{"id":107991,"date":"2017-02-09T10:35:31","date_gmt":"2017-02-09T12:35:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107991"},"modified":"2017-02-09T10:35:31","modified_gmt":"2017-02-09T12:35:31","slug":"flores-julia-lopes-de-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/flores-julia-lopes-de-almeida","title":{"rendered":"Flores &#8211; J\u00falia Lopes de Almeida"},"content":{"rendered":"<h4>J\u00falia Lopes de Almeida<\/h4>\n<p>Escrevo estas linhas<br \/>\npensando em minhas<br \/>\nfilhas. Elas me<br \/>\ncompreender\u00e3o quando<br \/>\nforem mulheres e plantarem<br \/>\nrosas para dar mel \u00e0s abelhas<br \/>\ne perfume a sua casa.<\/p>\n<p>Em maio de 1901 resolvi organizar para setembro desse mesmo ano uma exposi\u00e7\u00e3o de flores no Rio de Janeiro, a primeira que se faria nesta cidade. Se faltava originalidade \u00e0 lembran\u00e7a, visto que exposi\u00e7\u00f5es de flores fazem-se todos os anos em terras civilizadas, sobrava-lhe o interesse; a curiosidade amiga que sempre tive pelas flores e o desejo de as ver muito amadas na minha terra. Referir-me a essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 para mim um sacrif\u00edcio; mas n\u00e3o quero omitir tal cap\u00edtulo neste livro de mulheres, presidido pelo olhar das minhas filhinhas, a quem pretendo insinuar o amor das plantas, como um dos mais suaves e melhores da vida.<\/p>\n<p>Dizem que as palavras voam e que as obras ficam; mas h\u00e1 obras que o vento leva e que s\u00f3 na palavra fugitiva deixam a sua lembran\u00e7a&#8230; N\u00e3o falarei da exposi\u00e7\u00e3o malograda, por ela nem por mim, mas pelos seus intuitos, que eram m\u00faltiplos e que continuo a achar excelentes. O que foi acabou. Deite-se-lhe em cima a terra do esquecimento; agora o que ela seria poder\u00e1 ainda ser, e \u00e9 nessa hip\u00f3tese que tem cabimento esta insist\u00eancia. O que eu esperava dessa exposi\u00e7\u00e3o era isto s\u00f3:<\/p>\n<p>Que fosse o in\u00edcio de outras mais belas, que iriam aperfei\u00e7oando as esp\u00e9cies estimadas dos nossos jardins e descobrindo os tesouros dos nossos campos e das nossas florestas. Quantas flores vicejam por esses sert\u00f5es, dignas de figurarem nos sal\u00f5es mais exigentes! Eu mesma, que nada posso, guiada por uma r\u00e1pida vis\u00e3o da meninice, n\u00e3o mandara vir do interior de S. Paulo uma flor que, se tivesse a desgra\u00e7a de pensar, n\u00e3o imaginaria nunca ver o seu nome em um cat\u00e1logo? Com o prest\u00edgio da exposi\u00e7\u00e3o, quantas pessoas trariam a concurso lindas flores ignoradas, e ignoradas porque s\u00e3o brasileiras?<\/p>\n<p>N\u00e3o sou dos que pensam que n\u00e3o devemos aceitar nem pedir \u00e1rvores estrangeiras, desde que temos flores e \u00e1rvores com tamanha abund\u00e2ncia em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>As coisas boas e belas nunca s\u00e3o de mais, e h\u00e1 ainda a acrescentar a essas duas qualidades a utilidade especial de cada planta.<\/p>\n<p>Todavia, devemos indagar bem do que temos em casa, antes de pedir o que s\u00f3 julgamos haver na alheia.<\/p>\n<p>Uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es da exposi\u00e7\u00e3o seriam as orqu\u00eddeas, de t\u00e3o melindroso cultivo e demorada flora\u00e7\u00e3o. O cat\u00e1logo mencionaria com o maior cuidado todas as variedades apresentadas no certame, raras ou n\u00e3o. Ah, no artigo das orqu\u00eddeas havia par\u00e1grafos que valiam cap\u00edtulos pelas suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Imagine que se aventava a id\u00e9ia de fundarmos no Rio um pavilh\u00e3o para exposi\u00e7\u00f5es permanentes, em que a orqu\u00eddea seria protegida e defendida como um tesouro.