{"id":107986,"date":"2017-02-09T10:18:47","date_gmt":"2017-02-09T12:18:47","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=107986"},"modified":"2017-02-09T10:18:47","modified_gmt":"2017-02-09T12:18:47","slug":"cenas-e-paisagens-do-espirito-santo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/cenas-e-paisagens-do-espirito-santo","title":{"rendered":"Cenas e Paisagens do Esp\u00edrito Santo"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"452\"  cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"220\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\"> <strong><br \/>\n\t\t   <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap\u00edtulo I<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#2\" class=\"links\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap\u00edtulo IV<\/a><br \/>\n\t\t   <a href=\"#5\" class=\"links\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/p>\n<p>\t\t   <\/strong>\n          <\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4>J&uacute;lia Lopes de Almeida<\/h4>\n<h4><a name=\"1\">I<\/a><\/h4>\n<p>Propaganda do Brasil &#8211; o que se dizia do Estado do Esp&iacute;rito<br \/>\n    Santo &#8211; viagem &#8211; Os trens da Leopoldina &#8211; Jornais de Campos<br \/>\n    &#8211; Itabapoana &#8211; Paisagens esp&iacute;rito-santenses &#8211; O Saturno<br \/>\n    &#8211; Habita&ccedil;&otilde;es camponesas &#8211; O destino das terras marginais<br \/>\n    da linha f&eacute;rrea &#8211; A constru&ccedil;&atilde;o dessa linha e a<br \/>\n    iniciativa do Governo esp&iacute;rito-santense &#8211; A esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    terminal de Argolas &#8211; A luz &#8211; a travessia do canal em lanchas<br \/>\n    &#8211; As senhoras de Vit&oacute;ria &#8211; Cais de embarque, etc.<\/p>\n<p>Estou convencida, agora mais do que nunca, de que precisamos fazer a propaganda<br \/>\n    do Brasil&#8212;n&atilde;o s&oacute; na Europa, onde ela deve ser feita com<br \/>\n    extrema habilidade, como no pr&oacute;prio Brasil. Porque a verdade &eacute;<br \/>\n    esta: n&oacute;s conhecemos muito imperfeitamente o nosso pa&iacute;s. Acabo<br \/>\n    eu pr&oacute;pria de obter uma prova disto, observando num estado vizinho<br \/>\n    coisas, que estava bem longe de imaginar.<\/p>\n<p>Deliberei por esse motivo exp&ocirc;-las a quem tinha delas a mesma ignor&acirc;ncia<br \/>\n    que eu tinha. Escrevo com inteira e absoluta isen&ccedil;&atilde;o, por n&atilde;o<br \/>\n    ser presa &agrave; pol&iacute;tica por nenhum v&iacute;nculo quer de fam&iacute;lia,<br \/>\n    quer de simpatia pessoal.<\/p>\n<p>Comecemos:<\/p>\n<p>Quando constou que eu arrumava minhas malas para uma excurs&atilde;o &agrave;<br \/>\n    Vit&oacute;ria, algu&eacute;m, que n&atilde;o h&aacute; muitos anos viveu<br \/>\n    por algum tempo nessa cidade, correu a avisar-me que as suas ruas eram f&eacute;tidas,<br \/>\n    verdadeiros dep&oacute;sitos de lixo, n&atilde;o devendo eu esquecer-me de<br \/>\n    carregar comigo frascos de desinfetante e perfumarias. Obedeci sem hesita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    pondo um vidro de Feno, em cada canto da mala e enchendo de frascos de ess&ecirc;ncias<br \/>\n    a bolsinha de m&atilde;o. Al&eacute;m dessa calamidade, avisava-me o meu informante,<br \/>\n    h&aacute; a da falta d&#8217;&aacute;gua. Um chafariz pinga uma l&aacute;grima hip&oacute;crita<br \/>\n    de cinco em cinco minutos, ainda assim espremida com inaudito esfor&ccedil;o<br \/>\n    e esperada pela popula&ccedil;&atilde;o com enorme anseio. Em frente do chafariz<br \/>\n    h&aacute; sempre uma multid&atilde;o de carregadores, homens, mulheres e crian&ccedil;as,<br \/>\n    com bilhas e latas vazias de querosene, fazendo cauda, &agrave; espera do<br \/>\n    momento feliz de ir aparar o choro da fonte quase exaurida.<\/p>\n<p>S&oacute; esse espet&aacute;culo basta para demonstrar a apatia daquela gente.<br \/>\n    Quem quiser, ap&oacute;s as agruras de uma longa viagem, refrescar-se, ao<br \/>\n    chegar ao hotel, com um banho geral, ter&aacute; de avisar o hoteleiro com<br \/>\n    certo tempo de anteced&ecirc;ncia por carta ou por telegrama, para que ele<br \/>\n    possa dar para isso as suas provid&ecirc;ncias.<\/p>\n<p>Ouvindo tais palavras eu n&atilde;o sabia se havia de sorrir, se de tremer,<br \/>\n    tanto elas me pareciam mentirosas ou apavorantes! Logo a onda das informa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    engrossou. Toda a gente que dizia conhecer o Esp&iacute;rito Santo me descrevia<br \/>\n    com pena o seu atraso material. Al&eacute;m do mais afirmava-se que o fanatismo<br \/>\n    do seu atual presidente criara por todo o estado uma atmosfera opressiva de<br \/>\n    desconfian&ccedil;a e de terror. Ningu&eacute;m dobrava uma esquina sem se<br \/>\n    benzer. Falava-se em funcion&aacute;rios exonerados de cargos vital&iacute;cios<br \/>\n    por n&atilde;o assistirem &agrave; missa (!); em ruas coalhadas de batinas<br \/>\n    e de gente escorrida, de olhos postos no ch&atilde;o ou espreitando pelas<br \/>\n    frinchas a vida alheia para fazer ressuscitar na terra brasileira a alma terr&iacute;vel<br \/>\n    da Inquisi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Procuro orientar-me pela leitura dos jornais. Mas o jornais n&atilde;o me<br \/>\n    orientam. Ao contr&aacute;rio, agravam-se a expectativa, comentando com acrim&ocirc;nia<br \/>\n    um contrato de madeiras firmado pelo governo do Esp&iacute;rito Santo com<br \/>\n    uma firma estrangeira, em que, segundo dizem, as florestas famosas desse estado<br \/>\n    ser&atilde;o devastadas, pondo a nu a terra e amesquinhando os mananciais<br \/>\n    dos rios. Eu, que sou uma defensora das florestas, toda me sinto arrepiar<br \/>\n    a esses coment&aacute;rios. Diante de tantas informa&ccedil;&otilde;es desagrad&aacute;veis,<br \/>\n    n&atilde;o ser&aacute; muito mais prudente deixar-me ficar quietinha em casa?<br \/>\n    Voltando-me, entretanto, a falar da beleza da ba&iacute;a de Vit&oacute;ria,<br \/>\n    Afonso Celso, alma de artista e de poeta, recomenda-me que n&atilde;o deixe<br \/>\n    de navegar em horas de v&aacute;ria luz por entre as sua penedias e as suas<br \/>\n    ilhas maravilhosas. H&aacute; qualquer coisa que me chama, que atrai o meu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o e o meu pensamento para essas terras t&atilde;o nossas<br \/>\n    vizinhas e t&atilde;o nossas desconhecidas; tomo uma resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e invisto para o trem.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&Agrave;s nove horas de uma sexta-feira parti da esta&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Santana, em Niter&oacute;i, para a Vit&oacute;ria num confort&aacute;vel vag&atilde;o-leito<br \/>\n    da Leopoldina. O quarto, iluminado a luz el&eacute;trica, fornecida ao trem<br \/>\n    pelo movimento das rodas e nunca interrompida, porque ele disp&otilde;e de<br \/>\n    acumuladores, permite que, mesmo deitada, eu continue a leitura de um livro<br \/>\n    que me interessa. A cama &eacute; boa, de alvos len&ccedil;&oacute;is de linho<br \/>\n    e cobertor branco, de l&atilde;. Para in&iacute;cio da viagem n&atilde;o estou<br \/>\n    mal; de resto, o movimento de tangage (dos p&eacute;s para a cabe&ccedil;a)<br \/>\n    imprimido ao corpo por esse leitos transversais parece-me menos enjoativo<br \/>\n    que os colocados no sentido longitudinal, como os da Central. Com pequenas<br \/>\n    interrup&ccedil;&otilde;es, durmo at&eacute; a vizinha cidade de Campos, onde<br \/>\n    se passa ao carro-sal&atilde;o, e onde h&aacute; uns tantos minutos de demora<br \/>\n    para o caf&eacute;. Percorro a gare &#8212; olho para todos os lados, a ver<br \/>\n    se lobrigo algo da cidade: pontas de torre ou dorsos de telhados. Mas a cidade<br \/>\n    deve ficar longe; n&atilde;o vejo nada e verifico com alegria que, se nada<br \/>\n    posso julgar, embora furtivamente, da sua grandeza material, tenho do seu<br \/>\n    desenvolvimento intelectual uma prova ao alcance das minhas m&atilde;os: os<br \/>\n    jornais. Nada menos de cinco. Compro-os com avidez e atiro-me para o trem,<br \/>\n    que partiu logo.<\/p>\n<p>Da minha travessia pelo estado do Rio tinha-me ficado um desgosto: n&atilde;o<br \/>\n    ter visto a esta&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que n&atilde;o podia ser mais,<br \/>\n    da velha cidade de Maca&eacute;, a que sou afei&ccedil;oada por tradi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de fam&iacute;lia e que n&atilde;o conhe&ccedil;o. Mas agora, &agrave; luz<br \/>\n    da manh&atilde; toda azul e ouro, eu n&atilde;o tinha tempo para lamentar<br \/>\n    coisa nenhuma e s&oacute; para ver.<\/p>\n<p>A regi&atilde;o descampada que percorr&iacute;amos respondia &agrave; nossa<br \/>\n    curiosidade amiga com uma nuvem de p&oacute;, e foi s&oacute; transposto o<br \/>\n    rio da divisa, o claro e manso Itabapoana, que essa nuvem loura e importuna<br \/>\n    se dissipou, como que por encanto.<\/p>\n<p>Por maior que seja a simplicidade com que procuro escrever estas linhas,<br \/>\n    desornando-as de todo o luxo de uma adjetiva&ccedil;&atilde;o embara&ccedil;osa,<br \/>\n    tornando-as, tanto quanto poss&iacute;vel, numa esp&eacute;cie de fotografia<br \/>\n    intelectual, em que se veja mais a nudez da verdade do que a atmosfera que<br \/>\n    a envolve, &eacute; bem poss&iacute;vel que me fuja da pena uma ou outra express&atilde;o,<br \/>\n    que possa parecer ao leitor demasiada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; beleza<br \/>\n    dessa estrada que sobe em voltas de valsa de longas elipses at&eacute; a uma<br \/>\n    altura de setecentos e dezesseis metros, e que desce do mesmo modo at&eacute;<br \/>\n    quase ao n&iacute;vel do mar.<\/p>\n<p>Os cortes das montanhas desenham p&oacute;rticos de roxo antigo no fundo<br \/>\n    verde da vegeta&ccedil;&atilde;o. A estrada, evitando a perfura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de t&uacute;neis, como se tivesse medo ao escuro, coleia pelo dorso das montanhas,<br \/>\n    quase na grimpa, ora aproximando-se, ora fugindo de &aacute;guas que se despenham<br \/>\n    ou que deslizam. Aqui ondeia o Muqui, de leito tachonado como uma pele de<br \/>\n    tigre, e de alma sossegada como uma pomba juriti. Apertado entre colinas e<br \/>\n    penedias, acompanha por algum tempo a estrada, dando lugar depois a outros<br \/>\n    rios mais fortes e cachoeirosos.<\/p>\n<p>H&aacute;, por&eacute;m, um trecho nesta bel&iacute;ssima estrada da Leopoldina,<br \/>\n    de que jamais se esquecer&aacute; quem o tenha percorrido com a cabe&ccedil;a<br \/>\n    fora da portinhola do trem: &eacute; o &quot;Soturno&quot; ou Garganta do<br \/>\n    Inferno. O trem corta o flanco da penedia imensa, cosendo o seu corpo de r&eacute;ptil<br \/>\n    negro e fumegante ao corpo duro e frio de pedra branca. O precip&iacute;cio<br \/>\n    &eacute; terr&iacute;vel. N&atilde;o tem mist&eacute;rios. &Eacute; a ribanceira<br \/>\n    enorme, &iacute;ngreme, alvadia, em que se despeda&ccedil;aria, implacavelmente,<br \/>\n    carne humana ou ferro bruto, que nele fosse despenhado.<\/p>\n<p>Vista de cima, do caminho estreito em que parece haver apenas espa&ccedil;o<br \/>\n    para os trilhos, cortado parte na rocha, parte suspenso sobre um viaduto,<br \/>\n    a pedreira do Soturno, na sua nudez e austera simplicidade, acorda fatalmente<br \/>\n    em quem a veja a id&eacute;ia da morte. Vista de fora, de uma curva da estrada,<br \/>\n    tem o aspecto de uma obra de arte monumental, escultura da nossa natureza<br \/>\n    posta ali pela m&atilde;o formid&aacute;vel de um ignoto Miguel &Acirc;ngelo.<\/p>\n<p>A par de belezas imponentes h&aacute; do&ccedil;uras de paisagens, que atraem<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o para outras id&eacute;ias.<\/p>\n<p>N&atilde;o me sinto nunca afagada pela sombra fria de florestas densas. As<br \/>\n    regi&otilde;es que atravesso devem ser antes prop&iacute;cias a campos de<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o, embora todas ondeadas pelos dorsos dos morros sucessivos.<br \/>\n    H&aacute; de longe em longe restos de cafezais e um ou outro canavial sem<br \/>\n    import&acirc;ncia.<\/p>\n<p>O destino daquelas terras deve estar realmente preso ao gado. Entre montes<br \/>\n    de vegeta&ccedil;&atilde;o rasteira e clara aparecem aqui e al&eacute;m grandes<br \/>\n    tufos de &aacute;rvores. S&atilde;o os bosques de mataria, em que sobressaem<br \/>\n    as umba&uacute;bas e imba&iacute;bas com os seus troncos altos, esguios, muito<br \/>\n    brancos, como ossos descarnados ou grossos tra&ccedil;os verticais de giz<br \/>\n    sobre o fundo verde-negro da vegeta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Sempre que viajo pelo interior dos nossos estados procuro, embora de passagem,<br \/>\n    observar o tipo de habita&ccedil;&atilde;o dos nossos camponeses. Estes, do<br \/>\n    Esp&iacute;rito Santo, parece terem certos instintos de gosto. As casa, se<br \/>\n    ainda t&ecirc;m telhados de palha, esta &eacute; subjugada por linhas paralelas<br \/>\n    de tran&ccedil;ados de embiras aparadas com maior ou menor perfei&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Entretanto, entre estes telhados s&atilde;o freq&uuml;entes outras cobertas<br \/>\n    de escamas de madeira com a sua cor natural. As casa s&atilde;o em geral bem<br \/>\n    caiadas, resplandecendo de alvura no meio dos prados, e tanto os seus umbrais<br \/>\n    como as suas portas v&ecirc;m-se ao longe pela violenta tinta azul anil com<br \/>\n    que s&atilde;o pintadas. O aspecto &eacute; agrad&aacute;vel e d&aacute;,<br \/>\n    francamente, a quem o v&ecirc;, uma impress&atilde;o saud&aacute;vel de alegria<br \/>\n    e de asseio. Uma outra nota que afina com essa &eacute; a de fazerem paredes<br \/>\n    divis&oacute;rias de terrenos com p&eacute;s de laranjeiras, plantadas t&atilde;o<br \/>\n    perto umas das outras que os seus ramos se embaralham e confundem, a ponto<br \/>\n    que elas mesmas, interrogadas, n&atilde;o poderiam dizer quais seriam os seus<br \/>\n    galhos, quais os das suas vizinhas.