{"id":108051,"date":"2017-02-09T12:29:54","date_gmt":"2017-02-09T14:29:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108051"},"modified":"2017-02-09T12:29:54","modified_gmt":"2017-02-09T14:29:54","slug":"as-pupilas-do-senhor-reitor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/as-pupilas-do-senhor-reitor","title":{"rendered":"As Pupilas do Senhor Reitor"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"564\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#10\" class=\"links\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#11\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#12\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#13\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#14\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#15\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#16\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#17\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#18\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#19\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#20\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XX<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#21\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#22\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#23\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#24\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#25\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#26\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#27\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#28\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#29\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#30\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXX<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#31\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#32\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#33\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#34\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#35\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#36\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXVI<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#37\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXVII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#38\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXVIII<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#39\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XXXIX<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#40\" class=\"links\">Cap\u00edtulo XL<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<p><strong>J\u00falio Dinis<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h4>\n<p> Jos&eacute; das Dornas era um lavrador abastado, sadio e de uma t&atilde;o<br \/>\n    feliz disposi&ccedil;&atilde;o de g&ecirc;nio, que tudo levava a rir; mas<br \/>\n    desse rir natural, sincero e despreocupado, que lhe fazia bem, e n&atilde;o<br \/>\n    do rir dos Dem&oacute;critos de todos os tempos &#8211; rir c&eacute;ptico, for&ccedil;ado,<br \/>\n    desconsolador, que &eacute; mil vezes pior do que o chorar.<\/p>\n<p>Em neg&oacute;cio de lavoura, dava, como se costuma dizer, sota e &aacute;s<br \/>\n    ao mais pintado. At&eacute; o Sr. Morais Soares teria que aprender com ele.<br \/>\n    Apesar dos seus sessenta anos, desafiava em robustez e atividade qualquer<br \/>\n    rapaz de vinte. Era-lhe familiar o canto matinal do galo, e o amanhecer j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o tinha para ele segredos n&atilde;o revelados. O sol encontrava-o<br \/>\n    sempre de p&eacute;, e em p&eacute; o deixava ao esconder-se.<\/p>\n<p>Estas qualidades, juntas a uma longa experi&ecirc;ncia adquirida &agrave;<br \/>\n    custa de muito sol e muita chuva em campo descoberto, faziam dele um lavrador<br \/>\n    consumado, o que, diga-se a verdade, era confessado por todos, sem esfor&ccedil;o<br \/>\n    de malqueren&ccedil;as e murmura&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Diz-se que quem mais faz menos merece e que mais vale quem Deus ajuda do<br \/>\n    que quem muito madruga, e n&atilde;o sei o que mais; ser&aacute; assim; mas<br \/>\n    desta vez parecia que se desmentira o ditado, ou pelo menos que o fato das<br \/>\n    madrugadas n&atilde;o exclu&iacute;ra o aux&iacute;lio providencial, porque<br \/>\n    Jos&eacute; das Dornas prosperava a olhos vistos. Ali por fins de agosto era<br \/>\n    um tal de entrar de carros de milho pelas portas do quinteiro dentro! S. Miguel<br \/>\n    mais farto poucos se gabavam de ter. Que abund&acirc;ncia por aquela casa!<br \/>\n    Ningu&eacute;m era pobre com ele; louvado Deus!<\/p>\n<p>Como homem de fam&iacute;lia, n&atilde;o havia tamb&eacute;m que por a boca<br \/>\n    em Jos&eacute; das Dornas. Em perfeita e exemplar harmonia vivera vinte anos<br \/>\n    com sua mulher, e ent&atilde;o, como depois que viuvara, manifestou sempre<br \/>\n    pelos filhos uma solicitude, n&atilde;o revelada por meiguices &#8211; que lhe n&atilde;o<br \/>\n    estavam no g&ecirc;nio &#8211; mas que, nas ocasi&otilde;es, se denunciava por sacrif&iacute;cios<br \/>\n    de fazerem hesitar os mais extremosos.<\/p>\n<p>Eram dois estes filhos &#8211; Pedro e Daniel. Pedro, que era o mais velho, n&atilde;o<br \/>\n    podia negar a paternidade. Ver o pai era v&ecirc;-lo a ele; a mesma express&atilde;o<br \/>\n    de franqueza no rosto, a mesma robustez de complei&ccedil;&atilde;o, a mesma<br \/>\n    excel&ecirc;ncia de musculatura, o mesmo tipo, apenas um pouco mais elegante,<br \/>\n    porque a idade n&atilde;o viera ainda curvatura de certos contornos e ampliar-lhe<br \/>\n    as dimens&otilde;es transversais, como j&aacute; no pai acontecia. Conservava-se<br \/>\n    ainda correto aquele vivo exemplar do H&eacute;rcules escultural.<\/p>\n<p>Pedro era, de fato, o tipo de beleza masculina, como a compreendiam os antigos.<br \/>\n    O gosto moderno tem-se modificado, ao que parece, exigindo nos seus tipos<br \/>\n    de ado&ccedil;&atilde;o o que quer que seja de franzino e delicado, que n&atilde;o<br \/>\n    foi por certo o caracter&iacute;stico dos mais perfeitos homens de outras<br \/>\n    eras.<\/p>\n<p>A organiza&ccedil;&atilde;o talhara Pedro para a vida de lavrador, e parecia<br \/>\n    apont&aacute;-lo para suceder ao pai no amanho das terras e na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos trabalhos agr&iacute;colas.<\/p>\n<p>Assim o entendera Jos&eacute; das Dornas, que foi amestrando o seu primog&ecirc;nito<br \/>\n    e preparando-o para um dia abdicar nele a enxada, a foice, a vara, a rabi&ccedil;a,<br \/>\n    e confiar-lhe a chave do cabanal, t&atilde;o repleto em ocasi&otilde;es de<br \/>\n    colheita.<\/p>\n<p>Daniel j&aacute; tinha condi&ccedil;&otilde;es f&iacute;sicas e morais muito<br \/>\n    diferentes. Era o avesso do irm&atilde;o e por isso incapaz de tomar o mesmo<br \/>\n    rumo de vida.<\/p>\n<p>Possu&iacute;a uma constitui&ccedil;&atilde;o quase de mulher. Era alvo e<br \/>\n    louro, de voz efeminada, m&atilde;os estreitas e sa&uacute;de vacilante.<\/p>\n<p>O sangue materno girava-lhe mais abundante nas veias, do que o sangue cheio<br \/>\n    de for&ccedil;a e vida, ao qual Jos&eacute; das Dornas e Pedro deviam aquela<br \/>\n    invej&aacute;vel constru&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Votar Daniel &agrave; vida dos campos seria sacrific&aacute;-lo. Apertava-se<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o do pobre pai, ao lembrar-se que os s&oacute;is ardentes<br \/>\n    de julho ou os tuf&otilde;es regelados de dezembro haviam de encontrar sem<br \/>\n    abrigo aquela d&eacute;bil crian&ccedil;a, que mais se dissera nascida e criada<br \/>\n    em ber&ccedil;os almofadados e sob cortinados de cambraia, do que no leito<br \/>\n    de pinho e na grosseira enxerga alde&atilde;.<\/p>\n<p>E desde ent&atilde;o, desde que pensou nisto, um id&eacute;ia fixa principiou<br \/>\n    a laborara no c&eacute;rebro daquele pai extremoso e a monopolizar-lhe as<br \/>\n    poucas horas que o trabalho n&atilde;o absorvia.<\/p>\n<p>De vez em quando o encontravam os amigos deveras preocupado, o que, sendo<br \/>\n    nele para estranhar, excitava curiosidades e receio e desafiava interroga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O reitor foi um dos que mais se importou com a preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do nosso homem.<\/p>\n<p>Era este reitor um padre velho e dado, que h&aacute; muito conseguira na<br \/>\n    par&oacute;quia transformar em amigos todos os fregueses. Tinha o Evangelho<br \/>\n    no cora&ccedil;&atilde;o &#8211; o que vale muito mais ainda do que t&ecirc;-lo<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>A qualidade de egresso n&atilde;o tolhia os ser liberal de convic&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era-o como poucos.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; homem de Deus &#8211; disse pois o reitor um dia, resolvido deveras<br \/>\n    a sondar as profundezas daquele mist&eacute;rio &#8211; que tens tu h&aacute; tempos<br \/>\n    a esta parte? Que empresa &eacute; essa em que me andas a cismar h&aacute;<br \/>\n    tantos dias?<\/p>\n<p>&#8212; Que quer, Sr. Padre Ant&ocirc;nio? um homem de fam&iacute;lia tem<br \/>\n    sempre em que cuidar; tem a sua vida e tem a dos filhos.<\/p>\n<p>Foi a resposta que obteve.<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa! &#8211; insistiu o padre &#8211; Bem alegre te via eu, em tempos mais<br \/>\n    azados para tristezas, e bem alegres vejo muitos com bem outras raz&otilde;es<br \/>\n    para o contr&aacute;rio. Mas tu! Que mais queres? Tens bons haveres para deixares<br \/>\n    a teus filhos.; mas, quando n&atilde;o os tivesses, sempre eram dois rapazes;<br \/>\n    e deixa l&aacute;, Jos&eacute;; um homem &eacute; outra coisa que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; uma mulher; onde quer se arranja; toda a terra &eacute; sua; em toda<br \/>\n    a parte encontra o que fazer, e qualquer trabalho lhe est&aacute; bem. Agora<br \/>\n    os pobres que vejo por ai com um rancho de raparigas, coitadinhas, que ficam<br \/>\n    mesmo ao desamparo de todo, se a sorte lhes roubar o pai&#8230; esses, sim, &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o sei como podem ter um momento de alegria; e contudo encontr&aacute;-los<br \/>\n    nas festas, que &eacute; um louvar a Deus.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; assim, Sr. Reitor, eu sei que os h&aacute; por a&iacute;<br \/>\n    mais infelizes do que eu, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o, quem tem sa&uacute;de e a quem Deus n&atilde;o<br \/>\n    falta com o p&atilde;o nosso cotidiano, s&oacute; deve erguer as m&atilde;os<br \/>\n    ao c&eacute;u para lhe tecer louvores. Mareia a tua vida, que teus filhos<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o nenhuns aleijados para precisarem pedir esmolas.<\/p>\n<p>&#8212; Gra&ccedil;as a Deus que n&atilde;o s&atilde;o, Sr. Reitor. O Pedro,<br \/>\n    sobretudo, n&atilde;o me d&aacute; cuidados. O Senhor f&ecirc;-lo robusto<br \/>\n    e fero; &eacute; um homem para o trabalho; e quem pode trabalhar n&atilde;o<br \/>\n    precisa de outra heran&ccedil;a. Pelo trabalho, e com a ajuda de Deus, fiz<br \/>\n    eu esta minha casa, que n&atilde;o &eacute; das piores, vamos; ele, com menos<br \/>\n    custo, a pode agora aumentar, se quiser. Mas o Daniel j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim. Aquilo &eacute; outra m&atilde;e &#8211; o Senhor a chame l&aacute;.<br \/>\n    Um dia de ceifa &eacute; bastante para mo matar. &Eacute; a sorte dele que<br \/>\n    me d&aacute; cuidado. <\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; s&oacute; isso? Ora valha-te Deus! &Eacute; verdade.<br \/>\n    O pequeno &eacute; fraquito e decerto n&atilde;o pode com o trabalho do campo,<br \/>\n    mas&#8230; para que queres tu o dinheiro, Jos&eacute;? Acaso n&atilde;o ter&aacute;s<br \/>\n    alguns centos de mil-r&eacute;is ao canto da caixa para p&ocirc;r o rapaz<br \/>\n    nos estudos? N&atilde;o podes fazer dele um lavrador? F&aacute;-lo padre,<br \/>\n    letrado ou m&eacute;dico, que n&atilde;o ficar&aacute;s pobre com a despesa.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas ao ouvir assim formulado o conselho do reitor sorriu<br \/>\n    com a vis&iacute;vel satisfa&ccedil;&atilde;o que sempre experimentamos, vendo<br \/>\n    que um dos nossos pensamentos favoritos merece a aprova&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    algu&eacute;m, antes de lho revelarmos.<\/p>\n<p>&#8212; Nisso mesmo penava eu. J&aacute; me lembrou mand&aacute;-lo estudar,<br \/>\n    mas tinha c&aacute; certos escr&uacute;pulos.<\/p>\n<p>&#8212; Escr&uacute;pulos! Valha-te n&atilde;o sei que diga! Pois ainda &eacute;s<br \/>\n    desses tempos? Que escr&uacute;pulos podes ter em mandar ensinar teus filhos?<br \/>\n    Fazes-me lembrar um tio meu que nunca permitiu que as filhas aprendessem a<br \/>\n    ler; como se pela leitura se perdesse mais gente do que pela ignor&acirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; isso, Sr. Padre Ant&ocirc;nio, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    isso o que eu quero dizer; mas custa-me dar a meus filhos uma educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    desigual. V&ecirc; Vossa Senhoria. S&atilde;o irm&atilde;os e , mais tarde,<br \/>\n    o que tomar melhor carreira e se elevar pelo estudo, h&aacute; de desprezar<br \/>\n    o que seguir a vida do pai, a ponto de que os filhos dum e doutro quase n&atilde;o<br \/>\n    se conhecer&atilde;o: &eacute; o que mais vezes se v&ecirc;. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    uma injusti&ccedil;a que fa&ccedil;o a Pedro a educa&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    der a Daniel?<\/p>\n<p>&#8212; Homem de Deus, n&atilde;o h&aacute; desigualdade verdadeira, sen&atilde;o<br \/>\n    a que separa o homem honrado do criminosos e mau. Essa sim, que &eacute; estabelecida<br \/>\n    por Deus, que, na hora solene, extremar&aacute; os eleitos dos r&eacute;probos.<br \/>\n    Educa bem os teus filhos em qualquer carreira em que os encaminhes; educa-os<br \/>\n    segundo os princ&iacute;pios da virtude e da honra, e n&atilde;o os distanciar&aacute;,<br \/>\n    acredita; porque, cumprindo cada um com o seu dever, ser&atilde;o ambos dignos<br \/>\n    um do outro e prontos apertar&atilde;o as m&atilde;os onde quer que se encontrem.<br \/>\n    E no sentido mundano, julgas tu que fazes mais feliz Daniel, por o elevares<br \/>\n    a uma classe social acima da tua! A&iacute;, homem, como viver enganado! o<br \/>\n    quinh&atilde;o de dores e prova&ccedil;&otilde;es foi indistintamente repartido<br \/>\n    por todas as classes, sem privil&eacute;gio de nenhuma. H&aacute; infort&uacute;nio<br \/>\n    e mis&eacute;rias que causam o tormento dos grandes e poderosos, e que os<br \/>\n    pobres e humildes nem experimentam, nem imaginam sequer. Grande nau grande<br \/>\n    tormenta: h&aacute;s de ter ouvido dizer. Sabes que mais Jos&eacute;? &#8211; concluiu<br \/>\n    o reitor &#8211; manda-me o rapaz l&aacute; por casa, que eu lhe irei ensinado o<br \/>\n    pouco que sei do latim, e deixa-te de malucar!<\/p>\n<p>Com estas e id&ecirc;nticas raz&otilde;es foi o bom do padre convencendo<br \/>\n    Jos&eacute; das Dornas, que nada mais veementemente desejava do que ser convencido<br \/>\n    &#8211; e, decorridos oito dias, via-se j&aacute; Daniel passar, com os livros debaixo<br \/>\n    do bra&ccedil;o, a caminho da casa do reitor. <\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/a><\/h4>\n<p> &#8212; &Oacute; ti&#8217;Tom&aacute;sia &#8211; dizia, ao v&ecirc;-lo passar, uma velha<br \/>\n    que, sentada ao soalheiro, fiava, rezava padre-nossos e cabeceava com sono<br \/>\n    &#8211; o pequeno do Jos&eacute; das Dornas anda agora nos estudos?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o sabe que o pai o quer p&ocirc;r a padre? &#8211; respondeu<br \/>\n    a vizinha da porta de cima, ao passo que desenredava uma meada e fazia soltar<br \/>\n    &agrave; dobadoura os mais inarm&ocirc;nicos gemidos.<\/p>\n<p>&#8212; Toma que te dou eu! A coisa vai ser grande ent&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8212; Bem se diz: mais anda quem tem o bom vento, do quem muito rema. Ver&aacute;<br \/>\n    voc&ecirc;, ti&#8217;Cust&oacute;dia, que o Pedro, que se mata com trabalho, h&aacute;<br \/>\n    de ter sempre vida de gal&eacute;s, sem nunca levantar cabe&ccedil;a; e o<br \/>\n    pel&eacute;m do irm&atilde;o &eacute; que h&aacute; de pimpar de senhor e<br \/>\n    dar leis em casa.<\/p>\n<p>&#8212; Uma coisa assim! J&aacute; agora havia mister de um senhor abade<br \/>\n    ou c&ocirc;nego na fam&iacute;lia! Ora este mundo sempre est&aacute;!.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o veja que padre aquele! A mim n&atilde;o me engana<br \/>\n    a pinta. &Eacute; de boa ra&ccedil;a. N&atilde;o tem d&uacute;vida nenhuma.<\/p>\n<p>&#8212; Sai ao lado da m&atilde;e, vizinha. Lembra-se do tio dele &#8211; o Joaquim<br \/>\n    do Morgado? &#8211; Que menino!.<\/p>\n<p>A inflex&atilde;o com que este &#8211; que menino! &#8211; foi pronunciado era altamente<br \/>\n    significativa. &Eacute; de crer que o referido Joaquim do Morgado, cunhado<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas, deixasse indel&eacute;veis recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre as mulheres de sua &eacute;poca.<\/p>\n<p>&#8212; Se me lembra! Aquilo era uma coisa por maior. Bastava dar-lhe um<br \/>\n    pouco de trela, que ele a&iacute; estava! Nanja eu, comigo nunca ele fez farinha.<\/p>\n<p>E dizendo isto, desviava a cara a abaixava-se para apanhar o novelo que deixara<br \/>\n    cair, enquanto a vizinha fazia um gesto e resmoneava um aparte inintelig&iacute;vel,<br \/>\n    que ambos pareciam contrariar a &uacute;ltima asser&ccedil;&atilde;o da velha<br \/>\n    e p&ocirc;r em d&uacute;vida a sua apregoada isen&ccedil;&atilde;o de outros<br \/>\n    tempos.<\/p>\n<p>&#8212; Nem comigo, ti&#8217;Tom&aacute;sia &#8211; disse, em tom j&aacute; elevado,<br \/>\n    esta do aparte &#8211; nem comigo, que ele bem sabia com quem se metia.<\/p>\n<p>Desta vez, gesto e aparte pertenceram &agrave; outra interlocutora, e tinham<br \/>\n    a mesma significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; certo, por&eacute;m, que Daniel ia andando com seu latim e, dentro<br \/>\n    em pouco tempo, j&aacute; papagueava os substantivos e os adjetivos com incr&iacute;vel<br \/>\n    e surpreendente velocidade.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas divertia-se excessivamente a ouvi-lo. As declina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ditas pelo filho em voz alta &quot;l&aacute; lhe caiam no goto&quot; como<br \/>\n    ele dizia; e j&aacute; procuravam imit&aacute;-lo nas suas horas de bom humor,<br \/>\n    que, segundo j&aacute; afirmamos, eram numerosas.<\/p>\n<p>&#8212; Dize l&aacute;, rapaz, dize l&aacute;. Ent&atilde;o como &eacute;?<br \/>\n    Como &eacute;? Altrotoro, altrotoro, altrotoro. &Oacute; tranca, &oacute;<br \/>\n    trinque, ai, diabos, diabos, diabos. Ah! Ah! Ah! Ora dize l&aacute;, rapaz,<br \/>\n    dize l&aacute;.<\/p>\n<p>E Daniel principiava a repetir as li&ccedil;&otilde;es acompanhado das gargalhadas<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas que, sem o saber, ia demonstrando com o exemplo<br \/>\n    um grande preceito de instru&ccedil;&atilde;o, tantas vezes recomendado: &#8211;<br \/>\n    o de vencer, pelo est&iacute;mulo do agrad&aacute;vel, o fastio que acompanha<br \/>\n    o estudo. De fato, a facilidade com que Daniel retinha j&aacute; as enfadonhas<br \/>\n    li&ccedil;&otilde;es da arte do Padre Pereira era em parte devida &agrave;<br \/>\n    maneira por que lhas amenizavam estes gracejos do pai; quanto mais arrevesados<br \/>\n    eram os nomes, com mais vontade os decorava Daniel, para despertar com eles<br \/>\n    a estranheza e hilaridade paternas.<\/p>\n<p>Que estrondosas gargalhadas se n&atilde;o deram na noite em que repetia em<br \/>\n    voz alta a declina&ccedil;&atilde;o do relativo Qui e seus compostos!<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa! &#8211; dizia Jos&eacute; das Dornas &#8211; que vem c&aacute; a ser<br \/>\n    isso? Qui, qui, qui, qui&#8230; Ai que o Sr. Reitor quer ensinar-me ao filho a<br \/>\n    l&iacute;ngua dos cevados!<\/p>\n<p>E toda a fam&iacute;lia desatava a rir, e Daniel mais que todos.<\/p>\n<p>E assim procedia o menino Daniel nos seus estudos com grande aprazimento<br \/>\n    do reitor, que muitas vezes dizia ao pai, em tom confidencial.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes que mais, Jos&eacute;? O rapaz &eacute; esperto, e era at&eacute;<br \/>\n    um pecado desvi&aacute;-lo do estudo, para que tem tanta queda. Olha que me<br \/>\n    estudou as linguagens em oito dias!<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas n&atilde;o podia avaliar ao certo e g&ecirc;nero e<br \/>\n    grau de dificuldade que vencera o filho; mas entendeu, l&aacute; de si para<br \/>\n    si, que fora alguma coisa de her&oacute;ico, e nesse dia n&atilde;o pode deixar<br \/>\n    de olhar para o rapaz como se ele tivesse no rosto o que quer que fosse de<br \/>\n    estranho &#8211; a aur&eacute;ola dos predestinados para grandes coisas.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o, Sr. Reitor &#8211; perguntou ele um dia ao mestre &#8211; o pequeno<br \/>\n    vai bem?<\/p>\n<p>&#8212; Otimamente. O Sulpicio para ele &eacute; j&aacute; como &aacute;gua<br \/>\n    de unto. Qualquer dia passo-o para o Eutr&oacute;pio e dentro em pouco para<br \/>\n    o Corn&eacute;lio. <\/p>\n<p>Estas sucessivas passagens do Sulpicio para o Eutr&oacute;pio, e do Eutr&oacute;pio<br \/>\n    para o Corn&eacute;lio, impressionaram profundamente Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>L&aacute; lhe pareceu aquilo uma fa&ccedil;anha gin&aacute;stica admir&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Faremos dele um padre Sr. Reitor?<\/p>\n<p>&#8212; Que d&uacute;vida? E um padre &agrave;s direitas.<\/p>\n<p>Ora aqui &eacute; que o bom do p&aacute;roco se enganava, como, pouco tempo<br \/>\n    depois, ele pr&oacute;prio reconheceu.<\/p>\n<p>Foi o caso que, ai por volta de um ano depois que o Daniel principiara os<br \/>\n    estudos &#8211; tinha ele ent&atilde;o doze para treze anos &#8211; come&ccedil;ou o reitor<br \/>\n    a observar que o rapaz lhe vinha um pouco mais tarde para a li&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Ao princ&iacute;pio eram cinco, dez minutos, um quarto de hora de diferen&ccedil;a.<br \/>\n    Depois cresceu a demora a vinte, vinte cinco minutos, meia hora, e o padre<br \/>\n    p&ocirc;s-se a parafusar:<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; n&atilde;o me vai parecendo bem a hist&oacute;ria. Dar-se-&aacute;<br \/>\n    o caso que o rapaz me ande por a&iacute; a garotar? Se eu o sei! E ent&atilde;o<br \/>\n    que ia t&atilde;o bem! Deixa-o vir, que eu sempre hei de querer saber o que<br \/>\n    isto &eacute;. Nada, n&atilde;o vamos assim &agrave; minha vontade. Deixa-o<br \/>\n    vir.<\/p>\n<p>Se bem o pensou, melhor o fez. Chegou o pequeno, todo ofegante e suado, como<br \/>\n    quem viera &agrave;s carreiras, e o reitor, fitando-o com olhar severo e penetrante,<br \/>\n    disse-lhe antes de lhe dar as b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os, que ele, de chap&eacute;u<br \/>\n    na m&atilde;o, lhe pedia:<\/p>\n<p>&#8212; Olha c&aacute;, Daniel; donde vens tu a estas horas?<\/p>\n<p>O rapaz fez-se vermelho como um lacre, e n&atilde;o atinou com a resposta.<br \/>\n    Ficou-se a co&ccedil;ar na cabe&ccedil;a, a encolher-se, a engolir em seco,<br \/>\n    a rosnar n&atilde;o sei o qu&ecirc;, e &#8230; mais nada.<\/p>\n<p>&#8212; Anda que eu desconfio que me vais saindo garoto. E, se assim &eacute;,<br \/>\n    tens que ver comigo. Grandess&iacute;ssimo brejeiro! Teu pais manda-te para<br \/>\n    o estudo ou para andares jogando pedra com a outra canalha?<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o andei jogando pedra, n&atilde;o senhor! &#8211; exclamou<br \/>\n    Daniel com uma t&atilde;o eloq&uuml;ente vivacidade que, sem poss&iacute;vel<br \/>\n    ilus&atilde;o, atestava que ele n&atilde;o mentia.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que fez vossemec&ecirc; at&eacute; estas horas?<\/p>\n<p>Nova confus&atilde;o do rapaz.<\/p>\n<p>&#8212; Eu hei de saber; hei de mand&aacute;-lo vigiar, e depois direi a<br \/>\n    seu pai.<\/p>\n<p>Nos quinze dias que se seguiram a esta cena, Daniel foi pontual &agrave;s<br \/>\n    horas da escola. O reitor estava satisfeito com a emenda do rapaz, e lisonjeado,<br \/>\n    l&aacute; muito para si, com o seu poder persuasivo e a convers&atilde;o que<br \/>\n    operava com uma simples admoesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao fim de duas semanas encontrou-se por acaso com Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    e j&aacute; n&atilde;o se lembrava at&eacute; de lhe fazer queixa do filho,<br \/>\n    que assim entrara obediente no bom caminho do dever. Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    por&eacute;m, &eacute; que se mostrava preocupado. Quanto mais o padre lhe<br \/>\n    gabava a habilidade de Daniel, tanto mais o bom homem parecia constrangido,<br \/>\n    limitando-se a soltar uns inintelig&iacute;veis monoss&iacute;labos em sinal<br \/>\n    de aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens tu, Jos&eacute;? A modo que te estou estranhando! &#8211; exclamou<br \/>\n    o reitor, j&aacute; um pouco impaciente.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que, Sr. Padre Ant&ocirc;nio, eu&#8230; a falar a verdade&#8230;<br \/>\n    queria dizer-lhe uma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; Pois dize, homem, dize para ai. Ent&atilde;o deste agora em fazer<br \/>\n    cerim&ocirc;nias comigo?<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei o grande favor que o Sr. Reitor me faz ensinando o pequeno&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem, bem, adiante; deixemo-nos agora disso. Se eu o ensino, &eacute;<br \/>\n    porque quero e gosto. O que estimo &eacute; que ele aproveite, como de fato<br \/>\n    aproveita; o mais s&atilde;o hist&oacute;rias.<\/p>\n<p>&#8212; Pois muito agradecido. Mas dizia eu&#8230; sim&#8230; custa-me a explicar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Com S. Pedro! Fala, homem, dize l&aacute; o que tens a dizer.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que o rapaz a modo que &eacute; fraquito, e ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o o qu&ecirc; ?<\/p>\n<p>&#8212; Tenho medo que, estudando demais, me adoe&ccedil;a por a&iacute;,<br \/>\n    e &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele estuda demais?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, senhor; mas&#8230; sim&#8230; queria eu dizer, que talvez fosse<br \/>\n    bom que o Sr. Reitor o demorasse menos na aula. Digo eu isto, mas se vir que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sim, mas ent&atilde;o&#8230; vamos a saber, ent&atilde;o ele demora-se<br \/>\n    muito?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o digo que seja muito. Tudo &eacute; necess&aacute;rio,<br \/>\n    bem sei&#8230;Mas&#8230; quero eu dizer&#8230; para quem &eacute; fraco como ele&#8230; Como<br \/>\n    sai &agrave;s duas horas e vem s&oacute; &agrave;s trindades&#8230; e &agrave;s<br \/>\n    vezes &agrave; noite fechada&#8230;<\/p>\n<p>O Reitor ficou como se lhe ca&iacute;ra o cora&ccedil;&atilde;o aos p&eacute;s,<br \/>\n    ficou&#8230; &#8211; diga-se a frase, visto que a autorizou quem podia &#8211; ficou desapontado.<br \/>\n    Das duas horas &agrave;s trindades, e &agrave; noite cerrada, &agrave;s vezes,<br \/>\n    quando ele lhe entrava em cada &agrave;s tr&ecirc;s e lhe saia pouco depois<br \/>\n    das cinco! Tinha assim o padre de modificar duplamente o seu ju&iacute;zo<br \/>\n    &#8211; quanto ao rapaz e quanto a si &#8211; descrendo da convers&atilde;o do primeiro<br \/>\n    e do seu pr&oacute;prio poder de catequese. Este sacrif&iacute;cio em duplicado,<br \/>\n    custou-lhe e conservou-o por algum tempo mudo. Esteve para contar ao pai a<br \/>\n    hist&oacute;ria toda, mas calou-se. Tinha um cora&ccedil;&atilde;o generoso<br \/>\n    afinal de contas e compreendeu que a revela&ccedil;&atilde;o, iria afligir<br \/>\n    o velho.<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o, homem &#8211; limitou-se pois a dizer &#8211; Tens raz&atilde;o.<br \/>\n    O rapaz h&aacute; de sair mais cedo. Eu olharei por isso. Mais alguns dias<br \/>\n    s&oacute;, para chegar c&aacute; a um ponto que eu quero, e depois ser&aacute;<br \/>\n    como dizes.<\/p>\n<p>E l&aacute; consigo dizia o bom padre.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa estar, meu Danielzinho, que eu hei de saber por onde tu me<br \/>\n    vais, depois que te mando embora. Deixa estar, deixa, que me n&atilde;o tornas<br \/>\n    a enganar, meu menino.<\/p>\n<p>E foi para casa com firme resolu&ccedil;&atilde;o de elucidar este neg&oacute;cio.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap&iacute;tulo III<\/a><\/h4>\n<p> No dia seguinte deu Daniel a li&ccedil;&atilde;o de costume, e &agrave;s<br \/>\n    cinco horas recebeu ordem de se retirar, &#8211; ordem cuja execu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    como era natural, n&atilde;o se fez esperar muito.<\/p>\n<p>Ele a voltar costas, e o reitor a p&ocirc;r o chap&eacute;u na cabe&ccedil;a<br \/>\n    para lhe ir na pista.<\/p>\n<p>A tarefa n&atilde;o era f&aacute;cil; basta lembrar-mos da agilidade de Daniel,<br \/>\n    natural &agrave; sua idade, e compar&aacute;-la com os j&aacute; tr&ocirc;pegos<br \/>\n    movimentos do velho padre, que, com a pressa que levava, impelia diante de<br \/>\n    si todas as pedras soltas do caminho.<\/p>\n<p>Foi seguindo direito pelas ruas que o conduziam a casa de Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas e perguntando a quantos conhecidos encontrava, sentados pelas portas<br \/>\n    ou debru&ccedil;ados nas janelas, se tinham visto passar o pequeno. Por muito<br \/>\n    tempo foram as respostas afirmativas, o que satisfazia o reitor, pois indicavam-lhe<br \/>\n    que, at&eacute; aquele ponto, o rapaz n&atilde;o se havia extraviado, deixando<br \/>\n    de seguir o caminho de casa.<\/p>\n<p>Chegou, por&eacute;m, a um largo, onde desembocavam diferentes ruas e azinhagas,<br \/>\n    e as coisas mudaram ent&atilde;o de face.<\/p>\n<p>O reitor continuando a seguir seu sistema de indaga&ccedil;&otilde;es, tomou<br \/>\n    a dire&ccedil;&atilde;o que devia ser mais prontamente o pequeno Daniel aos<br \/>\n    lares paternos.<\/p>\n<p>A porta duma casa t&eacute;rrea, que havia na esquina, dobava uma velha,<br \/>\n    a qual, ao ver aproximar-se o reitor, ergueu-se, com toda a cortesia da cadeira<br \/>\n    em que estava sentada.<\/p>\n<p>&#8212; Muito boas tardes, tia Bernarda. Diga-me, viu passar por aqui o pequenito<br \/>\n    do Jos&eacute; das Dornas?<\/p>\n<p>&#8212; Nosso Senhor venha na companhia de V.S.&ordf;. Pois nada, n&atilde;o<br \/>\n    senhor, Sr. Reitor. O rapazito passava dantes por aqui todas as tardes; mas<br \/>\n    haver&aacute; coisa de quinze dias, ou tr&ecirc;s semanas, que j&aacute; o<br \/>\n    n&atilde;o tenho visto.<\/p>\n<p>O reitor p&ocirc;s-se a co&ccedil;ar na orelha. O delito come&ccedil;ava<br \/>\n    a fazer-se evidente.<\/p>\n<p>&#8212; Esta agora &#8211; murmurava ele deveras zangado, e depois acrescentou<br \/>\n    mais alto: &#8211; E eu que me esqueci de lhe dar um recado para o pai! Diacho!<\/p>\n<p>&#8212; Se V.S.&ordf;. quer, eu mando l&aacute; a minha neta.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, n&atilde;o; obrigado. A coisa tamb&eacute;m tem tempo. Fique-se<br \/>\n    com Deus, tia Bernarda, e agradecido.<\/p>\n<p>&#8212; Nanja por isso, meu senhor &#8211; E a velha fez rever&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&#8212; Temos hist&oacute;ria &#8211; dizia o reitor, franzindo o sobrolho e tomando<br \/>\n    por outro dos caminhos que comunicavam com o largo. &#8211; Perguntemos aqui &#8211; e<br \/>\n    parou junto dum alpendre r&uacute;stico, debaixo do qual estava sentado um<br \/>\n    velho quase paral&iacute;tico, que procurava nos raios do sol o calor que<br \/>\n    lhe escasseava nos membros, j&aacute; regelados pela idade.<\/p>\n<p>&#8212; Boas tardes, tio Bonif&aacute;cio &#8211; disse o reitor, elevando a voz<br \/>\n    e parando defronte dele.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Padre Ant&ocirc;nio, um criado de V. Rev.ma.<\/p>\n<p>&#8212; Sabe me dizer, tio Bonif&aacute;cio, se o pequeno do Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas passou h&aacute; pouco tempo por aqui?<\/p>\n<p>O velho, j&aacute; meio surdo, fez repetir a pergunta em tom mais elevado,<br \/>\n    e depois dum momento de sil&ecirc;ncio, durante a qual pareceu interrogar<br \/>\n    a mem&oacute;ria, j&aacute; perra e enfraquecida.<\/p>\n<p>&#8212; Sim senhor, vi &#8211; respondeu, acenando afirmativamente com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; Vi sim senhor. Passou aqui com os bois, h&aacute; meia hora.<\/p>\n<p>&#8212; Com os bois!&#8230; A&iacute;, esse &eacute; o Pedro. Falo no pequeno:<br \/>\n    no Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; nada&#8230; esse&#8230; ah! sim, sim&#8230; um que anda nos estudos?<\/p>\n<p>&#8212; Esse mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, pelos modos que&#8230; agora neste instante passou ele a correr,<br \/>\n    para o lado dos a&ccedil;udes.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado, tio Bonif&aacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; O mafarrico do rapaz que ter&aacute; para fazer do lado dos a&ccedil;udes?<br \/>\n    &#8211; dizia o padre consigo, tomando a dire&ccedil;&atilde;o indicada. Efetivamente<br \/>\n    pelo novo caminho que seguia, iam-lhe dando informa&ccedil;&otilde;es de Daniel,<br \/>\n    acrescentando de mais a mais, que, havia coisa de duas semanas, era ele certo<br \/>\n    por ali todas as tardes.<\/p>\n<p>O reitor dava-se a perros, para atinar com o motivo de semelhante rodeio.<\/p>\n<p>&#8212; Em nome do Padre, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo! Para que vir&aacute;<br \/>\n    o rapaz dar esta esquisita volta?<\/p>\n<p>De certo ponto por diante faltaram-lhe as informa&ccedil;&otilde;es, porque<br \/>\n    o s&iacute;tio tornava-se quase despovoado.<\/p>\n<p>A tarde ainda estava longe do seu fim; mas umas nevoazitas come&ccedil;avam<br \/>\n    a levantar-se dos campos e lameiros, e o reitor, que tinha o seu reum&aacute;tico<br \/>\n    a atender, j&aacute; ia perdendo grande parte daquele fogo com que encetara<br \/>\n    a pesquisa.<\/p>\n<p>No meio dum estreito e alagado caminho, que seguia tortuosamente por entre<br \/>\n    dois campos de centeio, parou e entrou a refletir:<\/p>\n<p>&#8212; O rapaz sumiu-se. Para o ir procurar assim &agrave; toa e a estas<br \/>\n    horas do dia n&atilde;o estou eu. V&atilde;o l&aacute; atr&aacute;s do homem<br \/>\n    da capa preta. Quem sabe onde o diabrete foi dar agora consigo? O pai que<br \/>\n    o procure que tem obriga&ccedil;&atilde;o disso. O melhor &eacute; retirar<br \/>\n    em boa ordem, antes que venha o frio da noite.<\/p>\n<p>J&aacute; se preparava para seguir o prudente conselho, que a si pr&oacute;prio<br \/>\n    acabava de dar, quando lhe despertou a aten&ccedil;&atilde;o um assobio agudo<br \/>\n    e vibrante, cujo timbre lhe era t&atilde;o conhecido como a toada da cantiga<br \/>\n    que executava.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute; &#8211; disse o reitor, parando equilibrado sobre duas alpondras<br \/>\n    no meio do lama&ccedil;al do caminho &#8211; Moiro na costa, ou eu me engano muito!<\/p>\n<p>P&ocirc;s-se a escutar de novo, e cada vez mais parecia confirmar as suas<br \/>\n    suspeitas, acabando de se convencer de todo, quando, ao assobiar, sucedeu<br \/>\n    uma voz infantil, que ele logo reconheceu como a do disc&iacute;pulo, cantando,<br \/>\n    ainda na mesma toada, que era de uma m&uacute;sica popular, as seguintes coplas:<\/p>\n<p>Morena, Morena<br \/>\n    De olhos castanhos<br \/>\n    Quem te deu, morena,<br \/>\n    Encantos tamanhos?<\/p>\n<p>Encantos tamanhos<br \/>\n    N&atilde;o vi nunca assim<br \/>\n    Morena, morena,<br \/>\n    Tem pena de mim.<\/p>\n<p>Morena, morena,<br \/>\n    De olhos rasgados<br \/>\n    Teus olhos, morena,<br \/>\n    S&atilde;o os meus pecados. <\/p>\n<p>S&atilde;o os meus pecados<br \/>\n    Uns olhos assim<br \/>\n    Morena, morena,<br \/>\n    Tem pena de mim.<\/p>\n<p>Morena, morena,<br \/>\n    Dos olhos galantes<br \/>\n    Teus olhos, morena,<br \/>\n    S&atilde;o dois diamantes.<\/p>\n<p>S&atilde;o dois diamantes<br \/>\n    Olhando-me assim<br \/>\n    Morena, morena,<br \/>\n    Tem pena de mim. <\/p>\n<p>Morena, morena,<br \/>\n    Dos olhos morenos<br \/>\n    O olhar desses olhos<br \/>\n    Concede-me ao menos. <\/p>\n<p>\n    Concede-me ao menos<br \/>\n    N&atilde;o sejas assim<br \/>\n    Morena, morena,<br \/>\n    Tem pena de mim.<\/p>\n<p>\n    &#8211; Temos o homem &#8211; disse o reitor, depois de ouvir a cantiga, e enfiou resoluto<br \/>\n    pela rua adiante. Mas tendo dado alguns passos mais, parou como se mudasse<br \/>\n    de ten&ccedil;&atilde;o. &#8211; <\/p>\n<p>&#8211; Nada, n&atilde;o conv&eacute;m que ele me veja. &Eacute; preciso espi&aacute;-lo<br \/>\n    sem que ele d&ecirc; por isso.<\/p>\n<p>Feita esta reflex&atilde;o, passou um r&aacute;pido exame ao terreno e retrocedeu.<br \/>\n    Dobrou novamente a esquina da viela em que se introduzira; costeou o campo<br \/>\n    do lado direito, at&eacute; se lhe deparar uma cancela r&uacute;stica, que<br \/>\n    n&atilde;o lhe op&ocirc;s a m&iacute;nima resist&ecirc;ncia, e oculto pelo<br \/>\n    centeio, caminhou, o mais prudentemente que p&ocirc;de, at&eacute; o lugar<br \/>\n    correspondente &agrave;quele de onde partia a voz e da&iacute; por diante<br \/>\n    at&eacute; descobrir a ca&ccedil;a que procurava. N&atilde;o levou muito tempo<br \/>\n    a realizar o seu intento.<\/p>\n<p>Eis a cena que viu o reitor, acocorado ente o centeio, com a bengala fixa<br \/>\n    no ch&atilde;o, m&atilde;os apoiadas na bengala, o queixo apoiado nas m&atilde;os\n  <\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap&iacute;tulo IV<\/a><\/h4>\n<p> Defronte do campo, donde, com as melhores inten&ccedil;&otilde;es deste<br \/>\n    mundo, o reitor estava espionando, e separado apenas dele pela estreita e<br \/>\n    &uacute;mida rua, de que j&aacute; falamos, estendia-se um trato de terreno<br \/>\n    inculto, muito coberto de tojo e de giestas, e dessa espont&acirc;nea vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    alpestre, que, no nosso clima, enflora ainda mais os montes mais &aacute;ridos<br \/>\n    e bravios.<\/p>\n<p>Dispersas por toda a extens&atilde;o deste pasto, erravam as ovelhas e cabras<br \/>\n    de um numeroso rebanho, de que eram os &uacute;nicos guardadores, um enorme<br \/>\n    e respeit&aacute;vel c&atilde;o pastor e uma rapariguita de, quando muito,<br \/>\n    doze anos de idade.<\/p>\n<p>At&eacute; aqui nada de not&aacute;vel para o reverendo p&aacute;roco.<\/p>\n<p>Mas o que o maravilhou foi o grupo que formavam, naquele momento, a pequena<br \/>\n    zagala, o c&atilde;o e o nosso conhecido Daniel, por via de quem o bom do<br \/>\n    padre empreendera t&atilde;o trabalhosa excurs&atilde;o.<\/p>\n<p>A pequena sentada junto de uma pedra informe e musgosa, folheava com aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    um livro, dirigindo, de tempos em tempos, meios sorrisos para Daniel, que,<br \/>\n    deitado aos p&eacute;s dela, de bru&ccedil;os, com os cotovelos fincados no<br \/>\n    ch&atilde;o e o queixo pousado nas m&atilde;os, parecia, ao contemplar embevecido<br \/>\n    os olhos da engra&ccedil;ada crian&ccedil;a, estar divisando neles todos os<br \/>\n    dotes mencionados na can&ccedil;&atilde;o da Morena, que lhe ouvimos cantar.<\/p>\n<p>Jaziam ao lado dos dois uma roca espiada e os livros de Daniel.<\/p>\n<p>Completava o grupo o c&atilde;o, enroscado junto do pequeno estudante com<br \/>\n    desassombrada familiaridade, e denunciando assim que o conhecimento entre<br \/>\n    eles, e por conseguinte de Daniel com a pastora, n&atilde;o era j&aacute;<br \/>\n    de recente data.<\/p>\n<p>Este grupo, apesar de toda a sua beleza art&iacute;stica, real&ccedil;ada<br \/>\n    pelas meias tintas do crep&uacute;sculo e por o fundo alaranjado do c&eacute;u,<br \/>\n    sobre que se desenhavam os rendados das &aacute;rvores ao longe, n&atilde;o<br \/>\n    agradou de maneira nenhuma ao reitor, que, com um franzir de sobrolho, mostrou<br \/>\n    claramente a contrariedade que ele lhe fazia experimentar.<\/p>\n<p>Esteve para surgir entre o centeio e mostrar-se aos enlevados personagens<br \/>\n    deste id&iacute;lio infantil, severo e terr&iacute;vel, como o velho vulto<br \/>\n    do gigante Adamastor, nas est&acirc;ncias do grande &eacute;pico.<\/p>\n<p>P&ocirc;de, por&eacute;m, conter-se e constrangeu-se a observar a cena, com<br \/>\n    mal reprimido desagrado.<\/p>\n<p>A pequena, que estivera por muito tempo inclinada sobre o livro, como a lutar<br \/>\n    com alguma dificuldade de leitura, que procurava vencer por si, acabou por<br \/>\n    fazer um gesto de impaci&ecirc;ncia, e, apontando com o dedo a palavra da<br \/>\n    d&uacute;vida, colocou a p&aacute;gina diante de dos olhos de Daniel, perguntando-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Isto que quer dizer?<\/p>\n<p>Daniel olhou por algum tempo para o livro, e afinal respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Cataclismo.<\/p>\n<p>&#8212; E o que vem a ser cataclismo?<\/p>\n<p>Daniel ficou embara&ccedil;ado. A falar a verdade, ele n&atilde;o sabia bem<br \/>\n    o que era cataclismo. N&atilde;o teve coragem para o dizer francamente e titubeou:<\/p>\n<p>&#8212; Cataclismo&#8230; sim&#8230; cataclismo &eacute;&#8230; sim&#8230; eu sei o que &eacute;&#8230;<br \/>\n    agora para to dizer &eacute; que &#8230; Cataclismo&#8230;<\/p>\n<p>O reitor apesar da posi&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica em que estava, n&atilde;o<br \/>\n    deixou de se zangar l&aacute; consigo, ao ver um disc&iacute;pulo seu n&atilde;o<br \/>\n    poder desenredar-se de tais dificuldades filol&oacute;gicas.<\/p>\n<p>Margarida, que era este o nome da pequena, adivinhou a causa da hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Daniel e delicadamente lhe p&ocirc;s fim, olhando outra vez para o livro<br \/>\n    e continuando a estudar em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Da&iacute; a pouco voltou, por&eacute;m, a consultar o seu pequeno mestre.<\/p>\n<p>&#8212; E isto? Como se l&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Metempsicose &#8211; foi a reposta de Daniel<\/p>\n<p>&#8212; E o que vem a ser?<\/p>\n<p>Desta vez ainda o embara&ccedil;o de Daniel era maior. Nunca ele soubera<br \/>\n    o que fosse metempsicose, e, como pela segunda vez se via pilhado em falso,<br \/>\n    perdeu a paci&ecirc;ncia. Saiu-se do aperto, como alguns professores em casos<br \/>\n    an&aacute;logos.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Isso &eacute; uma coisa que leva muito tempo a explicar.<\/p>\n<p>Margarida resignou-se a n&atilde;o entender.<\/p>\n<p>Uma terceira interroga&ccedil;&atilde;o. Desta vez foi a palavra pragm&aacute;tica<br \/>\n    que a originou.<\/p>\n<p>Daniel estava em mar&eacute; de infelicidades. Esta acabou de o impacientar.<br \/>\n    Tirando o livro comprometedor das m&atilde;os da disc&iacute;pula, disse com<br \/>\n    certo despeito mal encoberto:<\/p>\n<p>&#8212; Deixa-te de estudar, Margarida; n&atilde;o estou agora para isso.<\/p>\n<p>&#8212; Mas depois&#8230; amanh&atilde;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Amanh&atilde;! Que tem? Sossega, que n&atilde;o te castigo. E demais<br \/>\n    ainda tens muito tempo. N&atilde;o v&ecirc;s que s&oacute; venho e tarde?<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; agora n&atilde;o quero que estudes, quero que cantes.<\/p>\n<p>&#8212; Ora cantar! Que hei eu de cantar?<\/p>\n<p>&#8212; A cantiga da Morena.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o gosto dela.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Eu, n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o de qual gosta mais, Guida? &#8211; perguntou Daniel, dando<br \/>\n    &agrave; pergunta, e sobretudo &agrave;quela familiar altera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do nome de Margarida, uma m&uacute;sica de afetuoso galanteio, que n&atilde;o<br \/>\n    deixaria ficar mal ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; A da Cabreira, &eacute; muito mais bonita.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; n&atilde;o me lembra bem. Pois ent&atilde;o canta a da<br \/>\n    Cabreira.<\/p>\n<p>&#8212; Agora n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Agora sim; e por que a n&atilde;o h&aacute;s de cantar agora?<\/p>\n<p>&#8212; A minha irm&atilde; Clara &eacute; que a sabe cantar bem, eu n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ora adeus, ela &eacute; ainda uma crian&ccedil;a &#8211; disse Daniel com<br \/>\n    um soberbo gesto de homem &#8211; Eu quero-a ouvir de ti.<\/p>\n<p>&#8212; Eu julgo que nem a sei.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes, sabes, ora vamos a ver.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe&#8230; eu canto, mas&#8230;<\/p>\n<p>E Margarida p&ocirc;s-se a cantar e com a voz t&atilde;o sonora e agradavelmente<br \/>\n    infantil, que, se o reitor estivesse despreocupado, em uma posi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais c&ocirc;moda e disposto a julgar com imparcialidade, confessaria que<br \/>\n    era excelente. Mas na aus&ecirc;ncia destas condi&ccedil;&otilde;es de ju&iacute;zo<br \/>\n    desapaixonado, foi um cr&iacute;tico como quase todos.<\/p>\n<p>Ai vai o que ela cantava. em uma dessas singelas e mon&oacute;tonas melop&eacute;ias<br \/>\n    de quase todas as x&aacute;caras populares:<\/p>\n<p>Andava a pobre cabreira<br \/>\n    O seu rebanho a guardar,<br \/>\n    Desde que rompia o dia<br \/>\n    Ate a noite fechar.<\/p>\n<p>De pequenina nos montes<br \/>\n    N&atilde;o tivera outro brincar,<br \/>\n    Nas canseiras do trabalho<br \/>\n    Seus dias vira passar.<\/p>\n<p>&#8212; Assim como tu &#8211; disse Daniel.<\/p>\n<p>Margarida sorriu, fazendo com a cabe&ccedil;a um movimento afirmativo, e<br \/>\n    continuou:<\/p>\n<p>Sentada no alto da serra<br \/>\n    P&ocirc;s-se a cabreira a chorar,<br \/>\n    Por que chorava a cabreira,<br \/>\n    Ides agora escutar<\/p>\n<p>&quot;A&iacute;! que triste a sina minha,<br \/>\n    &quot;A&iacute; que triste o meu penar<br \/>\n    &quot;Que n&atilde;o sei de pai nem m&atilde;e,<br \/>\n    &quot;Nem de irm&atilde;os a quem amar <\/p>\n<p>&quot;De pequenina nos montes<br \/>\n    &quot;Nunca tive outro brincar<br \/>\n    &quot;Nas canseiras do trabalho<br \/>\n    Meus dias vejo passar&quot;. <\/p>\n<p>Mas, ao desviar os olhos<br \/>\n    Viu coisa que a fez pasmar.<br \/>\n    Uma cabra toda branca<br \/>\n    Se lhe fora aos p&eacute;s deitar.<\/p>\n<p>\n    &#8212; Assim, pouco mais ou menos &#8211; disse Daniel, pousando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    nos bra&ccedil;os encruzados sobre as urzes do ch&atilde;o.<\/p>\n<p>Margarida prosseguiu:<\/p>\n<p>Branca toda, como a neve,<br \/>\n    Que nem se deixa fitar,<br \/>\n    Coberta de finas sedas,<br \/>\n    Que era coisa singular!<\/p>\n<p>\n    E, maliciosamente, com um sorriso de travessura infantil, passou os dedos<br \/>\n    por entre os cabelos de Daniel.<\/p>\n<p>Nunca a tinha visto antes<br \/>\n    No seu rebanho a pastar,<br \/>\n    E foi a fazer-lhe festa&#8230;<br \/>\n    E foi para a afagar&#8230;<\/p>\n<p>\n    E continuava a correr as m&atilde;os pela cabe&ccedil;a de seu jovem companheiro,<br \/>\n    que sorria.<\/p>\n<p>Eis vai a cabra fugindo<br \/>\n    Pelos vales sem parar;<br \/>\n    Ia a cabreira atr&aacute;s dela<br \/>\n    Mas n&atilde;o a p&ocirc;de alcan&ccedil;ar.<\/p>\n<p>\n    E andaram assim tr&ecirc;s dias.<br \/>\n    E tr&ecirc;s noites sempre a andar!<br \/>\n    At&eacute; que a porta de uns pa&ccedil;os<br \/>\n    Afinal foram parar. <\/p>\n<p>Chorava o rei e a rainha<br \/>\n    H&aacute; dez anos sem cessar,<br \/>\n    Que lhe roubaram a filha<br \/>\n    Numa noite de luar.<\/p>\n<p>E dez anos s&atilde;o passados<br \/>\n    Sem mais dela ouvir falar,<br \/>\n    Eis chega a cabreira &agrave; porta<\/p>\n<p>&Agrave; porta foi se sentar <\/p>\n<p>&quot;Ai que bonita cabreira&#8230;<\/p>\n<p>\n    E Margarida, ao cantar este verso, n&atilde;o p&ocirc;de conservar-se s&eacute;ria,<br \/>\n    vendo Daniel levantar os olhos para ela.<\/p>\n<p>\n    Que l&aacute; embaixo vejo estar!<br \/>\n    E uma cabra toda branca<br \/>\n    Que nem se deixa fitar <\/p>\n<p>Meus criados e escudeiros<br \/>\n    Ide a cabreira buscar&quot;.<br \/>\n    Isto dizia a rainha,<br \/>\n    Este foi seu mandar.<\/p>\n<p>Foram buscar a cabreira<br \/>\n    E a cabra de a acompanhar<br \/>\n    At&eacute; a sala dos pa&ccedil;os<br \/>\n    Onde o rei a viu chegar. <\/p>\n<p>&quot;Pela minha c&#8217;roa de ouro<br \/>\n    Eu quero agora apostar,<br \/>\n    Que esta &eacute; a filha roubada<br \/>\n    Numa noite de luar&quot;.<\/p>\n<p>Milagre! Quem tal diria!<br \/>\n    Quem tal pudera contar!<br \/>\n    A cabrinha toda branca <br \/>\n    Ali se p&ocirc;s a falar.<\/p>\n<p>A seguinte quadra foi cantada tamb&eacute;m por Daniel e sem ofensa da harmonia:<\/p>\n<p>\n    &quot;Esta &eacute; a filha roubada<br \/>\n    Numa noite de luar,<br \/>\n    Andou sete anos no monte<br \/>\n    Quem nasceu para reinar!&quot;<\/p>\n<p>\n    O resultado da interven&ccedil;&atilde;o de Daniel foi acabarem os dois a<br \/>\n    rir, com grande risco de deixarem incompleta a cantiga.<\/p>\n<p>A rogos do seu companheiro, Margarida, passados alguns momentos, concluiu:<\/p>\n<p>\n    Que alegrias v&atilde;o nos pa&ccedil;os,<br \/>\n    E que festas sem cessar!<br \/>\n    A filha h&aacute; tanto perdida,<br \/>\n    No trono os pais v&atilde;o sentar,<\/p>\n<p>E v&ecirc;m damas p&#8217;ra vesti-la<br \/>\n    E v&ecirc;m damas p&#8217;ra cal&ccedil;ar,<br \/>\n    E as mais prendadas de todas <br \/>\n    Para as tran&ccedil;as lhe enfeitar <\/p>\n<p>V&atilde;o procurar a cabrinha&#8230;<br \/>\n    Ningu&eacute;m a p&ocirc;de encontrar;<br \/>\n    Mas&#8230;<\/p>\n<p>\n    Foi olhando Daniel que a pequena Guida terminou:<\/p>\n<p>\n    Mas um anjo de asas brancas<br \/>\n    Viram as c&eacute;us a voar<\/p>\n<p>\n    E assim acabou a &uacute;ltima quadra da x&aacute;cara, e por algum tempo,<br \/>\n    as duas crian&ccedil;as se conservaram caladas, como se quisessem seguir ainda,<br \/>\n    at&eacute; as derradeiras vibra&ccedil;&otilde;es, as notas melodiosas daquela<br \/>\n    voz, ao desvanecerem-se no espa&ccedil;o.<\/p>\n<p>Daniel foi o primeiro a romper o sil&ecirc;ncio,<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, v&ecirc;s como a soubeste at&eacute; o fim? E cantaste-a<br \/>\n    t&atilde;o bem!<\/p>\n<p>&#8212; Ora!<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute; noite, Guida, Repara. Olha que s&atilde;o horas de tu<br \/>\n    ires juntar o gado.<\/p>\n<p>E acrescentou, suspirando melancolicamente:<\/p>\n<p>&#8212; Daqui a pouco estou eu de volta com o meu latim! E que li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    tamanha me marcou o padre esta manh&atilde;!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o de que tamanho &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Olha; vai vendo &#8211; disse Daniel, abrindo a Seleta e mostrando a Margarida<br \/>\n    as folhas que o reitor lhe marcara para estudar. &#8211; &Eacute; esta lauda&#8230;<br \/>\n    e esta&#8230; e esta, at&eacute; aqui.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o isso diz o que diz?<\/p>\n<p>&#8212; Conta a vida l&aacute; de uns generais antigos que fizeram guerras<br \/>\n    mortes e que quase sempre se matavam a si, quando n&atilde;o os matavam a<br \/>\n    eles.<\/p>\n<p>&#8212; E para que &eacute; preciso que saiba estas hist&oacute;rias quem<br \/>\n    quer ser padre?<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei l&aacute;! Mas que est&aacute;s tu a dizer? Padre! padre!<br \/>\n    N&atilde;o me fales em ser padre, Guida. Eles cuidam que eu quero mesmo ser<br \/>\n    padre, estou querendo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Ora quando chegar a hora eu lhas cantarei. Ainda est&aacute; por<br \/>\n    nascer o barbeiro que me h&aacute; de abrir a coroa. O tio Jo&atilde;o das<br \/>\n    Bichas disse-me noutro dia &#8211; a rir, j&aacute; se sabe &#8211; que j&aacute; tinha<br \/>\n    em casa uma navalha afiada para isso; eu fui-lhe dizendo que bem deixava ent&atilde;o<br \/>\n    a navalha para o barbearem em morto.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o seu pai mata-o!<\/p>\n<p>&#8212; Meu pai? Deixa-te disso. Meu pai n&atilde;o h&aacute; de querer fazer-me<br \/>\n    padre a for&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o Sr. Reitor?<\/p>\n<p>&#8212; O Sr. Reitor n&atilde;o &eacute; c&aacute; chamado. Que se meta com<br \/>\n    a sua vida. Ora &eacute; muito boa!<\/p>\n<p>&#8212; E por que n&atilde;o quer ser padre, Danielzinho?<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que pergunta! N&atilde;o quero ser padre, porque n&atilde;o<br \/>\n    quero, porque gosto de ti, e, porque, afinal de contas, hei de vir a casar<br \/>\n    contigo.<\/p>\n<p>&#8212; Ora!<\/p>\n<p>&#8212; Hei de, sim. Ver&aacute;s.<\/p>\n<p>E dizendo isso, passou facilmente o bra&ccedil;o pelo pesco&ccedil;o da pequena<br \/>\n    Guida, e pousou-lhe na fronte um beijo que ainda nem sequer a fazia corar.<\/p>\n<p>O reitor estava escandalizado e estupefato por quanto vira e ouvira.<\/p>\n<p>Tivesse assistido em pessoa ao aparecimento do anticristo, que n&atilde;o<br \/>\n    se maravilhara tanto.<\/p>\n<p>Esta cena inofensiva, esta &eacute;cloga entre duas crian&ccedil;as, parecia-lhe<br \/>\n    mais abomin&aacute;vel do que a outro qualquer as mais impudicas aventuras<br \/>\n    daquele her&oacute;i, que Byron imortalizou com o nome de D. Juan, nome, j&aacute;<br \/>\n    antes dele, de pouco austera mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>Ao chegar a seus at&ocirc;nitos ouvidos, a vibra&ccedil;&atilde;o sonora<br \/>\n    do beijo, que terminou o di&aacute;logo, o padre estremeceu como se acabasse<br \/>\n    de escutar um silvo de serpente cascavel, e n&atilde;o p&ocirc;de reprimir<br \/>\n    uma interjei&ccedil;&atilde;o desaprovadora, bastante aud&iacute;vel, para<br \/>\n    ser percebida por todas as personagens da cena que descrevemos.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o ouviste, Guida? Que foi aquilo? &#8211; disse Daniel, j&aacute;<br \/>\n    meio erguido e olhando com inquieta&ccedil;&atilde;o ao redor de si.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; nada &#8211; respondeu esta, com pouco mais de frieza<br \/>\n    de &acirc;nimo.<\/p>\n<p>Mas, neste tempo, j&aacute; o c&atilde;o se havia levantado e ladrava furiosamente<br \/>\n    na dire&ccedil;&atilde;o do lugar onde o reitor estava escondido.<\/p>\n<p>&#8212; Aqui, Gigante, aqui! &#8211; bradava-lhe, em v&atilde;o, Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; O que estar&aacute; acol&aacute; no centeio para o c&atilde;o ladrar<br \/>\n    assim? &#8211; perguntou Daniel, j&aacute; sem pinta de sangue.<\/p>\n<p>E o c&atilde;o ladrava cada vez mais, e parecia pronto para arremeter contra<br \/>\n    um inimigo oculto.<\/p>\n<p>O reitor, como &eacute; de prever, come&ccedil;ava a achar-se muito pouco<br \/>\n    &agrave; vontade.<\/p>\n<p>&#8212; Aqui, Gigante &#8211; continuava a pequena, j&aacute; cansada de bradar.<\/p>\n<p>Mas Daniel, assustado, valeu-se do c&atilde;o, como instrumento de explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e defesa, e soltou uma palavra imprudente:<\/p>\n<p>&#8212; Busca, Gigante, pega!<\/p>\n<p>N&atilde;o foi preciso mais nada.<\/p>\n<p>O Gigante galgou de um salto o estreito caminho que o separava do campo onde<br \/>\n    o reitor cada vez suava mais com a imin&ecirc;ncia do perigo, e rompendo por<br \/>\n    entre o centeio, veio pousar triunfantemente as patas dianteiras sobre os<br \/>\n    ombros do pobre velho, que julgou ver a morte na figura deste monstruoso c&atilde;o.<\/p>\n<p>Como esses bonecos que fazem as del&iacute;cias dos pequenos feirantes de<br \/>\n    S. Miguel e do S. L&aacute;zaro, no Porto, e que ao abrir-se a caixa que os<br \/>\n    cont&eacute;m, s&atilde;o repentinamente expelidos por uma mola interior,<br \/>\n    o p&aacute;roco, ao toque m&aacute;gico do agigantado quadr&uacute;pede, ergueu-se,<br \/>\n    de s&uacute;bito, sobre os calcanhares, e, meio sufocado pelo susto e com<br \/>\n    as faces enfiadas, bradou para Daniel:<\/p>\n<p>&#8212; Chama este c&atilde;o rapaz endemoniado! Ele mata-me!<\/p>\n<p>Daniel &eacute; que n&atilde;o podia lhe valer, t&atilde;o embasbacado ficou<br \/>\n    com a inesperada apari&ccedil;&atilde;o do mestre. A mulher de L&oacute; por<br \/>\n    certo n&atilde;o se conservou t&atilde;o im&oacute;vel, depois do fatal momento<br \/>\n    em que cedeu &agrave; sua irresist&iacute;vel curiosidade.<\/p>\n<p>A pequena Margarida &eacute; que salvou a situa&ccedil;&atilde;o &#8211; como me<br \/>\n    parece que se costuma dizer em pol&iacute;tica. Armou-se da maior severidade<br \/>\n    que lhe era poss&iacute;vel, e com a inflex&atilde;o de voz imperiosa, pronunciou<br \/>\n    um &#8211; &quot;aqui Gigante!&quot; &#8211; que foi prontamente obedecido.<\/p>\n<p>O reitor estava salvo, mas ainda n&atilde;o senhor seu, e deveras chufado<br \/>\n    com as circunst&acirc;ncias rid&iacute;culas que acompanharam a sua descoberta.<br \/>\n    Ora, como sempre acontece , estas circunst&acirc;ncias inabilitavam-no para<br \/>\n    assumir o car&aacute;ter severo, grave e pedag&oacute;gico, necess&aacute;rio<br \/>\n    a quem se prop&otilde;e a dar uma repreens&atilde;o ou a fazer uma pr&aacute;tica<br \/>\n    de moral.<\/p>\n<p>Com muito bom senso renunciou, pois, o reitor a este projeto, e sem dar palavras,<br \/>\n    virou costas e abandonou o lugar dessa aventura, interiormente quase t&atilde;o<br \/>\n    pouco satisfeito consigo como com o seu disc&iacute;pulo.<\/p>\n<p>Daniel, passados alguns momentos mais de silencioso pasmo, desatou a rir,<br \/>\n    a rir, a rir, desse expansivo e contagioso rir de crian&ccedil;a, que n&atilde;o<br \/>\n    tem outro igual. Esqueceu o que para ele havia de estranho e s&eacute;rio<br \/>\n    em tudo aquilo, e as conseq&uuml;&ecirc;ncias que poderia ter, para s&oacute;<br \/>\n    se lembrar da carantonha que fazia o reitor a gritar que lhe acudissem, do<br \/>\n    susto que apanhara, do aspecto sorumb&aacute;tico que levava ao partir, e<br \/>\n    por isso tudo ria &agrave;s bandeiras despregadas.<\/p>\n<p>Vejam l&aacute; se o padre n&atilde;o fez bem em adiar o serm&atilde;o para<br \/>\n    ocasi&atilde;o mais oportuna?<\/p>\n<p>Por&eacute;m. Margarida? Essa &eacute; que n&atilde;o ria. Certo instinto<br \/>\n    de delicadeza inato em quase todas as mulheres, n&atilde;o sei que vaga presci&ecirc;ncia<br \/>\n    de infort&uacute;nio, que algumas, de crian&ccedil;a possuem, parecia-lhe<br \/>\n    estar dizendo que tudo aquilo, sem saber por qu&ecirc;, lhe poderia vir a<br \/>\n    ser funesto.<\/p>\n<p>E enquanto Daniel ria, ela, coitada, n&atilde;o se p&ocirc;de conter, e come&ccedil;ou<br \/>\n    a chorar.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens tu, Guida? Isso que &eacute;? &#8211; perguntou-lhe Daniel, j&aacute;<br \/>\n    s&eacute;rio e meio sensibilizado &#8211; Por que choras assim?<\/p>\n<p>&#8212; Deixe-me. N&atilde;o sei bem&#8230; mas sinto uma tristeza&#8230; e tamanha&#8230;<br \/>\n    tamanha! Vamos. &Eacute; tarde, vou juntar o gado.<\/p>\n<p>&#8212; E eu ajudo-te.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. V&aacute; para casa e corra bem, antes que o Sr. Reitor<br \/>\n    chegue l&aacute; primeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ele ir&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Ande&#8230; corra.<\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o que Daniel reconheceu que Margarida podia ter alguma raz&atilde;o<br \/>\n    em n&atilde;o levar o caso a rir, e que n&atilde;o devia ser para ele uma<br \/>\n    coisa de todo insignificante a apari&ccedil;&atilde;o do padre ali. Por isso<br \/>\n    disse adeus &agrave; sua companheira, e deitou a correr para casa.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"5\">Cap&iacute;tulo V<\/a><\/h4>\n<p> No dia seguinte, que era um domingo, vestia-se o reitor, na sacristia, para<br \/>\n    celebrar a missa conventual. Entre as diversas pessoas que assistiam ao ato,<br \/>\n    avistou ele o nosso conhecido Jos&eacute; das Dornas, e a lembran&ccedil;a<br \/>\n    do ocorrido na v&eacute;spera surgiu-lhe outra vez ao esp&iacute;rito, acompanhada<br \/>\n    de todas as circunst&acirc;ncias desagrad&aacute;veis que se deram ent&atilde;o.<br \/>\n    Durante a noite, havia o padre, &agrave; s&oacute;s com o travesseiro, tomado<br \/>\n    uma resolu&ccedil;&atilde;o. Foi, pensando nela, que no momento em que Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas se aproximou mais do lugar, em que ele se paramentava, lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Logo, depois da missa, espera-me l&aacute; fora, no adro, que temos<br \/>\n    que conversar.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas fez um sinal de assentimento, e entrou para a capela.<\/p>\n<p>Nada ocorreu durante a missa, que exija especial refer&ecirc;ncia. Foi dita<br \/>\n    pela reitor com todas as formalidades do rito, e escutada pelo audit&oacute;rio,<br \/>\n    e principalmente por Jos&eacute; das Dornas, com respeitosa aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Acabada ela, formaram-se diferentes grupos pelo adro, do qual uma frondosa<br \/>\n    alameda fazia, naquela &eacute;poca do ano, um dos lugares mais apetec&iacute;veis<br \/>\n    da terra; Jos&eacute; das Dornas trocou meia d&uacute;zia de palavras com<br \/>\n    alguns conhecidos seus. Falou no tempo, no aspecto das searas, nas mudan&ccedil;as<br \/>\n    da lua, e pouco a pouco, foi ficando cada vez mais desacompanhado, porque<br \/>\n    os alde&otilde;es iam dispersando, atra&iacute;dos pela lembran&ccedil;a do<br \/>\n    jantar que os esperava.<\/p>\n<p>Finalmente achou-se de todo s&oacute; e p&ocirc;s-se de m&atilde;os nos bolsos,<br \/>\n    a passear no adro. No entretanto ia fazendo suas conjeturas sobre os motivos<br \/>\n    que levariam o reitor a mand&aacute;-lo esperar e sobre a natureza da conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que ia ter com ele.<\/p>\n<p>De fato n&atilde;o tardou. O reitor saiu finalmente da sacristia, e dirigiu-se<br \/>\n    imediatamente para Jos&eacute; das Dornas, que se descobriu ao avist&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; &agrave; vontade, Jos&eacute;, est&aacute; &agrave; vontade.<br \/>\n    Ora&#8230; n&oacute;s temos que falar a respeito do teu pequeno.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; preciso comprar-lhe mais alguns livros? O que<br \/>\n    V.S.&ordf; vir que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nada, nada. A coisa agora &eacute; muito diferente.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que&#8230; Ora escuta, Jos&eacute;. Lembras-te de que eu te<br \/>\n    disse, aqui h&aacute; tempos, que o rapaz havia de ser padre?<\/p>\n<p>&#8212; Se lembra? Muito bem. E eu disse&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem, bem. Pois &eacute;&#8230; se queres que te fale a verdade&#8230; parece-me<br \/>\n    que o melhor&#8230; &eacute; dar-lhe outra arruma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas parou e p&ocirc;s-se a olhar boquiaberto para o reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o&#8230; o pequeno n&atilde;o tem mem&oacute;ria para os estudos?<\/p>\n<p>&#8212; Tem, tem e at&eacute; demais&#8230; Mas&#8230; ouve c&aacute;; esta vida<br \/>\n    de sacerdote quer voca&ccedil;&otilde;es decididas. N&atilde;o as havendo,<br \/>\n    &eacute; um grande erro abra&ccedil;&aacute;-la, e um grande pecado constranger<br \/>\n    algu&eacute;m a segui-la contra a vontade.<\/p>\n<p>&#8212; Credo! pois quem diz menos disso? Mas ent&atilde;o, acha o Sr. Reitor<br \/>\n    que o rapaz n&atilde;o ter&aacute; queda?<\/p>\n<p>&#8212; Hum, hum&#8230; &#8211; murmurou o reitor.- Parece-me que n&atilde;o tem grande<br \/>\n    queda, n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Valha-me Deus, mas&#8230; por que julga V.S.&ordf; isso? E queira perdoar<br \/>\n    se sou confiado em perguntar.<\/p>\n<p>&#8212; C&aacute; por certas coisas.<\/p>\n<p>&#8212; E eu que at&eacute; me parecia que o pequeno fora mesmo talhado para<br \/>\n    a vida!<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m eu o julgava.<\/p>\n<p>&#8212; O seu gosto era ajudar a missa.<\/p>\n<p>&#8212; Olha l&aacute; se o v&ecirc;s agora!<\/p>\n<p>&#8212; At&eacute; pelos seus brinquedos. Olhe que n&atilde;o havia para<br \/>\n    ele como armar igrejinhas e pregar serm&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Isso agora&#8230; quanto a gostos e brinquedos&#8230; parece-me que houve<br \/>\n    sua mudan&ccedil;a ultimamente.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>O reitor hesitava em falar a verdade inteira a Jos&eacute; das Dornas; por<br \/>\n    isso, a esta pergunta, come&ccedil;ou ainda a titubear, e respondeu evasivamente:<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; creio que j&aacute; n&atilde;o se entret&eacute;m muito com<br \/>\n    igrejinhas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! pois sim&#8230; mas&#8230; &eacute; que agora tem j&aacute; outras canseiras&#8230;<br \/>\n    Os estudos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! os estudos&#8230; &Eacute; o que me lembra.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Sr. Reitor &#8211; continuava Jos&eacute; das Dornas, um tanto incr&#038;eacuteeacute;dulo<br \/>\n    a respeito da mudan&ccedil;a de inclina&ccedil;&atilde;o do filho &#8211; eu finalmente&#8230;<br \/>\n    sim&#8230; como o outro que diz&#8230; &#8211; n&atilde;o sei l&aacute; as raz&otilde;es<br \/>\n    que tem V.S.&ordf; para pensar dessa forma&#8230; mas a mim est&aacute;-me a parecer<br \/>\n    que V.S.&ordf; se engana.<\/p>\n<p>O reitor tinha atingido os limites de sua grande paci&ecirc;ncia. Esta d&uacute;vida<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas, ainda que formulada a medo, acabou por resolv&ecirc;-lo<br \/>\n    ser mais expl&iacute;cito.<\/p>\n<p>&#8212; E se eu te disser, Jos&eacute; das Dornas, &#8211; exclamou ele, parando<br \/>\n    e voltando-se para o seu interlocutor &#8211; se eu te disser que teu filho Daniel<br \/>\n    apesar dos seus doze ou treze anos, que ser&aacute; a idade dele, tem j&aacute;<br \/>\n    na aldeia a sua conversada?<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas parou como fulminado.<\/p>\n<p>O reitor continuou seu caminho<\/p>\n<p>&#8212; Que diz, Sr. Reitor?! &#8211; exclamou afinal Jos&eacute; das Dornas, atrasado<br \/>\n    j&aacute; uns cinco ou seis passos, e na mesma posi&ccedil;&atilde;o em que<br \/>\n    o deixara a revela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; O que sei! &#8211; respondeu o reitor, com eloq&uuml;ente laconismo.<\/p>\n<p>&#8212; Em nome do Padre, do Filho e do Esp&iacute;rito Santo! Est&aacute;<br \/>\n    o mundo roto! Pois o rapaz&#8230; Oh, Sr. Reitor, palavra, que se fosse outra<br \/>\n    pessoa que mo dissesse, eu n&atilde;o acreditava.<\/p>\n<p>&#8212; E se eu te afirmar que vi, com os meus olhos, o teu Daniel sentado<br \/>\n    no monte ao p&eacute; de da rapariga, cantando juntos, lendo juntos, e afirmando-lhe<br \/>\n    o rapaz que nunca h&aacute; de ser padre, pois queria casar com ela?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, ora, Sr. Reitor, essa &eacute; demais. H&aacute; de perdoar,<br \/>\n    mas essa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E se eu te disser que ele lhe deu um beijo &#8211; acrescentou o padre<br \/>\n    em tom confidencial.<\/p>\n<p>&#8212; Um beijo!<\/p>\n<p>&#8212; E se eu te disser que ele, todos os dias, me sai da aula &agrave;s<br \/>\n    cinco horas, e passa o resto da santa tarde junto da pequena?<\/p>\n<p>&#8212; Ora o rapazinho!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, j&aacute; v&ecirc;s que n&atilde;o conv&eacute;m faz&ecirc;-lo<br \/>\n    padre. Para dar maus exemplos, temos c&aacute;, infelizmente, bastantes. E<br \/>\n    quando o pano &eacute; assim em amostra, que far&aacute; a pe&ccedil;a inteira.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que lhe havemos de fazer agora?<\/p>\n<p>&#8212; Se te guiares pelos meus conselhos, a&iacute; tens um plano: deixa-te<br \/>\n    de ordenar o rapaz. Pega nele e remete-o quanto antes para um col&eacute;gio,<br \/>\n    onde n&atilde;o lhe deixem por o p&eacute; em ramo verde. F&aacute;-lo depois<br \/>\n    m&eacute;dico&#8230; advogado&#8230; o que quiseres e que ele n&atilde;o repugne&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o quer dizer que o mande para Coimbra?<\/p>\n<p>&#8212; Para Coimbra?&#8230; Eu sei?&#8230; Homem, a falar a verdade, semente desta<br \/>\n    em Coimbra, &eacute; para dar uns frutos por a&iacute; al&eacute;m. Para o<br \/>\n    Porto, onde ele possa estar sob as vistas dos parentes que l&aacute; tens,<br \/>\n    vai muito melhor. P&otilde;e-mo a cirurgi&atilde;o. Eles hoje, dizem, que<br \/>\n    saem de l&aacute; como de Coimbra, e olha que &eacute; uma boa carreira. O<br \/>\n    nosso Jo&atilde;o Semana est&aacute; velho, e, morrendo ele, n&atilde;o temos<br \/>\n    por aqui mais ningu&eacute;m. Mas &eacute; preciso tratar j&aacute; disso.<br \/>\n    Imp&otilde;e-me o rapaz daqui para foras, se queres fazer dele alguma coisa<br \/>\n    de jeito.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, &oacute; Sr. Reitor, e quem era a cachopa?<\/p>\n<p>&#8212; Isto agora &eacute; que j&aacute; n&atilde;o &eacute; da tua conta.<br \/>\n    Faze o que eu te digo, e deixa o resto.<\/p>\n<p>E nestes termos se separaram os dois, tomando cada um a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da casa.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas ainda este por algum tempo impressionado com o que<br \/>\n    lhe acabara de dizer o reitor.<\/p>\n<p>H&aacute; not&iacute;cias de uma digest&atilde;o demorada e laboriosa, como<br \/>\n    a de certos alimentos.<\/p>\n<p>Enquanto ela dura, o esp&iacute;rito n&atilde;o se acha &agrave; vontade<br \/>\n    e como que se agita sob a influ&ecirc;ncia de uma inc&ocirc;moda sensa&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas, pouco a pouco, opera-se um &iacute;ntimo trabalho assimilador, acalma-se<br \/>\n    a esp&eacute;cie de febre digestiva, que acompanhara aquela elabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental, e tudo entra na ordem. A not&iacute;cia, que nos impressionara, perde<br \/>\n    enfim quanto se nos havia figurado de estranho; sentimo-nos mais livres e<br \/>\n    em mais felizes disposi&ccedil;&otilde;es para encararmos os fatos.<\/p>\n<p>Assim aconteceu como Jos&eacute; das Dornas: o que, ao princ&iacute;pio,<br \/>\n    lhe avultara como calamidade, acabou por se transformar em uma coisa natural&iacute;ssima<br \/>\n    e engra&ccedil;ada at&eacute;; o que lhe parecera desmoronamento de um belo<br \/>\n    edif&iacute;cio em constru&ccedil;&atilde;o, convenceu-se em pouco tempo que<br \/>\n    n&atilde;o passava de uma reforma preparat&oacute;ria para futuro melhor;<br \/>\n    e de carrancudo e pesaroso que ficara ao princ&iacute;pio, acabou por se tornar<br \/>\n    prazenteiro e quase risonho.<\/p>\n<p>&#8212; O rapaz sai-me da pele do diabo! Com qu&ecirc;, j&aacute; tinha tamb&eacute;m<br \/>\n    a sua conversada! Havia mister! Ah!, ah!, ah! E o reitor atrapalhado! Ah!,<br \/>\n    ah!, ah! Agora &eacute; que eu lhe acho gra&ccedil;a! E como soube dizer que<br \/>\n    n&atilde;o havia de ser padre, porque queria casar. Ora o rapazinho! Esperto<br \/>\n    &eacute; ele! Oh l&aacute;! Mas como diabo o ouviu o reitor? A falar a verdade&#8230;<br \/>\n    o pequeno tem raz&atilde;o. Eu, que t&atilde;o bem me dei com aquela santa,<br \/>\n    que est&aacute; no c&eacute;u, como havia de obrigar um filho meu a n&atilde;o<br \/>\n    gozar de uma felicidade como a minha! Deixar o rapaz&#8230; Quer casar?&#8230; Faz<br \/>\n    ele muito bem. Deus lhe depare uma boa cachopa, que seja mulher de casa&#8230;<br \/>\n    Mas quem seria a tal? Isso &eacute; que o padre n&atilde;o diz. Pois hei de<br \/>\n    sab&ecirc;-lo. Sempre mandarei o pequeno para o Porto&#8230; E que d&uacute;vida!<br \/>\n    Nas terras grandes &eacute; que se fazem os homens&#8230; H&aacute; de ser cirurgi&atilde;o,<br \/>\n    se quiser. O reitor l&aacute; nisso diz bem, O Jo&atilde;o Semana est&aacute;<br \/>\n    acabado&#8230; Padres n&atilde;o faltam&#8230; e com a esperteza do Daniel, era uma<br \/>\n    pena n&atilde;o fazer dele uma outra coisa&#8230; A&iacute; o rapazinho que &eacute;<br \/>\n    os meus pecados! Ah!, ah!, ah! Sume-te! J&aacute; tem o sangue na guelra.<br \/>\n    Madruga!<\/p>\n<p>E com estes mon&oacute;logos e as mais fagueiras disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &acirc;nimo, chegou Jos&eacute; das Dornas a casa, e jantou com apetite.<br \/>\n    &Agrave; mesa lan&ccedil;ava, &agrave;s furtadelas, maliciosos olhares para<br \/>\n    o filho mais novo, o qual, sentindo-se sob iminente pron&uacute;ncia, n&atilde;o<br \/>\n    levantava os seus. O pai a custo podia suster o riso ao observ&aacute;-lo.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"6\">Cap&iacute;tulo VI<\/a><\/h4>\n<p>E ainda bem n&atilde;o tinha decorrido uma semana, depois do que referimos,<br \/>\n    j&aacute; o pequeno Daniel era transferido para o Porto na melhor &eacute;gua<br \/>\n    da casa, em conformidade com o plano tra&ccedil;ado pelo reitor.<\/p>\n<p>O rapaz chorou muito ao partir. O pai sensibilizou-se, mas foi dominando<br \/>\n    a sua emo&ccedil;&atilde;o conforme p&ocirc;de. <\/p>\n<p>Daniel entrou na cidade invicta com pouca disposi&ccedil;&otilde;es de se<br \/>\n    lhe afei&ccedil;oar. Matavam-no saudades da terra, da fam&iacute;lia, e mais<br \/>\n    que todas a da sua pequena Guida, de quem nem ao menos lhe tinha sido poss&iacute;vel<br \/>\n    despedir-se, pois nem para isso lhe haviam dado ensejo.<\/p>\n<p>Desde a tarde em que fora surpreendido pelo reitor no inocente col&oacute;quio<br \/>\n    que tanto escandalizou o bom do p&aacute;roco, nunca mais a tornara a ver,<br \/>\n    nem dela ouvira falar. Somente, ao despedir-se do seu mestre, este lhe disse,<br \/>\n    afagando-o nas faces e sorrindo afavelmente: -&quot;Vai, que eu continuarei<br \/>\n    com a li&ccedil;&atilde;o da tua disc&iacute;pula&quot;. &#8211; Daniel n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de responder e partiu. Mas, ao ver sumirem-se atr&aacute;s de si as<br \/>\n    copas das &aacute;rvores, a cuja sombra o esperava talvez Margarida, borbulhavam-se<br \/>\n    as l&aacute;grimas nos olhos. Pobre crian&ccedil;a!<\/p>\n<p>E Margarida?&#8230; Essa mais pungentes sentia ainda as saudades. Sempre assim<br \/>\n    acontece. Em todas as separa&ccedil;&otilde;es, tem mais amargo quinh&atilde;o<br \/>\n    de dores o que fica, do que o que vai partir. A este esperam-no novos lugares,<br \/>\n    novas cenas, novas pessoas; sobretudo espera-o o atrativo do desconhecido,<br \/>\n    que de antem&atilde;o lhe absorve quase todos os pensamentos. Vai experimentar<br \/>\n    outras sensa&ccedil;&otilde;es, e &agrave; for&ccedil;a de distrair os sentidos,<br \/>\n    &eacute; raro que n&atilde;o acabe por distrair o cora&ccedil;&atilde;o. Mas<br \/>\n    ao que fica&#8230; l&aacute; est&atilde;o todos os objetos que v&ecirc; a recordar-lhe<br \/>\n    as venturas que perdeu; ali as flores que colheram juntos, para as trocar<br \/>\n    depois; acol&aacute;, a &aacute;rvore a cuja sombra se sentaram; al&eacute;m<br \/>\n    o ribeiro que arrebatou na corrente as p&eacute;talas, desfolhadas um dia,<br \/>\n    do bem-me-quer fat&iacute;dico, que os amantes interrogam; o tronco onde se<br \/>\n    gravaram unidas as iniciais de dois nomes; o canto dos p&aacute;ssaros que<br \/>\n    tantas vezes escutaram; o ponto da perspectiva, mais procurado pela vista<br \/>\n    de ambos&#8230; Oh!, h&aacute; bem mais alimentos para as saudades assim! E depois,<br \/>\n    o que se ausenta vai esperan&ccedil;ado nisto mesmo: em que a afei&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que deixa, lhe ser&aacute; fielmente mantida at&eacute; a volta; que evitar&atilde;o<br \/>\n    o esquecimento das promessas feitas tantas testemunhas que as presenciaram<br \/>\n    e que, sem cessar, as recordar&atilde;o; os que ficam antev&ecirc;em que,<br \/>\n    longe de tudo que possa falar-lhes delas, pouco a pouco se varrer&atilde;o<br \/>\n    essas promessas da mem&oacute;ria do ausente, e, ao dizer o adeus da despedida,<br \/>\n    um amargo pressentimento lhes segreda que dizem adeus a uma ilus&atilde;o.<\/p>\n<p>Ora &eacute; preciso saber que Margarida se sentia triste, profunda e inconsolavelmente<br \/>\n    triste, sem que lhe acudisse &agrave; id&eacute;ia tudo quanto havemos dito.<br \/>\n    Por&eacute;m, a n&oacute;s, &eacute;-nos l&iacute;cito analisar aquele tenro<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;a, afei&ccedil;oado para os sentimentos<br \/>\n    e dotado de delicad&iacute;ssimos instintos, como o de poucos, Alma voltada<br \/>\n    &agrave; melancolia e que se habituara a sentir, sem se estudar! N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; para mim mais simp&aacute;tica esp&eacute;cie de sofredores! os<br \/>\n    m&aacute;rtires que se analisam, e nos fazem resenha e invent&aacute;rio dos<br \/>\n    seus tormentos; esses que, todos os dias, desenvolvem em estilo imaginoso<br \/>\n    a fisiologia do pr&oacute;prio cora&ccedil;&atilde;o indagam a teoria do padecer,<br \/>\n    que, dizem eles, os tortura e o fazem com uma profundeza de vistas, verdadeiramente<br \/>\n    filos&oacute;fica&#8230; esses m&aacute;rtires&#8230; para falar a verdade, n&atilde;o<br \/>\n    creio muito neles. Quem sofre deveras, tenho eu para mim, acha-se com pouca<br \/>\n    vontade de esquadrinhar os mist&eacute;rios do sofrimento e n&atilde;o se<br \/>\n    p&otilde;e com grandes filosofias a esse respeito. Eu julgo mais natural e<br \/>\n    sincero fazer como a pequena Margarida, depois da partida de Daniel: subindo<br \/>\n    todas as tardes ao outeiro silvestre onde tantas vezes ele se viera sentar<br \/>\n    tamb&eacute;m, sentia cerrar-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de tristeza, e<br \/>\n    &#8230; desatava a chorar. N&atilde;o sei que moda anda agora de se n&atilde;o<br \/>\n    considerar o choro como a mais eloq&uuml;ente express&atilde;o do pesar! Eu,<br \/>\n    por mim, &eacute; dos sinais em que deposito mais f&eacute;.<\/p>\n<p>Era bem justificada a saudade de Margarida. A curta biografia dela a far&aacute;<br \/>\n    compreender.<\/p>\n<p>Guida era o fruto &uacute;nico do primeiro matrim&ocirc;nio de seu pai, cuja<br \/>\n    morte recente acabara de a fazer &oacute;rf&atilde; de todo. Entregue ao dom&iacute;nio<br \/>\n    de um madrasta, que n&atilde;o desmentia pela sua parte, a fama que de ordin&aacute;rio<br \/>\n    acompanha este pouco simp&aacute;tico nome, tivera a experimentar, nos maus<br \/>\n    tratamentos recebidos e na frieza ou declarada avers&atilde;o, como que lhe<br \/>\n    dispensavam os poucos cuidados de que se via objeto, toda a amargura de uma<br \/>\n    exist&ecirc;ncia sem carinhosas afei&ccedil;&otilde;es, esse t&atilde;o necess&aacute;rio<br \/>\n    alimento ao cora&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as. Arredada de prop&oacute;sito<br \/>\n    de casa, e passando dias inteiros nos montes, a acompanhar o gado, habituou-se<br \/>\n    de pequena a vida da solid&atilde;o &#8211; e &eacute; sabido que h&aacute;bitos<br \/>\n    de melancolia se adquirem nesta escola. Foi, pouco a pouco, contraindo o car&aacute;ter<br \/>\n    triste e sombrio que &eacute; o tra&ccedil;o indel&eacute;vel que fica de<br \/>\n    uma inf&acirc;ncia, &agrave; qual se sufocaram as naturais expans&otilde;es<br \/>\n    e folguedos, em que precisa de transbordar a vida exuberante dela. Por isso<br \/>\n    se afei&ccedil;oara a Daniel, o &uacute;nico que a viera procurar &agrave;<br \/>\n    sua solid&atilde;o e oferecer-se como o suspirado companheiro das suas horas<br \/>\n    infantis. V&ecirc;-lo desaparecer agora, era assistir ao desvanecimento da<br \/>\n    mais grata das ilus&otilde;es, da mais intensa das suas alegrias; e a sensibilidade<br \/>\n    nascente da pobre crian&ccedil;a recebia uma nova t&ecirc;mpera nesta separa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dolorosa.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Cap&iacute;tulo VII<\/a><\/h4>\n<p> Mas deixemos as l&aacute;grimas, e as &iacute;ntimas e n&atilde;o ostentosas<br \/>\n    tristezas de Margarida, e vamos chamar ao primeiro plano da cena uma personagem<br \/>\n    que, contra seus direitos de primogenitura, temos at&eacute; agora deixado<br \/>\n    oculta na penumbra dos bastidores.<\/p>\n<p>Falamos de Pedro, o filho mais velho de Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>Pedro, mais idoso que seu irm&atilde;o cinco anos, teve uma inf&acirc;ncia<br \/>\n    mais trabalhosa que a dele, mas bem menos digna de men&ccedil;&atilde;o no<br \/>\n    romance. Votado, como j&aacute; disse, aos trabalhos da lavoura, as horas<br \/>\n    que tinha de ociosidade empregava-as a dormir, sono que as fadigas do dia<br \/>\n    faziam digno de inveja.<\/p>\n<p>Por certo que os leitores n&atilde;o quereriam que eu lhes referisse aqui<br \/>\n    as pequenas divers&otilde;es daquela vida de rapaz da aldeia. Seria uma fastidiosa<br \/>\n    enumera&ccedil;&atilde;o de jogos e freq&uuml;entes lutas com os companheiros,<br \/>\n    por v&aacute;rios motivos pueris. Isto quase aos dezessete anos. Enquanto<br \/>\n    que Daniel estudava o latim e se distraia j&aacute; da aridez das regras da<br \/>\n    sintaxe, conversando a s&oacute;s no monte com Margarida, Pedro trabalhava,<br \/>\n    dormia, ou brincava no terreiro com os rapazes de sua idade, sem sentir outras<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es e achando-se at&eacute; pouco a vontade junto das<br \/>\n    mulheres, com quem n&atilde;o sabia conversar.<\/p>\n<p>N&atilde;o eram por&eacute;m definitivas estas disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de esp&iacute;rito em Pedro, como se vai mostrar. Aos dezoito anos operou-se<br \/>\n    a revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Isto n&atilde;o quer dizer que a febre da adolesc&ecirc;ncia principiasse<br \/>\n    a fazer circular nas veias do mo&ccedil;o lavrador esse sangue inflamado que<br \/>\n    devora como uma oculta labareda; que ele tivesse dessas tristezas s&uacute;bitas,<br \/>\n    desses devaneios e n&atilde;o sei que fantasiar mal distintas felicidades,<br \/>\n    desses arroubamentos, desse amor ideal, sem objeto, que &eacute; o mais puro<br \/>\n    e espont&acirc;neo culto do cora&ccedil;&atilde;o humano. Nada disso. A natureza<br \/>\n    n&atilde;o afinara a alma de Pedro para as sutil&iacute;ssimas vibra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    desta ordem. Esta quinta-ess&ecirc;ncia da sensibilidade n&atilde;o lhe fora<br \/>\n    concedida. A gente da aldeia n&atilde;o conhece os pren&uacute;ncios do amor,<br \/>\n    que os poetas t&ecirc;m apregoado no seu lirismo, a ponto de se acreditar<br \/>\n    por a&iacute; na universal realidade deles; sendo for&ccedil;oso confessar<br \/>\n    que muita gente h&aacute;, que nunca na vida sentiu os tais vagos e err&aacute;ticos<br \/>\n    sintomas a que me refiro, e que contudo amam ou amaram deveras. Se ser&atilde;o<br \/>\n    os bens ou mal organizados, n&atilde;o me atreverei a decidir, mas que os<br \/>\n    h&aacute;, isso, sustento eu. E Pedro era dos tais.<\/p>\n<p>Querem saber como principiou nele a transforma&ccedil;&atilde;o a que aludo?<br \/>\n    Tudo veio naturalmente, sem aquela intensidade de fen&ocirc;menos precursores,<br \/>\n    que, &agrave; imita&ccedil;&atilde;o dos m&eacute;dicos, poder&iacute;amos<br \/>\n    talvez chamar de cr&iacute;ticos.<\/p>\n<p>Um dia foi convidado para um ser&atilde;o. Aceitou contra vontade. L&aacute;<br \/>\n    divertiu-se mais do que julgou, e voltou contente, dormindo a sono solto depois.<br \/>\n    Da&iacute; por diante n&atilde;o faltava a nenhuma dessas assembl&eacute;ias<br \/>\n    campestres: fiadas, esfolhadas, espadeladas, ripadas; l&aacute; ia a toda<br \/>\n    com sua viola, traste indispens&aacute;vel aos dandys da localidade.<\/p>\n<p>Habituou-se por l&aacute; a conversar com as raparigas, e, dentro em pouco,<br \/>\n    era mestre em trocadilhos e conceitos amorosos. Aventurou-se uma vez a cantar<br \/>\n    ao desafio; a musa auxiliou-o, e dali em diante foi-lhe concedida a palma<br \/>\n    nesse g&ecirc;nero de certames.<\/p>\n<p>Com tais predicados n&atilde;o lhe podiam escassear aventuras de amores;<br \/>\n    e n&atilde;o lhe escassearam.<\/p>\n<p>Mas, em todo esse tempo, e apesar de todas as ocorr&ecirc;ncias, continuava<br \/>\n    dormindo as suas noites placidamente e de um sono s&oacute;, dando assim uma<br \/>\n    excelente li&ccedil;&atilde;o a esses amantes wertherianos que, por as mais<br \/>\n    pequenas coisas, perdem o sono e o apetite. Ele n&atilde;o. Os seus arrufos,<br \/>\n    as suas contrariedades n&atilde;o chegavam a esses excessos. Com o amor d&aacute;-se<br \/>\n    o mesmo que com o vinho &#8211; Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confronta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    mas bem v&ecirc;em que ambos eles embriagam. &Eacute; portanto l&iacute;cito<br \/>\n    compar&aacute;-los. Diz de certas pessoas &#8211; que t&ecirc;m o vinho alegre &#8211;<br \/>\n    de outras que &#8211; o t&ecirc;m triste &#8211; est&uacute;pido &#8211; bulhento &#8211; conforme<br \/>\n    d&aacute; a alguns a embriaguez para a hilaridade.; a outros para os sentimentalismo,<br \/>\n    a outros para a modorra ou para brigas. Pois com o amor &eacute; o mesmo.<br \/>\n    Amantes h&aacute; que celebram os seus amores, e at&eacute; suas infelicidades<br \/>\n    amorosas sempre em estilo de anacre&ocirc;ntica &#8211; esses t&ecirc;m o amor alegre;<br \/>\n    outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram,<br \/>\n    procuram os bosques solit&aacute;rios, que enchem de lamentos, e as praias<br \/>\n    desertas, onde carpem com o alci&atilde;o penas imagin&aacute;rias &#8211; t&ecirc;m<br \/>\n    estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem<br \/>\n    ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhes rivais ou estorvos,<br \/>\n    e, nesses acessos de f&uacute;ria, chegam a espancar e esfaquear o objeto<br \/>\n    amado &#8211; s&atilde;o os do amor bulhento e intrat&aacute;vel; h&aacute;-os que<br \/>\n    emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afetos, que em tudo lhe obedecem,<br \/>\n    que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefin&iacute;vel<br \/>\n    de adormecer-lhe aos p&eacute;s &#8211; pertencem aos do amor impertinente e est&uacute;pido.<br \/>\n    Poderia ir muito longe essa classifica&ccedil;&atilde;o, se fosse aqui o lugar<br \/>\n    pr&oacute;prio para ela.<\/p>\n<p>Basta, por&eacute;m, que diga que o amor de Pedro das Dornas pertencia a<br \/>\n    primeira categoria; &#8211; tinha de fato ele o amor alegre.<\/p>\n<p>Pedro cantava sempre; tudo lhe servia de tema a uma s&eacute;rie de quadras<br \/>\n    improvisadas, de que fazia uso para alentar-se no trabalho. &Eacute; verdade<br \/>\n    que talvez isso fosse porque Pedro n&atilde;o tinha ainda encontrado o verdadeiro<br \/>\n    amor, aquele que, dizem, uma vez s&oacute; na vida se experimenta. Em todo<br \/>\n    caso era o que sucedia com ele.<\/p>\n<p>Mas o reitor estava sempre a pregar-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; Pedro, tu andas por a&iacute; muito &agrave; solta! V&ecirc; l&aacute;<br \/>\n    onde vais cair.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Sr. Padre Ant&ocirc;nio, a gente tamb&eacute;m precisa de<br \/>\n    se divertir um bocado.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, mas tudo se quer em termos e que n&atilde;o venham depois<br \/>\n    as l&aacute;grimas e os arrependimentos!<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o hei de fazer coisa que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sim&#8230; Sabes o que eu te digo? O melhor, rapaz, &eacute; procurares<br \/>\n    o que te fa&ccedil;a arranjo, e ent&atilde;o que seja deveras. Casa-te e deixa-te<br \/>\n    de andar desnorteado, e nessa vida airada, que raro d&aacute; para bem.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, Sr. Reitor, ainda t&atilde;o novo, hei de j&aacute; tomar canseiras<br \/>\n    de fam&iacute;lia?<\/p>\n<p>&#8212; Queira Deus que, conservando-te assim como est&aacute;s, nas as acarrete<br \/>\n    mais pesadas ainda.<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante os conselhos do reitor, Pedro n&atilde;o se sentia com<br \/>\n    grande voca&ccedil;&atilde;o matrimonial. Todas as suas afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eram ef&ecirc;meras, e daquelas, em cujo futuro o pr&oacute;prio que as sente<br \/>\n    n&atilde;o acredita, mas &#8211; l&aacute; vem uma vez que &eacute; de vez &#8211; diz<br \/>\n    o ditado: e, com Pedro, n&atilde;o estava esta f&oacute;rmula de sabedoria<br \/>\n    popular destinada a ser desmentida.<\/p>\n<p>Vejamos como foi isto. Ia Pedro nos vinte e sete anos j&aacute; &#8211; era ent&atilde;o<br \/>\n    um rapaz vigoroso e sadio, de belas cores e m&uacute;sculos invej&aacute;veis.<br \/>\n    Andava certa manh&atilde; ocupado a cortar milho em um campo, propriedade<br \/>\n    da casa, o qual ficava situado na margem do pequeno rio, que atravessava a<br \/>\n    aldeia em continuados meandros.<\/p>\n<p>Pr&oacute;ximo havia uma ponte de pedra de dois arcos, constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; antiga, mas bem conservada ainda; o rio era nesse lugar pouco fundo,<br \/>\n    e deixava &agrave; flor da &aacute;gua as maiores das pedras espalhadas pelo<br \/>\n    seu leito, permitindo assim a passagem, a p&eacute; enxuto, de uma para outra<br \/>\n    margem.<\/p>\n<p>De joelhos sobre essas poldras, como por l&aacute; lhe chamam, desde o arco<br \/>\n    at&eacute; alguma extens&atilde;o no sentido contr&aacute;rio ao da corrente,<br \/>\n    um bando de lavadeiras molhava, batia, ensaboava, esfregava e torcia a roupa,<br \/>\n    ao som de alegres cantigas, interrompidas &agrave;s vezes por estrepitosas<br \/>\n    gargalhadas; outras estendiam-na pelos coradouros vizinhos, e, algumas, mais<br \/>\n    madrugadoras, principiavam a dobrar a que o sol da manh&atilde; havia j&aacute;<br \/>\n    secado.<\/p>\n<p>Pedro, do campo onde trabalhava, via estas raparigas, conhecidas quase todas,<br \/>\n    mas sem que o v&ecirc;-las o distra&iacute;sse da tarefa em que andava empenhado.<\/p>\n<p>&Agrave; medida, por&eacute;m, que, prosseguindo na ceifa, se aproximava<br \/>\n    mais da beira do campo, imediato ao rio, como o adiantado do trabalho lhe<br \/>\n    concedia mais vagares, p&ocirc;s-se a reparar com aten&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    uma das lavadeiras e a achar certo prazer na contempla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Era uma rapariga de cintura estreita, m&atilde;os pequenas, formas arredondadas,<br \/>\n    vivacidade de lavandisca, digna efetivamente das aten&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    Pedro e at&eacute; de qualquer outro mais exigente que ele.<\/p>\n<p>As mangas da camisa alv&iacute;ssima, arrega&ccedil;adas, deixavam ver uns<br \/>\n    bra&ccedil;os bem modelados, nos quais se fixavam os olhos com insist&ecirc;ncia<br \/>\n    significativa. Um largo chap&eacute;u de pano abrigava-a do ardor do sol e<br \/>\n    fazia-lhe real&ccedil;ar o rosto oval regular de maneira muito vantajosa.<\/p>\n<p>De quando em quando, levantava ela a cabe&ccedil;a e sacudia, com um movimento<br \/>\n    cheio de gra&ccedil;a, a tran&ccedil;a mais indom&aacute;vel, que, desprendendo-se-lhe<br \/>\n    do len&ccedil;o escarlate que a retinha, parecia vir afagar-lhe as faces animadas,<br \/>\n    beijar-lhe o canto dos l&aacute;bios, efetivamente de tentar.