu ao pai um olhar tamb&eacute;m inquieto.<\/p>\n<p> Cristina n&atilde;o exprimiu menos apreensiva tristeza.<\/p>\n<p> &#8212; &Euml; inevit&aacute;vel. Os dois primeiros tra&ccedil;ados tinham<br \/>\n    certas durezas.<\/p>\n<p> O primeiro era uma luva lan&ccedil;ada a uma influ&ecirc;ncia eleitoral,<br \/>\n    poderos&iacute;ssima; o brasileiro Seabra.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! &#8212; disse Madalena, com certa amargura na express&atilde;o<br \/>\n    e no olhar.<\/p>\n<p> O conselheiro reparou nela e em &Acirc;ngelo, em cuja fisionomia se n&atilde;o<br \/>\n    lia menos intenso desgosto.<\/p>\n<p> &#8212; Estou adivinhando que meus filhos votariam por que antes se arrostasse<br \/>\n    com os despeitos desse influente. A l&oacute;gica do sentimentalismo tem dessas<br \/>\n    exig&ecirc;ncias absolutas.<\/p>\n<p> Madalena respondeu : &#8212; Julguei que era a da consci&ecirc;ncia, meu<br \/>\n    pai.<\/p>\n<p> &#8212; A consci&ecirc;ncia diz-me que h&aacute; interesses superiores &agrave;s<br \/>\n    contempla&ccedil;&otilde;es com as singularidades de um velho honrado, mas<br \/>\n    .. meio tonto.<\/p>\n<p> Na carreira pol&iacute;tica ceder ao cora&ccedil;&atilde;o &eacute; morrer<br \/>\n    ou ser vencido. O sentimentalismo exagerado, Lena, tem o inconveniente de<br \/>\n    dar tanto vulto as vezes a um sacrif&iacute;cio individual, que, para o evitar,<br \/>\n    n&atilde;o duvida prejudicar maiores e mais gerais interesses e operar sacrif&iacute;cios<br \/>\n    mais custosos. &Eacute; muito tocante na verdade o amor de um velho pelas<br \/>\n    suas &aacute;rvores e pela sua casa; por&eacute;m, mais respeit&aacute;vel<br \/>\n    &eacute; o bem-estar e a conveni&ecirc;ncia de uma localidade.<\/p>\n<p> &#8212; E &eacute; t&atilde;o necess&aacute;rio para a felicidade desta<br \/>\n    terra o sacrif&iacute;cio a que se quer obrigar o ervan&aacute;rio? &#8212;<br \/>\n    perguntou &Acirc;ngelo, e Madalena secundou com o olhar a pergunta do irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Eu te digo, &Acirc;ngelo &#8212; respondeu o conselheiro, levemente<br \/>\n    despeitado. &#8212; Eu tinha a vaidade de me supor ainda prest&aacute;vel<br \/>\n    para esta gente, que me tem elegido tantas vezes. Dos nossos patr&iacute;cios,<br \/>\n    deixem-me diz&ecirc;-lo aqui em fam&iacute;lia, n&atilde;o vejo ainda quem<br \/>\n    d&ecirc; garantias de desempenhar o mandato muito melhor do que eu. Chamasse<br \/>\n    eu contra mim a animadvers&atilde;o deste povo, e eles, &agrave; falta de<br \/>\n    outros, aceitariam amanh&atilde; qualquer nome inscrito na carteira do ministro;<br \/>\n    um homem que nunca tivessem visto, e que nem soubesse em que ponto da carta<br \/>\n    estava o c&iacute;rculo de que se propunha ser representante. Mas perdoa-me,<br \/>\n    Lena, talvez isto te esteja parecendo um censur&aacute;vel excesso de vaidade.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, meu pai, ningu&eacute;m acredita mais do que eu no muito<br \/>\n    valor da sua influ&ecirc;ncia, mas&#8230; Oh meu Deus!&#8230; isso vai s&ecirc;r a<br \/>\n    morte do pobre t&iacute;o Vicente ! Imagine bem o que &eacute; naquelas idades<br \/>\n    e com aquele g&egrave;nio a grandeza do sacrif&iacute;cio que v&atilde;o exigir<br \/>\n    dele? &#8212; Custa-me ser obrigado a isso; por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Valia mais esperar algum tempo. A vida dele n&atilde;o pode ser<br \/>\n    muito longa. Deixem-no morrer em paz, &agrave; sombra daquelas &aacute;rvores<br \/>\n    a que ele quer tanto. Que importa passar mais alguns anos sem uma estrada<br \/>\n    ? &#8212; Poesia! &#8212; disse o conselheiro, sorrindo para Henrique, que<br \/>\n    lhe correspondeu.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o ! &#8212; acudiu Madalena, corando &#8212; &eacute;<br \/>\n    caridade.<\/p>\n<p> &#8212; Ora vamos, Lena. S&ecirc; razo&aacute;vel. Todos sofrem no mundo<br \/>\n    sacrif&iacute;cios maiores do que esse ; eu mesmo, que me n&atilde;o tenho<br \/>\n    ainda assim por v&iacute;tima da sorte&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o haveria outro meio ? &#8212; perguntou &Acirc;ngelo.<br \/>\n    &#8212; Acaso h&aacute; s&oacute; esses dois lugares para dirigir a estrada?<br \/>\n    &#8212; Que antes nunca se fizesse ! &#8212; exclamou Madalena, apaixonadamente.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; temos como o sentimento me torna retr&oacute;gada a minha<br \/>\n    Lena.<\/p>\n<p> J&aacute; clama contra as estradas como qualquer reaccionario convicto.<br \/>\n    Havia um outro tra&ccedil;ado, mas esse ia destruir completamente os campos<br \/>\n    do Brejo.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! ent&atilde;o esse, esse ! S&atilde;o bens nossos ! &#8212;<br \/>\n    exclamou Madalena com vivacidade.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o bens de &Acirc;ngelo, filha, e porventura aqueles que<br \/>\n    um dia mais valiosos se tornar&atilde;o para teu irm&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Os charcos? &#8212; disse &Acirc;ngelo, encolhendo os ombros &#8212;<br \/>\n    oral S&oacute; para viveiro de r&atilde;s.<\/p>\n<p> &#8212; Hoje pouco mais s&atilde;o do que isso, e como tal no-los pagariam<br \/>\n    agora. Dentro, por&eacute;m, de alguns anos, operados ali os trabalhos de<br \/>\n    esgoto, que eu projecto, ver&atilde;o em que se transforma aquilo. &Eacute;<br \/>\n    exigir a um homem muita abnega&ccedil;&atilde;o pretender dele que sacrifique<br \/>\n    assim os elementos da riqueza futura de seus filhos ; quanto mais que as vantagens<br \/>\n    n&atilde;o seriam tais que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o pedir&iacute;amos esmola, meu pai &#8212; notou timidamente<br \/>\n    &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p> &#8212; Nem o Vicente a pedir&aacute;. Visto que estais t&atilde;o desprendidos<br \/>\n    de interesse, que n&atilde;o hesitais em fazer-lhe sacrif&iacute;cio dos vossos<br \/>\n    bens, podeis ceder-lhe o suficiente para o compensar da perda.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem o compensar&aacute; dos golpes nos seus afectos? &#8212;<br \/>\n    perguntou Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m tu ! S&atilde;o segredos do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    feminino essas compensa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Deixo-as &agrave; tua disposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai ! meu pai ! se &eacute; ainda poss&iacute;vel atalhar-se<br \/>\n    I &#8212; &Eacute; imposs&iacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Meu tio ! &#8212; secundou Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Mano ! Primo ! &#8212; disseram a um tempo as senhoras mais idosas.<\/p>\n<p> &#8212; O que posso fazer &eacute; ir eu pr&ograve;prio falar com o Vicente,<br \/>\n    para o mover a consentir na expropria&ccedil;&atilde;o amig&aacute;vel, que<br \/>\n    farei que lhe seja 0 mais vantajosa possivel.<\/p>\n<p> &#8212; E tem cora&ccedil;&atilde;o para lhe ir propor isso ? &#8212; Diz<br \/>\n    antes se tenho coragem para arrostar com as i ras do velho, e com as maldi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que j&aacute; sei vai sacudir sobre mim.<\/p>\n<p> Lena calou-se, suspirando.<\/p>\n<p> &#8212; Mas vejam a inevit&aacute;vel fatalidade que me persegue ! &#8212;<br \/>\n    continuou o conselheiro. &#8212; Eu, que tinha feito voto de n&atilde;o me<br \/>\n    entreter de neg&oacute;cios p&uacute;blicos esta noite ! Ai, Lena, Lena, a<br \/>\n    culpada &eacute;s tu ! &#8212; Eu?! Eu, que abomino a pol&iacute;tica! que<br \/>\n    s&oacute; ela podia fazer entrar a crueldade no cora&ccedil;&atilde;o de meu<br \/>\n    pai ! &#8212; &Oacute; tio, veja se faz com que a estrada v&aacute; por outro<br \/>\n    sitio ! &#8212; implorou meigamente Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Tamb&eacute;m tu, Criste ! tamb&eacute;m tu ! &#8212; Pudera, mano<br \/>\n    ! N&atilde;o, que uma coisa assim ! Isso &eacute; at&eacute; uma ingratid&atilde;o<br \/>\n    para com um homem a quem esta aldeia tanto deve &#8212; disse D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Pois n&atilde;o &eacute; ! E logo um quintal onde cresciam tantas<br \/>\n    plantas de virtudes ! &#8212; acrescentou D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute; vendo, Sr. Henrique, como se conspiram todos contra mim.<\/p>\n<p> Veja como um sentimento insignificante organiza uma oposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma li&ccedil;&atilde;o que estou recebendo, sr. conselheiro.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai &#8212; insistiu Madalena &#8212; eu espero ainda que, ouvindo<br \/>\n    o tio Vicente, se comover&aacute; e trabalhar&aacute; por alterar esse fatal<br \/>\n    plano que principia por arrancar &aacute;rvores, mas que, pode estar certo,<br \/>\n    com elas arrancar&aacute; uma vida.<\/p>\n<p> &#8212; Romances ! Lena, romances ! Os romances, lidos em plena aldeia,<br \/>\n    s&atilde;o perigosos. Falta aqui nos ares um certo cepticismo que, n&atilde;o<br \/>\n    sendo em doses exageradas, tem a vantagem de n&atilde;o deixar ver as coisas<br \/>\n    da vida atrav&eacute;s do prisma dos livros de imagina&ccedil;&atilde;o. Mas<br \/>\n    basta de falar em pol&iacute;tica. Amanh&atilde; procurarei o ervan&aacute;rio.<br \/>\n    Espero uma recep&ccedil;&atilde;o de gelo, e vou preparado para uma ladai<br \/>\n    ha de recrimina&ccedil;&otilde;es, mas irei. Nada esperes, por&eacute;m, da<br \/>\n    entrevista Lena; nem o mal, se ma! &eacute;, se poderia j&aacute; atalhar;<br \/>\n    nem o orgulho de Vicente lhe permitiria expans&otilde;es &agrave; sensibilidade,<br \/>\n    que cheguem a comover-me, Conhe&ccedil;o-o.<\/p>\n<p> Madalena n&atilde;o instou. Ficou, por&eacute;m, pensativa e sem o menor<br \/>\n    vest&iacute;gio da alegria com que principiara o ser&atilde;o.<\/p>\n<p> Nisto ouviu-se um toque de sino long&iacute;nquo.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; toca para a missa do galo ! Ouvem ? &#8212; disse D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos ! N&atilde;o h&aacute; tempo para demoras &#8212; exclamou<br \/>\n    o conselheiro, levantando-se.<\/p>\n<p> Todos o imitaram, menos Madalena. _ &#8212; N&atilde;o vens, Lena? &#8212;<br \/>\n    perguntou Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o amuos, &ntilde;lha &#8212; disse-lhe o conselheiro, indo<br \/>\n    por tr&aacute;s dela e, tomando-lhe a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os,<br \/>\n    beijou-a na fronte.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, meu pai, &eacute; uma dor de cabe&ccedil;a t&atilde;o<br \/>\n    violenta ! &#8212; A maldita pol&iacute;tica &eacute; o que faz ! Pois fica<br \/>\n    ; fica, porque est&aacute; fria a noite.<\/p>\n<p> &#8212; Far-te-ei companhia, Lena &#8212; disse Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o. Se insistes, obrigas-me a sair.<\/p>\n<p> &#8212; Aviem-se ! &#8212; dizia D. Doroteia. &#8212; Henriquinho, vens<br \/>\n    ? Henrique, cujo ardor em ouvir a missa da meia-noite esfriou desde que viu<br \/>\n    Madalena ficar, respondeu: &#8212; O tia&#8230; a falar verdade!&#8230; se me dispensassem!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vem da&iacute;, pregui&ccedil;oso ! anda ! &#8212; &Eacute; que<br \/>\n    .. para um homem doente&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ai, n&atilde;o ; se te h&aacute;-de &agrave;s vezes fazer mal, ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o &#8212; apressou- se a dizer a precavida senhora.<\/p>\n<p> E foi deferido por unanimidade o requerimento de Henrique, a quem cedo depois<br \/>\n    Torcato foi ensinar o caminho para o quarto onde devia pernoitar.<\/p>\n<p> O conselheiro, D. Doroteia, Cristina e Angelo foram para a missa do galo.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria, Madalena e Henrique ficaram no Mosteiro,<\/p>\n<p>XV FECHANDO-SE no quarto, que lhe deram para pernoitar, Henrique de Souselas<br \/>\n    sentiu poucas disposi&ccedil;&otilde;es de dormir. uma profunda excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    impedia-lhe o repouso; em parte era devida &agrave;s ocorr&ecirc;ncias daquela<br \/>\n    noite, t&atilde;o fora dos seus h&aacute;bitos de vida; em parte, digamo-lo<br \/>\n    em verdade, &agrave; influ&ecirc;ncia dos vinhos, com que secundara os brindes<br \/>\n    do conselheiro, e com que ele pr&oacute;prio iniciara outros.<\/p>\n<p> A imagina&ccedil;&atilde;o, excitada como estava, cada vez, entre outras<br \/>\n    imagens, lhe representava mais bela a de Madalena. A esp&eacute;cie de hostilidade<br \/>\n    permanente com que a morgadinha o tratava, ainda mais parecia seduzi-lo.<\/p>\n<p> Nos poucos dias que passara na aldeia, havia Henrique, com novos h&aacute;bitos,<br \/>\n    adquirido uma maneira de ver e de julgar as coisas e as pessoas, diferente<br \/>\n    da que lhe era habitual na cidade, no c&iacute;rculo de amigos com quem convivia;<br \/>\n    assim foi que abjurou t&agrave;citamente, e sem dar por isso, certo cepticismo<br \/>\n    convencional, que uma antip&aacute;tica escola conseguiu p&ocirc;r muito na<br \/>\n    moda.<\/p>\n<p> Gra&ccedil;as a estas melhoras morais, t&atilde;o verdadeiras nele como<br \/>\n    as f&iacute;sicas, as quais at&eacute; o constante pensamento das doen&ccedil;as<br \/>\n    lhe haviam dissipado, pudera ele considerar Madalena como uma mulher superior<br \/>\n    ao tipo, pelo qual a mencionada escola costuma modelar o sexo; e aceitou sem<br \/>\n    m&aacute; preven&ccedil;&atilde;o a aberta sinceridade daquele car&aacute;cter<br \/>\n    simp&aacute;tico, que descrevia com entusiasmo nas suas cartas a um dos seus<br \/>\n    mais &iacute;ntimos amigos de Lisboa.<\/p>\n<p> Tais estados de convalescen&ccedil;a s&atilde;o, por&eacute;m, sujeitos<br \/>\n    a reca&iacute;das.<\/p>\n<p> Neste dia, v&eacute;spera de Natal, recebera ele a resposta &agrave;quelas<br \/>\n    cartas, e sob as impress&otilde;es, com que ficou da leitura, tinha vindo<br \/>\n    para o Mosteiro.<\/p>\n<p> O amigo ria-se, com todo o elegante cepticismo de um homem da moda, da candura<br \/>\n    e da ingenuidade de Henrique. Dizia-se sinceramente penalizado &agrave; vista<br \/>\n    dos profundos estragos que alguns dias de prov&iacute;ncia tinham operado<br \/>\n    nele. Via-o disposto a idealizar a mulher, a mais perigosa e mofina monomania<br \/>\n    que, dizia o tal, pode transtornarei c&eacute;rebro de qualquer homem.<\/p>\n<p> Com aquela aus&ecirc;ncia de escr&uacute;pulos, com que todos os dias caracteres.<\/p>\n<p> ali&aacute;s n&atilde;o pervertidos, levianamente caluniam ou ferem de suspeitas<br \/>\n    reputa&ccedil;&otilde;es de todo o g&eacute;nero, ele fazia irreverentes alus&otilde;es<br \/>\n    &agrave; morgadinha e zombava de Henrique, que ainda tomava a s&eacute;rio<br \/>\n    as isen&ccedil;&otilde;es de uma rapariga de vinte e tr&ecirc;s anos. Acabava<br \/>\n    por o aconselhar a que indagasse de algum primo t&iacute;mido e modesto, ainda<br \/>\n    que menos ing&ecirc;nuo decerto do que ele Henrique se estava mostrando.<\/p>\n<p> Esta carta fez mal a Henrique. Exacerbou-lhe a doen&ccedil;a, que estava<br \/>\n    em via de cura. Um esp&iacute;rito mefistof&egrave;lico parecia hav&ecirc;-la<br \/>\n    ditado. Henrique transportou-se pela imagina&ccedil;&atilde;o, depois de l&ecirc;-la,<br \/>\n    a um dos c&iacute;rculos que habitualmente frequentava em Lisboa ; sup&ocirc;s-se<br \/>\n    a fazer ali a narra&ccedil;&atilde;o da sua vida na aldeia, e parecia-lhe<br \/>\n    estar vendo os sorrisos com que o escutariam, e ele pr&oacute;prio constru&iacute;a<br \/>\n    os epigramas, com que lhe seria por certo comentada a narra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E ent&atilde;o uma vergonha de m&aacute; &iacute;ndole, vergonha do homem<br \/>\n    que p&otilde;e um preceito de eleg&acirc;ncia acima de um ditame de moral,<br \/>\n    fazia-o corar, apesar de a s&oacute;s consigo mesmo. Voltava a 1er a carta,<br \/>\n    que lhe parecia ditada pela experi&ecirc;ncia e pelo bom senso, enquanto que<br \/>\n    a ingenuidade das suas cren&ccedil;as se lhe figurava ridicula e desarrazoada.<\/p>\n<p> Quem h&aacute; que n&atilde;o tenha tido momentos destes? Quem se pode gabar<br \/>\n    de n&atilde;o ter perguntado um dia aos seus escr&uacute;pulos mais nobres<br \/>\n    se n&atilde;o s&atilde;o meros preconceitos que ficaram de uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acanhada? Quem n&atilde;o p&ocirc;s um momento em d&uacute;vida as sublimes<br \/>\n    verdades que a m&atilde;e lhe ensinou em crian&ccedil;a? Henrique estava passando<br \/>\n    por um desses acessos de cepticismo. Madalena era j&aacute; para ele uma astuciosa,<br \/>\n    que muito se deveria ter rido da sua simplicidade ; e tanto o incomodava essa<br \/>\n    id&eacute;ia, que prometia a si pr&oacute;prio ser dai por diante mais arrojado.<br \/>\n    Esta ordem de reflex&otilde;es estavam acudindo outra vez a Henrique e recebiam<br \/>\n    da excita&ccedil;&atilde;o, que se apoderara dele aquela noite, uma tenacidade<br \/>\n    maior. Sentindo a cabe&ccedil;a em fogo, Henrique levantou-se, apagou a luz,<br \/>\n    e abrindo a janela do quarto, saiu &agrave; varanda que deitava para a quinta,<br \/>\n    a respirar o ar livre.<\/p>\n<p> A noite era sem luar e sem n&eacute;voas. Descobriam-se muitas estrelas<br \/>\n    no c&eacute;u, que com forte cintila&ccedil;&atilde;o parecia iluminarem a<br \/>\n    terra de um t&eacute;nue crep&uacute;sculo, que mal deixava distinguir os<br \/>\n    objectos.<\/p>\n<p> O ar frio da noite estava produzindo em Henrique um prazer que ele procurava<br \/>\n    prolongar.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia passado muito tempo, depois que assim se encostara &agrave;<br \/>\n    varanda do quarto, quando lhe atraiu a aten&ccedil;&atilde;o certo vulto alvacento,<br \/>\n    que furtivamente se movia numa das ruas da quinta.<\/p>\n<p> Pareceu-lhe uma figura de mulher.<\/p>\n<p> Justamente naquela ocasi&atilde;o tinha Henrique na mem&oacute;ria o periodo<br \/>\n    final da carta do seu amigo.<\/p>\n<p> Por isso ocorreu-lhe uma id&eacute;ia sat&acirc;nica.<\/p>\n<p> &#8212; Ah!&#8230; Querem ver que&#8230; A dor de cabe&ccedil;a s&uacute;bita&#8230;<br \/>\n    A insist&ecirc;ncia em ficar s&oacute;&#8230; Percebo&#8230; Um primo timido e modesto<br \/>\n    ..<\/p>\n<p> E murmurando estas palavras, um sorriso maligno encrespava os l&aacute;bios<br \/>\n    de Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Se eu pudesse averiguar isto&#8230; Mas ela corre com uma ligeireza<br \/>\n    que, antes que eu ache meio de sair para a quinta&#8230; j&aacute; a levar&aacute;<br \/>\n    bem longe.<\/p>\n<p> O meio por&eacute;m n&atilde;o era dif&iacute;cil de encontrar. Da varanda<br \/>\n    em que estava Henrique passava-se com grande facilidade para outra imediata,<br \/>\n    na qual havia uma escada de comunica&ccedil;&atilde;o para a quinta.<\/p>\n<p> Reconhecendo esta disposi&ccedil;&atilde;o do terreno, Henrique operou num<br \/>\n    momento a descida, e pouco depois procurava atrav&eacute;s da quinta os vestigios<br \/>\n    da mulher que tinha perdido de vista.<\/p>\n<p> Nesta opera&ccedil;&atilde;o esfor&ccedil;ava-se por combinar com a m&aacute;xima<br \/>\n    ligeireza a possivel precau&ccedil;&atilde;o, para n&atilde;o ser por causa<br \/>\n    alguma frustrada a sua pesquisa.<\/p>\n<p> A quinta do Mosteiro era extensa e cerrada t&ocirc;da em volta por um s&oacute;lido<br \/>\n    muro de alvenaria. Aqui e ali abriam-se nele diferentes portas que deitavam<br \/>\n    para os diversos lugares da aldeia. Neste vasto recinto havia pomares, lameiros,<br \/>\n    vinhedos e hortas, por onde Henrique errava &agrave; toa, j&aacute; desanimado<br \/>\n    de ser bem sucedido no empenho.<\/p>\n<p> De repente julgou ouvir, a pouca dist&acirc;ncia, o rodar de uma chave na<br \/>\n    fechadura. Parou por precau&ccedil;&atilde;o e ficou-se a escutar. Logo depois<br \/>\n    ouviu o bater de uma porta e mais nada.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o adiantou-se rapidamente ; num momento deu com a porta, que<br \/>\n    ainda se conservava aberta. Saiu por ela para a rua, mas achou-a deserta.<\/p>\n<p> Dirigiu-se &agrave; esquina que dali avistava; dobrou-a, mas nada viu; as<br \/>\n    ruas eram solit&aacute;rias, e uma s&oacute; casa t&eacute;rrea que havia<br \/>\n    ao lado de um quintal estava discretamente fechada e silenciosa.<\/p>\n<p> Desistindo de prosseguir na infrutuosa pesquisa, Henrique voltou para a<br \/>\n    porta.<\/p>\n<p> &#8212; Esperemos aqui por esta donzela destemida que assim anda de noite<br \/>\n    a correr aventuras. H&aacute;-de ser curioso observar como ela fica quando<br \/>\n    me encontrar por guarda-portao. Veremos se ainda depois disto durar&atilde;o<br \/>\n    aqueles ares de soberania com que me trata. Um primo timido e modesto!&#8230;<\/p>\n<p> E, sorrindo &agrave; lembran&ccedil;a da cena que se preparava, Henrique<br \/>\n    fechou a porta por dentro, e acendendo um charuto, p&ocirc;s-se a passear,<br \/>\n    aguardando o regresso da morgadinha.<\/p>\n<p> Para n&atilde;o perdermos muito tempo &agrave; espera tamb&eacute;m, aproveit&aacute;-<br \/>\n    -lo-emos a inquirir de coisas e de pessoas, cujo conhecimento &eacute; &uacute;til<br \/>\n    &agrave; continua&ccedil;&atilde;o da nossa hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> A pouca dist&acirc;ncia do extremo da quinta do Mosteiro e num s&iacute;tio<br \/>\n    a que a abund&acirc;ncia de vegeta&ccedil;&atilde;o e a suavidade de perspectiva<br \/>\n    davam o mais pitoresco aspecto, estava a casa e o quintal do ervan&aacute;no,<br \/>\n    casa e quintal j&aacute; conderados pelos lapis e tira-linhas dos engenheiros<br \/>\n    e oferecidos em se orificio aos melhoramentos municipais e concelhios.<\/p>\n<p> Acharia justificado o quase terror, com que Madalena e &Acirc;ngelo escutaram<br \/>\n    a nova desta expropria&ccedil;&atilde;o, quem conhecesse a vivenda r&uacute;stica<br \/>\n    do ervan&aacute;rio e soubesse do amor que ele votava a cada objecto dela,<br \/>\n    assim como da vida que, havia tantos anos, ali vivia escondido e obscuro.<\/p>\n<p> Para o quintal, que a abund&acirc;ncia das &aacute;rvores de espinho fazia<br \/>\n    sempre verde, abriam-se as janelas da pequena e humilde saleta, onde o ervan&aacute;rio<br \/>\n    se entregava &agrave;s suas leituras e lucubra&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas.<\/p>\n<p> Logo ao p&eacute; da porta se estendiam o jardm em parte de recreio, pelas<br \/>\n    flores que o adornavam, em parte de utilidade, pelas s&iacute;mplices medicinais,<br \/>\n    de virtudes mais ou menos problem&aacute;ticas, que o velho nele cultivava.<\/p>\n<p> Vicente tinha entranhada a paix&atilde;o vegetal, deixem-me assim chamar-<br \/>\n    lhe. Adorava as plantas pelas suas flores, pelos seus frutos e pelos poderes<br \/>\n    curativos que lhes atribu&iacute;a. E como se elas possu&iacute;ssem a responsabilidade<br \/>\n    dos efeitos produzidos, assim lhes queria e as amimava, quando salutares ;<br \/>\n    assim as aborrecia e maltratava, quando nocivas.<\/p>\n<p> A vida isolada e o g&ecirc;nio do velho, que sempre fora dado a singularidades,<br \/>\n    aumentavam estas disposi&ccedil;&otilde;es, que unham o que quer que era de<br \/>\n    pante&iacute;stico ; e n&atilde;o era raro surpreenderem-no conversando com<br \/>\n    elas, como se convencido de que o estavam compreendendo.<\/p>\n<p> A borragem, a salva, a fumaria, a erva-terrestre, a erva-moura, os trevos,<br \/>\n    os geranios, as papoulas, as violetas, t&atilde;o boa camaradagem lhe faziam,<br \/>\n    que nem lhe deixavam sentir a solid&atilde;o.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio n&atilde;o tinha pessoa alguma ao seu servi&ccedil;o.<br \/>\n    Ele pr&oacute;prio cozinhava e por suas m&atilde;os fazia todos os mesteres<br \/>\n    dom&eacute;sticos.<\/p>\n<p> &Eacute; pois de imaginar que n&atilde;o seria muito complicado o banquete<br \/>\n    das consoadas naquela casa, e que devia formar em tudo contraste com o que<br \/>\n    &agrave; mesma hora se celebrava no Mosteiro.<\/p>\n<p> De feito, quando ali eram mais ruidosas as conversas e mais espont&acirc;neos<br \/>\n    os risos, dois homens apenas, sentados um defronte do outro, a uma pequena<br \/>\n    mesa circular, solenizavam naquela modesta sala o sanio aniversario. Um era<br \/>\n    o propriet&aacute;rio da casa, o outro Augusto, um dos poucos que se atrevia<br \/>\n    a frequentar &agrave;quelas horas mortas a habita&ccedil;&atilde;o do velho.<\/p>\n<p> Al&eacute;m da mesa, sobre a qual estava uma ceia composta de queijo, ma&ccedil;&atilde;s,<br \/>\n    nozes, castanhas, duas sopeiras com escabeche, especialidade na confec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da qual o ervan&aacute;rio era eminente, e uma garrafa de vinho do Porto de<br \/>\n    prometedora cor de top&agrave;zio, consistia o resto da mob&iacute;lia numa<br \/>\n    estante de pinho, vergada sob o peso de in-f&oacute;lios de grossas encaderna&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e folhas vermelhas nos aparos, em algumas cadeiras e bancos tamb&eacute;m<br \/>\n    ocupados com livros e com v&aacute;rios utens&iacute;lios empregados nas explora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    cient&iacute;ficas do velho, tais como caixas de lata, frascos, martelos,<br \/>\n    foicinhas, limas, os quais ainda sobravam para alastrarem o ch&atilde;o.<\/p>\n<p> Todo o recinto era apenas alumiado por um candeeiro de azeite, e a escassa<br \/>\n    luz, que dos tr&ecirc;s lumes que, em aten&ccedil;&atilde;o &agrave; solenidade<br \/>\n    da noite, o velho acendera, ia reflectir-se no vulto alvacento de um Cristo<br \/>\n    de marfim pendente de um crucifixo negro, que sobressa&iacute;a naquelas paredes<br \/>\n    nuas e caiadas.<\/p>\n<p> Havia bastante tempo que aqueles dois homens, sentados defronte um do outro,<br \/>\n    guardavam sil&ecirc;ncio ; um desses sil&ecirc;ncios, durante os quais os<br \/>\n    esp&iacute;ritos, como se impacientes com as longuras da palavra, tendo-se<br \/>\n    desembara&ccedil;ado dela, voam a par, para adiantarem caminho e voltarem<br \/>\n    mais longe a associarem-se &agrave; sua mais lenta companheira.<\/p>\n<p> Augusto, com os olhos fixos na luz que iluminava a cena, parecia alheio<br \/>\n    a quanto o rodeava.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio, sem desviar os olhos dele, com o bra&ccedil;o estendido<br \/>\n    para o c&aacute;lice que tinha defronte de si, e a cabe&ccedil;a inclinada,<br \/>\n    parecia espiar, um por um, todos os gestos de Augusto, e estudar neles os<br \/>\n    pensamentos que o preocupavam. Enfim rompeu o primeiro sil&ecirc;ncio: &#8212;<br \/>\n    Pobre rapaz ! Diz-me para a&iacute; tudo o que tens. Para que te metes a esconder<br \/>\n    de mim aquilo que eu h&aacute; tanto te leio nos olhos, crian&ccedil;a? &#8212;<br \/>\n    O qu&ecirc;, tio Vicente ? &#8212; perguntou Augusto inquieto.<\/p>\n<p> &#8212; O qu&ecirc;? ! Ouve, Augusto. Deu-te Deus o engenho, sem te esfriar<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o: s&atilde;o dons do C&eacute;u, que se pagam caro<br \/>\n    e com l&aacute;grimas, rapaz.<\/p>\n<p> Bondade de cora&ccedil;&atilde;o, com a cabe&ccedil;a&#8230; assim, assim&#8230;<br \/>\n    a dar esmolas aos pobres se satisfaz: cabe&ccedil;a de fogo, mas cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de gelo&#8230; todos os meios de levar ao fim ambi&ccedil;&otilde;es, tanto os<br \/>\n    bons como os maus, todos lhe servem ; mas cora&ccedil;&atilde;o como o teu,<br \/>\n    com o espirito que tens !&#8230; ai, pobre Augusto, se se escapa ao infort&uacute;nio,<br \/>\n    &eacute; por milagroso poder do Senhor.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o o entendo, tio Vicente &#8212; disse Augusto, com manifesta<br \/>\n    confus&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o ! Olha para mim. E v&ecirc; se te atreves a repeti-lo.<\/p>\n<p> Augusto baixou a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> O velho sorriu com ar de comisera&ccedil;&atilde;o e simpatia.<\/p>\n<p> &#8212; Tu ainda n&atilde;o sabes fingir. Vamos l&aacute; ; e cuidas que<br \/>\n    me n&atilde;o havia de custar, se n&atilde;o tivesse acertado? &#8212; E,<br \/>\n    depois de breve pausa, continuou : &#8212; Mas ainda quando penso em como<br \/>\n    tu, uma cabe&ccedil;a forte, assim te deixaste enfeiti&ccedil;ar !&#8230;&#8212;E<br \/>\n    tomando o c&aacute;lice, que tinha defronte se si, disse com resolu&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Quero beber &agrave; tua sa&uacute;de, Augusto, e para que em breve<br \/>\n    se te desfa&ccedil;a essa loucura.<\/p>\n<p> Quando ia a levantar o c&aacute;lice aos l&aacute;bios, a m&atilde;o de<br \/>\n    Augusto susteve- lhe o bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o beba. Loucura embora, deixe-me viver e morrer com ela..<br \/>\n    Sou feliz assim.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; disse o velho ervan&aacute;rio, tomando um ar mais<br \/>\n    grave ; e pousou o copo, sem desviar de Augusto o olhar penetrante e fixo.<\/p>\n<p> Augusto, depois de um curto sil&ecirc;ncio, prosseguiu com maior veem&ecirc;ncia<br \/>\n    e colorindo-lhe as faces um n&atilde;o costumado rubor: &#8212; Sim. Porque<br \/>\n    o n&atilde;o hei-de confessar ? Essa loucura que diz, trago-a comigo, vivo<br \/>\n    com ela e quase que para ela. Quero-lhe assim, e n&atilde;o a desejaria perder.<br \/>\n    Amor? n&atilde;o &eacute;; a tanto n&atilde;o chega&#8230; antes um culto, isso<br \/>\n    sim. &Eacute; uma adora&ccedil;&atilde;o como aquela, em que de pequenos nos<br \/>\n    educam para com a Virgem. Que esperan&ccedil;as tenho? Nenhumas.<\/p>\n<p> Nem procuro aliment&aacute;-las. Quer que lhe diga? V&ecirc;-la; respirar<br \/>\n    estes ares que ela respira; atravessar estas devesas em que ela passeia; amimar<br \/>\n    as mesmas crian&ccedil;as que ela amima ; socorrer, com o meu &oacute;bolo<br \/>\n    de pobre, a mis&eacute;ria sobre a qual ela espalha caridosa as d&aacute;divas<br \/>\n    da sua aben&ccedil;oada opul&ecirc;ncia&#8230; e, a&iacute; est&aacute;; s&atilde;o<br \/>\n    as minhas aspira&ccedil;&otilde;es; &eacute; o futuro que desejo, e com que<br \/>\n    me contento. Leu no meu cora&ccedil;&atilde;o, disse ; e h&aacute; muito que<br \/>\n    mo d&aacute; a entender ; mas, n&atilde;o viu claro de todo, confesse.<\/p>\n<p> Julgou talvez que haveria em volta deste sentimento um enxame de esperan&ccedil;as<br \/>\n    loucas, e delas se ria. Delas por certo foi que se riu; &eacute; muito generoso<br \/>\n    para se rir do mais. Enganou-se, por&eacute;m, tio Vicente ; v&ecirc; agora<br \/>\n    que se enganou, nao &eacute; verdade? Essas esperan&ccedil;as n&atilde;o existem.<\/p>\n<p> Se existissem, bem v&ecirc; que n&atilde;o estaria aqui. N&atilde;o me teria<br \/>\n    impelido a ambi&ccedil;&atilde;o pelo caminho de realiz&aacute;-las? N&atilde;o<br \/>\n    se me t&ecirc;m oferecido os meios para tent&aacute;-lo? Mas, veja, quero-lhe<br \/>\n    tanto, e tanto me satisfaz esta felicidade a meu modo, que n&atilde;o arrisco<br \/>\n    um instante dela para tentar uma ventura maior.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio escutava silencioso, por&eacute;m meneando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    com ares de quem n&atilde;o punha demasiada f&eacute; naquelas palavras.<\/p>\n<p> &#8212; Aos vinte anos!&#8230;&#8212; disse ele por&quot;fim &#8212; sentir<br \/>\n    o que dizes&#8230;<\/p>\n<p> ser feliz assim!&#8230; Deixa passar mais tempo; deixa tomar corpo &agrave;<br \/>\n    paix&atilde;o e ver&aacute;s&#8230; ver&aacute;s depois&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tem dez anos &#8212; disse Augusto, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Dez anos ! &#8212; &Eacute; verdade. De crian&ccedil;a a conhe&ccedil;o,<br \/>\n    a paix&atilde;o que diz; por iss&ograve; confio nela. Tenho f&eacute; em que<br \/>\n    se n&atilde;o transviar&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; Dez anos!&#8212;repetiu o velho, admirado.&#8212;Por&eacute;m&#8230;<br \/>\n    h&aacute; dez anos ..<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute; dez anos sa&iacute; eu daqui, tio Vicente. N&atilde;o<br \/>\n    se lembra? Era ent&atilde;o uma pobre crian&ccedil;a da aldeia, educada entre<br \/>\n    os bra&ccedil;os de minha m&atilde;e, e conhecendo, uma por uma, as &aacute;rvores<br \/>\n    destes s&iacute;tios e mais nada.<\/p>\n<p> Sa&iacute; daqui e fui para Lisboa. N&atilde;o imagina as fortes impress&otilde;es<br \/>\n    que recebi na noite que ali cheguei. Nunca a hist&oacute;ria mais maravilhosa<br \/>\n    de fadas e de encantamentos que ouvia, quando era pequeno, nunca me feria<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o assim ! Tudo era novo para os meus sentidos. O<br \/>\n    rumor, as luzes, os pal&aacute;cios, os edif&iacute;cios, os carros produziam-me<br \/>\n    quase uma vertigem; sentia-me vacilar. Achei-me, nem sei bem como, de t&atilde;o<br \/>\n    atordoado que ia, numa casa onde estava o conselheiro, e em que se reunia,<br \/>\n    naquela noite, uma companhia numerosa de homens, de senhoras e de crian&ccedil;as,<br \/>\n    muitas da mesma idade que eu, e que formavam uma assembl&eacute;ia &agrave;<br \/>\n    parte. A sala era magn&iacute;fica ; muitas luzes, muitos espelhos, muitas<br \/>\n    flores, m&oacute;veis dourados, tapetes, quadros, cristais, e para acabar<br \/>\n    de me confundir, o piano, objecto novo para mim, e que eu me n&atilde;o fartava<br \/>\n    de admirar. Tudo isto me perturbava, como imagina, e por for&ccedil;a me havia<br \/>\n    de dar uns ares de estupefacto. O conselheiro recebeu-me com afecto ; deu<br \/>\n    explica&ccedil;&otilde;es &agrave;s pessoas presentes a respeito da minha<br \/>\n    vida, e deixou-me entregue &agrave;s crian&ccedil;as. A&iacute; fiquei eu,<br \/>\n    bisonho rapaz da aldeia, com a minha jaqueta mal talhada, o meu olhar t&iacute;mido,<br \/>\n    os meus modos acanhados, no meio de uma turba de crian&ccedil;as elegantes,<br \/>\n    que se me figuravam de uma ess&ecirc;ncia superior &agrave; minha.