<\/p>\n<p>Isto, que parece coisa nenhuma, &eacute; j&aacute;, aos meus olhos, um magn&iacute;fico<br \/>\n    sintoma. Passam-se, todavia, largos trechos sem que veja nenhuma habita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    A terra est&aacute; &agrave; espera do trabalhador que a fecunde, do rebanho<br \/>\n    que a anime. Ao longe, a famosa pedra Itabira aponta silenciosamente o azul<br \/>\n    limpo do c&eacute;u, entre os grandes rochedos &#8212; o Frade e a Freira.<br \/>\n    Por mais curvas que o trem fa&ccedil;a, vejo-a sempre ao longe como uma sentinela<br \/>\n    sonhadora, coberta pelo v&eacute;u azul da idealidade.<\/p>\n<p>Eis-me, por&eacute;m, sobre o raso Itapemirim, largo e cantante, em frente<br \/>\n    &agrave; cidade do Cachoeiro, que, a julgar pelo movimento da gare, deve ser<br \/>\n    animada.<\/p>\n<p>Tendo almo&ccedil;ado no pr&oacute;prio trem, no seu bem organizado sal&atilde;o-restaurante,<br \/>\n    eu n&atilde;o tinha, desde a v&eacute;spera &agrave; noite, posto o p&eacute;<br \/>\n    em terra sen&atilde;o na curta estadia em Campos, para o caf&eacute; matinal.<br \/>\n    N&atilde;o me sentia, contudo, enfadada pela viagem; ao contr&aacute;rio,<br \/>\n    tinha a convic&ccedil;&atilde;o de que, s&oacute; por si, ela justificaria<br \/>\n    interesse de uma excurs&atilde;o &agrave; Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Essa estrada, inaugurada pelo Dr. Nilo Pe&ccedil;anha, creio que no &uacute;ltimo<br \/>\n    m&ecirc;s da sua administra&ccedil;&atilde;o, &eacute; um verdadeiro desafogo<br \/>\n    para o estado do Esp&iacute;rito Santo . Ela &eacute; tanto uma estrada estrat&eacute;gica<br \/>\n    como um tra&ccedil;o de uni&atilde;o entre o progresso da capital da Rep&uacute;blica<br \/>\n    e a Vit&oacute;ria, e representa um golpe de alto tino administrativo do homem<br \/>\n    que, como depois observei, &agrave; energia silenciosa de um esfor&ccedil;o<br \/>\n    incans&aacute;vel, alia a habilidade de um fino diplomata: o Dr. Jer&ocirc;nimo<br \/>\n    Monteiro.<\/p>\n<p>Quando esse senhor assumiu a presid&ecirc;ncia do Esp&iacute;rito Santo,<br \/>\n    encontrou feito um trecho dessa estrada, entre a cidade da Vit&oacute;ria<br \/>\n    e a do Cachoeiro, tendo, portanto, princ&iacute;pio e fim em terras do mesmo<br \/>\n    estado, numa zona de insignificante produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola<br \/>\n    e pequeno movimento comercial. O custo desse trecho da estrada tinha sido<br \/>\n    excessivamente caro e sua manuten&ccedil;&atilde;o era incompensada, mesmo<br \/>\n    onerosa. &Agrave; vista desse embara&ccedil;o econ&ocirc;mico, o governo do<br \/>\n    estado tomou a resolu&ccedil;&atilde;o progressista de o vender por pre&ccedil;o<br \/>\n    reduzid&iacute;ssimo &agrave; Leopoldina, impondo-lhe a obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de, em prazo determinado, inaugurar a via&ccedil;&atilde;o f&eacute;rrea entre<br \/>\n    Vit&oacute;ria e Niter&oacute;i e exigindo ainda dessa Companhia outras obriga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    entre as quais figura a constru&ccedil;&atilde;o de uma grande ponte movedi&ccedil;a<br \/>\n    que ligue a cidade da Vit&oacute;ria ao continente. Houve naturalmente quem<br \/>\n    pusessem as m&atilde;os na cabe&ccedil;a, clamando contra o desperd&iacute;cio<br \/>\n    de ver vender por quase nada o que tanto dinheiro tinha custado ao estado;<br \/>\n    mas tudo leva a crer que essas mesmas pessoas estejam hoje convencidas de<br \/>\n    que, mesmo que o governo tivesse feito presente desse trecho de caminho de<br \/>\n    ferro &agrave; Leopoldina, ainda assim teria lucrado com a transa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Gra&ccedil;as a esse rasgo administrativo, nem as pessoas nem os progressos<br \/>\n    da Capital Federal precisam esperam, com oito dias de intervalo, o enjoativo<br \/>\n    transporte mar&iacute;timo, a fim de seguirem para a terra capixaba.<\/p>\n<p>Estas primeiras informa&ccedil;&otilde;es foram-me fornecidas no pr&oacute;prio<br \/>\n    trem por um viajante portugu&ecirc;s, que eu conheci h&aacute; anos no rio<br \/>\n    de Janeiro e que &eacute; atualmente morador na Vit&oacute;ria. Nenhum la&ccedil;o<br \/>\n    o prende &agrave; pol&iacute;tica nem &agrave;s pessoas da representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    oficial. &Eacute;, pois, uma voz insuspeita, a primeira voz que me revela<br \/>\n    alguma coisa sobre a organiza&ccedil;&atilde;o administrativa do Esp&iacute;rito<br \/>\n    Santo.<\/p>\n<p>&Eacute; ainda esse viajante quem me aponta, na vertiginosa corrida do trem,<br \/>\n    uma grande represa de &aacute;guas e uma usina fornecedora de eletricidade.<\/p>\n<p>&#8212; Ent&atilde;o a cidade da Vit&oacute;ria&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &Eacute; iluminada a luz el&eacute;trica. Devemos tamb&eacute;m esse<br \/>\n    melhoramento ao governo atual. E vai ver que boa luz!<\/p>\n<p>&#8212; Antes, havia g&aacute;s?<\/p>\n<p>&#8212; N&atilde;o; havia lampi&otilde;es de querosene e lanternas. Quem<br \/>\n    se aventurasse a sair &agrave; noite teria de levar luz consigo&#8230; Passar-se<br \/>\n    do petr&oacute;leo e da vela &agrave; l&acirc;mpada el&eacute;trica &eacute;<br \/>\n    caminhar aos saltos!<\/p>\n<p>Era j&aacute; noite quando o trem parou na sua esta&ccedil;&atilde;o terminal,<br \/>\n    em Argolas, em face da cidade da Vit&oacute;ria. A gare estava coberta de<br \/>\n    povo, sendo grande parte dele constitu&iacute;do por senhoras, elegantemente<br \/>\n    trajadas. A esta&ccedil;&atilde;o tem o car&aacute;ter provis&oacute;rio;<br \/>\n    &eacute; feia e de madeira. Espera naturalmente o lan&ccedil;amento da ponte<br \/>\n    para se mudar definitivamente para a outra margem. Mas n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    tempo de olhar para isso, j&aacute; as lanchas est&atilde;o atracadas &agrave;<br \/>\n    espera dos passageiros, e temos todos de saltar para elas sem perda de um<br \/>\n    minuto.<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o rompeu o luar, mas no c&eacute;u de veludo azul ferrete<br \/>\n    brilham os astros com um esplendor diamantino. Nas &aacute;guas escuras tremeluzem<br \/>\n    reflexos de ouro e de escarlate de v&aacute;rias luzes, as lanchas partem,<br \/>\n    e em poucos minutos pis&aacute;vamos o solo da Vit&oacute;ria, desembarcando<br \/>\n    no &Eacute;den-parque. A cidade tinha uma fei&ccedil;&atilde;o alegre e tumultuosa,<br \/>\n    a que n&atilde;o me referirei por ser anormal; somente posso assegurar que<br \/>\n    ao adormecer, tarde, nessas noite no hotel, eu me sentia abalada pela doce<br \/>\n    impress&atilde;o de uma agrad&aacute;vel surpresa.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">II<\/a><\/h4>\n<p>Cidade de granito e de mangue &#8211; O estilo da cidade &#8211; Maria Ortiz<br \/>\n    e os Holandeses &#8211; Casas comerciais &#8211; Uma esperan&ccedil;a &#8211;<br \/>\n    Uma cris&aacute;lide que rompe o casulo abandonado &#8211; Vila Moscoso &#8211;<br \/>\n    Um parque e duas avenidas &#8211; O quartel de Pol&iacute;cia &#8211; Loda&ccedil;ais<br \/>\n    e mangues que desaparecem &#8211; O hospital novo &#8211; Habita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    populares -A cidade acorda de um letargo &#8211; O Bairro do Rubim ou a cidade<br \/>\n    de palha &#8211; Os telhados &#8211; A &aacute;gua &#8211; Os filtros &#8211;<br \/>\n    Elementos de salubridade &#8211; O astro saudoso encarregado do policiamento<br \/>\n    da cidade &#8211; A luz el&eacute;trica &#8211; &Aacute;guas servidas &#8211;<br \/>\n    Os esgotos &#8211; Quando as fam&iacute;lias dos oposicionistas devem discordar<br \/>\n    dos seus chefes &#8211; O futuro Mercado &#8211; O futuro hotel &#8211; O<br \/>\n    papel desempenhado pelos frascos de Fenol e de ess&ecirc;ncias -Servi&ccedil;o<br \/>\n    de limpeza p&uacute;blica e domicili&aacute;ria &#8211; Em duas horas de passeio<br \/>\n    &#8211; O Su&aacute; &#8211; A capela do Ros&aacute;rio &#8211; O pal&aacute;cio<br \/>\n    presidencial; o cais do imperador; o jardim da Esplanada &#8211; Velhos conventos<br \/>\n    &#8211; Maravilhosa transpar&ecirc;ncia da atmosfera &#8211; Os astros &#8211;<br \/>\n    Partida para Vila Velha.<\/p>\n<p>Vit&oacute;ria, se n&atilde;o &eacute;, como a Lisboa cantada pelo poeta,<br \/>\n    uma cidade de m&aacute;rmore e de granito, &eacute; uma cidade de granito<br \/>\n    e de mangue.<\/p>\n<p>A casaria apertada, no estilo das velhas cidades minhotas, encarrapita-se<br \/>\n    pelo morro acima formando ladeiras e vielas que fazem, a quem as veja pela<br \/>\n    primeira vez, pensar nas aventuras dos romances de capa e espada.<\/p>\n<p>Aqui na rua estreita descendo em sucessivos lances de escadas entre pr&eacute;dios<br \/>\n    altos, de janelas &agrave; antiga, de uma das quais Maria Ortiz despejou &aacute;gua<br \/>\n    a ferver sobre os holandeses invasores; acol&aacute; a sinuosidade de um caminho<br \/>\n    beirando as paredes de um convento ou de um col&eacute;gio fundados pelos<br \/>\n    jesu&iacute;tas nos tempos coloniais e, de repente, um corte de terreno, de<br \/>\n    onde se descortina o azul do mar ou o dorso verde das colinas da outra banda,<br \/>\n    isto &eacute;, do continente.<\/p>\n<p>Na linha plana, em baixo, as ruas comerciais t&ecirc;m muito maior movimento<br \/>\n    do que eu poderia supor, &agrave; vista do que me diziam no Rio da apatia<br \/>\n    do povo e do atraso do lugar. Nessa parte da cidade as casas, j&aacute; com<br \/>\n    fachada &agrave; moderna, infundem, muitas delas, a id&eacute;ia da abastan&ccedil;a<br \/>\n    e da prosperidade.<\/p>\n<p>H&aacute; coisas que n&atilde;o se v&ecirc;em nem se explicam &#8212; sentem-se.<br \/>\n    O ambiente de um lugar tem a sua voz que, embora intraduz&iacute;vel, nos<br \/>\n    assegura se nele se vive com esperan&ccedil;a ou desespero. E tudo, neste<br \/>\n    torr&atilde;ozinho pitoresco que &eacute; a velha cidade de Vit&oacute;ria,<br \/>\n    me fala do futuro, porque, todo ele &eacute; uma esperan&ccedil;a que lateja,<br \/>\n    uma cris&aacute;lide que rompe o tosco casulo abandonado para espanejar &agrave;<br \/>\n    luz as asas multicores.<\/p>\n<p>Basta olhar, de qualquer ponto em que se descortine uma &aacute;rea consider&aacute;vel,<br \/>\n    para se observar o seu esfor&ccedil;o de transforma&ccedil;&atilde;o. Os mangues,<br \/>\n    a que aludi, come&ccedil;am a desaparecer sob as camadas do aterro. Na parte<br \/>\n    baixa da cidade, em uma plan&iacute;cie conquistada a um antigo e extenso<br \/>\n    loda&ccedil;al, Vila Moscoso, vi o debuxo de duas avenidas e um parque j&aacute;<br \/>\n    com o leito do seu lago pronto e j&aacute; combinadas as suas futuras sombras<br \/>\n    pelo agrupamento das plantas, indicadas nos relvados nascentes.<\/p>\n<p>Em frente a esse campo, agora todo drenado e enxuto, onde em vez de caranguejos<br \/>\n    patinhando em lama correr&atilde;o em breve as crian&ccedil;as por sob a galharia<br \/>\n    das &aacute;rvores ben&eacute;ficas, o Quartel de Pol&iacute;cia, livre agora<br \/>\n    das umidades geradoras do b&eacute;ri-b&eacute;ri, que se infiltravam nas<br \/>\n    suas paredes precipitando a ru&iacute;na do edif&iacute;cio e a morte dos<br \/>\n    soldados, firma-se em terra seca e mostra internamente condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de higiene, que n&atilde;o sei se ser&atilde;o comuns em outros quart&eacute;is.<br \/>\n    No alojamento das pra&ccedil;as, por exemplo, vi camas com lastros de arame<br \/>\n    revestido de sola. Essas camas s&atilde;o m&oacute;veis, ficando durante o<br \/>\n    dia suspensas, para que toda a sala livre e nua possa ser lavada sem estorvo.<br \/>\n    O of&iacute;cio rude do soldado &eacute; ado&ccedil;ado assim na sua hora<br \/>\n    de repouso. N&atilde;o tive tempo de visitar as aulas de leitura e de m&uacute;sica<br \/>\n    no curso policial, porque a minha visita a esse estabelecimento foi apenas<br \/>\n    uma visita de passagem, matinal e apressada.<\/p>\n<p>N&atilde;o longe desse loda&ccedil;al desaparecido, est&aacute; desaparecendo<br \/>\n    tamb&eacute;m um mangue, engolido pelo aterro do hospital novo. Esse hospital<br \/>\n    &eacute; edificado em pavilh&otilde;es separados, quase conclu&iacute;dos,<br \/>\n    olhando do alto de uma colina para a cidade e para o mar. Se bem entendi o<br \/>\n    meu cicerone, para constru&iacute;rem esses pavilh&otilde;es em terreno nivelado<br \/>\n    fizeram um plat&ocirc; no alto da colina, e &eacute; com a terra tirada para<br \/>\n    esse efeito que aterram o mangue pr&oacute;ximo, saneando o local e prolongando<br \/>\n    uma das ruas mais bonitas de Vit&oacute;ria, que &eacute; a avenida Schmidt.<\/p>\n<p>Foi um curto passeio matinal que tive ocasi&atilde;o de observar estas coisa,<br \/>\n    que desejaria descrever com absoluta clareza, porque tenho a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que serviriam de est&iacute;mulo a muitas atividades ainda adormecidas&#8230;<\/p>\n<p>Realmente a impress&atilde;o, que tive naquele curto passeio, foi uma alegre<br \/>\n    impress&atilde;o de trabalho.<\/p>\n<p>Enquanto as carro&ccedil;as cobriam o lodo salgado com a terra seca do morro;<br \/>\n    enquanto os trolhas e os pintores davam a &uacute;ltima dem&atilde;o a uma<br \/>\n    grande s&eacute;rie de habita&ccedil;&otilde;es populares higi&ecirc;nicas<br \/>\n    e baratas, feitas por iniciativa do governo de acordo com um poderoso capitalista<br \/>\n    do lugar, com quem contratou a edifica&ccedil;&atilde;o de duzentas casas<br \/>\n    sob v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es de pre&ccedil;o, de tipo e de tamanho,<br \/>\n    prestando com isso grande benef&iacute;cio &agrave; popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    crescente da Vit&oacute;ria, enquanto as paredes do hospital novo cresciam<br \/>\n    para ref&uacute;gio de futuros padecimentos, c&aacute; em baixo na estrada<br \/>\n    os engenheiros eletricistas se apressavam mandando a turma dos seus empregados<br \/>\n    abrir covas no ch&atilde;o para os postes dos bondes el&eacute;tricos.