<\/p>\n<p>Em um desses movimentos freq&uuml;entes, reconheceu que era observada, se<br \/>\n    &eacute; que certo instinto, peculiar das mulheres bonitas, lho n&atilde;o<br \/>\n    fizera j&aacute; adivinhar. Sabendo-se observada, conjeturou que era admirada<br \/>\n    tamb&eacute;m &#8211; conjetura que por mulher alguma &eacute; feita com indiferen&ccedil;a<br \/>\n    e muito menos por Clara &#8211; era o nome da rapariga &#8211; porque diga-se o que &eacute;<br \/>\n    verdade, tinha um tanto ou quanto de vaidosa.<\/p>\n<p>Lisonjeada, pois, com a descoberta, sentiu Clara desejos de se fazer apreciar<br \/>\n    mais do que pelos olhos, de cujo conceito ela n&atilde;o j&aacute; podia duvidar.<\/p>\n<p>Elevou para isso a voz, e em uma toada conhecida, em uma dessas eternas e<br \/>\n    popular&iacute;ssimas m&uacute;sicas da nossa prov&iacute;ncia, das que mais<br \/>\n    espontaneamente entoam as lavadeiras nos ribeiros e as barqueiras aos remos,<br \/>\n    cantou a seguinte quadra: <\/p>\n<p>&Oacute; rio das &aacute;guas claras,<br \/>\n    Que vais correndo pro mar.<\/p>\n<p>Na pausa que, segundo as exig&ecirc;ncias da m&uacute;sica, se faz ao fim<br \/>\n    de dois versos, Clara torceu a roupa que estava lavando, e lan&ccedil;ou com<br \/>\n    disfarce, os olhos para o lugar, onde Pedro a escutava; e depois concluiu:\n  <\/p>\n<p>Os tormentos que eu pade&ccedil;o<br \/>\n    Ai, n&atilde;o os v&aacute; declarar.<\/p>\n<p>Pedro efetivamente estava recebendo com prazer o timbre agrad&aacute;vel<br \/>\n    daquela voz feminina; sentiu em si uma como&ccedil;&atilde;o estranha, visitou-a<br \/>\n    a musa r&uacute;stica, e atirando-se com vontade ao trabalho, elevou tamb&eacute;m<br \/>\n    a voz, j&aacute; t&atilde;o conhecida por todos os freq&uuml;entadores de<br \/>\n    arraiais e esfolhadas, e respondeu <\/p>\n<p>N&atilde;o declara quem n&atilde;o pode,<br \/>\n    E n&atilde;o tem que declarar.<\/p>\n<p>Na pausa olhou tamb&eacute;m para o lado onde estava Clara, a qual ria ocultamente<br \/>\n    com as companheiras, que eram todas ouvidos. A luva fora levantada e principiava<br \/>\n    o certame. O momento era solene! Pedro terminou: <\/p>\n<p>Pois quem como tu &eacute; bela,<br \/>\n    N&atilde;o pode ter que penar.<\/p>\n<p>Um murm&uacute;rio de aprova&ccedil;&atilde;o se levantou do conclave feminino.<\/p>\n<p>A reputa&ccedil;&atilde;o de Pedro n&atilde;o fora desmentida desta vez ainda.<\/p>\n<p>Mas Clara n&atilde;o era menos repentista. Tinha fama de nunca haver cedido<br \/>\n    o passo nestas pugnas incruentas, mas renhidas. &Eacute; verdade que, no caso<br \/>\n    presente, o contendor era de respeito; ela por&eacute;m aventurou-se e n&atilde;o<br \/>\n    fez esperar a resposta:<\/p>\n<p>O que eu peno ningu&eacute;m sabe,<br \/>\n    Ningu&eacute;m o pode saber;<br \/>\n    Porque eu peno e n&atilde;o me queixo,<br \/>\n    Em segredo sei sofrer.<\/p>\n<p>Novos sinais e aprova&ccedil;&atilde;o das mulheres, os quais estimularam<br \/>\n    a emula&ccedil;&atilde;o de Pedro. Ele respondeu: <\/p>\n<p>Pois o sofrer em sil&ecirc;ncio<br \/>\n    &Eacute; um dobrado sofrer;<br \/>\n    Melhor contarmos tudo<br \/>\n    A quem os possa entender.<\/p>\n<p>Esta quadra ainda produziu mais efeito, do que as precedentes &#8211; gra&ccedil;as<br \/>\n    &agrave; insinua&ccedil;&atilde;o que nela se fazia, e tend&ecirc;ncias que<br \/>\n    mostrava para dar novo car&aacute;ter ao desafio.<\/p>\n<p>Clara aceitou a dire&ccedil;&atilde;o que lhe era indicada assim, e respondeu:\n  <\/p>\n<p>A quem me possa entender<br \/>\n    Tudo eu quisera contar;<br \/>\n    Mas os amigos s&atilde;o raros,<br \/>\n    N&atilde;o sei onde os encontrar.<\/p>\n<p>\n    E logo Pedro:<\/p>\n<p>\n    Encontra-os em cada canto<br \/>\n    Quem os quiser procurar;<br \/>\n    E um dos mais verdadeiros<br \/>\n    Aqui te est&aacute; a escutar. <\/p>\n<p>\n    Chegadas as coisas a este ponto, o combate prolongou-se por bastante tempo,<br \/>\n    sustentado de parte a parte com igual denodo e per&iacute;cia. No entanto,<br \/>\n    a roupa ia-se lavando e o milho achava-se quase todo ceifado. Os contendores,<br \/>\n    cada vez mais pr&oacute;ximos, pareciam cada vez mais e cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    empenhados na luta. Mas tudo tem um fim neste mundo.<\/p>\n<p>Com as respectivas tarefas, terminou a justa, ficando ambos os campe&otilde;es<br \/>\n    vencidos um por outro, pois ambos se reconheciam j&aacute; seriamente apaixonados.<\/p>\n<p>Pedro passou as canas de milho para o carro. Clara meteu a roupa na canastra;<br \/>\n    e puseram-se a caminho. Encontraram-se na ponte, e travaram ent&atilde;o um<br \/>\n    di&aacute;logo em prosa, que foi a confirma&ccedil;&atilde;o de quanto, em<br \/>\n    verso, tinham dito j&aacute;. E da&iacute; se originou uma afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    m&uacute;tua, que, desde o princ&iacute;pio assumiu em Pedro car&aacute;ter<br \/>\n    mais grave e prometedor de bons resultados, do que as antecedentes.<\/p>\n<p>O reitor, que andava com os olhos sempre em cima do rapaz, disse-lhe dias<br \/>\n    depois:<\/p>\n<p>&#8212; Lembra-te dos meus conselhos, Pedro. N&atilde;o v&aacute;s mais longe.<br \/>\n    Fica por onde est&aacute;s, que n&atilde;o ficas mal.<\/p>\n<p>Pedro j&aacute; lhe n&atilde;o op&ocirc;s os acostumados argumentos antimatrimoniais,<br \/>\n    Calou-se. &Eacute; que desta vez a coisa era mais s&eacute;ria; e demais Pedro<br \/>\n    ia nos vinte e sete, e por isso come&ccedil;ava a sorrir-lhe mais afavelmente<br \/>\n    o remanso do matrim&ocirc;nio.<\/p>\n<p>Mas para justificarmos a opini&atilde;o do reitor a respeito da nova inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Pedro, digamos quem era Clara que assim de repente pusemos diante do leitor<br \/>\n    sem pr&eacute;via apresenta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<h4><a name=\"8\">Cap&iacute;tulo VIII<\/a><\/h4>\n<p> Clara era a filha do segundo matrim&ocirc;nio do pai daquela mesma Margarida<br \/>\n    ou Guida, cujos amores infantis tanto haviam j&aacute; dado que entender ao<br \/>\n    reitor.<\/p>\n<p>O pai de Margarida fora pela primeira vez casado com uma prima, que nada<br \/>\n    mais lhe havia trazido em dote, al&eacute;m de um afei&ccedil;&atilde;o ilimitada<br \/>\n    e de um cora&ccedil;&atilde;o excelente.<\/p>\n<p>Durante a vida da primeira mulher viveu sempre ele a custa de muito trabalho,<br \/>\n    pelo of&iacute;cio de carpinteiro, n&atilde;o podendo at&eacute; mandar aprender<br \/>\n    a ler &agrave; filha, &uacute;nico fruto desta primeira uni&atilde;o, pois<br \/>\n    que de pequenina a teve de ocupar no trabalho.<\/p>\n<p>A m&atilde;e de Margarida morreu, por&eacute;m, deixando-a de idade de cinco<br \/>\n    anos. O pai, como j&aacute; dissemos, deu-lhe em pouco tempo madrasta, e,<br \/>\n    na opini&atilde;o do mundo, fez um &oacute;timo neg&oacute;cio o carpinteiro.<\/p>\n<p>De fato, a segunda mulher trouxe-lhe um dote avultado, e, dentro de alguns<br \/>\n    dias, viam-no abandonar a ferramenta do of&iacute;cio e entregar-se todo ao<br \/>\n    fabrico e administra&ccedil;&atilde;o de suas novas terras, tornando-se um<br \/>\n    dos mais conceituados lavradores dos arredores. Mas a pr&oacute;spera fortuna<br \/>\n    do recente lavrador converteu-se em tormento e desventura para a desamparada<br \/>\n    crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>A madrasta, em pouco tempo m&atilde;e de uma outra rapariga, ciosa de toda<br \/>\n    afei&ccedil;&atilde;o e car&iacute;cias paternas, que Margarida pudesse disputar<br \/>\n    a sua filha, aborrecia-se e procurava sempre pretextos para a trazer por longe.<\/p>\n<p>Da&iacute;, a causa daquela solid&atilde;o a que fomos encontrar, quando<br \/>\n    pela primeira vez nos apareceu. Margarida chorava sozinha ou baixava a cabe&ccedil;a<br \/>\n    resignada. Tinha um car&aacute;ter d&oacute;cil e submisso, e n&atilde;o se<br \/>\n    atrevia a protestar nem sequer por uma daquelas espont&acirc;neas e irrefletidas<br \/>\n    revoltas, t&atilde;o pr&oacute;prias da inf&acirc;ncia atribulada.<\/p>\n<p>Com a morte do pai agravaram-se ainda mais estas tristes circunst&acirc;ncias.<br \/>\n    Livre da &uacute;nica repress&atilde;o que podia coagir a completa m&aacute;<br \/>\n    vontade que tinha &agrave; enteada, aquela mulher de g&ecirc;nio violento<br \/>\n    acabou por desprez&aacute;-la de todo. A cada passo lhe lan&ccedil;ava em<br \/>\n    rosto a pobreza de condi&ccedil;&atilde;o em que nascera, clamando que o p&atilde;o<br \/>\n    que lhe dava a comer era um roubo que fazia a sua pr&oacute;pria filha.<\/p>\n<p>Margarida ouvia; humilhavam-na estas cont&iacute;nuas e injustas recrimina&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mas at&eacute; as l&aacute;grimas procurava ocultar, com medo que dessem causa<br \/>\n    a novas iras. Limitava-se a rezar muito a Nossa Senhora, para que a levasse<br \/>\n    para si.<\/p>\n<p>A pobrezinha olhava para o futuro e via-o cerrado, sem um &uacute;nico raio<br \/>\n    de luz em que fitasse os olhos, para atravessar com mais &acirc;nimo as trevas<br \/>\n    completas do presente.<\/p>\n<p>Uma s&oacute; compensa&ccedil;&atilde;o experimentava a triste e desarrimada<br \/>\n    crian&ccedil;a, em troca de tantas dores e constante supl&iacute;cio: &#8211; era<br \/>\n    a amizade de sua irm&atilde;.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o herdara da m&atilde;e durezas de cora&ccedil;&atilde;o nem<br \/>\n    viol&ecirc;ncias de g&ecirc;nio. Af&aacute;vel no meio de suas alegrias de<br \/>\n    inf&acirc;ncia, compadecia-se j&aacute; pelo que via sofrer a irm&atilde;,<br \/>\n    e admirando aquela resigna&ccedil;&atilde;o de m&aacute;rtir, que ela bem<br \/>\n    se conhecia incapaz de mostrar em ocasi&atilde;o alguma da vida, principiou<br \/>\n    a olhar para Margarida com certo respeito, que, pouco a pouco, degenerou em<br \/>\n    prest&iacute;gio e lhe cultivou no cora&ccedil;&atilde;o uma verbera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sem limites.<\/p>\n<p>Muitas vezes as rudezas da m&atilde;e para com Margarida faziam-na chorar<br \/>\n    tamb&eacute;m, e, &agrave;s ocultas, vinha pedir perd&atilde;o a esta de um<br \/>\n    tratamento, de que ela bem percebia ser a causa involunt&aacute;ria.<\/p>\n<p>Margarida, da sua parte, sentia-se grata ao generoso afeto de Clara, e em<br \/>\n    pouco tempo ficou sendo esse la&ccedil;o o &uacute;nico pelo qual ela parecia<br \/>\n    prender-se ainda ao mundo, que t&atilde;o despovoado destas sedu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    lhe andara sempre.<\/p>\n<p>Pequenos epis&oacute;dios, na apar&ecirc;ncia insignificantes, corroboraram<br \/>\n    em uma e outra estes sentimentos e influ&iacute;ram na sorte futura das duas<br \/>\n    irm&atilde;s, que, ainda crian&ccedil;as, se diziam j&aacute; amigas insepar&aacute;veis.<\/p>\n<p>Em uma noite de inverno, a m&atilde;e de Clara deitara-se &agrave;s nove<br \/>\n    horas com a filha; e por um requinte de crueldade est&uacute;pida obrigara<br \/>\n    Margarida a conservar-se a p&eacute; serandando, at&eacute; concluir certa<br \/>\n    tarefa que lhe marcara; e ao deix&aacute;-la s&oacute;, dirigiu-lhe estas<br \/>\n    palavras cheias de humilha&ccedil;&atilde;o para a pobre rapariga:<\/p>\n<p>&#8212; Minha rica, quem vier a este mundo, sem meios de levar melhor a vida,<br \/>\n    n&atilde;o deve perder o costume de trabalhar, nem ganhar outros, com que,<br \/>\n    ao depois, n&atilde;o possa. Fica a p&eacute; e tem-me essa obra acabada.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o tentou uma s&oacute; queixa ou s&uacute;plica, em seu<br \/>\n    favor. Calou e obedeceu.<\/p>\n<p>Era, como disse, no inverno; fazia um frio excessivo. A lareira estava apagada<br \/>\n    j&aacute;; da parede defumada pendia uma candeia, cuja luz bruxuleante era<br \/>\n    a &uacute;nica a iluminar o recinto. O vento assobiava nas in&uacute;meras<br \/>\n    fendas da porta da cozinha e entrava em correntes impetuosas pelo tubo da<br \/>\n    chamin&eacute;, indo inteiri&ccedil;ar os membros regelados da desditosa crian&ccedil;a,<br \/>\n    que, s&oacute; a custo podia j&aacute; suster a roca e torcer o fio, para<br \/>\n    terminar o trabalho. O sil&ecirc;ncio da noite era interrompido por mil ru&iacute;dos<br \/>\n    sinistros, pr&oacute;prios para amedrontar as imagina&ccedil;&otilde;es supersticiosas<br \/>\n    como sempre, mais ou menos, s&atilde;o as da gente de campo.<\/p>\n<p>Margarida, naquele momento, sentiu mais amarga que nunca, a sua orfandade<br \/>\n    e o seu desamparo. Chorou, chorou a ponto de se sufocar, e pediu &agrave;<br \/>\n    Virgem que se compadecesse dela.<\/p>\n<p>Lembrou-se ent&atilde;o de quando a mandavam sozinha para o monte, e daquelas<br \/>\n    raras entreabertas de felicidade que lhe fizera sentir a companhia do pequeno<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>As saudades desses dias nunca mais a deixaram. Com ela vivia sempre, com<br \/>\n    elas se achava s&oacute;, quando, olhando para o passado, lhe pedia uma recorda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de prazer, em paga de tanta tristeza que, no presente, lhe oferecia a vida,<br \/>\n    de tantas sombras, com que lhe vinha o futuro.<\/p>\n<p>Nessa noite pensou tamb&eacute;m em Daniel; pensado nele, e naqueles breves<br \/>\n    momentos que vivera, esquecida do infort&uacute;nio, na solid&atilde;o dos<br \/>\n    montes, chegou a iludir-se, a imaginar-se transportada l&aacute;; e esqueceu<br \/>\n    o frio e o medonho da noite &#8211; que um outro lhos fizera desvanecer a vara m&aacute;gica<br \/>\n    da fantasia; &#8211; e insensivelmente parou-lhe a m&atilde;o que fiava, desca&iacute;ram-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os, vergou a cabe&ccedil;a melanc&oacute;lica, e o pensamento<br \/>\n    perdeu-se em longa e abstrata contempla&ccedil;&atilde;o que, sem transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apreci&aacute;vel, terminou em um sono profundo. Encontraram-se e confundiram-se<br \/>\n    os &uacute;ltimos devaneios da vig&iacute;lia, com os primeiros sonhos em<br \/>\n    que flutuavam ridentes as mesmas imagens, fantasiadas ou recordadas naquela.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o pudera, por&eacute;m, adormecer com a id&eacute;ia do sacrif&iacute;cio<br \/>\n    imposta &agrave; irm&atilde;. Do leito, onde se deitara com a m&atilde;e,<br \/>\n    ouvia o som do solu&ccedil;ar de Margarida, e isto era um mart&iacute;rio<br \/>\n    para ela. A boa rapariga pedia a Deus que olhasse por a pobre desvalida da<br \/>\n    irm&atilde;, que j&aacute; n&atilde;o tinha nenhum amparo, e, rezando assim,<br \/>\n    chorava ainda mais do que ela. Cedo, por&eacute;m, um alto e pausado respirar<br \/>\n    deu-lhe a certeza de que a m&atilde;e havia j&aacute; ca&iacute;do no sono.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o hesitou mais.<\/p>\n<p>Com todas as precau&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis, deixou-se escorregar<br \/>\n    de mansinho entre o leito e a parede, colocou sobre os ombros uma capa de<br \/>\n    baeta que encontrou &agrave; m&atilde;o, e, com muita cautela, passou-se para<br \/>\n    a cozinha, onde Margarida j&aacute; tinha adormecido. Clara n&atilde;o a acordou.<br \/>\n    Depois de a agasalhar com uma manta do leito, agachou-se ao lado dela e tirando-lhe<br \/>\n    sutilmente a roca da cinta, p&ocirc;s-se por sua vez a trabalhar.<\/p>\n<p>Eram duas horas da noite e a tarefa estava terminada. Margarida dormia&#8230;<br \/>\n    sonhava ainda.<\/p>\n<p>Neste instante, um som, que julgou partir da alcova, fez recear a Clara que<br \/>\n    a m&atilde;e tivesse acordado; por isso, mal teve tempo de correr a meter-se<br \/>\n    no leito, procurando n&atilde;o excitar a desconfian&ccedil;a materna, e n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de chamar a irm&atilde; para a mandar deitar.<\/p>\n<p>Passados alguns momentos, Margarida despertou. Ao lembrar-lhe que adormecera<br \/>\n    com o trabalho mal principiado ainda, apertou-se-lhe o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e a pobre crian&ccedil;a juntou as m&atilde;os de desesperada. Mas que espanto<br \/>\n    ao ver espiada a roca e fiadas as estrigas que lhe haviam dado por tarefa!<\/p>\n<p>A sua primeira id&eacute;ia foi que tinha sido aquilo um milagre da Senhora,<br \/>\n    a quem se havia encomendado e cujo aux&iacute;lio fervorosamente suplicara.<br \/>\n    Tinham-lhe contado a lenda daquela freira que, abandonado um dia a ermida<br \/>\n    da Virgem, de quem era devota, cega por uma paix&atilde;o mundana, voltara<br \/>\n    mais tarde &agrave;s portas do claustro, coberta de arrependimento e de vergonha:<br \/>\n    e, quando esperava recrimina&ccedil;&otilde;es e opr&oacute;brios, soube que<br \/>\n    ningu&eacute;m tinha lhe dado pela falta, porque a Senhora se compadecera<br \/>\n    dela, e revestindo a sua imagem, viera todos os dias fazer o servi&ccedil;o<br \/>\n    da clausura. <\/p>\n<p>Margarida acreditou em outro milagre desse g&ecirc;nero e com estas id&eacute;ias<br \/>\n    se foi deitar, rendendo expansivas a&ccedil;&otilde;es de gra&ccedil;as &agrave;<br \/>\n    Virgem, por t&atilde;o miraculosa intercess&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas, pouco a pouco, a verdade foi lhe aparecendo mais distinta, e pela madrugada<br \/>\n    acabaram de confirm&aacute;-la alguns vest&iacute;gios evidentes de Clara<br \/>\n    ter estado junto de si nessa noite, e enquanto ela dormia; denunciou-a um<br \/>\n    len&ccedil;o que ela deixara cair na pressa com que voltara &agrave; alcova.<\/p>\n<p>Nessa manh&atilde;, pois, Margarida aproximou-se da irm&atilde;, e beijou-a<br \/>\n    com efus&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigada, Clarinha, Deus te h&aacute; de recompensar essa bondade.<\/p>\n<p>&#8212; Se achas que mere&ccedil;o alguma recompensa, por que ma n&atilde;o<br \/>\n    d&aacute;s tu mesma Guida?<\/p>\n<p>&#8212; Eu, meu cora&ccedil;&atilde;o? Que recompensa podes esperar de uma<br \/>\n    pobre?<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o queiras muito mal a minha m&atilde;e por tanto que<br \/>\n    te mortifica, e que&#8230; me tenhas um pouco de amizade.<\/p>\n<p>&#8212; Querer mal a tua m&atilde;e, doida! E posso eu querer mal a quem<br \/>\n    me d&aacute; o p&atilde;o, de que me sustento, o teto e os vestidos que me<br \/>\n    cobrem? Que eu nada disto tenho, Clarinha.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me digas isso.<\/p>\n<p>&#8212; A minha amizade, pedes-me tu! E um pouco de amizade disseste! E,<br \/>\n    a n&atilde;o ser a ti, a quem queres que eu v&aacute; dar toda esta que Deus<br \/>\n    me p&ocirc;s no cora&ccedil;&atilde;o para dar? Da tua m&atilde;e recebo eu<br \/>\n    a esmola do p&atilde;o e do abrigo, agrade&ccedil;o-lha e rogo a Deus por<br \/>\n    ela; a ti devo-te mais; devo-te a esmola da consola&ccedil;&atilde;o e do<br \/>\n    conforto; por isso te estreme&ccedil;o e quero, Clarinha. E tu duvida-lo?<\/p>\n<p>&#8212; Esmola! esmola! Que palavra! De quem recebes tu esmola em casa de<br \/>\n    teu pai, Guida? &#8211; perguntou Clara, com uma viva express&atilde;o de nobre<br \/>\n    orgulho que lhe estava no car&aacute;ter.<\/p>\n<p>Margarida sorriu melancolicamente a esta exalta&ccedil;&atilde;o da sua irm&atilde;<br \/>\n    e respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Esta casa n&atilde;o &eacute; de meu pai, &eacute; de minha&#8230;<\/p>\n<p>Ia dizer madrasta, mas conteve-se, receando dar &agrave; palavra uma entona&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    menos afetuosa.<\/p>\n<p>Clara saltou-lhe ao pesco&ccedil;o, e, por um daqueles impulsos irresist&iacute;veis<br \/>\n    da sua &iacute;ndole generosa e expansiva, exclamou, beijando-a nas faces.<\/p>\n<p>&#8212; Guida, Guida, esta casa ainda h&aacute; de ser minha, e ent&atilde;o<br \/>\n    veremos se me fazes a desfeita de lhe n&atilde;o chamares de tua tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Doutra vez tinha ido Margarida vender fruta ao mercado. Com inacredit&aacute;vel<br \/>\n    exig&ecirc;ncia havia-lhe a madrasta fixado, de antem&atilde;o, qual seria<br \/>\n    o pre&ccedil;o da venda, n&atilde;o lhe permitindo baix&aacute;-lo, e obrigando<br \/>\n    a pequena, ao mesmo tempo, a n&atilde;o voltar para a casa sem a ter realizado.<\/p>\n<p>Os maus tratos e &aacute;speras repreens&otilde;es esperavam infalivelmente<br \/>\n    Margarida naquele dia, visto a exorbit&acirc;ncia dos pre&ccedil;os estabelecidos<br \/>\n    e uma t&atilde;o grande aflu&ecirc;ncia de fruta na pra&ccedil;a, que barateara<br \/>\n    o g&ecirc;nero. A rapariga chorava e lamentava-se, enquanto os compradores<br \/>\n    sorriam ao ouvir o pre&ccedil;o excessivo que ela pedia pela fruta.<\/p>\n<p>Nisto apareceu Clara, que, por acaso, atravessava a feira naquele momento.<br \/>\n    Viu a irm&atilde; assim aflita, e aproximou-se dela.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; isso, Guida? Tu choraste?<\/p>\n<p>&#8212; E admiras-te ainda de me veres choras, Clarinha?<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; dize-me, por que foi isto?<\/p>\n<p>Margarida contou-lhe tudo.<\/p>\n<p>Clara ficou a olhar para o ch&atilde;o pensativa.<\/p>\n<p>&#8212; E de tanta gente rica que h&aacute; por a&iacute;, ningu&eacute;m<br \/>\n    ter&aacute; alma de pagar mais cara alguns vint&eacute;ns esta fruta, para<br \/>\n    fazer bem a uma pobre rapariga.<\/p>\n<p>O acaso fez com que descobrisse um velho, que, naquele momento, atravessava<br \/>\n    o lugar, fazendo provis&atilde;o de fruta, e parecendo n&atilde;o regatear<br \/>\n    muito.<\/p>\n<p>&#8212; Ai &#8211; disse Clara, ao encarar com ele &#8211; o meu padrinho, o Sr. C&ocirc;nego<br \/>\n    Arouca! Queres tu ver, Guida, como eu te vendo a fruta?<\/p>\n<p>&#8212; Que vais fazer, Clarinha?<\/p>\n<p>&#8212; Escuta.<\/p>\n<p>E, imediatamente, arrebatando a canastra das m&atilde;os da irm&atilde;,<br \/>\n    Clara correu a colocar-se no caminho do velho c&ocirc;nego, quando este prosseguia<br \/>\n    no seu feirado.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bons-dias, meu padrinho, deite-me as suas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os.\n  <\/p>\n<p>&#8212; Tu por aqui, Clarita? Deus te aben&ccedil;oe, rapariga. Ent&atilde;o<br \/>\n    que fazes tu?<\/p>\n<p>&#8212; Sou muito pouco afortunada, meu padrinho. Sabe?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, pequena? Ent&atilde;o por qu&ecirc;? N&atilde;o encontraste<br \/>\n    noivo ainda?<\/p>\n<p>&#8212; Ora! est&aacute; a brincar. N&atilde;o &eacute; isso.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Trago &agrave; feira uma canastra cheia de frutas, e ainda n&atilde;o<br \/>\n    encontrei compradores.<\/p>\n<p>&#8212; E o defeito &eacute; da fruta, ou de quem a vende?<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de ser de quem a vende que l&aacute; a fruta&#8230; essa boa<br \/>\n    &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Boa, sim; mas cara&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa! meu padrinho. N&oacute;s c&aacute; n&atilde;o somos mais<br \/>\n    do que as outras. Vendemos pelo mesmo pre&ccedil;o que elas vendem.<\/p>\n<p>&#8212; Ora deixa c&aacute; ver a fruta. Ent&atilde;o quanto queres tu por<br \/>\n    isso? Um dinheir&atilde;o?<\/p>\n<p>Este exame era simplesmente por formalidade, pois o c&ocirc;nego tinha resolvido,<br \/>\n    de si para si, ser o feirante de toda a fruta, embora fosse dura como pedra,<br \/>\n    e cara como o a&ccedil;afr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Se for para o meu padrinho, o que quiser &#8211; respondeu Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bom. N&atilde;o &eacute; m&aacute; de todo. Passa-me<br \/>\n    ai para a canastra do criado, enquanto eu fa&ccedil;o as contas.<\/p>\n<p>E, ao passo que a filhada cumpria a ordem recebida, ele mexia, e remexia<br \/>\n    nos bolsos do colete, donde tirou n&atilde;o sei que moeda em ouro, que quadruplicava<br \/>\n    o pre&ccedil;o da fruta, e passou-a para as m&atilde;os de Clara, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute; tens; o que crescer &eacute; para um len&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o muito obrigada, meu padrinho. E deite-me suas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os.<\/p>\n<p>&#8212; Vai com Deus, rapariga, e faz visitas &agrave; tua gente &#8211; respondeu<br \/>\n    o c&ocirc;nego, dando-lhe a m&atilde;o a beijar.<\/p>\n<p>Clara voltou a correr para junto de Margarida, bradando-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; V&ecirc;, v&ecirc;, n&atilde;o te aflijas. Fruta vendida, e uns cr&eacute;scimos<br \/>\n    para tremo&ccedil;os.<\/p>\n<p>Margarida agradeceu-lhe com um olhar, orvalhado de l&aacute;grimas de gratid&atilde;o.<\/p>\n<p>Assim continuou este viver por muitos anos mais, at&eacute; que a m&atilde;e<br \/>\n    de Clara adoeceu. Durante a mol&eacute;stia, foi Margarida desvelada e incans&aacute;vel<br \/>\n    enfermeira, colhendo sempre, em paga dos seus carinhos, modos rudes e &aacute;speros,<br \/>\n    express&otilde;es inequ&iacute;vocas de avers&atilde;o que nunca deixava de<br \/>\n    sentir por ela. A her&oacute;ica rapariga n&atilde;o afrouxava por isso na<br \/>\n    afetuosa caridade com que a tratava.<\/p>\n<p>A doen&ccedil;a agravou-se, e a morte foi declarada inevit&aacute;vel.<\/p>\n<p>Neste momento solene, como que se abrandou o cora&ccedil;&atilde;o e falou<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia da moribunda, mostrando-lhe a injusti&ccedil;a do seu<br \/>\n    procedimento para com Margarida.<\/p>\n<p>&Agrave; hora da morte chamou-a junto de si, e, apertando-lhe as m&atilde;os,<br \/>\n    disse-lhe entre solu&ccedil;os:<\/p>\n<p>&#8212; Guida &#8211; pela primeira vez lhe deu este nome afetuoso &#8211; perdoa-me!<br \/>\n    Deus alumiou-me o esp&iacute;rito. S&oacute; agora conhe&ccedil;o a minha<br \/>\n    maldade e as tuas virtudes. Perdoa-me minha filha, e s&ecirc; generosa at&eacute;<br \/>\n    o fim,. Clara fica s&oacute;, &eacute; ainda muito crian&ccedil;a. Lembra-te<br \/>\n    que ela &eacute; tua irm&atilde;, aconselha-a, e estima-a, olha-me por ela.<br \/>\n    Perdoa-lhe o ser filha de&#8230; tua madrasta.<\/p>\n<p>Foram as derradeiras palavras que disse.<\/p>\n<p>Margarida caiu sufocada de choro, junto do leito da morta. N&atilde;o lhe<br \/>\n    restava no cora&ccedil;&atilde;o a menor sombra de ressentimento contra aquela<br \/>\n    que a fizera t&atilde;o infeliz. Eram sinceras, como poucas, as l&aacute;grimas<br \/>\n    dessa &oacute;rf&atilde;.<\/p>\n<p>Passado tempo, sentiu que um bra&ccedil;o a levantava. Voltou-se: era o reitor,<br \/>\n    que olhava para ela comovido.<\/p>\n<p>&#8212; Muito bem, Guida, muito bem! &#8211; exclamou o velho com entusiasmo &#8211;<br \/>\n    Essas l&aacute;grimas s&atilde;o generosas, s&atilde;o verdadeiras j&oacute;ias<br \/>\n    da tua boa alma. Elas devem ser de grande al&iacute;vio para aquela cujo maior<br \/>\n    pecado neste mundo foi o muito que te fez padecer.<\/p>\n<p>E da&iacute; por diante ficou o reitor tendo por s&uacute;bito conceito a<br \/>\n    Margarida.<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Cap&iacute;tulo IX<\/a><\/h4>\n<p> Depois da morte da madrasta, a sorte de Margarida tomou uma fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais favor&aacute;vel.<\/p>\n<p>Vivendo na companhia da irm&atilde;, nunca mais teve que suportar aquelas<br \/>\n    humilha&ccedil;&otilde;es continuadas que a faziam corar.<\/p>\n<p>Antes, no modo porque era tratada em casa, parecia ser ela a senhora de tudo,<br \/>\n    e Clara a que recebia o benef&iacute;cio; contra estas apar&ecirc;ncias s&oacute;<br \/>\n    a sua mod&eacute;stia protestava.<\/p>\n<p>Clara possu&iacute;a um cora&ccedil;&atilde;o excelente, mas faltava-lhe<br \/>\n    cabe&ccedil;a para superintender nos neg&oacute;cios da casa; por isso pedira<br \/>\n    a Margarida que os gerisse ela e lhe deixasse ir gozando a apetecida liberdade<br \/>\n    dos seus dezoitos anos.<\/p>\n<p>O p&aacute;roco, por tutor das duas &oacute;rf&atilde;s, sancionou e dirigiu<br \/>\n    com seus conselhos esta disposi&ccedil;&atilde;o de coisas.<\/p>\n<p>Mas um tal sistema de viver n&atilde;o podia bastar por muito tempo a Margarida.<br \/>\n    Havia no car&aacute;ter desta rapariga um fundo de dignidade pessoal que lhe<br \/>\n    n&atilde;o deixava aceitar a vida pl&aacute;cida, que cordialmente a irm&atilde;<br \/>\n    lhe talhara.<\/p>\n<p>Habituara-se muito cedo ao trabalho e como ele contava.<\/p>\n<p>&#8212; Se o desprezo agora &#8211; dizia ela a si mesma, pensando nisto, &#8211; quem<br \/>\n    sabe se um dia, ao procur&aacute;-lo, ele fugir&aacute;?<\/p>\n<p>Sentia-se jovem, com for&ccedil;as e coragem; envergonhava-se da ociosidade.<br \/>\n    Entre os projetos, que formou ent&atilde;o, um lhe sorriu sempre mais que<br \/>\n    todos.<\/p>\n<p>Margarida tinha uma educa&ccedil;&atilde;o pouco vulgar para a sua condi&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    V&aacute;rias circunst&acirc;ncias haviam gradualmente concorrido para lhe<br \/>\n    aperfei&ccedil;oar. Daniel fora, como sabemos, o seu primeiro mestre, e quando<br \/>\n    outra raz&atilde;o n&atilde;o houvesse, as saudades que a vista e a leitura<br \/>\n    dos livros ainda lhe causavam, lembrando-lhe aquele tempo, lev&aacute;-la-iam<br \/>\n    a procur&aacute;-los com prazer. Seguira-se a Daniel o reitor, conforme ao<br \/>\n    que prometera ao disc&iacute;pulo. Vendo o padre a inclina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua pupila para a leitura, fazia-lhe, de quando em quando, alguns presentes<br \/>\n    de livros, depois de os passar pela cr&iacute;tica dos seus r&iacute;gidos<br \/>\n    princ&iacute;pios morais, e julg&aacute;-los salutares. Margarida lia-os com<br \/>\n    ardor, e, pouco a pouco, costumou-se a l&ecirc;-los com reflex&atilde;o tamb&eacute;m.<br \/>\n    N&atilde;o sendo muito abundantes as bibliotecas da terra, era obrigada a<br \/>\n    reler, mais que uma vez, os mesmos livros &#8211; o que &eacute; sempre uma vantagem<br \/>\n    para a instru&ccedil;&atilde;o colhida neles.<\/p>\n<p>Al&eacute;m do interesse crescente que ia encontrando na leitura, um motivo<br \/>\n    mais oculto lhe alimentava esse ardor &#8211; motivo que ele pr&oacute;pria quase<br \/>\n    ignorava, ou pelo menos n&atilde;o dizia a si. &#8211; Como que desta se forma se<br \/>\n    aproximava de Daniel. Das duas intelig&ecirc;ncias de crian&ccedil;a, que<br \/>\n    se tinham visto a par, como duas aves que brincam na relva, uma levantara<br \/>\n    v&ocirc;o e subira; que admirava que a outra, saudosa, ensaiasse as for&ccedil;as<br \/>\n    para a acompanhar? Para, ao menos, a n&atilde;o perder de vista de todo? H&aacute;<br \/>\n    destes motivos ocultos das nossas a&ccedil;&otilde;es, que passam desconhecidos.<\/p>\n<p>O que &eacute; certo &eacute; que a sede de saber devorava Margarida. O h&aacute;bito<br \/>\n    da medita&ccedil;&atilde;o, que adquirira, permitia &agrave; sua intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    tirar grandes riquezas da pequena mina em que trabalhava.<\/p>\n<p>Um acontecimento favoreceu ainda estas tend&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Um dia, acolheu-se &agrave; aldeia, a viver vida e priva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de mis&eacute;ria, um destes desgra&ccedil;ados, a quem as ondas do mundo<br \/>\n    arrojam, n&aacute;ufragos e quebrantados, &agrave; praia. Era um homem, que,<br \/>\n    saindo em crian&ccedil;a ainda, daquela mesma aldeia, entrara, sob os sorrisos<br \/>\n    da sorte, na vida das cidades. A instru&ccedil;&atilde;o, a riqueza, as honras,<br \/>\n    tudo o rodeara do prest&iacute;gio que parece assegurar a felicidade. Se ele<br \/>\n    a sentiu ent&atilde;o, n&atilde;o o sei eu; &#8211; um dia, por&eacute;m, como o<br \/>\n    J&oacute; da Escritura, viu as m&atilde;o da desgra&ccedil;a baixar sobre<br \/>\n    sua cabe&ccedil;a, priv&aacute;-lo das riquezas, das dignidades e da fam&iacute;lia,<br \/>\n    e deix&aacute;-lo s&oacute;; s&oacute; ao declinar a vida, s&oacute; quando<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o h&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o fogo para alimentar<br \/>\n    esperan&ccedil;as, vigor no bra&ccedil;o para arrotear caminhos novos!<\/p>\n<p>Este homem sacudiu a poeira dos sapatos &agrave; porta das cidades, onde<br \/>\n    sonhara meio s&eacute;culo, e veio, tendo por &uacute;nico arrimo a consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    procurar o teto que, nu, o abrigara na inf&acirc;ncia e quase o recebia na<br \/>\n    velhice como de l&aacute; sa&iacute;ra, &#8211; teto que nem j&aacute; era seu.<\/p>\n<p>&Eacute; uma hist&oacute;ria vulgar a deste homem. Insistir nela seria contar<br \/>\n    ao leitor coisas sabidas.<\/p>\n<p>A quem reservar&aacute; a sorte o privil&eacute;gio de ignorar uma hist&oacute;ria<br \/>\n    assim?<\/p>\n<p>Era, pois, um desgra&ccedil;ado. Isto bastava para que, ao seu lado, visse,<br \/>\n    olhando-o compadecido, o rosto de Margarida e, animando-o, os sorrisos de<br \/>\n    Clara.<\/p>\n<p>O infort&uacute;nio chamou para junto do leito da mis&eacute;ria deste velho<br \/>\n    desanimado, estas duas mulheres. Ao lado de todas as cruzes aparecem desses<br \/>\n    vultos compassivos.<\/p>\n<p>Com que havia de recompensar a devo&ccedil;&atilde;o her&oacute;ica de duas<br \/>\n    juventudes &agrave; velhice empobrecida, quem nada tinha a dar?<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe exigiam elas a recompensa, &eacute; certo; mas pedia-lha a<br \/>\n    alma.<\/p>\n<p>Dos amigos que tivera, s&oacute; lhe restavam quatro; e esses lhe valeram.<br \/>\n    Eram quatro livros&#8230;<\/p>\n<p>Talvez os leitores j&aacute; estivessem imaginado que este homem trouxera<br \/>\n    ainda quatro amigos para a diversidade, sem serem livros. Custa-me desengan&aacute;-los;<br \/>\n    mas n&atilde;o trouxe. <\/p>\n<p>Foi nestes livros que Margarida encontrou novos alimentos para a leitura.<br \/>\n    N&atilde;o sei bem ao certo quais eram eles.<\/p>\n<p>Estas leituras, dirigidas agora pela cr&iacute;tica esclarecida e o s&atilde;o<br \/>\n    ju&iacute;zo do pobre velho, valeram imenso a Margarida, que, dentro em pouco<br \/>\n    chegou a uma cultura intelectual, a que nunca tinha aspirado.<\/p>\n<p>Por isso, na ocasi&atilde;o de formar projetos, para se dignificar aos pr&oacute;prios<br \/>\n    olhos pelo trabalho, sorria-lhe principalmente a carreira do ensino. Ensinar<br \/>\n    era aprender, ensinar era amar; e estas duas necessidades daquele esp&iacute;rito<br \/>\n    generosos, aprender e amar, se satisfaziam assim.<\/p>\n<p>Cultivar intelig&ecirc;ncias e cultivar afei&ccedil;&otilde;es!&#8230; Que futuro!<br \/>\n    A alma no &iacute;ntimo apaixonada, de Margarida, exultava s&oacute; com a<br \/>\n    id&eacute;ia.<\/p>\n<p>Restava obter o consentimento de Clara, e que t&aacute;tica n&atilde;os seria<br \/>\n    necess&aacute;ria para isso?<\/p>\n<p>&#8212; Clarinha &#8211; disse-lhe pois um dia Margarida &#8211; vou pedir-te um favor!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; poss&iacute;vel! &#8211; exclamou Clara, sinceramente admirada.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; esta a primeira vez que me pedes um favor, Guida. repara bem.<\/p>\n<p>&#8212; Tanto mais raz&atilde;o para mo concederes, filha; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    verdade?<\/p>\n<p>&#8212; Assim me pedisses mil, Guida, para todos te conceder tamb&eacute;m.<br \/>\n    Ora dize.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes? eu n&atilde;o me dou com esta vida de senhora, em que tu me<br \/>\n    tens. Que queres, minha filha? Isto de trabalhar &eacute; h&aacute;bito que<br \/>\n    se ganha de pequena e n&atilde;o se perde mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, ent&atilde;o &#8211; disse Clara, pondo-se s&eacute;ria como se suspeitasse<br \/>\n    vagamente o que a irm&atilde; lhe ia dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Queria que me deixasses trabalhar.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o trabalhas tu tanto, mais do que eu, Guida? Podia eu,<br \/>\n    sem ti, olhar por estas coisas de casa, de que n&atilde;o entendo, de que<br \/>\n    n&atilde;o quero entender? S&oacute; se queres vir a lavar ao ribeiro comigo.<br \/>\n    Ora! Guida, essas m&atilde;os delgadas j&aacute; n&atilde;o foram feitas para<br \/>\n    isso.<\/p>\n<p>&#8212; O que dizes que eu tenho que fazer, Clarinha, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    trabalho que ocupa muitas horas, como sabes. Resta-me ainda tanto tempo!&#8230;<br \/>\n    Olha que os dias s&atilde;o muito grandes.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que queres tu afinal?<\/p>\n<p>&#8212; Sabes?&#8230; uma coisa que eu desejava&#8230; uma coisa que me faria alegre<br \/>\n    at&eacute;!&#8230; n&atilde;o desejas tu ver-me andar alegre? n&atilde;o me ralhas<br \/>\n    tu pelas minhas tristezas?<\/p>\n<p>&#8212; Mas vamos ver o que tu querias; o que &eacute; que te daria essas<br \/>\n    alegrias grandes? Alguma loucura grande tamb&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o. Olha&#8230; se eu tivesse umas poucas<br \/>\n    crian&ccedil;as para ensinar&#8230;<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o a deixou continuar.<\/p>\n<p>&#8212; Tu, tu, minha irm&atilde;!&#8230; Ensinares tu as filhas dos outros?!<br \/>\n    Viveres de educar filhos alheios!<\/p>\n<p>&#8212; Oh! orgulhosa! Ent&atilde;o isso &eacute; alguma vergonha? Anda,<br \/>\n    l&aacute;, que o Sr. Reitor te ouvia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas que se diria de mim, Guida? Sempre tem coisas! Repara bem, que<br \/>\n    se diria de mim?<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;s uma boa alma, Clarinha, tu que reparte comigo a tua<br \/>\n    casa, o teu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Guida! &#8211; exclamou Clara, interrompendo-a com um tom de repreens&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; E que se dir&aacute; de mim, se n&atilde;o me concederes o que eu<br \/>\n    te pe&ccedil;o? o que se ter&aacute; dito?<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;s muito boa em n&atilde;o me abandonares, em me dares<br \/>\n    conselhos, em me perdoares as minhas doidices.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m por o que dir&atilde;o, que<br \/>\n    eu te pe&ccedil;o isto n&atilde;o; &eacute; porque o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    me leva a pedir-to.<\/p>\n<p>&#8212; Guida, por amor de Deus! Perde essa id&eacute;ia! &Eacute; uma desfeita<br \/>\n    que me fazes.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;, minha filha, n&atilde;o &eacute;. Pois bem,<br \/>\n    pergunte-se ao Sr. Reitor, e se ele disser que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora, o Sr. Reitor, sim! Basta ser pedido teu para ele aprovar.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s sendo muito m&aacute; &#8211; disse Margarida, afagando-a.<\/p>\n<p>Depois de alguma luta, foi resolvido consultar o p&aacute;roco, ficando cada<br \/>\n    uma com a liberdade de pleitear a causa pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Clara tinha alguma raz&atilde;o em suspeitar da imparcialidade do juiz. O<br \/>\n    p&aacute;roco, tutor das duas raparigas, costumara-se a admirar o bom senso<br \/>\n    e a intelig&ecirc;ncia superior de Margarida a ponto de confiar mais nela<br \/>\n    do que em si mesmo.<\/p>\n<p>Decidiu pois a demanda em favor da irm&atilde; mais velha, excitando contra<br \/>\n    si um amuo de Clara, que durou tr&ecirc;s dias. Era extens&atilde;o excepcional<br \/>\n    dos despeitos da boa rapariga; mas &eacute; que desta vez sempre se tratava<br \/>\n    de Margarida, e em tais assuntos Clara era intolerante.<\/p>\n<p>Em resultado de tudo isto, passados dias, come&ccedil;ou Margarida sua tarefa<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o, &agrave; qual se entregava com amor. As crian&ccedil;as<br \/>\n    aflu&iacute;am-lhe, atra&iacute;das por aquela suavidade de maneiras, que<br \/>\n    constitu&iacute;a um dos mais fortes atrativos do car&aacute;ter dela.<\/p>\n<p>Esta fase mais bonan&ccedil;osa da exist&ecirc;ncia de Margarida j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o conseguiu por&eacute;m modificar-lhe o car&aacute;ter pensativo<br \/>\n    e suavemente melanc&oacute;lico, que a inf&acirc;ncia oprimida lhe fizera<br \/>\n    contrair. Adquirira j&aacute; o h&aacute;bito da tristeza e das l&aacute;grimas,<br \/>\n    e este, como todos os h&aacute;bitos, n&atilde;o se perde facilmente.<\/p>\n<p>No meio das recentes felicidades da sua vida, ela pr&oacute;pria, por muitas<br \/>\n    vezes, se surpreendia a chorar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; isto uma ofensa a Deus? &#8211; dizia ent&atilde;o<br \/>\n    consigo &#8211; Por que choro eu? N&atilde;o tenho a amizade de Clara, amizade extremosa,<br \/>\n    como ainda a n&atilde;o recebi de ningu&eacute;m? Eu devo estar alegre e bendizer<br \/>\n    ao Senhor, que n&atilde;o desvia de mim os seus olhares de miseric&oacute;rdia.<\/p>\n<p>Em um momento de expansiva conversa&ccedil;&atilde;o, Clara disse-lhe um<br \/>\n    dia, vendo-a assim triste:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me dir&aacute;s tu, Guida, o que hei de fazer para te<br \/>\n    ver rir e estar alegre?<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Clarinha, a gente &eacute; como as flores, que umas nascem<br \/>\n    com cores vermelhas que alegram, outras com cores escuras que entristecem.<br \/>\n    Olha tu as violetas e os suspiros, que te digam por que nasceram assim e por<br \/>\n    que, crescendo na mesma terra e sendo alumiadas pelo mesmo sol, n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m as cores brilhantes da rosa.<\/p>\n<p>&#8212; Bem respondido, sim senhora; daqui em diante hei de chamar-te sempre<br \/>\n    a minha violeta.<\/p>\n<p>&#8212; Crian&ccedil;a! E tu, Clarinha, nunca te sentes triste?<\/p>\n<p>&#8212;Triste por qu&ecirc;? Que tenho eu a desejar para ser feliz de todo?<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o. Tu&#8230; nada.<\/p>\n<p>&#8212; E tu? &#8211; perguntou Clara, fitando os olhos da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Eu&#8230;<\/p>\n<p>E Margarida sem responder ficava mais triste ainda do que at&eacute; ali.<\/p>\n<p>Clara impacientava-se.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Guida. H&aacute; muito tempo que ando vontade de te dizer uma<br \/>\n    coisa; mas&#8230; como que at&eacute; me chega vergonha de te falar nisto. Eu<br \/>\n    n&atilde;o entendo nada destes enredos de justi&ccedil;a; mas&#8230; lembra-me,<br \/>\n    em vida de minha m&atilde;e, ouvir-te dizer muitas vezes que&#8230; nada disto<br \/>\n    era teu e&#8230; que dela recebias tu&#8230; a&#8230; a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A esmola do agasalho que me dava; e era&#8230; e &eacute; assim.<\/p>\n<p>&#8212; E era e &eacute; assim! Guida! Eu n&atilde;o sei l&aacute; como os<br \/>\n    homens fazem estas coisas. Mas se eu sou agora, como dizes, a senhora de tudo,<br \/>\n    n&atilde;o quero mais ouvir-te falar deste modo. Quero que olhes, como teu,<br \/>\n    tudo o que me pertence; que n&atilde;o me tornes a dizer essa palavra t&atilde;o<br \/>\n    feia, que ainda agora te ouvi. De outro modo, fico de mal contigo; isso fico.<br \/>\n    J&aacute; o merecias por te estares a cansar com trabalho, sem precis&atilde;o.<\/p>\n<p>Margarida sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; E quando, para o futuro vier algu&eacute;m tomar parte consigo nestes<br \/>\n    bens, pensar&aacute; assim como tu?<\/p>\n<p>&#8212; Algu&eacute;m! &#8230; como algu&eacute;m?<\/p>\n<p>&#8212; Sim; julgo que n&atilde;o est&aacute;s para freira, Clarinha.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, e pensas nisso j&aacute;? Pois bem, se assim for, hei de escolher<br \/>\n    quem seja digno de ser teu amigo, ou ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bom, est&aacute; bom. D&aacute; c&aacute; um beijo, e<br \/>\n    n&atilde;o falemos mais nisso. Farei tudo como dizes.<\/p>\n<p>E a tristeza de Margarida n&atilde;o terminava ainda.<\/p>\n<p>No entretanto o reitor ia-se afei&ccedil;oando todos os dias mais &agrave;s<br \/>\n    suas pupilas.<\/p>\n<p>&Agrave; mais velha dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Toma-me conta de Clara. &Eacute; rapariga e amiga de brincar. Faz<br \/>\n    com que te confie todos os seus segredos. Serve-te do poder que tens sobre<br \/>\n    ela para a guiares, minha filha. D&aacute;-lhe parte do teu ju&iacute;zo.\n  <\/p>\n<p>E por outro lado, dizia a Clara:<\/p>\n<p>&#8212; Olha l&aacute;, rapariga. Tu anda-me com ju&iacute;zo, ouviste? &Eacute;<br \/>\n    bom rir e estar alegre, mas em termos, em termos. Segue os conselhos de tua<br \/>\n    irm&atilde; e faz por imit&aacute;-la.<\/p>\n<p>E consigo s&oacute;, dizia, ao lembraram-lhe as duas:<\/p>\n<p>&#8211; Excelentes cora&ccedil;&otilde;es! Deus lhe d&ecirc; na terra a felicidade,<br \/>\n    que eu lhes desejo e que s&atilde;o dignas. A Clarita bem est&aacute;&#8230; Tem<br \/>\n    dos bens da fortuna, n&atilde;o lhe faltar&atilde;o arruma&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    mas a pobre Margarida&#8230; Se ao menos, por felicidade, tiver um cunhado que<br \/>\n    seja um homem de bem!&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"10\"><br \/>\n    Cap&iacute;tulo X<\/a><\/h4>\n<p>\n    Foi por isso que o reitor, ao perceber um dia a inclina&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca<br \/>\n    de Clara e Pedro das Dornas, exultou com a descoberta.<\/p>\n<p>Amigo das duas fam&iacute;lias, e conhecedor da boa &iacute;ndole de Clara<br \/>\n    e dos sentimentos generosos de Pedro, ele s&oacute; antevia ventura na projetada<br \/>\n    uni&atilde;o.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o aos dotes, n&atilde;o havia entre os noivos grande<br \/>\n    desigualdade, e, em vista disso, n&atilde;o era prov&aacute;vel que, da parte<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas, surgissem dificuldades s&eacute;rias.<\/p>\n<p>Por outro lado, a boa alma do noivo tranq&uuml;ilizaria o reitor, em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; sorte de Margarida: ele a saberia estimar como ela merecia. Esta<br \/>\n    considera&ccedil;&atilde;o, sobretudo, fazia o contentamento do padre. Da&iacute;,<br \/>\n    aquele conselho dado a Pedro &#8211; conselho que encontrou este em muito boas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de o observar.<\/p>\n<p>Passados dias, procurou o reitor o seu amigo Jos&eacute; das Dornas e comunicou-lhe<br \/>\n    que Pedro estava resolvido a casar, e lhe pedira para servir de embaixador<br \/>\n    em solicitar o consentimento paterno.<\/p>\n<p>Como tinha conjeturado, o projeto passou sem oposi&ccedil;&atilde;o da parte<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas, que antes ficou muito contente com a novidade.<br \/>\n    Somente pediu o adiamento da &eacute;poca dos esponsais, para quando chegasse<br \/>\n    do Porto, Daniel, que devia, naquele ano, terminar a sua formatura na escola<br \/>\n    de medicina na Cidade Invicta.<\/p>\n<p>Clara tinha, antes disso, respondido ao p&aacute;roco, perguntando-lhe este<br \/>\n    se aceitava o pedido de Pedro, que desejaria consultar a irm&atilde;. Aprovou<br \/>\n    o Padre esta aten&ccedil;&atilde;o delicada, e esperou-se pela resposta de<br \/>\n    Margarida, de quem n&atilde;o havia grandes impedimentos a recear. Estava<br \/>\n    Margarida a ler, quando Clara foi ter com ela.<\/p>\n<p>Era j&aacute; ent&atilde;o uma simp&aacute;tica figura de mulher a de Margarida.<br \/>\n    N&atilde;o se podia dizer um tipo de beleza irrepreens&iacute;vel, mas havia<br \/>\n    em toda aquela figura um ar de afabilidade e de meiguice tal, que nem avultavam<br \/>\n    essas pequenas incorre&ccedil;&otilde;es, s&oacute; reveladas a um exame minucioso<br \/>\n    e indiferente; mas a primeira, a grande, a invenc&iacute;vel dificuldade era<br \/>\n    conservar esta precisa indiferen&ccedil;a ao v&ecirc;-la. Os olhos, sobretudo,<br \/>\n    negros como poucos, sabiam fixar-se com tanta penetra&ccedil;&atilde;o e bondade,<br \/>\n    que s&oacute; a contempl&aacute;-los, esquecia-se de tudo o mais. N&atilde;o<br \/>\n    possu&iacute;a uma desses tipos fascinantes que atraem as vistas; era f&aacute;cil<br \/>\n    at&eacute; passar por ela, desatendendo-a, mas fitada uma vez, o olhar deixava-a<br \/>\n    com pena, e a mem&oacute;ria conservava-a com amor. A boca tomava-lhe naturalmente<br \/>\n    uma express&atilde;o de triste meditar, entreabrindo-se-lhe, de quando em<br \/>\n    quando, os l&aacute;bios por uma dessas mais profundas inspira&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que dissimulam um suspiro,<\/p>\n<p>Clara aproximou-se da irm&atilde; sem ser pressentida e sentou-se junto dela.<\/p>\n<p>O grupo graciosos, que ambas formavam assim, tentaria qualquer artista que<br \/>\n    o visse.<\/p>\n<p>A apar&ecirc;ncia jovial de Clara fazia real&ccedil;ar, pelo contraste, o<br \/>\n    vulto melanc&oacute;lico de Margarida. Naquela tudo era reflexos de desanuviada<br \/>\n    alegria interior, nesta difundia-se incessantemente uma dessas meias sombras,<br \/>\n    como as que produzem as pequenas nuvens brancas que, sem ofuscar inteiramente<br \/>\n    a luz do sol, lhe mitigam contudo um pouco o resplendor dos raios.<\/p>\n<p>Clara tomou as m&atilde;os da irm&atilde;, sem romper o sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens tu, Clara? &#8211; perguntou-lhe Margarida &#8211; N&atilde;o sei que<br \/>\n    te leio nos olhos. Desconfio que me vais dizer alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; E vou.<\/p>\n<p>&#8212; E parece ser de import&acirc;ncia, ao que vejo; est&aacute;s t&atilde;o<br \/>\n    s&eacute;ria! &#8211; acrescentou Margarida sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que &eacute; deveras s&eacute;rio e muito s&eacute;rio o<br \/>\n    que te vou dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Querem-me casar.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!<\/p>\n<p>&#8212; E olha, Guida, eu julgo que o meu noivo &eacute; um bom rapaz&#8230;<br \/>\n    mas&#8230; sempre queria saber o que tu pensas dele, e se merece a tua aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; A minha!? E tamb&eacute;m te &eacute; precisa, filha?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, sim; pudera n&atilde;o. J&aacute; o disse ao Sr. Reitor<br \/>\n    e ele concordou.<\/p>\n<p>&#8212; Sois todos muito bons para comigo. Mas que te hei eu de dizer! Que<br \/>\n    te diz o cora&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, o cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O cora&ccedil;&atilde;o, sim. Por que n&atilde;o? Quando &eacute;<br \/>\n    bom, como &eacute; o teu, deve-se sempre ouvir, e &#8230; quer-me parecer que<br \/>\n    j&aacute; o consultaste, antes de mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Falo a verdade. &Eacute; certo que j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; E que te disse ele?<\/p>\n<p>&#8212; Aconselha-me&#8230; que sim.<\/p>\n<p>&#8212; Que mais queres?<\/p>\n<p>&#8212; Que tamb&eacute;m me aconselhes.<\/p>\n<p>&#8212; O mesmo que o cora&ccedil;&atilde;o, j&aacute; se sabe.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, senhora, com franqueza, aquilo que pensares.<\/p>\n<p>&#8212; E quem &eacute; o noivo?<\/p>\n<p>&#8212; O Pedro do Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; Por certo que &eacute; um bom casamento. Conquanto pouco conhe&ccedil;a<br \/>\n    ainda esse rapaz, ou&ccedil;o dizer que &eacute; honrado, trabalhador, e &#8230;<br \/>\n    de mais a mais, est&aacute; bem.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, aprovas?<\/p>\n<p>&#8212; Se te fosse necess&aacute;ria a minha aprova&ccedil;&atilde;o, dir-te-ia<br \/>\n    que estimo at&eacute; muito que se fa&ccedil;a esse casamento, e que sejas<br \/>\n    feliz.<\/p>\n<p>Clara abra&ccedil;ou-a com efus&atilde;o, e correu a dar parte ao Reitor<br \/>\n    do resultado da entrevista.<\/p>\n<p>Margarida ficou s&oacute;.<\/p>\n<p>O que acabara de ouvir da boca da irm&atilde; deixava-a pensativa. A id&eacute;ia<br \/>\n    de que a vida de Clara em breve se ia associar a de uma pessoa estranha, n&atilde;o<br \/>\n    podia deixar de lhe fazer sentir graves preocupa&ccedil;&otilde;es pelo destino<br \/>\n    dela e seu.<\/p>\n<p>Era um problema proposto &agrave; solu&ccedil;&atilde;o do futuro, e Deus<br \/>\n    s&oacute; sabia como o futuro o teria de resolver. Clara ia entrar na vida<br \/>\n    de fam&iacute;lia; ia cedo transformar em amor de esposa e de m&atilde;e todos<br \/>\n    aqueles tesouros de sentimentos que, at&eacute; ent&atilde;o, a ela s&oacute;<br \/>\n    confiara, a ela, Margarida, &agrave; desvalida da sorte, &agrave; &oacute;rf&atilde;<br \/>\n    e esquecida sempre, e talvez dali em diante, ainda mais esquecida e mais desamparada<br \/>\n    de afetos! Ao pensar nisso, n&atilde;o podia evitar certas ang&uacute;stias<br \/>\n    de cora&ccedil;&atilde;o. Era mais uma afei&ccedil;&atilde;o que lhe roubavam!<br \/>\n    Pois nem esta lhe pertencia? E depois, como seria considerada pelo marido<br \/>\n    de Clara? Humilha&ccedil;&otilde;es, pudera-as suportar de sua madrasta ,<br \/>\n    mas receava n&atilde;o ter j&aacute; resigna&ccedil;&atilde;o bastante para<br \/>\n    as receber de mais ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que o bom nome de Pedro a tranq&uuml;ilizava; mas quantas<br \/>\n    decep&ccedil;&otilde;es sobre os melhores caracteres humanos nos prepara uma<br \/>\n    &iacute;ntima conviv&ecirc;ncia com eles? Quantos defeitos ocultos, ignorados<br \/>\n    do mundo, a vida de fam&iacute;lia faz evidentes, a ponto de tornar inevit&aacute;veis,<br \/>\n    disc&oacute;rdias, que aos olhos do vulgo nunca se justificam?<\/p>\n<p>A corrente destes pensamentos tomou, por&eacute;m, de uma maneira gradual,<br \/>\n    diverso curso. O nome da fam&iacute;lia de Pedro n&atilde;o era desconhecido<br \/>\n    para Margarida.<\/p>\n<p>Andava-lhe associada &agrave; mais grata recorda&ccedil;&atilde;o da amargurada<br \/>\n    inf&acirc;ncia da &oacute;rf&atilde;. Quem em t&atilde;o pequeno n&uacute;mero<br \/>\n    contava os cora&ccedil;&otilde;es que haviam simpatizado com o seu, que muito<br \/>\n    era que se recordasse com saudade do pequeno estudante de latim que, de t&atilde;o<br \/>\n    longe, vinha sentar-se ao p&eacute; dela e falar-lhe com um afeto que at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o desconhecera?<\/p>\n<p>Desde que as apreens&otilde;es do reitor haviam ocasionado a partida de Daniel,<br \/>\n    nunca mais Margarida lhe falara. Via-o todos os anos, quando ele vinha passar<br \/>\n    as f&eacute;rias &agrave; aldeia, e n&atilde;o podia ocultar a si pr&oacute;pria<br \/>\n    a afetuosa aten&ccedil;&atilde;o com que ainda ent&atilde;o o observava.<\/p>\n<p>Mas, pelos seus novos h&aacute;bitos de vida, Daniel distanciara-se daquela<br \/>\n    que conhecera em crian&ccedil;a; nem dela talvez se lembrasse j&aacute;. Margarida<br \/>\n    pensava agora no caso, que os aproximava assim, e n&atilde;o podia, sem uma<br \/>\n    vaga inquieta&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito, ver, no futuro, a possibilidade<br \/>\n    de uma entrevista com ele.<\/p>\n<p>Os car&aacute;teres concentrados como o de Margarida alimentam-se ordinariamente<br \/>\n    de uma id&eacute;ia fixa&#8230; &#8211; Quantas vezes de uma ilus&atilde;o? Que forma<br \/>\n    o segredo inviol&aacute;vel da sua exist&ecirc;ncia inteira. Abre-lhes ela<br \/>\n    as portas de um mundo imagin&aacute;rio, para onde se refugiam dos embates<br \/>\n    do mundo real, que impressionam dolorosamente a sua delicada sensibilidade.<br \/>\n    Quando os encontramos s&oacute;s, estes melanc&oacute;licos devaneadores,<br \/>\n    acreditemos que lhes povoam a solid&atilde;o formas invis&iacute;veis, criadas<br \/>\n    &agrave; poderosa evoca&ccedil;&atilde;o da sua fantasia; o sil&ecirc;ncio<br \/>\n    em que o virmos cair, dissimula-lhes os misteriosos di&aacute;logos na linguagem<br \/>\n    desconhecida e intraduz&iacute;vel desse fant&aacute;stico mundo. &Eacute;<br \/>\n    uma singular loucura procurar distra&iacute;-los, chamando-os &agrave; considera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das coisas reais. A mais doce consola&ccedil;&atilde;o, a mais festiva alegria<br \/>\n    daquelas almas, &eacute; aquilo mesmo que se nos afigura tristeza.<\/p>\n<p>Deixem-nos assim. N&atilde;o queiram erguer-lhes a fronte que involuntariamente<br \/>\n    se inclina, n&atilde;o tentem iluminar-lhes com sorrisos a fisionomia, sobre<br \/>\n    a qual se derrama uma severa gravidade; n&atilde;o se esforcem por lhes tirar<br \/>\n    dos l&aacute;bios comprimidos uma palavra qualquer, o fogo da vida, que parece<br \/>\n    t&ecirc;-los abandonado, deixou somente a superf&iacute;cie, para mais intenso<br \/>\n    se lhes concentrar no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Margarida tinha tamb&eacute;m o seu pensamento secreto que, em momentos assim,<br \/>\n    acariciava com amor.<\/p>\n<p>Esse pensamento de longe lhe viera; h&aacute; muito lhe era companheiro.<br \/>\n    Assim como nas trevas da noite os olhos involunt&aacute;ria e quase irresistivelmente<br \/>\n    se fixam no mais pequenino ponto luminoso, que lhes surja na obscuridade,<br \/>\n    assim se voltava o pensamento de Margarida para o &uacute;ltimo raio, que<br \/>\n    lhe luzira d&eacute;bil de entre as sombras da exist&ecirc;ncia passada. A<br \/>\n    c&acirc;ndida afei&ccedil;&atilde;o de Daniel era esse raio; atrav&eacute;s<br \/>\n    das diversas fases da sua vida a acompanhara sempre a imagem dele, modificando-se<br \/>\n    conforme a natureza dos sonhos em cada uma. Aos vinte e dois anos, que Margarida<br \/>\n    contava agora, recebera essa imagem toda a vida, de que um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    juvenil anima as suas cria&ccedil;&otilde;es queridas.<\/p>\n<p>De fato, n&atilde;o fora sem como&ccedil;&atilde;o de suspeitosa natureza,.<br \/>\n    que a imagem de Daniel adolescente viera, por mal percebidas grada&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    afugentar das reminisc&ecirc;ncias da boa rapariga e do pequeno Daniel, que<br \/>\n    ela conhecera outrora; n&atilde;o foi sem &iacute;ntimas turba&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de &acirc;nimo que, de envolta com as mem&oacute;rias suaves desse curto passado,<br \/>\n    a fantasia lhe come&ccedil;ou a misturar vagas aspira&ccedil;&otilde;es para<br \/>\n    um futuro que, agradavelmente e melancolicamente tamb&eacute;m, agitava o<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o da ing&ecirc;nua cismadora.<\/p>\n<p>Era bem triste, depois de sonhos assim, acordar na amarga realidade do presente<br \/>\n    desencantado; mas era inevit&aacute;vel. O destino decidira de outra sorte.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos &#8211; dizia Margarida a si mesmo &#8211; Que mulher sou eu? Quando precisava<br \/>\n    de dobrada for&ccedil;a para o trabalho, ainda me ponho a pensar&#8230; n&atilde;o<br \/>\n    sei em qu&ecirc;. Pensar!&#8230; &Eacute; um luxo, com que n&atilde;o podem os<br \/>\n    pobres &#8211; acrescentava, sorrindo amargamente &#8211; &Eacute; um prazer de ricos<br \/>\n    e ociosos. A n&oacute;s, sai-nos muito caro cada minuto desperdi&ccedil;ado<br \/>\n    a pensar assim. <\/p>\n<p>&#8211; Clara vai casar &#8211; cismava ela depois &#8211; &Eacute; for&ccedil;oso que me separe<br \/>\n    dela. Bendito seja Deus, que me inspirou esta divina id&eacute;ia de viver<br \/>\n    pelo trabalho; dele s&oacute; e com ele deve ser agora principalmente o meu<br \/>\n    viver. &Eacute; custoso, porque querias devera a esta pobre crian&ccedil;a,<br \/>\n    mas &eacute; necess&aacute;rio. Um dia podia causar-lhe involuntariamente<br \/>\n    mal, se ficasse. Hei de partir. <\/p>\n<h4><a name=\"11\">Cap&iacute;tulo XI<\/a><\/h4>\n<p> Procedia-se com toda atividade aos preparativos do casamento contratado.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas n&atilde;o cabia em si de contente. A formatura de<br \/>\n    um dos seus filhos, e a perspectiva do vantajoso casamento de outro eram para<br \/>\n    isso motivos de sobejo.<\/p>\n<p>Acrescentem agora que o ano tinha sido f&eacute;rtil, que o enxoframento<br \/>\n    das suas vinhas prometia excelentes resultados, e poder&atilde;o julgar se<br \/>\n    tinha ou n&atilde;o raz&atilde;o o robusto lavrador para andar satisfeito<br \/>\n    e para cantar, ami&uacute;de, a sua cantiga favorita:<\/p>\n<p>Papagaio, pena verde,<br \/>\n    N&atilde;o venhas ao meu jardim;<br \/>\n    Todas as penas se acabam,<br \/>\n    S&oacute; as minhas n&atilde;o tem fim.<\/p>\n<p>Depois de haver superintendido em todos os aprestes que se faziam na casa,<br \/>\n    para receber o novo adepto da ci&ecirc;ncia hipocr&aacute;tica, Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, cedendo &agrave;quela irresist&iacute;vel necessidade, t&atilde;o<br \/>\n    geral em todos n&oacute;s, de transmitir aos outros parte das nossas alegrias,<br \/>\n    comunicando-lhes a narra&ccedil;&atilde;o delas, saiu e transportou-se &agrave;<br \/>\n    loja do Sr. Jo&atilde;o da Esquina, ponto de reuni&atilde;o da mais escolhida<br \/>\n    sociedade da terra.<\/p>\n<p>&#8212; Ora viva Sr. Jos&eacute; das Dornas; passasse muito bem, &eacute;<br \/>\n    o que estimo &#8211; disse o merceeiro do fundo da loja, onde, em p&eacute; sobre<br \/>\n    um banco de pau, se ocupava a dependurar velas de sebo para satisfazer a requisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um fregu&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8212; Deus seja aqui &#8211; respondeu Jos&eacute; das Dornas, sentando-se familiarmente<br \/>\n    em um dos bancos, que havia por fora do mostrador.<\/p>\n<p>&#8212; Muito calor, Dr. Jos&eacute; &#8211; observou-se o merceeiro adiantando-se.<\/p>\n<p>&#8212; De morrer &#8211; acrescentou o lavrador, tirando o chap&eacute;u e passando<br \/>\n    o len&ccedil;o pela cabe&ccedil;a escalvada.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o que se diz de novo? &#8211; perguntou o outro, pagando-se<br \/>\n    da import&acirc;ncia do g&ecirc;nero que acabava de aviar.<\/p>\n<p>&#8212; Que se h&aacute; de dizer? Que se vive, como Deus quer, e cada um<br \/>\n    pode. Os velhos, como eu, com os seus achaques. &#8211; Tal foi a resposta de Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, morto j&aacute; por encontrar uma transi&ccedil;&atilde;o natural<br \/>\n    para falar do filho, sem quebra de mod&eacute;stia paternal.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o j&aacute; se sabe que o Padre Cust&oacute;ias &eacute;<br \/>\n    quem prega este ano o serm&atilde;o da Senhora do Amparo? &#8211; disse Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina, que sempre que perguntava o que ia de novo, &eacute; porque tinha<br \/>\n    alguma coisa a responder.<\/p>\n<p>&#8212; Sim? &#8211; exclamou com afetada admira&ccedil;&atilde;o Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas, a quem naquele momento a not&iacute;cia importava muito mediocremente.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. E a filarm&ocirc;nica &eacute; que vai tocar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o a festa &eacute; de espavento!<\/p>\n<p>&#8212; A confraria tem no cofre perto de cem mil-r&eacute;is.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; feito!<\/p>\n<p>&#8212; E diga-me, Sr. Jos&eacute;, que lhe parece da pega do nosso reitor<br \/>\n    com os do Amparo? N&atilde;o acha que &eacute; um despotismo? <\/p>\n<p>&#8212; Eu sei? Olhadas as coisas de certo modo, o homem n&atilde;o deixa<br \/>\n    de ter alguma raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;, senhor, o qu&ecirc;? &#8211; exclamou indignado o merceeiro<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tem raz&atilde;o nenhuma. N&atilde;o me diga isso. Ora&#8230; pois<br \/>\n    fale a verdade. De quem &eacute; a cera das promessas que fazem &agrave; Senhora?<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; dela? A quem compete ent&atilde;o o direito de a vender?<br \/>\n    &Agrave; confraria, que &eacute; a sua procuradora. Isto &eacute; claro como<br \/>\n    &aacute;gua.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim&#8230; n&atilde;o digo menos disso&#8230; mas&#8230; os direitos paroquiais&#8230;<br \/>\n    enfim, n&atilde;o sei, n&atilde;o sei &#8211; murmurava Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    ansioso por dar de m&atilde;o ao assunto, sobredelicado para ele, que tinha<br \/>\n    amizade nos dois partidos, muito fora do seu prop&oacute;sito naquela ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Que direitos, que direitos? Tortos lhe chamo eu. Eu bem sei o que<br \/>\n    aquilo &eacute;&#8230; Lembra-se do que o reitor de Cisnande fez ao do M&aacute;rtir?<br \/>\n    Pois temos outra aqui.<\/p>\n<p>&#8212; Homem &#8211; insistiu Jos&eacute; das Dornas, deveras impaciente por n&atilde;o<br \/>\n    ver aproximar-se a conversa do t&oacute;pico desejado, antes afastando-se<br \/>\n    cada vez mais dele. &#8211; N&atilde;o diga isso do Padre Ant&ocirc;nio; voc&ecirc;<br \/>\n    bem sabe que o quinh&atilde;o do nosso reitor &eacute; o quinh&atilde;o dos<br \/>\n    pobres. Mas&#8230; eu dessas coisas n&atilde;o entendo, nem quero entender; parece-me<br \/>\n    contudo que era bom que andassem nisso com prud&ecirc;ncia e aconselhados<br \/>\n    por quem possa dizer alguma coisa a tal respeito.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o o juiz da confraria &eacute; algum tolo? Olhe que o<br \/>\n    Jo&atilde;o da Semana &eacute; homem para fazer frente ao reitor se&#8230;<\/p>\n<p>Como j&aacute; tivemos ocasi&atilde;o de dizer, Jo&atilde;o da Semana era,<br \/>\n    por aquele tempo, o &uacute;nico facultativo da freguesia, e lisonjeiramente<br \/>\n    conceituado na opini&atilde;o p&uacute;blica da terra.<\/p>\n<p>Desde que Jos&eacute; das Dornas ouviu pronunciar o nome do velho cirurgi&atilde;o,<br \/>\n    alegrou-se por lhe parecer preparar-se a &iacute;ndole da conversa em sentido<br \/>\n    favor&aacute;vel ao assunto que ele mais pretendia tratar; por isso, logo<br \/>\n    se apressou em observar:<\/p>\n<p>&#8212; Jo&atilde;o da Semana &eacute; homem fino, bem sei. Mas &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m amigo velho do reitor; s&atilde;o amigos de tu, e por isso duvido<br \/>\n    que queira deixar ir as coisas ao mal. De mais a mais, est&aacute; velho e&#8230;<\/p>\n<p>A conjun&ccedil;&atilde;o devia ser a ponte de passagem para o assunto suspirado;<br \/>\n    mas o merceeiro cortou-lhe no princ&iacute;pio.<\/p>\n<p>&#8212; Velho, sim., mas robusto como poucos rapazes. Olhe vossemec&ecirc;<br \/>\n    que aquela alminha j&aacute; &agrave;s cinco horas da manh&atilde; tem visitado<br \/>\n    mais de sete ou oito doentes.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas julgou este terreno favor&aacute;vel para lan&ccedil;ar<br \/>\n    os alicerces da ponte que queria construir.<\/p>\n<p>&#8212; Isso l&aacute; &eacute; assim; bem precisa de quem o ajude; e dentro<br \/>\n    em pouco&#8230;<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina ainda desta vez lhe baldou a tentativa.<\/p>\n<p>&#8212; Mas diz voc&ecirc; que ele &eacute; amigo do reitor? Tamb&eacute;m<br \/>\n    eu sou; mas isso n&atilde;o quer dizer nada, o que &eacute; de direito&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim; eu n&atilde;o digo menos que isso; mas enfim&#8230;um cirurgi&atilde;o<br \/>\n    tem o tempo t&atilde;o ocupado&#8230; ainda se meu filho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Uma quarta de a&ccedil;&uacute;car &#8211; bradou uma rapariga, que nesta<br \/>\n    ocasi&atilde;o entrava na loja, e por essa forma, uma vez mais, impediu que<br \/>\n    Jos&eacute; das Dornas realizasse o seu intento.<\/p>\n<p>Quando a freguesa se retirou ele, prosseguiu com const&acirc;ncia digna de<br \/>\n    melhor sorte:<\/p>\n<p>&#8212; Mas ainda, se meu filho&#8230;<\/p>\n<p>O tendeiro, por&eacute;m, que, com a transa&ccedil;&atilde;o que operara,<br \/>\n    tinha deixado escapar o fio da conversa, julgou que se tratava de Pedro e<br \/>\n    perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o quando casa ele com a Clarita dos Meadas?<\/p>\n<p>&#8212; Veremos; provavelmente breve; chegando do Porto o outro rapaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olhe que foi bem bom arranjo, Sr. Z&eacute; &#8211; continuou o tendeiro<br \/>\n    com impertinente falta de percep&ccedil;&atilde;o &#8211; S&oacute; o campo dos<br \/>\n    Bajuncos &eacute; uma tal pe&ccedil;a de lavra!<\/p>\n<p>&#8212; E sobretudo &eacute; boa cachopa a rapariga; l&aacute; isso &eacute;.<br \/>\n    Pois&#8230; quando vier o outro&#8230; &#8211; teimava o lavrador.<\/p>\n<p>De novo um feirante veio interromper o discurso ao pobre do pai, que se vingou<br \/>\n    mandando-o interiormente ao diabo. J&aacute; ia desesperando de conseguir<br \/>\n    a realiza&ccedil;&atilde;o do seu inocente prop&oacute;sito quando o reitor,<br \/>\n    passando pela porta da loja, lhe perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o vem hoje o homem ou n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Eu espero que sim, Sr. Reitor &#8211; disse Jos&eacute; das Dornas, levantando-se<br \/>\n    e descobrindo-se. &#8211; Pelo menos n&atilde;o recebi not&iacute;cias em contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; V&ecirc; se me mandas avisar, logo que chegue que o hei de querer<br \/>\n    ir ver.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; de haver d&uacute;vida.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus.<\/p>\n<p>E o padre continuou seu caminho, cortejando amavelmente, com um movimento<br \/>\n    de bengala, Jo&atilde;o da Esquina, que apesar de partid&aacute;rio dos do<br \/>\n    Amparo, n&atilde;o colheu friamente a sauda&ccedil;&atilde;o. Mas afinal,<br \/>\n    gra&ccedil;as &agrave;s palavras do padre, tomou a conversa o rumo desejado<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>&#8212; Como que ent&atilde;o temos cirurgi&atilde;o novo c&aacute; na terra?<br \/>\n    Ora Deus o ajude &#8211; disse Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Enquanto Jo&atilde;o da Semana viver, h&aacute; de custar a afreguesar-se<br \/>\n    o rapaz &#8211; observou o pai traindo no gesto, por&eacute;m, convencimentos contr&aacute;rios<br \/>\n    ao que em palavra exprimia.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe l&aacute;. H&aacute; gente para ambos. A terra j&aacute; vai<br \/>\n    dando para dois, gra&ccedil;as a Deus. E o rapazinho saiu esperto!<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; isso diga-se o que &eacute; a verdade, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    agora por ser meu filho, mas todos o confessaram. Crian&ccedil;a era ele ainda,<br \/>\n    e j&aacute; o reitor se espantava da mem&oacute;ria do rapaz. E se voc&ecirc;<br \/>\n    visse, Sr. Jo&atilde;o, o livro que ele escreveu? Chamam-lhe l&aacute; teses,<br \/>\n    ou n&atilde;o sei qu&ecirc;. Pelo modos, sem escrever aquilo, n&atilde;o podem<br \/>\n    ter as cartas de examina. Eu tenho um que me mandou. Como sabe, eu daquilo<br \/>\n    nada entendo, mas bem vejo que &eacute; obra acabada e bem feita. Deixe estar<br \/>\n    que lho hei de trazer, para ver.<\/p>\n<p>&#8212; Eu disso pouco sei dizer, n&atilde;o &eacute; a minha especialidade.<\/p>\n<p>N&atilde;o estamos habilitados para declarar aqui qual fosse a especialidade<br \/>\n    do Sr. Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, bem sei; &#8211; continuou o pai &#8211; mas sempre h&aacute; de encontrar<br \/>\n    coisa que o perceba. O Jo&atilde;o da Semana tamb&eacute;m tem um que o Daniel<br \/>\n    lhe mandou, e disse-me que est&aacute; coisa asseada; e o Sr. reitor afirmou-me<br \/>\n    que bem se conhece que o rapaz n&atilde;o se esqueceu do latim, porque em&#8230;<br \/>\n    geografia, parece-me que foi geografia que ele disse, nisto que ensina a escrever<br \/>\n    com letras dobradas, n&atilde;o tem nada que se lhe note.<\/p>\n<p>&#8212; Bom &eacute; isso &#8211; replicou o tendeiro, j&aacute; um pouco distra&iacute;do<br \/>\n    a somar as parcelas do seu livro de assentos.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Quer saber, Sr. Jo&atilde;o? Olhe que, pelos modos, o rapaz at&eacute;<br \/>\n    l&aacute; provou&#8230; J&aacute; sei que se vai admirar, mas olhe que &eacute;<br \/>\n    fato, assim o leu no fim do livro o Sr. Reitor, at&eacute; l&aacute; provou&#8230;<br \/>\n    que n&atilde;o h&aacute; doen&ccedil;as.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina interrompeu efetivamente a sua tarefa, para fitar<br \/>\n    no seu interlocutor uns olhos espantados.<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o h&aacute; doen&ccedil;as?!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade &#8211; respondeu o lavrador, saboreando em del&iacute;cias<br \/>\n    a estupefa&ccedil;&atilde;o do seu vizinho.<\/p>\n<p>&#8212; Essa agora! &#8211; dizia este ainda no mesmo tom de espanto &#8211; mas como<br \/>\n    se entende isso?<\/p>\n<p>&#8212; Assim como eu digo.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Sr. Jos&eacute; das Dornas, ent&atilde;o que &eacute; este<br \/>\n    reumatismo que me n&atilde;o deixa mexer?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei. Diz ele que &eacute; outra coisa; l&aacute; lhe d&aacute;<br \/>\n    um nome, mas &eacute; t&atilde;o arrevesado, que me n&atilde;o ficou.<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o h&aacute; doen&ccedil;as! Essa l&aacute; me custa<br \/>\n    a engolir! Ent&atilde;o para que andou o rapaz a estudar, e o que vem fazer<br \/>\n    para c&aacute;, se n&atilde;o h&aacute; doen&ccedil;as? Faz o favor de me<br \/>\n    dizer?<\/p>\n<p>&#8212; Ele n&atilde;o me disse que&#8230;<\/p>\n<p>Mas Jo&atilde;o da Esquina estava muito ofendido nas suas cren&ccedil;as,<br \/>\n    para o deixar continuar:<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o h&aacute; doen&ccedil;as! Sempre &eacute; uma, a falar<br \/>\n    a verdade! N&atilde;o, n&atilde;o h&aacute;! Que diabo viu ele ent&atilde;o<br \/>\n    l&aacute; no hospital? Ora essa! E que disseram l&aacute; os&#8230; mestres a<br \/>\n    isso?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que eu estou morto por lhe perguntar. Mas o Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    admira-se? E ent&atilde;o se eu lhe disser que ele provou tamb&eacute;m que<br \/>\n    um homem &eacute; a mesma coisa que um macaco?<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da esquina fechou com impetuosidade o livro dos assentos.<\/p>\n<p>&#8212; Irra! Est&aacute; a ca&ccedil;oar comigo, Sr. Jos&eacute;? Ele podia<br \/>\n    l&aacute; dizer semelhante coisa?<\/p>\n<p>&#8212; Pergunte ao Sr. Reitor, que assim o explicou: pergunte, se n&atilde;o<br \/>\n    acredita.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o, pois&#8230; Macaco! Ent&atilde;o eu sou macaco? Ent&atilde;o<br \/>\n    vossemec&ecirc; &eacute; macaco? Ent&atilde;o ele &eacute; macaco? Ent&atilde;o<br \/>\n    n&oacute;s somos&#8230; Ora, isso n&atilde;o pode ser.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;, Sr. Jo&atilde;o, cuida que eles entendem as coisas assim<br \/>\n    como n&oacute;s. Isso tem l&aacute; sentido.<\/p>\n<p>&#8212; Outro sentido! Que diabo de sentido h&aacute; de ter? Todos sabem<br \/>\n    o que &eacute; um homem, todos sabem o que &eacute; um macaco. N&atilde;o<br \/>\n    vejo que outro sentido seja. Macaco! Irra! N&atilde;o, essa agora &eacute;<br \/>\n    que me n&atilde;o entra c&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Ele, salvo seja &#8211; observou Jos&eacute; das Dornas, rindo &#8211; aqueles<br \/>\n    diabos parecem &agrave;s vezes mesmo gente, l&aacute; isso parecem; o Sr.<br \/>\n    Jo&atilde;o nunca os viu?<\/p>\n<p>&#8212; Vi, vi; tenho visto muitos.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe que fazem coisas! Que, fora a alma, j&aacute; se sabe&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim; mas o&#8230; mas a cauda?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! l&aacute; isso&#8230; &#8211; respondeu o lavrador embara&ccedil;ado.<\/p>\n<p>&#8212; Ora ent&atilde;o, a&iacute; tem &#8211; disse Jo&atilde;o da Esquina com<br \/>\n    ar triunfante, capaz de fulminar Lamarck.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe ver se me lembro de outras que ele provou&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; essa j&aacute; n&atilde;o &eacute; m&aacute;! Mas, &oacute;<br \/>\n    Sr. Jos&eacute;, deveras ele disse?<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa, vizinho! Palavra que sim.<\/p>\n<p>&#8212; Macacos! O rapaz n&atilde;o estava em si decerto. Macacos! Mas ent&atilde;o<br \/>\n    que queria ele dizer afinal? Pois n&oacute;s somos macacos, Sr. Jos&eacute;?<br \/>\n    Ora diga?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei. Eles l&aacute; o l&ecirc;em, l&aacute; o entendem.<\/p>\n<p>&#8212; V&atilde;o para o diabo. Bem me importa a mim o que eles l&ecirc;em<br \/>\n    e o que eles entendem. N&atilde;o est&aacute; m&aacute; essa! Macacos!<\/p>\n<p>Durante este solil&oacute;quio de Jo&atilde;o da Esquina, fazia Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas por lembrar-se de mais outra das proposi&ccedil;&otilde;es, que<br \/>\n    publicamente sustentara seu filho, perante o j&uacute;ri escolar.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &eacute; verdade &#8211; exclamou afinal. &#8211; esta tamb&eacute;m lhe<br \/>\n    vai fazer mossa. J&aacute; estou vendo&#8230; Diz que sustentou l&aacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    que a gente, verdadeiramente, devia andar com as m&atilde;os pelo ch&atilde;o.<\/p>\n<p>O gesto de tendeiro foi t&atilde;o violento, que Jos&eacute; das Dornas acrescentou<br \/>\n    como corretivo:<\/p>\n<p>&#8212; Ele n&atilde;o diz isto bem assim, mas l&aacute; por umas outras<br \/>\n    palavras, que eu n&atilde;o tinha entendido, mas que o Sr. reitor explicou.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina conservava sobre Jos&eacute; das Dornas um olhar desconfiado.<\/p>\n<p>&#8212; Vai me parecendo que o Sr. Jos&eacute; tem estado mas &eacute; a<br \/>\n    ca&ccedil;oar comigo.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; homem! Com a verdade com que eu falo, assim Deus salve a<br \/>\n    minha alma.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o com que havemos de andar a quatro como, com sua licen&ccedil;a,<br \/>\n    as cavalgaduras?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; ele tanto n&atilde;o quer dizer.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o quer? Mas se ele diz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, mas ele n&atilde;o diz&#8230;<\/p>\n<p>E os dois olhavam-se embara&ccedil;ados. Jos&eacute; das Dornas n&atilde;o<br \/>\n    podia resignar-se a tirar a conseq&uuml;&ecirc;ncia, um tanto dura, formulada<br \/>\n    pelo tendeiro; mas tamb&eacute;m n&atilde;o lhe corria escapula razo&aacute;vel.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Esquina aguardava em v&atilde;o a resposta.<\/p>\n<p>Afinal Jos&eacute; das Dornas saiu-se de entre as duas pontas dilem&aacute;ticas<br \/>\n    deste &quot; diz e n&atilde;o diz&quot;, gra&ccedil;as a evasiva costumada<br \/>\n    em casos tais:<\/p>\n<p>&#8212; Homem, eles l&aacute; sabem o que querem dizer na sua.<\/p>\n<p>&#8212; Eu julgo que n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio ser grande doutor<br \/>\n    para defender isso. Mas que ande quem quiser com as m&atilde;os pelo ch&atilde;o,<br \/>\n    que eu por mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Outro &#8211; continuava Jos&eacute; das Dornas &#8211; Disse que h&aacute; muito<br \/>\n    pouca diferen&ccedil;a entre um &#8230; um alimento ou elemento, diz que &eacute;<br \/>\n    a comida que a gente come, e um veneno.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina j&aacute; n&atilde;o podia espantar-se mais; limitou-se<br \/>\n    a observar com ironia:<\/p>\n<p>&#8212; Pois, quando ele vier, cozinhe-lhe vossmec&ecirc; um guisado de cabe&ccedil;as<br \/>\n    de f&oacute;sforos com rosalgar, a ver como ele se d&aacute;. Se &eacute;<br \/>\n    a mesma coisa&#8230; Sempre ao que ou&ccedil;o! estes m&eacute;dicos de agora!<\/p>\n<p>&#8212; Enfim, mostrou muito outra coisa o rapaz e de que eu agora n&atilde;o<br \/>\n    me lembro. Pelos modos deixou-os todos maravilhados.<\/p>\n<p>&#8212; Se lhe parece que n&atilde;o!&#8230; sendo todas desse jaez.<\/p>\n<p>Para os leitores, alheios a certas no&ccedil;&otilde;es de ci&ecirc;ncia<br \/>\n    e que se sintam tentados, como o Sr. Jo&atilde;o da Esquina, a duvidar da<br \/>\n    veracidade de quanto Jos&eacute; das Dornas referira, devo eu, em bem do car&aacute;ter<br \/>\n    sisudo do honrado lavrador, acrescentar aqui, &agrave; maneira de nota elucidativa,<br \/>\n    informando-me com pessoa competente, soube que as proposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que tanto impressionaram o tendeiro tinham seus fundamentos em v&aacute;rias<br \/>\n    opini&otilde;es e teorias filos&oacute;ficas mais ou menos &agrave; moda.<\/p>\n<p>Daniel, com o amor extravagante natural a quem deixa aos vinte anos os bancos<br \/>\n    das escolas, afei&ccedil;oara-se &agrave;quelas proposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que, formuladas, pudessem aparentar-se mais paradoxais, n&atilde;o hesitando<br \/>\n    em levar &agrave;s &uacute;ltimas conseq&uuml;&ecirc;ncias os princ&iacute;pios<br \/>\n    sistem&aacute;ticos de algumas escolas e seitas.<\/p>\n<p>Esta vulgar tenta&ccedil;&atilde;o da juventude n&atilde;o lhe granjeou grandes<br \/>\n    cr&eacute;ditos no conceito de Jo&atilde;o da Esquina, a cujo bem senso repugnavam<br \/>\n    as asser&ccedil;&otilde;es, que, pelo relat&oacute;rio do Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas, lhe vieram assim, nuas e cruas, ao conhecimento.<\/p>\n<p>Assim que o lavrador virou as costas, Jo&atilde;o da Esquina murmurou com<br \/>\n    os seus bot&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; Nada, para mim n&atilde;o serve o doutor. Se ele diz que n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    doen&ccedil;as, que h&aacute; de vir c&aacute; vir fazer? E depois, p&ocirc;r-me<br \/>\n    em dieta de vidro mo&iacute;do e cebola albarr&atilde; ou outras coisas assim,<br \/>\n    e mandar-me a correr de quatro pelos montes. Nada. Quero-me com o Jo&atilde;o<br \/>\n    da Semana, que &eacute; homem s&eacute;rio, e n&atilde;o tem destas esquisitices<br \/>\n    da moda. <\/p>\n<h4><a name=\"12\">Cap&iacute;tulo XII<\/a><\/h4>\n<p> Ao deixar Jos&eacute; das Dornas, na tenda do seu vizinho da esquina, o<br \/>\n    reitor, apoiado na grossa bengala de cana, companheira fiel das fadigas de<br \/>\n    muitos anos, foi seguindo pelos caminhos poucos c&ocirc;modos de sua par&oacute;quia,<br \/>\n    entrando na casa dos mais pobres, onde levava a esmola e o conforto das doutrinas<br \/>\n    evang&eacute;licas que t&atilde;o singelamente sabia pregar.<\/p>\n<p>Era esta, para ele, tarefa habitual.<\/p>\n<p>Sentava-se com familiaridade &agrave; cabeceira do jornaleiro doente, ele<br \/>\n    pr&oacute;prio lhe arrefecia os caldos, lhe temperava os rem&eacute;dios e<br \/>\n    lhos ajudava a tomar; guiava com conselhos e ensinava com o exemplo os enfermeiros<br \/>\n    que, entre a gente pobre dos campos, s&atilde;o quase sempre os mais pequenos<br \/>\n    da fam&iacute;lia, aqueles que, pela idade, representam ainda uma parte pouco<br \/>\n    produtiva da receita; porque os outros reclamam-nos as exig&ecirc;ncias do<br \/>\n    trabalho.<\/p>\n<p>No cumprimento desta obra de miseric&oacute;rdia, atravessou o reitor quase<br \/>\n    toda a aldeia, e com o cora&ccedil;&atilde;o apertado pelos infort&uacute;nios<br \/>\n    que vira, e desafogada a consci&ecirc;ncia pelo bem que fizera, continuava<br \/>\n    placidamente a sua tarefa aben&ccedil;oada.<\/p>\n<p>Depois de muito andar e de muito consolar mis&eacute;rias, parou por algum<br \/>\n    tempo por debaixo das faias, que assombravam um largo terreiro, e sentou-se<br \/>\n    com o fim de ganhar for&ccedil;as para prosseguir.<\/p>\n<p>Enquanto descansava foi dar balan&ccedil;o &agrave;s algibeiras, que trouxera<br \/>\n    bem providas de casa. Este balan&ccedil;o foi desanimador para os projetos<br \/>\n    ulteriores do velho. A esmola, essa sublime gastadora, que nunca abandonava<br \/>\n    a direita do p&aacute;roco nestas visitas pastorais, havia-lhe esgotado o<br \/>\n    capital, sem que ele desse por isso.<\/p>\n<p>O reitor mostrou-se mortificado; n&atilde;o que lamentasse o dinheiro gasto<br \/>\n    assim, mas porque estava longe de casa, e tinha ainda mais infelizes a socorrer.<\/p>\n<p>Poucas cogita&ccedil;&otilde;es financeiras de um ministro de Estado, perante<br \/>\n    um deficit no or&ccedil;amento, valem as do p&aacute;roco naquela ocasi&atilde;o.<br \/>\n    Apertando entre o indicador e o p&oacute;lex o l&aacute;bio inferior e com<br \/>\n    o olhar im&oacute;vel pr&oacute;prio das profundas abstra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do esp&iacute;rito, conservou-se por bastante tempo irresoluto, entre o prosseguir<br \/>\n    a sua visita com as m&atilde;os vazias, e o transferir para outra vez o complemento<br \/>\n    dela.<\/p>\n<p>Nem um nem outro alvitre lhe agradavam por&eacute;m.<\/p>\n<p>De vez em quando tornava a procurar nas algibeiras, a ver se lhe passava<br \/>\n    despercebida alguma moeda, que o tirasse de maiores dificuldades. Mas de nada<br \/>\n    lhe valia a pesquisa.<\/p>\n<p>Enfim levantou-se; radiava-lhe a fisionomia com um ar de resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    como se afinal lhe ocorrera o pensamento desejado; e foi j&aacute; com andar<br \/>\n    firme e decidido que continuou o seu caminho, murmurando consigo mesmo n&atilde;o<br \/>\n    sei que palavras pouco percept&iacute;veis, acompanhada &aacute;s vezes de<br \/>\n    certa m&iacute;mica de m&atilde;os.<\/p>\n<p>Depois de trezentos passos, pouco mais ou menos, dados assim, achou-se o<br \/>\n    reitor defronte de uma casa branca, cujas fun&ccedil;&otilde;es eram bem indicadas<br \/>\n    pelo ramo de loureiro que pendia &agrave; porta e pelo coro e vozes e ru&iacute;do<br \/>\n    de gargalhadas e juras, que vinham do interior dela.<\/p>\n<p>O padre tomou a dire&ccedil;&atilde;o desta casa.<\/p>\n<p>N&atilde;o o surpreendeu o espet&aacute;culo que presenciou, porque o esperava.<\/p>\n<p>Alguns lavradores e homens de of&iacute;cio, sentados &agrave; volta de uma<br \/>\n    banca de madeira, todos formidavelmente munidos de grandes copos de vinho,<br \/>\n    estavam ali recebendo simult&acirc;neas as como&ccedil;&otilde;es de beberronia<br \/>\n    e de jogo de parar. Cada um deles seguia de olhos atentos as evolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do baralho de cartas, mo&iacute;do e sebento, que um banqueiro, igualmente<br \/>\n    dotado desta &uacute;ltima qualidade, executava a prestidigita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de consumado artista; o ardor do ganho, a rec&iacute;proca desconfian&ccedil;a<br \/>\n    que os animavam, rompiam ainda atrav&eacute;s dos densos nevoeiros que pareciam<br \/>\n    toldar aquelas vistas avinhadas.<\/p>\n<p>Havia um consider&aacute;vel monte de cobre e alguma prata no meio a mesa<br \/>\n    e montes parciais, mais ou menos bem providos, ao lado de cada jogador. A<br \/>\n    cada sorte, que se decidia entre um sil&ecirc;ncio e ansiedade de suspender<br \/>\n    quase a respira&ccedil;&atilde;o, seguia-se um vozear infernal composto de<br \/>\n    exclama&ccedil;&otilde;es de j&uacute;bilo dos felizes e pragas dos sacrificados.<\/p>\n<p>O reitor assomou ao limiar da porta, em um desses momentos de tumulto. Discutia-se,<br \/>\n    quase t&atilde;o desordenadamente como nas mais importantes sess&otilde;es<br \/>\n    dos nossos parlamentos, a legalidade e a inteireza da m&atilde;o &uacute;ltima<br \/>\n    do jogo.<\/p>\n<p>A correr parelhas com a pouca modera&ccedil;&atilde;o das palavras, s&oacute;<br \/>\n    a das liba&ccedil;&otilde;es do vinho. Os copos vazavam-se e enchiam-se com<br \/>\n    rapidez pasmosa, e o taberneiro a cada um que se despejava tra&ccedil;ava<br \/>\n    um sinal a giz na porta vermelha da cozinha.<\/p>\n<p>O aparecimento do reitor causou sensa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O primeiro movimento dos circunstantes ao darem por ele, foi o de esconderem<br \/>\n    as cartas e o dinheiro; mas, na impossibilidade de o fazer a tempo, levantaram-se<br \/>\n    e, com ar de embara&ccedil;o, tiraram o chap&eacute;u e baixaram os olhos.<\/p>\n<p>Houve um momento de sil&ecirc;ncio, empregado por o reitor em reconhecer<br \/>\n    os delinq&uuml;entes, e durante o qual estes n&atilde;o ousaram levantar os<br \/>\n    olhos.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; regedor, sosseguem &#8211; disse enfim o, reitor ainda<br \/>\n    no, limar da porta &#8211; e pena &eacute; que n&atilde;o o seja para vos meter<br \/>\n    a todos na cadeia. &#8211; E adiantando-se na taberna, continuou: &#8211; Santa vida esta!<br \/>\n    Assim &eacute; que &eacute; ganhar o reino do c&eacute;u! Sim, senhores! Aqui<br \/>\n    est&atilde;o uns poucos de santos var&otilde;es, que empregam bem o seu tempo!<br \/>\n    Respeit&aacute;veis e exemplares patriarcas, de quem muito se pode esperar<br \/>\n    como educadores de fam&iacute;lia! Sim, senhores! &#8211; E, mudando para um tom<br \/>\n    mais severo: &#8211; Vossas mulheres estafam-se com o trabalho, para dar um bocado<br \/>\n    de p&atilde;o negro aos filhos e a v&oacute;s esta vida regalada, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim? Ainda agora encontrei o teu pequeno, Manuel, que pedia esmola<br \/>\n    pela porta dos vizinhos; n&atilde;o tens vergonha? &#8211; Tua mulher, Francisco,<br \/>\n    estava h&aacute; pouco de cama e teve de mandar &agrave; cidade a filha mais<br \/>\n    nova com uma canastra de hortali&ccedil;a, com que ela mal podia; ia a vergar,<br \/>\n    a pobre pequena. Achas isso bonito? Teu irm&atilde;o, Jo&atilde;o, ainda n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; tr&ecirc;s dias que foi pedir emprestado, chorando, ao Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, dinheiro para pagar ao mestre da f&aacute;brica, em que traz o<br \/>\n    filho na cidade; talvez tu n&atilde;o tivesses para lho emprestares? &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; muito o pobre Jos&eacute; Maia se me queixou a mim, de que tu, Dami&atilde;o,<br \/>\n    ainda lhe n&atilde;o tinhas pago por inteiro o pre&ccedil;o daqueles bois<br \/>\n    que lhe compraste. Mas que importam essas pequenas coisas? Que importa l&aacute;<br \/>\n    a mis&eacute;ria que vai por casa, se n&atilde;o falta o dinheiro para o vinho<br \/>\n    e para o jogo! Isso &eacute; o que se quer! E tu &#8211; acrescentou voltando-se<br \/>\n    para o taberneiro, que, de tr&aacute;s do mostrador, assistia calado a toda<br \/>\n    essa cena: &#8211; Tu vais engordando &agrave; custa destas mis&eacute;rias todas.<br \/>\n    Passam fome as mulheres e as crian&ccedil;as, para te encher as gavetas e<br \/>\n    a barriga! &Oacute; Santo Deus! &#8211; e tanta desgra&ccedil;a, que por a&iacute;<br \/>\n    vai, e tanta gente sem p&atilde;o para comer!<\/p>\n<p>&#8212; Essa &eacute; boa! o meu of&iacute;cio &eacute; vender vinho, vendo-o;<br \/>\n    fa&ccedil;o o meu dever &#8211; resmungou o taberneiro despeitado.<\/p>\n<p>&#8212; Fazes tamb&eacute;m o teu dever, enchendo com outro tanto de &aacute;gua<br \/>\n    as pipas de vinho que vendes? e permitindo em tua casa estes costumes proibidos<br \/>\n    pelos homens e amaldi&ccedil;oados de Deus? &#8211; estes jogos infernais, que t&ecirc;m<br \/>\n    levado tantas cabe&ccedil;as &agrave; forca, e tantas almas ao inferno? &Eacute;<br \/>\n    esse tamb&eacute;m o teu of&iacute;cio? Pois deixa estar avisarei o regedor,<br \/>\n    para que te d&ecirc; a recompensa, por o bem que o cumpres.<\/p>\n<p>O taberneiro n&atilde;o redarg&uuml;iu.<\/p>\n<p>O reitor voltou-se de novo para os jogadores, ainda silenciosos.<\/p>\n<p>&#8212; Chego ao meio de v&oacute;s com as m&atilde;os e as algibeiras vazias.