{"id":108024,"date":"2017-02-09T11:59:22","date_gmt":"2017-02-09T13:59:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=108024"},"modified":"2017-02-09T11:59:22","modified_gmt":"2017-02-09T13:59:22","slug":"livro-das-donas-e-donzelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/livro-das-donas-e-donzelas","title":{"rendered":"Livro das Donas e Donzelas"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"564\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Minhas Amigas<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Natal Brasileiro<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Conventos<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">O Vestu\u00e1rio Feminino<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">A Arte de Envelhecer<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#6\" class=\"links\">A Mulher Brasileira<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#7\" class=\"links\">Cartas<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#8\" class=\"links\">Em Guarda<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#9\" class=\"links\">Por Qu\u00ea ?<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t  <a href=\"#10\" class=\"links\">Formalidades<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#11\" class=\"links\">Para a Morte !<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#12\" class=\"links\">Folhas de uma Velha Carteira<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#13\" class=\"links\">Quiromancia<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#14\" class=\"links\">Arte Culin\u00e1ria<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#15\" class=\"links\">Amuletos<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#16\" class=\"links\">Os Beijos<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#17\" class=\"links\">Harmonias<\/a><br \/>\n\t\t  <a href=\"#18\" class=\"links\">Um Testamento<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>J&uacute;lia Lopes de Almeida<\/h4>\n<p><strong>Parte I<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"1\" id=\"1\"><strong>Minhas Amigas<\/strong><\/a><\/h4>\n<p>M&ecirc;s das cigarras e das flores de flamboyant, como diria Fradique Mendes<br \/>\n    se tivesse de datar em Dezembro uma carta no Rio de Janeiro. Prescindo, como<br \/>\n    ele, da enumera&ccedil;&atilde;o do dia. Datas s&atilde;o algarismos sem for&ccedil;as<br \/>\n    para fazer sentir o violento azul do nosso c&eacute;u, nem os ramalh&otilde;es<br \/>\n    purpurinos das nossas &aacute;rvores, nem este chiar incessante das cigarras<br \/>\n    entontecidas de luz, anunciando o calor.<\/p>\n<p>Este lindo m&ecirc;s, em que o ano morre engalanado de cores e de sons, obriga-nos<br \/>\n    a volver o olhar para o passado, numa inquiri&ccedil;&atilde;o pensativa e<br \/>\n    saudosa&#8230; e logo a querer sondar o futuro impenetr&aacute;vel com a frouxa<br \/>\n    luz de uma esperan&ccedil;a. Nada se descortina bem, visto de longe; e &eacute;<br \/>\n    melhor assim&#8230;<\/p>\n<p>O que torna a vida encantadora &eacute; o imprevisto; e a prova &eacute;<br \/>\n    que ningu&eacute;m desejaria recome&ccedil;&aacute;-la da mesma forma porque<br \/>\n    a j&aacute; viveu; nem creio mesmo que, se tal milagre se pudesse cumprir,<br \/>\n    houvesse algu&eacute;m, por mais venturosa que lhe houvesse corrido a curta<br \/>\n    vida, que tivesse coragem de a recome&ccedil;ar!<\/p>\n<p>Cerre algu&eacute;m os olhos, pense, siga o curso da sua exist&ecirc;ncia,<br \/>\n    e ficar&aacute; convencido de que s&oacute; alguns dias lhe mereceram o desejo<br \/>\n    de serem revividos. Dias? Nada mais que momentos, de inolvid&aacute;vel do&ccedil;ura&#8230;<\/p>\n<p>Para a gente mo&ccedil;a o maior encanto da vida est&aacute; no que h&aacute;<br \/>\n    de vir, no que se ignora; para que transp&otilde;e o cabo dos quarenta, est&aacute;<br \/>\n    no presente, que passa ligeiro, ligeiro, como a corrente de um rio caudaloso&#8230;<\/p>\n<p>Minhas boas amigas, donas e donzelas, velhas e meninas, perdi o endere&ccedil;o<br \/>\n    de algumas de v&oacute;s; outras&#8230; rezemos-lhes por alma, est&atilde;o mortas;<br \/>\n    de sorte que esta carta, de incerta dire&ccedil;&atilde;o, pretende ir at&eacute;<br \/>\n    as portas do c&eacute;u, na ondula&ccedil;&atilde;o do acaso e da saudade.<\/p>\n<p>N&oacute;s, as mulheres, n&atilde;o temos sempre facilidade de bem exprimir<br \/>\n    os sentimentos por palavras; eles parecem-nos por demais sutis e complexos;<br \/>\n    elas insuficientes e fraqu&iacute;ssimas. Dizem que h&aacute; para todas as<br \/>\n    coisas express&otilde;es precisas, de inquestion&aacute;vel exatid&atilde;o;<br \/>\n    a l&iacute;ngua modula no som, e inalterada, a ess&ecirc;ncia da mais rara<br \/>\n    alegria ou do mais terr&iacute;vel desespero. Mas essa &eacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos fortes; a nossa dilui-se, numa gota incolor e inodora, que &eacute; como<br \/>\n    um chuvisqueiro em uma rosa, se nasce da alegria; ou, se vem da dor, como<br \/>\n    um floco de neve em uma brasa, que apaga a luz e deixa a nu o carv&atilde;o.<\/p>\n<p>Lembran&ccedil;as de amizade n&atilde;o s&atilde;o como lembran&ccedil;as<br \/>\n    de amor, que pungem e deliciam; t&ecirc;m outra suavidade, um perfume indistinto,<br \/>\n    e por isso s&atilde;o mais dif&iacute;ceis de descriminar nas meias tintas<br \/>\n    do passado; todavia, quanta como&ccedil;&atilde;o elas nos trazem na sua nevoenta<br \/>\n    apari&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>Minhas amigas de outros tempos, supondo que eu enfeixo as gra&ccedil;as e<br \/>\n    virtudes de v&oacute;s todas em uma s&oacute; figura, que podereis chamar<br \/>\n    de Mocidade, ou de Primavera, como vos aprouver.<\/p>\n<p>Para ser suprema a sua formosura ela ter&aacute; os teus doces olhos azuis,<br \/>\n    t&atilde;o cedo fechados, Elvira; e o teu riso alegre, Maria Laura; e a tua<br \/>\n    voz, Janan; e a tua bondade ador&aacute;vel, Marie; e as linhas do teu corpo,<br \/>\n    Alice; e a do&ccedil;ura da tua tez, Carlota! Ter&aacute; da negra Josefa,<br \/>\n    t&atilde;o triste por n&atilde;o ser branca, a branca inoc&ecirc;ncia; e de<br \/>\n    v&oacute;s todas, com que topei na minha inf&acirc;ncia, a garrula alegria<br \/>\n    e a tr&ecirc;fega imagina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o sacudo a uma esfinge o meu len&ccedil;o saudoso, mas a uma figura<br \/>\n    tang&iacute;vel, feita de perfei&ccedil;&otilde;es e que permanece, imut&aacute;vel<br \/>\n    e risonha, no horizonte que me foge.<\/p>\n<p>De algumas de v&oacute;s n&atilde;o sei, amigas da meninice; outras vieram<br \/>\n    depois, na idade das confid&ecirc;ncias, e ainda hoje eu sinto o calor de<br \/>\n    simpatias mo&ccedil;as que vem vindo como aves anunciadoras do bom tempo,<br \/>\n    para me dizerem que floresce ainda na Terra a sagrada planta da amizade.<\/p>\n<p>Entre todas, n&atilde;o sois v&oacute;s, amigas desconhecidas e minhas leitoras,<br \/>\n    cujo influxo tantas vezes me alento, a quem menos se lan&ccedil;a o meu pensamento<br \/>\n    de mulher, num desejo de felicidade perfeita&#8230;<\/p>\n<p>\n    Nesta noite, uma das &uacute;ltimas do fim do ano, que de lembran&ccedil;as<br \/>\n    suaves me esvoa&ccedil;am pelo esp&iacute;rito!<\/p>\n<p>Crede, esta carta &eacute; um desabafo. N&atilde;o s&oacute; v&oacute;s,<br \/>\n    minhas queridas, voltejais na minha mem&oacute;ria, como nas rondas do col&eacute;gio;<br \/>\n    h&aacute; outros amigos adorados, invis&iacute;veis, de poderosa influ&ecirc;ncia,<br \/>\n    a que me lan&ccedil;o com significativa gratid&atilde;o: &#8211; os autores. O primeiro<br \/>\n    livro lido; as p&aacute;ginas mais vezes relidas; as m&uacute;sicas que melhor<br \/>\n    interpretei; os versos que me fizeram estremecer ou sonhar; singulares sensibilidades,<br \/>\n    acordadas por estranhos que amei como amo o sol que me aquece, ou a flor que<br \/>\n    me inebria, &#8211; tudo renasce e passa pelo meu pensamento, numa irradia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pur&iacute;ssima, de devaneio&#8230;<\/p>\n<p>Nestas horas vertiginosas e perturbadoras reconhe&ccedil;o todos os meus<br \/>\n    sonhos e desejos antigos, ro&ccedil;ando por mim as suas asas, com tanto arrojo<br \/>\n    abertas e t&atilde;o cedo enfraquecidas&#8230;<\/p>\n<p>Mas isso que vos importa?<\/p>\n<p>Valer&aacute; pena pensar no tempo que passou, bem ou mal?<\/p>\n<p>O ano em que parte da nossa vida discorreu, acaba? Deixa-a acabar! O outro<br \/>\n    que vier ter&aacute; as mesmas quatro esta&ccedil;&otilde;es; o sol inflamar&aacute;<br \/>\n    a terra no ver&atilde;o, o vento far&aacute; cair as folhas no outono, as<br \/>\n    neves caracterizar&atilde;o o inverno, e as boninas esmaltar&atilde;o os campos<br \/>\n    na primavera&#8230;<\/p>\n<p>Assim como o tempo, fosco ou luminoso, os homens ser&atilde;o maus ou ser&atilde;o<br \/>\n    bons e a vida far&aacute; o seu giro imperturb&aacute;vel, desfazendo e criando<br \/>\n    entre decl&iacute;nios e triunfos.<\/p>\n<p>Para o mundo ser&aacute; assim, mas para n&oacute;s, queridas?<\/p>\n<h4><a name=\"2\" id=\"2\">Natal Brasileiro<\/a><\/h4>\n<p>Neste esfacelar de usos e tradi&ccedil;&otilde;es, poucas pessoas encontram<br \/>\n    ainda encanto em seguir costumes de av&oacute;s que se foram h&aacute; muito<br \/>\n    tempo, e de quem as caveiras, l&aacute; no fundo das covas, j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    guardam nem resqu&iacute;cios de pele!<\/p>\n<p>A nossa vida agitada precisa de um esfor&ccedil;o para relembrar os divertimentos<br \/>\n    antigos, e n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o por condescend&ecirc;ncia que<br \/>\n    muita gente faz horas para ir &agrave; missa do galo ou que deixa o espet&aacute;culo<br \/>\n    pela ceia caseira, obrigada a certos pratos que o desuso tornou para muitos<br \/>\n    paladares simplesmente abomin&aacute;veis.<\/p>\n<p>Noites quentes, maravilhosas noites de ver&atilde;o, banhadas de luar, impregnadas<br \/>\n    do aroma da magn&oacute;lia e do jasmim-manga, convidando por certo muito<br \/>\n    mais aos passeios pelos arredores da cidade, ouvindo cigarras e violas de<br \/>\n    serenatas, do que a fecharmo-nos em uma sala, em frente a um prato de canja<br \/>\n    fumegante, entre os globos de g&aacute;s a toda a luz e uma toalha branca<br \/>\n    onde a lou&ccedil;aria brilhe com o seu luzimento de esmalte.<\/p>\n<p>Estas festas s&atilde;o doces &agrave;s mam&atilde;es, porque chamam para<br \/>\n    o seu redil as ovelhas soltas por diversos pontos da cidade. Nestes dias,<br \/>\n    como que se ouvem badaladas de sinos de ouro que, a cada repique, dizem assim:<\/p>\n<p>&#8211; Vinde para casa! Vinde para casa! &Eacute; aqui que vos amam!<\/p>\n<p>E as ovelhas param, escutam, torcem caminho e voltam para o aprisco de onde<br \/>\n    tinham partido.<\/p>\n<p>A amante que espere, pensam os rapazes; que se estor&ccedil;a de raiva vendo-se<br \/>\n    preferida. &Eacute; preciso tamb&eacute;m contentar a mam&atilde;e, que sorri<br \/>\n    acudindo a tudo e a todos com a mesma paci&ecirc;ncia de h&aacute; trinta<br \/>\n    anos, quando os filhos eram pequenos e n&atilde;o sabiam de nada na vida que<br \/>\n    igualasse &agrave; sua companhia!<\/p>\n<p>&quot;Boa mam&atilde;e! dizem-lhe eles agora, perdoai os nossos desvarios<br \/>\n    de rapazes! N&oacute;s c&aacute; estamos no teu rega&ccedil;o, olhando para<br \/>\n    o teu rosto, beijando as nossas irm&atilde;s.&quot;<\/p>\n<p>E a mam&atilde;e vai e vem, com os l&aacute;bios risonhos e os olhos brilhantes.<br \/>\n    E o sino de ouro da casa, cujas badaladas se ouvem ao longe, mal ela o sabe!<br \/>\n    &eacute; o seu cora&ccedil;&atilde;o angustiado, pisado de sofrimentos, de<br \/>\n    d&uacute;vidas, de saudades, mas que todo se enflora ainda de esperan&ccedil;as,<br \/>\n    porque &eacute; de m&atilde;e!<\/p>\n<p>Festas familiares, sois peregrinamente bondosas e dementes para os velhos!<\/p>\n<p>\n    Sim, &eacute; por condescend&ecirc;ncia que muita gente deixa a noitada ao<br \/>\n    relento pela ceia caseira, em que se comem coisas suculentas, se ouvem valsas<br \/>\n    marteladas ao piano, ou se conversam assuntos repisados.<\/p>\n<p>Na ro&ccedil;a &eacute; que estas festas do Natal e do Ano-Bom t&ecirc;m<br \/>\n    uma cor mais brasileira. Aqui na cidade fazemo-las seguindo os costumes portugueses.<br \/>\n    O frio do Natal europeu impele as fam&iacute;lias para o interior das suas<br \/>\n    casas, para o calor dos fog&otilde;es e das ceias fumegantes. O nosso Natal<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o diverso! Em vez da neve temos o sol; em vez da ventania<br \/>\n    &aacute;spera, que obriga as pobres criaturas a irem para &agrave; igreja<br \/>\n    envoltas em capotes, salpicadas de lama e de chuva, temos noites estreladas,<br \/>\n    cheirosas, em que mo&ccedil;as e rapazes v&atilde;o &agrave; meia-noite ouvir<br \/>\n    a missa do galo, com trajes alegres, sem recear bronquites, podendo folgar<br \/>\n    pelos caminhos &agrave; luz das estrelas palpitantes e coloridas. Na ro&ccedil;a<br \/>\n    &eacute; assim. A crian&ccedil;ada come ao ar livre pinh&otilde;es cozidos<br \/>\n    e faz a algazarra que apraz. As mo&ccedil;as dan&ccedil;am no terreiro com<br \/>\n    os namorados, e os velhos, sentados sob o alpendre, contam anedotas, rememoram<br \/>\n    visitas a pres&eacute;pios antigos, at&eacute; que o sino os chame e eles<br \/>\n    partam todos, aos magotes, para a capela t&atilde;o sua conhecida, t&atilde;o<br \/>\n    sua amada!<\/p>\n<p>Se fosse poss&iacute;vel dever&iacute;amos inventar festas adequadas ao nosso<br \/>\n    clima, estabelec&ecirc;-las, fix&aacute;-las, torn&aacute;-las nossas.<\/p>\n<p>Os costumes europeus n&atilde;o podem, em absoluto, ser reproduzidos aqui.<br \/>\n    H&aacute; no Brasil climas mais frios do que em alguns pa&iacute;ses da Europa;<br \/>\n    no alto Paran&aacute; o gelo quebra os galhos das &aacute;rvores e o alde&atilde;o<br \/>\n    tirita lavrando terra. Mas de que vale isso, se as esta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    s&atilde;o trocadas e o nosso Natal desabrocha em pleno ver&atilde;o! O nosso<br \/>\n    Natal! Bem que ele precisa de outro emblema. O velho de longas barbas brancas,<br \/>\n    nariz cor de morango maduro, capote espesso lanzudo e gorro de peles, &eacute;<br \/>\n    filho das terras nevadas, cortadas pelos uivos do vento, t&atilde;o cruel<br \/>\n    para os pobres. O nosso Natal &eacute; mo&ccedil;o, &eacute; risonho, &eacute;<br \/>\n    caritativo; abriga os sem vint&eacute;m, e as criancinhas nuas n&atilde;o<br \/>\n    o temem, porque ele afaga-as o seu bafo cheiroso e veste-as com a sua luz<br \/>\n    quente e doirada!<\/p>\n<h4><a name=\"3\" id=\"3\">Conventos<\/a><\/h4>\n<p>A tarde agonizava em reflexos brancos de prata polida, que davam &agrave;<br \/>\n    superf&iacute;cie do mar um tom de a&ccedil;o, espelhento. Num banco do conv&eacute;s<br \/>\n    da barca, uma senhora afogada em l&atilde;s pretas, de luto, sussurrava queixas<br \/>\n    das filhas que a queriam trocar por um convento. Era um desabafo, entre as<br \/>\n    amigas, que todas se debru&ccedil;avam para aquela ang&uacute;stia&#8230;<\/p>\n<p>Pelos farrapos dos coment&aacute;rios percebi que as donzelas n&atilde;o<br \/>\n    levariam ao claustro contingente que o exal&ccedil;asse&#8230; Uma delas faria<br \/>\n    versos m&iacute;sticos, a outra rezaria ladainhas, sem que das suas genuflex&otilde;es<br \/>\n    ou dos seus arroubos viesse benef&iacute;cio ao mundo.<\/p>\n<p>A m&atilde;e n&atilde;o sabia explicar aquele fervor s&uacute;bito. Supunha<br \/>\n    que a mais velha, poetisa, procurasse na religi&atilde;o os ideais que n&atilde;o<br \/>\n    via realizados na terra; mas a outra? Debatia-se ante o enigma da outra.<\/p>\n<p>Optaram as amigas por uma paix&atilde;o. Algum amor mal correspondido&#8230;<\/p>\n<p>Pobre crian&ccedil;a, pensava eu de mim para mim, o v&eacute;u de freira<br \/>\n    n&atilde;o tem por certo a magia que ela espera&#8230; Se o mal de que ela sofre<br \/>\n    &eacute; esse que dizem, lev&aacute;-lo-&aacute; consigo, que para a fatalidade<br \/>\n    do amor n&atilde;o h&aacute; amuletos nem cil&iacute;cios que valham. O convento<br \/>\n    excitar&aacute; no principio a sua fantasia, vincular&aacute; a sua saudade,<br \/>\n    sem lhe trazer a pacifica&ccedil;&atilde;o, a vida saborosa, que &eacute;<br \/>\n    o preparo do Para&iacute;so.<\/p>\n<p>Houve tempo em que o convento tinha, com todos os rigores, certos atrativos,<br \/>\n    como tudo que &eacute; forte e que domina. Tempos houve tamb&eacute;m em que<br \/>\n    ele era menos um lugar de reclus&atilde;o que de galanteio; ent&atilde;o bilhetes<br \/>\n    amorosos e versos dos torneios perpassavam por entre aquelas paredes severas,<br \/>\n    como revoadas do mariposas tontas; e havia freiras, como a freira Serafina,<br \/>\n    que, escrevendo a respeito da abadessa de Santo Andr&eacute;, deixava transparecer<br \/>\n    a convic&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o &eacute; o amor divino, mas o<br \/>\n    humano, a melhor e a maior preocupa&ccedil;&atilde;o de toda a gente, tanto<br \/>\n    de l&aacute; de dentro como de c&aacute; de fora. Dizem mesmo cr&ocirc;nicas<br \/>\n    velhas e cronistas modernos que nem sempre os conventos foram santu&aacute;rios<br \/>\n    de castidade. Fossem l&aacute; o que fossem, a verdade &eacute; que tinham<br \/>\n    vida pr&oacute;pria e o enorme prest&iacute;gio que facilita e sugere os grandes<br \/>\n    devotamentos. Depois, a mulher n&atilde;o tinha outros destinos; ou ele ou<br \/>\n    o casamento. Hoje n&atilde;o &eacute; assim; o pulso paterno j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    tem o poder de aferrolhar filhas insubmissas, e a poesia, que naqueles tempos<br \/>\n    o h&aacute;bito pudesse ter, foi substitu&iacute;da no nosso tempo &#8211; por uma<br \/>\n    f&uacute;nebre id&eacute;ia de mortalha. Hoje os conventos parecem t&uacute;mulos.<\/p>\n<p>Imagino a melancolia desses casar&otilde;es enormes. Que sil&ecirc;ncio de<br \/>\n    corredores, onde as sand&aacute;lias j&aacute; n&atilde;o batem de minuto<br \/>\n    a minuto; que ar de mofo nas celas sem dono, fechadas h&aacute; anos e em<br \/>\n    que as aranhas tecem irreverentes a rede da sua prole; que abandono nos palcos,<br \/>\n    onde as fontes choram, sem o consolo de ver as suas l&aacute;grimas suspensas<br \/>\n    pelas m&atilde;os macias de umas freiras bonitas; que aspecto frio o do refeit&oacute;rio,<br \/>\n    onde na imensa mesa conventual meia d&uacute;zia de freiras sorumb&aacute;ticas<br \/>\n    trocam receitas de pasteis e benzem distraidamente o p&atilde;o, e o comem<br \/>\n    depois sem alegria, a bela alegria, que a t&atilde;o citada Santa Tereza de<br \/>\n    Jesus aconselhava &agrave;s freiras da sua comunidade, a par de trabalho ativo,<br \/>\n    vassouradas, costuras, roupas limpas e polimento de metais! Essa fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    salutar da santa modificou a imundice do convento, mas n&atilde;o lhe tirou<br \/>\n    a grandeza austera e a soturnidade doentia.<\/p>\n<p>Dir&atilde;o: os nossos conventos t&ecirc;m uma fei&ccedil;&atilde;o mais<br \/>\n    modesta e mais acanhada; est&atilde;o pintadinhos de fresco e assoalhados<br \/>\n    de novo.<\/p>\n<p>Tanto pior. N&atilde;o haver&aacute; ao menos espa&ccedil;o para uma evoca&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Do lagedo largo e quebrado de um claustro, de onde surja um tufo de verdura;<br \/>\n    de um nicho abandonado, ou de um pergaminho sujo pelo manusear de mil dedos<br \/>\n    desconhecidos, pode nascer uma reflex&atilde;o, uma curiosidade, um estudo<br \/>\n    ou um devaneio. Mas uma parede caiada e um p&aacute;tio semeado de fresco,<br \/>\n    para as necessidades pr&aacute;ticas da vida, que podem sugerir &agrave; freira<br \/>\n    mo&ccedil;a?<\/p>\n<p>Talvez saudades da gra&ccedil;a, do riso travesso e das confid&ecirc;ncias<br \/>\n    das amigas abandonadas; seu quarto, em que a sua imagem se reproduzia faceira<br \/>\n    e linda; das fitas, do vestido profano; de uma volta de valsa; de um aperto<br \/>\n    de m&atilde;o fugitivo; de um olhar, de um pensamento de amor com ou sem pecado,<br \/>\n    em todo o caso sem medo de excomunh&atilde;o; de coisas pueris e de coisas<br \/>\n    divinas, que enfeitam a vida a intervalos, como as papoulas nos campos de<br \/>\n    trigo.