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as s&atilde;o desapiedadas, quando assim em companhia. Cedo<br \/>\n    percebi que estava sendo o alvo da zombaria delas; riam ao princ&iacute;pio<br \/>\n    com disfarce e falavam-se ao ouvido, olhando-me de relance, redobravam as<br \/>\n    risadas e transmitiam reflex&otilde;es a meu respeito, cujo sentido julguei<br \/>\n    adivinhar. Depois dobrou a ousadia nelas. dirigiram-me ditos, gracejos, cada<br \/>\n    vez menos disfar&ccedil;ados; formaram grupos em volta de mim; se eu falava,<br \/>\n    respondiam-me rindo. Ent&atilde;o apoderou-se de mim um profundo desalento,<br \/>\n    comprimiu-se-me o cora&ccedil;&atilde;o de tristeza. Lembrei- me, com saudades,<br \/>\n    das &aacute;rvores da minha aldeia, do meu pobre quarto, da minha m&atilde;e<br \/>\n    ; e achei-me ali t&atilde;o s&oacute;, t&atilde;o sem conforto nem amizades,<br \/>\n    que as l&aacute;grimas me vieram ferventes aos olhos. Ainda hoje n&atilde;o<br \/>\n    hesito em diz&ecirc;-lo, foi aquele um dos mais amargos momentos da minha<br \/>\n    vida. N&oacute;s, quando adultos, esquecemos facilmente os mart&iacute;rios<br \/>\n    da inf&acirc;ncia, quando nesta idade uma sensibilidade exagerada t&atilde;o<br \/>\n    dolorosos os faz. Foi ent&atilde;o que se deu um facto que, na minha piedosa<br \/>\n    supersti&ccedil;&atilde;o de rapaz alde&atilde;o, quase me pareceu de interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    divina.<\/p>\n<p> Abriu-se a porta, e entrou na sala uma crian&ccedil;a, que eu n&atilde;o<br \/>\n    tinha ainda visto. Era uma menina p&aacute;lida, de gesto af&aacute;vel e<br \/>\n    ang&eacute;lico. Vestia t&ocirc;da de branco. Entrou e aproximou-se do conselheiro,<br \/>\n    que jogava com uns amigo?, O conselheiro, depois de beij&aacute;-la, n&atilde;o<br \/>\n    sei que lhe disse ao ouvido. Ela correu ent&atilde;o a sala com a vista; viu-me<br \/>\n    e veio direita a mim.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o conhecias j&aacute; da aldeia Madalena ? &#8212; perguntou<br \/>\n    o ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o; minha m&atilde;e veio para aqui no ano em que, por morte<br \/>\n    da sua, Madalena voltou a Lisboa. A afabilidade, a singeleza desafectada com<br \/>\n    que me falou, causou-me um al&iacute;vio inef&aacute;vel. Ainda hoje sinto<br \/>\n    como que os reflexos daquela suave impress&atilde;o. Parecia-me ouvir a voz<br \/>\n    de minha m&atilde;e ; tinha o timbre da simpatia. Encheu-se-me logo de conian&ccedil;a<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o. com ela n&atilde;o senti mais aquele acanhamento<br \/>\n    que me enleava. Depois falava-me de coisas que eu sabia t&atilde;o bem ! Perguntavame<br \/>\n    a respeito dos campos, das &aacute;rvores, das abelhas, dos ninhos dos p&aacute;ssaros,<br \/>\n    das flores, dos trabalhos do linho&#8230; interrogando-me e escuando- me com tanta<br \/>\n    defer&ecirc;ncia e aten&ccedil;&atilde;o, que me inspirava coragem, e julgo<br \/>\n    que me estava dando ares de mais import&acirc;ncia junto daqueles pequenos<br \/>\n    senhores e senhoras que, pouco a pouco, se foram despoando dos seus desd&eacute;ns<br \/>\n    e acabaram por me escutar e interrogar tam- )&eacute;m com curiosidade. J&aacute;<br \/>\n    uns me lan&ccedil;avam os bra&ccedil;os ao ombro, outros fbrmavam c&iacute;rculo<br \/>\n    em volta de mim, e cedo fui eu a principal personagem daquela noite. Essa<br \/>\n    crian&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Era Madalena ; adivinh&aacute;-lo-ia agora, se j&aacute; o n&atilde;o<br \/>\n    soubesse. N&atilde;o jodia deixar de ser ela &#8212; exclamou o ervan&aacute;rio,<br \/>\n    com um fulgor de simpatia a iluminar-lhe o olhar. &#8212; Era ela ; sempre<br \/>\n    assim foi ! &#8212; Era. Esta cena pueril teve uma grande influ&ecirc;ncia<br \/>\n    no meu esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Hoje ainda, se penso nela, acho-a de uma grande significa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral. Pois n&atilde;o &eacute; mais apreci&aacute;vel numa crian&ccedil;a<br \/>\n    esta prova de superioridade de car&aacute;cter, do que nas idades em que muitas<br \/>\n    vezes a raz&atilde;o e o c&aacute;lculo a imp&otilde;em a uma &iacute;ndole<br \/>\n    naturalmente pouco generosa? Ali era tudo espontaneidade. Desde ent&atilde;o<br \/>\n    a adoro.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio parecia n&atilde;o ter j&aacute; &acirc;nimo para sorrir.<\/p>\n<p> &#8212; Agora vejo por que trouxeste da cidade aquela grande triseza.<\/p>\n<p> T&atilde;o novo ! &#8212; &Eacute; verdade. Foi esse o motivo. Madalena<br \/>\n    foi sempre para mim af&aacute;vel ; inclinava-se sobre o livro em que me via<br \/>\n    estudar, corrigia, sorrindo, os defeitos da minha educa&ccedil;&atilde;o alde&atilde;,<br \/>\n    e, se reconhecia processos no disc&iacute;pulo, manifestava uma alegria que<br \/>\n    era para mim o maior incentivo e o maior pr&ecirc;mio. Fiz os exames. Quando<br \/>\n    voltei a casa, Madalena com certo ar de gravidade, que aquela crian&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; ent&atilde;o ornava, perguntou-me, no meio de uma conversa pr&oacute;pria<br \/>\n    de crian&ccedil;as: E sente-se com g&ecirc;nio para ser padre, Augusto?&raquo;<br \/>\n    J&aacute; me n&atilde;o lembro do que lhe respondi. Trouxe por&eacute;m comigo<br \/>\n    aquela pergunta ; trouxe-a para a solid&atilde;o da minha aldeia. Procurei<br \/>\n    cerrar os ouvidos &agrave; voz inteior, que desde ent&atilde;o ma repetia<br \/>\n    sempre, at&eacute; junto da cabeceira de minha m&atilde;e, cuja maior aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era, como sabe, ver-me padre. Mas m v&atilde;o ! foi desde ent&atilde;o uma<br \/>\n    d&uacute;vida constante com que lutava. com morte de minha m&atilde;e tudo<br \/>\n    mudou. Pela primeira vez respondi &agrave; interroga&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    havia tanto tempo dirigia a mim pr&oacute;prio, e consegui por fim responder:<br \/>\n    &laquo;N&atilde;o&raquo;. Eis o segredo do meu passado.<\/p>\n<p> &#8212; E porque disseste &laquo; N&atilde;o &raquo; ? &#8212; Porque vi<br \/>\n    que t&ocirc;da a minha vida era para a consagrar a um sonho ; que o sonharia<br \/>\n    no altar, no p&uacute;lpito e no confession&aacute;rio ; que para toda a parte<br \/>\n    me seguiria a imagem, a que eu j&aacute; n&atilde;o podia renunciar, e a qual<br \/>\n    ent&atilde;o j&aacute; n&atilde;o contemplaria sem remorsos, como agora o<br \/>\n    fa&ccedil;o. Foi por isto.<\/p>\n<p> &#8212; S&oacute;? N&atilde;o te iludir&aacute;s a ti mesmo, Augusto? Repara<br \/>\n    bem, que nisto pode ir a tua felicidade ! Est&aacute;s bem certo de que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; uma esperan&ccedil;a dentro do teu cora&ccedil;&atilde;o? &#8212;<br \/>\n    Se a tivesse ..<\/p>\n<p> Ia a continuar, quando julgou ouvir o rumor de passos na rua.<\/p>\n<p> Cedo batiam na porta duas leves pancadas, e uma voz dizia de fora: &#8212;<br \/>\n    Est&aacute; acordado ainda, tio Vicente O ervan&aacute;rio trocou um olhar<br \/>\n    com Augusto. A voz era de Madalena.<\/p>\n<p> Augusto ergueu-se com presteza. O ervan&aacute;rio quis ret&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Onde vais ? &#8212; Deixe-me sair. N&atilde;o poderia v&ecirc;-la<br \/>\n    agora. N&atilde;o estou preparado com a minha indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Pobre m&aacute;scara ! &#8212; Nesse caso sai pelo quintal.<\/p>\n<p> &#8212; Tio Vicente ! &#8212; repetiu Madalena de fora.<\/p>\n<p> &#8212; Eu vou, minha ave nocturna ; eu vou j&aacute;. Espera &#8212; continuou<br \/>\n    em voz baixa para Augusto : &#8212; d&aacute;-me a tua palavra que n&atilde;o<br \/>\n    escutar&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8212; Dou; mas .. promete que nada lhe dir&aacute;? &#8212; Eu?!&#8230; Louco!<br \/>\n    Assim te pudesse fazer esquecer, quanto mais ..<\/p>\n<p> Adeus ! Depois de assegurar-se de que Augusto sa&iacute;ra pelo lado do<br \/>\n    quintal, o ervan&aacute;rio foi abrir a porta da rua &agrave; morgadinha.<\/p>\n<p> XVI ORA com Deus venha a minha fada ; esta querida Lena, que se n&atilde;o<br \/>\n    esquece dos seus amigos velhos&#8230; Boas festas me trazes pela noite, filha!<br \/>\n    No rosto e nas maneiras de Madalena havia evidentes ind&iacute;cios de preocupa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Boas noites, tio Vicente! Pouco me posso demorar; eu venho&#8230;<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio conduziu-a para junto da mesa, onde estavam ainda os<br \/>\n    sinais da refei&ccedil;&atilde;o, que havia pouco findara. Vendo os dois talheres,<br \/>\n    a morgadinha olhou interrogadoramente para Vicente: &#8212; Estava algu&eacute;m<br \/>\n    consigo ? &#8212; Esteve Augusto, que ceou aqui. Porqu&ecirc; ? Temos por<br \/>\n    a&iacute; mais alguns livros a comprar-lhe ? &#8212; continuou, sorrindo,<br \/>\n    com ben&egrave;vola mal&iacute;cia. &#8212; Tenho eu mais uma vez de chamar<br \/>\n    em meu aux&iacute;lio a fada que, de vez em quando, me ensina em segredo quais<br \/>\n    os livros que o rapaz mais deseja e de que eu mal sei dizer os nomes? Hei-de<br \/>\n    ainda ouvir calado agradecimentos, que n&atilde;o mere&ccedil;o, e que ele<br \/>\n    mais de cora&ccedil;&atilde;o daria, a quem s&atilde;o de justi&ccedil;a devidos?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o, tio Vicente ; n&atilde;o se trata agora disso.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, Lena, Lena, que nao sei bem o que devo pensar de t&ocirc;das<br \/>\n    estas coisas.<\/p>\n<p> A morgadinha parecia um pouco perturbada com as palavras do ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Que h&aacute;-de pensar ? H&aacute; nada mais natural ? &Acirc;ngelo<br \/>\n    foi que me eu o exemplo. Ele sabia o amor que Augusto tem &agrave; leitura.<br \/>\n    Por&eacute;m cofre de &Acirc;ngelo &eacute; pequenino, bem sabe; enquanto<br \/>\n    que eu chego a em saber em que hei-de consumir o que me sobra. Por isso foi<br \/>\n    que me lembrei&#8230; por&eacute;m como n&atilde;o conviria que eu pr&oacute;pria<br \/>\n    fizesse o presente, nem ele de mim o aceitaria, &eacute; que eu lhe pedi que<br \/>\n    o fizesse em seu nome. Mas falemos de outra coisa, porque me n&atilde;o posso<br \/>\n    demorar.<\/p>\n<p> Venho &agrave;s ocultas e enquanto a minha gente foi &agrave; missa do galo.<br \/>\n    Tio Vicente, um objecto muito grave me obrigou a procur&aacute;-lo a estas<br \/>\n    horas.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; disse o velho, sentando-se em tom de gracejo. &#8212;<br \/>\n    Adivinho a gravidade do caso. O filhito do boieiro, o teu afilhado predilecto,<br \/>\n    tem algum princ&iacute;pio de sarampo ou de garrotilho, e vens&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, n&atilde;o. Diga-me, tio Vicente, tem muito amor a esta<br \/>\n    casa e a este quintal? O velho tornou-se imediatamente s&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Se lhe tenho amor ? ! Que pergunta I &#8212; Tem? &#8212; Nasci<br \/>\n    aqui, filha.<\/p>\n<p> &#8212; Custar-lhe-ia a&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; A qu&ecirc;? &#8212; A&#8230; a&#8230;<\/p>\n<p> E Madalena hesitava.<\/p>\n<p> &#8212; Fala ! &#8212; insistiu o velho, j&aacute; inquieto.<\/p>\n<p> &#8212; A separar-se dela? O ervan&aacute;rio respondeu simples.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! morreria.<\/p>\n<p> Madalena fez um gesto de afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Em Vicente crescia o desassossego.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; Diz, Madalena; o que significam essas palavras? &#8212; &Eacute;<br \/>\n    que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Explica-te ! &#8212; exclamou o ervan&aacute;rio, quase imperiosamente.<\/p>\n<p> &#8212; Oi&ccedil;a-me, tio Vicente ; oi&ccedil;a-me, mas n&atilde;o se<br \/>\n    aflija. Eu vim de prop&oacute;sito para o prevenir. Mas, por amor de Deus,<br \/>\n    sossegue.; sen&atilde;o tira-me o &acirc;nimo de continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Que sossegue, e tu a atormentares-me com essas demoras.<\/p>\n<p> &#8212; Perdoe&#8230; Fala-se em deitar abaixo estas &aacute;rvores e esta casa,<br \/>\n    p a r a . . .<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio de um &iacute;mpeto p&ocirc;s-se a p&eacute;. Fulgurou-lhe<br \/>\n    nos olhos um rel&acirc;mpago de ira terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Madalena calou-se, assustada.<\/p>\n<p> &#8212; Deitar abaixo estas &aacute;rvores e esta casa?! Quem?&#8230; Quem se<br \/>\n    atreve ? Pois que venham ! que venham ! Mas reparando no terror que estava<br \/>\n    causando a Madalena, procurou reprimir-se, e com uma voz que ele se esfor&ccedil;ava<br \/>\n    por tornar tranquila, continuou : &#8212; Mas vejamos. Ent&atilde;o querem,<br \/>\n    dizes tu&#8230; Fala, Lena, fala&#8230; Diz o que sabes. Quem &eacute;?&#8230; Para que<br \/>\n    fim? Pois quem pode lembrar-se de&#8230; Fala, bem v&ecirc;s que eu estou sossegado,<br \/>\n    filha, &#8212; H&aacute; um projecto de estrada&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! &#8212; disse Vicente, com um grito de raiva. &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    digas mais. J&aacute; sei &#8212; continuou com renascente exalta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8212; J&aacute; sei. Adivinho o resto. &Eacute; teu pai que o determina;<br \/>\n    &eacute; teu pai que o resolveu? Madalena baixou a cabe&ccedil;a com dolorosa<br \/>\n    express&atilde;o.<\/p>\n<p> O furor do velho exaltou-se outra vez.<\/p>\n<p> &#8212; Teu pai ! Teu pai, Lena ! Ent&atilde;o esse homem jurou matar-me<br \/>\n    ? &#8212; Tio Vicente! &#8212; Ele n&atilde;o sabe o que sao para mim estas<br \/>\n    &aacute;rvores e estas paredes ? Ele n&atilde;o sabe que a minha alma est&aacute;<br \/>\n    nelas, presa a estas ra&iacute;zes? que com elas se despeda&ccedil;ar&aacute;?<br \/>\n    Esse homem sem cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o v&ecirc; que s&atilde;o estas<br \/>\n    as minhas afei&ccedil;&otilde;es, as &uacute;nicas? a minha &uacute;nica fam&iacute;lia?<br \/>\n    Ele, o companheiro dos meus primeiros anos ! que, como eu, a&iacute; brincou,<br \/>\n    &agrave; sombra dessas mesmas &aacute;rvores e sob os olhares de meu pai,<br \/>\n    que tamb&eacute;m o aben&ccedil;oava, t&atilde;o duro de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se fez que, sem respeito por estas mem&oacute;rias todas, assim me quer separar<br \/>\n    do que me d&aacute; vida, do que ainda me prende ao mundo? E &eacute; teu<br \/>\n    pai este homem, Lena? &#8212; Por quem &eacute;, tio Vicente; oi&ccedil;a-me.<br \/>\n    Deixe-me dizer-lhe ao que vim, que talvez tudo se remedeie ainda.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, sim; tudo se remediar&aacute;&#8230; com a minha morte. Talvez<br \/>\n    que ela seja &uacute;til a teu pai&#8230; Talvez precise dela.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! n&atilde;o creia, n&atilde;o creia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; duas vezes doloroso o golpe ; porque me separa do que amo<br \/>\n    deveras e por vir da m&atilde;o de quem vem. Eu era amigo de teu pai, Lena.<br \/>\n    Acredita que o era&#8230; ainda. Conheci-o t&atilde;o generoso e t&atilde;o inocente,<br \/>\n    como teu irm&atilde;o &Acirc;ngelo. Muitas vezes me entusiasmei ao ouvi-lo<br \/>\n    falar dos seus projectos. E acreditei nele. Tinha ent&atilde;o no olhar um<br \/>\n    fogo, que n&atilde;o mentia. Vi-o seguir a carreira p&uacute;blica e acompanhei-o<br \/>\n    com a minha f&eacute;. N&atilde;o tardaram os primeiros desenganos ; n&atilde;o<br \/>\n    lhes quis dar cr&eacute;dito ao princ&iacute;pio. Vieram outros e outros.<br \/>\n    Fui vendo ent&atilde;o que os maus ares daquela terra tinham emba&ccedil;ado<br \/>\n    o brilho do car&aacute;cter, que eu julguei melhor do que os outros. Mas o<br \/>\n    pior dos desenganos estava-me reservado ainda. Para teu pai hoje os homens<br \/>\n    s&atilde;o medidos pelos votos que podem lan&ccedil;ar na urna eleitoral!<br \/>\n    &#8212; Por amor de Deus, tio Vicente, n&atilde;o fale assim! N&atilde;o duvide<br \/>\n    de meu pai ! &#8212; exclamou Madalena, a quem cruelmente estavam afligindo<br \/>\n    as recrimina&ccedil;&otilde;es amargas do ervan&aacute;rio. &#8212; Meu pai<br \/>\n    estima-o e respeita-o. N&atilde;o tem o cora&ccedil;&atilde;o endurecido que<br \/>\n    diz. Ele mesmo amanh&atilde; aqui h&aacute;-de vir. Ver&aacute; ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ele? Amanh&atilde;?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Para isso venho preveni-lo. N&atilde;o o receba com asperezas, tio<br \/>\n    Vicente ; fale-lhe com brandura. Talvez o comova, talvez seja ainda poss&iacute;vel<br \/>\n    valer a tudo. Ainda n&atilde;o est&aacute; decidido&#8230; Julgo&#8230; E que estivesse<br \/>\n    &#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Amanh&atilde; ! Teu pai vem aqui amanh&atilde; ? E ousa vir ele<br \/>\n    pr&oacute;prio anunciar-me o que sabe que vai ser uma senten&ccedil;a de morte?<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o ; ele ignora o mal que isto lhe causa, creia. Sabendo-o,<br \/>\n    ver&aacute; como&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Teu pai conhece-me, Madalena. Teu pai conhece-me, e h&aacute; muito.<br \/>\n    N&atilde;o julgues que pode errar, calculando o efeito deste golpe.<\/p>\n<p> Mas que queres tu? ensinaram-lhe j&aacute; a avaliar em pouco as v&eacute;netas<br \/>\n    de um velho quase tonto. Homens que trazem o pensamento em interesses t&atilde;o<br \/>\n    altos, n&atilde;o t&ecirc;m vista para estas pequenas desgra&ccedil;as.<\/p>\n<p> Madalena sentia-se possuir de uma profunda tristeza, ao ouvir falar o ervan&aacute;rio.<br \/>\n    Era uma dolorosa prova&ccedil;&atilde;o para o seu amor de filha ver assim<br \/>\n    uma nuvem de desconfian&ccedil;a ofuscar a ideal concep&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ela formara do pai, e n&atilde;o ter for&ccedil;as para a afugentar. As vezes<br \/>\n    uma d&uacute;vida cruel fazia-lhe, a seu pesar, supor que o ervan&aacute;rio<br \/>\n    tinha raz&atilde;o.<\/p>\n<p> Agora s&oacute; conseguia opor um gesto suplicante &agrave;quelas acerbas<br \/>\n    acusa&ccedil;&otilde;es, que por muito tempo ainda desatenderam esta s&uacute;plica<br \/>\n    muda.<\/p>\n<p> Afinal serenou a viol&ecirc;ncia da irrita&ccedil;&atilde;o do velho ; sucedeu-lhe,<br \/>\n    por&eacute;m, uma como&ccedil;&atilde;o profunda, dominado por a qual disse<br \/>\n    a Madalena: &#8212; Sossega, Lena ; amanh&atilde; eu receberei teu pai sem<br \/>\n    a menor aspereza. Fizeste bem em vir primeiro, filha. Se o n&atilde;o esperasse,<br \/>\n    talvez n&atilde;o soubesse conter-me. Agradecido. uma noite &eacute; bastante<br \/>\n    para me preparar. Agora vai, deixa-me s&oacute;; deixa-me&#8230; chorar.<\/p>\n<p> E cobrindo o rosto com as m&atilde;os, deixou-se cair, solu&ccedil;ando,<br \/>\n    sobre a mesa, junto da qual se achava.<\/p>\n<p> Madalena correu para ele, comovida.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, tio Vicente, ent&atilde;o! Sossegue! Amanh&atilde;<br \/>\n    meu pai vir&aacute;.<\/p>\n<p> Fale-lhe, e eu espero que ainda ser&aacute; tempo de evitar .. o mal.<\/p>\n<p> &#8212; Pode ser, pode ser&#8230; &#8212;respondia o velho. &#8212; E se n&atilde;o<br \/>\n    puder, Deus me acudir&aacute;, para n&atilde;o viver por muito tempo fora<br \/>\n    da casa em que nasci.<\/p>\n<p> Madalena j&aacute; n&atilde;o tinha que lhe dizer.<\/p>\n<p> &#8212; Eu pedirei tamb&eacute;m, e Cristina, e todos pediremos, como |&aacute;<br \/>\n    pedimos. Tenho esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, filha, n&atilde;o pe&ccedil;as tu. Deixa-me s&oacute;<br \/>\n    com teu pai amanh&atilde;.<\/p>\n<p> Disseste que tinhas vindo sem ningu&eacute;m saber? &#8212; continuou ele.&#8212;<br \/>\n    Olha que te n&atilde;o d&ecirc;em pela falta. Vai, que &eacute; tempo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vai, filha. Eu estou j&aacute; tranquilo. Bem v&ecirc;s. Deus te<br \/>\n    recompense a bondade que tiveste. Vai. Queres que te acompanhe? &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; preciso. Vim pela porta das presas, que deixei aberta.<\/p>\n<p> S&atilde;o dois passos e estou na quinta. Mas, tio Vicente&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Vai ent&atilde;o; e Deus te aben&ccedil;oe.<\/p>\n<p> E o velho pousou a m&atilde;o sobre a cabe&ccedil;a de Madalena, que saiu<br \/>\n    comovida.<\/p>\n<p> E ele caiu outra vez sobre a mesa, sem reter o pranto que lhe rebentava<br \/>\n    dos olhos.<\/p>\n<p> &Eacute; sombria a saudade naquelas idades, porque as esperan&ccedil;as<br \/>\n    s&atilde;o j&aacute; muito d&eacute;beis para lhe darem luz.<\/p>\n<p> Saindo de casa do ervan&aacute;rio, perturbada ainda pelos sentimentos que<br \/>\n    ali a tinham agitado, a morgadinha dirigiu-se &agrave; pressa para a porta<br \/>\n    da quinta por onde sa&iacute;ra. Ao impeli-la para entrar, a porta resistiu.<\/p>\n<p> Este facto surpreendeu e inquietou um pouco Madalena. Quem poderia ter fechado<br \/>\n    a porta? E se efectivamente estava fechada, tornava-se- -Ihe necess&aacute;rio<br \/>\n    um longo rodeio pela aldeia para chegar a outra que pudesse encontrar aberta.<\/p>\n<p> Nesta hesita&ccedil;&atilde;o impeliu outra vez instintivamente a porta,<br \/>\n    que lhe op&ocirc;s a mesma resist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Cedo, por&eacute;m, sentiu o rodar da chave na fechadura e viu mover-se<br \/>\n    lentamente a porta, e no v&atilde;o, que aumentava, desenhar-se uma figura<br \/>\n    de homem.<\/p>\n<p> Antes que pudesse, atrav&eacute;s da obscuridade da noite, reconhecer a<br \/>\n    pessoa, que assim t&atilde;o a prop&oacute;sito lhe acudia, deram-lha a conhecer<br \/>\n    estas palavras: &#8212; Muito boas noites, prima Madalena. Espero que pelo<br \/>\n    menos me conceder&aacute; licen&ccedil;a para exercer, junto de si, as humildes<br \/>\n    fun&ccedil;&otilde;es de porteiro.<\/p>\n<p> Era Henrique de Souselas.<\/p>\n<p> Madalena n&atilde;o foi superior a um vago sentimento de receio, ao encontrar-se<br \/>\n    a&iacute; com o h&oacute;spede de Alvapenha ; contudo esfor&ccedil;ou-se por<br \/>\n    dominar-se e respondeu, com aparente presen&ccedil;a de esp&iacute;rito: &#8212;<br \/>\n    Ah ! &Eacute; o primo Henrique. Muito boas noites. A&iacute; temos um requinte<br \/>\n    de galantaria que eu estava muito longe de esperar.<\/p>\n<p> &#8212; E de desejar, n&atilde;o ? &#8212; E de desejar tamb&eacute;m, confesso-o.<br \/>\n    Por mais diligente que seja um porteiro, nunca o &eacute; tanto como uma porta<br \/>\n    aberta.<\/p>\n<p> &#8212; Mas &eacute; mais discreto.<\/p>\n<p> &#8212; Duvido. Em todo o caso, agrade&ccedil;o o inc&ocirc;modo.<\/p>\n<p> E, dizendo isto, preparava-se para entrar, sem mais explica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; uma palavra, prima Madalena &#8212; disse Henrique, retendo-a por<br \/>\n    o bra&ccedil;o e com certa express&atilde;o nas palavras e no gesto, que redobrou<br \/>\n    o sobressalto da morgadinha. &#8212; N&atilde;o h&aacute; mais acomodado terreno<br \/>\n    para um di&aacute;logo solene do que o limiar de uma porta. Ordinariamente<br \/>\n    no limiar das portas o homem muda de m&aacute;scara ; dep&otilde;e a que apresenta<br \/>\n    na sociedade e afivela a que traz na fam&iacute;lia, e vice-versa. Ora nessas<br \/>\n    mudan&ccedil;as &eacute; f&aacute;cil surpreender o verdadeiro rosto da pessoa.<\/p>\n<p> &#8212; Ser&aacute; tudo o que quiser o limiar de uma porta, primo ; menos<br \/>\n    um lugar muito confort&aacute;vel para ser&otilde;es numa noite de Dezembro.<\/p>\n<p> E Madalena tentou de novo seguir para diante.<\/p>\n<p> Henrique susteve-a outra vez.<\/p>\n<p> &#8212; Um momento s&oacute;, prima Madalena; tenho necessidade de saber<br \/>\n    se me quer para aliado ou para inimigo.<\/p>\n<p>.&#8212; N&atilde;o vejo a necessidade da alian&ccedil;a que prop&otilde;e,<br \/>\n    nem as raz&otilde;es para a luta.<\/p>\n<p> &#8212; Sejamos francos. A prima deve confessar que a minha presen&ccedil;a<br \/>\n    aqui foi um desagrad&aacute;vel contratempo. uma certa altivez e consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de invulnerabilidade, de que tinha o inc&ocirc;modo de se revestir, sempre<br \/>\n    que tratava comigo, depois desta importuna ocorr&ecirc;ncia ter&aacute; de<br \/>\n    se modificar.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o havia dado por essa&#8230; revestidura que diz; mas, se ela<br \/>\n    existiu, far-me-&aacute; o favor de dizer: porque n&atilde;o pode continuar?<br \/>\n    &#8212; Essa &eacute; boa ! porque eu fa&ccedil;o a justi&ccedil;a &agrave;<br \/>\n    prima de supor que n&atilde;o vai t&atilde;o longe a sua hipocrisia.<\/p>\n<p> &#8212; Hipocrisia ! &#8212; disse Madalena, com acento mais severo.<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o; n&atilde;o tive tempo para inventar outro termo mais&#8230;<\/p>\n<p> brando. Dissimula&ccedil;&atilde;o talvez lhe agrade mais. Seja dissimula&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas depois do ocorrido&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Agora exijo eu que se explique, senhor.<\/p>\n<p> &#8212; Ora vamos. Seja razo&aacute;vel. Poder-me-&aacute; dar uma explica&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> edificante&#8230; desta sua excurs&atilde;o nocturna? &#8212; Obsta apenas a<br \/>\n    que eu lha d&ecirc;, Sr. Henrique de Souselas, a falta de uma pequena formalidade<br \/>\n    : a de lhe reconhecer o direito de interrogar-me.<\/p>\n<p> &#8212; Muito bem. Cada vez confirmo mais a minha id&eacute;ia. A prima<br \/>\n    &eacute; uma mulher admir&aacute;vel, uma mulher superior, educada na alta<br \/>\n    escola de uma sociedade distinta, sobranceira por isso a pieguices provincianas.<\/p>\n<p> Tanto mais me encanta ! E creia que me envergonho s&oacute; ao lembrar-<br \/>\n    me do que ter&aacute; pensado de mim, vendo-me tomar a s&eacute;rio as suas<br \/>\n    profiss&otilde;es de f&eacute;, t&atilde;o cheias de franqueza e de candura.<br \/>\n    Devo ter-lhe parecido bem rid&iacute;culo, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212;<br \/>\n    Agora &eacute; que me est&aacute; parecendo bem enigm&aacute;tico, &#8212;<br \/>\n    Sim ? Nesse caso eu me decifro. A prima n&atilde;o ignora que eu a amo.<\/p>\n<p> &#8212; Pois ignorava ! &#8212; atalhou Madalena, com ironia.<\/p>\n<p> &#8212; E sabe decerto, por experi&ecirc;ncia do mundo, que para homens<br \/>\n    como eu, a indiferen&ccedil;a, a frieza e os desd&eacute;ns redobram o ardor<br \/>\n    da paix&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ; j&aacute; li isso num romance.<\/p>\n<p> &#8212; A prima tem sido para comigo de uma crueldade rovoltante, mas pouco<br \/>\n    sincera. Eu resignava-me a sofrer, porque um resto de ingenuidade que me ficou<br \/>\n    dos quinze anos, iludia-me na interpreta&ccedil;&atilde;o de tais resist&ecirc;ncias.<br \/>\n    Tive a puerilidade de a supor uma mulher de excep&ccedil;&atilde;o; pouco<br \/>\n    me faltou para a divinizar. Estava reservado para esta memor&aacute;vel noite<br \/>\n    de Natal o desengano.<\/p>\n<p> &#8212; Ah! ent&atilde;o parece-lhe&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Que a prima representa admir&agrave;velmente o seu papel. Pode gabar-se<br \/>\n    de ter iludido um homem habituado &agrave;s cenas da com&eacute;dia social.<\/p>\n<p> Madalena respondeu, com um tom de voz cheio de severidade e de nobreza:<br \/>\n    &#8212; Tenho-o estado a escutar, Sr. Henrique de Souselas, sem que eu pr&oacute;pria<br \/>\n    bem saiba o que me ret&eacute;m aqui : se &eacute; compaix&atilde;o que me<br \/>\n    inspira a profunda doen&ccedil;a moral em que o vejo tomado, se a curiosidade<br \/>\n    de saber a que tendem todos esses arrazoados. Vejo-o inclinado a imaginar<br \/>\n    que por um facto, que a sua pouca delicada indiscri&ccedil;&atilde;o preparou,<br \/>\n    eu ficarei de hoje em diante &agrave; merc&ecirc; da sua generosidade.<\/p>\n<p> Conhece-me muito pouco, Sr. Henrique ! Ainda quando esse facto n&atilde;o<br \/>\n    pudesse ter uma explica&ccedil;&atilde;o natural, e que me n&atilde;o repugnar&aacute;<br \/>\n    declarar quando quiser, saiba que tenho orgulho de mais para arrostar com<br \/>\n    tudo, at&eacute; com a cal&uacute;nia, de prefer&ecirc;ncia a resignar-me<br \/>\n    ao menor predom&iacute;nio que me seja odioso.<\/p>\n<p> &#8212; Bravo ! &#8212; Saiba mais, Sr. Henrique de Souselas, que se eu<br \/>\n    n&atilde;o lhe fizesse a justi&ccedil;a de acreditar que desses seus actos<br \/>\n    e palavras n&atilde;o &eacute; absolutamente irrespons&aacute;vel talvez a<br \/>\n    m&aacute; influ&ecirc;ncia da ceia desta noite, bastariam eles para me inspirarem<br \/>\n    por si e pelo seu car&aacute;cter o mais completo desprezo; e ent&atilde;o<br \/>\n    seria, como nunca, manifesta a minha independ&ecirc;ncia, porque eu nunca<br \/>\n    temi os seres que desprezo.<\/p>\n<p> Henrique principiava a ser de novo subjugado pelo tom de severidade e de<br \/>\n    energia, com que a morgadinha lhe falava ; ainda assim um resto de cepticismo<br \/>\n    obrigou-o a replicar: &#8212; Santo Deus ! prima Madalena ; n&atilde;o d&ecirc;<br \/>\n    um colorido t&atilde;o pavoroso &agrave;s minhas suposi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Despoj&aacute;-la de uma crueza desumana, para a dotar de uma sensibilidade,<br \/>\n    verdadeiramente feminil, &eacute; uma justi&ccedil;a feita ao seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E o facto que o acaso me revelou a nada mais me autoriza. O pequeno e natural<br \/>\n    despeito por me haver deixado iludir desvaneceu-se j&aacute;, creia ; e agora<br \/>\n    s&oacute; me resta invejar a sorte de quem tem a felicidade&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Basta! Ordeno-lhe que se cale, senhor! Nem mais um instante o escutarei<br \/>\n    ; poupar-lhe-ei assim os remorsos que amanh&atilde; teria da sua inf&acirc;mia&#8230;<\/p>\n<p> E animada por uma resolu&ccedil;&atilde;o mais en&eacute;rgica, Madalena<br \/>\n    caminhou soberanamente para a porta.<\/p>\n<p> Henrique colocou-se-lhe outra vez diante.<\/p>\n<p> &#8212; Um momento mais.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-me passar, senhor.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, sem que me oi&ccedil;a antes.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma viol&ecirc;ncia ? &#8212; &Eacute; uma s&uacute;plica.<\/p>\n<p> Neste momento saiu da obscuridade da rua fronteira um vulto que avan&ccedil;ou<br \/>\n    para eles.<\/p>\n<p> &#8212; Sr.* D. Madalena, se for preciso reter o insolente, que se lhe atravessa<br \/>\n    no caminho, ponho um bra&ccedil;o &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E Augusto, de quem partiram estas palavras, veio colocar-se entre Henrique<br \/>\n    e Madalena.<\/p>\n<p> Ouvindo-o e reconhecendo-o, Henrique estremeceu de c&oacute;lera.<\/p>\n<p> O olhar que fixou no rec&eacute;m-chegado traiu a veem&ecirc;ncia da impress&atilde;o<br \/>\n    recebida. Depois sucedeu-se-lhe no espirito outra ordem de id&eacute;ias.<\/p>\n<p> Olhou para Madalena, em quem n&atilde;o era menor a surpresa causada pela<br \/>\n    inesperada presen&ccedil;a de Augusto, olhou outra vez para este e soltou<br \/>\n    uma risada cheia de malignidade e de_ ironia, que a ambos fez estremecer.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; est&aacute; uma apari&ccedil;&atilde;o tanto a tempo,<br \/>\n    prima Madalena, que aos mais incr&eacute;dulos infundiria f&eacute; na interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da Provid&ecirc;ncia. Que foi sem d&uacute;vida providencial o acaso, que<br \/>\n    trouxe por aqui, a estas horas mortas, um t&atilde;o generoso e intr&eacute;pido<br \/>\n    salvador. N&atilde;o &eacute; verdade, prima? O que vale estar de bem com<br \/>\n    Deus.<\/p>\n<p> Estas palavras mostraram a Augusto que a sua interven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ainda que generosa e devida a um espont&acirc;neo impulso da alma, n&atilde;o<br \/>\n    fora porventura das mais convenientes.<\/p>\n<p> &#8212; Senhor! &#8212; exclamou ele, indignado, dando um passo para Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Sossegue &#8212; tornou este, com dobrado sarcasmo. &#8212; O senhor<br \/>\n    &eacute; um perfeito her&oacute;i de romance ; entusiasta, cavalheiresco,<br \/>\n    mas, em certas ocasi&otilde;es, inc&ocirc;modo de candura, por isso mesmo.<br \/>\n    Se soubesse o transtorno que veio causar a um belo di&aacute;logo que eu sustentava<br \/>\n    aqui com a Sr.* D. Madalena! N&atilde;o v&ecirc; como a deixou embara&ccedil;ada?<br \/>\n    Perdeu com a sua vinda o fio da com&eacute;dia, que desempenhava com perfeita<br \/>\n    ci&ecirc;ncia de actriz. As almas ing&ecirc;nuas e generosas, como a sua,<br \/>\n    Sr. Augusto, s&atilde;o &agrave;s vezes de uma impertinencia! Vamos, Sr.&quot;<br \/>\n    D. Madalena; n&atilde;o descoro&ccedil;oe. Assim esgotou todos os recursos<br \/>\n    da sua imagina&ccedil;&atilde;o? Vamos, introduza mais este elemento de apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um her&oacute;i no enredo, e organize a com&eacute;dia com o superior talento<br \/>\n    que tem! Eu por mim aceito todos os pap&eacute;is que me distribuir.<\/p>\n<p> Augusto ia responder, quando Madalena o atalhou dizendo com voz firme :<br \/>\n    &#8212; Perd&atilde;o ; vejo nesta noite em todos uma not&aacute;vel disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para usurparem direitos que n&atilde;o possuem! O Sr. Henrique o de me interrogar;<br \/>\n    o Sr. Augusto, o de me defender. A um repetirei o que j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    pouco lhe disse ; se algum dia tiver necessidade de explicar as minhas ac&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    f&aacute;-lo-ei diante de outros ju&iacute;zes, em quem reconhe&ccedil;o o<br \/>\n    direito de o serem. Ao outro pe&ccedil;o licen&ccedil;a para lhe lembrar que,<br \/>\n    se o titulo de h&oacute;spede e de parente n&atilde;o fosse bastante para<br \/>\n    me assegurar da parte do Sr. Henrique de Souselas os respeitos que me s&atilde;o<br \/>\n    devidos, tinha ainda na minha fam&iacute;lia defensores leg&iacute;timos e<br \/>\n    n&atilde;o seria por isso obrigada a recorrer &agrave; protec&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um estranho. Meus senhores&#8230;<\/p>\n<p> E, inclinando-se senhorilmente, a morgadinha passou por entre eles e entrou<br \/>\n    para a quinta, sem que nenhum a procurasse reter.<\/p>\n<p> &#8212; Se esta senhora aceitasse a sua protec&ccedil;&atilde;o e eu teimasse<br \/>\n    naquilo que chamou a minha insolencia, qual seria, pouco mais ou menos, o<br \/>\n    seu procedimento? Poder-se-&aacute; saber? &#8212; perguntou Henrique, logo<br \/>\n    que a morgadinha desapareceu.