<br \/>\n    Vede. O dinheiro, com que sai de casa, ficou-me por esses caminhos, alguns<br \/>\n    nas casas de muitos dos que vejo agora aqui. A esses n&atilde;o estou disposto<br \/>\n    a perdoar a d&iacute;vida, pois vejo que n&atilde;o precisavam da esmola,<br \/>\n    que eu lhes dei; os outros, que t&ecirc;m para perder no pecado, tamb&eacute;m<br \/>\n    h&atilde;o de ter para a obra de miseric&oacute;rdia, ou tisnada trazem j&aacute;<br \/>\n    a alma pelo fogo do inferno. Tenho ainda muitos pobres para ver, e n&atilde;o<br \/>\n    trago j&aacute; dinheiro comigo. Pe&ccedil;o esmola para os pobres &#8211; prosseguiu<br \/>\n    o reitor em voz alta, e aproximando-se da mesa &#8211; quem n&atilde;o dar&aacute;<br \/>\n    aqui esmola para os pobres? &#8211; Amanh&atilde;, continuando v&oacute;s nesta<br \/>\n    vida, eu pedirei tamb&eacute;m esmola para v&oacute;s. Lembrai-vos disso.<\/p>\n<p>E a um por um estendia o chap&eacute;u, fitando-os com um gesto nobre de<br \/>\n    composta severidade.<\/p>\n<p>O respeito que lhe impunha a figura do anci&atilde;o, pedindo desinteressadamente<br \/>\n    pela pobreza, e em muitos, a voz da consci&ecirc;ncia, coroaram do melhor<br \/>\n    &ecirc;xito a inspira&ccedil;&atilde;o do p&aacute;roco.<\/p>\n<p>Houve quem lhe despejasse no chap&eacute;u todo o dinheiro que tinha diante<br \/>\n    de si.<\/p>\n<p>&#8212; E tu?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenho nada &#8211; respondeu este homem com ar abatido &#8211; perdi<br \/>\n    e devo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tens nada! &#8211; redarg&uuml;iu o padre com amargura &#8211; tens<br \/>\n    sim; tens cinco filhos e uma velha m&atilde;e moribunda.<\/p>\n<p>O homem cobriu o rosto, para ocultar as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; A que vem esse choro agora? Pois julgavas tu que matarias a fome<br \/>\n    &agrave; tua fam&iacute;lia por essa maneira? Para que te deu Deus os bra&ccedil;os<br \/>\n    robustos, homem, e o peito valente, se os negas ao trabalho? &#8211; E voltando-se<br \/>\n    para os jogadores que sabia mais abastados prosseguiu com maior veem&ecirc;ncia:<br \/>\n    &#8211; E v&oacute;s tivestes alma para vos entregardes a este jogo danado com um<br \/>\n    homem, que punha em cima da mesa o p&atilde;o e o sangue dos seus filhos e<br \/>\n    de sua m&atilde;e! Vergonha e desgra&ccedil;a sobre v&oacute;s, miser&aacute;veis,<br \/>\n    se dentro de um dia n&atilde;o compensardes o mal que fizestes, abrindo por<br \/>\n    vossas m&atilde;os a este pai e filho desnaturado a carreira do trabalho,<br \/>\n    que &eacute; da honra igualmente &#8211; dentro de um dia como podeis e deveis.<br \/>\n    Eu vos for&ccedil;arei a isso . Homens, que t&atilde;o bens servis para perder,<br \/>\n    servi um dia ao menos para salvar. N&atilde;o podes pagar?&#8230; Algu&eacute;m<br \/>\n    pagar&aacute; a tua parte.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o pode pagar, n&atilde;o &#8211; confirmou o taberneiro &#8211; que<br \/>\n    a mim me deve ele uma conta, e n&atilde;o pequena, de vinho.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, sim? &#8211; disse o reitor, voltando-se para o da observa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Pois h&aacute;s de ser tu que pagar&aacute;s a parte dele. Ainda n&atilde;o<br \/>\n    deste nada. D&aacute;-me a sua d&iacute;vida.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Sr. Reitor&#8230; &#8211; balbuciou o taberneiro.<\/p>\n<p>&#8212; Consideras-te mais que os outros! S&oacute; se for por seres o mais<br \/>\n    culpado.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, senhor&#8230; De boa vontade lha perd&ocirc;o, l&aacute;<br \/>\n    por isso&#8230; &#8211; e acrescentou falando consigo o taberneiro: &#8211; N&atilde;o cedo<br \/>\n    grande coisa, que perdida a tinha eu h&aacute; muito.<\/p>\n<p>Depois desta abundante colheita, o reitor continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Compensem ao menos com esta boa a&ccedil;&atilde;o o pensamento diab&oacute;lico,<br \/>\n    que vos juntou aqui. E agora ide para vossas casas, e para o trabalho. Lembrai-vos<br \/>\n    que mal vai a fam&iacute;lia e a fazenda do que se esquece na taberna assim;<br \/>\n    e retenha-vos essa lembran&ccedil;a, se ainda n&atilde;o tendes endurecido<br \/>\n    de todo o cora&ccedil;&atilde;o. O que entra rico nestas casa, sai a pedir;<br \/>\n    se entrar pobre, sai criminoso. Ide. Fugi &agrave;s tenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    destes inimigos &#8211; isto dizia tomando as cartas da mesa &#8211; e fazei como eu quando<br \/>\n    as tiverdes &agrave; m&atilde;o. &#8211; E, com um r&aacute;pido movimento do bra&ccedil;o,<br \/>\n    fez voar todo o baralho at&eacute; ao fogo, que em pouco tempo o reduziu a<br \/>\n    cinzas.<\/p>\n<p>E pondo outra vez o chap&eacute;u na cabe&ccedil;a, saiu da sala.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s ele foram saindo tamb&eacute;m os jovens cons&oacute;cios da<br \/>\n    taberna, que n&atilde;o se sentiam com alma de continuar ali.<\/p>\n<p>Para alguns tinha de ser a &uacute;ltima tenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O que menos contrito se mostrou foi o dono do estabelecimento que deu ao<br \/>\n    diabo a interven&ccedil;&atilde;o do p&aacute;roco na pac&iacute;fica divers&atilde;o<br \/>\n    de meia d&uacute;zia de fregueses honestos e tementes a Deus. No entretanto<br \/>\n    o reitor ia prosseguindo a sua visita e distribuindo pelos necessitados o<br \/>\n    dinheiro dos ociosos. Sorria de satisfa&ccedil;&atilde;o o velho, ao faz&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; As grandes ventanias &#8211; monologava ele &#8211; s&atilde;o tamb&eacute;m<br \/>\n    um mal para o lavrador, porque lhe derrubam as searas, mas&#8230; como se n&atilde;o<br \/>\n    podem evitar&#8230; que se faz? &#8211; levantam-se nos montes as asas de um moinho,<br \/>\n    e elas a&iacute; est&atilde;o aproveitadas. Aproveitemos pois tamb&eacute;m<br \/>\n    da loucura m&aacute; desses perdul&aacute;rios, j&aacute; que pude acabar<br \/>\n    com ela de todo. Se a &aacute;gua &eacute; muita nas presas, n&atilde;o se<br \/>\n    deixa extravasar &agrave; toa, abre-se um regueiro, que a leve onde ela seja<br \/>\n    precisa. &Oacute; Santo Deus! e ent&atilde;o que h&aacute; por a&iacute; terras<br \/>\n    t&atilde;o sequinhas de &aacute;gua! Doer-me-ia a consci&ecirc;ncia se tivesse<br \/>\n    enchido a bolsa com as esmolas dos laboriosos e poupados; mas com as destes&#8230;<br \/>\n    ora&#8230; folgo e orgulho-me. <\/p>\n<h4><a name=\"13\">Cap&iacute;tulo XIII<\/a><\/h4>\n<p> Ao chegar a um largo todo plantado de sobreiros, quase seculares, que havia<br \/>\n    no centro da aldeia, ainda o bom do p&aacute;roco levava as algibeiras bem<br \/>\n    fornecidas.<\/p>\n<p>A tarde aproximava-se do fim, estendiam-se j&aacute; as sombras muito mais<br \/>\n    para o oriente, e coloriam-se de vermelho afogueado as vidra&ccedil;as voltadas<br \/>\n    ao ocaso.<\/p>\n<p>O reitor encaminhou-se para uma das casas de mais miser&aacute;vel apar&ecirc;ncia<br \/>\n    que havia naquele lugar.<\/p>\n<p>&#8212; Terminemos por este &#8211; dizia o velho consigo.<\/p>\n<p>Empurrou adiante de si a porta desta casa, e ia entrar, quando deu de rosto<br \/>\n    com Margarida, que saia.<\/p>\n<p>Os olhos vermelhos da sua pupila, a express&atilde;o de dor que trazia no<br \/>\n    semblante, chamaram a aten&ccedil;&atilde;o do reitor.<\/p>\n<p>&#8212; O que tens, Margarida? &#8211; perguntou ele, como solicitude &#8211; Esses olhos<br \/>\n    s&atilde;o de quem chorou.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que me despeda&ccedil;a o cora&ccedil;&atilde;o ouvi-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o est&aacute; mais doente?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; muito mal.<\/p>\n<p>&#8212; E onde ias tu?<\/p>\n<p>&#8212; A casa. O botic&aacute;rio quer o dinheiro dos rem&eacute;dios&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o v&aacute; arruinar-se o homem. Deixa que tem de me<br \/>\n    ouvir. &Eacute; pior que o pior dos seus c&aacute;usticos. Por&eacute;m, n&atilde;o<br \/>\n    tem d&uacute;vida, que eu venho bem provido. Entra, mas antes alegra-me este<br \/>\n    rosto. Vamos.<\/p>\n<p>E os dois entraram na sala. O interior da casa n&atilde;o contradizia o aspecto<br \/>\n    de fora.<\/p>\n<p>Era a casa de um pobre.<\/p>\n<p>Com a cabe&ccedil;a encostada nas m&atilde;os e os cotovelos apoiados na<br \/>\n    mesa, estava um homem escanecido e p&aacute;lido &#8211; t&atilde;o absorto, que<br \/>\n    nem deu pela chagada do reitor, o qual se aproximou dele lentamente.<\/p>\n<p>Este homem era o infeliz que servia de mestre a Margarida.<\/p>\n<p>O p&aacute;roco ficou por algum tempo a observ&aacute;-lo em sil&ecirc;ncio;<br \/>\n    vendo por&eacute;m que n&atilde;o era sentido, dirigiu-lhe a palavra.<\/p>\n<p>&#8212; Que grande dormir &eacute; esse, Sr. &Aacute;lvaro, que nem d&aacute;<br \/>\n    pela chegada de um amigo?<\/p>\n<p>O velho levantou finalmente a cabe&ccedil;a como sobressaltado por aquela<br \/>\n    voz.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &eacute; o Sr. Reitor? N&atilde;o dormia, n&atilde;o &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Pensava.<\/p>\n<p>&#8212; Em qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Em qu&ecirc;? E falta-me em que pensar? Na minha vida passada e na<br \/>\n    futura, que est&aacute; pr&oacute;xima j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; O passado &#8211; disse o reitor, sentando-se do outro lado da mesa e sem<br \/>\n    desviar os olhos do velho &Aacute;lvaro &#8211; &eacute; um sonho, que se sonhou.<br \/>\n    E quando dele, felizmente, n&atilde;o ficaram remorsos, que pe&ccedil;am repara&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    arrependimentos ou&#8230; penit&ecirc;ncias, perde-se muito tempo a pensar nele<br \/>\n    assim. Da vida futura&#8230; bom &eacute; ter nela sempre o pensamento, decerto;<br \/>\n    mas quem sabe l&aacute; quando nos est&aacute; pr&oacute;xima?<\/p>\n<p>&#8212; Sei-o eu. H&aacute; dois dias que me sinto fraco, muito fraco. Nem<br \/>\n    j&aacute; pude sair para, como costumava, ir ver o p&ocirc;r-do-sol l&aacute;<br \/>\n    acima dos degraus da capela do Calv&aacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; Isso l&aacute;&#8230; todos n&oacute;s temos dessas fraquezas, sem causa.<br \/>\n    H&aacute; dias assim. E ent&atilde;o desanima por isso?<\/p>\n<p>&#8212; Desanimar! &#8211; replicou o velho, sorrindo tristemente &#8211; E que &acirc;nimo<br \/>\n    tenho ainda para perder? H&aacute; muito que ele me falta na vida. Bem v&ecirc;<br \/>\n    &#8211; continuou apontando para Margarida &#8211; que tenho precisado de um bra&ccedil;o<br \/>\n    para me sustentar.<\/p>\n<p>&#8212; Grande &acirc;nimo tem o que sai das grandes prova&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    com a cabe&ccedil;a levantada. Para que se faz de cobarde diante de quem lhe<br \/>\n    conhece e admira a coragem? A Cristo, tamb&eacute;m houve uma mulher que lhe<br \/>\n    limpou o suor da fronte vergada; e mais era um &acirc;nimo divino, aquele.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, eu n&atilde;o sou forte &#8211; continuou o velho doente &#8211;<br \/>\n    Colocado, como estou, entre a morte e a vida, receio-me de ambas. desfalece-me<br \/>\n    o alento diante das prova&ccedil;&otilde;es continuadas de uma; assusta-me<br \/>\n    a incerteza, o desconhecimento da outra. O meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute;<br \/>\n    muito da terra, para poder ser forte. Os meus olhos ainda n&atilde;o se secaram<br \/>\n    para as l&aacute;grimas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem aventurados os que choram! &#8211; redarg&uuml;iu o reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Como me h&aacute; de sustentar a vida, se h&aacute; muito que, onde<br \/>\n    busco a consola&ccedil;&atilde;o, encontro s&oacute; o desespero? &#8211; continuou<br \/>\n    o enfermo &#8211; Ao findar o dia, gostava eu de me ir sentar l&aacute; fora, a<br \/>\n    ver descer o sol; mas, dentro em pouco tempo, tomava-me de uma tristeza profunda<br \/>\n    e rompia em l&aacute;grimas, que n&atilde;o podia estancar. Aquele descimento<br \/>\n    do sol lembrava-me outros ocasos. Eu tenho visto tantos! um dia, em volta<br \/>\n    de mim, apagaram-se os esplendores da riqueza. O meu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era de homem&#8230; padece: mas Deus sabe que n&atilde;o foi para ele esta a prova<br \/>\n    mais terr&iacute;vel. Outro dia apagou-se a luz da vida no olhar da esposa<br \/>\n    adorada; outro, nos rostos de duas crian&ccedil;as inocentes, que, ainda a<br \/>\n    morrer, me sorriem; ent&atilde;o sim, fez-se noite em minha alma&#8230; Era isto<br \/>\n    que me recordavam aqueles ocasos.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o para que procurava essas ocasi&otilde;es de tristeza,<br \/>\n    diga? &#8211; perguntou Margarida com afabilidade e quase sorrindo. &#8211; Olhe, se &agrave;s<br \/>\n    mesmas horas se voltasse para o outro lado, para aquele onde o sol nunca vai<br \/>\n    se esconder, nem as estrelas, havia muitas vezes de avistar a lua que subia,<br \/>\n    a lua que n&atilde;o deixava que a sua noite fosse escura de todo. Tamb&eacute;m<br \/>\n    ela o afligiria assim?<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m ela. As vezes a vi. Lembrava-me ent&atilde;o que, para<br \/>\n    mim igualmente, ao apagarem-se as mais ardentes afei&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o, nasceu a luz do teu afeto, melanc&oacute;lica e<br \/>\n    suave como a dela, Margarida; entristecia-me com a lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Por que? &#8211; perguntou Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; Porque tentando descobrir a for&ccedil;a misteriosa que te aproximava<br \/>\n    da minha desventurada velhice, a ti, a quem, pela idade, s&oacute; alegrias<br \/>\n    deviam atrair, encontrava apenas a explic&aacute;-la a tristeza dessa alma,<br \/>\n    tristeza que &eacute; o segredo do teu cora&ccedil;&atilde;o, que a ningu&eacute;m<br \/>\n    revelas, e que Deus queira que n&atilde;o acabe por te devorar um dia.<\/p>\n<p>Margarida desviou os olhos da vista fixa e penetrante do velho, e respondeu,<br \/>\n    fingindo sorrir.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o, dessa vez, meu bom amigo, era bem sem raz&atilde;o<br \/>\n    que se entristecia.<\/p>\n<p>&#8212; Prouvera a Deus que o fosse&#8230; que o seja. Mas, bem v&ecirc;em, havia<br \/>\n    em mim muita amargura, para me ser suport&aacute;vel a vida. Se o pavor nos<br \/>\n    est&aacute; nos l&aacute;bios, n&atilde;o h&aacute; do&ccedil;ura de mel que<br \/>\n    o disfarce. Vergava pois o peso da exist&ecirc;ncia. Pedia fervorosamente<br \/>\n    a Deus que me tirasse deste mart&iacute;rio, e era sincera a prece, era! Persuadi-me<br \/>\n    eu que, ao ouvir bater a minha &uacute;ltima hora, a saudaria com j&uacute;bilo;<br \/>\n    e agora que bem sinto que chegou&#8230; e chamam-me forte ainda! agora ou ouvi-la,<br \/>\n    assusto-me, estreme&ccedil;o&#8230; Est&aacute; pr&oacute;ximo a revelar-se o<br \/>\n    mist&eacute;rio&#8230; e que segredos me descobrir&aacute;? Que ver&aacute; minha<br \/>\n    alma ao rasgar-se a nuvem que caminha diante dela? Que ver&aacute; minha alma<br \/>\n    depois do t&uacute;mulo? Que ver&aacute; minha alma no dia de amanh&atilde;?<\/p>\n<p>&#8212; A gl&oacute;ria eterna, a bem aventuran&ccedil;a do C&eacute;u &#8211;<br \/>\n    respondeu o reitor com a firme convic&ccedil;&atilde;o da f&eacute;.<\/p>\n<p>O velho &Aacute;lvaro fitou nele um olhar demorado e perscrutador, e depois,<br \/>\n    escondendo o rosto entre as m&atilde;os, exclamou quase solu&ccedil;ando:<\/p>\n<p>&#8212; Senhor! Senhor! por que me negais o b&aacute;lsamo de uma cren&ccedil;a<br \/>\n    como esta!<\/p>\n<p>O reitor contemplava com olhos de piedade. Para a sua alma, ing&ecirc;nua<br \/>\n    e sinceramente crist&atilde;, era desconhecida e quase inconceb&iacute;vel<br \/>\n    esta excita&ccedil;&atilde;o febril, a que certa ordem de medita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    arrebata alguns esp&iacute;ritos ilustrados. A d&uacute;vida, esse dem&ocirc;nio<br \/>\n    inquietador, nunca dirigira &agrave;s suas cren&ccedil;as piedosas a interroga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fria e implac&aacute;vel, que as faz estremecer. Elas protegiam-lhe ainda,<br \/>\n    como dantes, a cabeceira do leito contra os maus sonhos dos fil&oacute;sofos,<br \/>\n    e, alumiado pela sua luz, achava-se tamb&eacute;m o bondoso p&aacute;roco<br \/>\n    no fim da viagem da vida, sem se lembrar de perguntar a que porto chegaria.<br \/>\n    Sabia-o de pequeno; desde ent&atilde;o lhe repetia o nome de cont&iacute;nuo.<br \/>\n    Como que j&aacute; aspirava as auras desses pa&iacute;s e &agrave;s vezes<br \/>\n    quase se iludia a ponto de o julgar entrever. Era feliz na sua f&eacute;.<\/p>\n<p>Contudo o reitor era destes homens que t&ecirc;m cora&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    se compadecer de todos os infort&uacute;nios, daqueles mesmos que a sua intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    n&atilde;o compreende bem.<\/p>\n<p>A solicitude, com que se aproximava dos infelizes, n&atilde;o podia comparar-se<br \/>\n    &agrave; do m&eacute;dico, que procura sondar e conhecer o mal, para o debelar<br \/>\n    apropriadamente; era antes como a da m&atilde;e, que responde a todos os gritos<br \/>\n    do filho estremecido com beijos e l&aacute;grimas, e, se n&atilde;o cura assim<br \/>\n    a causa da dor, porque a desconhece mitiga-a, por as simpatias que revela.<\/p>\n<p>As palavras cheias de resigna&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, que o reitor<br \/>\n    dirigiu ao atribulado enfermo, serenaram a este um pouco as amarguras do esp&iacute;rito,<br \/>\n    que o espinho da d&uacute;vida pungia; e foi com verdadeira gratid&atilde;o,<br \/>\n    que apertou as m&atilde;os do padre, quando este se preparava para retirar-se.<\/p>\n<p>Uma das raz&otilde;es, que o levaram a resumir sua visita, foi o parecer-lhe<br \/>\n    ter ouvido o rumor de alterca&ccedil;&atilde;o um pouco viva, travada &agrave;<br \/>\n    porta da casa, entre Margarida, que momentos antes deixara a sala, e outra<br \/>\n    pessoa, cuja voz parecia vir da rua.<\/p>\n<p>Ao aproximar-se, o reitor percebeu melhor que sua pupila falava em tom suplicante,<br \/>\n    e o interlocutor, se n&atilde;o com aspereza, com menos cordura, do que o<br \/>\n    p&aacute;roco desejaria. Isto obrigou-o a apressar o passo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, por amor de Deus, fale mais baixo que n&atilde;o v&aacute; ele<br \/>\n    ouvir. Eu lhe prometo que tudo se lhe pagar&aacute; &#8211; dizia Margarida, quando<br \/>\n    o reitor chegava junto deles.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;? &#8211; perguntou este com modo desabrido, saindo para a<br \/>\n    rua e fechando atr&aacute;s de si as portas da casa.<\/p>\n<p>O personagem que falava com Margarida baixou logo de tom ao reconhecer o<br \/>\n    reitor, e respondeu com certa timidez:<\/p>\n<p>&#8212; Era uma continha que trazia; mas uma vez que aqui a menina se responsabiliza&#8230;<br \/>\n    Eu sou o senhorio. Sim, porque V.S.&ordf; bem v&ecirc; que se eu estivesse<br \/>\n    no seu caso de poder fazer esmola de boa vontade&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quem lhas pede? &#8211; disse asperamente o velho padre, tomando o papel<br \/>\n    das m&atilde;os do credor, que falara assim. &#8211; Para pagar aos vampiros como<br \/>\n    voc&ecirc;, &eacute; que se pedem esmolas aos outros; aos que tem cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aluguer de dois meses &#8211; Olham a grande coisa! Ent&atilde;o &eacute; o que<br \/>\n    se lhe deve? Ai tem &#8211; acrescentou, contando-lhe o dinheiro. &#8211; N&atilde;o repare<br \/>\n    o ir quase todo em cobre; mas &eacute; dinheiro de esmolas, e poucas se realizam<br \/>\n    em prata c&aacute; na terra.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Sr. Reitor, eu n&atilde;o exijo de V.S.&ordf;&#8230; eu confio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Leve isso daqui, homem! e saia voc&ecirc; tamb&eacute;m que me est&aacute;<br \/>\n    inquietando o esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>O senhorio foi embolsando o dinheiro, insignificante pre&ccedil;o de dois<br \/>\n    meses de aluguer daquele miser&aacute;vel casebre, e retirou-se com uma alegria<br \/>\n    profunda.<\/p>\n<p>&#8212; Restam cento e dez &#8211; disse o p&aacute;roco, vendo o dinheiro que<br \/>\n    lhe ficara. &#8211; Chegar&aacute; para os rem&eacute;dios? &#8211; perguntou olhando<br \/>\n    para Margarida.<\/p>\n<p>Esta fez um gesto de d&uacute;vida.<\/p>\n<p>&#8212; Nesse caso, eu vou falar com o botic&aacute;rio, que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    mau sujeito afinal, e hei de resolv&ecirc;-lo esperar at&eacute; amanh&atilde;;<br \/>\n    E de caminho, irei tamb&eacute;m visitar o filho e Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    que deve j&aacute; ter chegado.<\/p>\n<p>Estas &uacute;ltimas palavras n&atilde;o foram escutadas com indiferen&ccedil;a<br \/>\n    por Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; O Sr&#8230; Daniel chega hoje? &#8211; perguntou ela.<\/p>\n<p>&#8212; Pelo menos o pai espera-o.<\/p>\n<p>E acrescentou como para consigo<\/p>\n<p>&#8212; Agora para a&iacute; vem estabelecer-se o rapaz. Deus queira que<br \/>\n    ele sossegue aquela cabe&ccedil;a, que, segundo me informam, n&atilde;o tem<br \/>\n    sido l&aacute; das mais assentes. Vai tu para casa tamb&eacute;m, Margarida.<br \/>\n    O teu mestre fica mais sossegado e espero que dormir&aacute;.<\/p>\n<p>O que &eacute; preciso &eacute; mandar recado ao Jo&atilde;o da Semana que<br \/>\n    o venha ver. Acho-o muito abatido e mudado nos modos. Aquilo n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    bom. n&atilde;o. Adeus. Eu vou avisar a Maria do Caleiro que venha tratar<br \/>\n    do doente. &Eacute; uma esmola que se faz tamb&eacute;m &agrave; pobre mulher.<\/p>\n<p>E o reitor saiu para realizar estes diversos intentos; Margarida, depois<br \/>\n    de se despedir do seu velho mestre, que de fato parecia mais sossegado, partiu<br \/>\n    tamb&eacute;m para casa.<\/p>\n<p>Entre os pensamentos que a dominavam na volta, um dos mais persistentes era<br \/>\n    o que a anunciada vinda de Daniel lhe sugerira; e contudo nada de extraordin&aacute;rio<br \/>\n    havia no fato. Se quis&eacute;ssemos dizer quanto lhe ocorria a este respeito,<br \/>\n    ver-nos-&iacute;amos embara&ccedil;ados. S&atilde;o t&atilde;o vagas, t&atilde;o<br \/>\n    dif&iacute;ceis de apreender, as id&eacute;ias que evocam em n&oacute;s a<br \/>\n    lembran&ccedil;a de uma pessoa querida!<\/p>\n<h4><a name=\"14\"> Cap&iacute;tulo XIV<\/a><\/h4>\n<p> O grande acontecimento do dia realizava-se enfim.<\/p>\n<p>Pelas cinco horas da tarde, parava &agrave; porta de Jos&eacute; das Dornas<br \/>\n    a mais vigorosa e anafada das suas &eacute;guas, e dela se desmontava Daniel,<br \/>\n    em trajos de jornada e com a cl&aacute;ssica caixa de lata ao tiracolo, sinal<br \/>\n    evidente de formatura completa.<\/p>\n<p>A vizinhan&ccedil;a toda afluiu curiosa &agrave;s portas e &agrave;s janelas<br \/>\n    para ver o facultativo novo e julgar dele pelas primeiras impress&otilde;es.<br \/>\n    Era uma cole&ccedil;&atilde;o de olhos arregalados e bocas abertas, a convidar<br \/>\n    o l&aacute;pis de um artista.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda &eacute; t&atilde;o novinho! &#8211; dizia uma mulher.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei o que me parece um cirurgi&atilde;o sem barba &#8211; observava<br \/>\n    um velho filosoficamente. &#8211; Parece um estrangeiro.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; bonito &eacute; ele &#8211; notava uma rapariga.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que boniteza! Um homem quer-se um homem &#8211; arg&uuml;iu um alentado<br \/>\n    rapag&atilde;o ao ouvi-la.<\/p>\n<p>Neste tempo, por&eacute;m, j&aacute; Daniel estava rodeado pelo pai, irm&atilde;o<br \/>\n    e criados de um e de outro sexo, em cujos semblantes luziam naquela ocasi&atilde;o<br \/>\n    sorrisos de j&uacute;bilo n&atilde;o afetado.<\/p>\n<p>Daniel era agora um esbelto rapaz de vinte e tr&ecirc;s anos, de aspecto<br \/>\n    mais varonil, mas conservando ainda a mesma delicadeza de organiza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que o caracterizara na inf&acirc;ncia, e que tantas apreens&otilde;es fizera<br \/>\n    conceber ao pai.<\/p>\n<p>No meio daqueles homens do campo distinguia-se singularmente o seu tipo quase<br \/>\n    setentrional, e com grande vantagem para ele no conceito das mulheres, que<br \/>\n    umas &agrave;s outras faziam baixinho esta observa&ccedil;&atilde;o, tra&iacute;da,<br \/>\n    por&eacute;m, pelos olhares que lhe lan&ccedil;avam.<\/p>\n<p>Trocaram-se cordiais abra&ccedil;os, baratearam-se parab&eacute;ns e cruzaram-se<br \/>\n    perguntas, &agrave;s quais era quase imposs&iacute;vel responder de pronto,<br \/>\n    tantas e t&atilde;o simultaneamente se faziam.<\/p>\n<p>Enfim entraram para a sala.<\/p>\n<p>O leitor concordar&aacute; comigo, decerto, que ser&aacute; melhor deixar<br \/>\n    passar estes momentos de expans&otilde;es e retirarmo-nos discretamente, como<br \/>\n    h&oacute;spedes importunos sempre nestas cenas de tanta alegria dom&eacute;stica.<br \/>\n    Deixemos Daniel gozar-se &agrave; vontade dos abra&ccedil;os da fam&iacute;lia,<br \/>\n    e preparar-se para sofrer, como puder, os apertos de m&atilde;os oficiosos<br \/>\n    de amigos e conhecidos, que n&atilde;o tardar&atilde;o a vir cumprimentar<br \/>\n    o zelador de suas important&iacute;ssimas sa&uacute;des.<\/p>\n<p>Entremos, pois, com estes. que &eacute; a companhia que melhor nos conv&eacute;m.<br \/>\n    Entre os primeiros encontramos logo o reitor.<\/p>\n<p>O bom p&aacute;roco caminhou para Daniel com os bra&ccedil;os abertos e l&aacute;grimas<br \/>\n    de alegria a bailarem-lhe nos olhos, Ficara com afei&ccedil;&atilde;o ai rapaz,<br \/>\n    desde que o tivera por disc&iacute;pulo.<\/p>\n<p>Falou-lhe desses tempos com saudades e perguntou-lhe se ainda se lembrava<br \/>\n    do latim.<\/p>\n<p>Daniel, em resposta, declinou-lhe, sorrindo, hora, horae, e at&eacute; ao<br \/>\n    ablativo do singular, com grande satisfa&ccedil;&atilde;o do velho que, em<br \/>\n    paga,. terminou com uma pr&aacute;tica sobre os deveres do m&eacute;dico na<br \/>\n    sociedade, recheada de preceitos de excelente moral. Daniel escutou-o com<br \/>\n    fisionomia atenta; mas, diga-se o que &eacute; verdade, com o esp&iacute;rito<br \/>\n    um tanto distra&iacute;do.<\/p>\n<p>Veio tamb&eacute;m Jo&atilde;o Semana &#8211; Jo&atilde;o Semana, o velho cirurgi&atilde;o,<br \/>\n    de quem j&aacute; temos falado, homem rude, franco, jovial, que apertou a<br \/>\n    m&atilde;o de Daniel, pondo em exerc&iacute;cio uns m&uacute;sculos de oitenta<br \/>\n    anos, que fariam a vergonha dos nossos rapazes de vinte.<\/p>\n<p>Apesar dos seus muitos anos, tinha ainda Jo&atilde;o Semana h&aacute;bitos<br \/>\n    de atividade, a que n&atilde;o sabia fugir.<\/p>\n<p>Erguia-se com estrelas, almo&ccedil;ava com luz e montava a cavalo, para<br \/>\n    come&ccedil;ar o giro cl&iacute;nico, que lhe tomava o dia quase todo, e nunca<br \/>\n    reprimia a velocidade de sua pac&iacute;fica e bem intencionada az&ecirc;mola,<br \/>\n    para gozar por mais tempo de um ponto de vista pitoresco, para escutar o gorjeio<br \/>\n    de alguma ave oculta na folhagem, nem para cortar a flor desabrochada &agrave;<br \/>\n    borda dos caminhos, ou de entre a relva dos campos. Nada disso; se abrandava<br \/>\n    o trote da &eacute;gua, era nos s&iacute;tios mais azados a quedas, se parava,<br \/>\n    era &agrave; porta dos doentes ou a ouvir alguma consulta, &agrave; qual,<br \/>\n    at&eacute; a cavalo, respondia, e nos mais lac&ocirc;nicos termos poss&iacute;veis.<\/p>\n<p>Dava-se nele uma necessidade de movimento e de agita&ccedil;&atilde;o, &agrave;<br \/>\n    qual em v&atilde;o fora resistir. Quem o quisesse ver morto, era conden&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave; ina&ccedil;&atilde;o, priv&aacute;-lo daqueles s&oacute;is ardent&iacute;ssimos<br \/>\n    e chuvas excessivas a que, havia mais de meio s&eacute;culo, andava sujeito.<\/p>\n<p>Viam-no sempre alegre, da mesma alegria de Jos&eacute; das Dornas, a alegria<br \/>\n    sem sombras.<\/p>\n<p>Era perdido por anedotas, das quais podia dizer-se um reposit&oacute;rio<br \/>\n    vivo. Os frades era ordinariamente os seus her&oacute;is preferidos; contra<br \/>\n    eles tinha sempre um gracejo aparelhado e pronto a correr caminho.<\/p>\n<p>Esta bossa aned&oacute;tica &eacute; sempre de grande valor para o facultativo<br \/>\n    que aspira &agrave; vida cl&iacute;nica. Uma hist&oacute;ria contada a tempo,<br \/>\n    e com gra&ccedil;a, vale bem tr&ecirc;s r&eacute;cipes, pelo menos.<\/p>\n<p>Cirurgi&atilde;o dos pobres, por encargo oficial, era-o Jo&atilde;o Semana<br \/>\n    tamb&eacute;m, e s&ecirc;-lo-ia sempre, por impulsos do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que lhe n&atilde;o deixava presenciar um infort&uacute;nio qualquer, sem simpatizar<br \/>\n    com o que sofria, e sem empregar os meios para o aliviar.<\/p>\n<p>Muitas vezes, na m&atilde;o, que estendia ao pulso dos seus doentes, ia escondida<br \/>\n    a esmola, que manifestamente se envergonhava de dar, por aquela repugn&acirc;ncia<br \/>\n    a ostenta&ccedil;&otilde;es de todo o g&ecirc;nero, que constitu&iacute;a<br \/>\n    um dos distintivos do seu car&aacute;ter.<\/p>\n<p>A conversa de Jo&atilde;o Semana com Daniel, n&atilde;o entendida, e por<br \/>\n    isso admirada pelos circunstantes, versou sobre medicina. As exaltadas cren&ccedil;as<br \/>\n    te&oacute;ricas de Daniel, e a casu&iacute;stica inflex&iacute;vel e fria<br \/>\n    do velho pr&aacute;tico acharam-se em conflito.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana era c&eacute;ptico em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; ci&ecirc;ncia<br \/>\n    moderna. Quando Daniel lhe citava um autor em voga, ou se referia a uma descoberta<br \/>\n    not&aacute;vel, a um medicamento novo, Jo&atilde;o Semana encolhia os ombros,<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo isso &eacute; muito bonito &#8211; dizia ele, com poucas contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para com a impaci&ecirc;ncia do seu jovem colega &#8211; mas n&atilde;o me serve<br \/>\n    para nada. Era o que me faltava se eu, que n&atilde;o tenho tempo para dormir,<br \/>\n    me punha agora a ler essas coisas todas. Que nomes! que mol&eacute;stias que<br \/>\n    eu nunca vi, em sessenta anos de pr&aacute;tica! Sabe voc&ecirc;, Daniel?<br \/>\n    Eu penso que l&aacute; por fora, nessas terras grandes, h&aacute; f&aacute;bricas<br \/>\n    de mol&eacute;stias novas, que felizmente por l&aacute; se gastam tamb&eacute;m;<br \/>\n    c&aacute; &agrave; aldeia n&atilde;o chegam; &eacute; o que sei lhe dizer.<br \/>\n    Voc&ecirc; para c&aacute; vir&aacute;, voc&ecirc; para c&aacute; vir&aacute;<br \/>\n    &#8211; h&aacute; de ver que na pr&aacute;tica a coisa reduz-se a muito pouco, mais<br \/>\n    g&aacute;stricas, menos g&aacute;stricas e disse.<\/p>\n<p>Daniel falou em mil assuntos: nos aperfei&ccedil;oamentos da an&aacute;lise<br \/>\n    m&eacute;dica, no microsc&oacute;pio, na eletricidade, na qu&iacute;mica,<br \/>\n    na anatomia patol&oacute;gica, com um ardor de proselitismo, pr&oacute;prio<br \/>\n    da idade; chegou a persuadir-se que sua eloqu&ecirc;ncia conseguiria, enfim,<br \/>\n    vencer o indiferentismo te&oacute;rico do cl&iacute;nico.<\/p>\n<p>Recebeu, portanto, uma impress&atilde;o desagrad&aacute;vel, quando ao terminar<br \/>\n    um bem elaborado per&iacute;odo em honra da ci&ecirc;ncia moderna, obteve<br \/>\n    em resposta a frase do costume:<\/p>\n<p>&#8212; Isso &eacute; tudo muito bonito, mas voc&ecirc; para c&aacute; vir&aacute;,<br \/>\n    voc&ecirc; para c&aacute; vir&aacute;, e ent&atilde;o falaremos.<\/p>\n<p>Nesta parte, tornava-se, pois, imposs&iacute;vel a concilia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Era o antagonismo permanente entre a teoria e a pr&aacute;tica, revelado em<br \/>\n    uma das suas multiplicad&iacute;ssimas manifesta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Mais arrojado do que o empirismo de Jo&atilde;o Semana, era, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    o sistema m&eacute;dico do barbeiro, que tamb&eacute;m tinha uma cl&iacute;nica<br \/>\n    na aldeia, &agrave; qual, para maior exemplo de observ&acirc;ncia &agrave;<br \/>\n    lei, pertenciam duas autoridades: o regedor e o presidente da c&acirc;mara.\n  <\/p>\n<p>O barbeiro entrou risonho, cerimoni&aacute;tico, af&aacute;vel, modesto,<br \/>\n    penteado, felino &#8211; perfeita personifica&ccedil;&atilde;o do ideal do barbeiro,<br \/>\n    todo mesuras, todo senhorias, todo humildades, todo delicadezas velhacas.<\/p>\n<p>E quantos estavam na sala o rodearam de aten&ccedil;&otilde;es, e o pr&oacute;prio<br \/>\n    Jo&atilde;o Semana, com grande espanto de Daniel, o interrogou com refer&ecirc;ncia<br \/>\n    a uma doente, de quem tratavam juntos.<\/p>\n<p>Com aud&aacute;cia, mal encoberta por transparente mod&eacute;stia, o barbeiro<br \/>\n    exp&ocirc;s assim a sua opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Enquanto a mim, e at&eacute; onde chegam as minhas fracas luzes,<br \/>\n    aquilo &eacute; o flato que lhe subiu ao cora&ccedil;&atilde;o. Por isso a<br \/>\n    doentinha tem aqueles pasmos, que se v&ecirc;em. Ora os sinapismos, puxando-lhe<br \/>\n    os humores para os p&eacute;s, algum bem lhe podem fazer. Mas eu por mim,<br \/>\n    Sr. Jo&atilde;o Semana, penso que nestas doen&ccedil;as de retrocesso a mat&eacute;ria<br \/>\n    reimosa n&atilde;o sai sem sedenho. E que ali h&aacute; mat&eacute;ria reimosa,<br \/>\n    &#8211; e fel, que &eacute; ainda pior &#8211; isso &eacute; que h&aacute;. J&aacute;<br \/>\n    v&ecirc; ent&atilde;o&#8230; mas isto digo eu; agora l&aacute; os senhores que<br \/>\n    estudaram&#8230; &#8211; acrescentou humildemente, mas obliquando para Daniel um olhar,<br \/>\n    de quem estava satisfeito de si.<\/p>\n<p>Daniel tratou senhorilmente este colega de contrabando, e na ocasi&atilde;o<br \/>\n    em que ele se entranhava, mais entusiasmado, na exposi&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    uma teoria sua, na qual ferviam os humores, os flatos, as mat&eacute;rias<br \/>\n    reimosas, os postemas e n&atilde;o sei que mais, em indigesta caldeirada,<br \/>\n    interrompeu-o, perguntando-lhe secamente:<\/p>\n<p>&#8212; Teve hoje muito que fazer, mestre?<\/p>\n<p>O barbeiro acolheu a pergunta com um sorriso e uma mesura.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; feito. Apenas fiz tr&ecirc;s visitas.<\/p>\n<p>&#8212; E quantas barbas?<\/p>\n<p>O mestre mordeu os bei&ccedil;os antes de responder:<\/p>\n<p>&#8212; Nenhuma.<\/p>\n<p>Este colega do c&eacute;lebre Oliveiro &#8211; o gamo &#8211; n&atilde;o gostava que<br \/>\n    lhe falassem na &uacute;nica das coisas em que era eminente.<\/p>\n<p>&Eacute; uma fraqueza esta mais comum &agrave; humanidade, do que talvez<br \/>\n    se julga.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana reparar nesta curta cena, e tomando de parte Daniel, aconselhou-o<br \/>\n    a que poupasse o barbeiro, e o aceitasse como colega, sob pena de indispor<br \/>\n    contra si a mesma gente da terra.<\/p>\n<p>&#8212; Meu caro amigo &#8211; conclu&iacute;a ele &#8211; quem quiser viver bem neste<br \/>\n    mundo, faz vista grossa a muita coisa. Est&aacute; bom, est&aacute;!<\/p>\n<p>E, como para n&atilde;o perder um h&aacute;bito antigo, acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; quer saber? Quando eu andei no Porto, conheci um frade,<br \/>\n    que era pregador de nomeada. Pois n&atilde;o havia outro passa-culpas como<br \/>\n    aquele; n&atilde;o gostava de meter medo a ningu&eacute;m com as penas do<br \/>\n    inferno. O prior do convento chegou um dia a dizer-lhe que ralhasse mais contra<br \/>\n    o pecado, que n&atilde;o fosse t&atilde;o bom de contentar; respondeu-lhe<br \/>\n    o frade: &quot;N&atilde;o que, reverend&iacute;ssimo padre, &eacute; preciso<br \/>\n    tento; nem o diabo se deve tratar muito mal, porque ele tem por a&iacute;<br \/>\n    muitos amigos&quot;. Ora pense nisto, e adeus, que vou &agrave; minha vida.<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>O resultado de tudo foi uma grande depress&atilde;o no entusiasmo de Daniel,<br \/>\n    pelo modo de vida que adotara.<\/p>\n<p>Finalmente retiraram-se as visitas.<\/p>\n<p>S&atilde;o quase trindades; a fam&iacute;lia toda, incluindo os criados,<br \/>\n    que na aldeia fazem quase parte dela, est&aacute; reunida em conclave na eira,<br \/>\n    a experimentar cada qual, como &agrave; porfia, a sagacidade e ci&ecirc;ncia<br \/>\n    do novo facultativo, interrogando-o sobre todos os pequenos inc&ocirc;modos<br \/>\n    sentidos, de que a mem&oacute;ria lhes pode sugerir ainda not&iacute;cia.<br \/>\n    &Eacute; esta a prova tremenda, que espera o estudante de medicina em tempo<br \/>\n    de f&eacute;rias, ou ao terminar a formatura &#8211; prova mil vezes mais decisiva<br \/>\n    para o seu futuro, de quantos diplomas lhe possa dispensar a douta corpora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    da qual recebe os t&iacute;tulos profissionais.<\/p>\n<p>Um perguntava a Daniel se a grama era mais fresca do que a cevada; outro<br \/>\n    qual a raz&atilde;o porque os pigmentos da conserva nunca lhe faziam mal enquanto<br \/>\n    a salada de alface lhe causava uma irrita&ccedil;&atilde;o no est&ocirc;mago<br \/>\n    infal&iacute;vel; vinha outro que desejava saber se seria melhor purgar-se<br \/>\n    no quarto crescente, se no minguante da lua; queixava-se um de arrepios, que<br \/>\n    sentia ao deitar-se na cama, e principalmente no inverno; outro do muito que<br \/>\n    suava no ver&atilde;o; um velho criado da casa, vi&uacute;vo inconsol&aacute;vel,<br \/>\n    fez-lhe a hist&oacute;ria circunstanciada da doen&ccedil;a de que morrera<br \/>\n    a mulher, havia dez anos, pedindo a Daniel que a diagnosticasse, e lhe expusesse<br \/>\n    o tratamento que a devia ter salvo; em contraste com esta medicina retrospectiva,<br \/>\n    vinha uma rapariga perguntar, muito ingenuamente, se lhe poderia fazer mal<br \/>\n    ir a uma romaria de a&iacute; a oito dias: Jos&eacute; das Dornas tamb&eacute;m<br \/>\n    quis saber se o caldo de ab&oacute;bora era melhor para a sa&uacute;de do<br \/>\n    que o de nabos. Uma velha interrogou Daniel sobre a doen&ccedil;a das galinhas,<br \/>\n    e o pr&oacute;prio Pedro, tentado por este exemplo, fez algumas perguntas<br \/>\n    sobre a dos perdigueiros.<\/p>\n<p>Daniel via-se em talas para satisfazer a tantas exig&ecirc;ncias, que n&atilde;o<br \/>\n    timbravam de racionais, e procurava deslindar-se airosamente delas com aquele<br \/>\n    desculp&aacute;vel grau de charlatanismo, mais ou menos correto e disfar&ccedil;ado,<br \/>\n    que todas as sociedades do mundo, r&uacute;sticas e urbanas, s&atilde;o as<br \/>\n    primeiras a exigir aos m&eacute;dicos. Querem elas que se lhes responda sempre,<br \/>\n    e com desaforada seguran&ccedil;a, &agrave;s suas interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    absurdas, preferindo serem iludidas, a ficarem sem resposta, a qual muitas<br \/>\n    vezes, em consci&ecirc;ncia, medicina alguma do mundo lhes poderia dar.<\/p>\n<p>Pe&ccedil;o, portanto, um bill de indenidade para Daniel. <\/p>\n<h4><a name=\"15\"> Cap&iacute;tulo XV<\/a><\/h4>\n<p> Pedro foi quem, ao cerrar da noite, p&ocirc;s fim a este interrogat&oacute;rio,<br \/>\n    que levava jeito de eternizar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Vem da&iacute; dar um passeio, Daniel; e de caminho hei de mostrar-te<br \/>\n    a minha mulher&#8230; a que h&aacute; de ser.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; &eacute; verdade que est&aacute;s para casar. Estimo que ma<br \/>\n    d&ecirc;s ocasi&atilde;o de tomar desde j&aacute; conhecimento com a que dentro<br \/>\n    em pouco chamarei irm&atilde;. Espero encontr&aacute;-la digna de ti. Vamos<br \/>\n    l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Ide, ide, rapazes &#8211; observou Jos&eacute; das Dornas &#8211; Vais ver uma<br \/>\n    guapa cachopa, Daniel. Mas tu conhec&ecirc;-la&#8230; &Eacute; uma filha dos Meadas.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; sim&#8230; tenho uma id&eacute;ia.<\/p>\n<p>Cumpre-me confessar que Daniel n&atilde;o tinha tal id&eacute;ia das filhas<br \/>\n    do Meadas. Enquanto esteve no Porto e at&eacute; nos curtos intervalos de<br \/>\n    f&eacute;rias que passara na terra, vivera ele muito estranho &agrave; vida<br \/>\n    do campo, para se recordar ainda das alcunhas, pelas quais, na aldeia, mais<br \/>\n    geralmente s&atilde;o conhecidas as fam&iacute;lias, do que ainda pelos verdadeiros<br \/>\n    nomes e sobrenomes.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas &eacute; que tinha uma id&eacute;ia ao dizer aquilo;<br \/>\n    era a de fazer lembrar ao filho o epis&oacute;dio da inf&acirc;ncia, que decidira<br \/>\n    da sua vida inteira.<\/p>\n<p>Mas, ainda sob o risco de indispor o &acirc;nimo das leitoras contra uma<br \/>\n    das principais personagens desta singel&iacute;ssima hist&oacute;ria, farei<br \/>\n    aqui a desagrad&aacute;vel, mas conscenciosa declara&ccedil;&atilde;o, de<br \/>\n    que a imagem de Margarida andava, por aquele tempo, t&atilde;o desvanecida<br \/>\n    j&aacute; na mem&oacute;ria de Daniel, que nem o nome, pelo qual fora sempre<br \/>\n    designada na terra a fam&iacute;lia de Margarida, lhe p&ocirc;de avivar os<br \/>\n    tra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Havia muitos anos que Daniel observava um sistema de vida, que de todo o<br \/>\n    trazia desafeito dos h&aacute;bitos campestres e indiferente &aacute;s coisas<br \/>\n    e pessoas da localidade que o vira nascer.<\/p>\n<p>Encarnara-se intimamente nele o esp&iacute;rito das cidades. As momentosas<br \/>\n    quest&otilde;es que ocupavam as cabe&ccedil;as s&eacute;rias da aldeia, faziam-no<br \/>\n    sorrir: as distra&ccedil;&otilde;es que entretinham as mais levianas, obrigavam-no<br \/>\n    a bocejar.<\/p>\n<p>Daniel n&atilde;o deixara mentir o progn&oacute;stico que aquelas duas boas<br \/>\n    velhas, das quais n&atilde;o sei se o leitor ainda se lembrar&aacute;, tinham<br \/>\n    feito do jovem estudante de latim ao verem-no passar, sobra&ccedil;ando os<br \/>\n    livros, para a casa do reitor. Durante os seus anos de estudo fora efetivamente<br \/>\n    o filho de Jos&eacute; das Dornas her&oacute;i de numerosas aventuras de amor,<br \/>\n    de mui diverso car&aacute;ter.<\/p>\n<p>Deixando-se impressionar de circunst&acirc;ncias insignificantes, que outro<br \/>\n    esp&iacute;rito, menos exaltado, receberia com indiferen&ccedil;a, andava<br \/>\n    ele quase de cont&iacute;nuo sob o imp&eacute;rio, f&eacute;rtil em deleitosas<br \/>\n    sensa&ccedil;&otilde;es, de uma paix&atilde;o nascente.<\/p>\n<p>Este cora&ccedil;&atilde;o, eminentemente acess&iacute;vel e irrit&aacute;vel,<br \/>\n    n&atilde;o tivera quase, at&eacute; final, um instante de sossego.<\/p>\n<p>Eu disse este cora&ccedil;&atilde;o &#8211; quase me estou arrependendo de me ter<br \/>\n    servido da palavra.<\/p>\n<p>Entraria de fato, como elemento destas paix&otilde;es ef&ecirc;meras, t&atilde;o<br \/>\n    instant&acirc;neas como a combust&atilde;o da p&oacute;lvora, essa v&iacute;scera<br \/>\n    simp&aacute;tica que, a despeito dos m&eacute;dicos e da medicina, eu julgo<br \/>\n    o sacr&aacute;rio augusto dos sublimes e duradouros sentimentos que constituem<br \/>\n    o dote mais valioso do nosso patrim&ocirc;nio moral? N&atilde;o sei; antes<br \/>\n    me quer parecer que n&atilde;o.<\/p>\n<p>Daniel amava de imagina&ccedil;&atilde;o; nem eu vejo bem como pudesse amar<br \/>\n    de outra maneira quem, por vezes, se deixou levar por futilidades quase rid&iacute;culas.<\/p>\n<p>O cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; t&atilde;o sujeito a fraquezas<br \/>\n    desta ordem; ou eu ando muito enganado.<\/p>\n<p>Houve, por exemplo, uma mulher que, durante alguns meses, conseguiu assenhorar-se<br \/>\n    dos pensamentos do nosso her&oacute;i pela maneira individual&iacute;ssima<br \/>\n    e inimit&aacute;vel, com que sabia dizer aquele gracioso &aacute;gora minhoto,<br \/>\n    t&atilde;o levianamente criticado pela gente da capital.<\/p>\n<p>Ora diga-me se &eacute; este um fen&ocirc;meno do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e n&atilde;o antes um como desvario da cabe&ccedil;a, mais azada a tais singularidades.<\/p>\n<p>Mas o que &eacute; certo que, fosse pela cabe&ccedil;a, fosse pelo cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Daniel achara-se, em todas as ocasi&otilde;es que viera a f&eacute;rias, suficientemente<br \/>\n    apaixonado para escapar &agrave; influ&ecirc;ncias das formosas da sua terra.<br \/>\n    Envolvia-o uma como que atmosfera de isolamento &#8211; para me servir de uma frase<br \/>\n    da l&iacute;ngua cient&iacute;fica &#8211; e nesse ambiente n&atilde;o floresciam<br \/>\n    os amores buc&oacute;licos.<\/p>\n<p>Raras vezes mostrou recordar-se daquelas suas afei&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;a,<br \/>\n    que tantas l&aacute;grimas lhe tinham j&aacute; feito verter.<\/p>\n<p>S&oacute; um dia em que, passeando nos campos, chegara por acaso ao pequeno<br \/>\n    outeiro, onde sucedera a inocente cena de id&iacute;lio, t&atilde;o mal encarada<br \/>\n    pelo reitor, foi que lhe veio &agrave; id&eacute;ia essa passagem da inf&acirc;ncia,<br \/>\n    j&aacute; quase esquecida; e a imagina&ccedil;&atilde;o lhe apresentou ent&atilde;o<br \/>\n    o vulto, suave e meigo da pequena Guida, como uma vis&atilde;o moment&acirc;nea,<br \/>\n    rodeada pelo branco perfume da poesia e da saudade.<\/p>\n<p>Lembrou-se dessa vez de perguntar por ela. Disseram-lhe que tendo ficado<br \/>\n    &oacute;rf&atilde; de pai e m&atilde;e, vivia s&oacute; com a irm&atilde;<br \/>\n    e que ensinava meninas &#8211; tarefa que raras vezes lhe permitia sair de casa.<\/p>\n<p>Daniel nunca mais renovou a pergunta.<\/p>\n<p>Fora isto talvez dois anos antes da sua vinda definitiva para aldeia. N&atilde;o<br \/>\n    admira, pois, que com estas disposi&ccedil;&otilde;es mentais estivesse muito<br \/>\n    longe de pensar em Margarida, quando, com segunda inten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o pai pronunciou o apelido da fam&iacute;lia da noiva de seu irm&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi como por demais que Daniel disse ter uma id&eacute;ia desse apelido,<br \/>\n    o qual lhe soara quase como novo.<\/p>\n<p>Acompanhando Pedro, levava ele, portanto, o esp&iacute;rito inteiramente<br \/>\n    despreocupado, e somente um pouco movido pela curiosidade de ver a destinada<br \/>\n    esposa de seu irm&atilde;o mais velho.<\/p>\n<p>Tinha-se por conhecedor em belezas femininas, e agradava-lhe sempre a an&aacute;lise,<br \/>\n    aplicada a esta especialidade est&eacute;tica.<\/p>\n<p>&Agrave;quela hora do dia s&atilde;o os caminhos a aldeia muito freq&uuml;entados<br \/>\n    pela gente que regressa do trabalho a casa.<\/p>\n<p>Os dois irm&atilde;os a cada passo se encontravam com v&aacute;rios grupos<br \/>\n    de alde&otilde;es &#8211; homens, mulheres e crian&ccedil;as &#8211; que todos os saudavam<br \/>\n    com as f&oacute;rmulas sabidas; -&quot;guarde-os Deus&quot; &#8211; e &quot;louvado<br \/>\n    seja Nosso Senhor Jesus Cristo&quot;, &#8211; &agrave;s quais ambos correspondiam<br \/>\n    com outras an&aacute;logas.<\/p>\n<p>Subiam eles a encosta de uma pequena colina, no alto da qual, sob o fundo<br \/>\n    magn&iacute;fico do c&eacute;u ainda iluminado pelos &uacute;ltimos rubores<br \/>\n    do crep&uacute;sculo, se delineava o vulto negro de uma cruz de granito, quando<br \/>\n    lhes chegou aos ouvidos o som de vozes long&iacute;nquas, cantando concertadas;<br \/>\n    simultaneamente pararam a escut&aacute;-las.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, a m&uacute;sica tornava-se mais distinta, e cedo, ao lado<br \/>\n    do cruzeiro, desenharam-se tamb&eacute;m as figuras graciosas de um bando<br \/>\n    de raparigas, que voltavam &agrave; aldeia, entoando em coro uma sauda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; Virgem Maria &#8211; a predileta da piedade popular. Harmonizavam-se t&atilde;o<br \/>\n    bem aquelas vozes frescas e juvenis; combinava-se t&atilde;o admiravelmente<br \/>\n    a po&eacute;tica melancolia do lugar e da hora com a daquela toada singel&iacute;ssima,<br \/>\n    que Daniel sentiu-se comovido.<\/p>\n<p>Os dois irm&atilde;os puseram-se de lado para deixar passar as raparigas;<br \/>\n    e nem o mais estouvado deles teve coragem de interromper com a menor frase<br \/>\n    de galanteio o coro piedoso que elas, sem interrup&ccedil;&atilde;o, continuaram<br \/>\n    cantando; e at&eacute; de todo se perderem as vozes pela dist&acirc;ncia,<br \/>\n    conservaram-se ambos silenciosos e im&oacute;veis.<\/p>\n<p>Como se esta cena reconciliasse Daniel com a vida do campo, logo que prosseguiram<br \/>\n    o caminho, ele exclamou, mais para si talvez do que para o irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Digam o que quiserem, h&aacute; na aldeia belezas magn&iacute;ficas.<br \/>\n    A cena &eacute; inexced&iacute;vel &#8211; e isto dizia, correndo com a vista o<br \/>\n    horizonte vasto que o rodeava &#8211; e as personagens, &agrave;s vezes, s&atilde;o<br \/>\n    bem dignas de aten&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>As raparigas do coro tinham-lhe ensinado a apreciar um g&ecirc;nero de beleza,<br \/>\n    a que, at&eacute; ent&atilde;o fora indiferente.<\/p>\n<p>Preciso &eacute; tamb&eacute;m que se diga desta vez, trazia Daniel, por<br \/>\n    exce&ccedil;&atilde;o, o cora&ccedil;&atilde;o, ou como quiserem, a cabe&ccedil;a<br \/>\n    em disponibilidade &#8211; circunst&acirc;ncia que n&atilde;o pouco concorreu para<br \/>\n    o efeito produzido.<\/p>\n<p>Chegaram enfim a casa das irm&atilde;s.<\/p>\n<p>Era uma pequena, modesta, mas graciosa habita&ccedil;&atilde;o, um pouco<br \/>\n    fora j&aacute; do centro do povoado.<\/p>\n<p>A solid&atilde;o em que ela ficava, pr&oacute;pria a fomentar saudades, sem<br \/>\n    quebrantar com desalentos, agradaria aos menos poetas. Havia tanto sussurrar<br \/>\n    de folhagem, tanta pureza de ares, tanto desafogo de horizontes em volta dela,<br \/>\n    que uma &iacute;ntima serenidade se insinuava na alma do que parava ali. A<br \/>\n    t&ecirc;nue claridade daquela amen&iacute;ssima noite de estio mais real&ccedil;ava<br \/>\n    ainda a poesia do lugar.<\/p>\n<p>A casa era toda caiada de branco; abria para a rua duas largas janelas envidra&ccedil;adas<br \/>\n    que alguns pequenos vasos de flores adornavam. De um e de outro lado prolongava-se<br \/>\n    um lan&ccedil;o de muro de s&oacute;lida alvenaria, igualmente caiado, e que<br \/>\n    a folhagem do pomar interior sobrepujava, caindo para o caminho as bals&acirc;minas<br \/>\n    em fest&otilde;es verdes e floridos.<\/p>\n<p>Foi &agrave; porta deste muro que Pedro bateu familiarmente, dizendo para<br \/>\n    Daniel que estava saboreando o prazer daquela perspectiva.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; aqui.<\/p>\n<p>Uma voz e mulher correspondeu ao sinal de Pedro.<\/p>\n<p>Era a de Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; Sou eu, Margarida, abre &#8211; disse Pedro &#8211; Sou eu e uma visita.<\/p>\n<p>Passados alguns momentos, a porta girou nos gonzos, abrindo passagem para<br \/>\n    um vasto p&aacute;tio ou quinteiro, assombrado de ramadas, o qual, naquele<br \/>\n    momento, atravessavam ainda algumas aves dom&eacute;sticas, retardadas, a<br \/>\n    procurarem o abrigo das capoeiras.<\/p>\n<p>Margarida que fora a que abrira a porta, ao ver Daniel, retirou-se sobressaltada<br \/>\n    para a quase obscuridade, que interiormente projetava a ombreira.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se assuste, Margarida &#8211; disse Pedro sorrindo ao perceber-lhe<br \/>\n    o movimento. &#8211; N&atilde;o se assuste ; &eacute; tudo gente da casa. Este &eacute;<br \/>\n    o meu irm&atilde;o, Daniel, o nosso cirurgi&atilde;o novo. Esta &eacute; a<br \/>\n    minha cunhada, que j&aacute; assim lhe posso chamar &#8211; acrescentou, voltando-se<br \/>\n    para o irm&atilde;o &#8211; &eacute; muito acanhada, e por isso n&atilde;o repares&#8230;<\/p>\n<p>Daniel dirigiu um cumprimento distra&iacute;do a Margarida, cujas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de distinguir pela pouca luz que as iluminava. Demais eram<br \/>\n    estas fei&ccedil;&otilde;es, como j&aacute; atr&aacute;s dissemos, daquelas<br \/>\n    que exigem um exame mais demorado para se lhes sentir toda a sua beleza.<\/p>\n<p>Podia dizer-se delas o mesmo que destas &oacute;peras, privadas de combina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    brilhantes, que n&atilde;o deixam impress&atilde;o em quem uma s&oacute; vez<br \/>\n    as escuta; mas acabam por patentear segredos em harmonia aos ouvidos que repetidamente<br \/>\n    as recebem, segredos que nunca se esquecem.<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; a Clara? &#8211; perguntou Pedro, entrando, seguido do<br \/>\n    irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; No po&ccedil;o, julgo eu &#8211; respondeu Margarida, com a voz ainda tr&ecirc;mula<br \/>\n    de como&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E, muito tempo depois de os ver passar, ali se conservou im&oacute;vel, com<br \/>\n    o olhar vago, a fronte inclinada e o seio inquieto. O que ia neste momento<br \/>\n    por o cora&ccedil;&atilde;o da pobre rapariga? Adivinha-o decerto a leitora,<br \/>\n    se j&aacute; pensou na delicada sensibilidade deste car&aacute;ter de mulher.<\/p>\n<p>A indiferen&ccedil;a, com que Daniel passara por ela, o modo por que a saudara,<br \/>\n    a frieza com que lhe ouvira o nome&#8230; tudo lhe mostrou que a n&atilde;o conhecia<br \/>\n    j&aacute;.<\/p>\n<p>Dolorosa descoberta para aquela alma, tanto mais amor&aacute;vel, quanto<br \/>\n    mais se encobria de manifestar os seus tesouros de afetos!<\/p>\n<p>Foi com certa revolta de delicadeza feminina, com uma quase m&aacute; vontade<br \/>\n    contra si pr&oacute;pria, que ela, sondando o &iacute;ntimo do cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    reconheceu o sentimento que o inquietava assim.<\/p>\n<p>Como que se interrogava com a severidade do mentor para com o disc&iacute;pulo<br \/>\n    mal encaminhado.<\/p>\n<p>&#8212; Que loucura &eacute; esta, mulher? Pois ainda tens dessas criancices,<br \/>\n    doida? Que pensavas tu? Que esperavas? Era acaso poss&iacute;vel que ele se<br \/>\n    lembrasse de ti?&#8230; E para qu&ecirc;? N&atilde;o foi melhor que se esquecesse?<br \/>\n    Dize.<\/p>\n<p>Em situa&ccedil;&otilde;es como esta, opera-se em n&oacute;s uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de separa&ccedil;&atilde;o em duas entidades de sentir contr&aacute;rio.<\/p>\n<p>Arvora-se uma em juiz, interroga da maneira que vimos, fala em nome da raz&atilde;o,<br \/>\n    julga, repreende, condena a outra quando, sob o severo exame da primeira,<br \/>\n    mais subjugada parece, conserva, na sua humilha&ccedil;&atilde;o, intato o<br \/>\n    esp&iacute;rito de independ&ecirc;ncia; assim como, curvada a cabe&ccedil;a<br \/>\n    &agrave;s admoesta&ccedil;&otilde;es da preceptora, a pequena disc&iacute;pula<br \/>\n    sente em si o instinto de rebeli&atilde;o, que mal pode reprimir.<\/p>\n<p>Em Margarida tamb&eacute;m se dava este antagonismo. Faltava-lhe a raz&atilde;o,<br \/>\n    como dissemos; mais baixo, como a medo, murmurava-lhe outra coisa n&atilde;o<br \/>\n    sei que voz mais atendida por ela.<\/p>\n<p>&#8212; Podias &#8211; segredava-lhe essa voz &#8211; podias e devias esperar que ele<br \/>\n    se lembrasse, sim. Acaso o esqueceste, tu?<\/p>\n<p>Diga-se a verdade. At&eacute; aquele momento, Margarida conservava uma ilus&atilde;o,<br \/>\n    muito escondida dos outros e de si, mas nunca mais de todo extinta.<\/p>\n<p>Avaliando, por os seus, os sentimentos dos mais, n&atilde;o podia convencer-se<br \/>\n    de que, em Daniel, estivessem inteiramente apagados os vest&iacute;gios daquela<br \/>\n    inf&acirc;ncia, gozada em comum por ambos. Pensava que ele a reconheceria<br \/>\n    logo, ao v&ecirc;-la, que lhe n&atilde;o ouviria pronunciar o nome, sem que<br \/>\n    a mem&oacute;ria o repetisse; que o primeiro olhar seria f&eacute;rtil em<br \/>\n    recorda&ccedil;&otilde;es, que bastariam s&oacute; para ressuscitar o passado<br \/>\n    inteiro.<\/p>\n<p>Enganara-se; conheceu que se enganara, agora que o vira passar-lhe assim;<br \/>\n    e apesar de toda a for&ccedil;a de sua raz&atilde;o, Margarida sentiu enevoarem-se-lhe<br \/>\n    os olhos de l&aacute;grimas, e a alma de melancolias.<\/p>\n<p>Afinal de contas a boa da rapariga tinha um cora&ccedil;&atilde;o de mulher.<\/p>\n<p>Perdoem-lhe esta fraqueza. N&atilde;o h&aacute; car&aacute;ter humano que<br \/>\n    as n&atilde;o tenha iguais; assim fora poss&iacute;vel sujeit&aacute;-las<br \/>\n    &agrave; rigorosa an&aacute;lise dos seus rec&ocirc;nditos mist&eacute;rios.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"16\"> Cap&iacute;tulo XVI<\/a><\/h4>\n<p> Os dois irm&atilde;os dirigiram-se ao lugar onde, segundo as indica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de Margarida, deviam encontrar Clara.<\/p>\n<p>O ranger da bomba do po&ccedil;o, e a voz da alegre rapariga, que cantava<br \/>\n    &#8211; pois nela dir-se-ia ser o canto, como nas aves, a mais natural express&atilde;o<br \/>\n    &#8211; serviam-lhes de guia.<\/p>\n<p>Tomando por uma rua extensa, revestida de limoeiros, atrav&eacute;s de cuja<br \/>\n    espessura coava j&aacute;, a custo, a claridade nascente do luar, conseguiram<br \/>\n    aproximar-se, sem que fossem percebidos.<\/p>\n<p>Clara cantava: Vem livrar-me com teus olhos,<\/p>\n<p>Que eu por eles me perdi;<\/p>\n<p>D&aacute;-me a vida com teus beijos,<\/p>\n<p>J&aacute; que por beijos morri. Por&eacute;m, ao voltar naturalmente a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    descobriu Pedro na companhia do irm&atilde;o; vendo-se surpreendida assim,<br \/>\n    interrompeu de s&uacute;bito o trabalho e o canto, e meia confusa, saudou-os<br \/>\n    com os olhos baixos e a voz embara&ccedil;ada.<\/p>\n<p>Foi curta a apresenta&ccedil;&atilde;o, e em nada cerimoni&aacute;tica. Pedro<br \/>\n    odiava etiquetas, ou antes, ignorava-as.<\/p>\n<p>A figura de Clara, inundada pelos raios de lua, que j&aacute; se levantava<br \/>\n    espl&ecirc;ndida no horizonte, fez conceber a Daniel uma subida opini&atilde;o<br \/>\n    do bom gosto do seu irm&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o era Daniel homem para se coibir, por acanhamentos, em observa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que tanto o deleitava. Sem disfarces, nem precau&ccedil;&otilde;es, analisava,<br \/>\n    fei&ccedil;&atilde;o por fei&ccedil;&atilde;o, aquela fisionomia simp&aacute;tica,<br \/>\n    e como que lhe delineava com a vista o perfil, onde se continuavam graciosamente,<br \/>\n    por suaves inflex&otilde;es, as mais elegantes curvas.<\/p>\n<p>Clara, adivinhando-se objeto daquela inspe&ccedil;&atilde;o minuciosa de<br \/>\n    conhecedor e entusiasta, n&atilde;o ousava erguer os olhos. Dir-se-ia que,<br \/>\n    magnificamente condensados, os raios visuais, que a envolviam daquela maneira,<br \/>\n    lhe tomavam os movimentos at&eacute; mal a deixarem respirar.<\/p>\n<p>Pedro sentia certo desvanecimento, lendo a t&aacute;cita aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da sua escolha, na express&atilde;o do olhar do irm&atilde;o.<\/p>\n<p>Clara conseguiu afinar dominar o enleio dos primeiros instantes, dirigindo-se<br \/>\n    a Pedro:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o isto faz-se? &#8211; disse ela, ainda n&atilde;o de todo serenada<br \/>\n    da primeira confus&atilde;o, e descendo e apertando nos punhos as mangas da<br \/>\n    camisa, que tinha arrega&ccedil;adas &#8211; Trazer assim uma visita, sem dizer<br \/>\n    nada &agrave; gente.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; meu irm&atilde;o &#8211; dizia Pedro sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Que tem que seja? N&atilde;o &eacute; para assim vir ter com uma<br \/>\n    pessoa, que anda c&aacute; no seu trabalho. E sem fazer barulho, ent&atilde;o!<br \/>\n    &#8211; Ora sempre! &#8211; Ora sempre! &#8211; E ao dizer isto, lan&ccedil;ava para o noivo<br \/>\n    um olhar que, tentando ser de repreens&atilde;o, s&oacute; conseguiu enlev&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Clarinha &#8211; disse Daniel, adiantando-se e dando &agrave;s palavras<br \/>\n    o tom de amig&aacute;vel familiaridade &#8211; O culpado fui eu. Mas que quer? &Eacute;<br \/>\n    costume antigo que tomei. Quando era rapaz, gostava j&aacute; muito de ouvir<br \/>\n    os rouxin&oacute;is que cantavam nos laranjais da nossa casa; mas eles, percebendo-me,<br \/>\n    calavam-se. Sabe o que eu fazia ent&atilde;o? Ia-me devagarinho, p&eacute;<br \/>\n    ante p&eacute;, onde eles estavam, e l&aacute; me ficava a ouvi-los cantar<br \/>\n    horas e horas. Foi o que fiz agora.<\/p>\n<p>A lisonja n&atilde;o desagradou de todo a Clara, que respondeu gracejando:<\/p>\n<p>&#8212; Os rouxin&oacute;is j&aacute; n&atilde;o cantam neste tempo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas cantam outras vozes sonoras como as deles e mais felizes ainda;<br \/>\n    pois nem as fazem calar as neves do inverno, nem os ardores do estio. Era<br \/>\n    uma dessas que n&oacute;s paramos para ouvir.<\/p>\n<p>Clara, sentindo-se pouco &agrave; vontade para responder ao galanteio, disfar&ccedil;ou-se,<br \/>\n    afastando-se como para regar as flores de um alegrete vizinho.<\/p>\n<p>Pedro aproximou-se dela.<\/p>\n<p>&#8212; Nunca mais &#8211; murmurou-lhe a rapariga ao ouvido &#8211; tornes a fazer uma<br \/>\n    destas, Pedro. Tamb&eacute;m n&atilde;o sei como a Guida vos deixou entrar<br \/>\n    assim. Eu lho direi.<\/p>\n<p>&#8212; Ora vamos, Clara &#8211; disse Pedro, auxiliando-a na tarefa da rega &#8211;<br \/>\n    n&atilde;o v&aacute;s agora ralhar com a Margarida, que mais embara&ccedil;ada<br \/>\n    ficou ela do que tu.<\/p>\n<p>&#8212; Sim!? Pois ai est&aacute;, v&ecirc;s? N&atilde;o tinha raz&atilde;o<br \/>\n    para isso. A Margarida &eacute; outra coisa. O Sr. Daniel n&atilde;o falou<br \/>\n    ainda com a Margarida? &#8211; continuou Clara, j&aacute; mais senhora sua, e fazendo<br \/>\n    uso desimpedido do olhar, que fitou no interpelado. &#8211; Ela &eacute; que saberia<br \/>\n    responder bem. Quando quer, sabe dizer coisas&#8230; At&eacute; o Sr. Reitor,<br \/>\n    muitas vezes, n&atilde;o tem que lhe responda. O Pedro que o diga.<\/p>\n<p>Pedro fez um sinal de assentimento.<\/p>\n<p>Este duo em honra de Margarida n&atilde;o causou grande impress&atilde;o<br \/>\n    em Daniel, que continuava a fitar Clara com persistente aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    encantado pelo timbre daquela voz, por aqueles movimentos, cheios de gra&ccedil;a<br \/>\n    e de vida, e pela inimit&aacute;vel express&atilde;o do olhar, meio de bondade<br \/>\n    e meio de mal&iacute;cia, que ainda a branca claridade da lua fazia real&ccedil;ar<br \/>\n    o seu fulgor.<\/p>\n<p>A conversa tomou, pouco a pouco, familiar e jovial car&aacute;ter de intimidade.<br \/>\n    S&oacute;, alguma vez, uma frase mais cortes&atilde; de Daniel vinha tirar<br \/>\n    a Clara a frieza de &acirc;nimo necess&aacute;ria &agrave; resposta &#8211; isto<br \/>\n    com grande estranheza sua, pois n&atilde;o se tinha por demasiado t&iacute;mida.<\/p>\n<p>&#8212; Pobre Jo&atilde;o Semana! dizia Clara em um dos seus momentos de<br \/>\n    mal&iacute;cia. &#8211; Quem mais o chamar&aacute; agora, depois de haver na terra<br \/>\n    m&eacute;dico novo?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; enganada; &#8211; respondeu Daniel &#8211; quando mais ningu&eacute;m<br \/>\n    o chamasse, teria por si a melhor de todas as freguesias, a das raparigas.<\/p>\n<p>&#8212; Agora? E ent&atilde;o por que o haviam de querer?<\/p>\n<p>&#8212; Porque os m&eacute;dicos novos tem o mau costume de desejarem saber<br \/>\n    das doen&ccedil;as do cora&ccedil;&atilde;o, e dessas n&atilde;o querem elas<br \/>\n    tratar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei por que n&atilde;o; pois n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o<br \/>\n    perigosas? Eu sempre ouvi dizer que se morria disso.<\/p>\n<p>&#8212; Se se morre? Morre-se a todo momento at&eacute;. Mas, pelos modos,<br \/>\n    &eacute; um morrer de que se gosta.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe l&aacute;; sempre &eacute; morte, n&atilde;o pode ser muito<br \/>\n    boa.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Morre-se a cantar: D&aacute;-me a vida com teus beijos,<\/p>\n<p>J&aacute; que por beijos morri, N&atilde;o era assim que se dizia?<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o pode suster o riso, e Pedro fez coro com ela.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, responda: se o m&eacute;dico tomasse a receita a s&eacute;rio,<br \/>\n    e quisesse dar vida &agrave; sua doente?<\/p>\n<p>&#8212; Isso mais devagar.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute; tem: &eacute; por esse motivo que n&atilde;o &eacute; bom<br \/>\n    consultar os m&eacute;dicos novos. O Jo&atilde;o Semana &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; capaz dessas aten&ccedil;&otilde;es, julgo eu&#8230; E que as tivesse&#8230;<\/p>\n<p>Tal foi a fei&ccedil;&atilde;o predominante do resto do di&aacute;logo, que<br \/>\n    s&oacute; terminou quando a lua ia j&aacute; alta no firmamento, com toda<br \/>\n    a pompa de um desanuviado plenil&uacute;nio.<\/p>\n<p>&#8212; Sabes tu &#8211; dizia Daniel ao irm&atilde;o quando juntos se retiravam<br \/>\n    &#8211; que n&atilde;o podia escolher mais galante noiva? Em toda a aldeia n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; outra decerto que se lhe ponha a par.<\/p>\n<p>Isto foi dito j&aacute; na rua, mas pr&oacute;ximo da porta do quintal onde<br \/>\n    se demorara Clara, a cujos ouvidos chegaram distintamente estas palavras de<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>Se elas lhe poderiam ser indiferentes, pergunto eu &agrave;s leitoras bonitas.<br \/>\n    Sendo sinceras comigo, n&atilde;o se atrever&atilde;o a condenar este sentimento<br \/>\n    de vaidade, que moveu o cora&ccedil;&atilde;o de Clara. Se a vaidade constitu&iacute;sse<br \/>\n    pecado capital, talvez que certa particularidade do para&iacute;so mu&ccedil;ulmano<br \/>\n    tivesse sua raz&atilde;o de ser.<\/p>\n<p>Clara era pouco reservada.<\/p>\n<p>Tudo quanto sentia, fossem tristezas, fossem alegrias, vinha-lhe do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aos l&aacute;bios, por um movimento de expans&atilde;o irreprim&iacute;vel.<\/p>\n<p>Procurando, pois, a irm&atilde;, contou-lhe tudo quanto lhe dissera Daniel,<br \/>\n    o que ela lhe respondera, e, finalmente, as &uacute;ltimas palavras, que lhe<br \/>\n    havia escutado.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o foi senhora de seu cora&ccedil;&atilde;o a ponto de<br \/>\n    n&atilde;o sentir certa amargura, ao comparar a intensidade da impress&atilde;o<br \/>\n    produzida por sua irm&atilde; no &acirc;nimo de Daniel, que p&eacute;la primeira<br \/>\n    vez a via, &agrave; indiferen&ccedil;a, com que ela fora desatendida &#8211; ela,<br \/>\n    por quem deviam falar tantas mem&oacute;rias do passado.<\/p>\n<p>Eu j&aacute; disse que Margarida n&atilde;o era de natureza t&atilde;o superior,<br \/>\n    que n&atilde;o tivesse dessas desculp&aacute;veis fraquezas. Muito para apreciar<br \/>\n    &eacute; j&aacute; a placidez nas a&ccedil;&otilde;es, se como ela, se n&atilde;o<br \/>\n    desmente nunca; seria exig&ecirc;ncia demasiada e um excessivo querer apurar<br \/>\n    a natureza humana ao grau da perfei&ccedil;&atilde;o quase divina, pretender<br \/>\n    que, no mundo oculto dos pensamentos e dos afetos, reine tamb&eacute;m a inalter&aacute;vel<br \/>\n    serenidade, que s&oacute; pode ser de anjos, e nunca de criaturas, a quem<br \/>\n    de cont&iacute;nuo os vendavais das paix&otilde;es salteiam.<\/p>\n<p>O que posso assegurar a respeito de Margarida &#8211; e j&aacute; n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    pouco assegurar &#8211; &eacute; que este movimento de ci&uacute;me &#8211; nem eu sei<br \/>\n    se tal nome lhe posso dar &#8211; se envenenou, convertendo-se em m&aacute; vontade<br \/>\n    contra o objeto, que lho desafiara.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o sentiu, para com a irm&atilde;, nenhum desses odiozinhos<br \/>\n    feminis, que em tantas tempestades se desencadeiam &agrave;s vezes.<\/p>\n<p>Calou-se, sorriu at&eacute;, e pensou consigo:<\/p>\n<p>&#8212; E de que me serviria se fosse de outra sorte? Melhor &eacute; que<br \/>\n    a mem&oacute;ria lhe seja sempre infiel; melhor, muito melhor para o sossego<br \/>\n    do meu esp&iacute;rito. Ainda bem.<\/p>\n<p>Era ainda a raz&atilde;o que falava; mas o cora&ccedil;&atilde;o? A&iacute;,<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o!&#8230;<\/p>\n<p>&Eacute; inevit&aacute;vel a luta, sempre que a um esp&iacute;rito vigoroso<br \/>\n    e l&uacute;cido anda associado um cora&ccedil;&atilde;o que sente, que se<br \/>\n    comove sob a influ&ecirc;ncia dos est&iacute;mulos naturais dos afetos humanos.<\/p>\n<p>Quando o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; de gelo, a raz&atilde;o dirige desafogada,<br \/>\n    imperturb&aacute;vel, em linha reta, o caminho da vida; quando a raz&atilde;o<br \/>\n    abdica e o cora&ccedil;&atilde;o domina, o movimento &eacute; irregular, mas<br \/>\n    livre; caprichoso, mas resoluto; funesto, mas incessante; por&eacute;m se<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o e a cabe&ccedil;a medem for&ccedil;as iguais, a cada<br \/>\n    momento param para lutar, como atletas destemidos. De qualquer lado que tenha<br \/>\n    de se decidira vit&oacute;ria, ser&aacute; disputada, at&eacute; o &uacute;ltimo<br \/>\n    instante, pelo contendor vencido; a pausa ter&aacute; sido inevit&aacute;vel;<br \/>\n    a rea&ccedil;&atilde;o en&eacute;rgica; e a crise violenta.<\/p>\n<p>Podem passar ignoradas de todo as perip&eacute;cias desse combate &iacute;ntimo;<br \/>\n    mas a aparente tranq&uuml;ilidade exterior mais lhe exacerbar&aacute; a crueza.<\/p>\n<p>Margarida escutou por muito tempo a irm&atilde;, sem saber como acolher aquelas<br \/>\n    ing&ecirc;nuas confid&ecirc;ncias; afinal lembrou-lhe, sorrindo, que devia<br \/>\n    ser menos sens&iacute;vel &agrave; opini&atilde;o de estranhos quem, dentro<br \/>\n    em t&atilde;o pouco tempo, ia ligar o seu destino ao destino de outro.<\/p>\n<p>Clara possu&iacute;a um g&ecirc;nio, com o qual n&atilde;o se davam as apreens&otilde;es.<br \/>\n    N&atilde;o calculava conseq&uuml;&ecirc;ncias. A vida para ela era o presente.<br \/>\n    Raras vezes lhe lembrava o passado; o futuro n&atilde;o lhe tomava muitos<br \/>\n    momentos de medita&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m. As palavras e os atos irrefletidos<br \/>\n    eram nela freq&uuml;entes. De nada suspeitava. A sua confian&ccedil;a em todos<br \/>\n    e em tudo chegava a ser perigosa. Um inesgot&aacute;vel fundo de generosidade,<br \/>\n    elemento principal daquele car&aacute;ter simp&aacute;tico, levava-a ao cepticismo<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; malevol&ecirc;ncia e &agrave; m&aacute;<br \/>\n    f&eacute; que outros possu&iacute;ssem. Parecia muitas vezes afrontar a opini&atilde;o<br \/>\n    do mundo, e n&atilde;o era por a desprezar, mas porque n&atilde;o pensava<br \/>\n    nela.<\/p>\n<p>Quem possui um car&aacute;ter assim, se se n&atilde;o perde, se se n&atilde;o<br \/>\n    perde inocentemente, &eacute; porque tem a defend&ecirc;-lo a Provid&ecirc;ncia,<br \/>\n    porque o abrigam as asas do seu anjo da guarda.<\/p>\n<p>Ouvindo depois a observa&ccedil;&atilde;o da irm&atilde;, Clara desatou a<br \/>\n    rir.<\/p>\n<p>&#8212; Que me est&aacute;s a&iacute; a dizer, Guida? Que me est&aacute;s<br \/>\n    tu a dizer? Ent&atilde;o, por eu me casar, devo deixar de fazer gosto de mim?<br \/>\n    Olha, eu n&atilde;o me quero com gente muito sisuda. A ti perd&ocirc;o-te,<br \/>\n    porque enfim&#8230; &eacute;s muito boa tamb&eacute;m, mas ainda assim n&atilde;o<br \/>\n    perdias se &#8230; &#8211; E, mudando subitamente de tom, acrescentou com um pouco de<br \/>\n    mal&iacute;cia na voz e no olhar: &#8211; Ora diz-me c&aacute; uma coisa, Guida,<br \/>\n    com toda essa tua seriedade, n&atilde;o gostarias tamb&eacute;m que um rapaz,<br \/>\n    assim como Daniel, dissesse de ti o mesmo? Anda, confessa.<\/p>\n<p>&#8212; Doida!<\/p>\n<p>&#8212; Tu &eacute;s mais velha, bem sei, mas eu sou dentro em pouco mulher<br \/>\n    casada e por isso posso fazer-te destas perguntas j&aacute;. Anda, responde.<\/p>\n<p>Esta jovialidade de Clara n&atilde;o foi recebida pela irm&atilde; sem confus&atilde;o.<\/p>\n<p>Em vez de responder, limitou-se a apert&aacute;-la nos bra&ccedil;os, dizendo-lhe<br \/>\n    quase ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Clara! &Eacute; preciso ser menos crian&ccedil;a. Quem<br \/>\n    est&aacute; para t&atilde;o cedo tomar canseiras de fam&iacute;lia&#8230; A falar<br \/>\n    a verdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E cuidas tu que me h&atilde;o de tirar esta alegria as tais canseiras?<br \/>\n    Ai. Guida isso &eacute; que n&atilde;o. Com&#8217;assim&#8230; Olha, eu j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    nasci para tristezas.<\/p>\n<p>&#8212; E talvez seja melhor &#8211; disse Margarida, respondendo a Clara, e pode<br \/>\n    ser que, em parte, &agrave; seus pr&oacute;prios pensamentos. <\/p>\n<h4><a name=\"17\">Cap&iacute;tulo XVII<\/a><\/h4>\n<p> Era meio dia, um meio dia de ver&atilde;o ardente, asfixiante, calcinador,<br \/>\n    a hora em que tudo repousa, em que as aves se escondem na folhagem, as plantas<br \/>\n    inclinam as sumidades, desfalecidas de seiva, e os ribeiros quase nem murmuram,<br \/>\n    de d&eacute;beis e exaustos que v&atilde;o.<\/p>\n<p>Nem uma t&ecirc;nue vira&ccedil;&atilde;o fazia sussurrar as alamedas e os<br \/>\n    soutos nos vales ou os pinheiros dos montes.<\/p>\n<p>Apenas pelas sar&ccedil;as volteavam, como em dan&ccedil;as caprichosas,<br \/>\n    enxames de insetos alados, sendo o seu zumbido importuno, ou o cantar long&iacute;nquo<br \/>\n    dos galos, os &uacute;nicos sons a interromperem o sil&ecirc;ncio daquela<br \/>\n    hora.<\/p>\n<p>Os caminhos e os campos estavam desertos; povoadas e fumegantes as cozinhas,<br \/>\n    onde a fam&iacute;lia do lavrador se re&uacute;ne para a refei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    principal do dia.<\/p>\n<p>Mas quem estendesse a vista pelo extenso lan&ccedil;o de estrada a macadame,<br \/>\n    que corta em linha reta a povoa&ccedil;&atilde;o, e onde, naquele momento,<br \/>\n    o sol batia em cheio sem ser impedido por a menor folha de &aacute;rvore,<br \/>\n    ou beira de telhado, descobriria o vulto de um cavaleiro, caminhando a trote<br \/>\n    e envolto na densa nuvem de poeira, levantada pelos p&eacute;s da cavalgadura.<\/p>\n<p>Este cavaleiro era Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>Trajava com toda singeleza o velho cirurgi&atilde;o. Um fato completo de<br \/>\n    linho cru, botas amarelas de solidez de constru&ccedil;&atilde;o, &agrave;<br \/>\n    prova de todo o tempo, chap&eacute;u de palha, de abas descomunais, tudo abrigado<br \/>\n    daquele sol canicular por uma enorme umbela de paninho vermelho, rival em<br \/>\n    dimens&otilde;es de uma tenda de campanha, eis o vestido caracter&iacute;stico<br \/>\n    do nosso homem.<\/p>\n<p>As r&eacute;deas flutuavam &agrave; solta, sinal evidente da distra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do cavaleiro e dos admir&aacute;veis instintos e superior discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da alim&aacute;ria, que mostrava conhecer a palmos o caminho de casa e para<br \/>\n    ela se dirigia mais apressada que de costume.<\/p>\n<p>Causava d&oacute; olhar para a fisionomia de Jo&atilde;o da Semana naquela<br \/>\n    ocasi&atilde;o. As faces de vermelhas, que naturalmente eram, quase se lhe<br \/>\n    haviam feito negras; o suor corria-lhe, como l&aacute;grimas pelas faces abaixo.<\/p>\n<p>Mas o her&oacute;ico octogen&aacute;rio n&atilde;o desanimava. Sorvia filosoficamente<br \/>\n    a sua pitada, assoava-se com ru&iacute;do, e soltando depois um desses ahs,<br \/>\n    bem guturais &#8211; eloq&uuml;ent&iacute;ssima express&atilde;o das del&iacute;cias<br \/>\n    que o olfato pode proporcionar a um mortal &#8211; dava mostras de consolado.<\/p>\n<p>De caminho, ia Jo&atilde;o Semana lan&ccedil;ando um olhar de comisera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para os milhos dos campos adjacentes &agrave; estrada, algum do qual o calor<br \/>\n    e a escassez das &aacute;guas tinha definhado; e ao contempl&aacute;-lo parecia<br \/>\n    mais sentir por ele, do que por si, a insuport&aacute;vel temperatura daquele<br \/>\n    ambiente.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana era tamb&eacute;m propriet&aacute;rio rural, e portanto,<br \/>\n    apaixonado pela lavoura, conhecedor das leis de cultura, e experiente prognosticador<br \/>\n    do futuro das novidades agr&iacute;colas; por isso, examinando com profunda<br \/>\n    curiosidade o aspecto dos campos, cujos donos pela maior parte conhecia, quase<br \/>\n    chegara a esquecer-se de que um ardent&iacute;ssimo sol lhe dardejava sobre<br \/>\n    a cabe&ccedil;a raios amea&ccedil;adores, tentando em v&atilde;o exercer naquela<br \/>\n    robusta constitui&ccedil;&atilde;o a sua influ&ecirc;ncia maligna.<\/p>\n<p>A &eacute;gua &eacute; que n&atilde;o se esquecia assim facilmente disso,<br \/>\n    e, cada vez mais r&aacute;pida, procurava furtar-se a t&atilde;o inc&ocirc;modo<br \/>\n    calor, e ao seu inevit&aacute;vel cortejo de moscas, que a traziam impacientemente,<br \/>\n    n&atilde;o obstante os folhudos ramos de carvalho, com os quais Jo&atilde;o<br \/>\n    Semana lhe enfeitara o pesco&ccedil;o.<\/p>\n<p>Depois de cinco minutos mais de trote acelerado, tomou o pobre animal, com<br \/>\n    manifesta ansiedade e sem esperar sinal do cavaleiro, por uma rua estreita,<br \/>\n    que abrindo-se ao lado esquerdo da estrada, seguia, sob espesso toldo de verdura<br \/>\n    por entre duas quintas fronteiras.<\/p>\n<p>Era um o&aacute;sis, depois do deserto.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana, por&eacute;m, parecia t&atilde;o indiferente ao vantajoso<br \/>\n    da mudan&ccedil;a, como o fora &agrave; desagradabil&iacute;ssima influ&ecirc;ncia<br \/>\n    dos raios do sol, em campo descoberto.<\/p>\n<p>Da&iacute; por diante come&ccedil;avam a ser mais freq&uuml;entes as habita&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    e, ao barulho que fazia a &eacute;gua sobre o terreno s&oacute;lido e nas<br \/>\n    pedras soltas do caminho, assomava a cada janela uma cabe&ccedil;a. e Jo&atilde;o<br \/>\n    Semana recebia um cumprimento e um convite para jantar, a ambos os quais ele<br \/>\n    correspondia com benevolente familiaridade e &agrave;s vezes com gracejos<br \/>\n    sempre bem recebidos e festejados.<\/p>\n<p>Logo ao princ&iacute;pio, foi um velho, em mangas de camisa, e de cabe&ccedil;a<br \/>\n    j&aacute; despovoada de c&atilde;s, que segurando uma enorme tigela de caldo<br \/>\n    de tronchuda e vagens coroado por uma pir&acirc;mide de boroa esmigalhada,<br \/>\n    apareceu &agrave; porta da cozinha, e disse com a boca meio ocupada por mantimentos,<br \/>\n    e sorrindo:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; servido do meu jantar, Sr. Jo&atilde;o Semana? &Eacute;<br \/>\n    pobre, sim, mas dado com a melhor vontade.<\/p>\n<p>&#8212; Obrigado, tio Jos&eacute; das Bicas, vou ver se l&aacute; em casa<br \/>\n    a Joana tem tamb&eacute;m o meu caldo em bom andamento.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o v&aacute; com a gra&ccedil;a do Senhor, v&aacute;, que<br \/>\n    o calor n&atilde;o se sofre.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; picante, est&aacute;. &#8211; E, andando sempre e falando,<br \/>\n    j&aacute; com as costas voltadas, perguntou: &#8211; E como v&atilde;o os seus milhos,<br \/>\n    Sr. Jos&eacute;? <\/p>\n<p>&#8212; Ora!&#8230; nem me fales nisso! A sequeira &eacute; muita.<\/p>\n<p>&#8212; Veremos se para a lua nova haver&aacute; mudan&ccedil;a de tempo.<\/p>\n<p>&#8212; Deus o queira.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de querer.<\/p>\n<p>E prosseguiu no seu caminho.<\/p>\n<p>Mais adiante, foi uma mulher idosa que espreitou do postigo de uma casa meia<br \/>\n    arruinada.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana desta vez foi o primeiro a saudar.<\/p>\n<p>&#8212; Bons dias, tia Rosa. Ent&atilde;o como vai l&aacute; o seu velho?<br \/>\n    Fero e rijo, hein?<\/p>\n<p>&#8212; Muito agradecida a V.S.&ordf;. Est&aacute; fraquinho ainda, e por<br \/>\n    isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois que saia, que saia. &Eacute; preciso tamb&eacute;m trabalhar<br \/>\n    para deitar foras as mol&eacute;stias; n&oacute;s n&atilde;o podemos fazer<br \/>\n    tudo. Que passeie, diga-lhe que passeie. O mais que lhe pode acontecer, &eacute;<br \/>\n    que d&ecirc;em com ele as mo&ccedil;as, mas disso n&atilde;o se morre.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; n&atilde;o est&aacute; em idade para tanto, Sr. Doutor.<\/p>\n<p>&#8212; Fie-se nele, fie-se nele; olhe que s&atilde;o os piores.<\/p>\n<p>E, dando uma gargalhada, dobrou a esquina e tomou por outra rua.<\/p>\n<p>Do interior de um pardieiro saiu-lhe ao encontro uma rapariga do povo, magra,<br \/>\n    remendada, e como rosto que denotava afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Muitos boas tardes, Sr. Jo&atilde;o Semana &#8211; disse a pobre rapariga<br \/>\n    com voz chorosa.<\/p>\n<p>&#8212; Que temos l&aacute;, Maria? Alguma novidade?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que&#8230; dizia ela, hesitando e baixando os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Fala; despacha-te, que vou com pressa.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que me esqueci do que me disse daquele rem&eacute;dio para<br \/>\n    minha m&atilde;e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o onde diabos tinhas tu o ju&iacute;zo, galo doido? Ai<br \/>\n    que voc&ecirc;s andam-me com essas cabecinhas n&atilde;o sei por que terras,<br \/>\n    e eu que vos ature depois. Aposto que te lembras melhor do que te disse ontem<br \/>\n    o teu conversado?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, o Sr. Jo&atilde;o Semana tem coisas! &Eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    sei se o rem&eacute;dio era todo para uma vez, ou&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que eu digo; &eacute; o que eu digo. estouvada! Cabe&ccedil;a<br \/>\n    no ar! Quantas vezes te repeti que era para tr&ecirc;s por&ccedil;&otilde;es!<br \/>\n    Cuidas que eu n&atilde;o tenho mais que fazer, do que andar sempre a cantar<br \/>\n    a mesma cantiga por este mundo de Cristo? Ora vamos!<\/p>\n<p>&#8212; E h&aacute; de ser distantes da comida, que?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo aprendeste tu ent&atilde;o de tudo o que eu te recomendei,<br \/>\n    fazes favor de me dizer? Pois n&atilde;o te expliquei, cabe&ccedil;a de bogalho,<br \/>\n    que era para dares meia hora depois das comidas? Que tinhas tu nos ouvidos?<\/p>\n<p>&#8212; Muito agradecida, Sr. Jo&atilde;o Semana; e perdoe por as almas,<br \/>\n    mas&#8230; a gente tem tanta coisa na cabe&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Valha-te uma figa.<\/p>\n<p>E quando a rapariga se ia j&aacute; a retirar, ele acrescentou, mudando e<br \/>\n    tom:<\/p>\n<p>&#8212; Olha c&aacute;, &oacute; Maria, ouves?<\/p>\n<p>A rapariga voltou-se. Levava os olhos vermelhos de chorar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que diabo &eacute; isso? Por que choras tu?<\/p>\n<p>&#8212; Nada, Sr. Jo&atilde;o Semana: &eacute; c&aacute; de nossa vida.<\/p>\n<p>&#8212; Quanto te levou o botic&aacute;rio pelo rem&eacute;dio?<\/p>\n<p>&#8212; Seis vint&eacute;ns.<\/p>\n<p>&#8212; E&#8230; dize-me&#8230; E mataste hoje a galinha para tua m&atilde;e?<\/p>\n<p>&#8212; Dei-lhe o resto de ontem.<\/p>\n<p>&#8212; E para amanh&atilde;?<\/p>\n<p>E a rapariga calava-se, embara&ccedil;ada e triste.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana tossiu para desimpedir a laringe de um pigarro importuno,<br \/>\n    e p&ocirc;s-se a olhar atentamente para um troco de &aacute;rvore que lhe<br \/>\n    ficava &agrave; direita, como se lhe achasse o que quer que fosse extravagante.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, mexia nos bolsos do colete e depois nas algibeiras das<br \/>\n    cal&ccedil;as; em seguida, olhando em roda, como se receasse ser observado,<br \/>\n    curvou-se sobre o pesco&ccedil;o da &eacute;gua e introduziu uma moeda de<br \/>\n    prata na m&atilde;o da pobre rapariga, dizendo-lhe como modo r&aacute;pido<br \/>\n    e desabrido:<\/p>\n<p>&#8212; Toma l&aacute;. Olha agora se te p&otilde;es por a&iacute; a dar<br \/>\n    &agrave; l&iacute;ngua, como costumas. Aflige bem tua m&atilde;e, aflige!<\/p>\n<p>A rapariga n&atilde;o teve uma s&oacute; palavra com que lhe agradecer. Quis-lhe<br \/>\n    tomar as m&atilde;os para beij&aacute;-las; Jo&atilde;o Semana furtou-lhas<br \/>\n    rapidamente, dizendo-lhe com simulada aspereza:<\/p>\n<p>&#8212; Larga, larga. N&atilde;o me venhas c&aacute; com essas imposturas,<br \/>\n    que eu n&atilde;o sou para isso.<\/p>\n<p>O melhor dos agradecimentos tinha-o ele nas l&aacute;grimas, que desciam<br \/>\n    pelas faces da pobre, na express&atilde;o de entranhado afeto, que lhe animava<br \/>\n    o olhar.<\/p>\n<p>O velho cirurgi&atilde;o sabia compreender estas coisas, apesar das apar&ecirc;ncias<br \/>\n    de homem endurecido de que fazia ostenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao afastar-se do lugar da cena que descrevemos, dizia ele para si.<\/p>\n<p>&#8212; Excelente vida! Lucrativa cl&iacute;nica! rendeu-me esta consulta,<br \/>\n    na verdade! Quem n&atilde;o h&aacute; de fazer casa assim?<\/p>\n<p>Estava o bom homem a fingir de interesseiro consigo mesmo! <\/p>\n<p>Dentro em pouco tinha-se esquecido do que praticara.<\/p>\n<p>Mais adiante, esperava um lavrador robusto, sentado na soleira da porta,<br \/>\n    a comer um f&ecirc;vera de bacalhau. Assim que Jo&atilde;o Semana se aproximou<br \/>\n    levantou-se o homem e tirando o barrete:<\/p>\n<p>&#8212; Nosso Senhor venha em sua companhia.<\/p>\n<p>&#8212; Bons dias; ent&atilde;o que h&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Queria que vossemec&ecirc; me dissesse se minha mulher pode comer<br \/>\n    uma sardinha assada.<\/p>\n<p>&#8212; Pode, mas de caminho avisa o padre que a venha sacramentar.<\/p>\n<p>&#8212; Credo! mas ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Adeus, minhas encomendas. A perguntas tolas n&atilde;o se d&aacute;<br \/>\n    respostas. Forte descoco!<\/p>\n<p>E, sem mais palavras, estimulou o passo da &eacute;gua.<\/p>\n<p>O consultante sentou-se de novo, e voltando-se para dentro, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Ouviste-o? Ora a&iacute; tens.<\/p>\n<p>Respondeu-lhe um suspiro.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o pararam aqui as consultas. Ao passar por uma azenha, o moleiro,<br \/>\n    vindo &agrave; porta, anunciou ao velho facultativo que a mulher n&atilde;o<br \/>\n    queria tomar rem&eacute;dio algum.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; no seu direito; &#8211; respondeu Jo&atilde;o Semana &#8211; e que<br \/>\n    queres que eu lhe fa&ccedil;a?<\/p>\n<p>&#8212; Mas, sendo precisos?<\/p>\n<p>&#8212; Sabes que mais, Francisco? Eu, se me n&atilde;o casei, n&atilde;o<br \/>\n    foi para agora andar a aturar as impertin&ecirc;ncias das mulheres do meu<br \/>\n    pr&oacute;ximo. Atura-a , atura-a, rapaz, que s&atilde;o ossos do of&iacute;cio.<\/p>\n<p>E continuou cavalgando, e deixou o moleiro embasbacado. Depois de se ter<br \/>\n    afastado, acrescentou, elevando a voz, mas sem se voltar para tr&aacute;s.<\/p>\n<p>&#8212; Olha l&aacute;: sempre lhe vai dizendo que se amanh&atilde; n&atilde;o<br \/>\n    a encontrar melhor, prego-lhe um c&aacute;ustico nas costas, que lhe d&aacute;<br \/>\n    de fazer ver estrelas ao meio dia. Ora anda.<\/p>\n<p>Enfim, em um largo assombrado de castanheiros, foram duas crian&ccedil;as<br \/>\n    as que lhe interromperam a passagem; assim que o avistaram, ergueram-se do<br \/>\n    ch&atilde;o, onde estavam sentadas, tirando chap&eacute;u, e pondo-se a co&ccedil;ar<br \/>\n    na cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Que temos n&oacute;s, pequenada? &#8211; perguntou Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>Um dos pequenos foi o relator da comiss&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; O nosso Lu&iacute;s est&aacute; doente, e a m&atilde;e manda pedir<br \/>\n    ao Sr. Doutor para o ir ver.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem; l&aacute; irei de tarde; e como est&aacute; tua<br \/>\n    m&atilde;e?<\/p>\n<p>&#8212; A m&atilde;e diz que est&aacute; melhor, mas ela chora tanto!<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o, Manuel, em duvidar da sa&uacute;de do que chora.<br \/>\n    Pois eu verei isso. V&aacute;; ide jantar e fazer rir vossa m&atilde;e, que<br \/>\n    &eacute; meia cura j&aacute;.<\/p>\n<p>Por tal forma ia sendo o bondoso Jo&atilde;o Semana cumprimentado, interrogado<br \/>\n    e consultado, e ele a responder a tudo com a m&aacute;xima expedi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    poss&iacute;vel, que j&aacute; lhe n&atilde;o sofreiam delongas as reclama&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    imperiosas do est&ocirc;mago.<\/p>\n<p>Chegou assim ao largo da igreja da freguesia, e atravessou-o por diante da<br \/>\n    resid&ecirc;ncia do reitor. Deitou de soslaio os olhos para as janelas da<br \/>\n    casa paroquial, e, como as visse fechada, picou a &eacute;gua, para ver se<br \/>\n    escapava sem vir &agrave; fala, e evitava novo empecilhos.<\/p>\n<p>N&atilde;o conseguiu, por&eacute;m , o seu intento.<\/p>\n<p>Uma das vidra&ccedil;as correu-se repentinamente e o reitor apareceu &agrave;<br \/>\n    janela, animado de sorrisos, e com um guardanapo na m&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Jo&atilde;o Semana! &Oacute; homem! &Oacute; velhote! Pschiu!<br \/>\n    &#8211; bradava ele.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana foi obrigado a voltar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Espera; fala &agrave; gente.<\/p>\n<p>&#8212; Vou com pressa.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o andas por fora com um calor desses? Isso &eacute; criar<br \/>\n    malignas, homem.<\/p>\n<p>&#8212; Que queres tu, abade? Meu pai caiu na patetice de me arranjar este<br \/>\n    modo de vida. Se lhe tivesse dado na mania fazer-me padre, outro galo me cantara.<\/p>\n<p>&#8212; Cuidas ent&atilde;o que n&atilde;o tenho canseiras.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, d&atilde;o-te muito que fazer as tuas ovelhas; estou vendo.<\/p>\n<p>&#8212;E n&atilde;o d&atilde;o pouco.<\/p>\n<p>&#8212; S&oacute; a card&aacute;-las com as c&ocirc;ngruas e derramas! Por<br \/>\n    isso est&aacute;s magro. Para vos sustentar suamos n&oacute;s outros.<\/p>\n<p>O reitor sorria sem a menor sombra de ofensa.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos a saber: queres provar meu arroz?<\/p>\n<p>&#8212; Eu? J&aacute; n&atilde;o tenho est&ocirc;mago criado para comidas<br \/>\n    de padres. Padre, abade e egresso de mais a mais! Safa! Morria de indigest&atilde;o<br \/>\n    esta noite.<\/p>\n<p>&#8212; Anda l&aacute;, anda l&aacute;; ainda n&atilde;o perdoaste aos frades.<br \/>\n    Morres impenitente.