<\/p>\n<p>A verdade, sempre repetida, &eacute; que quem tem f&eacute; melhor serve<br \/>\n    a Deus nos lugares onde por ele se vive ou por ele se morre, que atr&aacute;s<br \/>\n    dos grossos ferrolhos de uma portaria. Esses lugares, a que a mulher com proveito<br \/>\n    levara a do&ccedil;ura da sua cren&ccedil;a e o ardor do seu sacrif&iacute;cio,<br \/>\n    s&atilde;o as cidades empestadas, as ruas cheias de mendigos e de crian&ccedil;as;<br \/>\n    as pris&otilde;es, as ambul&acirc;ncias, todo o s&iacute;tio onde h&aacute;<br \/>\n    dor, fome ou rancores; s&atilde;o a escola onde ensina; a pr&oacute;pria fam&iacute;lia,<br \/>\n    que a sua influ&ecirc;ncia alegra e pacifica; hospital, onde consola; o peda&ccedil;o<br \/>\n    de terra, onde planta a &aacute;rvore, que dar&aacute; sombra a quem vier<br \/>\n    mais tarde e ramos para as ninhadas entoarem hinos ao Criador.<\/p>\n<p>Podemos ser &uacute;teis e ser religiosas sem fugir da sociedade; podemos<br \/>\n    amar o Senhor, sem desprezar os irm&atilde;os, que mais ou menos carecem do<br \/>\n    nosso amparo, ou da nossa presen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Este ego&iacute;smo de esconder as feridas da paix&atilde;o em lugar imperscrut&aacute;vel<br \/>\n    ao olhar humano n&atilde;o &eacute; digno deste tempo, em que as almas se<br \/>\n    desnudam para o combate, porque hoje n&atilde;o h&aacute; santos, h&aacute;<br \/>\n    her&oacute;is; n&atilde;o h&aacute; milagres, h&aacute; virtudes.<\/p>\n<p>Os eleitos de Deus s&atilde;o os eleitos da humanidade, somos n&oacute;s,<br \/>\n    as m&atilde;es, que criamos os filhos para a glorifica&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    mundo; s&atilde;o os homens, que cultivam a terra em paz aben&ccedil;oada,<br \/>\n    ou morrem por uma id&eacute;ia generosa.<\/p>\n<p>A religi&atilde;o tem com certeza melhores servi&ccedil;os nos hospitais,<br \/>\n    nos p&uacute;lpitos, nas miss&otilde;es, em todas as suas formas de expans&atilde;o,<br \/>\n    que nos conventos mudos, abafados pelo rumor que os cerca&#8230;<\/p>\n<p>A irm&atilde; de caridade tem ao menos a sublimidade, a abnega&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de viver para os outros. Essa &eacute; a sua doutrina. A freira para quem<br \/>\n    vive?<\/p>\n<p>A barca atracou &agrave; ponte, e a senhora de luto, puxando para o queixo<br \/>\n    o v&eacute;u do toucado, saiu, levando consigo o mist&eacute;rio daquele romance<br \/>\n    apenas entrevisto&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"4\" id=\"4\">O Vestu&aacute;rio Feminino<\/a><\/h4>\n<p>&Eacute; uma esquisitice muito comum entre senhoras intelectuais, envergarem<br \/>\n    palet&oacute;, colete e colarinho de homem, ao apresentarem-se em p&uacute;blico,<br \/>\n    procurando confundir-se, no aspecto f&iacute;sico, com os homens, como se<br \/>\n    lhes n&atilde;o bastassem as aproxima&ccedil;&otilde;es igualit&aacute;rias<br \/>\n    do esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Esse desd&eacute;m da mulher pela mulher faz pensar que: ou as doutoras julgam,<br \/>\n    como os homens, que a mentalidade da mulher &eacute; inferior, e que, sendo<br \/>\n    elas exce&ccedil;&atilde;o da grande regra, pertencem mais ao sexo forte,<br \/>\n    do que do nosso, frag&iacute;limo; ou que isso revela apenas pretens&atilde;o<br \/>\n    de despretens&atilde;o.<\/p>\n<p>Seja o que for, nem a moral nem a est&eacute;tica ganham nada com isso. Ao<br \/>\n    contr&aacute;rio; se uma mulher triunfa da m&aacute; vontade dos homens e<br \/>\n    das leis, dos preconceitos do meio e da ra&ccedil;a, todas as vezes que for<br \/>\n    chamada ao seu posto de trabalho, com tanta dor, tanta esperan&ccedil;a, e<br \/>\n    tanto susto adquirido, deve ufanar-se em apresentar-se como mulher. Seria<br \/>\n    isso um desafio?<\/p>\n<p>N&atilde;o; natural&iacute;ssimo pareceria a toda a gente que uma mulher<br \/>\n    se apresentasse em p&uacute;blico como todas as outras.<\/p>\n<p>Basta ver um jornal feminista para toparmos logo com muitos retratos de mulheres<br \/>\n    c&eacute;lebres, cujos palet&oacute;s, coletes e colarinhos de homem, parece<br \/>\n    quererem mostrar ao mundo que esta ali dentro um car&aacute;ter viril e um<br \/>\n    esp&iacute;rito de atrevidos impulsos. Cabelos sacrificados &agrave; tesoura,<br \/>\n    lapelas (sem flor!) de casacos escuros, saias esguias e murchas, afeiam corpos<br \/>\n    que a natureza talhou para os altos destinos da gra&ccedil;a e da beleza.<\/p>\n<p>Os colarinhos engomados, as camisas de peito chato, d&atilde;o &agrave;s<br \/>\n    mulheres uma linha pouco sinuosa, e contrafeita, porque &eacute; disfar&ccedil;ada.<\/p>\n<p>M&eacute;dicas, engenheiras, advogadas, farmac&ecirc;uticas, escritoras,<br \/>\n    pintoras, etc. por amarem e se devotarem &agrave;s ci&ecirc;ncias e &agrave;s<br \/>\n    artes, porque h&atilde;o de desdenhar em absoluto a eleg&acirc;ncia feminina<br \/>\n    e procurar nos figurinos dos homens a express&atilde;o da sua individualidade?<\/p>\n<p>H&aacute; certas mulheres, precisamos convir, que t&ecirc;m desculpa na ado&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos murchos trajes masculinos, porque para elas isso n&atilde;o representa<br \/>\n    uma quest&atilde;o de est&eacute;tica, mas de incontest&aacute;vel necessidade<br \/>\n    &#8211; as exploradoras, por exemplo.<\/p>\n<p>A essas, as saias impediriam as passadas e os saltos, no labirinto enredado<br \/>\n    dos cipoais, entre todos os obst&aacute;culos das florestas eri&ccedil;adas<br \/>\n    de espinhos e cortadas de valos a transpor.<\/p>\n<p>As cal&ccedil;as grossas e as altas polainas s&atilde;o para elas, portanto,<br \/>\n    n&atilde;o objeto de fantasia, mas de comodidade e salvamento. O pano flutuante<br \/>\n    do vestido prend&ecirc;-las-ia de instante a instante aos troncos e &agrave;s<br \/>\n    arestas do caminho, e, quando molhado, pesar-lhes-ia no corpo como chumbo.<\/p>\n<p>Por exig&ecirc;ncias de comodidade no trabalho, tamb&eacute;m escultoras<br \/>\n    e pintoras se sujeitam muitas vezes a vestirem-se assim e s&oacute; quando<br \/>\n    executam obras de grandes dimens&otilde;es. As cal&ccedil;as facilitam ent&atilde;o<br \/>\n    as subidas e as descidas de andaimes e de escadas.<\/p>\n<p>Rosa Bonheur, conta-nos um seu bi&oacute;grafo, surpreendida no atelier pela<br \/>\n    not&iacute;cia de que a imperatriz Eug&ecirc;nia entrava em sua casa para<br \/>\n    oferecer-lhe a Legi&atilde;o de Honra, &#8211; viu-se atrapalhada para enfiar &agrave;s<br \/>\n    pressas os trajes do seu sexo e poder receber respeitosamente a soberana.<\/p>\n<p>S&oacute; de portas a dentro ela abusava dessas entradas por seara alheia,<br \/>\n    para usar com liberdade de todos os seus movimentos; mas desde que a artista<br \/>\n    era procurada por estranhos, ela aparecia como mulher.<\/p>\n<p>Nas cidades, sobre o asfalto das ruas ou o saibro das alamedas, n&atilde;o<br \/>\n    sabe a gente verdadeiramente para que raz&atilde;o apelar, quando v&ecirc;,<br \/>\n    cingidas a corpos femininos, essas toilettes h&iacute;bridas, compostas de<br \/>\n    saias de mulher, coletes e palet&oacute;s de homem&#8230; Nem tampouco &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil de perceber o motivo por que, em vez da fita macia, preferem<br \/>\n    essas senhoras especar o pesco&ccedil;o num colarinho lustrado a ferro, e<br \/>\n    duro como um papel&atilde;o!<\/p>\n<h4><a name=\"5\" id=\"5\">A Arte de Envelhecer<\/a><\/h4>\n<p>N&atilde;o somos s&oacute; n&oacute;s, minhas amigas, que vemos com terror<br \/>\n    brilhar por entre as nossas madeixas castanhas, louras ou pretas, o primeiro<br \/>\n    fio de cabelo branco. As dolorosas apreens&otilde;es desse momento eram-nos<br \/>\n    s&oacute; atribu&iacute;das a n&oacute;s, como se n&atilde;o nasc&ecirc;ramos<br \/>\n    sen&atilde;o para a mocidade e o amor.<\/p>\n<p>O homem envergonhado, e com receio de se confessar vaidoso, sem perceber<br \/>\n    talvez que a primeira den&uacute;ncia da velhice tem para n&oacute;s amarguras<br \/>\n    mais sutis que a do simples medo de ficarmos mais feias, teve sempre para<br \/>\n    a nossa decep&ccedil;&atilde;o um sorriso de inclemente ironia&#8230;<\/p>\n<p>Poetas e contistas, valham-nos eles, e que Deus lhes prolongue a ra&ccedil;a!<br \/>\n    engrinaldaram de rimas e per&iacute;odos suaves a dor desse momento sagrado,<br \/>\n    em que as nossas esperan&ccedil;as fecham as asas, repentinamente murchas,<br \/>\n    e a luz dos nossos sonhos esmorece&#8230;<\/p>\n<p>Mas se eles adivinharam a delicadeza do nosso sentimento, n&atilde;o nos<br \/>\n    contaram a esp&eacute;cie do seu, ao ver a luz p&aacute;lida e fina de um<br \/>\n    fio prateado coleando por entre as ondas negras da cabeleira, ou as pontas<br \/>\n    castanhas do bigode.<\/p>\n<p>Pens&aacute;vamos que os primeiros sinais outoni&ccedil;os, que s&atilde;o<br \/>\n    para as mulheres os mais terr&iacute;veis, n&atilde;o os alarmassem a eles,<br \/>\n    sempre embebidos em t&atilde;o grandes ideais, que nem tivessem vagar para<br \/>\n    perceber a ru&iacute;na do pr&oacute;prio corpo. Enganamo-nos; o homem &eacute;<br \/>\n    tamb&eacute;m sens&iacute;vel como n&oacute;s &agrave;s apreens&otilde;es<br \/>\n    que a vista primeiro cabelo branco sugere.<\/p>\n<p>Um fio de cabelo, nada h&aacute; mais fr&aacute;gil, nem mais quebradi&ccedil;o<br \/>\n    nem mais leve, e entretanto v&ecirc;-se que mundo de sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ele prende e arrasta! At&eacute; aqui, eram s&oacute; as nossas, sup&uacute;nhamos,<br \/>\n    mas agora sabemos que s&atilde;o as de toda a gente!<\/p>\n<p>Tenho diante dos olhos uma p&aacute;gina de homem &#8211; A arte de envelhecer<br \/>\n    &#8211; que se me afigura ter sido escrita diante de um espelho p&eacute;rfido.<br \/>\n    Essa p&aacute;gina suave e bem feita analisa essa hora delicada e de dif&iacute;cil<br \/>\n    interpreta&ccedil;&atilde;o, em que h&aacute; em todos o mesmo estremecimento<br \/>\n    de susto, e o mesmo estender de m&atilde;os para agarrar o que passou e que<br \/>\n    n&atilde;o voltar&aacute; jamais &#8211; a mocidade.<\/p>\n<p>A mocidade! aos quarenta anos ainda a sentimos perto, aspiramo-lhes o aroma,<br \/>\n    como que lhe sentimos o h&aacute;lito quente; j&aacute; ela nos deixou, j&aacute;<br \/>\n    ela se foi embora, e todavia recrudesce em n&oacute;s, mulheres, toda a alacridade<br \/>\n    vivaz da sua exuber&acirc;ncia; h&aacute; mais calor no nosso peito, mais<br \/>\n    ardor na nossa paix&atilde;o, mais firmeza na nossa vontade. &Eacute; nesse<br \/>\n    instante de supremo g&aacute;udio que um insignificante fio de cabelo branco<br \/>\n    nos vem lembrar que o bem que gozamos, t&atilde;o conscientemente como o goz&aacute;ramos<br \/>\n    at&eacute; ent&atilde;o com indiferen&ccedil;a&#8230; h&aacute; de acabar!<\/p>\n<p>Supus, n&atilde;o sei porque, &agrave; for&ccedil;a de ouvir dizer, talvez,<br \/>\n    que essa hora para os homens chegasse mais tarde. Vejo que n&atilde;o. Sempre<br \/>\n    &eacute; consolador ter bons companheiros na desgra&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>No arte de envelhecer, tema delicioso e que o autor poderia desenvolver em<br \/>\n    um volume grosso, h&aacute; uma pincelada jeitosa e leve na refer&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; maneira por que sabemos disfar&ccedil;ar os estragos impiedosos do<br \/>\n    tempo&#8230; O que as palavras n&atilde;o dizem, mas a insinua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aponta, &eacute; que esse meio &eacute; o maquilage, o artif&iacute;cio, o<br \/>\n    aux&iacute;lio das cores sabiamente combinadas, a discri&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos v&eacute;us e o efeito art&iacute;stico do penteado&#8230;<\/p>\n<p>Saber compor a fisionomia, dar-lhe apar&ecirc;ncia agrad&aacute;vel, torn&aacute;-la<br \/>\n    bonita quanto poss&iacute;vel, &eacute; a mais comum das preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    femininas, para que n&atilde;o a confessemos.<\/p>\n<p>Todavia, h&aacute; uma revela&ccedil;&atilde;o a fazer: &eacute; que raramente<br \/>\n    se p&otilde;e aqui ao servi&ccedil;o desse cuidado o uso das tintas, das pomadas<br \/>\n    e dos vernizes.<\/p>\n<p>A n&atilde;o ser a inglesa, protegida por um clima que lhe aveluda a tez,<br \/>\n    n&atilde;o conhe&ccedil;o mulher que menos recorra aos embustes do toucador<br \/>\n    que a brasileira.<\/p>\n<p>O p&oacute; de arroz, contra o qual antigamente alguns pais de fam&iacute;lia<br \/>\n    se insurgiam, &eacute; o &uacute;nico aux&iacute;lio de que lan&ccedil;amos<br \/>\n    m&atilde;o, mais ainda como um complemento de toilette, que o uso torna indispens&aacute;vel,<br \/>\n    que mesmo como um elemento de garridice.<\/p>\n<p>O p&oacute; de arroz n&atilde;o s&oacute; atenua o luzidio da pele, afogueada<br \/>\n    por uma temperatura quase sempre alta, como tamb&eacute;m suaviza, refresca<br \/>\n    e aromatiza.<\/p>\n<p>Positivamente, ele foi adotado por isto: n&atilde;o s&oacute; embeleza como<br \/>\n    sabe bem.<\/p>\n<p>De tal maneira isto &eacute; certo, que ningu&eacute;m o oculta, como a um<br \/>\n    fator misterioso de formosura, que se quisesse guardar inc&oacute;gnito; ao<br \/>\n    contr&aacute;rio, damo-lhes caixas vistosas de cristal lapidado onde a luz<br \/>\n    incide em refra&ccedil;&otilde;es irisadas.<\/p>\n<p>A velhice material, grosseira, ainda n&atilde;o mereceu da maior e melhor<br \/>\n    parte das mulheres brasileiras o sacrif&iacute;cio in&uacute;til da m&aacute;scara<br \/>\n    confeccionada em sess&otilde;es longas, com pincelinhos, camur&ccedil;as,<br \/>\n    &oacute;leos, tintas e esmaltes.<\/p>\n<p>Mas A arte de envelhecer n&atilde;o teve por objetivo a arte de n&atilde;o<br \/>\n    parecer velho; mas sim de padecer com resignada calma as grada&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da mudan&ccedil;a. Isso depende, al&eacute;m da vontade, das circunst&acirc;ncias<br \/>\n    de cada um&#8230;<\/p>\n<p>A felicidade est&aacute; em envelhecer sem arte, com outras preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais elevadas e menos ego&iacute;stas&#8230;<\/p>\n<p>Desde os primeiros anos de escola que os mestres se esfor&ccedil;am por fazer<br \/>\n    compreender &agrave;s crian&ccedil;as que a beleza, sendo transit&oacute;ria,<br \/>\n    menos vale do que a bondade, e que<\/p>\n<p>On ne sa&iacute;t plus que devenir Lorsque l&#8217;on n&#8217;a su qu&#8217;&ecirc;tre belle<\/p>\n<p>O esfor&ccedil;o para a perfei&ccedil;&atilde;o material &eacute; sempre<br \/>\n    improf&iacute;cuo, e o para o aperfei&ccedil;oamento moral sempre bem coroado.<\/p>\n<p>A arte de envelhecer &eacute; a de exercitar a alma nas doces pr&aacute;ticas<br \/>\n    do benef&iacute;cio e saber derramar em torno a si at&eacute; &agrave; &uacute;ltima<br \/>\n    hora de consci&ecirc;ncia, a sombra que alivia ou o calor que reanima&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\">A Mulher Brasileira<\/a><\/h4>\n<p>O europeu tem a respeito da mulher brasileira uma no&ccedil;&atilde;o fals&iacute;ssima.<br \/>\n    Para ele n&oacute;s s&oacute; nascemos para o amor e a idolatria dos homens,<br \/>\n    sendo para tudo mais o prot&oacute;tipo da nulidade.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que a exist&ecirc;ncia para n&oacute;s desliza como um rio de rosas<br \/>\n    sem espinhos e que recebemos do c&eacute;u o dom escultural da formosura,<br \/>\n    que imp&otilde;e a adora&ccedil;&atilde;o&#8230; Nem uma nem outra coisa. Nem<br \/>\n    a mulher brasileira &eacute; bonita, se n&atilde;o nos curtos anos da primeira<br \/>\n    mocidade, nem t&atilde;o pouco a sociedade lhe alcatifa a vida de facilidades.<br \/>\n    Ela &eacute; exatamente digna de observa&ccedil;&atilde;o elogiosa pelo seu<br \/>\n    car&aacute;ter independente, pela presteza com que se submete aos sacrif&iacute;cios,<br \/>\n    a bem dos seus, e pela sua virtude. A brasileira n&atilde;o se contenta com<br \/>\n    o ser amada: ama; n&atilde;o se resigna a ser in&uacute;til: age, vibrando<br \/>\n    &agrave; felicidade ou &agrave; dor, sem ofender os tristes com a sua alegria<br \/>\n    e sabendo subjugar o sofrimento. Parecer&aacute; por isso indiferente ou sossegada,<br \/>\n    a quem n&atilde;o a conhecer sen&atilde;o pelas exterioridades. Mas n&atilde;o<br \/>\n    tivesse ela capacidade para a luta e ainda as portas das academias n&atilde;o<br \/>\n    se lhe teriam aberto, nem teria conseguido lecionar em col&eacute;gios superiores.<br \/>\n    A esses lugares de responsabilidade ningu&eacute;m vai por fantasia nem chega<br \/>\n    sem sacrif&iacute;cios e coragem. Apesar da antipatia do homem pela mulher<br \/>\n    intelectual, que ele agride e ridiculariza, a brasileira de hoje procura enriquecer<br \/>\n    a sua intelig&ecirc;ncia freq&uuml;entando cursos que lhe ilustrem o esp&iacute;rito<br \/>\n    e lhe proporcionem um escudo para a vida, t&atilde;o sujeita a mutabilidades&#8230;.<\/p>\n<p>Se o seu temperamento &eacute; c&aacute;lido e voluptuoso, a sua &iacute;ndole<br \/>\n    &eacute; honesta e ativa e o seu pensamento despido de preconceitos.<\/p>\n<p>Se uma mulher brasileira, (se h&aacute; excep&ccedil;&otilde;es? h&aacute;-as<br \/>\n    de certo!) cai de uma posi&ccedil;&atilde;o ornamental em outra humilde, &eacute;<br \/>\n    de rosto descoberto que dia procura trabalho ent&atilde;o vai ser costureira,<br \/>\n    mestra, tip&oacute;grafa, telegrafista, aia, qualquer coisa, conforme a educa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    recebida, ou o ambiente em que vive&#8230;<\/p>\n<p>Nessas a&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o h&aacute; simplicidade, &#8211; h&aacute;<br \/>\n    estoicismo e uma compreens&atilde;o perfeita da vida moderna: que &eacute;<br \/>\n    a guerra das compet&ecirc;ncias. A brasileira vive ociosa; &eacute; uma frase<br \/>\n    injusta e que anda a correr mundo, infelizmente sem protesto. Porque?<\/p>\n<p>Toda a gente sabe que no Brasil s&oacute; n&atilde;o amamenta os filhos a<br \/>\n    mulher doente, aquela que n&atilde;o tem leite ou que o sabe prejudicial em<br \/>\n    vez de ben&eacute;fico!<\/p>\n<p>Ricas ou pobres, as m&atilde;es s&oacute; tem uma aspira&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    &#8211; aleitar, criar os seus filhos! Este exemplo devia ser citado, porque, &agrave;<br \/>\n    propor&ccedil;&atilde;o que esta virtude se acentua entre n&oacute;s, parece<br \/>\n    que nos pa&iacute;ses mais civilizados vai se tornando escassa!<\/p>\n<p>A mulher brasileira ama com mais intensidade, talvez; dedica-se toda, sem<br \/>\n    medo de estragar a sua beleza, &agrave;s como&ccedil;&otilde;es da vida. A&iacute;<br \/>\n    vemos as pobres mulheres dos soldados, seguindo-os &agrave; guerra, acompanhando-os<br \/>\n    nas batalhas, matando quem os fere, ferindo quem os amea&ccedil;a, erguendo-lhes<br \/>\n    das m&atilde;os moribundas a espingarda com que os vingam!<\/p>\n<p>Estas energias n&atilde;o s&atilde;o filhas do acaso, v&ecirc;m-nos da mistura<br \/>\n    de sangues com que fomos geradas, v&ecirc;m-nos desta natureza portentosa<br \/>\n    e que por toda a parte nos ensina que a vida &eacute; uma grande fonte que<br \/>\n    n&atilde;o deve secar inutilmente!<\/p>\n<p>\n    Nos pa&iacute;ses tropicais a precocidade &eacute; tamanha que a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    da menina passa como um sopro e come&ccedil;am bem cedo as responsabilidades<br \/>\n    da mulher. Por vezes o assalto &eacute; t&atilde;o repentino que n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; tempo de preparar na crian&ccedil;a o esp&iacute;rito da donzela.