<\/p>\n<p>A cidade acorda de um letargo de s&eacute;culos e quer ganhar tempo aos saltos.<\/p>\n<p>Foi no bairro Rubim, antigamente Cidade de Palha, que eu vi as obras, que<br \/>\n    acabo de citar. Essa visita n&atilde;o figurava no programa estabelecido para<br \/>\n    os seis dias da minha demora na Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Para ver a Cidade de Palha n&atilde;o roubei nada ao meu programa, mas roubei<br \/>\n    ao meu sono algumas horas, que s&oacute; no Rio recuperei. Pelo menos isto<br \/>\n    indica que a Vit&oacute;ria tem que ver!<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"imagens\/julia-lopes-3.jpg\" alt=\"Vila Rubim\" width=\"200\" height=\"133\" border=\"0\"\/><br \/>\n    <b>Vila Rubim<\/b> <\/p>\n<p>Que &eacute; a cidade de palha? Uma vila de oper&aacute;rios, uma esp&eacute;cie<br \/>\n    do nosso Morro de Santo Ant&ocirc;nio, mas sem lixo, com alegria, com asseio,<br \/>\n    com &aacute;gua. At&eacute; ao alto do mais alto barranco, onde se aninha<br \/>\n    um casebre, ali vereis uma torneira jorrando &aacute;gua em abund&acirc;ncia.<\/p>\n<p>Antigamente todas as cobertas das habita&ccedil;&otilde;es desse bairro eram<br \/>\n    tran&ccedil;adas com folhas de palmeira ou com sap&eacute;.<\/p>\n<p>Era o canto da pobreza, bem significativo e bem pitoresco, entretanto.<\/p>\n<p>Numa colina, em frente ao canal que divide a ilha do continente, esse bairro<br \/>\n    policromo e modesto d&aacute; a impress&atilde;o de um quadro curioso, uma<br \/>\n    grande tela coberta de borr&otilde;ezinhos de tintas disseminadas sem ordem,<br \/>\n    ao salpicar dos pinc&eacute;is, pela m&atilde;o fantasiosa de um paisagista<br \/>\n    risonho.<\/p>\n<p>Hoje as casas t&ecirc;m paredes caiadas, e a maioria delas &eacute; coberta<br \/>\n    de telhas. Pode-se ainda assim, conforme observou o ilustre m&eacute;dico<br \/>\n    que me acompanhava, presidente do Congresso esp&iacute;rito-santense sr. dr.<br \/>\n    J&uacute;lio Leite, a cujo esp&iacute;rito e a cuja amabilidade seria ingratid&atilde;o<br \/>\n    muito feia n&atilde;o fazer eu aqui uma refer&ecirc;ncia, estudar nesses telhados<br \/>\n    da Vila Rubim, alinhados em v&aacute;rios planos como nas camadas geol&oacute;gicas,<br \/>\n    as diferentes &eacute;pocas da sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Ao lado de um ou outro teto de palha ainda refrat&aacute;rio, v&ecirc;-se<br \/>\n    um de zinco com a sua cor natural, para logo adiante aparecerem outros tamb&eacute;m<br \/>\n    de zinco, mas j&aacute; pintados de vermelh&atilde;o ou verde, at&eacute;<br \/>\n    aos outros, de telha comum. N&atilde;o ser&aacute; preciso esperar muito para<br \/>\n    surgirem entre eles alguns de terra&ccedil;o, com as competentes balaustradas<br \/>\n    e tinas para flores&#8230;<\/p>\n<p>Mas a principal alegria para os habitantes do Rubim, como para os de toda<br \/>\n    a cidade, &eacute; a &aacute;gua. Se para os ricos e os remediados a &aacute;gua<br \/>\n    era ainda h&aacute; tr&ecirc;s anos na Vit&oacute;ria um l&iacute;quido quase<br \/>\n    t&atilde;o precioso como o Champagne, imagine-se o que seria para os oper&aacute;rios,<br \/>\n    que a n&atilde;o podiam comprar com a mesma facilidade, porque na esta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    estival cada lata (das de querosene) cheia de &aacute;gua custava 200 r&eacute;is,<br \/>\n    500 r&eacute;is e, quando a seca apertava, dez tost&otilde;es e por muito<br \/>\n    favor! Ent&atilde;o ela era colhida dos mananciais escassos da ilha, distribu&iacute;da<br \/>\n    em quatro chafarizes da cidade, fora alguns po&ccedil;os para serventia p&uacute;blica.<br \/>\n    Parece imposs&iacute;vel que um tal estado de coisas pudesse durar perto de<br \/>\n    um s&eacute;culo, para s&oacute; agora ser remediado, mas felizmente remediado<br \/>\n    de um modo absoluto e definitivo. Disseram-me haver na Vit&oacute;ria &aacute;gua<br \/>\n    pura para uma cidade de dez vezes maior popula&ccedil;&atilde;o, e que haver&aacute;<br \/>\n    em breve para uma cidade de cem vezes maior popula&ccedil;&atilde;o, porque<br \/>\n    est&aacute; sendo atacada com vigor uma nova obra para abastecimento de &aacute;gua<br \/>\n    aos arrabaldes do continente, bem como outra muito importante &#8212; que<br \/>\n    &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o dos filtros. A &aacute;gua sair&aacute;<br \/>\n    j&aacute; filtrada das torneiras, e n&atilde;o em pranto gotejado como outrora,<br \/>\n    mas em torrentes copiosas.<\/p>\n<p>Tanto este elemento de alegria e de salubridade como o da luz el&eacute;trica,<br \/>\n    que substituiu as l&acirc;mpadas belgas a querosene que alumiavam as ruas,<br \/>\n    com exce&ccedil;&atilde;o das noites de luar, em quem de boa ou de m&aacute;<br \/>\n    vontade, o astro saudoso ficava encarregado do policiamento da cidade; tanto<br \/>\n    esses dois melhoramentos como ainda o dos esgotos, inaugurado no ano passado,<br \/>\n    deram tamanha popularidade na Vit&oacute;ria ao atual governo do Esp&iacute;rito<br \/>\n    Santo, que n&atilde;o se pode deixar de falar num, e com justo louvor, sempre<br \/>\n    que se tenha de falar da outra.<\/p>\n<p>At&eacute; h&aacute; bem pouco tempo era um problema saber-se nessa cidade,<br \/>\n    em que a maioria das casas n&atilde;o tem quintais, onde atirar-se um pouco<br \/>\n    de &aacute;gua servida, visto que nem sempre pode ser considerada obra merit&oacute;ria<br \/>\n    vazar-se de uma varanda qualquer tachada de barrela a ferver sobre a cabe&ccedil;a<br \/>\n    de quem passe, seja holandesa ou cabocla, pac&iacute;fica ou belicosa.<\/p>\n<p>Mas foi sobretudo o abastecimento da &aacute;gua, primeira comodidade estabelecida<br \/>\n    pelo sr. Jer&ocirc;nimo Monteiro na capital do Esp&iacute;rito Santo, que<br \/>\n    lhe granjeou a simpatia da cidade, e muito especialmente a de todas as donas<br \/>\n    de casa. As pr&oacute;prias fam&iacute;lias dos oposicionistas discordam com<br \/>\n    certeza dos seus chefes sempre que abrem as torneiras dos seus banheiros ou<br \/>\n    das suas cozinhas.<\/p>\n<p>A par das obras que observei nessa excurs&atilde;o matinal, citam-me outras<br \/>\n    j&aacute; contratadas e com prote&ccedil;&atilde;o do governo, como por exemplo<br \/>\n    o mercado. O de agora ser&aacute; substitu&iacute;do por um outro de ferro<br \/>\n    e de vidro, com aqu&aacute;rio para peixes e c&acirc;maras frigor&iacute;ficas<br \/>\n    para carnes e frutas. Falam-se tamb&eacute;m da constru&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    um hotel com cerca de oitenta quartos e todos os rigores da higiene e do conforto<br \/>\n    moderno, preocupa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o pode ser adiada, porque<br \/>\n    j&aacute; &eacute; consider&aacute;vel o n&uacute;mero de forasteiros nessa<br \/>\n    cidade. E esse n&uacute;mero crescer&aacute; em pouco tempo enormemente, sem<br \/>\n    a menor d&uacute;vida.<\/p>\n<p>Volto para o meu hotel com a cabe&ccedil;a cheia de surpresas. Realmente,<br \/>\n    ser&aacute; esta a gente ap&aacute;tica, de que me falavam, e esta a cidade<br \/>\n    f&eacute;tida atapetada de lixo? Para certificar-me ainda, chego &agrave;<br \/>\n    janela do meu quarto. Em frente, a ladeira da Matriz sobe apertada entre casaria<br \/>\n    de paredes brancas; em baixo, ondeia outra rua edificada em estilo mais moderno.<br \/>\n    Olhei: tanto uma como outra estavam limpas. Inclinei-me da sacada, dilatei<br \/>\n    as narinas no esfor&ccedil;o de perceber a qualidade do cheiro dessa cidade<br \/>\n    mar&iacute;tima. N&atilde;o senti nada. Se nas varandas n&atilde;o havia rosas,<br \/>\n    tamb&eacute;m nas portas n&atilde;o havia lixo. Lembrei-me ent&atilde;o dos<br \/>\n    meus vidros de fenol e de ess&ecirc;ncias, ainda arrolhados, e n&atilde;o<br \/>\n    pude deixar de sorrir.<\/p>\n<p>Contando eu isto a algumas pessoas nesse mesmo dia, retrucaram-me que na<br \/>\n    verdade at&eacute; pouco tempo o leito das ruas da Vit&oacute;ria permanecia<br \/>\n    por longas horas enfeitado por pequenos mont&iacute;culos de retalhos e de<br \/>\n    detritos de toda a esp&eacute;cie. O atual governo estabeleceu o servi&ccedil;o<br \/>\n    de limpeza e de higiene p&uacute;blica e domicili&aacute;ria, de modo a fazer<br \/>\n    cessar por completo essa vergonhosa exibi&ccedil;&atilde;o de imund&iacute;cies.<\/p>\n<p>Em duas horas de passeio, feito ora de bonde, ora a p&eacute;, tive assim<br \/>\n    nessa manh&atilde; ensejo de observar, colhendo-a a bem dizer, em flagrante,<br \/>\n    a &acirc;nsia de progresso que se est&aacute; desenvolvendo na capital do<br \/>\n    Esp&iacute;rito Santo, essa pequena cidade, hoje de t&atilde;o originais aspectos<br \/>\n    e t&atilde;o alegres coloridos e destinada a ser em futuro n&atilde;o remoto<br \/>\n    um grande emp&oacute;rio mar&iacute;timo; assim lhe sucedam a este atual outros<br \/>\n    governos igualmente patri&oacute;ticos e ativos.<\/p>\n<p>Em contraposi&ccedil;&atilde;o ao bairro dos oper&aacute;rios, a antiga Cidade<br \/>\n    de Palha, h&aacute; o bairro elegante da Praia do Su&aacute;, preferido por<br \/>\n    toda a gente que pode hoje na Vit&oacute;ria construir um chal&eacute; ou<br \/>\n    um palacete, Fica um pouco distante do centro. Corresponde em ponto muito<br \/>\n    mais pequeno e em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cidade &agrave; nossa Copacabana.<br \/>\n    Demais a mais, &eacute; a melhor, se n&atilde;o &uacute;nica praia de banhos<br \/>\n    da Vit&oacute;ria, e parece que muito concorrida, pela facilidade de condu&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    indo o bonde at&eacute; &agrave; praia em viagens amiudadas. O bonde atravessa<br \/>\n    grandes extens&otilde;es ainda por edificar, ora em linhas retas, ora em estradas<br \/>\n    curvas marginando golfos e mangues. Mas esses mangues estar&atilde;o em breve<br \/>\n    cobertos de bosques de eucaliptos e essas colinas alegradas pelos talh&otilde;es<br \/>\n    das hortas e dos jardins.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"imagens\/julia-lopes-4.jpg\" alt=\"Praia de Banhos Su\u00e1\" width=\"250\" height=\"165\" border=\"0\"\/><br \/>\n    <b>Praia de Banhos Su&aacute;<\/b><\/p>\n<p>O seu destino est&aacute; escrito pelo progresso da cidade que desperta,<br \/>\n    guardada &agrave; vista pelo penhasco majestoso do Penedo, que desempenha<br \/>\n    na ba&iacute;a da Vit&oacute;ria, com mais austeridade, o mesmo papel ornamental<br \/>\n    do nosso P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car.<\/p>\n<p>Conquanto a cidade seja constitu&iacute;da num terreno rochoso, h&aacute;<br \/>\n    nela em v&aacute;rios pontos alguns tufos de vegeta&ccedil;&atilde;o forte<br \/>\n    de um verde intenso, como um, do qual se destaca o palacete do coronel Guaran&aacute;,<br \/>\n    e o outro que serve de fundo &agrave; capela do Ros&aacute;rio, que se v&ecirc;<br \/>\n    de longe com a sua branca escadaria de pedra e o seu adro cingido de pilastras<br \/>\n    e de grades.<\/p>\n<p>Como em toda a parte do mundo por onde andem, os jesu&iacute;tas souberam<br \/>\n    escolher na Vit&oacute;ria os pontos mais culminantes e melhores para suas<br \/>\n    edifica&ccedil;&otilde;es. D&aacute; disso testemunho o pr&oacute;prio pal&aacute;cio<br \/>\n    presidencial, que &eacute; um antigo convento constru&iacute;do na parte alta<br \/>\n    da cidade, e dominando por uma das suas faces laterais uma larga escadaria<br \/>\n    de pedra que vai at&eacute; a baixo, o cais do Imperador. Em frente &agrave;<br \/>\n    sua fachada principal h&aacute; um novo jardim, de esplanada, sustentado por<br \/>\n    muralhas, e onde duas vezes por semana tocam as bandas locais para alegrar<br \/>\n    o povo. Junto ao pal&aacute;cio, tem a igreja de S. Tiago, que n&atilde;o<br \/>\n    visitei, como n&atilde;o visitei tamb&eacute;m o velho convento de S. Francisco,<br \/>\n    o que lamento, porque deve haver dentro deles algum assunto antigo e art&iacute;stico<br \/>\n    digno de aten&ccedil;&atilde;o. Nem ousei falar nisso, porque havia um programa<br \/>\n    a cumprir, e eu come&ccedil;ava a perceber que a pequena e t&atilde;o singular<br \/>\n    cidade de Vit&oacute;ria n&atilde;o se mostrava toda em poucos dias a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>O que notei ali desde o primeiro dia at&eacute; ao &uacute;ltimo, foi uma<br \/>\n    admir&aacute;vel transpar&ecirc;ncia na atmosfera, uma claridade pur&iacute;ssima<br \/>\n    que envolvia as coisas, fazendo-as real&ccedil;ar com todos os seus detalhes.<\/p>\n<p>Essa nitidez que deleitava os meus olhos deve fazer o desespero dos pintores<br \/>\n    que tentem passar para a tela as encantadoras paisagens esp&iacute;rito-santenses.<br \/>\n    &Aacute;guas, troncos, pedras, galharias de &aacute;rvores, telhados de casas<br \/>\n    ou barrancos de estradas, n&atilde;o se dissimulam nem se fazem adivinhar<br \/>\n    sob nenhum v&eacute;u de n&eacute;voa que os idealize; mostram-se cruamente,<br \/>\n    nuamente, em todas as min&uacute;cias da sua cor e da sua contextura. O c&eacute;u<br \/>\n    tem por isso tintas de um fulgor delicioso, manh&atilde;s de turquesa l&iacute;quida,<br \/>\n    crep&uacute;sculos cor de rosa que tingem de vermelho as &aacute;guas fundas<br \/>\n    do mar. Mas &eacute; sobretudo &agrave; noite, que na sua transpar&ecirc;ncia<br \/>\n    e profundidade o firmamento mais se embeleza pelo clar&atilde;o lucilante<br \/>\n    dos seus astros.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o nos detenhamos a olhar para as estrelas feiticeiras, porque<br \/>\n    &eacute; tempo de tomar a lancha e partirmos para Vila Velha.