<\/p>\n<p>&#8212; Como queres tu que eu lhes perdoe o terem gozado sem mim aquela santa<br \/>\n    vida de convento?<\/p>\n<p>&#8212; Santa sim; por&eacute;m sem mortifica&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Decerto que n&atilde;o. Os melhores cozinheiros t&ecirc;m &agrave;s<br \/>\n    vezes os seus descuidos, e os paladares de V.Rev.mas, l&aacute; de quando<br \/>\n    em quando, aturam o esturro no arroz, sal de mais na sopa, pimenta de menos<br \/>\n    no guisado, ou outra coisa assim, l&aacute; isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Valha-te n&atilde;o sei que diga. A vida &eacute; para ti, homem,<br \/>\n    que, com oitenta, est&aacute;s fero e robusto, e levas jeito de assistir ao<br \/>\n    nascimento do s&eacute;culo vinte.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; para veres que f&ecirc;veras eu sou. Se tivesse a tua vida<br \/>\n    viveria como No&eacute;. Mas tu est&aacute;s a palanque e &agrave; fresca<br \/>\n    e eu aqui estatelado a dar-lhe trela. Adeus, meu amigo.<\/p>\n<p>&#8212; Olha c&aacute;, espera, homem. Ent&atilde;o nem um c&aacute;lice<br \/>\n    do meu bastardo, hein? Olha que &eacute; do que tu gostas.<\/p>\n<p>&#8212; Prefiro uma garrafa em minha casa.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; franco no pedir &eacute;s tu! Mas do que ningu&eacute;m<br \/>\n    se gaba &eacute; de saber o gosto do teu moscatel.<\/p>\n<p>&#8212; Querias talvez que eu te mandasse um presente de vinho? Era o que<br \/>\n    me faltava! Presentes de vinho! E a um frade!&#8230;<\/p>\n<p>E dizendo isto, p&ocirc;s-se a caminho, achando-se, dentro em pouco, a dist&acirc;ncia<br \/>\n    j&aacute; consider&aacute;vel das resid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>De repente, como se lhe ocorresse uma lembran&ccedil;a cuja comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o podia sofrer demoras, voltou de novo atr&aacute;s, e elevando a<br \/>\n    voz:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; abade, tu n&atilde;o sabes a hist&oacute;ria daquele frade<br \/>\n    franciscano que?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, n&atilde;o; ora conta l&aacute;, Jo&atilde;o Semana,<br \/>\n    conta &#8211; disse o reitor, debru&ccedil;ando-se no peitoril da janela, e j&aacute;<br \/>\n    com aspecto risonho.<\/p>\n<p>&#8212; Havia l&aacute; no convento &#8211; principiou Jo&atilde;o Semana &#8211; uma<br \/>\n    pintura muito grande representando a ceia de Cristo; e era pintura a que mais<br \/>\n    atra&iacute;a as medita&ccedil;&otilde;es piedosas do tal reverendo, o qual,<br \/>\n    de olhos fitos naquele quadro, passava horas e horas esquecido de tudo o mais.<br \/>\n    Outro farde, que tinha notado isto, n&atilde;o p&ocirc;de ter m&atilde;o em<br \/>\n    si que lhe n&atilde;o perguntasse com aquela voz de lam&uacute;ria de franciscano<br \/>\n    manhoso: &quot;Em que pensais v&oacute;s, irm&atilde;o, quando com tanta aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    olhais para este quadro?&quot; &quot;Nos tormentos que por n&oacute;s padeceu<br \/>\n    o Salvador&quot; &#8211; respondeu o tal. &quot;E longos foram na verdade!&quot;<br \/>\n    &#8211; continuou o primeiro. &quot;Mas por que esta pintura mais do que as outras,<br \/>\n    vos traz t&atilde;o santas id&eacute;ias? N&atilde;o tendes na sacristia a<br \/>\n    do Descimento da Cruz e aquela do Senhor preso &agrave; coluna?&quot; &quot;&Eacute;<br \/>\n    verdade, irm&atilde;o,! &#8211; diz-lhe ent&atilde;o o franciscano com cara de mortifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; &quot;&eacute; verdade, mas olhai que n&atilde;o menor tormento era este<br \/>\n    de ter doze pessoas &agrave; mesa, e t&atilde;o pouco de comer em cima dela&quot;.<\/p>\n<p>E Jo&atilde;o Semana, dizendo isto, ro&ccedil;ou as esporas pela barriga<br \/>\n    da &eacute;gua, e partiu, acompanhado de uma grande gargalhada do reitor,<br \/>\n    que era perdido por as anedotas de Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>&#8212; Onde diabo vai este homem buscar estas coisas? &#8211; dizia o reitor chorando<br \/>\n    de tanto que se riu.<\/p>\n<p>E Jo&atilde;o Semana ia quase a dobrar a esquina quando de novo o suspendeu<br \/>\n    a voz do padre, bradando-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Jo&atilde;o Semana, olha l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;? &#8211; respondeu o facultativo, j&aacute; com certo mau<br \/>\n    humor &#8211; Tu queres que eu fique hoje sem jantar?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; s&oacute; uma pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; Dize.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabes que chegou ontem o Danielzinho do Dornas?<\/p>\n<p>&#8212; Como n&atilde;o sei? Pois n&atilde;o estive eu j&aacute; com ele?<\/p>\n<p>&#8212; Ah, sim? E ent&atilde;o que te perece o homem?<\/p>\n<p>&#8212; Que me h&aacute; de parecer? Bem. &#8211; e depois acrescentou: &#8211; Bem e<br \/>\n    mal.<\/p>\n<p>&#8212; Como &eacute; isso? Bem e mal?<\/p>\n<p>&#8212; Sim , o rapaz &eacute;eacute; talentoso, e nas cidades talvez fizesse figura;<br \/>\n    para aqui n&atilde;o serve.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Jo&atilde;o Semana!&#8230; Ci&uacute;mes&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s doido? Tomara eu que ele me descarregasse de parte desta<br \/>\n    tarefa, mas&#8230; dize-me l&aacute; tu se aquele corpo franzino, aquela pele<br \/>\n    de mulher pode aturar metade, a quarta parte, a d&eacute;cima parte do que<br \/>\n    eu tenho aturado.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; isso.<\/p>\n<p>E dizendo isto, sempre conseguiu dobrar a esquina.<\/p>\n<p>O reitor fechou a janela e foi jantar. Sentado &agrave; mesa ainda sorria<br \/>\n    de quando em quando, repetindo &agrave; meia voz:<\/p>\n<p>&#8212; Doze pessoas &agrave; mesa, e t&atilde;o pouco de comer em cima dela!<br \/>\n    Ora o diabo do homem&#8230; <\/p>\n<h4><a name=\"18\">Cap&iacute;tulo XVIII<\/a><\/h4>\n<p>\n    Enfim, chegou Jo&atilde;o Semana ao lugar, onde se erguiam os seus solares.<\/p>\n<p>A &eacute;gua saudou a apari&ccedil;&atilde;o dos telhados dom&eacute;sticos<br \/>\n    com a mais melodiosa das suas emiss&otilde;es de voz.<\/p>\n<p>O pr&oacute;prio Jo&atilde;o Semana n&atilde;o foi insens&iacute;vel &agrave;<br \/>\n    perspectiva, que o dobrar do &uacute;ltimo cotovelo de uma rua tortuosa lhe<br \/>\n    patenteou, porque o seu est&ocirc;mago tinha tamb&eacute;m necessidades que,<br \/>\n    como todos os outros, manifestava. Ao aproximar-se, recebeu, por&eacute;m,<br \/>\n    uma desagrad&aacute;vel impress&atilde;o.<\/p>\n<p>Avistou encostado &agrave; porta da casa o criado de uma freguesa sua, o<br \/>\n    qual provavelmente vinha requisitar-lhe a assist&ecirc;ncia e talvez com toda<br \/>\n    pressa. Tais estorvos, &agrave; hora do jantar, eram da maior impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    para Jo&atilde;o Semana. Doente que lhe quisesse fazer a vontade, n&atilde;o<br \/>\n    devia adoecer a hora t&atilde;o cr&iacute;tica.<\/p>\n<p>O seu pressentimento saiu verdadeiro. Ainda ele se n&atilde;o desmontara,<br \/>\n    e j&aacute; o criado que o esperava, lhe dizia, com grande impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    do facultativo:<\/p>\n<p>&#8212; A Sr.&ordf; D. Leoc&aacute;dia mandou-me esperar por V.S.&ordf; para<br \/>\n    lhe pedir o favor de ir, logo que chegasse, &agrave; casa dela.<\/p>\n<p>&#8212; Quem est&aacute; l&aacute; doente?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei dizer a V.S.&ordf;<\/p>\n<p>&#8212; Pelo costume &eacute; toda a gente. Todos se queixam, pelo menos,<br \/>\n    quando eu l&aacute; vou. E&#8230; vamos a saber, e &eacute; de pressa?<\/p>\n<p>&#8212; Julgo que sim, senhor, visto que me mandaram esperar.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o tira. Seria para se verem livres de ti, e parece-me<br \/>\n    que t&ecirc;m raz&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, isso &eacute; gra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; gra&ccedil;a, &eacute;, mas&#8230; Vamos l&aacute; ver o que<br \/>\n    me quer a Sr.&ordf; D. Leoc&aacute;dia. A falar a verdade&#8230; a esta hora&#8230;<br \/>\n    Valha-me Deus, valha. &#8211; E voltando-se para o criado pequeno, que viera ajud&aacute;-lo<br \/>\n    a desmontar, continuou suspirando:<\/p>\n<p>&#8212; Deixa estar, Miguel, deixa estar. Eu&#8230;como assim, n&atilde;o me<br \/>\n    desmonto. Torno a sair.<\/p>\n<p>Mal acabara de dizer estas palavras, correu-se uma vidra&ccedil;a do andar<br \/>\n    superior, e a cabe&ccedil;a de uma velha criada, convenientemente armada de<br \/>\n    largo pente de tartaruga, assomou &agrave; janela. esta apari&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    foi logo seguida das seguintes palavras, muito a&ccedil;ucaradas:<\/p>\n<p>&#8212; Ouviu, Sr. Jo&atilde;o Semana? N&atilde;o v&aacute;, sem primeiro<br \/>\n    subir.<\/p>\n<p>&#8212; Pois que h&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Tenho que lhe dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Diga ent&atilde;o da&iacute;.<\/p>\n<p>&#8212;Ora essa! N&atilde;o &eacute; maneira de falar a que diz. Suba, se<br \/>\n    faz favor, suba primeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Mas essa senhora que espera?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um instante s&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Valha-a Deus! &#8211; disse Jo&atilde;o Semana, apeando-se e preparando-se<br \/>\n    para obedecer &agrave; criada. J&aacute; do portal, voltou-se para o mensageiro<br \/>\n    do recado, dizendo-lhe: &#8211; Espere um bocadinho, que eu vou j&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, nada &#8211; acudiu de cima a criada &#8211; Pode estar fazendo falta &agrave;s<br \/>\n    senhoras. &Eacute; melhor ir, que o Sr. Jo&atilde;o Semana vai j&aacute; tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; &#8211; quis objetar o criado.<\/p>\n<p>&#8212;V&aacute;, v&aacute;. Basta o tempo que se demorou j&aacute; aqui,<br \/>\n    e sem precis&atilde;o, porque eu c&aacute; daria o recado. Diga em casa que<br \/>\n    j&aacute; o Sr. Jo&atilde;o est&aacute; l&aacute; num momento.<\/p>\n<p>Isto foi dito com certo tom intimativo, ao qual o criado, habituado a obedecer,<br \/>\n    n&atilde;o p&ocirc;de resistir. Partiu.<\/p>\n<p>Logo em seguida, a expedita velha disse, em tom mais baixo, mas n&atilde;o<br \/>\n    menos imperioso, para o rapaz, que ficou a segurar as r&eacute;deas da &eacute;gua:<\/p>\n<p>&#8212; Miguel, avia-te, meu pasmado; mete essa cavalgadura na cavalari&ccedil;a,<br \/>\n    e anda por cima.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o patr&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Anda, papalvo, faze o que eu te digo.<\/p>\n<p>E Miguel assim o fez.<\/p>\n<p>Quando Jo&atilde;o Semana entrou na sala, onde era esperado pela criada,<br \/>\n    e ia perguntar a not&iacute;cia prometida, ficou surpreendido, achando a mesa<br \/>\n    posta e uma enorme malga de sopa, exalando odor&iacute;feros e apetitosos<br \/>\n    vapores.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; isto? Que foi fazer? &#8211; disse o velho cirurgi&atilde;o,<br \/>\n    olhando para a criada, a qual procedia azafamada aos mais preparativos para<br \/>\n    o jantar. &#8211; Ent&atilde;o tirou a sopa, e eu tenho de sair ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Que sair? que sair? Era o que faltava. N&atilde;o basta o calor que<br \/>\n    tem apanhado j&aacute;? Ande l&aacute;, ande l&aacute;, que, enquanto n&atilde;o<br \/>\n    cair deveras doente, n&atilde;o h&aacute; de escarmentar, j&aacute; vejo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, mulher, n&atilde;o viu o que eu disse &agrave;quele criado?<\/p>\n<p>&#8212; Deixe l&aacute;. Daqui at&eacute; a casa tem ele de parar em mais<br \/>\n    de quatro tabernas e de se demorar meia hora em cada uma, pelo menos. Ver&aacute;<br \/>\n    que h&aacute; de ainda chegar primeiro do que ele. Vamos, vamos. &Eacute;<br \/>\n    jantar.<\/p>\n<p>&#8212; Se eu nem mandei desaparelhar a &eacute;gua!<\/p>\n<p>&#8212; Algu&eacute;m teve esse cuidado. Ande, que o caldo arrefece.<\/p>\n<p>&#8212; E aquelas senhoras que tem pressa?<\/p>\n<p>&#8212; Ora adeus! Ainda n&atilde;o conheces aquela gente? Fervem em pouca<br \/>\n    &aacute;gua. Sempre assim foram. Afinal ver&aacute; que h&aacute; de passar<br \/>\n    de alguma enxaqueca de D. Leoc&aacute;dia, algum flato de pequena, ou uma<br \/>\n    indigest&atilde;o do procurador; e ainda acredita naquilo!<\/p>\n<p>Evidentemente Jo&atilde;o Semana ia-se deixando convencer. Aproximara-se<br \/>\n    pouco a pouco da cadeira, hesitando ainda na apar&ecirc;ncia, mas no &iacute;ntimo<br \/>\n    resolvido j&aacute;.<\/p>\n<p>Ia enfim a sentar-se, quando a criada o interpelou de novo, exclamando:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que &eacute; isso? Assim mesmo como est&aacute;? Nem<br \/>\n    muda e fato?<\/p>\n<p>&#8212; Para qu&ecirc;?&#8230; N&atilde;o estou com tantos vagares&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, ent&atilde;o, se &eacute; para comer de afogadilho, mais<br \/>\n    vale fazer primeiro a visita. Assim nem lhe presta o que come. Eu guardo o<br \/>\n    jantar ent&atilde;o, visto isso.<\/p>\n<p>Joana &#8211; era o nome a criada &#8211; bem sabia que tal proposta n&atilde;o podia<br \/>\n    j&aacute; ser recebida por Jo&atilde;o Semana, cujo apetite se irritara com<br \/>\n    as exala&ccedil;&otilde;es da sopa; foi a raz&atilde;o pela qual ela se mostrou<br \/>\n    t&atilde;o pronta em reunir a a&ccedil;&atilde;o &agrave;s palavras, retirando<br \/>\n    da mesa o servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>O &ecirc;xito desta t&aacute;tica foi completo.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana impediu-a, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Deixe ficar, j&aacute; agora deixe ficar. Tamb&eacute;m para me vestir<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; preciso muito tempo.<\/p>\n<p>E, depois destas palavras, descal&ccedil;ou-se, enfim, os p&eacute;s em uma<br \/>\n    chinelas, que tinham sido botas, p&ocirc;s-se sem cerim&ocirc;nia em mangas<br \/>\n    de camisa, sentou-se &agrave; mesa, e rompeu um ataque em forma contra a volumosa<br \/>\n    e apetrechada tigela, que tinha defronte de si.<\/p>\n<p>A cozinha de Jo&atilde;o Semana era de um car&aacute;ter portugues&iacute;ssimo,<br \/>\n    e eu, ainda que me valha a confiss&atilde;o os desagrados de alguma leitora<br \/>\n    elegante, francamente declaro aqui que, para mim, a cozinha portuguesa &eacute;<br \/>\n    das melhores cozinhas do mundo.<\/p>\n<p>Dou raz&atilde;o nisto a Jo&atilde;o semana.<\/p>\n<p>As combina&ccedil;&otilde;es extravagantes das cozinhas estrangeiras &#8211; galicismos<br \/>\n    culin&aacute;rios, por exemplo &#8211; repugnavam-lhe tanto ao est&ocirc;mago, como<br \/>\n    aos ouvidos, mais pechosamente sens&iacute;veis dos nossos severos puritanos,<br \/>\n    a outra qualidade de galicismos.<\/p>\n<p>Queria-se ele com a carne de porco bem assada e o arroz do forno a&ccedil;afroado<br \/>\n    &#8211; esses dois importantes elementos de gozo para os paladares portugueses;<br \/>\n    queria-se com o prato cl&aacute;ssico da orelheira de porco, e at&eacute;<br \/>\n    com aquele outro prato t&atilde;o casti&ccedil;o como qualquer per&iacute;odo<br \/>\n    de Fr. Lu&iacute;s de Souza &#8211; prato que valeu aos portuenses um ep&iacute;teto<br \/>\n    gloriosamente burlesco; queria-se com todas estas iguarias, quase desterradas<br \/>\n    das mesas modernas, de prefer&ecirc;ncia aos manjares ex&oacute;ticos, cuja<br \/>\n    nomenclatura tem a propriedade de fazer ignorar ao conviva o que lhe d&atilde;o<br \/>\n    a comer.<\/p>\n<p>Por isso, Jo&atilde;o Semana, nas raras vezes que vinha ao Porto, era fregu&ecirc;s<br \/>\n    certo das mesas do Rainha, as &uacute;nicas que mant&ecirc;m, sem mescla de<br \/>\n    estrangeirices, as velhas tradi&ccedil;&otilde;es nacionais.<\/p>\n<p>Em Portugal, terra de lhaneza um tanto rude, mas n&atilde;o afetada, o dono<br \/>\n    da casa n&atilde;o costumava dantes experimentar a imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos seus convivas com enigmas culin&aacute;rios.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia c&aacute; a usan&ccedil;a de se dar a qualquer pastel ou<br \/>\n    empada o nome de um general do ex&eacute;rcito; a qualquer a&ccedil;orda o<br \/>\n    de um ministro c&eacute;lebre; a qualquer doce balofo e ins&iacute;pido o<br \/>\n    de um poeta da moda.<\/p>\n<p>Este costume, gra&ccedil;as ao qual parece que os modernos Vat&eacute;is<br \/>\n    misturam &agrave;s vezes aos ingredientes dos seus tachos e ca&ccedil;arolas<br \/>\n    um pouco de sal da s&aacute;tira, era desconhecido entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Menos espirituosa, por&eacute;m mais filos&oacute;fica do que a nomenclatura<br \/>\n    culin&aacute;ria da moda, a nossa, a tradicional, realizava o desideratum<br \/>\n    a que todas as nomenclaturas aspiram &#8211; o de valerem por defini&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Se um conviva tinha a curiosidade de perguntar ao seu Anfitri&atilde;o o<br \/>\n    que continha este ou aquele prato, uma s&oacute; resposta o satisfazia; era<br \/>\n    um frango guisado, um peru recheado, uma l&iacute;ngua de vaca afogada&#8230;<br \/>\n    coisas que toda a gente entendia logo. Hoje, a primeira resposta &eacute;<br \/>\n    um nome franc&ecirc;s b&aacute;rbaro, absurdo, que, contra as promessas da<br \/>\n    gram&aacute;tica, n&atilde;o d&aacute; a conhecer a coisa, nem as suas propriedades;<br \/>\n    e por isso uma segunda pergunta &eacute; inevit&aacute;vel; a n&atilde;o querer<br \/>\n    cada qual resignar-se a comer o que n&atilde;o sabe o que &eacute; &#8211; tormento<br \/>\n    insuport&aacute;vel.<\/p>\n<p>Hoje, &eacute;poca de programas, inventaram-se os programas dos jantares<br \/>\n    &agrave; imita&ccedil;&atilde;o dos dos concertos, dos deputados e dos ministros.<br \/>\n    Com oito dias de antecipa&ccedil;&atilde;o publica-se o elenco de um banquete,<br \/>\n    para que cada qual procure decifrar o que vai comer, e estude a maneira como<br \/>\n    se come.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana &eacute; que nisto, como em tudo mais, n&atilde;o queria<br \/>\n    saber de modas.<\/p>\n<p>E sen&atilde;o vejam-no desta vez esgotar a tigela avolumada de substancial<br \/>\n    caldo de ab&oacute;bora, aviar a formid&aacute;vel posta de carne cozida,<br \/>\n    com presunto, acompanhando-a com o indispens&aacute;vel arroz, salada de alface<br \/>\n    e azeitonas; atacar com igual denodo, uma por&ccedil;&atilde;o de roast-beef,<br \/>\n    n&atilde;o revendo sangue sob a faca, &agrave; moda inglesa, mas portuguesmente<br \/>\n    assado, e como estou convencido assavam os seus carneiros aqueles her&oacute;is<br \/>\n    da Il&iacute;ada; tudo isto acompanhado de excelente vinho palhete, o qual<br \/>\n    ele ingeria aos copos de meio quartilho; em seguida uma carrega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de p&ecirc;ras de amorim, sem conta peso, nem medida&#8230;<\/p>\n<p>Durante o jantar n&atilde;o estivera calado Jo&atilde;o Santana.<\/p>\n<p>Cada prato sustentara-lhe uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica, um discurso<br \/>\n    laudat&oacute;rio, ou um anedota, que fazia rebentar de riso a Sr.&ordf; Joana.<\/p>\n<p>Ao descobrir o prato de carne assada, exclamou Jo&atilde;o Semana em tom<br \/>\n    de satisfa&ccedil;&atilde;o manifesta:<\/p>\n<p>&#8212; Que tenta&ccedil;&atilde;o me desperta este terceiro inimigo da alma!<\/p>\n<p>A criada riu-se, mas observou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga isso; Santo Ant&ocirc;nio?<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? Ent&atilde;o voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que disse<br \/>\n    aquele frade, quando estavam a jantar? Nos conventos era costume, enquanto<br \/>\n    se comia&#8230; &#8211; &Oacute; Joana, deixe-me ver esse lim&atilde;o &#8211; ocupar-se algum<br \/>\n    frade com leituras devotas . &#8211; E v&aacute;-me deitando a&iacute; mais vinho.<br \/>\n    &#8211; Um dia, a comunidade escutava um desses reverendo&#8230; &#8211; O diabo desta faca<br \/>\n    n&atilde;o corta nada&#8230; &#8211; um serm&atilde;o sobre os perigos aos quais os<br \/>\n    viventes andam sujeitos, neste vale de l&aacute;grimas. &#8211; Olhe, chegue para<br \/>\n    aqui essas azeitonas. &#8211; Vede, irm&atilde;o, dizia o tal frade&#8230; &#8211; Este ano<br \/>\n    as batatas n&atilde;o foram grande coisa&#8230; &#8211; vede como &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    fugirmos &agrave;s tenta&ccedil;&otilde;es dos tr&ecirc;s grandes inimigos<br \/>\n    da alma. &#8211; &Oacute; Joana, o padeiro est&aacute; servindo mal: n&atilde;o<br \/>\n    tem sen&atilde;o c&ocirc;dea o p&atilde;o. &#8211; O mundo e seus encantos perigosos;<br \/>\n    o diabo e seus poderes mal&eacute;ficos, e a carne, ai meus irm&atilde;os&#8230;<br \/>\n    e a carne e as suas tenta&ccedil;&otilde;es m&aacute;gicas. &#8211; Chegando a este<br \/>\n    ponto, o frade pousa o livro, suspira, estende o prato ao seu vizinho fronteiro,<br \/>\n    dizendo: &quot;T&atilde;o fortes s&atilde;o, que nem lhes resisto eu, pobre<br \/>\n    pecador; uma posta desse terceiro inimigo, que t&atilde;o bem assado est&aacute;&quot;.<\/p>\n<p>Gargalhada da criada, e vit&oacute;ria formal de Jo&atilde;o Semana sobre<br \/>\n    o inimigo em quest&atilde;o.<\/p>\n<p>&Agrave; sobremesa o mesmo sistema. A p&ecirc;ra de amorim atraiu um elogio<br \/>\n    do facultativo e mereceu as honras de um caso.<\/p>\n<p>&#8212; Excelente fruta! disse Jo&atilde;o Semana, ao comer a duod&eacute;cima.<br \/>\n    Tinha raz&atilde;o aquele frade, que do p&uacute;lpito dizia: &quot;&Oacute;<br \/>\n    meus amados ouvintes, que miser&aacute;vel &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana! Vede como a desgra&ccedil;a do mundo veio de uma m&aacute; tenta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Eva perdeu-nos por uma ma&ccedil;&atilde;! Se ao menos fosse por uma p&ecirc;ra,<br \/>\n    meus fi&eacute;is ouvintes, ainda se poderia desculpar, mas por uma ma&ccedil;&atilde;!&quot;<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Essa &eacute; sua, Sr. Jo&atilde;o Semana &#8211; disse Joana rindo.<br \/>\n    &#8211; O frade havia de dizer semelhante coisa! Pois olhe, aqui est&aacute; quem<br \/>\n    se perderia mais depressa por uma ma&ccedil;&atilde;, &#8211; acrescentou ela, pouco<br \/>\n    depois, e preparando o caf&eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Bem! &#8211; disse Jo&atilde;o Semana, ao concluir a sua refei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Estou como um abade! O pior &eacute; ter agora de sair para ir visitar a<br \/>\n    Sr.&ordf; Leoc&aacute;dia.<\/p>\n<p>&#8212; Sair, j&aacute;! Isso tem tempo &#8211; acudiu a criada.<\/p>\n<p>&#8212; Como? Pois ainda havia de as fazer esperar mais?<\/p>\n<p>&#8212; Descanse ao menos um bocado. Est&aacute; costumado a passar pelo<br \/>\n    sono, e, se o n&atilde;o faz, fica doente para todo dia.<\/p>\n<p>&#8212; Que rem&eacute;dio sen&atilde;o ter paci&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um bocadito mais.<\/p>\n<p>&#8212;Nada, nada, n&atilde;o pode ser. Vou sair j&aacute; &#8211; insistiu Jo&atilde;o<br \/>\n    Semana, procurando por&eacute;m uma posi&ccedil;&atilde;o mais c&ocirc;moda,<br \/>\n    com grave risco da resolu&ccedil;&atilde;o que exprimia. Joana percebeu este<br \/>\n    movimento e previu o que sucederia, se conseguisse entreter o amo cinco minutos<br \/>\n    mais. N&atilde;o hesitou.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda se fosse para outra parte, n&atilde;o digo que n&atilde;o;<br \/>\n    mas para casa da D. Leoc&aacute;dia!&#8230; Eu j&aacute; sei o que querem dizer<br \/>\n    aquelas pressas. A D. Leoc&aacute;dia esta manh&atilde;, provavelmente, abriu<br \/>\n    a boca tr&ecirc;s vezes ou espirrou duas, e por isso imagina j&aacute; que<br \/>\n    est&aacute; a morrer. Louvado seja Deus, nunca vi quem tenha mais medo de<br \/>\n    adoecer; uma coisa assim! N&atilde;o &eacute; senhora de meter um bocado de<br \/>\n    p&atilde;o na boca, sem perguntar ao cirurgi&atilde;o se lhe poder&aacute;<br \/>\n    fazer mal. Pois n&atilde;o se lembra daquela vez que o mandou chamar, porque<br \/>\n    tinha deixado de noite, por esquecimento, uma a&ccedil;ucena no quarto e pela<br \/>\n    manh&atilde; julgou que estava envenenada?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade &#8211; dizia Jo&atilde;o Semana, fechando os olhos e<br \/>\n    bocejando. &#8211; N&atilde;o era a&ccedil;ucena, era uma bela&#8230; h&aacute;! h&aacute;!<br \/>\n    h&aacute;!&#8230; &#8211; isto foi um bocejo que o interrompeu, e com voz j&aacute;<br \/>\n    mal percebida concluiu depois: &#8211; era uma beladona.<\/p>\n<p>&#8212; Ou isso.<\/p>\n<p>Joana, espiando como m&eacute;dico atento, estes sintomas, prosseguiu.<\/p>\n<p>&#8212; Esta gente parece de vidro. A filozinha da pequena &eacute; outra<br \/>\n    que tal. &Eacute; uma pena que tal. &Eacute; uma pena, que qualquer ventinho<br \/>\n    leva. E dizem bonita aquilo! L&aacute; na minha terra chamava-se bonito quem<br \/>\n    era sadio e tinha boas cores.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; est&aacute; agora como&#8230; aquele frade que,&#8230; &#8211; tentou<br \/>\n    dizer Jo&atilde;o Semana mas n&atilde;o concluiu. Tomou-o sono profundo, denunciado<br \/>\n    dentro em de pouco tempo, por um ruidoso ressonar. Joana escutando-o, aproximou-se<br \/>\n    nos bicos dos p&eacute;s, examinou-lhes os olhos, e vendo-os cerrados, sorriu,<br \/>\n    e dizendo a meia voz:<\/p>\n<p>&#8212; Sempre caiu! Agora tem para uma hora pelo menos. E fechando as janelas,<br \/>\n    deixou o amo ressonando na mesma cadeira de bra&ccedil;os que adormecera.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"19\"> Cap&iacute;tulo XIX<\/a><\/h4>\n<p> Quando a Sr.&ordf; Joana chegou &agrave; sala imediata, achou-se na presen&ccedil;a<br \/>\n    de uma visita inesperada. Era Daniel, que de bra&ccedil;os abertos, caminhou<br \/>\n    para ela, chamando-lhe &quot;a sua boa Joana&quot;.<\/p>\n<p>Por muito tempo fora Daniel o querido da velha criada do cirurgi&atilde;o,<br \/>\n    a qual n&atilde;o se cansava de apregoar por toda a parte que n&atilde;o havia<br \/>\n    a&iacute; menino de rosto mais galante e de modos mais bonitos, do que o filho<br \/>\n    mais novo de Jos&eacute; das Dornas. Quando a idade veio imprimir cunho mais<br \/>\n    varonil &agrave;quela beleza, Joana, como mulher que era afinal, n&atilde;o<br \/>\n    foi insens&iacute;vel &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o do tipo masculino que<br \/>\n    tantas aten&ccedil;&otilde;es tinha j&aacute; merecido ao seu afei&ccedil;oado,<br \/>\n    durante a vida de cidade.<\/p>\n<p>Ultimamente, por&eacute;m, um pequeno azedume de m&aacute; vontade viera<br \/>\n    misturar-se &agrave; simpatia da boa mulher. Em Daniel via um futuro rival<br \/>\n    de Jo&atilde;o Semana, e a dedica&ccedil;&atilde;o fan&aacute;tica, que votava<br \/>\n    ao amo, n&atilde;o a deixava encarar desassombrada a probabilidade dessa luta<br \/>\n    e, sem algum despeito, o novo atleta, que aparecia na arena, de encontro ao<br \/>\n    velho colosso.<\/p>\n<p>Joana bem se fingia tranq&uuml;ila, dizendo &agrave;s suas conhecidas e comadres<br \/>\n    que enquanto Jo&atilde;o Semana fosse vivo, ningu&eacute;m havia de poder<br \/>\n    fazer-lhe sombra; mas l&aacute; no fundo, n&atilde;o estava muito satisfeita.<\/p>\n<p>Ainda assim &#8211; tal &eacute; o poder das antigas afei&ccedil;&otilde;es &#8211; ao<br \/>\n    ver Daniel vir para ela t&atilde;o abertamente am&aacute;vel, esqueceram-lhe<br \/>\n    todas as m&aacute;s preven&ccedil;&otilde;es, que contra ele tinha, e recebeu-o<br \/>\n    nos bra&ccedil;os com expans&atilde;o igual.<\/p>\n<p>&#8212; Jesus! que mocet&atilde;o! Ora quem h&aacute; de dizer que &eacute;<br \/>\n    este o menino a quem eu dava biscoitos, e que trepava, como um gato, pela<br \/>\n    pereira do quintal acima?! E ent&atilde;o como gostava daquelas p&ecirc;ras<br \/>\n    .<\/p>\n<p>&#8212; E quando o seu patr&atilde;o tinha uns quatro p&ecirc;ssegos muito<br \/>\n    grandes, que destinava para o vig&aacute;rio da vara, e eu lhos furtei, inventando<br \/>\n    depois n&oacute;s ambos uma hist&oacute;ria muito comprida de ratoneiros,<br \/>\n    a que n&atilde;o se deu pouco que fazer ao regedor.<\/p>\n<p>&#8212; Sempre foi uma, essa! E o vig&aacute;rio foi quem mais se zangou<br \/>\n    com a gra&ccedil;a. E daquela vez que o menino entornou o tinteiro por cima<br \/>\n    do livro dos assentos do Sr. Jos&eacute; Semana?<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, &eacute; verdade. Por sinal que voc&ecirc; depois lhe<br \/>\n    disse que foi o gato.<\/p>\n<p>&#8212; E, coitado, foi ele o que pagou. Levou uma sova mestra! O pobre bichano<br \/>\n    n&atilde;o podia imaginar por qu&ecirc;.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; prov&aacute;vel que ele n&atilde;o perdesse muito tempo<br \/>\n    a investigar a raz&atilde;o do fato. Foi bem mais razo&aacute;vel, fugindo.<\/p>\n<p>&#8212; O menino era um traquinas! Era uma coisa por maior.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de lembrar-me sempre com saudades, Joana, de quando se<br \/>\n    cozia o p&atilde;o em casa, e eu vinha ao sair da aula, buscar o bolo, que<br \/>\n    voc&ecirc; me guardava no forno. Lembra-se?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, como se fosse hoje. E daquela tarde em que o menino foi beber<br \/>\n    &aacute;gua fria logo por cima! O meu amo parecia que me matava.<\/p>\n<p>&#8212; Que bons tempos esses, Joana!<\/p>\n<p>&#8212; Se eram! Agora j&aacute; o menino n&atilde;o quer da nossa fruta,<br \/>\n    nem do nosso bolo. Quem sabe se no-lo comer&aacute; por outra forma?<\/p>\n<p>&#8212; Como?!<\/p>\n<p>&#8212; Recebendo algumas das medidas e aven&ccedil;as que, at&eacute; agora,<br \/>\n    eram s&oacute; do Sr. Jo&atilde;o Semana &#8211; disse a criada com ci&uacute;me<br \/>\n    renascente.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; doida, Joana? nem seu amo tem receios de que eu lhe fa&ccedil;a<br \/>\n    mal, nem eu vontade de lho fazer. Gra&ccedil;as a Deus, eu n&atilde;o preciso<br \/>\n    para comer de andar a furtar o p&atilde;o daqueles que tantas vezes e de t&atilde;o<br \/>\n    boa vontade mo oferecia. Para o ajudar, isso sim, estou pronto, que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; pouco pesada a cruz que ele traz.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;, n&atilde;o, menino! &#8211; exclamou, j&aacute; sensibilizada<br \/>\n    e reconciliada de todo com Daniel, a velha criada. E, suspirando, continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Aquilo &eacute; um negro de trabalho. A&iacute;, se ele faltasse<br \/>\n    o que seria dos pobres! Eu bem sei que o menino h&aacute; de fazer o que poder,<br \/>\n    que tem bom cora&ccedil;&atilde;o, isso tem; mas quem lhe deu as for&ccedil;as<br \/>\n    dele? Aquele corpo &eacute; de ferro. N&atilde;o faz id&eacute;ia. desde pela<br \/>\n    manh&atilde;, at&eacute; a noite, n&atilde;o tem aquele pobre de Cristo um<br \/>\n    momento de sossego.<\/p>\n<p>&#8212; Ele est&aacute; c&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; agora a passar pelo sono. E mais tinha um recado com<br \/>\n    pressa. Foi preciso usar de mal&iacute;cia para o fazer descansar.<\/p>\n<p>&#8212; Pois, Joana, eu vinha para agradecer-lhe a visita que me fez, mas<br \/>\n    deixe-o dormir.<\/p>\n<p>&#8212; Ele h&aacute; de gostar de o ver; que olhe que &eacute; muito seu<br \/>\n    amigo, Danielzinho. Ele tem aqueles modos assim secos, mas&#8230; Inda ontem aqui<br \/>\n    esteve a dizer que o menino h&aacute; de vir a ser cosa grande.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, agora j&aacute; n&atilde;o cres&ccedil;o mais.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! bem sabe o que eu quero dizer. Est&aacute; a rir.<\/p>\n<p>&#8212; Eu lhe digo, Joana. Eu que vim meter-me nesta terra, &eacute; porque<br \/>\n    tenho ambi&ccedil;&otilde;es. L&aacute; isso tenho. A si, digo-lhe baixinho,<br \/>\n    o meu grande desejo &eacute; vir a ser&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? &#8211; perguntou Joana, com curiosidade feminina.<\/p>\n<p>&#8212; Nada menos que regedor c&aacute; na aldeia.<\/p>\n<p>&#8212; Ora&#8230; fala s&eacute;rio?<\/p>\n<p>&#8212; Pois isso &eacute; coisa l&aacute; que se brinque?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o para que quer ser regedor?<\/p>\n<p>&#8212; E n&atilde;o &eacute; uma posi&ccedil;&atilde;o t&atilde;o bonita?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o lhe digo que n&atilde;o. Pois olhe, com o tempo isso n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute; dif&iacute;cil. O Sr. Jo&atilde;o Semana j&aacute; esteve para;<br \/>\n    ele &eacute; que n&atilde;o quis. Mas o que &eacute;, &eacute; que o menino<br \/>\n    est&aacute; aqui, est&aacute; casado.<\/p>\n<p>&#8212; Por que diz isso?<\/p>\n<p>&#8212; Ora! o pai h&aacute; de arranjar-lhe noiva rica.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o h&aacute; por c&aacute; muito desse g&ecirc;nero?<\/p>\n<p>&#8212; Se h&aacute;? Boa! Olhe; a&iacute; tem a filha do morgado da Cova<br \/>\n    do Frade, que &eacute; uma mo&ccedil;a bonita.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, muito bonita! Parece mesmo uma d&aacute;lia vermelha.<\/p>\n<p>&#8212; Que est&aacute; a dizer? &Eacute; uma rapariga escarolada e sadia.<\/p>\n<p>&#8212; L&aacute; escarolada ser&aacute;, e ent&atilde;o tem muito dinheiro?<\/p>\n<p>&#8212; Para cima de vinte mil cruzados.<\/p>\n<p>&#8212; Ih! que dinheir&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o acha pouco?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; claro. Mulher com menos de quarenta contos, Joana, n&atilde;o<br \/>\n    me serve.<\/p>\n<p>&#8212; Quarenta contos! Quanto &eacute; quarenta contos?<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o cem mil cruzados.<\/p>\n<p>&#8212; Credo! O que a&iacute; vai! Ent&atilde;o n&atilde;o casa decerto,<br \/>\n    tamb&eacute;m lhe digo.<\/p>\n<p>&#8212; Se a n&atilde;o encontrar c&aacute;, trago mulher da cidade. Olhe<br \/>\n    que s&atilde;o mais bonitas. Uma senhora, que saiba tocar piano, que saiba<br \/>\n    cantar, que ande &agrave; moda.<\/p>\n<p>&#8212; Sume-te! Sempre as tais modas! &Eacute; no que eles pensam. Ora que<br \/>\n    gra&ccedil;a acham &agrave;quelas coisas.<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc; n&atilde;o sabe o que diz, Joana. Inda hei de v&ecirc;-la<br \/>\n    andar &agrave; moda, a si tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; A mim?<\/p>\n<p>&#8212; A si, sim, minha senhora, e ent&atilde;o por que n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Alguma estar&aacute; nesse dia para suceder.<\/p>\n<p>&#8212; Mas olhe c&aacute;, Joana, e quando voc&ecirc; me vir passar de bra&ccedil;o<br \/>\n    dado com a minha senhora, ela com o vestido de seda a arrastar pelo ch&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Isso! Olhe que h&aacute; de ficar em bom estado. Passeie pelo tojo<br \/>\n    e ver&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Um p&eacute; muito pequenino; eu gosto dos p&eacute;s muito pequeninos,<br \/>\n    Joana.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m muito pequenos demais n&atilde;o servem para andar.<br \/>\n    Querem-se em termos.<\/p>\n<p>&#8212; Nada, quero-os muito pequeninos: e depois uma vozinha que mal se<br \/>\n    perceba.<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa! Ent&atilde;o n&atilde;o se h&aacute; de ouvir o que ela<br \/>\n    diz?<\/p>\n<p>&#8212; Voc&ecirc;s c&aacute; n&atilde;o tem nada disso.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o. O p&eacute; mais pequeno que eu conhe&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    &eacute; um da filha do Mateus, que teve, salvo seja, um raminho em crian&ccedil;a<br \/>\n    e ficou aleijadinha&#8230; e agora voz que n&atilde;o se perceba&#8230; olhe, tem<br \/>\n    a ti&#8217;Ana do regedor, que, desde que lhe caiu aquela constipa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no peito, ningu&eacute;m lhe entende a palavra.<\/p>\n<p>Neste ponto do di&aacute;logo, entrou Miguel, rapaz do servi&ccedil;o da<br \/>\n    casa, com um bilhete na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Sr.&ordf; Joana &#8211; disse ele- vieram entregar este bilhete para o<br \/>\n    patr&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Temos mais alguma impertin&ecirc;ncia. Est&aacute; bem, deixe ficar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que esperam pela resposta, Sr.&ordf; Joana.<\/p>\n<p>&#8212; Pois que esperem, Miguel. O patr&atilde;o est&aacute; a dormir, e<br \/>\n    eu n&atilde;o o vou agora acordar por causa disse. Do mando de quem vem?<\/p>\n<p>&#8212; Diz que das do Meadas.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, ent&atilde;o &eacute; a pedir por algum pobre. N&atilde;o<br \/>\n    fazem outra coisa as raparigas. T&ecirc;m vagar, destas fortunas &eacute;<br \/>\n    que nos aparecem. Mas a carta n&atilde;o vem fechada&#8230; &Oacute; menino, ent&atilde;o<br \/>\n    leia-a.<\/p>\n<p>&#8212; Por&eacute;m&#8230; &#8211; ia a observar Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tem d&uacute;vida, pode ler. Isto n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    de segredo.<\/p>\n<p>Obedecendo &agrave;s inst&acirc;ncias de Joana, Daniel abriu a carta e leu:<br \/>\n    &quot;Meu bom Sr. Jo&atilde;o Semana:<\/p>\n<p>&#8212; Isso! &#8211; anotou a criada &#8211; Fa&ccedil;am-lhe a boca doce.<\/p>\n<p>Daniel continuou lendo:<\/p>\n<p>&quot;O nosso pobre doente est&aacute; mal, muito mal. Corta o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;-lo padecer assim. Se n&atilde;o for poss&iacute;vel salv&aacute;-lo,<br \/>\n    ao menos que se n&atilde;o veja desamparado ao morre. &Eacute; t&atilde;o<br \/>\n    compadecido o seu cora&ccedil;&atilde;o, Sr. Jo&atilde;o Semana, abre-se t&atilde;o<br \/>\n    depressa &agrave; caridade, que me atrevo a pedir-lhe que venha ver este desgra&ccedil;ado.<br \/>\n    A consci&ecirc;ncia lho pagar&aacute;.<\/p>\n<p>Da sua respeitosa amiga<\/p>\n<p>Margarida<\/p>\n<p>&#8212; Bonitas palavras &#8211; disse Joana &#8211; n&atilde;o tem d&uacute;vida nenhuma;<br \/>\n    o pior &eacute; que n&atilde;o se aduba o caldo com elas.<\/p>\n<p>&#8212; De quem &eacute; esta carta? &#8211; perguntou Daniel. &#8211; Eu j&aacute; ouvi<br \/>\n    este nome de &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olhem, quem o pergunta? Pois de quem &eacute; ela, homem de Deus,<br \/>\n    sen&atilde;o da irm&atilde; de sua cunhada, da que h&aacute; de ser?<\/p>\n<p>&#8212; Ah! bem me parecia. Mas&#8230; da irm&atilde;! e ela escreve assim? &#8211;<br \/>\n    continuou Daniel, admirado da boa ortografia e singeleza de frase da carta<br \/>\n    que tinha ainda na m&atilde;o, e para a qual tornou a olhar.<\/p>\n<p>&#8212; Pois que julga que &eacute; essa rapariga? Bem digo eu que o menino<br \/>\n    j&aacute; se esqueceu de todo da sua terra. Ent&atilde;o saiba que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; a&iacute; quem se ponha ao lado de Margarida, em falar e escrever.<br \/>\n    Esse homem por quem elas pedem&#8230; &#8211; e, interrompendo-se &#8211; &Eacute; verdade,<br \/>\n    &oacute; Miguel &#8211; disse para o criado &#8211; vai dizer que ficou entregue, anda.<\/p>\n<p>Depois do Miguel se retirar, Joana continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Esse homem por quem pede, foi mestre delas. Pelos modos era pessoa<br \/>\n    que teve do seu; mas hoje est&aacute; quase a pedir. Para a&iacute; veio,<br \/>\n    e a&iacute; tem vivido. As raparigas do Meadas, que s&atilde;o dois cora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de anjos &#8211; l&aacute; isso s&atilde;o &#8211; t&ecirc;m-no socorrido sempre. Coitadas!<br \/>\n    N&atilde;o, eu devo dizer o que &eacute; verdade, o seu Pedro leva uma mulher<br \/>\n    como se quer; mas olhe, quem levar a Margarida, n&atilde;o vai mais mal servido.<br \/>\n    Este pobre homem tem-lhe ensinado, em paga, a ler e a escrever, que &eacute;<br \/>\n    um primor, segundo dizem. A Margarida principalmente; porque pelos modos,<br \/>\n    a Clarita tem menos paci&ecirc;ncia . Mas, a Margarida?&#8230; at&eacute; c&aacute;<br \/>\n    o Sr. Jo&atilde;o Semana o diz, pode-se ouvir. Agora at&eacute; ela d&aacute;<br \/>\n    li&ccedil;&atilde;o em casa. N&atilde;o sabia? Pois d&aacute;. Ora, o tal<br \/>\n    pobre de Cristo est&aacute; a morrer, e, segundo diz o patr&atilde;o, n&atilde;o<br \/>\n    deita o m&ecirc;s fora. As raparigas ent&atilde;o, credo! Isso &eacute; um<br \/>\n    cuidado por a&iacute; al&eacute;m, nem que fossem filhas. Mas o que eu n&atilde;o<br \/>\n    sei &eacute; se o Sr. Jo&atilde;o l&aacute; ir&aacute; hoje. Fica-lhe t&atilde;o<br \/>\n    longe do seu giro.<\/p>\n<p>&#8212; Mas h&aacute; de deixar o homem assim?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o? Cada um faz aquilo que pode, que a mais n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; obrigado. Olhe&#8230; sabe o que me lembra? Por que n&atilde;o vai o<br \/>\n    menino l&aacute;? N&atilde;o diz que quer ajudar o Sr. Jo&atilde;o Semana?<br \/>\n    Pois a&iacute; tem.<\/p>\n<p>&#8212; Para me ficar depois com zanga.<\/p>\n<p>&#8212; Credo! Zanga, n&atilde;o; eu s&oacute; dizia que&#8230; Demais, isso<br \/>\n    n&atilde;o lhe rende cinco r&eacute;is. Bem v&ecirc; o que ela diz: A consci&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; que paga. Ora, eu bem sei que as pequenas quiseram pagar, quiseram;<br \/>\n    c&aacute;aacute; o patr&atilde;o &eacute; que n&atilde;o deixou. N&atilde;o sei se<br \/>\n    fez bem, porque afinal&#8230; elas t&ecirc;m por onde paguem. Mas v&aacute;, v&aacute;.<br \/>\n    Al&eacute;m de que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu por mim vou; n&atilde;o me custa; mas se o seu amo se ofende?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o ofende; amanh&atilde; l&aacute; ir&aacute;.<br \/>\n    Demais, as raparigas s&atilde;o agora quase da fam&iacute;lia do menino; &eacute;<br \/>\n    natural que o procurem primeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o nem espero que ele acorde. Voc&ecirc; diz-lhe&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sim: n&atilde;o tenha d&uacute;vida; eu c&aacute; lhe digo.<\/p>\n<p>E, chamando outra vez Daniel, que ia a retirar-se, continuou:<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o, olhe. Tamb&eacute;m pode fazer-nos ainda outro favor.<br \/>\n    Eu tenho, desde esta manh&atilde;, um recado para o Sr. Jo&atilde;o Semana<br \/>\n    ir &agrave; casa do Jo&atilde;o da Esquina, l&aacute; do seu vizinho da tenda.<br \/>\n    N&atilde;o lho dei, porque enfim&#8230; hoje ficava-lhe bastante longe, e, aqui<br \/>\n    para n&oacute;s, n&atilde;o andam muito bem em dia as contas com o tendeiro;<br \/>\n    como ao menino lhe fica perto da casa, se n&atilde;o lhe custasse, ia por<br \/>\n    l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m irei, o ponto est&aacute; em que o homem me queira.<\/p>\n<p>&#8212; Se n&atilde;o quiser, que mande fazer um de encomenda. Era o que<br \/>\n    faltava! J&aacute; v&ecirc; que eu n&atilde;o tenho nenhuma m&aacute; vontade<br \/>\n    contra o menino, at&eacute; lhe dou freguesia.<\/p>\n<p>Daniel agradeceu os dois fregueses que a velha Joana lhe cedera, com poucos<br \/>\n    ausp&iacute;cios de lucros, e saiu sem esperar que o seu velho colega acordasse.<\/p>\n<p>A pressa com que Daniel saiu e a facilidade em aceder &agrave; proposta de<br \/>\n    Joana, tinha um motivo. E a&iacute; estamos n&oacute;s para o explicar, e<br \/>\n    referimo-nos outra vez ao car&aacute;ter do nosso her&oacute;i.<\/p>\n<p>A carta de Margarida falara-lhe &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o. Achou-a<br \/>\n    t&atilde;o singular, na sua simplicidade, por ser escrita por uma rapariga<br \/>\n    da aldeia, que n&atilde;o p&ocirc;de eximir-se de fantasiar um tipo de romance,<br \/>\n    o qual logo suspirou por conhecer.<\/p>\n<p>Segundo as instru&ccedil;&otilde;es de Joana, Daniel p&ocirc;de, dentro de<br \/>\n    um quarto de hora, achar-se &agrave; cabeceira do enfermo, para quem se pedira<br \/>\n    o socorro de Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>Mas, contrariamente ao que esperava, foi Clara e n&atilde;o Margarida que<br \/>\n    ele encontrou ali. <\/p>\n<h4><a name=\"20\">Cap&iacute;tulo XX<\/a><\/h4>\n<p> A princ&iacute;pio, a substitui&ccedil;&atilde;o desagradou a Daniel, por<br \/>\n    lhe dissipar umas vagas fantasias, com que tinha vindo; mas Clara n&atilde;o<br \/>\n    era mulher junto de quem se pudesse sentir por muito tempo a falta de outra.<\/p>\n<p>Daniel, passados alguns minutos, achava-se conformado.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem quem nos vem! Bem dizia eu ontem; dentro em pouco, ningu&eacute;m<br \/>\n    quer saber do Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>&#8212; Devo lembrar-lhe Clarinha, que &eacute; &agrave; for&ccedil;a, quase,<br \/>\n    que eu venho aqui, porque n&atilde;o houve quem tivesse a id&eacute;ia de<br \/>\n    me mandar chamar &#8211; replicou Daniel, sorrindo. &#8211; N&atilde;o lhe disse eu que<br \/>\n    as raparigas seriam fi&eacute;is ao Jo&atilde;o Semana? Veja, nem a Clarinha<br \/>\n    nem a mana se lembraram de mim, sendo eu da fam&iacute;lia quase.<\/p>\n<p>&#8212; Bem v&ecirc; que pouco se lhe podia prometer &#8211; respondeu Clara, lan&ccedil;ando<br \/>\n    para a humilde mob&iacute;lia do quarto um olhar expressivo.<\/p>\n<p>&#8212;Nem a recompensa da consci&ecirc;ncia, que sua irm&atilde; prometia<br \/>\n    a Jo&atilde;o Semana?<\/p>\n<p>&#8212; Com franqueza lho digo; eu por mim tinha-me lembrado de o chamar,<br \/>\n    tinha.; mas Guida &eacute; que n&atilde;o quis.<\/p>\n<p>&#8212; E por que n&atilde;o quis sua irm&atilde;?<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei l&aacute;? Eu j&aacute; n&atilde;o estou acostumada a perguntar<br \/>\n    a raz&atilde;o por que ela diz isto ou aquilo. Para qu&ecirc;? Afinal de contas,<br \/>\n    n&atilde;o sei faz&ecirc;-la mudar de ten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; assim teimosa?<\/p>\n<p>&#8212; Teimosa? N&atilde;o, credo; mas &eacute; que depois de falar com<br \/>\n    ela&#8230; n&atilde;o sei como isto &eacute;&#8230; eu sou que mudo sempre. Mas, j&aacute;<br \/>\n    que veio, entre; aqui tem o nosso doente.<\/p>\n<p>E, dando ao gesto a express&atilde;o de desesperan&ccedil;a, acrescentou,<br \/>\n    baixando a voz e suspirando:<\/p>\n<p>&#8212; Isto!&#8230; coitado!<\/p>\n<p>O doente era o velho que j&aacute; conhecemos, agora de todo prostrado por<br \/>\n    uma caquexia, infalivelmente mortal.<\/p>\n<p>Realizara-se o seu pressentimento. Vida&#8230; s&oacute; lhe restava para agradecer<br \/>\n    com o olhar, mais j&aacute; do que com palavras, os cuidados quase filiais,<br \/>\n    de que as duas raparigas o rodeavam.<\/p>\n<p>A idade e os padecimentos morais deste homem haviam-se tornado elementos<br \/>\n    quase invenc&iacute;veis, do mal que lentamente lhe minava as for&ccedil;as.<\/p>\n<p>O &uacute;nico al&iacute;vio, no seu leito de dor, era a vista das duas irm&atilde;.<br \/>\n    Faziam-lhe bem os sorrisos de Clara, e as l&aacute;grimas de Margarida &#8211; duas<br \/>\n    express&otilde;es diversas da mesma simpatia.<\/p>\n<p>Daniel aproximou-se do leito do enfermo; do outro lado, ficava-lhe Clara.<\/p>\n<p>A luz era escassa na alcova. As fei&ccedil;&otilde;es de Clara tinham tomado<br \/>\n    uma express&atilde;o de melancolia, a qual aquelas sombras pareciam aumentar.<\/p>\n<p>Junto &agrave; cabeceira de um enfermo &eacute; onde mais pronta e naturalmente<br \/>\n    se estabelece entre duas pessoas um trato familiar.<\/p>\n<p>A etiqueta e as reservas do costume sentem-se mal colocadas e intempestivas<br \/>\n    ali.<\/p>\n<p>Se &eacute; sincera a compaix&atilde;o para o que padece, perde-se a frieza<br \/>\n    necess&aacute;ria &agrave; estrita observ&acirc;ncia das insignificantes conven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sociais. N&atilde;o s&atilde;o poss&iacute;veis as afeta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nem os constrangimentos, quando a mesma generosa simpatia domina o pulsar<br \/>\n    de dois cora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Por isso, entre Daniel, como m&eacute;dico, e Clara, como enfermeira, crescera,<br \/>\n    rapidamente, certa familiaridade, a qual n&atilde;o pouco concorrer para fazer<br \/>\n    demorado o exame do doente, cuja mol&eacute;stia era de uma evid&ecirc;ncia<br \/>\n    e de uma fatalidade de &ecirc;xito, que deviam facilitar a tarefa do seu estudo.<\/p>\n<p>Depois&#8230; nunca &eacute; t&atilde;o cheia de atrativos a mulher, como ao<br \/>\n    velar, sol&iacute;cita, por o doente que estima. &Agrave;s mais levianas revela-se-lhes<br \/>\n    ent&atilde;o a grandeza e a sublimidade da sua miss&atilde;o na terra. O cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que as vaidades podem trazer abafado, estremece e acorda ao primeiro grito<br \/>\n    de dor; o instinto feminino revive com toda a espontaneidade de abnega&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    d&aacute;-lhes &agrave; voz inflex&otilde;es de ternura, ao olhar requebros<br \/>\n    de meiguice, e aquela deliciosa fraqueza de &acirc;nimo que nos pedia prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e amparo, transforma-se em coragem her&oacute;ica, diante da qual n&oacute;s,<br \/>\n    os que nos sup&uacute;nhamos fortes, cedemos subjugados.<\/p>\n<p>Um momento destes, na vida da mulher, absolve-a de todos os pequenos defeitos,<br \/>\n    que temos por costume censurar nela.<\/p>\n<p>Quando o imp&eacute;rio do amor e de piedade deve reger a vida, aceita ent&atilde;o<br \/>\n    ela de n&oacute;s, com sorrisos de brandura, o cetro de soberana.<\/p>\n<p>E nessas ocasi&otilde;es bem conhece que o prest&iacute;gio, que exerce,<br \/>\n    &eacute; absoluto; perde ent&atilde;o a timidez habitual e olha-nos desassombrada.<\/p>\n<p>Sucedia isto com Clara. Achava-se &agrave; vontade ali; fitava sem constrangimento,<br \/>\n    os expressivos olhos negros de Daniel, como se para nele espiar o passar das<br \/>\n    id&eacute;ias, que o exame do doente lhe fosse sugerindo.<\/p>\n<p>Se ela soubesse que, enquanto o fitava assim, mal na doen&ccedil;a o deixava<br \/>\n    pensar!<\/p>\n<p>O enleado agora era Daniel. Com os olhos no rosto cadav&eacute;rico do enfermo,<br \/>\n    comprimindo-lhe ainda o pulso abatido e descarnado, quase n&atilde;o tinha<br \/>\n    consci&ecirc;ncia do que fazia. <\/p>\n<p>Sem olhar, sentia que a vista de Clara se fixava nele &#8211; porque h&aacute;<br \/>\n    fen&ocirc;menos assim, &#8211; e sentindo-o &#8211; desgra&ccedil;ada natureza a sua!<br \/>\n    &#8211; em vez de m&eacute;dico impass&iacute;vel e atento, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    era sen&atilde;o o estudante de vinte anos, com toda a sua ardente imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Enfim terminou aquele exame, longo, mas distra&iacute;do, e, depois de algumas<br \/>\n    perguntas feitas ao doente, Daniel voltou &agrave; sala para receitar.<\/p>\n<p>Clara acompanhou-o e encostou-se familiarmente &agrave;s costas da cadeira<br \/>\n    na qual Daniel se sentara.<\/p>\n<p>Era o bastante para tirar a este toda a tranq&uuml;ilidade.<\/p>\n<p>A seu pesar, a m&atilde;o tremia-lhe ao escrever.<\/p>\n<p>Clara p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p>&#8212; De que se ri? &#8211; perguntou Daniel, voltando-se<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;-me a lembrar, ao ver tremer-lhe a m&atilde;o assim, que<br \/>\n    o Jo&atilde;o Semana costuma dizer, quando assina uma receita, que assina<br \/>\n    uma senten&ccedil;a de morte.<\/p>\n<p>Daniel sorriu tamb&eacute;m, ou simulou sorrir.<\/p>\n<p>&#8212; Isto &eacute; nervoso &#8211; disse ele, levantando-se.<\/p>\n<p>&#8212; Nervoso? Ent&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; nervoso! Eu cuidei que<br \/>\n    isso era s&oacute; das senhoras da cidade.<\/p>\n<p>&#8212; Enganava-se.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que &eacute; ser nervoso?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;&#8230; por exemplo, n&atilde;o ter firmeza na m&atilde;o ao<br \/>\n    escrever, quando nos seguem os movimentos com uns olhos assim como os seus<br \/>\n    Clarinha.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Deve ent&atilde;o ser m&aacute; doen&ccedil;a, que obriga os<br \/>\n    outros a andarem com os olhos fechados &#8211; redarg&uuml;iu Clara, com certo tom<br \/>\n    de zombaria.<\/p>\n<p>Daniel ia replicar, quando um gemido do enfermo chamou Clara &agrave; alcova.<\/p>\n<p>Enfim, passados alguns segundos, Daniel muito a custo preparava-se para sair.<\/p>\n<p>Clara voltou, trazendo-lhe &aacute;gua para as m&atilde;os; ato natural&iacute;ssimo<br \/>\n    e sem significa&ccedil;&atilde;o &#8211; por&eacute;m Daniel era destes homens,<br \/>\n    para quem quase n&atilde;o h&aacute; atos sem significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Lavando-se, e enquanto Clara sustentava a bacia, aventurou-se um olhar para<br \/>\n    a gentil rapariga, a qual o recebeu com firmeza.<\/p>\n<p>Como este olhar se prolongasse, Clara disse com um sorriso de ironia aparente<br \/>\n    atrav&eacute;s do gesto de ingenuidade de que o acompanhou.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; t&atilde;o distra&iacute;do, a pensar&#8230; no seu doente<br \/>\n    talvez, que nem repara que se est&aacute; a lavar em seco.<\/p>\n<p>Daniel baixou os olhos e abreviou a opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando ia retirar-se, ouviu Clara que lhe diziam gracejando:<\/p>\n<p>&#8212; Quando se lhe deve pela visita, Sr. Doutor?<\/p>\n<p>A esta pergunta, esteve iminente de sair da boca de Daniel um galanteio,<br \/>\n    que ele susteve a tempo, por n&atilde;o sei que pressentimento, que lhe dizia<br \/>\n    que esse jogo podia ter seus perigos. Limitou-se a responder:<\/p>\n<p>&#8212; Deve-se-me um pouco de afei&ccedil;&atilde;o pela boa vontade, quando<br \/>\n    mais n&atilde;o seja.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; vejo que &eacute; f&aacute;cil de contentar.<\/p>\n<p>&#8212; Acha ent&atilde;o de pouco valor a afei&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Como n&atilde;o pede muita&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que receio que j&aacute; n&atilde;o tenha muita para me<br \/>\n    dar.<\/p>\n<p>&#8212; T&atilde;o pobre me faz disso?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o disp&ocirc;s j&aacute; da melhor?<\/p>\n<p>&#8212; A afei&ccedil;&atilde;o de que dispus, n&atilde;o lhe podia servir.<\/p>\n<p>&#8212; Acha?<\/p>\n<p>Esta pergunta, ou mais do que ela, a inflex&atilde;o de voz com que foi dita,<br \/>\n    o olhar de que foi acompanhada, era imprudente.<\/p>\n<p>Clara desviou a vista diante deste olhar de Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Ou&ccedil;a &#8211; disse ela, mais s&eacute;ria j&aacute; do que at&eacute;<br \/>\n    ali, &#8211; A gente tem sempre no cora&ccedil;&atilde;o duas afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    diferentes, penso eu; uma, que se d&aacute; toda a uma pessoa, e julgo que<br \/>\n    uma s&oacute; vez na vida; outra que se d&aacute; &agrave;s por&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    mais a uns menos a outros, mas que nunca se acaba. Para querer a este pobre<br \/>\n    velho, que ali est&aacute; dentro &#8211; e quero-lhe deveras &#8211; nada tive de tirar<br \/>\n    &agrave; afei&ccedil;&atilde;o grande, que tinha a Margarida. Conte por isso<br \/>\n    que ainda tenho afei&ccedil;&atilde;o &#8211; dessa &#8211; para lhe dar. A Guida n&atilde;o<br \/>\n    ter&aacute; que sofrer com isso&#8230; nem os outros.<\/p>\n<p>Havia uma delicada corre&ccedil;&atilde;o nestas palavras de Clara, que produziu<br \/>\n    efeito no &acirc;nimo de Daniel. Inclinou-se, e com sorriso n&atilde;o constrangido,<br \/>\n    replicou, estendendo-lhe a m&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Agradecido, Clarinha. Essa mesma &eacute; a que me deve; pois n&atilde;o<br \/>\n    seremos dentro em pouco tempo, irm&atilde;os.?<\/p>\n<p>E separaram-se.<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo de homem sou eu? &#8211; dizia Daniel consigo. &#8211; Pois n&atilde;o<br \/>\n    ia principiando apaixonar-me por a mulher do meu irm&atilde;o? Quando terei<br \/>\n    eu for&ccedil;a para me vencer nestas coisas? mas &eacute; que tem uns olhos<br \/>\n    esta rapariga, e umas maneiras!&#8230;<\/p>\n<p>E, sob o dom&iacute;nio destas novas impress&otilde;es, a impress&atilde;o<br \/>\n    que da carta de Margarida havia recebido, desvanecera-se de todo.<\/p>\n<p>N&atilde;o era, por&eacute;m, esta a &uacute;nica mudan&ccedil;a que se tinha<br \/>\n    de operar nele, aquele dia. <\/p>\n<h4><a name=\"21\"><br \/>\n    Cap&iacute;tulo XXI<\/a><\/h4>\n<p>\n    Cumprindo a promessa que tinha feito a Joana, foi o novo cl&iacute;nico fazer<br \/>\n    sua segunda visita.<\/p>\n<p>O leitor deve estar lembrado de que o doente era o nosso j&aacute; conhecido<br \/>\n    Jo&atilde;o da Esquina, ou, pelo menos, algu&eacute;m da sua respeit&aacute;vel<br \/>\n    fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Ao apresentar-se, em lugar de Jo&atilde;o Semana, Daniel foi recebido com<br \/>\n    uma visagem, pouco lisonjeira, do dono da casa, impressionado ainda talvez<br \/>\n    com as revolucion&aacute;rias, e em nada tranq&uuml;ilizadoras opini&otilde;es<br \/>\n    m&eacute;dicas, que conhecia no seu vizinho.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o como &eacute; isto? &Eacute; o senhor que vem?&#8230; &#8211;<br \/>\n    dizia o homem, meio desconfiado, e como hesitando em entregar-se aos cuidados<br \/>\n    da medicina nova.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade; sou eu &#8211; respondeu Daniel. &#8211; O Jo&atilde;o Semana<br \/>\n    n&atilde;o podia vir hoje para estes s&iacute;tios e, como me lembrou que<br \/>\n    talvez fosse de pressa a doen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Um sorriso encrespou os l&aacute;bios do tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; A doen&ccedil;a? &#8211; Ah!&#8230; &#8211; Ent&atilde;o n&oacute;s sempre temos<br \/>\n    doen&ccedil;as?! &#8211; perguntou o Jo&atilde;o da Esquina com certo ar de finura<br \/>\n    triunfante.<\/p>\n<p>&#8212; Pois que d&uacute;vida? &#8211; disse Daniel, muito longe de imaginar o<br \/>\n    sentido oculto da interroga&ccedil;&atilde;o. &#8211; N&atilde;o mandou chamar um<br \/>\n    m&eacute;dico? &Eacute; prov&aacute;vel que n&atilde;o seja para o consultar<br \/>\n    sobre alguma demanda.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina meneava a cabe&ccedil;a com ar de satisfa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Portanto, segue-se que temos doen&ccedil;as? Bem, bem.<\/p>\n<p>&#8212; Mal, mal &#8211; emendou Daniel , sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Eu c&aacute; me entendo. Afinal h&aacute; de vir para o bom caminho,<br \/>\n    e no mais tamb&eacute;m, se Deus quiser.<\/p>\n<p>&#8212; No mais? &#8211; repetia Daniel, sem entender o anfiguri.<\/p>\n<p>&#8212; No mais sim, no mais. Ora diga-me &#8211; continuou ele, tomando Daniel<br \/>\n    de parte e falando-lhe quase ao ouvido &#8211; parece-me que eu sou algum macaco?<\/p>\n<p>O filho de Jos&eacute; das Dornas olhou espantado para os eu interlocutor,<br \/>\n    e principiou a suspeitar que a mol&eacute;stia, que exigia os cuidados do<br \/>\n    m&eacute;dico, era desarranjo intelectual.<\/p>\n<p>&#8212; Macaco? O Sr. Jo&atilde;o da Esquina macaco?! Essa agora ! Como me<br \/>\n    queres que eu suponha tal absurdo?<\/p>\n<p>&#8212; Absurdo!? &#8211; exclamou jubiloso o merceeiro. &#8211; &Eacute; o que eu digo.<br \/>\n    Assim, assim &eacute; que eu gosto de os ver.<\/p>\n<p>&#8212; Esquisita monomania! &#8211; comentava para si Daniel.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina continuou no mesmo tom, meio ir&ocirc;nico, meio confidencial:<\/p>\n<p>&#8212; E acha que me ficaria muito bem, se me pusesse a andar por a&iacute;<br \/>\n    com as m&atilde;os pelo ch&atilde;o?<\/p>\n<p>Daniel muito fora, naquele momento, das raz&otilde;es que motivavam estas<br \/>\n    perguntas, achava-as t&atilde;o extravagantes, que sentia agravarem-se cada<br \/>\n    vez mais as apreens&otilde;es, relativamente ao estado intelectual do tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Decerto que n&atilde;o seria exemplo muito para tentar &#8211; respondeu<br \/>\n    Daniel, n&atilde;o podendo outra vez disfar&ccedil;ar um sorriso.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ent&atilde;o parece-lhe isso?<\/p>\n<p>&#8212; Acaso as &iacute;ntimas convic&ccedil;&otilde;es do Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina repelir&atilde;o esta maneira de pensar?<\/p>\n<p>&#8212; O senhor &eacute; que parece ter mudado de id&eacute;ias.<\/p>\n<p>Lembrou-se ent&atilde;o Daniel que talvez tivesse alguma vez pronunciado,<br \/>\n    diante de indiscretos, uma ou outra frase, menos favor&aacute;vel em rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    a Jo&atilde;o da Esquina, a qual, tendo-lhe sido transmitida, desse por tal<br \/>\n    forma, motivo a esta desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Estou supondo que o Sr. Jo&atilde;o da Esquina tem n&atilde;o sei<br \/>\n    que preven&ccedil;&atilde;o contra mim. Pode ser que lhe viessem referir algumas<br \/>\n    palavras minhas, as quais julgue ofensivas &agrave; sua dignidade; mas creia<br \/>\n    que s&atilde;o menos verdadeiras. As coisas alteram-se sempre ao passar de<br \/>\n    boca em boca.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, d&aacute; o dito por n&atilde;o dito?<\/p>\n<p>&#8212; Tudo o que lhe for injurioso, creia que o n&atilde;o disse eu &#8211; respondeu<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>O tendeiro mais tranq&uuml;ilo a respeito do novo m&eacute;dico, o qual ele<br \/>\n    via assim abjurar solenemente as suas teorias subversivas do estado regular<br \/>\n    das coisas na sociedade e no mundo, n&atilde;o duvidou encetar os estirad&iacute;ssimos<br \/>\n    cap&iacute;tulos da sua longa hist&oacute;ria m&oacute;rbida.<\/p>\n<p>Pouparei ao leitor o ouvi-los. Imaginem uma intermin&aacute;vel exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos os inc&ocirc;modos sentidos h&aacute; vinte anos, e cortada de variados<br \/>\n    epis&oacute;dios, alheios ao assunto principal, ou mantendo com eles la&ccedil;os<br \/>\n    imagin&aacute;rios.<\/p>\n<p>A prop&oacute;sito da mol&eacute;stia, veio, por exemplo, a campo a hist&oacute;ria<br \/>\n    minuciosa de uma demanda sobre uma pens&atilde;o de duas frangas, o relat&oacute;rio<br \/>\n    das despesas feitas com os melhoramentos em uma propriedade sua, e as desaven&ccedil;as<br \/>\n    entre ele, tesoureiro da confraria do Sacramento, e o secret&aacute;rio da<br \/>\n    mesma.<\/p>\n<p>Daniel escutava-o distra&iacute;do.<\/p>\n<p>No fim, fundando-se em uma outra circunst&acirc;ncia que lhe ficara de todo<br \/>\n    o arrazoado, fez o diagn&oacute;stico, e formulou alguns preceitos m&eacute;dicos,<br \/>\n    mencionando, entre outros medicamentos que aconselhou, as prepara&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do ars&ecirc;nico.<\/p>\n<p>Lembran&ccedil;a imprudente!<\/p>\n<p>A palavras ars&ecirc;nico, Jo&atilde;o da Esquina estremeceu, e de novo se<br \/>\n    lhe assombrou o olhar da desconfian&ccedil;a.<\/p>\n<p>A quarta das opini&otilde;es te&oacute;ricas de Daniel, as quais lhe tinham<br \/>\n    sido referidas por Jos&eacute; das Dornas, aparecia-lhe agora de novo com<br \/>\n    toda a sua apar&ecirc;ncia sinistra e homicida.<\/p>\n<p>&#8212; Ars&ecirc;nico? &#8211; exclamou ele com voz quase rouca de susto e de<br \/>\n    indigna&ccedil;&atilde;o. &#8211; O senhor quer que eu tome ars&ecirc;nico?!<\/p>\n<p>&#8212; Que d&uacute;vida? &#8211; respondeu Daniel. &#8211; &Eacute; um medicamento<br \/>\n    her&oacute;ico, prodigioso em muitos casos.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tenho conhecido os prod&iacute;gios que ele obra. Vale por dois<br \/>\n    gatos!<\/p>\n<p>&#8212; Ora adeus! A quest&atilde;o est&aacute; na maneira de o tomar.<\/p>\n<p>&#8212; Ars&ecirc;nico! mas que id&eacute;ia! esta n&atilde;o esperava eu!<br \/>\n    Ars&ecirc;nico!<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; enganado. O ars&ecirc;nico at&eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Engorda tamb&eacute;m, n&atilde;o &eacute; verdade? &#8211; perguntou o<br \/>\n    tendeiro, com amarga ironia na voz.<\/p>\n<p>&#8212; E ainda que lhe pare&ccedil;a que n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Para o senhor vale tanto como o toucinho. Eu j&aacute; c&aacute;<br \/>\n    sabia .<\/p>\n<p>&#8212; Mas ou&ccedil;a. Olhe&#8230; na &Aacute;ustria&#8230; na &Aacute;ustria,<br \/>\n    os cavalos de boa ra&ccedil;a recebem sempre na aveia uma por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ars&ecirc;nico, o qual lhes d&aacute; um aspecto luzente, elegante, vigoroso<br \/>\n    e inexced&iacute;vel.<\/p>\n<p>O exemplo beliscou o amor pr&oacute;prio do Sr. Jo&atilde;o da Esquina, que<br \/>\n    redarg&uuml;iu com despeito:<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado pela not&iacute;cia. Isso talvez anime a gente da<br \/>\n    &Aacute;ustria, ou certos doutores que eu conhe&ccedil;o, que pensam que um<br \/>\n    homem &eacute; como qualquer animalejo dos tais, e que pode andar a quatro<br \/>\n    como eles tamb&eacute;m. Eu por mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas a&iacute; tem outro exemplo &#8211; continuou Daniel. &#8211; Em certas partes<br \/>\n    da Alemanha h&aacute; povoa&ccedil;&otilde;es inteiras, nas quais o ars&ecirc;nico<br \/>\n    &eacute; comido com um prazer excessivo.<\/p>\n<p>&#8212; Pois que se regalem.<\/p>\n<p>&#8212; Mas olhe que &eacute; fato. S&atilde;o verdadeiros toxic&oacute;fagos<br \/>\n    esses povos.<\/p>\n<p>&#8212; Eu logo vi que haviam de ser assim uma coisa; homens &eacute; que<br \/>\n    &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o as pessoas novas e, ainda mais, as raparigas s&atilde;o<br \/>\n    as que usam dele com avidez, e o que &eacute; certo &eacute; que conservam<br \/>\n    assim um ar de mocidade, uma frescura,. uma nutri&ccedil;&atilde;o e uma for&ccedil;a<br \/>\n    que, segundo a frase dos autores, parece que lhes permite voar.<\/p>\n<p>&#8212; Para o outro mundo?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o senhor. &Eacute; verdade isto que lhe digo.<\/p>\n<p>&#8212; Eu j&aacute; sei, eu j&aacute; sei que, para o senhor, p&atilde;o<br \/>\n    e ars&ecirc;nico deve ser tudo a mesma coisa. Mas eu por mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Por&eacute;m, sossegue, eu n&atilde;o quero obrigar o meu amigo a<br \/>\n    jantar ars&ecirc;nico; aplico-lhe apenas como medicamento e com as devidas<br \/>\n    precau&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Escusa de se dar a esse trabalho. Disso o dispenso eu. &Eacute; coisa<br \/>\n    que me n&atilde;o h&aacute; de entrar na boca. Ars&ecirc;nico! Que tal est&aacute;!<\/p>\n<p>&#8212; Mas esse receio &eacute; indigno de um homem de coragem, permita-me<br \/>\n    que lho diga.<\/p>\n<p>Nesse tempo tinha entrado na loja, onde se passava o di&aacute;logo, a cara<br \/>\n    metade do Sr. Jo&atilde;o da Esquina, a Sr.&ordf; Teresa de Jesus, gorda e<br \/>\n    rubicunda matrona, que saudou Daniel com sorrisos am&aacute;veis, e disse<br \/>\n    para o marido, com a voz mais melodiosa deste mundo:<\/p>\n<p>&#8212; Toma ars&ecirc;nico, menino, toma. E por que n&atilde;o h&aacute;s<br \/>\n    de tomar ars&ecirc;nico?<\/p>\n<p>O Sr. Jo&atilde;o da Esquina fitou na mulher um olhar sombrio.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que estava vendo nela uma nova Clitemnestra, de conjug&iacute;cida<br \/>\n    mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>&#8212; Toma-o tu, se gostas &#8211; foi a resposta que lhe deu, em tom de voz<br \/>\n    cheia de amargas exprobra&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que me n&atilde;o ser&aacute; preciso a mim &#8211; redarg&uuml;iu<br \/>\n    a senhora suspirando.<\/p>\n<p>Este suspiro foi o prel&uacute;dio da hist&oacute;ria dos seus complicados<br \/>\n    males.<\/p>\n<p>A cr&ocirc;nica n&atilde;o foi menos longa, nem menos f&eacute;rtil em epis&oacute;dios,<br \/>\n    do que a do marido. Os nervos, j&aacute; se sabe, representam um papel important&iacute;ssimo<br \/>\n    na s&eacute;rie de cat&aacute;strofes, que a organiza&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    Sr.&ordf; Teresa vira cair sobre si durante os quarenta anos e nove anos de<br \/>\n    sua exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Daniel foi miraculosos de paci&ecirc;ncia na aten&ccedil;&atilde;o que lhe<br \/>\n    deu, e sublime de sisudez e compostura nos conselhos que em seguida recomendou.<\/p>\n<p>O pobre rapaz olhava com saudades para a porta da rua, sem ver possibilidade<br \/>\n    de a transpor t&atilde;o cedo.<\/p>\n<p>Enfim, quando julgava haver terminado a sua miss&atilde;o, e tomava jeito<br \/>\n    de retirar-se, as seguintes palavras da Sr.&ordf; Teresa vieram a apertar-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o &eacute; tanto por n&oacute;s que mandamos chamar<br \/>\n    facultativo. A doen&ccedil;a principal da casa &eacute; outra. Aos nossos<br \/>\n    achaques j&aacute; nos vamos acostumando. Foi por causa da pequena. Quer ter<br \/>\n    o inc&ocirc;modo de subir?<\/p>\n<p>Daniel n&atilde;o p&ocirc;de reter um suspiro de impaci&ecirc;ncia. Se aquelas<br \/>\n    tinham sido doen&ccedil;as de segunda ordem, que monstruosa hist&oacute;ria<br \/>\n    patol&oacute;gica lhe estava reservada ainda?<\/p>\n<p>Os dois c&ocirc;njuges fizeram-no subir adiante de si.<\/p>\n<p>Pelas escadas, Daniel, apesar dos eu mau humor, n&atilde;o p&ocirc;de deixar<br \/>\n    de sorrir, ouvindo a Sr.&ordf; Teresa, a qual fechava o cortejo, dizer para<br \/>\n    o marido:<\/p>\n<p>&#8212; Toma ars&ecirc;nico, Jo&atilde;o. Ora n&atilde;o h&aacute;s de tomar<br \/>\n    ars&ecirc;nico?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me digas isso, mulher! &#8211; respondia Jo&atilde;o da esquina,<br \/>\n    quase alterado.<\/p>\n<p>Dentro em pouco, estavam na presen&ccedil;a da menina Francisca, filha &uacute;nica<br \/>\n    deste bem talhado par.<\/p>\n<p>Se os am&aacute;veis sorrisos da esposa tinham j&aacute; procurado dar a<br \/>\n    Daniel compensa&ccedil;&atilde;o ao menos cordial acolhimento feito pelo tendeiro,<br \/>\n    o sobressalto e a confus&atilde;o com que a menina estendeu para ele um pulso,<br \/>\n    sofrivelmente modelado, conseguiram mais eficazmente esse mesmo resultado.<\/p>\n<p>Era esta menina a trigueira mais trigueira de toda a aldeia. Ingrata para<br \/>\n    com esta cor maravilhosa, que, tingindo certos tipos fision&ocirc;micos como<br \/>\n    o dela, &eacute; de efeitos surpreendentes, tinha por&eacute;m a fraqueza<br \/>\n    indesculp&aacute;vel de se afligir por n&atilde;o ser corada!<\/p>\n<p>Era id&eacute;ia fixa na menina Francisca; uma conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de quarto de hora, que se tivesse com ela, bastava para a fazer avultar.<\/p>\n<p>Debalde protestava contra tal injusti&ccedil;a o brilho espl&ecirc;ndido<br \/>\n    de uns olhos que, naquela tez, real&ccedil;avam como poucos. Dera-lhe para<br \/>\n    se reputar infeliz por aquilo e n&atilde;o havia maneira de distra&iacute;-la.\n  <\/p>\n<p>A doen&ccedil;a, que atualmente molestava esta prog&ecirc;nie dos senhores<br \/>\n    da Esquina, era uma impertin&ecirc;ncia nervosa, dessas para as quais se receitam<br \/>\n    banhos de mar.<\/p>\n<p>Daniel n&atilde;o deixou de os aconselhar: mas n&atilde;o terminou as visitas<br \/>\n    com o conselho.<\/p>\n<p>Os tais olhos pretos sobre aquelas faces, esquisitamente trigueiras, davam-lhe<br \/>\n    deveras que pensar.<\/p>\n<p>Agora n&atilde;o tinha ele pressa de ir embora.<\/p>\n<p>Por onde andaria a imagem de Clara?<\/p>\n<p>Prolongando-se a visita, era inevit&aacute;vel a descoberta da corda sens&iacute;vel<br \/>\n    da enferma. Mais cedo ou mais tarde, um queixume indiscreto a poria em relevo.<br \/>\n    Assim aconteceu. Daniel ficou sabendo que mal oculto entenebrecia aquele cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e preparou-se para ser eloq&uuml;ente na apologia da cor trigueira.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina tinha sa&iacute;do da sala. O pobre homem j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o podia suportar a sua cara metade, a qual, pela d&eacute;cima vez,<br \/>\n    lhe repetia:<\/p>\n<p>&#8212; Toma ars&ecirc;nico, filho, toma. N&atilde;o posso saber por que<br \/>\n    n&atilde;o h&aacute;s de tomar ars&ecirc;nico?<\/p>\n<p>S&oacute;, na presen&ccedil;as das duas mulheres, deitou Daniel ombros &agrave;<br \/>\n    empresa de distrair a menina Francisca.<\/p>\n<p>Entre outras muitas coisas, afirmou, por sua conta e risco, que as belezas<br \/>\n    c&eacute;lebres, essas que inspiraram os grandes poetas, os grandes artistas<br \/>\n    e os grandes amores, tinham sido trigueiras, e, especificando, citou Dido,<br \/>\n    Nat&eacute;rcia, Cle&oacute;patra, Beatriz, Fornarina, Laura, In&ecirc;s de<br \/>\n    Castro, etc., etc. Desta gente toda, a Sr.&ordf; Teresa e sua filha s&oacute;<br \/>\n    conheciam In&ecirc;s de Castro, porque havia meses que tinham visto representar<br \/>\n    uma obra dram&aacute;tica, produ&ccedil;&atilde;o in&eacute;dita de n&atilde;o<br \/>\n    sei que Shakespeare r&uacute;stico, na qual entrava esta senhora, mais maltratada<br \/>\n    ainda das m&atilde;os do tr&aacute;gico, que das dos &quot;brutos matadores&quot;.<\/p>\n<p>A m&atilde;e fez notar &agrave; filha que de fato n&atilde;o era das mais<br \/>\n    alvas a mo&ccedil;oila que desempenhou a parte da hero&iacute;na daquela vez.<\/p>\n<p>Al&eacute;m destes argumentos hist&oacute;rico-apolog&eacute;ticos, a respeito<br \/>\n    da cor trigueira, Daniel, aproveitando uma curta aus&ecirc;ncia da Sr.&ordf;<br \/>\n    Teresa, segredou &agrave; menina algumas amabilidades de efeito salutar. Ela<br \/>\n    teve a condescend&ecirc;ncia de sorrir.<\/p>\n<p>Diga-se a verdade: nunca at&eacute; ent&atilde;o escutara tamb&eacute;m mais<br \/>\n    gentil conforto contra o motivo das suas penas.<\/p>\n<p>Da&iacute; at&eacute; o fim da entrevista foi toda sorrisos.<\/p>\n<p>Daniel, quando saiu, ia muito bem conceituado pela parte feminina da fam&iacute;lia<br \/>\n    e prometeu voltar.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina conservava-se ainda um pouco frio.<\/p>\n<p>De mais a mais, quando Daniel passou pela loja, a Sr.&ordf; Teresa que era<br \/>\n    para ele de uma amabilidade monstruosa, disse para o marido:<\/p>\n<p>&#8212; Toma ars&ecirc;nico, Jo&atilde;o; que teima a tua em n&atilde;o tomar<br \/>\n    ars&ecirc;nico!<\/p>\n<p>Esta insist&ecirc;ncia produziu calafrios na espinha dorsal do tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; mulher, n&atilde;o me digas isso! Que cisma! &#8211; exclamou<br \/>\n    ele irritado.<\/p>\n<p>Na noite desse dia, pela primeira vez, deixou a menina de lavar o rosto com<br \/>\n    &aacute;gua misteriosa, que o barbeiro lhe vendera por um bom pre&ccedil;o,<br \/>\n    afirmando-lhe possuir a virtude de tornar brancas, com o tempo, as mais escuras<br \/>\n    africanas. <\/p>\n<h4><a name=\"22\"> Cap&iacute;tulo XXII<\/a><\/h4>\n<p> No dia seguinte, Daniel voltou. A fam&iacute;lia Esquina, at&eacute; sem<br \/>\n    exce&ccedil;&atilde;o do elemento masculino, sorriu-lhe cordialmente.<\/p>\n<p>O que fizera esquecer assim ao tendeiro as suas negras apreens&otilde;es,<br \/>\n    e abrira em sorrisos aqueles sobrecenhos da v&eacute;spera?<\/p>\n<p>O leitor, que toma a peito, decerto, a varonil rijeza de car&aacute;ter do<br \/>\n    tesoureiro da confraria do Sacramento, n&atilde;o me perdoaria se eu n&atilde;o<br \/>\n    explicasse o fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p>Foi o caso que, na v&eacute;spera, depois que Daniel se retirou, a menina<br \/>\n    Francisca, ainda pensativa e enleada, veio &agrave; janela para o ver passar,<br \/>\n    e ao perd&ecirc;-lo de vista, retirou-se suspirando.<\/p>\n<p>Este suspiro entrou pelos ouvidos da m&atilde;e, a qual chegava &agrave;<br \/>\n    sala naquela ocasi&atilde;o.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa teve uma id&eacute;ia.<\/p>\n<p>Este fen&ocirc;meno dava-se, de vez em quando, na esposa do Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    da esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Tem umas maneiras muito bonitas este rapaz &#8211; disse ela, fixando na<br \/>\n    filha o olhar mais investigador que tinha &agrave; sua disposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Tem &#8211; respondeu esta secamente.<\/p>\n<p>&#8212; Ou ele ou o Jo&atilde;o Semana, a quem ningu&eacute;m pode tirar<br \/>\n    da boca uma palavra delicada. Este &eacute; coisa mais fina.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; &#8211; replicou a outra.<\/p>\n<p>&#8212; Bem mostra que tem vivido entre gente polida e educada.<\/p>\n<p>&#8212; Bem &#8211; continuava a menina.<\/p>\n<p>&#8212; E n&atilde;o lhe h&atilde;o de faltar bons casamentos, a esse rapaz.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8211; dizia a filha.<\/p>\n<p>&#8212; Isso h&aacute; de ser bonito agora. Todas as raparigas da terra a<br \/>\n    enfeitarem-se para lhe agradar. H&aacute; de ter que ver.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa principiava a impacientar-se com o laconismo da filha.<\/p>\n<p>&#8212; Mas acham-se muito enganadas &#8211; continuou ela &#8211; um rapaz assim n&atilde;o<br \/>\n    cai facilmente. Estas nossas raparigas s&atilde;o umas est&uacute;pidas. Louvado<br \/>\n    seja Deus. N&atilde;o sabem dizer duas palavras. E desembara&ccedil;o &eacute;<br \/>\n    o que se quer.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E por que n&atilde;o o h&aacute;s de tu ter, menina? &#8211; acrescentou<br \/>\n    ela, em tom mais baixo e insinuante.<\/p>\n<p>&#8212; Eu?<\/p>\n<p>&#8212; Tu, sim, por que n&atilde;o? Para que gastou teu pai contigo, a mandar-te<br \/>\n    aprender os verbos, sen&atilde;o para poderes agora mostrar o que &eacute;s,<br \/>\n    e diferen&ccedil;ar-te das outras?<\/p>\n<p>A menina desta vez nem um monoss&iacute;labo pronunciou. Encolheu os ombros<br \/>\n    s&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Bem se via que o Sr. Daniel logo conheceu com quem lidava. Cuidas<br \/>\n    tu que ele se gastava assim com qualquer Maria do monte? Diz-lhe que sim.<br \/>\n    Ele bem sabe que seria deitar p&eacute;rolas a porcos. Por isso, menina, n&atilde;o<br \/>\n    deixes perder a ocasi&atilde;o. Acredita que dar&aacute;s muito gosto a teus<br \/>\n    pais, se&#8230;<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa vacilou ao principiar a condicional, em que ela queria<br \/>\n    conservar a conveniente dignidade materna.<\/p>\n<p>&#8212; Se?&#8230; perguntou a filha, e foi este de todos os monoss&iacute;labos,<br \/>\n    que at&eacute; ali tinha soltado, o mais embara&ccedil;oso para a m&atilde;e.<\/p>\n<p>&#8212; Se&#8230; sim&#8230; quero eu dizer, que eu e o teu pais n&atilde;o levar&iacute;amos<br \/>\n    mal se&#8230; um dia o Sr. Daniel nos viesse pedir a tua m&atilde;o.<\/p>\n<p>O ar de satisfa&ccedil;&atilde;o, que se desenhou no rosto da esposa do Sr.<br \/>\n    Jo&atilde;o da Esquina, mostrou que ela estava contente consigo pela constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    final da frase.<\/p>\n<p>A menina ao ouvi-la, baixou os olhos; devia ver-se corar, se tal fen&ocirc;meno<br \/>\n    fosse de poss&iacute;vel observa&ccedil;&atilde;o nas faces dela. Enquanto<br \/>\n    a palavras, limitou-se a balbuciar um &ququot;Ora!&quot; eloq&uuml;ente de graciosa<br \/>\n    confus&atilde;o.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa passou &agrave; loja, onde estava o marido.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Jo&atilde;o, olha que n&oacute;s temos de conversas &#8211; disse-lhe<br \/>\n    ela, sentando-se ao p&eacute; do mostrador.<\/p>\n<p>&#8212; Vens falar-me do ars&ecirc;nico outra vez? &#8211; perguntou o marido inquieto.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o! Ainda que, para dizer a verdade, n&atilde;o sei por que<br \/>\n    n&atilde;o o h&aacute;s de tomar.<\/p>\n<p>&#8212; E a dar-lhe!<\/p>\n<p>&#8212; Mas ouve. Essa visita de Daniel do Dornas n&atilde;o te deu o que<br \/>\n    pensar?<\/p>\n<p>&#8212; Deu-me que pensar, deu. E vou j&aacute; mandar dizer-lhe que escusa<br \/>\n    de c&aacute; voltar, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sejas tolo, homem! Abre os olhos e v&ecirc; &#8211; exclamou<br \/>\n    a Sr.&ordf; Teresa, com ar de mist&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? &#8211; perguntou Jo&atilde;o da esquina, n&atilde;o, podendo<br \/>\n    deixar de abrir instintivamente os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Que idade tem o Daniel?<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Vinte e tantos anos, v&aacute;. E que idade tem a Chica?<\/p>\n<p>&#8212; Ela nasceu logo depois do cerco&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Faz vinte anos para setembro.<\/p>\n<p>&#8212; E da&iacute;?<\/p>\n<p>&#8212; E da&iacute;? E quanto vir&aacute; herdar o Daniel por morte do pais?<\/p>\n<p>&#8212; Eu te digo&#8230; para cima de trinta mil cruzados, n&atilde;o falando<br \/>\n    em&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E ainda perguntas: &quot;E da&iacute;?&quot;.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina olhou para a mulher significativamente, e n&atilde;o<br \/>\n    deu palavra. Tinham-se compreendido os dois.<\/p>\n<p>Passados momentos, murmurou o homem:<\/p>\n<p>&#8212; Olha que n&atilde;o era mau, se&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; V&ecirc; l&aacute; ent&atilde;o agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O pior &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, eu n&atilde;o digo que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele j&aacute;?&#8230; sim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o quem sabe se&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Isto &eacute;&#8230; at&eacute; certo ponto.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade que tamb&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, pois est&aacute; claro, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E mau era que j&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Com certeza&#8230; demais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Agora o que &eacute; preciso, &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Isso com o tempo&#8230; bem v&ecirc;s que&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se o leitor penetrou bem o sentido deste di&aacute;logo, cortado<br \/>\n    de expressivas retic&ecirc;ncias, e ao qual falta para o interpretar, a eloq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    do olhar e de gestos, que os dois c&ocirc;njuges trocavam entre si. &Eacute;<br \/>\n    certo que eles se compreenderam assim, e largas horas ficaram discutindo os<br \/>\n    teres e haveres de Daniel, e as probabilidades e vantagens de uma uni&atilde;o<br \/>\n    entre a casa dos Esquina e a dos Dornas, as quais, com os anos, podiam fornecer<br \/>\n    sofr&iacute;veis elementos para a confec&ccedil;&atilde;o de um bras&atilde;o<br \/>\n    her&aacute;ldico.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa foi encarregada por o marido de excitar na menina o ardor<br \/>\n    pela conquista, e industriada em dirigir o neg&oacute;cio de maneira a &quot;prender<br \/>\n    o melro por asa&quot; &#8211; foi a frase imaginosa, da qual Jo&atilde;o da Esquina<br \/>\n    se serviu.<\/p>\n<p>&#8212; O pior h&aacute; de ser o pai: mas segura-me tu o rapaz, que eu depois<br \/>\n    tomarei a meu cargo a empresa &#8211; dizia ele.<\/p>\n<p>Conspirados assim os dois, sentiam-se radiosos de esperan&ccedil;as no futuro.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina estava de t&atilde;o condescendente disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de esp&iacute;rito, que a sua cara metade aventurou um pedido.<\/p>\n<p>&#8212; Agora para seres bonito, Jo&atilde;o, devias tomar ars&ecirc;nico.<\/p>\n<p>O tendeiro deu um murro no mostrador.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o te calar&aacute;s com isso, Teresa?!<\/p>\n<p>A&iacute; ficam expostas as raz&otilde;es dos sorrisos, com que o pr&oacute;prio<br \/>\n    Jo&atilde;o da Esquina recebeu Daniel, &agrave; segunda visita.<\/p>\n<p>A m&atilde;e conduziu-o aos aposentos da menina e teve o discreto cuidado<br \/>\n    de se distrair &agrave; janela enquanto Daniel interrogava a doente.<\/p>\n<p>O sistema de tratamento encetado continuou, e com igual &ecirc;xito. Daniel<br \/>\n    desta vez, ao retirar-se, levava j&aacute; a autoriza&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    continuar por escrito as consola&ccedil;&otilde;es principiadas vocalmente.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa n&atilde;o deixou sair Daniel sem que ele visse todas<br \/>\n    as obras de croch&ecirc; das industriosas m&atilde;os da menina, e os modelos<br \/>\n    caligr&aacute;ficos, que escrevera na mestra. De passagem. disse-lhe tamb&eacute;m<br \/>\n    que ela havia aprendido os verbos, coisa que pouca gente sabia na terra.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa possu&iacute;a f&eacute;, quase supersticiosa, nesta ci&ecirc;ncia<br \/>\n    dos verbos.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina quis obrigar Daniel a beber um c&aacute;lice de vinho,<br \/>\n    do qual ele a muito custo conseguiu dispensar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Da rua, Daniel voltou-se para cima, e vendo &agrave; janela a descendente<br \/>\n    dos Esquinas, cortejou-a com um sorriso cheio de amabilidades.<\/p>\n<p>Um cotovel&atilde;o da Sr.&ordf; Teresa fez notar ao marido esta circunst&acirc;ncia.<br \/>\n    O homem conseguiu arranjar um gesto de finura, e recomendou gravidade.<\/p>\n<p>Naquela tarde, Daniel, escrevendo a um seu antigo condisc&iacute;pulo, dizia,<br \/>\n    entre outras coisas, o seguinte:<\/p>\n<p>&quot;Participo-te que se est&aacute; desenvolvendo em mim o gosto pelo g&ecirc;nero<br \/>\n    campestre. Principio a achar mais dignas do pincel do artista estas formosuras<br \/>\n    expressivas e, quase direi, en&eacute;rgicas da aldeia, do que as sempre monotonamente<br \/>\n    l&acirc;nguidas maravilhas da cidade. Pena &eacute; que o reconhecesse um<br \/>\n    tanto tarde. Resta-me j&aacute; pouco alento para as empresas de rapaz, e,<br \/>\n    demais, a minha nova posi&ccedil;&atilde;o social obriga-me a uma seriedade<br \/>\n    que me tolhe a a&ccedil;&atilde;o. Agora s&oacute; devo aspirar &agrave;s<br \/>\n    do&ccedil;uras emolientes do lar conjugal. N&atilde;o obstante, andam-me a<br \/>\n    tentar uns olhos pretos, e eu n&atilde;o sei se sustentarei o equil&iacute;brio<br \/>\n    por muito tempo. Encomenda a todos os santos a manuten&ccedil;&atilde;o da<br \/>\n    minha sisudez, se n&atilde;o queres ver perdida a fama do teu amigo, no ninho<br \/>\n    seu paterno.&quot;<\/p>\n<p>As visitas de Daniel &agrave; casa de Jo&atilde;o da Esquina continuaram.<\/p>\n<p>O mulherio da vizinhan&ccedil;a falava j&aacute;.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa deixava falar o mulherio. Se isso entrava at&eacute; nos<br \/>\n    seus planos.<\/p>\n<p>Uma vizinha, comadre e muito &iacute;ntima da Sr.&ordf; Teresa &#8211; uma s&oacute;<br \/>\n    ocultava &agrave; outra o mal que dela dizia pelas costas &#8211; falando-lhe um<br \/>\n    dia, aludiu a Daniel e &agrave;s suas visitas.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o comadre? pelos modos, o nosso cirurgi&atilde;o gosta<br \/>\n    muito destes s&iacute;tios.<\/p>\n<p>&#8212; Cada um vai para onde mais lhe agrada, comadre.<\/p>\n<p>&#8212; Isso l&aacute; &eacute; assim. E quem sabe o que ser&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Que ser&aacute; o que?<\/p>\n<p>&#8212; Sim comadre, ele n&atilde;o &eacute; de ra&ccedil;a que n&atilde;o<br \/>\n    seja a sua filha,<\/p>\n<p>&#8212; Decerto que n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O futuro s&oacute; Deus o sabe.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. O ponto est&aacute; que a sua pequena&#8230; Se ainda<br \/>\n    n&atilde;o lhe passou aquela cisma que teve para o Chico, sapateiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O Chico, sapateiro! &#8211; exclamou indignada a Sr.&ordf; Teresa &#8211; N&atilde;o.<br \/>\n    que a minha filha &eacute; cabedal muito fino, para ir &agrave;s m&atilde;os<br \/>\n    de um remend&atilde;o daqueles.<\/p>\n<p>&#8212; Nisso tem raz&atilde;o. Inda se fosse com o Joaquim sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Qual sacrist&atilde;o, nem meio sacrist&atilde;o! A comadre pensa<br \/>\n    que uma criatura se sustenta com aparas de h&oacute;stia e com escorralhas<br \/>\n    de galhetas?<\/p>\n<p>A comadre aplaudiu com uma gargalhada o dito, e observou:<\/p>\n<p>&#8212; O das estradas &eacute; que&#8230; est&aacute; feito&#8230; j&aacute; era<br \/>\n    assim mais jeitoso esse.<\/p>\n<p>&#8212; P&aacute;ssaro de arriba&ccedil;&atilde;o! Olhe, enfim n&atilde;o<br \/>\n    sei o que ser&aacute;. Esta pequena &eacute; muito dif&iacute;cil de contentar.<br \/>\n    Que quer? Est&aacute; estragada de mimo&#8230; Mas se ela n&atilde;o o enjeitar&#8230;<br \/>\n    que tem agora ocasi&atilde;o de fazer um bom casamento, isso tem.<\/p>\n<p>&#8212; E ele?<\/p>\n<p>&#8212; Ele? pois n&atilde;o v&ecirc; como o rapaz n&atilde;o nos larga a<br \/>\n    porta?<\/p>\n<p>&#8212; Mas ser&aacute;&#8230; com boas id&eacute;ias?<\/p>\n<p>&#8212; Ora essa, comadre! Ent&atilde;o julga que n&oacute;s somos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o digo isso. Mas&#8230; Dizem que ele foi um estr&oacute;ina<br \/>\n    dos meus pecados&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim; mas isso &eacute; com gente de pouco mais ou menos: mas<br \/>\n    n&oacute;s c&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>Neste estado estavam as coisas, e assim duraram alguns dias mais.<\/p>\n<p>Chegou a ocasi&atilde;o da Sr.&ordf; Teresa ter obtido alguma alavanca para<br \/>\n    fazer caminhar o neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Houve neste dia longa confer&ecirc;ncia entre os c&ocirc;njuges.<\/p>\n<p>Ficou demonstrado para eles que o &quot;melro estava preso pela asa&quot;.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina , levantando a sess&atilde;o, disse com modo solene:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; ocasi&atilde;o de dar o grande passo!<\/p>\n<p>E, enfiando a sua roupa dos domingos, preparou-se para sair.<\/p>\n<p>Agitava-o certa como&ccedil;&atilde;o interior, pr&oacute;pria das grandes<br \/>\n    ocasi&otilde;es. Queixou-se disto &agrave; mulher; esta observou-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; O culpado &eacute;s tu.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o? &#8211; perguntou o marido.<\/p>\n<p>&#8212; Se tomasses o&#8230;<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina n&atilde;o ouviu o resto. Saiu impetuosamente.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa, vindo &agrave; janela para o ver, dizia consigo:<\/p>\n<p>&#8212; Mas por que n&atilde;o h&aacute; este homem tomar o ars&ecirc;nico?<\/p>\n<p>Que circunst&acirc;ncia tinha convocado o concili&aacute;bulo conjugal, e<br \/>\n    o que foi fazer o Jo&atilde;o da Esquina assim ataviado.<\/p>\n<p>V&ecirc;-lo-emos no cap&iacute;tulo seguinte.<\/p>\n<h4><a name=\"23\"> Cap&iacute;tulo XXIII<\/a><\/h4>\n<p> Tomando certos ares de gravidade e de import&acirc;ncia, em grande parte<br \/>\n    devido a uns estupendos colarinhos engomados, acess&oacute;rio daquele vestu&aacute;rio<br \/>\n    t&iacute;pico, dobrou o Sr. Jo&atilde;o da Esquina a esquina, donde lhe vinha<br \/>\n    o nome, e, atravessando a rua adjacente, caminhou em dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &agrave; casa de Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>Ao entrar no port&atilde;o do lavrador, deu o tendeiro ao rosto um jeito<br \/>\n    de indigna&ccedil;&atilde;o e procurou simular em seus movimentos uma impetuosidade<br \/>\n    e impaci&ecirc;ncia, contra as quais estava protestando aquele todo bonacheir&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Diga ao Sr. Jos&eacute; das Dornas que est&aacute; aqui o Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina, que lhe quer dizer duas palavras &#8211; foi como, em tom desabrido,<br \/>\n    ele se mandou anunciar pelo primeiro criado que viu.