<br \/>\n    Namorada de si mesma, no deslumbramento da mocidade, ela afigurasse-nos ent&atilde;o<br \/>\n    fr&iacute;vola e perigosa. Receia a gente pelo futuro da pobre crian&ccedil;a,<br \/>\n    estonteada pela vida como uma mariposa pela luz. Quanto mais melindrosa &eacute;<br \/>\n    essa quadra, quanto mais vagares tem a imagina&ccedil;&atilde;o, alvoro&ccedil;ada<br \/>\n    pelos sentidos, de arquitetar castelos mentirosos! Felizes as donzelas pobres,<br \/>\n    obrigadas pelas circunst&acirc;ncias apertadas da vida a empregar a sua intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e a sua atividade no trabalho e no estudo! S&atilde;o as mocinhas que, para<br \/>\n    irem &agrave;s aulas que freq&uuml;entam, engomam as suas saias ou cosem as<br \/>\n    suas blusas, as mais habilitadas para a resist&ecirc;ncia das paix&otilde;es<br \/>\n    ruins. Decididamente, o trabalho &eacute; o melhor saneador de almas! E n&oacute;s<br \/>\n    precisamos da nossa muito s&atilde;, porque s&oacute; a virtude da mulher<br \/>\n    pode salvar os homens, seus filhos e seus irm&atilde;os, no descalabro das<br \/>\n    sociedades arruinadas ou em deliq&uuml;esc&ecirc;ncia&#8230; A nossa for&ccedil;a<br \/>\n    est&aacute; na nossa bondade e no nosso crit&eacute;rio, coisas que, quando<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o naturais, fazem-se pela vontade.<\/p>\n<p>N&oacute;s, as brasileiras, perdemo-nos pelo excesso de sentimento. Ainda<br \/>\n    n&atilde;o aprendemos a dominar o nosso cora&ccedil;&atilde;o, que se d&aacute;<br \/>\n    em demasia, sem colher por isso grandes resultados&#8230;<\/p>\n<p>O europeu, tratado com rigor pela m&atilde;e, n&atilde;o tem por ela menos<br \/>\n    respeito (talvez tenha mais!) nem menos carinhos que os nossos filhos t&ecirc;m<br \/>\n    por n&oacute;s&#8230; que nos desfazemos por eles em sacrif&iacute;cios e ternuras!<br \/>\n    Parece que a bland&iacute;cie perene enfraquece a alma do indiv&iacute;duo,<br \/>\n    tornando-o um pouco indiferente&#8230;<\/p>\n<p>\n    H&aacute; muito quem afirme que no Brasil a mulher domina como soberana; e<br \/>\n    j&aacute; um escritor portugu&ecirc;s disse dela, relatando as suas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    em um livro de viagem:<\/p>\n<p>&quot;&#8230; A mulher deve ser, entre esta ra&ccedil;a, superior a todas as<br \/>\n    coisas. V&ecirc;-la passar na rua e compreender a como&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ela causa &eacute; ter reconhecido todo o alcance do seu prest&iacute;gio.<br \/>\n    Inspira devo&ccedil;&atilde;o, tem um culto. N&atilde;o &eacute; mulher companheira<br \/>\n    do homem, sua irm&atilde; de trabalhos e de penas; &eacute; a mulher &iacute;dolo,<br \/>\n    a mulher sacr&aacute;rio. M&atilde;e, filha, esposa ou cortes&atilde;, ela<br \/>\n    ser&aacute; neste pa&iacute;s e para este povo a suprema instigadora, e a<br \/>\n    sua vontade, como o seu capricho, ter&atilde;o o cunho aut&ecirc;ntico de<br \/>\n    leis, assim no lar como nas alcovas. Ser&aacute; ela quem predomine e da sua<br \/>\n    boa ou m&aacute; influ&ecirc;ncia depender&aacute;, talvez, o destino hist&oacute;rico<br \/>\n    desta nacionalidade.&quot;<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel que assim seja de futuro, visto que a brasileira<br \/>\n    de hoje tem mais ampla no&ccedil;&atilde;o da vida; a li&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    passado, por&eacute;m, desgra&ccedil;adamente, &eacute; outra.<\/p>\n<p>A verdade, que deve aparecer aqui, &eacute; que nos acontecimentos culminantes<br \/>\n    da nossa hist&oacute;ria, aqueles que nos fatos da nacionalidade brasileira<br \/>\n    iniciam per&iacute;odos de renova&ccedil;&atilde;o e de progresso &#8211; a independ&ecirc;ncia,<br \/>\n    a aboli&ccedil;&atilde;o, a rep&uacute;blica &#8211; a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da mulher, direta ou indiretamente considerada, quando n&atilde;o foi nula<br \/>\n    foi hostil.<\/p>\n<p>Entretanto, estes fatos, para s&oacute; falar dos pr&iacute;ncipes, tiveram<br \/>\n    todos longa, persistente, tenac&iacute;ssima propaganda, e realizaram-se sem<br \/>\n    a mulher ou&#8230; apesar da mulher!<\/p>\n<p>A sinceridade deste livro, exige este desabafo doloroso.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Cartas<\/a><\/h4>\n<p>&quot;Minha querida.<\/p>\n<p>Escrevo-te &agrave; noite, com a minha vaidade de dona de casa completamente<br \/>\n    satisfeita. Vou dizer-te por qu&ecirc;.<\/p>\n<p>H&aacute; tempos, entre as minhas fantasias de menag&egrave;re figurou a<br \/>\n    de mandar fazer um chemin de table de arame, que eu cobriria de flores naturais<br \/>\n    para a minha mesa de jantar. Ideada a hist&oacute;ria, fez-se o desenho, e<br \/>\n    no dia seguinte atirei-me para a Casa Flora, a indagar se aquilo seria coisa<br \/>\n    de f&aacute;cil execu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o era; o dono da loja mesmo louvou a id&eacute;ia, mas duvidou do<br \/>\n    &ecirc;xito. L&aacute; deixei o meu desenho e voltei desconsolada. Passadas<br \/>\n    algumas semanas, quando eu j&aacute; nem me lembrava de ter pensado um dia<br \/>\n    num chemin de table de arame, eis que ele me entrou pela porta a dentro. Era<br \/>\n    tal e qual um esqueleto, bem descarnado e extravagante. Franziu-me a boca<br \/>\n    o cl&aacute;ssico muxoxo da decep&ccedil;&atilde;o. Senhor! como &eacute;<br \/>\n    f&aacute;cil &agrave; gente imaginar coisas bonitas, mas como &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    execut&aacute;-las! N&atilde;o valer&aacute; muito mais deix&aacute;-las para<br \/>\n    sempre em sonho? Sim, mais valeria; mas, j&aacute; agora, seria preciso cobrir<br \/>\n    aquela nudez fria, cinzenta e desenxabida do arame, todo contorcido em voltas<br \/>\n    e reviravoltas, e disfar&ccedil;&aacute;-la sob um delicado manto de avencas<br \/>\n    e de jasmins.<\/p>\n<p>Pois nem jasmins nem avencas. S&eacute; encontrei nessa tarde hastes de hera<br \/>\n    e de silvina, cujo verde sombrio alegrei a espa&ccedil;os com rosas e margaridas.<br \/>\n    O efeito n&atilde;o era positivamente encantador; registrei mais uma desilus&atilde;o<br \/>\n    na vida, e no dia seguinte mandei atirar com a causa dela para o fundo do<br \/>\n    quarto das malas e badulaques.<\/p>\n<p>Pendurado rente &agrave; parede, mais o desgra&ccedil;ado me fazia lembrar,<br \/>\n    de novo despido da folhagem, a ossada de um peixe enorme e esquisit&iacute;ssimo.<\/p>\n<p>C&#8217;est de l&#8217;art nouveau! Tinha-me dito o dono da Casa Flora, ao observar o<br \/>\n    desenho que eu lhe levara, com um ar de lisonjeiro agrado. Pois sim! estava<br \/>\n    fresco o novo estilo! Naquele eri&ccedil;amento das duras folhas de hera ficara<br \/>\n    t&atilde;o bem disfar&ccedil;ado que ningu&eacute;m o percebera, e um amigo<br \/>\n    mesmo zombara, com a sua fina gra&ccedil;a, do meu amor &agrave;s novidades<br \/>\n    e do meu gosto pelas inven&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p>Pois, minha adorada, fiquei com pena de que oito dias depois esse senhor<br \/>\n    n&atilde;o tivesse voltado a jantar comigo, n&atilde;o j&aacute; s&oacute;<br \/>\n    pelo prazer que a sua companhia me proporcionaria, como porque, dessa vez,<br \/>\n    o meu invento n&atilde;o fez triste figura, antes pelo contr&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>E por ter dado &agrave; minha mesa modesta um encanto singular, determinei<br \/>\n    revelar-te a maneira porque, querendo, te poder&aacute;s servir com seguran&ccedil;a<br \/>\n    dessa esp&eacute;cie de adorno.<\/p>\n<p>Por ser teimosa, e n&atilde;o desistir, logo &agrave; primeira dificuldade,<br \/>\n    das inten&ccedil;&otilde;es que tenho, mandei arriar da parede o tal aparelho<br \/>\n    de arame (que deve ser feito segundo o gosto da dona da casa e o tamanho da<br \/>\n    mesa) e com paci&ecirc;ncia (que &eacute; de todas as obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que me imponho a mais terr&iacute;vel de cumprir) comecei a cobrir o arame<br \/>\n    do chemin de table com uma flor delicada, cujas p&eacute;talas de seda e de<br \/>\n    arminho parece terem-se reunido por um sopro de brisa. Esta florinha tem o<br \/>\n    nome harmonioso de &#8211; Rodanthe.<\/p>\n<p>Umas s&atilde;o brancas, de uma brancura p&aacute;lida de edelweiss, e outras<br \/>\n    de um r&oacute;seo desmaiado e doce.<\/p>\n<p>Vit&oacute;ria! vestido por elas, o desengra&ccedil;ad&iacute;ssimo chemin<br \/>\n    de table, desenhou sobre a toalha, em finas hastes ondeadas, uma renda de<br \/>\n    flores delicad&iacute;ssima.<\/p>\n<p>Para dar-lhe mais vida e quebrar-lhe a uniformidade, coloquei, em uma volta<br \/>\n    da moldura, &agrave; cabeceira, um ramo leve de orqu&iacute;deas sulferinas<br \/>\n    e de, &agrave; falta de cris&acirc;ntemos, margaridas cor de ouro. Flores<br \/>\n    sem aroma, como conv&eacute;m para a mesa. O efeito dessa ornamenta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pareceu-me lindo e &eacute; por isso que t&#8217;o comunico; encantador, e foi por<br \/>\n    isso que o aproveitei para assunto desta p&aacute;gina&#8230;. dom&eacute;stica.<br \/>\n    O ego&iacute;smo tem a sua raz&atilde;o de ser em outra ordem de sentimentos;<br \/>\n    nestas pequeninas vaidades de menag&egrave;re parece-me, al&eacute;m de mau,<br \/>\n    soberanamente tolo.<\/p>\n<p>O meu interesse, por exemplo, n&atilde;o &eacute; tornar a minha pobre casa<br \/>\n    melhor que a do meu vizinho, que &eacute; rico e que tem bom gosto; mas sim<br \/>\n    torn&aacute;-la t&atilde;o boa quanto est&aacute; nas minhas posses faz&ecirc;-lo.<br \/>\n    Assim, quando nesse esfor&ccedil;o consigo alguma coisa que corresponda ou<br \/>\n    ultrapasse a minha expectativa, apresso-me em comunic&aacute;-la &agrave;s<br \/>\n    amigas, para seu regalo e seu uso.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o &eacute; o temor do inferno o que me h&aacute; de levar<br \/>\n    ao c&eacute;u&quot; &#8211; disse o padre Ant&ocirc;nio Vieira em uma das suas cartas,<br \/>\n    n&atilde;o me lembra agora a quem.<\/p>\n<p>Eu afirmo o mesmo, deixando &agrave; tua perspic&aacute;cia adivinhar em<br \/>\n    que se funda a minha esperan&ccedil;a de gozo eterno.<\/p>\n<p>Outra que bem merecem a bem-aventuran&ccedil;a, &eacute;s tu, pelas receitinhas<br \/>\n    de bolos que me mandaste&#8230;<\/p>\n<p>Um observador maligno disse-me um dia que quem prestar o ouvido ao cochichar<br \/>\n    de duas brasileiras ouvir&aacute; falar de amor ou de receitas culin&aacute;rias.<\/p>\n<p>O dito n&atilde;o me incomodou, e fiz-lhe mesmo notar que, ainda &eacute;<br \/>\n    por amor que tamanha aten&ccedil;&atilde;o prestamos &agrave; mesa.<\/p>\n<p>N&atilde;o me lembro quem disse que um homem tudo perdoa, menos um mau jantar!<\/p>\n<p>E repara que os homens s&atilde;o muito mais exigentes do que n&oacute;s.<br \/>\n    Fico tonta&#8230;<\/p>\n<p>Variar! variar &eacute; bom de dizer. H&aacute; cerca de uns tr&ecirc;s dias<br \/>\n    apeteceu-me comer perdiz. A minha cozinheira sacudiu a sua moleza por essas<br \/>\n    ruas e voltou para casa como sa&iacute;ra: com as m&atilde;os a abanar. Nenhuma<br \/>\n    perdizinha para a minha salva&ccedil;&atilde;o. Disse-lhe eu ent&atilde;o<br \/>\n    que me enganasse com uma galinhola, o que ela fez assaz regularmente, mas<br \/>\n    que eu mastiguei com t&atilde;o pouca convic&ccedil;&atilde;o, que me n&atilde;o<br \/>\n    soube ao que pretendia!<\/p>\n<p>Por estar enfronhada nestes embara&ccedil;os dom&eacute;sticos &eacute; que<br \/>\n    me rejubilo sempre que topo com uma novidade &uacute;til, e logo me expando<br \/>\n    em descrev&ecirc;-la &agrave;s outras. H&aacute; ainda um motivo para esta<br \/>\n    tagarelice: &eacute; ter um pretexto de te falar em flores.<\/p>\n<p>Estas tais rodanthes, pequeninas e sedosas, s&atilde;o t&atilde;o leves e<br \/>\n    de t&atilde;o bom aux&iacute;lio para qualquer esp&eacute;cie de ornamento,<br \/>\n    que devemos saudar o seu aparecimento no Rio com algumas palavras de simpatia.<br \/>\n    N&atilde;o saudamos tamb&eacute;m a crysanth&egrave;me e o muguet? Esta agora,<br \/>\n    pela sonoridade do nome, parece ressuscitada dos famosos tempos da cavalaria.<br \/>\n    Deveria ser de rodanthes o ramo oferecido por D. Quixote &agrave; sua Dulcin&eacute;a.<\/p>\n<p>Exatamente no momento em que escrevo, sorri na minha mesa de trabalho um<br \/>\n    galho vermelho de umas flores do mato, cujo nome ainda ignoro. &Eacute; tal<br \/>\n    qual uma haste de coral, onde uma legi&atilde;o de avezinhas min&uacute;sculas,<br \/>\n    de um vermelho ainda mais intenso, tivessem pousado com as azinhas de veludo<br \/>\n    suspensas para o v&ocirc;o.<\/p>\n<p>Que divinas surpresas nos reservam as nossas florestas, t&atilde;o pouco<br \/>\n    exploradas na curiosidade da flor. Entretanto, nossas ou estrangeiras (filha,<br \/>\n    flor n&atilde;o tem p&aacute;tria!) aclimemo-las aqui com o maior carinho.<br \/>\n    Olha, um dia destes, um amigo do Par&aacute; afirmou-nos ter obtido no seu<br \/>\n    jardim, em Bel&eacute;m, cam&eacute;lias perfeitas, de uma alvura azulada.<br \/>\n    N&atilde;o ser&aacute; mais milagrosa essa maravilha, uma flor do frio desabrochando,<br \/>\n    impass&iacute;vel, numa atmosfera de fogo?<\/p>\n<p>Adeus, querida!<\/p>\n<p>Tua, JULIETTA<\/p>\n<h4><a name=\"8\" id=\"8\">Em Guarda<\/a><\/h4>\n<p>Quando, ao cair da noite, a m&atilde;e senta nos joelhos o filho amado e<br \/>\n    o interroga sobre os feitos do seu dia, para censur&aacute;-lo ou aplaudi-lo,<br \/>\n    como &eacute; feliz quando tem, para fortalecer a sua consci&ecirc;ncia, a<br \/>\n    contar-lhe um fato her&oacute;ico ou um sentimento sublime, documentados por<br \/>\n    uma simples not&iacute;cia de jornal ou uma audi&ccedil;&atilde;o de acaso!<br \/>\n    A sua alma prof&eacute;tica adivinha que coisa alguma comover&aacute; mais<br \/>\n    profunda e utilmente o seu rapazinho do que o saber que no seu tempo, na sua<br \/>\n    cidade mesmo, &agrave; hora em que ele brincava com o seu pi&atilde;o, ou<br \/>\n    escrevia os seus temas, ou dormia regaladamente o seu sono, havia um homem<br \/>\n    da mesma ra&ccedil;a, da mesma l&iacute;ngua, seu semelhante em tudo, que<br \/>\n    arriscava a sua vida para salvar a vida de um estranho, escalando janelas<br \/>\n    incendiadas, atirando-se &agrave;s ondas impetuosas, atrevendo-se, enfim,<br \/>\n    aos perigos de uma morte horr&iacute;vel e quase inevit&aacute;vel!<\/p>\n<p>S&atilde;o as melhores p&aacute;ginas para a alma, estas p&aacute;ginas vivas,<br \/>\n    ainda quentes do calor do sangue, ou empapadas pela inunda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das l&aacute;grimas. Percebendo isso, n&atilde;o h&aacute; m&atilde;e que<br \/>\n    se n&atilde;o comova, quando, relatando-as ao filho, v&ecirc; nas transparentes<br \/>\n    pupilas dele despontar e dilatar-se a flor dourada da generosidade e do entusiasmo<br \/>\n    precoce.<\/p>\n<p>Sei que, ao contr&aacute;rio de tudo que &eacute; regido pelas leis naturais,<br \/>\n    os her&oacute;is do passado, vistos atrav&eacute;s a dist&acirc;ncia dos tempos,<br \/>\n    em vez de diminu&iacute;rem crescem de estatura; mas a verdade tamb&eacute;m<br \/>\n    &eacute; que essa lente m&aacute;gica, agiganta-os at&eacute; ao ponto de<br \/>\n    os tornar como deuses, mais f&aacute;ceis de admirar que de imitar.<\/p>\n<p>O conhecimento dos grandes homens da antiguidade serve para a cultura do<br \/>\n    esp&iacute;rito, mas n&atilde;o sei se ter&aacute; o mesmo proveito para a<br \/>\n    do sentimento.<\/p>\n<p>Eles permanecem im&oacute;veis no seu tempo, em um meio que foge &agrave;<br \/>\n    nossa perspic&aacute;cia e em que se destacam como entes sobre-humanos para<br \/>\n    o culto das gera&ccedil;&otilde;es sucessivas. As crian&ccedil;as, lendo ou<br \/>\n    ouvindo as suas fa&ccedil;anhas, t&ecirc;m uma certa desconfian&ccedil;a da<br \/>\n    sua autenticidade, ou o pressentimento de que nos tempos modernos elas seriam<br \/>\n    absolutamente imposs&iacute;veis.<\/p>\n<p>De resto, o que est&aacute; nas cr&ocirc;nicas e nos livros pode ser fic&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Quem viu? Quem relatou? homens que talvez tivessem mentido ou simplesmente<br \/>\n    exagerado, e que dormem h&aacute; muito o frio sono em t&uacute;mulos dispersos<br \/>\n    e ignorados.<\/p>\n<p>Agora o que n&atilde;o &eacute; mentira, o que parece feito da carne quente<br \/>\n    e n&atilde;o das cinzas frias, &eacute; um caso de altru&iacute;smo que o<br \/>\n    nosso jornal nos contou esta manh&atilde;, com um coment&aacute;rio banal,<br \/>\n    na frivolidade apressada de quem v&ecirc; tudo do alto e quer seguir para<br \/>\n    diante, em desempenho de outras atribui&ccedil;&otilde;es. Este caso, passado<br \/>\n    entre n&oacute;s, atestado por pessoas nossas conhecidas, ainda tem uma palpita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de vida e pode reproduzir-se nesta mesma hora, daqui a pouco, ou amanh&atilde;&#8230;.<\/p>\n<p>Que belo partido tiram as m&atilde;es inteligentes dessas li&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do acaso! As vezes o fato parece t&atilde;o insignificante que se some em<br \/>\n    um canto do peri&oacute;dico, sem atrair a aten&ccedil;&atilde;o de ningu&eacute;m,<br \/>\n    tal qual como uma mulher desconhecida e feia se some numa esquina. Passou,<br \/>\n    viram-na, mas n&atilde;o houve quem lhe tirasse o chap&eacute;u ou sequer<br \/>\n    a acompanhasse com a vista.<\/p>\n<p>Por mais que bramem contra o ego&iacute;smo e a maldade destes tempos, olhem<br \/>\n    que h&aacute; por a&iacute; muitos exemplos de abnega&ccedil;&atilde;o e de<br \/>\n    bondade dignos de toda a nossa rever&ecirc;ncia. Lendo-os, na maior parte<br \/>\n    das vezes, levantamos os ombros, n&atilde;o fazemos caso.<\/p>\n<p>&Eacute; que a not&iacute;cia, feita sobre o joelho, vinha mal enroupada,<br \/>\n    com falta do estilo que seduz e obriga &agrave; como&ccedil;&atilde;o. Refletindo,<br \/>\n    por&eacute;m, um bocadinho, a educadora perspicaz pesca, no lodo que as se&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    policiais revolvem, p&eacute;rolas de inapreci&aacute;vel valor! O resto depende<br \/>\n    da habilidade dos seus dedos, quando as mostrem &agrave; clara luz para faz&ecirc;-las<br \/>\n    admirar.<\/p>\n<p>H&aacute; quem pro&iacute;ba a meninas e rapazinhos a leitura dos jornais.<br \/>\n    Por mim n&atilde;o me parece que haja nisso bom senso. O jornal &eacute; toda<br \/>\n    a alma da cidade, com os seus v&iacute;cios, as suas mis&eacute;rias e as<br \/>\n    suas gl&oacute;rias, que fazem tremer de horror ou de entusiasmo, e que, melhor<br \/>\n    que todos os livros de filosofia, ensina a conhecer o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um povo.<\/p>\n<p>Que descortinar&aacute; o jornal mais indiscretamente do que descortina a<br \/>\n    rua, onde a mocinha, incitada &agrave; faceirice por elogios sem termos, entrev&ecirc;<br \/>\n    os graves amigos do papai conversando com as cocottes, sentindo nas faces<br \/>\n    puras o bafejo de todas as tenta&ccedil;&otilde;es, desde as do luxo das vitrines<br \/>\n    at&eacute; as do jogo, em bilhetes de loteria que flutuam diante dos seus<br \/>\n    olhos, sacudidos por m&atilde;os teimosas e impertinentes?<\/p>\n<p>Ah, o jogo! Por toda a parte se alastra a mania das rifas e das loterias;<br \/>\n    algumas casas mesmo do com&eacute;rcio especulam com a sua sedu&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    H&aacute; j&aacute; sapatarias, alfaiatarias, casas de papel ou de j&oacute;ias,<br \/>\n    que oferecem coupons sujeitos a uma fortuna de acaso, que habilita uma pessoa<br \/>\n    a alcan&ccedil;ar, de gra&ccedil;a, um terno novo, um par de botinas, ou meia<br \/>\n    d&uacute;zia de l&aacute;pis. Ora, estes coupons e bilhetinhos de azar entram<br \/>\n    pelas portas e pelas janelas, como que trazidos pelo vento, e s&atilde;o sempre<br \/>\n    as m&atilde;os curiosas dos rapazinhos que primeiro os agarram, os reviram<br \/>\n    e os estudam!<\/p>\n<p>Parece nada? pois nessa insinua&ccedil;&atilde;o manhosa de economia caseira<br \/>\n    est&aacute; uma terr&iacute;vel amea&ccedil;a de ru&iacute;na.<\/p>\n<p>Sei que h&aacute; algumas mulheres que, sem cogitar em que o germe de uma<br \/>\n    grande chaga &eacute; quase sempre um &aacute;tomo invis&iacute;vel, acoro&ccedil;oam<br \/>\n    os filhos a espalhar entre os colegas de escola cart&otilde;es em que flutuam<br \/>\n    promessas, que, quando se cumprem pervertem, e quando se n&atilde;o cumprem<br \/>\n    desesperam.