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><b>III<\/b><\/a><\/h4>\n<p>A ba&iacute;a da Vit&oacute;ria &#8211; Um canteiro ambulante de papoulas<br \/>\n    &#8211; Vila Velha &#8211; O fim destes artigos &#8211; Um per&iacute;odo<br \/>\n    de transforma&ccedil;&atilde;o &#8211; A sociedade &#8211; Pedro Pal&aacute;cios<br \/>\n    &#8211; O Convento da Penha &#8211; Um quadro de Velasquez &#8211; Efeitos<br \/>\n    da f&eacute; &#8211; A constru&ccedil;&atilde;o do Convento no alto da Penha<br \/>\n    &#8211; Rivalidade de Vila Velha e da Vit&oacute;ria &#8211; A Diamantina<br \/>\n    e seus prod&iacute;gios futuros &#8211; Ladeira mais f&aacute;cil de subir<br \/>\n    que descer &#8211; Promessas &#8211; Hospedagem fidalga &#8211; Escolas &#8211;<br \/>\n    Governo Municipal de Vila Velha &#8211; Fortaleza de Piratininga &#8211; Beleza<br \/>\n    do local &#8211; Ordem do estabelecimento &#8211; Gin&aacute;stica sueca &#8211;<br \/>\n    &quot;Five o&#8217;clock tea&quot; &#8211; Do&ccedil;ura ambiente &#8211; Volta<br \/>\n    &agrave; Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Eram oito horas da manh&atilde;, quando &quot;Santa Cruz&quot; zarpou da<br \/>\n    Vit&oacute;ria com rumo &agrave; cidade do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Ora, at&eacute; que enfim, ia eu ver essa po&eacute;tica ba&iacute;a t&atilde;o<br \/>\n    recomendada pelos poetas e pelos navegantes. Propensa &agrave;s contempla&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da natureza, desviei a aten&ccedil;&atilde;o das pessoas que me rodeavam,<br \/>\n    o que posso garantir n&atilde;o ser coisa f&aacute;cil, visto que a sociedade<br \/>\n    da Vit&oacute;ria tem na singeleza do seu trato sedu&ccedil;&otilde;es imperiosas,<br \/>\n    e abri bem os olhos para as maravilhas dessa por&ccedil;&atilde;o de mar em<br \/>\n    que a &quot;Santa Cruz&quot; ia estendendo o len&ccedil;ol do seu rasto escumoso.<\/p>\n<p>A quem j&aacute; conhece a ba&iacute;a Guanabara parece imposs&iacute;vel<br \/>\n    poder encontrar motivo de admira&ccedil;&atilde;o em outra ba&iacute;a, de<br \/>\n    mais a mais do mesmo pa&iacute;s, o que quer dizer da mesma natureza e a pequena<br \/>\n    dist&acirc;ncia, relativamente. E, todavia, encontra-o. A da Vit&oacute;ria<br \/>\n    tem surpresas. Toda ela &eacute; feiticeira, toda ela &eacute; um misto de<br \/>\n    poema e de gra&ccedil;a, de transpar&ecirc;ncias l&uacute;cidas e de recortes<br \/>\n    airosos. Porque eu levasse talvez nos olhos a impress&atilde;o majestosa da<br \/>\n    ba&iacute;a do Rio, tudo nessa do Esp&iacute;rito Santo me parecia de propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    reduzidas e tendo nisso mesmo um encanto muito peculiar e muito interessante.<br \/>\n    As montanhas que a rodeiam n&atilde;o assombram ningu&eacute;m; guardam propor&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    perfeitamente compreens&iacute;veis e de uma normalidade de formas quase inquietante.<\/p>\n<p>Em certos pontos, quem est&aacute; dentro dela pode julgar-se em um lago,<br \/>\n    tanto a conforma&ccedil;&atilde;o das terras que a cingem parece isol&aacute;-la<br \/>\n    do grande Atl&acirc;ntico.<\/p>\n<p>Algu&eacute;m, dentro da lancha, chama a minha aten&ccedil;&atilde;o para<br \/>\n    os pontos mais pitorescos: aqui uma ilhota; acol&aacute; uma linha branca<br \/>\n    de praia, ou a habita&ccedil;&atilde;o de um ingl&ecirc;s, de bom gosto, numa<br \/>\n    colina solit&aacute;ria e verde, ou um bosque &agrave; beira da &aacute;gua.<br \/>\n    No cimo de tal montanha azul, cujo nome a minha triste mem&oacute;ria esqueceu,<br \/>\n    descrevem-me uma cavidade natural, para onde os &iacute;ndios atiravam os<br \/>\n    seus mortos.<\/p>\n<p>Ficava assim o seu alto cemit&eacute;rio de f&aacute;cil comunica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o c&eacute;u.<\/p>\n<p>Reconhe&ccedil;o de longe a graciosa Praia do Su&aacute; com as suas barracas<br \/>\n    brancas ainda armadas para os banhistas; e perto o forte de S. Jo&atilde;o,<br \/>\n    Penedo, e o contorno de terras vistas na v&eacute;spera. O mar est&aacute;<br \/>\n    de um azul veemente. Cruzamos com outra lancha, em que escolares de vestidos<br \/>\n    escarlates, uniforme dos col&eacute;gios, fazem lembrar a flora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de papoulas num canteiro ambulante.<\/p>\n<p>Sacodem-se len&ccedil;os, mas j&aacute; algu&eacute;m me faz voltar a cabe&ccedil;a<br \/>\n    para a Pedra dos Ovos, ilhota que lembra as da vizinhan&ccedil;a de Paquet&aacute;.<\/p>\n<p>Seria estultice tentar sequer descrever com esta minha pena rombuda e tr&ocirc;pega<br \/>\n    o encanto das terras, que circundam a ba&iacute;a da Vit&oacute;ria. De resto,<br \/>\n    o fim destes artigos n&atilde;o &eacute; fazer literatura, mas dar, com a<br \/>\n    poss&iacute;vel clareza, id&eacute;ia do movimento de um dos nossos estados<br \/>\n    de menores recursos e em um per&iacute;odo que &eacute; para ele, positivamente,<br \/>\n    de transforma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Foi a verifica&ccedil;&atilde;o deste fato que me impulsionou a escrever<br \/>\n    estas linhas, com a esperan&ccedil;a de que elas possam servir de alento a<br \/>\n    outros estados de mais frouxa iniciativa.<\/p>\n<p>Fique, pois, entendido que a ba&iacute;a da Vit&oacute;ria n&atilde;o desmentiu,<br \/>\n    antes confirmou absolutamente todo o bem, que dela me tinham dito, e que foi<br \/>\n    com os olhos cheios da sua beleza que aportei a Vila Velha, primeiro pouso<br \/>\n    desse desventurado bo&ecirc;mio Vasco Fernandes Coutinho, a quem por merc&ecirc;<br \/>\n    de D. Jo&atilde;o III foi doada a capitania do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Rodeada, ali como na Vit&oacute;ria, por uma sociedade fina e carinhosa,<br \/>\n    empreendi corajosamente a subida do convento da Penha, proeza de que me sinto<br \/>\n    ainda agora um pouquinho espantada. N&atilde;o sei a quantos metros de altura<br \/>\n    fica esse templo, mas posso assegurar que jamais pisei rampas mais resvaladi&ccedil;as<br \/>\n    nem mais &iacute;ngremes do que as da Penha, em que ele est&aacute; assente.<\/p>\n<p>Antes de subir, para que eu tomasse f&ocirc;lego, levaram-me a ver, perto<br \/>\n    do port&atilde;o da entrada, uma pequena gruta natural, onde um frade, frei<br \/>\n    Pedro Pal&aacute;cios, salvo de um naufr&aacute;gio, se acolheu, ou antes<br \/>\n    se escondeu, talvez com medo dos &iacute;ndios, guardando consigo um registo<br \/>\n    a &oacute;leo da Senhora da Penha, que atribuem a Velasquez, n&atilde;o sei<br \/>\n    por qu&ecirc;, e que tamb&eacute;m n&atilde;o sei como pode escapar s&atilde;o<br \/>\n    e perfeito do naufr&aacute;gio aludido. Mas lendas n&atilde;o s&atilde;o assuntos<br \/>\n    de coment&aacute;rio neste g&ecirc;nero de artigos meramente descritivos,<br \/>\n    n&atilde;o se podendo gastar com eles sen&atilde;o o tempo da refer&ecirc;ncia.<br \/>\n    N&atilde;o sei quantos dias viveu frei Pal&aacute;cios agachado no seu obscuro<br \/>\n    buraco, sob uma lapa suspensa e &uacute;mida.<\/p>\n<p>O caso espantoso n&atilde;o &eacute; esse; o caso espantoso &eacute; que<br \/>\n    todas as noites o quadro a &oacute;leo da Senhora da Penha, com o seu bendito<br \/>\n    filho nos bra&ccedil;os, via na gruta da plan&iacute;cie adormecer o frade<br \/>\n    em santa paz, para, ao romper da aurora, aparecer bem do alto da alta penha,<br \/>\n    em que vive agora definitivamente! O poder do milagre fez os seus efeitos.<br \/>\n    &iacute;ndios e colonos, tocados por ele, consentiram em carregar &agrave;<br \/>\n    cabe&ccedil;a as pedras, as madeiras, todos os materiais, enfim, com que l&aacute;<br \/>\n    em cima se construiu o grande convento, com a sua torre quadrangular, a sua<br \/>\n    capela, em que a obra de talha conserva a cor natural da madeira em que &eacute;<br \/>\n    feita, as suas grandes cisternas, porque n&atilde;o havendo fontes no morro<br \/>\n    seria preciso prevenirem-se para conservar as &aacute;guas da chuva; as suas<br \/>\n    celas e corredores e as suas escadarias e terra&ccedil;os. Bem como as pedras,<br \/>\n    foi carregada &agrave; cabe&ccedil;a a &aacute;gua com que se argamassou o<br \/>\n    barro e a areia para edifica&ccedil;&atilde;o de tantas e t&atilde;o grossas<br \/>\n    paredes!<\/p>\n<p>O caso espanta o touriste, mesmo o menos impression&aacute;vel, e que ainda<br \/>\n    arquejante d&aacute; por bem empregado o esfalfamento da subida, quando l&aacute;<br \/>\n    em cima espalha a vista pelo panorama em redor e v&ecirc; de um lado o mar,<br \/>\n    de que emergem aqui e al&eacute;m dorsos de rochas ou pontas de serras de<br \/>\n    v&aacute;rios cambiantes, estendendo-se depois azul e largo at&eacute; ao<br \/>\n    infinito horizonte. Em baixo, a grande plan&iacute;cie de Vila Velha, verde-clara<br \/>\n    e branca, toda ela coberta de gram&iacute;neas curtas e de areais, com os<br \/>\n    seus grupos de casas aqui e al&eacute;m, ruas bem alinhadas e campos cortados<br \/>\n    de esteiros, que lampejam ao sol e que ali est&atilde;o &agrave; espera da<br \/>\n    futura cidade, que os h&aacute; de aproveitar como elemento de gra&ccedil;a,<br \/>\n    margeando-os de &aacute;rvores, cobrindo-os de longe em longe por pontes elegantes.<\/p>\n<p>Parece-me perceber uma certa rivalidade entre Vila Velha e Vit&oacute;ria,<br \/>\n    mas essa rabugice ing&ecirc;nua desaparecer&aacute; logo que as duas cidades<br \/>\n    formem uma s&oacute;, ligada que seja a ilha ao continente pela ponte m&oacute;vel<br \/>\n    da Leopoldina. Se as dist&acirc;ncias hoje s&atilde;o grandes entre si, tamb&eacute;m<br \/>\n    grande ser&aacute; o incremento dado &agrave; capital do Esp&iacute;rito Santo<br \/>\n    pela Estrada de Ferro da Leopoldina, destinada a transformar o porto da Vit&oacute;ria<br \/>\n    num dos portos mais ativos do Brasil.<\/p>\n<p>Calculam-se j&aacute; as toneladas de ferro bruto, que os comboios dessa<br \/>\n    estrada trar&atilde;o diariamente de Minas e dos confins do pr&oacute;prio<br \/>\n    estado do Esp&iacute;rito Santo, para despejarem nos por&otilde;es dos transatl&acirc;nticos<br \/>\n    estrangeiros &agrave; sua espera na Vit&oacute;ria, e o n&uacute;mero dessas<br \/>\n    toneladas atinge a uma soma enorme. Mas, voltemos a falar do convento.<\/p>\n<p>Como a ladeira do fado portugu&ecirc;s, que &eacute; mais f&aacute;cil de<br \/>\n    subir que de descer, porque ao subi-Ia levava o namorado a esperan&ccedil;a<br \/>\n    de ver l&aacute; em cima a sua amada, e descendo-a j&aacute; vinha carregado<br \/>\n    de saudades suas &#8212; assim, mas por outras raz&otilde;es, est&aacute;<br \/>\n    claro, &eacute; a do convento da Penha de Vila Velha.<\/p>\n<p>Para cima, o peito arfa, mas os p&eacute;s n&atilde;o escorregam; para baixo,<br \/>\n    &eacute; necess&aacute;rio vir-se executando prod&iacute;gios de equil&iacute;brio<br \/>\n    para n&atilde;o se cair redondamente sobre os duros calhaus denegridos e lustrosos,<br \/>\n    que revestem o solo. E ao pis&aacute;-los pensa a gente com espanto na resist&ecirc;ncia<br \/>\n    de certas criaturas, que sobem aquelas rampas de rastos por promessa, chegando<br \/>\n    a cima quase ex&acirc;nimes, ensang&uuml;entadas, mas, enfim, ainda vivas!<\/p>\n<p>Parece que hoje n&atilde;o s&atilde;o permitidos tais excessos e que mesmo<br \/>\n    as ofertas de cera, de cabelos, de trabalhos a mi&ccedil;anga e de quadrinhos<br \/>\n    ing&ecirc;nuos e grotescos, que ali, como em todos os templos milagrosos,<br \/>\n    cobrem as paredes das sacristias, v&atilde;o ser pouco a pouco substitu&iacute;das<br \/>\n    por pequenas placas de m&aacute;rmore com o voto do ofertante.<\/p>\n<p>Creio bem que a imagina&ccedil;&atilde;o do povo relute em aceitar essa substitui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    n&atilde;o encontrando na pedra fria o s&iacute;mbolo correspondente ao ardor<br \/>\n    da sua f&eacute;.<\/p>\n<p>Chegamos a baixo com os joelhos tr&ecirc;mulos, mas com os pulm&otilde;es<br \/>\n    revigorados por um grande hausto de ar puro e livre, e trazendo para sempre<br \/>\n    refletida nos olhos a vis&atilde;o maravilhosa dessas terras e rochedos, desse<br \/>\n    imenso mar, e desse imenso c&eacute;u todo azul e ouro.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"imagens\/julia-lopes-5.jpg\" alt=\"Escola de Aprendizes Marinheiros\" width=\"200\" height=\"125\" border=\"0\"\/><br \/>\n    <b>Escola de Aprendizes Marinheiros<\/b><\/p>\n<p>Depois de algumas horas de repouso numa hospedagem fidalga, de uma visita<br \/>\n    ao governo municipal de Vila Velha e outras visitas aos col&eacute;gios p&uacute;blicos<br \/>\n    do lugar, cujas aulas estavam repletas de crian&ccedil;as robustas e alegres,<br \/>\n    seguimos por uma linda estrada para a Fortaleza de Piratininga, Escola de<br \/>\n    Aprendizes Marinheiros.<\/p>\n<p>Tinha de not&aacute;vel essa estrada, perfeitamente constru&iacute;da, ter<br \/>\n    sido feita pelos aprendizes da Escola, sob a dire&ccedil;&atilde;o de um dos<br \/>\n    seus oficiais. E eis a&iacute; uma iniciativa, que deve ter lisonjeado a municipalidade<br \/>\n    de Vila Velha, por facilitar a comunica&ccedil;&atilde;o do povo da terra<br \/>\n    com a pitoresca e velha fortaleza. A&iacute;, ao transpor o port&atilde;o<br \/>\n    da entrada, n&atilde;o tive a impress&atilde;o de penetrar numa pra&ccedil;a<br \/>\n    militar, mas num belo e vasto parque de castelo europeu, com as suas largas<br \/>\n    alfombras veludosas e as suas al&eacute;ias de belas perspectivas.<\/p>\n<p>O local &eacute; amplo, todo numa curva de terra beijada pelo mar. No p&aacute;tio<br \/>\n    do edif&iacute;cio, de forma convexa, tocava a banda dos aprendizes com muito<br \/>\n    garbo e afina&ccedil;&atilde;o, embora constitu&iacute;da havia poucos meses.