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas que acabaras de dormir uma sesta refociladora, veio<br \/>\n    ter com seu vizinho, com o rosto alegre e cantarolando.<\/p>\n<p>Ai, l&aacute; ri l&oacute; l&eacute; l&aacute;.<br \/>\n    Eu vou pela mansid&atilde;o<\/p>\n<p>&#8211; Ol&aacute; &#8211; bradou o jovial lavrador, vendo o tendeiro &#8211; Viva o Sr. Jo&atilde;o!<br \/>\n    Ditosos olhos que o v&ecirc;em! Como vai essa bizarria? Sente-se; esteja a<br \/>\n    seu gosto. Vai um copito de rascante?<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado &#8211; respondeu secamente Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Pois mal sabe o que perde; &eacute; daquele de esfolar o c&eacute;u<br \/>\n    da boca. Ent&atilde;o que milagre o traz por esta sua casa?<\/p>\n<p>&#8212; Um neg&oacute;cio muito s&eacute;rio.<\/p>\n<p>&#8212; Temos empr&eacute;stimo &#8211; disse, em parte, Jos&eacute; das Dornas;<br \/>\n    e alto: &#8211; Muito s&eacute;rio?! O caso &eacute; que voc&ecirc; traz cara de<br \/>\n    funeral. Ah! Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Tenho pouca vontade de rir, Sr. Jos&eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Mau &eacute; isso. Ent&atilde;o que diabo o aflige? Desembuche para<br \/>\n    a&iacute;. Olhe que eu sou homem para as ocasi&otilde;es. A sua filha est&aacute;<br \/>\n    pior?<\/p>\n<p>&#8212; A minha filha est&aacute; boa &#8211; replicou, com certo mau modo, o tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Boa! Com que ent&atilde;o&#8230; logo &agrave; primeira&#8230; hein? O meu<br \/>\n    Daniel saiu-se como um homem.<\/p>\n<p>&#8212; Saiu-se otimamente &#8211; disse Jo&atilde;o da Esquina duma maneira que<br \/>\n    procurou fazer not&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe que me tem esquecido emprestar-lhe o livro do rapaz &#8211; continuou<br \/>\n    Jos&eacute; das Dornas, que n&atilde;o notara a tal maneira &#8211; aquele em que<br \/>\n    lhe falei; mas espere, que eu vou&#8230;<\/p>\n<p>Ia a levantar-se, por&eacute;m um gesto do seu interlocutor f&ecirc;-lo parar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tenha inc&ocirc;modo. &Eacute; de outra obra de seu filho,<br \/>\n    que lhe quero falar.<\/p>\n<p>&#8212; De outra!<\/p>\n<p>E Jos&eacute; das Dornas principiou a dar mais aten&ccedil;&atilde;o aos<br \/>\n    modos esquisitos do tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Homem, voc&ecirc; hoje n&atilde;o sei o que tem consigo! N&atilde;o<br \/>\n    o entendo!<\/p>\n<p>Em vez de responder, Jo&atilde;o da Esquina p&ocirc;s-se a mexer nos bolsos,<br \/>\n    e tirou de l&aacute; um papel cor-de-rosa, pequeno, elegante, lustroso e aromatizado;<br \/>\n    desdobrou-o, e pondo-o diante dos olhos do lavrador, disse-lhe simplesmente:<\/p>\n<p>&#8212; Ora, fa&ccedil;a o favor de ler isto.<\/p>\n<p>&#8212; Mas isto o que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Leia e ver&aacute;.<\/p>\n<p>Era f&aacute;cil dizer: &quot;leia&quot;, mas n&atilde;o de pequena dificuldade<br \/>\n    para Jos&eacute; das Dornas a tarefa, que com essas palavras lhe impunham.<\/p>\n<p>&#8212; Homem, &eacute; melhor que voc&ecirc; me diga o que &eacute; isto,<br \/>\n    do que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nada, n&atilde;o senhor. Leia.<\/p>\n<p>&#8212; Valha-o Deus! &#8211; disse o bom lavrador, afastando o papel dos olhos<br \/>\n    quatro palmos, para o poder ler; n&atilde;o o conseguindo, tirou do bolso<br \/>\n    umas cangalhas, das quais armou o nariz, depois de ter lan&ccedil;ado para<br \/>\n    o interlocutor um olhar, que valia um recurso, para tribunal de &uacute;ltima<br \/>\n    inst&acirc;ncia, contra uma senten&ccedil;a de morte.<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Trigueira&quot; &#8211; leu ele logo no topo da p&aacute;gina, e<br \/>\n    voltou para o tendeiro os olhos de espanto.<\/p>\n<p>&#8212; Trigueira! &#8211; Que quer dizer isto?<\/p>\n<p>&#8212; Homem, leia, leia que o saber&aacute;.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas continuou, j&aacute; se imagina como. Eu evitarei<br \/>\n    ao leitor o assistir &agrave;s verbera&ccedil;&otilde;es, que ele aplicou<br \/>\n    &agrave; pros&oacute;dia portuguesa. Eis o que leu:<\/p>\n<p>Trigueira! que tem? Mais feia<br \/>\n    Com essa cor te imaginas?<br \/>\n    Feia! tu, que assim fascinas<br \/>\n    Com um s&oacute; olhar dos teus!<br \/>\n    Que ci&uacute;mes tens da alvura<br \/>\n    Desses semblantes de neve!<br \/>\n    Ai, pobre cabe&ccedil;a leve!<br \/>\n    Que te n&atilde;o castigue Deus.<\/p>\n<p>No fim desta primeira est&acirc;ncia, Jos&eacute; das Dornas, como atordoado,<br \/>\n    levantou os olhos para Jo&atilde;o da Esquina; mas viu-o t&atilde;o s&eacute;rio,<br \/>\n    que continuou: <\/p>\n<p>Trigueira! se tu soubesses<br \/>\n    O que &eacute; ser assim trigueira!<br \/>\n    Dessa ardilosa maneira<br \/>\n    Por que tu o sabes ser,<br \/>\n    N&atilde;o virias lamentar-te.<br \/>\n    Toda sentida e chorosa,<br \/>\n    Tendo inveja &agrave; cor-de-rosa,<br \/>\n    Sem motivos para a ter.<\/p>\n<p>&#8211; &Ocirc; vizinho, mas isto&#8230; &#8211; ia a dizer Jos&eacute; das Dornas, que principiava<br \/>\n    a suar.<\/p>\n<p>Um gesto do tendeiro obrigou-o a prosseguir: <\/p>\n<p>Trigueira! Porque &eacute;s trigueira,<br \/>\n    &Eacute; que eu assim te quis tanto<\/p>\n<p>&#8211; Repare Sr. Jos&eacute; &#8211; observou do lado, Jo&atilde;o da Esquina &#8211; &quot;&Eacute;<br \/>\n    que eu assim te quis tanto&quot;. V&aacute; reparando.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas abriu muito os olhos para reparar, e continuou:<\/p>\n<p>Da&iacute; prov&eacute;m todo o encanto<br \/>\n    Em que me traz este amor.<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Este amor&quot; repare, vizinho, &quot;este amor&quot;! &#8211; tornou<br \/>\n    a dizer Jo&atilde;o da Esquina, e Jos&eacute; das Dornas tornou a abrir muito<br \/>\n    os olhos, repetindo, sem saber para qu&ecirc;:<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Este amor&quot;&#8230; &eacute; verdade, &quot;este amor&#8230;&quot;<br \/>\n    C&aacute; est&aacute;.<\/p>\n<p>E prosseguiu:<\/p>\n<p>E suspiras e murmuras!<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; peta! notou Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Palavra de honra, que est&aacute; aqui &quot;E suspira e murmuras&quot;,<br \/>\n    Sr. Jo&atilde;o. Ora fa&ccedil;a favor de ver.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o nego; quero eu dizer que&#8230; mas adiante, adiante.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas continuou: <\/p>\n<p>E suspiras e murmuras!<br \/>\n    Que mais desejavas ainda!<br \/>\n    Pois serias tu mais linda,<br \/>\n    Se tivesses outra cor?<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas come&ccedil;ou a lan&ccedil;ar para o vizinho um olhar<br \/>\n    inquieto; estava seriamente pensando que o homem endoidecera.<\/p>\n<p>&#8212; Continue &#8211; disse-lhe o tendeiro.<\/p>\n<p>E o lavrador continuou, suando cada vez mais: <\/p>\n<p>Trigueira! onde mais real&ccedil;a<br \/>\n    O brilhar duns olhos pretos<br \/>\n    Sempre &uacute;midos, sempre inquietos<br \/>\n    Do que numa cor assim?<br \/>\n    Onde o correr duma l&aacute;grima<br \/>\n    Mais encantos apresenta?<br \/>\n    E um sorriso, um s&oacute; nos tenta,<br \/>\n    Como me tentou a mim?<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Como me tentou a mim&quot; &#8211; repetiu Jo&atilde;o da Esquina.- V&aacute;<br \/>\n    vendo.<\/p>\n<p>&#8212; Homem! exclamou Jos&eacute; das Dornas, estafado &#8211; bastar&aacute;<br \/>\n    de leituras.<\/p>\n<p>&#8212; Pouco falta. est&aacute; a acabar &#8211; respondeu o outro.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas resignou-se e prosseguiu.<\/p>\n<p>Trigueira! E choras por isso!<br \/>\n    Choras, quando outras te invejam<br \/>\n    Essa cor, e em v&atilde;o forcejam<br \/>\n    Para como tu fascinar?<br \/>\n    &Oacute; louca, nunca mais digas,<br \/>\n    Nunca mais, que &eacute;s desditosa,<br \/>\n    Invejar &agrave; cor-de-rosa,<br \/>\n    Em ti, &eacute; quase pecar.<\/p>\n<p>&#8211; &Oacute; Sr. Jo&atilde;o! Eu n&atilde;o posso mais! &#8211; exclamou Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, com acento lastimoso.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; s&oacute; um agora; e acabou.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>E, ficando na retic&ecirc;ncia, Jos&eacute; das Dornas tomou f&ocirc;lego<br \/>\n    para ler ainda:<\/p>\n<p>Trigueira! Vamos, esconde-me<br \/>\n    Esse choro de crian&ccedil;a.<br \/>\n    Ai, que falta de confian&ccedil;a!<br \/>\n    Que graciosa timidez!<br \/>\n    Enxuga os bonitos olhos.<br \/>\n    Ent&atilde;o, n&atilde;o chores, trigueira,<br \/>\n    E nunca dessa maneira<br \/>\n    Te lamentes outra vez.<\/p>\n<p>&#8211; Buff! &#8211; bradou Jos&eacute; das Dornas, ao terminar a leitura, e limpando<br \/>\n    o suor, que o banhava.<\/p>\n<p>&#8212; Leu? &#8211; perguntou o tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor. Est&atilde;o bonitos. S&atilde;o seus, Sr. Jo&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Meus!? &#8211; exclamou o tendeiro, escandalizado quase. &#8211; Isto &eacute;<br \/>\n    mais uma receita do nosso m&eacute;dico novo.<\/p>\n<p>&#8212; Hein! &#8211; disse Jos&eacute; das Dornas, parecendo-lhe que n&atilde;o<br \/>\n    tinha ouvido bem &#8211; diz vossemec&ecirc; que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Outra das lembran&ccedil;as do senhor seu filho.<\/p>\n<p>&#8212; Do&#8230; do meu&#8230; do Daniel?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor&#8230; Do Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Pois o rapaz fez isto?!<\/p>\n<p>&#8212; Era com essas e outras que ele andava a tratar a minha filha. O culpado<br \/>\n    fui eu, que lhe dei entrada em casa.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas esteve a deixar escapar uma gargalhada, mas conteve-se<br \/>\n    prudentemente.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; vizinho, por quem &eacute;, n&atilde;o ande por a&iacute;<br \/>\n    a dizer essas coisas, que me desacredita o rapaz. Olhem se o Jo&atilde;o da<br \/>\n    Semana o sabe! Um m&eacute;dico poeta! Para que diabo lhe havia de dar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que fa&ccedil;a versos &agrave; Lua e ao Sol, se quiser &#8211; dizia Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina &#8211; n&atilde;o h&aacute; de tirar disso grande proveito, mas que<br \/>\n    os fa&ccedil;a, que os fa&ccedil;a; agora andar a inquietar fam&iacute;lias<br \/>\n    e &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz&atilde;o, vizinho, tem raz&atilde;o, e eu lhe prometo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Abusar da confian&ccedil;a de um homem como eu!<\/p>\n<p>&#8212; Tem muita raz&atilde;o, vizinho<\/p>\n<p>&#8212; Fazer andar &agrave; roda a cabe&ccedil;a de uma rapariga de ju&iacute;zo!<\/p>\n<p>Neste ponto, Jos&eacute; das Dornas engoliu em seco, mas n&atilde;o deixou<br \/>\n    de repetir:<\/p>\n<p>&#8212; Tem toda a raz&atilde;o, vizinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um desaforo!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o o nego, Sr. Jo&atilde;o, n&atilde;o o nego.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; homem em que a gente se fie.<\/p>\n<p>&#8212; A falar verdade&#8230;.n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Enfim, Sr. Jos&eacute; &#8211; continuou o tendeiro com ar resoluto, e,<br \/>\n    depois de uma pausa, concluiu &#8211; &Eacute; for&ccedil;osa uma satisfa&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8212; Eu lhe prometo que o rapaz n&atilde;o volta l&aacute;.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina fez um gesto de quem n&atilde;o se lisonjeava com<br \/>\n    a promessa.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; por isso que eu digo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; O vizinho sabe o que s&atilde;o bocas do mundo?<\/p>\n<p>&#8212; Sim; e depois?<\/p>\n<p>&#8212; O que s&atilde;o l&iacute;nguas chocalheiras?<\/p>\n<p>&#8212; Sim; e da&iacute;?<\/p>\n<p>&#8212; O que s&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vamos; adiante.<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem; para as fazer calar, &eacute; preciso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; preciso o qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; necess&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; necess&aacute;rio o qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; indispens&aacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? Sr. Jo&atilde;o, o qu&ecirc;?&#8230; &#8211; exclamou o lavrador,<br \/>\n    j&aacute; impaciente &#8211; o que &eacute; necess&aacute;rio?<\/p>\n<p>&#8212; Que seu filho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que meu filho?<\/p>\n<p>&#8212; Case&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Com sua filha, n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bem de ver.<\/p>\n<p>Com grande esc&acirc;ndalo do tendeiro, Jos&eacute; das Dornas p&ocirc;s-se<br \/>\n    a cantarolar: <\/p>\n<p>Ai, l&aacute; ri l&oacute; l&eacute; l&aacute;,<br \/>\n    Eu vou pela mansid&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8211; E foi para isso que teve o trabalho de vir aqui? Ora olhe, Sr. Jo&atilde;o:<br \/>\n    n&oacute;s somos conhecidos antigos, e eu macaco velho, como deve saber, que<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o me deixo levar por essas. Aqui para n&oacute;s, por que<br \/>\n    n&atilde;o tapou o vizinho da mesma forma as bocas mundo, que tanto falou<br \/>\n    do derri&ccedil;o de sua filha com o filho do sineiro? Por que se deu lhe<br \/>\n    n&atilde;o deu que elas tagarelassem por ocasi&atilde;o da festa do Cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jesus, quando o Bento do padeiro n&atilde;o tirou os olhos dela, e ela<br \/>\n    dele, durante toda a festa? Por que fez ouvidos de mercador, quando o Sr.<br \/>\n    Padre Ant&ocirc;nio lhe disse que casasse a rapariga com o Chico sapateiro<br \/>\n    para n&atilde;o dar que falar a cegueira em que ela andava com ele? A&iacute;<br \/>\n    ent&atilde;o, n&atilde;o quis: nem lhe importaram as l&iacute;nguas chocalheiras?<br \/>\n    Chegaram-lhe agora as febres. Pois veio bater a m&aacute; porta. Sossegue.<br \/>\n    N&atilde;o tenha susto. Homens, que fazem versos, n&atilde;o s&atilde;o os<br \/>\n    piores. Contentam-se com isso. Sabe que mais? Meta a viola no saco; retese<br \/>\n    a corda &agrave; cachopa, e deixe correr.<\/p>\n<p>&#8212; Isso n&atilde;o &eacute; resposta que se d&ecirc;, Sr. Jos&eacute;<br \/>\n    &#8211; exclamou o tendeiro, que via prestes a fugir-lhe uma &oacute;tima ocasi&atilde;o<br \/>\n    de neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se zangues, Sr. Jo&atilde;o. Amigos como dantes. Pensemos<br \/>\n    em outra coisa. Est&aacute; um tempo muito criador&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Jos&eacute;, isto n&atilde;o vai assim.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me mortifique, Sr. Jo&atilde;o, para que n&atilde;o v&aacute;<br \/>\n    pior. Os milhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Jos&eacute;!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o berre, vizinho.<\/p>\n<p>&#8212; Eu quero ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois abre os olhos&#8230; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quero ver se &eacute; capaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Jo&atilde;o, v&aacute; para casa.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Jos&eacute; das Dornas! veja o que faz.<\/p>\n<p>&#8212; Estou vendo.<\/p>\n<p>&#8212; Repare bem para mim.<\/p>\n<p>&#8212; Estou reparando.<\/p>\n<p>&#8212; Saiba que eu sou&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o p&ocirc;de dizer o qu&ecirc;. Interrompeu-lhe o discurso o reitor,<br \/>\n    que entrou na sala. Vendo o aspecto dos dois interlocutores, e a vivacidade<br \/>\n    do gesto do tendeiro, o padre quis saber a raz&atilde;o da contenda. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina desanimou em presen&ccedil;a do reitor. Agourou mal da interven&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Depois e ouvir as queixas do tendeiro, o reitor perguntou-lhe, com o rosto<br \/>\n    severo, se o casamento da filha com empreiteiro das estradas n&atilde;o viria<br \/>\n    reparar mais falhas na inteireza da sua boa fama dom&eacute;stica.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina sentiu-se derrotado, e j&aacute; procurava uma sa&iacute;da<br \/>\n    airosa.<\/p>\n<p>&#8212; Bem; eu retiro-me, que sou prudente. Levo a consci&ecirc;ncia de<br \/>\n    que fiz o meu dever. Mas o mundo saber&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>O resto da ora&ccedil;&atilde;o pronunciou-a fora da porta. esta circunst&acirc;ncia<br \/>\n    impossibilita-me de informar o leitor sobre o que o mundo tem de vir a saber<br \/>\n    a respeito do tendeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Que lhe parece esta, Sr. Reitor? &#8211; disse Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    mal o viu sair. &#8211; Havia o meu Daniel de&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O teu Daniel &eacute; um doido; e se isto assim continua, h&aacute;<br \/>\n    de vir a fazer a tua desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Mas uns versos que mal fazem? e ent&atilde;o &agrave;quele cata-vento<br \/>\n    da Chica do tendeiro, que &eacute; mesmo&#8230; o Senhor me perdoe.<\/p>\n<p>&#8212; Homem; a coisa n&atilde;o est&aacute; nos versos. O que eu digo &eacute;<br \/>\n    que o Daniel tem deveres t&atilde;o sagrados, entrando no seio das fam&iacute;lias,<br \/>\n    como n&oacute;s os p&aacute;rocos. E se as m&atilde;os, que devem levar o<br \/>\n    rem&eacute;dio, espalham a pe&ccedil;onha, a maldi&ccedil;&atilde;o de Deus<br \/>\n    desce sobre elas. Quem abrir&aacute; as portas da alcova, onde pade&ccedil;a<br \/>\n    uma filha, uma esposa ou uma irm&atilde;, ao m&eacute;dico que n&atilde;o<br \/>\n    tem for&ccedil;a para sufocar as paix&otilde;es m&aacute;s do seu cora&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    F&aacute;-lo-ias tu? N&atilde;o nem eu. Quanto mais santa &eacute; uma miss&atilde;o<br \/>\n    neste mundo, Jos&eacute;, mais se rebaixa e avilta quem a aceita sem ter-lhe<br \/>\n    compreendido o alcance. O mau padre &eacute; o pior dos homens; e parece-te<br \/>\n    que ser&aacute; muito melhor o m&eacute;dico imoral? Pensa nisto, e diz-me<br \/>\n    se Daniel merece grandes desculpas.<\/p>\n<p>As palavras do reitor tinham o poder de calar no &acirc;nimo de Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, como as de ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>O lavrador baixou a cabe&ccedil;a, e perguntou humildemente:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o acha V.S.&ordf; que Daniel deve casar com a &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o digo tanto! &#8211; respondeu com vivacidade o reitor &#8211; Ali<br \/>\n    houve c&aacute;lculo neles, conhe&ccedil;o-os h&aacute; muito; e espero que<br \/>\n    da parte de Daniel nada mais se deu al&eacute;m da loucura dos versos, que<br \/>\n    n&atilde;o valem nada afinal. Mas que lhe sirva de aviso.<\/p>\n<p>&#8212; Se o Sr. Reitor lhe fosse ralhar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Onde est&aacute; ele?<\/p>\n<p>&#8212; Deve estar l&aacute; dentro no quarto.<\/p>\n<p>O padre foi ter com Daniel. <\/p>\n<h4><a name=\"24\">Cap&iacute;tulo XXIV<\/a><\/h4>\n<p> A vida que, por aquele tempo, Daniel passava na aldeia era de uma monotonia<br \/>\n    capaz at&eacute; de saciar as exig&ecirc;ncias do homem mais indolente e ocioso.\n  <\/p>\n<p>Vejamos em que se ocupava o nosso her&oacute;i, enquanto, sem o suspeitar,<br \/>\n    estava sendo objeto do momentoso di&aacute;logo, do qual, no cap&iacute;tulo<br \/>\n    antecedente, nos aventuramos a ser cronista.<\/p>\n<p>Para isso tomemos a dianteira ao reitor e entremos, antes dele, no quarto<br \/>\n    de Daniel.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei se &eacute; a voz da consci&ecirc;ncia a que me est&aacute;<br \/>\n    a bradar que vou cometer uma indiscri&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As pessoas mais sisudas e graves t&ecirc;m momentos na vida, durante os quais,<br \/>\n    a s&oacute;s consigo, se entregam a distra&ccedil;&otilde;es de crian&ccedil;as.<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel, pois, irmos encontrar Daniel em um dos tais momentos;<br \/>\n    e talvez que o possamos, por essa forma, prejudicar no conceito dos leitores.<br \/>\n    Mas, por quem s&atilde;o, lembrem-se que, em horas de &oacute;cio e enfado,<br \/>\n    ouso eu afirm&aacute;-lo, n&atilde;o tem sido tamb&eacute;m demasiado os escr&uacute;pulos<br \/>\n    na escolha de passatempos; essa considera&ccedil;&atilde;o decerto os far&aacute;<br \/>\n    indulgentes.<\/p>\n<p>&Agrave;quela hora do dia, Daniel sentia-se morrer de t&eacute;dio, debaixo<br \/>\n    dos telhados paternais.<\/p>\n<p>O calor n&atilde;o o deixava sair.<\/p>\n<p>Quis ler: faltavam-lhe por&eacute;m os livros. Os seus ainda n&atilde;o tinham<br \/>\n    chegado da cidade.<\/p>\n<p>Revistando os cantos e escaninhos da casa, apenas encontrou tr&ecirc;s repert&oacute;rios<br \/>\n    dos anos findos, uma cartilha de doutrina crist&atilde;, uma t&aacute;bua<br \/>\n    de pesos, medidas e dinheiros, e, em g&ecirc;nero mais ameno, o Testamento<br \/>\n    do Galo, a confiss&atilde;o do Marujo Vicente e a Vida Milagrosa de n&atilde;o<br \/>\n    sei que santo padroeiro da freguesia.<\/p>\n<p>Ainda assim, tudo isto leu Daniel, por motivo an&aacute;logo aos que levou<br \/>\n    os n&aacute;ufragos da nau Catrineta a &quot;deitarem sola de molho para o<br \/>\n    outro dia jantar&quot;.<\/p>\n<p>Esgotado este pec&uacute;lio liter&aacute;rio, lembrou-se Daniel de escrever<br \/>\n    cartas. Encontrou, por&eacute;m, o tinteiro muito pobre de tinta; essa, amarela<br \/>\n    e bolorenta; e, pior que tudo, uma pena de pato, de tantos caprichos, que<br \/>\n    lhe fez perder logo a paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Veio para a janela; e, durante algum tempo, divertiu-se a atirar biscoitos<br \/>\n    a um c&atilde;o, que andava solto pela quinta. As galinhas, patos, pombos<br \/>\n    e perus, que havia em abund&acirc;ncia na casa, corriam tumultuosamente a<br \/>\n    disputar ao quadr&uacute;pede as migalhas as quais ele defendia com unhas<br \/>\n    e dentes.<\/p>\n<p>Este jogo de circo, em miniatura, encantava Daniel. Afinal cansou-se dele<br \/>\n    tamb&eacute;m, e f&ecirc;-lo cessar.<\/p>\n<p>Vendo ent&atilde;o um gato em pachorrento repouso, no alto duma ramada distante,<br \/>\n    tomou um espelho, e, por meio dele, fez cair sobre a cabe&ccedil;a do sonolento<br \/>\n    animal os raios ofuscadores daquele sol de agosto.<\/p>\n<p>O gato, assim despertado, abriu os olhos, mas fechou-os logo, e desviou a<br \/>\n    cabe&ccedil;a para se furtar &agrave;quela pouco agrad&aacute;vel impress&atilde;o.<br \/>\n    Depois de v&aacute;rios movimentos, sentindo-se sempre perseguido por o mesmo<br \/>\n    reflexo, ergueu-se, espregui&ccedil;ou-se, agu&ccedil;ou as unhas na madeira<br \/>\n    da ramada, e, voltando-se para o outro lado, ajeitou-se com o manifesto intento<br \/>\n    de concluir o sono interrompido.<\/p>\n<p>Impossibilitado, por esta evolu&ccedil;&atilde;o do gato, de continuar a<br \/>\n    incomod&aacute;-lo da mesma forma que at&eacute; ali, Daniel fez-lhe pontaria<br \/>\n    com uma ma&ccedil;&atilde; verde, e t&atilde;o certeira que o projetil foi<br \/>\n    bater em cheio nas costas do animal, que num salto desapareceu.<\/p>\n<p>Terminou para Daniel mais este divertimento.<\/p>\n<p>No peitoril da janela descobriu, por&eacute;m, uma formiga. Uma formiga!<br \/>\n    Que valiosos achado naquelas alturas!<\/p>\n<p>A provid&ecirc;ncia dos desocupados velava decerto por ele.<\/p>\n<p>Procurou logo uma migalha de p&atilde;o e p&ocirc;-la na passagem do laborioso<br \/>\n    inseto.<\/p>\n<p>A formiga parou, tenteou com as antenas o estorvo, assim de repente lan&ccedil;ado<br \/>\n    no seu caminho, examinou-o de todos os lados, depois, talvez por capricho<br \/>\n    &#8211; porque at&eacute; os insetos t&ecirc;m, a meu ver, alguns caprichos &#8211; deu-lhe<br \/>\n    para desprezar o alimento e deitou a fugir.<\/p>\n<p>Daniel insistiu, colocando-lhe outra vez o p&#038;atiatilde;o na passagem; o mesmo<br \/>\n    exame da parte da formiga, e a mesma rejei&ccedil;&atilde;o final. Nova tentativa<br \/>\n    de Daniel foi ainda seguida do mesmo resultado. Era demais para sua paci&ecirc;ncia;<br \/>\n    com um sopro fez voar a migalha e formiga pela janela fora.<\/p>\n<p>E mais uma vez, ficou sem entretenimento.<\/p>\n<p>P&ocirc;s-se a passear no quarto; primeiro descrevendo ziguezagues; depois,<br \/>\n    procurando conservar os p&eacute;s na linha de juntura de t&aacute;buas do<br \/>\n    soalho; em seguida, medindo escrupulosamente a passos regulares o comprimento<br \/>\n    e a largura do ret&acirc;ngulo do aposento; e, feita esta &uacute;ltima opera&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    multiplicou os resultados obtidos, como se tomasse muito a peito o c&aacute;lculo<br \/>\n    daquela &aacute;rea.<\/p>\n<p>Completa esta tarefa, e, depois de alguns bocejos expressivos de enfado,<br \/>\n    procedeu ao trabalho, n&atilde;o menos importante, de equilibrar na ponta<br \/>\n    do dedo m&iacute;nimo uma vara de marmeleiro.<\/p>\n<p>Cansou-o cedo a viol&ecirc;ncia do exerc&iacute;cio, no qual, de mais a mais,<br \/>\n    n&atilde;o foi muito feliz; este mau &ecirc;xito desgostou-o como se naquilo<br \/>\n    tivera posto a sua reputa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Acendeu um cigarro comprado no &uacute;nico e mal fornecido estanco da terra.<br \/>\n    O papel parecia, por&eacute;m, apostado a impacient&aacute;-lo: era incombust&iacute;vel;<br \/>\n    o tabaco tinha crepita&ccedil;&otilde;es que aos ouvidos de Daniel soavam<br \/>\n    como risadas de mofa; e os lumes prontos, aqueles perfeitos e elegantes lumes<br \/>\n    prontos de pau, primitivos modelos da industria nacional, bem conhecidos de<br \/>\n    n&oacute;s todos, perdiam a cabe&ccedil;a &agrave; primeiro tentativa feita<br \/>\n    para os inflamar&#8230; faziam-na perder tamb&eacute;m a Daniel, diria eu, se<br \/>\n    se usassem ainda os trocadilhos.<\/p>\n<p>Chegou a despejar uma caixa para acender o cigarro, e este ardia-lhe s&oacute;<br \/>\n    de um lado. Afinal n&atilde;o fumou.<\/p>\n<p>Para desabafar a sua impaci&ecirc;ncia, trauteou toda a m&uacute;sica italiana<br \/>\n    que a mem&oacute;ria lhe armazenava, e acabou por cantar em voz alta a &aacute;ria<br \/>\n    de Genaro na Lucr&eacute;cia: <\/p>\n<p>Di pescator ignobile<br \/>\n    Esser figliuolo credei<\/p>\n<p>Nisto, chegando &agrave; janela, viu que os mo&ccedil;os da lavoura estavam<br \/>\n    todos a olhar para cima boquiabertos, admirando aquele acesso de f&uacute;ria<br \/>\n    musical.<\/p>\n<p>&#8212; Bom &#8211; pensou Daniel &#8211; Estou dando esc&acirc;ndalo, e a arriscar a<br \/>\n    minha reputa&ccedil;&atilde;o de homem sisudo.<\/p>\n<p>E calou-se, tocando com os dedos um rufo no peitoril da janela.<\/p>\n<p>Depois passeou, sentou-se, ergueu-se de novo, e tornou a passear.<\/p>\n<p>Achando por acaso uma pedra de giz, escreveu distra&iacute;do, na porta da<br \/>\n    janela, as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Coge-&Ccedil;ofar &#8211; Sumatra &#8211; Telesc&oacute;pio &#8211; Manon Lescaut<\/p>\n<p>O oculto fio l&oacute;gico, que, encadeava essas quatro palavras na mente<br \/>\n    de Daniel, &eacute; um mist&eacute;rio que eu n&atilde;o sei decifrar.<\/p>\n<p>O giz gastou-se.<\/p>\n<p>&Oacute; doce vida da aldeia &#8211; exclamou por fim Daniel com amargura &#8211; &Oacute;<br \/>\n    sonho dourado dos poetas de ge&oacute;rgicas e de id&iacute;lios, como eu<br \/>\n    me estou deliciando em ti! Eis a secura quies, os otia in latis fundis e os<br \/>\n    molles somni, de que fala o poeta. &Eacute; isto! Ora eu sempre queria que<br \/>\n    aquele bom do Virg&iacute;lio me dissesse o que se h&aacute; de fazer no campo<br \/>\n    a estas horas do dia? Que vida! que vida esta, meu Deus! e que futuro!<\/p>\n<p>Ao dizer isso, lan&ccedil;ou casualmente os olhos para o leito, e, como se<br \/>\n    este lhe desse a resposta, ao que ele queria perguntar ao cantor de En&eacute;ias,<br \/>\n    deitou-se.<\/p>\n<p>Deitou de costas, e p&ocirc;s-se ent&atilde;o a contar as t&aacute;buas do<br \/>\n    teto.<\/p>\n<p>Contou dezessete.<\/p>\n<p>&#8212; Dezessete, noves fora, oito &#8211; disse insensivelmente Daniel.<\/p>\n<p>Depois reparou que eram oito os vidros da janela, e admirou l&aacute; consigo<br \/>\n    muito esta, na verdade admir&aacute;vel, coincid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Um resultado t&atilde;o curioso animou-o a prosseguir em observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    an&aacute;logas.<\/p>\n<p>Preparava-se para contar as cabe&ccedil;as dos pregos, que viu pelo teto,<br \/>\n    por&eacute;m uma mosca importuna. teimando em pousar-lhe na testa, veio perturb&aacute;-lo<br \/>\n    neste ponderoso exame, e obrigou-o a desistir.<\/p>\n<p>Por acaso, fitou ent&atilde;o os olhos em uma esp&eacute;cie de mancha escura,<br \/>\n    que estava na parede fronteira. Ao princ&iacute;pio olhou-a distra&iacute;do,<br \/>\n    mas pouco a pouco, a aten&ccedil;&atilde;o empenhara-se naquilo, como se em<br \/>\n    objeto de grande monta.<\/p>\n<p>A dist&acirc;ncia n&atilde;o lhe permitia distinguir o que fosse.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; uma n&oacute;doa de umidade, decerto &#8211; disse Daniel consigo<br \/>\n    &#8211; ou n&atilde;o&#8230; &eacute; um inseto talvez&#8230; Mas n&atilde;o se move?&#8230;<br \/>\n    Seja o que for&#8230;<\/p>\n<p>E desviou os olhos.<\/p>\n<p>Da&iacute; a pouco estava outra vez a olha r para l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um inseto, &eacute;&#8230; mas t&atilde;o im&oacute;vel!&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o pode deixar de soprar-lhe, ainda que sem probabilidade nenhuma<br \/>\n    de o atingir, pela dist&acirc;ncia a que lhe ficava.<\/p>\n<p>A mancha negra n&atilde;o se movei.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; inseto &#8211; pensou Daniel.<\/p>\n<p>E outra vez retirou a vista daquele ponto, para, passados instantes, a levar<br \/>\n    de novo l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a forma &eacute; de inseto&#8230;<\/p>\n<p>E ergueu meio corpo e estendeu a cabe&ccedil;a para o s&iacute;tio. N&atilde;o<br \/>\n    pode ainda distinguir o que fosse aquilo.<\/p>\n<p>Tornou a deitar-se, simulando a resolu&ccedil;&atilde;o de se n&atilde;o<br \/>\n    importar mais com o problema.<\/p>\n<p>Mas a curiosidade irritada subiu a ponto de o constranger a levantar-se.<br \/>\n    Aproximou-se ent&atilde;o da mancha da parede, e viu que era uma mariposa<br \/>\n    escura, em um daqueles estados de imobilidade, em que por tanto tempo se conservam<br \/>\n    &agrave;s vezes. Daniel n&atilde;o resistiu &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de lhe tocar de leve nas asas; a mariposa fugiu.<\/p>\n<p>Perseguindo-a, chegou at&eacute; a janela.<\/p>\n<p>Neste momento passava no p&aacute;tio um dos mais velhos criados da quinta.<br \/>\n    Daniel chamou-o e mandou-o subir.<\/p>\n<p>Da&iacute; a instantes, entrava-lhe o homem no quarto.<\/p>\n<p>Daniel deitou-se e disse-lhe que falasse.<\/p>\n<p>O criado n&atilde;o sabia em qu&ecirc;.<\/p>\n<p>&#8212; No que quiseres; mas fala-me para a&iacute;.<\/p>\n<p>O velho olhou para a janela, olhou para o ar, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; Temos vento; aquelas nuvens brancas costumam dar nisso.<\/p>\n<p>&#8212; Tu sabes o que &eacute; o vento? &#8211; disse Daniel, espregui&ccedil;ando-se<\/p>\n<p>&#8212; O vento? O vento &eacute; assim um coisa&#8230; como um&#8230; assopro &#8211;<br \/>\n    respondeu o homem.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;s um asno. O vento &eacute; uma corrente de ar, produzida<br \/>\n    pela desigual distribui&ccedil;&atilde;o de temperatura na atmosfera.<\/p>\n<p>E Daniel dizendo isto, entre dois bocejos, olho para o criado divertindo-se<br \/>\n    em estudar-lhe no rosto o efeito da defini&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.<\/p>\n<p>O homem abriu a boca, sorrindo de d&uacute;vida.<\/p>\n<p>&#8212; Mas aposto que o menino n&atilde;o me sabe dizer uma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? &#8211; perguntou Daniel, que estava a achar sabor ao di&aacute;logo.<\/p>\n<p>&#8212; Donde vem o vento e para onde vai?<\/p>\n<p>Esta pergunta, an&aacute;loga a outra que, ainda n&atilde;o h&aacute; muito<br \/>\n    se fez em lugar mais s&eacute;rio, embara&ccedil;ou algum tanto Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; E tu sabes, Ant&ocirc;nio?<\/p>\n<p>&#8212; Eu!? N&atilde;o que nem nenhum matem&aacute;tico. E diga-me, sabe<br \/>\n    tamb&eacute;m o que s&atilde;o estes sinais que aparecem, &agrave;s vezes,<br \/>\n    como a semana passada?<\/p>\n<p>&#8212; Que sinais?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o viu aquela noite da semana passada a Lua a sumir-se,<br \/>\n    que era uma coisa de estarrecer?<\/p>\n<p>&#8212; Ai, isso era um eclipse.<\/p>\n<p>&#8212; Um eclis? Pois um eclis, seria. Mas o que &eacute; aquilo?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; a Terra.<\/p>\n<p>&#8212; Terra!<\/p>\n<p>&#8212; A Terra, a Terra, a sombra da Terra, do mundo.<\/p>\n<p>&#8212; A sombra! Ent&atilde;o&#8230; n&oacute;s estamos de baixo e a Lua de<br \/>\n    cima, como lhe havemos de fazer sombra? Essa n&atilde;o &eacute; m&aacute;!<\/p>\n<p>Daniel, para se distrair, quis experimentar at&eacute; que ponto podia fazer<br \/>\n    compreender a este homem a id&eacute;ia do fen&ocirc;meno f&iacute;sico em<br \/>\n    quest&atilde;o. Alguma coisa se h&aacute; de tentar na aldeia, em uma longa<br \/>\n    tarde de estio.<\/p>\n<p>&#8212; Imagina tu aquela janela, o Sol; eu a Lua; tu a Terra. Ora bem; p&otilde;e-te<br \/>\n    a andar pela esquerda.<\/p>\n<p>&#8212; Mas se a janela &eacute; que &eacute; o Sol, que ande a janela.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; tal; pois a Terra &eacute; que anda.<\/p>\n<p>&#8212; Como! Ent&atilde;o o Sol n&atilde;o &eacute; que anda?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o. O Sol est&aacute; parado.<\/p>\n<p>O criado deu uma risada.<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado. Para ver o Sol andar, olhe que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    preciso ir ao Porto. V&ecirc;-se mesmo de c&aacute;.<\/p>\n<p>O passatempo principiava j&aacute; a enfastiar Daniel.<\/p>\n<p>Veio interromp&ecirc;-lo a prop&oacute;sito uma crian&ccedil;a de nove anos,<br \/>\n    filha do seu interlocutor, a qual tendo ouvido a voz do pais, entrou sem cerim&ocirc;nia,<br \/>\n    pelo quarto adentro. Ao ver, por&eacute;m, Daniel, parou como hesitando.<\/p>\n<p>&#8212; Vem c&aacute;, pequena, vem c&aacute; &#8211; bradou-lhe Daniel, que naquele<br \/>\n    momento recebia com prazer toda a qualidade de divers&atilde;o. &#8211; N&atilde;o<br \/>\n    tenhas vergonha, vem c&aacute;. Toma um biscoito.<\/p>\n<p>A pequena ganhou &acirc;nimo com a oferta, e dentro em pouco estava a comer<br \/>\n    biscoitos, familiarmente sentada junto de Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o como se diz? &#8211; perguntava o pai; e, como ela n&atilde;o<br \/>\n    respondesse, respondeu ele pr&oacute;prio:<\/p>\n<p>&#8212; Muito obrigado, Sr. Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Tu como te chamas, pequena? &#8211; perguntou Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Rosa.<\/p>\n<p>&#8212; Uma criada de V.S.&ordf; &#8211; emendou o pai.<\/p>\n<p>A pequena dispensou-se de repetir.<\/p>\n<p>&#8212; Olha &#8211; continuou Daniel, tomando-a ao colo &#8211; dize-me uma coisa, que<br \/>\n    &eacute; da tua m&atilde;e?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; em casa.<\/p>\n<p>&#8212; E tu gostas dela?<\/p>\n<p>&#8212; Gosto.<\/p>\n<p>&#8212; Gosto, sim senhor &#8211; emendou o pai.<\/p>\n<p>&#8212; E de teu pai?<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a olhou para o pai e p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p>&#8212; Dize assim &#8211; disse-lhe este: &#8211; Tamb&eacute;m gosto, sim senhor.<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m gosto &#8211; repetiu a pequena, suprimindo, como uma in&uacute;til<br \/>\n    excresc&ecirc;ncia, o resto da frase.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o teu pai &eacute; um tratante.<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; Dize: n&atilde;o &eacute;, n&atilde;o senhor &#8211; ensinou-lhe o pai.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; &#8211; repetiu a crian&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;, &eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute;; vossemec&ecirc; &eacute; que &#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! &#8211; atalhou o velho. &#8211; Feia! isso n&atilde;o se diz.<\/p>\n<p>&#8212; Tu sabes adivinhas, Rosa? &#8211; perguntou Daniel, rindo.<\/p>\n<p>&#8212; Sei.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, senhor &#8211; corrigiu ainda outra vez o velho.<\/p>\n<p>&#8212; Ora vamos l&aacute; a uma adivinha.<\/p>\n<p>A pequena n&atilde;o se fez rogar.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o diga l&aacute; o que &eacute; esta:<\/p>\n<p>Altos castelos<br \/>\n    Verdes e amarelos<\/p>\n<p>Isso &eacute; de certo a casa de um brasileiro &#8211; respondeu.<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a pregou-lhe uma risada, e toda satisfeita, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Boa! &Eacute; uma laranjeira.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ningu&eacute;m havia de dizer. V&aacute; l&aacute; outra.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;, que &eacute;, que<\/p>\n<p>Alto est&aacute;, e alto mora,<br \/>\n    Todos o v&ecirc;em, e ningu&eacute;m o adora?<\/p>\n<p>Daniel ergueu a cabe&ccedil;a a fingir que meditava no enigma; viu que o<br \/>\n    pai da pequena lhe fazia n&atilde;o sei que sinal com o dedo. Seguindo a dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que lhe pareceu indicada assim, Daniel parou a vista em um pinheiro long&iacute;nquo,<br \/>\n    e disse:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um pinheiro.<\/p>\n<p>Pai e filha deram uma risada.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um sino &#8211; disse a pequena.<\/p>\n<p>&#8212; Pois nem viu que eu apontava para a torre.<\/p>\n<p>&#8212; E esta &#8211; continuou a crian&ccedil;a:<\/p>\n<p>Mil marinhinhos, mil marinh&otilde;es,<br \/>\n    Dois parafitas e quatro chant&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8211; Isso agora &eacute; que tem mais que se lhe diga. Que l&iacute;ngua vem<br \/>\n    a ser essa? Marinhinhos e marinh&otilde;es? e que mais? Que mais?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um boi, &eacute; um boi &#8211; respondeu a rapariga, a quem faltava<br \/>\n    a paci&ecirc;ncia para ver estar a pensar muito tempo.<\/p>\n<p>&#8212; Um boi! Sempre quero saber como &eacute; que isso &eacute; um boi.<br \/>\n    Mil marinhinhos, um boi?<\/p>\n<p>&#8212; Mil marinhinhos, s&atilde;o os p&ecirc;los.<\/p>\n<p>&#8212; Ah?&#8230; E mil marinh&otilde;es?<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o os p&ecirc;los maiores &#8211; respondeu o pai.<\/p>\n<p>&#8212; Dois parafitas s&atilde;o as gaitas &#8211; continuou a filha.<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o, provavelmente, os quatro chant&otilde;es&#8230; &#8211; ia<br \/>\n    a dizer Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o as pernas &#8211; conclu&iacute;ram pai e filha.<\/p>\n<p>&#8212; Pois essas, de todas &eacute; a mais bonita &#8211; disse Daniel, que efetivamente,<br \/>\n    no estado de esp&iacute;rito em que se achava, encontrou certo sainete de<br \/>\n    originalidade no disparatado enigma, t&atilde;o popular no Minho.<\/p>\n<p>Neste tempo entrou Pedro no quarto; o criado velho retirou-se, levando a<br \/>\n    filha consigo, e os dois irm&atilde;os ficaram s&oacute;s. <\/p>\n<h4><a name=\"25\">Cap&iacute;tulo XXV<\/a><\/h4>\n<p> Pedro era ca&ccedil;ador e dos apaixonados. Dizendo eu isto, j&aacute; o,<br \/>\n    leitor, se n&atilde;o &eacute; um homem fadado por Deus para felicidades excepcionais<br \/>\n    c&aacute; na Terra, em qual assunto falaria ao irm&atilde;o o primog&ecirc;nito<br \/>\n    de Jos&eacute; das Dornas.<\/p>\n<p>De fato, quem haver&aacute; a&iacute; que, por mais de uma vez, n&atilde;o<br \/>\n    tenha visto irem-se-lhe duas horas seguidas pelo menos, duas horas de tempo<br \/>\n    preciosos a escutar uma dessas intermin&aacute;veis descri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de ca&ccedil;a, de ast&uacute;cia de galgos e perdigueiros, de singularidades<br \/>\n    de tiros; de manhas de lebre, galinholas, gar&ccedil;as e perdizes, com que<br \/>\n    Nemrods desapiedados fazem cair sobre seus irm&atilde;os em Ad&atilde;o todo<br \/>\n    o peso da sua paix&atilde;o venat&oacute;ria?<\/p>\n<p>Ao princ&iacute;pio acolheu Daniel de bom grado a nova divers&atilde;o que<br \/>\n    lhe oferecia o assunto, ao qual n&atilde;o era adverso tamb&eacute;m. As duas<br \/>\n    primeiras aventuras de ca&ccedil;a escutou-as com aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    afetada.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma ca&ccedil;ada de lebres, na qual Pedro obrara maravilhas,<br \/>\n    com a coadjuva&ccedil;&atilde;o de um c&atilde;o, de que ainda agora sentia<br \/>\n    saudades.<\/p>\n<p>Era um longo romance, que daria para muitos cap&iacute;tulos. Permitam-me<br \/>\n    que lhes registre aqui ao menos o argumento, o qual, mutatis mutandis, serve<br \/>\n    para todos do mesmo g&ecirc;nero.<\/p>\n<p>De como se originou o projeto da ca&ccedil;a &#8211; O que se disse por essa ocasi&atilde;o<br \/>\n    &#8211; Escolha da &eacute;poca &#8211; Princ&iacute;pios gerais que devem regular o ca&ccedil;ador<br \/>\n    nessa escolha &#8211; Descri&ccedil;&atilde;o da partida &#8211; Enumera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e descri&ccedil;&atilde;o dos ca&ccedil;adores &#8211; Aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    filos&oacute;fica das suas qualidades venat&oacute;rias &#8211; Divaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    sobre os dotes indispens&aacute;veis ao bom ca&ccedil;ador &#8211; Condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    meteorol&oacute;gicas da madrugada, no dia da surtida &#8211; Reflex&otilde;es sobre<br \/>\n    a influ&ecirc;ncia dela nos destinos prov&aacute;veis da empresa &#8211; Esbo&ccedil;o<br \/>\n    topogr&aacute;fico do campo de a&ccedil;&atilde;o &#8211; Impaci&ecirc;ncia dos<br \/>\n    c&atilde;es &#8211; Sinais caracter&iacute;sticos de um c&atilde;o de boa ra&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; Projeto in&eacute;dito do narrador sobre a educa&ccedil;&atilde;o canina<br \/>\n    &#8211; Algumas considera&ccedil;&otilde;es sobre a melhor qualidade de espingarda,<br \/>\n    de p&oacute;lvora e vestu&aacute;rio mais acomodado ao g&ecirc;nero de ca&ccedil;a<br \/>\n    em quest&atilde;o &#8211; Exame do problema: &quot;se &eacute; prefer&iacute;vel<br \/>\n    almo&ccedil;ar antes da partida ou no campo&quot; &#8211; Primeiros ind&iacute;cios<br \/>\n    de ca&ccedil;a &#8211; Alvitres dos ca&ccedil;adores &#8211; An&aacute;lise cr&iacute;tica<br \/>\n    de cada um dos alvitres, concluindo pela demonstra&ccedil;&atilde;o da vantagem<br \/>\n    do narrador, o qual prevalece sempre &#8211; O primeiro tiro e a primeira lebre<br \/>\n    morta &#8211; O autor atribui, com a poss&iacute;vel mod&eacute;stia, a gl&oacute;ria<br \/>\n    de ambos a si pr&oacute;prio &#8211; Novos epis&oacute;dios, alguns lances felizes<br \/>\n    dos companheiros e muito mais desastrados &#8211; De como o autor deu, em certo<br \/>\n    caso, prova de grande prud&ecirc;ncia, contemporizando, e em outro, soube<br \/>\n    ser arrojado, como devia. &#8211; Not&aacute;vel contraste nisto com todos os companheiros<br \/>\n    &#8211; Descri&ccedil;&atilde;o de um aguaceiro, trovoada ou vadea&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um rio, e efeitos pr&oacute;ximos e remotos que teve sobre os ca&ccedil;adores<br \/>\n    &#8211; De como se jantou &#8211; Amarguras estomacais e prova&ccedil;&otilde;es musculares<br \/>\n    &#8211; Campanha da tarde &#8211; Bom emprego do &uacute;ltimo tiro &#8211; Dificuldades que<br \/>\n    trouxe a noite &#8211; Confus&atilde;o dos companheiros e frieza de &acirc;nimo<br \/>\n    no autor &#8211; Considera&ccedil;&otilde;es sobre a maneira de se orientar no caminho<br \/>\n    um ca&ccedil;ador perdido &#8211; Algumas palavras sobre o melhor sistema de cozinha<br \/>\n    a ca&ccedil;a &#8211; Preceitos do regime alimentar do c&atilde;o &#8211; Recapitula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tudo quanto se disse &#8211; Perora&ccedil;&atilde;o em honra da casa em geral<br \/>\n    e da ca&ccedil;a da lebre em particular &#8211; Transi&ccedil;&atilde;o para outra<br \/>\n    hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Todos estes cap&iacute;tulos, difusamente desenvolvidos, ouviu portanto Daniel,<br \/>\n    com mostras de curiosidade. A terceira hist&oacute;ria, por&eacute;m, j&aacute;<br \/>\n    o mais indiferente; a quarta recebeu-a com bocejos, a moda de coment&aacute;rios;<br \/>\n    a quinta com impaci&ecirc;ncia manifesta; a sexta com inquieta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    a s&eacute;tima com horror &#8211; horror que foi crescendo gradualmente at&eacute;<br \/>\n    a duod&eacute;cima.<\/p>\n<p>Pedro fazia ent&atilde;o o elogio f&uacute;nebre do perdigueiro, que, havia<br \/>\n    um m&ecirc;s, lhe tinha morrido.<\/p>\n<p>&#8212; Olha que era um animal aquele, Daniel, que parecia que entendia uma<br \/>\n    pessoa! Eu nunca vi bicho mais fino! Se tu o visses no monte! Aquilo era um<br \/>\n    azougue. Um dia, tinha ido, eu, o Lu&iacute;s do mestre-escola e o Francisco<br \/>\n    do alferes.<\/p>\n<p>&#8212; Isto que horas ser&atilde;o? &#8211; perguntou Daniel, a ver se desviava<br \/>\n    de si a hist&oacute;ria iminente.<\/p>\n<p>&#8212; Vai nas tr&ecirc;s &#8211; respondeu Pedro, e continuou: Mas &iacute;amos<br \/>\n    n&oacute;s todos&#8230; a&iacute;, &eacute; verdade, ia tamb&eacute;m o Domingos<br \/>\n    cabo-mor&#8230; oh!&#8230; mas esse n&atilde;o mata um pardal. Tem aquele diabo um<br \/>\n    costume&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que insuport&aacute;vel calor! &#8211; bradava Daniel, t&atilde;o pouco<br \/>\n    &agrave; vontade no leito, como se fora de Procusto.<\/p>\n<p>&#8212; Hoje est&aacute; quente, est&aacute; &#8211; concordou o irm&atilde;o,<br \/>\n    e continuou: &#8211; Mas tem aquele diabo um costume, que por mais que eu lhe diga,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; capaz de perder.<\/p>\n<p>Daniel colocou a almofada do travesseiros sobre os ouvidos para n&atilde;o<br \/>\n    ouvir.<\/p>\n<p>&#8212; O costume &eacute; o seguinte: Tu sabes que no tempo das perdizes&#8230;<\/p>\n<p>Foi neste momento que entrou o reitor no quarto.<\/p>\n<p>&#8212; No tempo as perdizes, no tempo das perdizes, tanto mentes, quanto<br \/>\n    dizes. &Eacute; manha velha de ca&ccedil;ador. Gabo-te os vagares, Pedro!<br \/>\n    Nem que um homem viesse a este mundo para andar de arma, ao ombro e polvorinho<br \/>\n    a tiracolo, por montes e vales, tiro aqui, tiro acol&aacute;, vida de galgo,<br \/>\n    atr&aacute;s da lebre; e a casa por a&iacute; sabe Deus como!<\/p>\n<p>&#8212; Isto era para conversar um bocado &#8211; disse Pedro, sorrindo a esta<br \/>\n    objurgat&oacute;ria do padre.<\/p>\n<p>Daniel ia erguer-se; o reitor n&atilde;o lho permitiu.<\/p>\n<p>&#8212; &Agrave; vontade, &agrave; vontade; quem acabou de ouvir uma ladainha<br \/>\n    de Santo Huberto, como eu imagino&#8230; ainda se fosse s&oacute; imaginar; &#8211;<br \/>\n    como eu infelizmente, sei por experi&ecirc;ncia tamb&eacute;m &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    deve sentir-se com grandes for&ccedil;as para se ter em p&eacute;.<\/p>\n<p>Daniel sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; Mas veja l&aacute;, Daniel &#8211; continuou o padre &#8211; veja voc&ecirc;<br \/>\n    este seu irm&atilde;o. Que homem de casa aqui se est&aacute; preparando! Esquecido<br \/>\n    a taramelar, e o trabalho da eira entregue aos criados que, quando eu passei,<br \/>\n    bem pouco se cansavam com ele. Tudo vai ao deus-dar&aacute; nesta casa, depois<br \/>\n    que o maldito v&iacute;cio da ca&ccedil;a virou a cabe&ccedil;a a este homem!<br \/>\n    Olha que um chefe de fam&iacute;lia, Pedro, n&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    respons&aacute;vel por si, mas tamb&eacute;m por toda a sua gente &#8211; parentes<br \/>\n    e criados. &#8211; Ele &eacute; que deve dar o exemplo. e eu, para te dizer a verdade,<br \/>\n    n&atilde;o gostei nada de ver aquela doida da Maria, l&aacute; embaixo com<br \/>\n    os meliantes dos teus criados, que s&oacute; sabem tanger violas e dan&ccedil;ar,<br \/>\n    como ainda agora o fazem. Eu, apesar da coisa n&atilde;o ser comigo, que n&atilde;o<br \/>\n    sou dono da casa, sempre lhes fui ralhando, para de todo n&atilde;o perder<br \/>\n    o tempo. Agora tu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois os vadios estavam a cantar, e com o trabalho por fazer?<\/p>\n<p>&#8212; Boa d&uacute;vida! Onde o patr&atilde;o dorme, ressonam os criados.<br \/>\n    E fazem muito bem.<\/p>\n<p>&#8212; Ora eu lhes vou ar j&aacute; a cantiga.<\/p>\n<p>E, distra&iacute;do da sua paix&atilde;o favorita, Pedro saiu do quarto,<br \/>\n    com dire&ccedil;&atilde;o &agrave; eira.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; um bom rapaz! &#8211; disse o reitor ao v&ecirc;-lo sair.<\/p>\n<p>&#8212; Isso &eacute;. Pedro h&aacute; de vir a dar um excelente pai de fam&iacute;lia<br \/>\n    &#8211; acrescentou Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Para isso basta-lhe o grande fundo de moralidade daquela alma! &#8211;<br \/>\n    replicou o padre, indo buscar uma cadeira que aproximou da cabeceira do leito,<br \/>\n    no qual Daniel, a inst&acirc;ncias dele, se conservava ainda.<\/p>\n<p>Daniel seguia com a vista e os movimentos e gestos do padre, e suspeitava<br \/>\n    que ele tinha alguma coisa a dizer-lhe.<\/p>\n<p>&#8212; A moralidade &#8211; continuava este &#8211; &eacute; a primeira condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a felicidade do homem. Como pode querer que o respeitem, o que n&atilde;o<br \/>\n    sabe respeitar os outros, nem respeitar-se a si pr&oacute;prio?<\/p>\n<p>&#8212; Temos serm&atilde;o &#8211; pensava Daniel. &#8211; Onde quer ele chegar?<\/p>\n<p>De repente o reitor, como se lhe acudira uma id&eacute;ia imprevista, disse,<br \/>\n    fitando os olhos em Daniel e em tom que procurou fazer natural:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, &oacute; Daniel, ent&atilde;o voc&ecirc; tem casamento<br \/>\n    contratado, e n&atilde;o d&aacute; parte &agrave; gente?<\/p>\n<p>&#8212; Eu!?&#8230; Casamento?&#8230; &#8211; exclamou Daniel, deveras admirado, e sentando-se<br \/>\n    no leito.<\/p>\n<p>&#8212; Casamento, sim. Ainda agora me asseguraram.<\/p>\n<p>&#8212; E quem &eacute; a noiva que me destinam?<\/p>\n<p>&#8212; Uma vizinha sua. &Eacute; aqui a filha do Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Isso sim &#8211; disse Daniel, sorrindo-se e deitando-se outra vez.<\/p>\n<p>&#8212; Isso sim? N&atilde;o leve o caso a rir, que o neg&oacute;cio &eacute;<br \/>\n    muito s&eacute;rio. Porventura n&atilde;o haver&aacute; fundamentos para a<br \/>\n    not&iacute;cia que me deram?<\/p>\n<p>&#8212; Eu tenho ido a casa dela, &eacute; verdade.<\/p>\n<p>&#8212; Ah!<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; como m&eacute;dico&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o est&aacute; m&aacute; medicina a sua! Ent&atilde;o que<br \/>\n    tratamento lhe aconselhou?<\/p>\n<p>&#8212; Confortativo &#8211; respondeu Daniel gracejando.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! e o botic&aacute;rio entenderia as receitas que escreveu?<\/p>\n<p>&#8212; Nem todos os conselhos m&eacute;dicos precisam do aux&iacute;lio<br \/>\n    do botic&aacute;rio. Os banhos do mar, os passeios, os leites de jumenta,<br \/>\n    e as diferentes prescri&ccedil;&otilde;es do tratamento moral, por exemplo.<\/p>\n<p>&#8212; Estou vendo que foi um tratamento moral que fez.<\/p>\n<p>&#8212; Exatamente.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que cegueira a do Jo&atilde;o da Esquina, e a de seu pai, e<br \/>\n    a minha at&eacute;, que n&atilde;o vimos que era uma carta de guia para bom<br \/>\n    caminho, uns mandamentos para a salva&ccedil;&atilde;o do corpo, e n&atilde;o<br \/>\n    sei se da alma tamb&eacute;m, o que ainda h&aacute; pouco lemos!<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;? Pois leram?&#8230; &#8211; perguntou Daniel com vivacidade, e<br \/>\n    erguendo-se outra vez.<\/p>\n<p>&#8212; Lemos, sim. Mas n&atilde;o entendemos. Veja l&aacute;: a mim pareceu-me<br \/>\n    aquilo uma coisa desaforada; e ao Jo&atilde;o da Esquina, ent&atilde;o? Esse<br \/>\n    n&atilde;o descansou enquanto n&atilde;o teve de n&oacute;s a promessa solene<br \/>\n    de que o obrigar&iacute;amos, a si, uma repara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Daniel tinha j&aacute; os p&eacute;s no pavimento.<\/p>\n<p>&#8212; Uma repara&ccedil;&atilde;o? Por qu&ecirc;?&#8230; A quem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que inoc&ecirc;ncia! precisa talvez que eu lhe responda?<\/p>\n<p>&#8212; E que esp&eacute;cie de repara&ccedil;&atilde;o hei de eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A &uacute;nica devida a uma rapariga, a quem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A quem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Cuja boa fama se perdeu!<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o acusam-me de ter perdido a boa fama daquela menina,<br \/>\n    e querem constranger-me talvez a casar com ela! &#8211; exclamou Daniel sobressaltado,<br \/>\n    e pondo-se a p&eacute; num &iacute;mpeto, como se o picasse uma v&iacute;bora.<\/p>\n<p>&#8212; Quem mais o constranger&aacute; h&aacute; de ser a consci&ecirc;ncia,<br \/>\n    que ainda n&atilde;o emudeceu de todo em si.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o constrange, n&atilde;o. N&atilde;o me julgo moralmente<br \/>\n    obrigado a repara&ccedil;&atilde;o de qualidade alguma. A menina Francisca&#8230;<br \/>\n    tem uma cabe&ccedil;a&#8230; bonita, na verdade, realmente bonita.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; bom, est&aacute; bom. Que tenho eu com essas bonitezas?<br \/>\n    Isso n&atilde;o vem agora a nada.<\/p>\n<p>&#8212; Bonita, digo eu, mas leve, leve como uma bola de sab&atilde;o &#8211; continuou<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; defeito de muita gente.<\/p>\n<p>&#8212; Achei-a triste, t&atilde;o triste por ser trigueira&#8230; veja que doidice<br \/>\n    aquela!&#8230; que entendi&#8230; &#8211; n&atilde;o entraria isso nos meus deveres de m&eacute;dico?<br \/>\n    &#8211; entendi que a devia curar. Ora, pensando que para este efeito valeria mais<br \/>\n    um galanteio do que todas as drogas medicinais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, ent&atilde;o&#8230; &#8211; disse o reitor, um pouco despeitado<br \/>\n    com o tom leviano de Daniel &#8211; deu agora em gracejar comigo?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o gracejo. &Eacute; que realmente o meu procedimento&#8230;<br \/>\n    n&atilde;o digo que fosse de uma sisudez exemplar, mas n&atilde;o merece as<br \/>\n    cores negras com que lho pintaram, nem reclama as medidas extremas e violentas<br \/>\n    que me prop&otilde;em. Um casamento imposs&iacute;vel!<\/p>\n<p>&#8212; Imposs&iacute;vel! O que a&iacute; vai! N&atilde;o o fazia t&atilde;o<br \/>\n    fidalgo! Com que ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Sr. Reitor &#8211; disse Daniel, tomando ar mais s&eacute;rio &#8211; vou<br \/>\n    falar-lhe com toda a sinceridade. Eu sou bastante leviano; conhe&ccedil;o<br \/>\n    que o sou. De ordin&aacute;rio, n&atilde;o me canso muito a calcular conseq&uuml;&ecirc;ncias,<br \/>\n    antes de dar um passo qualquer. Caminho de olhos fechados em muitos atos da<br \/>\n    vida, e sobretudo quando s&oacute; eu lhe posso vir a sentir os efeitos maus.<br \/>\n    Mas h&aacute; uma coisa em que n&atilde;o me costumo a pensar levianamente.<br \/>\n    &Eacute; no casamento. Se um dia me vir casado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Rezarei a todos os santos por sua mulher? Estou certo que ser&aacute;<br \/>\n    bem preciso.<\/p>\n<p>&#8212; Se um dia me vir casado, suponha que encontrei uma mulher, por quem<br \/>\n    sinto alguma coisa al&eacute;m do amor, por quem sinto o respeito e a confian&ccedil;a<br \/>\n    que se devem a uma m&atilde;e de fam&iacute;lia. N&atilde;o tenho sido muito<br \/>\n    escrupuloso em contrair certa ordem de liga&ccedil;&otilde;es, &eacute; verdade;<br \/>\n    por&eacute;m nunca me lembrei de fazer dessas mulheres que amei, nem quando<br \/>\n    a paix&atilde;o me cegava mais, os anjos familiares a quem entregamos o nosso<br \/>\n    futuro inteiro. Neste sentido tem-me espantado o arrojo de muitos. E n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isto ten&ccedil;&atilde;o formada em mim contra o casamento; mas<br \/>\n    &eacute; que acho muito grave a miss&atilde;o de esposa e de m&atilde;e, para<br \/>\n    a entregar assim levianamente em quaisquer bonitas m&atilde;os, s&oacute;<br \/>\n    porque s&atilde;o bonitas.<\/p>\n<p>&#8212; Isso l&aacute; &eacute; verdade &#8211; disse o reitor, que n&atilde;o<br \/>\n    previa que nestas palavras aprovadoras assinava sua capitula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Daniel, ainda que tivesse sido sincero no que dizia, n&atilde;o desestimou<br \/>\n    ver assim o reitor quase voltado para o seu lado e prosseguiu com mais ardor:<\/p>\n<p>&#8212; Ora quem quiser que tente fazer daquela menina, que sabe os verbos,<br \/>\n    uma boa m&atilde;e de fam&iacute;lia; eu por mim &eacute; que n&atilde;o farei<br \/>\n    a experi&ecirc;ncia. Era uma tremenda responsabilidade que tomava para com<br \/>\n    meus futuros filhos.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o vamos tamb&eacute;m agora a fazer da pequena<br \/>\n    pior que o que ela &eacute;, &#8211; observou o reitor. A cabe&ccedil;a &eacute;<br \/>\n    um pouco estouvada, sim, mas o fundo &eacute; bom, e passados anos&#8230; Mas,<br \/>\n    homem dos meus pecados, se voc&ecirc; pensa assim &#8211; e nisso n&atilde;o serei<br \/>\n    eu que lhe diga que pensa mal &#8211; para que se mete nestes enredos? Para que<br \/>\n    d&aacute; ocasi&atilde;o a que os outros se julguem com direito a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz&atilde;o, Sr. Reitor. Eu n&atilde;o me quero apresentar como<br \/>\n    inocente. Digo humildemente: peccavi. Mas que quer? Onde se encontram as facilidades&#8230;<br \/>\n    nem todos tem for&ccedil;a para se vencer. E depois, olhe que nos faz falta<br \/>\n    deveras a capa eg&iacute;pcia de Jos&eacute;, para a sacudir dos ombros em<br \/>\n    ocasi&otilde;es de aperto.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus! A&iacute; torna com as suas! &#8211; disse o reitor, custando-lhe<br \/>\n    a disfar&ccedil;ar um sorriso.<\/p>\n<p>O certo &eacute;, por&eacute;m, que o padre estava aplacado. Tranq&uuml;ilizou<br \/>\n    Daniel, contando-lhe tudo que tinha sucedido. Fez-lhe um longo serm&atilde;o<br \/>\n    de moral, afirmando-lhe no fim que, se n&atilde;o fosse por saber a fam&iacute;lia<br \/>\n    Esquina &quot;useira e vezeira&quot; nestas tentativas de especular casamentos<br \/>\n    de vantagem, e nem sempre por meios justific&aacute;veis, seria menos indulgente.<\/p>\n<p>Daniel fez voto de emenda, e protestou ser aquela a sua &uacute;ltima rapaziada.<\/p>\n<p>Gra&ccedil;as, por&eacute;m, &agrave; loquacidade da Sr.&ordf; Teresa a hist&oacute;ria<br \/>\n    dos versos transpirou e causou esc&acirc;ndalo na aldeia. N&atilde;o se falou<br \/>\n    em outra coisa, durante algumas semanas. Os pais olharam Daniel com desconfian&ccedil;a;<br \/>\n    os rapazes, com ci&uacute;mes; as raparigas, com curiosidade. O trio de l&iacute;nguas<br \/>\n    da casa dos Esquina cantou a palin&oacute;dia a respeito de Daniel, e com<br \/>\n    valentia n&atilde;o menor que a empregada nas loas, com que primeiro o tinham<br \/>\n    celebrado.<\/p>\n<p>Por todos os lados da aldeia ressoaram os coros. O n&iacute;vel da reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Jo&atilde;o Semana subiu no conceito p&uacute;blico. Daniel confirmou sua<br \/>\n    reputa&ccedil;&atilde;o de libertino e de homem perigoso. Ele &eacute; que<br \/>\n    era indiferente a isso tudo. Dava-lhe poucos cuidados o futuro de sua vida<br \/>\n    cl&iacute;nica assim t&atilde;o amea&ccedil;ado. Continuava gozando, com resigna&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se n&atilde;o com prazer, os &oacute;cios daquele viver de morgado. As suas<br \/>\n    maiores distra&ccedil;&otilde;es eram o passeio, a ca&ccedil;a e a pesca.<\/p>\n<p>Na menina Francisca j&aacute; n&atilde;o pensava. Desprestigiou-a de todo<br \/>\n    aquela conspira&ccedil;&atilde;o matrimonial. Do &oacute;dio, com o qual da&iacute;<br \/>\n    em diante o honraram os progenitores da menina, nunca ele se lembrou. <\/p>\n<h4><a name=\"26\"> Cap&iacute;tulo XXVI<\/a><\/h4>\n<p> Quando contaram a Jo&atilde;o Semana o que se passou entre Daniel e a fam&iacute;lia<br \/>\n    dos Esquinas, o velho cirurgi&atilde;o n&atilde;o o quis acreditar. Teve,<br \/>\n    por&eacute;m, de ceder &agrave; unanimidade das opini&otilde;es, e ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o se fartou o nosso bom homem de benzer-se, de espantado.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana era intolerante em coisas de moral, e principalmente m&eacute;dica.<br \/>\n    Para bons ditos, anedotas e contos, ainda que &agrave;s vezes temperados com<br \/>\n    o sal de Boc&aacute;cio, de La Fontaine e da rainha da Navarra, tinha grande<br \/>\n    indulg&ecirc;ncia o velho cl&iacute;nico, que, por toda parte, os contava<br \/>\n    tamb&eacute;m, sem escolha de audit&oacute;rio, nem de ocasi&atilde;o; mas<br \/>\n    a menor aventura que de longe sequer se aproximasse do g&ecirc;nero das que<br \/>\n    ele fazia cr&ocirc;nica de t&atilde;o boa vontade, dificilmente encontraria<br \/>\n    remiss&atilde;o no seu tribunal. Se o r&eacute;u era um colega, crescia ent&atilde;o<br \/>\n    de ponto a austeridade. Por isso o procedimento de Daniel encontrou nele um<br \/>\n    sever&iacute;ssimo juiz.<\/p>\n<p>For&ccedil;oso &eacute;, por&eacute;m, dizer que uma circunst&acirc;ncia<br \/>\n    havia em todo aquele epis&oacute;dio, que, mais que nenhuma, o escandalizava.<br \/>\n    De fato, conquanto manifestamente n&atilde;o o dissesse, o que em extremo<br \/>\n    o irritava era Daniel ter ca&iacute;do na fragilidade de fazer versos. Jo&atilde;o<br \/>\n    Semana n&atilde;o tinha em grande conta de coisa s&eacute;ria a poesia; e<br \/>\n    ent&atilde;o poesia daquela? Inda se fosse um soneto, v&aacute;. O soneto<br \/>\n    tem um aspecto s&eacute;rio, grave e discreto, que n&atilde;o derroga a dignidade<br \/>\n    de ningu&eacute;m. Qualquer desembargador, c&ocirc;nego, ministro de estado<br \/>\n    honor&aacute;rio, ou lente jubilado &#8211; quatro das mais s&eacute;rias entidades<br \/>\n    sociais &#8211; pode fazer um soneto, sem agravo da sisudez oficial; mas aquela<br \/>\n    poesia travessa, ligeira, folgaz&atilde;, de Daniel, poesia de um g&ecirc;nero<br \/>\n    novo para Jo&atilde;o Semana, poesias sem musas nem Apolo, f&ecirc;-lo sair<br \/>\n    fora de si.<\/p>\n<p>Joana teve que o ouvir naquele dia.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute; est&aacute; o que voc&ecirc; faz, a&iacute; est&aacute;<br \/>\n    &#8211; dizia ele &#8211; por sua causa, pela desastrada lembran&ccedil;a que teve de<br \/>\n    mandar aquele doido em meu lugar, &eacute; que tudo isto sucedeu. Sempre tem<br \/>\n    lembran&ccedil;as!<\/p>\n<p>&#8212; Deixe l&aacute;, Sr. Jo&atilde;o, olhem a grande coisa! &#8211; respondia<br \/>\n    a criada. &#8211; Ora! afinal de contas n&atilde;o passa de uma brincadeira. Fosse<br \/>\n    a rapariga seriazinha, e n&atilde;o tivesse aquela cabe&ccedil;a que n&oacute;s<br \/>\n    todos sabemos, que j&aacute; nada disso acontecia.<\/p>\n<p>&#8212; Ela n&atilde;o &eacute; que tem a culpa.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o tem? Pois quem? Ele? N&atilde;o que ele &eacute; rapaz.<br \/>\n    Nada lhe fica mal.<\/p>\n<p>&#8212; Que diz voc&ecirc;? Nada lhe fica mal? Ent&atilde;o um cirurgi&atilde;o<br \/>\n    ou m&eacute;dico pode l&aacute; ter essas liberdades? Onde &eacute; que se<br \/>\n    viu um homem da nossa posi&ccedil;&atilde;o fazer versos? N&atilde;o tem vergonha.<\/p>\n<p>&#8212; Ora adeus! S&atilde;o rapazes.<\/p>\n<p>&#8212; E a dar-lhe! S&atilde;o rapazes, s&atilde;o rapazes, e acabou-se.<br \/>\n    Boa desculpa! Essas e outras &eacute; que deitam a perder a classe.<\/p>\n<p>&#8212; Mas que perde o Sr. Jo&atilde;o Semana com isso?<\/p>\n<p>&#8212; Que perco?<\/p>\n<p>O facultativo, por mais que fez, n&atilde;o conseguiu efetivamente dizer<br \/>\n    o que perdia; por isso passado algum tempo, continuou:<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; bonito aquilo, n&atilde;o; n&atilde;o &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, n&atilde;o digo que seja; mas com os anos passa-lhe o fogo.<br \/>\n    Ver&aacute;.<\/p>\n<p>Em geral, nos tribunais femininos os delitos da natureza daqueles de que<br \/>\n    Jo&atilde;o Semana acusava Daniel, s&atilde;o julgados como Joana acabava<br \/>\n    de julgar este. Grande magnanimidade para com o homem e severo rigor para<br \/>\n    com a mulher. Entrem l&aacute; na explica&ccedil;&atilde;o do fato os que<br \/>\n    tiverem estudado. Eu, por mim, registro-o apenas.<\/p>\n<p>Houve longa discuss&atilde;o entre a criada e o amo, a este respeito; discuss&atilde;o<br \/>\n    que n&atilde;o deu em resultado a vit&oacute;ria a nenhum dos contendores<br \/>\n    &#8211; fato vulgar em quase todas as discuss&otilde;es. &#8211; Ela suscitou, por&eacute;m,<br \/>\n    em Joana o desejo de se informar melhor das particularidades do delito e da<br \/>\n    extens&atilde;o dele.<\/p>\n<p>Em cumprimento desse desejo, tomou a criada do Jo&atilde;o Semana a sua capa<br \/>\n    de pano e partiu, logo que p&ocirc;de, a colher no&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Depois de muito andar, de muito perguntar e ouvir, e de muito ralhar, em<br \/>\n    defesa de Daniel, ainda que de si para si, a lisonjeasse um pouco a compara&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que todos estabeleciam entre e Jo&atilde;o Semana, em grande proveito do &uacute;ltimo,<br \/>\n    deu consigo a Sr.&ordf; Joana&#8230; onde? Em casa das duas pupilas do reitor.<\/p>\n<p>Foi Margarida quem lhe falou. Passados os usuais cumprimentos, e depois de<br \/>\n    tentar recusar o oferecimento do c&aacute;lice de vinho que Margarida lhe<br \/>\n    fazia, e que afinal sempre aceitava, trouxe a Sr.&ordf; Joana &agrave; conversa<br \/>\n    o assunto que a procurava.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, diga-me c&aacute; uma coisa, menina. Que lhe parece<br \/>\n    o nosso cirurgi&atilde;o novo.<\/p>\n<p>Margarida fitou os olhos em Joana, como para adivinhar-lhe nas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    o sentido da imprevista pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; Que me parece? Que me h&aacute; de parecer?<\/p>\n<p>&#8212; Sim; n&atilde;o acha que est&aacute; um bonito m&eacute;dico para<br \/>\n    uma rapariga doente o mandar chamar? &#8211; continuou Joana, sorrindo.<\/p>\n<p>Ignorando ao que a velha criada de Jo&atilde;o Semana queria aludir, a pupila<br \/>\n    do reitor, a seu pesar, sobressaltou-se com esta interroga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas por que me pergunta voc&ecirc; isso?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o sabe?! Ora a menina, h&aacute; de andar sempre fora<br \/>\n    deste mundo! Aposto que n&atilde;o sabe o que por a&iacute; vai com Daniel?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8211; respondeu Margarida, sem j&aacute;, poder disfar&ccedil;ar<br \/>\n    a sua curiosidade, &agrave; qual certa inquieta&ccedil;&atilde;o, por ela<br \/>\n    mesmo mal explicada, se vinha misturar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que eu digo! tornava Joana.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o que h&aacute;?<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Joana com a melhor boa vontade informou Margarida da hist&oacute;ria<br \/>\n    da menina Francisca; j&aacute; se sabe com muita severidade de coment&aacute;rios<br \/>\n    para ela, e a costumada indulg&ecirc;ncia para com Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela bandeira de torre &#8211; dizia ela &#8211; volta-se para onde lhe sopram.<br \/>\n    Louvado seja Deus! N&atilde;o h&aacute; olhos para que se n&atilde;o enfeite.<br \/>\n    E ainda o acusam a ele! Faz muito bem: &eacute; rapaz. Eu sei que para cirurgi&atilde;o<br \/>\n    devia ter mais ju&iacute;zo; devia, mas ora!&#8230; Hoje em dia, j&aacute; se<br \/>\n    n&atilde;o repara nessas coisas. E depois, ele &eacute; uma crian&ccedil;a<br \/>\n    e se a Chica n&atilde;o lhe desse trela&#8230; estou que se n&atilde;o atreveria<br \/>\n    a&#8230;Em todo o caso, menina, &eacute; sempre bom traze-lo de olho. Aquela cabe&ccedil;a,<br \/>\n    benza-a Deus, n&atilde;o vale grande coisa, n&atilde;o. Sempre assim foi.<br \/>\n    Como a Clarita lhe casa agora na fam&iacute;lia, &eacute; natural que ele<br \/>\n    venha por aqui. Cautela menina! Eu bem sei que com certa gente n&atilde;o<br \/>\n    faz ele farinha, mas&#8230;<\/p>\n<p>Margarida forcejou por sorrir &agrave;s recomenda&ccedil;&otilde;es de Joana,<br \/>\n    mas conseguiu-o mal. Aquelas palavras atravessavam-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Afligia-a a leviandade de Daniel.<\/p>\n<p>Estava-lhe, pois, destinada a cruel prova&ccedil;&atilde;o de um desengano<br \/>\n    destes?<\/p>\n<p>As almas delicadas, como a dela, sofrem intensamente, sempre que v&ecirc;em<br \/>\n    projetar-se uma sombra na imagem daqueles, a quem as suas afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    iluminavam de ideal. Ver abaixar-se &agrave; regi&atilde;o das paix&otilde;es<br \/>\n    menos elevadas e nobres, o cora&ccedil;&atilde;o que se tinham costumado a<br \/>\n    fantasiar, palpitando-o s&oacute; de generosos instintos, &eacute; para as<br \/>\n    ferir de desalento, ou para as atormentar de desespero.<\/p>\n<p>Joana continuava:<\/p>\n<p>&#8212; A menina ri-se! &Eacute; o que lhe digo. N&atilde;o lhe d&ecirc;em<br \/>\n    muita confian&ccedil;a. N&atilde;o que ele tenha mau cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Credo! Conhe&ccedil;o-o desde pequeno. Aquilo n&atilde;o faz mal a uma pomba,<br \/>\n    mas enquanto ao mais&#8230; O Padre Santo Ant&ocirc;nio nos acuda! Eu digo, que<br \/>\n    se eu fosse a rapariga&#8230; Mas&#8230; que tem, que est&aacute; t&atilde;o falta<br \/>\n    de cor, menina? N&atilde;o est&aacute; bem?&#8230; Que sente?<\/p>\n<p>&#8212; Nada &#8211; respondeu Margarida, procurando mostrar-se tranq&uuml;ila.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o tenho nada. &Eacute; que est&aacute; aqui muito abafado&#8230;<\/p>\n<p>E, levantando-se, caminhou para a janela, a disfar&ccedil;ar a sua perturba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a respirar o ar mais livre, que chegava dali, batido pela folhagem das &aacute;rvores.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o que olhe que sempre hoje est&aacute; um calor! &#8211; disse<br \/>\n    Joana &#8211; Mas isso tamb&eacute;m h&aacute; de ser debilidade. A menina foi sempre<br \/>\n    de pouco comer. Beba uma &aacute;gua de caldo, que isso passa-lhe. Ou ser&atilde;o<br \/>\n    vertigens? Olhe que n&atilde;o &eacute; outra coisa. Eu tamb&eacute;m as tenho<br \/>\n    e daquelas! As vezes parece que se me parte a cabe&ccedil;a. &Eacute; como<br \/>\n    se me tropitasse c&aacute; dentro um regimento de cavalaria. O que &eacute;<br \/>\n    muito bom para isso&#8230; sabe?<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode calcular para que longa enumera&ccedil;&atilde;o de receitas<br \/>\n    tomava f&ocirc;lego a Sr.&ordf; Joana, cujos conhecimentos terap&ecirc;uticos<br \/>\n    a conviv&ecirc;ncia com Jo&atilde;o Semana enriquecera, se Margarida a n&atilde;o<br \/>\n    interrompesse, dizendo-lhe da janela:<\/p>\n<p>&#8212; Mas quem sabe l&aacute; se a inclina&ccedil;&atilde;o do Sr. Daniel<br \/>\n    por essa rapariga &eacute; sincera?<\/p>\n<p>E, ao dizer isto, passava a m&atilde;o pela fronte, como se de fato a tivesse<br \/>\n    tomado uma vertigem.<\/p>\n<p>&#8212; Boa! &#8211; exclamou Joana. &#8211; Sempre tem coisas! A menina ent&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o sabe nem quem &eacute; o Daniel, nem a Chica da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o ele &eacute; assim incapaz de gostar de algu&eacute;m?<br \/>\n    &#8211; perguntou Margarida, com afetada indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Ele? Ele gosta de todas. L&aacute; por isso&#8230; V&aacute; perguntar<br \/>\n    ao sobrinho do regedor, que viveu com ele quando andou l&aacute; no Porto<br \/>\n    a estudar para padre&#8230; e olhe que tamb&eacute;m saiu um padre!&#8230; de se lhe<br \/>\n    tirar o chap&eacute;u; n&atilde;o tem d&uacute;vida nenhuma&#8230; mas v&aacute;-lhe<br \/>\n    perguntar quem &eacute; o menino. Gostar da Chica?<\/p>\n<p>Neste ponto a Sr.&ordf; Joana fez um gesto, muito de seu; fungou ruidosamente,<br \/>\n    torcendo o nariz, fechando o olho esquerdo e prolongando o l&aacute;bio inferior<br \/>\n    &#8211; conjunto de sinais fision&ocirc;micos, que valia um discurso.<\/p>\n<p>Em seguida continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Olhe que ele soube-me muito bem dizer, no outro dia, que s&oacute;<br \/>\n    lhe fazia conta mulher que tivesse cem mil cruzados e que a queria da cidade.<br \/>\n    E ia agora gostar da Chica? estava indo! A menina est&aacute; a ler.<\/p>\n<p>Esta conversa torturava Margarida. Joana sem o saber, era de uma crueldade<br \/>\n    inquisitorial. A sua loquacidade prometia longa dura&ccedil;&atilde;o, se<br \/>\n    as badaladas do meio dia, na torre da igreja paroquial, a n&atilde;o viessem<br \/>\n    por em sustos de chegar a casa depois de seu amo.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, meio dia j&aacute;! Senhor me d&ecirc; paci&ecirc;ncia<br \/>\n    &#8211; exclamou ela, juntando as m&atilde;os. &#8211; E eu que tenho o jantar t&atilde;o<br \/>\n    atrasado! Adeus, menina, adeus, sem mais.<\/p>\n<p>E tomando, toda a&ccedil;odada, a capa que tinha pousado, e ajeitando &agrave;<br \/>\n    pressa o len&ccedil;o engomado que trazia na cabe&ccedil;a, ia a sair, rosnando<br \/>\n    a ora&ccedil;&atilde;o meridiana:<\/p>\n<p>&#8212; Bendita e louvada seja a hora em que meu Deus, Nosso Senhor Jesus<br \/>\n    Cristo, padeceu e&#8230;<\/p>\n<p>Mas, ao transpor o limiar da porta, achou-se inesperadamente em frente de<br \/>\n    Clara, que a obrigou a parar.<\/p>\n<p>Segundo o costume, vinham radiantes de alegria as simp&aacute;ticas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da irm&atilde; de Margarida.<\/p>\n<p>Ao ver Joana, saiu-lhe dos l&aacute;bios uma exclama&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    prazer:<\/p>\n<p>&#8212; Viva! J&aacute; n&atilde;o h&aacute; quem a veja, Sr.&ordf; Joana!<br \/>\n    Eu at&eacute; principiei a rezar-lhe todas as noites por alma um padre-nosso<br \/>\n    e uma ave-maria.<\/p>\n<p>Joana, a quem tanto quadrava este g&ecirc;nio folgaz&atilde;o e descuidado<br \/>\n    de Clara, tinha por costume fingir, na presen&ccedil;a dela, que o n&atilde;o<br \/>\n    podia sofrer; mas o jeito que, a seu pesar, lhe tomava a boca, inutilizava-lhe<br \/>\n    a dissimula&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem os meus pecados! &#8211; disse ela, voltando para a sala. &#8211; Inda<br \/>\n    mais esta! Boa te vai? Estou bem aviada!&#8230;<\/p>\n<p>Clara pusera a olh&aacute;-la com aten&ccedil;&atilde;o e espanto afetado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que tafularia &eacute; esta?! Len&ccedil;o novo de cassa!<br \/>\n    J&aacute; reparaste, Guida? E arrecadas! Ai! Estou para morrer. O mundo perde-se!<br \/>\n    Agora &eacute; que o digo.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; para que voc&ecirc; veja &#8211; disse Joana, custando-lhe a manter<br \/>\n    a serenidade.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Joana, voc&ecirc; ir&aacute; casar-se?<\/p>\n<p>&#8212; Olhem, olhem&#8230; ela a&iacute; vem com as suas tolices! Tenha ju&iacute;zo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, mas&#8230; s&eacute;rio, isto tem que se lhe diga&#8230; E penteada!<br \/>\n    Ai, e penteada!<\/p>\n<p>&#8212; Que penteada? que penteada? Cuida que todas s&atilde;o como ela.<br \/>\n    Sempre est&aacute; uma mulher casada.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda n&atilde;o, se faz favor.<\/p>\n<p>&#8212; Pobre do homem! melhor sorte merecia aquele Pedro, que t&atilde;o<br \/>\n    bom mocinho era&#8230; e &eacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Como ela diz isto! Querem ver que&#8230; Queres tu ver Guida, que&#8230;<br \/>\n    Pois ser&aacute; com ele? Veja o que faz Joana, olhe que eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Adeus! Sabe o que mais? N&atilde;o estou para a aturar. Deixe-me<br \/>\n    ir embora, ande.<\/p>\n<p>&#8212; Embora? Isto &eacute; que n&atilde;o vai daqui t&atilde;o cedo.<\/p>\n<p>&#8212; E Jesus, Senhor! Deixe-me ir, que &eacute; meio dia, e faz-se-me<br \/>\n    tarde. O meu amo est&aacute; a espera&#8230; Valha-me deus! Ora o que me havia<br \/>\n    de aparecer?<\/p>\n<p>&#8212; O seu amo? Ainda h&aacute; pouco ele ia para a banda dos Casais.<\/p>\n<p>&#8212; Num momento p&otilde;e-se em casa. Deixe-me ir menina.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o vai.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que praga! Ent&atilde;o? Isto n&atilde;o tem gra&ccedil;a nenhuma.<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc; ali a Margarida como tem ju&iacute;zo.<\/p>\n<p>&#8212; Venha com isso a ver se me mete em brios.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, cuida que eu tenho os seus cuidados? menina, deixe-me ir embora.<br \/>\n    Que seca!<\/p>\n<p>&#8212; Deixe-a ir, Clara, deixa, que pode fazer falta &#8211; disse por fim Margarida,<br \/>\n    que as estivera escutando distra&iacute;da.<\/p>\n<p>&#8212; V&aacute; l&aacute;; em aten&ccedil;&atilde;o &agrave; Guida. Mas<br \/>\n    h&aacute; de vir ent&atilde;o pelo quintal que lhe quero dar um ramo para<br \/>\n    o Sr. Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o que ele est&aacute; agora mesmo &agrave; espera dos seus<br \/>\n    ramos; nem dorme com a lembran&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de levar-lhe um ramo de meu mando. J&aacute; disse. Amores<br \/>\n    antigos n&atilde;o esquecem.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, deixe antes isso para o cirurgi&atilde;o novo, que esse &eacute;<br \/>\n    que n&atilde;o lho enjeita.<\/p>\n<p>&#8212; Quem? o Sr. Daniel! Ai, &eacute; verdade&#8230; Tu sabes, Guida? &#8211; disse<br \/>\n    Clara, rindo &#8211; A Chica do tendeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sei, sei &#8211; respondeu Margarida, levantando-se com vivacidade.<\/p>\n<p>&#8212; Sempre tem uma cabecinha o tal senhor meu cunhado! Mas eu por mim<br \/>\n    sou ainda pelo Jo&atilde;o Semana. Olha, Joana, diz-lhe voc&ecirc; que me<br \/>\n    fa&ccedil;as uns versos tamb&eacute;m? Assim como os do outro.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, vai j&aacute; faz&ecirc;-los; pode esperar por isso.<\/p>\n<p>&#8212; Uns versos como os tais da&#8230; trigueira&#8230; N&atilde;o eram os da<br \/>\n    trigueira?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, sim; tudo se h&aacute; de arranjar.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade, que j&aacute; sei uns que serviam.<\/p>\n<p>E, saindo com Joana para o quintal, Clara p&ocirc;s-se a cantar: Morena,<br \/>\n    morena<\/p>\n<p>Dos olhos rasgados<\/p>\n<p>Teus olhos, morena<\/p>\n<p>S&atilde;o os meus pecados. <\/p>\n<h4><a name=\"27\">Cap&iacute;tulo XXVII<\/a><\/h4>\n<p> Margarida ficou s&oacute; na sala.<\/p>\n<p>Viera aumentar-lhe a turba&ccedil;&atilde;o, em que estava j&aacute; , esta<br \/>\n    cantiga de Clara.<\/p>\n<p>Andava-lhe muito ligada a id&eacute;ias do passado, para a poder escutar<br \/>\n    com indiferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Aquela toada era para Margarida como as palavras misteriosas que em certos<br \/>\n    contos de fadas, se diz terem o cond&atilde;o de evocar dos p&aacute;ramos<br \/>\n    mais agrestes, jardins, florestas e pal&aacute;cios encantados; povoara-se-lhe<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o ao ouvi-la, um pouco de recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ao princ&iacute;pio, e depois muito de fantasias&#8230;<\/p>\n<p>Encostada ao peitoril da janela, e apoiado o rosto nas m&atilde;os, assim<br \/>\n    ficou por muito tempo com o olhar vago e o pensamento mais vago do que o olhar<br \/>\n    ainda.<\/p>\n<p>Se o esp&iacute;rito, ao sair dessas exaltadas abstra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    se volta de s&uacute;bita para as realidades do presente, o desencantamento<br \/>\n    &eacute; fatal e amargo. Entra-nos ent&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o um<br \/>\n    profundo desgosto da vida, e como que se nos quebram as for&ccedil;as para<br \/>\n    continuar a a&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Estava passando por um desses estados o esp&iacute;rito de Margarida.<\/p>\n<p>As vozes joviais da irm&atilde; e os risos de Joana chegavam-lhe aos ouvidos;<br \/>\n    e afligiam-na aqueles sinais de alegria.<\/p>\n<p>As vivas cores das rosas e dos cravos atraiam-lhe a seu pesar, as vistas<br \/>\n    para os alegretes do jardim, e impacientavam-na; quase lhes queria mal por<br \/>\n    aquele aspecto festivo.<\/p>\n<p>Quando, em &eacute;pocas de prova&ccedil;&atilde;o para a alma, a s&oacute;s<br \/>\n    com os nossos pesares e as nossas l&aacute;grimas, escutamos l&aacute; fora<br \/>\n    o ru&iacute;do ou divisamos o esplendor das festas alguma coisa estremece<br \/>\n    dolorosamente em n&oacute;s.<\/p>\n<p>Sentia-o Margarida naquele instante, e tanto lhe crescia o mal que, para<br \/>\n    fugir-lhe, ergue-se e passeou com agita&ccedil;&atilde;o por algum tempo na<br \/>\n    sala.<\/p>\n<p>&#8212; E por que n&atilde;o hei de eu tamb&eacute;m distrair-me, como se<br \/>\n    distrai a Clara!? &#8211; pensava ela &#8211; Vir&atilde;o j&aacute; de nascimento estes<br \/>\n    g&ecirc;nios assim? Mas como se h&aacute; de acreditar que os Senhor queira<br \/>\n    fazer cair sobre a criatura que ainda n&atilde;o o ofendeu, este grande castigo<br \/>\n    de uma tristeza tamanha? N&atilde;o, n&atilde;o pode ser. &#8211; Antes creio&#8230;<br \/>\n    isso sim, que o g&ecirc;nio de cada um toma a fei&ccedil;&atilde;o da vida,<br \/>\n    que em crian&ccedil;a se teve&#8230; Uma pessoa, afinal, &eacute; como uma &aacute;rvore;<br \/>\n    enquanto nova, &eacute; que se pode dobrar, que depois&#8230; Ali est&atilde;o<br \/>\n    aqueles cedros que, de pequenos, Clara vergou em arco; ganharam essa forma,<br \/>\n    e hoje j&aacute; n&atilde;o se erguem direitos como os outros. &Eacute; assim.<br \/>\n    Quem abriu os olhos, come&ccedil;ou a pensar, sem ver grandes alegrias em<br \/>\n    volta de si, pode l&aacute; aprender a sorrir? As crian&ccedil;as ent&atilde;o,<br \/>\n    que tudo aprendem dos outros, a falar, a andar, a brincar&#8230; como n&atilde;o<br \/>\n    aprenderiam tamb&eacute;m alegria ou a tristeza?<\/p>\n<p>Nisto fizeram-na ir &agrave; janela algumas vozes infantis.<\/p>\n<p>Eram quatro crian&ccedil;as, quase nuas, que rodeavam uma pobre mulher, coberta<br \/>\n    de andrajos e macilenta. E elas, apesar de sua nudez e dos rostos p&aacute;lidos,<br \/>\n    riam e brincavam em redor da m&atilde;e, que nem tinha p&atilde;o para lhes<br \/>\n    dar.<\/p>\n<p>&Agrave; porta das duas irm&atilde;s estava sempre sentada a caridade. N&atilde;o<br \/>\n    se fechou vazia ainda desta vez a m&atilde;o da indig&ecirc;ncia, aberta a<br \/>\n    implorar por ali. A pobre m&atilde;e chorava de gratid&atilde;o ao retirar-se;<br \/>\n    as crian&ccedil;as brincavam ainda.<\/p>\n<p>E calou-se por algum tempo; depois prosseguiu a meia voz:<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, mas h&aacute; uma riqueza que elas t&ecirc;m e eu n&atilde;o<br \/>\n    tive. Aquele olhar da m&atilde;e. N&atilde;o vi eu sorrir-lhes a m&atilde;e?<br \/>\n    Coitada, no meio da sua desgra&ccedil;a ainda n&atilde;o desaprendeu de sorrir;<br \/>\n    precisa de risos para os filhos. &Eacute; ver como eles olhavam para ela.<br \/>\n    &Eacute; isso&#8230; deve ser isso.<\/p>\n<p>E tornava a passear no quarto; depois parando junto da janela ao lado do<br \/>\n    quintal, continuou como antes:<\/p>\n<p>&#8212; Deve ser isso, sim. No meio da pobreza, no meio da mis&eacute;ria,<br \/>\n    pode nascer ainda a alegria, mas &eacute; preciso que haja um olhar de afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para a criar&#8230; um olhar de m&atilde;e, sobretudo. Ai, um olhar de m&atilde;e<br \/>\n    deve ser para agente quase como um raio de sol para as flores. &Eacute; ver<br \/>\n    aquela rosa, que nasceu acol&aacute;, &agrave; sombra do muro. Como &eacute;<br \/>\n    desmaiada! Enquanto que as outras&#8230; Bem faltas de cuidado cresceram por entre<br \/>\n    a horta aquelas papoulas vermelhas; quem pensava nelas? Mas l&aacute; ia o<br \/>\n    sol anim&aacute;-las&#8230; Clara teve uma m&atilde;e que estremecia, teve o seu<br \/>\n    raio de sol&#8230; eu, de bem pequena, perdi a minha&#8230; Quem t&atilde;o cedo se<br \/>\n    viu &oacute;rf&atilde;, como h&aacute; de ser para alegrias?<\/p>\n<p>Neste ponto, entrou na sala uma rapariga, que as servia, trazendo um ramo<br \/>\n    de flores na m&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Veja menina, &#8211; disse ela &#8211; Veja o bonito ramo que eu trouxe do campo<br \/>\n    de baixo. Vou j&aacute;, j&aacute; daqui p&ocirc;-lo ao Santo Ant&ocirc;nio,<br \/>\n    l&aacute; dentro.<\/p>\n<p>&#8212;Pois vai, vai, Maria.<\/p>\n<p>E a rapariga, que era uma exposta, saiu cantando alegremente.<\/p>\n<p>&#8212; E esta ent&atilde;o &#8211; continuou pensando Margarida, quando ela se<br \/>\n    retirou. &#8211; Que m&atilde;e teve esta para lhe semear a alegria, que nunca perde?<br \/>\n    A pobre nem fam&iacute;lia conhece; a gente que a criou n&atilde;o a tratava<br \/>\n    com carinhos. E como ela vive! e como ri! N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida<br \/>\n    pois; n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que se vem ao mundo assim. Ent&atilde;o<br \/>\n    eu&#8230; &Oacute; Senhor! mas isto n&atilde;o pode ser. Que condena&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    meu Deus!<\/p>\n<p>E como se procurasse convencer-se de outra solu&ccedil;&atilde;o menos desconsoladora,<br \/>\n    do problema em que meditava, prosseguiu pouco depois:<\/p>\n<p>&#8212; Mas quem me diz que &eacute; isso uma condena&ccedil;&atilde;o? Por<br \/>\n    que n&atilde;o hei de ver se posso tirar de mim estas id&eacute;ias negras?<br \/>\n    Olhando-se bem claro dentro de n&oacute;s, talvez&#8230; vejamos: Estou hoje triste;<br \/>\n    &eacute; verdade. E por que? Esta manh&atilde; n&atilde;o estava. lembra-me<br \/>\n    que at&eacute; ri com Clara&#8230; Parece que &eacute; mau agouro esta alegria,<br \/>\n    que sentimos &agrave;s vezes ao acordar! Depois&#8230; H&aacute; pouco&#8230; foi<br \/>\n    depois que veio aquela mulher&#8230; E que me disse ela? Tudo que eu lhe ouvi<br \/>\n    n&atilde;o era para isto. N&atilde;o, decerto. Afinal que tenho eu com&#8230;<\/p>\n<p>Aqui o pensamento quebrou o jugo que o constrangera a seguir o caminho estreito<br \/>\n    da reflex&atilde;o, e entregou-se insofrido &agrave; mais extravagante carreira.<\/p>\n<p>Na posi&ccedil;&atilde;o e nos gestos de Margarida nada acusava a revolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mental que se operara; mas instantes depois ela murmurava j&aacute;:<\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe se aquela rapariga? Mas n&atilde;o, n&atilde;o pode ser&#8230;<br \/>\n    E ele? Que mudan&ccedil;as traz o tempo! Eu n&atilde;o sei como s&atilde;o<br \/>\n    certas mem&oacute;rias tamb&eacute;m&#8230; Mas que admira? A vida da cidade&#8230;<br \/>\n    Quem havia de pensar?&#8230; Parece-me que ainda estou a ver, quando ele era crian&ccedil;a<br \/>\n    e vinha&#8230; Dez anos!<\/p>\n<p>Absorvida em pensamentos desta ordem a veio encontrar o reitor que raro deixava<br \/>\n    de visitar as suas pupilas.<\/p>\n<p>&#8212; Em que cismas tu, rapariga? &#8211; disse-lhe o padre &#8211; Santo Nome de Jesus!<br \/>\n    n&atilde;o posso atinar o que tanto tens para cismar. Nem que te cansassem<br \/>\n    aos ombros grandes canseiras de fam&iacute;lia! Deita o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao largo. N&atilde;o v&ecirc;s a Clarita? Faz assim como ela. Lembra-te que<br \/>\n    tens vinte e tr&ecirc;s anos. Aos sessenta &eacute; que &eacute; natural pensar<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p>Margarida beijou-lhe a m&atilde;o dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Isto julgo que nem &eacute; pensar. &Eacute; quase ume esquecimento<br \/>\n    de tudo, e de n&oacute;s mesmos, em que &agrave;s vezes se cai. Mas faz bem<br \/>\n    ralhar comigo, Sr. Reitor, faz muito bem. Este costume &eacute; mau. &Eacute;<br \/>\n    quase uma doen&ccedil;a da qual hei de ver se me curo.<\/p>\n<p>&#8212; E tem ju&iacute;zo. Olha, minha filha, isto de pensar muito&#8230; Enfim,<br \/>\n    o Senhor para isso nos deu a raz&atilde;o, mas&#8230; Queres tu saber? Um dia,<br \/>\n    veio aqui um homem que, pelos modos, &eacute; um grande s&aacute;bio, um desses<br \/>\n    fil&oacute;sofos da cidade. Era domingo e eu tinha que fazer a minha pr&aacute;tica.<br \/>\n    O tal sujeito foi para a igreja. Quando o vi l&aacute; fiquei assustado. Enfim&#8230;<br \/>\n    com esta boa gente daqui, entendo-me eu bem, mas, pobre cura da aldeia que<br \/>\n    sou h&aacute; vinte anos, o que queres tu que eu possa dizer diante de gente<br \/>\n    instru&iacute;da e ilustrada, como era o tal? Estive para desanimar, Margarida,<br \/>\n    olha que estive; mas disse comigo: &quot;N&atilde;o senhor, eu n&atilde;o<br \/>\n    devo recear. N&atilde;o tenho lido muitos livros, &eacute; verdade; mas os<br \/>\n    Evangelhos leio-os todos os dias. Eles me ajudar&atilde;o. Pois n&atilde;o<br \/>\n    tenho eu l&aacute; aquele serm&atilde;o da montanha?&quot; E fui para a igreja,<br \/>\n    e abri o S. Mateus, e li: &quot;Amai a vossos inimigos, bendizei aos que vos<br \/>\n    maldizem, fazei bem aos que vos tem &oacute;dio, e orai pelos que vos maltratam<br \/>\n    e vos perseguem&quot;. Bastou-me isto, e pus-me a falar, assim que te falo<br \/>\n    agora, Margarida. Achava-me &agrave; vontade. Pois sabes &#8211; que &eacute; ao<br \/>\n    que eu trouxe isto &#8211; o tal homem, de que eu me receava, foi ter comigo &agrave;<br \/>\n    sacristia para me abra&ccedil;ar, e disse-me: &quot;Gostei de ouvir; deram-me<br \/>\n    a suas palavras, por algum tempo, mais s&atilde;s consola&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do que as minhas noites de estudo&quot;. Ficou-me este dito do homem, e pareceu-me<br \/>\n    que ele tinha consigo grande coisa a afligi-lo. Pensava demais talvez. Corre-se<br \/>\n    o risco de endoidecer. Nada, n&atilde;o tem jeito.