<\/p>\n<p>Uma vez, descia eu a praia de Botafogo, ao calor brando de um dia sem sol,<br \/>\n    quando ouvi, com o frou-frou de uma saia de seda, a voz de um menino dizer<br \/>\n    a uma mo&ccedil;a que ia ao seu lado:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, mam&atilde;e, j&aacute; passei cinco coupons da chapelaria e ainda<br \/>\n    n&atilde;o tirei nenhum chap&eacute;u.<\/p>\n<p>Aquele lamento, respondeu ela, com a sua linda voz bem timbrada:<\/p>\n<p>&#8211; Continua, que h&aacute; de chegar a tua vez<\/p>\n<p>Passaram ligeiros, ela arrepanhando a sua linda saia de seda cor de gravan&ccedil;o,<br \/>\n    ele impertigado na sua farda de colegial. Ficou um rastro de aroma no ar&#8230;<\/p>\n<p>Estremeci. M&atilde;e e filho! ele queixava-se da m&aacute; sorte do jogo,<br \/>\n    ela incitava-o a continuar.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; verdade que a rua tem revela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    extraordin&aacute;rias, confid&ecirc;ncias imprevistas e absurdas?<\/p>\n<p>Em quatro palavras apanhadas no ar, vi toda nua a alma daquela mulher perfumada<br \/>\n    e ligeira, que j&aacute; se sumia na primeira esquina, sob a umbela rendada<br \/>\n    e r&oacute;sea do guarda-sol, que era como uma flor de que ela fosse a haste&#8230;<\/p>\n<p>Ora, se aos filhos dos ricos, que t&ecirc;m meias finas e roupas caras, interessa<br \/>\n    o bafejo da sorte que lhes conceda um chap&eacute;u vulgar&iacute;ssimo ou<br \/>\n    umas botinas ordin&aacute;rias, imagine que anseios de cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ter&atilde;o os seus colegas pobres, para quem esse chap&eacute;u representaria<br \/>\n    um luxo a que est&atilde;o pouco acostumados!<\/p>\n<p>Com igual raz&atilde;o, se a m&atilde;e rica condescende com um: &#8211; continua<br \/>\n    -, a m&atilde;e pobre, sabendo que o filho tem no bolso pap&eacute;is que<br \/>\n    o habilitem a ter, sem gastar um vint&eacute;m, um terno novo, uma carteira<br \/>\n    ou um rel&oacute;gio de ouro, suplicar-lhe-&aacute; que se avie na aquisi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ainda de outros bilhetes, tanto mais que a flanela do seu casaco j&aacute;<br \/>\n    est&aacute; pu&iacute;da, amea&ccedil;ando fim pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p>Oh! estes terr&iacute;veis papeizinhos que o vento espalha pela cidade e<br \/>\n    faz entrar pelas janelas e portas das casas de fam&iacute;lia onde h&aacute;<br \/>\n    rapazes, como se para m&atilde;o ensinamento e perdi&ccedil;&atilde;o deles<br \/>\n    n&atilde;o fosse de sobra a rua, onde,<\/p>\n<p>du soir au matin, roule le grand peut-&eacute;tre,<br \/>\n    Le hasard, noir flambeau de ces si&eacute;cles d&#8217;ennui.<\/p>\n<p>como disse o ador&aacute;vel Musset!<\/p>\n<p>Quantas e quantas vezes, o pr&oacute;prio chefe da fam&iacute;lia se gaba<br \/>\n    distra&iacute;da e imprudentemente, diante dos seus filhos, de ter ganho nesta<br \/>\n    ou naquela esp&eacute;cie de jogo! No que ele n&atilde;o repara, arrastado<br \/>\n    pela sua influ&ecirc;ncia, &eacute; como as crian&ccedil;as arregalam os olhos<br \/>\n    de espanto, seduzidas por aquele triunfo que ainda desconhecem, mas cuja meia<br \/>\n    percep&ccedil;&atilde;o os enleia e os atrai.<\/p>\n<p>O trabalho que as m&atilde;es t&ecirc;m, para destruir pela raiz aquele desejo<br \/>\n    de imita&ccedil;&atilde;o, que t&atilde;o depressa nasce e se avigora, &eacute;<br \/>\n    tremendo! A luta &eacute; surda, feita minuto a minuto, com uma vigil&acirc;ncia<br \/>\n    extenuadora, visto que o inimigo as cerca de todos os lados. Mas tamb&eacute;m,<br \/>\n    quando a noite o sono e o cansa&ccedil;o cerram as p&aacute;lpebras dos filhos,<br \/>\n    e elas se acercam dos seus leitos, sentem que a sua m&atilde;o que aben&ccedil;oa<br \/>\n    procura em um esfor&ccedil;o, talvez v&atilde;o mas sempre puro e bem intencionado,<br \/>\n    levar aquelas almas para um largo futuro de paz e de ventura.<\/p>\n<h4><a name=\"9\" id=\"9\">Por Qu&ecirc; ?<\/a><\/h4>\n<p>Matou-se, por qu&ecirc;? O amor, esse eterno revolucion&aacute;rio, encheu-lhe<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o com o seu amargo licor de d&uacute;vidas e de desenganos?<\/p>\n<p>N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>A mis&eacute;ria bateu-lhe &agrave; porta, mostrando-lhe os membros nus,<br \/>\n    o colo murcho e sugado, as roupas em farrapos imundos e o rosto desconsolado?<br \/>\n    Foi essa vis&atilde;o que a fez varar o corpo com uma bala de garrucha?<\/p>\n<p>N&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Teve ci&uacute;mes do esposo, medo de que a sua beleza fosse suplantada pela<br \/>\n    de outra mulher, e que o seu esp&iacute;rito e a sua bondade, mais o seu amor,<br \/>\n    n&atilde;o bastassem para prender toda a aten&ccedil;&atilde;o daquele a quem<br \/>\n    se dedicava de corpo e alma?<\/p>\n<p>N&aatilde;o.<\/p>\n<p>Perderia algum ente amado, um filho, por exemplo, em quem depositasse todas<br \/>\n    as floridas esperan&ccedil;as de melhor futuro, e de quem as saudades fossem<br \/>\n    tamanhas que lhe tornassem insuport&aacute;vel a exist&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>N&atilde;o.<\/p>\n<p>Teria sido atingida por uma dessas mol&eacute;stias incur&aacute;veis e nauseantes,<br \/>\n    que todos os extremos justificam?<\/p>\n<p>N&atilde;o.<\/p>\n<p>Adult&eacute;rio?<\/p>\n<p>N&atilde;o.<\/p>\n<p>Loucura?<\/p>\n<p>N&atilde;o.<\/p>\n<p>Que hip&oacute;tese formular ent&atilde;o que explique o motivo por qu&ecirc;<br \/>\n    uma senhora honesta, casada, em boa paz com o marido, m&atilde;e de uma &uacute;nica<br \/>\n    filha, pega em uma arma carregada e manda com uma bala a sua pobre alma ao<br \/>\n    inferno (que &eacute; o lugar em que se purgam tais pecados negros), para<br \/>\n    os mart&iacute;rios do fogo e as &aacute;guas enlodadas e amargosas do Acheronte?<\/p>\n<p>Por qu&ecirc;? Se n&atilde;o adivinhais &eacute; que n&atilde;o sois donas<br \/>\n    de casa, e se o n&atilde;o sabeis &eacute; porque n&atilde;o lestes, ou ouvistes<br \/>\n    ler, num grande jornal do Rio, uma not&iacute;cia simples, sem coment&aacute;rios,<br \/>\n    do suic&iacute;dio de uma senhora, a qual not&iacute;cia dizia assim:<\/p>\n<p>&quot;No lugar denominado &#8211; Areal &#8211; do munic&iacute;pio de Itagua&iacute;,<br \/>\n    suicidou-se D. Amanda Augusta Fernandes, esposa do cidad&atilde;o J&uacute;lio<br \/>\n    Augusto Fernandes. A arma de que se serviu a inditosa senhora foi uma garrucha<br \/>\n    de dois canos e a bala atravessou o pulm&atilde;o, saindo pelas costas.<\/p>\n<p>&quot;A autoridade policial tomou conhecimento do fato, encontrando pr&oacute;ximo<br \/>\n    do cad&aacute;ver um bilhete concebido nos seguintes termos:<\/p>\n<p>&quot;Morro porque n&atilde;o posso suportar empregados. O meu maior desgosto<br \/>\n    &eacute; morrer sem ver meu marido e minha filha. S&oacute; pe&ccedil;o perd&atilde;o<br \/>\n    para esta que n&atilde;o devia ter vindo ao mundo.&quot; N&atilde;o estava<br \/>\n    assinada, mas foi reconhecida a letra como a do pr&oacute;prio punho da suicida.<\/p>\n<p>Que o exemplo n&atilde;o tenha imitadoras. Este triste desfecho, ai de n&oacute;s!<br \/>\n    faz rir. E o rid&iacute;culo na morte &eacute; a coisa mais l&uacute;gubre<br \/>\n    e mais terr&iacute;vel que at&eacute; aqui tenho visto.<\/p>\n<p>Ah, no Brasil as criadas fariam tremer de raiva as pr&oacute;prias santas<br \/>\n    de cera, se com elas tivessem de lidar; mas nem assim se compreende o desatino<br \/>\n    dessa infeliz criatura, cuja paci&ecirc;ncia arrebentou, &agrave; forca de<br \/>\n    esticada. Mas arrebentou por mau lado, a sua c&oacute;lera deveria explodir<br \/>\n    por outro modo menos ruinoso&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o seria de mulheres este livro, donas e donzelas, se n&atilde;o<br \/>\n    houvesse nele um cantinho para falar das criadas&#8230; E a pobre suicida oferece-nos<br \/>\n    um ensejo magn&iacute;fico para tal fim. Eu sou das que t&ecirc;m mais pena<br \/>\n    e mais simpatia pela gente de servi&ccedil;o, do que ressentimento ou queixa,<br \/>\n    na convic&ccedil;&atilde;o de que nem sempre servir seja mais agrad&aacute;vel<br \/>\n    do que ser servida&#8230; Todavia n&atilde;o posso deixar de sorrir, ouvindo uma<br \/>\n    amiga, que, lendo sobre o meu ombro as palavras que escrevo, exclama atrapalhando-me:<br \/>\n    &quot;Pena? simpatia?! n&atilde;o &eacute;s sincera! aqui ter uma criada &eacute;<br \/>\n    fazer jus a um cantinho do c&eacute;u; ter duas, a um lugar nos degraus do<br \/>\n    trono em que fiquem, com o eterno sorriso, os eleitos entre os eleitos.<\/p>\n<p>A dona de casa no Brasil &eacute; a m&aacute;rtir mais digna de comisera&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre todas as citadas pela hist&oacute;ria. Viver embaixo das mesmas telhas<br \/>\n    com uma inimiga que faz tudo o que pode para atormentar as nossas horas, pagar-lhe<br \/>\n    os servi&ccedil;os e ainda faz&ecirc;-los de parceria, assumindo a responsabilidade<br \/>\n    dos maus jantares que ela faz e da maneira desleixada por que arrasta a vassoura<br \/>\n    pela casa; ordenar e ser desobedecida; pedir e obter m&aacute;s respostas;<br \/>\n    falar com do&ccedil;ura e ouvir resmungar com aspereza; advertir com justi&ccedil;a<br \/>\n    e ouvir responder com agress&atilde;o e brutalidade; recomendar limpeza, economia,<br \/>\n    ordem e calma, e ver s&oacute; desperd&iacute;cios, porcaria, desordem e viol&ecirc;ncia,<br \/>\n    confesso que &eacute; coisa de fazer abalar em vibra&ccedil;&otilde;es dolorosas<br \/>\n    os nervos os mais modestos, mais tranq&uuml;ilos e mais saudavelmente pacatos<br \/>\n    do mundo!<\/p>\n<p>Na Europa n&atilde;o &eacute; preciso que uma fam&iacute;lia tenha fortuna<br \/>\n    para receber em sua casa meia d&uacute;zia de amigos sem receio de que os<br \/>\n    copos venham pouco cristalinos &agrave; sala ou que a sopa esteja desenxabida,<br \/>\n    caso dona do m&eacute;nage n&atilde;o v&aacute; &agrave; copa ver os cristais<br \/>\n    ou &agrave; cozinha cheirar as panelas&#8230;<\/p>\n<p>Aqui, a coisa chega a ser c&ocirc;mica, mas de um c&ocirc;mico que obriga<br \/>\n    &agrave; careta em que n&atilde;o entra a simpatia do riso. Dir&aacute;s:<br \/>\n    mas hoje as nossas criadas v&ecirc;m de l&aacute;! Parece-me que sim; mas<br \/>\n    julgo que s&oacute; emigram das aldeias esfomeadas e de povoa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do interior bandos de criaturas s&oacute; habituadas ao plantio das vinhas<br \/>\n    ou &agrave; colheita do trigo.<\/p>\n<p>As das cidades, j&aacute; desbastadas da crosta nativa e mais ou menos educadas<br \/>\n    essas deixam se ficar gozando nos poucos intervalos da sua vida trabalhosa,<br \/>\n    os gozos das capitais. Porque l&aacute; da se esta anomalia: Quem trabalha<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; a dona da casa, &eacute; a criada!<\/p>\n<p>A praga chegou at&eacute; ao lugar do Areal, e com tamanha f&uacute;ria que<br \/>\n    a pobre da D. Amanda, a quem atiras o teu punhadinho de ironias, apesar de<br \/>\n    esposa afetuosa e m&atilde;e apaixonada, preferiu um tiro de garrucha a suportar<br \/>\n    por mais tempo os seus criados!<\/p>\n<p>N&atilde;o cuides tu que se rir&atilde;o dessa morte desesperada e que n&atilde;o<br \/>\n    haja por a&iacute; muita gente boa que, revoltada pela estupidez, ignor&acirc;ncia,<br \/>\n    pregui&ccedil;a ou m&aacute; vontade dos f&acirc;mulos, n&atilde;o tenha muitas<br \/>\n    vezes desejo de fugir desta vida para a outra, onde n&atilde;o seja preciso<br \/>\n    comer feij&atilde;o queimado, absolutamente cru, e onde o furto e a inc&uacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o tenham o mesmo impudor nem os mesmos assomos.<\/p>\n<p>A sombra de D. Amanda, que a estas horas se recosta, pl&aacute;cida e aliviada<br \/>\n    das penas da Terra, a uma borda da barca de Charonte, sair&aacute; contente,<br \/>\n    porque foi compreendida!<\/p>\n<p>Como o morrer &eacute; f&aacute;cil para algumas pessoas!<\/p>\n<h4><a name=\"10\" id=\"10\">Formalidades<\/a><\/h4>\n<p>As formalidades mundanas transformam-se com a moda, pouco mais ou menos como<br \/>\n    os vestidos.<\/p>\n<p>Uma pessoa rigorista n&atilde;o pode estar tranq&uuml;ila.<\/p>\n<p>A maneira de cal&ccedil;ar a luva, tirar o chap&eacute;u, dobrar uma carta,<br \/>\n    fazer um convite, receber uma visita, comer a uma mesa, ir a um enterro ou<br \/>\n    a uma festa, andar, sorrir, etc., varia como as esta&ccedil;&otilde;es!<\/p>\n<p>Nestes cuidados, aparentemente f&uacute;teis, existe um trabalho complicad&iacute;ssimo,<br \/>\n    porque enfim, mudar de h&aacute;bitos de ano em ano sempre &eacute; mais dif&iacute;cil<br \/>\n    do que mudar de gravata todos os dias.<\/p>\n<p>Que dolorosas raivinhas sentir&aacute; uma criatura, mesmo bondosa e pl&aacute;cida,<br \/>\n    mas com apuros de exterioridade, ao verificar que p&ocirc;s um selo num sobrescrito<br \/>\n    no lugar designado pela moda antiga ou que dobrou a ponta do bilhete de visita<br \/>\n    &agrave; moda antiga, ou que distraidamente apertou a m&atilde;o de algu&eacute;m<br \/>\n    na rua &agrave; moda antiga!<\/p>\n<p>&Eacute; para enlouquecer&#8230; N&atilde;o digo que se n&atilde;o acatem com<br \/>\n    af&atilde; certas modifica&ccedil;&otilde;es; apraz-me comer os espargos &agrave;<br \/>\n    moderna, com garfo e faca, o que desobriga de sujar os dedos e fazer uma gin&aacute;stica<br \/>\n    de cabe&ccedil;a por vezes embara&ccedil;osa; mas aceitar todas as reformas<br \/>\n    de etiquetas e costumes, parece-me excesso de fantasia, que pode acarretar<br \/>\n    preju&iacute;zos&#8230;<\/p>\n<p>Estas min&uacute;cias delicadas s&atilde;o as meias tintas, que fazem real&ccedil;ar<br \/>\n    a educa&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo; para que elas sejam naturais<br \/>\n    devem ser cultivadas desde a inf&acirc;ncia, nesse uso que as faz parecer<br \/>\n    uma segunda natureza. O doce preceito antigo de que o que se aprende no ber&ccedil;o<br \/>\n    dura at&eacute; &agrave; morte, fica abalado com esse cont&iacute;nuo fazer<br \/>\n    e desmanchar de regras com que as civiliza&ccedil;&otilde;es se entret&ecirc;m.<br \/>\n    O que era lindo e correto h&aacute; alguns anos passou a ser caricato &agrave;<br \/>\n    vista da moda tir&acirc;nica dos dias que v&atilde;o passando.<\/p>\n<p>T&ecirc;m raz&atilde;o os velhos em sorrir, com benigno esc&aacute;rnio,<br \/>\n    das alucina&ccedil;&otilde;es desta mocidade tr&ecirc;fega.<\/p>\n<p>No seu tempo os costumes eram de uma cortesia mais repinicada, mas muito<br \/>\n    mais igual.<\/p>\n<p>A arte de bem viver na sociedade aprendia-se de uma vez s&oacute; e ficava<br \/>\n    para o uso da vida inteira. Aqueles h&aacute;bitos amaneirados impregnavam-se<br \/>\n    nas pessoas como um perfume na pele e passavam por isso a ser &#8211; ess&ecirc;ncia<br \/>\n    pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>Hoje os h&aacute;bitos s&atilde;o movedi&ccedil;os como as turbas. T&atilde;o<br \/>\n    depressa &eacute; de praxe que seja o homem o primeiro a cumprimentar uma<br \/>\n    senhora, como &eacute; o uma senhora cumprimentar primeiramente um homem;<br \/>\n    ora estabelecem que devem ser as damas idosas que ofere&ccedil;am a face para<br \/>\n    o beijo das novas, ora que sejam as novas que entreguem a face para o beijo<br \/>\n    das velhas, etc..<\/p>\n<p>Para quem n&atilde;o estiver bem firme na maneira por que se deve conduzir,<br \/>\n    estes renovamentos s&oacute; podem criar indecis&otilde;es e afli&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Este embara&ccedil;o n&atilde;o &eacute; s&oacute; nosso.<\/p>\n<p>Na velha sociedade da Fran&ccedil;a, civilizada e primorosa, ainda &eacute;<br \/>\n    preciso que de vez em quando surja um livro ensinando regras, o que e indispens&aacute;vel,<br \/>\n    visto as transforma&ccedil;&otilde;es, ou se espalhem artigos em revistas<br \/>\n    e jornais, cheios de preceitos de civilidade.<\/p>\n<p>&Eacute; sempre com uma solenidade dogm&aacute;tica que esses autores ensinam<br \/>\n    a comer ameixas em calda, disfar&ccedil;ando a queda dos caro&ccedil;os no<br \/>\n    prato: a chupar uvas sem engolir as grainhas; a pedir a m&atilde;o de uma<br \/>\n    mo&ccedil;a; a por o p&eacute; no estribo, a descer do carro, a pegar na aba<br \/>\n    do chap&eacute;u para um cumprimento e at&eacute; a apertar a m&atilde;o dos<br \/>\n    amigos!<\/p>\n<p>Este ato t&atilde;o simples de polidez e de simpatia &eacute; motivo grave<br \/>\n    de preocupa&ccedil;&otilde;es. O gesto expressivo de se estender a m&atilde;o<br \/>\n    aos outros, com naturalidade, pode, na opini&atilde;o dos formalistas, ser<br \/>\n    t&atilde;o rid&iacute;culo como uma cartola velha num sujeito elegante, ou<br \/>\n    uns &oacute;culos de tartaruga num rostinho de quinze anos&#8230; Assim, ora decretam<br \/>\n    que se levante o cotovelo at&eacute; &agrave; altura da orelha, que o pulso<br \/>\n    penda com moleza e que seja nessa atitude de animal de feira, que as m&atilde;os<br \/>\n    amigas se encontrem, num simples ro&ccedil;ar de dedos, ora que seja o aperto<br \/>\n    de m&atilde;o &agrave; altura do queixo, acoimando de brutal o shake-hands,<br \/>\n    com que as m&atilde;os fortes esmagam as m&atilde;ozinhas moles e d&eacute;beis.<\/p>\n<p>Usos, costumes e conven&ccedil;&otilde;es surgem todos os dias no c&oacute;digo<br \/>\n    mundano, como cogumelos na terra &uacute;mida. &Eacute; prudente n&atilde;o<br \/>\n    aceitar todos sem exame. H&aacute; cogumelos que matam, h&aacute; conven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ris&iacute;veis. O rid&iacute;culo destas, eq&uuml;ivale ao veneno daqueles&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"11\" id=\"11\">Para a Morte !<\/a><\/h4>\n<p>Dizem que n&atilde;o h&aacute; na mesma &aacute;rvore duas folhas iguais<br \/>\n    e que as pr&oacute;prias flores, bem comparadas, divergem entre si, ou na<br \/>\n    forma, ou no colorido, ou no aroma.<\/p>\n<p>&Eacute; uma diferen&ccedil;a quase impercept&iacute;vel e s&oacute; apreendida<br \/>\n    pela vista e o olfato argutos de um bot&acirc;nico estudioso e observador.<\/p>\n<p>Quer isto dizer que no fundo da sua natureza misteriosa, a pr&oacute;pria<br \/>\n    planta tem tamb&eacute;m os seus desacordos impenetr&aacute;veis&#8230;<\/p>\n<p>Como as folhas da mesma &aacute;rvore, irm&atilde;s! somos todas dissemelhantes,<br \/>\n    e como as folhas somos levadas ou pela aragem doce que nos atira para a veludosa<br \/>\n    alfombra aos p&eacute;s da pr&oacute;pria &aacute;rvore; ou pela lufada do<br \/>\n    temporal, que nos impele para a terra em torvelinho ou para as &aacute;guas<br \/>\n    torrenciais!<\/p>\n<p>Que culpa temos n&oacute;s de ficarmos aqui ou irmos para al&eacute;m, se<br \/>\n    somos levadas pelo vento?<\/p>\n<p>Nos tempos antigos, a mulher era calma, submissa, pac&iacute;fica e retra&iacute;da;<br \/>\n    mas seria tudo isso por ter mais bom senso, mais felicidade e menos ambi&ccedil;&atilde;o?<br \/>\n    N&atilde;o me parece. O motivo devia ser outro; o motivo devia de estar na<br \/>\n    atmosfera que a envolvia e em que n&atilde;o existia nenhum elemento agitador.<br \/>\n    N&atilde;o somos n&oacute;s que mudamos os dias, s&atilde;o os dias que nos<br \/>\n    mudam a n&oacute;s.<\/p>\n<p>Tudo se transforma, tudo acaba, tudo recome&ccedil;a, criado pelo mesmo princ&iacute;pio,<br \/>\n    destinado para o mesmo fim. Nascemos, morremos e no intervalo de uma e outra<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o, vivemos a vida que o nosso tempo nos imp&otilde;e.<\/p>\n<p>O que ele imp&otilde;e hodiernamente &agrave; mulher &eacute; o desprendimento<br \/>\n    dos preconceitos, a meta, sempre dolorosa pela exist&ecirc;ncia, o assalto<br \/>\n    &agrave;s culmin&acirc;ncias em que os homens dominam e de onde a repelem.<\/p>\n<p>Mas, seja qual for a guerra que lhe fa&ccedil;am, o feminismo vencer&aacute;,<br \/>\n    por que n&atilde;o nasceu da vaidade, mas da necessidade que obriga a triunfar.