<\/p>\n<p> Augusto, em quem a fria altivez da resposta dela deixara o desespero no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o, respondeu acerbamente : &#8212; Procuraria ensin&aacute;-lo<br \/>\n    a ser cort&ecirc;s. Bem ve que n&atilde;o me esque&ccedil;o facilmente do<br \/>\n    meu programa de mestre-escola.<\/p>\n<p> &#8212; Vejo ; &eacute; a segunda tentativa de li&ccedil;&atilde;o que lhe<br \/>\n    mere&ccedil;o. Permite- me que amanh&atilde; o procure para dar princ&iacute;pio<br \/>\n    a um curso de educa&ccedil;&atilde;o mais regular? Augusto respondeu, sorrindo<br \/>\n    : &#8212; &Eacute; um cartel em forma ? N&atilde;o sei se estarei ensaiado<br \/>\n    para essa com&eacute;dia.<\/p>\n<p> &#8212; Se o g&eacute;nero tr&aacute;gico lhe agrada mais, dar-se-lhe-&aacute;<br \/>\n    esse sabor.<\/p>\n<p> &#8212; Bem ouviu que se me negou o direito de tomar partido por esta causa.<br \/>\n    Qualquer cena dessas entre n&oacute;s seria pouco delicada&#8230;<\/p>\n<p> amanh&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, contemporizemos ; e at&eacute; l&aacute; &eacute; de esperar<br \/>\n    que algum motivo ocorra que a explique melhor&#8230; aos olhos dos outros.<\/p>\n<p> &#8212; como queira ; a minha porta n&atilde;o se fecha a quem me procura.<\/p>\n<p> E separaram-se depois de se cortejarem.<\/p>\n<p> &#8212; Se me n&atilde;o engano &#8212; dizia consigo Henrique, em caminho<br \/>\n    do quarto &#8212; &eacute; um verdadeiro desafio o que eu acabo de dirigir<br \/>\n    a este rapaz. Quer-me parecer que estou sendo bem rid&iacute;culo, desafiando<br \/>\n    um mestre-escola. Se lhe deixo a escolha das armas, decide-se pela f&eacute;rula.<br \/>\n    Tem gra&ccedil;a! Veremos o que amanh&atilde;, &agrave; luz do dia, eu penso<br \/>\n    disto tudo. Eu j&aacute; n&atilde;o fico por mim esta noite. Estou a querer<br \/>\n    convencer- me de que tenho andado estouvadamente e com n&atilde;o demasiado<br \/>\n    cavalheirismo. Que diabo ! &Eacute; que esta mulher e este criancelho s&atilde;o<br \/>\n    irritantes. Ela com a sua altivez, ele com os seus brios. Mas, na verdade,<br \/>\n    ser&aacute; este o Endim&iacute;&atilde;o desta esquiva Diana? Caprichos feminis&#8230;<br \/>\n    &Eacute; o tal primo ing&egrave;nuo e t&iacute;mido .. A ociosidade da aldeia<br \/>\n    para alguma coisa h&aacute;-de dar. Mas da maneira por que ela lhe falou&#8230;<br \/>\n    Havia certo tom de sinceridade&#8230; Astucias&#8230; O que &eacute; certo &eacute;<br \/>\n    que estou em luta com uma mulher superior&#8230; Pois lutemos, priminha, mas com<br \/>\n    armas leais.<\/p>\n<p> N&atilde;o me prevalecerei do segredo que o acaso me revelou, se segredo<br \/>\n    existe&#8230; Veremos como ela amanh&atilde; me trata&#8230;<\/p>\n<p> Esta cena deixou em Augusto uma perturba&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito<br \/>\n    mais profunda.<\/p>\n<p> As opera&ccedil;&otilde;es mentais, que o preocuparam toda a noite, eram<br \/>\n    daquelas a que repugna chamar pensar. &Eacute; mais uma febre intelectual,<br \/>\n    um suceder de imagens sem ordem nem filia&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o<br \/>\n    conduz a nenhum resultado, que n&atilde;o aconselha nenhum partido, que n&atilde;o<br \/>\n    esclarece, ofusca.<\/p>\n<p> como se explica esta diferen&ccedil;a entre os dois? Por um aparente paradoxo;<br \/>\n    porque Augusto tinha mais h&aacute;bitos de refletir. Quando numa vida de<br \/>\n    epis&oacute;dios uniformes e aparentemente vulgares, o esp&iacute;rito exerce<br \/>\n    demasiado a an&aacute;lise, habitua-se a estudar factos que para outros passam<br \/>\n    por insignificantes, e descobre-lhes faces novas e desconhecidas.<\/p>\n<p> Costumado assim a ligar valor a tudo, quando sucede que no decurso da vida<br \/>\n    se lhe depara um facto de maior vulto, a confus&atilde;o do primeiro momento<br \/>\n    &eacute; inevit&aacute;vel. Assim como a balan&ccedil;a de precis&atilde;o,<br \/>\n    apropriada para oscilar com pesos tenuissimos, n&atilde;o &eacute; a que pode<br \/>\n    servir para os grandes pesos, tamb&eacute;m a intelig&ecirc;ncia costumada<br \/>\n    a pesar subtis acidentes, de que se comp&otilde;e o drama habitual da vida,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a que de s&uacute;bito pode avaliar algum mais complexo<br \/>\n    e importante.<\/p>\n<p> A resolu&ccedil;&atilde;o nestes esp&iacute;ritos, depois de formada, &eacute;<br \/>\n    mais tenaz; mas, enquanto se n&atilde;o forma, vai neles um tumulto de id&eacute;ias<br \/>\n    que se n&atilde;o podem analisar.<\/p>\n<p> N&atilde;o analisemos, pois, as de Augusto.<\/p>\n<p> Madalena n&atilde;o sossegou enquanto n&atilde;o viu Henrique voltar ao<br \/>\n    quarto, pelo mesmo caminho por onde sa&iacute;ra.<\/p>\n<p> &#8212; Que resultar&aacute; disto? &#8212; pensava ela. &#8212; Que far&aacute;<br \/>\n    ele amanh&atilde;?&#8230;.<\/p>\n<p> E preciso n&atilde;o me acobardar, ou estou vencida&#8230; Mas que se passaria<br \/>\n    depois que os deixei?&#8230; Veremos amanh&atilde;.<\/p>\n<p> No meio desta s&eacute;rie de pensamentos, Madalena sorriu.<\/p>\n<p> &Eacute; que lhe ocorrera ent&atilde;o este pensamento : &#8212; Dizem que<br \/>\n    n&oacute;s, as mulheres, temos filtros subtis para nos tornar amadas. Pois<br \/>\n    ser&aacute; mais dif&iacute;cil fazer-se aborrecida? como o conseguirei? XVII<br \/>\n    N A O havia mentido a grande cintila&ccedil;&atilde;o das estrelas na noite<br \/>\n    de Natal.<\/p>\n<p> A manh&atilde; do dia seguinte correspondeu ao aug&ugrave;rio meteorol&oacute;gico,<br \/>\n    rompendo pura, desnevoada, com um c&eacute;u azul sem manchas, e um sol de<br \/>\n    fundir os gelos dos montes e os gelos da velhice.<\/p>\n<p> O frio intenso convidava a sair, e desde pela manh&atilde; alde&otilde;es<br \/>\n    de ambos os sexos, de camisas lavadas e roupas domingueiras, atravessavam<br \/>\n    os campos, saltavam sebes e cancelos, desembocavam das azinhagas e quelhas<br \/>\n    na direc&ccedil;&atilde;o da igreja matriz, onde se deviam celebrar as festas<br \/>\n    da Natividade.<\/p>\n<p> Era dia santo entre os que mais o s&atilde;o ; e os dias santos na aldeia<br \/>\n    t&ecirc;m uma fei&ccedil;&atilde;o solene e festiva, que mal avaliamos n&oacute;s,<br \/>\n    os que passamos a vida nos apertados horizontes das cidades, fantasiando o<br \/>\n    campo por meia d&uacute;zia de pardais, que chilram ruidosamente nas copas<br \/>\n    das enfezadas &aacute;rvores das nossas pra&ccedil;as e jardins.<\/p>\n<p> Desde que a moda estabeleceu a lei de n&atilde;o solenizar o domingo nem<br \/>\n    o dia santo, com um vestu&aacute;rio mais asseado, com um prato mais esquisito<br \/>\n    na lista do jantar, com uma divers&atilde;o excepcional, que todos deram em<br \/>\n    vestir-se, comer e trabalhar nesses dias, exactamente como em todos os da<br \/>\n    semana, perderam nas cidades os dias do Senhor a fei&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica<br \/>\n    e interessante, que por muito tempo tiveram; e quem hoje bem os quiser apreciar<br \/>\n    tem de ir num s&aacute;bado pernoitar ao campo, para amanhecer no domingo<br \/>\n    ao som do sino, que chama para a missa matinal.<\/p>\n<p> Dir&aacute; ent&atilde;o se n&atilde;o parece que at&eacute; o Sol tem outra<br \/>\n    luz e que as &aacute;rvores e as plantas se toucaram de flores novas, que<br \/>\n    guardam de reserva para os dias de festa.<\/p>\n<p> Este particular aspecto do domingo estava-o logo pela manh&atilde; sentindo<br \/>\n    Henrique de Souselas, encostado &agrave; varanda do quarto em que pernoitara,<br \/>\n    e enquanto esperava que o chamassem para o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> De vez em quando a recorda&ccedil;&atilde;o das cenas nocturnas da v&eacute;spera<br \/>\n    desviava-lhe para outra ordem de reflex&otilde;es o pensamento ; acudiam-<br \/>\n    -lhe todos aqueles incidentes &agrave; mem&oacute;ria, mas vagos e confusos,<br \/>\n    como se tivessem sido sonhados ; chegava quase a duvidar da realidade deles.<\/p>\n<p> Agora estava experimentando certa curiosidade e tamb&eacute;m receio de<br \/>\n    saber como seria recebido pela morgadinha, e que posi&ccedil;&atilde;o deveria<br \/>\n    tomar na presen&ccedil;a dela.<\/p>\n<p> Formava a este respeito v&aacute;rias conjecturas, sem se fixar em nenhuma.<\/p>\n<p> Destas cogita&ccedil;&otilde;es veio por fim arranc&aacute;-lo o toque da<br \/>\n    campainha anunciando o almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos &#8212; disse Henrique &#8212; preparemo-nos para o primeiro<br \/>\n    embate. Apuremos a vista para num relance julgar do estado das coisas, e por<br \/>\n    ele regular o meu plano de t&aacute;ctica.<\/p>\n<p> E depois de uma r&aacute;pida consulta ao toucador, desceu para a sala do<br \/>\n    almo&ccedil;o.<\/p>\n<p> J&aacute; ali encontrou reunida t&ocirc;da a fam&iacute;lia do Mosteiro,<br \/>\n    e a morgadinha presidindo &agrave; mesa e preparando o ch&aacute;.<\/p>\n<p> Todos saudaram Henrique, e a um tempo se informaram da maneira por que ele<br \/>\n    tinha passado a noite.<\/p>\n<p> Henrique respondeu que a tinha dormido deliciosamente ; e, falando, desviava<br \/>\n    o olhar para Madalena, que a encontrou do modo mais natural, sem timidez nem<br \/>\n    aud&aacute;cia.<\/p>\n<p> Seguiram-se os cumprimentos em particular, chegando portanto a vez de cumprimentar<br \/>\n    Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Bons dias, prima Madalena &#8212; disse Henrique, estendendo a e<br \/>\n    fixando-a com olhar investigador.<\/p>\n<p> Madalena respondeu-lhe ao cumprimento, com sorriso que nada de afectado<br \/>\n    nem de constrangido: &#8212; Bons dias, primo Henrique. Devem-lhe parecer<br \/>\n    horrorosos.<\/p>\n<p> nossos h&aacute;bitos matinais. Foi uma indiscri&ccedil;&atilde;o mandar<br \/>\n    tocar a cama.<\/p>\n<p> Esqueci-me de prevenir que respeitassem a &iacute;ndole cidad&atilde;.<\/p>\n<p> &#8212; Eu &eacute; que n&atilde;o consentia : &#8212; disse o conselheiro<br \/>\n    &#8212; na aldeia na aldeia. Em Lisboa tamb&eacute;m as minhas alvoradas s&atilde;o<br \/>\n    mais &#8212; Tem raz&atilde;o, sr. conselheiro. Eu pr&oacute;prio n&atilde;o<br \/>\n    esperei que me asse o toque da sineta. H&aacute; muito que eu namorava a manh&atilde;<br \/>\n    da janela do meu quarto.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o pude dormir t&ocirc;da a santa noite &#8212; disse<br \/>\n    D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Estranhei a cama e a casa. Eu c&aacute; sou assim, quem me tira<br \/>\n    do meu ninho!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; prima, n&atilde;o v&aacute; sem resposta &#8212; disse<br \/>\n    D. Vit&oacute;ria &#8212; que tamb&eacute;m eu n&atilde;o pus olho, e mais<br \/>\n    sou de casa. E por sinal que sempre hei-de querer saber quem foi o criado<br \/>\n    que lhe deu para andar toda a noite por a quinta. Eram que horas e eu ainda<br \/>\n    ouvia p&eacute;s nas escadas de pedra. &Eacute; verdade ; o primo Henrique<br \/>\n    n&atilde;o ouviu ? Era mesmo junto do seu quarto.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, minha senhora; eu n&atilde;o senti rumor.<\/p>\n<p> E, dizendo isto, Henrique procurou os olhares da morgadinha, que justamente<br \/>\n    naquela ocasi&atilde;o lhe servia uma ch&aacute;vena de ch&aacute;, e que<br \/>\n    de novo o fixou sem perturba&ccedil;&atilde;o nem afectada indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Henrique sentiu-se embara&ccedil;ado com isto. Custava um pouco &agrave;<br \/>\n    sua vaidade este nenhum vest&iacute;gio de ressentimento ou de receio que<br \/>\n    encontrava em Madalena.<\/p>\n<p> No entretanto D. Vit&oacute;ria continuava a comentar com D. Doroteia o<br \/>\n    facto das passadas que ouvira de noite.<\/p>\n<p> &#8212; Deixe-se disso, prima. &Eacute; porque n&atilde;o sabe o que vai.<br \/>\n    S&atilde;o coisas destes criados. N&atilde;o faz id&eacute;ia ! &Eacute; uma<br \/>\n    pouca-vergonha ! &Eacute; preciso paci&ecirc;ncia de santa para os aturar.<\/p>\n<p> &#8212; &Acirc;ngelo &#8212; disse a morgadinha ao irm&atilde;o &#8212;<br \/>\n    entretido como est&aacute;s a conversar com as crian&ccedil;as, esqueces-te<br \/>\n    de servir a Criste, que tamb&eacute;m se esquece de se fazer lembrar. Que<br \/>\n    distrac&ccedil;&otilde;es por aqui v&atilde;o ! &Acirc;ngelo reparou para<br \/>\n    a prima, que em todo aquele tempo estiver&agrave; calada e ca&iacute;da em<br \/>\n    uma daquelas abstrac&ccedil;&otilde;es, a que ultimamente era sujeita.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o sei que tem hoje esta Criste &#8212; disse Angelo.<br \/>\n    &#8212; Julgo que lhe fez mal o frio da noite de ontem.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade, at&eacute; est&aacute; falta de cor ! Ora queira<br \/>\n    Deus que n&atilde;o seja coisa de cuidado. D&oacute;i-te alguma coisa, menina<br \/>\n    ? &#8212; perguntou D. Vit&oacute;ria, &#8212; N&atilde;o, mama &#8212; respondeu<br \/>\n    Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; meninas, voc&ecirc;s tamb&eacute;m s&atilde;o umas desacauteladas.<br \/>\n    Eu bem te dizia ontem, Criste, que levasses mais roupa. Tudo &eacute; n&atilde;o<br \/>\n    faz mal, tudo &eacute; n&atilde;o tem d&uacute;vida, e depois &eacute; que<br \/>\n    vem o queixarem-se.<\/p>\n<p> Isto disse a senhora de Alvapenha e muitas coisas mais neste sentido. Estas<br \/>\n    reflex&otilde;es fizeram Henrique desviar os olhos para a pessoa que era objecto<br \/>\n    delas.<\/p>\n<p> Cristina estava efectivamente p&aacute;lida e pensativa ; e desta cor e<br \/>\n    desta express&atilde;o recebia uns ares de poesia melanc&oacute;lica, que<br \/>\n    a tornavam mais graciosa.<\/p>\n<p> Henrique notou pela primeira vez a beleza desta crian&ccedil;a, em que mal<br \/>\n    fixara a aten&ccedil;&atilde;o at&eacute; ali, e pela primeira vez se demorou<br \/>\n    a observ&aacute;-la com alguma insist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; &Ecirc; interessante esta pequenita &#8212; pensava ele consigo.<\/p>\n<p> Cristina ia a levantar os olhos para responder a D. Doroteia, quando encontrou<br \/>\n    os de Henrique a fit&aacute;-la. Assomou-lhe ent&atilde;o &agrave;s faces<br \/>\n    um mal pronunciado rubor, a palavra resolveu-se num sorriso e os olhos baixaram-se<br \/>\n    de novo.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;-de ser ador&aacute;vel esta mulher &#8212; pensou desta<br \/>\n    vez Henrique, vendo-a sob novo aspecto.<\/p>\n<p> O conselheiro disse, sorrindo : &#8212; Ora, que est&atilde;o a dizer ?<br \/>\n    A Criste at&eacute; est&aacute; com umas cores muito bonitas. Triste? Melancol&iacute;as<br \/>\n    dos dezoito anos nunca me deram cuidados.<\/p>\n<p> Provavelmente est&aacute; agora nalgum epis&oacute;dio sentimental no romance<br \/>\n    da sua imagina&ccedil;&atilde;o. Nao sondemos aqueles mist&eacute;rios, mana.<br \/>\n    J&aacute; n&atilde;o &eacute; para n&oacute;s compreend&ecirc;-los, prima<br \/>\n    Doroteia.<\/p>\n<p> Todos riram do dito do conselheiro, o que redobrou o enleio de Cristina.<\/p>\n<p> A morgadinha, a quem nao passara despercebida a impress&atilde;o que a prima<br \/>\n    desta vez parecia ter causado a Henrique, quis aproveitar o ensejo que havia<br \/>\n    tanto procurava, e para isso prop&ocirc;s que se desse uma volta pela aldeia<br \/>\n    antes da missa do dia. Esperava ela que as aten&ccedil;&otilde;es de Henrique,<br \/>\n    durante o passeio, seriam para Cristina se n&atilde;o decorresse o tempo preciso<br \/>\n    para que se dissipasse no esp&iacute;rito do vol&uacute;vel rapaz a impress&atilde;o<br \/>\n    que o dominava.<\/p>\n<p> A manh&atilde; convidava &agrave; excurs&atilde;o campestre. A proposta<br \/>\n    da morgadinha foi acolhida com aplauso. O conselheiro prometeu acompanh&aacute;-<br \/>\n    los at&eacute; &agrave; casa do ervan&aacute;rio, a quem tinha de visitar<br \/>\n    aquela manh&atilde;.<\/p>\n<p> Levantaram-se todos da mesa, e &agrave; excep&ccedil;&atilde;o de D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    e D. Doroteia, todos sa&iacute;ram.<\/p>\n<p> A morgadinha, sob n&atilde;o sei que pretexto, deixou-se ficar um pouco<br \/>\n    atr&aacute;s para dar tempo a Henrique de oferecer o bra&ccedil;o a Cristina,<br \/>\n    o que efectivamente aconteceu.<\/p>\n<p> &#8212; Bem &#8212; disse Madalena consigo ao v&ecirc;-los &#8212; agora<br \/>\n    que os anjos bons de um e de outro se conven&ccedil;am da obra meritoria que<br \/>\n    fazem entendendo-se.<\/p>\n<p> E, aproxim&aacute;ndose do pai, Madalena apoiou-se-lhe no bra&ccedil;o.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo ia com as crian&ccedil;as adiante.<\/p>\n<p> Aproximemo-nos n&oacute;s de Henrique e de Cristina, para ver se os anjos<br \/>\n    bons deles ambos acederam ao convite de Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o h&aacute; prazer que se compare ao de um passeio assim<br \/>\n    pelos campos, numa manh&atilde; como a de hoje, e em companhia t&atilde;o<br \/>\n    am&aacute;vel &#8212; dizia Henrique, procurando aquilatar o esp&iacute;rito<br \/>\n    da sua partner, num certame de galantaria, fora do qual n&atilde;o concebia<br \/>\n    que se pudesse temperar uma paix&atilde;o.<\/p>\n<p> Pobre rapariga! Que eloq&uuml;entes e apaixonadas respostas lhe estava porventura<br \/>\n    ditando a alma! mas o enleio da timidez fechava- -lhe os l&aacute;bios, n&atilde;o<br \/>\n    lhe deixando formul&aacute;-las; apenas p&ocirc;de responder: &#8212; Est&aacute;<br \/>\n    muito agrad&aacute;vel a manh&atilde;, est&aacute; ; nem parece de Inverno<br \/>\n    ! &#8212; Pelo que vejo, n&atilde;o gosta do Inverno ? &Eacute; natural em<br \/>\n    uma senhora isso. Faltam-lhe as flores e as aves, suas irm&atilde;s. Eu prefiro<br \/>\n    o Inverno, porque prepara a vida &iacute;ntima, as cenas ao canto do fog&atilde;o,<br \/>\n    as leituras em comum, e traz-me &agrave; id&eacute;ia as imagens de um viver<br \/>\n    a que a fantasia de todos sorri ; de todos os que t&ecirc;m um resto de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; refiro-me as imagens de uma fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; quem sustente mais tremendas lutas do que os t&iacute;midos.<\/p>\n<p> A alma revolta-se neles, com toda a viol&ecirc;ncia dos seus instintos,<br \/>\n    contra n&atilde;o sei que mist&eacute;rio de temperamento, que lhes reprime<br \/>\n    as expans&otilde;es.<\/p>\n<p> Na apar&ecirc;ncia &eacute; fraqueza e serenidade, mas no &iacute;ntimo<br \/>\n    h&aacute; esfor&ccedil;os realizados, que os fortes nem concebem sequer.<\/p>\n<p> Cristina encobria no seu enleio uma destas lutas. Os l&aacute;bios s&oacute;<br \/>\n    puderam responder: &#8212; Na cidade o Inverno &eacute; mais f&aacute;cil<br \/>\n    de passar, julgo eu ; por&eacute;m na aldeia&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Na aldeia e em t&ocirc;da a parte se pode gozar a felicidade que<br \/>\n    eu imagino. N&atilde;o &eacute; fora das portas de casa que devemos procurar<br \/>\n    os elementos para instituir a nossa ventura, e por isso&#8230; Mas a prima h&aacute;-de<br \/>\n    estar admirada de ouvir falar assim um homem que completou os seus vinte e<br \/>\n    sete anos sem fam&iacute;lia. N&atilde;o &eacute; verdade? Cristina s&oacute;<br \/>\n    p&ocirc;de sorrir: &#8212; Mas que quer? Quem muito idealiza arrisca-se a<br \/>\n    morrer apaixonado do ideal e abra&ccedil;ado &agrave; pior das realidades.<br \/>\n    &Eacute; a conseq&uuml;&ecirc;ncia leg&iacute;tima e triste do aspirar demasiado.<br \/>\n    At&eacute; hoje tenho encontrado na vida mulheres formosas, am&aacute;veis,<br \/>\n    interessantes ; por&eacute;m nenhuma que satisfizesse &agrave;s necessidades<br \/>\n    do meu cora&ccedil;&atilde;o, de quem me afirmasse a consci&ecirc;ncia poder<br \/>\n    esperar a realiza&ccedil;&atilde;o do meu sonho. Perdoe-me falar-lhe nisto,<br \/>\n    priminha ; &eacute; uma ousadia que tomei, porque um instinto me disse que<br \/>\n    possui no cora&ccedil;&atilde;o bastante bondade para ma perdoar.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; a gracejar ? &#8212; disse Cristina, em quem redobrava<br \/>\n    a turba&ccedil;&atilde;o, e que, ao mesmo tempo que estava sendo feliz, desejava<br \/>\n    ver interrompida a sua felicidade : contradi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias<br \/>\n    dos t&iacute;midos.<\/p>\n<p> &#8212; A prima &eacute; muito mo&ccedil;a &#8212; continuou Henrique, que<br \/>\n    n&atilde;o desesperava a&iacute;nda de animar esta Galateia &#8212; e talvez<br \/>\n    por isso lhe causar&aacute; estranheza este meu modo de falar. Um dia vir&aacute;,<br \/>\n    por&eacute;m, em que o compreender&aacute; melhor. Se ent&atilde;o encontrar<br \/>\n    um desconfortado como eu, pe&ccedil;o-lhe que tenha miseric&oacute;rdia dele<br \/>\n    e o salve do desalento, em aten&ccedil;&atilde;o a quem a conheceu numa &eacute;poca,<br \/>\n    em que s&oacute; podia ver em si, priminha, a aurora de uma esperan&ccedil;a<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o tinha de luzir para ele.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; salv&aacute;-lo!&#8230; como salv&aacute;-lo?!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; como as mulheres salvam ; amando.<\/p>\n<p> &#8212; Bem digo eu que est&aacute; a gracejar &#8212; balbuciou Cristina,<br \/>\n    com voz tr&eacute;mula.<\/p>\n<p> &#8212; Tem o defeito da inoc&ecirc;ncia &#8212; disse Henrique para si.<br \/>\n    &#8212; N&atilde;o se lhe tira uma resposta de jeito.<\/p>\n<p> Nisto chegaram defronte da porta, por onde Madalena tinha sa&iacute;do da<br \/>\n    quinta na noite passada.<\/p>\n<p> &#8212; Agora deixo-os por aqui &#8212; disse o conselheiro &#8212; irei<br \/>\n    encontr&aacute;- los &agrave; igreja. Vou arrostar com a fera silvestre ao<br \/>\n    pr&oacute;prio covil.<\/p>\n<p> &#8212; Meu pai, lembre-se do que lhe recomendei &#8212; disse Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Sossega, filha ; serei de cera. At&eacute; logo.<\/p>\n<p> &#8212; At&eacute; logo.<\/p>\n<p> E o conselheiro tomou a direc&ccedil;&atilde;o da casa do ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Era tempo ! &#8212; disse Henrique consigo. &#8212; A minha eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    arrefecia na proximidade deste gelo.<\/p>\n<p> A morgadinha havia quase adivinhado tudo ; estudando as fisionomias de Cristina<br \/>\n    e de Henrique, conheceu que se n&atilde;o haviam entendido.<\/p>\n<p> &#8212; Ainda n&atilde;o ! &#8212; murmurou ela. &#8212; Pobre Criste !<br \/>\n    como se deve estar odiando a si mesma! como h&aacute;-de esta crian&ccedil;a<br \/>\n    vencer este obstinado? Mas n&atilde;o perco ainda as esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p> Henrique, na presen&ccedil;a destes s&iacute;tios, recordou-se da cena da<br \/>\n    v&eacute;spera e tentou outra vez experimentar Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Esta porta &eacute; da quinta do Mosteiro, n&atilde;o &eacute;,<br \/>\n    prima? &#8212; &Eacute; &#8212; respondeu Madalena, imperturb&aacute;vel ;<br \/>\n    e voltando-se para Angelo : &#8212; O que te faz lembrar esta porta, &Acirc;ngelo?<br \/>\n    &#8212; perguntou ela.<\/p>\n<p> &#8212; Que muitas vezes por aqui sa&iacute;mos, eu e v&oacute;s ambas,<br \/>\n    j&aacute; de noite, e sem a tia saber, para irmos ter com o tio Vicente, que<br \/>\n    voltava da ca&ccedil;a das borboletas.<\/p>\n<p> &#8212; Fica perto a casa dele ? &#8212; perguntou Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; ali, logo ao dobrar daquela esquina &#8212; respondeu Angelo.<\/p>\n<p> Henrique pensava: &#8212; Seria para provocar uma explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ela fez a pergunta ? Esta mulher &eacute; admir&aacute;vel! N&atilde;o<br \/>\n    lhe sei resistir.<\/p>\n<p> E j&aacute; lhe n&atilde;o restavam vest&iacute;gios da impress&atilde;o<br \/>\n    causada por Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Este ervan&aacute;rio &#8212; continuou ele em voz alta &#8212;<br \/>\n    deve, pelos seus h&aacute;bitos exc&ecirc;ntricos e at&eacute; pelo solit&aacute;rio<br \/>\n    do s&iacute;tio em que vive, ter aqui na terra certa famazinha de feiticeiro.<\/p>\n<p> &#8212; E tem &#8212; afirmou Madalena &#8212; mas de feiticeiro bem intencionado.<\/p>\n<p> &#8212; Devem correr muitas f&aacute;bulas a respeito dele, do seu viver.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; certo que poucos se atrevem a passar aqui de noite, apesar<br \/>\n    de todo o bem que ele faz de dia.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! Ent&atilde;o temem-se de passar aqui de noite !&#8230; Pobre homem<br \/>\n    !&#8230;<\/p>\n<p> O que lhe valer&aacute; &eacute; algum esp&iacute;rito forte que ainda por<br \/>\n    a&iacute; haja na aldeia.<\/p>\n<p> Que diz, prima Madalena? haver&aacute;? Antes que a morgadinha respondesse,<br \/>\n    Angelo disse : &#8212; &Agrave; excep&ccedil;&atilde;o de Augusto, que ali<br \/>\n    vem quase todas as noites, ningu&eacute;m mais o visita.<\/p>\n<p> &#8212; Ah!&#8230; O Sr. Augusto vem ali quase todas as noites?! Madalena lutava<br \/>\n    para reprimir a impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; L&aacute; me parecia que havia de existir algum de coragem. Para<br \/>\n    tanto n&atilde;o chegava o seu animo, n&atilde;o, prima? &#8212; Tanto chega,<br \/>\n    que j&aacute; muita vez ali tenho ido s&oacute;, e a altas horas &#8212; respondeu<br \/>\n    Madalena com a maior firmeza.<\/p>\n<p> &#8212; Sim ? ! E n&atilde;o tem medo ? &#8212; De qu&ecirc;? De almas do<br \/>\n    outro mundo? n&atilde;o tenho cren&ccedil;a para tanto. De malfeitores? n&atilde;o<br \/>\n    os h&aacute; aqui. Nesta terra todos me respeitam, nem com uma suspeita me<br \/>\n    ofendem &#8212; disse a morgadinha, acentuando com express&atilde;o as &uacute;ltimas<br \/>\n    palavras.<\/p>\n<p> Henrique acudiu imediatamente : &#8212; Longe de mim duvid&aacute;-lo.<\/p>\n<p> E calaram-se por muito tempo.<\/p>\n<p> Pela sua parte prosseguia o conselheiro no caminho para casa do ervan&aacute;rio.<br \/>\n    Cruzou-se com v&aacute;rios homens, mulheres e crian&ccedil;as de aspecto<br \/>\n    doentio e sofredor, que voltavam de consultar o velho a respeito dos seus<br \/>\n    males ; eram mancos, ict&eacute;ricos, escrofulosos, crian&ccedil;as de aspecto<br \/>\n    raqu&iacute;tico e enfezado, os mais melanc&oacute;licos exemplares do infort&uacute;nio<br \/>\n    humano.<\/p>\n<p> &#8212; S&atilde;o os peregrinos que v&ecirc;m de Me&ccedil;a &#8212; disse<br \/>\n    consigo o conselheiro.<\/p>\n<p> &#8211; Pelo que vejo, a clientela do meu velho amigo ervan&aacute;rio mant&eacute;m-<br \/>\n    se fiel como dantes. Valha-nos Deus, que o meu severo censor n&atilde;o trata<br \/>\n    com muito respeito o c&oacute;digo.<\/p>\n<p> Entrou enfim a porta do quintal.<\/p>\n<p> Poucos passos andados encontrou-se com o Z&eacute;-Pereira, que vinha virando<br \/>\n    e revirando nas m&atilde;os um papel e monologando, segundo o costume : &#8212;<br \/>\n    Oral ora! ora!&#8230; Estragar o vinho de nosso Senhor com esta mexerufada. Isto<br \/>\n    at&eacute; era um pecado. Nessa n&atilde;o caio eu! O conselheiro interrogou-o<br \/>\n    sobre as causas daquele aranzer.<\/p>\n<p> O homem, depois de cortejar, respondeu mostrando uma receita que lhe dera<br \/>\n    o ervan&aacute;rio no virtuoso intento de lhe fazer aborrecer o vinho, causa<br \/>\n    dos seus males. A receita era extra&iacute;da da Polianteia, e tinha por ingredientes<br \/>\n    uma cabe&ccedil;a e sangue de carneiro, cabelos de homem e f&iacute;gado de<br \/>\n    enguia ; mas o doente ia pouco disposto a experimentar- lhe a efic&aacute;cia.<\/p>\n<p> Depois de se separar do Z&eacute;-Pereira, o conselheiro seguiu por uma<br \/>\n    rua de limoeiros, e como homem a quem era familiar a topografia do quintal.<br \/>\n    Cedo chegou &agrave; vista do ervan&aacute;rio, que dera audi&ecirc;ncia sub<br \/>\n    tegmine fagi.<\/p>\n<p> Estava sentado &agrave; borda de um tanque, a que uma dessas &aacute;rvores<br \/>\n    dava sombra.<\/p>\n<p> O conselheiro saiu enfim de tr&aacute;s dos limoeiros e veio ter com ele.<\/p>\n<p> Ao rumor dos passos, Vicente voltou a cabe&ccedil;a, e, depois de reconhecer<br \/>\n    quem era, retomou a sua primeira posi&ccedil;&atilde;o e ficou silencioso.<\/p>\n<p> &#8212; Bons dias, Vicente &#8212; disse o conselheiro com familiaridade<br \/>\n    e parando defronte dele.<\/p>\n<p> &#8212; Bons dias, Manuel &#8212; respondeu o ervan&aacute;rio, deixando-se<br \/>\n    ficar sentado.<\/p>\n<p> &#8212; Sa&iacute;a agora daqui um homem, que julgo ser&aacute; rebelde<br \/>\n    a toda a tua medicina. Padece de mal que se n&atilde;o cura.<\/p>\n<p> &#8212; Os v&iacute;cios s&atilde;o enfermidades mais rebeldes do que os<br \/>\n    achaques do corpo, s&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; J&aacute; que tu n&atilde;o apareces no Mosteiro, como dantes, para<br \/>\n    solenizar connosco as festas do Natal, vim eu ver-te.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado.<\/p>\n<p> &#8212; A tua misantropia vai-se azedando, Vicente &#8212; continuou o conselheiro,<br \/>\n    sentando-se &agrave; beira do tanque. &#8212; Cada vez te est&aacute;s a sequestrar<br \/>\n    mais dos homens, cada vez mais os aborreces.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o aborre&ccedil;o os homens, enganas-te. N&atilde;o<br \/>\n    os aborrece quem passa a vida a procurar os meios de aliviar os padecimentos<br \/>\n    dos seus semelhantes. Estou velho, isso sim; e, como velho, encontro j&aacute;<br \/>\n    no mundo pouca gente com quem me entenda. As id&eacute;ias do meu tempo passaram.<br \/>\n    Por isso deixo-me ficar em casa a pensar nele.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute;s um homem singular ; um verdadeiro fil&oacute;sofo. Ora<br \/>\n    diz-me : e em que cogitas tu, quando assim passas uma manh&atilde; inteira,<br \/>\n    sentado nesse banco, com os joelhos ao sol, os bra&ccedil;os cruzados, e os<br \/>\n    olhos no ch&atilde;o? &#8212; No passado. Pois n&atilde;o to disse j&aacute;?<br \/>\n    O domingo reservo-o eu para me recordar. A&iacute; est&aacute; que h&aacute;<br \/>\n    pouco, quando aqui me vim sentar, ao ouvir os repiques na igreja, lembrei-me<br \/>\n    de que era dia de Natal, e o meu pensamento voltou quarenta anos atr&aacute;s<br \/>\n    a um dia igual ao de hoje. Lembras-te dele,&quot; Manuel? &#8212; Do dia de<br \/>\n    Natal de h&aacute; quarenta anos ? N&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Lembro-me eu. Faz hoje mesmo quarenta e dois anos que, mais cedo<br \/>\n    do que estas horas, vieste ter comigo aqui a casa. Tinhas pouco mais ou menos<br \/>\n    a idade que hoje tem teu filho &Acirc;ngelo. Meu pai sa&iacute;ra ; julg&aacute;mos<br \/>\n    n&oacute;s ambos boa a ocasi&atilde;o de levar a cabo um projecto que havia<br \/>\n    muito tempo traz&iacute;amos na cabe&ccedil;a. Crescia a um canto do muro,<br \/>\n    al&eacute;m, &agrave; beira do po&ccedil;o, uma pequena faia que ali n&atilde;o<br \/>\n    podia durar muito tempo ; meu pai todos os dias a amea&ccedil;ava com a enxada<br \/>\n    e a custo a t&iacute;nhamos defendido. Resolvemos transplant&aacute;-la. Deit&aacute;mos<br \/>\n    m&atilde;os &agrave; obra essa manh&atilde;, e, no fim de alguns segundos,<br \/>\n    estava a faia mudada. Trouxemo-la para onde a deixassem em paz os hortel&otilde;es,<br \/>\n    e para junto da &aacute;gua que ela j&aacute; tinha procurado. Conheces a<br \/>\n    &aacute;rvore hoje? &#8212; N&atilde;o &#8212; disse o conselheiro, olhando<br \/>\n    em roda, como &agrave; procura de algum pequeno arbusto.<\/p>\n<p> &#8212; Olha que h&aacute; quarenta anos; a planta &eacute; hoje &aacute;rvore.<br \/>\n    &Eacute; esta a que me encosto.<\/p>\n<p> O conselheiro levantou ent&atilde;o os olhos para os ramos vigorosos da<br \/>\n    &aacute;rvore, como se lhe parecesse imposs&iacute;vel ter sido removida para<br \/>\n    ali por suas m&atilde;os.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; singular como os anos correm, e as &aacute;rvores crescem<br \/>\n    depressa &#8212; disse ele, distra&iacute;damente.<\/p>\n<p> &#8212; Depois da nossa tarefa, sent&aacute;mo-nos &#8212; prosseguiu o<br \/>\n    ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Tu ficaste, exactamente como est&aacute;s agora, &agrave; beira<br \/>\n    deste tanque.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, lembra-me bem; olhando para os ramos tenros deste arbusto,<br \/>\n    que ainda n&atilde;o sab&iacute;amos se viveria, tu disseste : &laquo; Fizemos<br \/>\n    uma obra que durar&aacute; mais do que n&oacute;s &raquo;. E eu respondi :<br \/>\n    &laquo; Quem sabe ? O machado vem quando menos se espera &raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; como te lembras bem dessas coisas ! &#8212; disse o conselheiro,<br \/>\n    sorrindo constrangidamente, porque n&atilde;o agourava bem do exordio que<br \/>\n    abrira a entrevista.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, eu tenho boa mem&oacute;ria! Houve um momento de sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    que Vicente interrompeu s&ugrave;bitamente, dizendo : &#8212; Mas afinal o<br \/>\n    que te trouxe hoje aqui? O conselheiro respondeu com resolu&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8212; Ver-te, como disse, e ao mesmo tempo falar-te de um objecto grave.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? E comigo &eacute; que vens tratar os objectos graves? &#8212;<br \/>\n    Porque n&atilde;o ? sempre foste homem de bom conselho.<\/p>\n<p> &#8212; Nem sempre, Manuel, ou nem sempre pensaste assim.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o poder&aacute;s dizer que deixasse alguma vez de te respeitar.<\/p>\n<p> Os nossos g&ecirc;nios diferem, os nossos diversos h&aacute;bitos da vida<br \/>\n    ensinaram- nos a pensar diversamente a respeito de muitas coisas. Da&iacute;<br \/>\n    procedem diverg&ecirc;ncias naturais, que contudo nos n&atilde;o obrigam a<br \/>\n    deixar de nos estimarmos, julgo eu.<\/p>\n<p> &#8212; Bem, ent&atilde;o dizias tu que vinhas?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Trata-se de um neg&oacute;cio de muita import&acirc;ncia, Vicente.<\/p>\n<p> &#8212; Diz.<\/p>\n<p> &#8212; Responde-me primeiro : tens ainda &acirc;nimo para sacrif&iacute;cios<br \/>\n    ? &#8212; Pouco tenho que sacrificar.<\/p>\n<p> &#8212; Tens, e &eacute; um sacrif&iacute;cio doloroso.<\/p>\n<p> &#8212; Acaba.<\/p>\n<p> &#8212; Trata-se de te desapossar desta casa e deste quintal, para abrir<br \/>\n    por aqui a estrada em projecto.