<\/p>\n<p>Margarida sorriu, assegurando ao reitor que evitaria esse perigo, fazendo<br \/>\n    por se distrair.<\/p>\n<p>No decurso da conversa ulterior, falou-se em Daniel. O padre aludiu &agrave;<br \/>\n    entrevista que tinha tido com ele, e procurou atenuar a culpa do rapaz, expondo<br \/>\n    as id&eacute;ias que lhe ouvira em rela&ccedil;&atilde;o ao casamento e &agrave;<br \/>\n    escolha de uma esposa.<\/p>\n<p>O resultado de tudo quanto disse foi deixar Margarida mais pensativa do que<br \/>\n    antes. <\/p>\n<h4><a name=\"28\">Cap&iacute;tulo XXVIII<\/a><\/h4>\n<p> Passou todo o m&ecirc;s de agosto e parte do de setembro, sem que se celebrasse<br \/>\n    o casamento de Pedro e de Clara.<\/p>\n<p>Pequenos estorvos, os quais ser&aacute; in&uacute;til referir aqui, baldaram<br \/>\n    a dilig&ecirc;ncia com que andara o reitor em obter os papeis necess&aacute;rios<br \/>\n    &agrave;s duas partes contraentes.<\/p>\n<p>O padre estava ansioso por proclamar, &agrave; missa conventual, os primeiros<br \/>\n    banhos, e n&atilde;o cessava de interrogar o lavrador sobre o andamento em<br \/>\n    que iam os preparativos dom&eacute;sticos para as bodas do filho.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas dava a entender que depois do S. Miguel era a ocasi&atilde;o<br \/>\n    mais favor&aacute;vel para a solenidade, visto que a cobran&ccedil;a das rendas<br \/>\n    lhe permitiria ent&atilde;o faz&ecirc;-la com o esplendor devido.<\/p>\n<p>A ansiedade na aldeia era imensa, porque todos conjeturavam j&aacute; quanto<br \/>\n    teriam de memor&aacute;veis uma bodas em casa do abastado e liberal lavrador.<\/p>\n<p>Achava-se terminada a principal colheita de milho e n&atilde;o se fixara<br \/>\n    ainda o dia em que t&atilde;o falada e prometedora festa devia realizar-se.<\/p>\n<p>Em conseq&uuml;&ecirc;ncia de tais delongas, &agrave; primeira esfolhada<br \/>\n    em casa de Jos&eacute; das Dornas assistia ainda Pedro como rapaz solteiro.<\/p>\n<p>Esta circunst&acirc;ncia n&atilde;o foi sem influ&ecirc;ncia na sucess&atilde;o<br \/>\n    dos acontecimentos que temos por narrar.<\/p>\n<p>Concorramos n&oacute;s tamb&eacute;m para este ser&atilde;o campestre, que<br \/>\n    assim nos &eacute; necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>Julgo que pequeno ser&aacute; o n&uacute;mero dos leitores, que n&atilde;o<br \/>\n    tenham assistido a uma esfolhada na aldeia, ou que pelo menos de tradi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o saibam a &iacute;ndole folgaz&atilde; e traquinas deste g&ecirc;nero<br \/>\n    de trabalho, do qual ningu&eacute;m procura eximir-se: pois antes espontaneamente<br \/>\n    correm de toda a parte a oferecer-lhe os bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>E n&atilde;o h&aacute; outros ser&otilde;es mais divertidos tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Ali todos riem, todos cantam, todos se abra&ccedil;am, e se beijam at&eacute;;<br \/>\n    e fala-se ao ouvido, e graceja-se e dan&ccedil;a-se, e com franqueza se apontam<br \/>\n    defeitos, e sem ofensa se recebem censuras, e at&eacute; s&atilde;o mal colhidas<br \/>\n    as lisonjas; e tudo isto ent&atilde;o, toda esta apetec&iacute;vel desordem,<br \/>\n    todo este abandono de etiqueta, &agrave; vista da por&ccedil;&atilde;o sisuda<br \/>\n    da companhia, &agrave; qual a toler&acirc;ncia fecha deste vez excepcionalmente<br \/>\n    o olhos; e, a alumiar uma tal az&aacute;fama, meio festiva, meio laboriosa,<br \/>\n    apenas a luz morti&ccedil;a de um modesto lampi&atilde;o, pendurado de uma<br \/>\n    trave do teto, ou, ainda melhor, a suave claridade do luar em campo descoberto!<\/p>\n<p>Aquelas liberdades todas s&atilde;o permitidas, ordenadas at&eacute;, pelo<br \/>\n    c&oacute;digo das esfolhadas.<\/p>\n<p>Cada espiga vermelha, cada espiga de milho rei &#8211; como por l&aacute; lhe chamam<br \/>\n    &#8211; &eacute; a senten&ccedil;a promulgada contra o feliz, a cujas m&atilde;os<br \/>\n    ela chegou.<\/p>\n<p>Cabe-lhe distribuir por toda a assembl&eacute;ia, ou receber de toda ela,<br \/>\n    um abra&ccedil;o, mais ou menos apertado; senten&ccedil;a que ele de boa vontade<br \/>\n    cumpre, principalmente quando ente tantos abra&ccedil;os, h&aacute; um pelo<br \/>\n    qual em v&atilde;o suspira nas outras &eacute;pocas do ano.<\/p>\n<p>Esta lei, digna das ordena&ccedil;&otilde;es daquelas joviais &quot;Cortes<br \/>\n    de amor&quot; da Idade M&eacute;dia, &eacute; a alma das esfolhadas.<\/p>\n<p>Dela prov&eacute;m os risos, os arrufos, as recusas, as insist&ecirc;ncias,<br \/>\n    as queixas, as acusa&ccedil;&otilde;es, os despeitos, e os ci&uacute;mes,<br \/>\n    que, ao mesmo tempo, desordenam o ser&atilde;o, excitam os trabalhadores e<br \/>\n    adiantam a tarefa.<\/p>\n<p>Quando um dia a m&aacute;quina agr&iacute;cola fizer ouvis nas aldeias portuguesas<br \/>\n    o silvo estridente do vapor; quando a for&ccedil;a prodigiosa de suas alavancas,<br \/>\n    o movimento de suas rodas gigantes e complicadas articula&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dispensar o concurso de tantos bra&ccedil;os, nestes trabalhos rurais; quando<br \/>\n    a musa pastoril, resignada, trocar as vestes primitivas por a glouse do artista,<br \/>\n    e esquecer as antigas cantilenas, para aprender as can&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    f&aacute;bricas; lembrar-se-&atilde;o com saudades das esfolhadas os felizes<br \/>\n    que as puderam ainda gozar.<\/p>\n<p>A onda econ&ocirc;mica adianta-se r&aacute;pida; dentro em pouco inundar&aacute;<br \/>\n    os campos. D&ecirc;em-se pressa os que ainda quiserem conhecer as velhas usan&ccedil;as,<br \/>\n    para as quais est&aacute; j&aacute; a soar a derradeira hora.<\/p>\n<p>De h&aacute; muito gozavam de apregoada fama as esfolhadas em casa de Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas.<\/p>\n<p>A impulso do seu g&ecirc;nio prazenteiro, o velho lavrador pusera em costume<br \/>\n    o observar-se pontualmente o rito destas festividades campestres.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia ali isentar-se de cumprir a senten&ccedil;a a que a sorte<br \/>\n    o sujeitasse, sob pena de ignominiosa expuls&atilde;o do gr&ecirc;mio e perp&eacute;tua<br \/>\n    exclus&atilde;o de festas semelhantes.<\/p>\n<p>Homens e mulheres, crian&ccedil;as e velhos, amos e criados, todos fraternizavam,<br \/>\n    todos se nivelavam aquela noite para se abra&ccedil;arem ou beijarem e at&eacute;<br \/>\n    dan&ccedil;arem por fim.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o gostava disso era o reitor, o qual todos os anos, por este<br \/>\n    tempo, mimoseava com uma longa prega&ccedil;&atilde;o o seu amigo Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas mas sempre sem nada conseguir.<\/p>\n<p>Os costumes populares, as pr&aacute;ticas tradicionais encontravam no lavrador<br \/>\n    um apego, quase igual ao que tinha para as cren&ccedil;as religiosas. Parecia-lhe<br \/>\n    um sacril&eacute;gio o infringi-los.<\/p>\n<p>Debalde o reitor lhe dizia:<\/p>\n<p>&#8212; Acaba-me com essas folgan&ccedil;as, Jos&eacute;. Isso &eacute; a<br \/>\n    perdi&ccedil;&atilde;o de muita gente. N&atilde;o sei como tu, homem sisudo,<br \/>\n    te p&otilde;es assim a brincar com as crian&ccedil;as e com os mo&ccedil;os,<br \/>\n    em termos de te perderem o respeito.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas limitava-se a responder-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Sr. Reitor, deixe l&aacute;. Uma vez n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    vezes. Beijos e abra&ccedil;os, quanto mais &agrave;s claras, menos perigosos<br \/>\n    s&atilde;o. Daqueles que se d&atilde;o &aacute;s escondidas, &eacute; que<br \/>\n    &eacute; ter medo. Enquanto ao respeito, sossegue, que quando for preciso,<br \/>\n    eu sei como ele se faz ter aos atrevidos. E depois, que quer? Eu fui criado<br \/>\n    nisto.<\/p>\n<p>Este &uacute;ltimo argumento &eacute; sempre o mais irresist&iacute;vel da<br \/>\n    l&oacute;gica do nosso homem dos campos.<\/p>\n<p>Qual dos dois velhos tinha raz&atilde;o? Eu sei l&aacute;! A falar a verdade,<br \/>\n    n&atilde;o acredito demasiado na inoc&ecirc;ncia daqueles abra&ccedil;os beijos<br \/>\n    e muito menos na de alguns que, por motivos particulares, se d&atilde;o mais<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o e mais tempo se prolongam; mas &eacute; tamb&eacute;m<br \/>\n    certo que, evitando as esfolhadas muitas ocasi&otilde;es se oferecem ainda<br \/>\n    de uma pessoa se perder, e alguma raz&atilde;o tinha Jos&eacute; das Dornas<br \/>\n    ao dizer que estas coisas, na presen&ccedil;a de espectadores, se despojam<br \/>\n    de grande parte da sua gravidade.<\/p>\n<p>Desta vez deviam ser as esfolhadas em casa da fam&iacute;lia Dornas dignas<br \/>\n    da sua tradicional nomeada.<\/p>\n<p>A pedido de Pedro, foi convidada muita gente. Encarregou-se ele mesmo de<br \/>\n    formar a lista, a qual naturalmente abriu com o nome de Clara.<\/p>\n<p>Clara recebia sempre com alegria convites da natureza deste.<\/p>\n<p>Margarida quis dissuadi-la de aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; Que vais fazer, Clarinha? &#8211; disse-lhe ela. &#8211; Olha, eu, se fosse a<br \/>\n    ti, n&atilde;o ia. Afinal, por mais que digam, sempre nestas esfolhadas h&aacute;<br \/>\n    liberdades e costumes, que&#8230; que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sabes, Guida? &#8211; respondeu-lhe Clara &#8211; se todos se fosse a elevar<br \/>\n    por os teus conselhos, e a dar aten&ccedil;&atilde;o aos teus medos, pode<br \/>\n    ser que o mundo andasse muito bem guiado &#8211; e andava decerto &#8211; por&eacute;m<br \/>\n    morria-se de aborrecimento por a&iacute;. &Eacute; ver que nem me queres deixar<br \/>\n    ir &agrave; esfolhada em casa de meu marido, e quando &eacute; ele mesmo que<br \/>\n    me convida!<\/p>\n<p>&#8212; E quem sabe se mais estimaria se n&atilde;o fosses?<\/p>\n<p>&#8212; Qual? Est&aacute;s enganada. Sup&otilde;e-lo como tu. Eu bem o digo!<br \/>\n    Olha, minha Guida, tu n&atilde;o servias para casada. Fazias-te ainda mais<br \/>\n    sisuda do que &eacute;s, sisuda e s&eacute;ria que nem uma abadessa de convento,<br \/>\n    e depois havias de querer que o teu homem fosse sisudo e s&eacute;rio como<br \/>\n    tu.<\/p>\n<p>&#8212; Vai, vai, Clarinha; nem eu to posso impedir. Mas, se queres que fale<br \/>\n    a verdade, fico sempre a tremer, quando te vejo sair para estes ser&otilde;es.<br \/>\n    &Agrave;s vezes h&aacute; por l&aacute; desordens, rixas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai, sossega. Eu te prometo que n&atilde;o me meterei em nenhuma.<\/p>\n<p>&#8212; Promete-me tamb&eacute;m que n&atilde;o dar&aacute; causa a nenhuma<br \/>\n    &#8211; tornou Margarida sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Como queres que eu d&ecirc; causa a uma desordem, doida?<\/p>\n<p>&#8212; Como h&aacute; de ser! Eu digo-te, mas n&atilde;o te arrenegues.<br \/>\n    Tu tens um bocadinho de ruindade, confessa; e &agrave;s vezes para te divertires,<br \/>\n    gostas de fazer perder a paci&ecirc;ncia aos outros. Ora, Pedro tem um g&ecirc;nio<br \/>\n    assomado e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deixa-te disso. O Pedro n&atilde;o &eacute; homem para se finar por<br \/>\n    ci&uacute;mes s&oacute; por ver receber ou dar um abra&ccedil;o em noite de<br \/>\n    esfolhada! Era o que me faltava tamb&eacute;m!<\/p>\n<p>&#8212; Pois Deus v&aacute; contigo, filha; mas lembra-te que dentro em pouco<br \/>\n    &eacute;s mulher casada e que o teu noivo est&aacute; ao p&eacute; de ti.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s descansada. E depois, sabes o que o Pedro me disse em<br \/>\n    segredo? O irm&atilde;o tamb&eacute;m faz ten&ccedil;&atilde;o de ir &agrave;<br \/>\n    esfolhada.<\/p>\n<p>&#8212; Quem? O Sr. Daniel?!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. Que gra&ccedil;a! Mas o Pedro n&atilde;o quer que<br \/>\n    isto se saiba para que n&atilde;o lhe faltem as raparigas, com medo ou com<br \/>\n    vergonha. Estou morta por ver como elas ficam, assim que o virem l&aacute;.<br \/>\n    Ora diz tu se isto se podia perder!<\/p>\n<p>&#8212; Ainda pior.<\/p>\n<p>&#8212; Que dizes? Ainda pior! Pois tamb&eacute;m &eacute;s das que o pensam<br \/>\n    excomungado? Pobre rapaz! Quem ouvir falar a essa gente por a&iacute;, h&aacute;<br \/>\n    de fazer dele uma id&eacute;ia!&#8230; Pois n&atilde;o tem nada do que dizem.<br \/>\n    &Eacute; amigo de rir, isso, sim, mas tamb&eacute;m sabe falar s&eacute;rio,<br \/>\n    quando &eacute; preciso. E n&atilde;o ouves o que muitas vezes o Sr. Reitor<br \/>\n    tem dito a respeito dele? Que &eacute; um excelente cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    afinal.<\/p>\n<p>&#8212; Nem eu digo o contr&aacute;rio, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute;s uma medrosa, &eacute; o que tu &eacute;s; uma medrosa,<br \/>\n    que me andas por a&iacute; sempre a sonhar sonhos negros. Um dia hei de fazer-te<br \/>\n    falar com ele, e ver&aacute;s&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ai, n&atilde;o, n&atilde;o &#8211; exclamou Margarida, quase assustada.<\/p>\n<p>&#8212; E como dizes isso! Que medos! Est&aacute;s como a outra gente, j&aacute;<br \/>\n    vejo. Pois admira-me em ti que n&atilde;o &eacute; dessas coisas. &Eacute;<br \/>\n    uma cisma que te hei de fazer perder, assim como tu me fizestes perder as<br \/>\n    das bruxas que eu dantes tinha. Lembras-te?<\/p>\n<p>Horas depois, Clara despedia-se da irm&atilde;, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Guida, at&eacute; logo. Ei bem queria que viesses,<br \/>\n    mas fizestes voto&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem sabes que nunca sinto alegria nestas festas.<\/p>\n<p>&#8212; Como h&aacute;s de tu senti-la, se nunca vais l&aacute;?<\/p>\n<p>E Clara partiu, e pulsava-lhe o cora&ccedil;&atilde;o de contente, quando<br \/>\n    ia pelo caminho.<\/p>\n<p>O g&ecirc;nio de Clara pedia-lhe isto. Era uma necessidade para ela a alegria<br \/>\n    e as festas.<\/p>\n<p>N&atilde;o se lhe coadunavam com a &iacute;ndole as melancolias de Margarida.<\/p>\n<p>Quando s&oacute;, saia-lhe dos l&aacute;bios t&atilde;o depressa o canto,<br \/>\n    como os suspiros do seio da irm&atilde;.<\/p>\n<p>E a alegria de uma, como a tristeza de outra, nem sempre tinham motivo definido.<\/p>\n<p>Vinham-lhes do cora&ccedil;&atilde;o, que parecia espontaneamente exal&aacute;-las.<\/p>\n<p>Na natureza h&aacute; fen&ocirc;menos assim. O canto de algumas aves parece<br \/>\n    uma lamenta&ccedil;&atilde;o, repassada de profunda melancolia; o de outras<br \/>\n    soa brilhante como hino festivo, nos coros da cria&ccedil;&atilde;o; e nem<br \/>\n    as primeiras t&ecirc;m pesar de que se carpirem, nem estas j&uacute;bilos<br \/>\n    a celebrar.<\/p>\n<p>O canto sai-lhes da boca modulado por uma disposi&ccedil;&atilde;o natural;<br \/>\n    pois quase de igual forma, acudiam os sorrisos aos l&aacute;bios de Clara<br \/>\n    e as l&aacute;grimas aos olhos de Margarida. <\/p>\n<h4><a name=\"29\">Cap&iacute;tulo XXIX<\/a><\/h4>\n<p> A esfolhada fez-se na eira espa&ccedil;osa e desafogada de Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas, e por formos&iacute;ssima noite de luar claro como o dia. O ser alumiado<br \/>\n    pelo luar &eacute; uma circunst&acirc;ncia que redobra o valor da festa.<\/p>\n<p>Eu creio nas influ&ecirc;ncias planet&aacute;rias &#8211; perdoem-me a fragilidade<br \/>\n    astrol&oacute;gica os homens da ci&ecirc;ncia positiva. Bem sei que passou<br \/>\n    j&aacute; de moda esta cren&ccedil;a t&atilde;o arraigada nos mais severos<br \/>\n    esp&iacute;ritos de outros tempos; mas por mim, ainda n&atilde;o pude resolver<br \/>\n    a romper com ela de todo.<\/p>\n<p>Penso em que o moral e o f&iacute;sico da humanidade andam sob o imp&eacute;rio<br \/>\n    de for&ccedil;as multiplicad&iacute;ssimas, muitas das quais ainda est&atilde;o<br \/>\n    por descobrir ou estudar, e n&atilde;o vejo que se possa desde j&aacute; excluir<br \/>\n    do rol delas a luz desse planeta p&aacute;lido, t&atilde;o querido aos amantes<br \/>\n    e poetas.<\/p>\n<p>Digam-me por exemplo, se uma esfolhada ao meio dia pode ter nunca a &iacute;ndole<br \/>\n    jovial das que se fazem &agrave; claridade da Lua? &#8211; se nela se concedem beijos<br \/>\n    e abra&ccedil;os com t&atilde;o poucos escr&uacute;pulos? &#8211; se a gente se<br \/>\n    ri com igual vontade e franqueza? E n&atilde;o me venham explicar isto s&oacute;<br \/>\n    pelo efeito da meia obscuridade, que serena as repugn&acirc;ncias dos t&iacute;midos,<br \/>\n    e excita a aud&aacute;cia dos arrojados; porque nunca vi elevaram-se ao mesmo<br \/>\n    grau de intensidade essas ruidosas alegrias e folguedos, quando a luz, ainda<br \/>\n    menos limpa de sombras, de uma s&oacute; l&acirc;mpada ilumina o lugar do<br \/>\n    ser&atilde;o.<\/p>\n<p>For&ccedil;osamente tem a Lua parte nisso. N&atilde;o sei o que h&aacute;<br \/>\n    na atmosfera em uma noite assim!<\/p>\n<p>O esp&iacute;rito mais embotado para as suaves como&ccedil;&otilde;es da<br \/>\n    poesia, parece receber ent&atilde;o um raio de lucidez e acreditar vagamente<br \/>\n    na exist&ecirc;ncia de alguma coisa, acima dos prosaicos interesses da vida<br \/>\n    positiva; os cora&ccedil;&otilde;es mais fechados a arroubamentos de amor,<br \/>\n    sentem-se embrandecer, e de mais de um consta haver infringido, em noites<br \/>\n    dessas, velhos e porfiados protestos de isen&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E negam a influ&ecirc;ncia da Lua?! No cora&ccedil;&atilde;o d&atilde;o-se<br \/>\n    fluxos e refluxos de sentimento, cuja teoria pode ter alguma coisa de comum<br \/>\n    com a do fluxo e refluxo dos mares. &Eacute; uma velha cren&ccedil;a esta,<br \/>\n    que me leva a supor a Lua favor&aacute;vel ao amor e indispens&aacute;vel<br \/>\n    &agrave; alegria das esfolhadas.<\/p>\n<p>E do meu lado encontro Jos&eacute; das Dornas, que esperou por uma noite<br \/>\n    de lua cheia, para celebrar a sua festa.<\/p>\n<p>Um monte enorme de espigas ocupava o meio da eira. Abertas de par em par<br \/>\n    as portas do cabanal aguardavam as amplas canastras para onde se iam lan&ccedil;ando<br \/>\n    as espigas esfolhadas.<\/p>\n<p>Sentados em c&iacute;rculo, &agrave; volta daquela alta pir&acirc;mide, trabalhavam<br \/>\n    azafamados, parentes, criados, vizinhos, amigos e conhecidos, que sempre afluem<br \/>\n    aos ser&otilde;es desta natureza, ainda que n&atilde;o convidados.<\/p>\n<p>N&atilde;o havia lugares de distin&ccedil;&atilde;o a&iacute;. Cada qual<br \/>\n    se sentava ao acaso, ou, quando muito, conforme as suas secretas prefer&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>A mais completa igualdade se estabelecera na companhia, desde o princ&iacute;pio<br \/>\n    dos trabalhos.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas, que sabia, como ningu&eacute;m, manter, nas ocasi&otilde;es<br \/>\n    devidas, a sua dignidade de chefe de fam&iacute;lia, dava, desta vez o exemplo<br \/>\n    a sem-cerim&ocirc;nia, praticando jovialmente, at&eacute; com o mais novo<br \/>\n    dos seus criados; e estes usavam para ele de liberdades que, fora do tempo,<br \/>\n    lhes sairiam caras. Pedro, rapaz sempre atencioso e grave no seu trato para<br \/>\n    com os velhos, naquela noite, tendo por vizinha uma s&eacute;ria e madura<br \/>\n    matrona da aldeia, requebrava-se em galanteios para com ela, e afetava rendidos<br \/>\n    extremos, com grande riso dos circunstantes e de Clara, a qual, pela sua parte,<br \/>\n    fingia uns ci&uacute;mes igualmente aplaudidos da assembl&eacute;ia.<\/p>\n<p>Uma velha, querendo aproveitar o seu tempo, tentou regular ali as suas contas<br \/>\n    com Nossa Senhora rezando uma das muitas coroas, de que lhe estava em d&iacute;vida;<br \/>\n    e, a cada passo, rompia em vocifera&ccedil;&otilde;es contra duas raparigas<br \/>\n    entre as quais ficara e cuja palestra a fazia perder na fieira de padre-nossos<br \/>\n    e ave-marias da sua intermin&aacute;vel reza.<\/p>\n<p>Os arrufos da velha eram est&iacute;mulo para risadas.<\/p>\n<p>As vezes saltava ao meio do c&iacute;rculo uma crian&ccedil;a com grandes<br \/>\n    bigodes, feitos de barba de milho, e a id&eacute;ia era logo apoiada e imitada<br \/>\n    por todas as outras, com grande embara&ccedil;o ao bom e pronto andamento<br \/>\n    da tarefa do ser&atilde;o. As m&atilde;es ralhavam, rindo; os pais faziam<br \/>\n    os mesmo; e disfar&ccedil;adamente punham, ao alcance dos pequenos, novos<br \/>\n    instrumentos para id&ecirc;nticos delitos.<\/p>\n<p>As raparigas e rapazes tiravam uns aos outros o gorgulho, que por acaso encontravam<br \/>\n    nas espigas, o que introduzia grande alvoro&ccedil;o na assembl&eacute;ia,<br \/>\n    e enchia os ares de gritos e de vozerias atroadoras.<\/p>\n<p>E ia assim animado o ser&atilde;o, quando uma circunst&acirc;ncia, para quase<br \/>\n    todos inesperada, veio subitamente esfriar esta fervura.<\/p>\n<p>Esta circunst&acirc;ncia foi a chegada de Daniel.<\/p>\n<p>Eram nove horas quando ele apareceu na eira, ainda em trajos de jornada,<br \/>\n    pois voltava, naquele momento, de uma excurs&atilde;o distante.<\/p>\n<p>Saudando alegremente a companhia, Daniel pediu para si um lugar no c&iacute;rculo<br \/>\n    dos serandeiros.<\/p>\n<p>Jos&eacute; das Dornas, Pedro e Clara, que havia j&aacute; muito o aguardavam<br \/>\n    com impaci&ecirc;ncia, sorriam entre si, ao verem o embara&ccedil;o em que<br \/>\n    todos ficaram com aquele refor&ccedil;o.<\/p>\n<p>A reputa&ccedil;&atilde;o que Daniel adquirira n&atilde;o era de fato para<br \/>\n    lhe preparar um lisonjeiro acolhimento.<\/p>\n<p>Os homens franziam as sobrancelhas e exprimiam em rosnados apartes, o seu<br \/>\n    desagrado; as mulheres de idade fitavam no rec&eacute;m-chegado um olhar,<br \/>\n    como o que lhes merecia um lobisomem; as raparigas acotovelavam-se, cochichavam<br \/>\n    umas com as outras; sufocavam os risos e olhavam &agrave;s furtadelas para<br \/>\n    Daniel; por&eacute;m, n&atilde;o houve quem se afastasse para dar lugar; antes<br \/>\n    apertavam uns contra os outros, para lhe evitarem a vizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Daniel repetiu a reclama&ccedil;&atilde;o, e, ao mesmo tempo, corria com<br \/>\n    os olhos as diferentes figuras ali reunidas, como a procurar aquela cuja proximidade<br \/>\n    mais agrad&aacute;vel lhe pudesse ser.<\/p>\n<p>O t&aacute;cito indeferimento do seu pedido continuou por&eacute;m. Os risinhos<br \/>\n    mal abafados, as murmura&ccedil;&otilde;es a meia voz e o som do esfolhar<br \/>\n    das espigas, tarefa em que todos pareciam com dobrada vontade empenhados,<br \/>\n    era o que se ouvia, em seguida &agrave; requisi&ccedil;&atilde;o que ele pela<br \/>\n    segunda vez fizera.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que &eacute; isso? &#8211; dizia Jos&eacute; das Dornas, meio<br \/>\n    a rir, meio despeitado. &#8211; Que diabo! N&atilde;o haver&aacute; ai lugar para<br \/>\n    mais um? Olhem que o rapaz n&atilde;o est&aacute; empestado.<\/p>\n<p>Houve um movimento geral, como para conceder o lugar requerido, movimento<br \/>\n    simulado por&eacute;m, que, longe de abrir brecha no c&iacute;rculo, ainda<br \/>\n    mais o estreitou.<\/p>\n<p>Daniel principiava a preparar-se para conquistar terreno, que lhe negavam,<br \/>\n    e com esse intuito fitava j&aacute; um espa&ccedil;o entre duas galantes raparigas,<br \/>\n    que naquele momento falavam ao ouvido e riam, quando escutou a voz de Clara,<br \/>\n    que lhe dizia do outro lado da eira:<\/p>\n<p>&#8212; Venha para aqui, Sr. Daniel, se lhe agrada a companhia.<\/p>\n<p>E, arredando-se de uma velha meia mouca e cega, que tinha &agrave; direita,<br \/>\n    Clara ofereceu a Daniel o lugar que ele pedia.<\/p>\n<p>A este n&atilde;o desagradou a coloca&ccedil;&atilde;o e apressou-se a tomar<br \/>\n    assento, junto de sua futura cunhada.<\/p>\n<p>Uma tal solu&ccedil;&atilde;o foi para todos satisfat&oacute;ria &#8211; a n&atilde;o<br \/>\n    termos de executar talvez muitas das raparigas, que mais repugn&acirc;ncia<br \/>\n    tinham mostrado em conceder junto de si o lugar perdido, mas que n&atilde;o<br \/>\n    desestimariam v&ecirc;-lo usurpado &#8211; contradi&ccedil;&otilde;es da natureza<br \/>\n    essencialmente feminina.<\/p>\n<p>Daniel compreendeu a necessidade de angariar simpatias na assembl&eacute;ia,<br \/>\n    que o olhava desconfiada.<\/p>\n<p>Principiou por distribuir cigarros por alguns dos circunstantes, que fumavam,<br \/>\n    e chamando-os a cada um pelos seus nomes &#8211; para o que interrogava primeiro<br \/>\n    disfar&ccedil;adamente Clara &#8211; a todos dirigiu um cumprimento, que algum tanto<br \/>\n    os abrandou.<\/p>\n<p>&Agrave;s velhas ofereceu uma animada descri&ccedil;&atilde;o vocal da prociss&atilde;o<br \/>\n    de Cinzas, no Porto, descri&ccedil;&atilde;o modelo, embora n&atilde;o primasse<br \/>\n    em exatid&atilde;o, nem no n&uacute;mero de andores, nem na designa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos santos. No fogo do seu raptus inventivo, chegou a falar em um certo S.<br \/>\n    Mac&aacute;rio, bispo, com grande espanto duma velha, cujas reminisc&ecirc;ncias<br \/>\n    da prociss&atilde;o dos franciscanos nada lhe diziam de tal santo. Daniel<br \/>\n    inventou-lhe uma biografia, digna de Ribadaneira. As velhas abrandaram-lhe<br \/>\n    a acrim&ocirc;nia dos seus olhares.<\/p>\n<p>E os rapazes? Para com estes experimentou Daniel a receita de Orfeu para<br \/>\n    abrandar as pedras; tentou a m&uacute;sica.<\/p>\n<p>Achou &agrave; m&atilde;o uma viola, e tirou alguns harpejos e executou umas<br \/>\n    varia&ccedil;&otilde;es sobre motivos da Cana-Verde, que atra&iacute;ram a<br \/>\n    si as simpatias dos que tinham no cora&ccedil;&atilde;o verdadeiros instintos<br \/>\n    art&iacute;sticos.<\/p>\n<p>Para as raparigas n&atilde;o procurou arte de se fazer valer, porque estava<br \/>\n    ele persuadido &#8211; n&atilde;o sei se com fundamentos &#8211; que qualquer que fossem<br \/>\n    as apar&ecirc;ncias, n&atilde;o lhe deviam ter elas muito m&aacute; vontade,<br \/>\n    sabendo-o um dos mais entusiastas admiradores do sexo.<\/p>\n<p>Apesar de tudo n&atilde;o se animava o ser&atilde;o. Reinava ainda certo<br \/>\n    constrangimento, a conversa fazia-se por grupos, e em voz quase baixa, e mantinha-se,<br \/>\n    por assim dizer, desencadeada.<\/p>\n<p>Os &uacute;nicos a falarem alto, al&eacute;m de Daniel, que por muito tempo<br \/>\n    fez, como costuma-se dizer, a despesa da conversa&ccedil;&atilde;o, eram,<br \/>\n    &agrave;s vezes, Pedro , Jos&eacute; das Dornas e Clara.<\/p>\n<p>Esta ria ao ver a dificuldade com que Daniel conseguia esfolhar uma espiga,<br \/>\n    enquanto ela aviava uma d&uacute;zia.<\/p>\n<p>&#8212; Que desastrado! &#8211; dizia Clara. &#8211; Nesse andar tem que fazer.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o como &eacute; que se arranja esta coisa?<\/p>\n<p>&#8212; Assim, ora repare. Pega-se num prego&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que &eacute; do prego?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o sabia pedi-lo? A&iacute; tem um. Mas pega-se<br \/>\n    num prego, e atravessa-se o folhelho assim, e depois&#8230;<\/p>\n<p>A execu&ccedil;&atilde;o substituiu o resto do preceito. Em um momento estava<br \/>\n    a espiga esfolhada e na canastra.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; pronto &#8211; acrescentou Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos a ver se eu sei &#8211; disse Daniel.- Seguro o prego, pronto&#8230;<br \/>\n    Atravesso o folhelho, ou folhido , ou l&aacute; o que &eacute;&#8230; At&eacute;<br \/>\n    aqui vai bem. E depois&#8230; e depois&#8230; e depois&#8230;<\/p>\n<p>Esta repeti&ccedil;&atilde;o era devido &agrave; dificuldade que ele encontrou<br \/>\n    a executar a &uacute;ltima parte da opera&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o se fartava de rir, e as outras raparigas riam tamb&eacute;m<br \/>\n    com ela. Algumas faziam ouvir o seu epigrama, com menos rebu&ccedil;os j&aacute;.<\/p>\n<p>Ainda assim, n&atilde;o se declarara abertamente a confian&ccedil;a, nem<br \/>\n    se generalizara a conversa. O que cada um tinha a dizer, comunicava-o ao vizinho<br \/>\n    mais pr&oacute;ximo; este se julgava a coisa digna de refer&ecirc;ncia, transmitia-o<br \/>\n    ao imediato, de maneira que todos vinham a saber, mas sucessivamente, e pouco<br \/>\n    a pouco; cada qual ria por sua vez, e sem aquelas s&uacute;bitas, un&acirc;nimes<br \/>\n    e estrepitosas manifesta&ccedil;&otilde;es de alacridade, desafiadas por um<br \/>\n    bom dito, ao soar imprevista e simultaneamente aos ouvidos de uma assembl&eacute;ia<br \/>\n    inteira. <\/p>\n<p>Havia em todos vontade de modificar esta fei&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria<br \/>\n    e retra&iacute;da do ser&atilde;o; mas ningu&eacute;m tinha coragem de empreender<br \/>\n    a revolta.<\/p>\n<p>De mais a mais, nem uma s&oacute; espiga vermelha aparecia a oferecer pretexto<br \/>\n    &agrave; realiza&ccedil;&atilde;o desse desejo t&aacute;cito de todos.<\/p>\n<p>Clara foi a &uacute;nica, nestas condi&ccedil;&otilde;es, a quem sobraram<br \/>\n    &acirc;nimos para fazer alguma coisa decisiva. Levantando a voz argentina<br \/>\n    e sonora, que todos os presentes conheciam bem, principiou a cantar:<\/p>\n<p>Andava a pobre cabreira<br \/>\n    O seu rebanho a guardar.<\/p>\n<p>Todas as vozes de raparigas, como por impulso comum, juntaram-se em coro,<br \/>\n    e terminaram na mesma toada a quadra: <\/p>\n<p>Desde que rompia o dia<br \/>\n    At&eacute; a noite fechar.<\/p>\n<p>Clara continuou:<\/p>\n<p>De pequenina nos montes,<\/p>\n<p>E prosseguiu o coro: <\/p>\n<p>Nunca teve outro brincar<br \/>\n    Nas canseiras do trabalho<\/p>\n<p>Seus dias vira passar A letra e a m&uacute;sica desta cantiga ou x&aacute;cara<br \/>\n    popular comoveram intimamente Daniel, despertando-lhe mem&oacute;rias amortecidas,<br \/>\n    avivando-lhe imagens quase apagadas, entre as quais uma, mais suave que todas,<br \/>\n    o enleava. Era a da pequena Guida, da sua companheira de inf&acirc;ncia, a<br \/>\n    que tantas vezes ouvira aquela simples can&ccedil;&atilde;o, que falava tamb&eacute;m<br \/>\n    de uma guardadora de rebanhos, como ela era. Na voz de Clara alguma coisa<br \/>\n    julgou Daniel descobrir da inocente crian&ccedil;a que recebera ent&atilde;o<br \/>\n    as prim&iacute;cias do seu cora&ccedil;&atilde;o infantil, mas apaixonado<br \/>\n    j&aacute;. Esta primeira analogia fez-lhe notar que no olhar tamb&eacute;m,<br \/>\n    no gesto e no rir a havia igualmente, e isto obrigava Daniel a fitar em Clara<br \/>\n    olhos mais observadores que nunca.<\/p>\n<p>Dentro em pouco esqueceu-se do que primeiro o levara &agrave; contempla&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e, sem j&aacute; pensar na pequena guardadora de rebanhos, continuava a olhar<br \/>\n    para Clara com uma aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o encoberta.<\/p>\n<p>No entretanto Clara continuava cantando:<\/p>\n<p>Sentada no alto da serra<br \/>\n    P&ocirc;s-se a cabreira a chorar.<\/p>\n<p>E as raparigas todas seguiam: <\/p>\n<p>Por que chorava a cabreira<br \/>\n    Agora haveis de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Milho rei! milho rei! milho rei! &#8211; rompeu uma voz, e esta tr&iacute;plice<br \/>\n    exclama&ccedil;&atilde;o tudo p&ocirc;s em desordem; interrompeu o canto,<br \/>\n    e arrebatou Daniel &agrave; doce contempla&ccedil;&atilde;o em que se deixara<br \/>\n    cair.<\/p>\n<p>Aquele grito partira de Jos&eacute; das Dornas, que fora o primeiro a cujas<br \/>\n    m&atilde;os concedera a sorte, enfim, uma espiga vermelha.<\/p>\n<p>A festa mudou s&uacute;bita e completamente de car&aacute;ter.<\/p>\n<p>&Agrave; exclama&ccedil;&atilde;o do lavrador respondeu grande alarido na<br \/>\n    assembl&eacute;ia. De todos os lados se pedia o cumprimento da lei da esfolhadas.<br \/>\n    Cabia pois a Jos&eacute; das Dornas fazer a primeira distribui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de abra&ccedil;os.<\/p>\n<p>O alegre lavrador n&atilde;o se fez rogar.<\/p>\n<p>Seguiu-se ent&atilde;o um espet&aacute;culo iminentemente c&ocirc;mico. Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas ergueu-se do lugar onde estava para correr um por um, todos os<br \/>\n    outros, e, com profus&atilde;o de abra&ccedil;os, dar o exemplo de observ&acirc;ncia<br \/>\n    &agrave; lei reguladora da festa.<\/p>\n<p>Todo este cerimonial foi acompanhado das gargalhadas dos espectadores, e<br \/>\n    entremeado de observa&ccedil;&otilde;es jocosas do oficiante, o qual fazia<br \/>\n    valer sobremaneira o ato, gra&ccedil;as ao g&ecirc;nio folgaz&atilde;o que<br \/>\n    Deus lhe dera.<\/p>\n<p>A cada rapariga que abra&ccedil;ava, Jos&eacute; das Dornas, prolongando<br \/>\n    mais o abra&ccedil;o, dizia com visagens e gestos, que faziam estalar de riso<br \/>\n    os circunstantes.<\/p>\n<p>&#8212; Na minha idade, aos sessenta anos, s&oacute; o milho rei me podia<br \/>\n    dar destas fortunas! Ainda bem que a sorte mo trouxe &agrave;s m&atilde;os.<\/p>\n<p>Ao abra&ccedil;ar os homens, exclamava ele, com certo ar de desconsola&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    comicamente expressivo.<\/p>\n<p>&#8212; Que belo abra&ccedil;o desperdicei agora!<\/p>\n<p>Passando pelos filhos, abra&ccedil;ou-os tamb&eacute;m, dizendo-lhes:<\/p>\n<p>&#8212; Rapazes, tenham paci&ecirc;ncia. Eu sei que s&atilde;o destes abra&ccedil;os<br \/>\n    que v&oacute;s quereis. Mas &eacute; lei, &eacute; lei. Os outros vir&atilde;o<br \/>\n    a seu tempo.<\/p>\n<p>A um criado disse, meneando a cabe&ccedil;a:<\/p>\n<p>&#8212; Ah! maroto! Ser obrigado a abra&ccedil;ar-te, quando tanta vontade<br \/>\n    tinha de te apalpar de outra maneira as costas! Ora v&aacute;, que talvez<br \/>\n    te n&atilde;o gabes de outra.<\/p>\n<p>O certo &eacute; que, depois disso, come&ccedil;ou a animar-se a esfolhada.<br \/>\n    As espigas vermelhas como se atra&iacute;das pelo bom colhimento feito &agrave;<br \/>\n    primeira, apareceram sucessivamente a diferentes m&atilde;os, e cada uma que<br \/>\n    aparecia dava lugar a epis&oacute;dios graciosos e a prolongada hilaridade.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes era uma rapariga t&iacute;mida e acanhada, que n&atilde;o<br \/>\n    queria cumprir a senten&ccedil;a; e ent&atilde;o todas as vozes se reuniam<br \/>\n    a exigi-la; e ela a recusar-se, e os vizinhos a empurr&aacute;-la, e todos<br \/>\n    a aplaudirem a rapariga, sorrindo e enleada de confus&atilde;o, a correr a<br \/>\n    roda, e alta vozeria a celebrar com ova&ccedil;&otilde;es a vit&oacute;ria<br \/>\n    sobre a rebelde; outras, era um velho ou velha, a que faziam trope&ccedil;ar,<br \/>\n    ou abaixar-se para dar o abra&ccedil;o, e que depois cobriam desapiedadamente<br \/>\n    de montes e folhelho com aprova&ccedil;&atilde;o e coadjuva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral da parte jovem dos serandeiros; outras, um rapaz destemido, que, pela<br \/>\n    terceira vez, reclamava abra&ccedil;os, e contra o qual se tramava uma conspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mulheril, a contestar-lhe a legalidade das pretens&otilde;es, acusando-o de<br \/>\n    fraude e de trazer de casa as espigas vermelhas, de que se valia; animava-se<br \/>\n    ent&atilde;o a discuss&atilde;o, mas afinal sempre se davam os abra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Todos por&eacute;m, aceitavam as excepcionais liberdades desta noite de tradicional<br \/>\n    folgan&ccedil;a, com a consci&ecirc;ncia de que n&atilde;o poderiam nunca<br \/>\n    faz&ecirc;-las valer a justificar ulteriores e mais arrojadas aspira&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Havia por&eacute;m um espectador e ator destas cenas noturnas que, por circunst&acirc;ncias<br \/>\n    f&aacute;ceis de prever, n&atilde;o estava muito de &acirc;nimo a receber<br \/>\n    com a mesma frieza as concess&otilde;es do estilo.<\/p>\n<p>Era Daniel.<\/p>\n<p>Havia muitos anos que ele n&atilde;o tomara parte nestes ser&otilde;es, de<br \/>\n    forma que, aos participar dos privil&eacute;gios que, s&oacute; em ocasi&otilde;es<br \/>\n    tais, lhe podiam ser concedidos, n&atilde;o conservava no mesmo grau que os<br \/>\n    seus companheiros a tranq&uuml;ilidade de esp&iacute;rito e a frieza de &acirc;nimo<br \/>\n    com que os outros contavam, ao sair dali, dormir um sono sossegado e livre<br \/>\n    de pesadelos.<\/p>\n<p>Todos poderiam receber de uma rapariga um abra&ccedil;o e esquec&ecirc;-lo<br \/>\n    logo depois; Daniel &eacute; que dificilmente conseguiria afazer-se a isso.<\/p>\n<p>Al&eacute;m de que, a noite era de luar; daquele luar de que falei, magn&eacute;tico,<br \/>\n    inebriante, que exalta a imagina&ccedil;&atilde;o, que a inquieta, e nos predisp&otilde;e<br \/>\n    a sonhar! E ent&atilde;o uma imagina&ccedil;&atilde;o como a de Daniel.<\/p>\n<p>Havia de mais a mais uma outra circunst&acirc;ncia, que concorria para produzir<br \/>\n    nele estes efeitos excepcionais. As raparigas n&atilde;o lhe concediam os<br \/>\n    abra&ccedil;os, marcados pelo estatuto da festa, com a mesma pronta familiaridade,<br \/>\n    com que os outros os obtinham. N&atilde;o obstante ter cessado j&aacute; o<br \/>\n    constrangimento do princ&iacute;pio da noite, e n&atilde;o pesarem em ningu&eacute;m<br \/>\n    as primeiras preven&ccedil;&otilde;es contra o cantor das trigueiras, contudo,<br \/>\n    na ocasi&atilde;o cr&iacute;tica, no momento do abra&ccedil;o, havia nas menos<br \/>\n    t&iacute;midas um ar de pudica hesita&ccedil;&atilde;o, nas faces adivinhavam-se-lhes<br \/>\n    um rubor, no baixar dos olhos uma eloq&uuml;&ecirc;ncia, que centuplicavam<br \/>\n    o valor dos tais abra&ccedil;os e, for&ccedil;oso &eacute; confess&aacute;-lo,<br \/>\n    alteravam-lhe tamb&eacute;m um pouco a significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando se concede ou se recebe um abra&ccedil;o, corando, &eacute; porque<br \/>\n    palpita o cora&ccedil;&atilde;o; e cada palpita&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; um fen&ocirc;meno cheio de grandes mist&eacute;rios, que perturbam<br \/>\n    o pensamento de quem neles considera.<\/p>\n<p>O de Daniel n&atilde;o estava muito sereno j&aacute;, quando chegou a vez<br \/>\n    de Clara de cumprir a senten&ccedil;a tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Levantou-se imediatamente a irm&atilde; de Margarida, e, com o desembara&ccedil;o<br \/>\n    que lhe era pr&oacute;prio, come&ccedil;ou pela esquerda a sua &quot;via sacra&quot;,<br \/>\n    como ela, rindo, lhe chamou. pela ordem que levava, devia ser Daniel o &uacute;ltimo,<br \/>\n    a quem tinha de abra&ccedil;ar. Ao chegar junto dele, parte da natural aud&aacute;cia<br \/>\n    a abandonou.<\/p>\n<p>J&aacute; antes notara ela alguma coisa de particular nos olhares e nas maneiras<br \/>\n    do irm&atilde;o do seu noivo, que tinha diminu&iacute;do a familiaridade,<br \/>\n    com que ao princ&iacute;pio o acolhera, e diminuindo na propor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que nas outras crescia.<\/p>\n<p>Foi quase a tremer que ela o abra&ccedil;ou.<\/p>\n<p>Daniel percebeu-lhe a agita&ccedil;&atilde;o, e sorriu.<\/p>\n<p>Clara, sentando-se outra vez junto dele, sentia-se constrangida e n&atilde;o<br \/>\n    ousava erguer os olhos.<\/p>\n<p>Daniel achava deliciosa aquela s&uacute;bita timidez, e come&ccedil;ou logo<br \/>\n    a formar castelos no ar, quase esquecido de que era a prometida esposa de<br \/>\n    seu irm&atilde;o, de quem nunca mais desviou os olhos, nem distraiu as aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Apareceu afinal, a ele tamb&eacute;m, uma espiga de milho vermelho.<\/p>\n<p>Daniel mostrou-a, sorrindo, a Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Visitou-me enfim a ventura &#8211; disse-lhe ele. &#8211; Gra&ccedil;as a Deus!<br \/>\n    por&eacute;m mais feliz seria se me fosse permitido cumprir da senten&ccedil;a<br \/>\n    s&oacute; aquela parte que n&atilde;o me obriga a levantar.<\/p>\n<p>Clara quis responder-lhe, mas nada lhe ocorreu, que dissesse.<\/p>\n<p>Nisto, uma crian&ccedil;a que estava pr&oacute;ximo deles, denunciou &agrave;<br \/>\n    assembl&eacute;ia que o Sr. Daniel tinha achado um milho rei.<\/p>\n<p>Agora, j&aacute; todos foram un&acirc;nimes a exigir, em grandes brados,<br \/>\n    que pagasse ele tamb&eacute;m o tributo estabelecido.<\/p>\n<p>Daniel n&atilde;o procurou eximir-se; abra&ccedil;ou por&eacute;m a todos<br \/>\n    &agrave; pressa e distraidamente, at&eacute; chegar &agrave; Clara. A essa,<br \/>\n    apertou-a ao peito de maneira a redobrar o enleio em que se achava j&aacute;<br \/>\n    a rapariga.<\/p>\n<p>Desse momento por diante, Daniel ficou inteiramente dominado por a sua irreprim&iacute;vel<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Feliz mente as aten&ccedil;&otilde;es de todos estavam atra&iacute;das pelas<br \/>\n    perip&eacute;cias da esfolhada, que a n&atilde;o ser isso, teriam dado que<br \/>\n    falar as maneiras do estouvado rapaz em todo o resto da noite.<\/p>\n<p>Clara sentia uma acanhamento nela pouco habitual, procurava venc&ecirc;-lo,<br \/>\n    para refrear a imprudente exalta&ccedil;&atilde;o do seu vizinho, mas todos<br \/>\n    os seus esfor&ccedil;os eram baldados. Nem parecia a mesma, de t&iacute;mida<br \/>\n    que estava.<\/p>\n<p>Daniel, por mais de uma vez, serviu-se das fraudes usadas pelos serandeiros<br \/>\n    e freq&uuml;entadores de esfolhadas, para renovar os abra&ccedil;os; e isto<br \/>\n    sem procurar ocultar-se de Clara.<\/p>\n<p>Esta, n&atilde;o lhe denunciando o artif&iacute;cio, deixava assim imprudentemente<br \/>\n    estabelecer-se, entre ambos, certa cumplicidade, que estimulava Daniel.<\/p>\n<p>A isto sucederam-se frases de galanteio, ditas a meia voz, e olhares que<br \/>\n    a n&atilde;o deixavam; por acaso encontravam-se-lhes &agrave;s vezes as m&atilde;os,<br \/>\n    e Clara sentia que Daniel lhas apertava nas suas.<\/p>\n<p>A pobre rapariga, inquieta, irresoluta, sen&atilde;o fascinada, nem tentava<br \/>\n    fugir-lhe nem ousava repreend&ecirc;-lo; sentia-se triste, no meio de uma<br \/>\n    festa em que todos riam. Triste, ela!<\/p>\n<p>Pela meia noite terminou a esfolhada. Seguiram-se as dan&ccedil;as. Clara<br \/>\n    n&atilde;o quis dan&ccedil;ar; veio sentar-se junto de Jos&eacute; das Dornas.<br \/>\n    Daniel sentou-se outra vez do lado dela.<\/p>\n<p>Dentro em pouco o lavrador dormia. Daniel falava. Falou sem cessar., mas<br \/>\n    ele pr&oacute;prio dificilmente poderia dizer em qu&ecirc;. Clara escutava-o<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio, quase atordoada pelas como&ccedil;&otilde;es da noite.<\/p>\n<p>Aquela maneira de conversar, o que ele dizia, e as palavras de que usava,<br \/>\n    tudo lhe era desconhecido; impressionavam-na e agradavam-lhe, como uma novidade.<br \/>\n    Ela mal poderia explicar o estado do seu esp&iacute;rito naquele momento.<\/p>\n<p>Alguma coisa a obrigava a escutar Daniel, enquanto outra a mandava desconfiar<br \/>\n    daquelas palavras, que lhe soavam bem, como m&uacute;sica melodiosa.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Clarinha, repare que ainda n&atilde;o teve uma palavra que me<br \/>\n    dissesse! &#8211; segredou-lhe Daniel, por fim, com afetuosa inflex&atilde;o de<br \/>\n    voz<\/p>\n<p>&#8212; E que quer que eu lhe diga?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o se lembra de nada?<\/p>\n<p>&#8212; De nada. A minha cabe&ccedil;a n&atilde;o tem neste momento muito<br \/>\n    para me dar.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! mas n&atilde;o lhe pe&ccedil;a nada tamb&eacute;m, pe&ccedil;a<br \/>\n    antes ao seu cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Que posso eu pedir ao meu cora&ccedil;&atilde;o que lhe sirva? &#8211;<br \/>\n    perguntou Clara, procurando sorrir, mas com vis&iacute;vel constrangimento.<\/p>\n<p>&#8212; Se ele n&atilde;o tiver que dar, que se d&ecirc; a si pr&oacute;prio<br \/>\n    &#8211; respondeu Daniel em voz baixa.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Daniel! &#8211; exclamou Clara, conseguindo, enfim, por um maior esfor&ccedil;o,<br \/>\n    vencer o seu enleio, e pondo-se subitamente a p&eacute;.<\/p>\n<p>Pedro, que lhe escutara a voz, aproximou-se dos dois.<\/p>\n<p>A vista do irm&atilde;o fez cair Daniel em si, e alentou-lhe a raz&atilde;o<br \/>\n    no eterno combate que sustentava com a fantasia.<\/p>\n<p>Curvou a cabe&ccedil;a e sentiu quase uns assomos de remorsos por o seu estouvado<br \/>\n    procedimento naquela noite.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens, Clarinha? &#8211; perguntava nesse tempo Pedro &agrave; sua noiva.<br \/>\n    &#8211; Parece-me que te ouvi&#8230;<\/p>\n<p>Clara ainda agitada, apertou o bra&ccedil;o de Pedro, como se a procurar<br \/>\n    prote&ccedil;&atilde;o, talvez contra si mesma.<\/p>\n<p>&#8212; Que tens? dize! continuou Pedro, j&aacute; mais inquieto.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; nada.<\/p>\n<p>&#8212; Mas tu gritaste.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; &eacute; que&#8230; a falar a verdade, n&atilde;o sei o que<br \/>\n    sinto.<\/p>\n<p>A inquieta&ccedil;&atilde;o de Pedro aumentava.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o&#8230; D&oacute;i-te alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o&#8230; Olha, sabes? Queria ver-me em casa. Se soubesse nem<br \/>\n    tinha vindo.<\/p>\n<p>&#8212; Nesse caso vamos acompanhar-te.<\/p>\n<p>Daniel aproximou-se.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; doente, Clarinha?<\/p>\n<p>A vista de Daniel exacerbou o estado nervoso, em que se achava Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Por amor de Deus! Deixe-me! &#8211; exclamou ela, com um grito, cheio de<br \/>\n    impaci&ecirc;ncia, quase febril.<\/p>\n<p>Esse grito chamou as aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Todos se aproximaram dela.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Que foi?<\/p>\n<p>&#8212; Deu-lhe alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; mal?<\/p>\n<p>&#8212; O Clara, ent&atilde;o, isso o que &eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Que tens, filha?<\/p>\n<p>E cada qual perguntava a seu modo, e cada qual a seu modo respondia e dava<br \/>\n    um conselho e uma conjetura.<\/p>\n<p>Amigas obsequiosas preparavam-se para desaperta-la. Houve algumas que a quiseram<br \/>\n    obrigar a beber &aacute;gua fria! outras esfor&ccedil;avam-se para lhe untar<br \/>\n    as fontes com vinagre.<\/p>\n<p>&#8212; Aquilo s&atilde;o bichas &#8211; dizia uma velha muito entendida em diagn&oacute;sticos.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; flato &#8211; sustentava em diverg&ecirc;ncia com esta, outra<br \/>\n    colega.<\/p>\n<p>&#8212; Com vinagre passa-lhe &#8211; dizia a primeira<\/p>\n<p>&#8212; Um gole de ch&aacute; de cidreira, &eacute; um instante &#8211; emendava<br \/>\n    a segunda.<\/p>\n<p>Clara sentia-se deveras mortificada, e tanto que a viam chorar.<\/p>\n<p>&#8212; O melhor &eacute; acompanharmo-la a casa &#8211; disse Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas &#8211; Isso n&atilde;o h&aacute; de valer nada. Se n&atilde;o puder por<br \/>\n    seu p&eacute;, o Jo&atilde;o que v&aacute; aparelhar a ru&ccedil;a.<\/p>\n<p>A primeira parte do alvitre foi posta em execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Clara partiu, servindo-lhe de escolta Pedro, Daniel e um mo&ccedil;o da casa.<\/p>\n<p>E a festa da esfolhada acabou assim. <\/p>\n<h4><a name=\"30\">Cap&iacute;tulo XXX<\/a><\/h4>\n<p> Ao voltar para casa. na companhia de Pedro e de Daniel, Clara caminhava<br \/>\n    silenciosa e triste. Os dois irm&atilde;os n&atilde;o se achavam com mais<br \/>\n    &acirc;nimo do que ela para tentar conversa.<\/p>\n<p>Pedro ia pensativo e desassossegado com o s&uacute;bito inc&ocirc;modo de<br \/>\n    sua noiva; e Daniel, ainda sob o dom&iacute;nio das como&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    recebidas naquela noite, que entre mem&oacute;rias agrad&aacute;veis, lhe<br \/>\n    deixava alguma coisa do amargor dos remorsos.<\/p>\n<p>Sem terem trocado uma s&oacute; palavra, chegaram assim &agrave; porta das<br \/>\n    duas irm&atilde;s. Uma luz no quarto de Margarida era sinal de que ela n&atilde;o<br \/>\n    dormia ainda.<\/p>\n<p>Clara, erguendo para ali os olhos, suspirou. Parecia estar invejando o sossego<br \/>\n    daquela vig&iacute;lia, a paz da consci&ecirc;ncia que velava assim. Ao despedir-se<br \/>\n    de Clara, Pedro disse-lhe afetuosamente:<\/p>\n<p>&#8212; Boas noites, Clarinha; amanh&atilde; espero encontrar-te melhor.<\/p>\n<p>Daniel aproximou-se dela tamb&eacute;m:<\/p>\n<p>&#8212; Sossegue &#8211; disse-lhe. &#8211; N&atilde;o se assuste. Tenha confian&ccedil;a<br \/>\n    em mim; asseguro-lhe que pode estar tranq&uuml;ila.<\/p>\n<p>E, como visse que a rapariga o fitava com um gesto de estranheza e de interroga&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Sim; ent&atilde;o n&atilde;o v&ecirc; que sou m&eacute;dico? Afirmo-lhe<br \/>\n    que pode estar descansada; adeus.<\/p>\n<p>E separaram-se.<\/p>\n<p>De todos os tr&ecirc;s posso assegurar que nenhum teve bom sono.<\/p>\n<p>Pedro toda a noite lidou com o receio de que o inc&ocirc;modo e Clara fosse<br \/>\n    de gravidade; vieram-lhe &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o as mais negras<br \/>\n    apreens&otilde;es a respeito do futuro do seu amor; a cada momento levantava<br \/>\n    a cabe&ccedil;a do travesseiro para espreitar se, atrav&eacute;s das frestas<br \/>\n    da janela, j&aacute; aparecia a primeira luz do alvorecer. Em Daniel foi uma<br \/>\n    luta do senso &iacute;ntimo que o n&atilde;o deixou repousar. Odiava-se e<br \/>\n    acusava-se com severidade, por haver de alguma sorte abusado, deslealmente,<br \/>\n    da confian&ccedil;a de seu irm&atilde;o; mas, cedo deixava de ouvir esta voz<br \/>\n    da consci&ecirc;ncia como se distra&iacute;do por um esp&iacute;rito maligno,<br \/>\n    que lhe recordava os encantos de Clara; e a seu pensar, sentia-se &agrave;s<br \/>\n    vezes quase desvanecido com esperan&ccedil;as, &agrave;s quais ele pr&oacute;prio<br \/>\n    tentava cerrar o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Alguma cosa semelhante perturbava tamb&eacute;m naquele momento o esp&iacute;rito<br \/>\n    de Clara. A cada passo se esquecia a pensar nos diversos epis&oacute;dios<br \/>\n    do ser&atilde;o e em tudo quanto Daniel lhe dissera; e logo se arrependia<br \/>\n    e acusava, como de uma trai&ccedil;&atilde;o feita a Pedro, de ter assim escutado<br \/>\n    e recordar agora as falas apaixonadas daquele louco imprudente.<\/p>\n<p>Margarida, antes de deitar-se, veio ter com ela.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, divertiste-te? &#8211; perguntou-lhe<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; E por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Por quem &eacute;s, Guida, n&atilde;o me perguntes hoje nada, se<br \/>\n    &eacute; minha amiga. Estou doente.<\/p>\n<p>Margarida assustou-se pela maneira como foram ditas estas palavras.<\/p>\n<p>&#8212; Doente! &#8211; exclamou ela com verdadeira inquieta&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e apalpando-lhe a fronte, que escaldava:<\/p>\n<p>&#8212; E tens febre, Clarinha! Bem me dizia o cora&ccedil;&atilde;o: antes<br \/>\n    n&atilde;o fosses!<\/p>\n<p>&#8212; E antes! &#8211; disse Clara, suspirando. E calou-se, fingindo que adormecia.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o conseguiu mais serenar a turba&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    lhe produzia o estado da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Que sucederia l&aacute;? &#8211; perguntava ela a si mesma.<\/p>\n<p>Foi mais um que n&atilde;o dormiu naquela noite. Levou-a toda a cismar e<br \/>\n    a escutar se algum rumor chegava do quarto de Clara.<\/p>\n<p>A madrugada, por&eacute;m, opera milagres. N&atilde;o h&aacute; luz como<br \/>\n    a da manh&atilde; para dissipar as vis&otilde;es de uma imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    preocupada. Como esses vultos sinistros, que os sentidos alucinados das crian&ccedil;as<br \/>\n    medrosas descobrem em cada canto escuro de um quarto de dormir, as cria&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do esp&iacute;rito aflito desvanecem-se aos primeiros raios da aurora.<\/p>\n<p>Rimo-nos ent&atilde;o das nossas apreens&otilde;es da v&eacute;spera, nem<br \/>\n    compreendemos os nossos terrores. As sombras de uma floresta, que a noite<br \/>\n    nos representa pavorosa, tomam ao amanhecer um aspecto festivo, e mostram-se-nos<br \/>\n    recamadas de flores; &eacute; tamb&eacute;m a essa hora que uma transforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    an&aacute;loga parece operar-se nas sombras do nosso futuro; temos mais esperan&ccedil;a<br \/>\n    na vida ent&atilde;o; aclara-se-nos a nuvem cerrada que caminha diante de<br \/>\n    n&oacute;s, quando ouvimos cantar alvoradas &agrave;s aves, que o dia desperta.<\/p>\n<p>Este fen&ocirc;meno &iacute;ntimo do nosso esp&iacute;rito, realizava-se<br \/>\n    em Daniel e Clara.<\/p>\n<p>O desgosto em si, os vagos remorsos da v&eacute;spera, as inquieta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mal definidas, dissipou-os o surgir da manh&atilde;.<\/p>\n<p>Clara olhou para a irm&atilde;, que lhe espiava o despertar, com os olhos<br \/>\n    expressivos de desassombrada alegria.<\/p>\n<p>Daniel vestiu-se, cantando jovialmente; e, sem vislumbres de pensamentos<br \/>\n    negros, preparou-se para sair.<\/p>\n<p>Os acontecimentos da noite anterior eram j&aacute; sem a menor import&acirc;ncia<br \/>\n    aos olhos de ambos. E que import&acirc;ncia podia ter uma noite de esfolhada?<br \/>\n    Quem se lembraria de atribuiu valor &agrave;s liberdades consentidas ent&atilde;o?<\/p>\n<p>Clara perguntava a si pr&oacute;pria as causas daqueles seus excessivos terrores,<br \/>\n    e n&atilde;o os podia justificar.<\/p>\n<p>Quando Margarida, ainda cheia de cuidados, e olhando-a com solicitude, lhe<br \/>\n    falou nisso, Clara p&ocirc;s-se a rir.<\/p>\n<p>&#8212; Que queres tu que te diga? Nem eu mesma j&aacute; sei o que me afligia<br \/>\n    ontem. N&atilde;o te sucede &agrave;s vezes isso?<\/p>\n<p>&#8212; Em ti &eacute; que me admira. &Eacute; t&atilde;o pouco do teu g&ecirc;nio!<br \/>\n    &#8211; respondeu Margarida, olhando-a fixamente.<\/p>\n<p>&#8212; E tamb&eacute;m te prometo que nunca mais me tornar&aacute;s a ver<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p>&#8212; Deus o queira.<\/p>\n<p>Margarida disse isto, como quem se n&atilde;o dava por satisfeita com a explica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou com as palavras de evasiva Clara. Ela suspeitava ainda que alguma coisa<br \/>\n    se tinha passado durante a esfolhada, que a irm&atilde;o lhe n&atilde;o queria<br \/>\n    revelar.<\/p>\n<p>Mas Clara conservou t&atilde;o bem, em todo o dia, a jovialidade do costume,<br \/>\n    que as apreens&otilde;es de Margarida acabaram por dissipar-se de todo.<\/p>\n<p>Correram alguns dias depois destes acontecimentos. Persistindo ainda os mesmos<br \/>\n    estorvos ao projetado e decidido casamento de Pedro, passava este o tempo<br \/>\n    em trabalhos campestres, e Clara ocupando-se da feitura do enxoval, em que<br \/>\n    era ajudada pela irm&atilde;.<\/p>\n<p>Daniel, ainda sem cuidado de cl&iacute;nica, prosseguia nas excurs&otilde;es<br \/>\n    venat&oacute;rias pelos arredores. Havia, por&eacute;m, muitas ocasi&otilde;es<br \/>\n    em que ele voltava a casa sem ter disparado um tiro, o que n&atilde;o o afligia<br \/>\n    demasiadamente.<\/p>\n<p>Pedro renovava ent&atilde;o as suas prele&ccedil;&otilde;es sobre a ca&ccedil;a,<br \/>\n    e instru&iacute;a Daniel a respeito dos lugares da aldeia, mais abundantes<br \/>\n    nela.<\/p>\n<p>Do que Daniel n&atilde;o se esquecia era de passar todos os dias &agrave;<br \/>\n    porta das duas irm&atilde;s, que ambas o viam, e, pode-se at&eacute; dizer,<br \/>\n    o esperavam j&aacute;. Margarida ocultava-se, por&eacute;m, mal o sentia;<br \/>\n    Clara, pelo contr&aacute;rio, inclinava-se no peitoril, e, sorrindo, correspondia<br \/>\n    &agrave; sauda&ccedil;&atilde;o do ca&ccedil;ador.<\/p>\n<p>Era mais outra inconsidera&ccedil;&atilde;o de Clara. Conseguiu persuadir-se<br \/>\n    esta boa rapariga que era obrigada &agrave;quilo. Para compensar a demasiada<br \/>\n    severidade, com a qual, no seu entender, tratara Daniel na noite da esfolhada,<br \/>\n    e sem se lembrar que, n&atilde;o obstante o seu pr&oacute;ximo parentesco<br \/>\n    com ele justificar estas familiaridades, a m&aacute; reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que Daniel gozava na aldeia e a f&eacute;rtil imagina&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    noveleiros locais as faziam um pouco imprudentes.<\/p>\n<p>De fato, j&aacute; nos c&iacute;rculos da terra constava da predile&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Daniel pela rua em que moravam as duas raparigas; e falava-se disto com<br \/>\n    certos olhares, com certas retic&ecirc;ncias e sorrisos, mais malignamente<br \/>\n    eloq&uuml;entes do que murmura&ccedil;&otilde;es expl&iacute;citas.<\/p>\n<p>Escusado ser&aacute; dizer que na loja do Sr. Jo&atilde;o da Esquina encontravam<br \/>\n    estas meias vozes um eco admir&aacute;vel.<\/p>\n<p>Daniel concorreu para exacerbar esses vagos rumores populares.<\/p>\n<p>Um dia, em que se entretivera meia hora conversando da rua para Clara, passou,<br \/>\n    ao retirar-se, por um jornaleiro, que trabalhava a pouca dist&acirc;ncia dali.<br \/>\n    Este homem, com aquele ar de simpleza velhaca, t&atilde;o vulgar na gente<br \/>\n    do campo, p&ocirc;s-se a cantar: <\/p>\n<p>Ca&ccedil;ador que vais &agrave; ca&ccedil;a;<br \/>\n    Muito bem armado vais;<br \/>\n    Os olhos levais por armas,<br \/>\n    E, em vez de tiros, d&aacute;s ais.<\/p>\n<p>Ora esta era uma das vezes em que Daniel voltava a casa sem uma vitima da<br \/>\n    sua espingarda, que nem chegara a descarregar.<\/p>\n<p>A cantiga do alde&atilde;o irritou-o, pareceu-lhe que era uma alus&atilde;o<br \/>\n    insolente; mas teve a prud&ecirc;ncia de se n&atilde;o dar por entendido e<br \/>\n    passou sem dizer nada.<\/p>\n<p>No da seguinte, por&eacute;m, reproduziu-se o fato.<\/p>\n<p>Voltando outra vez e &agrave; mesma hora, de uma ca&ccedil;ada, igualmente<br \/>\n    incruenta, ouviu de novo o jornaleiro a cantar.<\/p>\n<p>Singular ca&ccedil;ada a tua,<br \/>\n    Arrojado ca&ccedil;ador,<br \/>\n    Que, em lugar de penas de aves,<br \/>\n    S&oacute; trazes penas de amor.<\/p>\n<p>Era demasiada a ousadia, para que Daniel a sofresse. Parou e olhando para<br \/>\n    o homem, o qual, de atento que estava na tarefa, nem pareceu dar por ele,<br \/>\n    dirigiu-lhe a palavra:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; maroto!<\/p>\n<p>O jornaleiro fingiu reparar ent&atilde;o pela primeira vez em Daniel, e,<br \/>\n    levando a m&atilde;o ao chap&eacute;u, disse cortejando:<\/p>\n<p>&#8212; Nosso Senhor lhe d&ecirc; muito boas-tardes. O patr&atilde;o quer<br \/>\n    alguma coisa?<\/p>\n<p>&#8212; Quero avisar-te que andar&aacute;s com ju&iacute;zo se deres outro<br \/>\n    jeito &aacute;s tuas cantigas quando eu passar por aqui.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que cantava eu? J&aacute; n&atilde;o me lembra, se quer<br \/>\n    que lhe fale a verdade.<\/p>\n<p>&#8212; Pois, se na terceira vez te escutar, eu te prometo que to gravarei<br \/>\n    melhor na mem&oacute;ria.<\/p>\n<p>E dizendo isto prosseguiu Daniel no seu caminho.<\/p>\n<p>A prud&ecirc;ncia do homem aconselhou-o a que n&atilde;o cantasse mais; por&eacute;m,<br \/>\n    em compensa&ccedil;&atilde;o, foi um dos mais atendidos oradores dos diferentes<br \/>\n    c&iacute;rculos, onde a vida de Daniel era discutida com aquele ardor de curiosidade<br \/>\n    e bisbilhotice pr&oacute;prias da aldeia.<\/p>\n<p>&Agrave; Margarida n&atilde;o dava tamb&eacute;m pouco que pensar a freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    com que Daniel lhe passava &agrave; porta. Sabia j&aacute; que ele tinha tomado<br \/>\n    parte na esfolhada, e quase tudo o que sucedera ent&atilde;o. O resto talvez<br \/>\n    que o adivinhasse, conhecendo, como conhecia , o car&aacute;ter de Clara e<br \/>\n    os seus atos irrefletidos que por vezes a prejudicavam. Al&eacute;m disso,<br \/>\n    certos ind&iacute;cios que n&atilde;o escapam &agrave; perspic&aacute;cia<br \/>\n    de vistas de uma mulher que observa outra, come&ccedil;avam a dar-lhe canseiras.<br \/>\n    E tinha raz&atilde;o para estes receios. Mas algu&eacute;m os concebera j&aacute;.<\/p>\n<p>Um dia, o reitor, voltando para casa, encontrou Daniel, a cavalo, debaixo<br \/>\n    das janelas de Clara, e conversando animadamente com ela. O padre n&atilde;o<br \/>\n    gostou muito disto; e logo lhe veio &agrave; id&eacute;ia a primeira e as<br \/>\n    sucessivas proezas do seu antigo disc&iacute;pulo. Cortejou-os e passou adiante<br \/>\n    sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Encontrando-se, por&eacute;m, a s&oacute;s com Clara, pouco tempo depois,<br \/>\n    foi-lhe dizendo com diplom&aacute;tico ar de naturalidade, estas palavras<br \/>\n    amb&iacute;guas:<\/p>\n<p>&#8212; Escuta, &oacute; Clara: olha que um enxoval &eacute; uma coisa s&eacute;ria.<br \/>\n    Todos os cuidados e aten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o poucos, quando se est&aacute;<br \/>\n    trabalhando nisso; e tu, minha filha, distrais-te algum tanto. Se eu estivesse<br \/>\n    no teu lugar, nem trabalhava &agrave; janela. &Eacute; t&atilde;o f&aacute;cil<br \/>\n    a distra&ccedil;&atilde;o a&iacute;.<\/p>\n<p>Clara respondeu de um modo galhofeiro, como costumava. Era-lhe dif&iacute;cil<br \/>\n    tomar alguma coisa a s&eacute;rio.<\/p>\n<p>O padre procurou depois Margarida, e disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Lembras-te do que te recomendei h&aacute; tempos, Margarida? N&atilde;o<br \/>\n    tires as vistas de Clara. &Eacute; uma espionagem necess&aacute;ria e para<br \/>\n    bem dela; por isso, n&atilde;o deves ter escr&uacute;pulo em faz&ecirc;-la.<\/p>\n<p>&#8212; E por que me repete agora outra vez essa recomenda&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Sr. Reitor?<\/p>\n<p>&#8212; Eu c&aacute; me entendo. Faze o que eu te digo, Margarida.<\/p>\n<p>E ao retirar-se, dizia consigo o bondoso p&aacute;roco:<\/p>\n<p>&#8212; Tamb&eacute;m n&atilde;o sei que demoras s&atilde;o estas com o casamento!<br \/>\n    &Eacute; preciso dar aviamento a isto!<\/p>\n<p>As palavras do reitor aumentaram a preocupa&ccedil;&atilde;o de Margarida,<br \/>\n    parecendo vir justific&aacute;-la. Mas como aconselhar a irm&atilde;, se ela<br \/>\n    lhe furtava todos os ensejos de confid&ecirc;ncias? Margarida fez o que o<br \/>\n    padre lhe ordenara. P&ocirc;s-se a espiar Clara. Foi uma amarga prova para<br \/>\n    aquele car&aacute;ter feminino, e por dois motivos diversos &#8211; repugnava-lhe<br \/>\n    o papel que se viu obrigada a desempenhar, e depois a execu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dele a cada instante estava lhe valendo descobertas, que dolorosamente lhe<br \/>\n    rasgavam o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ela percebeu que em Clara se passava alguma coisa singular.<\/p>\n<p>Ao aparecer Daniel, ou quando ao longe lhe soavam os passos, j&aacute; os<br \/>\n    olhos de Margarida viam espalhar-se, pelas faces da irm&atilde;, uma turba&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pouco discreta; era com vivacidade n&atilde;o disfar&ccedil;ada que se curvava<br \/>\n    para o ver passar e com voz alterada de sobressalto que lhe respondia e conversava<br \/>\n    com ele.<\/p>\n<p>Todas estas observa&ccedil;&otilde;es inquietavam Margarida. Padecia pela<br \/>\n    felicidade de Clara, que via amea&ccedil;ada assim, e por si, cujas antigas<br \/>\n    ilus&otilde;es, cujo sonho oculto, que, apesar de n&atilde;o ter confian&ccedil;a<br \/>\n    na sua realiza&ccedil;&atilde;o, ela acalentava ainda, se iam pouco a pouco<br \/>\n    desvanecendo, &#8211; e em que desprestigiosa realidade.<\/p>\n<h4><a name=\"31\">Cap&iacute;tulo XXXI<\/a><\/h4>\n<p> Uma tarde, estavam as duas irm&atilde;s sentadas a trabalhar, &agrave; janela<br \/>\n    do lado da rua.<\/p>\n<p>A luz do sol apenas dourava j&aacute; os cimos dos montes mais elevados e<br \/>\n    long&iacute;nquos. Aproximavam-se as horas, &agrave;s quais Daniel costumava<br \/>\n    passar ali.<\/p>\n<p>J&aacute; por mais duma vez dirigira Clara a vista pelo caminho que ele ordinariamente<br \/>\n    seguia: era uma vereda &iacute;ngreme e tortuosa que vinha do alto da colina<br \/>\n    &agrave; planura, onde estava situada a casa, e da&iacute; descia ao vale<br \/>\n    &#8211; centro principal do povoado.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, sempre que os olhares de Clara tomavam aquela dire&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    encontravam-se com os da irm&atilde;, e instintivamente se abaixavam logo.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o estava tamb&eacute;m tranq&uuml;ila naquela tarde. Em<br \/>\n    toda a fisionomia dela, em todos os gestos e palavras, denunciava-se, por<br \/>\n    sinais evidentes, um violento desassossego interior.<\/p>\n<p>De quando em quando, voltava-se para Clara, como se resolvida a falar-lhe,<br \/>\n    a comunicar-lhe alguma coisa que a preocupava; mas, num momento, parecia abandon&aacute;-la<br \/>\n    a resolu&ccedil;&atilde;o e permanecia silenciosa.<\/p>\n<p>O estado de esp&iacute;rito de uma e de outra mal lhes permitia sustentar<br \/>\n    a conversa, a qual procedera frouxa e interrompida, a todo instante, por freq&uuml;entes<br \/>\n    pausas.<\/p>\n<p>De uma vez, por&eacute;m, a impaci&ecirc;ncia de Clara, ao observar o caminho,<br \/>\n    por onde era de esperar Daniel, desenhou-se-lhe t&atilde;o expressiva na fisionomia,<br \/>\n    que isto deu &acirc;nimo a Margarida para vencer a hesita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com a qual lutara at&eacute; ali. Fixando a vista na costura em que trabalhava,<br \/>\n    principiou dizendo, em tom de gracejo:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; na verdade uma pena, Clara, que tu, que tens t&atilde;o<br \/>\n    bonitos olhos, teimes em os trazer assim fechados,<\/p>\n<p>&#8212; Fechados? Que queres tu dizer, Guida?<\/p>\n<p>&#8212; Que os fecha para muitas coisas, que &eacute; sempre perigoso n&atilde;o<br \/>\n    ver, filha.<\/p>\n<p>&#8212;N&atilde;o te entendo &#8211; disse Clara, sorrindo.<\/p>\n<p>Margarida prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8212; Mas isso &eacute; g&ecirc;nio teu. Tu andas no mundo, como de noite<br \/>\n    pelos caminhos da aldeia. N&atilde;o te lembras, quando, no outro dia, sa&iacute;mos<br \/>\n    mais tarde de casa do nosso pobre mestre? Fazia muito escuro. Eu, a cada passo,<br \/>\n    estava a parar; parecia-me por toda a parte ver fojos e barrancos, tu rias-te<br \/>\n    de mim e seguia sempre para diante, com uma confian&ccedil;a naquela escurid&atilde;o,<br \/>\n    como se realmente fosse estrada direita.<\/p>\n<p>&#8212; E olha que n&atilde;o cai! &#8211; acudiu intencionalmente Clara, que julgou<br \/>\n    principiar a compreender o sentido das palavras da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; &eacute; certo que n&atilde;o. Parece que h&aacute; uma<br \/>\n    estrela que protege quem assim &eacute; animoso; como se todo esse &acirc;nimo<br \/>\n    n&atilde;o fosse outra coisa sen&atilde;o a m&atilde;o do Anjo da Guarda a<br \/>\n    gui&aacute;-lo, sem se mostrar. Mas olha: lembras-te quando uma vez, voltando<br \/>\n    assim de noite a casa, e sem escolher caminho, vieste dar aos lameiros dos<br \/>\n    Casais? Viste-te obrigada a tornar para tr&aacute;s, e, como se adiantava<br \/>\n    a noite, tiveste de ir ficar a casa da tua madrinha, nos Cabe&ccedil;os. Que<br \/>\n    susto que eu tive, Santo Deus! se eram j&aacute; altas horas, e tu sem chegares?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade. E por sinal que me mandaste procurar.<\/p>\n<p>Mandei. Imagina l&aacute; como eu fiquei, como ficamos n&oacute;s todos quando<br \/>\n    sendo j&aacute; madrugada, nos voltaram a casa com uma das argolas das orelhas,<br \/>\n    que tinham encontrada meio enterrada nos lameiros.<\/p>\n<p>&#8212; Tinha-me caido l&aacute;, tinha.<\/p>\n<p>&#8212; Julgamos-te perdida, morta. Ainda n&atilde;o havia muito que l&aacute;<br \/>\n    morrera afogado aquele pobre cabreiro. H&aacute;s de estar certa? Que noite<br \/>\n    passei, Nossa Senhora! E tu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E eu a dormir muito descansada em casa de minha madrinha. Pudera<br \/>\n    n&atilde;o. Imagina tu que eu tinha andado&#8230; l&eacute;guas, talvez.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a&iacute; est&aacute; como, sabendo-te salva como dessa vez te<br \/>\n    sabias, os outros, por alguns sinais mentirosos, como aquele, te podem julgar&#8230;<br \/>\n    perdida.<\/p>\n<p>E Margarida calou-se, depois de fazer esta observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Clara olhou algum tempo para a irm&atilde;, sem dizer palavra: em seguida<br \/>\n    replicou, parando de trabalhar:<\/p>\n<p>&#8212; Fala-me claro, Guida. Dize o que me tens a dizer. Que precis&atilde;o<br \/>\n    tinhas de vir com isso, para me dares um conselho? Alguma coisa fiz eu, que<br \/>\n    te desagradou. Vamos, dize o que &eacute;. Acaso j&aacute; deixei de escutar-te<br \/>\n    alguma vez como tu mereces?<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o, Clarinha. Eu devia ter mais &acirc;nimo para te<br \/>\n    falar&#8230; para te dizer certas coisas, vendo como tu me atendes sempre&#8230; Mas,<br \/>\n    que queres? Ao mesmo tempo, tenho tanta confian&ccedil;a em ti, que pergunto<br \/>\n    a mim mesma, se valer&aacute; a pena estar a mortificar-te assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o que mal tenho eu feito?<\/p>\n<p>&#8212; Ora! que te responda a tua consci&ecirc;ncia, Clarinha; pergunta-lho.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei&#8230; &#8211; disse Clara, um pouco perturbada.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; de nenhum pecado mortal que ela te acusar&aacute;,<br \/>\n    de nenhum crime muito negro; sossega. Mas de uma culpazita&#8230; de uma fraqueza<br \/>\n    dessa cabe&ccedil;a, um pouco mais leve, do que para uma noiva se queria.<\/p>\n<p>&#8212; Bom. &Eacute; o serm&atilde;o de costume. J&aacute; vejo &#8211; disse<br \/>\n    sorrindo, Clara. &#8211; Sabes ao que acho gra&ccedil;a? &Eacute; a n&atilde;o ser<br \/>\n    o Pedro que o prega. Esse tinha mais desculpa. Mas ent&atilde;o que fiz eu<br \/>\n    de assim de maior?<\/p>\n<p>&#8212; Ora vamos. Para que precisas que eu to diga? Ia afirmar que, agora<br \/>\n    mesmo, o est&aacute;s a dizer baixinho a ti pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Houve um pequeno sil&ecirc;ncio entre as duas.<\/p>\n<p>No fim dele, Clara ergueu a cabe&ccedil;a, dizendo:<\/p>\n<p>&#8212; Sim, parece-me que sei o que &eacute;. O Sr. Reitor j&aacute; no<br \/>\n    outro dia me deu a entender o mesmo. &Eacute; por eu falar com o Sr. Daniel<br \/>\n    quando ele passa por aqui? Santo nome de Maria! Como h&aacute; de ser isto,<br \/>\n    ent&atilde;o? N&atilde;o me dir&aacute;s, Guida? &#8211; continuava Clara jovialmente.<br \/>\n    &#8211; Como hei de eu, depois de casada, deixar de conversar com o irm&atilde;o<br \/>\n    do meu marido? Que id&eacute;ia fazem de mim, tu, o Sr. Reitor e todos os<br \/>\n    que nisso repararam?<\/p>\n<p>&#8212; Bem v&ecirc;s, Clarinha, que n&atilde;o &eacute; de ti que eu receio.<br \/>\n    Conhe&ccedil;o-te. mas tu bem sabes, o Sr. Daniel &eacute;&#8230; dizem dele&#8230;<br \/>\n    passa por&#8230;<\/p>\n<p>E Margarida hesitava, ao procurar exprimir a opini&atilde;o p&uacute;blica<br \/>\n    a respeito de Daniel, porque todas as frases lhe pareciam demasiadamente duras<br \/>\n    e severas para com o car&aacute;ter dele.<\/p>\n<p>&#8212; Nem sei o que me parece ouvir-te dizer isso. Ainda que ele fosse<br \/>\n    o que por a&iacute; dizem, conserve-se uma pessoa no seu lugar, que nada pode<br \/>\n    temer. Querias talvez que eu fizesse como aquela gente , no outro dia, na<br \/>\n    esfolhada, que toda se encolhia quando ele chegou?<\/p>\n<p>&#8212; Na esfolhada? &#8211; disse Margarida, ainda sem olhar para a irm&atilde;.<br \/>\n    &#8211; Ora tu que ainda me n&atilde;o contaste nada do que se passou naquela noite!<\/p>\n<p>Esta alus&atilde;o embara&ccedil;ou manifestamente Clara, que se apressou<br \/>\n    a dizer, como se a n&atilde;o tivesse ouvido.<\/p>\n<p>&#8212; E demais, n&atilde;o tens tu escutado todas ou quase todas as conversas<br \/>\n    do Sr. Daniel comigo? A&iacute; tens estado, por dentro da janela, e sem que<br \/>\n    ele o saiba. De que o ouves falar? Diz-me alguma coisa que eu n&atilde;o deva<br \/>\n    ouvir? Conta-me o que viu na cidade, o que leu, hist&oacute;rias, versos&#8230;<br \/>\n    &#8211; e como conta bem! &#8211; e queres que eu me n&atilde;o entretenha a ouvi-lo,<br \/>\n    quando tu mesma, &agrave;s vezes, sim, que eu bem tenho reparado, deixas de<br \/>\n    trabalhar, e ficas quieta a escut&aacute;-lo tamb&eacute;m! Ent&atilde;o que<br \/>\n    h&aacute; nisto de mal?<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o? J&aacute; se fala&#8230; Que se lhe h&aacute; de fazer?<br \/>\n    O mundo tem maldades, e n&oacute;s vivemos no mundo&#8230; H&aacute; gente de<br \/>\n    t&atilde;o m&aacute;s ten&ccedil;&otilde;es, que, s&oacute; pelo gosto de<br \/>\n    fazer mal, pode ir &agrave;s vezes inquietar o esp&iacute;rito de Pedro, com<br \/>\n    hist&oacute;rias mentirosas, e da&iacute; sabe Deus&#8230;<\/p>\n<p>O ru&iacute;do de uma cavalo a trote, que vinha do lado dos montes, interrompeu<br \/>\n    o di&aacute;logo. Clara dirigiu para l&aacute; os olhos, e viu um cavaleiro<br \/>\n    que se aproximava, saudando-a de longe.<\/p>\n<p>Era Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Olha; falai no ruim&#8230; &#8211; disse ela para Margarida, que instintivamente<br \/>\n    retirou a cadeira da janela.<\/p>\n<p>&#8212; Vais ver &#8211; prosseguiu Clara &#8211; como eu sou amiga de fazer vontades.<br \/>\n    Vou acabar com isto, j&aacute; que assim o querem&#8230; isto &eacute;, j&aacute;<br \/>\n    que assim o queres; pois dos outros bem me importava a mim.<\/p>\n<p>&#8212; O melhor &eacute;&#8230; &#8211; ia dizer Margarida, quando a voz de Daniel,<br \/>\n    falando da rua para a janela, a obrigou a calar.<\/p>\n<p>&#8212; Muito boas-tardes Clarinha &#8211; dizia ele. &#8211; Receava n&atilde;o a ver<br \/>\n    j&aacute; hoje; por isso obriguei este pobre animal a um trote por estes caminhos<br \/>\n    de cabras abaixo, que muito pouco lhe agradou.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o tinha o que me dizer?<\/p>\n<p>&#8212; Nada. Era para n&atilde;o perder o meu dia. Quando vi fechadas as<br \/>\n    folhas da mimosa da Quinta da Feira, temi vir encontrar j&aacute; fechada<br \/>\n    tamb&eacute;m a sua janela, Clarinha.<\/p>\n<p>&#8212; Era pena! &#8211; disse Clara, sorrindo; e depois, debru&ccedil;ando-se<br \/>\n    ao peitoril, acrescentou, lan&ccedil;ando com disfarce, um olhar para a irm&atilde;:<br \/>\n    &#8211; Tenho a pedir-lhe um favor, Sr. Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Que felicidade para mim! Diga.<\/p>\n<p>&#8212; Quando de hoje em diante, voltar para casa, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    de vir por este s&iacute;tio.<\/p>\n<p>&#8212; Clara! &#8211; disse Margarida em voz baixa, puxando pelo vestido da irm&atilde;.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o a atendeu.<\/p>\n<p>&#8212; Por que me faz este pedido? &#8211; perguntou Daniel, admirado.<\/p>\n<p>&#8212; Porque, segundo me dizem, deram-lhe para reparar por a&iacute; nestes<br \/>\n    seus passeios, e ent&atilde;o, para n&atilde;o inquietar o mundo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Clarinha, que est&aacute;s a dizer! &#8211; murmurava Margarida, escondendo-se<br \/>\n    por detr&aacute;s da irm&atilde;.<\/p>\n<p>Clara fingia n&atilde;o ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Tenho-a ofendido por acaso alguma vez? &#8211; perguntou Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Em coisa nenhuma. Bem v&ecirc; que eu digo que &eacute; pelo mundo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o deixe falar o mundo.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; tanto assim. Talvez o fizesse se n&atilde;o fosse<br \/>\n    noiva. Parece-me at&eacute; que o fazia, mas assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Esta vida de aldeia! &#8230; exclamou Daniel, num tom de supremo enfado.<br \/>\n    &#8211; esta vida de mexericos e de maledic&ecirc;ncias velhacas! Praga maldita<br \/>\n    das terras pequenas, onde faltam coisas s&eacute;rias em que pensar! Ora vejam<br \/>\n    no que esta gente se ocupa? Em saber o que eu fa&ccedil;o, como vivo, para<br \/>\n    onde vou, com quem converso; e isto entret&ecirc;m-na! Ent&atilde;o repararam<br \/>\n    j&aacute; em eu passar por aqui? Como se n&atilde;o fosse coisa muito natural<br \/>\n    conversar consigo, Clarinha. Pois n&atilde;o somos n&oacute;s parentes quase?<\/p>\n<p>&#8212; Isso dizia eu &agrave;&#8230;<\/p>\n<p>Um sinal de Margarida obrigou-a a interromper-se. Limitou-se a dizer, mutilando<br \/>\n    a frase e mudando a inflex&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Isso dizia eu.<\/p>\n<p>&#8212; Afinal, n&atilde;o h&aacute; como viver na cidade &#8211; continuou Daniel<br \/>\n    &#8211; L&aacute; pode um homem conversar com uma senhora, apertar-lhe a m&atilde;o<br \/>\n    at&eacute;, que ningu&eacute;m repara nisso. Aqui andam a espiar tudo o que<br \/>\n    se faz e a tomar tudo a mal. Que costumes estes!<\/p>\n<p>E Daniel prosseguiu numa longa impreca&ccedil;&atilde;o contra a vida campestre,<br \/>\n    exaltando a urbana, o que demorou, ainda por muito tempo a conversa.<\/p>\n<p>No fim dela, renovou Clara o pedido, e conseguiu que Daniel, depois de alguma<br \/>\n    resist&ecirc;ncia, lhe dissesse a sorrir:<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem; esteja certa que eu farei com que n&atilde;o falem de mim.<br \/>\n    N&atilde;o me h&atilde;o de ver mais aqui.<\/p>\n<p>E partiu.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s satisfeita? &#8211; perguntou Clara, voltando-se para a irm&atilde;,<br \/>\n    logo que o perdeu de vista.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8211; respondeu esta.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Queria que fosses tu a que deixasses de aparecer, e n&atilde;o lhe<br \/>\n    falasses assim.<\/p>\n<p>&#8212; Por outra &#8211; tornou Clara &#8211; levemente despeitada &#8211; querias que eu<br \/>\n    fosse grosseira.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8211; respondeu Margarida, abra&ccedil;ando-a &#8211; queria que<br \/>\n    fosses prudente. <\/p>\n<h4><a name=\"32\">Cap&iacute;tulo XXXII<\/a><\/h4>\n<p> Daniel cumpriu a promessa que fizera.<\/p>\n<p>No dia seguinte, &agrave; hora costumada, n&atilde;o passou por casa das<br \/>\n    duas raparigas.<\/p>\n<p>Era para admirara nele esta pronta condescend&ecirc;ncia &agrave;s opini&otilde;es<br \/>\n    do p&uacute;blico.<\/p>\n<p>A pr&oacute;pria Clara n&atilde;o tinha esperado encontr&aacute;-lo t&atilde;o<br \/>\n    d&oacute;cil; n&atilde;o ousamos dizer que tamb&eacute;m o n&atilde;o tinha<br \/>\n    desejado, ainda que dos freq&uuml;entes olhares que dirigia para o s&iacute;tio,<br \/>\n    donde todos os dias costumava v&ecirc;-lo aparecer, algu&eacute;m tiraria<br \/>\n    talvez esta ila&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Cerrava-se a noite. Havia muito tempo que o toque das ave-marias tinha ido<br \/>\n    perder-se nas mais distantes serras, que limitavam o horizonte. O fumo das<br \/>\n    cho&ccedil;as e das herdades difundira-se sobre a aldeia. O zumbido dos ralos,<br \/>\n    essa inc&ocirc;moda sinfonia, com que rompem no estio as harmonias do crep&uacute;sculo,<br \/>\n    era atordoador.<\/p>\n<p>Principiavam a cintilar as estrelas no c&eacute;u, apenas muito para o ocidente,<br \/>\n    uma estreita faixa restava ainda do dia que fenecera.<\/p>\n<p>Clara saiu de casa, em dire&ccedil;&atilde;o a uma pequena fonte que havia<br \/>\n    nas proximidades dela, e ao final da estreita rua, que acompanhava o muro<br \/>\n    dom quintal.<\/p>\n<p>De dia, era esta fonte muito procurada, em virtude da excel&ecirc;ncia das<br \/>\n    &aacute;guas, gabadas de tempos imemoriais, pelos cl&iacute;nicos da localidade,<br \/>\n    quase como milagrosas em infinitos casos de doen&ccedil;as. N&atilde;o obstante<br \/>\n    a absoluta car&ecirc;ncia de princ&iacute;pios medicinais n&atilde;o justificar<br \/>\n    a nomeada.<\/p>\n<p>Depois das trindades, por&eacute;m, o solit&aacute;rio e sombrio do lugar<br \/>\n    afugentava a gente supersticiosa do campo.<\/p>\n<p>Clara, criada de pequena por aqueles s&iacute;tios, e desde ent&atilde;o<br \/>\n    costumada a n&atilde;o os temes, de prop&oacute;sito escolhia estas horas<br \/>\n    para mais &agrave; vontade fazer sua provis&atilde;o de &aacute;gua, e demorava-se<br \/>\n    ali sem a menor sombra de terror, antes cantando sempre, com &acirc;nimo desafogado.<\/p>\n<p>Como o leitor decerto prev&ecirc;, n&atilde;o era nenhum monumento arquitet&ocirc;nico<br \/>\n    a fonte de que falamos.<\/p>\n<p>Imagine-se uma boca de mina, aberta na base de um pequeno outeiro, que, todo<br \/>\n    assombrado de pinheirais, se alongava a dist&acirc;ncia, na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do norte da aldeia; uma telha, meia quebrada, servindo de bica; e a receber<br \/>\n    o abundante e inesgot&aacute;vel jorro de &aacute;gua l&iacute;mpida, uma<br \/>\n    bacia natural por ele mesmo cavada, e onde, &agrave; vontade, vegetavam os<br \/>\n    agri&otilde;es &aacute;vidos de umidade.<\/p>\n<p>Do pinhal sobranceiro descia-se &agrave; fonte por alguns degraus grosseiramente<br \/>\n    abertos, havia muito tempo, no terreno saibroso do outeiro, e aperfei&ccedil;oados<br \/>\n    pelo trilho cotidiano dos que se serviam dos atalhos do monte com o fim de<br \/>\n    encurtar dist&acirc;ncias dali a diversos pontos da aldeia.<\/p>\n<p>Ao lado, e separado alguns passos da fonte, abria-se um desses enormes barrancos<br \/>\n    rasgados pelas torrentes de sucessivas invernos e cuja entrada quase disfar&ccedil;avam<br \/>\n    os troncos robustos dos fetos e das giestas que, crescendo livremente, haviam<br \/>\n    atingido propor&ccedil;&otilde;es quase tropicais.<\/p>\n<p>Quando Clara chegou &agrave; fonte, n&atilde;o havia l&aacute; ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>A cantar, aproximou-se dela, e ajoelhando, principiou a encher o c&acirc;ntaro<br \/>\n    de barro que trazia.<\/p>\n<p>A &aacute;gua caiu ao princ&iacute;pio ressoante no interior do vaso; depois<br \/>\n    amorteceu gradualmente o som, &agrave; medida que subia o n&iacute;vel do<br \/>\n    l&iacute;quido; este dentro em pouco transbordava.<\/p>\n<p>Clara ia levantar-se. Na posi&ccedil;&atilde;o em que estava, tinha voltadas<br \/>\n    as costas para a entrada do barranco. Neste momento pareceu-lhe ouvir algum<br \/>\n    rumor daquele lado.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi superior a um vago sentimento de susto. Voltou-se inquieta.<br \/>\n    Deu com os olhos numa forma escura, e em breve reconheceu mais claramente<br \/>\n    ser um vulto de homem, que se aproximava dela.<\/p>\n<p>Soltando um grito, Clara ergueu-se de s&uacute;bito para fugir.<\/p>\n<p>Segurou-a a tempo um bra&ccedil;o e falou-lhe uma voz conhecida:<\/p>\n<p>&#8212; Que vai fazer? N&atilde;o se assuste. Sou eu.<\/p>\n<p>Era a Voz de Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Santo nome de Jesus! &#8211; exclamou Clara ao reconhec&ecirc;-lo e ainda<br \/>\n    tomada de susto. &#8211; O que faz por aqui?<\/p>\n<p>&#8212; Vim v&ecirc;-la &#8211; respondeu Daniel, com a maior naturalidade.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o &eacute; assim que cumpre o que ontem me prometeu?<\/p>\n<p>&#8212; Pois que prometi eu, sen&atilde;o fazer com que me n&atilde;o vissem?<br \/>\n    &Eacute; o que fa&ccedil;o, vindo agora s&oacute; e aqui.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; pior, muito pior isto &#8211; disse Clara, lan&ccedil;ando-se<br \/>\n    em volta de si olhares de inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; &#8211; continuou Daniel. &#8211; Pois n&atilde;o me disse<br \/>\n    que n&atilde;o desconfiava de mim? N&atilde;o foi s&oacute; por condescender<br \/>\n    com os reparos tolos de meia d&uacute;zia de curiosos e de velhacos que me<br \/>\n    pediu&#8230; que exigiu de mim que n&atilde;o viesse? Falando-me assim, neste<br \/>\n    s&iacute;tio e a esta hora, n&atilde;o pode recear algu&eacute;m. Lembra-se<br \/>\n    de me haver dito que o povo tinha medo de passar de noite por aqui?<\/p>\n<p>&#8212; Mas, apesar disso. Jesus, meu Deus! &#8211; continuava Clara sobressaltada.<br \/>\n    &#8211; E para que havia de procurar falar-me? que tem que me dizer?<\/p>\n<p>Daniel sorriu.<\/p>\n<p>&#8212; Que pergunta a sua Clara! Imagina l&aacute; a minha vida na aldeia?<br \/>\n    devoram-me desejos de conversar. Mas n&atilde;o tenho com quem. Privando-me<br \/>\n    de a ver, Clarinha, afastava-me da &uacute;nica pessoa, das que at&eacute;<br \/>\n    agora tenho encontrado, com quem se pode sustentar uma conversa seguida e<br \/>\n    agrad&aacute;vel. Veja se n&atilde;o seria crueldade proibir-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga isso &#8211; respondeu Clara &#8211; Eu entendo-o &agrave;s vezes,<br \/>\n    sim; mas &eacute; quando todos o entendem tamb&eacute;m; quando a sua conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais me entret&eacute;m, tenho notado que muitos o escutam como eu, com aten&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mas doutras vezes&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto Clara reteve-se, como se receasse terminar.<\/p>\n<p>&#8212; Doutras vezes? &#8230; repetiu Daniel sorrindo.<\/p>\n<p>&#8212; Doutras vezes n&atilde;o o entendo, e &eacute; sobretudo quando fala<br \/>\n    s&oacute; para mim.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me entendes? &#8211; perguntou Daniel, com uma inflex&atilde;o<br \/>\n    de voz, que fez estremecer Clara.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o o entendo porque n&atilde;o posso&#8230; porque<br \/>\n    n&atilde;o quero&#8230; porque n&atilde;o devo acreditar na verdade do que me<br \/>\n    parece entender.<\/p>\n<p>&#8212; E quando lhe falei assim, diz-me?<\/p>\n<p>&#8212; Um dia, come&ccedil;ava a falar-me desse modo em casa daquele doente<br \/>\n    que foi ver. Doutra vez&#8230; Oh! e dessa!&#8230; foi aquela noite da esfolhada,<br \/>\n    em casa de seu pai.<\/p>\n<p>&#8212; E n&atilde;o me entendeu nessa noite?<\/p>\n<p>&#8212; E queria que o entendesse?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o deve ser o desejo de quem fala? &#8211; perguntou Daniel<br \/>\n    dum modo jovial.<\/p>\n<p>&#8212; Eu ou&ccedil;o dizer que h&aacute; muitas pessoas que falam a dormir,<br \/>\n    quanto dariam esses por n&atilde;o serem entendidos, ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Mas eu nunca fui son&acirc;mbulo, Clarinha.<\/p>\n<p>&#8212; Tanto pior para si.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Porque ent&atilde;o &eacute; mau.<\/p>\n<p>&#8212; Mau!<\/p>\n<p>&#8212; Mau, sim. Eu n&atilde;o sei de maior maldade do que a daqueles que<br \/>\n    andam por a&iacute; a inquietar o sossego das fam&iacute;lias, a alegria dos<br \/>\n    cora&ccedil;&otilde;es, e s&oacute; por gosto e fazer infelizes.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Basta, Sr. Daniel. Se &eacute; homem de bem, retire-se ou deixe-me<br \/>\n    retirar &#8211; disse Clara, com arde seriedade e nobreza que o impressionou.<\/p>\n<p>Dando tamb&eacute;m &agrave;s suas palavras mais grave tom, Daniel respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Escute, Clara. Acredite que n&atilde;o fala com um homem de sentimentos<br \/>\n    perdidos; escute-me e tranq&uuml;ilize-se. Eu conhe&ccedil;o em mim um princ&iacute;pio<br \/>\n    mau, &eacute; verdade; mas creia que n&atilde;o lhe ando t&atilde;o sujeito<br \/>\n    que nem compreenda j&aacute; a for&ccedil;a dos meus deveres. Conceda-me ainda<br \/>\n    um pouco de consci&ecirc;ncia. As vezes, muitas vezes at&eacute;, deixo-me<br \/>\n    arrastar por esta for&ccedil;a, que me leva a loucuras, que chega talvez a<br \/>\n    aproximar-se de uma vileza&#8230; mas, ao chegar ai, at&eacute; hoje tenho resistido<br \/>\n    e espero&#8230; Perdoem-me isto, por quem s&atilde;o. Cedo me ver&atilde;o arrependido.<\/p>\n<p>&#8212; Cedo! e quando &eacute; cedo ou tarde? sabe-o l&aacute;? Quem lhe<br \/>\n    h&aacute; de dizer que &eacute; cedo? Cedo para si poder&aacute; ser; e para<br \/>\n    outros tamb&eacute;m? H&aacute; poucos dias, que todos por a&iacute; s&oacute;<br \/>\n    falavam de uma pobre rapariga, a quem , por divertimento o Sr. Daniel trazia<br \/>\n    quase doida. Est&aacute; arrependido, n&atilde;o &eacute; verdade? Mas arrependeu-se<br \/>\n    cedo para ela? Amanh&atilde; poderiam dizer de mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que h&atilde;o de dizer, Clarinha? Essa rapariga de que fala, n&atilde;o<br \/>\n    fui eu que a fiz doida; engana-se; encontrei-a j&aacute; assim. Eu n&atilde;o<br \/>\n    trabalhei para a perder; tamb&eacute;m se engana; os seus &eacute; que se<br \/>\n    esfor&ccedil;aram por a darem por perdida. A Clarinha esquece que a si todos<br \/>\n    respeitam e que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; verdade. Em que sou eu mais que as outras? Ningu&eacute;m<br \/>\n    est&aacute; acima das vozes do mundo. E se at&eacute; agora tinha raz&atilde;o<br \/>\n    para n&atilde;o me importar com elas, por me n&atilde;o julgar culpada, teria<br \/>\n    de as temer, se continuasse a ouvi-lo aqui. Adeus.<\/p>\n<p>&#8212; Vejo que me enganava ainda ontem, dizendo-me que tinha confian&ccedil;a<br \/>\n    em mim. Esses receios&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Enganaria; mas enganava-me a mim mesma, tamb&eacute;m. Eu n&atilde;o<br \/>\n    sei mentir. E a prova &eacute; que sinceramente lhe digo agora que desconfio.<\/p>\n<p>&#8212; De mim?<\/p>\n<p>&#8212; De si, sim, por que n&atilde;o? As suas a&ccedil;&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o leais. V&ecirc; que, vindo procurar-me aqui, me pode perder, e<br \/>\n    n&atilde;o se importa faz&ecirc;-lo; pe&ccedil;o-lhe que se retire, e teima<br \/>\n    em ficar; pe&ccedil;o-lhe que me deixe retirar, e impede-mo. Brinca assim<br \/>\n    com minha reputa&ccedil;&atilde;o sem se lembrar que sou quase j&aacute; a<br \/>\n    mulher de seu irm&atilde;o, quase a filha de seu pai, quase sua irm&atilde;<br \/>\n    tamb&eacute;m. Diz que sabe quais s&atilde;o seus deveres&#8230; e como &eacute;<br \/>\n    que os cumpre ent&atilde;o? Se Pedro passasse por si, neste momento, e lhe<br \/>\n    abrisse os bra&ccedil;os, como a irm&atilde;o que &eacute;, teria valor para<br \/>\n    o abra&ccedil;ar, diga? N&atilde;o fugiria antes dele como um criminoso? Fale.<\/p>\n<p>Daniel curvava a cabe&ccedil;a, sem coragem para responder.<\/p>\n<p>Clara prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8212; Pe&ccedil;o-lhe pela alma de sua m&atilde;e, que nunca mais me procure<br \/>\n    aqui, que nunca mais me procure em parte nenhuma. Ontem ainda me ri eu dos<br \/>\n    avisos que recebia para me acautelar; hoje, j&aacute; n&atilde;o sinto vontade<br \/>\n    de me rir. Tinham raz&atilde;o eles, tinham; agora o vejo; e este meu g&ecirc;nio<br \/>\n    &eacute; que me podia perder. Se por mim n&atilde;o &eacute; bastante pedir-lhe,<br \/>\n    pe&ccedil;o-lhe por seu irm&atilde;o, por sue pai, e por si mesmo, que assim<br \/>\n    anda a perder o cr&eacute;dito de um nome, que nenhum dos seus nunca deixou<br \/>\n    de honrar.