<\/p>\n<p>A vida &eacute; cada vez mais exigente, absorve todas as aptid&otilde;es;<br \/>\n    quem a pode servir, serve-a, e com isso s&oacute; se enobrece, porque o trabalho<br \/>\n    nunca aviltou ningu&eacute;m. Desde as classes inferiores, em que as mulheres<br \/>\n    queimam as m&atilde;os nas barrelas e carregam fardos, ou passam noites dobradas<br \/>\n    sobre as costuras. estragando os olhos e os pulm&otilde;es, at&eacute; &agrave;s<br \/>\n    professoras, as m&eacute;dicas, as negociantes, qual n&atilde;o ter&aacute;<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia de sacrificar ao dever a sua alegria, o seu corpo, a sua<br \/>\n    mocidade?<\/p>\n<p>Eu s&oacute; n&atilde;o posso reprimir um movimento de estupefa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    diante da mulher que liga o seu nome a uma propaganda de exterm&iacute;nio<br \/>\n    e de sangue. Quando h&aacute; tempos li o de Emma Galdman, acusada de instigar<br \/>\n    a morte de Mac Kinley senti uma revolta n&#8217;alma e a suspeita de que cometiam<br \/>\n    uma injusti&ccedil;a. Se em vez desse, viesse no mesmo lugar um nome de homem<br \/>\n    eu n&atilde;o vibraria ao mesmo estremecimento.<\/p>\n<p>N&atilde;o leio todos os dias not&iacute;cias de mortes, de assassinatos<br \/>\n    e de crimes com igual direito &agrave; minha compaix&atilde;o? E tremo por<br \/>\n    isso? E atord&ocirc;o com ela os ouvidos do meu vizinho?<\/p>\n<p>Absolutamente!<\/p>\n<p>A inten&ccedil;&atilde;o de Emma, de bem fazer &agrave;s classes oprimidas<br \/>\n    e de s&oacute; abater os grandes para mais livremente fazer circular os pequenos;<br \/>\n    a sua f&eacute; divina em um futuro de pacifica&ccedil;&atilde;o e de harmonia,<br \/>\n    em que a fraternidade dos homens n&atilde;o seja uma palavra v&atilde;, toda<br \/>\n    a generosidade do sonho em que ela afoga a sua alma de alucinada, n&atilde;o<br \/>\n    lograram, ai de mim! convencer-me de que h&aacute; desculpa para uma mulher<br \/>\n    que s&oacute; por via do mal procure fazer o bem.<\/p>\n<p>Nem creio que ela o propagasse assim. O papel mais dif&iacute;cil &eacute;<br \/>\n    e ser&aacute; sempre o da concilia&ccedil;&atilde;o, e &eacute; esse que todas<br \/>\n    as mulheres, mesmo as mais extremadas nos seus ideais, deveriam desempenhar.<br \/>\n    O mundo est&aacute; farto de sangue e de &oacute;dios, e &agrave; espera de<br \/>\n    um bem, que tarda, e que o pacifique sem que para isso se amontoem cad&aacute;veres<br \/>\n    nem se acrescente o n&uacute;mero dos encarcerados.<\/p>\n<p>Oh! se para o triunfo do sonho anarquista, os fan&aacute;ticos n&atilde;o<br \/>\n    quisessem a destrui&ccedil;&atilde;o; se a sua obra libertadora n&atilde;o<br \/>\n    exigisse o dil&uacute;vio do sangue e a devasta&ccedil;&atilde;o das cidades,<br \/>\n    como ele seria sedutor e desejado!<\/p>\n<p>\n    Como todas as revolucion&aacute;rias, Emma esgotava-se em escritos e em confer&ecirc;ncias,<br \/>\n    levando de terra em terra a chama da sua palavra incendiada; pregando as suas<br \/>\n    doutrinas pelas cidades e vilas da Uni&atilde;o, perturbando os c&eacute;rebros<br \/>\n    espessos de oper&aacute;rios, sujeitos, at&eacute; ao dia nefasto de a ouvirem,<br \/>\n    com maior ou menor resigna&ccedil;&atilde;o, &agrave;s priva&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da sua dura sorte. Entretanto, ela, querendo ilumin&aacute;-los, plantava-lhes<br \/>\n    n&#8217;alma o descontentamento e a dor. A infelicidade que se ignora, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; infelicidade.<\/p>\n<p>No dia em que foi executado o assassino de Mac Kinley alguma mulher o chorou<br \/>\n    como mulher; e Emma sem consolar essa desconhecida, m&atilde;e, amante ou<br \/>\n    irm&atilde; do homem que perdeu, sentiu naturalmente subir &agrave;s suas<br \/>\n    pupilas ressequidas pela febre das vig&iacute;lias e do trabalho, uma l&aacute;grima<br \/>\n    de inexprim&iacute;vel inquieta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A sua alma de mulher pressentiu a outra mulher, aquela que n&atilde;o sabe<br \/>\n    ser no mundo outra coisa, e que da vida s&oacute; tem uma no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; a do amor!<\/p>\n<p>A escritora anarquista compreendeu que &eacute; bem espinhoso e duro o caminho<br \/>\n    por onde ela busca a felicidade; mas acharia tarde para voltar, sentindo medo<br \/>\n    do caminho percorrido. Assim, haja o que houver e sinta o que sentir, ela<br \/>\n    continuar&aacute;&#8230;<\/p>\n<p>Continuar&aacute;, lavada em l&aacute;grimas, ao sopro erradio do seu destino,<br \/>\n    com a folha ao vento espalhando o seu aroma venenoso pelos caminhos das f&aacute;bricas<br \/>\n    e os carreadouros dos campos de lavoura. Ela continuar&aacute; pregando e<br \/>\n    profetizando um bem irrealiz&aacute;vel.<\/p>\n<p>Ela continuar&aacute;, e outros correr&atilde;o a ouvi-la, e morrer&atilde;o<br \/>\n    por cumprirem os seus mandamentos, e ser&atilde;o chorados por mulheres que<br \/>\n    ainda n&atilde;o saibam ser outra coisa no mundo&#8230; e na face serena da terra<br \/>\n    a inunda&ccedil;&atilde;o do sangue e das l&aacute;grimas n&atilde;o mudar&aacute;<br \/>\n    nunca a ess&ecirc;ncia das coisas nem a dos seres!<\/p>\n<p>\n    Sim, a culpa &eacute; do tempo; &eacute; ele que obriga as mulheres a olharem<br \/>\n    para a vida com uma aten&ccedil;&atilde;o t&atilde;o rude e t&atilde;o penosa.<br \/>\n    Sentem-se muito s&oacute;s, precisam trabalhar, para elas e para as que nascem<br \/>\n    delas, porque a onda da mis&eacute;ria cresce, e mesmo as que n&atilde;o se<br \/>\n    afogam nela, sentem-lhe os respingos amargos e a sua sombra pavorosa.<\/p>\n<p>Oh, certamente que n&atilde;o foi por mera e caprichosa fantasia que a mulher<br \/>\n    se despojou das suas atribui&ccedil;&otilde;es de ornamento para endurecer<br \/>\n    a alma e calejar as m&atilde;os na lufa-lufa do trabalho angustioso e viril.<\/p>\n<p>Elas protestam, porque v&atilde;o para ele de rastos, obrigadas pela necessidade<br \/>\n    urgente ou atra&iacute;das pela corrente que puxa as demais para a mesma voragem<br \/>\n    dolorosa.<\/p>\n<p>De resto, bem sabem que nessa lida perdem a formosura a que renunciam, n&atilde;o<br \/>\n    sem tristeza, porque o enleio da formosura &eacute; sedutor, mas com altiva<br \/>\n    resigna&ccedil;&atilde;o. Pois bem, que tudo se arruine e se perca no mundo,<br \/>\n    menos a bondade da mulher, o seu acoro&ccedil;oamento para o bem e as suas<br \/>\n    express&otilde;es materiais e pacificadoras!<\/p>\n<p>De que nos serve, febril Emma Galdman, aturdir-nos e criar-nos infinitas<br \/>\n    vis&otilde;es de futuros imposs&iacute;veis, se no fim de qualquer caminho<br \/>\n    por onde o destino v&aacute;rio nos leve, vamos todos bater &agrave; mesma<br \/>\n    porta negra?<\/p>\n<p><strong>Parte II<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"12\" id=\"12\">Folhas de uma Velha Carteira<\/a><\/h4>\n<p>Disse-me um dia um velho amigo:<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute; certos livros de educa&ccedil;&atilde;o e de higiene que acho<br \/>\n    indispens&aacute;veis numa biblioteca de senhoras. As mulheres salvar&atilde;o<br \/>\n    pelo amor o que os homens estragam por des&iacute;dia.<\/p>\n<p>Ponho nelas toda a minha esperan&ccedil;a. Aos esp&iacute;ritos banais essas<br \/>\n    leituras parecer&atilde;o fastidiosas; mas de vemos crer que as m&atilde;es,<br \/>\n    empenhadas pela sa&uacute;de e bem estar dos filhos, achem grande interesse<br \/>\n    em folhear p&aacute;ginas s&eacute;rias de educadores modernos. &Eacute; um<br \/>\n    erro pensar que, hoje, o ensino deve ser ministrado como h&aacute; cinq&uuml;enta<br \/>\n    anos e entregar os nossos rapazes aos nossos col&eacute;gios atrofiadores.<br \/>\n    H&aacute; tempos enviei um livro a minha filha : L&#8217;Education nouvelle, de<br \/>\n    Edmond Demoulins. Pois os meus netos j&aacute; lucraram alguma coisa com a<br \/>\n    leitura da m&atilde;e. O livro &eacute; uma exposi&ccedil;&atilde;o clar&iacute;ssima<br \/>\n    da Escola moderna, pr&aacute;tica, que trata de aperfei&ccedil;oar ao mesmo<br \/>\n    tempo o corpo e o esp&iacute;rito dos rapazes. &quot;L&#8217;&Eacute;cole doit developper<br \/>\n    &agrave; la fois chez l&#8217;enfant la largeur de l&#8217;intelligence et la largeur<br \/>\n    de la poitrine.&quot;<\/p>\n<p>Minha filha leu esse livro com muito carinho, e, na impossibilidade de executar<br \/>\n    em casa todo o programa do col&eacute;gio, iniciou alguns dos seus exerc&iacute;cios<br \/>\n    com proveito, gra&ccedil;as &agrave; instru&ccedil;&atilde;o que recebeu&#8230;<br \/>\n    Os meus netos vivem no campo, onde t&ecirc;m bom teatro para os seus estudos<br \/>\n    de hist&oacute;ria natural. Um deles freq&uuml;enta uma oficina de carpintaria,<br \/>\n    o outro uma de ferreiro&#8230; A m&atilde;e preside &agrave;s suas leituras, livros<br \/>\n    escolhidos, na boa l&iacute;ngua portuguesa, e ensina-lhes desenho e m&uacute;sica.<br \/>\n    O pai d&aacute;-lhes uma hora de matem&aacute;ticas e geografia e contrataram<br \/>\n    um professor franc&ecirc;s para a l&iacute;ngua francesa e um ingl&ecirc;s<br \/>\n    para a l&iacute;ngua inglesa, obedecendo &agrave; ordem da Escola moderna<br \/>\n    de que nunca uma l&iacute;ngua deve ser ensinada sen&atilde;o pelos da sua<br \/>\n    nacionalidade. Os pequenos nadam como peixes e correm como gamos. N&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m as m&atilde;os acetinadas, est&aacute; claro&#8230; imagine um ferreiro!<br \/>\n    um marceneiro! Por enquanto n&atilde;o barafustaram pelos labirintos da gram&aacute;tica,<br \/>\n    mas escrevem cartas muito limpas e j&aacute; movem a lima e o malho com algum<br \/>\n    desembara&ccedil;o&#8230;<\/p>\n<p>Intercalando os estudos cl&aacute;ssicos com trabalhos materiais e ocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    art&iacute;sticas, eles v&atilde;o-se tornando homens completos, tanto &agrave;<br \/>\n    vontade num sal&atilde;o como em uma oficina&#8230; Em uma das suas cartas diz-me<br \/>\n    a m&atilde;e:<\/p>\n<p>&quot;Jo&atilde;o e Luiz t&ecirc;m o andar firme e olham para toda a gente<br \/>\n    de rosto, com a cabe&ccedil;a alta, j&aacute; demonstrando consci&ecirc;ncia<br \/>\n    de homens!&quot;<\/p>\n<p>E em outra carta:<\/p>\n<p>&quot;Jo&atilde;o est&aacute; hoje trabalhando no jardim e Luiz na horta,<br \/>\n    a meu mandado. As quintas e s&aacute;bados vem um homem gui&aacute;-los nesse<br \/>\n    servi&ccedil;o, depois da hora das oficinas. Cada qual me faz mais lindas<br \/>\n    promessas; se dias se realizarem, ningu&eacute;m ter&aacute; nem t&atilde;o<br \/>\n    lindas rosas nem t&atilde;o magn&iacute;ficos repolhos.&quot;<\/p>\n<p>Ainda noutra carta:<\/p>\n<p>&quot;Jo&atilde;o tocou hoje a sua primeira sonatina para alguns amigos ouvirem,<br \/>\n    e Luiz ofereceu ao mestre de ingl&ecirc;s um desenho razo&aacute;vel. Embora<br \/>\n    eu disfarce o meu entusiasmo, eles percebem que estou contente.&quot;<\/p>\n<p>Esta m&atilde;e que assim cultiva nos filhos todas as boas qualidades de<br \/>\n    corpo e de intelig&ecirc;ncia, a que deve essa satisfa&ccedil;&atilde;o? Ao<br \/>\n    seu amor? N&atilde;o s&oacute; ao seu amor, pelo qual os filhos nada lhe devem,<br \/>\n    porque todos os animais amam os filhos; mas a ter estudado como um homem ci&ecirc;ncias<br \/>\n    naturais e l&iacute;nguas vivas. Ela sabe logo dia pode transmitir, e os seus<br \/>\n    filhos s&atilde;o assim duplamente &#8211; suas criaturas.<\/p>\n<p>\n    Os russos, quando querem ser bons e simples, dizem coisas enternecedoras.<br \/>\n    Aqui est&atilde;o palavras de um romance russo:<\/p>\n<p>&quot;Repara no cavalo, esse grande animal, e no boi, o robusto trabalhador<br \/>\n    que te alimenta: v&ecirc; que fisionomias sonhadoras! que submiss&atilde;o,<br \/>\n    que fina timidez! que devotamento por quem tantas vezes os castiga sem d&oacute;!<br \/>\n    &Eacute; enternecedor o pensarmos que tais entes s&atilde;o sem pecado, porque<br \/>\n    tudo &eacute; perfeito, tudo &eacute; sem pecado, menos o homem.&quot;<\/p>\n<p>Menos o homem; e para que este seja tamb&eacute;m puro quantas l&aacute;grimas<br \/>\n    de arrependimento e de contri&ccedil;&atilde;o ter&aacute; que verter! Mas<br \/>\n    para se ser perfeito n&atilde;o basta amar a humanidade; &eacute; preciso<br \/>\n    que o nosso olhar abranja toda a natureza e confunda na sua harmonia, com<br \/>\n    igual carinho, todos os seres que sofrem e que se submetem.<\/p>\n<p>No meu bairro, &agrave;s vezes tenho de encostar-me a um pared&atilde;o da<br \/>\n    estrada para deixar passar uma carro&ccedil;ada de pedras puxada por uma ou<br \/>\n    duas juntas de bois. Eles v&atilde;o cobertos de suor sob o peso da canga<br \/>\n    num esfor&ccedil;o valente e com ar humilde, e ainda o bruto do carroceiro<br \/>\n    os espica&ccedil;a com o seu pampilho! Na cara do homem n&atilde;o se l&ecirc;<br \/>\n    sen&atilde;o a f&uacute;ria bestial da impaci&ecirc;ncia, enquanto que os<br \/>\n    robustos trabalhadores, vergados e submissos, olham para a estrada adiante,<br \/>\n    com uma express&atilde;o de bondade sonhadora&#8230;<\/p>\n<p>Caminho ent&atilde;o para casa, pensando que realmente n&oacute;s tratamos<br \/>\n    muito mal os animais. S&oacute; os vemos embaixo do trabalho pesado.<\/p>\n<p>Nessas lindas tardes de setembro, em que vagavam no ar pipilos de aves e<br \/>\n    penugens brancas de paineiras, porque n&atilde;o passaria pelas lindas estradas<br \/>\n    de Santa Tereza uma ou outra amazona em cavalo bem tratado?<\/p>\n<p>Passado o instante do el&eacute;trico os folhudos galhos das &aacute;rvores<br \/>\n    que se debru&ccedil;am sobre as estradas nuas, s&oacute; vem passar cavalos<br \/>\n    magros, lanhados de chicote, ou os fortes bois submissos e sonhadores&#8230;<\/p>\n<p>{{separador}]<\/p>\n<p>H&aacute; na com&eacute;dia Blanchette, de Brieux, uma frase que sintetiza,<br \/>\n    com delicadeza e exatid&atilde;o, o amor ufano com que as mulheres servem<br \/>\n    a sua casa. S&atilde;o palavras simples, sem literatura, sempre as mais sinceras,<br \/>\n    que nascem da alma e definem com clareza uma id&eacute;ia ou um sentimento.<\/p>\n<p>Lembram-se? Blanchette, deslocada em casa pela educa&ccedil;&atilde;o recebida<br \/>\n    no col&eacute;gio, abandonara o lar em uma rebentina, ouvindo as maldi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pai a apontar-lhe a porta da rua com a m&atilde;o nodosa de vendeiro avaro.<br \/>\n    Blanchette, que se recusara a atar &agrave; cintura os atilhos do avental,<br \/>\n    para servir os fregueses do pai, volta pela segunda vez ao ninho paterno,<br \/>\n    mas agora como um c&atilde;o batido, magra, morta de fome, coberta de humilha&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Tivera de servir de criada para viver. O mundo ensinara-a.<\/p>\n<p>Vendo-a, a m&atilde;e acolhe-a, aquecendo-a de encontro &agrave; sua carne<br \/>\n    martirizada e submissa&#8230; O pai, teimoso, l&aacute; chega ao seu momento de<br \/>\n    ceder e ela, enfim restitu&iacute;da &agrave; sua casa e &agrave; sua fam&iacute;lia,<br \/>\n    exclama radiante:<\/p>\n<p>&#8211; &quot;Como &eacute; bom p&ocirc;r a gente um avental em sua casa!&quot;<\/p>\n<p>E com que alegria os seus dedos &aacute;geis amarram ent&atilde;o na cintura<br \/>\n    os atilhos do avental! &Eacute; que os aventais que as patroas l&aacute; fora<br \/>\n    lhe haviam atirado &agrave; cara tinham bem diversa significa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A independ&ecirc;ncia do nosso canto, a felicidade do sacrif&iacute;cio feito<br \/>\n    pelo nosso lar e por os que amamos, est&atilde;o bem dentro dessas palavras<br \/>\n    que direis escritas por uma mulher, t&atilde;o impregnadas est&atilde;o de<br \/>\n    sentimento feminino!<\/p>\n<p>E a&iacute; est&aacute; como um peda&ccedil;o de pano incolor pode ter t&atilde;o<br \/>\n    alta significa&ccedil;&atilde;o moral&#8230;<\/p>\n<p>\n    O len&ccedil;o desempenha na vida um papel bem variado!<\/p>\n<p>Mesmo os len&ccedil;os de luxo que com renda e tudo n&atilde;o medem mais<br \/>\n    que uns vinte e cinco cent&iacute;metros, mera futilidade incapaz de descer<br \/>\n    &agrave;s necessidades prosaicas, at&eacute; esses t&ecirc;m o destino clemente<br \/>\n    de enxugar l&aacute;grimas e disfar&ccedil;ar ironias.<\/p>\n<p>Quando perten&ccedil;a a uma senhora, &#8211; que o do homem &eacute; obrigado<br \/>\n    a um exerc&iacute;cio ativo &#8211; o len&ccedil;o branco, de meio metro quadrado,<br \/>\n    paternalmente carinhoso nos defluxos e nas bronquites, n&atilde;o sai do recato<br \/>\n    da gaveta, bem guardadinho para as urg&ecirc;ncias de ocasi&atilde;o, dobrado<br \/>\n    em quatro entre sachets ou ra&iacute;zes de capim cheiroso.<\/p>\n<p>No fundo da sua consci&ecirc;ncia (suponhamos que os len&ccedil;os tamb&eacute;m<br \/>\n    t&ecirc;m disso), eles sentir&atilde;o a satisfa&ccedil;&atilde;o do dever<br \/>\n    cumprido, t&atilde;o apregoado pelos que o n&atilde;o cumprem, e esperar&atilde;o<br \/>\n    que os chamem ao servi&ccedil;o interino de um nariz precisado do seu socorro<br \/>\n    e da sua abnega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mesmo os len&ccedil;os de chita, t&atilde;o caricatos e nojosos, salvam-se<br \/>\n    quando, bem lavadinhos, s&atilde;o postos em cruz sobre o peito farto de uma<br \/>\n    camponesa bonita. Ent&atilde;o n&atilde;o cheiram a tabaco; cheiram a trevo<br \/>\n    e alecrim; n&atilde;o t&ecirc;m n&oacute;doas de rap&eacute;, t&ecirc;m a<br \/>\n    sombra da cruz redentora ou dos bentinhos que a dona traz pendurados no pesco&ccedil;o;<br \/>\n    n&atilde;o representam a torpeza de um v&iacute;cio que desmoraliza o nariz,<br \/>\n    mas sim o recato que poetisa o seio.<\/p>\n<p>De mais, s&atilde;o alegres com as suas cores turbulentas e ramagens vistosas,<br \/>\n    que despertam a id&eacute;ia de campos de papoulas, onde bata o sol.<\/p>\n<p>N&atilde;o sei precisar se s&atilde;o s&oacute; de minha cabe&ccedil;a, ou<br \/>\n    sugest&atilde;o de alguma leitura fugitiva, estes reparos que por escr&uacute;pulo<br \/>\n    v&atilde;o entre aspas:<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; no len&ccedil;o que n&oacute;s impregnamos com mais intensidade<br \/>\n    o nosso perfume favorito, a ess&ecirc;ncia que faz parte da nossa individualidade<br \/>\n    e nos denuncia ao olfato dos amigos. &Eacute; o len&ccedil;o que seca as nossas<br \/>\n    l&aacute;grimas, que se mistura aos nossos sorrisos, que ajuda a m&iacute;mica,<br \/>\n    abafa os gemidos, dissimula a careta e guarda amarguras do cora&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    triste pranto secreto e que ningu&eacute;m adivinha. Recurso de afli&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    ele, impass&iacute;vel e mudo, deixa que o crispemos, que o mordamos, que<br \/>\n    o estra&ccedil;alhemos, nos movimentos de &oacute;dio e de despeito, quando<br \/>\n    n&atilde;o possamos com a palavra repelir a m&aacute; inten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um olhar ou de um gesto que ofenda! V&iacute;tima das nossas agonias, ele<br \/>\n    &eacute; ent&atilde;o o salvador da nossa dignidade.<\/p>\n<p>&Eacute; ainda o len&ccedil;o que, comparticipando da express&atilde;o do<br \/>\n    nosso sentimento, se agita no ar numa sauda&ccedil;&atilde;o de aplauso ou<br \/>\n    na saudade de uma despedida.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o viu, ao menos uma vez na vida, esse aceno branco, repetindo<br \/>\n    em sil&ecirc;ncio a palavra que j&aacute; n&atilde;o pode ser ouvida? Onde<br \/>\n    a voz j&aacute; n&atilde;o chega, chega ainda o adeus do len&ccedil;o, batendo-se<br \/>\n    no ar como uma asa na agonia.<\/p>\n<p>Imagine se a amada do poeta teria lido nunca estes versos:<\/p>\n<p>Este teu len&ccedil;o que eu possuo e aperto<br \/>\n    De encontro ao peito quando durmo, creio<br \/>\n    Que hei de um dia mandar-to, pois roubei-o<br \/>\n    E foi meu crime em breve descoberto&quot;<\/p>\n<p>(Versos de um simples &#8211; Guimar&atilde;es Passos)<\/p>\n<p>se ela o n&atilde;o usasse e o n&atilde;o tivesse deixado roubar, j&aacute;<br \/>\n    naturalmente com o prop&oacute;sito, muito humano, de o reaver, quando<\/p>\n<p>&quot;Pando, enfunado, c&ocirc;ncavo de beijos!