<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio, contra a expectativa do conselheiro, acolheu sem surpresa<br \/>\n    estas palavras, e respondeu, com certa ironia: &#8212; E para que me vens<br \/>\n    consultar? Posso eu opor-me a isso? Avisas-me para eu me arredar a tempo da<br \/>\n    sombra destas &aacute;rvores, mais velhas do que eu, a fim de que n&atilde;o<br \/>\n    me esmaguem ao ca&iacute;rem decepadas? &Ecirc;s generoso, Manuel, em teres<br \/>\n    ainda em conta a vida de um homem in&uacute;til.<\/p>\n<p> &#8212; A&iacute; est&aacute;s j&aacute; com as tuas recrimina&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Acredita que eu&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o mintas, Manuel, n&atilde;o mintas. Ias dizer que n&atilde;o<br \/>\n    tinhas tomado parte neste projecto. Tem coragem e lealdade, homem, e diz tudo.<\/p>\n<p> Entre mortificares o cora&ccedil;&atilde;o de um velho e pobre amigo e ofenderes<br \/>\n    os interesses de algum rico e poderoso influente, tomaste o primeiro partido<br \/>\n    ; e, como os diferentes h&aacute;bitos de vida te ensinaram em muitas coisas,<br \/>\n    como dizes, a pensar diferente de mim, n&atilde;o deste a isso o nome de ingratid&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Ouve.<\/p>\n<p> &#8212; S&ecirc; franco, que eu te ouvirei.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bem, serei franco. Sim, confesso-to; era indispens&aacute;vel<br \/>\n    que esta estrada se fizesse. Bem o sabes. Estava nisso empenhada a minha palavra<br \/>\n    e a minha honra. H&aacute; muito que os meus advers&aacute;rios me fazem guerra<br \/>\n    por causa dela. Trabalhei e consegui, apesar desta situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pol&iacute;tica me ser contr&aacute;ria. Tr&ecirc;s tra&ccedil;ados se ofereciam.<br \/>\n    Um sacrificava uma grande parte dos bens de meus filhos, de &Acirc;ngelo que<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; muito rico, que est&aacute; no princ&iacute;pio da exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    e que s&oacute; Deus sabe se no decurso dela n&atilde;o teria ocasi&atilde;o<br \/>\n    de maldizer a improvidencia de quem devera olhar por os seus interesses. Querias<br \/>\n    que o sacrificasse? Sabes que os Brejos, vendidos hoje, nada valiam; e que<br \/>\n    dentro em pouco tempo, convenientemente trabalhados, podem ser de um valor<br \/>\n    importante. Quer&iacute;as que o fizesse? ou n&atilde;o me desculpas por o<br \/>\n    n&atilde;o ter feito? &#8212; Fizeste bem &#8212; respondeu o ervan&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; O outro tra&ccedil;ado cortava os bens do brasileiro Seabra. Conheces<br \/>\n    este homem? Um elemento que, nas m&atilde;os de quem lhe saiba lisonjear e<br \/>\n    conduzir a vaidade, pode ser de utilidade para esta terra ; mas tamb&eacute;m<br \/>\n    uma cabe&ccedil;a que, entregue a si, n&atilde;o faz coisa de jeito. O homem<br \/>\n    opunha-se formalmente a esse tra&ccedil;ado ; se o n&atilde;o atendesse, declarava-<br \/>\n    se, por despeito, no campo contr&aacute;rio ao meu. Se vencia (e algumas armas<br \/>\n    tem para lutar), imagina a calamidade que seria para este c&iacute;rculo o<br \/>\n    confiar &agrave;quelas m&atilde;os os seus destinos ; vencido, era perder<br \/>\n    a esperan&ccedil;a de tirar dos bens fornecidos cofres, que o homem possui,<br \/>\n    alguma coisa mais &uacute;til do que um sino para a igreja ou vestimentas<br \/>\n    novas para as imagens dos altares. Eu ando a catequizar o homem, para ver<br \/>\n    se consigo dele uma casa para escolas, melhor do que esse albergue que a&iacute;<br \/>\n    temos, e um estabelecimento seric&iacute;cola; se o desatendesse, l&aacute;<br \/>\n    iam as esperan&ccedil;as destes melhoramentos t&atilde;o &uacute;teis, e que<br \/>\n    o mais que nos poder&atilde;o custar &eacute; um diploma de visconde ou uma<br \/>\n    comenda. Sei que te n&atilde;o agradam estes meios, por&eacute;m olha que<br \/>\n    em pol&iacute;tica s&atilde;o dos mais inocentes que podem empregar-se. J&aacute;<br \/>\n    v&ecirc;s pois que o segundo tra&ccedil;ado tinha desvantagens para o c&iacute;rculo,<br \/>\n    por cujo interesse me empenho deveras ; podes cr&ecirc;-lo. Resta pois o terceiro<br \/>\n    tra&ccedil;ado que, lealmente o confesso, n&atilde;o era o melhor, nem cient&iacute;fica<br \/>\n    nem economicamente considerado ; eu sabia de mais o que valia para o teu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio que se te vinha exigir ; eu mesmo possuo mem&oacute;rias<br \/>\n    ligadas a estas &aacute;rvores, e n&atilde;o h&aacute; homem que, aos cinq&uuml;enta<br \/>\n    anos, veja sem repugn&acirc;ncia desaparecerem os vest&iacute;gios dos seus<br \/>\n    tempos de inf&acirc;ncia e de juventude ; mas sabia tamb&eacute;m que tu eras<br \/>\n    uma alma generosa e her&oacute;ica, e que n&atilde;o duvidarias comprar, a<br \/>\n    custa das tuas dores e saudades, um melhoramento para esta terra que tanto<br \/>\n    amas. Esta estrada, prometida h&aacute; tanto, e concedida ainda agora de<br \/>\n    m&aacute; vontade, corre risco de se n&atilde;o fazer, se, quanto antes, n&atilde;o<br \/>\n    principiarem os trabalhos; a menor oposi&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios,<br \/>\n    o menor embargo dilat&ograve;rio, podem ser motivo para o seu adiamento, porventura<br \/>\n    indefinido. Por isso tamb&eacute;m me animei, porque contava contigo, Vicente.<br \/>\n    Enganei-me ? O ervan&aacute;rio estava cada vez mais pensativo.<\/p>\n<p> &#8212; Pensaste bem. A velhice &eacute; assim ; e eu queria dar mais import&acirc;ncia<br \/>\n    a dois anos de vida que me restam, do que &agrave; vida nova que vai haver<br \/>\n    para esta terra. Fizeste bem.<\/p>\n<p> &#8212; Esperava ouvir isso mesmo de ti, Vicente. Al&eacute;m de que, dissipa<br \/>\n    as apreens&otilde;es com que est&aacute;s; em toda a parte ter&aacute;s &aacute;rvores&#8230;<\/p>\n<p> O ervan&aacute;rio interrompeu-o: &#8212; Se n&atilde;o entendes o amor<br \/>\n    que tenho a estas, n&atilde;o fa&ccedil;as por consolar- me, Manuel, porque<br \/>\n    me afliges mais.<\/p>\n<p> &#8212; Por&eacute;m deixa-me dizer-te, Vicente, que no Mosteiro, ou em<br \/>\n    qualquer das nossas propriedades, tens sempre um lugar vago &agrave; tua espera,<br \/>\n    tanto &agrave; mesa, como ao canto do fog&atilde;o, e amigos que te receber&atilde;o<br \/>\n    com prazer.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o receio ficar sem abrigo, Manuel. Em cada choupana de<br \/>\n    pobre teria tecto e p&atilde;o. Conto com a colheita de algum bem que semeei.<\/p>\n<p> &#8212; Eu farei com que o contrato da expropria&ccedil;&atilde;o seja o<br \/>\n    mais favor&aacute;vel poss&iacute;vel. Vejamos, em quanto avalias&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o falemos nisso. A avaliar por o que eu lhe quero, ningu&eacute;m<br \/>\n    mo pagaria ; a n&atilde;o atender a isso, tudo ser&aacute; pag&aacute;-lo<br \/>\n    bem.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o falemos nisso, homem. Tenho medo de que estas &aacute;rvores<br \/>\n    me oi&ccedil;am propor o pre&ccedil;o por que as vendo. Se alguma coisa posso<br \/>\n    pedir-te, ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Tudo. Diz em que te posso servir.<\/p>\n<p> &#8212; Pe&ccedil;o-te que decidas a pretens&atilde;o daquele pobre rapaz,<br \/>\n    de Augusto ; que te lembres um dia de que aqui na aldeia h&aacute; um homem,<br \/>\n    que tem vinte anos, um cora&ccedil;&atilde;o e uma cabe&ccedil;a como tu sabes,<br \/>\n    e que de ti e dos teus, da gente que d&aacute; e vende gra&ccedil;as, honras<br \/>\n    e empregos, s&oacute; quer um favor&#8230; mais uma justi&ccedil;a; lembra-te<br \/>\n    disso.<\/p>\n<p> &#8212; Falas do despacho efectivo para professor? &Eacute; uma coisa fac&iacute;lima;<br \/>\n    mais que ele queira&#8230; E antes ele quisesse mais; esse rapaz perde por modesto.<br \/>\n    Acredita, &agrave;s vezes &eacute; mais f&aacute;cil servir os ambiciosos.<\/p>\n<p> Nem eu sei o que tem empatado esse neg&oacute;cio. &Eacute; certo que h&aacute;<br \/>\n    um competidor, por quem algu&eacute;m trabalha ; mas n&atilde;o importa ;<br \/>\n    conta com isso, como neg&oacute;cio conclu&iacute;do.<\/p>\n<p> &#8212; Enquanto n&atilde;o vir&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Hoje mesmo escrevo para Lisboa. &Eacute; s&oacute; isso que pedes<br \/>\n    ? V&egrave; l&aacute;.<\/p>\n<p> &#8212; E que me deixes agora s&oacute;.<\/p>\n<p> &#8212; E n&atilde;o me ficas querendo mal, Vicente ? &#8212; N&atilde;o.<br \/>\n    Estou a acreditar que tiveste raz&atilde;o, ou pelo menos que sup&otilde;es<br \/>\n    que a tens. Basta-me isso para te perdoar.<\/p>\n<p> &#8212; Ver-te-ei no Mosteiro antes de partir ? Depois do dia de Reis volto<br \/>\n    a Lisboa, e s&oacute; tornarei para a campanha eleitoral.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o prometo.<\/p>\n<p> &#8212; Adeus.<\/p>\n<p> O conselheiro estendeu a m&atilde;o ao ervan&aacute;rio, que n&atilde;o<br \/>\n    retirou a sua, e partiu.<\/p>\n<p> &#8212; Est&aacute; feito ! &#8212; ia pensando o conselheiro &agrave; sa&iacute;da<br \/>\n    &#8212; n&atilde;o foi t&atilde;o dif&iacute;cil como julgava. Est&aacute;<br \/>\n    razo&aacute;vel o homem. Quem o viu e quem o v&ecirc; ! O que faz a idade<br \/>\n    ! Bem ! Agora &eacute; apressar os trabalhos para antes das elei&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    a ver se acalmam algum fermentozito de oposi&ccedil;&atilde;o, que por a&iacute;<br \/>\n    possa haver, que pequeno ser&aacute;.<\/p>\n<p> Nestas cogita&ccedil;&#038;otildeotilde;es chegou &agrave; igreja. Madalena esperava-o<br \/>\n    no adro, &#8212; Ent&atilde;o? &#8212; perguntou ela, com ansiedade.<\/p>\n<p> &#8212; Tudo est&aacute; remediado ; entendemo-nos perfeitamente &#8212;<br \/>\n    respondeu o conselheiro com manifesta satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Deveras ! Eu logo vi que o pai havia de ceder ! &#8212; exclamou<br \/>\n    Madalena, com alegria.<\/p>\n<p> &#8212; como ceder? &#8212; tornou o pai.&#8212;Ele &eacute; que foi mais<br \/>\n    condescendente do que eu esperava. N&atilde;o op&ocirc;s a menor resist&ecirc;ncia,<br \/>\n    nem se queixou muito amargamente.<\/p>\n<p> &#8212; Pois consentiu ? ! &#8212; Sem grande custo, ao que parecia.<\/p>\n<p> &#8212; Oh meu Deus ! meu Deus ! agora &eacute; que eu temo deveras. Pobre<br \/>\n    tio Vicente ! assusta-me isso que diz, meu pai ! &#8212; Ora vamos ; a tua<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o &eacute; que te ilude. Mas deixa-me aqui falar com<br \/>\n    o morgado das Perdizes e com o brasileiro, que julgo que t&ecirc;m que me<br \/>\n    dizer. Vai para a igreja, que eu vou j&aacute; ter convosco.<\/p>\n<p> E separando-se da filha, o conselheiro dirigiu-se ao grupo, era que estavam<br \/>\n    aquelas duas notabilidades.<\/p>\n<p> &#8212; Dou-lhes uma boa nova, meus senhores &#8212; disse o conselheiro,<br \/>\n    depois de cumpriment&aacute;-los &#8212; dentro em pouco temos os alvi&otilde;es<br \/>\n    a trabalhar c&aacute; na terra. Estive agora com o Vicente ; receei resist&ecirc;ncias<br \/>\n    a parte do homem, que nos obrigassem a expropria&ccedil;&otilde;es judiciais,<br \/>\n    sempre demoradas. Mas n&atilde;o, achei-o nas melhores disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ; e sim, dentro em poucos dias&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas, para diante da casa dele, talvez os outros propriet&aacute;rios<br \/>\n    o sejam t&atilde;o d&oacute;ceis &#8212; lembrou o brasileiro.<\/p>\n<p> &#8212; Bem sabe que s&atilde;o terras insignificantes, cujos possuidores<br \/>\n    m pouco se contentam.<\/p>\n<p> &#8212; Os antigos possuidores talvez se contentassem com pouco &#8212;<br \/>\n    disse o brasileiro, sorrindo velhacamente &#8212; mas os modernos&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Pois mudaram de senhorio ? &#8212; Por contrato de venda assinado<br \/>\n    e legalizado ontem mesmo.<\/p>\n<p> &#8212; E quem os comprou ? &#8212; Este seu criado.<\/p>\n<p> O conselheiro teve vontade de o esganar ; conteve-se, por&eacute;m, dizendo<br \/>\n    : &#8212; Tanto melhor ; quero-me antes com propriet&aacute;rios ilustrados<br \/>\n    independentes, que compreendam a import&acirc;ncia dos melhoramentos p&uacute;blicos,<br \/>\n    do que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso s&atilde;o hist&oacute;rias, meu caro amigo; em primeiro lugar<br \/>\n    est&atilde;o os melhoramentos particulares. Eh, eh, eh.<\/p>\n<p> &#8212; Decerto que n&atilde;o h&aacute;-de querer p&ocirc;r estorvos a<br \/>\n    uma empresa como esta.<\/p>\n<p> &#8212; Estorvos, nao, mas enfim&#8230; Amigos, amigos, neg&oacute;cios &agrave;<br \/>\n    parte.<\/p>\n<p> O conselheiro sorriu, enquanto que interiormente mandava ao Diabo o esp&iacute;rito<br \/>\n    mercantil e interesseiro do seu antigo condisc&iacute;pulo.<\/p>\n<p> &#8212; Pode-me dar duas palavras, sr. conselheiro ? &#8212; requereu do<br \/>\n    ado o Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes.<\/p>\n<p> &#8212; Mil que pretenda &#8212; acudiu o conselheiro ; e tomando o bra&ccedil;o<br \/>\n    o morgado afastou-se do grupo.<\/p>\n<p> &#8212; Eu tenho a pedir-lhe um favor &#8212; principiou o morgado. &#8212;<br \/>\n    Eu, como sabe, interesso-me muito pelo mestre-escola do Ch&atilde;o do Pereiro,<br \/>\n    que quer vir ensinar para aqui. Este neg&oacute;cio est&aacute; empatado,<br \/>\n    como sabe ; por isso queria que o senhor escrevesse para Lisboa a este respeito.<\/p>\n<p> &#8212; Pois sim, mas&#8230; &#8212; fez-lhe notar o conselheiro &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    sabe que &eacute; Augusto o outro concorrente? &#8212; Ent&atilde;o que tem<br \/>\n    isso ? &#8212; N&atilde;o lhe parece que seria uma injusti&ccedil;a ? Um rapaz<br \/>\n    de merecimento, como ele &eacute;, aqui da terra, que j&aacute; exerce o emprego<br \/>\n    h&aacute; tr&ecirc;s anos e com tanta intelig&ecirc;ncia? e hav&iacute;amos<br \/>\n    de&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8212; atalhou o outro &#8212; pois isso &eacute;<br \/>\n    verdade, mas&#8230;<\/p>\n<p> Enfim, ele que passe para outra parte.<\/p>\n<p> &#8212; Mas se o rapaz quer isto ? &#8212; Quer ! quer !&#8230; tamb&eacute;m<br \/>\n    o outro quer. Ora essa &eacute; fresca. E vamos, sr, conselheiro, a gente<br \/>\n    tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute;-de estar s&oacute; a fazer favores sem<br \/>\n    os receber quando os pede. com este j&aacute; sao tr&ecirc;s. Pedi-lhe para<br \/>\n    o meu tio abade ser c&oacute;nego ; foi tanto c&oacute;nego como eu. Pedi<br \/>\n    umas caudelarias l&aacute; para a freguesia&#8230; estou &agrave; espera delas.,.<br \/>\n    Ora isto n&atilde;o se faz. O senhor sabe que eu lhe tenho vencido as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com a gente da minha freguesia, que vai para onde eu a levo. Pois agora n&atilde;o<br \/>\n    sei o que ser&aacute;. A n&atilde;o se decidir este neg&oacute;cio depressa&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ora n&atilde;o ser&aacute; isso motivo para tanto.<\/p>\n<p> &#8212; com certeza que &eacute; &#8212; insistiu o Sr. Jo&atilde;ozinho.<br \/>\n    &#8212; Ent&atilde;o digo- -lhe mais : a mim j&aacute; me falaram. H&aacute;<br \/>\n    a&iacute; algu&eacute;m que n&atilde;o desgostaria dos votos de que eu disponho,<br \/>\n    e votar pelos que j&aacute; est&atilde;o no poleiro n&atilde;o sei se lhe<br \/>\n    diga que n&atilde;o &eacute; pior.<\/p>\n<p> O conselheiro, mortificado como estava, disse, sorrindo : &#8212; N&atilde;o<br \/>\n    posso convencer-me de que o meu amigo seja capaz de fazer isso por qualquer<br \/>\n    causa que possa dar-se. Mas deixe estar que, em rela&ccedil;&atilde;o ao que<br \/>\n    me diz, eu verei.<\/p>\n<p> &#8212; Mau! N&atilde;o &eacute; &laquo;eu verei&raquo;. Ent&atilde;o falo-lhe<br \/>\n    claro. Se daqui at&eacute; &agrave;s elei&ccedil;&otilde;es n&atilde;o estiver<br \/>\n    feito o despacho, n&atilde;o conte comigo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem lhe diz que n&atilde;o h&aacute;-de estar ? &#8212; Pois<br \/>\n    l&aacute; isso&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Sossegue. Hoje mesmo escrevo para Lisboa.<\/p>\n<p> &#8212; Bem.<\/p>\n<p> O sino tocava a chamar para a festa.<\/p>\n<p> Terminou o di&aacute;logo.<\/p>\n<p> &#8212; O pior &#8212; ia pensando o conselheiro &#8212; o pior &eacute;<br \/>\n    que prometi ao Vicente que apressaria o despacho de Augusto. N&atilde;o tem<br \/>\n    d&uacute;vida; &eacute; t&atilde;o magra a posta, que n&atilde;o vale a pena<br \/>\n    disput&aacute;-la. Para Augusto arranjarei alguma coisa melhor. &Eacute; preciso<br \/>\n    ter ambi&ccedil;&atilde;o por ele. Se ele quisesse ir para Lisboa?&#8230; Mas,<br \/>\n    pelo que me disse este basbaque, j&aacute; se maquina no campo contr&aacute;rio<br \/>\n    ! Hei-de sondar o Tapadas a ver o que sabe.<\/p>\n<p> Estas confer&ecirc;ncias com o brasileiro e com o morgado tinham mortificado<br \/>\n    o pai de Madalena a ponto de n&atilde;o conter um movimento de impaci&ecirc;ncia,<br \/>\n    assim que viu que o Pertunhas se aproximava dele, e, &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de cortesias e cumprimentos, lhe pedia um momento de aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Sabidas as contas, tratava-se do tal emprego de recebedor, que o latinista<br \/>\n    com tanto ardor namorava.<\/p>\n<p> O conselheiro descarregou sobre este pouco influente eleitor o mau humor<br \/>\n    que os outros lhe causaram, e respondeu desabridamente: &#8212; Ora adeus<br \/>\n    ! O senhor &eacute; uma sanguessuga que se n&atilde;o farta de chupar. Contente-se<br \/>\n    com o que tem ; v&aacute; conjugando o laudo, laudas, que outros, com mais<br \/>\n    merecimentos, nem isso conseguem ; e deixe-me, O mestre Pertunhas ouviu com<br \/>\n    humilde sorriso a admoesta&ccedil;&atilde;o, e curvou-se para deixar passar<br \/>\n    o conselheiro.<\/p>\n<p> Mas l&aacute; consigo dizia: &#8212; Sim? Ele &eacute; isso.?! Pois veremos<br \/>\n    se a sanguessuga te n&atilde;o pica.<\/p>\n<p> E entrou tamb&eacute;m para a igreja, com n&atilde;o muito crist&atilde;s<br \/>\n    disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito.<\/p>\n<h2>XVIII<\/h2>\n<p>DO dia de Natal ao dia de Reis passou o tempo para o conselheiro em visitas<br \/>\n    &agrave;s freguesias e aos influentes daquele c&iacute;rculo eleitoral, visitas<br \/>\n    a que o acompanhava Henrique de Souselas, que tomava parte, com gosto, nestas<br \/>\n    excurs&otilde;es pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p> Em casa do Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes, na freguesia de Pinch&otilde;es,<br \/>\n    passaram eles um dia. Nos solares do morgado tudo era desordem e desmazelo,<br \/>\n    a cada passo se trope&ccedil;ava num podengo ou se trilhava a cauda a um perdigueiro.<br \/>\n    Henrique sustentou uma verdadeira luta com o propriet&aacute;rio, para esquivar-se<br \/>\n    a engolir todas as enormes doses de carne de porco e de vinho, com que ele,<br \/>\n    &agrave; viva for&ccedil;a, o queria regalar.<\/p>\n<p> No quarto em que os h&oacute;spedes pernoitaram estavam amontoados no meio<br \/>\n    do ch&atilde;o uns poucos de alqueires de milho e de castanhas, e aos p&eacute;s<br \/>\n    dos leitos dormiam enroscados dois galgos, que eles n&atilde;o conseguiram<br \/>\n    desalojar, e que t&ocirc;da a noite os incomodaram com latidos ao menor rumor<br \/>\n    que escutavam fora.<\/p>\n<p> Henrique lamentou a influ&ecirc;ncia eleitoral do morgado das Perdizes,<br \/>\n    que o obrigava a esta noitada.<\/p>\n<p> Outro dia jantaram em casa do brasileiro, que lhes mostrou t&ocirc;da a<br \/>\n    sua propriedade, tendo Henrique de obrigar a sua eloq&uuml;&ecirc;ncia a esgotar-<br \/>\n    se em afectadas exclama&ccedil;&otilde;es, diante dos prod&iacute;gios de<br \/>\n    mau gosto reunidos ali.<\/p>\n<p> As est&aacute;tuas de lou&ccedil;a, os alegretes de azulejo, os arcos feitos<br \/>\n    de cana, por onde se entrela&ccedil;avam magras trepadeiras ; um pequeno modelo<br \/>\n    de fragata brasileira com tripula&ccedil;&atilde;o de altura dos cestos de<br \/>\n    g&aacute;via, flutuando num tanque circular; uma gruta estucada de azul e<br \/>\n    com assentos de palhinha, para onde vinha 1er as folhas o Sr. Seabra, eram<br \/>\n    as principais maravilhas do jardim. Nas salas mob&iacute;lia rica, mas vulgar<br \/>\n    ; litograf&iacute;as coloridas em custosas molduras douradas ; bordados, diplomas<br \/>\n    de s&oacute;cio de n&atilde;o sei quantas sociedades brasileiras ; tudo encaixilhado,<br \/>\n    e no lugar de honra a estampa das capelas do Bom Jesus de Braga. &Agrave;<br \/>\n    impertinencia de admirar estas preciosidades acrescia a de ouvir e de ter<br \/>\n    de achar gra&ccedil;a a um papagaio que cantava o hino brasileiro.<\/p>\n<p> Henrique saiu de l&aacute; exausto de paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> com estas visitas pol&iacute;ticas, passou, como dissemos, todo o per&iacute;odo<br \/>\n    das festas do Natal, sem que entre as personagens da nossa hist&oacute;ria<br \/>\n    ocorresse coisa que mere&ccedil;a nota.<\/p>\n<p> Entre Madalena e Henrique mantinha-se a mesma luta moral ; nem um nem outro<br \/>\n    recordavam declaradamente a cena nocturna, em que t&atilde;o acerbas palavras<br \/>\n    se haviam trocado. Augusto n&atilde;o voltara ao Mosteiro dssde ent&atilde;o.<br \/>\n    Era tempo de f&eacute;rias para as crian&ccedil;as, o que fazia natural esta<br \/>\n    aus&ecirc;ncia, contra a qual Angelo em v&atilde;o protestava.<\/p>\n<p> Madalena nunca por&eacute;m aludia a ela. Cristina passava o tempo, querendo-<br \/>\n    se mal por a sua timidez, e de quando em quando amuando de ci&uacute;mes com<br \/>\n    Madalena, que ria deles e os dissipava com uma palavra.<\/p>\n<p> Chegou enfim o dia de Reis, aquele em que devia realizar-se no p&aacute;tio<br \/>\n    do Mosteiro o auto que, havia muito, mestre Pertunhas andava ensaiando.<\/p>\n<p> Henrique e D. Doroteia vieram jantar ao Mosteiro, e ficaram para assistir<br \/>\n    &agrave; solenidade popular.<\/p>\n<p> J&aacute; por vezes temos ouvido falar neste auto, que prometia ser coisa<br \/>\n    memoranda nos anais dos festejos p&uacute;blicos da terra. Havia meses que<br \/>\n    o Sr. Pertunhas esgotava os tesouros da sua ci&ecirc;ncia dram&aacute;tica<br \/>\n    a ensai&aacute;-lo, e vimos com antecipa&ccedil;&atilde;o andar Ermelinda<br \/>\n    decorando a parte da Fama, que lhe competia desempenhar.<\/p>\n<p> Estes autos e entremezes, que nas aldeias se representam, s&atilde;o como<br \/>\n    os restos grosseiros que da nossa arte primitiva a varredura estrangeira deixou<br \/>\n    ficar pelo ch&atilde;o, N&atilde;o obstante as extravag&acirc;ncias e as modula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    toscas e ris&iacute;veis de muitos, &eacute; certo que nos mostram que a Euterpe<br \/>\n    r&uacute;stica tem conservado mais fiel a &iacute;ndole peninsular, do que<br \/>\n    sua irm&atilde;, a civilizada musa das cidades, a cujo paladar j&aacute; sabem<br \/>\n    mal as popular&iacute;ssimas redondilhas, t&atilde;o apreciadas ainda na Espanha.<\/p>\n<p> Em ocasi&otilde;es de festa levanta-se em qualquer terreiro ou p&aacute;tio<br \/>\n    de quinta um tablado ; v&ecirc;m adorn&aacute;-lo as mais vistosas colchas<br \/>\n    de chita, das quais tamb&eacute;m se formam os bastidores; alugam-se nos dep&oacute;sitos<br \/>\n    mais modestos da cidade ou vila pr&oacute;xima vestidos de reis, de pr&iacute;ncipes<br \/>\n    e de guerreiros, em que se combinam os elementos de &eacute;pocas e de nacionalidades<br \/>\n    disparatadas, e perante uma plat&eacute;ia r&uacute;stica, ao ar livre, como<br \/>\n    no teatro antigo, desfiam-se em cantada choradeira as sentimentais perip&eacute;cias<br \/>\n    da vida de qualquer santo, ou, entre gargalhadas, os epis&oacute;dios c&oacute;micos<br \/>\n    de algum enredo popular.<\/p>\n<p> A circunst&acirc;ncia de ser o auto desta vez desempenhado no p&aacute;tio<br \/>\n    do Mosteiro, e que fora em parte por defer&ecirc;ncia ao deputado do c&iacute;rculo,<br \/>\n    em parte por conveni&ecirc;ncia dos empres&aacute;rios, pela apropria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do terreno a todos os efeitos, e pela ajuda de custo, que sempre em tais casos<br \/>\n    recebiam de S.a Ex.&ordf;, essa circunst&acirc;ncia, dizemos, aumentava o<br \/>\n    n&uacute;mero de espectadores.<\/p>\n<p> Das janelas do Mosteiro gozava-se, como de um camarote de frente, do espect&aacute;culo<br \/>\n    popular.<\/p>\n<p> O terreiro era destinado para o povo, em grande parte atra&iacute;do tamb&eacute;m<br \/>\n    pela pipa de vinho, que o conselheiro nestes dias mandava P&ocirc;r &agrave;<br \/>\n    disposi&ccedil;&atilde;o dos seus representados.<\/p>\n<p> Desde a v&eacute;spera havia grande agita&ccedil;&atilde;o e az&aacute;fama<br \/>\n    no p&aacute;tio do Mosteiro. Os art&iacute;fices levantavam o tablado c&ecirc;nico;<br \/>\n    pregavam e despregavam t&aacute;buas ; serravam barrotes ; os directores,<br \/>\n    e &agrave; frente deles o infatig&aacute;vel e imaginoso Pertunhas, davam<br \/>\n    ordens contradit&oacute;rias ; e os curiosos estacionavam em magotes, dificultando<br \/>\n    tudo, censurando o que viam fazer, e aventando alvitres absurdos.<\/p>\n<p> Herodes, o pai de Ermelinda, andava em brasas. Aproximava-se a hora dos<br \/>\n    seus triunfos. O g&ecirc;nio dram&aacute;tico palpitava nele, cheio de vida<br \/>\n    e entusiasmo.<\/p>\n<p> Ia mais uma vez pousar nos ombros o manto da realeza judaica; brandir a<br \/>\n    espada infanticida, carregar aqueles sobrecenhos com que fazia chorar as crian&ccedil;as<br \/>\n    e estremecer as m&atilde;es ; ia ressuscitar Herodes, o d&eacute;spota legend&aacute;rio.<\/p>\n<p> Trabalhando e suando, resmoneava os versos do seu papel de tirano e insens&igrave;velmente<br \/>\n    fazia gestos e esgares prometedores de efeitos c&ecirc;nicos futuros.<\/p>\n<p> Os seus colegas eram menos ardentes pela arte. O Herodes olhava- os com<br \/>\n    a sobranceria de um Taima, e muitas vezes lamentava sinceramente a aus&ecirc;ncia<br \/>\n    de voca&ccedil;&otilde;es dram&aacute;ticas que auxiliassem a dele.<\/p>\n<p> E n&atilde;o sorriam os leitores a esta veleidade art&iacute;stica do recoveiro<br \/>\n    ; &#8216; ali havia fundamentos para ela. O Cancela era o min&eacute;rio de um tr&aacute;gico,<br \/>\n    deixem-me assim dizer. No meio de uma esc&oacute;ria de rusticidade continha<br \/>\n    abafado mineral de lei.<\/p>\n<p> Tivessem sido outras as conting&ecirc;ncias da sua vida, v&ecirc;-lo-iam<br \/>\n    porventura arrebatar plat&eacute;ias inteiras com as revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do g&ecirc;nio, que &agrave;s vezes num grito, num sorriso, num gesto se manifesta<br \/>\n    ; mas ainda assim inculto, n&atilde;o mentia nele o verdadeiro entusiasmo,<br \/>\n    o sentimento da arte que lhe afogueava as faces e os olhos, e lhe animava<br \/>\n    o gesto no calor do desempenho ; n&atilde;o mentia aquela embriaguez que lhe<br \/>\n    causavam os aplausos da multid&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; verdadeiro g&ecirc;nio<br \/>\n    art&iacute;stico que se n&atilde;o namore do p&uacute;blico, embora o saiba<br \/>\n    caprichoso, inconstante e ingrato. O homem, indiferente aos aplausos das turbas,<br \/>\n    nunca ser&aacute; poeta nem artista de verdadeira inspira&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O amor vivo da gl&oacute;ria adiantou a meio caminho os empreendedores desta<br \/>\n    nova conquista de velocino.<\/p>\n<p> Ermelinda, essa tremia com a como&ccedil;&atilde;o de artista nove!, &agrave;<br \/>\n    lembran&ccedil;a do espect&aacute;culo, em que pela primeira vez ia entrar.<\/p>\n<p> As senhoras do Mosteiro, ou antes Madalena e Cristina, tinham querido encarregar-se<br \/>\n    da toilette da Fama.<\/p>\n<p> Logo de manh&atilde; fora, pois, a pequena Linda para o Mosteiro, e passava<br \/>\n    das m&atilde;os de Madalena para as de Cristina e das desta para as daquela,<br \/>\n    e sempre com recato preciso para que ningu&eacute;m mais lhe pusesse os olhos,<br \/>\n    pois que pretendiam reservar para a ocasi&atilde;o a surpresa t&ocirc;da.<br \/>\n    Contra a curiosidade de Angelo &eacute; que mais tiveram que lutar.<\/p>\n<p> Logo depois da uma hora da tarde come&ccedil;ou a povoar-se o p&aacute;tio<br \/>\n    de espectadores, e os actores a reunirem-se na parte do tablado, oculto por<br \/>\n    as colchas de chita aos olhares da multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Principiava a ensaiar os instrumentos o pessoal da filarm&oacute;nica, dirigida<br \/>\n    por mestre Pertunhas, cuja trompa c&eacute;lebre servia tamb&eacute;m de batuta.<\/p>\n<p> Chiava j&aacute; o clarinete, assobiava o flautim, roncava o figle, uivava<br \/>\n    a flauta, e todos prometiam aos ouvidos a mais inarm&ograve;nica das torturas.<\/p>\n<p> Mestre Pertunhas, distribu&iacute;das as partituras, e vendo todos a postos,<br \/>\n    deu o sinal de principiar.<\/p>\n<p> Um, dois, tr&ecirc;s ; um, dois &#8212; dizia ou fazia ele com os olhos<br \/>\n    e com os movimentos da cabe&ccedil;a e p&eacute;s, porque a boca, essa j&aacute;<br \/>\n    estava aplicada &agrave; embocadura da trompa. O segundo &laquo;tr&ecirc;s&raquo;<br \/>\n    era o tempo fatal.<\/p>\n<p> Os m&uacute;sicos, por&eacute;m, ou por distra&iacute;dos, ou por a como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pr&ograve;pria dos actos solenes, n&atilde;o corresponderam ao sinal, e a<br \/>\n    nota furiosa, extra&iacute;da da trompa do mestre Pertunhas, achou-se s&oacute;<br \/>\n    no espa&ccedil;o, e fugiu envergonhada a esconder-se na concavidade dos montes<br \/>\n    vizinhos, deixando na passagem os ouvidos quase em sangue.<\/p>\n<p> Este sucesso foi saudado com uma gargalhada geral, que redobrou quando as<br \/>\n    notas dos outros instrumentos, vendo partir desacompanhada a nota chefe e<br \/>\n    reconhecendo a falta, sa&iacute;ram alvoro&ccedil;adas atr&aacute;s dela,<br \/>\n    cada uma por sua vez. Foi uma debandada musical de indescrit&iacute;vel efeito.<\/p>\n<p> O audit&oacute;rio, o sempre implac&aacute;vel audit&oacute;rio popular,<br \/>\n    apupava.<\/p>\n<p> Henrique e o conselheiro riam, os actores do auto espreitavam detr&aacute;s<br \/>\n    da cortina a ver o que era aquilo. Mestre Pertunhas barafustava por entre<br \/>\n    os da banda, berrando, ralhando, cheio de c&oacute;lera e de raz&atilde;o.<\/p>\n<p> uma sinfonia com quatro meses de ensaio ! A falar a verdade ! Ordenadas<br \/>\n    as coisas rompeu, enfim, a sinfonia.<\/p>\n<p> Os tipos dos artistas, marcialmente uniformizados com fardas que foram de<br \/>\n    um corpo de infantaria, eram para tentar o l&aacute;pis de um Cham ou Gavarni.<br \/>\n    Ali um gordo e rubicundo merceeiro, que amea&ccedil;ava estalar todas as costuras<br \/>\n    da farda, primitivamente feita para um indiv&iacute;duo de metade das dimens&otilde;es<br \/>\n    dele, com as faces insufladas, a testa contra&iacute;da e os olhos injec&iacute;ados<br \/>\n    para extrair de um obsoleto serpent&atilde;o, que embocava com arreganho assustador,<br \/>\n    as mais destemperadas notas ; acol&aacute; um flautim, de bra&ccedil;os compridos<br \/>\n    e t&iacute;bias esquinadas, cora meio bra&ccedil;o fora das mangas, com meia<br \/>\n    perna de fora das cal&ccedil;as, figura em que havia nao sei o que de onomatopaico,<br \/>\n    t&atilde;o bem se casava com os silvos, horripilantemente agudos, que arrancava<br \/>\n    do ex&iacute;guo instrumento.<\/p>\n<p> O artista pratilheiro era um velho recurvado, de nariz adunco, faces escavadas,<br \/>\n    olhos de coruja, su&iacute;&ccedil;as em tufos no meio das faces, e &oacute;culos<br \/>\n    na ponta do nariz. Um zarolha evacuava os pulm&otilde;es dentro de um figle<br \/>\n    ; um corcovado e semian&atilde;o repicava os ferrinhos com uma prodigalidade<br \/>\n    assustadora ; as baquetas da caixa estavam confiadas &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    calosas de um mo&ccedil;o de lavoura, de repas hirsutas a cobrir- -lhe a testa,<br \/>\n    olhos esbugalhados e l&aacute;bio pendente. E, no meio destas e an&aacute;logas<br \/>\n    figuras, a alma de tudo, o Sr. Pertunhas, torcendo-se, batendo com o p&eacute;,<br \/>\n    suando, arregalando os olhos, piscando-os, marcando o A MORGADINHA DOS CANAVIAIS<br \/>\n    compasso com a cabe&ccedil;a armada de enorme trompa, que lhe dava ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o sei que apar&ecirc;ncias de proboscidiano.<\/p>\n<p> Tal era a filarm&ograve;nica da terra, que Henrique, o conselheiro e t&ocirc;da<br \/>\n    a fam&iacute;lia do Mosteiro escutavam das janelas, e &agrave; qual tiveram<br \/>\n    de dispensar elogios, que o regente aceitou com a mod&eacute;stia de artista<br \/>\n    que se. conhece. Henrique foi quem mais sublimes esfor&ccedil;os fez para<br \/>\n    sofrer com paci&ecirc;ncia aquelas torturas ac&uacute;sticas. Ele que nem<br \/>\n    &agrave; orquestra de S&atilde;o Carlos perdoava uma desafina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    obrigado a escutar com um sorriso aquela banda pandem&oacute;nica ! &#8212;<br \/>\n    Coragem! coragem!&#8212;murmurava-lhe o conselheiro, impass&iacute;vel como<br \/>\n    perfeito pol&iacute;tico. &#8212; Nas ocasi&otilde;es &eacute; que os homens<br \/>\n    se conhecem ! Coragem.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; em extremo forte a prova&ccedil;&atilde;o ! &#8212; respondia-lhe,<br \/>\n    gemendo, Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Firmeza ; que a palidez do susto nos n&atilde;o atrai&ccedil;oe<br \/>\n    &#8212; continuava aquele.<\/p>\n<p> Isto obrigava Henrique a nova luta; desta vez para manter a seriedade.<\/p>\n<p> Afinal calou-se a banda, sem que se pudesse dizer o que tinha querido tocar.<br \/>\n    Sucedeu-lhe um intervalo de sil&ecirc;ncio. Passou pela assembl&eacute;ia<br \/>\n    o estremecimento que precede as ocasi&otilde;es solenes. Os olhares de tantos<br \/>\n    espectadores fixavam-se na coberta de chita que j&aacute; se via ondular.<br \/>\n    Ouviu-se um surdo rumor, significativo de ansiedade, como se fora a resultante<br \/>\n    do palpitar de tantos cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Apareceu, enfim, a primeira personagem do auto. Era o Herodes.<\/p>\n<p> A alta e membruda figura do pai de Ermelinda, com os seus ombros largos,<br \/>\n    as faces injectadas, o olhar faiscante, os cabelos e barbas negras e espessos,<br \/>\n    o andar grave e pesado, sob o qual gemiam as junturas do tablado, o timbre<br \/>\n    volumoso de voz e certo arreganho selv&aacute;tico, com que falava e gesticulava,<br \/>\n    imprimia na multid&atilde;o um quase pavor, que nem o conhecimento &iacute;ntimo<br \/>\n    que tinha do homem conseguia dissipar.