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; sendo muito cruel para mim, Clarinha. Concordo que fui<br \/>\n    imprudente, inconsiderado, mas&#8230; Confesso-lhe que a impress&atilde;o que<br \/>\n    me causou e que me causa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Daniel, eu n&atilde;o quero saber os seus segredos. Deixe-me<br \/>\n    retirar.<\/p>\n<p>&#8212;Pois bem, ser&aacute; esta a &uacute;ltima vez que a procuro, que<br \/>\n    lhe falo at&eacute;, que a vejo, se tanto exigir de mim; mas ao menos desta<br \/>\n    vez h&aacute; de escutar-me.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, para que preciso eu escut&aacute;-lo? &#8211; dizia Clara pelo tom<br \/>\n    de exalta&ccedil;&atilde;o que ele falava.<\/p>\n<p>Daniel continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Todos s&oacute; t&ecirc;m palavra para me censurar, e ningu&eacute;m<br \/>\n    h&aacute; de ver um dia claro no meu cora&ccedil;&atilde;o? Ningu&eacute;m,<br \/>\n    melhor do que eu, conhece a fraqueza ing&ecirc;nita deste car&aacute;ter,<br \/>\n    que n&atilde;o sabe lutar; mas o que eu n&atilde;o sei, o que eu pe&ccedil;o<br \/>\n    que me digam &eacute; o rem&eacute;dio para este mal. Clara, n&atilde;o procure<br \/>\n    fugir sem ouvir-me. Retirar-se-ia supondo pior do que sou, como todos que<br \/>\n    me conhecem. Eu quero que ao menos uma pessoa saiba a verdade a meu respeito.<br \/>\n    Escute.<\/p>\n<p>E, ao dizer isto, segurava o bra&ccedil;o de Clara, que temia de inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Neste momento, os passos de uma cavalgadura a trote rasgado soaram pr&oacute;ximos,<br \/>\n    no caminho que vinha terminar defronte do lugar onde esta cena se passava.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o pode reprimir um grito de susto.<\/p>\n<p>&#8212; Jesus, que estou perdida! &#8211; exclamou ela; e soltando o bra&ccedil;o<br \/>\n    que Daniel lhe segurava ainda, fugiu na dire&ccedil;&atilde;o de casa.<\/p>\n<p>Antes, por&eacute;m, de transpor a esquina que a devia ocultar &agrave;s<br \/>\n    vistas de quem quer que era que se aproximava , e de conseguir fugir pela<br \/>\n    porta do quintal, o cavaleiro, tendo-a avistado e conhecido bradava rijo:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Clara, Clarita! Rapariga! &Oacute; pequena! Pichiu! Eh!<br \/>\n    Onde vais com essas pressas? N&atilde;o s&atilde;o os franceses, sossega.<\/p>\n<p>O homem que bradava assim, era Jo&atilde;o Semana, que voltava de uma visita<br \/>\n    distante. Vendo a Clara a fugir t&atilde;o apressada, conjeturou que ela se<br \/>\n    assustara, supondo-o algum facinoroso ou mal intencionado, e por isso berrava<br \/>\n    para lhe fazer perder o medo.<\/p>\n<p>Mas ao aproximar-se da fonte, o velho cirurgi&atilde;o descobriu alguma coisa,<br \/>\n    que lhe pareceu procurava ocultar-se dele.<\/p>\n<p>&#8212; Hum! &#8211; murmurou consigo o velho. &#8211; Pelos modos, o susto da rapariga<br \/>\n    era de outra esp&eacute;cie&#8230; H&aacute; de ser o Pedro.<\/p>\n<p>E acrescentou em voz alta:<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute;, n&atilde;o fujas, rapaz; n&atilde;o &eacute; crime nenhum<br \/>\n    vir falar assim com uma noiva; ainda que, para dizer a verdade, escusava de<br \/>\n    ser tanto &agrave;s escondidas, escusava.<\/p>\n<p>E com isto foi dirigindo o cavalo para aquele vulto, que parara, desde que<br \/>\n    viu que n&atilde;o podia fugir sem ser percebido. &Agrave; medida que se aproximava,<br \/>\n    Jo&atilde;o Semana principiou a duvidar que fosse Pedro, o homem da entrevista<br \/>\n    noturna.<\/p>\n<p>Parecia-lhe menos corpulento do que o primog&ecirc;nito de Jos&eacute; das<br \/>\n    Dornas.<\/p>\n<p>A esta suspeita, sulcou uma ruga profunda o longo da fronte do honesto celibat&aacute;rio,<br \/>\n    que decidiu consigo averiguar aquele mist&eacute;rio. <\/p>\n<h4><a name=\"33\">Cap&iacute;tulo XXXIII<\/a><\/h4>\n<p> Tendo formado esta resolu&ccedil;&atilde;o, Jo&atilde;o Semana picou a espora<br \/>\n    de sua &eacute;gua, a qual, estranhando a ins&oacute;lita amabilidade, de<br \/>\n    um salto o apresentou junto de Daniel que era, como o leitor sabe j&aacute;,<br \/>\n    o vulto em quest&atilde;o.<\/p>\n<p>Daniel, vendo-se descoberto, julgou que o melhor partido era entrar em jogo<br \/>\n    rasgado.<\/p>\n<p>&#8212; Boas-noites, colega &#8211; disse ele em tom prazenteiro, e caminhando<br \/>\n    para Jo&atilde;o Semana.<\/p>\n<p>Este deu um estreme&ccedil;&atilde;o na sela ao reconhecer o seu jovem confrade.<br \/>\n    O n&atilde;o muito favor&aacute;vel conceito que ultimamente formava dele,<br \/>\n    em rela&ccedil;&atilde;o a certas qualidades morais, f&ecirc;-lo agourar mal<br \/>\n    de sua presen&ccedil;a naquele lugar.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ah! Voc&ecirc; por aqui! Anda a fazer versos?<\/p>\n<p>&#8212; Ou a inspirar-me para isso.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &eacute; mau o s&iacute;tio, n&atilde;o. E ao mesmo tempo<br \/>\n    pode dar-se a estudos de qu&iacute;mica tamb&eacute;m; a &aacute;gua desta<br \/>\n    fonte&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; me disseram que &eacute; medicinal.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; excelente.<\/p>\n<p>&#8212; Para que mol&eacute;stias?<\/p>\n<p>&#8212; Para muitas. Agora o que n&atilde;o sei &eacute; se para certos esvaimentos<br \/>\n    de cabe&ccedil;a tamb&eacute;m servir&aacute;. Bom era que sim, que anda por<br \/>\n    a&iacute; muito disso.<\/p>\n<p>Daniel fingiu n&atilde;o entender a alus&atilde;o, e observou com modo natural.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; aqui muito agrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, o s&iacute;tio &eacute; bom, l&aacute; isso &eacute;. E para<br \/>\n    a ca&ccedil;a?! N&atilde;o gosta de ca&ccedil;ar?<\/p>\n<p>&#8212; Alguma coisa.<\/p>\n<p>&#8212; Pois por estes montes h&aacute; ca&ccedil;a famosa. Ainda agora,<br \/>\n    quando eu vinha, fugiu daqui uma&#8230;lebre, e com uma pressa admir&aacute;vel.<br \/>\n    N&atilde;o a viu?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o vi.<\/p>\n<p>&#8212; O que &eacute; ser poeta! N&atilde;o se v&ecirc; coisa nenhuma. Com<br \/>\n    os meus oitenta anos vejo eu melhor. Pois &eacute; verdade; atravessou neste<br \/>\n    mesmo instante por esta rua&#8230; ia a jurar at&eacute; que se escondeu ali no<br \/>\n    quintal; pareceu-me v&ecirc;-la escapar atrav&eacute;s daquela porta.<\/p>\n<p>&#8212; Tens boa vista, Jo&atilde;o; mas n&atilde;o t&atilde;o boa, que te<br \/>\n    n&atilde;o passe por alto um amigo velho.<\/p>\n<p>A voz, que dissera estas palavras, parecia vir do ar.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana levantou a cabe&ccedil;a e deu com os olhos do reitor<br \/>\n    muito pachorrentamente estabelecido sobre o tronco de um pinheiro derrubado<br \/>\n    no topo das escadas que desciam do outeiro.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Semana ficou espantado com a tal descoberta, e s&oacute; isso<br \/>\n    o impedia de notar que Daniel o n&atilde;o ficara menos. Quando, por&eacute;m,<br \/>\n    desviou para este os olhos, encontrou-o j&aacute; sem sinal de perturba&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e at&eacute; anediando os cabelos com toda a naturalidade.<\/p>\n<p>As suspeitas, vagamente concebidas pelo cirurgi&atilde;o, desfizeram-se.<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo fazeis v&oacute;s ambos aqui? e tu ent&atilde;o de poleiro,<br \/>\n    abade?!<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; que isso a&iacute; embaixo &eacute; &uacute;mido como um<br \/>\n    charco, e eu n&atilde;o quero dar-te o que fazer com o meu reumatismo, Jo&atilde;o.<br \/>\n    Mas eu des&ccedil;o, eu des&ccedil;o.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o, deixa-te l&aacute; estar. L&aacute; por isso..<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o que v&atilde;o sendo horas tamb&eacute;m de me chegar<br \/>\n    at&eacute; casa. Pois &eacute; verdade &#8211; continuava o p&aacute;roco, apoiando-se<br \/>\n    na bengala, e descendo, com vagar, e cautelosamente, aos poucos suaves degraus,<br \/>\n    cavados no saibro do monte &#8211; pois &eacute; verdade; est&aacute;vamos n&oacute;s<br \/>\n    aqui, eu com o Daniel e a Clarita, a conversar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! bem me pareceu que era ela&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Era ela, sim. Ent&atilde;o que d&uacute;vida? Olha que sempre fizeste<br \/>\n    uma descoberta!<\/p>\n<p>&#8212; Mas para que diabo fugia a rapariga, ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Diz antes por que diabo n&atilde;o fugimos n&oacute;s. Mas o meu<br \/>\n    reumatismo &eacute; que me n&atilde;o deixou. Quando me h&aacute;s de tu dar<br \/>\n    um rem&eacute;dio para isto, homem?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; pregar com os ossos nas Caldas, querendo. Mas, dizias tu<br \/>\n    fugir? Para que haviam de fugir de mim?<\/p>\n<p>&#8212; De todos. Quando se conspira&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o voc&ecirc;s?<\/p>\n<p>&#8212; Conspir&aacute;vamos, sim, senhor. Aqui mesmo onde nos v&ecirc;,<br \/>\n    est&aacute;vamos a combinar uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que diabo era o que combinavam?<\/p>\n<p>&#8212; Combin&aacute;vamos&#8230;<\/p>\n<p>O reitor achava-se um pouco embara&ccedil;ado por nada lhe ocorrer a prop&oacute;sito;<br \/>\n    por isso exclamou para contemporizar:<\/p>\n<p>&#8212; Que maldito costume tu tens, Jo&atilde;o, de estar sempre com o nome<br \/>\n    do inimigo na boca! Perde-me esse jeito.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim, sim; hei de fazer por isso, apesar de que j&aacute; vou<br \/>\n    um pouco tarde. Eu digo agora como aquele franciscano a quem repreendiam por,<br \/>\n    j&aacute; na idade avan&ccedil;ada, cair anda na fraqueza, em que No&eacute;<br \/>\n    caiu: &quot;J&aacute; agora hei de morrer com isto, dizia ele; porque de duas<br \/>\n    uma: ou j&aacute; estou condenado, e ent&atilde;o n&atilde;o sei que lhe fa&ccedil;a;<br \/>\n    n&atilde;o vale a pena a emenda; ou n&atilde;o estou, e quem pode perdoar<br \/>\n    uma bebedeira de quarenta anos, n&atilde;o deve por d&uacute;vida em perdoar<br \/>\n    a de meia d&uacute;zia mais&quot;. &#8211; Mas ent&atilde;o o que combinavam voc&ecirc;s?<\/p>\n<p>A renova&ccedil;&atilde;o da pergunta, depois da refer&ecirc;ncia do caso,<br \/>\n    fez perder ao reitor as esperan&ccedil;as de eximir-se a responder. Quando<br \/>\n    Jo&atilde;o Semana conservava uma id&eacute;ia fixa, trav&eacute;s da narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de qualquer anedota de frades, era para dificilmente a deixar.<\/p>\n<p>Conhecendo isto por experi&ecirc;ncia, o reitor resignou-se; e, ainda sem<br \/>\n    saber o que dizia, principiou a responder:<\/p>\n<p>&#8212; Combin&aacute;vamos&#8230;<\/p>\n<p>E fingindo arrepender-se, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Mas &eacute; boa essa! N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o perguntar.<br \/>\n    Tu n&atilde;o deves entrar no segredo. A coisa &eacute; entre n&oacute;s tr&ecirc;s.<\/p>\n<p>&#8212; Homem, diz l&aacute; o que &eacute;. Que diabo&#8230;<\/p>\n<p>Um gesto dom p&aacute;roco obrigou Jo&atilde;o Semana a corrigir-se.<\/p>\n<p>&#8212; Que S. Pedro de escr&uacute;pulos s&atilde;o esses agora?<\/p>\n<p>A substitui&ccedil;&atilde;o do nome do esp&iacute;rito maligno pelo do ap&oacute;stolo<br \/>\n    n&atilde;o lhe valeu a resposta que pedia, e que o reitor de boa vontade lhe<br \/>\n    dera, se a tivesse para dar.<\/p>\n<p>&#8212; E a teimar &#8211; dizia o padre ganhando tempo. &#8211; Sempre &eacute;s um<br \/>\n    curioso.<\/p>\n<p>Daniel interveio enfim<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Sr. Jo&atilde;o Semana, basta que saiba, e depois n&atilde;o<br \/>\n    pergunte mais nada, que est&aacute;vamos preparando uma surpresa a meu irm&atilde;o<br \/>\n    Pedro, para o dia do casamento dele.<\/p>\n<p>O reitor franziu as sobrancelhas, ao ouvir Daniel. Apesar do aux&iacute;lio<br \/>\n    que ele viera lhe dar, desgostou-o a presen&ccedil;a de esp&iacute;rito que<br \/>\n    mostrava, quando devia estar enleado de confus&atilde;o e de vergonha; foi<br \/>\n    por isso que acrescentou com num evidente tom de severidade e irrita&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Casamento que, se Deus quiser, hei de brevemente aben&ccedil;oar.<br \/>\n    Est&aacute;s agora satisfeito, Jo&atilde;o semana? Pois &eacute; verdade.<br \/>\n    Daniel meditava grandes novidades para o dia do casamento do irm&atilde;o,<br \/>\n    grandes festas por causa dele e da noiva, et cetera, et cetera. Mas o seu<br \/>\n    projeto n&atilde;o mereceu, nem merece a minha aprova&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Daniel baixou os olhos ao ouvir estas palavras do padre.<\/p>\n<p>Este prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8212; Clara pensa como eu, mas este homem &eacute; obstinado, e atrav&eacute;s<br \/>\n    de tudo, teima em seguir sua vontade; mas eu protesto que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vejo que n&atilde;o me entendeu, Sr. Reitor &#8211; disse Daniel com vivacidade.<\/p>\n<p>&#8212; Entendi, entendi, homem. E julgo que n&atilde;o acho a prop&oacute;sito<br \/>\n    entrar agora em maiores explica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Daniel guardou sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o podiam tratar disso em casa? teimou Jo&atilde;o Semana,<br \/>\n    que n&atilde;o largava assim facilmente uma id&eacute;ia, de que se tivesse<br \/>\n    apossado.<\/p>\n<p>&#8212; E a dar-lhe! N&atilde;o h&aacute; que se lhe fa&ccedil;a &#8211; dizia<br \/>\n    o reitor. &#8211; Homem, n&oacute;s n&atilde;o quer&iacute;amos que a Margarida<br \/>\n    soubesse nada disto, porque&#8230; porque&#8230; Mas tu vais a cavalo, e n&oacute;s<br \/>\n    a p&eacute;. Segue o teu caminho, e apressa-te, que a Joana j&aacute; h&aacute;<br \/>\n    de estar com cuidado pela tua demora.<\/p>\n<p>&#8212; E eu com vontade &agrave; ceia.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, por que esperas? Vai com Deus, homem.<\/p>\n<p>&#8212; At&eacute; amanh&atilde;, abade. Adeus, Daniel. Olhe l&aacute; como<br \/>\n    se porta, rapaz. Juizinho!&#8230; sen&atilde;o est&aacute; mal servido com a sua<br \/>\n    vida. Lembre-se daquele frade&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, se te pegas a contar hist&oacute;rias, n&atilde;o chegas<br \/>\n    a casa &agrave; meia noite.<\/p>\n<p>&#8212; Pois j&aacute; n&atilde;o conto.<\/p>\n<p>E fustigando a &eacute;gua, desapareceu cedo da vista dos dois.<\/p>\n<p>Logo que se afastou, Daniel ia dirigir-se ao padre.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Reitor, foi providencial a sua vinda. Acredite por&eacute;m&#8230;<\/p>\n<p>O gesto cheio de severidade, com que o reitor o acolheu, n&atilde;o o deixou<br \/>\n    continuar.<\/p>\n<p>&#8212; Basta. N&atilde;o quero escut&aacute;-lo. Explica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o as preciso, por que ouvi tudo; justifica&ccedil;&otilde;es n&atilde;o<br \/>\n    as tem, n&atilde;o as pode ter, para dar. Boas-noites.<\/p>\n<p>E, colocando-se diante da porta de suas pupilas, &agrave; frente da qual<br \/>\n    haviam chegado, afastou-se para deixar passar Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; &#8211; ia este a dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Boas-noites &#8211; repetiu secamente o reitor, e t&atilde;o secamente,<br \/>\n    que fez perder a Daniel a coragem de insistir.<\/p>\n<p>Curvando-se com respeito diante do velho, retirou-se dali.<\/p>\n<p>O reitor, ficando s&oacute;, entrou em casa das raparigas.<\/p>\n<p>Depois de trocar algumas palavras com Margarida, chamou de parte Clara, e<br \/>\n    em tom um pouco desabrido, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Julgo que recebeste hoje um aviso do teu Anjo da Guarda, Clara. Olha<br \/>\n    agora se o aproveitas.<\/p>\n<p>Quando a rapariga, levantando para ele os olhos, ia a interrog&aacute;-lo,<br \/>\n    o padre afastou-se, dizendo-lhe simplesmente:<\/p>\n<p>&#8212; Adeus.<\/p>\n<p>Dissera bem o reitor.<\/p>\n<p>Clara ouvira de fato o seu Anjo da Guarda.<\/p>\n<p>Aquela noite conheceu o perigo do caminho que seguira, a sorrir; e resolveu<br \/>\n    fugir-lhe. E iria j&aacute; a tempo? pensava ela.<\/p>\n<p>Da involunt&aacute;ria entrevista, que tivera com Daniel, sa&iacute;ra salva<br \/>\n    de todo? de todo livre de suspeitas?<\/p>\n<p>A voz de Jo&atilde;o Semana, chamando-a de longe, mostrava-lhe que ela fora<br \/>\n    reconhecida. Mas que se passara depois? O reitor parecia tamb&eacute;m estar<br \/>\n    informado do sucedido. Como o teria suspeitado ou previsto?<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, o tom moderado das palavras que lhe dissera, levou-a<br \/>\n    a crer que ele conhecia a verdadeira extens&atilde;o da sua culpa, e n&atilde;o<br \/>\n    a exagerava.<\/p>\n<p>No meio desta corrente de pensamentos, Clara, &agrave;s vezes estremecia.<\/p>\n<p>Se no dia seguinte, lembrava-se ent&atilde;o, se levantasse contra si um<br \/>\n    desses boatos surdos, r&aacute;pidos a propagar-se, prodigiosos a crescer,<br \/>\n    que infama, que mancham de lodo as mais firmes reputa&ccedil;&otilde;es, e<br \/>\n    inoculam seu veneno sutil numa exist&ecirc;ncia inteira?<\/p>\n<p>A esta lembran&ccedil;a, Clara erguia as m&atilde;os com terror.<\/p>\n<p>Aos p&eacute;s de uma imagem da Virgem, pedia ent&atilde;o miseric&oacute;rdia,<br \/>\n    e prometia evitar, dali em diante, todas as ocasi&otilde;es de novos perigos.<br \/>\n    Daquela condena&ccedil;&atilde;o, cuja lembran&ccedil;a bastava s&oacute;<br \/>\n    para a assustar assim, a salvara um acaso&#8230; ou antes a Provid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O reitor, a cujos ouvidos continuavam a chegar todos os dias vozes desfavor&aacute;veis<br \/>\n    a respeito de Daniel, andava inquieto por causa da assiduidade com que o vira<br \/>\n    freq&uuml;entar as proximidades da casa das suas pupilas.<\/p>\n<p>Aquelas prolongadas palestras, da rua para a janela, podiam dar que falar,<br \/>\n    receava ele; e cedo viu que efetivamente iam j&aacute; dando.<\/p>\n<p>Qual n&atilde;o foi, pois, o seu desassossego, quando da casa de um pobre<br \/>\n    enfermo que fora confessar, viu &agrave;s trindades daquele dia, passar furtivamente,<br \/>\n    e meio disfar&ccedil;ado, um homem, que, apesar e todo o disfarce, o reitor<br \/>\n    logo conheceu ser Daniel.<\/p>\n<p>Deu-lhe uma pancada o cora&ccedil;&atilde;o, e, mal que p&ocirc;de, desobrigou-se<br \/>\n    de sua santa tarefa, saiu apressado, e correu &agrave; casa de Margarida,<br \/>\n    a quem perguntou pela irm&atilde;.<\/p>\n<p>Sabendo que naquele momento tinha ela sa&iacute;do para a fonte, para ali<br \/>\n    se dirigiu tamb&eacute;m o velho, mas por outro caminho, que o levou ao pr&oacute;ximo<br \/>\n    pinheiral.<\/p>\n<p>Chegou ali justamente quando Daniel aparecia a Clara; e p&ocirc;de, sem ser<br \/>\n    visto, assistir a todo o di&aacute;logo entre os dois.<\/p>\n<p>Foi por esta forma que o reitor, a quem muitas vezes estava confiado o papel<br \/>\n    de Provid&ecirc;ncia na sua par&oacute;quia, conseguiu salvar oportunamente<br \/>\n    a boa fama de Clara, no conceito de Jo&atilde;o Semana, e provavelmente, na<br \/>\n    opini&atilde;o geral da terra.<\/p>\n<p>Se as recorda&ccedil;&otilde;es desta noite agitavam o esp&iacute;rito de<br \/>\n    Clara, n&atilde;o deixavam mais indiferente e tranq&uuml;ilo o de Daniel.<\/p>\n<p>Cruzando a passos largos o pavimento do quarto, velou grande parte da noite.<\/p>\n<p>Poucas prova&ccedil;&otilde;es mais amargas h&aacute; para os caracteres<br \/>\n    humanos do que a de se sentirem desprezados pela pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Experimentava-o Daniel, ent&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; T&ecirc;m raz&atilde;o os que desconfiam de mim &#8211; pensava ele &#8211; conhecem-me<br \/>\n    melhor que eu pr&oacute;prio. Que sutis distin&ccedil;&otilde;es ando eu a<br \/>\n    marcar por a&iacute;, entre o meu proceder e o de muitos miser&aacute;veis,<br \/>\n    que me causam t&eacute;dio e desprezo? Que rid&iacute;culas lamenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de homem n&atilde;o compreendido s&atilde;o as minhas? &Eacute; no que se<br \/>\n    vingam sempre aqueles, cujos sentimentos inspiram avers&atilde;o geral&#8230;<br \/>\n    Clamam-se que ainda n&atilde;o encontraram o esp&iacute;rito ou cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de harmonia com o seu. Vejamos. Pois n&atilde;o &eacute; infame o meu procedimento?<br \/>\n    Que lhe falta para ser completamente infame? Que espero eu de Clara? Para<br \/>\n    que a persigo? Para que a procurei hoje? &#8211; N&atilde;o hesitei em dar estes<br \/>\n    passos, que, na apar&ecirc;ncia, a podem perder&#8230; E hesitaria em perd&ecirc;-la<br \/>\n    na realidade? Quem mo assegura? tenho acaso certeza disso?<\/p>\n<p>E, passeando mais agitado ainda, conservou-se por muito tempo sob o dom&iacute;nio<br \/>\n    desta id&eacute;ia. depois continuou com mais exalta&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>&#8212; Tenho, sim. N&atilde;o rebaixemos tamb&eacute;m a tal ponto os nossos<br \/>\n    sentimentos. Eu sou vol&uacute;vel, imprudente, inconsiderado; conhe&ccedil;o<br \/>\n    e odeio-me, quando me vejo assim; por&eacute;m n&atilde;o sou perverso, por&eacute;m,<br \/>\n    n&atilde;o sou capaz de uma trai&ccedil;&atilde;o infame&#8230; Queria que me<br \/>\n    acusassem de tudo, mas que n&atilde;o me suspeitassem disso, e muito menos<br \/>\n    Clara, essa generosa rapariga, e muito menos o reitor, esse homem honrado&#8230;<br \/>\n    Mas o que importam as minhas inten&ccedil;&otilde;es, se dou lugar a que se<br \/>\n    diga, a que se possa pensar em cal&uacute;nia! Se n&atilde;o fosse hoje o<br \/>\n    reitor, a quem a Provid&ecirc;ncia parece haver inspirado, que se diria amanh&atilde;<br \/>\n    nesta mexeriqueira terra? &#8211; de mim, digam l&aacute; o que quiserem; mas daquela<br \/>\n    rapariga&#8230; &Eacute; tempo de me fazer outro homem. E poderei consegui-lo?<br \/>\n    este meu temperamento &eacute; de uma mobilidade! pequenas coisas fazem-lhe<br \/>\n    perder o equil&iacute;brio, que por momentos a raz&atilde;o consegue dar-lhe.<br \/>\n    Ser&aacute; pois isto em mim um mal incur&aacute;vel! &Eacute; verdade que<br \/>\n    os m&eacute;dicos falam de certos estados nervosos, que pequenas impress&otilde;es<br \/>\n    sustentam e exacerbam, e que, muitas vezes, uma profunda como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    consegue serenar, dando a esses pensamentos a estabilidade que n&atilde;o<br \/>\n    tinham. O estado de meu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; assim. Talvez ainda<br \/>\n    n&atilde;o experimentasse a t&ecirc;mpera, que tem de o fortificar; talvez.<br \/>\n    Em todo o caso devo lutar comigo mesmo. Mas poderei resignar-me &agrave; m&aacute;<br \/>\n    opini&atilde;o que de mim conserva aquela rapariga? N&atilde;o; preciso falar-lhe<br \/>\n    uma vez ainda para que me perdoe e restitua a sua confian&ccedil;a; serei<br \/>\n    depois para ela um amigo sincero, um verdadeiro irm&atilde;o. Hei de falar-lhe.<\/p>\n<h4><a name=\"34\">Cap&iacute;tulo XXXIV<\/a><\/h4>\n<p> Uma noite, depois de dormido o primeiro sono, ergueu-se Pedro, como sol&iacute;cito<br \/>\n    propriet&aacute;rio, para ir rondar um pinhal, distante da casa, onde, segundo<br \/>\n    informa&ccedil;&otilde;es recebidas, se tinham ultimamente praticado alguns<br \/>\n    roubos de pinheiros.<\/p>\n<p>Ao v&ecirc;-lo sair, o criado mais velho da casa, o mesmo ao qual vimos Daniel<br \/>\n    disposto a fazer compreender a teoria dos eclipses, quis acompanh&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe-me ir contigo, Sr. Pedrinho.<\/p>\n<p>&#8212; Vai-te da&iacute;, homem; eu n&atilde;o sou nenhuma crian&ccedil;a,<br \/>\n    para precisar de companhia.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deita-te; j&aacute; te disse.<\/p>\n<p>E o noivo de Clara saiu, de espingarda ao ombro, e assobiando uma toada popular.<\/p>\n<p>Apesar da quase certeza que tinha de se n&atilde;o encontrar &agrave;quela<br \/>\n    hora com o principal e constante objeto dos seus mais gratos pensamentos,<br \/>\n    dirigiu o itiner&aacute;rio, com preju&iacute;zo da economia de tempo, pela<br \/>\n    rua em que morava Clara.<\/p>\n<p>&Eacute; que &eacute; j&aacute; um prazer contemplar os muros, a cujo abrigo<br \/>\n    se sabe repousar a mulher que se ama; prazer inocente, entre os que mais o<br \/>\n    s&atilde;o, e que, desde tempos imemoriais, os amantes saboreiam.<\/p>\n<p>Fique a leitora sabendo que, muitas vezes, enquanto dorme, se lhe est&atilde;o<br \/>\n    fixados nas janelas, desapiedadamente cerradas e obscuras, os olhos ardorosos<br \/>\n    de alguns desses tresnoitados passeadores.<\/p>\n<p>&Agrave; medida que se aproximava do lugar, que o obrigara a este rodeio,<br \/>\n    ia diminuindo Pedro a velocidade da marcha.<\/p>\n<p>Chegou perto do muro do quintal, e, insensivelmente parou. Lembrou-lhe que<br \/>\n    bem podia ser que, apesar do adiantado da hora, Clara estivesse acordada,<br \/>\n    pensando nele talvez. Que amante deixaria de fazer, nas mesmas circunst&acirc;ncias,<br \/>\n    iguais suposi&ccedil;&otilde;es?<\/p>\n<p>Como meio de verifica&ccedil;&atilde;o, p&ocirc;s-se a cantar: Meia noite,<br \/>\n    tudo dorme;<\/p>\n<p>S&oacute; eu n&atilde;o posso dormir;<\/p>\n<p>Pois n&atilde;o me deixa este amor,<\/p>\n<p>Que me fizeste sentir. Depois de pequena pausa, continuou: <\/p>\n<p>Este amor que &eacute; minha vida,<\/p>\n<p>Vida do meu cora&ccedil;&atilde;o,<\/p>\n<p>Atr&aacute;s do qual meus&#8230; A interrup&ccedil;&atilde;o foi devida a certo<br \/>\n    rumor, que Pedro julgou ouvir dentro do quintal. Calou-se por isso, e p&ocirc;s-se<br \/>\n    a escutar.<\/p>\n<p>Tudo caiu em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Aplicando, por&eacute;m, o ouvido &agrave; fechadura, pareceu-lhe perceber<br \/>\n    o murm&uacute;rio de vozes abafadas.<\/p>\n<p>&#8212; Quem anda a&iacute; dentro?! &#8211; perguntou em voz alta Pedro, batendo<br \/>\n    &agrave; porta.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m lhe respondeu.<\/p>\n<p>Continuou a escutar, e de novo julgou distinguir o mesmo som.<\/p>\n<p>Ia interrogar outra vez, mas, refletindo mudou de plano.<\/p>\n<p>Continuou o seu caminho cantando: Este amor, que &eacute; minha vida,<\/p>\n<p>Vida do meu cora&ccedil;&atilde;o,<\/p>\n<p>Atr&aacute;s do qual meus suspiros<\/p>\n<p>E meus pensamentos v&atilde;o. E seguiu, cantando assim, at&eacute; certa<br \/>\n    dist&acirc;ncia da casa; e depois, retrocedendo, voltou com todas as cautelas,<br \/>\n    para junto da porta donde viera o rumor que o estava inquietando.<\/p>\n<p>&#8212; Se fossem ladr&otilde;es &#8211; pensava Pedro &#8211; que haviam de fazer as<br \/>\n    pobres raparigas, neste s&iacute;tio solit&aacute;rio, e sem bra&ccedil;o<br \/>\n    de homem em casa para as defender?<\/p>\n<p>E este pensamento decidiu-o a n&atilde;o sair dali sem averiguar aquilo.<\/p>\n<p>O seu estratagema prometia produzir efeito. Desta vez n&atilde;o era poss&iacute;vel<br \/>\n    a ilus&atilde;o. As vozes percebiam-se distintamente , e como em conversa<br \/>\n    acalorada, e, entre elas. Pedro julgou reconhecer uma de mulher.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, sentiu ele um doloroso constrangimento de cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Uma id&eacute;ia terr&iacute;vel, s&uacute;bita e sinistra, como a luz do<br \/>\n    rel&acirc;mpago, lhe iluminou o esp&iacute;rito, e, pela primeira vez, concebeu<br \/>\n    suspeitas que o fizeram estremecer.<\/p>\n<p>&#8212; Se Clara&#8230; &#8211; murmurou, subjugado por aquela id&eacute;ia. E um tremor<br \/>\n    convulso passou-lhe pelos membros com tal viol&ecirc;ncia, que o constrangeu<br \/>\n    a apoiar-se &agrave; ombreira da porta para n&atilde;o cair. Naquele estado,<br \/>\n    a pulsa&ccedil;&atilde;o febril das art&eacute;rias das fontes, impediu-o<br \/>\n    de escutar mais nada; o cora&ccedil;&atilde;o palpitava-lhe t&atilde;o agitado<br \/>\n    que o ouviu bater.<\/p>\n<p>O som das vozes tornava-se mais aud&iacute;vel, como se aproximassem da porta<br \/>\n    as pessoas que assim conversavam. Pedro levou maquinalmente a m&atilde;o ao<br \/>\n    gatilho da espingarda e ficou &agrave; espera com a vista fixa e a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    reprimida. Era terr&iacute;vel o seu olhar naquele momento.<\/p>\n<p>Ouviu-se o voltar da chave na fechadura, a porta abriu-se lentamente, e um<br \/>\n    di&aacute;logo, travado a meia voz, chegou aos ouvidos de Pedro; mas a energia<br \/>\n    da vertigem, que lhe tomara os sentidos, n&atilde;o lhe deixava perceber,<br \/>\n    sen&atilde;o de maneira confusa.<\/p>\n<p>&#8212; Foi para lhe dizer isto, s&oacute; para lhe dizer isto, que consenti<br \/>\n    em ouvi-lo aqui &#8211; dizia a voz feminina &#8211; Bem v&ecirc; que seria uma loucura<br \/>\n    , se continuasse; mais do que uma loucura, seria um pecado at&eacute;. Agora<br \/>\n    espero que cumpra a sua promessa. Mostre que &eacute; homem de bem. Adeus.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus &#8211; respondia-lhe outra voz &#8211; E perdoe-me se n&atilde;o posso<br \/>\n    ainda dizer friamente esta palavra. Mas ver&aacute; se saberei emendar-me.<br \/>\n    Obrigado pela confian&ccedil;a que teve em mim. Adeus.<\/p>\n<p>E, depois disto, um homem, todo envolvido numa capa comprida, saiu da porta<br \/>\n    do quintal, tendo antes apertado a m&atilde;o, que se lhe estendia de dentro.<\/p>\n<p>Pedro mal tinha ouvido, e mal conseguia ver tudo aquilo; passava-lhe pelos<br \/>\n    olhos como que uma nuvem de fogo. Correu para este visitador noturno com a<br \/>\n    impetuosidade, de que o animava a raiva e, apontando-lhe ao peito a espingarda,<br \/>\n    gritou com um rugido aterrador:<\/p>\n<p>&#8212; Alto, miser&aacute;vel! P&aacute;ra, ou est&aacute; morto!<\/p>\n<p>O homem ficou im&oacute;vel.<\/p>\n<p>Dentro do quintal ouviu-se ent&atilde;o um grito dilacerante, e a porta,<br \/>\n    violentamente impelida, veio fechar-se de encontro aos batentes.<\/p>\n<p>Pedro rompeu para o desconhecido, que recuou diante dele.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute;s? Quero conhecer-te antes de te matar, infame!<\/p>\n<p>E como o embu&ccedil;ado cada vez procurasse ocultar-se mais, Pedro lan&ccedil;ou-lhe<br \/>\n    a m&atilde;o, e, com um movimento r&aacute;pido, descobriu-lhe o rosto, arrojando<br \/>\n    no ch&atilde;o a capa com que se envolvia. O luar bateu em cheio nas fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do outro.<\/p>\n<p>Reconheceu Daniel.<\/p>\n<p>&Eacute; inexprim&iacute;vel em linguagem conhecida o que neste momento se<br \/>\n    passou no cora&ccedil;&atilde;o do pobre rapaz.<\/p>\n<p>&#8212; Daniel! &#8211; bradou ele sufocado, pela intensidade da como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que recebera.<\/p>\n<p>Daniel conservava-se mudo e abatido. Dir-se-ia fulminado.<\/p>\n<p>Houve um longo espa&ccedil;o de sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Pedro sentiu que se lhe formava no cora&ccedil;&atilde;o uma tempestade medonha;<br \/>\n    um raio de raz&atilde;o que lhe luzia ainda, inspirou-o para dizer em voz<br \/>\n    j&aacute; cava e abafada:<\/p>\n<p>&#8212; Por alma de nossa m&atilde;e, Daniel, por alma de nossa m&atilde;e,<br \/>\n    sai daqui, se n&atilde;o queres que suceda alguma desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; Ouve Pedro, escuta-me &#8211; tentou dizer Daniel; mas as palavras a custo<br \/>\n    se lhe articulavam, e a voz prendia-se na garganta.<\/p>\n<p>&#8212; Daniel, foge, foge daqui, se me n&atilde;o queres perder! foge, irm&atilde;o!<br \/>\n    &#8211; bradava Pedro, e, como que j&aacute; sem consci&ecirc;ncia, contraiam-se-lhe<br \/>\n    espamodicamente os dedos sobre o gatilho da espingarda.<\/p>\n<p>Daniel ia falar-lhe ainda, quando sentiu uma m&atilde;o pousar-lhe no ombro,<br \/>\n    e, em seguida, um homem que, durante o ocorrido se aproximara do lugar, veio<br \/>\n    interromper-se entre ele e o irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Retire-se &#8211; exclamou este homem com voz severa, voltando-se para<br \/>\n    Daniel &#8211; Eu tinha previsto esta desgra&ccedil;a.<\/p>\n<p>Era o reitor.<\/p>\n<p>Ia a dirigir-se depois a Pedro, mas j&aacute; n&atilde;o o encontrou ali.<\/p>\n<p>O padre estremeceu.<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus, &eacute; preciso evitar algum crime. O rapaz vai louco.<\/p>\n<p>Pedro batia violentamente com a coronha da espingarda na porta do quintal,<br \/>\n    que pouco lhe poderia resistir.<\/p>\n<p>Daniel vendo-o ia correr em defesa da mulher, cujo futuro perdera talvez<br \/>\n    irreparavelmente.<\/p>\n<p>O padre susteve-o com energia, pouco de esperar naquela idade avan&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&#8212; Retire-se &#8211; bradou com voz vibrante exaltada &#8211; N&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    ainda satisfeito com a sua obra? Quer acabar de perder aquela pobre rapariga?<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele vai mat&aacute;-la!<\/p>\n<p>&#8212; Estou eu aqui para velar por ela. Cabe-me esse direito, que me foi<br \/>\n    conferido por sua m&atilde;e no leito, onde agonizava. Retire-se.<\/p>\n<p>O reitor naquele momento transformara-se; sublimara-se a ponto de exercer<br \/>\n    um imp&eacute;rio completo na vontade de Daniel; no olhar do velho parecia<br \/>\n    haver n&atilde;o sei que influxo magn&eacute;tico, que obrigou Daniel a baixar<br \/>\n    a cabe&ccedil;a e a retirar-se, constrangido por irresist&iacute;vel impulso.<\/p>\n<p>Pedro tinha arremetido contra a porta do quintal com verdadeira desespera&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Um pensamento sinistro o dominava; a raiva do ci&uacute;me e da vingan&ccedil;a<br \/>\n    perturbava-lhe a raz&atilde;o.<\/p>\n<p>Afinal a porta cedeu. Pedro penetrou no quintal como verdadeiro louco; empeceu-lhe,<br \/>\n    por&eacute;m, os passos uma mulher que lhe caiu aos p&eacute;s, bradando:<\/p>\n<p>&#8212; Pedro, Pedro, n&atilde;o cause, n&atilde;o queira causar a minha<br \/>\n    perdi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Este grito f&ecirc;-lo recuar. A voz desta mulher, que o implorava assim.<br \/>\n    Pedro passou da agita&ccedil;&atilde;o do del&iacute;rio &agrave; imobilidade<br \/>\n    do letargo.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; isso? &#8211; bradou, enfim, como ao acordar de um mau sonho.<br \/>\n    &#8211; Margarida aqui?<\/p>\n<p>Era efetivamente Margarida a mulher, que de joelhos e m&atilde;os erguidas<br \/>\n    lhe jazia aos p&eacute;s.<\/p>\n<p>Desenhava-se no rosto da simp&aacute;tica irm&atilde; de Clara o mais violento<br \/>\n    desespero; e quem sabe o que lhe ia no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Era pois Margarida a que tivera a entrevista com Daniel? Aben&ccedil;oada<br \/>\n    suspeita iluminou pela primeira vez as trevas do esp&iacute;rito atribulado<br \/>\n    do pobre Pedro! Aben&ccedil;oada lhe chamei, pelo conforto que gerou; porque<br \/>\n    na horr&iacute;vel tortura de cora&ccedil;&atilde;o daquele desgra&ccedil;ado,<br \/>\n    foi um b&aacute;lsamo consolador.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida &#8211; disse-lhe ele, tr&ecirc;mulo de incerteza e de esperan&ccedil;a<br \/>\n    &#8211; fale-me a verdade. Em nome de Deus, diga-me; quem estava aqui com Daniel?<br \/>\n    Diga-me, diga-me tudo pelo Salvador.<\/p>\n<p>Houve um momento de sil&ecirc;ncio. Margarida parecia hesitar; por fora da<br \/>\n    porta apareciam j&aacute; alguns rostos curiosos, que chegavam atra&iacute;dos<br \/>\n    pelo ru&iacute;do.<\/p>\n<p>&#8212; Quem estava aqui com Daniel? &#8211; perguntou Pedro.<\/p>\n<p>Na alma de Margarida alguma coisa se passou de terrivelmente doloroso que<br \/>\n    quase a fez desfalecer.<\/p>\n<p>Fechando os olhos, como quem adota uma resolu&ccedil;&atilde;o desesperada,<br \/>\n    como quem se despenha num abismo, respondeu com voz tremula, mas perfeitamente<br \/>\n    intelig&iacute;vel:<\/p>\n<p>&#8212; Era eu!<\/p>\n<p>A turba&ccedil;&atilde;o em que estava n&atilde;o lhe impedia de perceber<br \/>\n    o sussurro das vozes que, de fora da porta, acolheu esta resposta.<\/p>\n<p>Pedro, alheio a tudo que o rodeava, ergueu as m&atilde;os para o c&eacute;u;<br \/>\n    e rebentando-lhe as l&aacute;grimas dos olhos, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Bendito seja Deus! Sirva de remiss&atilde;o dos meus pecados o tormento<br \/>\n    destes poucos instantes.<\/p>\n<p>Quando o p&aacute;roco chegou, encontrou-os nesta posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Caminhou com o rosto severo para a mulher que via ajoelhada, mas recuou tamb&eacute;m,<br \/>\n    espantado, ao reconhecer Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida! Pois era?&#8230; O reitor suspendeu-se, antes de concluir,<br \/>\n    como se um pensamento s&uacute;bito lhe ocorrera. &#8211; N&atilde;o pode ser, n&atilde;o<br \/>\n    pode ser. &#8211; E aproximando-se de Margarida, tomou-lhe o bra&ccedil;o, com energia,<br \/>\n    bradando-lhe: &#8211; Que quer dizer isto, minha filha? Que fazes tu aqui?<\/p>\n<p>Margarida juntou as m&atilde;os, e, olhando para o reitor com uma express&atilde;o<br \/>\n    particular, respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Pe&ccedil;o miseric&oacute;rdia!<\/p>\n<p>&#8212; Para que culpa, minha filha?! &#8211; perguntou o padre, que n&atilde;o<br \/>\n    tirava os olhos dela.<\/p>\n<p>&#8212; Para a minha&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Para a&#8230; Entendo! &#8211; disse ele, como falando para si. &#8211; E devo eu<br \/>\n    consentir que?&#8230; Talvez que tenha raz&atilde;o &#8211; continuou, fitando em Margarida<br \/>\n    um olhar de bondade e quase de respeita, e acrescentou a meia voz: &#8211; Seja<br \/>\n    como quiseste, como Deus to inspirou decerto. &#8211; Depois voltando-se para Pedro:<br \/>\n    &#8211; E que tens mais que ver aqui, homem!<\/p>\n<p>&#8212; Tenho que pedir perd&atilde;o a todos.<\/p>\n<p>O reitor empurrou-o amigavelmente pelos ombros, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Vai, vai. Deixa isso para outra vez. N&atilde;o temos agora vagar<br \/>\n    para justifica&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Sr. Reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o! Vai para a tua vida, Pedro. E n&atilde;o me andes mais<br \/>\n    de espingardas, que s&atilde;o m&aacute;s companhias.<\/p>\n<p>Dando depois com os olhos nos poucos espectadores desta cena, que se conservavam<br \/>\n    boquiabertos &agrave; porta, exclamou, todo irritado:<\/p>\n<p>&#8212; E voc&ecirc;s que fazem a&iacute; pasmados? Quem vos chamou c&aacute;?<br \/>\n    N&atilde;o sois t&atilde;o prontos para o trabalho. Andar! e ter cautela com<br \/>\n    a l&iacute;ngua. Ouviram?<\/p>\n<p>Pedro saiu cabisbaixo. Os grupos dispersaram.<\/p>\n<p>Logo que os viu retirar, o padre levantou Margarida, que se conservava de<br \/>\n    joelhos e quase ex&acirc;nime e disse-lhe comovido.<\/p>\n<p>&#8212; Foi um sacrif&iacute;cio her&oacute;ico, Margarida, para o qual poucas<br \/>\n    teriam fortalezas.<\/p>\n<p>&#8212; Um sacrif&iacute;cio?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, n&atilde;o &eacute; a mim que iludiste, filha, que te conhe&ccedil;o<br \/>\n    bem e h&aacute; muito. Vai ter com a verdadeira culpada e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o a condene , Sr. Reitor; o seu anjo bom n&atilde;o a abandonou<br \/>\n    ainda esta vez.<\/p>\n<p>&#8212; Bem sei &#8211; respondeu o reitor. &#8211; Pois n&atilde;o te vejo eu aqui?<br \/>\n    Mas vai, e acaba a tua obra aben&ccedil;oada, confortando-a e chamando-a ao<br \/>\n    caminho do arrependimento. Eu tamb&eacute;m tenho a minha tarefa. E dou gra&ccedil;as<br \/>\n    a Deus por ter permitido que os meus deveres paroquiais me conservassem por<br \/>\n    fora at&eacute; estas horas. At&eacute; amanh&atilde;, minha filha;<\/p>\n<p>E o reitor saiu, mas em vez de tomar o caminho de casa, voltou na dire&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oposta. \n  <\/p>\n<h4><a name=\"35\">Cap&iacute;tulo XXXV<\/a><\/h4>\n<p> A cena a que, um tanto imprevistamente, fizemos, no &uacute;ltimo capitulo<br \/>\n    assistir o leitor, exige de n&oacute;s algumas palavras de explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Releve-se-nos, portanto, a r&aacute;pida digress&atilde;o retrospectiva, em<br \/>\n    que vamos entrar.<\/p>\n<p>Daniel, como t&iacute;nhamos dito, prometera a si pr&oacute;prio falar uma<br \/>\n    vez ainda a Clara, para atenuar a m&aacute; impress&atilde;o que a sua &uacute;ltima<br \/>\n    entrevista pudesse ter deixado no esp&iacute;rito da rapariga, e inspirar-lhe<br \/>\n    de novo a confian&ccedil;a perdida.<\/p>\n<p>Parecer&aacute; talvez um meio singular este de corrigir os efeitos de um<br \/>\n    passo imprudente por outro mais imprudente ainda; mas a raz&atilde;o humana,<br \/>\n    sofismando com a maior candura do mundo, concebe muitas vezes projetos assim.<\/p>\n<p>Em Daniel, sobretudo, eram freq&uuml;entes estas resolu&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    irrefletidas. Inspirava-lhas um sentimento de mal fundado brio; mas nem sempre<br \/>\n    era bastante a for&ccedil;a do seu car&aacute;ter para briosamente as sustentar<br \/>\n    at&eacute; ao fim.<\/p>\n<p>N&atilde;o aprendera ainda a desconfiar de si, a ponto de fugir como devia,<br \/>\n    a essas ocasi&otilde;es de tenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi por isso que, esquecido j&aacute; das suas promessas a Clara, renovou<br \/>\n    outra vez os antigos passeios pelas circunvizinhan&ccedil;as da casa dela,<br \/>\n    sempre com esperan&ccedil;a de obter a entrevista, que imaginara necess&aacute;ria<br \/>\n    &agrave; reivindica&ccedil;&atilde;o do seu cr&eacute;dito.<\/p>\n<p>Clara evitava, por&eacute;m, todos os ensejos de se encontrar com ele, constrangendo-se<br \/>\n    at&eacute;, para isso, a um estreita reclus&atilde;o.<\/p>\n<p>Depois da cena da fonte, prometera ela a sua irm&atilde; e ao reitor n&atilde;o<br \/>\n    falar com Daniel, at&eacute; estar efetuado o casamento, que o p&aacute;roco,<br \/>\n    mais do que nunca, procurou acelerar.<\/p>\n<p>Assim todas as tentativas de Daniel para v&ecirc;-la e falar-lhe, ou na rua<br \/>\n    ou na janela, sa&iacute;am-lhe baldadas.<\/p>\n<p>Longe de o desanimar, este mau &ecirc;xito antes o estimulou, e irritado<br \/>\n    pelas dificuldades que encontrava, formou a resolu&ccedil;&atilde;o mais audaz.<\/p>\n<p>Um dia, entrando no quarto, Clara encontrou no ch&atilde;o e pr&oacute;ximo<br \/>\n    da janela, que deixara aberta, um papel dobrado.<\/p>\n<p>Abriu e leu. Era um bilhete de Daniel a pedir-lhe, nos termos mais respeitosos,<br \/>\n    uma entrevista &#8211; a &uacute;nica. Alegava em favor da sua pretens&atilde;o,<br \/>\n    o n&atilde;o poder resignar-se &agrave; desconsoladora id&eacute;ia de ser<br \/>\n    mal conceituado por Clara; prometia e jurava respeit&aacute;-la como irm&atilde;,<br \/>\n    pois como tal a considerava j&aacute;; e acrescentava que n&atilde;o deixaria<br \/>\n    de a perseguir , at&eacute; que ela condescendesse a escut&aacute;-lo. Se<br \/>\n    receava, dizia ele no fim, que essa entrevista desse lugar a interpreta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    injuriosas, regulasse e impusesse elas as condi&ccedil;&otilde;es debaixo<br \/>\n    das quais a concederia.<\/p>\n<p>Esta carta, que n&atilde;o primava em laconismo, parecia, em boa l&oacute;gica,<br \/>\n    dispensar a entrevista requerida e na qual pouco mais restava a fazes do que<br \/>\n    desenvolver o tema, j&aacute; t&atilde;o extensamente assim parafraseado por<br \/>\n    escrito. mas a l&oacute;gica n&atilde;o domina de ordin&aacute;rio situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    daquelas.<\/p>\n<p>Clara n&atilde;o respondeu ao bilhete e continuou, mais que nunca, a evitar<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>De parte deste continuaram as imprud&ecirc;ncias, &agrave;s quais servia<br \/>\n    de novo est&iacute;mulo o despeito, esse poderoso fermento de paix&otilde;es<br \/>\n    nas almas mais sujeitas a elas.<\/p>\n<p>Outro bilhete, recebido por Clara da mesma maneira, instava ainda com maior<br \/>\n    veem&ecirc;ncia pela entrevista pedida. <\/p>\n<p>Clara estava para referir tudo a Margarida, mas faltou-lhe o &acirc;nimo.<\/p>\n<p>Este estado de coisas continuou por algum tempo mais; at&eacute; que um dia<br \/>\n    Clara, animada de confian&ccedil;a em si, que n&atilde;o perdia nunca, e na<br \/>\n    boa f&eacute;, que depositava nas promessas dos outros, resolveu consentir<br \/>\n    em escutar Daniel.<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe prometia ele ser essa a condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel<br \/>\n    para n&atilde;o a perseguir de novo?<\/p>\n<p>&#8212; Acabe-se pois este constrangimento em que vivo &#8211; dizia ela. &#8211; Que<br \/>\n    posso recear? A minha boa estrela n&atilde;o me abandonar&aacute;. Formada<br \/>\n    essa resolu&ccedil;&atilde;o, seguia-se a regular maneira de a levar a efeito.<\/p>\n<p>A curiosidade p&uacute;blica trazia muito vigiada a casa das duas irm&atilde;s;<br \/>\n    era pois dif&iacute;cil iludi-la. Demais, a promessa feita ao reitor e &agrave;<br \/>\n    Margarida embara&ccedil;ava Clara. Da&iacute;, diversos expedientes lembrados,<br \/>\n    pesados e postos de lado, at&eacute; enfim terminar pela ado&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pior de todos.<\/p>\n<p>O excesso de prud&ecirc;ncia e as cautelas conduz muitas vezes a imprud&ecirc;ncias<br \/>\n    mais perigosas.<\/p>\n<p>Clara comunicou a sua resolu&ccedil;&atilde;o a Daniel; este, exultando pela<br \/>\n    confian&ccedil;a que nela via transluzir, agradeceu-lhe com efus&atilde;o,<br \/>\n    e prometeu a Clara, e a si pr&oacute;prio, mostrar-se digno dela.<\/p>\n<p>Assim se preparava a entrevista, cujos resultados o leitor conhece j&aacute;.<\/p>\n<p>Margarida por&eacute;m, que, observando as recomenda&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    p&aacute;roco, continuava a espiar a irm&atilde;, n&atilde;o era de todo alheia<br \/>\n    ao que se passava.<\/p>\n<p>Naquele dia sobretudo julgou perceber nos modos de Clara certa preocupa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que a fez mais vigilante.<\/p>\n<p>Eram trindades quando Margarida ia, como costumava, fechar por suas pr&oacute;prias<br \/>\n    m&atilde;os a porta do quintal. Clara n&atilde;o lho permitiu; e com tal inst&acirc;ncia<br \/>\n    teimou em se encarregar desse cuidado, aquela noite, que Margarida teve pressentimento<br \/>\n    do que se estava preparando. Isto obrigou-a a ficar de p&eacute;, depois de<br \/>\n    se recolher ao quarto.<\/p>\n<p>Apagou a luz para que lhe n&atilde;o suspeitassem a vig&iacute;lia, e n&atilde;o<br \/>\n    abandonou a janela.<\/p>\n<p>Passado tempo, viu &#8211; e com que amargor da alma! confirmadas as suas suspeitas.<br \/>\n    Clara saia furtivamente de casa. Margarida n&atilde;o hesitou; e com passos<br \/>\n    incertos e o cora&ccedil;&atilde;o oprimido de tristeza, seguiu-a, sem ser<br \/>\n    sentida. Valeu-lhe para isso a espessura das &aacute;rvores que orlavam os<br \/>\n    arruados do quintal.<\/p>\n<p>Naquele momento, mais comovida das duas n&atilde;o era decerto Clara.<\/p>\n<p>Enfim, ouviu-se o ru&iacute;do de passos na rua exterior; a porta abriu-se,<br \/>\n    e Daniel apareceu.<\/p>\n<p>A impress&atilde;o que neste momento experimentou Margarida, foi tal, que,<br \/>\n    quase a fez sucumbir.<\/p>\n<p>Cedo, por&eacute;m, a rea&ccedil;&atilde;o daquela vontade en&eacute;rgica,<br \/>\n    apesar de feminil, dominou a luta. Margarida continuou a observar.<\/p>\n<p>Daniel, ao princ&iacute;pio, foi grave, e mostrou-se fiel &agrave; promessa<br \/>\n    que fizera; mas, pouco a pouco, influ&iacute;ram nele as condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    singulares daquela entrevista. As palavras ganharam fogo e, em breve, animava-as<br \/>\n    j&aacute; o entusiasmo impetuoso de vinte anos. Esquecia-se que viera para<br \/>\n    justificar-se, e ia agravando a culpa.<\/p>\n<p>Clara, escutando-o, n&atilde;o conseguia disfar&ccedil;ar completamente a<br \/>\n    turba&ccedil;&atilde;o que a dominava; mas foram sempre dignas da noiva de<br \/>\n    Pedro as palavras com que lhe respondia; assim a n&atilde;o tra&iacute;sse<br \/>\n    o tremor da voz, a &acirc;nsia de respirar, e, mais que tudo isso, o fato<br \/>\n    de se achar ali, s&oacute;, naquela hora da noite, embora lhe atenuasse o<br \/>\n    delito o pensamento da generosidade, que a animara a comet&ecirc;-lo.<\/p>\n<p>Mas os instintos nobres de Daniel s&oacute; por momentos se deixavam adormecer<br \/>\n    com as insidiosas car&iacute;cias da fantasia; pouco bastava para os acordar<br \/>\n    vigorosos.<\/p>\n<p>Desta vez produziu efeito a salutar cantiga de Pedro.<\/p>\n<p>Escutando-o, ambos se sentiram arrependidos de se acharem ali. Viram claro<br \/>\n    toda a futilidade de motivos que, momentos antes, para eles justificavam de<br \/>\n    sobra este passo irrefletido, e curvaram a cabe&ccedil;a.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; meu irm&atilde;o &#8211; murmurou &#8211; que far&aacute; aqui por estas<br \/>\n    horas?<\/p>\n<p>&#8212; Trazido talvez pela m&atilde;o de Deus para&#8230; &#8211; disse, quase para<br \/>\n    si, Clara, no mesmo tom de voz.<\/p>\n<p>&#8212; Adeus, Clara; perdoe esque&ccedil;a mais esta imprud&ecirc;ncia minha.<br \/>\n    prometo-lhe que ser&aacute; a &uacute;ltima. E de hoje em diante&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Adeus.<\/p>\n<p>Foi neste momento que Pedro os interrompeu pela primeira vez.<\/p>\n<p>O resto j&aacute; &eacute; sabido.<\/p>\n<p>Quando, no momento em que Daniel sa&iacute;a, Clara reconheceu a voz do noivo,<br \/>\n    soltou um grito de terroso, e, fechando instintivamente a porta, caiu desfalecida<br \/>\n    na rua do quintal.<\/p>\n<p>Foi ent&atilde;o que Margarida correu, que a arrastou nos bra&ccedil;os para<br \/>\n    longe daquele s&iacute;tio, e depois, sacrificando a sua reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ao futuro da irm&atilde;, veio cair aos p&eacute;s de Pedro, como a verdadeira<br \/>\n    culpada.<\/p>\n<p>O conceito que Pedro formava do car&aacute;ter de Margarida n&atilde;o o<br \/>\n    tinha deixado imaginar sequer que pudesse ser ela a que aceitara a entrevista<br \/>\n    com o irm&atilde;o. Apesar de todo o seu amor por Clara, era maior ainda a<br \/>\n    confian&ccedil;a que depositava em Margarida.<\/p>\n<p>O que viu depois espantou-o, mas deu-lhe grande al&iacute;vio.<\/p>\n<p>Clara ignorou tudo quanto ultimamente se passara, pois durante todo este<br \/>\n    tempo, n&atilde;o recuperara os sentidos. A noite toda levou-a num quase del&iacute;rio,<br \/>\n    no qual imaginava ver Pedro e Daniel travando uma luta fratricida.<\/p>\n<p>Margarida, velando a cabeceira da doente, torcia as m&atilde;os de desespero.<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus! Meu Deus! &#8211; dizia ela. &#8211; Se lhe n&atilde;o passa este del&iacute;rio,<br \/>\n    tudo est&aacute; perdido. Pedro saber&aacute; a verdade.<\/p>\n<p>Pela madrugada, por&eacute;m, Clara sossegou; um sono reparador acalmou-lhe<br \/>\n    a febre e, ap&oacute;s ele, s&oacute; ficou o abatimento e uma palidez geral<br \/>\n    que denunciava a crise terr&iacute;vel que tinha vivido.<\/p>\n<p>Margarida, ao despertar dum sono, tamb&eacute;m inquieto, por que mal passara,<br \/>\n    encontrou-a acordada e j&aacute; aparentemente tranq&uuml;ila. Receando renovar-lhe<br \/>\n    a crise em nada lhe falou. Clara olhava-a em sil&ecirc;ncio, mas como que<br \/>\n    n&atilde;o ousava tamb&eacute;m interrog&aacute;-la.<\/p>\n<p>Afinal fez um esfor&ccedil;o, fitou a irm&atilde; nos olhos arrasados de<br \/>\n    l&aacute;grimas e disse com desalento.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo est&aacute; acabado! De hoje em diante, todos me apontar&atilde;o<br \/>\n    ao dedo e me chamar&atilde;o uma rapariga perdida.<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o pode tamb&eacute;m reprimir as l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; Que est&aacute;s a dizer, Clarinha? Foi mau o passo que deste, foi;<br \/>\n    mas sossega. Eu, que te ouvi, sei que est&aacute;s inocente.<\/p>\n<p>&#8212; Ouviste?<\/p>\n<p>&#8212; Tudo&#8230; Eu sabia&#8230; Eu suspeitava a verdade.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ele&#8230; Pedro? Nada sabe ainda.<\/p>\n<p>&#8212; Nada sabe? Queres enganar-me, Margarida? Pois n&atilde;o surpreendeu<br \/>\n    ele o &#8230; outro, quando&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ignora que fosses tu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o quem julga que era?<\/p>\n<p>Margarida calou-se embara&ccedil;ada, e desviou a vista do olhar fixo da<br \/>\n    irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei, mas&#8230; tenho a certeza de que ele n&atilde;o suspeita<br \/>\n    de ti&#8230; E sabes? &eacute; preciso fazer agora por te levantares, e alegrares-te,<br \/>\n    para que, se ele vier por a&iacute;, n&atilde;o conhe&ccedil;a ao ver o estado<br \/>\n    em que est&aacute;s, a verdade, ou suspeite mais do que a verdade; que &eacute;<br \/>\n    ainda muito pior. Vamos, veste-te; foi uma nuvem a de ontem; uma nuvem que<br \/>\n    passou. Hoje est&aacute; um sol t&atilde;o vivo &#8211; acrescentou, abrindo as<br \/>\n    portas das janelas &#8211; que d&aacute; for&ccedil;a e alegria. V&ecirc;. Ora anda,<br \/>\n    levanta-te.<\/p>\n<p>Enquanto Margarida assim falava, Clara parecia engolfada em profunda abstra&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Afinal, como se nada tivesse percebido de quanto ultimamente Margarida lhe<br \/>\n    dissera, exclamou com vivacidade:<\/p>\n<p>&#8212; Guida, eu quero saber como isto &eacute;. Pedro soube que estava<br \/>\n    uma mulher ontem &agrave; noite no jardim. Se, como dizes, ele n&atilde;o<br \/>\n    suspeita de mim, de quem pode pois suspeitar?<\/p>\n<p>Margarida n&atilde;o respondeu, e abaixou os olhos perturbada.<\/p>\n<p>&#8212; Guida, dize-me a verdade &#8211; continuou Clara mais inquieta j&aacute;.<br \/>\n    &#8211; Pedro julga-me inocente.<\/p>\n<p>&#8212; Julga.<\/p>\n<p>&#8212; Quem &eacute; pois a seus olhos a culpada?<\/p>\n<p>A confus&atilde;o de Margarida serviu de resposta.<\/p>\n<p>De p&aacute;lidas que estavam, tingiram-se ent&atilde;o de um rubor de indigna&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    as faces de Clara. meia erguida no leito, os olhos animados, os l&aacute;bios<br \/>\n    tr&ecirc;mulos, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Ele suspeita de ti! de ti! Margarida? Pedro suspeita de ti? E p&ocirc;de<br \/>\n    ter um pensamento&#8230; e p&ocirc;de imaginar que tu serias&#8230; Atreveu-se a acusar-te!<br \/>\n    Ele? Pedro! Mas diz-me, Guida, Como ele fez isso? Quem lhe deu esse direito?<\/p>\n<p>&#8212; Fui eu.<\/p>\n<p>&#8212; Tu!<\/p>\n<p>&#8212; Sim, fui eu. N&atilde;o lho poderei eu dar? &#8211; acrescentou Margarida,<br \/>\n    quase sorrindo, e, afastando os cabelos desordenados, que cobriam a fronte<br \/>\n    da irm&atilde;.<\/p>\n<p>&#8212; Entendo. Perdeste-te para me salvar. Limpaste com os teus vestidos<br \/>\n    a lama dos meus, para me apresentares pura aos olhos do meu noivo, que com<br \/>\n    raz&atilde;o me supunha culpada! Entendo. Viste-me perdida, e fizeste como<br \/>\n    aquela crian&ccedil;a que, h&aacute; tempos, se afogou para livrar um irm&atilde;o<br \/>\n    da corrente; salvaste-me, mas afundando-te. E havia eu de consentir nisso,<br \/>\n    Margarida? T&atilde;o m&aacute; id&eacute;ia fazes tu de mim, para imaginares<br \/>\n    que aceitaria tu um sacrif&iacute;cio igual? N&atilde;o; quero que Pedro saiba<br \/>\n    tudo; que me perdoe ou que me despreze depois; a uma ou outra coisa me sujeitarei;<br \/>\n    mas sacudir sobre a tua cabe&ccedil;a a vergonha que chamei sobre mim, Oh!<br \/>\n    isso&#8230;<\/p>\n<p>Margarida tomou-lhe afetuosamente as m&atilde;os e em tom persuasivo p&ocirc;s-se<br \/>\n    a dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Ora escuta, Clarinha. H&aacute;s de primeiro ouvir-me com muito sossego<br \/>\n    e muito ju&iacute;zo e depois dir&aacute;s se eu tenho raz&atilde;o. Queres<br \/>\n    contar a verdade a Pedro, dizes tu. Que fazes com isso? Torna-lo infeliz ,<br \/>\n    fazes com que entre ele e o irm&atilde;o exista sempre, da&iacute; por diante,<br \/>\n    um motivo para avers&atilde;o; e a ti, que amas Pedro, apesar de uma leviandade<br \/>\n    de momentos, e a mim, que te amo, e a n&oacute;s ambas, e a todos, a todos<br \/>\n    vais fazer infelizes. Eu que posso perder em que Pedro continue na mesma suspeita?<br \/>\n    Se ningu&eacute;m mais a tem? &#8211; for&ccedil;ou-se ela a dizer, mas baixando<br \/>\n    os olhos, porque bem sabia que mentia. &#8211; Ele n&atilde;o &eacute; capaz de<br \/>\n    a divulgar. E depois, olha, Clarinha, quem nunca pensou em grandes futuros,<br \/>\n    n&atilde;o tem que ter saudades de projetos desfeitos. Eu j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    formo projetos h&aacute; muito; acredita. Cansei-me. Hoje recebo tudo da mesma<br \/>\n    maneira. E olha &#8211; continuou sorrindo &#8211; que dentro em pouco, chego a n&atilde;o<br \/>\n    diferenciar o que &eacute; bem do que &eacute; mal. Tenho-me feito assim.<br \/>\n    Que lhe hei eu de fazer? Mas tu, minha pobre irm&atilde;, que ainda fazes<br \/>\n    tantos projetos, n&atilde;o te custaria a perder o mais risonho de todos?<br \/>\n    De mais a mais, eu tenho uma d&iacute;vida antiga a pagar-te, e n&atilde;o<br \/>\n    sossego enquanto a n&atilde;o pago. Lembras-te quando me vinhas ajudar nas<br \/>\n    tarefas, e repartias comigo a tua ra&ccedil;&atilde;o de merenda? S&atilde;o<br \/>\n    servi&ccedil;os que nunca mais esquecem. Deixa-me pagar-tos da maneira que<br \/>\n    posso. Se soubesses como &eacute; uma consola&ccedil;&atilde;o para os pobres<br \/>\n    achar um meio de saldar as suas d&iacute;vidas! Ent&atilde;o, vamos, prometes<br \/>\n    n&atilde;o dizer nada?<\/p>\n<p>&#8212; Guida, Guida! O que me pedes &eacute; imposs&iacute;vel. Seria um<br \/>\n    grande pecado, se eu deixasse assim a outra expiar a falta que &eacute; toda<br \/>\n    minha.<\/p>\n<p>&#8212; Clarinha, n&atilde;o v&ecirc;s que, de outra sorte, causas a desgra&ccedil;a<br \/>\n    de tantos?<\/p>\n<p>Clara levou as m&atilde;os &agrave;s faces e calou-se.<\/p>\n<p>Neste momento, o reitor entrara de mansinho na sala. Pousara o chap&eacute;u<br \/>\n    e a bengala, e pusera-se a contemplar as duas irm&atilde;s, que lhe n&atilde;o<br \/>\n    sentiram a entrada.<\/p>\n<p>Passado algum tempo de sil&ecirc;ncio, Clara levantou de novo a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    e com voz lacrimosa, exclamou:<\/p>\n<p>&#8212; Pois deverei aceitar este sacrif&iacute;cio, meu Deus?<\/p>\n<p>&#8212; Deves &#8211; respondeu o reitor, adiantando-se. &#8211; &Eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    respeitar inspira&ccedil;&otilde;es dos anjos como este! &#8211; e apontava para<br \/>\n    Margarida. &#8211; Eu tamb&eacute;m hesitei ao princ&iacute;pio, mas, depois que<br \/>\n    julguei melhor, resolvi obedecer-lhe. Minha filha, o que se passou na noite<br \/>\n    de ontem, tem-no por um aviso do c&eacute;u. D&aacute; gra&ccedil;as a Deus<br \/>\n    por te n&atilde;o haver abandonado a tua boa estrela, e faz por nunca mais<br \/>\n    incorrer em um perigo daqueles. Mas aceita; n&atilde;o &eacute; s&oacute;<br \/>\n    a tua felicidade que recebes do sacrif&iacute;cio da tua irm&atilde;, &eacute;<br \/>\n    a de Pedro e a de uma fam&iacute;lia inteira, &eacute; a da pr&oacute;pria<br \/>\n    sacrificada, pois n&atilde;o &eacute; assim, Margarida?<\/p>\n<p>&#8212; Se for preciso que lho pe&ccedil;a de joelhos&#8230; respondeu a bondosa<br \/>\n    rapariga.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; de ser. Agora vou procurar Daniel. A Pedro j&aacute;<br \/>\n    eu confortei. Consegui dissuadi-lo de vir aqui, porque suspeitei que sua vinda<br \/>\n    podia ser funesta, enquanto se n&atilde;o desvanecessem naqueles olhos todos<br \/>\n    os sinais e l&aacute;grimas. Daniel n&atilde;o pude encontrar ainda&#8230; O pobre<br \/>\n    rapaz errou toda a noite por esses caminhos, e Deus queira&#8230;.<\/p>\n<p>&#8212; Jesus, meu Deus &#8211; exclamou Margarida fazendo-se p&aacute;lida. &#8211;<br \/>\n    Acaso receia que ele&#8230; ?<\/p>\n<p>&#8212; Tenho f&eacute; que nenhuma desgra&ccedil;a suceder&aacute;; mas<br \/>\n    &eacute; mister olhar por isto. Adeus. <\/p>\n<h4><a name=\"36\">Cap&iacute;tulo XXXVI<\/a><\/h4>\n<p>\n    As vagas apreens&otilde;es do reitor, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Daniel,<br \/>\n    comunicaram-se a Margarida, e nela adquiriram maior intensidade. As afei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    arraigavam-se profundamente naquele bom cora&ccedil;&atilde;o; baldado era<br \/>\n    impedir que viessem &agrave; luz e florescessem; a cada momento, recebiam<br \/>\n    elas uma vida nova, e desenvolviam-se, como estas &aacute;rvores que, cortadas<br \/>\n    todos os anos, rebentam a cada primavera, brotando jovens renovos.<\/p>\n<p>V&atilde;o l&aacute; cobrir de gelo um cora&ccedil;&atilde;o assim. Tem vida<br \/>\n    de sobra para o fundir todo em l&aacute;grimas, e inflamar-se depois ainda.<\/p>\n<p>Tendo salvado a irm&atilde;, a generosa rapariga s&oacute; tinha agora, ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para pedir ao Senhor a salva&ccedil;&atilde;o de Daniel. De si esquecera-se!<br \/>\n    &#8211; Sublime esquecimento!<\/p>\n<p>Cumprindo o que dissera, pusera-se o reitor a caminho, a procurar Daniel.<br \/>\n    Levava o cora&ccedil;&atilde;o apertado o bom do p&aacute;roco, ao atravessar<br \/>\n    lugares, onde, segundo os seus c&aacute;lculos, mais prov&aacute;vel seria<br \/>\n    encontr&aacute;-lo.<\/p>\n<p>Muitos desses lugares eram os mesmos que, havia anos, seguira com uma inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    an&aacute;loga &#8211; a de espiar os passos do seu pequeno disc&iacute;pulo, que<br \/>\n    j&aacute; ent&atilde;o mostrava o que viria a ser.<\/p>\n<p>Lembrava-se agora o reitor daquele dia, e de como fora encontrar o rapaz,<br \/>\n    no mais remoto s&iacute;tio da aldeia, em di&aacute;logo pueril com a pequena<br \/>\n    pastora, que hoje, por not&aacute;vel coincid&ecirc;ncia, t&atilde;o intimamente<br \/>\n    se achava ligada outra vez ao seu destino.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei que id&eacute;ias associadas estas trouxeram consigo, que,<br \/>\n    muito contra o que era de esperar, o reitor p&ocirc;s-se a sorrir.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que estava entrevendo um desenlace feliz a todo este enredo, e<br \/>\n    que, a pensar naquilo se esquecera das cr&iacute;ticas circunst&acirc;ncias<br \/>\n    presentes.<\/p>\n<p>Mas as id&eacute;ias negras voltaram cedo a assombrar-lhe o semblante.<\/p>\n<p>&#8212; Que ser&aacute; feito do rapaz? &#8211; dizia o padre consigo. &#8211; Esta gente<br \/>\n    da cidade &eacute; t&atilde;o sujeita a loucuras! &Eacute; ver aquele infeliz,<br \/>\n    de quem falaram as folhas do Porto, que, n&atilde;o sei porque hist&oacute;rias<br \/>\n    de amores, se atirou das Virtudes abaixo. Quem me diz a mim que Daniel&#8230;<br \/>\n    em um momento de desespero&#8230; Nossa Senhora nos valha! Mas tem-se visto coisa!&#8230;<br \/>\n    Que g&ecirc;nio aquele! A quem sair&aacute; este rapaz? A m&atilde;e, uma<br \/>\n    santa mulher, o Senhor a tenha em gl&oacute;ria; o pai, um homem s&eacute;rio&#8230;<br \/>\n    Mas, na verdade, d&aacute;-me que pensar este desaparecimento! Ele n&atilde;o<br \/>\n    dormiu em casa&#8230; N&atilde;o teve &acirc;nimo de se encontrar com o irm&atilde;o,<br \/>\n    talvez&#8230; Santo Ant&ocirc;nio nos acuda! Quem sabe se iria para o Porto? Pode<br \/>\n    ser. Antes fosse.<\/p>\n<p>Ia pensando nisto o velho p&aacute;roco, quando ao tomar por a ponte de madeira,<br \/>\n    que atravessava um despenhadeiro, de cujo fundo pedregoso chegava aos ouvidos<br \/>\n    o fragor medonho de uma torrente , se encontrou, face a face, com o objeto<br \/>\n    de sua pesquisa.<\/p>\n<p>Passou um calafrio pelo reitor ao ver Daniel naquele lugar, e ao reparar-lhe<br \/>\n    nas fei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Daniel estava excessivamente p&aacute;lido e com o rosto desfigurado pela<br \/>\n    vig&iacute;lia, e mais ainda pelas ang&uacute;stias do esp&iacute;rito que<br \/>\n    naquela noite o torturavam.<\/p>\n<p>Olhava com a vista espantada, e numa esp&eacute;cie de fascina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o abismo a que ficava sobranceiro, e pareci atento a uma voz interior, que<br \/>\n    o impelia ao suic&iacute;dio.<\/p>\n<p>O reitor parou, fixando nele um olhar perscrutador.<\/p>\n<p>&#8212; Que faz aqui? &#8211; perguntou-lhe, segurando com for&ccedil;a pelo bra&ccedil;o,<br \/>\n    como se pretendesse desvi&aacute;-lo do precip&iacute;cio.<\/p>\n<p>Daniel levantou para o padre os olhos entorpecidos, e em seguida, baixando-os<br \/>\n    de novo para o fundo do despenhadeiro, respondeu com uma frieza que fez estremecer<br \/>\n    o velho:<\/p>\n<p>&#8212; Estava a fazer contas comigo mesmo; assistia a meu julgamento e&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora, vamos. N&atilde;o seja crian&ccedil;a. Deixe-se de loucuras.<br \/>\n    Venha-se embora. N&atilde;o queira fazer a infelicidade dos mais, dos que<br \/>\n    os estimam, j&aacute; que a sua lhe merece t&atilde;o pouca import&acirc;ncia.<br \/>\n    Lembre-se do seu pai, e veja l&aacute; se quer pagar-lhe assim os sacrif&iacute;cios<br \/>\n    que tem feito para si. Venha comigo.<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Reitor, n&atilde;o se ocupa de mim. Repare que est&aacute; falando<br \/>\n    com um miser&aacute;vel. N&atilde;o creia que me pode regenerar pelo arrependimento.<br \/>\n    Eu sou relapso. A minha alma fraca sabe sentir mas n&atilde;o sabe vencer-se.<br \/>\n    Sabe sentir, disse eu? Nem isso. Em mim j&aacute; se apagou todo o sentimento<br \/>\n    moral.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga blasf&ecirc;mias, filho, n&atilde;o descreia assim.<br \/>\n    A f&eacute; &eacute; o primeiro passo para a regenera&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    que fala.<\/p>\n<p>&#8212; A f&eacute;? Agora?&#8230; Tenho-a na quieta&ccedil;&atilde;o da morte.<br \/>\n    &#8211; E outra vez fitou a vista na torrente.<\/p>\n<p>&#8212; Chama quieta&ccedil;&atilde;o &agrave; morte? Engana-se; depois dela<br \/>\n    &eacute; que principia muitas vezes o maior movimento, o movimento sem fim,<br \/>\n    sem remiss&atilde;o, o eterno. Mas oi&ccedil;a, Daniel; eu concebo o desespero<br \/>\n    do seu cora&ccedil;&atilde;o neste momento. Pesa-lhe o que fez? Tanto melhor.<br \/>\n    N&atilde;o o quisera ver t&atilde;o endurecido, que dormisse tranq&uuml;ilo<br \/>\n    depois das cenas desta noite. Sente doloroso o pungir dos remorsos; pois &eacute;<br \/>\n    essa a porta da expia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Remorsos! E daqueles que s&oacute; acabar&atilde;o, quando este amaldi&ccedil;oado<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o deixar de bater.<\/p>\n<p>&#8212; Que durem como preservativo de novas loucuras, e n&atilde;o vir&aacute;<br \/>\n    mal da&iacute;. Mas escute: julga haver destru&iacute;do o futuro de seu irm&atilde;o,<br \/>\n    imagina que lhe espremeu a esponja de fel no copo que o pobre mo&ccedil;o<br \/>\n    preparava para levar aos l&aacute;bios? E assim esteve para ser; e, se fosse,<br \/>\n    tamb&eacute;m eu n&atilde;o sei que vida se prepararia para esse seu cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    incorrig&iacute;vel. Mas tranq&uuml;ilize-se: Deus foi misericordioso; enviou<br \/>\n    um de seus anjos protetores. Tudo est&aacute; salvo.<\/p>\n<p>&#8212; Salvo?! &#8211; Que salva&ccedil;&atilde;o pode haver? Como desviar a desgra&ccedil;a<br \/>\n    iminente sobre a cabe&ccedil;a deles?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o n&atilde;o lhe estou eu a dizer? Esquece-se das asas<br \/>\n    do anjo? Clara foi protegida por elas. Pedro ignora que fosse a noiva dele<br \/>\n    a que esteve no jardim a noite passada.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o queira iludir-me; Pedro surpreendeu-me quando&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem sei. Mas n&atilde;o a viu.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se precipitou ele contra mim, com a raiva do ci&uacute;me?<\/p>\n<p>&#8212; A estas horas est&aacute; arrependido.<\/p>\n<p>&#8212; Arrependido? N&atilde;o o vi eu ainda correr, cego de paix&atilde;o,<br \/>\n    para o quintal? Diga-me o que sucedeu depois. Clara?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; n&atilde;o estava l&aacute; quando ele entrou.<\/p>\n<p>&#8212; Pedro?<\/p>\n<p>&#8212; Retirou-se passado tempo, manso e pesaroso.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Em uma palavra, Pedro julga haver-se enganado.<\/p>\n<p>&#8212; Enganado? E como podia enganar-se?<\/p>\n<p>&#8212; Sendo outra a mulher da entrevista.<\/p>\n<p>&#8212; E quem mais podia ser?<\/p>\n<p>&#8212; Margarida, a irm&atilde; de Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ela pugnar&aacute; pela sua inoc&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>&#8212; Pelo contr&aacute;rio. Foi ela quem se acusou.<\/p>\n<p>&#8212; Ela? E levou-a a isso?<\/p>\n<p>&#8212; A felicidade da irm&atilde; leviana, mas n&atilde;o criminosa, cujo<br \/>\n    futuro viu amea&ccedil;ado.<\/p>\n<p>&#8212; E existem ainda anjos assim neste mundo, Sr. Reitor?<\/p>\n<p>&#8212; Existem, existem, homem descrente e desalentado, existem &#8211; respondeu<br \/>\n    o padre com gesto severo &#8211; e sirva-lhe esse exemplo her&oacute;ico, para lhe<br \/>\n    dar cren&ccedil;a e fortaleza.<\/p>\n<p>&#8212; E h&aacute; quem lhe aceite a abnega&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Assim &eacute; preciso. Ningu&eacute;m pode recusar sem sacrificar<br \/>\n    alguma coisa, al&eacute;m da pr&oacute;pria felicidade.<\/p>\n<p>Daniel calou-se. Olhou mais uma vez para a espuma da torrente; mas eram j&aacute;<br \/>\n    menos poderosas as sedu&ccedil;&otilde;es do abismo. Levantou depois os olhos<br \/>\n    ao c&eacute;u, e, a meia voz, disse, quase s&oacute; para si:<\/p>\n<p>&#8212; Como me sinto pequeno e miser&aacute;vel, diante daquele exemplo!<br \/>\n    E h&aacute; quem julgue em decad&ecirc;ncia moral o mundo, ao qual descem<br \/>\n    ainda almas assim.<\/p>\n<p>E calou-se outra vez.<\/p>\n<p>O reitor observava-o.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo de sil&ecirc;ncio, o padre, pousando a m&atilde;o no<br \/>\n    ombro de Daniel, disse-lhe afavelmente.<\/p>\n<p>&#8212; E por que n&atilde;o pede a essa alma, que admira tanto, um pouco<br \/>\n    da sua ang&eacute;lica fortaleza? Por que n&atilde;o procura purificar a natureza<br \/>\n    demasiado terrena, do seu malfadado cora&ccedil;&atilde;o, na aben&ccedil;oada<br \/>\n    influ&ecirc;ncia dela?<\/p>\n<p>&#8212; E ser-me &aacute; concedido?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute;; siga-me &#8211; respondeu o reitor, n&atilde;o disfar&ccedil;ando<br \/>\n    o seu contentamento. E, dirigindo o caminho, prosseguiu: &#8211; Talvez que vendo-a,<br \/>\n    tenha mem&oacute;rias a avivar. Mais oi&ccedil;a, Daniel; se, como diz, desconfia<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o &#8211; e tem raz&atilde;o para isso &#8211; fa&ccedil;a por<br \/>\n    o subjugar, e deixe dominar a consci&ecirc;ncia, a consci&ecirc;ncia, que<br \/>\n    ontem mesmo, atrav&eacute;s da loucura &#8211; que foi loucura decerto aquilo &#8211;<br \/>\n    que ontem mesmo lhe devia estar exprobrando o seu mau proceder. Agora veja<br \/>\n    tamb&eacute;m como se apresenta a seu irm&atilde;o. Olhe que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    que ele viva na cren&ccedil;a em que est&aacute;, ou morre para a felicidade.<br \/>\n    Veja o que faz. Vamos.<\/p>\n<p>Daniel, com a cabe&ccedil;a inclinada sobre o peito seguiu maquinalmente<br \/>\n    o velho reitor. <\/p>\n<h4><a name=\"37\">Cap&iacute;tulo XXXVII<\/a><\/h4>\n<p> Pelas dez horas da manh&atilde; desse dia, estava Margarida na sala, onde<br \/>\n    ordinariamente trabalhava, tendo &agrave; volta de si, uma turba de rapariguinhas,<br \/>\n    ocupadas em diversos trabalhos de costura.<\/p>\n<p>Em p&eacute;, junto dela, dava uma destas li&ccedil;&otilde;es de leitura.<br \/>\n    Margarida seguia o texto, olhando por cima dos ombros da crian&ccedil;a, corrigindo-lhe<br \/>\n    os erros, &agrave;s vezes, com um sorriso de afabilidade, outras com uma voz<br \/>\n    inflex&atilde;o de voz maternalmente severa.<\/p>\n<p>Era nos Evangelhos que a pequena lia.<\/p>\n<p>O reitor recomendara o livro &agrave; Margarida, dizendo-lhe que o ensinasse<br \/>\n    &agrave;s disc&iacute;pulas, que era guia seguro.<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a lia naquele momento a par&aacute;bola do filho pr&oacute;digo,<br \/>\n    em S. Lucas.<\/p>\n<p>&#8212; &quot;E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o C&eacute;u e diante<br \/>\n    de ti; e daqui em diante n&atilde;o sou digno de ser chamado teu filho.<\/p>\n<p>&quot;Disse, por&eacute;m, o pai aos seus servos: Tirai o melhor vestido<br \/>\n    e vesti-lho, e metei-lhe um anel no dedo e os sapatos nos p&eacute;s:<\/p>\n<p>&quot;E trazei o bezerro gordo, e matai-o, e comamos e alegremo-nos;<\/p>\n<p>&quot;Porque este meu filho era morto e reviveu, e tinha-se perdido a achou-se.<br \/>\n    E come&ccedil;aram a alegrar-se&quot;<\/p>\n<p>O reitor, que n&atilde;o usava cerim&ocirc;nias em casa de suas pupilas,<br \/>\n    entrou neste momento com Daniel, na sala imediata. Percebendo que Margarida<br \/>\n    ainda estava ocupada com a tarefa, que de t&atilde;o boa vontade tomara sobre<br \/>\n    si, disse a Daniel, convidando-o com um gesto a sentar-se, e fazendo-lhe ao<br \/>\n    mesmo tempo sinal para que n&atilde;o interrompesse a li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Esperemos. S&atilde;o perto de onze horas. Deve estar a acabar. &#8211;<br \/>\n    E acrescentou, suspirando:<\/p>\n<p>&#8212; Que rapariga esta, meu Deus! Depois do que passou ontem, j&aacute;<br \/>\n    hoje a cumprir as suas obriga&ccedil;&otilde;es, com aquela serenidade do<br \/>\n    costume! &Eacute; admir&aacute;vel, na verdade! &#8211; E depois &#8211; continuou ele,<br \/>\n    falando ainda a meia voz &#8211; se soubesse, Daniel, como nobremente se votou ao<br \/>\n    trabalho, ela, a quem a irm&atilde; franqueava tudo quanto possu&iacute;a?<br \/>\n    Outra que fosse&#8230; mas aquele cora&ccedil;&atilde;o &eacute; de um quilate!<br \/>\n    Que penetra&ccedil;&atilde;o de esp&iacute;rito, que luz e intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    aquela! Fez quase por si s&oacute; a sua educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; E foi esta a que se sacrificou? &#8211; perguntou Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Foi.<\/p>\n<p>Ambos de novo se calaram.<\/p>\n<p>A crian&ccedil;a conclu&iacute;a neste momento o texto b&iacute;blico:<\/p>\n<p>&#8212; &quot;Ele, por&eacute;m, lhe disse: Filho, tu sempre est&aacute;s<br \/>\n    comigo, e todas as minhas coisas s&atilde;o tuas.<\/p>\n<p>&quot;Convinha-nos, por&eacute;m, alegrar-nos e folgar; porque este teu irm&atilde;o<br \/>\n    era morto e reviveu, e tinha-se pedido e achou-se&quot;<\/p>\n<p>Um beijo, que o reitor e Daniel ouviram distintamente, foi a recompensa concedida<br \/>\n    por Margarida &agrave; disc&iacute;pula, ao terminar a leitura, que ela fizera<br \/>\n    com intelig&ecirc;ncia e numa quase expressiva melop&eacute;ia, perfeitamente<br \/>\n    adequada &agrave; poesia dos vers&iacute;culos.<\/p>\n<p>Depois foi a voz de Margarida, que lhe chegou aos ouvidos; sonora, suave,<br \/>\n    melanc&oacute;lica, cheio de sentimento e bondade, ecoou saudosamente no cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Daniel, que mal podia explicar a natureza da como&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    experimentava ao ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Ermelinda, &#8211; dizia ela &#8211; H&aacute;s de ver se decoras, para<br \/>\n    que nunca te esque&ccedil;am, aquelas palavras de Cristo: &quot;H&aacute;<br \/>\n    mais alegria no c&eacute;u sobre um pecador, que se arrepende do que sobre<br \/>\n    noventa e nove justos que n&atilde;o necessitam de arrependimento&quot;. Diz<br \/>\n    isto mesmo a hist&oacute;ria que leste. Jesus Cristo falava ao povo de maneira<br \/>\n    que o povo todo o entendesse; por isso lhe contou a hist&oacute;ria do filho<br \/>\n    pr&oacute;digo. O C&eacute;u &eacute; tamb&eacute;m a casa do pai, onde se<br \/>\n    recebem com festas e alegrias, os pecadores arrependidos, esses filhos pr&oacute;digos<br \/>\n    do Senhor. &Eacute; uma grande consola&ccedil;&atilde;o o saber que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; pecados, que uma contri&ccedil;&atilde;o sincera n&atilde;o possa<br \/>\n    remir; alma t&atilde;o perdida do mal, que n&atilde;o possa ainda voltar-se<br \/>\n    com esperan&ccedil;a para o C&eacute;u.<\/p>\n<p>O reitor trocou neste momento um olhar significativo com Daniel, que parecia<br \/>\n    recolher com avidez todas as palavras de Margarida. Estavam elas exercendo<br \/>\n    em seu cora&ccedil;&atilde;o o efeito dum b&aacute;lsamo salutar.<\/p>\n<p>Margarida, depois de breve pausa, prosseguiu, como deixando-se levar pela<br \/>\n    corrente de seus pensamentos, e falando mais para si, do que ainda para as<br \/>\n    crian&ccedil;as que a escutavam:<\/p>\n<p>&#8212; Cada alma perdida, que se arrepende, &eacute; uma vit&oacute;ria<br \/>\n    do nosso Anjo da Guarda sobre o esp&iacute;rito do mal. A paix&atilde;o, que<br \/>\n    nos trazia cega, deixa-nos enfim, e calcamo-la ent&atilde;o aos p&eacute;s,<br \/>\n    como aquela Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o fez &agrave; serpente<br \/>\n    tentadora. E nunca &eacute; tarde para o arrependimento. Quem caminhasse com<br \/>\n    os olhos tapados para um despenhadeiro, podia salvar-se ainda, abrindo-os<br \/>\n    junto da borda. Junto? &Agrave;s vezes at&eacute; um ramo, a que nos seguremos<br \/>\n    na queda, nos pode salvar. A f&eacute; na miseric&oacute;rdia de Deus &eacute;<br \/>\n    como esse ramo. Seja o arrependimento sincero, e um olhar do Senhor nos amparar&aacute;.<br \/>\n    Uma ora&ccedil;&atilde;o bem sentida, bem da alma, &agrave; borda do t&uacute;mulo,<br \/>\n    pode chamar sobre uma vida inteira de pecados a luz do perd&atilde;o divino.<\/p>\n<p>Margarida dissera estas palavras, pausada, serenamente e com tanta un&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    religiosa, que Daniel sentiu-se comovido. Olhou para o reitor, viu-o atento,<br \/>\n    im&oacute;vel; o padre parecia estar escutando ainda aquela voz, que o prendia,<br \/>\n    como se pregasse uma doutrina nova e diversa da que tantas vezes ele pr&oacute;prio<br \/>\n    proclamara do altar &agrave; leitura dos Evangelhos.<\/p>\n<p>Da&iacute; a alguns instantes, Margarida despedia-se das suas pequenas disc&iacute;pulas<br \/>\n    com um beijo, e uma palavra afetuosa para cada uma. Seguiu-se o rumor que<br \/>\n    elas faziam ao sa&iacute;rem tumultuosamente e depois o sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>Margarida ficara s&oacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Agora chegou a nossa vez de sermos doutrinados &#8211; disse o reitor para<br \/>\n    Daniel. &#8211; E esteja certo que &eacute; s&atilde;o a doutrina que vier daquela<br \/>\n    boca.<\/p>\n<p>Aproximando-se da porta de comunica&ccedil;&atilde;o entre as duas salas,<br \/>\n    abriu-a de mansinho, e disse, metendo a cabe&ccedil;a pela abertura.<\/p>\n<p>&#8212; Licen&ccedil;a para dois.<\/p>\n<p>Margarida que estava sentada, com a cabe&ccedil;a entre as m&atilde;os, e<br \/>\n    absorta em profundo meditar, ergueu-se de s&uacute;bito, &agrave; voz do reitor,<br \/>\n    e caminhou para ele, repetindo:<\/p>\n<p>&#8212; Licen&ccedil;a para dois? Pois quem nos traz consigo?<\/p>\n<p>Mas, antes de receber resposta divisou por entre a porta, meia aberta o rosto<br \/>\n    p&aacute;lido de Daniel.<\/p>\n<p>Ao reconhec&ecirc;-lo, Margarida estremeceu, e voltou para o reitor o olhar<br \/>\n    interrogativo e inquieto.<\/p>\n<p>O Padre entrara j&aacute; na sala.<\/p>\n<p>&#8212; Que foi fazer? &#8211; disse-lhe Margarida, a meia voz e quase assustada.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa-me. Fiz o que entendia &#8211; respondeu o p&aacute;roco; e voltando-se<br \/>\n    para Daniel, que hesitava em entrar, acrescentou: &#8211; Entre, Daniel, entre.<br \/>\n    Aqui tem a santa e corajosa rapariga que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Senhor!&#8230; &#8211; exclamou Margarida, erguendo para ele as m&atilde;os,<br \/>\n    como a implorar caridade.<\/p>\n<p>Daniel deu alguns passos na sala.<\/p>\n<p>&#8212; O que h&aacute; de dizer o irm&atilde;o ingrato e perverso, &agrave;<br \/>\n    irm&atilde; sublime e generosa? &#8211; disse ele fixando em Margarida um olhar<br \/>\n    de simpatia e de respeito que a obrigou a desviar o seu.<\/p>\n<p>Seguiu-se um sil&ecirc;ncio constrangedor para ambos.<\/p>\n<p>Foi ela a que primeiro sentiu a necessidade de p&ocirc;r termo a esta situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Para isso era-lhe preciso um esfor&ccedil;o poderoso, en&eacute;rgico, que<br \/>\n    rompesse todas as peias da timidez que a enleava.<\/p>\n<p>N&atilde;o a abandonou ainda desta vez a for&ccedil;a com que sabia dominar-se.<br \/>\n    Foi j&aacute; com aparente firmeza que, dentro em pouco, conseguiu responder:<\/p>\n<p>&#8212; Sr. Daniel, esses cumprimentos n&atilde;o s&atilde;o de ocasi&atilde;o,<br \/>\n    nem eu sou para eles. Coisas mais s&eacute;rias nos devem ocupar. A felicidade<br \/>\n    de duas pessoas est&aacute;-nos confiada; est&aacute; de alguma sorte nas<br \/>\n    nossas m&atilde;os. Uma palavra s&oacute; a pode perder; bem o sabe. &Eacute;<br \/>\n    preciso que n&oacute;s todos tr&ecirc;s tratemos de segurar-lha. Por mim,<br \/>\n    fiz o que estava ao meu alcance. Mas n&atilde;o d&ecirc; ao sacrif&iacute;cio<br \/>\n    maior valor que o que ele tem. Eu pouco tinha a sacrificar, al&eacute;m da<br \/>\n    paz da consci&ecirc;ncia. Essa, j&aacute; v&ecirc; que a conservei; o mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A paz da consci&ecirc;ncia! Foi essa mesma que eu perdi e perdi-a<br \/>\n    para sempre! &#8211; disse Daniel com abatimento.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o diga isso &#8211; continuou Margarida, com a presen&ccedil;a<br \/>\n    de esp&iacute;rito que, passada a primeira turba&ccedil;&atilde;o, pudera<br \/>\n    readquirir. &#8211; N&atilde;o diga isso. Pedro ignora tudo. &Eacute; o principal.<br \/>\n    Clara est&aacute; arrependida de sua imprud&ecirc;ncia. Mais alguns dias,<br \/>\n    para esquecer de todo o abalo a noite de ontem, e tornar&aacute; a ser alegre<br \/>\n    como dantes. Sossegue, pois. O Sr. Daniel h&aacute; de continuar a gozar da<br \/>\n    estima de todos, dos que mais ama, e&#8230; ningu&eacute;m haver&aacute; sacrificado.<\/p>\n<p>&#8212; Esqueceu-se de si, Margarida. E julga que a devem, ou a podem esquecer<br \/>\n    os outros?<\/p>\n<p>&#8212; Os outros? Quando eu n&atilde;o me queixo, ningu&eacute;m tem o direito<br \/>\n    de me lamentar.<\/p>\n<p>Estas palavras sa&iacute;ram-lhe dos l&aacute;bios como irresistivelmente,<br \/>\n    e com uma amargura, que o reitor julgou perceber.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, Margarida, filha &#8211; disse o velho, meneando a cabe&ccedil;a<br \/>\n    com um modo expressivo, e sorrindo entre af&aacute;vel e descontente &#8211; olha<br \/>\n    que at&eacute; aos infelizes, at&eacute; na desventura, &eacute; um pecado<br \/>\n    o orgulho; sabes?<\/p>\n<p>&#8212; Orgulho, Sr. Reitor? a&iacute;, creia que n&atilde;o o sinto. Orgulho<br \/>\n    de qu&ecirc;? Mas &eacute; que de fato pouco tinha eu a sacrificar, e pouco<br \/>\n    sacrifiquei. As vozes do mundo&#8230; &#8211; ser&aacute; orgulho isto, ser&aacute;<br \/>\n    &#8211; mas &eacute; certo que n&atilde;o penso no que dir&atilde;o. Al&eacute;m<br \/>\n    de que, quando me fosse mil vezes mais custoso o sacrif&iacute;cio, como havia<br \/>\n    de evit&aacute;-los? Achava melhor que a sacrificassem a ela, que tem mais<br \/>\n    a perder? a ela, por quem prometi velar quando &aacute;s portas morte, mo<br \/>\n    pediu, chorando, sua m&atilde;e? Bem v&ecirc; que n&atilde;o.<\/p>\n<p>O reitor, de olhos no ch&atilde;o, alisava com a manga do casaco o chap&eacute;u,<br \/>\n    sem atinar palavras que respondesse.<\/p>\n<p>&#8212; Mas n&atilde;o falemos em mim &#8211; continuou Margarida, dum modo cada<br \/>\n    vez mais sereno. &#8211; Clara est&aacute; melhor; temo por&eacute;m ainda que possa<br \/>\n    receber com firmeza e a sangue frio a visita de Pedro. Ser&aacute; poss&iacute;vel,<br \/>\n    sem causar desconfian&ccedil;as deles, adiar para mais tarde essa primeira<br \/>\n    visita?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; poss&iacute;vel, &eacute; &#8211; respondeu o reitor, enquanto<br \/>\n    que Daniel folheando maquinalmente um livro, parecia nem atentar no que se<br \/>\n    estava dizendo. &#8211; O pobre rapaz est&aacute; com remorsos de ter suspeitado<br \/>\n    de Clara , e treme s&oacute; com a lembran&ccedil;a de a ver.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; necess&aacute;rio que se lhe fa&ccedil;a acreditar que minha<br \/>\n    irm&atilde; ignora e deve ignorar tudo o que se passou, ou pelo menos que<br \/>\n    nada sabe das suspeitas de Pedro&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; &#8211; ia o reitor a dizer.<\/p>\n<p>Margarida interrompeu-o continuando:<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; indispens&aacute;vel. Eu conhe&ccedil;o muito bem Clara;<br \/>\n    pode sujeitar-se a tudo, menos a ouvir Pedro, cheio de arrependimento, pedir-lhe<br \/>\n    perd&atilde;o, a ela, que &eacute;&#8230; que se julga a verdadeira culpada.<\/p>\n<p>&#8212; Tens raz&atilde;o, Margarida &#8211; disse o reitor, depois de ter estado<br \/>\n    algum tempo a ponderar sobre o caso &#8211; tens raz&atilde;o. E assim &eacute;<br \/>\n    melhor, at&eacute; porque se evitam explica&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o<br \/>\n    poderiam ter muito bons resultados. Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E agora permitam-me que v&aacute; ver Clara, sim?<\/p>\n<p>&#8212; Pois vai; mas&#8230; &#8211; insistiu o reitor, seriamente embara&ccedil;ado<br \/>\n    com alguma coisa, que ele queria dizer, sem encontrar maneira conveniente.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;? &#8211; perguntou-lhe Margarida, percebendo aquela hesita&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    e acompanhava a pergunta com um sorriso de habitual tranq&uuml;ilidade.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; isto com&#8217;assim n&atilde;o me pode sair da id&eacute;ia &#8211; continuava<br \/>\n    o padre.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; a falar a verdade&#8230; tu, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu&#8230; que tenho?<\/p>\n<p>&#8212; Tu&#8230; assim&#8230; Valha-me Deus! n&atilde;o se pode fazer nada&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Por quem &eacute;, Sr. Reitor. N&atilde;o torne a falar nisso. N&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc; que pouco se me importa? N&atilde;o lho disse j&aacute; tantas vezes?<\/p>\n<p>&#8212; Por&eacute;m, Margarida, eu sou teu tutor, assim como de Clara; quero-te<br \/>\n    como pai e n&atilde;o posso, n&atilde;o devo consentir que o castigo caia<br \/>\n    sobre a cabe&ccedil;a inocente, sobre a tua cabe&ccedil;a, filha. &Eacute;<br \/>\n    contra a justi&ccedil;a, &eacute; contra a religi&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Inocente! &#8211; redarg&uuml;iu Margarida, a sorrir. &#8211; Que est&aacute;<br \/>\n    a dizer, Sr. Reitor? Quem &eacute; inocente neste mundo? Deixe, deixe cair<br \/>\n    em mim isso que chamam de castigo, que encontrar&aacute; pecados a remir;<br \/>\n    e quisesse Deus que mos remisse todos.<\/p>\n<p>&#8212; Ainda assim&#8230; Eu nem sei o que fa&ccedil;a&#8230; Valha-me Nossa Senhora,<br \/>\n    valha! Sempre &eacute; uma esta!<\/p>\n<p>E, ao dizer isto, o reitor olhava Daniel, como que a ver se lhe viria aux&iacute;lio<br \/>\n    dali.<\/p>\n<p>Daniel, de bra&ccedil;os cruzados e cabe&ccedil;a inclinada, parecia alheio<br \/>\n    ao di&aacute;logo dos dois.<\/p>\n<p>Margarida aproximou-se do reitor.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sabe o que h&aacute; de fazer? Digo-lho eu . Siga o seu<br \/>\n    primeiro pensamento; foi o de ajudar-me. Por que h&aacute; de agora desconfiar<br \/>\n    daquilo que parecia aceitar com tamanha f&eacute; esta manh&atilde;? N&atilde;o<br \/>\n    tinha desculpa, se assim me deixava s&oacute; a salvar Clara. Mas &eacute;<br \/>\n    tempo de ir ter com ela. Adeus.<\/p>\n<p>E dizendo isto, tomou-lhe a m&atilde;o, que respeitosamente beijou, e ia<br \/>\n    retirar-se.<\/p>\n<p>Diante da porta encontrou Daniel, que a fez parar.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida &#8211; disse-lhe ele, com profunda agita&ccedil;&atilde;o, manifestada<br \/>\n    na voz e no gesto &#8211; essa resolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    unicamente de sua responsabilidade, como diz; sacrifica-se a sorrir, mas n&atilde;o<br \/>\n    reparara que mais algu&eacute;m pode sentir o sacrif&iacute;cio.<\/p>\n<p>&#8212; Quem?<\/p>\n<p>&#8212; Eu.<\/p>\n<p>&#8212; Como?<\/p>\n<p>&#8212; Que se dir&aacute; de mim, do meu car&aacute;ter, vendo destru&iacute;da,<br \/>\n    por minha culpa a sua reputa&ccedil;&atilde;o, Margarida, e eu ocioso, tranq&uuml;ilo,<br \/>\n    descuidado&#8230; e feliz?<\/p>\n<p>&#8212; E que se diria, se se soubesse a verdade? Qual acha de preferir?<\/p>\n<p>&#8212; Pois bem. Oculte-se muito embora a verdade. N&atilde;o quer sacrificar<br \/>\n    sua irm&atilde;? Compreendo e admiro a nobreza dessa resolu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    creia. Mas n&atilde;o posso consentir que uma indesculp&aacute;vel leviandade<br \/>\n    da minha parte seja a causa desse imenso sacrif&iacute;cio, sem que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; lhe disse que n&atilde;o era imenso: mas que fosse, como<br \/>\n    queria evit&aacute;-lo?<\/p>\n<p>O reitor repetia a interroga&ccedil;&atilde;o com os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o v&ecirc; que a &uacute;nica maneira, Margarida, &eacute;&#8230;<br \/>\n    Eu sei que sou indigno de aspirar a tanto, mas perdoe-me, a &uacute;nica maneira<br \/>\n    &eacute; n&atilde;o me recusar a repara&ccedil;&atilde;o que lhe devo: permita-me<br \/>\n    que reuna ao seu o meu destino, j&aacute; que a Provid&ecirc;ncia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bravo! atalhou o Padre, batendo com a bengala no ch&atilde;o &#8211; Isso<br \/>\n    mesmo &eacute; que eu tinha aqui dentro a pesar-me; at&eacute; que enfim respiro.<\/p>\n<p>Margarida estremeceu ao ouvir Daniel, e instintivamente levou as m&atilde;os<br \/>\n    ao cora&ccedil;&atilde;o como se fora ferida a&iacute;. Em poucos instantes,<br \/>\n    as faces, de ordin&aacute;rio p&aacute;lidas, passaram-lhe por cambiantes<br \/>\n    r&aacute;pidas de cor. Tr&ecirc;mula de ansiedade, sentiu vergarem-lhe os<br \/>\n    joelhos e enevoar-lhe a vista. Valeu-lhe o apoio de um m&oacute;vel pr&oacute;ximo<br \/>\n    para n&atilde;o cair. Por algum tempo tentou em v&atilde;o responder; a voz<br \/>\n    n&atilde;o lhe sa&iacute;a da garganta.<\/p>\n<p>Daniel olhava-a ansioso. O padre esfregava as m&atilde;os exultando de j&uacute;bilo.<\/p>\n<p>Afinal, vencendo esta violenta como&ccedil;&atilde;o, e assumindo outra vez<br \/>\n    a placidez habitual, respondeu com uma voz, onde sem dificuldade se podia<br \/>\n    descobrir ainda um indiscreto tremor:<\/p>\n<p>&#8212; Obrigada. &Eacute; generoso o oferecimento&#8230; mas n&atilde;o posso<br \/>\n    aceit&aacute;-lo.