<\/p>\n<p>Faz rir a id\u00e9ia, n\u00e3o \u00e9 verdade? Nesse pavilh\u00e3o, organizado por competentes, todas as orqu\u00eddeas vindas dos Estados pr\u00f3ximos, para exporta\u00e7\u00e3o, seriam sujeitas a um exame para o competente passaporte&#8230; Esta pr\u00e1tica, que a maioria parecer\u00e1 absurda, seria considerada natural\u00edssima, se o respeito pelas orqu\u00eddeas, que s\u00e3o as j\u00f3ias das nossas florestas, j\u00e1 tivesse sido implantado no povo. H\u00e1 orqu\u00eddeas e parasitas que tendem a desaparecer, pela devasta\u00e7\u00e3o arrebatadora com que naturais inconscientes e estrangeiros especuladores as arrancam das \u00e1rvores para as meterem nos caixotes em que as mandam para os portos europeus. Pode dizer-se que e nas estufas da Inglaterra, da Fran\u00e7a, da Holanda e da Alemanha e at\u00e9 da Rep\u00fablica Argentina, que se v\u00eaem as mais belas flores do Brasil! N\u00e3o seria justo que, exportando as variedades mais raras das nossas orqu\u00eddeas, guard\u00e1ssemos delas, na capital, exemplares que garantissem a sua reprodu\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e abrilhantassem a exposi\u00e7\u00e3o permanente, visitada ao menos por todos os estrangeiros em tr\u00e2nsito?<\/p>\n<p>Mas a nossa aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava voltada s\u00f3 para as orqu\u00eddeas.<\/p>\n<p>Cada dia da exposi\u00e7\u00e3o de flores seria dedicado a uma das esp\u00e9cies mais estimadas entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos um dia s\u00f3 para rosas. Em roseiras ou cortadas, nessas flores se concentraria a aten\u00e7\u00e3o do j\u00fari, constitu\u00eddo pelos nossos mestres de bot\u00e2nica e pelos donos dos principais estabelecimentos de floricultura do Rio de Janeiro. Nesse dia apurar-se-ia, aproximadamente, a quantidade de variedades que temos dessa flor, para estabelecer depois a compara\u00e7\u00e3o com as que se apresentassem em exposi\u00e7\u00f5es consecutivas. Tudo isso ficaria consignado em um livro, documentado por nomes conhecidos e insuspeitos.<\/p>\n<p>Assim como as rosas, os cravos n\u00e3o teriam raz\u00e3o de queixa.<\/p>\n<p>Tem reparado como a cultura de cravos se tem desenvolvido e embelezado no Rio de Janeiro? Acreditava-se antigamente que essa flor, uma das mais originais, sen\u00e3o a mais original, s\u00f3 desabrochava bem em Petr\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o sei em que outras terras. Pois est\u00e1vamos enganados. Nem mesmo do alto da Tijuca s\u00e3o esses formosos cravos que a\u00ed est\u00e3o de tantas cores variadas e t\u00e3o opulentos de forma; s\u00e3o do vale do Andara\u00ed; s\u00e3o do Engenho Velho; s\u00e3o dos sub\u00farbios; s\u00e3o de Santa Teresa, etc. Quem tiver um canto de jardim, um peitoril largo para vasos de barro, um pouco de terra, pode com seguran\u00e7a semear os seus craveiros; as flores vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Como incentivo, a exposi\u00e7\u00e3o distribuiria mudas de cris\u00e2ntemos a um certo numero de mo\u00e7as, emprazando-as a apresentarem na esta\u00e7\u00e3o dessa flor a planta florida para uma exposi\u00e7\u00e3o, em que seriam distribu\u00eddos os pr\u00eamios do primeiro certame.<\/p>\n<p>Inoculando o gosto pela jardinagem, ela desenvolveria a cultura de uma flor brilhante e a que o nosso clima \u00e9 favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nessa primeira exposi\u00e7\u00e3o, ter\u00edamos, al\u00e9m de conferencias estimulando o amor das plantas, mostrando-as em todos os seus m\u00faltiplos aspectos sedutores, li\u00e7\u00f5es de jardinagem pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Essas li\u00e7\u00f5es, dadas com a maior simplicidade, sem termos enf\u00e1ticos, por um homem ilustrado e amigo das flores, nos ensinariam como deve ser preparada a terra para o jardim, como se devem fazer as sementeiras e as podas e os enxertos e matar os pulg\u00f5es, e criar rosas novas e transformar as variedades mais conhecidas, e pulverizar de \u00e1gua fresca os altos troncos das orqu\u00eddeas, etc.<\/p>\n<p>Com essas coisas pensava eu prestar simultaneamente dois servi\u00e7os, \u00e0 cidade, demonstrando a possibilidade de se fundar aqui uma escola para jardineiros, e \u00e0s mo\u00e7as a quem o tempo sobre para essas brilhantes fantasias. A jardinagem fornece ensejo para distra\u00e7\u00f5es e estudos pr\u00f3prios para mulheres.<\/p>\n<p>E, depois, que encanto o de ver-se o nome de uma senhora ligado ao de uma rosa!