<\/p>\n<p>O diretor da Escola, comandante Maur&iacute;cio Piraj&aacute;, oficial distinto<br \/>\n    e que alia &agrave;s suas qualidades de militar severo as de um perfeito gentleman,<br \/>\n    teve a delicadeza de percorrer conosco todo o estabelecimento: enfermaria,<br \/>\n    farm&aacute;cia, alojamentos, aulas, refeit&oacute;rio, cozinha, lavanderia<br \/>\n    e paiol, fazendo notar em tudo o maior asseio e a ordem mais absoluta.<\/p>\n<p>Sobre uma das portas da fortaleza, hoje remo&ccedil;ada e at&eacute; florida,<br \/>\n    v&ecirc;-se ainda, como documento hist&oacute;rico, uma pedra gravada com<br \/>\n    dizeres no portugu&ecirc;s do tempo relativos &agrave; sua funda&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Depois de ter percorrido todo o interior do edif&iacute;cio sa&iacute;, a<br \/>\n    ver no parque os exerc&iacute;cios de gin&aacute;stica sueca executados com<br \/>\n    precis&atilde;o admir&aacute;vel pelos menores.<\/p>\n<p>De cima de um terra&ccedil;o eu dominava o grande tapete relvado onde os<br \/>\n    aprendizes, dirigidos por um companheiro, faziam ao mesmo tempo que ele todos<br \/>\n    os movimentos disciplinares, do mais suave ao mais torturado, como se os m&uacute;sculos<br \/>\n    de todos eles obedecessem a um s&oacute; maquinismo e a uma s&oacute; vontade.<\/p>\n<p>A tarde estava de um encanto inesquec&iacute;vel. Numa parte do jardim lateral<br \/>\n    do edif&iacute;cio, uma grande quantidade de pequeninas mesas brancas e floridas<br \/>\n    para o five o&#8217;clock, e dispostas com arte de modo a poderem os que estavam<br \/>\n    em uma delas ver os que estavam em outras, traziam &agrave; lembran&ccedil;a<br \/>\n    naquele cen&aacute;rio de macias relvas, de praias claras, em que o murm&uacute;rio<br \/>\n    das ondas se casava ao ramalhar das &aacute;rvores e ao som d&aacute; m&uacute;sica<br \/>\n    ao ar livre, cenas de outros lugares distantes, talvez Nice, talvez Cannes&#8230;<\/p>\n<p>E at&eacute; sol-posto foi um rumor alegre de vozes naquele jardim, e um<br \/>\n    correr de meninos pelos gramados, tachonando-os com as cores alegres dos seus<br \/>\n    vestidos e dos seus chap&eacute;us floridos.<\/p>\n<p>E se o mar n&atilde;o prometesse mau embarque, ali ficar&iacute;amos at&eacute;<br \/>\n    o romper do luar, para navegarmos depois em mar de prata e gozarmos por mais<br \/>\n    tempo as do&ccedil;uras daquele ambiente delicioso&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"4\">IV<\/a><\/h4>\n<p>Ora, pois, abro um par&ecirc;ntese na s&eacute;rie destes artigos descritivos,<br \/>\n    para me referir a um fato, que nos impressionou a todos no Rio de Janeiro,<br \/>\n    porque teve na imprensa carioca uma horr&iacute;vel repercuss&atilde;o. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; preciso uma extraordin&aacute;ria perspic&aacute;cia para se adivinhar<br \/>\n    qual ele seja; j&aacute; o leitor percebeu que aludo ao contrato feito pelo<br \/>\n    Governo do Estado do Esp&iacute;rito Santo com a firma Lichtenfels &amp; C&ordf;<br \/>\n    para explora&ccedil;&atilde;o de matas do Estado e desenvolvimento da sua<br \/>\n    imigra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando parti para a cidade da Vit&oacute;ria levava o esp&iacute;rito apoquentado<br \/>\n    por esse assunto e vou dizer por qu&ecirc;, para que n&atilde;o pare&ccedil;a<br \/>\n    exagerada a minha sensibilidade. &Eacute; o caso que desde que peguei na pena,<br \/>\n    resolvida a escrever para o p&uacute;blico, me arvorei, por minha conta pr&oacute;pria,<br \/>\n    em advogada das nossas &aacute;rvores urbanas e florestais.<\/p>\n<p>Corajosamente, sem medo de criar com a minha insist&ecirc;ncia fama de mon&oacute;tona<br \/>\n    a prop&oacute;sito de tudo, e manda a boa verdade dizer que muitas vezes fora<br \/>\n    de prop&oacute;sito, procurei sempre fazer entre n&oacute;s a propaganda da<br \/>\n    &aacute;rvore e da flor, e, se a minha vaidade, ou veleidade, j&aacute; se<br \/>\n    tem consolado com alguns triunfos nesse sentido, confesso que ainda estou<br \/>\n    bem longe de ver confirmados todos os meus prop&oacute;sitos. Tendo em artigos<br \/>\n    de jornais, em confer&ecirc;ncias, em livros, clamado sempre contra a devasta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    in&uacute;til das nossas matas e a favor do plantio e replantio do arvoredo<br \/>\n    ben&eacute;fico, &eacute; f&aacute;cil de imaginar qual seria a minha opini&atilde;o<br \/>\n    em face desse famoso contrato, destinado, segundo diziam, a desnudar por uma<br \/>\n    mis&eacute;ria a linda terra esp&iacute;rito-santense!<\/p>\n<p>E, por isso mesmo, porque esse assunto me interessasse vivamente, ardia em<br \/>\n    curiosidade de indagar de algu&eacute;m bem informado todos os seus detalhes<br \/>\n    e circunst&acirc;ncias, n&atilde;o ousando faz&ecirc;-lo, com receio de ferir<br \/>\n    susceptibilidades e melindres, tanto o caso me parecia monstruoso.<\/p>\n<p>Em face, por&eacute;m, dos progressos que via realizados na Vit&oacute;ria<br \/>\n    e que me atestavam a boa orienta&ccedil;&atilde;o do Governo do Esp&iacute;rito<br \/>\n    Santo, comecei a duvidar do meu crit&eacute;rio anterior, e, sem poder sopitar<br \/>\n    curiosidades, pedi a algu&eacute;m, cujo esp&iacute;rito me pareceu Imparcial<br \/>\n    e justo, que me demonstrasse o verdadeiro esp&iacute;rito da quest&atilde;o.<br \/>\n    A nossa palestra, no pacato recanto do velho sal&atilde;o do hotel, foi r&aacute;pida<br \/>\n    e concisa. O meu ilustre informante afirmou, com espanto para mim, considerar<br \/>\n    o contrato, em volta do qual se levantou tanta celeuma, de magn&iacute;ficos<br \/>\n    resultados para o Estado, acrescentando:<\/p>\n<p>&quot;Minha senhora, n&atilde;o se podem abrir estradas em matarias; fazer<br \/>\n    vilas em pontos disseminados dos sert&otilde;es para col&ocirc;nias agr&aacute;rias;<br \/>\n    cultivar terras at&eacute; hoje inexploradas, sem que muitas &aacute;rvores<br \/>\n    das florestas gemam sob os golpes do machado derrubador. O progresso tamb&eacute;m<br \/>\n    faz as suas v&iacute;timas, e parece-me de boa pol&iacute;tica aproveitar-lhes<br \/>\n    os corpos inermes, n&atilde;o para aquecer locomotivas das estradas de ferro,<br \/>\n    como se faz em alguns Iugares, mas para convert&ecirc;-Ias em dinheiro para<br \/>\n    os magros cofres do Estado. J&aacute; que se interessa pelo assunto, eu lhe<br \/>\n    arranjarei algumas notas positivas a seu respeito. Os meus vagares de aposentado<br \/>\n    permitem-me esse trabalho.&quot;<\/p>\n<p>A palavra foi cumprida. As notas vieram, e &eacute; sobre elas que ou escrevo<br \/>\n    estas linhas.<\/p>\n<p>Entre os problemas nacionais, que mais nos preocupam, existe um que no conceito<br \/>\n    geral merece a primazia:<\/p>\n<p>&quot;Atrair imigrantes o localiz&aacute;-los definitivamente no pa&iacute;s.&quot;<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; sacrif&iacute;cios a que n&atilde;o nos tenhamos submetido<br \/>\n    para conseguir semelhante resultado, e ainda a esta hora at&eacute; humilha&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    recebemos mesmo das na&ccedil;&otilde;es de 2a ordem em troca deste triste<br \/>\n    papel de mendigos de colonos que representarmos, batendo &agrave;s portas<br \/>\n    de quem abertamente nos repele e injuria.<\/p>\n<p>Espalhar agentes pelo mundo civilizado, subvencionar a imprensa, banquetear<br \/>\n    autoridades, derramar folhetos e mapas em todas as l&iacute;nguas, pagar passagens<br \/>\n    em linhas terrestres e mar&iacute;timas, fazer gastos com alojamentos, alimenta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    assist&ecirc;ncia de toda ordem, despender com transportes, sal&aacute;rios,<br \/>\n    adiantamentos, ferramentas, sementes, casas e at&eacute; com caprichos, eis<br \/>\n    o que nos custa o agenciamento de meia d&uacute;zia de colonos, que, n&atilde;o<br \/>\n    raro, meses depois nos abandonam em busca da Argentina, ou se transformam<br \/>\n    em mascates drenadores de nossas economias para o Oriente.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute; tudo: &#8212; Os n&uacute;cleos exigem dire&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fiscais, int&eacute;rpretes, instrutores, escolas, boas estradas, cercados<br \/>\n    seguros, mercados garantidos, centros industriais e outros complementos, representando<br \/>\n    no conjunto avultado disp&ecirc;ndio, arriscado e aleat&oacute;rio. Tomemos<br \/>\n    no Brasil os &uacute;ltimos quatro anos; somemos as quantias todas empregadas<br \/>\n    com a introdu&ccedil;&atilde;o e manuten&ccedil;&atilde;o de imigrantes, computadas<br \/>\n    as despesas acima enumeradas, o dividamo-las pelo n&uacute;mero de fam&iacute;lias<br \/>\n    realmente localizadas.<\/p>\n<p>&#8212; Qual o resultado? Nem com dois contos de r&eacute;is conseguiremos<br \/>\n    representar a quota de cada uma!<\/p>\n<p>A col&ocirc;nia Afonso Pena custara ao Estado do Esp&iacute;rito Santo mais<br \/>\n    de 120 contos de r&eacute;is ao ser transferida &agrave; Uni&atilde;o e, no<br \/>\n    entanto, n&atilde;o recebera ainda um s&oacute; colono. Rios de dinheiro tem<br \/>\n    custado ao Governo o n&uacute;cleo Itatiaia; e quais as suas atuais condi&ccedil;&otilde;es?<br \/>\n    Que produz? Que import&acirc;ncia representa para atrair imigrantes?<\/p>\n<p>De agora em diante a imigra&ccedil;&atilde;o vai-se tornar cada vez mais<br \/>\n    dif&iacute;cil e dispendiosa, porque pouco a pouco nos est&atilde;o fechando<br \/>\n    os portos as na&ccedil;&otilde;es, onde nos habitu&aacute;ramos a abastecer-nos.<br \/>\n    Mas n&atilde;o levemos em conta essa circunst&acirc;ncia e digamos que cada<br \/>\n    fam&iacute;lia introduzida e localizada em nosso pa&iacute;s, de bons imigrantes,<br \/>\n    vale somente por dois contos de r&eacute;is. &Eacute; essa quantia que em<br \/>\n    plena consci&ecirc;ncia e acertadamente est&aacute; buscando aplicar a Uni&atilde;o<br \/>\n    para povoar alguns dos nossos Estados, entre outros o Paran&aacute;, Minas<br \/>\n    e mesmo (em escala reduzida) o Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Este Estado que, todo ele com uma superf&iacute;cie superior v&aacute;rias<br \/>\n    vezes &agrave; da B&eacute;lgica, n&atilde;o conta sen&atilde;o duzentos mil<br \/>\n    habitantes, isto &eacute; a quinta parte, t&atilde;o somente, da popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do Rio de Janeiro, precisa antes de tudo cuidar de povoar o seu territ&oacute;rio,<br \/>\n    coberto em grande parte de matas e montanhas.<\/p>\n<p>Preocupa&ccedil;&atilde;o constante de alguns dos seus governos, n&atilde;o<br \/>\n    tardou que se lhes apresentasse como insol&uacute;vel o problema, em face<br \/>\n    da renda ex&iacute;gua do Tesouro, dificilmente mantida, ainda assim, por<br \/>\n    uma popula&ccedil;&atilde;o pobre e desaparelhada.<\/p>\n<p>Foi em uma situa&ccedil;&atilde;o de tal ordem que, ao atual presidente do<br \/>\n    Estado, se apresentou a casa Lichtenfels &amp; C&ordf; pretendendo extrair<br \/>\n    madeiras do Estado, alegando dispor de facilidades excepcionais para lhe colonizar<br \/>\n    o territ&oacute;rio. Era a solu&ccedil;&atilde;o que se oferecia, afinal,<br \/>\n    t&atilde;o ansiosamente buscada, por isso, ap&oacute;s acurado estudo, tendente<br \/>\n    a harmonizar os rec&iacute;procos interesses, o acordo se estabeleceu, traduzido<br \/>\n    em um contrato que &eacute; uma gl&oacute;ria para o Governo, a despeito dos<br \/>\n    repetidos mais infundados ataques, de que tem sido alvo at&eacute; por quem<br \/>\n    confessa nunca ter lido as cl&aacute;usulas que firmaram na transa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A casa contratante viu diante de si terras abundantes, cobertas de cerradas<br \/>\n    matas virgens, e muito naturalmente acreditou que mediante um bem estudado<br \/>\n    plano de explora&ccedil;&atilde;o, apoiado em um conjunto de medidas que mutuamente<br \/>\n    se auxiliassem, poderia gerar para os capitais, com que contava, uma razo&aacute;vel<br \/>\n    fonte de renda. Sabia onde encontrar colonos, que acudissem ao seu chamado<br \/>\n    e viessem ocupar as terras oferecidas, n&atilde;o somente sem lhe exigir as<br \/>\n    despesas, a que jamais se podem furtar os governos no pagamento e coloca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de imigrantes, como dos mesmos colonos recebendo at&eacute;, e muito justamente,<br \/>\n    uma certa soma pelo patrim&ocirc;nio rec&eacute;m-adquirido.<\/p>\n<p>Para tornar acess&iacute;veis os n&uacute;cleos projetados seria necess&aacute;rio<br \/>\n    construir centenas de quil&ocirc;metros de estradas de rodagem, mediante uma<br \/>\n    despesa inevit&aacute;vel e sem duvida no valor de muitas centenas de contos<br \/>\n    de r&eacute;is, mas era poss&iacute;vel atenu&aacute;-la utilizando essas<br \/>\n    novas vias de comunica&ccedil;&atilde;o com o transporte de madeiras at&eacute;<br \/>\n    os rios naveg&aacute;veis ou as linhas f&eacute;rreas em tr&aacute;fego.<\/p>\n<p>Esse plano inteligente, governo algum poderia utiliz&aacute;-lo, porque se<br \/>\n    existe trabalho fora do alcance dos meios oficiais, esse trabalho &eacute;<br \/>\n    sem d&uacute;vida o de explorar madeiras. Assim, aquilo que seria ruinoso<br \/>\n    e inexeq&uuml;&iacute;vel para o Governo, tornava-se nas m&atilde;os de um<br \/>\n    particular arguto uma medida complementar de alto valor econ&ocirc;mico.