<\/p>\n<p> Herodes trazia manto real e turbante mu&ccedil;ulmano, borzeguins vermelhos,<br \/>\n    corpete de veludilho azul, cal&ccedil;&otilde;es golpeados. Pendia- -lhe &agrave;<br \/>\n    cinta um alfange e uma pistola; ao peito algumas condecora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Apar&ecirc;ncia geral, a dos profetas nas prociss&otilde;es.<\/p>\n<p> O auto rompe com um mon&oacute;logo de Herodes.<\/p>\n<p> O tirano da Judeia, sobressaltado e meditabundo, faz considera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    substanciosas sobre as condi&ccedil;&otilde;es dos reis em geral e a sua em<br \/>\n    particular. Principia ele assim: N&atilde;o h&aacute; vida mais inquieta,<br \/>\n    Nem mais cheia de cuidados, Do que a de um rei que pretende Conservar os seus<br \/>\n    estados.<\/p>\n<p> O Cancela dizia isto em tom pausado, com os bra&ccedil;os cruzados, medindo<br \/>\n    o palco a passos largos.<\/p>\n<p> Continuavam v&aacute;rias proposi&ccedil;&otilde;es de fisiologia do trono,<br \/>\n    e, do caso gen&eacute;rico baixando ao particular, da tese &agrave; hip&oacute;tese,<br \/>\n    principia a falar de si. Cancela, conhecedor dos segredos da arte, come&ccedil;ava<br \/>\n    aqui a dar mais vida &agrave; recita&ccedil;&atilde;o, como para mostrar o<br \/>\n    maior empenho que tomava a alma neste cap&iacute;tulo da especialidade. Referia-se<br \/>\n    aos an&uacute;ncios da vinda do Messias, e inquietava-se ; a mar&eacute; das<br \/>\n    paix&otilde;es subia ; a voz traduzia-lhe o crescimento. Depois seguia-se<br \/>\n    um como reflexo de desalento, para com mais viol&ecirc;ncia se exaltarem os<br \/>\n    afectos. Nos paroxismos da f&uacute;ria, o Cancela, dando t&ocirc;da a for&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; sua voz potente, soltava berros, que participavam da natureza dos<br \/>\n    de tigre.<\/p>\n<p> Come&ccedil;arei desde logo A publicar leis tiranas, Que aterrem os meus<br \/>\n    montes, Os pal&aacute;cios e as choupanas.<\/p>\n<p> Ser&aacute; tal o meu furor, Tal a minha indigna&ccedil;&atilde;o, Que ningu&eacute;m<br \/>\n    se atrever&aacute; A conquistar meu bras&atilde;o.<\/p>\n<p> O interesse do espect&aacute;culo aumentava. Os olhos do p&uacute;blico<br \/>\n    principiavam a fixar-se. A excita&ccedil;&atilde;o de &acirc;nimos a que os<br \/>\n    transportes de Herodes, inquieto pelo seu bras&atilde;o, levara o p&uacute;blico,<br \/>\n    foi serenada por um chorado coro de anjos que cantavam atr&aacute;s da cortina:<br \/>\n    N&atilde;o temas, &oacute; rei cruel, Oue te conquiste o dossel.<\/p>\n<p> Herodes p&aacute;ra aterrado, ao escutar estas vozes, apesar de lhe afian&ccedil;arem<br \/>\n    a seguran&ccedil;a do dossel, pela qual ele parecia receoso. Vacila, entra-lhe<br \/>\n    o medo no cora&ccedil;&atilde;o, medo que procura afugentar com bravatas,<br \/>\n    em que amea&ccedil;ava p&ocirc;r tudo por terra. O Cancela exprimia tudo isto<br \/>\n    com abund&acirc;ncia de gestos e de movimentos.<\/p>\n<p> Aqui &eacute; que subia a t&ocirc;da a altura o g&ecirc;nio dram&aacute;tico<br \/>\n    do Herodes, Para este final do mon&oacute;logo reservava todos os segredos<br \/>\n    da arte; apoderava-se dele a musa do palco ; desapareciam-lhe diante dos olhos<br \/>\n    os espectadores, via o mundo ; perdia a consci&ecirc;ncia da individualidade<br \/>\n    pr&oacute;pria ; supunha-se Herodes ; e at&eacute; .. oh for&ccedil;a da arte<br \/>\n    ! ofuscavam-se- -lhe os bons instintos da &iacute;ndole generosa e quase chegava<br \/>\n    a ter verdadeira &acirc;nsia de sangue e carnificina. O p&uacute;blico era<br \/>\n    dominado por o artista, e num destes sil&ecirc;ncios que todos prev&ecirc;em<br \/>\n    se desencadear&aacute; era brados de entusiasmo e frenesi, escutava-lhe as<br \/>\n    duas quadras finais- Por&eacute;m o furor me incitai Dava, ao dizer isto,<br \/>\n    tr&ecirc;s passos &agrave; frente, desembainhava o alfange e abria os bra&ccedil;os.<br \/>\n    Tinha o que quer que era de Adamastor, visto assim.<\/p>\n<p> O brio d&aacute;-me ousadia.<\/p>\n<p> Levantava os bra&ccedil;os acima da cabe&ccedil;a, espalmando a m&atilde;o<br \/>\n    esquerda.<\/p>\n<p> Para defender o ceptro A favor da tirania I Aqui agitava os bracos como<br \/>\n    asas de moinhos.<\/p>\n<p> Ser&aacute; cada lan&ccedil;a um raio I &#8226; E, dizendo isto, tinha nos<br \/>\n    olhos o fulgurar do rel&acirc;mpago.<\/p>\n<p> Cada espada um corisco, E o bra&ccedil;o, armado do alfange, baixava com<br \/>\n    a rapidez do simile.<\/p>\n<p> Cada soldado um trov&atilde;o, E trovejava-lhe a voz.<\/p>\n<p> Cada golpe um basilisco ! E, na posi&ccedil;&atilde;o e gesto em que ficava,<br \/>\n    n&atilde;o era menos terr&iacute;vel e pavoroso do que a fera da compara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> uma tempestade de aplausos rompeu de todos os lados ; s&oacute; as mulheres<br \/>\n    e as crian&ccedil;as ficaram silenciosas e im&oacute;veis, porque lhes parecia<br \/>\n    um pecado aplaudirem Herodes. E n&atilde;o sei se, o que fizera menos escrupulosa<br \/>\n    neste ponto a parte masculina, fora o exemplo partido das janelas do Mosteiro<br \/>\n    ; porque &eacute; certo que em geral os tiranos no palco s&atilde;o admirados,<br \/>\n    mas raras vezes aplaudidos.<\/p>\n<p> Herodes, depois de agradecer os aplausos p&uacute;blicos, senta-se e segue<br \/>\n    o auto.<\/p>\n<p> Dar&iacute;amos de bom grado na &iacute;ntegra t&atilde;o importante pe&ccedil;a<br \/>\n    dram&aacute;tica ou pelo menos circunstanciada not&iacute;cia dela, se n&atilde;o<br \/>\n    rece&aacute;ssemos o recheio excessivo para esta ordem de alimentos liter&aacute;rios,<br \/>\n    que se querem leves. N&atilde;o podemos contudo resignar-nos a pass&aacute;-la<br \/>\n    por alto inteiramente.<\/p>\n<p> Al&eacute;m do Herodes, s&atilde;o figuras do auto: o caixeiro do dito &#8212;<br \/>\n    assim se lhe chama pelo menos no folheto, o que d&aacute; a entender que Herodes<br \/>\n    era homem de escritura&ccedil;&atilde;o regular &#8212; o capit&atilde;o das<br \/>\n    tropas reais, os tr&ecirc;s reis magos, o anjo, a Virgem, S. Jos&eacute; e<br \/>\n    o Menino Jesus, a criada de Santa Isabel, dois cidad&atilde;os de diferentes<br \/>\n    cidades, o criado de um d&ecirc;les, a Fama e duas crian&ccedil;as, chamadas<br \/>\n    Giraldinho e Amorzinho.<\/p>\n<p> As cenas passam-se sucessivamente nos pa&ccedil;os de Herodes, na lapa de<br \/>\n    Bel&eacute;m, e em diversas paragens da estrada do Egipto.<\/p>\n<p> A imagina&ccedil;&atilde;o do espectador era a encarregada da mudan&ccedil;a<br \/>\n    do cen&aacute;rio.<\/p>\n<p> O poeta corre t&ocirc;da a clave das paix&otilde;es humanas, vibra todas<br \/>\n    as cordas do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ao terror despertado por Herodes e suas amea&ccedil;as, sucede a simpatia<br \/>\n    pelos tr&ecirc;s reis, personificados daquela vez por tr&ecirc;s mo&ccedil;os<br \/>\n    de lavoura, de manto, luvas de algod&atilde;o e turbante, os quais, em lam&uacute;ria<br \/>\n    nasal e com profus&atilde;o de xes, cantarolavam as quadras do seu papel,<br \/>\n    em uma das quais, patri&oacute;ticamente anacr&oacute;nica, pediam aqueles<br \/>\n    bons magos ao Deus nascido a protec&ccedil;&atilde;o para Portugal.<\/p>\n<p> Excitava a piedade a fam&iacute;lia sagrada. O velho S. Jos&eacute;, como<br \/>\n    carpinteiro que era, aparelhava um madeiro a enx&oacute; e plaina, enquanto<br \/>\n    a Virgem dormia. A Virgem era um rosado barbatolas, em quem principiava a<br \/>\n    despontar o bu&ccedil;o da puberdade. O anjo aparecia, como nas prociss&otilde;es,<br \/>\n    carregado de cord&otilde;es de ouro.<\/p>\n<p> No transe da fugida para o Egipto h&aacute; uma cena da mais que hom&eacute;rica<br \/>\n    simplicidade. Quando os sagrados esposos est&atilde;o para partir, chega a<br \/>\n    eles a criada de Santa Isabel, prima da Senhora, outro mocet&atilde;o em trajes<br \/>\n    femininos, e da parte da ama oferece aos foragidos algum dinheiro e refrescos<br \/>\n    ; pedindo desculpa por n&atilde;o poder dar quanto queria, o que tudo a Senhora<br \/>\n    agradece com as frases da tarifa, recomendando-se muito a sua prima.<\/p>\n<p> O c&oacute;mico caminha ao lado do pat&eacute;tico, como no drama moderno.<\/p>\n<p> H&aacute; personagens, reflex&otilde;es e cenas sempre apreciadas e j&aacute;<br \/>\n    aguardadas pelo p&uacute;blico, que as sa&uacute;da com sinceras gargalhadas.<br \/>\n    Destas a principal &eacute; evidentemente a que se passa entre um cidad&atilde;o,<br \/>\n    de quem a sacra fam&iacute;lia recebe gasalhado, e o criado do mesmo.<\/p>\n<p> &Eacute; uma cena de disputa dom&eacute;stica, cheia de alus&otilde;es sat&iacute;ricas<br \/>\n    &agrave; classe dos criados de servir, a qual era sempre aplaudida. O cidad&atilde;o,<br \/>\n    depois de mostrar ao criado, de rel&oacute;gio em punho &#8212; anacronismo<br \/>\n    shakespeariano &#8212; a demora excessiva que ele tivera fora de casa, diz<br \/>\n    para o audit&oacute;rio: N&atilde;o se pode ter criados Hoie em dia, nesta<br \/>\n    vida, Ou quem houver de os ter N&atilde;o lhes deve dar guarida.<\/p>\n<p> Neste ponto do auto houve aquela tarde um pequeno mas gracioso epis&oacute;dio.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria, que achava esta a parte melhor pensada e mais conceituosa<br \/>\n    de t&ocirc;da a pe&ccedil;a, de afinada que estava pelo seu modo de sentir,<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de conter-se, que n&atilde;o exclamasse : &#8212; Aquilo<br \/>\n    &eacute; que &eacute; uma verdade ! A espontaneidade da reflex&atilde;o fez<br \/>\n    rir a fam&iacute;lia do Mosteiro, riso que teve eco em baixo, entre o povo,<br \/>\n    que enchia o p&aacute;tio.<\/p>\n<p> A cena c&oacute;mica prolonga-se, mandando o patr&atilde;o distribuir pelo<br \/>\n    caixeiro o rap&eacute; ao audit&#038;oacoacute;rio; outra liberdade que produzia sempre<br \/>\n    o maior efeito.<\/p>\n<p> O criado trazia uma enorme tabaqueira, um verdadeiro ba&uacute;, e oferecia<br \/>\n    pitadas ao p&uacute;blico, dizendo : O meu amo, com ser rico, Gosta destas<br \/>\n    paruscadas.<\/p>\n<p> Nunca os senhores tiveram As pitadas t&atilde;o baratas.<\/p>\n<p> Os risos e as galhofas desordenaram, segundo o costume, por muito tempo,<br \/>\n    a regularidade do espect&aacute;culo. Todos tiravam pitadas, todos falavam,<br \/>\n    riam e guinchavam. todos fingiam espirrar e n&atilde;o se ouvia sen&atilde;o:<br \/>\n    &laquo;Dominus tecum&raquo; e &laquo;Deus te salve&raquo; no meio de t&ocirc;da<br \/>\n    aquela confus&atilde;o. Por&eacute;m a um sinal de mestre Pertunhas, que deixou<br \/>\n    por um pouco folgar o esp&iacute;rito das massas, tudo entrou na ordem.<\/p>\n<p> Preparava-se nova transi&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica. O criado, que<br \/>\n    vai a sair, volta, dizendo com gesto espantado e tom exclamatorio : Jesus,<br \/>\n    Jesus, que &eacute; isto? Jesus do meu cora&ccedil;&atilde;o ! O sinal da<br \/>\n    cruz me livre De t&atilde;o terrivel vis&atilde;o.<\/p>\n<p> Era a Fama que aparecia.<\/p>\n<p> Ermelinda entrava em cena.<\/p>\n<p> No meio daquelas figuras r&uacute;sticas, e mais ou menos grosseiras, que<br \/>\n    entravam no auto, a figura delicada e ang&eacute;lica de Ermelinda produzia<br \/>\n    t&atilde;o completo contraste, que um murm&uacute;rio significativo de profunda<br \/>\n    sensa&ccedil;&atilde;o correu o audit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Ermelinda estava surpreendente de formosura. Haviam-se associado ao que<br \/>\n    era nela dotes naturais os cuidados de Madalena e de Cristina, para lhe darem<br \/>\n    a apar&ecirc;ncia superior.<\/p>\n<p> O pr&oacute;prio Henrique, que at&eacute; ali estiver&agrave; comentando<br \/>\n    maliciosamente o espect&aacute;culo, n&atilde;o p&ocirc;de reter uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de surpresa, que foi secundada por o conselheiro. &Eacute; que parecia que<br \/>\n    um verdadeiro anjo ocupava agora a cena.<\/p>\n<p> A simplicidade do vestir concorria para esse efeito.<\/p>\n<p> Ermelinda trazia uma longa t&uacute;nica alv&iacute;ssima e de amplas mangas,<br \/>\n    que lhe descia solta dos ombros sem sacrificar a menor beleza dos graciosos<br \/>\n    contornos e esbeltas propor&ccedil;&otilde;es daquela crian&ccedil;a, que<br \/>\n    prometia ser uma mulher escultural. Os cabelos, cuja cor loura era de uma<br \/>\n    pureza rara, ca&iacute;am-lhe desatados e profusos sobre os ombros, brilhando<br \/>\n    como fios de ouro na alvura dos vestidos ; a fronte ficava- -lhe livre, e<br \/>\n    o oval das faces sobressa&iacute;a naquela moldura natural. com os bra&ccedil;os<br \/>\n    desca&iacute;dos, os dedos encruzados, e a cabe&ccedil;a ligeiramente pendida,<br \/>\n    em express&atilde;o de melancolia, e os olhos elevando-se para procurarem<br \/>\n    os de Madalena e de Cristina nas janelas do Mosteiro, mas que de longe parecia<br \/>\n    procurarem o Ceu, Ermelinda adiantava-se vagarosa, serena, tendo no gesto<br \/>\n    o encanto da inoc&ecirc;ncia, tendo nos passos a hesita&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    timidez. Havia tanto de sobrenatural no vulto c&acirc;ndido, franzino e melanc&oacute;licamente<br \/>\n    suave daquela crian&ccedil;a, que o actor que estava em cena n&atilde;o teve<br \/>\n    de simular espanto, porque o sentia real, e n&atilde;o podia desviar os olhos<br \/>\n    daquela apari&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O sil&ecirc;ncio era profundo ; parecia que em todos estava actuando a for&ccedil;a<br \/>\n    de um encantamento.<\/p>\n<p> como na antiga trag&eacute;dia, o facto principal da ac&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a carnificina dos inocentes, passava-se fora de cena. &Agrave; Fama competia<br \/>\n    narr&aacute;-lo.<\/p>\n<p> Ermelinda, a meio do palco, parou. com uma voz argentina e leve tremor de<br \/>\n    como&ccedil;&atilde;o, principiou lentamente e no meio de um religioso sil&ecirc;ncio<br \/>\n    a recitar os versos da narra&ccedil;&atilde;o, os quais, como o leitor j&aacute;<br \/>\n    sabe, n&atilde;o eram os do auto, que mestre Pertunhas se estafara a ensaiar.<\/p>\n<p> Os versos que Ermelinda recitou, diziam assim : * Desci dos celestes coros,<br \/>\n    Por Deus mandada a escutar Da inf&acirc;ncia as queixas e os choros, Para<br \/>\n    lhos ir confiar.<\/p>\n<p> Desci. Na terra, nos mares Tanta mis&eacute;ria encontrei, Que os meus magoados<br \/>\n    olhares Da terra e mar desviei.<\/p>\n<p> Desci. E tantos gemidos, T&atilde;o dolorosos ouvi ! Que turbados os sentidos.<\/p>\n<p> Quis recuar&#8230; mas desci.<\/p>\n<p> Nesta colheita de dore3 Pelo mundo todo andei, No pranto dos pecadores As<br \/>\n    minhas vestes molhei.<\/p>\n<p> Vagueando dias e dias, Chegara &agrave; Judeia enfim, Quando um clamor de<br \/>\n    agonia3 Veio de longe at&eacute; mim.<\/p>\n<p> O Sol, o Sol inflamado Destas terras orientais, Tinha no disco afogueado<br \/>\n    N&atilde;o sei que estranhos sina&Iacute;3 Soavam menos distantes Sinistros<br \/>\n    brados de dor, Choros de m&atilde;es e de infantes, Cantos de morte e terror,<br \/>\n    Vi anjos de asas nevadas Em bandos subir ao C&eacute;u, Ouais pombas amedrontadas<br \/>\n    Fugindo &agrave; voz de escarc&eacute;u.<\/p>\n<p> &laquo;Onde ides? Quem vos persegue? A que tormentas fugis ?&raquo; Um,<br \/>\n    que triste o bando segue, Estas palavras me diz : &laquo;Somos as almas de<br \/>\n    infantes Mortos em guerra feroz : Inda das m&atilde;es delirantes Nos chama<br \/>\n    a sentida voz.<\/p>\n<p> &laquo;S&oacute; a materna saudade Nossa carreira det&eacute;m, Embora no<br \/>\n    C&eacute;u, quem h&aacute;-de Esquecer o amor de m&atilde;e?&raquo; Disse<br \/>\n    e o semblante formoso com as asas encobriu, E ao bando silencioso Silencioso<br \/>\n    se uniu.<\/p>\n<p> Eu segui. Na &iacute;mpia cidade Aterrada penetrei&#8230;<\/p>\n<p> Ai, da fera humanidade Os meus olhos desviei! Que cena ! Corre nas pra&ccedil;as<br \/>\n    Sanguin&aacute;ria multid&atilde;o, como nuvem de desgra&ccedil;as Semeando<br \/>\n    a desola&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Caem por terra sem vida Tenras crian&ccedil;as &agrave;s mil, E uma turba<br \/>\n    enfurecida Corre &agrave; matan&ccedil;a febril.<\/p>\n<p> As m&atilde;es p&aacute;lidas, chorosas, Suplicam, pedem em v&atilde;o!<br \/>\n    Nessas feras sanguinosas N&atilde;o palpita um cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Outras tentam em del&iacute;rio, Os seus filhos disputar, E com eles no<br \/>\n    mart&iacute;rio Gostosas se v&atilde;o juntar.<\/p>\n<p> Sobre a terra ensang&uuml;entada Eu solu&ccedil;ando, ajoelhei, E de intensa<br \/>\n    dor magoada, A Deus piedade implorei.<\/p>\n<p> Findava a prece, e uma estrela No horizonte despontou, Pura, cintilante,<br \/>\n    bela O caminho me tra&ccedil;ou.<\/p>\n<p> &Agrave; humilde e escondida estancia Da venturosa Bel&eacute;m Cheguei<br \/>\n    ; vi um Deus na infancia Nos temos bra&ccedil;os da m&atilde;e.<\/p>\n<p> Minha colheita de dores Naquele ber&ccedil;o depus, Da humanidade aos rigores<br \/>\n    Pedi rem&eacute;dio a Jesus.<\/p>\n<p> No olhar do divino infante Raiou a luz e fulgor, Foi a aurora radiante Que<br \/>\n    anunciou um redentor.<\/p>\n<p> N&atilde;o se descreve a impress&atilde;o causada por estes versos, que<br \/>\n    assim transformavam a Fama do auto no Anjo da guarda da inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Muitas causas concorriam para produzir este efeito : a figura, a voz e o<br \/>\n    gesto de Ermelinda, que lhe davam uma apar&ecirc;ncia verdadeiramente ang&eacute;lica,<br \/>\n    e depois aquelas palavras inesperadas, aquela exposi&ccedil;&atilde;o desconhecida<br \/>\n    e em versos a que a melancolia da toada, em que eram recitados, parecia aumentar<br \/>\n    a cad&ecirc;ncia m&eacute;trica. Enquanto debaixo da impress&atilde;o daquela<br \/>\n    voz sonora e infantil, ningu&eacute;m procurava explicar o mist&eacute;rio.<br \/>\n    Milagre lhes parecia e quase como milagre o aceitavam, e de ouvidos atentos,<br \/>\n    olhos estendidos e bocas semiabertas parecia recolherem, uma a uma, aquelas<br \/>\n    palavras, como se de um verdadeiro emiss&aacute;rio celeste as escutassem.<br \/>\n    O tablado enchera-se pouco a pouco de gente, e ningu&eacute;m dera por isso.<br \/>\n    Os actores que estavam atr&aacute;s da cortina tinham sido feridos pelos primeiros<br \/>\n    versos, diferentes dos que eles esperavam; isto obrigou-os a espreitar. Depois,<br \/>\n    como arrastados pela magia daquela voz e daquele gesto, vieram adiantando-se,<br \/>\n    adiantando- se, e cedo formaram c&iacute;rculo &agrave; volta de Ermelinda.<br \/>\n    O primeiro da frente era o Herodes. O espanto, os afectos, o orgulho de pai,<br \/>\n    a exalta&ccedil;&atilde;o de artista combinavam-se para dar-lhe ao rosto uma<br \/>\n    express&atilde;o quase de &ecirc;xtase. Olhava para a filha como se a visse<br \/>\n    animada de inspira&ccedil;&atilde;o divina.<\/p>\n<p> Pertunhas, o ensaiador do auto, que franzira o sobrolho, prevendo trapalhada<br \/>\n    aos primeiros versos recitados por Ermelinda, agora, de boca aberta, era de<br \/>\n    todos o mais espantado. No Mosteiro s&oacute; Angelo sorria, ele s&oacute;<br \/>\n    interpretava o milagre. Todos os mais escutavam silenciosamente aquela voz<br \/>\n    de crian&ccedil;a, que, em campo descoberto e no meio de tantos espectadores,<br \/>\n    soava distinta e vibrante como se efectivamente tivesse alguma coisa de sobre-humana.<\/p>\n<p> Depois que ela terminou, persistiu por algum tempo o sil&ecirc;ncio, sem<br \/>\n    que os espectadores pudessem voltar logo a si nem os actores se lembrassem<br \/>\n    de continuar o auto. Henrique foi quem primeiro rompeu este quase encantamento.<br \/>\n    Profundamente impressionado tamb&eacute;m por aquela cena, exprimiu num &laquo;bravo&raquo;<br \/>\n    todo o entusiasmo que sentia.<\/p>\n<p> Foi o sinal.<\/p>\n<p> O sil&ecirc;ncio degenerou na mais alt&iacute;ssona ova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> O Herodes esqueceu o papel que desempenhava, o caracter que tinha a sustentar<br \/>\n    a l&oacute;gica da situa&ccedil;&atilde;o, e tomando nos bra&ccedil;os musculosos<br \/>\n    o corpo d&eacute;bil e franzino da filha, levou-a em triunfo para a beira<br \/>\n    do palco ; os outros actores disputavam-lha ; do p&aacute;tio estendiam-se<br \/>\n    centenas de bra&ccedil;os para a receberem ; das janelas do Mosteiro acenavam-<br \/>\n    lhe, vitonando-a, os len&ccedil;os das senhoras ; os homens aplaudiam-na com<br \/>\n    palmas. Herodes parecia devorar a filha com beijos, afag&aacute;-la com l&aacute;grimas<br \/>\n    de entusiasmo e de paix&atilde;o; e Ermelinda foi de bra&ccedil;os em bra&ccedil;os,<br \/>\n    entire beijos e afagos, transportada do tablado para a sala do Mosteiro, onde<br \/>\n    n&atilde;o foi menos calorosa a recep&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Do auto ningu&eacute;m mais se lembrou, e, apesar dos esfor&ccedil;os do<br \/>\n    mestre Pertunhas, todos o deram por terminado ali e prescindiram de ver as<br \/>\n    restantes cenas, com grande desgosto dos actores que entravam nelas.<\/p>\n<p> O Herodes, ainda vestido de rei, andava como doido pelas salas do Mosteiro.<br \/>\n    Seria para rir aquele entusiasmo, se n&atilde;o fosse bastante pat&eacute;tico<br \/>\n    para comover.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como foi isto, meu Deus? como foi isto? Que milagre foi este?<br \/>\n    Ai que versos, Maria Sant&iacute;ssima! Que versos! E como ela os dizia !<br \/>\n    &#8212; exclamava ele, quase convencido da milagrosa natureza da cena que<br \/>\n    vira.<\/p>\n<p> Madalena, chamando &Acirc;ngelo de lado, perguntou-lhe : &#8212; Foi Augusto<br \/>\n    que fez aqueles versos? &Acirc;ngelo sorriu.<\/p>\n<p> &#8212; Porque me perguntas isso a mim? &#8212; Porque o deves saber.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o cr&ecirc;s no milagre? &#8212; Responde.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo ia a responder, quando Henrique disse em voz alta para c conselheiro:<br \/>\n    &#8212; Se eu digo a V. Ex.&quot; que o Bernardim existe.<\/p>\n<p> &#8212; Mas quem &eacute; ? &#8212; perguntou o conselheiro.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o sei ; por&eacute;m posso afian&ccedil;ar a V. Ex.&quot;<br \/>\n    que nao s&atilde;o estes os primeiros vest&iacute;gios que encontro dele.<br \/>\n    As paredes das capelas dos montes s&atilde;o as suas confidentes. N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; certa, prima Madalena, de umas quadras sentimentais que lemos<br \/>\n    na ermida da Senhora da Sa&uacute;de ? &#8212; Sim ; recordo-me.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o acha entre essas e as do auto analogia de estilo, que<br \/>\n    a levem a atribu&iacute;-las &agrave; mesma pessoa? &#8212; Estou pouco habituada<br \/>\n    a analisar estilos, primo.<\/p>\n<p> &#8212; Mas talvez este lhe seja habitual.<\/p>\n<p> Madalena fitou Henrique com um olhar de altivez, que o obrigou a acrescentar<br \/>\n    : &#8212; Por muito o ver por a&iacute; desperdi&ccedil;ado por paredes de<br \/>\n    capelas e ru&iacute;nas, e nos troncos das &aacute;rvores.<\/p>\n<p> Ermelinda foi de uma discri&ccedil;&atilde;o impenetr&aacute;vel. Quando<br \/>\n    lhe perguntavam quem lhe ensinara os versos, sorria, respondendo que n&atilde;o<br \/>\n    sabia, ou que n&atilde;o podia diz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; Apostemos que nisto entra &Acirc;ngelo ? &#8212; disse o conselheiro.<\/p>\n<p> O Herodes cada vez parecia mais convencido de que fora pura inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Henrique, aproveitando uma ocasi&atilde;o em que estava pr&oacute;ximo da<br \/>\n    morgadinha, disse-lhe ao ouvido : &#8212; Parece-me que ia p&ocirc;r o dedo<br \/>\n    no rouxinol silvestre, que t&atilde;o bem canta sem se mostrar.<\/p>\n<p> &#8212; Sim? &#8212; N&atilde;o h&aacute; muitas noites que eu o vi vaguear<br \/>\n    nestas imedia&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Estas aves melanc&oacute;licas amam as inspira&ccedil;&otilde;es nocturnas.<\/p>\n<p> &#8212; Pois as noites nem sempre s&atilde;o boas conselheiras, primo. E<br \/>\n    a hora favor&aacute;vel &agrave; espionagem e &agrave;s&#8230; cal&uacute;nias&#8230;<br \/>\n    Mas se sabe quem &eacute;, diga-o. Aqui em minha casa e no seio de minha fam&iacute;lia,<br \/>\n    &eacute; sempre bem recebida a verdade. N&atilde;o h&aacute; quem se tema<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p> E a morgadinha, dizendo isto, deixou-o desdenhosamente.<\/p>\n<p> &#8212; Desta vez foi de uma severidade ! &#8212; pensou Henrique. &#8212;<br \/>\n    Cada vez me conven&ccedil;o mais de que o idilio existe e que vai j&aacute;<br \/>\n    muito adiantado.<\/p>\n<p> Mas agora me lembro ; e o meu duelo com o Romeu, que nunca mais vi ? N&atilde;o<br \/>\n    foi m&aacute; tolice aquela minha ! Preciso de procurar o homem para lhe dizer<br \/>\n    que o caso n&atilde;o vale a pena.<\/p>\n<p> O despeito de Madalena pelas palavras de Henrique fora desta vez mais intenso;<br \/>\n    quase chegou a faz&ecirc;-la desesperar da ten&ccedil;&atilde;o que alimentava<br \/>\n    ainda, pois disse a Cristina : &#8212; Ai, filha, que n&atilde;o sei se deva<br \/>\n    curar-te antes a ti do que a ele.<\/p>\n<p> &#8212; Que dizes ? ! &#8212; Nada. H&aacute; doen&ccedil;as que fazem desesperar<br \/>\n    os m&eacute;dicos.<\/p>\n<p> Era j&aacute; noite. Os grupos, que ainda depois do auto se conservaram<br \/>\n    no p&aacute;tio do Mosteiro, a brindarem a hospitalidade dos propriet&aacute;rios,<br \/>\n    foram dispersando pouco a pouco.<\/p>\n<p> A banda de mestre Pertunhas saiu tamb&eacute;m com o fim de se preparar<br \/>\n    para as serenatas a casa do brasileiro e de v&aacute;rias personagens da terra,<br \/>\n    a quem era devido o cantar os Reis.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo sa&iacute;ra da sala. Fora para o fim da rua de sobreiros,<br \/>\n    anterior ao p&aacute;tio da quinta, esperar por Ermelinda para lhe dizer adeus.<\/p>\n<p> A medida que a noite se cerrava, parecia que se estendiam as sombras &agrave;<br \/>\n    fronte e ao cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz.<\/p>\n<p> Era a noite de Reis, a &uacute;ltima dos dias de f&eacute;rias; na manh&atilde;<br \/>\n    seguinte devia partir com o pai para Lisboa.<\/p>\n<p> Que amarguras as destas &uacute;ltimas horas ! que intensas saudades n&atilde;o<br \/>\n    se amontoam no cora&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as ao expirar o termo<br \/>\n    desse feliz espa&ccedil;o de tempo, que viveram para os carinhos da fam&iacute;lia<br \/>\n    e para os folguedos despreocupados ! Percebe-se em n&oacute;s mesmos aquela<br \/>\n    imin&ecirc;ncia de l&aacute;grimas, que &agrave; menor palavra rebentam.<\/p>\n<p> Quem n&atilde;o ter&aacute; recorda&ccedil;&otilde;es de inf&acirc;ncia<br \/>\n    a falar-lhe disto? O p&aacute;tio despovoara-se de gente ; atrav&eacute;s<br \/>\n    das vidra&ccedil;as da casa viam-se j&aacute; brilhar as luzes interiores.<br \/>\n    Com o olhar fito no ch&atilde;o, a cabe&ccedil;a inclinada, &Acirc;ngelo permanecia<br \/>\n    im&oacute;vel. Cortejavam-no, ao passar, homens e mulheres, sem que ele desse<br \/>\n    por isso.<\/p>\n<p> De repente voltou-se, porque ouviu atr&aacute;s de si uns passos conhecidos.<\/p>\n<p> Era Ermelinda, que voltava para casa. O pai ficara atr&aacute;s a p&ocirc;r<br \/>\n    em ordem as roupas e mais objectos que serviram no auto.<\/p>\n<p> &#8212; Esperava por ti, Ermelinda, para te dizer adeus &#8212; disse Angelo.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o vai-se embora ? &#8212; Vou amanh&atilde; &#8212; respondeu<br \/>\n    &Acirc;ngelo, com a voz presa de como&ccedil;&atilde;o, &#8212; Muito cedo<br \/>\n    ? &#8212; De madrugada.<\/p>\n<p> Os dois calaram-se por algum tempo, olhando para o lado.<\/p>\n<p> &#8212; E agora quando volta ? &#8212; Eu sei l&aacute;? agora&#8230; s&oacute;<br \/>\n    para Agosto.<\/p>\n<p> Novo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o&#8230; adeus&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Adeus, Ermelinda.<\/p>\n<p> E com a voz quase sumida e os olhos enevoados de l&aacute;grimas, Angelo<br \/>\n    estreitou contra o peito aquela que de pequena tratara como irm&atilde;, e<br \/>\n    que chorava ainda mais do que ele.<\/p>\n<p> Que melanc&oacute;lico fim de dia t&atilde;o alegre ! A este tempo uma sombra<br \/>\n    escura passou por eles e estacou.<\/p>\n<p> &#8212; Ermelinda ! &#8212; disse logo a voz esgani&ccedil;ada e col&eacute;rica,<br \/>\n    que saiu daquele vulto.<\/p>\n<p> Ermelinda estremeceu ao ouvi-la.<\/p>\n<p> Era a mulher do Z&eacute;-Pereira que voltava das suas devo&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e ficara surpreendida com o espect&aacute;culo que vira. A assustadi&ccedil;a<br \/>\n    castidade daquela matrona t&ocirc;da se alvoro&ccedil;ou com a tocante despedida<br \/>\n    das duas crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> Ermelinda aproximou-se, a tremer, da madrinha, que rudemente a agarrou pelo<br \/>\n    bra&ccedil;o e a levou consigo.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo esteve quase resolvido a ir tirar das m&atilde;os daquela harpia<br \/>\n    a inocente v&iacute;tima ; mas a chegada de Herodes estorvou- o.<\/p>\n<p> A Sr.&#8217; Catarina do Nascimento de S. ]o&atilde;o Baptista ia dizendo, ao<br \/>\n    levar consigo a afilhada: &#8212; Que ter&atilde;o ainda de ver meus olhos,<br \/>\n    meu Divino Pai do C&eacute;u? Que mundo este de abomina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meu doce Jesus ! &Oacute; Virgem das Dores, isto &eacute; para se ver e n&atilde;o<br \/>\n    se crer ! Uma crian&ccedil;a, uma crian&ccedil;a de dois dias, se pode dizer,<br \/>\n    e j&aacute; assim com a alma perdida ! Oh meu Jesus crucificado!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Minha madrinha &#8212; dizia Ermelinda, chorando.<\/p>\n<p> &#8212; Anda, anda, anda, minha amiga, que j&aacute; os dem&ocirc;nios saltam<br \/>\n    e riem de contentes. Teu pai &eacute; que tem a culpa. Isto s&atilde;o l&aacute;<br \/>\n    modos? trazer-te por entremezes, que s&atilde;o artes do demonio, e arredar-te<br \/>\n    da Igreja, que &eacute; a casa do Senhor! &Eacute; a missa dos domingos, e<br \/>\n    acabou se.<\/p>\n<p> Os resultados s&atilde;o estes !&#8230; Ai, filha, que muita penit&ecirc;ncia<br \/>\n    te &eacute; j&aacute; precisa para salvares a alma ! &#8212; Minha madrinha,<br \/>\n    minha madrinha, por as almas n&atilde;o me diga isso &#8212; exclamava Ermelinda<br \/>\n    aterrada.<\/p>\n<p> &#8212; Os tr&ecirc;s inimigos da alma te far&atilde;o guerra, criatura,<br \/>\n    assanhados como c&atilde;es raivosos&#8230; Eu previa isto&#8230; &Eacute; o lucro<br \/>\n    de andar por essas casas de Satan&aacute;s, onde n&atilde;o h&aacute; religi&atilde;o<br \/>\n    nem temor de Deus&#8230; Oh meu Divino Jesus, e para isto tanto padeceste por<br \/>\n    n&oacute;s ! E n&oacute;s t&atilde;o pouco caso fazemos dos vossos preceitos,<br \/>\n    meu doce Jesus, filho de Maria Virgem&#8230;<\/p>\n<p> Depois queixamo-nos da vossa justi&ccedil;a, quando j&aacute; ardemos nos<br \/>\n    fogos do Inferno !&#8230;<\/p>\n<p> A pequena Ermelinda tremia cada vez mais.<\/p>\n<p> A velha prosseguiu, em todo o caminho, nestas exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    bramando contra o pecado, contra a fam&iacute;lia do Mosteiro, que acoimava<br \/>\n    de hereges, contra o pai de Ermelinda e contra esta, e, no seu fervor religioso,<br \/>\n    desenvolvia sobre o tema do pecado disserta&ccedil;&otilde;es n&atilde;o em<br \/>\n    demasia apropriadas aos ouvidos de uma crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> O resultado foi apoderar-se da pequena Linda um excessivo terror. Das palavras<br \/>\n    da madrinha, que nem bem entendia, ficara-lhe uma horr&iacute;vel convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que tinha a alma perdida, e com l&aacute;grimas ardentes pagava a pobre<br \/>\n    crian&ccedil;a bem caro as alegrias daquela tarde, de que j&aacute; tinha<br \/>\n    remorsos. Este desalento e pavor quase a fizeram doente.<\/p>\n<p> Quando o pai voltou, estranhou-a. Ele, que vinha orgulhoso com os triunfos<br \/>\n    pr&oacute;prios e com os da filha, sobressaltou-se ao abra&ccedil;&aacute;-la,<br \/>\n    Interrogou-a ; pediu, ordenou ; nada p&ocirc;de saber que explicasse os vest&iacute;gios<br \/>\n    de l&aacute;grimas que descobria nela; se instava, provocava-lhe o pranto;<br \/>\n    desistiu pois.<\/p>\n<p> Pobre pai ! n&atilde;o p&ocirc;de dormir aquela noite ! Logo de madrugada<br \/>\n    teve de levantar-se, porque tinha de partir para o Porto em recovagem.<\/p>\n<p> Deixou Ermelirida a dormir; n&atilde;o a quis acordar; beijou-a na fronte<br \/>\n    desmaiada, aben&ccedil;oou-a e saiu.<\/p>\n<p> &#8212; Comadre &#8212; disse ao passar por casa do Z&eacute;-Pereira &#8212;<br \/>\n    a&iacute; lhe deixo a pequena. Olhe-me por ela, que n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    l&aacute; muito boa.<\/p>\n<p> &#8212; V&aacute; com Deus &#8212; disse uma voz de dentro.<\/p>\n<p> Era a Sr.a Catarina.<\/p>\n<p> O recoveiro partiu, silencioso e triste.<\/p>\n<p> XIX NO dia seguinte ao dos Reis partiram para Lisboa, como estava determinado,<br \/>\n    o conselheiro e &Acirc;ngelo, o que deu lugar no Mosteiro a muitas saudades,<br \/>\n    O conselheiro devia voltar somente por ocasi&atilde;o das elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    gerais que estavam pr&oacute;ximas.<\/p>\n<p> Alguns dias depois, num domingo em que se festejava na aldeia o padroeiro<br \/>\n    Santo Amaro, de quem reza a Igreja a quinze de Janeiro, estava Henrique de<br \/>\n    Souselas na sala de jantar de Alvapenha, escutando sua tia e Maria de Jesus,<br \/>\n    que ambas o entretinham com longas confer&ecirc;ncias de coisas de pouco interesse<br \/>\n    e &agrave;s quais ele ligava a m&iacute;nima aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Tinham acabado de jantar havia pouco tempo. A mesa conservava se ainda posta<br \/>\n    ; Henrique fumava um charuto, recostando-se para o espaldar da cadeira; D.<br \/>\n    Doroteia, de m&atilde;os cruzadas diante da cinta, falava; Maria de Jesus<br \/>\n    que, depois de p&ocirc;r em arranjo a cozinha, viera, segundo o costume patriarcal,<br \/>\n    tomar parte na sala na conversa do pospasto, auxiliava a mem&oacute;ria da<br \/>\n    ama sempre que esta emperrava, corrigia- lhe as involunt&aacute;rias e freq&uuml;entes<br \/>\n    inexactid&otilde;es em que a via cair.