&quot;<\/p>\n<p>Esse trapinho, que se embebe de l&aacute;grimas que secam, de beijos que<br \/>\n    se n&atilde;o v&ecirc;m, que fala nos apartamentos e nas aclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    que designa para o amor de um rei a mulher preferida, que abafa os solu&ccedil;os,<br \/>\n    guia as pesquisas das cartomantes e das feiticeiras, d&aacute; sinais aos<br \/>\n    namorados, protege os espirros e recende aos aromas mais capitosos: que &eacute;<br \/>\n    muitas vezes c&uacute;mplice em intrigas, fingindo secar olhos enxutos e escondendo<br \/>\n    caretas que desejem parecer sorrisos, tem ainda uma miss&atilde;o misericordiosa:<br \/>\n    a de encobrir a face feia e fria dos cad&aacute;veres. E na hora extrema do<br \/>\n    cadafalso, vendam-se com o len&ccedil;o os olhos dos supliciados, para n&atilde;o<br \/>\n    verem a morte!<\/p>\n<p>Have you not sometimes seen a handkerchief Spoted with strawberries in your<br \/>\n    wife&#8217;s hand?<\/p>\n<p>Quantas vezes o notara Otelo; se era d&aacute;diva sua!<\/p>\n<p>Pois foi com esse lencinho salpicado de morangos que o honesto Iago assanhou<br \/>\n    no seu senhor o monstro de olhos verdes, o negregado ci&uacute;me, que fez<br \/>\n    morrer a p&aacute;lida Desdemona.<\/p>\n<p>Na a&ccedil;&atilde;o como na intriga os len&ccedil;os representam muitas<br \/>\n    vezes no teatro extraordin&aacute;rias fic&ccedil;&otilde;es!<\/p>\n<p>S&atilde;o almas que se dilaceram entre os dedos apaixonados de Margarida,<br \/>\n    ou os dentinhos terr&iacute;veis de Frou-frou; s&atilde;o como pedacinhos<br \/>\n    de pele amada de encontro aos l&aacute;bios de Romeu e quando n&atilde;o exaltem<br \/>\n    paix&otilde;es nem enxuguem o suor da agonia, s&atilde;o ainda um magnifico<br \/>\n    pretexto para que a m&atilde;o desocupada v&aacute; e venha, cortando a monotonia<br \/>\n    da in&eacute;rcia.<\/p>\n<p>Quem inventou o len&ccedil;o bordado e circundado de rendas foi a imperatriz<br \/>\n    Josefina, que por ter maus dentes escondia com ele continuamente a boca. Gra&ccedil;as<br \/>\n    o essa c&aacute;rie irreverente o lencinho fino tornou-se objeto de luxo e<br \/>\n    entrou na atividade dos passeios, das prociss&otilde;es, dos minuetos, onde<br \/>\n    ele era o suced&acirc;neo do leque, dobrado em ponta entre os dedos carregadinhos<br \/>\n    de an&eacute;is, de benjoim e de verbena. Era talvez a parte mais expressiva<br \/>\n    da toilette, o seu complemento precioso, com o nome da dona sublinhado a rendas<br \/>\n    caras.<\/p>\n<p>Rendas&#8230;<\/p>\n<p>H&aacute; no Brasil, em terras do norte, umas rendeiras cujos dedos conhecem<br \/>\n    segredos de fadas. Rendas de len&ccedil;os, fazem-nas t&atilde;o bonitas e<br \/>\n    t&atilde;o finas que se nos afigura imposs&iacute;vel terem sido tecidas por<br \/>\n    gente inculta, sem no&ccedil;&atilde;o de desenho.<\/p>\n<p>Quando se l&ecirc; o apre&ccedil;o que em certos pa&iacute;ses d&atilde;o,<br \/>\n    e agora mais que nunca, &agrave;s rendas feitas &agrave; m&atilde;o, e como<br \/>\n    neles cultivam essa prenda delicada, agremiando camponesas, dando-lhes mestres,<br \/>\n    fomentando uma ind&uacute;stria que &eacute; ao mesmo tempo uma arte, receia<br \/>\n    a gente que as rendeiras do Norte, j&aacute; velhinhas, deixem cair os bilros<br \/>\n    dos dedos engelhados, sem que outras m&atilde;os, mais l&eacute;pidas, os<br \/>\n    apanhem para continuar a tarefa interrompida&#8230;<\/p>\n<p>\n    &Iacute;amos pela rua do Senador Furtado. O dia estava lindo, cheirava a murta.<br \/>\n    Subitamente come&ccedil;amos a ouvir gemidos, arrancados de uma grande afli&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Mais alguns metros, e vimos agachada numa soleira de port&atilde;o, com o<br \/>\n    busto ca&iacute;do sobre os joelhos pontudos, uma negra cadav&eacute;rica,<br \/>\n    que a tosse sacudia como o vento sacode um trapo. Sentindo gente, ela levantou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, revirando os olhos p&aacute;lidos para o c&eacute;u iluminado.<br \/>\n    A aragem brincava-lhe com um farrapo de xale, que dia franzia no peito com<br \/>\n    as m&atilde;os magr&iacute;ssimas e amareladas. Paramos, e a voz dela explicou<br \/>\n    entre uivos: &#8211; Foi o cock&#8230; foi carv&atilde;o de cock que me matou!<\/p>\n<p>As palavras, interrompidas pelas guinadas da tosse, repetiram a queixa no<br \/>\n    mesmo estribilho recriminativo: &#8211; Foi o carv&atilde;o de cock que me matou!<\/p>\n<p>Veio gente de dentro. Levaram-na em bra&ccedil;os.<\/p>\n<p>Ouviram bem? O cock &eacute; um assassino de mulheres. Mata pelo excesso<br \/>\n    de calor que desprende. Nunca me esquecerei daquela triste queixa irremedi&aacute;vel&#8230;<\/p>\n<p>\n    N&atilde;o &eacute; raro esbarrarmos na rua com uma menina, nessa idade indecisa,<br \/>\n    como diz o mestre:<\/p>\n<p>Que n&atilde;o &eacute; dia claro e &eacute; j&aacute; alvorecer Entre-aberto<br \/>\n    bot&atilde;o, entre-fechada rosa, Um pouco de menina e um pouco de mulher<br \/>\n    .<\/p>\n<p>(Falenas &#8211; Machado de Assis)<\/p>\n<p>E a impress&atilde;o que se sente &eacute; sempre agrad&aacute;vel, se essa<br \/>\n    criatura tem a condizer com o resto de meninice, que vai desaparecendo, e<br \/>\n    o come&ccedil;o da mocidade, que vem apontando, uma gra&ccedil;a ing&ecirc;nua<br \/>\n    e um modo desartificioso de andar e de vestir-se.<\/p>\n<p>Ah, mas quando, ela passa empapada de ess&ecirc;ncias raras, de passo estudado<br \/>\n    e muito espartilhada, com meneios grosseiros e rosto empoado, vem a quem a<br \/>\n    olha um desejo absurdo de sacudir pelos ombros a mam&atilde;e inconsciente;<br \/>\n    e de lhe gritar aos ouvidos que a doce criatura que o c&eacute;u lhe confiou,<br \/>\n    e cujos passos ela segue como m&aacute; pastora, vai carregadinha de rid&iacute;culo&#8230;<\/p>\n<p>O artificio do p&oacute; de arroz &eacute; o v&eacute;u ben&eacute;volo para<br \/>\n    os postos de quarenta anos. A pele mo&ccedil;a n&atilde;o precisa disso. A<br \/>\n    beleza das donzelas est&aacute; na sua candura, na sua alegria natural, e<br \/>\n    sobretudo na sua simplicidade&#8230;<\/p>\n<p>\n    Vi em uma revista francesa o retrato de uma velhinha que aprendeu a ler depois<br \/>\n    dos setenta anos. Olhando-lhe para a cabecinha e para o rostinho todo sulcado<br \/>\n    de rugas, tive vontade de beij&aacute;-la.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria dela: Todas as manh&atilde;s costurava a septuagen&aacute;ria<br \/>\n    junto &agrave; janela da sua choupana, &agrave; sombra de um castanheiro que<br \/>\n    lhe dava perfumes na primavera, sombras no ver&atilde;o, frutos no outono<br \/>\n    e ouri&ccedil;os para o foguinho do inverno.<\/p>\n<p>Que mais seria preciso para a vida? O alfabeto n&atilde;o foi feito por Deus;<br \/>\n    e para am&aacute;-lo e servi-lo bastaria adorar a natureza. Entretanto eis<br \/>\n    que depois de longos anos lhe cortam a frente da casa por um caminho novo,<br \/>\n    atalho para a vila, por onde o rapazio de uma aldeia pr&oacute;xima passava<br \/>\n    para a escola.<\/p>\n<p>A doce velhinha, ouvindo todos os dias a tagarelice das crian&ccedil;as levantou<br \/>\n    os olhos da costura e voltou-os para o horizonte infinito.<\/p>\n<p>Saber ler seria t&atilde;o &uacute;til, que os pobres pais, cavadores sem<br \/>\n    vint&eacute;m, se abalan&ccedil;assem a mandar os filhos todos os dias &agrave;<br \/>\n    escola, com preju&iacute;zo do seu trabalho?<\/p>\n<p>Alguns desses pequenos j&aacute; sabiam lidar nos campos, e tinham for&ccedil;a<br \/>\n    para mover a enxada ou guiar os bois&#8230; Com que duros sacrif&iacute;cios a<br \/>\n    m&atilde;e lhes compraria os sapatos e as roupas de ir ao mestre!<\/p>\n<p>Esse exemplo f&ecirc;-la pensar que vivera toda a sua longa vida de setenta<br \/>\n    anos, como um animal inferior, em que o pensamento mal animava a mat&eacute;ria.<br \/>\n    A vida teria outros intuitos mais elevados que os de servir a carne com o<br \/>\n    alimento e o agasalho?<\/p>\n<p>Dos seus dedos encarquilhados e tr&ecirc;mulos a costura caiu, e no dia seguinte<br \/>\n    ela se incorporou ao bando das crian&ccedil;as, a caminho da escola.<\/p>\n<p>Foi uma alegria. Os pequenos n&atilde;o riram. Emprestou-lhe, um, uma cartilha;<br \/>\n    outro ofereceu-lhe uma tabuada; e todos se sentiram muito honrados com aquela<br \/>\n    condisc&iacute;pula de rosto franzido e cabelo nevado.<\/p>\n<p>No fim de tr&ecirc;s meses de uma aplica&ccedil;&atilde;o teimosa, a velha<br \/>\n    alde&atilde;, escrevia a sua primeira carta &agrave; neta mais velha, que<br \/>\n    vivia numa col&ocirc;nia francesa da &Aacute;frica. Nas suas garatujas aconselhava<br \/>\n    ela a mo&ccedil;a a ir &agrave; escola, para aprender a mandar-lhe not&iacute;cias<br \/>\n    com a sua pr&oacute;pria letra.<\/p>\n<p>As cartas escritas pelos outros n&atilde;o s&atilde;o inteiramente nossas;<br \/>\n    nas letras como nas palavras vai alguma coisa do ente amado e ausente&#8230;<\/p>\n<p>\n    De vez em quando noticiam os jornais: &quot;&#8230; Perdeu-se uma crian&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    Achou-se uma crian&ccedil;a&#8230;&quot;<\/p>\n<p>E s&atilde;o sustos, l&aacute;grimas, afli&ccedil;&otilde;es! Para prevenir<br \/>\n    es confus&otilde;es bastaria atar ao pesco&ccedil;o dos anjinhos na medalha<br \/>\n    com seus nomes e moradas. Tal e qual como aos c&atilde;ezinhos. Sim, porque<br \/>\n    as pobres crian&ccedil;as com as suas l&iacute;nguas de trapos, t&atilde;o<br \/>\n    musicais e incompreens&iacute;veis, esfor&ccedil;a-se em v&atilde;o, muitas<br \/>\n    vezes por explicar a um desconhecido, que as encontra chorosas na cal&ccedil;ada,<br \/>\n    de onde v&ecirc;m ou para onde v&atilde;o. H&aacute; s&oacute; uma palavra<br \/>\n    n&iacute;tida no meio daquele embaralhado fuso de s&iacute;labas entrecortadas<br \/>\n    de solu&ccedil;os: &#8211; mam&atilde;e! Querem a mam&atilde;e, cuja m&atilde;o<br \/>\n    deixaram sem saber como, nem onde, nem quando, olhando tontas para a direita<br \/>\n    ou para a esquerda, sem no&ccedil;&atilde;o do s&iacute;tio, aflitas, tr&ecirc;mulas,<br \/>\n    sondando com olhar &aacute;vido todas as portas, erguendo os queixinhos rosados<br \/>\n    para todas as janelas.<\/p>\n<p>Estas cenas, ali&aacute;s freq&uuml;entes, sempre enternecem, e a cada pergunta<br \/>\n    que um transeunte comovido faz, no sentido de auxiliar e bem conduzir a pobre<br \/>\n    criaturinha, ouve sempre a mesma resposta &#8211; mam&atilde;e!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em que rua mora? &#8211; Mam&atilde;e!<\/p>\n<p>&#8211; Para onde ia? &#8211; Mam&atilde;e!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama ela, a sua m&atilde;e? Mam&atilde;e, mam&atilde;e, mam&atilde;e!<\/p>\n<p>Por seu lado, a m&atilde;e volve &agrave; loja de onde saiu, julgando encontrar<br \/>\n    o filhinho embasbacado diante da mesma boneca; j&aacute; n&atilde;o o encontra,<br \/>\n    sai tr&ecirc;mula, &#8211; que o n&atilde;o pise um carro! &#8211; e, enquanto alucinada<br \/>\n    sobe para a direita, interrogando toda a gente, olhando como louca para todas<br \/>\n    as lojas e todas as esquinas, ele desce para a esquerda, engrolando termos,<br \/>\n    segurando-se a todas as saias, contemplando com avidez e susto todas as mulheres.<\/p>\n<p>E n&oacute;s, que nada vimos, comovemo-nos no dia seguinte ao ler nas gazetas:<br \/>\n    &quot;&#8230; Perdeu-se uma crian&ccedil;a&#8230;&quot;<\/p>\n<p>\n    Um dia encontrei em uma esquina o velho Dr. Serra, que, apesar dos seus setenta<br \/>\n    anos, gosta de observar as mo&ccedil;as que passam. Disse-me ele:<\/p>\n<p>Estou convencido de que o simples movimento de levantar o vestido exige uma<br \/>\n    gra&ccedil;a muito particular. H&aacute; senhoras que erguem a saia de um<br \/>\n    lado e v&atilde;o com ela a rastos do outro, descrevendo uma linha diagonal,<br \/>\n    como se caminhassem de esguelha. Outras, n&atilde;o levantam coisa nenhuma,<br \/>\n    varrem as ruas com desassombro; outras, levantam demais o vestido, mostrando<br \/>\n    as saias de baixo, que s&oacute; devem ter o m&eacute;rito de se deixar adivinhar:<br \/>\n    outras, arrepanham as duas saias ao mesmo tempo, para mostrarem a toda gente<br \/>\n    os tac&otilde;es das botinas; e &eacute; raro ver-se uma que, reunindo as<br \/>\n    pregas da saia &agrave; mesma dist&acirc;ncia da cintura, colha a fazenda<br \/>\n    sem distra&ccedil;&otilde;es nem indiscri&ccedil;&otilde;es, deixando apenas<br \/>\n    entrever o que se deve n&atilde;o mostrar. Eu j&aacute; atinei com a arte.<br \/>\n    A m&atilde;o que segura o vestido n&atilde;o deve estar nem muito alta, nem<br \/>\n    muito baixa, nem muito para diante, nem muito para tr&aacute;s; de maneira<br \/>\n    que o bra&ccedil;o caia naturalmente e n&atilde;o desenhe esses feios &acirc;ngulos<br \/>\n    agudos, que nos obrigam tamb&eacute;m a andar fazendo curvas. Realmente, as<br \/>\n    senhoras do meu tempo&#8230;<\/p>\n<p>Pedi ao meu amigo que olhasse para outro lado e aproveitei a ocasi&atilde;o<br \/>\n    para fugir-lhe, n&atilde;o sem a preocupa&ccedil;&atilde;o de que ele se voltasse<br \/>\n    e me visse os tac&otilde;es, ou a saia de esguelha&#8230;<\/p>\n<p>Os homens s&atilde;o terr&iacute;veis!<\/p>\n<h4><a name=\"13\" id=\"13\">Quiromancia<\/a><\/h4>\n<p>Uma bela tarde, a minha amiga Rafaela entrou arrebatadamente na minha saleta<br \/>\n    de trabalho e deixou-se cair num tamborete, a meus p&eacute;s.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens? perguntei-lhe assustada, percebendo-lhe o terror no rosto, ordinariamente<br \/>\n    repousado.<\/p>\n<p>Por &uacute;nica resposta ela estendeu-me a m&atilde;o espaldada e nua, e<br \/>\n    arregalou para mim os seus olhos claros, cor de violeta.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o percebo o teu gesto&#8230; roubaram-te o anel que ele te deu?&#8230;<br \/>\n    N&atilde;o abranges a oitava no piano e desistes de o estudar? Ter&aacute;s<br \/>\n    reumatismo nos dedos ? Bem; se n&atilde;o queres responder, vai-te embora,<br \/>\n    mas arranja primeiro o chap&eacute;u, que est&aacute; torto, e modifica esse<br \/>\n    ar de quem foge de algu&eacute;m que o persegue na rua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m me seguiu na rua&#8230; o anel que ele me deu est&aacute; na<br \/>\n    outra m&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>E, como orvalho em violetas, borbulharam l&aacute;grimas nos olhos da pobre<br \/>\n    Rafaela.<\/p>\n<p>&#8211; Se pudesses explicar-te&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Escuta venho da casa da No&ecirc;mia Saldanha; havia l&aacute; gente de<br \/>\n    fora, uns homens de quem j&aacute; n&atilde;o me lembro do nome e um certo<br \/>\n    rapaz que lia nas m&atilde;os das senhoras a buena dicha, ou que melhor nome<br \/>\n    tenha. Quando eu entrei, a Saldanha disse alto, com o seus guinchinhos de<br \/>\n    macaca: &quot;Olhem quem vem a&iacute;!&quot; e puxou-me com viol&ecirc;ncia<br \/>\n    para a roda, que se abriu muito am&aacute;vel para me receber. O tal rapaz<br \/>\n    continuou nos seus progn&oacute;sticos, que faziam rir a todos. Lia na m&atilde;o<br \/>\n    da Sinh&aacute; Mendes coisas muito bonitas: que ela se haveria de casar com<br \/>\n    um mo&ccedil;o que a adora&#8230; que h&aacute; de ir &agrave; Europa, que h&aacute;<br \/>\n    de ter tr&ecirc;s filhos gordos. mansos, fortes e bonitos; que herdar&aacute;<br \/>\n    uma grande fortuna de um parente afastado de quem n&atilde;o ter&aacute; saudades;<br \/>\n    que ter&aacute; lindos vestidos, bons carros, assinaturas no l&iacute;rico<br \/>\n    e que morrer&aacute; de velha, sem sentir, de uma s&iacute;ncope&#8230;<\/p>\n<p>Todos riam; a Sinh&aacute; estava radiante! Com aquele exemplo, eu fui insensivelmente<br \/>\n    desabotoando a luva e estendendo tamb&eacute;m a minha m&atilde;o.<\/p>\n<p>O rapaz tornou-se sombrio, &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que a observava.<br \/>\n    Como eu instasse para que dissesse a verdade, fosse ela qual fosse, ele, muito<br \/>\n    constrangido, declarou tudo.<\/p>\n<p>Disse que n&atilde;o me casarei, que terei bexigas, apesar vacinada duas<br \/>\n    vezes, e que ficarei marcada como um crivo; disse que a minha fam&iacute;lia<br \/>\n    me abandonar&aacute; e que morrerei ainda mo&ccedil;a, de um ataque, na rua!<br \/>\n    Vida t&atilde;o feia n&atilde;o merece melhor desfecho!<\/p>\n<p>&#8211; Um ataque na rua! Que ignominia! V&ecirc; tu!<\/p>\n<p>&#8211; E depois?<\/p>\n<p>&#8211; Depois&#8230; que sou muito nervosa &#8211; e isto &eacute; verdade! &#8211; que tenho<br \/>\n    uma grande paix&atilde;o&#8230; tamb&eacute;m &eacute; certo&#8230; que tenho excelentes<br \/>\n    qualidades de cora&ccedil;&atilde;o, o que n&atilde;o me impedir&aacute; de<br \/>\n    morrer como um c&atilde;o sem dono, na cal&ccedil;ada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que mais?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda querias mais?!<\/p>\n<p>&#8211; Que respondeste?<\/p>\n<p>&#8211; Fingi heroicidade, que &eacute; sempre o nosso costume mas sabe Deus o<br \/>\n    que se passava c&aacute; dentro! Quando pude fugir, fugi. Os guinchos da No&ecirc;mia<br \/>\n    perseguiam-me; a alegria da Sinh&aacute; irritava-me. A felicidade dos outros<br \/>\n    agrava o nosso infort&uacute;nio. S&oacute; hoje compreendi isto. Por mais<br \/>\n    que eu olhe para a m&atilde;o, para estes caminhos que parecem tra&ccedil;ados<br \/>\n    na palma pela ponta fin&iacute;ssima de um alfinete e por onde marcham os<br \/>\n    nossos instintos, os nossos segredos e at&eacute; o nosso futuro se esclarece,<br \/>\n    por mais que eu observe toda esta rede complicad&iacute;ssima, n&atilde;o<br \/>\n    consigo descobrir nada! Se ele se tivesse enganado?! Mas n&atilde;o; vi que<br \/>\n    falou com toda a convic&ccedil;&atilde;o, disse a verdade. Eu agora j&aacute;<br \/>\n    sei; abandono-me, aceito o meu destino, o meu feio destino de ser medonha,<br \/>\n    n&atilde;o ser amada e morrer numa cal&ccedil;ada, &agrave; vista de quem<br \/>\n    passar na ocasi&atilde;o!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o v&ecirc;s, minha tontinha, que te meteram num enredo? Vou apostar<br \/>\n    eu como o tal rapaz entende tanto de quiromancia como eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, a quiromancia &eacute; uma arte!<\/p>\n<p>&#8211; E nas salas uma armadilha maliciosa &agrave; ingenuidade de certas mo&ccedil;as&#8230;<br \/>\n    Quando tiveres algum segredo que n&atilde;o queiras ver profanado, nem pela<br \/>\n    mais leve suspeita, abotoa bem as tuas luvas ao entrar em certas salas. Entretanto,<br \/>\n    fica certa de que n&atilde;o ser&aacute; nas linhas da m&atilde;o que ele<br \/>\n    se mostre todo, mas no rubor das tuas faces ou no pestanejar dos teus olhos,<br \/>\n    que ser&atilde;o consultados &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que se fa&ccedil;a<br \/>\n    a leitura fat&iacute;dica. Quanto ao resto, o rapaz, se n&atilde;o foi absolutamente<br \/>\n    delicado, n&atilde;o deixou de ter uma pontinha de esp&iacute;rito. Sinh&aacute;<br \/>\n    &eacute; feia, tu &eacute;s bonita; ela ro&ccedil;a pelos trinta anos, tu<br \/>\n    ainda n&atilde;o tens vinte, ele quis igualar-vos momentaneamente, vestindo-te<br \/>\n    de desapontamento e iluminando a outra de alegria. Na tua idade os segredos<br \/>\n    s&atilde;o leves e f&aacute;ceis de adivinhar; em todo caso guarda-os contigo,<br \/>\n    ou s&oacute; para a confidencia amiga. O recato do sentimento, fortifica-o<br \/>\n    e enobrece-o. E o cora&ccedil;&atilde;o de uma donzela n&atilde;o se deve<br \/>\n    devassar a todas as curiosidades&#8230; Ele &eacute;, como disse o poeta Vigny:<br \/>\n    un vase sacr&eacute; tout rempli de secrets.