<\/p>\n<p>Cumpre acentuar que a explora&ccedil;&atilde;o de madeiras, no Brasil, somente<br \/>\n    pode ser lucrativa se aquele que as quiser extrair dispuser de abundantes<br \/>\n    capitais e estiver seguro d&ecirc; lhe n&atilde;o faltarem avultadas reservas<br \/>\n    de matas que assegurem compensa&ccedil;&otilde;es pelas despesas a fazer com<br \/>\n    a abertura de estradas e com a indispens&aacute;vel e dispendiosa organiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    comercial, que o abrigue contra o ruinoso monop&oacute;lio exercido por meia<br \/>\n    d&uacute;zia de casas da pra&ccedil;a do Rio. N&atilde;o fora a necessidade<br \/>\n    de tais reservas e certamente a casa contratante preferiria comprar madeiras<br \/>\n    em matas particulares &agrave; raz&atilde;o de um ou dois mil r&eacute;is<br \/>\n    o metro c&uacute;bico &#8212; como &eacute; corrente no interior do Estado<br \/>\n    &#8212; a pag&aacute;-las a 5$000 em regi&otilde;es desprovidas de meios de<br \/>\n    transporte e de popula&ccedil;&atilde;o. S&oacute; os que n&atilde;o conhecem<br \/>\n    o assunto acreditar&atilde;o que 800.000 metros c&uacute;bicos de madeiras<br \/>\n    nas brenhas de um Estado despovoado podem fornecer 20 a 30 mil contos de lucros<br \/>\n    aos que se abalan&ccedil;aram a extra&iacute;-las. Basta refletir que &eacute;<br \/>\n    9$000 a diferen&ccedil;a apontada entre os &ocirc;nus fiscais que gravam os<br \/>\n    atuais possuidores de matas e os que v&atilde;o pesar sobre o novo contratante,<br \/>\n    para, feitos os c&aacute;lculos, verificar-se que o lucro, se o houvesse,<br \/>\n    seria no m&aacute;ximo de 9$000 vezes 800.000, isto &eacute;, 7.200 contos,<br \/>\n    t&atilde;o-somente.<\/p>\n<p>Esse lucro, conforme deixamos dito, s&oacute; se verificaria se o contratante<br \/>\n    n&atilde;o fosse onerado de outros encargos e se obtivesse as suas madeiras<br \/>\n    ao longo das estradas ou dos rios naveg&aacute;veis, como acontece com os<br \/>\n    terrenos particulares. No entanto, nada disso acontece; muito ao contr&aacute;rio.<br \/>\n    Assim, pois, o contratante s&oacute; poder&aacute; ter lucros (e &eacute;<br \/>\n    muito justo que os tenha), nas seguintes condi&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>1&ordm;, se dispuser de grandes capitais;<\/p>\n<p>2&ordm;, se puder, sem despesas, atrair colonos para o Estado, colonos que<br \/>\n    tenham recursos e sejam realmente agricultores;<\/p>\n<p>3&ordm;, se tiver tino comercial para bem colocar as madeiras que extrair;<\/p>\n<p>4&ordm;, se desenvolver qualidades administrativas para, de modo econ&ocirc;mico,<br \/>\n    extrair e transportar as madeiras contidas nas matas devolutas, que lhe forem<br \/>\n    concedidas.<\/p>\n<p>Aceitando ele o contrato, &eacute; de presumir que possua esses requisitos:<br \/>\n    ser&aacute; para o Esp&iacute;rito Santo uma felicidade, que assim seja!<\/p>\n<p>E o Governo sob que m&oacute;veis agiu? <\/p>\n<p>O seu pensamento fundamental foi colonizar o Estado. Como consegui-lo? Sendo<br \/>\n    dispendioso e dif&iacute;cil realizar t&atilde;o leg&iacute;tima aspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    um caminho somente se oferecia a quem n&atilde;o dispunha de dinheiro: ceder<br \/>\n    terras e o que nelas se contivesse, em troca dos bra&ccedil;os que dever&atilde;o<br \/>\n    cultiv&aacute;-las, para enriquecimento do Estado. Ceder gratuitamente terras<br \/>\n    devolutas a colonos. Que &eacute; que fazem os Estados, &agrave;s claras,<br \/>\n    doando-as ou, veladamente, vendendo-as a pre&ccedil;os irris&oacute;rios,<br \/>\n    sem juros, a prazos que sempre se prorrogam e mediante pagamento proveniente<br \/>\n    do sal&aacute;rios elevados, pagos por compromissos formais o expressos pelos<br \/>\n    cofres oficiais? Milhares de hectares recebeu do Estado a Uni&atilde;o a t&iacute;tulo<br \/>\n    gratuito, quando lhe foi transferido a Col&ocirc;nia Afonso Pena, mediante<br \/>\n    menos ainda da quantia, que em benfeitorias despendera o Governo que a fundara.<br \/>\n    Por que motivo n&atilde;o investiram contra ambos? O complemento da paga ao<br \/>\n    contratante forneceu-o o Governo dispensando de impostos a madeira das terras<br \/>\n    cedidas. Examinemos, para fulmin&aacute;-lo, o ato perdul&aacute;rio. A madeira<br \/>\n    em causa &eacute; das terras devolutas. Esta, se n&atilde;o fosse dispensada<br \/>\n    do imposto, n&atilde;o seria evidentemente exportada, porque outras, ao longo<br \/>\n    das linhas de transporte, existem que se vendem por menos de cinco mil r&eacute;is,<br \/>\n    pre&ccedil;o cobrado pelo Governo no contrato. E nesse caso, que sorte teriam<br \/>\n    tais madeiras?<\/p>\n<p>Seriam queimadas sem proveito para ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Com efeito, sendo imposs&iacute;vel colonizar terras sem lhes derrubar as<br \/>\n    matas e transform&aacute;-las em culturas, claro &eacute; que em breve estariam<br \/>\n    reduzidas a cinzas as suas madeiras. E &eacute; Isso mesmo que se tem feito<br \/>\n    em toda a parte, a despeito de est&eacute;reis clamores da imprensa e das<br \/>\n    v&atilde;s promessas interventoras das administra&ccedil;&otilde;es. Assim,<br \/>\n    o Governo dispensou de impostos aquilo que jamais poderia ser taxado, porque<br \/>\n    estava condenado a ser devorado nas queimadas.<\/p>\n<p>Vendendo &aacute;rvores por 4 mil contos, o Governo salvou para o Estado<br \/>\n    essa grande soma. Foi h&aacute;bil e tornou-se um benem&eacute;rito.<\/p>\n<p>Cem contos, que as matas produzissem, j&aacute; seria uma bela conquista<br \/>\n    ao inc&ecirc;ndio. Quando, por&eacute;m, n&atilde;o militassem t&atilde;o<br \/>\n    justos motivos para a transa&ccedil;&atilde;o, &eacute; f&aacute;cil demonstrar<br \/>\n    que o pre&ccedil;o de 5$000 por metro c&uacute;bico de madeira em p&eacute;,<br \/>\n    nos sert&otilde;es do Esp&iacute;rito Santo, n&atilde;o &eacute; um pre&ccedil;o<br \/>\n    baixo. Informem-se dos pre&ccedil;os vigentes em regi&otilde;es mais acess&iacute;veis,<br \/>\n    e ver&atilde;o que ningu&eacute;m vende por mais, nem por tanto. Pr&oacute;ximo<br \/>\n    &agrave; linha da Leopoldina, na Serra do Frade, em Maca&eacute;, as madeiras<br \/>\n    escolhidas podem ser e s&atilde;o compradas a 2 e 3 mil r&eacute;is o metro,<br \/>\n    se n&atilde;o menos. E ainda mais perto, &agrave; margem da Central, a 3 l&eacute;guas<br \/>\n    apenas de dist&acirc;ncia, paga-se 3 a 4 mil r&eacute;is, somente, pela mesma<br \/>\n    unidade de madeira de 1a classe em &aacute;rvore. Se levantam os pre&ccedil;os,<br \/>\n    afastam-se os compradores o n&atilde;o tarda ent&atilde;o que o fogo realize<br \/>\n    a sua obra&#8230;<\/p>\n<p>Eis a&iacute; os fatos esmagadores, que n&atilde;o receiam contesta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas, na realidade, por quanto foram vendidos os 80.000 metros c&uacute;bicos<br \/>\n    de madeira que figuram no contrato? <b>Vejamos: <\/b> <\/p>\n<div align=\"center\">\n<table width=\"48%\" border=\"0\" align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"1\" bgcolor=\"#000000\" >\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td width=\"79%\">&nbsp;<\/td>\n<td width=\"21%\">Contos de r&eacute;is<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td>1&ordm; Em dinheiro<\/td>\n<td>4.000<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td>2&ordm; Como renda dessa quantia, por ter sido fornecia adiantada.<br \/>\n          Sendo de 10 anos o prazo concedido, tomemos metade desse prazo para<br \/>\n          m&eacute;dia do tempo, em que devem ser contados os juros, que suporemos<br \/>\n          de 7,5% ao ano, teremos: 4.000 contos, a 7,5% ao ano, em 5 anos<\/td>\n<td>1.500<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td>3&ordm; Custo de introdu&ccedil;&atilde;o e localiza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n          de 3.500 fam&iacute;lias a 1 conto de r&eacute;is somente (em lugar<br \/>\n          de 2 contos)<\/td>\n<td>3.500<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td>Total de<\/td>\n<td>9.000<\/td>\n<\/tr>\n<\/table><\/div>\n<p>Eis o que diretamente vai receber o Estado pelos 800.000 metros c&uacute;bicos<br \/>\n    de madeira, em &aacute;rvore, nos sert&otilde;es do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Em &aacute;rvores disputadas ao fogo! Mas de modo menos expresso, mas n&atilde;o<br \/>\n    menos categ&oacute;rico, s&atilde;o bem maiores os servi&ccedil;os e vantagens<br \/>\n    auferidos pelo Estado no contrato. Em primeiro lugar h&aacute; a obriga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de introduzir mais 300 fam&iacute;lias para a lavoura, e isso n&atilde;o vale<br \/>\n    menos de 200 a 300 contos de r&eacute;is. Em segundo lugar, em virtude da<br \/>\n    cl&aacute;usula 35a combinada com a cl&aacute;usula 3a, obrigou-se o contratante<br \/>\n    a introduzir mais 1400 fam&iacute;lias, sob pena de reverterem ao dom&iacute;nio<br \/>\n    do Governo os lotes a elas destinados. Eis a&iacute; mais uma verba de mil<br \/>\n    contos, pelo menos. Em resumo: as vantagens do Governo, traduzidas em dinheiro,<br \/>\n    n&atilde;o somam menos de 10 a 11 mil contos de r&eacute;is.<\/p>\n<p>As conseq&uuml;&ecirc;ncias de outra ordem s&atilde;o extraordin&aacute;rias<br \/>\n    para o Estado:<\/p>\n<p>1&ordm; &#8211; O n&uacute;mero de imigrantes, que nele se dever&atilde;o<br \/>\n    localizar, ser&aacute; de cerca de 20.000. Ora, sendo de 200.000 apenas o<br \/>\n    n&uacute;mero total de habitantes do Estado, conclui-se que a sua popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    vai ser de pronto aumentada em 10%. <\/p>\n<p>E esse colossal resultado se far&aacute; sem &ocirc;nus ou inc&ocirc;modos<br \/>\n    de qualquer natureza para o Governo Federal.<\/p>\n<p>2&ordm; &#8211; Sendo, no presente momento, de cerca de 40.000 contos de<br \/>\n    r&eacute;is o valor da produ&ccedil;&atilde;o do Estado, &eacute; l&iacute;cito<br \/>\n    admitir que essa produ&ccedil;&atilde;o ser&aacute; em breve elevada de 10%,<br \/>\n    isto &eacute;, a 44.000 contos, s&oacute; por influ&ecirc;ncia do contrato.<\/p>\n<p>3&ordm; &#8211; A renda fiscal do Estado, avaliada no corrente ano em cinco<br \/>\n    mil contos, poder&aacute; em breve, sob aquela mesma influ&ecirc;ncia, elevar-se<br \/>\n    a 5.500 contos.<\/p>\n<p>Se se quisesse aprofundar o estudo dos resultados da introdu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e localiza&ccedil;&atilde;o de 3.500 fam&iacute;lias nas terras devolutas<br \/>\n    do Estado do Esp&iacute;rito Santo, a abertura de estradas, da&iacute; decorrentes,<br \/>\n    a movimenta&ccedil;&atilde;o do interior atualmente despovoado, a repercuss&atilde;o<br \/>\n    no pa&iacute;s de origem dos colonos, e in&uacute;meros outros efeitos evidentes,<br \/>\n    n&atilde;o haveria louvores bastantes para galardoar o ato de quem assinou<br \/>\n    o novo contrato. Se este se realizar, como tudo faz prever, acontecer&aacute;<br \/>\n    com este caso o mesmo que se passou com outros na aprecia&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos atos administrativos do atual Governo: as mais acerbas criticas e os mais<br \/>\n    sombrios vatic&iacute;nios seguidos dos mais retumbantes sucessos. Arg&uuml;iu-se<br \/>\n    de ruinosa loucura a execu&ccedil;&atilde;o das obras que deram &aacute;gua,<br \/>\n    luz e esgotos &agrave; Capital. &#8212; &quot;Despender 3.000 contos era empobrecer<br \/>\n    o Estado, porque, se a obra se fizesse, n&atilde;o daria sen&atilde;o preju&iacute;zos&quot;<br \/>\n    &#8212; eis o que de todos os lados se ouvia.<\/p>\n<p>Pois bem! Fizeram-se as obras. N&atilde;o s&atilde;o passados sen&atilde;o<br \/>\n    meses, e aquilo que custou 2.500 contos est&aacute; vendido por mais de 5.000.<br \/>\n    O Governo fez construir casas na Capital, e n&atilde;o faltou quem condenasse<br \/>\n    a resolu&ccedil;&atilde;o. Resultado: as casas est&atilde;o sendo disputadas<br \/>\n    e n&atilde;o bastam para as necessidades da popula&ccedil;&atilde;o acrescida.<br \/>\n    O mesmo acontecer&aacute; ao contrato das madeiras e a quantos atos administrativos<br \/>\n    praticar o Governo, inspirado pela confian&ccedil;a nas condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    naturais daquele solo privilegiado, na energia de seus filhos e no futuro<br \/>\n    brilhante, que aguarda o Estado do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>A estas informa&ccedil;&otilde;es, que aqui ficam expostas, vieram juntar-se<br \/>\n    ainda, a meu pedido: um esquema representativo da superf&iacute;cie do Estado<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo, contendo os terrenos ocupados, os devolutos e a<br \/>\n    &aacute;rea suficiente para a extra&ccedil;&atilde;o de 800.000 metros c&uacute;bicos<br \/>\n    de madeiras, e mais as seguintes pondera&ccedil;&otilde;es sobre o mesmo assunto:<\/p>\n<p>Se considerarmos um hectare de terras cobertas por mata virgem, podemos representar<br \/>\n    esta &aacute;rea por um quadrado que tem 100 metros de lado.<\/p>\n<p>Se supusermos que haja apenas uma &aacute;rvore de 20 em 20 metros, teremos,<br \/>\n    que em um hectare existir&atilde;o 5&#215;5, ou 25 &aacute;rvores. Tendo cada uma<br \/>\n    dessas &aacute;rvores, em m&eacute;dia, tr&ecirc;s metros c&uacute;bicos,<br \/>\n    teremos 75 metros c&uacute;bicos de madeira em um hectare, e, portanto, em<br \/>\n    10.667 hectares encontraremos 800.025 metros c&uacute;bicos de madeira.<\/p>\n<p>A &aacute;rea 10.667 hectares &eacute; equivalente &agrave; de um ret&acirc;ngulo<br \/>\n    cujos lados s&atilde;o: 10.667 e 10.000 metros. Neste ret&acirc;ngulo n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; lado que atinja sequer a duas l&eacute;guas, pois o maior lado tem<br \/>\n    uma l&eacute;gua, tr&ecirc;s quartos e uma pequena fra&ccedil;&atilde;o, e<br \/>\n    o menor tem exatamente uma l&eacute;gua e tr&ecirc;s quartos.<\/p>\n<p>O Estado tem cerca de 6.000.000 de hectares de terras devolutas, e h&aacute;<br \/>\n    propriet&aacute;rios no Esp&iacute;rito Santo de duas e meia sesmarias cobertas<br \/>\n    de matas virgens ou de 2.222,5 alqueires, &aacute;rea esta que representa<br \/>\n    1\/282 aproximados dos 3.000.000 de hectares. Esses propriet&aacute;rios poderiam,<br \/>\n    pois, extrair e exportar os 800.000 metros c&uacute;bicos de madeiras.<\/p>\n<p>O contrato para extra&ccedil;&atilde;o dos 800.000 metros c&uacute;bicos<br \/>\n    de madeira estabelece a obriga&ccedil;&atilde;o da funda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de sete n&uacute;cleos coloniais por parte da firma concession&aacute;ria.