<\/p>\n<p> Henrique habituara-se j&aacute; a estes placid&iacute;ssimos h&aacute;bitos<br \/>\n    ; e, apesar de n&atilde;o ligar aten&ccedil;&atilde;o &agrave; conversa, ou<br \/>\n    por isso mesmo que lha n&atilde;o ligava, achava-lhe certas virtudes estomacais<br \/>\n    que lha tornavam agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p> Depois de muitas voltas, a conversa caiu sobre as ocorr&ecirc;ncias do auto<br \/>\n    dos Reis.<\/p>\n<p> &#8212; Eu ainda estou para saber como aquilo foi ! &#8212; dizia D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Quando me lembro ! como aquela rapariga falava ! &#8212; &Oacute;<br \/>\n    senhora ; olhe que j&aacute; me disseram que a pequena tinha esp&iacute;rito<br \/>\n    &#8212; disse Maria de Jesus, com ar de mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem o milagre I &#8212; respondeu D, Doroteia. &#8212; Por essa<br \/>\n    estou eu.<\/p>\n<p> &#8212; Diz que desde aquele dia anda amarela e triste, que nem parece a<br \/>\n    mesma.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o &eacute; mais do que certo.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, a tia Doroteia tamb&eacute;m com crendices!&#8212;disse Henrique,<br \/>\n    rindo. &#8212; Ent&atilde;o parece-lhe que traz esp&iacute;rito aquela crian&ccedil;a<br \/>\n    ? &#8212; Pois, menino, aquilo a falar a verdade ! &#8212; E n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais natural supor que algu&eacute;m lhe ensinou os tais versos ? &#8212;<br \/>\n    Mas quem? se o Pertunhas diz que os versos eram outros e at&eacute; que aqueles<br \/>\n    n&atilde;o calhavam bem nas loas? &#8212; O Pertunhas &eacute; um parvo. Houve<br \/>\n    algu&eacute;m que ensinou aquilo &agrave; pequena e at&eacute; suspeito com<br \/>\n    que fim.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, Sr. Henriquinho, olhe que ali anda coisa ruim. Tamb&eacute;m<br \/>\n    o filho do Ceboleiro, quando trazia o esp&iacute;rito, dizia coisas t&atilde;o<br \/>\n    bonitas que nem um livro. A senhora n&atilde;o se lembra? &#8212; Ora se me<br \/>\n    lembra ! &#8212; Digam-me &#8212; insistiu Henrique. &#8212; Quem h&aacute;<br \/>\n    aqui na aldeia que fa&ccedil;a versos? &#8212; Versos ! &#8212; repetiu a<br \/>\n    D. Doroteia, admirada. &#8212; Ningu&eacute;m, que eu saiba.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; senhora ! Ent&atilde;o o Jo&atilde;o do Trolha ? N&atilde;o<br \/>\n    deita t&atilde;o bonitos versos nos desafios? &#8212; Sem ser o Jo&atilde;o<br \/>\n    do Trolha &#8212; tornou Henrique, sorrindo.<\/p>\n<p> &#8212; Ai, n&atilde;o se ria, Sr. Henriquinho; olhe que os deita muito<br \/>\n    bem! Ainda no outro dia, na noite de Janeiras, n&atilde;o se lembra, senhora,<br \/>\n    dos versos que ele botou? Viva a senhora D. Doroteia.<\/p>\n<p> Paminho de bem-me-queres, Quando p&otilde;e a sua touca &Eacute; a rainha<br \/>\n    das mulheres.<\/p>\n<p> E depois a mim: Viva a senhora Maria, A p&eacute;rola das criadas, Quando<br \/>\n    se chega &agrave; &iexcl;anela Ficam as estrelas pasmadas.<\/p>\n<p> &#8212; Ora com o que voc&ecirc; vem, mulher ! N&atilde;o tinham as estrelas<br \/>\n    mais que fazer do que pasmarem &#8212; disse D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Isso &eacute; por dizer, senhora; j&aacute; se sabe que&#8230; sim&#8230;<br \/>\n    como o outro que diz&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; E al&eacute;m do Jo&atilde;o do Trolha, quem h&aacute; mais que<br \/>\n    fa&ccedil;a versos ? &#8212; perguntou Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Que eu saiba!&#8230; &#8212;disseram as duas.<\/p>\n<p> &#8212; E aquele Augusto ? &#8212; O Augustito do doutor? O filho! Coitado<br \/>\n    do pobre rapaz. Ele sim ! Credo ! N&atilde;o, aquilo &eacute; um rapaz de<br \/>\n    muito ju&iacute;zo. , &#8212; Isso n&atilde;o tira. Ent&atilde;o a tia julga<br \/>\n    que s&oacute; os tolos fazem versos ? &#8212; Tolos n&atilde;o digo, mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas um pouco feridos na asa, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8212;<br \/>\n    Ora pois ent&atilde;o diz-me tu, menino, se um homem s&eacute;rio&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p> um homem de respeito, faz versos? &#8212; Porque n&atilde;o ? &#8212; Versos<br \/>\n    ? ! &#8212; Versos, sim, senhora.<\/p>\n<p> D. Doroteia fez um gesto de incredulidade.<\/p>\n<p> Henrique ia redarguir, quando ouviram passos no patamar de pedra da entrada<br \/>\n    e ap&oacute;s algumas pancadas &agrave; porta da sala, &#8212; Abra, tia Doroteia<br \/>\n    &#8212; disseram de fora as vozes de Madalena e de Cristina, que foram logo<br \/>\n    reconhecidas.<\/p>\n<p> E cedo depois entravam alegremente na sala, em companhia de D, Vit&oacute;ria,<br \/>\n    que vinha mais retardada.<\/p>\n<p> D. Doroteia levantou-se para receb&ecirc;-las.<\/p>\n<p> &#8212; Bons dias ou boas tardes, tia Doroteia, porque me parece que j&aacute;<br \/>\n    jantaram. Vimos aqui para confiar aos seus cuidados a tia Vit&oacute;ria,<br \/>\n    que n&atilde;o nos quer acompanhar a ouvir a palavra eloquente do mission&aacute;rio<br \/>\n    &#8212; disse a morgadinha.<\/p>\n<p> &#8212; Eu n&atilde;o ; para apertos e barafundas &eacute; que nao estou.<\/p>\n<p> &#8212; E tu vais, Lena ? &#8212; perguntou D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? N&atilde;o quero passar por impenitente. Ainda o<br \/>\n    n&atilde;o ouvi.<\/p>\n<p> Pode crer ? Al&eacute;m de que percebi na Criste um fervor, com o qual quis<br \/>\n    condescender.<\/p>\n<p> &#8212; Dizem que prega t&atilde;o bem ! &#8212; atalhou Cristina.<\/p>\n<p> &#8212; Pois pregar&aacute;, mas eu &eacute; que j&aacute; n&atilde;o estou<br \/>\n    para serm&otilde;es &#8212; ponderou D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Vou eu tamb&eacute;m ouvir o mission&aacute;rio &#8212; disse Henrique,<br \/>\n    levantando- se. &#8212; J&aacute; mo mostraram h&aacute; dias. Se os dotes<br \/>\n    orat&oacute;rios do homem corresponderem &agrave; figura&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o ? &#8212; interrogou D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um homem gordo e vermelho, de pulso grosso e, em geral,<br \/>\n    tipo da grossura do pulso.<\/p>\n<p> &#8212; Pois bom &eacute; que v&aacute;s, menino &#8212; disse D. Doroteia<br \/>\n    &#8212; para acompanhares as pequenas.<\/p>\n<p> &#8212; como quiser, primo &#8212; acudiu Madalena &#8212; mas n&atilde;o<br \/>\n    se constranja.<\/p>\n<p> O Torcato tamb&eacute;m vai.<\/p>\n<p> &#8212; Que quer dizer? Que me dispensa? &#8212; N&atilde;o ; mas que se<br \/>\n    &eacute; s&oacute; por condescend&ecirc;ncia que&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; por prazer. &Eacute; por devo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Nesse caso&#8230;<\/p>\n<p> E Henrique foi procurar o chap&eacute;u para acompanhar as duas primas &agrave;<br \/>\n    igreja.<\/p>\n<p> O Santo Amaro fora festejado com espavento na treguesia da sua invoca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    V&eacute;speras, missa cantada, duplo serm&atilde;o, e prociss&atilde;o &agrave;<br \/>\n    volta da igreja, nada faltara para solenizar a festa.<\/p>\n<p> O serm&atilde;o da manh&atilde; fora pregado por o abade ; o da tarde havia<br \/>\n    sido concedido ao mission&aacute;rio, que o aproveitara para uma das suas<br \/>\n    catequeses.<\/p>\n<p> &#8226; A prociss&atilde;o j&aacute; tinha recolhido, quando chegaram &agrave;<br \/>\n    igreja a morgadinha e Cristina, na companhia de Henrique e Torcato. Havia<br \/>\n    no adro muita gente, e algumas barracas de doce e de caf&eacute;, como num<br \/>\n    arraial.<\/p>\n<p> Pela porta principal da igreja engolfava-se a multid&atilde;o, como em boca<br \/>\n    de sorvedouro, s&ugrave;bitamente aberto no leito de um rio, se precipitam<br \/>\n    as &aacute;guas impetuosas.<\/p>\n<p> A fama, que peias aldeias circunvizinhas apregoava o nome do mission&agrave;rio,<br \/>\n    atra&iacute;ra imensa gente a escutar o serm&atilde;o.<\/p>\n<p> As senhoras do Mosteiro romperam a custo por entre a compacta massa popular,<br \/>\n    que se amontoava &agrave; porta da igreja, e conseguiram, por defer&ecirc;ncia<br \/>\n    excepcional dos mes&aacute;rios, entrar Dela sacrist&iacute;a para a capela-mor.<\/p>\n<p> Tinha um aspecto melanc&oacute;lico o interior da igreja naquela ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p> Pobre de si e pouco alumiada, mais escura e l&ugrave;gubre parecia com a<br \/>\n    extraordin&aacute;ria quantidade de gente que a enchia, na maior parte mulheres<br \/>\n    de roupas escuras e em que s&oacute; alvejava o len&ccedil;o branco que usavam<br \/>\n    &agrave; cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p> Apesar da quadra ir fria, como de Janeiro que era, respirava-se ali dentro<br \/>\n    uma atmosfera quente, abafadi&ccedil;a e pouco salutar.<\/p>\n<p> Um surdo murm&uacute;rio formado por centenares de vozes rezando, a meio<br \/>\n    tom, ora&ccedil;&otilde;es e ladainhas, contrastava com as altas vozes de<br \/>\n    festa, que se escutavam l&aacute; fora, e requintava a triste impress&atilde;o<br \/>\n    que se recebia ao entrar. Ali um grupo de mulheres, de joelhos, escutavam<br \/>\n    a leitura de pias ora&ccedil;&otilde;es, que uma fazia em tom lutuoso, e respondiam<br \/>\n    em coro com padre-nossos e ave-marias ; al&eacute;m viam-se outras com as<br \/>\n    faces rojadas no ch&atilde;o, batendo no peito e desentranhando exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    para comoverem a Divindade ; outras em &ecirc;xtase, como Santas Teresas,<br \/>\n    de bra&ccedil;os abertos diante da imagem da Virgem; outras arnortalhadas,<br \/>\n    em cumprimento ,de promessa feita a algum santo. Cavados na espessura das<br \/>\n    paredes havia uns pequenos cub&iacute;culos, que serviam de confession&aacute;rios.<br \/>\n    &Agrave;s portas destes nichos, munidas de um crivo de folha, aderiam, como<br \/>\n    as lapas nos rochedos, os vultos escuros das penitentes, fazendo para dentro<br \/>\n    a circunstanciada exposi&ccedil;&atilde;o dos pecados da semana, e recebendo<br \/>\n    de l&aacute; regras de bem viver, preceitos de devo&ccedil;&atilde;o, &agrave;s<br \/>\n    vezes exagerada e inspirada de certa moral de conven&ccedil;&atilde;o, com<br \/>\n    que a ignor&acirc;ncia ou a m&aacute; f&eacute; porfiam em falsificar os simples<br \/>\n    e luminosos ditames da moral, que a consci&ecirc;ncia reconhece e que o Evangelho<br \/>\n    apregoa.<\/p>\n<p> &Agrave;s vezes despegava daquele crivo de pecados uma das confessadas ;<br \/>\n    e exausta de for&ccedil;as, abatida de &acirc;nimo, descrendo da miseric&oacute;rdia<br \/>\n    divina, ia cair com desalento nos degraus do altar de Deus, que o fanatismo<br \/>\n    cego, sen&atilde;o hip&oacute;crita, lhe pintara inexor&aacute;vel verdugo.<\/p>\n<p> Quando outra se n&atilde;o sucedia a esta, via-se rodar nos gonzos a pequena<br \/>\n    porta destes cub&iacute;culos, e sair de l&aacute; um padre de batina, socos<br \/>\n    e capote de cabe&ccedil;&atilde;o, satisfeito de si, e revendo-se naqueles<br \/>\n    corpos prostrados, naqueles gemidos surdos, naquelas l&aacute;grimas humedecendo<br \/>\n    o pavimento do templo, tristes ind&iacute;cios de desalento moral, com que<br \/>\n    conseguira quebrantar os ing&ecirc;nuos esp&iacute;ritos que dirigia pela<br \/>\n    intimida&ccedil;&atilde;o cruel.<\/p>\n<p> De tudo isto vinha o aspecto sombrio e l&ugrave;gubre &agrave; igreja, que<br \/>\n    nem as luzes dos altares, nem as sanefas e cortinas de damasco, que com tanta<br \/>\n    arte dispusera mestre Pertunhas, conseguiam dissipar.<\/p>\n<p> Henrique estava sendo desagradavelmente impressionado por o que via.<\/p>\n<p> Olhava com desgosto para aqueles sinais de um terror supersticioso, e sentia<br \/>\n    exacerbarem-se-lhe as preven&ccedil;&otilde;es que nutria contra o clero,<br \/>\n    cuja influ&ecirc;ncia moral, ali&aacute;s justa e vantajosa, &eacute; cada<br \/>\n    vez mais diminu&iacute;da por aqueles dos seus membros.que pretendiam aument&aacute;-la<br \/>\n    por meios impr&oacute;prios de sublimidade da sua miss&atilde;o e at&eacute;<br \/>\n    dos pre&ccedil;ei- ;os da religi&atilde;o, de que se dizem ministros.<\/p>\n<p> Henrique fez algumas reflex&otilde;es neste mesmo sentido a Madalena, que<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de deixar de apoi&aacute;-las, tanto mais que sabia o &acirc;nimo<br \/>\n    de Cristina, que os escutava, n&atilde;o de todo superior a este aparato terror&iacute;fico.<\/p>\n<p> A hora marcada para o serm&atilde;o aproximava-se; haviam-se j&aacute; evacuado<br \/>\n    os diferentes confession&aacute;rios, e o povo cada vez se apertava mais em<br \/>\n    todos os pontos da igreja e trasbordava para fora das portas do templo. Quem<br \/>\n    de dentro olhasse para a porta principal veria que a grande dist&acirc;ncia,<br \/>\n    na rua, se prolongava a multid&atilde;o.<\/p>\n<p> Apenas um confession&aacute;rio permanecia ainda ocupado. Havia mais de<br \/>\n    uma hora, que ali estacionava de joelhos uma penitente com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    coberta por a capa de pano, com que rodeava o crivo do confession&aacute;rio.<\/p>\n<p> Nem o menor movimento revelava anima&ccedil;&atilde;o naquele vulto.<\/p>\n<p> Henrique notara essa imobilidade, que ao princ&iacute;pio o fez sorrir ;<br \/>\n    depois causou-lhe espanto e acabou, enfim, por o indignar. Qual, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o foi a sua surpresa e a de Madalena, quando, ao terminar a confiss&atilde;o,<br \/>\n    reconheceram as fei&ccedil;&otilde;es da penitente por as de Ermelinda, a<br \/>\n    filha do Herodes, a formosa e amor&aacute;vel crian&ccedil;a, que, dias antes,<br \/>\n    tanto entusiasmo causara, agora p&aacute;lida, abatida, sem aqueles sorrisos<br \/>\n    nos l&aacute;bios, que tanta gra&ccedil;a lhe davam ! E era esta crian&ccedil;a<br \/>\n    que t&atilde;o longos pecados tinha a narrar, para assim ficar tanto tempo<br \/>\n    aos p&eacute;s do confessor? Ermelinda, vagarosa, tr&eacute;mula, tendo claros<br \/>\n    os vest&iacute;gios de l&aacute;grimas, e, como que enleada de vergonha, caminhou<br \/>\n    por entre os grupos de mulheres ajoelhadas na igreja e veio cair de joelhos<br \/>\n    ao lado da madrinha e cedo rojava com ela a fronte no ch&atilde;o, que regava<br \/>\n    de l&aacute;grimas ferventes.<\/p>\n<p> Pobre crian&ccedil;a ! Que negros crimes lavariam aquelas l&aacute;grimas<br \/>\n    ? Que culpas teria a expiar aquela inconsol&aacute;vel dor? O confession&aacute;rio<br \/>\n    de onde ela se afastara, abriu-se, enfim, e &agrave;s vistas, que para ali<br \/>\n    se voltaram, mostrou um padre gordo, corado, de olhos e fronte pequenos, cabelos<br \/>\n    grisalhos, rompendo-lhe a um dedo das sobrancelhas. O homem parou algum tempo<br \/>\n    a fitar o audit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Espalhou-se no templo um sussurro particular ; um movimento comum animou<br \/>\n    aquelas cabe&ccedil;as todas, quando este homem apareceu.<\/p>\n<p> Era o mission&aacute;rio.<\/p>\n<p> A sua passagem para a sacrist&iacute;a foi uma passagem verdadeiramente<br \/>\n    triunfal. Curvaram-se at&eacute; ao ch&atilde;o as beatas, beijando-lhe a<br \/>\n    m&atilde;o ou as borlas da batina, e pedindo-lhe a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que ele distribu&iacute;a com profus&atilde;o.<\/p>\n<p> Mas a meio caminho da sacrist&iacute;a, para onde se dirigia, surgiu- -lhe<br \/>\n    quase do ch&atilde;o um estorvo.<\/p>\n<p> Z&eacute;-Pereira, o desconfortado marido, estava diante dele, gesticulando<br \/>\n    e realizando um tr&iacute;plice e admir&aacute;vel esfor&ccedil;o para firmar<br \/>\n    as pernas, para abrir os olhos, e para desembara&ccedil;ar a l&iacute;ngua.<\/p>\n<p> Dizia o homem: &#8212; &Oacute; sr. aquele&#8230; &oacute; sr. padre, ou mission&aacute;rio,<br \/>\n    ou l&aacute; o que &eacute;&#8230;<\/p>\n<p> eu quero-lhe perguntar uma coisa. Deus disse&#8230; sim, Deus disse&#8230;<\/p>\n<p> A religi&atilde;o manda&#8230; Quando um homem se casa&#8230;<\/p>\n<p> O mission&aacute;rio n&atilde;o esperou pelo fim da inesperada interpela&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    com modos rudes e pulso vigoroso arredou de si o atrevido, e bradou, fulo<br \/>\n    de c&oacute;lera : &#8212; Ent&atilde;o que desaforo &eacute; este ? Deixam<br \/>\n    um homem neste estado vir ter comigo ? ! E com maneiras e palavras igualmente<br \/>\n    &aacute;speras imp&ocirc;s sil&ecirc;ncio ao povo, que rira do desengano do<br \/>\n    Z&eacute;-Pereira. Os mordomos acudiram logo para afastarem o Z&eacute;-Pereira<br \/>\n    dali para fora. Ele deixou-se ir, limitando- se a dizer mansamente : &#8212;<br \/>\n    Ora, senhores, que &eacute; forte desgra&ccedil;a a minha ! Ent&atilde;o uma<br \/>\n    pessoa n&atilde;o pode dizer o que sente? Ia ele j&aacute; fora da igreja<br \/>\n    e ainda se lhe ouvia a voz repetir: &#8212; Ora, senhores, que &eacute; forte<br \/>\n    desgra&ccedil;a a minha! Quando depois desta cena, o mission&aacute;rio passou<br \/>\n    por Henrique, murmurou este em voz percept&iacute;vel, ao ouvido da morgadinha:<br \/>\n    &#8212; Diga se este todo e este modo de tratar ovelhas n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mais de magarefe do que de pastor? O mission&aacute;rio ouviu estas palavras,<br \/>\n    pois que se voltou como se uma v&iacute;bora o picasse, e faiscou-lhe no olhar<br \/>\n    o fulgor de um &oacute;dio farisaico.<\/p>\n<p> Henrique arrostou-o com aud&aacute;cia provocadora.<\/p>\n<p> O padre entrou para a sacrist&iacute;a.<\/p>\n<p> No entretanto o audit&oacute;rio dispunha-se para escutar o serm&atilde;o,<br \/>\n    o mais comodamente que era possivel naquele pequeno recinto.<\/p>\n<p> No fim de alguns minutos aparecia no p&uacute;lpito a figura bem nutrida<br \/>\n    e pouco atraente do famigerado educador dos povos.<\/p>\n<p> Fitou com sobranceria os ouvintes e com particular insist&ecirc;ncia fixou<br \/>\n    em Henrique, que lhe ficava fronteiro, um olhar, que ele sustentou com firmeza.<\/p>\n<p> Esta t&aacute;cita provoca&ccedil;&atilde;o durou alguns minutos, no fim<br \/>\n    dos quais poderia talvez, quem estivesse prevenido, distinguir nos l&aacute;bios<br \/>\n    do padre um sorriso rancoroso e perceber-lhe um movimento de cabe&ccedil;a<br \/>\n    quase amea&ccedil;ador.<\/p>\n<p> Enfim soltou o texto latino do serm&atilde;o.<\/p>\n<p> Seguiu-se nova pausa, e principiou.<\/p>\n<p> Apesar do exemplo de Sterne, que n&atilde;o duvidou entressachar nas p&aacute;ginas<br \/>\n    humor&iacute;sticas da Vida e opini&otilde;es de Tristam Shandy, um sern&atilde;o<br \/>\n    sobre a consci&ecirc;ncia, eu n&atilde;o ouso transcrever para aqui o modelo<br \/>\n    e eloq&uuml;&ecirc;ncia sacra, recitado pelo mission&aacute;rio naquele dia.<\/p>\n<p> Ainda se eu pudesse transmitir aos leitores o tom rouco de voz, extravag&acirc;ncia<br \/>\n    de gestos, o decomposto dos movimentos com que o orador acompanhava recita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos descosidos per&iacute;odos daquela indigesta pr&aacute;tica, talvez me<br \/>\n    animasse &agrave; empresa, para lhes dar um exemplo da vigorosa eloq&uuml;&ecirc;ncia,<br \/>\n    com que se anda atrasando a civiliza&ccedil;&atilde;o do povo e prejudicando<br \/>\n    a verdadeira religi&atilde;o, a despeito dos bons sacerdotes, cuja voz &eacute;<br \/>\n    abafada por aquela gritaria.<\/p>\n<p> As mais t&eacute;tricas e pavorosas imagens adornavam o discurso.<\/p>\n<p> Era o enxofre a ferver, o chumbo derretido, as caldeiras de pez, as fornalhas<br \/>\n    ardentes, in&uacute;meras torturas, a que o menor delito, tal como um jejum<br \/>\n    mal guardado, uma confiss&atilde;o malfeita, uma involunt&aacute;ria falta<br \/>\n    missa, uma penit&ecirc;ncia esquecida, uma ora&ccedil;&atilde;o suprimida,<br \/>\n    arriscava as almas por t&ocirc;da a eternidade. Para cada pecado venial uma<br \/>\n    perspectiva de tormentos sem fim. O tribunal de Deus foi arvorado em tribunal<br \/>\n    ,de Santo Of&iacute;cio, onde os autos-de-f&eacute;, os potros, e cavaletes<br \/>\n    guardavam os delinq&uuml;entes arrastados at&eacute; ali ; eis o resumo da<br \/>\n    ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A fatal e desesperadora senten&ccedil;a, que o poeta florentino esculpiu<br \/>\n    no p&oacute;rtico do Inferno, tra&ccedil;ava-a este sobre os umbrais do tribunal<br \/>\n    do Eterno.<\/p>\n<p> Na escultura de Cristo, obra rude do buri! popular, mostrava o vulto de<br \/>\n    um acusador, surgindo ali a pedir vingan&ccedil;a, e n&atilde;o o do Redenor<br \/>\n    sublime a implorar e prometer perd&atilde;o. E tudo isto de mistura com impreca&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    contra as modernas institui&ccedil;&otilde;es sociais, contra a obra do s&eacute;culo,<br \/>\n    contra os descobrimentos, contra a ci&ecirc;ncia, contra tudo em que e descobrisse<br \/>\n    o cunho da &eacute;poca e que tendesse a modificar os costumes e as id&eacute;ias<br \/>\n    em sentido menos favor&aacute;vel &agrave; propaganda reaccionaria.<\/p>\n<p> A medida que a ora&ccedil;&atilde;o progredia, animava-se a voz do orador;<br \/>\n    aumentava a desordem dos gestos e refinava a selvageria das imagens.<\/p>\n<p> Ao mesmo tempo os gemidos, os solu&ccedil;os e os ais do audit&oacute;rio,<br \/>\n    e principalmente da parte feminina dele iam crescendo em choro mani&egrave;sto,<br \/>\n    em gritos e alaridos. Cedo era j&aacute; um angustioso clamor em t&ocirc;da<br \/>\n    igreja. Madalena, que se sentia, ela pr&oacute;pria, um pouco impressionada<br \/>\n    )or este espect&aacute;culo de desola&ccedil;&atilde;o, voltou os olhos para<br \/>\n    Cristina. Viu-a tr&eacute;mula, p&aacute;lida, com as faces banhadas em l&aacute;grimas,<br \/>\n    tendo no gesto todos os sinais de um intenso pavor.<\/p>\n<p> Assustada com o estado da prima, a morgadinha fez not&aacute;-lo a Henrique,<br \/>\n    e t&agrave;citamente lhe comunicou as apreens&otilde;es que sentia.<\/p>\n<p> Henrique compreendeu a necessidade de dissipar a funesta influ&ecirc;ncia<br \/>\n    que se estava exercendo no &acirc;nimo t&iacute;mido de Cristina.<\/p>\n<p> Sentou-se por isso junto das duas raparigas e principiou a disra&iacute;-<br \/>\n    las com coment&aacute;rios sat&iacute;ricos &agrave;s palavras do serm&atilde;o<br \/>\n    e &agrave; figura do orador, que ambas ofereciam farto alimento para eles.<\/p>\n<p> Da&iacute; a pouco Madalena instava j&aacute; com Henrique para que se calasse.<\/p>\n<p> Previa o perigo que poderiam correr, persistindo naqueles coment&aacute;rios<br \/>\n    impr&oacute;prios do lugar.<\/p>\n<p> Efectivamente n&atilde;o tinham passado despercebidos do padre os coment&aacute;rios<br \/>\n    de Henrique, nem os sorrisos mal disfar&ccedil;ados de Madalena; e a raiva<br \/>\n    despertada pela descoberta cada vez inflamava mais o orador, exacerbando-lhe<br \/>\n    a virul&ecirc;ncia da frase.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o podia tirar os olhos daquele grupo, e por vezes a c&oacute;lera<br \/>\n    estrangulando-lhe quase a laringe, interrompera-lhe o discurso.<\/p>\n<p> Alguns ouvintes, seguindo a direc&ccedil;&atilde;o daqueles olhares faiscantes,<br \/>\n    haviam atingido j&aacute; a causa deles.<\/p>\n<p> Da&iacute; algumas murmura&ccedil;&otilde;es que principiaram a sussurrar<br \/>\n    pela igreja.<\/p>\n<p> No grupo das beatas, em que estava Ermelinda, foram elas mais acerbas do<br \/>\n    que nenhumas. A Sr.a Catarina e as suas companheiras fartaram-se de anatematizar<br \/>\n    a impiedade e a heresia da gente do Mosteiro, e no cora&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    filha do Cancela, dominado pelo terror que o serm&atilde;o levara ao c&uacute;mulo,<br \/>\n    calavam aqueles dizeres, que a faziam quase olhar, como se fossem j&aacute;<br \/>\n    presas do Inferno, para Madalena e Cristina, a irm&atilde; e a prima de &Acirc;ngelo,<br \/>\n    do- seu amigo de inf&acirc;ncia, em.quem j&aacute; n&atilde;o se atrevia a<br \/>\n    pensar.<\/p>\n<p> Numa ocasi&atilde;o em que o mission&aacute;rio fulminava com mais veem&ecirc;ncia<br \/>\n    os progressos da ind&uacute;stria moderna e chamava redes do Dem&ograve;nio<br \/>\n    e caminhos do Inferno aos tel&eacute;grafos el&eacute;ctricos e &agrave;s<br \/>\n    vias f&eacute;rreas, Henrique aproximando-se dos ouvidos das duas primas,<br \/>\n    fez n&atilde;o sei que reflex&atilde;o tanto a prop&oacute;sito, que a morgadinha<br \/>\n    n&atilde;o conteve o riso ; a pr&oacute;pria Cristina sorriu tamb&eacute;m.<\/p>\n<p> Era de mais ! O padre pulou no p&uacute;lpito. com os olhos em chamas, as<br \/>\n    faces apopl&eacute;cticas, os l&aacute;bios espumantes, os punhos cerrados<br \/>\n    e os bra&ccedil;os hirtos e estendidos na direc&ccedil;&atilde;o de Henrique,<br \/>\n    rompeu nestes violentos termos: &#8212; Fora do templo, pedreiros-livres,<br \/>\n    que vindes aqui escarnecer da palavra do Senhor ! Fora do templo, &iacute;mpios<br \/>\n    libertinos, que n&atilde;o respeitais os ministros de Deus, nem o seu altar<br \/>\n    ! Andam lobos no povoado e vieram esconder-se entre as ovelhas na casa do<br \/>\n    Senhor ! Escorra&ccedil;ai- os, irm&atilde;os, se n&atilde;o quer&eacute;is<br \/>\n    que se vos pegue a lepra do pecado e que Deus arrase esta aldeia, como arrasou<br \/>\n    Comorra e Sodoma. S&atilde;o esses os que trazem das cidades a peste para<br \/>\n    as aldeias ; s&atilde;o estas as pragas que nos v&ecirc;m com as estradas<br \/>\n    e com a civiliza&ccedil;&atilde;o. Fugi deles, que trazem o Dem&ocirc;nio<br \/>\n    na alma! Homens sem religi&atilde;o, mulheres sem temor de Deus, ma&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pedreiros-livres, vindes para aqui tentar as almas? Eu vos esconjuro! eu vos<br \/>\n    requeiro! Vade-retro!, Satan&aacute;s, vade- -retro ! vade-retro !&#8230;<\/p>\n<p> E de cada vez que repetia a f&oacute;rmula exorcista, o mission&aacute;rio<br \/>\n    estendia o bra&ccedil;o na direc&ccedil;&atilde;o de Henrique.<\/p>\n<p> Este, desde que viu que a impreca&ccedil;&atilde;o lhe era dirigida, levantou-se<br \/>\n    e fitou o padre com ousadia imprudente. Preparava-se para lhe responder ali<br \/>\n    mesmo.<\/p>\n<p> Quando o mission&aacute;rio concluiu, o sussurro da igreja degenerou m desordem.<br \/>\n    Das beatas transmitiu-se a revolta aos homens do campo, cuja m&atilde; vontade,<br \/>\n    para com a gente das cidades, cresce sempre que e suspeitam alvo dos desd&eacute;ns<br \/>\n    ou zombarias desta. As amea&ccedil;as soavam &aacute; distintas, os varapaus<br \/>\n    mexiam-se pouco pacificamente, o esc&acirc;ndalo ornara propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    assustadoras.<\/p>\n<p> Cristina quase desfalecia; Madalena, p&aacute;lida, mas sem perder a presen&ccedil;a<br \/>\n    de esp&iacute;rito, que nunca a abandonava, segurou o bra&ccedil;o de Henrique<br \/>\n    e queria obrig&aacute;-lo a retirar-se da igreja.<\/p>\n<p> Henrique resistia e procurava falar.<\/p>\n<p> O velho Torcato, tr&eacute;mulo e enfiado, puxava tamb&eacute;m por ele<br \/>\n    como podia.<\/p>\n<p> O alarido, a confus&atilde;o, a desordem recrudesciam. O padre tinha perdido<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, e do p&uacute;lpito animava a anarquia, berrando e bocejando.<\/p>\n<p> Alguns homens prudentes, e entre eles o santo homem de um cura que havia<br \/>\n    na freguesia, obrigaram, quase &agrave; for&ccedil;a, Henrique a sair da igreja<br \/>\n    por a porta da sacrist&iacute;a.<\/p>\n<p> Ao v&ecirc;-lo retirar, acompanhado das senhoras, o povo precipitou- se<br \/>\n    em confus&atilde;o para a porta principal, para os vir esperar &agrave; sa&iacute;da<br \/>\n    da sacristia, e correu clamando atordoadoramente.<\/p>\n<p> E defeito, quando ali chegaram, viram-se em frente de uma impenetr&aacute;vel<br \/>\n    parede humana, de centenares de rostos que os fitavam furiosos, de bra&ccedil;os<br \/>\n    que os amea&ccedil;avam, e de bocas de onde partiam gritos de &laquo;morte<br \/>\n    aos pedreiros-livres, aos libertinos e aos hereges&raquo;.<\/p>\n<p> Madalena recuou ; Cristina encostou-se-lhe ao ombro, quase desmaiada.<\/p>\n<p> Henrique parou &agrave; porta, p&aacute;lido, mas sem recuar diante daquela<br \/>\n    gente furiosa e amea&ccedil;adora.<\/p>\n<p> &#8212; Que querem de mim e destas senhoras ? &#8212; perguntou ele, com<br \/>\n    voz firme.<\/p>\n<p> Em vez de responder-lhe, berraram com mais viol&ecirc;ncia: &#8212; Morra<br \/>\n    o pedreiro-livre ! &#8212; Ensinem esses senhores da cidade I &#8212; Pouca-vergonha<br \/>\n    ! &#8212; Isto n&atilde;o fica assim ! Isto &eacute; de maia ! &#8212; Ma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ! &#8212; Herege ! &#8212; Quero passar ! &#8212; repetiu Henrique, no mesmo<br \/>\n    tom imperioso.<\/p>\n<p> &#8212; Havemos de ensinar estes fidalgos.<\/p>\n<p> &#8212; Excomungados ! &#8212; Havemos de lhes dar os risinhos na igreja.<\/p>\n<p> Henrique n&atilde;o podia j&aacute; reprimir a impetuosidade do g&ecirc;nio;<br \/>\n    deu um passo para eles, levantando o chicote que trazia na m&atilde;o.<\/p>\n<p> Era uma imprud&ecirc;ncia perigosa. Num momento uma verdadeira nuvem de<br \/>\n    varapaus cruzou-se sobre a cabe&ccedil;a dele.<\/p>\n<p> E os gritos de &laquo;morra! mata! abaixo os pedreiros-livres e hereges<br \/>\n    ! &raquo; levantaram-se mais amea&ccedil;adores do que antes. Madalena susteve,<br \/>\n    a tremer, o bra&ccedil;o de Henrique.<\/p>\n<p> E o tumulto crescia cada v&ecirc;z mais e cada v&ecirc;z mais aumentava<br \/>\n    o perigo.<\/p>\n<p> uma grande pedra, impelida de longe, veio bater na verga porta da sacrist&iacute;a,<br \/>\n    e na queda amea&ccedil;ava ferir a cabe&ccedil;a de uma crian&ccedil;a que,<br \/>\n    entremetendo-se no grupo dos amotinadores, conseguira colocar- se junto de<br \/>\n    Madalena, e de olhos espantados assistia &agrave;quilo tudo com infantil curiosidade,<br \/>\n    enquanto a m&atilde;e aflita a chamava em altos gritos, procurando-a no adro.<br \/>\n    A morgadinha, estendendo as m&atilde;os para proteger a cabe&ccedil;a da crian&ccedil;a,<br \/>\n    foi ferida nos dedos pela pedra. com gesto sereno, e em tom desafectadamente<br \/>\n    repreensivo e ao mesmo tempo pl&aacute;cido, disse para t&ocirc;da aquela<br \/>\n    gente : &#8212; N&atilde;o v&ecirc;em que iam matando esta crian&ccedil;a<br \/>\n    ? Esta simples ac&ccedil;&atilde;o, e estas palavras da morgadinha, produziram<br \/>\n    mais efeito do que todos os arrazoados e todas as resist&ecirc;ncias. Havia<br \/>\n    nelas claros ind&iacute;cios de uma &iacute;ndole generosa, e a generosidade<br \/>\n    foi e ser&aacute; sempre um dos mais poderosos elementos para dominar e comover<br \/>\n    as massas. Sabem-no os especuladores pol&iacute;ticos, que tanto se esfor&ccedil;am<br \/>\n    por simul&aacute;-la, quando precisam do povo.<\/p>\n<p> &#8212; Quem foi que atirou a pedra ? &#8212; perguntou um.<\/p>\n<p> &#8212; Temos tolice ! &#8212; Nada de pedra, ol&aacute; ! &#8212; Ent&atilde;o<br \/>\n    isto &eacute; coisa de garotos ! Estava a quebrar-se a f&uacute;ria da onda<br \/>\n    popular. Os que antes gritavam &laquo;morra&raquo; achavam j&aacute; repreens&iacute;vel<br \/>\n    a primeira tentativa de lapida&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E contudo era a pedra a arma mais pronta para executar a senten&ccedil;a.<\/p>\n<p> Era evidente que o maior perigo passara e que um pouco de prud&ecirc;ncia<br \/>\n    resolveria a crise.<\/p>\n<p> O pior era que Henrique possu&iacute;a em pequeno grau essa qualidade, e,<br \/>\n    irritado pelo insulto, ia cometer talvez algum acto irreflectido, apesar dos<br \/>\n    esfor&ccedil;os de Cristina e de Torcato para o reprimirem.<\/p>\n<p> uma circunst&acirc;ncia, por&eacute;m, veio inesperadamente em aux&iacute;lio<br \/>\n    deles, e concorreu para dissipar a tempestade.<\/p>\n<p> Foi o caso que, depois de ser posto fora da igreja o Z&eacute;-Pereira,<br \/>\n    que, pelas raz&otilde;es que o leitor j&aacute; sabe, e ainda mais depois<br \/>\n    do malogro da interpela&ccedil;&atilde;o ao mission&aacute;rio, n&atilde;o<br \/>\n    olhava com bons olhos para este, veio desconsoladamente sentar-se no adro,<br \/>\n    sobre os degraus de um cruzeiro, tendo ao seu lado o popular tambor, instrumento<br \/>\n    das suas gl&oacute;rias, e que ainda naquele dia servira &agrave; frente da<br \/>\n    prociss&atilde;o.<\/p>\n<p> A&iacute; se conservou enquanto durou o serm&atilde;o. Junto do artista<br \/>\n    deitara- se a dormir o seu sat&eacute;lite, o rapaz do bombo, o que, a passadas<br \/>\n    compassadas e valentes, secundava os rufos r&aacute;pidos e febris que o outro<br \/>\n    executava na caixa &#8212; pancadas que eram, por assim dizer, as v&iacute;rgulas<br \/>\n    daqueles floridlssimos per&iacute;odos ac&uacute;sticos.<\/p>\n<p> Em posi&ccedil;&atilde;o de cansa&ccedil;o e desalento o Z&eacute;-Pereira<br \/>\n    monologava, como era h&aacute;bito seu, sempre que tinha o c&eacute;rebro<br \/>\n    repassado do espirito familiar.<\/p>\n<p> Lamentava consigo, o bom do homem, o desmazelo dom&eacute;stico da sua cara-metade<br \/>\n    ; a influ&ecirc;ncia funesta dos mission&aacute;rios na paz das fam&iacute;lias,<br \/>\n    e sobretudo a indiferen&ccedil;a que principiava a perceber nas massas para<br \/>\n    as maravilhas do predilecto instrumento, que ele conhecia a preceito.<\/p>\n<p> Era de facto esta uma das causas dos pesares secretos do hortel&atilde;o.<\/p>\n<p> Desde que, por influ&ecirc;ncia do mestre Pertunhas, se institu&iacute;ra<br \/>\n    a filarm&oacute;nica na aldeia, Z&eacute;-Pereira andava triste e desassossegado.<\/p>\n<p> Naquilo viu ele a morte da sua arte. Um ceci tuera cela, como o que preocupava<br \/>\n    e entristecia o arcediago de Notre-Dame de Paris, analogamente inquietava<br \/>\n    o nosso homem. O esp&iacute;rito e gosto p&uacute;blico entravam em nova fase,<br \/>\n    preparava-se uma revolu&ccedil;&atilde;o na arte. O reformado era o mestre<br \/>\n    Pertunhas ; instituindo a banda marcial, verdadeira extravag&acirc;ncia rom&acirc;ntica<br \/>\n    comparada &agrave; simplicidade e nobreza cl&aacute;ssica dos portentosos<br \/>\n    rufos do Z&eacute;-Pereira, o mestre de latim realizou um cometimento digno<br \/>\n    de men&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria da arte.<\/p>\n<p> Pobre Z&eacute;-Pereira! Estas reflex&otilde;es estavam-lhe acudindo todas,<br \/>\n    e mantinham-no, havia perto de uma hora, em uma posi&ccedil;&atilde;o contemplativa<br \/>\n    diante do tombado instrumento de seus ruidos&iacute;ssimos triunfos. Lia-se<br \/>\n    naqueles olhares fixos uma melancolia quase po&eacute;tica.