<\/p>\n<h4><a name=\"14\" id=\"14\">Arte Culin&aacute;ria<\/a><\/h4>\n<p>Para saber comer, &eacute; preciso n&atilde;o ter fome. Quem tem fome n&atilde;o<br \/>\n    saboreia, engole. Ora, desde que o enfarruscador of&iacute;cio de temperar<br \/>\n    panelas se enfeitou com o nome de arte culin&aacute;ria, temos uma certa obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de cortesia para com ele. E concordemos que &eacute; uma arte pr&oacute;diga<br \/>\n    e f&eacute;rtil. Cada dia surge um pratinho novo com mil composi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    extravagantes, que espantam as menag&egrave;res pobres e deleitam os cozinheiros<br \/>\n    da ra&ccedil;a! D&atilde;o-se nomes liter&aacute;rios, designa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    delicadas, procuradas com esfor&ccedil;o, para condizer com a raridade do<br \/>\n    acepipe. Os temperos banais, das velhas cozinhas burguesas, v&atilde;o-se<br \/>\n    perdendo na sombra dos tempos. Falar em alhos, salsa, vinagre, cebola verde,<br \/>\n    hortel&atilde; ou coentro, arrepia a cabeluda epiderme dos mestres dos fog&otilde;es<br \/>\n    atuais. Agora em todas as despensas devem brilhar r&oacute;tulos estrangeiros<br \/>\n    de conservas assassinas, e alcaparras, trutas, manteiga dinamarquesa (o toucinho<br \/>\n    passou a ser ignominioso), vinho Madeira para adubo do filet, enfim tudo o<br \/>\n    que houver de mais apurado, cheiroso e&#8230; caro!<\/p>\n<p>As exig&ecirc;ncias crescem, amea&ccedil;am-nos e, sem paradoxo, somos comidos<br \/>\n    pelo que comemos. Isto vem &agrave; prop&oacute;sito de uma exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de arte culin&aacute;ria que se fez, h&aacute; pouco tempo, em Paris. Imaginem<br \/>\n    como aquilo deve ser encantador e apetitoso!<\/p>\n<p>Quem j&aacute; viu as vitrines das charcuteries, das cr&eacute;meries, das<br \/>\n    confeitarias, etc., e que sabe com quanto mimo e eleg&acirc;ncia s&atilde;o<br \/>\n    expostos os queijos, os paios e os past&eacute;is, entre bouquets de lilases<br \/>\n    e fofos caix&otilde;es de pap&eacute;is de seda bem combinados, crespos e<br \/>\n    leves como plumas, imagina que de novidades graciosas se juntar&atilde;o no<br \/>\n    Pal&aacute;cio da Ind&uacute;stria.<\/p>\n<p>Naturalmente, cada expositor &eacute; um arquiteto e um artista na combina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das cores. Fazem-se castelos de biscoitos, torres engenhosas de chocolate,<br \/>\n    de creme, de morangos, onde tremulem, em cristaliza&ccedil;&otilde;es policromas,<br \/>\n    as gelatinas de frutas ou de aves, refletindo luzes entre lacinhos de fita<br \/>\n    e flores frescas, porque o franc&ecirc;s tem a preocupa&ccedil;&atilde;o gentil&iacute;ssima<br \/>\n    de deleitar sempre os olhos alheios.<\/p>\n<p>Aben&ccedil;oada mania!<\/p>\n<p>O que eu invejo n&atilde;o s&atilde;o as trutas, nem os champignons, nem<br \/>\n    o seu foie-gras, porque tudo isso temos n&oacute;s aqui e mais muitas coisas<br \/>\n    que eles l&aacute; desconhecem. O que eu invejo &eacute; aquela facilidade,<br \/>\n    aquela gra&ccedil;a das exposi&ccedil;&otilde;es que se sucedem e se multiplicam<br \/>\n    e que n&atilde;o podem deixar de ser &uacute;teis, porque abrem a curiosidade<br \/>\n    e ensinam muito.<\/p>\n<p>A cozinha francesa tem-se intrometido em toda a parte.<\/p>\n<p>A Inglaterra op&otilde;e-lhe forte resist&ecirc;ncia com as suas batatas<br \/>\n    cozidas e presunto cru; mas a nossa, por exemplo, est&aacute; muito modificada<br \/>\n    por ela. Entretanto, temos pratos caracter&iacute;sticos, s&oacute; nossos<br \/>\n    e que eu teimo em achar gostosos. Infelizmente falta-lhes o chic, o lado onde<br \/>\n    se possa atar a tal fitinha ou colocar o bouquet de violetas do inverno ou<br \/>\n    do muquet da primavera. O feij&atilde;o preto com o respectivo e lutuoso acompanhamento<br \/>\n    n&atilde;o se presta por certo para a coquetterie de um adorno mimoso, mas<br \/>\n    nem por isso deixa de ser da primeira linha. Depois temos os pratos baianos,<br \/>\n    o afamado vatap&aacute; e outros, quentes e l&uacute;bricos, e o churrasco<br \/>\n    do Rio Grande, e o cuscuz de S. Paulo, e tantos que eu ignoro e que descobrem,<br \/>\n    demonstram, por assim dizer, as tend&ecirc;ncias, o temperamento do povo.<\/p>\n<p>Um pa&iacute;s como o Brasil t&atilde;o vasto e variado n&atilde;o teria<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es mais curiosas para realizar uma exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    neste g&ecirc;nero?<\/p>\n<p>S&oacute; de frutas, que, tratando-se da mesa, tem todo o lugar, e de doces&#8230;<br \/>\n    imaginem: far&iacute;amos um figur&atilde;o! geralmente caluniam-se as frutas<br \/>\n    brasileiras e parece-me tempo de lhes irmos dando a merecida import&acirc;ncia.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; nenhum brasileiro que conhe&ccedil;a todas as frutas<br \/>\n    do seu pa&iacute;s. O europeu desdenha-nos nesse sentido; esquece-se de que<br \/>\n    em muitos lugares do Paran&aacute;, Minas e Rio Grande, desenvolvem-se p&ecirc;ras<br \/>\n    magn&iacute;ficas, damascos, cerejas, nozes, etc. E as frutas e as hortali&ccedil;as<br \/>\n    ind&iacute;genas? Inumer&aacute;veis! O que falta &agrave; nossa gourmandise<br \/>\n    &eacute; poder agrup&aacute;-las, poder escolher, na mesma terra, estas ou<br \/>\n    aquelas, e isso s&oacute; se poder&aacute; fazer se houver aqui, algum dia,<br \/>\n    como agora em Paris, quem d&ecirc; import&acirc;ncia &agrave; mesa, e procure,<br \/>\n    por meio de exposi&ccedil;&otilde;es, facilitar esse ramo de com&eacute;rcio,<br \/>\n    educar o povo, e dar-lhe um elemento novo de prazer e de sa&uacute;de.<\/p>\n<p>A exposi&ccedil;&atilde;o parisiense tem ainda um fito, e &eacute; a sua<br \/>\n    principal recomenda&ccedil;&atilde;o e a mais elevada, &#8211; &eacute; o de ensinar,<br \/>\n    por meio do exemplo, a cozinhar bem. Um dos seus cantos &eacute; ocupado por<br \/>\n    M. Charles Driessens, que segundo leio, luta h&aacute; dez anos com desesperada<br \/>\n    energia para fazer entrar o ensino da cozinha no programa do Estado. Este<br \/>\n    tal M. Driessens tem v&aacute;rias escolas de cozinha, e ali trabalham umas<br \/>\n    cinq&uuml;enta disc&iacute;pulas, mostrando a toda a gente como se deve fazer<br \/>\n    um creme, estender uma massa, temperar uma salada, grelhar um bife ou enfeitar<br \/>\n    uns pezinhos de carneiro com papelotes e rosetas.<\/p>\n<p>As senhoras n&atilde;o nasceram para falar em camar&otilde;es, carne ou palmito,<br \/>\n    em p&uacute;blico; mas, senhores rom&acirc;nticos, lembrai-vos de que nem<br \/>\n    sempre nos bastam o brilho das estrelas nem o murmulho das ondas para conversar<br \/>\n    com as amigas!<\/p>\n<h4><a name=\"15\" id=\"15\">Amuletos<\/a><\/h4>\n<p>Foi numa das sextas-feiras da Matilde Abranches, que o seu m&eacute;dico,<br \/>\n    rapaz ali&aacute;s simp&aacute;tico, afirmou que os homens s&atilde;o maus<br \/>\n    por culpa das mulheres&#8230;<\/p>\n<p>Os dedos de Cec&iacute;lia desfolhavam as notas lev&iacute;ssimas de Ma barque<br \/>\n    l&eacute;g&egrave;re e a meu lado L&iacute;dia sorvia o aroma de um bot&atilde;o<br \/>\n    de rosa. Bem comparado, fez-me lembrar um quadro ideal de Diana Cid; L&iacute;dia<br \/>\n    tamb&eacute;m estava de azul, como a formosa do &quot;Perfume&quot;.<\/p>\n<p>&#8211; Por culpa das mulheres?! perguntou a voz empapada de uma m&atilde;e de<br \/>\n    fam&iacute;lia, que tem por h&aacute;bito tomar a s&eacute;rio todas as conversas.<\/p>\n<p>&#8211; Como desde o princ&iacute;pio do mundo. Agora ent&atilde;o a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da mulher &eacute; nefasta. A nossa sociedade cai rapidamente da sua modesta<br \/>\n    franqueza, que a fazia encantadora, para um snobismo que a torna rid&iacute;cula.<br \/>\n    A preocupa&ccedil;&atilde;o do chic estraga tudo. As portas j&aacute; se n&atilde;o<br \/>\n    abrem como antigamente, e procuramos termos para as conversas mais simples!<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; naturalidade nem h&aacute; simplicidade. A virtude das<br \/>\n    mulheres, que era para as nossas culpas, como um tronco profundamente enraizado<br \/>\n    &eacute; para as lianas fr&aacute;geis &#8211; um sustent&aacute;culo que as eleva<br \/>\n    e ampara, sente-se abalada e j&aacute; n&atilde;o nos inspira a confian&ccedil;a<br \/>\n    de outrora.<\/p>\n<p>Como para Bruto, para mim a Virtude n&atilde;o &eacute; mais que uma palavra.<br \/>\n    Bebemos todos do veneno. Agora s&oacute; o dil&uacute;vio.<\/p>\n<p>&#8211; Que mal lhe teriam feito as mulheres, sempre gostaria de saber&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estragam tudo com a sua imprud&ecirc;ncia, a sua coquetterie e o seu fanatismo.<br \/>\n    Basta olhar para uma mulherzinha moderna para a gente perceber que se preocupa<br \/>\n    com feiti&ccedil;os e &eacute; supersticiosa. A quantidade de figas e de amuletos<br \/>\n    que traz ao pesco&ccedil;o, bem o prova. Em vez de nos ensinarem a sermos<br \/>\n    simples e cordatos, tornam a vida cada vez mais complexa e dif&iacute;cil.<\/p>\n<p>&#8211; Exemplo?<\/p>\n<p>&#8211; Nas m&iacute;nimas coisas ele aparece. V&aacute; o exemplo: convidam-nos<br \/>\n    para um jantar familiar e d&atilde;o-nos um banquete em que vagueiam perfumes<br \/>\n    de flores caras e cheiros de molhos complicados. Aquilo n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o trivial: logo, aquele n&atilde;o &eacute; o jantar familiar. Quem ordenou<br \/>\n    e determinou o menu, n&atilde;o foi certamente o dono, mas a dona da casa.<br \/>\n    Portanto a atmosfera de falsidade que se respira naquela casa amiga, foi criada<br \/>\n    pela mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Ora a&iacute; est&aacute; ! S&atilde;o os nossos maridos que trazem dos<br \/>\n    hot&eacute;is e das festas a que assistem a exig&ecirc;ncia desses molhos<br \/>\n    complicados, dessas floreiras odor&iacute;feras. do champagne ruinoso e dos<br \/>\n    cristais variegados das mesas ricas. S&atilde;o eles que nos sugerem novidades<br \/>\n    de servi&ccedil;o; e v&ecirc;m os senhores depois p&ocirc;r a rid&iacute;culo<br \/>\n    a nossa pretens&atilde;o! Geralmente n&atilde;o somos n&oacute;s que compramos<br \/>\n    a prataria e as porcelanas. Que sabemos n&oacute;s, as mulheres?<\/p>\n<p>&#8211; O que adivinham. Oh! e o que as mulheres adivinham! Conhe&ccedil;o uma<br \/>\n    que, sem ter ouvido uma &uacute;nica confid&ecirc;ncia, sabe que uma certa<br \/>\n    pessoa evita encontr&aacute;-la, porque &eacute; v&ecirc;-la e logo nessa<br \/>\n    noite perder ao jogo!<\/p>\n<p>&#8211; Esse algu&eacute;m &eacute; o senhor. V&ecirc;? s&atilde;o os homens que<br \/>\n    jogam, que ficam am&aacute;veis se ganham ou mal humorados se perdem, que<br \/>\n    tem estragado a nossa alegria. Mas sempre quero agora que me explique: o senhor,<br \/>\n    que se ri das quatro folhas de trevo e dos corcundinhas de coral que trazemos<br \/>\n    ao peito, porque foge de cumprimentar uma senhora amiga s&oacute; pelo receio<br \/>\n    de que esse encontro fortuito e r&aacute;pido lhe traga o azar da fortuna?<\/p>\n<p>&#8211; Males de ra&ccedil;a, minha senhora, coisas que ficam da inf&acirc;ncia.<br \/>\n    De algum modo precisamos mostrar que j&aacute; fomos crian&ccedil;as. Creia<br \/>\n    que eu at&eacute; adoro essa senhora!<\/p>\n<p>&#8211; Adora-a e evita-a!<\/p>\n<p>&#8211; Mas se ela tem jetattura!<\/p>\n<p>&#8211; Use ent&atilde;o de um expediente:<\/p>\n<p>Quando a vir, pegue em qualquer objeto de ferro. Uma chave, por exemplo.<br \/>\n    N&atilde;o traz uma chave consigo?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; bom?<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; magn&iacute;fico!<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o sabia!<\/p>\n<p>A conversa embarafustava por um terreno am&aacute;vel.<\/p>\n<p>D. Matilde confessou que deixara de se vestir de azul, porque essa cor lhe<br \/>\n    trazia infelicidade.<\/p>\n<p>D. Joana citou uma amiga que usava uma liga de cada cor, como porte-bonheur.<\/p>\n<p>Quase todos os presentes tinham a sua mania&#8230; voltou-se ent&atilde;o algu&eacute;m<br \/>\n    para o velho e s&eacute;rio dr. Braga e perguntou com um rizinho de d&uacute;vida:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor tamb&eacute;m usa dessas coisas?<\/p>\n<p>Ele tirou do bolso um caquinho de vidro azulado e disse com seriedade:<\/p>\n<p>&#8211; Isto. Podem examinar.<\/p>\n<p>O pedacinho de vidro andou de m&atilde;o em m&atilde;o; olharam todos por<br \/>\n    ele para a luz e concordaram em que n&atilde;o seria f&aacute;cil encontrar<br \/>\n    outro t&atilde;o ordin&aacute;rio!<\/p>\n<p>Dr. Braga explicou:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, minhas senhoras e senhores, isto n&atilde;o &eacute; um simples amuleto,<br \/>\n    mas um talism&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda h&aacute; disso?!<\/p>\n<p>&#8211; H&aacute;. Este chama-se o olho da toler&acirc;ncia. Infelizmente, para<br \/>\n    se ver bem por ele &eacute; preciso ter-se passado dos quarenta anos, ter-se<br \/>\n    gasto o bestunto em muitas observa&ccedil;&otilde;es e curvado a cabe&ccedil;a<br \/>\n    a duras exig&ecirc;ncias da sorte&#8230; O olho da toler&acirc;ncia, antes de<br \/>\n    censurar ou de punir a culpa, penetra-lhe a causa, mais disposto a absolv&ecirc;-la<br \/>\n    que a castig&aacute;-la&#8230; Tem a consci&ecirc;ncia da fragilidade da alma.<br \/>\n    Antigamente eu sentia como um romancista fil&oacute;sofo que disse: &quot;plus<br \/>\n    j&#8217;aime l&#8217;humanit&eacute;, plus je d&eacute;teste l&#8217;individu.&quot; Hoje n&atilde;o;<br \/>\n    o indiv&iacute;duo delinq&uuml;ente &eacute; para mim um irm&atilde;o fraco<br \/>\n    que devo amar de prefer&ecirc;ncia, porque todas as suas impurezas s&atilde;o<br \/>\n    conseq&uuml;entes de males, de cuja origem n&atilde;o &eacute; s&oacute; ele<br \/>\n    o respons&aacute;vel. O olho da toler&acirc;ncia acalma o sistema nervoso<br \/>\n    e exercita o cora&ccedil;&atilde;o na pr&aacute;tica do bem. Quando me sinto<br \/>\n    arrastar pela indigna&ccedil;&atilde;o ou a c&oacute;lera contra algu&eacute;m,<br \/>\n    respiro com for&ccedil;a, saco deste caquinho, domino-me, e, para abater o<br \/>\n    &iacute;mpeto, olho atrav&eacute;s do vidro, reflito, e uma grande piedade<br \/>\n    vem substituir o meu primeiro movimento de f&uacute;ria. Ah! minhas senhoras,<br \/>\n    &eacute; que n&atilde;o h&aacute; nada como a toler&acirc;ncia para dar repouso<br \/>\n    &agrave; inquieta&ccedil;&atilde;o das almas!<\/p>\n<h4><a name=\"16\" id=\"16\">Os Beijos<\/a><\/h4>\n<p>Falam os senhores m&eacute;dicos contra os beijos condenando-os como transmissores<br \/>\n    de micr&oacute;bios assassinos. Mis&eacute;rias do sangue ou feias doen&ccedil;as<br \/>\n    incubadas passam invis&iacute;vel e perfidamente de uma para outra criatura,<br \/>\n    no mais r&aacute;pido ou sutil dos &oacute;sculos.<\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o se beijem! &eacute; uma das f&oacute;rmulas modernas dos higienistas;<br \/>\n    resta-nos duvidar que eles, para exemplo, se submetam a essas leis de esquivan&ccedil;a<br \/>\n    que apregoam&#8230; Porque, em verdade, quem haver&aacute; por todo este mundo<br \/>\n    vasto, por mais emurchecidos que tenha os l&aacute;bios ou por mais seca que<br \/>\n    tenha a alma, que n&atilde;o sinta florir no peito, com maior ou menor vi&ccedil;o,<br \/>\n    o desejo imperioso de unir a sua boca a outra boca amada ou de refresc&aacute;-la<br \/>\n    nas faces acetinadas de uma crian&ccedil;a?<\/p>\n<p>Fagulhas das labaredas em que nos consumimos, os beijos crepitar&atilde;o<br \/>\n    por toda a larga face da terra, embora a ci&ecirc;ncia contra eles asseste<br \/>\n    a ducha gelada dos seus decretos proibitivos.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; em l&iacute;ngua humana palavra que, como o beijo, exprima,<br \/>\n    por mais silencioso que ele seja, a ternura e o amor.<\/p>\n<p>A boca de um mudo diz tudo quanto h&aacute; de mais elevado e de mais veemente,<br \/>\n    quando beija; no beijo est&aacute; o &uacute;nico triunfo da sua alma encarcerada!<\/p>\n<p>Bem prega Frei Thomaz&#8230; N&atilde;o se beijem! dentro do beijo, como dentro<br \/>\n    do c&aacute;lice de uma flor de aroma capitoso, est&aacute; muitas vezes escondido<br \/>\n    o veneno que nos leva ao &uacute;ltimo sono. Cuidado&#8230; Quando tais palavras<br \/>\n    escrevem, esses senhores que s&oacute; olham para a vida atrav&eacute;s das<br \/>\n    lentes dos microsc&oacute;pios, dever&atilde;o sentir em si pr&oacute;prios<br \/>\n    o rugido da natureza ofendida a clamar contra essa impiedosa verdade da ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A vida sem beijos! a vida sem beijos &eacute; como um jardim sem flores,<br \/>\n    um pomar sem frutos, ou (que escorregue ainda mais esta velha compara&ccedil;&atilde;o)<br \/>\n    um deserto sem o&aacute;sis. N&atilde;o valeria a pena prolongar a exist&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; custa de tamanho sacrif&iacute;cio. Por assim entender &eacute; que<br \/>\n    a humanidade faz e far&aacute; sempre ouvidos surdos &agrave; teoria da supress&atilde;o<br \/>\n    do beijo. Para ela, ele n&atilde;o &eacute; tal o ve&iacute;culo da pe&ccedil;onha,<br \/>\n    a amea&ccedil;a constante dos fantasmas terr&iacute;ficos de doen&ccedil;as<br \/>\n    asquerosas e tristes, coisa desvirtuada e mal&eacute;fica, mas sim, e por<br \/>\n    todos os s&eacute;culos dos s&eacute;culos, o que dele disse um poeta meu<br \/>\n    amigo:<\/p>\n<p>&quot;&#8230; o selo da amizade<br \/>\n    E do amor! Ele s&oacute; nos d&aacute; felicidade.<br \/>\n    Dois cora&ccedil;&otilde;es que o t&eacute;dio ou o cansa&ccedil;o importune,<br \/>\n    S&oacute; um beijo de amor os levanta e re&uacute;ne.<br \/>\n    O beijo &eacute; vida, o beijo &eacute; luz, o beijo &eacute; gl&oacute;ria!<br \/>\n    Observai bem: vereis que o beijo &eacute; toda a hist&oacute;ria<br \/>\n    Da humanidade. Foi o beijo primitivo<br \/>\n    Que na terra o primeiro homem tornou cativo<br \/>\n    Da primeira mulher; depois, ardente ou brando,<br \/>\n    Veio o beijo de amor as ra&ccedil;as perpetuando,<br \/>\n    Unindo gera&ccedil;&otilde;es a gera&ccedil;&otilde;es, e unindo<br \/>\n    O passado ao futuro insond&aacute;vel e infindo.<br \/>\n    O beijo &eacute; a transfus&atilde;o das almas; ele encerra<br \/>\n    Tudo que possa haver de divino na terra.&quot;<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; s&oacute; o beijo perpetuador das ra&ccedil;as que derrama<br \/>\n    na alma o clar&atilde;o mir&iacute;fico da felicidade. Quando uma m&atilde;e<br \/>\n    beija um filho, como que sente o seu cora&ccedil;&atilde;o maior que o mundo<br \/>\n    e mais vitorioso que todos os hinos do universo! Saber&aacute; algu&eacute;m<br \/>\n    de coisa mais doce nem mais pura, que o beijo da amizade?<\/p>\n<p>Infelizmente, nem todos os beijos s&atilde;o:<\/p>\n<p>&quot;Tudo que possa haver de divino na terra!&quot;<\/p>\n<p>Como diz o poeta.<\/p>\n<p>&Eacute; que Filinto de Almeida desconhece o horror dos beijos convencionais,<br \/>\n    que s&oacute; os l&aacute;bios femininos trocam entre si.<\/p>\n<p>Para esses o rigor das leis cient&iacute;ficas deveria ser bem aceito&#8230;<br \/>\n    Que se beijem duas amigas que se estimam, sim! Que por um enlevo de simpatia,<br \/>\n    uma mulher beije a outra em um primeiro dia de encontro, como um pacto de<br \/>\n    futura amizade, sim! Mas, que, sem espontaneidade de afeto ou sem velha estima,<br \/>\n    s&oacute; por cortesia e obedi&ecirc;ncia ao h&aacute;bito, duas criaturas<br \/>\n    indiferentes, e que &agrave;s vezes at&eacute; se desestimam, troquem beijinhos<br \/>\n    cada vez que se encontram&#8230; por Deus, nem &eacute; decente nem agrad&aacute;vel!<\/p>\n<p>Por mais que a gente queira esquivar-se, n&atilde;o pode, sem incorrer em<br \/>\n    falta grave, furtar-se ao impulso com que certas damas atraem as outras para<br \/>\n    o cumprimento da praxe. Que desastres, &agrave;s vezes, nesse movimento! abas<br \/>\n    de chap&eacute;us que se chocam, v&eacute;us que se arrepanham, corpos que<br \/>\n    se contrafazem, e no fim: um chap&eacute;u torto, uma face babada, e no &iacute;ntimo<br \/>\n    uns ressaibos de mel avinagrado.