<\/p>\n<p>Em todas as capitais do mundo civilizado h\u00e1 o culto da flor. Elas simbolizam as nossas grandes alegrias, como as nossas grandes tristezas, imagens materializadas das maiores como\u00e7\u00f5es da vida. Nas alegres visitas de boas festas e de anivers\u00e1rios, ou nas romarias para os cemit\u00e9rios, as flores exprimem o j\u00fabilo ou a saudade, t\u00e3o bem como a l\u00e1grima ou como o sorriso.<\/p>\n<p>Na Alemanha, disse-me uma amiga que por l\u00e1 andou viajando, h\u00e1 nas portas dos hospitais, em dias de visita, floristas com ramos para todos os pre\u00e7os; abundam os baratinhos, de flores agrestes ou mais vulgares. Naturalmente, quem vai ver um doente de quarto particular, escolhe as cam\u00e9lias mais puras ou os narcisos mais raros; para os pobres e os indigentes das enfermarias publicas v\u00e3o bouquets modestos e pequeninos, conquanto vistosos e alegres<\/p>\n<p>Que \u00e9 aquilo? Um pouco de poesia e de primavera, que v\u00e3o errar com o seu aroma e as suas cores vistosas e alegres naquele ambiente triste e aborrecido. O olhar desconsolado do doente encontra naquilo um pouco de distra\u00e7\u00e3o e de consolo.<\/p>\n<p>E assim que n\u00f3s precisamos gostar de flores. Gostar tanto, que elas sejam para n\u00f3s uma necessidade; tanto, que at\u00e9 o povo das enfermarias gratuitas n\u00e3o ache mal empregado o tost\u00e3ozinho com que as adquira! E aqui \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil cultiv\u00e1-las, Senhor!<\/p>\n<p>A arte do ramilhete, t\u00e3o adorada no Jap\u00e3o, segundo afirmam as cronistas de l\u00e1, e que \u00e9 com certeza uma das mais delicadas que uma mulher pode exercer, era chamada a concurso em um dos dias da exposi\u00e7\u00e3o. A mo\u00e7a que fizesse o ramo com mais harm\u00f4nica combina\u00e7\u00e3o no colorido e de forma mais elegante, seria premiada.<\/p>\n<p>Uma das mais curiosas veleidades dessa exposi\u00e7\u00e3o era o interessar-se pelo tipo das floristas da rua, procurando induzir a transforma\u00e7\u00e3o das do Rio de Janeiro, que n\u00e3o \u00e9 positivamente encantador. Para isso obteria tamb\u00e9m um concurso, em que os nossos pintores e desenhistas apresentassem figurinos de acordo com o nosso clima para floristas ambulantes. Isso naturalmente constituiria uma galeria de problem\u00e1tico aproveitamento; em todo caso, muito interessante. Lembrava mesmo o alvitre de oferecer a exposi\u00e7\u00e3o os primeiros trajes aos que se sujeitassem \u00e0 experi\u00eancia. A exposi\u00e7\u00e3o seria gratuita para as crian\u00e7as, tendo mesmo um dia destinado \u00e0s escolas.<\/p>\n<p>Nunca imaginei que fosse preciso ensinar a amar as flores, que as crian\u00e7as sa\u00fadam desde o ber\u00e7o, articulando, ao v\u00ea-las, s\u00edlabas incompreens\u00edveis, e agitando para elas com entusiasmo as m\u00e3ozinhas! No entanto parece-me que o culto da planta deve entrar na educa\u00e7\u00e3o do povo. As exposi\u00e7\u00f5es de belas-artes ensinam a amar os quadros e as est\u00e1tuas; \u00e9 bem poss\u00edvel que o amor dos europeus pelas flores tenha sido despertado e aperfei\u00e7oado pelas exposi\u00e7\u00f5es de flores, que se fazem na Europa duas vezes no ano, uma no outono, outra na primavera.<\/p>\n<p>Deixei de reproduzir muitos pontos do programa da primeira exposi\u00e7\u00e3o, tais como a batalha de flores, com que ela se encerraria, a indica\u00e7\u00e3o das flores mais aproveit\u00e1veis para a destilaria, etc. Bastam estes que a\u00ed ficam para demonstrar que a beleza e a utilidade andam \u00e0s vezes de m\u00e3os dadas!<\/p>\n<p>Se eu fui infeliz, outras ser\u00e3o felizes na mesma batalha e pelo mesmo ideal. Das minhas esperan\u00e7as decepadas brotem novas esperan\u00e7as em almas mais novas e capazes de empreendimentos de mais forte envergadura. E para ati\u00e7ar essa chama que escrevo estas linhas tr\u00eamulas, porque agindo adquiri a certeza de que nesta terra bastam para executar grandes obras s\u00f3 duas coisas: energia e vontade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falia Lopes de Almeida Escrevo estas linhas pensando em minhas filhas. Elas me compreender\u00e3o quando forem mulheres e plantarem rosas para dar mel \u00e0s abelhas e perfume a sua casa. 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