<\/p>\n<p> Nesta contempla&ccedil;&atilde;o o surpreendeu a tumultuosa e s&uacute;bita<br \/>\n    sa&iacute;da do povo pela porta da igreja, e as cenas de motim que se lhe<br \/>\n    seguiram.<\/p>\n<p> A intelig&ecirc;ncia perra de Z&eacute;-Pereira n&atilde;o achou logo a<br \/>\n    explica&ccedil;&atilde;o do que via. Pouco a pouco por&eacute;m os varapaus<br \/>\n    no ar, os gritos, a confus&atilde;o, principiaram a dar-lhe uma vaga consci&ecirc;ncia<br \/>\n    da desordem popular.<\/p>\n<p> Os instintos ordeiros e pac&iacute;ficos de Z&eacute;-Pereira acordaram,<br \/>\n    e o homem ergueu-se.<\/p>\n<p> Olhou algum tempo para o lugar do maior tumulto, e em seguida passou ao<br \/>\n    tiracolo a al&ccedil;a do tambor.<\/p>\n<p> Olhou outra vez, e com um pontap&eacute; acordou o seu sat&eacute;lite,<br \/>\n    que, estremunhado, tomou autom&agrave;ticamente para si o bombo do acompanhamento.<\/p>\n<p> Olhou outra vez, e viu nos ares a pedra que feriu Madalena. Ent&atilde;o<br \/>\n    o Z&eacute;-Pereira n&atilde;o esperou mais nada, tomou uma resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fez um sinal ao rapaz, e ..<\/p>\n<p> Pom &#8212; fez a baqueta deste, caindo com t&ocirc;da a for&ccedil;a sobre<br \/>\n    a retesada superf&iacute;cie do bombo.<\/p>\n<p> Tapl&atilde;o, tapl&atilde;o, ratapl&atilde;o, ratapl&atilde;o&#8230;&#8212;responderam<br \/>\n    as baquetas movidas pelas amestradas m&atilde;os do Z&eacute;-Pereira.<\/p>\n<p> Muitas cabe&ccedil;as de amotinados voltaram-se na direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do som.<\/p>\n<p> O Z&eacute;-Pereira prosseguiu; adquiria cada vez mais velocidade o jogo<br \/>\n    das baquetas; come&ccedil;ava a ganh&aacute;-lo o vapor do entusiasmo.<\/p>\n<p> Principiou a acudir o povo para junto do artista.<\/p>\n<p> Este tomara-se j&aacute; do raptus, do frenesi musical. J&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    eram s&oacute; as m&atilde;os, eram os cotovelos, eram os joelhos, era a cabe&ccedil;a<br \/>\n    que rufavam.<\/p>\n<p> De olhos fechados, dentes ferrados nos l&aacute;bios, ventas ofegantes,<br \/>\n    contra&iacute;dos quase tit&agrave;nicamente os m&uacute;sculos do pesco&ccedil;o,<br \/>\n    a verg&aacute;-lo para tr&aacute;s, Z&eacute;-Pereira parecia endemoninhado.<br \/>\n    N&atilde;o via, n&atilde;o ouvia, n&atilde;o sentia, n&atilde;o tinha consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de si, nem dos seus actos ; todo ele era fogo, del&iacute;rio, convuls&atilde;o,<br \/>\n    febre, loucura. Parecia que poderosas correntes el&eacute;ctricas se transmitiam<br \/>\n    do tambor ao c&eacute;rebro, e do c&eacute;rebro ao tambor, desafiando aqueles<br \/>\n    movimentos choreicos, aqueles grunhidos surdos, aquelas visagens extravagantes,<br \/>\n    aquelas contrac&ccedil;&otilde;es gerais, que o torciam, desconjuntavam e<br \/>\n    desfiguravam.<\/p>\n<p> Vencera-o completamente a febre ; sangue, nervos, m&uacute;sculos, c&eacute;rebro,<br \/>\n    tudo era dom&iacute;nio seu ; congestionado, alucinado, louco, rufou, rufou,<br \/>\n    rufou com desespero, rufou at&eacute; as baquetas se n&atilde;o avistarem,<br \/>\n    de r&aacute;pidas que se moviam; rufou at&eacute; o ouvido quase n&atilde;o<br \/>\n    perceber a descontinuidade dos sons ; rufou finalmente at&eacute; cair por<br \/>\n    terra exausto, no colapso que sucede &agrave;s convuls&otilde;es do espasmo.<br \/>\n    Se tinha de ser aquele o declinar de uma gl&oacute;ria, todos os astros lhe<br \/>\n    invejariam t&atilde;o espl&ecirc;ndido crep&uacute;sculo O povo inteiro aplaudiu<br \/>\n    o artista.<\/p>\n<p> E quando voltaram a si do &ecirc;xtase em que ele os tivera, acharam j&aacute;<br \/>\n    fechadas as portas da sacrist&iacute;a e nem vest&iacute;gios da fam&iacute;lia<br \/>\n    do Mosteiro.<\/p>\n<p> O povo dispersou pacificamente.<\/p>\n<p>&#8212; Foi isso que jurou, ou antes que n&atilde;o procuraria ser visto<br \/>\n    ? &#8212; perguntou Madalena, sorrindo. &#8212; Veja qual desses juramentos<br \/>\n    ser&aacute; mais em harmonia com os seus actos.<\/p>\n<p> A lembran&ccedil;a da excurs&atilde;o nocturna aos Canaviais, para espiar<br \/>\n    Madalena, tirou a Augusto o &acirc;nimo de responder.<\/p>\n<p> Madalena compreendeu aquele embara&ccedil;o, e n&atilde;o insistiu.<\/p>\n<p> &#8212; Mas suponhamos que assim foi ; visto isso, parte para buscar as<br \/>\n    provas da sua justifica&ccedil;&atilde;o? &#8212; N&atilde;o, minha senhora,<br \/>\n    parto, porque desisto dela. Basta-me estar justificado para com a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o tem direito de o fazer. uma alma, que &eacute; nobre,<br \/>\n    deve homenagem a si pr&oacute;pria. Resignar-se &agrave; suspeita, &eacute;<br \/>\n    como um suic&iacute;dio moral.<\/p>\n<p> &#8212; Justamente, minha senhora; e n&atilde;o concebe que haja casos em<br \/>\n    que o suic&iacute;dio seja natural? &#8212; Meu Deus, Augusto &#8212; exclamou<br \/>\n    &Acirc;ngelo &#8212; como eu o estranho ! o que o levou a esse desespero ?<br \/>\n    A morgadinha sorria, ao responder ao irm&atilde;o : &#8212; &Eacute; uma febre<br \/>\n    que passa, ver&aacute;s. Quer que lhe fale com franqueza, Sr. Augusto? Tenho<br \/>\n    um secreto pressentimento a dizer-me que, apesar dessa descren&ccedil;a, apesar<br \/>\n    dessa carta, e apesar de estar por minutos o momento da partida, n&atilde;o<br \/>\n    s&oacute; n&atilde;o partir&aacute;, mas at&eacute; h&aacute;-de tomar parte<br \/>\n    na nossa primeira festa de fam&iacute;lia, a do pr&oacute;ximo casamento de<br \/>\n    Cristina.<\/p>\n<p> Estas &uacute;ltimas palavras fizeram impress&atilde;o em Augusto, que instintivamente<br \/>\n    repetiu: &#8226;&#8212; Do pr&oacute;ximo casamento de Cristina ? ! &#8212;<br \/>\n    Pois n&atilde;o sabia que Cristina vai casar ? &#8212; perguntou Madalena<br \/>\n    com a maior naturalidade, mas fitando os olhos em Augusto. &#8212; &Eacute;<br \/>\n    verade, o Sr. Henrique de Souselas teve pressa de legitimar o t&iacute;tulo<br \/>\n    de irimos, com que arbitrariamente nos trat&aacute;vamos.<\/p>\n<p> Augusto olhou para Madalena, com indefinivel express&atilde;o, dizendo :<br \/>\n    &#8212; Qu&ecirc;?&#8230; pois &eacute; com Cristina&#8230; pois Henrique vai casar<br \/>\n    com&#8230;<\/p>\n<p> S&oacute; depois de lhe romperem dos l&aacute;bios estas palavras, &eacute;<br \/>\n    que, reconhecendo a indiscri&ccedil;&atilde;o da sua surpresa, acrescentou<br \/>\n    com mal simulada indiferen&ccedil;a: &#8212; Ah ! n&atilde;o sabia ! &#8212;<br \/>\n    Deveras ? Pois n&atilde;o tinha ouvido falar deste casamento ? Oh !&#8230;<\/p>\n<p> querem ver que supunha tamb&eacute;m que era eu que me casava?&#8230; Digo sto,<br \/>\n    porque o Cancela tamb&eacute;m estava na mesma cren&ccedil;a. Parece que correu<br \/>\n    essa voz na aldeia. Estes boatos !&#8230; E acham logo quem se fie eles! E, mudando<br \/>\n    de inflex&atilde;o, prosseguiu: &#8212; S&atilde;o dois noivos exemplares,<br \/>\n    Henrique e Cristina, perdidos um por o outro. Cristina, com a sua timidez,<br \/>\n    exerce um forte imp&eacute;rio sobre aquele incorrigivel da capital. Mas para<br \/>\n    isso foi preciso encontr&aacute;- lo doente. Tenho orgulho de ser eu a primeira<br \/>\n    a legitimar, de alguma maneira, aquela simpatia. Foram singulares as circunst&acirc;ncias<br \/>\n    em que isto se efectuou. Eu lhe conto. Foi de noite, e noite de chuva, na<br \/>\n    capela- -mor da minha propriedade dos Canaviais, onde Cristina fora rezar,<br \/>\n    pela sa&uacute;de de Henrique, as esta&ccedil;&otilde;es da meia-noite; onde<br \/>\n    Henrique foi para seguir e observar Cristina, e onde eu fui, com a Br&iacute;sida,<br \/>\n    para os vigiar a ambos e preparar-lhe o futuro; interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    algum tanto perigosa; porque podia haver quem me seguisse a mim com menos<br \/>\n    generosas inten&ccedil;&otilde;es de que as de qualquer dos tr&ecirc;s, e<br \/>\n    que, ao ver-me em t&atilde;o extraordin&aacute;rio s&iacute;tio, a tais horas,<br \/>\n    n&atilde;o me concedesse a confian&ccedil;a precisa para acreditar, atrav&eacute;s<br \/>\n    de tudo, na minha inoc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> A alus&atilde;o era clara, e mais clara a fazia a inflex&atilde;o com que<br \/>\n    foi pronunciada.<\/p>\n<p> Augusto curvou a cabe&ccedil;a e murmurou: &#8212; Tem raz&atilde;o, algum<br \/>\n    miser&aacute;vel.<\/p>\n<p> &#8212; Ou algum infeliz &#8212; corrigiu delicadamente Madalena. &#8212;<br \/>\n    Os infelizes s&atilde;o tamb&eacute;m sujeitos a perderem a f&eacute;. Mas<br \/>\n    quem lhes pode levar a mai isso? Houve alguns instantes de sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    no fim dos quais a morgainha disse mais jovialmente : &#8212; Mas afiancei<br \/>\n    h&aacute; pouco que n&atilde;o partiria. Acaso me enganei ? Augusto, como<br \/>\n    o leitor concebe decerto, j&aacute; n&atilde;o tinha &acirc;nimo nem raz&atilde;o<br \/>\n    para dizer que partia. Calou-se.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, a cuja pronta intelig&ecirc;ncia n&atilde;o tinha ficado latente<br \/>\n    o verdadeiro sentido deste di&aacute;logo, gra&ccedil;as tamb&eacute;m ao<br \/>\n    conhecimento que le tinha, havia muito, do cora&ccedil;&atilde;o de sua irm&atilde;<br \/>\n    e do de Augusto, respondeu por ele: &#8212; N&atilde;o te enganaste, n&atilde;o,<br \/>\n    Lena. Tamb&eacute;m eu j&aacute; digo que Augusto n&atilde;o partir&aacute;.<\/p>\n<p> E Augusto sem protestar ! Madalena tornou-se de subito mais s&eacute;ria<br \/>\n    e grave do que at&eacute; ali, e a mesma gravidade tinha na voz, quando de<br \/>\n    novo se dirigiu ao irm&atilde;o, dizendo : &#8212; Para vir aqui, pedi o aux&iacute;lio<br \/>\n    do teu bra&ccedil;o de crian&ccedil;a, Angelo, como se fora o de um homem.<br \/>\n    Deixa-me considerar-te por mais algum tempo ainda da mesma maneira, enquanto<br \/>\n    n&atilde;o termino a minila miss&atilde;o.<\/p>\n<p> H&aacute; pouco, depois que me leste a carta, que a ti tinha sido dirigida,<br \/>\n    perguntaste-me: &laquo;Que tencionas fazer?&raquo; N&atilde;o &eacute; assim?<br \/>\n    &#8212; Foi, e tu respondeste-me o que eu esperava. Pediste-me que te acompanhasse<br \/>\n    aqui.<\/p>\n<p> &#8212; H&aacute;s-de ter j&aacute; percebido que o pensamento que me obrigou<br \/>\n    a este passo, que n&atilde;o sei se me dever&atilde;o censurar, creio at&eacute;<br \/>\n    que devem, que esse pensamento n&atilde;o est&aacute; cumprido ainda. , &#8212;<br \/>\n    Vejo que n&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Pois &eacute; diante de ti, &Acirc;ngelo, que considero como um<br \/>\n    homem, como um bom conselheiro, &eacute; diante de ti como seria diante de<br \/>\n    quem quer que ai estivesse em teu lugar a ouvir-me, que eu vou concluir o<br \/>\n    meu pensamento.<\/p>\n<p> E voltando-se para Augusto, Madalena acrescentou, com firmeza, que s&oacute;<br \/>\n    um demasiado rubor trairia, se a luz fosse bastante para o denunciar.<\/p>\n<p> &#8212; Augusto, est&aacute; pobre, sem fam&iacute;lia, sem amigos, e, para<br \/>\n    &uacute;ltima prova&ccedil;&atilde;o, at&eacute; as trai&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e as suspeitas lhe n&atilde;o pouparam o nome honrado que herdou. Essa posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    d&aacute;-lhe direitos que eu sei compreender, creia. &Eacute; uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de nobreza, de que se n&atilde;o pode exigir humilha&ccedil;&atilde;o alguma.<br \/>\n    Por isso, sem hesitar, com toda a lealdade, vim aqui em companhia de &Acirc;ngelo<br \/>\n    estender-lhe a m&atilde;o e dizer-lhe que se, como tenho raz&atilde;o para<br \/>\n    crer, as simpatias de uma alma que h&aacute; muito o compreende, Augusto,<br \/>\n    se essas simpatias podem bastar &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es da sua,<br \/>\n    se para ganhar coragem, os meus afectos lhe podem servir, conte com o auxilio<br \/>\n    da minha alma&#8230; e dos meus afectos. &Eacute; diante de ti, que fa&ccedil;o<br \/>\n    esta confiss&atilde;o, &Acirc;ngelo. Ter&aacute;s que me ralhar por causa<br \/>\n    dela? Ao ouvir aquelas palavras, Augusto esqueceu toda a hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e tomando entre as suas a m&atilde;o que Madalena lhe estendia, cobriu-a de<br \/>\n    beijos apaixonados.<\/p>\n<p> Madalena nao teve pressa de retir&aacute;-la.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo veio tamb&eacute;m beijar as faces da irm&atilde;. Era assim<br \/>\n    que respondia &agrave; pergunta dela.<\/p>\n<p> Pobres crian&ccedil;as! Porque afinal eram crian&ccedil;as todos tr&ecirc;s,<br \/>\n    crian&ccedil;as a quem ainda os romances namoram, sem que se lembrem de que,<br \/>\n    ao transplant&aacute;-los para a vida real, todos os desconhecem e censuram,<br \/>\n    e s&oacute; regando-os de l&aacute;grimas &eacute; que as mais das vezes se<br \/>\n    consegue nutri-los.<\/p>\n<p> XXXIII O olhar de Augusto radiava j&aacute; com o vivo fulgor da alegria.<\/p>\n<p> &#8212; Obrigado, Madalena, deu-me a vida com essas palavras geneosas.<\/p>\n<p> Deixe-me ador&aacute;-la, anjo, anjo libertador ! Compreendo os devees que<br \/>\n    tenho a cumprir. Hei-de ter for&ccedil;a para conquistar as provas a minha<br \/>\n    inoc&ecirc;ncia. Preciso agora delas; hei-de obt&ecirc;-las, e depois&#8230;<\/p>\n<p> Aqui reteve-se de s&uacute;bito, e uma nuvem de tristeza toldou-lhe e novo<br \/>\n    o rosto.<\/p>\n<p> Madalena, como se o compreendesse, concluiu: &#8212; E depois sou eu quem<br \/>\n    tem o direito de exigir que n&atilde;o parta.<\/p>\n<p> Bem v&ecirc; que, depois do passo que dei, se algum escr&uacute;pulo ou<br \/>\n    orgulho pesasse no seu cora&ccedil;&atilde;o, Augusto, seria uma dolorosa<br \/>\n    ofensa que me f&agrave;zia. Aceitou a m&atilde;o, que eu com lealdade lhe<br \/>\n    ofereci ; a lealdade obriga- o agora a seguir o caminho do Mosteiro.<\/p>\n<p> Depois de alguns instantes de reflex&atilde;o, Augusto respondeu outra vez<br \/>\n    com firmeza : &#8212; Tem raz&atilde;o, Madalena. Terei coragem para cumprir<br \/>\n    o meu dever.<\/p>\n<p> Escusado &eacute; dizer que o Herodes teve de partir s&oacute; O bom homem<br \/>\n    ficou espantado ao encontrar em casa de Augusto t&atilde;o inesperada companhia,<br \/>\n    mas n&atilde;o lhe foi dificil, depois do que viu ouviu, conjecturar qual<br \/>\n    a natureza dos motivos que tinham feito mudar e resolu&ccedil;&atilde;o o<br \/>\n    seu companheiro de jornada.<\/p>\n<p> Partiu, desejando todas as felicidades aos seus amigos.<\/p>\n<p> Estes nao conseguiram dissuadi-lo de partir.<\/p>\n<p> N&atilde;o havia j&aacute; estimulo para arrancar aquele cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao desalento.<\/p>\n<p> Madalena e &Acirc;ngelo voltaram ao Mosteiro.<\/p>\n<p> O resto da noite de Augusto passou sob a influ&ecirc;ncia de t&atilde;o<br \/>\n    vioentas paix&otilde;es, que desisto de descrev&ecirc;-las.<\/p>\n<p> manh&atilde; do dia seguinte estava toda a fam&iacute;lia de Madalena, na<br \/>\n    qual inclu&iacute;mos ]&aacute; D. Doroteia e Henrique, reunida em uma das<br \/>\n    salas do Mosteiro.<\/p>\n<p> As duas primas, Madalena e Cristina, trabalhavam em costura; Angelo e Henrique,<br \/>\n    jogavam o xadrez; D. Doroteia e D. Vit&oacute;ria, conversavam a respeito<br \/>\n    do pre&ccedil;o de umas meadas de linho, que esta tinha dado a corar, e da<br \/>\n    p&eacute;ssima qualidade do fiado, efeito evidente, segundo D. Vit&oacute;ria,<br \/>\n    das criadas que tinha, que nem para fiar serviam. O conselheiro examinava<br \/>\n    distra&iacute;do v&aacute;rios memoriais e cartas de empenho, que recebera,<br \/>\n    j&aacute; a pedir empregos e gra&ccedil;as em paga dos servi&ccedil;os eleitorais,<br \/>\n    &agrave;s vezes hipot&eacute;ticos.<\/p>\n<p> A cada passo, por&eacute;m, Madalena suspendia o trabalho para olhar para<br \/>\n    a porta da sala, principalmente quando nos &#8216;imediatos aposentos se escutava<br \/>\n    algum rumor; ou trocava olhares com Angelo, que n&atilde;o com menor freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    os desviava das pedras do tabuleiro para encontrar os da irm&atilde;.<\/p>\n<p> Henrique tamb&eacute;m, de quando em quando, tinha que perguntar a Cristina,<br \/>\n    e esta para lhe responder, julgava-se obrigada tamb&eacute;m a afastar os<br \/>\n    olhos da costura.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria e D. Doroteia n&atilde;o era raro meterem-se na conversa<br \/>\n    dos outros, de onde f&aacute;cil transi&ccedil;&atilde;o achavam logo para<br \/>\n    voltarem aos seus assuntos favoritos : meadas e criados.<\/p>\n<p> O conselheiro interrompia a cada momento a leitura com bocejos, ou fazia<br \/>\n    notar alguma mais exorbitante pretens&atilde;o de tantas que examinava.<\/p>\n<p> Era evidente que todas aquelas cabe&ccedil;as estavam pouco preocupadas<br \/>\n    com os assuntos aparentes das suas cogita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; Lena ! &#8212; dizia Cristina, que pela terceira vez chamava<br \/>\n    a prima, sem conseguir ser ouvida &#8212; que tens tu esta manh&atilde; ?<br \/>\n    Que distrac&ccedil;&otilde;es s&atilde;o essas, que n&atilde;o respondes quando<br \/>\n    te chamam? &#8212; Pois falaste-me? &#8212; &Eacute; o que eu digo ! &Oacute;<br \/>\n    menina, h&aacute; que s&eacute;culos te estou eu a perguntar em que tempo<br \/>\n    &eacute; que as laranjeiras t&ecirc;m flor? &#8212; Ah! Criste!&#8212;acudiu<br \/>\n    o conselheiro do lado, sorrindo. &#8212; Esse pensamento &eacute; linguareiro<br \/>\n    ; ficamos todos sabendo aquilo em que tens estado a cismar.<\/p>\n<p> Cristina corou intensamente, ao perceber o sentido das palavras do conselheiro,<br \/>\n    e tentou defender-se, dizendo: &#8212; Ora, n&atilde;o era isso, tio. Eu perguntava,<br \/>\n    porque ..<\/p>\n<p> &#8212; Sossega, quando o v&eacute;u estiver pronto, a laranjeira n&atilde;o<br \/>\n    nos faltar&aacute; com ramos e flores.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o, mano &#8212; disse D. Vit&oacute;ria &#8212; olhe que<br \/>\n    se n&atilde;o trata de ver o que est&aacute; dando nas laranjeiras, dentro<br \/>\n    em pouco n&atilde;o h&aacute; uma s&oacute; na quinta. Que tamb&eacute;m para<br \/>\n    serem comidas as laranjas pelos criados&#8230;<\/p>\n<p> Porque quase que s&atilde;o s&oacute; para eles. N&atilde;o que n&atilde;o<br \/>\n    faz id&eacute;ia!&#8230;<\/p>\n<p> E continuou com D. Doroteia a narra&ccedil;&atilde;o dos abusos de que os<br \/>\n    criados eram culpados.<\/p>\n<p> Dai a momentos foi o conselheiro o primeiro a falar.<\/p>\n<p> &#8212; Esta &eacute; galante ! &#8212; disse ele, examinando uns pap&eacute;is<br \/>\n    e rindo.<\/p>\n<p> &#8212; Ora oi&ccedil;a isto, Henrique. Aqui est&aacute; um homem que deseja<br \/>\n    que eu lhe empregue nada menos do que sete sobrinhos que tem. Sete ! &Eacute;<br \/>\n    uma gera&ccedil;&atilde;o como a de Jacob; se estiv&eacute;ssemos na corte<br \/>\n    de Fara&oacute;!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Se se satisfizessem cada um com uma pasta?&#8230; Era um minist&eacute;rio<br \/>\n    completo &#8212; disse Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! oh ! &#8212; disse o conselheiro, passados alguns momentos.<\/p>\n<p> &#8212; C&aacute; est&aacute; o meu amigo Pertunhas, teimando com o lugar<br \/>\n    de recebedor.<\/p>\n<p> &#8212; Pois o maroto ainda se atreve ? &#8212; E que despesa de estilo<br \/>\n    que faz ! &Eacute; uma ode congratulat&ograve;ria em prosa.<\/p>\n<p> Nestas entremeadas conversas e di&aacute;logos curtos e interrompidos passou-se<br \/>\n    o tempo at&eacute; &agrave; chegada do correio, sucesso que marca &eacute;poca<br \/>\n    uma manh&atilde; passada na aldeia.<\/p>\n<p> Naquele dia sobretudo eram esperadas com &acirc;nsia as cartas e os peri&oacute;dicos,<br \/>\n    que deviam trazer not&iacute;cias do resultado das elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos diferentes c&iacute;rculos t&iacute;o Pa&iacute;s.<\/p>\n<p> O conselheiro j&aacute; por tr&ecirc;s vezes consultara o rel&oacute;gio,<br \/>\n    estranhando que o correio se demorasse.<\/p>\n<p> Enfim, chegou. O conselheiro p&ocirc;s de lado os memoriais e requerimentos<br \/>\n    ; Henrique deu s&uacute;bito desfecho ao jogo com um lan&ccedil;o absurdo,<br \/>\n    ambos se precipitaram sobre os peri&oacute;dicos e cartas ; Angelo veio encostar-se<br \/>\n    ao espaldar da cadeira de Henrique.<\/p>\n<p> O conselheiro principiou por 1er uma carta.<\/p>\n<p> Henrique rompeu a cinta do primeiro peri&oacute;dico.<\/p>\n<p> &#8212; Oh ! oh ! &#8212; disse o conselheiro, logo &agrave;s primeiras<br \/>\n    linhas que eu. &#8212; Temos crise ministerial. As elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    foram pouco favor&aacute;veis ao governo; perderam-se em quase toda a parte!<br \/>\n    &#8212; Assim tamb&eacute;m se depreende do estilo em que vem escrito este<br \/>\n    artigo de fundo &#8212; disse Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Dizem-me nesta carta que j&aacute; se fala em que o minist&eacute;rio<br \/>\n    vai pedir a sua demiss&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; Este artigo alude apenas a uma reconstru&ccedil;&atilde;o do gabinete.<\/p>\n<p> &#8212; &laquo;O Governo &#8212; prosseguiu o conselheiro, lendo &#8212;<br \/>\n    nem espera pela constitui&ccedil;&atilde;o da c&acirc;mara e cai por estes<br \/>\n    dias, infaliveimente. Quando voc&ecirc; receber esta, j&aacute; talvez ele<br \/>\n    perten&ccedil;a aos livros findos.&raquo; &#8212; &laquo;Diz-se que h&aacute;<br \/>\n    para esta noite conselho de ministros para resoler sobre qual o seu procedimento,<br \/>\n    visto a &iacute;ndole prov&aacute;vel na futura c&acirc;mara&raquo; &#8212;<br \/>\n    lia Henrique no peri&oacute;dico, que logo em seguida p&ocirc;s de ado, para<br \/>\n    consultar outro.<\/p>\n<p> &#8212; &laquo;N&atilde;o imagina &#8212; continuava o conselheiro, lendo<br \/>\n    a carta &#8212; o movimento de ambi&ccedil;&otilde;es que vai j&aacute; por<br \/>\n    aqui&raquo;. Ora se n&atilde;o imagino! &#8212; Um n&uacute;mero do Sufr&aacute;gio<br \/>\n    Nacional !&#8212;exclamou Henrique, abrindo segundo peri&oacute;dico. &#8212;<br \/>\n    Provavelmente &eacute; alguma amabilidade que lhe dirigem, sr. conselheiro;<br \/>\n    eles que lho mandam! &#8212; Sim, decerto. como da outra vez. Veja l&aacute;<br \/>\n    &#8212; disse o conselheiro sorrindo &#8212; aos moribundos tudo se perdoa.<\/p>\n<p> Henrique correu a vista pela folha, para saber o que motivara a emessa dela<br \/>\n    para o Mosteiro, onde n&atilde;o costumava vir.<\/p>\n<p> &#8212; Ah ! temos correspond&ecirc;ncia c&aacute; da terra ! &#8212; exclamou<br \/>\n    por fim.<\/p>\n<p> &#8212; Deve ser isso. J&aacute; tardava. &Eacute; o comunicado do Seabra.<br \/>\n    Leia, que s&atilde;o curiosos. O homem a apreciar as elei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de domingo deve ser soberbo. Isso n&atilde;o se pode perder. Leia, leia &#8212;<br \/>\n    Assina-se Um eleitor indignado.<\/p>\n<p> &#8212; Justo. &Eacute; o estilo do homem. Vamos l&aacute; ver isso.<\/p>\n<p> Henrique principiou a 1er em voz alta o comunicado do brasileiro.<\/p>\n<p> A pe&ccedil;a liter&aacute;ria, de precioso lavor, em que o Sr. Seabra contava<br \/>\n    ao mundo os factos eleitorais da sua terra, muito desejaria eu transcrev&ecirc;-<br \/>\n    la aqui, se, pela sua extens&atilde;o, n&atilde;o tomasse demasiado espa&ccedil;o,<br \/>\n    e se, pela sua unidade e estreita liga&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica, se<br \/>\n    n&atilde;o subtra&iacute;sse &agrave; menor tentativa de fragmenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Aquele comunicado era indivis&iacute;vel.<\/p>\n<p> Apesar desta for&ccedil;ada omiss&atilde;o, espero que os leitores far&atilde;o<br \/>\n    a justi&ccedil;a de supor o escrito digno do distinto economista, que ouvimos<br \/>\n    discursar com tanta profici&ecirc;ncia na taberna do Canada.<\/p>\n<p> O homem escrevia recheado de indigna&ccedil;&atilde;o pela s&eacute;rie<br \/>\n    de ilegalidades, esc&acirc;ndalos, subornos e press&otilde;es de todo o g&eacute;nero,<br \/>\n    de que.<\/p>\n<p> dizia ele, fora teatro aquela pac&iacute;fica aldeia do Minho.<\/p>\n<p> &#8222; Em linguagem ch&atilde; e rude ia tornar patente, acrescentava,<br \/>\n    aos olhos de todos uma pestifera chaga do organismo social. Sofismara-se a<br \/>\n    urna e calcara-se aos p&eacute;s a Carta. As frases em it&aacute;lico s&atilde;o<br \/>\n    dele, Depois de um exordio por esta afina&ccedil;&atilde;o, em que fazia a<br \/>\n    conveniente raz&atilde;o de ordem, entrava o homem na mat&eacute;ria. Era<br \/>\n    um modelo .de impertinente bisbilhotice o escrito; desfiava-se ali a vida<br \/>\n    de todos os eleitores com uma minuciosidade esmagadora.<\/p>\n<p> Coniava-se como o compadre de Fulano dissera isto e aquilo ao sobrinho de<br \/>\n    Sicrano, e como tal indiv&iacute;duo fizera e acontecera; e como tal disse<br \/>\n    que havia de fazer, e n&atilde;o fez ; e como aquele nem disse nem fez ; e<br \/>\n    como aqueloutro dissera e fizera, e assim por diante. Um dos mais maltratados<br \/>\n    era o Sr. Jo&atilde;ozinho das Perdizes. Dizia o autor da correspond&ecirc;ncia<br \/>\n    que o morgado se tinha vendido por vinho; que exercera press&atilde;o sobre<br \/>\n    os eleitores da sua freguesia; que era homem de p&eacute;ssimos costumes e<br \/>\n    moral depravada; jogador, bulhento, beberr&atilde;o cheio de d&iacute;vidas,<br \/>\n    amigo de malfeitores, etcefera.<\/p>\n<p> O conselheiro e Henrique seguiam a leitura com gargalhadas.<\/p>\n<p> O comunicado passava depois a ocupar-se com o mestre Pertunhas.<\/p>\n<p> O brasileiro n&atilde;o lhe perdoara a pressa com que este celebrara a vit&oacute;ria<br \/>\n    do conselheiro, &agrave; frente da filarm&oacute;nica que regia.<\/p>\n<p> Por vingan&ccedil;a chamava-lhe todos os nomes injuriosos, que a raiva lhe<br \/>\n    sugeria, inclusive o de estafador de trompa, e fechava por estas memor&aacute;veis<br \/>\n    palavras : &laquo;Para levar &agrave; evid&ecirc;ncia o car&aacute;cter infame<br \/>\n    e intr&igrave;guista deste sevandija, basta que diga que foi ele que, poucos<br \/>\n    dias antes, subtraiu de uma pasta aquela c&eacute;lebre carta pol&iacute;tica,<br \/>\n    que tanto deu que falar no Pais.<\/p>\n<p> E este homem exerce o cargo de administrador do correio. Proh pudor! como<br \/>\n    o leitor imagina, esta parte da correspond&ecirc;ncia produziu sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no audit&oacute;rio.<\/p>\n<p> Logo que Henrique concluiu a leitura, saiu de quase todas as bocas uma exclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de surpresa ou de alegria.<\/p>\n<p> &#8212; como &eacute;?&#8230; como &eacute;?&#8230;&#8212;perguntou o conselheiro.<br \/>\n    &#8212; Diz que&#8230;? &#8212; &Eacute; o mist&eacute;rio que se explica &#8212;<br \/>\n    respondeu Henriaue.&#8212;A trai&ccedil;&atilde;o encarrega-se de a si pr&oacute;pria<br \/>\n    se desmascarar.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o foi o Pertunhas? !&#8230; Mas&#8230; diz-se que tirou a carta<br \/>\n    de uma pasta! &#8212; Era a de Augusto.<\/p>\n<p> &#8212; Mas como estava ela a&iacute; ? &#8212; L&aacute; isso sei eu como<br \/>\n    foi &#8212; disse D. Vit&oacute;ria &#8212; fui eu que, por engano, lha tinha<br \/>\n    dado junta com outras para ele escolher alguma para a leitura dos pequenos.<\/p>\n<p> Cristina celebrou a descoberta, beijando com efus&atilde;o a morgadinha,<br \/>\n    e dizia: &#8212; Venceste,- Lena! agora est&aacute; bem provada a inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    dele, at&eacute; para os que mais duvidavam ! &#8212; E quem n&atilde;o duvidaria?<br \/>\n    &#8212; acudiu o conselheiro, como para se desculpar da desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Quem o conhecesse bem, meu pai &#8212; respondeu Madalena, a quem<br \/>\n    a como&ccedil;&atilde;o recebida dava anima&ccedil;&atilde;o ao olhar e ao<br \/>\n    semblante. &#8212; Eu e &Acirc;ngelo, por exemplo.<\/p>\n<p> &#8212; E ent&atilde;o eu? &#8212;acrescentou Cristina. &#8212; Eu n&atilde;o<br \/>\n    entro na conta ? Esta reclama&ccedil;&atilde;o valeu-lhe da parte da prima<br \/>\n    a paga do beijo que recebera.<\/p>\n<p> &#8212; Olhem o pobre rapaz ! &#8212; dizia D. Vit&oacute;ria, sinceramente<br \/>\n    consternada.&#8212; E eu que o tratei t&atilde;o mal! Bem me dizia ele: &laquo;N&atilde;o<br \/>\n    tenha pressa de dizer nada a seus filhos, minha senhora, n&atilde;o lhes ensine<br \/>\n    a duvidar de um homem que eles se costumaram a amar e a respeitar&raquo;.<\/p>\n<p> E o caso &eacute; que eu, desde que lhe ouvi dizer aquilo, de um modo t&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;rio e triste, fiquei ressentida, e n&atilde;o disse nada &agrave;s<br \/>\n    crian&ccedil;as, que todos os dias me perguntavam ainda por ele.<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230;&#8212;dizia D. Doroteia, deveras embara&ccedil;ada &#8212;<br \/>\n    eu n&atilde;o sei ainda bem do que se trata. Pois suspeitavam de Augusto?&#8230;<br \/>\n    Mas o qu&ecirc; ?&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Oacute; tia Doroteia! &#8212; atalhou Henrique&#8212; por quem<br \/>\n    &eacute;, n&atilde;o insista na pergunta. Depois que se sabe que uma suspeita<br \/>\n    &eacute; falsa, n&atilde;o h&aacute; nada que mais escalde os l&aacute;bios<br \/>\n    do que obrig&aacute;-la de novo a passar por eles.<\/p>\n<p> &#8212; Tens raz&atilde;o, menino. E que precis&atilde;o tenho eu de saber<br \/>\n    uma coisa que n&atilde;o &eacute; verdadeira ? Mas na verdade ! Suspeitaram<br \/>\n    de Augusto ! Ah! Henrique, est&aacute;-me a parecer que tamb&eacute;m tu tens<br \/>\n    esse pecado a pesar-te na consci&ecirc;ncia. Ora anda l&aacute;.<\/p>\n<p> I &#8212; N&atilde;o, tia. H&aacute; muito que lhe fa&ccedil;o justi&ccedil;a.<br \/>\n    Ao princ&iacute;pio n&atilde;o digo que n&atilde;o. Mas durou pouco tempo<br \/>\n    e j&aacute; estava arrependido. Augusto convenceu-me pela maneira com que<br \/>\n    me falou, convenceu-me sem provas : e at&eacute; se, em expia&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    me n&atilde;o pus em campo a auxili&aacute;-lo a justificar-se, &eacute; porque<br \/>\n    ele exigiu que me abstivesse disso, e depois, o meu desastre&#8230; quero dizer<br \/>\n    &#8212; emendou, olhando para Cristina &#8212; a felicidade que me procurou<br \/>\n    sob a forma de doen&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> Cristina pagou-lhe com um sorriso o galanteio.<\/p>\n<p> O conselheiro, que ficara pensativo depois das primeiras reflex&otilde;es<br \/>\n    que lhe ouvimos fazer, disse suspirando : &#8212; Estou sentindo verdadeiros<br \/>\n    remorsos pelo mal que por certo causei &agrave;quele rapaz com as minhas suspeitas.<br \/>\n    Mas que havia eu de fazer? As apar&ecirc;ncias eram-lhe contr&aacute;rias!&#8230;<br \/>\n    E depois, nesta vida de pol&iacute;tica, aprende-se tanto e t&atilde;o depressa<br \/>\n    a duvidar! &Eacute; sorte minha! Homens, a quem eu estimava deveras, foram<br \/>\n    exactamente os que mais fiz padecer ! Sen&atilde;o, vejam : o ervan&aacute;rio,<br \/>\n    meu companheiro de inf&acirc;ncia, e que sempre me teve amizade, apesar das<br \/>\n    apar&ecirc;ncias rudes de que a revestia, dispuseram-se as coisas de modo<br \/>\n    que o privei da casa em que nasceu e talvez lhe apressasse com isso a morte&#8230;<br \/>\n    E ele, coitado, vingou-se nobremente; mas vingou-se, porque nunca mais me<br \/>\n    sair&aacute; da id&eacute;ia aquela cena da igreja. Augusto, um rapaz que<br \/>\n    conheci pequeno, e j&aacute; ent&atilde;o de viva intelig&ecirc;ncia e de<br \/>\n    sentimentos nobres&#8230; pois tudo se conspirou para o perder, e n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    o privei do modesto lugar que ele exercia, mas at&eacute; levantei contra<br \/>\n    ele uma acusa&ccedil;&atilde;o infamante, e quase o expulsei de minha casa<br \/>\n    .. &Eacute; triste que a vida pol&iacute;tica me tenha obrigado a estas crueldades<br \/>\n    ! Preciso de compensar de alguma sorte o mal que fiz. De que maneira lhes<br \/>\n    parece melhor? &#8212; Eu se fosse &#8212; disse D. Doroteia &#8212; fazia<br \/>\n    como a morgada, e o rapaz, em vez de vir a ser s&oacute; padre, havia de se<br \/>\n    formar em Coimbra, como o reitor de Friande&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Isso era se ele quisesse ser padre ; &#8212; acudiu D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    &#8212; mas parece-me que n&atilde;o quer. Nada, nada, eu o que fazia era<br \/>\n    demitir aquele velhaco do Pertunhas, e dava a este o lugar de mestre de latim,<br \/>\n    e arranjava que ficasse tamb&eacute;m com o correio. Ora anda, j&aacute; que<br \/>\n    o outro foi tratante !&#8230;<\/p>\n<p> O conselheiro sorriu ao expediente da cunhada, e n&atilde;o p&ocirc;de deixar<br \/>\n    de dizer: &#8212; Nesse caso deixava s&oacute; ao Pertunhas a reg&ecirc;ncia<br \/>\n    da filarm&ocirc;nica? E tu, Lena, qual &eacute; a tua opini&atilde;o? Madalena<br \/>\n    respondeu sem vacilar: &#8212; A minha opini&atilde;o &eacute; que o pai deve<br \/>\n    ir a casa de Augusto pedir- -lhe humildemente perd&atilde;o pela ofensa que<br \/>\n    lhe fez.<\/p>\n<p> &#8212; Mas involunt&aacute;ria &#8212; ponderou o conselheiro, em tom de<br \/>\n    despeito, que n&atilde;o p&ocirc;de bem disfar&ccedil;ar.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ofensa &#8212; repetiu Madalena, sem que o sorriso dissipasse<br \/>\n    totalmente a for&ccedil;a da express&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; um pouco dura de cumprir a senten&ccedil;a, sobretudo esse<br \/>\n    adv&eacute;rbio humildemente&#8230; N&atilde;o lhe parece? &#8212; perguntou o<br \/>\n    conselheiro, voltando- se para Henrique.<\/p>\n<p> &#8212; Eu tinha vontade de dizer tamb&eacute;m a minha opini&atilde;o &#8212;<br \/>\n    respondeu Henrique; &#8212; mas receio certos melindres&#8230; Contudo, parece-me<br \/>\n    que encontraria uma recompensa, que poderia fazer esquecer a Augusto a ofensa<br \/>\n    e dores muito mais pungentes do que as que sofreu em virtude desta desagrad&aacute;vel<br \/>\n    ocorr&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &#8212; Qual &eacute; ? &#8212; perguntou o conselheiro.<\/p>\n<p> Henrique olhou para Madalena, respondendo: &#8212; Repito que tenho escr&uacute;pulos<br \/>\n    em diz&ecirc;-lo, porque talvez n&atilde;o seja eu o mais competente para<br \/>\n    o fazer.