<br \/>\n    Ser&aacute; feita para cada uma das &quot;500 fam&iacute;lias&quot; de colonos,<br \/>\n    que comp&otilde;em cada n&uacute;cleo, uma derribada de 5 hectares.<\/p>\n<p>J&aacute; vimos acima que cada hectare cont&eacute;m 75 metros c&uacute;bicos<br \/>\n    de madeira e, portanto, cada lote colonial fornecer&aacute; na derribada dos<br \/>\n    5 hectares 375 metros, e cada n&uacute;cleo 187.500 metros c&uacute;bicos.<br \/>\n    Fundados os 7 n&uacute;cleos coloniais, a firma concession&aacute;ria ter&aacute;<br \/>\n    feito a derribada de &aacute;rvores, cujo volume &eacute; de 1.312.500 metros.<\/p>\n<h3>ESQUEMA <\/h3>\n<p>representativo da superf&iacute;cie do Estado do Esp&iacute;rito Santo, contendo<br \/>\n    os terrenos ocupados, os devolutos e nestes a &aacute;rea suficiente para<br \/>\n    a extra&ccedil;&atilde;o de 800.000 metros c&uacute;bicos de madeiras, representada<br \/>\n    pelo quadrado que tem o sinal A.<\/p>\n<div align=\"center\">\n<table width=\"53%\" border=\"0\" align=\"center\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"1\" bgcolor=\"#000000\" >\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td width=\"79%\">&nbsp;<\/td>\n<td width=\"21%\">km&sup2;<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td><b>Superf&iacute;cie do Estado<\/b><\/td>\n<td>44.800<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td><b>Superf&iacute;cie das terras devolutas<\/b><\/td>\n<td>30.000<\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFFF\" class=\"tabela\">\n<td><b>&Aacute;rea para a extra&ccedil;&atilde;o dos 800.000 metros c&uacute;bicos<br \/>\n          de madeira<\/b><\/td>\n<td>106.67<\/td>\n<\/tr>\n<\/table><\/div>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"imagens\/julia-lopes-2.gif\" width=\"373\" height=\"200\" border=\"0\"\/><br \/>\n    <b>Escala: 0ms,01=20k&sup2;.<\/b> <\/p>\n<p>E depois deste eloq&uuml;ente quadro, que mostra de modo pr&aacute;tico e<br \/>\n    evidente qu&atilde;o ex&iacute;gua &eacute; a &aacute;rea, n&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    do Estado, mas das &quot;terras devolutas&quot;, b&aacute;rbaras e incultas<br \/>\n    do Estado, comprometidas no malsinado contrato, o que deu azo &agrave; acusa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fantasiosa e mirabolante, de que o presidente do Esp&iacute;rito Santo vendera<br \/>\n    o seu Estado ao concession&aacute;rio, s&oacute; me resta esperar a publica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    deste artigo para entregar ao Jornal o 5&ordm; e &uacute;ltimo das &quot;Cenas<br \/>\n    e paisagens do Esp&iacute;rito Santo&quot;.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><b>V<\/b><\/a><\/h4>\n<p>Compara&ccedil;&atilde;o de aspectos &#8212; Partida pela Diamantina &#8212;<br \/>\n    O que ser&aacute; dentro em pouco tempo essa via f&eacute;rrea &#8212; Fazenda<br \/>\n    Modelo da Sapucaia &#8212; Terras do Sul e terras do Norte &#8212; Pastor<br \/>\n    e arado &#8212; Primeira condi&ccedil;&atilde;o de agrado da Fazenda Modelo;<br \/>\n    exemplos admir&aacute;veis que devem ser seguidos pelos governos de inten&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sinceras &#8212; A segunda condi&ccedil;&atilde;o de agrado; simplicidade,<br \/>\n    rusticidade; como se deve ensinar os pobres; a casa; a hospedagem; passes<br \/>\n    gratuitos &#8212; Pr&ecirc;mios; seu est&iacute;mulo &#8212; M&aacute;quinas<br \/>\n    &#8212; Ceifadeira de arroz ; quadro de Jos&eacute; Malh&ocirc;a; as mo&ccedil;as<br \/>\n    no arrozal; os disc&iacute;pulos; o mestre; cereais; produ&ccedil;&otilde;es;<br \/>\n    diversas instala&ccedil;&otilde;es; substitui&ccedil;&atilde;o de jacar&eacute;s<br \/>\n    por feij&atilde;o; capit&atilde;es que h&atilde;o de correr por seus p&eacute;s<br \/>\n    &#8212; Vias de comunica&ccedil;&atilde;o; constru&ccedil;&otilde;es de estradas;<br \/>\n    col&ocirc;nias; f&aacute;bricas e ainda mais n&uacute;cleos coloniais e ainda<br \/>\n    f&aacute;bricas &#8212; O maior benef&iacute;cio prestado pelo senhor Jer&ocirc;nymo<br \/>\n    Monteiro &#8212; O ensino p&uacute;blico &#8212; A alma da Vit&oacute;ria<br \/>\n    &#8212; O entusiasmo do estudo &#8212; Instituto de Pintura &#8212; As crian&ccedil;as<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo &#8212; A freq&uuml;&ecirc;ncia dos col&eacute;gios<br \/>\n    &#8212; Asilo do Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus &#8212; Nem uma batina nas<br \/>\n    ruas nem h&aacute;bitos de frade &#8212; A impress&atilde;o da viagem &#8212;<br \/>\n    Saudade e agradecimento.<\/p>\n<p>S&oacute; os fatos louvam sem mentira<br \/>\n    Ruy Barbosa.<\/p>\n<p>Porque o aspecto da capital do Esp&iacute;rito Santo me tivesse impressionado,<br \/>\n    n&atilde;o s&oacute; pela sua fei&ccedil;&atilde;o original e pitoresca, como<br \/>\n    pelo seu fr&ecirc;mito de progresso, desejei conhecer tamb&eacute;m o de seus<br \/>\n    campos de lavoura.<\/p>\n<p>Para isso, partimos por uma lind&iacute;ssima manh&atilde; pelo trem da Diamantina,<br \/>\n    estrada que ser&aacute; muito breve a grande art&eacute;ria propulsora de<br \/>\n    progresso e de fortuna desse esperan&ccedil;oso Estado, para a Fazenda Modelo<br \/>\n    da Sapucaia, a poucos quil&ocirc;metros da Vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>As terras cortadas pela Diamantina fazem j&aacute; promessas diferentes das<br \/>\n    outras atravessadas pela Leopoldina. Deram-me estas a impress&atilde;o de<br \/>\n    terem nascido para a fartura dos rebanhos e as lidas do pastor; e aquelas,<br \/>\n    mais coloridas, mais exuberantes, para os sulcos do arado e a gl&oacute;ria<br \/>\n    das sementeiras.<\/p>\n<p>A primeira condi&ccedil;&atilde;o de agrado que me proporcionou a &quot;Fazenda<br \/>\n    Modelo Sapucaia&quot;, criada pelo doutor Jer&ocirc;nymo Monteiro, e inaugurada<br \/>\n    em 4 de dezembro do ano passado, foi a de ser organizada mesmo &agrave;s margens<br \/>\n    da estrada de ferro, que a corta pelo meio. Assim, e h&aacute; nisso uma t&aacute;tica<br \/>\n    muito inteligente, quem passar no trem, ver&aacute; for&ccedil;osamente por<br \/>\n    qualquer dos lados do comboio por que olhe, os talh&otilde;es das diferentes<br \/>\n    culturas da fazenda estendendo-se, como mostradores em exposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    permanente, pelos campos e alegrando a paisagem aqui com um tapete dourado<br \/>\n    de trigo maduro ou de arroz seco, ali com um azul, de linho em flor; acol&aacute;<br \/>\n    com um outro verde de um feijoal novo ou de um canavial. O exemplo oferecido<br \/>\n    assim a prevenidos e desprevenidos &eacute; de conseq&uuml;&ecirc;ncias admir&aacute;veis<br \/>\n    e deve ser seguido, sempre que for poss&iacute;vel, pelos organizadores de<br \/>\n    escolas dessa natureza; porque enterrar tais estabelecimentos em lugares de<br \/>\n    condu&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil e longe da vista das popula&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    quase sempre pregui&ccedil;osas e indiferentes, &eacute; gastar dinheiro sem<br \/>\n    pena e perder grande parte de trabalhos e de exemplos, que ficam desaproveitados.<\/p>\n<p>H&aacute; coisas que parecem insignificantes e que t&ecirc;m, entretanto,<br \/>\n    um grande alcance administrativo. Esta pareceu-me uma delas. Na realidade,<br \/>\n    a um povo sem educa&ccedil;&atilde;o &eacute; preciso meter-lhe pelos olhos<br \/>\n    dentro tudo que possa cooperar para a sua felicidade e que a sua in&eacute;rcia<br \/>\n    n&atilde;o descobrir&aacute; de outro modo. Um apeadeiro na pr&oacute;pria<br \/>\n    fazenda facilita a visita dos curiosos.<\/p>\n<p>A segunda condi&ccedil;&atilde;o de agrado, que me proporcionou aquela propriedade<br \/>\n    agr&iacute;cola, criada para educar agricultores pobres, foi a sua simplicidade,<br \/>\n    mais do que simplicidade: a sua rusticidade.<\/p>\n<p>Ali, tudo o que p&ocirc;de ser feito com materiais fornecidos pela pr&oacute;pria<br \/>\n    fazenda: madeira, barro ou pedra bruta, &eacute; &#8212; o de prefer&ecirc;ncia<br \/>\n    a ser executado em metais mais ou menos caros, madeiras envernizadas ou pedras<br \/>\n    britadas a capricho. Em face daquele exemplo o lavrador pobre n&atilde;o levantar&aacute;<br \/>\n    os ombros desdenhosamente com a convic&ccedil;&atilde;o de que objetos de<br \/>\n    pre&ccedil;o s&oacute; podem servir nas propriedades dos ricos, ou do Governo,<br \/>\n    e nunca nas suas propriedades modest&iacute;ssimas. Ao contr&aacute;rio, observando<br \/>\n    os processos postos ali em pr&aacute;tica, aprender&aacute; a fazer obras<br \/>\n    de utilidade agr&iacute;cola aproveitando com acerto em seu beneficio os elementos<br \/>\n    naturais oferecidos pela terra em que trabalha.<\/p>\n<p>O muxoxo, com que o caipira olha sempre para tudo que est&aacute; fora da<br \/>\n    sua compreens&atilde;o ou das suas posses, &eacute; assim substitu&iacute;do<br \/>\n    por um olhar de curiosidade, de surpresa e de estudo. Porque o que ele v&ecirc;<br \/>\n    diante de si &eacute; iam modelo que n&atilde;o lhe ser&aacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    imitar. Certamente que aquela fazenda n&atilde;o foi feita para ser mostrada<br \/>\n    &agrave; gente pomposa das cidades, mas s&oacute; para servir de escola a<br \/>\n    popula&ccedil;&otilde;es pobres e sem engenho.<\/p>\n<p>Quantos infelizes desesperam por n&atilde;o saber tirar partido de recursos<br \/>\n    que tem muitas vezes mesmo embaixo das m&atilde;os! &Eacute; essa facilidade<br \/>\n    e essa independ&ecirc;ncia, que a &quot;Fazenda Modelo Sapucaia&quot; estimula<br \/>\n    e sugere com o seu exemplo, visando facilitar assim a aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das teorias que difunde.<\/p>\n<p>A casa, no mesmo estilo singelo, verdadeiramente roceiro, tem acomoda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para hospedagem gratuita, at&eacute; o prazo de trinta dias, para os agricultores<br \/>\n    que desejarem demorar-se nela, estudando os processos agron&ocirc;micos modernos.<br \/>\n    Para facilitar tanto quanto poss&iacute;vel a freq&uuml;&ecirc;ncia dessas<br \/>\n    visitas, o Estado fornece, tamb&eacute;m gratuitamente, passes da Estrada<br \/>\n    de Ferro a todos os agricultores que os solicitarem. Procura desse modo animar<br \/>\n    a lavoura, que vinha de longe arrastando uma crise pesada, de desesperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Foi tamb&eacute;m com o intuito de fazer vibrar os &acirc;nimos dos lavradores<br \/>\n    que o mesmo Governo estabeleceu uma lei, em 1908, criando 241 pr&ecirc;mios<br \/>\n    em dinheiro para os agricultores, que mais se distinguissem em produ&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    qualidade e exporta&ccedil;&atilde;o de culturas agr&iacute;colas, al&eacute;m<br \/>\n    de outros pr&ecirc;mios, representados por um reprodutor de ra&ccedil;a, j&aacute;<br \/>\n    aclimado no pa&iacute;s, para o criador que no Estado criasse mais de duzentas<br \/>\n    cabe&ccedil;as de gado lanigero, vacum, muar ou cavalar.<\/p>\n<p>Essa lei, traduzida em alem&atilde;o e em italiano, que s&atilde;o os idiomas<br \/>\n    da maioria dos colonos do Esp&iacute;rito Santo, foi publicada, assim como<br \/>\n    em portugu&ecirc;s, em folhetos, largamente distribu&iacute;dos pelos principais<br \/>\n    centros agr&iacute;colas do Estado.<\/p>\n<p>O fruto dessa sementeira n&atilde;o tardou a aparecer. Tanto o nosso povo<br \/>\n    rural carece de est&iacute;mulo! J&aacute; no ano seguinte foram distribu&iacute;dos<br \/>\n    v&aacute;rios pr&ecirc;mios e, desde ent&atilde;o, a roda nunca mais parou,<br \/>\n    fazendo, na sua rota&ccedil;&atilde;o, salpicar pr&ecirc;mios para um lado<br \/>\n    ou para outro, sob v&aacute;rios pretextos: a este industrial, porque mant&eacute;m<br \/>\n    uma usina; &agrave;quele criador, porque exportou tantos mil quilos de toucinho,<br \/>\n    de truta em conserva, ou uma quantidade consider&aacute;vel de sacos de arroz<br \/>\n    beneficiado, etc.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; nada? &Eacute; como um punhado de milho louro, espalhado<br \/>\n    para o alvoro&ccedil;o e alegria de pintos, que, j&aacute; na contenda de<br \/>\n    apanharem os gr&atilde;os mais gordos, encontram meio de satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de atividade. Eu aprecio essas coisas, achando nelas assunto de interesse<br \/>\n    especial, porque representam gestos independentes, livres de peias, com que<br \/>\n    a pol&iacute;tica costuma embara&ccedil;ar os Governos dos Estados, e, muito,<br \/>\n    principalmente os Estados de poucos recursos.<\/p>\n<p>Assim, ora acoro&ccedil;oando lavradores e industriais agr&iacute;colas com<br \/>\n    certas somas de dinheiro, ora criadores com exemplares de reprodutores de<br \/>\n    ra&ccedil;a, o Governo do Esp&iacute;rito Santo tratou pari-passu de combater<br \/>\n    os processos rotineiros, ainda empregados na lavoura do Estado, estabelecendo<br \/>\n    um campo de demonstra&ccedil;&atilde;o (fazenda-modelo da Sapucaia), onde<br \/>\n    o lavrador pode fazer praticamente a sua aprendizagem, manejando instrumentos<br \/>\n    agr&aacute;rios que o estabelecimento lhe fornece pelo pre&ccedil;o do custo,<br \/>\n    mediante pagamento em presta&ccedil;&otilde;es, previamente combinadas.<\/p>\n<p>Quando o lavrador n&atilde;o se quiser sujeitar a isso, o Governo mandar&aacute;,<br \/>\n    a seu requerimento, montar as m&aacute;quinas e ensinar a manej&aacute;-las,<br \/>\n    gratuitamente, &agrave; sua propriedade. Tudo isso me pareceu muito bem determinado<br \/>\n    e muito digno de divulga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na manh&atilde; em que visitei a &quot;Fazenda&quot; fazia-se nela a experi&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma nova m&aacute;quina de ceifar e de enfeixar arroz. E a essa experi&ecirc;ncia<br \/>\n    cabiam perfeitamente as palavras da chapa: estava sendo coroada de magnifico<br \/>\n    &ecirc;xito. O arrozal maduro lourejava ao sol. Lembrava um quadro pintado<br \/>\n    por Jos&eacute; Malh&ocirc;a, e v&aacute;rias vezes as alegres tonalidades<br \/>\n    desse artista exuberante e rural me acudiram &agrave; mem&oacute;ria naquela<br \/>\n    transparente a luminosa manh&atilde; de maio.