<\/p>\n<p>&#8212; Que diz? exclamou Daniel.<\/p>\n<p>O padre passou do j&uacute;bilo &agrave; estupefa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Pois queria que aceitasse? Aceit&aacute;-lo-ia se estivesse no meu<br \/>\n    lugar? Diga? Qual ser&aacute; o maior mart&iacute;rio; sofrer as murmura&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as inj&uacute;rias, os desprezos at&eacute;, de milhares de pessoas, que afinal<br \/>\n    de contas, nos s&atilde;o indiferentes, ou aceitar a compaix&atilde;o de quem<br \/>\n    nos &eacute;&#8230; de quem nos devia ser tudo no mundo? Daquele, a quem teremos<br \/>\n    de dar todos os afetos, todos os cuidados, todos os pensamentos. Imagina bem<br \/>\n    essa tortura?<\/p>\n<p>&#8212; Mas, Margarida, quem lhe disse que &eacute; por compaix&atilde;o<br \/>\n    que eu lhe fa&ccedil;o o oferecimento? Se o aceitar, creia que o agradecido<br \/>\n    serei eu.<\/p>\n<p>&#8212; Se essas palavras fossem sinceras, Sr. Daniel, era bem certo ent&atilde;o<br \/>\n    que possu&iacute;a um desgra&ccedil;ado car&aacute;ter! Receie sempre de si,<br \/>\n    desses primeiros movimentos, a que obedece t&atilde;o depressa. J&aacute;<br \/>\n    que &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil em mudar, ao menos fa&ccedil;a por ser<br \/>\n    mais forte contra si mesmo. Ven&ccedil;a-se. N&atilde;o est&aacute; ainda<br \/>\n    vendo o mal que pode fazer assim?<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz&atilde;o em duvidar de mim. O meu passado condena-me, por&eacute;m<br \/>\n    talvez seja injusta demais para comigo. Julga-me capaz de&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Perd&atilde;o; n&atilde;o julgo, n&atilde;o tenho o direito de julgar,<br \/>\n    bem sei. Em todo caso, n&atilde;o posso aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida! &#8211; disseram-lhe a um tempo o padre e Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o posso aceitar &#8211; repetiu Margarida, j&aacute;<br \/>\n    com maior veem&ecirc;ncia. &#8211; Nunca me julgaria mais desonrada e perdida, do<br \/>\n    que quando aceitasse uma proposta como essa, feita por outro qualquer motivo,<br \/>\n    que n&atilde;o fosse a for&ccedil;a do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas eu lhe juro que o meu cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh, n&atilde;o diga mais! &#8211; disse Margarida, interrompendo-o. &#8211; At&eacute;<br \/>\n    me faz mal ouvir-lhe esses juramentos; lembra-me os que ainda ontem fazia<br \/>\n    a Clara. Repare no que ia a dizer; assim abre o cora&ccedil;&atilde;o, a quem,<br \/>\n    momentos antes, nem conhecia sequer?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; tal; &#8211; disse o reitor &#8211; diz tu que, desde crian&ccedil;a,<br \/>\n    j&aacute; te conhece ele, e at&eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! por quem &eacute; &#8211; atalhou Margarida, que previu logo onde o<br \/>\n    reitor queria chegar. -Por quem &eacute;! O que ia dizer!<\/p>\n<p>&#8212; Margarida &#8211; continuou Daniel &#8211; perdoe, se a consci&ecirc;ncia das<br \/>\n    minhas culpas&#8230; e acredite que a estou sentindo bem amarga, mas perdoe-me,<br \/>\n    se ela me n&atilde;o constrange ainda ao sil&ecirc;ncio. Eu vejo que tem raz&atilde;o<br \/>\n    para duvidar de mim; mas ser&aacute; s&oacute; isso? Por que n&atilde;o me<br \/>\n    confessa tamb&eacute;m que recusa porque sentindo insens&iacute;vel o cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    desconfia dele igualmente?<\/p>\n<p>&#8212; Desconfiar do meu cora&ccedil;&atilde;o! &#8211; disse Margarida, com uma<br \/>\n    leve inflex&atilde;o de ironia na voz, a qual os dois n&atilde;o perceberam,<br \/>\n    e continuou: &#8211; Mas&#8230; &eacute; que n&atilde;o desconfio.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Conhe&ccedil;o-o; e o que sei dele, como o que aprendi do seu, Sr.<br \/>\n    Daniel, levam-me a recusar.<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer que me n&atilde;o pode amar?<\/p>\n<p>&#8212; Sim&#8230; julgo que sim. Eu desconfio que nem tenho cora&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Eu sei l&aacute;! N&atilde;o o sinto bater, pelo menos. Bem v&ecirc; que n&atilde;o<br \/>\n    devo aceitar. Adeus.<\/p>\n<p>E com um singular sorriso nos l&aacute;bios saiu da sala, onde ficaram os<br \/>\n    dois, at&ocirc;nitos e silenciosos.<\/p>\n<p>Quem, naquele momento, pousasse a m&atilde;o no cora&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Margarida, como veria desmentidas as suas &uacute;ltimas palavras. <\/p>\n<h4><a name=\"38\">Cap&iacute;tulo XXXVIII<\/a><\/h4>\n<p> Chegou talvez para mim o momento do castigo &#8211; murmurou Daniel, passado algum<br \/>\n    tempo, depois de Margarida se retirar.<\/p>\n<p>&#8212; Que est&aacute; a dizer? &#8211; perguntou o reitor, olhando-o admirado.<\/p>\n<p>&#8212; Que talvez &agrave;quelas m&atilde;os, das quais at&eacute; hoje<br \/>\n    s&oacute; tem sa&iacute;do o bem, v&aacute; Deus confiar a arma de uma vingan&ccedil;a<br \/>\n    cruel.<\/p>\n<p>&#8212; De que maneira?<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o ouviu a firmeza daquela resposta?<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o? &Eacute; que eu tenho o pressentimento de que, se<br \/>\n    um dia se atear em mim uma paix&atilde;o violenta e fatal, e tiver de ser<br \/>\n    repelida assim, sucumbir&aacute; com ela este cora&ccedil;&atilde;o que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora adeus! Sabe os objetos que se partem batendo de encontro &agrave;s<br \/>\n    rochas? S&atilde;o os fortes e rijos; porque os outros, os moles, o mais que<br \/>\n    podem &eacute; tomar nova forma; quebrar &eacute; que n&atilde;o quebram;<br \/>\n    e o seu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; de umas branduras!<\/p>\n<p>&#8212; Reconhe&ccedil;o que o meu passado me n&atilde;o d&aacute; o direito<br \/>\n    de ofender-me da ironia; custa-me at&eacute; a entrar de novo em justifica&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que s&oacute; me valem sorrisos, mas..<\/p>\n<p>&#8212; Mas, ainda assim, sempre vai tentar mais uma vez &#8211; disse o reitor<br \/>\n    sorrindo. &#8211; Ora ande l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Ou&ccedil;a-me. &Eacute; uma triste confiss&atilde;o para o meu orgulho,<br \/>\n    a que vou fazer, mas &eacute; verdadeira. H&aacute; muito que tenho este pensamento;<br \/>\n    at&eacute; no tempo em que mais procurava evit&aacute;-lo, ele me acudia.<br \/>\n    &Eacute; por certo arriscado para qualquer mulher confiar em mim o seu amor,<br \/>\n    menos em um caso, que at&eacute; aqui se n&atilde;o dera ainda comigo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o qual &eacute; esse caso?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; se ela conseguir dominar-me; se a meus olhos se conservar<br \/>\n    sempre &agrave; altura que d&ecirc; &agrave; paix&atilde;o, que me inspirar<br \/>\n    a natureza de um culto. H&aacute; caracteres, para os quais &eacute; isto<br \/>\n    necessidade. De ordin&aacute;rio, todos os meus esfor&ccedil;os s&atilde;o<br \/>\n    despojar desses prest&iacute;gio, que me enleia, a mulher a quem amo; por&eacute;m,<br \/>\n    desde que o consigo, j&aacute; n&atilde;o respondo por mim. Sei-o por experi&ecirc;ncia.<br \/>\n    Mas, previa-o h&aacute; muito tempo, se me encontrar com uma destas naturezas<br \/>\n    superiores, para as quais nunca se extingue o resplendor que as rodeia, h&aacute;<br \/>\n    de fixar-se este cora&ccedil;&atilde;o vol&uacute;vel, e n&atilde;o haver&aacute;<br \/>\n    para elas o risco, de que das minhas afei&ccedil;&otilde;es lhe possam resultar<br \/>\n    l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>&#8212; E conclui da&iacute;? &#8211; perguntou o padre, no mesmo tom, quase zombeteiro,<br \/>\n    em que sustentava o di&aacute;logo.<\/p>\n<p>&#8212; Que Margarida n&atilde;o podia recear do meu amor. Eu, que duvidava<br \/>\n    j&aacute; que viesse a amar seriamente, porque me julguei superior a todo<br \/>\n    o predom&iacute;nio, hoje&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Hoje, mudou de opini&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; E mudei, creia-o. Nunca me conheci assim. Ainda antes de a ver, quando<br \/>\n    da sala imediata a estivemos escutando, n&atilde;o sei por qu&ecirc;, sentia<br \/>\n    ao ouvi-la, reviver todo o meu passado, a parte mais pura dele.<\/p>\n<p>&#8212; Sei eu &#8211; resmoncou para si o reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Depois que a vi, foram sensa&ccedil;&otilde;es novas para mim, as<br \/>\n    que experimentei. Eu, que por tantas vezes, e a sorrir, tenho dado passos<br \/>\n    na vida, que fazem recear os mais audazes; eu, que, para ser arrojado, n&atilde;o<br \/>\n    careci nunca do forte impulso de uma paix&atilde;o, pois me bastava o simples<br \/>\n    est&iacute;mulo de um capricho, hesitei h&aacute; pouco, como viu, ao fazer<br \/>\n    a proposta a que o dever e o cora&ccedil;&atilde;o me impeliam, hesitei de<br \/>\n    timidez, como se fosse um sacril&eacute;gio de minha parte. Depois, ao receber<br \/>\n    aquela recusa, pareceu-me sentir escurecer-se-me o futuro, e, pela primeira<br \/>\n    vez na minha vida, senti-me desalentado com este mau &ecirc;xito, em lugar<br \/>\n    de encontrar nele incitamento para persistir, como tantas vezes o tinha encontrado.<\/p>\n<p>&#8212; Desconfie dessas impress&otilde;es s&uacute;bitas e violentas, desconfie.<br \/>\n    Margarida tem raz&atilde;o. Eu pr&oacute;prio j&aacute; n&atilde;o me atreveria<br \/>\n    a aconselhar-lhe o contr&aacute;rio. &Eacute; melhor deixarmo-nos guiar pelas<br \/>\n    inspira&ccedil;&otilde;es daquela alma de anjo.<\/p>\n<p>&#8212; Mas se eu a amo?<\/p>\n<p>&#8212; Paix&atilde;o de quinze dias! &#8211; disse o reitor encolhendo os ombros.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, n&atilde;o, n&atilde;o. Sinto-me seguro desta vez a jurar-lhe&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o jure, &#8211; atalhou o padre &#8211; n&atilde;o jure nada, homem<br \/>\n    de Deus, que almas de outra t&ecirc;mpera, que n&atilde;o &eacute; a sua,<br \/>\n    t&ecirc;m falhado, depois de jurarem. Lembre-se do que diz o Evangelho: &quot;Seja<br \/>\n    o vosso falar: sim, sim, n&atilde;o, n&atilde;o. Porque tudo o que daqui passe,<br \/>\n    procede do mal&quot;. &#8211; Se n&atilde;o perder a id&eacute;ia desse amor, trabalhe<br \/>\n    por merec&ecirc;-lo; mas n&atilde;o fa&ccedil;a juras. Que, se alcan&ccedil;ar<br \/>\n    aquele cora&ccedil;&atilde;o, grande riqueza granjeia, isso lhe afirmo eu.<br \/>\n    E n&atilde;o tenha escr&uacute;pulos de se deixar dominar, que melhor &eacute;<br \/>\n    a cabe&ccedil;a de Margarida do que&#8230; Mas que fazemos ainda aqui? V&aacute;,<br \/>\n    v&aacute; ter com seu irm&atilde;o. E veja como se porta. N&atilde;o entre<br \/>\n    em grandes explica&ccedil;&otilde;es. Abrevie-as, quanto puder, que &eacute;<br \/>\n    o mais prudente.<\/p>\n<p>Daniel saiu da sala vagaroso e triste. O reitor, ficando s&oacute;, conservou-se<br \/>\n    por algum tempo pensativo.<\/p>\n<p>Esta t&aacute;cita medita&ccedil;&atilde;o acabou-a ele, murmurando n&atilde;o<br \/>\n    sei que mal distintas palavras, e depois, em tom mais percept&iacute;vel:<\/p>\n<p>&#8212; Contudo &eacute; pena. Remediava-se este enredo assim, e bem. Seria<br \/>\n    talvez uma provid&ecirc;ncia para o rapaz. E eu iria mais descansado deste<br \/>\n    mundo, a dar contas da minha tutela no outro aos pais das raparigas. Mas l&aacute;<br \/>\n    se a Margarida tem os seus escr&uacute;pulos&#8230; e a falar a verdade, com alguma<br \/>\n    raz&atilde;o; e depois, o que &eacute; mais e muito mais, se ela n&atilde;o<br \/>\n    se sente com inclina&ccedil;&atilde;o para a&iacute;? Aquilo &eacute; uma<br \/>\n    santa. Cora&ccedil;&atilde;o possui ela, mas para a caridade, que n&atilde;o<br \/>\n    para amores. Paci&ecirc;ncia!<\/p>\n<p>E, falando assim, caminhava lentamente o reitor de sala em sala, de corredor<br \/>\n    em corredor, at&eacute; se encontrar. quase sem saber de que maneira &#8211; t&atilde;o<br \/>\n    distra&iacute;do ia &#8211; junto do quarto de Margarida cuja porta viu meio aberta.<br \/>\n    Entrou.<\/p>\n<p>Ao rumor de seus passos, ergueu-se, de s&uacute;bito, uma mulher, que estava<br \/>\n    de joelhos no ch&atilde;o, e debru&ccedil;ada sobre o leito com em um genuflex&oacute;rio.<\/p>\n<p>Era Margarida.<\/p>\n<p>Colhida de improviso, n&atilde;o teve tempo de enxugar as l&aacute;grimas<br \/>\n    que em fio lhe corriam pelas faces descoradas. Em v&atilde;o se esfor&ccedil;ava<br \/>\n    por desvanecer com sorrisos o efeito daquelas l&aacute;grimas e da express&atilde;o<br \/>\n    de tristeza, que tinha profundamente gravada no semblante.<\/p>\n<p>O reitor surpreendeu-a assim e olhou para ela inquieto.<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute; isto? L&aacute;grimas? Choros? &#8211; exclamou ele, levantando-lhe<br \/>\n    a fronte, que Margarida inclinava, para esconder dos olhos do seu velho amigo<br \/>\n    aquele indiscreto pranto. &#8211; A&iacute;, filha, filha, que me dizias tu a pouco?<br \/>\n    Era ent&atilde;o mentira a indiferen&ccedil;a que asseguravas? Eu logo vi&#8230;<br \/>\n    Mas&#8230; valha-me&#8230; Deus&#8230; neste caso&#8230; para que fui eu?&#8230; Ent&atilde;o<br \/>\n    Margarida! &#8211; ent&atilde;o! &#8211; ent&atilde;o Nossa Senhora te valha, filha! N&atilde;o<br \/>\n    chores, olha que n&atilde;o sou teu amigo. Mas para que dizias tu?&#8230; Pois<br \/>\n    est&aacute; bem de ver, sempre custa&#8230; Vamos, sossega, mais vale dizer a<br \/>\n    verdade. Isto assim n&atilde;o tem jeito. Sossega. V&aacute; o mal a quem<br \/>\n    o toca. Nem todos podem ser santos. Os santos?&#8230; Os santos est&atilde;o nos<br \/>\n    altares, ora adeus. H&aacute; coisas que s&atilde;o superiores &aacute;s for&ccedil;as<br \/>\n    humanas. N&atilde;o chores, filha; isso at&eacute; &eacute; uma vergonha.<br \/>\n    Pedro &eacute; bom e perdoar&aacute; Clara, e, perdoando ele, quem tem o direito<br \/>\n    de condenar? E se n&atilde;o perdoar&#8230; n&atilde;o sei o que lhe fa&ccedil;a.<br \/>\n    Quem mal a cama faz, nela se deita: ora &eacute; muito boa! Quanto ao mundo&#8230;<br \/>\n    adeus, minha vida, o mundo &eacute; o mundo; importa l&aacute; o mundo! Era<br \/>\n    o que faltava se por causa dele te ias agora sacrificar. Na verdade, que valia<br \/>\n    a pena. Deixa estar, que tudo de h&aacute; de arranjar. Ver&aacute;s. Mas<br \/>\n    n&atilde;o chores; parece-me uma crian&ccedil;a! Ent&atilde;o, ent&atilde;o,<br \/>\n    Margarida? E a&iacute; est&aacute;s chorando mais.<\/p>\n<p>E o bom homem quase chorava tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Efetivamente. como a todos n&oacute;s sucede, quando dominados por a tristeza,<br \/>\n    encontramos um cora&ccedil;&atilde;o compadecido, uma voz meiga a pretender<br \/>\n    consolar-nos, quando reconhecemos verdadeira simpatia nas palavras de conforto<br \/>\n    que nos dirigem, cada vez era mais violenta a explos&atilde;o de sentimentos<br \/>\n    em Margarida, mais abundantes as l&aacute;grimas,, mais sufocadores os solu&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, Margarida, filha, ent&atilde;o?&#8230; &#8211; dizia o reitor,<br \/>\n    deveras aflito, e, tentando todos os meios de acalmar aquela dor, acrescentou,<br \/>\n    contra o seu costume: &#8211; Guida! Guida! Isso n&atilde;o &eacute; bonito.<\/p>\n<p>S&oacute; passados alguns momentos &eacute; que Margarida conseguiu falar,<br \/>\n    e, ainda com a voz entrecortada de solu&ccedil;os, disse para o reitor:<\/p>\n<p>&#8212; Perdoe-me, perdoe-me, por quem &eacute;. Mas n&atilde;o pude, n&atilde;o<br \/>\n    posso mais. N&atilde;o julgue que me arrependo do que fiz, que me lembro de<br \/>\n    recuar. Creia-me, pouco importa o mundo, o que dizem, o que vir&atilde;o a<br \/>\n    dizer. Pouco me importa.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o este choro?<\/p>\n<p>&#8212; Nem sei porque choro, eu mesmo n&atilde;o o sei. Mas faz-me bem o<br \/>\n    chorar. Deixe-me, deixe-me por piedade.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, minha orgulhosa, por que n&atilde;o aceitaste tu a proposta<br \/>\n    de Daniel?<\/p>\n<p>&#8212; Isso &eacute; que nunca! &#8211; exclamou com impetuosidade Margarida,<br \/>\n    e de novo lhe saltaram as l&aacute;grimas dos olhos.<\/p>\n<p>&#8212; E a&iacute; est&aacute;s a chorar cada vez mais! Mas isto n&atilde;o<br \/>\n    deve ficar assim. &Eacute; preciso dar-lhe rem&eacute;dio. Tua irm&atilde;<br \/>\n    n&atilde;o pode querer&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas se eu lhe juro que n&atilde;o choro por isso! Se eu lhe afian&ccedil;o<br \/>\n    que pouco me importa o mundo!<\/p>\n<p>&#8212; Mas, ent&atilde;o, &oacute; Virgem Santa, ent&atilde;o por que choras<br \/>\n    tu? Eu endoide&ccedil;o ainda hoje&#8230; endoide&ccedil;o. Sacrificas a tua reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para salvar a da Clara, e n&atilde;o choras por isso; tiveste na tua m&atilde;o<br \/>\n    o meio de remediar tudo, aceitando o leal oferecimento de Daniel, e que afinal<br \/>\n    o pobre rapaz fazia do cora&ccedil;&atilde;o, recusaste sorrindo. E agora<br \/>\n    venho encontrar-te neste estado, e dizes-me, e juras que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    nada! Recusas confiar-me a causa! Margarida, &eacute; preciso saber, quero<br \/>\n    saber por que choras assim!<\/p>\n<p>&#8212; Agora n&atilde;o posso, n&atilde;o sei at&eacute; dizer-lho. Se me<br \/>\n    estima, se me quer, como diz, n&atilde;o me pergunte nada; n&atilde;o. Deixe-me<br \/>\n    s&oacute;, pe&ccedil;o-lhe, por favor, por alma de minha m&atilde;e! Logo<br \/>\n    volte, e, quando voltar, ver&aacute; que me h&aacute; de achar contente, prometo-lhe.<br \/>\n    Que mais quer? Os abalos da noite passada causaram-me isto. N&atilde;o sei<br \/>\n    o que tenho. V&aacute;, pe&ccedil;o-lhe que v&aacute;. Ent&atilde;o n&atilde;o<br \/>\n    vai?<\/p>\n<p>O padre olhou por muito para ela, e depois, tomando o chap&eacute;u, saiu<br \/>\n    sem dar palavra, mas limpando uma l&aacute;grima tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Margarida, vendo-o sair, deixou-se cair outra vez de joelhos sufocada pelo<br \/>\n    choro.<\/p>\n<p>&#8212; Fraca! fraca! &#8211; dizia ente solu&ccedil;os &#8211; que n&atilde;o tive for&ccedil;as<br \/>\n    para me sustentar at&eacute; o fim! V&aacute;, v&aacute;, acabem de correr<br \/>\n    por uma vez estas l&aacute;grimas; e que sejam as &uacute;ltimas; que ningu&eacute;m<br \/>\n    mas veja mais nos olhos. A causa&#8230; a causa&#8230; Oh! essa ningu&eacute;m a h&aacute;<br \/>\n    de adivinhar.<\/p>\n<p>&#8212; Enganas-te, Guida. Adivinhei-a eu j&aacute;.<\/p>\n<p>Margarida ergueu-se de repente, ao escutar estas palavras, que foram ditas<br \/>\n    quase ao ouvido. Voltou-se. era Clara.<\/p>\n<p>&#8212; Que dizes, Clara, que est&aacute;s a dizer, filha?<\/p>\n<p>No rosto de Clara, onde uma pouca costumada tristeza se desenhava ainda,<br \/>\n    havia um ligeiro sorriso de mal&iacute;cia, da que se poder&aacute; chamar<br \/>\n    angelical, se alguma vez for l&iacute;cito associar estas palavras.<\/p>\n<p>&#8212; Digo que te adivinhei, Guida. Que mais queres? est&aacute;s descoberta,<br \/>\n    minha reservada. N&atilde;o tinhas confian&ccedil;a em tua irm&atilde;, e<br \/>\n    assim te perdias por uma pessoa de quem desconfiavas! &Eacute; a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de santa, &eacute;; mas eu te prometo que isto n&atilde;o h&aacute; de ficar<br \/>\n    assim.<\/p>\n<p>&#8212; Clara, tu n&atilde;o sabes o que dizes.<\/p>\n<p>&#8212; Escuta. Que promessas, que oferecimentos eram aqueles do&#8230; do Sr.<br \/>\n    Daniel? E por que n&atilde;o os aceitaste tu?<\/p>\n<p>&#8212; Clarinha!<\/p>\n<p>&#8212; Vamos. Eu ouvi tudo o que disse agora o Sr. Reitor. N&atilde;o mo<br \/>\n    queres dizer? Digo-te eu. Daniel prop&ocirc;s-te&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Basta, Clara, basta. Bem sabes que n&atilde;o aceitei.<\/p>\n<p>&#8212; E por qu&ecirc;? Isso mesmo &eacute; o que eu mais quero saber.<\/p>\n<p>&#8212; Porque&#8230; n&atilde;o devia aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o devias?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o devia. &Eacute;s tu a que me vens dizer que<br \/>\n    se pode, que se deve aceitar um esposo a quem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A quem? &#8211; interrogou Clara, fitando na irm&atilde;, um olhar inquisitorial.<\/p>\n<p>&#8212; A quem n&atilde;o &#8230; amamos?<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o &eacute; certo que n&atilde;o amas o Sr. Daniel? &#8211;<br \/>\n    perguntou Clara, conservando em Margarida o mesmo olhar, e demorando intencionalmente<br \/>\n    a articula&ccedil;&atilde;o de cada s&iacute;laba.<\/p>\n<p>&#8212; Que pergunta! &#8211; disse Margarida, abaixando os olhos confusa.<\/p>\n<p>&#8212; E ainda n&atilde;o queres que te ralhe? Ora ouve, Guida. Desde hoje<br \/>\n    que o desconfio. Passaste a noite na minha cabeceira. Eram tr&ecirc;s horas<br \/>\n    quando dormias, e eu estava acordada ent&atilde;o. Ora tu tamb&eacute;m tinhas<br \/>\n    febres, tamb&eacute;m sonhaste em voz alta, e alguma coisa disseste.<\/p>\n<p>&#8212; Que disse eu?- perguntou Margarida, com perturba&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Alguma coisa, algumas palavras soltas, certo nome, de que eu ao princ&iacute;pio<br \/>\n    fiz pouco ou nenhum caso, mas em que depois me deu para cismar. E tanto cismei,<br \/>\n    que afinal descobri, minha pobre Guida.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; Que esse teu cora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o era por fim, o que<br \/>\n    se supunha; n&atilde;o era o que eu e o que todos sup&uacute;nhamos. E olha<br \/>\n    que mais te quis por isso; porque eu gosto de quem tenha cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas enfim, que queres tu dizer?<\/p>\n<p>&#8212; Quero dizer que tu amas, que tu amavas, e, h&aacute; muito, o Sr.<br \/>\n    Daniel.<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute;s louca, filha?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o negues, ou ficamos de mal. Eu depois recordei-me do que<br \/>\n    dizia o Reitor, de que Daniel foram em pequeno o teu conversado. Muitas vezes<br \/>\n    te vi corar ainda, quando o Sr. Reitor, a rir, te ca&ccedil;oava com isso.<br \/>\n    Ora eu sei como tu &eacute;s&#8230; isto &eacute;, hoje &eacute; que me lembrei<br \/>\n    que tens um g&ecirc;nio singular, tu;. Eu podia esquecer-me da minha afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de crian&ccedil;a. Tu n&atilde;o, que tu tomas a s&eacute;rio. &Eacute; teu<br \/>\n    costume. Eu sei. Depois, certa maneira de falar&#8230; certo acanhamento&#8230; e<br \/>\n    as l&aacute;grimas de h&aacute; pouco&#8230; e as palavras de agora&#8230; e essa<br \/>\n    m&aacute; vontade com que me est&aacute;s&#8230; e esse olhar que se n&atilde;o<br \/>\n    atreve a levantar-se para mim&#8230; &eacute; certo, am&aacute;-lo; e por isso<br \/>\n    pergunto: por que recusaste o seu oferecimento?<\/p>\n<p>Margarida conservou-se por algum tempo silenciosa. Depois, por uma dessas<br \/>\n    resolu&ccedil;&otilde;es, que s&atilde;o raras em caracteres como o dela,<br \/>\n    mas, en&eacute;rgicas quando chegam a formar-se, disse com uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de desespero, revelado nas palavras, no gesto, nos movimentos, e tomando com<br \/>\n    &iacute;mpeto as m&atilde;os da irm&atilde;, que apertou convulsivamente nas<br \/>\n    suas:<\/p>\n<p>&#8212; Por qu&ecirc;? Queres sab&ecirc;-lo? Porque o amo. Entendeste agora?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o &#8211; respondeu Clara, que surpreendida por aquela exalta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o podia desviar os olhos do rosto de Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o v&ecirc;s, crian&ccedil;a &#8211; continuou esta &#8211; n&atilde;o<br \/>\n    v&ecirc;s, louca, que seria um mart&iacute;rio horr&iacute;vel, um tormento<br \/>\n    que nem se imagina aceitar a compaix&atilde;o do homem a quem se ama? Saber<br \/>\n    que s&oacute; para generosamente nos salvar a reputa&ccedil;&atilde;o, s&oacute;<br \/>\n    para isso, ele nos fez o sacrif&iacute;cio do seu futuro, das suas ambi&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    que se abaixou condo&iacute;do, para do ch&atilde;o nos levantar at&eacute;<br \/>\n    si! H&aacute; nada mais doloroso? Diz, desejas esse mart&iacute;rio? Conheces<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o de tua irm&atilde;, dizes tu; e pensas que ele n&atilde;o<br \/>\n    estalaria de ang&uacute;stia? E depois, se fosse s&oacute; isso; mas quem<br \/>\n    sabe? Um dia sempre entraria uma suspeita naquela alma; se a delicadeza fechasse<br \/>\n    os l&aacute;bios, l&aacute; estava o olhar talvez a revelar-lhe o pensamento<br \/>\n    secreto de que tudo isto em mim fora um prop&oacute;sito, interesseiro e vil,<br \/>\n    de abusar dos seus brios&#8230; Ai, Clara, e cuidas que se resistiria a esta id&eacute;ia?<br \/>\n    Cuidas que eu teria coragem para&#8230; Oh! deixa-me, deixa-me; fizeste-me j&aacute;<br \/>\n    dizer o que eu nem a mim mesma dissera ainda. Nunca mais me ouvir&aacute;s<br \/>\n    falar nisto, e, se &eacute; minha amiga, nuca mais me falar&aacute;s tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>E, dizendo estas palavras, saiu arrebatadamente do quarto. <\/p>\n<h4><a name=\"39\">Cap&iacute;tulo XXXIX<\/a><\/h4>\n<p> Ao abrir as janelas do seu quarto de dormir, e ao franquear os pulm&otilde;es<br \/>\n    ao ar fresco da madrugada, a Sr.&ordf; Teresa, a fiel esposa do nosso conhecido<br \/>\n    Jo&atilde;o da Esquina, recebera, de mistura com o perfume das flores, que<br \/>\n    andava nos ares, n&atilde;o sei que cheiro de esc&acirc;ndalo de lhe desafiar<br \/>\n    a curiosidade.<\/p>\n<p>Para estas coisas tinha inquestionavelmente a Sr.&ordf; Teresa um sexto sentido,<br \/>\n    apurado como nenhum dos outros.<\/p>\n<p>Segundo era seu costume, quando percebia em si tais manifesta&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    pegou na cesta da meia, e veio tomar assento por detr&aacute;s do mostrador,<br \/>\n    e entre as sacas de arroz da loja de seu marido.<\/p>\n<p>A menina Francisca, aquela mesma trigueira celebrada em octoss&iacute;labos<br \/>\n    por Daniel, viera sentar-se tamb&eacute;m ao lado da sua m&atilde;e. Era a<br \/>\n    primeira vez que tal sucedia depois dos epis&oacute;dios que terminaram as<br \/>\n    visitas do estouvado cl&iacute;nico.<\/p>\n<p>Com os seus olhos travessos, e o sorriso malicioso j&aacute; de volta aos<br \/>\n    bem talhados l&aacute;bios, valeu naquele dia aos pais uma aflu&ecirc;ncia<br \/>\n    maior de fregueses &agrave; loja.<\/p>\n<p>A cada nova personagem que entrava, a Sr.&ordf; Teresa dirigia, com um sorriso<br \/>\n    de afabilidade, a pergunta sacramental:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que se diz de novo?<\/p>\n<p>E de cada vez esperava achar justificativa a voz do instinto de esc&acirc;ndalo,<br \/>\n    que, naquela manh&atilde;, t&atilde;o alto berrava em si.<\/p>\n<p>Por muito tempo foram , por&eacute;m, malogradas estas esperan&ccedil;as.<\/p>\n<p>Mas, a&iacute; pelas nove horas, entrou na loja o sacrist&atilde;o da freguesia,<br \/>\n    a comprar cigarros &#8211; porque o Sr. Jo&atilde;o da Esquina, como &eacute; costume<br \/>\n    nas terras pequenas, vendia tudo, desde o doce de ch&aacute;, &agrave; vela<br \/>\n    de sebo; e os cigarros entravam tamb&eacute;m na lista dos objetos do seu<br \/>\n    neg&oacute;cio.<\/p>\n<p>Era este sacrist&atilde;o um rapaz de cara rapada, e tipo de velhacaria,<br \/>\n    sempre em olhares e suspiros diante da menina Francisca, em quem estes sintomas<br \/>\n    de afeto n&atilde;o encontravam demasiado agrado.<\/p>\n<p>&#8212; Ora aqui vem quem nos traz novidades fresquinhas &#8211; exclamou, ao v&ecirc;-lo<br \/>\n    entrar, a Sr.&ordf; Teresa que, apesar da opini&atilde;o que lhe ouvimos sobre<br \/>\n    o poder nutritivo das aparas de h&oacute;stias e escorralhas de galhetas,<br \/>\n    n&atilde;o era, ultimamente, de todo desfavor&aacute;vel &agrave;s pretens&otilde;es<br \/>\n    do sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; A Sr.&ordf; Teresa &eacute; que mas devia dar, &#8211; disse este &#8211; pois<br \/>\n    est&aacute; mais perto do s&iacute;tio onde elas ferveram.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o te entendo, Joaquim, ent&atilde;o que h&aacute;? &#8211; perguntou,<br \/>\n    j&aacute; ralada de curiosidade, e poisando a meia, a esposa do Sr. Jo&atilde;o;<br \/>\n    e os olhos daquela fam&iacute;lia toda convergiram para os l&aacute;bios do<br \/>\n    homem.<\/p>\n<p>Este sentiu-se lisonjeado com as aten&ccedil;&otilde;es, e muito principalmente<br \/>\n    com as da menina Francisca, cujo olhar fixo por pouco lhe fazia perder a frieza<br \/>\n    da &acirc;nimo.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o deveras n&atilde;o sabem o esc&acirc;ndalo desta noite?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; que houve?&#8230; Conta l&aacute; isso, Joaquim, conta l&aacute;.<\/p>\n<p>E o Sr. Jo&atilde;o da Esquina, no ardor da curiosidade, e para fazer a boca<br \/>\n    doce ao orador, trouxe-lhe uma m&atilde;o cheia de figos secos de uma seira<br \/>\n    encetada e rejeitada por fregu&ecirc;s pechoso; e a Sr.&ordf; Teresa esfregou<br \/>\n    as m&atilde;os, e ajeitou-se para ouvir melhor; e a menina Francisca puxou<br \/>\n    a cadeira em que estava para junto do mostrador.<\/p>\n<p>O sacrist&atilde;o principiou:<\/p>\n<p>&#8212; O filho do seu vizinho&#8230; o doutor novo&#8230;<\/p>\n<p>Neste ponto despediu um olhar certeiro &agrave; menina Francisca, a quem<br \/>\n    um acesso de tosse acometeu; a Sr.&ordf; Teresa espirrou, e o Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    deixou cair n&atilde;o sei o qu&ecirc;, e abaixou-se para apanhar o que deixou<br \/>\n    cair. O orador prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8212; Pois o tal Sr. doutorzinho&#8230; esteve para o levar o diabo esta noite.<\/p>\n<p>&#8212; Que me dizes, homem? &#8211; perguntou a Sr.&ordf; Teresa, j&aacute; debru&ccedil;ada<br \/>\n    no mostrador.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; verdade.<\/p>\n<p>&#8212; Mas como foi isso?<\/p>\n<p>&#8212; Foi o irm&atilde;o, o Pedro, que esteve para o matar.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, contos! &#8211; disse o Sr. Jo&atilde;o da esquina, encolhendo os<br \/>\n    ombros, a afetar uns ares de d&uacute;vida, mas dando um pau de canela ao<br \/>\n    sacrist&atilde;o que era perdido por gulodices.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; o que lhe digo &#8211; insistiu este, chupando a casca arom&aacute;tica.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o por qu&ecirc;?<\/p>\n<p>&#8212; A mim contou-me esta manh&atilde; a tia Br&aacute;sia, &agrave; missa<br \/>\n    primeira, que o Pedro pilhou o irm&atilde;o a sair da cada das do Meadas,<br \/>\n    e disparou contra ele a espingarda. A tia Br&aacute;sia afirmou-me que tinha<br \/>\n    ouvido o tiro.<\/p>\n<p>&#8212; Agora me lembro que tamb&eacute;m ouvi um tiro esta noite &#8211; disse<br \/>\n    a Sr.&ordf; Teresa; e acrescentou com a maior fleuma do mundo:- E matou-o?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, n&atilde;o o matou; mas julgo que o feriu.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se perde nada &#8211; disse laconicamente o Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; E &eacute; de perigo? &#8211; perguntou, um tanto inquieta, a menina Francisca.<\/p>\n<p>&#8212; Sossegue, menina &#8211; respondeu o sacrist&atilde;o, despeitado pelo<br \/>\n    tom da voz, em que ela dissera isto. &#8211; Sossegue, que, ainda que lhe tirasse<br \/>\n    um olho, ficava-lhe o outro para ver as raparigas da terra, que todas lhe<br \/>\n    fazem conta.<\/p>\n<p>A petul&acirc;ncia foi repelida por a menina com um gesto de soberano desd&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o&#8230; &#8211; continuou a m&atilde;e &#8211; diz-me c&aacute;,<br \/>\n    ent&atilde;o o Daniel tinha assim entrada em casa das do Meadas? Como se entende<br \/>\n    isso?<\/p>\n<p>&#8212; Ora, como se entende isso? Pois n&atilde;o conhece ainda aquele melro?<\/p>\n<p>&#8212; Mas era com a Clarita ent&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Pelos modos, era com a Margarida, ao que dizem, mas &#8230; eu por mim,<br \/>\n    inclino-me a crer que era com ambas &#8211; respondeu o sacrist&atilde;o, com a<br \/>\n    firmeza do historiador cr&iacute;tico, que decide ecleticamente entre duas<br \/>\n    vers&otilde;es de um fato controvertido.<\/p>\n<p>&#8212; Com a Margarida?! &#8211; exclamou Jo&atilde;o da Esquina. &#8211; Pois com aquela<br \/>\n    cara de Nossa Senhora de Soledade&#8230; aqueles ares de Santa&#8230; Eu sempre vejo<br \/>\n    coisas!<\/p>\n<p>&#8212; S&atilde;o as piores &#8211; sentenciou a esposa. &#8211; Bem me fio eu em santidades.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o sei como se pode gostar daquilo &#8211; disse desdenhosamente<br \/>\n    a menina Francisca.<\/p>\n<p>&#8212; Deixe l&aacute;, menina &#8211; notou com ironia o sacrist&atilde;o, ainda<br \/>\n    despeitado. &#8211; A Margarida n&atilde;o &eacute; para desprezar assim. &Eacute;<br \/>\n    trigueirinha, mas n&oacute;s todos sabemos que Daniel n&atilde;o desgosta<br \/>\n    delas, ainda mais trigueiras.<\/p>\n<p>Francisca mordeu os bei&ccedil;os ao escutar a alus&atilde;o, e espetou a<br \/>\n    agulha no novelo de linhas; o pai lan&ccedil;ou ao sacrist&atilde;o um olhar<br \/>\n    furibundo, e descarregou com o martelo uma forte pancada nos pintos falsos,<br \/>\n    que, para escarmenta de velhacos, tinha cravados no mostrador; e a pr&oacute;pria<br \/>\n    Sr.&ordf; Teresa armou-se de um sorriso constrangido, pouco animador para<br \/>\n    o sacrist&atilde;o, e ao mesmo tempo apertou nervosamente uma orelha ao gato<br \/>\n    malt&ecirc;s, que dormitava acocorado junto dela, sobre uma saca de arroz.<\/p>\n<p>Muda, mas expressiva linguagem simb&oacute;lica, que se podia traduzir assim:<\/p>\n<p>A menina Francisca &#8211; Tinha alma de atravessar o cora&ccedil;&atilde;o com<br \/>\n    esta agulha, maldito.<\/p>\n<p>O Sr. Jo&atilde;o da Esquina &#8211; N&atilde;o sei o que me cont&eacute;m, que<br \/>\n    te n&atilde;o quebre com este martelo quantos dentes tens na boca, brejeiro.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa &#8211; O que tu merecias era um pux&atilde;o de orelhas, bem<br \/>\n    puxado, maroto.<\/p>\n<p>No entretanto, o sacrist&atilde;o prosseguia, imperturbavelmente:<\/p>\n<p>&#8212; A tia Br&aacute;sia disse-me que havia muito que o Daniel n&atilde;o<br \/>\n    largava a porta das do Meadas. E isso &eacute; fato. Pelos modos, o Pedro<br \/>\n    soube-o, e ent&atilde;o, se lho n&atilde;o tiravam das m&atilde;os, dava cabo<br \/>\n    dele.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o sempre havia alguma coisa com a Clara tamb&eacute;m?<br \/>\n    &#8211; insistiu a Sr.&ordf; Teresa, a quem a opini&atilde;o cr&iacute;tica do sacrist&atilde;o<br \/>\n    agradava, por mais escandalosa.<\/p>\n<p>&#8212; Pois isso para mim &eacute; de f&eacute; &#8211; disse o sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>Por este tempo tinha entrado na loja um jornaleiro, o qual, tendo ouvido<br \/>\n    as &uacute;ltimas palavras do di&aacute;logo, percebeu logo do que se tratava.<\/p>\n<p>&#8212; Houve mosquitos por cordas esta noite l&aacute; para as minhas bandas,<br \/>\n    houve &#8211; disse o homem com um sorriso malicioso.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! tamb&eacute;m j&aacute; sabe? &#8211; perguntou o sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ora se j&aacute; sei! Pois eu n&atilde;o estive l&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; Ai, pois viu?<\/p>\n<p>Os quatro, que em comum fizeram esta pergunta, fitaram avidamente os olhos<br \/>\n    do jornaleiro.<\/p>\n<p>&#8212; Eu lhe digo &#8211; disse o homem, tirando o chap&eacute;u e co&ccedil;ando<br \/>\n    na cabe&ccedil;a. &#8211; Eu tinha chegado de fora, havia meia hora. Tinha sido<br \/>\n    rogado para uns trabalhos a&iacute; para longe. Por sinal, que me pagaram<br \/>\n    como a cara deles. Sempre lhe digo, Sr. Jo&atilde;o, que isto de jornais est&aacute;<br \/>\n    uma pouca vergonha. Deu o que tinha a dar. Eu lembro-me dantes&#8230; Mas vamos<br \/>\n    ao caso, eu chegava a casa; e tinha dito l&aacute; &agrave; minha patroa&#8230;<br \/>\n    que, coitada, tamb&eacute;m n&atilde;o tem andado l&aacute; essas coisas,<br \/>\n    n&atilde;o &#8211; mas tinha-lhe eu dito que me fritasse uns ovos com presunto &#8211;<br \/>\n    e deixe-me dizer, que os ovos este ano tamb&eacute;m s&atilde;o uma peste.<br \/>\n    Parece que deu o arejo nas galinhas. Diabos as levem. Daqui a pouco, da maneira<br \/>\n    que isto vai, ficamos sem ter que comer e a fazer cruzes na boca. Mas estava<br \/>\n    l&aacute; a minha patroa a fritar-me os ovos&#8230; &Eacute; verdade, &oacute;<br \/>\n    Sr. Jo&atilde;o, que diabo de azeite me deu vossemec&ecirc; o outro dia, que<br \/>\n    nem a m&atilde;o de Deus padre se pode levar.<\/p>\n<p>&#8212; Homem, pois ningu&eacute;m mais se me tem queixado dele. &Eacute;<br \/>\n    voc&ecirc; o primeiro.<\/p>\n<p>As mulheres e o sacrist&atilde;o come&ccedil;avam a impacientar-se.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o sei o que lhe acho, sabe-me a chap&eacute;u velho,<br \/>\n    o maldito. Mas estava l&aacute; a minha Quit&eacute;ria ao lume, eis sen&atilde;o<br \/>\n    quando eu ou&ccedil;o uns gritos de &quot;Aqui del-rei&quot;.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o eles gritaram &quot;Aqui del-rei&quot;?<\/p>\n<p>&#8212; Que os ouvi eu, sim senhor, tal qual. Pus-me logo na rua. Porque<br \/>\n    eu c&aacute; sou assim. Olhe o Sr. Jo&atilde;o, quando foi daquela espera,<br \/>\n    que fizeram ao escriv&atilde;o da fazenda, eu l&aacute; estava.<\/p>\n<p>&#8212; Na espera? &#8211; perguntou o sacrist&atilde;o, em tom de zombaria.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o que eu n&atilde;o sou desses &#8211; respondeu o jornaleiro<br \/>\n    carregando a sobrancelha &#8211; quando quero fazer mal a algu&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    me escondo. Vou ter com ele, esteja onde estiver, na sacristia que seja. Ora<br \/>\n    fique sabendo, que pode ser que lhe sirva.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o acaba ou n&atilde;o acaba a sua hist&oacute;ria, Sr.<br \/>\n    Manuel? &#8211; disse a Sr.&ordf; Teresa, desfazendo a altera&ccedil;&atilde;o nascente.<\/p>\n<p>&#8212; Salto para a rua &#8211; continuou o jornaleiro &#8211; e como o barulho vinha<br \/>\n    do lado dos Juncais, tomei por l&aacute;. Vi-me em cal&ccedil;as pardas. N&atilde;o<br \/>\n    fazem id&eacute;ia como est&aacute; aquilo nos Juncais. Uma coisa &eacute;<br \/>\n    ver, e outra &eacute; dizer. Sempre temos uma C&acirc;mara, louvado seja Deus!<br \/>\n    Deixa estar aquele mar nos Juncais&#8230; porque &eacute; um mar, sem tirar nem<br \/>\n    p&ocirc;r. Eu queria que a Sr.&ordf; Teresa passasse por l&aacute; de noite,<br \/>\n    como eu, que sempre havia de dar ao diabo a cardada.<\/p>\n<p>&#8212; Mas depois que viu? &#8211; perguntou a Sr.&ordf; Teresa exausta de paci&ecirc;ncia<br \/>\n    com as intermin&aacute;veis digress&otilde;es do orador; e acrescentou baixinho:<br \/>\n    &#8211; Sume-te demo mau!<\/p>\n<p>&#8212; Quando cheguei perto da casa das do Meadas, passou por mim um homem,<br \/>\n    e eu meti-me num canto para, se fosse preciso, agarr&aacute;-lo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Deix&aacute;-lo fugir &#8211; continuou impenitentemente o sacrist&atilde;o<br \/>\n    sorrindo.<\/p>\n<p>O Manuel do Alpendre, que era a gra&ccedil;a do jornaleiro, nem se dignou<br \/>\n    a responder. continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Vi que era o Daniel ou o diabo por ele, mas pareceu-me que levava<br \/>\n    alguma coisa quebrada. Ia assim como a mancar. Olhe que sempre se vai saindo<br \/>\n    o tal, menino! Eu digo, que se ele escapa de tantas que faz! Mas h&aacute;<br \/>\n    gente assim! Uns a cavar p&eacute;s de burro por este mundo, outros ent&atilde;o<br \/>\n    a levar a vida com uma perna &agrave;s costas. Este &eacute; um dos que parece<br \/>\n    ter nascido em um fole, o tal Sr. Daniel&#8230; Bem fez c&aacute; o Sr. Jo&atilde;o,<br \/>\n    em lhe fechar a porta na cara, e p&ocirc;r termo &agrave;s visitas que ele<br \/>\n    fazia por aqui; j&aacute; se sabe por que, sim, j&aacute; &agrave; boca cheia<br \/>\n    se dizia&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vamos ao caso, vamos ao caso &#8211; interrompeu a Sr.&ordf; Teresa &#8211; Voc&ecirc;<br \/>\n    que fez depois?<\/p>\n<p>&#8212; Eu? Segui o caminho e cheguei &agrave; porta das raparigas. estava<br \/>\n    j&aacute; l&aacute; o Pedro do Abade, o Jo&atilde;o das Pontes, o tio Gaud&ecirc;ncio<br \/>\n    das Luzes&#8230; por sinal que anda escangalhado o velho. Perdig&atilde;o perdeu<br \/>\n    a pena, n&atilde;o h&aacute; mal que lhe n&atilde;o venha. N&atilde;o sei<br \/>\n    que diabo aquilo &eacute;. Eu ponho as m&atilde;os numas Horas, se o homem<br \/>\n    deita o ano fora. Quem viver, ver&aacute;. Mas vai, chego-me a ele&#8230; &quot;&Oacute;<br \/>\n    tio Gaud&ecirc;ncio, digo-lhe eu, que &eacute; isto aqui?&quot; &#8211; Olha, diz-me<br \/>\n    ele. &#8211; E vai, eu olho, e vejo o Pedro das Dornas com uma espingarda na m&atilde;o,<br \/>\n    e o Sr. Reitor ao p&eacute; dele, e no ch&atilde;o uma mulher.<\/p>\n<p>&#8212; Morta? &#8211; perguntou com vivacidade a Sr.&ordf; Teresa.<\/p>\n<p>&#8212; Morta n&atilde;o, senhora. A mulher estava viva.<\/p>\n<p>&#8212; Mas o tiro que ele deu?<\/p>\n<p>&#8212; Eu j&aacute; disso n&atilde;o sei!&#8230; Pois ele deu algum tiro?<\/p>\n<p>&#8212; Pois eu n&atilde;o ouvi um tiro? &#8211; disse a Sr.&ordf; Teresa. &#8211; E<br \/>\n    n&atilde;o fui eu s&oacute;, houve mais quem ouvisse.<\/p>\n<p>&#8212; Que ele tinha a espingarda, isso l&aacute;, tinha.<\/p>\n<p>&#8212; E deu o tiro; n&atilde;o tem d&uacute;vida que deu. Mas ent&atilde;o<br \/>\n    era a Clara?<\/p>\n<p>&#8212; Nada, n&atilde;o era; era a irm&atilde;, a mestra. Eu bem a vi. E<br \/>\n    vai ao depois, o Sr. Reitor n&atilde;o sei o que disse e tal, sim senhores,<br \/>\n    e pega e vai ao Pedro e manda-o embora, e volta-se para o, povo que por ali<br \/>\n    estava, e manda-o tamb&eacute;m embora, dizendo que n&atilde;o dessem &agrave;<br \/>\n    l&iacute;ngua; e com raz&atilde;o, porque a rapariga &eacute; bem afamada,<br \/>\n    e, se se principiasse agora por a&iacute; a falar&#8230; Sempre me h&aacute; de<br \/>\n    lembrar que quando minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas o Pedro o que disse &agrave; sa&iacute;da?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o disse nada. Parecia nem dar por a gente. Ia assim a modo<br \/>\n    de estarrecido. Se lhe parece! Sempre um homem &agrave;s vezes se encontra<br \/>\n    nelas boas! Uma ocasi&atilde;o tinha eu ido&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas ent&atilde;o est&aacute; bem certo que era a Margarida a que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora se era! Pois eu n&atilde;o conhe&ccedil;o a Margarida? Ainda<br \/>\n    o pai era vivo, que eu, indo um dia com ele a uma patuscada&#8230; que n&oacute;s<br \/>\n    d&aacute;vamo-nos muito; a&iacute; est&aacute; que, faz pelo S. Martinho doze<br \/>\n    anos&#8230; Dantes &eacute; que o S. Martinho era S. Martinho&#8230; Lembra-se, Sr.<br \/>\n    Jo&atilde;o, daquela vez que n&oacute;s fomos todos?&#8230; que tempo! Ainda era<br \/>\n    vivo o tio Andr&eacute; de Mortosa&#8230; Que homem t&atilde;o divertido! Aquilo<br \/>\n    era uma coisa por maior&#8230; pois quando ele ia de serandeiro &agrave;s esfolhadas!<br \/>\n    Dantes sim, &eacute; que se faziam esfolhadas&#8230; Agora j&aacute; se n&atilde;o<br \/>\n    fazem que se prestam&#8230; A&iacute; est&aacute; que eu fui no outro dia &agrave;<br \/>\n    do Dami&atilde;o&#8230; pois, senhores, parecia-me um enterro&#8230; Ele tamb&eacute;m<br \/>\n    teve fraco S. Miguel este ano&#8230; O homem n&atilde;o sabe dar amanho &aacute;s<br \/>\n    terras&#8230; As terras querem-se bem tratadas, n&atilde;o h&aacute; que ver&#8230;<br \/>\n    &Eacute; como uma pessoa; quem n&atilde;o tem o sustento devido n&atilde;o<br \/>\n    pode medrar. Olhem aquela rapariga, filha da Jo&atilde;o Ferreiro&#8230; Quem<br \/>\n    a viu e quem a v&ecirc;.<\/p>\n<p>E, de incidente em incidente, corria &agrave; vela cheia o pensamento de<br \/>\n    Manuel do Alpendre pelo vasto mar de suas recorda&ccedil;&otilde;es, afastando-se<br \/>\n    cada vez mais do assunto primitivo, e cada vez desesperando mais a curiosidade<br \/>\n    do audit&oacute;rio.<\/p>\n<p>O sacrist&atilde;o cortou o fio da digress&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas a&iacute; vem quem nos pode dar informa&ccedil;&otilde;es exatas<br \/>\n    &#8211; disse ele, vendo entrar na loja nova personagem.<\/p>\n<p>Era uma mulher cor de cera, muito macilenta, de olhos meio fechados, e sorriso<br \/>\n    de beatitude nos l&aacute;bios. Usava o cabelo curto penteado para diante<br \/>\n    da testa, a qual ficava coberta por ele at&eacute; &agrave;s sobrancelhas;<br \/>\n    cingia-lhe a cabe&ccedil;a um len&ccedil;o branco, posto &agrave; maneira<br \/>\n    de barrete; sobre o primeiro, outro de cor escura, atado por baixo da barba,<br \/>\n    e puxado para diante, at&eacute; deixar-lhe o rosto como no fundo de uma gruta,<br \/>\n    e, ainda por cima, a capa de baeta, sem cabe&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Das m&atilde;os pendia constantemente um comprido ros&aacute;rio.<\/p>\n<p>Era enfim um desses tipos de beata, comuns nas nossas aldeias; mulheres cuja<br \/>\n    vida se passa em devo&ccedil;&otilde;es cont&iacute;nuas, em novenas e vias-sacras,<br \/>\n    e em perene confiss&atilde;o; obra dos gordos mission&aacute;rios, que deixam<br \/>\n    a outros o cuidado de desbravar a gentilidade das nossas possess&otilde;es,<br \/>\n    para andar na tarefa mais c&ocirc;moda de tolher o trabalho e a atividade<br \/>\n    na casa do lavrador.<\/p>\n<p>Imbuindo o esp&iacute;rito das mulheres de preceitos de devo&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    absurda, afastam-nas do ber&ccedil;o dos filhos, da cabeceira do marido enfermo,<br \/>\n    do lar dom&eacute;stico, para as trazer ajoelhadas pelos confession&aacute;rios<br \/>\n    e sacristias; com uma brava eloq&uuml;&ecirc;ncia, perigosa para quem n&atilde;o<br \/>\n    tiver o senso preciso para a achar rid&iacute;cula, incutem-lhe falsas doutrinas<br \/>\n    desmentidas e condenadas em cada p&aacute;gina do Evangelho, t&atilde;o severo<br \/>\n    sempre contra fariseus e hip&oacute;critas.<\/p>\n<p>Numa localidade, n&atilde;o muito distante do Porto, ainda h&aacute; pouco<br \/>\n    um desses ap&oacute;stolos, que andam por a&iacute; reformando escandalosamente<br \/>\n    a moral dos povos, pregou do p&uacute;lpito &quot;que a salva&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um homem casado era t&atilde;o dif&iacute;cil, como o aparecimento de um<br \/>\n    corvo branco&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; triste e desconsolador o aspecto da terra, onde esta praga farisaica<br \/>\n    tem feito maiores estragos. A alegria do povo, esse reflexo de alegria das<br \/>\n    mulheres, porque das m&atilde;es se reflete nos filhos, das esposas nos maridos,<br \/>\n    das raparigas nos amantes, desaparece pouco a pouco.<\/p>\n<p>Com os trajos escuros, os cabelos cortados, os olhos baixos, as mulheres<br \/>\n    t&ecirc;m por pecado rir; o cantar como um crime; ou se cantam, s&atilde;o<br \/>\n    umas certas cantigas do Divino, ensinadas pelos mission&aacute;rios, nas quais<br \/>\n    a austeridade do conceito nem sempre &eacute; mais respeitada do que a eufonia<br \/>\n    da forma. Algumas ouvi eu, em que a vinda de mission&aacute;rios era saudada<br \/>\n    com um vigor de imagens quase oriental; eram arremedos grosseiros do C&acirc;ntico<br \/>\n    dos C&acirc;nticos, que fariam rir, se lhes n&atilde;o percebessem piores<br \/>\n    inten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>E, no meio destas ostenta&ccedil;&otilde;es de ascetismo, quantas vezes se<br \/>\n    esconde folgada a devassid&atilde;o, que n&atilde;o d&uacute;vida ornar o<br \/>\n    pesco&ccedil;o de cam&acirc;ndulas e bentinhos, e v&ecirc; na excita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nervosa, produzida pelos jejuns, um alimento a favorec&ecirc;-la?<\/p>\n<p>O horror ao esc&acirc;ndalo, eis o que caracteriza esta moral de Tartufo.<br \/>\n    Salvem-se as apar&ecirc;ncias , rezem-se as devo&ccedil;&otilde;es todas,<br \/>\n    e a culpa ser&aacute; atenuada.<\/p>\n<p>Traz-se, por exemplo, o pulso cingido por uma cadeia de a&ccedil;o benzida<br \/>\n    de certa forma &#8211; distintivo das escravas de Nossa Senhora &#8211; cadeia milagrosa,<br \/>\n    que, asseguram os mission&aacute;rios por l&aacute;, tem a propriedade de<br \/>\n    se alargar ou apertar de per si, de modo a andar sempre justa ao bra&ccedil;o,<br \/>\n    quer este engorde, quer emagre&ccedil;a; pois j&aacute; o diabo n&atilde;o<br \/>\n    se atreve contra quem usa este talism&atilde;.<\/p>\n<p>Ora digam se, quando n&atilde;o seja sen&atilde;o para aperrear o diabo,<br \/>\n    n&atilde;o d&aacute; logo vontade de experimentar a efic&aacute;cia da cadeia<br \/>\n    cometendo um delito?<\/p>\n<p>Era pois a Sr.&ordf; Josefa da Gra&ccedil;a a mais famigerada verg&ocirc;ntea<br \/>\n    deste viveiro de aspirantas a santas, que se estava organizando na aldeia.<br \/>\n    O reitor, que n&atilde;o era para imposturas, tratava-as a todas com aspereza,<br \/>\n    o que n&atilde;o lhe granjeava muitas simpatias neste beato congresso.<\/p>\n<p>&#8212; Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo &#8211; disse ao entrar na loja,<br \/>\n    e com voz dolentemente melodiosa, a santa de que falamos.<\/p>\n<p>&#8212; Para sempre seja o Senhor louvado &#8211; respondeu-lhe menos beatamente<br \/>\n    a Sr.&ordf; Teresa.<\/p>\n<p>&#8212; Faz-me favor de me vender duas velinhas de cera para uma promessa<br \/>\n    que fiz ao Divino Cora&ccedil;&atilde;o de Maria, Sr. Jo&atilde;o, e que seja<br \/>\n    pelas Divinas Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o da Esquina satisfez prontamente a requisi&ccedil;&atilde;o, mas<br \/>\n    enquanto o fazia, perguntou:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que houve esta noite l&aacute; pelas suas vizinhan&ccedil;as,<br \/>\n    ti&#8217;Zefa?<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei, filho? Eu de portas para fora nada posso dizer. J&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; pouco tratar cada um da sua alma, e dirigi-la no caminho<br \/>\n    do C&eacute;u. O Padre Jos&eacute; ainda ontem o disse.<\/p>\n<p>&#8212; Pois sim; mas, quando se faz muito barulho na rua, sempre se abre<br \/>\n    um cantinho da janela &#8211; disse Jo&atilde;o da Esquina, piscando o olho para<br \/>\n    o sacrist&atilde;o, que lhe sorriu em resposta. <\/p>\n<p>&#8212; Abrir a janela? Para que h&aacute; de uma pessoa abrir a janela?<br \/>\n    Para se meter em trabalhos? N&atilde;o que eu, filho, todas as noites rezo<br \/>\n    ao meu devoto padre Santo Ant&ocirc;nio, para que me livre de perigos e de<br \/>\n    trabalhos, de maus vizinhos de ao p&eacute; da porta, e de ferros de el-rei.<\/p>\n<p>&#8212; Mas pelos modos o santo n&atilde;o a tem ouvido, porque enquanto<br \/>\n    a maus vizinhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nem por isso a deixam dormir, n&atilde;o &eacute; assim, ti&#8217;Zefa?<br \/>\n    &#8211; perguntou a Sr.&ordf; Teresa, entrando na conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Vizinhos&#8230; o que se diz vizinhos, n&atilde;o tenho eu; a casa mais<br \/>\n    perto &eacute; das pequenas do Meadas, e dessa &agrave; minha ainda &eacute;<br \/>\n    um bocadinho.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ouvia-se l&aacute; o barulho?&#8230; perguntou o sacrist&atilde;o.<\/p>\n<p>A beata fez um gesto afirmativo e acrescentou.<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Sr. Joaquim, pecados deste mundo, sabe?<\/p>\n<p>&#8212; Vamos l&aacute;. A ti&#8217;Zefa sempre tem inclina&ccedil;&atilde;o pelas<br \/>\n    raparigas. S&atilde;o suas conhecidas h&aacute; muito tempo e por isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Eu?! Olhe ainda esta manh&atilde; o disse o Padre Jos&eacute;, aquilo<br \/>\n    s&atilde;o tenta&ccedil;&otilde;es do dem&ocirc;nio, sabe o Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    da Esquina o que s&atilde;o tenta&ccedil;&otilde;es do dem&ocirc;nio; pois<br \/>\n    &eacute; aquilo. N&atilde;o que dizem que n&atilde;o vale nada ser escrava<br \/>\n    de Nossa Senhora. N&atilde;o, n&atilde;o vale, J&aacute; se est&aacute; a<br \/>\n    ver. As coisas est&atilde;o a saltar aos olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, afinal que houve? O caso foi com a Clara ou com a irm&atilde;?<\/p>\n<p>A pergunta era feita pelo sacrist&atilde;o, por quem a beata tinha essas<br \/>\n    contempla&ccedil;&otilde;es, e por isso respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Foi com a Margarida, Sr. Joaquim. Aquilo estava de ver! Ent&atilde;o<br \/>\n    admirou-se? Pois olhe, eu&#8230; A gente n&atilde;o deve murmurar do seu pr&oacute;ximo,<br \/>\n    mas enfim&#8230; isto &eacute; por conversar e n&atilde;o passa daqui. Aquela<br \/>\n    rapariga vai mal; ainda hoje mo disse o Padre Jos&eacute;; tirando l&aacute;<br \/>\n    a sua missa ao domingo, j&aacute; ningu&eacute;m a v&ecirc; mais na igreja.<br \/>\n    Olhe a Sr.&ordf; Teresa que, ali onde se v&ecirc;, n&atilde;o quis pertencer<br \/>\n    &agrave; confraria do Sagrado Cora&ccedil;&atilde;o de Maria! J&aacute; viram?<br \/>\n    Mas, como disse o Sr. Padre Jos&eacute;, e &eacute; assim, a culpa n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; dela.<\/p>\n<p>&#8212; O nosso reitor &eacute; quem a aconselha &#8211; insinuou Jo&atilde;o da<br \/>\n    Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Julgo que sim, Sr. Jo&atilde;o, e&#8230; Enfim, dada um sabe de si, e<br \/>\n    Deus de todos, mas a falar a verdade&#8230; &#8211; isto n&atilde;o &eacute; agora por<br \/>\n    dizer do Sr. Reitor, que &eacute; muito boa pessoa, assim n&atilde;o fosse<br \/>\n    aquela zanga que ele tem ao Padre Jos&eacute; e &agrave; confraria; mas que<br \/>\n    ele n&atilde;o as traz bem guiadas, isso n&atilde;o traz&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas vamos a saber &#8211; disse interrompendo-a, a Sr.&ordf; Teresa, e<br \/>\n    tomando um tom de &iacute;ntima familiaridade, que provou admiravelmente,<br \/>\n    em soltar a l&iacute;ngua &agrave; beata &#8211; mas se o caso era com Margarida<br \/>\n    s&oacute;, como &eacute; ent&atilde;o que o Pedro quis matar o irm&atilde;o?<br \/>\n    Que tinha o Pedro com isso?<\/p>\n<p>&#8212; Pelos modos &#8211; disse o jornaleiro, que estivera calado &#8211; ele julgou<br \/>\n    ao princ&iacute;pio que era Clara, e&#8230; Faz-me lembrar quando, h&aacute; de<br \/>\n    fazer tr&ecirc;s anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nada, n&atilde;o, senhor, n&atilde;o foi isso &#8211; emendou a beata.<br \/>\n    &#8211; O que me disseram foi que a Margarida quis lan&ccedil;ar as culpas &agrave;<br \/>\n    Clara, que foi ent&atilde;o que o Pedro espetou a navalha no irm&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o ele espetou-lhe alguma navalha? &#8211; perguntou a menina<br \/>\n    Francisca.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n&atilde;o espetou? E diz que, por pouco, lhe chegava ao cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Santo nome de Jesus! Isso &eacute; crime de degredo, pelo menos.<\/p>\n<p>E, dizendo isto, a Sr.&ordf; Teresa parecia satisfeita por o esc&acirc;ndalo<br \/>\n    ir assumindo maiores propor&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O jornaleiro notou do lado:<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; ti&#8217;Zefa, isto &eacute; que me n&atilde;o parece verdade.<br \/>\n    Eu julgo que ele nem o feriu.<\/p>\n<p>&#8212; Pois eu n&atilde;o vi, Sr. Manuel?<\/p>\n<p>&#8212; Com as janelas fechadas, ti&#8217;Zefa?<\/p>\n<p>A beata mordeu os bei&ccedil;os.<\/p>\n<p>&#8212; Vi esta manh&atilde; o sangue, &eacute; o que eu queria dizer. E<br \/>\n    por sinal que n&atilde;o era t&atilde;o pouco.<\/p>\n<p>&#8212; Quem havia de dizer que aquela sonsinha da Margarida&#8230; observou<br \/>\n    o tendeiro.<\/p>\n<p>Neste ponto entraram na loja mais alguns fregueses que j&aacute; informados<br \/>\n    do que se passava prestaram logo ouvidos &agrave; conversa.<\/p>\n<p>Entre eles achava-se tamb&eacute;m a criada de Jo&atilde;o Semana, a qual<br \/>\n    viera comprar arroz para o jantar de seu amo.<\/p>\n<p>N&atilde;o foi de todo audit&oacute;rio a menos atenta esta nossa conhecida;<br \/>\n    mas uma contra&ccedil;&atilde;o de l&aacute;bios e sobrancelhas , e o olhar<br \/>\n    que fixou na beata mostravam que n&atilde;o era de &acirc;nimo satisfeito,<br \/>\n    que ela escutava os boatos daquela manh&atilde;.<\/p>\n<p>A confessada do Padre Jos&eacute; continuava:<\/p>\n<p>&#8212; Olhe, Sr. Jo&atilde;o da Esquina, isto de viver assim ao deus-dar&aacute;,<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; l&aacute; grande coisa. Aquilo naquela casa &eacute; uma<br \/>\n    rep&uacute;blica, sabe? Falta ali uma pessoa de ju&iacute;zo e de temor a<br \/>\n    Deus. O Sr. Reitor&#8230; enfim, eu n&atilde;o quero dizer mais nada.<\/p>\n<p>&#8212; Pois &eacute; pena &#8211; resmungou a Sr.&ordf; Joana.<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; assim, ti&#8217;Zefa, &eacute; assim. O Sr. Reitor d&aacute; toda<br \/>\n    a liberdade &agrave;quelas raparigas. Aquilo mais tarde ou mais cedo estava<br \/>\n    para suceder &#8211; disse a Sr.&ordf; Teresa.<\/p>\n<p>&#8212; Melhor tu olhasses por o que te vai por casa &#8211; continuava a resmonear<br \/>\n    Joana.<\/p>\n<p>&#8212; Olhem que mestra de crian&ccedil;as! &#8211; observou uma gorda oleira,<br \/>\n    que viera comprar uma quarta de sab&atilde;o. N&atilde;o, filha minha n&atilde;o<br \/>\n    mandava eu l&aacute;.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa estar, que contigo havia de aprender boas prendas &#8211; comentava<br \/>\n    ainda Joana.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; de ser a minha que h&aacute; de l&aacute; voltar.<\/p>\n<p>&#8212; Nem a minha &#8211; disseram algumas mulheres presentes.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Joana principiou a ser acometida de uma tosse seca, t&atilde;o<br \/>\n    significativa, que desviou para ela as aten&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Mas a Sr.&ordf; Joana, na qualidade de governante do velho, era na terra<br \/>\n    uma pot&ecirc;ncia, com que poucos se atrevia a arrostar. Fizeram-se por isso<br \/>\n    desentendidos.<\/p>\n<p>&#8212; E quem v&ecirc; aquilo ent&atilde;o! &#8211; disse Jo&atilde;o da Esquina.<br \/>\n    Toda de mantos de seda, toda Sant&#8217;Antoninho onde te porei.<\/p>\n<p>&#8212; Tenta&ccedil;&otilde;es do inimigo mau, sabem? tenta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do inimigo mau, &eacute; o que &eacute;. N&atilde;o, que dizem que n&atilde;o<br \/>\n    serve de nada confessar-se a gente a mi&uacute;do, e rezar as ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    dos mission&aacute;rios.<\/p>\n<p>&#8212; A&iacute;, serve para livrar de maleitas depois da morte &#8211; respondeu,<br \/>\n    j&aacute; em voz mais alta, a Sr.&ordf; Joana preparando-se para sair.<\/p>\n<p>A beata, fingindo n&atilde;o entender, continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Ainda esta manh&atilde; o Padre Jos&eacute;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Oh! &#8211; disse expressivamente a criada de Jo&atilde;o Semana, j&aacute;<br \/>\n    da porta.<\/p>\n<p>A beata fitou nela uns olhos chamejantes de c&oacute;lera. Aquela interjei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    irritara-lhe os nervos.<\/p>\n<p>&#8212; A Sr.&ordf; Joana tem alguma coisa a dizer do Padre Jos&eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; E voc&ecirc; que lhe importa? &#8211; retorquiu-lhe Joana embespinhada,<br \/>\n    voltando para dentro.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sempre queria saber&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora meta-se com sua vida, que n&atilde;o &eacute; de muitas canseiras,<br \/>\n    e n&atilde;o tome tanto fogo pelo que se passa nas casas alheias. N&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; mau o descoco? Olhem agora o estafermo!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o se zangue, Sr.&ordf; Joana; lembre-se que a ira &eacute;<br \/>\n    o quarto pecado mortal.<\/p>\n<p>&#8212; D&ecirc; conselhos, a quem lhos pedir, que eu, quando precisar deles,<br \/>\n    sempre hei de ter, gra&ccedil;as a Deus, outras barbas melhores que as suas,<br \/>\n    para mos dar.<\/p>\n<p>&#8212; Presun&ccedil;&atilde;o e &aacute;gua benta, cada qual toma a que<br \/>\n    quer &#8211; disse a beata, com um sorriso de sarcasmo.<\/p>\n<p>O nariz de Sr.&ordf; Joana afogueou-se de vermelhid&atilde;o, sinal de borrasca<br \/>\n    iminente.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Sr.&ordf; Zefa da Gra&ccedil;a, repare bem com quem se mete.<br \/>\n    Olhe que eu n&atilde;o sou das da sua igualha, para tomar comigo esses ares<br \/>\n    de confian&ccedil;a. Veja que lhe pode sair caro o risinho.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m falava com a Sr.&ordf; Joana. Quem n&atilde;o quer ouvir as<br \/>\n    coisas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o, ent&atilde;o, isso n&atilde;o vale nada &#8211; disse, intervindo<br \/>\n    pacificamente, a mulher do Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>&#8212; Que n&atilde;o vale nada, sei eu &#8211; continuou Joana &#8211; porque tenho<br \/>\n    bastante ju&iacute;zo para receber as coisas, como da m&atilde;o de quem v&ecirc;m.<br \/>\n    Mas na verdade que l&aacute; custa a uma pessoa estar a ouvir semiscar&uacute;nfias<br \/>\n    destas a porem a baba na fama de uma rapariga, de quem um s&oacute; cabelo<br \/>\n    da cabe&ccedil;a vale por todas as beatas fingidas desta terra, por todas<br \/>\n    de cambalhota, e por tal padre tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>&#8212; Veja o que diz! depois n&atilde;o se queixe de ouvir..<\/p>\n<p>&#8212; Que hei eu de ouvir, sua desavergonhada, sua papa-novenas, que hei<br \/>\n    eu de ouvir? &#8211; exclamava j&aacute; de punhos cerrados e olhar cintilante,<br \/>\n    a irasc&iacute;vel Joana. &#8211; Eu n&atilde;o tenho medo das verdades, e para<br \/>\n    as mentiras tenho estas m&atilde;os desempenadas gra&ccedil;as a Deus. Diga<br \/>\n    o que sabe, diga para a&iacute;. N&atilde;o, minha amiga, a mim n&atilde;o<br \/>\n    me engana voc&ecirc;. Cuida que o ros&aacute;rio &eacute; fiada de alcatruzes<br \/>\n    que a h&aacute; de levar ao C&eacute;u? Est&aacute; servida.<\/p>\n<p>&#8212; Quem chega &agrave; missa depois do credo&#8230; n&atilde;o pode falar&#8230;<br \/>\n    &#8211; murmurou, j&aacute; intimidada, a beata.<\/p>\n<p>&#8212; E voc&ecirc;, sua rata de sacristia, tem alguma coisa com isso? Que<br \/>\n    lhe importa saber se eu chego tarde ou cedo? N&atilde;o, que n&atilde;o tenho<br \/>\n    a sua vida, sabe? Deus, que l&ecirc; nos cora&ccedil;&otilde;es, bem conhece<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; de prop&oacute;sito que eu&#8230; Mas vejam esta santinha<br \/>\n    com que aten&ccedil;&atilde;o est&aacute; a missa, que repara para quem entra<br \/>\n    e quem sai. S&atilde;o todas assim. Estas e outras coisas &eacute; que elas<br \/>\n    v&atilde;o dizer ao confessor. E h&aacute; de ser isto que h&aacute; de p&ocirc;r<br \/>\n    a boca em Margarida?<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o julga que &eacute; peta o que toda a gente sabe por<br \/>\n    a&iacute; j&aacute;?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, a verdade deve dizer-se &#8211; observou Jo&atilde;o da esquina<br \/>\n    &#8211; &Eacute; fato que esta noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Hist&oacute;rias! isso n&atilde;o h&aacute; de ser tanto como dizem.<br \/>\n    Sabem que mais? Eu s&oacute; lhes desejo, aos que tiverem filhas, que Deus<br \/>\n    lhes d&ecirc; a elas um bocadinho do ju&iacute;zo da Guida dos Meadas. Adeus.<\/p>\n<p>E a Sr.&ordf; Joana ia a retirar-se<\/p>\n<p>&#8212; Espere, espere &#8211; exclamou a Sr.&ordf; Teresa, ofendida &#8211; isso que<br \/>\n    quer dizer?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o posso estar a taramelar das vidas alheias, que tenho a<br \/>\n    olhar por a minha.<\/p>\n<p>E saiu<\/p>\n<p>N&atilde;o lhe ficaram fazendo muito boas aus&ecirc;ncias as mulheres que<br \/>\n    se conservaram na loja.<\/p>\n<p>A beata sobretudo espalhou todo o seu fel em palavras acerbas, apesar da<br \/>\n    costumada do&ccedil;ura da pron&uacute;ncia, com que lhe sa&iacute;am dos<br \/>\n    l&aacute;bios.<\/p>\n<p>Afinal retirou-se tamb&eacute;m da loja, para ir contar a outra parte o esc&acirc;ndalo<br \/>\n    da noite passada, j&aacute; mais ampliado talvez.<\/p>\n<p>Dentro em pouco n&atilde;o se falava de outra coisa na aldeia. Cada imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    se encarregava de variar o boato..<\/p>\n<p>Houve quem desse Daniel quase morto, e o irm&atilde;o fugido; outros que<br \/>\n    pelo contr&aacute;rio ungiam Pedro e desterravam Daniel.<\/p>\n<p>De Margarida dizia-se que tinha querido sacrificar a irm&atilde;, e que esta<br \/>\n    a punha fora de casa, deixando-a assim a pedir esmola; e mil outras variantes,<br \/>\n    que o leitor pode conjeturar.<\/p>\n<p>&#8212; Este rapaz n&atilde;o acaba bem. Ora ver&atilde;o &#8211; concluiu, no<br \/>\n    fim de tudo isto, o Sr. Jo&atilde;o da Esquina.<\/p>\n<p>A Sr.&ordf; Teresa apenas observou:<\/p>\n<p>&#8212; Mas como lhe deu para olhar para aquela rapariga? Vejam agora as<br \/>\n    grandes bonitezas!<\/p>\n<p>A menina Francisca, inclinada sobre o mostrador da loja, escrevia nele distraidamente,<br \/>\n    com um gancho de cabelo, diferentes palavras sem nexo, e no fim suspirou.\n  <\/p>\n<h4><a name=\"40\">Cap&iacute;tulo XL<\/a><\/h4>\n<p> A tarde desse dia empregou-a o reitor em casa de Jos&eacute; das Dornas,<br \/>\n    onde, com a sua diplomacia, conseguiu evitar as dificuldades da primeira entrevista<br \/>\n    entre os dois irm&atilde;os.<\/p>\n<p>Pedro, cheio de remorsos, abra&ccedil;ava Daniel, e este, que com mais raz&atilde;o<br \/>\n    os estava sentindo, a custo podia suportar essas provas de arrependimento<br \/>\n    de uma culpa imagin&aacute;ria.<\/p>\n<p>Repugnava-lhe afetar maneiras de quem perdoa, quando for&ccedil;a interior<br \/>\n    o impelia a ajoelhar e confessar-se culpado. Por mais de uma vez esteve para<br \/>\n    revelar tudo; susteve-o o olhar, que o reitor, pressentindo essa tenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nunca dele desviava.<\/p>\n<p>&#8212; Mas &#8211; dizia Pedro, j&aacute; em ponto adiantado da entrevista &#8211; se<br \/>\n    tu gostas de Margarida, por que n&atilde;o h&aacute;s de casar com ela?<\/p>\n<p>&#8212; E julgas que ela o consentiria? &#8211; perguntou Daniel<\/p>\n<p>&#8212; Por que n&atilde;o? N&atilde;o te estima tamb&eacute;m? Eu julgo<br \/>\n    que bem claro to mostrou ontem.<\/p>\n<p>Daniel achava-se embara&ccedil;ado. A observa&ccedil;&atilde;o do irm&atilde;o<br \/>\n    era, na apar&ecirc;ncia, t&atilde;o razo&aacute;vel, que ele n&atilde;o sabia<br \/>\n    o que havia de responder. Valeu aqui a t&aacute;tica do reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Ora que sabes tu dos outros, Pedro? &#8211; disse ele. &#8211; Tem gra&ccedil;a!<br \/>\n    Cada um sabe de si, e &eacute; quando Deus quer, que, &agrave;s vezes, nem<br \/>\n    de n&oacute;s sabemos tamb&eacute;m. O melhor &eacute; falarmos de outra coisa,<br \/>\n    ou tratar cada qual de sua vida.<\/p>\n<p>Daniel da melhor vontade seguiu o conselho do reitor e a confer&ecirc;ncia<br \/>\n    terminou.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, quando o padre ia transpor o limiar da porta da rua, Daniel<br \/>\n    aproximou-se dele.<\/p>\n<p>&#8212; E Margarida? &#8211; perguntou-lhe com certa ansiedade.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida? Margarida est&aacute; boa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Falou-lhe depois que hoje nos apartamos?<\/p>\n<p>&#8212; Falei.<\/p>\n<p>&#8212; E persiste na resolu&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Que resolu&ccedil;&atilde;o?&#8230; Na de salvar a irm&atilde;?&#8230; Pois<br \/>\n    est&aacute; de ver que sim.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o falo disso.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o? &#8211; perguntou o reitor com afetada simplicidade.<\/p>\n<p>&#8212; Na recusa que esta manh&atilde;&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah!&#8230; j&aacute; nem me lembrava&#8230; n&atilde;o se falou mais em tal.\n  <\/p>\n<p>Daniel baixou a cabe&ccedil;a. O reitor julgou perceber-lhe no rosto sinais<br \/>\n    n&atilde;o simulados de tristeza, e condoeu-se dele.<\/p>\n<p>&#8212; E n&oacute;s c&aacute; &#8211; disse, batendo-lhe no ombro &#8211; como vamos?<br \/>\n    A que paix&atilde;o se traz agora aforado o cora&ccedil;&atilde;o? A&iacute;<br \/>\n    nunca pode medrar coisa que preste; um terreno movedi&ccedil;o como o das<br \/>\n    areias.<\/p>\n<p>&#8212; As plantas de fundas ra&iacute;zes tamb&eacute;m se sabem prender.<\/p>\n<p>&#8212; Mas levam um tempo!&#8230; E nem sempre vingam. A&iacute; est&aacute;<br \/>\n    que bem antiga foi a primeira sementeira dessa, que traz agora no cora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    se &eacute; que a traz, mas n&atilde;o vingou dessa vez, ao que parece.<\/p>\n<p>&#8212; Que quer dizer? &#8211; perguntou Daniel, olhando para o reitor a quem<br \/>\n    n&atilde;o entendia.<\/p>\n<p>&#8212; Homens que n&atilde;o t&ecirc;m sempre presentes os tempos de crian&ccedil;a,<br \/>\n    os mais felizes, e mais inocentes tempos da vida &#8211; Deus me livre deles. H&aacute;<br \/>\n    de haver dez anos&#8230; &#8211; E de repente parecendo interromper o pensamento, que<br \/>\n    ia exprimir, o reitor saiu, e, j&aacute; da rua, cantou a meia voz e afastando-se<br \/>\n    lentamente:<\/p>\n<p>\n    Andava a pobre cabreira<\/p>\n<p>O seu rebanho a guardar.<\/p>\n<p>Desde que rompia o dia<\/p>\n<p>At&eacute; a noite fechar. &#8211; Ah! &#8211; exclamou Daniel, como se naquele instante<br \/>\n    lhe ocorresse um pensamento inesperado.<\/p>\n<p>O reitor tinha j&aacute; desaparecido.<\/p>\n<p>Aquela exclama&ccedil;&atilde;o abriu no esp&iacute;rito do antigo companheiro<br \/>\n    de Guida um longa sucess&atilde;o de mem&oacute;rias e de pensamentos, aos<br \/>\n    quais o deixaremos entregue. <\/p>\n<p>&Agrave;s dez horas da manh&atilde; seguinte o p&aacute;roco, passando por<br \/>\n    casa de Margarida, resolveu entrar, n&atilde;o obstante saber serem aquelas<br \/>\n    horas de ocupa&ccedil;&atilde;o para sua pupila.<\/p>\n<p>O reitor muitas vezes gostava de assistir &agrave;s li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    das crian&ccedil;as, e at&eacute; de auxiliar Margarida tomando algumas tamb&eacute;m.<\/p>\n<p>Com esse projeto subiu vagarosamente as escadas; ao subi-las, estranhou o<br \/>\n    sil&ecirc;ncio que havia em casa, de ordin&aacute;rio &agrave;quela hora,<br \/>\n    ruidosa de vozes infantis.<\/p>\n<p>&#8212; Isto ser&aacute; mais tarde do que eu supunha? &#8211; disse o reitor,<br \/>\n    parando no patamar e consultando o rel&oacute;gio. &#8211; Dez horas. S&oacute;<br \/>\n    se o rel&oacute;gio se atrasou; mas esta manh&atilde; ainda&#8230;<\/p>\n<p>As pancadas sonoras da campainha de um pequeno rel&oacute;gio de sala interromperam-lhe<br \/>\n    o mon&oacute;logo.<\/p>\n<p>&#8212; Quatro, cinco, seis; s&atilde;o dez, n&atilde;o h&aacute; que ver<br \/>\n    &#8211; dizia o reitor, contando-as &#8211; sete, oito&#8230; &eacute; isso; nove e dez. S&atilde;o<br \/>\n    dez horas, s&atilde;o. Mas ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>E subia, mais apressado j&aacute;, um segundo lan&ccedil;o de escadas.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida estar&aacute; doente? Por&eacute;m se fosse de cuidado,<br \/>\n    tinha-me mandado parte; e n&atilde;o sendo, n&atilde;o era ela a que por qualquer<br \/>\n    coisa&#8230;<\/p>\n<p>E entrou na primeira sala. Escutou &#8211; o mesmo sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8212; Oh! Estou admirado!<\/p>\n<p>Desta sala passou &agrave; do trabalho.<\/p>\n<p>Estava deserta, postas de lado as pequenas cadeiras das crian&ccedil;as,<br \/>\n    arrumados os cestos de costura e os livros, e na sala aquele ar de tristeza,<br \/>\n    que parecem ter, quando desertos, todos os lugares ordinariamente concorridos.<\/p>\n<p>Sentiu esta impress&atilde;o o reitor; foi agitado de secreto receio que<br \/>\n    atravessou os corredores e abriu a porta do quarto de Margarida.<\/p>\n<p>Encontrou-a sentada, a ler, com a fronte encostada &agrave; m&atilde;o, o<br \/>\n    semblante sereno, mas abatido, e nos olhos vest&iacute;gios de l&aacute;grimas<br \/>\n    enxugadas de pouco.<\/p>\n<p>&#8212; Que significa isto? &#8211; disse o reitor, dando &agrave;s suas palavras<br \/>\n    um tom jocoso, mas conservando no olhar a mesma inquieta&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; &Eacute; hoje dia de sueto?<\/p>\n<p>Margarida fechou o livro, ergueu-se para beijar a m&atilde;o ao reitor, e<br \/>\n    com uma voz onde, quem estivesse excitado a estud&aacute;-la, podia perceber<br \/>\n    ainda um desvanecido tremor, respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; As m&atilde;es das minhas disc&iacute;pulas quiseram dar-me tempo<br \/>\n    para o arrependimento e para a penit&ecirc;ncia. Dispensaram os meus servi&ccedil;o.<br \/>\n    E eu&#8230; aproveitei o conselho, que me deram, assim. Veja.<\/p>\n<p>E mostrou o livro que lia, Era o dos Salmos.<\/p>\n<p>O reitor bateu impetuosamente com a bengala no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Mas isso &eacute; indigno! Isso &eacute;&#8230; &eacute;&#8230; Ora deixa<br \/>\n    estar que eu lhes vou falar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o v&aacute;&#8230; eu j&aacute; esperava por isto. De que se<br \/>\n    admira? Por que as censura? Ent&atilde;o n&atilde;o era da sua obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fazer o que fizeram?<\/p>\n<p>&#8212; Margarida, isto &eacute; demais! &Eacute; preciso dar-lhe algum rem&eacute;dio,<br \/>\n    ou ent&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E a&iacute; voltamos &agrave; nossa demanda &#8211; disse Margarida, sorrindo.<br \/>\n    &#8211; N&atilde;o sabe j&aacute; que n&atilde;o h&aacute; melhor rem&eacute;dio<br \/>\n    a dar-lhe?<\/p>\n<p>&#8212; H&aacute; de haver; isto &eacute; que h&aacute; de haver por for&ccedil;a,<br \/>\n    que to digo eu. Tu est&aacute;s a obrigar o teu cora&ccedil;&atilde;o a coisas<br \/>\n    que n&atilde;o s&atilde;o para cora&ccedil;&otilde;es humanos. H&aacute;s<br \/>\n    de acabar por o esmagar. Sabe Deus o que ele padece j&aacute;!<\/p>\n<p>&#8212; Ora diga, quando o cora&ccedil;&atilde;o padece, pode-se estar a<br \/>\n    sorrir como eu? V&ecirc;?<\/p>\n<p>E Margarida obrigava-se a sorrir.<\/p>\n<p>&#8212; E as l&aacute;grimas de ontem? &#8211; prosseguiu o reitor. &#8211; E as de hoje.<br \/>\n    Ter&aacute;s coragem para, olhando bem para mim, me afirmares que ainda hoje<br \/>\n    n&atilde;o choraste, quando eu tas estou a ver nos olhos?<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; certo. Chorei.<\/p>\n<p>&#8212; Ah?<\/p>\n<p>&#8212; Mas de saudades. Cerrou-se-me o cora&ccedil;&atilde;o de tristeza<br \/>\n    ao pensar que me separava daquelas crian&ccedil;as que todas me queriam, que<br \/>\n    eu via crescer, que eu ensinava a falar. Mas&#8230; paci&ecirc;ncia! A tudo se<br \/>\n    acostuma o pensamento, e dentro em pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nada, nada &#8211; continuou o reitor &#8211; n&atilde;o entendo isso de tal<br \/>\n    forma. Tudo tem seus os limites. Isso agora bole-me com a consci&ecirc;ncia.<br \/>\n    Eu vou perguntar a essa gente&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O que lhe vai perguntar?<\/p>\n<p>&#8212; O que significa este desaforo! Quero lan&ccedil;ar-lhe em rosto os<br \/>\n    seus escr&uacute;pulos patetas e est&uacute;pidos. Olhem as presumidas!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o fa&ccedil;a isso.<\/p>\n<p>&#8212; Margarida, &eacute; um pecado levar as coisas t&atilde;o longe. E<br \/>\n    cuidas que tua irm&atilde; sabendo disto&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Clara n&atilde;o o saber&aacute;. Para que h&aacute; de saber? Tinha<br \/>\n    sa&iacute;do quando eu recebi o recado dessa pobre gente. Eu lhe direi&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que lhe h&aacute;s de tu dizer?<\/p>\n<p>&#8212; Qualquer coisa&#8230; o que me lembrar. Dir-lhe-ei que estou cansada<br \/>\n    desta vida afinal; que lhe dou agora raz&atilde;o&#8230; e que aceitarei&#8230; a<br \/>\n    caridade&#8230; de minha irm&atilde;.<\/p>\n<p>E a estas palavras a como&ccedil;&atilde;o dominava outra vez Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; A caridade! Quem fala de receber caridades? Tu, que foste pr&oacute;diga<br \/>\n    de benef&iacute;cios? Tu, que te despojaste da tua capa para cobrires com<br \/>\n    ela os ombros nus da tua irm&atilde;? A&iacute; Margarida, que &eacute; isso<br \/>\n    menos abnega&ccedil;&atilde;o, que orgulho j&aacute;. N&atilde;o, desta vez<br \/>\n    n&atilde;o cederei. Vem, filha, vem comigo.<\/p>\n<p>&#8212; Eu?! Aonde?&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vem; encosta-te ao meu bra&ccedil;o. Quero ver agora quem se atreve<br \/>\n    a murmurar daquela que passa apoiada no bra&ccedil;o do seu reitor. Sempre<br \/>\n    quero ver.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o me obrigue a&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Vem, Margarida; tens os pobres do costume a visitar, e entre eles&#8230;<br \/>\n    e at&eacute;, se queres despedir-te do teu mestre, n&atilde;o deves adiar<br \/>\n    a tua visita, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pois est&aacute; pior?!<\/p>\n<p>&#8212; Est&aacute; pr&oacute;ximo a obter o al&iacute;vio de todos os seus<br \/>\n    males. Ora ent&atilde;o vem, e veremos se elas tamb&eacute;m&#8230; se essa pobre<br \/>\n    gente, que socorres, recusa a esmola que lhes sabe dar.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230; Jesus, meu Deus! n&atilde;o sei se terei for&ccedil;as agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Pede-as &agrave; consci&ecirc;ncia. Ela tas dar&aacute;. N&atilde;o<br \/>\n    me recuses o que te pe&ccedil;o, Margarida; ou ent&atilde;o Clara saber&aacute;<br \/>\n    tudo. Eu te prometo que isto n&atilde;o fica assim como est&aacute;.<\/p>\n<p>O p&aacute;roco mostrou-se desta vez exigente. Margarida cedeu &agrave;s<br \/>\n    reiteradas insist&ecirc;ncias dele.<\/p>\n<p>Passados momentos, iam ambos silenciosos pelos caminhos da aldeia.<\/p>\n<p>A apreens&atilde;o de que se possu&iacute;ra Margarida, fazia-lhe vacilar<br \/>\n    os passos. teve de segurar-se por isso ao bra&ccedil;o do seu velho amigo<br \/>\n    e protetor<\/p>\n<p>Chegaram assim ao largo, onde morava o enfermo.<\/p>\n<p>&Agrave; sombra das &aacute;rvores brincava, a saltar e a dan&ccedil;ar,<br \/>\n    um bando de crian&ccedil;as, a cujas vozes joviais respondiam da copa da alameda<br \/>\n    os gorjeios das aves escondidas.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as, ao verem aproximar-se Margarida, mestra de quase todas,<br \/>\n    correram, soltando gritos de alegria, a beijar-lhe a m&atilde;o.<\/p>\n<p>As m&atilde;es, por&eacute;m, que estavam sentadas, fiando e conversando,<br \/>\n    nas soleiras das casas, que circundavam o largo, obrigaram-nas a parar a meio<br \/>\n    do caminho.<\/p>\n<p>&#8212; Vem c&aacute;, Luisa! &#8211; bradou uma<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Maria, onde vais tu? Para aqui, j&aacute;, corre! exclamava<br \/>\n    outra.<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Ana, &oacute; Ana! Ent&atilde;o isso &eacute; o que eu te<br \/>\n    disse? salte para casa. Ande!<\/p>\n<p>&#8212; &Oacute; Ermelinda, tu n&atilde;o ouves? N&atilde;o ouves, Ermelinda?<br \/>\n    Olha se queres que eu v&aacute; l&aacute;.<\/p>\n<p>E no mesmo sentido partiram de todos os lados vozes, que constrangeram as<br \/>\n    crian&ccedil;as a pararem irresolutas.<\/p>\n<p>A significa&ccedil;&atilde;o injuriosa daquelas palavra s, daquelas ordens<br \/>\n    maternas, foi logo compreendida por Margarida e por o reitor.<\/p>\n<p>Aquela tremeu, e instintivamente apertou o bra&ccedil;o do seu velho tutor;<br \/>\n    este tremia tamb&eacute;m, mas de indigna&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute;! &#8211; bradou ele, n&atilde;o lhe sofrendo o &acirc;nimo mais<br \/>\n    reservas.<\/p>\n<p>&#8212; Ol&aacute;, Luisa, Maria, Ermelinda, Ana; aqui j&aacute;, j&aacute;,<br \/>\n    todas aqui j&aacute;! Ent&atilde;o n&atilde;o ouvem?<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as aproximaram-se t&iacute;midas. Ele continuou, com voz<br \/>\n    rija e j&aacute; alterada pela c&oacute;lera.<\/p>\n<p>&#8212; J&aacute; que as vossas m&atilde;es vos ensinam a ser desobedientes<br \/>\n    e malcriadas, aqui estou para vos dar a educa&ccedil;&atilde;o. Beijem a m&atilde;o<br \/>\n    &agrave; sua mestra, j&aacute;. Ouvem-me.<\/p>\n<p>&#8212; Senhor! &#8211; murmurou Margarida.<\/p>\n<p>&#8212; Deixa-me &#8211; respondeu o reitor, desabridamente. &#8211; Ent&atilde;o, vamos!<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as tomaram a m&atilde;o de Margarida e beijaram-na com timidez.<br \/>\n    Margarida abra&ccedil;ou-as solu&ccedil;ando.<\/p>\n<p>&#8212; E voc&ecirc;s l&aacute;? &#8211; continuou o padre, dirigindo-se &agrave;s<br \/>\n    m&atilde;es. &#8211; Tudo a p&eacute;! Que modos s&atilde;o esses de estar diante<br \/>\n    do seu reitor?<\/p>\n<p>As mulheres levantaram-se respeitosas e mudas.<\/p>\n<p>&#8212; Agora aproximem-se, e venham aqui pedir por favor a esta rapariga,<br \/>\n    &agrave; minha pupila; entendem? &agrave; minha pupila; venham pedir-lhe que<br \/>\n    lhes aben&ccedil;oe as filhas. Vamos!<\/p>\n<p>O orgulho feminino revoltou-se contra a intima&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&#8212; Essa agora!<\/p>\n<p>&#8212; Era o que me faltava!<\/p>\n<p>&#8212; Olhem os meus pecados!<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o, que ele n&atilde;o h&aacute; mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Disso o livrar&aacute; o senhor.<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o h&aacute; de ser a filha do meu pai.<\/p>\n<p>&#8212; Para longe a tenta&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que &eacute;? que &eacute;? que &eacute; l&aacute; isso? &#8211; exclamou<br \/>\n    o reitor, interrompendo este zunzum de m&aacute; vontade e insubordina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    &#8211; Que virtuos&iacute;ssimas criaturas sois v&oacute;s todas? Olhem l&aacute;<br \/>\n    que n&atilde;o manchem os l&aacute;bios a pedir! N&atilde;o vos custa manch&aacute;-los<br \/>\n    a jurar em v&atilde;o o santo nome de Deus, n&atilde;o vos importa manch&aacute;-los<br \/>\n    a assoalhar as vidas alheias, a caluniar as amigas, a insultar as vizinhas;<br \/>\n    mas fazei escr&uacute;pulos de os empregar a pedir a ben&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    para vossas filhas, a quem, mais e melhor do que voc&ecirc;s todas juntas,<br \/>\n    lha pode e deve dar.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! &#8211; disseram algumas vozes.<\/p>\n<p>&#8212; Ora! Ora o que? Saibam ent&atilde;o que todas, todas voc&ecirc;s,<br \/>\n    nem s&atilde;o dignas de lhe beijarem as bordas dos vestidos. O que sabeis<br \/>\n    &eacute; engrolar padre-nossos, e ro&ccedil;ar com a testa pelo ch&atilde;o<br \/>\n    das igrejas; mas n&atilde;o tendes cora&ccedil;&atilde;o para a doutrina do<br \/>\n    Senhor, n&atilde;o. V&oacute;s, as santas criaturas envergonhais-vos de pedir<br \/>\n    como se vos desonr&aacute;sseis com isso? Pois eu n&atilde;o me reconhe&ccedil;o<br \/>\n    t&atilde;o puro; sou um pobre pecador, e por isso n&atilde;o devo ter essas<br \/>\n    soberbas de bem aventurados.<\/p>\n<p>E o padre, dominado pela exalta&ccedil;&atilde;o que se lhe apoderara do<br \/>\n    esp&iacute;rito irritado, curvou-se, descobrindo-se; e tomando a m&atilde;o<br \/>\n    de Margarida, levou-a respeitosamente aos l&aacute;bios, apesar dos esfor&ccedil;os<br \/>\n    daquela.<\/p>\n<p>A assembl&eacute;ia feminina baixou toda os olhos de confus&atilde;o.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as rodearam a sua jovem mestra, e desta vez, espontaneamente<br \/>\n    lhe cobriram de beijos as m&atilde;os.<\/p>\n<p>Margarida, banhada de l&aacute;grimas, baixou-se, e uma por uma as apertou<br \/>\n    ao seio, sem poder falar de comovida.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, minhas filhas, bem &#8211; disse o reitor. &#8211; Dais assim nobre e belo<br \/>\n    exemplo a vossas m&atilde;es; &eacute; decerto a m&atilde;o de Deus, que vos<br \/>\n    tocou os cora&ccedil;&otilde;es. Quem se recusar&aacute; a imit&aacute;-las.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n&atilde;o &#8211; disse uma voz por detr&aacute;s do reitor.<\/p>\n<p>Este voltou-se e viu Jos&eacute; das Dornas, que se aproximara havia alguns<br \/>\n    momentos, e assistira &agrave; cena que descrevemos.<\/p>\n<p>O velho lavrador, depois de responder assim ao p&aacute;roco. aproximou-se<br \/>\n    tamb&eacute;m de Margarida, e, pegando-lhe na m&atilde;o, disse:<\/p>\n<p>&#8212; Minha filha, eu tenho setenta anos. Desde que minha m&atilde;e morreu&#8230;<br \/>\n    h&aacute; cinq&uuml;enta anos quase, nunca mais beijei a m&atilde;o a ningu&eacute;m.<br \/>\n    Pois digo-lhe que o fa&ccedil;o agora, ainda com mais respeito, do que o fazia<br \/>\n    ent&atilde;o.<\/p>\n<p>E o rude, mas generoso lavrador, baldando a resist&ecirc;ncia de Margarida,<br \/>\n    imprimiu-lhe na m&atilde;o um beijo, em que ia toda a franqueza e lealdade<br \/>\n    daquele car&aacute;ter.<\/p>\n<p>Ao endireitar-se, achou-se nos bra&ccedil;os do reitor.<\/p>\n<p>&#8212; Bravo, Jos&eacute;; bravo, meu homem! Isso esperava eu de ti, que<br \/>\n    te conhe&ccedil;o h&aacute; muito. Bravo! Bravo! &#8211; dizia ele, entusiasmado<br \/>\n    at&eacute; &agrave;s l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>O exemplo obrigava. Algumas mulheres aproximavam-se j&aacute; de Margarida,<br \/>\n    e houve uma que lhe segurou a m&atilde;o.<\/p>\n<p>Margarida por&eacute;m retirou-lha, e, esquecida da inj&uacute;ria passada,<br \/>\n    recebeu-a nos bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>As outras, livres assim da a&ccedil;&atilde;o que mais lhes magoava o orgulho<br \/>\n    de mulher, correram j&aacute; de boa vontade a abra&ccedil;arem a pupila do<br \/>\n    reitor.<\/p>\n<p>Enquanto se passava esta cena, o padre, chamando &agrave; parte Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas, perguntara-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o soubeste?..<\/p>\n<p>&#8212; Esta manh&atilde; foi que mo disseram. Creia, Sr. Reitor, que n&atilde;o<br \/>\n    pus m&aacute;s suspeitas na rapariga. Eu sei de que diamante &eacute; feito<br \/>\n    aquele cora&ccedil;&atilde;o. Corri a procur&aacute;-la para lhe dizer isto<br \/>\n    mesmo; soube que tinha sa&iacute;do com o Sr. Reitor; vim-lhes na pista&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; E ent&atilde;o que pensas tu de tudo isto, Jos&eacute;?<\/p>\n<p>&#8212; O que penso? J&aacute; o tenho dito por a&iacute;. Eu n&atilde;o<br \/>\n    sei l&aacute; como as coisas se passaram, porque segundo o costume, cada um<br \/>\n    conta a seu modo; mas que a culpa &eacute; toda de Daniel, isto para mim &eacute;<br \/>\n    de f&eacute;. Tem diabo o rapaz! J&aacute; vejo que &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    deix&aacute;-lo ficar aqui na terra. L&aacute; me custa que sempre &eacute;<br \/>\n    filho; mas n&atilde;o h&aacute; outro rem&eacute;dio. Que v&aacute; para o<br \/>\n    Brasil.<\/p>\n<p>Estas palavras chegaram aos ouvidos de Margarida e fizeram-na estremecer.<\/p>\n<p>&#8212; Para o Brasil? &#8211; disse o reitor, abanando com a cabe&ccedil;a em<br \/>\n    sinal de desaprova&ccedil;&atilde;o. &#8211; Ent&atilde;o que h&aacute; de ir o<br \/>\n    rapaz fazer para t&atilde;o longe?<\/p>\n<p>&#8212; Pode enriquecer por l&aacute;, que &eacute; terra para isso. Que<br \/>\n    d&uacute;vida? E pelo menos escusa de andar por aqui a desacreditar as raparigas<br \/>\n    da aldeia. &Eacute; sestro que n&atilde;o perde, ao que estou vendo. Escuso<br \/>\n    de me arriscar a mais desgostos.<\/p>\n<p>&#8212; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Para que diabo lhe havia de dar! Logo ent&atilde;o esta, a mais sisuda,<br \/>\n    a mais santa das nossas raparigas!<\/p>\n<p>&#8212; E se os cas&aacute;ssemos? &#8211; disse em voz baixa o padre a Jos&eacute;<br \/>\n    das Dornas.<\/p>\n<p>&#8212; O qu&ecirc;?! &#8211; perguntou este, espantado com o alvitre.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, que d&uacute;vida? Pois que melhor noiva podes querer para teu<br \/>\n    filho, do que aquela a quem j&aacute; pensaste poder beijar a m&atilde;o?<\/p>\n<p>&#8212; Decerto, mas&#8230; N&atilde;o conhece o rapaz, Sr. Reitor! Aquilo casado!<br \/>\n    &Oacute; santo nome! E ent&atilde;o com esta!&#8230; Pobre rapariga!<\/p>\n<p>&#8212; Enfim pensaremos e conversaremos. Olhe-me que a dificuldade parece-me<br \/>\n    ainda mais dela do que dele.<\/p>\n<p>&#8212; Que diz?!<\/p>\n<p>Apesar do elevado conceito em que Jos&eacute; das Dornas tinha o car&aacute;ter<br \/>\n    de Margarida, n&atilde;o podia conceber como fossem poss&iacute;veis as repugn&acirc;ncias,<br \/>\n    da parte dela, para casamento t&atilde;o vantajoso.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o que queres &#8211; disse o reitor &#8211; orgulhos de pobres&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o compreendes isto?<\/p>\n<p>E tomando o bra&ccedil;o do lavrador, como quem tinha a comunicar-lhe alguma<br \/>\n    coisa importante, afastou-se com ele um pouco para o lado.<\/p>\n<p>Depois de darem assim juntos alguns passos, voltou-se de novo o reitor, e<br \/>\n    dirigindo-se a Margarida, disse-lhe:<\/p>\n<p>&#8212; Olha l&aacute;; se queres vai agora visitar o teu mestre enquanto<br \/>\n    eu converso aqui com o Jos&eacute; das Dornas. Quando sa&iacute;res, vem ter<br \/>\n    conosco &agrave; alameda, que l&aacute; andamos.<\/p>\n<p>E, caminhando na dire&ccedil;&atilde;o da alameda indicada, prosseguiu na<br \/>\n    sua conversa com o lavrador.<\/p>\n<p>&#8212; Pois &eacute; o que te digo, Jos&eacute;. Eu tenho pensado neste<br \/>\n    neg&oacute;cio e t&atilde;o embrulhado o vejo, que n&atilde;o sei de outra<br \/>\n    sa&iacute;da melhor, do que essa que te disse. Mas enfim, pensa tu, e se te<br \/>\n    lembrares, de alguma prefer&iacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o obstante as tolerantes disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito,<br \/>\n    de que fazia assim ostenta&ccedil;&atilde;o, o reitor estava preparado para<br \/>\n    achar p&eacute;ssima toda a solu&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o concordasse<br \/>\n    com a sua.<\/p>\n<p>Deixando-os no passeio da alameda, e na confer&ecirc;ncia, t&atilde;o prometedora<br \/>\n    de importantes resultados, que iam encetar, seguiremos antes Margarida, a<br \/>\n    qual, ainda sob o dom&iacute;nio das &uacute;ltimas e violentas impress&otilde;es<br \/>\n    recebidas, entrou em casa do seu mestre. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X 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