<\/p>\n<p> &#8212; Tem raz&atilde;o, primo &#8212; disse Madalena. &#8212; Ele pr&oacute;prio<br \/>\n    o dir&aacute;.<\/p>\n<p> &Eacute; mais natural.<\/p>\n<p> &#8212; Mas sabe-lo tamb&eacute;m tu, Lena ? &#8212; Sei.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o diz-no-lo. Melhor para mim, se puder prevenir desejos.<\/p>\n<p> Madalena hesitou.<\/p>\n<p> &#8212; Vamos, Henrique &#8212; disse Cristina, sorrindo &#8212; n&atilde;o<br \/>\n    esteja com tantos escr&uacute;pulos. Diga o que pensa.<\/p>\n<p> &#8212; Pois quer? mas se sua prima me n&atilde;o perdoa? &#8212; Eu o protegerei.<br \/>\n    Fale.<\/p>\n<p> &#8212; Ent&atilde;o, Criste ? &#8212; tornou Madalena.<\/p>\n<p> &#8212; Bem; nesse caso&#8230; Visto que mo ordena quem pode.<\/p>\n<p> &#8212; Fale, fale&#8212;disseram a um tempo o conselheiro, D. Vit&oacute;ria<br \/>\n    e D. Doroteia.<\/p>\n<p> &#8212; Falarei. A recompensa a que Augusto aspira &eacute; a de fazer parte<br \/>\n    da fam&iacute;lia de&#8230; da nossa fam&iacute;lia&#8212;respondeu Henrique,<br \/>\n    olhando para Madalena, que j&aacute; n&atilde;o tentava ret&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> &#8212; De fazer parte da nossa fam&iacute;lia ? &#8212; repetiu o conselheiro.<br \/>\n    &#8212; Mas como? &#8212; como h&aacute;-de ser? visto eu n&atilde;o estar<br \/>\n    resolvido a prescindir de.<\/p>\n<p> Cristina, e Mariana ser ainda crian&ccedil;a, f&aacute;cil &eacute; de conjecturar<br \/>\n    o &uacute;nico meio que ainda resta de realizar aquela pretens&atilde;o.<\/p>\n<p> O conselheiro compreendeu afinal e, fitando Madalena, p&ocirc;s-se a rir,<br \/>\n    dizendo: &#8212; Pobre rapaz ! Pois meteu-se-lhe isso na cabe&ccedil;a ? &#8212;<br \/>\n    Mas que &eacute; afinal ? eu n&atilde;o entendo &#8212; dizia, embara&ccedil;ada,<br \/>\n    D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; uma coisa muito simples &#8212; respondeu Henrique. &#8212;<br \/>\n    Augusto sentiu o efeito dos encantos da minha prima Madalena, mas sentiu-os<br \/>\n    a ponto de ligar a eles a sua felicidade, e de cair em adora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para com a magnetizadora.<\/p>\n<p> Esta explica&ccedil;&atilde;o foi recebida com espanto por D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> &#8212; Ora ! est&aacute; a brincar, primo Henrique ? N&atilde;o ouve aquilo,<br \/>\n    prima Doroteia ? &#8226; &#8212; Mas que &eacute;, que &eacute; ? &#8212;<br \/>\n    perguntou esta.<\/p>\n<p> &#8212; Dia que o Augusto aspirava ..<\/p>\n<p> &#8212; Perd&atilde;o, eu disse que o Augusto adorava e n&atilde;o aspirava.<br \/>\n    Quem pode tomar contas a um cora&ccedil;&atilde;o do culto que ele guarda<br \/>\n    religiosamente em si ? A prima Lena &eacute; adorada por aquele rapaz, isso<br \/>\n    afirmo eu, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; poss&iacute;vel ! &#8212; exclamou tamb&eacute;m D. Doroteia,<br \/>\n    espantada. &#8212; Por essa nao esperava eu. Olhem para o que lhe havia de<br \/>\n    dar! Pobre Augusto ! O conselheiro ria ainda da not&iacute;cia que recebera.<\/p>\n<p> Madalena corou ao ouvir todas aquelas exclama&ccedil;&otilde;es de estranheza.<\/p>\n<p> Cedendo ao impulso en&eacute;rgico do seu caracter impetuoso e apaixonado,<br \/>\n    disse com vivacidade: &#8212; N&atilde;o sei que haja no que diz o primo Henrique,<br \/>\n    nada que mere&ccedil;a esses espantos. Pois quem sou eu afinal? Que dist&acirc;ncia<br \/>\n    me separa da humanidade, para que se tenha por um desacato uma afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que inspire? &Eacute; verdade. Julgo que n&atilde;o se enganou o primo Henrique.<br \/>\n    Tamb&eacute;m eu descobri esse afecto em Augusto. Nasceu-lhe no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e n&atilde;o na cabe&ccedil;a, meu pai. H&aacute; muito que o sei, e nunca<br \/>\n    a descoberta me causou o espanto que vejo nos outros. Digo mais, causou-me<br \/>\n    orgulho.<\/p>\n<p> Orgulho, sim, porque &eacute; natural senti-lo por ter inspirado sentimentos<br \/>\n    daquela ordem a um car&aacute;cter generoso que, experimentado pelo infort&uacute;nio,<br \/>\n    saiu sempre da prova mais nobre e mais puro do que dantes.<\/p>\n<p> O conselheiro, que ouvira a filha com impaci&ecirc;ncia, acudiu, em tom<br \/>\n    profundamente irritado: &#8212; Bem, bem, deixemo-nos de loucuras e de poesias,<br \/>\n    Lena. V&ecirc; l&aacute; se me queres fazer acreditar que a vida da aldeia<br \/>\n    te estragou o natural bom senso, at&eacute; ao ponto de tomares a s&eacute;rio<br \/>\n    fantasias e criancices.<\/p>\n<p> &#8212; N&atilde;o &eacute; fantasia nem criancice, &eacute; uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de mulher &#8212;&#8226; respondeu Madalena, com firmeza.<\/p>\n<p> &#8212; uma resolu&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;a, que est&aacute; na<br \/>\n    minha m&atilde;o remediar ,&#8212; tornou o conselheiro, como quem desejava<br \/>\n    cortar o incidente.<\/p>\n<p> Por&eacute;m para o g&ecirc;nio de Madalena j&aacute; n&atilde;o era poss&iacute;vel<br \/>\n    recuar nem parar ; replicou : &#8212; Talvez n&atilde;o. Deixe-me ent&atilde;o<br \/>\n    dizer-lhe tudo, meu pai. Augusto nunca me revelou esse segredo do seu cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Adivinhei-lho eu.<\/p>\n<p> Longe de procurar ser entendido, ocultava-se e fugia; ainda ontem estava<br \/>\n    resolvido a deixar a aldeia para sempre.<\/p>\n<p> &#8212; Mas ficou &#8212; notou o conselheiro com ironia.<\/p>\n<p> &#8212; Ficou &#8212; respondeu tranquilamente Madalena &#8212; porque eu<br \/>\n    lhe pedi que ficasse.<\/p>\n<p> O conselheiro, ouvindo estas palavras, estremeceu de surpresa e fitou a<br \/>\n    filha com olhar severo e interrogador.<\/p>\n<p> A morgadinha prosseguiu com uma serenidade, que ocultava um esfor&ccedil;o<br \/>\n    interior: &#8212; Ficou, porque eu lhe disse que o havia compreendido e que<br \/>\n    aceitava a afei&ccedil;&atilde;o desinteressada e pura que ele guardava no<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o ; ficou, porque eu, que s&oacute; tarde soube do desespero<br \/>\n    que o obrigava a partir, e que o sabia t&atilde;o leal como pobre, t&atilde;o<br \/>\n    inocente como perseguido pelo infort&uacute;nio eu, que o vi quase expulsar<br \/>\n    desta casa, sob o peso de uma acusa&ccedil;&atilde;o em cuja verdade nunca<br \/>\n    pude acreditar, julguei do meu dever ir eu pr&oacute;pria procur&aacute;-lo<br \/>\n    para lhe estender a m&atilde;o e dizer-lhe: &laquo;Fique, e prometo-lhe que<br \/>\n    todos lhe far&atilde;o justi&ccedil;a em breve&raquo;.<\/p>\n<p> Quando Madalena acabou de dizer estas palavras com firmeza e exalta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crescentes, ningu&eacute;m ousou falar na sala ; e os olhos de todos dirigiram-se<br \/>\n    quase instintivamente para o conselheiro.<\/p>\n<p> Cristina tremia ; as outras senhoras pasmavam ; Henrique e Angelo sentiram-se<br \/>\n    profundamente inquietos.<\/p>\n<p> Todos viram passar por diferentes cores as taces do conselheiro, os l&aacute;bios<br \/>\n    agitaram-se num tremor convulso, e com a voz evidentemente alterada pela c&oacute;lera,<br \/>\n    disse para a filha, passados alguns instantes: &#8212; Pois saiba, senhora,<br \/>\n    que para as leviandades de uma rapariga estouvada, h&aacute; meios mais racionais<br \/>\n    do que esses que parecem natural&iacute;ssimos &agrave; sua raz&atilde;o estragada<br \/>\n    pelos romances. Eu ainda n&atilde;o prescindi da minha autoridade paterna,<br \/>\n    e ela me servir&aacute; para corrigir essas levezas, de que deveria envergonhar-se.<\/p>\n<p> Esta cena de fam&iacute;lia aumentava cada vez mais a dificuldade da posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos os que estavam presentes. Ningu&eacute;m ousava intervir, ou, desejando-o,<br \/>\n    ningu&eacute;m sabia a maneira de o fazer.<\/p>\n<p> Entre as falsas situa&ccedil;&otilde;es, em que nos achamos &agrave;s vezes<br \/>\n    nesta vida, poucas se podem comparar no inc&oacute;modo que produzem, &agrave;<br \/>\n    de assistir a uma quest&atilde;o dom&eacute;stica, por qualquer motivo que<br \/>\n    seja originada.<\/p>\n<p> Quem se conservou daquela vez menos inactiva foi Cristina, que prendeu Lena<br \/>\n    nos bra&ccedil;os, n&atilde;o sei se para instintivamente a defender, se para<br \/>\n    reprimir-lhe o &iacute;mpeto de reac&ccedil;&atilde;o que receava nela.<\/p>\n<p> A morgadinha efectivamente repeliu-a com brandura de si e respondeu ao pai<br \/>\n    : &#8212; As vezes aos caracteres levianos est&atilde;o confiadas tarefas<br \/>\n    generosas.<\/p>\n<p> Cabe-lhes sanar muitas injusti&ccedil;as que por c&aacute;lculo os mais<br \/>\n    reflectidos, e por isso mais desconfiados, praticam sem piedade. N&atilde;o<br \/>\n    me envergonho nem arrependo do passo que dei. N&atilde;o fiz mais do que salvar<br \/>\n    do desespero uma alma nobre e magn&acirc;nima, que, se se perdesse, talvez<br \/>\n    um dia a sua consci&ecirc;ncia, senhor, o acusasse de n&atilde;o ser inocente<br \/>\n    nessa perda. Quis evitar-lhe remorsos, meu pai. Se isto foi leviandade, que<br \/>\n    os anos ma n&atilde;o dissipem, como dizem que costumam fazer, porque prefiro<br \/>\n    ser leviana assim, a ser cruel como&#8230;<\/p>\n<p> O pai atalhou-a e, cada vez com mais veem&ecirc;ncia, replicou: &#8212;<br \/>\n    Pois siga, se quiser, a sua fantasia, senhora, mas ier&aacute; de escolher<br \/>\n    entre os seus caprichos e a minha aprova&ccedil;&atilde;o. F&#8217;que certa que,<br \/>\n    com o consentimento meu, nunca um rapaz pobre, sem fam&iacute;lia e sem posi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    especular&aacute; com o estouvamento de uma herdeira rica, que, t&atilde;o<br \/>\n    esquecida do que deve a si e aos seus, n&atilde;o hesitou em o procurar na<br \/>\n    pr&oacute;pria casa, sem reparar que estava sendo v&iacute;tima de uma com&eacute;dia<br \/>\n    armada &agrave; sua cr&eacute;dula sensibilidade.<\/p>\n<p> Antes do conselheiro concluir estas palavras estava algu&eacute;m mais na<br \/>\n    sala.<\/p>\n<p> Era Augusto.<\/p>\n<p> Da sala pr&oacute;xima, onde chegara muito antes ouvira ele o que o conselheiro<br \/>\n    dizia em tom elevado, e o sentido das palavras que ouviu venceu-lhe t&ocirc;da<br \/>\n    a hesita&ccedil;&atilde;o e obrigou-o a entrar.<\/p>\n<p> O conselheiro reparando de s&uacute;bito nele, interrompeu-se e parou, Augusto<br \/>\n    respondeu-lhe ent&atilde;o com dignidade e tristeza: &#8212; Esse rapaz pobre,<br \/>\n    sem posi&ccedil;&atilde;o e sem fam&iacute;lia, tem nesse tr&iacute;plice<br \/>\n    infort&uacute;nio outros tantos t&iacute;tulos para ser respeitado dos felizes,<br \/>\n    como V. Ex.a, e eu n&atilde;o prescindo desses direitos.<\/p>\n<p> O conselheiro continuava silencioso, como hesitando no que devesse responder<br \/>\n    a Augusto. A. irrita&ccedil;&atilde;o ditava-lhe uma violenta resposta, mas<br \/>\n    j&aacute; lho n&atilde;o permitia a consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Augusto continuou : &#8212; Sei que V. Ex.&#8217; est&aacute; j&aacute; convencido<br \/>\n    de que as suspeitas, que pesavam sobre mim, eram injustas. Nesse peri&oacute;dico,<br \/>\n    que ainda tem na m&atilde;o, v&ecirc;m as provas da minha inoc&ecirc;ncia.<br \/>\n    Vi-o em casa do Seabra, de onde venho agora. Procurei-o, decidido a saber<br \/>\n    toda a verdade por qualquer pre&ccedil;o que fosse ; ele n&atilde;o ma negou<br \/>\n    ; contou-me tudo. Por isso, ao vir aqui, sr. conselheiro, ao voltar a esta<br \/>\n    casa, onde era recebido como amigo, antes que me expulsassem dela como infame,<br \/>\n    esperava encontrar a receber-me a justi&ccedil;a e a amizade&#8230; Enganei-me;<br \/>\n    em vez delas, foi o insulto, mais pungente e menos justificado do que o primeiro,<br \/>\n    que eu encontrei ! &#8212; Menos justificado ? &#8212; repetiu o conselheiro,<br \/>\n    azedadamente, &#8212; Menos justificado, sim, muito menos ; porque V. Ex.a<br \/>\n    podia julgar- me criminoso, pode julgar-se com direito de duvidar de mim,<br \/>\n    mas nao tem o de duvidar de sua filha; porque a Sr.a D. Madalena pedindo a<br \/>\n    seu irm&atilde;o que a acompanhasse a casa de um pobre, que ela sabia ser<br \/>\n    v&iacute;tima de uma imerecida acusa&ccedil;&atilde;o, e a quem o desalento<br \/>\n    e o desespero faziam sucumbir, n&atilde;o se esqueceu do que devia a si e<br \/>\n    aos seus; pelo contr&aacute;rio, aos seus devia aquele acto de sublime generosidade,<br \/>\n    porque das m&atilde;os dos seus viera o golpe que me ferira. Eu tinha sido<br \/>\n    expulso desta casa, sr. conselheiro, como um miser&aacute;vel e infame ; os<br \/>\n    filhos de V. Ex.&ordf;, que sempre foram meus amigos, a quem V. Ex.* ensinara<br \/>\n    a s&ecirc;-lo, vieram &agrave; minha dizer-me : &laquo; N&atilde;o parta,<br \/>\n    deve &agrave; nossa confian&ccedil;a a justi&ccedil;a de ficar&raquo;.<\/p>\n<p> &#8212; &Eacute; verdade &#8212; disse &Acirc;ngelo &#8212; eu acompanhei<br \/>\n    Madalena. O pai diz-me muitas vezes que n&atilde;o tenha pressa de principiar<br \/>\n    a duvidar ; eu n&atilde;o podia principiar por Augusto. N&atilde;o duvidei.<\/p>\n<p> O conselheiro respondeu a Augusto com reserva e mal disfar&ccedil;ado despeito,<br \/>\n    ainda que em tom moderado: &#8212; Sei que fui injusto consigo, Augusto, e<br \/>\n    sinto-o do cora&ccedil;&atilde;o, creia.<\/p>\n<p> Ainda que as apar&ecirc;ncias o culpassem, arrependo-me de n&atilde;o ter<br \/>\n    tido mais for&ccedil;a a minha confian&ccedil;a para n&atilde;o ceder. Pe&ccedil;o-lhe<br \/>\n    por isso&#8230; humildemente&#8230;<\/p>\n<p> perd&atilde;o, Iria a sua casa pedir-lho se n&atilde;o viesse aqui. Que<br \/>\n    mais quer? Acha-se com direitos a exigir mais? Ser&aacute; isso motivo para<br \/>\n    antever realizadas loucuras de rapaz?&#8230;<\/p>\n<p> Augusto n&atilde;o o deixou continuar.<\/p>\n<p> &#8212; Oi&ccedil;a-me, sr. conselheiro &#8212; disse ele pl&agrave;cidamente<br \/>\n    &#8212; diante de todas as pessoas que me escutam, lealmente e sem hesitar,<br \/>\n    patentearei o meu cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; verdade que essas loucuras<br \/>\n    se apoderaram de mim, que desde crian&ccedil;a at&eacute; hoje, tenho sido<br \/>\n    todo delas ; mas que importam aos outros, se eu comigo as guardava? se nunca<br \/>\n    por elas regulei os actos da minha vida? Ocorr&ecirc;ncias imprevistas me<br \/>\n    arrancaram este segredo, que eu fiz sempre por sufocar. Nem ambi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    me despertou, como meio de realiz&aacute;-lo, porque nem eu realiz&aacute;-lo<br \/>\n    pensava.<\/p>\n<p> Resignar-me-ia a morrer com ele, sem o revelar a ningu&eacute;m ; mas adivi<br \/>\n    nhado por quem o fizera nascer, e, deixe-se-me o orgulho de o dizer, adivinhado<br \/>\n    e correspondido, que muito era que me tomasse a vertigem, e que eu por momentos<br \/>\n    me deixasse cegar pelo fulgor de imprevistas esperan&ccedil;as? Perdoe-se-me<br \/>\n    a franqueza. As ilus&otilde;es duraram pouco; as palavras de V. Ex.&#8217; dissiparam-nas&#8230;<br \/>\n    um tanto cruelmente, mas em todo o caso acordei. Creia, sr. conselheiro, que<br \/>\n    o ser pobre, sem fam&iacute;lia e sem nome, imp&otilde;e tamb&eacute;m uma<br \/>\n    certa ordem de deveres, a que eu serei fiel. N&atilde;o &eacute; o de humilhar-me,<br \/>\n    &eacute; o de manter a &uacute;nica dignidade que me resta, a dignidade moral.<br \/>\n    J&aacute; v&ecirc; V. Ex.&ordf; que se enganou de duas maneiras : nem da parte<br \/>\n    do rapaz pobre houve especula&ccedil;&atilde;o, nem da parte da herdeira rica<br \/>\n    estouvamento.<\/p>\n<p> E, acabando de dizer estas palavras, Augusto inclinou-se respeitosamente<br \/>\n    diante do conselheiro, e ia a sair, depois de lan&ccedil;ar a Madalena um<br \/>\n    extremo olhar de despedida.<\/p>\n<p> A morgadinha, por&eacute;m, ergueu-se, e, apesar dos esfor&ccedil;os de<br \/>\n    Cristina para a reter, veio colocar-se no caminho de Augusto, e estendendo-<br \/>\n    lhe a m&atilde;o, disse : &#8212; N&atilde;o saia, Augusto. Em nome de meu<br \/>\n    pai lhe pe&ccedil;o que n&atilde;o saia.<\/p>\n<p> &#8212; Madalena ! &#8212; disse o conselheiro com severidade.<\/p>\n<p> &#8212; Sim, em seu nome, senhor; porque quero livrar-lhe o futuro de remorsos<br \/>\n    ; sim, em seu nome, porque hei-de fazer-lhe ouvir a voz do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que tantas vezes desatende, arrependendo-se amargamente depois.<\/p>\n<p> &#8212; Madalena ! &#8212; repetiu o conselheiro com mais for&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8212; Minha senhora ! &#8212; disse Augusto.<\/p>\n<p> Por&eacute;m a morgadinha obedecia agora inteiramente &agrave; veem&ecirc;ncia<br \/>\n    do car&aacute;cter apaixonado.<\/p>\n<p> &#8212; Sinceramente revelei h&aacute; pouco os sentimentos do meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ; todos me ouviram ; todos ouviram agora Augusto. Fale, senhor, com a mesma<br \/>\n    franqueza e lealdade com que n&oacute;s o fazemos; poder&aacute; confessar<br \/>\n    a natureza dos escr&uacute;pulos que o obrigam a essa resist&ecirc;ncia? N&atilde;o<br \/>\n    se envergonharia deles? E quer que lhe obede&ccedil;a! mas obedecer- lhe seria<br \/>\n    ofend&ecirc;-lo, porque seria acreditar na const&acirc;ncia dessa m&aacute;<br \/>\n    paix&atilde;o que o domina, e no seu bom cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    pode ela durar muito tempo.<\/p>\n<p> O conselheiro, no auge da irrita&ccedil;&atilde;o, ia talvez a responder<br \/>\n    violentamente.<\/p>\n<p> Cristina e Angelo tinham-se aproximado de Madalena ; as outras senhoras<br \/>\n    principiavam a ensaiar em surdina as primeiras tentativas conciliadoras ;<br \/>\n    Henrique meditava um plano de interven&ccedil;&atilde;o, que ele supunha j&aacute;<br \/>\n    indispens&aacute;vel, quando um incidente veio interromper esta cena e modificar<br \/>\n    a fei&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica do caso.<\/p>\n<p> O incidente foi a chegada de um criado de farda, pertencente ao servi&ccedil;o<br \/>\n    de um propriet&aacute;rio da vila pr&oacute;xima. Este criado era portador<br \/>\n    de uma mensagem para o conselheiro.<\/p>\n<p> O velho Torcato tinha adormecido na sala imediata; o lacaio dispensou- se<br \/>\n    de o acordar, e guiou-se pelo som das vozes para chegar &agrave; presen&ccedil;a<br \/>\n    do conselheiro.<\/p>\n<p> A chegada do lacaio acalmou a tempestade dom&eacute;stica, que principiava<br \/>\n    a carregar-se.<\/p>\n<p> O conselheiro, conhecendo-o, interrogou-o sobre o fim daquela visita.<\/p>\n<p> O criado respondeu: &#8212; Venho para entregar a V. Ex.&ordf; esta parte<br \/>\n    telegr&aacute;fica, que chegou a meu amo logo depois que tinham partido as<br \/>\n    malas do correio, de maneira que n&atilde;o p&ocirc;de mand&aacute;-la com<br \/>\n    elas.<\/p>\n<p> O conselheiro, agitado ainda, pegou no pape!, que o mensageiro lhe deu,<br \/>\n    e correu-o com a vista.<\/p>\n<p> Imediatamente um raio de alegria lhe fuzilou nos olhos.<\/p>\n<p> Acabando de 1er, disse ao criado, que esperava resposta: &#8212; Diz a teu<br \/>\n    amo que recebi, e que pode responder que sim.<\/p>\n<p> O criado saiu.<\/p>\n<p> Neste meio tempo as senhoras e Cristina rodeavam Madalena e combinavam um<br \/>\n    projecto de harmonia dom&eacute;stica. Angelo e Henrique desempenhavam-se<br \/>\n    junto de Augusto de quase id&ecirc;ntica tarefa.<\/p>\n<p> O conselheiro estendeu a Henrique a parte telegr&agrave;fica, enquanto que<br \/>\n    uma vis&iacute;vel satisfa&ccedil;&atilde;o se lhe desenhava no semblante.<\/p>\n<p> &#8212; Leia e admire &#8212; disse ele.<\/p>\n<p> Henrique leu, e n&atilde;o reteve uma exclama&ccedil;&atilde;o de surpresa.<\/p>\n<p> A parte dizia : &laquo;Avise o conselheiro Manuel Bernardo para quanto antes<br \/>\n    se apre- &#8226; sentar em Lisboa. Estou encarregado de organizar minist&eacute;rio<br \/>\n    e quero que ele aceite uma das pastas.&raquo; Assinava-a um dos mais not&aacute;veis<br \/>\n    vultos pol&iacute;ticos do Pafs.<\/p>\n<p> Henrique, que sabia o valor de certas oportunidades, e a quem a surpresa<br \/>\n    da not&iacute;cia n&atilde;o fez esquecer a crise dom&eacute;stica a que assistira,<br \/>\n    disse, logo que acabou de 1er, e dirigindo-se a Madalena: &#8212; Prima Madalena,<br \/>\n    compete-lhe ser a primeira a dar ao novo ministro os emboras pela sua nomea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A palavra &laquo;ministro&raquo; produziu sensa&ccedil;&atilde;o na sala.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria exclamou : &#8212; Ministro! Pois quem &eacute; que est&aacute;<br \/>\n    ministro? O mano? .. Ora, sim senhor! acertou sua majestade!&#8230;<\/p>\n<p> &#8212; Mas&#8230; Valha-nos Deus! O ponto est&aacute; que n&atilde;o fa&ccedil;am<br \/>\n    por ai alguma revolu&ccedil;&atilde;o para o deitar abaixo &#8212; acudiu<br \/>\n    D. Doroteia, em cujo &acirc;nimo os factos das nossas dissens&otilde;es civis<br \/>\n    tinham deixado sinistras jdeias ligadas &agrave; palavra ministro.<\/p>\n<p> Madalena, &Acirc;ngelo e Cristina correram a abra&ccedil;ar o conselheiro;<br \/>\n    Henrique reteve, por&eacute;m, os dois &uacute;ltimos dizendo: &#8212; Primeiro<br \/>\n    Lena. Talvez tenha a pedir alguma merc&ecirc; a S. Ex.&raquo;, e &agrave;<br \/>\n    primeira n&atilde;o h&aacute; caracter de ministro que n&atilde;o ceda.<\/p>\n<p> O conselheiro sorriu j&aacute;.<\/p>\n<p> Madalena beijou-lhe a m&atilde;o, e o pranto, provocado pela viol&ecirc;ncia<br \/>\n    das cenas anteriores, e at&eacute; ali a custo reprimido, rebentou agora abundante,<br \/>\n    banhando as m&atilde;os do pai.<\/p>\n<p> Henrique afastou-se a conversar com Augusto, para o n&atilde;o deixar sair<br \/>\n    da sala.<\/p>\n<p> O cora&ccedil;&atilde;o do conselheiro n&atilde;o era de pedra. Duas causas<br \/>\n    poderos&iacute;ssimas conspiravam-se para abrand&aacute;-lo. como homem pol&iacute;tico,<br \/>\n    havia a satisfa&ccedil;&atilde;o da m&aacute;xima ambi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    todos, a not&iacute;cia de ser chamado ao minist&eacute;rio. Nos momentos<br \/>\n    em que vemos satisfazer-se qualquer ardente desejo do nosso cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    abrimo-nos &agrave;s simpatias para com os desejos dos outros ; se de n&oacute;s<br \/>\n    depende realiz&aacute;-los, cedemos de boa vontade. como pai, havia as l&aacute;grimas<br \/>\n    da filha a convenc&ecirc;-lo, e a eloq&uuml;&ecirc;ncia deste argumento das<br \/>\n    l&aacute;grimas em olhos de mulher, &eacute; geralmente sabida ; quanto mais<br \/>\n    se a mulher &eacute; jovem e bela ! quanto mais se a mulher &eacute; filha!<br \/>\n    Sem o menor vest&iacute;gio da irrita&ccedil;&atilde;o anterior, o conselheiro<br \/>\n    ergueu Madalena, apertou-a ao seio e disse-lhe meigamente: &#8212; Porque<br \/>\n    choras tu, Lena ? Crian&ccedil;a ! Ent&atilde;o prometes-me ser muito feliz,<br \/>\n    se eu te deixar fazer as tuas loucuras? &#8226; Madalena respondeu-lhe, abra&ccedil;ando-o<br \/>\n    afectuosamente, e beijando- o.<\/p>\n<p> H&aacute; argumento mais convincente do que este? Conhecem arma mais poderosa<br \/>\n    contra as severidades de um pai? O conselheiro beijou tamb&eacute;m paternalmente<br \/>\n    nas faces a filha, e voltando-se depois para Augusto, disse-lhe, em tom de<br \/>\n    voz quase afectuoso : &#8212; Augusto, vou confiar-lhe a minha felicidade,<br \/>\n    confiando-lhe a felicidade da minha Lena. Vingue-se da injusti&ccedil;a e<br \/>\n    do mal que lhe fiz, tornando-ma venturosa. &Eacute; a &uacute;nica vingan&ccedil;a<br \/>\n    &agrave; altura da sua alma.<\/p>\n<p> Augusto n&atilde;o teve tempo para responder. Se uns restos de orgulho tentassem<br \/>\n    lutar1 ainda com o amor, sufoc&aacute;-los-iam os esfor&ccedil;os combinados<br \/>\n    da Cristina, de D. Vit&oacute;ria e de D. Doroteia, que o arrastaram quase<br \/>\n    para junto do conselheiro.<\/p>\n<p> E t&ocirc;da aquela fam&iacute;lia, em que n&atilde;o havia naquele momento<br \/>\n    um s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o triste, confundiu-se por algum tempo no<br \/>\n    mais desordenado, pueril e pat&eacute;tico grupo, que pode desenhar um artista.<\/p>\n<p> Para mais tocante confus&atilde;o ainda, as crian&ccedil;as que voltavam<br \/>\n    dos seus brinquedos na quinta, entraram ent&atilde;o na sala, e de boa vontade<br \/>\n    se associaram &agrave;quela manifesta&ccedil;&atilde;o de alegria, sem querer<br \/>\n    saber o que a motivara.<\/p>\n<p> S&atilde;o assim as crian&ccedil;as. Alegres por instinto, sa&uacute;dam<br \/>\n    as cenas alegres sempre que as v&ecirc;em, sentem-nas antes de as explicarem.<\/p>\n<p> Foram inumer&aacute;veis os beijos, os abra&ccedil;os, as palavras de afecto,<br \/>\n    os sorrisos, as l&aacute;grimas, as exclama&ccedil;&otilde;es pueris que se<br \/>\n    trocaram entre os diversos actores desta cena de fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Chegado a este ponto da minha narra&ccedil;&atilde;o, nada melhor posso<br \/>\n    fazer do que deixar &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o dos leitores conclu&iacute;-la.<\/p>\n<p> Haver&aacute; algum t&atilde;o malfadado, que na sua vida n&atilde;o tenha<br \/>\n    visto representada uma cena assim? Esse mesmo, se existe, obriga-me a n&atilde;o<br \/>\n    prosseguir.<\/p>\n<p> O quadro que reproduzisse, exacerbar-lhe-ia o desconsolo da alma, de que<br \/>\n    por certo &eacute; v&iacute;tima.<\/p>\n<p> Paremos aqui, para que nos fique nos ouvidos este jovial rumor de beijos,<br \/>\n    de risos e de vozes de alegria, porque, a prolongarmos mais a riarra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    v&ecirc;-lo-iamos abafado pelos sons revolucionados e an&aacute;rquicos da<br \/>\n    filarm&ocirc;nica da terra, que n&atilde;o tardar&aacute; a festejar a nomea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do conselheiro, e sobretudo pelo estridor da tuba do mestre Pertunhas, tuba<br \/>\n    verdadeiramente &eacute;pica, e capaz de mudar a cor ao gesto, como a de que<br \/>\n    fala o poeta.<\/p>\n<p> Fechemos, pois, aqui a hist&oacute;ria, dando apenas sucinta conta dos acontecimentos<br \/>\n    ulteriores.<\/p>\n<p> CONCLUS&Atilde;O O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para<br \/>\n    tomar parte na pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &acirc;nimo dos meus leitores, que, sob a direc&ccedil;&atilde;o dos talentos<br \/>\n    e aptid&otilde;es do novo estadista, se locupletou a fazenda p&uacute;blica,<br \/>\n    prosperou a agricultura e a ind&uacute;stria, refulgiram as artes e as letras<br \/>\n    ; e que Portugal, como a Gr&eacute;cia, sob P&eacute;ricles, causou o assombro<br \/>\n    das na&ccedil;&otilde;es do mundo.<\/p>\n<p> Mas receei que, fantasiando no nosso pa&iacute;s um governo fecundo e pr&oacute;spero,<br \/>\n    a inverosimilhan&ccedil;a do facto prejudicasse no esp&iacute;rito dos leitores<br \/>\n    a dos outros epis&oacute;dios narrados, e lhes entrasse com is;o a desconfian&ccedil;a<br \/>\n    no cronista. Resolvi pois ser franco, declarando que sob a direc&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do conselheiro e dos seus colegas, Portugal regeu-se, como se tem regido sob<br \/>\n    as d&uacute;zias de minist&eacute;rios, que n&oacute;s todos havemos j&aacute;<br \/>\n    conhecido.<\/p>\n<p> O conselheiro, j&aacute; ministro, voltou lempos depois &agrave; aldeia,<br \/>\n    para assistir aos casamentos de Madalena e de Cristina, que se verificaram<br \/>\n    no mesmo dia, Cristina e Henrique foram viver para Alvapenha, para condescender<br \/>\n    com D. Doroteia, que nao podia resignar-se a viver s&oacute;.<\/p>\n<p> Sob a superintend&ecirc;ncia do novo administrador, transformou-se completamente<br \/>\n    a quinta, e &eacute; hoje uma das mais rendosas e bem geridas propriedades<br \/>\n    daqueles sitios.<\/p>\n<p> Henrique, o elegante do Chiado, o freq&uuml;entador do Gr&ecirc;mio e de<br \/>\n    Sao Carlos, est&aacute; um rico e laborioso propriet&aacute;rio rural. Apaixonou-se<br \/>\n    pela agricultura, e promete realizar o tipo do antigo patriarca.<\/p>\n<p> Cumpriu-se a sua vis&atilde;o.<\/p>\n<p> Das mil e uma mol&eacute;stias, com. que sa&iacute;ra de Lisboa, j&aacute;<br \/>\n    nem mem&oacute;ria lhe resta.<\/p>\n<p> Cristina, al&eacute;m de ser adorada pelo marido, v&ecirc;-se rodeada pelo<br \/>\n    amor e carinhos de D. Doroteia e de Maria de Jesus, as quais, sem o menor<br \/>\n    despeito, a viram tomar o ceptro da realeza dom&eacute;stica, que usa com<br \/>\n    ador&aacute;vel brandura, desenvolvendo de dia para dia os seus talentos de<br \/>\n    mulher. 4 No Mosteiro n&atilde;o correm pior as coisas, sob os cuidados de<br \/>\n    Augusto e de Madalena, que a&iacute; ficaram, por exig&ecirc;ncias de D. Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p> Augusto, al&eacute;m de se ocupar de agricultura, alimenta a imagina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o a fazer versos, mas em outra forma de poesia : a organizar<br \/>\n    a escola sob bases mais racion&aacute;is, e dota&ccedil;&atilde;o mais fecunda<br \/>\n    ; a generalizar e educar os processos agr&iacute;colas; a implantar ind&uacute;strias<br \/>\n    novas.<\/p>\n<p> &Eacute; assim que a sericultura, gra&ccedil;as aos seus cuidados, &eacute;<br \/>\n    hoje ali cultivada com bons resultados, e outras j&aacute; principiam a ensaiar-se.<\/p>\n<p> Madalena &eacute; sempre a mulher que foi; se &eacute; que as nobres qualidades<br \/>\n    j&aacute; reveladas nos seus actos de juventude, n&atilde;o se v&atilde;o<br \/>\n    caracterizando ainda melhor, &agrave; medida que de mais graves deveres se<br \/>\n    incumbe a sua miss&atilde;o de mulher. Intelig&ecirc;ncia temperada por um<br \/>\n    bom senso natural, que a educa&ccedil;&atilde;o esmerada n&atilde;o estragou,<br \/>\n    como a tantas acontece, car&aacute;cter apaixonado, mas de trato af&aacute;vel<br \/>\n    e insinuante, meiga sem indol&ecirc;ncia, grave sem severidade, acompanha-a<br \/>\n    o encanto que a todos prende, que n&atilde;o faz sentir a ningu&eacute;m o<br \/>\n    peso da obedi&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> &Eacute; hoje quem tudo dirige no Mosteiro ; querida pelos primos, querida<br \/>\n    por D. Vit&oacute;ria, adorada pelo marido e aben&ccedil;oada pelo povo, que<br \/>\n    socorre com esmolas e conselhos, pode bem dizer-se que reina naqueles s&iacute;tios.<\/p>\n<p> D. Vit&oacute;ria resignou na sobrinha todos os encargos dom&eacute;sticos,<br \/>\n    salvo o direito de ralhar com os criados, que ela sustenta serem os piores<br \/>\n    do mundo ; pronta sempre a intervir a favor de qualquer deles, quando despedidos.<\/p>\n<p> Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s personagens secund&aacute;rias desta<br \/>\n    hist&oacute;ria, pouco teremos a dizer.<\/p>\n<p> O brasileiro fez as pazes com o conselheiro, porque este, logo que entrou<br \/>\n    para o minist&eacute;rio, mandou lavrar o decreto em que se nomeava visconde<br \/>\n    de n&atilde;o sei qu&ecirc; o seu antigo inimigo. Foi este o primeiro acto<br \/>\n    pol&iacute;tico do gabinete, que o Pa&iacute;s ingrato teve a sem-raz&atilde;o<br \/>\n    de nao aplaudir.<\/p>\n<p> O brasileiro, em paga, entrou com Augusto em compet&ecirc;ncia de melhoramentos<br \/>\n    locais, com grande proveito da aldeia, O Sr. Jo&atilde;ozinho, em vista desta<br \/>\n    fus&atilde;o de partidos, achou-se incorporado na liga, e em pouco tempo teve<br \/>\n    ocasi&atilde;o de demonstrar de novo a sua influ&ecirc;ncia eleitoral, trazendo<br \/>\n    compacta &agrave; uma a freguesia de Pinch&otilde;es, para reeleger o conselheiro<br \/>\n    que, pela sua nomea&ccedil;&atilde;o, perdera o lugar de deputado. Desta vez<br \/>\n    ningu&eacute;m lho disputou, e era edificante ver o brasileiro ao lado do<br \/>\n    Tapadas, esquecidos antigos &oacute;dios, votando de comum acordo e de boa<br \/>\n    harmonia.<\/p>\n<p> A reconcilia&ccedil;&atilde;o entre dois advers&aacute;rios comove sempre<br \/>\n    a alma.<\/p>\n<p> O Sr. Jo&atilde;ozinho n&atilde;o mudou de h&aacute;bitos, e cada vez tem<br \/>\n    mais d&iacute;vidas, mais c&atilde;es e mais bebedeiras.<\/p>\n<p> O Pertunhas foi perdoado, e continua imperturb&aacute;vel nas suas fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ensino e na comiss&atilde;o do correio, odiando os irm&atilde;os Vir gilios<br \/>\n    e desafogando as suas m&aacute;goas na embocadura da trompa.<\/p>\n<p> O homem queixa-se de ter sido v&iacute;tima de uma vingan&ccedil;a. Confessa<br \/>\n    que por brincadeira tirara uma carta da pasta de Augusto, mas que a tornara<br \/>\n    a colocar no seu lugar, e por isso&#8230;<\/p>\n<p> A fam&iacute;lia Z&eacute;-Pereira vai em r&aacute;pida decad&ecirc;ncia<br \/>\n    ; o homem j&aacute; nem tem for&ccedil;a para fazer ressoar o zabumba. &Eacute;<br \/>\n    esta uma das que maia deve &agrave; caridade de Madalena.<\/p>\n<p> O conselheiro, ainda hoje no gozo imperturbado dos votos un&acirc;nimes<br \/>\n    daquele c&iacute;rculo eleitoral, vem de quando em quando retemperar o &acirc;nimo<br \/>\n    exausto nas fadigas parlamentares e nas divers&otilde;es da capital, no seio<br \/>\n    da sua feliz fam&iacute;lia, e volta melhor.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, logo que principiam as f&eacute;rias dos seus estudos superiores,<br \/>\n    corre com alvoro&ccedil;o de crian&ccedil;a a gozar na aldeia os dias que<br \/>\n    ele j&aacute; pressente terem de ser os mais felizes de toda a sua vida.<\/p>\n<p> A quinta dos Canaviais, &agrave; qual andam ligadas suaves recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos dois venturosos pares, que os incidentes desta hist&oacute;ria reuniram,<br \/>\n    foi transformada por Madalena numa habita&ccedil;&atilde;o de recreio, onde<br \/>\n    as duas fam&iacute;lias celebram, durante o ano, algumas festas em comum.<\/p>\n<p> Estes melhoramentos vieram confirmar o t&iacute;tulo de que Madalena havia<br \/>\n    muito estava de posse.<\/p>\n<p> E hoje &eacute; ela ainda entre a gente do povo conhecida pelo nome de &laquo;<br \/>\n    Morgadinha dos Canaviais &raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Dinis AO cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genu&iacute;no Dezembro, chuvoso, frio, a&ccedil;outado do Sul e sem contrafeitos sorrisos de Primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, &agrave; falta de competidora, em que melhor coubessem. 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