<\/p>\n<p>A gra&ccedil;a esquisita dessa insist&ecirc;ncia est&aacute; muitas vezes<br \/>\n    em que a senhora que imprime &agrave; outra o pux&atilde;o para o beijo, d&aacute;-lhe<br \/>\n    logo a face a beijar, face em que n&atilde;o raro desabotoam espinhas e quase<br \/>\n    sempre o cold cream se alastra.<\/p>\n<p>E n&atilde;o h&aacute; resist&ecirc;ncia capaz de livrar uma criatura de<br \/>\n    tais assaltos; quer queira quer n&atilde;o queira, ela h&aacute; de beijar<br \/>\n    e h&aacute; de ser beijada em plena rua, em plena luz, por pessoas a quem<br \/>\n    n&atilde;o a prende nenhum la&ccedil;o de afeto, ou mesmo de simpatia muito<br \/>\n    forte.<\/p>\n<p>Sei que me atiro para dentro de uma casa de maribondos falando assim; pouco<br \/>\n    importa.<\/p>\n<p>De resto, esta impress&atilde;o n&atilde;o &eacute; s&oacute; minha. Nenhuma<br \/>\n    mulher deixar&aacute; de sentir revolver-se no seu cora&ccedil;&atilde;o um<br \/>\n    sentimento de desagrado, ao unir a sua boca a outra boca de que tenham sa&iacute;do<br \/>\n    por ventura epigramas que a firam ou indiretas que a molestem.<\/p>\n<p>O beijo &eacute; uma coisa muito nobre para ser esbanjada assim, sem significa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    em encontros de acaso, em qualquer canto de rua&#8230;<\/p>\n<p>Para que ele seja suave e doce, deve ser dado com a consci&ecirc;ncia da<br \/>\n    amizade; do contr&aacute;rio, quando n&atilde;o &eacute; perverso, &eacute;<br \/>\n    rid&iacute;culo.<\/p>\n<p>N&atilde;o se diga que foi a nossa &iacute;ndole meiga e expansiva que inventou<br \/>\n    tal costume; ele foi importado, mas creio que j&aacute; caiu em desuso nas<br \/>\n    terras de que proveio. Pelo menos, as estrangeiras n&atilde;o se beijam entre<br \/>\n    si com tamanha efus&atilde;o. Elas desconfiam, talvez, de que perdem o valor<br \/>\n    os beijos de uma criatura que os dispensa a toda a gente, e por isso s&oacute;<br \/>\n    os gastam em fam&iacute;lia e pouco mais&#8230; Aqui, ao contr&aacute;rio, o furor<br \/>\n    do beijo a esmo tem aumentado; toda a gente se julga com direito a ele e o<br \/>\n    reclama num gesto imperioso que n&atilde;o admite recusa&#8230;<\/p>\n<p>Em resumo, a minha opini&atilde;o neste assunto melindroso e terr&iacute;vel<br \/>\n    &eacute; esta: n&atilde;o compreendo a vida sem o beijo, como n&atilde;o compreendo<br \/>\n    o beijo sem o afeto.<\/p>\n<p>Como, enquanto houver mundo, h&aacute; de haver o amor, o beijo triunfar&aacute;<br \/>\n    de todas as persegui&ccedil;&otilde;es que lhe fizerem os senhores bacteriologistas.<\/p>\n<p>Eles mesmos, depois de horas e horas passadas no interior dos seus gabinetes<br \/>\n    e dos seus laborat&oacute;rios, ao levantarem os olhos, cansados das p&aacute;ginas<br \/>\n    dos livros ou das lentes dos microsc&oacute;pios, sentir&atilde;o, para refrig&eacute;rio<br \/>\n    das suas almas entontecidas pela vertigem de tantas mis&eacute;rias humanas,<br \/>\n    o desejo de as suavizarem num beijo, em que os seus l&aacute;bios impuros<br \/>\n    de homens encontrem a fresca inoc&ecirc;ncia da face de uma crian&ccedil;a&#8230;<br \/>\n    E estou certa de que apressar&atilde;o os passos, para irem beijar em casa<br \/>\n    os filhos pequeninos&#8230;<\/p>\n<p><strong>Parte III<\/strong><\/p>\n<h4><a name=\"17\" id=\"17\">Harmonias<\/a><\/h4>\n<p>Tudo &eacute; m&uacute;sica na natureza, at&eacute; as ostras cantam!<\/p>\n<p>Cada dia que passa nos traz uma surpresa magnifica. Esta, que talvez n&atilde;o<br \/>\n    tivesse comovido ningu&eacute;m mais, fez-me cair das m&atilde;os estupefatas<br \/>\n    o Jornal do Com&eacute;rcio, em que ela veio fixada, como afirma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um s&aacute;bio professor, cuja palavra n&atilde;o pode ser posta em d&uacute;vida.<\/p>\n<p>Mal haja quem fizer ouvidos surdos a uma t&atilde;o bela revela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da poesia universal. Esse ser&aacute; de um materialismo indigno deste s&eacute;culo,<br \/>\n    que h&aacute; de ser todo cheio de sublimes divulga&ccedil;&otilde;es. Digam<br \/>\n    embora que tudo &eacute; velho e revelho no mundo inteiro. Mentira; ali est&aacute;<br \/>\n    a prova: as ostras t&ecirc;m voz, em que expandem as queixas da sua alma com<br \/>\n    &quot;gritinhos agudos, seguidos de murm&uacute;rio suave mas expressivo&quot;.<\/p>\n<p>&Eacute; assim que diz a noticia. Ora, onde h&aacute; express&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    sentimento, logo esses gelatinosos moluscos, feios e informes, t&atilde;o<br \/>\n    repugnantes e t&atilde;o saborosos, d&atilde;o para a divina harmonia dos<br \/>\n    dias e das noites o seu contingente ignorado de solu&ccedil;o ou de riso!<\/p>\n<p>N&atilde;o bastava &agrave; ostra ser m&atilde;e da p&eacute;rola. Tal gl&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o a elevou nunca no pasmado conceito das multid&otilde;es. Essa preciosa<br \/>\n    concre&ccedil;&atilde;o calc&aacute;ria que as mulheres adoram e os ourives<br \/>\n    exploram, &eacute;, bem como o alj&ocirc;far, o n&aacute;car e a madrep&eacute;rola,<br \/>\n    de tamanha impassibilidade, que nunca suspeitamos, por via dela, que na concavidade<br \/>\n    das conchas em que a ostra se espapa, mole e gomosa, ressoasse a voz do gozo<br \/>\n    ou do sofrimento<\/p>\n<p>Foi preciso que a orelha, naturalmente cabeluda, de um grave e s&aacute;bio<br \/>\n    professor se inclinasse para as anfractuosidades de um rochedo, para que o<br \/>\n    divino mist&eacute;rio da alma ignorada do molusco se revelasse ao mundo.<\/p>\n<p>Se as palavras que esse fato denunciaram, em vez de terem sido pronunciadas<br \/>\n    solenemente em um &#8211; congresso de pesca &#8211; por um homem cogitador e insuspeito,<br \/>\n    tivessem saltado da l&iacute;ngua da Sirineta, que foi feita per contare solamente<br \/>\n    as belezas do mar, de que &eacute; o esp&iacute;rito, a gente levantaria os<br \/>\n    ombros com o sorriso com que acolhe as mais lindas fantasias e iria continuando<br \/>\n    a comer ao almo&ccedil;o, sem remorso e com apetite, as famosas ostras cruas.<\/p>\n<p>Mas daqui em diante j&aacute; vir&aacute; uma pontinha de desgosto amargar<br \/>\n    esse prazer maldoso. A gota de lim&atilde;o que contrair o molusco ainda vivo,<br \/>\n    nos dar&aacute; a sensa&ccedil;&atilde;o de que estamos a espremer torturas<br \/>\n    sobre um ser digno da nossa venera&ccedil;&atilde;o, porque sabe conhecer<br \/>\n    o sacrif&iacute;cio!<\/p>\n<p>Antes de a meter na boca &eacute; preciso aproximar do ouvido a ostra que<br \/>\n    temos de deglutir.<\/p>\n<p>Foi esta a nova preocupa&ccedil;&atilde;o que inventou o tal senhor s&aacute;bio,<br \/>\n    como se j&aacute; n&atilde;o tiv&eacute;ssemos tantas! mas, n&atilde;o faz<br \/>\n    mal! ficamos assim sabendo que n&atilde;o h&aacute; na cria&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    nada que seja absolutamente mudo.<\/p>\n<p>Quantas e quantas vezes a literatura alude ao decantado rumor do sil&ecirc;ncio,<br \/>\n    que nos traz da solid&atilde;o dos campos ou da vastid&atilde;o das &aacute;guas<br \/>\n    murm&uacute;rios frauduleiros de ignota magia? Foi talvez num desses instantes<br \/>\n    em que a orquestra universal toca em surdina, que o s&aacute;bio investigador,<br \/>\n    deitando-se sobre a areia fofa de uma praia, junto a uma velha rocha ostreira,<br \/>\n    percebeu a t&ecirc;nue voz dos moluscos atrav&eacute;s as camadas das conchas<br \/>\n    sotopostas.<\/p>\n<p>Vamos, que a surpresa n&atilde;o devia ter sido pequena, nem tampouco desagrad&aacute;vel.<br \/>\n    N&atilde;o tardar&aacute; muito que algu&eacute;m nos venha dizer o diapas&atilde;o<br \/>\n    em que cantam essas pobres enclausuradas, cujo estilo trar&aacute; &agrave;<br \/>\n    mente, j&aacute; presumo! a forma de um hino sacro&#8230; O passo rude est&aacute;<br \/>\n    dado; ci&ecirc;ncia e acaso, de m&atilde;os dadas, descobriram o segredo das<br \/>\n    ostras; elas cantam, e um homem, naturalmente barbado e muito s&eacute;rio,<br \/>\n    como conv&eacute;m a um s&aacute;bio e grande professor, cuja palavra n&atilde;o<br \/>\n    pode ser posta em d&uacute;vida, teve a coragem de o declarar em uma sess&atilde;o<br \/>\n    de congresso. O principal est&aacute; feito; o resto vir&aacute; depois.<\/p>\n<p>Vir&aacute; depois, mas levar&aacute; seu tempo. A interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da m&uacute;sica e a sua defini&ccedil;&atilde;o estou vendo que n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; coisa f&aacute;cil!<\/p>\n<p>Ainda h&aacute; pouco, uma pessoa que estimo e cuja opini&atilde;o em m&uacute;sica<br \/>\n    acato como a melhor, me disse que a opera Saldunes tem muita beleza e larga<br \/>\n    inspira&ccedil;&atilde;o. Alegrei-me; mas a par desta, quantas me disseram<br \/>\n    que n&atilde;o a tinham entendido?<\/p>\n<p>N&atilde;o entender! Mas a m&uacute;sica n&atilde;o &eacute; uma l&iacute;ngua<br \/>\n    estranha, que se precise traduzir com dicion&aacute;rios! Ai dela, se assim<br \/>\n    fosse; deixaria ent&atilde;o de ser arte divina para ser fria ci&ecirc;ncia;<br \/>\n    deixaria de ser a grande pacificadora, t&atilde;o necess&aacute;ria ao atribulado<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o humano, para ser uma coisa impenetr&aacute;vel e r&iacute;gida,<br \/>\n    a que s&oacute; com esfor&ccedil;o as multid&otilde;es chegariam.<\/p>\n<p>A maioria do p&uacute;blico que vai ao teatro ouvir uma opera, n&atilde;o<br \/>\n    trata, por incompetente, de averiguar se ela &eacute; feita desta ou daquela<br \/>\n    maneira, se a sua instrumenta&ccedil;&atilde;o obedece a todos os primores<br \/>\n    de uma orquestra&ccedil;&atilde;o opulenta, se a sua tessitura &eacute; perfeita,<br \/>\n    e as suas harmonias bem combinadas.<\/p>\n<p>O que ele vai buscar l&aacute; &eacute; a emo&ccedil;&atilde;o, o sentimento<br \/>\n    que transbordara e se evolar&aacute; da m&uacute;sica com a espontaneidade<br \/>\n    perturbadora com que o perfume sai de uma flor!<\/p>\n<p>Parece-me que a arte, a n&atilde;o ser para os artistas, n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    coisa que se entenda, mas que se sinta. Que importa &agrave; maioria que os<br \/>\n    processos por que tal partitura &eacute; feita, sejam complicados e ela dolorosamente<br \/>\n    trabalhada, se do seu conjunto espinhento e bravio n&atilde;o voou nem uma<br \/>\n    frase que lhe fizesse vibrar os nervos impass&iacute;veis?<\/p>\n<p>Em verdade &eacute; muito freq&uuml;ente ouvir-se dizer: eu n&atilde;o gostei<br \/>\n    desta ou daquela opera, porque n&atilde;o a entendi.<\/p>\n<p>Essa modesta confiss&atilde;o de incompet&ecirc;ncia, que, ali&aacute;s,<br \/>\n    s&oacute; &eacute; feita em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; m&uacute;sica,<br \/>\n    visto que para as outras artes toda a gente se julga habilitada e com direito<br \/>\n    a uma cr&iacute;tica definitiva, deve, at&eacute; certo ponto, consolar os<br \/>\n    maestros&#8230;<\/p>\n<p>Ah, diante das harmonias da natureza &eacute; que n&atilde;o h&aacute; tanto<br \/>\n    embara&ccedil;o: elas entram-nos pela alma a dentro sem que para isso tenham<br \/>\n    de for&ccedil;ar o entendimento. Quem compreender&aacute; jamais a contextura<br \/>\n    dessa grande opera em que tomam parte desde o asqueroso sapo dos brejos, at&eacute;<br \/>\n    &agrave; sentimental patativa dos laranjais?<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m; e todavia todos a sentem e a adoram. &Eacute; por isso que,<br \/>\n    por sobre as areias movedi&ccedil;as ou as asperezas agrestes dos rochedos<br \/>\n    mudos, ro&ccedil;am na avidez de uma curiosidade insaci&aacute;vel as cabeludas<br \/>\n    orelhas dos s&aacute;bios naturalistas.<\/p>\n<p>Certos de que neste velho mundo tudo &eacute; novo, os seus ouvidos esperam<br \/>\n    ainda, esperar&atilde;o sempre, surpreender no pr&oacute;prio seio das coisas<br \/>\n    mudas, vozes ignoradas e perfeitas.<\/p>\n<p>Esta, que o grave professor do Congresso de Pescaria descobriu nas ostras,<br \/>\n    &eacute; deveras extraordin&aacute;ria! Como os cisnes, o viscoso molusco<br \/>\n    desprende na hora extrema, ap&oacute;s um grito agudo, um canto suav&iacute;ssimo&#8230;<\/p>\n<p>Haver&aacute; quem, depois disto saber, ingira sem como&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e sem remorsos as saborosas ostras cruas, cruas e vivas?! N&atilde;o!<\/p>\n<h4><a name=\"18\" id=\"18\">Um Testamento<\/a><\/h4>\n<p>&Eacute; o nome de Rotschild que aos olhos do mundo se incarna a id&eacute;ia<br \/>\n    da riqueza. A l&acirc;mpada de Alam, de que cada um de n&oacute;s tem na imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    uma c&oacute;pia, arranca-lhe de cada s&iacute;laba uma chispa de pedra preciosa.<br \/>\n    Ele &eacute; o d&iacute;stico de um tesouro acumulado com avidez judaica atrav&eacute;s<br \/>\n    dos tempos e de que s&oacute; desabam catadupas de ouro quando solicitadas<br \/>\n    pela vol&uacute;pia do neg&oacute;cio. Ele &eacute; a gl&oacute;ria da ra&ccedil;a,<br \/>\n    a ventosa terr&iacute;vel sugando energias de hebreus e submiss&otilde;es<br \/>\n    de crist&atilde;os, e &eacute; o senhor do ouro que, como o mar, recebe de<br \/>\n    todas as nascentes, e de &aacute;gua turva com &aacute;gua l&iacute;mpida<br \/>\n    faz a mesma onda que estrondeia em espumaradas de prata.<\/p>\n<p>Rotschild n&atilde;o &eacute; uma entidade, &eacute; um s&iacute;mbolo &#8211;<br \/>\n    o dinheiro. Ele faz tremer as na&ccedil;&otilde;es, v&ecirc; a seus p&eacute;s<br \/>\n    os mais nobres governos e finca no mundo as suas garras formid&aacute;veis,<br \/>\n    enterrando-lhas at&eacute; ao &acirc;mago, bem como o abutre enterra as suas<br \/>\n    na carne tenra de um cordeiro.<\/p>\n<p>Como o fr&aacute;gil animal, o mundo sangra, &#8211; na agonia do prolet&aacute;rio,<br \/>\n    do faminto, do sem vint&eacute;m, para cujos olhos o capital &eacute; o roubo,<br \/>\n    e que a&iacute; est&atilde;o rugindo mais alto que o balir tr&ecirc;mulo do<br \/>\n    cordeirinho na afli&ccedil;&atilde;o da morte&#8230;<\/p>\n<p>Rotschild! Pode ser amado este nome luminoso e que retine com uma t&atilde;o<br \/>\n    ampla sonoridade de ouro? Diria n&atilde;o, se a leitura de um testamento<br \/>\n    me n&atilde;o viesse provar que ele n&atilde;o quer dizer unicamente: metal,<br \/>\n    neg&oacute;cio, lucro. &Eacute; pois certo que Rotschild &eacute; nome de<br \/>\n    homem!<\/p>\n<p>\n    Tenho observado, talvez mal, que o ego&iacute;smo humano em nenhuma formula<br \/>\n    t&atilde;o bem se evidencia, como na testament&aacute;ria. Pessoas riqu&iacute;ssimas<br \/>\n    e cuja fortuna ao servi&ccedil;o de um cora&ccedil;&atilde;o generoso se podia<br \/>\n    expandir num largo c&iacute;rculo, fazem testamentos em que concentram todos<br \/>\n    os haveres nos seus herdeiros da lei ou em pouqu&iacute;ssimos mais. Assim,<br \/>\n    ningu&eacute;m que as n&atilde;o tivesse conhecido em vida as diria capazes<br \/>\n    de matar com um bocado de p&atilde;o duro, a fome de qualquer mendigo que<br \/>\n    lhes batesse &agrave; porta.<\/p>\n<p>Toda aquela fortuna parece ter sido passada a outrem a contragosto, de olhos<br \/>\n    fechados, num mergulho inevit&aacute;vel.<\/p>\n<p>&Eacute; bem dif&iacute;cil fazer-se um testamento, visto que &eacute; t&atilde;o<br \/>\n    raro aparecer algum em que a justi&ccedil;a, a ternura e a humanidade transpare&ccedil;am.<\/p>\n<p>Entretanto, nenhum ato pode ser mais consolador nem mais belo para um homem<br \/>\n    de grande fortuna e largo esp&iacute;rito, do que esse de espalhar, ap&oacute;s<br \/>\n    o seu completo desaparecimento da Terra, o bem estar e a alegria por um punhado<br \/>\n    de gente que sofre e que trabalha.<\/p>\n<p>&Eacute; ainda a maneira que os ricos t&ecirc;m de se fazerem perdoados de<br \/>\n    bens, adquiridos muitas vezes pelo seu pr&oacute;prio esfor&ccedil;o, mas<br \/>\n    que nem por isso deixam de ser mal vistos pelos que nada alcan&ccedil;am&#8230;<\/p>\n<p>Rotschild! &eacute; de Adolfo Rotschild o testamento glorioso, que li em<br \/>\n    um jornal e onde h&aacute; legados comovedores.<\/p>\n<p>Se houve culpas nos seus antepassados, este homem de bem redime-as todas<br \/>\n    nestas p&aacute;ginas de clem&ecirc;ncia. Sem apagar um &uacute;nico beneficio<br \/>\n    que o cora&ccedil;&atilde;o decretara no primeiro impulso, ele quarenta e<br \/>\n    quatro vezes alterou o seu testamento, para desenvolver, acrescentar os socorros<br \/>\n    que a observa&ccedil;&atilde;o da vida lhe ia sugerindo.<\/p>\n<p>Sem falar nos asilos, hospitais, escolas e museus, para os quais deixou mont&otilde;es<br \/>\n    e mont&otilde;es de dinheiro, milhares e milhares de contos; sem comentar<br \/>\n    a abund&acirc;ncia das verbas destinadas &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos institutos, onde a raiva e o croup encontram lenitivo e rem&eacute;dio,<br \/>\n    destacarei os legados, que me pareceram mais reveladores de um cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    raro. Este, por exemplo: determinou uma quantia para aux&iacute;lio de mo&ccedil;as<br \/>\n    pobres que vivam do seu trabalho. Isto n&atilde;o tem o valor banal da caridade,<br \/>\n    atirando dinheiro aos pobres como migalhas aos peixes; encerra uma id&eacute;ia<br \/>\n    de acoro&ccedil;oamento, de est&iacute;mulo, de aplauso, &eacute; como um<br \/>\n    carinho fraternal, que n&atilde;o ser&aacute; recebido sem l&aacute;grimas.<\/p>\n<p>O grande argent&aacute;rio pensou na oper&aacute;ria sacrificada, na laboriosa<br \/>\n    filha do povo, para quem s&oacute; t&ecirc;m olhos a concupisc&ecirc;ncia<br \/>\n    e a perdi&ccedil;&atilde;o, e atirou-lhe um adeus de amigo, que t&atilde;o<br \/>\n    raramente o homem d&aacute; &agrave; mulher, e que seria sempre o mais suave<br \/>\n    esteio para as suas fraquezas&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; menos encantador, na sua simplicidade, o benef&iacute;cio<br \/>\n    aos animais em geral, cuja sorte triste procurou minorar. Assim, os cavalos<br \/>\n    que tenham trabalhado, chegado o instante inevit&aacute;vel da decad&ecirc;ncia<br \/>\n    ou da ruma, n&atilde;o ser&atilde;o aproveitados em misteres brutais, em que<br \/>\n    o seu pobre corpo esfalfado vergue ainda no interesse do dono ego&iacute;sta.<\/p>\n<p>Chegamos ao &uacute;ltimo legado, que eu n&atilde;o classificarei, porque<br \/>\n    toda a sua filosofia ador&aacute;vel fala por si. &Eacute; simples:<\/p>\n<p>Adolfo Rotschild, deixou a uns tantos sacerdotes velhos, de qualquer religi&atilde;o,<br \/>\n    soma que lhes permita exercerem tranq&uuml;ilamente em Fran&ccedil;a o seu<br \/>\n    minist&eacute;rio.<\/p>\n<p>Esta lembran&ccedil;a abre-se aos meus olhos como uma flor at&eacute; hoje<br \/>\n    desconhecida. Nem a cor, nem a forma, nem o aroma denunciam a semente que<br \/>\n    lhe deu origem; t&atilde;o sabido &eacute; que a toler&acirc;ncia absoluta<br \/>\n    raro germina na Terra.<\/p>\n<p>Cada um de n&oacute;s pensa que da nossa religi&atilde;o &eacute; que h&aacute;<br \/>\n    de vir a felicidade ao mundo, porque s&oacute; ela &eacute; perfeita e &eacute;<br \/>\n    verdadeira. B&aacute;lsamos que outras derramem, que nos importam, se nem<br \/>\n    elas s&atilde;o justas, nem os seus filhos nossos irm&atilde;os?<\/p>\n<p>Guerre&ecirc;mo-nos, matemo-nos em nome da nossa F&eacute;, que ser&aacute;<br \/>\n    um dia a de todos que n&oacute;s tivermos vencido ou que vierem ao nosso chamamento.<br \/>\n    A esta id&eacute;ia turbulenta, desorientadora e triste, responde a voz serena<br \/>\n    daquele par&aacute;grafo, em que um judeu oferece amparo a velhos sacerdotes<br \/>\n    pobres, cat&oacute;licos, israelitas ou protestantes, para a sua manuten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    aconselhando ao mesmo tempo aos seus descendentes, que lhe sigam o exemplo<br \/>\n    de toler&acirc;ncia e de liberdade religiosa.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span> pt.wikisource.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Minhas Amigas Natal Brasileiro Conventos O Vestu\u00e1rio Feminino A Arte de Envelhecer A Mulher Brasileira Cartas Em Guarda Por Qu\u00ea ? 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