<\/p>\n<p>A Ceifadeira mergulhava na onda loura o seu pesado corpo de ferro, atirando<br \/>\n    o arroz, j&aacute; em feixes atados rapidamente por ela mesma com um solido<br \/>\n    n&oacute;, de embira para o campo devastado, onde ficavam apenas pequenas<br \/>\n    touceiras do arrozal, rentes ao ch&atilde;o. Aos lavradores que dirigiam a<br \/>\n    m&aacute;quina e a outros lavradores que acompanhavam para observ&aacute;-la<br \/>\n    de perto, reuniu-se um grupo de senhoras, curiosas, cujas toilettes claras<br \/>\n    e sombrinhas de cor juntaram ao bucolismo do quadro uma nota risonha, que<br \/>\n    o completava. Dentro de poucos minutos n&atilde;o havia ali chap&eacute;u<br \/>\n    nem cinto que n&atilde;o estivesse enfeitado com um penacho de arroz.<\/p>\n<p>Do lado oposto da estrada, em outros campos da mesma propriedade, empregavam-se<br \/>\n    alguns disc&iacute;pulos na aprendizagem dos processos arat&oacute;rios, preparando<br \/>\n    o terreno para novas planta&ccedil;&otilde;es. Surpreendi assim, a fazenda<br \/>\n    numa hora de atividade, e de aplica&ccedil;&atilde;o dos modernos processos<br \/>\n    de trabalho. O mestre de culturas, senhor Agostinho de Oliveira, que se me<br \/>\n    afigurou sinceramente apaixonado pela sua profiss&atilde;o, informou-me, mostrando-me<br \/>\n    uma vitrina, em que estavam v&aacute;rios punhados de cereais, que j&aacute;<br \/>\n    se t&ecirc;m feito ali experi&ecirc;ncia de 57 variedades de plantas forraginosas,<br \/>\n    aliment&iacute;cias, t&ecirc;xteis, oleaginosas, etc. Dando a aveia na raz&atilde;o<br \/>\n    de 46 hectolitros por hectare; alfafa, 10 cortes por ano; trigo, 12 hectolitros<br \/>\n    por hectare; linho, 80 cent&iacute;metros de altura; algod&atilde;o, 0,m60<br \/>\n    de extens&atilde;o de fibra; sorgo, 700 alqueires por alqueire de semente,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>Embora as terras em que est&aacute; organizada a fazenda, n&atilde;o sejam<br \/>\n    das melhores do Estado, tendo sido escolhidas pela sua situa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a cujas vantagens aludi, e pela sua facilidade de comunica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ainda assim o quadro comparativo da sua produ&ccedil;&atilde;o de trigo, por<br \/>\n    exemplo, com a de outros pa&iacute;ses, &eacute;-lhes extremamente lisonjeiro.<\/p>\n<p>Enquanto Portugal colheu 9 hectolitros por hectare, a Argentina 11, a Austr&aacute;lia<br \/>\n    40, os Estados Unidos 7, &#8212; o Esp&iacute;rito Santo colheu 12, o que<br \/>\n    j&aacute; constitui uma diferen&ccedil;a razo&aacute;vel, guardando as mesmas<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es nas diferentes qualidades de trigo que cultivou como<br \/>\n    experi&ecirc;ncia e demonstra&ccedil;&atilde;o, tendo igualmente obtido magn&iacute;ficos<br \/>\n    resultados de plantas estrangeiras, ainda n&atilde;o conhecidas no Brasil,<br \/>\n    ao mesmo tempo que, provado as vantagens das plantas conhecidas quando tratadas<br \/>\n    pelos processos mec&acirc;nicos que aumentam, melhoram e barateiam a sua produ&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>As instala&ccedil;&otilde;es da fazenda para os seus animais est&atilde;o<br \/>\n    ainda de acordo com o seu tipo modesto. S&atilde;o modelos de f&aacute;cil<br \/>\n    imita&ccedil;&atilde;o e em que, na sua rudeza, est&atilde;o previstas todas<br \/>\n    as condi&ccedil;&otilde;es de higiene.<\/p>\n<p>Entretanto, falava-se na constru&ccedil;&atilde;o de novas baias, de um posto<br \/>\n    zoot&eacute;cnico e n&atilde;o me lembra mais o qu&ecirc;. Em todo caso, os<br \/>\n    carneiros Lincoln, os touros Gersey, ou as galinhas Plymouth encontram condi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de vida farta nos campos da fazenda da Sapucaia, para onde t&ecirc;m sido<br \/>\n    remetidos alguns exemplares deles, e que sempre ser&atilde;o mais proveitosos<br \/>\n    que os terr&iacute;veis jacar&eacute;s que ali habitavam um charco, hoje transformado,<br \/>\n    pelo aterro, num vistoso e f&eacute;rtil feijoal!<\/p>\n<p>Ainda com o sentido de animar a lavoura, tendo sido fundado o Banco de Cr&eacute;dito<br \/>\n    Agr&iacute;cola e Hipotec&aacute;rio, o jornal oficial da Vit&oacute;ria come&ccedil;ou<br \/>\n    a imprimir uma se&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria, de tipo gordo e entrelinhado,<br \/>\n    com explica&ccedil;&otilde;es e conselhos sobre agricultura. Este ardil facilita<br \/>\n    a leitura, pelo menos desse trecho do jornal, &agrave;s pessoas de vista cansada,<br \/>\n    ou que saibam apenas soletrar.<\/p>\n<p>&Eacute; alguma coisa: &eacute; o interesse levado a toda gente, em doses<br \/>\n    de f&aacute;cil assimila&ccedil;&atilde;o, pelo mais portentoso assunto do<br \/>\n    pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Observando esses pequenos nadas, penso com alegria que o nosso v&iacute;cio<br \/>\n    de politicagem come&ccedil;a a transformar-se em s&eacute;ria atividade administrativa&#8230;<br \/>\n    Mas quem me dir&aacute; se nos outros Estados se faz o mesmo?<\/p>\n<p>N&oacute;s os brasileiros gostamos pouco de viajar em nosso pa&iacute;s;<br \/>\n    desde que se n&atilde;o possa ir para o estrangeiro proferimos a tudo ficar<br \/>\n    em casa; da&iacute; a ignor&acirc;ncia de muitos aspectos curiosos e de muitos<br \/>\n    fatos interessantes de nossa terra e da nossa gente. Quando por&eacute;m,<br \/>\n    por qualquer circunst&acirc;ncia inesperada, visitamos um ou outro dos nossos<br \/>\n    Estados, dizemos n&atilde;o trazer deles impress&otilde;es que valham a pena<br \/>\n    de ser comunicadas a ningu&eacute;m! &Eacute; um mal e um erro, porque da<br \/>\n    nossa cr&iacute;tica ou do nosso louvor podem resultar benef&iacute;cios imprevistos<br \/>\n    para o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Por minha parte confesso que tive intenso prazer surpreendendo no Estado<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo, t&atilde;o acoimado de pobre e de rotineiro, um<br \/>\n    t&atilde;o grande movimento de progresso e de transforma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e que julgo cumprir um dever de patriotismo afirmando a convic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que nutro de que essas terras, dentro em pouco tempo, atrair&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    por si capitais importantes que para elas ir&atilde;o espontaneamente, na<br \/>\n    certeza de &oacute;timas recompensas. J&aacute; n&atilde;o &eacute; um Estado<br \/>\n    rotineiro; &eacute; um Estado progressista. Ao mesmo tempo que o Governo dava<br \/>\n    &agrave; cidade principal &aacute;gua, luz, esgotos, servi&ccedil;o de higiene<br \/>\n    publica e domiciliaria, escolas, habita&ccedil;&otilde;es populares e um novo<br \/>\n    e moderno hospital; ao mesmo tempo transformava os seus loda&ccedil;ais em<br \/>\n    parques secos e drenados, contratava diversas vias de comunica&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    linhas de bondes el&eacute;tricos, constru&ccedil;&otilde;es de estradas para<br \/>\n    carros e autom&oacute;veis; navega&ccedil;&atilde;o a vapor pelos rios Doce<br \/>\n    e Itapemirim, constru&ccedil;&otilde;es de estradas de ferro que atravessam<br \/>\n    regi&otilde;es ferac&iacute;ssimas; e tudo em v&aacute;rios pontos do Estado,<br \/>\n    simultaneamente. N&atilde;o contente com isso, o Governo p&otilde;e outros<br \/>\n    servi&ccedil;os em execu&ccedil;&atilde;o, contratando com particulares constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de outras estradas e a funda&ccedil;&atilde;o de col&ocirc;nias, de f&aacute;bricas,<br \/>\n    de serrarias, de usinas, do plantio do cacau, de explora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de matas e desenvolvimento da imigra&ccedil;&atilde;o com a funda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de 7 n&uacute;cleos coloniais de 500 fam&iacute;lias cada um; e ainda de mais<br \/>\n    estradas e ainda de mais imigrantes, e ainda de mais f&aacute;bricas e de<br \/>\n    mais usinas el&eacute;tricas!<\/p>\n<p>Mas sobrepujando a todos, o grande beneficio prestado pelo doutor Jer&ocirc;nymo<br \/>\n    Monteiro ao seu Estado natal est&aacute; na reforma do seu ensino publico.<br \/>\n    Hoje a alma da Vit&oacute;ria &eacute; a colegial. Ela d&aacute; &agrave;<br \/>\n    cidade, provinciana e sossegada, uma nota de alegria vibrante pelo seu ar<br \/>\n    decidido e entusiasmado e pelo seu traje encarnado ou azul, segundo o grupo<br \/>\n    escolar a que pertence. A certas horas, quem chegar &agrave;s janelas ou andar<br \/>\n    pelas ruas, ver&aacute; surgir em v&aacute;rios pontos essas manchas luminosas,<br \/>\n    e inconfund&iacute;veis, que fazem pensar que tamb&eacute;m as hort&ecirc;nsias<br \/>\n    e as papoulas andam!<\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o s&oacute; as pequenas, tamb&eacute;m as mocinhas vestem<br \/>\n    com orgulho os seus uniformes de normalistas. Toda a mocidade da Vit&oacute;ria<br \/>\n    estuda e f&aacute;-lo com um entusiasmo como jamais observei em parte alguma;<br \/>\n    o seu Instituto de pintura &eacute; freq&uuml;entado com imenso interesse<br \/>\n    por muitos mo&ccedil;os e mo&ccedil;as da sua melhor sociedade.<\/p>\n<p>Mas o seu maior encanto est&aacute; sobretudo nas escolas publicas refundidas<br \/>\n    pelo modelo das de S&atilde;o Paulo, que s&atilde;o as mais afamadas do pa&iacute;s.<br \/>\n    Em geral as crian&ccedil;as no Esp&iacute;rito Santo s&atilde;o fortes e desembara&ccedil;adas,<br \/>\n    o que duplica o encanto das salas escolares, que est&atilde;o bem organizadas,<br \/>\n    com aparelhos e mob&iacute;lias modernas. A prova do grande interesse que<br \/>\n    h&aacute; na Vit&oacute;ria pelo estudo est&aacute; bem expressa pelas suas<br \/>\n    estat&iacute;sticas escolares.<\/p>\n<p>No m&ecirc;s de maio, em que visitei essa cidade, foram as suas escolas p&uacute;blicas<br \/>\n    freq&uuml;entadas por mil e oitenta e sete crian&ccedil;as, o que representa<br \/>\n    uma soma respeit&aacute;vel numa cidade de pequena popula&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    tanto mais quanto nela n&atilde;o h&aacute; s&oacute; escolas publicas, mas<br \/>\n    tamb&eacute;m particulares de grande freq&uuml;&ecirc;ncia. Eu mesmo visitei<br \/>\n    uma, o &quot;Asilo Cora&ccedil;&atilde;o de Jesus&quot;, em que era muito<br \/>\n    grande o numero de disc&iacute;pulas, aparte as &oacute;rf&atilde;s pobres<br \/>\n    do Estado, ali recolhidas, se me n&atilde;o engano, em n&uacute;mero de 200,<br \/>\n    e por cuja manuten&ccedil;&atilde;o o Governo subvenciona esse estabelecimento<br \/>\n    com uma determinada quantia.<\/p>\n<p>E o engra&ccedil;ado &eacute; que foi preciso entrar num edif&iacute;cio<br \/>\n    religioso para eu ver a primeira touca de religiosa no cat&oacute;lico Estado<br \/>\n    do Esp&iacute;rito Santo! Foi s&oacute; ent&atilde;o que ma ocorreu &agrave;<br \/>\n    lembran&ccedil;a o que me tinham afirmado no Rio, isto &eacute;, que eu iria<br \/>\n    esbarrar com batinas de padres e h&aacute;bitos de monges por todos os &acirc;ngulos<br \/>\n    e curvas da Vit&oacute;ria, quando a verdade &eacute; que, em cinco dias,<br \/>\n    eu ainda n&atilde;o vira nem uma s&oacute; batina, nem um s&oacute; habito<br \/>\n    de freira ou de frade, nas ruas da Vit&oacute;ria nem nas esta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do caminho de ferro do Estado do Esp&iacute;rito Santo!<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o acontece em S&atilde;o Paulo nem em Minas, nem aqui, verdadeiro<br \/>\n    ref&uacute;gio de religiosos exilados da Europa.<\/p>\n<p>Ora pois, at&eacute; nisso aquela terra era diferente do que me tinham afirmado<br \/>\n    antes da minha partida.<\/p>\n<p>De fato, em vez de uma sociedade fan&aacute;tica, tristonha, desconfiada,<br \/>\n    achei-me no centro de uma sociedade carinhosa, risonha, desembara&ccedil;ada<br \/>\n    e vivaz, de que guardarei sempre saudades.<\/p>\n<p>E porque de tudo trouxe uma impress&atilde;o de agrado, de esperan&ccedil;a,<br \/>\n    ou de surpresa, quis fix&aacute;-la nestas linhas, em que escondi quanto pude<br \/>\n    a gratid&atilde;o pelo excepcional acolhimento que devo a esse Estado, para<br \/>\n    s&oacute; deixar transparecer a verdade nua dos fatos que nele observei, sem<br \/>\n    v&eacute;us de fantasia, nem parcialidade de sentimento.<\/p>\n<p>E, tamb&eacute;m, para isso, n&atilde;o escrevi precipitadamente. Esperei;<br \/>\n    dei tempo a que as minhas id&eacute;ias amadurecessem antes de rever as notas<br \/>\n    feitas no tropel das horas movimentadas, que passei na Vit&oacute;ria e que<br \/>\n    t&atilde;o imperfeitamente descrevi. Sinto-me, por&eacute;m, satisfeita de<br \/>\n    poder afirmar a todos os brasileiros, mesmo aos mais indiferentes, que esse<br \/>\n    peda&ccedil;o da P&aacute;tria achou quem o despertasse do sono let&aacute;rgico<br \/>\n    que ha tanto tempo o entorpecia e que, agora, despertado e fortalecido, caminhar&aacute;<br \/>\n    ativamente, alegremente, para um futuro nobre e feliz.<\/p>\n<p><span class=\"fonte\">Fonte: <\/span> www.estacaocapixaba.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V J&uacute;lia Lopes de Almeida I Propaganda do Brasil &#8211; o que se dizia do Estado do Esp&iacute;rito Santo &#8211; viagem &#8211; Os trens da Leopoldina &#8211; Jornais de Campos &#8211; Itabapoana &#8211; Paisagens esp&iacute;rito-santenses &#8211; O 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